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A SEGUNDA QUEDA DO MURO

                   Augusto de Franco (2010)
                    Tempo estimado de leitura: 4 minutos




Em 1989 foi a primeira queda: a do Muro de Berlim. O episódio, pleno de
significado simbólico, assinalou o início de uma época de mudanças nos
padrões de relação entre Estado e sociedade. Um processo até então oculto
de mudança social tornou-se visível de repente. Embora fugaz, o momento
abriu uma brecha pela qual se pode ver um novo tecido societário em
gestação, uma nova topologia - mais distribuída - da rede social sendo
tramada. Com efeito, nos anos seguintes, como se diz, "o mundo mudou":
a internet (com a world wide web) nos anos 90 expressou aspectos
importantes dessa mudança profunda. Estávamos no outono das redes.

Os anos 2000, contrariando uma penca de profecias futuristas, não raro
inspiradas por algum tipo de milenarismo, e frustrando as mais animadoras
expectativas da New Age, não consumaram o que foi prefigurado. A
primeira década do século 21 - marcada indelevelmente pela queda das
torres gêmeas do World Trade Center - conquanto tal evento também seja
riquíssimo de significado simbólico (místico, como revela a famosa Carta 16
do Tarot; e ideológico: o que ruiu foi um centro mundial de comércio, dando
a alguns a impressão, regressiva, de que a prevalência da dinâmica
reguladora do mercado estava com os dias contados), não foi o vestíbulo de
entrada para aquele terceiro milênio imaginário desejado.
No entanto, subterraneamente, prosseguiu a gestação de novos padrões
societários. O mundo descobriu as redes. Entrou em franco
desenvolvimento uma nova ciência das redes. E surgiram por toda parte
novas plataformas tecnológicas interativas de articulação e animação de
redes sociais. As ferramentas começaram a ficar disponíveis. Faltaram ao
encontro apenas as pessoas, em grande parte ainda arrebanhadas e
cercadas nos tradicionais currais organizativos.

A despeito do fato, incontestável, de a dinâmica global da interação entre as
velhas instâncias organizativas ter mudado, anunciando a emersão de uma
verdadeira sociedade-rede, um novo padrão de organização distribuído não
logrou se materializar no interior e no entorno das organizações
empresariais, governamentais e sociais, que continuaram ainda se
estruturando de modo centralizado ou hierárquico. Ou seja, o muro que caiu
em 1989, caiu para o mundo construído pelo broadcasting como um único
mundo, sob o efeito das poderosas forças da globalização (sobretudo da
globalização das telecomunicações e da globalização dos mercados), mas
não chegou a se localizar nas organizações realmente existentes em todos
os setores. A mudança continuou acontecendo, mas os novos (e múltiplos)
Highly Connected Worlds como que "cresceram escondidos" nesta época de
mudança e não apareceram ainda à luz do dia, de sorte a consumar o que
poderíamos chamar de uma mudança de época. Estes "mundos-bebês"
estão agora em gestação. Estamos no final do inverno das redes.

A primeira queda do muro foi uma queda no plano global, assinalando
o início de uma época de mudanças nos padrões de relação societários. Mas
como o sentido do processo que estamos vivendo não é apenas o de
globalização e sim o de glocalização, falta ainda uma segunda "queda do
muro" no plano local para que se consume a já prenunciada mudança de
época.




                                     2
Não será mais, entretanto, uma (única) queda, de um (único) muro. Serão
muitas quedas, provavelmente em cascata ou swarming, de muitos muros.
Do ponto de vista dos movimentos invisíveis que se processam no espaço-
tempo dos fluxos, naquele multiverso de conexões ocultas que "produzem"
o que chamamos de 'social', 'muro' significa centralização, obstrução de
fluxo. Onde quer que existam "muros" impedindo o livre curso de fluições,
“muros” estes que caracterizam organizações mais centralizadas do que
distribuídas, poderá haver uma "queda".

A segunda queda do muro será fractal. Cada mundo altamente
conectado que emergirá após a segunda queda, será o mundo todo, como
se fosse uma imagem holográfica de uma nova matriz de mundo mais
distribuído. Não um mundo interligado - pois que isso já se materializou
desde que a conexão global-local tornou-se uma possibilidade - e sim um
mundo-gerador intermitente de novos, inéditos, mundos altamente
tramados, para fora e para dentro, que emergirão a cada instante. Essa
será, propriamente falando, a primavera das redes.




                                   3
Os    fenômenos    acompanhantes   desse    global  swarming      serão
surpreendentes. Alguns já começaram a se manifestar: uma tendência
acentuada à desobediência dentro das organizações hierárquicas (1), a
incapacidade dessas organizações de inovar no ritmo exigido pelas
mudanças contemporâneas (ou melhor, de se estruturar para inovar
permanentemente) e - o que é mais drástico - as perdas irreversíveis de
oportunidades e condições de sustentabilidade para as organizações
fechadas que não forem capazes iniciar a transição (2) do seu padrão
piramidal para um padrão de rede.



Notas e referências

(*) Este artigo – minha provocação à CIRS Conferência Internacional   sobre Redes
Sociais = http://migre.me/ihiH é uma parte já desenvolvida do link    (1) do texto
Parar entrar no Terceiro Milênio = http://migre.me/ihbl consolidado   com o título
FRANCO, Augusto (2010): Eles já estão entre nós (roteiro preliminar   para ulterior
desenvolvimento) = http://migre.me/ihbz

(1) Cf. o artigo Desobedeça = http://migre.me/ihcu consolidado como FRANCO,
Augusto (2010): Desobedeça: uma inspiração para o netweaving =
http://migre.me/ihc2

(2) Cf. o tema do Grupo da Escola-de-Redes: TRANSIÇÃO ORGANIZACIONAL =
http://migre.me/ihck




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A SEGUNDA QUEDA DO MURO

  • 1. A SEGUNDA QUEDA DO MURO Augusto de Franco (2010) Tempo estimado de leitura: 4 minutos Em 1989 foi a primeira queda: a do Muro de Berlim. O episódio, pleno de significado simbólico, assinalou o início de uma época de mudanças nos padrões de relação entre Estado e sociedade. Um processo até então oculto de mudança social tornou-se visível de repente. Embora fugaz, o momento abriu uma brecha pela qual se pode ver um novo tecido societário em gestação, uma nova topologia - mais distribuída - da rede social sendo tramada. Com efeito, nos anos seguintes, como se diz, "o mundo mudou": a internet (com a world wide web) nos anos 90 expressou aspectos importantes dessa mudança profunda. Estávamos no outono das redes. Os anos 2000, contrariando uma penca de profecias futuristas, não raro inspiradas por algum tipo de milenarismo, e frustrando as mais animadoras expectativas da New Age, não consumaram o que foi prefigurado. A primeira década do século 21 - marcada indelevelmente pela queda das torres gêmeas do World Trade Center - conquanto tal evento também seja riquíssimo de significado simbólico (místico, como revela a famosa Carta 16 do Tarot; e ideológico: o que ruiu foi um centro mundial de comércio, dando a alguns a impressão, regressiva, de que a prevalência da dinâmica reguladora do mercado estava com os dias contados), não foi o vestíbulo de entrada para aquele terceiro milênio imaginário desejado.
  • 2. No entanto, subterraneamente, prosseguiu a gestação de novos padrões societários. O mundo descobriu as redes. Entrou em franco desenvolvimento uma nova ciência das redes. E surgiram por toda parte novas plataformas tecnológicas interativas de articulação e animação de redes sociais. As ferramentas começaram a ficar disponíveis. Faltaram ao encontro apenas as pessoas, em grande parte ainda arrebanhadas e cercadas nos tradicionais currais organizativos. A despeito do fato, incontestável, de a dinâmica global da interação entre as velhas instâncias organizativas ter mudado, anunciando a emersão de uma verdadeira sociedade-rede, um novo padrão de organização distribuído não logrou se materializar no interior e no entorno das organizações empresariais, governamentais e sociais, que continuaram ainda se estruturando de modo centralizado ou hierárquico. Ou seja, o muro que caiu em 1989, caiu para o mundo construído pelo broadcasting como um único mundo, sob o efeito das poderosas forças da globalização (sobretudo da globalização das telecomunicações e da globalização dos mercados), mas não chegou a se localizar nas organizações realmente existentes em todos os setores. A mudança continuou acontecendo, mas os novos (e múltiplos) Highly Connected Worlds como que "cresceram escondidos" nesta época de mudança e não apareceram ainda à luz do dia, de sorte a consumar o que poderíamos chamar de uma mudança de época. Estes "mundos-bebês" estão agora em gestação. Estamos no final do inverno das redes. A primeira queda do muro foi uma queda no plano global, assinalando o início de uma época de mudanças nos padrões de relação societários. Mas como o sentido do processo que estamos vivendo não é apenas o de globalização e sim o de glocalização, falta ainda uma segunda "queda do muro" no plano local para que se consume a já prenunciada mudança de época. 2
  • 3. Não será mais, entretanto, uma (única) queda, de um (único) muro. Serão muitas quedas, provavelmente em cascata ou swarming, de muitos muros. Do ponto de vista dos movimentos invisíveis que se processam no espaço- tempo dos fluxos, naquele multiverso de conexões ocultas que "produzem" o que chamamos de 'social', 'muro' significa centralização, obstrução de fluxo. Onde quer que existam "muros" impedindo o livre curso de fluições, “muros” estes que caracterizam organizações mais centralizadas do que distribuídas, poderá haver uma "queda". A segunda queda do muro será fractal. Cada mundo altamente conectado que emergirá após a segunda queda, será o mundo todo, como se fosse uma imagem holográfica de uma nova matriz de mundo mais distribuído. Não um mundo interligado - pois que isso já se materializou desde que a conexão global-local tornou-se uma possibilidade - e sim um mundo-gerador intermitente de novos, inéditos, mundos altamente tramados, para fora e para dentro, que emergirão a cada instante. Essa será, propriamente falando, a primavera das redes. 3
  • 4. Os fenômenos acompanhantes desse global swarming serão surpreendentes. Alguns já começaram a se manifestar: uma tendência acentuada à desobediência dentro das organizações hierárquicas (1), a incapacidade dessas organizações de inovar no ritmo exigido pelas mudanças contemporâneas (ou melhor, de se estruturar para inovar permanentemente) e - o que é mais drástico - as perdas irreversíveis de oportunidades e condições de sustentabilidade para as organizações fechadas que não forem capazes iniciar a transição (2) do seu padrão piramidal para um padrão de rede. Notas e referências (*) Este artigo – minha provocação à CIRS Conferência Internacional sobre Redes Sociais = http://migre.me/ihiH é uma parte já desenvolvida do link (1) do texto Parar entrar no Terceiro Milênio = http://migre.me/ihbl consolidado com o título FRANCO, Augusto (2010): Eles já estão entre nós (roteiro preliminar para ulterior desenvolvimento) = http://migre.me/ihbz (1) Cf. o artigo Desobedeça = http://migre.me/ihcu consolidado como FRANCO, Augusto (2010): Desobedeça: uma inspiração para o netweaving = http://migre.me/ihc2 (2) Cf. o tema do Grupo da Escola-de-Redes: TRANSIÇÃO ORGANIZACIONAL = http://migre.me/ihck 4