COLEÇÃO“O MUNDO DO GRAAL”
MAOMÉ(MOHAMMED)
NARRATIVA FIEL DA VIDA TERRENA DO PROFETA ÁRABE,
LIVRE DE TODOS OS CONCEITOS ERRÔNEOS.
RECEBIDO POR INSPIRAÇÃO ESPECIAL
MAOMÉ
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UMA lamparina colorida iluminava o aposento e fazia luzir os adornos de
ouro que se encontravam entre os abundantes tapetes colocados nas paredes.
Aqui pendia um cordão com pérolas e acolá cintilavam pedras preciosas. Em
cima de uma mesinha, formada de peças artisticamente entalhadas e embutidas,
havia uma brilhante taça de vidro, cheia de um óleo aromático.
Todo o recinto, embora não fosse grande, parecia ser perfeitamente adapta-
do àquela bela mulher que descansava despreocupadamente sobre um macio divã.
Longas tranças de cabelos pretos, envoltos numa rede de fios dourados, pen-
diam-lhe para um lado. Sobre um vestido largo de seda vermelha usava um casa-
quinho curto, ricamente enfeitado com bordados, que combinava com as sandálias
que abrigavam seus pequeninos pés. Uma calça de seda azul, fofa, até os tornozelos,
completava o vestuário.
Suas delicadas mãos, nas quais não se via nenhuma jóia, deixavam escorregar,
por entre os dedos, as pérolas de um rosário. Mas ela o fazia distraidamente, pois seus
pensamentos pareciam estar longe de uma devoção ou prece.
Ouviram-se ruídos de passos que vinham de fora. A mulher ocultou rapida-
mente a corrente de pérolas no seu vestuário e recostou-se ainda mais confortavelmente
nos travesseiros.
Um velho serviçal entrou no aposento.
Era um dos criados de confiança da casa, pois do contrário, não poderia ter en-
trado sem se fazer anunciar.Arrastando os pés,um pouco inclinado para frente e com as
mãos juntas, ele aproximou-se do sofá e aguardou que a bela mulher começasse a falar.
Com os olhos semicerrados ela olhava-o. Que esperasse um pouco, pensava,
pois não estava disposta a receber seu recado.De modo algum poderia significar algo de
bom. Finalmente a curiosidade a venceu:
- o que trazes,Mustafá? Inquiriu num tom de indiferença.- O nosso amoAbd ai
Muttalib deseja falar com Amina por causa do menino. Amina recebê-lo-á aqui ou irá
procurá-lo nos seus aposentos?
- Mustafá, sabes o que o velho quer com o menino? Essa pergunta soava agora
bem diferente das anteriores.
Preocupação e cuidado de mãe vibravam nela e faziam com que ela se esqueces-
se de todas as diferenças de classe.
- O nosso amo não o disse, respondeu pensativo o criado, mas eu posso ima-
ginar do que se trata. Há dias vem falando que chegou o tempo de mandar Maomé à
escola.
- É o que pensei! Exclamou Amina indignada. Eu ainda o acho delicado
demais. Mas para isso o avô não tem compreensão. Quanto antes tornarmos a dis-
cutir, tanto melhor será. Dize a Abd ai Muttalib que eu estarei pronta para recebê-lo
daqui a uma... não, daqui a duas horas.
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O serviçal virou-se e começou a sair arrastando os pés, quando um chamado
de Amina fê-lo parar.
- Mustafá, sabes onde está Maomé?
- Onde estará ele? Perguntou o criado em resposta. Com certeza está no
pavilhão ajudando o empregado a conferir as mercadorias. Nada lhe agrada tanto
como o esplendor das cores dos tapetes e das pedras preciosas. Com isso ele esquece
até de beber e comer.
- Dize que o mandem o quanto antes a mim, solicitou Amina afavelmente.
Ela sabia que não podia dar ordens a Mustafá, pois não era sua patroa. Mas a um
pedido, ele era sempre acessível. Também agora iria procurar o menino e mandá-lo
a sua mãe. Amina tornou a ficar a sós.
Suspirou profundamente. Tinha medo da palestra com o dono da casa, o
seu sogro, sob cujo domínio se achava desde a morte de seu marido. Isso já há seis
longos anos!
Pouco antes do nascimento de Maomé, aconteceu que numa viagem de ne-
gócios Abdallah foi assaltado por bandidos e ferido mortalmente. Ainda o levaram
agonizante até Meca, mas não alcançou com vida a casa paterna, onde morava com
a sua jovem esposa. No funeral Amina desmaiara.
Longo tempo teve de permanecer na cama, doente. Durante essa grave en-
fermidade deu à luz um menino, quase sem ter consciência disso.
A debilidade do menino, que apesar dos cuidadosos tratamentos de que era
alvo, não crescia como devia, os médicos atribuíram-na ao trauma e ao pranto so-
frido por Amina. Seu pai era um homem belo, de figura imponente. Maomé, contu-
do, um menino pálido, fraquinho e sem alegria, dando a impressão de que preferia
escolher seus próprios caminhos.
Sem pressa e sem demonstrar qualquer sorriso na sua face, entrou no apo-
sento da mãe. Quase contrariado, aproximou-se do sofá e perguntou:
- Mandaste chamar-me, mãe. O que tens a dizer-me é realmente tão urgente?
Sem repreender o tom desrespeitoso com que foram pronunciadas essas pa-
lavras, Amina disse amavelmente:
- Senta-te, meu filho, e escuta: teu avô chegará aqui para falar comigo a teu
respeito. Eu sei que ele pretende mandar-te a uma escola. É verdade que tu ainda te
sentes sempre indisposto e cansado?
- Cansado estou sempre, mãe, mas isto não importa. Deixa-me ir à escola,
peço-te!
Sobressaltada, Amina revidou:
- O que pensas, Maomé? O barulho e as maldades de tantos rapazes pode-
riam prejudicar-te. Eles zombariam de ti, por teres tão poucas forças e por causa
da tua palidez. Eles. . .
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Indignado, o menino interrompeu-a:
- Se eu continuar em casa, nunca me tornarei um homem! No meio dos ou-
tros as minhas forças manifestar-se-ão. Quero aprender, devo aprender. Quero ficar
um homem sábio! Direi ao vovô que irei de muito bom grado à escola. Então podes
dizer-lhe o que quiseres; ele me dará ouvidos.
Sardonicamente, o menino torcia os seus membros franzinos, e o seu belo
rosto fazia caretas.
- Para que necessitarás de tanta erudição, Maomé? Inquiriu a mãe, que esta-
va prestes a chorar.
Durante quase um ano ela havia feito tudo para adiar o momento tão temi-
do da separação do seu idolatrado filho, e agora ele mesmo por si desejava freqüen-
tar a escola.
- Por que eu desejo aprender, mãe? Perguntou Maomé, estendendo-se em
cima de um dos tapetes no chão. Eu quero tornar-me um comerciante, mas não
dos pequenos. Quero tornar-me o maior comerciante de toda a Síria, Arábia e suas
adjacências. Todas as pedras preciosas devem passar pelas minhas mãos e todos os
tecidos finos eu quero tocar. Para isso preciso saber ler e escrever e, antes de tudo,
fazer contas. Ninguém deve lograr-me, mãe!
As ricas cortinas da porta estavam sendo empurradas cuidadosamente, e
uma mulher corpulenta em trajes de serviçal entrou. Mãe e filho volveram suas
cabeças em sua direção.
Enquanto Amina se deitava outra vez em sua cômoda posição, como es-
tivera, Maomé levantou-se rapidamente num pulo muito ágil e pendurou-se no
pescoço da mulher que entrou, a qual ficou sem fôlego com o embate.
- Sara, Sara! Exultava com a voz completamente modificada. Será realidade;
eu poderei aprender! Agora a mãe se queixou de que vovô tenciona mandar-me à
escola. Ela outra vez não me compreende.
Sem consideração jorravam as suas palavras, sem notar como ofendia com
elas a sua mãe, para a qual ele era a única alegria.
Sara, a velha ama, nesse ínterim afastou os braços magros do seu favorito, e
deixou-o escorregar cuidadosamente ao chão. Aproximou-se com a familiaridade
peculiar às velhas criadas.
- A senhora não quer pôr trajes melhores, em consideração ao dono da casa,
que a espera? Sugeriu ela lisonjeiramente.
Amina sacudiu a pequena cabeça com as pesadas tranças. - Para ele tanto faz
como estou vestida, replicou.
- Assim a patroa é injusta, censurou a criada. Abd aI Muttalib nunca falta
com suas atenções. As melhores pedras preciosas, as mais cintilantes pérolas e os
mais finos tecidos da galeria, ele manda para a viúva de seu filho!
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Isso em nada impressionou aquela mulher tão mimada. - Eu fico como es-
tou, disse ela. Além do mais, o tempo até a sua chegada é curto. Ainda temos muito
a falar. Senta-te aqui conosco, Sara.
A criada obedeceu sem objeção; ela parecia estar acostumada a tais conver-
sações íntimas.
- Eu não sabia que Maomé quer ir de bom grado à escola, começou Amina.
Eu mesma sou contra, porque ele ainda está muito franzino para isso; também
queria tê-lo comigo por mais um ano.
- O que te adianta, se eu ficar contigo, mãe! Exclamou o menino com tei-
mosia. Poucas alegrias te proporciono. Tu mesma o confessas, às vezes. E eu quero
aprender, aprender, aprender!
- Terás que te conformar, patroa, com o fato de que o menino está saindo da
infância. Se é para ele tornar-se homem, então deve sair dos aposentos das mulheres
e passar para as mãos dos homens.
- Está bem, já que ele mesmo o deseja, que assim seja feito, suspirou a mãe.
Mas, Sara, vejo um grande perigo para ele na escolha da escola. Abd aI Muttalib
quererá mandá-lo para a escola municipal, onde são ensinados os rapazes da seita
dos adoradores de fetiches. Maomé ainda não está firmemente instruído na nossa
crença. Ele abandoná-la-á como um velho vestuário.
- E a culpa de quem é, patroa? Perguntou Sara com indelicada intimidade.
- Tu, atrevida, achas por acaso que eu faltei com minha obrigação de lhe
ministrar os ensinamentos necessários? Replicou Amina, irritada.
-Tuensinasteomenino,mas,emvivência,nãolhedesteexemplos.Quandopôde
ele alguma vez ver que a tua crença oferece apoio,consolo ou estímulo para o bem?
Maomé, que aparentemente não escutava, dirigiu-se para o lado onde Sara
estava sentada.
- Tens razão, Sara, disse ele carinhosamente. Da mãe eu não pude aprender
tudo isso, mas sim de ti, bondosa como és, pelos teus exemplos.
Novamente a cortante dor do ciúme feriu o coração da mãe.
- Como podes julgar tão impiedosamente, meu filho? Disse em tom repre-
ensivo. Quem rezou contigo desde que tens a idade suficiente para dizer sozinho
uma oração? Quem te contou de Jesus, o crucificado?
- Isso tu fizeste, mãe, foi a rápida resposta de Maomé. Mas enquanto tu apenas
me fizeste imaginar o assassinato do portador da Verdade, Sara ensinou-me a amar
o luminoso Filho de Deus, que, por amor aos homens, nasceu como criança numa
manjedoura. Enquanto me ensinaste a dizer orações numa língua que nós dois não
conhecemos, Sara conduziu-me aos pés do menino, para fazer minha prece.
Essa resposta soou de maneira pouco infantil, mas provinha do coração do
menino; perceberam-no as duas mulheres, cujos olhos se umedeceram.
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Após curto silêncio, Amina tomou a palavra:
- Seja como for, o principal é que crês. Se amas Jesus, já estou feliz. Mas dize-
me, meu filho, esse amor resistirá ao escárnio e à influência dos colegas?
- Isso veremos, mãe. Hoje ainda não posso sabê-lo. Se a fé em Jesus é a Verdade,
como vós dizeis, então ela vencerá sobre tudo o mais. Se assim não for, então perecerá.
Para Maomé essa conversa séria já se prolongara muito. Outra vez ele levan-
tou-se, deu um salto com inesperada agilidade e correu dali.
As duas mulheres olharam-se mutuamente.Ambas amavam essa criança mal-
criada, mais do que tudo o que existia no mundo. Mas enquanto a mãe ignorava
cegamente os defeitos do filho, Sara procurava corrigi-los com todas as suas forças.
Com amargura percebeu Amina que toda a ternura da alma do menino se
dirigia à velha ama, pela qual muitas vezes ele chegou a esquecer completamente a
mãe. Sempre que o ciúme lhe ardia no coração, ela pensava em afastar Sara. Porém,
não podia imaginar a vida sem a ama que a criou.
Ainda jovem, Sara chegou à casa dos nobres Haschi, onde Amina acabara
de nascer, como a mais nova das seis filhas. Sara tratou e cuidou da criança com
incansável fidelidade, conduziu os seus primeiros passos e cercou-a de cuidados até
desabrochar numa linda moça.
Então chegou o dia em que Amina devia acompanhar o seu esposo ao lar.
Abdallah, o comerciante de jóias, que a escolhera para esposa, era rico.
Descendia,como Amina,de uma estirpe nobre,do tronco dos Koretschi.Con-
trariando os costumes da família, ele tornara-se comerciante. Era judeu, o que fez
com que o pai dela, antes de tudo, retardasse repetidas vezes seu consentimento. . .
Alguns dos seus antepassados haviam se convertido a essa estranha crença, à
qual os netos se apegaram obstinadamente. Todos os membros da família de Ami-
na, porém, adoravam os fetiches e sentiam-se protegidos e felizes. As leis rígidas dos
judeus infundiam-lhes assombro.
Porém, no dia em que o pai quis dar o seu não definitivo, Amina confessou
com lágrimas nos olhos que há muito já havia abjurado a crença de seus pais e se
tornado cristã.
Seu pai e seu pretendente ficaram estupefatos naquele instante! Mas quando o
pai quis expulsar a sua filha apóstata, Abdallah manteve de pé sua pretensão e levou a
cristã para a sua casa, como esposa.Assim, também, ninguém precisava saber da deser-
ção da fé da nobre moça.Aliviado, o pai olhava o futuro.
Em companhia de Amina, Sara abandonou o palácio dos Haschi, para contrair
matrimônio no mesmo dia. Chorando,Amina confessara que fora Sara que a introdu-
zira na nova doutrina.
A criada foi expulsa da casa e podia seguir o homem que há muito já era seu pre-
tendente. Seu primeiro filho faleceu ao nascer, e assim pôde encarregar-se dos cuidados
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do pequeno Maomé, ao qual dedicou todo o amor e fidelidade, como uma mãe.
Com lisonjas ela conseguiu que Amina se levantasse e que vestisse trajes me-
lhores em consideração ao visitante. Mal se havia aprontado, já Mustafá anunciava
o seu senhor.
Amina sentou-se no divã, enquanto Sara colocava na mesa o café preparado
às pressas, retirando-se em seguida para os fundos do aposento. Pois seria falta de
decoro, se Amina tivesse recebido sozinha o visitante.
Com dignidade Abd aI Muttalib entrou.Apesar de seu físico avantajado, via-
se nele a linhagem da nobreza. Seus passos eram vagarosos e pausados, denotando
consciência de si. Cabelos e barba de um branco-neve circundavam o rosto amare-
lo-bronzeado, de onde os olhos castanhos lançavam um olhar perscrutador.
Uma seda ricamente bordada, com tonalidades amarela e marrom, cobria o
seu corpo robusto. A espada curva pendia da cinta, e correntes de pérolas adorna-
vam-na. No indicador direito ele usava um anel com uma pedra excepcionalmente
grande, de cor amarelo-marrom, que lhe servia de talismã e que nunca tirava.
Calçava sapatos de couro com enfeites, forrados com seda, os quais usava
somente dentro de casa.
Suas saudações eram adequadas ao seu porte digno, mas com bastante frie-
za. Ele havia se escudado com paciência e firmeza para enfrentar acertadamente
todas as eventuais queixas da nora.
Após ter sentado e tomado silenciosamente a primeira xícara daquela be-
bida marrom, fixou o olhar em Amina. Será que ela sabia o motivo de sua vinda?
Parecia que uma máscara ocultava seu rosto; nenhum traço demonstrava qual-
quer comoção interna.
Pausadamente ele começou a falar, contando a cada instante com uma das
costumeiras e rápidas objeções da nora. Mas ele pôde expor com toda a calma
todos os seus pontos de vista. Amina não falou nenhuma palavra.
Quando disse tudo o que tinha a declarar, exclamou:
- Vês, portanto, viúva de meu filho, que está no tempo de mandar Maomé
à escola.
Ela perguntou num tom indiferente:
- Em qual escola o matriculaste, pai de meu marido? Perplexo ao ex-
tremo, ele encarou a bela mulher. Tal reação ele não esperava e não achou de
pronto uma resposta.
- Nós aqui temos apenas duas escolas, disse ele, aparentando impassibili-
dade. Uma é freqüentada pelos fidalgos, mas os professores pertencem à seita dos
fetiches e não sabem nada; a outra pertence ao nosso templo, e o rabino Ben Mar-
soch é um homem fundamentalmente erudito. Como Maomé nasceu numa família
judaica, ele também deve crescer nesta crença.
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- Maomé é cristão, porquanto eu, mãe dele, pertenço a esta religião! Interrom-
peu-o, agora, Amina, impetuosamente. Sua respiração ofegava, seus olhos faiscavam.
Calmo e sorridente, contemplava Abd aI Muttalib a jovem mulher.
- Até agora te deixei proceder com ele como te aprouvesse, porquanto eu sa-
bia que os anos em que o menino crescia nos aposentos das mulheres eram poucos.
Agora ele os abandonará e a sua educação passará para as minhas mãos. Eu, porém,
sou judeu.
Severas e altivas soaram essas últimas palavras. Novamente Amina tentou
replicar:
- Maomé ama a sua religião. Ele não a abandonará. Levarás inquietação à
alma do menino.
- Um garoto de seis anos ainda não possui convicção própria. Com prazer
adotará a crença do seu pai como se fosse a sua própria. Não falaremos mais sobre
isso. Inicialmente eu havia planejado encaminhar o menino somente no começo do
próximo mês para a escola, mas vejo que será melhor desabituar-vos, a ambos, de
pensamentos errôneos. Assim, ele vai hoje mesmo comigo. A partir de hoje morará
junto comigo nos aposentos que o seu pai ocupou antes. Uma vez por mês ele pode
visitar-te, enquanto essas visitas não vierem a contrariar a educação.
O dono da casa falou. Não restava outra coisa senão obedecer.
Sim, se Amina tivesse certeza de que Maomé se oporia a freqüentar a escola,
ela teria lutado por ele como uma pantera.
Esforçava-se para ocultar as lágrimas que sempre de novo lhe escorriam dos
olhos e esperava o que Abd aI Muttalib ainda tinha a dizer.
No mesmo tom reservado como até o momento, ele indagou se a viúva
do seu filho não tinha falta de alguma coisa e se todos os seus desejos estavam
sendo atendidos.
Ela respondeu afirmativamente.
Outra vez ele a mirou com um olhar inquiridor, como se ponderasse se era
oportuno continuar a falar sobre aquilo que para ele era motivo de preocupação.
Então esvaziou apressadamente duas dessas xícaras pequenas e disse:
- Tu ainda és nova e bela, Amina. Não é justo que continues levando uma
vida solitária, estendida no divã. Deus tirou-te o marido, mas pela nossa lei é per-
mitido casar-se novamente.
Abu Talib, meu filho mais novo, oferece-te por meu intermédio a sua mão.
Ele quer manter-te como herança do seu irmão. Serás rica e respeitada. Outra vez
estarás rodeada de alegrias como no começo do teu matrimônio.
Calou-se e encarou-a cheio de esperança, mas Amina não respondeu. Bem
ela sabia do costume, segundo o qual os irmãos mais novos pedem a viúva do mais
velho em casamento, porém esperava escapar disso.
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Abdallah tinha sido um homem bonito, mas Abu Talib era corcunda e man-
cava. Ela arrepiava-se ao lembrar um casamento com aquela figura disforme. Porém,
disso não podia dar demonstração. Refletindo rapidamente, disse em voz baixa:
- Pai do meu marido, agradeço-vos pela vossa benevolência, a ti e a Abu
Talib. Eu jurei que, antes de passarem sete anos após a morte de Abdallah, não me
casaria de novo. Essa promessa sustentarei. Assim lhe dou provas de todo o amor e
devotamento que a ele devo.
O ancião olhava para ela um pouco mais amável do que até então.
-Essapromessatehonra,Amina.Geralmenteasviúvasnovasnãopodemesperar
o tempo para um novo matrimônio.Direi ao meu filho que ele tenha paciência por mais
doze meses.Então prepararemos o casamento.Em pompa e brilho nada há de faltar.
Nesse momento, levantou-se. Julgou ter conseguido suas intenções. Podia vol-
tar aos seus negócios.Antes de tudo, porém, devia procurar Maomé e levá-lo consigo.
Devia ser evitado que sua mãe transmitisse quaisquer pensamentos ao menino.
Nada havia a temer, pois em Amina os planos de casamento com Abu Talib
apagaram todos os demais sentimentos. Horrível! Amina chamou Sara e desabafou
todas as suas mágoas com a fiel criada.
- Patroa, consolava esta, Abu Talib é um homem bom que também ama
Maomé como se fosse seu próprio filho. Muitas vezes vi os dois juntos na melhor
intimidade.
Isso Sara não devia ter dito. Outra vez se inflamou o ciúme no coração tão
facilmente impressionável da mulher.
- Ele quer desviar-me o filho, para que mais depressa eu atenda aos seus
desejos. Mas isso não acontecerá. Um ano de liberdade ganhei. Em um ano ainda
pode acontecer muita coisa.
Todas as tentativas por parte de Sara, no sentido de persuadi-la, eram inú-
teis. A criada resolveu calar-se e deixar tudo entregue ao tempo.
Mas, “em um ano pode acontecer muita coisa”, havia dito Amina. Não che-
gou a passar a metade e a bela mulher achava-se deitada num esquife. Uma das do-
enças epidêmicas que de vez em quando surgia, atacou-a traiçoeiramente e causou
o fim de sua vida terrena.
Sara havia tratado dela com fidelidade. Quando notou que a alma ia deixar o
corpo, ela trouxe um crucifixo de marfim, para servir de consolo e apoio à agonizante.
Muito tempo Amina olhou para a cruz e logo depois fechou os olhos.
- Conta-me da criança em Belém, Sara, rogava com voz fraca. Tenho medo
da morte e a cruz só conta disso.
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E Sara falou do amor misericordioso de Deus, daquele amor inapreensível, que
mandou o próprio Filho para salvar a humanidade corrupta. Ela contou da vida do
Filho de Deus e da majestosa entrada em Jerusalém.
Mas isso não trouxe paz para a agonizante. Inquieta, virava a bela cabeça em
cima do travesseiro, de um lado para o outro.
Despercebido pelas mulheres, entrou no aposento o velho Abd aI Muttalib, não
obstante saber que corria perigo de contágio.
- Dize-me uma palavra que me tome mais fácil a morte, Sara, implorava a
agonizante.
A criada meditava. Nesse momento soou uma voz maravilhosa e cheia de
paz, pelo aposento:
“E ainda que eu esteja peregrinando no vale sombrio, não temerei nenhum
infortúnio, porque Tu estás comigo!”
Abd aI Muttalib pronunciou devagar e solenemente,com a mão direita estendi-
da sobre a cama da viúva do seu filho, de sorte que a pedra amarelo-marrom reluzia.
- Pai, sussurrava Amina, concordo que Maomé se torne judeu.
Nunca ela o havia chamado de pai. Nessa hora em que ele trouxe consolação
para a sua alma hesitante, esse nome lhe passou pelos lábios como coisa natural.
E ele continuava a rezar salmos do rei, um após outro, até que se extinguiu a
respiração dela e sua alma começou a desprender-se do corpo.
Sara caiu em pranto, ao pé do leito. Amina, que ela amava como irmã, estava
morta. Mas não era por isso que ela chorava. Suas lágrimas significavam o fracasso que
devia trazer tão graves conseqüências.
Nesse único momento em que Sara podia ter dado provas ao ancião de quanto
mais consoladora e quantas mil vezes mais elevada é a fé cristã,acima de todas as outras
crenças, nenhuma palavra lhe veio à mente.
O corpo inanimado tinha de ser retirado o quanto antes possível da casa.Abd aI
Muttalib cuidava de tudo que se tornava necessário para resguardar os demais da casa
de possíveis perigos de contágio.
Somente depois que os despojos tinham sido sepultados na cripta duma
rocha, ao lado do pai, é que Maomé recebeu a notícia do falecimento de sua mãe.
Ele pranteou aquela que somente lhe demonstrou amor, mas o seu luto não
perdurou muito. Nos seus passeios mensais logo se acostumou a, em lugar da mãe,
procurar Sara, que abandonara a casa de Abd aI Muttalib e morava agora na cidade,
junto com o seu marido, em uma casinha agradável.
Nessas ocasiões a velha serviçal esforçava-se para reparar o erro que julgava ter
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cometido, enquanto contava do menino Jesus, ao que Maomé escutava atentamente.
Ele sabia que no leito de morte a mãe anuiu em que ele ficasse judeu, mas isso
não o atingia. Com afinco ele procurou aprender tudo o que lhe foi dado na escola.
Quando os professores falavam do prometido Messias, então delineava-se
um sorriso prematuro na sua fisionomia. Ele sabia que o Messias já havia chegado
e que fora assassinado pelo povo. Com energia, sempre usava a expressão “assassi-
nado”, também perante Sara.
Nesse momento, ela advertia-o e procurava provar-lhe que a morte na cruz era
algo determinado pela vontade de Deus.Assim, certo dia, ele disse veementemente:
- Se isto for assim, Sara, então tu me tiras a fé em Deus. Qual o pai que deixa
voluntariamente assassinar o seu filho? E Deus, assim como eu escuto falarem Dele,
é o melhor de todos os pais do mundo. Mas tu queres rebaixá-Lo!
Apavorada, Sara encarou o menino, que ousava ter sua própria opinião, di-
ferente em tudo das outras.
- Maomé, segura-te firmemente em Deus, peço-te, implorava. Eu sou culpada
por não te tornares cristão; assim sendo, torna-te pelo menos um judeu verdadeiro.
- Isto ainda não sei, Sara, disse Maomé categoricamente. Não posso tornar-
me judeu por amor à mãe morta, se nada em mim se manifesta a favor disso. Tam-
pouco por ti, a quem mais estimo neste mundo, não poderei tornar-me cristão. Sim,
se desse para fazer uma fusão entre as duas religiões, então, isso me agradaria.
Sara inquietou-se devido à precocidade do menino. O que haveria de ser dele?
Fisicamente ele se fortalecia, debaixo do regime masculino. A escola do tem-
plo em Meca cuidava não somente do intelecto dos seus educados, como também
não se descuidava do robustecimento dos corpos.
Ao lado do rabino Ben Marsoch, um jovem grego ensinava os rapazes e ins-
truía-os em diversas artes, principalmente em jogos e exercícios físicos.
Por essa razão, muitos pais conceituados, que não pertenciam à religião ju-
daica, preferiam mandar seus filhos à escola do templo.
Nas aulas, porém, isso provocou certa divergência. Não podia dar certo ins-
truir os adeptos dos fetiches juntamente com os judeus, na doutrina de Deus, em-
bora sem embargo pudessem compartilhar as demais matérias.
Assim os alunos de crença ferrenha formaram um círculo interno, o qual
gozava de especial proteção do rabino Ben Marsoch.
Após freqüentar um ano a escola, Maomé declarou não mais querer per-
tencer a esse círculo. Não obstante, ele foi forçado com severidade inabalável a fre-
qüentar as aulas com esse grupo. Toda resistência e teimosia de nada lhe adiantaram.
Mais ou menos por um ano prolongou-se essa rebelião contra professor e
instrução, sem que o avô chegasse a ter conhecimento.
Então, sem qualquer motivo aparente, Maomé conformou-se. Da mesma
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maneira inesperada como há um ano, ele declarara a sua saída do círculo, agora
pedia que lhe perdoassem a sua arbitrariedade e que o considerassem novamente
como aluno ativo. Os professores regozijaram-se ante a incompreensível mudança
no seu modo de pensar.
Foi Sara que conseguiu fazer o menino compreender que ele prejudicava
mais a si mesmo, enquanto se rebelasse contra a autoridade.
- Aprende aquilo que te oferecem, Maomé! Ela havia dito inúmeras vezes. Tudo
será útil,se o aprenderes direito.Mas se tu te recusas a escutar o que o rabino tem a dizer,
como então quererás reconhecer o que é certo e errado nas suas oratórias?
Essa foi a maneira certa de convencê-lo. Ele conformou-se e tornou-se um
aluno esforçado.
Depois de ter atingido mais de oito anos de idade, Maomé perdeu seu avô.
Este faleceu suavemente, sem doença prévia, durante uma noite tranqüila. Atin-
giu pouco mais de cem anos de idade; seu corpo repentinamente deixou de viver,
enquanto seu espírito ainda mantinha vivacidade.
Maomé nunca foi muito chegado ao avô. Foi a única pessoa que ele temeu.
Agora, seu tio Abu Talib encarregou-se da sua educação. Isso tornou o me-
nino feliz. Apesar do seu natural gosto pela beleza, não reparava nos defeitos físi-
cos do tio, pois sentia intuitivamente apenas a infantil e pura alma do homem.
Com grande amor Abu Talib veio ao seu encontro e fez tudo a fim de
complementar, por meio da influência que exercia sobre sua alma, a educação na
escola do templo, que era fundamentada exclusivamente em bases intelectuais.
Maomé sempre o encontrava, quando nas suas horas de folga ia procurá-lo na
casa paterna, da qual ele ficou afastado durante dois anos.
O que Abu Talib lhe outorgou em valores interiores, ele o recebeu numa
sensação de contínua felicidade, sem ficar consciente disso. A sua índole distraída
e autoritária abrandou-se; nos seus olhos e na sua boca estampava-se um alegre
sorriso em lugar do sarcasmo que tantas vezes deslizava sobre os mesmos.
Com grande contentamento Abu Talib notou o desabrochar de Maomé.
Ele pressentiu ricos tesouros na alma do rapaz e consagrou todos os seus esforços
no sentido de trazê-los à tona.
Foi por essa época que o rapaz foi atacado repentinamente por crises con-
vulsivas inexplicáveis. Com um grito angustioso ele caiu no chão e ali ficou deita-
do, debatendo os membros.
Assustados ao extremo, os colegas afastaram-se dele. Enquanto isso, o rabino
Ben Marsoch, que o julgou possesso, rezava diante dele sem obter resultado. Nin-
guém ousava tocá-lo nesse estado, e ele debatia-se cada vez com mais violência.
Finalmente chegou um médico. Dispunha de tudo para o tratamento e
disse que as convulsões eram conseqüência do seu físico muito delicado. Não
MAOMÉ
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devia ser esquecido que o rapaz ainda não esquecera a morte de seu avô.
Não devia ser forçado excessivamente com estudos. O rabino Ben Marsoch
não quis compreender. Pois, como Maomé havia se tornado um excelente aluno,
não lhe aprazia excluí-lo das aulas.
Então o médico falou com o assustado Abu Talib. No seu amor encontrou
uma saída.
- Projetei uma longa viagem para a Síria, disse ele. Levarei o rapaz junto. O
clima diferente e a contemplação de tantas novidades lhe farão bem. Depois que
voltarmos, poderemos tomar nova decisão.
O médico concordou e pouco tempo depois iniciaram a viagem. Abu Talib
não era comerciante como seu pai e seu irmão Abdallah, e Maomé não sabia ainda
qual era a sua ocupação, embora quisesse muito saber.
Ele perguntou ao tio o motivo pelo qual ia empreender a viagem, mas este,
que sempre respondera a todas as perguntas com a maior amabilidade, disse apenas
sucintamente:
- Tenho negócios na Síria.
O rapaz tão ávido em saber, não podendo receber explicação, preocupou-
se somente com os preparativos da viagem. Um considerável número de acompa-
nhantes formava o séquito; para cada qual foi preparado um camelo magnifica-
mente arreado.
Admirado, Maomé corria de um camelo para outro. Ele viu que todos os xa-
réus traziam igual insígnia, cada um no mesmo canto: uma espada curva, encimada
por um pássaro multicor.
- Que é isso? E o que significa? Queria saber. Mustafá explicou-lhe:
- Esse é o brasão de tua família, dos Koretschi, rapaz.
Com orgulho poderás também, um dia, usá-lo.
- Mas tem de ter uma significação! insistiu Maomé, passando os dedos por
cima da insígnia.
- Sem dúvida, tem uma significação: como pássaro deveis elevar-vos, supe-
rando a todos os outros, e com a agudeza da espada deveis saber combater. Nota
bem, Maomé! Não te tornes comerciante como o teu pai, mas segue o exemplo de
Abu Talib, e terás honra perante os homens e bênçãos em teus caminhos.
- Qual a profissão que o meu tio exerce? Perguntou Maomé, ligeiramente
alegre por encontrar uma oportunidade para a solução dessa tão importante ques-
tão para ele.
- Profissão? Disse o serviçal, nenhuma.
Nisso virou-se para o camelo, sobre cujo lombo tratava de prender uma
magnífica sela.
Irritado, Maomé pisoteava o chão. Assim um empregado não podia res-
MAOMÉ
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ponder-lhe! Devia queixar-se a Abu Talib, porém, se o fizesse, seria descoberta sua
curiosidade. Portanto, devia calar-se e aceitar a evasiva.
Apressadamente correu para um dos outros serviçais e perguntou:
- Qual é o camelo que irei montar?
- Não sei, soou a resposta insatisfatória. O jovem senhor deve perguntar a
Abu Talib pessoalmente.
Finalmente chegou a manhã que deu início à viagem. O sol ainda não nas-
cera no horizonte, e os camelos dos cavaleiros já esperavam no espaçoso pátio que
circundava o palácio dos Koretschi. Uma enorme fileira de animais de carga espera-
va fora, com seus tratadores que haviam sido contratados para essa viagem.
Então Abu Talib saiu de casa e, servindo-se de uma escada, subiu na sua mon-
taria. Todos os outros homens subiram, enquanto o camelo se agachava até o chão;
somente ele, devido ao seu defeito físico, tinha de escolher essa outra modalidade.
Mas, para Maomé, o que em outros homens talvez parecesse desprezível ou
ridículo, isso, em Abu Talib, deu aos seus olhos um brilho fora do comum. Tudo o
tio fazia diferente dos outros homens!
E agora esse tio o chamava para servir-se igualmente da escada e subir para
junto dele. Fê-lo apressado e tomou orgulhoso seu lugar na sela especialmente co-
locada, sobre a qual devia fazer o percurso da viagem.
Era magnífico que ele não tivesse que ficar só em cima de um camelo. Se assim
fosse, durante horas não teria com quem conversar. E ele tinha tanta coisa a perguntar.
Lentamente a caravana se pôs em movimento. Como um animal caminhava
atrás do outro, formou-se uma longa fileira. Assim que deixaram Meca atrás de si, fi-
zeram os animais acelerarem os passos. Tomaram o rumo monte abaixo, num declive
amenizado em direção a noroeste, e a marcha dos camelos tornava-se cada vez mais
animada. De início Maomé teve bastante oportunidade para apreciar, mas antes do
pôr-do-sol, o seu interesse já arrefecera. A região tornou-se deserta e despovoada.
Seguiam o rumo, à beira de um deserto. Quando começou a soprar um ven-
to fresco, o mesmo levantava nuvens de areia que vinham ao encontro deles. Viaja-
ram sem interrupção na primeira noite. o rapaz dormiu na sela. Somente na noite
seguinte foram levantadas barracas.
Com olhos atentos, Maomé acompanhava os afazeres do pessoal no acam-
pamento. Viu como colocaram uma imagem horrenda, de pedra, ossos e farrapos,
representando o fetiche; observou como eles dançavam em redor e como se alegra-
vam em descansar debaixo de sua proteção.
- Quem fez aquele objeto? Perguntou Maomé ao seu tio, junto ao qual vol-
tou, preenchido de tudo o que havia presenciado.
- Provavelmente um fetichista. Nós diríamos sacerdote, se é que um ateu
como esse merece tal nome.
MAOMÉ
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- Então essa imagem não pode representar nenhum deus, nem tampouco
proteger as criaturas humanas, uma vez que é feita pela mão do próprio homem,
falou rapidamente Maomé, revoltado por ver tanta tolice. Como podem ser tão
tolos os seres humanos e crerem em semelhante coisa!
- Eles nada sabem de melhor. Ninguém lhes contou da existência de Deus,
acalmava-o Abu Talib.
- Por que ninguém lhes conta Dele? Indignou-se o rapaz.
- Eles não compreenderiam, respondeu o tio calmamente.
O pensamento de que existiam homens ao lado dele que seguiam caminhos
falsos, unicamente porque ninguém se esforçava em indicar-lhes os certos, não mais
abandonou Maomé. Ele, que nunca pensou nos outros, sentiu dor ao lembrar-se
dos adoradores de fetiches, que até então não lhe fora dado observar.
Os rapazes na escola nunca falaram dos seus deuses. Ele julgou que fetiche
era um outro nome de Deus. Também notou que os rapazes da nobreza não se inco-
modavam com assuntos de crenças. Isso lhe parecia menos antinatural do que esse
comovente apego daqueles simples homens a esses costumes tradicionais.
Esses novos pensamentos não o deixaram ter sossego. Durante a noite, le-
vantou-se da cama e saiu da barraca, procurando refrescar-se ao ar livre.
Ali se estendia sobre ele o céu estrelado na sua aparente infinidade. Cintilan-
tes e vibrantes, essas luzes do firmamento davam testemunho da grandeza Daquele
que as criou.
Todos os pensamentos confusos e estranhos se afastaram do rapaz, o qual pela
primeira vez sentiu na calada da noite as vozes do cosmo falarem a sua alma.Involunta-
riamenteosseusbraçosselevantaramaoencontrodesseesplendoreinconscientemente
afloravam aos seus lábios as palavras que ele aprendeu na escola:
“Senhor,como são grandes e imensas as Tuas obras; tudo ordenaste sabiamente!”
O que até então havia sido para ele matéria morta para aprender de cor, agora,
nele tornou-se vívido. Sentiu a sua alma tomada por forças, às quais teve de curvar-se.
Após ter passado o primeiro estremecimento, ele deixou-se cair na areia que
ainda estava quente, colocou as mãos embaixo da cabeça e começou a meditar sobre a
causa pela qual ele se sentira até oprimido dentro da barraca.
Então novamente se lembrou dos pobres adeptos de fetiches. Como poderia ser
possível que esses homens, noite após noite, vissem essas coisas e cressem nessas figuras
de palha e farrapos!
Devia vir alguém que lhes mostrasse algo melhor.
O tio havia dito que eles não compreenderiam outra coisa! Será que alguém
já empreendera uma tentativa? Devia ser possível convencer essa gente.
Era um dever natural daqueles que sabiam melhor dar esclarecimentos aos
outros. Durante horas ele ficou deitado quieto, meditando. Então, brotou-lhe do
MAOMÉ
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íntimo o resultado das suas reflexões:
“Senhor, Deus de Israel, se ninguém o quer empreender, então eu o quero,
assim que tenha idade suficiente para isso! Ajuda-me a fazê-lo.”
Era a primeira prece independente que jorrou da alma do rapaz, e essa prece,
sentida profundamente por amor a outros homens, achou seu caminho para o tro-
no do Todo-poderoso. Suave paz invadiu o rapaz, como nunca sentira antes; uma
esperança tranqüilizante e uma alegria sobre o porvir afluíram-lhe.
Essa noite ele passou ao ar livre, e na manhã seguinte apareceu com os olhos
tão radiantes diante de Abu Talib, que este não pôde compreender o milagre.
Os dias transcorriam monótonos, mas Maomé, que tão depressa se enfadava
de todas as coisas, entreteve-se com seus próprios pensamentos e conservou um
alegre equilíbrio.
Um dia surgiu uma agitação na caravana.O condutor aproximou-se deAbu Talib
e perguntou se não achava preferível acampar o quanto antes, porque temia a aproxima-
ção de uma tempestade de areia. No entanto, como se achavam pouco protegidos nesse
lugar,Abu Talib achou aconselhável prosseguirem a viagem um pouco mais adiante.
Umventoquentevinhaseaproximandodelespelascostas,trazendograndesmas-
sas de areia consigo.Então,viram-se forçados a descer.
Os camelos deitaram-se rapidamente e os homens procuraram proteger-se atrás e
no meio deles.A areia caiu tão densamente,que ameaçou soterrar tudo o que estava vivo.
O coração de Maomé batia fortemente.Não sentiu medo,pois estava por demais absorto
nas emoções pelas quais havia passado.
Trêmulos de susto, os cameleiros repentinamente começaram a entoar uma
canção monótona, cujo texto Maomé não pôde entender. Um dos homens moveu-
se agachado, e arrastou-se para o camelo da frente, sobre cujas costas colocou e
amarrou uma das abjetas figuras de fetiche. Esta inclinou-se no vento, foi sacudida,
mas ficou de pé.
Então os homens começaram a regozijar-se: o seu fetiche dominaria a tempes-
tade e eles seriam poupados.
Na alma do rapaz algo começou a agitar-se. Será que esse hediondo ídolo do-
minaria? Antes mesmo que Abu Talib pudesse percebê-lo, Maomé saiu do seu abrigo;
deslizou serpenteante até o camelo da frente e subiu nas suas costas, de sorte que ficou
ao lado do fetiche, em pé.
Um grito de muitas gargantas ressoou. Todos o advertiram de que voltasse ao
seu lugar seguro e de que seria sua morte, se não o fizesse. Com gesto autoritário movi-
mentou a cabeça para trás.
MAOMÉ
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Nesse instante parecia que por alguns minutos a ventania parou,e o rapaz apro-
veitou essa pausa para exclamar aos homens o que agitava sua alma:
- Por que eu não haveria de ficar aqui tão bem quanto o vosso fetiche? Se ele
não está em perigo, eu estou muitas vezes mais seguro. Sabeis que ele foi feito por mãos
humanas, mas eu fui criado por Deus! Por Deus, o mais supremo nos céus e na Terra!
Escutai, ó homens! Eu sou criatura de Deus e serei o Seu servo quando alcançar a idade
em que Ele poderá precisar dos meus serviços!
Perplexos, os homens fitavam-no. O que ele disse?
A tempestade continuou. Maomé teve de calar-se. Mas ele permaneceu em pé.
E nem se segurou.
Orando, estendeu os braços ao céu. Isso já se tornara um hábito para ele, desde
a noite em que sentiu aquela profunda emoção na alma. Sua figura esbelta oscilava na
tempestade, porém, nada lhe aconteceu.
E outra vez a ventania parou por uns instantes. Então Maomé exclamou,
extasiado:
- Pedi a Deus, o Todo-poderoso, que a tempestade cessasse. Cessará se tirardes o
fetiche daqui. Quereis fazê-lo? Ele vos mostrou que não pode proteger ninguém.Agora
deixai que eu vos mostre que Deus, o Senhor, pode!
Comoquedominadopelaspalavrasinfantis,umdosárabeslevantou-seearran-
cou dali o fetiche.Com isso ele chegou a rolar no chão e a imagem caiu no meio de suas
pernas, quebrando-se. O que certamente para eles teria significado um mau augúrio,
agora lhes parecia uma prova ditosa do poder Divino.
Uma única rajada de vento levantou-se ainda e varreu para longe no deserto
os farrapos do ídolo. Então o vento cessou. O ar acalmou-se e os animais respiraram e
levantaram-se. O temporal passara.
No meio dos homens contentes, encontrava-se em pé o rapaz, dominado pelo
acontecido. Tudo isso veio sem que ele pudesse antecipadamente raciocinar e sem que
pudesse tornar-se consciente da transcendência das suas palavras.
Ante esse acontecimento sentiu-se arrebatado e fortalecido. Quão grande era
Deus,quão Todo-poderoso! E ele pôde anunciá-Lo! Realmente,Deus já agora se utiliza-
ra dele.Agora também consagraria a vida inteira a Ele.
Caminhou devagar para a sua montaria e nela subiu.Depois de sentar-se,encos-
tou-se inconscientemente no tio. Abu Talib compreendeu o que se passava na alma do
rapaz. Não disse nenhuma palavra sobre o que havia se passado. Também não corres-
pondeu à inconsciente carícia. Deixou Maomé recuperar sozinho o equilíbrio anímico.
Seguiram-se dias calmos e repletos de paz.Abu Talib percebeu que o rapaz pas-
sava por uma transformação íntima, para a qual qualquer palavra humana seria supér-
flua. Deixou-o completamente entregue aos seus pensamentos e apenas cuidava para
que ele não se esquecesse de comer.
MAOMÉ
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A região mudou de aspecto. Na direção que seguiam, começou uma subida
suave monte acima. O deserto de areia ficou para trás. Para onde quer que dirigis-
sem seus olhares, viam rochas cobertas de vegetação e lindos pomares.
- Isto é a Síria? Perguntou Maomé, como que despertando de um sonho.
Abu Talib confirmou que sim e que dali para frente tudo haveria de ficar cada dia
mais belo.
- Para onde iremos na Síria? Como se chama a cidade onde ficaremos? In-
terrogou o rapaz.
Ficou surpreso ao saber que dependeria das notícias que o tio aguardava
para a próxima noite.
- Chegaremos amanhã num convento, onde encontraremos algum recado.
Nisso se baseará a continuidade da minha viagem. Nesse convento moram somente
homens devotos, que são servos de Deus, Maomé. Terás prazer em vê-los e em po-
der falar com eles.
- São judeus? Perguntou solicitamente o rapaz.
- Não, são cristãos, e afirmam ter sido um dos discípulos de Cristo que fun-
dou a comunidade. Talvez eles te contem sobre isso, se solicitares.
- É conveniente para mim escutar uma vez verdadeiros cristãos, declarou o
rapaz. Com exceção de Sara, ainda não vi nenhum.
- Tua mãe também era cristã, não o esqueças, rapaz, admoestou Abu Talib;
porém, como resposta, obteve:
- Ah! eu também ainda era novo, quando mamãe vivia, mas sempre senti
que ela não dava muita importância a sua crença, pois com a Sara eu aprendi mais
do que com ela.
- Mas era uma boa mulher; tu ainda não podes julgá-la acertadamente, repe-
liu Abu Talib, a quem doeu escutar o filho falar dessa maneira sobre sua mãe.
Entretanto, essa leve repreensão não impediu Maomé de defender a sua opi-
nião. Em muitas coisas, intimamente, o tio tinha de dar-lhe razão. Por isso achou
mais acertado interromper a conversa.
Ao anoitecer do dia seguinte, chegaram a um convento, que se encontrava
situado numa fértil planície, no meio de pomares em florescência. Monges vestidos
com longas batinas de cor marrom e com uma corda branca amarrada pelos qua-
dris, trabalhavam nas árvores e nos canteiros.
Com a aproximação da caravana eles levantaram os olhos. Então dois deles
chegaram ao portão,o qual se achava no baixo muro branco que cercava aquele imen-
so terreno. O portão foi aberto, mas somente Abu Talib, com sua montaria, entrou,
enquanto, após ligeira chamada, a caravana se pôs novamente em movimento.
MAOMÉ
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Um pouco assustado, Maomé olhou para os companheiros, que iam seguin-
do viagem:
- Para onde eles vão? Ficaremos sozinhos aqui? Interrogou, um tanto ame-
drontado.
Abu Talib não teve tempo para responder. Com muita dificuldade ele desceu
de sua montaria, que estava bem adestrada para suportar com paciência todos os
movimentos do seu aleijado cavaleiro.
Maomé saltou atrás com agilidade e, quando se defrontou com os monges,
olhou admirado em redor de si. Um outro irmão, que acorrera, pegou nas rédeas e
conduziu o camelo para fora dali. E este também desapareceu. O rapaz sentiu um
mal-estar.
Involuntariamente ele pegou na mão de Abu Talib e disse imperiosamente:
- Tu ficas aqui!
Com isso os monges tiveram a sua atenção voltada para o jovem hóspede.
Nos seus rostos estampava-se a admiração, mas não perguntaram nada; conduzi-
ram os hóspedes para o interior do convento, onde estava preparado um aposento
para receber Abu Talib.
Prontamente prepararam também uma cama para o rapaz e serviram a am-
bos uma ligeira refeição. Depois disso, os irmãos retiraram-se e deixaram tio e rapaz
entregues ao repouso da noite.
Maomé muito quis saber: por que os monges usavam esses hábitos compridos;
por que não tinham cintos bordados, mas sim essas longas e feias cordas cheias de nós.
Abu Talib explicou da maneira que sabia. A pergunta que ele esperava, antes de
todas, não foi pronunciada. Então, ele mesmo a fez, embora não soubesse nenhuma
resposta para ela.
- Tu viste, Maomé, que todos esses monges têm os cabelos tosados no mesmo
lugar. Sabes por quê?
Sem hesitar o rapaz respondeu:
- Eu penso que eles rasparam os cabelos para que a força de cima possa pe-
netrar melhor neles.
- A força de cima? Perguntou Abu Talib admirado. O que sabes disso?
- Eu mesmo a senti, replicou Maomé, resoluto e sem a mínima vaidade.
Um monge entrou e trouxe notícias para o tio, o qual se aprofundou nos pa-
péis a ele entregues e ordenou que o rapaz fosse deitar. Este achou muito esquisito
não poder fazer sua oração ao ar livre, conforme já se tornara hábito para ele, desde
há pouco tempo. Antes mesmo que ele chegasse a resolver se podia pedir para sair
para fora, no pátio, Abu Talib levantou-se e deixou o aposento. Então o rapaz rezou
em pé, na frente da sua cama, e logo depois se deitou, adormecendo rapidamente.
Na manhã seguinte o tio levou Maomé à presença do superior do convento.
MAOMÉ
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Abade Paulo ainda era um homem moço, com olhos ardentes e traços severos. Lan-
çou um olhar penetrante no rapaz.
- É como nós presumíamos, disse, dirigindo-se depois para Abu Talib, po-
rém eu quero mandar chamar o padre Benjamin. Ele verá melhor do que eu o que
pode ser visto.
O padre foi chamado. Os homens esperaram em silêncio e Maomé, que se
sentiu deprimido por algo inexplicável, nem levantou os olhos, que estavam sempre
tão sedentos de saber.
Então entrou um homem de idade, o qual, obedecendo à chamada do abade,
colocou-se ao lado deste e inquiriu Maomé:
- De que crença és, meu filho?
Este levantou rapidamente os olhos e replicou sem raciocinar:
- Sou da crença de que os adoradores de fetiches devem ser auxiliados.
Abade e padre trocaram um rápido olhar. Abu Talib, porém, embaraçado
com a resposta do rapaz, dirigiu-se a este explicando:
- Tu entendeste mal a pergunta do padre. Ele queria saber a que crença per-
tences; se és pagão, judeu ou cristão. Maomé encarou o padre.
- Não sou nada, respondeu com impassibilidade.
Aí, Abu Talib assustou-se mais ainda e quis dar esclarecimentos ao rapaz;
entretanto, o abade interrompeu-o:
- Deves ter nascido em alguma religião e nela recebido ensinamentos. A esta,
então, pertences, não é, meu filho?
Maomé sacudiu a cabeça, característica de sua índole liberal.
- Eu nasci como cristão, mas ainda não cheguei a conhecer verdadeiros cris-
tãos. Depois cresci entre judeus e fui ensinado junto com judeus e fetichistas. Não
sou cristão; judeu também não gosto de ser, porquanto a sua crença estagnou e não
pode ir adiante. Então, encontrei Deus, bem sozinho. Agora só posso dizer: eu sou
Maomé, que crê em Deus!
O embaraço de Abu Talib aumentava cada vez mais; o abade, todavia, lançou
um olhar bondoso para o rapaz e disse:
- Se aquilo que dizes,com toda a tua convicção e de toda a tua alma,estiver certo,
então está bom. Seja sempre Maomé, que acredita em Deus, até achares algo melhor.
O padre Benjamin dirigiu-se outra vez ao rapaz:
- Em que reconheceste que Aquele que achaste é realmente Deus?
Com a rapidez de um raio veio a resposta:
- Na Sua grandeza e onipotência.
Ao proferir essas palavras, parecia a Maomé que forças invisíveis o elevavam.
Teve tonturas.Vastas planícies estendiam-se diante dos seus olhos espirituais e uma cla-
ridade rodeou-o.
MAOMÉ
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Isso levou apenas poucos instantes, então ele tornou a si, porém uma grande
sensação de felicidade íntima o dominava.
O mais novo dos padres entrou e recebeu ordem para mostrar a Maomé o
jardim do convento. Assim que os dois saíram do aposento, o padre Benjamin disse
pensativo:
- E como esperávamos, pela mensagem que nos foi dada: esse rapaz é algo fora
do comum. Deus, o Senhor, destinou-o para levar o Seu saber a longínquas regiões. Um
portador da Verdade ele deverá ser, não somente para o seu povo, como também para
inúmeros homens da Terra.
- Queres confiar-nos o rapaz, Abu Talib? Perguntou o abade. Com muito prazer
formaremos a sua alma. Certo é que ainda não tivemos alunos tão jovens no convento,
mas também nunca alguém com dotes tão extraordinários cruzou nosso caminho.
Após um breve entendimento,o tio concordou e o rapaz foi chamado.
- Escuta,Maomé,tomou o abade a palavra,quando o rapaz se encontrava ansio-
sonasuafrente,seutiorecebeunotíciasqueochamamalugaresdistantes,paraondenão
poderá levar-te. Como disseste que ainda não tiveste a oportunidade de conhecer cris-
tãos,entãovamosoferecer-teestaocasião.Ficaconosconoconvento,enquantoAbuTalib
irá prosseguindo sua viagem.Tu podes aprender tudo aquilo que nós próprios sabemos.
Incerto,MaoméolhavaparaAbuTalib.Seráqueotioestavadeacordo?Omelhor
seria convencer-se disso,antes de responder.
- Tu aprovas que eu fique? Perguntou.Abu Talib acenou afirmativamente.
- Então eu fico com boa vontade convosco no convento, porquanto me agrada
aqui. Mas para que não vos arrependais de me ter dado internato, quero dizer, desde já,
que até agora sempre tenho imposto a minha vontade.
O abade fez menção de dizer algo em resposta, mas Maomé não o deixou e con-
tinuou:
- Obedecerei aqui, mas nem sempre o conseguirei logo; por isso digo-o anteci-
padamente.
Essas palavras foram pronunciadas de maneira tão infantil,que conquistaram os
corações do abade e do padre. Eles asseveraram que o tolerariam de bom gosto ao redor
de si e que a vida simples e regrada do convento já por si sufocaria qualquer vontade
própria.
Tudo se passou com tanta rapidez, que o rapaz quase não teve tempo para refle-
xões. Abu Talib partira, e Maomé encontrava-se numa pequena cela, que de agora em
diante lhe serviria como morada.Ainda não havia conseguido saber qual a profissão que
o seu tio exercia! Isso o preocupava muito.
Maomé podia tomar parte nas refeições com os alunos mais novos do convento;
também foi admitido nas aulas, depois de um exame que provou ter ele sido excelente-
mente preparado na escola do templo de Meca.
MAOMÉ
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Em pouco tempo, apelidaram-no de “pequeno escriba”, expressão esta que
provocou indignação da parte de Maomé. Doutor nas escrituras sagradas ele não
queria ser.“Experiente da vida” parecia-lhe ser melhor.
Como agora lhe sobravam algumas horas do dia, durante as quais os outros
se extenuavam em adquirir um saber que ele já possuía, foi decidido que durante as
horas vagas ajudasse o jardineiro.
Isso foi motivo de grande alegria para o rapaz, que era tão ligado à natureza.
Ele encurtava o repouso unicamente para poder estar o mais possível no jardim.
Diversos trabalhos lhe couberam, para os quais as suas mãos de criança possuíam
uma habilidade especial, e o que tocava desenvolvia-se bem.
Se algumas vezes chovia fortemente, impedindo-o de ficar ao ar livre, então
se ocupava com um trabalho na cela, ao qual se dedicava espontaneamente: escrevia
textos da doutrina judaica, que lhe pareciam conter algo da doutrina cristã. Logo
depois começou a procurar contradições entre as duas.
Havia recebido permissão para perguntar sobre tudo aquilo que lhe pareces-
se duvidoso. Uma das primeiras perguntas foi sobre a morte de Jesus na cruz.
- Por que Deus, o Todo-poderoso, permitiu que Seu Filho fosse assassinado?
Perguntou com insistência.
Os monges olharam-se e ficaram embaraçados. Um repreendeu-o por pen-
sar de tal modo.
- Tu não deves falar aqui de assassinato, disse. Jesus Cristo morreu para tra-
zer à humanidade o resgate de suas culpas!
- Nisso eu não acredito, retrucou o rapaz com veemência. A salvação, o Filho de
Deus trouxe-a aos homens através de sua presença e de sua Palavra. Sua morte apenas
aumentou enormemente a culpa dos homens.Que Deus,o Senhor,não quisesse arrancar
a humanidade do abismo, isso eu compreendo. Ela era má demais. Mas que Ele deixasse
ficar o Filho para vítima,isso para mim é incompreensível e incompatível com o Seu ser.
- Muita coisa mais ainda não entenderás, soou a resposta insatisfatória do
abade.
Desse modo, Maomé não foi auxiliado, e então procurou de novo encontrar
sozinho as respostas. Às vezes se insinuava a tentação:
“Não cismes! Joga fora tudo isso como coisa incompreendida. Vive alegre e
contente todo o dia, assim como ele se apresenta, e não o ensombres por ti mesmo
com raciocínios, para os quais ainda és muito novo.”
Por pouco teria cedido a essas vozes que impulsionavam o seu íntimo, po-
rém, a sua experiência vivencial ainda pairava luminosa e bastante nítida diante de
sua alma. Ele tinha que continuar a pesquisar.
Uma palavra de um jovem padre veio lançar um pouco de luz na torrente
de seus pensamentos impetuosos. Esse jovem professor certo dia esclareceu aos alu-
MAOMÉ
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nos a necessidade da disciplina no convento. Sem ela cada um faria o que bem lhe
aprouvesse, porquanto, embora Deus tenha concedido ao homem o livre-arbítrio
para proceder como quiser, pela sua própria vontade, o homem não sabe aproveitar
esse dom; por isso deve subordinar-se à disciplina terrena!
A palavra “livre-arbítrio” vibrou em Maomé. Com esforço dominou o im-
pulso de fazer, já durante a aula, mais perguntas a esse respeito. No final da aula,
todavia, Maomé procurou o padre e fez suas perguntas, as quais deram provas de
uma vivacidade intrínseca.
O monge esforçava-se seriamente para acalmar a alma do rapaz. Ele, aliás,
nunca se ocupou com tais ponderações, mas pôde penetrar intimamente nas idéias
de Maomé.
- Pondera nisso uma vez,padre,exclamou entusiasmado.O livre-arbítrio é uma
das maiores dádivas que Deus deu à humanidade! Se o empregarmos certo, então, po-
deremos ascender às alturas, ao passo que do contrário ficaremos sempre presos.
O doutrinador não respondeu. Esses pensamentos eram altos demais para
ele. O rapaz, porém, continuou:
- Por isso Deus também não interveio, quando Cristo foi assassinado. Ele
tinha que deixar os homens sofrerem as conseqüências do seu próprio querer. Real-
mente, Ele é grande, acima de toda a imaginação humana! E eu, tolo, queria acusá-
Lo justamente por isso!
- Rapaz, pensa no que dizes; como podes atrever-te a falar dessa maneira do
Todo-poderoso! Repreendeu o professor, pois ele não era mais capaz de seguir os
pensamentos do jovem.
- Apenas me arrependo do modo de pensar anterior, defendeu-se Maomé.
Então calou-se. Tanta coisa lhe afluía intimamente em reconhecimentos,
que ele não dava conta de tudo.
Mas o padre foi procurar o abade, para informar-lhe sobre a conversação.
- Já te disse, padre Jakobus, sorriu o superior, que Maomé é um rapaz extra-
ordinário. Tu não podes exigir que o espírito infantil compreenda as grandes coisas,
como um homem maduro pode compreender. Não o intimides, senão ele perde a
confiança em ti e em todos nós. Isso seria grave, porque não poderíamos controlar
o que se passa nele.
Em vista dessa palestra, o abade resolveu encarregar-se sozinho da educação
do rapaz. Concedeu-lhe diariamente uma hora, durante a qual ele podia ficar tra-
balhando ao seu lado e formular as perguntas que quisesse.
Isso agradou a Maomé, e ele envidou todos os esforços para aproveitar essa
oportunidade que lhe fora facultada. Quanto mais paciência o abade demonstrava,
tanto mais liberais ousavam sair as perguntas de sua alma.
Abade Paulo nunca lhe chamou a atenção sobre expressões audaciosas, mas
MAOMÉ
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também nunca lhe deu demonstração de que não estava à altura para acompanhar
os seus elevados pensamentos.
Já há muito examinara os escritos de Maomé, e ficara admirado com que
nitidez o rapaz descobrira as diferenças entre as duas doutrinas.
Desse modo se passou mais de um ano. No maravilhoso clima da Síria, Ma-
omé recuperava-se. As perigosas crises convulsivas, que ainda algumas vezes se re-
petiram, desapareceram, no entanto, nos últimos meses.
Os monges fizeram de tudo para fortificar o seu corpo, mas para o espírito
pouco puderam fazer. Ensinaram-lhe tudo o que sabiam e tiveram de passar pela
experiência de que, com poucas palavras, o aluno demolia sempre qualquer edifica-
ção das suas sabedorias erigidas em bases artificiais.
Um dia, abade Paulo perguntou:
- Então, Maomé, agora já conheces verdadeiros cristãos. Comparaste a nossa
doutrina com a dos judeus. Para qual das duas te sentes atraído: queres ser cristão
ou judeu?
- Nenhum dos dois, confessou francamente Maomé. O judaísmo foi maravi-
lhoso, da maneira como foi iniciado. Mas então os homens perverteram-no, e agora
estagnou, porque os tolos ainda esperam o Messias, em vez de reconhecerem que
ele já peregrinou pela Terra. Agora o judaísmo nunca mais progredirá. Excluiu-se
da própria vida.
- E o cristianismo? Animava-o o abade, ao qual agradaram as ponderações
do jovem. Como encaras o cristianismo?
- Seria a continuação do judaísmo, disse Maomé meditando. Reconheceu o
Messias, mas não faz desse reconhecimento o uso devido.
- Rapaz, como tu entendes isso? Perguntou o abade, espantado.
Ele pôde escutar meio divertido, quando o jovem falou com menosprezo da
doutrina dos judeus, mas como agora se referia de maneira idêntica ao cristianis-
mo, não conseguiu mais calar-se. Maomé replicou calmamente:
-Vós reconhecestes Cristo como o Filho de Deus,que trouxe a salvação.Porém,
agora disputais sobre quem de vós o interpreta com mais precisão. Fazeis desse reco-
nhecimento um assunto do raciocínio, em lugar de um assunto do espírito. Em vez de
aspirar às alturas pela Verdade que ele trouxe, ficais parados no mesmo lugar e deixais
a Verdade escapar pelas vossas mãos, até que ela se torne completamente vulgar.
Expressão e palavra não eram mais as de uma criança.
Estupefato, o abade olhou para Maomé, que ousou dizer-lhe tais coisas. Como
isso era possível? Em nenhum instante lhe surgiu o pensamento de que Maomé, sendo
MAOMÉ
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um enviado da Luz, estaria realmente em condições de trazer a ele, o inteligente abade,
Luz e Verdade. Sentiu vontade de escutar mais, por isso perguntou-lhe:
- Como imaginas a crença verdadeira, se repudias uniformemente o judaísmo
e o cristianismo?
- Sobre isso já meditei muitas vezes,foi a resposta surpreendente.Devia-se fazer
a tentativa de conseguir a transição do judaísmo para o cristianismo, porém espiritua-
lizá-lo, porquanto a fé é uma atribuição do espírito, e não do intelecto.
Perplexo, o abade fixou os olhos no seu interlocutor, não conseguindo quase
mais segui-lo.
- Isso não vem de ti, rapaz! Exclamou. Quem te disse tudo isso? Quem te ensi-
nou a pensar assim?
- Isso surge em mim à noite,quando faço a minha prece,e eu o retenho porque
sinto que é verdade. Logo que eu tiver alcançado mais idade, então pedirei a Deus para
ajudar-me a encontrar a verdadeira crença, que possa ser ensinada aos homens. Essa
crença conterá então a força para conquistar o mundo e conduzirá todos os homens
aos pés do Criador, em gratidão e veneração.
Comovido,o rapaz calou-se.O abade,no entanto,em vez de deixar atuar sobre
si essa sabedoria, que não proveio desta Terra, desejou saber:
- Com quem já falaste sobre isso, Maomé?
- És o primeiro, soou a resposta, mas agora estou arrependido por tê-lo feito,
porquanto tu não recebes aquilo que eu disse no sentido como me foi dado. Sempre
queres medir tudo pelo teu cristianismo, em vez de distinguir que Deus quer te ofere-
cer aqui coisa melhor! Se, porém, durante a refeição não esvaziares bem a tua tigela de
comida do dia anterior, como pode caber coisa nova nela?
Sobre a face do rapaz faziam-se notar contrações.A agitação e a tensão tinham
sido demais para ele. Sinais de novas convulsões surgiram. Apesar disso, continuou a
falar por um impulso íntimo que predominava nele:
- Não achas, abade Paulo, que eu tenha sido conduzido para o teu convento
para fazer-te ver isso? Deus às vezes se serve de pequenos instrumentos para fazer gran-
des coisas.Escuta-me,porquanto eu sei que Deus manda por meu intermédio dizer-te:
tira o cristianismo intelectualizado do teu coração e do teu convento e aceita o que o
espírito te oferece!
Mais ele não pôde falar, pois a pertinaz doença o atacou com grande intensida-
de. Com menosprezo o abade olhou para esse débil instrumento de Deus.
- Rapaz, quem te deu coragem de falar assim comigo? Tua altivez e tua pre-
sunção merecem castigo! Agora te chamarei à ordem, murmurou o abade, enquanto
deixava o aposento a fim de chamar um irmão servente para cuidar do jovem.
Nessa noite Maomé escutou uma voz alta, que o chamou pelo nome. Ele sabia
que não era terrena e imediatamente respondeu.
MAOMÉ
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Então a voz lhe ordenou que deixasse o convento ainda antes do ama-
nhecer. Se caminhasse em direção ao sol nascente, chegaria a uma cidade onde
deveria perguntar pelo devoto irmão Cirilo.
“Senhor, sou Teu instrumento e farei o que me mandas!”, rezava Maomé.
Por essa razão pegou os poucos objetos da sua bagagem e fez uma trouxa,
saindo cautelosamente para o pátio. Observando e espreitando atentamente,
viu que um dos pequenos portões laterais não estava fechado. Conseguiu passar.
Aliviado, encontrava-se fora do muro.
“Todos hão de pensar que estou temendo o castigo do abade”, murmurou
algo nele.
Hesitante, meditou: “Não seria um ato mais corajoso eu voltar e enfren-
tar a pena que me foi imposta?” Logo, porém, superou essa tentação.
“Eu o faço por ordem de Deus!”, disse ele em voz alta, “portanto, não
devo incomodar-me com o que os homens pensam e dizem de mim. Sou Ma-
omé, o instrumento de Deus! Vós, homens, sois indiferentes para mim!” Para
certificar-se da direção do seu caminho, lançou um ligeiro olhar em redor de
si e então caminhou corajosamente para frente. Em geral, após os acessos de
convulsão, ele não podia deixar a cama por dois ou três dias. Foi uma visível
ajuda de Deus!
Quando o sol nasceu, sentiu fome. Ele não pôde levar provisões de víve-
res consigo, e os figos nas inúmeras árvores e arbustos ainda não estavam ma-
duros. Então sorriu da fome. O Deus, que deu forças aos seus débeis membros
para caminhar, também o ajudaria a achar alimento.
Na beira do caminho encontrou uma pequena propriedade, porém ele
quase não a percebeu. Então ressoou a voz de uma mulher:
- Rapaz, queres ganhar uma merenda matinal?
Ligeiro como uma lebre, virou-se e respondeu afirmativamente. Então a
mulher encarregou-o de tirar de uma árvore alta um precioso pano de seda que
o vento havia carregado para lá, durante a noite.
- Tu és bastante esbelto para tal trabalho, disse, enquanto mirava a figura
delgada.
Sem mais delongas, Maomé tratou de subir na árvore. Com a costumeira
agilidade com que fazia tudo, tirou a seda e a trouxe incólume. A mulher ficou
satisfeita e não foi mesquinha na sua recompensa; deu-lhe comida e bebida com
fartura, de sorte que até sobrou, e ele pôde levar as sobras consigo.
Então, ao continuar sua peregrinação, agradeceu a Deus de todo o co-
ração e formou suas palavras de agradecimento à maneira dos salmos, num
cântico de louvor:
MAOMÉ
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“Grande é Jeová, o Senhor! Infinitamente grande e majestoso é Ele!
E, todavia, nada Lhe é insignificante demais para que não o transforme num instrumento,
desde que o mesmo tenha boa vontade.
Grande e majestoso é o Senhor!
E sempre se lembra dos humildes e os ajuda até nas mínimas necessidades.
Antes mesmo de pedirem, Ele atende, porquanto Sua misericórdia é infinita.
Louvai-O, todas as criaturas que Ele criou!
Todos os vossos atos deviam ser um louvor ao Todo-poderoso!
Ínfimos que sois, não devíeis pensar em vós mesmos.
Pensai em Deus, agradecei-Lhe”.
Maomé entoava sempre de novo o seu salmo, que lhe dava prazer. Então veio
um tropeiro no caminho, com um burro bem alimentado.
- Escuta, pequeno cantor, para onde queres ir? A pergunta foi feita com tanta
bondade, que Maomé respondeu prontamente:
- Para a próxima cidade, em direção ao sol nascente! - Então monta, meu
burro pode carregar-te bem, e os teus cânticos podem encurtar-me o caminho.
Canta outra vez a canção que acabaste de cantar.
“Senhor Deus, agradeço- Te!” exclamou o rapaz, entusiasmado. “Eu estava
cansado, mas não Te quis dizer, depois de teres me fartado de alimento! Agora dás
outra vez, antes de eu pedir!”
E com entusiasmo entoou seu canto de louvor e cantou-o duas vezes, em
gratidão e felicidade.
Ao tropeiro agradou o esperto rapaz; com muito gosto tê-lo-ia sempre em
sua companhia. Talvez o jovem estivesse à procura de serviço; então, se o aceitasse,
ambos seriam ajudados.
- Quem vais procurar na cidade? Indagou. Sou muito conhecido lá e posso
conduzir-te logo ao destino certo.
Maomé meditou um instante. Devia dizer aonde queria ir? Mas para alguém
teria de perguntar e por que não a esse homem simpático. Então ele disse calmamente:
- Tenho de ir ao devoto irmão Cirilo.
- Ao irmão Cirilo? Esse eu conheço de fato, disse o homem, que via desfaze-
rem-se suas esperanças. E o que queres com ele?
- Mandaram-me a ele, e ele sabe o porquê.
Essa resposta pareceu muito misteriosa ao homem, e perguntou mais:
- De onde vens?
Sem medo, Maomé disse o nome do mosteiro. Tornou-se evidente ao tro-
peiro que o rapaz era um aluno do convento, que empreendeu a peregrinação por
ordem do seu abade. Um desses não devia ser desviado da sua vereda.
MAOMÉ
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Conversou alegremente com Maomé, mostrando-lhe a cidade que surgia no
horizonte e o conduziu, ao anoitecer, com segurança até lá. Então descreveu-lhe o
caminho que levava ao devoto Cirilo e despediu-se.
A Maomé agradou bastante poder caminhar novamente, após tão longa ca-
valgada. Bem-disposto, andava pelos becos e ruazinhas até que chegou ao portal
que lhe foi descrito pelo tropeiro. Bateu algumas vezes, mas em vão. Então experi-
mentou abrir o portão, porém estava fechado.
“Deus não me mandou até aqui para deixar-me ficar parado em frente de
um portão trancado”, disse ele a meia voz.
Nesse momento uma voz amável o chamou:
- O que queres neste lugar bom, no lugar de descanso dos mortos, rapaz?
Maomé assustou-se, pois os mortos ele não queria perturbar.
- Procuro o devoto irmão Cirilo, respondeu humildemente. - Então vem
para este lado da rua, disse a voz.
Ao mesmo tempo, no outro lado, duma cabana baixa saiu um ancião robus-
to com olhar afável.
- Esta casinha não se encontraria se não estivesse situada perto do imponen-
te portão, declarou. Sempre que um estranho pergunta por mim, então lhe descre-
vem o caminho até esse portão. Isso basta.
- Então és tu o devoto Cirilo? Certificou-se Maomé, que adquiriu confiança
nesse homem.
- Sou eu mesmo e tu certamente és Maomé, meu novo aluno, que me foi
anunciado por Deus, o Senhor.
Tão empolgado ficou pelo que de novo passou em vivência, que em lugar
de qualquer resposta, entoou o seu salmo de agradecimento. Quando terminou,
aproximou-se do irmão e aguardou o que este lhe mandaria fazer.
Cirilo, no entanto, sorriu satisfeito.
- Eis que um cantor alegre me vem voando em casa. Bem-vindo, Maomé! Se
tu sempre cantares e louvares assim, então nos tornaremos bons companheiros.
Levou-o consigo para a sua casa e o instruiu com amor e bondade, duran-
te cinco anos. Não havia para Maomé nenhuma pergunta, para a qual Cirilo não
procurasse achar uma solução junto com ele. Às vezes tinham de ficar meditando
por longo tempo, ou pedir a ajuda de Deus, mas sempre acharam explicação para as
perguntas e os dois tiraram proveito disso.
Durante o primeiro ano, a pedido de Cirilo, Maomé relatou toda a sua vida.
Com isso surgiu-lhe o pensamento de que Abu Talib poderia estar preocupado com
MAOMÉ
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o seu desaparecimento. Mas de pronto consolou-se, e disse:
“Deus mandou-me para cá. Ele também achará meios e caminhos para fazer
chegar ao conhecimento de meu tio o meu paradeiro, se ele deve saber disso”.
Quando se aproximou o término do quinto ano, Cirilo convidou o jovem
adolescente a acompanhá-lo numa curta viagem.
Numa cidade no litoral devia realizar-se uma reunião pública, na qual, aliás,
iam ser tratados assuntos de interesse geral do povo, mas Cirilo achou necessário
que o jovem participasse alguma vez dessas coisas.
Após uma boa caminhada chegaram ainda em tempo na cidade de Halef, de
sorte que o jovem pôde primeiro contemplar o mar e habituar-se com o magnífico
panorama. Cirilo julgou bem certo ao pensar que antes disso Maomé não estaria
receptivo para outras coisas.
No dia da reunião dirigiram-se cedo ao lugar determinado para isso, onde se
encontrava uma variada multidão. Grupos de pessoas de todos os países da região e
homens de todas as tribos pareciam estar ali reunidos.
Cirilo perguntou a um dos assistentes quem iria falar ao povo, nesse dia. Re-
cebeu a resposta de que seria o árabe Talib ben Muttalib, o maior amigo do povo de
todas as tribos. O bom irmão ficou contente ao saber que Maomé iria logo escutar
um homem importante. O nome do orador nada lhe significou.
Cirilo escolheu um lugar, do qual não só se podia escutar, como também ver.
Devido à popularidade que ele gozava nessa região, ninguém disputava seu lugar,
nem o do seu protegido.
Jubilosos aplausos anunciaram a chegada do esperado orador. A massa do
povo dividiu-se para deixá-lo passar para o lugar mais alto, de onde deveria falar.
Ao dirigir um olhar curioso para aquele lugar, Maomé de repente viu na
sua frente o seu tio.
Essa era, portanto, a profissão que Abu Talib exercia ocultamente! Um orador
popular era ele? O que teria a dizer à multidão. Pálido de emoção, o jovem escutava.
Tudo, tudo ele queria absorver; não somente as palavras que ali ressoariam,
mas sobretudo o sentido contido nelas.
Ele ficou admirado. Era um Abu Talib diferente daquele que conhecera. Per-
dera todo o acanhamento na sua conduta. A multidão esquecia-se dos seus defeitos
ante a projeção de sua personalidade, que dominava em volta dele, como o poder
de um soberano nato.
Não pronunciou nenhuma palavra a mais. Cada uma teve sentido e signi-
ficação, e cada uma impressionava o público com poder arrebatador. Não usava a
gesticulação, como em geral se via nos oradores.
Exteriormente aparentava calma, mas seus olhos flamejavam, faiscavam ou
ensombreavam-se. Falavam sua própria linguagem.
MAOMÉ
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Tudo isso Maomé percebeu no seu íntimo, antes mesmo de ser capaz de
acompanhar audivelmente as palavras. Abu Talib falava que em todas as partes do
território, muito além das fronteiras de El Árabe, moravam árabes, que tinham que
se curvar ao domínio estranho.
Aclamações interromperam-no. Calou-se um instante. Então continuou do
mesmo modo a convencer o povo ali reunido de que os árabes deviam unir-se num
só todo, porque assim se tornariam grandes e poderosos.
Esse foi o significado do seu discurso, enfeitado com muitas exemplificações
e impressionantes imagens.
Então ele convidou os ouvintes a externarem os seus pensamentos sobre
aquilo que haviam escutado.
Cada objeção ele replicou prontamente e com sensatez.
Finalmente um dos fidalgos exclamou:
- Aqui na Síria, mais do que a metade dos habitantes são árabes. Se nós nos
unirmos ao país natal, então a Síria deixará de existir!
- Seria lamentável isso? Perguntou Abu Talib.
Suas palavras tiveram o efeito de uma chicotada. Um verdadeiro tumulto
irrompeu.
- Então achas, Talib ben Muttalib, exclamavam os homens, que podemos fazer
conquistas sem guerras, e que devemos simplesmente anexar os países vizinhos?
- Se isso fosse para o bem do nosso país, então sem dúvida, refutou o orador.
- Não acrediteis, ele é judeu! Fez-se ouvir de repente uma voz gritante.
Todas as cabeças se viraram para o lado de onde soaram essas palavras. Ali
estava um sacerdote fetichista, com a face contorcida impetuosamente.
- Ele quer conquistar todos os povos para o seu Deus e subjugá-los! Isso não
podemos tolerar. Sou um filho fiel da Arábia, e justamente por isso não a quero
entregar aos judeus!
- Enganas-te, sacerdote, respondeu a voz serena de Abu Talib. Realmente
nasci de pais judaicos, porém reconheci que é mais importante ajudar o povo sobre
a Terra a conquistar grandeza, felicidade, união e poderio, do que adorar um Deus
invisível, o Qual talvez nem no Além poderemos chegar a ver.
- Para, blasfemador!
Estridentes soaram essas palavras pela grande praça da reunião. Todos de-
veriam tê-las escutado.
O orador empalideceu. Em sua frente estava de pé o seu sobrinho, que julga-
ra morto; o menino transformara-se num moço; e os monges lhe haviam dito que
ele era destinado a ser um portador da Verdade. O homem sentiu calafrios.
Quando Abu Talib, no regresso de sua viagem, pretendeu cuidar de Maomé,
o abade informou-lhe que o rapaz sucumbira de uma grave enfermidade. Isso deu
MAOMÉ
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muito o que pensar ao tio. Se Deus deixava morrer um portador da Verdade, então
Lhe era indiferente que a Verdade fosse propagada.
Isso foi o começo do declínio da fé.Abu Talib raciocinou e meditou longo tem-
po até que jogou de si todos os pensamentos em Deus e no Divino. Desde então lhe foi
mais fácil falar ao povo. Nunca se defrontou com algo como naquele momento.
Maomé, sem hesitar, continuou dizendo em voz alta:
- O Deus invisível, que Abu Talib nega, se bem que ele outrora O adorou,
está no meio de nós! Ele criou todos nós, por isso é nosso Senhor! Guia maravi-
lhosamente todos os homens que Nele crêem. Eu o sei, porquanto eu mesmo tive
provas disso!
Surgiu uma grande agitação.
- Quem é esse jovem que tem a ousadia de falar numa reunião de homens?
Exclamavam alguns exacerbados, enquanto outros manifestavam sua aprovação ao
que Maomé havia dito.
Os já excitados ânimos exaltaram-se; chegaram a agredir-se e toda a reunião
findou numa violenta discussão,de sorte que policiais armados da cidade tiveram que
intervir, para separar os que já estavam se enfrentando com faca, corpo a corpo.
Abu Talib retirou-se com alguns partidários, antes de começar a contenda.
Cirilo forçou Maomé a abandonar igualmente o recinto. O jovem teve a compreen-
são de que por ora em nada poderia ser útil. Estava abalado pelo acontecido e tre-
meu de pesar ao ver que o tio, a quem sua alma havia se afeiçoado, ficara tão mau.
Cirilo achou que teria sido melhor se Maomé tivesse calado, mas também
não pôde repreendê-lo. Por isso não falou nenhuma palavra, e deixou o jovem en-
tregue aos seus agitados pensamentos. Maomé sentiu a reprovação e evitou por sua
vez falar com o irmão.
Após ter perdurado por alguns dias esse silêncio, ao qual, aliás, se habitua-
ram, ambos sentiram que não podiam continuar convivendo dessa maneira.
Enquanto Cirilo meditava como poderia reaproximar-se do jovem, sem dar
o braço a torcer, Maomé achou a única solução numa rápida separação. O que ain-
da devia fazer aqui? Aprendera tudo o que Cirilo lhe pôde ensinar.
Queria sair pelo mundo e ganhar o seu sustento, até chegar o tempo em que
poderia atuar como instrumento de Deus.
Anteriormente ele sempre supunha que após um certo aprendizado regressa-
ria à vida abundante do palácio paterno,visto ser ele o herdeiro e não o tio,que,como
segundo filho, tinha direito apenas a pequena parte. Após o recente incidente, achou
completamente impossível poder alguma vez defrontar-se novamente com o seu tio.
Portanto, tornar-se-ia independente. Isso com certeza era da vontade de Deus.
A noite declarou o que havia decidido ao irmão Cirilo, surpreendendo-o.
Este não quis concordar, porém Maomé não se deixou convencer e assegurou que
MAOMÉ
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na manhã seguinte continuaria sua peregrinação. Agradeceu ao irmão por tudo o
que ele lhe havia proporcionado espiritual e terrenamente, e com este agradecimen-
to ficou comovido. A antiga simpatia pelo mestre despertou novamente, e fez com
que se separassem em paz.
Durante a noite Maomé teve uma visão. Viu Abu Talib desaparecer numa
casa velha situada numa rua estreita da cidade de Halef. Concomitantemente, uma
voz chamou:
“Maomé, procura teu tio! Ele precisa de ti”.
Impulsos de obstinação excitavam a alma do rapaz. Agora ainda ter que cor-
rer atrás desse renegado! Mas quando pensou que foi a voz de um mensageiro de
Deus que lhe trouxe a ordem, então a sua exaltação se desfez, e ele conformou-se.
Conquanto não conhecesse a rua que vira em sonho, confiou nos guias espirituais
e caminhou em direção a Halef.
Entretido com os próprios pensamentos, o caminho não lhe pareceu lon-
go. Alcançou, antes do que esperava, as primeiras casas, e encontrou um menino
que chorava amargamente. A criança havia pisado num caco de vidro e machucara
gravemente o pé, de sorte que não podia dar nenhum passo. Maomé amarrou uma
atadura na ferida e dispôs-se a carregar a criança.
- Podes dizer-me onde moras? Perguntou ao já confiante menino.
- Sim, realmente, posso dizer-te quais as esquinas que deves dobrar. Então
logo chegaremos a nossa casa. Como a mamãe vai ficar contente, quando afinal eu
chegar em casa!
Verificou que a criança passara a noite toda fora. Suas contínuas tentativas
de andar agravaram cada vez mais o ferimento.
- Já estamos perto de nossa casa, explicou subitamente o pequeno. Maomé
olhou em redor de si e reconheceu a rua que vira de noite. Novamente foi tomado
de um sentimento de gratidão ao tornar-se consciente da direção da Luz, sob a qual
se encontrava, de maneira que teve de desabafar o seu coração.
Pôs o menino ferido no chão, levantou as mãos e agradeceu a Deus do fundo
do coração. Então tomou de novo o seu protegido nos braços e nem se admirou de
que as indicações deste o levavam realmente àquela casa, que, aliás, já conhecia.
Uma mulher em pranto precipitou-se para fora, tomou nos seus braços o
menino que ela pensava ter morrido, e pediu a Maomé que entrasse e fosse seu
hóspede. Assim, sem muita dificuldade, ele chegou a casa na qual desejava entrar e
novamente disse do fundo da alma:
“Senhor, Deus de Israel, eu Te agradeço!”
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O menino foi deitado na cama e a mãe o tratou carinhosamente. Depois se
dirigiu ao hóspede, o portador do socorro, agradeceu-lhe e deu-lhe alimentos. Ma-
omé, enquanto tomava a refeição, perguntou à mulher se havia um outro hóspede
sob seu teto.
Ela negou. Penetrante e perscrutante, Maomé encarou-a; então, enrubescen-
do, ela disse:
- Hospedei por pouco tempo um parente adoentado em minha casa.
- Ah! nesse caso também nós somos parentes, retrucou sorridente Maomé,
pois Abu Talib é meu tio.
Perplexa, a mulher olhou para o rapaz sorridente.
- Não digas esse nome, amigo hóspede, implorou. Esse de quem estás fa-
lando está sendo procurado por espiões. Por isso, ocultou-se aqui, numa das mais
pobres habitações, onde por certo ninguém pensará em procurá-lo. De onde sabes
que ele está aqui?
- Eu o sei, replicou Maomé. E devo falar com ele. Ele mesmo o quererá, se
disseres que Maomé de Meca está aqui.
A mulher retirou-se. Logo depois voltou e fez sinal para segui-la. Subiram
uma escada horrível e encontraram-se na frente de uma porta. A mulher mandou
Maomé pedir licença para entrar e desceu outra vez a escada apressadamente.
Sem se fazer notar, o rapaz entrou. Numa pobre cama encontrou Abu Talib,
o qual realmente parecia doente e decaído. Quando este avistou aquele que julgara
estar morto, arrepiou-se de medo.
- O que queres de mim, Maomé, tu, mensageiro de Deus, o Todo-poderoso,
contra o Qual depus em público? Perguntou tremendo.
Toda a ira desapareceu do jovem. Cheio de compaixão, aproximou-se do
penitente e disse:
- Deus deu-me ordem para procurar-te, por estares necessitando de mim.
Abu Talib começou a chorar.
- Tão bondoso é Deus com um indigno como eu? Exclamou repetidamente.
Não podia acreditar em tamanha misericórdia.
Maomé por ora nada fez para facilitar-lhe essa crença. Começou a tratar em
primeiro lugar das necessidades terrenas do tio. No bolso do vestuário encontrou
dinheiro, com o qual fez compras. Arrumou melhor a cama e deu-lhe uma bebida
soporífera.
Assim que Abu Talib adormeceu, Maomé dirigiu-se para o menino machu-
cado, o qual encontrou bem acomodado na sua cama.
- Canta mais uma vez o belo cântico que cantaste na rua, pediu. Minha mãe
gostaria de escutá-lo.
Maomé entoou seu salmo e sentiu alegria em poder fazê-lo.
MAOMÉ
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Pela face da mulher escorriam lágrimas.
- És judeu, amigo hóspede? Perguntou.
Antes que pudesse responder, ela contou que era judia, mas casara-se com um
fetichista.Antes, isso tinha sido indiferente para ela, porém nesse momento sentiu des-
pertar nela a ânsia de escutar novamente falar em Deus.
Maomé então contou o que sabia do Deus dos judeus. Os três esqueceram-se
das horas; estavam inteiramente absortos. Ele falou do Messias que veio e que foi re-
conhecido apenas por poucos; os outros então o assassinaram. Como sempre quando
falava disso, ficava amargurado. O pesar pelo assassinato do Filho de Deus oprimia-lhe
o coração.
A porta abriu-se, sem ruído algum. Abu Talib, que acordara do sono reparador,
entrou precisamente no instante em que Maomé começou a falar do Messias. Sem ser
visto pelos outros, abaixou-se ao lado da porta e sentou-se no chão, ficando à escuta
daquilo que o seu sobrinho anunciava com palavras eloqüentes.
No entanto, dominado por uma forte emoção, começou a chorar. Isso desper-
tou a atenção dos outros, que o conduziram a um lugar mais cômodo e dirigiram-lhe
palavras animadoras. Então confessou sua grande culpa perante Deus.
- Tu podes repará-la,Abu Talib,disse Maomé gentilmente.Assim como foste um
negador, torna-te um pregador de Deus.
- O povo não me dará mais ouvidos, desde que interrompeste minha reunião,
Maomé, suspirou o tio.
- Se não podes mais falar a grandes massas, então recomeça em pequenos cír-
culos, replicou Maomé despreocupadamente. Acredita-me que o tempo para os teus
planos ainda não amadureceu. Primeiro devemos oferecer aos homens algo de novo e
melhor, antes de fazê-los abandonar o antigo que adotaram.
- E quando poderemos fazer isso? Como se dará isso? Perguntou Abu Talib,
desalentado.
- Assim que eu tiver maturidade suficiente para poder servir como instru-
mento de Deus! Foi a réplica de Maomé.
Ainda falaram disso e daquilo, depois procuraram o refúgio de Abu Talib,
para passarem a noite ali. Na manhã seguinte, o tio quis saber como Maomé ima-
ginava o futuro próximo.
- Levar-te-ei para Meca, prometeu o jovem com toda a firmeza. Lá estarás
a salvo das perseguições.
- Nisso também acredito, dizia o outro. Apenas no caminho e aqui dentro
da cidade é que estou exposto a perigos.
- Esses nós venceremos, exclamou Maomé, cuja aventura lhe despertou
atração.
Após um entendimento com a dona da casa, alugou um burro forte com uma
MAOMÉ
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sela cômoda, como era usada por mulheres. Abu Talib teve de vestir traje feminino e
pôr um véu.
Maomé conduziu o burro.Assim saíram da cidade sem impedimentos. Tam-
bém durante toda a viagem não houve nenhum incidente. Somente perto de Meca,
Abu Talib achou melhor trocar de vestuário, porquanto lhe parecia por demais ig-
nóbil aparecer no palácio paterno em trajes femininos.
Maomé sentiu-se satisfeito em rever o lugar de sua infância. Ali os velhos
serviçais, em primeiro lugar Mustafá, cumprimentaram-no alegremente. Todos vi-
ram nele o senhor e herdeiro.
Perguntou por Sara e soube que ela já havia falecido. Por alguns dias Maomé
ficou descansando, depois se apresentou perante Abu Talib para declarar-lhe que do-
ravante trataria sozinho do seu próprio sustento.Havia esperado que o tio lhe dissesse
em resposta que não necessitava disso, visto que toda a riqueza dos seus pais lhe per-
tencia. Preparou-se internamente contra essa objeção, porém foi em vão.
Abu Talib pediu-lhe que fosse seu hóspede. Havia bens em profusão, mais do
que o suficiente para que os dois pudessem viver disso.
Esse modo de pensar fortaleceu ainda mais em Maomé a resolução de se
livrar de todo o existente. Sabia que devia encontrar-se independente quando lhe
viesse a chamada de Deus.
- E o que pensas fazer? Perguntou Abu Talib, inconscientemente satisfeito
por ter Maomé lhe facilitado tudo, para ficar de posse das adotadas riquezas.
- Quero ser comerciante, como meu pai o foi antes de mim, replicou o jo-
vem. Minhas relações com os empregados no comércio e os conhecimentos adqui-
ridos na infância, quando lidava na galeria, facilitarão minha adaptação. Ademais,
isso será apenas uma transição, concluiu.
Já no dia seguinte abandonou o palácio, para ir à procura de um emprego.
Dirigiu-se a um amigo do seu pai, que o recebeu com alegria e aconselhou-o.
Também sabia onde Maomé poderia colocar-se logo, se realmente estivesse
levando a sério o propósito de tornar-se comerciante.
- Há pouco tempo faleceu um mercador de jóias, cuja viúva deseja conti-
nuar o comércio. Esta procura um homem moço, de bons costumes, para servir
de auxiliar junto com os empregados da sua casa comercial. Este seria o lugar certo
para ti.
- Não serei muito inexperiente para isso? Indagou.
O mais velho repeliu a objeção. Chadidsha, a viúva, procurava justamente
alguém que ela mesma pudesse introduzir nas particularidades dos seus negócios.
MAOMÉ
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Ela possuía bastante conhecimento do comércio, porquanto sempre ajudara o ma-
rido. Não tendo filhos, pôde dedicar-se todo o tempo às jóias.
- É judia? Quis saber Maomé.
Sobre isso o amigo não pôde dar informações.
Porém, como se ele o animasse, Maomé resolveu procurar logo a viúva do
comerciante, assim já veria como era e quem era. Os depósitos e a loja ficavam den-
tro da mesma casa, numa das melhores ruas de Meca. Como a galeria de vendas do
seu pai estivesse situada num outro ponto do extremo da cidade, e não no palácio,
Maomé raras vezes estivera lá.
Apesar disso, ao entrar nessa loja, defrontou-se com uma grande diferença.
Aqui predominava a cobiça comercial, que visava unicamente lucros, ao passo que
lá existiu comércio que tinha em mira os objetos preciosos. Abdallah tinha somente
pedras selecionadas à venda. Aqui, aliás, também havia, porém enterradas debaixo
de montões de coisas baratas e inferiores.
Involuntariamente Maomé pensou:
“Será que a alma dessa mulher é igual a esta loja? E se assim for, valerá a pena
procurar nela a pérola preciosa?”
Ele mesmo admirou-se desse pensamento, que lhe surgiu como se viesse
voando ao seu encontro.
Depois de solicitar a um empregado, que acorreu para atendê-lo, permissão
para falar com dona Chadidsha, foi pedido que aguardasse um instante. Enquanto
ele ficou em pé ao lado de uma mesa, passando os olhos por cima das mercadorias
expostas, sentiu que um olhar penetrante e ardente lhe estava sendo dirigido de al-
guma parte. Não pôde ver de quem era, até que observou um cortinado arredar-se
levemente nos fundos.
Essa espreita sigilosa pareceu-lhe tão esquisita, que teve de sorrir.
Então, abriu-se o cortinado; uma mulher ainda jovem e encorpada entrou
na loja. Com passos ondulantes veio em direção ao rapaz, cujas feições já haviam
tomado de novo a expressão de sua costumeira seriedade.
- Por que riste ainda agora? Perguntou Chadidsha, em lugar de qualquer
cumprimento.
Com isso provocou novamente um sorriso na face de quem se encontrava
à sua frente.
- Imaginei como alguém atrás do cortinado experimentava observar-me, a
fim de ver se sou um homem honesto, confessou francamente.
Um ardente rubor subiu às faces da mulher, toda maquilada. Querendo apa-
rentar desembaraço, disse:
- Também tu muitas vezes te esconderás atrás do cortinado, para observar os
compradores, se é que vieste para ajudar-me na minha loja.
MAOMÉ
- 38 -
Maomé calou-se. O que havia de responder! A mulher causou-lhe ao mesmo
temporepulsaesimpatia.Podiateraproximadamenteunsvinteequatroanos,portanto
quase dez anos mais velha do que ele, mas, apesar disso, sentiu-se superior a ela.
Como ele se calasse, ela retomou a palavra:
- Queres empregar-te aqui, para ajudar-me nas vendas e compras?
- Com tal propósito é que cheguei até aqui, replicou Maomé, hesitante.
Os empregados retiraram-se para o depósito. Os dois ficaram sozinhos. Então
Maomé continuou:
- Quero dizer-te que em verdade não possuo os conhecimentos de um
comerciante, apesar de meu pai ter sido um deles. Antes de tudo, porém, devo
dizer-te que assim como esta loja é dirigida, eu não estou acostumado. Custar-
me-á habituar-me aqui.
Admirada, a viúva replicou:
- Sabes que nos últimos dias despachei cerca de trinta pessoas que pediram
insistentemente para trabalhar aqui, e tu, talvez o mais jovem de todos, ousas
dizer-me que o meu comércio não te agrada. Não te chamei. Podes ir para lá de
onde vieste.
Sem dizer nada, Maomé virou-se para abandonar o local. Mas isso con-
trariou a expectativa da mulher. Ela havia esperado rogos suplicantes, pois estava
disposta a atendê-los, porquanto o rapaz lhe agradara. Algo na aparência e nas
maneiras dele atraiu-a. Se, porém, ela o quisesse, deveria agir com rapidez. Estava
somente a poucos passos da rua.
- Ei! Escuta! Chamou atrás dele, mais alto do que o necessário. Ainda não
me disseste quem és e de onde vens!
- Como me mandaste embora, torna-se desnecessário que te diga! Repli-
cou Maomé, andando rumo à saída.
- Quem te diz que eu te mando embora? Zangou-se a mulher. Aqui se
pesam as pedras preciosas e não as palavras. Ouem é jovem como tu não deve ser
tão incompreensível.
- Isso eu poderia ter imaginado, que as tuas palavras nem sempre refletem
os teus pensamentos, escapou de Maomé.
- No que notas isso? Perguntou a mulher, atraída involuntariamente pela
curiosidade.
Maomé hesitou alguns instantes, e então, num impulso como lhe era pecu-
liar em momentos decisivos, movimentou a cabeça para trás, e replicou:
- Quem acoberta as faces que recebeu de Deus, também dissimula os pen-
samentos que a alma gera.
Novamente ela se zangou, entretanto, o rapaz era diferente de todos aque-
les que ela até então chegara a conhecer. E se ele sempre falasse assim, então po-
MAOMÉ
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deria vir a ser um bom passatempo tê-lo perto de si.
- Tu podes ficar empregado aqui comigo, ofereceu-lhe magnanimamente,
esperando um alegre agradecimento.
Maomé, entretanto, ficou vacilante por alguns instantes, enquanto con-
centrava a sua alma em oração; finalmente disse:
- Quero fazer a tentativa, se suportarei a loja e a ti. Ambas sois disfarçadas.
Nesse momento ela se arrependeu da oferta feita. Apressadamente ia reti-
rá-la, quando entrou um comprador na loja e ela teve que dirigir sua atenção para
ele. Era difícil contentá-lo. De todos os lados tinham de ser buscados objetos.
Com um rápido olhar, Maomé percebeu o que foi pedido, trouxe-o, e en-
tregou-o a Chadidsha com naturalidade, como se a loja fosse dele. O homem
comprou mais do que pediu inicialmente, e a mulher viu que recebeu um ativo
auxiliar.
Na sua alegria pelo bom negócio, ela esqueceu as palavras ofensivas. Assim
animada, dirigiu-se a Maomé e perguntou:
- Como posso chamar-te? De onde vens?
- Sou Maomé ben Abdallah. Meu pai era comerciante de jóias.
Com grande admiração a mulher olhou para Maomé. Um filho da mais con-
ceituada estirpe viera à sua procura, para tornar-se seu auxiliar! Podia ser possível
isso? Quando Maomé viu sua estranheza e incredulidade, disse:
- Podes perguntar a Ibrahim Ben Jussuf. Ele mandou-me aqui.
- Não é necessário, fez-se ouvir a voz de Ibrahim Ben Jussuf, que acabava
de entrar na loja.
Ele ficou contente em saber que os dois haviam chegado a um acordo. Pro-
pôs então a Maomé que mandasse buscar por um empregado os seus pertences. O
rapaz compreendeu que o amigo queria ficar a sós com a viúva, e retirou-se.
Quando Maomé deixou a loja, Ibrahim perguntou à mulher se ela se agra-
dara do novo auxiliar. Ela respondeu que quase não sabia como julgá-lo. Ele era
bem-educado, mas falava uma língua completamente sem disfarce.
Mal pronunciara essa palavra, lembrou-se da comparação de Maomé.
Agora quase se arrependia novamente de ter empregado esse observador perspi-
caz. Ibrahim, no entanto, persuadiu-a a regozijar-se. Um auxiliar melhor ela não
acharia.
O fato de que o jovem preferisse sofrer injustiças e tornar-se independente,
do que expulsar o tio aleijado, honrava-o muito. Além do mais, só soube o me-
lhor a respeito de Maomé, o qual, com certeza, tornar-se-ia em breve um valioso
auxiliar para ela.
Maomé ficou na casa da viúva, e acostumou-se a ser comerciante. Suas
obrigações levava a sério. Muito lhe valeu ter recebido excelente instrução na es-
MAOMÉ
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cola do templo; principalmente na aritmética ele superou até a patroa.
Em pouco tempo ela pôde deixá-lo sozinho com as vendas, mas teve de
observar muitas coisas novas. Estranhou como ele tratou com franco desvelo em
recomendar e vender os artigos baratos e artificiais. Será que já se acostumara
com o artificial e aprendera a estimá-lo?
Uma noite, ao descobrir que ele vendera até o último dos muitos objetos,
ela perguntou-lhe por pilhéria sobre isso.
- Ter aprendido a estimar? Essas bugigangas? Interrogou com desdém.
Não, Chadidsha, acabei com elas, para arranjar lugar para coisas melhores.
- Então não queres encomendar mais nada em substituição aos artigos
desse gênero? Indagou receosa. Meu marido sempre dizia que artigos baratos
atraem fregueses.
- De compradores que se deixam atrair por isso, podemos prescindir. Acre-
dita-me, Chadidsha, que a tua loja será mais reputada e freqüentada por fregueses
mais distintos, se tu ofereceres somente artigos de qualidade genuína e de valor
integral.
Vagarosamente e a muito custo Maomé pôde convencê-la.
Afinal concordou.
Após três anos, quem entrasse na loja, encontrá-la-ia completamente mo-
dificada. Objetos selecionados eram oferecidos; tudo o que era artificial havia
desaparecido.
A maior modificação registrou-se na dona da loja. Seu rosto dispensara
toda maquilagem; seus trajes eram simples e elegantes.
Apenas seus movimentos impulsivos e rudes ainda denunciavam que não
descendia de linhagem fidalga. Do mesmo modo sua voz tornava-se desafinada,
quando algo a irritava.
Suas relações com seu auxiliar, de aproximadamente dezoito anos, eram
singulares. Às vezes parecia que ela temia as repreensões que ele pronunciava com
franqueza. Ele ficou sendo senhor absoluto de todo o comércio, e o que dizia
era válido. Os empregados dedicavam-lhe toda a consideração; mesmo sendo um
tanto mais jovem que os outros, era um modelo de honradez, fidelidade e ama-
bilidade.
A par disso, a agudeza de sua vista aumentara. No primeiro ano esteve na
loja um freguês, que a proprietária mesma atendeu, enquanto Maomé trazia as
mercadorias. De repente o jovem pegou no pulso do freguês e disse a meia voz,
porém, energicamente:
- Coloca de novo sobre a mesa as pérolas que acabaste de tirar!
Chadidsha assustou-se. Como podia Maomé dizer isso, pois ele não podia
ter notado nada dos fundos da loja onde se encontrava!
MAOMÉ
- 41 -
O homem rebelou-se furiosamente:
- Solta-me, imediatamente! Como te atreves a tocar-me? - Solto-te assim
que as pérolas estiverem nas mãos de Chadidsha.
- Não tenho pérolas.
Então Maomé meteu a mão na frente do vestuário do homem e puxou dali
um saco habilmente preparado, que além das pérolas furtadas continha uma porção
de outras coisas. O ladrão desmascarado opôs resistência, mas Chadidsha mandou
chamar guardas, que o subjugaram e o levaram. E enquanto a mulher, excitada, não
podia chegar ao fim da conversa sobre o acontecido, Maomé disse apenas:
- Estás vendo que também enxergo sem olhar pela fresta do cortinado.
Maomé empenhava-se assiduamente pelo bom andamento dos negócios
durante o horário de vendas, mas depois de fechada a loja, retirava-se regularmente
para seus aposentos. Todos os convites de Chadidsha para tomarem refeições jun-
tos, ou acompanhá-Ia em visitas, ele recusava.
- Nas famílias onde fui criado,os homens mantinham-se afastados das mulhe-
res,disse ele com seriedade.Não por se julgarem melhores,mas porque eles dignifica-
vam a natureza da mulher, que é mais delicada. Assim eu também quero proceder.
Ela queria muito saber com que ele se ocupava nas horas de folga, porém ele
não falava sobre isso e todas as interrogações foram inúteis.
Então um dia foi chamado com urgência pelo tio, o qual tinha coisa impor-
tante a dizer-lhe. Tão urgente foi o recado, que Maomé deixou seu aposento sem
guardar primeiro aquilo em que estava trabalhando.
Chadidsha entrou furtivamente, mas ficou decepcionada ao deparar apenas
com folhas cheias de letras manuscritas, que não pôde ler, pois eram em hebraico.
Mas pelo menos sabia agora que ele se dedicava a um estudo qualquer.
Pois bem, ele ainda era jovem; que continuasse a fazer isso ainda por uns anos.
Ao chegar na casa de Abu Talib, Maomé encontrou-o muito excitado. Ele
pedira uma viúva rica em casamento e tinha sido atendido! Ele, o aleijado, ainda
chegaria a gozar uma felicidade que julgava vedada para si definitivamente.
Pelo direito, Maomé era o chefe da família e tinha de dar a sua anuência para
o casamento; do contrário, não teria validade. Abu Talib temia que nessa ocasião
Maomé pudesse descobrir que ele retivera até então a sua herança paterna.
Se o jovem exigisse agora a sua parte da herança, então os bens restantes
seriam pouco cobiçáveis. Poderia nesse caso ser provável que o casamento não che-
gasse a realizar-se.
Maomé teve a impressão de olhar como por uma vidraça no coração do tio,
e vendo a sua cobiça pelo dinheiro, apiedou-se dele. No entanto, se não dissesse
nada, isso se lhe afiguraria injusto e, além disso, o estado de incerteza de Abu Talib
nunca chegaria a ter um fim. Assim, ele disse calmamente:
MAOMÉ
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- Meu consentimento para teu casamento eu te dou com prazer, tio, posto
que deves saber se ele significa a tua felicidade. Como presente de casamento dou-
te tudo o que há tempo vens considerando, com temor, como tua propriedade.
Unicamente este palácio, com todos os seus pertences, eu reservo para mim. É in-
finitamente pouco em comparação à riqueza que de hoje em diante passa para ti
legitimamente. Peço-te, porém, que não tragas a tua viúva para esta casa.
- Ela tem um lindo palácio, no qual, aliás, vamos morar, Maomé. Assim po-
des fazer aqui tranqüilamente o que bem te aprouver, depois que eu tiver saído, no
próximo mês.
Nenhuma palavra sobre a abundante doação. Nenhum constrangimento
por Maomé ter lido o seu íntimo! Apenas um alívio por tudo ter decorrido tão
facilmente. Por muito tempo Maomé não pôde esquecer a impressão da enorme
cobiça pelo dinheiro. Era como se Abu Talib tivesse duas almas: uma má e uma boa.
Qual delas manteria a predominância?
Após o casamento de Abu Talib, Maomé foi habitar novamente em seu pa-
lácio paterno, vivendo rodeado de servos que se achavam sob as ordens do velho e
fiel Mustafá, que amava seu jovem senhor acima de tudo.
De dia o jovem trabalhava na loja de Chadidsha. À noite, ao encerrar o ex-
pediente comercial, ele retirava-se para o seu próprio reino. Raras vezes entrava em
contato com pessoas de sua idade. Não tinha vontade de ter relações sociais.
Um dia, porém, despertou nele a vontade de viajar. O estoque de pérolas e
pedras preciosas estava se esgotando e novo suprimento tinha de ser arranjado. Pe-
diu à viúva que o encarregasse da compra. Ela reconheceu que não poderia colocar
seus interesses em melhores mãos e concordou.
Tão despercebido quanto possível, acompanhado apenas por dois fiéis cria-
dos, ele empreendeu a viagem. Em primeiro lugar queria ir para Yatrib, ao norte de
Meca. Constava que era a maior cidade mercantil de toda a Arábia. Dizia-se que de
todos os lados afluíam em determinadas épocas os comerciantes, para ali fazerem
as suas compras e vendas. Isso o atraía.
Chegou em uma hora propícia. Animado movimento enchia os vastos pavi-
lhões, que a administração da cidade havia construído para esse fim, e que apenas
três vezes por ano abriam suas portas para as reuniões dos comerciantes. Usando
trajes simples, imiscuiu-se entre os presentes, após ter sido obrigado a identificar-se
na entrada do portal.
O quadro colorido que se apresentou aos seus olhos prendeu a sua atenção
de tal maneira, que quase se esqueceu da finalidade da sua vinda. Mas então o co-
mércio e as ofertas, os leilões e regateios estimularam-no. Acompanhou a disputa
MAOMÉ
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e fechou compras favoráveis. As mercadorias adquiridas tratou de despachar cui-
dadosamente pelos seus criados. Apesar de já ter chegado, a bem dizer, ao término
dos seus negócios, teve vontade de ficar até que fosse anunciado o encerramento da
feira. Alguns dos comerciantes mais idosos contaram-lhe dos festejos que constitu-
íam o encerramento e animaram-no a tomar parte nos mesmos.
Na última noite ele encontrou no pavilhão mesas cobertas, e o piso for-
rado com esteiras grossas. Os homens sentaram-se ao redor, e uma refeição farta
foi servida. Durante a refeição foi oferecido suco de uva fermentado, que Maomé
saboreou. Porém, após os primeiros goles sentiu o efeito embriagante e não tomou
mais nenhum trago. Os outros todos beberam; todavia, alguns deles impuseram-se
uma moderação prudente.
Quando terminou o Jantar, na hora do cafezinho, todos os presentes olha-
vam com expectativa para Maomé. Este não compreendeu o porquê disso, porém
resolveu não perguntar, e sim, aguardar até que eles mesmos lhe dissessem. Final-
mente, tiveram de dignar-se a isso, pois queriam vê-lo falar.
- Escuta, amigo, dirigiu-se para ele um dos mais velhos comerciantes. És o
mais novo do nosso círculo. É costume tradicional que sempre o mais novo tem de
contar alguma coisa. Pode ser algo inventado ou experimentado em vivência, só não
deve ser algo que já tenha lido!
- Por que não me disseram isso antes? Perguntou Maomé, admirado. Assim
eu podia ter imaginado alguma coisa.
- O melhor deste costume é justamente o fato de que o contista nada sabe
disso, foi-lhe respondido. A surpresa da vítima é muito engraçada, e às vezes, por
causa disso, escutam-se estórias incríveis.
Compreendeu claramente que não escaparia à obrigação de ter de contar
algo. Mas o que devia dizer a esses homens que em parte já não estavam mais com
o juízo claro. Enquanto assim meditava, alguns disseram:
- Conta de mulheres, pois isso é o melhor!
- De mulheres devo contar? Perguntou Maomé, dando ênfase à palavra
mulheres.
Alguns dos homens mais idosos ficaram embaraçados. Maomé então con-
centrou todas as forças da sua alma e pediu ajuda. Então um quadro vivo se revelou
para ele, e outra vez um e mais um terceiro. Tão rápido como surgiram diante da
sua alma, assim instantaneamente os mesmos lhe desvendaram o que devia dizer.
Preparando-se, pegou uma rosa que estava sobre a mesa, e começou:
- Quando este mundo foi criado, era então perfeito como tudo o que saiu
das mãos do Criador.
Um brado interrompeu-o:
És cristão ou judeu?
MAOMÉ
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- Sou um ser humano! Foi à réplica de Maomé. Deixai-me contar.
Tudo no mundo era ordenado da melhor maneira. Montanhas elevavam-se
entremeadas por verdes e férteis vales. Rios levavam suas ondas para o mar e ser-
viam para moradia dos peixes. Árvores balançavam seus galhos à luz dos raios sola-
res e pássaros cantavam entre as folhas, onde os frutos amadureciam. E os homens
que habitavam esta Terra, alegravam-se muito. Pescavam, caçavam, tratavam dos
animais e colhiam frutas. Pelos céus percorria a Rainha do Amor Divino e olhava
para a Terra cá embaixo. Também ela se alegrava de como tudo fora disposto tão
ordenadamente. Nisso sentiu que faltava algo. Olhou e meditou. De repente o sabia:
faltava a beleza! Aliás, beleza havia em tudo o que, recém-criado, pairava embaixo,
porém a beleza dos jardins celestes era diferente.
E a Rainha do Amor pegou uma das rosas vermelhas que floresciam em volta
dela e deixou-a baixar à Terra lentamente. Como os homens ficaram admirados,
quando viram chegar à Terra essa maravilha de beleza, de cor e de aroma! Suas
almas começaram a recordar-se de algo que outrora puderam contemplar. “Rosa
celeste” denominaram a graciosa flor, cuidaram e trataram dela, de sorte que o seu
cálice produziu semente, embora ela fosse cortada. E onde a semente era plantada,
ali floresciam rosas que espalhavam seu perfume.
Num gesto involuntário Maomé levantou levemente a flor vermelha que se-
gurava na mão.
Como que fascinados, os homens escutavam. Isso era um conto maravilho-
so. Ninguém mais queria interrompê-Io.
Então continuou:
- Dos jardins celestes, porém, a encantadora Rainha do Amor olhava e rego-
zijava-se com o quanto de belo a sua dádiva levara à Terra. Então aproximou-se dela
uma outra sublime figura feminina, a alva Rainha da Pureza. E o Amor mostrou a
ela o que havia criado e pediu-lhe que também mandasse para baixo uma das suas
prodigiosas flores brancas. Nesse momento a Pureza disse:
“Minhas flores não servem nas mãos dos homens. Se eu as mandar à Terra,
então precisamos pedir ao Criador que Ele desperte guardiãs, tão graciosas e puras,
como as alvas flores”.
E elas foram ao Criador e pediram. Ele anuiu ao pedido e criou a mulher!
Foi criada graciosa e pura; das alturas celestiais ela veio outrora para a Terra,
a fim de servir de guardiã à pureza. Quem fala levianamente dela, quem não a valo-
riza, destrói a alva flor da Rainha da Pureza!
Com voz comovida, e, contudo sério, ele terminou. Como que cativados, os
homens permaneceram sentados. Ninguém ousou dizer uma palavra sequer. Pare-
cia que meditavam sobre quantas flores prodigiosas já haviam destroçado.
Maomé levantou-se e deixou o pavilhão com uma cordial saudação de des-
MAOMÉ
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pedida. Depois que saiu, irrompeu uma agitação. Alguns perguntaram:
- O que ele quis dizer com a narrativa? Não devemos mais nos divertir com
as mulheres?
Os outros, por sua vez, exclamaram:
- Foi maravilhoso! Quem é o jovem? Então um ancião de cabelos brancos
levantou-se e disse:
- Vamos para casa a fim de meditarmos sobre o que acabamos de ouvir. Po-
demos desfrutar alegrias com as mulheres, enquanto as considerarmos com pureza!
Alegremo-nos também com as flores, sem desfolhá-las.
Então todos saíram, e muitos deles tiraram proveito disso para a vida inteira.
Após o seu regresso de Yatrib e depois de ter certeza de que todas as pre-
ciosidades adquiridas chegaram em perfeita ordem, Maomé foi tomado por uma
grande inquietação. Havia gozado a liberdade e respirado o ar fresco, após tantos
anos de retraimento, e agora algo o impelia a deixar esse local murado de casas.
Sempre que tinha horas vagas, passeava pelas imediações, mas isso não bastou para
satisfazê-lo completamente. Primeiramente não pôde atinar o que se passava no seu
íntimo, porém, certa noite, tornou-se-lhe bem claro que não era outra coisa senão
o anseio pelas coisas elevadas e pela liberdade. Nesse momento lembrou-se dos
auxílios de Deus na sua primeira infância, em que seu mínimo pedido era atendido
magnanimamente. Desabafou, então, com fé infantil diante do Altíssimo todas as
suas preocupações:
“Senhor”, disse, após ter formado em palavras o seu anseio,“quero continuar
a trabalhar na loja e na galeria, se isso estiver de acordo com a Tua santa vontade.
Mas, se for indiferente para Ti, onde eu me ocupar até que Tu possas precisar de
mim, então permite que eu saia”. Grande tranqüilidade e esperança encheram sua
alma, após essa prece. Sabia que agora Deus haveria de revelar-lhe o que deveria
fazer. Podia aguardar confiantemente. Então não mais sentiu inquietação. Também
não se admirou ao receber de Chadidsha, no dia seguinte, a comunicação de que ela
prometera a um parente, chamado Waraka, que ele poderia aprender a prática das
vendas sob a orientação de Maomé.
Isso foi o início para que tivesse mais liberdade de movimento. Tão logo
Waraka fosse entrosado nas suas funções, ele tornar-se-ia dispensável.
Prontificou-se então de bom grado a receber o moço, que era quinze anos
mais velho do que ele, para instruí-lo.
Waraka apresentou-se, e Maomé simpatizou extraordinariamente com ele.
Possuía um olhar claro e um raciocínio sereno. Também parecia ocupar-se intima-
MAOMÉ
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mente com coisas diferentes do que somente com o comércio. Nas coisas nobres ele
encontrou a mesma alegria que Maomé; tudo o que não era legítimo causava-lhe
igualmente repugnância. Era inevitável que os dois, que pensavam da mesma ma-
neira, se tornassem amigos.
Um dia Waraka perguntou para o amigo a que crença pertencia. Em lugar de
qualquer resposta, Maomé por sua vez perguntou a Waraka no que ele acreditava.
- Não posso crer em nada e em ninguém, disse o interpelado. Justamente
por isso é que eu queria saber de ti qual a crença que adotaste, porque então queria
fazer o mesmo.
- Mas isso é errado, Waraka, repreendeu-o Maomé. Não se pode adotar uma
crença seguindo a opinião de um outro. Se podes aceitá-Ia ou abandoná-Ia à von-
tade, então uma tal crença não é legítima. Fé é convicção; é vivência no âmago da
alma. Isso não é mutável como um vestuário. Também não se deixa bitolar em
fórmulas humanas.
Waraka meditou e concordou com o amigo.
- Considerando pelo modo como me explicaste, devo dizer que uma crença
sempre tive, porquanto creio em Deus, o Senhor, do Qual me contaste. O culto do
fetichismo abjurei; ele nunca me foi sagrado.
- Também eu creio em Deus, meu Senhor, disse Maomé com seriedade, tam-
bém creio em Cristo, Seu santo Filho, o qual veio ao mundo para vivificar mais uma
vez a chama da Luz, que esteve prestes a extinguir-se.
- Então és cristão! Exclamou admirado.
- Não. Não sou cristão! Retrucou Maomé, quase com impetuosidade. Não
acredito que Cristo tenha morrido pelos nossos pecados, mas sim por causa da
nossa culpa. Isso é uma diferença fundamental. Também não creio que Cristo pôde
cumprir a sua sagrada missão. Os pecados e a ingratidão dos homens impediram-
no. Sei que ele deverá vir novamente. Então ele se apresentará diferentemente. Virá
em esplendor e trará o Juízo para o mundo todo.
- Precisas dizer-me mais alguma coisa sobre isso, para que eu possa compre-
ender e apreender pediu Waraka. Mas agora dize-me primeiro: como tu o entendes,
quando dizes que Cristo morreu por causa dos nossos pecados? Naquele tempo nós
não estávamos no mundo!
- Então, tens certeza disso? Exclamou Maomé com ênfase. Digo-te, Waraka,
que eu, de minha parte, estive naquele tempo aqui! Vejo Cristo, o mais afável entre
todos os homens, percorrer seu caminho; vejo-o não como um brando que se des-
vanece no amor universal, como os sacerdotes cristãos o descrevem, mas sim como
o vigor severo, do qual fluem amor e misericórdia. Vejo Cristo levantar suas mãos
sagradas para abençoar e ajudar; vejo-o desviar indignado seu olhar dos hipócritas,
que dele se aproximam. Escuto sua voz, tão agradável, que atrai para si os corações
MAOMÉ
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com onipotência, e que pode troar como um distante trovão, fazendo estremecer
os corações dos pecadores. Vejo Cristo, o Filho de Deus, o mais sagrado que existe
sobre a face da Terra, pendendo ensangüentado na cruz, assassinado!
A voz de Maomé rompeu em copioso choro. Parecia como que algo reprimi-
do há muito tempo quisesse se desabafar impetuosamente. Com muito esforço re-
cuperou a calma e então se dirigiu novamente ao amigo, que o escutou comovido.
- Vejo, ouço e sinto Cristo bem perto de mim e sei que outrora pude estar em
sua companhia.Assim que procuro auscultar melhor meu íntimo, e sempre que de-
sejo saber o que era então na Terra, desce um véu na frente das minhas recordações;
não o devo saber. Muitas vezes pedi esclarecimento, mas este nunca veio.
Que te adiantaria sabê-Io? Perguntou Waraka, meditativo.
-Talvez eu poderia reparar as faltas em que incorri outrora. Poderia servir
mais conscientemente ao Filho de Deus.
- Isso é errado, Maomé, retrucou Waraka. Tudo isso podes fazer do mesmo
modo, sem que o saibas. Imagina que tenhas sido um grande pecador, e procura
redimi-Io. Sou da opinião que isso poderia ajudar-te para um servir consciente.
- Tens razão, concordou Maomé, talvez seja uma ociosa curiosidade, que
Deus não atende.
Há aproximadamente um ano Waraka já estava exercendo suas atividades
no comércio, e Maomé tinha certeza de que para os dois juntos não haveria mais
serviço suficiente na loja.
Um dos dois teria de procurar ocupação em outra parte. Era mais do que
evidente que o parente ficaria, ao passo que o estranho teria que se afastar do seu
cargo. Isso se coadunava com os seus desejos; contudo, ele em nada quis precipitar-
se, e esperou ordens de Deus.
Ou talvez pudesse pedi-Ias novamente? Mas isso não pareceria como se ele
julgasse que Deus o havia esquecido? Enquanto assim meditava, sem chegar a uma
conclusão, irromperam do seu íntimo essas palavras:
“Senhor Deus, ó Altíssimo, eu espero!”
Isso foi uma prece e até uma admoestação! Maomé ficou assustado. Teria
com isso ofendido a Deus? Sentiu-se envergonhado e tornou-se intimamente hu-
milde. Então veio o atendimento. À noite, o Senhor mandou dizer-lhe que se pre-
parasse para uma longa viagem. Poderiam passar-se dois anos até que ele retomasse
a Meca. Sobre o destino da viagem e qual seria a causa, ele não soube nada ainda.
Agora, porém, viera uma decisão. Isso encheu Maomé de grande alegria, que se
manifestou em louvores e agradecimentos.
MAOMÉ
- 48 -
Já no dia seguinte Chadidsha entrou na loja, na qual se tornara uma rara
visitante, e anunciou aos amigos que em Halef havia falecido um devedor do seu
marido. Recebera o aviso. Um dos dois deveria seguir viagem para lá, a fim de co-
brar do espólio as dívidas em aberto.
Maomé achou repugnante esse motivo para a viagem, de sorte que com certe-
za teria mandado Waraka, se não lhe tivesse sido revelada a vontade de Deus na noite
anterior. Por isso ele se ofereceu sem relutância para empreender a viagem e para exe-
cutar a tarefa da melhor maneira possível. Também Chadidsha teria visto com mais
agrado se o seu primo se encarregasse da execução do caso, mas também reconhecia
que Maomé era mais competente para isso, devido a sua grande inteligência.
Com toda a calma, Maomé tratou dos preparativos e entregou a Waraka o
controle de todo o comércio. A criadagem que Chadidsha lhe ofereceu, ele recusou.
Preferiu ser acompanhado pelos seus próprios criados, que lhe serviam com leal de-
dicação. Para as suas despesas de viagem, pelo contrário, ele aceitou, sem dizer nada,
a quantia necessária dos lucros da loja. A isso ele tinha direito, pois se empenharia
pelos interesses de Chadidsha.
Ao deixar Meca atrás de si, sobreveio-lhe o prazer pela viagem. Surgiram-lhe
vivas recordações da primeira vez em que ele, montado no camelo com o seu tio,
passara pelo mesmo caminho. Agora trotava num nobre cavalo, que era seu, do es-
tábulo do seu pai. Ao contrário daquele tempo, quando achou o caminho ao longo
do deserto, ermo e fastidioso, agora se distraía ininterruptamente.
Sempre renovava as comparações com a vida humana. Do mesmo modo
como o chão, outrora fértil, estava coberto de areia, da mesma forma o bem nos
corações dos homens achava-se soterrado.Assim como a areia penetra em qualquer
orifício, também o pecado e os maus pensamentos penetram nas almas humanas,
sempre que de qualquer forma estas se abram para isso.
Viu na beira da estrada uma plantinha esforçar-se penosamente para produ-
zir flor e fruto, apesar da aridez do chão. Saltou do cavalo e despejou água em cima
da planta. Seus acompanhantes gracejaram:
- Não fará muito proveito; porquanto no calor a umidade não dura.
- Se cada viandante assim quisesse fazer então a planta estaria salva, retrucou
Maomé. Ademais, nem que isto proporcione apenas um alívio passageiro à planta,
não deixa de ser um ato justo.
Também esse pequeno detalhe vivencial tornou-se para ele uma alegoria.
O caminho foi quase curto demais, para tudo o que se passou em sua alma. Antes
mesmo do que esperava, chegou a Halef. Passou pelo convento, onde esteve inter-
MAOMÉ
- 49 -
nado, sem se aperceber. Notou isso somente quando já haviam surgido as primeiras
casas de Halef. Quis então fazer uma visita; porém não se arrependeu de que esse
seu propósito não chegasse a se realizar. O que desejaria lá! Mais tarde, quando
fosse instrumento de Deus, poderia anunciar a Verdade aos irmãos. Agora ainda
era muito cedo.
Halef não sofrera modificações. Ainda era a mesma cidade comprimida em
um pequeno espaço, com as ruelas estreitas e com a vida entregue às lidas comer-
ciais. Numa hospedaria ele e seus companheiros encontraram alojamento satisfa-
tório. Então Maomé procurou em primeiro lugar as pessoas que administravam o
espólio do devedor. Encontrou uma confusão indecifrável nos assuntos comerciais
do falecido.
Apesar da boa vontade dos herdeiros, ainda não tinham sido esclarecidas as
questões.Maomé viu que deveria envidar todos os esforços para desempenhar a missão
a ele confiada.Imediatamente levantou-se a já conhecida voz do seu íntimo,a qual sem-
pre se manifestava, quando se tratava de executar uma tarefa que não lhe agradava.
“Vale a pena que o futuro instrumento de Deus gaste energias e tempo em
questões comerciais?” sussurrava ela.
Mas Maomé fê-Ia calar prontamente:
“Se Deus o quisesse diferente, então revelaria a Sua vontade. Agora trata de
calar e trabalhar”.
Ele estabeleceu um determinado horário para as ocupações comerciais; as
horas restantes dividiu entre a contemplação do mar, do porto, da vida comercial
em redor, e a meditação.
Para tudo o mais que a cidade repleta de criaturas de diversas nacionalidades
lhe podia oferecer, ele era cego e surdo. Isso não se originou de um determinado
propósito, mas sim, parecia como se os olhos e ouvidos nele se fechassem ante todas
as tentações, das quais a mocidade em geral se torna vítima. Puro e despreocupado,
ele caminhava pensativo entre as imundícies e trevas, sem que estas achassem um
acesso a sua alma. Seus companheiros perceberam isso e sentiam grande alegria
pela sabedoria e virtude do seu jovem senhor.
Um dia Maomé lembrou-se de procurar a casa na qual havia encontrado,
aquela vez, Abu Talib. Como não soubesse o nome daquela gente, era difícil desco-
brir, em meio à confusão de ruazinhas e travessas, a tal casa. Mas, de súbito, Maomé
teve a certeza de que era da vontade de Deus que ele se dirigisse para lá. Assim,
também lhe seria indicado o caminho, como outrora. Vivamente recordava-se do
pequeno menino machucado, o qual havia carregado em seus braços, e, como ou-
trora, escutava dizer: “Agora à direita”,“agora à esquerda”.
Inconscientemente seguiu essas indicações e chegou realmente à rua certa.
Nesse momento viu também a casa, a qual estava em pior estado.
MAOMÉ
- 50 -
Sem hesitação entrou e encontrou uma reunião de homens, que era nume-
rosa demais para aquele estreito quarto. Todos rodeavam um rapaz, que estava cho-
rando, e no qual Maomé reconheceu seu pequeno amigo de outrora. Ele chamou-o,
apesar de não se lembrar mais do seu nome.
O rapaz levantou o rosto cheio de lágrimas, e um raio de reconhecimento
passou sobre o mesmo.
- Senhor, exclamou ele, a mãe faleceu. Agora querem vender-me. Compra-
me, eu te peço. Tu és bom!
Admirados, os homens olharam para o bem-trajado estranho, que aparente-
mente era conhecido aqui. Maomé aproximou-se do rapaz e pegou a sua mão.
- É assim, senhores, como ele diz? Perguntou. Por que ele tem que ser ven-
dido como um objeto?
- O produto desta casa e dos poucos objetos caseiros não é suficiente para
cobrir as dívidas do falecido pai e o sepultamento da mãe. Ele ainda não pode ga-
nhar e assim teríamos que esperar muito tempo pelo nosso dinheiro. Agora estão
diversos mercadores por aqui, que compram rapazes novos e os levam nos seus
navios para países estranhos. Quem mais pagar, recebê-Io-á.
Maomé revoltou-se. Tal coisa não poderia estar na vontade de Deus!
Mas compreendeu que nada conseguiria contra isso, com bons esclareci-
mentos. Além do mais, encontrava-se na Síria, cujas leis desconhecia. Então decidiu
agir diferentemente.
- Quanto vos falta para completar a quantia necessária? Perguntou, tão in-
diferente quanto possível.
Os homens disseram uma quantia relativamente baixa. De novo Maomé
perguntou:
- A oferta do comprador alcançará esta quantia?
- Senhor, o que pensas? Indignaram-se os homens. Um rapaz tão magro e
fraco pode valer tanto dinheiro? Ficaremos satisfeitos, se um dos ofertantes nos der
a metade.
Imediatamente houve gritaria:
- A metade? O que pensais? Ficai contentes se recebermos uma terça, não, a
quarta, a quinta parte!
Em meio ao clamor, as quantias diferiam, uma sempre mais baixa que a
outra.
Então Maomé bradou a palavra:“paz” e as vozes exaltadas calaram-se.
- Quero dar-vos a quantia necessária, homens; porquanto lamentaria se vós
saísseis prejudicados, disse amavelmente. Para isso aceito o rapaz assim como ele está
aí. O restante dos seus vestuários e demais posses podeis vender. Estais de acordo?
Concordaram! E inclinaram-se até o chão, diante do distinto senhor, o ben-
MAOMÉ
- 51 -
feitor, e que fosse abençoado pelos deuses. O rapaz então chegou perto de Maomé
e pegou confiante a sua mão. Não lançou mais nenhum olhar em redor do seu am-
biente, quando com o seu protetor deixou a casa.
De mãos dadas, caminharam pelas ruas estreitas, até que chegaram numa
zona que Maomé conhecia.Ali ele caminhou à frente e logo depois chegaram à hos-
pedaria, onde o rapaz foi entregue aos cuidados de Mustafá. Este foi encarregado de
tratar da limpeza e do vestuário. Abrigo encontrar-se-ia sem dificuldades.
- Como te chamas? Perguntou Maomé, antes ainda de se pôr a caminho do
centro comercial.
- Minha mãe chamava-me Said, respondeu o menino. - E que idade tens?
Quis ainda saber Maomé.
O interrogado não sabia responder à pergunta. Então seu protetor começou
a fazer os cálculos. Três a quatro anos de idade podia ter o menino que ele carregara
em seus braços. Quanto tempo fazia que estivera em Halef? Mais ou menos cinco
anos, ou um pouco mais, podiam ter passado desde então. Por conseguinte, Said
devia ter de oito a nove anos. Mustafá acenou, confirmando esse cálculo. Pela sua
estimativa julgou o menino com essa idade. Deveria estar certo. De resto, o garoto,
de estrutura delicada e com belos olhos, agradou-lhe. Mais ainda não dava para
reconhecer nele. Said, assim sujo como estava e com trajes esfarrapados, dava a
impressão de extrema timidez.
- O que pensas fazer com a criança? Como devo vesti-Ia? Quis saber o fiel.
- Ainda não pensei sobre isso, confessou Maomé. Vista-o bem, porém com
simplicidade. Logo há de se revelar para qual finalidade ele entrou na minha vida.
Na noite seguinte, quando Maomé entrou no seu aposento,
quase se esqueceu do menino. O dia havia trazido trabalho muito penoso,
como também desgostos e irritações desnecessárias.
Mustafá havia preparado tudo como de costume, para o jantar. Cansado,
Maomé sentou-se ao lado da mesa. Então entrou um bem-trajado pequeno servi-
çal, oferecendo com bons modos e habilidade uma tigela fumegante.
O seu senhor quase não o reconheceu. Asseio, cuidados, alimento e sono
suficientes, juntamente com bons trajes, haviam transformado completamente o
garoto Said. Regozijou-se ao ver os olhos admirados de Maomé e na sua alegria
juntou as mãos num gesto tão expressivo e infantil, que era lindo apreciar.
- Então, Said, gostas daqui? Perguntou Maomé amavelmente. Queria desco-
brir, por meio de uma conversa, como o menino estava se sentindo.
- É tão bom, como deve ser lá em cima, onde pairam as almas, disse radiante.
Somente agora Maomé se lembrou de que a mãe desse menino era judia e
inquiriu-lhe se ela o havia instruído em assuntos religiosos. Said informou que a
mãe rezava todos os dias com ele e lhe contava de Deus.
MAOMÉ
- 52 -
- Desde que estiveste conosco, senhor, a mãe também falava do Messias, o qual
os judeus não reconheceram, assassinando-o. Ela dizia que tu nos transmitiste isso.
O rapaz não freqüentara escola, porém a mãe ensinara-o a ler e a escrever,
dando-lhe também alguns conhecimentos de aritmética.
- Tua mãe era tão erudita? Perguntou Maomé admirado.
- Sim, ela era bem instruída. Era de uma nobre descendência judaica, da
estirpe de Levy. Mas quando se casou com o meu pai, ela deixou de ser nobre.
- E que era teu pai? Indagou Maomé, atraído cada vez mais pelo pequeno.
- Um homem mau, foi a resposta. Surpreso, Maomé levantou os olhos.
- Tua mãe te disse isso?
- Não, senhor, assim disseram os vizinhos, e aí a mãe sempre dizia: “Nenhum
homem é tão detestável, que os outros possam arrogar-se o direito de julgá-Io”. Eu não
entendi o que ela queria dizer com isso, porém guardei as palavras como recordação.
- Mais tarde dar-te-ei a explicação, prometeu Maomé.
Logo depois mandou Said deitar-se. Antes, porém, rezou com ele e agrade-
ceu a Deus por lhe ter dado o pequeno companheiro.
- Tu agradeces a Deus, senhor? Disse admirado. Eu é que devo agradecer-Lhe
por poder estar contigo.
- Isso podes fazer, animou-o Maomé. E ele sem timidez levantou as mãos,
assim como tinha visto seu senhor fazer, e rezou:
“O grande e onipotente Deus, eu Te agradeço por teres me conduzido a um lu-
gar onde a minha alma não precisa sentir fome. Eu Te agradeço pela Tua misericórdia”.
Maomé ficou comovido. Essa criança recompensar-lhe-ia abundantemente
todos os benefícios.
Daí por diante sacrificou em cada dia algumas horas para instruir o garoto,
que aprendia com diligência e disposição, e compreendia tudo bem. Também o levou
muitas vezes em sua companhia nos passeios solitários e mostrou-lhe as maravilhas
da natureza. Certo dia, num desses passeios, aconteceu de o rapaz perguntar:
- Que homenzinhos simpáticos são esses que me abanam e acenam? Já os vi
várias vezes, porém quase sempre fugiam, assim que nos aproximávamos.
- Homenzinhos? Perguntou Maomé. Não vejo nenhum. Onde os vês?
Said indicou na direção de um prado,no qual se achavam algumas pedras es-
parsas. Maomé fixou firmemente o seu olhar naquela direção, mas não viu nenhum
vulto. Apenas lhe parecia como se deslizassem véus nebulosos sobre elas. Sacudiu a
cabeça. Não podia imaginar o que o menino podia ter visto e julgado homenzinhos.
Entretanto, não queria intimidá-Io e não o contrariou quando ele disse:
- Talvez vós, pessoas adultas, não podeis ver os pequenos seres, porque sois
muito inteligentes. A mãe dizia-me que somente às crianças é dada a felicidade de
ver anjos. Quem sabe se os homenzinhos são algo parecido com anjos.
MAOMÉ
- 53 -
Daí em diante Said comunicava fielmente onde e quando via os gnomos, de
sorte que Maomé chegou por fim a familiarizar-se com os seres para ele invisíveis.
Com grande prazer levava o menino junto nos passeios ao mar, num barco movido
a remo por pescadores. Ele gostava dos movimentos balouçantes do barco e também
não se perturbava quando estes se tornavam mais violentos e impetuosos. O menino
então se rejubilava e entoava dos salmos, todos os textos que se referiam ao mar.
Os dois anos,dos quais o mensageiro Divino falara,estavam quase no seu térmi-
no, e as questões difíceis podiam ser resolvidas definitivamente em poucos dias. Então
surgiram na alma de Maomé os pensamentos a respeito de seu futuro próximo. Como
se desenrolaria a sua vida daqui por diante? Deus não precisaria dele ainda? Através de
suas preces, desde algum tempo, afluíram às alturas os rogos por direção, orientação e
ordens novas. Porém por mais que pedisse e suplicasse, nada lhe foi revelado.
Na última noite, antes de iniciar a viagem de regresso, pareceu-lhe ter visto
o devoto irmão Cirilo, o qual estava à sua procura. Seria um aviso? Em todo caso
não queria deixar de tomar o pequeno desvio que o conduziria até ele. Talvez ainda
estivesse vivo. Deixando o seu séquito tomar o rumo certo, ele separou-se no dia
seguinte do pessoal e seguiu em direção à cidade.
O imponente cavaleiro foi alvo de olhares de admiração; encontrou, todavia,
o caminho que conduzia ao “bendito lugar” e assim chegou à casinha do devoto
irmão.Atraído pelo tropel do cavalo, Cirilo foi até a frente de sua porta, espreitando
curioso, o estranho. Maomé chamou-o.
Então aquela idosa figura avivou-se.Alegre, estendeu os dois braços em direção
ao recém-chegado e deu-lhe boas-vindas também em palavras.
- O quê! Posso ver-te mais uma vez, meu filho! Exclamava uma vez por ou-
tra, alegremente comovido. Tive grandes saudades de ti. Tornaste-te um senhor
nesse meio tempo!
Maomé desceu do cavalo, que foi recolhido no quintal do vizinho. Então en-
trou na casinha, já tão sua conhecida, na qual passara cinco anos. Teve de contar as
boas novas; tudo Cirilo queria saber. Este, ao contrário, pouca coisa tinha a contar,
mas em compensação, durante os anos da separação, surgiram na sua mente muitos
conselhos bons, que ainda queria dar ao antigo discípulo no seu caminho. Agora
chegava a vez de poder dá-Ios.
Queria externar tudo tão depressa que quase não encontrava as palavras. As
horas eram curtas demais, pois Maomé queria encontrar-se com o seu séquito antes
do anoitecer. Apressou-se para sair. Aí o devoto irmão segurou-o mais uma vez:
- Maomé, meu filho, escuta: deves casar! Sem isso nunca poderás tornar-te
MAOMÉ
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um legítimo instrumento de Deus. Acredita-me que eu mesmo cheguei à conclusão
de que o homem sozinho não é homem completo. Somente quando tem mulher
e filhos é que pode compreender melhor a humanidade. Também é melhor para
si próprio quando o homem não peregrina solitário pela vida. Acredita-me, meu
filho, meu conselho é bom. Segue-o.
Então se despediram e o hóspede se pôs apressadamente a caminho. Somente
muito tarde encontrou o acampamento que o seu séquito levantara nesse ínterim.
- Estávamos apreensivos com o senhor, disse um dos criados. Mas Said nos
assegurou de que nada tinha te acontecido. Ele conservou-se tão confiante, que
também nós ficamos animados.
- De onde veio essa certeza, rapaz? Perguntou Maomé, meio gracejando. Mas
a resposta surpreendeu-o:
- Os pequenos gnomos disseram-me que apenas estavas atrasado, mas que
nada tinha te acontecido.
- Desde quando podes escutar o que os invisíveis dizem? Perguntou Maomé
com grande admiração.
- Senhor, desde hoje, quando orei por ti.
Chegaram a tempo a Meca. Num pequeno cavalo, comprado para ele em Ha-
lef, Said percorreu o trajeto da viagem com tal naturalidade como se há muito já esti-
vesse habituado a montar a cavalo. Também nada podia atrapalhá-Io tão facilmente,
o que foi percebido por Maomé com grande satisfação. A chegada no palácio dos
Koretschi foi um acontecimento que abalou o equilíbrio íntimo do menino.Uma casa
como essa, no meio de jardins floridos, ele nunca havia visto. Quase não podia ser
induzido a entrar. A decoração interna era para ele motivo de repetidas exclamações
de júbilo. Todos se regozijavam com ele e competiam em mostrar-lhe as belezas cada
vez maiores. No dia seguinte Maomé dirigiu-se para a loja, onde encontrou Waraka à
sua espera. A notícia sobre seu regresso espalhara-se muito rapidamente.
Então também Chadidsha acorreu e cumprimentou o procurador, como o
denominou. Ele tratou de prestar contas, sem delongas, daquilo que conseguira. Em-
bora a viúva não tivesse demonstrado disposição para falar em assuntos comerciais,
teve de sujeitar-se à vontade mais forte.
Maomé mudara de feições nesses dois últimos anos. O pessoal da loja olhou
para ele com agrado. Tornara-se um homem altivo, esbelto, e, no entanto, amável
e bondoso.
Sua beleza juvenil havia se manifestado plenamente. Uma fina barba preta
crespava-se em volta do queixo e das faces; cabelos bastante compridos e encaraco-
MAOMÉ
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lados emolduravam o rosto delgado. A tendência para a corpulência desaparecera
aparentemente; todos os músculos eram rijos e seus passos eram flexíveis. Ninguém
calculava a sua idade pela aparência. A prestação de contas demorou alguns dias.
Depois disso, Maomé quis saber o que havia se passado nesse meio tempo, e Waraka
teve satisfação em poder relatar coisas boas.
Nesse dia Chadidsha pediu a Maomé que a acompanhasse até a sua moradia,
na qual ele nunca havia entrado.
Como havia perguntado sobre as pedras preciosas, e como Chadidsha tinha
dito que as guardara nos seus aposentos, julgou que ela queria entregar-lhe as pe-
dras, ou pelo menos mostrá-Ias.
Em lugar disso, ela conduziu-o para um aposento provido fartamente de
móveis estofados, almofadas e tapetes, que de tanta maciez fizeram-no afundar os
pés, e pediu-lhe que sentasse. O ar estava impregnado de odores de toda a espécie e
oprimiu-o, mas não ousou abrir a janela.
- Queria conversar sobre alguma coisa contigo, Maomé, começou Chadi-
dsha, hesitante.
Antes que ela pudesse continuar a falar, ele interrompeu-a:
- Tens de dizer-me aqui em teus aposentos? Não podíamos falar sobre isso
embaixo, na loja? O ar aqui está abafadiço e sufocante.
- O que tenho a te dizer, meu amigo, retomou Chadidsha a palavra. Pouco
tem a ver com a loja. De tais coisas devemos falar aqui em cima.
Ele estava curioso por saber o que viria agora. Ela começou de novo.
- Já faz oito anos que sou viúva. Quase todo esse tempo és meu empregado.
O comércio floresceu sob tua mão. Durante esse tempo ficaste homem. Mas eu
estou solitária e sem filhos. Embora eu seja mais velha do que tu, isso no entanto é
uma garantia de que te serei fiel. Não quero mais continuar viúva. Se me despreza-
res, então darei a mão ao primeiro que se interessar pela casa, pelo comércio, e que
deseje me aceitar como esposa.
Ela pronunciou mais do que era sua intenção. Perplexo, Maomé olhou para
a mulher. Isso ele não esperava!
- Para, Chadidsha! Implorou ele. Não destroces a alva flor da pureza!
O tom das palavras calou nela. Mas ela olhou para ele, demonstrando in-
compreensão.
- Como entendes isso, meu amigo? Perguntou. Que mal faz à minha pure-
za se te peço para seres meu esposo e companheiro? Há anos já és senhor da loja.
Tudo correu segundo tua vontade.É apenas um pequeno passo para ti tornar-te real-
mente dono. Um dia terás de casar. Um homem sem mulher e filhos é um homem
só pela metade. Conheces-me. Comigo, sabes quem estás levando a tua casa. Pensa
bem, meu amigo, mas não me deixes esperar muito pela tua resposta.
MAOMÉ
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Aliás, ela bem que quis acrescentar que muitos homens se sentiriam felizes ao
receberem tal oferta, porém pressentiu que com isso afastaria esse homem reservado.
Assim, preferiu caIar-se. Maomé, no entanto, sentia-se como que atordoado. Cirilo
havia-lhe dito que devia casar. E agora essa mulher se ofereceu a ele! Seria essa uma
condução de Deus? Tudo nele girava. Gostaria de sair correndo dali para nunca mais
voltar. Mas isso não poderia fazer sem primeiro auscultar a vontade de Deus.
- Amanhã te darei a resposta, Chadidsha, disse ele, tão amável quanto lhe foi
possível. Tua proposta veio-me muito inesperada. Eu sempre fui da opinião de que
o homem é que deve pedir a mulher em casamento. E tu fazes o inverso. Isto não me
agrada. Mas quero pensar sobre isto. Talvez ache uma resposta.
Sem voltar à loja, dirigiu-se para casa. Os pensamentos revolviam-se nele;
sentiu-se, porém, contente de poder esforçar-se em silêncio nos seus próprios apo-
sentos, para achar clareza.
Said percebeu, através da fina intuição que lhe era inerente, que o seu pro-
tetor queria ficar a sós, e retirou-se sem ser notado. Todavia Maomé não conseguiu
ainda ficar sozinho; porquanto Waraka o procurou para comunicar-lhe importan-
tes assuntos comerciais.
Depois de terem tratado dos assuntos de negócio, o visitante hesitou em
deixar o seu amigo. Sentiu que se agitavam pensamentos nele, os quais não podia
dominar; também pressentiu o conteúdo desses pensamentos.
- Estás perturbado, Maomé, começou amavelmente. Olha, eu sou mais velho
e mais experiente do que tu. Confia-me tuas preocupações e deixa-me aconselhar-
te. Muitas vezes um caso se deslinda, quando se procura exprimí-Io em palavras.
Maomé olhou para o amigo. Sabia que podia confiar nele. Talvez lhe ajudas-
se mesmo, se falasse com ele sobre o delicado assunto.
Ai Waraka começou novamente:
- Acredita-me, eu conheço Chadidsha desde pequena. Como a mais nin-
guém no mundo, te é dado despertar nela todas as boas qualidades. Muito já conse-
guiste e mais ainda conseguirás, porque Chadidsha te ama!
- A mim? Admirou-se Maomé, incrédulo. Disso ela não falou nenhuma pa-
lavra.
Waraka quase não pôde conter um sorriso. Quão pouca experiência da vida
teve esse homem, que no mais era tão sábio!
- Isto decerto ela te ocultou por diversos motivos, meu amigo, declarou. Ela
conservou em si um remanescente de sublime pureza, apesar de que a vida que teve
de levar ao lado do marido a obrigasse a abandonar certas peculiaridades. Ao teu
lado, desabrochará nela novamente a verdadeira feminilidade. Disso estou certo.
Foi de fato a amizade sincera que fez Waraka falar assim. Sabia que Maomé
mais cedo ou mais tarde iria casar-se. Outra coisa não se podia esperar em face da
MAOMÉ
- 57 -
sua predisposição geral.Por si só,porém,nunca iria pedir uma mulher em casamen-
to; sempre teria que ser encorajado para isso. Por esse motivo poderia passar por
experiências mais sombrias do que com Chadidsha.
Na alma de Maomé algo se patenteou durante essa palestra. Assim que Wa-
raka saiu, ficou mais calmo. Compreendeu claramente que o assunto do casamento
era apenas terreno. Sua alma não tinha sido atingida com isso e nem o seria no
futuro. O devoto irmão teve razão ao dizer que ele deveria conhecer todos os aspec-
tos da vida humana para poder conduzir os outros. Conhecia Chadidsha e sabia o
que poderia esperar da sua capacidade compreensiva. Portanto, queria aproveitar a
oportunidade que se lhe oferecia. Ao concentrar-se para fazer a oração, recordou-se
de que tivera a intenção de levar o assunto diante do trono de Deus. Chegou à con-
clusão, porém, de que jamais o deveria fazer. Um caso tão terreno o homem deveria
resolver consigo mesmo, sem importunar Deus com isso. Assim, apenas agradeceu
a Deus, que lhe proporcionou a oportunidade de, logo após receber o conselho
do devoto irmão Cirilo, poder executá-lo. Com amável serenidade foi comunicar a
Chadidsha, na manhã seguinte, que estava disposto a casar-se com ela. Sua alegria
foi tão arrebatadora, que o assustou. Ela notou isso e moderou-se. Insistiu então
que o enlace fosse realizado breve, pois não se contrapunha nenhum obstáculo. Ma-
omé era o chefe da família e não havia necessidade de pedir consentimento. Deixou
a critério dela fixar e determinar tudo o que se fizesse necessário. Em casa partici-
pou a Mustafá a mudança que se operaria na sua vida. O fiel absteve-se de qualquer
conselho. Entretanto, trouxe um escrito que Abd aI Muttalib lhe entregara, antes do
seu falecimento, destinado ao então pequeno neto. Deveria ser entregue a Maomé
somente quando este estivesse prestes a casar-se.
O ancião escrevera:
“És um sonhador,Maomé! Quando ficares moço,serás um tolo.Renunciarás
abnegadamente à felicidade e ao bem-estar terreno, para correres atrás de quimeras.
Vejo nitidamente diante de mim o teu caminho terrestre. Em toda a parte e sempre,
retrocederás, para ceder aos outros os proveitos que te são destinados. Assim tam-
bém não tomarás, por ti, a iniciativa de pedir uma mulher em casamento, porém a
mulher que te amar pedirá tua mão. Disso poderá resultar uma imensa desventura
quando, mais tarde, encontrares a moça pela qual te apaixones. Tudo isso vejo tão
claro, porquanto te amo, meu filho. Meu amor por ti ocultei atrás de uma máscara
rígida; pois eu não quis te estragar com mimos. Mas tenho de deixar-te sem poder
chegar a ver-te maduro, como homem consciente. Pelo menos para atenuar o infor-
túnio que trarás sobre ti pelas tuas vocações especiais, dou-te hoje um conselho e,
concomitantemente, a possibilidade externa de seguí-lo. Não vivas do dinheiro da tua
mulher. Deixa que fique com o que é dela e que o aplique para si e para os seus filhos.
Tu, porém, vive altivo e livre ao lado dela, e não com ela. Promete-o a mim, o falecido,
MAOMÉ
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a bem do sossego na tua vida.Para que não precises depender de uma mulher e de sua
parentela, sabe que; No pavilhão, num lugar conhecido apenas por Mustafá, acha-se
guardado, numa parede, considerável tesouro em pedras preciosas e ouro cunhado.
Pertence-te; porquanto eu o juntei para ti. Ninguém mais tem direito a ele. Contudo,
será melhor que não fales com ninguém sobre isso, a não ser com Mustafá. Esse di-
nheiro aplica para ti e para aqueles teus filhos que o merecerem.À tua mulher,porém,
não dês nada. Também nada lhe contes. Acredita-me que assim será melhor,”
Depois, seguiam-se conselhos sobre a remoção e o emprego do tesouro. O
escrito finalizava com a bênção do avô para o seu neto.Maomé estava de pé,aturdido;
o manuscrito caiu-lhe das mãos.
Então recobrou o domínio sobre si e agradeceu, ora a Deus, o Senhor, ora ao
avô falecido. Sabia que essa independência terrena teria para ele uma significação
incomensurável.
“Senhor, se Tu agora me chamares para servir-Te como Teu instrumento, en-
tão não terei de pensar nenhum instante em coisas terrenas”, rejubilava-se. “Estou
livre para tudo o que quero e devo fazer.”
Não teve dúvidas em guardar segredo sobre o tesouro. Somente com Mustafá
falou sobre o acontecido.Os dois resolveram então procurar,numa das próximas noi-
tes,a abertura da parede abobadada,para verificar o montante da inesperada herança.
Então retirariam apenas um pouco e o restante emparedariam de novo.
Feito isso, Maomé soube que era presumivelmente o homem mais rico de
Meca. Regozijou-se com isso, porque obteve assim a sua liberdade.
Em seguida falou com Chadidsha. Perguntou-lhe como imaginava o futuro
das vendas. Ela respondeu que até então ele praticamente tinha sido o senhor, porém,
agora, deveria tornar-se realmente.
- E o que será de Waraka? Insistiu. Ele e eu somos demais para o movimento
do comércio.
- Portanto, que se retire para lá de onde veio, retrucou Chadidsha, indiferente.
Não o chamamos e não o seguraremos.
- Essa não é a minha opinião, replicou Maomé seriamente. Eu, pelo contrário,
desejo que ele assuma a direção dos negócios, visto que não pretendo ocupar-me no
futuro com assuntos comerciais.
- Talvez aches meu amigo, que eu seja tão rica, que possas levar uma vida ina-
tiva? Disse com voz cortante.
Nesse momento Maomé percebeu como o seu avô julgara certo. Sentiu grato
contentamento em não precisar aceitar nada do dinheiro dela.
- Estás enganada, Chadidsha, retrucou calmamente. Não levarei uma vida
inativa, mas, ao contrário, tão ativa que não me sobrará tempo para o teu comércio.
Não farei uso do teu dinheiro; tenho posses suficientes para manter-me sozinho.
MAOMÉ
- 59 -
Tudo o que te pertence, podes aplicar para ti.
Então ela percebeu que o seu plano de adestrar e subjugar mediante sua
riqueza aquele homem estava errado. Quase desistiu do casamento, mas era como
Waraka dissera: ela realmente amava esse homem, bem mais moço do que ela. De-
sejou saber qual a profissão a que Maomé se dedicaria no futuro. Ele apenas respon-
deu que isso era assunto seu. Mais tarde ela o saberia.
Todavia, nem poderia ter dito, pois ele mesmo ainda não o sabia. Durante
a conversa, algo o impeliu a falar dessa maneira. Agora devia dirigir-se ao Todo-
poderoso para receber orientação. Já na mesma noite soube que procedera certo ao
livrar-se do comércio. Recebeu ordem de esperar pacientemente. Em tempo propí-
cio lhe seria feita uma oferta, a qual deveria aceitar. Assim, preparou-se e encarou o
futuro confiantemente.
Algo, porém, preocupava-o: era o pensamento de ter que conduzir Chadi-
dsha ao palácio paterno. De modo algum ela combinava com o aristocrático esplen-
dor. Afigurou-se-Ihe, em pensamento, como se já escutasse sua voz estridente soar
pelos pórticos e pelas escadarias. Então ficou receoso.
Sentiu necessidade de falar com um homem idoso sobre isso; entretanto,
a Mustafá não podia confiar o problema e Waraka era parente de Chadidsha. No
entanto, Waraka, por si, veio a falar sobre o assunto. Chamou a atenção de Maomé
que era costume o homem levar a mulher para a sua casa, porém se esta fosse viúva
e possuísse uma casa, então o homem deveria morar com ela, segundo o costume
generalizado.
Foi por essa razão que Abu Talib se prontificara voluntariamente a deixar o
palácio!
Waraka tinha sido mandado por Chadidsha, pois esta receava que Maomé
fosse insistir para que ela mudasse para o palácio dele. Ela, entretanto, tinha amor
ao seu próprio lar e de maneira alguma queria deixá-Io. Assim, ambos sentiram-se
aliviados.
Maomé confiou a Mustafá que o seu casamento não alteraria quase nada a
vida do palácio. Todos os criados deviam continuar suas atividades de até então.
Também Said continuaria a freqüentar dali mesmo a escola do templo, à qual seu
protetor o mandara desde algumas semanas.
Ele mesmo, Maomé, iria morar temporariamente na casa de Chadidsha, po-
rém voltaria sempre de novo ao palácio.Isso provocou grande alegria entre os criados,
que agora se esforçavam tanto mais para proporcionar-lhe uma vida aprazível.
Dois dias antes do casamento,apareceu um mensageiro do idoso soberano,cha-
mando Maomé à corte. Este resistiu à curiosidade de perguntar ao mensageiro sobre a
finalidade de sua ida ao palácio. Chegaria a percebê-Io sozinho.
Na hora aprazada,encontrava-se no palácio monárquico diante do soberano da
MAOMÉ
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Arábia,o príncipeAbul Kassim.Era um homem debilitado e de avançada idade,a quem
poucos dos seus súditos chegaram a conhecer. No entanto, o ancião irradiava uma tal
dignidade, que Maomé a sentiu nitidamente. Inclinou-se e esperou que lhe fosse diri-
gida a palavra.
- Maomé ben Abdallah, disse o príncipe em voz baixa, soube que és um sá-
bio. Um homem sábio é o melhor amparo para um soberano, quando à sabedoria
se aliam devotamento e fidelidade.
Abd aI Muttalib foi meu amigo. Era meu conselheiro. Quis promovê-Io a
primeiro vizir, mas ele recusou-se a servir-me de outro modo, a não ser em sigilo.
“Um neto meu está crescendo. Este podes chamar, quando tiver idade sufi-
ciente”, disse ele pouco antes de sua morte. Esse neto és tu, Maomé. Mandei obser-
var-te. És como desejo que seja o meu auxiliar. Queres ser meu vizir?
Perplexo, Maomé olhava para o idoso soberano. Ser seu primeiro-ministro,
seu eventual substituto, ele, que não sabia como se governa um país!
Então lembrou-se de ter Deus mandado dizer-lhe que aceitasse a primeira
oferta que lhe fosse feita. Portanto, estava na vontade de Deus que ele seguisse esse
chamado.
Movimentou a cabeça para trás e olhou com olhos claros para o soberano.
- Se achas,príncipe,que sou suficiente para servir-te,então estou pronto.Acei-
to este cargo da mão de Deus. Ele ajudar-me-á a desempenhá-lo corretamente.
- E eu aceito-te como meu conselheiro, da mesma mão, complementou o
príncipe. Assim trabalharemos juntos beneficamente.
Com muito gosto Maomé teria perguntado:
“O que sabes de Deus?”
Mas não ousou dizê-lo. O soberano, no entanto, pressentiu a pergunta não
pronunciada e respondeu-lhe:
- Tornei-me judeu pelo meu amigo Abd aI Muttalib, Maomé. Creio em Deus
de todo o coração. Por isso não poderia tolerar um vizir ateu ao meu lado.
Maomé foi convidado a comparecer na manhã seguinte, porém o príncipe
pediu-lhe que nesse meio tempo não falasse a ninguém sobre o seu cargo. Isso, aliás,
Maomé já por si não teria feito. Precisava primeiro chegar ao sossego íntimo, antes
de poder dizer uma palavra sobre tudo o que vivenciara nos últimos tempos.
Passou a noite orando. Era demasiado o que lhe pesava sobre a alma. Sentiu-
se impelido a levar seus pedidos diante de Deus, sem considerar se eram terrenos
ou espirituais.
Cheio de confiança, dirigiu-se na manhã seguinte ao palácio do potentado.
O príncipe cumprimentou-o alegremente; o jovem auxiliar agradou-lhe.
De início combinaram os aspectos externos dos encargos a serem assumidos
por Maomé, nos quais deveria se ambientar aos poucos. Depois o príncipe Abul
MAOMÉ
- 61 -
Kassim comunicou-lhe que também fazia parte das suas obrigações representá-Io;
pois devido à sua avançada idade, não podia viajar.
Tudo isso Maomé achou muito atraente. Durante a noite recebera forças
para assumir qualquer trabalho. Tornou-se-lhe compreensível, também, que justa-
mente nessa posição é que poderia atuar para Deus. Talvez esse fosse o início de sua
convocação como instrumento de Deus.
Quando todas essas coisas tinham sido combinadas, ocasião em que a pater-
nal amabilidade do príncipe conquistara o coração de Maomé, então Abul Kassim
perguntou sobre o passado do seu novo vizir.
Soube que Maomé iria se casar já no dia seguinte. Depois de Maomé ter
dado todas as respostas às perguntas que se referiam à sua futura esposa, o idoso
soberano balançou a cabeça.
- É inadequado, Maomé, que tua escolha tenha caído sobre essa viúva, que
não se adapta ao nível de tua posição, disse pensativo.
Maomé, entretanto, respondeu prontamente:
- Eu não a escolhi, foi ela que me pediu em casamento. O príncipe pôde
compreendê-lo. Meditando demoradamente, disse:
- Não fica bem que a deixes, um dia antes do casamento, por causa do teu
novo cargo. Tua palavra deves cumprir. Mas será justamente o teu cargo que te pre-
servará de muitos dissabores.
Ordeno-te, como meu novo vizir, que continues residindo no palácio dos
teus antepassados e que procures tua esposa somente na casa dela, quando sentires
desejo para isso.
Da mesma maneira, os eventuais filhos deverão morar com ela, visto não
terem mãe de linhagem fidalga. Quando mais tarde se oferecer uma oportunidade
para pedires uma moça de família nobre em casamento, então essa deverás levar
para teu palácio.
Pelas leis do país isso é permitido, e as leis judaicas não são contra.
Como já era da intenção de Maomé não abandonar a sua morada no palácio,
a ordem do soberano lhe foi muito oportuna.
Foi combinado que depois do dia seguinte assumiria o cargo e então seria
apresentado aos outros conselheiros do príncipe. Consciente de ter encontrado em
Abul Kassim um segundo pai, Maomé deixou o palácio do soberano.
No dia seguinte realizou-se a solenidade do casamento no templo judai-
co. Para Chadidsha era indiferente onde se daria o cerimonial. Entretanto, Maomé
queria sobretudo que a união conjugal fosse celebrada sob os olhos de Deus.
Não se tornou consciente de que com esse ato se confessava publicamente
judeu; também isso não o teria impedido de dar tal passo. Queria mostrar que acre-
ditava em Deus, onde quer que fosse.
MAOMÉ
- 62 -
Chadidsha havia convidado muitas pessoas para os festivos cumprimentos
em sua casa. Nessa ocasião Maomé tornou a ver seu tio Abu Talib, o qual compare-
cera com a sua esposa.
- Estou contente, disse Abu Talib, por teres achado uma esposa rica, cuja
fortuna te ajudará a progredir na vida.
- Também espero fazer progresso sem esse dinheiro, foi a resposta de Maomé.
Conversou com o tio, como se nunca tivesse havido qualquer desavença en-
tre eles. Soube que Abu Talib tinha um filho com pouco mais de dois anos de idade,
que lhe proporcionava muita alegria.
- Vem visitar-nos para conhecer o pequeno Ali, insistiu o tio. Maomé pro-
meteu-lhe.
Na manhã seguinte deixou a casa de Chadidsha e dirigiu-se ao palácio prin-
cipesco, onde, após solenes cumprimentos dos outros conselheiros, recebeu suas
instruções e iniciou os trabalhos que durante anos requereriam seus bons ofícios.
Tornou-se evidente que Maomé não só compreendia com facilidade tudo
o que lhe era dito e explicado, mas também que nele se ocultavam virtudes de um
soberano nato, que agora subitamente despertavam.
Quando o príncipe lhe dava algumas indicações, então se abria diante da
vista espiritual de Maomé um vasto panorama, dentro do qual ele podia dar ordens
e aconselhar. Teve a capacidade de penetrar nas almas dos outros e adaptava suas
determinações de tal modo, que desde logo conquistou confiança.
De mais a mais, nunca aceitava agradecimentos e louvores para si, mas sim,
fazia tudo em nome do príncipe. Os demais conselheiros, que a princípio haviam
visto com inveja que um desconhecido, descendente de família judaica, fosse ad-
mitido ao lado deles, não tardaram em reconhecer como tinha sido providencial a
escolha do príncipe.
Os melhores entre eles uniram-se estreitamente a Maomé; os demais, que
formavam a minoria, não ousaram manifestar-se.
Chadidsha, que se casara com um homem para no dia imediato privar-se
dele, em favor do príncipe e da vida pública, ficou tão orgulhosa e contente com
as honras de que seu marido era alvo, que se vangloriava desse brilho e não sentia
falta de nada.
Ela, aliás, imaginou que desempenharia dali por diante um papel entre as
mulheres da nobreza de Meca, mas Maomé fez com que ela visse, desde o início,
com palavras bondosas e serenas, que isso seria impossível.
Teve a compreensão suficiente para conformar-se e para proporcionar ao seu
esposo apenas coisas belas e aprazíveis, nas poucas horas que ele podia dedicar-lhe.
Além disso, a consecução de seu ardente desejo transformou sua índole. Era
como Waraka previra: ela tornara-se mais feminina.
MAOMÉ
- 63 -
Fazia tudo para agradar a Maomé e não podia deixar de procurar adaptar-se
ao seu modo de pensar. Não tardou em pedir-lhe que a instruísse na crença judaica.
Maomé viu que o casamento se tornara benéfico para a mulher, sem ser um
obstáculo para ele.
Passados cerca de oito meses, teve de fazer uma viagem a Jerusalém, por
ordem do príncipe, para chegar a um acordo com os árabes ali residentes. Sua ale-
gria em poder ver a cidade onde Cristo atuara foi imensa. Com isso quase chegou a
esquecer-se da finalidade terrena de sua viagem.
Com brilhante acompanhamento, dando a impressão de um jovem prínci-
pe, viajou pelo reino árabe em direção ao norte. Em toda parte aonde chegava, era
recebido com grandes honras.
Nessas ocasiões, eram-lhe dirigidos numerosos pedidos para decidir sobre
questões e para punir malfeitores. Antes de fazê-Io, sempre concentrava sua alma
em oração, e assim ele podia ter a certeza de que as suas decisões seriam certas e de
acordo com as leis de Deus.
Chegara a Jerusalém! Quando viu a cidade diante de si, sobrepujou-o o sa-
ber sobre o Filho de Deus, saber esse que muitas vezes o sensibilizara profundamen-
te, com toda a força.
“Devo ter peregrinado aqui com ele!” exclamou, e lágrimas de profunda
emoção escorriam dos seus olhos. “Talvez pude acompanhá-Io, como um dos seus
discípulos!”
Na entrada, esse pressentimento redobrou. Parecia conhecer cada uma das
antigas ruas estreitas. Como lhe era incômodo o contraste de viajar por aqui, com
grande pompa, onde Cristo andara tão simples.
Com muito prazer teria passado a um outro a mensagem e a representação
de que era portador, para peregrinar em silêncio como servo do Filho de Deus nas
suas pegadas.
No dia seguinte passou então por outros sentimentos. Lá onde Cristo sofrera
e morrera, judeus e adoradores de fetiches disputavam o pedaço de chão. Os cris-
tãos não procediam melhor; apenas eram mais arrogantes do que os outros. Isso lhe
causou repugnância.
Em primeiro lugar tratou daquilo de que fora encarregado. Houve muitas
conferências com altos dignitários, os quais não queriam saber da mensagem do
príncipe e do seu direito de mandar-lhes tal mensagem.
Por muito tempo, porém, eles não puderam se opor às simples e categóricas
argumentações do jovem representante. Ele granjeou a simpatia e a confiança deles.
MAOMÉ
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Houve casos em que pediram conselhos para os seus próprios problemas,e ele
sempre aconselhava desde que essa atividade não viesse a prejudicar o seu príncipe.
Entrementes teve um tempo de espera, porquanto a resposta ao príncipe
tinha que ser redigida convenientemente em palavras, para o quê os estranhos dig-
nitários demoravam.
Assim, Maomé alegrou-se de poder dispor livremente de mais alguns dias.
Para ele isso significava liberdade de fazer o que bem lhe aprouvesse. Tirou os trajes
de gala e passeou em vestuário simples pelos caminhos que lhe eram conhecidos.
Procurou o templo, o qual se achava fechado justamente nesses dias, porque
judeus e cristãos disputavam acaloradamente a sua posse. Essa sagrada obra arqui-
tetônica dos judeus apresentava vestígios de um desmoronamento progressivo.
Maomé preferiu ir aos lugares que ficavam ao ar livre. Sem necessidade de
pedir a alguém uma orientação, encontrou o jardim de Getsêmani e rompeu em
choro ardente ao contemplá-Io. Será que ele fora um dos que não haviam sido ca-
pazes de ficar por uma hora sequer em vigília pelo Filho de Deus? Viu todos, todos!
E decidiu passar a noite ali, orando e vigiando. Ajoelhou-se lá onde o grupo dos
discípulos esperara o seu Senhor, quando ali tinha ido orar.
Não surgiu na sua mente qualquer impulso de querer pôr os pés no lugar
onde Cristo se ajoelhara em oração. Subitamente teve de dizer “Jesus”, em lugar do
nome de Cristo, que lhe era familiar desde a infância.
“Jesus, sim, assim dizíamos”, sussurrou.
“Mestre”, foi a palavra seguinte que ele encontrou. “Mestre, quero ser teu
servo, meu Senhor e meu Deus! Quero dar testemunho de ti aos homens, para que
todos creiam em ti. Também com isso poderei ser um instrumento de Deus, teu Pai.”
Rezava fervorosamente, e durante a prece passaram diante dele vivas ima-
gens da vida do Filho de Deus, a partir do dia em que chegara a vê-lo pela primeira
vez. Novamente viu todos os que rodeavam Jesus, exceto um, e este um devia ter
sido ele.
“Senhor, Jesus, Mestre”, rezou, “então eu já fui uma vez teu servo; consente
que possa sê-lo novamente”
Nesse momento uma voz chamou:
“Natanael, o Senhor atendeu a tua prece! Vive de agora em diante como
Seu servo; foste destinado a ser um servo do supremo Deus.”
E Natanael-Maomé inclinou-se completamente e tocou com a testa no chão,
em sinal de promessa. Quieto e solitário pôs-se no dia seguinte rumo a Betânia.
Acima de tudo, experimentava em si mesmo o cristianismo, mas diferente
do que os homens ensinavam. Irrompeu nele uma veemente indignação ao obser-
var os cristãos e sua crença.
“Isso tem de ser mudado! As palavras de Jesus devem ser postas novamente
MAOMÉ
- 65 -
em primeiro plano, e não as sabedorias que os homens derivaram delas para si. Que
insolente e condenável procedimento!”
Mas por essa época consolidou-se algo mais em sua intuição: experimentou em
si próprio que os homens não vivem apenas uma vez na Terra. Sabia quando e sob qual
nome ele servira outrora ao Filho de Deus.
Então compreendeu nitidamente que ele não constituía nenhuma exceção na
humanidade. Como ele já vivera uma vez, assim também todos os outros homens vi-
veram igualmente mais vezes na Terra. Nunca havia escutado tal opinião, mas ela se
tornou para ele uma convicção pela própria experiência vivencial.
Nos seus passeios solitários,os quais prolongava cada vez mais para ver o quanto
fosse possível dessa região, que fora predestinada a ser a terra natal do Filho de Deus,
meditava e investigava.
Chegou à conclusão de que muitas existências devem conseguir ou reforçar o
que uma única existência não pode realizar.“O que enfim a vida quer de nós? Por que
chegamos a este mundo?”
Deveria partir dessa pergunta e se achasse uma solução, então tudo o mais se
seguiria.
O que mais gostaria era de livrar-se da vida na corte, para poder permanecer
por tempo indeterminado na terra dos judeus e prosseguir nas suas investigações. Mas
o saber de que poderia tornar-se um instrumento de Deus pesou muito.
Certo dia, finalmente, ficaram prontos os escritos que deveria levar de volta ao
príncipe. Foram preparados satisfatoriamente, e assim nada impedia a sua partida de
regresso. Pesaroso, separou-se da cidade que tanta coisa lhe proporcionara.
Julgou não poder ser mais alegre e feliz em nenhum outro lugar. Todavia, quan-
do entrou na verdejante paisagem da Síria, com a sua abundância de flores e frutas,
nesse momento o seu coração exultou de gratidão e alegria por tanta beleza.
A cavalgada na beira do deserto dessa vez não o estimulou a comparações.Todos
os seus pensamentos se concentravam no futuro; urdia projetos e nutria esperanças.
Abul Kassim demonstrou o seu franco regozijo ao ver seu conselheiro no-
vamente a seu lado. Tudo o que fora pretendido, foi conseguido. Agora podiam
dedicar-se a outras tarefas.
O príncipe gostava de dialogar ao anoitecer com o seu confidente, especial-
mente sobre o que se passava em sua alma. Maomé era para ele como um filho,
perante o qual revelava sem receio o lado mais recôndito de seu caráter.
Previa complicações intrincadas após seu trespasse, que não estava muito
longe. Não tinha filhos. Suas cinco mulheres deram-lhe somente filhas, e estas se
MAOMÉ
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casaram com homens que não possuíam aptidões para funções no governo.
- Tivesse ao menos um genro que pudesse se tornar meu sucessor, suspirava
muitas vezes. Agora, príncipes de outras dinastias arrogar-se-ão o direito de dispu-
tar o domínio árabe. O reino desmoronará, e os meus projetos de grande alcance no
sentido de unir os reinos vizinhos, desfar-se-ão em nada.
Maomé prometeu novamente sondar, a fim de achar um sucessor habilitado.
Estava convicto de que também nisso receberia ajuda de Deus, posto que seria em
benefício de um grande reino, cujos habitantes esperava converter para o único e
verdadeiro Deus.
Em casa lhe aguardava uma surpresa. Chadidsha dera à luz um belo menino.
Ainda não recebera a bênção do sacerdote, por não ter a mãe se lembrado disso.
Entretanto, agora ela queria que o levassem ao templo.
Maomé se opôs. Queria que a criança fosse batizada conforme a doutrina
cristã e que recebesse o nome de Natanael.
- És incompreensível, meu amigo, amuou Chadidsha. Casaste num templo ju-
daico.E teu filho deve ser batizado como cristão.Estou ansiosa em saber o que ordena-
rás quando Natanael tiver irmãos. Natanael! Um nome feio. Eu chamá-Io-ei de Eli.
- Chama o menino como quiseres, Chadidsha, permitiu Maomé, o que mais
importa é que ele se torne interiormente um Natanael e reconheça seu Mestre.
Quando participou o nascimento do filho ao príncipe, este disse:
- É pena que ele não tenha uma mãe nobre, senão poderia casar com uma
das minhas numerosas netas.
Entre esse grupo de meninas que desabrochavam em volta da corte dinás-
tica, encontrava-se uma extraordinariamente encantadora, comparável a uma flor.
Princesa Alina devia ter cerca de cinco anos. Era delicada e ágil. Suas risadas alegra-
vam o príncipe.
Quando, ao procurar o avô, encontrava Maomé, o que acontecia freqüen-
temente, então puxava os longos cabelos ondulantes sobre o rosto, à guisa de um
véu. O príncipe ria disso; Maomé, porém, ficava emocionado porque via nisso uma
prova da delicada pureza sutil da criança.
Um dia o príncipe revelou-lhe um pensamento que o fez permanecer
acordado por várias noites consecutivas.
- Escuta, Maomé, disse bondosamente, mas de modo sério, achei uma solu-
ção de como arranjarei um sucessor autorizado, o qual, sei bem, concretizará tudo
o que foi iniciado, no sentido por mim preconizado.
Assim que Alina crescer,far-te-ei casar com ela.Com isso serás tu o mais próxi-
mo ao trono,de acordo com as nossas leis.Se além disso eu ainda tornar público,antes
de meu falecimento, que tu deverás ser o meu herdeiro, então todas as pretensões dos
outros serão sufocadas no germe, e eu poderei deixar a Terra em paz.
MAOMÉ
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- Alina, a graciosa criança! Exclamou Maomé estupefato. Eu sou tão mais
velho, que poderia ser seu pai.
- Isso não importa, replicou Abul Kassim de bom humor. Tua primeira mu-
lher é mais velha do que tu; deixa a segunda compensar a diferença. A terceira,
então, talvez tenha a idade certa.
Maomé pediu que por enquanto não fosse mais falado a respeito desse pro-
jeto. Sua ambição impelia-o a concordar, mas queria esperar o que Deus determi-
naria para ele.
Entrementes passaram-se os anos, repletos de atividades e pesquisas. Em
verdade Maomé já era o regente da Arábia, pois, aparentemente sem propósito, con-
tudo premeditadamente, o príncipe afastava-se mais e mais de todos os negócios.
Todas as sugestões e execuções de planos deixava a critério do supremo con-
selheiro, sobre cujas determinações repousava visivelmente a bênção de Deus.
Já há muito tempo que Maomé teve de mudar-se para o palácio do príncipe,
a fim de poder estar dia e noite nas proximidades de Abul Kassim. Seu próprio pa-
lácio ficou ermo; porquanto também Said mudara-se havia poucos anos. Tinha por
essa época cerca de dezesseis anos de idade e tornara-se um moço imponente.
Dotado de raciocínio perspicaz, compreendia sempre imediatamente o que
se desejava dele. A par disso, possuía excelentes qualidades de caráter, e era de rara
fidelidade e afeição.
Maomé nomeou-o seu secretário particular e teve a satisfação de ver o
jovem bem-disposto em volta de si.
Procurava Chadidsha apenas raras vezes ainda. Era-lhe por demais opres-
siva e barulhenta a casa, na qual parecia soprar um vento diferente do que estava
habituado. Sua esposa não sentia sua falta. Cinco crianças brincavam ao redor dela
e proporcionavam ocupação para mãos e coração.
Certo dia Maomé foi chamado com urgência por ela. Natanael, um menino
de aproximadamente seis anos, caíra da escada e teve lesões internas de tal gravida-
de, que o médico não teve mais recursos para ele. Poucos momentos depois de o pai
ter tomado o menino inconsciente em seus braços, este faleceu.
Diante desse acontecimento, Maomé repreendeu-se por ter se descuidado
tanto dos seus filhos. O acidente, aliás, ele não podia ter evitado, mas o que sabia
sobre Natanael? Alguém o ensinara a reconhecer Deus? Antes, sempre que se lem-
brava do pequeno, achava que para isso ainda teria tempo. Agora a criança tinha
deixado a Terra. Saberia a criança para onde o seu caminho a conduziria?
Se bem que Chadidsha provavelmente se sentisse mais feliz sem a sua com-
MAOMÉ
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panhia, porque ninguém mais censurava os seus atos para com as crianças, contu-
do deveria tomar mais a sério as suas obrigações de pai.
Já nos dias seguintes apareceu para habituar os pequenos com ele e para
contar-lhes de Deus e do menino Jesus.
Duas meninas e um menino não mostravam semelhança com ele: também
eram aparentemente de pouca vivacidade espiritual. A mais nova, uma menina de
notável graciosidade, fê-lo recordar-se de sua mãe, assim como a imagem dela lhe
surgia às vezes à sua frente.
Essa pequena, chamada Fatime, era seu encanto. Quando sorria jovial-
mente para ele, então sentia uma íntima e forte ligação com ela.
Esforçava-se para sentir o mesmo com os outros três, mas a indolência dos
mesmos e os seus pensamentos dirigidos somente para o lado das coisas terrenas
fizeram com que sempre esmorecesse tal tentativa. Apesar disso, continuou regu-
larmente com as aulas, que se desenvolveram das primitivas palestras.
Cerca de três meses após a morte de Natanael, alastrou-se uma terrível
epidemia em Meca. Apesar dos maiores cuidados dos médicos e de todos os so-
corros que puderam ser arranjados, atacou de igual maneira os ricos e os pobres,
exigindo inexoravelmente as suas vítimas.
Maomé fez tudo o que esteve ao seu alcance para proteger os seus. Im-
plorou a Chadidsha que abandonasse a cidade. Havia alugado uma casa de campo
num lugar saudável, para onde ela podia retirar-se durante essa fase.
Ela recusou-se obstinadamente. Lembrou-se do tédio de que era aco-
metida todas as vezes que passava fora da cidade, durante os meses quentes, por
causa dos filhos. Dessa vez não quis fazer voluntariamente esse sacrifício.
Logo depois caiu de cama com febre, e as crianças com ela.
Maomé mandou médicos e enfermeiras; por fim, ele mesmo veio para
fazer o que era humanamente possível. Não conseguiu arrancar os doentes da
morte. Chadidsha e três filhos faleceram no mesmo dia e tiveram que ser enterra-
dos fora da cidade, numa cova destinada às vítimas da peste. Unicamente Fatime
recuperou-se.
Parecia que as preces do pai fizeram restabelecer essa criança dileta.
Waraka, que fugira em tempo, regressou após o afastamento de todo o
perigo. Maomé outorgou-lhe o direito de propriedade sobre a casa e o comércio,
e levou Fatime consigo para o seu palácio paterno.
A uma mulher nobre, a qual perdera marido e filhos, foi confiada a edu-
cação da pequena.
Nessa criança desabrochou para Maomé a primeira felicidade oriunda de sua
vida familiar. Quando os negócios do soberano o fatigavam ou quando algo o opri-
mia, então se retirava para ela. Suas pequenas mãos afastavam os cabelos de sua testa,
MAOMÉ
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e com isso as preocupações. Seus risos sempre achavam eco na alma de Maomé.
Deu preferência a uma educadora cristã. Ele mesmo tomou com afinco a
questão; procurou aprofundar a crença da senhora de certa idade, incutindo-lhe,
ao mesmo tempo, uma linha de orientação adequada, para que a sua predileta não
viesse a ser tocada por algum modo de pensar errôneo.
Certo dia Abul Kassim tornou a trazer à tona o seu plano nutrido em sigilo
cada vez com mais intensidade: Maomé devia pedir Alina em casamento. Ela esta-
va com dez anos de idade e com isso ingressou no grupo das donzelas.
Seria uma desonra se não se apresentasse nenhum pretendente. Isso, po-
rém, o príncipe queria evitar. Maomé devia ser o primeiro.
Maomé lembrou-se do país que a essa altura estava sob o seu domínio. Se
não desse esse passo, teria de demitir-se e ver o governo passar a outras mãos.
Pensou em Fatime, que crescia sem companheira. Internamente as duas me-
ninas tinham grande semelhança. Que adolescência plena de alegria poderiam levar
as duas em comum! Contudo, ele queria auscultar primeiro a vontade de Deus. Re-
servou-se alguns dias para deliberar e orou à noite como nunca havia orado.
Então viu uma imagem que serviu para trazer-lhe certeza. Viu-se parado
algures, numa altura incomensurável; debaixo dele estendiam-se vastos territó-
rios, entre os quais sabia que estavam a Arábia, a Síria e a terra dos judeus.
Contemplava-os com alegria e com aquele amor que dedicava de coração
ao seu povo.
Nesse momento afigurou-se-lhe como se levantasse desses países um fino
véu, que mais e mais se condensava. Então a condensação tomou forma e tornou-
se uma linda donzela, a princesa Alina. Na sua mão direita estendida ela segurava
uma coroa dourada de príncipe.
Assim flutuava para as alturas. De cima, no entanto, inclinava-se para ela
uma figura graciosa, sobrenatural, amável e radiante em pureza. Pegou a mão da
donzela e conduziu-a para ele.
A imagem desapareceu. Maomé meditou sobre isso. Tinha que ter uma
significação, se fora dada de cima e não gerada pelos seus próprios desejos.
Parecia-lhe, porém, ter escutado uma voz dizer: “Este é o caminho que
ajudará a te tornares um instrumento de Deus”.
Na noite seguinte mostrou-se uma outra imagem: viu como um ente ce-
lestial unia dois fios luminosos. Assim que estavam firmemente unidos, Maomé
olhou para baixo, seguindo os mesmos, e divisou duas figuras, das quais emana-
vam esses fios; uma era Alina e a outra deveria ser ele. Teve toda a certeza.
MAOMÉ
- 70 -
Nesse momento o ente celestial inclinou-se mais e uniu também os três
povos: árabes, sírios e judeus, numa estrutura firme, sobre a qual colocou o nó
dado nos fios luminosos.
E a voz chamou:
“Deverás ser um auxiliador do teu povo!”
Na terceira noite não viu mais nada, mas teve a certeza de que a união com
a princesa Alina estava na vontade de Deus. Portanto, foi a Abul Kassim e pediu a
mão da princesa.
O idoso príncipe derramou lágrimas de alegria com o fato de que seu plano
urdido há anos iria se tornar realidade. Era desejo de Maomé que a princesa Alina
fosse consultada primeiro, para ver se consentia no casamento, porém isso contra-
riava todos os costumes e o príncipe não quis permití-Ia.
Foi-lhe comunicado que Maomé pedira a sua mão e que o príncipe dera seu
consentimento. Depois disso Abul Kassim comunicou aos seus conselheiros que o
casamento de sua neta predileta com Maomé, o príncipe de Meca, estava prestes a
realizar-se.
Todos ficaram surpresos ao ouvirem o vizir ser designado com esse título.
Mais surpreendido ficou o novo príncipe.
Abul Kassim, porém, explicou-lhe que desde há muito já vinha cogitando
propiciar-lhe essa elevação, prestigiando-o assim perante o povo. Maomé, no en-
tanto, deveria guardar segredo sobre isso, para que todos julgassem que ele possuía
tal título herdado dos seus antepassados e só não o tinha usado há muito tempo.
Dessa vez Maomé desejou conduzir a sua esposa ao palácio dos seus ante-
passados, e isso condizia com todos os costumes. A antiga e aristocrática moradia
foi reformada à maneira mais esmerada. Serviu-se profusamente do tesouro herda-
do, para cumular a princesa de pérolas e pedras preciosas.
O idoso príncipe alegrou-se com o fato de Maomé não precisar conduzir a
noiva para seu lar com mãos vazias.
Nesse ínterim surgiu um problema difícil de ser resolvido. Onde e como os
dois deveriam se deixar abençoar para o matrimônio? Alina fora criada sem qual-
quer crença. O príncipe Abul Kassim era interiormente judeu, porém exteriormen-
te não se importava com nenhum culto.
Após longas ponderações, Maomé propôs que Abul Kassim pronunciasse a
bênção sobre eles em nome de Deus, na sala do trono, e com a presença de todos os
dignitários e servidores. Ato contínuo, iriam tomar um cálice de vinho abençoado
e orariam conjuntamente.
Essa proposta agradou ao príncipe e foi aceita. A mãe de Alina, no entanto,
exigiu que a noiva se velasse à maneira dos costumes nacionais para o casamento;
um ato simbólico do qual ela não quis abrir mão.
MAOMÉ
- 71 -
Alina esteve de acordo com tudo. Ninguém pôde notar se o seu jovem co-
ração estava comovido por alegria ou receio. Era amável com todos, exceto com
Maomé, o qual não chegou a ver antes da hora do casamento, e com o qual nem
pôde falar.
Do modo como fora idealizado, poucos dias depois foi realizado o enlace
matrimonial.
A espaçosa sala estava repleta de pessoas até o último recanto. No meio acha-
va-se estendido um grosso tapete colorido, sobre o qual ficaram o velho príncipe,
Alina e Maomé. Abul Kassim, segurando as mãos direitas de ambos, pronunciou a
bênção de Aarão sobre eles.
Nesse momento os dois jovens se ajoelharam na sua frente; Maomé levan-
tou as mãos e proferiu uma oração em voz alta, assim como surgiu de seu coração
comovido e cheio de gratidão. Emocionou a todos que estavam presentes, e muitos
perguntaram mais tarde sobre o Deus que é tão grande e poderoso.
Um dignitário trouxe então uma pequena taça de ouro com vinho. Maomé
pegou-a das suas mãos. Quando ia beber, ocorreu-lhe uma recordação. Levantou-a
bem alto e exclamou:
- Mestre, o vinho deve vivificar em nós a recordação do sangue que derra-
maste por causa das nossas culpas! Quero ser teu servo. Prometo-o perante todas as
testemunhas aqui presentes. Em tua memória bebo deste vinho!
A seguir passou a taça para Alina com essas palavras:
- Bebe também dela, querida, para que dediques toda a tua vida a ele. Jun-
tos queremos procurar o caminho que conduz a ele, para que possamos mostrá-lo
a outros!
Alina afastou levemente a ponta do véu e tomou um gole. A sua fisionomia
irradiava uma bem-aventurança que não tinha nada de terrenal.
A cerimônia, então, teria findado, mas Abul Kassim tinha ainda outros pro-
pósitos. Aproximou-se novamente do casal e segurou a mão de Maomé:
- Este, que é caro ao meu coração, como se fosse meu próprio filho, adquiriu
pelo casamento direitos reais de filho. Vede nele meu sucessor a partir de hoje! Ele
deverá aliviar-me o fardo do governo que aos meus velhos ombros está se tornando
muito pesado. Deverá trazer felicidade ao país e ao povo, e levar a bom termo
todos os projetos por nós iniciados.Vós, porém, prometei-lhe fidelidade e obediên-
cia. Ruidosos e ensurdecedores aplausos ressoaram pela sala.
Isso veio inesperado a todos, se bem que alguns já tivessem tido uma vaga
suposição de que após o trespasse de Abul Kassim Maomé tomaria as rédeas do
governo. Teve, contudo, invejosos, mas nenhum inimigo.
Maomé, entretanto, ainda não podia compreender o que esse dia lhe trouxe-
ra. Os seus desejos mais ocultos haviam se realizado.
MAOMÉ
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Conforme o costume, conduziu sua esposa encoberta de véus numa sun-
tuosa carruagem ao seu palácio paterno e aos aposentos preparados para ela, onde
encontrou sua própria criadagem, já familiarizada com ela.
Mais tarde encontraram-se num dos aposentos de luxo, onde ele apresentou
sua esposa a Fatime, que era cinco anos mais nova do que ela, para pedir a sua ami-
zade para com a menina sem mãe.
As duas abraçaram-se e um forte laço as uniu até a morte. Maomé sentou-se
então com elas num canto provido abundantemente de almofadas e tapetes, sobre o
qual uma lâmpada colorida irradiava sua luz tênue, e falou de Jesus a elas.
Ambas escutaram com olhos irradiantes. Isso lhes parecia tão sagrado e
grandioso, que quase não ousavam respirar. Finalmente se animaram a fazer per-
guntas. Queriam saber vários detalhes, pelos quais ele passara ligeiramente durante
os seus relatos.
Com grande prazer deu as respostas, contente por a alma pura de Alina re-
ceber a notícia sobre Jesus com tanta naturalidade.
Tornou-se então hábito entre eles Maomé contar alguma coisa todas as noi-
tes. Muitas vezes falava das antigas histórias dos judeus, do fratricídio e do dilúvio,
de José e de Moisés. Mas elas se interessavam mais em ouvir sobre Jesus.
Durante essas reuniões desabrochou algo no coração de Maomé que ele não
conhecia: o amor puro à mulher pura. Resguardava-a como uma pérola preciosa,
para que nenhum influxo de impureza viesse a atingi-la.
Durante o dia estava ocupado com tudo o que a sua nova posição exigia.
Nas suas tarefas praticamente nada se alterou; mas na qualidade de soberano teve
de receber muitas pessoas, manter conversações e ouvir relatórios.
Tudo isso eram atribuições que até então Abul Kassim desempenhara sozi-
nho. Este, porém, sentiu grande satisfação em poder confiar também isso a Maomé.
Viu contente como o seu sucessor com facilidade se engrenava nas atividades do
governo e como ele era reconhecido por todos sem discordâncias.
Sentia-se feliz, pois Maomé ainda o deixava participar de tudo, narrando-lhe
diariamente tudo o que se passava e o que era projetado. Também jamais deixou de
solicitar conselhos a Abul Kassim.
O cargo de vizir ficou vago. Por algum tempo Abul Kassim esteve vacilante
sobre se deveria preenchê-Io ou não.
Maomé, porém, apresentou tantas razões em favor disso, que o idoso prínci-
pe cedeu, e então propôs Abu Bekr, um homem experimentado.
Ele, aliás, era bem mais velho do que Maomé, todavia este já sabia se im-
por; sobre isso não teve receios.
Maomé mandou chamar o indicado e viu à primeira vista que eles combi-
navam mutuamente. Parecia-lhe que suas almas se cumprimentavam, e com prazer
MAOMÉ
- 73 -
ofereceu ao surpreendido Abu Bekr o cargo que até então ele mesmo ocupara.
Abu Bekr, no entanto, nem pensou duas vezes: o príncipe chamara-o para o
seu lado, portanto, atendia ao chamado.
Em pouco tempo compreendeu tudo o que fazia parte das suas atribuições
e revelou que tinha capacidade para prestar mais serviços. Era extraordinariamente
prático e sensato, uma boa complementação para Maomé, o qual, em tudo o que
fazia, empregava toda a sua alma.
Certo dia Abu Talib compareceu diante do novo príncipe e pediu que admi-
tisse seu filho Ali, com cerca de nove anos de idade, a seu serviço.
- Ele ainda é um rapaz, deve freqüentar a escola, disse Maomé. Deixa-o estu-
dar bastante e então consulta-me mais uma vez.
Abu Talib olhou aborrecido para ele.
- Tens poucos parentes, Maomé, resmungou, deixa os poucos participarem
da tua felicidade. Se achas que Ali é muito novo, então serve-te de mim. Natural-
mente, com a respectiva recompensa, acrescentou.
-Abu Talib,devo-te gratidão,não me deixes esquecer disso! Na minha infância
amei-te. Não sei se os meus olhos estavam vendados, que não enxerguei teus defeitos,
ou então eles não se manifestaram. Depois de meu pai, parecias o melhor homem do
mundo para mim. Isso se modificou, quando observei a tua ganância incontida.
Abu Talib assustou-se e queria dizer alguma coisa. Maomé, porém, não o
deixou falar, e continuou energicamente:
- Também tua pretensão de hoje deriva da mesma fonte impura,se bem que me
queiras fazer crer que isso advém da afeição de parentesco. Se te oferecesse o ordenado
de um vizir, sem exigir os serviços inerentes ao cargo, então isso também te conviria.
Maomé deteve-se um instante. Abu Talib confirmou:
- De fato isso me conviria.Quero ver aquele que pensa diferente.Todos apro-
veitariam à ocasião. Não julgues sempre todos os homens pela tua própria Índole.
Com muito custo Maomé reprimiu uma crescente sensação de violenta in-
dignação. Não deveria entrar em conflito com esse velho. Talvez ainda fosse possível
aproveitar o seu saber, e como recompensa pagar-lhe-ia bem.
- Escuta, Abu Talib, ainda me recordo bem daquele dia em Halef, quando
tive de destruir involuntariamente teus planos. Se estou bem lembrado, pugnaste
naquele tempo por uma união entre todos os árabes. Sob ordens de quem agiste?
O interrogado estava indeciso sobre se era prudente responder a essa per-
gunta. Enfim, sob o olhar inquiridor de quem estava à sua frente, decidiu-se.
- Éramos um grupo de pessoas que defendiam a idéia da união dos países
MAOMÉ
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árabes. Com fatos concretos queríamos então surpreender Abul Kassim e obrigá-lo
a aprovar nossos atos.
- E o que aconteceu com essa gente? Ainda tens contato com esses homens?
Maomé fez essa pergunta precipitadamente.
- Ainda conheço a maior parte deles, confirmou Abu Talib. Mas se eles pen-
sam ainda como naquele tempo, isso não posso dizer-te.
- Queres reatar as relações desfeitas e sondar o que eles diriam agora sobre
a Grã-Arábia? Não terás prejuízo com isso. Para cada informação, cuja veracidade
for confirmada, receberás uma quantia em dinheiro, cujo montante será baseado no
valor que essa informação representar para o país.
Os olhos de Abu Talib cintilaram. O outrora venerado tornava-se cada vez
mais antipático para o príncipe.
- Vai, agora, e procura trazer em breve informações.Amanhã, porém, manda
Ali para cá, a fim de que eu mesmo o veja.
Abu Talib despediu-se com demonstrações de gratidão, e Maomé repugnou-
se repetidamente.
“Senhor Deus, não me deixes ficar como esse”, orou.
Subitamente achou que essa prece tinha grande semelhança com a daquele
fariseu, do qual Jesus falara. Ficou envergonhado e pediu a Deus que ajudasse o
ancião, para que este chegasse a ter um juízo mais lúcido.
Passou-lhe despercebido que durante essa palestra não estava fechado o cor-
tinado do aposento contíguo, no qual Said escrevia. Então, o jovem entrou. Sempre
que Maomé o via, alegrava-se com a sua presença. Amava-o como a um filho e, em
colóquio, confiava-lhe muitas coisas que guardava para si.
Dirigiu-se a ele com a pergunta:
Escutaste o que nós falamos?
- Era inevitável, senhor, respondeu Said francamente.
- Isso me convém; assim pelo menos posso conversar contigo sobre o assun-
to, meu filho. Não é horrível, quando um homem rico cobiça tão desmesuradamen-
te dinheiro e bens?
- Terás muito incômodo com ele, foi a réplica de Said.
- Incômodo? Perguntou Maomé em tom acentuado. Que queres dizer com
isso? Deverá fornecer informações, pelas quais será gratificado. Se for possível, evi-
tá-lo-ei; não o quero ver mais na minha presença. Abu Bekr que se ocupe com ele.
- Não vai ser assim, senhor, sorriu Said de modo argucioso.
Possuía ainda o mesmo sorriso fascinante como quando era criança.
- Maomé nunca abandonou um homem que necessitasse de ajuda. E Abu
Talib precisa de auxílio vigoroso, para que sua alma não venha a afundar no pânta-
no da cobiça. Falarás com ele amavelmente, sem repreensões e rancores; admitirás
MAOMÉ
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seu filho Ali, pois com isso talvez catives o seu coração, de maneira que ele se deixe
guiar por ti.
- Como és perspicaz, meu filho, disse Maomé, mas não havia ironia na sua
voz. Estou quase receando que assim será e isso me custará muito tempo.
- Tanto maior será a tua alegria, quando algum dia puderes olhar para Abu
Talib com a mesma veneração de tua infância.
- Escuta, Said, gracejou Maomé, os teus homenzinhos também te disseram
isso? De onde me conheces tão bem?
- Porque te quero bem, senhor, replicou o jovem com seriedade. Meus ho-
menzinhos não me precisam dizer aquilo que eu sei. Em outras ocasiões, porém,
eles me dizem muitas coisas. Eles são, além de ti, senhor, meus melhores amigos.
- Preciso levar-te comigo uma vez, para que contes deles a Fatime e Alina,
disse Maomé.
Nesse momento interrompeu-se a palestra íntima. Vieram os conselhei-
ros e o soberano teve de concentrar todos os seus pensamentos no que eles
desejavam dele.
No dia seguinte compareceu Ali. Um rapaz pálido, magro, muito crescido,
no qual apenas os olhos radiantes eram belos.
Maomé recebeu-o com amabilidade e encetou uma conversa simples com
ele. Admirou-se ao notar que o menino de nove anos tinha uma instrução e uma
erudição muito além da sua idade. Ao Iado da inteligência aguda, parecia harmoni-
zar-se coerentemente uma fina intuição, tal como Said.
Maomé chamou Said e pediu-lhe que levasse Ali, para dar-lhe alguma ocu-
pação. Decorridas algumas horas, solicitou a presença de Said para indagar as suas
impressões. Também este estava surpreso; havia simpatizado com o rapaz.
- Seria um prazer para mim, senhor, se eu pudesse fazer por ele o que fizeste
por mim, pediu Said. Deixa-o ser meu auxiliar, pois na escola do templo ele nada
mais tem a aprender. Ao mesmo tempo quero contar-lhe de Cristo e instruí-lo nos
assuntos de fé, assim como tu me ensinaste.
Eis justamente o que Maomé queria. Ali foi indagado se estaria disposto a
prestar pequenos serviços a Said. Estava muito grato com a decisão de Maomé em
querer fazer uma experiência com ele. Sentiu um grande acanhamento perante o
príncipe, enquanto que com Said familiarizou-se rapidamente.
Então foi feita a comunicação a Abu Talib de que seu filho Ali fora admitido
como subescriturário no palácio do príncipe e que dali em diante deveria morar
num pequeno aposento ao lado de Said.
Com essa notícia, Abu Talib compareceu apressadamente para agradecer.
Foi recebido amavelmente por Maomé, o qual fê-lo relatar tudo o que nesse meio
tempo investigara, e estipulou um preço fixo para cada informação aproveitável.
MAOMÉ
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Alguns dias mais tarde, Maomé palestrou com o velho príncipe sobre tudo
o que soube de Abu Talib. Descobriu então que Abul Kassim sempre esteve a par
das aspirações daquele grupo de homens e que consentira tacitamente nas suas
atividades.
- Verás que também tu, com um conhecimento mais profundo da alma do
nosso povo, serás induzido a unir tudo o que é de origem árabe. Pelo caráter, o ára-
be supera amplamente o sírio. Tivesse ele que submeter-se ao domínio deste, então
o resultado seria um interminável atrito, no qual esgotar-se-iam as melhores forças.
Se, pelo contrário, o sírio for sujeitado à disciplina árabe, então ele poderá alcançar
uma evolução nunca imaginada. Não te esqueças disso.
- E os judeus? Perguntou Maomé, hesitante.
- Os judeus deixaram de ser uma nação desde que crucificaram Cristo. Na-
quele tempo estiveram sob o domínio meramente exterior dos romanos, porém em
sua vida como judeus e em suas crenças, ninguém interferia. Agora estão dispersos
entre diversos povos. Tu mesmo o viste em Jerusalém.
Seria bom se o povo dos judeus ficasse novamente debaixo de uma mão
forte. E se este dominador tiver fé em Deus, então isso será a única possibilidade de
salvação para esse povo decaído de uma elevada missão.
Maomé ficou admirado ante a sabedoria que aí se lhe desvendou.
- Estás surpreso de me ouvir falar desta maneira, Maomé, disse Abul Kassim
bondosamente. Acredita-me que meditei muito durante minha longa vida. Nada
me interessou tanto como tirar conclusões sobre o destino dos povos, até o ponto
em que me foi possível obter dados sobre isso. Sempre se me descortinou a forte
direção de Deus, enquanto um povo trilhava o caminho da pureza e da religio-
sidade devotada à Luz. Porém, quando chegava ao auge, então ficava arrogante,
presunçoso e seguro de si mesmo, e por isso chegava a caminhos escorregadios que
o levavam irremediavelmente ao abismo.
- Admiro a tua sabedoria, príncipe, disse Maomé em sua maneira franca.
Mas não compreendo por que não uniste os três povos, já que tinhas a certeza de
que isso seria benéfico para os três.
- Não havia chegado ainda o tempo oportuno, meu filho. Pude esperar. Tam-
bém isso aprendi. Então me compenetrei de que é improfícuo querer abrir o botão
para forçar a flor a desabrochar prematuramente. A flor murcharia. Assim aprendi
a tornar paciente minha alma.
Sei que realizarás todos os meus planos, quer os pronunciados, quer os guar-
dados em sigilo. Para mim basta ter preparado o terreno.
- Príncipe, pai, disse Maomé profundamente impressionado, como és sábio
e esclarecido! Ajuda-me para que eu me assemelhe a ti.
- Homem nenhum te pode ajudar nisso; a vida é que te deve ensinar, assim
MAOMÉ
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como foi ela minha mestra. Temos uma grande afinidade interior. Precipitei-me
na vida, assim como tu. Também do mesmo modo que tu, não pude tolerar que
os homens fizessem algo errado. Acredita-me que exige mais amor deixar que os
homens sigam primeiramente um caminho errado, do que querer à força que eles
se coloquem no certo.
- Isso ainda não compreendo, confessou o mais moço. Se um homem come-
te erro, então é minha obrigação chamar-lhe a atenção, para que ele o evite.
- Se o erro implicar um grande perigo para quem o comete e para os outros,
nesse caso pode ser tua obrigação. Em caso contrário é melhor que deixes o homem
agir errado e aprender com as conseqüências de suas ações. O que for aprendido
desse modo não será esquecido tão facilmente.
Deixa-me explicar-te, referindo-me a um exemplo insignificante. Eu fui tes-
temunha de que há poucos dias arrancaste do jovem Ali a tinta nanquim, que ele
colocara em cima dos manuscritos, querendo carregá-Ia juntamente com estes nos
braços. Impediste assim que ele derramasse o líquido. Encarou-te atônito e não
compreendeu por que não quiseste deixá-Io carregar o recipiente.
Ontem deparei com Ali ao levar novamente esses escritos e a tinta, de um
aposento para o outro. Said observou-o. Não disse nenhuma palavra, mesmo quan-
do o tinteiro estava prestes a virar. Calmamente retirou alguns trapos de uma gave-
ta, os quais ele guarda aparentemente para esses fins, e esperou. A desgraça acon-
teceu: a tinta escorreu em cima do tapete. Said estava logo à mão e acudiu Ali para
atenuar o dano.
Soluçando, o rapaz disse:
“Agora sei por que há dias o príncipe me arrancou a vasilha com tinta. Nun-
ca mais a carregarei assim”.
Vês que o rapaz aprendeu mais com o incidente do que com a tua precaução.
- Agora te compreendo. Lembrar-me-ei disso, sempre que me der vontade de
corrigir. Também compreendo agora por que me deixaste agir muitas vezes, onde
teria bastado uma palavra tua para que eu me acautelasse de um passo precipitado.
Quanta preocupação te dei!
- A alegria prevaleceu, meu filho. Se agora ainda algo me preocupa por tua
causa, é então a maneira pela qual retrocedes diante dos desejos de outrem. Altru-
ísmo é bom, porém não deve degenerar em fraqueza.
Pensa em Abu Talib. Tivesses insistido energicamente em que como herdeiro
a ti cabia a herança, então talvez houvesse um rompimento entre vós; mas ele teria
sido obrigado a fazer um exame de consciência.
Pensa na tua primeira mulher, a cujo pedido de casamento não ousaste dar
uma resposta negativa, para não ofendê-la. Deves te impor, não por despotismo,
mas para sustentar o teu direito.
MAOMÉ
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Maomé quis agradecer ao ancião, .mas este começou imediatamente a falar
de outras coisas e cortou com isso toda a possibilidade de retomar ao assunto.
E poucos dias depois Abul Kassim adormeceu tranqüilamente, sem se des-
pedir. O povo manifestou sincero pesar pelo passamento do benquisto príncipe;
entretanto, escutava-se com freqüência:
“O príncipe Maomé é o melhor e o maior. Ditosos nós, que o temos como
soberano”.
Apesar da grande veneração que os árabes dedicavam à velhice, eles encon-
travam mais agrado na juventude vigorosa. Maomé tinha, a par da jovialidade, a
harmoniosa beleza de sua aparência e o brilho radiante que emanava de seus olhos.
Vitoriosamente, fascinava os corações.
Em toda parte encontrou amor; o mais profundo e límpido, porém, no seu lar.
Alina tornou-se uma mulher na mais encantadora inconsciência, entenden-
do com fina intuição o modo de ser do marido. Há muito ele já conversava com ela
assuntos inerentes ao bem-estar do povo. Maomé encontrou na mulher interesse e
conselhos valiosos.
Alina preocupou-se, sobretudo com as mulheres. Poucos contatos teve com
as mulheres do povo, contudo, percebeu intuitivamente que a pureza e a verdade
estavam prestes a desaparecer delas. Muitas palavras de suas serviçais davam-lhe o
que pensar.
Perguntou ao marido, e soube que as suas preocupações tinham fundamen-
to. Então meditou sobre o que poderia ser feito pra sanar isso.
- Poderias decretar uma lei, pela qual as mulheres deveriam manter-se com-
pletamente afastadas dos homens, enquanto solteiras? Perguntou-lhe.
Desde muito que existe essa lei, minha querida, explicou Maomé, mas não é
respeitada. São poucas as mulheres que a cumprem. O povo ri e zomba delas.
Nesse caso deverias publicá-Ia de novo, meu marido. Em ti o povo tem fé.
Faze-os ver como é prejudicial a toda a nação, quando as mulheres ficam degrada-
das. As mulheres tornam-se mães, acrescentou Alina, enrubescendo.
Eu o sei, mãezinha, disse Maomé com ternura. E desde já me alegro com o
botão que minha flor pura em breve poderá dar-me.
Ficarás triste, se não for um menino? Quis saber. Maomé assegurou que uma
segunda Alina lhe encantaria mais que um herdeiro.
E realmente ela veio, a filhinha, o retrato fiel da mãe, a qual recebeu o nome
de Fahira. Como o príncipe Abul Kassim teria se alegrado com essa criança! Maomé
muitas vezes se lembrava do velho príncipe.
Quando a criança estava para ser abençoada, então os pais se viram novamen-
te diante da pergunta: a quem deveriam se dirigir nesse sentido. Maomé resolveu o
dilema, porquanto ele mesmo implorou a bênção de Deus sobre a cabeça da criança.
MAOMÉ
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Depois disso, tornou-se-lhe evidente que não havia coisa mais importante
do que começar finalmente com o aperfeiçoamento da doutrina judaica.
Teve como sua missão complementar a crença judaica com a crença cristã,
completa-la, mas daquela mesma maneira como Jesus o fez com seus discípulos. Ele
derrubou tudo o que foi feito pelos homens em dogmas e mandamentos, e deu em
lugar aquilo que viera da Luz.
Maomé queria proceder de idêntica maneira. Muitas vezes passou noites
orando para encontrar o certo. Todas as suas atuações no governo foram impregna-
das desse pensamento e todos os seus atos determinados no mesmo sentido.
Aos poucos, vagarosamente, viu um começo daquilo que imaginava em es-
pírito. Percebeu que deveria primeiramente livrar o judaísmo de todas as escórias.
Onde quer que tocasse, desmoronava-se algo. As tradições estavam deterioradas e
os dogmas, superados.
O que sobrou foram os mandamentos, os quais outrora Moisés teve a per-
missão de trazer ao seu povo; também as profecias sobre a vinda do Messias, as
quais Maomé julgou como cumpridas pela vinda de Jesus à Terra e por isso as dei-
xou de lado.
Ansiava poder falar com alguém sobre tudo isso, mas não era para ser assim.
Sozinho com Deus,sua alma deveria achar aquilo que precisava para si e para os outros.
Certa vez ele entrou no assunto, numa conversa com Abu Bekr. Este replicou-lhe:
- Se queres ouvir meu conselho, meu príncipe, então deixa-me dizer-te que
teu êxito dependerá essencialmente da divergência dos povos nos assuntos de cren-
ça. Acautela-te de uni-los primeiro espiritualmente. Quando tiveres consolidado o
teu domínio sobre os povos circunvizinhos, quando eles estremecerem diante do
teu poder, então poderás dar-Ihes alimento espiritual, tanto quanto te aprouver.
Antes, não!
Então Maomé se convenceu de que o seu conselheiro não o compreendia no
sentido mais profundo, e fechou sua alma diante dele. Para ele foi uma desilusão,
que todavia não pesou muito, porquanto em casa encontrava compreensão.
Muitas vezes ele levava Said e também Ali para o círculo de sua intimidade,
e, assim como antes falava de Cristo, agora relatava sobre a crença dos judeus e de
tudo o que pensava sobre isso. Audição compreensiva afluiu-lhe retroativamente,
como estímulo para investigações cada vez mais profundas.
Revelou-se que em Ali o judaísmo predominava mais. Para os dogmas mais
incompreensíveis ele achava uma explicação, a qual lançava luz sobre os mesmos,
por outros ângulos.
Se apesar disso, esses dogmas tivessem que ser condenados, por terem sido
demasiadamente humanizados, isso agora ocorria na certeza de que os mesmos ha-
viam sido estabelecidos sob a compulsão de alguma necessidade e com boa vontade.
MAOMÉ
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Na maior parte foram então mais tarde interpretados erroneamente.
Said sabia muito acerca do judaísmo, mas isso nada significava para a sua
alma. Também não era cristão, mas sim, como discípulo de Maomé, colocava-se
entre as duas confissões, assim como foram instituídas pelos homens. Tinha anseio
de que o seu senhor trouxesse finalmente o equilíbrio.
Fatime e Alina tornaram-se por fim servas convictas de Jesus. Tinham sua
doutrina e seu modo de pensar próprios, baseados exclusivamente nas palavras do
Filho de Deus, assim como Maomé as transmitira.
Também elas se regozijavam de que afinal a “nova doutrina”, como chama-
vam aquilo que agora deveria surgir, seria dada à humanidade.
- Só não te esqueças da participação de nós, mulheres, repetia a graciosa voz
de Alina.
E enquanto Maomé se dedicava com vontade pura àquilo para o que sua
alma o compelia, sem pressentir que era justamente essa a sua missão, de acordo
com a vontade de Deus, segurava exteriormente as rédeas do governo com mão
firme. Nenhum acontecimento era pequeno demais, para que não fosse por ele ob-
servado e abrangido em suas conseqüências.
A atuação de Abu Talib chegou outra vez a tomar amplas proporções.Achou
de novo prazer nas suas palestras com o povo e na influência sobre os outros. Já
nem se lembrava de que era um emissário do príncipe; como outrora, procurou
tirar proveito disso, pretendendo depois impô-Io ao soberano.
Recordando-se da advertência de Abul Kassim, Maomé tolerou por um tem-
po esse modo de agir. Então achou que essa atividade do tio era uma das coisas que
poderia causar males e que por isso deveria ser impedida em tempo.
Mandou vir Abu Talib à sua presença e pediu-lhe explicações. O ancião não
desmentiu; pelo contrário, confessou-se cheio de orgulho a favor de tudo o que lhe
fora censurado como erro.
- Espera o que iremos trazer-te, Maomé, disse com ares de protetor. Nós
somos mais velhos do que tu e sabemos melhor julgar o pensamento do povo.
- Isso pode ser, respondeu o príncipe indulgentemente, mas onde um prín-
cipe é a maior autoridade sobre um povo, compete a ele governar sozinho. Todos
os outros têm de abster-se disso, se não quiserem atrapalhar. Peço-te, portanto, que
suspendas as tuas atividades. Ouve-me, Abu Talib, rogo-te. Poupa-me ter que for-
çar-te a isso.
- Sabes ainda como perturbaste minha reunião em Halef, sobrinho? Enco-
lerizou-se o velho. Da mesma maneira queres fazê-Io novamente. Outra vez todos
os esforços e os trabalhos empenhados serão em vão. Desta vez não o suportarei.
Se não quiseres como nós queremos, então procederemos sem ti, e tu poderás ver
sozinho para onde te levará a tua ambição de domínio.
MAOMÉ
- 81 -
Nesse instante Ali entrou no aposento. Ele quis retirar-se imediatamente,
após entregar o escrito que motivou a sua vinda. Maomé, no entanto, chamou-o
para seu lado:
- Podes repetir na presença do teu filho o que acabaste de dizer, Abu Talib?
Perguntou.
O ancião enrubesceu, sacudiu a cabeça e deixou a sala após breve saudação.
- Será bom, Ali, que hoje te ocupes com o teu pai, propôs Maomé. A sua
mente está infestada por pensamentos de toda espécie e talvez te seja possível
dispersá-Ios.
A noite, Ali compareceu à residência de Maomé e comunicou que não
encontrara o pai em nenhum lugar. Aparentemente ninguém podia dar notícias
dele. Nada, porém, podia ter-lhe acontecido, porquanto dois fiéis serviçais e mui-
tos objetos tinham igualmente desaparecido.
Assim ficou por muito tempo. Por ora ninguém sabia qualquer coisa sobre
Abu Talib.
Maomé mudou-se do palácio paterno para o palácio do governo. Alina e
Fahira naturalmente tiveram que acompanhá-Io. Para Fatime ele quis organizar
uma corte própria, no seu antigo lar. Mas defrontou com a resistência de toda a
sua família. Alina e Fatime não queriam separar-se. Então consentiu que sua filha
também fosse junto com eles.
Bem-fadados anos, repletos de atividades, seguiram-se. O herdeiro conti-
nuou-lhe negado; a Fahira juntou-se mais uma irmãzinha, Jezihde, mas a felici-
dade caseira do príncipe era tão grande, que ele não queria desejar coisa melhor
pura si.
Abu Bekr insistiu em que se desse início à conquista da Síria e da Palestina.
Os povos estariam maduros para a anexação; a resistência dos mandatários nesses
países deveria ser quebrada pelo poder das armas.
Maomé não quis saber disso. Havia se consultado em prece e recebido a
resposta de que o tempo não chegara ainda. Os países cair-lhe-iam nas mãos, como
frutas maduras. Enquanto isso, ele deveria esperar com paciência e sossego.
Na sua maneira franca e honesta participou esse aviso a Abu Bekr, o qual
Maomé tinha na conta de crente em Deus, dado o seu modo de ser. Novamente
teve de passar por outra decepção com ele. O vizir atreveu-se a dar uma risada
alta, quando o príncipe lhe disse que, em vista desse aviso, ele queria esperar
obedientemente.
- Príncipe, és um tolo! Exclamou, não menos franco.
Em Maomé subiu uma efervescência, mas dominou-se. Por um instante pa-
receu-lhe ver Abul Kassim, o qual lhe fazia uma advertência para que não tolerasse
nada. Tão depressa como a aparição veio, também desapareceu.
MAOMÉ
- 82 -
Indignado, o príncipe dirigiu-se ao seu conselheiro:
- Abu Bekr, não te esqueças de que és vizir, disse incisivamente. Teu elevado
cargo exige de ti um comportamento, o qual neste instante não soubeste guardar.
Convém-me que tu mesmo leves a mensagem que eu queria mandar hoje para Yatrib
e que recuperes teu equilíbrio no caminho.
O repreendido estava revoltado intimamente.Quanto mais sentia que merecia
a censura, tanto mais aumentava a sua ira contra o príncipe, mais moço do que ele.
Deixou o aposento após rápida despedida, e uma hora depois já passava a cavalo pelo
portão da cidade, com pomposo séquito.
Maomé sentiu-se aliviado. Ficou admirado de si mesmo por lhe ter sido tão
fácil impor a sua autoridade. Certo é que o espírito transfigurado de Abul Kassim o
ajudara nisso, pensou, e ficou grato.
Said, o qual através do cortinado meio aberto tornou-se testemunha invo-
luntária da palestra, teve receio de que o vizir pudesse ficar um inimigo ferrenho do
príncipe. No entanto, ao ver o seu protetor tão bem-disposto, não ousou expressar
por palavras a sua suspeita e resolveu ficar duplamente vigilante.
Maomé, porém, esqueceu-se logo do melindroso episódio, porquanto em casa
lheesperavanovidade.Alina,quejádesdealgunsdiaspretendiaaparentementetratarde
alguma coisa com ele, como não se oferecesse oportunidade, pediu-lhe uma entrevista.
- Já tenho de me dirigir ao príncipe, por não ter o marido tempo para mim,
disse pilheriando.
Então ela lembrou-lhe que Fatime já há tempo alcançara a idade de casar, sem
que o pai tivesse se interessado por isso. Estaria na época de arranjar-lhe um marido,
o qual ao mesmo tempo pudesse servir de sucessor de Maomé, caso não viesse mais
um filho e herdeiro.
- Onde poderei achar esse marido? Perguntou Maomé sinceramente sobres-
saltado. Tenho tantas outras coisas para fazer!
Alina teve de rir.
- Então é bom que outros cuidem para ti, atormentado príncipe, exclamou
quase petulante.Fatime e eu já resolvemos o problema.Apenas precisas dar a tua anu-
ência. Achamos um jovem de uma família nobre, o qual ama sinceramente Fatime...
Maomé interrompeu-a.
- Onde ele teve a oportunidade de ver minha filha? Não quero esperar que
alguém tenha arranjado um encontro entre os dois!
- Tu mesmo fizeste com que se conhecessem meu amigo, retrucou Alina in-
diferentemente. Não aconteceu coisa alguma de que tu não tivesses conhecimento.
Para que não fiques indignado, devo dizer-te que se trata de Ali, teu sobrinho.
Extremamente estupefato Maomé olhava para a interlocutora.
- Ali? Disse admirado. Ali? Ele é muito feio para a nossa beldade.
MAOMÉ
- 83 -
- Isso é tudo o que tens a objetar contra ele, meu amigo? Perguntou Alina. A
sua aparência externa não importa. Seu coração é fiel como ouro. Antes de tudo, ele
é fiel a ti; daria sua vida por ti!
- E Fatime o acompanharia? Perguntou Maomé, ainda incrédulo.
- Ela terá prazer em tornar-se sua esposa, confirmou a princesa. Podes então
ceder aos dois teu palácio paterno para morada; porquanto, à habitação de Abu
Talib, naturalmente não poderá levar sua esposa.
- Do seu pai terá de separar-se, se quiser entrar em relações mais estreitas co-
migo,disse Maomé prontamente.Abu Talib não é mais meu amigo.Ele trama traição,
isso eu sei, se bem que desde então nada chegou ao nosso conhecimento a respeito.
- Fica certo de que Ali nunca amou o seu pai. Não lhe será difícil separar-
se dele.
Também Ali, o qual Maomé mandou chamar na mesma hora, assegurou isso.
Muito feliz em poder ter Fatime como sua esposa, e com isso poder vincular-se com
mais firmeza ao príncipe, a quem admirava acima de tudo, teria se sujeitado a tudo o
que se exigisse dele.
Então foi realizado o casamento da filha do príncipe com Ali, que atin-
gira uma posição mais alta, a de conselheiro. Na sua família dominava pura
felicidade, porém sobre a vida pública Maomé viu de tempos em tempos desli-
zarem nuvens sombrias, que pela freqüência com que apareciam, davam-lhe o
que pensar.
Abu Bekr ficou afastado por tempo demasiadamente longo da corte. Já
deveria ter voltado de Yatrib, porém nada se soube a seu respeito. Maomé relu-
tava em mandar investigar sobre ele. Tinha toda a certeza de que nada aconte-
cera ao vizir, mas que outras razões faziam-no manter-se afastado.
Sem demora haveria de chegar qualquer notícia dele. Entrementes nota-
va-se a influência de um outro. Abu Talib surgiu logo que teve conhecimento da
notícia do casamento de seu filho. Queria glorificar-se no esplendor de seu filho
e por meio dele conseguir aquilo que ambicionava em vão.
Encontrou uma estranha recepção. Seu filho declarou-lhe não poder
mais reconhecer como pai um inimigo do príncipe. Não queria receber nada da
sua herança, e por outro lado era seu desejo que também o pai não exigisse mais
dele qualquer obrigação filial.
Furioso, Abu Talib deixou o palácio dos seus antepassados, no qual com muito
gosto teria se instalado de novo.
Permaneceu então em Meca, às ocultas, e começou a promover agitações clan-
destinas.Empregoutodaasuaeloqüênciaparainstigarosânimoscontraopríncipe.Em
pouco tempo viu que nada conseguiria com a população mais humilde, porque esta se
atinha com tenacidade a Maomé, no qual via o legítimo e competente dirigente.
MAOMÉ
- 84 -
Também os nobres, inicialmente, não se deixaram induzir a empreender qual-
quer coisa contra o soberano, o qual em princípio lhes era de todo conveniente.
Então, Abu Talib dirigiu-se aos numerosos comerciantes da cidade. Para isso
usou uma tática extremamente astuciosa.
Havia em Meca uma relíquia. Ninguém sabia a quem fora consagrada outro-
ra e ninguém sabia que idade tinha. Era uma construção quadrada, chamada Caaba,
onde se encontrava emparedada uma pedra preta, que era venerada.
A lenda dizia que outrora ela havia sido branca, mas pelos pecados dos ho-
mens tornara-se escura.
Esse santuário era aberto apenas três vezes ao ano. Todos os anos era reves-
tido por dentro com precioso tecido de seda, para o qual os sacerdotes fetichistas,
que zelavam pela relíquia, faziam coletas durante o ano todo.
Cada ano era um comerciante estabelecido em Meca que fornecia os tecidos
e com isso lucrava abundantemente.
Como nas duas primeiras aberturas, uma vez para os homens e outra para
as mulheres, acorressem crentes devotos de todas as partes do país, esse santuário
tinha uma significação enorme para o bem material dos habitantes de Meca.
Sobre isso construiu Abu Talib o seu plano astuto. Habilmente insinuou aqui
e acolá que Maomé se considerava um enviado do Deus dos judeus e por ordem do
mesmo cogitava a introdução de um novo culto.
Assim que tivesse concluído essa tarefa, ele naturalmente proibiria todo cul-
to aos ídolos no país e fecharia a Caaba para sempre, se é que não a destruiria até.
Nesse momento teria chegado ao fim a prosperidade de Meca. Todo o comércio
confluiria então para a cidade mais progressista de Yatrib.
Inicialmente, os homens riram-se dessa profecia. Abu Talib, porém, não de-
sistiu de falar sempre sobre isso e em toda parte. De tudo o que sabia de Maomé, ele
tirava proveito habilmente.
Logo que Abu Bekr foi mandado a Yatrib, disse:
- Podeis ver sozinhos em que alta conta ele tem essa cidade. O próprio vizir
dele foi mandado para lá. Provavelmente a mensagem é muito importante para um
simples cavaleiro.
Tantas vezes repetidas, essas palavras acabaram penetrando nas mentes dos
homens. Eles mesmos as repetiam e começavam a crer nisso.
Nesse tempo Maomé encontrava às vezes desconfianças ou reservas, ele, que
estava habituado a que as almas se lhe abrissem sem retraimento.
Assim que Abu Talib começou a sentir o seu êxito, não se conteve, teve de
avançar mais. Então dirigiu seu intuito para os judeus, dos quais, aliás, também
muitos eram comerciantes. Descreveu-Ihes em primeiro lugar o afastamento da
afluência de forasteiros, que traziam dinheiro à cidade.
MAOMÉ
- 85 -
Também lhes revelou que Maomé estaria em vias de desfazer os dogmas
santificados e de substituí-Ios pelo cristianismo.
Com isso incitava os judeus, tanto os crentes como os descrentes.
Said foi o primeiro que descobriu quem ativava a agitação na cidade. Porém
tudo era de tão pouca evidência, que não se podia acusar ninguém de infidelidade
ou revolta. Não restou outra coisa senão estar preparado para tudo e aguardar.
Nesse tempo Abu Bekr regressou. Ficara afastado mais de um ano. Um ato
desmesurado para um vizir. Maomé não sabia como deveria recebê-lo e pediu
orientação ao mensageiro de Deus.
“Abu Bekr vem arrependido. Não lhe dificultes a volta para ti”, aconselhou
a voz celeste. “Terás doravante nele um servo incondicionalmente fiel. Necessitas do
contraste que ele representa para o teu modo de pensar.”
Habituado a obedecer sem reservas às ordens de cima, dominou também des-
sa vez a sua indignação e recebeu o regressante com naturalidade e afabilidade, como
se tivesse estado ausente apenas por poucos dias.
Isso fez com que o outro, tão deprimido pela culpa, se sentisse mais abalado
ainda. Jogou-se ao chão diante do príncipe e pediu o seu perdão. Maomé, no entanto,
ajudou-o a levantar-se e disse amavelmente:
- Nada tenho a desculpar-te. Se Deus te perdoou, então entre nós está
tudo bem.
Evidenciou-se que Abu Bekr pelo menos não desperdiçara seu tempo. Até Ya-
trib haviam chegado os boatos espalhados por Abu Talib, porém ele os refutara ener-
gicamente e conseguira debelar dos corações dos habitantes de lá todas as dúvidas.
Yatrib estava afeiçoada ao príncipe com redobrada fidelidade.
Esse fora o fruto externo da sua permanência.O interno,o mais valoroso,con-
sistiu em que a incansável defesa dos planos e da doutrina de Maomé fê-lo penetrar
profundamente em ambos.
Estava convicto de que tudo aquilo que até então julgara como fantasia utópi-
ca de um homem moço era uma atuação da vontade Divina.Estava compenetrado da
necessidade da crença no Deus Único!
Com a singeleza que lhe era peculiar, ele falou com Maomé sobre isso. Este
sentiu-se feliz por sua alma ter sentido certo, quando no primeiro encontro com Abu
Bekr recebeu-o amistosamente.
Interrogado sobre o que mais havia se passado durante sua ausência, o vizir
revelou que havia contraído matrimônio com uma moça de família nobre,havia pou-
cas semanas. Também isso alegrou o príncipe, que convidou Abu Bekr a apresentar
em breve a sua esposa a Alina.
Com o vizir ao seu lado, pôde Maomé dedicar-se tanto melhor ao aperfei-
çoamento da doutrina. Constatou com isso que não podia achar clareza satisfatória
MAOMÉ
- 86 -
em muitas perguntas que surgiam nele. O que num dia lhe parecia claro, no outro já
estava envolto em neblina.
Alina,a quem contou o ocorrido,disse pensativa:
- Necessitarás de um período de amadurecimento no silêncio e na solidão, meu
amigo. Pensa em Moisés; quanto tempo esteve no deserto antes que seu espírito ficasse
preparado ao ponto de poder ser portador da Verdade e auxiliador. E também Cristo se
retirou do povo,antes de lhe trazer aVerdade.
- Como devo realizar isso, Alina? Perguntou Maomé, apenas meio convencido.
Minhas obrigações como príncipe não me largam nem um dia.
- E,no entanto,estarás livre assim que Deus o desejar,replicou a esposa.
Tal como a água,que rompendo o dique num lugar,aflui ininterruptamente,cor-
roendo a barragem, assim cresceu a insubordinação em Meca, apesar do rigor de Abu
Bekr.Doishomensqueelesurpreendeupronunciandodiscursossubversivos,mandou-os
enforcar sumariamente,porque sabia que Maomé os indultaria,se fosse consultado.
Esse exemplo intimidou o povo apenas por pouco tempo,e logo foi esquecido.
Mais do que nunca o príncipe se apresentava em público.
Em toda parte aonde chegava, não encontrava mais a serena confiança dos
anos passados. Chegou ao ponto de acontecer que a algumas perguntas receberia
respostas obstinadas, e até nenhuma ás vezes.
Procurou o erro no seu próprio procedimento e dirigiu-se em oração a Deus,
o Senhor, para que lhe mandasse dizer o que deveria modificar em sua vida.
Por longo tempo não obteve resposta e julgou ver nesse silêncio a ira de
Deus. Não desistiu de continuar a orar e a suplicar.
Então, repentinamente, quando menos esperava, soou a voz celeste, a qual
era a orientadora de sua vida:
“Maomé, tranqüiliza-te intimamente. Não cabe a ti a culpa daquilo que ago-
ra sobrevirá à tua cidade. As próprias criaturas são culpadas disso. Assim tem de
acontecer, a fim de que seja preparado o terreno para a tua doutrina, a qual tens
permissão de trazer ao povo.
Reúne os teus perto de ti e segue com eles para Yatrib, onde residireis com
segurança. Abu Bekr, porém, deixa aqui. Rebentará uma revolta sangrenta na cida-
de. Os adeptos do fetichismo combaterão os judeus, e os judeus os cristãos. Todos
dirão, no entanto, que tudo acontece por tua causa.
Não te importes e permanece tranqüilo. O que aqui terá de acontecer, será
executado por Abu Bekr.
Depois disso ele seguirá com os seus guerreiros para juntar-se contigo. Então
confia aos seus cuidados todos os que te são caros e retira-te para as montanhas, na
solidão. Lá, o Senhor preparar-te-á, a fim de que reconheças o que agora ainda está
oculto aos teus olhos”.
MAOMÉ
- 87 -
Nesse momento Maomé teve a resposta de tudo o que o preocupava. Tam-
bém recebeu instruções claras. Cheio de gratidão, louvava a sábia e bondosa orien-
tação de Deus.
Na manhã seguinte deu a Alina notícias daquilo que soubera. Além dela,
confiou a revelação a Mustafá, Ali e Said.
Enquanto Ali e Said guardavam os escritos mais importantes em lugares
secretos, e ultimavam para si e para a família de Ali todos os preparativos para a
viagem, Mustafá e Maomé tratavam de abrigar os tesouros no lugar oculto, numa
parede do palácio dos Koretschi.
Procederam com tanta cautela, que nem a numerosa criadagem, nem Ali, o
qual se encontrava nos aposentos de cima da casa agora por ele habitada, notaram
qualquer coisa.
No terceiro dia estava tudo pronto. Maomé mandou os seus, juntamente
com Ali, Mustafá e a criadagem mais velha, na frente. Fizeram circular rumores de
que em Meca o calor era demasiado para a delicada saúde das mulheres e crianças.
Teriam de ser levadas para as montanhas. Estando descansando nesse meio tempo
em Yatrib, quem levaria a mal se realmente algo disso se tornasse público?
Somente então, Maomé falou com Abu Bekr. Disse-lhe que julgava mais
acertado deixar por um tempo a cidade, onde a sua presença estava provocando
apenas perturbação.
Foi o que o vizir já havia pensado; apenas não ousou propor, para que o
príncipe não julgasse que ele, o vizir, queria impor-se. Maomé tranqüilizou-o sobre
esse particular e deu-lhe plenos poderes para durante a sua ausência, após madura
ponderação, agir como e onde achasse de bom alvitre, e se necessário intervir.
Nessa ocasião, tiveram que encontrar exteriormente um motivo para a via-
gem de Maomé. Também para isso Abu Bekr sabia dar conselhos. Há pouco tempo
haviam chegado mensageiros de Yatrib, para pedir ao soberano que fosse construí-
do também na cidade deles um santuário. Maomé primeiramente teve de recusar-
Ihes. Prometera, no entanto, que em breve iria pessoalmente debater o assunto com
os habitantes. Isso agora poderia ser usado como pretexto.
Quanto à ordem recebida numa das noites anteriores, também não contou
nada a Abu Bekr. Aprendeu que o melhor era calar-se.
Maomé não se separou de bom grado da cidade pela qual se afeiçoara.
Quando tornaria a vê-Ia? Se a revolta deflagrasse, nesse caso poderia acontecer de
não ficar mais nenhuma pedra sobre a outra. Enfim, também isso se daria assim
como a sábia vontade de Deus determinara.
Acompanhado somente de Said e de dois serviçais, saiu Maomé despercebi-
do, cavalgando pelo portão.
Quando chegou à verdejante planície, fez os cavalos andarem a trote e nesse
MAOMÉ
- 88 -
momento o seu coração foi tomado de firme esperança e alegre iniciativa. Estava
agora indo de encontro à sua missão! Deus, o Senhor, ainda quis primeiro deixar o
seu instrumento tornar-se polido, para que ficasse bem utilizável. Isso era apenas
motivo para alegria.
Em Yatrib encontrou os seus, bem alojados num antigo, mas bem-con-
servado palácio, o qual, após a morte do seu último dono, passou a ser proprie-
dade da cidade.
A população recebeu o seu príncipe com jubilosas aclamações. Naturalmente
não foi revelado que fugiam, porém, deixou-se que continuassem a crer que os seus
familiares deveriam em breve ser levados mais adiante, às montanhas; ele, contudo,
queria pessoalmente ter a oportunidade de conhecer os seus fiéis em Yatrib.
Contou-Ihes que estava chegando à meta de dar a todo o reino da Arábia uma
doutrina em comum. Realizado isso, também Yatrib receberia um santuário belo e
magnífico, no qual os habitantes poderiam adorar a Deus.
Havia tanta coisa a tratar com os administradores da cidade, os quais queriam
aproveitar bem a presença do seu soberano, que os dias se passaram muito depressa.
Vieram mensageiros fiéis, mandados por Abu Bekr, os quais traziam notícias
sobre os distúrbios cada vez maiores em Meca. Um dia, porém, também os mensagei-
ros não apareceram mais; Maomé sabia que o inevitável acontecera. Ali e Said pedi-
ram licença para poder voltar e lutar ao lado de Abu Bekr, caso fosse necessário.
Com muito custo Maomé os segurou. A presença deles aqui era necessária
para proteger as mulheres, porquanto em breve chegaria o tempo em que ele deve-
ria deixá-las.
Comerciantes que se encontravam em viagem trouxeram a notícia de que em
Meca estourara uma sangrenta revolta, a qual estava sendo reprimida com inflexível
rigor por Abu Bekr. A seguir vieram outros que contaram de incêndios de grandes
proporções devastando a bela cidade.
Depois não veio mais ninguém. Yatrib parecia achar-se interceptada, em di-
reção ao sul, do restante do reino. Ninguém se encaminhava para lá e ninguém
vinha de lá. Assim era da vontade de Deus, que queria preparar as veredas para o
Seu portador da Verdade.
Certa noite veio a ordem para Maomé:
“Chegou o tempo, servo do Todo-poderoso, para que deixes os teus. Bem a
sós, dirige-te a cavalo em direção às montanhas; teu caminho te será mostrado. Leva
provisões para dez dias, e provê-te com vestuário duplo. Tudo isso podes carregar
despreocupadamente no teu cavalo. Mais do que isso, porém, não leves contigo.
Aos moradores daqui, dize que farás um passeio a cavalo. Aos teus, porém,
conta a verdade. Eles devem ser fortes e ficar tranqüilos. De tudo o mais será cuida-
do; sobre isso não te preocupes.”
MAOMÉ
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Maomé fez como o anjo do Senhor lhe ordenara e ninguém dos seus familiares
lhe tornou pesada a despedida. Anteriormente Alina já falara com todos, e fê-los ver
como poderiam ajudar Maomé, enquanto seguissem alegremente a ordem de Deus.
Assim ele se pôs a caminho sob a direção de Deus, orientado pelos Seus
mensageiros, aberto para cada raio que quisesse entrar em sua alma e entregue in-
teiramente à vontade de seu Senhor.
Como no terceiro dia ainda não houvesse regressado de seu passeio a cavalo,
o povo começou a ficar inquieto. Então Ali propalou que um mensageiro que se
encontrara com o soberano, no caminho, trouxera importantes cartas da Síria. Ma-
omé resolvera prosseguir imediatamente a sua viagem para lá.
Isso foi aceito pelo povo em geral. Do mesmo modo compreenderam que as
mulheres queriam aguardar a volta do príncipe para depois deixarem a cidade.
Por esse tempo Alina e Fatime aliaram-se ainda mais estreitamente. Come-
çaram, também, a entrar em relações sociais com outras mulheres nobres, as quais
recebiam as princesas com benevolência.
Dessas relações, inicialmente apenas superficiais, como até então fora hábito
entre as mulheres, desenvolveu-se com o tempo uma séria e firme união, a qual veio
beneficiar toda a população. Muito antes do regresso de Maomé, as mulheres de
Yatrib haviam-se tornado servas de Cristo, da maneira como Alina as ensinara.
Com isso os costumes melhoraram. Em toda parte isso se fez notar.
Maomé, no entanto, estava nas montanhas. Com a orientação do mensagei-
ro de Deus, tinha recebido acolhida de um pastor de ovelhas, bem no alto das ram-
pas arrelvadas, o qual não teve o mínimo pressentimento sobre quem ele aceitara
como servo.
Maomé denominou-se Said, para não despertar suspeitas; no entanto, podia
ter continuado a usar o seu nome, porquanto o pastor não sabia coisa nenhuma de
um príncipe Maomé, tampouco sabia qualquer coisa sobre um Deus. Conhecia tão-
somente as montanhas, suas ovelhas, fome, sede e sono.
Mas a Maomé pôde oferecer aquilo que, além da orientação de cima, preci-
sava: um telhado sobre a cabeça, comida, bebida e trabalho que o deixasse meditar.
Moisés outrora também não fora pastor, durante o seu estágio preparatório? Lem-
brou-se disso.
Com jovialidade pastoreou os seus protegidos lanosos, enquanto se deitava
na encosta ensolarada, com o olhar dirigido ao céu, deixando passar pela sua alma
pensamentos sobre a eternidade.
As perguntas que nele se haviam acumulado clarificaram-se uma após ou-
MAOMÉ
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tra. Entrou luz na sua alma, e no raio dessa luz desabrochou aquilo que ele deveria
anunciar ao mundo: a Verdade de cima sob uma nova forma.
De súbito soube que teria sido errôneo peregrinar como Jesus através do país,
ensinando. Seiscentos anos passaram-se desde então. Os povos modificaram-se, porém
não ficaram melhores.Se quisesse conseguir algo,deveria pela autoridade levar o povo a
aceitar a doutrina, e somente então poderia mandar instruí-lo e falar às almas.
Os árabes eram diferentes dos judeus de outrora, diferente, portanto deveria
ser o modo de aproximar-se deles.
Também viu que não deveria condenar todo o antigo como inaproveitável
ou até prejudicial. Deveria proceder devagar, ligando o novo ao antigo até que pu-
desse substituir o antigo pelo novo, sem com isso magoar o povo.
Seus cabelos pendiam além dos ombros e a barba alcançava-lhe o peito.
Com isso percebeu que já estava há muito tempo com as ovelhas. Não tinha nada
com que pudesse cortar os cabelos, que também não lhe estorvavam. Serviam-lhe
como uma espécie de indicador do tempo.
No princípio contava pelos cordeirinhos, mas no controle inicial e geral sobre
a prole do rebanho veio-lhe a confusão com o nascimento constante de novas crias.
Teve que deixar de basear-se nas gerações. Também lhe era indiferente
quantos anos já haviam passado. Sabia que os seus se achavam abrigados sob a
proteção de Deus, e ele mesmo compreendia que ainda estava longe de terminar
o seu aprendizado.
O pastor falava raras vezes com o servo, do qual tinha um grande receio.
Tinha-o na conta de lunático. Assim que observou como Maomé seguia fielmente
todas as suas ordens e quanto as ovelhas o amavam, então habituou-se a esse ho-
mem, que muitas vezes falava sozinho em voz alta. Contudo, não sentia necessidade
de falar com ele. Um não sabia o mínimo que fosse do outro.
O vestuário que Maomé trouxera estava puído, apesar de ter sido feito de um
tecido forte e novo. Fez para si um envoltório de pele de carneiro, igual ao do pastor.
Serviu-lhe de agasalho, aquecendo-o.
Quase pareceu a Maomé como se nada pudesse vir que interrompesse o
magnífico sossego e a monotonia da atual vida, a não ser a ordem de Deus, a qual
esperava sem impaciência. Então sobreveio um acontecimento repentino: o velho
pastor faleceu.
O que Maomé deveria fazer agora com as ovelhas?
Nessa hora deveria dirigir-se ao mensageiro de Deus para pedir instruções.
Os animais não lhe pertenciam. Também não sabia onde o pastor buscava as pro-
visões com as quais ambos se abasteciam. Onde o ancião vendia a lã, as peles e os
cordeiros que às vezes levava junto, quando se afastava durante dias? Nunca Maomé
perguntara sobre isso.
MAOMÉ
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Passou ainda alguns dias do mesmo modo antigo, até que o pão foi se aca-
bando e até que não teve mais sal para as suas ovelhas. Então ousou pedir novamen-
te ordens a Deus.
Dessa vez recebeu-as. Foi-lhe comunicado com toda a precisão o caminho
pelo qual teria que seguir para chegar à povoação onde o velho era conhecido. Lá
deveria procurar o decano da aldeia e participar-lhe a morte do ancião. Ao mesmo
tempo deveria trocar a lã por peças de vestuário e em seguida dirigir-se em direção
ao norte, para a próxima cidade, e lá ficar à espera de novas ordens.
Maomé fez exatamente como Deus lhe havia mandado fazer. Para ele era
indiferente ter de andar; o essencial era que executasse com isso a ordem de Deus.
Ainda na mesma noite alcançou a povoação, onde em troca da lã recebeu
bom e forte vestuário. O decano chamou um homem, o qual era filho do pastor.
Este se pôs imediatamente a caminho para olhar o rebanho abandonado.Agradece-
ram-lhe pelos seus serviços e pelas notícias, e queriam segurá-lo para passar a noite
ali. No entanto, havia recebido ordem de ficar na cidade; tinha de ir para lá. Não
tirou tempo nem para lhe cortarem os cabelos. Para isso provavelmente ainda teria
tempo na cidade.
Por sorte era uma noite de luar, na qual caminhou rumo à cidade, não muito
distante.
Era uma caminhada verdadeiramente encantadora, sob a proteção da alta di-
reção espiritual. Parecia-lhe como se estivesse andando num imenso templo. Por ora
ainda se encontrava no pórtico, e o santuário, contudo, parecia-lhe estar tão próximo.
Não se importou se o alcançaria ou não; com o coração palpitando, foi ao encon-
tro daquilo que deveria experimentar vivencialmente. Somente então lhe sobreveio a
grande alegria de poder finalmente atuar como instrumento do seu Senhor e como
servo do seu Mestre. Teve de ficar parado para levantar os braços ao céu, em agrade-
cimento. Nesse momento essa abóbada se abriu sobre ele; um esplendor rompeu das
alturas, e as irradiações quase pareciam tocá-lo. Admirado, ajoelhou-se em adoração.
Não conseguiu dar expressão aos sentimentos preponderantes por meio de palavras,
porém tudo nele era uma única prece de agradecimento.
Sua alma aberta contemplou nesse momento um quadro de uma magnifi-
cência sobrenatural:
Na ampla sala do trono encontrava-se uma cadeira de puro ouro. Sobre ela
achava-se sentado Um, cujos olhos flamejantes pareciam penetrar tudo. Seus cabe-
los ondulavam prateados, ao seu redor. O braço direito apontava com o indicador
esticado. Referia-se isso a ele, Maomé? Seria possível que a excelsa majestade que ali
MAOMÉ
- 92 -
reinava lhe desse atenção, a ele, o pequeno homem terreno?
E uma voz soou no seu íntimo; ou seria fora dele? Não o sabia. Escutava-a e
acolhia-a intimamente.
“Maomé, servo do Altíssimo, discípulo do Filho de Deus.Vê aqui Aquele que
virá para julgar os mundos. Recolhe em ti a impressão desta imagem viva, para que
possas compreender o que te será anunciado sobre isso.
AVontade de Deus julgará os homens com justiça! Ele aceita-te como Seu servo.
Anda de hoje em diante na força da trindade de Deus e executa o Seu mandamento.”
A voz calou-se, a imagem desapareceu. O resplendor retirou-se lentamente.
Maomé, porém, permaneceu ajoelhado e orou até que a aurora cobriu o céu. Le-
vantou-se, então, como um homem diferente do que era poucas horas antes.
Com passos firmes caminhou até a cidade, onde mandou cortar seus cabelos e
sua barba. Procurou uma hospedaria, comeu e bebeu, e em seguida estendeu-se num
dos leitos duros. Fez tudo mecanicamente; todo o seu pensar estava embebido nas
revelações da noite, as quais sempre de novo deixava passar diante de sua alma.
Então deve ter adormecido, porquanto afigurou-se-lhe como se estivesse so-
nhando. Viu-se na cidade de Halef, onde falava a uma grande reunião de pessoas.
Escutava também o que falava.
Falava do Deus único e verdadeiro e da necessidade de que todos os povos
da Terra, reconhecendo finalmente a Verdade, se unissem em torno do Senhor de
todos os mundos!
Quando acordou sabia que deveria seguir em primeiro lugar para Halef,
para ali falar ao povo.
Ao sair da hospedaria, deparou na frente da mesma com um homem com
dois camelos. Este olhou para Maomé, foi ao seu encontro e perguntou:
- Es tu o viajante que quer ir ainda hoje até Halef? Encomendaste este camelo?
- Para Halef quero ir com certeza, replicou Maomé, o qual julgou reconhecer
no oferecimento da montaria a direção de Deus, contudo, não queria tirar de um
outro aquilo que talvez lhe estivesse destinado. Portanto, continuou:
- Mas não me lembro de ter encomendado este animal. - Se podes pagar
devidamente, então ele pode carregar-te.
Respondeu o homem.
Após terem combinado o preço, Maomé montou no paciente animal, en-
quanto o alugador, montado no outro camelo, dispôs-se a servir-lhe de guia.
Em caminho o homem conversador contou tudo quanto havia se passado
ultimamente nos países. Admirou-se de que aparentemente o seu acompanhante
não estivesse a par de nada disso. Depois que Maomé lhe disse que viera de longe
e que se encontrara ausente do país nos últimos anos, o cameleiro apressou-se em
relatar fatos do passado, alguns verídicos e outros deturpados.
MAOMÉ
- 93 -
Maomé deduziu dessas narrações que uma sangrenta guerra civil devastara
a Arábia e que Abu Bekr concentrara suas forças armadas em Yatrib, sempre prontas
para dirigirem-se com a maior presteza àqueles lugares onde as chamas da rebelião
ainda não estivessem de todo sufocadas, ameaçando arder em novas labaredas.
- Conheci Abu Bekr, confessou Maomé, querendo saber mais alguma coisa
sobre ele. Ainda vive?
- Nosso país iria mal se ele não vivesse mais, disse o homem com ênfase.
Desde que o nosso príncipe seguiu a cavalo para a Síria, porque um mensageiro o
chamou para lá, o país teria ficado entregue a si mesmo, se o vizir não o adminis-
trasse com fidelidade.
- Então ele assumiu o governo? Perguntou Maomé. Nessa hora reconheceu
por que esse conversador, o qual inicialmente lhe era incômodo, fora-lhe conduzido
no caminho.
- Não, para isso ele não tem tempo. Apenas sufoca a rebelião, matando os
insurretos, replicou o homem com impassibilidade.
Maomé horrorizou-se. Quão grato era por essa tarefa não lhe ter cabido!
- Não temos um príncipe porque sabemos que o nosso voltará assim que
pudermos livrá-lo das mãos dos astutos sírios, os quais o mantêm preso. Abu Bekr
prepara uma campanha contra a Síria, para obrigar esses patifes a pôr em liberdade
o nosso príncipe.
Interinamente governa o seu genro Ali, e o seu filho adotivo Said o auxilia
nisso.
- E quanto tempo já está perdurando essa situação? Perguntou Maomé, o
qual perdera todo o cômputo do tempo.
- Faz agora quase dez anos que as insurreições deflagraram, soou a resposta.
Dez anos! Inconcebivelmente longo ao ouvir dizê-lo, porém indescritivel-
mente curto em face de tudo o que lhe fora dado passar vivencialmente.
Dez anos durara seu aprendizado na solidão!
Durante dez anos esteve afastado dos seus. Suas filhas Fahira e Jezihde não o
reconheceriam mais. Será que a criança que estava sendo esperada naquele tempo era
novamente uma menina?
No decorrer dos longos anos quase não se lembrara mais daqueles que agora
deveriam entrar novamente em sua vida. Também agora não lhe sobrava tempo para
ocupar-se com eles. Os camelos que caminhavam a passos acelerados alcançaram ao
anoitecer a cidade de Halef.Ali o cameleiro levou Maomé a uma hospedaria um pou-
co retirada, mas confortável.
Nos dias subseqüentes Maomé procurou entrar em contato com os árabes
residentes ali. Também eles falavam dos horrores que se registraram em Meca e pro-
nunciavam apavorados o nome de Abu Bekr. Contudo, eles presumiam que atrás de
MAOMÉ
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tudo o que ocorrera estavam as ordens de Maomé.Suspeitavam que ele se encontrasse
em Yatrib e que pretendia elevá-la a sua residência.
Perguntou sobre Abu Talib. Ninguém sabia coisa alguma dele. Ou perecera ou
adotara um pseudônimo, sob o qual estaria continuando sua atividade hostil.
Então falou sobre a união entre todos os árabes e encontrou amável atenção. Os
homens pediram-lhe que ficasse na cidade até a noite seguinte. Estava marcada uma
reunião secreta entre muitos árabes; ali deveria ouvir e falar, por sua vez, se quisesse.
Comoveu-se pelo fato de aqueles homens depositarem nele, um estranho,
uma confiança tão grande. Tanto assim que, afinal, teve de expressar o pensamento
por palavras.
- Dizei-me, amigos, de onde sabeis que eu estou solidário convosco e que não
vos trairei? Perguntou.
Então soube que um velho árabe, o qual possuía o dom da vidência, predis-
sera-lhes já há três dias a vinda de um estranho. A nitidez com que tinha descrito
Maomé permitiu que eles o reconhecessem imediatamente.
O que Mussad dizia isso ninguém punha em dúvida.Ele ter-lhes-ia aconselha-
do a receberem o estranho com benevolência.O sinal claro em sua testa seria para eles
o indício de que fora mandado por Maomé ben Abdallah,o príncipe da Arábia,o qual
trazia na testa o mesmo sinal.
No dia seguinte Maomé esteve no porto e aprendeu ali várias coisas que lhe
foram de proveito.
Soube da existência de um intercâmbio comercial com países longínquos, os
quais preferiam condimentos, incenso, pedras preciosas, tapetes e tecidos de seda.
Também comprariam café, mas os sírios não cediam nada desse produto. Todo o café
cultivado era consumido no próprio país.
- Exportais também madeira de lei? Perguntou Maomé, animado de espírito
mercantil.
- Não a temos, contudo a Palestina exporta cedro a países distantes, foi-lhe
respondido.
Então quis saber o que seria importado, em troca, das nações estranhas.
Soube que esses navios traziam armas, sobretudo espadas de um esplêndido aço
flexível, as quais utilizavam principalmente como modelo, para aprimorar a sua
própria produção.
Além disso vinham fardos de um tecido branco, feito de fibras vegetais, o
qual era tingido aí e aproveitado em confecções de trajes para mulheres e crianças.
Seriam leves e agradáveis.
Ao aproximar-se a noite, Maomé procurou os seus conhecidos, que o rece-
beram alegremente. Mussad passara o dia todo em êxtase. Há cerca de uma hora
começara finalmente a falar e comunicou aos ouvintes que iriam presenciar um fato
MAOMÉ
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grandioso. Maomé em pessoa viria para propiciar-lhes ajuda emsua aflições.
- Onde vive Mussad? Perguntou Maomé. Posso vê-lo? Disseram-lhe que ele
residia numa das travessas mais estreitas, onde o pé do estranho de modo algum
deveria pisar. Além disso, após cada vaticínio ele se encontrava tão exausto, que se
deveria deixá-lo em sossego. A noite compareceria à reunião.
- A noite? Perguntou Maomé admirado. Já não é noite? - Senhor, é verdade
que o astro diurno já declinou, mas poderemos reunir-nos somente depois que
os guardas da cidade tiverem feito a última ronda pelas ruas. Até lá aceita a nossa
hospitalidade. Um grito de coruja anunciará quando houver certeza de não encon-
trarmos mais ninguém.
Em silêncio, os homens ficaram sentados reunidos, fumando cachimbos
esquisitos, à maneira dos sírios. Isso pouco agradou ao príncipe, contudo ele era
hóspede e não podia dizer nada. Embora a fumaça que saía dos cachimbos e das
bocas tivesse um aroma agradável, ela deixava tudo parecer indistinto. Da mesma
forma deveria ser confuso o aspecto interior dos homens, logo que se entregavam a
esse vício. Ao notarem a sua curiosidade pelos cachimbos, os homens propuseram-
lhe que fumasse com eles. Ele, no entanto, pensando naquilo que a noite lhe deveria
trazer,recusou a oferta.Quando,por conseguinte,perguntaram-lhe diretamente so-
bre o motivo de sua abstenção, ele disse francamente. Riram-se, mas um após outro
deixou apagar o cachimbo. Em lugar disso foi servido café preto e forte, que a todos
animou. Finalmente, o grito de coruja ressoou.
Os homens puseram-se imediatamente a caminho. Não foi preciso andar
muito. Um pouco fora da cidade encontrava-se um grande prédio, que em sua
maior parte servia para depósito de mercadorias a embarcar. Precisamente um dia
antes ficara desocupado outra vez.
Continha uma sala espaçosa. Para admiração de Maomé, em poucos ins-
tantes ela ficou repleta até o último recanto. Mais ainda se admirou, ao reconhecer
no lugar o local de sua visão noturna. Portanto, estava certa a sua intuição de que
poderia e deveria falar de Deus nesse local.
Num lugar que estava mais alto pela colocação improvisada de caixas, encon-
trava-se em pé um ancião, que começou a falar aos presentes. Ele discursava à maneira
como provavelmente era usual,enquanto citava uma série de opressões e violências que
os árabes tinham que suportar na Síria. Para cada uma de tais acusações tinha testemu-
nhas que confirmavam suas palavras.
- Este é o acusador oficial,cochichou um dos conhecidos de Maomé,em vista de
seu olhar inquiridor. Logo falará o orador do dia.
O ancião desceu penosamente das caixas; um mais moço subiu. Alegres acla-
mações cumprimentaram-no, às quais ele obviamente não deu importância. Sua face
pálida permaneceu imóvel e séria.
MAOMÉ
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Sem rodeios falou imediatamente daquilo com que todos se preocupavam: a
libertação do jugo dos sírios, a anexação à Arábia.
-Amigos,clamou,se é verdade que se encontra entre nós um emissário do prín-
cipe Maomé, como Mussad diz, então que se apresente, para que possamos haurir âni-
mo e forças de suas palavras.Há meio século que apareceu o primeiro rasgo de esperan-
ça; o que antes chegou até nós com bonitas palavras apenas serviu para prejudicar-nos.
Estais lembrados ainda de Abu Talib? Ele era a favor da anexação à Arábia
e ao mesmo tempo nos proibiu de empreendermos um passo nesse sentido. Seus
amigos queriam encarregar-se de nossa causa junto ao príncipe. Estou convencido
de que nada disso fizeram. Agora, convido-te novamente, estranho: aproxima-te
para que eu te interrogue!
Com passos tranqüilos, Maomé caminhou em direção ao orador e colocou-se
na sua frente, de sorte que ficaram face a face. Apesar da simplicidade do traje, toda a
figura de Maomé, cada movimento, exprimia tamanha dignidade e nobreza, que so-
mente isso já irradiava estímulo sobre os oprimidos. O estranho devia ser pelo que jul-
gavam, um alto funcionário do governo; ele saberia responder. O orador, com os olhos
fixos em Maomé, começou:
- Não nos disseste teu nome, estranho. Basta-nos que Mussad tenha falado por
ti; confiamos em ti, mesmo sem sabermos teu nome. Dize-nos: conheces o príncipe
Maomé ben Abdallah?
Com grande expectativa centenas de olhos miravam o hóspede. Maomé sorriu.
Havia tanta bondade e amabilidade nesse sorriso, que por entre os espectadores passou
um sopro de alívio.
- Por certo conheço o príncipe dos árabes, disse a voz sonora de Maomé. Não
tinha nada desse som gutural dos árabes, mas sim soava como metal límpido.
- Sabes se ele se lembra de nós, que aqui sofremos miséria e opressão? Soou a
segunda pergunta.
- Ele pensa em vós e quer ajudar-vos! Anunciou Maomé em voz alta.
- Ele pensa em nós e quer ajudar-nos! Repetiram muitas vozes em esperança
jubilosa e admiração, conforme a índole de cada um.
Precisamente esse coro é que comoveu Maomé de tal maneira, que nem espe-
rou pela terceira pergunta, mas sim, volvendo-se para a multidão, começou a falar:
- Patrícios, árabes! Suportastes pesadas aflições, para que amadurecêsseis in-
timamente a ponto de colher a bênção que esses tempos difíceis encerraram para
vós. Tivestes de aprender que longe da pátria nunca florescerá uma felicidade verda-
deira. No entanto, seria errôneo se todos vós quisésseis agora voltar à pátria, a qual
não conheceis e a qual os vossos antepassados deixaram. Aqui estais aclimatados.
Porém, não temais que eu agora vos diga: permanecei no estrangeiro. Não! Não
podereis voltar à Arábia, porque lá não encontraríeis mais lugar, mas. . . - Durante
MAOMÉ
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segundos parou e passou a vista sobre a multidão, a qual, fascinada, concentrava
toda a atenção nele, ... mas a Arábia virá a vós! Este país que habitais, e que ape-
sar de todas as opressões se tornou para vós a terra natal, anexaremos ao nosso.
Uma Grã-Arábia deverá unir os países nos quais os filhos morenos da Mãe Arábia
ganham sua vida penosamente. De oprimidos deverão passar a habitantes felizes,
equiparados aos seus vizinhos.
- Por que não dominadores? Clamaram muitas vozes.
- Talvez também dominadores, admitiu Maomé. No entanto, seria errado
se partísseis do ponto de vista de querer agora causar-lhes aquilo em que pecaram
contra vós.
Um murmúrio elevou-se em volta. Maomé não pôde distinguir se era de
aprovação ou de censura, porém esperou calmamente. Sentiu como se lhe afluía
poderosamente a força que lhe fora prometida.
Respirou profundamente, porquanto essa força era quase subjugante. A
multidão, todavia, viu nisso um sinal de que ele queria continuar a falar. Voltou a
reinar silêncio.
- Amigos, escutai agora o que o príncipe Maomé bem Abdallah vos manda
dizer por meu intermédio.
Ele está disposto a livrar-vos do jugo dos opressores pelo poder das armas,
se não houver outro recurso.
Exclamações de júbilo interromperam-no. Durante segundos não pôde con-
tinuar a falar. Então, com a mesma rapidez, tornou a reinar silêncio.
- Mas pede-vos que não empreendais nada precipitadamente. Ele quer falar
pessoalmente com aqueles que entre vós foram até agora os chefes secretos. Em
combinação com eles, determinará o que deverá ser feito. Qualquer passo impru-
dente poderá pôr tudo a perder. Entendeis-me?
Aclamações afirmativas responderam.
- Príncipe Maomé tem plena certeza de que aquilo que se propôs a em-
preender, realizar-se-á, porquanto tem o auxílio de um poderoso aliado, o Qual
lhe deu ordem de dar esse passo. Também a vós Ele quer ajudar, contanto que vos
mostreis dignos disso. Esse aliado é Deus, o Senhor de todos os mundos, o Qual vos
criou, bem como a mim, os animais, as plantas e tudo o que vive, como também o
inanimado! Estende Sua sagrada mão sobre os homens, para que possam respirar
e se desenvolver, e não quer que ninguém seja oprimido injustamente. A esse Deus
Maomé obedece, e a esse Deus ele quer conduzir o seu povo, para que usufrua a
bênção que advém da fé em Deus e da Verdade.
- Escutai-o! Interrompeu uma voz trêmula, contudo penetrante. Ele fala a
pura verdade.
- Mussad, Mussad, o vidente, exclamaram os homens.
MAOMÉ
- 98 -
Abriram caminho para o ancião, que veio se aproximando apoiado num
jovem. Trêmulo, estendeu a mão quando se defrontou com Maomé. O príncipe viu
que ele era cego. As pupilas apagadas haviam perdido todo o brilho, não obstante o
rosto estava radiante, como se tivesse sido iluminado por dentro.
Estende-me a tua mão, estranho, pediu o ancião, e Maomé anuiu à sua
vontade.
Pegou a mão do ancião e envolveu os dedos magros e finos do mesmo com
sua mão quente e cheia de vida. Nesse momento o ancião curvou-se e beijou a mão
de Maomé com seus lábios murchos.
Isso causou surpresa à reunião. Aqui e ali surgiu um lampejo de compreen-
são. Foi desnecessária qualquer palavra de Mussad; seu gesto havia dito tudo.
“Viva o príncipe Maomé ben Abdallah!” estrondosamente, essa manifesta-
ção ecoou pela sala.
Toda a cautela fora esquecida. Os até então tristonhos foram tomados de jú-
bilo; alegria e coragem animava-os. Maomé queria falar, porém não lhe foi possível
tomar a palavra. Sempre de novo a grande alegria tinha de manifestar-se através de
ruidosas exclamações.
Finalmente levantou a mão. Mussad desejava falar.
Alguns homens ergueram o ancião em cima das caixas e seguravam-no,a fim de
que permanecesse firme em pé.E então sua voz começou a anunciar que o príncipe em
pessoa se encontrava entre eles, como garantia iniludível de que queria auxiliá-los.
Há anos, Deus, o Senhor, já se revelara a ele, Mussad. Daí provinham todas
as suas profecias. Sabia que a felicidade de todo o povo repousaria na crença que
Maomé traria por ordem do Senhor de todos os mundos.
Deveriam agradecer a Deus por ter-se compadecido deles. Deveriam escutar
o que iria ser anunciado sobre Ele e adorá-Lo como o Senhor e Auxiliador.
Maomé falou às pessoas ali reunidas, que o escutavam felizes. Anunciou o
Deus que outrora se revelara aos judeus e que prometera então a Sua bênção a todos
os povos que desejassem andar nos Seus caminhos. Falou demoradamente; então
os vigias, que estavam alerta, avisaram que a aurora estava rompendo. A reunião
dispersou-se apressadamente. Maomé recebeu convites de toda parte para hospe-
dar-se. Preferiu, entretanto, continuar na hospedaria; acompanhou, porém, os seus
primeiros conhecidos ao lar deles, para tomar a refeição matinal.
Os dias subseqüentes passaram-se em visitas à cidade e arredores. De cada
instante que os chefes secretos puderam aproveitar, serviu-se Maomé para falar so-
bre os seus planos e os deles.
Quando então estava tudo coordenado, foi convocada uma nova reunião, na
qual Maomé falou novamente de Deus.
Despediu-se e prometeu que em breve teriam notícias dele. Foi combinado
MAOMÉ
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que não se dirigiria mais aos sírios, porquanto cada tentativa de conseguir deles um
alívio para os árabes, provocava maior opressão sobre eles.
Durante a noite Maomé soube que estava em tempo de voltar para Yatrib.
Confiou inteiramente na direção de cima, de modo que nem ao menos tratou de ar-
ranjar uma montaria para o seu regresso. Sua confiança não o desiludiu. Enquanto
tomava a pequena refeição matinal, encontrou o cameleiro que o havia trazido.
- Soube que ainda estavas aqui. Se tens vontade de viajar para Yatrib, então
podes montar, senhor. O camelo que conheces está lá fora à tua espera.
No caminho Maomé deixou o cameleiro contar tudo o que soubera nes-
se ínterim. Meca apaziguara-se. A outrora florescente cidade se transformara num
montão de ruínas, onde cerca da metade dos antigos habitantes levava uma vida
amedrontada. Também outras cidades tiveram que sentir as represálias de Abu
Bekr. Em redor de Meca achava-se um círculo de localidades destruídas.
- E Yatrib? Perguntou Maomé.
- Yatrib está em plena prosperidade. Abu Bekr acampou com seus guerreiros
em redor da cidade, todavia foi supérfluo guarnecê-la. Esteve protegida pela fideli-
dade dos seus habitantes.
- És conhecido em Yatrib? Indagou Maomé, pois gostaria de ter algumas
notícias sobre os seus. No entanto, o cameleiro respondeu negativamente.
Ao cabo de muitos dias chegaram finalmente ao cinturão das guarnições ar-
madas. Ali Maomé gratificou o seu guia que imediatamente continuou seu caminho
com os dois camelos. Maomé perguntou por Abu Bekr. Acertou bem. O lugar onde
apeara ficava bem próximo do acampamento do vizir.
Admirados, os guerreiros examinaram o homem, em trajes simples, que tinha
a ousadia de querer comparecer diante de“Abu, o sanguinário”, como o chamavam.
- Quem és tu e o que desejas dele? Perguntou o chefe. - Chamo-me Maomé
e sou um amigo do vizir, soou a resposta.
- Nesse caso espera aqui fora, enquanto mando perguntar se ele quer te aten-
der. Entretanto, se ficar zangado por ter sido incomodado, então que a sua ira venha
sobre a tua cabeça, estranho, sentenciou o chefe da guarda.
Maomé teve de esperar muito tempo, até que escutou a voz de Abu Bekr.
- Onde está o homem que se atreve a usar o sagrado nome de nosso prínci-
pe! Vociferou, enquanto afastava com a mão o pano da entrada da tenda.
- Maomé é um nome muito comum. Muitos homens usam-no, retorquiu
Maomé, bem-humorado. Teria sido abusivo se me denominasse Abu Bekr; porque
este só existe um.
MAOMÉ
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O vizir deu rapidamente alguns passos adiante. Reconhecera a voz!
- Senhor! Balbuciou, e quis prostrar-se diante do príncipe.
Maomé no entanto impediu-o, enquanto lhe segredava que de modo algum
queria dar-se a conhecer. Abu Bekr dominou-se rapidamente. Convidou o hóspede
a entrar em sua tenda, após ter ordenado que trouxessem comida e bebida. Nesse
momento se defrontaram os dois, que durante dez longos anos não se tinham vis-
to. Olhavam-se e admiravam-se. Enquanto Abu Bekr constatava que Maomé não
parecia nem um dia mais velho do que naquele tempo, quando os deixara, Maomé
teve que reconhecer que Abu Bekr estava se aproximando da velhice. Os traços de
Maomé, que foram sempre nobres e de feição delgada, pareciam agora aureolados
de espiritualidade; um resplendor indescritível pairava sobre os mesmos. O rosto
de Abu Bekr era mais grosseiro, vermelho, inchado e marcado por uma certa cruel-
dade. Tanta coisa eles tinham a dizer, e contudo não puderam dizer uma palavra.
Enfim, o vizir quebrou o silêncio:
- Senhor, onde estiveste durante todos esses anos?
- Na escola de Deus, replicou Maomé com seriedade. Mais tarde contar-te-ei
sobre isso.
- Amanhã eu queria seguir para a Síria, a fim de exigir a tua entrega, disse
Abu Bekr sacudindo a cabeça.
- Para a Síria deverás marchar, meu amigo, assim que tiveres me escutado.
Não para resgatar-me, mas sim para libertar os árabes.
A noite inteira passaram juntos, palestrando e perguntando. Em atenção ao
desejo do príncipe, tudo o mais foi deixado de lado; apenas foi tratado dos árabes
oprimidos, aos quais deveria ser levado auxílio o quanto antes.
Maomé, no caminho, já soubera estar na vontade de Deus que Abu Bekr
deveria forçar a libertação dos árabes à mão armada. Por isso Maomé agora dava
ordens nesse sentido e encontrou em Abu Bekr a melhor boa vontade.
- Senhor, meus guerreiros e eu ficamos tão habituados ao ofício da guerra,
durante a tua ausência de dez anos, que nos enfastiamos quando temos que passar
algum tempo nos acampamentos. É bom que tenhas serviço para nós.
- Não vejas, porém, na tua tarefa, somente o derramamento de sangue, meu
amigo, disse Maomé. Poupa todos os que queiram entregar-se.
O vizir inclinou-se, porém sem responder. Em sua mente algo procurava
tomar forma, para o que não achava imediatamente uma expressão.
Então ele começou:
- É aconselhável, senhor, que permaneças incógnito entre nós. Perseverarei no
meu plano primitivo de exigir a tua libertação na Síria. Este será o motivo pelo qual
invadirei com as forças armadas o país vizinho. Disso decorrerão todas as demais
conseqüências. Agora devo pedir-te para guardar segredo por mais alguns dias.
MAOMÉ
- 101 -
Maomé achou que seria razão suficiente, se Abu Bekr declarasse na fronteira
da Síria que ele vinha para libertar os irmãos oprimidos.
O vizir, no entanto, argumentou que então começaria uma carnificina no
interior da Síria, a qual não lhe seria possível impedir. Então o príncipe não fez
mais objeções ao intento do fiel, que durante dez longos anos arcara com todas as
responsabilidades. No dia seguinte Abu Bekr se pôs em marcha com a maior parte
das suas forças armadas. Manteve seus guerreiros em excelente disciplina. Maomé
regozijou-se com a linha de conduta daqueles homens bem preparados, até que
lhe veio à mente o objetivo com que saíam. Uma pequena tropa permaneceu nos
acampamentos, sob as ordens de um chefe de confiança. Maomé passou mais uns
dias entre eles, sem dar a perceber a sua identidade. Quando supôs que Abu Bekr já
se encontrasse bem longe dali, pôs-se a caminho para Yatrib, Pediu que pusessem à
sua disposição um cavalo, o que, como amigo do vizir, não lhe podiam recusar.
Ao aproximar-se da cidade, e quando já divisava isoladamente alguns prédios,
viu à direita da estrada, sobre uma verdejante elevação, um pequeno palácio branco,
no meio de jardins floridos. A casa era de estilo tão leve e agradável, que dava a im-
pressão de que flutuava entre as copas das palmeiras levemente agitadas pela brisa.
- Realmente uma maravilha! Disse Maomé a meia voz. Podeis talvez infor-
mar-me quem mora naquele palácio? Dirigiu-se a alguns homens que faziam repa-
ros na estrada.
Eles levantaram os olhos e encararam o estranho.
- De onde vens que não sabes que essa residência é a das mulheres puras?
Perguntaram de sua parte, admirados com tanta ignorância.
- As mulheres puras? Admirou-se Maomé. Quem são elas?
- Assim denominamos a esposa de nosso príncipe prisioneiro e suas filhas,
porque elas levam uma vida imensamente pura e caridosa. Moram ali com pessoas
de confiança e servos!
- Ali e sua esposa também moram com elas? Perguntou o príncipe, cujo
coração começou a sentir uma grande alegria.
- Não, ele construiu lá atrás, um pouco retirado, um palácio, onde reside
com sua esposa e seis filhos varões.
Seis filhos varões! E a ele foi negado o herdeiro! Com certeza era da vontade
de Deus.
Agradecendo pela informação, fez o cavalo acelerar a marcha e logo depois
parou na frente das grades externas dos jardins do palácio.Viram a sua chegada; um
jardineiro veio ao seu encontro.
- Para onde queres ir estranho? Perguntou amavelmente. Aos homens é veda-
da a entrada aqui. Segue um pouco adiante, até aquela casa que surge ali atrás entre os
cumes. Lá reside Ali, o genro do nosso príncipe. Lá podes dizer o que desejas!
MAOMÉ
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- Tenho uma mensagem para a princesa Alina, a qual devo entregar-lhe pes-
soalmente, replicou Maomé.
O jardineiro,no entanto,retorquiu categoricamente.
- Se a tua mensagem é urgente, então lá podes comunicá-la à princesa.Ao meio-
dia ela sempre vai à casa de Fatime.Neste terreno não pisa nenhum pé de homem.
O príncipe viu que ali não podia fazer nada.Mesmo se revelasse a sua identidade,
seria duvidoso que o jardineiro, cumpridor dos seus deveres, o deixasse entrar.A ordem
de Alina era dominante.
Então cavalgou rumo ao palácio de Ali, onde encontrou o velho Mustafá, que
reconheceu imediatamente o seu senhor. A muito custo Maomé pôde impedir que ma-
nifestasse sua alegria com exclamações estrepitosas.
Finalmente o velho serviçal compreendeu que o príncipe não queria ser reconhe-
cido por enquanto. Fê-lo entrar no palácio por uma pequena porta lateral, e pediu-lhe
que esperasse ali num pequeno, mas lindo aposento. Iria chamar Fatime. Maomé ficou
sozinho por poucos minutos e experimentou a sensação de bem-estar que o cercou de
súbito. Sem dúvida, esse palácio era modesto e simples em comparação com aquele de
Meca, todavia a nada disso estava mais acostumado.
Nesse momento abriu-se a porta e um menino com cerca de seis anos entrou a
passos acelerados. Tão surpreso ficou, ao avistar inesperadamente um estranho, que se
esqueceu por que motivo viera.
- Que estás fazendo aqui, estrangeiro? Perguntou com voz sonora de criança.
Quem te deixou entrar?
Maomé olhava o menino e sentiu repentinamente que se acha ligado de algum
modo àquela criança. Deveria ser um dos seus netos; sentiu-o pelo amor que de súbito
impulsionava o seu íntimo. E esse amor irradiou dos seus olhos, atraindo o menino.
Arregalando os olhos cada vez mais, a criança aproximou-se lentamente do ho-
mem calado.
-Tu,tuésmeuavô!Exultouderepente.Chegastefinalmente?EusouMaomében
Ali,ainda não me conheces.Alegras-te por estares conosco?
- Menino, como me reconheceste? Indagou Maomé.
- Nos teus olhos,avô.E alguma coisa dentro de mim disse em voz alta:
“Este é o avô que estais esperando há tanto tempo”.
A porta abriu-se. Fatime entrou e Ali, atrás dela. Mustafá não lhes revelou quem
eraoestranhoquetinhatrazidoumrecado,masopequenoMaoméjubilavaaoencontro
dos pais.
- O avô está aqui, e ele tem os olhos que tu contaste mamãe! Os olhos cheios de
brilho celestial e de amor humano.
Após ter passado a primeira alegria, decidiu-se mandar chamar a princesa Alina,
mas o pequeno Maomé não deveria encontrá-la, para não assustá-la com a sua notícia
MAOMÉ
- 103 -
exultante.Também um choque de alegria poderia prejudicar a sua delicada natureza.
Entrementes Ali chamou os seus outros filhos; o mais novo deles tinha apenas
poucas semanas de vida.
- Maomé se parece mais contigo, príncipe, disse Ali. O nome é apropriado a ele.
Então veioAlina,que estava intimamente certa da alegria que a esperava.Há dias
tinha a convicção de que seu marido regressaria por essa época. Agradeceu a Deus, que
o protegera bondosamente.
Houve muito, muitíssimo a conversar, especialmente quando também Said se
reuniu a eles.Logo a seguir,Ali quis prestar contas das suas atividades; todavia o príncipe
pediu que por enquanto deixasse tudo correr pela rotina habitual.
Queria acostumar-se aos poucos.Talvez seria o mais acertado,se pudesse ser feita
uma divisão no trabalho: ele,Maomé,desejava dedicar-se,de preferência,inteiramente à
propagação da nova doutrina.
Aissoosoutrosseopuseram.Estavamconvictosdequeopovoacabariaexigindo
o seu príncipe. Maomé deveria permanecer príncipe; eles, porém, poderiam aliviar-lhe
os seus afazeres, na medida do possível. Instalou-se, então, na casa da cidade, que servira
por um tempo de morada à princesa e suas filhas.
Sempre tinha ainda em conta a hipótese de que viria a considerar Meca nova-
mente como sua cidade,apesar deAli ter-lhe relatado de uma maneira calamitosa a situ-
ação da outrora próspera capital. Por esse motivo também não quis saber da projetada
construção de um palácio para ele em Yatrib. Todo seu pensar girava em torno da nova
doutrina, a qual ele tinha permissão para trazer ao seu povo. Saindo de Meca, como
ponto de partida,queria disseminá-la em círculos cada vez mais extensos,através do país
inteiro. No entanto, teve que constatar que isso seria impraticável em vista da evolução
que o país tomara nesse ínterim. Lançou mão de um outro plano. Queria introduzir
obrigatoriamente a doutrina por meio de algumas leis rigorosas.
Faloucomosseussobreisso,eelesponderaramcomoseriamrecebidostaisman-
damentos. A grande massa do povo os receberia da mesma maneira como uma proibi-
ção de certos trajes, ou como uma determinação quanto à manutenção de escravos, a
qual tinha sido promulgada recentemente.
Os cristãos exacerbar-se-iam, enalteceriam sua crença e declarariam não poder
mais abandoná-la.Mas justamente esses cristãos tinham interpretado a Palavra do Filho
de Deus tão erroneamente, e reproduzido-a tão equivocadamente, que Maomé não la-
mentariasequisessememigrar.Interessou-semaispelosjudeus,querepresentavamcerca
da terça parte da população. Em assuntos de crença, metade deles podia ser comparada
aos adoradores de fetiches, isto é, não se importavam com Deus. A esses faria bem se
fossem forçados a meditar e a fazer um exame de consciência.A outra metade,ortodoxa,
somente poderia ser conquistada se reconhecesse Cristo como o Messias.Até esse ponto
Maomédeveriachegar.Entãoseriafácilconquistaropovoparaanovadoutrina.Maomé,
MAOMÉ
- 104 -
aliás,jamaisteveoutrointuitosenãoodelivrarojudaísmodetodososdogmashumanos
aderentes ao mesmo, e depois aperfeiçoá-lo mais. Assim começou a dar formas àquilo
que idealizara; inicialmente numa espécie de “mensagem ao povo”, que deveria ser lida
simultaneamente em diversos lugares:
“Um povo que por falta de aspirações mais elevadas, se preocupa somente com coisas
materiais, não tem direito de existir.
Dirigindo, porém, nossos anseios às alturas, então haveremos de encontrar Aquele que
criou tudo e que também dirige nossos destinos: Deus!
Deus é Deus, isto é, existe apenas um único Deus, que é o Supremo, o Eterno, o Todo-po-
deroso. Nenhum homem pode vê-Lo; no entanto, cada homem pode sentir a Sua vontade.
Sempre de novo este Deus enviou profetas e portadores da Verdade à Terra, os quais tive-
ram a missão de anunciá-Lo. Cada um deles foi agraciado com mais forças do que seus
antecessores, contudo, nenhum conseguiu persuadir os povos obstinados.
Abraão deu a seu povo um exemplo de fé viva. Ainda hoje é admirado, porém nin-
guém pensa proceder igual a ele. Moisés trouxe os próprios mandamentos de Deus:
quem os respeita?
Então Deus enviou à Terra o mais sublime portador da Verdade: Jesus Cristo, Seu
próprio Filho!
O que ele falou foi a Verdade límpida, foi a própria Palavra de Deus. Viveu essa Palavra,
enquanto peregrinou na Terra. Os homens não o compreenderam. Assassinaram-no.
Até agora ainda falam com gestos beatos do anunciado Messias, que deverá vir e ao qual
então quererão servir e obedecer. Não querem escutar que o Messias já veio há seiscentos
anos; pois, do contrário, deveriam confessar que pecaram contra ele tão gravemente, que
nenhum arrependimento pode repará-lo.
Vós, árabes, porém, escutai: Cristo é Filho de Deus e veio ao mundo para que a humani-
dade pudesse ser salva de seus pecados! Quis inflamar de novo todas as chamas da fé em
Deus para que a luz e a claridade penetrassem nos corações do mundo.
Fixai-vos a isso, até que vos possa anunciar mais. Pois eu, Maomé, sou igualmente um
profeta do supremo Deus! Sou o último na seqüência, não o mais poderoso, mas sim
aquele que veio por último.
Mas tenho permissão de anunciar Deus e Seu Filho Incriado Jesus Cristo! Ainda
mais: também tenho permissão de prenunciar Aquele que virá para julgar o mundo
com justiça e majestade!
O que vos anunciei, recebi de cima.
Que Deus me preserve para que eu jamais acrescente uma palavra que proceda do
meu próprio eu.
MAOMÉ
- 105 -
Agora, porém, digo-vos:
É meu mandamento, na qualidade de príncipe, que abandoneis a crença errônea! Todos
os templos, casas fetichistas e oratórios deverão ser fechados a partir do dia em que escu-
tardes esta proclamação. Ser-vos-ão construídos novos templos, consagrados unicamente a
Deus. Neles se falará a vós sobre a nova e legítima doutrina.
Todos os ídolos deverão ser queimados, porquanto os mesmos causam horror a Deus.
Jamais alguém poderá ver Deus; por isso também ninguém pode fazer uma imagem Dele.
Ele mesmo o proibiu nos Seus sagrados mandamentos!”
Essa proclamação Maomé leu pessoalmente em Yatrib, na grande praça públi-
ca,e pôde ver que a mesma impressionou a população.Entretanto,Yatrib fora adequa-
damente preparada pela atuação das mulheres puras. Isso seria diferente em outras
povoações.O príncipe esperava poder em breve enviar Ali e Said para promulgarem o
seu escrito, porém surgiram novas perturbações no país.Abu Bekr regressou da Síria,
onde, após breve luta, destituiu o príncipe do trono e fê-lo prisioneiro. Conduziu-o
em sua companhia,para que Maomé pudesse entrar em negociações com ele,caso lhe
aprouvesse. Árabes e judeus aclamaram os libertadores e colocaram-se ao lado deles.
Também a maioria do povo sírio sujeitou-se voluntariamente, porque estava farta da
dominação opressiva por parte do seu príncipe. Então o vizir dividiu o país em três
partes; em cada uma nomeou um administrador e colocou à sua disposição um nú-
mero suficiente de guerreiros, a fim de que lhes fosse possível, em caso de emergência,
impor a sua vontade à força. Isso, no entanto, não se tornaria necessário; porquanto o
povo subordinou-se de boa vontade ao novo domínio. Essas foram as boas notícias!
Maomé não ousou perguntar sobre as perdas que custaram a vitória.
Por outro lado teve o desejo de entrar o quanto antes num entendimento
com o príncipe, prisioneiro, da Síria. Ordenou que o trouxessem. Após grande de-
mora, compareceu Abu Bekr todo alarmado e comunicou que o príncipe prisionei-
ro suicidara-se. Fora-lhe deixada a espada, porque prometera não desembainhá-la
contra nenhum árabe. Agora ele arremessara-se contra ela. Com a morte do prínci-
pe terminou toda a resistência no país conquistado. Maomé pôde cogitar incluí-lo
na aplicação das suas leis para a nova doutrina.
Nesse ínterim os habitantes de Yatrib lembraram ao príncipe a sua promessa
de mandar construir-lhes um santuário. Com prazer se pôs a cumpri-la. A Caaba de
Meca, uma construção alongada de blocos de pedra, não poderia de modo algum ser
considerada como bela.Maomé quis edificar algo especial e por isso reuniu arquitetos
de diversas regiões, a fim de que lhe esboçassem plantas para a casa de Deus.
Certo dia, de manhã, Alina veio falar com seu marido: - Esta noite pude con-
templar uma esplêndida construção.Era redonda,com telhado abobadado.De todos os
lados penetravam os raios da luz diurna, através de janelas pintadas de várias cores.
MAOMÉ
- 106 -
Enquanto a esposa falava, também Maomé viu a construção diante de si, tão
nítida, como se a conhecesse já há muito tempo. Então pôde indicar aos constru-
tores, com precisão, como queria que fosse construída a casa consagrada a Deus.
Eles esboçaram os projetos, e o príncipe ficou muito contente; sua alegria e seu zelo
estimularam os outros, de sorte que a obra tomou um impulso vigoroso.
Por essa época ocupou-se com os seus apontamentos sobre a nova doutrina.
Deveria se tornar um livro idêntico às Sagradas Escrituras dos judeus, pensou. Ain-
da não tinha clareza completa de como iria desincumbir-se dessa tarefa; no entanto,
havia recebido ordem de anotar primeiramente tudo de que se tornara consciente,
através da intuição, durante seu longo estágio preparatório.
Assim fez, e quanto mais escrevia, mais lúcido ficava seu espírito. O que
até então para ele permanecia vago, patenteou-se dali em diante da maneira mais
clara, de sorte que apenas precisou esforçar-se para achar as palavras adequa-
das. Mas também isso não foi difícil. Elas afluíram-lhe. Dedicado e muito feliz
com essa tarefa, não percebeu, no entanto, que a sua volta se aglomerava algo
de tenebroso. Até que um dia compareceram os patriarcas da cidade de Yatrib à
sua presença para comunicar-lhe que a população judaica estava revoltada com
a construção do templo e tentou por diversas vezes perturbar os trabalhos. Na
última noite puseram fogo, que somente pela vigilância dos guardas ali postados,
foi possível apagar em tempo.
- Mas justamente aos judeus é que quero ajudar! Disse Maomé sem compre-
ender. Quero fazê-los ver que grande pecado cometeram, para que possam afastar-
se de seus caminhos errôneos.
Os patriarcas externaram o receio de que dessa mentalidade dos judeus po-
deria advir uma grande desgraça para toda a Arábia.
- Nesse caso quero falar-lhes. Fazei com que se reúnam amanhã à noite na
grande praça. Se eu lhes explicar acertadamente, então conformar-se-ão.
Embora aqueles homens nada esperassem dessa medida, não queriam imis-
cuir-se, e fizeram como lhes fora ordenado. Maomé, porém, levou sua intenção para
cima através de uma prece. Na noite seguinte dirigiu-se esperançoso para a reunião
dos judeus.
No caminho Maomé notou que um regular número de guerreiros estava
postado de prontidão nas ruas adjacentes. Quem ordenara isso? Não achou conve-
niente, porém não era mais possível desfazê-lo.
À hora aprazada começou a falar. A praça, parcamente iluminada com ar-
chotes, era imprópria, de sorte que o príncipe não pôde reconhecer as feições dos
que se encontravam reunidos à sua frente. Não sabia se escutavam ou se, contra-
riados, tramavam poder chegar a manifestar-se. Falou da maneira como se propôs;
singelo e afável. De início reinava um silêncio de expectativa; quando, porém, fez
MAOMÉ
- 107 -
alusão ao Messias, então ouviram-se alguns gritos reprimidos.
- O que sabe um árabe do Messias! Clamou uma voz, mais alta que as outras.
- Não esqueçais cidadãos,que meus pais eram judeus,esclareceu Maomé.Amo
a crença judaica e queria ajudar a desvencilhá-la da estagnação em que incorreu.
Resmungos soaram.
Continuou a falar firmemente. Disse que o novo templo seria consagrado ao
Deus que todos adoravam, o Eterno, Onipotente, que chamavam de Jeová.
- Mas nele cristãos e pagãos deverão rezar conosco. Nós o sabemos! Excla-
mou novamente uma voz.
- Não é da vontade de Deus, perguntou o príncipe em resposta, que todo o
povo se unifique numa única crença? E se essa crença pertencer a todos, não have-
rá mais cristãos nem pagãos, como também não haverá mais judeus. Todos serão
servos de Deus!
Uma crescente agitação se fez sentir. De repente voou de alguma parte uma
pedra que roçou a testa de Maomé.
Levantou a mão lentamente e passou-a sobre o lugar atingido. Então disse:
- Não procedestes direito, ó homens. Chego a vós com amor, e me respon-
deis assim!
- Queres ser tratado melhor do que o teu Messias? Bradou uma voz cortante
e escarnecedora. Pois dizes que também ele veio com amor e foi assassinado pelos
judeus. Cuida para que não te aconteça o mesmo, Ó falso portador da Verdade!
Nesse momento não houve mais o que os detivesse. Pedras voaram. Vozes
blasfemaram. Sozinho, Maomé enfrentou a turba, contudo, não teve nenhuma sen-
sação de medo. Sentiu-se forte; porquanto nele penetravam forças de cima. Cla-
mou em voz alta no meio do tumulto:
- Sede cuidadosos, ó homens! O que estais querendo fazer agora, poderá
trazer-vos conseqüências funestas!
Essa admoestação bem-intencionada foi recebida como uma ameaça por
aqueles que a escutaram. Isso fez aumentar a agitação. Subitamente um deles ad-
vertiu primeiro e então muitos repetiram o brado:
“Os soldados estão chegando!”
Assim foi. Das ruas adjacentes os guerreiros vinham machando na melhor
disciplina. Traziam nas mãos archotes, cuja claridade iluminava a praça como a luz
do dia. Então a coragem da corja não persistiu; correram para todas as direções, e
dentro de poucos instantes a praça estava vazia.
Maomé, porém, foi para casa atordoado.
Fizera alguma coisa errada? Não deveria ter falado a essa gente?
Abu Bekr apresentou-se; no entanto, o príncipe não queria ver ninguém an-
tes de levar sua mágoa diante de Deus.
MAOMÉ
- 108 -
Permaneceu ajoelhado durante a noite em oração, e procurou certificar-se
de que o seu caminho era o certo.
Enquanto isso, o horror grassava em Yatrib: Abu Bekr sabia bem certo onde
os judeus moravam. Desde muito já vinha observando o seu procedimento ardilo-
so. Agora, com os seus guerreiros, exterminaram os núcleos.
Não foram feitos prisioneiros! Foi uma horrorosa carnificina que o fiel fez
para proteger o seu senhor contra futuros ataques. Para ele foi conveniente que
Maomé não o recebesse; porquanto sabia, em princípio, que aquilo que acabara
de fazer não estava no sentido da orientação de Maomé. Todavia, Maomé era um
sonhador; um outro tinha de pensar por ele, sobre isso não tinha dúvidas. Mesmo
que Maomé ainda durante algum tempo não ocultasse sua desaprovação, os obstá-
culos tinham sido removidos do caminho para sempre. Até a madrugada durou a
matança; mais de quinhentos judeus sucumbiram.
Quem o comunicaria ao príncipe? Ninguém quis encarregar-se disso. Então
o vizir entrou pessoalmente na residência de Maomé. Nunca foi covarde. Quando
se defrontou com o seu príncipe, assustou-se com o seu aspecto. Suas feições es-
tavam pálidas e tresnoitadas; seus olhos, sempre tão radiantes, olhavam fatigados.
Contra o seu próprio costume, o vizir esperou que Maomé lhe dirigisse a palavra.
Este encarou-o demoradamente e então disse:
-Vens noticiar-me algo de grave,meu amigo,vejo-o.Contudo,não poderia ser
mais grave do que aquilo que tive de ver e sentir vivencialmente nessa noite. Fala.
Nesse momento Abu Bekr comunicou com poucas palavras como ele, in-
dignado com o atentado contra a vida do príncipe confiante, instigou os seus igual-
mente excitados guerreiros contra os judeus. Eles não puderam interrogar muito
sobre culpados e inocentes.
- Os covardes de qualquer modo teriam arranjado subterfúgios! Excla-
mou o vizir à sua maneira impetuosa.
Então continuou mais calmo e disse que, uma vez desencadeada a sede de
vingança dos seus guerreiros, não foi mais possível impedir a matança. Teve o
seu final somente com a morte do último judeu em Yatrib. Horrorizado, Maomé
tampou os olhos com a mão.
- Não é tenebroso, Abu Bekr, disse então vagarosamente, que eu lhes traga
a morte, que eles sejam assassinados em meu nome, justamente eu, que desejo
anunciar Deus aos homens, proporcionar-lhes felicidade, paz e bênção? Dize-me
se ao teu ver, depois do que aconteceu esta noite, eu mesmo ainda posso viver, e
se ainda posso ser um instrumento de Deus?
Pela primeira vez desde a antiga discordância. Maomé falou novamente
de Deus ao seu vizir, deixando-o visualizar sua alma. Entrementes, porém, Abu
Bekr também encontrara o caminho para Deus, se bem que à sua maneira algo
MAOMÉ
- 109 -
tortuosa. Implorou intimamente que lhe fossem inspiradas as palavras certas
para consolar o príncipe demasiadamente brando, e também enrijecê-lo.
- Príncipe, começou com cautela, queres escutar-me uma vez? Desejas e
deves trazer à humanidade a nova doutrina! Por que a humanidade necessita de
uma nova crença? Unicamente porque na antiga não achou apoio suficiente para
seguir o seu caminho sem tropeçar. A maior parte da humanidade decaiu tão
baixo no pecado, que todo o auxílio é inútil.
Maomé gemia; não interrompeu, contudo, o interlocutor. Este conti-
nuou:
- Imagino isto como um grande e profundo lodaçal, no qual os homens
caíram por desconhecimento do caminho ou pela própria vontade. Agora esten-
dem as mãos, não para se deixar puxar para cima, mas sim para arrastar os ou-
tros também para baixo. Assistirias impassivelmente, príncipe, a que também os
outros, até aqui inocentes, caíssem igualmente no lodo e tivessem que sufocar-se
ali? Não pegarias a espada para decepar as mãos malfeitoras? Esses homens te-
riam afundado assim mesmo, mas os outros estão salvos.
Os dois ficaram calados. Demoradamente prevaleceu o silêncio no apo-
sento. Suas almas concentravam-se em oração. O vizir rezou pelo seu príncipe, e
este pelo seu povo. Enfim Maomé rompeu o silêncio:
- Meu amigo, agradeço-te! Agora sei que sou fraco, aí, onde é necessário
uma severidade inexorável. Pedirei a Deus que me conceda forças para que possa
combater em mim essa fraqueza indigna de um homem. Foi-me revelado esta
noite que ainda correrá muito sangue até que o povo fique maduro para receber
a nova doutrina. Tu deves executar essa horrenda tarefa por mim, porquanto és
mais forte do que eu. Agradeço-te.
- Oh! príncipe, farei por ti tudo o que te seja difícil, contanto que não me
repreendas por isso! Jorrou do íntimo do vizir.
Sua fidelidade não conhecia outro meio de comprovar-se, a não ser o de
abrir caminho para o portador da Verdade. Os dois não puderam conversar muito
sobre os acontecimentos da noite; ambos estavam por demais comovidos com o
fato. Contudo, para Maomé não havia dúvida de que deveria falar com os patriarcas
da cidade. Mandou chamá-los.
Vieram abalados pelo temor. Os acontecimentos terríveis encheram-nos de
pavor. Estavam em dúvida sobre o que agora estaria à sua espera. Sério e amável, o
príncipe dirigiu-lhes a palavra. Lamentou terem sido necessárias medidas tão drás-
ticas. Isso foi tudo o que falou sobre o assunto. Em seguida perguntou como imagi-
navam a remoção e o enterro das vítimas. Não haviam ponderado nada a respeito.
Então ordenou que a uma certa distância, fora da cidade, fossem abertas algumas
valas, para nelas deitar os cadáveres. Fê-las ver, no entanto, que os mortos eram ir-
MAOMÉ
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mãos que erraram e que não deveriam ser enterrados como animais. Quando todos
os mortos tivessem sido deitados cuidadosamente nas valas, então deveria ser colo-
cada uma camada de terra sobre os mesmos. Em seguida ele viria para pronunciar
pessoalmente a bênção. Ordenou ainda que os guerreiros de Abu Bekr tomassem
posição em redor das covas para isolá-las, de maneira que nenhum olhar curioso
atingisse os mortos, e nenhuma palavra ofensiva fosse pronunciada em voz alta.
- Quando achais que podereis estar com tudo pronto? Indagou o príncipe. Os
patriarcas deliberaram entre si a meia voz, e então fixaram o dia seguinte à noite.
- Vamos carregar os cadáveres em carroças e tampá-las bem; assim podere-
mos removê-los sem muita demora da cidade, disseram.
O príncipe despachou-os, para que a triste tarefa fosse executada sem mais
demora. A Abu Bekr, porém, disse:
- O verdugo não serve para coveiro, eis por que não deixei que teus guer-
reiros ajudassem no sepultamento. Mas que se encarreguem de cuidar que as suas
vítimas não sejam escarnecidas ainda na morte ou prejudicadas por curiosidade.
Talvez isto sirva para que alguns deles reconheçam ter sido a sede de sangue o im-
pulso sob o qual agiram. O Juízo tinha que vir sobre aqueles que se haviam coloca-
do contra a vontade de Deus, porém ai da mão que se levantou somente para saciar
sua sede de sangue!
Admirado, o vizir olhava para o príncipe, o qual parecia ter se livrado de
uma vez de toda fraqueza. Então, viu-se compelido a dar expressão por palavras a
essa admiração.
- Meu amigo, disse Maomé, quando nós homens reconhecemos um erro,
assim como eu reconheci minha desditosa fraqueza, nesse caso falta apenas um úni-
co passo para que nós nos desfaçamos dele na força de Deus. Entretanto, devemos
implorar a força para isso.
À noite do dia seguinte, ainda antes do pôr-do-sol, Maomé estava de pé, na
beira das três covas que haviam acolhido os mortos. Pronunciou uma oração que
enterneceu a todos os ouvintes. Pediu a Deus que fosse considerado, caso isso fosse
possível, que a maioria desses homens fora conduzida por caminhos falsos. Então fez
ver aos sobreviventes que esses tiveram de morrer por sua causa,a fim de que também
eles não fossem arrastados igualmente ao abismo. Não deveriam maldizer as vítimas,
mas lembrar-se delas com íntima gratidão.Em seguida começou a falar ao povo sobre
Deus. As almas, ainda sob a impressão comovente dos acontecimentos, escutavam,
receptivas. Em muitos surgiu uma noção da grandeza e da majestade de Deus.Alguns
dias depois parecia que em Yatrib toda a inquietação estava esquecida. Cada qual tra-
tava dos seus afazeres, e a construção do santuário redondo progredia rapidamente.
Seguindo uma inspiração recebida de cima, Maomé quis exortar o povo a rezar cinco
vezes ao dia, regularmente, em horas bem determinadas. .
MAOMÉ
- 111 -
Desse modo, na faina diária, conservar-se-ia vivo o pensamento em Deus. O
teor dessas preces, em atenção a esse motivo, Maomé não quis prescrever. Pretendia
escrever para o povo poemas de louvor e agradecimento ao Criador, os quais então
poderiam ser utilizados por livre escolha. Inteiramente entretido nesses pensamen-
tos, relatou-os um dia aos seus. Todos os aprovaram vivamente. Pareceu-lhes bom
que à mesma hora, no país inteiro, devesse subir uma prece de todos os corações.
Porém Ali, que sempre ponderava a exeqüibilidade de uma idéia, antes de esta ser
debatida por inteiro, quis saber como poderia ser organizada, para que realmente
todos, à mesma hora, elevassem suas almas a Deus.
- Deve-se mandar proclamar a hora, refletiu Maomé.
- Então deverias mandar o convocador colocar-se em cima de algum telha-
do, príncipe, objetou Said. Parado na rua, não seria possível fazer-se ouvir.
- Constrói-lhe uma torre ao lado do templo, meu amigo, propôs Alina.
Essa proposta agradou a todos; especialmente Maomé fixou-se imediata-
mente nisso. Uma alta e delgada torre deveria ser construída, a qual teria de ser
erigida isoladamente, ao lado do templo. Como um dedo deveria indicar às alturas,
lembrando os homens, também na sua forma externa, daquilo que paira acima da
existência humana.
Alina desagradou-se do nome “templo” para o santuário. Desculpando-se,
disse que ele fazia lembrar os pobres judeus mortos.Também Ali insistiu em que fosse
procurado outro nome.A expressão“templo”exercia em toda parte um efeito irritan-
te sobre os judeus, os quais a utilizavam para denominar as suas casas de Deus.
- Então vamos adotar o termo árabe “moschee” (mesquita), opinou o prín-
cipe. Agrada-me já pelo fato de provir etimologicamente do nosso idioma e não ser
plagiado de ninguém. Mesquita, lugar de adoração, sim, assim será denominado!
Como Maomé daquela hora em diante falasse sempre mesquita, os constru-
tores e patriarcas habituaram-se a chamar assim o santuário.
Já há muito tempo o príncipe tinha vontade de ir a Meca. Precisava ver pes-
soalmente em que situação ficara a cidade. Caso fosse possível, desejaria instalar no-
vamente a sua residência lá. Provavelmente mandaria reconstruir desde a sua base
o palácio do principado. Mas o faria com prazer. Além disso, queria ver o tesouro
oculto e tirar pedras preciosas, as quais tencionava doar ao santuário de Yatrib. Ra-
zão suficiente para empreender uma cavalgada até Meca.
Abu Bekr inicialmente não quis ouvir nada disso. Sabia de que maneira hor-
renda os seus guerreiros devastaram Meca, e quanto dano causara a desunião entre
os burgueses. Queria poupar ao príncipe a visualização desse aspecto, contudo, este
MAOMÉ
- 112 -
não mais consentiu que se tomassem em consideração, de qualquer modo, os seus
sentimentos. Queria ver pessoalmente e tornar-se rígido. Então todos insistiram
em acompanhá-lo: Abu Bekr com um número considerável de guerreiros, Said, Ali
e Abdallah, filho mais velho de Ali. Alguns serviçais familiares deveriam igualmente
acompanhá-los, entre eles Mustafá, que, aliás, já era bem idoso e não obstante dese-
java fazer parte da caravana. Sabia que era indispensável na procura dos tesouros.
Numa bela manhã o imponente grupo saiu cavalgando pelo portal rumo
ao sul. Há quanto tempo Maomé não viajava mais por esse caminho! Pomares,
amoreiras e campos de cereais estendiam-se férteis diante dos cavaleiros. Se aqui
alguma vez foram travados combates, então os danos já tinham sido compensados
pela riqueza da fertilidade da natureza.
Passaram por pequenas povoações. Os moradores acorreram e souberam
que o príncipe Maomé chefiava o grupo, e ovacionaram-no. Aprazia-lhes ver como
ele montava com imponente e natural dignidade o seu cavalo. Regozijavam-se por
ser ele seu príncipe. No mais, pouco sabiam a seu respeito. Nunca lhes interessou sa-
ber quem os governava. Enquanto podiam viver em paz, era-lhes indiferente quem
dominava o país.
Ao fim de alguns dias o grupo chegou às adjacências de Meca, cujo portão
encontraram fechado. Abu Bekr, ameaçando, exigiu que os deixassem entrar, toda-
via zombaram deles.
- Prevenimo-nos bem, servo sanguinário de um senhor sedento de sangue,
clamaram para fora com riso irônico. Não nos prejudicarás mais.
Nesse momento o príncipe em pessoa pediu entrada. Depois disso houve
silêncio. Provavelmente as sentinelas não tinham sido prevenidas com instruções
para esse caso. Então fizeram sinal para que o príncipe esperasse. Precisariam cha-
mar os patriarcas da cidade.
Abu Bekr estava furioso. Como podia ser possível uma cidade comportar-se
dessa maneira perante o seu príncipe! Maomé procurou pacificá-to.
- Não deves esquecer, disse, que Meca sofreu muito. Eu estive ausente duran-
te dez anos. O povo não sabia se eu voltaria um dia. Possivelmente os guardas do
portão nada sabem sobre mim.
Também ao príncipe não agradou ficar esperando submisso na frente do por-
tão fechado. Deixou uma pequena tropa de cavaleiros no local e rodeou com os seus a
cidade, num largo círculo, para poder formar uma idéia sobre as devastações. Enfim,
Said percebeu uma agitação no portão e concluiu que os patriarcas da cidade estavam
reunidos ali.Maomé voltou vagarosamente com os acompanhantes.O portão perma-
neceu fechado como antes, mas sobre o muro surgiram muitas cabeças; um espetácu-
lo que provocou um sorriso involuntário do príncipe.Bem-humorado,aproximou-se
e cumprimentou os que olhavam por cima do muro. Então disse:
MAOMÉ
- 113 -
- Está em tempo de mandar abrir os portões para o vosso príncipe, que está
aqui para visitar-vos. É mau procedimento fazer o soberano esperar.
Contestando, replicou um dos patriarcas que conhecera Maomé em tempo
anterior:
- Quem te disse, príncipe Maomé, que és bem-vindo? Por muitos anos per-
maneceste distante de nós. Não estás mais gostando de Yatrib para te lembrares
finalmente de tua velha cidade natal?
- Não me foi possível vir antes, Ibrahim, retorquiu Maomé bondosamente.
Contudo, sobre isso vos darei informações, se nos próximos dias estivermos senta-
dos juntos, e eu também saberei de vós o que passastes nesse ínterim.
Em cima do muro nada se mexeu; o portão continuava fechado. Então Ma-
omé clamou em voz alta:
-Vosso príncipe encontra-se diante do portão, ó homens; o profeta do Altíssimo
deseja entrar na Caaba.Se vós vos opuserdes,então não devereis admirar-vos,se um cas-
tigo severo for a conseqüência da vossa teimosia.Ordeno-vos que abrais o portão!
Em cima do muro começou um murmúrio baixo, uma ponderação, uma
reflexão; então pareceu que o pouco antes chamado Ibrahim subiu mais alguns
degraus de uma escada encostada pelo lado de dentro, porquanto tornou-se visível
até os joelhos.Agitava um trapo branco em sinal de que não lhe deveriam fazer mal,
e começou a falar:
- Nós não temos...
Maomé interrompeu-o bruscamente:
- Guarda teu farrapo,Ibrahim! Falo aqui convosco sem um símbolo desses e sem
medo. Nisso deverias seguir meu exemplo.Ainda mais: falas em nome da cidade. O que
acontecer a ela deverá recair duplicado sobre ti. Pensa nisso, e não te lamentes quando
acontecer aquilo que vossa obstinação atrair sobre vós.
Ibrahim de fato atirou o trapo branco e desceu de novo alguns degraus da escada,
o que provocou irresistivelmente uma risada do jovem Abdallah, que observava com
grande atenção o desenrolar do acontecimento.
E então Ibrahim começou outra vez:
- Não temos mais nenhum príncipe.Desde que o príncipe Maomé deixou du-
rante a noite nossa cidade, para estabelecer-se em Yatrib, nós o depusemos. Nós somos
auto-suficientes e não necessitamos de soberano algum. O palácio dos Koretschi demo-
limos, e o que continha, repartimos entre nós. Podias ter ficado aqui, Maomé ben Ab-
dallah,se teu coração estivesse preso a essas coisas.Teu vizir sanguinário estrangularemos
como um cão, se ele nos cair nas mãos. Para ti, porém, o portão da cidade permanecerá
fechado. Também não necessitas ir à Caaba; tens a tua nova crença.Atém-te a ela!
-Agora basta! Esbravejou Maomé,que começava a enfurecer-se.Uma cidade que
não tem soberano está fora da lei. Não fiqueis alarmados se eu vos tratar corresponden-
MAOMÉ
- 114 -
temente. Acautelai-vos de enviar caravanas comerciais para fora, porquanto estas serão
interceptadas e presas. Com as vossas riquezas devereis garantir aquilo de que vos apro-
priastes indevidamente. Estabelecerei um firme encurralamento em redor da cidade re-
voltosa.Não tereis liberdade de movimentação na vossa prisão deliberadamente escolhi-
da. Deixai, entretanto, os vossos portões fechados, porquanto abri-los agora significaria
expor-vos a um perigo!
Esporeou o seu cavalo e saiu dali a galope. Seus acompanhantes seguiram-no,
formando um longo grupo bem disciplinado. Tinha uma aparência majestosa esse cor-
tejo, e aos homens de Meca, que eram legítimos árabes, agradou extraordinariamente o
procedimento de Maomé. Apesar disso, não quiseram ceder de modo algum, julgando,
aliás,ter motivo suficiente para rancor e vingança.
Assim que a cidade ficou além do seu campo visual, o grupo de Maomé parou.
Chamou os seus perto de si, para aconselhar-se com eles. Então foi decidido que Said e
Ali regressariam a Yatrib, a fim de buscar os restantes guerreiros. Maomé quis ficar com
as tropas de Abu Bekr e com ele vigiar os dois portões. Abdallah pediu insistentemente
parapoderficarcomoavôeacompanharodesenrolarulterior.Maoméalegrou-secoma
atitude de seu neto e anuiu ao seu pedido.Ainda à mesma hora partiram os fiéis,levando
consigo uma parte da criadagem, enquanto os guerreiros acampavam perto da cidade,
para que pudessem observar melhor o que se passava sobre os muros ou nos portões.
Tambémduranteanoitenãodescuidaramdesuavigilância.Nadaocorreunosprimeiros
dois dias.Os portões permaneceram fechados;sobre o muro foram penduradas peças de
roupa para enxugar.Abdallah resmungara que isso já estava ficando fastidioso,então,ao
meio-dia abriu-se cautelosa e furtivamente o portão. Abu Bekr ordenou que nenhum
dos seus se mexesse. O inimigo deveria julgar-se seguro. Do portão saiu um imponente
camelo, carregado de mercadorias, seguido de um segundo e um terceiro.
Maomé presumiu um ardil.
- Não é concebível,disse,que eles realmente experimentem enviar uma caravana,
apesar de estarmos acampados aqui.
Todavia assim foi.Uma considerável caravana de quinze camelos deixou a cidade
e dirigia-se em direção a oeste.
Rapidamente os guerreiros montaram nos seus cavalos, e enquanto a metade
tomava a dianteira para atravancar o caminho dos camelos, a outra metade tomava o
rumo entre a cidade e a caravana.Maomé mantinha-se afastado.Não se coadunava com
a dignidade de um príncipe capturar uma caravana comercial. Também não teria per-
mitido queAbu Bekr o fizesse,se não tivesse ele próprio ameaçado com isso.Agora tinha
que sustentar a sua palavra. Não levou muito tempo até que os vencedores voltassem.
Em obediência às instruções de Maomé, os guerreiros procuraram aprisionar os inimi-
gos sem matá-los. Arrastaram alguns feridos a ele. Orgulhavam-se de seu autodomínio.
Maomé elogiou-os.Então um dos homens mais idosos disse:
MAOMÉ
- 115 -
- Príncipe, chamaste-nos de carrascos, o que nos magoou profundamente.
Se o príncipe julgou inicialmente que a caravana se compunha de mora-
dores de uma outra cidade, que eram obrigados a retomar à sua terra natal, nesse
momento teve de certificar-se de que os habitantes de Meca se deixaram levar tão
longe pela sua teimosia, a ponto de enviar realmente uma caravana, que, além de
tudo, estava carregada ricamente. Maomé mandou vir os prisioneiros à sua presen-
ça. Não conheceu nenhum deles. Tremiam e estremeciam, de sorte que mal pude-
ram responder às perguntas.
Quis saber se eram comerciantes estabelecidos. Responderam negativamente.
Momentos depois ficou sabendo que se tratava de homens contratados, os quais por
causa do ganho arriscaram a sua vida. Dois comerciantes haviam feito a tentativa, para
ver se Maomé executaria efetivamente a sua ameaça de interceptar as suas caravanas.
- Por que deveria deixar de cumprir aquilo que eu disse? Perguntou o príncipe.
Os homens abaixaram as cabeças.
Os guerreiros, porém, regozijaram-se com a presa. Maomé mandou dar bas-
tante a eles; o restante, no entanto, deveria ser guardado para o caso de a cidade se
render em breve. Então deveria ser restituída aos comerciantes pelo menos a maior
parte de seus bens. Após ter conferenciado com Abu Bekr, Maomé mandou vir ou-
tra vez os homens de Meca à sua presença:
- Escutai, disse a eles, como sois apenas homens contratados, dou-vos a liberda-
de, se me prometerdes não empreender mais nada contra mim.
Isso eles prometeram de bom gosto. Depois disso receberam permissão para
regressar à sua cidade, porém sem os camelos. Lá, contudo, primeiro recusaram-se a
abrir os portões para eles.
- Não podemos saber quanto dinheiro Maomé vos ofereceu para atraiçoar-
nos, disseram os patriarcas.
Alguns homens juraram solenemente que não fariam nada contra a cidade
e que o príncipe também não exigiu semelhante coisa deles. Os demais eram muito
orgulhosos para humilharem-se. Voltaram a Maomé e pediram que os aceitasse a
seu serviço. Confiou-lhes o tratamento dos camelos. Tinham de se manter a certa
distância do acampamento e encontravam-se, sem que o soubessem, debaixo de
uma certa vigilância, até que deram provas de que tinham de fato intenções hones-
tas. De vez em quando o príncipe travava conversa com eles. Perguntava sobre este
e aquele, dos quais se recordava. Queria saber se o seu palácio paterno fora realmen-
te arrasado. Os homens responderam afirmativamente. Teria restado somente um
montão de ruínas. Disso, contudo, Maomé obteve a convicção de que o local onde
se encontrava o tesouro não fora descoberto. IInterrogou também sobre Abu Talib.
- Teu vizir sanguinário nada te contou a respeito dele? Perguntou um dos ho-
mens em resposta. Ele poderá informar melhor o que fez com ele.
MAOMÉ
- 116 -
- Então não vive mais? Indagou Maomé, se bem que sabia qual seria a resposta.
Os homens negaram e disseram que Abu Talib já tinha sido aprisionado por
Abu Bekr na primeira revolta. Então o homem teria praguejado tanto e, sobretudo,
blasfemado tão terrivelmente contra Cristo, que o vizir mandou pregá-lo sumaria-
mente na cruz. Maomé horripilou-se. Tal fim para um homem, a quem somente a
cobiça induziu a caminhos errôneos! E esse era o pai de Ali. Como foi bom que Ali
não soubera nada disso!
Mais cedo do que se esperava, vieram os guerreiros de Yatrib sob a chefia de
Said. Então Abu Bekr pôde tratar de continuar o cerco iniciado. Maomé regressou
com Abdallah.
Grande júbilo recebeu-o. Os ânimos exaltados sobre a carnificina acalma-
ram-se nesse ínterim. Os homens compenetraram-se de que os judeus haviam
cometido grave crime e que o castigo, embora severo, fora justo. Assim também
desapareceu neles o medo de Maomé, e quando souberam como Meca recebeu seu
soberano, insistiram de novo junto ao príncipe que elevasse Yatrib para sua resi-
dência. Construir-lhe-iam um suntuoso palácio. Concordou. Para o reino, com sua
nova extensão,Yatrib ficava bem mais favorável; além disso, poderia demorar muito
até que Meca, após todos os distúrbios, fosse recuperada.
Imediatamente foi dado início à construção do palácio. Os habitantes de
Yatrib competiam entre si para tomarem parte de qualquer modo na obra. Resolve-
ram que o palácio deveria ficar pronto simultaneamente com a mesquita.
-Nessecasotambémterásqueabandonaravidanopaláciodasmulherespuras,
disse Maomé a Alina, quando falaram do futuro. Ele não podia conceber outra idéia a
respeito senão a de estar reunido novamente com os seus, no palácio principesco.
A princesa, porém, sacudiu levemente a bela cabeça.
- Isso não mais será assim, meu amigo, replicou. Se queremos ajudar as mu-
lheres a recuperar a pureza perdida, então devemos dar exemplos, sobretudo quan-
to à vida nova que nasce da nova doutrina. Sabes que sou agraciada para ver certas
coisas, quando me surgem dúvidas sobre se aquilo que sinto intuitivamente é o
certo para minhas irmãs. Baseada numa dessas visões noturnas, mandei construir
o palácio, no qual podem entrar somente mulheres. Por essa razão também vedei
a ti, meu marido, a entrada. Gracejaste quando eu não quis permitir que visitasses
nossos aposentos. Efetivamente isso não foi um mero capricho meu.
Maomé interrompeu-a, admirado.
- Teria havido algum mal, se eu, o esposo e pai das ocupantes, tivesse percor-
rido o palácio? Perguntou, incrédulo. Alina pediu:
- Procura compreender-me. Dificilmente poderei exprimir por palavras
aquilo que está tão vivo no meu íntimo, e que, tenho certeza, é a verdade. Exte-
riormente isso não nos teria prejudicado. Porém, após eu ter introduzido como
MAOMÉ
- 117 -
exemplo a separação dos sexos, não deveria transgredi-la nem por um segundo.
Se nossas filhas e eu não respeitarmos o mandamento, as outras muito menos o
respeitarão. Vê, meu amigo, os homens desaprenderam a acatar-nos assim como
era da vontade de Deus. Nós próprias somos culpadas e nós próprias devemos es-
forçar-nos para modificar isso. Nós nos entregamos com demasiada liberalidade e
sem timidez aos homens. Também olhares podem tocar e macular! Essa é a razão
por que Fatime, as filhas e eu sempre usamos um véu cobrindo o rosto, ao andar-
mos nas ruas. Nenhum olhar de homem estranho poderá avaliar-nos. Se durante
os anos transformamos essa prática em hábito, então isso se realizou para que uma
vez um começo fosse dado. Espero e desejo que transformes em lei aquilo que até
agora apenas pude prescrever às mulheres do meu círculo de intimidade. Muitas de
nossas conhecidas já praticam os mesmos costumes. Sentimo-nos mais contentes
assim, do que em tempo anterior.
Cheios de admiração, os olhos de Maomé fitavam a princesa, cujo rosto de-
licado cobriu-se de um suave rubor durante o diálogo.
- Realmente, Alina, Deus teve as melhores intenções comigo ao destinar-te
para minha esposa! Disse cheio de gratidão. Auxiliarás as mulheres a regenerarem-
se da decadência. Com isso renovar-se-á toda a nossa geração; porquanto mulheres
puras serão mães boas e virtuosas.
- Posso dizer mais alguma coisa? Pediu a princesa após breve silêncio. Preo-
cupa-me muito o fato de que cada homem possa ter um número ilimitado de mu-
lheres. Com a primeira e a segunda talvez ainda se realize uma espécie de bênção;
depois então compram as demais, ou tiram-nas da criadagem para incluí-las em seu
domínio familiar. Isso em nada favorece a pureza. Sei que será errado exigir que os
nossos homens devam contentar-se com uma mulher. Onde, como conosco, ficou
negado o herdeiro, será admissível que o homem se una a uma segunda mulher.
Também outras razões podem ser determinantes. Porém, mais do que duas mulhe-
res nenhum homem deveria ter. Queres uma vez meditar sobre isso, meu amigo?
Maomé prometeu-o e pensou ulteriormente mais nisso do que gostaria.
“Como conosco”, havia dito Alina.
Não seria também sua obrigação tratar de ter um herdeiro?
Na verdade Ali era excelente sucessor, mas, bem considerado, Fatime não era
da mesma casta, pois era filha de Chadidsha. Disso poderiam advir complicações,
no caso de seu falecimento, se não existisse um verdadeiro herdeiro no trono, de
descendência principesca. Perdurou por alguns dias a incerteza, e então Maomé
soube que Deus lhe negara o herdeiro. Toda aspiração a esse objetivo seria em vão.
Dedicou-se com mais assiduidade aos seus poemas, os quais se tornaram para ele
uma necessidade íntima e proporcionavam-lhe grande prazer. E com tudo isso se
passaram mais dois anos.
MAOMÉ
- 118 -
Então veio a notícia de que os habitantes de Meca, irritados pelos sucessivos
aprisionamentos de suas caravanas comerciais, fizeram uma investida e passaram por
sua vez ao ataque. Perto da povoação de Bedr havia sido travada uma sangrenta bata-
lha, que durou alguns dias. O seu desfecho não teria sido decidido por muito tempo,
contudo, certo dia de manhã Abu Bekr fez uma oração em voz alta, em presença dos
guerreiros, para que o Senhor dos Céus e da Terra lhe concedesse a vitória, a fim de
que Maomé finalmente pudesse iniciar a propagação da nova doutrina. Depois disso
encorajou os guerreiros, e ainda antes do anoitecer a vitória estava conquistada. Os
homens de Meca tiveram que retirar-se em debandada para a sua cidade.
Abu Bekr consultou se deveria atacar e aniquilar a cidade. Maomé encarregou
Ali de entrar em negociações com Meca. Tão reduzido teria ficado o número dos
guerreiros aptos para o serviço de defesa, que a cidade certamente aceitaria quaisquer
condições.Não se enganou.Os moradores de Meca ficaram contentes de poder entrar
em concórdia. Com a promessa de absoluta fidelidade, foi-lhes assegurado que Abu
Bekr retiraria suas tropas.
Meca estava tão humilhada, que rogou que Maomé esquecesse o passado e
instalasse novamente sua residência em seu meio. Ali recusou cabalmente em nome
do príncipe. Em seguida pediram que o príncipe pelo menos viesse visitar a cidade e a
Caaba. Isso Ali achou que poderia prometer. Por sua vez os patriarcas conformaram-
se com a condição, naquele tempo usual em tais casos, de manter abertos os portões
por um determinado número de anos. Uma cidade subjugada não podia fechar ne-
nhum portão, até que se redimisse.
Maomé estava satisfeito com o resultado e preparou-se para visitar Meca. An-
tes, porém, fez uma alocução na praça principal de Yatrib e participou a todos os ha-
bitantes que a cidade dali em diante seria a capital do novo reino da Grã-Arábia.Nessa
qualidade não deveria mais chamar-se Yatrib, e sim ter apenas o nome de “a cidade”,
isto é, “Medina”. Assim ficaria elevada acima de todas as outras cidades. Essa seria a
recompensa pela fidelidade que os seus habitantes lhe haviam tributado em épocas
difíceis. Esperava agora também que“a cidade”se tornasse pioneira na aceitação e no
acatamento de todos os novos mandamentos, na moderação dos costumes e numa
vida melhor.
Em sua alegria os homens prometeram tudo e a maioria também estava com
o propósito de cumprir. Na verdade tiveram em mira principalmente vantagens ter-
renas. Se Medina se tornasse a capital, então se transformaria no centro de todo o
comércio e tráfego. Seu santuário atrairia igualmente os homens. Rica, grande e po-
derosa ficaria Medina.
MAOMÉ
- 119 -
Maomé cavalgou com Ali para Meca. Havia recebido ordem de cima para via-
jar logo a seguir para a Síria e a Palestina e então, após o seu regresso, promulgar as
novas leis e introduzir a nova doutrina. Enfim ele poderia iniciar a sua verdadeira
missão. Tudo o mais fora apenas trabalho preparatório. Grande alegria e sublime en-
tusiasmo encheram-no. Deixou Abu Bekr e Said em Medina e escolheu apenas uma
pequena tropa de guerreiros para acompanhá-lo, chefiados pelo seu neto Abdallah.
Assim que Meca surgiu ao longe, fez-se notar uma animada movimentação.
Abdallah lembrou-se da chegada de três anos atrás e receou que os homens pudes-
sem ter outra vez intenções hostis. Maomé acalmou-o. Vieram cavalgando pacifi-
camente para receber o príncipe e conduzi-lo à cidade deles, que doravante deveria
ser de novo a sua cidade fiel. Excederam-se em provas de arrependimento e dedica-
ção, mas Maomé sentiu que não eram sinceros. Não confiava mais nessa gente.
Com grande interesse olhava para os danos provocados pela discórdia e pela in-
surreição. De seu próprio palácio realmente não se achava mais nenhuma pedra no seu
lugar. O palácio principesco, que lhe servira de morada, estava parcialmente conserva-
do; apresentava, contudo, o indício de ter sido ocupado por outros que não príncipes.
A Caaba nada sofrera; apenas parecia indescritivelmente descuidada. Os pa-
triarcas da cidade queixaram-se de que o príncipe mandara construir um novo san-
tuário em Yatrib e que agora o deles seria relegado a segundo plano, esquecido. Ma-
omé, querendo poupar os sentimentos daqueles homens, prometeu-lhes mandar
construir mais tarde, também, em Meca uma mesquita. Eles, no entanto, deveriam
nesse meio tempo limpar a Caaba e consertá-la. O príncipe, porém, já não tolerava
a cidade, na qual se sentia constantemente rodeado por pensamentos falsos. Logo
que se lhe tornou possível, interrompeu a visita, prometendo voltar uma outra vez,
e cavalgou com o seu séquito para a Síria.
Essa viagem através dos territórios recém-anexados proporcionou a ele e a
seus acompanhantes uma alegria ilimitada. Em toda parte podia-se ver como cida-
des e povoações desabrochavam sob o novo domínio e com que prazer eles obede-
ciam ao príncipe.
Mais de dois anos Maomé percorreu essas regiões, anunciando Deus e Cris-
to, e preparando o chão nas almas para aquilo que deveria instruir-lhes mais tarde.
Cheio dessas belas e regozijadoras impressões, aproximou-se afinal de sua cidade
Medina, e encontrou-a num alvoroço muito grande. Recentemente haviam chega-
do tropas de guerreiros do sul para atacar Medina. Abu Bekr fora cientificado do
plano a tempo e saíra com os seus guerreiros ao encontro dos outros numericamen-
te superiores. E agora estava sendo travado o combate.
Maomé não hesitou muito; deu a volta ao redor da cidade sem demorar-se
e conduziu os guerreiros a Abu Bekr como reforço. Chegou no momento preciso.
Inicialmente a sorte das armas esteve ao lado de Abu Bekr. Então um subchefe exe-
MAOMÉ
- 120 -
cutou erradamente uma ordem, abrindo-se, conseqüentemente, uma brecha para o
inimigo, a qual ninguém mais pôde fechar, porque todos os guerreiros eram indis-
pensáveis em outros lugares.
Com um rápido olhar, Maomé compreendeu a situação e cavalgou com seus
acompanhantes para a brecha. Assim que os guerreiros avistaram o príncipe, reco-
braram o ânimo já abatido. Após poucas horas a vitória estava conquistada; o ini-
migo foi afugentado. Em grande parte contribuiu para esse resultado o sobressalto
que os homens de Meca sentiram ao ficarem cientes de que Maomé em pessoa se
encontrava no campo de luta. Julgavam-no ainda distante, em outras plagas. Nessa
hora ele próprio tornou-se testemunha da deslealdade deles!
Abu Bekr perseguiu com todos os guerreiros o inimigo em debandada. Tam-
bém não descansou antes de ter feito a maioria dos homens pagarem com a própria
vida a sua traição. Particularmente se encolerizou com o fato de os homens de Meca
terem encontrado apoio tão forte por parte dos judeus da zona meridional da Ará-
bia. Contra esses desencadeou toda a sua fúria. Não houve quem não caísse sob seu
braço vingador.
Maomé, porém, entrou cavalgando em Medina. Recebeu um leve ferimento.
Abdallah teve ferimentos mais graves; entretanto, recuperou-se brevemente, sob os
cuidados de sua mãe.
O príncipe teve de esperar primeiramente o regresso e as notícias de Abu
Bekr, antes de poder apresentar-se com as suas inovações. Isso se tornou para ele
uma dura prova de pacienciosa espera. Ele, que durante longos anos esperara pa-
cientemente, quase não podia, agora, superar essas semanas.
Finalmente Abu Bekr retornou com os seus guerreiros para casa. Contou
pouco da maneira como puniu os traiçoeiros, porém não deixou dúvidas de que
isso foi feito radicalmente. Os patriarcas e sacerdotes da cidade de Meca que não
tinham tombado em combate, mandou executar sem cerimônia. Os muros de Meca
mandou demolir e o palácio do principado fez arrasar até o chão. O que teria resta-
do da outrora orgulhosa e bela Meca? E esses sobreviventes teriam de pagar tributo
e assim, por alguns anos, não poderiam empreender nada. Isso a Maomé pareceu
severo demais.
- Por que exiges tributo desses pobres, meu amigo? Perguntou, compassivo.
Não precisamos de dinheiro.
- Desta vez devem sentir o castigo, e essa população de mercenários e comer-
ciantes somente o sente quando tem de entrar com dinheiro, retorquiu Abu Bekr
indiferentemente. Se não queres aplicar o dinheiro de outra maneira, então junta-o
para a mesquita, a qual queres mandar-lhes construir mais tarde.
- Essa é uma ótima idéia, alegrou-se o príncipe. Assim o santuário será cons-
truído com o dinheiro deles, expiando com isso a sua culpa.
MAOMÉ
- 121 -
Maomé, então, não viu motivo para protelar o início de sua verdadeira
missão. Como ato preparatório, retirou-se para uma tenda, que mandara erigir
perto de Medina, num lugar ermo, e jejuou e orou durante sete dias. Naqueles
dias não falou com ninguém a não ser com o mensageiro de Deus. Sagrada força
e importante saber para a nova doutrina afluíam-lhe. Incessantemente se pre-
ocupava com a maneira pela qual deveria trazer ao povo o novo, numa forma
que o mesmo aceitasse prazerosamente. Também nisso lhe foi dado auxílio. Viu
como o país inteiro poderia ser dividido, a fim de poder controlá-lo com mais
facilidade.
Na noite do sétimo dia regressou ao palácio principesco, tomou um banho
e mandou chamar Alina. Explicou-lhe seu projeto em traços gerais e pediu-lhe
que complementasse sempre aí onde teria de ser incluído um mandamento ou
uma determinação para as mulheres. Assim trabalharam os dois a noite toda.
Somente então quebrou o jejum, tomou uma refeição e deu um passeio pelo
jardim.
Depois disso mandou chamar Abu Bekr, Ali e Said para ministrar-lhes as
determinações mais importantes sobre o novo reino. Dividiu a Grã-Arábia em pro-
víncias, colocando em cada uma delas um administrador. Este não deveria apenas
governar a província como seu procurador, mas sim, ao mesmo tempo exercer as
funções de mais alto zelador dos bens espirituais. Esse projeto fora elaborado nos
últimos anos em seus mínimos detalhes e recebera há pouco tempo apenas comple-
mentação e confirmação de cima.
Os três fiéis admiravam a profunda sabedoria que aí se lhes revelou. Pre-
videntemente Maomé escolhera para administradores somente aqueles homens
que demonstraram ser fiéis, como também não deixou de levar em consideração,
na escolha, que fossem descendentes da zona para cuja administração tinham sido
convocados.
Foi demonstrado que Maomé, o qual Abu Bekr em sigilo sempre ainda cha-
mava de“o sonhador”, caminhava pela vida com os olhos abertos, e que sabia muito
mais do que os outros supunham. Teve conhecimentos exatos sobre a conduta dos
moradores de cada província, sobre suas necessidades e sobre seus costumes.
Após terem sido indicados os administradores, em número de vinte e sete,
mandou Maomé mensageiros a todos eles, para que se reunissem num determinado
dia em Medina. Nesse meio tempo combinava com os seus os mandamentos que
iria publicar e as teses doutrinárias que iria anunciar.
E de novo os surpresos acharam um firme encadeamento, no qual não faltou
nenhum elo. Uma bem-pensada integração, a qual deveria entusiasmar a todos os
bem-intencionados.
- Realmente, príncipe, exclamou Ali encantado, aqui devemos reconhecer
MAOMÉ
- 122 -
que teu espírito é guiado por Deus! Coisa semelhante nenhum homem pode pro-
duzir. É perfeito.
Os outros aprovaram e esforçaram-se para captar direito tudo quanto Ma-
omé lhes quis anunciar. Era muito o que eles tiveram de aprender, mas resultou
tão nitidamente uma coisa da outra, e nada fora posto arbitrariamente, que, para
surpresa sua, notaram como puderam assimilar logo o novo.
Então veio o dia fixado para a reunião. Todos os administradores escolhidos
compareceram pontualmente, na ansiosa expectativa de saberem por que o prínci-
pe mandara chamá-los. Foram alojados com o necessário conforto em grandes ten-
das feitas de tecidos de seda, as quais haviam sido levantadas para esse fim. À noite,
na sua chegada, foram estimulados a tomarem banho; depois todos receberam ves-
tuários iguais, de várias cores: calças largas feitas de tecidos coloridos, estreitadas
embaixo; camisas brancas folgadas com mangas compridas e largas, e sobre estas
um colete bordado, da mesma cor da calça. Sobre o colete foi fixada uma cinta, da
qual pendiam as armas: espada, punhal e faca.
Foi servida uma copiosa refeição em todas as tendas, e os servos aconselha-
vam que todos se servissem à vontade, porquanto o dia imediato seria de jejum. Isso
era novo para todos.
Na manhã seguinte, justamente nesse dia de jejum, Maomé mandou chamar
os vinte e sete na praça principal de Medina, onde estava esperando com seus três
fiéis. Tiveram que tomar posição em forma de círculo com a fronte dirigida para
o leste. Após isso, o príncipe pronunciou uma longa oração, na qual agradeceu a
Deus, o Senhor, pela Sua graça e pelo Seu auxílio.
Sentaram-se no local em que se encontravam. Maomé sentou-se no meio
deles e dirigiu-lhes a palavra. Esclareceu que os convocara para propagarem a nova
doutrina entre o povo. Isso, porém, não deveria ser efetuado mediante peregrina-
ções e tentativas de conversões, mas sim, cada um deles recebe-ria uma comarca,
na qual, como mandatário com poderes circunscritos, cuidaria do bem-estar do
povo, sendo sua incumbência principal a introdução da nova doutrina. Isso seria
possibilitado pelos mandamentos redigidos pelo príncipe, em conformidade com
a vontade de Deus, e cujos mandamentos também os administradores teriam que
cumprir integralmente. O não cumprimento acarretaria um castigo severo.
Após, exigiu que se retirassem às suas tendas e meditassem para adquirir
certeza se estavam dispostos a aceitar a investidura. Aquele que se julgasse incapaz,
poderia desistir.
Quem quisesse seguir o chamado, deveria apresentar-se à noite, antes do
pôr-do-sol, na mesquita, para prestar juramento de fidelidade. Até lá deveriam abs-
ter-se de qualquer alimento.
Admirados, os homens obedeceram e retiraram-se para as tendas, onde per-
MAOMÉ
- 123 -
maneceram até a noite. A maioria deles deitou-se sobre as camas e ficou absorta em
sonhos; não sabiam, com efeito, como deveriam começar a “meditação” de modo
diferente. Entretanto, todos estavam possuídos de um sagrado zelo e de boa von-
tade; nenhum deles cogitava em não aceitar o cargo. O novo traje deu-lhes, ante si
mesmos, uma certa dignidade, que os tornou felizes. À noite, ficaram parados na
frente da mesquita, que foi aberta ao som de cânticos solenes de vozes masculinas,
que soavam do interior. Foi-lhes permitido entrar, e ficaram admirados. Coisa idên-
tica nunca haviam visto! Assim deveria ser nas alturas, acima do mundo! A ampla
cúpula estendia-se sobre a penumbra; porquanto a claridade das tochas, das velas,
das lamparinas suspensas e dos incensórios acesos entre as colunas, não penetrava
bem para cima. O chão estava coberto de tapetes coloridos. Os devotos puderam
ficar de pé sobre os mesmos, após terem tirado os seus calçados na porta de entrada.
No lado leste fora construído um nicho, no qual se apresentou Maomé. Era natural
que todos estivessem numa posição em que pudessem vê-lo.
Então, a voz juvenil de Abdallah, que estava situado num lugar mais alto, no
meio,leuumhinodelouvoràonipotênciaebondadedeDeus.Soavaevibravapeloam-
biente solene e emocionou as almas poderosamente. Tiveram a sensação de estar sendo
levados para planícies de bem-aventurança. Nunca haviam presenciado tal evento! A
maioria deles até então não tinha crença nenhuma; uns eram cristãos e alguns judeus.
Todos, no entanto, sentiram que lhes fora dado algo de novo e melhor. Então Maomé
começou a falar.Pediu-lhes que cada um por si se apresentasse diante dele,para,ao pro-
nunciar o próprio nome,prometer que queria servir a Deus como seu supremo Senhor
e Soberano e executar Suas ordens.
A fim de que soubessem como deveriam fazê-lo, aproximou-se primeiro Ali e
disse com voz gutural, mas claramente audível:
-AlibenAbuTalibprometeserviraDeuscomoseusupremoSenhoreSoberano
e cumprir os Seus mandamentos!
E Maomé respondeu:
- Ali ben Koretschi, sê regente do reino, em meu lugar! Abu Bekr foi nomeado
grão-vizir e chefe do exército; Said para vizir, encarregado das finanças e administrador
de todos os escritos.
A cada um que então se aproximou, Maomé citou a província que teria de go-
vernar como administrador, e todos notaram com alegria que era justamente na pró-
pria terra natal de cada um que deveriam viver dali em diante como servos de Deus.
Por último aproximou-se AbdaIlah, que se tornara um moço de bela aparência.
- AbdaIlah ben Ali, a ti, Deus ordena que sejas orador no santuário, como
foste hoje!
Em seguida Maomé pronunciou uma fervorosa prece, na qual implorou a bên-
ção do Altíssimo sobre os trinta e um servos. Um coro de homens encerrou a solenida-
MAOMÉ
- 124 -
de.Após, dirigiram-se ao palácio principesco, onde os esperava uma refeição suntuosa,
servida em mesas compridas.
O príncipe andava no meio dos seus hóspedes, convidando-os a se servirem na
mesa e travando conversa ora com um, ora com outro. Queria fazê-los perder o emba-
raço e, ao mesmo tempo, conhecê-los melhor. Quando notou que alguns não tocaram
na bebida,nos sucos de frutas,no leite ou no chá,então disse em voz alta a todos:- Estais
admiradosdequeovossopríncipenãotenhavinhoparaoferecer-vosetambémnenhu-
ma outra bebida que estimule os sentidos. Dizei, amigos, a alegria que sentis a respeito
de vosso alto cargo, não é mais estimulante do que uma boa bebida embriagante, que
turva vossos sentidos e vos leva a atos dos quais mais tarde tereis de arrepender-vos?
Todos concordaram, tomados involuntariamente pelas suas palavras.
- Vereis que as novas leis interditam para o futuro o uso de bebidas embria-
gantes, meus amigos; porquanto o homem deve ser senhor dos seus sentidos, se
quiser viver na vontade de Deus.
Estavam perplexos, mas não resmungaram. Nesse dia souberam inesperada-
mente tanta coisa nova, que quase não mais puderam assimilar nada.
Após o banquete, o príncipe despediu-se dos administradores e convidou-os
a comparecerem no dia seguinte novamente no palácio, não para comer, mas sim,
para receberem instruções. Deveriam a partir desse dia comparecer diariamente
para ficarem bem seguros daquilo que teriam de ensinar aos outros.
Essa doutrinação começou com a tentativa de Maomé de fazê-los formarem
uma noção sobre a acepção de “Deus”. O que mais lhe importava era convencê-los
de que existe somente um único Deus e que esse Deus criou o mundo todo, do qual
é o Senhor. Esse Deus, porém, não deveria ser considerado como um injusto e cruel
soberano, mas sim como um Pai bondoso e magnânimo para com aqueles que vivem
de acordo com a Sua vontade. Para os demais Ele seria inexoravelmente severo.
Por meio de perguntas certificava-se de vez em quando se os seus ouvintes o
compreendiam. Em seguida deixou uma vez um e outra vez outro discorrer sobre
o aprendido, fortalecendo com isso neles o saber. Por fim exigiu que narrassem
provas da existência de Deus, de Sua bondade e justiça, colhidas de suas próprias
experiências. Em cada árabe dormita um narrador. Com surpreendente facilidade
desempenharam-se dessa parte de suas tarefas.
Então Maomé, baseando-se na história de Israel, fê-los ver como Deus se
revelou ao povo escolhido e como o conduziu. Aludiu, outrossim, aos profetas. Isso
despertou grande interesse e foi fácil de ser compreendido. A instrução até o mo-
mento já durava mais de duas semanas. Ninguém, no entanto, enfastiara-se.
Após ter narrado a depravação humana, Maomé anunciou a graça Divina que
repousava na missão do Filho de Deus. Aqui encontrou as mais afetuosas palavras,
que jorravam do seu íntimo com base nas suas próprias experiências vivenciais.
MAOMÉ
- 125 -
- Não se deveria supor que ele conheceu Cristo? Perguntaram-se depois os
homens.
Todos estavam tão comovidos, que não fizeram objeções. Judeus, cristãos e
pagãos adoraram no íntimo da alma o Filho de Deus, Cristo. Ele uniu-os a todos.
Fê-los servos do seu santo Pai.
E Maomé continuou a ensinar. Falou do grande Juízo que viria sobre o mun-
do inteiro. O Filho de Deus, como Juiz dos mundos, condenaria os homens ou os
conduziria ao reino de seu Pai. Cristo fora a encarnação do Verbo Divino aqui sobre
a Terra; o Juiz dos mundos será a Vontade de Deus. Mas apesar de Deus se manifes-
tar aqui na Terra através dos Seus Filhos, todos três são somente “um Deus”; uma
trindade na unidade.
Sempre de novo tornou a explicá-lo. Absorveram-no, mas o seu raciocínio não
podia assimilá-lo. Então Maomé pediu que deixassem o raciocínio de lado e procuras-
sem tornar vivo em seu íntimo o mistério Divino.
Após ter resumido a nova doutrina em amplos traços diante deles, passou a
adorná-la com pormenores. Tornou evidente que, assim como Deus, o Senhor prepara
para servos os homens que Ele convoca a Seu serviço e os manda instruir, da mesma
forma tem Ele, em outros reinos, que estão ocultos aos olhos humanos, servos cujo
número ascende a legiões.
Chamou-os genericamente de “anjos”, porque julgou que os homens assim o
entenderiam melhor. E fez esta distinção entre os anjos: grandes e pequenos, auxiliado-
resterrenoseauxiliadoresespirituais,masculinosefemininos,egrandessantos,osquais
têm permissão de permanecer eternamente em volta do trono de Deus.Anjos seriam os
ventos e as chamas, anjos guiariam os animais e os homens; serviriam a Deus em todos
os acontecimentos.
Isso todos compreenderam; inspirava suas almas. Amavam tudo o que lem-
brava lendas fabulosas, e as narrações sobre os seres angélicos eram mais belas do
que todas as lendas.
Com base nisso Maomé tentou insuflar-lhes um profundo respeito por tudo o
que foi criado, sejam homens, animais ou plantas, pedras ou águas. Ensinou-lhes que
todos aqueles que ofendem uma criatura de Deus têm de passar pelo mesmo sofrimen-
to causado ao outro. Demonstrou-lhes isso por meio de inúmeras exemplificações, e
acharam tais conexões em experiências pelas quais eles próprios passaram. Então quis
falar sobre as consecutivas encarnações dos homens sobre a Terra,porém na noite ante-
rior recebera ordem de omitir isso ainda, porquanto os homens não estariam suficien-
temente preparados para compreendê-lo.
Com o encerramento da doutrinação, limitou-se portanto a participar-lhes que
tudo aquilo que lhes disse estaria escrito no livro da divulgação, o Corão. Esse livro
deveria tornar-se para eles a coisa mais importante neste mundo. Deveriam rezar, com
MAOMÉ
- 126 -
fervorosa devoção, um a um os versetos, durante sua vida toda, para dessa maneira
poderem compenetrar-se interiormente do seu sentido.
Esse encerramento foi seguido por uma grande festa na mesquita, que foi cele-
brada, com pequenas interrupções, durante dois dias. Então Maomé interpretou para
os administradores os mandamentos, que foram aceitos por eles.
A lei suprema era obedecer a Deus e à vontade de Deus. Em segundo lugar co-
locou-se a obediência às autoridades terrenas. A fim de que pudessem viver sempre na
vontade de Deus e na Sua sagrada presença, foram determinadas cinco orações por dia,
para as quais os“muezins”,os anunciadores,teriam de conclamar do alto dos minaretes,
ou, onde não houvesse um, em outro lugar elevado. Ao contrário de suas primitivas
determinações, Maomé estabeleceu o texto das curtas orações, em atenção ao fato de
que os homens vieram repetidas vezes para se queixarem de que não sabiam o que e
como deveriam rezar.
Ao fazerem essas preces, os devotos deveriam colocar-se de pé sobre um tapete,
o qual lhes oferecia um livre substitutivo para a mesquita. Eis por que deveriam ter esse
pedacinho de tapete sempre consigo. Estariam assim sobre um solo sagrado, onde quer
que se encontrassem.Além disso, deveriam dirigir sua fronte para o leste, ao orarem.
- Do leste vem a Luz; vós o vedes pelo sol, aduziu Maomé elucidando. Abri-vos
à Luz, a qual vos quer iluminar, e olhai em sua direção.
Antes de cada oração, o devoto deveria lavar o rosto e as mãos, e se possível,
também os pés.Da mesma forma,deveriam ser feitas abluções antes das refeições.Essas
abluções do corpo deveriam lembrá-lo de que a pureza da alma é condição indispensá-
vel para o cumprimento da vontade de Deus. Essa pureza estendia-se também em rela-
ção ao respeito que o devoto deveria manifestar perante as mulheres. Criada por Deus,
o Senhor, mais delicada, foi a mulher colocada na vida para servir de ornamento a essa
vida, como a flor ao jardim. Com veneração o homem deveria olhar para as mulheres.
Seria preceituado, dali em diante, que em toda parte as mulheres e as moças deveriam
ocupar aposentos separados e, onde fosse possível, até casas separadas. Nenhum ho-
mem deveria entrar em aposentos habitados por mulheres ou moças. Também para as
mulheres casadas seria preceito habitar aposentos aos quais teriam acesso unicamente
mulheres. Ela poderia, se quisesse, visitar o marido; este, porém, não poderia visitá-la.
Ao sair de casa,a mulher deveria usar um véu que cobrisse seu rosto e,preferencialmen-
te, toda a sua figura. Não deveria apresentar-se em praças públicas. Na mesquita seriam
celebradas festas especiais para as mulheres, porquanto não poderiam participar das
solenidades comuns.
O casamento deveria ser abençoado pelo encarregado da mesquita. A ne-
nhum homem seria lícito ter mais de quatro mulheres.
Para arrancar o povo da ignorância e do distanciamento de Deus, seriam
construídas mesquitas em todas as cidades com regular número de habitantes, e a
MAOMÉ
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cada mesquita seria anexada uma escola pública, que teria de ser freqüentada por
todos os rapazes. Deveriam também ser instalados reservatórios de água e grutas
para as abluções, como também deveriam ser construídos balneários e hospitais.
Para os pobres e inválidos teriam de ser instalados refeitórios gratuitos. Tudo
isso seria em benefício de todos, mas custaria muito dinheiro. Por esse motivo
Maomé determinou que cada fiel contribuísse com um décimo dos seus ganhos
como imposto. Essas somas seriam então aplicadas na construção e manutenção
das citadas instituições. Cada administrador de província teria que empregar em
cada cidade e em cada povoação um ou mais funcionários, os quais teriam de
zelar pelo pagamento pontual desse imposto. Como fora instituído segundo a
vontade de Deus, cada fiel que deixasse de pagar, tornar-se-ia, assim, culpado
perante Deus.
Esses foram os primeiros mandamentos que o príncipe Maomé, ou, como
dali em diante desejou que o chamassem, o profeta de Deus, deu ao povo.
Quando todos os administradores provinciais os compreenderam, pude-
ram fazer perguntas e externar sua opinião a respeito. Demonstrou-se, no entan-
to, que todos estavam tão bem enquadrados em suas atribuições, que ninguém
soube objetar qualquer coisa. Depois de terem ficado reunidos quase quatro
meses, a reunião finalmente chegou ao término. Muitos dos homens tinham-se
transformado; ficaram mais sérios e maduros. Todos se despediram com o firme
propósito de serem verdadeiros servos de Deus, com vontade firme.
E o país permanecera calmo por todo esse tempo! Parecia um milagre. Ma-
omé sabia que os servos invisíveis de Deus, os anjos, cuidavam disso, e agradeceu
a Deus de todo o coração.
Tornou a dedicar-se a sua família e soube que a mesma tinha sido aumen-
tada com mais uma menina.
Alina acolhera em seu lar a filha de Abu Bekr, ao encontrá-la descuidada e
definhando na sua casa abandonada. Abu Bekr cedo perdeu a esposa e não encon-
trou tempo para casar de novo.
Lembrava-se raras vezes de sua única filha, sem mãe; também quase nunca
chegava ao seu lar. Se alguma vez se achava em Medina, aí preferia ficar em com-
panhia dos seus guerreiros no acampamento, a procurar sua casa deserta.
Aischa, sua filha, era uma menina singularmente bela, a qual em nenhum
traço tinha semelhança com seu pai. Devido a sua infância aflitiva, tinha algo de
acanhado e deprimido em sua índole, e que começou a desaparecer sob a influ-
ência das filhas de Alina.
A mensagem de Cristo, assim como as três moças lhe sabiam transmitir,
ela recebeu com alma sôfrega, e não conhecia coisa melhor do que retransmiti-
la aos outros. Com isso procurou de preferência os desamparados. Alegremente
MAOMÉ
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também simpatizou com Maomé, quando ora uma, ora outra das filhas a levava
junto, à noite, em suas visitas ao pai.
Este se conformou com o desejo de Alina de não chegar no palácio das mu-
lheres; em compensação, estas vinham sempre que ele tinha tempo para elas. Algu-
mas vezes lia para elas em voz alta ou falava da nova doutrina, outras vezes tinham
de animá-lo com conversas ou com música. Tinham instrumentos de corda e sa-
biam tocá-los com destreza. Acompanhavam a música, cantando separadamente
ou em coro.
Quando alguma vez, no meio do dia, Maomé tinha o desejo de descansar
ou de se distrair, procurava o palácio de Ali, onde seus seis netos sempre o cum-
primentavam com gritos de alegria. Sobretudo o jovem Maomé era-lhe afeiçoado
e contava as semanas que faltavam para seu avô cumprir a promessa de admiti-lo
em seu serviço pessoal.
Ibrahim, o segundo, era um rapaz quieto e retraído, que vivia seu cami-
nho solitário. Afeiçoou-se a Maomé, mas também perante este mostrava-se tímido,
apesar de todo o amor. Ainda não sabia o que desejava fazer de sua vida no futuro.
Estudou porque lhe fora exigido, mas não por íntima vocação. Quando Ali lhe per-
guntou se mais tarde não desejaria ser declamador na mesquita, como seu irmão
mais velho, então respondeu negativamente.
Certa noite o profeta recebeu ordem de viajar para Meca. Tinha chegado
o tempo de ser cumprida sua promessa referente à construção da mesquita. Bem
que sentira desejo nesse sentido, contudo quis aguardar primeiro a ordem de Deus.
Evidenciou-se que não podia levar nenhum dos seus, por lhes ter confiado cargos
firmes, os quais não poderiam abandonar. Como desejasse ter ao menos um neto
em sua companhia, perguntou a Ibrahim se ele queria acompanhá-lo. Os olhos
do rapaz cintilaram; incrédulo, fixava-os no interrogador. Seria possível que o avô
o escolhesse, justamente ele de quem ninguém precisava? Alegremente respondeu
que sim e pôs-se com inusitado zelo a tratar dos preparativos da viagem. Assim que
troteava depois sobre o seu cavalo, ao lado de Maomé, este notou que Ibrahim não
era mais um menino. Despercebido de todos, tornara-se um moço, o qual, sob o
aconchego do invólucro grosseiro, trazia dentro de si uma alma ardente.
Sobre o dorso do cavalo ele era diferente do que parecia noutras ocasiões.
Com vivacidade respondeu às perguntas de Maomé; fez, aliás, suas perguntas e ale-
grou-se com o aspecto cada vez mais belo da região.
Meca, propriamente, tinha um aspecto desolador. Quem a conhecera antes
apenas podia olhar com tristeza para essa cidade despojada de seus muros e de
todos os seus prédios altos. Os habitantes perderam todo o ânimo para reconstruir
qualquer coisa que não fosse de necessidade vital. Em silêncio deprimente recebe-
ram o príncipe, que entrou na cidade com um pequeno séquito e sem guerreiros.
MAOMÉ
- 129 -
Não sabiam onde deveriam alojá-lo. Não existia mais casa alguma que lhe pudes-
sem oferecer. Ele resolveu o problema, pois mandou armar uma tenda junto ao seu
séquito, ocupando-a ele próprio em companhia de Ibrahim.
Na sua primeira caminhada dirigiu-se à Caaba. Foi sozinho, porquanto seu
propósito era perceber intuitivamente se esse antiqüíssimo sacrário significava-lhe
alguma coisa. Porém nada tocou o seu sentimento intuitivo. Essa pedra preta, que os
fiéis costumavam beijar, parecia-lhe pagã. Contudo, sabia que não deveria desvalori-
zar a Caaba, se não quisesse tirar tudo dos tão profundamente abatidos de Meca.
E no meio dos ídolos que cobriam as paredes em redor, ajoelhou-se e supli-
cou a Deus que mandasse mostrar-lhe também aqui a Sua vontade. Recebeu ordem
de que deveria livrar o recinto de todos os ídolos e construir por cima uma nova
mesquita, de maneira que o antigo sacrário ficasse no centro como um túmulo. As-
sim, não seria tirado do povo, contudo diminuiria em importância e se enquadraria
no serviço em honra de Deus.
Satisfeito, Maomé deixou depois disso a Caaba, reuniu os moradores de Meca
e anunciou-lhes que agora lhes mandaria construir um santuário, uma mesquita, que
encobriria seu antigo sacrário,a Caaba.Nesse momento algo como alegria penetrou nos
corações magoados.Alguns dos homens, porém,disseram:
- Não temos mais dinheiro para tais construções.
-Quemvosdizquetereisdearranjardinheiro?PerguntouMaomébondosamen-
te. Se o vosso príncipe quer mandar construir alguma coisa, então é porque dispõe dos
meios para isso.
- Nesse caso é uma mesquita do príncipe e não a nossa, persistiram os homens.
- Mas será construída com o vosso dinheiro,portanto pertence a vós,retorquiu o
príncipe, e esclareceu então a conexão.
Nesse momento viram que aquele que lhes parecera bárbaro,sanguinário e injus-
to, possuía um coração piedoso. Começaram a adquirir confiança nele. Também não se
desviaram mais do príncipe, quando em algum lugar se defrontavam com ele no cami-
nho.AessaalturacomeçouafalarpublicamentedeDeusedanovadoutrina,aqualdeno-
minou“Islã”,istoé,asubmissãoàvontadedeDeus.Aoexplicar-lhesonome,salientouque
somente aquele que se insere em tudo na vontade do Altíssimo, poderá viver direito. Se
sua ambição se dirige em direção contrária à vontade de Deus, então será arrastado pelas
engrenagensdasleisqueregemoUniversoeficarátriturado;seguindo,porém,orumode
acordo com a vontade de Deus,receberá o apoio dessa força e será conduzido avante.
Isso os homens compreenderam bem; no entanto, julgaram que o profeta que-
riaevidenciar-lhesqueelessozinhosnãoteriammaisnadaafazernemadecidir.Teriam
de se entregar ao seu próprio destino, que ninguém poderia alterar. Com resignação
deveriam aceitar aquilo que lhes tinha sido imposto.Maomé teve grande trabalho para
dissipar tais pensamentos. Procurou convencê-los de que entre a vontade de Deus,
MAOMÉ
- 130 -
assim como esta vibra nas leis eternas que movimentam o cosmos, e o destino existe
uma diferença enorme. Comprovou que os homens tecem seu próprio destino. Deus,
o Senhor, não interferiria nisso. Da maneira como os homens dirigem o seu barco da
existência, assim será o rumo pelo qual deslizará sobre as águas da vida.
Justamente aos homens de Meca pôde comprovar,tomando por base as próprias
experiências deles, como todo o pesar de que se tornaram vítimas foi por eles mesmos
provocado. Dessa sua própria vivência brotou-lhes então a compreensão. Quem mais
aprendeu com tudo isso foi o jovem Ibrahim. Não perdeu nenhuma das palavras do
profeta; guardou-as no íntimo,até que lançassem raízes e desabrochassem.
Comissomodificou-setodaasuaaparênciaetodooseucaráter.Nãosepodiare-
conhecer mais o adolescente no alegre e enérgico moço.Encontrara o objetivo e a profis-
são de sua vida: queria tornar-se anunciador do Santíssimo! Guardião das Verdades Di-
vinas! Assim que obteve essa certeza, confiou-a a Maomé, o qual constatou com grande
regozijo que também nessa parte teria um sucessor.Já lhe pesava na alma a preocupação
sobre quem um dia seria o continuador de sua obra.Ali seria um bom soberano, porém
nunca se tornaria um sacerdote.EAbdallah restringiu-se ao cargo de declamador,o qual
era para formar apenas um degrau,e não se esforçou mais para diante.
- Deixar-te-ei aqui, meu filho, quando eu mais tarde regressar para Medina, de-
clarou ao jovem,que o escutou com alegria.Cada mesquita deverá ter seu xeque.Assume
este santuário, anuncia nele a Verdade límpida, e Deus, o Senhor, abençoar-te-á! Assim
que eu tiver de deixar a Terra, então poderás escolher se queres ficar aqui ou se queres
administrar a mesquita em Medina.
Logo que a construção da mesquita, para a qual Maomé havia encarregado os
arquitetos de Medina, estava em pleno andamento, ele preparou-se para voltar. Com a
ajuda de dois serviçais de confiança, conseguiu encontrar debaixo das ruínas do seu pa-
lácio o abobadado espaço murado, no qual ocultara os tesouros.Ao silêncio de algumas
noites, estes foram removidos. Então conduziu-os consigo, sobre camelos de carga, para
Medina,a fim de confiá-los aos cuidados administrativos de Said.
Nasuavolta,queeraesperadaportodoscomalegria,teveumasurpresa:Aischa,a
meiga e delicada,anuiu em tornar-se esposa de Said,que já tinha certa idade.Apenas es-
peravam sua bênção para realizar o matrimônio.Maomé,que há muito tinha Said como
filho, regozijou-se com a sua sorte e mandou construir-lhes um confortável palácio ao
lado do de Ali.
Na primeira reunião com os patriarcas da cidade, assistida por Maomé, notou
este que algum descontentamento afligia aqueles homens. Indagou o motivo. Então de-
clararam que se sentiam insatisfeitos pelo fato de ele ter mandado construir um santuá-
rio também para os rebeldes de Meca.
Teve de empenhar grande esforço para tornar-lhes compreensível que Meca já
possuía um santuário desde muito tempo. A nova mesquita, da qual eles necessitavam
MAOMÉ
- 131 -
urgentemente, porquanto cada cidade grande deveria ter uma, foi construída sobre a
Caaba.Tudo tinha ficado como estava.
A fim de que não pudessem reclamar de novo,fê-los saberem que dali em diante
amesquitadeMedinapassariaaserchamada“amesquitadoprofeta”,enquantoquepara
aquela de Meca seria conservado o nome de mesquita-Caaba ou“mesquita sagrada”.
Com isso todos concordaram.
Dessa vez o profeta não permaneceu por muito tempo em Medina. Sentiu-
se impulsionado a procurar as outras principais povoações. Ainda não tinha tido
oportunidade para inspecionar de perto alguns dos administradores no exercício
de seu cargo; não sabia se executavam suas tarefas segundo a vontade de Deus, ou
se procediam em sentido arbitrário. Nessa oportunidade o jovem Maomé cruzou
o seu caminho e desejou ter permissão para acompanhá-lo. Os dois irmãos mais
velhos já tinham um cargo, e agora seria a vez dele.
O príncipe alegrou-se com seu zelo e perguntou-lhe qual o serviço que dese-
jaria para si. Então o jovem ficou calado e disse finalmente que isso se revelaria por
si, como aconteceu com Ibrahim. Seu avô, porém, percebeu que intimamente ele já
estava firmemente decidido por alguma coisa.
A cavalgada era longa. Sem demorar-se, deixaram atrás de si pequenas po-
voações, mas em cada cidade onde residia um administrador foi feita uma parada.
Nesse tempo o profeta palestrava detalhadamente com o seu representante e inspe-
cionava até que ponto progredira a construção da mesquita.
Então verificou-se que os vinte e sete homens eram diferentes entre si ao
extremo. Alguns deles quase não puderam se conter em levar ao povo a bênção que
eles próprios receberam.
Haviam começado imediatamente com a construção da casa de Deus, orga-
nizaram uma escola na qual, em sua maior parte, eles mesmos lecionavam e cuida-
vam que as abluções e as preces fossem feitas pontualmente.
Outros começaram com a doutrinação e julgaram que seria melhor mostrar
primeiramente ao povo do que se tratava, antes que pudessem ser introduzidas
inovações. Maomé nada objetou. Cada uma das províncias era diferente, conforme
as propensões dos habitantes. Estes, os administradores deveriam conhecê-Ios me-
lhor, porquanto se criaram no meio deles. Por conseguinte estaria certo se alguns
administradores hesitassem.
MAOMÉ
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Também deparou com os que procuravam aproveitar a sua investidura e os
trajes que então podiam usar, para conseguir o mais possível honrarias terrenas. Não
fizeram nada daquilo que lhes fora recomendado e assustaram-se muito quando o
profeta em pessoa veio para certificar-se. O que deveriam dizer para desculpar-se?
Qualquer palavra era supérflua. Maomé desde logo percebeu a situação, e os
negligentes foram repreendidos severamente. Nesse momento o príncipe lamentou
não ter levado consigo homens preparados, que estivessem aptos para serem coloca-
dos no lugar dos ineptos. No momento teve de deixar os faltosos nos seus postos, mas
decidiu voltar dentro em breve para verificar novamente, e então traria substitutos.
Nesse itinerário veio dar novamente em Jerusalém. Como aí despertavam as re-
cordações! Narrou-o ao neto, sem no entanto falar de sua encamação passada. Esta de-
veria continuar como algo próprio.O jovem escutou com grande interesse tudo quanto
o soberano relatou.Acompanhou com vivacidade todas as narrações; comoveu-se tam-
bém ao ter que ver discórdias e disputas nos lugares onde Jesus estivera e sofrera.
Maomé, o mais velho, perdeu o sono. Fez uma prece pedindo que Deus lhe
mandasse mostrar o que poderia fazer para operar uma mudança nisso.
Tornou-se-lhe nitidamente claro nesse momento que também deveria man-
dar construir um santuário, uma mesquita, na qual judeus e cristãos pudessem con-
juntamente achar a nova doutrina, o Islã.
O administrador simpatizou com esse pensamento, especialmente quando
Maomé lhe disse que ele próprio iria dar os recursos para essa obra. Esse recinto de
adoração, o terceiro santuário da Grã-Arábia, deveria ser suntuoso.
Em toda parte do país chamou a atenção de Maomé a presença de homens
de estatura menor do que os demais habitantes. Deveriam ser estranhos de outros
países. Perguntou e recebeu a resposta de que se tratava de turcos, um povo que
não sabia nada sobre sua origem ou, propriamente dito, de sua pátria. Não teriam
crença nenhuma e eram muito espertos e gananciosos. Não recuariam diante do
que quer que fosse.
Maomé quis saber quem era seu soberano. Ninguém o sabia. Então come-
çou a travar conversa com um e outro deles. Não eram comunicativos e, sobretudo,
recusavam-se a prestar informações sobre a finalidade de sua permanência na Pa-
lestina. Quando, porém, lhes indagou sobre o seu chefe, eles informaram-lhe com
orgulho que tinham um imperador, o qual residia na magnífica cidade de Cons-
tantinopla. Aliás, nunca o tinham visto, mas sabiam dele. Era poderoso e todos os
povos eram-lhe submissos.
Então Maomé resolveu entrar em contato com esse imperador, do qual nem
ao menos sabia o nome, para fazê-Io saber da existência do Islã. Escreveu-lhe que,
se os seus súditos quisessem comerciar e viver na Grã-Arábia, nesse caso deveriam
aceitar a nova doutrina. Não poderia forçá-Ios a isso, porquanto não era da sua
MAOMÉ
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alçada. Poderia, no entanto, expulsá-Ios do país, caso não quisessem adotar o Islã.
Contudo, o poderoso imperador de Constantinopla sem dúvida teria o poder so-
bre os seus súditos para ordenar-Ihes qual a crença que deveriam preferir. Maomé
redigiu muitas vezes esse escrito, até que finalmente lhe agradou. Não quis parecer
muito submisso nem muito arrogante. Após longas ponderações subscreveu-se:
Maomé, príncipe da Grã-Arábia e profeta de Deus, o Senhor de todos os mundos.
A quem deveria confiar essa mensagem? Não encontrou ninguém em con-
dições, além de Said, a quem poderia entregar esse importante escrito. Said também
daria uma ótima impressão se chegasse à presença do soberano estranho. Mandou al-
guns dos homens de sua comitiva buscá-Io com uma tropa de cavaleiros. Nesse meio
tempo começou a pregar em Jerusalém e nos arredores. Escutaram-no com interesse;
apenas os judeus não quiseram saber de suas palestras, e também não podiam opor-
se, porquanto ele era seu soberano. Por isso preferiram ficar afastados das reuniões.
Em lugar disso, os turcos vinham cada vez com mais freqüência. Encontraram
prazer naquilo que o soberano estranho falava. Não entendiam, aliás, direito a sua
língua, mas havia muitas pessoas que sabiam interpretá-Ia.
Se com isso modificavam palavras ou frases inteiras,por não terem compreen-
dido o sentido, então ninguém o percebia. Para alguns intérpretes até era um prazer
perverter o sentido daquilo que era anunciado, e de rebaixar o que era sagrado. O
profeta dirigiu-se ao administrador da comarca de Jerusalém. Ele deveria ter no mí-
nimo tanto conhecimento da língua turca que lhe fosse possível entender-se com essa
gente. Indignado, o homem repeliu tal exigência. Pois fora investido no cargo para
tratar com os árabes! Em vão Maomé procurou convencê-Io de que seria grave se no
meio de sua comarca houvesse pessoas praticando comércio, e que não quisessem
saber nada de Deus. Opinou, em resposta, que tais homens existiriam em toda parte.
Queria dar-se por satisfeito se conseguisse unir judeus e cristãos; com os pagãos não
poderia incomodar-se. Nesse tempo surgiu para o príncipe um auxílio inesperado.
O Maomé mais moço, achando engraçados esses turcos, que apesar de sua
corpulência eram bastante ágeis, já travara relações com eles, e com raro talento
aprendeu logo a falar a língua deles, de tal maneira que pôde servir como auxiliar.
Isso foi revelado certo dia, quando o homem que fora contratado com remuneração
para repetir imediatamente, em turco, cada frase dos discursos do profeta, desempe-
nhou sua tarefa propositalmente com falhas. Então repentinamente o jovem Maomé
bradou no meio da palestra e disse por sua vez aquilo que o profeta acabara de dizer.
Nesse instante incitou-se um alarido. Os turcos ficaram excitados ao notarem
que o intérprete lhes dizia coisas erradas. Este ficou furioso porque achou a intromis-
são do jovem injustificada e receava perder o ganho. O jovem Maomé, porém, ficou
firme e transmitiu todas as palavras e conversas que aí foram trocadas com uma habi-
lidade, que o príncipe dali em diante se serviu somente dele. Uma vez na intimidade,
MAOMÉ
- 134 -
perguntou ao neto se o cargo que aí lhe aparecera, sem que tivesse pensado nisso
antes, correspondia aos seus desejos e às suas esperanças.
Com um olhar radiante, o jovem fitou os olhos do mais velho.
- Com certeza é o certo para mim, justamente porque veio tão inesperada-
mente, como se deu com Ibrahim, disse categoricamente. Desejei, aliás, tornar-me
chefe do exército, mas disso não quis te falar nada, porque receei que me achasses
muito novo. Agora estou muito contente por ter acontecido assim.
Ainda procurarei aprender outras línguas de nossos vizinhos, e então pode-
rei servir a Deus com o intelecto que Ele me deu.
Quando então chegou Said com o seu séquito, demonstrou-se que compre-
endera corretamente o recado do seu príncipe. Ele e sua comitiva vestiam trajes
pomposos e suas cavalgaduras estavam esplendidamente equipadas; era um prazer
ver aquele cortejo imponente. Também se provera de fartos presentes para honrar o
imperador estranho. Era natural que o jovem Maomé o acompanhasse para servir
de intérprete.
Então também o príncipe partiu com o seu grupo, para chegar sem pressa,
com muitas mudanças de rumo, de regresso a Medina. Primeiramente permaneceu
por um mês em Halef, porque esse rico centro comercial com seu animado movi-
mento lhe pareceu apropriado para ele anunciar a Deus.
Em trajes simples insinuou-se no meio dos homens, entabulou conversa
com eles, ajudou-os em trabalhos leves e contou de Deus. Nunca se enganava em
seu modo de proceder, posto que seguia sempre exatamente as instruções recebi-
das de cima. Em certas povoações sua nobreza e seu esplendor principesco tiveram
maior importância. Os homens acorriam e escutavam-no somente por ser ele seu
soberano. Em outros lugares dava exteriormente mais valor a suas narrações pro-
féticas, e às vezes ele parecia apenas como simples contador de lendas. Mas tudo o
que fazia brotava do seu íntimo, efetivava-se no desejo ardente de servir a Deus com
todas as forças, e por isso foi bem-sucedido.
Em Medina recebeu a notícia de que Abu Bekr vira-se obrigado a empre-
ender uma campanha no sul contra judeus revoltosos. Conseguiu nessa ocasião
prender um amigo de Abu Talib, chamado Abu Dschalil. Trouxe-o junto no seu
regresso a Medina para que Maomé determinasse pessoalmente o que deveria ser
feito com ele.
O profeta mandou vir Abu Dschalil à sua presença. Era um homem velho e
amargurado, a quem a prisão estafara muito. De início não deu qualquer resposta
às perguntas categóricas, mas amáveis, do príncipe.
Então este disse aos serviçais:
- Conduzi-o a sua cela. Hoje ele não está disposto a falar. Que me mande
avisar quando tiver disposição para isso. Até lá, não o quero ver.
MAOMÉ
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Abu Dschalil assustou-se. Esperava um ímpeto de ira e preparou-se intima-
mente contra isso. Quando, no entanto, este não veio, esperava que o matassem su-
mariamente, devido à sua atitude renitente. Agora deveria voltar ao cárcere, não por
causa da vontade do príncipe, mas sim da sua própria. Isso era horrível!
Maomé viu o que se passava em sua alma, mas também sabia que por ora não
o deveria ajudar.Caso contrário,o homem se aferraria ainda mais profundamente em
sua obstinação. Calou-se e rezou intimamente em prol do outro, seu inimigo.
- Deixai-me aqui, quero responder! Exclamou o prisioneiro repentinamente,
como que coagido.
Imediatamente os serviçais o soltaram e retiraram-se para os fundos do
aposento.
Abu Bekr ficou parado ao lado do príncipe e admirou-se. Sempre Maomé
fazia tudo diferente do que se poderia esperar, e cada vez era o certo!
Bondosamente, Maomé foi ao encontro do seu inimigo e perguntou:
- Abu Dschalil, por que me odeias?
- Não te odeio, príncipe! soou a resposta surpreendente. - Pois bem, então
quero perguntar de maneira diferente: por que és meu inimigo?
- Porque o prometi ao meu amigo Abu Talib.
- Podes dizer-me por que ele exigiu semelhante promessa de ti? Perguntou
Maomé, extremamente surpreso.
- Tentarei fazer com que compreendas isso.Abu Talib estava amargurado de-
vido à sua deformidade física. Sentiu-se preterido em toda parte. Teu pai, príncipe,
era belo e feliz. Faleceu cedo, e Abu Talib nutria a esperança de tomar o seu lugar,
mas tu eras um estorvo para ele. Queria deixar-te com os monges. Conseguiste
escapar. Nunca chegou a saber se houve alguma traição nisso ou se Deus te ajudou.
Então deve ter procedido com desonestidade na sua pretensão à herança. Porme-
nores sobre isso nunca me confiou, mas sei que a sua consciência não o deixou em
sossego. Doaste-lhe, então, mais do que teria sido necessário. Isso magoou-o pro-
fundamente, porquanto ele viu nisso um desprezo pelo seu modo de pensar e de
agir. E tua vingança, príncipe, foi cruel.
- Minha vingança? Interrompeu-o o ouvinte, que passava de um espanto
para outro. Minha vingança? Não sei de nenhuma!
- Ela foi bárbara. O único filho tomaste e afastaste do pai. Fizeste-o abando-
nar o palácio paterno. O infeliz teve de ficar expatriado e refugiado, porque os teus
espias o perseguiam. Não o deixaste mais sossegado nem uma hora. Então procurou
meios para prejudicar-te. Queres por isso censurá-lo? Sua grande loquacidade, que
não quiseste aproveitar, dirigiu-se contra ti. Por fim mandaste assassinar o indefeso
pelo modo mais cruel que pudeste imaginar. E ainda te admiras que eu, seu amigo,
te seja hostil e o deva ser enquanto estiver vivo!
MAOMÉ
- 136 -
Exausto, o velho silenciou, mas também o príncipe não pôde dizer nenhu-
ma palavra. Chocaram-no profundamente as acusações injustas, nas quais, apesar
de tudo, havia uma centelha de verdade.
Abu Bekr dominou-se somente a muito custo. Quis protestar, mas um ges-
to do príncipe fê-lo ficar calado. Então deixou o aposento com passos pesados.
Em lugar dele entrou Ali, sem ter sido chamado. A Maomé pareceu, como um
toque de cima, aquilo que deveria dizer.
- Escuta, Ali! Este homem, Abu Dschalil, acusa-me de ter te tirado de teu
pai. Queres contar-lhe como se deu teu ingresso a meu serviço?
Ali prontificou-se imediatamente a isso. Então Maomé disse:
- Deixo-vos aqui sozinhos, para que este meu inimigo não tenha de rece-
ar que eu te sugestione em tuas declarações.
Retirou-se amavelmente.
Ali e o amigo de seu pai ficaram a sós, porquanto também os serviçais
saíram, em obediência a um aceno do príncipe, para esperarem fora. Os dois
conversaram demoradamente. A índole calma e impassível de Ali tinha algo de
convincente, ao que o outro não pôde fechar-se. Uma acusação após outra foi re-
futada pelo jovem. Com isso ele mesmo chegou a tornar-se plenamente conscien-
te de quanta vergonha sempre sentira de seu pai, devido a sua mentalidade baixa,
inclinada para a cobiça incontida, e de como sempre fora o príncipe que o ajudara
a dominar esse sentimento. Quando não havia mais nada a ser esclarecido, Ali
mandou pedir a presença do soberano. No breve instante que se passou, até que
Maomé entrasse de novo no aposento, agitavam-se no peito do ancião os mais
variados sentimentos. No fundo era um homem probo. Sentia-se envergonhado.
Assim que o príncipe se defrontou com ele, prosternou-se e suplicou perdão por
tudo o que fez e falou.
Amavelmente Maomé o levantou.
- Foste orientado errado, meu amigo, por isso não pudeste agir diferente.
Esqueçamos o passado e regressa para junto dos teus. Penso que daqui em diante
seremos amigos.
E ele mesmo conduziu o homem atordoado ao seu aposento de hóspede, e
tomou uma refeição junto com ele, como se fosse pessoa da sua intimidade.
Abu Dschalil permaneceu por alguns dias como hóspede no palácio do
príncipe. Após, deixou Medina com acompanhamento, para voltar a sua terra
natal e lá contar a respeito do príncipe, cuja bondade parecia sobre-humana.
Abu Bekr não se conformou que Maomé fizesse novamente valer o perdão
MAOMÉ
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em lugar do castigo que era bem merecido. O que teria impedido a ele, Abu Bekr,
de matar o inimigo na mesma hora?
Em sua indignação manifestou esse pensamento perante Maomé. Este fitou-
o com um olhar indagador e disse-lhe:
- Admiras-te de que seguiste tua voz interior, Abu Bekr? Alegra-te com isso,
porquanto a clemência com que Abu Dschalil pôde ser contemplado me vale mais
do que um castigo severo! Com a mesma solicitude com que antes instigou contra
mim, ele doravante me arranjará amigos. O Abu Dschalil, vivo, ajuda-me; morto,
porém, ter-me-ia prejudicado.
Novamente o grão-vizir teve de reconhecer a grande sabedoria do seu supe-
rior e submeter-se. Para impedir a si próprio de expressar isso ainda em palavras,
começou a falar de um outro assunto, que há tempo o vinha preocupando. Queria
ter uma bandeira! Maomé não compreendeu de imediato a finalidade de uma ban-
deira. Abu Bekr explicou-lhe que no campo de luta era preciso ter tal insígnia, que
sobressaísse em meio aos combatentes.
Assim os guerreiros saberiam sempre onde se encontrava o chefe e poderiam
acercar-se dele a qualquer momento.
- Os inimigos também a vêem, disse o príncipe no seu desconhecimento.
- Não tem importância, meu príncipe, retrucou Abu Bekr, o qual nisso se
julgou superior ao seu senhor.
E novamente justificou e explanou, até que convenceu Maomé, aliás não da ne-
cessidade da bandeira, mas sim, do imperioso desejo de poder conduzir uma consigo.
Bondoso como sempre, quando se tratava de satisfazer um desejo, o príncipe
pegou um pedaço de seda branca, de tecido pesado, que se achava na sua frente, e
entregou-o a Abu Bekr.
- Isto corresponderia às tuas finalidades em mira? Perguntou, certo de que o
vizir se daria de todo por satisfeito.
- Este é muito bonito, meu príncipe, declarou Abu Bekr cauteloso, mas so-
mente assim como está não basta.
- Deves mandar pregá-lo num mastro, isso é claro!
Com isso Maomé quis dar o assunto por encerrado e voltar-se para outras
coisas. O vizir, porém, continuou insistindo:
- Falta-lhe o teu emblema, meu príncipe! Um pedaço de seda branca, ou de
algum outro tecido branco, qualquer um pode levar consigo; não tem significação
alguma. Somente a insígnia do príncipe faz a bandeira!
- Que aspecto deve ter tal símbolo? Indagou o profeta. Abu Bekr começou a
relatar o que até então havia visto de bandeiras:
- Os judeus conduzem uma bandeira de um tecido amarelado, no qual se en-
contra a estrela-de-davi, com seis pontas. Pintaram-na, talvez porque suas mulheres
MAOMÉ
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não saibam bordar. Nós devemos mandar bordar imprescindivelmente tua insígnia
sobre a mesma; assim é mais distinto.
Maomé sorriu levemente. O assunto parecia-lhe tão insignificante em vista
de tudo aquilo que nesse instante lhe passava pela cabeça; no entanto, assim não era,
senão Abu Bekr não teria se empenhado tão insistentemente. Este continuou:
- Os moradores de Meca têm um quadrado, o qual provavelmente deve sig-
nificar a Caaba. Os sírios que eu tive de chamar recentemente na divisa, para refor-
ço, traziam consigo uma magnífica bandeira, com uma águia. Diziam que era uma
bandeira romana. Essa águia, um pássaro com as asas abertas, encimava o mastro e
era feita de metal, com excelente acabamento. Vês, portanto, meu príncipe, que se
pode usar qualquercoisa, desde que tenha um sentido!
- Pois então preciso refletir sobre isso, meu amigo, prometeu Maomé. Den-
tro de poucos dias receberás a resposta.
À noite, contou a sua esposa o desejo do vizir. Para sua surpresa, Alina ficou
entusiasmada com a idéia de fazer desfraldar uma bandeira com a insígnia de Ma-
omé. Idealizou várias propostas, que não agradaram muito ao profeta, devido às
características femininas.
- Se a bandeira deve flutuar no campo de batalha, então não pode trazer
como emblema uma rosa ou qualquer outra flor, declarou. Outra coisa Alina não
sabia opinar.
Durante a noite levou essa pergunta diante do luminoso mensageiro de Deus.
Este aconselhou-o a não relacionar a bandeira somente com ele, como príncipe, mas
sim com Aquele cuja vontade dirige os acontecimentos.“Achas que posso consagrar a
bandeira a Deus?” perguntou Maomé.“Ela não é muito terrena para isso?”
“Se ela for a bandeira do profeta, como a queres denominar, então deverá
flutuar somente a serviço do Supremo. E não será terrena demais para poder trazer
um símbolo que a caracterize como bandeira do Senhor.”
Mal a ressonância da voz se esvaneceu, surgiu diante dos olhos espirituais de
Maomé uma imagem viva, clara e esplêndida, como ele nunca havia visto.
Viu a abóbada celeste como uma gigantesca cúpula. Estrelas resplandeciam
e seguiam sua rota orbital; de súbito, pareceu-lhe como se fossem luzes nas mãos de
seres femininos indescritivelmente graciosos. Parecia que se dispunham em ordem,
como se estivessem de prontidão. Subitamente se inclinaram, porquanto a Rainha
de todos os céus descia. Maomé já a havia contemplado uma vez. Também nesse
momento ela usava um manto azul-escuro, que se adaptava à cor do céu noturno;
longos cabelos com um brilho prateado ondulavam. Como um véu luminoso, flu-
tuavam na frente de seu semblante celestial. Com a mão esquerda segurava o manto
à altura do peito, enquanto estendia a direita, onde se encontravam uma rosa ver-
melho-escura e um lírio branco como neve. O delicado pé descalço que apareceu
MAOMÉ
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debaixo do manto comprido pisava no semicírculo da meia-lua, como num barco
luminoso. Coros de anjos pareciam ressoar; cores e fragrância fluíam em volta do
agraciado, cujo coração quase parava em admirativa adoração. Muito tempo após
ter desaparecido a encantadora imagem viva, Maomé ainda olhava para o céu. Nes-
se momento agradeceu a Deus pela graça de poder ter tido essa visão. Tinha isso
alguma significação para ele?
Súbito conheceu o símbolo que deveria distinguir a bandeira do profeta de
Deus de todas as outras: o apoio do pé da Rainha do céu, o semicírculo da meia-lua,
assim seria. Nesse símbolo, a bandeira deveria falar a todos os que a vissem:
“Escutai, ó homens, este é o sinal de que servis a Deus! Desfraldai a bandeira
somente se as vossas obras puderem subsistir diante de Deus. Também é o sinal de
que no Islã quereis recolocar a mulher no lugar que lhe é reservado pelos desígnios
de Deus. Mantende-a na pureza e tratai-a com honradez. O símbolo da sublime
Rainha do céu orna por isso a vossa bandeira!”
Assim queria falar aos guerreiros, quando lhes entregasse o pendão. Com
grande alegria comunicou no dia seguinte a sua esposa o que pudera contemplar, e
ela ofereceu-se para bordar o sinal da Rainha do céu na seda branca, em colabora-
ção com as filhas. Todos os outros guardaram silêncio sobre isso.
Muito antes de terem chegado ao término os trabalhos do bordado, os quais
levaram muito tempo, porque as mulheres empregavam para isso fios de ouro puro,
Maomé saiu a cavalo para procurar os diversos administradores. De alguns haviam
chegado pedidos para que os aconselhasse ou lhes explicasse algo, e em outras pro-
víncias os funcionários pediam que viesse examinar os trabalhos do administrador,os
quais evidentemente não estavam sendo executados no sentido dos mandamentos.
- Levas-me junto desta vez, avô? Perguntou ansioso o quarto neto, Murzah.
Com muito gosto Maomé teria junto dele um dos seus, porém Murzah efe-
tivamente ainda não havia ultrapassado bem a infância e haveria de acarretar-lhe
mais trabalho do que ajuda, refletiu o príncipe.
Murzah, contudo, era de outra opinião. Nos outros dois demonstrou-se so-
mente em caminho a sua utilidade. Por que com ele haveria de ser diferente? Im-
plorou ao pai que falasse por ele, e Ali, que conhecia seu filho, resolveu interceder
a seu favor.
Ora, quase nunca aconteceu de Ali ter pedido alguma coisa, de maneira que
Maomé atendeu imediatamente ao pedido, mesmo julgando que aquilo não era
muito inteligente.
A alegria do jovem foi quase irreprimível. O dia todo não falou de outra coi-
MAOMÉ
- 140 -
sa a não ser de que iria acompanhar o príncipe. Finalmente chegou o dia da partida;
um imponente grupo cavalgou para fora do portal de Medina.
Também Murzah andava bem a cavalo e trotava alegre ao lado de Maomé. Em
viagem este perguntou a Murzah, assim como também perguntara aos outros netos,
o que ele escolhera como objetivo na vida.
- Quero servir-te, avô-príncipe, disse o esperto jovem, radiantemente.
- Já tens uma idéia de qual a capacidade que utilizarás para isso? Gracejou o
profeta.
- Não.Nem sei se possuo alguma capacidade.Mas sabes,se não posso servir-
te com a vida, então quero morrer por ti.
Isso soou de maneira singular vindo da boca desse neto particularmente
otimista; no entanto, com tudo o que surgia ao redor, esqueceram em breve a con-
versa séria.
Dessa vez a cavalgada se dirigiu para objetivos bem definidos; em nenhuma
parte pararam por mais tempo do que o absolutamente necessário.
Primeiramente chegaram à cidade da qual vieram queixas sobre a vida do
administrador. Sem ser anunciado, o príncipe apresentou-se e encontrou o servo
infiel tão embriagado no meio das mulheres e na casa destas, que foi impossível
exigir uma prestação de contas. Evidenciou-se que as queixas dos outros funcio-
nários não foram exageradas. Os fundos provenientes dos impostos que tinham
sido cobrados regularmente não foram aplicados na construção da mesquita, nem
teve qualquer outro proveito comum. O administrador considerava-os como bens
a ele pertencentes, os quais poderia esbanjar com suas inúmeras mulheres. Maomé
mandou levá-lo, por intermédio de seus servos, do palácio ao estábulo, para que
dormisse em cima do feno. Nesse ínterim, examinou com os demais funcionários
tudo o que se encontrava na chamada sala da administração e investiu o mais velho
desses servos fiéis no cargo de administrador.
- Não proibi rigorosamente todas as bebidas embriagantes? Perguntou o
príncipe repreensivamente.
- Isso fizeste, mas verbalmente, declararam os funcionários. Nos manda-
mentos escritos não se encontra em parte alguma um item que se refira a isso. Por
essa razão o administrador julgou ter o direito de poder desfrutar do vinho e de
outras bebidas embriagantes, em excesso, até que um dia reformasses a lei.
- Está escrito na lei, porém, expressamente, que nenhum homem tenha mais
de quatro mulheres, repreendeu o príncipe. Aqui, no entanto, estavam reunidas no
mínimo doze.
- O administrador também tem somente quatro mulheres; as outras são
amigas delas, soou a informação entristecedora.
- Assim, portanto, cada mandamento pode ser contornado, se o homem o
MAOMÉ
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quiser, queixou-se Maomé, aflito. Julguei ter abrangido com estes mandamentos
efetivamente tudo o que pode ser prejudicial ao homem! Como me enganei!
Dirigiu-se, então, ao novo administrador:
- Cuida que a casa das mulheres fique vazia. As amigas devem voltar para
junto de seus pais e as quatro mulheres devem emigrar com o seu marido, logo que
este esteja em condições para isso.
Maomé falou pessoalmente com os moradores da província e prometeu-
lhes para breve a construção da mesquita e de uma escola. Não acusou publicamen-
te o administrador, todavia se propôs a cobrir o desfalque do dinheiro com suas
próprias finanças.
Dois dias mais tarde o demitido saiu a cavalo, às escondidas, com suas qua-
tro mulheres e com tudo o que pôde juntar ainda. Para o príncipe assim foi mais
conveniente do que ter ainda que falar com esse homem.
Após ter se convencido de que sob a direção do novo administrador tudo se
normalizaria, partiu dali, para verificar a ordem na próxima grande cidade. Aqui o
chamou o insistente pedido do administrador, que quis instruções para as dificul-
dades especiais resultantes da fixação, na comarca, de pessoas que tinham outras
crenças e que se recusavam a pagar impostos.
Depois de cientificar-se do que se passava, isto é, de que um rico proprietário
falecera sem deixar herdeiros legítimos, e de que em vista disso sua mulher predileta
mandara vir seus aparentados, decidiu:
- Quem quiser fixar residência na Grã-Arábia deve adotar a crença do Islã e
tomar-se assim um súdito do príncipe de todos os árabes. Não o querendo, então
deve vender a propriedade e com o rendimento deixar o reino. Na Grã-Arábia há
somente fiéis do Islã.
Procurou pessoalmente os rebeldes e tentou fazê-los compreender a sua de-
cisão. Eles, no entanto, eram hostis; porquanto quiseram fazer a tentativa de intro-
duzir uma cunha de insubordinação no país unido. Por isso defenderam-se com
todas as forças e declararam que nem lhes vinha à mente obedecer.
Maomé marcou um prazo dentro do qual essa situação maléfica deveria ser
resolvida. Quando o prazo passou, mandou avaliar a terra, pagou aos homens o
preço de compra e mandou transportá-los, juntamente com os seus, por intermé-
dio dos guerreiros, para além da fronteira.
Todos sentiram-se aliviados, porquanto esses estranhos haviam também
provocado o desagrado de todos, em face de seus costumes desregrados.
Alguns dias mais tarde, Maomé estava em pé na frente da tenda que lhe ser-
via de morada e olhava o céu. Queria partir na manhã seguinte com o seu séquito.
Auscultava os sinais meteorológicos.
Repentinamente ressoou a voz de Murzah, estridente e em apuros:
MAOMÉ
- 142 -
- Avô, acautela-te!
Rapidamente o príncipe se virou e viu como uma faca reluzente, atirada
aparentemente contra ele, transpassava o neto que saltara à frente.
O grito de Murzah atraiu os serviçais, os quais subjugaram o assassino e
conduziram-no dali. Maomé, porém, abaixou-se sobre o corpo estendido do meni-
no para examinar o ferimento. Viu então que era mortal.
Compesarmiravaoneto,oqualeraarrebatadosemquepudesseprimeirodesen-
volver-se completamente. Murzah, no entanto,lançou um olhar quase travesso e disse:
-Vê, agora realmente posso morrer por ti.Agradeço a Deus por isso!
Sua alma luminosa e límpida elevava-se.Maomé julgou ver como ela se despren-
dia rápida e facilmente do corpo ferido,flutuando para cima.
Grande foi a lamentação pelo desaparecimento do jovem, ao qual todos tinham
se afeiçoado.Foi sepultado num sepulcro novo,talhado na rocha.Foi o primeiro enterro
que o príncipe teve de fazer pelo rito da nova doutrina. Somente depois de terminado o
cerimonial, o soberano desejou ver o assassino. O chefe dos guerreiros comunicou-lhe
ter sido tão grande a indignação de todos,que não fora possível protegê-lo contra a fúria
do povo. Estava morto.
Maomé supôs, como hipótese evidente, que tinha sido um dos homens depor-
tados para além da fronteira; teve, no entanto, de tomar conhecimento de que fora o
administrador destituído do cargo.Isso foi-lhe duplamente doloroso.A um descrente ele
poderia ter relevado com mais facilidade o covarde assassínio.
A cidade onde aconteceu a calamidade pediu,como prova de que o príncipe não
guardaria mágoa contra ela, poder dali em diante denominar-se“Murzah”. Isso Maomé
permitiu de bom grado.
DuranteanoitecismoumuitasvezescomomotivoporqueDeusteriapermitido
esse ato de covardia. Seu auxiliador, o luminoso mensageiro de Deus, silenciou em face
de todas as perguntas desse teor.
Assim, mais uma vez se encontrava deitado em sua cama sem poder conci-
liar o sono. Então ouviu duas vozes de homens conversando, nas quais reconheceu
imediatamente a do chefe dos guerreiros e a do seu servo de confiança. Falavam
daquilo que também para ele era o motivo de permanecer acordado.
- Por que Deus permitiu tal coisa? Perguntou o comandante dos guerreiros,
entristecido. A vida toda ainda se estendia diante do jovem, e em verdade essa teria
se tornado nobre, porquanto a alma era pura.
- Sabes o que o teria aguardado nesta vida? Perguntou Mansor, o criado, em
resposta. Talvez tivesse que suportar algo tão pesado que a morte prematura lhe foi
uma graça. Quem pode predizer o que o futuro trará? Somente Deus o conhece.
- Não compreendo como Deus permitiu o sacrifício do menino, insistiu o
guerreiro.
MAOMÉ
- 143 -
- Achas que teria sido preferível que o nosso príncipe tivesse sido assassi-
nado? Quis saber o criado. Já que um tinha que ser vítima do assassino, então foi
melhor que o jovem, o qual ainda não podia ser útil ao povo, tenha ido, em lugar do
príncipe, de quem ainda não podemos prescindir.
-Deus,porém,nãoprecisavateraceitoosacrifíciode nenhumdeles,maspodia
ter impedido o covarde assassino de outro modo, objetou novamente o guerreiro.
- Esqueceste o que Maomé nos contou sobre o livre-arbítrio do homem? Se
um homem se decidiu a uma ação, então Deus intervém apenas em casos muito
especiais. Ele deixa o homem executar aquilo que está no seu querer. Mas este terá
de arcar com aquilo que atraiu sobre si. Deus, aliás, impediu que nosso príncipe, a
quem foi dirigido o atentado, fosse arrebatado. Sejamos gratos a Deus por isso e não
façamos queixas irreverentes contra Ele.
As vozes afastaram-se. Maomé, porém, escutara o suficiente. Foi dominado
concludentemente pela suas próprias palavras. Mansor ajudou-o, sem ter ciência
disso. Ele, no entanto, implorou a Deus perdão por sua falta de convicção.
DaquelediaemdiantesimpatizoumaiscomMansordoquecomosoutros.Falou
muitas vezes com ele e alegrou-se com a maneira franca com que emitia suas palavras.
Após ter visitado diversas outras localidades, chegou a Jerusalém. Soube que à
noite do dia anterior Said e o jovem Maomé tinham regressado com o seu séquito. Isso
foi uma alegria inesperada.Pouco depois o neto entrava na tenda para cumprimentá-lo.
No dia seguinte Said, auxiliado pelo jovem Maomé, relatava o resultado da
viagem.
Chegaram sem contratempo até o magnífico mar, em cuja orla se encontra-
va Constantinopla, a capital de um poderoso reino.
Quando já julgavam que teriam de utilizar algumas barcas para atravessar o
mar, souberam que o imperador se encontrava justamente no chamado lado asiá-
tico da cidade.
Pediram audiência e foram recebidos. O que, porém, Said poderia ter feito
sem o jovem Maomé, ninguém poderia dizer. Nenhuma pessoa naquela pomposa
corte sabia sequer uma palavra em árabe. Além de turco, falava-se uma outra língua
que soava bem, mas o jovem Maomé não pôde entender.
- Contudo, príncipe, arranjei-me muito bem com o meu turco, jubilou o
jovem. O imperador, um homem de bela aparência, aliás, não o sabia falar, mas
pelo menos entendeu-me, de sorte que pôde analisar se aquilo que seu auxiliar lhe
transmitia estava certo.
Disse-nos muitas amabilidades e tivemos de voltar muitas vezes para contar
da nossa crença. Depois disso determinou que todos os turcos e outros súditos do
seu reino, residentes na Grã-Arábia, teriam de aceitar o Islã como crença sua.
- Trouxemos escritos em várias línguas para todas aquelas comarcas, nas
MAOMÉ
- 144 -
quais se encontram turcos e outros súditos de Constantinopla, acrescentou Said.
Também para ti, príncipe, temos um escrito através do qual o grande imperador
branco manifesta seu amor fraternal e não deseja que teu reino seja de modo algum
prejudicado pelos seus súditos.
Muita coisa os dois ainda tiveram para informar e relatar.Maravilhosa era a cida-
de,de maior magnificência ainda o mar, o qual era cercado por margens verdejantes.
Num dos dias seguintes o príncipe contou do voluntário sacrifício de Mur-
zah. Receou que Maomé, o qual era ligado de um modo especial com esse irmão,
lamentasse muito a perda. Em lugar disso, o neto rompeu em júbilo:
- Que ele tenha podido fazer isso por ti! Como não o teria feito contente e
alegre! Vê, avô, se todos nós cumprirmos nossos deveres e preenchermos o lugar
para o qual nos chamaste, mesmo assim ninguém conseguiria fazer tanto pelo nos-
so país quanto Murzah. Ele pôde preservar-te!
Esse modo de pensar foi um alívio para o príncipe, o qual estava apreensivo
pela maneira como Ali e Maomé receberiam a notícia do falecimento de Murzah.
Enquanto Said se preparava para percorrer a cavalo as províncias onde vi-
viam e comerciavam pessoas de nacionalidade turca, Maomé quis regressar com o
neto para Medina. Sentia satisfação em ter o esperto jovem com ele, o qual sempre
de novo sabia alguma coisa de belo e agradável para contar.
Entretanto, Said insistiu em que o jovem Maomé o acompanhasse. Senão, de
que maneira ele se arranjaria com as línguas estranhas? Todos compreenderam isso,
e o jovem auxiliador foi junto com Said.
De alguma maneira a notícia sobre a morte de Murzah já havia chegado a
Medina antes do regresso do príncipe. Fatime e Ali lamentaram sinceramente a
perda de seu filho, entretanto logo se conformaram por causa do avô, de sorte que
também quanto a eles sua preocupação foi em vão.
A bandeira estava pronta e ficou sobremaneira esplêndida.
Mandou vir todos os guerreiros que estavam próximos, a fim de reuni-los na
mesquita; abençoou a bandeira e entregou-a então a Abu Bekr, mais ou menos com
as mesmas palavras que ouvira naquela noite.
A bandeira, quando se achava encostada ao lado do nicho do profeta, tinha
um aspecto tão magnífico, que nasceu o grande desejo de que na mesquita sempre
houvesse uma.
Maomé consultou o mensageiro de Deus a esse respeito e recebeu a resposta
de que poderia presentear cada mesquita com uma tal bandeira, para as festas, mas
as bandeiras hasteadas e desfraldadas no santuário deveriam ser verdes.
MAOMÉ
- 145 -
Alina escolheu para isso seda da cor de grama nova e tratou de bordá-la
juntamente com as filhas. Os três santuários receberam uma meia-lua de ouro; as
demais mesquitas, porém, tiveram de contentar-se com uma de prata.
Os três santuários!
Durante as viagens de Maomé, a construção da sagrada mesquita de Jeru-
salém progredira num ritmo vigoroso, de sorte que poucos meses depois de seu
regresso a Medina, teve de cavalgar novamente para Jerusalém, a fim de inaugurar
a mesquita com sua bênção.
Recebeu o nome de “Mesquita da Penha”. Antes mesmo de ser inaugurada,
teceram-se muitas lendas em torno dela.
O príncipe deu ordem para que também Said e Maomé, o moço, compa-
recessem a Jerusalém por ocasião dessa cerimônia. Por ordem do imperador, os
turcos converteram-se ao Islã, o qual lhes parecia sobremaneira belo.
Na verdade quiseram modificar nele muitas coisas, conforme sua própria
índole, porém o sempre tão gentil príncipe permanecia firme e inexorável em as-
suntos de crença.
Quando terminaram as festividades em Jerusalém, o chefe dos turcos ali do-
miciliados pediu uma audiência com o príncipe. Queria justificar os seus desejos.
- Vê, príncipe, disse num tom persuasivo, nós precisamos trabalhar pesada-
mente durante toda a nossa vida para chegarmos a possuir alguma coisa. Propicia-
nos o nosso descanso após a morte. Para ti será indiferente se acolá nós trabalharmos
ou folgarmos. Permite que digamos aos homens cansados que poderão descansar e
não trabalhar no Além. Aos árabes podes dizê-lo de forma diferente.
O auxiliar Maomé, que estava presente para o caso de o turco não ter conhe-
cimento suficiente da língua árabe, teve que se esforçar para ficar sério. Para Maomé,
o mais velho, no entanto, esse conceito do turco não parecia ridicularizável. Estava
estupefato ante a estreiteza da concepção.
- Meu amigo,disse vagarosamente,não deves pensar que em assuntos de cren-
ça se possa dizer o que bem nos apraz. São verdades que transmitimos e nas quais não
se deve torcer nada. Não posso prometer aos turcos uma bem-aventurança diferente
do que aos árabes.
- Nisso divergem nossas opiniões, teimava o outro. Eu suponho que lá em
cima deve haver muitos céus, porquanto se aqui na Terra tenho um inimigo, não seria
possível nós dois chegarmos ao mesmo céu. O que resultaria disso?
- Ambos estariam impossibilitados de entrar, disse Maomé apressadamente.
Quem guarda rancor na alma, não pode achar acolhida no reino da paz.
Julgou que com essas palavras causaria uma forte impressão. O turco, porém,
ouviu apenas a expressão:“reino da paz” e aplicou-a então novamente a seu modo.
- Agora tu mesmo dizes que acolá existe paz. Como poderia haver paz onde
MAOMÉ
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se tem de trabalhar como um animal de carga! Exclamou contente. Permite-me dizer
a nossa gente que depois da morte poderão descansar do trabalho! Com muito mais
gosto eles então aceitarão tua doutrina, príncipe.
Em vão o profeta procurou convencer o outro. Tudo quanto pôde conseguir
foi que o turco prometesse não falar nada de descanso eterno, como também nada de
labuta eterna.
Assim que ele saiu, então o jovem Maomé começou a rir incontidamente e
arrancou o mais velho da inoportuna cisma na qual estava prestes a incorrer. Nesse
momento ambos ficaram sérios, quando ele disse:
- Como há de ser após a minha morte, se cada um quer sofismar, torcer a
crença e interpretar os ensinamentos conforme for do seu agrado?
- Nós então ainda estaremos aqui, consolou o neto. Devemos zelar para que
tudo fique assim como te foi revelado.
- Cristo Jesus também não teve outra sorte, meditou o profeta. Mal deixou
a Terra, e os homens já deturpavam e modificavam suas sagradas palavras. Mereço
eu melhor sorte do que ele?
- Seria horrível se isso acontecesse de novo! Exclamou o jovem fervorosa-
mente. Não pode ser que a Verdade vinda de cima seja cada vez deturpada e que
então sempre de novo deva vir um outro profeta, para anunciá-la novamente! Desta
vez deve ficar assim como tu a trouxeste para nós!
Os dias reservados a Jerusalém chegaram ao término. De Medina veio um
recado de que ali estava sendo esperada ansiosamente a volta do príncipe. Então
ele partiu com seus acompanhantes, aos quais também se juntaram Said e o jovem
Maomé, para regressarem pelo caminho mais curto.
Essa estrada, pela qual nunca viajara, tinha um bom trecho através do deser-
to e era transitável somente em certas épocas do ano. Os moradores da redondeza
afirmavam que justamente agora não haveria perigo algum.
Assim o grupo tomou, contente, esse novo caminho. Após terem cavalgado
alguns dias, o chão, que ficava cada vez mais arenoso, indicava que estavam se apro-
ximando do deserto. Mas também o ar estava calmo, de sorte que não tiveram de
sofrer debaixo da poeira. A região ficava cada vez mais erma e inóspita. Finalmente
se encontravam entre colinas, montes de areia e em planícies onde a areia estava
depositada em forma ondulada. Aprovisionaram-se com reserva suficiente de água
para não terem de se preocupar. Além disso, os cameleiros asseguraram que conhe-
ciam bem o caminho.
Numanoiteachavam-setodosdeitadosnosacampamentosimprovisados,quan-
do de repente se fez notar uma grande agitação entre os animais. Também os homens
começaram a sentir certa inquietação, se bem que não pudessem dar uma explicação.
Maomé, que estava mais impressionado do que todos os outros, saiu da ten-
MAOMÉ
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da para olhar o céu. Não parecia que um vermelhão singular coloria o horizonte?
Acordou o neto e chamou a atenção dele para o fenômeno. Também este viu a
coloração que parecia inexplicável. Pouco a pouco os cameleiros, os guerreiros e os
acompanhantes saíram, um atrás do outro, ao ar livre. Alguns declaravam que não
viam nada de extraordinário, outros confirmavam que o céu estava descomunal-
mente .avermelhado. Esse rubor, no entanto, era diferente daquele avistado habitu-
almente. Ninguém era capaz de descrevê-lo acertadamente. Enquanto ainda olha-
vam e admiravam, pareceu a Maomé que na parte central o vermelho desaparecia,
para dar lugar a um fulgor dourado. Ele clamou:
- Vede lá, vede!
Todos fitaram a direção que seu dedo indicava, sem contudo reconhecerem
algo de novo. Ele, porém, viu que do brilho se formou uma estrela maravilhosa.
Assemelhava-se à estrela-de-davi; tinha seis pontas, mas inúmeros raios em todas
as direções. A Maomé a luz dessa estrela parecia clara e sobrenatural. Se pelo menos
um dos outros a pudesse ver!
Mal pensou nisso, então a voz do neto exclamou:
- Vede, ó homens, o magnífico astro. A estrela-de-davi paira no céu e nos
anuncia Cristo, seu Senhor.
Ao mesmo tempo Maomé escutou uma outra voz, que falava somente a ele,
mas, alto e perceptível:
“Tu, servo do Altíssimo, desta estrela que hoje podes contemplar, deves falar,
antes de deixares a Terra! É a estrela dos Filhos do Altíssimo. Quando aparece, então
a graça de Deus se estende sobre a Terra”.
E pareceu-lhe como se a estrela se volvesse e retomasse ao interior do céu,
arrastando atrás de si os seus raios, como uma longa cauda.
Quando todo aquele resplendor celeste se apagou, Maomé acordou do seu
aprofundamento íntimo.
Então ouviu em volta de si as exclamações de admiração. Cerca da metade
dos homens declararam ter visto a estrela. Começaram, no entanto, a tecer comen-
tários em torno da significação que teria a aparição.
Alguns diziam que Deus quis com isso manifestar Sua misericórdia e de-
monstrar que Maomé era realmente Seu profeta. Outros ultrapassaram isso, e afir-
mavam que se tratava de uma homenagem dos céus a Maomé, o elevado. Outros,
por seu turno, quiseram ver na aparição da estrela um presságio de maus tempos:
guerra, fome e epidemias de toda sorte. Também eles se excederam na imaginação
de tudo àquilo que certamente haveria de acontecer.
Inicialmente Maomé os deixou falar. Nele ainda vibrava a voz de cima que
lhe trouxe uma mensagem.
Escutou, aliás, as barulhentas vozes em disputa, mas não prestou atenção
MAOMÉ
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àquilo que queriam significar. Finalmente lhe veio à mente o sentido das mesmas e
ordenou silêncio. Explicou que todos aqueles que foram agraciados com a aparição
compreenderam erroneamente. Fê-los ver que se mostrariam indignos se quises-
sem introduzir novamente apenas seus próprios pensamentos naquilo que Deus os
deixou contemplar.
Quando se restabeleceu entre eles a calma, exterior e interiormente, então
tentou anunciar-lhes que a estrela era um mensageiro de Deus à humanidade, um
mensageiro da graça e da misericórdia.
Deus enviava a estrela, anunciando com isso que uma parte Dele próprio
baixava à Terra num dos Seus Filhos.
Hoje, deixava que a vissem apenas em imagem, para que fosse possibilitado a
ele, Maomé, anunciá-la conscientemente. No entanto, em tempo vindouro a estrela
apareceria de novo, efetiva e veridicamente no céu, assim como pôde ser vista sobre
Belém por ocasião do nascimento do Filho de Deus, Cristo Jesus. Outrora atraiu
reis e poderosos de longínquas terras, para que pudessem participar da graça.
Repleto de elevada força, o profeta de Deus falava, e parecia-lhe como se um
outro falasse através dele. O que pôde anunciar agora era novo para ele.
- Ela virá, a estrela, o mensageiro de Deus! Então anunciará a todo o mundo
que de novo um Filho de Deus se acha sobre a Terra. Não será o alegre portador da
Verdade, não será Jesus que virá outra vez, mas sim um portador da Verdade, cheio
de gravidade, a justa Vontade de Deus, do Eterno, que aparecerá para julgar o mun-
do. Cada um será julgado pelas suas obras. Aqueles que até então tiverem vivido
conforme os mandamentos de Deus poderão ingressar no Seu reino, para servi-Lo
por toda a eternidade. Ser-lhes-á reservada a mais elevada bem-aventurança. Aos
outros, porém, a boca do Senhor dirá: “Perecei, vós, malfeitores! Não vos conheço,
e também meu Pai não vos conhece!” Então passarão por angústias mortais, para
nunca mais ressuscitarem.
Os homens que se reuniram ao redor de Maomé escutavam impressionados.
Ele, mais sensibilizado que todos, silenciou. De súbito, porém, a voz de um dos came-
leiros que se encontrava mais distante, de pé, chamou:
- Ainda uma coisa totalmente terrena anunciou a aparição luminosa que aca-
bamos de ver. Um tufão de areia está se aproximando. Não estais sentindo o cheiro da
poeira que o ar traz consigo? Sentis ansiedade em vossos corações? Escutais o rugido
das feras? Devemos tomar precauções, para que não pereçamos todos.
Rapidamente se apagou a impressão profunda de tudo aquilo que Maomé
lhes tinha anunciado.
- Parece que as trevas quiseram introduzir suas forças no campo de luta,para ar-
rastar, para baixo, nossas almas da elevação íntima, disse o profeta, entristecido; pôs-se,
contudo, também a trabalhar preventivamente, porquanto todas as mãos eram neces-
MAOMÉ
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sárias. Cuidadosamente os cameleiros coordenavam tudo. Os camelos foram desvenci-
lhados de suas selas e deitados juntos, do melhor modo possível. Os lugares entre eles
foram indicados aos homens,que os deveriam ocupar assim que o perigo se aproximas-
se. Mercadorias e equipamentos foram encobertos da melhor maneira possível. Antes
de tudo, porém, os guias procuraram marcar o caminho pelo qual deveriam seguir,
enquanto ainda o enxergavam. Não deveria acontecer que tivessem que tomar com o
príncipe um rumo errado.Mais rápido do que o mais experimentado viajante do deser-
to pudesse imaginar, rompeu a tempestade com uma fúria que deveria mostrar a cada
um quão ínfimos eram os homens. Maomé orou para que tudo passasse misericordio-
samente. Não podia imaginar que estaria na vontade de Deus um perecimento debaixo
dos elementos desencadeados.Sob o efeito da prece entrou clareza em sua alma: -Quem
ocasionava a tempestade que revolvia as massas de areia? Não era o guia dos ventos e
dos anjos do ar, como ele, Maomé, os denominara? Se eram anjos, então estavam su-
bordinados a Deus, o Senhor, e não eram servos das trevas. Já que eram servos de Deus,
também executavam Sua vontade.Conseqüentemente,nada poderia acontecer que não
fosse ordenado por Deus. Sentiu-se inteiramente livre e aliviado; toda a ansiedade o
abandonou. Quis dirigir palavras animadoras ao seu neto, que estava deitado ao seu
lado; chamou-o e viu um rosto sorridente.
- Avô, é esplêndido poder passar por semelhante experiência! Exclamou o
jovem. E contudo ter a certeza de que nada pode acontecer, pois estamos protegi-
dos! Aprendeste também com isso, tanto quanto eu?
- Aprendi muito, meu filho, respondeu Maomé com seriedade.
Ao término de algumas horas, que pareciam infinitamente longas para to-
dos, desapareceu o tufão, assim como surgira. Verificou-se que ninguém fora pre-
judicado, e que as rajadas dispersadoras mais fortes passaram além do caminho, de
sorte que a caravana pôde continuar a viagem sem impedimento. Esse poderoso
fenômeno, no entanto, apagou em quase todos eles a lembrança da visão que o
antecedeu. Isso foi intencional: na sua incompreensão, os homens teriam espalhado
entre o povo o seu modo errôneo de interpretar.
Agora, porém, quando Maomé falava da vindoura estrela, eles sempre se
lembravam de que também puderam contemplar sua imagem, e então confirma-
vam as palavras do profeta, sem acrescentar algo próprio de si.
Assim que chegaram a Medina, encontraram mensageiros e emissários de vá-
rias tribos vizinhas, que desejavam prestar sua homenagem ao grande príncipe, como
também queriam pedir sua ajuda contra os seus inimigos. Temendo esses inimigos,
preferiram subjugar-se espontaneamente ao soberano, do qual souberam muitas coi-
MAOMÉ
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sas boas e ao mesmo tempo terríveis. Com punho férreo obrigaria os homens a su-
jeitarem-se sob sua soberania. Contanto que não procurassem insurgir-se contra ele,
então seria bondoso e indulgente. Assim, acharam mais conveniente não provocar
contra si o lado sanguinário desse príncipe.
Maomé, o mais moço, teve de atuar dia e noite como intérprete. Resolveu pe-
dir ao príncipe,logo que chegassem tempos tranqüilos,para reunir jovens em volta de
si, a fim de instruí-los no uso das línguas estrangeiras. Era indispensável que muitos
árabes se capacitassem a falar todas essas línguas.
O príncipe veio ao encontro dessas delegações com benevolência,apesar de ter
descoberto que em alguns era apenas o medo que os induzira a procurá-lo. Tirar-lhes
esse medo e em compensação facultar-lhes a oportunidade de chegarem a conhecer a
fundo as maravilhas da crença em Deus, isso era para ele uma necessidade urgente.
Sentiram-lhe a bondade, que era genuína, e a mesma persuadiu suas almas,
fazendo com que fossem embora bem diferentes do que quando vieram. Pelos países
em volta, no entanto, espalhou-se a notícia sobre o príncipe dos árabes, o qual creria
num Deus poderoso, sendo-lhe por isso facultado exercer uma influência fascinante
sobre os corações humanos. Já que sabia dar efeitos a tal fascínio, então provavelmen-
te entenderia mais coisas. De repente teve início uma romaria para Medina: trouxe-
ram enfermos, aleijados, possessos e cegos, como no tempo de Jesus.
“Senhor, posso ajudar?” perguntou Maomé. Recebeu, no entanto, sério aviso
de que isso não fazia parte de sua missão.
Ele era um profeta, um anunciador do Altíssimo, e não um médico. Existiam
tantos médicos hábeis dentro e fora de Medina, e esses certamente poderiam curar
muitas das enfermidades. Não precisaria deixar ninguém ir embora decepcionado
ou enraivecido.
E Deus evidentemente estendeu Sua bênção sobre as mãos dos médicos que
a Ele imploraram nesse sentido. A maioria dos suplicantes foi curada ou pôde ao
menos obter melhoras.A par disso Maomé mandava sempre instruí-los na nova dou-
trina,e as almas predispostas de um modo especial pelo sofrimento absorveram tanto
quanto lhes foi possível.
Abu Bekr ia com seus guerreiros ora para cá, ora para lá. Sempre havia qual-
quer coisa a apaziguar, insurreições a abafar ou alguma violação de fronteira a ser
punida. Onde quer que ele desdobrasse a bandeira do profeta, aí estava a vitória. Seus
guerreiros lutavam com bravura nunca vista. Não temiam perigo algum; por si mes-
mos, rompiam por entre a mais cerrada aglomeração e, quando tombavam, morriam
alegremente, quase jubilantes. Isso era incompreensível a todos os inimigos e espalha-
va tal assombro, que pouco a pouco ninguém mais ousava entrar em combate contra
os árabes e contra aqueles que estes acolheram sob sua proteção.Os jovens de famílias
nobres e modestas insistiam em ser recrutados entre os guerreiros. Certo dia compa-
MAOMÉ
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receu o quinto neto diante do príncipe para pedir-lhe que conseguisse de Abu Bekr o
seu recrutamento na tropa de elite.
- Ad-Din, indagou Maomé, não podes imaginar algo melhor para tua vida
do que derramar sangue? Para mim seria a última coisa que ambicionaria. Por que
queres tornar-te um guerreiro?
- Porque então terei certeza de poder entrar no reino de Deus, respondeu Ad-
Din ingenuamente.Vê, tu mesmo dizes que por mais que nos esforcemos para proce-
der direito, podemos às vezes fazer um erro, o qual nos impedirá a ascensão. Com os
guerreiros isso é impossível. Por essa razão julgo mais certo tornar-me guerreiro.
Maomé não pôde compreender aquilo que o neto disse. Pediu-lhe que contasse
com mais precisão como lhe ocorrera a idéia de que os guerreiros são privilegiados
dessa maneira. E Ad-Din revelou:
- Já há muito tempo Abu Bekr disse aos seus guerreiros que aquele que enfrenta
o inimigo com bravura e intrepidez pode com isso extinguir todos os pecados eventu-
almente cometidos anteriormente. Tombando, então belos seres angelicais femininos o
conduziriam a um castelo celeste, onde seria tratado e cuidado do melhor modo. Não
achas também, avô, que essas perspectivas são suficientemente atraentes para se dar
prazerosamente a vida por isso?
-Éesseomotivopeloqualtantosmoçosseapresentamparaseremguerreiros?
Inquiriu o príncipe.
O neto respondeu afirmativamente.
- Nós todos queremos ter uma vida feliz lá em cima. Este também é o motivo
pelo qual os guerreiros procuram sempre introduzir-se na mais cerrada aglomeração
de combatentes, para que tombem o mais depressa possível e sejam buscados para as
alegrias eternas.
Maomé ficou estarrecido! Semelhantes coisas puderam ser propagadas, mesmo
enquanto ele, o profeta de Deus, ainda vivia!
Como ficaria após a sua morte? Fez todo o possível para esclarecerAd-Din sobre
as sedutoras idéias preconcebidas que o dominavam. Mas o jovem não quis desistir da
bela crença, que achara tão bonita. Aferrou-se tenazmente à mesma e achava sempre
novas objeções. O príncipe viu que numa única vez nada conseguiria. Pediu a Ad-Din
que pensasse melhor sobre o assunto e voltasse numa outra ocasião. Então mandou
chamarAli e perguntou-lhe se estava ciente dessa crença errônea.Ali confessou que sim.
Sabia disso, mas como Abu Bekr conseguia dessa maneira aliciar um grupo de guerrei-
ros intrépidos, sem precedente, não ousou interferir contra isso. O ofício de guerra de-
pendia em todos os casos da coragem de cada um por si.Se houvesse alguma coisa capaz
de elevar esse ânimo e fortificá-lo, então dever-se-ia ficar contente e não combatê-la.
- No fundo Abu Bekr também não diz nada errado, apenas exagera um pou-
co, exclamava Ali, ao qual o olhar de Maomé começava a tornar-se incômodo. Ele
MAOMÉ
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pinta a bem-aventurança de um modo, que, ao pessoal, ela se afigura realmente
como tal. Que proveito tira uma dessas almas simples, do pensamento de que lá em
cima poderemos servir a Deus infindavelmente? Deixa-os permanecerem na crença
de que acolá usufruirão um bem-estar, e de que lá em cima encontrarão a recom-
pensa pela morte em prol da pátria.
- Ali! Exclamou dolorosamente o príncipe. Tu queres ser meu sucessor, e co-
meças desde já a torcer a Verdade! Nenhuma palavra deve ser dita diferente de como a
recebi do Altíssimo. Se alterardes a Verdade por causa dos homens, então ela será reti-
rada de vós!
Maomé falou demoradamente com aquele que fora escolhido para ser o anun-
ciador da Verdade após ele. Não conseguiu outra coisa a não ser que Ali se calasse. In-
timamente, porém, Ali estava persuadido de que Maomé, por estar muito afeito a sua
obra, não queria por isso que ela fosse modificada em qualquer coisa.
Cada evento no mundo deveria progredir, se quisesse permanecer duradouro.
Deveria unicamente a crença constituir uma exceção?
Isso ele disse à noite, na intimidade familiar, quando comentou agitado a pales-
tra tida com o príncipe.Abdallah, o filho mais velho, silenciou meditativo.
Então disse:
- Creio que no fundo tens razão, meu pai, mas ainda é muito cedo. Reserva
tudo isso para a época em que fores soberano no país. Isso não há de demorar mui-
to tempo mais. Uma repetição desse colóquio poderia induzir o príncipe a nomear
um outro sucessor.
Maomé, o mais novo, reagiu:
- Então não tendes noção do perigo - que representa a deturpação da Verdade?
Deixai-me contar-vos um exemplo.
Um príncipe tinha disponível um grande tesouro em ouro não cunhado e quis
fazê-lo chegar entre os homens. Mandou cunhar moedas de ouro puro e distribuiu-as.
Cada um as pegou prazerosamente, e o comércio do país floresceu. Então o tesoureiro
viu que o ouro diminuía,e cuidadosamente misturou outro metal com o ouro puro.Os
homens não o notaram e pegaram as moedas em confiança. Por fim, também aqueles
que cunhavam as moedas quiseram tirar proveito para si. Também acrescentaram ou-
tras ligas de metais. As peças tornaram-se mais pesadas do que até então. Os homens
procuravam-nas. Cada um preferia as peças pesadas, às genuínas e leves. No comércio,
todavia, reconheceu-se de repente as tais moedas falsificadas e recusaram-nas. Os ho-
mens viram-se reduzidos à maior pobreza e assassinaram o tesoureiro.
- Tua parábola é falha, meu querido irmão, disse Abdallah ironicamente.
Ali, porém, olhava meditativamente para o filho, que tinha tanta semelhança
com o Maomé mais velho. Causar-lhe-ia ainda muito aborrecimento, se não pudesse
ser encontrada uma saída. Em todas as ocasiões possíveis, representaria as concepções
MAOMÉ
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do profeta e colocá-las-ia nos seus caminhos, qual um signo da Verdade, por mais anti-
quadas que já se tivessem tornado!
Logo depois Maomé deixou o aposento. Ali e AbdaUah, porém, continuaram a
falar sobre o assunto e estavam de acordo em que se deveria colocar Maomé num cargo
o mais longe de Medina,para não haver discórdia no próprio lar.Aos poucos,tornou-se
evidente ao príncipe que se formava uma certa tensão entre ele e Ali. Este nunca faltava
com o respeito,mas calava-se assim que o profeta manifestasse um ponto de vista.E esse
silêncio demonstrava que Ali era de opinião diferente.
Se a manifestasse, então Maomé lhe poderia ter indicado do que provinha a di-
versidade no seu modo de pensar.Poderia ter sido encontrada uma ponte,um caminho
comum, que fosse trilhável para ambos. Mas Ali silenciava. Com isso foi afastada de
antemão a possibilidade de qualquer entendimento.Após isso, o príncipe percebeu que
o seu neto homônimo obviamente estava passando,em casa,por algo idêntico.Falavam
com ele somente sobre coisas triviais, enquanto que Ali e seu filho mais velho se uniam
cada vez mais estreitamente entre si.
Ad-Din fora enviado a Abu Bekr, por desejo expresso de Ali, para ser ensinado
pelo mesmo no ofício de guerra.
O neto mais jovem,Ali, ainda corria atrás da mãe e era visto raras vezes.
Maomé, então, acostumou-se a procurar para descanso o pequeno palácio de
Said, onde era sempre bem-vindo. A delicada Aischa vivia sua vida tranqüila e retraída
com suas duas filhas.
Quando, porém, o príncipe estava presente, à noite, então ela saía dos seus apo-
sentosparavirdedicar-seaopríncipeeaomarido,ecomprazia-secomsuasconversações.
Era muito sensata, tinha uma fina intuição e compreendia com mais rapidez do que os
demais, tudo o que Maomé dizia. Então, quase sempre ela dominava a sua embaraçosa
timidez e dizia aquilo que lhe acorria em pensamento,com palavras inteligentes.
Em decorrência disso, Maomé chegou a falar com muito prazer na presença de
Aischa sobre suas visões,das quais contava unicamente aAlina.As ponderadas observa-
ções de Aischa aprofundavam o sentido dessas visões.
Said continuava afeiçoado e com a antiga fidelidade e gratidão ao príncipe, o
qual o adotara quando era um pobre rapaz. Maomé podia confiar nele em qualquer
situação.
Consolava-se com o fato de que Said e Ali se entendiam aparentemente bem.
Isso, porém, apenas assim parecia. Said queria evitar dissabores para o príncipe com
relatos sobre as desavenças que surgiam entre eles. Diante de Said, Ali não silencia-
va; ao contrário, desabafava-se sempre que reprimia intimamente sua opinião pe-
rante Maomé, manifestando-a para Said mais desconsiderada e veementemente do
que, aliás, era de sua vontade. Ante isso, Said não podia permanecer calado, e assim
cada convívio entre os dois terminava em discórdia.
MAOMÉ
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Porquantotempoissopoderiaficarocultadoaopríncipe?Saidpensavaalgumas
vezes num meio para afastá-lo novamente de Medina.Então veio uma carta de Ibrahim,
solicitando a presença do príncipe em Meca, visto haver muitos assuntos a tratar.
Maomé resolveu imediatamente fazer dessa viagem uma “peregrinação” ao
santuário, como fora costume na época de sua infância. Apenas queria dessa vez
afastar toda a idolatria e transformar a peregrinação de modo que vibrasse, através
dos dias, a pura adoração a Deus. Mandou anunciar ao povo que ele mesmo cogi-
tava ir à “sagrada mesquita” para ali orar e promover uma grande solenidade. Todo
aquele que fosse adepto do Islã, poderia associar-se. Às pessoas de outra crença
estaria vedada a visita à mesquita. Não era preciso iniciar a jornada em Medina, e
sim, quem quisesse poderia unir-se aos peregrinos no caminho. Todas as pessoas
masculinas de sua família tomavam parte na romaria; apenas Ali ficou, para não
deixar Medina sem governo. Foi uma alegria para Maomé que Abu Bekr com seus
guerreiros se juntassem a ele no caminho.
Maomé e os seus familiares viajavam a cavalo, como a maioria dos nobres. Co-
merciantes abastados utilizavam camelos; os demais caminhavam a pé. Com isso, a ca-
ravana dividiu-se em três grupos, os quais não chegavam todos ao mesmo tempo em
cada parada de descanso.O príncipe só permitia o prosseguimento da romaria,quando
o terceiro grupo se unia aos outros e após os viandantes pedestres terem descansado
suficientemente. Desse modo a viagem para Meca demorou muito.
Quando Meca surgiu ao alcance da vista, foi feito o último descanso. Foi pre-
cisamente no mesmo lugar onde o príncipe teve de sentir a resistência dos moradores.
Agora era diferente. Os portões foram escancarados para deixar entrar os peregrinos,
sobretudo o príncipe. Novamente Maomé esperou primeiro os que vinham se aproxi-
mando a pé.Depois disso ordenou que todos os animais de montaria e de carga fossem
confiados aos guerreiros, os quais já por si teriam que ficar de guarda nos acampamen-
tos.A não ser a pé, ninguém deveria entrar, ao chegar o término dessa peregrinação.
Um cortejo não abrangível com a vista formou-se num dos dias seguintes. Na
frente o príncipe, e atrás dele Said,Abdallah e Maomé.Ad-Din quis naturalmente unir-
se aos irmãos, porém o príncipe determinou que ele deveria caminhar no meio dos
guerreiros, aos quais pertencia agora por livre escolha.
No portão estavam os patriarcas à espera de seu príncipe, e, conduziram-no
ao palácio reconstruído para ele, onde também a maioria de sua comitiva achou
alojamento. Todos os demais peregrinos foram hospedados, parte em casas de fa-
mília, parte em hospedarias e os restantes em tendas. No dia seguinte, ao nascer do
sol, o cortejo formou-se mais uma vez e entrou na mesquita sob o som de cânticos
de louvor e gratidão.
Ibrahim recepcionou a multidão de peregrinos com a bênção de Deus. De-
pois disso fez uma alocução e no final uma oração. Em seguida falou o profeta.
MAOMÉ
- 155 -
Novamente anunciou Deus, o Senhor dos Céus e da Terra. Quem o escutou julgou
nunca ter ouvido palavras tão poderosas. Pediu aos ouvintes terem sempre presente
que tudo aquilo que ele pôde lhes ensinar fora dado de cima. Também após a sua
morte não deveria ser modificada coisa alguma, porquanto a Verdade era eterna,
não podendo ser torcida. Tudo que se pudesse torcer não seria mais Verdade. Mas
também somente enquanto permanecessem fiéis à Verdade estariam sob a bênção
de Deus. Finalizando, leu novos mandamentos, que se haviam tornado necessários.
Salientou primeiro a proibição do uso de bebidas embriagantes. Sobre esse abuso
foi estabelecida uma punição severa, visto que um homem embriagado nunca faz o
que agrada a Deus. Tal homem põe em perigo os costumes do povo todo.
Além disso, o profeta proibiu o consumo da carne de porco.Aqueles entre os
seus seguidores que antes pertenciam ao judaísmo, abstiveram-se disso já por si. Os
outros, também, não sentiram essa proibição como um peso! Então o profeta pas-
sou a introduzir as épocas de jejum, para evidenciar ao povo, que servia ao maior e
mais santo de todos os senhores.
- Viveríeis à toa e esqueceríeis a quem pertence vossa vida, se esse jejum não
vos fizesse lembrar.
Todo o nono mês, o“ramadã”, foi fixado para a época do jejum. Ninguém po-
dia comer ou beber enquanto o sol pairasse no céu. Além disso, Maomé determinou
ainda dias isolados para o jejum, os quais deveriam ser observados rigorosamente.
- Se aprenderdes a dominar vossas cobiças, então isso será de proveito para
a vida inteira. Chegareis assim a exercer melhor controle sobre vós mesmos e pode-
reis precaver-vos contra erros e pecados.
Os dois dias seguintes decorreram com devoções e preleções na mesquita.
Nessa oportunidade Maomé fez saber que era seu desejo que cada homem fizesse
pelo menos uma vez em sua vida a peregrinação para Meca. Com isso mostraria
que fazia empenho para dar a sua vida aquele valor que deveria ter perante Deus.
Para que se recordassem de sua viagem peregrina, poderia cada um que em-
preendesse a jornada cingir seu chapéu, seja um turbante ou um barrete, com uma
fita verde, da cor da bandeira da mesquita. Essas fitas foram distribuídas aos devo-
tos na mesquita. Com altivez os presentes rumaram com os seus distintivos verdes
ao grande e improvisado pavilhão, onde, na última noite, deveriam reunir-se todos
para uma refeição em comum.
Todos juntos, o mais pobre peregrino, o príncipe com os seus, tomaram seus
alimentos. Também nessas romarias nunca deveria ser feita diferença de classe, por-
quanto perante Deus todos os homens seriam iguais.
Aos poucos se dispersou a multidão reunida. Também Said regressou com
Abdallah para Medina, enquanto os dois Maomés pensavam em ficar ainda por
breve tempo em Meca. Ibrahim, que se dedicava inteiramente ao serviço de Deus,
MAOMÉ
- 156 -
tinha muitas perguntas e sugestões a fazer. Na sua atuação descobriu intimamen-
te muitas coisas que exigiam esclarecimento. Estava contente em poder recorrer à
orientação do profeta.
Em oração e profunda meditação chegou à conclusão de que esta vida na Ter-
ra deveria ser um elo de uma longa corrente de vidas semelhantes. Quanto mais me-
ditava sobre isso, mais nitidamente se patenteava diante de sua alma a verdade desse
pensamento.Achou inúmeras provas a favor e nenhuma contra. Isso queria contar ao
príncipe e fortaleceu-se com todos os argumentos para defrontar-se com a refutação
do soberano, a qual esperava na certa. Maomé, porém, disse-lhe com satisfação:
- Amadureceste, então, para saber isso! Quando estiveste pela primeira vez
comigo na nossa mesquita, então quis falar sobre isso. Deus não me permitiu. Eu
deveria esperar até que os homens tivessem alcançado a maturidade necessária.
Essa época julguei não ter vindo ainda. Agora vejo que talvez me tenha enganado.
Logo que voltar para Medina, quero fazer a tentativa de descobrir um modo pelo
qual poderei insinuar este saber nos meus ensinamentos aos homens, sem torná-los
vacilantes em sua crença.
- Talvez temas que os turcos poderiam indignar-se, riu o Maomé mais moço,
ao saberem que seu tão desejado descanso, então, ainda seria perturbado por múl-
tiplas encarnações!
E contou ao irmão da preguiça dos novos correligionários. Mas Ibrahim riu
tão pouco quanto o príncipe.
- Também eu já tive muitos casos em que os homens acreditam no Além,
mas imaginam-no como uma afluência interminável de toda a espécie de prazeres.
Até aposentos de mulheres querem transplantar para os céus. Causa-me muito tra-
balho retificar os pensamentos errados.
- Neste caso não julgas, como teu pai, que poderiam ser feitas concessões aos
homens? Perguntou Maomé, amargurado.
Ibrahim negou decididamente. Também ele estava convencido de que não se
deveria dizer nenhuma palavra diferente do que Maomé o ensinara.
- Como estou contente, disse o príncipe, que pelo menos vós dois e mais
Said perseverareis na doutrina pura e direis sempre de novo ao povo onde se en-
contra a Verdade.
Minha vontade era modificar minha determinação e escolher um outro su-
cessor. Mas a quem deveria dar a preferência? Se escolho um de vós, então não
querereis prejudicar as obrigações filiais e colocar-vos contra vosso pai.
- Também ainda somos novos para isso,opinou Maomé,enquanto Ibrahim pe-
diu que o deixasse na mesquita, pois era onde poderia prestar melhor serviço a Deus.
Num outro dia, Maomé perguntou se os judeus, radicados ali no sul, aceita-
ram a nova doutrina e se viviam em paz. Ibrahim informou que sempre necessitava
MAOMÉ
- 157 -
ainda do punho forte de Abu Bekr para conter esses por demais impulsivos. Mas
desde que o vizir se acostumou a abafar inexoravelmente a menor revolta, o país
não tinha muito mais a sofrer.
- Se os judeus se convencessem de uma vez que o Islã lhes proporciona exa-
tamente aquilo que lhes faltava: a coroação de sua crença! Suspirou o príncipe.
Ibrahim, ao contrário, asseverou que justamente isso eles consideravam
como cilada, na qual deveriam ser apanhados para o Islã. No fundo de suas almas,
todos os antigos judeus acreditavam somente em Moisés, se é que já tivessem tido
uma determinada crença.
- Sempre presencio como os judeus mandam abençoar seus filhos com no-
mes judaicos; secretamente até os mandam circuncidar. Achariam vergonhoso se
um filho tivesse um nome árabe, como é uso, aliás, entre os judeus do norte.
- Também aqui, em tempo anterior, não se reparava nisso, declarou Maomé,
senão eu, como filho de pai judeu, com certeza teria recebido um outro nome.
- Maomé quer significar: o homem que vale o preço, disse o Maomé mais
novo. Contigo isso corresponde efetivamente à realidade. Quero tentar consegui-
lo também.
Dessa vez o príncipe partiu com pesar de Meca, onde o envolvia a paz. O que
o esperaria em Medina, em face da arbitrariedade de Ali? E, contudo, teve de regres-
sar para lá, porquanto precisava tentar impedir que modificassem aquilo que ainda era
possível.
Sem incidentes chegaram certa noite à capital e encontraram-na calma.Eviden-
temente não se esperava ainda a volta do príncipe, porém estava tudo preparado para
recebê-lo, no palácio principesco.
Said veio o mais depressa possível para cumprimentá-lo,e relatou que na frontei-
ra do norte tinham irrompido agitações,de maneira que Abu Bekr se dirigira para lá.Ali
estava doente, senão também teria comparecido à recepção. Evidenciou-se que as per-
turbações no norte não eram de natureza grave. Era bom, porém, que se mostrasse aos
rebeldes imediatamente a autoridade,de sorte que tal não se repetisse mais no futuro.
Poucos dias depois, Ali estava restabelecido. Estava mais calmo do que antes e
mais acessível às explicações de Maomé. Para o soberano era uma grande alegria; por-
quanto julgou que Ali se transformara intimamente com a moléstia.
Alina e Aischa, que enxergavam com mais clareza, não quiseram tirar-lhe a
alegre credulidade. Pouco lhe seria possível fazer para modificar o modo de pensar
de Ali, no qual mais e mais se evidenciava o caráter do pai. Assim como Abu Talib
fora cobiçoso por dinheiro, Ali o era pelo poder, pelo domínio e pelo prestígio, que
o fizeram esquecer tudo o mais.
MAOMÉ
- 158 -
Fatime não teve nenhuma influência sobre ele. Afastou-se dela por comple-
to, desde que ela fizera algumas vezes, chorando, a tentativa de mudar o seu modo
de pensar. Constava que vivia com outra mulher; entretanto, as mulheres nada sa-
biam de positivo. Silenciavam para não denunciar ao príncipe rumores incertos.
Esse silêncio se lhes tornou mais fácil do que esperavam; porquanto Maomé
vivia mais para dentro de si do que para seu ambiente. Aproveitava a tranqüilidade
no país para abrir-se a novas revelações que lhe afluíam ditosamente.
Começou a aprofundar-se nas verdades transmitidas por Jesus. Baseado em
alguns escritos propagados entre os cristãos, procurou tornar vivas as palavras ver-
dadeiras, assim como ressurgiam em sua alma.
Viu com admiração que tudo aquilo que julgava como sendo anunciações no-
vas, dadas a ele, já havia sido proclamado à humanidade pela boca do Filho de Deus.
A humanidade, porém, não o compreendeu. Assim como a areia no deserto
cai sobre tudo e tudo nivela, do mesmo modo os pensamentos humanos encobri-
ram as palavras celestes e vulgarizaram-nas.
Nada, absolutamente nada daquilo que podiam perceber agora espiritual-
mente, precisava ser novo para eles se tivessem trazido na alma as palavras do Mes-
sias e vivido em conformidade com as mesmas. Fazia agora a tentativa de recons-
truir algumas das preciosas palavras de Jesus e de explicá-las de maneira a poderem
ser compreendidas pelos homens. Sentiu satisfação nesse trabalho e fez uma idéia
de como o mundo se tornaria melhor, se Jesus fosse tido novamente como norma
para tudo. Sua vida como exemplo e suas palavras como estrela-guia; de que mais
os homens precisavam?
Nesse aprofundamento lembrou-se também dos avisos sobre o Juízo Final.
Diante dos seus olhos pairava a estrela, o mensageiro do céu, o qual ele pôde con-
templar no deserto. Diante de sua alma pairava a imagem de Jesus, como ele ca-
minhara na frente dos seus discípulos. A isso ainda se juntaram imagens que ele já
havia visto.
Tornou-se-lhe claro que o Filho de Deus que viria para julgar o mundo, não
poderia ser Jesus Cristo.
O Messias nunca havia dito: “Eu virei novamente!” Sempre se serviu de ou-
tras expressões. Na maior parte das vezes falou do Filho do Homem. Subitamente,
Maomé sabia quem era o Filho do Homem. Filho de Deus, a Vontade de Deus,
assim como pudera vê-Lo! Quando esse Filho de Deus viesse para julgar o mundo,
então a estrela apareceria outra vez no céu. Dessa estrela deveria anunciar agora e
Daquele a quem essa estrela anunciou!
Começou então a falar cada sexta-feira, na mesquita, sobre os últimos dias
do mundo, assim como se lhe afiguravam diante dos olhos de seu espírito. Descre-
veu o Juiz dos Mundos, o qual, sentado sobre um trono de ouro, separava os fiéis
MAOMÉ
- 159 -
dos infiéis, concedendo a um a vida e a outro a condenação eterna. Aqueles aos
quais ele dava a vida eterna, poderiam ir com ele ao seu reino, o reino de Deus, seu
Pai. Com essas preleções o profeta tornou-se vidente, descrevendo as imagens que
passavam diante de sua visão interior.
Falava com grande felicidade, porém apenas alguns eram capazes de segui-lo.
Também não se esforçavam, pois não queriam saber nada dum Juízo justo de Deus.
Queriam ouvir sobre as alegrias que os esperavam no Além, o descanso que
se segue à fadiga, a bem-aventurança que se segue à aflição. Sobre isso o profeta
deveria falar a eles.
Certa vez Abdallah dirigiu-se a Maomé com o pedido de que fosse ao en-
contro dos desejos do povo. A assistência às preleções na mesquita diminuiria, se o
povo tivesse que ouvir sempre somente aquilo que não queria ouvir.
- Precisam ouvir isso! Exclamou Maomé com a antiga impetuosidade, a qual
quase não mais se percebia nele. E necessário que compreendam isso.Ajuda-me antes a
convencer essa gente, em vez de te tornares intermediário de suas concepções errôneas.
Abdallah deu de ombros.
- Verás que não poderás obrigar os homens. Serias mais astuto se cedesses
aparentemente e falasses a eles assim como lhes é agradável. Em seguida poderias
então incluir de novo o Juízo, se não deve ser de outro modo.
- Nunca dei muito valor a essa chamada astúcia, Abdallah, disse o príncipe,
tornando-se mais calmo. Agora sou muito velho para andar por caminhos tortos.
Também sei que abandonaria as veredas de Deus. Eu, porém, sou Seu instrumento.
Farei a tentativa de pronunciar minhas palavras com mais amor ainda.
Tomou isso a sério. Acusou-se a si próprio de ter talvez procedido muito
severamente, em seu desvelo de expor às almas humanas o último Juízo de uma ma-
neira impressionante. Procurou um modo novo para fazê-las compreender aquilo
que tinha de mostrar-lhes. Começou, assim, discorrendo sobre a bondade e a mi-
sericórdia de Deus. Então, logicamente, também teve de censurar as falhas dos ho-
mens. Se nas primeiras preleções sentiram alívio, nas últimas, entretanto, sentiram
novamente como se uma carga lhes fosse imposta desnecessariamente.
Abdallah dirigiu-se ao seu pai para conseguir dele a promessa de procurar
convencer Maomé de que também outros deveriam falar uma vez na mesquita. Ele
deveria preparar em tempo um sucessor também para essa parte.
Por mais que o plano lhe agradasse, Ali hesitou, no entanto, em executá-
la. Poderia dar motivo a novos e indesejáveis atritos se o sucessor quisesse falar
diferente do que Maomé desejasse. Falando, porém, no sentido do profeta, então
nada melhoraria.
- Devemos ter ainda um pouco de paciência, meu filho, tranqüilizou-o.
Maomé gastou prematuramente suas forças, porque nunca se poupou. Não viverá
MAOMÉ
- 160 -
muito tempo mais. Após isso, poderemos fazer o que bem nos apraz. Por que dis-
putar antecipadamente aquilo que virá depois por si?
Abdallah conformou-se. Maomé sentia-se satisfeito, vendo tudo em paz.
Ali com perspicácia havia enxergado certo: as forças terrenas do profeta estavam
combalidas.
Quanto mais evoluía em espírito, tanto mais rápido diminuíam suas forças
físicas. Ele mesmo quase não notou, mas Alina e as outras mulheres o observavam
apreensivas. Tentaram muitas vezes persuadi-lo a descansar e procurar lazeres agra-
dáveis. Raras vezes transigia, e assim mesmo apenas por curtos instantes.
- Não tenho tempo para essas coisas, costumava dizer amavelmente. Devo
atuar enquanto Deus ainda me pode utilizar aqui embaixo. Ele proporciona-me
cada dia tanta força quanto necessito.
Então o amor de Said utilizou-se de um ardil. Pediu ao príncipe que lhe ex-
plicasse, sempre que lhe fosse possível, aquilo que anunciava na mesquita. Ele, Said,
desejava saber mais sobre isso, a fim de que mais tarde pudesse influenciar o povo
no sentido como Maomé preconizava em suas explanações orais.
Said preocupava-se realmente em procurar compreender tudo melhor do
que os outros, para que após a morte de Maomé restasse mais um que reconhecera a
Verdade. Contudo, ele também podia ter adquirido esses conhecimentos em época
mais oportuna. Por essa razão convidava o príncipe a vir em diferentes horas ao seu
palácio; acomodava-o confortavelmente num divã, sentava-se aos seus pés e esti-
mulava-o a narrar àquilo que enchia sua alma. Essas eram horas de pura felicidade
para ambos.
Em nenhuma outra parte Maomé sentia-se tão bem compreendido. Said
desenvolvera-se mais, desde o seu matrimônio com Aischa. Quando nessas oca-
siões o Maomé mais moço, com sua rápida assimilação e seu coração ardente, se
juntava a eles, nesse momento parecia como se a força de cima afluísse visivel-
mente para eles.
A escola fundada pelo neto de Maomé tomara grande impulso. Por toda
parte necessitava-se de conhecedores de línguas. Os jovens das famílias mais nobres
desejavam receber instrução. Alguns deles até já haviam passado de alunos para
professores e ajudavam o jovem Maomé. No entanto, como tarefa de prioridade, a
par do ensino lingüístico, ele se propôs a instruir as pessoas na doutrina pura.
- Mais tarde naturalmente tereis de interpretar principalmente palestras
sobre assuntos de crença! Disse aos alunos. Será de bom alvitre que desde já vos
torneis firmes nisso.
MAOMÉ
- 161 -
Dessa maneira preparou uma turma de jovens unidos, os quais estavam con-
victos da Verdade do Islã, como Maomé a ensinou, e viviam de acordo com as leis
morais. Quando se despediram da escola para tomar posse de um cargo, promete-
ram pôr em prática e defender a doutrina em toda parte a que chegassem.
Isso não pôde nem deveria ficar oculto.Ali olhava para isso com maus olhos.
Dessa turma poderiam surgir-lhe mais tarde muitas contrariedades, as quais desde
já com muito gosto teria tornado inofensivas. Contudo, não achou nenhum meio
viável. Assim que se tornasse príncipe, poderia tratar de fechar a incômoda escola;
agora, porém, deveria tolerá-la ainda.
Maomé,o profeta,visitava com muito prazer essa escola com seus vivos e alegres
alunos. Muitas vezes falava a eles. Esses eram os pontos culminantes da vida escolar.
Tornou-se costume que Ali, cada manhã, relatasse ao príncipe tudo o que
havia se passado no dia anterior e também aquilo de que tivesse conhecimento
por meio de recados. Maomé, então, ordenava o que deveria ser feito. Às vezes,
acontecia que o príncipe chegava a saber que Ali, em caso algum, havia procedido
de acordo com essas ordens. Quando o admoestava, então, Ali se desculpava: tinha
compreendido errado as palavras do príncipe, ou fora necessário agir diferente no
momento preciso, sem ter havido mais tempo para perguntas.
Quando esses casos se tornaram mais freqüentes, o profeta consultou o lu-
minoso mensageiro de Deus, se seria sua obrigação tomar novamente as rédeas do
governo com mão firme. Se deveria verificar como suas ordens eram executadas.
Então não lhe sobraria mais tempo para aprofundamento espiritual. Recebeu como
resposta que era mais importante firmar no povo o saber sobre a Verdade Divina,
do que pôr exteriormente em execução medidas governamentais.
Depois disso Maomé continuou a trabalhar de maneira inabalável como
antes. No entanto, não deixou de admoestar e repreender repetidamente, quando
chegavam ao seu conhecimento, negligências e arbitrariedades de Ali. Quanto mais
incômodo isso se tornava para o sucessor, tanto mais cautelosamente este procedia.
Urdiu aos poucos uma tessitura de mentiras em redor do príncipe, com tanta habi-
lidade, que nem o amor de Said, nem o zelo de Maomé puderam penetrá-la e muito
menos dilacerá-la.
Certo dia chegou aos ouvidos do príncipe a notícia sobre o casamento clan-
destino de Ali. Ficou indignado. Como poderia um homem, que tinha uma Fatime
como esposa, a qual lhe presenteara com filhos varões, não se dar por satisfeito. Se,
porém, ele desejasse uma segunda mulher, por que não a tomava publicamente
como esposa?
Ali negou tudo. Era calúnia. Teriam confundido a sua pessoa. Nesse momen-
to o príncipe se enojou do seu sucessor e pediu a Deus que não permitisse a posse
de Ali no governo.
MAOMÉ
- 162 -
Alguns dias depois, Ali declarou que queria fazer a peregrinação para Meca,
a qual não pôde realizar naquela ocasião, devido aos ofícios urgentes no governo.
Uma romaria partiria nos próximos dias para o santuário, à qual queria juntar-se.
- Pensa bem,Ali,exortou Maomé,que somente se pode tomar parte no cortejo
com o coração arrependido! Quem se aproxima do santuário de Deus,sem arrependi-
mento e com a alma carregada de culpas, atrai irremediavelmente sobre si o castigo!
- Nesse caso minha peregrinação justamente nesta época deveria provar-te
com mais clareza a minha inocência, do que o poderiam todas as palavras, replicou
Ali com finura.
Não foi possível arrancá-lo da obstinação. Apesar de todo o dispêndio de
esforços por parte do profeta para aproximar-se de sua alma, foi tudo em vão. Teve
que deixá-lo partir, profundamente consternado com a hipocrisia do homem ante-
riormente tão sincero. Negligenciara alguma coisa nele?
Perguntou a Said. Este contestou-o vivamente.
- Não deves esquecer, príncipe, que é filho do pai dele.
De algum modo os dois deveriam ter uma semelhança íntima, principal-
mente porque a índole da mãe não ofereceu nenhuma compensação. Pelos filhos de
Ali não receio, pois eles têm Fatime.
No lar de Said recentemente associara-se às meninas um pequeno, Omar, a
alegria dos pais. Também Maomé regozijou-se com o garoto, que era uma criança
bela e vivaz.
Ali demorava para regressar de Meca. Isso já se tornava motivo de inquietação
para Maomé. Então soube que seu substituto aproveitara o caminho para fazer visi-
tas a diversas províncias. Enquanto o príncipe se livrava de todas as preocupações e
se voltava com aprofundada concentração a seus afazeres espirituais, Said e o jovem
Maomé tiveram algumas conversas angustiadas sobre a demorada ausência de Ali.
- Quanta desgraça ele pode provocar com essa viagem! Suspirou Said, esque-
cendo completamente que estava falando ao filho do censurado.
Este, porém, concordou com ele, e disse:
- Apresentar-se-á como futuro príncipe. Eu desejava que o avô nunca tives-
se falado qualquer coisa sobre seu sucessor, e então poderia agora ainda escolher
livremente.
- Quem ele poderia propor? Perguntou Said, aflito. Não sabia de ninguém
que pudesse preencher o posto.
- A ti, respondeu Maomé rapidamente.
Quando Said lhe explicou que o povo não o aceitaria por causa de sua ori-
gem humilde, Maomé disse lamentando:
MAOMÉ
- 163 -
- Em último caso Abu Bekr sempre ainda seria melhor do que o pai. Pelo
menos é franco e sincero.
- É bom que não caiba a nós determiná-lo, respondeu Said finalizando.
Poucos dias mais tarde Maomé procurou o avô a fim de pedir permissão
para ir ao encontro de Ali. O príncipe ficou admirado com esse sentimento de amor
filial, anuindo, porém, de bom grado.
Assim o jovem Maomé partiu com a aquiescência de Said e Alina, a fim de
interceptar atividades arbitrárias de Ali. Julgou que, estando perto dele, não poderia
pronunciar palavras ambíguas. Deveria envergonhar-se perante o filho.
Por intermédio de viajantes comerciais, chegou a saber que Ali dirigira-se
para a Síria, a fim de exigir dos administradores de lá o juramento de fidelidade a
ele. Isso não poderia acontecer enquanto Maomé ainda vivesse!
Com um pequeno grupo de acompanhantes, o jovem auxiliar cavalgou nes-
se rumo; sua apreensão estimulava-o a apressar-se cada vez mais. Já havia passado a
fronteira da Síria, quando encontrou inesperadamente Abu Bekr com os seus guer-
reiros, os quais julgava que ainda se encontrassem no norte.
Cumprimentaram-se e fizeram descanso em comum, apesar de Maomé ter
declarado que não tinha tempo para demorar-se ali; pois deveria achar o pai.
- Isso podes fazer mais rapidamente se ficares comigo, do que se cavalgares
para Halef ou para Damasco, riu Abu Bekr. Olha no acampamento, lá o verás. Mas
a falar a verdade, quero aconselhar-te: não olhes lá dentro. Ele está mal-humorado
e poderia vingar-se em ti daquilo que é minha culpa.
Às insistentes perguntas do jovem, o vizir informou que algo o tinha indu-
zido a tomar o caminho de regresso através da Síria, não obstante não terem sido
avisados de qualquer agitação naquela região.
Então escutou estranhos boatos. Ali, o príncipe da Grã-Arábia, estaria se
deixando ovacionar e estaria exigindo juramento de fidelidade por toda parte. De-
clarava que Maomé falecera, e que ele, Ali, havia se tornado soberano em seu lugar.
- Isso me revoltou tanto, que obstruí o caminho do mentiroso e obriguei-o a
voltar comigo para Medina. Ele, porém, riu-se de mim, e insistiu em cavalgar adian-
te. Nesse momento agarrei-o um pouco asperamente. Para as próximas semanas
terá perdido a vontade de andar a cavalo.
E agora fala: o que te fez vir aqui?
Maomé relatou com a mesma franqueza a finalidade de sua viagem apressa-
da. Abu Bekr pegou sua mão:
- És um excelente moço, no qual se pode confiar! Ainda nos regozijaremos con-
tigo, quando teu avô não mais estiver entre nós e começarem as inevitáveis confusões.
- Que pretendes fazer com o pai? Indagou o jovem, apreensivo, após terem tro-
cado demoradamente suas opiniões. Não podes obrigá-lo a voltar se ele não quiser!
MAOMÉ
- 164 -
- Ah! é assim, riu estrondosamente Abu Bekr. Não posso fazer isso, então? Com
suainfidelidadeeletornou-seculpadoperanteopríncipe.Encontrei-oemflagrante,sub-
juguei-o e aprisionei-o. Como prisioneiro meu,posso conduzi-lo para onde eu quiser.
- O sucessor do príncipe, teu prisioneiro? Exclamou Maomé, horrorizado. Estou
receando,vizir,que aí a tua lealdade e tua vontade te pregaram uma má peça.Não podes
conduzir o auxiliar mais graduado do príncipe, preso, para lá e para cá, através do país.
- Isso não posso fazer, filhinho? Bradou Abu Bekr, que começou a irritar-se. Mas
ele pode mentir,tapear e atraiçoar o príncipe! Isso ele pode,hem?Acredita-me que então
eu também posso proceder com ele conforme merece!
Maomé sacudiu a cabeça. Não viu nenhuma saída para esse apuro, no qual a
probidade de Abu Bekr o levou. E que era um apuro, isso tornou-se-lhe evidente.
Não se tratava, para ele, do pai. Esse conceito já há muito perdera o valor. Trata-
va-se, porém, do sucessor e substituto do príncipe! Como poderia o povo respeitá-lo, se,
como prisioneiro culposo do vizir, fora arrastado pelo país?
Surgiu-lhe um novo pensamento.
- Abu Bekr, teus guerreiros sabem que manténs preso o sucessor do príncipe?
O indagador esperava um não, porém este também não veio.
- Achas que meus homens podiam tê-lo subjugado com a sua tropa, sem vê-lo?
Além disso,Ali bradava continuamente:“Não avilteis minha sagrada pessoa; sou o prín-
cipe da Grã-Arábia”.Portanto,isso deve ter-lhes soado aos ouvidos!
- O que achas,então, que deve ser feito? Perguntou Maomé, apreensivo.
- Assim que eu chegue de regresso a Medina, prestarei contas ao príncipe do que
fiz e por que assim se deu. Feito isso, fica a seu critério decidir como quererá punir a
infidelidade e a perfídia. Isso, então, não é mais da minha conta. É chegado o último
momento para que se abram os olhos do profeta quanto às maquinações insidiosas do
ambicioso Ali.Perdão,sempre esqueço que ele é teu pai.
- Isso podes esquecer,vizir,disse Maomé sério,mas tem presente que ele é o subs-
tituto do príncipe.
Diante disso Maomé não teve mais pressa de seguir adiante.Sua vontade era im-
pedir que Abu Bekr regressasse a Medina. Quão profundamente chocante deveria ser
para o príncipe a notícia sobre a traição de Ali!
O substituto ferido foi conduzido dali no dorso de um camelo, numa espécie
de liteira. Não chegara ainda a avistar-se com o filho. Este não sentia desejo algum de
procurar um encontro.
Enfim,certodia,chegaramaofinaldaviagem.Noportãosouberamqueoprínci-
pe estava gravemente enfermo. Ficaram assustados. De momento Abu Bekr com certeza
não deveria comunicar-lhe nada sobre o procedimento de Ali, sobre seus ferimentos e
seu aprisionamento.
O que deveria ser feito com Ali?
MAOMÉ
- 165 -
Mandaram chamar Said e deliberaram com ele. Dele souberam que a enfermi-
dade do príncipe era muito grave.Estava no palácio de Said,onde havia dias sofrera um
colapso. Os médicos não permitiram que fosse feito qualquer movimento com ele.
Alina e Aischa tratavam-no abnegadamente e com todo seu grande amor.
Por ora não se poderia contar tais coisas ao príncipe. Isso também não teria
pressa. O povo estaria se preocupando ansiosamente com a vida do profeta e não
daria pela falta de Ali, o qual o povo julgava encontrar-se ainda em Meca.
Então os três resolveram levar Ali para o porão do palácio de Abu Bekr e lá
mandar vigiá-lo.
Foram escolhidos os guerreiros mais fiés e de confiança para esse serviço; os
outros foram mandados a um acampamento fora da cidade e obrigados a calar.
Às eventuais perguntas do príncipe, poder-se-ia informar que Ali fora ferido
num combate e só voltaria após o seu
restabelecimento dos ferimentos. Procederam da maneira como determina-
ram entre si. Ali vociferava freneticamente. Nada lhe foi dito sobre a enfermidade
do príncipe, de sorte que teve de supor que estava sendo mantido preso por ordem
do mesmo. A ninguém era permitido aproximar-se dele. Sozinho, deveria refletir
sobre sua culpa.
Maomé teve desejo de procurar logo o avô. Demorou, porém, alguns dias, até
que a febre baixasse e o médico permitisse visita. Os dois, que se assemelhavam muito,
externa e internamente,tiveram grande alegria ao se reverem.
- Agora não te afastarás mais de mim, enquanto eu estiver vivo, meu filho, pediu
o príncipe com ternura, e o mais novo prometeu.
Ele mesmo não pôde imaginar coisa melhor do que ficar de vigília ao lado do
leito do enfermo e participar de tudo o que acontecia ao redor. Pôde ver as luminosas
figuras que se aproximavam do leito anunciando e consolando, animando e comuni-
cando. Nem sempre ouviu o que falavam, mas que se tratava de algo maravilhoso, isso
pôde depreender das feições radiantes do doente. Nenhuma pergunta a respeito de Ali
saiu dos lábios do enfermo; em compensação, pediu que mandassem chamar Ibrahim.
Alina já havia pensado nisso,e o jovem xeque já se achava a caminho.Alguns dias depois
apresentou-se perante o leito. Paz e tranqüilidade de alma emanavam dele. Seus olhos
castanhos irradiavam uma alegria que não era deste mundo. Longe de todos, tornou-se
uma personalidade independente e valorosa. O príncipe sentiu alívio ao vê-lo. Somente
então começou a pensar em coisas terrenas, enquanto que antes se movimentava com
todos os seus sentimentos intuitivos em outras planícies. Pediu a Ibrahim que assumisse
o cargo de xeque na mesquita de Medina,a mesquita do profeta.
MAOMÉ
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- É muito fácil executá-lo,meu filho,disse com um amável sorriso.Desde que es-
tou deitado aqui, ninguém mais falou nas sextas-feiras aos homens. Teu irmão Abdallah
lê, mas isso só não basta. Fala tu agora ao povo, enquanto eu ainda permaneço na Terra.
Eles acostumar-se-ão contigo e não mais quererão prescindir de ti,depois que eu for em-
bora. Aliás, é muito importante que justamente aqui, onde infelizmente existem tantas
correntes contrárias,seja aVerdade ensinada da maneira mais pura.
Ibrahim queria fazer objeções, no entanto algo o impediu. Prometeu o que o
príncipe desejou e este ficou visivelmente mais calmo.
Momentos depois começou novamente:
- Ali não é mais digno de ser meu sucessor. Deveis julgá-lo em segredo e fazê-lo
desaparecer. Abu Bekr, sê tu príncipe da Grã-Arábia em meu lugar! A Verdade terá em
ti um amigo e protetor. Nunca, porém, esqueças que um príncipe deve construir e não
destruir,sanarenãoferir.Setiveresderecorreràsarmasederramarsangue,entãoescolhe
para ti um chefe guerreiro que atue em teu lugar. Promete-me isso!
O vizir, completamente atordoado, prometeu tudo o que o príncipe exigiu. Por-
tanto, Maomé sabia da perfídia de Ali! Com verdadeira galhardia suportara tudo isso.
Realmente, havia uma grande diferença entre Maomé e os homens que o rodeavam. A
Said,o príncipe agradeceu pela sua fidelidade nunca vacilante e seu amor filial.
- Com tua conduta fizeste-me esquecer que em realidade não és meu filho.
Deus recompensar-te-á por isso; eu não o posso. Terás que passar por duras pro-
vações assim que eu deixar a Terra. Com muito gosto te pouparia, mas vejo nitida-
mente que assim deve ser.
Permanecerás firme como um baluarte, contra as ondas de descrença, crença er-
rôneaetraição.AforçadeDeusestarásemprecontigo,enquantoaimplorares,eenquan-
to Deus ainda precisar de ti aqui na Terra. Paz interior esteja contigo em meio a todas as
discórdias. Deus,o Senhor,te abençoe!
Comovido, Said retirou-se de perto da cama. Não teve mais esperança de que
Maomé convalescesse. Quem assim falava, já devia estar à beira do Além.
Nesse momento, Maomé fez um gesto ao seu neto predileto para que se aproxi-
masse.Este ajoelhou-se perto do leito e num impulso de afetuosidade encostou a cabeça
no peito do enfermo, o qual passou levemente suas mãos sobre a mesma. Demorada-
mente os dois permaneceram em silêncio,mas um fluir de forças sagradas passou de um
para o outro,o que promoveu uma profunda compreensão.
- Maomé,a ti caberá a tarefa mais difícil.Gostaria de levar-te comigo agora,assim
que deixar a Terra. Deus, porém, o dispôs diferentemente. Sê tu o amparo das delicadas
mulheres, as quais tenho de deixar para trás. Sê seu auxiliador até que voltem tempos
calmos.Correrá sangue e serão assassinados inocentes.Protege as mulheres por essa épo-
ca! Após isso, consulta Deus sobre outros serviços. Foste meu neto predileto, não apenas
porque reconheci em ti uma parte de mim mesmo, mas sobretudo porque seguiste teu
MAOMÉ
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caminho imperturbavelmente claro e reto. Permanece como és, e a bênção de Deus te
acompanhará,assim como a minha estará sempre contigo.
Foi chamadoAbdallah.Veio contrariado e não quis saber quão doente o príncipe
estava,Perguntouimpetuosamentepelopai.Antesquepudessemresponder-lhe,desejou
saber por que Ibrahim fora chamado para a mesquita. O médico eAbu Bekr deram a
entender que deveria moderar-se,pois estava na presença de um moribundo.
Por um momento Abdallah se assustou; então, porém, virou-se e deixou o apo-
sento sem dizer uma palavra.Se Maoméo escutou ou o viu,isso ninguém chegou a saber.
O príncipe desejou,então,que as mulheres chegassem uma a uma a sua presença; queria
despedir-se. Inicialmente se opuseram a isso, quando pronunciara essa palavra. Agora
nenhum dos presentes tinha coragem para isso. Era por demais evidente que essa vida
preciosa estava prestes a extinguir-se.
Aischa veio com suas filhas,e Maomé agradeceu-lhe por todo o amor que encon-
trara em sua casa.Tinha tomado afeição por Aischa como se fosse sua própria filha.
Se agora Said tivesse de consagrar todas as suas forças para o reino,então ela,com
Alina, Fatime, suas filhas, todas juntas, deveriam retirar-se para um lugar seguro, fora de
Medina. O jovem Maomé estava nomeado para protegê-las e encarregar-se-ia de todas
elas. Também para Fatime e as outras filhas ele teve palavras bondosas. Depois disso
pediu que o deixassem a sós com Alina.
- Tu,minha fonte de bênçãos na Terra,deixa-me agradecer-te,disse emocionado.
Estas palavras nunca quiseram passar pelos meus lábios, tantas vezes que se impeliram
para lá. Se me foi possível observar os mandamentos do Senhor e seguir puro e imacu-
lado meu caminho, então tu me ajudaste nisso, minha flor pura dos jardins eternos de
Deus! Limpos e impecáveis são todos os teus pensamentos e atos. As moças e mulheres
do teu ambiente familiar tornaste puras e delicadas. Atua ainda, após o meu trespasse,
por muito tempo sob a bênção, e ensina as mulheres a se tornarem iguais a ti. É meu
desejo que todas vós que estais ligadas a mim pelo laço do amor vos oculteis em alguma
parte, até que as épocas de rebeliões, que agora deverão vir, tenham passado. Maomé,
meu neto, deverá ser para vós um guarda e protetor. Segue meu conselho nesta parte,
porquanto é necessário que te conserves para o nosso povo. Deus mesmo assim o quer!
Sua bênção esteja contigo.Ver-nos-emos de novo!
Essas foram as últimas palavras que Maomé falou por uma necessidade terrena
a um ente humano. Dali em diante todos os seus pensamentos estiveram com Deus. Se
falava, então isso sucedia para anunciar aquilo que lhe era dado ver.
Seus lábios balbuciavam ininterruptamente. Mesmo aqueles que estavam perto
dele, muitas vezes não puderam entender o que dizia. Nesse momento, de novo as pala-
vras soavam claras e nítidas. Falou dos Filhos de Deus. Teve uma visão de Cristo, assim
como o vira outrora.Pediu e implorou poder novamente caminhar com ele.Em seguida
estampou-se um sorriso maravilhoso em seu semblante.
MAOMÉ
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- Ó tu, sagrado Filho de Deus, esqueci! Nunca mais precisarás cansar teus pés na
poeira de nossas estradas. Nunca mais precisarás falar a um povo obstinado que não te
quer escutar, e quando te ouve, deturpa e avilta tuas sagradas palavras. Mestre, tu estás
com Deus! “Eu e meu Pai somos uno”, anunciaste para nós! Isso agora pôde tornar-se
realidade para ti. Ficaste novamente uno com o teu Pai eterno. Agradeço-te por ter tido
permissão de anunciar de ti!
Maomé silenciou longamente.De repente ergueu-se,como se contemplasse algo
de majestoso. Levantou seus braços sem forças:
- Juiz do mundo,Filho de Deus! Em profunda humildade inclino-me diante de ti
e suplico-te: consente que te sirva quando vieres para julgar!
O profeta calou-se, como se escutasse atentamente. Depois disso seu semblante
se transfigurou ainda mais.
- Rendo-te graças, a ti, Eterno! Neste caso poderei servir-te lá em cima. Não ne-
cessitarás mais de mim quando pisares na Terra? Mas lá em cima poderei ultimar minha
obra? Agradeço-te pela tua imensa graça!
Novamente seguiu-se um longo silêncio. Um ou outro dos presentes aproxima-
va-se silenciosamente da cama para verificar se ainda respirava.
Parecia que Maomé dormia tranqüilamente. Contudo, somente assim parecia.
Sua alma desprendia-se facilmente, sem dores. Entes luminosos assistiam-no. Também
rodeavam o corpo terreno, a fim de que não sentisse nenhuma dor com o desligamento.
Maomé, o jovem, pôde vê-los. Também foi agraciado para escutar o que foi dito
ao moribundo.
“Volta a tua Pátria, meu servo Maomé. Sempre foste um instrumento fiel. Não
é tua culpa, se aquilo que tiveste permissão de trazer ao mundo novamente afundar na
imundície que é ativada pelas trevas.Foste destinado a ser um portador daVerdade.Tu o
foste! Superaste a ti próprio,e viveste para os outros.Serviste a teu Deus!
Volta.A Pátria eterna espera-te!”
Intenso brilho concentrou-se por sobre a cama do moribundo, o qual abriu os
olhos pela última vez, e clamou em voz alta:
“D E U S !”
Nessa única palavra jazia um triunfo e uma bem-aventurança que aqueles que a
ouviram nunca mais esqueceram. Através das horas mais difíceis de suas vidas, quando
estiveram na iminência de tropeçar, essa única palavra ajudou-os e segurou-os:
“D E U S !”
MAOMÉ
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SUPLEMENTO
MAOMÉ
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O falecimento de Maomé provocou entre os seus as mais desencontradas
sensações. Um pesar sincero comovia a todos, porém somente Alina e Aischa pude-
ram entregar-se a esses sentimentos.
Os homens sabiam que havia chegado o momento de agir, se quisessem pre-
venir que se manifestassem logo a seguir os maiores distúrbios. Deixaram a sala
mortuária aos cuidados das mulheres, inculcando-lhes que não deixassem entrar
nenhum serviçal, nem qualquer outra pessoa, enquanto eles se retiravam a um dos
aposentos contíguos para deliberarem. Que urgia tomar providências, isto todos
compreenderam perfeitamente. Abu Bekr, que era sempre tão enérgico e decidido,
estava completamente arrasado. Não compreendia que deveria ser o sucessor do
profeta; duvidava que poderia resolver a situação.
Said e Ibrahim estavam calados; olhavam, porém, para Maomé, de cuja pers-
picácia esperavam auxílio.
Ele não estava consciente disso. Sua alma dirigia-se em oração para as alturas,
a fim de obter orientação para todos. Parecia-lhe como se escutasse a voz do falecido,
dando-lhe instruções claras e nítidas sobre o que deveria ser feito primeiramente.
Era tudo tão compreensível, que entrou paz e confiança na alma do homem.
Levantou-se e dirigiu a palavra aos outros.
- Escutai, disse, o príncipe vos dá, por meu intermédio, ainda uma vez or-
dens, as quais devemos executar fielmente. Sua morte deve permanecer em sigilo
enquanto o traidor Ali não for eliminado. Este, portanto, deve ser julgado nos pró-
ximos dias, em nome do profeta.
Somente então pode ser anunciada a morte de Maomé, e Abu Bekr será procla-
mado seu sucessor. Se negligenciarmos isso, então uma guerra civil será a conseqüência
inevitável.Ali nunca abandonaria, de boa vontade, a já agora arrogada soberania.
Como, porém, o invólucro terreno de nosso príncipe não pode permanecer
exposto tanto tempo sobre a Terra, a ordem dele é que o enterremos esta noite, no
jardim deste palácio. Deve ser procedido com o maior sigilo. Isto está claro. Mais
tarde então deveremos sepultá-lo na mesquita do profeta. Para esse fim, devemos
deitá-lo hoje na terra, de um modo que possa ser desenterrado facilmente. Pede-vos
que não considereis isso como uma profanação do cadáver, e sim, que compreen-
dais ser ele induzido a isso pelo seu amor ao povo.
- Sim, o amor ao seu povo! Disse Said quase chorando. Esse amor ele man-
tém até após a morte. Jamais desejou alguma coisa para si mesmo. Agora desiste até
do honroso funeral de que é digno, e prefere deixar-se enterrar como um crimino-
so, a ver deflagrar uma guerra civil por sua causa!
- Estais de acordo que sigamos as instruções de Maomé? Perguntou o jovem
Maomé, com insistência. Todos concordaram.
- Então tomemos sem delongas as providências necessárias. As mulheres
MAOMÉ
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podem lavar, untar, vestir e adornar o morto. Tu, Ibrahim, podes ajudá-las nisso e
rezar as orações fúnebres que ele mesmo compôs. Nós outros temos de preparar em
segredo o receptáculo externo; porquanto após o pôr-do-sol teremos trabalho sufi-
ciente com a escavação de uma cova funda. Maomé ordenou tudo cautelosamente.
Said chamou a atenção para o comprido baú que se encontrava no aposen-
to adjacente, o qual mandara fazer para guardar tecidos de seda. Era de tamanho
suficiente para abrigar o falecido. Os outros estavam de acordo e forraram-no com
preciosos tecidos de seda. O médico quis entrar, porém deixou-se mandar embora
por Abu Bekr, perante o qual sentiu um instintivo temor, com a insinuação deste de
que o enfermo estava dormindo um pouco. Quanto menos confidentes, melhor é,
achavam os quatro homens. Desde há muito o sol desaparecera no ocaso, quando
mãos carinhosas deitaram os restos do servo de Deus na caixa comprida de madei-
ra. Nesse ínterim foi chamada Fatime. Então os sete se ajoelharam e um sentimento
sagrado transpassava todos eles. Perceberam a força que lhes afluía de cima, a fim
de que cada qual à sua maneira pudesse cumprir sua missão.
Na terra fofa do jardim, no meio de arbustos em flor, foi fácil escavar a cova,
na qual foi colocada a caixa. Os homens nivelaram tudo de novo e ficaram rezando
parados naquele lugar que abrigava o corpo daquele que fora para eles o guia e
amigo na Terra.
Nem os empregados domésticos notaram qualquer coisa. Tratava-se de
guardar ainda por cerca de um dia o segredo. Na manhã seguinte foram chamados
os funcionários do príncipe para uma reunião. Abu Bekr, Said e Maomé dirigiram-
se igualmente para a grande sala do palácio principesco.
Abu Bekr comunicou aos presentes, por ordem do príncipe, qual o delito
de que era acusado Ali. Não se achava provavelmente ninguém na sala que já não
tivesse escutado falar do procedimento traiçoeiro de Ali; não havia necessidade de
mais provas. Mas antes que fosse pronunciada a sua sentença, era mister que se
defrontasse com seus acusadores.
Abu Bekr enviou alguns dos seus guerreiros para trazerem o prisioneiro.
Sem terem conseguido trazê-lo, voltaram depois de ter decorrido bastante
tempo: o cárcere estava vazio! Como poderia ter se dado isso? Foram chamados os
guardas. Tremiam de medo e não quiseram falar.
Finalmente, quando o jovem Maomé lhes prometeu que os defenderia se
dissessem logo a verdade, eles confessaram que o sacerdote Abdallah procurara
seu pai.
Ao recitador da mesquita não puderam impedir a entrada; além disso, tinha
dito a eles que vinha a pedido expresso do príncipe. Havia permanecido demora-
damente com Ali.
Por fim saíra, dizendo-lhes que Ali provavelmente morreria nessa noite. Suas
MAOMÉ
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feridas haviam se agravado. Ele, Abdallah, iria comunicar ao príncipe e chamar seus
irmãos ao leito mortuário.
Algumas horas depois voltara em companhia de Ad-Din e dissera-lhes que
os outros ainda viriam; não os tinha encontrado ainda. Poucos minutos depois de
os irmãos terem entrado na prisão, saíram precipitadamente. Ad-Din abrira o ca-
minho brandindo a espada desembainhada, e Abdallah carregava seu pai ferido.
Tudo isso teria se passado com tanta rapidez, que, quando os guardas volta-
ram a si, os homens haviam fugido. Então os guardas resolveram fechar outra vez as
portas e ficar no momento calados, porquanto foram tomados de muito medo.
Isso soou de todo acreditável e, além disso, Maomé pôde ver que eles fala-
vam a verdade. Assim, foram despachados sem castigo. Os funcionários, porém,
receberam instruções para investigarem sobre o paradeiro dos fugitivos.
Nesse momento os confidentes ficaram contentes por terem seguido sem
reservas o conselho de Maomé. Passaram-se dias até que foi encontrada uma pista
de Ali. Tivesse ele sabido do falecimento do príncipe, então teria se apresentado
imediatamente com seus partidários para assumir o posto.
Entrementes, porém, o povo soube quão grave fora o delito de Ali, que até
teve que ser julgado, tendo se refugiado para escapar à justa sentença judicial. A
pista levou para além da fronteira do reino, de sorte que não foi mais possível pros-
seguir no seu encalço.
Somente alguns dias mais tarde Said fez saber aos serviçais que Maomé havia
falecido. Por meio deles a notícia propagou-se rapidamente, e todo o povo chorou
a morte do seu soberano, profeta e servo de Deus.
Novamente no silêncio da noite a caixa foi desenterrada, tendo sido coloca-
da num suntuoso esquife. O calor excepcional daquele dia não fez parecer estranho
o fato de o ataúde ter sido fechado antes de ser levado à mesquita. Ninguém teve
suspeitas. Só mais tarde surgiram boatos de que o príncipe já havia falecido antes.
Os de má fé inventaram mentiras horripilantes e os de boa fé teceram piedosas len-
das em torno disso. A verdade nunca foi descoberta.
Uma comovente solenidade na mesquita precedeu o sepultamento. Ibrahim,
que teve de assumir sem qualquer cerimonial o seu cargo, porque Abdallah estava
desaparecido, falou ao povo. Explanou como Maomé durante toda a sua vida não
quisera ser outra coisa a não ser servo de Deus, como todas as leis por ele promul-
gadas originaram-se da vontade de Deus, como a doutrina que ele trouxe lhe afluíra
do reino de Deus. Com palavras ardentes exortou o povo para que se compenetras-
se disso e para que perseverasse fielmente na Verdade.
- Maomé mesmo disse muitas vezes nos últimos anos:“Todos os portadores
da Verdade puderam trazer a Verdade eterna de Deus. Depois vieram os homens e
interpretaram-na à sua maneira, aviltaram-na e deturparam-na, até que da Verdade
MAOMÉ
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foi tecida uma mentira”. Árabes, fiéis do Islã, não deixeis que vos tirem o sagrado!
Não deixeis torcer nem desfigurar palavra alguma! Sede os guardiões do tesouro
que vos foi confiado.
Quando Ibrahim silenciou, Ornar, o subchefe dos guerreiros, aproximou-se
do ataúde que estava colocado na elevação arrumada para o declamador e coberto
com a bandeira do profeta.Agradeceu ao extinto em nome de todo o povo por tudo
que proporcionara ao reino e a cada alma individualmente. Suas palavras improvi-
sadas brotaram de um coração grato e sacudiram as almas de todos.
A cerimônia foi encerrada com uma prece suplicando forças.
No dia seguinte foram chamados os funcionários para uma reunião, e Said
declarou-lhes que o príncipe moribundo nomeara Abu Bekr para seu sucessor. Essa
escolha não causou surpresa a ninguém, porquanto como Ali estava fora de cogita-
ção, não havia outro homem mais competente para continuar a obra, do que ele.
O chefe dos funcionários perguntou ao grão-vizir se estaria disposto a as-
sumir o elevado posto. Respondeu afirmativamente com voz trêmula e relatou as
palavras de despedida do príncipe. Após, acrescentou:
- Quero seguir as recomendações de Maomé. Omar, meu subchefe, deverá
tornar-se grão-vizir em meu lugar; e Chalid, até agora o chefe superior, passará a
ser o dirigente de todos os guerreiros. Eu mesmo me absterei do derramamento de
sangue e desejo dedicar-me inteiramente ao bem-estar do povo e à propagação do
Islã. Como Maomé, também eu não quero nada para mim, mas quero fazer tudo
pelo povo!
Cumpriu a palavra. Num trabalho assíduo juntou todos os manuscritos de
Maomé e recompôs os versetos um a um.A ele deve-se o fato de que o Corão, o livro
da doutrina do Islã, tenha podido ser legado à posteridade como um todo integral.
O jovem Maomé dirigiu-se num dos dias subseqüentes a Alina, a fim de
tratar da mudança das mulheres.
Aparentemente essa medida, por ora, parecia supérflua. Reinava a paz no
reino; a temida guerra civil não deflagrara. Deveriam afastar-se da cidade, na qual
atuaram tão beneficamente?
Apesar disso, Maomé estava decidido a persuadi-las. Sabia que o príncipe
nunca se enganava quando ordenava alguma coisa baseada num aviso de cima.
Também aqui se evidenciaria a sabedoria do seu desejo.
Ao contrário de sua expectativa, Alina concordou imediatamente. Sim, mais
ainda: ela pôde de noite contemplar o local do novo paradeiro! Era uma casa grande
MAOMÉ
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e simples, numa região montanhosa, circundada por vastos jardins.
Nesse lugar ela se viu junto com as mulheres e moças da família de Maomé,
que cuidavam de moças e crianças do sexo feminino e educavam-nas como mulhe-
res puras. Essa seria a sua futura tarefa.
Descreveu a casa tão nitidamente,que Maomé sabia de súbito onde teria de pro-
curá-la. Propôs então que procuraria descobri-la e mandaria reformá-la; depois disso
viria buscar as mulheres. Deveriam, nesse ínterim, preparar tudo para a mudança.
Ao término de poucos dias de viagem, alcançou o sítio procurado.
O proprietário havia falecido. Os herdeiros não deram muita importância à
propriedade e quiseram vendê-la por um baixo preço. E assim Maomé logo chegou
a um acordo com eles. Colocou alguns serviçais de confiança para cuidarem que a
sujeira mais grossa fosse retirada. Não houve necessidade de reparos. Estava tudo
em bom estado de conservação. No grande pátio, cercado com muros, esguichava
uma fonte, e numa pequena cabana havia uma instalação para banho. Como apa-
rentemente um rebanho fizesse parte da propriedade, encontrava-se ali uma peque-
na e bonita casa de pastores, a qual Maomé escolheu para sua residência, enquanto
tivesse de proteger as mulheres.
Então cavalgou com os demais acompanhantes de regresso para Medina e
informou as mulheres, as quais escutavam ansiosas, sobre sua compra vantajosa.
Estiveram de acordo em tudo; apenas sentiram muito que Maomé tivesse que mo-
rar sozinho por causa delas.
Nessa época achou oportuno concretizar seu projeto. Construir fora do
muro da propriedade das mulheres uma grande casa e transferir a escola de línguas
para essa região distante. Ficou um pouco receoso sobre qual seria o parecer de
Alina. Ela, no entanto, ficou feliz por Maomé poder prosseguir em seu trabalho
abençoado e pelo fato de, caso surgissem agitações na sua proximidade, poder ainda
contar com a proteção dos jovens alunos.
As mulheres partiram tão logo quanto foi possível: Alina, Fatime e Aischa, as
três filhas de Alina, as duas meninas de Aischa e as criadas indispensáveis. Associa-
ram-se ainda a elas três amigas, de Medina, com suas filhas.
Maomé levou seu irmão mais novo Ali, e Omar, o filhinho de Aischa, visto
que ambos necessitavam muito de educação. Uma turma de alunos adultos deveria
segui-lo, tão logo o prédio da escola de línguas estivesse pronto.
Mal as mulheres deixaram Medina, já começaram a circular cada vez mais
rumores sobre várias agitações.Abu Bekr mandou mensageiros a cada um dos vinte
e sete administradores, comunicando-lhes a morte de Maomé e pedindo que se
comprometessem com ele.
A maioria deles lamentou, aliás, a perda do príncipe, mas não opuseram ne-
nhuma dificuldade quanto ao sucessor. Assim como o profeta o determinou, seria o
MAOMÉ
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melhor para todos. No entanto, entre aqueles que Ali procurara recentemente, ha-
via alguns aos quais ele fizera muitas promessas para o caso de tornar-se príncipe.A
outros declarara que já era soberano e por conseguinte lhes prometera muita coisa.
Esses não quiseram abrir mão do que lhes fora prometido. Declararam não querer
reconhecer Abu Bekr, e sim, somente Ali como soberano.
Em vão os mensageiros fizeram com que eles vissem que não se poderia mais
contar com Ali.Acusaram abertamente Abu Bekr de ter afastado o sucessor de Mao-
mé para apossar-se do trono. Por isso queriam chamá-lo à responsabilidade.
Isoladamente, ou em comum, tentaram instigar não só as suas comarcas
como também o país inteiro à subversão.
Para Abu Bekr não houve outra alternativa, após o regresso dos mensageiros,
senão enviar Chalid e Ornar com bem-equipados guerreiros para garantir o seu do-
mínio. Onde quer que seus chefes guerreiros chegassem, eles saíam vitoriosos. Prin-
cipalmente Omar, nessas ocasiões, procedia com tal sentimento humanitário, que
os vencidos quase ficavam envergonhados. Mal regressaram os chefes guerreiros a
Medina, resolvidos a recrutarem novas tropas, para que nunca mais fosse preciso
retirar todos os guerreiros efetivos do interior do país, veio a notícia da fronteira
norte, que Musailima, um amigo de Ali, fizera uma investida com uma horda selva-
gem para castigar Abu Bekr por causa do seu proceder.
Imediatamente Chalid se pôs a caminho com seus guerreiros bem-discipli-
nados e conseguiu prender o agitador juntamente com seu bando. Prometeu a vida
a Musailima, se contasse onde Ali se encontrava no momento. Mas o homem per-
maneceu fiel ao amigo e preferiu morrer, a traí-lo.
Com isso estava vencida a última revolta e Abu Bekr pôde continuar com
toda a calma a tratar das organizações externas que Maomé determinara, mas que
não pudera mais realizar. Organizou mais escolas no país e ordenou que todos os
rapazes deviam freqüentá-las para aprender ao menos a ler e a escrever.
Em sua ocupação com o Corão, aprofundou-se mais nas doutrinas de fé do
que em tempo anterior. O que com isso se lhe tornou convicção, ele quis passar
adiante. Sentiu forte desejo de fazer muito mais para a disseminação do Islã.mPara
conseguir esse objetivo, algumas vezes lançou mão de recursos falsos, sem contudo
estar consciente disso.
Como anteriormente já asseverara aos seus guerreiros que os esperava uma
bem-aventurança toda especial, se tombassem em combate com o inimigo, assim
prometeu agora aos homens que cumprissem fielmente o jejum e praticassem a
abstinência preceituada, um céu repleto de belas mulheres.
Ibrahim, que soube disso, censurou-o:
- Como podes dizer tais coisas que imaginaste sozinho, príncipe Abu Bekr?
Instou. Não devemos acrescentar nada à Verdade que não promana da Verdade.
MAOMÉ
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- Que mal fará, se estimulo os homens com tais narrativas para darem mais
atenção àquilo que eles têm de cumprir cá embaixo? Se com isso os ajudo a viverem
de acordo com os mandamentos de Deus, onde poderia encontrar-se aí o prejuízo?
- Tu os estimulas com promessas falsas. Cada mentira vem das trevas é, por-
tanto, um inimigo da Luz. Não podes fazer os homens andarem nos caminhos da
Luz, se envolves suas veredas nas trevas.
- Ibrahim, tão grave como tu o pintas agora, isso não é. Pergunto novamen-
te: em que poderia residir o mal, se eles chegam ao outro lado e descobrem então
que o velho Abu Bekr lhes contou algo que não está bem certo? Então também
compreenderão que eu quis ajudá-los!
O ancião o disse ingenuamente. Estava tão convencido de sua boa intenção.
Não era possível explicar-lhe o prejuízo que causara.
Certa vez, quando vieram homens à sua presença para queixar-se de que seus
afazeres comerciais não lhes permitiam livrar o tempo necessário para empreende-
rem a peregrinação a Meca, lembrou-se Abu Bekr de facultar-lhes um substitutivo.
Deveriam mandar um substituto a Meca, que empreendesse em seu lugar a
peregrinação. Teriam de responsabilizar-se pelas despesas e além disso recompen-
sar fartamente o homem. Nesse caso a peregrinação deste poderia ser considerada
como se fosse feita por eles mesmos.
Também com isso irritou-se Ibrahim. Dirigiu-se a Said para, em comum
com ele, proibir o príncipe ou, como mais gostava que o chamassem, o califa-subs-
tituto, de tornar públicas inovações sem consultá-los.
Abu Bekr ficou admirado de que também dessa vez fosse alvo de repreensão
em lugar de receber elogio. Julgou que procedera com habilidade, porquanto soube
que justamente esses homens, que tomavam por pretexto a falta de tempo, temiam
as despesas. Agora lhes impôs mais custas ainda e alegrou-se com isso.
- Ele é como uma criança, suspirou Ibrahim. Ainda vamos ter muito traba-
lho com ele.
Essa predição fora errada. Nem dois anos haviam se passado desde que Abu
Bekr assumira a sucessão do profeta, quando veio a falecer acometido por uma do-
ença que, aliás, contraíra anteriormente numa campanha, e a qual descuidou.
Antes de sua morte nomeou Ornar, o grão-vizir, para seu sucessor. Chalid
deveria ficar vizir e Amir, chefe de todas as forças armadas. Quando coordenou tudo,
adormeceu suavemente, sem que as pessoas de sua intimidade o percebessem.
MAOMÉ
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Ornar tornou-se califa e assumiu seu cargo cheio de boa vontade, sobretudo
cônscio de que somente poderia proporcionar benefícios ao povo, atendo-se fiel-
mente aos ensinamentos do profeta.
O que, porém, exigiu de si próprio nesse sentido, isso também esperou dos
outros. Os fiéis deveriam usufruir sua vida mediante alegres atividades em agrade-
cimento a Deus, mas jamais desviar-se um passo sequer do caminho indicado pelos
mandamentos e pelas leis.
Entendeu-se excelentemente com Ibrahim e Said; eram seus mais leais au-
xiliares.
Um dos seus primeiros atos governamentais foi a nomeação de Said para
grão-vizir, visto ter Chalid lhe solicitado que o deixasse no seu posto como chefe
dos guerreiros.
- Não sirvo para governar, disse lamentoso. Com arma em punho posso
realizar grandes coisas, isso eu sei. Prefiro ser a espada de Deus, do que conselheiro
do príncipe. Perdoa-me, califa.
Omar viu-se em apuros. Compreendeu Chalid muito bem, e também teria
ido de bom grado ao encontro do seu desejo, mas agora tinha sido nomeado Amir
para chefe supremo do exército. Chalid não poderia passar para o segundo lugar,
depois que durante dois anos ocupou o primeiro.
- Poderei preencher qualquer posto, também o mais humilde, assegurou
Chalid, se posso continuar como chefe guerreiro.
Após uma conferência com os seus conselheiros, Omar por fim consentiu
nisso e Chalid agradeceu-lhe por meio de lealdade e submissão exemplar.
Se Abu Bekr sentiu forte desejo de tornar o Islã acessível a todos os homens,
então em Omar esse impulso tomou proporções tais, que mandou conquistar paí-
ses estranhos pelos seus dois chefes guerreiros, unicamente para que os povos pu-
dessem participar das bênçãos da nova doutrina.
Não era cobiça pelo poder e pela glória. Omar vivia mais simplesmente do
que o homem mais comum. Não era casado e habitava uma pequena casa nas pro-
ximidades da mesquita. Para sua alimentação bastavam-lhe frutas e arroz. Levava
uma vida de moderação em todos os seus atos e deu os melhores exemplos ao povo.
Assim, todas as conquistas que seus chefes guerreiros faziam para ele, não lhe sig-
nificavam aumento do poder, mas sim, considerava-as como empreendidas para a
glória de Deus.
Apesar de que ele mesmo tivesse sido chefe guerreiro, não se imiscuía quando
os dois alguma vez fizessem algo de modo diferente do que lhe parecia mais viável.
- Cada qual que se encontra num posto de responsabilidade, deve ter liber-
dade para agir por conta própria, costumava dizer, senão nunca poderá efetuar um
trabalho completo.
MAOMÉ
- 179 -
Em razão dessa convicção, deixou Amir e Chalid empreenderem campanhas
em todas as direções: Pérsia, norte da Síria, Mesopotâmia, Egito e Africa do Norte
foram subjugados e tornados acessíveis ao Islã.
Em toda parte a nova doutrina encontrou cultura corrompida e crenças em
decadência. Foi fácil introduzir o novo, principalmente porque Chalid teve a habi-
lidade de, em toda parte onde chegava, levar também a arte.
Mandou fazer construções como naquelas regiões nunca foram vistas.
Reuniu objetos de arte num país para proporcionar prazer a outros e deixá-los
admirados.
Ornar dedicou-se, como Abu Bekr, inteiramente aos trabalhos pacíficos de
aperfeiçoamento. Entre outras coisas reconheceu que o sistema de carceragem se
achava em situação deplorável. Os cárceres em todas as partes do reino eram hor-
ripilantes buracos, de onde, após entrar, raras vezes se saía com vida, mesmo que
a permanência tivesse sido de curta duração. Isso não se coadunava com os ensi-
namentos do profeta, tampouco com a vontade de Deus. Ornar mandou construir
cadeias mais humanas, regulou os serviços de guarda e de tratamento, e com isso
ajudou a prevenir que o medo da prisão conduzisse os homens ao suicídio.
Como ele fora chefe guerreiro, teve predileção pela ordem e disciplina. Criou
um quadro de funcionários que condizia de todo com a ordem militar. Havia chefes
de categoria elevada e inferior; podia-se alcançar promoção dentro de determinada
hierarquia. Isso contribuiu para que o vasto reino, que aumentava continuamente,
se solidificasse, e conseqüentemente progredisse.
A década do governo de Omar não apresentou nenhum ato do qual o ca-
lifa tivesse que se envergonhar. Não mandou executar nada que não estivesse em
concordância com os mandamentos de Deus. A Arábia progrediu, gozou de uma
prosperidade muito bem regulada, e também os costumes mantiveram-se numa
certa altura.
Certa noite Said faleceu sem que tivesse havido qualquer sintoma prévio.
Alcançou uma avançada idade, mas ninguém pensou que seu trespasse estivesse
tão próximo. Serviu ao país, dedicando-lhe ao mesmo tempo todas as suas forças.
Sua família vivia separada dele. Não se ressentiu disso, pois ele também não tinha
tempo para ela.
Seu falecimento abriu uma lacuna maior do que ele próprio talvez imaginas-
se. Era um dos que estiveram sob a influência direta de Maomé. Quem deveria ser
agora o grão-vizir? Ornar lembrou-se de Maomé, o moço, e mandou que Ibrahim
fosse até ele, levando a solicitação para assumir o cargo. Maomé protegeu as mu-
lheres durante doze anos. Devia deixá-las? Antes de dar uma resposta ao seu irmão,
aprofundou-se numa prece e soube que a promessa feita ao avô estava mais do que
cumprida. Não deveria esquivar-se por mais tempo do serviço ao povo.
MAOMÉ
- 180 -
Assim transferiu a proteção das mulheres e a direção da escola ao seu irmão
Ali e regressou com Ibrahim para Medina.
Com a habilidade que lhe era peculiar, introduziu-se nas suas novas obri-
gações e tornou-se em pouco tempo indispensável para Ornar. Viu melhor do que
Said onde faltava algo, onde se faziam necessárias inovações e onde os costumes
começavam a decair. Sua vigorosa e incansável energia animava também Ornar
sempre de novo.
Quanto mais se intensificavam as relações comerciais da Grã-Arábia, tanto
mais bruscamente se evidenciava um inconveniente, o qual até o momento qua-
se não se observara. Tratava-se da diversidade cronológica resultante das várias
crenças. Enquanto os antigos judeus e os povos que até então conviveram com
eles, perseveravam estritamente na cronologia antiga, os cristãos começavam seus
cálculos cronológicos somente a partir do nascimento do Filho de Deus. Mao-
mé achou imprescindível que se pusesse termo a essa duplicidade de cômputo.
Propôs a Ornar tomar por base a cronologia de todos os fiéis do Islã, o início da
nova doutrina. Com isso assegurava-se uma identidade para todo o vasto reino;
no qual, pelo menos exteriormente, não havia mais pessoas de outras crenças.
Ornar instituiu, portanto, como sendo o vigésimo primeiro ano do profeta, o
ano no qual a reforma foi transformada em lei, não alterando, contudo nada no
fato de os árabes calcularem os anos pela lua, ao passo que todos os outros povos
tinham por base o período solar. Esperava tornar, aos poucos, o Islã acessível ao
mundo todo, e então todos se identificariam também nessas exterioridades. Após
Maomé ter conseguido que em relação ao cômputo do tempo não houvesse mais
confusões, foi dado mais um passo.
Sentiu-se impelido a expedir leis que deveriam regular as relações entre de-
vedores e credores.Assim como era até aquele momento, cada qual que emprestasse
dinheiro ou bens podia exigir a restituição por avaliação arbitrária e, conforme a
índole de cada um, enriquecer acima dos limites lícitos.
Para Maomé isso há muito vinha causando horror, porém, sem o apoio de
uma lei rígida, não podia empreender nada contra isso. Omar confessou franca-
mente que não entendia nada dessas coisas; regozijou-se, no entanto, por ter um
grão-vizir tão inteligente e deixou-se aconselhar. Então foi fixado bem exatamente
quanto o emprestador poderia exigir quando quisesse fazer valer seus direitos e
quando poderia recorrer à ajuda do governo para isso. A lei partiu do ponto de
vista de que ninguém era obrigado a emprestar dinheiro ou bens. Se um homem o
fizesse, então isso deveria ter por base a compaixão por aquele que estivesse premi-
do pela necessidade, e não para querer enriquecer à custa dele. Por isso a nova lei
era complacente para com o devedor e deixava ao emprestador pouca possibilidade
para procedimentos injustos.
MAOMÉ
- 181 -
O cargo de Maomé teve por conseqüência a ocupação integral de seu tempo
com coisas exteriores, sobrando-lhe pouco tempo para aprofundar-se espiritual-
mente. O anseio por esse aprofundamento espiritual era, no entanto, tão forte, que
aproveitava cada momento para isso. Nessas ocasiões isolava-se completamente do
mundo exterior e falava a sós com seres de outras planícies, assim lhe parecia. Não
perguntava de onde vinham essas vozes que ouvia dentro de si; sabia que lhe trans-
mitiam sempre luz e força, e isso lhe bastava. Não admitia qualquer pensamento
tendente a procurar um nome para aqueles que o auxiliavam, pois isso se lhe afigu-
rava como uma profanação. Em tais momentos abençoados abria-se sem qualquer
reserva e recebia força que lhe proporcionava grande felicidade, elevando-o muito
acima de si mesmo. Desse modo viu muitas coisas que outros não reconheciam.
Dessas visões levou um saber para a labuta diária, que também muitas vezes lhe foi
útil para observar com mais clareza os atos e pensamentos dos homens.
Desde algum tempo via muitas vezes esgueirarem-se vultos de mau augú-
rio em volta de Omar. Assim que firmava os olhos, desapareciam. Achou que de-
via considerar isso como um aviso. Assim que essas advertências se tornaram mais
freqüentes, falou com seu irmão Ibrahim, o único confidente seu a esse respeito.
Ibrahim, o xeque, achou necessário prevenir Ornar. Nem sempre Maomé podia
estar perto do califa. Deus, porém, não motivava tais visões em vão.
- Justamente isso é que me desagrada, falar de tais coisas a Ornar, disse Ma-
omé. Encarrega-te tu da advertência, irmão.
Ibrahim, entretanto, era de opinião que essa teria mais valor se viesse do
grão-vizir. Então Maomé resolveu aguardar a primeira oportunidade que se ofere-
cesse. Pediu a Deus que mandasse auxiliá-lo, de modo que não se tornasse necessá-
rio para ele falar daquilo que era sagrado para a sua alma.
Quando, algumas horas depois, se dirigiu ao palácio principesco, onde Or-
nar tratava de todos os negócios de Estado, embora não residisse nele, viu Maomé
como um homem com traje esquisito entrava furtivamente por uma porta lateral.
Correu atrás dele e conseguiu prendê-lo. Encontrava-se em seu poder uma
arma afiada e de aspecto estranho.
Inicialmente o homem se recusou a dar informações sobre origem, nome e
intenção, por mais minuciosamente que os juízes o interrogassem. Nesse momento
Maomé entrou na sala onde havia entregue o prisioneiro às autoridades. Fitou o
homem, que se desviou de seu olhar.
- Tu vens de Ali ben Abu Talib, disse com inusitada severidade.
O homem estremeceu de susto; todos puderam ver que assim era.
- Foste incumbido de assassinar o califa, soou a segunda e categórica afirma-
ção do grão-vizir.
O homem ajoelhou-se e estendeu os braços para cima, implorando.
MAOMÉ
- 182 -
- Se contares onde se encontra Ali, então serás perdoado, prometeu Maomé.
Trêmulo, o homem afirmava que ele mesmo não o sabia. Era natural da
Pérsia e tinha recebido a incumbência na fronteira.
- Estás mentindo, replicou Maomé, impassível. És árabe e tens íntima ligação
com Ali.
Dito isso, dirigiu-se aos juízes:
- Jogai-o no cárcere até que se resolva a falar a verdade. Com isso Maomé
deixou o aposento. Horripilou-se, pois reconhecera nesse degenerado seu irmão
Ad-Din! Deveria ter mandado matá-lo imediatamente? Não o sabia e queria pri-
meiramente pedir orientação de cima.
Entrementes foi a Ornar para comunicar-lhe a conspiração contra a sua
vida. O califa escutou-o calmamente e então disse:
-Comtaiscoisasdevocontarconstantementeetambémestoupreparadoparaisso,
Maomé.EnquantoAláprecisardemimaquisobreaTerra,nãomeserátorcidosequerum
fiodecabelo.Se,porém,devoir,entãoéindiferenteparamimdequemodoElememande
chamar. Agradeço-te por tua vigilância. Tens razão que não devemos descuidar-nos. Se,
não obstante,um assassino conseguir alcançar-me,então é porque chegou minha hora.
A fim de distrair os pensamentos de Maomé, participou-lhe nesse momento
sua intenção de introduzir para si e para seus sucessores o título de “príncipe dos
fiéis”: Emir aI Muminin.
Substituto do profeta, a falar a verdade, só poderia ser denominado aquele
que dirigira o reino imediatamente após ele; em rigor, apenas Abu Bekr.
O grão-vizir deu a sua aprovação; seus pensamentos, contudo, estavam com
o assassino e seu incitador. Queria obter clareza, e à noite deixou-se conduzir ao
cárcere que acolheu Ad-Din. Sem acompanhamento dirigiu-se para dentro do pe-
queno espaço, no qual o prisioneiro achava-se estirado sobre um leito duro.
- Irmão - dirigiu-lhe a palavra, e contra a sua vontade sua voz era meiga -,
irmão, não endureças teu coração contra mim! Teu ato criminoso teria provocado
uma grande calamidade para o reino. Omar é um bom príncipe, muito melhor
do que Ali jamais o poderia ser. Vive de acordo com a vontade de Deus e também
governa no mesmo sentido.Ajuda-me a protegê-lo contra a desgraça e então te pro-
porcionarei a oportunidade para reconquistares a liberdade e uma vida feliz.
O prisioneiro levantou-se num salto, quando se viu reconhecido. Quis negar
tudo descaradamente; no entanto, o timbre da voz de Maomé sensibilizou-o. Cho-
rando, tapou os olhos com as mãos.
- Compreende-me, irmão! Soluçava. Nosso pai devia ser o príncipe depois
da morte de Maomé. Era tão reprovável o fato de ele ter em tempo deixado que
os administradores lhe prestassem juramento de fidelidade? Ele o fez com o único
propósito de poupar ao país ulteriores agitações.
MAOMÉ
- 183 -
Maomé interrompeu-o:
- Se naquele tempo foi essa realmente sua razão, por que então não age agora
de modo idêntico?
- Vê, libertei-o com o auxílio de Abdallah, porquanto não pudemos suportar
que nosso altivo pai ficasse no cárcere ou fosse julgado e talvez até morto. Desde
então vivo em sua companhia e vejo diariamente como o rancor pela perda da so-
berania lhe consome as forças. Amo o pai, irmão.
A voz de Maomé teve um tom comovido, quando pegou a mão do mais novo:
- Isso não é um amor verdadeiro, que quer fazer um pecado por causa de ou-
trem, Ad-Din, explicou-lhe. Devias ter empregado toda a influência ao teu alcance
para demover o pai de seus maus pensamentos. Um amor sincero ajuda o outro a
subir; tu, porém, empurras o pai no abismo.
Admirado, o irmão olhava para o interlocutor. As palavras penetravam-lhe
na alma, mas não sabia ainda que proveito podia tirar delas. Amavelmente Maomé
esclareceu-lhe sua opinião, evidenciou-lhe o erro que representava o modo de pen-
sar de Ali e levou-o ao ponto de reconhecer sua grande culpa.
- Então quero reparar, irmão, declarou ingenuamente. Irei novamente pro-
curar o pai e fazê-lo ver tudo isso. Talvez me acredite.
Essas últimas palavras denotavam hesitação. Maomé sabia que qualquer ten-
tativa de Ad-Din seria em vão.
- Antes fica aqui e coopera comigo, enquanto me dizes o que Ali está tra-
mando e onde ele se encontra.
- Justamente o último não sei, disse Ad-Din. Provavelmente permanecerá
escondido na fronteira norte do reino. Foi combinado que eu tentasse o assassinato.
Caso fracassasse, então Abdallah, que agora se chama Hassan, deveria fazer a mes-
ma tentativa. Ele é mais corajoso e jeitoso do que eu. Contra ele deves resguardar o
califa, irmão. Pensativo, Maomé deixou o cárcere. O que deveria fazer? Recolheu-se
ao seu modesto lar, porquanto não quisera ocupar o palácio paterno, e prosternou-
se em oração diante de Deus.
Rezou demoradamente. Disse ao seu Senhor tudo quanto pensava e viven-
ciava. Foi um alívio para seu coração poder fazê-lo. Não se lembrou de que Deus,
o Onisciente, também sabia de tudo isso. Finalmente silenciou com um suspiro de
alívio e esperou.
Vozes ressoavam à sua volta. Enfim percebeu uma mais clara que as outras:
“Maomé, sabes que Deus concedeu às criaturas o livre-arbítrio. Por isso, mui-
tas vezes não intervém para impedir algum mal, quando os homens assim o desejam.
Ele sabe por que permite tais coisas.
Não perguntes e não cismes. Segue teu caminho assim como até aqui o tri-
lhaste: íntegro e guiado pelos servos do Altíssimo. Teu caminho está próximo da meta
MAOMÉ
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final. Conduzir-te-á aos jardins da eternidade. Prepara tua alma para o último passo
e deixa os assuntos terrenais aos cuidados de outros.”
Animado por um sentimento indescritível, levantou-se Maomé, pois estava
ajoelhado. Aproximou-se da janela aberta e olhou para fora, na escuridão da noite.
“Estou perto do alvo? Senhor, meu Deus, agradeço-Te!”
Acalmado, procurou sua cama. Quis entregar tudo, a vida do emir e a sua pró-
pria, nas mãos de Deus. Foi tão consoladora a certeza de que a responsabilidade por
aquilo que viria ou deveria vir não seria exigida dele.
Na manhã seguinte procurou Omar e informou-o sobre os planos de Ali, sem
contudo dizer qualquer coisa que o assassino preso era seu próprio irmão.
- Vamos retê-lo na prisão ainda, opinou o emir, talvez atraiamos com isso o
homem que ele chamou de Hassan. Se os guardas cuidarem, provavelmente poderão
agarrá-lo em tempo.
Anteriormente o grão-vizir teria feito objeção. Agora ficou apenas um pou-
co curioso na expectativa do desenrolar dos acontecimentos. Depois disso pediu ao
príncipe permissão para mandar buscar o jovem Omar, filho de Said. O jovem era
também neto de Abu Bekr, muito inteligente e religioso. Talvez pudesse prepará-lo
para ser seu sucessor.
- Manda chamá-lo, podemos precisar de gente boa ao nosso redor, consentiu
Omar.Mas tu ainda és muito novo para pensares num sucessor.Muito antes disso um
sucessor poderia desenvolver-se para mim nesse jovem.
Os dias seguintes passaram sem qualquer novidade. O prisioneiro quase ficou
esquecido pelo povo. Estava deitado no cárcere e estranhava por que não o julgavam.
Ornar ben Said apresentou-se em atenção ao chamado de Maomé. O belo e
alegre jovem foi alvo da simpatia de todos. Esteve sob boa disciplina com Maomé. Os
mandamentos do Islã e as revelações de Deus enchiam sua vida. E o que experimen-
tava vivencialmente, procurava transformar em atos.
Impelido pelo saber sobre seu breve trespasse, Maomé introduziu o jovem
mais rápido do que usualmente em todos os negócios administrativos.
Chalid regressava de uma expedição armada que empreendera com uma tro-
pa de guerreiros escolhidos, na fronteira norte. Aquele que procurava não encontrou,
mas conseguiu capturar diversos homens suspeitos, os quais, ameaçados de morte,
confessaram estarem a serviço de Ali. Foram encarcerados por ora. Chalid relatou as
notícias ao príncipe.
- Receio que nossas prisões se encham antes que possamos pegar o chefe da
conspiração, suspirou Ornar. Quase desejo que o golpe que nos ameaça se realize logo!
Poucos dias após, Maomé vinha da mesquita, onde participou da devoção
de sexta-feira, a qual nunca perdia.
Então um homem mal vestido chocou-se com ele. Não pôde ver o rosto do
MAOMÉ
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homem, aparentemente bêbado, mas como esse indivíduo desrespeitasse evidente-
mente as leis do Corão, ordenou o grão-vizir que o segurassem.
Antes, porém, que pudessem pegá-lo, desapareceu. Conseqüentemente não
podia estar embriagado. Admiraram-se disso e perguntaram a Maomé qual era a
sua opinião. Nesse momento notaram que o grão-vizir estava pálido e começava a
oscilar. Horrorizados, acudiram-no, e o jovem Omar apanhou-o nos seus braços.
Levaram o desmaiado ao palácio do governo, que era o mais próximo, e um
médico imediatamente se encontrava presente. Nesse momento verificou-se que Ma-
omé estava gravemente ferido. Uma punhalada tinha-o atingido perfidamente. O fe-
rimento, aliás, não era propriamente mortal, contudo o médico tinha pouca esperan-
ça de conservar a vida do grão-vizir. Foi chamado Ibrahim; também o emir veio.
Todos se encontravam perto da cama preparada às pressas, quando o ferido
abriu os olhos. Entretanto, não reconheceu mais ninguém. Sua alma movia-se nos
seus caminhos habituais em outras planícies. Um sorriso afável estampava-se em suas
feições, que estavam ultimamente sempre tão sérias. Parecia ter uma bela visão.
“Avô”, balbuciava.
Escutava atentamente. Instantes depois falou, mas como se não estivesse
consciente das palavras que pronunciava, como se um outro lhe ditasse.
“Meu povo, ouve! Não traz proveito nenhum deturpar a Verdade, mesmo
que seja com os melhores objetivos. Por isso Abu Bekr teve que deixar a Terra, após
tão curto período de governo.
Tu, Omar, perseveraste fielmente naquilo que Deus revelou. Mas o povo tor-
nou-se aqui e ali secretamente desleal. Procuram meios para esquivar-se do cum-
primento dos mandamentos. Por esse motivo Deus quer deixá-los entregues às suas
concupiscências. Também tu serás chamado, Omar!
Somente quando o povo tiver vontade de abandonar o mau caminho pelo qual
enveredou, surgir-lhe-á outra vez um califa que poderá conduzi-lo rumo à ascensão!”
A voz tornou-se quase inaudível; as últimas palavras já não puderam mais
entender. Os olhos fecharam-se; o grão-vizir estava morto.
Omar estava profundamente impressionado. Sem que ele o soubesse, o povo
decaíra no pecado? Isso lhe doeu mais do que a morte do seu fiel.
Muito além de Medina houve grande lamentação, e o sepultamento de Maomé,
o moço, no qual a maioria via o futuro emir, tornou-se uma comovente solenidade.
Do assassino não foi descoberto nenhum vestígio. Quando o emir Omar voltou
da mesquita para casa, encontrou sobre sua mesa um bilhete:
“Cuida-te, emir! A próxima punhalada atingirá o teu coração”.
Chalid,que o acompanhava,leu a ameaça.O chefe guerreiro quis imediatamen-
te mandar fechar todos os portões da cidade e revistar cada casa isoladamente.Cansado,
Omar fez um aceno de desaprovação.
MAOMÉ
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- Meu tempo aqui na Terra chegou ao término: pude ouvi-lo recentemente.
O que Deus, o Senhor, permite, não podemos nem devemos querer impedir.
Chalid fez a tentativa de explicar ao emir quão importante era justamente
agora a sua vida.
Enquanto ainda falava, entrou o vulto escuro de um homem pela janela
aberta; uma lâmina reluziu, e com um gemido de dor Omar caiu para trás. Antes
que Chalid pudesse agir, o criminoso escapou pela janela.
Os gritos ressoantes de Chalid chamaram os serviçais, aos quais confiou o
ferido, enquanto ele próprio correu atrás do assassino; contudo, não pôde descobri-
lo em nenhum lugar. Também os guerreiros e serviçais procuraram-no por toda
parte; todos os esforços, porém, ficaram sem resultado. Entretanto, o califa Omar
pôde partir da Terra sem ter recuperado a consciência.
Aturdido, o povo recebeu a notícia sobre a nova perda, e se Ali julgasse que com
essas medidas de violência conseguiria o domínio no país, então viu-se amargamente
desiludido. O povo exaltou-se contra ele e insistiu em que fosse escolhido quanto antes
possível um sucessor de Omar.
Doconselhoinstituídoparataisfinsfaltavam,noentanto,osdoismelhores:Said
e Maomé. Sobrava apenas Ibrahim, o qual devotava-se fielmente a Maomé e ao Islã. Os
outros membros do conselho não levavam a sério os princípios da doutrina e achavam
que agora podia dominar um príncipe, sob cuja regência se pudesse gozar a vida.
Contra o protesto de Ibrahim, elegeram um velho de família conceituada, cha-
mado Othman, o qual teve de fazer-lhes muitas promessas em troca da promoção que
veio para ele completamente inesperada. Foi emir apenas no nome; no fundo, quem
governava eram eles.
O primeiro ato governamental de Othman foi a promulgação da lei, dispondo
que nenhum xeque poderia ser membro do conselho. Com isso Ibrahim foi neutraliza-
do; um conselheiro mundano tomou seu lugar.
Omar foi declarado jovem demais para o cargo de grão-vizir. Foi transferido
para um cargo inferior, e para primeiro conselheiro do emir foi nomeado um parente
de Othman. O povo revoltou-se. Diversas províncias uniram-se para o levante. Chalid
e Amir, que receberam ordem para empreender uma campanha contra os revoltosos,
demitiram-se dos seus postos.Amir colocou-se ao lado dos administradores revoltados,
enquanto Chalid se retirou para a solidão.
O país inteiro estava em agitação; em nenhuma parte havia a paz que dominara
ditosamente durante anos.
SubitamentesurgiramboatosdequeAliestavanopaís.Eleeseufilhomaisvelho
Hassan instigavam o povo contra o governo de Othman. Então o velho emir fez chegar
MAOMÉ
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um recado a Ali, propondo que se aliasse a ele; ninguém precisava saber disso.
Deveria subjugar para ele os rebeldes; depois ele, Othman, renunciaria e no-
mearia Ali para seu sucessor. Esse plano pareceu agradar a Ali; concordou e assumiu
a tarefa sangrenta para o aparentemente dominante emir.
Este, no entanto, queria gozar sua vida pelo menos enquanto respirava. Ha-
via muito, ainda sob o governo de Omar, possuía às escondidas um bem lotado ha-
rém. Agora não fazia mais segredo disso diante do povo, dando assim um péssimo
exemplo aos nobres.
Para precaver-se, revogou o mandamento de Maomé pelo qual um homem
podia ter no máximo quatro mulheres. Estipulou que cada homem que possuísse
meios suficientes, poderia ultrapassar à vontade esse número; deveria, contudo, pa-
gar um tributo por toda ocupante a mais do harém.
Em vão Ibrahim admoestou contra tal procedimento. Não conseguiu nada
junto ao novo partido do governo. Então associou-se estreitamente àqueles que co-
mungavam com ele no mesmo ideal, sobretudo os ex-alunos de seu irmão Maomé.
Seu irmão mais novo, Ali, uniu-se igualmente a ele, da mesma forma Omar.
Ibrahim enviou emissários a todas as partes do país, conclamando para a
preservação dos bons costumes e da crença verdadeira.
Quanto mais lascivos se comportavam os partidários de Othman e quanto
mais cruelmente lutavam os guerreiros aliciados por Ali, tanto mais os ibramitas
ganhavam terreno.
Todo o reino, até então muito bem organizado, parecia em ebulição. Nin-
guém sabia quem governava e ninguém teria sabido que era Othman o emir, se de
tempos em tempos novas leis não provocassem a indignação da parte do povo que
permanecia bem-intencionada.
O jejum não lhe agradou; julgou-se muito idoso para sujeitar-se a algum
sacrifício voluntário. Depressa redigiu uma lei facultando àquele que por algum
motivo razoável não pudesse jejuar, por se achar adoentado ou em viagem, pagar
uma determinada quantia em dinheiro. Com isso então se compensaria o jejum.
As abluções freqüentes eram-lhe incômodas. Promulgou um mandamento,
estipulando que aquele que desfrutasse de suficientes meios, friccionando o corpo
com águas perfumadas, poderia fazê-lo despreocupadamente, em lugar de se lavar
ou de se banhar.
Quase todos os meses era revogada uma parte dos mandamentos do Islã.
O que o emir deixou intato, isso foi alvo de críticas por parte de seus partidários.
Já ressurgiam aqui e acolá antiqüíssimas idolatrias, sem que ele tomasse realmen-
te qualquer providência para coibi-las. Então aconteceu que Othman, que já não
agüentava mais a vida desregrada, foi surpreendido pela morte numa orgia.
Sua morte foi horrível: soltava altos gritos e lutava contra um vulto que só
MAOMÉ
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ele via. Implorava que esse ser o deixasse morrer sossegado e que não exigisse pres-
tação de contas dele.
“Tu, grande e luminoso ser”, gritava estridentemente, cada vez mais deses-
perado, “não te conheço, nunca te vi! Portanto não tenho dívidas contigo. Toma
minhas preciosidades, vende minhas mulheres, mas deixa-me em paz!”
Estupefatos, seus conselheiros o rodeavam. Ninguém ousou socorrê-lo. Era por
demais evidente a interferência de uma mão superior.
“NãosabiaqueosmandamentosvieramdeDeus”,exclamouomoribundo.“Jul-
guei que fossem inventados por Maomé. Quero respeitá-los no futuro. Prometo-o!”
Seu corpo era agitado por convulsões. Então falava de novo. Isso prolongou-
se por três noites e dois dias.A angústia do agonizante era insuportável; o medo dos
que o rodeavam aumentava de hora em hora. Finalmente, na manhã do terceiro dia,
teve seu desfecho. A última exclamação do moribundo foi:
“Ali é meu sucessor!”
Os que o rodeavam ficaram surpresos. O que queria Othman de Ali?
Nesse momento ele se encontrava no meio deles. Ninguém o viu chegar.
Estava ali, de pé, o único calmo entre os amedrontados. Com mão firme pegou as
rédeas do governo. Ordenou imediatamente que dos fatos ocorridos na sala mor-
tuária não fosse propalado nada entre o povo. Prometeu que cada um que lhe pres-
tasse juramento de fidelidade poderia permanecer no seu cargo. Determinou tudo
para a proclamação ao povo e para o sepultamento.
Então os partidários de Othman sentiram-se aliviados. Novas perturbações
no país seriam provavelmente evitadas, mesmo que Ali, que já era um ancião, não
governasse mais por muito tempo. Restauraria ele os mandamentos de Maomé?
Ali nem pensou nisso. Que os homens tratassem sozinhos do que necessita-
vam para suas almas. Isso era assunto de cada um por si. Para ele o importante era
apenas restabelecer a tranqüilidade no país. Como fora ele mesmo quem provocara
a maior parte das agitações, tornou-se-lhe fácil conseguir o que a outros parecia
impossível. O povo regozijou-se com a mão forte que o dominava e nem perguntou
mais de quem ela era.
Ibrahim perseverou firme no seu cargo como pregador na mesquita do pro-
feta, se bem que sentia ser do desejo de Ali que renunciasse.
Então o emir mandou chamar o filho a sua presença e ordenou-lhe que se
demitisse do cargo. Ibrahim recusou-se. O emir deveria estar satisfeito por Ibrahim
não exortar o povo contra ele.
Nesse momento Ali disse friamente:
- Então terás a sorte do teu irmão Maomé. O punhal de Hassan é infalível.
Ibrahim sorriu e deixou o aposento. No dia seguinte foi encontrado apunha-
lado na mesquita.
MAOMÉ
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Dois anos mais tarde uma mão assassina atingiu também o coração desleal
de Ali. Seu filho Hassan pretendeu o trono, mas foi rejeitado por todos os partidos.
Depois disso seguiram-se califas: uns maus e outros um pouco melhores.
Ninguém encontrou mais a Verdade Divina na doutrina dirigida completamente
para coisas mundanas.
O Islã tornou-se implacável e sanguinário. Conquistou-se um mundo, mas
somente porque o senhor das trevas apoderou-se dele como um excelente instru-
mento seu.
Todo o sentimento intuitivo foi proscrito dos doutrinamentos; o intelecto e
os cálculos interesseiros obtiveram a vitória.
Quando o Filho do Homem, a quem o profeta tem permissão de servir acolá
nas Alturas, passar através daquelas plagas aviltadas, então também o Islã poderá le-
vantar sua cabeça e desabrochar para uma vida nova no sentido desejado por Deus.
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A VIDA DE MAOMÉ(MOHAMMED)

A VIDA DE MAOMÉ(MOHAMMED)

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    COLEÇÃO“O MUNDO DOGRAAL” MAOMÉ(MOHAMMED) NARRATIVA FIEL DA VIDA TERRENA DO PROFETA ÁRABE, LIVRE DE TODOS OS CONCEITOS ERRÔNEOS. RECEBIDO POR INSPIRAÇÃO ESPECIAL
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    MAOMÉ - 3 - UMAlamparina colorida iluminava o aposento e fazia luzir os adornos de ouro que se encontravam entre os abundantes tapetes colocados nas paredes. Aqui pendia um cordão com pérolas e acolá cintilavam pedras preciosas. Em cima de uma mesinha, formada de peças artisticamente entalhadas e embutidas, havia uma brilhante taça de vidro, cheia de um óleo aromático. Todo o recinto, embora não fosse grande, parecia ser perfeitamente adapta- do àquela bela mulher que descansava despreocupadamente sobre um macio divã. Longas tranças de cabelos pretos, envoltos numa rede de fios dourados, pen- diam-lhe para um lado. Sobre um vestido largo de seda vermelha usava um casa- quinho curto, ricamente enfeitado com bordados, que combinava com as sandálias que abrigavam seus pequeninos pés. Uma calça de seda azul, fofa, até os tornozelos, completava o vestuário. Suas delicadas mãos, nas quais não se via nenhuma jóia, deixavam escorregar, por entre os dedos, as pérolas de um rosário. Mas ela o fazia distraidamente, pois seus pensamentos pareciam estar longe de uma devoção ou prece. Ouviram-se ruídos de passos que vinham de fora. A mulher ocultou rapida- mente a corrente de pérolas no seu vestuário e recostou-se ainda mais confortavelmente nos travesseiros. Um velho serviçal entrou no aposento. Era um dos criados de confiança da casa, pois do contrário, não poderia ter en- trado sem se fazer anunciar.Arrastando os pés,um pouco inclinado para frente e com as mãos juntas, ele aproximou-se do sofá e aguardou que a bela mulher começasse a falar. Com os olhos semicerrados ela olhava-o. Que esperasse um pouco, pensava, pois não estava disposta a receber seu recado.De modo algum poderia significar algo de bom. Finalmente a curiosidade a venceu: - o que trazes,Mustafá? Inquiriu num tom de indiferença.- O nosso amoAbd ai Muttalib deseja falar com Amina por causa do menino. Amina recebê-lo-á aqui ou irá procurá-lo nos seus aposentos? - Mustafá, sabes o que o velho quer com o menino? Essa pergunta soava agora bem diferente das anteriores. Preocupação e cuidado de mãe vibravam nela e faziam com que ela se esqueces- se de todas as diferenças de classe. - O nosso amo não o disse, respondeu pensativo o criado, mas eu posso ima- ginar do que se trata. Há dias vem falando que chegou o tempo de mandar Maomé à escola. - É o que pensei! Exclamou Amina indignada. Eu ainda o acho delicado demais. Mas para isso o avô não tem compreensão. Quanto antes tornarmos a dis- cutir, tanto melhor será. Dize a Abd ai Muttalib que eu estarei pronta para recebê-lo daqui a uma... não, daqui a duas horas.
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    MAOMÉ - 4 - Oserviçal virou-se e começou a sair arrastando os pés, quando um chamado de Amina fê-lo parar. - Mustafá, sabes onde está Maomé? - Onde estará ele? Perguntou o criado em resposta. Com certeza está no pavilhão ajudando o empregado a conferir as mercadorias. Nada lhe agrada tanto como o esplendor das cores dos tapetes e das pedras preciosas. Com isso ele esquece até de beber e comer. - Dize que o mandem o quanto antes a mim, solicitou Amina afavelmente. Ela sabia que não podia dar ordens a Mustafá, pois não era sua patroa. Mas a um pedido, ele era sempre acessível. Também agora iria procurar o menino e mandá-lo a sua mãe. Amina tornou a ficar a sós. Suspirou profundamente. Tinha medo da palestra com o dono da casa, o seu sogro, sob cujo domínio se achava desde a morte de seu marido. Isso já há seis longos anos! Pouco antes do nascimento de Maomé, aconteceu que numa viagem de ne- gócios Abdallah foi assaltado por bandidos e ferido mortalmente. Ainda o levaram agonizante até Meca, mas não alcançou com vida a casa paterna, onde morava com a sua jovem esposa. No funeral Amina desmaiara. Longo tempo teve de permanecer na cama, doente. Durante essa grave en- fermidade deu à luz um menino, quase sem ter consciência disso. A debilidade do menino, que apesar dos cuidadosos tratamentos de que era alvo, não crescia como devia, os médicos atribuíram-na ao trauma e ao pranto so- frido por Amina. Seu pai era um homem belo, de figura imponente. Maomé, contu- do, um menino pálido, fraquinho e sem alegria, dando a impressão de que preferia escolher seus próprios caminhos. Sem pressa e sem demonstrar qualquer sorriso na sua face, entrou no apo- sento da mãe. Quase contrariado, aproximou-se do sofá e perguntou: - Mandaste chamar-me, mãe. O que tens a dizer-me é realmente tão urgente? Sem repreender o tom desrespeitoso com que foram pronunciadas essas pa- lavras, Amina disse amavelmente: - Senta-te, meu filho, e escuta: teu avô chegará aqui para falar comigo a teu respeito. Eu sei que ele pretende mandar-te a uma escola. É verdade que tu ainda te sentes sempre indisposto e cansado? - Cansado estou sempre, mãe, mas isto não importa. Deixa-me ir à escola, peço-te! Sobressaltada, Amina revidou: - O que pensas, Maomé? O barulho e as maldades de tantos rapazes pode- riam prejudicar-te. Eles zombariam de ti, por teres tão poucas forças e por causa da tua palidez. Eles. . .
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    MAOMÉ - 5 - Indignado,o menino interrompeu-a: - Se eu continuar em casa, nunca me tornarei um homem! No meio dos ou- tros as minhas forças manifestar-se-ão. Quero aprender, devo aprender. Quero ficar um homem sábio! Direi ao vovô que irei de muito bom grado à escola. Então podes dizer-lhe o que quiseres; ele me dará ouvidos. Sardonicamente, o menino torcia os seus membros franzinos, e o seu belo rosto fazia caretas. - Para que necessitarás de tanta erudição, Maomé? Inquiriu a mãe, que esta- va prestes a chorar. Durante quase um ano ela havia feito tudo para adiar o momento tão temi- do da separação do seu idolatrado filho, e agora ele mesmo por si desejava freqüen- tar a escola. - Por que eu desejo aprender, mãe? Perguntou Maomé, estendendo-se em cima de um dos tapetes no chão. Eu quero tornar-me um comerciante, mas não dos pequenos. Quero tornar-me o maior comerciante de toda a Síria, Arábia e suas adjacências. Todas as pedras preciosas devem passar pelas minhas mãos e todos os tecidos finos eu quero tocar. Para isso preciso saber ler e escrever e, antes de tudo, fazer contas. Ninguém deve lograr-me, mãe! As ricas cortinas da porta estavam sendo empurradas cuidadosamente, e uma mulher corpulenta em trajes de serviçal entrou. Mãe e filho volveram suas cabeças em sua direção. Enquanto Amina se deitava outra vez em sua cômoda posição, como es- tivera, Maomé levantou-se rapidamente num pulo muito ágil e pendurou-se no pescoço da mulher que entrou, a qual ficou sem fôlego com o embate. - Sara, Sara! Exultava com a voz completamente modificada. Será realidade; eu poderei aprender! Agora a mãe se queixou de que vovô tenciona mandar-me à escola. Ela outra vez não me compreende. Sem consideração jorravam as suas palavras, sem notar como ofendia com elas a sua mãe, para a qual ele era a única alegria. Sara, a velha ama, nesse ínterim afastou os braços magros do seu favorito, e deixou-o escorregar cuidadosamente ao chão. Aproximou-se com a familiaridade peculiar às velhas criadas. - A senhora não quer pôr trajes melhores, em consideração ao dono da casa, que a espera? Sugeriu ela lisonjeiramente. Amina sacudiu a pequena cabeça com as pesadas tranças. - Para ele tanto faz como estou vestida, replicou. - Assim a patroa é injusta, censurou a criada. Abd aI Muttalib nunca falta com suas atenções. As melhores pedras preciosas, as mais cintilantes pérolas e os mais finos tecidos da galeria, ele manda para a viúva de seu filho!
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    MAOMÉ - 6 - Issoem nada impressionou aquela mulher tão mimada. - Eu fico como es- tou, disse ela. Além do mais, o tempo até a sua chegada é curto. Ainda temos muito a falar. Senta-te aqui conosco, Sara. A criada obedeceu sem objeção; ela parecia estar acostumada a tais conver- sações íntimas. - Eu não sabia que Maomé quer ir de bom grado à escola, começou Amina. Eu mesma sou contra, porque ele ainda está muito franzino para isso; também queria tê-lo comigo por mais um ano. - O que te adianta, se eu ficar contigo, mãe! Exclamou o menino com tei- mosia. Poucas alegrias te proporciono. Tu mesma o confessas, às vezes. E eu quero aprender, aprender, aprender! - Terás que te conformar, patroa, com o fato de que o menino está saindo da infância. Se é para ele tornar-se homem, então deve sair dos aposentos das mulheres e passar para as mãos dos homens. - Está bem, já que ele mesmo o deseja, que assim seja feito, suspirou a mãe. Mas, Sara, vejo um grande perigo para ele na escolha da escola. Abd aI Muttalib quererá mandá-lo para a escola municipal, onde são ensinados os rapazes da seita dos adoradores de fetiches. Maomé ainda não está firmemente instruído na nossa crença. Ele abandoná-la-á como um velho vestuário. - E a culpa de quem é, patroa? Perguntou Sara com indelicada intimidade. - Tu, atrevida, achas por acaso que eu faltei com minha obrigação de lhe ministrar os ensinamentos necessários? Replicou Amina, irritada. -Tuensinasteomenino,mas,emvivência,nãolhedesteexemplos.Quandopôde ele alguma vez ver que a tua crença oferece apoio,consolo ou estímulo para o bem? Maomé, que aparentemente não escutava, dirigiu-se para o lado onde Sara estava sentada. - Tens razão, Sara, disse ele carinhosamente. Da mãe eu não pude aprender tudo isso, mas sim de ti, bondosa como és, pelos teus exemplos. Novamente a cortante dor do ciúme feriu o coração da mãe. - Como podes julgar tão impiedosamente, meu filho? Disse em tom repre- ensivo. Quem rezou contigo desde que tens a idade suficiente para dizer sozinho uma oração? Quem te contou de Jesus, o crucificado? - Isso tu fizeste, mãe, foi a rápida resposta de Maomé. Mas enquanto tu apenas me fizeste imaginar o assassinato do portador da Verdade, Sara ensinou-me a amar o luminoso Filho de Deus, que, por amor aos homens, nasceu como criança numa manjedoura. Enquanto me ensinaste a dizer orações numa língua que nós dois não conhecemos, Sara conduziu-me aos pés do menino, para fazer minha prece. Essa resposta soou de maneira pouco infantil, mas provinha do coração do menino; perceberam-no as duas mulheres, cujos olhos se umedeceram.
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    MAOMÉ - 7 - Apóscurto silêncio, Amina tomou a palavra: - Seja como for, o principal é que crês. Se amas Jesus, já estou feliz. Mas dize- me, meu filho, esse amor resistirá ao escárnio e à influência dos colegas? - Isso veremos, mãe. Hoje ainda não posso sabê-lo. Se a fé em Jesus é a Verdade, como vós dizeis, então ela vencerá sobre tudo o mais. Se assim não for, então perecerá. Para Maomé essa conversa séria já se prolongara muito. Outra vez ele levan- tou-se, deu um salto com inesperada agilidade e correu dali. As duas mulheres olharam-se mutuamente.Ambas amavam essa criança mal- criada, mais do que tudo o que existia no mundo. Mas enquanto a mãe ignorava cegamente os defeitos do filho, Sara procurava corrigi-los com todas as suas forças. Com amargura percebeu Amina que toda a ternura da alma do menino se dirigia à velha ama, pela qual muitas vezes ele chegou a esquecer completamente a mãe. Sempre que o ciúme lhe ardia no coração, ela pensava em afastar Sara. Porém, não podia imaginar a vida sem a ama que a criou. Ainda jovem, Sara chegou à casa dos nobres Haschi, onde Amina acabara de nascer, como a mais nova das seis filhas. Sara tratou e cuidou da criança com incansável fidelidade, conduziu os seus primeiros passos e cercou-a de cuidados até desabrochar numa linda moça. Então chegou o dia em que Amina devia acompanhar o seu esposo ao lar. Abdallah, o comerciante de jóias, que a escolhera para esposa, era rico. Descendia,como Amina,de uma estirpe nobre,do tronco dos Koretschi.Con- trariando os costumes da família, ele tornara-se comerciante. Era judeu, o que fez com que o pai dela, antes de tudo, retardasse repetidas vezes seu consentimento. . . Alguns dos seus antepassados haviam se convertido a essa estranha crença, à qual os netos se apegaram obstinadamente. Todos os membros da família de Ami- na, porém, adoravam os fetiches e sentiam-se protegidos e felizes. As leis rígidas dos judeus infundiam-lhes assombro. Porém, no dia em que o pai quis dar o seu não definitivo, Amina confessou com lágrimas nos olhos que há muito já havia abjurado a crença de seus pais e se tornado cristã. Seu pai e seu pretendente ficaram estupefatos naquele instante! Mas quando o pai quis expulsar a sua filha apóstata, Abdallah manteve de pé sua pretensão e levou a cristã para a sua casa, como esposa.Assim, também, ninguém precisava saber da deser- ção da fé da nobre moça.Aliviado, o pai olhava o futuro. Em companhia de Amina, Sara abandonou o palácio dos Haschi, para contrair matrimônio no mesmo dia. Chorando,Amina confessara que fora Sara que a introdu- zira na nova doutrina. A criada foi expulsa da casa e podia seguir o homem que há muito já era seu pre- tendente. Seu primeiro filho faleceu ao nascer, e assim pôde encarregar-se dos cuidados
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    MAOMÉ - 8 - dopequeno Maomé, ao qual dedicou todo o amor e fidelidade, como uma mãe. Com lisonjas ela conseguiu que Amina se levantasse e que vestisse trajes me- lhores em consideração ao visitante. Mal se havia aprontado, já Mustafá anunciava o seu senhor. Amina sentou-se no divã, enquanto Sara colocava na mesa o café preparado às pressas, retirando-se em seguida para os fundos do aposento. Pois seria falta de decoro, se Amina tivesse recebido sozinha o visitante. Com dignidade Abd aI Muttalib entrou.Apesar de seu físico avantajado, via- se nele a linhagem da nobreza. Seus passos eram vagarosos e pausados, denotando consciência de si. Cabelos e barba de um branco-neve circundavam o rosto amare- lo-bronzeado, de onde os olhos castanhos lançavam um olhar perscrutador. Uma seda ricamente bordada, com tonalidades amarela e marrom, cobria o seu corpo robusto. A espada curva pendia da cinta, e correntes de pérolas adorna- vam-na. No indicador direito ele usava um anel com uma pedra excepcionalmente grande, de cor amarelo-marrom, que lhe servia de talismã e que nunca tirava. Calçava sapatos de couro com enfeites, forrados com seda, os quais usava somente dentro de casa. Suas saudações eram adequadas ao seu porte digno, mas com bastante frie- za. Ele havia se escudado com paciência e firmeza para enfrentar acertadamente todas as eventuais queixas da nora. Após ter sentado e tomado silenciosamente a primeira xícara daquela be- bida marrom, fixou o olhar em Amina. Será que ela sabia o motivo de sua vinda? Parecia que uma máscara ocultava seu rosto; nenhum traço demonstrava qual- quer comoção interna. Pausadamente ele começou a falar, contando a cada instante com uma das costumeiras e rápidas objeções da nora. Mas ele pôde expor com toda a calma todos os seus pontos de vista. Amina não falou nenhuma palavra. Quando disse tudo o que tinha a declarar, exclamou: - Vês, portanto, viúva de meu filho, que está no tempo de mandar Maomé à escola. Ela perguntou num tom indiferente: - Em qual escola o matriculaste, pai de meu marido? Perplexo ao ex- tremo, ele encarou a bela mulher. Tal reação ele não esperava e não achou de pronto uma resposta. - Nós aqui temos apenas duas escolas, disse ele, aparentando impassibili- dade. Uma é freqüentada pelos fidalgos, mas os professores pertencem à seita dos fetiches e não sabem nada; a outra pertence ao nosso templo, e o rabino Ben Mar- soch é um homem fundamentalmente erudito. Como Maomé nasceu numa família judaica, ele também deve crescer nesta crença.
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    MAOMÉ - 9 - -Maomé é cristão, porquanto eu, mãe dele, pertenço a esta religião! Interrom- peu-o, agora, Amina, impetuosamente. Sua respiração ofegava, seus olhos faiscavam. Calmo e sorridente, contemplava Abd aI Muttalib a jovem mulher. - Até agora te deixei proceder com ele como te aprouvesse, porquanto eu sa- bia que os anos em que o menino crescia nos aposentos das mulheres eram poucos. Agora ele os abandonará e a sua educação passará para as minhas mãos. Eu, porém, sou judeu. Severas e altivas soaram essas últimas palavras. Novamente Amina tentou replicar: - Maomé ama a sua religião. Ele não a abandonará. Levarás inquietação à alma do menino. - Um garoto de seis anos ainda não possui convicção própria. Com prazer adotará a crença do seu pai como se fosse a sua própria. Não falaremos mais sobre isso. Inicialmente eu havia planejado encaminhar o menino somente no começo do próximo mês para a escola, mas vejo que será melhor desabituar-vos, a ambos, de pensamentos errôneos. Assim, ele vai hoje mesmo comigo. A partir de hoje morará junto comigo nos aposentos que o seu pai ocupou antes. Uma vez por mês ele pode visitar-te, enquanto essas visitas não vierem a contrariar a educação. O dono da casa falou. Não restava outra coisa senão obedecer. Sim, se Amina tivesse certeza de que Maomé se oporia a freqüentar a escola, ela teria lutado por ele como uma pantera. Esforçava-se para ocultar as lágrimas que sempre de novo lhe escorriam dos olhos e esperava o que Abd aI Muttalib ainda tinha a dizer. No mesmo tom reservado como até o momento, ele indagou se a viúva do seu filho não tinha falta de alguma coisa e se todos os seus desejos estavam sendo atendidos. Ela respondeu afirmativamente. Outra vez ele a mirou com um olhar inquiridor, como se ponderasse se era oportuno continuar a falar sobre aquilo que para ele era motivo de preocupação. Então esvaziou apressadamente duas dessas xícaras pequenas e disse: - Tu ainda és nova e bela, Amina. Não é justo que continues levando uma vida solitária, estendida no divã. Deus tirou-te o marido, mas pela nossa lei é per- mitido casar-se novamente. Abu Talib, meu filho mais novo, oferece-te por meu intermédio a sua mão. Ele quer manter-te como herança do seu irmão. Serás rica e respeitada. Outra vez estarás rodeada de alegrias como no começo do teu matrimônio. Calou-se e encarou-a cheio de esperança, mas Amina não respondeu. Bem ela sabia do costume, segundo o qual os irmãos mais novos pedem a viúva do mais velho em casamento, porém esperava escapar disso.
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    MAOMÉ - 10 - Abdallahtinha sido um homem bonito, mas Abu Talib era corcunda e man- cava. Ela arrepiava-se ao lembrar um casamento com aquela figura disforme. Porém, disso não podia dar demonstração. Refletindo rapidamente, disse em voz baixa: - Pai do meu marido, agradeço-vos pela vossa benevolência, a ti e a Abu Talib. Eu jurei que, antes de passarem sete anos após a morte de Abdallah, não me casaria de novo. Essa promessa sustentarei. Assim lhe dou provas de todo o amor e devotamento que a ele devo. O ancião olhava para ela um pouco mais amável do que até então. -Essapromessatehonra,Amina.Geralmenteasviúvasnovasnãopodemesperar o tempo para um novo matrimônio.Direi ao meu filho que ele tenha paciência por mais doze meses.Então prepararemos o casamento.Em pompa e brilho nada há de faltar. Nesse momento, levantou-se. Julgou ter conseguido suas intenções. Podia vol- tar aos seus negócios.Antes de tudo, porém, devia procurar Maomé e levá-lo consigo. Devia ser evitado que sua mãe transmitisse quaisquer pensamentos ao menino. Nada havia a temer, pois em Amina os planos de casamento com Abu Talib apagaram todos os demais sentimentos. Horrível! Amina chamou Sara e desabafou todas as suas mágoas com a fiel criada. - Patroa, consolava esta, Abu Talib é um homem bom que também ama Maomé como se fosse seu próprio filho. Muitas vezes vi os dois juntos na melhor intimidade. Isso Sara não devia ter dito. Outra vez se inflamou o ciúme no coração tão facilmente impressionável da mulher. - Ele quer desviar-me o filho, para que mais depressa eu atenda aos seus desejos. Mas isso não acontecerá. Um ano de liberdade ganhei. Em um ano ainda pode acontecer muita coisa. Todas as tentativas por parte de Sara, no sentido de persuadi-la, eram inú- teis. A criada resolveu calar-se e deixar tudo entregue ao tempo. Mas, “em um ano pode acontecer muita coisa”, havia dito Amina. Não che- gou a passar a metade e a bela mulher achava-se deitada num esquife. Uma das do- enças epidêmicas que de vez em quando surgia, atacou-a traiçoeiramente e causou o fim de sua vida terrena. Sara havia tratado dela com fidelidade. Quando notou que a alma ia deixar o corpo, ela trouxe um crucifixo de marfim, para servir de consolo e apoio à agonizante. Muito tempo Amina olhou para a cruz e logo depois fechou os olhos. - Conta-me da criança em Belém, Sara, rogava com voz fraca. Tenho medo da morte e a cruz só conta disso.
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    MAOMÉ - 11 - ESara falou do amor misericordioso de Deus, daquele amor inapreensível, que mandou o próprio Filho para salvar a humanidade corrupta. Ela contou da vida do Filho de Deus e da majestosa entrada em Jerusalém. Mas isso não trouxe paz para a agonizante. Inquieta, virava a bela cabeça em cima do travesseiro, de um lado para o outro. Despercebido pelas mulheres, entrou no aposento o velho Abd aI Muttalib, não obstante saber que corria perigo de contágio. - Dize-me uma palavra que me tome mais fácil a morte, Sara, implorava a agonizante. A criada meditava. Nesse momento soou uma voz maravilhosa e cheia de paz, pelo aposento: “E ainda que eu esteja peregrinando no vale sombrio, não temerei nenhum infortúnio, porque Tu estás comigo!” Abd aI Muttalib pronunciou devagar e solenemente,com a mão direita estendi- da sobre a cama da viúva do seu filho, de sorte que a pedra amarelo-marrom reluzia. - Pai, sussurrava Amina, concordo que Maomé se torne judeu. Nunca ela o havia chamado de pai. Nessa hora em que ele trouxe consolação para a sua alma hesitante, esse nome lhe passou pelos lábios como coisa natural. E ele continuava a rezar salmos do rei, um após outro, até que se extinguiu a respiração dela e sua alma começou a desprender-se do corpo. Sara caiu em pranto, ao pé do leito. Amina, que ela amava como irmã, estava morta. Mas não era por isso que ela chorava. Suas lágrimas significavam o fracasso que devia trazer tão graves conseqüências. Nesse único momento em que Sara podia ter dado provas ao ancião de quanto mais consoladora e quantas mil vezes mais elevada é a fé cristã,acima de todas as outras crenças, nenhuma palavra lhe veio à mente. O corpo inanimado tinha de ser retirado o quanto antes possível da casa.Abd aI Muttalib cuidava de tudo que se tornava necessário para resguardar os demais da casa de possíveis perigos de contágio. Somente depois que os despojos tinham sido sepultados na cripta duma rocha, ao lado do pai, é que Maomé recebeu a notícia do falecimento de sua mãe. Ele pranteou aquela que somente lhe demonstrou amor, mas o seu luto não perdurou muito. Nos seus passeios mensais logo se acostumou a, em lugar da mãe, procurar Sara, que abandonara a casa de Abd aI Muttalib e morava agora na cidade, junto com o seu marido, em uma casinha agradável. Nessas ocasiões a velha serviçal esforçava-se para reparar o erro que julgava ter
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    MAOMÉ - 12 - cometido,enquanto contava do menino Jesus, ao que Maomé escutava atentamente. Ele sabia que no leito de morte a mãe anuiu em que ele ficasse judeu, mas isso não o atingia. Com afinco ele procurou aprender tudo o que lhe foi dado na escola. Quando os professores falavam do prometido Messias, então delineava-se um sorriso prematuro na sua fisionomia. Ele sabia que o Messias já havia chegado e que fora assassinado pelo povo. Com energia, sempre usava a expressão “assassi- nado”, também perante Sara. Nesse momento, ela advertia-o e procurava provar-lhe que a morte na cruz era algo determinado pela vontade de Deus.Assim, certo dia, ele disse veementemente: - Se isto for assim, Sara, então tu me tiras a fé em Deus. Qual o pai que deixa voluntariamente assassinar o seu filho? E Deus, assim como eu escuto falarem Dele, é o melhor de todos os pais do mundo. Mas tu queres rebaixá-Lo! Apavorada, Sara encarou o menino, que ousava ter sua própria opinião, di- ferente em tudo das outras. - Maomé, segura-te firmemente em Deus, peço-te, implorava. Eu sou culpada por não te tornares cristão; assim sendo, torna-te pelo menos um judeu verdadeiro. - Isto ainda não sei, Sara, disse Maomé categoricamente. Não posso tornar- me judeu por amor à mãe morta, se nada em mim se manifesta a favor disso. Tam- pouco por ti, a quem mais estimo neste mundo, não poderei tornar-me cristão. Sim, se desse para fazer uma fusão entre as duas religiões, então, isso me agradaria. Sara inquietou-se devido à precocidade do menino. O que haveria de ser dele? Fisicamente ele se fortalecia, debaixo do regime masculino. A escola do tem- plo em Meca cuidava não somente do intelecto dos seus educados, como também não se descuidava do robustecimento dos corpos. Ao lado do rabino Ben Marsoch, um jovem grego ensinava os rapazes e ins- truía-os em diversas artes, principalmente em jogos e exercícios físicos. Por essa razão, muitos pais conceituados, que não pertenciam à religião ju- daica, preferiam mandar seus filhos à escola do templo. Nas aulas, porém, isso provocou certa divergência. Não podia dar certo ins- truir os adeptos dos fetiches juntamente com os judeus, na doutrina de Deus, em- bora sem embargo pudessem compartilhar as demais matérias. Assim os alunos de crença ferrenha formaram um círculo interno, o qual gozava de especial proteção do rabino Ben Marsoch. Após freqüentar um ano a escola, Maomé declarou não mais querer per- tencer a esse círculo. Não obstante, ele foi forçado com severidade inabalável a fre- qüentar as aulas com esse grupo. Toda resistência e teimosia de nada lhe adiantaram. Mais ou menos por um ano prolongou-se essa rebelião contra professor e instrução, sem que o avô chegasse a ter conhecimento. Então, sem qualquer motivo aparente, Maomé conformou-se. Da mesma
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    MAOMÉ - 13 - maneirainesperada como há um ano, ele declarara a sua saída do círculo, agora pedia que lhe perdoassem a sua arbitrariedade e que o considerassem novamente como aluno ativo. Os professores regozijaram-se ante a incompreensível mudança no seu modo de pensar. Foi Sara que conseguiu fazer o menino compreender que ele prejudicava mais a si mesmo, enquanto se rebelasse contra a autoridade. - Aprende aquilo que te oferecem, Maomé! Ela havia dito inúmeras vezes. Tudo será útil,se o aprenderes direito.Mas se tu te recusas a escutar o que o rabino tem a dizer, como então quererás reconhecer o que é certo e errado nas suas oratórias? Essa foi a maneira certa de convencê-lo. Ele conformou-se e tornou-se um aluno esforçado. Depois de ter atingido mais de oito anos de idade, Maomé perdeu seu avô. Este faleceu suavemente, sem doença prévia, durante uma noite tranqüila. Atin- giu pouco mais de cem anos de idade; seu corpo repentinamente deixou de viver, enquanto seu espírito ainda mantinha vivacidade. Maomé nunca foi muito chegado ao avô. Foi a única pessoa que ele temeu. Agora, seu tio Abu Talib encarregou-se da sua educação. Isso tornou o me- nino feliz. Apesar do seu natural gosto pela beleza, não reparava nos defeitos físi- cos do tio, pois sentia intuitivamente apenas a infantil e pura alma do homem. Com grande amor Abu Talib veio ao seu encontro e fez tudo a fim de complementar, por meio da influência que exercia sobre sua alma, a educação na escola do templo, que era fundamentada exclusivamente em bases intelectuais. Maomé sempre o encontrava, quando nas suas horas de folga ia procurá-lo na casa paterna, da qual ele ficou afastado durante dois anos. O que Abu Talib lhe outorgou em valores interiores, ele o recebeu numa sensação de contínua felicidade, sem ficar consciente disso. A sua índole distraída e autoritária abrandou-se; nos seus olhos e na sua boca estampava-se um alegre sorriso em lugar do sarcasmo que tantas vezes deslizava sobre os mesmos. Com grande contentamento Abu Talib notou o desabrochar de Maomé. Ele pressentiu ricos tesouros na alma do rapaz e consagrou todos os seus esforços no sentido de trazê-los à tona. Foi por essa época que o rapaz foi atacado repentinamente por crises con- vulsivas inexplicáveis. Com um grito angustioso ele caiu no chão e ali ficou deita- do, debatendo os membros. Assustados ao extremo, os colegas afastaram-se dele. Enquanto isso, o rabino Ben Marsoch, que o julgou possesso, rezava diante dele sem obter resultado. Nin- guém ousava tocá-lo nesse estado, e ele debatia-se cada vez com mais violência. Finalmente chegou um médico. Dispunha de tudo para o tratamento e disse que as convulsões eram conseqüência do seu físico muito delicado. Não
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    MAOMÉ - 14 - deviaser esquecido que o rapaz ainda não esquecera a morte de seu avô. Não devia ser forçado excessivamente com estudos. O rabino Ben Marsoch não quis compreender. Pois, como Maomé havia se tornado um excelente aluno, não lhe aprazia excluí-lo das aulas. Então o médico falou com o assustado Abu Talib. No seu amor encontrou uma saída. - Projetei uma longa viagem para a Síria, disse ele. Levarei o rapaz junto. O clima diferente e a contemplação de tantas novidades lhe farão bem. Depois que voltarmos, poderemos tomar nova decisão. O médico concordou e pouco tempo depois iniciaram a viagem. Abu Talib não era comerciante como seu pai e seu irmão Abdallah, e Maomé não sabia ainda qual era a sua ocupação, embora quisesse muito saber. Ele perguntou ao tio o motivo pelo qual ia empreender a viagem, mas este, que sempre respondera a todas as perguntas com a maior amabilidade, disse apenas sucintamente: - Tenho negócios na Síria. O rapaz tão ávido em saber, não podendo receber explicação, preocupou- se somente com os preparativos da viagem. Um considerável número de acompa- nhantes formava o séquito; para cada qual foi preparado um camelo magnifica- mente arreado. Admirado, Maomé corria de um camelo para outro. Ele viu que todos os xa- réus traziam igual insígnia, cada um no mesmo canto: uma espada curva, encimada por um pássaro multicor. - Que é isso? E o que significa? Queria saber. Mustafá explicou-lhe: - Esse é o brasão de tua família, dos Koretschi, rapaz. Com orgulho poderás também, um dia, usá-lo. - Mas tem de ter uma significação! insistiu Maomé, passando os dedos por cima da insígnia. - Sem dúvida, tem uma significação: como pássaro deveis elevar-vos, supe- rando a todos os outros, e com a agudeza da espada deveis saber combater. Nota bem, Maomé! Não te tornes comerciante como o teu pai, mas segue o exemplo de Abu Talib, e terás honra perante os homens e bênçãos em teus caminhos. - Qual a profissão que o meu tio exerce? Perguntou Maomé, ligeiramente alegre por encontrar uma oportunidade para a solução dessa tão importante ques- tão para ele. - Profissão? Disse o serviçal, nenhuma. Nisso virou-se para o camelo, sobre cujo lombo tratava de prender uma magnífica sela. Irritado, Maomé pisoteava o chão. Assim um empregado não podia res-
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    MAOMÉ - 15 - ponder-lhe!Devia queixar-se a Abu Talib, porém, se o fizesse, seria descoberta sua curiosidade. Portanto, devia calar-se e aceitar a evasiva. Apressadamente correu para um dos outros serviçais e perguntou: - Qual é o camelo que irei montar? - Não sei, soou a resposta insatisfatória. O jovem senhor deve perguntar a Abu Talib pessoalmente. Finalmente chegou a manhã que deu início à viagem. O sol ainda não nas- cera no horizonte, e os camelos dos cavaleiros já esperavam no espaçoso pátio que circundava o palácio dos Koretschi. Uma enorme fileira de animais de carga espera- va fora, com seus tratadores que haviam sido contratados para essa viagem. Então Abu Talib saiu de casa e, servindo-se de uma escada, subiu na sua mon- taria. Todos os outros homens subiram, enquanto o camelo se agachava até o chão; somente ele, devido ao seu defeito físico, tinha de escolher essa outra modalidade. Mas, para Maomé, o que em outros homens talvez parecesse desprezível ou ridículo, isso, em Abu Talib, deu aos seus olhos um brilho fora do comum. Tudo o tio fazia diferente dos outros homens! E agora esse tio o chamava para servir-se igualmente da escada e subir para junto dele. Fê-lo apressado e tomou orgulhoso seu lugar na sela especialmente co- locada, sobre a qual devia fazer o percurso da viagem. Era magnífico que ele não tivesse que ficar só em cima de um camelo. Se assim fosse, durante horas não teria com quem conversar. E ele tinha tanta coisa a perguntar. Lentamente a caravana se pôs em movimento. Como um animal caminhava atrás do outro, formou-se uma longa fileira. Assim que deixaram Meca atrás de si, fi- zeram os animais acelerarem os passos. Tomaram o rumo monte abaixo, num declive amenizado em direção a noroeste, e a marcha dos camelos tornava-se cada vez mais animada. De início Maomé teve bastante oportunidade para apreciar, mas antes do pôr-do-sol, o seu interesse já arrefecera. A região tornou-se deserta e despovoada. Seguiam o rumo, à beira de um deserto. Quando começou a soprar um ven- to fresco, o mesmo levantava nuvens de areia que vinham ao encontro deles. Viaja- ram sem interrupção na primeira noite. o rapaz dormiu na sela. Somente na noite seguinte foram levantadas barracas. Com olhos atentos, Maomé acompanhava os afazeres do pessoal no acam- pamento. Viu como colocaram uma imagem horrenda, de pedra, ossos e farrapos, representando o fetiche; observou como eles dançavam em redor e como se alegra- vam em descansar debaixo de sua proteção. - Quem fez aquele objeto? Perguntou Maomé ao seu tio, junto ao qual vol- tou, preenchido de tudo o que havia presenciado. - Provavelmente um fetichista. Nós diríamos sacerdote, se é que um ateu como esse merece tal nome.
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    MAOMÉ - 16 - -Então essa imagem não pode representar nenhum deus, nem tampouco proteger as criaturas humanas, uma vez que é feita pela mão do próprio homem, falou rapidamente Maomé, revoltado por ver tanta tolice. Como podem ser tão tolos os seres humanos e crerem em semelhante coisa! - Eles nada sabem de melhor. Ninguém lhes contou da existência de Deus, acalmava-o Abu Talib. - Por que ninguém lhes conta Dele? Indignou-se o rapaz. - Eles não compreenderiam, respondeu o tio calmamente. O pensamento de que existiam homens ao lado dele que seguiam caminhos falsos, unicamente porque ninguém se esforçava em indicar-lhes os certos, não mais abandonou Maomé. Ele, que nunca pensou nos outros, sentiu dor ao lembrar-se dos adoradores de fetiches, que até então não lhe fora dado observar. Os rapazes na escola nunca falaram dos seus deuses. Ele julgou que fetiche era um outro nome de Deus. Também notou que os rapazes da nobreza não se inco- modavam com assuntos de crenças. Isso lhe parecia menos antinatural do que esse comovente apego daqueles simples homens a esses costumes tradicionais. Esses novos pensamentos não o deixaram ter sossego. Durante a noite, le- vantou-se da cama e saiu da barraca, procurando refrescar-se ao ar livre. Ali se estendia sobre ele o céu estrelado na sua aparente infinidade. Cintilan- tes e vibrantes, essas luzes do firmamento davam testemunho da grandeza Daquele que as criou. Todos os pensamentos confusos e estranhos se afastaram do rapaz, o qual pela primeira vez sentiu na calada da noite as vozes do cosmo falarem a sua alma.Involunta- riamenteosseusbraçosselevantaramaoencontrodesseesplendoreinconscientemente afloravam aos seus lábios as palavras que ele aprendeu na escola: “Senhor,como são grandes e imensas as Tuas obras; tudo ordenaste sabiamente!” O que até então havia sido para ele matéria morta para aprender de cor, agora, nele tornou-se vívido. Sentiu a sua alma tomada por forças, às quais teve de curvar-se. Após ter passado o primeiro estremecimento, ele deixou-se cair na areia que ainda estava quente, colocou as mãos embaixo da cabeça e começou a meditar sobre a causa pela qual ele se sentira até oprimido dentro da barraca. Então novamente se lembrou dos pobres adeptos de fetiches. Como poderia ser possível que esses homens, noite após noite, vissem essas coisas e cressem nessas figuras de palha e farrapos! Devia vir alguém que lhes mostrasse algo melhor. O tio havia dito que eles não compreenderiam outra coisa! Será que alguém já empreendera uma tentativa? Devia ser possível convencer essa gente. Era um dever natural daqueles que sabiam melhor dar esclarecimentos aos outros. Durante horas ele ficou deitado quieto, meditando. Então, brotou-lhe do
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    MAOMÉ - 17 - íntimoo resultado das suas reflexões: “Senhor, Deus de Israel, se ninguém o quer empreender, então eu o quero, assim que tenha idade suficiente para isso! Ajuda-me a fazê-lo.” Era a primeira prece independente que jorrou da alma do rapaz, e essa prece, sentida profundamente por amor a outros homens, achou seu caminho para o tro- no do Todo-poderoso. Suave paz invadiu o rapaz, como nunca sentira antes; uma esperança tranqüilizante e uma alegria sobre o porvir afluíram-lhe. Essa noite ele passou ao ar livre, e na manhã seguinte apareceu com os olhos tão radiantes diante de Abu Talib, que este não pôde compreender o milagre. Os dias transcorriam monótonos, mas Maomé, que tão depressa se enfadava de todas as coisas, entreteve-se com seus próprios pensamentos e conservou um alegre equilíbrio. Um dia surgiu uma agitação na caravana.O condutor aproximou-se deAbu Talib e perguntou se não achava preferível acampar o quanto antes, porque temia a aproxima- ção de uma tempestade de areia. No entanto, como se achavam pouco protegidos nesse lugar,Abu Talib achou aconselhável prosseguirem a viagem um pouco mais adiante. Umventoquentevinhaseaproximandodelespelascostas,trazendograndesmas- sas de areia consigo.Então,viram-se forçados a descer. Os camelos deitaram-se rapidamente e os homens procuraram proteger-se atrás e no meio deles.A areia caiu tão densamente,que ameaçou soterrar tudo o que estava vivo. O coração de Maomé batia fortemente.Não sentiu medo,pois estava por demais absorto nas emoções pelas quais havia passado. Trêmulos de susto, os cameleiros repentinamente começaram a entoar uma canção monótona, cujo texto Maomé não pôde entender. Um dos homens moveu- se agachado, e arrastou-se para o camelo da frente, sobre cujas costas colocou e amarrou uma das abjetas figuras de fetiche. Esta inclinou-se no vento, foi sacudida, mas ficou de pé. Então os homens começaram a regozijar-se: o seu fetiche dominaria a tempes- tade e eles seriam poupados. Na alma do rapaz algo começou a agitar-se. Será que esse hediondo ídolo do- minaria? Antes mesmo que Abu Talib pudesse percebê-lo, Maomé saiu do seu abrigo; deslizou serpenteante até o camelo da frente e subiu nas suas costas, de sorte que ficou ao lado do fetiche, em pé. Um grito de muitas gargantas ressoou. Todos o advertiram de que voltasse ao seu lugar seguro e de que seria sua morte, se não o fizesse. Com gesto autoritário movi- mentou a cabeça para trás.
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    MAOMÉ - 18 - Nesseinstante parecia que por alguns minutos a ventania parou,e o rapaz apro- veitou essa pausa para exclamar aos homens o que agitava sua alma: - Por que eu não haveria de ficar aqui tão bem quanto o vosso fetiche? Se ele não está em perigo, eu estou muitas vezes mais seguro. Sabeis que ele foi feito por mãos humanas, mas eu fui criado por Deus! Por Deus, o mais supremo nos céus e na Terra! Escutai, ó homens! Eu sou criatura de Deus e serei o Seu servo quando alcançar a idade em que Ele poderá precisar dos meus serviços! Perplexos, os homens fitavam-no. O que ele disse? A tempestade continuou. Maomé teve de calar-se. Mas ele permaneceu em pé. E nem se segurou. Orando, estendeu os braços ao céu. Isso já se tornara um hábito para ele, desde a noite em que sentiu aquela profunda emoção na alma. Sua figura esbelta oscilava na tempestade, porém, nada lhe aconteceu. E outra vez a ventania parou por uns instantes. Então Maomé exclamou, extasiado: - Pedi a Deus, o Todo-poderoso, que a tempestade cessasse. Cessará se tirardes o fetiche daqui. Quereis fazê-lo? Ele vos mostrou que não pode proteger ninguém.Agora deixai que eu vos mostre que Deus, o Senhor, pode! Comoquedominadopelaspalavrasinfantis,umdosárabeslevantou-seearran- cou dali o fetiche.Com isso ele chegou a rolar no chão e a imagem caiu no meio de suas pernas, quebrando-se. O que certamente para eles teria significado um mau augúrio, agora lhes parecia uma prova ditosa do poder Divino. Uma única rajada de vento levantou-se ainda e varreu para longe no deserto os farrapos do ídolo. Então o vento cessou. O ar acalmou-se e os animais respiraram e levantaram-se. O temporal passara. No meio dos homens contentes, encontrava-se em pé o rapaz, dominado pelo acontecido. Tudo isso veio sem que ele pudesse antecipadamente raciocinar e sem que pudesse tornar-se consciente da transcendência das suas palavras. Ante esse acontecimento sentiu-se arrebatado e fortalecido. Quão grande era Deus,quão Todo-poderoso! E ele pôde anunciá-Lo! Realmente,Deus já agora se utiliza- ra dele.Agora também consagraria a vida inteira a Ele. Caminhou devagar para a sua montaria e nela subiu.Depois de sentar-se,encos- tou-se inconscientemente no tio. Abu Talib compreendeu o que se passava na alma do rapaz. Não disse nenhuma palavra sobre o que havia se passado. Também não corres- pondeu à inconsciente carícia. Deixou Maomé recuperar sozinho o equilíbrio anímico. Seguiram-se dias calmos e repletos de paz.Abu Talib percebeu que o rapaz pas- sava por uma transformação íntima, para a qual qualquer palavra humana seria supér- flua. Deixou-o completamente entregue aos seus pensamentos e apenas cuidava para que ele não se esquecesse de comer.
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    MAOMÉ - 19 - Aregião mudou de aspecto. Na direção que seguiam, começou uma subida suave monte acima. O deserto de areia ficou para trás. Para onde quer que dirigis- sem seus olhares, viam rochas cobertas de vegetação e lindos pomares. - Isto é a Síria? Perguntou Maomé, como que despertando de um sonho. Abu Talib confirmou que sim e que dali para frente tudo haveria de ficar cada dia mais belo. - Para onde iremos na Síria? Como se chama a cidade onde ficaremos? In- terrogou o rapaz. Ficou surpreso ao saber que dependeria das notícias que o tio aguardava para a próxima noite. - Chegaremos amanhã num convento, onde encontraremos algum recado. Nisso se baseará a continuidade da minha viagem. Nesse convento moram somente homens devotos, que são servos de Deus, Maomé. Terás prazer em vê-los e em po- der falar com eles. - São judeus? Perguntou solicitamente o rapaz. - Não, são cristãos, e afirmam ter sido um dos discípulos de Cristo que fun- dou a comunidade. Talvez eles te contem sobre isso, se solicitares. - É conveniente para mim escutar uma vez verdadeiros cristãos, declarou o rapaz. Com exceção de Sara, ainda não vi nenhum. - Tua mãe também era cristã, não o esqueças, rapaz, admoestou Abu Talib; porém, como resposta, obteve: - Ah! eu também ainda era novo, quando mamãe vivia, mas sempre senti que ela não dava muita importância a sua crença, pois com a Sara eu aprendi mais do que com ela. - Mas era uma boa mulher; tu ainda não podes julgá-la acertadamente, repe- liu Abu Talib, a quem doeu escutar o filho falar dessa maneira sobre sua mãe. Entretanto, essa leve repreensão não impediu Maomé de defender a sua opi- nião. Em muitas coisas, intimamente, o tio tinha de dar-lhe razão. Por isso achou mais acertado interromper a conversa. Ao anoitecer do dia seguinte, chegaram a um convento, que se encontrava situado numa fértil planície, no meio de pomares em florescência. Monges vestidos com longas batinas de cor marrom e com uma corda branca amarrada pelos qua- dris, trabalhavam nas árvores e nos canteiros. Com a aproximação da caravana eles levantaram os olhos. Então dois deles chegaram ao portão,o qual se achava no baixo muro branco que cercava aquele imen- so terreno. O portão foi aberto, mas somente Abu Talib, com sua montaria, entrou, enquanto, após ligeira chamada, a caravana se pôs novamente em movimento.
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    MAOMÉ - 20 - Umpouco assustado, Maomé olhou para os companheiros, que iam seguin- do viagem: - Para onde eles vão? Ficaremos sozinhos aqui? Interrogou, um tanto ame- drontado. Abu Talib não teve tempo para responder. Com muita dificuldade ele desceu de sua montaria, que estava bem adestrada para suportar com paciência todos os movimentos do seu aleijado cavaleiro. Maomé saltou atrás com agilidade e, quando se defrontou com os monges, olhou admirado em redor de si. Um outro irmão, que acorrera, pegou nas rédeas e conduziu o camelo para fora dali. E este também desapareceu. O rapaz sentiu um mal-estar. Involuntariamente ele pegou na mão de Abu Talib e disse imperiosamente: - Tu ficas aqui! Com isso os monges tiveram a sua atenção voltada para o jovem hóspede. Nos seus rostos estampava-se a admiração, mas não perguntaram nada; conduzi- ram os hóspedes para o interior do convento, onde estava preparado um aposento para receber Abu Talib. Prontamente prepararam também uma cama para o rapaz e serviram a am- bos uma ligeira refeição. Depois disso, os irmãos retiraram-se e deixaram tio e rapaz entregues ao repouso da noite. Maomé muito quis saber: por que os monges usavam esses hábitos compridos; por que não tinham cintos bordados, mas sim essas longas e feias cordas cheias de nós. Abu Talib explicou da maneira que sabia. A pergunta que ele esperava, antes de todas, não foi pronunciada. Então, ele mesmo a fez, embora não soubesse nenhuma resposta para ela. - Tu viste, Maomé, que todos esses monges têm os cabelos tosados no mesmo lugar. Sabes por quê? Sem hesitar o rapaz respondeu: - Eu penso que eles rasparam os cabelos para que a força de cima possa pe- netrar melhor neles. - A força de cima? Perguntou Abu Talib admirado. O que sabes disso? - Eu mesmo a senti, replicou Maomé, resoluto e sem a mínima vaidade. Um monge entrou e trouxe notícias para o tio, o qual se aprofundou nos pa- péis a ele entregues e ordenou que o rapaz fosse deitar. Este achou muito esquisito não poder fazer sua oração ao ar livre, conforme já se tornara hábito para ele, desde há pouco tempo. Antes mesmo que ele chegasse a resolver se podia pedir para sair para fora, no pátio, Abu Talib levantou-se e deixou o aposento. Então o rapaz rezou em pé, na frente da sua cama, e logo depois se deitou, adormecendo rapidamente. Na manhã seguinte o tio levou Maomé à presença do superior do convento.
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    MAOMÉ - 21 - AbadePaulo ainda era um homem moço, com olhos ardentes e traços severos. Lan- çou um olhar penetrante no rapaz. - É como nós presumíamos, disse, dirigindo-se depois para Abu Talib, po- rém eu quero mandar chamar o padre Benjamin. Ele verá melhor do que eu o que pode ser visto. O padre foi chamado. Os homens esperaram em silêncio e Maomé, que se sentiu deprimido por algo inexplicável, nem levantou os olhos, que estavam sempre tão sedentos de saber. Então entrou um homem de idade, o qual, obedecendo à chamada do abade, colocou-se ao lado deste e inquiriu Maomé: - De que crença és, meu filho? Este levantou rapidamente os olhos e replicou sem raciocinar: - Sou da crença de que os adoradores de fetiches devem ser auxiliados. Abade e padre trocaram um rápido olhar. Abu Talib, porém, embaraçado com a resposta do rapaz, dirigiu-se a este explicando: - Tu entendeste mal a pergunta do padre. Ele queria saber a que crença per- tences; se és pagão, judeu ou cristão. Maomé encarou o padre. - Não sou nada, respondeu com impassibilidade. Aí, Abu Talib assustou-se mais ainda e quis dar esclarecimentos ao rapaz; entretanto, o abade interrompeu-o: - Deves ter nascido em alguma religião e nela recebido ensinamentos. A esta, então, pertences, não é, meu filho? Maomé sacudiu a cabeça, característica de sua índole liberal. - Eu nasci como cristão, mas ainda não cheguei a conhecer verdadeiros cris- tãos. Depois cresci entre judeus e fui ensinado junto com judeus e fetichistas. Não sou cristão; judeu também não gosto de ser, porquanto a sua crença estagnou e não pode ir adiante. Então, encontrei Deus, bem sozinho. Agora só posso dizer: eu sou Maomé, que crê em Deus! O embaraço de Abu Talib aumentava cada vez mais; o abade, todavia, lançou um olhar bondoso para o rapaz e disse: - Se aquilo que dizes,com toda a tua convicção e de toda a tua alma,estiver certo, então está bom. Seja sempre Maomé, que acredita em Deus, até achares algo melhor. O padre Benjamin dirigiu-se outra vez ao rapaz: - Em que reconheceste que Aquele que achaste é realmente Deus? Com a rapidez de um raio veio a resposta: - Na Sua grandeza e onipotência. Ao proferir essas palavras, parecia a Maomé que forças invisíveis o elevavam. Teve tonturas.Vastas planícies estendiam-se diante dos seus olhos espirituais e uma cla- ridade rodeou-o.
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    MAOMÉ - 22 - Issolevou apenas poucos instantes, então ele tornou a si, porém uma grande sensação de felicidade íntima o dominava. O mais novo dos padres entrou e recebeu ordem para mostrar a Maomé o jardim do convento. Assim que os dois saíram do aposento, o padre Benjamin disse pensativo: - E como esperávamos, pela mensagem que nos foi dada: esse rapaz é algo fora do comum. Deus, o Senhor, destinou-o para levar o Seu saber a longínquas regiões. Um portador da Verdade ele deverá ser, não somente para o seu povo, como também para inúmeros homens da Terra. - Queres confiar-nos o rapaz, Abu Talib? Perguntou o abade. Com muito prazer formaremos a sua alma. Certo é que ainda não tivemos alunos tão jovens no convento, mas também nunca alguém com dotes tão extraordinários cruzou nosso caminho. Após um breve entendimento,o tio concordou e o rapaz foi chamado. - Escuta,Maomé,tomou o abade a palavra,quando o rapaz se encontrava ansio- sonasuafrente,seutiorecebeunotíciasqueochamamalugaresdistantes,paraondenão poderá levar-te. Como disseste que ainda não tiveste a oportunidade de conhecer cris- tãos,entãovamosoferecer-teestaocasião.Ficaconosconoconvento,enquantoAbuTalib irá prosseguindo sua viagem.Tu podes aprender tudo aquilo que nós próprios sabemos. Incerto,MaoméolhavaparaAbuTalib.Seráqueotioestavadeacordo?Omelhor seria convencer-se disso,antes de responder. - Tu aprovas que eu fique? Perguntou.Abu Talib acenou afirmativamente. - Então eu fico com boa vontade convosco no convento, porquanto me agrada aqui. Mas para que não vos arrependais de me ter dado internato, quero dizer, desde já, que até agora sempre tenho imposto a minha vontade. O abade fez menção de dizer algo em resposta, mas Maomé não o deixou e con- tinuou: - Obedecerei aqui, mas nem sempre o conseguirei logo; por isso digo-o anteci- padamente. Essas palavras foram pronunciadas de maneira tão infantil,que conquistaram os corações do abade e do padre. Eles asseveraram que o tolerariam de bom gosto ao redor de si e que a vida simples e regrada do convento já por si sufocaria qualquer vontade própria. Tudo se passou com tanta rapidez, que o rapaz quase não teve tempo para refle- xões. Abu Talib partira, e Maomé encontrava-se numa pequena cela, que de agora em diante lhe serviria como morada.Ainda não havia conseguido saber qual a profissão que o seu tio exercia! Isso o preocupava muito. Maomé podia tomar parte nas refeições com os alunos mais novos do convento; também foi admitido nas aulas, depois de um exame que provou ter ele sido excelente- mente preparado na escola do templo de Meca.
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    MAOMÉ - 23 - Empouco tempo, apelidaram-no de “pequeno escriba”, expressão esta que provocou indignação da parte de Maomé. Doutor nas escrituras sagradas ele não queria ser.“Experiente da vida” parecia-lhe ser melhor. Como agora lhe sobravam algumas horas do dia, durante as quais os outros se extenuavam em adquirir um saber que ele já possuía, foi decidido que durante as horas vagas ajudasse o jardineiro. Isso foi motivo de grande alegria para o rapaz, que era tão ligado à natureza. Ele encurtava o repouso unicamente para poder estar o mais possível no jardim. Diversos trabalhos lhe couberam, para os quais as suas mãos de criança possuíam uma habilidade especial, e o que tocava desenvolvia-se bem. Se algumas vezes chovia fortemente, impedindo-o de ficar ao ar livre, então se ocupava com um trabalho na cela, ao qual se dedicava espontaneamente: escrevia textos da doutrina judaica, que lhe pareciam conter algo da doutrina cristã. Logo depois começou a procurar contradições entre as duas. Havia recebido permissão para perguntar sobre tudo aquilo que lhe pareces- se duvidoso. Uma das primeiras perguntas foi sobre a morte de Jesus na cruz. - Por que Deus, o Todo-poderoso, permitiu que Seu Filho fosse assassinado? Perguntou com insistência. Os monges olharam-se e ficaram embaraçados. Um repreendeu-o por pen- sar de tal modo. - Tu não deves falar aqui de assassinato, disse. Jesus Cristo morreu para tra- zer à humanidade o resgate de suas culpas! - Nisso eu não acredito, retrucou o rapaz com veemência. A salvação, o Filho de Deus trouxe-a aos homens através de sua presença e de sua Palavra. Sua morte apenas aumentou enormemente a culpa dos homens.Que Deus,o Senhor,não quisesse arrancar a humanidade do abismo, isso eu compreendo. Ela era má demais. Mas que Ele deixasse ficar o Filho para vítima,isso para mim é incompreensível e incompatível com o Seu ser. - Muita coisa mais ainda não entenderás, soou a resposta insatisfatória do abade. Desse modo, Maomé não foi auxiliado, e então procurou de novo encontrar sozinho as respostas. Às vezes se insinuava a tentação: “Não cismes! Joga fora tudo isso como coisa incompreendida. Vive alegre e contente todo o dia, assim como ele se apresenta, e não o ensombres por ti mesmo com raciocínios, para os quais ainda és muito novo.” Por pouco teria cedido a essas vozes que impulsionavam o seu íntimo, po- rém, a sua experiência vivencial ainda pairava luminosa e bastante nítida diante de sua alma. Ele tinha que continuar a pesquisar. Uma palavra de um jovem padre veio lançar um pouco de luz na torrente de seus pensamentos impetuosos. Esse jovem professor certo dia esclareceu aos alu-
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    MAOMÉ - 24 - nosa necessidade da disciplina no convento. Sem ela cada um faria o que bem lhe aprouvesse, porquanto, embora Deus tenha concedido ao homem o livre-arbítrio para proceder como quiser, pela sua própria vontade, o homem não sabe aproveitar esse dom; por isso deve subordinar-se à disciplina terrena! A palavra “livre-arbítrio” vibrou em Maomé. Com esforço dominou o im- pulso de fazer, já durante a aula, mais perguntas a esse respeito. No final da aula, todavia, Maomé procurou o padre e fez suas perguntas, as quais deram provas de uma vivacidade intrínseca. O monge esforçava-se seriamente para acalmar a alma do rapaz. Ele, aliás, nunca se ocupou com tais ponderações, mas pôde penetrar intimamente nas idéias de Maomé. - Pondera nisso uma vez,padre,exclamou entusiasmado.O livre-arbítrio é uma das maiores dádivas que Deus deu à humanidade! Se o empregarmos certo, então, po- deremos ascender às alturas, ao passo que do contrário ficaremos sempre presos. O doutrinador não respondeu. Esses pensamentos eram altos demais para ele. O rapaz, porém, continuou: - Por isso Deus também não interveio, quando Cristo foi assassinado. Ele tinha que deixar os homens sofrerem as conseqüências do seu próprio querer. Real- mente, Ele é grande, acima de toda a imaginação humana! E eu, tolo, queria acusá- Lo justamente por isso! - Rapaz, pensa no que dizes; como podes atrever-te a falar dessa maneira do Todo-poderoso! Repreendeu o professor, pois ele não era mais capaz de seguir os pensamentos do jovem. - Apenas me arrependo do modo de pensar anterior, defendeu-se Maomé. Então calou-se. Tanta coisa lhe afluía intimamente em reconhecimentos, que ele não dava conta de tudo. Mas o padre foi procurar o abade, para informar-lhe sobre a conversação. - Já te disse, padre Jakobus, sorriu o superior, que Maomé é um rapaz extra- ordinário. Tu não podes exigir que o espírito infantil compreenda as grandes coisas, como um homem maduro pode compreender. Não o intimides, senão ele perde a confiança em ti e em todos nós. Isso seria grave, porque não poderíamos controlar o que se passa nele. Em vista dessa palestra, o abade resolveu encarregar-se sozinho da educação do rapaz. Concedeu-lhe diariamente uma hora, durante a qual ele podia ficar tra- balhando ao seu lado e formular as perguntas que quisesse. Isso agradou a Maomé, e ele envidou todos os esforços para aproveitar essa oportunidade que lhe fora facultada. Quanto mais paciência o abade demonstrava, tanto mais liberais ousavam sair as perguntas de sua alma. Abade Paulo nunca lhe chamou a atenção sobre expressões audaciosas, mas
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    MAOMÉ - 25 - tambémnunca lhe deu demonstração de que não estava à altura para acompanhar os seus elevados pensamentos. Já há muito examinara os escritos de Maomé, e ficara admirado com que nitidez o rapaz descobrira as diferenças entre as duas doutrinas. Desse modo se passou mais de um ano. No maravilhoso clima da Síria, Ma- omé recuperava-se. As perigosas crises convulsivas, que ainda algumas vezes se re- petiram, desapareceram, no entanto, nos últimos meses. Os monges fizeram de tudo para fortificar o seu corpo, mas para o espírito pouco puderam fazer. Ensinaram-lhe tudo o que sabiam e tiveram de passar pela experiência de que, com poucas palavras, o aluno demolia sempre qualquer edifica- ção das suas sabedorias erigidas em bases artificiais. Um dia, abade Paulo perguntou: - Então, Maomé, agora já conheces verdadeiros cristãos. Comparaste a nossa doutrina com a dos judeus. Para qual das duas te sentes atraído: queres ser cristão ou judeu? - Nenhum dos dois, confessou francamente Maomé. O judaísmo foi maravi- lhoso, da maneira como foi iniciado. Mas então os homens perverteram-no, e agora estagnou, porque os tolos ainda esperam o Messias, em vez de reconhecerem que ele já peregrinou pela Terra. Agora o judaísmo nunca mais progredirá. Excluiu-se da própria vida. - E o cristianismo? Animava-o o abade, ao qual agradaram as ponderações do jovem. Como encaras o cristianismo? - Seria a continuação do judaísmo, disse Maomé meditando. Reconheceu o Messias, mas não faz desse reconhecimento o uso devido. - Rapaz, como tu entendes isso? Perguntou o abade, espantado. Ele pôde escutar meio divertido, quando o jovem falou com menosprezo da doutrina dos judeus, mas como agora se referia de maneira idêntica ao cristianis- mo, não conseguiu mais calar-se. Maomé replicou calmamente: -Vós reconhecestes Cristo como o Filho de Deus,que trouxe a salvação.Porém, agora disputais sobre quem de vós o interpreta com mais precisão. Fazeis desse reco- nhecimento um assunto do raciocínio, em lugar de um assunto do espírito. Em vez de aspirar às alturas pela Verdade que ele trouxe, ficais parados no mesmo lugar e deixais a Verdade escapar pelas vossas mãos, até que ela se torne completamente vulgar. Expressão e palavra não eram mais as de uma criança. Estupefato, o abade olhou para Maomé, que ousou dizer-lhe tais coisas. Como isso era possível? Em nenhum instante lhe surgiu o pensamento de que Maomé, sendo
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    MAOMÉ - 26 - umenviado da Luz, estaria realmente em condições de trazer a ele, o inteligente abade, Luz e Verdade. Sentiu vontade de escutar mais, por isso perguntou-lhe: - Como imaginas a crença verdadeira, se repudias uniformemente o judaísmo e o cristianismo? - Sobre isso já meditei muitas vezes,foi a resposta surpreendente.Devia-se fazer a tentativa de conseguir a transição do judaísmo para o cristianismo, porém espiritua- lizá-lo, porquanto a fé é uma atribuição do espírito, e não do intelecto. Perplexo, o abade fixou os olhos no seu interlocutor, não conseguindo quase mais segui-lo. - Isso não vem de ti, rapaz! Exclamou. Quem te disse tudo isso? Quem te ensi- nou a pensar assim? - Isso surge em mim à noite,quando faço a minha prece,e eu o retenho porque sinto que é verdade. Logo que eu tiver alcançado mais idade, então pedirei a Deus para ajudar-me a encontrar a verdadeira crença, que possa ser ensinada aos homens. Essa crença conterá então a força para conquistar o mundo e conduzirá todos os homens aos pés do Criador, em gratidão e veneração. Comovido,o rapaz calou-se.O abade,no entanto,em vez de deixar atuar sobre si essa sabedoria, que não proveio desta Terra, desejou saber: - Com quem já falaste sobre isso, Maomé? - És o primeiro, soou a resposta, mas agora estou arrependido por tê-lo feito, porquanto tu não recebes aquilo que eu disse no sentido como me foi dado. Sempre queres medir tudo pelo teu cristianismo, em vez de distinguir que Deus quer te ofere- cer aqui coisa melhor! Se, porém, durante a refeição não esvaziares bem a tua tigela de comida do dia anterior, como pode caber coisa nova nela? Sobre a face do rapaz faziam-se notar contrações.A agitação e a tensão tinham sido demais para ele. Sinais de novas convulsões surgiram. Apesar disso, continuou a falar por um impulso íntimo que predominava nele: - Não achas, abade Paulo, que eu tenha sido conduzido para o teu convento para fazer-te ver isso? Deus às vezes se serve de pequenos instrumentos para fazer gran- des coisas.Escuta-me,porquanto eu sei que Deus manda por meu intermédio dizer-te: tira o cristianismo intelectualizado do teu coração e do teu convento e aceita o que o espírito te oferece! Mais ele não pôde falar, pois a pertinaz doença o atacou com grande intensida- de. Com menosprezo o abade olhou para esse débil instrumento de Deus. - Rapaz, quem te deu coragem de falar assim comigo? Tua altivez e tua pre- sunção merecem castigo! Agora te chamarei à ordem, murmurou o abade, enquanto deixava o aposento a fim de chamar um irmão servente para cuidar do jovem. Nessa noite Maomé escutou uma voz alta, que o chamou pelo nome. Ele sabia que não era terrena e imediatamente respondeu.
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    MAOMÉ - 27 - Entãoa voz lhe ordenou que deixasse o convento ainda antes do ama- nhecer. Se caminhasse em direção ao sol nascente, chegaria a uma cidade onde deveria perguntar pelo devoto irmão Cirilo. “Senhor, sou Teu instrumento e farei o que me mandas!”, rezava Maomé. Por essa razão pegou os poucos objetos da sua bagagem e fez uma trouxa, saindo cautelosamente para o pátio. Observando e espreitando atentamente, viu que um dos pequenos portões laterais não estava fechado. Conseguiu passar. Aliviado, encontrava-se fora do muro. “Todos hão de pensar que estou temendo o castigo do abade”, murmurou algo nele. Hesitante, meditou: “Não seria um ato mais corajoso eu voltar e enfren- tar a pena que me foi imposta?” Logo, porém, superou essa tentação. “Eu o faço por ordem de Deus!”, disse ele em voz alta, “portanto, não devo incomodar-me com o que os homens pensam e dizem de mim. Sou Ma- omé, o instrumento de Deus! Vós, homens, sois indiferentes para mim!” Para certificar-se da direção do seu caminho, lançou um ligeiro olhar em redor de si e então caminhou corajosamente para frente. Em geral, após os acessos de convulsão, ele não podia deixar a cama por dois ou três dias. Foi uma visível ajuda de Deus! Quando o sol nasceu, sentiu fome. Ele não pôde levar provisões de víve- res consigo, e os figos nas inúmeras árvores e arbustos ainda não estavam ma- duros. Então sorriu da fome. O Deus, que deu forças aos seus débeis membros para caminhar, também o ajudaria a achar alimento. Na beira do caminho encontrou uma pequena propriedade, porém ele quase não a percebeu. Então ressoou a voz de uma mulher: - Rapaz, queres ganhar uma merenda matinal? Ligeiro como uma lebre, virou-se e respondeu afirmativamente. Então a mulher encarregou-o de tirar de uma árvore alta um precioso pano de seda que o vento havia carregado para lá, durante a noite. - Tu és bastante esbelto para tal trabalho, disse, enquanto mirava a figura delgada. Sem mais delongas, Maomé tratou de subir na árvore. Com a costumeira agilidade com que fazia tudo, tirou a seda e a trouxe incólume. A mulher ficou satisfeita e não foi mesquinha na sua recompensa; deu-lhe comida e bebida com fartura, de sorte que até sobrou, e ele pôde levar as sobras consigo. Então, ao continuar sua peregrinação, agradeceu a Deus de todo o co- ração e formou suas palavras de agradecimento à maneira dos salmos, num cântico de louvor:
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    MAOMÉ - 28 - “Grandeé Jeová, o Senhor! Infinitamente grande e majestoso é Ele! E, todavia, nada Lhe é insignificante demais para que não o transforme num instrumento, desde que o mesmo tenha boa vontade. Grande e majestoso é o Senhor! E sempre se lembra dos humildes e os ajuda até nas mínimas necessidades. Antes mesmo de pedirem, Ele atende, porquanto Sua misericórdia é infinita. Louvai-O, todas as criaturas que Ele criou! Todos os vossos atos deviam ser um louvor ao Todo-poderoso! Ínfimos que sois, não devíeis pensar em vós mesmos. Pensai em Deus, agradecei-Lhe”. Maomé entoava sempre de novo o seu salmo, que lhe dava prazer. Então veio um tropeiro no caminho, com um burro bem alimentado. - Escuta, pequeno cantor, para onde queres ir? A pergunta foi feita com tanta bondade, que Maomé respondeu prontamente: - Para a próxima cidade, em direção ao sol nascente! - Então monta, meu burro pode carregar-te bem, e os teus cânticos podem encurtar-me o caminho. Canta outra vez a canção que acabaste de cantar. “Senhor Deus, agradeço- Te!” exclamou o rapaz, entusiasmado. “Eu estava cansado, mas não Te quis dizer, depois de teres me fartado de alimento! Agora dás outra vez, antes de eu pedir!” E com entusiasmo entoou seu canto de louvor e cantou-o duas vezes, em gratidão e felicidade. Ao tropeiro agradou o esperto rapaz; com muito gosto tê-lo-ia sempre em sua companhia. Talvez o jovem estivesse à procura de serviço; então, se o aceitasse, ambos seriam ajudados. - Quem vais procurar na cidade? Indagou. Sou muito conhecido lá e posso conduzir-te logo ao destino certo. Maomé meditou um instante. Devia dizer aonde queria ir? Mas para alguém teria de perguntar e por que não a esse homem simpático. Então ele disse calmamente: - Tenho de ir ao devoto irmão Cirilo. - Ao irmão Cirilo? Esse eu conheço de fato, disse o homem, que via desfaze- rem-se suas esperanças. E o que queres com ele? - Mandaram-me a ele, e ele sabe o porquê. Essa resposta pareceu muito misteriosa ao homem, e perguntou mais: - De onde vens? Sem medo, Maomé disse o nome do mosteiro. Tornou-se evidente ao tro- peiro que o rapaz era um aluno do convento, que empreendeu a peregrinação por ordem do seu abade. Um desses não devia ser desviado da sua vereda.
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    MAOMÉ - 29 - Conversoualegremente com Maomé, mostrando-lhe a cidade que surgia no horizonte e o conduziu, ao anoitecer, com segurança até lá. Então descreveu-lhe o caminho que levava ao devoto Cirilo e despediu-se. A Maomé agradou bastante poder caminhar novamente, após tão longa ca- valgada. Bem-disposto, andava pelos becos e ruazinhas até que chegou ao portal que lhe foi descrito pelo tropeiro. Bateu algumas vezes, mas em vão. Então experi- mentou abrir o portão, porém estava fechado. “Deus não me mandou até aqui para deixar-me ficar parado em frente de um portão trancado”, disse ele a meia voz. Nesse momento uma voz amável o chamou: - O que queres neste lugar bom, no lugar de descanso dos mortos, rapaz? Maomé assustou-se, pois os mortos ele não queria perturbar. - Procuro o devoto irmão Cirilo, respondeu humildemente. - Então vem para este lado da rua, disse a voz. Ao mesmo tempo, no outro lado, duma cabana baixa saiu um ancião robus- to com olhar afável. - Esta casinha não se encontraria se não estivesse situada perto do imponen- te portão, declarou. Sempre que um estranho pergunta por mim, então lhe descre- vem o caminho até esse portão. Isso basta. - Então és tu o devoto Cirilo? Certificou-se Maomé, que adquiriu confiança nesse homem. - Sou eu mesmo e tu certamente és Maomé, meu novo aluno, que me foi anunciado por Deus, o Senhor. Tão empolgado ficou pelo que de novo passou em vivência, que em lugar de qualquer resposta, entoou o seu salmo de agradecimento. Quando terminou, aproximou-se do irmão e aguardou o que este lhe mandaria fazer. Cirilo, no entanto, sorriu satisfeito. - Eis que um cantor alegre me vem voando em casa. Bem-vindo, Maomé! Se tu sempre cantares e louvares assim, então nos tornaremos bons companheiros. Levou-o consigo para a sua casa e o instruiu com amor e bondade, duran- te cinco anos. Não havia para Maomé nenhuma pergunta, para a qual Cirilo não procurasse achar uma solução junto com ele. Às vezes tinham de ficar meditando por longo tempo, ou pedir a ajuda de Deus, mas sempre acharam explicação para as perguntas e os dois tiraram proveito disso. Durante o primeiro ano, a pedido de Cirilo, Maomé relatou toda a sua vida. Com isso surgiu-lhe o pensamento de que Abu Talib poderia estar preocupado com
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    MAOMÉ - 30 - oseu desaparecimento. Mas de pronto consolou-se, e disse: “Deus mandou-me para cá. Ele também achará meios e caminhos para fazer chegar ao conhecimento de meu tio o meu paradeiro, se ele deve saber disso”. Quando se aproximou o término do quinto ano, Cirilo convidou o jovem adolescente a acompanhá-lo numa curta viagem. Numa cidade no litoral devia realizar-se uma reunião pública, na qual, aliás, iam ser tratados assuntos de interesse geral do povo, mas Cirilo achou necessário que o jovem participasse alguma vez dessas coisas. Após uma boa caminhada chegaram ainda em tempo na cidade de Halef, de sorte que o jovem pôde primeiro contemplar o mar e habituar-se com o magnífico panorama. Cirilo julgou bem certo ao pensar que antes disso Maomé não estaria receptivo para outras coisas. No dia da reunião dirigiram-se cedo ao lugar determinado para isso, onde se encontrava uma variada multidão. Grupos de pessoas de todos os países da região e homens de todas as tribos pareciam estar ali reunidos. Cirilo perguntou a um dos assistentes quem iria falar ao povo, nesse dia. Re- cebeu a resposta de que seria o árabe Talib ben Muttalib, o maior amigo do povo de todas as tribos. O bom irmão ficou contente ao saber que Maomé iria logo escutar um homem importante. O nome do orador nada lhe significou. Cirilo escolheu um lugar, do qual não só se podia escutar, como também ver. Devido à popularidade que ele gozava nessa região, ninguém disputava seu lugar, nem o do seu protegido. Jubilosos aplausos anunciaram a chegada do esperado orador. A massa do povo dividiu-se para deixá-lo passar para o lugar mais alto, de onde deveria falar. Ao dirigir um olhar curioso para aquele lugar, Maomé de repente viu na sua frente o seu tio. Essa era, portanto, a profissão que Abu Talib exercia ocultamente! Um orador popular era ele? O que teria a dizer à multidão. Pálido de emoção, o jovem escutava. Tudo, tudo ele queria absorver; não somente as palavras que ali ressoariam, mas sobretudo o sentido contido nelas. Ele ficou admirado. Era um Abu Talib diferente daquele que conhecera. Per- dera todo o acanhamento na sua conduta. A multidão esquecia-se dos seus defeitos ante a projeção de sua personalidade, que dominava em volta dele, como o poder de um soberano nato. Não pronunciou nenhuma palavra a mais. Cada uma teve sentido e signi- ficação, e cada uma impressionava o público com poder arrebatador. Não usava a gesticulação, como em geral se via nos oradores. Exteriormente aparentava calma, mas seus olhos flamejavam, faiscavam ou ensombreavam-se. Falavam sua própria linguagem.
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    MAOMÉ - 31 - Tudoisso Maomé percebeu no seu íntimo, antes mesmo de ser capaz de acompanhar audivelmente as palavras. Abu Talib falava que em todas as partes do território, muito além das fronteiras de El Árabe, moravam árabes, que tinham que se curvar ao domínio estranho. Aclamações interromperam-no. Calou-se um instante. Então continuou do mesmo modo a convencer o povo ali reunido de que os árabes deviam unir-se num só todo, porque assim se tornariam grandes e poderosos. Esse foi o significado do seu discurso, enfeitado com muitas exemplificações e impressionantes imagens. Então ele convidou os ouvintes a externarem os seus pensamentos sobre aquilo que haviam escutado. Cada objeção ele replicou prontamente e com sensatez. Finalmente um dos fidalgos exclamou: - Aqui na Síria, mais do que a metade dos habitantes são árabes. Se nós nos unirmos ao país natal, então a Síria deixará de existir! - Seria lamentável isso? Perguntou Abu Talib. Suas palavras tiveram o efeito de uma chicotada. Um verdadeiro tumulto irrompeu. - Então achas, Talib ben Muttalib, exclamavam os homens, que podemos fazer conquistas sem guerras, e que devemos simplesmente anexar os países vizinhos? - Se isso fosse para o bem do nosso país, então sem dúvida, refutou o orador. - Não acrediteis, ele é judeu! Fez-se ouvir de repente uma voz gritante. Todas as cabeças se viraram para o lado de onde soaram essas palavras. Ali estava um sacerdote fetichista, com a face contorcida impetuosamente. - Ele quer conquistar todos os povos para o seu Deus e subjugá-los! Isso não podemos tolerar. Sou um filho fiel da Arábia, e justamente por isso não a quero entregar aos judeus! - Enganas-te, sacerdote, respondeu a voz serena de Abu Talib. Realmente nasci de pais judaicos, porém reconheci que é mais importante ajudar o povo sobre a Terra a conquistar grandeza, felicidade, união e poderio, do que adorar um Deus invisível, o Qual talvez nem no Além poderemos chegar a ver. - Para, blasfemador! Estridentes soaram essas palavras pela grande praça da reunião. Todos de- veriam tê-las escutado. O orador empalideceu. Em sua frente estava de pé o seu sobrinho, que julga- ra morto; o menino transformara-se num moço; e os monges lhe haviam dito que ele era destinado a ser um portador da Verdade. O homem sentiu calafrios. Quando Abu Talib, no regresso de sua viagem, pretendeu cuidar de Maomé, o abade informou-lhe que o rapaz sucumbira de uma grave enfermidade. Isso deu
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    MAOMÉ - 32 - muitoo que pensar ao tio. Se Deus deixava morrer um portador da Verdade, então Lhe era indiferente que a Verdade fosse propagada. Isso foi o começo do declínio da fé.Abu Talib raciocinou e meditou longo tem- po até que jogou de si todos os pensamentos em Deus e no Divino. Desde então lhe foi mais fácil falar ao povo. Nunca se defrontou com algo como naquele momento. Maomé, sem hesitar, continuou dizendo em voz alta: - O Deus invisível, que Abu Talib nega, se bem que ele outrora O adorou, está no meio de nós! Ele criou todos nós, por isso é nosso Senhor! Guia maravi- lhosamente todos os homens que Nele crêem. Eu o sei, porquanto eu mesmo tive provas disso! Surgiu uma grande agitação. - Quem é esse jovem que tem a ousadia de falar numa reunião de homens? Exclamavam alguns exacerbados, enquanto outros manifestavam sua aprovação ao que Maomé havia dito. Os já excitados ânimos exaltaram-se; chegaram a agredir-se e toda a reunião findou numa violenta discussão,de sorte que policiais armados da cidade tiveram que intervir, para separar os que já estavam se enfrentando com faca, corpo a corpo. Abu Talib retirou-se com alguns partidários, antes de começar a contenda. Cirilo forçou Maomé a abandonar igualmente o recinto. O jovem teve a compreen- são de que por ora em nada poderia ser útil. Estava abalado pelo acontecido e tre- meu de pesar ao ver que o tio, a quem sua alma havia se afeiçoado, ficara tão mau. Cirilo achou que teria sido melhor se Maomé tivesse calado, mas também não pôde repreendê-lo. Por isso não falou nenhuma palavra, e deixou o jovem en- tregue aos seus agitados pensamentos. Maomé sentiu a reprovação e evitou por sua vez falar com o irmão. Após ter perdurado por alguns dias esse silêncio, ao qual, aliás, se habitua- ram, ambos sentiram que não podiam continuar convivendo dessa maneira. Enquanto Cirilo meditava como poderia reaproximar-se do jovem, sem dar o braço a torcer, Maomé achou a única solução numa rápida separação. O que ain- da devia fazer aqui? Aprendera tudo o que Cirilo lhe pôde ensinar. Queria sair pelo mundo e ganhar o seu sustento, até chegar o tempo em que poderia atuar como instrumento de Deus. Anteriormente ele sempre supunha que após um certo aprendizado regressa- ria à vida abundante do palácio paterno,visto ser ele o herdeiro e não o tio,que,como segundo filho, tinha direito apenas a pequena parte. Após o recente incidente, achou completamente impossível poder alguma vez defrontar-se novamente com o seu tio. Portanto, tornar-se-ia independente. Isso com certeza era da vontade de Deus. A noite declarou o que havia decidido ao irmão Cirilo, surpreendendo-o. Este não quis concordar, porém Maomé não se deixou convencer e assegurou que
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    MAOMÉ - 33 - namanhã seguinte continuaria sua peregrinação. Agradeceu ao irmão por tudo o que ele lhe havia proporcionado espiritual e terrenamente, e com este agradecimen- to ficou comovido. A antiga simpatia pelo mestre despertou novamente, e fez com que se separassem em paz. Durante a noite Maomé teve uma visão. Viu Abu Talib desaparecer numa casa velha situada numa rua estreita da cidade de Halef. Concomitantemente, uma voz chamou: “Maomé, procura teu tio! Ele precisa de ti”. Impulsos de obstinação excitavam a alma do rapaz. Agora ainda ter que cor- rer atrás desse renegado! Mas quando pensou que foi a voz de um mensageiro de Deus que lhe trouxe a ordem, então a sua exaltação se desfez, e ele conformou-se. Conquanto não conhecesse a rua que vira em sonho, confiou nos guias espirituais e caminhou em direção a Halef. Entretido com os próprios pensamentos, o caminho não lhe pareceu lon- go. Alcançou, antes do que esperava, as primeiras casas, e encontrou um menino que chorava amargamente. A criança havia pisado num caco de vidro e machucara gravemente o pé, de sorte que não podia dar nenhum passo. Maomé amarrou uma atadura na ferida e dispôs-se a carregar a criança. - Podes dizer-me onde moras? Perguntou ao já confiante menino. - Sim, realmente, posso dizer-te quais as esquinas que deves dobrar. Então logo chegaremos a nossa casa. Como a mamãe vai ficar contente, quando afinal eu chegar em casa! Verificou que a criança passara a noite toda fora. Suas contínuas tentativas de andar agravaram cada vez mais o ferimento. - Já estamos perto de nossa casa, explicou subitamente o pequeno. Maomé olhou em redor de si e reconheceu a rua que vira de noite. Novamente foi tomado de um sentimento de gratidão ao tornar-se consciente da direção da Luz, sob a qual se encontrava, de maneira que teve de desabafar o seu coração. Pôs o menino ferido no chão, levantou as mãos e agradeceu a Deus do fundo do coração. Então tomou de novo o seu protegido nos braços e nem se admirou de que as indicações deste o levavam realmente àquela casa, que, aliás, já conhecia. Uma mulher em pranto precipitou-se para fora, tomou nos seus braços o menino que ela pensava ter morrido, e pediu a Maomé que entrasse e fosse seu hóspede. Assim, sem muita dificuldade, ele chegou a casa na qual desejava entrar e novamente disse do fundo da alma: “Senhor, Deus de Israel, eu Te agradeço!”
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    MAOMÉ - 34 - Omenino foi deitado na cama e a mãe o tratou carinhosamente. Depois se dirigiu ao hóspede, o portador do socorro, agradeceu-lhe e deu-lhe alimentos. Ma- omé, enquanto tomava a refeição, perguntou à mulher se havia um outro hóspede sob seu teto. Ela negou. Penetrante e perscrutante, Maomé encarou-a; então, enrubescen- do, ela disse: - Hospedei por pouco tempo um parente adoentado em minha casa. - Ah! nesse caso também nós somos parentes, retrucou sorridente Maomé, pois Abu Talib é meu tio. Perplexa, a mulher olhou para o rapaz sorridente. - Não digas esse nome, amigo hóspede, implorou. Esse de quem estás fa- lando está sendo procurado por espiões. Por isso, ocultou-se aqui, numa das mais pobres habitações, onde por certo ninguém pensará em procurá-lo. De onde sabes que ele está aqui? - Eu o sei, replicou Maomé. E devo falar com ele. Ele mesmo o quererá, se disseres que Maomé de Meca está aqui. A mulher retirou-se. Logo depois voltou e fez sinal para segui-la. Subiram uma escada horrível e encontraram-se na frente de uma porta. A mulher mandou Maomé pedir licença para entrar e desceu outra vez a escada apressadamente. Sem se fazer notar, o rapaz entrou. Numa pobre cama encontrou Abu Talib, o qual realmente parecia doente e decaído. Quando este avistou aquele que julgara estar morto, arrepiou-se de medo. - O que queres de mim, Maomé, tu, mensageiro de Deus, o Todo-poderoso, contra o Qual depus em público? Perguntou tremendo. Toda a ira desapareceu do jovem. Cheio de compaixão, aproximou-se do penitente e disse: - Deus deu-me ordem para procurar-te, por estares necessitando de mim. Abu Talib começou a chorar. - Tão bondoso é Deus com um indigno como eu? Exclamou repetidamente. Não podia acreditar em tamanha misericórdia. Maomé por ora nada fez para facilitar-lhe essa crença. Começou a tratar em primeiro lugar das necessidades terrenas do tio. No bolso do vestuário encontrou dinheiro, com o qual fez compras. Arrumou melhor a cama e deu-lhe uma bebida soporífera. Assim que Abu Talib adormeceu, Maomé dirigiu-se para o menino machu- cado, o qual encontrou bem acomodado na sua cama. - Canta mais uma vez o belo cântico que cantaste na rua, pediu. Minha mãe gostaria de escutá-lo. Maomé entoou seu salmo e sentiu alegria em poder fazê-lo.
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    MAOMÉ - 35 - Pelaface da mulher escorriam lágrimas. - És judeu, amigo hóspede? Perguntou. Antes que pudesse responder, ela contou que era judia, mas casara-se com um fetichista.Antes, isso tinha sido indiferente para ela, porém nesse momento sentiu des- pertar nela a ânsia de escutar novamente falar em Deus. Maomé então contou o que sabia do Deus dos judeus. Os três esqueceram-se das horas; estavam inteiramente absortos. Ele falou do Messias que veio e que foi re- conhecido apenas por poucos; os outros então o assassinaram. Como sempre quando falava disso, ficava amargurado. O pesar pelo assassinato do Filho de Deus oprimia-lhe o coração. A porta abriu-se, sem ruído algum. Abu Talib, que acordara do sono reparador, entrou precisamente no instante em que Maomé começou a falar do Messias. Sem ser visto pelos outros, abaixou-se ao lado da porta e sentou-se no chão, ficando à escuta daquilo que o seu sobrinho anunciava com palavras eloqüentes. No entanto, dominado por uma forte emoção, começou a chorar. Isso desper- tou a atenção dos outros, que o conduziram a um lugar mais cômodo e dirigiram-lhe palavras animadoras. Então confessou sua grande culpa perante Deus. - Tu podes repará-la,Abu Talib,disse Maomé gentilmente.Assim como foste um negador, torna-te um pregador de Deus. - O povo não me dará mais ouvidos, desde que interrompeste minha reunião, Maomé, suspirou o tio. - Se não podes mais falar a grandes massas, então recomeça em pequenos cír- culos, replicou Maomé despreocupadamente. Acredita-me que o tempo para os teus planos ainda não amadureceu. Primeiro devemos oferecer aos homens algo de novo e melhor, antes de fazê-los abandonar o antigo que adotaram. - E quando poderemos fazer isso? Como se dará isso? Perguntou Abu Talib, desalentado. - Assim que eu tiver maturidade suficiente para poder servir como instru- mento de Deus! Foi a réplica de Maomé. Ainda falaram disso e daquilo, depois procuraram o refúgio de Abu Talib, para passarem a noite ali. Na manhã seguinte, o tio quis saber como Maomé ima- ginava o futuro próximo. - Levar-te-ei para Meca, prometeu o jovem com toda a firmeza. Lá estarás a salvo das perseguições. - Nisso também acredito, dizia o outro. Apenas no caminho e aqui dentro da cidade é que estou exposto a perigos. - Esses nós venceremos, exclamou Maomé, cuja aventura lhe despertou atração. Após um entendimento com a dona da casa, alugou um burro forte com uma
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    MAOMÉ - 36 - selacômoda, como era usada por mulheres. Abu Talib teve de vestir traje feminino e pôr um véu. Maomé conduziu o burro.Assim saíram da cidade sem impedimentos. Tam- bém durante toda a viagem não houve nenhum incidente. Somente perto de Meca, Abu Talib achou melhor trocar de vestuário, porquanto lhe parecia por demais ig- nóbil aparecer no palácio paterno em trajes femininos. Maomé sentiu-se satisfeito em rever o lugar de sua infância. Ali os velhos serviçais, em primeiro lugar Mustafá, cumprimentaram-no alegremente. Todos vi- ram nele o senhor e herdeiro. Perguntou por Sara e soube que ela já havia falecido. Por alguns dias Maomé ficou descansando, depois se apresentou perante Abu Talib para declarar-lhe que do- ravante trataria sozinho do seu próprio sustento.Havia esperado que o tio lhe dissesse em resposta que não necessitava disso, visto que toda a riqueza dos seus pais lhe per- tencia. Preparou-se internamente contra essa objeção, porém foi em vão. Abu Talib pediu-lhe que fosse seu hóspede. Havia bens em profusão, mais do que o suficiente para que os dois pudessem viver disso. Esse modo de pensar fortaleceu ainda mais em Maomé a resolução de se livrar de todo o existente. Sabia que devia encontrar-se independente quando lhe viesse a chamada de Deus. - E o que pensas fazer? Perguntou Abu Talib, inconscientemente satisfeito por ter Maomé lhe facilitado tudo, para ficar de posse das adotadas riquezas. - Quero ser comerciante, como meu pai o foi antes de mim, replicou o jo- vem. Minhas relações com os empregados no comércio e os conhecimentos adqui- ridos na infância, quando lidava na galeria, facilitarão minha adaptação. Ademais, isso será apenas uma transição, concluiu. Já no dia seguinte abandonou o palácio, para ir à procura de um emprego. Dirigiu-se a um amigo do seu pai, que o recebeu com alegria e aconselhou-o. Também sabia onde Maomé poderia colocar-se logo, se realmente estivesse levando a sério o propósito de tornar-se comerciante. - Há pouco tempo faleceu um mercador de jóias, cuja viúva deseja conti- nuar o comércio. Esta procura um homem moço, de bons costumes, para servir de auxiliar junto com os empregados da sua casa comercial. Este seria o lugar certo para ti. - Não serei muito inexperiente para isso? Indagou. O mais velho repeliu a objeção. Chadidsha, a viúva, procurava justamente alguém que ela mesma pudesse introduzir nas particularidades dos seus negócios.
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    MAOMÉ - 37 - Elapossuía bastante conhecimento do comércio, porquanto sempre ajudara o ma- rido. Não tendo filhos, pôde dedicar-se todo o tempo às jóias. - É judia? Quis saber Maomé. Sobre isso o amigo não pôde dar informações. Porém, como se ele o animasse, Maomé resolveu procurar logo a viúva do comerciante, assim já veria como era e quem era. Os depósitos e a loja ficavam den- tro da mesma casa, numa das melhores ruas de Meca. Como a galeria de vendas do seu pai estivesse situada num outro ponto do extremo da cidade, e não no palácio, Maomé raras vezes estivera lá. Apesar disso, ao entrar nessa loja, defrontou-se com uma grande diferença. Aqui predominava a cobiça comercial, que visava unicamente lucros, ao passo que lá existiu comércio que tinha em mira os objetos preciosos. Abdallah tinha somente pedras selecionadas à venda. Aqui, aliás, também havia, porém enterradas debaixo de montões de coisas baratas e inferiores. Involuntariamente Maomé pensou: “Será que a alma dessa mulher é igual a esta loja? E se assim for, valerá a pena procurar nela a pérola preciosa?” Ele mesmo admirou-se desse pensamento, que lhe surgiu como se viesse voando ao seu encontro. Depois de solicitar a um empregado, que acorreu para atendê-lo, permissão para falar com dona Chadidsha, foi pedido que aguardasse um instante. Enquanto ele ficou em pé ao lado de uma mesa, passando os olhos por cima das mercadorias expostas, sentiu que um olhar penetrante e ardente lhe estava sendo dirigido de al- guma parte. Não pôde ver de quem era, até que observou um cortinado arredar-se levemente nos fundos. Essa espreita sigilosa pareceu-lhe tão esquisita, que teve de sorrir. Então, abriu-se o cortinado; uma mulher ainda jovem e encorpada entrou na loja. Com passos ondulantes veio em direção ao rapaz, cujas feições já haviam tomado de novo a expressão de sua costumeira seriedade. - Por que riste ainda agora? Perguntou Chadidsha, em lugar de qualquer cumprimento. Com isso provocou novamente um sorriso na face de quem se encontrava à sua frente. - Imaginei como alguém atrás do cortinado experimentava observar-me, a fim de ver se sou um homem honesto, confessou francamente. Um ardente rubor subiu às faces da mulher, toda maquilada. Querendo apa- rentar desembaraço, disse: - Também tu muitas vezes te esconderás atrás do cortinado, para observar os compradores, se é que vieste para ajudar-me na minha loja.
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    MAOMÉ - 38 - Maomécalou-se. O que havia de responder! A mulher causou-lhe ao mesmo temporepulsaesimpatia.Podiateraproximadamenteunsvinteequatroanos,portanto quase dez anos mais velha do que ele, mas, apesar disso, sentiu-se superior a ela. Como ele se calasse, ela retomou a palavra: - Queres empregar-te aqui, para ajudar-me nas vendas e compras? - Com tal propósito é que cheguei até aqui, replicou Maomé, hesitante. Os empregados retiraram-se para o depósito. Os dois ficaram sozinhos. Então Maomé continuou: - Quero dizer-te que em verdade não possuo os conhecimentos de um comerciante, apesar de meu pai ter sido um deles. Antes de tudo, porém, devo dizer-te que assim como esta loja é dirigida, eu não estou acostumado. Custar- me-á habituar-me aqui. Admirada, a viúva replicou: - Sabes que nos últimos dias despachei cerca de trinta pessoas que pediram insistentemente para trabalhar aqui, e tu, talvez o mais jovem de todos, ousas dizer-me que o meu comércio não te agrada. Não te chamei. Podes ir para lá de onde vieste. Sem dizer nada, Maomé virou-se para abandonar o local. Mas isso con- trariou a expectativa da mulher. Ela havia esperado rogos suplicantes, pois estava disposta a atendê-los, porquanto o rapaz lhe agradara. Algo na aparência e nas maneiras dele atraiu-a. Se, porém, ela o quisesse, deveria agir com rapidez. Estava somente a poucos passos da rua. - Ei! Escuta! Chamou atrás dele, mais alto do que o necessário. Ainda não me disseste quem és e de onde vens! - Como me mandaste embora, torna-se desnecessário que te diga! Repli- cou Maomé, andando rumo à saída. - Quem te diz que eu te mando embora? Zangou-se a mulher. Aqui se pesam as pedras preciosas e não as palavras. Ouem é jovem como tu não deve ser tão incompreensível. - Isso eu poderia ter imaginado, que as tuas palavras nem sempre refletem os teus pensamentos, escapou de Maomé. - No que notas isso? Perguntou a mulher, atraída involuntariamente pela curiosidade. Maomé hesitou alguns instantes, e então, num impulso como lhe era pecu- liar em momentos decisivos, movimentou a cabeça para trás, e replicou: - Quem acoberta as faces que recebeu de Deus, também dissimula os pen- samentos que a alma gera. Novamente ela se zangou, entretanto, o rapaz era diferente de todos aque- les que ela até então chegara a conhecer. E se ele sempre falasse assim, então po-
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    MAOMÉ - 39 - deriavir a ser um bom passatempo tê-lo perto de si. - Tu podes ficar empregado aqui comigo, ofereceu-lhe magnanimamente, esperando um alegre agradecimento. Maomé, entretanto, ficou vacilante por alguns instantes, enquanto con- centrava a sua alma em oração; finalmente disse: - Quero fazer a tentativa, se suportarei a loja e a ti. Ambas sois disfarçadas. Nesse momento ela se arrependeu da oferta feita. Apressadamente ia reti- rá-la, quando entrou um comprador na loja e ela teve que dirigir sua atenção para ele. Era difícil contentá-lo. De todos os lados tinham de ser buscados objetos. Com um rápido olhar, Maomé percebeu o que foi pedido, trouxe-o, e en- tregou-o a Chadidsha com naturalidade, como se a loja fosse dele. O homem comprou mais do que pediu inicialmente, e a mulher viu que recebeu um ativo auxiliar. Na sua alegria pelo bom negócio, ela esqueceu as palavras ofensivas. Assim animada, dirigiu-se a Maomé e perguntou: - Como posso chamar-te? De onde vens? - Sou Maomé ben Abdallah. Meu pai era comerciante de jóias. Com grande admiração a mulher olhou para Maomé. Um filho da mais con- ceituada estirpe viera à sua procura, para tornar-se seu auxiliar! Podia ser possível isso? Quando Maomé viu sua estranheza e incredulidade, disse: - Podes perguntar a Ibrahim Ben Jussuf. Ele mandou-me aqui. - Não é necessário, fez-se ouvir a voz de Ibrahim Ben Jussuf, que acabava de entrar na loja. Ele ficou contente em saber que os dois haviam chegado a um acordo. Pro- pôs então a Maomé que mandasse buscar por um empregado os seus pertences. O rapaz compreendeu que o amigo queria ficar a sós com a viúva, e retirou-se. Quando Maomé deixou a loja, Ibrahim perguntou à mulher se ela se agra- dara do novo auxiliar. Ela respondeu que quase não sabia como julgá-lo. Ele era bem-educado, mas falava uma língua completamente sem disfarce. Mal pronunciara essa palavra, lembrou-se da comparação de Maomé. Agora quase se arrependia novamente de ter empregado esse observador perspi- caz. Ibrahim, no entanto, persuadiu-a a regozijar-se. Um auxiliar melhor ela não acharia. O fato de que o jovem preferisse sofrer injustiças e tornar-se independente, do que expulsar o tio aleijado, honrava-o muito. Além do mais, só soube o me- lhor a respeito de Maomé, o qual, com certeza, tornar-se-ia em breve um valioso auxiliar para ela. Maomé ficou na casa da viúva, e acostumou-se a ser comerciante. Suas obrigações levava a sério. Muito lhe valeu ter recebido excelente instrução na es-
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    MAOMÉ - 40 - colado templo; principalmente na aritmética ele superou até a patroa. Em pouco tempo ela pôde deixá-lo sozinho com as vendas, mas teve de observar muitas coisas novas. Estranhou como ele tratou com franco desvelo em recomendar e vender os artigos baratos e artificiais. Será que já se acostumara com o artificial e aprendera a estimá-lo? Uma noite, ao descobrir que ele vendera até o último dos muitos objetos, ela perguntou-lhe por pilhéria sobre isso. - Ter aprendido a estimar? Essas bugigangas? Interrogou com desdém. Não, Chadidsha, acabei com elas, para arranjar lugar para coisas melhores. - Então não queres encomendar mais nada em substituição aos artigos desse gênero? Indagou receosa. Meu marido sempre dizia que artigos baratos atraem fregueses. - De compradores que se deixam atrair por isso, podemos prescindir. Acre- dita-me, Chadidsha, que a tua loja será mais reputada e freqüentada por fregueses mais distintos, se tu ofereceres somente artigos de qualidade genuína e de valor integral. Vagarosamente e a muito custo Maomé pôde convencê-la. Afinal concordou. Após três anos, quem entrasse na loja, encontrá-la-ia completamente mo- dificada. Objetos selecionados eram oferecidos; tudo o que era artificial havia desaparecido. A maior modificação registrou-se na dona da loja. Seu rosto dispensara toda maquilagem; seus trajes eram simples e elegantes. Apenas seus movimentos impulsivos e rudes ainda denunciavam que não descendia de linhagem fidalga. Do mesmo modo sua voz tornava-se desafinada, quando algo a irritava. Suas relações com seu auxiliar, de aproximadamente dezoito anos, eram singulares. Às vezes parecia que ela temia as repreensões que ele pronunciava com franqueza. Ele ficou sendo senhor absoluto de todo o comércio, e o que dizia era válido. Os empregados dedicavam-lhe toda a consideração; mesmo sendo um tanto mais jovem que os outros, era um modelo de honradez, fidelidade e ama- bilidade. A par disso, a agudeza de sua vista aumentara. No primeiro ano esteve na loja um freguês, que a proprietária mesma atendeu, enquanto Maomé trazia as mercadorias. De repente o jovem pegou no pulso do freguês e disse a meia voz, porém, energicamente: - Coloca de novo sobre a mesa as pérolas que acabaste de tirar! Chadidsha assustou-se. Como podia Maomé dizer isso, pois ele não podia ter notado nada dos fundos da loja onde se encontrava!
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    MAOMÉ - 41 - Ohomem rebelou-se furiosamente: - Solta-me, imediatamente! Como te atreves a tocar-me? - Solto-te assim que as pérolas estiverem nas mãos de Chadidsha. - Não tenho pérolas. Então Maomé meteu a mão na frente do vestuário do homem e puxou dali um saco habilmente preparado, que além das pérolas furtadas continha uma porção de outras coisas. O ladrão desmascarado opôs resistência, mas Chadidsha mandou chamar guardas, que o subjugaram e o levaram. E enquanto a mulher, excitada, não podia chegar ao fim da conversa sobre o acontecido, Maomé disse apenas: - Estás vendo que também enxergo sem olhar pela fresta do cortinado. Maomé empenhava-se assiduamente pelo bom andamento dos negócios durante o horário de vendas, mas depois de fechada a loja, retirava-se regularmente para seus aposentos. Todos os convites de Chadidsha para tomarem refeições jun- tos, ou acompanhá-Ia em visitas, ele recusava. - Nas famílias onde fui criado,os homens mantinham-se afastados das mulhe- res,disse ele com seriedade.Não por se julgarem melhores,mas porque eles dignifica- vam a natureza da mulher, que é mais delicada. Assim eu também quero proceder. Ela queria muito saber com que ele se ocupava nas horas de folga, porém ele não falava sobre isso e todas as interrogações foram inúteis. Então um dia foi chamado com urgência pelo tio, o qual tinha coisa impor- tante a dizer-lhe. Tão urgente foi o recado, que Maomé deixou seu aposento sem guardar primeiro aquilo em que estava trabalhando. Chadidsha entrou furtivamente, mas ficou decepcionada ao deparar apenas com folhas cheias de letras manuscritas, que não pôde ler, pois eram em hebraico. Mas pelo menos sabia agora que ele se dedicava a um estudo qualquer. Pois bem, ele ainda era jovem; que continuasse a fazer isso ainda por uns anos. Ao chegar na casa de Abu Talib, Maomé encontrou-o muito excitado. Ele pedira uma viúva rica em casamento e tinha sido atendido! Ele, o aleijado, ainda chegaria a gozar uma felicidade que julgava vedada para si definitivamente. Pelo direito, Maomé era o chefe da família e tinha de dar a sua anuência para o casamento; do contrário, não teria validade. Abu Talib temia que nessa ocasião Maomé pudesse descobrir que ele retivera até então a sua herança paterna. Se o jovem exigisse agora a sua parte da herança, então os bens restantes seriam pouco cobiçáveis. Poderia nesse caso ser provável que o casamento não che- gasse a realizar-se. Maomé teve a impressão de olhar como por uma vidraça no coração do tio, e vendo a sua cobiça pelo dinheiro, apiedou-se dele. No entanto, se não dissesse nada, isso se lhe afiguraria injusto e, além disso, o estado de incerteza de Abu Talib nunca chegaria a ter um fim. Assim, ele disse calmamente:
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    MAOMÉ - 42 - -Meu consentimento para teu casamento eu te dou com prazer, tio, posto que deves saber se ele significa a tua felicidade. Como presente de casamento dou- te tudo o que há tempo vens considerando, com temor, como tua propriedade. Unicamente este palácio, com todos os seus pertences, eu reservo para mim. É in- finitamente pouco em comparação à riqueza que de hoje em diante passa para ti legitimamente. Peço-te, porém, que não tragas a tua viúva para esta casa. - Ela tem um lindo palácio, no qual, aliás, vamos morar, Maomé. Assim po- des fazer aqui tranqüilamente o que bem te aprouver, depois que eu tiver saído, no próximo mês. Nenhuma palavra sobre a abundante doação. Nenhum constrangimento por Maomé ter lido o seu íntimo! Apenas um alívio por tudo ter decorrido tão facilmente. Por muito tempo Maomé não pôde esquecer a impressão da enorme cobiça pelo dinheiro. Era como se Abu Talib tivesse duas almas: uma má e uma boa. Qual delas manteria a predominância? Após o casamento de Abu Talib, Maomé foi habitar novamente em seu pa- lácio paterno, vivendo rodeado de servos que se achavam sob as ordens do velho e fiel Mustafá, que amava seu jovem senhor acima de tudo. De dia o jovem trabalhava na loja de Chadidsha. À noite, ao encerrar o ex- pediente comercial, ele retirava-se para o seu próprio reino. Raras vezes entrava em contato com pessoas de sua idade. Não tinha vontade de ter relações sociais. Um dia, porém, despertou nele a vontade de viajar. O estoque de pérolas e pedras preciosas estava se esgotando e novo suprimento tinha de ser arranjado. Pe- diu à viúva que o encarregasse da compra. Ela reconheceu que não poderia colocar seus interesses em melhores mãos e concordou. Tão despercebido quanto possível, acompanhado apenas por dois fiéis cria- dos, ele empreendeu a viagem. Em primeiro lugar queria ir para Yatrib, ao norte de Meca. Constava que era a maior cidade mercantil de toda a Arábia. Dizia-se que de todos os lados afluíam em determinadas épocas os comerciantes, para ali fazerem as suas compras e vendas. Isso o atraía. Chegou em uma hora propícia. Animado movimento enchia os vastos pavi- lhões, que a administração da cidade havia construído para esse fim, e que apenas três vezes por ano abriam suas portas para as reuniões dos comerciantes. Usando trajes simples, imiscuiu-se entre os presentes, após ter sido obrigado a identificar-se na entrada do portal. O quadro colorido que se apresentou aos seus olhos prendeu a sua atenção de tal maneira, que quase se esqueceu da finalidade da sua vinda. Mas então o co- mércio e as ofertas, os leilões e regateios estimularam-no. Acompanhou a disputa
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    MAOMÉ - 43 - efechou compras favoráveis. As mercadorias adquiridas tratou de despachar cui- dadosamente pelos seus criados. Apesar de já ter chegado, a bem dizer, ao término dos seus negócios, teve vontade de ficar até que fosse anunciado o encerramento da feira. Alguns dos comerciantes mais idosos contaram-lhe dos festejos que constitu- íam o encerramento e animaram-no a tomar parte nos mesmos. Na última noite ele encontrou no pavilhão mesas cobertas, e o piso for- rado com esteiras grossas. Os homens sentaram-se ao redor, e uma refeição farta foi servida. Durante a refeição foi oferecido suco de uva fermentado, que Maomé saboreou. Porém, após os primeiros goles sentiu o efeito embriagante e não tomou mais nenhum trago. Os outros todos beberam; todavia, alguns deles impuseram-se uma moderação prudente. Quando terminou o Jantar, na hora do cafezinho, todos os presentes olha- vam com expectativa para Maomé. Este não compreendeu o porquê disso, porém resolveu não perguntar, e sim, aguardar até que eles mesmos lhe dissessem. Final- mente, tiveram de dignar-se a isso, pois queriam vê-lo falar. - Escuta, amigo, dirigiu-se para ele um dos mais velhos comerciantes. És o mais novo do nosso círculo. É costume tradicional que sempre o mais novo tem de contar alguma coisa. Pode ser algo inventado ou experimentado em vivência, só não deve ser algo que já tenha lido! - Por que não me disseram isso antes? Perguntou Maomé, admirado. Assim eu podia ter imaginado alguma coisa. - O melhor deste costume é justamente o fato de que o contista nada sabe disso, foi-lhe respondido. A surpresa da vítima é muito engraçada, e às vezes, por causa disso, escutam-se estórias incríveis. Compreendeu claramente que não escaparia à obrigação de ter de contar algo. Mas o que devia dizer a esses homens que em parte já não estavam mais com o juízo claro. Enquanto assim meditava, alguns disseram: - Conta de mulheres, pois isso é o melhor! - De mulheres devo contar? Perguntou Maomé, dando ênfase à palavra mulheres. Alguns dos homens mais idosos ficaram embaraçados. Maomé então con- centrou todas as forças da sua alma e pediu ajuda. Então um quadro vivo se revelou para ele, e outra vez um e mais um terceiro. Tão rápido como surgiram diante da sua alma, assim instantaneamente os mesmos lhe desvendaram o que devia dizer. Preparando-se, pegou uma rosa que estava sobre a mesa, e começou: - Quando este mundo foi criado, era então perfeito como tudo o que saiu das mãos do Criador. Um brado interrompeu-o: És cristão ou judeu?
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    MAOMÉ - 44 - -Sou um ser humano! Foi à réplica de Maomé. Deixai-me contar. Tudo no mundo era ordenado da melhor maneira. Montanhas elevavam-se entremeadas por verdes e férteis vales. Rios levavam suas ondas para o mar e ser- viam para moradia dos peixes. Árvores balançavam seus galhos à luz dos raios sola- res e pássaros cantavam entre as folhas, onde os frutos amadureciam. E os homens que habitavam esta Terra, alegravam-se muito. Pescavam, caçavam, tratavam dos animais e colhiam frutas. Pelos céus percorria a Rainha do Amor Divino e olhava para a Terra cá embaixo. Também ela se alegrava de como tudo fora disposto tão ordenadamente. Nisso sentiu que faltava algo. Olhou e meditou. De repente o sabia: faltava a beleza! Aliás, beleza havia em tudo o que, recém-criado, pairava embaixo, porém a beleza dos jardins celestes era diferente. E a Rainha do Amor pegou uma das rosas vermelhas que floresciam em volta dela e deixou-a baixar à Terra lentamente. Como os homens ficaram admirados, quando viram chegar à Terra essa maravilha de beleza, de cor e de aroma! Suas almas começaram a recordar-se de algo que outrora puderam contemplar. “Rosa celeste” denominaram a graciosa flor, cuidaram e trataram dela, de sorte que o seu cálice produziu semente, embora ela fosse cortada. E onde a semente era plantada, ali floresciam rosas que espalhavam seu perfume. Num gesto involuntário Maomé levantou levemente a flor vermelha que se- gurava na mão. Como que fascinados, os homens escutavam. Isso era um conto maravilho- so. Ninguém mais queria interrompê-Io. Então continuou: - Dos jardins celestes, porém, a encantadora Rainha do Amor olhava e rego- zijava-se com o quanto de belo a sua dádiva levara à Terra. Então aproximou-se dela uma outra sublime figura feminina, a alva Rainha da Pureza. E o Amor mostrou a ela o que havia criado e pediu-lhe que também mandasse para baixo uma das suas prodigiosas flores brancas. Nesse momento a Pureza disse: “Minhas flores não servem nas mãos dos homens. Se eu as mandar à Terra, então precisamos pedir ao Criador que Ele desperte guardiãs, tão graciosas e puras, como as alvas flores”. E elas foram ao Criador e pediram. Ele anuiu ao pedido e criou a mulher! Foi criada graciosa e pura; das alturas celestiais ela veio outrora para a Terra, a fim de servir de guardiã à pureza. Quem fala levianamente dela, quem não a valo- riza, destrói a alva flor da Rainha da Pureza! Com voz comovida, e, contudo sério, ele terminou. Como que cativados, os homens permaneceram sentados. Ninguém ousou dizer uma palavra sequer. Pare- cia que meditavam sobre quantas flores prodigiosas já haviam destroçado. Maomé levantou-se e deixou o pavilhão com uma cordial saudação de des-
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    MAOMÉ - 45 - pedida.Depois que saiu, irrompeu uma agitação. Alguns perguntaram: - O que ele quis dizer com a narrativa? Não devemos mais nos divertir com as mulheres? Os outros, por sua vez, exclamaram: - Foi maravilhoso! Quem é o jovem? Então um ancião de cabelos brancos levantou-se e disse: - Vamos para casa a fim de meditarmos sobre o que acabamos de ouvir. Po- demos desfrutar alegrias com as mulheres, enquanto as considerarmos com pureza! Alegremo-nos também com as flores, sem desfolhá-las. Então todos saíram, e muitos deles tiraram proveito disso para a vida inteira. Após o seu regresso de Yatrib e depois de ter certeza de que todas as pre- ciosidades adquiridas chegaram em perfeita ordem, Maomé foi tomado por uma grande inquietação. Havia gozado a liberdade e respirado o ar fresco, após tantos anos de retraimento, e agora algo o impelia a deixar esse local murado de casas. Sempre que tinha horas vagas, passeava pelas imediações, mas isso não bastou para satisfazê-lo completamente. Primeiramente não pôde atinar o que se passava no seu íntimo, porém, certa noite, tornou-se-lhe bem claro que não era outra coisa senão o anseio pelas coisas elevadas e pela liberdade. Nesse momento lembrou-se dos auxílios de Deus na sua primeira infância, em que seu mínimo pedido era atendido magnanimamente. Desabafou, então, com fé infantil diante do Altíssimo todas as suas preocupações: “Senhor”, disse, após ter formado em palavras o seu anseio,“quero continuar a trabalhar na loja e na galeria, se isso estiver de acordo com a Tua santa vontade. Mas, se for indiferente para Ti, onde eu me ocupar até que Tu possas precisar de mim, então permite que eu saia”. Grande tranqüilidade e esperança encheram sua alma, após essa prece. Sabia que agora Deus haveria de revelar-lhe o que deveria fazer. Podia aguardar confiantemente. Então não mais sentiu inquietação. Também não se admirou ao receber de Chadidsha, no dia seguinte, a comunicação de que ela prometera a um parente, chamado Waraka, que ele poderia aprender a prática das vendas sob a orientação de Maomé. Isso foi o início para que tivesse mais liberdade de movimento. Tão logo Waraka fosse entrosado nas suas funções, ele tornar-se-ia dispensável. Prontificou-se então de bom grado a receber o moço, que era quinze anos mais velho do que ele, para instruí-lo. Waraka apresentou-se, e Maomé simpatizou extraordinariamente com ele. Possuía um olhar claro e um raciocínio sereno. Também parecia ocupar-se intima-
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    MAOMÉ - 46 - mentecom coisas diferentes do que somente com o comércio. Nas coisas nobres ele encontrou a mesma alegria que Maomé; tudo o que não era legítimo causava-lhe igualmente repugnância. Era inevitável que os dois, que pensavam da mesma ma- neira, se tornassem amigos. Um dia Waraka perguntou para o amigo a que crença pertencia. Em lugar de qualquer resposta, Maomé por sua vez perguntou a Waraka no que ele acreditava. - Não posso crer em nada e em ninguém, disse o interpelado. Justamente por isso é que eu queria saber de ti qual a crença que adotaste, porque então queria fazer o mesmo. - Mas isso é errado, Waraka, repreendeu-o Maomé. Não se pode adotar uma crença seguindo a opinião de um outro. Se podes aceitá-Ia ou abandoná-Ia à von- tade, então uma tal crença não é legítima. Fé é convicção; é vivência no âmago da alma. Isso não é mutável como um vestuário. Também não se deixa bitolar em fórmulas humanas. Waraka meditou e concordou com o amigo. - Considerando pelo modo como me explicaste, devo dizer que uma crença sempre tive, porquanto creio em Deus, o Senhor, do Qual me contaste. O culto do fetichismo abjurei; ele nunca me foi sagrado. - Também eu creio em Deus, meu Senhor, disse Maomé com seriedade, tam- bém creio em Cristo, Seu santo Filho, o qual veio ao mundo para vivificar mais uma vez a chama da Luz, que esteve prestes a extinguir-se. - Então és cristão! Exclamou admirado. - Não. Não sou cristão! Retrucou Maomé, quase com impetuosidade. Não acredito que Cristo tenha morrido pelos nossos pecados, mas sim por causa da nossa culpa. Isso é uma diferença fundamental. Também não creio que Cristo pôde cumprir a sua sagrada missão. Os pecados e a ingratidão dos homens impediram- no. Sei que ele deverá vir novamente. Então ele se apresentará diferentemente. Virá em esplendor e trará o Juízo para o mundo todo. - Precisas dizer-me mais alguma coisa sobre isso, para que eu possa compre- ender e apreender pediu Waraka. Mas agora dize-me primeiro: como tu o entendes, quando dizes que Cristo morreu por causa dos nossos pecados? Naquele tempo nós não estávamos no mundo! - Então, tens certeza disso? Exclamou Maomé com ênfase. Digo-te, Waraka, que eu, de minha parte, estive naquele tempo aqui! Vejo Cristo, o mais afável entre todos os homens, percorrer seu caminho; vejo-o não como um brando que se des- vanece no amor universal, como os sacerdotes cristãos o descrevem, mas sim como o vigor severo, do qual fluem amor e misericórdia. Vejo Cristo levantar suas mãos sagradas para abençoar e ajudar; vejo-o desviar indignado seu olhar dos hipócritas, que dele se aproximam. Escuto sua voz, tão agradável, que atrai para si os corações
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    MAOMÉ - 47 - comonipotência, e que pode troar como um distante trovão, fazendo estremecer os corações dos pecadores. Vejo Cristo, o Filho de Deus, o mais sagrado que existe sobre a face da Terra, pendendo ensangüentado na cruz, assassinado! A voz de Maomé rompeu em copioso choro. Parecia como que algo reprimi- do há muito tempo quisesse se desabafar impetuosamente. Com muito esforço re- cuperou a calma e então se dirigiu novamente ao amigo, que o escutou comovido. - Vejo, ouço e sinto Cristo bem perto de mim e sei que outrora pude estar em sua companhia.Assim que procuro auscultar melhor meu íntimo, e sempre que de- sejo saber o que era então na Terra, desce um véu na frente das minhas recordações; não o devo saber. Muitas vezes pedi esclarecimento, mas este nunca veio. Que te adiantaria sabê-Io? Perguntou Waraka, meditativo. -Talvez eu poderia reparar as faltas em que incorri outrora. Poderia servir mais conscientemente ao Filho de Deus. - Isso é errado, Maomé, retrucou Waraka. Tudo isso podes fazer do mesmo modo, sem que o saibas. Imagina que tenhas sido um grande pecador, e procura redimi-Io. Sou da opinião que isso poderia ajudar-te para um servir consciente. - Tens razão, concordou Maomé, talvez seja uma ociosa curiosidade, que Deus não atende. Há aproximadamente um ano Waraka já estava exercendo suas atividades no comércio, e Maomé tinha certeza de que para os dois juntos não haveria mais serviço suficiente na loja. Um dos dois teria de procurar ocupação em outra parte. Era mais do que evidente que o parente ficaria, ao passo que o estranho teria que se afastar do seu cargo. Isso se coadunava com os seus desejos; contudo, ele em nada quis precipitar- se, e esperou ordens de Deus. Ou talvez pudesse pedi-Ias novamente? Mas isso não pareceria como se ele julgasse que Deus o havia esquecido? Enquanto assim meditava, sem chegar a uma conclusão, irromperam do seu íntimo essas palavras: “Senhor Deus, ó Altíssimo, eu espero!” Isso foi uma prece e até uma admoestação! Maomé ficou assustado. Teria com isso ofendido a Deus? Sentiu-se envergonhado e tornou-se intimamente hu- milde. Então veio o atendimento. À noite, o Senhor mandou dizer-lhe que se pre- parasse para uma longa viagem. Poderiam passar-se dois anos até que ele retomasse a Meca. Sobre o destino da viagem e qual seria a causa, ele não soube nada ainda. Agora, porém, viera uma decisão. Isso encheu Maomé de grande alegria, que se manifestou em louvores e agradecimentos.
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    MAOMÉ - 48 - Jáno dia seguinte Chadidsha entrou na loja, na qual se tornara uma rara visitante, e anunciou aos amigos que em Halef havia falecido um devedor do seu marido. Recebera o aviso. Um dos dois deveria seguir viagem para lá, a fim de co- brar do espólio as dívidas em aberto. Maomé achou repugnante esse motivo para a viagem, de sorte que com certe- za teria mandado Waraka, se não lhe tivesse sido revelada a vontade de Deus na noite anterior. Por isso ele se ofereceu sem relutância para empreender a viagem e para exe- cutar a tarefa da melhor maneira possível. Também Chadidsha teria visto com mais agrado se o seu primo se encarregasse da execução do caso, mas também reconhecia que Maomé era mais competente para isso, devido a sua grande inteligência. Com toda a calma, Maomé tratou dos preparativos e entregou a Waraka o controle de todo o comércio. A criadagem que Chadidsha lhe ofereceu, ele recusou. Preferiu ser acompanhado pelos seus próprios criados, que lhe serviam com leal de- dicação. Para as suas despesas de viagem, pelo contrário, ele aceitou, sem dizer nada, a quantia necessária dos lucros da loja. A isso ele tinha direito, pois se empenharia pelos interesses de Chadidsha. Ao deixar Meca atrás de si, sobreveio-lhe o prazer pela viagem. Surgiram-lhe vivas recordações da primeira vez em que ele, montado no camelo com o seu tio, passara pelo mesmo caminho. Agora trotava num nobre cavalo, que era seu, do es- tábulo do seu pai. Ao contrário daquele tempo, quando achou o caminho ao longo do deserto, ermo e fastidioso, agora se distraía ininterruptamente. Sempre renovava as comparações com a vida humana. Do mesmo modo como o chão, outrora fértil, estava coberto de areia, da mesma forma o bem nos corações dos homens achava-se soterrado.Assim como a areia penetra em qualquer orifício, também o pecado e os maus pensamentos penetram nas almas humanas, sempre que de qualquer forma estas se abram para isso. Viu na beira da estrada uma plantinha esforçar-se penosamente para produ- zir flor e fruto, apesar da aridez do chão. Saltou do cavalo e despejou água em cima da planta. Seus acompanhantes gracejaram: - Não fará muito proveito; porquanto no calor a umidade não dura. - Se cada viandante assim quisesse fazer então a planta estaria salva, retrucou Maomé. Ademais, nem que isto proporcione apenas um alívio passageiro à planta, não deixa de ser um ato justo. Também esse pequeno detalhe vivencial tornou-se para ele uma alegoria. O caminho foi quase curto demais, para tudo o que se passou em sua alma. Antes mesmo do que esperava, chegou a Halef. Passou pelo convento, onde esteve inter-
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    MAOMÉ - 49 - nado,sem se aperceber. Notou isso somente quando já haviam surgido as primeiras casas de Halef. Quis então fazer uma visita; porém não se arrependeu de que esse seu propósito não chegasse a se realizar. O que desejaria lá! Mais tarde, quando fosse instrumento de Deus, poderia anunciar a Verdade aos irmãos. Agora ainda era muito cedo. Halef não sofrera modificações. Ainda era a mesma cidade comprimida em um pequeno espaço, com as ruelas estreitas e com a vida entregue às lidas comer- ciais. Numa hospedaria ele e seus companheiros encontraram alojamento satisfa- tório. Então Maomé procurou em primeiro lugar as pessoas que administravam o espólio do devedor. Encontrou uma confusão indecifrável nos assuntos comerciais do falecido. Apesar da boa vontade dos herdeiros, ainda não tinham sido esclarecidas as questões.Maomé viu que deveria envidar todos os esforços para desempenhar a missão a ele confiada.Imediatamente levantou-se a já conhecida voz do seu íntimo,a qual sem- pre se manifestava, quando se tratava de executar uma tarefa que não lhe agradava. “Vale a pena que o futuro instrumento de Deus gaste energias e tempo em questões comerciais?” sussurrava ela. Mas Maomé fê-Ia calar prontamente: “Se Deus o quisesse diferente, então revelaria a Sua vontade. Agora trata de calar e trabalhar”. Ele estabeleceu um determinado horário para as ocupações comerciais; as horas restantes dividiu entre a contemplação do mar, do porto, da vida comercial em redor, e a meditação. Para tudo o mais que a cidade repleta de criaturas de diversas nacionalidades lhe podia oferecer, ele era cego e surdo. Isso não se originou de um determinado propósito, mas sim, parecia como se os olhos e ouvidos nele se fechassem ante todas as tentações, das quais a mocidade em geral se torna vítima. Puro e despreocupado, ele caminhava pensativo entre as imundícies e trevas, sem que estas achassem um acesso a sua alma. Seus companheiros perceberam isso e sentiam grande alegria pela sabedoria e virtude do seu jovem senhor. Um dia Maomé lembrou-se de procurar a casa na qual havia encontrado, aquela vez, Abu Talib. Como não soubesse o nome daquela gente, era difícil desco- brir, em meio à confusão de ruazinhas e travessas, a tal casa. Mas, de súbito, Maomé teve a certeza de que era da vontade de Deus que ele se dirigisse para lá. Assim, também lhe seria indicado o caminho, como outrora. Vivamente recordava-se do pequeno menino machucado, o qual havia carregado em seus braços, e, como ou- trora, escutava dizer: “Agora à direita”,“agora à esquerda”. Inconscientemente seguiu essas indicações e chegou realmente à rua certa. Nesse momento viu também a casa, a qual estava em pior estado.
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    MAOMÉ - 50 - Semhesitação entrou e encontrou uma reunião de homens, que era nume- rosa demais para aquele estreito quarto. Todos rodeavam um rapaz, que estava cho- rando, e no qual Maomé reconheceu seu pequeno amigo de outrora. Ele chamou-o, apesar de não se lembrar mais do seu nome. O rapaz levantou o rosto cheio de lágrimas, e um raio de reconhecimento passou sobre o mesmo. - Senhor, exclamou ele, a mãe faleceu. Agora querem vender-me. Compra- me, eu te peço. Tu és bom! Admirados, os homens olharam para o bem-trajado estranho, que aparente- mente era conhecido aqui. Maomé aproximou-se do rapaz e pegou a sua mão. - É assim, senhores, como ele diz? Perguntou. Por que ele tem que ser ven- dido como um objeto? - O produto desta casa e dos poucos objetos caseiros não é suficiente para cobrir as dívidas do falecido pai e o sepultamento da mãe. Ele ainda não pode ga- nhar e assim teríamos que esperar muito tempo pelo nosso dinheiro. Agora estão diversos mercadores por aqui, que compram rapazes novos e os levam nos seus navios para países estranhos. Quem mais pagar, recebê-Io-á. Maomé revoltou-se. Tal coisa não poderia estar na vontade de Deus! Mas compreendeu que nada conseguiria contra isso, com bons esclareci- mentos. Além do mais, encontrava-se na Síria, cujas leis desconhecia. Então decidiu agir diferentemente. - Quanto vos falta para completar a quantia necessária? Perguntou, tão in- diferente quanto possível. Os homens disseram uma quantia relativamente baixa. De novo Maomé perguntou: - A oferta do comprador alcançará esta quantia? - Senhor, o que pensas? Indignaram-se os homens. Um rapaz tão magro e fraco pode valer tanto dinheiro? Ficaremos satisfeitos, se um dos ofertantes nos der a metade. Imediatamente houve gritaria: - A metade? O que pensais? Ficai contentes se recebermos uma terça, não, a quarta, a quinta parte! Em meio ao clamor, as quantias diferiam, uma sempre mais baixa que a outra. Então Maomé bradou a palavra:“paz” e as vozes exaltadas calaram-se. - Quero dar-vos a quantia necessária, homens; porquanto lamentaria se vós saísseis prejudicados, disse amavelmente. Para isso aceito o rapaz assim como ele está aí. O restante dos seus vestuários e demais posses podeis vender. Estais de acordo? Concordaram! E inclinaram-se até o chão, diante do distinto senhor, o ben-
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    MAOMÉ - 51 - feitor,e que fosse abençoado pelos deuses. O rapaz então chegou perto de Maomé e pegou confiante a sua mão. Não lançou mais nenhum olhar em redor do seu am- biente, quando com o seu protetor deixou a casa. De mãos dadas, caminharam pelas ruas estreitas, até que chegaram numa zona que Maomé conhecia.Ali ele caminhou à frente e logo depois chegaram à hos- pedaria, onde o rapaz foi entregue aos cuidados de Mustafá. Este foi encarregado de tratar da limpeza e do vestuário. Abrigo encontrar-se-ia sem dificuldades. - Como te chamas? Perguntou Maomé, antes ainda de se pôr a caminho do centro comercial. - Minha mãe chamava-me Said, respondeu o menino. - E que idade tens? Quis ainda saber Maomé. O interrogado não sabia responder à pergunta. Então seu protetor começou a fazer os cálculos. Três a quatro anos de idade podia ter o menino que ele carregara em seus braços. Quanto tempo fazia que estivera em Halef? Mais ou menos cinco anos, ou um pouco mais, podiam ter passado desde então. Por conseguinte, Said devia ter de oito a nove anos. Mustafá acenou, confirmando esse cálculo. Pela sua estimativa julgou o menino com essa idade. Deveria estar certo. De resto, o garoto, de estrutura delicada e com belos olhos, agradou-lhe. Mais ainda não dava para reconhecer nele. Said, assim sujo como estava e com trajes esfarrapados, dava a impressão de extrema timidez. - O que pensas fazer com a criança? Como devo vesti-Ia? Quis saber o fiel. - Ainda não pensei sobre isso, confessou Maomé. Vista-o bem, porém com simplicidade. Logo há de se revelar para qual finalidade ele entrou na minha vida. Na noite seguinte, quando Maomé entrou no seu aposento, quase se esqueceu do menino. O dia havia trazido trabalho muito penoso, como também desgostos e irritações desnecessárias. Mustafá havia preparado tudo como de costume, para o jantar. Cansado, Maomé sentou-se ao lado da mesa. Então entrou um bem-trajado pequeno servi- çal, oferecendo com bons modos e habilidade uma tigela fumegante. O seu senhor quase não o reconheceu. Asseio, cuidados, alimento e sono suficientes, juntamente com bons trajes, haviam transformado completamente o garoto Said. Regozijou-se ao ver os olhos admirados de Maomé e na sua alegria juntou as mãos num gesto tão expressivo e infantil, que era lindo apreciar. - Então, Said, gostas daqui? Perguntou Maomé amavelmente. Queria desco- brir, por meio de uma conversa, como o menino estava se sentindo. - É tão bom, como deve ser lá em cima, onde pairam as almas, disse radiante. Somente agora Maomé se lembrou de que a mãe desse menino era judia e inquiriu-lhe se ela o havia instruído em assuntos religiosos. Said informou que a mãe rezava todos os dias com ele e lhe contava de Deus.
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    MAOMÉ - 52 - -Desde que estiveste conosco, senhor, a mãe também falava do Messias, o qual os judeus não reconheceram, assassinando-o. Ela dizia que tu nos transmitiste isso. O rapaz não freqüentara escola, porém a mãe ensinara-o a ler e a escrever, dando-lhe também alguns conhecimentos de aritmética. - Tua mãe era tão erudita? Perguntou Maomé admirado. - Sim, ela era bem instruída. Era de uma nobre descendência judaica, da estirpe de Levy. Mas quando se casou com o meu pai, ela deixou de ser nobre. - E que era teu pai? Indagou Maomé, atraído cada vez mais pelo pequeno. - Um homem mau, foi a resposta. Surpreso, Maomé levantou os olhos. - Tua mãe te disse isso? - Não, senhor, assim disseram os vizinhos, e aí a mãe sempre dizia: “Nenhum homem é tão detestável, que os outros possam arrogar-se o direito de julgá-Io”. Eu não entendi o que ela queria dizer com isso, porém guardei as palavras como recordação. - Mais tarde dar-te-ei a explicação, prometeu Maomé. Logo depois mandou Said deitar-se. Antes, porém, rezou com ele e agrade- ceu a Deus por lhe ter dado o pequeno companheiro. - Tu agradeces a Deus, senhor? Disse admirado. Eu é que devo agradecer-Lhe por poder estar contigo. - Isso podes fazer, animou-o Maomé. E ele sem timidez levantou as mãos, assim como tinha visto seu senhor fazer, e rezou: “O grande e onipotente Deus, eu Te agradeço por teres me conduzido a um lu- gar onde a minha alma não precisa sentir fome. Eu Te agradeço pela Tua misericórdia”. Maomé ficou comovido. Essa criança recompensar-lhe-ia abundantemente todos os benefícios. Daí por diante sacrificou em cada dia algumas horas para instruir o garoto, que aprendia com diligência e disposição, e compreendia tudo bem. Também o levou muitas vezes em sua companhia nos passeios solitários e mostrou-lhe as maravilhas da natureza. Certo dia, num desses passeios, aconteceu de o rapaz perguntar: - Que homenzinhos simpáticos são esses que me abanam e acenam? Já os vi várias vezes, porém quase sempre fugiam, assim que nos aproximávamos. - Homenzinhos? Perguntou Maomé. Não vejo nenhum. Onde os vês? Said indicou na direção de um prado,no qual se achavam algumas pedras es- parsas. Maomé fixou firmemente o seu olhar naquela direção, mas não viu nenhum vulto. Apenas lhe parecia como se deslizassem véus nebulosos sobre elas. Sacudiu a cabeça. Não podia imaginar o que o menino podia ter visto e julgado homenzinhos. Entretanto, não queria intimidá-Io e não o contrariou quando ele disse: - Talvez vós, pessoas adultas, não podeis ver os pequenos seres, porque sois muito inteligentes. A mãe dizia-me que somente às crianças é dada a felicidade de ver anjos. Quem sabe se os homenzinhos são algo parecido com anjos.
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    MAOMÉ - 53 - Daíem diante Said comunicava fielmente onde e quando via os gnomos, de sorte que Maomé chegou por fim a familiarizar-se com os seres para ele invisíveis. Com grande prazer levava o menino junto nos passeios ao mar, num barco movido a remo por pescadores. Ele gostava dos movimentos balouçantes do barco e também não se perturbava quando estes se tornavam mais violentos e impetuosos. O menino então se rejubilava e entoava dos salmos, todos os textos que se referiam ao mar. Os dois anos,dos quais o mensageiro Divino falara,estavam quase no seu térmi- no, e as questões difíceis podiam ser resolvidas definitivamente em poucos dias. Então surgiram na alma de Maomé os pensamentos a respeito de seu futuro próximo. Como se desenrolaria a sua vida daqui por diante? Deus não precisaria dele ainda? Através de suas preces, desde algum tempo, afluíram às alturas os rogos por direção, orientação e ordens novas. Porém por mais que pedisse e suplicasse, nada lhe foi revelado. Na última noite, antes de iniciar a viagem de regresso, pareceu-lhe ter visto o devoto irmão Cirilo, o qual estava à sua procura. Seria um aviso? Em todo caso não queria deixar de tomar o pequeno desvio que o conduziria até ele. Talvez ainda estivesse vivo. Deixando o seu séquito tomar o rumo certo, ele separou-se no dia seguinte do pessoal e seguiu em direção à cidade. O imponente cavaleiro foi alvo de olhares de admiração; encontrou, todavia, o caminho que conduzia ao “bendito lugar” e assim chegou à casinha do devoto irmão.Atraído pelo tropel do cavalo, Cirilo foi até a frente de sua porta, espreitando curioso, o estranho. Maomé chamou-o. Então aquela idosa figura avivou-se.Alegre, estendeu os dois braços em direção ao recém-chegado e deu-lhe boas-vindas também em palavras. - O quê! Posso ver-te mais uma vez, meu filho! Exclamava uma vez por ou- tra, alegremente comovido. Tive grandes saudades de ti. Tornaste-te um senhor nesse meio tempo! Maomé desceu do cavalo, que foi recolhido no quintal do vizinho. Então en- trou na casinha, já tão sua conhecida, na qual passara cinco anos. Teve de contar as boas novas; tudo Cirilo queria saber. Este, ao contrário, pouca coisa tinha a contar, mas em compensação, durante os anos da separação, surgiram na sua mente muitos conselhos bons, que ainda queria dar ao antigo discípulo no seu caminho. Agora chegava a vez de poder dá-Ios. Queria externar tudo tão depressa que quase não encontrava as palavras. As horas eram curtas demais, pois Maomé queria encontrar-se com o seu séquito antes do anoitecer. Apressou-se para sair. Aí o devoto irmão segurou-o mais uma vez: - Maomé, meu filho, escuta: deves casar! Sem isso nunca poderás tornar-te
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    MAOMÉ - 54 - umlegítimo instrumento de Deus. Acredita-me que eu mesmo cheguei à conclusão de que o homem sozinho não é homem completo. Somente quando tem mulher e filhos é que pode compreender melhor a humanidade. Também é melhor para si próprio quando o homem não peregrina solitário pela vida. Acredita-me, meu filho, meu conselho é bom. Segue-o. Então se despediram e o hóspede se pôs apressadamente a caminho. Somente muito tarde encontrou o acampamento que o seu séquito levantara nesse ínterim. - Estávamos apreensivos com o senhor, disse um dos criados. Mas Said nos assegurou de que nada tinha te acontecido. Ele conservou-se tão confiante, que também nós ficamos animados. - De onde veio essa certeza, rapaz? Perguntou Maomé, meio gracejando. Mas a resposta surpreendeu-o: - Os pequenos gnomos disseram-me que apenas estavas atrasado, mas que nada tinha te acontecido. - Desde quando podes escutar o que os invisíveis dizem? Perguntou Maomé com grande admiração. - Senhor, desde hoje, quando orei por ti. Chegaram a tempo a Meca. Num pequeno cavalo, comprado para ele em Ha- lef, Said percorreu o trajeto da viagem com tal naturalidade como se há muito já esti- vesse habituado a montar a cavalo. Também nada podia atrapalhá-Io tão facilmente, o que foi percebido por Maomé com grande satisfação. A chegada no palácio dos Koretschi foi um acontecimento que abalou o equilíbrio íntimo do menino.Uma casa como essa, no meio de jardins floridos, ele nunca havia visto. Quase não podia ser induzido a entrar. A decoração interna era para ele motivo de repetidas exclamações de júbilo. Todos se regozijavam com ele e competiam em mostrar-lhe as belezas cada vez maiores. No dia seguinte Maomé dirigiu-se para a loja, onde encontrou Waraka à sua espera. A notícia sobre seu regresso espalhara-se muito rapidamente. Então também Chadidsha acorreu e cumprimentou o procurador, como o denominou. Ele tratou de prestar contas, sem delongas, daquilo que conseguira. Em- bora a viúva não tivesse demonstrado disposição para falar em assuntos comerciais, teve de sujeitar-se à vontade mais forte. Maomé mudara de feições nesses dois últimos anos. O pessoal da loja olhou para ele com agrado. Tornara-se um homem altivo, esbelto, e, no entanto, amável e bondoso. Sua beleza juvenil havia se manifestado plenamente. Uma fina barba preta crespava-se em volta do queixo e das faces; cabelos bastante compridos e encaraco-
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    MAOMÉ - 55 - ladosemolduravam o rosto delgado. A tendência para a corpulência desaparecera aparentemente; todos os músculos eram rijos e seus passos eram flexíveis. Ninguém calculava a sua idade pela aparência. A prestação de contas demorou alguns dias. Depois disso, Maomé quis saber o que havia se passado nesse meio tempo, e Waraka teve satisfação em poder relatar coisas boas. Nesse dia Chadidsha pediu a Maomé que a acompanhasse até a sua moradia, na qual ele nunca havia entrado. Como havia perguntado sobre as pedras preciosas, e como Chadidsha tinha dito que as guardara nos seus aposentos, julgou que ela queria entregar-lhe as pe- dras, ou pelo menos mostrá-Ias. Em lugar disso, ela conduziu-o para um aposento provido fartamente de móveis estofados, almofadas e tapetes, que de tanta maciez fizeram-no afundar os pés, e pediu-lhe que sentasse. O ar estava impregnado de odores de toda a espécie e oprimiu-o, mas não ousou abrir a janela. - Queria conversar sobre alguma coisa contigo, Maomé, começou Chadi- dsha, hesitante. Antes que ela pudesse continuar a falar, ele interrompeu-a: - Tens de dizer-me aqui em teus aposentos? Não podíamos falar sobre isso embaixo, na loja? O ar aqui está abafadiço e sufocante. - O que tenho a te dizer, meu amigo, retomou Chadidsha a palavra. Pouco tem a ver com a loja. De tais coisas devemos falar aqui em cima. Ele estava curioso por saber o que viria agora. Ela começou de novo. - Já faz oito anos que sou viúva. Quase todo esse tempo és meu empregado. O comércio floresceu sob tua mão. Durante esse tempo ficaste homem. Mas eu estou solitária e sem filhos. Embora eu seja mais velha do que tu, isso no entanto é uma garantia de que te serei fiel. Não quero mais continuar viúva. Se me despreza- res, então darei a mão ao primeiro que se interessar pela casa, pelo comércio, e que deseje me aceitar como esposa. Ela pronunciou mais do que era sua intenção. Perplexo, Maomé olhou para a mulher. Isso ele não esperava! - Para, Chadidsha! Implorou ele. Não destroces a alva flor da pureza! O tom das palavras calou nela. Mas ela olhou para ele, demonstrando in- compreensão. - Como entendes isso, meu amigo? Perguntou. Que mal faz à minha pure- za se te peço para seres meu esposo e companheiro? Há anos já és senhor da loja. Tudo correu segundo tua vontade.É apenas um pequeno passo para ti tornar-te real- mente dono. Um dia terás de casar. Um homem sem mulher e filhos é um homem só pela metade. Conheces-me. Comigo, sabes quem estás levando a tua casa. Pensa bem, meu amigo, mas não me deixes esperar muito pela tua resposta.
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    MAOMÉ - 56 - Aliás,ela bem que quis acrescentar que muitos homens se sentiriam felizes ao receberem tal oferta, porém pressentiu que com isso afastaria esse homem reservado. Assim, preferiu caIar-se. Maomé, no entanto, sentia-se como que atordoado. Cirilo havia-lhe dito que devia casar. E agora essa mulher se ofereceu a ele! Seria essa uma condução de Deus? Tudo nele girava. Gostaria de sair correndo dali para nunca mais voltar. Mas isso não poderia fazer sem primeiro auscultar a vontade de Deus. - Amanhã te darei a resposta, Chadidsha, disse ele, tão amável quanto lhe foi possível. Tua proposta veio-me muito inesperada. Eu sempre fui da opinião de que o homem é que deve pedir a mulher em casamento. E tu fazes o inverso. Isto não me agrada. Mas quero pensar sobre isto. Talvez ache uma resposta. Sem voltar à loja, dirigiu-se para casa. Os pensamentos revolviam-se nele; sentiu-se, porém, contente de poder esforçar-se em silêncio nos seus próprios apo- sentos, para achar clareza. Said percebeu, através da fina intuição que lhe era inerente, que o seu pro- tetor queria ficar a sós, e retirou-se sem ser notado. Todavia Maomé não conseguiu ainda ficar sozinho; porquanto Waraka o procurou para comunicar-lhe importan- tes assuntos comerciais. Depois de terem tratado dos assuntos de negócio, o visitante hesitou em deixar o seu amigo. Sentiu que se agitavam pensamentos nele, os quais não podia dominar; também pressentiu o conteúdo desses pensamentos. - Estás perturbado, Maomé, começou amavelmente. Olha, eu sou mais velho e mais experiente do que tu. Confia-me tuas preocupações e deixa-me aconselhar- te. Muitas vezes um caso se deslinda, quando se procura exprimí-Io em palavras. Maomé olhou para o amigo. Sabia que podia confiar nele. Talvez lhe ajudas- se mesmo, se falasse com ele sobre o delicado assunto. Ai Waraka começou novamente: - Acredita-me, eu conheço Chadidsha desde pequena. Como a mais nin- guém no mundo, te é dado despertar nela todas as boas qualidades. Muito já conse- guiste e mais ainda conseguirás, porque Chadidsha te ama! - A mim? Admirou-se Maomé, incrédulo. Disso ela não falou nenhuma pa- lavra. Waraka quase não pôde conter um sorriso. Quão pouca experiência da vida teve esse homem, que no mais era tão sábio! - Isto decerto ela te ocultou por diversos motivos, meu amigo, declarou. Ela conservou em si um remanescente de sublime pureza, apesar de que a vida que teve de levar ao lado do marido a obrigasse a abandonar certas peculiaridades. Ao teu lado, desabrochará nela novamente a verdadeira feminilidade. Disso estou certo. Foi de fato a amizade sincera que fez Waraka falar assim. Sabia que Maomé mais cedo ou mais tarde iria casar-se. Outra coisa não se podia esperar em face da
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    MAOMÉ - 57 - suapredisposição geral.Por si só,porém,nunca iria pedir uma mulher em casamen- to; sempre teria que ser encorajado para isso. Por esse motivo poderia passar por experiências mais sombrias do que com Chadidsha. Na alma de Maomé algo se patenteou durante essa palestra. Assim que Wa- raka saiu, ficou mais calmo. Compreendeu claramente que o assunto do casamento era apenas terreno. Sua alma não tinha sido atingida com isso e nem o seria no futuro. O devoto irmão teve razão ao dizer que ele deveria conhecer todos os aspec- tos da vida humana para poder conduzir os outros. Conhecia Chadidsha e sabia o que poderia esperar da sua capacidade compreensiva. Portanto, queria aproveitar a oportunidade que se lhe oferecia. Ao concentrar-se para fazer a oração, recordou-se de que tivera a intenção de levar o assunto diante do trono de Deus. Chegou à con- clusão, porém, de que jamais o deveria fazer. Um caso tão terreno o homem deveria resolver consigo mesmo, sem importunar Deus com isso. Assim, apenas agradeceu a Deus, que lhe proporcionou a oportunidade de, logo após receber o conselho do devoto irmão Cirilo, poder executá-lo. Com amável serenidade foi comunicar a Chadidsha, na manhã seguinte, que estava disposto a casar-se com ela. Sua alegria foi tão arrebatadora, que o assustou. Ela notou isso e moderou-se. Insistiu então que o enlace fosse realizado breve, pois não se contrapunha nenhum obstáculo. Ma- omé era o chefe da família e não havia necessidade de pedir consentimento. Deixou a critério dela fixar e determinar tudo o que se fizesse necessário. Em casa partici- pou a Mustafá a mudança que se operaria na sua vida. O fiel absteve-se de qualquer conselho. Entretanto, trouxe um escrito que Abd aI Muttalib lhe entregara, antes do seu falecimento, destinado ao então pequeno neto. Deveria ser entregue a Maomé somente quando este estivesse prestes a casar-se. O ancião escrevera: “És um sonhador,Maomé! Quando ficares moço,serás um tolo.Renunciarás abnegadamente à felicidade e ao bem-estar terreno, para correres atrás de quimeras. Vejo nitidamente diante de mim o teu caminho terrestre. Em toda a parte e sempre, retrocederás, para ceder aos outros os proveitos que te são destinados. Assim tam- bém não tomarás, por ti, a iniciativa de pedir uma mulher em casamento, porém a mulher que te amar pedirá tua mão. Disso poderá resultar uma imensa desventura quando, mais tarde, encontrares a moça pela qual te apaixones. Tudo isso vejo tão claro, porquanto te amo, meu filho. Meu amor por ti ocultei atrás de uma máscara rígida; pois eu não quis te estragar com mimos. Mas tenho de deixar-te sem poder chegar a ver-te maduro, como homem consciente. Pelo menos para atenuar o infor- túnio que trarás sobre ti pelas tuas vocações especiais, dou-te hoje um conselho e, concomitantemente, a possibilidade externa de seguí-lo. Não vivas do dinheiro da tua mulher. Deixa que fique com o que é dela e que o aplique para si e para os seus filhos. Tu, porém, vive altivo e livre ao lado dela, e não com ela. Promete-o a mim, o falecido,
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    MAOMÉ - 58 - abem do sossego na tua vida.Para que não precises depender de uma mulher e de sua parentela, sabe que; No pavilhão, num lugar conhecido apenas por Mustafá, acha-se guardado, numa parede, considerável tesouro em pedras preciosas e ouro cunhado. Pertence-te; porquanto eu o juntei para ti. Ninguém mais tem direito a ele. Contudo, será melhor que não fales com ninguém sobre isso, a não ser com Mustafá. Esse di- nheiro aplica para ti e para aqueles teus filhos que o merecerem.À tua mulher,porém, não dês nada. Também nada lhe contes. Acredita-me que assim será melhor,” Depois, seguiam-se conselhos sobre a remoção e o emprego do tesouro. O escrito finalizava com a bênção do avô para o seu neto.Maomé estava de pé,aturdido; o manuscrito caiu-lhe das mãos. Então recobrou o domínio sobre si e agradeceu, ora a Deus, o Senhor, ora ao avô falecido. Sabia que essa independência terrena teria para ele uma significação incomensurável. “Senhor, se Tu agora me chamares para servir-Te como Teu instrumento, en- tão não terei de pensar nenhum instante em coisas terrenas”, rejubilava-se. “Estou livre para tudo o que quero e devo fazer.” Não teve dúvidas em guardar segredo sobre o tesouro. Somente com Mustafá falou sobre o acontecido.Os dois resolveram então procurar,numa das próximas noi- tes,a abertura da parede abobadada,para verificar o montante da inesperada herança. Então retirariam apenas um pouco e o restante emparedariam de novo. Feito isso, Maomé soube que era presumivelmente o homem mais rico de Meca. Regozijou-se com isso, porque obteve assim a sua liberdade. Em seguida falou com Chadidsha. Perguntou-lhe como imaginava o futuro das vendas. Ela respondeu que até então ele praticamente tinha sido o senhor, porém, agora, deveria tornar-se realmente. - E o que será de Waraka? Insistiu. Ele e eu somos demais para o movimento do comércio. - Portanto, que se retire para lá de onde veio, retrucou Chadidsha, indiferente. Não o chamamos e não o seguraremos. - Essa não é a minha opinião, replicou Maomé seriamente. Eu, pelo contrário, desejo que ele assuma a direção dos negócios, visto que não pretendo ocupar-me no futuro com assuntos comerciais. - Talvez aches meu amigo, que eu seja tão rica, que possas levar uma vida ina- tiva? Disse com voz cortante. Nesse momento Maomé percebeu como o seu avô julgara certo. Sentiu grato contentamento em não precisar aceitar nada do dinheiro dela. - Estás enganada, Chadidsha, retrucou calmamente. Não levarei uma vida inativa, mas, ao contrário, tão ativa que não me sobrará tempo para o teu comércio. Não farei uso do teu dinheiro; tenho posses suficientes para manter-me sozinho.
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    MAOMÉ - 59 - Tudoo que te pertence, podes aplicar para ti. Então ela percebeu que o seu plano de adestrar e subjugar mediante sua riqueza aquele homem estava errado. Quase desistiu do casamento, mas era como Waraka dissera: ela realmente amava esse homem, bem mais moço do que ela. De- sejou saber qual a profissão a que Maomé se dedicaria no futuro. Ele apenas respon- deu que isso era assunto seu. Mais tarde ela o saberia. Todavia, nem poderia ter dito, pois ele mesmo ainda não o sabia. Durante a conversa, algo o impeliu a falar dessa maneira. Agora devia dirigir-se ao Todo- poderoso para receber orientação. Já na mesma noite soube que procedera certo ao livrar-se do comércio. Recebeu ordem de esperar pacientemente. Em tempo propí- cio lhe seria feita uma oferta, a qual deveria aceitar. Assim, preparou-se e encarou o futuro confiantemente. Algo, porém, preocupava-o: era o pensamento de ter que conduzir Chadi- dsha ao palácio paterno. De modo algum ela combinava com o aristocrático esplen- dor. Afigurou-se-Ihe, em pensamento, como se já escutasse sua voz estridente soar pelos pórticos e pelas escadarias. Então ficou receoso. Sentiu necessidade de falar com um homem idoso sobre isso; entretanto, a Mustafá não podia confiar o problema e Waraka era parente de Chadidsha. No entanto, Waraka, por si, veio a falar sobre o assunto. Chamou a atenção de Maomé que era costume o homem levar a mulher para a sua casa, porém se esta fosse viúva e possuísse uma casa, então o homem deveria morar com ela, segundo o costume generalizado. Foi por essa razão que Abu Talib se prontificara voluntariamente a deixar o palácio! Waraka tinha sido mandado por Chadidsha, pois esta receava que Maomé fosse insistir para que ela mudasse para o palácio dele. Ela, entretanto, tinha amor ao seu próprio lar e de maneira alguma queria deixá-Io. Assim, ambos sentiram-se aliviados. Maomé confiou a Mustafá que o seu casamento não alteraria quase nada a vida do palácio. Todos os criados deviam continuar suas atividades de até então. Também Said continuaria a freqüentar dali mesmo a escola do templo, à qual seu protetor o mandara desde algumas semanas. Ele mesmo, Maomé, iria morar temporariamente na casa de Chadidsha, po- rém voltaria sempre de novo ao palácio.Isso provocou grande alegria entre os criados, que agora se esforçavam tanto mais para proporcionar-lhe uma vida aprazível. Dois dias antes do casamento,apareceu um mensageiro do idoso soberano,cha- mando Maomé à corte. Este resistiu à curiosidade de perguntar ao mensageiro sobre a finalidade de sua ida ao palácio. Chegaria a percebê-Io sozinho. Na hora aprazada,encontrava-se no palácio monárquico diante do soberano da
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    MAOMÉ - 60 - Arábia,opríncipeAbul Kassim.Era um homem debilitado e de avançada idade,a quem poucos dos seus súditos chegaram a conhecer. No entanto, o ancião irradiava uma tal dignidade, que Maomé a sentiu nitidamente. Inclinou-se e esperou que lhe fosse diri- gida a palavra. - Maomé ben Abdallah, disse o príncipe em voz baixa, soube que és um sá- bio. Um homem sábio é o melhor amparo para um soberano, quando à sabedoria se aliam devotamento e fidelidade. Abd aI Muttalib foi meu amigo. Era meu conselheiro. Quis promovê-Io a primeiro vizir, mas ele recusou-se a servir-me de outro modo, a não ser em sigilo. “Um neto meu está crescendo. Este podes chamar, quando tiver idade sufi- ciente”, disse ele pouco antes de sua morte. Esse neto és tu, Maomé. Mandei obser- var-te. És como desejo que seja o meu auxiliar. Queres ser meu vizir? Perplexo, Maomé olhava para o idoso soberano. Ser seu primeiro-ministro, seu eventual substituto, ele, que não sabia como se governa um país! Então lembrou-se de ter Deus mandado dizer-lhe que aceitasse a primeira oferta que lhe fosse feita. Portanto, estava na vontade de Deus que ele seguisse esse chamado. Movimentou a cabeça para trás e olhou com olhos claros para o soberano. - Se achas,príncipe,que sou suficiente para servir-te,então estou pronto.Acei- to este cargo da mão de Deus. Ele ajudar-me-á a desempenhá-lo corretamente. - E eu aceito-te como meu conselheiro, da mesma mão, complementou o príncipe. Assim trabalharemos juntos beneficamente. Com muito gosto Maomé teria perguntado: “O que sabes de Deus?” Mas não ousou dizê-lo. O soberano, no entanto, pressentiu a pergunta não pronunciada e respondeu-lhe: - Tornei-me judeu pelo meu amigo Abd aI Muttalib, Maomé. Creio em Deus de todo o coração. Por isso não poderia tolerar um vizir ateu ao meu lado. Maomé foi convidado a comparecer na manhã seguinte, porém o príncipe pediu-lhe que nesse meio tempo não falasse a ninguém sobre o seu cargo. Isso, aliás, Maomé já por si não teria feito. Precisava primeiro chegar ao sossego íntimo, antes de poder dizer uma palavra sobre tudo o que vivenciara nos últimos tempos. Passou a noite orando. Era demasiado o que lhe pesava sobre a alma. Sentiu- se impelido a levar seus pedidos diante de Deus, sem considerar se eram terrenos ou espirituais. Cheio de confiança, dirigiu-se na manhã seguinte ao palácio do potentado. O príncipe cumprimentou-o alegremente; o jovem auxiliar agradou-lhe. De início combinaram os aspectos externos dos encargos a serem assumidos por Maomé, nos quais deveria se ambientar aos poucos. Depois o príncipe Abul
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    MAOMÉ - 61 - Kassimcomunicou-lhe que também fazia parte das suas obrigações representá-Io; pois devido à sua avançada idade, não podia viajar. Tudo isso Maomé achou muito atraente. Durante a noite recebera forças para assumir qualquer trabalho. Tornou-se-lhe compreensível, também, que justa- mente nessa posição é que poderia atuar para Deus. Talvez esse fosse o início de sua convocação como instrumento de Deus. Quando todas essas coisas tinham sido combinadas, ocasião em que a pater- nal amabilidade do príncipe conquistara o coração de Maomé, então Abul Kassim perguntou sobre o passado do seu novo vizir. Soube que Maomé iria se casar já no dia seguinte. Depois de Maomé ter dado todas as respostas às perguntas que se referiam à sua futura esposa, o idoso soberano balançou a cabeça. - É inadequado, Maomé, que tua escolha tenha caído sobre essa viúva, que não se adapta ao nível de tua posição, disse pensativo. Maomé, entretanto, respondeu prontamente: - Eu não a escolhi, foi ela que me pediu em casamento. O príncipe pôde compreendê-lo. Meditando demoradamente, disse: - Não fica bem que a deixes, um dia antes do casamento, por causa do teu novo cargo. Tua palavra deves cumprir. Mas será justamente o teu cargo que te pre- servará de muitos dissabores. Ordeno-te, como meu novo vizir, que continues residindo no palácio dos teus antepassados e que procures tua esposa somente na casa dela, quando sentires desejo para isso. Da mesma maneira, os eventuais filhos deverão morar com ela, visto não terem mãe de linhagem fidalga. Quando mais tarde se oferecer uma oportunidade para pedires uma moça de família nobre em casamento, então essa deverás levar para teu palácio. Pelas leis do país isso é permitido, e as leis judaicas não são contra. Como já era da intenção de Maomé não abandonar a sua morada no palácio, a ordem do soberano lhe foi muito oportuna. Foi combinado que depois do dia seguinte assumiria o cargo e então seria apresentado aos outros conselheiros do príncipe. Consciente de ter encontrado em Abul Kassim um segundo pai, Maomé deixou o palácio do soberano. No dia seguinte realizou-se a solenidade do casamento no templo judai- co. Para Chadidsha era indiferente onde se daria o cerimonial. Entretanto, Maomé queria sobretudo que a união conjugal fosse celebrada sob os olhos de Deus. Não se tornou consciente de que com esse ato se confessava publicamente judeu; também isso não o teria impedido de dar tal passo. Queria mostrar que acre- ditava em Deus, onde quer que fosse.
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    MAOMÉ - 62 - Chadidshahavia convidado muitas pessoas para os festivos cumprimentos em sua casa. Nessa ocasião Maomé tornou a ver seu tio Abu Talib, o qual compare- cera com a sua esposa. - Estou contente, disse Abu Talib, por teres achado uma esposa rica, cuja fortuna te ajudará a progredir na vida. - Também espero fazer progresso sem esse dinheiro, foi a resposta de Maomé. Conversou com o tio, como se nunca tivesse havido qualquer desavença en- tre eles. Soube que Abu Talib tinha um filho com pouco mais de dois anos de idade, que lhe proporcionava muita alegria. - Vem visitar-nos para conhecer o pequeno Ali, insistiu o tio. Maomé pro- meteu-lhe. Na manhã seguinte deixou a casa de Chadidsha e dirigiu-se ao palácio prin- cipesco, onde, após solenes cumprimentos dos outros conselheiros, recebeu suas instruções e iniciou os trabalhos que durante anos requereriam seus bons ofícios. Tornou-se evidente que Maomé não só compreendia com facilidade tudo o que lhe era dito e explicado, mas também que nele se ocultavam virtudes de um soberano nato, que agora subitamente despertavam. Quando o príncipe lhe dava algumas indicações, então se abria diante da vista espiritual de Maomé um vasto panorama, dentro do qual ele podia dar ordens e aconselhar. Teve a capacidade de penetrar nas almas dos outros e adaptava suas determinações de tal modo, que desde logo conquistou confiança. De mais a mais, nunca aceitava agradecimentos e louvores para si, mas sim, fazia tudo em nome do príncipe. Os demais conselheiros, que a princípio haviam visto com inveja que um desconhecido, descendente de família judaica, fosse ad- mitido ao lado deles, não tardaram em reconhecer como tinha sido providencial a escolha do príncipe. Os melhores entre eles uniram-se estreitamente a Maomé; os demais, que formavam a minoria, não ousaram manifestar-se. Chadidsha, que se casara com um homem para no dia imediato privar-se dele, em favor do príncipe e da vida pública, ficou tão orgulhosa e contente com as honras de que seu marido era alvo, que se vangloriava desse brilho e não sentia falta de nada. Ela, aliás, imaginou que desempenharia dali por diante um papel entre as mulheres da nobreza de Meca, mas Maomé fez com que ela visse, desde o início, com palavras bondosas e serenas, que isso seria impossível. Teve a compreensão suficiente para conformar-se e para proporcionar ao seu esposo apenas coisas belas e aprazíveis, nas poucas horas que ele podia dedicar-lhe. Além disso, a consecução de seu ardente desejo transformou sua índole. Era como Waraka previra: ela tornara-se mais feminina.
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    MAOMÉ - 63 - Faziatudo para agradar a Maomé e não podia deixar de procurar adaptar-se ao seu modo de pensar. Não tardou em pedir-lhe que a instruísse na crença judaica. Maomé viu que o casamento se tornara benéfico para a mulher, sem ser um obstáculo para ele. Passados cerca de oito meses, teve de fazer uma viagem a Jerusalém, por ordem do príncipe, para chegar a um acordo com os árabes ali residentes. Sua ale- gria em poder ver a cidade onde Cristo atuara foi imensa. Com isso quase chegou a esquecer-se da finalidade terrena de sua viagem. Com brilhante acompanhamento, dando a impressão de um jovem prínci- pe, viajou pelo reino árabe em direção ao norte. Em toda parte aonde chegava, era recebido com grandes honras. Nessas ocasiões, eram-lhe dirigidos numerosos pedidos para decidir sobre questões e para punir malfeitores. Antes de fazê-Io, sempre concentrava sua alma em oração, e assim ele podia ter a certeza de que as suas decisões seriam certas e de acordo com as leis de Deus. Chegara a Jerusalém! Quando viu a cidade diante de si, sobrepujou-o o sa- ber sobre o Filho de Deus, saber esse que muitas vezes o sensibilizara profundamen- te, com toda a força. “Devo ter peregrinado aqui com ele!” exclamou, e lágrimas de profunda emoção escorriam dos seus olhos. “Talvez pude acompanhá-Io, como um dos seus discípulos!” Na entrada, esse pressentimento redobrou. Parecia conhecer cada uma das antigas ruas estreitas. Como lhe era incômodo o contraste de viajar por aqui, com grande pompa, onde Cristo andara tão simples. Com muito prazer teria passado a um outro a mensagem e a representação de que era portador, para peregrinar em silêncio como servo do Filho de Deus nas suas pegadas. No dia seguinte passou então por outros sentimentos. Lá onde Cristo sofrera e morrera, judeus e adoradores de fetiches disputavam o pedaço de chão. Os cris- tãos não procediam melhor; apenas eram mais arrogantes do que os outros. Isso lhe causou repugnância. Em primeiro lugar tratou daquilo de que fora encarregado. Houve muitas conferências com altos dignitários, os quais não queriam saber da mensagem do príncipe e do seu direito de mandar-lhes tal mensagem. Por muito tempo, porém, eles não puderam se opor às simples e categóricas argumentações do jovem representante. Ele granjeou a simpatia e a confiança deles.
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    MAOMÉ - 64 - Houvecasos em que pediram conselhos para os seus próprios problemas,e ele sempre aconselhava desde que essa atividade não viesse a prejudicar o seu príncipe. Entrementes teve um tempo de espera, porquanto a resposta ao príncipe tinha que ser redigida convenientemente em palavras, para o quê os estranhos dig- nitários demoravam. Assim, Maomé alegrou-se de poder dispor livremente de mais alguns dias. Para ele isso significava liberdade de fazer o que bem lhe aprouvesse. Tirou os trajes de gala e passeou em vestuário simples pelos caminhos que lhe eram conhecidos. Procurou o templo, o qual se achava fechado justamente nesses dias, porque judeus e cristãos disputavam acaloradamente a sua posse. Essa sagrada obra arqui- tetônica dos judeus apresentava vestígios de um desmoronamento progressivo. Maomé preferiu ir aos lugares que ficavam ao ar livre. Sem necessidade de pedir a alguém uma orientação, encontrou o jardim de Getsêmani e rompeu em choro ardente ao contemplá-Io. Será que ele fora um dos que não haviam sido ca- pazes de ficar por uma hora sequer em vigília pelo Filho de Deus? Viu todos, todos! E decidiu passar a noite ali, orando e vigiando. Ajoelhou-se lá onde o grupo dos discípulos esperara o seu Senhor, quando ali tinha ido orar. Não surgiu na sua mente qualquer impulso de querer pôr os pés no lugar onde Cristo se ajoelhara em oração. Subitamente teve de dizer “Jesus”, em lugar do nome de Cristo, que lhe era familiar desde a infância. “Jesus, sim, assim dizíamos”, sussurrou. “Mestre”, foi a palavra seguinte que ele encontrou. “Mestre, quero ser teu servo, meu Senhor e meu Deus! Quero dar testemunho de ti aos homens, para que todos creiam em ti. Também com isso poderei ser um instrumento de Deus, teu Pai.” Rezava fervorosamente, e durante a prece passaram diante dele vivas ima- gens da vida do Filho de Deus, a partir do dia em que chegara a vê-lo pela primeira vez. Novamente viu todos os que rodeavam Jesus, exceto um, e este um devia ter sido ele. “Senhor, Jesus, Mestre”, rezou, “então eu já fui uma vez teu servo; consente que possa sê-lo novamente” Nesse momento uma voz chamou: “Natanael, o Senhor atendeu a tua prece! Vive de agora em diante como Seu servo; foste destinado a ser um servo do supremo Deus.” E Natanael-Maomé inclinou-se completamente e tocou com a testa no chão, em sinal de promessa. Quieto e solitário pôs-se no dia seguinte rumo a Betânia. Acima de tudo, experimentava em si mesmo o cristianismo, mas diferente do que os homens ensinavam. Irrompeu nele uma veemente indignação ao obser- var os cristãos e sua crença. “Isso tem de ser mudado! As palavras de Jesus devem ser postas novamente
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    MAOMÉ - 65 - emprimeiro plano, e não as sabedorias que os homens derivaram delas para si. Que insolente e condenável procedimento!” Mas por essa época consolidou-se algo mais em sua intuição: experimentou em si próprio que os homens não vivem apenas uma vez na Terra. Sabia quando e sob qual nome ele servira outrora ao Filho de Deus. Então compreendeu nitidamente que ele não constituía nenhuma exceção na humanidade. Como ele já vivera uma vez, assim também todos os outros homens vi- veram igualmente mais vezes na Terra. Nunca havia escutado tal opinião, mas ela se tornou para ele uma convicção pela própria experiência vivencial. Nos seus passeios solitários,os quais prolongava cada vez mais para ver o quanto fosse possível dessa região, que fora predestinada a ser a terra natal do Filho de Deus, meditava e investigava. Chegou à conclusão de que muitas existências devem conseguir ou reforçar o que uma única existência não pode realizar.“O que enfim a vida quer de nós? Por que chegamos a este mundo?” Deveria partir dessa pergunta e se achasse uma solução, então tudo o mais se seguiria. O que mais gostaria era de livrar-se da vida na corte, para poder permanecer por tempo indeterminado na terra dos judeus e prosseguir nas suas investigações. Mas o saber de que poderia tornar-se um instrumento de Deus pesou muito. Certo dia, finalmente, ficaram prontos os escritos que deveria levar de volta ao príncipe. Foram preparados satisfatoriamente, e assim nada impedia a sua partida de regresso. Pesaroso, separou-se da cidade que tanta coisa lhe proporcionara. Julgou não poder ser mais alegre e feliz em nenhum outro lugar. Todavia, quan- do entrou na verdejante paisagem da Síria, com a sua abundância de flores e frutas, nesse momento o seu coração exultou de gratidão e alegria por tanta beleza. A cavalgada na beira do deserto dessa vez não o estimulou a comparações.Todos os seus pensamentos se concentravam no futuro; urdia projetos e nutria esperanças. Abul Kassim demonstrou o seu franco regozijo ao ver seu conselheiro no- vamente a seu lado. Tudo o que fora pretendido, foi conseguido. Agora podiam dedicar-se a outras tarefas. O príncipe gostava de dialogar ao anoitecer com o seu confidente, especial- mente sobre o que se passava em sua alma. Maomé era para ele como um filho, perante o qual revelava sem receio o lado mais recôndito de seu caráter. Previa complicações intrincadas após seu trespasse, que não estava muito longe. Não tinha filhos. Suas cinco mulheres deram-lhe somente filhas, e estas se
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    MAOMÉ - 66 - casaramcom homens que não possuíam aptidões para funções no governo. - Tivesse ao menos um genro que pudesse se tornar meu sucessor, suspirava muitas vezes. Agora, príncipes de outras dinastias arrogar-se-ão o direito de dispu- tar o domínio árabe. O reino desmoronará, e os meus projetos de grande alcance no sentido de unir os reinos vizinhos, desfar-se-ão em nada. Maomé prometeu novamente sondar, a fim de achar um sucessor habilitado. Estava convicto de que também nisso receberia ajuda de Deus, posto que seria em benefício de um grande reino, cujos habitantes esperava converter para o único e verdadeiro Deus. Em casa lhe aguardava uma surpresa. Chadidsha dera à luz um belo menino. Ainda não recebera a bênção do sacerdote, por não ter a mãe se lembrado disso. Entretanto, agora ela queria que o levassem ao templo. Maomé se opôs. Queria que a criança fosse batizada conforme a doutrina cristã e que recebesse o nome de Natanael. - És incompreensível, meu amigo, amuou Chadidsha. Casaste num templo ju- daico.E teu filho deve ser batizado como cristão.Estou ansiosa em saber o que ordena- rás quando Natanael tiver irmãos. Natanael! Um nome feio. Eu chamá-Io-ei de Eli. - Chama o menino como quiseres, Chadidsha, permitiu Maomé, o que mais importa é que ele se torne interiormente um Natanael e reconheça seu Mestre. Quando participou o nascimento do filho ao príncipe, este disse: - É pena que ele não tenha uma mãe nobre, senão poderia casar com uma das minhas numerosas netas. Entre esse grupo de meninas que desabrochavam em volta da corte dinás- tica, encontrava-se uma extraordinariamente encantadora, comparável a uma flor. Princesa Alina devia ter cerca de cinco anos. Era delicada e ágil. Suas risadas alegra- vam o príncipe. Quando, ao procurar o avô, encontrava Maomé, o que acontecia freqüen- temente, então puxava os longos cabelos ondulantes sobre o rosto, à guisa de um véu. O príncipe ria disso; Maomé, porém, ficava emocionado porque via nisso uma prova da delicada pureza sutil da criança. Um dia o príncipe revelou-lhe um pensamento que o fez permanecer acordado por várias noites consecutivas. - Escuta, Maomé, disse bondosamente, mas de modo sério, achei uma solu- ção de como arranjarei um sucessor autorizado, o qual, sei bem, concretizará tudo o que foi iniciado, no sentido por mim preconizado. Assim que Alina crescer,far-te-ei casar com ela.Com isso serás tu o mais próxi- mo ao trono,de acordo com as nossas leis.Se além disso eu ainda tornar público,antes de meu falecimento, que tu deverás ser o meu herdeiro, então todas as pretensões dos outros serão sufocadas no germe, e eu poderei deixar a Terra em paz.
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    MAOMÉ - 67 - -Alina, a graciosa criança! Exclamou Maomé estupefato. Eu sou tão mais velho, que poderia ser seu pai. - Isso não importa, replicou Abul Kassim de bom humor. Tua primeira mu- lher é mais velha do que tu; deixa a segunda compensar a diferença. A terceira, então, talvez tenha a idade certa. Maomé pediu que por enquanto não fosse mais falado a respeito desse pro- jeto. Sua ambição impelia-o a concordar, mas queria esperar o que Deus determi- naria para ele. Entrementes passaram-se os anos, repletos de atividades e pesquisas. Em verdade Maomé já era o regente da Arábia, pois, aparentemente sem propósito, con- tudo premeditadamente, o príncipe afastava-se mais e mais de todos os negócios. Todas as sugestões e execuções de planos deixava a critério do supremo con- selheiro, sobre cujas determinações repousava visivelmente a bênção de Deus. Já há muito tempo que Maomé teve de mudar-se para o palácio do príncipe, a fim de poder estar dia e noite nas proximidades de Abul Kassim. Seu próprio pa- lácio ficou ermo; porquanto também Said mudara-se havia poucos anos. Tinha por essa época cerca de dezesseis anos de idade e tornara-se um moço imponente. Dotado de raciocínio perspicaz, compreendia sempre imediatamente o que se desejava dele. A par disso, possuía excelentes qualidades de caráter, e era de rara fidelidade e afeição. Maomé nomeou-o seu secretário particular e teve a satisfação de ver o jovem bem-disposto em volta de si. Procurava Chadidsha apenas raras vezes ainda. Era-lhe por demais opres- siva e barulhenta a casa, na qual parecia soprar um vento diferente do que estava habituado. Sua esposa não sentia sua falta. Cinco crianças brincavam ao redor dela e proporcionavam ocupação para mãos e coração. Certo dia Maomé foi chamado com urgência por ela. Natanael, um menino de aproximadamente seis anos, caíra da escada e teve lesões internas de tal gravida- de, que o médico não teve mais recursos para ele. Poucos momentos depois de o pai ter tomado o menino inconsciente em seus braços, este faleceu. Diante desse acontecimento, Maomé repreendeu-se por ter se descuidado tanto dos seus filhos. O acidente, aliás, ele não podia ter evitado, mas o que sabia sobre Natanael? Alguém o ensinara a reconhecer Deus? Antes, sempre que se lem- brava do pequeno, achava que para isso ainda teria tempo. Agora a criança tinha deixado a Terra. Saberia a criança para onde o seu caminho a conduziria? Se bem que Chadidsha provavelmente se sentisse mais feliz sem a sua com-
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    MAOMÉ - 68 - panhia,porque ninguém mais censurava os seus atos para com as crianças, contu- do deveria tomar mais a sério as suas obrigações de pai. Já nos dias seguintes apareceu para habituar os pequenos com ele e para contar-lhes de Deus e do menino Jesus. Duas meninas e um menino não mostravam semelhança com ele: também eram aparentemente de pouca vivacidade espiritual. A mais nova, uma menina de notável graciosidade, fê-lo recordar-se de sua mãe, assim como a imagem dela lhe surgia às vezes à sua frente. Essa pequena, chamada Fatime, era seu encanto. Quando sorria jovial- mente para ele, então sentia uma íntima e forte ligação com ela. Esforçava-se para sentir o mesmo com os outros três, mas a indolência dos mesmos e os seus pensamentos dirigidos somente para o lado das coisas terrenas fizeram com que sempre esmorecesse tal tentativa. Apesar disso, continuou regu- larmente com as aulas, que se desenvolveram das primitivas palestras. Cerca de três meses após a morte de Natanael, alastrou-se uma terrível epidemia em Meca. Apesar dos maiores cuidados dos médicos e de todos os so- corros que puderam ser arranjados, atacou de igual maneira os ricos e os pobres, exigindo inexoravelmente as suas vítimas. Maomé fez tudo o que esteve ao seu alcance para proteger os seus. Im- plorou a Chadidsha que abandonasse a cidade. Havia alugado uma casa de campo num lugar saudável, para onde ela podia retirar-se durante essa fase. Ela recusou-se obstinadamente. Lembrou-se do tédio de que era aco- metida todas as vezes que passava fora da cidade, durante os meses quentes, por causa dos filhos. Dessa vez não quis fazer voluntariamente esse sacrifício. Logo depois caiu de cama com febre, e as crianças com ela. Maomé mandou médicos e enfermeiras; por fim, ele mesmo veio para fazer o que era humanamente possível. Não conseguiu arrancar os doentes da morte. Chadidsha e três filhos faleceram no mesmo dia e tiveram que ser enterra- dos fora da cidade, numa cova destinada às vítimas da peste. Unicamente Fatime recuperou-se. Parecia que as preces do pai fizeram restabelecer essa criança dileta. Waraka, que fugira em tempo, regressou após o afastamento de todo o perigo. Maomé outorgou-lhe o direito de propriedade sobre a casa e o comércio, e levou Fatime consigo para o seu palácio paterno. A uma mulher nobre, a qual perdera marido e filhos, foi confiada a edu- cação da pequena. Nessa criança desabrochou para Maomé a primeira felicidade oriunda de sua vida familiar. Quando os negócios do soberano o fatigavam ou quando algo o opri- mia, então se retirava para ela. Suas pequenas mãos afastavam os cabelos de sua testa,
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    MAOMÉ - 69 - ecom isso as preocupações. Seus risos sempre achavam eco na alma de Maomé. Deu preferência a uma educadora cristã. Ele mesmo tomou com afinco a questão; procurou aprofundar a crença da senhora de certa idade, incutindo-lhe, ao mesmo tempo, uma linha de orientação adequada, para que a sua predileta não viesse a ser tocada por algum modo de pensar errôneo. Certo dia Abul Kassim tornou a trazer à tona o seu plano nutrido em sigilo cada vez com mais intensidade: Maomé devia pedir Alina em casamento. Ela esta- va com dez anos de idade e com isso ingressou no grupo das donzelas. Seria uma desonra se não se apresentasse nenhum pretendente. Isso, po- rém, o príncipe queria evitar. Maomé devia ser o primeiro. Maomé lembrou-se do país que a essa altura estava sob o seu domínio. Se não desse esse passo, teria de demitir-se e ver o governo passar a outras mãos. Pensou em Fatime, que crescia sem companheira. Internamente as duas me- ninas tinham grande semelhança. Que adolescência plena de alegria poderiam levar as duas em comum! Contudo, ele queria auscultar primeiro a vontade de Deus. Re- servou-se alguns dias para deliberar e orou à noite como nunca havia orado. Então viu uma imagem que serviu para trazer-lhe certeza. Viu-se parado algures, numa altura incomensurável; debaixo dele estendiam-se vastos territó- rios, entre os quais sabia que estavam a Arábia, a Síria e a terra dos judeus. Contemplava-os com alegria e com aquele amor que dedicava de coração ao seu povo. Nesse momento afigurou-se-lhe como se levantasse desses países um fino véu, que mais e mais se condensava. Então a condensação tomou forma e tornou- se uma linda donzela, a princesa Alina. Na sua mão direita estendida ela segurava uma coroa dourada de príncipe. Assim flutuava para as alturas. De cima, no entanto, inclinava-se para ela uma figura graciosa, sobrenatural, amável e radiante em pureza. Pegou a mão da donzela e conduziu-a para ele. A imagem desapareceu. Maomé meditou sobre isso. Tinha que ter uma significação, se fora dada de cima e não gerada pelos seus próprios desejos. Parecia-lhe, porém, ter escutado uma voz dizer: “Este é o caminho que ajudará a te tornares um instrumento de Deus”. Na noite seguinte mostrou-se uma outra imagem: viu como um ente ce- lestial unia dois fios luminosos. Assim que estavam firmemente unidos, Maomé olhou para baixo, seguindo os mesmos, e divisou duas figuras, das quais emana- vam esses fios; uma era Alina e a outra deveria ser ele. Teve toda a certeza.
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    MAOMÉ - 70 - Nessemomento o ente celestial inclinou-se mais e uniu também os três povos: árabes, sírios e judeus, numa estrutura firme, sobre a qual colocou o nó dado nos fios luminosos. E a voz chamou: “Deverás ser um auxiliador do teu povo!” Na terceira noite não viu mais nada, mas teve a certeza de que a união com a princesa Alina estava na vontade de Deus. Portanto, foi a Abul Kassim e pediu a mão da princesa. O idoso príncipe derramou lágrimas de alegria com o fato de que seu plano urdido há anos iria se tornar realidade. Era desejo de Maomé que a princesa Alina fosse consultada primeiro, para ver se consentia no casamento, porém isso contra- riava todos os costumes e o príncipe não quis permití-Ia. Foi-lhe comunicado que Maomé pedira a sua mão e que o príncipe dera seu consentimento. Depois disso Abul Kassim comunicou aos seus conselheiros que o casamento de sua neta predileta com Maomé, o príncipe de Meca, estava prestes a realizar-se. Todos ficaram surpresos ao ouvirem o vizir ser designado com esse título. Mais surpreendido ficou o novo príncipe. Abul Kassim, porém, explicou-lhe que desde há muito já vinha cogitando propiciar-lhe essa elevação, prestigiando-o assim perante o povo. Maomé, no en- tanto, deveria guardar segredo sobre isso, para que todos julgassem que ele possuía tal título herdado dos seus antepassados e só não o tinha usado há muito tempo. Dessa vez Maomé desejou conduzir a sua esposa ao palácio dos seus ante- passados, e isso condizia com todos os costumes. A antiga e aristocrática moradia foi reformada à maneira mais esmerada. Serviu-se profusamente do tesouro herda- do, para cumular a princesa de pérolas e pedras preciosas. O idoso príncipe alegrou-se com o fato de Maomé não precisar conduzir a noiva para seu lar com mãos vazias. Nesse ínterim surgiu um problema difícil de ser resolvido. Onde e como os dois deveriam se deixar abençoar para o matrimônio? Alina fora criada sem qual- quer crença. O príncipe Abul Kassim era interiormente judeu, porém exteriormen- te não se importava com nenhum culto. Após longas ponderações, Maomé propôs que Abul Kassim pronunciasse a bênção sobre eles em nome de Deus, na sala do trono, e com a presença de todos os dignitários e servidores. Ato contínuo, iriam tomar um cálice de vinho abençoado e orariam conjuntamente. Essa proposta agradou ao príncipe e foi aceita. A mãe de Alina, no entanto, exigiu que a noiva se velasse à maneira dos costumes nacionais para o casamento; um ato simbólico do qual ela não quis abrir mão.
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    MAOMÉ - 71 - Alinaesteve de acordo com tudo. Ninguém pôde notar se o seu jovem co- ração estava comovido por alegria ou receio. Era amável com todos, exceto com Maomé, o qual não chegou a ver antes da hora do casamento, e com o qual nem pôde falar. Do modo como fora idealizado, poucos dias depois foi realizado o enlace matrimonial. A espaçosa sala estava repleta de pessoas até o último recanto. No meio acha- va-se estendido um grosso tapete colorido, sobre o qual ficaram o velho príncipe, Alina e Maomé. Abul Kassim, segurando as mãos direitas de ambos, pronunciou a bênção de Aarão sobre eles. Nesse momento os dois jovens se ajoelharam na sua frente; Maomé levan- tou as mãos e proferiu uma oração em voz alta, assim como surgiu de seu coração comovido e cheio de gratidão. Emocionou a todos que estavam presentes, e muitos perguntaram mais tarde sobre o Deus que é tão grande e poderoso. Um dignitário trouxe então uma pequena taça de ouro com vinho. Maomé pegou-a das suas mãos. Quando ia beber, ocorreu-lhe uma recordação. Levantou-a bem alto e exclamou: - Mestre, o vinho deve vivificar em nós a recordação do sangue que derra- maste por causa das nossas culpas! Quero ser teu servo. Prometo-o perante todas as testemunhas aqui presentes. Em tua memória bebo deste vinho! A seguir passou a taça para Alina com essas palavras: - Bebe também dela, querida, para que dediques toda a tua vida a ele. Jun- tos queremos procurar o caminho que conduz a ele, para que possamos mostrá-lo a outros! Alina afastou levemente a ponta do véu e tomou um gole. A sua fisionomia irradiava uma bem-aventurança que não tinha nada de terrenal. A cerimônia, então, teria findado, mas Abul Kassim tinha ainda outros pro- pósitos. Aproximou-se novamente do casal e segurou a mão de Maomé: - Este, que é caro ao meu coração, como se fosse meu próprio filho, adquiriu pelo casamento direitos reais de filho. Vede nele meu sucessor a partir de hoje! Ele deverá aliviar-me o fardo do governo que aos meus velhos ombros está se tornando muito pesado. Deverá trazer felicidade ao país e ao povo, e levar a bom termo todos os projetos por nós iniciados.Vós, porém, prometei-lhe fidelidade e obediên- cia. Ruidosos e ensurdecedores aplausos ressoaram pela sala. Isso veio inesperado a todos, se bem que alguns já tivessem tido uma vaga suposição de que após o trespasse de Abul Kassim Maomé tomaria as rédeas do governo. Teve, contudo, invejosos, mas nenhum inimigo. Maomé, entretanto, ainda não podia compreender o que esse dia lhe trouxe- ra. Os seus desejos mais ocultos haviam se realizado.
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    MAOMÉ - 72 - Conformeo costume, conduziu sua esposa encoberta de véus numa sun- tuosa carruagem ao seu palácio paterno e aos aposentos preparados para ela, onde encontrou sua própria criadagem, já familiarizada com ela. Mais tarde encontraram-se num dos aposentos de luxo, onde ele apresentou sua esposa a Fatime, que era cinco anos mais nova do que ela, para pedir a sua ami- zade para com a menina sem mãe. As duas abraçaram-se e um forte laço as uniu até a morte. Maomé sentou-se então com elas num canto provido abundantemente de almofadas e tapetes, sobre o qual uma lâmpada colorida irradiava sua luz tênue, e falou de Jesus a elas. Ambas escutaram com olhos irradiantes. Isso lhes parecia tão sagrado e grandioso, que quase não ousavam respirar. Finalmente se animaram a fazer per- guntas. Queriam saber vários detalhes, pelos quais ele passara ligeiramente durante os seus relatos. Com grande prazer deu as respostas, contente por a alma pura de Alina re- ceber a notícia sobre Jesus com tanta naturalidade. Tornou-se então hábito entre eles Maomé contar alguma coisa todas as noi- tes. Muitas vezes falava das antigas histórias dos judeus, do fratricídio e do dilúvio, de José e de Moisés. Mas elas se interessavam mais em ouvir sobre Jesus. Durante essas reuniões desabrochou algo no coração de Maomé que ele não conhecia: o amor puro à mulher pura. Resguardava-a como uma pérola preciosa, para que nenhum influxo de impureza viesse a atingi-la. Durante o dia estava ocupado com tudo o que a sua nova posição exigia. Nas suas tarefas praticamente nada se alterou; mas na qualidade de soberano teve de receber muitas pessoas, manter conversações e ouvir relatórios. Tudo isso eram atribuições que até então Abul Kassim desempenhara sozi- nho. Este, porém, sentiu grande satisfação em poder confiar também isso a Maomé. Viu contente como o seu sucessor com facilidade se engrenava nas atividades do governo e como ele era reconhecido por todos sem discordâncias. Sentia-se feliz, pois Maomé ainda o deixava participar de tudo, narrando-lhe diariamente tudo o que se passava e o que era projetado. Também jamais deixou de solicitar conselhos a Abul Kassim. O cargo de vizir ficou vago. Por algum tempo Abul Kassim esteve vacilante sobre se deveria preenchê-Io ou não. Maomé, porém, apresentou tantas razões em favor disso, que o idoso prínci- pe cedeu, e então propôs Abu Bekr, um homem experimentado. Ele, aliás, era bem mais velho do que Maomé, todavia este já sabia se im- por; sobre isso não teve receios. Maomé mandou chamar o indicado e viu à primeira vista que eles combi- navam mutuamente. Parecia-lhe que suas almas se cumprimentavam, e com prazer
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    MAOMÉ - 73 - ofereceuao surpreendido Abu Bekr o cargo que até então ele mesmo ocupara. Abu Bekr, no entanto, nem pensou duas vezes: o príncipe chamara-o para o seu lado, portanto, atendia ao chamado. Em pouco tempo compreendeu tudo o que fazia parte das suas atribuições e revelou que tinha capacidade para prestar mais serviços. Era extraordinariamente prático e sensato, uma boa complementação para Maomé, o qual, em tudo o que fazia, empregava toda a sua alma. Certo dia Abu Talib compareceu diante do novo príncipe e pediu que admi- tisse seu filho Ali, com cerca de nove anos de idade, a seu serviço. - Ele ainda é um rapaz, deve freqüentar a escola, disse Maomé. Deixa-o estu- dar bastante e então consulta-me mais uma vez. Abu Talib olhou aborrecido para ele. - Tens poucos parentes, Maomé, resmungou, deixa os poucos participarem da tua felicidade. Se achas que Ali é muito novo, então serve-te de mim. Natural- mente, com a respectiva recompensa, acrescentou. -Abu Talib,devo-te gratidão,não me deixes esquecer disso! Na minha infância amei-te. Não sei se os meus olhos estavam vendados, que não enxerguei teus defeitos, ou então eles não se manifestaram. Depois de meu pai, parecias o melhor homem do mundo para mim. Isso se modificou, quando observei a tua ganância incontida. Abu Talib assustou-se e queria dizer alguma coisa. Maomé, porém, não o deixou falar, e continuou energicamente: - Também tua pretensão de hoje deriva da mesma fonte impura,se bem que me queiras fazer crer que isso advém da afeição de parentesco. Se te oferecesse o ordenado de um vizir, sem exigir os serviços inerentes ao cargo, então isso também te conviria. Maomé deteve-se um instante. Abu Talib confirmou: - De fato isso me conviria.Quero ver aquele que pensa diferente.Todos apro- veitariam à ocasião. Não julgues sempre todos os homens pela tua própria Índole. Com muito custo Maomé reprimiu uma crescente sensação de violenta in- dignação. Não deveria entrar em conflito com esse velho. Talvez ainda fosse possível aproveitar o seu saber, e como recompensa pagar-lhe-ia bem. - Escuta, Abu Talib, ainda me recordo bem daquele dia em Halef, quando tive de destruir involuntariamente teus planos. Se estou bem lembrado, pugnaste naquele tempo por uma união entre todos os árabes. Sob ordens de quem agiste? O interrogado estava indeciso sobre se era prudente responder a essa per- gunta. Enfim, sob o olhar inquiridor de quem estava à sua frente, decidiu-se. - Éramos um grupo de pessoas que defendiam a idéia da união dos países
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    MAOMÉ - 74 - árabes.Com fatos concretos queríamos então surpreender Abul Kassim e obrigá-lo a aprovar nossos atos. - E o que aconteceu com essa gente? Ainda tens contato com esses homens? Maomé fez essa pergunta precipitadamente. - Ainda conheço a maior parte deles, confirmou Abu Talib. Mas se eles pen- sam ainda como naquele tempo, isso não posso dizer-te. - Queres reatar as relações desfeitas e sondar o que eles diriam agora sobre a Grã-Arábia? Não terás prejuízo com isso. Para cada informação, cuja veracidade for confirmada, receberás uma quantia em dinheiro, cujo montante será baseado no valor que essa informação representar para o país. Os olhos de Abu Talib cintilaram. O outrora venerado tornava-se cada vez mais antipático para o príncipe. - Vai, agora, e procura trazer em breve informações.Amanhã, porém, manda Ali para cá, a fim de que eu mesmo o veja. Abu Talib despediu-se com demonstrações de gratidão, e Maomé repugnou- se repetidamente. “Senhor Deus, não me deixes ficar como esse”, orou. Subitamente achou que essa prece tinha grande semelhança com a daquele fariseu, do qual Jesus falara. Ficou envergonhado e pediu a Deus que ajudasse o ancião, para que este chegasse a ter um juízo mais lúcido. Passou-lhe despercebido que durante essa palestra não estava fechado o cor- tinado do aposento contíguo, no qual Said escrevia. Então, o jovem entrou. Sempre que Maomé o via, alegrava-se com a sua presença. Amava-o como a um filho e, em colóquio, confiava-lhe muitas coisas que guardava para si. Dirigiu-se a ele com a pergunta: Escutaste o que nós falamos? - Era inevitável, senhor, respondeu Said francamente. - Isso me convém; assim pelo menos posso conversar contigo sobre o assun- to, meu filho. Não é horrível, quando um homem rico cobiça tão desmesuradamen- te dinheiro e bens? - Terás muito incômodo com ele, foi a réplica de Said. - Incômodo? Perguntou Maomé em tom acentuado. Que queres dizer com isso? Deverá fornecer informações, pelas quais será gratificado. Se for possível, evi- tá-lo-ei; não o quero ver mais na minha presença. Abu Bekr que se ocupe com ele. - Não vai ser assim, senhor, sorriu Said de modo argucioso. Possuía ainda o mesmo sorriso fascinante como quando era criança. - Maomé nunca abandonou um homem que necessitasse de ajuda. E Abu Talib precisa de auxílio vigoroso, para que sua alma não venha a afundar no pânta- no da cobiça. Falarás com ele amavelmente, sem repreensões e rancores; admitirás
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    MAOMÉ - 75 - seufilho Ali, pois com isso talvez catives o seu coração, de maneira que ele se deixe guiar por ti. - Como és perspicaz, meu filho, disse Maomé, mas não havia ironia na sua voz. Estou quase receando que assim será e isso me custará muito tempo. - Tanto maior será a tua alegria, quando algum dia puderes olhar para Abu Talib com a mesma veneração de tua infância. - Escuta, Said, gracejou Maomé, os teus homenzinhos também te disseram isso? De onde me conheces tão bem? - Porque te quero bem, senhor, replicou o jovem com seriedade. Meus ho- menzinhos não me precisam dizer aquilo que eu sei. Em outras ocasiões, porém, eles me dizem muitas coisas. Eles são, além de ti, senhor, meus melhores amigos. - Preciso levar-te comigo uma vez, para que contes deles a Fatime e Alina, disse Maomé. Nesse momento interrompeu-se a palestra íntima. Vieram os conselhei- ros e o soberano teve de concentrar todos os seus pensamentos no que eles desejavam dele. No dia seguinte compareceu Ali. Um rapaz pálido, magro, muito crescido, no qual apenas os olhos radiantes eram belos. Maomé recebeu-o com amabilidade e encetou uma conversa simples com ele. Admirou-se ao notar que o menino de nove anos tinha uma instrução e uma erudição muito além da sua idade. Ao Iado da inteligência aguda, parecia harmoni- zar-se coerentemente uma fina intuição, tal como Said. Maomé chamou Said e pediu-lhe que levasse Ali, para dar-lhe alguma ocu- pação. Decorridas algumas horas, solicitou a presença de Said para indagar as suas impressões. Também este estava surpreso; havia simpatizado com o rapaz. - Seria um prazer para mim, senhor, se eu pudesse fazer por ele o que fizeste por mim, pediu Said. Deixa-o ser meu auxiliar, pois na escola do templo ele nada mais tem a aprender. Ao mesmo tempo quero contar-lhe de Cristo e instruí-lo nos assuntos de fé, assim como tu me ensinaste. Eis justamente o que Maomé queria. Ali foi indagado se estaria disposto a prestar pequenos serviços a Said. Estava muito grato com a decisão de Maomé em querer fazer uma experiência com ele. Sentiu um grande acanhamento perante o príncipe, enquanto que com Said familiarizou-se rapidamente. Então foi feita a comunicação a Abu Talib de que seu filho Ali fora admitido como subescriturário no palácio do príncipe e que dali em diante deveria morar num pequeno aposento ao lado de Said. Com essa notícia, Abu Talib compareceu apressadamente para agradecer. Foi recebido amavelmente por Maomé, o qual fê-lo relatar tudo o que nesse meio tempo investigara, e estipulou um preço fixo para cada informação aproveitável.
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    MAOMÉ - 76 - Algunsdias mais tarde, Maomé palestrou com o velho príncipe sobre tudo o que soube de Abu Talib. Descobriu então que Abul Kassim sempre esteve a par das aspirações daquele grupo de homens e que consentira tacitamente nas suas atividades. - Verás que também tu, com um conhecimento mais profundo da alma do nosso povo, serás induzido a unir tudo o que é de origem árabe. Pelo caráter, o ára- be supera amplamente o sírio. Tivesse ele que submeter-se ao domínio deste, então o resultado seria um interminável atrito, no qual esgotar-se-iam as melhores forças. Se, pelo contrário, o sírio for sujeitado à disciplina árabe, então ele poderá alcançar uma evolução nunca imaginada. Não te esqueças disso. - E os judeus? Perguntou Maomé, hesitante. - Os judeus deixaram de ser uma nação desde que crucificaram Cristo. Na- quele tempo estiveram sob o domínio meramente exterior dos romanos, porém em sua vida como judeus e em suas crenças, ninguém interferia. Agora estão dispersos entre diversos povos. Tu mesmo o viste em Jerusalém. Seria bom se o povo dos judeus ficasse novamente debaixo de uma mão forte. E se este dominador tiver fé em Deus, então isso será a única possibilidade de salvação para esse povo decaído de uma elevada missão. Maomé ficou admirado ante a sabedoria que aí se lhe desvendou. - Estás surpreso de me ouvir falar desta maneira, Maomé, disse Abul Kassim bondosamente. Acredita-me que meditei muito durante minha longa vida. Nada me interessou tanto como tirar conclusões sobre o destino dos povos, até o ponto em que me foi possível obter dados sobre isso. Sempre se me descortinou a forte direção de Deus, enquanto um povo trilhava o caminho da pureza e da religio- sidade devotada à Luz. Porém, quando chegava ao auge, então ficava arrogante, presunçoso e seguro de si mesmo, e por isso chegava a caminhos escorregadios que o levavam irremediavelmente ao abismo. - Admiro a tua sabedoria, príncipe, disse Maomé em sua maneira franca. Mas não compreendo por que não uniste os três povos, já que tinhas a certeza de que isso seria benéfico para os três. - Não havia chegado ainda o tempo oportuno, meu filho. Pude esperar. Tam- bém isso aprendi. Então me compenetrei de que é improfícuo querer abrir o botão para forçar a flor a desabrochar prematuramente. A flor murcharia. Assim aprendi a tornar paciente minha alma. Sei que realizarás todos os meus planos, quer os pronunciados, quer os guar- dados em sigilo. Para mim basta ter preparado o terreno. - Príncipe, pai, disse Maomé profundamente impressionado, como és sábio e esclarecido! Ajuda-me para que eu me assemelhe a ti. - Homem nenhum te pode ajudar nisso; a vida é que te deve ensinar, assim
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    MAOMÉ - 77 - comofoi ela minha mestra. Temos uma grande afinidade interior. Precipitei-me na vida, assim como tu. Também do mesmo modo que tu, não pude tolerar que os homens fizessem algo errado. Acredita-me que exige mais amor deixar que os homens sigam primeiramente um caminho errado, do que querer à força que eles se coloquem no certo. - Isso ainda não compreendo, confessou o mais moço. Se um homem come- te erro, então é minha obrigação chamar-lhe a atenção, para que ele o evite. - Se o erro implicar um grande perigo para quem o comete e para os outros, nesse caso pode ser tua obrigação. Em caso contrário é melhor que deixes o homem agir errado e aprender com as conseqüências de suas ações. O que for aprendido desse modo não será esquecido tão facilmente. Deixa-me explicar-te, referindo-me a um exemplo insignificante. Eu fui tes- temunha de que há poucos dias arrancaste do jovem Ali a tinta nanquim, que ele colocara em cima dos manuscritos, querendo carregá-Ia juntamente com estes nos braços. Impediste assim que ele derramasse o líquido. Encarou-te atônito e não compreendeu por que não quiseste deixá-Io carregar o recipiente. Ontem deparei com Ali ao levar novamente esses escritos e a tinta, de um aposento para o outro. Said observou-o. Não disse nenhuma palavra, mesmo quan- do o tinteiro estava prestes a virar. Calmamente retirou alguns trapos de uma gave- ta, os quais ele guarda aparentemente para esses fins, e esperou. A desgraça acon- teceu: a tinta escorreu em cima do tapete. Said estava logo à mão e acudiu Ali para atenuar o dano. Soluçando, o rapaz disse: “Agora sei por que há dias o príncipe me arrancou a vasilha com tinta. Nun- ca mais a carregarei assim”. Vês que o rapaz aprendeu mais com o incidente do que com a tua precaução. - Agora te compreendo. Lembrar-me-ei disso, sempre que me der vontade de corrigir. Também compreendo agora por que me deixaste agir muitas vezes, onde teria bastado uma palavra tua para que eu me acautelasse de um passo precipitado. Quanta preocupação te dei! - A alegria prevaleceu, meu filho. Se agora ainda algo me preocupa por tua causa, é então a maneira pela qual retrocedes diante dos desejos de outrem. Altru- ísmo é bom, porém não deve degenerar em fraqueza. Pensa em Abu Talib. Tivesses insistido energicamente em que como herdeiro a ti cabia a herança, então talvez houvesse um rompimento entre vós; mas ele teria sido obrigado a fazer um exame de consciência. Pensa na tua primeira mulher, a cujo pedido de casamento não ousaste dar uma resposta negativa, para não ofendê-la. Deves te impor, não por despotismo, mas para sustentar o teu direito.
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    MAOMÉ - 78 - Maoméquis agradecer ao ancião, .mas este começou imediatamente a falar de outras coisas e cortou com isso toda a possibilidade de retomar ao assunto. E poucos dias depois Abul Kassim adormeceu tranqüilamente, sem se des- pedir. O povo manifestou sincero pesar pelo passamento do benquisto príncipe; entretanto, escutava-se com freqüência: “O príncipe Maomé é o melhor e o maior. Ditosos nós, que o temos como soberano”. Apesar da grande veneração que os árabes dedicavam à velhice, eles encon- travam mais agrado na juventude vigorosa. Maomé tinha, a par da jovialidade, a harmoniosa beleza de sua aparência e o brilho radiante que emanava de seus olhos. Vitoriosamente, fascinava os corações. Em toda parte encontrou amor; o mais profundo e límpido, porém, no seu lar. Alina tornou-se uma mulher na mais encantadora inconsciência, entenden- do com fina intuição o modo de ser do marido. Há muito ele já conversava com ela assuntos inerentes ao bem-estar do povo. Maomé encontrou na mulher interesse e conselhos valiosos. Alina preocupou-se, sobretudo com as mulheres. Poucos contatos teve com as mulheres do povo, contudo, percebeu intuitivamente que a pureza e a verdade estavam prestes a desaparecer delas. Muitas palavras de suas serviçais davam-lhe o que pensar. Perguntou ao marido, e soube que as suas preocupações tinham fundamen- to. Então meditou sobre o que poderia ser feito pra sanar isso. - Poderias decretar uma lei, pela qual as mulheres deveriam manter-se com- pletamente afastadas dos homens, enquanto solteiras? Perguntou-lhe. Desde muito que existe essa lei, minha querida, explicou Maomé, mas não é respeitada. São poucas as mulheres que a cumprem. O povo ri e zomba delas. Nesse caso deverias publicá-Ia de novo, meu marido. Em ti o povo tem fé. Faze-os ver como é prejudicial a toda a nação, quando as mulheres ficam degrada- das. As mulheres tornam-se mães, acrescentou Alina, enrubescendo. Eu o sei, mãezinha, disse Maomé com ternura. E desde já me alegro com o botão que minha flor pura em breve poderá dar-me. Ficarás triste, se não for um menino? Quis saber. Maomé assegurou que uma segunda Alina lhe encantaria mais que um herdeiro. E realmente ela veio, a filhinha, o retrato fiel da mãe, a qual recebeu o nome de Fahira. Como o príncipe Abul Kassim teria se alegrado com essa criança! Maomé muitas vezes se lembrava do velho príncipe. Quando a criança estava para ser abençoada, então os pais se viram novamen- te diante da pergunta: a quem deveriam se dirigir nesse sentido. Maomé resolveu o dilema, porquanto ele mesmo implorou a bênção de Deus sobre a cabeça da criança.
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    MAOMÉ - 79 - Depoisdisso, tornou-se-lhe evidente que não havia coisa mais importante do que começar finalmente com o aperfeiçoamento da doutrina judaica. Teve como sua missão complementar a crença judaica com a crença cristã, completa-la, mas daquela mesma maneira como Jesus o fez com seus discípulos. Ele derrubou tudo o que foi feito pelos homens em dogmas e mandamentos, e deu em lugar aquilo que viera da Luz. Maomé queria proceder de idêntica maneira. Muitas vezes passou noites orando para encontrar o certo. Todas as suas atuações no governo foram impregna- das desse pensamento e todos os seus atos determinados no mesmo sentido. Aos poucos, vagarosamente, viu um começo daquilo que imaginava em es- pírito. Percebeu que deveria primeiramente livrar o judaísmo de todas as escórias. Onde quer que tocasse, desmoronava-se algo. As tradições estavam deterioradas e os dogmas, superados. O que sobrou foram os mandamentos, os quais outrora Moisés teve a per- missão de trazer ao seu povo; também as profecias sobre a vinda do Messias, as quais Maomé julgou como cumpridas pela vinda de Jesus à Terra e por isso as dei- xou de lado. Ansiava poder falar com alguém sobre tudo isso, mas não era para ser assim. Sozinho com Deus,sua alma deveria achar aquilo que precisava para si e para os outros. Certa vez ele entrou no assunto, numa conversa com Abu Bekr. Este replicou-lhe: - Se queres ouvir meu conselho, meu príncipe, então deixa-me dizer-te que teu êxito dependerá essencialmente da divergência dos povos nos assuntos de cren- ça. Acautela-te de uni-los primeiro espiritualmente. Quando tiveres consolidado o teu domínio sobre os povos circunvizinhos, quando eles estremecerem diante do teu poder, então poderás dar-Ihes alimento espiritual, tanto quanto te aprouver. Antes, não! Então Maomé se convenceu de que o seu conselheiro não o compreendia no sentido mais profundo, e fechou sua alma diante dele. Para ele foi uma desilusão, que todavia não pesou muito, porquanto em casa encontrava compreensão. Muitas vezes ele levava Said e também Ali para o círculo de sua intimidade, e, assim como antes falava de Cristo, agora relatava sobre a crença dos judeus e de tudo o que pensava sobre isso. Audição compreensiva afluiu-lhe retroativamente, como estímulo para investigações cada vez mais profundas. Revelou-se que em Ali o judaísmo predominava mais. Para os dogmas mais incompreensíveis ele achava uma explicação, a qual lançava luz sobre os mesmos, por outros ângulos. Se apesar disso, esses dogmas tivessem que ser condenados, por terem sido demasiadamente humanizados, isso agora ocorria na certeza de que os mesmos ha- viam sido estabelecidos sob a compulsão de alguma necessidade e com boa vontade.
  • 80.
    MAOMÉ - 80 - Namaior parte foram então mais tarde interpretados erroneamente. Said sabia muito acerca do judaísmo, mas isso nada significava para a sua alma. Também não era cristão, mas sim, como discípulo de Maomé, colocava-se entre as duas confissões, assim como foram instituídas pelos homens. Tinha anseio de que o seu senhor trouxesse finalmente o equilíbrio. Fatime e Alina tornaram-se por fim servas convictas de Jesus. Tinham sua doutrina e seu modo de pensar próprios, baseados exclusivamente nas palavras do Filho de Deus, assim como Maomé as transmitira. Também elas se regozijavam de que afinal a “nova doutrina”, como chama- vam aquilo que agora deveria surgir, seria dada à humanidade. - Só não te esqueças da participação de nós, mulheres, repetia a graciosa voz de Alina. E enquanto Maomé se dedicava com vontade pura àquilo para o que sua alma o compelia, sem pressentir que era justamente essa a sua missão, de acordo com a vontade de Deus, segurava exteriormente as rédeas do governo com mão firme. Nenhum acontecimento era pequeno demais, para que não fosse por ele ob- servado e abrangido em suas conseqüências. A atuação de Abu Talib chegou outra vez a tomar amplas proporções.Achou de novo prazer nas suas palestras com o povo e na influência sobre os outros. Já nem se lembrava de que era um emissário do príncipe; como outrora, procurou tirar proveito disso, pretendendo depois impô-Io ao soberano. Recordando-se da advertência de Abul Kassim, Maomé tolerou por um tem- po esse modo de agir. Então achou que essa atividade do tio era uma das coisas que poderia causar males e que por isso deveria ser impedida em tempo. Mandou vir Abu Talib à sua presença e pediu-lhe explicações. O ancião não desmentiu; pelo contrário, confessou-se cheio de orgulho a favor de tudo o que lhe fora censurado como erro. - Espera o que iremos trazer-te, Maomé, disse com ares de protetor. Nós somos mais velhos do que tu e sabemos melhor julgar o pensamento do povo. - Isso pode ser, respondeu o príncipe indulgentemente, mas onde um prín- cipe é a maior autoridade sobre um povo, compete a ele governar sozinho. Todos os outros têm de abster-se disso, se não quiserem atrapalhar. Peço-te, portanto, que suspendas as tuas atividades. Ouve-me, Abu Talib, rogo-te. Poupa-me ter que for- çar-te a isso. - Sabes ainda como perturbaste minha reunião em Halef, sobrinho? Enco- lerizou-se o velho. Da mesma maneira queres fazê-Io novamente. Outra vez todos os esforços e os trabalhos empenhados serão em vão. Desta vez não o suportarei. Se não quiseres como nós queremos, então procederemos sem ti, e tu poderás ver sozinho para onde te levará a tua ambição de domínio.
  • 81.
    MAOMÉ - 81 - Nesseinstante Ali entrou no aposento. Ele quis retirar-se imediatamente, após entregar o escrito que motivou a sua vinda. Maomé, no entanto, chamou-o para seu lado: - Podes repetir na presença do teu filho o que acabaste de dizer, Abu Talib? Perguntou. O ancião enrubesceu, sacudiu a cabeça e deixou a sala após breve saudação. - Será bom, Ali, que hoje te ocupes com o teu pai, propôs Maomé. A sua mente está infestada por pensamentos de toda espécie e talvez te seja possível dispersá-Ios. A noite, Ali compareceu à residência de Maomé e comunicou que não encontrara o pai em nenhum lugar. Aparentemente ninguém podia dar notícias dele. Nada, porém, podia ter-lhe acontecido, porquanto dois fiéis serviçais e mui- tos objetos tinham igualmente desaparecido. Assim ficou por muito tempo. Por ora ninguém sabia qualquer coisa sobre Abu Talib. Maomé mudou-se do palácio paterno para o palácio do governo. Alina e Fahira naturalmente tiveram que acompanhá-Io. Para Fatime ele quis organizar uma corte própria, no seu antigo lar. Mas defrontou com a resistência de toda a sua família. Alina e Fatime não queriam separar-se. Então consentiu que sua filha também fosse junto com eles. Bem-fadados anos, repletos de atividades, seguiram-se. O herdeiro conti- nuou-lhe negado; a Fahira juntou-se mais uma irmãzinha, Jezihde, mas a felici- dade caseira do príncipe era tão grande, que ele não queria desejar coisa melhor pura si. Abu Bekr insistiu em que se desse início à conquista da Síria e da Palestina. Os povos estariam maduros para a anexação; a resistência dos mandatários nesses países deveria ser quebrada pelo poder das armas. Maomé não quis saber disso. Havia se consultado em prece e recebido a resposta de que o tempo não chegara ainda. Os países cair-lhe-iam nas mãos, como frutas maduras. Enquanto isso, ele deveria esperar com paciência e sossego. Na sua maneira franca e honesta participou esse aviso a Abu Bekr, o qual Maomé tinha na conta de crente em Deus, dado o seu modo de ser. Novamente teve de passar por outra decepção com ele. O vizir atreveu-se a dar uma risada alta, quando o príncipe lhe disse que, em vista desse aviso, ele queria esperar obedientemente. - Príncipe, és um tolo! Exclamou, não menos franco. Em Maomé subiu uma efervescência, mas dominou-se. Por um instante pa- receu-lhe ver Abul Kassim, o qual lhe fazia uma advertência para que não tolerasse nada. Tão depressa como a aparição veio, também desapareceu.
  • 82.
    MAOMÉ - 82 - Indignado,o príncipe dirigiu-se ao seu conselheiro: - Abu Bekr, não te esqueças de que és vizir, disse incisivamente. Teu elevado cargo exige de ti um comportamento, o qual neste instante não soubeste guardar. Convém-me que tu mesmo leves a mensagem que eu queria mandar hoje para Yatrib e que recuperes teu equilíbrio no caminho. O repreendido estava revoltado intimamente.Quanto mais sentia que merecia a censura, tanto mais aumentava a sua ira contra o príncipe, mais moço do que ele. Deixou o aposento após rápida despedida, e uma hora depois já passava a cavalo pelo portão da cidade, com pomposo séquito. Maomé sentiu-se aliviado. Ficou admirado de si mesmo por lhe ter sido tão fácil impor a sua autoridade. Certo é que o espírito transfigurado de Abul Kassim o ajudara nisso, pensou, e ficou grato. Said, o qual através do cortinado meio aberto tornou-se testemunha invo- luntária da palestra, teve receio de que o vizir pudesse ficar um inimigo ferrenho do príncipe. No entanto, ao ver o seu protetor tão bem-disposto, não ousou expressar por palavras a sua suspeita e resolveu ficar duplamente vigilante. Maomé, porém, esqueceu-se logo do melindroso episódio, porquanto em casa lheesperavanovidade.Alina,quejádesdealgunsdiaspretendiaaparentementetratarde alguma coisa com ele, como não se oferecesse oportunidade, pediu-lhe uma entrevista. - Já tenho de me dirigir ao príncipe, por não ter o marido tempo para mim, disse pilheriando. Então ela lembrou-lhe que Fatime já há tempo alcançara a idade de casar, sem que o pai tivesse se interessado por isso. Estaria na época de arranjar-lhe um marido, o qual ao mesmo tempo pudesse servir de sucessor de Maomé, caso não viesse mais um filho e herdeiro. - Onde poderei achar esse marido? Perguntou Maomé sinceramente sobres- saltado. Tenho tantas outras coisas para fazer! Alina teve de rir. - Então é bom que outros cuidem para ti, atormentado príncipe, exclamou quase petulante.Fatime e eu já resolvemos o problema.Apenas precisas dar a tua anu- ência. Achamos um jovem de uma família nobre, o qual ama sinceramente Fatime... Maomé interrompeu-a. - Onde ele teve a oportunidade de ver minha filha? Não quero esperar que alguém tenha arranjado um encontro entre os dois! - Tu mesmo fizeste com que se conhecessem meu amigo, retrucou Alina in- diferentemente. Não aconteceu coisa alguma de que tu não tivesses conhecimento. Para que não fiques indignado, devo dizer-te que se trata de Ali, teu sobrinho. Extremamente estupefato Maomé olhava para a interlocutora. - Ali? Disse admirado. Ali? Ele é muito feio para a nossa beldade.
  • 83.
    MAOMÉ - 83 - -Isso é tudo o que tens a objetar contra ele, meu amigo? Perguntou Alina. A sua aparência externa não importa. Seu coração é fiel como ouro. Antes de tudo, ele é fiel a ti; daria sua vida por ti! - E Fatime o acompanharia? Perguntou Maomé, ainda incrédulo. - Ela terá prazer em tornar-se sua esposa, confirmou a princesa. Podes então ceder aos dois teu palácio paterno para morada; porquanto, à habitação de Abu Talib, naturalmente não poderá levar sua esposa. - Do seu pai terá de separar-se, se quiser entrar em relações mais estreitas co- migo,disse Maomé prontamente.Abu Talib não é mais meu amigo.Ele trama traição, isso eu sei, se bem que desde então nada chegou ao nosso conhecimento a respeito. - Fica certo de que Ali nunca amou o seu pai. Não lhe será difícil separar- se dele. Também Ali, o qual Maomé mandou chamar na mesma hora, assegurou isso. Muito feliz em poder ter Fatime como sua esposa, e com isso poder vincular-se com mais firmeza ao príncipe, a quem admirava acima de tudo, teria se sujeitado a tudo o que se exigisse dele. Então foi realizado o casamento da filha do príncipe com Ali, que atin- gira uma posição mais alta, a de conselheiro. Na sua família dominava pura felicidade, porém sobre a vida pública Maomé viu de tempos em tempos desli- zarem nuvens sombrias, que pela freqüência com que apareciam, davam-lhe o que pensar. Abu Bekr ficou afastado por tempo demasiadamente longo da corte. Já deveria ter voltado de Yatrib, porém nada se soube a seu respeito. Maomé relu- tava em mandar investigar sobre ele. Tinha toda a certeza de que nada aconte- cera ao vizir, mas que outras razões faziam-no manter-se afastado. Sem demora haveria de chegar qualquer notícia dele. Entrementes nota- va-se a influência de um outro. Abu Talib surgiu logo que teve conhecimento da notícia do casamento de seu filho. Queria glorificar-se no esplendor de seu filho e por meio dele conseguir aquilo que ambicionava em vão. Encontrou uma estranha recepção. Seu filho declarou-lhe não poder mais reconhecer como pai um inimigo do príncipe. Não queria receber nada da sua herança, e por outro lado era seu desejo que também o pai não exigisse mais dele qualquer obrigação filial. Furioso, Abu Talib deixou o palácio dos seus antepassados, no qual com muito gosto teria se instalado de novo. Permaneceu então em Meca, às ocultas, e começou a promover agitações clan- destinas.Empregoutodaasuaeloqüênciaparainstigarosânimoscontraopríncipe.Em pouco tempo viu que nada conseguiria com a população mais humilde, porque esta se atinha com tenacidade a Maomé, no qual via o legítimo e competente dirigente.
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    MAOMÉ - 84 - Tambémos nobres, inicialmente, não se deixaram induzir a empreender qual- quer coisa contra o soberano, o qual em princípio lhes era de todo conveniente. Então, Abu Talib dirigiu-se aos numerosos comerciantes da cidade. Para isso usou uma tática extremamente astuciosa. Havia em Meca uma relíquia. Ninguém sabia a quem fora consagrada outro- ra e ninguém sabia que idade tinha. Era uma construção quadrada, chamada Caaba, onde se encontrava emparedada uma pedra preta, que era venerada. A lenda dizia que outrora ela havia sido branca, mas pelos pecados dos ho- mens tornara-se escura. Esse santuário era aberto apenas três vezes ao ano. Todos os anos era reves- tido por dentro com precioso tecido de seda, para o qual os sacerdotes fetichistas, que zelavam pela relíquia, faziam coletas durante o ano todo. Cada ano era um comerciante estabelecido em Meca que fornecia os tecidos e com isso lucrava abundantemente. Como nas duas primeiras aberturas, uma vez para os homens e outra para as mulheres, acorressem crentes devotos de todas as partes do país, esse santuário tinha uma significação enorme para o bem material dos habitantes de Meca. Sobre isso construiu Abu Talib o seu plano astuto. Habilmente insinuou aqui e acolá que Maomé se considerava um enviado do Deus dos judeus e por ordem do mesmo cogitava a introdução de um novo culto. Assim que tivesse concluído essa tarefa, ele naturalmente proibiria todo cul- to aos ídolos no país e fecharia a Caaba para sempre, se é que não a destruiria até. Nesse momento teria chegado ao fim a prosperidade de Meca. Todo o comércio confluiria então para a cidade mais progressista de Yatrib. Inicialmente, os homens riram-se dessa profecia. Abu Talib, porém, não de- sistiu de falar sempre sobre isso e em toda parte. De tudo o que sabia de Maomé, ele tirava proveito habilmente. Logo que Abu Bekr foi mandado a Yatrib, disse: - Podeis ver sozinhos em que alta conta ele tem essa cidade. O próprio vizir dele foi mandado para lá. Provavelmente a mensagem é muito importante para um simples cavaleiro. Tantas vezes repetidas, essas palavras acabaram penetrando nas mentes dos homens. Eles mesmos as repetiam e começavam a crer nisso. Nesse tempo Maomé encontrava às vezes desconfianças ou reservas, ele, que estava habituado a que as almas se lhe abrissem sem retraimento. Assim que Abu Talib começou a sentir o seu êxito, não se conteve, teve de avançar mais. Então dirigiu seu intuito para os judeus, dos quais, aliás, também muitos eram comerciantes. Descreveu-Ihes em primeiro lugar o afastamento da afluência de forasteiros, que traziam dinheiro à cidade.
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    MAOMÉ - 85 - Tambémlhes revelou que Maomé estaria em vias de desfazer os dogmas santificados e de substituí-Ios pelo cristianismo. Com isso incitava os judeus, tanto os crentes como os descrentes. Said foi o primeiro que descobriu quem ativava a agitação na cidade. Porém tudo era de tão pouca evidência, que não se podia acusar ninguém de infidelidade ou revolta. Não restou outra coisa senão estar preparado para tudo e aguardar. Nesse tempo Abu Bekr regressou. Ficara afastado mais de um ano. Um ato desmesurado para um vizir. Maomé não sabia como deveria recebê-lo e pediu orientação ao mensageiro de Deus. “Abu Bekr vem arrependido. Não lhe dificultes a volta para ti”, aconselhou a voz celeste. “Terás doravante nele um servo incondicionalmente fiel. Necessitas do contraste que ele representa para o teu modo de pensar.” Habituado a obedecer sem reservas às ordens de cima, dominou também des- sa vez a sua indignação e recebeu o regressante com naturalidade e afabilidade, como se tivesse estado ausente apenas por poucos dias. Isso fez com que o outro, tão deprimido pela culpa, se sentisse mais abalado ainda. Jogou-se ao chão diante do príncipe e pediu o seu perdão. Maomé, no entanto, ajudou-o a levantar-se e disse amavelmente: - Nada tenho a desculpar-te. Se Deus te perdoou, então entre nós está tudo bem. Evidenciou-se que Abu Bekr pelo menos não desperdiçara seu tempo. Até Ya- trib haviam chegado os boatos espalhados por Abu Talib, porém ele os refutara ener- gicamente e conseguira debelar dos corações dos habitantes de lá todas as dúvidas. Yatrib estava afeiçoada ao príncipe com redobrada fidelidade. Esse fora o fruto externo da sua permanência.O interno,o mais valoroso,con- sistiu em que a incansável defesa dos planos e da doutrina de Maomé fê-lo penetrar profundamente em ambos. Estava convicto de que tudo aquilo que até então julgara como fantasia utópi- ca de um homem moço era uma atuação da vontade Divina.Estava compenetrado da necessidade da crença no Deus Único! Com a singeleza que lhe era peculiar, ele falou com Maomé sobre isso. Este sentiu-se feliz por sua alma ter sentido certo, quando no primeiro encontro com Abu Bekr recebeu-o amistosamente. Interrogado sobre o que mais havia se passado durante sua ausência, o vizir revelou que havia contraído matrimônio com uma moça de família nobre,havia pou- cas semanas. Também isso alegrou o príncipe, que convidou Abu Bekr a apresentar em breve a sua esposa a Alina. Com o vizir ao seu lado, pôde Maomé dedicar-se tanto melhor ao aperfei- çoamento da doutrina. Constatou com isso que não podia achar clareza satisfatória
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    MAOMÉ - 86 - emmuitas perguntas que surgiam nele. O que num dia lhe parecia claro, no outro já estava envolto em neblina. Alina,a quem contou o ocorrido,disse pensativa: - Necessitarás de um período de amadurecimento no silêncio e na solidão, meu amigo. Pensa em Moisés; quanto tempo esteve no deserto antes que seu espírito ficasse preparado ao ponto de poder ser portador da Verdade e auxiliador. E também Cristo se retirou do povo,antes de lhe trazer aVerdade. - Como devo realizar isso, Alina? Perguntou Maomé, apenas meio convencido. Minhas obrigações como príncipe não me largam nem um dia. - E,no entanto,estarás livre assim que Deus o desejar,replicou a esposa. Tal como a água,que rompendo o dique num lugar,aflui ininterruptamente,cor- roendo a barragem, assim cresceu a insubordinação em Meca, apesar do rigor de Abu Bekr.Doishomensqueelesurpreendeupronunciandodiscursossubversivos,mandou-os enforcar sumariamente,porque sabia que Maomé os indultaria,se fosse consultado. Esse exemplo intimidou o povo apenas por pouco tempo,e logo foi esquecido. Mais do que nunca o príncipe se apresentava em público. Em toda parte aonde chegava, não encontrava mais a serena confiança dos anos passados. Chegou ao ponto de acontecer que a algumas perguntas receberia respostas obstinadas, e até nenhuma ás vezes. Procurou o erro no seu próprio procedimento e dirigiu-se em oração a Deus, o Senhor, para que lhe mandasse dizer o que deveria modificar em sua vida. Por longo tempo não obteve resposta e julgou ver nesse silêncio a ira de Deus. Não desistiu de continuar a orar e a suplicar. Então, repentinamente, quando menos esperava, soou a voz celeste, a qual era a orientadora de sua vida: “Maomé, tranqüiliza-te intimamente. Não cabe a ti a culpa daquilo que ago- ra sobrevirá à tua cidade. As próprias criaturas são culpadas disso. Assim tem de acontecer, a fim de que seja preparado o terreno para a tua doutrina, a qual tens permissão de trazer ao povo. Reúne os teus perto de ti e segue com eles para Yatrib, onde residireis com segurança. Abu Bekr, porém, deixa aqui. Rebentará uma revolta sangrenta na cida- de. Os adeptos do fetichismo combaterão os judeus, e os judeus os cristãos. Todos dirão, no entanto, que tudo acontece por tua causa. Não te importes e permanece tranqüilo. O que aqui terá de acontecer, será executado por Abu Bekr. Depois disso ele seguirá com os seus guerreiros para juntar-se contigo. Então confia aos seus cuidados todos os que te são caros e retira-te para as montanhas, na solidão. Lá, o Senhor preparar-te-á, a fim de que reconheças o que agora ainda está oculto aos teus olhos”.
  • 87.
    MAOMÉ - 87 - Nessemomento Maomé teve a resposta de tudo o que o preocupava. Tam- bém recebeu instruções claras. Cheio de gratidão, louvava a sábia e bondosa orien- tação de Deus. Na manhã seguinte deu a Alina notícias daquilo que soubera. Além dela, confiou a revelação a Mustafá, Ali e Said. Enquanto Ali e Said guardavam os escritos mais importantes em lugares secretos, e ultimavam para si e para a família de Ali todos os preparativos para a viagem, Mustafá e Maomé tratavam de abrigar os tesouros no lugar oculto, numa parede do palácio dos Koretschi. Procederam com tanta cautela, que nem a numerosa criadagem, nem Ali, o qual se encontrava nos aposentos de cima da casa agora por ele habitada, notaram qualquer coisa. No terceiro dia estava tudo pronto. Maomé mandou os seus, juntamente com Ali, Mustafá e a criadagem mais velha, na frente. Fizeram circular rumores de que em Meca o calor era demasiado para a delicada saúde das mulheres e crianças. Teriam de ser levadas para as montanhas. Estando descansando nesse meio tempo em Yatrib, quem levaria a mal se realmente algo disso se tornasse público? Somente então, Maomé falou com Abu Bekr. Disse-lhe que julgava mais acertado deixar por um tempo a cidade, onde a sua presença estava provocando apenas perturbação. Foi o que o vizir já havia pensado; apenas não ousou propor, para que o príncipe não julgasse que ele, o vizir, queria impor-se. Maomé tranqüilizou-o sobre esse particular e deu-lhe plenos poderes para durante a sua ausência, após madura ponderação, agir como e onde achasse de bom alvitre, e se necessário intervir. Nessa ocasião, tiveram que encontrar exteriormente um motivo para a via- gem de Maomé. Também para isso Abu Bekr sabia dar conselhos. Há pouco tempo haviam chegado mensageiros de Yatrib, para pedir ao soberano que fosse construí- do também na cidade deles um santuário. Maomé primeiramente teve de recusar- Ihes. Prometera, no entanto, que em breve iria pessoalmente debater o assunto com os habitantes. Isso agora poderia ser usado como pretexto. Quanto à ordem recebida numa das noites anteriores, também não contou nada a Abu Bekr. Aprendeu que o melhor era calar-se. Maomé não se separou de bom grado da cidade pela qual se afeiçoara. Quando tornaria a vê-Ia? Se a revolta deflagrasse, nesse caso poderia acontecer de não ficar mais nenhuma pedra sobre a outra. Enfim, também isso se daria assim como a sábia vontade de Deus determinara. Acompanhado somente de Said e de dois serviçais, saiu Maomé despercebi- do, cavalgando pelo portão. Quando chegou à verdejante planície, fez os cavalos andarem a trote e nesse
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    MAOMÉ - 88 - momentoo seu coração foi tomado de firme esperança e alegre iniciativa. Estava agora indo de encontro à sua missão! Deus, o Senhor, ainda quis primeiro deixar o seu instrumento tornar-se polido, para que ficasse bem utilizável. Isso era apenas motivo para alegria. Em Yatrib encontrou os seus, bem alojados num antigo, mas bem-con- servado palácio, o qual, após a morte do seu último dono, passou a ser proprie- dade da cidade. A população recebeu o seu príncipe com jubilosas aclamações. Naturalmente não foi revelado que fugiam, porém, deixou-se que continuassem a crer que os seus familiares deveriam em breve ser levados mais adiante, às montanhas; ele, contudo, queria pessoalmente ter a oportunidade de conhecer os seus fiéis em Yatrib. Contou-Ihes que estava chegando à meta de dar a todo o reino da Arábia uma doutrina em comum. Realizado isso, também Yatrib receberia um santuário belo e magnífico, no qual os habitantes poderiam adorar a Deus. Havia tanta coisa a tratar com os administradores da cidade, os quais queriam aproveitar bem a presença do seu soberano, que os dias se passaram muito depressa. Vieram mensageiros fiéis, mandados por Abu Bekr, os quais traziam notícias sobre os distúrbios cada vez maiores em Meca. Um dia, porém, também os mensagei- ros não apareceram mais; Maomé sabia que o inevitável acontecera. Ali e Said pedi- ram licença para poder voltar e lutar ao lado de Abu Bekr, caso fosse necessário. Com muito custo Maomé os segurou. A presença deles aqui era necessária para proteger as mulheres, porquanto em breve chegaria o tempo em que ele deve- ria deixá-las. Comerciantes que se encontravam em viagem trouxeram a notícia de que em Meca estourara uma sangrenta revolta, a qual estava sendo reprimida com inflexível rigor por Abu Bekr. A seguir vieram outros que contaram de incêndios de grandes proporções devastando a bela cidade. Depois não veio mais ninguém. Yatrib parecia achar-se interceptada, em di- reção ao sul, do restante do reino. Ninguém se encaminhava para lá e ninguém vinha de lá. Assim era da vontade de Deus, que queria preparar as veredas para o Seu portador da Verdade. Certa noite veio a ordem para Maomé: “Chegou o tempo, servo do Todo-poderoso, para que deixes os teus. Bem a sós, dirige-te a cavalo em direção às montanhas; teu caminho te será mostrado. Leva provisões para dez dias, e provê-te com vestuário duplo. Tudo isso podes carregar despreocupadamente no teu cavalo. Mais do que isso, porém, não leves contigo. Aos moradores daqui, dize que farás um passeio a cavalo. Aos teus, porém, conta a verdade. Eles devem ser fortes e ficar tranqüilos. De tudo o mais será cuida- do; sobre isso não te preocupes.”
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    MAOMÉ - 89 - Maoméfez como o anjo do Senhor lhe ordenara e ninguém dos seus familiares lhe tornou pesada a despedida. Anteriormente Alina já falara com todos, e fê-los ver como poderiam ajudar Maomé, enquanto seguissem alegremente a ordem de Deus. Assim ele se pôs a caminho sob a direção de Deus, orientado pelos Seus mensageiros, aberto para cada raio que quisesse entrar em sua alma e entregue in- teiramente à vontade de seu Senhor. Como no terceiro dia ainda não houvesse regressado de seu passeio a cavalo, o povo começou a ficar inquieto. Então Ali propalou que um mensageiro que se encontrara com o soberano, no caminho, trouxera importantes cartas da Síria. Ma- omé resolvera prosseguir imediatamente a sua viagem para lá. Isso foi aceito pelo povo em geral. Do mesmo modo compreenderam que as mulheres queriam aguardar a volta do príncipe para depois deixarem a cidade. Por esse tempo Alina e Fatime aliaram-se ainda mais estreitamente. Come- çaram, também, a entrar em relações sociais com outras mulheres nobres, as quais recebiam as princesas com benevolência. Dessas relações, inicialmente apenas superficiais, como até então fora hábito entre as mulheres, desenvolveu-se com o tempo uma séria e firme união, a qual veio beneficiar toda a população. Muito antes do regresso de Maomé, as mulheres de Yatrib haviam-se tornado servas de Cristo, da maneira como Alina as ensinara. Com isso os costumes melhoraram. Em toda parte isso se fez notar. Maomé, no entanto, estava nas montanhas. Com a orientação do mensagei- ro de Deus, tinha recebido acolhida de um pastor de ovelhas, bem no alto das ram- pas arrelvadas, o qual não teve o mínimo pressentimento sobre quem ele aceitara como servo. Maomé denominou-se Said, para não despertar suspeitas; no entanto, podia ter continuado a usar o seu nome, porquanto o pastor não sabia coisa nenhuma de um príncipe Maomé, tampouco sabia qualquer coisa sobre um Deus. Conhecia tão- somente as montanhas, suas ovelhas, fome, sede e sono. Mas a Maomé pôde oferecer aquilo que, além da orientação de cima, preci- sava: um telhado sobre a cabeça, comida, bebida e trabalho que o deixasse meditar. Moisés outrora também não fora pastor, durante o seu estágio preparatório? Lem- brou-se disso. Com jovialidade pastoreou os seus protegidos lanosos, enquanto se deitava na encosta ensolarada, com o olhar dirigido ao céu, deixando passar pela sua alma pensamentos sobre a eternidade. As perguntas que nele se haviam acumulado clarificaram-se uma após ou-
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    MAOMÉ - 90 - tra.Entrou luz na sua alma, e no raio dessa luz desabrochou aquilo que ele deveria anunciar ao mundo: a Verdade de cima sob uma nova forma. De súbito soube que teria sido errôneo peregrinar como Jesus através do país, ensinando. Seiscentos anos passaram-se desde então. Os povos modificaram-se, porém não ficaram melhores.Se quisesse conseguir algo,deveria pela autoridade levar o povo a aceitar a doutrina, e somente então poderia mandar instruí-lo e falar às almas. Os árabes eram diferentes dos judeus de outrora, diferente, portanto deveria ser o modo de aproximar-se deles. Também viu que não deveria condenar todo o antigo como inaproveitável ou até prejudicial. Deveria proceder devagar, ligando o novo ao antigo até que pu- desse substituir o antigo pelo novo, sem com isso magoar o povo. Seus cabelos pendiam além dos ombros e a barba alcançava-lhe o peito. Com isso percebeu que já estava há muito tempo com as ovelhas. Não tinha nada com que pudesse cortar os cabelos, que também não lhe estorvavam. Serviam-lhe como uma espécie de indicador do tempo. No princípio contava pelos cordeirinhos, mas no controle inicial e geral sobre a prole do rebanho veio-lhe a confusão com o nascimento constante de novas crias. Teve que deixar de basear-se nas gerações. Também lhe era indiferente quantos anos já haviam passado. Sabia que os seus se achavam abrigados sob a proteção de Deus, e ele mesmo compreendia que ainda estava longe de terminar o seu aprendizado. O pastor falava raras vezes com o servo, do qual tinha um grande receio. Tinha-o na conta de lunático. Assim que observou como Maomé seguia fielmente todas as suas ordens e quanto as ovelhas o amavam, então habituou-se a esse ho- mem, que muitas vezes falava sozinho em voz alta. Contudo, não sentia necessidade de falar com ele. Um não sabia o mínimo que fosse do outro. O vestuário que Maomé trouxera estava puído, apesar de ter sido feito de um tecido forte e novo. Fez para si um envoltório de pele de carneiro, igual ao do pastor. Serviu-lhe de agasalho, aquecendo-o. Quase pareceu a Maomé como se nada pudesse vir que interrompesse o magnífico sossego e a monotonia da atual vida, a não ser a ordem de Deus, a qual esperava sem impaciência. Então sobreveio um acontecimento repentino: o velho pastor faleceu. O que Maomé deveria fazer agora com as ovelhas? Nessa hora deveria dirigir-se ao mensageiro de Deus para pedir instruções. Os animais não lhe pertenciam. Também não sabia onde o pastor buscava as pro- visões com as quais ambos se abasteciam. Onde o ancião vendia a lã, as peles e os cordeiros que às vezes levava junto, quando se afastava durante dias? Nunca Maomé perguntara sobre isso.
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    MAOMÉ - 91 - Passouainda alguns dias do mesmo modo antigo, até que o pão foi se aca- bando e até que não teve mais sal para as suas ovelhas. Então ousou pedir novamen- te ordens a Deus. Dessa vez recebeu-as. Foi-lhe comunicado com toda a precisão o caminho pelo qual teria que seguir para chegar à povoação onde o velho era conhecido. Lá deveria procurar o decano da aldeia e participar-lhe a morte do ancião. Ao mesmo tempo deveria trocar a lã por peças de vestuário e em seguida dirigir-se em direção ao norte, para a próxima cidade, e lá ficar à espera de novas ordens. Maomé fez exatamente como Deus lhe havia mandado fazer. Para ele era indiferente ter de andar; o essencial era que executasse com isso a ordem de Deus. Ainda na mesma noite alcançou a povoação, onde em troca da lã recebeu bom e forte vestuário. O decano chamou um homem, o qual era filho do pastor. Este se pôs imediatamente a caminho para olhar o rebanho abandonado.Agradece- ram-lhe pelos seus serviços e pelas notícias, e queriam segurá-lo para passar a noite ali. No entanto, havia recebido ordem de ficar na cidade; tinha de ir para lá. Não tirou tempo nem para lhe cortarem os cabelos. Para isso provavelmente ainda teria tempo na cidade. Por sorte era uma noite de luar, na qual caminhou rumo à cidade, não muito distante. Era uma caminhada verdadeiramente encantadora, sob a proteção da alta di- reção espiritual. Parecia-lhe como se estivesse andando num imenso templo. Por ora ainda se encontrava no pórtico, e o santuário, contudo, parecia-lhe estar tão próximo. Não se importou se o alcançaria ou não; com o coração palpitando, foi ao encon- tro daquilo que deveria experimentar vivencialmente. Somente então lhe sobreveio a grande alegria de poder finalmente atuar como instrumento do seu Senhor e como servo do seu Mestre. Teve de ficar parado para levantar os braços ao céu, em agrade- cimento. Nesse momento essa abóbada se abriu sobre ele; um esplendor rompeu das alturas, e as irradiações quase pareciam tocá-lo. Admirado, ajoelhou-se em adoração. Não conseguiu dar expressão aos sentimentos preponderantes por meio de palavras, porém tudo nele era uma única prece de agradecimento. Sua alma aberta contemplou nesse momento um quadro de uma magnifi- cência sobrenatural: Na ampla sala do trono encontrava-se uma cadeira de puro ouro. Sobre ela achava-se sentado Um, cujos olhos flamejantes pareciam penetrar tudo. Seus cabe- los ondulavam prateados, ao seu redor. O braço direito apontava com o indicador esticado. Referia-se isso a ele, Maomé? Seria possível que a excelsa majestade que ali
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    MAOMÉ - 92 - reinavalhe desse atenção, a ele, o pequeno homem terreno? E uma voz soou no seu íntimo; ou seria fora dele? Não o sabia. Escutava-a e acolhia-a intimamente. “Maomé, servo do Altíssimo, discípulo do Filho de Deus.Vê aqui Aquele que virá para julgar os mundos. Recolhe em ti a impressão desta imagem viva, para que possas compreender o que te será anunciado sobre isso. AVontade de Deus julgará os homens com justiça! Ele aceita-te como Seu servo. Anda de hoje em diante na força da trindade de Deus e executa o Seu mandamento.” A voz calou-se, a imagem desapareceu. O resplendor retirou-se lentamente. Maomé, porém, permaneceu ajoelhado e orou até que a aurora cobriu o céu. Le- vantou-se, então, como um homem diferente do que era poucas horas antes. Com passos firmes caminhou até a cidade, onde mandou cortar seus cabelos e sua barba. Procurou uma hospedaria, comeu e bebeu, e em seguida estendeu-se num dos leitos duros. Fez tudo mecanicamente; todo o seu pensar estava embebido nas revelações da noite, as quais sempre de novo deixava passar diante de sua alma. Então deve ter adormecido, porquanto afigurou-se-lhe como se estivesse so- nhando. Viu-se na cidade de Halef, onde falava a uma grande reunião de pessoas. Escutava também o que falava. Falava do Deus único e verdadeiro e da necessidade de que todos os povos da Terra, reconhecendo finalmente a Verdade, se unissem em torno do Senhor de todos os mundos! Quando acordou sabia que deveria seguir em primeiro lugar para Halef, para ali falar ao povo. Ao sair da hospedaria, deparou na frente da mesma com um homem com dois camelos. Este olhou para Maomé, foi ao seu encontro e perguntou: - Es tu o viajante que quer ir ainda hoje até Halef? Encomendaste este camelo? - Para Halef quero ir com certeza, replicou Maomé, o qual julgou reconhecer no oferecimento da montaria a direção de Deus, contudo, não queria tirar de um outro aquilo que talvez lhe estivesse destinado. Portanto, continuou: - Mas não me lembro de ter encomendado este animal. - Se podes pagar devidamente, então ele pode carregar-te. Respondeu o homem. Após terem combinado o preço, Maomé montou no paciente animal, en- quanto o alugador, montado no outro camelo, dispôs-se a servir-lhe de guia. Em caminho o homem conversador contou tudo quanto havia se passado ultimamente nos países. Admirou-se de que aparentemente o seu acompanhante não estivesse a par de nada disso. Depois que Maomé lhe disse que viera de longe e que se encontrara ausente do país nos últimos anos, o cameleiro apressou-se em relatar fatos do passado, alguns verídicos e outros deturpados.
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    MAOMÉ - 93 - Maomédeduziu dessas narrações que uma sangrenta guerra civil devastara a Arábia e que Abu Bekr concentrara suas forças armadas em Yatrib, sempre prontas para dirigirem-se com a maior presteza àqueles lugares onde as chamas da rebelião ainda não estivessem de todo sufocadas, ameaçando arder em novas labaredas. - Conheci Abu Bekr, confessou Maomé, querendo saber mais alguma coisa sobre ele. Ainda vive? - Nosso país iria mal se ele não vivesse mais, disse o homem com ênfase. Desde que o nosso príncipe seguiu a cavalo para a Síria, porque um mensageiro o chamou para lá, o país teria ficado entregue a si mesmo, se o vizir não o adminis- trasse com fidelidade. - Então ele assumiu o governo? Perguntou Maomé. Nessa hora reconheceu por que esse conversador, o qual inicialmente lhe era incômodo, fora-lhe conduzido no caminho. - Não, para isso ele não tem tempo. Apenas sufoca a rebelião, matando os insurretos, replicou o homem com impassibilidade. Maomé horrorizou-se. Quão grato era por essa tarefa não lhe ter cabido! - Não temos um príncipe porque sabemos que o nosso voltará assim que pudermos livrá-lo das mãos dos astutos sírios, os quais o mantêm preso. Abu Bekr prepara uma campanha contra a Síria, para obrigar esses patifes a pôr em liberdade o nosso príncipe. Interinamente governa o seu genro Ali, e o seu filho adotivo Said o auxilia nisso. - E quanto tempo já está perdurando essa situação? Perguntou Maomé, o qual perdera todo o cômputo do tempo. - Faz agora quase dez anos que as insurreições deflagraram, soou a resposta. Dez anos! Inconcebivelmente longo ao ouvir dizê-lo, porém indescritivel- mente curto em face de tudo o que lhe fora dado passar vivencialmente. Dez anos durara seu aprendizado na solidão! Durante dez anos esteve afastado dos seus. Suas filhas Fahira e Jezihde não o reconheceriam mais. Será que a criança que estava sendo esperada naquele tempo era novamente uma menina? No decorrer dos longos anos quase não se lembrara mais daqueles que agora deveriam entrar novamente em sua vida. Também agora não lhe sobrava tempo para ocupar-se com eles. Os camelos que caminhavam a passos acelerados alcançaram ao anoitecer a cidade de Halef.Ali o cameleiro levou Maomé a uma hospedaria um pou- co retirada, mas confortável. Nos dias subseqüentes Maomé procurou entrar em contato com os árabes residentes ali. Também eles falavam dos horrores que se registraram em Meca e pro- nunciavam apavorados o nome de Abu Bekr. Contudo, eles presumiam que atrás de
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    MAOMÉ - 94 - tudoo que ocorrera estavam as ordens de Maomé.Suspeitavam que ele se encontrasse em Yatrib e que pretendia elevá-la a sua residência. Perguntou sobre Abu Talib. Ninguém sabia coisa alguma dele. Ou perecera ou adotara um pseudônimo, sob o qual estaria continuando sua atividade hostil. Então falou sobre a união entre todos os árabes e encontrou amável atenção. Os homens pediram-lhe que ficasse na cidade até a noite seguinte. Estava marcada uma reunião secreta entre muitos árabes; ali deveria ouvir e falar, por sua vez, se quisesse. Comoveu-se pelo fato de aqueles homens depositarem nele, um estranho, uma confiança tão grande. Tanto assim que, afinal, teve de expressar o pensamento por palavras. - Dizei-me, amigos, de onde sabeis que eu estou solidário convosco e que não vos trairei? Perguntou. Então soube que um velho árabe, o qual possuía o dom da vidência, predis- sera-lhes já há três dias a vinda de um estranho. A nitidez com que tinha descrito Maomé permitiu que eles o reconhecessem imediatamente. O que Mussad dizia isso ninguém punha em dúvida.Ele ter-lhes-ia aconselha- do a receberem o estranho com benevolência.O sinal claro em sua testa seria para eles o indício de que fora mandado por Maomé ben Abdallah,o príncipe da Arábia,o qual trazia na testa o mesmo sinal. No dia seguinte Maomé esteve no porto e aprendeu ali várias coisas que lhe foram de proveito. Soube da existência de um intercâmbio comercial com países longínquos, os quais preferiam condimentos, incenso, pedras preciosas, tapetes e tecidos de seda. Também comprariam café, mas os sírios não cediam nada desse produto. Todo o café cultivado era consumido no próprio país. - Exportais também madeira de lei? Perguntou Maomé, animado de espírito mercantil. - Não a temos, contudo a Palestina exporta cedro a países distantes, foi-lhe respondido. Então quis saber o que seria importado, em troca, das nações estranhas. Soube que esses navios traziam armas, sobretudo espadas de um esplêndido aço flexível, as quais utilizavam principalmente como modelo, para aprimorar a sua própria produção. Além disso vinham fardos de um tecido branco, feito de fibras vegetais, o qual era tingido aí e aproveitado em confecções de trajes para mulheres e crianças. Seriam leves e agradáveis. Ao aproximar-se a noite, Maomé procurou os seus conhecidos, que o rece- beram alegremente. Mussad passara o dia todo em êxtase. Há cerca de uma hora começara finalmente a falar e comunicou aos ouvintes que iriam presenciar um fato
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    MAOMÉ - 95 - grandioso.Maomé em pessoa viria para propiciar-lhes ajuda emsua aflições. - Onde vive Mussad? Perguntou Maomé. Posso vê-lo? Disseram-lhe que ele residia numa das travessas mais estreitas, onde o pé do estranho de modo algum deveria pisar. Além disso, após cada vaticínio ele se encontrava tão exausto, que se deveria deixá-lo em sossego. A noite compareceria à reunião. - A noite? Perguntou Maomé admirado. Já não é noite? - Senhor, é verdade que o astro diurno já declinou, mas poderemos reunir-nos somente depois que os guardas da cidade tiverem feito a última ronda pelas ruas. Até lá aceita a nossa hospitalidade. Um grito de coruja anunciará quando houver certeza de não encon- trarmos mais ninguém. Em silêncio, os homens ficaram sentados reunidos, fumando cachimbos esquisitos, à maneira dos sírios. Isso pouco agradou ao príncipe, contudo ele era hóspede e não podia dizer nada. Embora a fumaça que saía dos cachimbos e das bocas tivesse um aroma agradável, ela deixava tudo parecer indistinto. Da mesma forma deveria ser confuso o aspecto interior dos homens, logo que se entregavam a esse vício. Ao notarem a sua curiosidade pelos cachimbos, os homens propuseram- lhe que fumasse com eles. Ele, no entanto, pensando naquilo que a noite lhe deveria trazer,recusou a oferta.Quando,por conseguinte,perguntaram-lhe diretamente so- bre o motivo de sua abstenção, ele disse francamente. Riram-se, mas um após outro deixou apagar o cachimbo. Em lugar disso foi servido café preto e forte, que a todos animou. Finalmente, o grito de coruja ressoou. Os homens puseram-se imediatamente a caminho. Não foi preciso andar muito. Um pouco fora da cidade encontrava-se um grande prédio, que em sua maior parte servia para depósito de mercadorias a embarcar. Precisamente um dia antes ficara desocupado outra vez. Continha uma sala espaçosa. Para admiração de Maomé, em poucos ins- tantes ela ficou repleta até o último recanto. Mais ainda se admirou, ao reconhecer no lugar o local de sua visão noturna. Portanto, estava certa a sua intuição de que poderia e deveria falar de Deus nesse local. Num lugar que estava mais alto pela colocação improvisada de caixas, encon- trava-se em pé um ancião, que começou a falar aos presentes. Ele discursava à maneira como provavelmente era usual,enquanto citava uma série de opressões e violências que os árabes tinham que suportar na Síria. Para cada uma de tais acusações tinha testemu- nhas que confirmavam suas palavras. - Este é o acusador oficial,cochichou um dos conhecidos de Maomé,em vista de seu olhar inquiridor. Logo falará o orador do dia. O ancião desceu penosamente das caixas; um mais moço subiu. Alegres acla- mações cumprimentaram-no, às quais ele obviamente não deu importância. Sua face pálida permaneceu imóvel e séria.
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    MAOMÉ - 96 - Semrodeios falou imediatamente daquilo com que todos se preocupavam: a libertação do jugo dos sírios, a anexação à Arábia. -Amigos,clamou,se é verdade que se encontra entre nós um emissário do prín- cipe Maomé, como Mussad diz, então que se apresente, para que possamos haurir âni- mo e forças de suas palavras.Há meio século que apareceu o primeiro rasgo de esperan- ça; o que antes chegou até nós com bonitas palavras apenas serviu para prejudicar-nos. Estais lembrados ainda de Abu Talib? Ele era a favor da anexação à Arábia e ao mesmo tempo nos proibiu de empreendermos um passo nesse sentido. Seus amigos queriam encarregar-se de nossa causa junto ao príncipe. Estou convencido de que nada disso fizeram. Agora, convido-te novamente, estranho: aproxima-te para que eu te interrogue! Com passos tranqüilos, Maomé caminhou em direção ao orador e colocou-se na sua frente, de sorte que ficaram face a face. Apesar da simplicidade do traje, toda a figura de Maomé, cada movimento, exprimia tamanha dignidade e nobreza, que so- mente isso já irradiava estímulo sobre os oprimidos. O estranho devia ser pelo que jul- gavam, um alto funcionário do governo; ele saberia responder. O orador, com os olhos fixos em Maomé, começou: - Não nos disseste teu nome, estranho. Basta-nos que Mussad tenha falado por ti; confiamos em ti, mesmo sem sabermos teu nome. Dize-nos: conheces o príncipe Maomé ben Abdallah? Com grande expectativa centenas de olhos miravam o hóspede. Maomé sorriu. Havia tanta bondade e amabilidade nesse sorriso, que por entre os espectadores passou um sopro de alívio. - Por certo conheço o príncipe dos árabes, disse a voz sonora de Maomé. Não tinha nada desse som gutural dos árabes, mas sim soava como metal límpido. - Sabes se ele se lembra de nós, que aqui sofremos miséria e opressão? Soou a segunda pergunta. - Ele pensa em vós e quer ajudar-vos! Anunciou Maomé em voz alta. - Ele pensa em nós e quer ajudar-nos! Repetiram muitas vozes em esperança jubilosa e admiração, conforme a índole de cada um. Precisamente esse coro é que comoveu Maomé de tal maneira, que nem espe- rou pela terceira pergunta, mas sim, volvendo-se para a multidão, começou a falar: - Patrícios, árabes! Suportastes pesadas aflições, para que amadurecêsseis in- timamente a ponto de colher a bênção que esses tempos difíceis encerraram para vós. Tivestes de aprender que longe da pátria nunca florescerá uma felicidade verda- deira. No entanto, seria errôneo se todos vós quisésseis agora voltar à pátria, a qual não conheceis e a qual os vossos antepassados deixaram. Aqui estais aclimatados. Porém, não temais que eu agora vos diga: permanecei no estrangeiro. Não! Não podereis voltar à Arábia, porque lá não encontraríeis mais lugar, mas. . . - Durante
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    MAOMÉ - 97 - segundosparou e passou a vista sobre a multidão, a qual, fascinada, concentrava toda a atenção nele, ... mas a Arábia virá a vós! Este país que habitais, e que ape- sar de todas as opressões se tornou para vós a terra natal, anexaremos ao nosso. Uma Grã-Arábia deverá unir os países nos quais os filhos morenos da Mãe Arábia ganham sua vida penosamente. De oprimidos deverão passar a habitantes felizes, equiparados aos seus vizinhos. - Por que não dominadores? Clamaram muitas vozes. - Talvez também dominadores, admitiu Maomé. No entanto, seria errado se partísseis do ponto de vista de querer agora causar-lhes aquilo em que pecaram contra vós. Um murmúrio elevou-se em volta. Maomé não pôde distinguir se era de aprovação ou de censura, porém esperou calmamente. Sentiu como se lhe afluía poderosamente a força que lhe fora prometida. Respirou profundamente, porquanto essa força era quase subjugante. A multidão, todavia, viu nisso um sinal de que ele queria continuar a falar. Voltou a reinar silêncio. - Amigos, escutai agora o que o príncipe Maomé bem Abdallah vos manda dizer por meu intermédio. Ele está disposto a livrar-vos do jugo dos opressores pelo poder das armas, se não houver outro recurso. Exclamações de júbilo interromperam-no. Durante segundos não pôde con- tinuar a falar. Então, com a mesma rapidez, tornou a reinar silêncio. - Mas pede-vos que não empreendais nada precipitadamente. Ele quer falar pessoalmente com aqueles que entre vós foram até agora os chefes secretos. Em combinação com eles, determinará o que deverá ser feito. Qualquer passo impru- dente poderá pôr tudo a perder. Entendeis-me? Aclamações afirmativas responderam. - Príncipe Maomé tem plena certeza de que aquilo que se propôs a em- preender, realizar-se-á, porquanto tem o auxílio de um poderoso aliado, o Qual lhe deu ordem de dar esse passo. Também a vós Ele quer ajudar, contanto que vos mostreis dignos disso. Esse aliado é Deus, o Senhor de todos os mundos, o Qual vos criou, bem como a mim, os animais, as plantas e tudo o que vive, como também o inanimado! Estende Sua sagrada mão sobre os homens, para que possam respirar e se desenvolver, e não quer que ninguém seja oprimido injustamente. A esse Deus Maomé obedece, e a esse Deus ele quer conduzir o seu povo, para que usufrua a bênção que advém da fé em Deus e da Verdade. - Escutai-o! Interrompeu uma voz trêmula, contudo penetrante. Ele fala a pura verdade. - Mussad, Mussad, o vidente, exclamaram os homens.
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    MAOMÉ - 98 - Abriramcaminho para o ancião, que veio se aproximando apoiado num jovem. Trêmulo, estendeu a mão quando se defrontou com Maomé. O príncipe viu que ele era cego. As pupilas apagadas haviam perdido todo o brilho, não obstante o rosto estava radiante, como se tivesse sido iluminado por dentro. Estende-me a tua mão, estranho, pediu o ancião, e Maomé anuiu à sua vontade. Pegou a mão do ancião e envolveu os dedos magros e finos do mesmo com sua mão quente e cheia de vida. Nesse momento o ancião curvou-se e beijou a mão de Maomé com seus lábios murchos. Isso causou surpresa à reunião. Aqui e ali surgiu um lampejo de compreen- são. Foi desnecessária qualquer palavra de Mussad; seu gesto havia dito tudo. “Viva o príncipe Maomé ben Abdallah!” estrondosamente, essa manifesta- ção ecoou pela sala. Toda a cautela fora esquecida. Os até então tristonhos foram tomados de jú- bilo; alegria e coragem animava-os. Maomé queria falar, porém não lhe foi possível tomar a palavra. Sempre de novo a grande alegria tinha de manifestar-se através de ruidosas exclamações. Finalmente levantou a mão. Mussad desejava falar. Alguns homens ergueram o ancião em cima das caixas e seguravam-no,a fim de que permanecesse firme em pé.E então sua voz começou a anunciar que o príncipe em pessoa se encontrava entre eles, como garantia iniludível de que queria auxiliá-los. Há anos, Deus, o Senhor, já se revelara a ele, Mussad. Daí provinham todas as suas profecias. Sabia que a felicidade de todo o povo repousaria na crença que Maomé traria por ordem do Senhor de todos os mundos. Deveriam agradecer a Deus por ter-se compadecido deles. Deveriam escutar o que iria ser anunciado sobre Ele e adorá-Lo como o Senhor e Auxiliador. Maomé falou às pessoas ali reunidas, que o escutavam felizes. Anunciou o Deus que outrora se revelara aos judeus e que prometera então a Sua bênção a todos os povos que desejassem andar nos Seus caminhos. Falou demoradamente; então os vigias, que estavam alerta, avisaram que a aurora estava rompendo. A reunião dispersou-se apressadamente. Maomé recebeu convites de toda parte para hospe- dar-se. Preferiu, entretanto, continuar na hospedaria; acompanhou, porém, os seus primeiros conhecidos ao lar deles, para tomar a refeição matinal. Os dias subseqüentes passaram-se em visitas à cidade e arredores. De cada instante que os chefes secretos puderam aproveitar, serviu-se Maomé para falar so- bre os seus planos e os deles. Quando então estava tudo coordenado, foi convocada uma nova reunião, na qual Maomé falou novamente de Deus. Despediu-se e prometeu que em breve teriam notícias dele. Foi combinado
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    MAOMÉ - 99 - quenão se dirigiria mais aos sírios, porquanto cada tentativa de conseguir deles um alívio para os árabes, provocava maior opressão sobre eles. Durante a noite Maomé soube que estava em tempo de voltar para Yatrib. Confiou inteiramente na direção de cima, de modo que nem ao menos tratou de ar- ranjar uma montaria para o seu regresso. Sua confiança não o desiludiu. Enquanto tomava a pequena refeição matinal, encontrou o cameleiro que o havia trazido. - Soube que ainda estavas aqui. Se tens vontade de viajar para Yatrib, então podes montar, senhor. O camelo que conheces está lá fora à tua espera. No caminho Maomé deixou o cameleiro contar tudo o que soubera nes- se ínterim. Meca apaziguara-se. A outrora florescente cidade se transformara num montão de ruínas, onde cerca da metade dos antigos habitantes levava uma vida amedrontada. Também outras cidades tiveram que sentir as represálias de Abu Bekr. Em redor de Meca achava-se um círculo de localidades destruídas. - E Yatrib? Perguntou Maomé. - Yatrib está em plena prosperidade. Abu Bekr acampou com seus guerreiros em redor da cidade, todavia foi supérfluo guarnecê-la. Esteve protegida pela fideli- dade dos seus habitantes. - És conhecido em Yatrib? Indagou Maomé, pois gostaria de ter algumas notícias sobre os seus. No entanto, o cameleiro respondeu negativamente. Ao cabo de muitos dias chegaram finalmente ao cinturão das guarnições ar- madas. Ali Maomé gratificou o seu guia que imediatamente continuou seu caminho com os dois camelos. Maomé perguntou por Abu Bekr. Acertou bem. O lugar onde apeara ficava bem próximo do acampamento do vizir. Admirados, os guerreiros examinaram o homem, em trajes simples, que tinha a ousadia de querer comparecer diante de“Abu, o sanguinário”, como o chamavam. - Quem és tu e o que desejas dele? Perguntou o chefe. - Chamo-me Maomé e sou um amigo do vizir, soou a resposta. - Nesse caso espera aqui fora, enquanto mando perguntar se ele quer te aten- der. Entretanto, se ficar zangado por ter sido incomodado, então que a sua ira venha sobre a tua cabeça, estranho, sentenciou o chefe da guarda. Maomé teve de esperar muito tempo, até que escutou a voz de Abu Bekr. - Onde está o homem que se atreve a usar o sagrado nome de nosso prínci- pe! Vociferou, enquanto afastava com a mão o pano da entrada da tenda. - Maomé é um nome muito comum. Muitos homens usam-no, retorquiu Maomé, bem-humorado. Teria sido abusivo se me denominasse Abu Bekr; porque este só existe um.
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    MAOMÉ - 100 - Ovizir deu rapidamente alguns passos adiante. Reconhecera a voz! - Senhor! Balbuciou, e quis prostrar-se diante do príncipe. Maomé no entanto impediu-o, enquanto lhe segredava que de modo algum queria dar-se a conhecer. Abu Bekr dominou-se rapidamente. Convidou o hóspede a entrar em sua tenda, após ter ordenado que trouxessem comida e bebida. Nesse momento se defrontaram os dois, que durante dez longos anos não se tinham vis- to. Olhavam-se e admiravam-se. Enquanto Abu Bekr constatava que Maomé não parecia nem um dia mais velho do que naquele tempo, quando os deixara, Maomé teve que reconhecer que Abu Bekr estava se aproximando da velhice. Os traços de Maomé, que foram sempre nobres e de feição delgada, pareciam agora aureolados de espiritualidade; um resplendor indescritível pairava sobre os mesmos. O rosto de Abu Bekr era mais grosseiro, vermelho, inchado e marcado por uma certa cruel- dade. Tanta coisa eles tinham a dizer, e contudo não puderam dizer uma palavra. Enfim, o vizir quebrou o silêncio: - Senhor, onde estiveste durante todos esses anos? - Na escola de Deus, replicou Maomé com seriedade. Mais tarde contar-te-ei sobre isso. - Amanhã eu queria seguir para a Síria, a fim de exigir a tua entrega, disse Abu Bekr sacudindo a cabeça. - Para a Síria deverás marchar, meu amigo, assim que tiveres me escutado. Não para resgatar-me, mas sim para libertar os árabes. A noite inteira passaram juntos, palestrando e perguntando. Em atenção ao desejo do príncipe, tudo o mais foi deixado de lado; apenas foi tratado dos árabes oprimidos, aos quais deveria ser levado auxílio o quanto antes. Maomé, no caminho, já soubera estar na vontade de Deus que Abu Bekr deveria forçar a libertação dos árabes à mão armada. Por isso Maomé agora dava ordens nesse sentido e encontrou em Abu Bekr a melhor boa vontade. - Senhor, meus guerreiros e eu ficamos tão habituados ao ofício da guerra, durante a tua ausência de dez anos, que nos enfastiamos quando temos que passar algum tempo nos acampamentos. É bom que tenhas serviço para nós. - Não vejas, porém, na tua tarefa, somente o derramamento de sangue, meu amigo, disse Maomé. Poupa todos os que queiram entregar-se. O vizir inclinou-se, porém sem responder. Em sua mente algo procurava tomar forma, para o que não achava imediatamente uma expressão. Então ele começou: - É aconselhável, senhor, que permaneças incógnito entre nós. Perseverarei no meu plano primitivo de exigir a tua libertação na Síria. Este será o motivo pelo qual invadirei com as forças armadas o país vizinho. Disso decorrerão todas as demais conseqüências. Agora devo pedir-te para guardar segredo por mais alguns dias.
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    MAOMÉ - 101 - Maoméachou que seria razão suficiente, se Abu Bekr declarasse na fronteira da Síria que ele vinha para libertar os irmãos oprimidos. O vizir, no entanto, argumentou que então começaria uma carnificina no interior da Síria, a qual não lhe seria possível impedir. Então o príncipe não fez mais objeções ao intento do fiel, que durante dez longos anos arcara com todas as responsabilidades. No dia seguinte Abu Bekr se pôs em marcha com a maior parte das suas forças armadas. Manteve seus guerreiros em excelente disciplina. Maomé regozijou-se com a linha de conduta daqueles homens bem preparados, até que lhe veio à mente o objetivo com que saíam. Uma pequena tropa permaneceu nos acampamentos, sob as ordens de um chefe de confiança. Maomé passou mais uns dias entre eles, sem dar a perceber a sua identidade. Quando supôs que Abu Bekr já se encontrasse bem longe dali, pôs-se a caminho para Yatrib, Pediu que pusessem à sua disposição um cavalo, o que, como amigo do vizir, não lhe podiam recusar. Ao aproximar-se da cidade, e quando já divisava isoladamente alguns prédios, viu à direita da estrada, sobre uma verdejante elevação, um pequeno palácio branco, no meio de jardins floridos. A casa era de estilo tão leve e agradável, que dava a im- pressão de que flutuava entre as copas das palmeiras levemente agitadas pela brisa. - Realmente uma maravilha! Disse Maomé a meia voz. Podeis talvez infor- mar-me quem mora naquele palácio? Dirigiu-se a alguns homens que faziam repa- ros na estrada. Eles levantaram os olhos e encararam o estranho. - De onde vens que não sabes que essa residência é a das mulheres puras? Perguntaram de sua parte, admirados com tanta ignorância. - As mulheres puras? Admirou-se Maomé. Quem são elas? - Assim denominamos a esposa de nosso príncipe prisioneiro e suas filhas, porque elas levam uma vida imensamente pura e caridosa. Moram ali com pessoas de confiança e servos! - Ali e sua esposa também moram com elas? Perguntou o príncipe, cujo coração começou a sentir uma grande alegria. - Não, ele construiu lá atrás, um pouco retirado, um palácio, onde reside com sua esposa e seis filhos varões. Seis filhos varões! E a ele foi negado o herdeiro! Com certeza era da vontade de Deus. Agradecendo pela informação, fez o cavalo acelerar a marcha e logo depois parou na frente das grades externas dos jardins do palácio.Viram a sua chegada; um jardineiro veio ao seu encontro. - Para onde queres ir estranho? Perguntou amavelmente. Aos homens é veda- da a entrada aqui. Segue um pouco adiante, até aquela casa que surge ali atrás entre os cumes. Lá reside Ali, o genro do nosso príncipe. Lá podes dizer o que desejas!
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    MAOMÉ - 102 - -Tenho uma mensagem para a princesa Alina, a qual devo entregar-lhe pes- soalmente, replicou Maomé. O jardineiro,no entanto,retorquiu categoricamente. - Se a tua mensagem é urgente, então lá podes comunicá-la à princesa.Ao meio- dia ela sempre vai à casa de Fatime.Neste terreno não pisa nenhum pé de homem. O príncipe viu que ali não podia fazer nada.Mesmo se revelasse a sua identidade, seria duvidoso que o jardineiro, cumpridor dos seus deveres, o deixasse entrar.A ordem de Alina era dominante. Então cavalgou rumo ao palácio de Ali, onde encontrou o velho Mustafá, que reconheceu imediatamente o seu senhor. A muito custo Maomé pôde impedir que ma- nifestasse sua alegria com exclamações estrepitosas. Finalmente o velho serviçal compreendeu que o príncipe não queria ser reconhe- cido por enquanto. Fê-lo entrar no palácio por uma pequena porta lateral, e pediu-lhe que esperasse ali num pequeno, mas lindo aposento. Iria chamar Fatime. Maomé ficou sozinho por poucos minutos e experimentou a sensação de bem-estar que o cercou de súbito. Sem dúvida, esse palácio era modesto e simples em comparação com aquele de Meca, todavia a nada disso estava mais acostumado. Nesse momento abriu-se a porta e um menino com cerca de seis anos entrou a passos acelerados. Tão surpreso ficou, ao avistar inesperadamente um estranho, que se esqueceu por que motivo viera. - Que estás fazendo aqui, estrangeiro? Perguntou com voz sonora de criança. Quem te deixou entrar? Maomé olhava o menino e sentiu repentinamente que se acha ligado de algum modo àquela criança. Deveria ser um dos seus netos; sentiu-o pelo amor que de súbito impulsionava o seu íntimo. E esse amor irradiou dos seus olhos, atraindo o menino. Arregalando os olhos cada vez mais, a criança aproximou-se lentamente do ho- mem calado. -Tu,tuésmeuavô!Exultouderepente.Chegastefinalmente?EusouMaomében Ali,ainda não me conheces.Alegras-te por estares conosco? - Menino, como me reconheceste? Indagou Maomé. - Nos teus olhos,avô.E alguma coisa dentro de mim disse em voz alta: “Este é o avô que estais esperando há tanto tempo”. A porta abriu-se. Fatime entrou e Ali, atrás dela. Mustafá não lhes revelou quem eraoestranhoquetinhatrazidoumrecado,masopequenoMaoméjubilavaaoencontro dos pais. - O avô está aqui, e ele tem os olhos que tu contaste mamãe! Os olhos cheios de brilho celestial e de amor humano. Após ter passado a primeira alegria, decidiu-se mandar chamar a princesa Alina, mas o pequeno Maomé não deveria encontrá-la, para não assustá-la com a sua notícia
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    MAOMÉ - 103 - exultante.Tambémum choque de alegria poderia prejudicar a sua delicada natureza. Entrementes Ali chamou os seus outros filhos; o mais novo deles tinha apenas poucas semanas de vida. - Maomé se parece mais contigo, príncipe, disse Ali. O nome é apropriado a ele. Então veioAlina,que estava intimamente certa da alegria que a esperava.Há dias tinha a convicção de que seu marido regressaria por essa época. Agradeceu a Deus, que o protegera bondosamente. Houve muito, muitíssimo a conversar, especialmente quando também Said se reuniu a eles.Logo a seguir,Ali quis prestar contas das suas atividades; todavia o príncipe pediu que por enquanto deixasse tudo correr pela rotina habitual. Queria acostumar-se aos poucos.Talvez seria o mais acertado,se pudesse ser feita uma divisão no trabalho: ele,Maomé,desejava dedicar-se,de preferência,inteiramente à propagação da nova doutrina. Aissoosoutrosseopuseram.Estavamconvictosdequeopovoacabariaexigindo o seu príncipe. Maomé deveria permanecer príncipe; eles, porém, poderiam aliviar-lhe os seus afazeres, na medida do possível. Instalou-se, então, na casa da cidade, que servira por um tempo de morada à princesa e suas filhas. Sempre tinha ainda em conta a hipótese de que viria a considerar Meca nova- mente como sua cidade,apesar deAli ter-lhe relatado de uma maneira calamitosa a situ- ação da outrora próspera capital. Por esse motivo também não quis saber da projetada construção de um palácio para ele em Yatrib. Todo seu pensar girava em torno da nova doutrina, a qual ele tinha permissão para trazer ao seu povo. Saindo de Meca, como ponto de partida,queria disseminá-la em círculos cada vez mais extensos,através do país inteiro. No entanto, teve que constatar que isso seria impraticável em vista da evolução que o país tomara nesse ínterim. Lançou mão de um outro plano. Queria introduzir obrigatoriamente a doutrina por meio de algumas leis rigorosas. Faloucomosseussobreisso,eelesponderaramcomoseriamrecebidostaisman- damentos. A grande massa do povo os receberia da mesma maneira como uma proibi- ção de certos trajes, ou como uma determinação quanto à manutenção de escravos, a qual tinha sido promulgada recentemente. Os cristãos exacerbar-se-iam, enalteceriam sua crença e declarariam não poder mais abandoná-la.Mas justamente esses cristãos tinham interpretado a Palavra do Filho de Deus tão erroneamente, e reproduzido-a tão equivocadamente, que Maomé não la- mentariasequisessememigrar.Interessou-semaispelosjudeus,querepresentavamcerca da terça parte da população. Em assuntos de crença, metade deles podia ser comparada aos adoradores de fetiches, isto é, não se importavam com Deus. A esses faria bem se fossem forçados a meditar e a fazer um exame de consciência.A outra metade,ortodoxa, somente poderia ser conquistada se reconhecesse Cristo como o Messias.Até esse ponto Maomédeveriachegar.Entãoseriafácilconquistaropovoparaanovadoutrina.Maomé,
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    MAOMÉ - 104 - aliás,jamaisteveoutrointuitosenãoodelivrarojudaísmodetodososdogmashumanos aderentesao mesmo, e depois aperfeiçoá-lo mais. Assim começou a dar formas àquilo que idealizara; inicialmente numa espécie de “mensagem ao povo”, que deveria ser lida simultaneamente em diversos lugares: “Um povo que por falta de aspirações mais elevadas, se preocupa somente com coisas materiais, não tem direito de existir. Dirigindo, porém, nossos anseios às alturas, então haveremos de encontrar Aquele que criou tudo e que também dirige nossos destinos: Deus! Deus é Deus, isto é, existe apenas um único Deus, que é o Supremo, o Eterno, o Todo-po- deroso. Nenhum homem pode vê-Lo; no entanto, cada homem pode sentir a Sua vontade. Sempre de novo este Deus enviou profetas e portadores da Verdade à Terra, os quais tive- ram a missão de anunciá-Lo. Cada um deles foi agraciado com mais forças do que seus antecessores, contudo, nenhum conseguiu persuadir os povos obstinados. Abraão deu a seu povo um exemplo de fé viva. Ainda hoje é admirado, porém nin- guém pensa proceder igual a ele. Moisés trouxe os próprios mandamentos de Deus: quem os respeita? Então Deus enviou à Terra o mais sublime portador da Verdade: Jesus Cristo, Seu próprio Filho! O que ele falou foi a Verdade límpida, foi a própria Palavra de Deus. Viveu essa Palavra, enquanto peregrinou na Terra. Os homens não o compreenderam. Assassinaram-no. Até agora ainda falam com gestos beatos do anunciado Messias, que deverá vir e ao qual então quererão servir e obedecer. Não querem escutar que o Messias já veio há seiscentos anos; pois, do contrário, deveriam confessar que pecaram contra ele tão gravemente, que nenhum arrependimento pode repará-lo. Vós, árabes, porém, escutai: Cristo é Filho de Deus e veio ao mundo para que a humani- dade pudesse ser salva de seus pecados! Quis inflamar de novo todas as chamas da fé em Deus para que a luz e a claridade penetrassem nos corações do mundo. Fixai-vos a isso, até que vos possa anunciar mais. Pois eu, Maomé, sou igualmente um profeta do supremo Deus! Sou o último na seqüência, não o mais poderoso, mas sim aquele que veio por último. Mas tenho permissão de anunciar Deus e Seu Filho Incriado Jesus Cristo! Ainda mais: também tenho permissão de prenunciar Aquele que virá para julgar o mundo com justiça e majestade! O que vos anunciei, recebi de cima. Que Deus me preserve para que eu jamais acrescente uma palavra que proceda do meu próprio eu.
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    MAOMÉ - 105 - Agora,porém, digo-vos: É meu mandamento, na qualidade de príncipe, que abandoneis a crença errônea! Todos os templos, casas fetichistas e oratórios deverão ser fechados a partir do dia em que escu- tardes esta proclamação. Ser-vos-ão construídos novos templos, consagrados unicamente a Deus. Neles se falará a vós sobre a nova e legítima doutrina. Todos os ídolos deverão ser queimados, porquanto os mesmos causam horror a Deus. Jamais alguém poderá ver Deus; por isso também ninguém pode fazer uma imagem Dele. Ele mesmo o proibiu nos Seus sagrados mandamentos!” Essa proclamação Maomé leu pessoalmente em Yatrib, na grande praça públi- ca,e pôde ver que a mesma impressionou a população.Entretanto,Yatrib fora adequa- damente preparada pela atuação das mulheres puras. Isso seria diferente em outras povoações.O príncipe esperava poder em breve enviar Ali e Said para promulgarem o seu escrito, porém surgiram novas perturbações no país.Abu Bekr regressou da Síria, onde, após breve luta, destituiu o príncipe do trono e fê-lo prisioneiro. Conduziu-o em sua companhia,para que Maomé pudesse entrar em negociações com ele,caso lhe aprouvesse. Árabes e judeus aclamaram os libertadores e colocaram-se ao lado deles. Também a maioria do povo sírio sujeitou-se voluntariamente, porque estava farta da dominação opressiva por parte do seu príncipe. Então o vizir dividiu o país em três partes; em cada uma nomeou um administrador e colocou à sua disposição um nú- mero suficiente de guerreiros, a fim de que lhes fosse possível, em caso de emergência, impor a sua vontade à força. Isso, no entanto, não se tornaria necessário; porquanto o povo subordinou-se de boa vontade ao novo domínio. Essas foram as boas notícias! Maomé não ousou perguntar sobre as perdas que custaram a vitória. Por outro lado teve o desejo de entrar o quanto antes num entendimento com o príncipe, prisioneiro, da Síria. Ordenou que o trouxessem. Após grande de- mora, compareceu Abu Bekr todo alarmado e comunicou que o príncipe prisionei- ro suicidara-se. Fora-lhe deixada a espada, porque prometera não desembainhá-la contra nenhum árabe. Agora ele arremessara-se contra ela. Com a morte do prínci- pe terminou toda a resistência no país conquistado. Maomé pôde cogitar incluí-lo na aplicação das suas leis para a nova doutrina. Nesse ínterim os habitantes de Yatrib lembraram ao príncipe a sua promessa de mandar construir-lhes um santuário. Com prazer se pôs a cumpri-la. A Caaba de Meca, uma construção alongada de blocos de pedra, não poderia de modo algum ser considerada como bela.Maomé quis edificar algo especial e por isso reuniu arquitetos de diversas regiões, a fim de que lhe esboçassem plantas para a casa de Deus. Certo dia, de manhã, Alina veio falar com seu marido: - Esta noite pude con- templar uma esplêndida construção.Era redonda,com telhado abobadado.De todos os lados penetravam os raios da luz diurna, através de janelas pintadas de várias cores.
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    MAOMÉ - 106 - Enquantoa esposa falava, também Maomé viu a construção diante de si, tão nítida, como se a conhecesse já há muito tempo. Então pôde indicar aos constru- tores, com precisão, como queria que fosse construída a casa consagrada a Deus. Eles esboçaram os projetos, e o príncipe ficou muito contente; sua alegria e seu zelo estimularam os outros, de sorte que a obra tomou um impulso vigoroso. Por essa época ocupou-se com os seus apontamentos sobre a nova doutrina. Deveria se tornar um livro idêntico às Sagradas Escrituras dos judeus, pensou. Ain- da não tinha clareza completa de como iria desincumbir-se dessa tarefa; no entanto, havia recebido ordem de anotar primeiramente tudo de que se tornara consciente, através da intuição, durante seu longo estágio preparatório. Assim fez, e quanto mais escrevia, mais lúcido ficava seu espírito. O que até então para ele permanecia vago, patenteou-se dali em diante da maneira mais clara, de sorte que apenas precisou esforçar-se para achar as palavras adequa- das. Mas também isso não foi difícil. Elas afluíram-lhe. Dedicado e muito feliz com essa tarefa, não percebeu, no entanto, que a sua volta se aglomerava algo de tenebroso. Até que um dia compareceram os patriarcas da cidade de Yatrib à sua presença para comunicar-lhe que a população judaica estava revoltada com a construção do templo e tentou por diversas vezes perturbar os trabalhos. Na última noite puseram fogo, que somente pela vigilância dos guardas ali postados, foi possível apagar em tempo. - Mas justamente aos judeus é que quero ajudar! Disse Maomé sem compre- ender. Quero fazê-los ver que grande pecado cometeram, para que possam afastar- se de seus caminhos errôneos. Os patriarcas externaram o receio de que dessa mentalidade dos judeus po- deria advir uma grande desgraça para toda a Arábia. - Nesse caso quero falar-lhes. Fazei com que se reúnam amanhã à noite na grande praça. Se eu lhes explicar acertadamente, então conformar-se-ão. Embora aqueles homens nada esperassem dessa medida, não queriam imis- cuir-se, e fizeram como lhes fora ordenado. Maomé, porém, levou sua intenção para cima através de uma prece. Na noite seguinte dirigiu-se esperançoso para a reunião dos judeus. No caminho Maomé notou que um regular número de guerreiros estava postado de prontidão nas ruas adjacentes. Quem ordenara isso? Não achou conve- niente, porém não era mais possível desfazê-lo. À hora aprazada começou a falar. A praça, parcamente iluminada com ar- chotes, era imprópria, de sorte que o príncipe não pôde reconhecer as feições dos que se encontravam reunidos à sua frente. Não sabia se escutavam ou se, contra- riados, tramavam poder chegar a manifestar-se. Falou da maneira como se propôs; singelo e afável. De início reinava um silêncio de expectativa; quando, porém, fez
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    MAOMÉ - 107 - alusãoao Messias, então ouviram-se alguns gritos reprimidos. - O que sabe um árabe do Messias! Clamou uma voz, mais alta que as outras. - Não esqueçais cidadãos,que meus pais eram judeus,esclareceu Maomé.Amo a crença judaica e queria ajudar a desvencilhá-la da estagnação em que incorreu. Resmungos soaram. Continuou a falar firmemente. Disse que o novo templo seria consagrado ao Deus que todos adoravam, o Eterno, Onipotente, que chamavam de Jeová. - Mas nele cristãos e pagãos deverão rezar conosco. Nós o sabemos! Excla- mou novamente uma voz. - Não é da vontade de Deus, perguntou o príncipe em resposta, que todo o povo se unifique numa única crença? E se essa crença pertencer a todos, não have- rá mais cristãos nem pagãos, como também não haverá mais judeus. Todos serão servos de Deus! Uma crescente agitação se fez sentir. De repente voou de alguma parte uma pedra que roçou a testa de Maomé. Levantou a mão lentamente e passou-a sobre o lugar atingido. Então disse: - Não procedestes direito, ó homens. Chego a vós com amor, e me respon- deis assim! - Queres ser tratado melhor do que o teu Messias? Bradou uma voz cortante e escarnecedora. Pois dizes que também ele veio com amor e foi assassinado pelos judeus. Cuida para que não te aconteça o mesmo, Ó falso portador da Verdade! Nesse momento não houve mais o que os detivesse. Pedras voaram. Vozes blasfemaram. Sozinho, Maomé enfrentou a turba, contudo, não teve nenhuma sen- sação de medo. Sentiu-se forte; porquanto nele penetravam forças de cima. Cla- mou em voz alta no meio do tumulto: - Sede cuidadosos, ó homens! O que estais querendo fazer agora, poderá trazer-vos conseqüências funestas! Essa admoestação bem-intencionada foi recebida como uma ameaça por aqueles que a escutaram. Isso fez aumentar a agitação. Subitamente um deles ad- vertiu primeiro e então muitos repetiram o brado: “Os soldados estão chegando!” Assim foi. Das ruas adjacentes os guerreiros vinham machando na melhor disciplina. Traziam nas mãos archotes, cuja claridade iluminava a praça como a luz do dia. Então a coragem da corja não persistiu; correram para todas as direções, e dentro de poucos instantes a praça estava vazia. Maomé, porém, foi para casa atordoado. Fizera alguma coisa errada? Não deveria ter falado a essa gente? Abu Bekr apresentou-se; no entanto, o príncipe não queria ver ninguém an- tes de levar sua mágoa diante de Deus.
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    MAOMÉ - 108 - Permaneceuajoelhado durante a noite em oração, e procurou certificar-se de que o seu caminho era o certo. Enquanto isso, o horror grassava em Yatrib: Abu Bekr sabia bem certo onde os judeus moravam. Desde muito já vinha observando o seu procedimento ardilo- so. Agora, com os seus guerreiros, exterminaram os núcleos. Não foram feitos prisioneiros! Foi uma horrorosa carnificina que o fiel fez para proteger o seu senhor contra futuros ataques. Para ele foi conveniente que Maomé não o recebesse; porquanto sabia, em princípio, que aquilo que acabara de fazer não estava no sentido da orientação de Maomé. Todavia, Maomé era um sonhador; um outro tinha de pensar por ele, sobre isso não tinha dúvidas. Mesmo que Maomé ainda durante algum tempo não ocultasse sua desaprovação, os obstá- culos tinham sido removidos do caminho para sempre. Até a madrugada durou a matança; mais de quinhentos judeus sucumbiram. Quem o comunicaria ao príncipe? Ninguém quis encarregar-se disso. Então o vizir entrou pessoalmente na residência de Maomé. Nunca foi covarde. Quando se defrontou com o seu príncipe, assustou-se com o seu aspecto. Suas feições es- tavam pálidas e tresnoitadas; seus olhos, sempre tão radiantes, olhavam fatigados. Contra o seu próprio costume, o vizir esperou que Maomé lhe dirigisse a palavra. Este encarou-o demoradamente e então disse: -Vens noticiar-me algo de grave,meu amigo,vejo-o.Contudo,não poderia ser mais grave do que aquilo que tive de ver e sentir vivencialmente nessa noite. Fala. Nesse momento Abu Bekr comunicou com poucas palavras como ele, in- dignado com o atentado contra a vida do príncipe confiante, instigou os seus igual- mente excitados guerreiros contra os judeus. Eles não puderam interrogar muito sobre culpados e inocentes. - Os covardes de qualquer modo teriam arranjado subterfúgios! Excla- mou o vizir à sua maneira impetuosa. Então continuou mais calmo e disse que, uma vez desencadeada a sede de vingança dos seus guerreiros, não foi mais possível impedir a matança. Teve o seu final somente com a morte do último judeu em Yatrib. Horrorizado, Maomé tampou os olhos com a mão. - Não é tenebroso, Abu Bekr, disse então vagarosamente, que eu lhes traga a morte, que eles sejam assassinados em meu nome, justamente eu, que desejo anunciar Deus aos homens, proporcionar-lhes felicidade, paz e bênção? Dize-me se ao teu ver, depois do que aconteceu esta noite, eu mesmo ainda posso viver, e se ainda posso ser um instrumento de Deus? Pela primeira vez desde a antiga discordância. Maomé falou novamente de Deus ao seu vizir, deixando-o visualizar sua alma. Entrementes, porém, Abu Bekr também encontrara o caminho para Deus, se bem que à sua maneira algo
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    MAOMÉ - 109 - tortuosa.Implorou intimamente que lhe fossem inspiradas as palavras certas para consolar o príncipe demasiadamente brando, e também enrijecê-lo. - Príncipe, começou com cautela, queres escutar-me uma vez? Desejas e deves trazer à humanidade a nova doutrina! Por que a humanidade necessita de uma nova crença? Unicamente porque na antiga não achou apoio suficiente para seguir o seu caminho sem tropeçar. A maior parte da humanidade decaiu tão baixo no pecado, que todo o auxílio é inútil. Maomé gemia; não interrompeu, contudo, o interlocutor. Este conti- nuou: - Imagino isto como um grande e profundo lodaçal, no qual os homens caíram por desconhecimento do caminho ou pela própria vontade. Agora esten- dem as mãos, não para se deixar puxar para cima, mas sim para arrastar os ou- tros também para baixo. Assistirias impassivelmente, príncipe, a que também os outros, até aqui inocentes, caíssem igualmente no lodo e tivessem que sufocar-se ali? Não pegarias a espada para decepar as mãos malfeitoras? Esses homens te- riam afundado assim mesmo, mas os outros estão salvos. Os dois ficaram calados. Demoradamente prevaleceu o silêncio no apo- sento. Suas almas concentravam-se em oração. O vizir rezou pelo seu príncipe, e este pelo seu povo. Enfim Maomé rompeu o silêncio: - Meu amigo, agradeço-te! Agora sei que sou fraco, aí, onde é necessário uma severidade inexorável. Pedirei a Deus que me conceda forças para que possa combater em mim essa fraqueza indigna de um homem. Foi-me revelado esta noite que ainda correrá muito sangue até que o povo fique maduro para receber a nova doutrina. Tu deves executar essa horrenda tarefa por mim, porquanto és mais forte do que eu. Agradeço-te. - Oh! príncipe, farei por ti tudo o que te seja difícil, contanto que não me repreendas por isso! Jorrou do íntimo do vizir. Sua fidelidade não conhecia outro meio de comprovar-se, a não ser o de abrir caminho para o portador da Verdade. Os dois não puderam conversar muito sobre os acontecimentos da noite; ambos estavam por demais comovidos com o fato. Contudo, para Maomé não havia dúvida de que deveria falar com os patriarcas da cidade. Mandou chamá-los. Vieram abalados pelo temor. Os acontecimentos terríveis encheram-nos de pavor. Estavam em dúvida sobre o que agora estaria à sua espera. Sério e amável, o príncipe dirigiu-lhes a palavra. Lamentou terem sido necessárias medidas tão drás- ticas. Isso foi tudo o que falou sobre o assunto. Em seguida perguntou como imagi- navam a remoção e o enterro das vítimas. Não haviam ponderado nada a respeito. Então ordenou que a uma certa distância, fora da cidade, fossem abertas algumas valas, para nelas deitar os cadáveres. Fê-las ver, no entanto, que os mortos eram ir-
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    MAOMÉ - 110 - mãosque erraram e que não deveriam ser enterrados como animais. Quando todos os mortos tivessem sido deitados cuidadosamente nas valas, então deveria ser colo- cada uma camada de terra sobre os mesmos. Em seguida ele viria para pronunciar pessoalmente a bênção. Ordenou ainda que os guerreiros de Abu Bekr tomassem posição em redor das covas para isolá-las, de maneira que nenhum olhar curioso atingisse os mortos, e nenhuma palavra ofensiva fosse pronunciada em voz alta. - Quando achais que podereis estar com tudo pronto? Indagou o príncipe. Os patriarcas deliberaram entre si a meia voz, e então fixaram o dia seguinte à noite. - Vamos carregar os cadáveres em carroças e tampá-las bem; assim podere- mos removê-los sem muita demora da cidade, disseram. O príncipe despachou-os, para que a triste tarefa fosse executada sem mais demora. A Abu Bekr, porém, disse: - O verdugo não serve para coveiro, eis por que não deixei que teus guer- reiros ajudassem no sepultamento. Mas que se encarreguem de cuidar que as suas vítimas não sejam escarnecidas ainda na morte ou prejudicadas por curiosidade. Talvez isto sirva para que alguns deles reconheçam ter sido a sede de sangue o im- pulso sob o qual agiram. O Juízo tinha que vir sobre aqueles que se haviam coloca- do contra a vontade de Deus, porém ai da mão que se levantou somente para saciar sua sede de sangue! Admirado, o vizir olhava para o príncipe, o qual parecia ter se livrado de uma vez de toda fraqueza. Então, viu-se compelido a dar expressão por palavras a essa admiração. - Meu amigo, disse Maomé, quando nós homens reconhecemos um erro, assim como eu reconheci minha desditosa fraqueza, nesse caso falta apenas um úni- co passo para que nós nos desfaçamos dele na força de Deus. Entretanto, devemos implorar a força para isso. À noite do dia seguinte, ainda antes do pôr-do-sol, Maomé estava de pé, na beira das três covas que haviam acolhido os mortos. Pronunciou uma oração que enterneceu a todos os ouvintes. Pediu a Deus que fosse considerado, caso isso fosse possível, que a maioria desses homens fora conduzida por caminhos falsos. Então fez ver aos sobreviventes que esses tiveram de morrer por sua causa,a fim de que também eles não fossem arrastados igualmente ao abismo. Não deveriam maldizer as vítimas, mas lembrar-se delas com íntima gratidão.Em seguida começou a falar ao povo sobre Deus. As almas, ainda sob a impressão comovente dos acontecimentos, escutavam, receptivas. Em muitos surgiu uma noção da grandeza e da majestade de Deus.Alguns dias depois parecia que em Yatrib toda a inquietação estava esquecida. Cada qual tra- tava dos seus afazeres, e a construção do santuário redondo progredia rapidamente. Seguindo uma inspiração recebida de cima, Maomé quis exortar o povo a rezar cinco vezes ao dia, regularmente, em horas bem determinadas. .
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    MAOMÉ - 111 - Dessemodo, na faina diária, conservar-se-ia vivo o pensamento em Deus. O teor dessas preces, em atenção a esse motivo, Maomé não quis prescrever. Pretendia escrever para o povo poemas de louvor e agradecimento ao Criador, os quais então poderiam ser utilizados por livre escolha. Inteiramente entretido nesses pensamen- tos, relatou-os um dia aos seus. Todos os aprovaram vivamente. Pareceu-lhes bom que à mesma hora, no país inteiro, devesse subir uma prece de todos os corações. Porém Ali, que sempre ponderava a exeqüibilidade de uma idéia, antes de esta ser debatida por inteiro, quis saber como poderia ser organizada, para que realmente todos, à mesma hora, elevassem suas almas a Deus. - Deve-se mandar proclamar a hora, refletiu Maomé. - Então deverias mandar o convocador colocar-se em cima de algum telha- do, príncipe, objetou Said. Parado na rua, não seria possível fazer-se ouvir. - Constrói-lhe uma torre ao lado do templo, meu amigo, propôs Alina. Essa proposta agradou a todos; especialmente Maomé fixou-se imediata- mente nisso. Uma alta e delgada torre deveria ser construída, a qual teria de ser erigida isoladamente, ao lado do templo. Como um dedo deveria indicar às alturas, lembrando os homens, também na sua forma externa, daquilo que paira acima da existência humana. Alina desagradou-se do nome “templo” para o santuário. Desculpando-se, disse que ele fazia lembrar os pobres judeus mortos.Também Ali insistiu em que fosse procurado outro nome.A expressão“templo”exercia em toda parte um efeito irritan- te sobre os judeus, os quais a utilizavam para denominar as suas casas de Deus. - Então vamos adotar o termo árabe “moschee” (mesquita), opinou o prín- cipe. Agrada-me já pelo fato de provir etimologicamente do nosso idioma e não ser plagiado de ninguém. Mesquita, lugar de adoração, sim, assim será denominado! Como Maomé daquela hora em diante falasse sempre mesquita, os constru- tores e patriarcas habituaram-se a chamar assim o santuário. Já há muito tempo o príncipe tinha vontade de ir a Meca. Precisava ver pes- soalmente em que situação ficara a cidade. Caso fosse possível, desejaria instalar no- vamente a sua residência lá. Provavelmente mandaria reconstruir desde a sua base o palácio do principado. Mas o faria com prazer. Além disso, queria ver o tesouro oculto e tirar pedras preciosas, as quais tencionava doar ao santuário de Yatrib. Ra- zão suficiente para empreender uma cavalgada até Meca. Abu Bekr inicialmente não quis ouvir nada disso. Sabia de que maneira hor- renda os seus guerreiros devastaram Meca, e quanto dano causara a desunião entre os burgueses. Queria poupar ao príncipe a visualização desse aspecto, contudo, este
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    MAOMÉ - 112 - nãomais consentiu que se tomassem em consideração, de qualquer modo, os seus sentimentos. Queria ver pessoalmente e tornar-se rígido. Então todos insistiram em acompanhá-lo: Abu Bekr com um número considerável de guerreiros, Said, Ali e Abdallah, filho mais velho de Ali. Alguns serviçais familiares deveriam igualmente acompanhá-los, entre eles Mustafá, que, aliás, já era bem idoso e não obstante dese- java fazer parte da caravana. Sabia que era indispensável na procura dos tesouros. Numa bela manhã o imponente grupo saiu cavalgando pelo portal rumo ao sul. Há quanto tempo Maomé não viajava mais por esse caminho! Pomares, amoreiras e campos de cereais estendiam-se férteis diante dos cavaleiros. Se aqui alguma vez foram travados combates, então os danos já tinham sido compensados pela riqueza da fertilidade da natureza. Passaram por pequenas povoações. Os moradores acorreram e souberam que o príncipe Maomé chefiava o grupo, e ovacionaram-no. Aprazia-lhes ver como ele montava com imponente e natural dignidade o seu cavalo. Regozijavam-se por ser ele seu príncipe. No mais, pouco sabiam a seu respeito. Nunca lhes interessou sa- ber quem os governava. Enquanto podiam viver em paz, era-lhes indiferente quem dominava o país. Ao fim de alguns dias o grupo chegou às adjacências de Meca, cujo portão encontraram fechado. Abu Bekr, ameaçando, exigiu que os deixassem entrar, toda- via zombaram deles. - Prevenimo-nos bem, servo sanguinário de um senhor sedento de sangue, clamaram para fora com riso irônico. Não nos prejudicarás mais. Nesse momento o príncipe em pessoa pediu entrada. Depois disso houve silêncio. Provavelmente as sentinelas não tinham sido prevenidas com instruções para esse caso. Então fizeram sinal para que o príncipe esperasse. Precisariam cha- mar os patriarcas da cidade. Abu Bekr estava furioso. Como podia ser possível uma cidade comportar-se dessa maneira perante o seu príncipe! Maomé procurou pacificá-to. - Não deves esquecer, disse, que Meca sofreu muito. Eu estive ausente duran- te dez anos. O povo não sabia se eu voltaria um dia. Possivelmente os guardas do portão nada sabem sobre mim. Também ao príncipe não agradou ficar esperando submisso na frente do por- tão fechado. Deixou uma pequena tropa de cavaleiros no local e rodeou com os seus a cidade, num largo círculo, para poder formar uma idéia sobre as devastações. Enfim, Said percebeu uma agitação no portão e concluiu que os patriarcas da cidade estavam reunidos ali.Maomé voltou vagarosamente com os acompanhantes.O portão perma- neceu fechado como antes, mas sobre o muro surgiram muitas cabeças; um espetácu- lo que provocou um sorriso involuntário do príncipe.Bem-humorado,aproximou-se e cumprimentou os que olhavam por cima do muro. Então disse:
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    MAOMÉ - 113 - -Está em tempo de mandar abrir os portões para o vosso príncipe, que está aqui para visitar-vos. É mau procedimento fazer o soberano esperar. Contestando, replicou um dos patriarcas que conhecera Maomé em tempo anterior: - Quem te disse, príncipe Maomé, que és bem-vindo? Por muitos anos per- maneceste distante de nós. Não estás mais gostando de Yatrib para te lembrares finalmente de tua velha cidade natal? - Não me foi possível vir antes, Ibrahim, retorquiu Maomé bondosamente. Contudo, sobre isso vos darei informações, se nos próximos dias estivermos senta- dos juntos, e eu também saberei de vós o que passastes nesse ínterim. Em cima do muro nada se mexeu; o portão continuava fechado. Então Ma- omé clamou em voz alta: -Vosso príncipe encontra-se diante do portão, ó homens; o profeta do Altíssimo deseja entrar na Caaba.Se vós vos opuserdes,então não devereis admirar-vos,se um cas- tigo severo for a conseqüência da vossa teimosia.Ordeno-vos que abrais o portão! Em cima do muro começou um murmúrio baixo, uma ponderação, uma reflexão; então pareceu que o pouco antes chamado Ibrahim subiu mais alguns degraus de uma escada encostada pelo lado de dentro, porquanto tornou-se visível até os joelhos.Agitava um trapo branco em sinal de que não lhe deveriam fazer mal, e começou a falar: - Nós não temos... Maomé interrompeu-o bruscamente: - Guarda teu farrapo,Ibrahim! Falo aqui convosco sem um símbolo desses e sem medo. Nisso deverias seguir meu exemplo.Ainda mais: falas em nome da cidade. O que acontecer a ela deverá recair duplicado sobre ti. Pensa nisso, e não te lamentes quando acontecer aquilo que vossa obstinação atrair sobre vós. Ibrahim de fato atirou o trapo branco e desceu de novo alguns degraus da escada, o que provocou irresistivelmente uma risada do jovem Abdallah, que observava com grande atenção o desenrolar do acontecimento. E então Ibrahim começou outra vez: - Não temos mais nenhum príncipe.Desde que o príncipe Maomé deixou du- rante a noite nossa cidade, para estabelecer-se em Yatrib, nós o depusemos. Nós somos auto-suficientes e não necessitamos de soberano algum. O palácio dos Koretschi demo- limos, e o que continha, repartimos entre nós. Podias ter ficado aqui, Maomé ben Ab- dallah,se teu coração estivesse preso a essas coisas.Teu vizir sanguinário estrangularemos como um cão, se ele nos cair nas mãos. Para ti, porém, o portão da cidade permanecerá fechado. Também não necessitas ir à Caaba; tens a tua nova crença.Atém-te a ela! -Agora basta! Esbravejou Maomé,que começava a enfurecer-se.Uma cidade que não tem soberano está fora da lei. Não fiqueis alarmados se eu vos tratar corresponden-
  • 114.
    MAOMÉ - 114 - temente.Acautelai-vos de enviar caravanas comerciais para fora, porquanto estas serão interceptadas e presas. Com as vossas riquezas devereis garantir aquilo de que vos apro- priastes indevidamente. Estabelecerei um firme encurralamento em redor da cidade re- voltosa.Não tereis liberdade de movimentação na vossa prisão deliberadamente escolhi- da. Deixai, entretanto, os vossos portões fechados, porquanto abri-los agora significaria expor-vos a um perigo! Esporeou o seu cavalo e saiu dali a galope. Seus acompanhantes seguiram-no, formando um longo grupo bem disciplinado. Tinha uma aparência majestosa esse cor- tejo, e aos homens de Meca, que eram legítimos árabes, agradou extraordinariamente o procedimento de Maomé. Apesar disso, não quiseram ceder de modo algum, julgando, aliás,ter motivo suficiente para rancor e vingança. Assim que a cidade ficou além do seu campo visual, o grupo de Maomé parou. Chamou os seus perto de si, para aconselhar-se com eles. Então foi decidido que Said e Ali regressariam a Yatrib, a fim de buscar os restantes guerreiros. Maomé quis ficar com as tropas de Abu Bekr e com ele vigiar os dois portões. Abdallah pediu insistentemente parapoderficarcomoavôeacompanharodesenrolarulterior.Maoméalegrou-secoma atitude de seu neto e anuiu ao seu pedido.Ainda à mesma hora partiram os fiéis,levando consigo uma parte da criadagem, enquanto os guerreiros acampavam perto da cidade, para que pudessem observar melhor o que se passava sobre os muros ou nos portões. Tambémduranteanoitenãodescuidaramdesuavigilância.Nadaocorreunosprimeiros dois dias.Os portões permaneceram fechados;sobre o muro foram penduradas peças de roupa para enxugar.Abdallah resmungara que isso já estava ficando fastidioso,então,ao meio-dia abriu-se cautelosa e furtivamente o portão. Abu Bekr ordenou que nenhum dos seus se mexesse. O inimigo deveria julgar-se seguro. Do portão saiu um imponente camelo, carregado de mercadorias, seguido de um segundo e um terceiro. Maomé presumiu um ardil. - Não é concebível,disse,que eles realmente experimentem enviar uma caravana, apesar de estarmos acampados aqui. Todavia assim foi.Uma considerável caravana de quinze camelos deixou a cidade e dirigia-se em direção a oeste. Rapidamente os guerreiros montaram nos seus cavalos, e enquanto a metade tomava a dianteira para atravancar o caminho dos camelos, a outra metade tomava o rumo entre a cidade e a caravana.Maomé mantinha-se afastado.Não se coadunava com a dignidade de um príncipe capturar uma caravana comercial. Também não teria per- mitido queAbu Bekr o fizesse,se não tivesse ele próprio ameaçado com isso.Agora tinha que sustentar a sua palavra. Não levou muito tempo até que os vencedores voltassem. Em obediência às instruções de Maomé, os guerreiros procuraram aprisionar os inimi- gos sem matá-los. Arrastaram alguns feridos a ele. Orgulhavam-se de seu autodomínio. Maomé elogiou-os.Então um dos homens mais idosos disse:
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    MAOMÉ - 115 - -Príncipe, chamaste-nos de carrascos, o que nos magoou profundamente. Se o príncipe julgou inicialmente que a caravana se compunha de mora- dores de uma outra cidade, que eram obrigados a retomar à sua terra natal, nesse momento teve de certificar-se de que os habitantes de Meca se deixaram levar tão longe pela sua teimosia, a ponto de enviar realmente uma caravana, que, além de tudo, estava carregada ricamente. Maomé mandou vir os prisioneiros à sua presen- ça. Não conheceu nenhum deles. Tremiam e estremeciam, de sorte que mal pude- ram responder às perguntas. Quis saber se eram comerciantes estabelecidos. Responderam negativamente. Momentos depois ficou sabendo que se tratava de homens contratados, os quais por causa do ganho arriscaram a sua vida. Dois comerciantes haviam feito a tentativa, para ver se Maomé executaria efetivamente a sua ameaça de interceptar as suas caravanas. - Por que deveria deixar de cumprir aquilo que eu disse? Perguntou o príncipe. Os homens abaixaram as cabeças. Os guerreiros, porém, regozijaram-se com a presa. Maomé mandou dar bas- tante a eles; o restante, no entanto, deveria ser guardado para o caso de a cidade se render em breve. Então deveria ser restituída aos comerciantes pelo menos a maior parte de seus bens. Após ter conferenciado com Abu Bekr, Maomé mandou vir ou- tra vez os homens de Meca à sua presença: - Escutai, disse a eles, como sois apenas homens contratados, dou-vos a liberda- de, se me prometerdes não empreender mais nada contra mim. Isso eles prometeram de bom gosto. Depois disso receberam permissão para regressar à sua cidade, porém sem os camelos. Lá, contudo, primeiro recusaram-se a abrir os portões para eles. - Não podemos saber quanto dinheiro Maomé vos ofereceu para atraiçoar- nos, disseram os patriarcas. Alguns homens juraram solenemente que não fariam nada contra a cidade e que o príncipe também não exigiu semelhante coisa deles. Os demais eram muito orgulhosos para humilharem-se. Voltaram a Maomé e pediram que os aceitasse a seu serviço. Confiou-lhes o tratamento dos camelos. Tinham de se manter a certa distância do acampamento e encontravam-se, sem que o soubessem, debaixo de uma certa vigilância, até que deram provas de que tinham de fato intenções hones- tas. De vez em quando o príncipe travava conversa com eles. Perguntava sobre este e aquele, dos quais se recordava. Queria saber se o seu palácio paterno fora realmen- te arrasado. Os homens responderam afirmativamente. Teria restado somente um montão de ruínas. Disso, contudo, Maomé obteve a convicção de que o local onde se encontrava o tesouro não fora descoberto. IInterrogou também sobre Abu Talib. - Teu vizir sanguinário nada te contou a respeito dele? Perguntou um dos ho- mens em resposta. Ele poderá informar melhor o que fez com ele.
  • 116.
    MAOMÉ - 116 - -Então não vive mais? Indagou Maomé, se bem que sabia qual seria a resposta. Os homens negaram e disseram que Abu Talib já tinha sido aprisionado por Abu Bekr na primeira revolta. Então o homem teria praguejado tanto e, sobretudo, blasfemado tão terrivelmente contra Cristo, que o vizir mandou pregá-lo sumaria- mente na cruz. Maomé horripilou-se. Tal fim para um homem, a quem somente a cobiça induziu a caminhos errôneos! E esse era o pai de Ali. Como foi bom que Ali não soubera nada disso! Mais cedo do que se esperava, vieram os guerreiros de Yatrib sob a chefia de Said. Então Abu Bekr pôde tratar de continuar o cerco iniciado. Maomé regressou com Abdallah. Grande júbilo recebeu-o. Os ânimos exaltados sobre a carnificina acalma- ram-se nesse ínterim. Os homens compenetraram-se de que os judeus haviam cometido grave crime e que o castigo, embora severo, fora justo. Assim também desapareceu neles o medo de Maomé, e quando souberam como Meca recebeu seu soberano, insistiram de novo junto ao príncipe que elevasse Yatrib para sua resi- dência. Construir-lhe-iam um suntuoso palácio. Concordou. Para o reino, com sua nova extensão,Yatrib ficava bem mais favorável; além disso, poderia demorar muito até que Meca, após todos os distúrbios, fosse recuperada. Imediatamente foi dado início à construção do palácio. Os habitantes de Yatrib competiam entre si para tomarem parte de qualquer modo na obra. Resolve- ram que o palácio deveria ficar pronto simultaneamente com a mesquita. -Nessecasotambémterásqueabandonaravidanopaláciodasmulherespuras, disse Maomé a Alina, quando falaram do futuro. Ele não podia conceber outra idéia a respeito senão a de estar reunido novamente com os seus, no palácio principesco. A princesa, porém, sacudiu levemente a bela cabeça. - Isso não mais será assim, meu amigo, replicou. Se queremos ajudar as mu- lheres a recuperar a pureza perdida, então devemos dar exemplos, sobretudo quan- to à vida nova que nasce da nova doutrina. Sabes que sou agraciada para ver certas coisas, quando me surgem dúvidas sobre se aquilo que sinto intuitivamente é o certo para minhas irmãs. Baseada numa dessas visões noturnas, mandei construir o palácio, no qual podem entrar somente mulheres. Por essa razão também vedei a ti, meu marido, a entrada. Gracejaste quando eu não quis permitir que visitasses nossos aposentos. Efetivamente isso não foi um mero capricho meu. Maomé interrompeu-a, admirado. - Teria havido algum mal, se eu, o esposo e pai das ocupantes, tivesse percor- rido o palácio? Perguntou, incrédulo. Alina pediu: - Procura compreender-me. Dificilmente poderei exprimir por palavras aquilo que está tão vivo no meu íntimo, e que, tenho certeza, é a verdade. Exte- riormente isso não nos teria prejudicado. Porém, após eu ter introduzido como
  • 117.
    MAOMÉ - 117 - exemploa separação dos sexos, não deveria transgredi-la nem por um segundo. Se nossas filhas e eu não respeitarmos o mandamento, as outras muito menos o respeitarão. Vê, meu amigo, os homens desaprenderam a acatar-nos assim como era da vontade de Deus. Nós próprias somos culpadas e nós próprias devemos es- forçar-nos para modificar isso. Nós nos entregamos com demasiada liberalidade e sem timidez aos homens. Também olhares podem tocar e macular! Essa é a razão por que Fatime, as filhas e eu sempre usamos um véu cobrindo o rosto, ao andar- mos nas ruas. Nenhum olhar de homem estranho poderá avaliar-nos. Se durante os anos transformamos essa prática em hábito, então isso se realizou para que uma vez um começo fosse dado. Espero e desejo que transformes em lei aquilo que até agora apenas pude prescrever às mulheres do meu círculo de intimidade. Muitas de nossas conhecidas já praticam os mesmos costumes. Sentimo-nos mais contentes assim, do que em tempo anterior. Cheios de admiração, os olhos de Maomé fitavam a princesa, cujo rosto de- licado cobriu-se de um suave rubor durante o diálogo. - Realmente, Alina, Deus teve as melhores intenções comigo ao destinar-te para minha esposa! Disse cheio de gratidão. Auxiliarás as mulheres a regenerarem- se da decadência. Com isso renovar-se-á toda a nossa geração; porquanto mulheres puras serão mães boas e virtuosas. - Posso dizer mais alguma coisa? Pediu a princesa após breve silêncio. Preo- cupa-me muito o fato de que cada homem possa ter um número ilimitado de mu- lheres. Com a primeira e a segunda talvez ainda se realize uma espécie de bênção; depois então compram as demais, ou tiram-nas da criadagem para incluí-las em seu domínio familiar. Isso em nada favorece a pureza. Sei que será errado exigir que os nossos homens devam contentar-se com uma mulher. Onde, como conosco, ficou negado o herdeiro, será admissível que o homem se una a uma segunda mulher. Também outras razões podem ser determinantes. Porém, mais do que duas mulhe- res nenhum homem deveria ter. Queres uma vez meditar sobre isso, meu amigo? Maomé prometeu-o e pensou ulteriormente mais nisso do que gostaria. “Como conosco”, havia dito Alina. Não seria também sua obrigação tratar de ter um herdeiro? Na verdade Ali era excelente sucessor, mas, bem considerado, Fatime não era da mesma casta, pois era filha de Chadidsha. Disso poderiam advir complicações, no caso de seu falecimento, se não existisse um verdadeiro herdeiro no trono, de descendência principesca. Perdurou por alguns dias a incerteza, e então Maomé soube que Deus lhe negara o herdeiro. Toda aspiração a esse objetivo seria em vão. Dedicou-se com mais assiduidade aos seus poemas, os quais se tornaram para ele uma necessidade íntima e proporcionavam-lhe grande prazer. E com tudo isso se passaram mais dois anos.
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    MAOMÉ - 118 - Entãoveio a notícia de que os habitantes de Meca, irritados pelos sucessivos aprisionamentos de suas caravanas comerciais, fizeram uma investida e passaram por sua vez ao ataque. Perto da povoação de Bedr havia sido travada uma sangrenta bata- lha, que durou alguns dias. O seu desfecho não teria sido decidido por muito tempo, contudo, certo dia de manhã Abu Bekr fez uma oração em voz alta, em presença dos guerreiros, para que o Senhor dos Céus e da Terra lhe concedesse a vitória, a fim de que Maomé finalmente pudesse iniciar a propagação da nova doutrina. Depois disso encorajou os guerreiros, e ainda antes do anoitecer a vitória estava conquistada. Os homens de Meca tiveram que retirar-se em debandada para a sua cidade. Abu Bekr consultou se deveria atacar e aniquilar a cidade. Maomé encarregou Ali de entrar em negociações com Meca. Tão reduzido teria ficado o número dos guerreiros aptos para o serviço de defesa, que a cidade certamente aceitaria quaisquer condições.Não se enganou.Os moradores de Meca ficaram contentes de poder entrar em concórdia. Com a promessa de absoluta fidelidade, foi-lhes assegurado que Abu Bekr retiraria suas tropas. Meca estava tão humilhada, que rogou que Maomé esquecesse o passado e instalasse novamente sua residência em seu meio. Ali recusou cabalmente em nome do príncipe. Em seguida pediram que o príncipe pelo menos viesse visitar a cidade e a Caaba. Isso Ali achou que poderia prometer. Por sua vez os patriarcas conformaram- se com a condição, naquele tempo usual em tais casos, de manter abertos os portões por um determinado número de anos. Uma cidade subjugada não podia fechar ne- nhum portão, até que se redimisse. Maomé estava satisfeito com o resultado e preparou-se para visitar Meca. An- tes, porém, fez uma alocução na praça principal de Yatrib e participou a todos os ha- bitantes que a cidade dali em diante seria a capital do novo reino da Grã-Arábia.Nessa qualidade não deveria mais chamar-se Yatrib, e sim ter apenas o nome de “a cidade”, isto é, “Medina”. Assim ficaria elevada acima de todas as outras cidades. Essa seria a recompensa pela fidelidade que os seus habitantes lhe haviam tributado em épocas difíceis. Esperava agora também que“a cidade”se tornasse pioneira na aceitação e no acatamento de todos os novos mandamentos, na moderação dos costumes e numa vida melhor. Em sua alegria os homens prometeram tudo e a maioria também estava com o propósito de cumprir. Na verdade tiveram em mira principalmente vantagens ter- renas. Se Medina se tornasse a capital, então se transformaria no centro de todo o comércio e tráfego. Seu santuário atrairia igualmente os homens. Rica, grande e po- derosa ficaria Medina.
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    MAOMÉ - 119 - Maomécavalgou com Ali para Meca. Havia recebido ordem de cima para via- jar logo a seguir para a Síria e a Palestina e então, após o seu regresso, promulgar as novas leis e introduzir a nova doutrina. Enfim ele poderia iniciar a sua verdadeira missão. Tudo o mais fora apenas trabalho preparatório. Grande alegria e sublime en- tusiasmo encheram-no. Deixou Abu Bekr e Said em Medina e escolheu apenas uma pequena tropa de guerreiros para acompanhá-lo, chefiados pelo seu neto Abdallah. Assim que Meca surgiu ao longe, fez-se notar uma animada movimentação. Abdallah lembrou-se da chegada de três anos atrás e receou que os homens pudes- sem ter outra vez intenções hostis. Maomé acalmou-o. Vieram cavalgando pacifi- camente para receber o príncipe e conduzi-lo à cidade deles, que doravante deveria ser de novo a sua cidade fiel. Excederam-se em provas de arrependimento e dedica- ção, mas Maomé sentiu que não eram sinceros. Não confiava mais nessa gente. Com grande interesse olhava para os danos provocados pela discórdia e pela in- surreição. De seu próprio palácio realmente não se achava mais nenhuma pedra no seu lugar. O palácio principesco, que lhe servira de morada, estava parcialmente conserva- do; apresentava, contudo, o indício de ter sido ocupado por outros que não príncipes. A Caaba nada sofrera; apenas parecia indescritivelmente descuidada. Os pa- triarcas da cidade queixaram-se de que o príncipe mandara construir um novo san- tuário em Yatrib e que agora o deles seria relegado a segundo plano, esquecido. Ma- omé, querendo poupar os sentimentos daqueles homens, prometeu-lhes mandar construir mais tarde, também, em Meca uma mesquita. Eles, no entanto, deveriam nesse meio tempo limpar a Caaba e consertá-la. O príncipe, porém, já não tolerava a cidade, na qual se sentia constantemente rodeado por pensamentos falsos. Logo que se lhe tornou possível, interrompeu a visita, prometendo voltar uma outra vez, e cavalgou com o seu séquito para a Síria. Essa viagem através dos territórios recém-anexados proporcionou a ele e a seus acompanhantes uma alegria ilimitada. Em toda parte podia-se ver como cida- des e povoações desabrochavam sob o novo domínio e com que prazer eles obede- ciam ao príncipe. Mais de dois anos Maomé percorreu essas regiões, anunciando Deus e Cris- to, e preparando o chão nas almas para aquilo que deveria instruir-lhes mais tarde. Cheio dessas belas e regozijadoras impressões, aproximou-se afinal de sua cidade Medina, e encontrou-a num alvoroço muito grande. Recentemente haviam chega- do tropas de guerreiros do sul para atacar Medina. Abu Bekr fora cientificado do plano a tempo e saíra com os seus guerreiros ao encontro dos outros numericamen- te superiores. E agora estava sendo travado o combate. Maomé não hesitou muito; deu a volta ao redor da cidade sem demorar-se e conduziu os guerreiros a Abu Bekr como reforço. Chegou no momento preciso. Inicialmente a sorte das armas esteve ao lado de Abu Bekr. Então um subchefe exe-
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    MAOMÉ - 120 - cutouerradamente uma ordem, abrindo-se, conseqüentemente, uma brecha para o inimigo, a qual ninguém mais pôde fechar, porque todos os guerreiros eram indis- pensáveis em outros lugares. Com um rápido olhar, Maomé compreendeu a situação e cavalgou com seus acompanhantes para a brecha. Assim que os guerreiros avistaram o príncipe, reco- braram o ânimo já abatido. Após poucas horas a vitória estava conquistada; o ini- migo foi afugentado. Em grande parte contribuiu para esse resultado o sobressalto que os homens de Meca sentiram ao ficarem cientes de que Maomé em pessoa se encontrava no campo de luta. Julgavam-no ainda distante, em outras plagas. Nessa hora ele próprio tornou-se testemunha da deslealdade deles! Abu Bekr perseguiu com todos os guerreiros o inimigo em debandada. Tam- bém não descansou antes de ter feito a maioria dos homens pagarem com a própria vida a sua traição. Particularmente se encolerizou com o fato de os homens de Meca terem encontrado apoio tão forte por parte dos judeus da zona meridional da Ará- bia. Contra esses desencadeou toda a sua fúria. Não houve quem não caísse sob seu braço vingador. Maomé, porém, entrou cavalgando em Medina. Recebeu um leve ferimento. Abdallah teve ferimentos mais graves; entretanto, recuperou-se brevemente, sob os cuidados de sua mãe. O príncipe teve de esperar primeiramente o regresso e as notícias de Abu Bekr, antes de poder apresentar-se com as suas inovações. Isso se tornou para ele uma dura prova de pacienciosa espera. Ele, que durante longos anos esperara pa- cientemente, quase não podia, agora, superar essas semanas. Finalmente Abu Bekr retornou com os seus guerreiros para casa. Contou pouco da maneira como puniu os traiçoeiros, porém não deixou dúvidas de que isso foi feito radicalmente. Os patriarcas e sacerdotes da cidade de Meca que não tinham tombado em combate, mandou executar sem cerimônia. Os muros de Meca mandou demolir e o palácio do principado fez arrasar até o chão. O que teria resta- do da outrora orgulhosa e bela Meca? E esses sobreviventes teriam de pagar tributo e assim, por alguns anos, não poderiam empreender nada. Isso a Maomé pareceu severo demais. - Por que exiges tributo desses pobres, meu amigo? Perguntou, compassivo. Não precisamos de dinheiro. - Desta vez devem sentir o castigo, e essa população de mercenários e comer- ciantes somente o sente quando tem de entrar com dinheiro, retorquiu Abu Bekr indiferentemente. Se não queres aplicar o dinheiro de outra maneira, então junta-o para a mesquita, a qual queres mandar-lhes construir mais tarde. - Essa é uma ótima idéia, alegrou-se o príncipe. Assim o santuário será cons- truído com o dinheiro deles, expiando com isso a sua culpa.
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    MAOMÉ - 121 - Maomé,então, não viu motivo para protelar o início de sua verdadeira missão. Como ato preparatório, retirou-se para uma tenda, que mandara erigir perto de Medina, num lugar ermo, e jejuou e orou durante sete dias. Naqueles dias não falou com ninguém a não ser com o mensageiro de Deus. Sagrada força e importante saber para a nova doutrina afluíam-lhe. Incessantemente se pre- ocupava com a maneira pela qual deveria trazer ao povo o novo, numa forma que o mesmo aceitasse prazerosamente. Também nisso lhe foi dado auxílio. Viu como o país inteiro poderia ser dividido, a fim de poder controlá-lo com mais facilidade. Na noite do sétimo dia regressou ao palácio principesco, tomou um banho e mandou chamar Alina. Explicou-lhe seu projeto em traços gerais e pediu-lhe que complementasse sempre aí onde teria de ser incluído um mandamento ou uma determinação para as mulheres. Assim trabalharam os dois a noite toda. Somente então quebrou o jejum, tomou uma refeição e deu um passeio pelo jardim. Depois disso mandou chamar Abu Bekr, Ali e Said para ministrar-lhes as determinações mais importantes sobre o novo reino. Dividiu a Grã-Arábia em pro- víncias, colocando em cada uma delas um administrador. Este não deveria apenas governar a província como seu procurador, mas sim, ao mesmo tempo exercer as funções de mais alto zelador dos bens espirituais. Esse projeto fora elaborado nos últimos anos em seus mínimos detalhes e recebera há pouco tempo apenas comple- mentação e confirmação de cima. Os três fiéis admiravam a profunda sabedoria que aí se lhes revelou. Pre- videntemente Maomé escolhera para administradores somente aqueles homens que demonstraram ser fiéis, como também não deixou de levar em consideração, na escolha, que fossem descendentes da zona para cuja administração tinham sido convocados. Foi demonstrado que Maomé, o qual Abu Bekr em sigilo sempre ainda cha- mava de“o sonhador”, caminhava pela vida com os olhos abertos, e que sabia muito mais do que os outros supunham. Teve conhecimentos exatos sobre a conduta dos moradores de cada província, sobre suas necessidades e sobre seus costumes. Após terem sido indicados os administradores, em número de vinte e sete, mandou Maomé mensageiros a todos eles, para que se reunissem num determinado dia em Medina. Nesse meio tempo combinava com os seus os mandamentos que iria publicar e as teses doutrinárias que iria anunciar. E de novo os surpresos acharam um firme encadeamento, no qual não faltou nenhum elo. Uma bem-pensada integração, a qual deveria entusiasmar a todos os bem-intencionados. - Realmente, príncipe, exclamou Ali encantado, aqui devemos reconhecer
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    MAOMÉ - 122 - queteu espírito é guiado por Deus! Coisa semelhante nenhum homem pode pro- duzir. É perfeito. Os outros aprovaram e esforçaram-se para captar direito tudo quanto Ma- omé lhes quis anunciar. Era muito o que eles tiveram de aprender, mas resultou tão nitidamente uma coisa da outra, e nada fora posto arbitrariamente, que, para surpresa sua, notaram como puderam assimilar logo o novo. Então veio o dia fixado para a reunião. Todos os administradores escolhidos compareceram pontualmente, na ansiosa expectativa de saberem por que o prínci- pe mandara chamá-los. Foram alojados com o necessário conforto em grandes ten- das feitas de tecidos de seda, as quais haviam sido levantadas para esse fim. À noite, na sua chegada, foram estimulados a tomarem banho; depois todos receberam ves- tuários iguais, de várias cores: calças largas feitas de tecidos coloridos, estreitadas embaixo; camisas brancas folgadas com mangas compridas e largas, e sobre estas um colete bordado, da mesma cor da calça. Sobre o colete foi fixada uma cinta, da qual pendiam as armas: espada, punhal e faca. Foi servida uma copiosa refeição em todas as tendas, e os servos aconselha- vam que todos se servissem à vontade, porquanto o dia imediato seria de jejum. Isso era novo para todos. Na manhã seguinte, justamente nesse dia de jejum, Maomé mandou chamar os vinte e sete na praça principal de Medina, onde estava esperando com seus três fiéis. Tiveram que tomar posição em forma de círculo com a fronte dirigida para o leste. Após isso, o príncipe pronunciou uma longa oração, na qual agradeceu a Deus, o Senhor, pela Sua graça e pelo Seu auxílio. Sentaram-se no local em que se encontravam. Maomé sentou-se no meio deles e dirigiu-lhes a palavra. Esclareceu que os convocara para propagarem a nova doutrina entre o povo. Isso, porém, não deveria ser efetuado mediante peregrina- ções e tentativas de conversões, mas sim, cada um deles recebe-ria uma comarca, na qual, como mandatário com poderes circunscritos, cuidaria do bem-estar do povo, sendo sua incumbência principal a introdução da nova doutrina. Isso seria possibilitado pelos mandamentos redigidos pelo príncipe, em conformidade com a vontade de Deus, e cujos mandamentos também os administradores teriam que cumprir integralmente. O não cumprimento acarretaria um castigo severo. Após, exigiu que se retirassem às suas tendas e meditassem para adquirir certeza se estavam dispostos a aceitar a investidura. Aquele que se julgasse incapaz, poderia desistir. Quem quisesse seguir o chamado, deveria apresentar-se à noite, antes do pôr-do-sol, na mesquita, para prestar juramento de fidelidade. Até lá deveriam abs- ter-se de qualquer alimento. Admirados, os homens obedeceram e retiraram-se para as tendas, onde per-
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    MAOMÉ - 123 - maneceramaté a noite. A maioria deles deitou-se sobre as camas e ficou absorta em sonhos; não sabiam, com efeito, como deveriam começar a “meditação” de modo diferente. Entretanto, todos estavam possuídos de um sagrado zelo e de boa von- tade; nenhum deles cogitava em não aceitar o cargo. O novo traje deu-lhes, ante si mesmos, uma certa dignidade, que os tornou felizes. À noite, ficaram parados na frente da mesquita, que foi aberta ao som de cânticos solenes de vozes masculinas, que soavam do interior. Foi-lhes permitido entrar, e ficaram admirados. Coisa idên- tica nunca haviam visto! Assim deveria ser nas alturas, acima do mundo! A ampla cúpula estendia-se sobre a penumbra; porquanto a claridade das tochas, das velas, das lamparinas suspensas e dos incensórios acesos entre as colunas, não penetrava bem para cima. O chão estava coberto de tapetes coloridos. Os devotos puderam ficar de pé sobre os mesmos, após terem tirado os seus calçados na porta de entrada. No lado leste fora construído um nicho, no qual se apresentou Maomé. Era natural que todos estivessem numa posição em que pudessem vê-lo. Então, a voz juvenil de Abdallah, que estava situado num lugar mais alto, no meio,leuumhinodelouvoràonipotênciaebondadedeDeus.Soavaevibravapeloam- biente solene e emocionou as almas poderosamente. Tiveram a sensação de estar sendo levados para planícies de bem-aventurança. Nunca haviam presenciado tal evento! A maioria deles até então não tinha crença nenhuma; uns eram cristãos e alguns judeus. Todos, no entanto, sentiram que lhes fora dado algo de novo e melhor. Então Maomé começou a falar.Pediu-lhes que cada um por si se apresentasse diante dele,para,ao pro- nunciar o próprio nome,prometer que queria servir a Deus como seu supremo Senhor e Soberano e executar Suas ordens. A fim de que soubessem como deveriam fazê-lo, aproximou-se primeiro Ali e disse com voz gutural, mas claramente audível: -AlibenAbuTalibprometeserviraDeuscomoseusupremoSenhoreSoberano e cumprir os Seus mandamentos! E Maomé respondeu: - Ali ben Koretschi, sê regente do reino, em meu lugar! Abu Bekr foi nomeado grão-vizir e chefe do exército; Said para vizir, encarregado das finanças e administrador de todos os escritos. A cada um que então se aproximou, Maomé citou a província que teria de go- vernar como administrador, e todos notaram com alegria que era justamente na pró- pria terra natal de cada um que deveriam viver dali em diante como servos de Deus. Por último aproximou-se AbdaIlah, que se tornara um moço de bela aparência. - AbdaIlah ben Ali, a ti, Deus ordena que sejas orador no santuário, como foste hoje! Em seguida Maomé pronunciou uma fervorosa prece, na qual implorou a bên- ção do Altíssimo sobre os trinta e um servos. Um coro de homens encerrou a solenida-
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    MAOMÉ - 124 - de.Após,dirigiram-se ao palácio principesco, onde os esperava uma refeição suntuosa, servida em mesas compridas. O príncipe andava no meio dos seus hóspedes, convidando-os a se servirem na mesa e travando conversa ora com um, ora com outro. Queria fazê-los perder o emba- raço e, ao mesmo tempo, conhecê-los melhor. Quando notou que alguns não tocaram na bebida,nos sucos de frutas,no leite ou no chá,então disse em voz alta a todos:- Estais admiradosdequeovossopríncipenãotenhavinhoparaoferecer-vosetambémnenhu- ma outra bebida que estimule os sentidos. Dizei, amigos, a alegria que sentis a respeito de vosso alto cargo, não é mais estimulante do que uma boa bebida embriagante, que turva vossos sentidos e vos leva a atos dos quais mais tarde tereis de arrepender-vos? Todos concordaram, tomados involuntariamente pelas suas palavras. - Vereis que as novas leis interditam para o futuro o uso de bebidas embria- gantes, meus amigos; porquanto o homem deve ser senhor dos seus sentidos, se quiser viver na vontade de Deus. Estavam perplexos, mas não resmungaram. Nesse dia souberam inesperada- mente tanta coisa nova, que quase não mais puderam assimilar nada. Após o banquete, o príncipe despediu-se dos administradores e convidou-os a comparecerem no dia seguinte novamente no palácio, não para comer, mas sim, para receberem instruções. Deveriam a partir desse dia comparecer diariamente para ficarem bem seguros daquilo que teriam de ensinar aos outros. Essa doutrinação começou com a tentativa de Maomé de fazê-los formarem uma noção sobre a acepção de “Deus”. O que mais lhe importava era convencê-los de que existe somente um único Deus e que esse Deus criou o mundo todo, do qual é o Senhor. Esse Deus, porém, não deveria ser considerado como um injusto e cruel soberano, mas sim como um Pai bondoso e magnânimo para com aqueles que vivem de acordo com a Sua vontade. Para os demais Ele seria inexoravelmente severo. Por meio de perguntas certificava-se de vez em quando se os seus ouvintes o compreendiam. Em seguida deixou uma vez um e outra vez outro discorrer sobre o aprendido, fortalecendo com isso neles o saber. Por fim exigiu que narrassem provas da existência de Deus, de Sua bondade e justiça, colhidas de suas próprias experiências. Em cada árabe dormita um narrador. Com surpreendente facilidade desempenharam-se dessa parte de suas tarefas. Então Maomé, baseando-se na história de Israel, fê-los ver como Deus se revelou ao povo escolhido e como o conduziu. Aludiu, outrossim, aos profetas. Isso despertou grande interesse e foi fácil de ser compreendido. A instrução até o mo- mento já durava mais de duas semanas. Ninguém, no entanto, enfastiara-se. Após ter narrado a depravação humana, Maomé anunciou a graça Divina que repousava na missão do Filho de Deus. Aqui encontrou as mais afetuosas palavras, que jorravam do seu íntimo com base nas suas próprias experiências vivenciais.
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    MAOMÉ - 125 - -Não se deveria supor que ele conheceu Cristo? Perguntaram-se depois os homens. Todos estavam tão comovidos, que não fizeram objeções. Judeus, cristãos e pagãos adoraram no íntimo da alma o Filho de Deus, Cristo. Ele uniu-os a todos. Fê-los servos do seu santo Pai. E Maomé continuou a ensinar. Falou do grande Juízo que viria sobre o mun- do inteiro. O Filho de Deus, como Juiz dos mundos, condenaria os homens ou os conduziria ao reino de seu Pai. Cristo fora a encarnação do Verbo Divino aqui sobre a Terra; o Juiz dos mundos será a Vontade de Deus. Mas apesar de Deus se manifes- tar aqui na Terra através dos Seus Filhos, todos três são somente “um Deus”; uma trindade na unidade. Sempre de novo tornou a explicá-lo. Absorveram-no, mas o seu raciocínio não podia assimilá-lo. Então Maomé pediu que deixassem o raciocínio de lado e procuras- sem tornar vivo em seu íntimo o mistério Divino. Após ter resumido a nova doutrina em amplos traços diante deles, passou a adorná-la com pormenores. Tornou evidente que, assim como Deus, o Senhor prepara para servos os homens que Ele convoca a Seu serviço e os manda instruir, da mesma forma tem Ele, em outros reinos, que estão ocultos aos olhos humanos, servos cujo número ascende a legiões. Chamou-os genericamente de “anjos”, porque julgou que os homens assim o entenderiam melhor. E fez esta distinção entre os anjos: grandes e pequenos, auxiliado- resterrenoseauxiliadoresespirituais,masculinosefemininos,egrandessantos,osquais têm permissão de permanecer eternamente em volta do trono de Deus.Anjos seriam os ventos e as chamas, anjos guiariam os animais e os homens; serviriam a Deus em todos os acontecimentos. Isso todos compreenderam; inspirava suas almas. Amavam tudo o que lem- brava lendas fabulosas, e as narrações sobre os seres angélicos eram mais belas do que todas as lendas. Com base nisso Maomé tentou insuflar-lhes um profundo respeito por tudo o que foi criado, sejam homens, animais ou plantas, pedras ou águas. Ensinou-lhes que todos aqueles que ofendem uma criatura de Deus têm de passar pelo mesmo sofrimen- to causado ao outro. Demonstrou-lhes isso por meio de inúmeras exemplificações, e acharam tais conexões em experiências pelas quais eles próprios passaram. Então quis falar sobre as consecutivas encarnações dos homens sobre a Terra,porém na noite ante- rior recebera ordem de omitir isso ainda, porquanto os homens não estariam suficien- temente preparados para compreendê-lo. Com o encerramento da doutrinação, limitou-se portanto a participar-lhes que tudo aquilo que lhes disse estaria escrito no livro da divulgação, o Corão. Esse livro deveria tornar-se para eles a coisa mais importante neste mundo. Deveriam rezar, com
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    MAOMÉ - 126 - fervorosadevoção, um a um os versetos, durante sua vida toda, para dessa maneira poderem compenetrar-se interiormente do seu sentido. Esse encerramento foi seguido por uma grande festa na mesquita, que foi cele- brada, com pequenas interrupções, durante dois dias. Então Maomé interpretou para os administradores os mandamentos, que foram aceitos por eles. A lei suprema era obedecer a Deus e à vontade de Deus. Em segundo lugar co- locou-se a obediência às autoridades terrenas. A fim de que pudessem viver sempre na vontade de Deus e na Sua sagrada presença, foram determinadas cinco orações por dia, para as quais os“muezins”,os anunciadores,teriam de conclamar do alto dos minaretes, ou, onde não houvesse um, em outro lugar elevado. Ao contrário de suas primitivas determinações, Maomé estabeleceu o texto das curtas orações, em atenção ao fato de que os homens vieram repetidas vezes para se queixarem de que não sabiam o que e como deveriam rezar. Ao fazerem essas preces, os devotos deveriam colocar-se de pé sobre um tapete, o qual lhes oferecia um livre substitutivo para a mesquita. Eis por que deveriam ter esse pedacinho de tapete sempre consigo. Estariam assim sobre um solo sagrado, onde quer que se encontrassem.Além disso, deveriam dirigir sua fronte para o leste, ao orarem. - Do leste vem a Luz; vós o vedes pelo sol, aduziu Maomé elucidando. Abri-vos à Luz, a qual vos quer iluminar, e olhai em sua direção. Antes de cada oração, o devoto deveria lavar o rosto e as mãos, e se possível, também os pés.Da mesma forma,deveriam ser feitas abluções antes das refeições.Essas abluções do corpo deveriam lembrá-lo de que a pureza da alma é condição indispensá- vel para o cumprimento da vontade de Deus. Essa pureza estendia-se também em rela- ção ao respeito que o devoto deveria manifestar perante as mulheres. Criada por Deus, o Senhor, mais delicada, foi a mulher colocada na vida para servir de ornamento a essa vida, como a flor ao jardim. Com veneração o homem deveria olhar para as mulheres. Seria preceituado, dali em diante, que em toda parte as mulheres e as moças deveriam ocupar aposentos separados e, onde fosse possível, até casas separadas. Nenhum ho- mem deveria entrar em aposentos habitados por mulheres ou moças. Também para as mulheres casadas seria preceito habitar aposentos aos quais teriam acesso unicamente mulheres. Ela poderia, se quisesse, visitar o marido; este, porém, não poderia visitá-la. Ao sair de casa,a mulher deveria usar um véu que cobrisse seu rosto e,preferencialmen- te, toda a sua figura. Não deveria apresentar-se em praças públicas. Na mesquita seriam celebradas festas especiais para as mulheres, porquanto não poderiam participar das solenidades comuns. O casamento deveria ser abençoado pelo encarregado da mesquita. A ne- nhum homem seria lícito ter mais de quatro mulheres. Para arrancar o povo da ignorância e do distanciamento de Deus, seriam construídas mesquitas em todas as cidades com regular número de habitantes, e a
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    MAOMÉ - 127 - cadamesquita seria anexada uma escola pública, que teria de ser freqüentada por todos os rapazes. Deveriam também ser instalados reservatórios de água e grutas para as abluções, como também deveriam ser construídos balneários e hospitais. Para os pobres e inválidos teriam de ser instalados refeitórios gratuitos. Tudo isso seria em benefício de todos, mas custaria muito dinheiro. Por esse motivo Maomé determinou que cada fiel contribuísse com um décimo dos seus ganhos como imposto. Essas somas seriam então aplicadas na construção e manutenção das citadas instituições. Cada administrador de província teria que empregar em cada cidade e em cada povoação um ou mais funcionários, os quais teriam de zelar pelo pagamento pontual desse imposto. Como fora instituído segundo a vontade de Deus, cada fiel que deixasse de pagar, tornar-se-ia, assim, culpado perante Deus. Esses foram os primeiros mandamentos que o príncipe Maomé, ou, como dali em diante desejou que o chamassem, o profeta de Deus, deu ao povo. Quando todos os administradores provinciais os compreenderam, pude- ram fazer perguntas e externar sua opinião a respeito. Demonstrou-se, no entan- to, que todos estavam tão bem enquadrados em suas atribuições, que ninguém soube objetar qualquer coisa. Depois de terem ficado reunidos quase quatro meses, a reunião finalmente chegou ao término. Muitos dos homens tinham-se transformado; ficaram mais sérios e maduros. Todos se despediram com o firme propósito de serem verdadeiros servos de Deus, com vontade firme. E o país permanecera calmo por todo esse tempo! Parecia um milagre. Ma- omé sabia que os servos invisíveis de Deus, os anjos, cuidavam disso, e agradeceu a Deus de todo o coração. Tornou a dedicar-se a sua família e soube que a mesma tinha sido aumen- tada com mais uma menina. Alina acolhera em seu lar a filha de Abu Bekr, ao encontrá-la descuidada e definhando na sua casa abandonada. Abu Bekr cedo perdeu a esposa e não encon- trou tempo para casar de novo. Lembrava-se raras vezes de sua única filha, sem mãe; também quase nunca chegava ao seu lar. Se alguma vez se achava em Medina, aí preferia ficar em com- panhia dos seus guerreiros no acampamento, a procurar sua casa deserta. Aischa, sua filha, era uma menina singularmente bela, a qual em nenhum traço tinha semelhança com seu pai. Devido a sua infância aflitiva, tinha algo de acanhado e deprimido em sua índole, e que começou a desaparecer sob a influ- ência das filhas de Alina. A mensagem de Cristo, assim como as três moças lhe sabiam transmitir, ela recebeu com alma sôfrega, e não conhecia coisa melhor do que retransmiti- la aos outros. Com isso procurou de preferência os desamparados. Alegremente
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    MAOMÉ - 128 - tambémsimpatizou com Maomé, quando ora uma, ora outra das filhas a levava junto, à noite, em suas visitas ao pai. Este se conformou com o desejo de Alina de não chegar no palácio das mu- lheres; em compensação, estas vinham sempre que ele tinha tempo para elas. Algu- mas vezes lia para elas em voz alta ou falava da nova doutrina, outras vezes tinham de animá-lo com conversas ou com música. Tinham instrumentos de corda e sa- biam tocá-los com destreza. Acompanhavam a música, cantando separadamente ou em coro. Quando alguma vez, no meio do dia, Maomé tinha o desejo de descansar ou de se distrair, procurava o palácio de Ali, onde seus seis netos sempre o cum- primentavam com gritos de alegria. Sobretudo o jovem Maomé era-lhe afeiçoado e contava as semanas que faltavam para seu avô cumprir a promessa de admiti-lo em seu serviço pessoal. Ibrahim, o segundo, era um rapaz quieto e retraído, que vivia seu cami- nho solitário. Afeiçoou-se a Maomé, mas também perante este mostrava-se tímido, apesar de todo o amor. Ainda não sabia o que desejava fazer de sua vida no futuro. Estudou porque lhe fora exigido, mas não por íntima vocação. Quando Ali lhe per- guntou se mais tarde não desejaria ser declamador na mesquita, como seu irmão mais velho, então respondeu negativamente. Certa noite o profeta recebeu ordem de viajar para Meca. Tinha chegado o tempo de ser cumprida sua promessa referente à construção da mesquita. Bem que sentira desejo nesse sentido, contudo quis aguardar primeiro a ordem de Deus. Evidenciou-se que não podia levar nenhum dos seus, por lhes ter confiado cargos firmes, os quais não poderiam abandonar. Como desejasse ter ao menos um neto em sua companhia, perguntou a Ibrahim se ele queria acompanhá-lo. Os olhos do rapaz cintilaram; incrédulo, fixava-os no interrogador. Seria possível que o avô o escolhesse, justamente ele de quem ninguém precisava? Alegremente respondeu que sim e pôs-se com inusitado zelo a tratar dos preparativos da viagem. Assim que troteava depois sobre o seu cavalo, ao lado de Maomé, este notou que Ibrahim não era mais um menino. Despercebido de todos, tornara-se um moço, o qual, sob o aconchego do invólucro grosseiro, trazia dentro de si uma alma ardente. Sobre o dorso do cavalo ele era diferente do que parecia noutras ocasiões. Com vivacidade respondeu às perguntas de Maomé; fez, aliás, suas perguntas e ale- grou-se com o aspecto cada vez mais belo da região. Meca, propriamente, tinha um aspecto desolador. Quem a conhecera antes apenas podia olhar com tristeza para essa cidade despojada de seus muros e de todos os seus prédios altos. Os habitantes perderam todo o ânimo para reconstruir qualquer coisa que não fosse de necessidade vital. Em silêncio deprimente recebe- ram o príncipe, que entrou na cidade com um pequeno séquito e sem guerreiros.
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    MAOMÉ - 129 - Nãosabiam onde deveriam alojá-lo. Não existia mais casa alguma que lhe pudes- sem oferecer. Ele resolveu o problema, pois mandou armar uma tenda junto ao seu séquito, ocupando-a ele próprio em companhia de Ibrahim. Na sua primeira caminhada dirigiu-se à Caaba. Foi sozinho, porquanto seu propósito era perceber intuitivamente se esse antiqüíssimo sacrário significava-lhe alguma coisa. Porém nada tocou o seu sentimento intuitivo. Essa pedra preta, que os fiéis costumavam beijar, parecia-lhe pagã. Contudo, sabia que não deveria desvalori- zar a Caaba, se não quisesse tirar tudo dos tão profundamente abatidos de Meca. E no meio dos ídolos que cobriam as paredes em redor, ajoelhou-se e supli- cou a Deus que mandasse mostrar-lhe também aqui a Sua vontade. Recebeu ordem de que deveria livrar o recinto de todos os ídolos e construir por cima uma nova mesquita, de maneira que o antigo sacrário ficasse no centro como um túmulo. As- sim, não seria tirado do povo, contudo diminuiria em importância e se enquadraria no serviço em honra de Deus. Satisfeito, Maomé deixou depois disso a Caaba, reuniu os moradores de Meca e anunciou-lhes que agora lhes mandaria construir um santuário, uma mesquita, que encobriria seu antigo sacrário,a Caaba.Nesse momento algo como alegria penetrou nos corações magoados.Alguns dos homens, porém,disseram: - Não temos mais dinheiro para tais construções. -Quemvosdizquetereisdearranjardinheiro?PerguntouMaomébondosamen- te. Se o vosso príncipe quer mandar construir alguma coisa, então é porque dispõe dos meios para isso. - Nesse caso é uma mesquita do príncipe e não a nossa, persistiram os homens. - Mas será construída com o vosso dinheiro,portanto pertence a vós,retorquiu o príncipe, e esclareceu então a conexão. Nesse momento viram que aquele que lhes parecera bárbaro,sanguinário e injus- to, possuía um coração piedoso. Começaram a adquirir confiança nele. Também não se desviaram mais do príncipe, quando em algum lugar se defrontavam com ele no cami- nho.AessaalturacomeçouafalarpublicamentedeDeusedanovadoutrina,aqualdeno- minou“Islã”,istoé,asubmissãoàvontadedeDeus.Aoexplicar-lhesonome,salientouque somente aquele que se insere em tudo na vontade do Altíssimo, poderá viver direito. Se sua ambição se dirige em direção contrária à vontade de Deus, então será arrastado pelas engrenagensdasleisqueregemoUniversoeficarátriturado;seguindo,porém,orumode acordo com a vontade de Deus,receberá o apoio dessa força e será conduzido avante. Isso os homens compreenderam bem; no entanto, julgaram que o profeta que- riaevidenciar-lhesqueelessozinhosnãoteriammaisnadaafazernemadecidir.Teriam de se entregar ao seu próprio destino, que ninguém poderia alterar. Com resignação deveriam aceitar aquilo que lhes tinha sido imposto.Maomé teve grande trabalho para dissipar tais pensamentos. Procurou convencê-los de que entre a vontade de Deus,
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    MAOMÉ - 130 - assimcomo esta vibra nas leis eternas que movimentam o cosmos, e o destino existe uma diferença enorme. Comprovou que os homens tecem seu próprio destino. Deus, o Senhor, não interferiria nisso. Da maneira como os homens dirigem o seu barco da existência, assim será o rumo pelo qual deslizará sobre as águas da vida. Justamente aos homens de Meca pôde comprovar,tomando por base as próprias experiências deles, como todo o pesar de que se tornaram vítimas foi por eles mesmos provocado. Dessa sua própria vivência brotou-lhes então a compreensão. Quem mais aprendeu com tudo isso foi o jovem Ibrahim. Não perdeu nenhuma das palavras do profeta; guardou-as no íntimo,até que lançassem raízes e desabrochassem. Comissomodificou-setodaasuaaparênciaetodooseucaráter.Nãosepodiare- conhecer mais o adolescente no alegre e enérgico moço.Encontrara o objetivo e a profis- são de sua vida: queria tornar-se anunciador do Santíssimo! Guardião das Verdades Di- vinas! Assim que obteve essa certeza, confiou-a a Maomé, o qual constatou com grande regozijo que também nessa parte teria um sucessor.Já lhe pesava na alma a preocupação sobre quem um dia seria o continuador de sua obra.Ali seria um bom soberano, porém nunca se tornaria um sacerdote.EAbdallah restringiu-se ao cargo de declamador,o qual era para formar apenas um degrau,e não se esforçou mais para diante. - Deixar-te-ei aqui, meu filho, quando eu mais tarde regressar para Medina, de- clarou ao jovem,que o escutou com alegria.Cada mesquita deverá ter seu xeque.Assume este santuário, anuncia nele a Verdade límpida, e Deus, o Senhor, abençoar-te-á! Assim que eu tiver de deixar a Terra, então poderás escolher se queres ficar aqui ou se queres administrar a mesquita em Medina. Logo que a construção da mesquita, para a qual Maomé havia encarregado os arquitetos de Medina, estava em pleno andamento, ele preparou-se para voltar. Com a ajuda de dois serviçais de confiança, conseguiu encontrar debaixo das ruínas do seu pa- lácio o abobadado espaço murado, no qual ocultara os tesouros.Ao silêncio de algumas noites, estes foram removidos. Então conduziu-os consigo, sobre camelos de carga, para Medina,a fim de confiá-los aos cuidados administrativos de Said. Nasuavolta,queeraesperadaportodoscomalegria,teveumasurpresa:Aischa,a meiga e delicada,anuiu em tornar-se esposa de Said,que já tinha certa idade.Apenas es- peravam sua bênção para realizar o matrimônio.Maomé,que há muito tinha Said como filho, regozijou-se com a sua sorte e mandou construir-lhes um confortável palácio ao lado do de Ali. Na primeira reunião com os patriarcas da cidade, assistida por Maomé, notou este que algum descontentamento afligia aqueles homens. Indagou o motivo. Então de- clararam que se sentiam insatisfeitos pelo fato de ele ter mandado construir um santuá- rio também para os rebeldes de Meca. Teve de empenhar grande esforço para tornar-lhes compreensível que Meca já possuía um santuário desde muito tempo. A nova mesquita, da qual eles necessitavam
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    MAOMÉ - 131 - urgentemente,porquanto cada cidade grande deveria ter uma, foi construída sobre a Caaba.Tudo tinha ficado como estava. A fim de que não pudessem reclamar de novo,fê-los saberem que dali em diante amesquitadeMedinapassariaaserchamada“amesquitadoprofeta”,enquantoquepara aquela de Meca seria conservado o nome de mesquita-Caaba ou“mesquita sagrada”. Com isso todos concordaram. Dessa vez o profeta não permaneceu por muito tempo em Medina. Sentiu- se impulsionado a procurar as outras principais povoações. Ainda não tinha tido oportunidade para inspecionar de perto alguns dos administradores no exercício de seu cargo; não sabia se executavam suas tarefas segundo a vontade de Deus, ou se procediam em sentido arbitrário. Nessa oportunidade o jovem Maomé cruzou o seu caminho e desejou ter permissão para acompanhá-lo. Os dois irmãos mais velhos já tinham um cargo, e agora seria a vez dele. O príncipe alegrou-se com seu zelo e perguntou-lhe qual o serviço que dese- jaria para si. Então o jovem ficou calado e disse finalmente que isso se revelaria por si, como aconteceu com Ibrahim. Seu avô, porém, percebeu que intimamente ele já estava firmemente decidido por alguma coisa. A cavalgada era longa. Sem demorar-se, deixaram atrás de si pequenas po- voações, mas em cada cidade onde residia um administrador foi feita uma parada. Nesse tempo o profeta palestrava detalhadamente com o seu representante e inspe- cionava até que ponto progredira a construção da mesquita. Então verificou-se que os vinte e sete homens eram diferentes entre si ao extremo. Alguns deles quase não puderam se conter em levar ao povo a bênção que eles próprios receberam. Haviam começado imediatamente com a construção da casa de Deus, orga- nizaram uma escola na qual, em sua maior parte, eles mesmos lecionavam e cuida- vam que as abluções e as preces fossem feitas pontualmente. Outros começaram com a doutrinação e julgaram que seria melhor mostrar primeiramente ao povo do que se tratava, antes que pudessem ser introduzidas inovações. Maomé nada objetou. Cada uma das províncias era diferente, conforme as propensões dos habitantes. Estes, os administradores deveriam conhecê-Ios me- lhor, porquanto se criaram no meio deles. Por conseguinte estaria certo se alguns administradores hesitassem.
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    MAOMÉ - 132 - Tambémdeparou com os que procuravam aproveitar a sua investidura e os trajes que então podiam usar, para conseguir o mais possível honrarias terrenas. Não fizeram nada daquilo que lhes fora recomendado e assustaram-se muito quando o profeta em pessoa veio para certificar-se. O que deveriam dizer para desculpar-se? Qualquer palavra era supérflua. Maomé desde logo percebeu a situação, e os negligentes foram repreendidos severamente. Nesse momento o príncipe lamentou não ter levado consigo homens preparados, que estivessem aptos para serem coloca- dos no lugar dos ineptos. No momento teve de deixar os faltosos nos seus postos, mas decidiu voltar dentro em breve para verificar novamente, e então traria substitutos. Nesse itinerário veio dar novamente em Jerusalém. Como aí despertavam as re- cordações! Narrou-o ao neto, sem no entanto falar de sua encamação passada. Esta de- veria continuar como algo próprio.O jovem escutou com grande interesse tudo quanto o soberano relatou.Acompanhou com vivacidade todas as narrações; comoveu-se tam- bém ao ter que ver discórdias e disputas nos lugares onde Jesus estivera e sofrera. Maomé, o mais velho, perdeu o sono. Fez uma prece pedindo que Deus lhe mandasse mostrar o que poderia fazer para operar uma mudança nisso. Tornou-se-lhe nitidamente claro nesse momento que também deveria man- dar construir um santuário, uma mesquita, na qual judeus e cristãos pudessem con- juntamente achar a nova doutrina, o Islã. O administrador simpatizou com esse pensamento, especialmente quando Maomé lhe disse que ele próprio iria dar os recursos para essa obra. Esse recinto de adoração, o terceiro santuário da Grã-Arábia, deveria ser suntuoso. Em toda parte do país chamou a atenção de Maomé a presença de homens de estatura menor do que os demais habitantes. Deveriam ser estranhos de outros países. Perguntou e recebeu a resposta de que se tratava de turcos, um povo que não sabia nada sobre sua origem ou, propriamente dito, de sua pátria. Não teriam crença nenhuma e eram muito espertos e gananciosos. Não recuariam diante do que quer que fosse. Maomé quis saber quem era seu soberano. Ninguém o sabia. Então come- çou a travar conversa com um e outro deles. Não eram comunicativos e, sobretudo, recusavam-se a prestar informações sobre a finalidade de sua permanência na Pa- lestina. Quando, porém, lhes indagou sobre o seu chefe, eles informaram-lhe com orgulho que tinham um imperador, o qual residia na magnífica cidade de Cons- tantinopla. Aliás, nunca o tinham visto, mas sabiam dele. Era poderoso e todos os povos eram-lhe submissos. Então Maomé resolveu entrar em contato com esse imperador, do qual nem ao menos sabia o nome, para fazê-Io saber da existência do Islã. Escreveu-lhe que, se os seus súditos quisessem comerciar e viver na Grã-Arábia, nesse caso deveriam aceitar a nova doutrina. Não poderia forçá-Ios a isso, porquanto não era da sua
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    MAOMÉ - 133 - alçada.Poderia, no entanto, expulsá-Ios do país, caso não quisessem adotar o Islã. Contudo, o poderoso imperador de Constantinopla sem dúvida teria o poder so- bre os seus súditos para ordenar-Ihes qual a crença que deveriam preferir. Maomé redigiu muitas vezes esse escrito, até que finalmente lhe agradou. Não quis parecer muito submisso nem muito arrogante. Após longas ponderações subscreveu-se: Maomé, príncipe da Grã-Arábia e profeta de Deus, o Senhor de todos os mundos. A quem deveria confiar essa mensagem? Não encontrou ninguém em con- dições, além de Said, a quem poderia entregar esse importante escrito. Said também daria uma ótima impressão se chegasse à presença do soberano estranho. Mandou al- guns dos homens de sua comitiva buscá-Io com uma tropa de cavaleiros. Nesse meio tempo começou a pregar em Jerusalém e nos arredores. Escutaram-no com interesse; apenas os judeus não quiseram saber de suas palestras, e também não podiam opor- se, porquanto ele era seu soberano. Por isso preferiram ficar afastados das reuniões. Em lugar disso, os turcos vinham cada vez com mais freqüência. Encontraram prazer naquilo que o soberano estranho falava. Não entendiam, aliás, direito a sua língua, mas havia muitas pessoas que sabiam interpretá-Ia. Se com isso modificavam palavras ou frases inteiras,por não terem compreen- dido o sentido, então ninguém o percebia. Para alguns intérpretes até era um prazer perverter o sentido daquilo que era anunciado, e de rebaixar o que era sagrado. O profeta dirigiu-se ao administrador da comarca de Jerusalém. Ele deveria ter no mí- nimo tanto conhecimento da língua turca que lhe fosse possível entender-se com essa gente. Indignado, o homem repeliu tal exigência. Pois fora investido no cargo para tratar com os árabes! Em vão Maomé procurou convencê-Io de que seria grave se no meio de sua comarca houvesse pessoas praticando comércio, e que não quisessem saber nada de Deus. Opinou, em resposta, que tais homens existiriam em toda parte. Queria dar-se por satisfeito se conseguisse unir judeus e cristãos; com os pagãos não poderia incomodar-se. Nesse tempo surgiu para o príncipe um auxílio inesperado. O Maomé mais moço, achando engraçados esses turcos, que apesar de sua corpulência eram bastante ágeis, já travara relações com eles, e com raro talento aprendeu logo a falar a língua deles, de tal maneira que pôde servir como auxiliar. Isso foi revelado certo dia, quando o homem que fora contratado com remuneração para repetir imediatamente, em turco, cada frase dos discursos do profeta, desempe- nhou sua tarefa propositalmente com falhas. Então repentinamente o jovem Maomé bradou no meio da palestra e disse por sua vez aquilo que o profeta acabara de dizer. Nesse instante incitou-se um alarido. Os turcos ficaram excitados ao notarem que o intérprete lhes dizia coisas erradas. Este ficou furioso porque achou a intromis- são do jovem injustificada e receava perder o ganho. O jovem Maomé, porém, ficou firme e transmitiu todas as palavras e conversas que aí foram trocadas com uma habi- lidade, que o príncipe dali em diante se serviu somente dele. Uma vez na intimidade,
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    MAOMÉ - 134 - perguntouao neto se o cargo que aí lhe aparecera, sem que tivesse pensado nisso antes, correspondia aos seus desejos e às suas esperanças. Com um olhar radiante, o jovem fitou os olhos do mais velho. - Com certeza é o certo para mim, justamente porque veio tão inesperada- mente, como se deu com Ibrahim, disse categoricamente. Desejei, aliás, tornar-me chefe do exército, mas disso não quis te falar nada, porque receei que me achasses muito novo. Agora estou muito contente por ter acontecido assim. Ainda procurarei aprender outras línguas de nossos vizinhos, e então pode- rei servir a Deus com o intelecto que Ele me deu. Quando então chegou Said com o seu séquito, demonstrou-se que compre- endera corretamente o recado do seu príncipe. Ele e sua comitiva vestiam trajes pomposos e suas cavalgaduras estavam esplendidamente equipadas; era um prazer ver aquele cortejo imponente. Também se provera de fartos presentes para honrar o imperador estranho. Era natural que o jovem Maomé o acompanhasse para servir de intérprete. Então também o príncipe partiu com o seu grupo, para chegar sem pressa, com muitas mudanças de rumo, de regresso a Medina. Primeiramente permaneceu por um mês em Halef, porque esse rico centro comercial com seu animado movi- mento lhe pareceu apropriado para ele anunciar a Deus. Em trajes simples insinuou-se no meio dos homens, entabulou conversa com eles, ajudou-os em trabalhos leves e contou de Deus. Nunca se enganava em seu modo de proceder, posto que seguia sempre exatamente as instruções recebi- das de cima. Em certas povoações sua nobreza e seu esplendor principesco tiveram maior importância. Os homens acorriam e escutavam-no somente por ser ele seu soberano. Em outros lugares dava exteriormente mais valor a suas narrações pro- féticas, e às vezes ele parecia apenas como simples contador de lendas. Mas tudo o que fazia brotava do seu íntimo, efetivava-se no desejo ardente de servir a Deus com todas as forças, e por isso foi bem-sucedido. Em Medina recebeu a notícia de que Abu Bekr vira-se obrigado a empre- ender uma campanha no sul contra judeus revoltosos. Conseguiu nessa ocasião prender um amigo de Abu Talib, chamado Abu Dschalil. Trouxe-o junto no seu regresso a Medina para que Maomé determinasse pessoalmente o que deveria ser feito com ele. O profeta mandou vir Abu Dschalil à sua presença. Era um homem velho e amargurado, a quem a prisão estafara muito. De início não deu qualquer resposta às perguntas categóricas, mas amáveis, do príncipe. Então este disse aos serviçais: - Conduzi-o a sua cela. Hoje ele não está disposto a falar. Que me mande avisar quando tiver disposição para isso. Até lá, não o quero ver.
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    MAOMÉ - 135 - AbuDschalil assustou-se. Esperava um ímpeto de ira e preparou-se intima- mente contra isso. Quando, no entanto, este não veio, esperava que o matassem su- mariamente, devido à sua atitude renitente. Agora deveria voltar ao cárcere, não por causa da vontade do príncipe, mas sim da sua própria. Isso era horrível! Maomé viu o que se passava em sua alma, mas também sabia que por ora não o deveria ajudar.Caso contrário,o homem se aferraria ainda mais profundamente em sua obstinação. Calou-se e rezou intimamente em prol do outro, seu inimigo. - Deixai-me aqui, quero responder! Exclamou o prisioneiro repentinamente, como que coagido. Imediatamente os serviçais o soltaram e retiraram-se para os fundos do aposento. Abu Bekr ficou parado ao lado do príncipe e admirou-se. Sempre Maomé fazia tudo diferente do que se poderia esperar, e cada vez era o certo! Bondosamente, Maomé foi ao encontro do seu inimigo e perguntou: - Abu Dschalil, por que me odeias? - Não te odeio, príncipe! soou a resposta surpreendente. - Pois bem, então quero perguntar de maneira diferente: por que és meu inimigo? - Porque o prometi ao meu amigo Abu Talib. - Podes dizer-me por que ele exigiu semelhante promessa de ti? Perguntou Maomé, extremamente surpreso. - Tentarei fazer com que compreendas isso.Abu Talib estava amargurado de- vido à sua deformidade física. Sentiu-se preterido em toda parte. Teu pai, príncipe, era belo e feliz. Faleceu cedo, e Abu Talib nutria a esperança de tomar o seu lugar, mas tu eras um estorvo para ele. Queria deixar-te com os monges. Conseguiste escapar. Nunca chegou a saber se houve alguma traição nisso ou se Deus te ajudou. Então deve ter procedido com desonestidade na sua pretensão à herança. Porme- nores sobre isso nunca me confiou, mas sei que a sua consciência não o deixou em sossego. Doaste-lhe, então, mais do que teria sido necessário. Isso magoou-o pro- fundamente, porquanto ele viu nisso um desprezo pelo seu modo de pensar e de agir. E tua vingança, príncipe, foi cruel. - Minha vingança? Interrompeu-o o ouvinte, que passava de um espanto para outro. Minha vingança? Não sei de nenhuma! - Ela foi bárbara. O único filho tomaste e afastaste do pai. Fizeste-o abando- nar o palácio paterno. O infeliz teve de ficar expatriado e refugiado, porque os teus espias o perseguiam. Não o deixaste mais sossegado nem uma hora. Então procurou meios para prejudicar-te. Queres por isso censurá-lo? Sua grande loquacidade, que não quiseste aproveitar, dirigiu-se contra ti. Por fim mandaste assassinar o indefeso pelo modo mais cruel que pudeste imaginar. E ainda te admiras que eu, seu amigo, te seja hostil e o deva ser enquanto estiver vivo!
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    MAOMÉ - 136 - Exausto,o velho silenciou, mas também o príncipe não pôde dizer nenhu- ma palavra. Chocaram-no profundamente as acusações injustas, nas quais, apesar de tudo, havia uma centelha de verdade. Abu Bekr dominou-se somente a muito custo. Quis protestar, mas um ges- to do príncipe fê-lo ficar calado. Então deixou o aposento com passos pesados. Em lugar dele entrou Ali, sem ter sido chamado. A Maomé pareceu, como um toque de cima, aquilo que deveria dizer. - Escuta, Ali! Este homem, Abu Dschalil, acusa-me de ter te tirado de teu pai. Queres contar-lhe como se deu teu ingresso a meu serviço? Ali prontificou-se imediatamente a isso. Então Maomé disse: - Deixo-vos aqui sozinhos, para que este meu inimigo não tenha de rece- ar que eu te sugestione em tuas declarações. Retirou-se amavelmente. Ali e o amigo de seu pai ficaram a sós, porquanto também os serviçais saíram, em obediência a um aceno do príncipe, para esperarem fora. Os dois conversaram demoradamente. A índole calma e impassível de Ali tinha algo de convincente, ao que o outro não pôde fechar-se. Uma acusação após outra foi re- futada pelo jovem. Com isso ele mesmo chegou a tornar-se plenamente conscien- te de quanta vergonha sempre sentira de seu pai, devido a sua mentalidade baixa, inclinada para a cobiça incontida, e de como sempre fora o príncipe que o ajudara a dominar esse sentimento. Quando não havia mais nada a ser esclarecido, Ali mandou pedir a presença do soberano. No breve instante que se passou, até que Maomé entrasse de novo no aposento, agitavam-se no peito do ancião os mais variados sentimentos. No fundo era um homem probo. Sentia-se envergonhado. Assim que o príncipe se defrontou com ele, prosternou-se e suplicou perdão por tudo o que fez e falou. Amavelmente Maomé o levantou. - Foste orientado errado, meu amigo, por isso não pudeste agir diferente. Esqueçamos o passado e regressa para junto dos teus. Penso que daqui em diante seremos amigos. E ele mesmo conduziu o homem atordoado ao seu aposento de hóspede, e tomou uma refeição junto com ele, como se fosse pessoa da sua intimidade. Abu Dschalil permaneceu por alguns dias como hóspede no palácio do príncipe. Após, deixou Medina com acompanhamento, para voltar a sua terra natal e lá contar a respeito do príncipe, cuja bondade parecia sobre-humana. Abu Bekr não se conformou que Maomé fizesse novamente valer o perdão
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    MAOMÉ - 137 - emlugar do castigo que era bem merecido. O que teria impedido a ele, Abu Bekr, de matar o inimigo na mesma hora? Em sua indignação manifestou esse pensamento perante Maomé. Este fitou- o com um olhar indagador e disse-lhe: - Admiras-te de que seguiste tua voz interior, Abu Bekr? Alegra-te com isso, porquanto a clemência com que Abu Dschalil pôde ser contemplado me vale mais do que um castigo severo! Com a mesma solicitude com que antes instigou contra mim, ele doravante me arranjará amigos. O Abu Dschalil, vivo, ajuda-me; morto, porém, ter-me-ia prejudicado. Novamente o grão-vizir teve de reconhecer a grande sabedoria do seu supe- rior e submeter-se. Para impedir a si próprio de expressar isso ainda em palavras, começou a falar de um outro assunto, que há tempo o vinha preocupando. Queria ter uma bandeira! Maomé não compreendeu de imediato a finalidade de uma ban- deira. Abu Bekr explicou-lhe que no campo de luta era preciso ter tal insígnia, que sobressaísse em meio aos combatentes. Assim os guerreiros saberiam sempre onde se encontrava o chefe e poderiam acercar-se dele a qualquer momento. - Os inimigos também a vêem, disse o príncipe no seu desconhecimento. - Não tem importância, meu príncipe, retrucou Abu Bekr, o qual nisso se julgou superior ao seu senhor. E novamente justificou e explanou, até que convenceu Maomé, aliás não da ne- cessidade da bandeira, mas sim, do imperioso desejo de poder conduzir uma consigo. Bondoso como sempre, quando se tratava de satisfazer um desejo, o príncipe pegou um pedaço de seda branca, de tecido pesado, que se achava na sua frente, e entregou-o a Abu Bekr. - Isto corresponderia às tuas finalidades em mira? Perguntou, certo de que o vizir se daria de todo por satisfeito. - Este é muito bonito, meu príncipe, declarou Abu Bekr cauteloso, mas so- mente assim como está não basta. - Deves mandar pregá-lo num mastro, isso é claro! Com isso Maomé quis dar o assunto por encerrado e voltar-se para outras coisas. O vizir, porém, continuou insistindo: - Falta-lhe o teu emblema, meu príncipe! Um pedaço de seda branca, ou de algum outro tecido branco, qualquer um pode levar consigo; não tem significação alguma. Somente a insígnia do príncipe faz a bandeira! - Que aspecto deve ter tal símbolo? Indagou o profeta. Abu Bekr começou a relatar o que até então havia visto de bandeiras: - Os judeus conduzem uma bandeira de um tecido amarelado, no qual se en- contra a estrela-de-davi, com seis pontas. Pintaram-na, talvez porque suas mulheres
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    MAOMÉ - 138 - nãosaibam bordar. Nós devemos mandar bordar imprescindivelmente tua insígnia sobre a mesma; assim é mais distinto. Maomé sorriu levemente. O assunto parecia-lhe tão insignificante em vista de tudo aquilo que nesse instante lhe passava pela cabeça; no entanto, assim não era, senão Abu Bekr não teria se empenhado tão insistentemente. Este continuou: - Os moradores de Meca têm um quadrado, o qual provavelmente deve sig- nificar a Caaba. Os sírios que eu tive de chamar recentemente na divisa, para refor- ço, traziam consigo uma magnífica bandeira, com uma águia. Diziam que era uma bandeira romana. Essa águia, um pássaro com as asas abertas, encimava o mastro e era feita de metal, com excelente acabamento. Vês, portanto, meu príncipe, que se pode usar qualquercoisa, desde que tenha um sentido! - Pois então preciso refletir sobre isso, meu amigo, prometeu Maomé. Den- tro de poucos dias receberás a resposta. À noite, contou a sua esposa o desejo do vizir. Para sua surpresa, Alina ficou entusiasmada com a idéia de fazer desfraldar uma bandeira com a insígnia de Ma- omé. Idealizou várias propostas, que não agradaram muito ao profeta, devido às características femininas. - Se a bandeira deve flutuar no campo de batalha, então não pode trazer como emblema uma rosa ou qualquer outra flor, declarou. Outra coisa Alina não sabia opinar. Durante a noite levou essa pergunta diante do luminoso mensageiro de Deus. Este aconselhou-o a não relacionar a bandeira somente com ele, como príncipe, mas sim com Aquele cuja vontade dirige os acontecimentos.“Achas que posso consagrar a bandeira a Deus?” perguntou Maomé.“Ela não é muito terrena para isso?” “Se ela for a bandeira do profeta, como a queres denominar, então deverá flutuar somente a serviço do Supremo. E não será terrena demais para poder trazer um símbolo que a caracterize como bandeira do Senhor.” Mal a ressonância da voz se esvaneceu, surgiu diante dos olhos espirituais de Maomé uma imagem viva, clara e esplêndida, como ele nunca havia visto. Viu a abóbada celeste como uma gigantesca cúpula. Estrelas resplandeciam e seguiam sua rota orbital; de súbito, pareceu-lhe como se fossem luzes nas mãos de seres femininos indescritivelmente graciosos. Parecia que se dispunham em ordem, como se estivessem de prontidão. Subitamente se inclinaram, porquanto a Rainha de todos os céus descia. Maomé já a havia contemplado uma vez. Também nesse momento ela usava um manto azul-escuro, que se adaptava à cor do céu noturno; longos cabelos com um brilho prateado ondulavam. Como um véu luminoso, flu- tuavam na frente de seu semblante celestial. Com a mão esquerda segurava o manto à altura do peito, enquanto estendia a direita, onde se encontravam uma rosa ver- melho-escura e um lírio branco como neve. O delicado pé descalço que apareceu
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    MAOMÉ - 139 - debaixodo manto comprido pisava no semicírculo da meia-lua, como num barco luminoso. Coros de anjos pareciam ressoar; cores e fragrância fluíam em volta do agraciado, cujo coração quase parava em admirativa adoração. Muito tempo após ter desaparecido a encantadora imagem viva, Maomé ainda olhava para o céu. Nes- se momento agradeceu a Deus pela graça de poder ter tido essa visão. Tinha isso alguma significação para ele? Súbito conheceu o símbolo que deveria distinguir a bandeira do profeta de Deus de todas as outras: o apoio do pé da Rainha do céu, o semicírculo da meia-lua, assim seria. Nesse símbolo, a bandeira deveria falar a todos os que a vissem: “Escutai, ó homens, este é o sinal de que servis a Deus! Desfraldai a bandeira somente se as vossas obras puderem subsistir diante de Deus. Também é o sinal de que no Islã quereis recolocar a mulher no lugar que lhe é reservado pelos desígnios de Deus. Mantende-a na pureza e tratai-a com honradez. O símbolo da sublime Rainha do céu orna por isso a vossa bandeira!” Assim queria falar aos guerreiros, quando lhes entregasse o pendão. Com grande alegria comunicou no dia seguinte a sua esposa o que pudera contemplar, e ela ofereceu-se para bordar o sinal da Rainha do céu na seda branca, em colabora- ção com as filhas. Todos os outros guardaram silêncio sobre isso. Muito antes de terem chegado ao término os trabalhos do bordado, os quais levaram muito tempo, porque as mulheres empregavam para isso fios de ouro puro, Maomé saiu a cavalo para procurar os diversos administradores. De alguns haviam chegado pedidos para que os aconselhasse ou lhes explicasse algo, e em outras pro- víncias os funcionários pediam que viesse examinar os trabalhos do administrador,os quais evidentemente não estavam sendo executados no sentido dos mandamentos. - Levas-me junto desta vez, avô? Perguntou ansioso o quarto neto, Murzah. Com muito gosto Maomé teria junto dele um dos seus, porém Murzah efe- tivamente ainda não havia ultrapassado bem a infância e haveria de acarretar-lhe mais trabalho do que ajuda, refletiu o príncipe. Murzah, contudo, era de outra opinião. Nos outros dois demonstrou-se so- mente em caminho a sua utilidade. Por que com ele haveria de ser diferente? Im- plorou ao pai que falasse por ele, e Ali, que conhecia seu filho, resolveu interceder a seu favor. Ora, quase nunca aconteceu de Ali ter pedido alguma coisa, de maneira que Maomé atendeu imediatamente ao pedido, mesmo julgando que aquilo não era muito inteligente. A alegria do jovem foi quase irreprimível. O dia todo não falou de outra coi-
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    MAOMÉ - 140 - saa não ser de que iria acompanhar o príncipe. Finalmente chegou o dia da partida; um imponente grupo cavalgou para fora do portal de Medina. Também Murzah andava bem a cavalo e trotava alegre ao lado de Maomé. Em viagem este perguntou a Murzah, assim como também perguntara aos outros netos, o que ele escolhera como objetivo na vida. - Quero servir-te, avô-príncipe, disse o esperto jovem, radiantemente. - Já tens uma idéia de qual a capacidade que utilizarás para isso? Gracejou o profeta. - Não.Nem sei se possuo alguma capacidade.Mas sabes,se não posso servir- te com a vida, então quero morrer por ti. Isso soou de maneira singular vindo da boca desse neto particularmente otimista; no entanto, com tudo o que surgia ao redor, esqueceram em breve a con- versa séria. Dessa vez a cavalgada se dirigiu para objetivos bem definidos; em nenhuma parte pararam por mais tempo do que o absolutamente necessário. Primeiramente chegaram à cidade da qual vieram queixas sobre a vida do administrador. Sem ser anunciado, o príncipe apresentou-se e encontrou o servo infiel tão embriagado no meio das mulheres e na casa destas, que foi impossível exigir uma prestação de contas. Evidenciou-se que as queixas dos outros funcio- nários não foram exageradas. Os fundos provenientes dos impostos que tinham sido cobrados regularmente não foram aplicados na construção da mesquita, nem teve qualquer outro proveito comum. O administrador considerava-os como bens a ele pertencentes, os quais poderia esbanjar com suas inúmeras mulheres. Maomé mandou levá-lo, por intermédio de seus servos, do palácio ao estábulo, para que dormisse em cima do feno. Nesse ínterim, examinou com os demais funcionários tudo o que se encontrava na chamada sala da administração e investiu o mais velho desses servos fiéis no cargo de administrador. - Não proibi rigorosamente todas as bebidas embriagantes? Perguntou o príncipe repreensivamente. - Isso fizeste, mas verbalmente, declararam os funcionários. Nos manda- mentos escritos não se encontra em parte alguma um item que se refira a isso. Por essa razão o administrador julgou ter o direito de poder desfrutar do vinho e de outras bebidas embriagantes, em excesso, até que um dia reformasses a lei. - Está escrito na lei, porém, expressamente, que nenhum homem tenha mais de quatro mulheres, repreendeu o príncipe. Aqui, no entanto, estavam reunidas no mínimo doze. - O administrador também tem somente quatro mulheres; as outras são amigas delas, soou a informação entristecedora. - Assim, portanto, cada mandamento pode ser contornado, se o homem o
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    MAOMÉ - 141 - quiser,queixou-se Maomé, aflito. Julguei ter abrangido com estes mandamentos efetivamente tudo o que pode ser prejudicial ao homem! Como me enganei! Dirigiu-se, então, ao novo administrador: - Cuida que a casa das mulheres fique vazia. As amigas devem voltar para junto de seus pais e as quatro mulheres devem emigrar com o seu marido, logo que este esteja em condições para isso. Maomé falou pessoalmente com os moradores da província e prometeu- lhes para breve a construção da mesquita e de uma escola. Não acusou publicamen- te o administrador, todavia se propôs a cobrir o desfalque do dinheiro com suas próprias finanças. Dois dias mais tarde o demitido saiu a cavalo, às escondidas, com suas qua- tro mulheres e com tudo o que pôde juntar ainda. Para o príncipe assim foi mais conveniente do que ter ainda que falar com esse homem. Após ter se convencido de que sob a direção do novo administrador tudo se normalizaria, partiu dali, para verificar a ordem na próxima grande cidade. Aqui o chamou o insistente pedido do administrador, que quis instruções para as dificul- dades especiais resultantes da fixação, na comarca, de pessoas que tinham outras crenças e que se recusavam a pagar impostos. Depois de cientificar-se do que se passava, isto é, de que um rico proprietário falecera sem deixar herdeiros legítimos, e de que em vista disso sua mulher predileta mandara vir seus aparentados, decidiu: - Quem quiser fixar residência na Grã-Arábia deve adotar a crença do Islã e tomar-se assim um súdito do príncipe de todos os árabes. Não o querendo, então deve vender a propriedade e com o rendimento deixar o reino. Na Grã-Arábia há somente fiéis do Islã. Procurou pessoalmente os rebeldes e tentou fazê-los compreender a sua de- cisão. Eles, no entanto, eram hostis; porquanto quiseram fazer a tentativa de intro- duzir uma cunha de insubordinação no país unido. Por isso defenderam-se com todas as forças e declararam que nem lhes vinha à mente obedecer. Maomé marcou um prazo dentro do qual essa situação maléfica deveria ser resolvida. Quando o prazo passou, mandou avaliar a terra, pagou aos homens o preço de compra e mandou transportá-los, juntamente com os seus, por intermé- dio dos guerreiros, para além da fronteira. Todos sentiram-se aliviados, porquanto esses estranhos haviam também provocado o desagrado de todos, em face de seus costumes desregrados. Alguns dias mais tarde, Maomé estava em pé na frente da tenda que lhe ser- via de morada e olhava o céu. Queria partir na manhã seguinte com o seu séquito. Auscultava os sinais meteorológicos. Repentinamente ressoou a voz de Murzah, estridente e em apuros:
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    MAOMÉ - 142 - -Avô, acautela-te! Rapidamente o príncipe se virou e viu como uma faca reluzente, atirada aparentemente contra ele, transpassava o neto que saltara à frente. O grito de Murzah atraiu os serviçais, os quais subjugaram o assassino e conduziram-no dali. Maomé, porém, abaixou-se sobre o corpo estendido do meni- no para examinar o ferimento. Viu então que era mortal. Compesarmiravaoneto,oqualeraarrebatadosemquepudesseprimeirodesen- volver-se completamente. Murzah, no entanto,lançou um olhar quase travesso e disse: -Vê, agora realmente posso morrer por ti.Agradeço a Deus por isso! Sua alma luminosa e límpida elevava-se.Maomé julgou ver como ela se despren- dia rápida e facilmente do corpo ferido,flutuando para cima. Grande foi a lamentação pelo desaparecimento do jovem, ao qual todos tinham se afeiçoado.Foi sepultado num sepulcro novo,talhado na rocha.Foi o primeiro enterro que o príncipe teve de fazer pelo rito da nova doutrina. Somente depois de terminado o cerimonial, o soberano desejou ver o assassino. O chefe dos guerreiros comunicou-lhe ter sido tão grande a indignação de todos,que não fora possível protegê-lo contra a fúria do povo. Estava morto. Maomé supôs, como hipótese evidente, que tinha sido um dos homens depor- tados para além da fronteira; teve, no entanto, de tomar conhecimento de que fora o administrador destituído do cargo.Isso foi-lhe duplamente doloroso.A um descrente ele poderia ter relevado com mais facilidade o covarde assassínio. A cidade onde aconteceu a calamidade pediu,como prova de que o príncipe não guardaria mágoa contra ela, poder dali em diante denominar-se“Murzah”. Isso Maomé permitiu de bom grado. DuranteanoitecismoumuitasvezescomomotivoporqueDeusteriapermitido esse ato de covardia. Seu auxiliador, o luminoso mensageiro de Deus, silenciou em face de todas as perguntas desse teor. Assim, mais uma vez se encontrava deitado em sua cama sem poder conci- liar o sono. Então ouviu duas vozes de homens conversando, nas quais reconheceu imediatamente a do chefe dos guerreiros e a do seu servo de confiança. Falavam daquilo que também para ele era o motivo de permanecer acordado. - Por que Deus permitiu tal coisa? Perguntou o comandante dos guerreiros, entristecido. A vida toda ainda se estendia diante do jovem, e em verdade essa teria se tornado nobre, porquanto a alma era pura. - Sabes o que o teria aguardado nesta vida? Perguntou Mansor, o criado, em resposta. Talvez tivesse que suportar algo tão pesado que a morte prematura lhe foi uma graça. Quem pode predizer o que o futuro trará? Somente Deus o conhece. - Não compreendo como Deus permitiu o sacrifício do menino, insistiu o guerreiro.
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    MAOMÉ - 143 - -Achas que teria sido preferível que o nosso príncipe tivesse sido assassi- nado? Quis saber o criado. Já que um tinha que ser vítima do assassino, então foi melhor que o jovem, o qual ainda não podia ser útil ao povo, tenha ido, em lugar do príncipe, de quem ainda não podemos prescindir. -Deus,porém,nãoprecisavateraceitoosacrifíciode nenhumdeles,maspodia ter impedido o covarde assassino de outro modo, objetou novamente o guerreiro. - Esqueceste o que Maomé nos contou sobre o livre-arbítrio do homem? Se um homem se decidiu a uma ação, então Deus intervém apenas em casos muito especiais. Ele deixa o homem executar aquilo que está no seu querer. Mas este terá de arcar com aquilo que atraiu sobre si. Deus, aliás, impediu que nosso príncipe, a quem foi dirigido o atentado, fosse arrebatado. Sejamos gratos a Deus por isso e não façamos queixas irreverentes contra Ele. As vozes afastaram-se. Maomé, porém, escutara o suficiente. Foi dominado concludentemente pela suas próprias palavras. Mansor ajudou-o, sem ter ciência disso. Ele, no entanto, implorou a Deus perdão por sua falta de convicção. DaquelediaemdiantesimpatizoumaiscomMansordoquecomosoutros.Falou muitas vezes com ele e alegrou-se com a maneira franca com que emitia suas palavras. Após ter visitado diversas outras localidades, chegou a Jerusalém. Soube que à noite do dia anterior Said e o jovem Maomé tinham regressado com o seu séquito. Isso foi uma alegria inesperada.Pouco depois o neto entrava na tenda para cumprimentá-lo. No dia seguinte Said, auxiliado pelo jovem Maomé, relatava o resultado da viagem. Chegaram sem contratempo até o magnífico mar, em cuja orla se encontra- va Constantinopla, a capital de um poderoso reino. Quando já julgavam que teriam de utilizar algumas barcas para atravessar o mar, souberam que o imperador se encontrava justamente no chamado lado asiá- tico da cidade. Pediram audiência e foram recebidos. O que, porém, Said poderia ter feito sem o jovem Maomé, ninguém poderia dizer. Nenhuma pessoa naquela pomposa corte sabia sequer uma palavra em árabe. Além de turco, falava-se uma outra língua que soava bem, mas o jovem Maomé não pôde entender. - Contudo, príncipe, arranjei-me muito bem com o meu turco, jubilou o jovem. O imperador, um homem de bela aparência, aliás, não o sabia falar, mas pelo menos entendeu-me, de sorte que pôde analisar se aquilo que seu auxiliar lhe transmitia estava certo. Disse-nos muitas amabilidades e tivemos de voltar muitas vezes para contar da nossa crença. Depois disso determinou que todos os turcos e outros súditos do seu reino, residentes na Grã-Arábia, teriam de aceitar o Islã como crença sua. - Trouxemos escritos em várias línguas para todas aquelas comarcas, nas
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    MAOMÉ - 144 - quaisse encontram turcos e outros súditos de Constantinopla, acrescentou Said. Também para ti, príncipe, temos um escrito através do qual o grande imperador branco manifesta seu amor fraternal e não deseja que teu reino seja de modo algum prejudicado pelos seus súditos. Muita coisa os dois ainda tiveram para informar e relatar.Maravilhosa era a cida- de,de maior magnificência ainda o mar, o qual era cercado por margens verdejantes. Num dos dias seguintes o príncipe contou do voluntário sacrifício de Mur- zah. Receou que Maomé, o qual era ligado de um modo especial com esse irmão, lamentasse muito a perda. Em lugar disso, o neto rompeu em júbilo: - Que ele tenha podido fazer isso por ti! Como não o teria feito contente e alegre! Vê, avô, se todos nós cumprirmos nossos deveres e preenchermos o lugar para o qual nos chamaste, mesmo assim ninguém conseguiria fazer tanto pelo nos- so país quanto Murzah. Ele pôde preservar-te! Esse modo de pensar foi um alívio para o príncipe, o qual estava apreensivo pela maneira como Ali e Maomé receberiam a notícia do falecimento de Murzah. Enquanto Said se preparava para percorrer a cavalo as províncias onde vi- viam e comerciavam pessoas de nacionalidade turca, Maomé quis regressar com o neto para Medina. Sentia satisfação em ter o esperto jovem com ele, o qual sempre de novo sabia alguma coisa de belo e agradável para contar. Entretanto, Said insistiu em que o jovem Maomé o acompanhasse. Senão, de que maneira ele se arranjaria com as línguas estranhas? Todos compreenderam isso, e o jovem auxiliador foi junto com Said. De alguma maneira a notícia sobre a morte de Murzah já havia chegado a Medina antes do regresso do príncipe. Fatime e Ali lamentaram sinceramente a perda de seu filho, entretanto logo se conformaram por causa do avô, de sorte que também quanto a eles sua preocupação foi em vão. A bandeira estava pronta e ficou sobremaneira esplêndida. Mandou vir todos os guerreiros que estavam próximos, a fim de reuni-los na mesquita; abençoou a bandeira e entregou-a então a Abu Bekr, mais ou menos com as mesmas palavras que ouvira naquela noite. A bandeira, quando se achava encostada ao lado do nicho do profeta, tinha um aspecto tão magnífico, que nasceu o grande desejo de que na mesquita sempre houvesse uma. Maomé consultou o mensageiro de Deus a esse respeito e recebeu a resposta de que poderia presentear cada mesquita com uma tal bandeira, para as festas, mas as bandeiras hasteadas e desfraldadas no santuário deveriam ser verdes.
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    MAOMÉ - 145 - Alinaescolheu para isso seda da cor de grama nova e tratou de bordá-la juntamente com as filhas. Os três santuários receberam uma meia-lua de ouro; as demais mesquitas, porém, tiveram de contentar-se com uma de prata. Os três santuários! Durante as viagens de Maomé, a construção da sagrada mesquita de Jeru- salém progredira num ritmo vigoroso, de sorte que poucos meses depois de seu regresso a Medina, teve de cavalgar novamente para Jerusalém, a fim de inaugurar a mesquita com sua bênção. Recebeu o nome de “Mesquita da Penha”. Antes mesmo de ser inaugurada, teceram-se muitas lendas em torno dela. O príncipe deu ordem para que também Said e Maomé, o moço, compa- recessem a Jerusalém por ocasião dessa cerimônia. Por ordem do imperador, os turcos converteram-se ao Islã, o qual lhes parecia sobremaneira belo. Na verdade quiseram modificar nele muitas coisas, conforme sua própria índole, porém o sempre tão gentil príncipe permanecia firme e inexorável em as- suntos de crença. Quando terminaram as festividades em Jerusalém, o chefe dos turcos ali do- miciliados pediu uma audiência com o príncipe. Queria justificar os seus desejos. - Vê, príncipe, disse num tom persuasivo, nós precisamos trabalhar pesada- mente durante toda a nossa vida para chegarmos a possuir alguma coisa. Propicia- nos o nosso descanso após a morte. Para ti será indiferente se acolá nós trabalharmos ou folgarmos. Permite que digamos aos homens cansados que poderão descansar e não trabalhar no Além. Aos árabes podes dizê-lo de forma diferente. O auxiliar Maomé, que estava presente para o caso de o turco não ter conhe- cimento suficiente da língua árabe, teve que se esforçar para ficar sério. Para Maomé, o mais velho, no entanto, esse conceito do turco não parecia ridicularizável. Estava estupefato ante a estreiteza da concepção. - Meu amigo,disse vagarosamente,não deves pensar que em assuntos de cren- ça se possa dizer o que bem nos apraz. São verdades que transmitimos e nas quais não se deve torcer nada. Não posso prometer aos turcos uma bem-aventurança diferente do que aos árabes. - Nisso divergem nossas opiniões, teimava o outro. Eu suponho que lá em cima deve haver muitos céus, porquanto se aqui na Terra tenho um inimigo, não seria possível nós dois chegarmos ao mesmo céu. O que resultaria disso? - Ambos estariam impossibilitados de entrar, disse Maomé apressadamente. Quem guarda rancor na alma, não pode achar acolhida no reino da paz. Julgou que com essas palavras causaria uma forte impressão. O turco, porém, ouviu apenas a expressão:“reino da paz” e aplicou-a então novamente a seu modo. - Agora tu mesmo dizes que acolá existe paz. Como poderia haver paz onde
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    MAOMÉ - 146 - setem de trabalhar como um animal de carga! Exclamou contente. Permite-me dizer a nossa gente que depois da morte poderão descansar do trabalho! Com muito mais gosto eles então aceitarão tua doutrina, príncipe. Em vão o profeta procurou convencer o outro. Tudo quanto pôde conseguir foi que o turco prometesse não falar nada de descanso eterno, como também nada de labuta eterna. Assim que ele saiu, então o jovem Maomé começou a rir incontidamente e arrancou o mais velho da inoportuna cisma na qual estava prestes a incorrer. Nesse momento ambos ficaram sérios, quando ele disse: - Como há de ser após a minha morte, se cada um quer sofismar, torcer a crença e interpretar os ensinamentos conforme for do seu agrado? - Nós então ainda estaremos aqui, consolou o neto. Devemos zelar para que tudo fique assim como te foi revelado. - Cristo Jesus também não teve outra sorte, meditou o profeta. Mal deixou a Terra, e os homens já deturpavam e modificavam suas sagradas palavras. Mereço eu melhor sorte do que ele? - Seria horrível se isso acontecesse de novo! Exclamou o jovem fervorosa- mente. Não pode ser que a Verdade vinda de cima seja cada vez deturpada e que então sempre de novo deva vir um outro profeta, para anunciá-la novamente! Desta vez deve ficar assim como tu a trouxeste para nós! Os dias reservados a Jerusalém chegaram ao término. De Medina veio um recado de que ali estava sendo esperada ansiosamente a volta do príncipe. Então ele partiu com seus acompanhantes, aos quais também se juntaram Said e o jovem Maomé, para regressarem pelo caminho mais curto. Essa estrada, pela qual nunca viajara, tinha um bom trecho através do deser- to e era transitável somente em certas épocas do ano. Os moradores da redondeza afirmavam que justamente agora não haveria perigo algum. Assim o grupo tomou, contente, esse novo caminho. Após terem cavalgado alguns dias, o chão, que ficava cada vez mais arenoso, indicava que estavam se apro- ximando do deserto. Mas também o ar estava calmo, de sorte que não tiveram de sofrer debaixo da poeira. A região ficava cada vez mais erma e inóspita. Finalmente se encontravam entre colinas, montes de areia e em planícies onde a areia estava depositada em forma ondulada. Aprovisionaram-se com reserva suficiente de água para não terem de se preocupar. Além disso, os cameleiros asseguraram que conhe- ciam bem o caminho. Numanoiteachavam-setodosdeitadosnosacampamentosimprovisados,quan- do de repente se fez notar uma grande agitação entre os animais. Também os homens começaram a sentir certa inquietação, se bem que não pudessem dar uma explicação. Maomé, que estava mais impressionado do que todos os outros, saiu da ten-
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    MAOMÉ - 147 - dapara olhar o céu. Não parecia que um vermelhão singular coloria o horizonte? Acordou o neto e chamou a atenção dele para o fenômeno. Também este viu a coloração que parecia inexplicável. Pouco a pouco os cameleiros, os guerreiros e os acompanhantes saíram, um atrás do outro, ao ar livre. Alguns declaravam que não viam nada de extraordinário, outros confirmavam que o céu estava descomunal- mente .avermelhado. Esse rubor, no entanto, era diferente daquele avistado habitu- almente. Ninguém era capaz de descrevê-lo acertadamente. Enquanto ainda olha- vam e admiravam, pareceu a Maomé que na parte central o vermelho desaparecia, para dar lugar a um fulgor dourado. Ele clamou: - Vede lá, vede! Todos fitaram a direção que seu dedo indicava, sem contudo reconhecerem algo de novo. Ele, porém, viu que do brilho se formou uma estrela maravilhosa. Assemelhava-se à estrela-de-davi; tinha seis pontas, mas inúmeros raios em todas as direções. A Maomé a luz dessa estrela parecia clara e sobrenatural. Se pelo menos um dos outros a pudesse ver! Mal pensou nisso, então a voz do neto exclamou: - Vede, ó homens, o magnífico astro. A estrela-de-davi paira no céu e nos anuncia Cristo, seu Senhor. Ao mesmo tempo Maomé escutou uma outra voz, que falava somente a ele, mas, alto e perceptível: “Tu, servo do Altíssimo, desta estrela que hoje podes contemplar, deves falar, antes de deixares a Terra! É a estrela dos Filhos do Altíssimo. Quando aparece, então a graça de Deus se estende sobre a Terra”. E pareceu-lhe como se a estrela se volvesse e retomasse ao interior do céu, arrastando atrás de si os seus raios, como uma longa cauda. Quando todo aquele resplendor celeste se apagou, Maomé acordou do seu aprofundamento íntimo. Então ouviu em volta de si as exclamações de admiração. Cerca da metade dos homens declararam ter visto a estrela. Começaram, no entanto, a tecer comen- tários em torno da significação que teria a aparição. Alguns diziam que Deus quis com isso manifestar Sua misericórdia e de- monstrar que Maomé era realmente Seu profeta. Outros ultrapassaram isso, e afir- mavam que se tratava de uma homenagem dos céus a Maomé, o elevado. Outros, por seu turno, quiseram ver na aparição da estrela um presságio de maus tempos: guerra, fome e epidemias de toda sorte. Também eles se excederam na imaginação de tudo àquilo que certamente haveria de acontecer. Inicialmente Maomé os deixou falar. Nele ainda vibrava a voz de cima que lhe trouxe uma mensagem. Escutou, aliás, as barulhentas vozes em disputa, mas não prestou atenção
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    MAOMÉ - 148 - àquiloque queriam significar. Finalmente lhe veio à mente o sentido das mesmas e ordenou silêncio. Explicou que todos aqueles que foram agraciados com a aparição compreenderam erroneamente. Fê-los ver que se mostrariam indignos se quises- sem introduzir novamente apenas seus próprios pensamentos naquilo que Deus os deixou contemplar. Quando se restabeleceu entre eles a calma, exterior e interiormente, então tentou anunciar-lhes que a estrela era um mensageiro de Deus à humanidade, um mensageiro da graça e da misericórdia. Deus enviava a estrela, anunciando com isso que uma parte Dele próprio baixava à Terra num dos Seus Filhos. Hoje, deixava que a vissem apenas em imagem, para que fosse possibilitado a ele, Maomé, anunciá-la conscientemente. No entanto, em tempo vindouro a estrela apareceria de novo, efetiva e veridicamente no céu, assim como pôde ser vista sobre Belém por ocasião do nascimento do Filho de Deus, Cristo Jesus. Outrora atraiu reis e poderosos de longínquas terras, para que pudessem participar da graça. Repleto de elevada força, o profeta de Deus falava, e parecia-lhe como se um outro falasse através dele. O que pôde anunciar agora era novo para ele. - Ela virá, a estrela, o mensageiro de Deus! Então anunciará a todo o mundo que de novo um Filho de Deus se acha sobre a Terra. Não será o alegre portador da Verdade, não será Jesus que virá outra vez, mas sim um portador da Verdade, cheio de gravidade, a justa Vontade de Deus, do Eterno, que aparecerá para julgar o mun- do. Cada um será julgado pelas suas obras. Aqueles que até então tiverem vivido conforme os mandamentos de Deus poderão ingressar no Seu reino, para servi-Lo por toda a eternidade. Ser-lhes-á reservada a mais elevada bem-aventurança. Aos outros, porém, a boca do Senhor dirá: “Perecei, vós, malfeitores! Não vos conheço, e também meu Pai não vos conhece!” Então passarão por angústias mortais, para nunca mais ressuscitarem. Os homens que se reuniram ao redor de Maomé escutavam impressionados. Ele, mais sensibilizado que todos, silenciou. De súbito, porém, a voz de um dos came- leiros que se encontrava mais distante, de pé, chamou: - Ainda uma coisa totalmente terrena anunciou a aparição luminosa que aca- bamos de ver. Um tufão de areia está se aproximando. Não estais sentindo o cheiro da poeira que o ar traz consigo? Sentis ansiedade em vossos corações? Escutais o rugido das feras? Devemos tomar precauções, para que não pereçamos todos. Rapidamente se apagou a impressão profunda de tudo aquilo que Maomé lhes tinha anunciado. - Parece que as trevas quiseram introduzir suas forças no campo de luta,para ar- rastar, para baixo, nossas almas da elevação íntima, disse o profeta, entristecido; pôs-se, contudo, também a trabalhar preventivamente, porquanto todas as mãos eram neces-
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    MAOMÉ - 149 - sárias.Cuidadosamente os cameleiros coordenavam tudo. Os camelos foram desvenci- lhados de suas selas e deitados juntos, do melhor modo possível. Os lugares entre eles foram indicados aos homens,que os deveriam ocupar assim que o perigo se aproximas- se. Mercadorias e equipamentos foram encobertos da melhor maneira possível. Antes de tudo, porém, os guias procuraram marcar o caminho pelo qual deveriam seguir, enquanto ainda o enxergavam. Não deveria acontecer que tivessem que tomar com o príncipe um rumo errado.Mais rápido do que o mais experimentado viajante do deser- to pudesse imaginar, rompeu a tempestade com uma fúria que deveria mostrar a cada um quão ínfimos eram os homens. Maomé orou para que tudo passasse misericordio- samente. Não podia imaginar que estaria na vontade de Deus um perecimento debaixo dos elementos desencadeados.Sob o efeito da prece entrou clareza em sua alma: -Quem ocasionava a tempestade que revolvia as massas de areia? Não era o guia dos ventos e dos anjos do ar, como ele, Maomé, os denominara? Se eram anjos, então estavam su- bordinados a Deus, o Senhor, e não eram servos das trevas. Já que eram servos de Deus, também executavam Sua vontade.Conseqüentemente,nada poderia acontecer que não fosse ordenado por Deus. Sentiu-se inteiramente livre e aliviado; toda a ansiedade o abandonou. Quis dirigir palavras animadoras ao seu neto, que estava deitado ao seu lado; chamou-o e viu um rosto sorridente. - Avô, é esplêndido poder passar por semelhante experiência! Exclamou o jovem. E contudo ter a certeza de que nada pode acontecer, pois estamos protegi- dos! Aprendeste também com isso, tanto quanto eu? - Aprendi muito, meu filho, respondeu Maomé com seriedade. Ao término de algumas horas, que pareciam infinitamente longas para to- dos, desapareceu o tufão, assim como surgira. Verificou-se que ninguém fora pre- judicado, e que as rajadas dispersadoras mais fortes passaram além do caminho, de sorte que a caravana pôde continuar a viagem sem impedimento. Esse poderoso fenômeno, no entanto, apagou em quase todos eles a lembrança da visão que o antecedeu. Isso foi intencional: na sua incompreensão, os homens teriam espalhado entre o povo o seu modo errôneo de interpretar. Agora, porém, quando Maomé falava da vindoura estrela, eles sempre se lembravam de que também puderam contemplar sua imagem, e então confirma- vam as palavras do profeta, sem acrescentar algo próprio de si. Assim que chegaram a Medina, encontraram mensageiros e emissários de vá- rias tribos vizinhas, que desejavam prestar sua homenagem ao grande príncipe, como também queriam pedir sua ajuda contra os seus inimigos. Temendo esses inimigos, preferiram subjugar-se espontaneamente ao soberano, do qual souberam muitas coi-
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    MAOMÉ - 150 - sasboas e ao mesmo tempo terríveis. Com punho férreo obrigaria os homens a su- jeitarem-se sob sua soberania. Contanto que não procurassem insurgir-se contra ele, então seria bondoso e indulgente. Assim, acharam mais conveniente não provocar contra si o lado sanguinário desse príncipe. Maomé, o mais moço, teve de atuar dia e noite como intérprete. Resolveu pe- dir ao príncipe,logo que chegassem tempos tranqüilos,para reunir jovens em volta de si, a fim de instruí-los no uso das línguas estrangeiras. Era indispensável que muitos árabes se capacitassem a falar todas essas línguas. O príncipe veio ao encontro dessas delegações com benevolência,apesar de ter descoberto que em alguns era apenas o medo que os induzira a procurá-lo. Tirar-lhes esse medo e em compensação facultar-lhes a oportunidade de chegarem a conhecer a fundo as maravilhas da crença em Deus, isso era para ele uma necessidade urgente. Sentiram-lhe a bondade, que era genuína, e a mesma persuadiu suas almas, fazendo com que fossem embora bem diferentes do que quando vieram. Pelos países em volta, no entanto, espalhou-se a notícia sobre o príncipe dos árabes, o qual creria num Deus poderoso, sendo-lhe por isso facultado exercer uma influência fascinante sobre os corações humanos. Já que sabia dar efeitos a tal fascínio, então provavelmen- te entenderia mais coisas. De repente teve início uma romaria para Medina: trouxe- ram enfermos, aleijados, possessos e cegos, como no tempo de Jesus. “Senhor, posso ajudar?” perguntou Maomé. Recebeu, no entanto, sério aviso de que isso não fazia parte de sua missão. Ele era um profeta, um anunciador do Altíssimo, e não um médico. Existiam tantos médicos hábeis dentro e fora de Medina, e esses certamente poderiam curar muitas das enfermidades. Não precisaria deixar ninguém ir embora decepcionado ou enraivecido. E Deus evidentemente estendeu Sua bênção sobre as mãos dos médicos que a Ele imploraram nesse sentido. A maioria dos suplicantes foi curada ou pôde ao menos obter melhoras.A par disso Maomé mandava sempre instruí-los na nova dou- trina,e as almas predispostas de um modo especial pelo sofrimento absorveram tanto quanto lhes foi possível. Abu Bekr ia com seus guerreiros ora para cá, ora para lá. Sempre havia qual- quer coisa a apaziguar, insurreições a abafar ou alguma violação de fronteira a ser punida. Onde quer que ele desdobrasse a bandeira do profeta, aí estava a vitória. Seus guerreiros lutavam com bravura nunca vista. Não temiam perigo algum; por si mes- mos, rompiam por entre a mais cerrada aglomeração e, quando tombavam, morriam alegremente, quase jubilantes. Isso era incompreensível a todos os inimigos e espalha- va tal assombro, que pouco a pouco ninguém mais ousava entrar em combate contra os árabes e contra aqueles que estes acolheram sob sua proteção.Os jovens de famílias nobres e modestas insistiam em ser recrutados entre os guerreiros. Certo dia compa-
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    MAOMÉ - 151 - receuo quinto neto diante do príncipe para pedir-lhe que conseguisse de Abu Bekr o seu recrutamento na tropa de elite. - Ad-Din, indagou Maomé, não podes imaginar algo melhor para tua vida do que derramar sangue? Para mim seria a última coisa que ambicionaria. Por que queres tornar-te um guerreiro? - Porque então terei certeza de poder entrar no reino de Deus, respondeu Ad- Din ingenuamente.Vê, tu mesmo dizes que por mais que nos esforcemos para proce- der direito, podemos às vezes fazer um erro, o qual nos impedirá a ascensão. Com os guerreiros isso é impossível. Por essa razão julgo mais certo tornar-me guerreiro. Maomé não pôde compreender aquilo que o neto disse. Pediu-lhe que contasse com mais precisão como lhe ocorrera a idéia de que os guerreiros são privilegiados dessa maneira. E Ad-Din revelou: - Já há muito tempo Abu Bekr disse aos seus guerreiros que aquele que enfrenta o inimigo com bravura e intrepidez pode com isso extinguir todos os pecados eventu- almente cometidos anteriormente. Tombando, então belos seres angelicais femininos o conduziriam a um castelo celeste, onde seria tratado e cuidado do melhor modo. Não achas também, avô, que essas perspectivas são suficientemente atraentes para se dar prazerosamente a vida por isso? -Éesseomotivopeloqualtantosmoçosseapresentamparaseremguerreiros? Inquiriu o príncipe. O neto respondeu afirmativamente. - Nós todos queremos ter uma vida feliz lá em cima. Este também é o motivo pelo qual os guerreiros procuram sempre introduzir-se na mais cerrada aglomeração de combatentes, para que tombem o mais depressa possível e sejam buscados para as alegrias eternas. Maomé ficou estarrecido! Semelhantes coisas puderam ser propagadas, mesmo enquanto ele, o profeta de Deus, ainda vivia! Como ficaria após a sua morte? Fez todo o possível para esclarecerAd-Din sobre as sedutoras idéias preconcebidas que o dominavam. Mas o jovem não quis desistir da bela crença, que achara tão bonita. Aferrou-se tenazmente à mesma e achava sempre novas objeções. O príncipe viu que numa única vez nada conseguiria. Pediu a Ad-Din que pensasse melhor sobre o assunto e voltasse numa outra ocasião. Então mandou chamarAli e perguntou-lhe se estava ciente dessa crença errônea.Ali confessou que sim. Sabia disso, mas como Abu Bekr conseguia dessa maneira aliciar um grupo de guerrei- ros intrépidos, sem precedente, não ousou interferir contra isso. O ofício de guerra de- pendia em todos os casos da coragem de cada um por si.Se houvesse alguma coisa capaz de elevar esse ânimo e fortificá-lo, então dever-se-ia ficar contente e não combatê-la. - No fundo Abu Bekr também não diz nada errado, apenas exagera um pou- co, exclamava Ali, ao qual o olhar de Maomé começava a tornar-se incômodo. Ele
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    MAOMÉ - 152 - pintaa bem-aventurança de um modo, que, ao pessoal, ela se afigura realmente como tal. Que proveito tira uma dessas almas simples, do pensamento de que lá em cima poderemos servir a Deus infindavelmente? Deixa-os permanecerem na crença de que acolá usufruirão um bem-estar, e de que lá em cima encontrarão a recom- pensa pela morte em prol da pátria. - Ali! Exclamou dolorosamente o príncipe. Tu queres ser meu sucessor, e co- meças desde já a torcer a Verdade! Nenhuma palavra deve ser dita diferente de como a recebi do Altíssimo. Se alterardes a Verdade por causa dos homens, então ela será reti- rada de vós! Maomé falou demoradamente com aquele que fora escolhido para ser o anun- ciador da Verdade após ele. Não conseguiu outra coisa a não ser que Ali se calasse. In- timamente, porém, Ali estava persuadido de que Maomé, por estar muito afeito a sua obra, não queria por isso que ela fosse modificada em qualquer coisa. Cada evento no mundo deveria progredir, se quisesse permanecer duradouro. Deveria unicamente a crença constituir uma exceção? Isso ele disse à noite, na intimidade familiar, quando comentou agitado a pales- tra tida com o príncipe.Abdallah, o filho mais velho, silenciou meditativo. Então disse: - Creio que no fundo tens razão, meu pai, mas ainda é muito cedo. Reserva tudo isso para a época em que fores soberano no país. Isso não há de demorar mui- to tempo mais. Uma repetição desse colóquio poderia induzir o príncipe a nomear um outro sucessor. Maomé, o mais novo, reagiu: - Então não tendes noção do perigo - que representa a deturpação da Verdade? Deixai-me contar-vos um exemplo. Um príncipe tinha disponível um grande tesouro em ouro não cunhado e quis fazê-lo chegar entre os homens. Mandou cunhar moedas de ouro puro e distribuiu-as. Cada um as pegou prazerosamente, e o comércio do país floresceu. Então o tesoureiro viu que o ouro diminuía,e cuidadosamente misturou outro metal com o ouro puro.Os homens não o notaram e pegaram as moedas em confiança. Por fim, também aqueles que cunhavam as moedas quiseram tirar proveito para si. Também acrescentaram ou- tras ligas de metais. As peças tornaram-se mais pesadas do que até então. Os homens procuravam-nas. Cada um preferia as peças pesadas, às genuínas e leves. No comércio, todavia, reconheceu-se de repente as tais moedas falsificadas e recusaram-nas. Os ho- mens viram-se reduzidos à maior pobreza e assassinaram o tesoureiro. - Tua parábola é falha, meu querido irmão, disse Abdallah ironicamente. Ali, porém, olhava meditativamente para o filho, que tinha tanta semelhança com o Maomé mais velho. Causar-lhe-ia ainda muito aborrecimento, se não pudesse ser encontrada uma saída. Em todas as ocasiões possíveis, representaria as concepções
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    MAOMÉ - 153 - doprofeta e colocá-las-ia nos seus caminhos, qual um signo da Verdade, por mais anti- quadas que já se tivessem tornado! Logo depois Maomé deixou o aposento. Ali e AbdaUah, porém, continuaram a falar sobre o assunto e estavam de acordo em que se deveria colocar Maomé num cargo o mais longe de Medina,para não haver discórdia no próprio lar.Aos poucos,tornou-se evidente ao príncipe que se formava uma certa tensão entre ele e Ali. Este nunca faltava com o respeito,mas calava-se assim que o profeta manifestasse um ponto de vista.E esse silêncio demonstrava que Ali era de opinião diferente. Se a manifestasse, então Maomé lhe poderia ter indicado do que provinha a di- versidade no seu modo de pensar.Poderia ter sido encontrada uma ponte,um caminho comum, que fosse trilhável para ambos. Mas Ali silenciava. Com isso foi afastada de antemão a possibilidade de qualquer entendimento.Após isso, o príncipe percebeu que o seu neto homônimo obviamente estava passando,em casa,por algo idêntico.Falavam com ele somente sobre coisas triviais, enquanto que Ali e seu filho mais velho se uniam cada vez mais estreitamente entre si. Ad-Din fora enviado a Abu Bekr, por desejo expresso de Ali, para ser ensinado pelo mesmo no ofício de guerra. O neto mais jovem,Ali, ainda corria atrás da mãe e era visto raras vezes. Maomé, então, acostumou-se a procurar para descanso o pequeno palácio de Said, onde era sempre bem-vindo. A delicada Aischa vivia sua vida tranqüila e retraída com suas duas filhas. Quando, porém, o príncipe estava presente, à noite, então ela saía dos seus apo- sentosparavirdedicar-seaopríncipeeaomarido,ecomprazia-secomsuasconversações. Era muito sensata, tinha uma fina intuição e compreendia com mais rapidez do que os demais, tudo o que Maomé dizia. Então, quase sempre ela dominava a sua embaraçosa timidez e dizia aquilo que lhe acorria em pensamento,com palavras inteligentes. Em decorrência disso, Maomé chegou a falar com muito prazer na presença de Aischa sobre suas visões,das quais contava unicamente aAlina.As ponderadas observa- ções de Aischa aprofundavam o sentido dessas visões. Said continuava afeiçoado e com a antiga fidelidade e gratidão ao príncipe, o qual o adotara quando era um pobre rapaz. Maomé podia confiar nele em qualquer situação. Consolava-se com o fato de que Said e Ali se entendiam aparentemente bem. Isso, porém, apenas assim parecia. Said queria evitar dissabores para o príncipe com relatos sobre as desavenças que surgiam entre eles. Diante de Said, Ali não silencia- va; ao contrário, desabafava-se sempre que reprimia intimamente sua opinião pe- rante Maomé, manifestando-a para Said mais desconsiderada e veementemente do que, aliás, era de sua vontade. Ante isso, Said não podia permanecer calado, e assim cada convívio entre os dois terminava em discórdia.
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    MAOMÉ - 154 - Porquantotempoissopoderiaficarocultadoaopríncipe?Saidpensavaalgumas vezesnum meio para afastá-lo novamente de Medina.Então veio uma carta de Ibrahim, solicitando a presença do príncipe em Meca, visto haver muitos assuntos a tratar. Maomé resolveu imediatamente fazer dessa viagem uma “peregrinação” ao santuário, como fora costume na época de sua infância. Apenas queria dessa vez afastar toda a idolatria e transformar a peregrinação de modo que vibrasse, através dos dias, a pura adoração a Deus. Mandou anunciar ao povo que ele mesmo cogi- tava ir à “sagrada mesquita” para ali orar e promover uma grande solenidade. Todo aquele que fosse adepto do Islã, poderia associar-se. Às pessoas de outra crença estaria vedada a visita à mesquita. Não era preciso iniciar a jornada em Medina, e sim, quem quisesse poderia unir-se aos peregrinos no caminho. Todas as pessoas masculinas de sua família tomavam parte na romaria; apenas Ali ficou, para não deixar Medina sem governo. Foi uma alegria para Maomé que Abu Bekr com seus guerreiros se juntassem a ele no caminho. Maomé e os seus familiares viajavam a cavalo, como a maioria dos nobres. Co- merciantes abastados utilizavam camelos; os demais caminhavam a pé. Com isso, a ca- ravana dividiu-se em três grupos, os quais não chegavam todos ao mesmo tempo em cada parada de descanso.O príncipe só permitia o prosseguimento da romaria,quando o terceiro grupo se unia aos outros e após os viandantes pedestres terem descansado suficientemente. Desse modo a viagem para Meca demorou muito. Quando Meca surgiu ao alcance da vista, foi feito o último descanso. Foi pre- cisamente no mesmo lugar onde o príncipe teve de sentir a resistência dos moradores. Agora era diferente. Os portões foram escancarados para deixar entrar os peregrinos, sobretudo o príncipe. Novamente Maomé esperou primeiro os que vinham se aproxi- mando a pé.Depois disso ordenou que todos os animais de montaria e de carga fossem confiados aos guerreiros, os quais já por si teriam que ficar de guarda nos acampamen- tos.A não ser a pé, ninguém deveria entrar, ao chegar o término dessa peregrinação. Um cortejo não abrangível com a vista formou-se num dos dias seguintes. Na frente o príncipe, e atrás dele Said,Abdallah e Maomé.Ad-Din quis naturalmente unir- se aos irmãos, porém o príncipe determinou que ele deveria caminhar no meio dos guerreiros, aos quais pertencia agora por livre escolha. No portão estavam os patriarcas à espera de seu príncipe, e, conduziram-no ao palácio reconstruído para ele, onde também a maioria de sua comitiva achou alojamento. Todos os demais peregrinos foram hospedados, parte em casas de fa- mília, parte em hospedarias e os restantes em tendas. No dia seguinte, ao nascer do sol, o cortejo formou-se mais uma vez e entrou na mesquita sob o som de cânticos de louvor e gratidão. Ibrahim recepcionou a multidão de peregrinos com a bênção de Deus. De- pois disso fez uma alocução e no final uma oração. Em seguida falou o profeta.
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    MAOMÉ - 155 - Novamenteanunciou Deus, o Senhor dos Céus e da Terra. Quem o escutou julgou nunca ter ouvido palavras tão poderosas. Pediu aos ouvintes terem sempre presente que tudo aquilo que ele pôde lhes ensinar fora dado de cima. Também após a sua morte não deveria ser modificada coisa alguma, porquanto a Verdade era eterna, não podendo ser torcida. Tudo que se pudesse torcer não seria mais Verdade. Mas também somente enquanto permanecessem fiéis à Verdade estariam sob a bênção de Deus. Finalizando, leu novos mandamentos, que se haviam tornado necessários. Salientou primeiro a proibição do uso de bebidas embriagantes. Sobre esse abuso foi estabelecida uma punição severa, visto que um homem embriagado nunca faz o que agrada a Deus. Tal homem põe em perigo os costumes do povo todo. Além disso, o profeta proibiu o consumo da carne de porco.Aqueles entre os seus seguidores que antes pertenciam ao judaísmo, abstiveram-se disso já por si. Os outros, também, não sentiram essa proibição como um peso! Então o profeta pas- sou a introduzir as épocas de jejum, para evidenciar ao povo, que servia ao maior e mais santo de todos os senhores. - Viveríeis à toa e esqueceríeis a quem pertence vossa vida, se esse jejum não vos fizesse lembrar. Todo o nono mês, o“ramadã”, foi fixado para a época do jejum. Ninguém po- dia comer ou beber enquanto o sol pairasse no céu. Além disso, Maomé determinou ainda dias isolados para o jejum, os quais deveriam ser observados rigorosamente. - Se aprenderdes a dominar vossas cobiças, então isso será de proveito para a vida inteira. Chegareis assim a exercer melhor controle sobre vós mesmos e pode- reis precaver-vos contra erros e pecados. Os dois dias seguintes decorreram com devoções e preleções na mesquita. Nessa oportunidade Maomé fez saber que era seu desejo que cada homem fizesse pelo menos uma vez em sua vida a peregrinação para Meca. Com isso mostraria que fazia empenho para dar a sua vida aquele valor que deveria ter perante Deus. Para que se recordassem de sua viagem peregrina, poderia cada um que em- preendesse a jornada cingir seu chapéu, seja um turbante ou um barrete, com uma fita verde, da cor da bandeira da mesquita. Essas fitas foram distribuídas aos devo- tos na mesquita. Com altivez os presentes rumaram com os seus distintivos verdes ao grande e improvisado pavilhão, onde, na última noite, deveriam reunir-se todos para uma refeição em comum. Todos juntos, o mais pobre peregrino, o príncipe com os seus, tomaram seus alimentos. Também nessas romarias nunca deveria ser feita diferença de classe, por- quanto perante Deus todos os homens seriam iguais. Aos poucos se dispersou a multidão reunida. Também Said regressou com Abdallah para Medina, enquanto os dois Maomés pensavam em ficar ainda por breve tempo em Meca. Ibrahim, que se dedicava inteiramente ao serviço de Deus,
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    MAOMÉ - 156 - tinhamuitas perguntas e sugestões a fazer. Na sua atuação descobriu intimamen- te muitas coisas que exigiam esclarecimento. Estava contente em poder recorrer à orientação do profeta. Em oração e profunda meditação chegou à conclusão de que esta vida na Ter- ra deveria ser um elo de uma longa corrente de vidas semelhantes. Quanto mais me- ditava sobre isso, mais nitidamente se patenteava diante de sua alma a verdade desse pensamento.Achou inúmeras provas a favor e nenhuma contra. Isso queria contar ao príncipe e fortaleceu-se com todos os argumentos para defrontar-se com a refutação do soberano, a qual esperava na certa. Maomé, porém, disse-lhe com satisfação: - Amadureceste, então, para saber isso! Quando estiveste pela primeira vez comigo na nossa mesquita, então quis falar sobre isso. Deus não me permitiu. Eu deveria esperar até que os homens tivessem alcançado a maturidade necessária. Essa época julguei não ter vindo ainda. Agora vejo que talvez me tenha enganado. Logo que voltar para Medina, quero fazer a tentativa de descobrir um modo pelo qual poderei insinuar este saber nos meus ensinamentos aos homens, sem torná-los vacilantes em sua crença. - Talvez temas que os turcos poderiam indignar-se, riu o Maomé mais moço, ao saberem que seu tão desejado descanso, então, ainda seria perturbado por múl- tiplas encarnações! E contou ao irmão da preguiça dos novos correligionários. Mas Ibrahim riu tão pouco quanto o príncipe. - Também eu já tive muitos casos em que os homens acreditam no Além, mas imaginam-no como uma afluência interminável de toda a espécie de prazeres. Até aposentos de mulheres querem transplantar para os céus. Causa-me muito tra- balho retificar os pensamentos errados. - Neste caso não julgas, como teu pai, que poderiam ser feitas concessões aos homens? Perguntou Maomé, amargurado. Ibrahim negou decididamente. Também ele estava convencido de que não se deveria dizer nenhuma palavra diferente do que Maomé o ensinara. - Como estou contente, disse o príncipe, que pelo menos vós dois e mais Said perseverareis na doutrina pura e direis sempre de novo ao povo onde se en- contra a Verdade. Minha vontade era modificar minha determinação e escolher um outro su- cessor. Mas a quem deveria dar a preferência? Se escolho um de vós, então não querereis prejudicar as obrigações filiais e colocar-vos contra vosso pai. - Também ainda somos novos para isso,opinou Maomé,enquanto Ibrahim pe- diu que o deixasse na mesquita, pois era onde poderia prestar melhor serviço a Deus. Num outro dia, Maomé perguntou se os judeus, radicados ali no sul, aceita- ram a nova doutrina e se viviam em paz. Ibrahim informou que sempre necessitava
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    MAOMÉ - 157 - aindado punho forte de Abu Bekr para conter esses por demais impulsivos. Mas desde que o vizir se acostumou a abafar inexoravelmente a menor revolta, o país não tinha muito mais a sofrer. - Se os judeus se convencessem de uma vez que o Islã lhes proporciona exa- tamente aquilo que lhes faltava: a coroação de sua crença! Suspirou o príncipe. Ibrahim, ao contrário, asseverou que justamente isso eles consideravam como cilada, na qual deveriam ser apanhados para o Islã. No fundo de suas almas, todos os antigos judeus acreditavam somente em Moisés, se é que já tivessem tido uma determinada crença. - Sempre presencio como os judeus mandam abençoar seus filhos com no- mes judaicos; secretamente até os mandam circuncidar. Achariam vergonhoso se um filho tivesse um nome árabe, como é uso, aliás, entre os judeus do norte. - Também aqui, em tempo anterior, não se reparava nisso, declarou Maomé, senão eu, como filho de pai judeu, com certeza teria recebido um outro nome. - Maomé quer significar: o homem que vale o preço, disse o Maomé mais novo. Contigo isso corresponde efetivamente à realidade. Quero tentar consegui- lo também. Dessa vez o príncipe partiu com pesar de Meca, onde o envolvia a paz. O que o esperaria em Medina, em face da arbitrariedade de Ali? E, contudo, teve de regres- sar para lá, porquanto precisava tentar impedir que modificassem aquilo que ainda era possível. Sem incidentes chegaram certa noite à capital e encontraram-na calma.Eviden- temente não se esperava ainda a volta do príncipe, porém estava tudo preparado para recebê-lo, no palácio principesco. Said veio o mais depressa possível para cumprimentá-lo,e relatou que na frontei- ra do norte tinham irrompido agitações,de maneira que Abu Bekr se dirigira para lá.Ali estava doente, senão também teria comparecido à recepção. Evidenciou-se que as per- turbações no norte não eram de natureza grave. Era bom, porém, que se mostrasse aos rebeldes imediatamente a autoridade,de sorte que tal não se repetisse mais no futuro. Poucos dias depois, Ali estava restabelecido. Estava mais calmo do que antes e mais acessível às explicações de Maomé. Para o soberano era uma grande alegria; por- quanto julgou que Ali se transformara intimamente com a moléstia. Alina e Aischa, que enxergavam com mais clareza, não quiseram tirar-lhe a alegre credulidade. Pouco lhe seria possível fazer para modificar o modo de pensar de Ali, no qual mais e mais se evidenciava o caráter do pai. Assim como Abu Talib fora cobiçoso por dinheiro, Ali o era pelo poder, pelo domínio e pelo prestígio, que o fizeram esquecer tudo o mais.
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    MAOMÉ - 158 - Fatimenão teve nenhuma influência sobre ele. Afastou-se dela por comple- to, desde que ela fizera algumas vezes, chorando, a tentativa de mudar o seu modo de pensar. Constava que vivia com outra mulher; entretanto, as mulheres nada sa- biam de positivo. Silenciavam para não denunciar ao príncipe rumores incertos. Esse silêncio se lhes tornou mais fácil do que esperavam; porquanto Maomé vivia mais para dentro de si do que para seu ambiente. Aproveitava a tranqüilidade no país para abrir-se a novas revelações que lhe afluíam ditosamente. Começou a aprofundar-se nas verdades transmitidas por Jesus. Baseado em alguns escritos propagados entre os cristãos, procurou tornar vivas as palavras ver- dadeiras, assim como ressurgiam em sua alma. Viu com admiração que tudo aquilo que julgava como sendo anunciações no- vas, dadas a ele, já havia sido proclamado à humanidade pela boca do Filho de Deus. A humanidade, porém, não o compreendeu. Assim como a areia no deserto cai sobre tudo e tudo nivela, do mesmo modo os pensamentos humanos encobri- ram as palavras celestes e vulgarizaram-nas. Nada, absolutamente nada daquilo que podiam perceber agora espiritual- mente, precisava ser novo para eles se tivessem trazido na alma as palavras do Mes- sias e vivido em conformidade com as mesmas. Fazia agora a tentativa de recons- truir algumas das preciosas palavras de Jesus e de explicá-las de maneira a poderem ser compreendidas pelos homens. Sentiu satisfação nesse trabalho e fez uma idéia de como o mundo se tornaria melhor, se Jesus fosse tido novamente como norma para tudo. Sua vida como exemplo e suas palavras como estrela-guia; de que mais os homens precisavam? Nesse aprofundamento lembrou-se também dos avisos sobre o Juízo Final. Diante dos seus olhos pairava a estrela, o mensageiro do céu, o qual ele pôde con- templar no deserto. Diante de sua alma pairava a imagem de Jesus, como ele ca- minhara na frente dos seus discípulos. A isso ainda se juntaram imagens que ele já havia visto. Tornou-se-lhe claro que o Filho de Deus que viria para julgar o mundo, não poderia ser Jesus Cristo. O Messias nunca havia dito: “Eu virei novamente!” Sempre se serviu de ou- tras expressões. Na maior parte das vezes falou do Filho do Homem. Subitamente, Maomé sabia quem era o Filho do Homem. Filho de Deus, a Vontade de Deus, assim como pudera vê-Lo! Quando esse Filho de Deus viesse para julgar o mundo, então a estrela apareceria outra vez no céu. Dessa estrela deveria anunciar agora e Daquele a quem essa estrela anunciou! Começou então a falar cada sexta-feira, na mesquita, sobre os últimos dias do mundo, assim como se lhe afiguravam diante dos olhos de seu espírito. Descre- veu o Juiz dos Mundos, o qual, sentado sobre um trono de ouro, separava os fiéis
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    MAOMÉ - 159 - dosinfiéis, concedendo a um a vida e a outro a condenação eterna. Aqueles aos quais ele dava a vida eterna, poderiam ir com ele ao seu reino, o reino de Deus, seu Pai. Com essas preleções o profeta tornou-se vidente, descrevendo as imagens que passavam diante de sua visão interior. Falava com grande felicidade, porém apenas alguns eram capazes de segui-lo. Também não se esforçavam, pois não queriam saber nada dum Juízo justo de Deus. Queriam ouvir sobre as alegrias que os esperavam no Além, o descanso que se segue à fadiga, a bem-aventurança que se segue à aflição. Sobre isso o profeta deveria falar a eles. Certa vez Abdallah dirigiu-se a Maomé com o pedido de que fosse ao en- contro dos desejos do povo. A assistência às preleções na mesquita diminuiria, se o povo tivesse que ouvir sempre somente aquilo que não queria ouvir. - Precisam ouvir isso! Exclamou Maomé com a antiga impetuosidade, a qual quase não mais se percebia nele. E necessário que compreendam isso.Ajuda-me antes a convencer essa gente, em vez de te tornares intermediário de suas concepções errôneas. Abdallah deu de ombros. - Verás que não poderás obrigar os homens. Serias mais astuto se cedesses aparentemente e falasses a eles assim como lhes é agradável. Em seguida poderias então incluir de novo o Juízo, se não deve ser de outro modo. - Nunca dei muito valor a essa chamada astúcia, Abdallah, disse o príncipe, tornando-se mais calmo. Agora sou muito velho para andar por caminhos tortos. Também sei que abandonaria as veredas de Deus. Eu, porém, sou Seu instrumento. Farei a tentativa de pronunciar minhas palavras com mais amor ainda. Tomou isso a sério. Acusou-se a si próprio de ter talvez procedido muito severamente, em seu desvelo de expor às almas humanas o último Juízo de uma ma- neira impressionante. Procurou um modo novo para fazê-las compreender aquilo que tinha de mostrar-lhes. Começou, assim, discorrendo sobre a bondade e a mi- sericórdia de Deus. Então, logicamente, também teve de censurar as falhas dos ho- mens. Se nas primeiras preleções sentiram alívio, nas últimas, entretanto, sentiram novamente como se uma carga lhes fosse imposta desnecessariamente. Abdallah dirigiu-se ao seu pai para conseguir dele a promessa de procurar convencer Maomé de que também outros deveriam falar uma vez na mesquita. Ele deveria preparar em tempo um sucessor também para essa parte. Por mais que o plano lhe agradasse, Ali hesitou, no entanto, em executá- la. Poderia dar motivo a novos e indesejáveis atritos se o sucessor quisesse falar diferente do que Maomé desejasse. Falando, porém, no sentido do profeta, então nada melhoraria. - Devemos ter ainda um pouco de paciência, meu filho, tranqüilizou-o. Maomé gastou prematuramente suas forças, porque nunca se poupou. Não viverá
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    MAOMÉ - 160 - muitotempo mais. Após isso, poderemos fazer o que bem nos apraz. Por que dis- putar antecipadamente aquilo que virá depois por si? Abdallah conformou-se. Maomé sentia-se satisfeito, vendo tudo em paz. Ali com perspicácia havia enxergado certo: as forças terrenas do profeta estavam combalidas. Quanto mais evoluía em espírito, tanto mais rápido diminuíam suas forças físicas. Ele mesmo quase não notou, mas Alina e as outras mulheres o observavam apreensivas. Tentaram muitas vezes persuadi-lo a descansar e procurar lazeres agra- dáveis. Raras vezes transigia, e assim mesmo apenas por curtos instantes. - Não tenho tempo para essas coisas, costumava dizer amavelmente. Devo atuar enquanto Deus ainda me pode utilizar aqui embaixo. Ele proporciona-me cada dia tanta força quanto necessito. Então o amor de Said utilizou-se de um ardil. Pediu ao príncipe que lhe ex- plicasse, sempre que lhe fosse possível, aquilo que anunciava na mesquita. Ele, Said, desejava saber mais sobre isso, a fim de que mais tarde pudesse influenciar o povo no sentido como Maomé preconizava em suas explanações orais. Said preocupava-se realmente em procurar compreender tudo melhor do que os outros, para que após a morte de Maomé restasse mais um que reconhecera a Verdade. Contudo, ele também podia ter adquirido esses conhecimentos em época mais oportuna. Por essa razão convidava o príncipe a vir em diferentes horas ao seu palácio; acomodava-o confortavelmente num divã, sentava-se aos seus pés e esti- mulava-o a narrar àquilo que enchia sua alma. Essas eram horas de pura felicidade para ambos. Em nenhuma outra parte Maomé sentia-se tão bem compreendido. Said desenvolvera-se mais, desde o seu matrimônio com Aischa. Quando nessas oca- siões o Maomé mais moço, com sua rápida assimilação e seu coração ardente, se juntava a eles, nesse momento parecia como se a força de cima afluísse visivel- mente para eles. A escola fundada pelo neto de Maomé tomara grande impulso. Por toda parte necessitava-se de conhecedores de línguas. Os jovens das famílias mais nobres desejavam receber instrução. Alguns deles até já haviam passado de alunos para professores e ajudavam o jovem Maomé. No entanto, como tarefa de prioridade, a par do ensino lingüístico, ele se propôs a instruir as pessoas na doutrina pura. - Mais tarde naturalmente tereis de interpretar principalmente palestras sobre assuntos de crença! Disse aos alunos. Será de bom alvitre que desde já vos torneis firmes nisso.
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    MAOMÉ - 161 - Dessamaneira preparou uma turma de jovens unidos, os quais estavam con- victos da Verdade do Islã, como Maomé a ensinou, e viviam de acordo com as leis morais. Quando se despediram da escola para tomar posse de um cargo, promete- ram pôr em prática e defender a doutrina em toda parte a que chegassem. Isso não pôde nem deveria ficar oculto.Ali olhava para isso com maus olhos. Dessa turma poderiam surgir-lhe mais tarde muitas contrariedades, as quais desde já com muito gosto teria tornado inofensivas. Contudo, não achou nenhum meio viável. Assim que se tornasse príncipe, poderia tratar de fechar a incômoda escola; agora, porém, deveria tolerá-la ainda. Maomé,o profeta,visitava com muito prazer essa escola com seus vivos e alegres alunos. Muitas vezes falava a eles. Esses eram os pontos culminantes da vida escolar. Tornou-se costume que Ali, cada manhã, relatasse ao príncipe tudo o que havia se passado no dia anterior e também aquilo de que tivesse conhecimento por meio de recados. Maomé, então, ordenava o que deveria ser feito. Às vezes, acontecia que o príncipe chegava a saber que Ali, em caso algum, havia procedido de acordo com essas ordens. Quando o admoestava, então, Ali se desculpava: tinha compreendido errado as palavras do príncipe, ou fora necessário agir diferente no momento preciso, sem ter havido mais tempo para perguntas. Quando esses casos se tornaram mais freqüentes, o profeta consultou o lu- minoso mensageiro de Deus, se seria sua obrigação tomar novamente as rédeas do governo com mão firme. Se deveria verificar como suas ordens eram executadas. Então não lhe sobraria mais tempo para aprofundamento espiritual. Recebeu como resposta que era mais importante firmar no povo o saber sobre a Verdade Divina, do que pôr exteriormente em execução medidas governamentais. Depois disso Maomé continuou a trabalhar de maneira inabalável como antes. No entanto, não deixou de admoestar e repreender repetidamente, quando chegavam ao seu conhecimento, negligências e arbitrariedades de Ali. Quanto mais incômodo isso se tornava para o sucessor, tanto mais cautelosamente este procedia. Urdiu aos poucos uma tessitura de mentiras em redor do príncipe, com tanta habi- lidade, que nem o amor de Said, nem o zelo de Maomé puderam penetrá-la e muito menos dilacerá-la. Certo dia chegou aos ouvidos do príncipe a notícia sobre o casamento clan- destino de Ali. Ficou indignado. Como poderia um homem, que tinha uma Fatime como esposa, a qual lhe presenteara com filhos varões, não se dar por satisfeito. Se, porém, ele desejasse uma segunda mulher, por que não a tomava publicamente como esposa? Ali negou tudo. Era calúnia. Teriam confundido a sua pessoa. Nesse momen- to o príncipe se enojou do seu sucessor e pediu a Deus que não permitisse a posse de Ali no governo.
  • 162.
    MAOMÉ - 162 - Algunsdias depois, Ali declarou que queria fazer a peregrinação para Meca, a qual não pôde realizar naquela ocasião, devido aos ofícios urgentes no governo. Uma romaria partiria nos próximos dias para o santuário, à qual queria juntar-se. - Pensa bem,Ali,exortou Maomé,que somente se pode tomar parte no cortejo com o coração arrependido! Quem se aproxima do santuário de Deus,sem arrependi- mento e com a alma carregada de culpas, atrai irremediavelmente sobre si o castigo! - Nesse caso minha peregrinação justamente nesta época deveria provar-te com mais clareza a minha inocência, do que o poderiam todas as palavras, replicou Ali com finura. Não foi possível arrancá-lo da obstinação. Apesar de todo o dispêndio de esforços por parte do profeta para aproximar-se de sua alma, foi tudo em vão. Teve que deixá-lo partir, profundamente consternado com a hipocrisia do homem ante- riormente tão sincero. Negligenciara alguma coisa nele? Perguntou a Said. Este contestou-o vivamente. - Não deves esquecer, príncipe, que é filho do pai dele. De algum modo os dois deveriam ter uma semelhança íntima, principal- mente porque a índole da mãe não ofereceu nenhuma compensação. Pelos filhos de Ali não receio, pois eles têm Fatime. No lar de Said recentemente associara-se às meninas um pequeno, Omar, a alegria dos pais. Também Maomé regozijou-se com o garoto, que era uma criança bela e vivaz. Ali demorava para regressar de Meca. Isso já se tornava motivo de inquietação para Maomé. Então soube que seu substituto aproveitara o caminho para fazer visi- tas a diversas províncias. Enquanto o príncipe se livrava de todas as preocupações e se voltava com aprofundada concentração a seus afazeres espirituais, Said e o jovem Maomé tiveram algumas conversas angustiadas sobre a demorada ausência de Ali. - Quanta desgraça ele pode provocar com essa viagem! Suspirou Said, esque- cendo completamente que estava falando ao filho do censurado. Este, porém, concordou com ele, e disse: - Apresentar-se-á como futuro príncipe. Eu desejava que o avô nunca tives- se falado qualquer coisa sobre seu sucessor, e então poderia agora ainda escolher livremente. - Quem ele poderia propor? Perguntou Said, aflito. Não sabia de ninguém que pudesse preencher o posto. - A ti, respondeu Maomé rapidamente. Quando Said lhe explicou que o povo não o aceitaria por causa de sua ori- gem humilde, Maomé disse lamentando:
  • 163.
    MAOMÉ - 163 - -Em último caso Abu Bekr sempre ainda seria melhor do que o pai. Pelo menos é franco e sincero. - É bom que não caiba a nós determiná-lo, respondeu Said finalizando. Poucos dias mais tarde Maomé procurou o avô a fim de pedir permissão para ir ao encontro de Ali. O príncipe ficou admirado com esse sentimento de amor filial, anuindo, porém, de bom grado. Assim o jovem Maomé partiu com a aquiescência de Said e Alina, a fim de interceptar atividades arbitrárias de Ali. Julgou que, estando perto dele, não poderia pronunciar palavras ambíguas. Deveria envergonhar-se perante o filho. Por intermédio de viajantes comerciais, chegou a saber que Ali dirigira-se para a Síria, a fim de exigir dos administradores de lá o juramento de fidelidade a ele. Isso não poderia acontecer enquanto Maomé ainda vivesse! Com um pequeno grupo de acompanhantes, o jovem auxiliar cavalgou nes- se rumo; sua apreensão estimulava-o a apressar-se cada vez mais. Já havia passado a fronteira da Síria, quando encontrou inesperadamente Abu Bekr com os seus guer- reiros, os quais julgava que ainda se encontrassem no norte. Cumprimentaram-se e fizeram descanso em comum, apesar de Maomé ter declarado que não tinha tempo para demorar-se ali; pois deveria achar o pai. - Isso podes fazer mais rapidamente se ficares comigo, do que se cavalgares para Halef ou para Damasco, riu Abu Bekr. Olha no acampamento, lá o verás. Mas a falar a verdade, quero aconselhar-te: não olhes lá dentro. Ele está mal-humorado e poderia vingar-se em ti daquilo que é minha culpa. Às insistentes perguntas do jovem, o vizir informou que algo o tinha indu- zido a tomar o caminho de regresso através da Síria, não obstante não terem sido avisados de qualquer agitação naquela região. Então escutou estranhos boatos. Ali, o príncipe da Grã-Arábia, estaria se deixando ovacionar e estaria exigindo juramento de fidelidade por toda parte. De- clarava que Maomé falecera, e que ele, Ali, havia se tornado soberano em seu lugar. - Isso me revoltou tanto, que obstruí o caminho do mentiroso e obriguei-o a voltar comigo para Medina. Ele, porém, riu-se de mim, e insistiu em cavalgar adian- te. Nesse momento agarrei-o um pouco asperamente. Para as próximas semanas terá perdido a vontade de andar a cavalo. E agora fala: o que te fez vir aqui? Maomé relatou com a mesma franqueza a finalidade de sua viagem apressa- da. Abu Bekr pegou sua mão: - És um excelente moço, no qual se pode confiar! Ainda nos regozijaremos con- tigo, quando teu avô não mais estiver entre nós e começarem as inevitáveis confusões. - Que pretendes fazer com o pai? Indagou o jovem, apreensivo, após terem tro- cado demoradamente suas opiniões. Não podes obrigá-lo a voltar se ele não quiser!
  • 164.
    MAOMÉ - 164 - -Ah! é assim, riu estrondosamente Abu Bekr. Não posso fazer isso, então? Com suainfidelidadeeletornou-seculpadoperanteopríncipe.Encontrei-oemflagrante,sub- juguei-o e aprisionei-o. Como prisioneiro meu,posso conduzi-lo para onde eu quiser. - O sucessor do príncipe, teu prisioneiro? Exclamou Maomé, horrorizado. Estou receando,vizir,que aí a tua lealdade e tua vontade te pregaram uma má peça.Não podes conduzir o auxiliar mais graduado do príncipe, preso, para lá e para cá, através do país. - Isso não posso fazer, filhinho? Bradou Abu Bekr, que começou a irritar-se. Mas ele pode mentir,tapear e atraiçoar o príncipe! Isso ele pode,hem?Acredita-me que então eu também posso proceder com ele conforme merece! Maomé sacudiu a cabeça. Não viu nenhuma saída para esse apuro, no qual a probidade de Abu Bekr o levou. E que era um apuro, isso tornou-se-lhe evidente. Não se tratava, para ele, do pai. Esse conceito já há muito perdera o valor. Trata- va-se, porém, do sucessor e substituto do príncipe! Como poderia o povo respeitá-lo, se, como prisioneiro culposo do vizir, fora arrastado pelo país? Surgiu-lhe um novo pensamento. - Abu Bekr, teus guerreiros sabem que manténs preso o sucessor do príncipe? O indagador esperava um não, porém este também não veio. - Achas que meus homens podiam tê-lo subjugado com a sua tropa, sem vê-lo? Além disso,Ali bradava continuamente:“Não avilteis minha sagrada pessoa; sou o prín- cipe da Grã-Arábia”.Portanto,isso deve ter-lhes soado aos ouvidos! - O que achas,então, que deve ser feito? Perguntou Maomé, apreensivo. - Assim que eu chegue de regresso a Medina, prestarei contas ao príncipe do que fiz e por que assim se deu. Feito isso, fica a seu critério decidir como quererá punir a infidelidade e a perfídia. Isso, então, não é mais da minha conta. É chegado o último momento para que se abram os olhos do profeta quanto às maquinações insidiosas do ambicioso Ali.Perdão,sempre esqueço que ele é teu pai. - Isso podes esquecer,vizir,disse Maomé sério,mas tem presente que ele é o subs- tituto do príncipe. Diante disso Maomé não teve mais pressa de seguir adiante.Sua vontade era im- pedir que Abu Bekr regressasse a Medina. Quão profundamente chocante deveria ser para o príncipe a notícia sobre a traição de Ali! O substituto ferido foi conduzido dali no dorso de um camelo, numa espécie de liteira. Não chegara ainda a avistar-se com o filho. Este não sentia desejo algum de procurar um encontro. Enfim,certodia,chegaramaofinaldaviagem.Noportãosouberamqueoprínci- pe estava gravemente enfermo. Ficaram assustados. De momento Abu Bekr com certeza não deveria comunicar-lhe nada sobre o procedimento de Ali, sobre seus ferimentos e seu aprisionamento. O que deveria ser feito com Ali?
  • 165.
    MAOMÉ - 165 - Mandaramchamar Said e deliberaram com ele. Dele souberam que a enfermi- dade do príncipe era muito grave.Estava no palácio de Said,onde havia dias sofrera um colapso. Os médicos não permitiram que fosse feito qualquer movimento com ele. Alina e Aischa tratavam-no abnegadamente e com todo seu grande amor. Por ora não se poderia contar tais coisas ao príncipe. Isso também não teria pressa. O povo estaria se preocupando ansiosamente com a vida do profeta e não daria pela falta de Ali, o qual o povo julgava encontrar-se ainda em Meca. Então os três resolveram levar Ali para o porão do palácio de Abu Bekr e lá mandar vigiá-lo. Foram escolhidos os guerreiros mais fiés e de confiança para esse serviço; os outros foram mandados a um acampamento fora da cidade e obrigados a calar. Às eventuais perguntas do príncipe, poder-se-ia informar que Ali fora ferido num combate e só voltaria após o seu restabelecimento dos ferimentos. Procederam da maneira como determina- ram entre si. Ali vociferava freneticamente. Nada lhe foi dito sobre a enfermidade do príncipe, de sorte que teve de supor que estava sendo mantido preso por ordem do mesmo. A ninguém era permitido aproximar-se dele. Sozinho, deveria refletir sobre sua culpa. Maomé teve desejo de procurar logo o avô. Demorou, porém, alguns dias, até que a febre baixasse e o médico permitisse visita. Os dois, que se assemelhavam muito, externa e internamente,tiveram grande alegria ao se reverem. - Agora não te afastarás mais de mim, enquanto eu estiver vivo, meu filho, pediu o príncipe com ternura, e o mais novo prometeu. Ele mesmo não pôde imaginar coisa melhor do que ficar de vigília ao lado do leito do enfermo e participar de tudo o que acontecia ao redor. Pôde ver as luminosas figuras que se aproximavam do leito anunciando e consolando, animando e comuni- cando. Nem sempre ouviu o que falavam, mas que se tratava de algo maravilhoso, isso pôde depreender das feições radiantes do doente. Nenhuma pergunta a respeito de Ali saiu dos lábios do enfermo; em compensação, pediu que mandassem chamar Ibrahim. Alina já havia pensado nisso,e o jovem xeque já se achava a caminho.Alguns dias depois apresentou-se perante o leito. Paz e tranqüilidade de alma emanavam dele. Seus olhos castanhos irradiavam uma alegria que não era deste mundo. Longe de todos, tornou-se uma personalidade independente e valorosa. O príncipe sentiu alívio ao vê-lo. Somente então começou a pensar em coisas terrenas, enquanto que antes se movimentava com todos os seus sentimentos intuitivos em outras planícies. Pediu a Ibrahim que assumisse o cargo de xeque na mesquita de Medina,a mesquita do profeta.
  • 166.
    MAOMÉ - 166 - -É muito fácil executá-lo,meu filho,disse com um amável sorriso.Desde que es- tou deitado aqui, ninguém mais falou nas sextas-feiras aos homens. Teu irmão Abdallah lê, mas isso só não basta. Fala tu agora ao povo, enquanto eu ainda permaneço na Terra. Eles acostumar-se-ão contigo e não mais quererão prescindir de ti,depois que eu for em- bora. Aliás, é muito importante que justamente aqui, onde infelizmente existem tantas correntes contrárias,seja aVerdade ensinada da maneira mais pura. Ibrahim queria fazer objeções, no entanto algo o impediu. Prometeu o que o príncipe desejou e este ficou visivelmente mais calmo. Momentos depois começou novamente: - Ali não é mais digno de ser meu sucessor. Deveis julgá-lo em segredo e fazê-lo desaparecer. Abu Bekr, sê tu príncipe da Grã-Arábia em meu lugar! A Verdade terá em ti um amigo e protetor. Nunca, porém, esqueças que um príncipe deve construir e não destruir,sanarenãoferir.Setiveresderecorreràsarmasederramarsangue,entãoescolhe para ti um chefe guerreiro que atue em teu lugar. Promete-me isso! O vizir, completamente atordoado, prometeu tudo o que o príncipe exigiu. Por- tanto, Maomé sabia da perfídia de Ali! Com verdadeira galhardia suportara tudo isso. Realmente, havia uma grande diferença entre Maomé e os homens que o rodeavam. A Said,o príncipe agradeceu pela sua fidelidade nunca vacilante e seu amor filial. - Com tua conduta fizeste-me esquecer que em realidade não és meu filho. Deus recompensar-te-á por isso; eu não o posso. Terás que passar por duras pro- vações assim que eu deixar a Terra. Com muito gosto te pouparia, mas vejo nitida- mente que assim deve ser. Permanecerás firme como um baluarte, contra as ondas de descrença, crença er- rôneaetraição.AforçadeDeusestarásemprecontigo,enquantoaimplorares,eenquan- to Deus ainda precisar de ti aqui na Terra. Paz interior esteja contigo em meio a todas as discórdias. Deus,o Senhor,te abençoe! Comovido, Said retirou-se de perto da cama. Não teve mais esperança de que Maomé convalescesse. Quem assim falava, já devia estar à beira do Além. Nesse momento, Maomé fez um gesto ao seu neto predileto para que se aproxi- masse.Este ajoelhou-se perto do leito e num impulso de afetuosidade encostou a cabeça no peito do enfermo, o qual passou levemente suas mãos sobre a mesma. Demorada- mente os dois permaneceram em silêncio,mas um fluir de forças sagradas passou de um para o outro,o que promoveu uma profunda compreensão. - Maomé,a ti caberá a tarefa mais difícil.Gostaria de levar-te comigo agora,assim que deixar a Terra. Deus, porém, o dispôs diferentemente. Sê tu o amparo das delicadas mulheres, as quais tenho de deixar para trás. Sê seu auxiliador até que voltem tempos calmos.Correrá sangue e serão assassinados inocentes.Protege as mulheres por essa épo- ca! Após isso, consulta Deus sobre outros serviços. Foste meu neto predileto, não apenas porque reconheci em ti uma parte de mim mesmo, mas sobretudo porque seguiste teu
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    MAOMÉ - 167 - caminhoimperturbavelmente claro e reto. Permanece como és, e a bênção de Deus te acompanhará,assim como a minha estará sempre contigo. Foi chamadoAbdallah.Veio contrariado e não quis saber quão doente o príncipe estava,Perguntouimpetuosamentepelopai.Antesquepudessemresponder-lhe,desejou saber por que Ibrahim fora chamado para a mesquita. O médico eAbu Bekr deram a entender que deveria moderar-se,pois estava na presença de um moribundo. Por um momento Abdallah se assustou; então, porém, virou-se e deixou o apo- sento sem dizer uma palavra.Se Maoméo escutou ou o viu,isso ninguém chegou a saber. O príncipe desejou,então,que as mulheres chegassem uma a uma a sua presença; queria despedir-se. Inicialmente se opuseram a isso, quando pronunciara essa palavra. Agora nenhum dos presentes tinha coragem para isso. Era por demais evidente que essa vida preciosa estava prestes a extinguir-se. Aischa veio com suas filhas,e Maomé agradeceu-lhe por todo o amor que encon- trara em sua casa.Tinha tomado afeição por Aischa como se fosse sua própria filha. Se agora Said tivesse de consagrar todas as suas forças para o reino,então ela,com Alina, Fatime, suas filhas, todas juntas, deveriam retirar-se para um lugar seguro, fora de Medina. O jovem Maomé estava nomeado para protegê-las e encarregar-se-ia de todas elas. Também para Fatime e as outras filhas ele teve palavras bondosas. Depois disso pediu que o deixassem a sós com Alina. - Tu,minha fonte de bênçãos na Terra,deixa-me agradecer-te,disse emocionado. Estas palavras nunca quiseram passar pelos meus lábios, tantas vezes que se impeliram para lá. Se me foi possível observar os mandamentos do Senhor e seguir puro e imacu- lado meu caminho, então tu me ajudaste nisso, minha flor pura dos jardins eternos de Deus! Limpos e impecáveis são todos os teus pensamentos e atos. As moças e mulheres do teu ambiente familiar tornaste puras e delicadas. Atua ainda, após o meu trespasse, por muito tempo sob a bênção, e ensina as mulheres a se tornarem iguais a ti. É meu desejo que todas vós que estais ligadas a mim pelo laço do amor vos oculteis em alguma parte, até que as épocas de rebeliões, que agora deverão vir, tenham passado. Maomé, meu neto, deverá ser para vós um guarda e protetor. Segue meu conselho nesta parte, porquanto é necessário que te conserves para o nosso povo. Deus mesmo assim o quer! Sua bênção esteja contigo.Ver-nos-emos de novo! Essas foram as últimas palavras que Maomé falou por uma necessidade terrena a um ente humano. Dali em diante todos os seus pensamentos estiveram com Deus. Se falava, então isso sucedia para anunciar aquilo que lhe era dado ver. Seus lábios balbuciavam ininterruptamente. Mesmo aqueles que estavam perto dele, muitas vezes não puderam entender o que dizia. Nesse momento, de novo as pala- vras soavam claras e nítidas. Falou dos Filhos de Deus. Teve uma visão de Cristo, assim como o vira outrora.Pediu e implorou poder novamente caminhar com ele.Em seguida estampou-se um sorriso maravilhoso em seu semblante.
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    MAOMÉ - 168 - -Ó tu, sagrado Filho de Deus, esqueci! Nunca mais precisarás cansar teus pés na poeira de nossas estradas. Nunca mais precisarás falar a um povo obstinado que não te quer escutar, e quando te ouve, deturpa e avilta tuas sagradas palavras. Mestre, tu estás com Deus! “Eu e meu Pai somos uno”, anunciaste para nós! Isso agora pôde tornar-se realidade para ti. Ficaste novamente uno com o teu Pai eterno. Agradeço-te por ter tido permissão de anunciar de ti! Maomé silenciou longamente.De repente ergueu-se,como se contemplasse algo de majestoso. Levantou seus braços sem forças: - Juiz do mundo,Filho de Deus! Em profunda humildade inclino-me diante de ti e suplico-te: consente que te sirva quando vieres para julgar! O profeta calou-se, como se escutasse atentamente. Depois disso seu semblante se transfigurou ainda mais. - Rendo-te graças, a ti, Eterno! Neste caso poderei servir-te lá em cima. Não ne- cessitarás mais de mim quando pisares na Terra? Mas lá em cima poderei ultimar minha obra? Agradeço-te pela tua imensa graça! Novamente seguiu-se um longo silêncio. Um ou outro dos presentes aproxima- va-se silenciosamente da cama para verificar se ainda respirava. Parecia que Maomé dormia tranqüilamente. Contudo, somente assim parecia. Sua alma desprendia-se facilmente, sem dores. Entes luminosos assistiam-no. Também rodeavam o corpo terreno, a fim de que não sentisse nenhuma dor com o desligamento. Maomé, o jovem, pôde vê-los. Também foi agraciado para escutar o que foi dito ao moribundo. “Volta a tua Pátria, meu servo Maomé. Sempre foste um instrumento fiel. Não é tua culpa, se aquilo que tiveste permissão de trazer ao mundo novamente afundar na imundície que é ativada pelas trevas.Foste destinado a ser um portador daVerdade.Tu o foste! Superaste a ti próprio,e viveste para os outros.Serviste a teu Deus! Volta.A Pátria eterna espera-te!” Intenso brilho concentrou-se por sobre a cama do moribundo, o qual abriu os olhos pela última vez, e clamou em voz alta: “D E U S !” Nessa única palavra jazia um triunfo e uma bem-aventurança que aqueles que a ouviram nunca mais esqueceram. Através das horas mais difíceis de suas vidas, quando estiveram na iminência de tropeçar, essa única palavra ajudou-os e segurou-os: “D E U S !”
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    MAOMÉ - 171 - Ofalecimento de Maomé provocou entre os seus as mais desencontradas sensações. Um pesar sincero comovia a todos, porém somente Alina e Aischa pude- ram entregar-se a esses sentimentos. Os homens sabiam que havia chegado o momento de agir, se quisessem pre- venir que se manifestassem logo a seguir os maiores distúrbios. Deixaram a sala mortuária aos cuidados das mulheres, inculcando-lhes que não deixassem entrar nenhum serviçal, nem qualquer outra pessoa, enquanto eles se retiravam a um dos aposentos contíguos para deliberarem. Que urgia tomar providências, isto todos compreenderam perfeitamente. Abu Bekr, que era sempre tão enérgico e decidido, estava completamente arrasado. Não compreendia que deveria ser o sucessor do profeta; duvidava que poderia resolver a situação. Said e Ibrahim estavam calados; olhavam, porém, para Maomé, de cuja pers- picácia esperavam auxílio. Ele não estava consciente disso. Sua alma dirigia-se em oração para as alturas, a fim de obter orientação para todos. Parecia-lhe como se escutasse a voz do falecido, dando-lhe instruções claras e nítidas sobre o que deveria ser feito primeiramente. Era tudo tão compreensível, que entrou paz e confiança na alma do homem. Levantou-se e dirigiu a palavra aos outros. - Escutai, disse, o príncipe vos dá, por meu intermédio, ainda uma vez or- dens, as quais devemos executar fielmente. Sua morte deve permanecer em sigilo enquanto o traidor Ali não for eliminado. Este, portanto, deve ser julgado nos pró- ximos dias, em nome do profeta. Somente então pode ser anunciada a morte de Maomé, e Abu Bekr será procla- mado seu sucessor. Se negligenciarmos isso, então uma guerra civil será a conseqüência inevitável.Ali nunca abandonaria, de boa vontade, a já agora arrogada soberania. Como, porém, o invólucro terreno de nosso príncipe não pode permanecer exposto tanto tempo sobre a Terra, a ordem dele é que o enterremos esta noite, no jardim deste palácio. Deve ser procedido com o maior sigilo. Isto está claro. Mais tarde então deveremos sepultá-lo na mesquita do profeta. Para esse fim, devemos deitá-lo hoje na terra, de um modo que possa ser desenterrado facilmente. Pede-vos que não considereis isso como uma profanação do cadáver, e sim, que compreen- dais ser ele induzido a isso pelo seu amor ao povo. - Sim, o amor ao seu povo! Disse Said quase chorando. Esse amor ele man- tém até após a morte. Jamais desejou alguma coisa para si mesmo. Agora desiste até do honroso funeral de que é digno, e prefere deixar-se enterrar como um crimino- so, a ver deflagrar uma guerra civil por sua causa! - Estais de acordo que sigamos as instruções de Maomé? Perguntou o jovem Maomé, com insistência. Todos concordaram. - Então tomemos sem delongas as providências necessárias. As mulheres
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    MAOMÉ - 172 - podemlavar, untar, vestir e adornar o morto. Tu, Ibrahim, podes ajudá-las nisso e rezar as orações fúnebres que ele mesmo compôs. Nós outros temos de preparar em segredo o receptáculo externo; porquanto após o pôr-do-sol teremos trabalho sufi- ciente com a escavação de uma cova funda. Maomé ordenou tudo cautelosamente. Said chamou a atenção para o comprido baú que se encontrava no aposen- to adjacente, o qual mandara fazer para guardar tecidos de seda. Era de tamanho suficiente para abrigar o falecido. Os outros estavam de acordo e forraram-no com preciosos tecidos de seda. O médico quis entrar, porém deixou-se mandar embora por Abu Bekr, perante o qual sentiu um instintivo temor, com a insinuação deste de que o enfermo estava dormindo um pouco. Quanto menos confidentes, melhor é, achavam os quatro homens. Desde há muito o sol desaparecera no ocaso, quando mãos carinhosas deitaram os restos do servo de Deus na caixa comprida de madei- ra. Nesse ínterim foi chamada Fatime. Então os sete se ajoelharam e um sentimento sagrado transpassava todos eles. Perceberam a força que lhes afluía de cima, a fim de que cada qual à sua maneira pudesse cumprir sua missão. Na terra fofa do jardim, no meio de arbustos em flor, foi fácil escavar a cova, na qual foi colocada a caixa. Os homens nivelaram tudo de novo e ficaram rezando parados naquele lugar que abrigava o corpo daquele que fora para eles o guia e amigo na Terra. Nem os empregados domésticos notaram qualquer coisa. Tratava-se de guardar ainda por cerca de um dia o segredo. Na manhã seguinte foram chamados os funcionários do príncipe para uma reunião. Abu Bekr, Said e Maomé dirigiram- se igualmente para a grande sala do palácio principesco. Abu Bekr comunicou aos presentes, por ordem do príncipe, qual o delito de que era acusado Ali. Não se achava provavelmente ninguém na sala que já não tivesse escutado falar do procedimento traiçoeiro de Ali; não havia necessidade de mais provas. Mas antes que fosse pronunciada a sua sentença, era mister que se defrontasse com seus acusadores. Abu Bekr enviou alguns dos seus guerreiros para trazerem o prisioneiro. Sem terem conseguido trazê-lo, voltaram depois de ter decorrido bastante tempo: o cárcere estava vazio! Como poderia ter se dado isso? Foram chamados os guardas. Tremiam de medo e não quiseram falar. Finalmente, quando o jovem Maomé lhes prometeu que os defenderia se dissessem logo a verdade, eles confessaram que o sacerdote Abdallah procurara seu pai. Ao recitador da mesquita não puderam impedir a entrada; além disso, tinha dito a eles que vinha a pedido expresso do príncipe. Havia permanecido demora- damente com Ali. Por fim saíra, dizendo-lhes que Ali provavelmente morreria nessa noite. Suas
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    MAOMÉ - 173 - feridashaviam se agravado. Ele, Abdallah, iria comunicar ao príncipe e chamar seus irmãos ao leito mortuário. Algumas horas depois voltara em companhia de Ad-Din e dissera-lhes que os outros ainda viriam; não os tinha encontrado ainda. Poucos minutos depois de os irmãos terem entrado na prisão, saíram precipitadamente. Ad-Din abrira o ca- minho brandindo a espada desembainhada, e Abdallah carregava seu pai ferido. Tudo isso teria se passado com tanta rapidez, que, quando os guardas volta- ram a si, os homens haviam fugido. Então os guardas resolveram fechar outra vez as portas e ficar no momento calados, porquanto foram tomados de muito medo. Isso soou de todo acreditável e, além disso, Maomé pôde ver que eles fala- vam a verdade. Assim, foram despachados sem castigo. Os funcionários, porém, receberam instruções para investigarem sobre o paradeiro dos fugitivos. Nesse momento os confidentes ficaram contentes por terem seguido sem reservas o conselho de Maomé. Passaram-se dias até que foi encontrada uma pista de Ali. Tivesse ele sabido do falecimento do príncipe, então teria se apresentado imediatamente com seus partidários para assumir o posto. Entrementes, porém, o povo soube quão grave fora o delito de Ali, que até teve que ser julgado, tendo se refugiado para escapar à justa sentença judicial. A pista levou para além da fronteira do reino, de sorte que não foi mais possível pros- seguir no seu encalço. Somente alguns dias mais tarde Said fez saber aos serviçais que Maomé havia falecido. Por meio deles a notícia propagou-se rapidamente, e todo o povo chorou a morte do seu soberano, profeta e servo de Deus. Novamente no silêncio da noite a caixa foi desenterrada, tendo sido coloca- da num suntuoso esquife. O calor excepcional daquele dia não fez parecer estranho o fato de o ataúde ter sido fechado antes de ser levado à mesquita. Ninguém teve suspeitas. Só mais tarde surgiram boatos de que o príncipe já havia falecido antes. Os de má fé inventaram mentiras horripilantes e os de boa fé teceram piedosas len- das em torno disso. A verdade nunca foi descoberta. Uma comovente solenidade na mesquita precedeu o sepultamento. Ibrahim, que teve de assumir sem qualquer cerimonial o seu cargo, porque Abdallah estava desaparecido, falou ao povo. Explanou como Maomé durante toda a sua vida não quisera ser outra coisa a não ser servo de Deus, como todas as leis por ele promul- gadas originaram-se da vontade de Deus, como a doutrina que ele trouxe lhe afluíra do reino de Deus. Com palavras ardentes exortou o povo para que se compenetras- se disso e para que perseverasse fielmente na Verdade. - Maomé mesmo disse muitas vezes nos últimos anos:“Todos os portadores da Verdade puderam trazer a Verdade eterna de Deus. Depois vieram os homens e interpretaram-na à sua maneira, aviltaram-na e deturparam-na, até que da Verdade
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    MAOMÉ - 174 - foitecida uma mentira”. Árabes, fiéis do Islã, não deixeis que vos tirem o sagrado! Não deixeis torcer nem desfigurar palavra alguma! Sede os guardiões do tesouro que vos foi confiado. Quando Ibrahim silenciou, Ornar, o subchefe dos guerreiros, aproximou-se do ataúde que estava colocado na elevação arrumada para o declamador e coberto com a bandeira do profeta.Agradeceu ao extinto em nome de todo o povo por tudo que proporcionara ao reino e a cada alma individualmente. Suas palavras improvi- sadas brotaram de um coração grato e sacudiram as almas de todos. A cerimônia foi encerrada com uma prece suplicando forças. No dia seguinte foram chamados os funcionários para uma reunião, e Said declarou-lhes que o príncipe moribundo nomeara Abu Bekr para seu sucessor. Essa escolha não causou surpresa a ninguém, porquanto como Ali estava fora de cogita- ção, não havia outro homem mais competente para continuar a obra, do que ele. O chefe dos funcionários perguntou ao grão-vizir se estaria disposto a as- sumir o elevado posto. Respondeu afirmativamente com voz trêmula e relatou as palavras de despedida do príncipe. Após, acrescentou: - Quero seguir as recomendações de Maomé. Omar, meu subchefe, deverá tornar-se grão-vizir em meu lugar; e Chalid, até agora o chefe superior, passará a ser o dirigente de todos os guerreiros. Eu mesmo me absterei do derramamento de sangue e desejo dedicar-me inteiramente ao bem-estar do povo e à propagação do Islã. Como Maomé, também eu não quero nada para mim, mas quero fazer tudo pelo povo! Cumpriu a palavra. Num trabalho assíduo juntou todos os manuscritos de Maomé e recompôs os versetos um a um.A ele deve-se o fato de que o Corão, o livro da doutrina do Islã, tenha podido ser legado à posteridade como um todo integral. O jovem Maomé dirigiu-se num dos dias subseqüentes a Alina, a fim de tratar da mudança das mulheres. Aparentemente essa medida, por ora, parecia supérflua. Reinava a paz no reino; a temida guerra civil não deflagrara. Deveriam afastar-se da cidade, na qual atuaram tão beneficamente? Apesar disso, Maomé estava decidido a persuadi-las. Sabia que o príncipe nunca se enganava quando ordenava alguma coisa baseada num aviso de cima. Também aqui se evidenciaria a sabedoria do seu desejo. Ao contrário de sua expectativa, Alina concordou imediatamente. Sim, mais ainda: ela pôde de noite contemplar o local do novo paradeiro! Era uma casa grande
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    MAOMÉ - 175 - esimples, numa região montanhosa, circundada por vastos jardins. Nesse lugar ela se viu junto com as mulheres e moças da família de Maomé, que cuidavam de moças e crianças do sexo feminino e educavam-nas como mulhe- res puras. Essa seria a sua futura tarefa. Descreveu a casa tão nitidamente,que Maomé sabia de súbito onde teria de pro- curá-la. Propôs então que procuraria descobri-la e mandaria reformá-la; depois disso viria buscar as mulheres. Deveriam, nesse ínterim, preparar tudo para a mudança. Ao término de poucos dias de viagem, alcançou o sítio procurado. O proprietário havia falecido. Os herdeiros não deram muita importância à propriedade e quiseram vendê-la por um baixo preço. E assim Maomé logo chegou a um acordo com eles. Colocou alguns serviçais de confiança para cuidarem que a sujeira mais grossa fosse retirada. Não houve necessidade de reparos. Estava tudo em bom estado de conservação. No grande pátio, cercado com muros, esguichava uma fonte, e numa pequena cabana havia uma instalação para banho. Como apa- rentemente um rebanho fizesse parte da propriedade, encontrava-se ali uma peque- na e bonita casa de pastores, a qual Maomé escolheu para sua residência, enquanto tivesse de proteger as mulheres. Então cavalgou com os demais acompanhantes de regresso para Medina e informou as mulheres, as quais escutavam ansiosas, sobre sua compra vantajosa. Estiveram de acordo em tudo; apenas sentiram muito que Maomé tivesse que mo- rar sozinho por causa delas. Nessa época achou oportuno concretizar seu projeto. Construir fora do muro da propriedade das mulheres uma grande casa e transferir a escola de línguas para essa região distante. Ficou um pouco receoso sobre qual seria o parecer de Alina. Ela, no entanto, ficou feliz por Maomé poder prosseguir em seu trabalho abençoado e pelo fato de, caso surgissem agitações na sua proximidade, poder ainda contar com a proteção dos jovens alunos. As mulheres partiram tão logo quanto foi possível: Alina, Fatime e Aischa, as três filhas de Alina, as duas meninas de Aischa e as criadas indispensáveis. Associa- ram-se ainda a elas três amigas, de Medina, com suas filhas. Maomé levou seu irmão mais novo Ali, e Omar, o filhinho de Aischa, visto que ambos necessitavam muito de educação. Uma turma de alunos adultos deveria segui-lo, tão logo o prédio da escola de línguas estivesse pronto. Mal as mulheres deixaram Medina, já começaram a circular cada vez mais rumores sobre várias agitações.Abu Bekr mandou mensageiros a cada um dos vinte e sete administradores, comunicando-lhes a morte de Maomé e pedindo que se comprometessem com ele. A maioria deles lamentou, aliás, a perda do príncipe, mas não opuseram ne- nhuma dificuldade quanto ao sucessor. Assim como o profeta o determinou, seria o
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    MAOMÉ - 176 - melhorpara todos. No entanto, entre aqueles que Ali procurara recentemente, ha- via alguns aos quais ele fizera muitas promessas para o caso de tornar-se príncipe.A outros declarara que já era soberano e por conseguinte lhes prometera muita coisa. Esses não quiseram abrir mão do que lhes fora prometido. Declararam não querer reconhecer Abu Bekr, e sim, somente Ali como soberano. Em vão os mensageiros fizeram com que eles vissem que não se poderia mais contar com Ali.Acusaram abertamente Abu Bekr de ter afastado o sucessor de Mao- mé para apossar-se do trono. Por isso queriam chamá-lo à responsabilidade. Isoladamente, ou em comum, tentaram instigar não só as suas comarcas como também o país inteiro à subversão. Para Abu Bekr não houve outra alternativa, após o regresso dos mensageiros, senão enviar Chalid e Ornar com bem-equipados guerreiros para garantir o seu do- mínio. Onde quer que seus chefes guerreiros chegassem, eles saíam vitoriosos. Prin- cipalmente Omar, nessas ocasiões, procedia com tal sentimento humanitário, que os vencidos quase ficavam envergonhados. Mal regressaram os chefes guerreiros a Medina, resolvidos a recrutarem novas tropas, para que nunca mais fosse preciso retirar todos os guerreiros efetivos do interior do país, veio a notícia da fronteira norte, que Musailima, um amigo de Ali, fizera uma investida com uma horda selva- gem para castigar Abu Bekr por causa do seu proceder. Imediatamente Chalid se pôs a caminho com seus guerreiros bem-discipli- nados e conseguiu prender o agitador juntamente com seu bando. Prometeu a vida a Musailima, se contasse onde Ali se encontrava no momento. Mas o homem per- maneceu fiel ao amigo e preferiu morrer, a traí-lo. Com isso estava vencida a última revolta e Abu Bekr pôde continuar com toda a calma a tratar das organizações externas que Maomé determinara, mas que não pudera mais realizar. Organizou mais escolas no país e ordenou que todos os rapazes deviam freqüentá-las para aprender ao menos a ler e a escrever. Em sua ocupação com o Corão, aprofundou-se mais nas doutrinas de fé do que em tempo anterior. O que com isso se lhe tornou convicção, ele quis passar adiante. Sentiu forte desejo de fazer muito mais para a disseminação do Islã.mPara conseguir esse objetivo, algumas vezes lançou mão de recursos falsos, sem contudo estar consciente disso. Como anteriormente já asseverara aos seus guerreiros que os esperava uma bem-aventurança toda especial, se tombassem em combate com o inimigo, assim prometeu agora aos homens que cumprissem fielmente o jejum e praticassem a abstinência preceituada, um céu repleto de belas mulheres. Ibrahim, que soube disso, censurou-o: - Como podes dizer tais coisas que imaginaste sozinho, príncipe Abu Bekr? Instou. Não devemos acrescentar nada à Verdade que não promana da Verdade.
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    MAOMÉ - 177 - -Que mal fará, se estimulo os homens com tais narrativas para darem mais atenção àquilo que eles têm de cumprir cá embaixo? Se com isso os ajudo a viverem de acordo com os mandamentos de Deus, onde poderia encontrar-se aí o prejuízo? - Tu os estimulas com promessas falsas. Cada mentira vem das trevas é, por- tanto, um inimigo da Luz. Não podes fazer os homens andarem nos caminhos da Luz, se envolves suas veredas nas trevas. - Ibrahim, tão grave como tu o pintas agora, isso não é. Pergunto novamen- te: em que poderia residir o mal, se eles chegam ao outro lado e descobrem então que o velho Abu Bekr lhes contou algo que não está bem certo? Então também compreenderão que eu quis ajudá-los! O ancião o disse ingenuamente. Estava tão convencido de sua boa intenção. Não era possível explicar-lhe o prejuízo que causara. Certa vez, quando vieram homens à sua presença para queixar-se de que seus afazeres comerciais não lhes permitiam livrar o tempo necessário para empreende- rem a peregrinação a Meca, lembrou-se Abu Bekr de facultar-lhes um substitutivo. Deveriam mandar um substituto a Meca, que empreendesse em seu lugar a peregrinação. Teriam de responsabilizar-se pelas despesas e além disso recompen- sar fartamente o homem. Nesse caso a peregrinação deste poderia ser considerada como se fosse feita por eles mesmos. Também com isso irritou-se Ibrahim. Dirigiu-se a Said para, em comum com ele, proibir o príncipe ou, como mais gostava que o chamassem, o califa-subs- tituto, de tornar públicas inovações sem consultá-los. Abu Bekr ficou admirado de que também dessa vez fosse alvo de repreensão em lugar de receber elogio. Julgou que procedera com habilidade, porquanto soube que justamente esses homens, que tomavam por pretexto a falta de tempo, temiam as despesas. Agora lhes impôs mais custas ainda e alegrou-se com isso. - Ele é como uma criança, suspirou Ibrahim. Ainda vamos ter muito traba- lho com ele. Essa predição fora errada. Nem dois anos haviam se passado desde que Abu Bekr assumira a sucessão do profeta, quando veio a falecer acometido por uma do- ença que, aliás, contraíra anteriormente numa campanha, e a qual descuidou. Antes de sua morte nomeou Ornar, o grão-vizir, para seu sucessor. Chalid deveria ficar vizir e Amir, chefe de todas as forças armadas. Quando coordenou tudo, adormeceu suavemente, sem que as pessoas de sua intimidade o percebessem.
  • 178.
    MAOMÉ - 178 - Ornartornou-se califa e assumiu seu cargo cheio de boa vontade, sobretudo cônscio de que somente poderia proporcionar benefícios ao povo, atendo-se fiel- mente aos ensinamentos do profeta. O que, porém, exigiu de si próprio nesse sentido, isso também esperou dos outros. Os fiéis deveriam usufruir sua vida mediante alegres atividades em agrade- cimento a Deus, mas jamais desviar-se um passo sequer do caminho indicado pelos mandamentos e pelas leis. Entendeu-se excelentemente com Ibrahim e Said; eram seus mais leais au- xiliares. Um dos seus primeiros atos governamentais foi a nomeação de Said para grão-vizir, visto ter Chalid lhe solicitado que o deixasse no seu posto como chefe dos guerreiros. - Não sirvo para governar, disse lamentoso. Com arma em punho posso realizar grandes coisas, isso eu sei. Prefiro ser a espada de Deus, do que conselheiro do príncipe. Perdoa-me, califa. Omar viu-se em apuros. Compreendeu Chalid muito bem, e também teria ido de bom grado ao encontro do seu desejo, mas agora tinha sido nomeado Amir para chefe supremo do exército. Chalid não poderia passar para o segundo lugar, depois que durante dois anos ocupou o primeiro. - Poderei preencher qualquer posto, também o mais humilde, assegurou Chalid, se posso continuar como chefe guerreiro. Após uma conferência com os seus conselheiros, Omar por fim consentiu nisso e Chalid agradeceu-lhe por meio de lealdade e submissão exemplar. Se Abu Bekr sentiu forte desejo de tornar o Islã acessível a todos os homens, então em Omar esse impulso tomou proporções tais, que mandou conquistar paí- ses estranhos pelos seus dois chefes guerreiros, unicamente para que os povos pu- dessem participar das bênçãos da nova doutrina. Não era cobiça pelo poder e pela glória. Omar vivia mais simplesmente do que o homem mais comum. Não era casado e habitava uma pequena casa nas pro- ximidades da mesquita. Para sua alimentação bastavam-lhe frutas e arroz. Levava uma vida de moderação em todos os seus atos e deu os melhores exemplos ao povo. Assim, todas as conquistas que seus chefes guerreiros faziam para ele, não lhe sig- nificavam aumento do poder, mas sim, considerava-as como empreendidas para a glória de Deus. Apesar de que ele mesmo tivesse sido chefe guerreiro, não se imiscuía quando os dois alguma vez fizessem algo de modo diferente do que lhe parecia mais viável. - Cada qual que se encontra num posto de responsabilidade, deve ter liber- dade para agir por conta própria, costumava dizer, senão nunca poderá efetuar um trabalho completo.
  • 179.
    MAOMÉ - 179 - Emrazão dessa convicção, deixou Amir e Chalid empreenderem campanhas em todas as direções: Pérsia, norte da Síria, Mesopotâmia, Egito e Africa do Norte foram subjugados e tornados acessíveis ao Islã. Em toda parte a nova doutrina encontrou cultura corrompida e crenças em decadência. Foi fácil introduzir o novo, principalmente porque Chalid teve a habi- lidade de, em toda parte onde chegava, levar também a arte. Mandou fazer construções como naquelas regiões nunca foram vistas. Reuniu objetos de arte num país para proporcionar prazer a outros e deixá-los admirados. Ornar dedicou-se, como Abu Bekr, inteiramente aos trabalhos pacíficos de aperfeiçoamento. Entre outras coisas reconheceu que o sistema de carceragem se achava em situação deplorável. Os cárceres em todas as partes do reino eram hor- ripilantes buracos, de onde, após entrar, raras vezes se saía com vida, mesmo que a permanência tivesse sido de curta duração. Isso não se coadunava com os ensi- namentos do profeta, tampouco com a vontade de Deus. Ornar mandou construir cadeias mais humanas, regulou os serviços de guarda e de tratamento, e com isso ajudou a prevenir que o medo da prisão conduzisse os homens ao suicídio. Como ele fora chefe guerreiro, teve predileção pela ordem e disciplina. Criou um quadro de funcionários que condizia de todo com a ordem militar. Havia chefes de categoria elevada e inferior; podia-se alcançar promoção dentro de determinada hierarquia. Isso contribuiu para que o vasto reino, que aumentava continuamente, se solidificasse, e conseqüentemente progredisse. A década do governo de Omar não apresentou nenhum ato do qual o ca- lifa tivesse que se envergonhar. Não mandou executar nada que não estivesse em concordância com os mandamentos de Deus. A Arábia progrediu, gozou de uma prosperidade muito bem regulada, e também os costumes mantiveram-se numa certa altura. Certa noite Said faleceu sem que tivesse havido qualquer sintoma prévio. Alcançou uma avançada idade, mas ninguém pensou que seu trespasse estivesse tão próximo. Serviu ao país, dedicando-lhe ao mesmo tempo todas as suas forças. Sua família vivia separada dele. Não se ressentiu disso, pois ele também não tinha tempo para ela. Seu falecimento abriu uma lacuna maior do que ele próprio talvez imaginas- se. Era um dos que estiveram sob a influência direta de Maomé. Quem deveria ser agora o grão-vizir? Ornar lembrou-se de Maomé, o moço, e mandou que Ibrahim fosse até ele, levando a solicitação para assumir o cargo. Maomé protegeu as mu- lheres durante doze anos. Devia deixá-las? Antes de dar uma resposta ao seu irmão, aprofundou-se numa prece e soube que a promessa feita ao avô estava mais do que cumprida. Não deveria esquivar-se por mais tempo do serviço ao povo.
  • 180.
    MAOMÉ - 180 - Assimtransferiu a proteção das mulheres e a direção da escola ao seu irmão Ali e regressou com Ibrahim para Medina. Com a habilidade que lhe era peculiar, introduziu-se nas suas novas obri- gações e tornou-se em pouco tempo indispensável para Ornar. Viu melhor do que Said onde faltava algo, onde se faziam necessárias inovações e onde os costumes começavam a decair. Sua vigorosa e incansável energia animava também Ornar sempre de novo. Quanto mais se intensificavam as relações comerciais da Grã-Arábia, tanto mais bruscamente se evidenciava um inconveniente, o qual até o momento qua- se não se observara. Tratava-se da diversidade cronológica resultante das várias crenças. Enquanto os antigos judeus e os povos que até então conviveram com eles, perseveravam estritamente na cronologia antiga, os cristãos começavam seus cálculos cronológicos somente a partir do nascimento do Filho de Deus. Mao- mé achou imprescindível que se pusesse termo a essa duplicidade de cômputo. Propôs a Ornar tomar por base a cronologia de todos os fiéis do Islã, o início da nova doutrina. Com isso assegurava-se uma identidade para todo o vasto reino; no qual, pelo menos exteriormente, não havia mais pessoas de outras crenças. Ornar instituiu, portanto, como sendo o vigésimo primeiro ano do profeta, o ano no qual a reforma foi transformada em lei, não alterando, contudo nada no fato de os árabes calcularem os anos pela lua, ao passo que todos os outros povos tinham por base o período solar. Esperava tornar, aos poucos, o Islã acessível ao mundo todo, e então todos se identificariam também nessas exterioridades. Após Maomé ter conseguido que em relação ao cômputo do tempo não houvesse mais confusões, foi dado mais um passo. Sentiu-se impelido a expedir leis que deveriam regular as relações entre de- vedores e credores.Assim como era até aquele momento, cada qual que emprestasse dinheiro ou bens podia exigir a restituição por avaliação arbitrária e, conforme a índole de cada um, enriquecer acima dos limites lícitos. Para Maomé isso há muito vinha causando horror, porém, sem o apoio de uma lei rígida, não podia empreender nada contra isso. Omar confessou franca- mente que não entendia nada dessas coisas; regozijou-se, no entanto, por ter um grão-vizir tão inteligente e deixou-se aconselhar. Então foi fixado bem exatamente quanto o emprestador poderia exigir quando quisesse fazer valer seus direitos e quando poderia recorrer à ajuda do governo para isso. A lei partiu do ponto de vista de que ninguém era obrigado a emprestar dinheiro ou bens. Se um homem o fizesse, então isso deveria ter por base a compaixão por aquele que estivesse premi- do pela necessidade, e não para querer enriquecer à custa dele. Por isso a nova lei era complacente para com o devedor e deixava ao emprestador pouca possibilidade para procedimentos injustos.
  • 181.
    MAOMÉ - 181 - Ocargo de Maomé teve por conseqüência a ocupação integral de seu tempo com coisas exteriores, sobrando-lhe pouco tempo para aprofundar-se espiritual- mente. O anseio por esse aprofundamento espiritual era, no entanto, tão forte, que aproveitava cada momento para isso. Nessas ocasiões isolava-se completamente do mundo exterior e falava a sós com seres de outras planícies, assim lhe parecia. Não perguntava de onde vinham essas vozes que ouvia dentro de si; sabia que lhe trans- mitiam sempre luz e força, e isso lhe bastava. Não admitia qualquer pensamento tendente a procurar um nome para aqueles que o auxiliavam, pois isso se lhe afigu- rava como uma profanação. Em tais momentos abençoados abria-se sem qualquer reserva e recebia força que lhe proporcionava grande felicidade, elevando-o muito acima de si mesmo. Desse modo viu muitas coisas que outros não reconheciam. Dessas visões levou um saber para a labuta diária, que também muitas vezes lhe foi útil para observar com mais clareza os atos e pensamentos dos homens. Desde algum tempo via muitas vezes esgueirarem-se vultos de mau augú- rio em volta de Omar. Assim que firmava os olhos, desapareciam. Achou que de- via considerar isso como um aviso. Assim que essas advertências se tornaram mais freqüentes, falou com seu irmão Ibrahim, o único confidente seu a esse respeito. Ibrahim, o xeque, achou necessário prevenir Ornar. Nem sempre Maomé podia estar perto do califa. Deus, porém, não motivava tais visões em vão. - Justamente isso é que me desagrada, falar de tais coisas a Ornar, disse Ma- omé. Encarrega-te tu da advertência, irmão. Ibrahim, entretanto, era de opinião que essa teria mais valor se viesse do grão-vizir. Então Maomé resolveu aguardar a primeira oportunidade que se ofere- cesse. Pediu a Deus que mandasse auxiliá-lo, de modo que não se tornasse necessá- rio para ele falar daquilo que era sagrado para a sua alma. Quando, algumas horas depois, se dirigiu ao palácio principesco, onde Or- nar tratava de todos os negócios de Estado, embora não residisse nele, viu Maomé como um homem com traje esquisito entrava furtivamente por uma porta lateral. Correu atrás dele e conseguiu prendê-lo. Encontrava-se em seu poder uma arma afiada e de aspecto estranho. Inicialmente o homem se recusou a dar informações sobre origem, nome e intenção, por mais minuciosamente que os juízes o interrogassem. Nesse momento Maomé entrou na sala onde havia entregue o prisioneiro às autoridades. Fitou o homem, que se desviou de seu olhar. - Tu vens de Ali ben Abu Talib, disse com inusitada severidade. O homem estremeceu de susto; todos puderam ver que assim era. - Foste incumbido de assassinar o califa, soou a segunda e categórica afirma- ção do grão-vizir. O homem ajoelhou-se e estendeu os braços para cima, implorando.
  • 182.
    MAOMÉ - 182 - -Se contares onde se encontra Ali, então serás perdoado, prometeu Maomé. Trêmulo, o homem afirmava que ele mesmo não o sabia. Era natural da Pérsia e tinha recebido a incumbência na fronteira. - Estás mentindo, replicou Maomé, impassível. És árabe e tens íntima ligação com Ali. Dito isso, dirigiu-se aos juízes: - Jogai-o no cárcere até que se resolva a falar a verdade. Com isso Maomé deixou o aposento. Horripilou-se, pois reconhecera nesse degenerado seu irmão Ad-Din! Deveria ter mandado matá-lo imediatamente? Não o sabia e queria pri- meiramente pedir orientação de cima. Entrementes foi a Ornar para comunicar-lhe a conspiração contra a sua vida. O califa escutou-o calmamente e então disse: -Comtaiscoisasdevocontarconstantementeetambémestoupreparadoparaisso, Maomé.EnquantoAláprecisardemimaquisobreaTerra,nãomeserátorcidosequerum fiodecabelo.Se,porém,devoir,entãoéindiferenteparamimdequemodoElememande chamar. Agradeço-te por tua vigilância. Tens razão que não devemos descuidar-nos. Se, não obstante,um assassino conseguir alcançar-me,então é porque chegou minha hora. A fim de distrair os pensamentos de Maomé, participou-lhe nesse momento sua intenção de introduzir para si e para seus sucessores o título de “príncipe dos fiéis”: Emir aI Muminin. Substituto do profeta, a falar a verdade, só poderia ser denominado aquele que dirigira o reino imediatamente após ele; em rigor, apenas Abu Bekr. O grão-vizir deu a sua aprovação; seus pensamentos, contudo, estavam com o assassino e seu incitador. Queria obter clareza, e à noite deixou-se conduzir ao cárcere que acolheu Ad-Din. Sem acompanhamento dirigiu-se para dentro do pe- queno espaço, no qual o prisioneiro achava-se estirado sobre um leito duro. - Irmão - dirigiu-lhe a palavra, e contra a sua vontade sua voz era meiga -, irmão, não endureças teu coração contra mim! Teu ato criminoso teria provocado uma grande calamidade para o reino. Omar é um bom príncipe, muito melhor do que Ali jamais o poderia ser. Vive de acordo com a vontade de Deus e também governa no mesmo sentido.Ajuda-me a protegê-lo contra a desgraça e então te pro- porcionarei a oportunidade para reconquistares a liberdade e uma vida feliz. O prisioneiro levantou-se num salto, quando se viu reconhecido. Quis negar tudo descaradamente; no entanto, o timbre da voz de Maomé sensibilizou-o. Cho- rando, tapou os olhos com as mãos. - Compreende-me, irmão! Soluçava. Nosso pai devia ser o príncipe depois da morte de Maomé. Era tão reprovável o fato de ele ter em tempo deixado que os administradores lhe prestassem juramento de fidelidade? Ele o fez com o único propósito de poupar ao país ulteriores agitações.
  • 183.
    MAOMÉ - 183 - Maoméinterrompeu-o: - Se naquele tempo foi essa realmente sua razão, por que então não age agora de modo idêntico? - Vê, libertei-o com o auxílio de Abdallah, porquanto não pudemos suportar que nosso altivo pai ficasse no cárcere ou fosse julgado e talvez até morto. Desde então vivo em sua companhia e vejo diariamente como o rancor pela perda da so- berania lhe consome as forças. Amo o pai, irmão. A voz de Maomé teve um tom comovido, quando pegou a mão do mais novo: - Isso não é um amor verdadeiro, que quer fazer um pecado por causa de ou- trem, Ad-Din, explicou-lhe. Devias ter empregado toda a influência ao teu alcance para demover o pai de seus maus pensamentos. Um amor sincero ajuda o outro a subir; tu, porém, empurras o pai no abismo. Admirado, o irmão olhava para o interlocutor. As palavras penetravam-lhe na alma, mas não sabia ainda que proveito podia tirar delas. Amavelmente Maomé esclareceu-lhe sua opinião, evidenciou-lhe o erro que representava o modo de pen- sar de Ali e levou-o ao ponto de reconhecer sua grande culpa. - Então quero reparar, irmão, declarou ingenuamente. Irei novamente pro- curar o pai e fazê-lo ver tudo isso. Talvez me acredite. Essas últimas palavras denotavam hesitação. Maomé sabia que qualquer ten- tativa de Ad-Din seria em vão. - Antes fica aqui e coopera comigo, enquanto me dizes o que Ali está tra- mando e onde ele se encontra. - Justamente o último não sei, disse Ad-Din. Provavelmente permanecerá escondido na fronteira norte do reino. Foi combinado que eu tentasse o assassinato. Caso fracassasse, então Abdallah, que agora se chama Hassan, deveria fazer a mes- ma tentativa. Ele é mais corajoso e jeitoso do que eu. Contra ele deves resguardar o califa, irmão. Pensativo, Maomé deixou o cárcere. O que deveria fazer? Recolheu-se ao seu modesto lar, porquanto não quisera ocupar o palácio paterno, e prosternou- se em oração diante de Deus. Rezou demoradamente. Disse ao seu Senhor tudo quanto pensava e viven- ciava. Foi um alívio para seu coração poder fazê-lo. Não se lembrou de que Deus, o Onisciente, também sabia de tudo isso. Finalmente silenciou com um suspiro de alívio e esperou. Vozes ressoavam à sua volta. Enfim percebeu uma mais clara que as outras: “Maomé, sabes que Deus concedeu às criaturas o livre-arbítrio. Por isso, mui- tas vezes não intervém para impedir algum mal, quando os homens assim o desejam. Ele sabe por que permite tais coisas. Não perguntes e não cismes. Segue teu caminho assim como até aqui o tri- lhaste: íntegro e guiado pelos servos do Altíssimo. Teu caminho está próximo da meta
  • 184.
    MAOMÉ - 184 - final.Conduzir-te-á aos jardins da eternidade. Prepara tua alma para o último passo e deixa os assuntos terrenais aos cuidados de outros.” Animado por um sentimento indescritível, levantou-se Maomé, pois estava ajoelhado. Aproximou-se da janela aberta e olhou para fora, na escuridão da noite. “Estou perto do alvo? Senhor, meu Deus, agradeço-Te!” Acalmado, procurou sua cama. Quis entregar tudo, a vida do emir e a sua pró- pria, nas mãos de Deus. Foi tão consoladora a certeza de que a responsabilidade por aquilo que viria ou deveria vir não seria exigida dele. Na manhã seguinte procurou Omar e informou-o sobre os planos de Ali, sem contudo dizer qualquer coisa que o assassino preso era seu próprio irmão. - Vamos retê-lo na prisão ainda, opinou o emir, talvez atraiamos com isso o homem que ele chamou de Hassan. Se os guardas cuidarem, provavelmente poderão agarrá-lo em tempo. Anteriormente o grão-vizir teria feito objeção. Agora ficou apenas um pou- co curioso na expectativa do desenrolar dos acontecimentos. Depois disso pediu ao príncipe permissão para mandar buscar o jovem Omar, filho de Said. O jovem era também neto de Abu Bekr, muito inteligente e religioso. Talvez pudesse prepará-lo para ser seu sucessor. - Manda chamá-lo, podemos precisar de gente boa ao nosso redor, consentiu Omar.Mas tu ainda és muito novo para pensares num sucessor.Muito antes disso um sucessor poderia desenvolver-se para mim nesse jovem. Os dias seguintes passaram sem qualquer novidade. O prisioneiro quase ficou esquecido pelo povo. Estava deitado no cárcere e estranhava por que não o julgavam. Ornar ben Said apresentou-se em atenção ao chamado de Maomé. O belo e alegre jovem foi alvo da simpatia de todos. Esteve sob boa disciplina com Maomé. Os mandamentos do Islã e as revelações de Deus enchiam sua vida. E o que experimen- tava vivencialmente, procurava transformar em atos. Impelido pelo saber sobre seu breve trespasse, Maomé introduziu o jovem mais rápido do que usualmente em todos os negócios administrativos. Chalid regressava de uma expedição armada que empreendera com uma tro- pa de guerreiros escolhidos, na fronteira norte. Aquele que procurava não encontrou, mas conseguiu capturar diversos homens suspeitos, os quais, ameaçados de morte, confessaram estarem a serviço de Ali. Foram encarcerados por ora. Chalid relatou as notícias ao príncipe. - Receio que nossas prisões se encham antes que possamos pegar o chefe da conspiração, suspirou Ornar. Quase desejo que o golpe que nos ameaça se realize logo! Poucos dias após, Maomé vinha da mesquita, onde participou da devoção de sexta-feira, a qual nunca perdia. Então um homem mal vestido chocou-se com ele. Não pôde ver o rosto do
  • 185.
    MAOMÉ - 185 - homem,aparentemente bêbado, mas como esse indivíduo desrespeitasse evidente- mente as leis do Corão, ordenou o grão-vizir que o segurassem. Antes, porém, que pudessem pegá-lo, desapareceu. Conseqüentemente não podia estar embriagado. Admiraram-se disso e perguntaram a Maomé qual era a sua opinião. Nesse momento notaram que o grão-vizir estava pálido e começava a oscilar. Horrorizados, acudiram-no, e o jovem Omar apanhou-o nos seus braços. Levaram o desmaiado ao palácio do governo, que era o mais próximo, e um médico imediatamente se encontrava presente. Nesse momento verificou-se que Ma- omé estava gravemente ferido. Uma punhalada tinha-o atingido perfidamente. O fe- rimento, aliás, não era propriamente mortal, contudo o médico tinha pouca esperan- ça de conservar a vida do grão-vizir. Foi chamado Ibrahim; também o emir veio. Todos se encontravam perto da cama preparada às pressas, quando o ferido abriu os olhos. Entretanto, não reconheceu mais ninguém. Sua alma movia-se nos seus caminhos habituais em outras planícies. Um sorriso afável estampava-se em suas feições, que estavam ultimamente sempre tão sérias. Parecia ter uma bela visão. “Avô”, balbuciava. Escutava atentamente. Instantes depois falou, mas como se não estivesse consciente das palavras que pronunciava, como se um outro lhe ditasse. “Meu povo, ouve! Não traz proveito nenhum deturpar a Verdade, mesmo que seja com os melhores objetivos. Por isso Abu Bekr teve que deixar a Terra, após tão curto período de governo. Tu, Omar, perseveraste fielmente naquilo que Deus revelou. Mas o povo tor- nou-se aqui e ali secretamente desleal. Procuram meios para esquivar-se do cum- primento dos mandamentos. Por esse motivo Deus quer deixá-los entregues às suas concupiscências. Também tu serás chamado, Omar! Somente quando o povo tiver vontade de abandonar o mau caminho pelo qual enveredou, surgir-lhe-á outra vez um califa que poderá conduzi-lo rumo à ascensão!” A voz tornou-se quase inaudível; as últimas palavras já não puderam mais entender. Os olhos fecharam-se; o grão-vizir estava morto. Omar estava profundamente impressionado. Sem que ele o soubesse, o povo decaíra no pecado? Isso lhe doeu mais do que a morte do seu fiel. Muito além de Medina houve grande lamentação, e o sepultamento de Maomé, o moço, no qual a maioria via o futuro emir, tornou-se uma comovente solenidade. Do assassino não foi descoberto nenhum vestígio. Quando o emir Omar voltou da mesquita para casa, encontrou sobre sua mesa um bilhete: “Cuida-te, emir! A próxima punhalada atingirá o teu coração”. Chalid,que o acompanhava,leu a ameaça.O chefe guerreiro quis imediatamen- te mandar fechar todos os portões da cidade e revistar cada casa isoladamente.Cansado, Omar fez um aceno de desaprovação.
  • 186.
    MAOMÉ - 186 - -Meu tempo aqui na Terra chegou ao término: pude ouvi-lo recentemente. O que Deus, o Senhor, permite, não podemos nem devemos querer impedir. Chalid fez a tentativa de explicar ao emir quão importante era justamente agora a sua vida. Enquanto ainda falava, entrou o vulto escuro de um homem pela janela aberta; uma lâmina reluziu, e com um gemido de dor Omar caiu para trás. Antes que Chalid pudesse agir, o criminoso escapou pela janela. Os gritos ressoantes de Chalid chamaram os serviçais, aos quais confiou o ferido, enquanto ele próprio correu atrás do assassino; contudo, não pôde descobri- lo em nenhum lugar. Também os guerreiros e serviçais procuraram-no por toda parte; todos os esforços, porém, ficaram sem resultado. Entretanto, o califa Omar pôde partir da Terra sem ter recuperado a consciência. Aturdido, o povo recebeu a notícia sobre a nova perda, e se Ali julgasse que com essas medidas de violência conseguiria o domínio no país, então viu-se amargamente desiludido. O povo exaltou-se contra ele e insistiu em que fosse escolhido quanto antes possível um sucessor de Omar. Doconselhoinstituídoparataisfinsfaltavam,noentanto,osdoismelhores:Said e Maomé. Sobrava apenas Ibrahim, o qual devotava-se fielmente a Maomé e ao Islã. Os outros membros do conselho não levavam a sério os princípios da doutrina e achavam que agora podia dominar um príncipe, sob cuja regência se pudesse gozar a vida. Contra o protesto de Ibrahim, elegeram um velho de família conceituada, cha- mado Othman, o qual teve de fazer-lhes muitas promessas em troca da promoção que veio para ele completamente inesperada. Foi emir apenas no nome; no fundo, quem governava eram eles. O primeiro ato governamental de Othman foi a promulgação da lei, dispondo que nenhum xeque poderia ser membro do conselho. Com isso Ibrahim foi neutraliza- do; um conselheiro mundano tomou seu lugar. Omar foi declarado jovem demais para o cargo de grão-vizir. Foi transferido para um cargo inferior, e para primeiro conselheiro do emir foi nomeado um parente de Othman. O povo revoltou-se. Diversas províncias uniram-se para o levante. Chalid e Amir, que receberam ordem para empreender uma campanha contra os revoltosos, demitiram-se dos seus postos.Amir colocou-se ao lado dos administradores revoltados, enquanto Chalid se retirou para a solidão. O país inteiro estava em agitação; em nenhuma parte havia a paz que dominara ditosamente durante anos. SubitamentesurgiramboatosdequeAliestavanopaís.Eleeseufilhomaisvelho Hassan instigavam o povo contra o governo de Othman. Então o velho emir fez chegar
  • 187.
    MAOMÉ - 187 - umrecado a Ali, propondo que se aliasse a ele; ninguém precisava saber disso. Deveria subjugar para ele os rebeldes; depois ele, Othman, renunciaria e no- mearia Ali para seu sucessor. Esse plano pareceu agradar a Ali; concordou e assumiu a tarefa sangrenta para o aparentemente dominante emir. Este, no entanto, queria gozar sua vida pelo menos enquanto respirava. Ha- via muito, ainda sob o governo de Omar, possuía às escondidas um bem lotado ha- rém. Agora não fazia mais segredo disso diante do povo, dando assim um péssimo exemplo aos nobres. Para precaver-se, revogou o mandamento de Maomé pelo qual um homem podia ter no máximo quatro mulheres. Estipulou que cada homem que possuísse meios suficientes, poderia ultrapassar à vontade esse número; deveria, contudo, pa- gar um tributo por toda ocupante a mais do harém. Em vão Ibrahim admoestou contra tal procedimento. Não conseguiu nada junto ao novo partido do governo. Então associou-se estreitamente àqueles que co- mungavam com ele no mesmo ideal, sobretudo os ex-alunos de seu irmão Maomé. Seu irmão mais novo, Ali, uniu-se igualmente a ele, da mesma forma Omar. Ibrahim enviou emissários a todas as partes do país, conclamando para a preservação dos bons costumes e da crença verdadeira. Quanto mais lascivos se comportavam os partidários de Othman e quanto mais cruelmente lutavam os guerreiros aliciados por Ali, tanto mais os ibramitas ganhavam terreno. Todo o reino, até então muito bem organizado, parecia em ebulição. Nin- guém sabia quem governava e ninguém teria sabido que era Othman o emir, se de tempos em tempos novas leis não provocassem a indignação da parte do povo que permanecia bem-intencionada. O jejum não lhe agradou; julgou-se muito idoso para sujeitar-se a algum sacrifício voluntário. Depressa redigiu uma lei facultando àquele que por algum motivo razoável não pudesse jejuar, por se achar adoentado ou em viagem, pagar uma determinada quantia em dinheiro. Com isso então se compensaria o jejum. As abluções freqüentes eram-lhe incômodas. Promulgou um mandamento, estipulando que aquele que desfrutasse de suficientes meios, friccionando o corpo com águas perfumadas, poderia fazê-lo despreocupadamente, em lugar de se lavar ou de se banhar. Quase todos os meses era revogada uma parte dos mandamentos do Islã. O que o emir deixou intato, isso foi alvo de críticas por parte de seus partidários. Já ressurgiam aqui e acolá antiqüíssimas idolatrias, sem que ele tomasse realmen- te qualquer providência para coibi-las. Então aconteceu que Othman, que já não agüentava mais a vida desregrada, foi surpreendido pela morte numa orgia. Sua morte foi horrível: soltava altos gritos e lutava contra um vulto que só
  • 188.
    MAOMÉ - 188 - elevia. Implorava que esse ser o deixasse morrer sossegado e que não exigisse pres- tação de contas dele. “Tu, grande e luminoso ser”, gritava estridentemente, cada vez mais deses- perado, “não te conheço, nunca te vi! Portanto não tenho dívidas contigo. Toma minhas preciosidades, vende minhas mulheres, mas deixa-me em paz!” Estupefatos, seus conselheiros o rodeavam. Ninguém ousou socorrê-lo. Era por demais evidente a interferência de uma mão superior. “NãosabiaqueosmandamentosvieramdeDeus”,exclamouomoribundo.“Jul- guei que fossem inventados por Maomé. Quero respeitá-los no futuro. Prometo-o!” Seu corpo era agitado por convulsões. Então falava de novo. Isso prolongou- se por três noites e dois dias.A angústia do agonizante era insuportável; o medo dos que o rodeavam aumentava de hora em hora. Finalmente, na manhã do terceiro dia, teve seu desfecho. A última exclamação do moribundo foi: “Ali é meu sucessor!” Os que o rodeavam ficaram surpresos. O que queria Othman de Ali? Nesse momento ele se encontrava no meio deles. Ninguém o viu chegar. Estava ali, de pé, o único calmo entre os amedrontados. Com mão firme pegou as rédeas do governo. Ordenou imediatamente que dos fatos ocorridos na sala mor- tuária não fosse propalado nada entre o povo. Prometeu que cada um que lhe pres- tasse juramento de fidelidade poderia permanecer no seu cargo. Determinou tudo para a proclamação ao povo e para o sepultamento. Então os partidários de Othman sentiram-se aliviados. Novas perturbações no país seriam provavelmente evitadas, mesmo que Ali, que já era um ancião, não governasse mais por muito tempo. Restauraria ele os mandamentos de Maomé? Ali nem pensou nisso. Que os homens tratassem sozinhos do que necessita- vam para suas almas. Isso era assunto de cada um por si. Para ele o importante era apenas restabelecer a tranqüilidade no país. Como fora ele mesmo quem provocara a maior parte das agitações, tornou-se-lhe fácil conseguir o que a outros parecia impossível. O povo regozijou-se com a mão forte que o dominava e nem perguntou mais de quem ela era. Ibrahim perseverou firme no seu cargo como pregador na mesquita do pro- feta, se bem que sentia ser do desejo de Ali que renunciasse. Então o emir mandou chamar o filho a sua presença e ordenou-lhe que se demitisse do cargo. Ibrahim recusou-se. O emir deveria estar satisfeito por Ibrahim não exortar o povo contra ele. Nesse momento Ali disse friamente: - Então terás a sorte do teu irmão Maomé. O punhal de Hassan é infalível. Ibrahim sorriu e deixou o aposento. No dia seguinte foi encontrado apunha- lado na mesquita.
  • 189.
    MAOMÉ - 189 - Doisanos mais tarde uma mão assassina atingiu também o coração desleal de Ali. Seu filho Hassan pretendeu o trono, mas foi rejeitado por todos os partidos. Depois disso seguiram-se califas: uns maus e outros um pouco melhores. Ninguém encontrou mais a Verdade Divina na doutrina dirigida completamente para coisas mundanas. O Islã tornou-se implacável e sanguinário. Conquistou-se um mundo, mas somente porque o senhor das trevas apoderou-se dele como um excelente instru- mento seu. Todo o sentimento intuitivo foi proscrito dos doutrinamentos; o intelecto e os cálculos interesseiros obtiveram a vitória. Quando o Filho do Homem, a quem o profeta tem permissão de servir acolá nas Alturas, passar através daquelas plagas aviltadas, então também o Islã poderá le- vantar sua cabeça e desabrochar para uma vida nova no sentido desejado por Deus.
  • 191.
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