99Novas.com.BR
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O quE é
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            quEm é O NOssO
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                                  O blOg
O 99NOvas   trEND HuNtEr




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PÓsFaCIO
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            tO bE CONtINuED ...
o que é
o 99Novas




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O quE é O 99NOvas                                                                                                                                                   O quE é O 99NOvas




O 99Novas é uma festa de aniversário. Sim, uma festa de aniversário de 21 anos, que      Depois de deixar mais de 4 mil candidatos para trás e encarar três meses de processo

durou 199 dias e foi acompanhada por alguns milhares de pessoas no Brasil e no mun-      de seleção, no dia 9 de dezembro de 2010, Lucas Cabral Maciel Neto foi anunciado o

do. E tudo começou timidamente em uma sala do 5° andar no numero 5013, da Aveni-         vencedor do 99novas. E a competição foi duríssima, os nove finalistas - Lucas, Ga-

da Brigadeiro Luis Antônio 5013. É lá, em um prédio de seis andares que fica instalada   briela, Bernardo, Stéfano, Patrícia, Barbara, Caetano, Clareana e Lara - deram um show

a sede da DM9DDB, uma das maiores e mais premiadas agências do País.                     de competência e merecimento. Mas, só havia uma vaga para o posto de Trend Hun-

                                                                                         ter. Acabou vencendo um artista de circo, estudante de economia da UFRJ, louco por

Era um dia comum de trabalho e, em uma dentre tantas reuniões que acontecem ali          teatro e artes em geral, que nasceu no Rio de Janeiro, mas tem um carregado sotaque

diariamente, um grupo de profissionais tinha a missão de pensar na celebração do ani-    nordestino graças a infância que passou entre Bahia e Alagoas. Depois de uma disputa

versário da agência. A tarefa era desafiadora já que, independente do caminho escolhi-   dessa, imagina como ele recebeu a notícia! Mas, melhor do que imaginar é ver, para

do, seria necessário superar uma grande festa realizada no 20° aniversário da agência,   assista o momento que ele é surpreendido pelas nossa câmeras em um bar da Lapa...

além de mostrar uma marca no auge de sua ousadia, inovação, modernidade. Como

conseguir fazer tudo isso em uma celebração de 21 anos?                                    http://www.youtube.com/watch?v=vN9cpZKF-2c

A resposta à pergunta poderia ser: não dá, impossível. Mas, quem trabalha ou já traba-

lhou na DM9 (e se você quiser trabalhar aqui, #ficaadica) sabe que se há uma resposta    Passada a surpresa inicial, no dia 9 de janeiro, o Lucas embarcou na viagem que mudou

inadmissível para o Sergio Valente, o cara que é o presidente da agência, é “não dá”.    a vida dele, e que pode mudar um pouquinho a sua também. Embarque nessa, viajando

Na DM9, sempre dá. Tinha que dar, e deu. Este grupo de DM9anos de cabeça e de co-        com o Lucas em seus posts. É só ler e se divertir.

ração inventou um tal de um concurso que transformaria um estudante de 21 anos em

Personal Trend Hunter da DM9DDB em uma em uma viagem ao redor do mundo.                  Boa viagem ao 99Novas!



O estudante seria escolhido por meio de um rigorosíssimo processo de seleção, que

incluiria prova de conhecimentos gerais, conhecimento profundo da língua inglesa, ha-

bilidade para fazer um vídeo, tenacidade para criar conteúdo para um blog e desenvol-

tura para encarar uma banca examinadora e o próprio Sergio Valente em pessoa com

argumentos sólidos o bastante para convencer a todos de que ele/ela era o/a cara.

Como recompensa, o Trend Hunter ganharia uma viagem de 99dias, por 9 países dife-

rentes para alimentar o site www.99novas.com.br com 99 tendências. Tudo na faixa.

E se você está se perguntando por que tanto 9? Porque somos apaixonados pelo 9, oras.
quem é
o Nosso
TReND HuNTeR




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quEm é O NOssO trEND HuNtEr




Lucas Cabral Maciel tem 21 anos como manda o regulamento. Mora no Rio. É carioca,

mas tem um forte sotaque nordestino. Isso porque quando era pequeno mudou-se

para Alagoas.



Já fez aula de dança, de teatro e hoje estuda circo à tarde. Pela manhã, dedica-se

ao curso de Economia na UFRJ. Mora sozinho e não tem namorada. No dia 9 de

janeiro, ele embarca rumo ao mundo.



Bárbara, Bernardo, Caetano, Clareana, Gabriela, Lara, Lucas, Patricia, Stéfano.

Os 9 finalistas do 99Novas estiveram na DM9 no dia 7 para a última fase do 99Novas

e deram um show. Surpreenderam a equipe. Deixaram todos boquiabertos. Mostraram

como é inteligente, ágil e comprometida essa nova geração.



Veja o vídeo do Lucas ao participar do processo seletivo:

    http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=hxOWXh4SBo0



Lucas o Trend Hunter da DM9:

    http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=vN9cpZKF-2c
o BLoG




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ÍNDICE DOs POsts




                                                                                                            PaRIs                                                LoNDRes
                                                                                                            POST19: #SHARING9 – PARIS – RAPHAEL SONSINO.         POST 28: #SHARING9 – IAN BLACK MANDA LEMBRANÇAS DO
                                                                                                                                                                 REI PRA RAINHA EM LONDRES.
                                                                                                            POST 20: INTRODUZINDO PARIS POR SEUS ARTISTAS DE
                                                                                                            RUA – SÓ PRA COMEÇAR.                                POST 29: THE SOCK MOB E UNSEEN TOURS – UM OLHAR
                                                                                                                                                                 COMPLETAMENTE NOVO SOBRE A CIDADE E A PARTIR DE
                                                                                                            POST 21: “OWN YOUR CITY” POR ONDE PASSAR E SEJA      SEUS HOMELESS.
                                                                                                            DONO DE TODO LUGAR.
                                                                                                                                                                 POST 30: CABARÉS TOMAM CONTA DE LONDRES – PORQUE
                                                                                                            POST 22: UMA MORTE POR DIA – ESSA VIAGEM SÓ SE FAZ   DO DIAMANTE NÃO NASCE NADA, MAS DO LODO…
                                                                                                            UMA VEZ.




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                                                                                                            POST 23: PARIS, CHINA. – ASSOCIAÇÃO FRANCESA CHI-
                                                                                                            NART QUER TRANSFORMAR A MANEIRA COMO VEMOS O         POST 32: SECRET CINEMA – PARTE 2 (THE RED SHOES…)
                                                                                                            ORIENTE.
                                                                                                                                                                 POST 33: MINHA DICA PRO WORLD BOOK DAY – LITTLE
                                                                                                            POST 24: UM TRAMPOLIM, DUAS OU TRÊS PISCINAS –       PEOPLE IN THE CITY.




DE POsts
                                                                                                            SPACE-INVADERS NA ARTE DE RUA.
                                                                                                                                                                 POST 34: ECOBUILD – SUSTENTABILIDADE EM DESIGN E AR-
                                                                                                            POST 25: #SHARING9 – LE CAFÉ QUI PARLE RECEBE DE     QUITETURA E PALPITES PRO MUNDO DAQUI A VINTE ANOS.
                                                                                                            BRAÇOS ABERTOS O TRABALHO DO RAPHAEL SONSINO.
                                                                                                                                                                 POST 35: UM LABORATÓRIO? UM CIENTISTA MALUCO? NÃO.
                                                                                                            POST 26: DE BRINQUEDINHO PRO NATAL A CELEBRIDADE     É SORVETE DE NITROGÊNIO LÍQUIDO!
                                                                                                            VIRTUAL – A ASCENÇÃO METEÓRICA DO PROTOTO.
                                                                                                                                                                 POST 36: #SHARING9 LONDRES – SOM DO ROBERTO CARLOS
                                                                                                            POST 27: GIPSY MUSIC WORLD RAP BALKAM SKA ELECTRO    ENVIADO PELO @IANBLACK CHEGA AO LOCKSIDE LOUNGE.
                                                                                                            ROCK – “LA CARAVANE PASSE” TRAZ TUDO ISSO, EM SEIS
                                                                                                            IDIOMAS, PRA BANGKOK.                                POST 37: MERGULHE, SE LAMBUZE, E DEPOIS ME CONTE
                                                                                                                                                                 COMO FOI. BURNING MAN E A TENDÊNCIA DOS POP-UP
                                                                                                                                                                 QUALQUER COISA.




Nova IoRque                                            mILÃo                                                mumBaI                                               BaNGcoc
                                                                                                            POST 38:#SHARING9 – COLETIVO SHN ESPALHA STICKERS    POST 48: #SHARING9 – LIDI FARIA PREPARA EM TEMPO
POST 1 - ENFIM NY.                                     POST 11: COISAS IMPERDÍVEIS QUE EU PERDI EM NOVA     POR MUMBAI.                                          RECORDE UM BORDADO PRA BANGKOK.
                                                       IORQUE – NO PANTS SUBWAY RIDE E AIR SEX WORLD
POST 2 - SHARING9 – EMICIDA MANDA SEUS CDS PRA         CHAMPIONSHIP.                                        POST 39: ALGUMA IMPRESSÕES DE UM MUNDO NOVO –        POST 49: BANGKOK, SUA LINDA… A MINI-SAIA VOLTOU!
NOVA IORQUE.                                                                                                PRIMEIRO DIA EM MUMBAI.
                                                       POST 12: UM POUQUINHO DE HUMOR PRA COMEÇAR NA                                                             POST 50: CONGELAMENTO DE PESSOAS? BEM… QUASE ISSO…
POST 3: HAPPY-GO-LUCKY ENTRE WEST VILLAGE, CHEL-       CIDADE. ALFREDO BRESCIA E SEUS PINTURAS VIGILAN-     POST 41: “NOSTALGIA, PRIDE AND FEAR” – SER FRáGIL
SEA MARKET E HIGH LINE ETC.                            TES.                                                 NÃO É SER EMO.                                       POST 51: PRA TIRAR MAIS DE UMA GALERIA, QUE TAL SE
                                                                                                                                                                 SEU CORPO VIRAR TELA? MúSICA E BODY-PAINTING COM
POST 4 : DIRETO DO NEW YORK TIMES.                     POST 13: MERCADORES DE ATITUDES – AUTOSUFICIÊNCIA,   POST 42: THE WALL PROJECT – PINTAR MUROS TAMBÉM É    LUZ NEGRA.
                                                       TROCAS E DESPERDÍCIO ZERO.                           SER DONO DE UM LUGAR.
POST 5: NOW WE’RE TALKING! – HARLEM E MARILYN                                                                                                                    POST 52: AGORA EU SÓ VISTO MACONHA – INDUSTRIAL
MINTER.                                                POST 14: FESTIVAL DEL FUMETTO – OS QUADRINHOS GA-    POST 43: USER GENERATED CITIES – URBZ FAZ HOJE O     HEMP DO RE3-GENERATION PRA FAZER MELHOR QUE
                                                       NHAM VIDA NO CENTRO DE CONVENÇÕES DE MILÃO.          QUE OS PALESTRANTES DA ECOBUILD PREVIRAM PRA         JEANS E AJUDAR O CAMBOJA.
POST 6: ESCONDIDO É MAIS GOSTOSO –                                                                          2030.
SECRET PARTIES IN NYC.                                 POST 15: NEM CACHIMBO, NEM SEMENTE DE GIRASSOL –                                                          POST 53: O QUE FAZ UM TEEN DE BANGKOK?
                                                       OS ITALIANOS DO IOCOSE PROVOCAM MAIS UMA VEZ.        POST 44: SE FOR CHEGAR ATRASADO, ENTRE COM ESTILO
POST 7: CRAFTIFESTO! – DREAM GLOBAL,                                                                        – OBATAIMU, A PRIMEIRA POP UP STORE DE MUMBAI.       POST 54: ECONOMIA CRIATIVA E A FASCINANTE “SALA DE
SHOP LOCAL.                                            POST 16: O DESIGN MOSTRA A QUE VEIO – PARTE 1 (“DO                                                        MATERIAIS” – TCDC BANGKOK.
                                                       SOMETHING”, BUT DO IT “OLD FASHIONED”).              POST 45: #SHARING9 MUMBAI – STICKERS DO SHN ESPA-
POST 8: WHAT IF… I MET KEITH REINHARD?                                                                      LHADOS PELA CIDADE.                                  POST 55: VENTILADORES SEM Pá – UMA NOVA MANEIRA
                                                       POST 17: O DESIGN MOSTRA A QUE VEIO – PARTE 2                                                             DE BRINCAR COM O AR.
POST 9: QUEM SABE FAZ AO VIVO: NIB AND PICK – FISTI-   (FUNCOOLDESIGN).                                     POST 46: DO GRAMEEN CREATIVE LABS AO SOCIAL BUSI-
CUFFS E WATCH ME WORK.                                                                                      NESS – PARTE 1 (A IDEIA).                            POST 57: #SHARING9 BANGKOK – BORDADO DA LIDI FARIA
                                                       POST 18: DESTRUINDO LIVROS PRA ENTENDÊ-LOS AO                                                             PRA ALEGRIA DA FAI, UMA LINDA CRIANÇA TAILANDESA.
POST 10: #SHARING9 – MISSÃO DADA É MISSÃO CUMPRIDA     CONTRáRIO E #SHARING9 – CAMISETERIA DE PRESENTE      POST 47: DO GRAMEEN CREATIVE LABS AO SOCIAL BUSI-
– AGORA O JAY-Z CONHECE O EMICIDA.                     PRA PIETRO E ILARIA.                                 NESS – PARTE 2 (O PIPOCO)                            POST 58: GIPSY MUSIC WORLD RAP BALKAM SKA ELEC-
                                                                                                                                                                 TRO ROCK – “LA CARAVANE PASSE” TRAZ TUDO ISSO, EM
                                                                                                                                                                 SEIS IDIOMAS, PRA BANGKOK
ÍNDICE DOs POsts




XaNGaI                                                   sÃo FRaNscIco
POST 59: #SHARING9 – BIA GRANJA ESPALHA A INTERNET       POST 70: ATÉ MAIS, TÓQUIO. BOM DIA, SÃO FRANCISCO
BRASILEIRA POR XANGAI.


POST 60: 3, 2, 1, BIKE POLO!!!


POST 61: DON’T PIT-STOP. PLEASE PIT-IN.


POST 62: WELCOME TO ENTER – OPEN SOURCE FILM.


POST 63: WELCOME TO ENTER 2 – BOYLESQUE, SPEED
DATING E AN XIAO.


POST 64: BENS QUE CONTAM HISTÓRIAS – DOS ESCOM-
BROS à ALTA SOCIEDADE DE SHANGHAI.


POST 65: VER E SER VISTO – BATALHA DE DESIGNERS,
ARTISTAS E VOYEURS.


POST 66: #SHARING9 XANGAI– YOUPIX E #SUALINDA NO
XINDANWEI. VALEU, BIA GRANJA!


POST 67: PRA ONDE VAI A CHINA? – PARTE 1 – WHAT IS (AI
WEI WEI E JASMINE REVOLUTION).


POST 68: PRA ONDE VAI A CHINA? – PARTE 2 – WHAT IF
(INSH, FEIYUE E PROUDLY MADE IN CHINA).


POST 69: ZAI JIAN, CHINA – ATÉ A PRÓXIMA.
Nova IoRque
NOva IOrquE                                                                                                                                                                                NOva IOrquE




                                                                                                    Sobre a exposição? Absolutamente fantástica!    busca por aquilo que ele não oferece, em vez
POst
                                                                                                    Eu nunca tinha ouvido falar que Dali esculpia   de mirrar, fica mais aguda a cada dia! O que
01
12 jan
                                                                                                    também, então tive essa grata surpresa. Não     é a febre de televisões e filmes 3D no mundo
            ENFIM NY
                                                                                                    posso deixar de notar que boa parte do en-      senão mais uma tentativa de humanizar o di-

                                                                                                    cantamento veio da possibilidade de ver esse    gital? A história de “real vs. virtual” já não en-

Enfim um post! Enfim NY! Primeira parada         Com a câmera em mãos, decidi fazer o que           gênio sair do “flat” do papel e ganhar corpo    rola mais ninguém. Os dois são a mesma coi-

na Big Apple um lugar incrível chamado BH        acho a melhor coisa que um viajante pode fa-       no mundo. O trabalho é tão característico       sa. Eles não se opõem, mas sim se somam, e

Megastore: a meca dos apaixonados por fo-        zer: andar. E andei bastante. Não vou mentir:      dele que nem precisava de placa na entrada      esse imperativo da convergência entre ambos

tografia e vídeo profissional. Não é só a qua-   já estava meio frustrado de tanto andar e con-     – quem não reconhece os relógios abaixo? –      se manifesta fortemente em situações que

lidade dos produtos que impressiona. A loja      tinuar com a impressão de que já tinha visto       mas todo artista de verdade nunca está satis-   vão desde a criação da logomarca dos jogos

é organizada e integrada de uma forma que        quase tudo ali. Quase nada de realmente inte-      feito com o que já fez e busca sempre novos     do Rio (que pela primeira vez existe também

eu não sabia se me sentia mais em os “Tem-       ressante ou novo pra ver… até ficar sabendo,       canais de expressão.                            em escultura em vez de apenas em imagem

pos Modernos” ou no desenho dos Jetsons! O       por twitter, da exposição das esculturas do

pedido vinha numa caixa, descia uma esteira      Salvador Dali! Não só fui lá, vi, filmei e foto-

em espiral, um elevador, e então rolava exa-     grafei como também consegui vazar no link

tamente até o local onde o atendente estava      ao vivo da CNN!!! Eles estavam cobrindo um

esperando com o meu pedido na mão. Talvez        lançamento da Apple de algo relativo a uma

a abertura do Ratimbum também servisse pra       rede de internet, e eu consegui colocar a mo-

ilustrar…                                        chila com o endereço do blog na tela deles!




                                                                                                    Eu saí de lá pensando em muitas coisas, e ve-   de papel ou screen) até a percepção de uma

                                                                                                    jam se algumas delas não fazem sentido:         inegável fome do público em ver seu artista

                                                                                                    A exposição me ajudou a ver que, num mun-       favorito finalmente ganhar corpo, numa expo-

                                                                                                    do onde o computador já é há tempos o           sição como a de Dali.

                                                                                                    maior veículo de informações que temos, a       Parece que fui meio longe? Então tenta pen-
NOva IOrquE                                                                                     NOva IOrquE




sar o seguinte: o Dali é o maior símbolo do      A nossa geração está aí pra dizer que a rede

surrealismo no mundo. As pinturas dele levam     mundial não é um mundo à parte. É o maior e

pra um universo completamente distinto do        melhor reflexo do que é o nosso tempo. Não

nosso, beirando o absurdo. O que significa ver   existia momento melhor pra lembrar Dali do

uma escultura dele? Ver o mundo do absurdo       que esse.

das suas pinturas ganhar corpo e tangibilida-

de, ter existência concreta no nosso mundo.

Em arte, nada é por acaso. às vezes a gen-

te só entende o que fez depois que fez. Eu

não sei se o idealizador da exposição pensou

conscientemente no que eu disse, mas exis-

te sempre um sentimento no ar, que o artista

pega.
NOva IOrquE                                                                                                                                                                              NOva IOrquE




                                                                                                    E quando o cara diz que apareceu por causa       queria pra si, de ficar com gravadora, rabo
POst
                                                                                                    das batalhas, não está exagerando nem um         preso, pá. O negócio é fazer a música chegar
02
12 jan
                                                                                                    pouco. A partir de 2006, quando começou a        em todo lugar que puder, e o dinheiro é con-
          SHARING9 – EMICIDA MANDA SEUS CDS PRA NOVA IORQUE.
                                                                                                    participar forte das batalhas de MC’s, algumas   sequência.

                                                                                                    coisas começaram a mudar na vida dele:           “Eu tenho a sorte de fazer um negócio que

                                                                                                    “Eu andava na rua e uns caras e uns caras        não é só um trampo, é uma causa. Então a

                                                                                                    me reconheciam, tá ligado? Eu não entendia       gente não pode pensar no dinheiro antes, se-

                                                                                                    nada, mas aí depois me liguei que a galera que   não não completa a missão, tá ligado?’, afirma

                                                                                                    filmava com celular ou câmera digital tava co-   Emicida.

                                                                                                    locando a parada no youtube (que tava só co-

                                                                                                    meçando na época a ganhar o tamanho que

                                                                                                    tem hoje). Quando me avisaram, meu vídeo

                                                                                                    tinha mais de um milhão de views. Pô, mano.

                                                                                                    Um milhão de views é coisa pá caralho!’, afir-

                                                                                                    mou o cantor.




Como Trend Hunter oficial da DM9, eu tenho           http://www.youtube.com/watch?v=ateZJg

basicamente duas funções nessa viagem. A          r7w3E&feature=player_embedded#at=13

primeira é, claro, procurar atentamente, lou-

camente e freneticamente por novos com-           O cara começou a fazer música ainda na épo-                                                        E é isso que eu vou fazer em NY: espalhar o

portamentos que sinalizassem o surgimento         ca de colégio:                                                                                     música do cara. Ele me deu duas cópias do pri-

de uma nova tendência. Mas também fiquei          “ Eu curtia muito quadrinhos e foi surgindo                                                        meiro mixtape que ele fez em 2008 e do mais

responsável por uma missão que a gente cha-       em mim uma necessidade de contar histórias                                                         recente também. Alguém vai ficar com esse

mou de Sharing9, levar pequenos elementos         além do que o quadrinho permitia. Foi aí que                                                       presente autografado, e, quando isso aconte-

de novas tendências do Brasil para espalhar       eu comecei a escrever as minhas primeiras                                                          cer, vocês vão saber imediatamente por aqui.

pelo mundo. Essas tendências foram identifi-      coisas. Até hoje, embora eu tenha aparecido

cadas em blogs e nas redes sociais e no meu       muito por causa das batalhas, eu dou muito                                                         Para saber mais sobre ele e o trabalho dele,

período pré-viagem, conheci vários Trend          valor a essa habilidade de contar histórias so-                                                    acesse os links:

Makers brasileiros. Pra começar a ação já por     bre o cotidiano mesmo. Por isso o que eu mais                                                      http://www.emicida.com/
                                                                                                    A partir daí começaram a aparecer vários
cima, fui sábado no sábado dia 7 visitar o Emi-   admiro mesmo são as letras do samba”, afir-                                                        http://www.myspace.com/emicida
                                                                                                    convites, tanto pra batalhas quanto pra gra-
cida. Se liguem aí no que ele me deu.             ma o Emicida.                                                                                      @EMICIDA
                                                                                                    var. Mas ele diz que não era esse caminho que
NOva IOrquE                                                                                                                                                                     NOva IOrquE




                                                                                               Foi sob essa temperatura que eu saí pra ex-    ar da crise econômica. Mas o que eu mais
POst
                                                                                               plorar um pouco do West Village, procuran-     estou vendo por onde passo é uma impres-
03
13 jan
                                                                                               do galerias de arte com obras de artistas      sionante onda de cores (o próprio trabalho
          HAPPY-GO-LUCKY ENTRE WEST VILLAGE, CHELSEA MARKET E HIGH LINE
                                                                                               contemporâneos.                                do Michael Porter tem isso também, como

                                                                                               Encontrei uma muito legal, com os trabal-      vocês viram) . Fiquei encucado, perguntei

OK, eu prometi pra mim mesmo que não ia gastar o tempo de vocês falando sobre...o tempo,       hos de um cara chamado Michael Porter.         ao cara do brechó o que ele achava, e ele

porque em geral isso é falta de assunto. Mas está TÃO FRIO que eu tenho que compartilhar al-   Dêem uma olhadinha:                            me disse que é isso mesmo:

gumas imagens:




                                                                                               Tive que parar o passeio pra comprar uma       “We are pretty good in dealing with things

                                                                                               bota impermeável, por questão de sobre-        the way they are. We accept it and then deal

                                                                                               vivência (tinha enfiado o pé numa poça         with it. We know things are bad, so what?

                                                                                               d’água escondida sob 30 cm de neve), e         Make them become nice”! (nós somos mui-

                                                                                               acabei me surpreendendo com um brechó          to bons em lidar com as coisas do jeito que

                                                                                               muito legal bem do lado da loja de sapatos.    elas são. Nós aceitamos e lidamos com isso.

                                                                                               Aqui eu tenho que começar a marcar uma         Nós sabemos que as coisas estão ruins,

                                                                                               impressão forte que já estou tendo: eu         e daí? Vamos fazer elas ficarem melhores)

                                                                                               imaginei que chegaria em NY e veria sinais     Andei ainda um bocado pela 10th Avenue

                                                                                               de depressão e pessimismo por todos os         e conheci o High Line e o Chelsea Market.

                                                                                               lados, reflexo da dificuldade em se recuper-   O primeiro é um parque construído sobre
NOva IOrquE                                                                                                                              NOva IOrquE




                                                                                         Enfim, depois de tudo isso, decidi procurar

                                                                                         sinais de novidades emergindo em um dos

                                                                                         canais que melhor refletem o espírito de

                                                                                         qualquer sociedade: o humor. Fui assistir ao

                                                                                         New Talents Show da Comix, um belo palco

                                                                                         para o Stand-up comedy da cidade. Foi in-

                                                                                         crível, mas depois volto a falar disso. Agora

                                                                                         preciso ir que tenho um compromisso que

                                                                                         vocês não vão nem acreditar quando eu

                                                                                         contar na volta. Enquanto isso, fiquem com

                                                                                         esse vídeo com um apanhado de algumas

                                                                                         das coisas que vi ontem andando por aí.

o que antigamente era uma via férrea el-    quase tudo, um pouco do espírito do lugar    Até lá!

evada. Um exemplo de revitalização do es-   no momento. Um espírito de reconstrução.

paço urbano, na onda dos “re” que tomam     Também não teve como não notar o monte          http://www.youtube.com/watch?v=O08

conta do mundo. O segundo é um grande       de cores e aparente “happy-go-lucky” spir-   Hf0KpwYc&feature=player_embedded

mercado de bairro, com produtos de altís-   it. Vejam esse cupcakes pra saber do que

sima qualidade, que também reflete, como    eu estou falando.
NOva IOrquE                                                                                                                                                                    NOva IOrquE




                                                                                            Enfim, lá fomos nós – eu e a Pat Sloan –         temente inocentes ou aleatórios… como
POst
                                                                                            para a esquina da 41st St. com a 8th Av.         o ressurgimento de barbearias por toda a
02
14 jan
                                                                                            Subir para a cafeteria do New York Times         cidade. Não estou falando de salão de be-
          DIRETO DO NEW YORK TIMES
                                                                                            esperar pelo Stuart Elliot. Ele é colunista da   leza nem cabeleireiro: estou falando de old-

                                                                                            seção de Advertising do Jornal.                  fashioned barber shop (aquele que você

Ontem meu dia começou de um jeito que         e sairia babando como uma criança desde

eu nunca imaginei em minha vida. Quando       o momento em que subisse o primeiro ele-

é que esse estudante de economia e con-       vador. Mas como eu sempre preferi olhar

torcionista se imaginou pegando um taxi       pras coisas com um espírito de “ih, olha só

pra sede mundial da DDB com o objetivo        que legal… como será que funciona?”, lá fui

de se encontrar com a sua Vice-Presidente     eu. Se tem uma coisa que eu aprendi com o

de Relações Públicas, a Pat Sloan? Imagi-     Sérgio Buarque de Holanda, é que nós bra-

nem então se passou pela minha cabeça         sileiros temos o hábito de olhar primeiro

alguma vez que, com 21 anos, eu estaria en-   para pessoa e só depois pro cargo que ela

trando num carro com ela, indo em direção     ocupa, e tenham certeza: isso ajuda MUITO

ao New York Times… pra ser entrevistado!      em momentos como esse.

Muita gente ficaria deslumbrada com isso



                                                                                            Depois de almoçar (muito bem, por sinal),        entra e o mesmo cara corta seu cabelo, es-

                                                                                            começamos a conversa. É claro que eu ti-         palha o creme pelo seu rosto todo e a passa

                                                                                            nha lido sobre o Stuart também, de modo          com a navalha rente à pele). Parece boba-

                                                                                            que ambos estávamos interessados em sa-          gem, mas não é… e quando você começa a

                                                                                            ber mais sobre o outro. Ele perguntando          perceber outros sinais… entende que essa é

                                                                                            muito sobre o processo de seleção, minha         a manifestação de um comportamento que

                                                                                            trajetória antes do concurso e sobre o que       está mudando.

                                                                                            eu pensava serem as razões de ter sido es-       Na verdade, está começando a haver uma

                                                                                            colhido; eu interessado em ouvir daquele         rejeição geral por tudo aquilo que é abso-

                                                                                            jornalista quais os sinais de tendências em      lutamente one hundred percent novo. Ok,

                                                                                            vias de emergir que ele estava percebendo        nos acostumamos a conviver com reinven-

                                                                                            na cidade.                                       ções e transformações de roupagem cons-

                                                                                            Começamos por pequenos sinais aparen-            tantes nos produtos – afinal de contas, uma
NOva IOrquE                                                                                                                                                                      NOva IOrquE




                                                                                              primir uma marca de seu tempo lá também.       ligadas a ele por todos os lados. Por exemplo:

                                                                                              Por exemplo: não é inocente a mudança          se o programa escolhe interrogações, ele re-

                                                                                              no destaque dado ao Sex. No original, os       aliza uma busca imediata por toda a base de

                                                                                              três tinham o mesmo peso. Mas se naque-        dados do NYT e exibe frases tiradas de ma-

                                                                                              le momento o drugs and rock n’ roll tinha      térias que terminem com uma interrogação.

                                                                                              também componentes de contracultura e          Quando cheguei, estavam todas as frases ini-

                                                                                              via alternativa ao mainstream, hoje isso não   ciadas por “he graduated in”. Esse trabalho

                                                                                              existe mais. O que resta então? Reler o sím-   está lá há três ou quatro anos. Já pensaram

                                                                                              bolo com o olhar do presente na tentativa      que isso é quase uma busca por # do twitter

                                                                                              de encontrar algo remanescente daquele         realizada internamente ao jornal bem antes

                                                                                              espírito autêntico.                            do twitter ter o peso que tem hoje?

                                                                                              O Stuart ainda me levou pra conhecer, por

parte do produto é a ideia que ele transmi-   que se ela existe (e resiste) há tanto tempo,   dentro, a redação do jornal. E eu fiquei im-

te. Mas, de um tempo pra cá, alguns des-      é porque é boa. Isso tem sido chamado, se-      pressionado! Mas vejam o porquê:

ses sinais que vão além do produto em si      gundo o Stuart, de Authenticity, a percep-

começaram a ser percebidos como um ex-        ção de um produto como autêntico, dono             http://www.youtube.com/watch?v=O08

cesso desnecessário, uma falta de conteú-     de características próprias permanentes,        Hf0KpwYc&feature=player_embedded

do compensada por uma ideia sem tanto         em vez de passageiro, e é uma clara res-

fundamento. Tá bom, vamos ser realistas:      posta à busca por referências no nublado        É UM SILÊNCIO SÓ! Quem de vocês imagi-

parte disso é porque numa crise o poder de    do horizonte.                                   nava a redação do maior jornal do mundo
                                                                                                                                             Definitivamente, a visita valeu a pena.
compra cai, e então as posições têm que       Vejam mais uma foto do brechó que eu co-        desse jeito? E não é só por causa do horário

ser reavaliadas mesmo. Mas o interessante     nheci anteontem e tentem ler esse escrito       de almoço não, Stuart me garantiu. Especial-

é perceber o caminho que esse movimento       sob esse olhar. Eles acabaram de pintar na      mente depois que o e-mail entrou no jornal

está encontrando pra se manifestar.           parede “Sex, Drugs and Rock n’ Roll”. Lema      o telefone parou de tocar lá dentro, a com-

Um deles é justamente a valorização daqui-    de uns quarenta anos atrás, de outra gera-      penetração dos jornalistas se fez evidente.

lo que está aí há mais tempo. Quer dizer, o   ção, é verdade. Mas por que será que ele        Outra parte interessantíssima do jornal é

estabelecido deixa de ser lido como “velho”   está ali daquele jeito?                         a entrada. Tem um trabalho de arte digital

para ser lido como “duradouro”. As marcas                                                     que é muito interessante. Espalhados pela

que estão sendo valorizadas são aquelas       Tudo bem que um brechó é um lugar de            parede estão centenas de monitores inter-

que podem estampar um “desde mil nove-        coisas antigas, que tem quase licença poé-      ligados. A qualquer momento, eles escol-

centos e… qualquer coisa”. Agora, pensa-se    tica pra fazer isso. Mas não dá pra não im-     hem um tema e passam a exibir mensagens
NOva IOrquE                                                                                                                                                                   NOva IOrquE




                                                                                             dientes tão diferentes quando manteiga        to… mas que eu adorei, abri um sorrisão e
POst
                                                                                             de amendoim e leite de soja), todos com       não vou esquecer nunca, isso é verdade.
05
15 jan
                                                                                             o foco em que é preciso cuidar da saúde.
          NOW WE’RE TALKING! – HARLEM E MARILYN MINTER
                                                                                             Mas se estou falando isso é porque percebi       http://www.youtube.com/

                                                                                             que essa não é conversa da boca pra fora:     watch?v=uz1Bh1_28As

Depois de três dias garimpando sinais de       da moda. Now we’re talking!                   passei meia hora num desses lugares espe-

novos comportamentos em Manhattan, fi-         Se na 5th avenue se vende perfumes de

nalmente fui para num lugar que eu posso       grife, na 125th street se vendem frangân-

chamar de autêntico: o Harlem. Foi só uma      cias para a casa tão coloridas e peculiares

visita rápida, coisa de duas horinhas no fi-   quanto você possa imaginar. Na 5th tem

nal da tarde, mas o suficiente pra perceber    Dolce & Gabana, Channel e Azzaro; na

que se tratava de um lugar onde as pesso-      125th tem “Black Women”, “Opium” e “Lick

as realmente vivem, criam e se identificam,    me all Over”.

e isso é maravilhoso pra separar um pouco

as novidades que realmente fazem parte         Outra coisa que notei é que existe uma

da vida e aquelas que só estão na vitrine      série de lugares especializados em sucos

pra turista ver ou pra ser ponta de iceberg    (e em combinações de frutas com ingre-




                                                                                             rando o meu vitaminão (chamado “Armag-        Valeria a pena um post inteiro pra falar so-

                                                                                             gedon”, por sinal) e só nesse meio tempo o    bre ela e a primeira bienal que o YouTube (!)

                                                                                             funcionário (IGUAL ao Eddie Murphy!) deu      organizou junto com o Guggenheim. Por en-

                                                                                             conselhos a uns três clientes sobre como      quanto vejam essa entrevista curtinha dela.

                                                                                             cuidar da própria saúde.

                                                                                                                                              http://www.youtube.com/

                                                                                             Vê-se que tem muito pra se tirar do Harlem,   watch?v=HaZ4j_Tm8B8

                                                                                             e é por isso que vou voltar lá logo, logo.

                                                                                             Enquanto isso, fiquem com essa pequena

                                                                                             delícia visual que é o trabalho da Marilyn

                                                                                             Minter, que conheci hoje aqui em NY tam-

                                                                                             bém. Não sei dizer exatamente se é boni-
NOva IOrquE                                                                                                                                                                   NOva IOrquE




                                                                                             Escutem o pouco que eu posso contar… e o       o endereço em # nenhuma por aí. Nem
POst
                                                                                             resto vocês imaginam.                          adianta comprar com antecedência. A or-
06
16 jan
                                                                                             Na entrada, uma cartela de bingo e uma         ganização só avisa onde tudo vai aconte-
          ESCONDIDO É MAIS GOSTOSO – SECRET PARTIES IN NYC
                                                                                             caneta tipo marcador com tinta lavável.        cer, por e-mail, na véspera do grande dia.

                                                                                             Por que lavável? Quem disse que o único        Claro que existem outras festas como essa

Isso mesmo. Escondidinho. É esse o espírito    protesto ao imediatismo e monitoramento       lugar pra escrever são as cartelas? Com        por aí. A Skins Party, mesmo que seja só

por trás do tipo de festa que está pipocando   excessivo das redes sociais. Isso sem falar   tantas pessoas com braços, ombros, mão         a promovida pela MTV num galpão secre-

por aqui. Ontem à tarde me perguntaram:        no efeito que a garantia da não divulgação    e pescoços à mostra, por que se limitar ao     to para o lançamento da série de TV nos

- Onde é a festa que você vai hoje à noite?    provoca, funcionando como um verdadeiro       papel? Seja criativo, invente novas formas     EUA, é só mais um exemplo. Ok, nesse caso

- Não sei. Só vão me contar mais tarde.        convite para se permitir sentir ou fazer as   de desenhar.                                   a festa teve tanta visibilidade que “secre-

- Me avisa então quando souber.                coisas sem se preocupar em ficar “bonito      O Bingo começa e… pensam que é chato?          ta” não foi um bom termo para defini-la.

- Não posso.                                   na fita”. Mas pensam que acabou? Tsc, tsc.    Não sei nem como descrever a empolga-          Mesmo assim, não tem como negar que ela

- Como assim?                                  Que tal se o grande motivo pra dar a festa    ção que é ter dezenas de pessoas urrando       deixou absolutamente louca uma multidão

- É segredo.                                   for simplesmente… JOGAR BINGO?                a cada provocação feita pelas assistentes      de teens de Nova Iorque nessa sexta feira

São as regras. Todos com ingresso têm a        Pois é isso mesmo. Sábado à noite, eu fui     de palco antes de anunciar um número.          em busca do tão sigiloso local.

obrigação de manter segredo sobre o local,     à primeira edição em NY do “The Under-        O apresentador então, realizador da fes-       Tell me about exclusivity.

e não deveriam sequer contar que estão         ground Rebel Bingo Club”. Nunca imaginei      ta, nem se fala! Pouco torcedor se entrega

indo pra lá. “Se alguém perguntar, diga que    que jogar bingo pudesse ser tão bom!          com tanta paixão a alguma coisa. Definiti-

está indo para a reunião de bairro”. É o que                                                 vamente, esse cara ama o que faz, e desco-

manda o site.                                     http://www.youtube.com/watch?v=buh         briu uma maneira de fazer os outros senti-

No caminho, a ordem é ser o mais low-pro-      8zRK11Gw&feature=player_embedded              rem no pele a mesma empolgação que ele,

file que puder. Na entrada, nenhum sinal de                                                  ressuscitando pros jovens algo que já tinha

festa do lado de dentro. Depois de entrar,                                                   sido estigmatizado como, definitivamente,

nada de fotografias ou filmagens, de jeito                                                   “coisa de velho”. Os sorteios são intercala-

nenhum. Mas depois de atender tudo isso…                                                     dos por muita música, escolhidas na hora

bem vindo a um mundo à parte.                                                                pelo DJ, colocando todo mundo pra dan-

Se parasse por aí já seria incrível. Já da-                                                  çar loucamente.

ria pra falar, por exemplo, de como a ideia                                                  Mais do que isso eu estou absolutamente

de manter a memória como único meca-                                                         proibido de falar. Usem sua criatividade ou,

nismo de registro do que acontecer por                                                       melhor ainda: comprem o ingresso para a

lá, acaba funcionando como um belíssimo                                                      próxima edição. Não esperem encontrar
NOva IOrquE                                                                                                                                                                            NOva IOrquE




                                                                                                  deroso, pessoal, político e possível. Comecei   tesanato em Nova Iorque e a sua capacidade
POst
                                                                                                  então a conversar com Christine, uma das        de afetar toda a comunidade ao seu redor”,
07
17 jan
                                                                                                  responsáveis pelo lugar, pra saber mais so-     palavras ditas pela própria repórter durante
          CRAFTIFESTO! – DREAM GLOBAL, SHOP LOCAL
                                                                                                  bre a ideia e até onde eles pretendiam che-     a filmagem.

                                                                                                  gar com isso. Imaginem então a minha sur-

Depois do Underground Rebel Bingo, decidi      Achei a proposta interessante, afinal, que tipo    presa ao ter a conversa inteira em português!

que, definitivamente, eu tinha que voltar no   de pai coruja nunca quis eternizar de alguma       Isso mesmo, Christine fala nossa língua muito   Eu sabia que ali tinha muito mais do que só

Brooklyn. Williamsbourg é o lugar, e eu sa-    forma o trabalho de um filho? Mas quando           bem e, assim como boa parte das pessoas         uma coisinha “cool” e descolada. Fiquei a

bia que ele ia me dar muito mais do que os     entrei, vi que essa era só a ponta do iceberg      que estavam lá, joga capoeira faz tempo.        tarde inteira, conheci as pessoas e conver-

arredores do Hostel. Eu estava caminhando      de uma proposta muito mais ampla, de pes-          Enquanto preparava o espaço para o Sewing       sei muito com elas. No Brasil muita gente

despretensiosamente pelas calçadas quando      soas que fazem do artesanato muito mais do         Rebellion (uma oficina de costura para adul-    associa artesanato a hobby e não o enxerga

esse cartaz chamou minha atenção:              que um hobby, e conseguem por meio dele            tos e crianças que ia começar em meia hora),    como atividade profissional, econômica. Que

                                               passar uma mensagem muito maior do que             ela me explicou que um número cada vez          tal se eu contar que fui andando pro metrô

                                               o produto final do seu trabalho. A questão         maior de pessoas está começando a enten-        com um mulher que é paramédica durante o

                                               é mais do que manejar matérias primas: é           der a ideia do “Dream Global, Shop Local”.      dia, grafiteira durante a noite, e passou a tar-

                                               transformar comportamentos! Na parede do           Com essa mudança a importância de estimu-       de de ontem costurando suas estampas na

                                               ateliê/loja tinha essa maravilha: o Craftifesto.   lar a criatividade cresce e a tendência que     bolsa do grupo com que trabalha?

                                               Como vocês podem ver, o artesanato é po-           já foi “do it yourself your own stuff”, agora   Sem dúvida nenhuma, esse foi um dos dias

                                                                                                  é a valorização de se conhecer a origem dos     mais interessantes e enriquecedores que

                                                                                                  produtos. Num momento em que as pessoas         passei na cidade.

                                                                                                  estão, especialmente nos EUA, repensando        Pra encerrar, acabei indo com o grupo da ca-

                                                                                                  suas convicções e reavaliando o consumis-       poeira pra um bar brasileiro (o famoso Miss

                                                                                                  mo desenfreado como meio de organização         Favela) no começo da noite. Era aniversário

                                                                                                  social, a proposta do artesanato acena como     de uma amiga deles, regado a frango à pas-

                                                                                                  um outro tipo de atitude perante o mundo        sarinha e Guaraná Antárctica!!! Tinha até for-

                                                                                                  potencialmente muito forte.                     ró tocando na hora.

                                                                                                  Será que eu fui o único a perceber isso? Cla-   Quem diria que uma caminhada no Brooklyn

                                                                                                  ro que não. No meio da minha conversa com       ia terminar assim? A viagem está aí pra gen-

                                                                                                  Christine, chegou uma equipe da maior rede      te se surpreender também. Aproveitem e se

                                                                                                  de televisão do Japão (!!!) pra fazer uma ma-   surpreendam também com mais fotos desse

                                                                                                  téria exatamente sobre o “crescimento do ar-    lugar fascinante no meio de NYC.
NOva IOrquE                                                                                                                                                                           NOva IOrquE




                                                                                                em movimento, indo a algum lugar onde ain-      Para ser criativo, estude artes.
POst
                                                                                                da não esteve. Assim fica mais fácil entender   Para ser efetivo, estude o público.
08
18 jan
                                                                                                por que no corpo de alunos tem tantos dan-      Para ser os dois, estude como o público res-
          WHAT IF… I MET KEITH REINHARD?
                                                                                                çarinos, músicos, atores…                       ponde à arte.”

                                                                                                É engraçado pensar nisso agora… porque          Pode ser que de tudo isso que conversamos

Hoje foi mais um daqueles dias que já co-       começam a nascer todas as novidades e mo-       Christine (do ateliê de artesanato do meu       hoje eu não tire tendência nenhuma. Mas

meçam com o que a gente pode chamar de          vimentos relevantes de que eu estou atrás.      post anterior) vinha conversando comigo         uma boa leitura de mundo nunca se joga

oportunidade única na vida. às dez da ma-       Tudo começa no “What if”. E isso aqui expli-    exatamente sobre a busca por parte de vá-       fora e sempre ajuda a entender um pouco

nhã, eu estava começando uma conversa           ca tudo.                                        rias empresas por pessoas com formação          mais do que se está fazendo.

agradabilíssima com Keith Reinshard.                              http://www.youtube.com/       em artes, e isso vem fortalecendo cada vez      E se… um bingo pudesse ser divertido para

Quem não é do mundo da publicidade pode         watch?v=uI3ftzbpAyE                             mais o conceito por trás do Craftifesto de      jovens também? E se… eu pudesse trazer o

até nunca ter ouvido falar dele. Mas a verda-   O vídeo aí em cima (que você acabou de          que tanto falei ontem.                          desenho do meu filho pra minha roupa com

de é que eu estava diante de uma lenda. Esse    assistir, certo?) foi filmado no final do ano   Querem tudo isso resumido? Eis a menor          minhas próprias mãos? E se… eu não tivesse

cara transformou a publicidade no mundo         passado na Berlim School of Creativity Lea-     palestra que Keith já deu na vida. Ela dura     que me preocupar com o que vão pensar de

inteiro e é reconhecidamente um dos maio-       dership. Eu também nunca tinha ouvido falar     exatamente 33 palavras (em Inglês são 31), e    mim quando tudo que eu estou fazendo for

res representantes do pensamento criativo       neles, mas é importante sublinhar o que esse    está num dos três livros absolutamente esti-    pro twitter?

no meio corporativo até hoje. Criatividade?     tipo de iniciativa representa. Na maioria das   mulantes que ele me deu de presente:            Only then eu teria exatamente o final de se-

Nesse mato tem cachorro. A oportunidade         sociedades, o espírito inovador dos artistas    “O artista define a criatividade.               mana que tive.

de conversar sobre o tema ajudou a iluminar     e o poder de gestão dos administradores e       O público define a efetividade.

um pouco mais minha cabeça sobre como           advogados não somente não se entendem,          Então,

                                                como, pior, seguem trocando farpas. Na Ber-

                                                lim School é diferente, neste espaço ambas as

                                                veias sejam alimentadas com profundidade.

                                                Se toda grande ideia começa com o What if

                                                de um visionário, pra crescer ela precisa do

                                                apoio de um homem prático. Por outro lado,

                                                como sobreviver comodamente no Whe-

                                                re you are também não é mais uma opção

                                                viável no nosso mundo, o prático precisa

                                                do visionário pra conseguir se mover nesse

                                                eterno State of becoming, de estar sempre
NOva IOrquE                                                                                                                                                                         NOva IOrquE




                                                                                               é do que ter capacidade de responder a uma       a arte, eu não sei. E, sinceramente, no cur-
POst
                                                                                               situação-problema real. Se a definição vale,     to prazo, acho que não. Mas o que não se
09
19 jan
                                                                                               o que a galera inteira da improvisação fez foi   pode negar é que, de alguma maneira, fazer
          QUEM SABE FAZ AO VIVO: NIB AND PICK –
                                                                                               ir direto na melhor fonte de problemas para      o público se sentir mais autor e menos mero
          FISTICUFFS E WATCH ME WORK
                                                                                               serem resolvidos que existe: o público.          espectador está se tornando um imperativo

No Brasil já estamos mais do que acostuma-      nem então a situação dos quatro cartunistas                                                     dos nossos tempos. E, no processo de ten-

dos a assistir improvisação no teatro. Todos    convidados para o evento de hoje, que, de-     E é aí que entra o outro evento que conferi e    tativa e erro até encontrar a forma mais pro-

também já pelo menos ouvimos falar nas ba-      pois de se dividirem em duplas, tiveram que    fomenta um pouco mais dessa linha. Na se-        lífica de fazer isso, ainda vai aparecer muito

talhas do Hip-Hop. Mas… e em vez de atores      encarar desafios tão inusitados quanto criar   mana passada, NYC vivenciou o Under The          experimento por aí.

ou MC’s… tivéssemos cartunistas? Essa é a       uma “tira que trate ao mesmo tempo dos te-     Radar (festival internacional de teatro foca-

proposta do Nib and Pick – Fisticuffs, que      mas gato, dominatrix, e hospital”?             do nos grupos que estão propondo as coisas

aconteceu hoje aqui em NY.                      Eles se viraram e fizeram. No tempo de uma     mais novas, sob o slogan “Catch the next big

                                                música só (tocada ao vivo pelo grupo convi-    thing”). A performance “Watch me work”,

No dia do encontro com o Raphael Sonsino        dado). Em uma palavra: impressionante. Em      da escritora Suzan-Lori Parks, ganhadora do

pro #sharing9 (que me deu um quadro pra         algumas mais: uma belíssima demonstração       prêmio Pulitzer de 2002, foi uma das esco-

levar pra Paris), ele tinha me falado um pou-   de artistas dominando de maneira tão pro-      lhidas para integrar o festival.

co da sensação de participar da edição bra-     funda a sua arte que podem encarar qual-       Durante uma hora, ela sentou-se no foyer do

sileira do “Cut and Paste”, em que teve que     quer desafio.                                  teatro e trabalhou, escrevendo mais trechos

desenhar ao vivo num palco, e de como era       Uma vez eu escutei de alguém (infelizmente     do seu novo livro, na frente de todo mun-

difícil receber esse tipo de pressão. Imagi-    não lembro quem) que ser criativo nada mais    do. As pessoas podiam sentar-se ao lado,

                                                                                               escrever suas próprias coisas, palpitar nas

                                                                                               dela, twitar ou simplesmente assistir, tanto

                                                                                               no local quanto ao vivo pela internet. Ao fi-

                                                                                               nal do ato, a escritora ainda se predispunha

                                                                                               a conversar sobre as dificuldades que cada

                                                                                               espectador que escrevia estava tendo em

                                                                                               seus trabalhos.



                                                                                               Se esse tipo de obra aberta está crescendo

                                                                                               a ponto de influenciar consideravelmente a

                                                                                               maneira como as pessoas se relacionam com
NOva IOrquE                                                                                                                                                                           NOva IOrquE




POst                                                                                            POst

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21 jan
                                                                                                11
                                                                                                22 jan
          #SHARING9 – MISSÃO DADA É MISSÃO CUMPRIDA – AGORA O JAY-Z                                       COISAS IMPERDÍVEIS QUE EU PERDI EM NOVA IORQUE –

          CONHECE O EMICIDA.                                                                              NO PANTS SUBWAY RIDE E AIR SEX WORLD CHAMPIONSHIP.

É isso aí. Na hora que o Emicida mandou o                                                       Depois de 11 dias na cidade, com certeza te-     mais de gente… e esse ano o movimento reu-

CD pra Nova Iorque e pediu pra entregar pro                                                     nho muita coisa pra contar. Algumas delas        niu 3500 pessoas (!!!!!!!!!!!!). Elas vinham de

Jay-Z todo mundo riu. Eu pensei: “por que                                                       nem entraram aqui no blog, como a aula de        todos os lados pegar o seu metrô sem calças

não?”. Nenhuma barreira é maior do que as                                                       trapézio de vôos que fiz ontem no Galpão         até desembarcarem na Union Station para o

que a gente coloca na própria cabeça, então                                                     do STREB, a reinauguração do Museum of           grande encontro dos No Pants Subway Ri-

percebi que não tinha por que não tentar e                                                      The Moving Image depois de três anos de          ders. Estranho? Pode ser. O que os organiza-

decidi caçar o cara.                                                                            reforma e o monte de artistas de rua. Mas        dores querem com isso? Segundo eles mes-

Primeiro descobri que ele estava na cidade                                                      quanto mais você mergulha num lugar, mais        mos, nada demais. No final das contas, o No

(Stella, da SpaceCraft, viu ele almoçando em                                                    você começa a saber de coisas absoluta-          Pants não tem nenhuma pretensão além de

Williamsburg). Depois eu tinha que desco-                                                       mente incríveis que você se lamenta por não      ser uma grande celebração da bobagem.

brir onde ele trabalhava, o que foi relativa-                                                   ter ficado sabendo antes, e é aí que dá von-     Outra pérola escondida na cidade teve lugar

mente fácil também. Difícil ia ser passar pela   Então é isso! Não pude esperar mais porque     tade de voltar.                                  em Williamsburg. Todo mundo já ouviu falar

segurança… mas vamos lá! Mapa do metrô           o meu avião era logo depois, mas temos a       Uma delas foi o No Pants Subway Ride, que        em campeonatos de Air Guitar, certo? Aque-

na mão, direto para a sede da RocaWear. O        garantia de que ainda hoje o Jay-Z vai estar   aconteceu na véspera do dia em que eu che-       les em que os participantes sobem no pal-

resultado é esse aí:                             com o CD do Emicida nas mãos e vai conhe-      guei. Essa foi a décima edição anual (sempre     co e tocam uma guitarra invisível colocando

Na hora em que eu cheguei o Jay-Z não es-        cer um pouco mais do que a cultura urbana      em janeiro) do evento que já virou tradição      pra fora todo o seu entusiasmo por realizar

tava lá, mas quem me recebeu adorou co-          brasileira tem a oferecer.                     da Improv Everywhere. Em pleno inverno de        o sonho de, por um momento ser um gran-

nhecer o projeto e ficou muito empolgado                                                        2002, alguns passageiros foram surpreendi-       de rockstar. Digamos que, agora, uma nova

com o presente. Aqui vai uma menção hon-                                                        das ao ver uma pessoa entrar no metrô de         modalidade, tão instigante como a anterior,

rosa à Natasha da recepção (dona da mão                                                         sobretudo, botas, cachecol… e sem calças.        explodiu nos EUA e só faz crescer há pou-

que recebe os CDs na foto), e à Prince, que                                                     Na estação seguinte, mais uma pessoa na          co mais de um ano. Bem vindos ao air sex

me apresentou a RocaWear por dentro e me                                                        mesma situação entrou no trem. Depois ou-        World Championship!!!

deu a garantia de entregar pessoalmente os                                                      tra, outra e outra, por sete paradas seguidas,

CDs ao Jay-Z assim que ele chegasse. Ah! Só                                                     até que, na oitava, um vendedor de calças

pra constar… nesse meio tempo eu ainda vi o                                                     aparecia para vendê-las e resolver a situação.   Eu não me perdoo por nada nesse mundo

Kanye West passar no corredor.                                                                  Em 2003 aconteceu de novo, com um pouco          por ter perdido esse espetáculo. Sexta pas-
NOva IOrquE                                                                                                                                   NOva IOrquE




                                                                                              do da sua incapacidade de realizar algo na

                                                                                              vida real, ao invés de frustração, senha para

                                                                                              a mais espontânea e saudável extravagância.

                                                                                              Essa é uma das coisas mais importantes que

                                                                                              aprendi no circo com os meus amigos pa-

                                                                                              lhaços: fazer do seu defeito seu trampolim.

                                                                                              É assim que palhaço acaba com a violência,

                                                                                              mostrando que o ridículo só inferioriza se

                                                                                              você se deixa inferiorizar por ele. O palha-

                                                                                              ço é um perdedor, e com isso ganha muito

                                                                                              mais em identificação e simpatia do público.

                                                                                              A graça do Air Sex e do Air Guitar é ver gen-

                                                                                              te normal, como qualquer um de nós, fanta-

                                                                                              siando na frente de todo mundo sem ter o

                                                                                              menor medo do ridículo.

                                                                                              Isso está me cheirando a muito mais que só

                                                                                              casualidade.




sada, os moradores do bairro tiveram a opor-   absolutamente divertida e sem fazer mal a

tunidade de externalizar as suas fantasias e   ninguém. Na verdade, é muito mais que isso:

perversões mais incubadas de uma maneira       é dar-se a chance de rir de si mesmo, fazen-
BaRceLoNa
barCElONa                                                                                                                                                                          barCElONa




                                                                                                  dela pelo menos por causa da festa em que       Mixtape Lalai E Ola Pro Lucas Do @99novas
POst
                                                                                                  tocou no Big Brother Brasil. Sobre a expe-      #Sharing9 by I’M The Machine on Mixcloud
12
19 jan
                                                                                                  riência, ela diz que foi muito interessante,    Pra saber mais sobre a Lalai, você pode
            POST 12: #SHARING9 – LALAI E OLA PERSSON FIZERAM MIXTAPES PRA
                                                                                                  porque “se, por um lado, era o menor públi-     acessar:
            FESTA ROLAR SOLTA EM BARCELONA.
                                                                                                  co pra que já tocamos (eram 10 djs para 10      http://www.lalai.net

E na capital da Cataluña, vamos de quê? De música também! Sabendo que essa cidade é casa          pessoas na casa), por outro lado era o maior    @lalai

da juventude européia, nada melhor pra aglutinar todo mundo do que dar uma festa. Então           de todos!”. De público presente mesmo, ela

dessa vez o presente são alguns sets especialmente preparados pela DJ Lalai, de São Paulo, em     também já tocou pra quase 25 mil pessoas

parceria com o Ola Persson, da Suécia. Vejam aqui como foi a entrega do presente e um pouco       na festa Experience ano passado.

mais do que vem por aí nessa festa.

                                                                                                  Então é isso aí e vamos lá! Barcelona vai re-

                                                                                                  ceber um presentão e vocês vão poder sen-

                                                                                                  tir um pouco desse gostinho acompanhando

                                                                                                  tudo por aqui. Mas, se quiserem aproveitar

                                                                                                  uma canjinha já de agora… podem ouvir aqui

                                                                                                  mesmo o “mixtapezinho” feito pelo Ola es-

                                                                                                  pecialmente pra festa. São 40 músicas em

                                                                                                  30 minutos, e haja pique!




   http://www.youtube.com/watch?v=cBM7HL8zRTs

A Lalai ficou mega-feliz de ter ficado com Barcelona, pois foi a primeira cidade fora do Brasil

onde ela pôs os pés. Ela preparou um set especial com um pouco das coisas que ela mais

gostou de tocar ao longo da carreira, avisando logo que é pra eu estar preparado pra coisas

pesadas. Afinal, embora ela seja mais conhecida no eletrônico, ela veio mesmo do rock, e essa

marca está sempre impressa no seu trabalho. De fato, a primeira festa ela que organizou foi

uma festa rock de domingo à noite, que só conseguiu porque era um horário em que a casa de

show não funcionava, mas depois ficou maior do que a festa principal da casa.

Daí em diante começou uma ascensão notável e a incorporação do eletrônico foi natural. Jun-

to com as mudanças vieram novos convites e públicos, e talvez vocês já tenham ouvido falar
barCElONa                                                                                                                                                                                                barCElONa




POst

13
19 jan      DE “NÃO É POSSÍVEL!” AO “PENSANDO BEM, É MESMO” – QUEM DIRIA QUE

            A TENDÊNCIA SERIA O BRASIL?

Eu teria todas as razões do mundo para dizer      zil. Joguei a toalha e pensei “não é possível!”.

que a minha primeira noite em Barcelona foi       Só que aí é que você pára pra pensar e vê

um fiasco. Depois de uma revigorante noite        que, se prestar atenção, tem alguma coisa

de sono de 15 horas, saí disposto a fazer a       pra se tirar disso sim. Afinal de contas, não
                                                                                                     de dança de todos os Estados Unidos, se            o fashion é ser brasileiro, todo mundo quer
grande abertura dessa nova etapa! Marquei         tinha tanto brasileiro assim no Hostel… em
                                                                                                     não o melhor). E lá eu estava para assistir a      ter alguma coisa de lá.”, disse essa menina

                                                                                                     uma aula de… capoeira. Para se ter uma ideia,      cujo nome não me recordo.

                                                                                                     Sabem quem estava ensaiando na sala logo

                                                                                                     embaixo da sala da capoeira? Sim, é verda-

                                                                                                     de, eu não estou inventando nada: simples-

                                                                                                     mente, Lady Gaga.



                                                                                                     Se nada disso significa visibilidade para o

                                                                                                     Brasil no mundo inteiro, então eu não sei o

                                                                                                     que significa. Eu estava até guardando essa

                                                                                                     percepção pra quando tivesse mais material

                                                                                                     pra sustentar a tese, mas é bom dividir com

                                                                                                     vocês pelo menos alguma coisa logo. Vejam

de encontrar com uma amiga que mora aqui          Nova Iorque menos ainda… e na sexta feira          mais uma que eu ouvi de uma americana              (Foto tirada em pleno Harlem, lugar com a maior concentração


há quatro anos e ia me dar várias dicas. Mas      todos foram para a noite brasileira de uma         uma semana atrás:                                  de salões de beleza por metro quadrado que eu já vi no mundo)


não deu certo. Fui então com outros ami-          boate. Eu conheci pessoas maravilhosas no

gos procurar uma noitada legal e demos de         Brooklin, que saíram pra comemorar um ani-         “É, sabe que antigamente tudo era ‘French          Tudo isso é sinal de que, se ainda não somos

cara com três fechadas (mesmo com nos-            versário no… Miss Favela.                          qualquer coisa’. Agora tudo é ‘brazilian não       uma tendência, pelo menos estamos na vitri-

sos guias dizendo o contrário). Cheguei ao        Juntem então mais alguns elementos: terça          sei o quê lá’. Já viram a Brazilian Dry, dos sa-   ne. É bom prestar atenção… o mundo inteiro

Hostel e vi uma galera enorme indo pra uma        fui conhecer uma escola de dança na West           lões de beleza? O que que tem de ‘brasileiro’      está prestando. A questão agora é entender

festa. Pensei: beleza, vou salvar o noite! Che-   55th St chamada Ailey’s Dance Theater (sem         em fazer uma escova normal??? Acontece             o que é que ele está vendo.

gando lá, o nome da festa era … Made in Bra-      o menor exagero, um dos melhores centros           que antes era chique ser francês. Mas agora
barCElONa                                                                                                                                                                                barCElONa




POst

14
19 jan      POST 14: NUNCA SUBESTIME UM BAR – EM BARCELONA ELE PODE SER

            MUITO MAIS DO QUE PARECE

Ok, já deu pra perceber que Barcelona é uma     Mas é isso mesmo! Em primeiro lugar, a

questão de fuçar, fuçar e fuçar até encontrar   agência percebeu que, muito melhor do que

onde estão os lugares que interessam de         receber os clientes em um escritório, era re-

verdade e que nenhum turista jamais suspei-     cebê-los em um bar, de onde podiam já dar
                                                                                                ma coisa: há diversas aulas, desde como fa-       zem para experimentar essas experiências.
tou da existência. E é aí que entra a minha     uma esquentada para o passeio. Além de to-
                                                                                                zer drinks até cozinha espanhola. Isso sem        Voltado ao nosso bar-agência de viagens-
primeira descoberta. Numa ruazinha estrei-      mar um drink e comprar pacotes de viagens,
                                                                                                contar as frequentes sessões gratuitas de         escola, dá pra se ter ideia do espírito da coisa
ta do centro, fica a sede de uma agência de     as pessoas podem subir um andar, e em um
                                                                                                filmes “Cult”.                                    pelo que está escrito na parede do banheiro,
viagens chamada Stoke Travel. Quando você       espaço que um apartamento reestruturado
                                                                                                Um bar que também ensina? Uma agência             onde diz: “coisas que queremos fazer pelo
chega, acha que errou o endereço mais uma       para receber mais gente, porém sem perder
                                                                                                que é bar? Um cineclube com cachaça? Re-          mundo”:
vez, afinal de contas, o lugar é um bar.        o clima intimista, realmente aprender algu-
                                                                                                almente, não é tão fácil definir o espaço, mas

                                                                                                dá pra perceber que a questão aqui é não se       Realmente… pescar com esquimós e dormir

                                                                                                contentar com o óbvio e evitar aquela sen-        num iglu, acampar na Ilha de Páscoa, traba-

                                                                                                sação de peixe fora d’água que geralmente         lhar num rancho com os vaqueros da Argen-

                                                                                                o turista tem, de não pertencer ao lugar. O       tina, fazer um tour de danças pela América

                                                                                                Stoke Travel convida os viajantes a sentir e      Latina, nadar o Rio Amazonas (e sobreviver)

                                                                                                a aprender como é viver ali, fazendo roteiros     e fazer um menáge-à trois no carnaval não

                                                                                                e programas de pessoas locais. Experiências       são histórias que qualquer um pode contar.

                                                                                                bem diferentes das que encontramos no bal-        E essa história de não ser “qualquer um” é

                                                                                                cão de informações do aeroporto.                  exatamente o melhor e o pior de Barcelona.

                                                                                                Mas sair dos destinos óbvios em viagens,          Se, de alguns anos pra cá, o poder público

                                                                                                não e exatamente uma novidade. Mas, as            tem apertado o cerco contra o barulho ex-

                                                                                                maneiras de como esse comportamento se            cessivo que sempre caracterizou a atmos-

                                                                                                manifesta pode traxer algo novo.                  fera festiva e artística da cidade, como res-

                                                                                                Nas redes sociais, o CouchSurfing é um            posta muitos lugares adotaram a estratégia

                                                                                                exemplos de como os portadores desse “es-         de manterem-se o mais low-profile possível,

                                                                                                pírito de viajante” (ao invés de “turista”) fa-   tanto para evitar a polícia quanto para bus-
barCElONa                                                                                                                                                                            barCElONa




car por meio da exclusividade um prestígio ainda maior nos círculos que visam conquistar.
                                                                                                  POst
E é bom que se diga: esses círculos são cada vez mais restritos.

Se, por um lado, é ótimo poder contar coisas que só você fez, por outro uma parte desse espíri-   15
                                                                                                  19 jan   MáGICA NÃO É SEGREDO – SEGREDO É O EXCLUSIVO.
to tem se transformado em exclusivismo puro. Não estou falando dos lugares escondidos, que

são uma delícia de procurar, mas daqueles que decidiram selecionar seus frequentadores, para

que só alguns poucos “eleitos” tenham os privilégios que oferecem. Não adianta fingir que não     Esses dias foram de muita caminhada no          tempo todo. Ela me respondeu, para minha

percebi e que tudo isso é normal: Barcelona, definitivamente, não é cidade pra “qualquer um”      centro de Barcelona, com algumas desco-         surpresa, que:

também no sentido mais vulgar da expressão. Quero dizer que, pra aproveitar algumas atra-         bertas interessantes. Uma delas foi essa loja   “Sim, mudou. Pra melhor. O público de hoje

ções, não basta dinheiro no bolso, tem que ter também “bala na agulha”.                           de artigos de Mágica, que existe há nada me-    é muito mais bem informado, e isso trans-

Se você quiser realmente sentir o que Barcelona tem de melhor, não pode, de maneira nenhu-        nos que 130 anos!                               formou totalmente o mundo da mágica.

ma, ser turista. Tem que ser, no mínimo, um explorador

…e andar bem vestido.




                                                                                                  A casa foi fundada por um mágico e segue        Antigamente, tinha uma mística do ‘segredo’,

                                                                                                  tocada por mágicos até hoje. Pensei: ótimo,     como se tivesse quase uma paranormalida-

                                                                                                  aqui tem conteúdo pra eu extrair. Numa con-     de no que era feito… então os mágicos não

                                                                                                  versa com a proprietária atual (no cargo há     ensinavam a ninguém o que sabiam, tudo ti-

                                                                                                  26 anos), eu ouvi o galo cantar quando per-     nha que ser descoberto por conta própria,

                                                                                                  guntei se ela sentia que a relação do públi-    porque senão eles estariam traindo a pro-

                                                                                                  co com a mágica tinha mudado muito nesse        fissão. Hoje, o público sabe que não existe
barCElONa                                                                                                                                                                                barCElONa




‘segredo’. Se ele quer descobrir como algo é       pacidade de gasto suficiente para comprar
                                                                                                   POst
feito, ele simplesmente vai à internet e, se for   um Porshe. Não interessa muito se você re-

esperto, descobre. Então não tem por que a         almente tem esse dinheiro todo e comprou        16
                                                                                                   19 jan   ISSO NÃO NASCEU AGORA – PARTE 1: DO LIXO à MODA
mágica seguir se alimentando do mistério da        o carro ou se você ganhou num sorteio: o

mesma maneira como fazia há tanto tempo.           que importa é como as pessoas lêem o sinal

Hoje, somos muito mais uma técnica. Fasci-         que você manda quando gira a chave. Qual        Mais uma vez, o colorido de uma vitrine cha-     do lixo. Em Nova Iorque eu tinha conhecido

nante, encantadora e misteriosa, mas uma           seria, então, o sinal de distinção dos nossos   mou minha atenção. Chamar é fácil, captu-        o trabalho do Ggrippo, que ele mesmo cha-

técnica. E é por nos assumirmos assim que          tempos? Dinheiro para gastar? Corpos es-        rar é que é difícil. Só que percebi que, nesse   mava de Trash-à-Porter, e aqui dei de cara

evoluímos tanto, deixando pra trás aquela          culturais?                                      caso, estava diante de uma proposta com          com o que eles chamam de Trashion. O foco

ideia de que ensinar e multiplicar a arte era      No mundo do compartilhamento, o grande          eco muito maior do que pensei de primeira,       está em produzir bolsas, mochilas, sacolas,

motivo de vergonha.”                               lance não é mais colecionar bens. É colecio-    e quando me dei conta disso percebi que vá-      pastas e carteiras a partir de cartazes de pu-

                                                   nar histórias.                                  rias observações que tinha feito se ligavam.     blicidade. No seu site eles parecem gostar

Realmente, esse tema do ‘segredo’ é muito          Ter uma história pra contar significa acessar                                                    bastante do que fazem:

mais interessante do que eu pensava no co-         coisas a que nem todo mundo tem acesso,         A loja se chama Vaho Works, e é mais um          “No momento da despedida, logo antes de

meço. Quando as redes sociais colocaram            experimentá-las, e depois exibi-las, de pre-    espaço dedicado a produzir moda a partir         dizer adeus, os objetos e materiais que dis-

nossas experiências e registros online, ex-        ferência quando elas não podem mais ser

plodiu um movimento que podemos chamar             repetidas por outra pessoa. E é aí que o “se-

de tudo, menos secreto. No máximo, quan-           gredo” se reinventa. Se o imperativo é o con-

do nos preocupamos um pouco mais com a             trário de esconder, é contar, o grande lan-

questão da privacidade, nos tornamos “dis-         ce se torna “contar histórias secretas”. Mas

cretos”, mas o próprio conceito por trás da        como elas deixam de ser secretas assim que

utilização da rede é o de “compartilhar”, dia-     contamos, viram seu parente próximo, que

metralmente oposto ao de esconder. Então           vai mandar no mundo pelos próximos anos:

eu comecei a me questionar e percebi uma           o exclusivo.

coisa…                                             Prestem atenção nesse tema. Ele vai muito

Quais são os elementos essenciais para que         além do que a gente vê na primeira olhada.

uma coisa confira status a quem a possui?          Barcelona está sendo uma grande oportu-

Um deles é ser raro, ou melhor, distintivo.        nidade de descobrir e investigar como essa

Algo pelo qual se possa reconhecer indícios        tendência está modificando o comporta-

de qualidades que você tenha. Ter um Por-          mento em várias direções.

she, por exemplo, indica que você tem ca-
barCElONa                                                                                                                                                                                barCElONa




pensamos suspiram, com a esperança de             ressante: se o grande lance não é mais co-
                                                                                                  POst
serem salvos. Todos merecem uma segunda           lecionar bens, e sim colecionar histórias, ao

chance, transformar-se para mostrar novas         produzir bens a partir da transformação de      16
                                                                                                  27 jan ISSO NÃO NASCEU AGORA – PARTE 2: DE ANTIGUIDADE
utilidades ao mundo que os rejeitou. Ressus-      materiais que já serviram a outra função, a
                                                                                                           A PAIXÃO DE JOVENS
citar materiais e buscar tesouros perdidos        grife passa a criar bens com histórias pra

entre os desejos do progresso e da moderni-       contar. Todas as bolsas tem umas história       A Parte 1 desse post me leva diretamente ao      jovens. Eles não têm dinheiro pra comprar,

dade é parte do nosso trabalho. E nos diver-      pregressa, o que é apenas mais uma maneira      encontro que tive há dois dias com a dona de     mas os olhos brilham quando vêem as coisas

timos muito fazendo-o.”                           de dizer que não se originam como uma fo-       uma loja de antiguidades chamada Anamor-         aqui. E se você me pergunta se eu me pre-

Se fosse só cool e divertido, a loja não dura-    lha em branco na suas mãos.                     fose. Não era qualquer loja, essa era especia-   ocupo com o fato deles não comprarem, eu

                                                                                                  lizada em antiguidades científicas e em tec-     digo que não: mais importante do que saber

                                                                                                  nologia. Vejam o que ela me falou e juntem       como está o negócio agora, é saber como ele

                                                                                                  com as fotos pra ver como tudo se encaixa.       vai estar, e eu sei que esse interesse todo não

                                                                                                   - Antigamente, nossos clientes eram mu-         é coisa passageira.

                                                                                                  seus, gente rica, e colecionadores. Agora,       -      Não te parece que isso é uma busca

                                                                                                  as pessoas ricas não compram mais anti-          por entender de onde as coisas vieram? Por

                                                                                                  guidades, elas viajam, e o que mais me sur-      exemplo, hoje a gente tem um iPod que faz

                                                                                                  preende é ver que uma parte muito grande         de tudo mas não fazemos a menor ideia de

                                                                                                  dos frequentadores da loja passou a ser de       como ele funciona. Quando a gente entra na

                                                                                                                                                   sua loja, pode enxergar a ideia por trás de

ria o tempo que dura. Existe algo mais então.                                                                                                      cada coisinha, ver um cinematógrafo e enten-

Ok, a questão da reciclagem, da reutilização                                                                                                       der como se gravam imagens em movimen-

e revalorização dos objetos, com certeza                                                                                                           to, olhar aquela primeira máquina falante do

tem um peso enorme para o sucesso da mar-                                                                                                          mundo [sim, leitores, ela tem uma versão da

ca, e é o eixo central do conceito inteiro. Mas                                                                                                    invenção do Thomas Edison] e pensar como

ainda assim, tem algo mais… e é esse algo é                                                                                                        é que isso acontece. O iPod é como que algo

simples:                                                                                                                                           parido na nossa mão. Isso aqui vem de muito

Não existe peça repetida. Todas são únicas e                                                                                                       antes, tem uma história, e conta muito mais

você sai com a certeza de que comprou algo                                                                                                         sobre como as coisas funcionam.

que só você vai ter…                                                                                                                               -    Exatamente. Sabe o que eu penso disso

É o exclusivo sobre o qual falei no post an-                                                                                                       tudo? Que esses jovens vão ter as novidades

terior, aplicado de uma maneira muito inte-                                                                                                        para usá-las, e as minhas coisas para vivê-las.
barCElONa                                                                                                                                             barCElONa




                                                 POst

                                                 17
                                                 19 jan      SE VIRA NOS 20 – DEGUSTAÇÃO DE IDEIAS NO PECHA-KUCHA NIGHTS




                                                 (Esboço de cartoon gentilmente cedido por Drew Dernavich, um dos cartunistas que participaram do Nib and Pick –
                                                 Fisticuffs, de que falei num post um pouco mais antigo)

Não preciso dizer mais nada. Em duas tarde

eu vi o espírito do “Know your own stuff” se
                                                 Que cada vez mais a vida nos obriga a ser                 nês para algo como “conversa casual” (chit
mesclar com o exclusivismo numa proposta
                                                 concisos todo mundo sabe (o que falar dos                 chat). A ideia aqui é criar um evento onde as
afinada com a busca por sustentabilidade;
                                                 140 caracteres?). Ao mesmo tempo, po-                     pessoas possam expor seus trabalhos ou his-
um movimento de perda de clientes que dei-
                                                 rém, seguimos nos esforçando para colocar                 tórias de uma maneira muito simples, quase
xaram, dessa vez literalmente, de colecionar
                                                 cada vez mais conteúdo nas mensagens que                  no tom de numa conversa de elevador, para
bens para viajar e colecionar histórias; e o
                                                 transmitimos para que elas possam ir além                 que a platéia esteja sempre com um nível de
surgimento de um novo mercado para uma
                                                 do mero papel informativo, e isso não é no-               atenção sempre muito alto. E para isso cria-
velha oferta baseado justamente na busca
                                                 vidade também. Aí fica mais claro então por               ram o formato do 20×20: Cada apresenta-
por entender de onde vem as suas coisas
                                                 que o conceito do Pecha-Kucha é tão inte-                 ção só pode usar, no máximo, 20 imagens,
através da história das ideias por trás delas.
                                                 ressante.                                                 as quais serão projetadas por exatamente
Acho que está bom por hoje, não tá não?
                                                 Originalmente, Pecha-Kucha é o termo japo-                20 segundos cada. E não tem conversa: elas
barCElONa                                                                                                                                       barCElONa




passam automaticamente, sem possibilida-         De fato, já houve apresentações sobre via-

de de chatear com o velho “volta no slide        gens, impressões, sentimentos, e até mesmo

anterior um pouquinho pra eu explicar me-        a filha de uma das criadoras do evento, de

lhor isso…”                                      5 anos de idade, já apresentou sobre um de

                                                 seus trabalhos de escola. Isso é um enorme




Esse esforço de síntese fez muita gente com-     incentivo à criatividade e à ousadia daqueles   crescer ainda muito mais. No site oficial do

parar os eventos com o TED – Ideas Worth         que nunca tiveram espaço para expor, e abre     projeto, que vale muito a pena e tem várias

Spreading, em que grande nomes extrema-          espaço para novas ideias saindo diretamen-      apresentações pra ver, tem também o calen-

mente influentes nas suas áreas são convida-     te de quem as criou com a possibilidade de      dário das próxima Pecha-Kucha Nights pelo

dos a fazer a “fala das suas vidas” em, no má-   conversar tête-à-tête com seus autores no       mundo todo. Enquanto isso, fiquem com

ximo, 18 minutos. Se a comparação é muita        evento.                                         essa apresentação de um artista chamado

lisongeira, não tem a mesma medida de pre-                                                       Mateusz Staniewsk sobre como pintar com

cisão, porque há uma diferença fundamental       E pelo jeito como a casa estava ontem –         luz na 10a edição de Barcelona (anterior à

entre os dois: na Pecha-Kucha qualquer pes-      evento lotou o teatro de uma antiga fábri-      da noite de ontem) pra ter um gostinho de

soa pode apresentar sobre qualquer tema,         ca de cervejas de Barcelona, como podem         como foi tudo.

não só sobre o seu trabalho ou grande tema       ver na foto aí em cima – pode-se dizer que

de pesquisa da vida.                             e a tendência é que o movimento continue a
barCElONa                                                                                                                                                                              barCElONa




POst

18
19 jan      SENTARTE – UM BAITA APERITIVO



A ideia aqui é falar de tendências, e por ten-   Pra quem não conhece, SWAB (cotonete,

dência a gente entende o que ainda não é,        em inglês) é uma grande mostra de arte

mas vai ser. Esse sábado me deu então uma        contemporânea que “absorve” (daí o nome)

grande oportunidade de ver pra onde está         44 galerias de arte de toda Barcelona, e que

indo uma parte da arte urbana através de         esse ano acontecerá pela quarta vez entre

uma ação chamada SentArte, que integra os        os dias 26 e 29 de maio. Para a atividade
                                                                                                seus modelos (o banco “Rail” e a cadeira          das cidades.
preparativos para a SWAB de 2011.                desse sábado, a empresa de design de pro-
                                                                                                “Nuit“) para que os um grande grupo de ar-        Isso pra não falar na possibilidade de ver o
                                                 dutos em madeira Concepta cedeu dois de
                                                                                                tistas “swabbers” (nesse caso membros do          trabalho acontecer ao vivo. Na verdade, eu

                                                                                                coletivo Kognitif) interviessem e realizassem     fiquei um tempo pensando em como clas-

                                                                                                suas criações. Agora o mais legal: tudo isso      sificar essa história… porque embora o cli-

                                                                                                podia ser visto ao vivo, por quem quisesse,       ma fosse totalmente de Vernissage – com

                                                                                                na cobertura de um hotel, com direito a be-       os artistas presentes, o público do meio, tal

                                                                                                bidas, pãezinhos e até uma linguicinha pra        -, o espaço abriu com um monte de obras

                                                                                                completar o clima de churrasquinho na laje        em branco. Lembrei daquela performance

                                                                                                do evento.                                        do Watch me Work, da Suzan-Lori Parks, de

                                                                                                O SentArte é termômetro de como está cres-        que falei aqui antes.

                                                                                                cendo violentamente a arte urbana por todo        É engraçado parar pra pensar no porquê de

                                                                                                o mundo. Todo o mobiliário criado no dia          estar crescendo tanto essa curiosidade em

                                                                                                fará parte do SWAB Off, mostra que ocupará        ver as coisas nascerem. Ninguém quer mais

                                                                                                as ruas da cidade paralelamente às ativida-       ver nada parido na sua mão. Eu já falava do

                                                                                                des nas galerias. Mais do que um aperitivo        espírito de saber de onde veio, mas tem gen-

                                                                                                literal (a linguiça tava realmente muito boa!),   te já além dessa onda, pra quem não basta

                                                                                                o SentArte é também um aperitivo do que           saber, tem que presenciar e ver. E isso está

                                                                                                está acontecendo com a arte urbana, que           botando uma parte do mundo das artes pra

                                                                                                está ampliando muito o uso de diferentes          se repensar e se reinventar mesmo.

                                                                                                plataformas para além dos muros e paredes         Vamos continuar de olho pra saber até onde.
barCElONa                                                                                                                                      barCElONa




POst

19
19 jan      E SE… O FLAMENCO E A BOSSA-NOVA SE ENCONTRASSEM? –

            SARAVACALÉ!

Até agora eu não tinha falado nada de mú-      Já pensaram em misturar Flamenco com

sica. Acho que foi bom… porque vou abrir o     Bossa Nova? Elas já. Não vou mentir que

tema com uma pérola sensacional, dessas        quando conheci a percussionista da banda e

que deixam a gente em polvorosa, ouvindo       ela me falou do trabalho fiquei curioso mas

maravilhado e se coçando todo pra espalhar     ressabiado, sem conseguir imaginar como é

a novidade. Na verdade são duas, e a primei-   que faziam isso e com aquele medo de a pro-

ra delas é o SaravaCalé.                       posta ser mais interessante do que frutífera.      http://www.youtube.com/watch?v=3cA9kw8tmTM


                                                                                               Me enganei completamente! O trabalho é

                                                                                               da mais alta qualidade, com músicos e prin-

                                                                                               cipalmente arranjos muito criativos. Melhor

                                                                                               você mesmos escutarem pra depois a gente

                                                                                               conversar.




    http://www.youtube.com/watch?v=R_t4nWgqdIg
                                                                                                  http://www.youtube.com/watch?v=rz3dg8viilE
barCElONa                                                                                                                                                                                barCElONa




POst

20
31 jan      VOLTO Já, SÓ VOU ALI RAPIDINHO IMPRIMIR… MEU SAPATO! – IMPRES-

            SÃO 3D NA DISSENY HUB BARCELONA

Nossa Senhora! Agora eu pirei! Primeiro olhem esse objetos aí embaixo:




                                                                                                 gia da “fabricação aditiva”.                      nho para que a imaginação humana concre-

                                                                                                 Pra quem já estudou Cálculo, posso dizer          tize ideias que antes eram apenas concebí-

                                                                                                 que conceito é a explicação intuitiva de um       veis, ou, no máximo, visualizáveis numa tela

                                                                                                 processo bem simples: a integração dupla.         de computador.

                                                                                                 Pra os outros 99% que não fazem ideia do

                                                                                                 que eu acabei de dizer, a ideia é imprimir ca-    Pra que vocês tenham ideia do que estou di-

                                                                                                 madas muito finas sequenciadas para poder         zendo, vejam alguns das suas vantagens:

                                                                                                 colocá-las umas sobre as outras até que for-

                                                                                                 mem a figura tridimensional.                      Biologia (até agora estou boquiaberto com

                                                                                                                                                   essa): Dá pra criar ou recompor tecidos hu-

                                                                                                 A questão aqui é que isso tudo é muito mais       manos a partir dessa tecnologia! Um campo

                                                                                                 do que descolado ou “cool”: estamos dian-         absolutamente alvissareiro na biotecnologia

Vocês podiam dizer “que espremedor legal,       que você tinha convidado, simplesmente           te de uma tecnologia que pode revolucionar        acaba de nascer.

design bonitinho…”. Mas… e se eu contasse       desse pra imprimir umas cadeiras a mais ali      completamente a nossa maneira de criar ob-

que eles foram todos… impressos? Isso mes-      no quarto? Pois tem um monte de designers        jetos! A grande maioria das máquinas que          Culinária: sim, já existem trabalhos relaciona-

mo: impressos em 3D!!!                          e engenheiros no mundo todo trabalhando          criamos existem para substituir processos         dos a imprimir comida também, utilizando

Ah, vamos lá… todo mundo já teve von-           pra que isso seja possível, e o Disseny Hub      conhecidos (colar, recortar, unir, partir, mis-   ingredientes como matéria prima.

tade de tirar uma “xerox” de alguma coisa       Barcelona (DHUB) organizou uma exposição         turar, aquecer, esfriar….), mas existe um pe-     Design de materiais: com a composição em

em casa. Já pensou se naquela feijoada de       permanente exatamente para disseminar as         queno grupo daquelas máquinas que criam           camadas adiciona-se material apenas onde

domingo, quando chegasse mais gente do          infinitas possibilidades abertas pela tecnolo-   processos. A “fabricação aditiva” abre cami-      ele é desejado. A criação de novos materiais
barCElONa                                                                                       barCElONa




e tecnologias torna-se possível por meio de     Esse post existe apenas para abrir o assunto.

diferentes microestruturas internas.            Tecnologia nenhuma pode ser chamada de

Medicina: um das suas primeiras aplicações      tendência: tendência é o tipo de comporta-

(e até hoje a mais conhecida) foi a constru-    mento que as pessoas passam a ter a partir

ção de próteses sob medida para se inte-        da sua utilização. Se agora, enquanto ainda

grar perfeitamente à anatomia do paciente.      é extremamente cara e restrita, a “impres-

O mesmo acontece para o material esporti-       são 3D” já está causando esse rebuliço todo,

vo também.                                      imagine quando se tornar acessível nas nos-

                                                sas casas…

Artes plásticas: Todo um método de traba-

lhar livremente a forma abre as portas agora.
barCElONa                                                                                                                                                                      barCElONa




                                                                                              ousadia era também resposta à desumaniza-     Como qualquer grande ideia que se espalha,
POst
                                                                                              ção das grandes cidades, que perdiam cada     muitos outros significados e proposições co-
21
01 fev
                                                                                              vez mais suas cores em meio à selva de con-   meçaram a se incorporar à atividade à medi-
            AGULHAS NA MÃO E MÃOS à OBRA – A “GUERRILHA DO CROCHÊ” VAI
                                                                                              creto e aço em que se convertiam. Para além   da que outros grupos começaram a praticá-la.
            TRANSFORMAR A SUA CIDADE
                                                                                              da bela provocação, porém, Magda verda-       Um deles, por exemplo, é o da incorporação

                                                                                              deiramente acrescentou um novo material       de um caráter mais feminino à dureza que

                                                                                              ao mundo das artes urbanas.                   muitas vezes o grafitti carrega. Também não




                                                                                              (Tree Cozy – Carol Hummel)




A milhares de quilômetros da Espanha, do     do isso com algumas pesquisas na internet,

outro lado do oceano, uma árvore já tinha    pude fazer um resumão da (até agora breve)

chamado minha atenção em Williamsbourg       história desse movimento.

por estar envolvida com um peça de tricô,    Tudo começou com uma americana cha-

como que agasalhada do frio (olhem a foto    mada Magda Sayeg, na pequena cidade de

dela no meu último post de Nova Iorque).     Austin, Texas. Em 2005, ela começou a levar

Imaginem então a minha satisfação ao dar     sua atividade de tricotar para as ruas, naqui-

de cara, bem no meio de Barcelona, com       lo que se tornaria um grande questionamen-

nada menos que a “4a Guerrilha do Crochê“!   to sobre o propósito meramente funcional a

Bem ali, na minha frente, ao vivo! Juntan-   que essa atividade tinha sido relegada. Sua      (Knitta Bus Project – Knitta Please)
barCElONa                                                                                                                                                                          barCElONa




dá pra notar que, se a Magda Sayeg come-       dar, se coçando toda pra participar de tudo      Esse caráter coletivista eu pude ver in loco     uma nova rede de amizades (com tempo pra

çou sozinha, não foi assim tudo se espalhou    isso? As chamadas especificam o tamanho          na 4a Guerrilha do Crochê, que convocou          conversar), interfere e reinventa o espaço

pelo mundo: outro traço inegável é o viés      das peças que cada um deve levar (às vezes       seus membros a trazer peças apenas da cor        urbano a partir do seu olhar e ainda ganha

coletivista que a guerrilha ganhou.            as cores também, dependendo do propósito         verde, visando chamar a atenção para a fal-      uma cacetada de sorrisos de quem passar

Pra se ter uma ideia, o próprio termo guer-    do dia), assim como o local e o horário do       ta de áreas verdes em Barcelona. Dessa vez       por perto. A dica está dada. Agulhas na mão

rilha só surgiu depois, quando começaram a     “ataque”. Chegando lá, todo mundo ajuda a        eles se juntaram com um grupo de vizinhos        e mãos à obra!

surgir as “chamadas” pela internet para re-    juntar tudo numa coisa só, enquanto quem         que se reúnem do Bairro do Gótico para con-

alização das ações. Já pararam pra pensar      deixou pra tricotar na hora fica sentadinho      versar toda terça-feira. Uma vez terminado,

no trabalho que dá tricotar o suficiente pra   aproveitando pra botar o assunto em dia          o trabalho fica com esses vizinhos, numa

cobrir uma ônibus? Por que fazer sozinho se    (afinal de contas, tricotar sem jogar conversa   maneira de garantir que não seja removido

tem um monte de gente interessada em aju-      fora é que nem sair no carnaval sem dançar).     tão facilmente pela polícia.

                                                                                                As edições anteriores da guerrilha em Bar-

                                                                                                celona agasalharam a estátua do gato da

                                                                                                Rambla de Raval, árvores e pés de bancos (a

                                                                                                primeira delas, em agosto do ano passado).

                                                                                                Para saber mais sobre essa proposta inova-

                                                                                                dora e se inteirar sobre onde devem acon-

                                                                                                tecer as próximas intervenções pelo mundo,

                                                                                                visitem as páginas de alguns dos coletivos

                                                                                                envolvidos nessa “batalha”. Alguns deles são

                                                                                                realmente muito ativos, como o pessoal do

                                                                                                Knit The City, de Londres. Também vale a

                                                                                                pena se ligar no grupo canadense YarnBom-

                                                                                                bing, no próprio KnittaPlease (da Magda

                                                                                                Sayeg), sem falar na Olek, artista polonesa

                                                                                                radicada em Nova Iorque do vídeo abaixo.

                                                                                                Olha o que ela fez nessa véspera de natal

                                                                                                com o Touro de Wall Street!

                                                                                                Agora, bom mesmo é se vocês decidirem

                                                                                                começar aí mesmo onde estiverem. É fácil,

                                                                                                divertido, te ensina uma nova habilidade, cria
barCElONa                                                                                                                                                                    barCElONa




POst

22
02 fev #SHARING9 – LALAI ANIMA A FESTA NUM OCUPA

            EM BARCELONA




                                                                                              ção e criar contatos que podem durar        abre a partir de 2:30 ou 03:00 da manhã, pra

                                                                                              para toda a vida.                           galera que já terminou a sua primeira festa

                                                                                              Fui conhecer um deles, e conversei com      e quer continuar. Autorização dada, marca-

                                                                                              algumas pessoas. Mas foi quando fui falar   mos a festa pra segunda-feira 31 de janeiro.

                                                                                              com um dos brasileiros de lá que me deu     O quê? Tipo, madrugada de segunda pra

                                                                                              o “click”. Eu estava falando com ninguém    terça? Sim, em Barcelona não tem dia ruim

                                                                                              menos que o Nêgo Tema! MC no Rio de         pra festa. Querem a prova? Vejam o vídeo lá

                                                                                              Janeiro, ele foi morar em Barcelona já      em cima. Era por volta das três e meia da

                                                                                              tem algum tempo, e quando contei que        manhã quando eu filmei.

Eu passei um tempo me perguntando como         lugar, é parte de um movimento maior que       o Emicida foi o primeiro a participar do    Valeu, Lalai! Com certeza você ajudou a me

cumprir a missão do #Sharing9 com as músi-     existe em toda a Europa pela ocupação dos      #Sharing9, ele me abriu um sorrisão: os     dar mais um momento pra recordar dessa

cas que a Lalai escolheu pra mim. Não queria   espaços abandonados e sua transformação        dois se conhecem de longa data no Bra-      viagem. Mais do que tudo, um momento pra

fazer em qualquer lugar, pra uma galerinha     em moradias ou em centros culturais. Na Es-    sil, justamente das batalhas de MCs! Sa-    dividir ao vivo com muita gente, e levar um

no hostel ou só pra brasileiros… queria que    panha e, particularmente, em Barcelona ele é   bendo disso, o Tema abriu as portas do      pouquinho do Brasil pra Espanha também.

algumas pessoas de Barcelona mesmo sen-        bem forte, e pode-se dizer que as ocupações    Ocupa pra música da Lalai, e aproveitou     Até a próxima! Por enquanto, deixo todos

tissem o que ela preparou com tanto carinho    são um dos maiores pontos de encontro          a oportunidade pra mandar um “Salve!”       vocês com o set list de um dos mixtapes que

pra retribuir o que a cidade lhe deu quando    para a comunidade artística, especialmente     pro seu parceiro no Brasil. Emicida, essa   tocaram na festa.

esteve lá. Onde fazer a festa então?           aqueles que vêm de outros países para          é pra você.

A resposta veio depois que conheci um dos      agitar o meio cultural da cidade. É uma        Esse Ocupa funciona como um After Club,     Mixtape Lalai E Ola Pro Lucas Do @99novas

lugares mais legais de Barcelona durante mi-   grande chance de encontrar essa “máfia         um tipo de lugar relativamente comum em     #Sharing9 by I’M The Machine on Mixcloud

nha estadia. Um sítio OCUPA. Não é só um       criativa” no seu momento de descontra-         Barcelona (porém muito escondido), que só   Salve!
barCElONa                                                                                                                                                                            barCElONa




POst

23
03 fev COMENDO NO ESCURO – PERDIDOS EM TODOS OS SENTIDOS.




Já cheguei em Milão, mas ainda tem uma           exatamente esse: ser cego. Uma vez lá den-

última coisa pra contar de Barcelona. Acon-      tro, estamos no ambiente deles, tentando

tece que na minha última noite eu tive uma       encontrar pontos de referência nos nossos

das melhores experiências gastronômicas da       outros sentidos pra não nos sentir tão per-

minha vida, num restaurante chamado “Dans        didos.

le Noir“, e não podia deixar de falar dela.

Fui com uma amiga que disse logo na en-          A comida chega, e fica aquela dúvida: talher

trada que estava com fome, e recebeu já de       ou mão? Eu, particularmente, não pensei

cara um escalde do maitre: “você sabe que        muito… afinal de contas, ninguém tá olhan-

esse lugar é muito mais que comida, não          do! Então mão mesmo. É a chance de co-

sabe? Aqui não é só pra comer. É uma expe-       mer como você nunca comeu, em todos os

riência sensorial e social completa”.            sentidos. É inevitável o impulso de comentar

Pra encurtar a história, o esquema é o seguin-   com o vizinho misterioso alguma coisa so-

te: você chega no restaurante na hora mar-       bre o prato. Tentar descobrir o que é, divi-

cada, senta num lounge, os donos do lugar        dir uma impressão, qualquer coisa. O escuro

vêm, sentam com você, perguntam como             também aproxima as pessoas, uma vez que        do descobrir o que comemos. 90% das pes-        tas, como eu bem entendi em Barcelona, o

se tá tudo bem, batem um papo… tudo pra          não temos tanta informação para julgá-las e    soas erram. É batata. Com os vinhos então…      que interessa não é o que você faz, mas a

você sentir que a história é personalizada e     diferenciá-las.                                nem se fala. É a prova derradeira de que, de-   história que você conta. E nesse caso ela é

que você não é só mais um. Depois reúnem         Qualquer instrumento que faça luz, até mes-    finitivamente, comemos com os olhos.            muito mais interessante com o mistério do

todos os clientes na frente de uma cortina       mo relógio, está absolutamente proibido. O     Como eu entendi bem o espírito da coisa,        que com a resposta.

preta e explicam uma vez só: da cortina pra      tempo também é uma experiência relativi-       percebi que, mesmo que ninguém diga nada,       O jantar é no escuro. Esse post não podia ser

lá, acabou a nossa visão.                        zável, conforme percebemos ao sair de lá e     todo mundo sabe que o que comeu é segre-        mais que uma silhueta.

Vamos em fila, uns com as mãos nos om-           nos darmos conta do quanto passamos lá         do e não deve contar a ninguém. É tudo uma

bros dos outros, liderados pelos garçons, ou     dentro.                                        questão de códigos. Manter o exclusivismo

melhor, guias. Guias mesmo, porque um dos        Aí vem a parte mais interessante: todos jun-   da experiência, deixando que outros se sur-

pré-requisitos para trabalhar nessa função é     tos, sentados novamente no Lounge, tentan-     preendam da mesma maneira. Afinal de con-
mILÃo
mIlÃO                                                                                                                                                                                mIlÃO




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04 fev UM POUQUINHO DE HUMOR PRA COMEÇAR NA CIDADE.
                                                                                              25
                                                                                              05 fev MERCADORES DE ATITUDES – AUTOSUFICIÊNCIA, TROCAS E DESPER-

         ALFREDO BRESCIA E SEUS PINTURAS VIGILANTES.                                                   DÍCIO ZERO.


A passagem por Milão está só começando, e      Sempre bato palma pra quem sabe colocar

ainda preciso de mais um tempo pra come-       um sorriso fácil no rosto de quem passa.

çar a esboçar algumas impressões. Mas pelo     É assim que o artista desarma o especta-

menos posso dizer que essa pequena desco-      dor, mostrando que às vezes uma ideia bem

berta começou a quebrar um pouco do gelo       simples pode marcar mais que um trabalho

que o peso da tradição artística impõe sobre   mega sofisticado. Em uma cidade tão cheia

o lugar. Eu estava perto da Via Brera, lugar   de obras clássicas e museus de peso como

cheio de lojas de design e galerias de arte,   Milão, me surpreende esse tipo de obra, que

mas foi bem no meio da rua que encontrei       adiciona uma aparência de Pop Art a ícones

o artista Alfredo Brescia, e seu trabalho ao   de quadrinhos italianos antigos (como o he-

mesmo tempo simples e bem humorado. Só         rói de azul que infelizmente esqueci o nome)

dá pra entender vendo o vídeo, então se li-    ao mesmo tempo em que nos remete àque-

guem nos olhares.                              las figuras sinistras e soturnas de casarões
                                                                                              Mais um dia em Milão, mais uma caminhada.      liana que buscam viver em auto-suficiência.
                                               abandonados de filmes de terror ou dese-
                                                                                              Dessa vez, meus olhos foram capturados em      Não somos comerciantes porque não faze-
                                               nhos do Scooby-Doo.
                                                                                              dois lugares. Essa é a fachada do primeiro     mos isso buscando lucro, e sim para multipli-
                                               Como o cara é legal, me deu a dica de onde
                                                                                              deles, que fica perto da Porta Genova. Você    car essa postura, em que se produz o neces-
                                               encontrar trabalhos novos assim, e é pra lá
                                                                                              entra tentando descobrir de que se trata, e    sário e troca-se o excedente com outros que
                                               que eu vou amanhã procurar as tendências
                                                                                              logo pensa, pela disposição das prateleiras,   precisam dele. Todo mundo aqui é voluntá-
                                               e movimentos novos por aqui. Por hoje é só,
                                                                                              que é uma loja de produtos naturais. Mas já    rio, e esse é um espaço de troca em todos os
                                               mas se depender de gente feito ele, amanhã
                                                                                              na primeira porta se estampa: não somos        sentidos.”
                                               vai ter bem mais.
                                                                                              comerciantes. Resolvi perguntar o que eram     De fato, é um espaço de trocas. E não só de

                                                                                              então.                                         produtos, mas de ideias também. No dia se-

                                                                                              “Somos pessoas interessadas em fortalecer      guinte estava marcado um espetáculo gra-

                                                                                              um tipo de atitude. Nesse caso a atitude dos   tuito (se entendi bem, parecido com um

                                                                                              pequenos produtores da realidade rural ita-    stand-up comedy de protesto), sem contar
http://www.youtube.com/watch?v=ASIF1-083ys
mIlÃO                                                                                                                                        mIlÃO




                                                                                             ocupados por carros e pessoas, usar os es-

                                                                                             paços verticais pode ser a melhor maneira

                                                                                             de trazer a natureza para os grandes cen-
o pequeno acervo de livros que só podemos     tein Veblen – mais estudado pelo mundo da
                                                                                             tros urbanos. A diferença aqui é que esse, de
levar pra casa se deixarmos algum outro em    moda e pela teoria da marcas do que pelos
                                                                                             acordo com o quadro a seu lado, é “o pri-
seu lugar. Além do mais, sempre que um pro-   seus colegas de profissão – dizia que, embo-
                                                                                             meiro jardim vertical alimentado por ener-
duto está à venda, tem o seu custo de pro-    ra vivamos numa sociedade do desperdício,
                                                                                             gia solar”, reduzindo ainda mais o uso de
dução ao lado.                                não somos assim por natureza. Dedicou-se
                                                                                             energia de fontes “desperdiçadoras”, que a
Para um estudante de economia como eu,        então a estudar como reorientar o homem
                                                                                             produzem de maneira não-renovável e não
isso tudo soa meio fora de tom e de tem-      no sentido da eficiência não desperdiçado-
                                                                                             sustentável.
po (já se foi o tempo do escambo!). Para um   ra que carrega dentro de si. Me parece que,
                                                                                             Tudo isso não está aí à toa. Tem algo empur-
“trend hunter”, porém, isso é um pouco mais   no fundo, embora por um caminho diferente,
                                                                                             rando as pessoas a repensar comportamen-
compreensível, dentro de uma proposta que     esse é o espírito por trás da ideia da auto-
                                                                                             tos. E é esse algo que estou tentando desco-
busca resgatar as origens das nossas ativi-   suficiência.
                                                                                             brir, pra tentar ver pra onde tão indo todas
dades. Nessa viagem pode contar menos a       O que nos leva… ao segundo lugar do dia!
                                                                                             essas pessoas.
semana de moda de Milão que o trabalho        Quem acompanhou o blog enquanto eu es-

de um artista marginal, de onde as grifes     tava no Brasil sabe do que eu estou falan-

vão tirar as ideias para a próxima coleção.   do, mas pra quem não viu… aqui vai mais

Coincidentemente ou não, uma das paredes      um Jardim Vertical. E esse nem é do Patrick

desse espaço falava exatamente disso. “Do     Blanc, viu?

diamante não nasce nada. Do estrume nas-

cem as flores”.                               O conceito por trás desses jardins é que,

 Um grande economista chamado Thors-          como os espaços horizontais estão todos
mIlÃO                                                                                                                                                                                 mIlÃO




                                                                                                  festival mais bombava! Pra ser bem sincero,   banda de verdade tocar com aquela incon-
POst

26
                                                                                                  fiquei até meio sem graça de estar à paisa-   fundível pegada de videogame no ar.

                                                                                                  na no meio dessa galera toda e tentei dar o
07 fev FESTIVAL DEL FUMETTO – OS QUADRINHOS GANHAM VIDA NO CEN-
                                                                                                  migué de fechar o casaco e botar os óculos    Agora o que eu não conhecia e que fiquei
         TRO DE CONVENÇÕES DE MILÃO
                                                                                                  pra ver alguém acreditava que eu era o Har-   encantado mesmo foi a febre dos Cuponk!

                                                                                                  ry Potter… mas perto dessa galera não colou   O objetivo é encaixar uma bolinha de ping
Quando vi o cartaz na rua anunciando que nesse final de semana o centro de convenções de
                                                                                                  muito não.                                    pong no copo, só que é ela que tem que fa-
Novegro sediaria um festival exclusivamente dedicado à cultura dos quadrinhos e games pen-
                                                                                                  Como o espaço era dividido principalmente     zer todo o percurso da mão até o copo, ba-
sei: Opa! Tá aí uma chance de ver como a galera da Itália se identifica com isso tudo, como se
                                                                                                  entre quadrinhos e games, a galera do inte-   tendo e rebatendo em todos os lugares no
envolve com essa cultura numa festa onde é permitido ser quem você quiser, encontrar pesso-
                                                                                                  rativo também pôde se esbaldar. Campeo-       caminho. Esse stand estava lotado de gen-
as igualmente fanáticas por algo, trocar informações e se divertir.
                                                                                                  nato de futebol com narração ao vivo e co-    te tentando repetir alguma proeza como as

                                                                                                  mentários pertinentes foi só o começo. Pros   desses caras aí.

                                                                                                  fãns do Guitar Hero (aqui escreve um deles)   (P.S.: Cuponk é legal, but do you want the

                                                                                                  tinham a banda completa pra jogar todo        real thing? Vejam esse malabarista, Tim No-

                                                                                                  mundo junto. Depos de cansar do jogo, a       lan)

                                                                                                  gente podia dar uma pausa pra escutar uma




E não deu outra. Todo mundo ali é apaixonado por algum desenho, e usa a oportunidade pra

extravasar essa verve ao máximo. Os cosplays estavam perfeitos! Alguém aí nunca ouviu falar

de cosplay? São as pessoas que se vestem como seus personagens favoritos, sejam eles de

quadrinhos, games, filmes, livros, rpg, curtas e atualmente até hits do YouTube (afinal de con-

tas, quem gosta de quadrinhos não gosta só de quadrinhos). Criatividade é o que não falta pra

isso, e sendo em Milão, já era de se esperar que a produção dos figurinos fosse elaboradíssima.

O resultado podia ser visto na “passarela do Cosplay”, onde aconteceu um campeonato de

verdade pra escolher a melhor caracterização, nas categorias individual e coletiva. Era onde o
mIlÃO                                                                                                                                    mIlÃO




Como cada lugar tem o seus favoritos regio-     POst
nais, aqui não podia ser diferente. Confesso
                                                27
                                                08 fev NEM CACHIMBO, NEM SEMENTE DE GIRASSOL – OS ITALIANOS DO IO-
que me senti meio que (muito) velho quando

vi que Cavaleiros do Zodíaco eram só bone-               COSE PROVOCAM MAIS UMA VEZ.
quinhos relegados à uma pequena prateleira

e Dragon Ball Z não era nem mais parte do       Chegando em Milão fiquei sabendo de um          o máximo possível com sementes reais. Ori-

vocabulário. O que empolga mesmo na Itá-        coletivo italiano chamado IOCOSE. Embora        ginalmente, a intenção do artista era refletir

lia no momento não é outra coisa: NARUTO.       realizem a maioria de suas ações por aqui,      sobre a questão da escala industrial do fe-

Quando o apresentador do consurso come-         foi na Tate Gallery de Londres, no último dia   nômeno do “made-in-china”, afinal de con-

çou a citar desenhos pra ver a empolgação       31 de janeiro, que eles atuaram pela última     tas, todas as sementes foram feitas na China

da galera, parecia que estava no Rio falando    vez, por cima da obra “Sunflower Seeds”, de     pelas mãos de artesãos cuidadosos que as

“Botafogo. Vasco. Fluminense. América”…         Ai Weiwei. A intervenção foi batizada, muito    pintaram e esculpiram uma por uma. Mas o

até o momento de explodir o lugar chaman-       apropriadamente, “Sunflower Seeds on Sun-       IOCOSE viu mais que isso.

do “Flamengo”! É nesse nível que o Naruto       flower Seeds”.

tá com o público italiano.



Pra encerrar, decidi me aventurar numa aula

de japonês nível básico. Só esqueci que era

uma aula de japonês em italiano… porque o

negócio é se jogar. Por ora me despeço dei-

xando vocês com mais algumas fotos da fei-

ra, principalmente dos cosplay mais incríveis

que já vi (incluindo os vencedores do dia).

Quem quiser saber mais sobre quadrinhos,

tiras e cartoons pode visitar o blog HQ Fan,

em português, onde tem muito material in-

teressante.
                                                A obra inicial consistia em preencher com-      Focando na declaração de Ai Weiwei de

                                                pletamente uma parte do hall da galeria com     que “o que você vê não é o que você vê,

                                                milhões de sementes de girassol, todas feitas   e o que você vê não é o que significa”, os

                                                de porcelana e pintadas à mão para parecer      quatro rapazes se encaminharam à galeria,
mIlÃO                                                                                                                                             mIlÃO




                                                                                                    dizer que não mudou nada: enquanto obra

                                                                                                    de arte ela mudou porque o processo dela

                                                                                                    mudou. A ponto de ganhar uma placa nova

                                                                                                    na entrada (com aprovação do artista chinês

                                                                                                    e tudo, diga-se de passagem!).

                                                                                                    Um post inteiro pra só pra dizer que “arte

                                                                                                    não é só resultado, é processo”?    Sim. E

                                                                                                    tem uma razão pra isso. A gente percebe ao

                                                                                                    longo da viagem que tendências de verda-

                                                                                                    de não se restringem a um campo só, elas

                                                                                                    transbordam pra todos os lados. E essa de-

                                                                                                    claração banal é o eixo orientador da ten-

                                                                                                    dência sobre a qual escrevo no próximo

                                                                                                    post de amanhã (meu aniversário), em que

                                                                                                    uso como referência as discussões sobre o
devidamente munidos de estilingues e um                                  (Isto não é um cachimbo)
                                                                                                    futuro do design para mostrar como ele é
monte de sementes de girassol verdadeiras        Aparentemente contraditória (como assim
                                                                                                    o melhor exemplo do maior movimento que
que compraram na vendinha do lado. Uma           isso não é um cachimbo?), a frase é verda-
                                                                                                    vi até agora por todos os lugares por onde
vez de frente pra obra, começaram a atirar       deira por motivos óbvios: não é um cachim-
                                                                                                    passei. Até amanhã então!
suas sementes nas de porcelana que já es-        bo, é um desenho. Na obra do Ai Weiwei
                                                                                                    (Agradecimentos especiais à Anna Triboli,
tavam lá, e completaram a ação trocando a        também: nenhuma das peças são sementes
                                                                                                    que conheci em Barcelona e que mostrou o
placa do hall por uma nova que dizia “IOCO-      de girassol, são porcelana. Mas e o IOCOSE?
                                                                                                    IOCOSE. Ela escreve para o Pop-Up City e
SE: Sunflower Seeds on Sunflower Seeds”,         Depois que eles atiraram lá, alguma semen-
                                                                                                    para o The G. Canyon in a Crack, seu blog
reivindicando sua autoria.                       tes passaram a ser, de fato, de girassol. E aí?
                                                                                                    pessoal.)
Reboliço passado, o grupo mandou uma             Como fica? Muda alguma coisa?

mensagem dizendo que a obra continua             A questão realmente importante aqui, a meu

igual, pois as sementes reais e falsas são in-   ver, é que existe uma diferença muito gran-

distinguíveis entre si. O que raios eles que-    de entre ver o objeto terminado e conhecer

rem com essa ação então? Como quase              o processo até ele ficar pronto. Olhem pra

nada nesse mundo é original, vamos lembrar       instalação do chinês antes e depois do dia

de Magritte pra entender isso, com uma pro-      31: não mudou nada. Mas se escutarem a his-

vocação que ele fez século passado.              tória da interferência italiana não têm como
mIlÃO                                                                                                                                                                                  mIlÃO




                                                                                               de algo, buscando cumprir um objetivo.
POst
                                                                                               O ponto é que esse objetivo muda o tempo       Mas… e se a redução de esforço deixasse de
28
09 fev O DESIGN MOSTRA A QUE VEIO – PARTE 1 (“DO SOMETHING”, BUT DO
                                                                                               todo. Vamos a alguns exemplos pra mostrar      ser um objetivo? É isso que está acontecen-

                                                                                               como a observação do design nos permite        do exatamente agora em muitos lugares do
         IT “OLD FASHIONED”)
                                                                                               ver não só o resultado do seu trabalho, mas    mundo! Cresce cada vez mais a percepção

                                                                                               sua origem, e como ela reflete o seu tempo.    de que o movimento em direção ao mínimo
Nessa fonte inesgotável de frases de efeito    Começando didaticamente pelo começo,
                                                                                               Com certeza alguém aí já ouviu falar em de-    de esforço e ao máximo de conforto criou
que é o twitter, encontrei uma que dizia que   responder “o que é design?” já parece difícil
                                                                                               sign para reduzir os obstáculos na vida de     uma humanidade sedentária e doente. E aí,
“o que a gente não entende pode significar     porque muitas vezes os designers preferem
                                                                                               comunidades. Um bom exemplo desse mo-          como fica a ergonomia do Q-Drum?
qualquer coisa”. Como estou prestes a escre-   dizer o que ele não é em vez do que ele é
                                                                                               vimento é o trabalho do Design for the other   Para incorporar os novos objetivos que esse
ver sobre um mundo que não domino com          de fato. Mas pelo menos em uma coisa eles
                                                                                               90%, que, a partir da constatação da difi-     movimento põe na mesa, surgem projetos

                                                                                               culdade das pessoas em coletar água muito      onde a experiência do usuário inclua algum

                                                                                               longe de suas casas e voltar com os baldes     esforço, por mais simbólico que seja, ou ao

                                                                                               cheios na cabeça, projetou um recipiente       menos alguma interação mais ativa na sua

                                                                                               de forma muito simples para facilitar o pro-   interface com o objeto projetado. E aí come-

                                                                                               cesso: uma rosquinha. As pessoas enchem a      ça a ficar interessante mesmo, porque movi-

                                                                                               rosquinha (batizada Q-Drum) com água na        mentos afins começam a se encontrar…

                                                                                               fonte, e depois, simplesmente, rolam ela de    Por exemplo: existe um certo fetiche no ar

                                                                                               volta pra casa com uma corda, sem ter que      pela sensação táctil, pelas interfaces antigas

                                                                                               carregar peso nenhum. Seguramente o obje-      (como o livro, o vinil, as máquinas fotográ-

                                                                                               tivo funcional da redução do esforço desne-    ficas de filme…), pela moda vintage (o que

                                                                                               cessário foi atingido.                         mais tem em Barcelona, por exemplo, é loja

                                                                                                                                              retrô e de roupas de segunda mão), pelo tra-

a pretensão de dizer alguma coisa sobre o      parecem concordar: design é projeto. Eu                                                        balho feito à mão, entre outros. Quando o

seu futuro, fiquei um pouco intimidado, não    adicionaria que é comunicação, então terí-                                                     espírito do “do something” no design encon-

vou mentir. Mas o negócio é dar a cara a       amos que o designer, a partir de uma pro-                                                      tra o nicho de resistência às novas interfaces

tapa mesmo e arriscar tentando acertar, en-    posta, projeta formas e cores pra que o seu                                                    tecnológicas cada vez menos tácteis, sur-

tão aqui vai o resultado da minha pequena      trabalho expresse, por meio da experiência                                                     gem coisas como o presente de aniversário

incursão no mundo do design em Milão pra       do usuário, exatamente o que essa proposta                                                     que ganhei de um designer italiano ontem:

mostrar como ele reflete muitíssimo bem as     quer dizer. Acho que assim fica claro que ele                                                  meu “facebook” manual personalizado!

tendências que estou observando por aqui.      não existe no vácuo: está sempre a serviço
mIlÃO                                                                                                                                                                                    mIlÃO




                                                                                                POst

                                                                                                29
                                                                                                10 fev   O DESIGN MOSTRA A QUE VEIO – PARTE 2

                                                                                                         (FUNCOOLDESIGN)


                                                                                                Estou falando aqui de objetivos do design,       mais com os olhos de um curioso que procu-

                                                                                                das suas transformações recentes e de que        ra algum lampejo interessante do que com a

                                                                                                tipo de movimento está tomando conta             pretensão de sair de lá conhecedor de qual-

                                                                                                dele agora. Em posts mais antigos também         quer coisa. Devo dizer então que a visita foi

                                                                                                já falei do “know your own stuff” spirit, essa   muito proveitosa. A primeira exposição se

                                                                                                sensação de incômodo com a maneira as-           chamava, vejam que curioso, FunCoolDe-

Como toda pequena grande ideia, a propos-       dali a pouco, em vinte minutinhos, chegar       séptica com que muitos produtos chegam           sign, e decretava que o design da maneira

ta é simples: para lembrar de alguém que        em casa pra adicioná-la “de verdade”?           nas nossas mãos, refletindo-se diretamente       como o conhecemos, associado à harmonia

conhecemos, desenhamos um ou dois tra-          Embora eu pudesse passar horas falando de       numa busca por conhecer as origens do que        de forma e função, não existe mais. Ele esta-

ços que mais nos marcaram e escrevemos          outros movimentos no design, como o Total       adquirimos. Chegou a hora de juntar os dois.     ria progressivamente perdendo sua relação

embaixo o que mais nos interessa: frases,       Experience Design, e de como isso se con-

impressões e informações de contato (até        funde com o marketing empresarial (caso de

mesmo o facebook de verdade se quiser-          uma companhia aérea que encomendou um

mos). É fácil de carregar, confortável, útil…   projeto que abarcasse absolutamente TUDO

tudo que um smartphone é, e ainda funciona      da experiência do usuário, para que TUDO,

como “base de dados para reconhecimento         desde a compra da passagem, passando

de imagem” quando temos aquela sensação         pela chegada no aeroporto, embarque, co-

de que “eu te conheço, mas não lembro de        mida no avião, retirada de bagagem, entrada

onde…”. O ponto mais importante, no en-         na cidade, e até atendimento ao consumidor,

tanto, é a questão de nos colocar no papel      refletisse a ideia que a empresa queria pas-

ativo de criar informações de contato, per-     sar de si mesma, o conceito que queria dar

sonalizadas, em vez de encontrá-las prontas     para a marca), acho que já é hora de focar no

quando se digita um nome num campo de           que realmente interessa.
                                                                                                Foi o que fiz depois de visitar o prédio da      com os fins em favor dos meios, um traço tí-
busca. Afinal de contas, pra que tanta pres-    O movimento mais relevante vai estar na
                                                                                                Trienal de Design de Milão. Fui dar uma con-     pico da tal pós-modernidade que os teóricos
sa de adicionar alguém se podemos guardar       Parte 2 desse post, que vai ser publicado as-
                                                                                                ferida no que estava acontecendo, muito          costumam chamar de “mediocridade”.
impressões mais interessantes e pessoais e      sim que eu voltar pro hostel mais tarde.
mIlÃO                                                                                                                                                                                    mIlÃO




Mas como é que se percebe isso? Na expo-       clientes. Esse é um ponto central do Fun-         riso de “nossa, que sacada!” no rosto dele.     lor cada vez maior dado aos processos em

sição Graphic Design Worlds, por exemplo,      CoolDesign: ele está perdendo sua vocação         A ideia vale mais que as qualidades intrínse-   relação às obras terminadas, e acho que é o

havia um espaço para assistir entrevistas      funcional e se transformando num promotor         cas do objeto. Prestem atenção porque isso      mais longe que posso chegar com meus par-

gravadas com os expositores onde se podia      de vendas, algo que adiciona valor a uma          não é banal. O que é a ação do IOCOSE dois      cos conhecimentos de design sem começar

vê-los respondendo perguntas como “qual        marca. O design passa a ser compreendido          posts atrás senão isso? Tanto é assim que o     a me meter a galo cego por aí. Quem qui-

o futuro do design gráfico?”, e algumas das    cada vez mais como parte e parcela do que         trabalho não morre na obra: tem que virar       ser saber mais, pode mandar um email pra

respostas eram particularmente importan-       é “estiloso”, aproximando-se muito mais da        vídeo (e espetáculo) pra mostrar o processo     minha amiga designer Maira Moura Miranda

tes. Um dos entrevistados chegou a declarar    moda do que de suas proposições originais.        e o trajeto da ideia.                           (mairamouramiranda@gmail.com),       sem   a

que o grande papel desse campo atualmen-       Dessa forma chegamos ao ponto de que, se          Dei uma volta enorme pra chegar onde que-       qual esses posts teriam sido impossíveis. Va-

                                                                                                 ro, mas cheguei. Esse é o ponto em que o        leu, Mamá!

                                                                                                 novo movimento do design serve para ilus-

                                                                                                 trar a valorização das ideias surpreendentes

                                                                                                 e divertidas, enquanto o afã de compreender

                                                                                                 a origem do que adquirimos nos impulsiona

                                                                                                 a conhecer a trajetória dessas ideias e gran-

                                                                                                 des sacadas. Tudo isso junto resulta num va-




te é atrair a atenção pra algo que alguém      antigamente centros como o Bauhaus pri-

quer comunicar, enquanto outro expositor       mavam pela elegância da funcionalidade,

defendia que a maior meta que a disciplina     hoje a característica que mais se almeja para

pode almejar hoje, para além da resposta en-   um projeto é a da “sacação”, isto é, a de ga-

comendada pelos clientes, é a de adicionar     rantir o seu caráter de algo cool, diferente ou

comentários, ironia ou humor ao trabalho.      inédito através de uma ideia “fora da caixa”,

                                               de preferência divertida, que vai ser associa-

Se ironia, comentário e humor são meios,       da a ele.

temos que as finalidades estão sumindo ou      Em poucas palavras, a questão é surpreen-

se convertendo apenas nos interesses dos       der o usuário, e nada vale mais do que o sor-
mIlÃO                                                                                                                                                                                         mIlÃO




                                                                                                    faz um livro novo com os pedaços que so-          como se unem os grupos de folhas, que tipo
POst
                                                                                                    braram.                                           de material se usa para cada tipo de enca-
30
11 fev
                                                                                                    Como alguém que trabalha numa editora de-         dernação, como as capas-duras são fixadas
         DESTRUINDO LIVROS PRA ENTENDÊ-LOS AO CONTRáRIO E #SHA-
                                                                                                    cide fazer uma coisa dessas? Fui lá conferir,     no corpo do livro… e só aí cada um começa
         RING9 – CAMISETERIA DE PRESENTE PRA PIETRO E ILARIA
                                                                                                    e vi que a ideia é bem legal mesmo. Em pri-       a desfazer o seu, como se desmontássemos

                                                                                                    meiro lugar, sim: destruir dá mesmo um pra-       uma máquina de lavar pra entender como
Em meus últimos dias em Milão conheci             problema (problema?) é que o espaço deu
                                                                                                    zer imenso, e parte da justificativa para fazer   ela funciona. Uma vez separadas as folhas
muita gente, mas com certeza foram Ilaria e       tão certo (afinal de contas, é um dos únicos
                                                                                                    isso com os títulos antigos é justamente dar      (e tenho que admitir que usar um ralador de
Pietro que me capturaram mais. Eu poderia         em Milão onde pode-se encontrar livros bons
                                                                                                    uma “refrescada” na cabeça… Mas se fosse          queijo pra isso foi surpreendente), as junta-




escrever dois ou três posts só sobre o que        de arte contemporânea e design em alguma

eles tinham pra me mostrar e mais um pra          outra língua que não italiano) que quando

contar que foram eles que levaram o presen-       acabou o prazo ninguém queria mais que ele

te do #sharing9 na Itália, mas como o tempo       fechasse. Foi aí que mudou o nome de 121

é curto, vou condensar tudo num só e tentar       para “121+: livraria extemporânea”, e seguiu

dar esse gostinho pra vocês.                      adiante com suas atividades.

Cheguei até Ilaria por indicação de Anna          Uma delas foi criada justamente pelo Pietro
                                                                                                    só isso seria meio besta. A questão toda é        mos novamente para compor algumas pági-
Triboli, blogueira que conheci em Barcelona       (marido de Ilaria). Um ano atrás, ele tinha
                                                                                                    que há uma metodologia da destruição: na          nas enormes. Ainda temos que aprender a
enquanto cobríamos a ação da Guerrilha do         sido convidado a realizar alguma ação com
                                                                                                    verdade, não é exatamente destruir… é des-        usar uma agulha pra costurar tudo, mas, com
Crochê. Ela trabalha numa livraria chamada        livros antigos para a ArteLivro, feira especia-
                                                                                                    montar.                                           muitas mãos trabalhando juntas, fica muito
121+, que tinha a proposta de ser a primeira      lizada em livros de arte na Itália. Foi aí que
                                                                                                                                                      rápido.
livraria temporária de Milão, inaugurada com      ele veio com uma ideia nada convencional:
                                                                                                    Antes de se entregar ao prazer da tarefa, Pie-
data certa pra fechar, 121 dias depois. O único   -   Já sei! Vamos destruí-los! Depois a gente
                                                                                                    tro explica como é a estrutura de cada livro,     Eu tinha falado, uns dois posts antes, de uma
mIlÃO                                                                                                                                                                                    mIlÃO




frase que diz que “o que a gente não conhe-     da editora Corraini é que é o exemplo, a par-    menos que Wilson (do Náufrago) tocando violão. Do jeito que pode. Foi também um agradecimento

ce pode significar qualquer coisa”, e, a meu    tir da criação de iniciativas como a Sedicesi-   pelo presente que ele tinha me dado, o meu “facebook” manual personalizado, de que falei aqui tam-

ver, esse é o espírito por trás do workshop:    mo (uma revista mensal em que cada edição        bém. Valeu, Camiseteria!

uma vez que a gente entende como um livro       é de delegada completamente a um artista         Saí de lá com uma certeza só: a questão toda é conteúdo. Se tiver, ótimo, é só aproveitar a forma da

é feito, passa a dar mais valor a ele, é como   diferente, com total liberdade de pauta, esti-   melhor maneira possível. Se não tiver… só lamento, não vai ter forma nenhuma que te mantenha de pé.

se ele ganhasse um conteúdo a mais quan-        lo, o que quiser). Ele tem 16 páginas pra usar   Agora tchau, Milão! Paris já tá na área

do o olhamos (a forma) e isso nos aproxima      e pronto. O leitor pode amar uma edição e

muito mais do que poderíamos pensar que         detestar a outra, mas a questão é fazer dos

a ideia da destruição poderia afastar. Por      livros plataformas mais livres e capazes de

mais estranho que seja, destruindo uma obra     tratar com criatividade visual conteúdos que

Pietro ajuda a impedir que ela perca seu pú-    não podia tratar sem essa liberdade. Sem

blico, muitas vezes iludido por um discurso     perder o prazer, a calma e o isolamento con-

que decreta a morte do livro com a mesma        templativo que só um livro pode dar.

frequência com que se decreta a morte da

pintura e ela continua no mundo todo.           E foi pensando nesse prazer solitário que dei

Assim como a pintura se reinventa e segue, o    de presente ao Pietro a camisa da Camisete-

livro só vai morrer se não souber se reinven-   ria. A estampa se chama “…Lonely People”

tar. Se o workshop é um chamariz, a prática     como na música dos Beatles, e traz ninguém
PaRIs
ParIs                                                                                                                                                                                ParIs




                                                                                               O Rafael começou já bem cedo a desenhar,      za que muita gente vai se importar menos
POst
                                                                                               criança mesmo. Influência familiar da avó     com a demora do pedido se o quadro estiver
31
11 fev
                                                                                               (pintora também)? Talvez, como ele mesmo      por lá.
         #SHARING9 – PARIS – RAPHAEL SONSINO
                                                                                               admite. Mas suas linhas são absolutamente

                                                                                               distintas. Suas ilustrações são fruto de um   Mais trabalhos dele:

                                                                                               processo natural de expressão que na maio-
                                                gente pega na primeira olhada. Faz tanto pe-

                                                quenos trabalhos, como o que estou levando

                                                pra Paris, quanto grandes murais, como esse

                                                aí em baixo:




Dando prosseguimento à busca por 9 pre-

sentes pras 9 cidades, fui visitar o artista

ilustrador Raphael Sonsino. Rapaz… que vi-

sita foi essa??? Eu sei que tô aqui pra falar

do cara, mas a vó dele é tão incrível que eu
                                                Vejam aqui o momento em que ele me en-
fiquei dividido hehehe. Nossa… ela tinha pre-
                                                tregou o presente:                             ria das vezes não é projetado antes: ele se
parado doces de chocolate, rechados de tru-
                                                                                               coloca na frente do papel, começa e deixa o
fa e envolvidos em marzipan, biscoitinhos e
                                                                                               desenho tomar o rumo do que está se me-
minitortelettes de nozes e ainda tinha esfiha
                                                                                               xendo na sua cabeça naquele momento. O
e salgadinhos pra oferecer. Me ganhou fácil!
                                                                                               resultado final é uma obra com várias pos-

                                                                                               sibilidades de leitura, mas todas com uma
Mas enfim, voltando ao Sonsino… ele faz um
                                                                                               mesma força que advém desse momento
trabalho de ilustração muito bom mesmo!
                                                                                               criativo.                                     Para saber mais e entrar em contato, acesse:
Tem um traço muito característico que suge-
                                                                                               Minha missão é levar o quadro pra um bar,     http://www.sonsino.com.br/
re muito mais significados do que os que a
                                                                                               restaurante ou café em Paris. Tenham certe-   @Sonsart
ParIs                                                                                                                                                                                 ParIs




                                                                                                                                            Na verdade ele é introdução pro de amanhã,
POst
                                                                                                                                            que vai falar de um tipo de iniciativa que ab-
32
11 fev
                                                                                                                                            sorve os elementos da inovação tecnológi-
         INTRODUZINDO PARIS POR SEUS ARTISTAS DE RUA –
                                                                                                                                            ca e da interatividade pra propor um com-
         SÓ PRA COMEÇAR.
                                                                                                                                            portamento completamente novo frente ao

                                                                                                                                            espaço da cidade e reinventar a relação de
Assim como em Milão, a primeira coisa que       veitem pra dar uma olhada no que aconte-
                                                                                                                                            cada um com ela. É muito interessante mes-
a gente nota quando sai na rua são os seus      ceu quando um casal que estava assistindo
                                                                                                                                            mo! Mas podem deixar que isso eu conto em
artistas. Afinal de contas, eles que dão vida   a apresentação se empolgou e decidiu co-
                                                                                                                                            todos os detalhes amanhã.
a esses espaços e capturam nosso olhar pra      meçar a dançar também. Eles realmente não

outro jeito de usá-los. Se o primeiro dia for   eram contratados pela banda (tanto que no     Esse aqui também é mais um transformando

num final de semana em Paris então… a ofer-     final foram até dar cartãozinho pra banda     um espaço, nesse caso o chão, em algo mais.

ta é inesgotável.                               pra tentar fazer algum coisa juntos). Eram,

Pra começar, saindo do hostel e virando a       até então, meros passantes que gostaram       Pequeno desse jeito, podem até pensar

esquina eu já dou de cara com essa banda        do que ouviram e decidiram ir um pouco        que esse post é da categoria”encher lingui-

maravilhosa tocando ao vivo numa pracinha.      além da admiração contemplativa, somando      ça” por falta de assunto, mas não é o caso.

Falar que a música é boa é uma coisa, mas       um pouco da sua arte àquela apresentação e

colocar pra escutar é melhor. Então apro-       criando quase um flash mob pessoal.
ParIs                                                                                                                                                                                    ParIs




                                                                                                                                               essa sensação de virar “dono da cidade” que
POst
                                                                                                                                               cresce cada vez mais por todos os cantos.
33
11 fev
                                                                                                                                               Se a gente olhar direitinho, vai ver que tem
         “OWN YOUR CITY” POR ONDE PASSAR E SEJA DONO DE TODO LUGAR.
                                                                                                                                               um monte de outras iniciativas seguindo esse

                                                                                                                                               mesmo caminho É o caso do Chromaroma,

                                                                                                                                               por exemplo. Imaginem que andar de me-
Todo mundo fala de Paris como a cidade do     às 19h dos dia 14, um grupo de pessoas par-
                                                                                                                                               trô pudesse se transformar num jogo onde
amor, então era de se esperar que no dia de   tiu da Île de Saint Louis para fazer a pé um
                                                                                                                                               cada estação conquistada te desse pontos e
São Valentin (dia dos namorados!) algo de     percurso em forma de coração pelas ruas de
                                                                                                                                               destravasse novas informações sobre luga-
muito bom acontecesse aqui, certo? Certís-    Paris. Durante o trajeto, elas deveriam procu-
                                                                                                                                               res por onde você passa. Juntem isso com a
simo: a agência Sans Interdit Arts organi-    rar os sinais que ajudariam a encontrar nas
                                                                                                                                               possibilidade de criar uma equipe para ver-
zou um evento que une numa mesma ação         vitrines das lojas, farmácias e cafés as obras
                                                                                                                                               dadeiramente competir pra ver quem con-
a divulgação de artistas pouco conhecidos     visuais do grupo de artistas franceses que
                                                                                                                                               quista mais localizações pela cidade. Agora
ou à margem do grande circuito, um passeio    integraram o projeto. Boa parte dos traba-
                                                                                                                                               eu já posso contar que isso é exatamente o
agradabilíssimo para os casais pelo centro    lhos era de pinturas e ilustrações, mas tam-
                                                                                                                                               que está acontecendo em Londres.
de Paris e uma proposta de interação com      bém podia-se achar fotografia e até moda

o espaço urbano muito legal. Tudo isso foi    via personalização de tênis – sempre com
                                                                                                                                               A ideia é simples: cada vez que o passageiro
chamado de “Paris, Je t’aime = parcours ar-   alguma temática relacionada ao “dia dos
                                                                                                                                               chega em uma estação, ele usa o seu cartão
tistique en forme de couer”.                  amantes”.
                                                                                                                                               de transporte público para passar pela ca-

                                                                                                                                               traca, certo? Isso gera um registro no siste-

                                                                                                                                               ma do jogo, e a partir desse momento o seu
                                                                                               Pra quem está apaixonado tudo isso já é
                                                                                                                                               trajeto passa a ser monitorado até o próximo
                                                                                               maravilhoso! Mas tem ainda um outro pon-
                                                                                                                                               ponto onde ele utilizar o cartão. Quando ele
                                                                                               to ainda mais interessante sobre isso tudo.
                                                                                                                                               chegar em casa (e se tiver um smartphone
                                                                                               Se passear bem acompanhado pelo centro
                                                                                                                                               nem precisa disso), seu percurso já vai es-
                                                                                               apreciando o olhar de outras pessoas sobre
                                                                                                                                               tar disponível para visualização online, e vai
                                                                                               o grande tema da noite já é legal, fica ainda
                                                                                                                                               ser baseado no tipo de deslocamento que
                                                                                               mais com a sensação da busca, como se es-
                                                                                                                                               ele teve pela cidade que serão destravados
                                                                                               tivéssemos fazendo uma verdadeira explora-
                                                                                                                                               os extras que o jogo oferece, desde histórias
                                                                                               ção pela cidade atrás de pequenos tesouros
                                                                                                                                               sobre cada local até mesmo algumas “mis-
                                                                                               que só quem olha com cuidado encontra. É
                                                                                                                                               sões”, que têm de ser realizadas sempre em
ParIs                                                                                                                                                                                      ParIs




determinado espaço de tempo em um de-          teração com o espaço urbano, partindo das        dência tecnológica (o que existe é inovação      É aí que a gente vê que tudo se amarra, e que

terminado lugar e, pelo menos pra mim, são     possibilidades que a tecnologia oferece para     tecnológica estimulando ou fortacelendo          exemplos como o daquele bar de Barcelona

a melhor parte do jogo.                        estimular novos comportamentos a partir da       comportamentos), e se eu acho interessan-        – que na verdade era sede de uma agência de

                                               interatividade digital. A ideia do “play the     te falar do “Paris je t’aime” e do “Chroma-      viagens que oferecia passeios não turísticos,

No blog do pop-up-city eu fiquei sabendo       city as you travel” tanto aumenta a experiên-    roma” é porque a ideia do “own your city” é      dava aulas de drinks e às vezes até ensinava

até que uma delas abre toda uma série de       cia de uma viagem cotidiana quanto estimu-       um ponto fortíssimo para os próximos anos.       a fazer comida catalã – não são pontos tão

outras missões relacionada aos lugares mal     la uma atitude exploratória que pode levar o     É o que permite evitar a sensação de peixe       fora da curva assim. Quem percebeu que o

assombrados de Londres, e só dá os pontos      usuário à descoberta de lugares que talvez       fora d’água que só repete trajetos que todos     grande trunfo é fazer o visitante se sentir um

ao jogador se ele aparecer nas as estações     nem sequer soubesse que existiam, e isso é       já fizeram pelas vias que todos já conhecem.     explorador está no conjunto dos pontos que

onde isso acontece entre 11 da noite e uma     o grande trunfo da história toda.                Se você é “dono” de um lugar, escolhe o ca-      entenderam o desenho que a curva ainda vai

da manhã, dentro do prazo que o jogo de-                                                        minho que quiser, e pode decidir qual é a        ter e começaram eles mesmos a desenhá-la.

termina.                                                                                        melhor maneira pra desenhar a sua própria

                                                                                                “trajetória”, para que ela tenha a “sua cara”.




                                                                                                                                                 Em outras palavras, se, como eu escrevi aqui

                                                                                                (Perceberam agora o sentido simbólico de         antes, a grande questão é mesmo colecionar

                                                                                                ter a sua trajetória traçada nos mapas inte-     histórias e ter sempre cada vez mais “exclu-
Como se pode ver, não estamos falando só       Eu não estaria falando disso se não pensasse
                                                                                                rativos do metrô?)                               sividades pra compartilhar”, não tem como
de uma diversão a mais para o passageiro       que é mais do que uma “legalzisse”. Eu já dis-
                                                                                                                                                 escapar. Definitivamente, o Own your city
habitual, mas de uma nova alternativa de in-   se aqui que não existe essa história de ten-
                                                                                                                                                 chegou pra ficar.
ParIs                                                                                                                                                                                                                ParIs




                                                                                               Um pouco bizarro, não? Eu também pensei        to é uma das coisas mais corta-tesão que
POst
                                                                                               nisso, mas depois que comecei a olhar os       existem, então não dá pra ignorar o esforço
34
15 fev
                                                                                               desenhos e ver as sacadas geniais do cara,     hercúleo que é transformar esse jegue em
         UMA MORTE POR DIA – ESSA VIAGEM SÓ SE FAZ UMA VEZ.
                                                                                               me lembrei que humor realmente não deve        alazão, utilizando-se do tema da morte como

                                                                                               ter limites nunca. Pra falar a verdade, essa   plataforma pra uma obra que faz sorrir.

                                                                                               história de misturar temas pesados com um
                                                                                                                                              (Morte de Dorothy Height, integrante histórica do movimento dos direitos
No vídeo pra ganhar o concurso eu já tinha falado que uma caminhada no parque pode te          tom extremamente “soft” tá meio em voga        civis, ao lado de Martin Luther King. Ela dedicou sua vida a lutar pela igual-
                                                                                                                                              dade.” – No balãozinho, MLK pergunta “você não é negra, pelo menos?”)
ensinar tanto quanto uma noite numa biblioteca. Como o que mais fiz até agora foi caminhar,    mesmo…

resolvi que era hora de parar numa livraria e procurar lá mesmo algumas novidades. O esforço

se pagou e eu saí de lá com dois livros na mão.

O primeiro deles é de um desenhista francês chamado Muzo (ou, pelo menos pra sua mãe,

Jean-Philipe Masson), que acabou de publicar um coisa tão boa que eu até comprei. Todo

mundo faz aquele balanço de fim de ano em janeiro, certo? Ele também fez o seu, mas não

qualquer um: depois de uma longa pesquisa, juntou 365 notícias de mortes do ano passado,

decidiu ilustrar cada uma delas, e publicou um livro.




                                                                                               Um pouco antes de sair do Brasil, por exem-    Mas o que é que leva alguém a tratar desse

                                                                                               plo, eu já tinha assistido um filme dos mes-   tema? O que que a morte tem de tão interes-

                                                                                               mos produtores de Pequena Miss Sunshine        sante pra vir à tona assim? Pra que tipo de

                                                                                               (não por acaso chamado Sunshine Cleaning,      coisa se quer chamar a atenção? Conforme o

                                                                                               ou “Trabalho Sujo” na versão brasileira) que   próprio autor declara nessa entrevista para a

                                                                                               fala de duas irmãs abrindo um negócio no       Radio Europe1, a primeira razão vem de uma

                                                                                               ramo de limpeza e remoção de material de       certeza óbvia, a de que ela é a única coisa

                                                                                               cenas de crime. Vamos combinar que defun-      que nos torna verdadeiramente iguais. Não
ParIs                                                                                                                                                                                  ParIs




existe nada que nos aproxime mais que essa     Porque essa é uma aventura que ninguém
                                                                                            POst
certeza. No entanto, geralmente a morte de     repete. De todas as histórias que a gente

uma “celebridade” nos atinge com muito         pode juntar pra contar, nenhuma chega per-   35
                                                                                            17 fev   POST 35: PARIS, CHINA. – ASSOCIAÇÃO FRANCESA CHINART QUER
mais intensidade do que a de um desconhe-      to desse nível de exclusividade.
                                                                                                     TRANSFORMAR A MANEIRA COMO VEMOS O ORIENTE.
cido, e talvez não devesse ser assim (afinal

de contas, morto é morto).
                                                                                            Caminhando com duas amigas pelo bairro de Marrais, me deparei com uma lojinha de souve-

                                                                                            nirs. Foi o olhar afiado de Batatinha (que consegue enxergar um pedaço de Tag a 500 metros

                                                                                            de distância meio segundo depois de virar a esquina) que fez com que a gente entrasse, ao

                                                                                            perceber, no canto da loja, umas bolsas completamente cobertas por graffitis, numa técnica

                                                                                            de impressão onde cada pixel é marcado diretamente no tecido, como se ele mesmo fosse o

                                                                                            muro. Muito bonito, interessante, tudo isso, mas o que eu não conseguia explicar pra mim mes-

                                                                                            mo era por que, numa cidade tão repleta de graffiti como Paris, todas as imagens usadas eram

                                                                                            de muros de… Hong Kong.




Ao ilustrar as mortes de pessoas desconhe-

cidas junto com as das celebridades, Muzo

lhes dá a fama que não tiveram em vida,

colocando-as, ao fim e ao cabo, no mesmo

patamar dessas celebridades. No final das

contas, o livro mostra que morrer pode dar                                                  Pensei comigo mesmo: aí tem. E tinha: a dona da loja nos encaminhou para a galeria-loja onde

status! Esse é o ponto essencial da questão:                                                o trabalho do fotógrafo estava exposto, e foi aí que eu encontrei a ChinArt, onde não só desco-

tudo depende da maneira que você sai de                                                     bri novos trabalhos com também uma nova maneira de ver o Oriente no Ocidente.

cena… e sabem por quê?                                                                      Sinceridade aqui, galera: em que vocês pensam quando alguém fala da China? “Made-in-China”,

                                                                                            condições desagradáveis de trabalho, cópias em escala industrial de tudo que o ocidente faz?
ParIs                                                                                                                                                                                  ParIs




Foi por isso que a ChinArt surgiu, como uma     exposição. “Não é como achar um chaveiri-      criativos, supreendentes, encantadores e        nada que nos aproxime mais que essa certe-

associação de apaixonados pela China que        nho bonito numa prateleira de loja, sem ter    fascinantes. É esse universo criativo que ela   za. No entanto, geralmente a morte de uma

queriam mostrar que essa é uma imagem           contato nenhum com o universo do artista.      acredita que não pode mais ficar restrito às    “celebridade” nos atinge com muito mais in-

muito distorcida do que ela realmente é.                                                       fronteiras do país: vai transbordar daqui a     tensidade do que a de um desconhecido, e

                                                                                               pouco com a mesma força com que o país          talvez não devesse ser assim (afinal de con-

                                                                                               cresce economicamente.                          tas, morto é morto).

                                                                                                                                               Ao ilustrar as mortes de pessoas desconhe-

                                                                                               Antes de me despedir e deixar vocês com         cidas junto com as das celebridades, Muzo

                                                                                               algumas imagens da exposição atual (Cho-        lhes dá a fama que não tiveram em vida,

                                                                                               colate Rain) na fanpage da galeria, queria só   colocando-as, ao fim e ao cabo, no mesmo

                                                                                               dividir mais uma impressão. Eu já falei aqui    patamar dessas celebridades. No final das

                                                                                               da questão do exclusivismo, do segredo, de      contas, o livro mostra que morrer pode dar

                                                                                               só “botar na roda” aquilo que ninguém pode      status! Esse é o ponto essencial da questão:

                                                                                               repetir. Aqui acaba de aparecer o primeiro      tudo depende da maneira que você sai de

                                                                                               choque oriente x ocidente. Se por aqui essa     cena… e sabem por quê?

                                                                                               tendência aparece como resposta ao com-         Porque essa é uma aventura que ninguém

                                                                                               partilhamento sem precedentes das redes         repete. De todas as histórias que a gente

                                                                                               sociais (tentando manter o status a partir      pode juntar pra contar, nenhuma chega per-

                                                                                               do exclusivo), parece que, pelo menos pros      to desse nível de exclusividade.

                                                                                               artistas chineses, essa história de “botar na

                                                                                               roda” não incomoda tanto, e, ao invés de res-
É impressionante como um país que cresce        Primeiro você se encanta (e a experiência
                                                                                               ponder ao movimento, eles estão mesmo é
mais rápido que chuchu em pé de serra con-      tem que ser completa). Depois leva pra sua
                                                                                               alimentando o bicho.
tinua uma interrogação tão grande na nossa      casa sabendo de onde veio.”.

cabeça. A idealizadora do projeto sabe dis-
                                                                                               Se por aqui a proliferação das redes sociais
so, e foi pra quebrar esse gelo que escolheu    Ela defende que, se essa imagem caricatu-
                                                                                               gera respostas restritivas, quem sabe não é
o formato de loja-galeria. A ideia da ChinArt   rizada da China existe, é porque nós os for-
                                                                                               por causa da restrição à internet por lá que
não é só vender um trabalho: é convidar o       çamos a ser assim. A associação existe pra
                                                                                               estão surgindo respostas multiplicadoras?
público a mergulhar nesse universo desco-       mostrar que quando os chineses fazem al-
                                                                                               Por enquanto isso é só uma impressão, um
nhecido, e é por isso que a loja troca tudo     guma coisa para si mesmos, e não para ven-
                                                                                               palpite abusado. Mas vou olhar isso com
que põe à venda todas as vezes que troca de     der ao mundo, demonstram o quanto são
                                                                                               mais   calma quando estiver por lá.existe
ParIs                                                                                                                                                                                       ParIs




                                                                                                 Antes desse passeio eu já tinha passado uns      qualquer um pode ser um Space-Invader na
POst
                                                                                                 quatro dias seguidos me deparando com as         sua cidade, e o site oficial dos parisienses se
36
18 fev
                                                                                                 figuras aí em baixo em vários pontos da ci-      tornou mesmo um grande ponto de encon-
         UM TRAMPOLIM, DUAS OU TRÊS PISCINAS – SPACE-INVADERS
                                                                                                 dade. Nenhuma delas tem assinatura. Mas          tro para todos que fazem essa atividade pelo
         NA ARTE DE RUA
                                                                                                 todo mundo sabe de quem são: um grupo            mundo compartilharem seus feitos.

                                                                                                 chamado Space-Invaders, que começou a            Parece que pra esse pessoal importa menos

Numa viagem como essa a gente se pergunta: afinal de contas, onde é que eu acho essas tais       usar esses mosaicos para lembrar os pixels       a “marcação de território” do que pros gra-

de tendências? Um dos lugares onde mais tenho procurado sinais são os muros das ruas. De-        dos ícones mais clássicos da história dos ga-    fiteiros. E essa é uma diferença fundamental

finitivamente, eles são uma fonte impressionante de informações, uma plataforma pra expres-      mes já faz mais de sete anos.                    dentro da arte de rua. A gente nunca sabe

são direta de muitos desejos, e é sobre eles que eu queria falar hoje.



Fui a Belleville com duas amigas grafiteiras, que me ensinaram um pouco sobre os códigos

por trás dos graffitis. Passaram o dia me falando de aspectos como a maneira de sinalizar

que o artista não é local (estrela em alguma parte do trabalho) ou que está aí há muito tempo

(algum símbolo que remeta ao infinito), o significado das setas, a diferença entre linhas que

dão profundidade ou significados… isso sem falar nas regras pra saber onde é permitido deixar

sua marca e onde fazer isso representa declarar guerra a outro artista. Se tudo isso me deixou

muito animado (não é todo dia que você é alfabetizado numa linguagem), não tenho como

negar que toda essa questão da “marcação de território” me deixou meio com a pulga atrás

da orelha… e explico o porquê.




                                                                                                 A questão toda é que todo mundo sabe de          quanto tempo vai durar o que se faz nela,

                                                                                                 quem é, mas ninguém sabe mais quem são           mas parece que pros Space-Invaders isso é

                                                                                                 os Space-Invaders. Se 1) é muito fácil fazer     um pouco menos importante, porque seu

                                                                                                 esse tipo de mosaico e 2) o que não falta é fã   trabalho precisa só de uma fotografia mo-

                                                                                                 de jogo antigo, não precisa ser nenhum gênio     mentos depois de ser feito pra entrar no

                                                                                                 pra perceber que era uma questão de tempo        jogo de compartilhamento da internet, que

                                                                                                 até que a brincadeira dos fãs nostálgicos de     é o mais dinâmico da história toda. Vai dizer

                                                                                                 Paris ganhasse mundo. A ideia original era       pros grafiteiros que não importa o que acon-

                                                                                                 simples, mas suas consequências não. Hoje,       tece com o seu trabalho depois de pronto…
ParIs                                                                                                                                               ParIs




        A arte de rua tem sempre um elemento de
                                                         POst
        virar dono de um espaço. Seja pra tirá-lo das

        mãos da publicidade, seja pra marcar a pre-      37
                                                         19 fev   #SHARING9 – LE CAFÉ QUI PARLE RECEBE DE BRAÇOS
        sença de quem é “da área”, sempre tem um
                                                                  ABERTOS O TRABALHO DO RAPHAEL SONSINO
        elemento desse. É por isso que tem alguma

        coisa de importante aí, nessa diferença en-
                                                         Quando saí do Brasil eu tinha a missão de levar uma ilustração do Raphael Sonsino pra algum
        tre como cada um desses dois grupos vira
                                                         café de Paris. Mas não podia ser qualquer um. Depois do jeito com que a sua já famosa avó
        “dono” do “seu espaço”, porque a verdade é
                                                         me tratou (regado a doces e iguaria francesas da maior qualidade), eu tinha que encontrar um
        que só a plataforma é a mesma, mas os es-
                                                         lugar à altura da sua casa: agradável, com um atendimento simpatissímo e tão jovial e artístico
        paços não. O de um é concreto. O do outro
                                                         quanto tradicional e confortável. Conforme prometido, lá fui eu.
        é digital. (Isso pra não falar no das galerias

        de arte…)



        Desde que artistas como o Banksy (aliás,

        não deixem de assistir o filme Exit Through

        the Gift Shop por nada) abriram as portas

        do mundo das “fine arts” pra arte de rua, to-

        das essas nuances são relevantes pra saber

        como ela vai influenciar comportamentos e

        mentalidades daqui pra frente.




                                                         O bairro é Montmartre, que boa parte de vocês deve conhecer por causa do filme O Fabuloso

                                                         Destino de Amélie Poulain. O café é o Le Café qui Parle (o café que fala). O nome foi escolhido

                                                         por causa de uma padaria que ficava em frente e se chamava Le Pain que Parle (sabem quando

                                                         ele sai tão quente do forno que chega faz “crack-crack-crack” quando a gente tira de lá? Esse

                                                         som mesmo). Há quatro anos sob direção de Damien Mouef, o café é também um espaço de ex-

                                                         posição para novos artistas, divulgando os trabalhos que o “patrón” acha interessantes, sem co-

                                                         brar nada por isso. Nada mesmo, nem aquela famosa comissão de venda que todo mundo quer.
ParIs                                                                                                                                                ParIs




        Se deixar num lugar bacana já é bom, melhor
                                                          POst
        ainda é deixar com alguém que realmente

        gostou muito do que viu. Quando eu cheguei        38
                                                          21 fev   DE BRINQUEDINHO PRO NATAL A CELEBRIDADE VIRTUAL –
        lá, contei da viagem e mostrei o desenho, ele
                                                                   A ASCENÇÃO METEÓRICA DO PROTOTO
        já abriu o sorriso. Acho que nem precisava

        eu pegar o computador pra mostrar os ou-
                                                          É uma pena quando a gente conhece a pes-        está indo muito além do que o criador ima-
        tros trabalhos do Sonsino e falar de como
                                                          soa mais interessante de cada cidade só no      ginava. Trata-se do ProToTo, um bonequinho
        ele gostava de brincar com os possíveis sig-
                                                          nosso último dia nela. Foi assim em Milão e     feito de ímãs que pode se transformar em
        nificados que a pintura pode ter, porque en-
                                                          em Paris também, onde o eu encontrei uma        quase tudo que você quiser e a sua criativi-
        quanto eu falava o Damien já tava viajando
                                                          figura sensacional, chamada Manuel Flech,       dade permitir.
        no desenho. Quando finalmente perguntei

        se ele queria o quadro, o “Biensur” já estava

        na ponta da língua, só esperando a hora de

        ser usado.



        Agora o CantaroleiroVioleiro está na parede

        pra quem quiser ver, levando um pouquinho

        do talento brasileiro pra galera da França

        descobrir. Quem sabe da próxima vez o Ra-

        phael mesmo não dá uma chegada por lá

        com sua querida avó e leva algumas coisas

        novas pra mostrar? Eu acho que dava certo…
                                                          que não sei nem como descrever, porque          Vocês podem se perguntar: “E daí?” E daí

                                                          numa tarde só eu já descobri que ele era ar-    que o ProToTo virou celebridade digital!
        Seja pelas pinturas, pelas fotografias, ou pelo
                                                          tesão, designer e cineasta com dois filmes na
        café, a dica está dada. Arte e café fresqui-
                                                          praça: Marie-Louise ou La Permission e Bella,   A história é a seguinte: El Flech criou o bo-
        nhos, referendados por vários guias e com o
                                                          la guérre et le Soldat Rousseau.                nequinho há apenas dois meses, para o na-
        99novas marcando presença, só no Le Café
                                                                                                          tal. Os jovens que compraram ou ganharam
        qui Parle.
                                                          O homem é um laboratório pipocando ideias,      o presente começaram, obviamente, a bulir

                                                          e foi a mais recente delas que me levou até     no bicho e criar figuras cada vez mais in-

                                                          seu atelier, uma pequena invencionice sur-      teressantes. Como somos uma geração do

                                                          preendente quase que por definição, que         compartilhamento, não demorou muito (na
ParIs                                                                                                                                                                                  ParIs




                                              Depois começou uma história de ProToTo          Tem uma linha tênue que separa a apropria-     Se a ideia original de Maneul Flech era tratar

                                              pelo mundo, e pipocaram fotos suas em lu-       ção da cópia. O que está acontecendo com       do polimorfismo (a maneira como uma coi-

                                              gares tão diferentes quanto China, Inglaterra   o ProToTo é a apropriação coletiva de uma      sa pode transformar a própria forma, como

                                              e áfrica. Agora é que não tem mais limites      ideia a partir da qual se contrói uma obra     os contorcionistas fazem com o próprio cor-

                                              mesmo, porque o ProToTo ganhou um perfil        igualmente coletiva, onde não existe distin-   po) o resultado foi muito além disso tudo e

                                              no Facebook onde todo mundo pode divul-         ção entre os autores. Não existe essa coisa    revelou ainda outra forma de transformar o

                                              gar o que ele anda aprontando por aí. Lem-      de “olha o que o fulano fez com o ProToTo      objeto: de brinquedo em personalidade. Isso

                                              bram da obra do Ai Wei Wei com os italia-       dele”, que poderia transformar o brinquedo     tudo em dois meses. Imaginem o que ainda

                                              nos do IOCOSE de que falei aqui no blog uns     em meio pra projeção individual. O único au-   não pode vir por aí…

                                              quinze dias atrás? Antenado que é, nosso        tor que aparece é o criador do gadjet, por-    *Em francês, Magnetami tem um jogo de

verdade não demorou nada mesmo!) pra          “amigo magnético”* não podia ficar por fora     que o foco está mesmo no “olha só o que o      palavras que brinca também com a ideia de

começarem a aparecer imagens do ProToTo       e também foi conferir o que tava rolando na     ProToTo fez!”.                                 ele ser quase um origami magnético. Vejam

em forma de animais (cachorro, abelha, ves-   Tate Gallery. Aliás, ele já até deu um passo                                                   mais fotos no seu perfil do facebook.

pa…), fazendo caras e bocas, ou perambu-      adiante e virou ele mesmo artista de rua,

lando pela casa.                              com stencil próprio e tudo.



                                              e o que é que o criador acha dessa badala-

                                              da vida da sua criatura?



                                              “Eu acho ótimo! São várias pessoas colo-

                                              cando a sua criatividade por cima da plata-

                                              forma que eu criei e se apropriando do meu

                                              trabalho de uma maneira maravilhosa! Não

                                              é como se estivessem copiando, ninguém

                                              está fazendo isso como se o ProToTo fosse

                                              criação sua. Eles se apropriam da ideia pra

                                              criar uma coisa nova, e acaba surgindo esse

                                              personagem virtual que em dois meses já

                                              tem mais de duzentas fotos no seu perfil do

                                              Facebook!”
ParIs                                                                                                                                                                                ParIs




                                                                                             O show é feito em Inglês, Francês, Espanhol,   aprendendo a lidar (nem sempre da melhor
POst
                                                                                             Alemão, Sérvio e Romeno, assim como o tí-      maneira possível) e pra qual o La Caravane
39
19 fev
                                                                                             tulo do novo disco: “Ahora in da Futur”. No    Passe presta a homenagem com a música
         GIPSY MUSIC WORLD RAP BALKAM SKA ELECTRO ROCK –
                                                                                             palco, o que a gente vê são verdadeiros pro-   ZinZin Moreto.
         “LA CARAVANE PASSE” TRAZ TUDO ISSO, EM SEIS IDIOMAS, PRA BANGKOK
                                                                                             fetas do futuro, com algumas declarações

                                                                                             como a que dá nome ao vídeo aí em baixo,

Nossa, quase me esqueci de postar sobre        Eu já estava começando a achar que assis-     sobre a inescapável realidade a que nós, ho-

isso! Em Bangkok tive a chance (e a sorte de   tir show sentado no gramado devia ser al-     mens, seremos relegados daqui a vinte anos

ficar sabendo a tempo) de conferir um fes-     gum costume tailandês, mas quando esse        (ou menos), quando as mulheres já estive-

tival organizado pela Aliança Françesa pra     caras chegaram não restou a menor chan-       rem dominando completamente o mundo.

celebrar a Fête de la Musique. Um sequência    ce de ficar parado. Em alguns momentos

maravilhosa de shows, todos de graça, na       eles me lembravam o som de grupos como

parte de fora do Museu de Siam. O “line-up”    a Orquestra Voadora, do Rio, ou a The No

começava com bandas locais – de reggae ao      Smoking Orquestra (liderada pelo Emir Kus-                                                   Eu podia seguir falando de como eles cap-

mais puro Metal Tailandês – e terminava com    turica), que é uma loucura tão grande em                                                     taram que o bigode tá voltando com tudo

a grande atração da noite, a mais nova sen-    Buenos Aires que parece até a Nação Zumbi                                                    (ainda vou botar umas fotos na fanpage com

sação da “Gypsy-music World-rap Balkam-        em Recife. Já em outros, eram tão trash que                                                  os modelitos mais impressionantes da via-

ska Electro-rock”: La Caravane Passe.          não tinha nem como comparar, só dar risada.                                                  gem…), de outros vídeos que mostram como

                                                                                                                                            eles conseguem variar de tom de uma música

                                                                                                                                            pra outra, ou de como esse trabalho é forno
                                                                                             Outra fala da situação de ser estrangeiro na
                                                                                                                                            pra fundir tantas referências europeias. Mas
                                                                                             terra que escolheu. Tendo vindo da França
                                                                                                                                            vou parar por aqui e deixar vocês com esse
                                                                                             fica bem claro do que estão falando. A gen-
                                                                                                                                            último, da apresentação em Bangkok. Aliás,
                                                                                             te tem que adimitir que a França é linda e
                                                                                                                                            eu apareço no vídeo! Atenção quando marcar
                                                                                             encantadora, mas também não tem como
                                                                                                                                            0:47 no carinha coçando a cabeça na parte
                                                                                             negar que enquanto cidades como Londres
                                                                                                                                            superior esquerda da tela. A partir da metade
                                                                                             são como jovens inovadores desbravando o
                                                                                                                                            lembra mais o The No Smoking Orquesta.
                                                                                             mundo, Paris parece mesmo um cinquentão

                                                                                             cheio de história pra contar. Inovação pra

                                                                                             valer está vindo é dessa massa criativa imi-   No mais, é isso aí. #Ficaadica e vâmo

                                                                                             grante com quem o país inteiro ainda está      embora.
LoNDRes
lONDrEs                                                                                                                                                                                     lONDrEs




POst                                                                                                   POst

40
19 fev
                                                                                                       41
                                                                                                       19 fev
            #SHARING9 – IAN BLACK MANDA LEMBRANÇAS DO REI PRA RAINHA                                             NÃO PRECISA SER úNICO.

            EM LONDRES                                                                                           MAS FAÇA O FAVOR DE SER AUTÊNTICO


                                                                                                       Mal cheguei em Londres e já descobri coisas    Um grupo de quatro pessoas resolveu fun-
O quinto presente do #Sharing9 veio do Ian Black. Ele mandou muito bem e me deu uma relí-
                                                                                                       indescritivelmente interessantes. A primei-    dar uma sociedade, que tinha como único
quia valiosíssima pra quem quiser conhecer, como ele mesmo diz, a verdadeira Música Popular
                                                                                                       ra delas, na verdade, se encaixa na catego-    produto um par de sapatos. O desenho é
Brasileira: um vinil do Roberto Carlos de 1975! Esse aí vai direto pra Londres, e eu vou fazer ques-
                                                                                                       ria daquelas que chegam pra clarear o que      bem “clean” e os materiais da mais alta qua-
tão de botar pra tocar em algum Pub antes de escolher um felizardo(a) pra ganhar essa joia.
                                                                                                       a gente já viu mas ainda não tinha se dado     lidade. Mas a quantidade produzida não era

                                                                                                       conta, embora estivesse cheio de sinais e      muito normal: apenas 27 pares.

                                                                                                       até mesmo escrevendo sobre isso. Trata-se

                                                                                                       da Society27, uma iniciativa que revela mui-   O site oficial da empresa é uma página do

                                                                                                       to mais do que a gente imagina sobre o que     facebook, onde as pessoas podem acompa-

                                                                                                       está por vir por aí.                           nhar o processo de fabricação completo dos

                                                                                                                                                      tênis e toda a repercussão internacional do

                                                                                                                                                      projeto. Desde o momento da chegada do

                                                                                                                                                      material, passando pela costura das partes

                                                                                                                                                      até ele ficar pronto pro envio, está tudo do-

                                                                                                                                                      cumentado em fotos e disponível na rede.

                                                                                                                                                      Se parasse por aí eu já diria “Nossa! olha o

                                                                                                                                                      ‘know your own stuff’ spirit aí na sua máxima

                                                                                                                                                      potência!” ou então “Hum… exclusivismo no

                                                                                                                                                      ar…”. Mas continua, e é aí que fica realmente
Vejam aí em baixo como foi a visita ao Ian          Pra encerrar, ainda rolou no verso da capa
                                                                                                                                                      interessante.
Black. Que ele é um cara mega-influente nas         um “From Brazil to my new english friend”.
                                                                                                                                                      Os 27 compradores passam a fazer parte do
mídias sociais isso é de conhecimento geral,        Muito bem colocado, não?
                                                                                                                                                      processo colaborativo de criação dos próxi-
mas da sua paixão por Roberto Carlos pouca
                                                                                                                                                      mos produtos da sociedade! Quer dizer, ter
gente sabe, e ele aproveitou a oportunidade         Pra saber mais sobre o Ian, acesse:
                                                                                                                                                      esse sapato não é apenas uma questão de
pra mostrar o porquê de tanta admiração             http://ianblack.com.br/
                                                                                                                                                      comprar algo exclusivo, que pouca gente
pelo Rei.                                           @ianblack
                                                                                                                                                      tem. É um convite a fazer parte de um grupo
lONDrEs                                                                                                                                                                                  lONDrEs




                                                que é referência que a gente tem no mundo       Esse conceito de autenticidade é meio difícil   Aliás… tem um aspecto do ProToTo (tema

                                                de hoje pra chegar até a grande questão da      de explicar. É por isso que eu não podia dei-   do post passado) que eu esqueci de men-

                                                “authenticity”, a verdadeira bola da vez que    xar de compartilhar com vocês esse vídeo        cionar: pelo menos por enquanto, existem

                                                eu ainda não tinha conseguido enxergar.         do Joseph Pine no TED. É INCRÍVEL! Faz          apenas 100 ProToTos numerados espalha-

                                                                                                meia hora que descobri que ele tem um livro     dos pelo mundo (o meu é o 89, ano em tan-

                                                Afinal de contas, interessa tanto assim ser     cujo tema é exatamente, pasmem vocês, a         to eu quanto a DM9 nascemos). Assim como

                                                único? A nossa geração talvez seja a pri-       maneira como passamos de uma socieda-           um tênis da Society27, ter um ProToTo certa-

                                                meira na história da humanidade a conviver      de onde se acumulava bens e mercadorias         mente flerta com o sentimento do exclusivo,

                                                com uma avalanche de “cross-references”         para uma onde se coleciona experiências!        mas rapidamente se converte na experiência

                                                tão grande a ponto de dinamitar a própria       Nesse vídeo ele explica como essa transição     da criação coletiva de algo autêntico.

de criação coletiva! A ideia de que “um tra-    noção de identidade pessoal que viemos          deu origem à busca pela autenticidade e um

balho coletivo pode levar à criação de algo     nutrindo ao longo do tempo: de que cada         pouco mais do que significa essa ideia. Não

único” é o eixo central da sociedade (confor-   um tem em si mesmo alguma coisa que o           concordo com tudo que ele diz… Mas tiro o

me eles mesmos declaram nessa entrevista        torna especial Quanto mais fundo entramos       meu chapéu sem medo se ser feliz. Como a

para a revista digital russa kyky.org).         nas redes sociais, mais nos damos conta de      gente diz na Bahia, “esse cara broca muito,

                                                que ninguém é “tão único assim” e que exis-     pai!”.

                                                te uma quantidade enorme de pessoas que

                                                fazem as mesmas coisas que a gente, têm os      Agora a gente pode parar pra pensar, por

                                                mesmo interesses que a gente, até mesmo         exemplo, que se a questão essencial fosse

                                                pensam parecido com a gente.                    “uniqueness”, a Society 27 poderia muito

                                                                                                bem ter produzido apenas um par de sapa-
                                                                                                                                                Não temos medo de nos perder na multidão.
                                                O que temos de diferente é que ao invés         tos pra vender como obra de arte conceitual
                                                                                                                                                Temos vontade de participar dela de alguma
                                                de nos desesperar por conta disso, criamos      pra algum distinto comprador. Não fez isso.
                                                                                                                                                maneira memorável que reflita o que temos
Aqui em Londres eu conheci um desses 27         meios de pontencializar essas possibilidades    Escolheu fazer 27, o que torna-os não “tão
                                                                                                                                                de verdadeiro. Não importa o quanto pe-
compradores espalhados pelo mundo. Ele se       de interação e trasformá-las em plataformas     únicos assim”, mas permite juntar 27 pes-
                                                                                                                                                quena seja essa ação, importa que ela seja
chama Erick Arash, estuda fotografia na Lon-    de criação coletiva.                            soas com afinidades e interesses comuns
                                                                                                                                                autêntica. Se estamos colecionando expe-
don College of Communication e me propor-                                                       dispostos a trabalhar juntos no processo de
                                                                                                                                                riências e a memória é uma ilha de edição,
cionou uma das mais interessantes conver-       Não importa mais tanto assim se somos os        criação de algo novo que reflita exatamente
                                                                                                                                                melhor que a gente só tenha material verda-
sas da viagem até agora. O primeiro ponto       únicos as ter certas coisas. Importa que elas   o que os une. Algo que seja, portanto, quase
                                                                                                                                                deiro pra editar.
em que tocamos foi essa questão da “uni-        sejam aquilo qua mais queremos que elas         que por definição, autêntico.

queness” do trabalho… passando por tudo         sejam: autênticas.
lONDrEs                                                                                                                                                                                 lONDrEs




                                                                                                  o roteiro. O tour é muito mais que visitar os   de entrar “arrumadas demais”, passando por
POst
                                                                                                  pontos conhecidos do lugar. É conhecer um       praças e fundos de igreja onde nosso guia
42
19 fev
                                                                                                  olhar que nunca teve a chance de se mostrar     Henry já foi preso por dormir (bem como
          THE SOCK MOB E UNSEEN TOURS – UM OLHAR COMPLETAMENTE
                                                                                                  e que está repleto de experiências interes-     as mutretas todas envolvendo os policiais
          NOVO SOBRE A CIDADE E A PARTIR DE SEUS HOMELESS.
                                                                                                  santíssimas, ricas e, acima de tudo, comple-    e moradores dos prédios) até chegar num

                                                                                                  tamente autênticas.                             pub que já causou um certo reboliço por exi-

Antes de sair do Brasil, um amigo me disse        responder. Mas um grupo de pessoas aqui                                                         bir um filme não muito ortodoxo envolven-

pra prestar muita atenção nos olhares das         de Londres decidiu quebrar o gelo, simples-                                                     do uma mulher e um… jumento. Henry usava

crianças e dos velhos, porque às vezes a no-      mente oferecendo um par de meias e se                                                           a pitada de sarcasmo que a rua lhe deu pra

vidade mais importante é simplesmente um          sentando pra conversar com eles, numa ini-                                                      comentar que “nunca mais vi os animais da

jeito novo de olhar pro que está aí a mais tem-   ciativa que foi batizada de The Sock Mob. A                                                     mesma maneira…”.

po. Hoje foi um dia de fazer isso, e descobrir    ideia não era fazer filantropia nem caridade,

um olhar que em 45 dias de viagem eu ain-         mas sim acabar com alguns estigmas asso-                                                        Nem a escola de circo da região (onde vou

da não tinha chegado perto de conhecer. Se        ciados a grupos como esse que os impedem                                                        fazer uma aula na segunda feira) ficou imu-

eu contasse que isso aconteceu num passeio        de participar ativamente na vida cultural e                                                     ne aos seus comentários. O percurso ainda

turístico talvez ninguém me desse crédito.        social da cidade.                                                                               incluiu a localização verdadeira do primeiro

Mas… e se o guia fosse um morador de rua?                                                                                                         teatro de Shakespeare (não é aquele onde

                                                                                                                                                  todo mundo tira foto!), que já está no pro-

                                                                                                                                                  cesso de desapropriação dos prédios vizi-

                                                                                                                                                  nhos para ser reconstruído em cinco anos, e

                                                                                                                                                  uma quantidade enorme de outros pontos,

                                                                                                                                                  histórias e mutretas que tornam tudo ainda

                                                                                                  Fiz o percurso da Old Street, em East Lon-      mais autêntico. Isso pra não mencionar o fato

                                                                                                  don, um lugar que atualmente tem uma            de ele falar que conhece o Banksy como se

                                                                                                  grande concentração de pubs e galerias de       fosse a coisa mais natural do mundo! Depois

                                                                                                  arte, mas que não faz muito tempo era um        do passeio paramos num bar pra conversar
Você já pararam pra pensar no tanto de his-       E foi isso que eles fizeram ao criar o London
                                                                                                  centro industrial morto fora do horário co-     um pouco mais sobre todas essas histórias,
tórias que essas pessoas têm pra contar?          Unseen Tours, e transformá-los de figuras
                                                                                                  mercial. Não posso contar tudo pra não es-      é claro, e você todos podem fazer o mesmo.
Provavelmente não, né? Devíamos estar             marginalizadas do enredo a protagonistas
                                                                                                  tragar o passeio. Mas em duas horas descobri
ocupados demais pra perguntar, ou preo-           das histórias dos seus bairros. Como não po-
                                                                                                  desde a locação de um centro cultural, hoje     A questão mais marcante quando voltamos
cupados demais com o que eles poderiam            dia deixar de ser, são eles mesmo que fazem
                                                                                                  demolido, onde as pessoas eram proibidas        pra casa, no entanto, é pensar no significado
lONDrEs                                                                                                                                                                             lONDrEs




que esse trabalho tem para os guias. Não es-    absolutamente autênticas prontas pra serem
                                                                                               POst
tou falando da perspectiva de parar de pedir

na rua, de melhorar de condições financei-
                                                compartilhadas! É estranho de se pensar nis-

                                                so, mas o homeless do Underseen Tour re-
                                                                                               43
                                                                                               19 fev
                                                                                                        CABARÉS TOMAM CONTA DE LONDRES –

ras, nada disso. Estou falando de ver, pela     presenta numa figura só o paradoxo repulsi-             PORQUE DO DIAMANTE NÃO NASCE NADA, MAS DO LODO…

primeira vez na vida, que as suas histórias     vo-atrativo de um mundo que rejeita a fonte

são algo de valor, que aquilo que sempre os     do que busca. Não sei qual será o futuro do
                                                                                               Se tem uma coisa que vem crescendo em          Hoje em dia nesse saco de variedades cabe

                                                                                               Londres sem parar nos últimos anos são os      tanto burlesco quanto circo, drag, stand-up,

                                                                                               cabarés. Pode ser que pra gente, que não       fantoche, e, muito mais usualmente do que se

                                                                                               tem essa tradição tão forte ou tão viva no     pensa, o mais bizarro, freak e assustador que

                                                                                               Brasil, a primeira coisa que nos venha à ca-   se possa imaginar. Um dos mais importantes

                                                                                               beça seja alguma mulher cantando e dançan-     desses cabarés – não tanto por seus números

                                                                                               do enquanto esperamos que ela coloque os       mais provocativos, mas pelo caráter pioneiro

                                                                                               peitos pra fora. Mas essa imagem só condiz     que teve para o crescimento dessa cena na

                                                                                               com uma determinada época que já passou        cidade – se chamava La Clique, e estreou não

                                                                                               (há muito tempo!) e está tão distante do que   faz tanto tempo assim a sua continuação (La

                                                                                               ele representa hoje quanto dizer que o cam-    Soirée), que fui assistir hoje.

                                                                                               peonato brasileiro só tem Fla-Flu.

                                                                                                                                              O espaço é muito maior do que o normal

                                                                                                                                              para esses shows. Mas o palco não: se ti-

                                                                                                                                              ver três metros de diâmetro é muito, e esse

                                                                                                                                              elemento é absolutamente essencial. Nada

                                                                                                                                              funciona se o palco virar um espaço inatin-
tornava figuras indesejáveis podia também       projeto, mas ele já não acaba em si mesmo.
                                                                                                                                              gível, porque todo cabaré é um convite. Um
torná-los admiráveis. Você vê que contar as     Assim como uma obra de arte, ele começa
                                                                                                                                              convite a uma viagem insólita onde a gente
histórias, e até mesmo as histórias de dor, é   no quadro pra continuar na cabeça de quem
                                                                                                                                              só embarca se se sentir no mesmo nível de
sentir-se no lugar de quem tem algo pra ofe-    viu.
                                                                                                                                              quem está no palco. Num cabaré, o artista
cerer ao invés de pedir. Então oferecem tudo    Essa vai continuar ainda muito tempo.
                                                                                                                                              está vulnerável o tempo todo.
de peito aberto.

Eles têm de sobra o que o mundo de hoje
                                                                                                                                              Quando o Capitain Frodo entra em cena
busca com mais afinco: experiências. Muito
                                                                                                                                              você obviamente ri. Afinal de contas, ele é
mais do que isso: experiências originais e
lONDrEs




ridículo. Mas isso não é nem pode ser um

entretenimento vazio. A risadas e estôma-       Eu podia encerrar o post aqui, tudo muito

gos embrulhados que ele provoca enquanto        lindo e fechadinho. Mas nem tudo que é in-

desloca as partes do seu corpo pra criar for-   teressante é bonito, e esse vídeo aí embaixo

mas estranhas e inacreditáveis estão a favor    não me deixa mentir. O que eu estou aqui pra

de uma provocação maior, que ele mesmo          fazer é apontar tendências, e esse pessoal

em algumas poucas palavras:                     acredita que, mesmo nesse curto espaço de

                                                tempo, Londres já está saturada de burlesco

                                                e circo, então a gente precisa olhar pro que

                                                ainda está pra vir. Se vocês quiserem algo

                                                realmente alternativo… se preparem para o

                                                “Side Show”. O que de mais bizarro existe

                                                nesse mundo está lá, e é de lá que ainda vai




“Não é incrível o que as pessoas podem fa-

zer pra ganhar a vida? Vocês já devem ter

pensado em alguma ideia absurda de algo

supercriativo pra fazer mas que nunca tive-

ram a coragem de tentar. Bem, depois de ver
                                                sair muita coisa pra bombar por fora.
o que a gente fez essa noite talvez ela não
                                                (Aliás, de onde veio o Captain Frodo? É sem-
pareça mais tão aburda assim… Então vai lá
                                                pre bom avisar…)
atrás dela!”.

Existe alguma coisa que nos empurrando a
                                                Tudo isso pode ser muito estranho. Mas, por
perder a vergonha se ser quem somos. Al-
                                                incrível que pareça, é autêntico. E é isso que
guém aí se lembra do Air Sex Championship?
                                                importa agora.
“Seja você mesmo e ponha pra fora suas fan-

tasias!”. O que é que o Capitain Frodo estava

dizendo mesmo?
lONDrEs                                                                                                                                                                            lONDrEs




                                                                                             a invadir o espaço e extravasar toda a cria-   Enquanto, isso, num sala próxima, acontece
POst
                                                                                             tividade que tem. As portas abrem, e cada      nada mais nada menos que a audição para
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19 fev
                                                                                             pincel é uma cabeça a mais pra trabalhar       a companhia de balé de um certo… Boris
          SECRET CINEMA – PARTE 1 (FREEDOM TO CREATE)
                                                                                             junto naquela pintura. Já não são só telas.    Lermontov. Fico de voltar às “9pm da ma-

                                                                                                                                            nhã seguinte”, mas ao sair da sala uma mul-

                                                                                                                                            tidão de bailarinas irrompe numa corrida

Quatro da tarde. Estação de metrô Wap-       mais pura vontade de criar, seja na platafor-                                                  acelerada para o lugar onde antes estava a

ping. Saio do trem, ajeito minha boina, e    ma que for, sem se importar se será bonito                                                     orquestra e transforma-a num grande palco

dou mais alguns passos em direção à es-      ou feio, naquilo que chamamos de “Unkno-                                                       para uma performance inesquecível. E isso

cada. Busco alguém com o mesmo dress         wn Culture Movement”. Vamos até a praça.                                                       não é nem 20% do que aconteceu por todo

code que eu (final da década de 40), mas     E é lá que tudo começa.                                                                        o espaço.

quando finalmente chego à saída, descubro    No local do evento, a fila já dobra a esqui-

que eles não são dois nem três. Contam-se    na. Me posiciono pra esperar, quando uma

às centenas, e aguardam todos algum sinal    dama do chapéu roxo e cabelos ruivos me
                                                                                             Ouço o som de um bumbo. Uma panela o
que não se sabe de onde virá. De repente     segura pelo braço e diz: “venha, eu tenho
                                                                                             acompanha. A caixa está esperando pra ser
ele chega.                                   um trabalho pra você”.
                                                                                             tocada, e quando menos se espera, uma

                                                                                             orquestra espontânea está formada. Nosso

                                                                                             ensaio é música de fundo para que ainda

                                                                                             mais gente crie um poema coletivo, onde

                                                                                             cada um escolhe apenas uma palavra e só a

                                                                                             união dessa massa disforme pode criar algo     Uma bailarina ruiva de vestido branco pen-

                                                                                             assim. Declamam-no num alto-falante que        dia sobre o parapeito num equilíbrio instável.

                                                                                             nada mais é do que um cone de papelão.

                                                                                                                                            Eu não estou entendendo mais nada.

                                                                                                                                            Mas ela usava sapatos vermelhos…




Sob gritos de “FREEDOM! FREEDOM! FRE-        Passamos pela entrada, e já dentro do gal-

EDOM TO CREATE!”, seguimos em passea-        pão secreto começamos a preparar telas

ta pelas ruas, com placas que manifestam a   gigantes para a multidão que está prestes
lONDrEs                                                                                                                                                                             lONDrEs




                                                                                                 Mas era muito mais que isso: uma verdadei-     deve se sentir o fã de um desses filmes ao
POst
                                                                                                 ra proposta de revolução na maneira como       saber disso tudo só uma semana depois e
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19 fev
                                                                                                 vemos cinema! Que 3D que nada! Tecnolo-        não ter mais a oportunidade de adicionar o
          SECRET CINEMA – PARTE 2 (THE RED SHOES…)
                                                                                                 gia nenhuma chega perto do tipo de imer-       seu toque pessoal a uma obra dessas!!!)

                                                                                                 são no universo do filme que essa iniciativa   O que eles talvez ainda não saibam é o ta-

                                                                                                 conseguiu criar.                               manho do favor que estão fazendo pra to-

Até o momento em que acabou o post an-            tov era o dono da companhia de balé onde

terior, eu não estava entendendo mais nada        o filme todo se passava; nossa loucura

do que estava acontecendo, e foi assim que        percussiva era a orquestra do espetáculo;

subi pra uma sala e me sentei pra assistir o      as telas e colunas que pintamos tinham a

filme da noite, que até então ninguém co-         mesma forma do cenário, e cada uma das

nhecia: The Red Shoes. Foi só aí que eu me        outras performances que vimos pipocava

dei conta…                                        pouco a pouco, inconfundível!




…de que tudo que a gente fez antes eram           Pra completar o pacote, o filme era de 1948.   Não tem nada que eu possa dizer que dê         das as artes envolvidas no projeto, quando

cenas do filme.                                   Isso explica por que estávamos todos vesti-    uma ideia próxima do que é a sensação de       nos convidam a redescobrir o prazer táctil

Devia ter uma maneira de dar uma pausa            dos daquele jeito.                             estar lá, e o Unknow Culture Moviment sabe     de experimentá-las e fazer de tudo isso um

na leitura, tipo um sinal de silêncio pra colo-   Quando eu descobri e decidi ir ao Secret       disso. Sabe que quem experimentou essa         canal de estímulo para o que temos de mais

car exatamente depois dessa frase. Porque         Cinema, pensei que era só mais uma dessas      imersão uma vez vai querer experimentar        transformador: a criatividade.

foi assim que eu fiquei por dentro, sem sa-       mobilizações que aproveita o fetiche do        de novo. Sabe que isso faz com que elas se

ber o que dizer. Conforme o filme avançava,       “escondido” e do “exclusivo” (de que tanto     sintam especiais. Sabe que quem perdeu…        Cinema é uma coisa impessoal? Produzi-

cada elemento que experimentamos antes            já falei nesse blog) pra organizar festas e    perdeu, e vai se morder todo de não ter essa   da em escala industrial e copiada pra todo

ia surgindo na tela: o tal de Bóris Lermon-       aglutinar pessoas com os mesmos gostos.        experiência pra contar. (Pensem em como        mundo ver igualzinho? Não mais.
lONDrEs                                                                                          lONDrEs




Teatro é mais uma dessas artes que todo          ajudei de algum jeito a levar essa ideia mais

mundo enche a boca pra condenar ao os-           longe. Tem certas coisas que são boas de-

tracismo depois que a tecnologia abriu es-       mais pra ficar restritas.

paços pra realizações maiores? Tampouco.         Essa é uma delas.



O Secret Cinema conseguiu me surpeen-            (AH! Não deixem de assistir o filme! Ele

der num dia só mais do que muita gente           acaba de ser restaurado e receber de volta

num ano inteiro. Fiquem de olho pra saber        toda a cor e esplendor que fez com Mar-

da próxima iniciativa. Querem fazer melhor       tin Scorcese declarasse publicamente seu

ainda? Multipliquem-na! Se essa viagem           amor pelo filme numa pequena nota escri-

terminasse hoje, eu já voltava pra casa feliz.   ta especialmente para o Secret Cinema. É

Mas só voltava realizado se soubesse que         uma obra prima.)
lONDrEs                                                                                                                                                             lONDrEs




POst

46
19 fev    MINHA DICA PRO WORLD BOOK DAY – LITTLE PEOPLE IN THE CITY




Dia 3 de Março é o World Book Day, e, pelo menos em Londres, essa data é muito especial.

Pra começar, todas as crianças vão pra escola vestidas como seus personagens favoritos e

várias atividades de leitura, contação de histórias e troca de livros se espalham pela cidade.

Eu resolvi dar a minha contribuição pessoal pra esse dia já hoje, recomendando um livro

sensacional que comprei nessa viagem e ao mesmo tempo oferecer mais um novo olhar so-

bre essa cidade que me conquista cada vez mais. O livro se chama Little People in the City.

Pra ler esse não precisa nem saber inglês! O livro é uma coletânea de fotografias de um um

artista inglês chamado Slinkachu, que acaba de abrir uma nova exposição chamada Con-             “This is not a pet, Susan…”)


crete Ocean, de cuja concorridíssima abertura acabo de chegar. Vejam que coisa LINDJA!                                          Quando nos deparamos com a fragilidade

                                                                                                                                dessas pessoinhas, pra quem tudo é muito

                                                                                                                                mais difícil, vemos como essa plataforma

                                                                                                                                é maravilhosa pra trabalhar temas como a

                                                                                                                                frustração… a impotência… e nos chamar

                                                                                                                                a atenção pro quanto nós mesmos somos

                                                                                                                                frágeis. Sem ficar piegas nem derrotista,

                                                                                                                                Slinkachu volta a atenção para essas pe-
                                                                                                 “No”
                                                                                                                                quenas delicadezas da vida: um sonho que

                                                                                                                                parece inalcançável, o peso de um “não”, o

                                                                                                                                encantamento de uma criança…



                                                                                                                                Little People in the City é um grande livro
Slinkashu usa bonecos na escala de 1:87 pra criar seu próprio mundo de seres minúscu-
                                                                                                                                de pequenas coisas, que nos mostra que o
los onde tudo aquilo com que lidamos ganha, literalmente, novas dimensões. Estamos tão
                                                                                                                                verdadeiro tamanho de qualquer coisa na
acostumados a nos fazer “casca grossa”, durões, prontos pras asperezas da vida, que nos
                                                                                                                                nossa vida depende só do peso que nós da-
esquecemos de como pequenos detalhes podem fazer toda a diferença na vida de alguém.
                                                                                                                                mos pra ela.
                                                                                                 “High Expectations”
lONDrEs                                                                                                                                                                           lONDrEs




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19 fev    ECOBUILD – SUSTENTABILIDADE EM DESIGN E ARQUITETURA

          E PALPITES PRO MUNDO DAQUI A VINTE ANOS.



Londres está recebendo a Ecobuild, a maior feira do mundo de construção, design e arqui-

tetura com preocupação ambiental. O canal por onde fiquei sabendo desse evento foi nada

menos que o top trends do twitter, então dá pra ter uma ideia da repercussão do que acon-

tece por lá. Pra falar a verdade, eu acho que o movimento do “going green” já é algo tão

inescapável pra todos nós que nem sei mais se ainda dá pra chamar isso de tendência ou se

já virou uma exigência mesmo, mas, de toda maneira, fui conferir as novidades.



                                                                                               outro não é resolver o problema, os estu-     futuro das cidades. Um tecnólogo, um ar-

                                                                                               dantes simplesmente criaram um… buraco.       quiteto e um antropólogo juntos na mes-

                                                                                               É, isso mesmo, bem no limite entre a ideia    ma mesa tentando dizer como seria o nos-

                                                                                               mais açougueira e a solução mais sofistica-   so mundo em 2030. O primeiro ponto em

                                                                                               da e “fora da caixa”, decidiram cortar seu    comum entre eles é uma sutil mudança de

                                                                                               prédio no meio pra deixar o sol passar.       interpretação que muda todo o significado

                                                                                               Pode ser estranho, mas nem por isso dei-      das coisas.

                                                                                               xa de ser brilhante. “Radicalizar bonito” é

                                                                                               uma das melhores maneiras de estabelecer      No mundo do compartilhamento, interati-

Um dos stands com ideias mais inovadoras era o da Isover, que lançou um concurso desa-         um conceito, e esse é um caso em que a        vidade e conectividade, o espaço público

fiando estudantes a criar um projeto ambientalmente responsável para um arranha-céu em         ousadia do projeto cumpre o objetivo da       não é mais por excelência o local da socia-

Manhattan. O ponto principal em todos os projetos tinha de ser o Passive Housing – a bola      redução de energia e ainda estabelece a       bilidade (essa função está sendo dividida

da vez no mundo da sustentabilidade – buscando reduzir o consumo de energia ao mínimo          integração com o espaço ao redor como         cada vez mais com outras esferas, como a

imaginável através do aproveitamento máximo de todas as fontes naturalmente disponíveis        prioridade número zero pra qualquer em-       digital). Cada vez mais ele está se conver-

no local desde o momento da construção.                                                        preendimento daqui pra frente.                tendo no local da “recordability”, do regis-

Os autores do Solar Slice pararam pra pensar em algo que quase ninguém pensa: os vizi-                                                       tro.

nhos, e o fato de que construir um arranha céu ali ia acabar com a iluminação natural de que   O grande momento do dia, no entanto, foi

eles desfrutavam a mais de 80 anos. Sabendo que resolver um problema transferindo-o pra        mesmo o debate de encerramento sobre o        Como todo movimento que se impõe, esse
lONDrEs                                                                                       lONDrEs




também cria resistências, e é isso que a      quitetura física e a arquitetura digital con-

gente vê na busca pelas chamados “tran-       vergem, e a inundação de links para a esfera

sient spaces” ou “green spaces”, onde esta-   digital no mundo físico é a nova linguagem

ríamos “a salvo” dessa “recordability” toda   para essas realizações.

e poderíamos nos dedicar ao pleno gozo de     A Ecobuild conseguiu ir além de uma ação

corpo presente de alguma experiência. (Aí     segmentada a um setor restrito e mostrar

que entra toda a onda dos “secret qualquer    que temas realmente importantes e deter-

coisa” de que eu tanto estou explorando).     minantes para o nosso futuro não estão




Se isso tende a se potencializar, o maior     jamais separados. Pra entender pra onde

desafio que as grandes cidades têm pela       vamos é preciso mais do que uma visão

frente é o de se apropriar dos instrumentos   profunda. É preciso um olhar amplo.

de conectividade para gerenciar ao vivo a

dinâmica dos grandes centros a partir dos

registros dos cidadãos. Cada vez mais a ar-
lONDrEs                                                                                                                                                                            lONDrEs




                                                                                              E eu que achava a sorveteria da Eliana o       “Sem contar a parte mais importante de to-
POst
                                                                                              pico da tecnologia… Aquilo que ele coloca      das: você vê o sorvete ser feito. Sabe de
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02 mar
                                                                                              no pote é NITROGÊNIO LÍQUIDO! A uma            onde veio e vê como faz. Isso faz toda a
          UM LABORATÓRIO? UM CIENTISTA MALUCO? NÃO. É SORVETE
                                                                                              temperatura de nada mais que -196 GRAUS!       diferença.”
          DE NITROGÊNIO LÍQUIDO!



Londres é inacreditável. Quando você pensa que viu tudo que tinha de novidade pra ver,

aparece não sei de onde uma invenção mais insólita que a outra. No mesmo dia eu descobri

duas coisas que mudaram completamente minha visão sobre sorvete. Tenho certeza que a

de vocês também.

A primeira é bizarra, mas um sucesso de publicidade memorável. Acaba de ser lançado um

novo sabor, exclusividade de uma determinada sorveteria em Convent Garden, carinhosa-

mente apelidado de “Baby Gaga”. A razão pro nome? Bem… é feito com um tipo especial

de leite: materno.




                                                                                              Cool é pouco pra falar desse lugar. E sabem    Se eu tivesse que escolher, essa seria a ra-

                                                                                              do que mais? É muito gostoso. Mesmo.           zão pra dizer que esse é o futuro do sorvete.

                                                                                              “Muita gente fica preocupada porque acha       Porque esse é o futuro de quase qualquer

                                                                                              que tem muita química, mas não tem nada!       área: conhecer o processo por trás das coi-

                                                                                              Como é tudo feito na hora, não tem esta-       sas, o tal “know your own stuff” spirit. Seja

                                                                                              bilizante nem aditivo nenhum, e esse é o       pra se sentir dentro de um laboratório, seja

                                                                                              mesmo nitrogênio que você coloca no pul-       por causa da novidade, do chique, da loca-

                                                                                              mão quando respira. Só que gelado. A qua-      lização, da ideia, do sabor ou até mesmo

                                                                                              lidade do sorvete é muito melhor.”             da agradável companhia de duas pessoas

No final das contas é meio que muita farinha pra pouco pirão, porque nem a sorveteria tinha   Existem alguns pouquíssimos restaurantes       simpaticíssimas com um sorriso no rosto, a

estoque pra atender essa demanda e nem o sorvete era de leite materno (na verdade é a         que servem esse sorvete como a coisa mais      Chin-Chin Labaratorists é mais uma dessas

calda vai por cima que é). Mas o que o dono queria mesmo era a publicidade… e isso ele        chique e sofisticada do mundo, o futuro do     experiências em que, mais do que me mer-

conseguiu fácil! Quando a Lady Gaga anunciou ontem que vai processar a sorveteria por         sorvete. E cobram 25 pounds (75 reais!!!)      gulhar, eu aposto.

causa do nome do sorvete então… ele deve ter dado pulos de alegria.                           por isso. Ahrash e a Nyishe, donos do lugar,

Agora, quem REALMENTE faz um negócio incrível é o pessoal do Chin-Chin Laboratorists,         são os primeiros a disponibilizar a novidade

em Candem Town. Eu não vou falar nada, só vejam esse vídeo aí e depois a gente conversa.      de uma maneira acessível, a módicos 3,95.
lONDrEs                                                                                                                                                                                lONDrEs




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                                                                                              04 mar   MERGULHE, SE LAMBUZE, E DEPOIS ME CONTE COMO FOI. BURNING
03 mar    #SHARING9 LONDRES – SOM DO ROBERTO CARLOS ENVIADO PELO
                                                                                                       MAN E A TENDÊNCIA DOS POP-UP QUALQUER COISA
          @IANBLACK CHEGA AO LOCKSIDE LOUNGE


                                                                                              Uma cidade não é só feita de lugares, mas também dos encontros que proporciona. E foi num
Mais uma missão completada. O Ian Black      Encontrei o que procurava no Lockside
                                                                                              fim de tarde em Londres que eu encontrei James Hanusa e um universo de eventos inovadores
tinha mandado um vinil do Rei pra terra da   Louge. Era a noite de aniversário do One-
                                                                                              que eu ignorava completamente. Ele é membro da Burning Man Organization, e se vocês tam-
rainha, mas dessa vez não bastava entregar   glove Club, e quem assumia o som era o DJ
                                                                                              bém nunca ouviram falar desse grupo, vão ficar sabendo agora.
pra alguém: eu tinha que colocar pra tocar   Naked Jake. Ele foi super simpático, gostou

num pub antes também.                        da ideia, e colocou o nosso som pra tocar lá

                                             de boa.



                                             Depois de eu explicar a importância desse

                                             tal Roberto Carlos e conversar um pouco

                                             mais sobre música brasileira, decidi que ia

                                             ser ele mesmo que ia levar o disco. Foi mi-

                                             nha maneira de presentear o OneGlove Club

                                             no seu aniversário. Quem sabe assim come-

                                             ça a incorporar mais referências brasileira no

                                             seu trabalho e assim multiplicar ainda mais a    Desde 1991, todos os anos um número cada vez maior de pessoas se reúne no meio do deserto

                                             nossa música pelo mundo?                         de Black Rock, nos Estados Unidos, para um acontecimento memorável. Uma semana antes, a

                                                                                              única coisa que se vê é areia, vento e um lago. Uma semana depois também. No entanto, duran-

                                             Espero que você tenha gostado, Ian. Quem         te a semana do evento, 48 mil pessoas (!!!) transformam a locação no melhor lugar do mundo

                                             já tava ficando apegado depois de dois me-       para criar, ousar, interagir, sobreviver, despirocar e experimentar um espírito de inovação que

                                             ses vendo essa capa todo dia era eu. Mas         talvez não se encontre em nenhum outro lugar. Mas se vocês estão pensando que isso tudo é só

                                             agora sei que está com alguém que vai fazer      uma festa, vamos começar a esclarecer algumas coisas.

                                             bom uso. Até a próxima!
Decidi que o lugar pra isso ia ser Candem
                                                                                              . 1) Absolutamente nada está a venda, a não ser café e gelo. Todos os itens necessários à so-
Town, e saí procurando um DJ com vitrola e
                                                                                              brevivência durante a semana têm de ser trazidos de casa (e levados embora). O princípio mais
cabeça abertas pra conhecer mais da Músi-
                                                                                              básico da filosofia do Burning Man é a autossuficiência radical e o “Leave no Traces”.
ca Popular Brasileira.
lONDrEs                                                                                                                                                                                lONDrEs




2) Esse não é um evento para espectadores. É     simplesmente uma cidade inteira com infra-

um experimento de comunidade temporária,         estrutura completa de água, energia, mora-

onde relações são criadas e a sobrevivência      dia e comunicação para quase cinquenta mil

é desafiada. A palavra de ordem é participar,    pessoas erguida numa questão de dias!

criando um mundo novo onde todos preci-

sam e confiam uns outros e o gifting (dar sem    No ano passado, por exemplo, os criadores

esperar nada em troca) é parte essencial.        aproveitaram esse maravilhoso laboratório




                                                                                                  (especialmente para os 60% da superfície       Burning Man e o TED têm mais em comum

                                                                                                  do globo e 40% da população que ainda não      do que a gente pensa. Grandes cabeças ten-

                                                                                                  tem cobertura de celular) com capacidade       dem a ser atraídas por grandes experiências,

                                                                                                  de modificar profundamente comportamen-        e não é tanta surpresa assim os dois eventos

                                                                                                  tos. Afinal de contas, quando a comunicação    contarem com gente como os fundadores

                                                                                                  chega, vem junto com ela melhorias na eco-     do Google como frequentadores. De acordo

                                                                                                  nomia local, educação, novos empregos… e       com a Inc, “ambos são experiências intensas

                                                                                                  por aí vai.                                    e imersivas quase como nenhuma outra: um

                                                                                                  No entanto, se essa vitrine tecnológica já é   domina a mente com uma overdose de ideias

                                                                                                  interessantíssima, ela não chega perto do      e insights de quase todas as áreas e campos,

3) Esse é um lugar para desafiar a criativida-   humano para testar um novo sistema de co-        verdadeiro carro chefe do Burning Man: a       enquanto o outro toma de assalto os olhos

de humana no limite de toda sua potenciali-      municação que pode ser montado em uma            experiência humana, artística e criativa que   e ouvidos com experiências sensoriais como

dade. Ele existe para se respirar arte, e nin-   hora e prover telefonia gratuita para qualquer   toma conta do espírito de qualquer um que      em nenhum outro lugar.”

guém sai de lá sem criar alguma coisa nova.      aparelho de celular consumindo uma quanti-       estiver lá dentro. É uma verdadeira imersão    E é isso que nos leva ao outro ponto mais in-

                                                 dade de energia tão pequena que pode ser         num mundo tão diferente, fascinante e vasto    teressante, pelo menos pra mim: tanto o TED

Tem muito pra falar de tudo isso, mas va-        alimentada até por energia solar! Eu não en-     que é impossível de capturar na totalidade,    quanto o Burning Man nos obrigam a sair da

mos por partes. Começando pela inovação          tendo nada de tecnologia, mas essa reporta-      instigando os frequentadores a explorá-lo      rotina para mergulhar nesse mundo, e “não

tecnológica. Já pararam pra pensar no que        gem indicada pelo Triple Pundit explica to-      cada vez mais.                                 importa quanto sucesso você tenha na sua

esse experiência pode oferecer em termos         dos os detalhes e mostra como isso é uma         Não é à toa que a revista INC publicou (an-    vida, nada disso consegue te impedir de di-

práticos para outros lugares do mundo? É         alternativa viável para um futuro próximo        teontem!) esse artigo pra mostrar por que o    zer ‘uau!’ pro espetáculo de potencial huma-
lONDrEs                                                                                            lONDrEs




  no que te cerca nesses lugares”. Se a rotina é   (onde todos vão para uma locação misterio-

  fatigante, os dois eventos nos chamam a re-      sa vestidos como no final dos anos vinte para

  descobrir a maravilha da experiência humana      mergulhar na Nova Orleans daquela época

  através de uma curta imersão participativa       e redescobrir o jazz dos velhos); em alguns

  no seu esplendor. Repetindo as palavras cha-     meses vai ser “inaugurado” o primeiro pop-

  ve: curta e imersiva.                            up shopping do mundo, feito de containers,

                                                   em frente à estação de Shoreditch; a livraria

  É essa a grande tendência que eu estou ven-      em Milão onde eu conheci as pessoas mais

  do por todos os lugares por onde passei e        interessantes na cidade abriu com data cer-

  que finalmente entendi depois de escutar         ta pra fechar 121 dias depois; em Brick Lane

  essa história. Por todos os lados, pipocam os    eu encontrei minha boina numa “vintage

  “pop-up” qualquer coisa. Tudo se resume a        clothing pop-up store” e uma camisa numa

  uma experiência curta e de um mergulho em        “pop-up secret sample”… Além do mais, por

  algum universo determinado, que, tão rápido      que é que os flash mobs surgiram e cresce-

  quanto surge… desaparece.                        ram tanto só na final dessa última década?



  O que era o Secret Cinema se não isso? Um        Pra nossa geração, uma impressão pode ser

  mergulho no universo de um filme através do      mais importante que uma permanência. E

  convite a ser criativo da maneira mais parti-    por importante eu digo também mais dese-

  cipativa possível, pra depois sumir deixando     jada e até mesmo mais duradoura. Se é as-

  de legado as criações coletivas e um uni-        sim, só me resta uma recomendação a quem

  verso construído apenas na memória. Aliás,       já percebeu que é esse o espírito do nosso

  amanhã tem o Candlelight Club em Londres         tempo:
mumBaI
mumbaI                                                                                                                                                                              mumbaI




POst

51
05 mar    #SHARING9 – COLETIVO SHN ESPALHA STICKERS POR MUMBAI.




 Dessa vez o presente não vem de uma pes-       do os restos do material da fábrica, aquilo

 soa só, mas sim de um coletivo. Quem me        que seria lixo se transformava em posters e

 entregou foi o Eduardo Saretta, mas em         fichas de cerveja pros shows que organiza-    rista, que passa rápido demais e só vê algo     mento que estamos já ficando mais acos-

 nome do coletivo SHN de arte, de que faz       vam. Até hoje essa marca mais “crua”, ou,     grande, o geral. O foco é no pedestre, que      tumados a conviver na internet. Mais uma

 parte há mais de 12 anos. Eles me deram um     pelo menos, menos “amaciada” pra apare-       vai poder reparar nesses detalhes com mais      prova de que não existe essa história de

 pacotão de stickers pra espalhar pela pai-     cer “bonitinha”, está impressa no trabalho.   calma.                                          dois mundos diferentes: o virtual e o real. É

 sagem de Mumbai enquanto estiver por lá.       Vale mais um adesivo resistente que demore    Outro ponto essencial do trabalho é que ele     tudo uma coisa só: comportamento huma-

 Vejam aí um pouco do que estou levando         a sumir com o sol e a chuva do que um todo    não precisa de assinatura. É aí que eu acho     no. É ele que circula pelo meio que for, e a

 e de como foi a entrega na Galeria Choque      trabalhado que vai desaparecer com a pri-     que a coisa fica muito mais interessante! Os    tecnologia é só mais um caminho pra ele se

 Cultural, em São Paulo.                        meira água.                                   adesivos podem ser um verdadeiro viral ur-      infiltrar.

                                                Eu me perguntava antes de chegar lá: como     bano potente pra c#%*&!!! Particularmente,

                                                assim espalhar adesivos pela cidade? Onde     pra mim essa é a grande sacada do negócio:

                                                eles colocam isso? Qual é o foco da ação?     não tendo nome, qualquer um pode se iden-

                                                E ele me respondeu tudo isso, dizendo, por    tificar com o trabalho, e ele não tem mais

                                                exemplo, que um dos lugares preferidos pra    limites. O Eduardo contou de uma vez que

                                                se colar são os chamados “espaços mortos”     foi num show e o guitarrista tinha um adesi-

                                                da cidade, como a parte de trás das placas    vo dele na guitarra; outra vez entrou no taxi

                                                de trânsito, caixas de telefone…              e quando olhou pro porta luva… adivinha; e

                                                Já pararam pra pensar nisso? O fundo de       imagine o que não deve ter pensado quan-

 Eu disse que o coletivo existe há 12 anos,     uma placa é absolutamente morto! Ele pra-     do deu de cara com o seu trabalho em plena

 mas, na verdade, o trabalho começou muito      ticamente não existe, não passa nem pela      áfrica do Sul!

 antes disso, lá no final dos anos 80, quando   rabeira do pensamento de qualquer cidadão     É isso que eu vou ajudar a fazer: espalhar

 eles começaram a usar o acesso que tinham      no dia a dia. Mas quando o adesivo chega,     ainda mais o que é bom. Essa proposta me        Para saber mais sobre o coletivo:

 a uma fábrica de etiquetas adesivas pra co-    ele ganha vida. Especialmente para o tran-    interessa demais, pois é mais uma ação que      @ssshhhnnn

 locar na prática o “faça você mesmo”. Usan-    seunte. O foco maior da ação não é o moto-    traz pro mundo concreto um tipo de movi-        http://www.shn.art.br/
mumbaI                                                                                                                                                                                   mumbaI




POst

52
06 mar    POST 52: ALGUMA IMPRESSÕES DE UM MUNDO NOVO –

          PRIMEIRO DIA EM MUMBAI.



 A viagem acaba de recomeçar. Pus meus pés pela primeira vez no Oriente. Esse é um mundo

 completamente diferente de tudo que já vi, o que por um lado é fascinante e por outro torna

 o desafio de buscar tendências muito mais difícl.

 É muito fácil confundir o novo com o exótico de um olhar estrangeiro, por isso decidi que
                                                                                                   ideia muito mais presente na mentalidade      entrar no templo sem a menor preocupação
 minha primeira incursão na Índia não podia ser em nenhuma área moderna ou pretensamente
                                                                                                   dos hindi do que na nossa ocidental.          quanto a alguém levá-la embora.
 inovadora: primeiro eu precisava olhar pras pessoas, e tentar entender alguma coisa do ritmo
                                                                                                   Seguimos para o mercado de Santa Cruz
 desse mundo. Antes de ser um observador de novidades, eu tinha que ser um observador de
                                                                                                   (num trânsito que realmente é a experiên-
 gente, e essas imagens são resultado dessa tarde.
                                                                                                   cia mais próxima de um caos que já experi-

                                                                                                   mentei numa cidade). Todas as áreas estão

                                                                                                   armengadas e abarrotadas de gente, carros

                                                                                                   e produtos amontoados em estrutura pre-

                                                                                                   cárias. Mas sabe do que mais? Ninguém se

                                                                                                   estressa. Tem um carro passando a meio

                                                                                                   centrímetro do seu calcanhar, e niguém de-

                                                                                                   monstra a menor preocupação. É como se ti-

                                                                                                   vessem certeza que com calma tudo se ajei-    Absolutamente ninguém pede o seu ticket

                                                                                                   ta, é só não abusar da boa vontade alheia.    de trem, que custa menos que 25 centavos
 Mas o que foi mais marcante mesmo foi o encontro com Vigya, um vendedor ambulante da
                                                                                                   O espaço público em Mumbai é muito mais       de real. No entanto, quando fui pedir infor-
 praia de Juhu. Depois de tentar me vender um mapa e não conseguir, começamos a jogar
                                                                                                   versátil do que pra nós.                      mação e vi que precisava saltar duas esta-
 conversa fora até ele se oferecer pra me mostrar os arredores. Começamos por um pequeno
                                                                                                   Todo mundo fala, com razão pra se impres-     ções depois daquela pra qual tinha ticket,
 templo hindu a quinze minutos de caminhada de onde estávamos.
                                                                                                   sionar, de como uma população miserável       me disseram a pra descer e comprar outro.
 Eu pensava que ia me sentir como um gringo numa escola de samba, com aquela festa de
                                                                                                   como os 60% de Mumbai que vive no equi-       A diferença era de 10 centavos. O senso de
 cores e formas. Mas o curioso é que, apesar de os elementos indianos que a gente conhece
                                                                                                   valente às nossas favelas não é violenta de   hierarquia e dever aqui é muito forte, e o jei-
 (os aromas, os tecidos, as figuras) estarem todos lá, o lugar não era turístico. Me pareceu que
                                                                                                   maneira nenhuma. Vigya deixava sua mer-       tinho indiano que permite que o caos urba-
 esses elementos estavam lá muito mais pra servir que pra se mostrar, e parece que essa é uma
                                                                                                   cadoria encostada numa árvore antes de        no não exploda é muito diferente do nosso.
mumbaI                                                                                                                                                                                mumbaI




Um garoto como o Vigya anda 15 kilôme-        Resta tentar descobrir pra onde está indo
                                                                                              POst

tros todo dia pra trabalhar porque não tem    esse mundo, que recebe cada vez mais pes-       53
                                                                                              07 mar   O QUE ATRAI TANTA GENTE DE FORA PRA MUMBAI?
dinheiro pra pagar o ônibus entre a praia e   soas de fora atraídas pelas possibilidades de

sua casa. Ele tem como sonho mais imedia-     transformação e crescimento e tem um bi-

to de mudar de vida passar de vendedor de     lhão de pessoas (só em Mumbai são 20 mi-

mapas a engraxate, e no entanto se ofere-     lhões) pra trazer junto nesse barco.            Hoje descobri o trabalho da jornalista Amana Fontanella-Khan, que escreve sobre a vida em

ce pra me ajudar sem pedir nada em troca,                                                     Mumbai para o portal “CNN Go”. Depois de ler seu artigo sobre a (inexistência de uma) vida no-

simplesmente porque o movimento estava                                                        turna alternativa em Mumbai, decidi que o melhor jeito de compartilhar impressões e começar

fraco e “if you’re happy, I’m happy”. E não                                                   a mergulhar na cidade era simplesmente… ligar pra ela.

é o primeiro que faz isso: já teve gente me

guiando até o ponto de ônibus e esperando

meia hora comigo quando tinha mesmo é

que ir pra outro lado completamente opos-

to. Esse é um lugar muito diferente.




                                                                                              Juntando a conversa com outros artigos no portal e o material publicado no seu blog, pude

                                                                                              esboçar os primeiros movimentos pelos quais a cidade está passando. Curiosamente, o seu

                                                                                              último artigo fala exatamente do mesmo que o último parágrafo do meu post anterior: o que é

                                                                                              qye tanto atrai estrangeiros a deixar vidas consolidadas em seus países e começar tudo de novo

                                                                                              por aqui? Embora não esteja declarado em todos os discursos, existe ao menos uma impressão

                                                                                              que os une todos: a de que estão saindo de um lugar estagnado para outro onde as coisas são

                                                                                              novas, crescem e evoluem.

                                                                                              Ninguém sabe definir ao certo que tipo de evolução é essa. Uns tentam explicá-la como efeito

                                                                                              de uma “mentalidade mais aberta ao novo”, mais propensa a experimentar do que a catalogar,

                                                                                              e é até provável que estejam certos nesse sentido (como já dizia o Delfim Neto, nenhuma so-

                                                                                              ciedade cresce no ritmo que a indiana cresce sem transformar isso num “estado de espírito”

                                                                                              que alimenta a si mesmo). Vejam o depoimento da francesa Eve Lemesle, diretora da agência
mumbaI                                                                                                                                                                                  mumbaI




                                                                                                 ticas culturais do governo, seja pela falta de   jeito ou de outro, essa cidade experimenta

                                                                                                 autenticidade do que está disponível. No en-     um ambiente muito propício para a proposi-

                                                                                                 tanto, longe de fazer disso derrotismo, o que    ção de qualquer coisa, e esse é o melhor es-

                                                                                                 ela verdadeiramente afirma é que essa seria      tado de espírito para o surgimento das ten-

                                                                                                 a hora ideal para os grupos criativos locias     dências mais influentes que se pode buscar.

                                                                                                 tomarem conta desse movimento e determi-

                                                                                                 nar os rumos do que pode ser algo realmente

                                                                                                 inovador daqui pra frente numa cidade que

                                                                                                 necessita de algo assim.



                                                                                                 Em que medida as novidades por aqui são

                                                                                                 macaqueadas ou autênticas é uma questão

                                                                                                 que eu ainda tenho um bom tempo pra ex-

                                                                                                 plorar. O que não dá pra negar é que, de um




“What about art?“, para a matéria de Amana:    É aí que eu ainda fico com a pulga atrás da

“Paris é uma linda cidade velha, mas nada de   orelha. Pra ser bem sincero, eu não sei até que

novo está acontecendo lá. Bombaim está mu-     ponto essa transformação toda se estende

dando o tempo todo. Tem um tipo de energia     pra cidade inteira ou se restringe a um grupo

de Nova Iorque na cidade que eu amo.”          de estrangeiros e uma elite local que se fazem

                                               valer da sua formação artística e intelectual

Os DJs Mathieu Josso e Charles Nuez adicio-    em outros países pra se tornarem pioneiros

nam outro ponto muito importante na mes-       da implementação de algo não tão novo num

ma reportagem:                                 lugar onde ele é inédito. Pronto, falei.



“Eu adoro me encontrar com artistas emer-      Foi por isso que eu me interessei pelo artigo

gentes aqui e fazer parte da cena under-       da Amana, em que ela denuncia que a cena

ground. (…) Ela é muito pequena ainda”         da vida noturna alternativa não existe de ver-

                                               dade por aqui, seja pelas restrições das polí-
mumbaI                                                                                                                                                                                 mumbaI




POst

54
08 mar   “NOSTALGIA, PRIDE AND FEAR” – SER FRáGIL NÃO É SER EMO.




Hoje fui à abertura de uma exposição coletiva chamada “Nostalgia, Pride and Fear” numa

galeria bem difícil de achar. Chegando lá me deparei com esse trabalho de uma artista chama-

da Soazic Guézennec. Como vocês podem ver, é uma série de recortes em forma de insetos
                                                                                                Colocá-los em pequenas caixas de expo-          do, por exemplo, ao que os góticos fizeram
feitos a partir de imagens de homens de negócios expostas em caixas entomológicas. Legal,
                                                                                                sição de insetos é um pouco mais que di-        com o punk. O que eu estou chamando a
divertido, bem feito. Mas como abertura de exposição geralmente tem o próprio autor por
                                                                                                versão (tipo: hehe, vou punir vocês agora,      atenção aqui é pra um tipo de fragilidade
perto, percebi que podia tirar de lá mais do que uma foto e decidi fazer pra ela a pergunta
                                                                                                sacaninhas!): é também uma maneira de           mais associada à modéstia do que à exacer-
mais importante pra um caçador de tendências: por que você fez isso?
                                                                                                subverter a escala com que esses homens         bação de sentimentos.

                                                                                                estão acostumados a lidar e a se pintar. Fa-

                                                                                                zê-los insetos é torná-los frágeis na mesma     A dimensão da marcha da humanidade nos

                                                                                                intensidade que eles mais desejam evitar, e     coloca numa posição de muito pouca mo-

                                                                                                é aí que o trabalho da Soazic encontra o do     déstia, que só foi desafiada três anos atrás

                                                                                                Slinkashu (de que falei em Londres) e mos-      com o pipoco do mercado financeiro. É nes-

                                                                                                tra o seu lado mais interessante.               se contexto que a fragilidade do Slinkashu e

                                                                                                                                                da Soazic se encontram de alguma maneira

                                                                                                A questão da fragilidade tem dado o tom         pra dar sentido ao título da exposição: Nos-

                                                                                                por muitos lados. Não falo só dos “emos”        talgia (pelo que tínhamos), Pride (pelo que

                                                                                                que a gente passou tanto tempo vendo no         temos, como esse crescimento espetacular)

Ela me disse que decidiu fazer esse trabalho por causa do incômodo com a maneira como esse      Brasil antes do happy rock do Restart assu-     e ao mesmo tempo Fear (pelo que podemos

crescimento tão pujante da Índia se impõe sobre tudo e todos. Seria como se os executivos das   mir a ponta. Pra falar a verdade, se o que me   não ter mais por causa desse pedestal de or-

megaempresas se colocassem num lugar acima do resto da população, fazendo da escala das         contaram está certo e a expressão “emo-         gulho todo).

suas realizações o trampolim para seu destaque.                                                 core” vem de “emotional hardcore” (uma          Posso não saber onde vai chegar essa onda

“Na verdade, eles são tão pequenos quanto qualquer um de nós, e não há nada de especial-        maneira de humanizar e exaltar um sensibi-      de tomar consciência da fragilidade. Só sei

mente distintivo nesse trabalho que possa colocá-los num patamar acima do resto da socieda-     lidade sem se afastar tanto da pegada mais      que seis artistas de seis países diferentes e

de. Pelo contrário: frequentemente os homens de negócio atuam de uma maneira muito mais         pesada do hardcore), esse movimento não         que não se conheciam não refletem sobre o

primitiva e parecida com animais do que o resto da população de que buscam se distinguir.”      tem nem tanta novidade assim se compara-        mesmo tema à toa.
mumbaI                                                                                                                                                                                 mumbaI




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09 mar   THE WALL PROJECT – PINTAR MUROS TAMBÉM É SER DONO

         DE UM LUGAR



Se tem uma coisa eu percebi em Mumbai é        O projeto em si começou em 2007, quando

que a juventude está se coçando toda de        ela percebeu que o muro em frente à sua

vontade de fazer coisas novas. Se em geral     casa estava branco demais e precisava de
                                                                                                lugares não se importa nem em esconder          Dhanya me contou de casos ainda mais
a gente consegue ver mudanças de com-          mais cores, puxando o gatilho do que seria
                                                                                                os fios desencapados e pedaços de parede        marcantes, como o de um motorista em alta
portamento a cada 20 ou 10 anos a ponto        a maior explosão de graffiti que a cidade já
                                                                                                sem pintura. Se o produto estiver consumí-      velocidade que fritou pneu, parou, deu mar-
de dizer que nasceu uma nova geração, aqui     viu. No entanto, o verdadeiro diferencial do
                                                                                                vel, não tem muito mais com o que se pre-       cha ré até o muro e saiu do carro pra dar um
às vezes não precisa nem de 5 anos pra ver     The Wall Project não está na sua arte final, e
                                                                                                ocupar. É uma mentalidade muito mais fun-       esporro em quem estava fazendo xixi nas
isso. Foi com esse olhar que conversei com a   sim no seu objetivo. A ideia não é criar um
                                                                                                cional do que estética, que permite que pra     pinturas. “Essa é a grande transformação. As
idealizadora de uma das iniciativas que mais   grupo pra cobrir a cidade toda com a sua
                                                                                                alguém cortar o cabelo, fazer a barba, se ta-   pessoas queriam melhorar o lugar onde vi-
tem alimentado esse espírito pela cidade:      arte, e sim convidar a população toda a to-
                                                                                                tuar ou até mesmo receber uma massagem          viam, mas o governo não fazia nada e ficava
Dhanya Pilo, criadora do The Wall Project.     mar pra si a tarefa de embelezá-la com as
                                                                                                de corpo inteiro no meio da rua (juro, vejam    tudo como estava. Agora elas se sentem do-
                                               próprias mãos.
                                                                                                aqui, aqui e aqui) basta que quem esteja fa-    nas da cidade e arregaçam as mangas elas

                                                                                                zendo o serviço saiba o que faz.                mesmas tanto pra melhorar quanto pra de-
                                               É muito importante que eu diga uma coisa
                                                                                                                                                fender o que está lá. Está surgindo um senti-
                                               aqui antes de continuar. Mumbai é uma ci-
                                                                                                É por isso que o The Wall Project é mais do     mento de ‘ownership’ que antes não existia,
                                               dade MUITO poluída visualmente. Além do
                                                                                                que uma explosão de graffiti. É uma trans-      e isso faz toda a diferença.”
                                               mais, o senso de design e estética por aqui é
                                                                                                formação de comportamento. Fui em um
                                               muito diferente do nosso, pra não dizer que
                                                                                                dos lugares onde tudo começou, Chapel
                                               é realmente menor mesmo. Se no Brasil a
                                                                                                Road, e conversei com um dos moradores,
                                               gente se importa com a aparência do lugar,
                                                                                                Jo, que me disse que “antes as pessoas ti-
                                               a impressão visual que ele causa e em fazer
                                                                                                nham o hábito de mascar folhas e cuspir na
                                               o cliente se lembrar de nós por algo além do
                                                                                                parede. Hoje ninguém mais faz isso, porque
                                               produto que está à venda (mesmo se for um
                                                                                                desiste quando vê o trabalho no muro. Elas
                                               carrinho de cachorro quente ou um isopor
                                                                                                respeitam, porque isso é bonito, ninguém
                                               de sanduíche na praia), aqui boa parte dos
                                                                                                vai cuspir numa obra de arte”.
mumbaI                                                                                         mumbaI




No fundo, o The Wall Project é um grande        vários filmes, e no final das contas todos

provocador disposto a alimentar ao mesmo        queriam voltar justamente pelo fato de tudo

tempo a veia expressiva e estética de toda      fazer parte de um universo tangível a todos

a população. Pra isso eles fazem muito mais     eles, ao contrário do scape-reality em que

que pintar os muros. Num determinado do-        a indústria do cinema de Bollywood tem se

mingo, por exemplo, o grupo saiu vestido de     tornado.

super-heróis em bicicletas, ajudou um mon-      Antes de encerrar, deixo também a dica do

te de gente a fazer pequenas coisas, organi-    Cec (Carnival of e-Creativity) 2011, um fes-

zou um encontro de jogos de tabuleiros nos      tival de três dias sobre tudo que rola na

jardins que não estavam sendo utilizados,       cena eletrônica da Índia e de onde a Dhanya

um chá de fim de tarde temático de Alice no     voltou há menos de um mês. Fiquem ago-

passeio público, e convidou todos os curio-     ra com mais imagens de muros por onde o

sos para um festival de filmes onde cada fita   projeto já deixou a sua marca.

tinha no máximo três minutos e tinha a obri-

gação de ser tão caseira quanto um bebê

comendo papa ou aprendendo a andar. Foi

um sucesso, as pessoas pediam pra repetir
mumbaI                                                                                                                                                                            mumbaI




POst

56
10 mar   USER GENERATED CITIES – URBZ FAZ HOJE O QUE

         OS PALESTRANTES DA ECOBUILD PREVIRAM PRA 2030.



Mumbai está sendo uma ótima oportuni-        mas das ideias mais importantes da viagem

dade de conhecer pessoas envolvidas em       numa só proposta de criação participativa

grandes projetos de transformação. Primei-   de soluções para o espaço urbano em Dha-

ro a Dhanya, do The Wall Project, agora o    ravi, também conhecida como “a maior fa-

Matias, do URBZ, e amanhã a Aarti, do Gra-   vela da ásia”.

                                                                                          Lembram quando os palestrantes do Eco-           tos de fora do sistema (outsiders), que po-

                                                                                          build disseram aqui que a arquitetura física     dem ser tanto engenheiros, arquitetos e jor-

                                                                                          e a arquitetura digital tendem a convergir no    nalistas quanto moradores de outras áreas e

                                                                                          futuro? Matias aplica essa ideia já hoje. Ele    curiosos. Eles trabalham a partir dos aportes

                                                                                          defende, por exemplo, que, antes de propor       dos usuários, e o trabalho do URBZ é ajudar

                                                                                          uma solução para um problema, é preciso          a construir essa cooperação.

                                                                                          entender como o sistema funciona, para sub-

                                                                                          vertê-lo por dentro. Sabem como ele chama        Já que a ideia é conhecer por dentro e a

                                                                                          esse tipo de estratégia? “Hacktivismo” social.   produção de informação sobre o lugar tem

                                                                                          Simples assim: agir na sociedade do mesmo        que ser participativa, que tal começar com

                                                                                          jeito que um hacker age no computador.           um… Wiki? Foi isso que eles fizeram quando

                                                                                                                                           criaram o portal dharavi.org, que já tem mais

                                                                                          Matias tirou as palavras da minha boca ao        de 400.000 acessos e cerca de 500 usuá-

                                                                                          dizer que autenticidade só é produzida por       rios registrados em sua breve existência.

meen Creative Labs. Matias Echanove é um     Sabem quando o Banco Mundial vem com         meio da interação (olhem esse post aqui),

arquiteto suíço, com PhD em planejamento     uma proposta de inclusão participativa       onde todos são atores da mesma maneira.          “Pra transformar o espaço físico é preciso

urbano e informação pela universidade de     pronta e um saco de dinheiro em cima da      Portanto, o único jeito de construir soluções    também ocupar o espaço virtual. De que

Tóquio, que ajudou a fundar juntamente       mesa e diz: “Nós viemos resolver o proble-   autênticas para os problemas de Dharavi é        outra maneira o mundo vai descobrir que

com Rahul Srivastava o URBZ de Mumbai.       ma de vocês, agora participem”? Isso é o     realizar a interação entre quem os conhece       Dharavi não é só ‘a maior favela da ásia’ mas

O projeto é uma pérola que condensa algu-    contrário do que o URBZ quer fazer.          melhor (os usuários, insiders) e os elemen-      também um dos lugares mais ativos de toda
mumbaI                                                                                                                                                                           mumbaI




Mumbai, com 88 bairros? Como é que vão        “Pra fazer o que a gente quer fazer a gente
                                                                                             POst
descobrir que a população construiu, sem

uma única obra estatal, um sistema de abas-
                                              tem que assumir que não sabe fazer. Só a

                                              partir daí começa a ficar possível construir
                                                                                             57
                                                                                             11 mar
                                                                                                      SE FOR CHEGAR ATRASADO, ENTRE COM ESTILO –

tecimento em que todos podem ter água         alguma coisa junto. E o que a gente quer                OBATAIMU, A PRIMEIRA POP UP STORE DE MUMBAI

corrente num lugar onde quase todo des-       construir é uma user generated city.”

locamento é pedestre? Tudo isso era igno-

rado, mas agora pode ser descoberto sem       O URBZ é o melhor exemplo que eu co-

ter que vir aqui. Nós estamos influenciando   nheço de como aliar planejamento urbano

a tomada de decisões através da pressão do    com a sociedade da informação. Mais do

conhecimento”.                                que um caso isolado, é um sinal de que um




De fato, o que se conhece não se ignora.      novo comportamento está chegando tam-
                                                                                             Tenho que fazer uma confissão: de vez em       Mumbai, aberta a menos de dois meses.
Outra das iniciativas atualmente em curso     bém ao espaço público. Um comportamen-
                                                                                             quando eu chuto. Tem vezes em que eu           O nome do lugar é Obataimu, que em ja-
é o mapeamento completo de todo o sis-        to que parte do usuário e se vale de todas
                                                                                             acho uma coisa tão interessante que acabo      ponês significa “overtime” (aquela horinha
tema de água de Dharavi a partir de foto-     as ferramentas de interação disponíveis pra
                                                                                             dizendo que ela é tendência mais porque tô     a mais no final do expediente, a famosa es-
grafias enviadas pelos moradores. É quase     construir soluções que, nessa escala, não só
                                                                                             torcendo que seja do que porque acho que       ticadinha pra “saideira”, um tempinho pra
um Google Earth subterrâneo: colaborativo     serão as mais autênticas como as mais efi-
                                                                                             é, e já queimei a língua umas duas vezes por   nós mesmos). Como toda pop up que se
e incremental. Uma vez com o material em      cazes para todos eles.
                                                                                             causa disso. Por outro lado, quando vejo       respeita, o endereço é aquela história do
mãos, os engenheiros podem desvendar o
                                                                                             que um palpite desses tá certo e se repete     tipo “a roupa nova do imperador”, que só
mistério de como foi construída a malha e
                                                                                             por todo canto, dá um misto de satisfação      inteligente vê. Tirando o vídeo aí em cima,
propor melhoramentos não só muito mais
                                                                                             e alívio que vocês não têm ideia. Hoje foi     eles não têm material de divulgação ne-
eficientes do que simplesmente botar tudo
                                                                                             um dia desses, em que a gente encontra um      nhum além do boca a boca de quem en-
abaixo como também orientados para e
                                                                                             lugar quase didático pra demostrar o que       controu por acaso ou foi sagaz o suficiente
pelo usuário.
                                                                                             vinha falando: a primeira “pop up store” de    pra sacar a dica do cavalo preto.
mumbaI                                                                                                                                                                              mumbaI




Quem der a sorte de chegar lá antes de          Ter conceito é bom, mas precisa ir além do    o tecido até a costura, no que se aproxima cada vez mais do resgate proposto no Craftifesto.

mudarem de endereço vai descobrir o re-         produto final pra eu acreditar que não é só   Ah! E só pra não dizer que eu deixei passar batido… alguém adivinha onde é que a ideali-

quinte de quem oferece mais do que sim-         gogó. É por isso o diferencial da Obataimu    zadora do projeto está nesse exato momento atrás de ideias pras próximas criações? No

ples roupas e acessórios, mas também con-       está em explicitar o processo de produção     mesmo lugar onde ela descobriu o couro de escama de peixe de que quase ninguém tinha

ceitos. As peças estão separadas de acordo      de tudo que tem. Se você já encontrou o lu-   ouvido falar antes dela transformar na coisa mais “in” e eco-friendly do mundo: no Brasil.

com o estilo de homem que você transmite        gar, eles não têm mais porque ter segredos

ser ao usá-las: o Geek, o Bloke, o Collector,   contigo, então aproveite pra descobrir a

o Bum… todas com a devida explicação pra        equipe de desenvolvimento de tecidos que

que ninguém passe a mensagem errada.            garante a exclusividade da história toda,

                                                com tecnologias que envolvem métodos

Tem espaço até pra brincar com a ideia do       como lavar a malha centenas de vezes até

Hikimori japonês (aquele cara que vive tão      ela ficar tão confortável quanto aquela sua

grudado no computador que não larga dele        camisa do Brizola em 82 que você usa até

nem pra comer ou ir no banheiro). Quem          hoje só porque é gostoso.

quiser pode comprar uma capa de laptop

especialmente acolchoada para virar tra-        E se alguém ainda está achando pouco, fal-

vesseiro quando o computador estiver lá         tou contar que cada peça é fabricada por

dentro. O kit ainda acompanha a venda, pra      uma pessoa só. Não tem linha de monta-

garantir que nada atrapalhe o seu merecido      gem. Cada um da equipe leva uns cinco dias

descanso.                                       pra passar por todas as etapas, de preparar



                                                                                              Mumbai pode ter demorado pra surfar essas ondas. Mas chegou causando. Agora, o que

                                                                                              estão fazendo mesmo é mostrar pro mundo que podem debutar com a mesma autoridade

                                                                                              de quem já está é muito do calejado.
mumbaI                                                                                                                                          mumbaI




POst

58
12 mar #SHARING9 MUMBAI – STICKERS DO SHN ESPALHADOS PELA CIDADE




Esse #sharing9 teve um gosto diferente.          seunte. Desse jeito, alguém vai se surpreen-

Dessa vez não foi só cumprir a tarefa de tra-    der quando for buscar sua correspondência

zer a arte de rua do coletivo SHN pra Mum-       e encontrar aquele elefante na caixa do cor-

bai. Foi também me colocar um pouco de           reio; pensar mais de uma vez antes de pegar

mim mesmo na posição de ser o artista, afi-      na caixa de tensão onde agora a caveira é

nal de contas, uma das partes mais impor-        muito mais expressiva; se dar conta do tipo

tantes do processo de espalhar stickers é        de aventura em que está se metendo quan-

justamente escolher onde colocar cada um.        do entrar num rickshaw (tipo de taxi indiano

                                                 no qual eu tive a certeza de que ia morrer

                                                 algumas vezes) com um “freak” na frente do

                                                 banco do passageiro; descobrir mais um es-

                                                 paço morto da cidade no fundo de uma pla-

                                                 ca ou num quadro de energia doméstico ou

                                                 até mesmo queimar o tempo descobrindo

                                                 uma nova maneira de usar as mãos enquan-

                                                 to espera na fila pra pagar pela comida.



                                                 Meu foco principal foi nos arredores de Cha-

                                                 pel Road, berço do The Wall Project e um

Nesse caso não tem muita historinha a mais       dos lugares onde as pessoas mais respeitam

pra contar não, então vamos direto pra ima-      a arte de rua na cidade. Fiz isso na tentati-

gens que é o que interessa.                      va de fazer os adesivos terem uma vida tão

Escolhi tanto locações móveis quanto fixas,      longa quanto sua cola permitir, sem se preo-

tentando sempre pensar no que o Eduardo          cupar se hoje ou amanhã alguém vai chegar
                                                                                                 Valeu, Eduardo. Valeu, SHN. E até a próxima!
Saretta falou: o foco não é o carro, é o tran-   lá pra tirar tudo e jogar fora.
mumbaI                                                                                                                                                                           mumbaI




                                                                                            desh. O cara é simplesmente inspirador, mas     no próprio negócio, garantindo que o foco
POst
                                                                                            a razão pra tanta empolgação da minha par-      continue sendo crescer para resolver o pro-
59
13 mar DO GRAMEEN CREATIVE LABS AO SOCIAL BUSINESS - PARTE 1 (A IDEIA)
                                                                                            te está no fato de que, se a gente pode dizer   blema de ainda mais gente.

                                                                                            que tem um monte de tendências vindas de

                                                                                            fora e se manifestando por aqui, no caso do     Um exemplo que a Aarti adora é o da Dano-

                                                                                            Social Business o sentido é outro: de Índia,    ne, que em 2006 chegou pro Yunus dizen-

                                                                                            Bangladesh e Paquistão para o mundo. Sen-       do que queria ajudar a resolver o problema

                                                                                            do assim, está mais do que na hora de en-       da desnutrição em Bangladesh. A intenção

                                                                                            tender de que se trata a história toda.         era fazer um iogurte muito fortalecido pra

                                                                                            O objetivo é construir soluções para pro-       alimentar o pessoal e vendê-lo por algo em

                                                                                            blemas socias a partir de propostas de ne-      torno de 15 centavos de real. Depois de al-

                                                                                            gócios, de uma maneira que elas possam          gum tempo, apresentaram um projeto de

                                                                                            sustentar a si mesmas. Como a caridade e        planta supermoderna, eficiente e no mais

                                                                                            filantropia não são auto-sustentáveis, as       alto patamar da tecnologia de automação

                                                                                            ONGs dependem muito de financiamento            de que se dispunha no momento, ao que o

                                                                                            externo e os governos nem sempre estão          Yunus respondeu:

                                                                                            dispostos a enfrentar esses problemas, usar

                                                                                            o funcionamento de um negócio como meio         “Não. Acho que vocês não entenderam a

                                                                                            de auto-sustentação pode ser uma alterna-       ideia ainda. Não é só o produto final que

                                                                                            tiva não só mais viável como também mais        importa, mas também fazer com que ele

                                                                                            duradoura e dinâmica para as comunidades.       seja fabricado de uma maneira sustentável,

                                                                                            A diferença fundamental entre o Social Bu-      não só para a empresa, mas principalmen-

                                                                                            siness e um negócio comum é simples: o ob-      te para a comunidade que ele quer atender.
Meu lado economista se esbaldou nesse          experiências quanto novas ideias para essa
                                                                                            jetivo é solucionar o problema, não ganhar      Em outras palavras, vamos refazer o projeto
domingo. Conversei com a Aarti Wig, que        prática.
                                                                                            dinheiro. É importante que eu reforce esse      todo. Que tal se a gente comprasse o leite
fez a gentileza de encontrar uma pausa no      As reuniões são uma iniciativa do Grameen
                                                                                            ponto, porque ele é o centro da proposta do     dos pequenos produtores locais, empregas-
seu trabalho pra me explicar como surgiu a     Bank, dirigido por ninguém menos que Muh-
                                                                                            Yunus: utilizar o conhecimento do lado “sel-    se o máximo de gente possível na produção
ideia do Social Business e porque ele tem      hamad Yunus. Pra quem não conhece, ele foi
                                                                                            fish” do mundo dos negócios pra alimentar       do iogurte, distribuísse através de vendas
tanto potencial na Índia. Ela trabalha com o   o primeiro banqueiro do mundo a receber
                                                                                            o lado “selfless” de que todo ser humano        comissionadas com moradoras da própria
Grameen Creative Labs, que acaba de abrir      o prêmio Nobel da Paz, em 2006, por con-
                                                                                            precisa. Pori isso que o “lucro” de um So-      região e ainda criasse um sistema que ga-
o seu primeiro escritório justamente em        ta do seu modelo baseado no microcrédito
                                                                                            cial Business é reinvestido integralmente       rantisse que o que não for vendido pode ser
Mumbai, com a intenção de aglutinar tanto      para resolver problemas sociais em Bangla-
mumbaI                                                                                      mumbaI




devolvido?” (Pra melhorar ainda mais, só se    Já deu pra entender que é disso que o ban-

eu contar que a energia da nova fábrica da     co e o modelo todo se tratam.

Grameen Danone é solar e a embalagem do

iogurte biodegradável)




Como vocês podem perceber, quando o

foco está no processo e não na rentabilida-

de, o objetivo é bem mais fácil de alcançar.

Faltou avisar que “grameen” significa “da

vila” ou “do lugar”, mas depois dessa histó-

ria toda acho que eu nem precisava explicar.
mumbaI                                                                                                                                                                               mumbaI




                                                                                               dinheiro, o que torna a escolha dos toma-      grana num projeto que não dá lucros, eles
POst
                                                                                               dores uma das etapas mais delicadas da         aparentemente não tinham escapatória a
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14 mar DO GRAMEEN CREATIVE LABS AO SOCIAL BUSINESS –
                                                                                               história. (Em geral, o dinheiro é emprestado   não ser oferecer alguma remuneração a

                                                                                               para um grupo de mulheres que ficam todas      esse pessoal…
         PARTE 2 (O PIPOCO)
                                                                                               sem acesso a qualquer novo financiamento       Só que aí o bicho pega. E é “pau viola”, pai.

                                                                                               se apenas uma delas não pagar, o que acaba     Porque desde que o mundo é mundo só

                                                                                               fazendo com que a responsável pela verba       tem um jeito de um banco ganhar dinheiro

                                                                                               receba fiscalização de todos os lados para     com dinheiro dos outros: emprestando. E o

                                                                                               fazer seu negócio dar certo e evitar que o     que acontece quando você sai emprestando

                                                                                               nome do grupo todo fique sujo na praça)        dinheiro mais preocupado em bater meta




Tem mais uma razão pra eu estar escreven-       Vamos lá, a minha formação de economista

do sobre a ideia do Social Business nesse       tinha que servir pra alguma coisa nessa via-

momento, e não é uma boa razão. Acontece        gem, então eu vou explicar o que está acon-

que qualquer leitor atento ao noticiário eco-   tecendo. Toda a estrutura do Grameen Bank

nômico deve ter percebido nesses dias que       está montada sobre a filosofia do micro-cré-

o Grameen Bank está passando pela pior          dito, onde pequenos empréstimos são fei-
                                                                                               O que acontece é que o Grameen chegou          do que em perguntar que tipo de negócio
crise de toda a sua história, um verdadei-      tos somente para grupos de pessoas muito
                                                                                               num dilema: brigar para crescer e espalhar     a pessoa quer abrir? Calote. O negócio dá
ro escândalo, cujas consequências podem         pobres, que passam a utilizá-lo para criar o
                                                                                               tudo isso pelo mundo ou permanecer pe-         errado, acaba o dinheiro pra pagar, o ban-
impactar definitivamente nos rumos desse        próprio negócio. É ele que vai gerar a renda
                                                                                               queno porém com ótimos resultados. Se a        co não tem o que tomar de volta do pobre
tipo de trabalho daqui pra frente. Pra vocês    necessária para honrar o que devem. Como
                                                                                               resposta fosse “crescer”, eles precisariam     como garantia, e fica sem saber se deixa por
terem uma ideia, o próprio Yunus está quase     o princípio do Grameen é tirar as pessoas
                                                                                               de um pouco mais de dinheiro… Mas como         isso mesmo e faz todo mundo pensar que
saindo do banco por causa disso.                da pobreza, ele não pode exigir garantia ne-
                                                                                               nenhum investidor convencional vai colocar     “é festa” e também não precisa pagar ou se
                                                nhuma de ninguém antes de emprestar o
mumbaI                                                                                                                                      mumbaI




pressiona a família pra dar seus pulos e in-   fundamental de não distribuir lucros e rein-   Longa vida ao Social Business. Que ele pos-

ventar um jeito de pagar.                      vestir todo o excedente de volta no negócio.   sa continuar ajudando a liberar o potencial

O nocócio só fica feio mesmo é no próximo      Isso ainda vai dar o que falar… é a primei-    criativo de quem sempre esteve impedido

da história, quando o cara se mata, porque     ra vez na minha vida que eu torço por um       de praticá-lo na vida social. Assim como o

não tem como pagar o deve, o banco fica        banco no meio de uma confusão. Mas nesse       Unseen Tour fez em Londres, tá na hora de

queimadaço com a opinião pública, e o Yu-      caso dá pra entender: não é qualquer banco,    trazer essa galera toda pra cima do palco

nus finalmente se dá conta de que essa ideia   é um dos únicos no mundo que se preocupa       como protagonistas da história, e a gente

de gerico é mais uma repetição do tipo de      se vai fechar ou não por causa do tanto de     não pode perder um aliado tão importante

modelo que deu origem à crise nos EUA,         gente que vai deixar de ajudar ao invés do     quanto simbólico feito esse assim de graça.

com o agravante de que o pipoco é todo         tanto de investidores que vai desagradar.

dentro do próprio banco. Só aí é que se per-

cebe que esse aporte de dinheiro de inves-

tidores externos não tem nada a ver com o

espírito do Social Business, que o Yunus tem

todas as razões do muito pra estar trans-

bordando de raiva com quem fez isso, e que

tem que fazer alguma coisa pra resgatar a

imagem do banco antes que todo o modelo

de microcrédito vá pelos ares . Pra piorar a

situação, o governo de Bangladesh “apro-

veitou” o momento pra tentar destituir o Yu-

nus do cargo de diretor, alegando que ele

não podia assumir esse cargo com mais de

60 anos, num movimento que, no final das

contas, pode complicar ainda mais a inde-

pedência do banco e levar à sua estatização.

(Vocês podem apoiar o Yunus contra esses

ataques clicando aqui, aqui, aqui e aqui)

O Social Business pode crescer pelo mundo?

Pode. Mas não a qualquer custo. Muito me-

nos ao custo do sacrifício do seu princípio
BaNGcoK
baNgCOK                                                                                                                                                                               baNgCOK




POst                                                                                             POst

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14 mar #SHARING9 – LIDI FARIA PREPARA EM TEMPO RECORDE UM BORDADO
                                                                                                 62
                                                                                                 16 mar BANGKOK, SUA LINDA… A MINI-SAIA VOLTOU!

          PRA BANGKOK


                                                                                                 Ê satisfação… tem dias que a gente desco-     Voltando pro hostel eu fui conversar com a

                                                                                                 bre um nova tão boa que sente que tem         atendente mais “trendy” do lugar pra per-

                                                                                                 que divulgar. Tenho obrigação de estimular    guntar se isso era só coisa da minha cabe-

                                                                                                 essa transformação de hábitos tão agradá-     ça ou se estava crescendo mesmo. Quando

                                                                                                 vel pelo mundo todo, não é não? É que no      mostrei as fotos ela disse: “Nossa! Que legal!

                                                                                                 meu primeiro dia em Bangkok eu descobri       Isso é coisa de um mês ou dois pra cá. Mini-

                                                                                                 que o que está voltando, com toda a força,    saia a gente usa, mas esse tipo feito com o

                                                                                                 por todo lado e de uma maneira totalmen-      tecido leve assim eu tinha visto muito pouco

                                                                                                 te acachapante (nossa, fazia tempo que eu     ainda. Essa quantidade de gente usando e

                                                                                                 não usava essa), é uma nossa velha conheci-   de vitrines está começando a mostrar é algo

                                                                                                 da: a mini-saia!!!                            muito novo que está explodindo agora”.

                                                                                                 Ela mesma! E não venham me dizer que eu       Só pra reforçar ainda mais o ponto de vista,

Organizar o #Sharing9 em uma única sema-          como foi a entrega, uma hora antes de eu ir    tô forçando a barra pra chamar de tendên-     seguia eu caminhando traquilamente pela

na logo antes de partir já era por si só uma      pro aeroporto:                                 cia só porque eu queria que fosse (quem,      praça quando me deparo com nada menos

tarefa difícil (parabéns ao pessoal de Social     Nosso contato foi tão rápido que não deu       eu? que é isso…). Olhem o que o que eu en-    que um ensaio fotográfico para um novo

Media da DM9, que inventou e correu atrás         tempo de conversar muito mais sobre al-        contrei em meia horinha de caminhada por      catálogo de moda. Adivinha o que todas as

de tudo!). Ela seria impossível se não existis-   guns outros trabalhos dela… Mas se vocês       aqui:                                         meninas estavam vestindo??? Ela mesma…

sem artistas como a Lidi Faria, que preparou      quiserem, podem se inteirar de tudo visitan-                                                 quase imperceptível mas sempre lá.

o nosso presente pra Bangkok. Imaginem            do o site dela ou seguindo o seu twitter

vocês que ela fez tudo num ônibus, voltan-        @lidifaria.                                                                                  O outro sinal de como Bangkok é uma cida-

do de viagem!                                                                                                                                  de up-to-date apareceu quando eu resolvi

Ela preparou algo delicado e cuidadoso –                                                                                                       perguntar pro fotógrafo, que não fala inglês,

um bordado – e me incumbiu de entregá-lo                                                                                                       o que estava rolando. Sabem o que ele fez?

a uma criança muito fofa na Tailândia. Ago-                                                                                                    Com toda naturalidade do mundo, tirou o

ra temos também um pouco de artesanato                                                                                                         seu iPhone do bolso, abriu o Google Trans-

brasileiro pra levar pro mundo. Vejam aqui
baNgCOK                                                                                                                                baNgCOK




                                                       POst

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                                                       17 mar CONGELAMENTO DE PESSOAS? BEM… QUASE ISSO…
          late, configurou em Inglês/Thai e botou na

          minha mão. Não vou mentir que ri alto, mas

          o pior é que funcionou! Primeira vez que

          eu tive uma conversa presencial através de   Esse é o primeiro post “ponha seu rabo en-    Mas eu tive uma segunda chance! 24 horas

          uma máquina com alguém. E podem escre-       tre as pernas” da viagem. Uma galera me       depois, num lugar completamente diferen-

          ver que essa é outra trend comportamental    escutou no twitter falando sobre o tal con-   te da cidade (Weekend Market de Chatu-

          que aproxima as pessoas através da tecno-    gelamento de pessoas, uma dessas ações        chak), eu me senti o homem mais sortudo

          logia para que quando a linguagem univer-    organizadas por grupos de intervenção ur-     do mundo por ter conseguido gravar isso:

          sal dos gestos não funcione, a barreira do   bana como o Improv Everywhere, em que

          idioma não seja mais tão drástica.           uma multidão de repente pára tudo que

                                                       está fazendo e congela, como se fosse uma

          Agora vamos adiante que ainda a cidade só    estátua viva, enquanto o resto das pessoas

          tá começando.                                fica com cara de besta sem entender nada.

                                                       Eu mesmo já postei aqui um vídeo sobre

                                                       o maior congelamento já feito no mundo,

                                                       em 2008, com cerca de 3000 pessoas em

                                                       frente à Torre Eiffel.



                                                       Pois ontem eu estava descendo a escada

                                                       do skytrain de Siam Square quando, de re-     No entanto, o que eu descobri mais tarde

                                                       pente, pareceu que a estação inteira tinha    foi um belo balde de água fria no meu en-

                                                       parado. Um negócio incrível! Eu não sabia o   tusiasmo.

                                                       que fazer, fiquei pensando “MEU DEUS! Eu

                                                       estou ao vivo no meio de um congelamen-       Todo santo dia, precisamente às oito da

                                                       to humano!”, e quando finalmente consegui     manhã e às seis da tarde, o Hino Nacional

                                                       pegar minha câmera… todo mundo já tinha       da Tailândia toca. E todo mundo pára pra

                                                       voltado a andar.                              escutar.
baNgCOK                                                                                                                              baNgCOK




                                               POst

                                               64
                                               18 mar PRA TIRAR MAIS DE UMA GALERIA, QUE TAL SE SEU CORPO VIRAR
Não importa o que estejam fazendo. Todos

os tailandeses param, em sinal de respeito              TELA? MúSICA E BODY-PAINTING COM LUZ NEGRA

pelo seu hino, o símbolo máximo da única

nação do sudeste asiático que nunca foi co-

lonizada. Inclusive, se você não parar, pode

ter a desagradável surpresa de ser detido e

preso. Prestem atenção de novo no vídeo aí

em cima. A única pessoa que não parou era

um gringo tão ignorante feito eu que deve

ter acreditado que estava presenciando a

maior provocação subversiva do grupo de

intervenção urbana mais inovador de que

conhece.



Só me resta por o meu rabo entre as per-

nas. Não é que em Bangkok não existam
                                               Caminhando por aí, descobri uma galeria          pra dentro da galeria”
congelamentos humanos (vide esse link
                                               onde estava rolando a exposição “Explora-
aqui). Mas o que eu queria dizer com essa
                                               tion of Darkness”, organizada pelo The Wet       Não é só o The Wet Carpet que pensa que
história toda é que se hoje eu passei ver-
                                               Carpet. Trata-se de uma coleção de pinturas      ir a uma galeria tem que ser uma experiência
gonha de vender gato por lebre pra todo
                                               e video-instalações feitas pra brilhar com luz   memorável: quando eu estava em Nova Ior-
mundo que me lê, eu também aprendi uma
                                               negra. O visual é bem interessante, mas a ra-    que descobri que o planetário do American
coisa que não vou esquecer tão cedo quan-
                                               zão de eu estar escrevendo sobre isso é outra.   Museum of Natural History se transforma uma
do chegar numa cidade: Comece aceitando
                                               Se durante o dia temos uma exibição, à noite     vez por mês em pista de dança numa festa
que não sabe nada. Só depois desconfie de
                                               a galeria se transforma num espaço de experi-    chamada One Step Beyond. O mesmo acon-
alguma coisa.
                                               mentação para DJs e VJs em festas inusitadas.    teceu na reinauguração do Museum of The

                                               “A gente trabalhou muito tempo levando a         Moving Image, que ofereceu um final de se-

                                               arte que fazia pra dentro dos clubes. Agora      mana de música, luzes e projeções pra marcar

                                               decidimos fazer o contrário: trazer os clubes    a data.
baNgCOK                                                                                                                                         baNgCOK




                                                                                                 do “Mergulhe, se lambuze e depois me con-

                                                                                                 te como foi” ela se encaixa?

                                                                                                 Não importa o que estejam fazendo. Todos

                                                                                                 os tailandeses param, em sinal de respeito

                                                                                                 pelo seu hino, o símbolo máximo da única

                                                                                                 nação do sudeste asiático que nunca foi co-

                                                                                                 lonizada. Inclusive, se você não parar, pode

                                                                                                 ter a desagradável surpresa de ser detido e

                                                                                                 preso. Prestem atenção de novo no vídeo aí

                                                                                                 em cima. A única pessoa que não parou era

                                                                                                 um gringo tão ignorante feito eu que deve

“É um erro achar que num club as pesso-          negra? Essa nem eu esperava, e é por isso       ter acreditado que estava presenciando a

as prestam mais atenção na música do que         que cada detalhe ficou marcado mais forte       maior provocação subversiva do grupo de

em outros lugares. Por ser a razão principal     na memória: o frio na pele, o tato, a rigidez   intervenção urbana mais inovador de que

pra ir lá, ela é também o elemento menos         da tinta quando seca… e a possibilidade de      conhece.

surpreendente de todos. Por outro lado,          explorar o corpo do outro como tela para o

se você está num museu e começa a escu-          seu trabalho. Aliás, quem se lembra do Un-      Só me resta por o meu rabo entre as per-

tar uma música, presta uma atenção muito         derground Rebel Bingo Club? Aquela “festa       nas. Não é que em Bangkok não existam

maior, porque aquele não é um ambiente           secreta” em que eu fui em Nova Iorque, em       congelamentos humanos (vide esse link

no qual você está acostumado a receber           que na entrada a primeira coisa que a gente     aqui). Mas o que eu queria dizer com essa

esse tipo de informação. A nossa ideia é         recebia era uma cartela e uns marcadores.       história toda é que se hoje eu passei ver-

sair do convencional e propor uma experi-        Ninguém dizia que eles eram só pra marcar       gonha de vender gato por lebre pra todo

mentação nova a um público que não está          a cartela: eram também (e principalmente)       mundo que me lê, eu também aprendi uma

acostumado com isso”                             para desenhar nos corpos das outras pes-        coisa que não vou esquecer tão cedo quan-

                                                 soas, e eu garanto a vocês que ninguém          do chegar numa cidade: Comece aceitando

E se a história é falar de experiências novas,   saía limpo de lá.                               que não sabe nada. Só depois desconfie de

que tal se eu contar que ainda participei                                                        alguma coisa.

de um workshop de Body-Painting com luz          Alguém ainda tem dúvida de em que parte
baNgCOK                                                                                                                                                                                  baNgCOK




                                                                                                 mitação de recursos, essa economia pode ser       radia a partir de um pequeno negócio. A ‘in-
POst
                                                                                                 essencial, sem falar no fato de que tudo pode     dustrial hemp’ tem recurso pra tudo isso, mas
65
19 mar AGORA EU SÓ VISTO MACONHA – INDUSTRIAL HEMP DO
                                                                                                 ser feito a partir de pequenas propriedades,      a gente ainda sofre muito com o preconceito,

                                                                                                 beneficiando muito mais gente.”                   construído ao longo de anos sobre os efeitos
          RE3-GENERATION PRA FAZER MELHOR QUE JEANS E AJUDAR O CAMBOJA




                                                                                                 Através desse projeto, chamado Re3-Genera-        do THC. Enquanto as pessoas não percebem
Calma, calma: eu não comecei a fumar e nem       de produzir (chamadas de hemp), podem se
                                                                                                 tion (Resource, Repower, Restore), Mathew e       que o nosso trabalho não tem THC, quem se
estou fazendo apologia nenhuma. O que            converter numa das mais resistentes fontes
                                                                                                 Eny querem chamar a atenção também para           alimenta da confusão é a indústria do algo-
acontece é que em Bangkok eu conheci um          de fibras para tecidos no mundo, e mesmo as
                                                                                                 um tipo de iniciativa que oferece soluções lo-    dão, que não ajuda em nada a resolver ne-
casal que está fazendo um trabalho interes-      outras variedades (chamadas de marijuana)
                                                                                                 cais para alavancar a condição de vida de um      nhum desses problemas.”
santíssimo no Camboja e me deu razões de         podem servir se cortadas antes da etapa em
                                                                                                 pequeno produtor a partir de algum negócio
sobra pra escrever sobre eles. Quem aí sabia     que o produzem. Para fins práticos, no entan-
                                                                                                 que seja auto-sustentável. Conversando um         Pra mostrar como a história é importante, o
que dá pra fazer tecido a partir da maconha?     to, (e para evitar possíveis confusões) só se
                                                                                                 pouco mais, Mathew me disse que a ideia que       ministério da agricultura do Camboja está
Você que pensava que ela só existia pra “fazer   trabalha com o primeiro tipo.
                                                                                                 tinha quando deixou a Califórnia era muito        apoiando o projeto por uma série de razões.
a cabeça” dos “muitcho dôdjos”, tá na hora de
                                                                                                 próxima da do Social Business.                    Entre 1975 e 1979, o país passou por um ge-
rever os seus conceitos…                         “Nós estamos tentando fugir do rótulo de hi-
                                                                                                                                                   nocídio que exterminou 2 milhões de pessoas
                                                 ppie. A nossa motivação é outra, é ambiental.
                                                                                                 “Parece mentira, mas é incrível o que a gente     (25% da população) e levou junto com elas a
Não é toda variedade da Canabis que pro-         Com a ‘industrial hemp’ você pode produzir
                                                                                                 pode fazer com a ‘industrial hemp’. Sabendo       maior parte do conhecimento sobre como uti-
duz o tal do THC, psicoativo responsável pela    um tecido de três a sete vezes mais forte e
                                                                                                 usar, ela se torna o elo de uma cadeia que aju-   lizar a maconha industrial. Desde então, Ma-
“viagem” toda. O que o Mathew e a Eny me         resistente que o algodão, em metade do tem-
                                                                                                 da a solucionar problemas tão graves como a       thew e Eny são os primeiros a trabalhar com
explicaram é que principalmente as incapazes     po e com metade da água. Num país com li-
                                                                                                 desnutrição, a tuberculose e o déficit de mo-     ela, o que faz com que o governo enxergue na
baNgCOK                                           baNgCOK




iniciativa mais do que um empreendimendo

para modificar a vida de pequenos agriculto-

res, mas também a possibilidade de resgatar

uma tradição perdida no tempo.



Tenho minhas opiniões sobre a questão das

drogas, da legalização e tudo, mas não é meu

papel falar delas aqui. O que eu não podia dei-

xar de mostrar é um movimento que está em

plena rota de crescimento, pretende se encai-

xar numa proposta que eu identifiquei com

uma grande tendência da ásia pro mundo (o

Social Business), e ainda por cima tem como

objetivo de expansão mais imediato… o Brasil!

(Sim, a Eny é uma Nipo-brasileira que deixou

o país há 11 anos e está louca pra aproveitar o

nosso momento especial de florescimento e

voltar pra casa com a novidade).



Se isso vai conseguir chegar até Brasil eu não

sei. Só sei que a calça que eu ganhei vai. E

como daqui pra lá ainda falta quase um mês,

nesse tempo todo eu ainda vou vestir maco-

nha um montão de vezes.
baNgCOK                                                                                                                                                                                  baNgCOK




POst

66
20 mar O QUE FAZ UM TEEN DE BANGKOK?




Dessa vez decidi dar um mergulho no uni-        Eles podem não querer nada, mas dizem

verso teen de Bangkok. Mais por imposição       muito quando colocam uma música coreana

dos fatos do que por escolha, porque quan-      pra tocar e adotam esse tipo de visual. De

do você está saindo de um shopping e vê         fato, a Coreia tem se tornado a maior referên-

um negócio desse, tem obrigação de parar e      cia externa para o comportamento tailandês.

perguntar o que é.                              Seja pela vestimenta, pela música, onde for,
                                                                                                 ração entre a multidão e as grandes estrelas     virais como a tal da Rebecca Black. Alguém,

                                                                                                 do mais novo blockbuster do cinema teen          pelo amor de Deus, me explique por que ela

                                                                                                 tailandês. O filme estreou não tem duas se-      tá no top trends do twitter há DIAS se não

                                                                                                 manas, e se chama “Suckseed”.                    for por causa da vergonha alheia pela voz de

                                                                                                 A história é a mais velha do mundo: um gru-      gralha de uma menina que tem a coragem de

                                                                                                 po de garotos decide formar uma banda pra        se prestar ao des-serviço de cantar a letra de

                                                                                                 impressionar as garotas da sua idade. A di-      “Friday”. É aquele tipo de constrangimento

                                                                                                 ferença começa a aparecer no fato de que         tão grande que não pode ficar restrito ao ser

                                                                                                 eles não se importam em serem muito ruins,       humano que vê e precisa ser compartilhado

                                                                                                 e aí tem algum ponto de interessante. Parece     com alguém imediatamente.

                                                                                                 que a mensagem do filme, assim como tem

                                                                                                 repercutido nos jornais locais, é de que deve    Exceções à parte, a questão, no entanto, é
Não, eles não estavam pedindo dinheiro,         é ela que está estabelecendo o que é “cool”
                                                                                                 haver alguma razão pra o mundo ter mais          que as maneiras de interagir são tão grandes
tampouco inventando flash mob e muito           para a juventude daqui.
                                                                                                 jovens participando de bandas do que no          na nossa sociedade digital que realmente não
menos a fim de subverter espaço nenhum.         Continuei então o meu caminho até ser obri-
                                                                                                 exército, embora não haja evidentemente es-      tem mais tanta razão pra alguém ter vergo-
Me disseram que estavam só ensaiando pra        gado a parar de novo por causa de outra
                                                                                                 paço pra tanta gente. A grande razão para o      nha do que gosta de fazer. A minha geração
um campeonato de dança que ia ter dali a        horda de teenagers ensandecidos se acoto-
                                                                                                 seu “sucesso” é mostrar que a questão não é      aprendeu que, usando bem as ferramentas,
uns dias. “Por que a gente decidiu fazer isso   velando pra ver quem chegava mais perto de
                                                                                                 mais ter “sucesso”, é sim apenas se expressar,   todo mundo acha plateia. A dessas crianças
aqui? Sei lá, a gente gosta e pronto.           uma parede de vidro. A parede em questão
                                                                                                 sem medo de ser feliz.                           já nasceu sabendo.
We don’t care”.                                 era de uma cabine de rádio, que fazia a sepa-
                                                                                                 Eventualmente, essa falta de medo vai causar     Agora é ver onde é que eles vão chegar.
baNgCOK                                                                                                                                                                                    baNgCOK




                                                                                                   Uma biblioteca INCRÍVEL vocês podem ima-        sign, mas oferece o suporte completo para o
POst
                                                                                                   ginar. Mas uma sala onde as estantes estão      “thinking process” da inovação.
67
21 mar
                                                                                                   cobertas de amostras de todo tipo de ma-
          ECONOMIA CRIATIVA E A FASCINANTE “SALA DE MATERIAIS” –
                                                                                                   terial, catalogados pelo processo de fabrica-   De curioso que sou, ainda dei uma futucada
          TCDC BANGKOK
                                                                                                   ção, com legendas explicando como pode          a mais até descobrir que a outra menina dos

                                                                                                   ser utilizado… eu nunca tinha visto. A “Sala    olhos de lá é “Trend Book” da biblioteca. Ló-
No começo do ano, o nosso Ministério da           sos) do nosso futuro: as ideias. Acontece que
                                                                                                   de Materias” do TCDC (aliás, só existem cin-    gico que eu joguei um lero pra atendente me
Cultura criou (finalmente!) uma pasta para a      na Tailândia eles perceberam isso uns três ou

Economia Criativa. Não sabem o que é isso?        quatro anos atrás, e foi aí que surgiu a ideia

Grosso modo, é toda a produção de riqueza         de criar o TCDC (Thailand Creative & Design

econômica a partir das atividades artísticas,     Center), um dos lugares mais fascinantes que

culturais, conceituais, etc. produzidas no nos-   conheci na viagem toda. Ele está fundamen-

                                                  tado em torno de cinco objetivos:



                                                  1) Prover conhecimento.

                                                  2) Prover inspiração

                                                  3) Prover oportunidades para pessoas lo-

                                                  cais nas suas próprias províncias (existem

                                                  mini-TCDC espalhados pelo país, além de

                                                  transmissão ao vivo das palestras que acon-
                                                                                                   co dessas no mundo inteiro) é o paraíso de      deixar dar uma olhada (geralmente só sócios
                                                  tecem em Bangkok).
                                                                                                   qualquer designer realmente criativo. Já pen-   tem acesso ao livro), e com uma ajudinha da
                                                  4) servir de ponte entre pessoas interessa-
                                                                                                   saram na alegria de saber que pra “todo pro-    sorte consegui folhear a mais nova edição de
                                                  das e os designers (catálogo de trabalhos na
                                                                                                   blema real existe uma solução material” bem     todas: Interiores no outono-inverno de 2012-
                                                  internet e mural com cartões, bem à moda
                                                                                                   ali, depois da porta?                           2013. Rapaz, que felicidade… foi abrir o livro e
                                                  antiga, na sede).
                                                                                                                                                   dar de cara com pelo menos mais duas tren-
                                                  5) usar todos as itens anteriores para impul-
                                                                                                   Mas é exatamente essa a ideia do lugar: pro-    ds que eu vinha matutando e não tinha senti-
                                                  sionar a economia nacional.
                                                                                                   ver tudo que for necessário para as mentes      do firmeza pra divulgar ainda. Agora podem

                                                                                                   criativas desenvolverem os produtos ou con-     deixar que os próximos posts vão ser exata-
so país. Já estava mais do que na hora de to-     De todos os itens acima, eu só vou falar do
                                                                                                   ceitos capazes tanto de gerar riquezas quan-    mente sobre elas.
mar consciência que é por esse lado que vão       primeiro e do último. Um é o que torna-o tão
                                                                                                   to de se tornar a representação da Tailândia
sair os elementos mais valiosos (e podero-        apaixonante. O outro faz dele uma tendência.
                                                                                                   no mundo. O TCDC não é uma escola de de-        Pra não acabar esse post sem falar da ten-
baNgCOK                                                                                                                                                                                  baNgCOK




dência que o TCDC representa em si mesmo         O pulo do gato está aí, em perceber que é
                                                                                                 POst
ao abraçar a ideia da economia criativa, nada    investindo o potencial de pessoas criativas

melhor do que a declaração que ouvi de uma       no desenvolvimento de novos conteúdos e         68
                                                                                                 22 mar   VENTILADORES SEM Pá – UMA NOVA MANEIRA DE BRINCAR COM O AR
brasileira (cujo nome ainda vou me lembrar)      conceitos relacionados a atos como “dançar”

num programa de TV logo antes de deixar o        que nós vamos acionar o gatilho da grande

Brasil:                                          onda de transformações que podemos dese-
                                                                                                 Como eu disse no post passado, o “Trend Book” do TCDC de Bangkok me deu insights suficien-
“Se você pega a economia da ‘dança’, é um        jar. O TCDC não quer só desenvolver produ-
                                                                                                 tes pra juntar uns pontos e colocar aqui no blog. Como algumas coisas são melhor vistas do que
negocinho desse tamanho… envolve os pro-         tos, quer desenvolver ideias, porque o gover-
                                                                                                 ditas, vejam esse vídeo aqui:
fessores, bailarinos, escolas, todo mundo di-    no agora se deu conta do valor que elas têm

retamente relacionado com a dança enquan-        nessas áreas. Só pra fortalecer o argumento,

to atividade profissional. No entanto, se você   sabem qual é o tema da exposição de cuja

pega a economia do ‘dançar’, essa é ENOR-        abertura eu acabo de chegar? “Games e ani-

ME! Envolve todo tipo de atividade gerada a      mação na era digital”.

partir do ato de dançar, e nesse bolo entram

as festas, shows e até mesmo o carnaval! E       Ou vocês acham que o primeiro ministro de

todo mundo sabe a quantidade momumen-            um país vai pessoalmente a um evento desse

tal de recursos que essa atividades movi-        só porque curte um Playstation?

mentam.”




                                                                                                 Sim, querido leitor. Esses aros que você está vendo são ventiladores sem pá. Não vou mentir que

                                                                                                 até agora não entendi como funciona essa história, mas o anúncio promete um fluxo de ar até 15

                                                                                                 vezes mais forte que os modelos convencionais com um consumo de energia consideravelmen-

                                                                                                 te menor. Pode até ser verdade, mas não é essa a razão que deixa a gente boquiaberto com o

                                                                                                 vídeo. O que enche os olhos é mesmo a beleza estética de uma tecnologia que faz tudo parecer

                                                                                                 muito mais simples.

                                                                                                 No entanto, talvez o grande mérito do Air Multiplier Fan esteja menos na sua tecnologia inovado-

                                                                                                 ra do que no momento em que desenvolve essa solução. Desde a primeira parada da viagem (e

                                                                                                 até mesmo antes, no Brasil), eu venho percebendo que um dos lugares para onde as mentes cria-
baNgCOK                                                                                                                                             baNgCOK




tivas mais têm apontado a sua atenção não         Já em Paris, eu descobri uma loja de conser-     demolição de um imóvel antigo abriu entre

está nem nos muros, nem no chão, nem em           to de relógios antigos em que a decoração,       dois prédios, ele enfiou algumas vigas de

qualquer superfície, mas sim no único espaço      no entanto, tinha sido deixada a cargo de um     metal de uma parede à outra e pronto: trans-

realmente livre de contato humano: o ar.          artista que trabalhava apenas como móbiles.      formou tudo numa grande galeria suspensa.

Ainda em Nova Iorque, no comecinho da via-        Quando perguntei por que ele tinha decido        O que eu quero mostrar é que assim como

gem, uma rápida visita ao MoMA já tinha co-       fazer isso, ele me respondeu que “bem, tinha     muitas ideias brilhantes às vezes demoram a

meçado a me convencer de como isso está           um francês* que dizia que os espaços hori-       ter aceitação por não encontrarem o ambien-

despontando como um horizonte de possi-           zontais estavam todos tomados por carros e       te adequado para recebê-las, eu acredito que

                                                                                                   o caso do Air Multiplier Fan é exatamente o

                                                                                                   oposto: uma tecnologia que permite manipu-

                                                                                                   lar com uma funcionalidade incrível o espaço

                                                                                                   aéreo no momento em que mais queremos

                                                                                                   explorá-lo, ao mesmo tempo em que se afina

                                                                                                   com a tendência de transportar a limpeza e

                                                                                                   simplicidade da arquitetura digital pra tantos

                                                                                                   lugares quanto for possível.



                                                                                                   Convergência é a palavra de ordem. Melhor

                                                                                                   para a fabricante, que apostou nisso pra se

                                                                                                   levantar no único espaço realmente “touch-

                                                                                                   less” do nosso mundo real.



bilidades. Com dois ventiladores, o artista li-   pessoas, então restava o espaço vertical pra

tuano Zilvinas Kempinas conseguia criar dois      explorar nas cidades. O que eu acho é que

círculos de rolo de VHS que flutuavam eter-       até o espaço vertical está começando a ficar

namente entre eles, numa exposição que tra-       saturado, então a gente tem que criar solu-

tava de como o desenho saía do achatado do        ções pra usar o único espaço que ainda te-

papel para conquistar o incontível do espaço.     mos verdadeiramente livre: o ar”.

Era o suficiente pra paralizar meio mundo de      Duas ruas depois, no mesmo bairro de Mont-

gente, que passava minutos parado ali, besta,     martre, outro artista também tinha feito a sua

olhando o negocinho voar.                         parte pra explorar essa ideia. No vão que a
baNgCOK                                                                                                                                                                                   baNgCOK




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23 mar GATHERING SOCIAL – RETALHOS FAZEM MAIS QUE ROUPAS BONITAS.




Outra tendência que o Trend Book do TCDC         Eu comecei a suspeitar quando vi que a histó-

de Bangkok apontou (e pra qual eu já vinha       ria da “guerrilha do crochê” era mais conhe-

colecionando sinais há um tempo) tem a ver       cida no mundo do que eu supunha. Eu até

com retalhos. Não precisa ser consultor de       arriscaria dizer que essa onda de retalhos na

moda pra perceber quando uma coisa co-           moda já é reflexo do sucesso das experiên-

meça a aparecer como um padrão por onde          cias do knit graffiti por aí. No entanto, como
                                                                                                  eu posso fazer é dizer que tipo de compor-       Vejam só o que aconteceu em Cambridge em
passa. Vocês também não começariam a sus-        eu não estou aqui pra falar de moda (não vou
                                                                                                  tamento eu vejo encontrar expressão nessa        setembro do ano passado. Para Sue Sturdy,
peitar de algo se vissem isso se repetindo as-   gastar o tempo de vocês me metendo a bes-
                                                                                                  história toda.                                   não bastava cobrir uma ponte inteira com cro-
sim?                                             ta em assunto que eu não conheço), o que
                                                                                                                                                   chê. Tinha que ser o recorde mundial do maior

                                                                                                                                                   número de pessoas costurando juntas. E foi.

                                                                                                  Por definição, um trabalho com retalhos é        Desde o começo, a artista já explicava que “as

                                                                                                  algo que une peças separadas. Esses retalhos     contribuições para essa colaboração artística

                                                                                                  podem não ter sido feitos para aquele deter-     comunitária são chave para o seu sucesso.

                                                                                                  minado fim, mas quando se envolvem nesse         Uma pessoa sozinha iria se debater com um

                                                                                                  fim encaixam de alguma forma, e a arte toda      projeto dessa magnitude, mas juntos nós po-

                                                                                                  está em saber encaixar.                          demos criar uma incrível obra de arte que vai

                                                                                                                                                   incluir um caleidoscópio de texturas, cores e

                                                                                                  Se você faz um casaco de retalhos sozinho,       individualidade“, mostrando que, ao contrário

                                                                                                  ótimo. Está desenvolvendo a própria habi-        de anular, a criação coletiva potencializa as

                                                                                                  lidade de resignificar o que antes era outra     particularidades.

                                                                                                  coisa. Porém, se tem a oportunidade de par-      A razão de eu estar falando disso tudo não é

                                                                                                  ticipar da experiência do retalho coletivo,      outra que não sublinhar que nós vivemos no

                                                                                                  leva a atividade à última escala: encontrar um   mundo do “Gathering”. E isso nada mais é do

                                                                                                  jeito de aproximar as criações de um monte       que a convergência de pessoas. Os retalhos

                                                                                                  de gente a partir do que elas têm em comum.      coletivos aprenderam a fazer isso muito bem,
baNgCOK                                                                                          baNgCOK




com a certeza de que esse processo vai levar à   em forma concreta”. É por isso que eu acre-

composição de algo extremamente autêntico.       dito que pra entendê-la a gente precisa olhar

Se a gente fala tanto em convergência de tec-    primeiro pra como as pessoas pensam, e só

nologia e mídias, a razão pra isso não pode      depois pra como os engenheiros desenham.

estar em outro lugar que não numa mudança        Retalhos só crescem do jeito que estão cres-

de comportamento humano, social. Na pales-       cendo porque representam de maneira con-

tra de encerramento da Ecobuild em Londres,      creta o que estamos vivendo. E assim vai

um antropólogo sumarizou tudo isso com           continuar por um bom tempo.

uma frase só: “tecnologia é uma relação social
baNgCOK                                                                                                                                                     baNgCOK




                                                                       Além da ajuda essencial de Pla com a tra-     Enfim, foi por razões como essas que eu não
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                                                                       dução e tudo o mais, eu ainda pude contar     tive problema nenhum em documentar a en-

                                                                       com o fato de que os tailandeses são o povo   trega do presente que a Lidi preparou com
24 mar #SHARING9 BANGKOK – BORDADO DA LIDI FARIA PRA ALEGRIA DA FAI,
                                                                       mais parecido com o brasileiro que eu já vi   tanto carinho pra uma das crianças mais fo-
          UMA LINDA CRIANÇA TAILANDESA
                                                                       no mundo. Eu fico impressionado com como      fas que eu vi na cidade. Muito obrigado, Lidi,

                                                                       eu não sabia disso! Além de serem notada-     pela prontidão e por nos ajudar a levar um
Conforme prometido, rodei um tanto de Ban-
                                                                       mente conhecidos pelo sorriso que sempre      pouco do artesanato brasileiro pro mundo
gkok à procura de uma “criança fofa” pra re-
                                                                       carregam no rosto e pela maneira como cos-    conhecer. Antes de a viagem começar eu
ceber o presente da Lidi Faria. Em uma das
                                                                       tumam responder a um pedido com “por que      não tinha dimensão do quanto essa ativida-
voltas que dei, encontrei Fai, sentada numa
                                                                       não?” ao invés de “por que eu deveria fazer   de está crescendo, mas hoje fico feliz de ter
cadeirinha tomando seu suco e rindo solta pra
                                                                       isso?”, vocês sabiam que eles comem TAPIO-    levado um pouco dela comigo. Espero que
quem quisesse ver.
                                                                       CA??? Eu quase chorei de emoção quando vi     você também tenha gostado.

                                                                       isso. No Rio, as pessoas me conhecem por
Não vou mentir que a minha preocupação
                                                                       oferecer tapiocadas aos meus amigos e tro-    Um abraço, e até a próxima!
com esse #Sharing9 era conseguir que os
                                                                       car o misto do café da manhã por uma re-
pais me deixassem fotografar a criança, sem
                                                                       cheada de coco com queijo. PENSEM numa
pensarem que eu era um gringo tarado que ia
                                                                       saudade lerda que eu matei então!…
jogar as fotos dela na net sabe-se lá pra quê.

Pra resolver esse problema eu contei com

duas ajudas.



Primeiro, com Pla, que trabalha na recepção

do hostel onde eu estava hospedado e se ofe-

receu de coração aberto não só pra me ajudar

na tarefa como pra me mostrar a cidade intei-

ra! Durante três dias, eu esperava ela terminar

o expediente no meio da tarde para sairmos e

explorar a culinária de rua da Tailândia, os lu-

gares onde os locais vão, e, inclusive, o TCDC

(que foi ela que me indicou quando me viu

perdido sem saber aonde ir na primeira tarde).
XaNGaI
xaNgaI                                                                                                                                                                                       xaNgaI




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71
14 mar   #SHARING9 – BIA GRANJA ESPALHA A INTERNET BRASILEIRA POR XANGAI.




                                                                                                    voltado pra fora da revista, convocando a ga-      a maravilhosa relíquia que é a 1a edição da

                                                                                                    lera mesmo, qual seria o nome do encontro?         (então ainda) Pix! – e um monte de bottons

                                                                                                    youPix.                                            também. Ah, quase esqueci… também tenho

                                                                                                    O fato é que esses eventos cresceram tanto         a missão de explicar o que é a #sualinda pra

                                                                                                    que se tornaram talvez maiores do que a pró-       uma pessoa por lá. Se ela entender, ganha um

                                                                                                    pria revista! Pra se ter uma ideia do alcance      botton!

                                                                                                    da parada, uma das figuras ilustres a prestigiar   Pra saber mais sobre a revista e o que está

                                                                                                    uma das edições foi ninguém mais ninguém           bombando na internet brasileira, procure uma

                                                                                                    menos que David After Dentist!!! Quem não          Pix, ou acesse:

                                                                                                    se lembra dele? Então pra juntar tudo de uma       Site oficial: http://mypix.com.br

                                                                                                    vez, ficou melhor mudar tudo pra youPix logo.      @NaPix
Esse sim é um presente valioso!!! Todo mun-      conhecê-la simplesmente pelo nome de Pix,
                                                                                                    Dito isso, estou levando um catatau do último      @BiaGranja
do sabe que a China tem sérias restrições a      pelo qual ficou conhecida. Mas sabe como é…
                                                                                                    exemplar da revista pra espalhar por lá, junto
algumas redes sociais como o Facebook e o        A revista começa impressa e o caminho natu-
                                                                                                    com alguns números mais antigos – incluindo
Twitter. Não que isso impeça totalmente as       ral (principalmente se o foco dela é internet)

pessoas de participar delas de alguma manei-     é ganhar um site. Como o domínio pix.com.br

ra, mas dificulta muito o acesso ao que está     já existia, foi pelo MyPix.com.br que ela entrou

sendo disseminado livremente por esses ca-       na rede.

nais em outros lugares. Que tal então levar de   Se parasse por aí tudo bem, mas o pessoal

presente um pouco da internet brasileira pra     não se contenta e começou também a organi-

Shanghai?                                        zar eventos, oportunidades pra o pessoal das

Foi essa a proposta da visita à sede da you-     redes sociais se encontrar e adicionar mais

Pix e do encontro com a Bia Granja, editora da   essa esfera às suas possibilidades de sharing.

revista. Na verdade, a maioria de vocês deve     Colocando o foco no fato de que ele estava
xaNgaI                                                                                                                                                                              xaNgaI




POst

72
27 mar   3, 2, 1, BIKE POLO!!!




Bicicletas são uma alternativa barata, eco-   cavalos corram pra lá e pra cá com seus

logicamente correta e saudável para o         cavaleiros disputando uma bola? (Aliás,

transporte urbano. Ok, todo mundo sabe        quem é que tem seis cavalos numa metró-

disso. O que pouca gente sabe é que agora     pole!?!?!). Mas se a gente trocar os cavalos

existe um esporte completamente novo e        por bicicletas, o gramado por um estacio-
                                                                                             uma preocupação muito grande). Fora isso,      Eu tentei jogar, e vou confessar que é difícil
inusitado usando as bikes nossas de cada      namento, e os drinks sofisticados por cer-
                                                                                             o jogo é bem simples: três pra um lado, três   pra CAR@#&0*! Me senti quase um corea-
dia. Se vocês também nunca tinham ouvido      vejas com os amigos… tudo muda de figu-
                                                                                             pro outro, cada time defendendo um gol.        no no forró. Mas não precisei me preocupar
falar nisso, bem vindos ao BIKE POLO!         ra. Agora podemos ter o primeiro esporte
                                                                                             Cada jogador carrega um taco e só pode         porque nem todo mundo está lá pra jogar.
                                              coletivo com bicicletas do mundo em qual-
                                                                                             atirar ou passar a bola com ele. A bola fica   O evento é também um grande encontro
Se algum de vocês já tiver jogado Polo na     quer cantinho da nossa cidade.
                                                                                             no meio, ao apito do juiz os times correm      da bike comunity de Shanghai, uma opor-
vida, eu vou tomar um susto – em que cida-    O Bike Polo só se preocupou em criar uma
                                                                                             para disputá-la, e quem marcar cinco gols      tunidade de conhecer pessoas novas e tro-
de do mundo você encontra um gramado          regra nova: não por o pé no chão (o que,
                                                                                             primeiro, vence.                               car ideias sobre as novidades da vida em
amplo o suficiente para permitir que seis     pra quem está num cavalo, não devia ser
xaNgaI                                                                                                                                                                            xaNgaI




duas rodas.                                     te e diminuir o ritmo do pedal pra depois     vos, cores e formas dos quadros até o ban-     do, um esporte que também é mais que

Foi conversando com eles que eu fiquei          segurar e cantar pneu, o que coloca os seus   co em que o pai aprendeu a andar 50 anos       uma modalidade, e tem potencial pra aglu-

sabendo, por exemplo, da onda das Fixed         donos em outro patamar de perícia em re-      atrás, tudo tem um significado.                tinar e desenvolver uma cultura própria em

Gear Bikes, bicicletas sem marcha e sem         lação a nós, reles mortais montando Calois.   Assim como vestir-se não é só cobrir o cor-    torno de si pra influenciar o comportamen-

freio em que a corrente encaixa numa ca-        O mais interessante, no entanto, é o fato     po, andar de bicicleta não é só se transpor-   to de muita gente.

traca fixa, de modo que, quando a roda          das Fixies serem a plataforma para uma        tar. E vai ser cada vez mais assim daqui pra

gira, o pedal sempre acompanha (tanto pra       personalização enorme. Nenhuma é igual à      frente. Me despeço hoje deixando vocês

frente quanto pra trás). Pra frear uma “Fi-     outra, e é isso que está transformando-as     com esse minidocumentário de 5 minutos

xie”, você precisa inclinar o corpo pra fren-   também em canal de expressão. Dos adesi-      trançando as origens do Bike Polo no mun-
xaNgaI                                                                                                                                                                              xaNgaI




                                                                                          utilidade pra quem não usa bicicleta? Claro!      net, música e informação na palma da mão
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                                                                                          Uma mesa é sempre útil pra qualquer pedes-        pra onde formos, antes de inovações como

                                                                                          tre. Ainda assim, o Pit In continuaria relegado   essa (ou essa) ainda tínhamos que conviver
28 mar   DON’T PIT-STOP. PLEASE PIT-IN
                                                                                          ao hall das excentricidades de estação, que       com a obrigação de dar um “break” em al-

                                                                                          não deixam muito mais que uma lembrança           gum momento pra recarregar as baterias.

                                                                                          engraçada na memória de que viu, não fosse        Agora não mais.

                                                                                          o conceito do “non-stop” que traz incorpo-        A primeira vez que vi uma foi na “Sala de

                                         A invenção é japonesa, do Muu Design Stu-        rado em si mesmo.                                 Materiais” do TCDC Bangkok, mas assim que

                                         dio, mas eu descobri na China. Quem me           De fato, não é à tôa que o nome é Pit-In ao       cheguei no hostel meu colega de quarto me

                                         mostrou a ideia foi um dos organizadores         invés de Pit-Stop. É como se você não tives-      disse que já tinha visto várias na Suíça, de

                                         do Bike Polo, que também é editor um site        se que interromper sua jornada pra fazer o        onde vinha. Em outras palavras, me garantiu

                                         inteiramente dedicado à paixão por bicicle-      que tem que ser feito parado. Essa ideia está     que a tecnologia é funcional e não apenas

                                         tas em Shanghai, o People’s Bike. A paixão é     crescendo muito, e pode ser observada em          conceitual. Faz tempo que é possível estar

                                         tão grande que acabou de nascer uma seção        produtos tão variados como o mochila aí em        “on-line” 24 horas por dia. O que está se tor-

                                         chamada “Bike Porn”, onde são postadas as        baixo, chamada de “mochila solar”.                nando possível (e imperativo) é continuar as-

                                         fotos das Fixed Gear Bikes “mais desejadas       Os painéis do lado de fora aproveitam a luz       sim em qualquer lugar, em qualquer situação,

                                         da cidade”. Além do mais, como eu não vou        do sol de que a gente tanto reclama quando        e sem interrupções de percurso.

                                         mais passar no Japão, não faz mal home-          carrega peso pra gerar em energia e recarre-

                                         nagear uma criação de lá, então dêem uma         gar celulares, laptops, MP3s ou câmeras fo-       Seja numa bike ou no computador, a vida é

                                         olhada nisso aqui.                               tográficas dentro da mochila. Se todos nós        uma só. E se parar você cai.

                                         O nome do modelo é Pit In. Como vocês            adoramos a possibilidade de carregar inter-

                                         podem ver, a pessoa chega na sua bike, en-

                                         caixa a roda da frente, e não precisa mais se

                                         preocupar se alguém vai levá-la embora en-

                                         quanto faz um lanche. Simplesmente come

                                         lá mesmo, em cima dela. Depois abre a sua

                                         mochila, tira o lap-top, dá uma olhada nas re-

                                         des sociais, começa a pesquisar alguma coi-

                                         sa, um endereço… e aí é só pedalar de novo

                                         que já está no caminho pra lá.

                                         A ideia é prática? Sim. Viável? Também. Tem
xaNgaI                                                                                                                                                                                xaNgaI




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29 mar   WELCOME TO ENTER – OPEN SOURCE FILM




                                               só cabem seis pessoas de cada vez, no se-

                                               gundo andar de uma loja de roupas cha-

                                               mada Source. Pra me iniciar no negócio fui

                                               assistir a um projeto chamado “Open Sour-

                                               ce Film”, e tenho que dizer que já comecei

                                               tirando o chapéu.



                                               Funciona mais ou menos assim. Quando

                                               você compra um ingresso, recebe um email

                                               com uma pergunta. Você responde dizen-          é o quarto dela. Com direito a gato passan-     Passado meu momento comentarista de

                                               do o que gostaria de ver quando chegar o        do no meio das falas, telefone tocando e        teatro (o que, cá entre nós, eu adoro fazer),

                                               dia da apresentação. Quando tiver todas as      tudo o mais.                                    fica a lembrança de como as obras interati-

Está rolando em Shanghai um festival cha-      respostas, o responsável pela iniciativa, Mi-   Coisa boa a gente tem que elogiar, e o tra-     vas, em que o espectador é convidado a to-

mado JUE, que significa “amanhecer”. Com       chael Beets, vai enviá-las pra uma atriz em     balho que ela fez foi muito bom mesmo!          mar parte da construção do acontecimento

a clara intenção de ser uma vitrine para no-   Nova Iorque, e ela vai fazer alguma coisa       Textos interessantes, interatividade na me-     ao invés de ficar separado do artista pela

vos talentos na música e nas artes, o fes-     juntando todos esses pedidos numa perfor-       dida certa, e uma obra que traz o público       tão famosa quarta parede, estão pipocando

tival ainda possui uma mostra paralela de      mance só.                                       pra dentro da construção sem abrir mão da       por todos os lugares. Definitivamente essa

performances chamada Enter. Pode ter                                                           autoria nem cair no “tudo vale”. Além do        é uma tendência muito forte, e eu tenho ra-

muita coisa boa rolando no JUE, mas é essa     E como é que faz pra ver a mulher se apre-      mais, realmente saí sem a menor noção de        zões de sobra pra acreditar nisso conforme

mostra o hors concours da história toda.       sentar lá de Nova Iorque? Skype, é claro!       que parte dos incidentes eram ocasionais        documentei aqui, aqui, aqui e aqui.

Sem dúvida nenhuma, a cereja do bolo.          São sete e meia da noite aqui e sete e meia     pelo fato de ela estar no quarto dela e quais

                                               da manhã por lá, mas dentro da salinha es-      eram propositais pra brincar com a gente.

E uma cereja pra muito pouca gente, por-       tamos todos nos vendo ao vivo, sem delay,       Enfim, linha tênue entre atuação e exposi-

que todas as apresentações acontecem           e interagindo do mesmo jeito que se esti-       ção, com entrega e sinceridade.

dentro de um cubículo de talvez 3 x 3, onde    véssemos de frente pro palco, que, no caso,
xaNgaI                                                                                                                                                                          xaNgaI




                                                                                             3m. O choque pode até ter sido “too much      Esse vídeo é uma delas: sediado em Nova
POst

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                                                                                             information” pra cultura daqui, mas que foi   Iorque, o The Box se propõe a ser um espa-

                                                                                             memorável foi.                                ço de ousadia e criatividade na cultura de
30 mar   WELCOME TO ENTER 2 – BOYLESQUE, SPEED DATING E AN XIAO
                                                                                                                                           cabaré. Aliás, corre na boca pequena que

                                                                                             Realmente, quando estive em Londres           eles já tem inclusive planos de expandir

                                                                                             pude ver o tamanho dessa onda do burles-      para Londres muito em breve.

                                                                                             co na cultura dos cabarés. Em Paris idem, e

                                                                                             em Milão até premiação anual especializa-     Seguindo na programação do Enter, tive-

                                                                                             da na categoria já está rolando. O problema   mos experimentações com música eletrô-

                                                                                             é que ele vem expandindo de uma maneira       nica, teatro físico, e até “Speed Dating”.




No post passado eu falei de um festival cha-

mado Enter. Como eu tinha conferido só o       Pra começar, uma performance chamada

primeiro dia, foquei na história do Open       “Boylesque”. Sim, burlesco com um ho-

Source Film. Só que o evento tinha muito       mem, que diz que já está de saco dessa        tão acachapante quanto previsível, o que      Nesse caso, oito homens e oito mulheres fi-

mais a oferecer, e depois de um bom fim        cena saturada e por isso decidiu fazer algo   incomoda muitíssimo gente como o Tidia-       cavam no cubo e cada pessoa um tinha um

de tarde conversando com a sua curado-         novo pra ela. Imaginem a cara dos chineses    ne, do Boylesque. A questão então é: que      minuto pra conversar com o outro. Minuto

ra (Anita Hawkins, da Malásia) eu simples-     chegando pra ver um cara se apresentar de     tipo de resposta os artistas inovadores tem   acabado, encontro encerrado e vamos pro

mente não tinha como não falar mais um         cinta-liga, peruca e plumas junto com uma     tentado dar para esse problema?               próximo.

pouco do que está rolando.                     “assistente de palco” num cubo de 3m x
xaNgaI                                                                                                                                                 xaNgaI




                                                                                                 POst

                                                                                                 76
                                                                                                 31 mar   BENS QUE CONTAM HISTÓRIAS –

                                                                                                          DOS ESCOMBROS à ALTA SOCIEDADE DE SHANGHAI



                                                                                                     Que a economia da China está crescendo es-

                                                                                                     pantosamente todo mundo sabe. Dá pra ver

                                                                                                     isso claramente na paisagem da cidade, com

                                                                                                     a demolição de prédios e casas antigas pra

                                                                                                     dar espaço ao ritmo avassalador da constru-

                                                                                                     ção civil. O que nem todo mundo sabe é que

                                                                                                     nem tudo que é posto abaixo tem que ser

                                                                                                     deixado pra trás.
Quem também deu o ar da graça no festi-         melhante ao Twitter (pra não dizer melhor).

val foi a “social media artist” An Xiao, que    Quando receber a resposta do email que
                                                                                                     Pois hoje eu conheci um cara que faz dos res-
trabalha atualmente em parceria com nin-        enviei pra ela com perguntas sobre a mídia
                                                                                                     tos de demolição matéria prima para novas
guém menos que Ai Wei Wei – o chinês do         social na China e o trabalho que ela desen-
                                                                                                     criações. Da combinação entre os elementos
“Sunflower Seeds” da Tate Modern (já falei      volve, divido mais com vocês. Por enquanto
                                                                                                     encontrados nesses locais e outros tão anti-
dele aqui) e autor de projetos tão impor-       só posso deixar essa micro entrevista aí que
                                                                                                     gos quanto caixas de biscoito metálicas, ele
tantes como o estádio Ninho de Pássaro,         ela deu ano passado. O mais interessante é
                                                                                                     cria móveis como esses aqui:
o símbolo maior de toda a Olimpíada de          quando ela toca suavemente nesssa ques-

2008 em Beijing. Ainda mais exclusiva, a        tão de as “experiências” estarem tomando
                                                                                                     Jonas Merian veio da Suíça para Shanghai
performance dela era para apenas um es-         conta das artes, sobre a qual eu já falei bas-
                                                                                                     trabalhar na indústria de próteses ortopédi-
pectador.                                       tante. Afinal de contas, não foi à toa que
                                                                                                     cas. Cansado da maneira como os negócios
Como esse espectador não fui eu, só sei         eu preferi ir pro festival de performances ao
                                                                                                     funcionam na China – segundo ele o reco-
que dentro do cubo tinha uma mesa, duas         invés de pra mostra de belas artes…
                                                                                                     nhecimento aqui vem muito mais por uma
cadeiras e dois computadores, e que ape-
                                                                                                     questão de prestígio e bons relacionamentos
sar de An Xiao e o visitante ficarem a ape-
                                                                                                     do que pelo ciclo “normal” das coisas (bom
nas um metro de distância, toda comunica-
                                                                                                     produto, bom preço e pessoas comprando)
ção entre os dois só podia ser feita via Sina
                                                                                                     – há um ano ele abandonou a atividade para
Weibo, o serviço de microblog chinês se-
xaNgaI                                                                                                                                                                              xaNgaI




se dedicar a aquilo de que mais sentia falta:   Em países como China, Índia e Brasil, o mo-     guir dessa massa que tão “perigosamente”       O que estamos vendo é a incorporação da

trabalhar com as próprias mãos.                 delo de crescimento baseado na incorpora-       se aproxima. É esse movimento que Jonas vê     experiência no bem. É essa a tendência de

“É interessante ver como essa questão de        ção dos mais pobres como consumidores no        muito claramente em relação ao seu trabalho.   que estou falando. Podem escrever.

ser feito manualmente interessa às pessoas.     mercado (a tão falada ascensão da “classe       “Se o que você diz é verdade e nós realmen-

Além do mais, eu uso materiais que já tive-     C”) tem gerado um fenômeno de compor-           te estamos migrando de uma sociedade que

ram uma vida pregressa, então é como se         tamento muito interessante. Enquanto esses      coleciona bens pra uma que coleciona expe-

o móvel tivesse uma história pra contar. Por    grupos elevam o seu padrão de vida pela via     riências, eu posso dizer que é isso que move

isso também que, ao invés de tirar as imper-    do acesso a bens (televisão, geladeira, auto-   muita gente a comprar os meus móveis. Eles

feições, eu tento manter tudo o mais próximo    móveis…) e serviços (como viagens de avião,     enxergam a possibilidade de possuir um bem

possível do original. As pessoas entendem       por exemplo), a parcela mais rica da popu-      através do qual podem contar uma história

que esses riscos, furos e mossas na verdade     lação se empenha em criar novos símbolos        (a história dos materiais até chegarem em

não são defeitos: são marcas”                   de status a partir dos quais possa se distin-   suas casas)”
xaNgaI                                                                                                                                                                                 xaNgaI




                                                                                              locar as pessoas numa situação tão próxima      Mas será que é realmente esse contato com
POst
                                                                                              do que está acontecendo a ponto de se per-      a arte que atrai as pessoas pra lá? A própria
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01 abr
                                                                                              guntarem: “Ora, se eles pode fazer isso por     Bree acha que não, mas é por isso mesmo
         VER E SER VISTO – BATALHA DE DESIGNERS, ARTISTAS E VOYEURS
                                                                                              que eu não posso também?”                       que acredita na ideia:

                                                                                              Passados mais algumas semanas, outro even-

                                                                                              to sacudiu Shanghai. Dessa vez foi uma “Di-     “O mais importante de tudo é reconhecer

                                                                                              gital Design Battle”, em que a produção do      que existe uma coisa de voyeur no ar. Quan-

                                                                                              evento lançava o tema a partir do qual os de-   do você olha pras redes sociais, tem uma bela

                                                                                              signers teriam que criar uma estampa para a     combinação entre o poder de fuçar na vida

                                                                                              marca Hongmen Art dentro de um intervalo        dos outros e o prazer de compartilhar (share)

                                                                                              de tempo determinado. Durante esse proces-      experiências e descobertas. É ver e ser visto.

                                                                                              so, tudo que faziam era projetado num telão     O que a gente tá fazendo com esses eventos

                                                                                              para que o público visse, e a reação popular    é alimentar esse sentimento. Você quer ver

                                                                                              era um dos maiores termômetros do êxito do      como é que faz? Então venha e veja. Você

                                                                                              trabalho. Para o diretor da Hongmen Art, esse   é artista e quer mostrar seu trabalho? Então

                                                                                              caráter participativo do público é o melhor     venha e mostre.”

                                                                                              termômetro de quais são as estampas que

                                                                                              podem fazer sucesso, além de uma etapa im-      Se as pessoas estão curiosas pelos processos

                                                                                              portante do processo de crowdsourcing que       e já não se satisfazem em saber apenas dos
às vezes eu gosto quando encontro uma coi-      outubro do ano passado, eles encontraram
                                                                                              é a base da sua produção.                       resultados finais, esse tipo de batalha lhes dá
sa completamente nova, bem característica       um antigo galpão, ambientaram-no devi-
                                                                                              Se você parar pra pensar, esse é exatamen-      exatamente o que querem. O grande lance
de um lugar, quase endêmica. Já em outras, é    damente, convidaram uma galera do street
                                                                                              te o molde do Cut n’ Paste, festival de que     é que os organizadores aprenderam usar o
a descoberta de um padrão de repetição que      dance pra chamar atenção, e organizaram
                                                                                              o nosso querido Raphael Sonsino (do #Sha-       fetiche pra gerar interesse no que quiserem.
me deixa mais satisfeito, porque ele começa     uma batalha de artistas plásticos.
                                                                                              ring9 de Paris) participou ano passado em
a dar a dica de quais são as coisas que estão
                                                                                              São Paulo. E segundo Bree é isso mesmo!
realmente na rota de influenciar mais pesso-    O atividade tinha como objetivo não só ser
                                                                                              “Uns dias depois nós recebemos até uma
as. O encontro de hoje foi um desses.           vitrine para novos talentos mas também co-
                                                                                              carta da organização mundial do Cut n’ Pas-
Conversei com Bree Harisson, que trabalha       locar o público numa situação de proximida-
                                                                                              te! Só que ao invés de reclamar, eles estavam
na Dyce Productions, sobre um tipo de even-     de maior com a arte, vendo o processo acon-
                                                                                              era nos parabenizando pela realização do
to que ela tem ajudado a organizar em Shan-     tecer na sua frente. Sob o slogan de “belas
                                                                                              evento e dando todo o incentivo para que
ghai e que vem crescendo cada vez mais. Em      artes como entretenimento” a Dyce quer co-
                                                                                              continuássemos fazendo outros”.
xaNgaI                                                                                                                                                                           xaNgaI




                                                                                             seja por causa da censura ou por causa da
POst
                                                                                             falta de estímulo à produção artística. Por
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03 abr
                                                                                             causa disso acaba que é da comunidade
         PRA ONDE VAI A CHINA? – PARTE 1 – WHAT IS (AI WEI WEI E JASMINE
                                                                                             estrangeira que vem a maior parte das ini-
         REVOLUTION)
                                                                                             ciativas relacionadas à arte. A gente sente

                                                                                             que a China vive um momento especial,

A China é um país que enche todo mundo        o potencial criativo chinês. Eu só podia fo-   tem um potencial criativo enorme, mas não

de curiosidade. Tem sempre algum mistério     tografar muito pouco, e essas são algumas      está canalizando isso da maneira correta,

envolvendo esse lugar, uma coisa de “como     imagens que eu pude guardar. No entanto,       então tenta dar a contribuição que pode

é que pode?”. E conforme eu fui conversan-    o que minhas conversas tanto com a Bree        pra estimular essa atividade por aqui.”

do com as pessoas, percebi que às vezes       Harisson quanto com a Anita Hawkins (or-

mais interessante que os feitos que ela al-   ganizadoras da batalha de designers e do       Mas como é que a gente reconhece essa

cança é a maneira contraditória como ela      Welcome to Enter) revelaram foi uma ima-       falta de estímulo ou esses olhos vigilantes

chega lá.                                     gem completamente diferente.                   do governo? É só olhar pra exemplos como

                                                                                             o do Ai Wei Wei, que é uma das maiores re-

Por exemplo, em Shanghai existe uma           “Pode não parecer, mas a China é um país       ferências da arte contemporânea chinesa,

área chamada M50, com uma concentra-          que valoriza muito pouco a arte. Você não      reconhecido no mundo todo. No momento

ção enorme de galerias de arte, de onde a     estaria errado em pensar que as mentes re-     em que quer mostrar para o mundo o quão

gente sai absolutamente maravilhado com       almente inovadoras acabam saindo daqui,        criativa, inovadora e poderosa é essa nação,

                                                                                             o governo convida-o a desenhar o maior

                                                                                             símbolo das Olimpíadas de Beijing (o está-

                                                                                             dio Ninho de Pássaro). O cara é celebrado,     Como é que fica o país numa hora dessas?

                                                                                             abraçado, e tudo o mais, só que que man-       Você pode limitar o acesso às redes sociais

                                                                                             tém sua postura crítica ao governo quan-       no mundo, mas não pode impedir que in-

                                                                                             do está fora da China. Daí o que acontece?     formações como essa circulem. Vai bloque-

                                                                                             Acontece que hoje, dia 3 de abril de 2011,     ar o site do New York Times também? Até

                                                                                             ele tenta desembarcar em Beijing e não só      a Folha falou sobre isso! É impressionante

                                                                                             é “detido”, como tem seu atelier invadido,     como o governo chinês tem medo do po-

                                                                                             e, literalmente, desaparece do mapa (até       der da repercussão dos grandes movimen-

                                                                                             agora não há nenhuma informação da polí-       tos do mundo dentro das suas fronteiras,

                                                                                             cia sobre pra onde ele foi levado).            e nada demonstra melhor essa história do
xaNgaI                                                                                                                                                                          xaNgaI




que o caso impagável que vou contar ago-     berdade” no país. O governo ficou sabendo,      quanto pudesse, acusando-os de participar     pessoas. Eu só digo uma coisa: se eu fosse

ra, chamado Revolução das Jasmins. Nunca     se preparou para o grande dia, e, quando        da Jasmine Revolution, enquanto esses di-     o governo, teria razão pra me preocupar.

ouviram falar? Então escutem essa:           chegou a hora, centenas de policiais se en-     ziam que “não, não! eu só estou passando!”.   Porque se tem uma coisa que chinês não é,

Primeiro Egito, depois Síria… o mundo pe-    fileiravam nos locais de encontro. Mas sabe                                                   é besta, e eles já estão aprendendo a usar

gando fogo e se perguntando “who’s next?”    quantas pessoas apareceram? NENHUMA!            Piada pronta? Pode até ser. Mas um belo       essas mídias muito bem sim senhor. às ve-

na onda de revolta popular. É claro que na   Zero, nada. Pra não passar vergonha e mos-      exemplo do quão assustadas as pessoas         zes bem até demais.

China ia acontecer alguma coisa, e as pes-   trar serviço, a polícia prendeu uma equipe      estão com o seu governo, e do quanto ele

soas usaram os canais da mídia social para   de jornalistas que tinha ido cobrir o evento,   mesmo está assustado com o poder que

organizar uma grande ato em favor da “li-    e saiu tentando deter tantos transeuntes        essas ferramentas podem ter nas mãos das
xaNgaI                                                                                                                                                                                     xaNgaI




                                                                                                 Hunt, é esclarecedor:
POst
                                                                                                 “Quando eu comecei, as pessoas chegavam,
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04 abr
                                                                                                 provavam as roupas e perguntavam de onde
         PRA ONDE VAI A CHINA? – PARTE 2 – WHAT IF (INSH, FEIYUE E PROUDLY
                                                                                                 eram. Ao descobrir que era de uma designer
         MADE IN CHINA)
                                                                                                 local, perguntavam ‘por que um marca chine-

                                                                                                 sa tão cara?’, afinal de contas, poderiam ir ao

                                                                                                 mercado de Xiangyang e gastar 20 yuan num

                                                                                                 roupa local! Muitas disseram até que eu deve-

                                                                                                 ria trocar o nome da marca de insh pra In Paris!

                                                                                                 Ninguém diria isso agora. Antes, tudo girava

                                                                                                 em torno de ter a bolsa da Prada ou da Louis

                                                                                                 Vitton, mas agora cada vez mais pessoas es-

                                                                                                 tão felizes em ‘descobrir’ novos designer. Essa
                                                                                                                                                    mada SUDU que chama a atenção.
                                                                                                 é uma grande mudança que eu vi”
                                                                                                                                                    Ter um Feiyue original não só estar em pé de
                                                                                                 Não é só o sucesso da Insh que dá sinais da
                                                                                                                                                    igualdade com qualquer usuário do francês
                                                                                                 valorização do que é feito na China. Já tem
                                                                                                                                                    (com a vantagem de que ele é, de fato, mais
                                                                                                 um tempo que um tipo de sapato chamado
                                                                                                                                                    confortável), mas também ter o orgulho portar
                                                                                                 Feiyue ganhou as vitrines do mercado euro-
                                                                                                                                                    um produto reconhecidamente made in China.
Se a parte 1 desse post era sobre o que está    no como caminho pra consagração nacional.        peu. Originalmente, ele era simplesmente um
                                                                                                                                                    ChinART, insh, Feiyue e até mesmo sites como
acontecendo na China, a parte 2 é a que real-   Mas não! Mais uma vez a China bota o jogo de     tipo barato e confortável de calçado, acessível
                                                                                                                                                    o nicelymadeinchina.com e o Creative Hunt
mente importa pra esse blog: o que vai acon-    cabeça pra baixo e começa a engatar numa         aos trabalhadores mais pobres das cidades.
                                                                                                                                                    são exemplos de como, apesar do pouco in-
tecer. No fundo é aqui que fica claro porque    tendência que só pode ser chamada de Prou-       Mas quando chegou na França foi suavemente
                                                                                                                                                    centivo, da fuga de cerébros e da censura, a
um país desse é tão surpreendente e contra-     dly Made in China.                               modificado para virar símbolo pra aqueles que
                                                                                                                                                    gente pode sair do mero “what is” China pra
ditório quando você começa a palpitar sobre     Alguns anos atrás, desafiando todos os prog-     queriam levantar o dedo para a cultura mains-
                                                                                                                                                    dizer que a ela se encaminha pra um futuro
pra onde ele vai.                               nósticos, a designer de moda Helen Lee de-       tream. O sucesso foi tão grande que os pró-
                                                                                                                                                    onde cabe mais orgulho de si mesma e do que
Se o estímulo à arte e inovação é realmente     cidiu lançar uma empreitada onde todos os        prios chineses começaram a comprar o Fren-
                                                                                                                                                    tem para oferecer. E é por causa do “what if”
tão pequeno assim, era de se esperar que as     produtos seriam feitos em Shanghai, com ma-      ch Feiyue! No entanto, se isso seria mais um
                                                                                                                                                    de gente como a Helen Lee, que aposta num
coisas mais valiosas fossem aquelas que vem     teriais de Shanghai e por pessoas de Shanghai,   exemplo de consagração nacional por causa
                                                                                                                                                    caminho quando quase tudo aponta pro ou-
de fora, certo? Em parte sim, porque ainda há   de modo que o nome da marca também não           do reconhecimento externo, é o fato de agora
                                                                                                                                                    tro, que tudo isso está acontecendo.
um fetiche muito grande pelas grandes mar-      poderia ser outro: “InSh”. O que ela conta na    a versão original, sem os toques franceses, es-

cas importadas e pelo reconhecimento exter-     entrevista para Frances Arnold, do Creative      tar sendo relançada por uma companhia cha-
xaNgaI                                                                                                                                                                             xaNgaI




                                                                                               nal das contas, acho que nós podemos até     Só vou ter dimensão de como isso mudou a
POst
                                                                                               ter algumas datas de comemoração seme-       minha vida na hora que voltar pra casa, dei-
81
05 abr
                                                                                               lhantes, mas celebramos coisas muito dife-   tar na minha rede e olhar pela janela. Com
         ZAI JIAN, CHINA – ATÉ A PRÓXIMA
                                                                                               rentes.                                      a certeza de que por detrás dela agora tem

                                                                                                                                            muito mais do que eu podia imaginar.

                                                                                               Não sei se me sinto à vontade pra dizer

                                                                                               mais do que isso agora. Falar de como essa

                                                                                               experiência na ásia mudou a minha vida, ou

                                                                                               algo assim. Nessa viagem, cada passagem

                                                                                               é um mergulho em queda livre. E quando a

                                                                                               gente está no ar não sente peso.




É chegada a hora da partida. A última antes     Todas foram feitas numa mesma tarde de

de voltar pro Brasil. Fica pra trás o conti-    feriado. Um dia só, mas que condensa mui-

nente asiático, e é hora de voltar pra Améri-   to do que torna esse lugar tão fascinante.

ca. Depois de um mês por aqui, posso dizer      É outro ritmo, outra cabeça. Enquanto a

que tenho muito mais que depoimentos pra        gente passa o feriado tomando uma, olha

dar: carrego imagens marcadas de um jei-        o que eles tão fazendo do outro lado do

to que não vai sair tão cedo dessas fatiga-     mundo! hehhehe E olha a idade do pesso-

das retinas. É por isso que o mínimo que eu     al lotando a praça pra se exercitar, o jeito

podia fazer era dividir algumas delas com       como as crianças olham pros adultos, a ma-

vocês. Talvez falem mais do que eu possa        neira como eles se juntam pra dançar numa

descrever, e levem o que ficou guardado         cultura onde o toque tem um significado

um pouco mais além de mim mesmo.                completamente diferente do nosso. No fi-
sÃo FRaNcIsco
sÃO FraNCIsCO                                                                                                                              sÃO FraNCIsCO




POst

82
19 jan    #SHARING9 – INAGAKI ESPALHA SUA PALAVRA POR TÓQUIO




Agora sim. Se a missão de explicar a #sualin-   louquece. Pense nisso”) desde 1999, e já se

da pra alguém na China já era difícil, o pes-   estabeleceu como uma das referências “cul-

soal da DM9 resolveu complicar um pouco         tas” ou “inteligentes” do meio. No entanto,
                                                                                              Quem quiser pode ver mais sobre ele na en-
mais minha vida: o presente do #Sharing9        prefire dizer apenas que tem uma preocu-
                                                                                              trevista que a youPix (#Sharing9 da China)
pro Japão… são… vejam vocês… (suspense e        pação maior com conteúdo do que, infeliz-
                                                                                              fez com ele em Julho.
tambores rufando)… metáforas. Isso mesmo.       mente, boa parte dos blogs brasileiros, que

Chegando em Tóquio eu vou me virar para         se ocupam muito mais em reproduzir do
                                                                                              Sigam ele também por esse canais:
espalhar a “palavra de Inagaki” por onde for    que em produzir esse conteúdo todo.
                                                                                              http://inagaki.tumblr.com/
(é, irmão, pode começar a se sentir o Mes-
                                                                                              @inagaki
sias agora).                                    Outro traço pelo qual é reconhecido é pela

                                                constante criação de metáforas. E são al-

Pra quem não conhece, Inagaki é uma figura      gumas delas que vou levar pro Japão pra,

muito importante na “websfera” brasileira.      depois de encontrar algum tradutor muito

Ele escreve para o seu blog (“Pensar en-        bom, disseminar pelos cantos.
sÃO FraNCIsCO                                                                                                                                                                       sÃO FraNCIsCO




                                                                                                 reerguer rápido, sair dessa, e no final dar sen-   Até a próxima, Tóquio. Um dia eu chego aí.
POst
                                                                                                 tido à camisa que está aqui nesse post, que        Bom dia, São Francisco. Where do we start?
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06 jan
                                                                                                 fotografei hoje em São Francisco. O Japão é
          ATÉ MAIS, TÓQUIO. BOM DIA, SÃO FRANCISCO
                                                                                                 um coitado? Não. Precisa de ajuda? Sim. Mas

                                                                                                 o que tem que ficar mesmo é que a gente

Um dia em Mumbai, acordei assustado. Al-         ção toda. Aguardei ansiosamente o dia, tor-     não deveria precisar de um terremoto pra

guém estava falando no Twitter que um ter-       cendo pra que a crise nuclear fosse resolvida   ajudar um ao outro.

remoto enorme tinha atingido o Japão. Li-        logo e não ganhasse proporções piores do

guei a televisão, e só se falava nisso. Fiquei   que já tinha.

abismado com as imagens, tanto que me            Mas não foi assim que aconteceu. E o Japão

senti na obrigação de passar aquelas infor-      mergulhou na pior crise nuclear do sua histó-

mações a quem não conseguia acompanhar           ria, o que levou a DM9 a cancelar a passagem

a cobertura no Brasil, onde nenhum portal        por Tóquio em nome da minha segurança

parecia estar sabendo de nada. Algumas           pessoal contra essa ameaça invisível. Enten-

pessoas acharam inclusive que eu estava lá,      di? Claro que entendi. Esqueci? Não, e conti-

e me mandaram mensagens perguntando se           nuo torcendo para que a situação se resolva

estava tudo bem.                                 e para que o país possa se reerguer. Só que

                                                 agora faço isso de São Francisco, cidade que

Eu não estava lá, mas Tóquio era o destino       substituiu Tóquio no percurso.

final de minha viagem, e eu deveria estar lá

em menos de um mês. Esse dia seria preci-        É por isso que o #Sharing9 com as metáfo-

samente hoje.                                    ras do @Inagaki continua de pé. Não posso

                                                 mais espalhá-las por Tóquio, mas posso ir até

Imediatamente fui tomado por uma ânsia de        o lugar onde a população japonesa vive em

chegar lá. Muita gente queria correr do pro-     São Francisco e levá-las até eles. Assim, se

blema, mas eu queria ir, logo. Ser testemunha    elas não podem chegar aonde deviam, pelo

ocular da história, ter a chance de ver o es-    menos vão chegar em quem deveriam.

pírito japonês manifestar os mais profundos

laços que unem essa nação, no momento de         O terremoto foi terrível, a tsunami e a crise

maior dificuldade, e dar a minha parcela de      também. Mas se tem uma coisa que japonês

contribuição humanitária pra essa reconstru-     detesta é ser visto como coitado. Eles vão se
sÃO FraNCIsCO                                                                                                                                                              sÃO FraNCIsCO




POst

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07 jan    ART EXPLOSION OPEN STUDIOS




                                       Pra começar a passagem por San Francisco,

                                       decidi conferir um história chamada Art Ex-

                                       plosion Open Studios. Junto com a entrada

                                       da primavera, coletivos de artistas por toda a

                                       cidade estão abrindo as portas dos seus estú-

                                       dios para mostrar o que andaram preparando

                                       no inverno. De tudo que eu vi, dois trabalhos

                                       merecem destaque.



                                       O primeiro deles é o da Ehren Reed, e se cha-

                                       ma “Avatar, Proximities”. à primeira vista po-

                                       dem parecer apenas retratos pixelizados, mais    voltando à tona como resposta à rejeição dos     ca distância entre nós e o “fabricante” fosse

                                       um trabalho sobre os elementos básicos do        processo industriais, que criam bens em enor-    o tempo que ele se deu pra aprender aquela

                                       mundo digital. No entanto, não precisa muito     me quantidade mas não criam identidades. Lá      técnica.

                                       tempo pra perceber que cada pequeno pixel        no comecinho, ainda em Barcelona, a dona de

                                       é na verdade costurado no papel, à mão. Nada     uma loja de antiguidades tecnológicas tinha      E é aí que a gente chega no segundo traba-

                                       de impressão, nenhum processo mecânico re-       me dito que, num futuro próximo, “os jovens      lho, de um vietnamita chamado Tuan Tran. Ele

                                       produzível em larga escala. Os componentes       vão ter as novidades tecnológicas pra usá-las,   trabalhou durante muito tempo com pintura,

                                       da imagem digital são todos feitos um por        enquanto vão ter as minha antiguidades para      mas quando descobriu os elementos poluen-

                                       um, por alguém que cuidadosamente prepa-         vivê-las”. No fundo, é exatamente isso que       tes que faziam parte do processo industrial de

                                       rou isso.                                        está acontecendo por aqui também, com a          produção das tintas que usava, prometeu a si

                                                                                        arte da costura e do tricô.                      mesmo que nunca mais usaria tinta e que não

                                       Eu podia me estender horas nesse assunto,                                                         precisaria delas pra dar cor a coisa alguma.

                                       mas não preciso, porque acredito que ao lon-     Não basta ser funcional, tem que ser táctil. É   Partiu para o uso de materiais reciclados, que

                                       go dessa viagem já tenha dado indicações su-     quase como se a gente tivesse que se sentir      já tinham naturalmente cores distintas, tanto

                                       ficientes do quanto as soluções manuais estão    capaz de fazer a mesma coisa, como se a úni-     para cobrir superfícies quanto para criar for-
sÃO FraNCIsCO                                                                                                                                   sÃO FraNCIsCO




mas ousadas e até mesmo roupas conceitual-      existe mais desde a fibra óptica). Mas juntos    que inovar no momento errado. Melhor pra

mente interessantes.                            eles são alguma coisa de muito mais bonito.”     ele, que tem talento pra ir muito além com a

                                                Pode até ser que o seu trabalho não traga tan-   ideia.

Além dessa questão da reciclagem e do “feito-   ta novidade assim (por mais impressionantes      Pra encerrar, fica o vídeo desse tesouro que

à-mão” em lugar de métodos industriais, Tuan    que suas formas coloridas possam ser, uma        ele guarda há anos trancado numa caixa, mas

Tran chama a atenção para um outro aspecto      artista chamada Ruth Asawa já fazia “croche-     que depois de uma boa conversa decidiu

de quase toda obra de arte. “Sozinhos, esses    ted-wire” em cobre e prata desde a década        compartilhar. Agora vocês também podem se

elementos não são nada. São apenas fios de      de 50), mas nem sempre é a novidade que faz      deliciar com a delicadeza que só um trabalho

cobre de telefonia velhos com cores diferen-    uma tendência. às vezes, escolher a técnica      minimalista e paciente como esse pode gerar.

tes sinalizando onde ia cada linha (o que não   certa no momento certo é mais importante         Esses asiáticos são incríveis mesmo.
sÃO FraNCIsCO                                                                                                                                                                           sÃO FraNCIsCO




                                                                                                  Able, membro da organização, explica:               Por isso que o nome da história toda é Edu-
POst
                                                                                                  “Por que eu deveria dizer que esse é um mo-         tainment for Change. Educar através do en-
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08 jan
                                                                                                  mento terrível para se viver? Isso não é verda-     tretenimento para construir a mudança que
          EDUTAINMENT FOR CHANGE – CHEGA DE APOCALIPSE
                                                                                                  de! Nós vivemos num dos melhores momentos           queremos. No fundo, no fundo, eu não estou

                                                                                                  que já existiram para estar vivo! Nunca antes       falando disso só porque eles acabaram com a

                                                                                                  na história da humanidade nossas decisões ti-       história do apocalipse e partiram pra constru-

                                                                                                  veram meios pra impactar tão profundamen-           ção de uma mentalidade transformadora que

                                                                                                  te e repercutir tão longe quanto agora. Nun-        saiba usar as ferramentas que tem, mas tam-

                                                                                                  ca tivemos tanto poder pra ir além do nosso         bém porque esse movimento representa uma

                                                                                                  quintal e afetar pessoas em todos os lugares        tentativa de transformação que leva as pesso-

                                                                                                  do mundo. Nunca tivemos como aproveitar             as a se engajar sem que elas tenham que sair

                                                                                                  tantas experiências vindas de tantos lugares        do seu lugar. Prestem atenção que isso não é

                                                                                                  diferentes e fazer todas elas convergirem para      bobagem.

                                                                                                  fins comuns. Ao invés de celebrar o desastre,

                                                                                                  a gente devia focar as nossas energia em res-       Ninguém precisa deixar de ser skatista pra

                                                                                                  ponder uma pergunta: como é que a gente             se engajar num mundo mais sustentável. Ali-

                                                                                                  usa tudo isso para criar uma nova consciência       ás, conforme eu percebi ano passado no dia

                                                                                                  ambiental?”                                         mundial do combate à AIDS, até ser tiete da

                                                                                                  E é aí que o projeto fica realmente interessan-     Lady GaGa pode ajudar em grandes causas. É

Esse final de semana São Francisco está rece-     frente do que está indo agora.                  te. O objetivo é olhar pras tendências culturais    tudo uma questão de saber usar a ferramenta

bendo o Green Festival, o maior festival rela-    Qual é a primeira coisa que vêm à sua cabeça    e artísticas da juventude e se juntar a elas. Por   certa, e é isso que o pessoal da Balance está

cionado à sustentabilidade dos EUA. Foi numa      quando se fala em aquecimento global? Talvez    exemplo: se existe toda uma cultura em torno        se propondo a fazer por aqui, na Baía de São

das apresentações que assisti lá que me dei       alguma imagem meio catastrófica, não é não?     do hip-hop, por que não colocar tudo junto e        Francisco.

conta do quanto estamos viciados em algu-         Nível do mar subindo, furacões e tempestades,   organizar um show totalmente movido a ener-

mas maneiras limitadas de pensar o tema. Se,      secas prolongadas, falta d’água, etc. O que a   gia solar? Se as crianças amam tanto histórias,

no final das contas, a viagem toda é pra tentar   Balance acredita é que a gente vem contando     porque não usar a contação de histórias pra

encontrar novos comportamentos, não tinha         essa história de apocalipse há tempo demais,    construir a consciência que a Balance quer

como eu não falar do trabalho do pessoal de       e já chega! Não vai ser mantendo as pessoas     criar? Bicicleta, skate, tudo isso move pesso-

uma edutainment company chamada Balance           assustadas que qualquer movimento vai ga-       as porque move uma cultura, então a questão

que acredita que com uma pequena mudança          nhar a sua adesão. E, se ganhar, não vai ser    ambiental tem que se mover com eles tamém.

de abordagem a gente pode ir muito mais pra       pelos motivos que deveriam movê-las. Aaron
sÃO FraNCIsCO                                                                                                                                                                      sÃO FraNCIsCO




POst

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09 jan    FREE2WORK – CHANGE THE WORLD BY BEING WHO YOU ARE




                                                                                                desempenhando um papel essencial na nos-         não só te preocupa mas também te orienta

                                                                                                sa sociedade. A segunda vem do fato de as        na hora de escolher os produtos que coloca

                                                                                                empresas não precisarem “contratar” dire-        em casa, o impacto pode ser tão grande ou

                                                                                                tamente trabalho escravo para receber uma        maior do que todas essas alternativas.

                                                                                                avaliação ruim no sistema (basta que as ma-      Tudo isso mostra como o empreendedorismo

                                                                                                térias primas que ela compra para a sua ati-     de qualquer tipo, seja ele de negócios, social

Quando alguém me pergunta o que eu acho        iPhone e Android.                                vidade sejam produzidas por esses meios ou       ou cultural, está aprendendo a ir onde as pes-

que vai acontecer com o mundo daqui pra        Funciona assim: primeiro, você baixa o apli-     até mesmo que ela não faça nada para evitar      soas estão ao invés de trazê-las para onde

frente eu respondo quase sempre de uma         cativo no seu telefone. Depois, segue a sua      esse tipo de atividade, o que, no fundo, é a     gostaria que estivessem. No fundo, não só as

maneira otimista, a ponto de às vezes virar    vida exatamente como sempre fez, vai ao          ideia de que fazer parte de uma cadeia injus-    informações que estão disponíveis em qual-

piada. No entanto, são pequenas coisas como    supermercado, ao restaurante, à loja de rou-     ta é praticar a injustiça também). Mas era na    quer lugar a qualquer hora. São as pessoas

esse projeto que me levam a crer que mudan-    pas, tudo igualzinho. Só muda que, antes de      terceira que eu queria focar agora.              que estão.

ças importantes estão, sim, acontecendo em     comprar qualquer coisa, você pode usar o         O que o Free2Work oferece de novidade            Além do mais, no mundo da informação

algum nível no nosso comportamento.            aplicativo pra saber o quanto de trabalho es-    mesmo é a possibilidade de se envolver num       up-to-date não existe mais “lavo as minhas

A princípio, a ideia do Free2Work pode não     cravo, infantil ou forçado esteve envolvido na   projeto de mudança social sem precisar mu-       mãos”. Já tem muita gente pra quem igno-

ser novidade: um grupo de pessoas preocu-      produção daquele bem, e tomar sua decisão        dar quem você é. Ninguém está pedindo pra        rar informação, quando ela está disponível, é

pado com o fato de que ainda existem 27 mi-    quanto a comprá-lo ou não baseado no co-         você sair da sua rotina e viajar pro Paquistão   se sujar do mesmo jeito. É uma questão de

lhões de pessoas em situação de trabalho es-   nhecimento sobre esse processo.                  num cruzada humanitária contra o trabalho        tempo até que isso seja visto assim pela so-

cravo, infantil ou forçado pelo mundo, e que   Tem pelo menos três coisas muito interes-        infantil. Nem doações anônimas pra que al-       ciedade inteira.

resolveu fazer algo a respeito. A grande mu-   santes quanto a essa ideia. A primeira delas     guém faça isso em seu lugar, o que no fun-

dança, no entanto, está no caminho que eles    é quanto a perceber como a questão de co-        do seria a mesma coisa. Se você demonstrar,

escolheram pra fazê-lo: um aplicativo para     nhecer o processo por trás das coisas está       no seu dia a dia, que esta é uma questão que
sÃO FraNCIsCO                                                                                                                                                                       sÃO FraNCIsCO




POst

87
10 jan    #SHARING9 SAN FRANCISCO – METáFORAS DO INAGAKI POR JAPANTOWN




                                                                                                cada metáfora, em inglês e japonês, com o link   Agora que a missão está cumprida in loco,

                                                                                                para o blog do Inagaki no final. Desse modo,     não custa nada enviar também a todos vo-

                                                                                                mais do que ver, ele pode levá-la pra casa na    cês as mensagens dele. Espero que gostem,

                                                                                                palma da mão, sem tirar a folha do lugar, dei-   e aproveitem pra dar uma visitada no seu

                                                                                                xando que ainda mais pessoas passem por lá       blog. Grande abraço! E obrigado por todos
Muita gente duvidou desse #Sharing9. Como      antes de ela voltar pra Nova Iorque, onde
                                                                                                e descubram as surpresas preparadas pra elas.    os #Sharing9 que eu tive a chance de realizar
é que eu ia conseguir traduzir as metáforas    mora há treze anos, e foi de lá mesmo que
                                                                                                Como vocês podem ver, de garçonete a fã de       e dividir aqui, levando um pouco do Brasil pra
do Inagaki e espalhar por Tóquio de um jei-    ela traduziu as metáforas pro japonês, usando
                                                                                                Star Wars, japoneses dos mais variados tipos     fora enquanto tirava tanta coisa do mundo.
to que todo mundo encontrasse e entendes-      mais uma das suas habilidades nas seis línguas
                                                                                                vão poder curtir o trabalho do Inagaki. No fi-   P.S.: Se eu dizia que queria encontrar algo ca-
se? Dei meu jeito, e se não deu pra ser no     que domina. Liz, meus agradecimentos mais
                                                                                                nal do dia, pra encerrar, ainda fui num lugar    paz de influenciar pessoas mas que ainda es-
Japão, pelo menos foi no bairro japonês de     do que especiais. Sem você nada teria acon-
                                                                                                onde as pessoas penduravam mensagens de          tava no caminho de se tornar grande, o nos-
São Francisco onde até as placas com os no-    tecido.
                                                                                                apoio e força ao Japão junto com origamis.       so querido Emicida, do #Sharing9 de Nova
mes das ruas são escritas nas duas línguas:    A outra parte foi ideia minha. Sabendo que os
                                                                                                Usei um dos papéis onde tinha impresso as        Iorque, conseguiu fazer isso ainda antes de
Japantown.                                     japoneses já estão familiarizados com a tecno-
                                                                                                metáforas na íntegra, sem código QR, como        a viagem acabar! Agora ela vai tocar no Co-
Como cada parte da solução veio de uma         logia do QR code há muito tempo, eu decidi
                                                                                                material para fazer o corpo de um tsuru, que     achella, e merece muito mais do que só uma
vez, aqui eu também conto separado. A tra-     criar eu mesmo um QR code pra cada metáfo-
                                                                                                pendurei no varal junto com uma mensagem         menção por isso. Se isso não é ser grande,
dução foi feita pela Elizabeth Yao, uma chi-   ra e espalhá-los pela cidade. Quando um pas-
                                                                                                que escrevi de próprio punho, me despedin-       então eu não sei o que é. Valeu, mano! Força
nesa absolutamente apaixonante que estava      sante usar o seu smart phone pra fotografar o
                                                                                                do do #Sharing9 como quem diz até logo ao        aí, e representa.
explorando a cidade com a mesma emoção         código, seu celular vai automaticamente levá-
                                                                                                Japão.
que eu. Nos conhecemos no Hostel três dias     lo para a página na internet onde eu hospedei
sÃO FraNCIsCO                                                                                                                                                                 sÃO FraNCIsCO




                                                                                               tomado pela vernissage coletiva. Logo na       Bicycle Café (aliás, em Londres eu já tinha
POst
                                                                                               primeira parada, eu já ganhei o dia. Dêem      visto um muito parecido, chamado Cycle-
88
11 jan
                                                                                               uma olhada nos figurinos do pessoal que        Lab). Mas como usar um dia desses pra fa-
          ART WALK – DIVISADERO NÃO É RUA, É CORREDOR
                                                                                               foi prestigiar o evento na Swankety Swank:     lar dos espaços é igual a comprar a Playboy

                                                                                                                                              só pra ler as matérias, eu deixo vocês com

                                                                                               Pra não dizer que não deixei registrado, o     as imagens de alguns dos trabalhos. Posso

                                                                                               cara de cartola joga tarô de X-Men. É, tarô    ter perdido o despertar das cerejeiras no

                                                                                               de X-Men. Ele me explicou mais ou menos        Japão, mas não perdi o sprung das artes na

                                                                                               como era descobrir que o arquétipo que         Baía de São Francisco. E se depender de

                                                                                               rege o seu destino é o de… Wolverine, e        mim vocês também não vão perder.

                                                                                               queria por que queria jogar as cartas pra

                                                                                               mim. Hora de olhar pra ele e dizer que achei

                                                                                               tudo muito interessante mas “tá bom, ago-

                                                                                               ra senta, Cláudia”.



                                                                                               Esquisitices à parte, a exposição em ques-

                                                                                               tão era da Sheri DeBow, que passou a vida

                                                                                               inteira fazendo bonecas pra si mesma até

                                                                                               perceber, de uns cinco anos pra cá, que

                                                                                               quando as tirava da estante e pendurava na

                                                                                               parede parecia que o pessoal ficava mais

                                                                                               propenso a considerar tudo arte. Foi aí que

É uma maravilha quando uma caminhada          tória, e por puro acaso, calhei de estar lá de   começou a trabalhar com galerias, e expor

começa despretensiosa e te surpreende. Eu     novo no dia e na hora certos.                    o que tinha levado uma vida aprendendo

tinha lido no meu primeiro dia em San Fran-                                                    a fazer. Prestem atenção nos olhos dessas

cisco um cartaz sobre uma tal de Art Walk,    Foi aí que eu descobri que era bem mais          bonecas, que são o que de mais expressivo

onde não se explicava absolutamente nada      interessante: lojas, salões de beleza, bares     eu guardei da exposição.

a não ser o horário e o nome das ruas onde    e cafés foram transformados em galerias

ia acontecer. Fiquei me perguntando o que     de arte, e, nesse determinado dia, abriam        Segui pela Divisadero passando por outros

seria aquilo (uma passeata, uma grafitagem    as portas todos ao mesmo tempo para fa-          lugares, incluindo uma interessante mistura

coletiva?) mas acabei esquecendo da his-      zer da rua Divisadero um grande corredor         de café com loja de bicicleta chamado Mojo
sÃO FraNCIsCO                                                                                                                                                                    sÃO FraNCIsCO




                                                                                               quão divertido pode ser um bêbado se equi-       as massas. Por isso mesmo, não deve ficar
POst
                                                                                               librando em rodinhas pra tomar mais uma          restrita a um clube seleto que frequenta ba-
89
12 jan
                                                                                               cerveja?                                         res e festas. E, de fato, um dos melhores mo-
          ROLLER DISCO – BLACK ROCK N’ ROLLING
                                                                                                                                                mentos pra se viver essa paixão é quando

                                                                                               Isso pra não falar que a comunidade do Rol-      ela acontece ao ar livre, nas praças e par-

                                                                                               ler Disco já é grande a ponto de se tornar       ques da cidade.

                                                                                               conhecida por organizar um dos melhores

                                                                                               acampamentos do do Burning Man todos             Antes de encerrar, queria só sublinhar que

                                                                                               os anos. A festa dessa sexta feira, aliás, foi   esse também não é só um fenômeno local.

                                                                                               realizada com o intuito específico de arre-      Ainda em outubro de 2009, eu caminha-

                                                                                               cadar fundos para comprar um novo piso de        va pelo Central Park num tarde de sábado

                                                                                               patins para a edição desse ano, já que as in-    quando dei de cara com exatamente a mes-

                                                                                               tempéries do deserto de Black Rock destru-       ma cena que vocês viram aí em cima. Gente

                                                                                               íram a estrutura que eles tinham usado ano       de toda a cidade junta pra dançar em patins,

                                                                                               passado.                                         e eu chegando de ousado pra aprender os

                                                                                               É sempre bom lembrar também que a Black          passos da coreografia. Se passar por lá em

                                                                                               Rock Roller Disco Party é parte de um esfor-     janeiro e não encontrar nada além de neve

                                                                                               ço maior para reintroduzir a patinação para      foi frustrante, São Francisco me tranquilizou


Essa é sensacional. Na Bahia eu me acostu-       (especialmente funk e groove no melhor da

mei a escutar “não quero ver ninguém para-       moda antiga), com um pequeno detalhe que

do!” em tudo que é começo de show, mas           faz toda a diferença: todo mundo de patins.

aqui em São Francisco ninguém precisa di-

zer nada pra ver todo mundo se mexendo           Podem me chamar de besta, dizer que o

pra todos os lados. Aliás, é mais provável que   tempo dos patins já foi, ou o que quiserem.

se alguém quisesse parar tivesse mesmo que       Nada disso muda a minha opinião de que

ir embora, porque nessa sexta, na CellSpace,     coisa boa não tem idade e de que uma das

foi dia de Roller Disco!                         coisas mais interessantes de se ver é uma

                                                 geração nova se apropriando dos hits de um

Não sabe que é Roller Disco? Digamos que é       mais antiga pra fazer com eles sua própria

uma festa, ao som de música muito dançante       identidade. Além do mais, já pensaram no
sÃO FraNCIsCO                                sÃO FraNCIsCO




com a certeza de que a “velha novidade”

não morreu. Estava só de repouso, mas con-

tinua completamente viva.



Alive and kicking.

Black Rock n’ Rolling.
PÓsFacIo




     153
PÓsFaCIO




Por Sergio Valente




A viagem do Lucas terminou. Foram 99 dias divididos entre Nova Iorque, Barcelona,

Londres, Milão, Paris, Bangcoc, Mumbai, Xangai e São Francisco, que entrou no rotei-

ro na última hora, substituindo Tóquio. Pode-se esperar assim, que o 99Novas tenha

chegado ao final. Adianto, a você que curtiu com a gente essa empreitada, que não há

nada mais equivocado que tal conclusão. O 99Novas ainda terá longa vida. Este é um

projeto de comunicação moderno, que começa quando termina.



Como estes posts que você acaba de ler tratam de tendências, ainda veremos muito

dos aspectos abordados pelo Lucas estamparem as manchetes de jornal do amanhã.

Hacktivismo social, moda trashion são conceitos que ainda exploramos muito pouco

no Brasil. E mesmo as questões de sustentabilidade, a busca pelo Uniqueness, a ten-

dência da sociedade se preocupar cada vez mais com a origem do produto que con-

some ainda precisam de um bom tempo para se desenvolverem.



99Novas trata do futuro. E como será o amanhã, nem eu, nem o 99Novas, nem mesmo

o samba sabe... responda quem puder e quem souber identificar nas tendências uma

possibilidade de futuro. Observe tendências e você saberá mais ou menos o que vai

acontecer. Por isso investimos nesse projeto. Para tentar estar na frente, saber antes,

surfar na onda que se inicia.



O blog www.99novas.com.br ficou aberto durante toda viagem, e seu conteúdo perma-

necerá assim: aberto ao público, pronto para ser compartilhado, refletido e transforma-

do. Se você preferir, pode pedir um livreto como este e ler no papel, ou ver alguns vídeos

no youtube. E escolhemos assim, porque no fundo é nisso que a DM9, no auge dos seus

21 anos, acredita. Acreditamos em um mundo beta, multiplataforma, integrado onde o

que importa é a inteligência com que se trata um conteúdo relevante. O Lucas acabou a

viagem dele. A DM9 só está começando a sua. Vamos viajar?



                                               @sergio_valente, presidente da DM9DDB

99 novas book

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    ÍNDICE 05 O quE é 07 quEm é O NOssO 10 O blOg O 99NOvas trEND HuNtEr 153 PÓsFaCIO 155 tO bE CONtINuED ...
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    o que é o99Novas 05
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    O quE éO 99NOvas O quE é O 99NOvas O 99Novas é uma festa de aniversário. Sim, uma festa de aniversário de 21 anos, que Depois de deixar mais de 4 mil candidatos para trás e encarar três meses de processo durou 199 dias e foi acompanhada por alguns milhares de pessoas no Brasil e no mun- de seleção, no dia 9 de dezembro de 2010, Lucas Cabral Maciel Neto foi anunciado o do. E tudo começou timidamente em uma sala do 5° andar no numero 5013, da Aveni- vencedor do 99novas. E a competição foi duríssima, os nove finalistas - Lucas, Ga- da Brigadeiro Luis Antônio 5013. É lá, em um prédio de seis andares que fica instalada briela, Bernardo, Stéfano, Patrícia, Barbara, Caetano, Clareana e Lara - deram um show a sede da DM9DDB, uma das maiores e mais premiadas agências do País. de competência e merecimento. Mas, só havia uma vaga para o posto de Trend Hun- ter. Acabou vencendo um artista de circo, estudante de economia da UFRJ, louco por Era um dia comum de trabalho e, em uma dentre tantas reuniões que acontecem ali teatro e artes em geral, que nasceu no Rio de Janeiro, mas tem um carregado sotaque diariamente, um grupo de profissionais tinha a missão de pensar na celebração do ani- nordestino graças a infância que passou entre Bahia e Alagoas. Depois de uma disputa versário da agência. A tarefa era desafiadora já que, independente do caminho escolhi- dessa, imagina como ele recebeu a notícia! Mas, melhor do que imaginar é ver, para do, seria necessário superar uma grande festa realizada no 20° aniversário da agência, assista o momento que ele é surpreendido pelas nossa câmeras em um bar da Lapa... além de mostrar uma marca no auge de sua ousadia, inovação, modernidade. Como conseguir fazer tudo isso em uma celebração de 21 anos? http://www.youtube.com/watch?v=vN9cpZKF-2c A resposta à pergunta poderia ser: não dá, impossível. Mas, quem trabalha ou já traba- lhou na DM9 (e se você quiser trabalhar aqui, #ficaadica) sabe que se há uma resposta Passada a surpresa inicial, no dia 9 de janeiro, o Lucas embarcou na viagem que mudou inadmissível para o Sergio Valente, o cara que é o presidente da agência, é “não dá”. a vida dele, e que pode mudar um pouquinho a sua também. Embarque nessa, viajando Na DM9, sempre dá. Tinha que dar, e deu. Este grupo de DM9anos de cabeça e de co- com o Lucas em seus posts. É só ler e se divertir. ração inventou um tal de um concurso que transformaria um estudante de 21 anos em Personal Trend Hunter da DM9DDB em uma em uma viagem ao redor do mundo. Boa viagem ao 99Novas! O estudante seria escolhido por meio de um rigorosíssimo processo de seleção, que incluiria prova de conhecimentos gerais, conhecimento profundo da língua inglesa, ha- bilidade para fazer um vídeo, tenacidade para criar conteúdo para um blog e desenvol- tura para encarar uma banca examinadora e o próprio Sergio Valente em pessoa com argumentos sólidos o bastante para convencer a todos de que ele/ela era o/a cara. Como recompensa, o Trend Hunter ganharia uma viagem de 99dias, por 9 países dife- rentes para alimentar o site www.99novas.com.br com 99 tendências. Tudo na faixa. E se você está se perguntando por que tanto 9? Porque somos apaixonados pelo 9, oras.
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    quEm é ONOssO trEND HuNtEr Lucas Cabral Maciel tem 21 anos como manda o regulamento. Mora no Rio. É carioca, mas tem um forte sotaque nordestino. Isso porque quando era pequeno mudou-se para Alagoas. Já fez aula de dança, de teatro e hoje estuda circo à tarde. Pela manhã, dedica-se ao curso de Economia na UFRJ. Mora sozinho e não tem namorada. No dia 9 de janeiro, ele embarca rumo ao mundo. Bárbara, Bernardo, Caetano, Clareana, Gabriela, Lara, Lucas, Patricia, Stéfano. Os 9 finalistas do 99Novas estiveram na DM9 no dia 7 para a última fase do 99Novas e deram um show. Surpreenderam a equipe. Deixaram todos boquiabertos. Mostraram como é inteligente, ágil e comprometida essa nova geração. Veja o vídeo do Lucas ao participar do processo seletivo: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=hxOWXh4SBo0 Lucas o Trend Hunter da DM9: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=vN9cpZKF-2c
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    ÍNDICE DOs POsts PaRIs LoNDRes POST19: #SHARING9 – PARIS – RAPHAEL SONSINO. POST 28: #SHARING9 – IAN BLACK MANDA LEMBRANÇAS DO REI PRA RAINHA EM LONDRES. POST 20: INTRODUZINDO PARIS POR SEUS ARTISTAS DE RUA – SÓ PRA COMEÇAR. POST 29: THE SOCK MOB E UNSEEN TOURS – UM OLHAR COMPLETAMENTE NOVO SOBRE A CIDADE E A PARTIR DE POST 21: “OWN YOUR CITY” POR ONDE PASSAR E SEJA SEUS HOMELESS. DONO DE TODO LUGAR. POST 30: CABARÉS TOMAM CONTA DE LONDRES – PORQUE POST 22: UMA MORTE POR DIA – ESSA VIAGEM SÓ SE FAZ DO DIAMANTE NÃO NASCE NADA, MAS DO LODO… UMA VEZ. ÍNDICE POST 31: SECRET CINEMA – PARTE 1 (FREEDOM TO CREATE) POST 23: PARIS, CHINA. – ASSOCIAÇÃO FRANCESA CHI- NART QUER TRANSFORMAR A MANEIRA COMO VEMOS O POST 32: SECRET CINEMA – PARTE 2 (THE RED SHOES…) ORIENTE. POST 33: MINHA DICA PRO WORLD BOOK DAY – LITTLE POST 24: UM TRAMPOLIM, DUAS OU TRÊS PISCINAS – PEOPLE IN THE CITY. DE POsts SPACE-INVADERS NA ARTE DE RUA. POST 34: ECOBUILD – SUSTENTABILIDADE EM DESIGN E AR- POST 25: #SHARING9 – LE CAFÉ QUI PARLE RECEBE DE QUITETURA E PALPITES PRO MUNDO DAQUI A VINTE ANOS. BRAÇOS ABERTOS O TRABALHO DO RAPHAEL SONSINO. POST 35: UM LABORATÓRIO? UM CIENTISTA MALUCO? NÃO. POST 26: DE BRINQUEDINHO PRO NATAL A CELEBRIDADE É SORVETE DE NITROGÊNIO LÍQUIDO! VIRTUAL – A ASCENÇÃO METEÓRICA DO PROTOTO. POST 36: #SHARING9 LONDRES – SOM DO ROBERTO CARLOS POST 27: GIPSY MUSIC WORLD RAP BALKAM SKA ELECTRO ENVIADO PELO @IANBLACK CHEGA AO LOCKSIDE LOUNGE. ROCK – “LA CARAVANE PASSE” TRAZ TUDO ISSO, EM SEIS IDIOMAS, PRA BANGKOK. POST 37: MERGULHE, SE LAMBUZE, E DEPOIS ME CONTE COMO FOI. BURNING MAN E A TENDÊNCIA DOS POP-UP QUALQUER COISA. Nova IoRque mILÃo mumBaI BaNGcoc POST 38:#SHARING9 – COLETIVO SHN ESPALHA STICKERS POST 48: #SHARING9 – LIDI FARIA PREPARA EM TEMPO POST 1 - ENFIM NY. POST 11: COISAS IMPERDÍVEIS QUE EU PERDI EM NOVA POR MUMBAI. RECORDE UM BORDADO PRA BANGKOK. IORQUE – NO PANTS SUBWAY RIDE E AIR SEX WORLD POST 2 - SHARING9 – EMICIDA MANDA SEUS CDS PRA CHAMPIONSHIP. POST 39: ALGUMA IMPRESSÕES DE UM MUNDO NOVO – POST 49: BANGKOK, SUA LINDA… A MINI-SAIA VOLTOU! NOVA IORQUE. PRIMEIRO DIA EM MUMBAI. POST 12: UM POUQUINHO DE HUMOR PRA COMEÇAR NA POST 50: CONGELAMENTO DE PESSOAS? BEM… QUASE ISSO… POST 3: HAPPY-GO-LUCKY ENTRE WEST VILLAGE, CHEL- CIDADE. ALFREDO BRESCIA E SEUS PINTURAS VIGILAN- POST 41: “NOSTALGIA, PRIDE AND FEAR” – SER FRáGIL SEA MARKET E HIGH LINE ETC. TES. NÃO É SER EMO. POST 51: PRA TIRAR MAIS DE UMA GALERIA, QUE TAL SE SEU CORPO VIRAR TELA? MúSICA E BODY-PAINTING COM POST 4 : DIRETO DO NEW YORK TIMES. POST 13: MERCADORES DE ATITUDES – AUTOSUFICIÊNCIA, POST 42: THE WALL PROJECT – PINTAR MUROS TAMBÉM É LUZ NEGRA. TROCAS E DESPERDÍCIO ZERO. SER DONO DE UM LUGAR. POST 5: NOW WE’RE TALKING! – HARLEM E MARILYN POST 52: AGORA EU SÓ VISTO MACONHA – INDUSTRIAL MINTER. POST 14: FESTIVAL DEL FUMETTO – OS QUADRINHOS GA- POST 43: USER GENERATED CITIES – URBZ FAZ HOJE O HEMP DO RE3-GENERATION PRA FAZER MELHOR QUE NHAM VIDA NO CENTRO DE CONVENÇÕES DE MILÃO. QUE OS PALESTRANTES DA ECOBUILD PREVIRAM PRA JEANS E AJUDAR O CAMBOJA. POST 6: ESCONDIDO É MAIS GOSTOSO – 2030. SECRET PARTIES IN NYC. POST 15: NEM CACHIMBO, NEM SEMENTE DE GIRASSOL – POST 53: O QUE FAZ UM TEEN DE BANGKOK? OS ITALIANOS DO IOCOSE PROVOCAM MAIS UMA VEZ. POST 44: SE FOR CHEGAR ATRASADO, ENTRE COM ESTILO POST 7: CRAFTIFESTO! – DREAM GLOBAL, – OBATAIMU, A PRIMEIRA POP UP STORE DE MUMBAI. POST 54: ECONOMIA CRIATIVA E A FASCINANTE “SALA DE SHOP LOCAL. POST 16: O DESIGN MOSTRA A QUE VEIO – PARTE 1 (“DO MATERIAIS” – TCDC BANGKOK. SOMETHING”, BUT DO IT “OLD FASHIONED”). POST 45: #SHARING9 MUMBAI – STICKERS DO SHN ESPA- POST 8: WHAT IF… I MET KEITH REINHARD? LHADOS PELA CIDADE. POST 55: VENTILADORES SEM Pá – UMA NOVA MANEIRA POST 17: O DESIGN MOSTRA A QUE VEIO – PARTE 2 DE BRINCAR COM O AR. POST 9: QUEM SABE FAZ AO VIVO: NIB AND PICK – FISTI- (FUNCOOLDESIGN). POST 46: DO GRAMEEN CREATIVE LABS AO SOCIAL BUSI- CUFFS E WATCH ME WORK. NESS – PARTE 1 (A IDEIA). POST 57: #SHARING9 BANGKOK – BORDADO DA LIDI FARIA POST 18: DESTRUINDO LIVROS PRA ENTENDÊ-LOS AO PRA ALEGRIA DA FAI, UMA LINDA CRIANÇA TAILANDESA. POST 10: #SHARING9 – MISSÃO DADA É MISSÃO CUMPRIDA CONTRáRIO E #SHARING9 – CAMISETERIA DE PRESENTE POST 47: DO GRAMEEN CREATIVE LABS AO SOCIAL BUSI- – AGORA O JAY-Z CONHECE O EMICIDA. PRA PIETRO E ILARIA. NESS – PARTE 2 (O PIPOCO) POST 58: GIPSY MUSIC WORLD RAP BALKAM SKA ELEC- TRO ROCK – “LA CARAVANE PASSE” TRAZ TUDO ISSO, EM SEIS IDIOMAS, PRA BANGKOK
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    ÍNDICE DOs POsts XaNGaI sÃo FRaNscIco POST 59: #SHARING9 – BIA GRANJA ESPALHA A INTERNET POST 70: ATÉ MAIS, TÓQUIO. BOM DIA, SÃO FRANCISCO BRASILEIRA POR XANGAI. POST 60: 3, 2, 1, BIKE POLO!!! POST 61: DON’T PIT-STOP. PLEASE PIT-IN. POST 62: WELCOME TO ENTER – OPEN SOURCE FILM. POST 63: WELCOME TO ENTER 2 – BOYLESQUE, SPEED DATING E AN XIAO. POST 64: BENS QUE CONTAM HISTÓRIAS – DOS ESCOM- BROS à ALTA SOCIEDADE DE SHANGHAI. POST 65: VER E SER VISTO – BATALHA DE DESIGNERS, ARTISTAS E VOYEURS. POST 66: #SHARING9 XANGAI– YOUPIX E #SUALINDA NO XINDANWEI. VALEU, BIA GRANJA! POST 67: PRA ONDE VAI A CHINA? – PARTE 1 – WHAT IS (AI WEI WEI E JASMINE REVOLUTION). POST 68: PRA ONDE VAI A CHINA? – PARTE 2 – WHAT IF (INSH, FEIYUE E PROUDLY MADE IN CHINA). POST 69: ZAI JIAN, CHINA – ATÉ A PRÓXIMA.
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    NOva IOrquE NOva IOrquE Sobre a exposição? Absolutamente fantástica! busca por aquilo que ele não oferece, em vez POst Eu nunca tinha ouvido falar que Dali esculpia de mirrar, fica mais aguda a cada dia! O que 01 12 jan também, então tive essa grata surpresa. Não é a febre de televisões e filmes 3D no mundo ENFIM NY posso deixar de notar que boa parte do en- senão mais uma tentativa de humanizar o di- cantamento veio da possibilidade de ver esse gital? A história de “real vs. virtual” já não en- Enfim um post! Enfim NY! Primeira parada Com a câmera em mãos, decidi fazer o que gênio sair do “flat” do papel e ganhar corpo rola mais ninguém. Os dois são a mesma coi- na Big Apple um lugar incrível chamado BH acho a melhor coisa que um viajante pode fa- no mundo. O trabalho é tão característico sa. Eles não se opõem, mas sim se somam, e Megastore: a meca dos apaixonados por fo- zer: andar. E andei bastante. Não vou mentir: dele que nem precisava de placa na entrada esse imperativo da convergência entre ambos tografia e vídeo profissional. Não é só a qua- já estava meio frustrado de tanto andar e con- – quem não reconhece os relógios abaixo? – se manifesta fortemente em situações que lidade dos produtos que impressiona. A loja tinuar com a impressão de que já tinha visto mas todo artista de verdade nunca está satis- vão desde a criação da logomarca dos jogos é organizada e integrada de uma forma que quase tudo ali. Quase nada de realmente inte- feito com o que já fez e busca sempre novos do Rio (que pela primeira vez existe também eu não sabia se me sentia mais em os “Tem- ressante ou novo pra ver… até ficar sabendo, canais de expressão. em escultura em vez de apenas em imagem pos Modernos” ou no desenho dos Jetsons! O por twitter, da exposição das esculturas do pedido vinha numa caixa, descia uma esteira Salvador Dali! Não só fui lá, vi, filmei e foto- em espiral, um elevador, e então rolava exa- grafei como também consegui vazar no link tamente até o local onde o atendente estava ao vivo da CNN!!! Eles estavam cobrindo um esperando com o meu pedido na mão. Talvez lançamento da Apple de algo relativo a uma a abertura do Ratimbum também servisse pra rede de internet, e eu consegui colocar a mo- ilustrar… chila com o endereço do blog na tela deles! Eu saí de lá pensando em muitas coisas, e ve- de papel ou screen) até a percepção de uma jam se algumas delas não fazem sentido: inegável fome do público em ver seu artista A exposição me ajudou a ver que, num mun- favorito finalmente ganhar corpo, numa expo- do onde o computador já é há tempos o sição como a de Dali. maior veículo de informações que temos, a Parece que fui meio longe? Então tenta pen-
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    NOva IOrquE NOva IOrquE sar o seguinte: o Dali é o maior símbolo do A nossa geração está aí pra dizer que a rede surrealismo no mundo. As pinturas dele levam mundial não é um mundo à parte. É o maior e pra um universo completamente distinto do melhor reflexo do que é o nosso tempo. Não nosso, beirando o absurdo. O que significa ver existia momento melhor pra lembrar Dali do uma escultura dele? Ver o mundo do absurdo que esse. das suas pinturas ganhar corpo e tangibilida- de, ter existência concreta no nosso mundo. Em arte, nada é por acaso. às vezes a gen- te só entende o que fez depois que fez. Eu não sei se o idealizador da exposição pensou conscientemente no que eu disse, mas exis- te sempre um sentimento no ar, que o artista pega.
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    NOva IOrquE NOva IOrquE E quando o cara diz que apareceu por causa queria pra si, de ficar com gravadora, rabo POst das batalhas, não está exagerando nem um preso, pá. O negócio é fazer a música chegar 02 12 jan pouco. A partir de 2006, quando começou a em todo lugar que puder, e o dinheiro é con- SHARING9 – EMICIDA MANDA SEUS CDS PRA NOVA IORQUE. participar forte das batalhas de MC’s, algumas sequência. coisas começaram a mudar na vida dele: “Eu tenho a sorte de fazer um negócio que “Eu andava na rua e uns caras e uns caras não é só um trampo, é uma causa. Então a me reconheciam, tá ligado? Eu não entendia gente não pode pensar no dinheiro antes, se- nada, mas aí depois me liguei que a galera que não não completa a missão, tá ligado?’, afirma filmava com celular ou câmera digital tava co- Emicida. locando a parada no youtube (que tava só co- meçando na época a ganhar o tamanho que tem hoje). Quando me avisaram, meu vídeo tinha mais de um milhão de views. Pô, mano. Um milhão de views é coisa pá caralho!’, afir- mou o cantor. Como Trend Hunter oficial da DM9, eu tenho http://www.youtube.com/watch?v=ateZJg basicamente duas funções nessa viagem. A r7w3E&feature=player_embedded#at=13 primeira é, claro, procurar atentamente, lou- camente e freneticamente por novos com- O cara começou a fazer música ainda na épo- E é isso que eu vou fazer em NY: espalhar o portamentos que sinalizassem o surgimento ca de colégio: música do cara. Ele me deu duas cópias do pri- de uma nova tendência. Mas também fiquei “ Eu curtia muito quadrinhos e foi surgindo meiro mixtape que ele fez em 2008 e do mais responsável por uma missão que a gente cha- em mim uma necessidade de contar histórias recente também. Alguém vai ficar com esse mou de Sharing9, levar pequenos elementos além do que o quadrinho permitia. Foi aí que presente autografado, e, quando isso aconte- de novas tendências do Brasil para espalhar eu comecei a escrever as minhas primeiras cer, vocês vão saber imediatamente por aqui. pelo mundo. Essas tendências foram identifi- coisas. Até hoje, embora eu tenha aparecido cadas em blogs e nas redes sociais e no meu muito por causa das batalhas, eu dou muito Para saber mais sobre ele e o trabalho dele, período pré-viagem, conheci vários Trend valor a essa habilidade de contar histórias so- acesse os links: Makers brasileiros. Pra começar a ação já por bre o cotidiano mesmo. Por isso o que eu mais http://www.emicida.com/ A partir daí começaram a aparecer vários cima, fui sábado no sábado dia 7 visitar o Emi- admiro mesmo são as letras do samba”, afir- http://www.myspace.com/emicida convites, tanto pra batalhas quanto pra gra- cida. Se liguem aí no que ele me deu. ma o Emicida. @EMICIDA var. Mas ele diz que não era esse caminho que
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    NOva IOrquE NOva IOrquE Foi sob essa temperatura que eu saí pra ex- ar da crise econômica. Mas o que eu mais POst plorar um pouco do West Village, procuran- estou vendo por onde passo é uma impres- 03 13 jan do galerias de arte com obras de artistas sionante onda de cores (o próprio trabalho HAPPY-GO-LUCKY ENTRE WEST VILLAGE, CHELSEA MARKET E HIGH LINE contemporâneos. do Michael Porter tem isso também, como Encontrei uma muito legal, com os trabal- vocês viram) . Fiquei encucado, perguntei OK, eu prometi pra mim mesmo que não ia gastar o tempo de vocês falando sobre...o tempo, hos de um cara chamado Michael Porter. ao cara do brechó o que ele achava, e ele porque em geral isso é falta de assunto. Mas está TÃO FRIO que eu tenho que compartilhar al- Dêem uma olhadinha: me disse que é isso mesmo: gumas imagens: Tive que parar o passeio pra comprar uma “We are pretty good in dealing with things bota impermeável, por questão de sobre- the way they are. We accept it and then deal vivência (tinha enfiado o pé numa poça with it. We know things are bad, so what? d’água escondida sob 30 cm de neve), e Make them become nice”! (nós somos mui- acabei me surpreendendo com um brechó to bons em lidar com as coisas do jeito que muito legal bem do lado da loja de sapatos. elas são. Nós aceitamos e lidamos com isso. Aqui eu tenho que começar a marcar uma Nós sabemos que as coisas estão ruins, impressão forte que já estou tendo: eu e daí? Vamos fazer elas ficarem melhores) imaginei que chegaria em NY e veria sinais Andei ainda um bocado pela 10th Avenue de depressão e pessimismo por todos os e conheci o High Line e o Chelsea Market. lados, reflexo da dificuldade em se recuper- O primeiro é um parque construído sobre
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    NOva IOrquE NOva IOrquE Enfim, depois de tudo isso, decidi procurar sinais de novidades emergindo em um dos canais que melhor refletem o espírito de qualquer sociedade: o humor. Fui assistir ao New Talents Show da Comix, um belo palco para o Stand-up comedy da cidade. Foi in- crível, mas depois volto a falar disso. Agora preciso ir que tenho um compromisso que vocês não vão nem acreditar quando eu contar na volta. Enquanto isso, fiquem com esse vídeo com um apanhado de algumas das coisas que vi ontem andando por aí. o que antigamente era uma via férrea el- quase tudo, um pouco do espírito do lugar Até lá! evada. Um exemplo de revitalização do es- no momento. Um espírito de reconstrução. paço urbano, na onda dos “re” que tomam Também não teve como não notar o monte http://www.youtube.com/watch?v=O08 conta do mundo. O segundo é um grande de cores e aparente “happy-go-lucky” spir- Hf0KpwYc&feature=player_embedded mercado de bairro, com produtos de altís- it. Vejam esse cupcakes pra saber do que sima qualidade, que também reflete, como eu estou falando.
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    NOva IOrquE NOva IOrquE Enfim, lá fomos nós – eu e a Pat Sloan – temente inocentes ou aleatórios… como POst para a esquina da 41st St. com a 8th Av. o ressurgimento de barbearias por toda a 02 14 jan Subir para a cafeteria do New York Times cidade. Não estou falando de salão de be- DIRETO DO NEW YORK TIMES esperar pelo Stuart Elliot. Ele é colunista da leza nem cabeleireiro: estou falando de old- seção de Advertising do Jornal. fashioned barber shop (aquele que você Ontem meu dia começou de um jeito que e sairia babando como uma criança desde eu nunca imaginei em minha vida. Quando o momento em que subisse o primeiro ele- é que esse estudante de economia e con- vador. Mas como eu sempre preferi olhar torcionista se imaginou pegando um taxi pras coisas com um espírito de “ih, olha só pra sede mundial da DDB com o objetivo que legal… como será que funciona?”, lá fui de se encontrar com a sua Vice-Presidente eu. Se tem uma coisa que eu aprendi com o de Relações Públicas, a Pat Sloan? Imagi- Sérgio Buarque de Holanda, é que nós bra- nem então se passou pela minha cabeça sileiros temos o hábito de olhar primeiro alguma vez que, com 21 anos, eu estaria en- para pessoa e só depois pro cargo que ela trando num carro com ela, indo em direção ocupa, e tenham certeza: isso ajuda MUITO ao New York Times… pra ser entrevistado! em momentos como esse. Muita gente ficaria deslumbrada com isso Depois de almoçar (muito bem, por sinal), entra e o mesmo cara corta seu cabelo, es- começamos a conversa. É claro que eu ti- palha o creme pelo seu rosto todo e a passa nha lido sobre o Stuart também, de modo com a navalha rente à pele). Parece boba- que ambos estávamos interessados em sa- gem, mas não é… e quando você começa a ber mais sobre o outro. Ele perguntando perceber outros sinais… entende que essa é muito sobre o processo de seleção, minha a manifestação de um comportamento que trajetória antes do concurso e sobre o que está mudando. eu pensava serem as razões de ter sido es- Na verdade, está começando a haver uma colhido; eu interessado em ouvir daquele rejeição geral por tudo aquilo que é abso- jornalista quais os sinais de tendências em lutamente one hundred percent novo. Ok, vias de emergir que ele estava percebendo nos acostumamos a conviver com reinven- na cidade. ções e transformações de roupagem cons- Começamos por pequenos sinais aparen- tantes nos produtos – afinal de contas, uma
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    NOva IOrquE NOva IOrquE primir uma marca de seu tempo lá também. ligadas a ele por todos os lados. Por exemplo: Por exemplo: não é inocente a mudança se o programa escolhe interrogações, ele re- no destaque dado ao Sex. No original, os aliza uma busca imediata por toda a base de três tinham o mesmo peso. Mas se naque- dados do NYT e exibe frases tiradas de ma- le momento o drugs and rock n’ roll tinha térias que terminem com uma interrogação. também componentes de contracultura e Quando cheguei, estavam todas as frases ini- via alternativa ao mainstream, hoje isso não ciadas por “he graduated in”. Esse trabalho existe mais. O que resta então? Reler o sím- está lá há três ou quatro anos. Já pensaram bolo com o olhar do presente na tentativa que isso é quase uma busca por # do twitter de encontrar algo remanescente daquele realizada internamente ao jornal bem antes espírito autêntico. do twitter ter o peso que tem hoje? O Stuart ainda me levou pra conhecer, por parte do produto é a ideia que ele transmi- que se ela existe (e resiste) há tanto tempo, dentro, a redação do jornal. E eu fiquei im- te. Mas, de um tempo pra cá, alguns des- é porque é boa. Isso tem sido chamado, se- pressionado! Mas vejam o porquê: ses sinais que vão além do produto em si gundo o Stuart, de Authenticity, a percep- começaram a ser percebidos como um ex- ção de um produto como autêntico, dono http://www.youtube.com/watch?v=O08 cesso desnecessário, uma falta de conteú- de características próprias permanentes, Hf0KpwYc&feature=player_embedded do compensada por uma ideia sem tanto em vez de passageiro, e é uma clara res- fundamento. Tá bom, vamos ser realistas: posta à busca por referências no nublado É UM SILÊNCIO SÓ! Quem de vocês imagi- parte disso é porque numa crise o poder de do horizonte. nava a redação do maior jornal do mundo Definitivamente, a visita valeu a pena. compra cai, e então as posições têm que Vejam mais uma foto do brechó que eu co- desse jeito? E não é só por causa do horário ser reavaliadas mesmo. Mas o interessante nheci anteontem e tentem ler esse escrito de almoço não, Stuart me garantiu. Especial- é perceber o caminho que esse movimento sob esse olhar. Eles acabaram de pintar na mente depois que o e-mail entrou no jornal está encontrando pra se manifestar. parede “Sex, Drugs and Rock n’ Roll”. Lema o telefone parou de tocar lá dentro, a com- Um deles é justamente a valorização daqui- de uns quarenta anos atrás, de outra gera- penetração dos jornalistas se fez evidente. lo que está aí há mais tempo. Quer dizer, o ção, é verdade. Mas por que será que ele Outra parte interessantíssima do jornal é estabelecido deixa de ser lido como “velho” está ali daquele jeito? a entrada. Tem um trabalho de arte digital para ser lido como “duradouro”. As marcas que é muito interessante. Espalhados pela que estão sendo valorizadas são aquelas Tudo bem que um brechó é um lugar de parede estão centenas de monitores inter- que podem estampar um “desde mil nove- coisas antigas, que tem quase licença poé- ligados. A qualquer momento, eles escol- centos e… qualquer coisa”. Agora, pensa-se tica pra fazer isso. Mas não dá pra não im- hem um tema e passam a exibir mensagens
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    NOva IOrquE NOva IOrquE dientes tão diferentes quando manteiga to… mas que eu adorei, abri um sorrisão e POst de amendoim e leite de soja), todos com não vou esquecer nunca, isso é verdade. 05 15 jan o foco em que é preciso cuidar da saúde. NOW WE’RE TALKING! – HARLEM E MARILYN MINTER Mas se estou falando isso é porque percebi http://www.youtube.com/ que essa não é conversa da boca pra fora: watch?v=uz1Bh1_28As Depois de três dias garimpando sinais de da moda. Now we’re talking! passei meia hora num desses lugares espe- novos comportamentos em Manhattan, fi- Se na 5th avenue se vende perfumes de nalmente fui para num lugar que eu posso grife, na 125th street se vendem frangân- chamar de autêntico: o Harlem. Foi só uma cias para a casa tão coloridas e peculiares visita rápida, coisa de duas horinhas no fi- quanto você possa imaginar. Na 5th tem nal da tarde, mas o suficiente pra perceber Dolce & Gabana, Channel e Azzaro; na que se tratava de um lugar onde as pesso- 125th tem “Black Women”, “Opium” e “Lick as realmente vivem, criam e se identificam, me all Over”. e isso é maravilhoso pra separar um pouco as novidades que realmente fazem parte Outra coisa que notei é que existe uma da vida e aquelas que só estão na vitrine série de lugares especializados em sucos pra turista ver ou pra ser ponta de iceberg (e em combinações de frutas com ingre- rando o meu vitaminão (chamado “Armag- Valeria a pena um post inteiro pra falar so- gedon”, por sinal) e só nesse meio tempo o bre ela e a primeira bienal que o YouTube (!) funcionário (IGUAL ao Eddie Murphy!) deu organizou junto com o Guggenheim. Por en- conselhos a uns três clientes sobre como quanto vejam essa entrevista curtinha dela. cuidar da própria saúde. http://www.youtube.com/ Vê-se que tem muito pra se tirar do Harlem, watch?v=HaZ4j_Tm8B8 e é por isso que vou voltar lá logo, logo. Enquanto isso, fiquem com essa pequena delícia visual que é o trabalho da Marilyn Minter, que conheci hoje aqui em NY tam- bém. Não sei dizer exatamente se é boni-
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    NOva IOrquE NOva IOrquE Escutem o pouco que eu posso contar… e o o endereço em # nenhuma por aí. Nem POst resto vocês imaginam. adianta comprar com antecedência. A or- 06 16 jan Na entrada, uma cartela de bingo e uma ganização só avisa onde tudo vai aconte- ESCONDIDO É MAIS GOSTOSO – SECRET PARTIES IN NYC caneta tipo marcador com tinta lavável. cer, por e-mail, na véspera do grande dia. Por que lavável? Quem disse que o único Claro que existem outras festas como essa Isso mesmo. Escondidinho. É esse o espírito protesto ao imediatismo e monitoramento lugar pra escrever são as cartelas? Com por aí. A Skins Party, mesmo que seja só por trás do tipo de festa que está pipocando excessivo das redes sociais. Isso sem falar tantas pessoas com braços, ombros, mão a promovida pela MTV num galpão secre- por aqui. Ontem à tarde me perguntaram: no efeito que a garantia da não divulgação e pescoços à mostra, por que se limitar ao to para o lançamento da série de TV nos - Onde é a festa que você vai hoje à noite? provoca, funcionando como um verdadeiro papel? Seja criativo, invente novas formas EUA, é só mais um exemplo. Ok, nesse caso - Não sei. Só vão me contar mais tarde. convite para se permitir sentir ou fazer as de desenhar. a festa teve tanta visibilidade que “secre- - Me avisa então quando souber. coisas sem se preocupar em ficar “bonito O Bingo começa e… pensam que é chato? ta” não foi um bom termo para defini-la. - Não posso. na fita”. Mas pensam que acabou? Tsc, tsc. Não sei nem como descrever a empolga- Mesmo assim, não tem como negar que ela - Como assim? Que tal se o grande motivo pra dar a festa ção que é ter dezenas de pessoas urrando deixou absolutamente louca uma multidão - É segredo. for simplesmente… JOGAR BINGO? a cada provocação feita pelas assistentes de teens de Nova Iorque nessa sexta feira São as regras. Todos com ingresso têm a Pois é isso mesmo. Sábado à noite, eu fui de palco antes de anunciar um número. em busca do tão sigiloso local. obrigação de manter segredo sobre o local, à primeira edição em NY do “The Under- O apresentador então, realizador da fes- Tell me about exclusivity. e não deveriam sequer contar que estão ground Rebel Bingo Club”. Nunca imaginei ta, nem se fala! Pouco torcedor se entrega indo pra lá. “Se alguém perguntar, diga que que jogar bingo pudesse ser tão bom! com tanta paixão a alguma coisa. Definiti- está indo para a reunião de bairro”. É o que vamente, esse cara ama o que faz, e desco- manda o site. http://www.youtube.com/watch?v=buh briu uma maneira de fazer os outros senti- No caminho, a ordem é ser o mais low-pro- 8zRK11Gw&feature=player_embedded rem no pele a mesma empolgação que ele, file que puder. Na entrada, nenhum sinal de ressuscitando pros jovens algo que já tinha festa do lado de dentro. Depois de entrar, sido estigmatizado como, definitivamente, nada de fotografias ou filmagens, de jeito “coisa de velho”. Os sorteios são intercala- nenhum. Mas depois de atender tudo isso… dos por muita música, escolhidas na hora bem vindo a um mundo à parte. pelo DJ, colocando todo mundo pra dan- Se parasse por aí já seria incrível. Já da- çar loucamente. ria pra falar, por exemplo, de como a ideia Mais do que isso eu estou absolutamente de manter a memória como único meca- proibido de falar. Usem sua criatividade ou, nismo de registro do que acontecer por melhor ainda: comprem o ingresso para a lá, acaba funcionando como um belíssimo próxima edição. Não esperem encontrar
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    NOva IOrquE NOva IOrquE deroso, pessoal, político e possível. Comecei tesanato em Nova Iorque e a sua capacidade POst então a conversar com Christine, uma das de afetar toda a comunidade ao seu redor”, 07 17 jan responsáveis pelo lugar, pra saber mais so- palavras ditas pela própria repórter durante CRAFTIFESTO! – DREAM GLOBAL, SHOP LOCAL bre a ideia e até onde eles pretendiam che- a filmagem. gar com isso. Imaginem então a minha sur- Depois do Underground Rebel Bingo, decidi Achei a proposta interessante, afinal, que tipo presa ao ter a conversa inteira em português! que, definitivamente, eu tinha que voltar no de pai coruja nunca quis eternizar de alguma Isso mesmo, Christine fala nossa língua muito Eu sabia que ali tinha muito mais do que só Brooklyn. Williamsbourg é o lugar, e eu sa- forma o trabalho de um filho? Mas quando bem e, assim como boa parte das pessoas uma coisinha “cool” e descolada. Fiquei a bia que ele ia me dar muito mais do que os entrei, vi que essa era só a ponta do iceberg que estavam lá, joga capoeira faz tempo. tarde inteira, conheci as pessoas e conver- arredores do Hostel. Eu estava caminhando de uma proposta muito mais ampla, de pes- Enquanto preparava o espaço para o Sewing sei muito com elas. No Brasil muita gente despretensiosamente pelas calçadas quando soas que fazem do artesanato muito mais do Rebellion (uma oficina de costura para adul- associa artesanato a hobby e não o enxerga esse cartaz chamou minha atenção: que um hobby, e conseguem por meio dele tos e crianças que ia começar em meia hora), como atividade profissional, econômica. Que passar uma mensagem muito maior do que ela me explicou que um número cada vez tal se eu contar que fui andando pro metrô o produto final do seu trabalho. A questão maior de pessoas está começando a enten- com um mulher que é paramédica durante o é mais do que manejar matérias primas: é der a ideia do “Dream Global, Shop Local”. dia, grafiteira durante a noite, e passou a tar- transformar comportamentos! Na parede do Com essa mudança a importância de estimu- de de ontem costurando suas estampas na ateliê/loja tinha essa maravilha: o Craftifesto. lar a criatividade cresce e a tendência que bolsa do grupo com que trabalha? Como vocês podem ver, o artesanato é po- já foi “do it yourself your own stuff”, agora Sem dúvida nenhuma, esse foi um dos dias é a valorização de se conhecer a origem dos mais interessantes e enriquecedores que produtos. Num momento em que as pessoas passei na cidade. estão, especialmente nos EUA, repensando Pra encerrar, acabei indo com o grupo da ca- suas convicções e reavaliando o consumis- poeira pra um bar brasileiro (o famoso Miss mo desenfreado como meio de organização Favela) no começo da noite. Era aniversário social, a proposta do artesanato acena como de uma amiga deles, regado a frango à pas- um outro tipo de atitude perante o mundo sarinha e Guaraná Antárctica!!! Tinha até for- potencialmente muito forte. ró tocando na hora. Será que eu fui o único a perceber isso? Cla- Quem diria que uma caminhada no Brooklyn ro que não. No meio da minha conversa com ia terminar assim? A viagem está aí pra gen- Christine, chegou uma equipe da maior rede te se surpreender também. Aproveitem e se de televisão do Japão (!!!) pra fazer uma ma- surpreendam também com mais fotos desse téria exatamente sobre o “crescimento do ar- lugar fascinante no meio de NYC.
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    NOva IOrquE NOva IOrquE em movimento, indo a algum lugar onde ain- Para ser criativo, estude artes. POst da não esteve. Assim fica mais fácil entender Para ser efetivo, estude o público. 08 18 jan por que no corpo de alunos tem tantos dan- Para ser os dois, estude como o público res- WHAT IF… I MET KEITH REINHARD? çarinos, músicos, atores… ponde à arte.” É engraçado pensar nisso agora… porque Pode ser que de tudo isso que conversamos Hoje foi mais um daqueles dias que já co- começam a nascer todas as novidades e mo- Christine (do ateliê de artesanato do meu hoje eu não tire tendência nenhuma. Mas meçam com o que a gente pode chamar de vimentos relevantes de que eu estou atrás. post anterior) vinha conversando comigo uma boa leitura de mundo nunca se joga oportunidade única na vida. às dez da ma- Tudo começa no “What if”. E isso aqui expli- exatamente sobre a busca por parte de vá- fora e sempre ajuda a entender um pouco nhã, eu estava começando uma conversa ca tudo. rias empresas por pessoas com formação mais do que se está fazendo. agradabilíssima com Keith Reinshard. http://www.youtube.com/ em artes, e isso vem fortalecendo cada vez E se… um bingo pudesse ser divertido para Quem não é do mundo da publicidade pode watch?v=uI3ftzbpAyE mais o conceito por trás do Craftifesto de jovens também? E se… eu pudesse trazer o até nunca ter ouvido falar dele. Mas a verda- O vídeo aí em cima (que você acabou de que tanto falei ontem. desenho do meu filho pra minha roupa com de é que eu estava diante de uma lenda. Esse assistir, certo?) foi filmado no final do ano Querem tudo isso resumido? Eis a menor minhas próprias mãos? E se… eu não tivesse cara transformou a publicidade no mundo passado na Berlim School of Creativity Lea- palestra que Keith já deu na vida. Ela dura que me preocupar com o que vão pensar de inteiro e é reconhecidamente um dos maio- dership. Eu também nunca tinha ouvido falar exatamente 33 palavras (em Inglês são 31), e mim quando tudo que eu estou fazendo for res representantes do pensamento criativo neles, mas é importante sublinhar o que esse está num dos três livros absolutamente esti- pro twitter? no meio corporativo até hoje. Criatividade? tipo de iniciativa representa. Na maioria das mulantes que ele me deu de presente: Only then eu teria exatamente o final de se- Nesse mato tem cachorro. A oportunidade sociedades, o espírito inovador dos artistas “O artista define a criatividade. mana que tive. de conversar sobre o tema ajudou a iluminar e o poder de gestão dos administradores e O público define a efetividade. um pouco mais minha cabeça sobre como advogados não somente não se entendem, Então, como, pior, seguem trocando farpas. Na Ber- lim School é diferente, neste espaço ambas as veias sejam alimentadas com profundidade. Se toda grande ideia começa com o What if de um visionário, pra crescer ela precisa do apoio de um homem prático. Por outro lado, como sobreviver comodamente no Whe- re you are também não é mais uma opção viável no nosso mundo, o prático precisa do visionário pra conseguir se mover nesse eterno State of becoming, de estar sempre
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    NOva IOrquE NOva IOrquE é do que ter capacidade de responder a uma a arte, eu não sei. E, sinceramente, no cur- POst situação-problema real. Se a definição vale, to prazo, acho que não. Mas o que não se 09 19 jan o que a galera inteira da improvisação fez foi pode negar é que, de alguma maneira, fazer QUEM SABE FAZ AO VIVO: NIB AND PICK – ir direto na melhor fonte de problemas para o público se sentir mais autor e menos mero FISTICUFFS E WATCH ME WORK serem resolvidos que existe: o público. espectador está se tornando um imperativo No Brasil já estamos mais do que acostuma- nem então a situação dos quatro cartunistas dos nossos tempos. E, no processo de ten- dos a assistir improvisação no teatro. Todos convidados para o evento de hoje, que, de- E é aí que entra o outro evento que conferi e tativa e erro até encontrar a forma mais pro- também já pelo menos ouvimos falar nas ba- pois de se dividirem em duplas, tiveram que fomenta um pouco mais dessa linha. Na se- lífica de fazer isso, ainda vai aparecer muito talhas do Hip-Hop. Mas… e em vez de atores encarar desafios tão inusitados quanto criar mana passada, NYC vivenciou o Under The experimento por aí. ou MC’s… tivéssemos cartunistas? Essa é a uma “tira que trate ao mesmo tempo dos te- Radar (festival internacional de teatro foca- proposta do Nib and Pick – Fisticuffs, que mas gato, dominatrix, e hospital”? do nos grupos que estão propondo as coisas aconteceu hoje aqui em NY. Eles se viraram e fizeram. No tempo de uma mais novas, sob o slogan “Catch the next big música só (tocada ao vivo pelo grupo convi- thing”). A performance “Watch me work”, No dia do encontro com o Raphael Sonsino dado). Em uma palavra: impressionante. Em da escritora Suzan-Lori Parks, ganhadora do pro #sharing9 (que me deu um quadro pra algumas mais: uma belíssima demonstração prêmio Pulitzer de 2002, foi uma das esco- levar pra Paris), ele tinha me falado um pou- de artistas dominando de maneira tão pro- lhidas para integrar o festival. co da sensação de participar da edição bra- funda a sua arte que podem encarar qual- Durante uma hora, ela sentou-se no foyer do sileira do “Cut and Paste”, em que teve que quer desafio. teatro e trabalhou, escrevendo mais trechos desenhar ao vivo num palco, e de como era Uma vez eu escutei de alguém (infelizmente do seu novo livro, na frente de todo mun- difícil receber esse tipo de pressão. Imagi- não lembro quem) que ser criativo nada mais do. As pessoas podiam sentar-se ao lado, escrever suas próprias coisas, palpitar nas dela, twitar ou simplesmente assistir, tanto no local quanto ao vivo pela internet. Ao fi- nal do ato, a escritora ainda se predispunha a conversar sobre as dificuldades que cada espectador que escrevia estava tendo em seus trabalhos. Se esse tipo de obra aberta está crescendo a ponto de influenciar consideravelmente a maneira como as pessoas se relacionam com
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    NOva IOrquE NOva IOrquE POst POst 10 21 jan 11 22 jan #SHARING9 – MISSÃO DADA É MISSÃO CUMPRIDA – AGORA O JAY-Z COISAS IMPERDÍVEIS QUE EU PERDI EM NOVA IORQUE – CONHECE O EMICIDA. NO PANTS SUBWAY RIDE E AIR SEX WORLD CHAMPIONSHIP. É isso aí. Na hora que o Emicida mandou o Depois de 11 dias na cidade, com certeza te- mais de gente… e esse ano o movimento reu- CD pra Nova Iorque e pediu pra entregar pro nho muita coisa pra contar. Algumas delas niu 3500 pessoas (!!!!!!!!!!!!). Elas vinham de Jay-Z todo mundo riu. Eu pensei: “por que nem entraram aqui no blog, como a aula de todos os lados pegar o seu metrô sem calças não?”. Nenhuma barreira é maior do que as trapézio de vôos que fiz ontem no Galpão até desembarcarem na Union Station para o que a gente coloca na própria cabeça, então do STREB, a reinauguração do Museum of grande encontro dos No Pants Subway Ri- percebi que não tinha por que não tentar e The Moving Image depois de três anos de ders. Estranho? Pode ser. O que os organiza- decidi caçar o cara. reforma e o monte de artistas de rua. Mas dores querem com isso? Segundo eles mes- Primeiro descobri que ele estava na cidade quanto mais você mergulha num lugar, mais mos, nada demais. No final das contas, o No (Stella, da SpaceCraft, viu ele almoçando em você começa a saber de coisas absoluta- Pants não tem nenhuma pretensão além de Williamsburg). Depois eu tinha que desco- mente incríveis que você se lamenta por não ser uma grande celebração da bobagem. brir onde ele trabalhava, o que foi relativa- ter ficado sabendo antes, e é aí que dá von- Outra pérola escondida na cidade teve lugar mente fácil também. Difícil ia ser passar pela Então é isso! Não pude esperar mais porque tade de voltar. em Williamsburg. Todo mundo já ouviu falar segurança… mas vamos lá! Mapa do metrô o meu avião era logo depois, mas temos a Uma delas foi o No Pants Subway Ride, que em campeonatos de Air Guitar, certo? Aque- na mão, direto para a sede da RocaWear. O garantia de que ainda hoje o Jay-Z vai estar aconteceu na véspera do dia em que eu che- les em que os participantes sobem no pal- resultado é esse aí: com o CD do Emicida nas mãos e vai conhe- guei. Essa foi a décima edição anual (sempre co e tocam uma guitarra invisível colocando Na hora em que eu cheguei o Jay-Z não es- cer um pouco mais do que a cultura urbana em janeiro) do evento que já virou tradição pra fora todo o seu entusiasmo por realizar tava lá, mas quem me recebeu adorou co- brasileira tem a oferecer. da Improv Everywhere. Em pleno inverno de o sonho de, por um momento ser um gran- nhecer o projeto e ficou muito empolgado 2002, alguns passageiros foram surpreendi- de rockstar. Digamos que, agora, uma nova com o presente. Aqui vai uma menção hon- das ao ver uma pessoa entrar no metrô de modalidade, tão instigante como a anterior, rosa à Natasha da recepção (dona da mão sobretudo, botas, cachecol… e sem calças. explodiu nos EUA e só faz crescer há pou- que recebe os CDs na foto), e à Prince, que Na estação seguinte, mais uma pessoa na co mais de um ano. Bem vindos ao air sex me apresentou a RocaWear por dentro e me mesma situação entrou no trem. Depois ou- World Championship!!! deu a garantia de entregar pessoalmente os tra, outra e outra, por sete paradas seguidas, CDs ao Jay-Z assim que ele chegasse. Ah! Só até que, na oitava, um vendedor de calças pra constar… nesse meio tempo eu ainda vi o aparecia para vendê-las e resolver a situação. Eu não me perdoo por nada nesse mundo Kanye West passar no corredor. Em 2003 aconteceu de novo, com um pouco por ter perdido esse espetáculo. Sexta pas-
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    NOva IOrquE NOva IOrquE do da sua incapacidade de realizar algo na vida real, ao invés de frustração, senha para a mais espontânea e saudável extravagância. Essa é uma das coisas mais importantes que aprendi no circo com os meus amigos pa- lhaços: fazer do seu defeito seu trampolim. É assim que palhaço acaba com a violência, mostrando que o ridículo só inferioriza se você se deixa inferiorizar por ele. O palha- ço é um perdedor, e com isso ganha muito mais em identificação e simpatia do público. A graça do Air Sex e do Air Guitar é ver gen- te normal, como qualquer um de nós, fanta- siando na frente de todo mundo sem ter o menor medo do ridículo. Isso está me cheirando a muito mais que só casualidade. sada, os moradores do bairro tiveram a opor- absolutamente divertida e sem fazer mal a tunidade de externalizar as suas fantasias e ninguém. Na verdade, é muito mais que isso: perversões mais incubadas de uma maneira é dar-se a chance de rir de si mesmo, fazen-
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    barCElONa barCElONa dela pelo menos por causa da festa em que Mixtape Lalai E Ola Pro Lucas Do @99novas POst tocou no Big Brother Brasil. Sobre a expe- #Sharing9 by I’M The Machine on Mixcloud 12 19 jan riência, ela diz que foi muito interessante, Pra saber mais sobre a Lalai, você pode POST 12: #SHARING9 – LALAI E OLA PERSSON FIZERAM MIXTAPES PRA porque “se, por um lado, era o menor públi- acessar: FESTA ROLAR SOLTA EM BARCELONA. co pra que já tocamos (eram 10 djs para 10 http://www.lalai.net E na capital da Cataluña, vamos de quê? De música também! Sabendo que essa cidade é casa pessoas na casa), por outro lado era o maior @lalai da juventude européia, nada melhor pra aglutinar todo mundo do que dar uma festa. Então de todos!”. De público presente mesmo, ela dessa vez o presente são alguns sets especialmente preparados pela DJ Lalai, de São Paulo, em também já tocou pra quase 25 mil pessoas parceria com o Ola Persson, da Suécia. Vejam aqui como foi a entrega do presente e um pouco na festa Experience ano passado. mais do que vem por aí nessa festa. Então é isso aí e vamos lá! Barcelona vai re- ceber um presentão e vocês vão poder sen- tir um pouco desse gostinho acompanhando tudo por aqui. Mas, se quiserem aproveitar uma canjinha já de agora… podem ouvir aqui mesmo o “mixtapezinho” feito pelo Ola es- pecialmente pra festa. São 40 músicas em 30 minutos, e haja pique! http://www.youtube.com/watch?v=cBM7HL8zRTs A Lalai ficou mega-feliz de ter ficado com Barcelona, pois foi a primeira cidade fora do Brasil onde ela pôs os pés. Ela preparou um set especial com um pouco das coisas que ela mais gostou de tocar ao longo da carreira, avisando logo que é pra eu estar preparado pra coisas pesadas. Afinal, embora ela seja mais conhecida no eletrônico, ela veio mesmo do rock, e essa marca está sempre impressa no seu trabalho. De fato, a primeira festa ela que organizou foi uma festa rock de domingo à noite, que só conseguiu porque era um horário em que a casa de show não funcionava, mas depois ficou maior do que a festa principal da casa. Daí em diante começou uma ascensão notável e a incorporação do eletrônico foi natural. Jun- to com as mudanças vieram novos convites e públicos, e talvez vocês já tenham ouvido falar
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    barCElONa barCElONa POst 13 19 jan DE “NÃO É POSSÍVEL!” AO “PENSANDO BEM, É MESMO” – QUEM DIRIA QUE A TENDÊNCIA SERIA O BRASIL? Eu teria todas as razões do mundo para dizer zil. Joguei a toalha e pensei “não é possível!”. que a minha primeira noite em Barcelona foi Só que aí é que você pára pra pensar e vê um fiasco. Depois de uma revigorante noite que, se prestar atenção, tem alguma coisa de sono de 15 horas, saí disposto a fazer a pra se tirar disso sim. Afinal de contas, não de dança de todos os Estados Unidos, se o fashion é ser brasileiro, todo mundo quer grande abertura dessa nova etapa! Marquei tinha tanto brasileiro assim no Hostel… em não o melhor). E lá eu estava para assistir a ter alguma coisa de lá.”, disse essa menina uma aula de… capoeira. Para se ter uma ideia, cujo nome não me recordo. Sabem quem estava ensaiando na sala logo embaixo da sala da capoeira? Sim, é verda- de, eu não estou inventando nada: simples- mente, Lady Gaga. Se nada disso significa visibilidade para o Brasil no mundo inteiro, então eu não sei o que significa. Eu estava até guardando essa percepção pra quando tivesse mais material pra sustentar a tese, mas é bom dividir com vocês pelo menos alguma coisa logo. Vejam de encontrar com uma amiga que mora aqui Nova Iorque menos ainda… e na sexta feira mais uma que eu ouvi de uma americana (Foto tirada em pleno Harlem, lugar com a maior concentração há quatro anos e ia me dar várias dicas. Mas todos foram para a noite brasileira de uma uma semana atrás: de salões de beleza por metro quadrado que eu já vi no mundo) não deu certo. Fui então com outros ami- boate. Eu conheci pessoas maravilhosas no gos procurar uma noitada legal e demos de Brooklin, que saíram pra comemorar um ani- “É, sabe que antigamente tudo era ‘French Tudo isso é sinal de que, se ainda não somos cara com três fechadas (mesmo com nos- versário no… Miss Favela. qualquer coisa’. Agora tudo é ‘brazilian não uma tendência, pelo menos estamos na vitri- sos guias dizendo o contrário). Cheguei ao Juntem então mais alguns elementos: terça sei o quê lá’. Já viram a Brazilian Dry, dos sa- ne. É bom prestar atenção… o mundo inteiro Hostel e vi uma galera enorme indo pra uma fui conhecer uma escola de dança na West lões de beleza? O que que tem de ‘brasileiro’ está prestando. A questão agora é entender festa. Pensei: beleza, vou salvar o noite! Che- 55th St chamada Ailey’s Dance Theater (sem em fazer uma escova normal??? Acontece o que é que ele está vendo. gando lá, o nome da festa era … Made in Bra- o menor exagero, um dos melhores centros que antes era chique ser francês. Mas agora
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    barCElONa barCElONa POst 14 19 jan POST 14: NUNCA SUBESTIME UM BAR – EM BARCELONA ELE PODE SER MUITO MAIS DO QUE PARECE Ok, já deu pra perceber que Barcelona é uma Mas é isso mesmo! Em primeiro lugar, a questão de fuçar, fuçar e fuçar até encontrar agência percebeu que, muito melhor do que onde estão os lugares que interessam de receber os clientes em um escritório, era re- verdade e que nenhum turista jamais suspei- cebê-los em um bar, de onde podiam já dar ma coisa: há diversas aulas, desde como fa- zem para experimentar essas experiências. tou da existência. E é aí que entra a minha uma esquentada para o passeio. Além de to- zer drinks até cozinha espanhola. Isso sem Voltado ao nosso bar-agência de viagens- primeira descoberta. Numa ruazinha estrei- mar um drink e comprar pacotes de viagens, contar as frequentes sessões gratuitas de escola, dá pra se ter ideia do espírito da coisa ta do centro, fica a sede de uma agência de as pessoas podem subir um andar, e em um filmes “Cult”. pelo que está escrito na parede do banheiro, viagens chamada Stoke Travel. Quando você espaço que um apartamento reestruturado Um bar que também ensina? Uma agência onde diz: “coisas que queremos fazer pelo chega, acha que errou o endereço mais uma para receber mais gente, porém sem perder que é bar? Um cineclube com cachaça? Re- mundo”: vez, afinal de contas, o lugar é um bar. o clima intimista, realmente aprender algu- almente, não é tão fácil definir o espaço, mas dá pra perceber que a questão aqui é não se Realmente… pescar com esquimós e dormir contentar com o óbvio e evitar aquela sen- num iglu, acampar na Ilha de Páscoa, traba- sação de peixe fora d’água que geralmente lhar num rancho com os vaqueros da Argen- o turista tem, de não pertencer ao lugar. O tina, fazer um tour de danças pela América Stoke Travel convida os viajantes a sentir e Latina, nadar o Rio Amazonas (e sobreviver) a aprender como é viver ali, fazendo roteiros e fazer um menáge-à trois no carnaval não e programas de pessoas locais. Experiências são histórias que qualquer um pode contar. bem diferentes das que encontramos no bal- E essa história de não ser “qualquer um” é cão de informações do aeroporto. exatamente o melhor e o pior de Barcelona. Mas sair dos destinos óbvios em viagens, Se, de alguns anos pra cá, o poder público não e exatamente uma novidade. Mas, as tem apertado o cerco contra o barulho ex- maneiras de como esse comportamento se cessivo que sempre caracterizou a atmos- manifesta pode traxer algo novo. fera festiva e artística da cidade, como res- Nas redes sociais, o CouchSurfing é um posta muitos lugares adotaram a estratégia exemplos de como os portadores desse “es- de manterem-se o mais low-profile possível, pírito de viajante” (ao invés de “turista”) fa- tanto para evitar a polícia quanto para bus-
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    barCElONa barCElONa car por meio da exclusividade um prestígio ainda maior nos círculos que visam conquistar. POst E é bom que se diga: esses círculos são cada vez mais restritos. Se, por um lado, é ótimo poder contar coisas que só você fez, por outro uma parte desse espíri- 15 19 jan MáGICA NÃO É SEGREDO – SEGREDO É O EXCLUSIVO. to tem se transformado em exclusivismo puro. Não estou falando dos lugares escondidos, que são uma delícia de procurar, mas daqueles que decidiram selecionar seus frequentadores, para que só alguns poucos “eleitos” tenham os privilégios que oferecem. Não adianta fingir que não Esses dias foram de muita caminhada no tempo todo. Ela me respondeu, para minha percebi e que tudo isso é normal: Barcelona, definitivamente, não é cidade pra “qualquer um” centro de Barcelona, com algumas desco- surpresa, que: também no sentido mais vulgar da expressão. Quero dizer que, pra aproveitar algumas atra- bertas interessantes. Uma delas foi essa loja “Sim, mudou. Pra melhor. O público de hoje ções, não basta dinheiro no bolso, tem que ter também “bala na agulha”. de artigos de Mágica, que existe há nada me- é muito mais bem informado, e isso trans- Se você quiser realmente sentir o que Barcelona tem de melhor, não pode, de maneira nenhu- nos que 130 anos! formou totalmente o mundo da mágica. ma, ser turista. Tem que ser, no mínimo, um explorador …e andar bem vestido. A casa foi fundada por um mágico e segue Antigamente, tinha uma mística do ‘segredo’, tocada por mágicos até hoje. Pensei: ótimo, como se tivesse quase uma paranormalida- aqui tem conteúdo pra eu extrair. Numa con- de no que era feito… então os mágicos não versa com a proprietária atual (no cargo há ensinavam a ninguém o que sabiam, tudo ti- 26 anos), eu ouvi o galo cantar quando per- nha que ser descoberto por conta própria, guntei se ela sentia que a relação do públi- porque senão eles estariam traindo a pro- co com a mágica tinha mudado muito nesse fissão. Hoje, o público sabe que não existe
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    barCElONa barCElONa ‘segredo’. Se ele quer descobrir como algo é pacidade de gasto suficiente para comprar POst feito, ele simplesmente vai à internet e, se for um Porshe. Não interessa muito se você re- esperto, descobre. Então não tem por que a almente tem esse dinheiro todo e comprou 16 19 jan ISSO NÃO NASCEU AGORA – PARTE 1: DO LIXO à MODA mágica seguir se alimentando do mistério da o carro ou se você ganhou num sorteio: o mesma maneira como fazia há tanto tempo. que importa é como as pessoas lêem o sinal Hoje, somos muito mais uma técnica. Fasci- que você manda quando gira a chave. Qual Mais uma vez, o colorido de uma vitrine cha- do lixo. Em Nova Iorque eu tinha conhecido nante, encantadora e misteriosa, mas uma seria, então, o sinal de distinção dos nossos mou minha atenção. Chamar é fácil, captu- o trabalho do Ggrippo, que ele mesmo cha- técnica. E é por nos assumirmos assim que tempos? Dinheiro para gastar? Corpos es- rar é que é difícil. Só que percebi que, nesse mava de Trash-à-Porter, e aqui dei de cara evoluímos tanto, deixando pra trás aquela culturais? caso, estava diante de uma proposta com com o que eles chamam de Trashion. O foco ideia de que ensinar e multiplicar a arte era No mundo do compartilhamento, o grande eco muito maior do que pensei de primeira, está em produzir bolsas, mochilas, sacolas, motivo de vergonha.” lance não é mais colecionar bens. É colecio- e quando me dei conta disso percebi que vá- pastas e carteiras a partir de cartazes de pu- nar histórias. rias observações que tinha feito se ligavam. blicidade. No seu site eles parecem gostar Realmente, esse tema do ‘segredo’ é muito Ter uma história pra contar significa acessar bastante do que fazem: mais interessante do que eu pensava no co- coisas a que nem todo mundo tem acesso, A loja se chama Vaho Works, e é mais um “No momento da despedida, logo antes de meço. Quando as redes sociais colocaram experimentá-las, e depois exibi-las, de pre- espaço dedicado a produzir moda a partir dizer adeus, os objetos e materiais que dis- nossas experiências e registros online, ex- ferência quando elas não podem mais ser plodiu um movimento que podemos chamar repetidas por outra pessoa. E é aí que o “se- de tudo, menos secreto. No máximo, quan- gredo” se reinventa. Se o imperativo é o con- do nos preocupamos um pouco mais com a trário de esconder, é contar, o grande lan- questão da privacidade, nos tornamos “dis- ce se torna “contar histórias secretas”. Mas cretos”, mas o próprio conceito por trás da como elas deixam de ser secretas assim que utilização da rede é o de “compartilhar”, dia- contamos, viram seu parente próximo, que metralmente oposto ao de esconder. Então vai mandar no mundo pelos próximos anos: eu comecei a me questionar e percebi uma o exclusivo. coisa… Prestem atenção nesse tema. Ele vai muito Quais são os elementos essenciais para que além do que a gente vê na primeira olhada. uma coisa confira status a quem a possui? Barcelona está sendo uma grande oportu- Um deles é ser raro, ou melhor, distintivo. nidade de descobrir e investigar como essa Algo pelo qual se possa reconhecer indícios tendência está modificando o comporta- de qualidades que você tenha. Ter um Por- mento em várias direções. she, por exemplo, indica que você tem ca-
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    barCElONa barCElONa pensamos suspiram, com a esperança de ressante: se o grande lance não é mais co- POst serem salvos. Todos merecem uma segunda lecionar bens, e sim colecionar histórias, ao chance, transformar-se para mostrar novas produzir bens a partir da transformação de 16 27 jan ISSO NÃO NASCEU AGORA – PARTE 2: DE ANTIGUIDADE utilidades ao mundo que os rejeitou. Ressus- materiais que já serviram a outra função, a A PAIXÃO DE JOVENS citar materiais e buscar tesouros perdidos grife passa a criar bens com histórias pra entre os desejos do progresso e da moderni- contar. Todas as bolsas tem umas história A Parte 1 desse post me leva diretamente ao jovens. Eles não têm dinheiro pra comprar, dade é parte do nosso trabalho. E nos diver- pregressa, o que é apenas mais uma maneira encontro que tive há dois dias com a dona de mas os olhos brilham quando vêem as coisas timos muito fazendo-o.” de dizer que não se originam como uma fo- uma loja de antiguidades chamada Anamor- aqui. E se você me pergunta se eu me pre- Se fosse só cool e divertido, a loja não dura- lha em branco na suas mãos. fose. Não era qualquer loja, essa era especia- ocupo com o fato deles não comprarem, eu lizada em antiguidades científicas e em tec- digo que não: mais importante do que saber nologia. Vejam o que ela me falou e juntem como está o negócio agora, é saber como ele com as fotos pra ver como tudo se encaixa. vai estar, e eu sei que esse interesse todo não - Antigamente, nossos clientes eram mu- é coisa passageira. seus, gente rica, e colecionadores. Agora, - Não te parece que isso é uma busca as pessoas ricas não compram mais anti- por entender de onde as coisas vieram? Por guidades, elas viajam, e o que mais me sur- exemplo, hoje a gente tem um iPod que faz preende é ver que uma parte muito grande de tudo mas não fazemos a menor ideia de dos frequentadores da loja passou a ser de como ele funciona. Quando a gente entra na sua loja, pode enxergar a ideia por trás de ria o tempo que dura. Existe algo mais então. cada coisinha, ver um cinematógrafo e enten- Ok, a questão da reciclagem, da reutilização der como se gravam imagens em movimen- e revalorização dos objetos, com certeza to, olhar aquela primeira máquina falante do tem um peso enorme para o sucesso da mar- mundo [sim, leitores, ela tem uma versão da ca, e é o eixo central do conceito inteiro. Mas invenção do Thomas Edison] e pensar como ainda assim, tem algo mais… e é esse algo é é que isso acontece. O iPod é como que algo simples: parido na nossa mão. Isso aqui vem de muito Não existe peça repetida. Todas são únicas e antes, tem uma história, e conta muito mais você sai com a certeza de que comprou algo sobre como as coisas funcionam. que só você vai ter… - Exatamente. Sabe o que eu penso disso É o exclusivo sobre o qual falei no post an- tudo? Que esses jovens vão ter as novidades terior, aplicado de uma maneira muito inte- para usá-las, e as minhas coisas para vivê-las.
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    barCElONa barCElONa POst 17 19 jan SE VIRA NOS 20 – DEGUSTAÇÃO DE IDEIAS NO PECHA-KUCHA NIGHTS (Esboço de cartoon gentilmente cedido por Drew Dernavich, um dos cartunistas que participaram do Nib and Pick – Fisticuffs, de que falei num post um pouco mais antigo) Não preciso dizer mais nada. Em duas tarde eu vi o espírito do “Know your own stuff” se Que cada vez mais a vida nos obriga a ser nês para algo como “conversa casual” (chit mesclar com o exclusivismo numa proposta concisos todo mundo sabe (o que falar dos chat). A ideia aqui é criar um evento onde as afinada com a busca por sustentabilidade; 140 caracteres?). Ao mesmo tempo, po- pessoas possam expor seus trabalhos ou his- um movimento de perda de clientes que dei- rém, seguimos nos esforçando para colocar tórias de uma maneira muito simples, quase xaram, dessa vez literalmente, de colecionar cada vez mais conteúdo nas mensagens que no tom de numa conversa de elevador, para bens para viajar e colecionar histórias; e o transmitimos para que elas possam ir além que a platéia esteja sempre com um nível de surgimento de um novo mercado para uma do mero papel informativo, e isso não é no- atenção sempre muito alto. E para isso cria- velha oferta baseado justamente na busca vidade também. Aí fica mais claro então por ram o formato do 20×20: Cada apresenta- por entender de onde vem as suas coisas que o conceito do Pecha-Kucha é tão inte- ção só pode usar, no máximo, 20 imagens, através da história das ideias por trás delas. ressante. as quais serão projetadas por exatamente Acho que está bom por hoje, não tá não? Originalmente, Pecha-Kucha é o termo japo- 20 segundos cada. E não tem conversa: elas
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    barCElONa barCElONa passam automaticamente, sem possibilida- De fato, já houve apresentações sobre via- de de chatear com o velho “volta no slide gens, impressões, sentimentos, e até mesmo anterior um pouquinho pra eu explicar me- a filha de uma das criadoras do evento, de lhor isso…” 5 anos de idade, já apresentou sobre um de seus trabalhos de escola. Isso é um enorme Esse esforço de síntese fez muita gente com- incentivo à criatividade e à ousadia daqueles crescer ainda muito mais. No site oficial do parar os eventos com o TED – Ideas Worth que nunca tiveram espaço para expor, e abre projeto, que vale muito a pena e tem várias Spreading, em que grande nomes extrema- espaço para novas ideias saindo diretamen- apresentações pra ver, tem também o calen- mente influentes nas suas áreas são convida- te de quem as criou com a possibilidade de dário das próxima Pecha-Kucha Nights pelo dos a fazer a “fala das suas vidas” em, no má- conversar tête-à-tête com seus autores no mundo todo. Enquanto isso, fiquem com ximo, 18 minutos. Se a comparação é muita evento. essa apresentação de um artista chamado lisongeira, não tem a mesma medida de pre- Mateusz Staniewsk sobre como pintar com cisão, porque há uma diferença fundamental E pelo jeito como a casa estava ontem – luz na 10a edição de Barcelona (anterior à entre os dois: na Pecha-Kucha qualquer pes- evento lotou o teatro de uma antiga fábri- da noite de ontem) pra ter um gostinho de soa pode apresentar sobre qualquer tema, ca de cervejas de Barcelona, como podem como foi tudo. não só sobre o seu trabalho ou grande tema ver na foto aí em cima – pode-se dizer que de pesquisa da vida. e a tendência é que o movimento continue a
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    barCElONa barCElONa POst 18 19 jan SENTARTE – UM BAITA APERITIVO A ideia aqui é falar de tendências, e por ten- Pra quem não conhece, SWAB (cotonete, dência a gente entende o que ainda não é, em inglês) é uma grande mostra de arte mas vai ser. Esse sábado me deu então uma contemporânea que “absorve” (daí o nome) grande oportunidade de ver pra onde está 44 galerias de arte de toda Barcelona, e que indo uma parte da arte urbana através de esse ano acontecerá pela quarta vez entre uma ação chamada SentArte, que integra os os dias 26 e 29 de maio. Para a atividade seus modelos (o banco “Rail” e a cadeira das cidades. preparativos para a SWAB de 2011. desse sábado, a empresa de design de pro- “Nuit“) para que os um grande grupo de ar- Isso pra não falar na possibilidade de ver o dutos em madeira Concepta cedeu dois de tistas “swabbers” (nesse caso membros do trabalho acontecer ao vivo. Na verdade, eu coletivo Kognitif) interviessem e realizassem fiquei um tempo pensando em como clas- suas criações. Agora o mais legal: tudo isso sificar essa história… porque embora o cli- podia ser visto ao vivo, por quem quisesse, ma fosse totalmente de Vernissage – com na cobertura de um hotel, com direito a be- os artistas presentes, o público do meio, tal bidas, pãezinhos e até uma linguicinha pra -, o espaço abriu com um monte de obras completar o clima de churrasquinho na laje em branco. Lembrei daquela performance do evento. do Watch me Work, da Suzan-Lori Parks, de O SentArte é termômetro de como está cres- que falei aqui antes. cendo violentamente a arte urbana por todo É engraçado parar pra pensar no porquê de o mundo. Todo o mobiliário criado no dia estar crescendo tanto essa curiosidade em fará parte do SWAB Off, mostra que ocupará ver as coisas nascerem. Ninguém quer mais as ruas da cidade paralelamente às ativida- ver nada parido na sua mão. Eu já falava do des nas galerias. Mais do que um aperitivo espírito de saber de onde veio, mas tem gen- literal (a linguiça tava realmente muito boa!), te já além dessa onda, pra quem não basta o SentArte é também um aperitivo do que saber, tem que presenciar e ver. E isso está está acontecendo com a arte urbana, que botando uma parte do mundo das artes pra está ampliando muito o uso de diferentes se repensar e se reinventar mesmo. plataformas para além dos muros e paredes Vamos continuar de olho pra saber até onde.
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    barCElONa barCElONa POst 19 19 jan E SE… O FLAMENCO E A BOSSA-NOVA SE ENCONTRASSEM? – SARAVACALÉ! Até agora eu não tinha falado nada de mú- Já pensaram em misturar Flamenco com sica. Acho que foi bom… porque vou abrir o Bossa Nova? Elas já. Não vou mentir que tema com uma pérola sensacional, dessas quando conheci a percussionista da banda e que deixam a gente em polvorosa, ouvindo ela me falou do trabalho fiquei curioso mas maravilhado e se coçando todo pra espalhar ressabiado, sem conseguir imaginar como é a novidade. Na verdade são duas, e a primei- que faziam isso e com aquele medo de a pro- ra delas é o SaravaCalé. posta ser mais interessante do que frutífera. http://www.youtube.com/watch?v=3cA9kw8tmTM Me enganei completamente! O trabalho é da mais alta qualidade, com músicos e prin- cipalmente arranjos muito criativos. Melhor você mesmos escutarem pra depois a gente conversar. http://www.youtube.com/watch?v=R_t4nWgqdIg http://www.youtube.com/watch?v=rz3dg8viilE
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    barCElONa barCElONa POst 20 31 jan VOLTO Já, SÓ VOU ALI RAPIDINHO IMPRIMIR… MEU SAPATO! – IMPRES- SÃO 3D NA DISSENY HUB BARCELONA Nossa Senhora! Agora eu pirei! Primeiro olhem esse objetos aí embaixo: gia da “fabricação aditiva”. nho para que a imaginação humana concre- Pra quem já estudou Cálculo, posso dizer tize ideias que antes eram apenas concebí- que conceito é a explicação intuitiva de um veis, ou, no máximo, visualizáveis numa tela processo bem simples: a integração dupla. de computador. Pra os outros 99% que não fazem ideia do que eu acabei de dizer, a ideia é imprimir ca- Pra que vocês tenham ideia do que estou di- madas muito finas sequenciadas para poder zendo, vejam alguns das suas vantagens: colocá-las umas sobre as outras até que for- mem a figura tridimensional. Biologia (até agora estou boquiaberto com essa): Dá pra criar ou recompor tecidos hu- A questão aqui é que isso tudo é muito mais manos a partir dessa tecnologia! Um campo do que descolado ou “cool”: estamos dian- absolutamente alvissareiro na biotecnologia Vocês podiam dizer “que espremedor legal, que você tinha convidado, simplesmente te de uma tecnologia que pode revolucionar acaba de nascer. design bonitinho…”. Mas… e se eu contasse desse pra imprimir umas cadeiras a mais ali completamente a nossa maneira de criar ob- que eles foram todos… impressos? Isso mes- no quarto? Pois tem um monte de designers jetos! A grande maioria das máquinas que Culinária: sim, já existem trabalhos relaciona- mo: impressos em 3D!!! e engenheiros no mundo todo trabalhando criamos existem para substituir processos dos a imprimir comida também, utilizando Ah, vamos lá… todo mundo já teve von- pra que isso seja possível, e o Disseny Hub conhecidos (colar, recortar, unir, partir, mis- ingredientes como matéria prima. tade de tirar uma “xerox” de alguma coisa Barcelona (DHUB) organizou uma exposição turar, aquecer, esfriar….), mas existe um pe- Design de materiais: com a composição em em casa. Já pensou se naquela feijoada de permanente exatamente para disseminar as queno grupo daquelas máquinas que criam camadas adiciona-se material apenas onde domingo, quando chegasse mais gente do infinitas possibilidades abertas pela tecnolo- processos. A “fabricação aditiva” abre cami- ele é desejado. A criação de novos materiais
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    barCElONa barCElONa e tecnologias torna-se possível por meio de Esse post existe apenas para abrir o assunto. diferentes microestruturas internas. Tecnologia nenhuma pode ser chamada de Medicina: um das suas primeiras aplicações tendência: tendência é o tipo de comporta- (e até hoje a mais conhecida) foi a constru- mento que as pessoas passam a ter a partir ção de próteses sob medida para se inte- da sua utilização. Se agora, enquanto ainda grar perfeitamente à anatomia do paciente. é extremamente cara e restrita, a “impres- O mesmo acontece para o material esporti- são 3D” já está causando esse rebuliço todo, vo também. imagine quando se tornar acessível nas nos- sas casas… Artes plásticas: Todo um método de traba- lhar livremente a forma abre as portas agora.
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    barCElONa barCElONa ousadia era também resposta à desumaniza- Como qualquer grande ideia que se espalha, POst ção das grandes cidades, que perdiam cada muitos outros significados e proposições co- 21 01 fev vez mais suas cores em meio à selva de con- meçaram a se incorporar à atividade à medi- AGULHAS NA MÃO E MÃOS à OBRA – A “GUERRILHA DO CROCHÊ” VAI creto e aço em que se convertiam. Para além da que outros grupos começaram a praticá-la. TRANSFORMAR A SUA CIDADE da bela provocação, porém, Magda verda- Um deles, por exemplo, é o da incorporação deiramente acrescentou um novo material de um caráter mais feminino à dureza que ao mundo das artes urbanas. muitas vezes o grafitti carrega. Também não (Tree Cozy – Carol Hummel) A milhares de quilômetros da Espanha, do do isso com algumas pesquisas na internet, outro lado do oceano, uma árvore já tinha pude fazer um resumão da (até agora breve) chamado minha atenção em Williamsbourg história desse movimento. por estar envolvida com um peça de tricô, Tudo começou com uma americana cha- como que agasalhada do frio (olhem a foto mada Magda Sayeg, na pequena cidade de dela no meu último post de Nova Iorque). Austin, Texas. Em 2005, ela começou a levar Imaginem então a minha satisfação ao dar sua atividade de tricotar para as ruas, naqui- de cara, bem no meio de Barcelona, com lo que se tornaria um grande questionamen- nada menos que a “4a Guerrilha do Crochê“! to sobre o propósito meramente funcional a Bem ali, na minha frente, ao vivo! Juntan- que essa atividade tinha sido relegada. Sua (Knitta Bus Project – Knitta Please)
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    barCElONa barCElONa dá pra notar que, se a Magda Sayeg come- dar, se coçando toda pra participar de tudo Esse caráter coletivista eu pude ver in loco uma nova rede de amizades (com tempo pra çou sozinha, não foi assim tudo se espalhou isso? As chamadas especificam o tamanho na 4a Guerrilha do Crochê, que convocou conversar), interfere e reinventa o espaço pelo mundo: outro traço inegável é o viés das peças que cada um deve levar (às vezes seus membros a trazer peças apenas da cor urbano a partir do seu olhar e ainda ganha coletivista que a guerrilha ganhou. as cores também, dependendo do propósito verde, visando chamar a atenção para a fal- uma cacetada de sorrisos de quem passar Pra se ter uma ideia, o próprio termo guer- do dia), assim como o local e o horário do ta de áreas verdes em Barcelona. Dessa vez por perto. A dica está dada. Agulhas na mão rilha só surgiu depois, quando começaram a “ataque”. Chegando lá, todo mundo ajuda a eles se juntaram com um grupo de vizinhos e mãos à obra! surgir as “chamadas” pela internet para re- juntar tudo numa coisa só, enquanto quem que se reúnem do Bairro do Gótico para con- alização das ações. Já pararam pra pensar deixou pra tricotar na hora fica sentadinho versar toda terça-feira. Uma vez terminado, no trabalho que dá tricotar o suficiente pra aproveitando pra botar o assunto em dia o trabalho fica com esses vizinhos, numa cobrir uma ônibus? Por que fazer sozinho se (afinal de contas, tricotar sem jogar conversa maneira de garantir que não seja removido tem um monte de gente interessada em aju- fora é que nem sair no carnaval sem dançar). tão facilmente pela polícia. As edições anteriores da guerrilha em Bar- celona agasalharam a estátua do gato da Rambla de Raval, árvores e pés de bancos (a primeira delas, em agosto do ano passado). Para saber mais sobre essa proposta inova- dora e se inteirar sobre onde devem acon- tecer as próximas intervenções pelo mundo, visitem as páginas de alguns dos coletivos envolvidos nessa “batalha”. Alguns deles são realmente muito ativos, como o pessoal do Knit The City, de Londres. Também vale a pena se ligar no grupo canadense YarnBom- bing, no próprio KnittaPlease (da Magda Sayeg), sem falar na Olek, artista polonesa radicada em Nova Iorque do vídeo abaixo. Olha o que ela fez nessa véspera de natal com o Touro de Wall Street! Agora, bom mesmo é se vocês decidirem começar aí mesmo onde estiverem. É fácil, divertido, te ensina uma nova habilidade, cria
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    barCElONa barCElONa POst 22 02 fev #SHARING9 – LALAI ANIMA A FESTA NUM OCUPA EM BARCELONA ção e criar contatos que podem durar abre a partir de 2:30 ou 03:00 da manhã, pra para toda a vida. galera que já terminou a sua primeira festa Fui conhecer um deles, e conversei com e quer continuar. Autorização dada, marca- algumas pessoas. Mas foi quando fui falar mos a festa pra segunda-feira 31 de janeiro. com um dos brasileiros de lá que me deu O quê? Tipo, madrugada de segunda pra o “click”. Eu estava falando com ninguém terça? Sim, em Barcelona não tem dia ruim menos que o Nêgo Tema! MC no Rio de pra festa. Querem a prova? Vejam o vídeo lá Janeiro, ele foi morar em Barcelona já em cima. Era por volta das três e meia da tem algum tempo, e quando contei que manhã quando eu filmei. Eu passei um tempo me perguntando como lugar, é parte de um movimento maior que o Emicida foi o primeiro a participar do Valeu, Lalai! Com certeza você ajudou a me cumprir a missão do #Sharing9 com as músi- existe em toda a Europa pela ocupação dos #Sharing9, ele me abriu um sorrisão: os dar mais um momento pra recordar dessa cas que a Lalai escolheu pra mim. Não queria espaços abandonados e sua transformação dois se conhecem de longa data no Bra- viagem. Mais do que tudo, um momento pra fazer em qualquer lugar, pra uma galerinha em moradias ou em centros culturais. Na Es- sil, justamente das batalhas de MCs! Sa- dividir ao vivo com muita gente, e levar um no hostel ou só pra brasileiros… queria que panha e, particularmente, em Barcelona ele é bendo disso, o Tema abriu as portas do pouquinho do Brasil pra Espanha também. algumas pessoas de Barcelona mesmo sen- bem forte, e pode-se dizer que as ocupações Ocupa pra música da Lalai, e aproveitou Até a próxima! Por enquanto, deixo todos tissem o que ela preparou com tanto carinho são um dos maiores pontos de encontro a oportunidade pra mandar um “Salve!” vocês com o set list de um dos mixtapes que pra retribuir o que a cidade lhe deu quando para a comunidade artística, especialmente pro seu parceiro no Brasil. Emicida, essa tocaram na festa. esteve lá. Onde fazer a festa então? aqueles que vêm de outros países para é pra você. A resposta veio depois que conheci um dos agitar o meio cultural da cidade. É uma Esse Ocupa funciona como um After Club, Mixtape Lalai E Ola Pro Lucas Do @99novas lugares mais legais de Barcelona durante mi- grande chance de encontrar essa “máfia um tipo de lugar relativamente comum em #Sharing9 by I’M The Machine on Mixcloud nha estadia. Um sítio OCUPA. Não é só um criativa” no seu momento de descontra- Barcelona (porém muito escondido), que só Salve!
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    barCElONa barCElONa POst 23 03 fev COMENDO NO ESCURO – PERDIDOS EM TODOS OS SENTIDOS. Já cheguei em Milão, mas ainda tem uma exatamente esse: ser cego. Uma vez lá den- última coisa pra contar de Barcelona. Acon- tro, estamos no ambiente deles, tentando tece que na minha última noite eu tive uma encontrar pontos de referência nos nossos das melhores experiências gastronômicas da outros sentidos pra não nos sentir tão per- minha vida, num restaurante chamado “Dans didos. le Noir“, e não podia deixar de falar dela. Fui com uma amiga que disse logo na en- A comida chega, e fica aquela dúvida: talher trada que estava com fome, e recebeu já de ou mão? Eu, particularmente, não pensei cara um escalde do maitre: “você sabe que muito… afinal de contas, ninguém tá olhan- esse lugar é muito mais que comida, não do! Então mão mesmo. É a chance de co- sabe? Aqui não é só pra comer. É uma expe- mer como você nunca comeu, em todos os riência sensorial e social completa”. sentidos. É inevitável o impulso de comentar Pra encurtar a história, o esquema é o seguin- com o vizinho misterioso alguma coisa so- te: você chega no restaurante na hora mar- bre o prato. Tentar descobrir o que é, divi- cada, senta num lounge, os donos do lugar dir uma impressão, qualquer coisa. O escuro vêm, sentam com você, perguntam como também aproxima as pessoas, uma vez que do descobrir o que comemos. 90% das pes- tas, como eu bem entendi em Barcelona, o se tá tudo bem, batem um papo… tudo pra não temos tanta informação para julgá-las e soas erram. É batata. Com os vinhos então… que interessa não é o que você faz, mas a você sentir que a história é personalizada e diferenciá-las. nem se fala. É a prova derradeira de que, de- história que você conta. E nesse caso ela é que você não é só mais um. Depois reúnem Qualquer instrumento que faça luz, até mes- finitivamente, comemos com os olhos. muito mais interessante com o mistério do todos os clientes na frente de uma cortina mo relógio, está absolutamente proibido. O Como eu entendi bem o espírito da coisa, que com a resposta. preta e explicam uma vez só: da cortina pra tempo também é uma experiência relativi- percebi que, mesmo que ninguém diga nada, O jantar é no escuro. Esse post não podia ser lá, acabou a nossa visão. zável, conforme percebemos ao sair de lá e todo mundo sabe que o que comeu é segre- mais que uma silhueta. Vamos em fila, uns com as mãos nos om- nos darmos conta do quanto passamos lá do e não deve contar a ninguém. É tudo uma bros dos outros, liderados pelos garçons, ou dentro. questão de códigos. Manter o exclusivismo melhor, guias. Guias mesmo, porque um dos Aí vem a parte mais interessante: todos jun- da experiência, deixando que outros se sur- pré-requisitos para trabalhar nessa função é tos, sentados novamente no Lounge, tentan- preendam da mesma maneira. Afinal de con-
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    mIlÃO mIlÃO POst POst 24 04 fev UM POUQUINHO DE HUMOR PRA COMEÇAR NA CIDADE. 25 05 fev MERCADORES DE ATITUDES – AUTOSUFICIÊNCIA, TROCAS E DESPER- ALFREDO BRESCIA E SEUS PINTURAS VIGILANTES. DÍCIO ZERO. A passagem por Milão está só começando, e Sempre bato palma pra quem sabe colocar ainda preciso de mais um tempo pra come- um sorriso fácil no rosto de quem passa. çar a esboçar algumas impressões. Mas pelo É assim que o artista desarma o especta- menos posso dizer que essa pequena desco- dor, mostrando que às vezes uma ideia bem berta começou a quebrar um pouco do gelo simples pode marcar mais que um trabalho que o peso da tradição artística impõe sobre mega sofisticado. Em uma cidade tão cheia o lugar. Eu estava perto da Via Brera, lugar de obras clássicas e museus de peso como cheio de lojas de design e galerias de arte, Milão, me surpreende esse tipo de obra, que mas foi bem no meio da rua que encontrei adiciona uma aparência de Pop Art a ícones o artista Alfredo Brescia, e seu trabalho ao de quadrinhos italianos antigos (como o he- mesmo tempo simples e bem humorado. Só rói de azul que infelizmente esqueci o nome) dá pra entender vendo o vídeo, então se li- ao mesmo tempo em que nos remete àque- guem nos olhares. las figuras sinistras e soturnas de casarões Mais um dia em Milão, mais uma caminhada. liana que buscam viver em auto-suficiência. abandonados de filmes de terror ou dese- Dessa vez, meus olhos foram capturados em Não somos comerciantes porque não faze- nhos do Scooby-Doo. dois lugares. Essa é a fachada do primeiro mos isso buscando lucro, e sim para multipli- Como o cara é legal, me deu a dica de onde deles, que fica perto da Porta Genova. Você car essa postura, em que se produz o neces- encontrar trabalhos novos assim, e é pra lá entra tentando descobrir de que se trata, e sário e troca-se o excedente com outros que que eu vou amanhã procurar as tendências logo pensa, pela disposição das prateleiras, precisam dele. Todo mundo aqui é voluntá- e movimentos novos por aqui. Por hoje é só, que é uma loja de produtos naturais. Mas já rio, e esse é um espaço de troca em todos os mas se depender de gente feito ele, amanhã na primeira porta se estampa: não somos sentidos.” vai ter bem mais. comerciantes. Resolvi perguntar o que eram De fato, é um espaço de trocas. E não só de então. produtos, mas de ideias também. No dia se- “Somos pessoas interessadas em fortalecer guinte estava marcado um espetáculo gra- um tipo de atitude. Nesse caso a atitude dos tuito (se entendi bem, parecido com um pequenos produtores da realidade rural ita- stand-up comedy de protesto), sem contar http://www.youtube.com/watch?v=ASIF1-083ys
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    mIlÃO mIlÃO ocupados por carros e pessoas, usar os es- paços verticais pode ser a melhor maneira de trazer a natureza para os grandes cen- o pequeno acervo de livros que só podemos tein Veblen – mais estudado pelo mundo da tros urbanos. A diferença aqui é que esse, de levar pra casa se deixarmos algum outro em moda e pela teoria da marcas do que pelos acordo com o quadro a seu lado, é “o pri- seu lugar. Além do mais, sempre que um pro- seus colegas de profissão – dizia que, embo- meiro jardim vertical alimentado por ener- duto está à venda, tem o seu custo de pro- ra vivamos numa sociedade do desperdício, gia solar”, reduzindo ainda mais o uso de dução ao lado. não somos assim por natureza. Dedicou-se energia de fontes “desperdiçadoras”, que a Para um estudante de economia como eu, então a estudar como reorientar o homem produzem de maneira não-renovável e não isso tudo soa meio fora de tom e de tem- no sentido da eficiência não desperdiçado- sustentável. po (já se foi o tempo do escambo!). Para um ra que carrega dentro de si. Me parece que, Tudo isso não está aí à toa. Tem algo empur- “trend hunter”, porém, isso é um pouco mais no fundo, embora por um caminho diferente, rando as pessoas a repensar comportamen- compreensível, dentro de uma proposta que esse é o espírito por trás da ideia da auto- tos. E é esse algo que estou tentando desco- busca resgatar as origens das nossas ativi- suficiência. brir, pra tentar ver pra onde tão indo todas dades. Nessa viagem pode contar menos a O que nos leva… ao segundo lugar do dia! essas pessoas. semana de moda de Milão que o trabalho Quem acompanhou o blog enquanto eu es- de um artista marginal, de onde as grifes tava no Brasil sabe do que eu estou falan- vão tirar as ideias para a próxima coleção. do, mas pra quem não viu… aqui vai mais Coincidentemente ou não, uma das paredes um Jardim Vertical. E esse nem é do Patrick desse espaço falava exatamente disso. “Do Blanc, viu? diamante não nasce nada. Do estrume nas- cem as flores”. O conceito por trás desses jardins é que, Um grande economista chamado Thors- como os espaços horizontais estão todos
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    mIlÃO mIlÃO festival mais bombava! Pra ser bem sincero, banda de verdade tocar com aquela incon- POst 26 fiquei até meio sem graça de estar à paisa- fundível pegada de videogame no ar. na no meio dessa galera toda e tentei dar o 07 fev FESTIVAL DEL FUMETTO – OS QUADRINHOS GANHAM VIDA NO CEN- migué de fechar o casaco e botar os óculos Agora o que eu não conhecia e que fiquei TRO DE CONVENÇÕES DE MILÃO pra ver alguém acreditava que eu era o Har- encantado mesmo foi a febre dos Cuponk! ry Potter… mas perto dessa galera não colou O objetivo é encaixar uma bolinha de ping Quando vi o cartaz na rua anunciando que nesse final de semana o centro de convenções de muito não. pong no copo, só que é ela que tem que fa- Novegro sediaria um festival exclusivamente dedicado à cultura dos quadrinhos e games pen- Como o espaço era dividido principalmente zer todo o percurso da mão até o copo, ba- sei: Opa! Tá aí uma chance de ver como a galera da Itália se identifica com isso tudo, como se entre quadrinhos e games, a galera do inte- tendo e rebatendo em todos os lugares no envolve com essa cultura numa festa onde é permitido ser quem você quiser, encontrar pesso- rativo também pôde se esbaldar. Campeo- caminho. Esse stand estava lotado de gen- as igualmente fanáticas por algo, trocar informações e se divertir. nato de futebol com narração ao vivo e co- te tentando repetir alguma proeza como as mentários pertinentes foi só o começo. Pros desses caras aí. fãns do Guitar Hero (aqui escreve um deles) (P.S.: Cuponk é legal, but do you want the tinham a banda completa pra jogar todo real thing? Vejam esse malabarista, Tim No- mundo junto. Depos de cansar do jogo, a lan) gente podia dar uma pausa pra escutar uma E não deu outra. Todo mundo ali é apaixonado por algum desenho, e usa a oportunidade pra extravasar essa verve ao máximo. Os cosplays estavam perfeitos! Alguém aí nunca ouviu falar de cosplay? São as pessoas que se vestem como seus personagens favoritos, sejam eles de quadrinhos, games, filmes, livros, rpg, curtas e atualmente até hits do YouTube (afinal de con- tas, quem gosta de quadrinhos não gosta só de quadrinhos). Criatividade é o que não falta pra isso, e sendo em Milão, já era de se esperar que a produção dos figurinos fosse elaboradíssima. O resultado podia ser visto na “passarela do Cosplay”, onde aconteceu um campeonato de verdade pra escolher a melhor caracterização, nas categorias individual e coletiva. Era onde o
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    mIlÃO mIlÃO Como cada lugar tem o seus favoritos regio- POst nais, aqui não podia ser diferente. Confesso 27 08 fev NEM CACHIMBO, NEM SEMENTE DE GIRASSOL – OS ITALIANOS DO IO- que me senti meio que (muito) velho quando vi que Cavaleiros do Zodíaco eram só bone- COSE PROVOCAM MAIS UMA VEZ. quinhos relegados à uma pequena prateleira e Dragon Ball Z não era nem mais parte do Chegando em Milão fiquei sabendo de um o máximo possível com sementes reais. Ori- vocabulário. O que empolga mesmo na Itá- coletivo italiano chamado IOCOSE. Embora ginalmente, a intenção do artista era refletir lia no momento não é outra coisa: NARUTO. realizem a maioria de suas ações por aqui, sobre a questão da escala industrial do fe- Quando o apresentador do consurso come- foi na Tate Gallery de Londres, no último dia nômeno do “made-in-china”, afinal de con- çou a citar desenhos pra ver a empolgação 31 de janeiro, que eles atuaram pela última tas, todas as sementes foram feitas na China da galera, parecia que estava no Rio falando vez, por cima da obra “Sunflower Seeds”, de pelas mãos de artesãos cuidadosos que as “Botafogo. Vasco. Fluminense. América”… Ai Weiwei. A intervenção foi batizada, muito pintaram e esculpiram uma por uma. Mas o até o momento de explodir o lugar chaman- apropriadamente, “Sunflower Seeds on Sun- IOCOSE viu mais que isso. do “Flamengo”! É nesse nível que o Naruto flower Seeds”. tá com o público italiano. Pra encerrar, decidi me aventurar numa aula de japonês nível básico. Só esqueci que era uma aula de japonês em italiano… porque o negócio é se jogar. Por ora me despeço dei- xando vocês com mais algumas fotos da fei- ra, principalmente dos cosplay mais incríveis que já vi (incluindo os vencedores do dia). Quem quiser saber mais sobre quadrinhos, tiras e cartoons pode visitar o blog HQ Fan, em português, onde tem muito material in- teressante. A obra inicial consistia em preencher com- Focando na declaração de Ai Weiwei de pletamente uma parte do hall da galeria com que “o que você vê não é o que você vê, milhões de sementes de girassol, todas feitas e o que você vê não é o que significa”, os de porcelana e pintadas à mão para parecer quatro rapazes se encaminharam à galeria,
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    mIlÃO mIlÃO dizer que não mudou nada: enquanto obra de arte ela mudou porque o processo dela mudou. A ponto de ganhar uma placa nova na entrada (com aprovação do artista chinês e tudo, diga-se de passagem!). Um post inteiro pra só pra dizer que “arte não é só resultado, é processo”? Sim. E tem uma razão pra isso. A gente percebe ao longo da viagem que tendências de verda- de não se restringem a um campo só, elas transbordam pra todos os lados. E essa de- claração banal é o eixo orientador da ten- dência sobre a qual escrevo no próximo post de amanhã (meu aniversário), em que uso como referência as discussões sobre o devidamente munidos de estilingues e um (Isto não é um cachimbo) futuro do design para mostrar como ele é monte de sementes de girassol verdadeiras Aparentemente contraditória (como assim o melhor exemplo do maior movimento que que compraram na vendinha do lado. Uma isso não é um cachimbo?), a frase é verda- vi até agora por todos os lugares por onde vez de frente pra obra, começaram a atirar deira por motivos óbvios: não é um cachim- passei. Até amanhã então! suas sementes nas de porcelana que já es- bo, é um desenho. Na obra do Ai Weiwei (Agradecimentos especiais à Anna Triboli, tavam lá, e completaram a ação trocando a também: nenhuma das peças são sementes que conheci em Barcelona e que mostrou o placa do hall por uma nova que dizia “IOCO- de girassol, são porcelana. Mas e o IOCOSE? IOCOSE. Ela escreve para o Pop-Up City e SE: Sunflower Seeds on Sunflower Seeds”, Depois que eles atiraram lá, alguma semen- para o The G. Canyon in a Crack, seu blog reivindicando sua autoria. tes passaram a ser, de fato, de girassol. E aí? pessoal.) Reboliço passado, o grupo mandou uma Como fica? Muda alguma coisa? mensagem dizendo que a obra continua A questão realmente importante aqui, a meu igual, pois as sementes reais e falsas são in- ver, é que existe uma diferença muito gran- distinguíveis entre si. O que raios eles que- de entre ver o objeto terminado e conhecer rem com essa ação então? Como quase o processo até ele ficar pronto. Olhem pra nada nesse mundo é original, vamos lembrar instalação do chinês antes e depois do dia de Magritte pra entender isso, com uma pro- 31: não mudou nada. Mas se escutarem a his- vocação que ele fez século passado. tória da interferência italiana não têm como
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    mIlÃO mIlÃO de algo, buscando cumprir um objetivo. POst O ponto é que esse objetivo muda o tempo Mas… e se a redução de esforço deixasse de 28 09 fev O DESIGN MOSTRA A QUE VEIO – PARTE 1 (“DO SOMETHING”, BUT DO todo. Vamos a alguns exemplos pra mostrar ser um objetivo? É isso que está acontecen- como a observação do design nos permite do exatamente agora em muitos lugares do IT “OLD FASHIONED”) ver não só o resultado do seu trabalho, mas mundo! Cresce cada vez mais a percepção sua origem, e como ela reflete o seu tempo. de que o movimento em direção ao mínimo Nessa fonte inesgotável de frases de efeito Começando didaticamente pelo começo, Com certeza alguém aí já ouviu falar em de- de esforço e ao máximo de conforto criou que é o twitter, encontrei uma que dizia que responder “o que é design?” já parece difícil sign para reduzir os obstáculos na vida de uma humanidade sedentária e doente. E aí, “o que a gente não entende pode significar porque muitas vezes os designers preferem comunidades. Um bom exemplo desse mo- como fica a ergonomia do Q-Drum? qualquer coisa”. Como estou prestes a escre- dizer o que ele não é em vez do que ele é vimento é o trabalho do Design for the other Para incorporar os novos objetivos que esse ver sobre um mundo que não domino com de fato. Mas pelo menos em uma coisa eles 90%, que, a partir da constatação da difi- movimento põe na mesa, surgem projetos culdade das pessoas em coletar água muito onde a experiência do usuário inclua algum longe de suas casas e voltar com os baldes esforço, por mais simbólico que seja, ou ao cheios na cabeça, projetou um recipiente menos alguma interação mais ativa na sua de forma muito simples para facilitar o pro- interface com o objeto projetado. E aí come- cesso: uma rosquinha. As pessoas enchem a ça a ficar interessante mesmo, porque movi- rosquinha (batizada Q-Drum) com água na mentos afins começam a se encontrar… fonte, e depois, simplesmente, rolam ela de Por exemplo: existe um certo fetiche no ar volta pra casa com uma corda, sem ter que pela sensação táctil, pelas interfaces antigas carregar peso nenhum. Seguramente o obje- (como o livro, o vinil, as máquinas fotográ- tivo funcional da redução do esforço desne- ficas de filme…), pela moda vintage (o que cessário foi atingido. mais tem em Barcelona, por exemplo, é loja retrô e de roupas de segunda mão), pelo tra- a pretensão de dizer alguma coisa sobre o parecem concordar: design é projeto. Eu balho feito à mão, entre outros. Quando o seu futuro, fiquei um pouco intimidado, não adicionaria que é comunicação, então terí- espírito do “do something” no design encon- vou mentir. Mas o negócio é dar a cara a amos que o designer, a partir de uma pro- tra o nicho de resistência às novas interfaces tapa mesmo e arriscar tentando acertar, en- posta, projeta formas e cores pra que o seu tecnológicas cada vez menos tácteis, sur- tão aqui vai o resultado da minha pequena trabalho expresse, por meio da experiência gem coisas como o presente de aniversário incursão no mundo do design em Milão pra do usuário, exatamente o que essa proposta que ganhei de um designer italiano ontem: mostrar como ele reflete muitíssimo bem as quer dizer. Acho que assim fica claro que ele meu “facebook” manual personalizado! tendências que estou observando por aqui. não existe no vácuo: está sempre a serviço
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    mIlÃO mIlÃO POst 29 10 fev O DESIGN MOSTRA A QUE VEIO – PARTE 2 (FUNCOOLDESIGN) Estou falando aqui de objetivos do design, mais com os olhos de um curioso que procu- das suas transformações recentes e de que ra algum lampejo interessante do que com a tipo de movimento está tomando conta pretensão de sair de lá conhecedor de qual- dele agora. Em posts mais antigos também quer coisa. Devo dizer então que a visita foi já falei do “know your own stuff” spirit, essa muito proveitosa. A primeira exposição se sensação de incômodo com a maneira as- chamava, vejam que curioso, FunCoolDe- Como toda pequena grande ideia, a propos- dali a pouco, em vinte minutinhos, chegar séptica com que muitos produtos chegam sign, e decretava que o design da maneira ta é simples: para lembrar de alguém que em casa pra adicioná-la “de verdade”? nas nossas mãos, refletindo-se diretamente como o conhecemos, associado à harmonia conhecemos, desenhamos um ou dois tra- Embora eu pudesse passar horas falando de numa busca por conhecer as origens do que de forma e função, não existe mais. Ele esta- ços que mais nos marcaram e escrevemos outros movimentos no design, como o Total adquirimos. Chegou a hora de juntar os dois. ria progressivamente perdendo sua relação embaixo o que mais nos interessa: frases, Experience Design, e de como isso se con- impressões e informações de contato (até funde com o marketing empresarial (caso de mesmo o facebook de verdade se quiser- uma companhia aérea que encomendou um mos). É fácil de carregar, confortável, útil… projeto que abarcasse absolutamente TUDO tudo que um smartphone é, e ainda funciona da experiência do usuário, para que TUDO, como “base de dados para reconhecimento desde a compra da passagem, passando de imagem” quando temos aquela sensação pela chegada no aeroporto, embarque, co- de que “eu te conheço, mas não lembro de mida no avião, retirada de bagagem, entrada onde…”. O ponto mais importante, no en- na cidade, e até atendimento ao consumidor, tanto, é a questão de nos colocar no papel refletisse a ideia que a empresa queria pas- ativo de criar informações de contato, per- sar de si mesma, o conceito que queria dar sonalizadas, em vez de encontrá-las prontas para a marca), acho que já é hora de focar no quando se digita um nome num campo de que realmente interessa. Foi o que fiz depois de visitar o prédio da com os fins em favor dos meios, um traço tí- busca. Afinal de contas, pra que tanta pres- O movimento mais relevante vai estar na Trienal de Design de Milão. Fui dar uma con- pico da tal pós-modernidade que os teóricos sa de adicionar alguém se podemos guardar Parte 2 desse post, que vai ser publicado as- ferida no que estava acontecendo, muito costumam chamar de “mediocridade”. impressões mais interessantes e pessoais e sim que eu voltar pro hostel mais tarde.
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    mIlÃO mIlÃO Mas como é que se percebe isso? Na expo- clientes. Esse é um ponto central do Fun- riso de “nossa, que sacada!” no rosto dele. lor cada vez maior dado aos processos em sição Graphic Design Worlds, por exemplo, CoolDesign: ele está perdendo sua vocação A ideia vale mais que as qualidades intrínse- relação às obras terminadas, e acho que é o havia um espaço para assistir entrevistas funcional e se transformando num promotor cas do objeto. Prestem atenção porque isso mais longe que posso chegar com meus par- gravadas com os expositores onde se podia de vendas, algo que adiciona valor a uma não é banal. O que é a ação do IOCOSE dois cos conhecimentos de design sem começar vê-los respondendo perguntas como “qual marca. O design passa a ser compreendido posts atrás senão isso? Tanto é assim que o a me meter a galo cego por aí. Quem qui- o futuro do design gráfico?”, e algumas das cada vez mais como parte e parcela do que trabalho não morre na obra: tem que virar ser saber mais, pode mandar um email pra respostas eram particularmente importan- é “estiloso”, aproximando-se muito mais da vídeo (e espetáculo) pra mostrar o processo minha amiga designer Maira Moura Miranda tes. Um dos entrevistados chegou a declarar moda do que de suas proposições originais. e o trajeto da ideia. (mairamouramiranda@gmail.com), sem a que o grande papel desse campo atualmen- Dessa forma chegamos ao ponto de que, se Dei uma volta enorme pra chegar onde que- qual esses posts teriam sido impossíveis. Va- ro, mas cheguei. Esse é o ponto em que o leu, Mamá! novo movimento do design serve para ilus- trar a valorização das ideias surpreendentes e divertidas, enquanto o afã de compreender a origem do que adquirimos nos impulsiona a conhecer a trajetória dessas ideias e gran- des sacadas. Tudo isso junto resulta num va- te é atrair a atenção pra algo que alguém antigamente centros como o Bauhaus pri- quer comunicar, enquanto outro expositor mavam pela elegância da funcionalidade, defendia que a maior meta que a disciplina hoje a característica que mais se almeja para pode almejar hoje, para além da resposta en- um projeto é a da “sacação”, isto é, a de ga- comendada pelos clientes, é a de adicionar rantir o seu caráter de algo cool, diferente ou comentários, ironia ou humor ao trabalho. inédito através de uma ideia “fora da caixa”, de preferência divertida, que vai ser associa- Se ironia, comentário e humor são meios, da a ele. temos que as finalidades estão sumindo ou Em poucas palavras, a questão é surpreen- se convertendo apenas nos interesses dos der o usuário, e nada vale mais do que o sor-
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    mIlÃO mIlÃO faz um livro novo com os pedaços que so- como se unem os grupos de folhas, que tipo POst braram. de material se usa para cada tipo de enca- 30 11 fev Como alguém que trabalha numa editora de- dernação, como as capas-duras são fixadas DESTRUINDO LIVROS PRA ENTENDÊ-LOS AO CONTRáRIO E #SHA- cide fazer uma coisa dessas? Fui lá conferir, no corpo do livro… e só aí cada um começa RING9 – CAMISETERIA DE PRESENTE PRA PIETRO E ILARIA e vi que a ideia é bem legal mesmo. Em pri- a desfazer o seu, como se desmontássemos meiro lugar, sim: destruir dá mesmo um pra- uma máquina de lavar pra entender como Em meus últimos dias em Milão conheci problema (problema?) é que o espaço deu zer imenso, e parte da justificativa para fazer ela funciona. Uma vez separadas as folhas muita gente, mas com certeza foram Ilaria e tão certo (afinal de contas, é um dos únicos isso com os títulos antigos é justamente dar (e tenho que admitir que usar um ralador de Pietro que me capturaram mais. Eu poderia em Milão onde pode-se encontrar livros bons uma “refrescada” na cabeça… Mas se fosse queijo pra isso foi surpreendente), as junta- escrever dois ou três posts só sobre o que de arte contemporânea e design em alguma eles tinham pra me mostrar e mais um pra outra língua que não italiano) que quando contar que foram eles que levaram o presen- acabou o prazo ninguém queria mais que ele te do #sharing9 na Itália, mas como o tempo fechasse. Foi aí que mudou o nome de 121 é curto, vou condensar tudo num só e tentar para “121+: livraria extemporânea”, e seguiu dar esse gostinho pra vocês. adiante com suas atividades. Cheguei até Ilaria por indicação de Anna Uma delas foi criada justamente pelo Pietro só isso seria meio besta. A questão toda é mos novamente para compor algumas pági- Triboli, blogueira que conheci em Barcelona (marido de Ilaria). Um ano atrás, ele tinha que há uma metodologia da destruição: na nas enormes. Ainda temos que aprender a enquanto cobríamos a ação da Guerrilha do sido convidado a realizar alguma ação com verdade, não é exatamente destruir… é des- usar uma agulha pra costurar tudo, mas, com Crochê. Ela trabalha numa livraria chamada livros antigos para a ArteLivro, feira especia- montar. muitas mãos trabalhando juntas, fica muito 121+, que tinha a proposta de ser a primeira lizada em livros de arte na Itália. Foi aí que rápido. livraria temporária de Milão, inaugurada com ele veio com uma ideia nada convencional: Antes de se entregar ao prazer da tarefa, Pie- data certa pra fechar, 121 dias depois. O único - Já sei! Vamos destruí-los! Depois a gente tro explica como é a estrutura de cada livro, Eu tinha falado, uns dois posts antes, de uma
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    mIlÃO mIlÃO frase que diz que “o que a gente não conhe- da editora Corraini é que é o exemplo, a par- menos que Wilson (do Náufrago) tocando violão. Do jeito que pode. Foi também um agradecimento ce pode significar qualquer coisa”, e, a meu tir da criação de iniciativas como a Sedicesi- pelo presente que ele tinha me dado, o meu “facebook” manual personalizado, de que falei aqui tam- ver, esse é o espírito por trás do workshop: mo (uma revista mensal em que cada edição bém. Valeu, Camiseteria! uma vez que a gente entende como um livro é de delegada completamente a um artista Saí de lá com uma certeza só: a questão toda é conteúdo. Se tiver, ótimo, é só aproveitar a forma da é feito, passa a dar mais valor a ele, é como diferente, com total liberdade de pauta, esti- melhor maneira possível. Se não tiver… só lamento, não vai ter forma nenhuma que te mantenha de pé. se ele ganhasse um conteúdo a mais quan- lo, o que quiser). Ele tem 16 páginas pra usar Agora tchau, Milão! Paris já tá na área do o olhamos (a forma) e isso nos aproxima e pronto. O leitor pode amar uma edição e muito mais do que poderíamos pensar que detestar a outra, mas a questão é fazer dos a ideia da destruição poderia afastar. Por livros plataformas mais livres e capazes de mais estranho que seja, destruindo uma obra tratar com criatividade visual conteúdos que Pietro ajuda a impedir que ela perca seu pú- não podia tratar sem essa liberdade. Sem blico, muitas vezes iludido por um discurso perder o prazer, a calma e o isolamento con- que decreta a morte do livro com a mesma templativo que só um livro pode dar. frequência com que se decreta a morte da pintura e ela continua no mundo todo. E foi pensando nesse prazer solitário que dei Assim como a pintura se reinventa e segue, o de presente ao Pietro a camisa da Camisete- livro só vai morrer se não souber se reinven- ria. A estampa se chama “…Lonely People” tar. Se o workshop é um chamariz, a prática como na música dos Beatles, e traz ninguém
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    ParIs ParIs O Rafael começou já bem cedo a desenhar, za que muita gente vai se importar menos POst criança mesmo. Influência familiar da avó com a demora do pedido se o quadro estiver 31 11 fev (pintora também)? Talvez, como ele mesmo por lá. #SHARING9 – PARIS – RAPHAEL SONSINO admite. Mas suas linhas são absolutamente distintas. Suas ilustrações são fruto de um Mais trabalhos dele: processo natural de expressão que na maio- gente pega na primeira olhada. Faz tanto pe- quenos trabalhos, como o que estou levando pra Paris, quanto grandes murais, como esse aí em baixo: Dando prosseguimento à busca por 9 pre- sentes pras 9 cidades, fui visitar o artista ilustrador Raphael Sonsino. Rapaz… que vi- sita foi essa??? Eu sei que tô aqui pra falar do cara, mas a vó dele é tão incrível que eu Vejam aqui o momento em que ele me en- fiquei dividido hehehe. Nossa… ela tinha pre- tregou o presente: ria das vezes não é projetado antes: ele se parado doces de chocolate, rechados de tru- coloca na frente do papel, começa e deixa o fa e envolvidos em marzipan, biscoitinhos e desenho tomar o rumo do que está se me- minitortelettes de nozes e ainda tinha esfiha xendo na sua cabeça naquele momento. O e salgadinhos pra oferecer. Me ganhou fácil! resultado final é uma obra com várias pos- sibilidades de leitura, mas todas com uma Mas enfim, voltando ao Sonsino… ele faz um mesma força que advém desse momento trabalho de ilustração muito bom mesmo! criativo. Para saber mais e entrar em contato, acesse: Tem um traço muito característico que suge- Minha missão é levar o quadro pra um bar, http://www.sonsino.com.br/ re muito mais significados do que os que a restaurante ou café em Paris. Tenham certe- @Sonsart
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    ParIs ParIs Na verdade ele é introdução pro de amanhã, POst que vai falar de um tipo de iniciativa que ab- 32 11 fev sorve os elementos da inovação tecnológi- INTRODUZINDO PARIS POR SEUS ARTISTAS DE RUA – ca e da interatividade pra propor um com- SÓ PRA COMEÇAR. portamento completamente novo frente ao espaço da cidade e reinventar a relação de Assim como em Milão, a primeira coisa que veitem pra dar uma olhada no que aconte- cada um com ela. É muito interessante mes- a gente nota quando sai na rua são os seus ceu quando um casal que estava assistindo mo! Mas podem deixar que isso eu conto em artistas. Afinal de contas, eles que dão vida a apresentação se empolgou e decidiu co- todos os detalhes amanhã. a esses espaços e capturam nosso olhar pra meçar a dançar também. Eles realmente não outro jeito de usá-los. Se o primeiro dia for eram contratados pela banda (tanto que no Esse aqui também é mais um transformando num final de semana em Paris então… a ofer- final foram até dar cartãozinho pra banda um espaço, nesse caso o chão, em algo mais. ta é inesgotável. pra tentar fazer algum coisa juntos). Eram, Pra começar, saindo do hostel e virando a até então, meros passantes que gostaram Pequeno desse jeito, podem até pensar esquina eu já dou de cara com essa banda do que ouviram e decidiram ir um pouco que esse post é da categoria”encher lingui- maravilhosa tocando ao vivo numa pracinha. além da admiração contemplativa, somando ça” por falta de assunto, mas não é o caso. Falar que a música é boa é uma coisa, mas um pouco da sua arte àquela apresentação e colocar pra escutar é melhor. Então apro- criando quase um flash mob pessoal.
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    ParIs ParIs essa sensação de virar “dono da cidade” que POst cresce cada vez mais por todos os cantos. 33 11 fev Se a gente olhar direitinho, vai ver que tem “OWN YOUR CITY” POR ONDE PASSAR E SEJA DONO DE TODO LUGAR. um monte de outras iniciativas seguindo esse mesmo caminho É o caso do Chromaroma, por exemplo. Imaginem que andar de me- Todo mundo fala de Paris como a cidade do às 19h dos dia 14, um grupo de pessoas par- trô pudesse se transformar num jogo onde amor, então era de se esperar que no dia de tiu da Île de Saint Louis para fazer a pé um cada estação conquistada te desse pontos e São Valentin (dia dos namorados!) algo de percurso em forma de coração pelas ruas de destravasse novas informações sobre luga- muito bom acontecesse aqui, certo? Certís- Paris. Durante o trajeto, elas deveriam procu- res por onde você passa. Juntem isso com a simo: a agência Sans Interdit Arts organi- rar os sinais que ajudariam a encontrar nas possibilidade de criar uma equipe para ver- zou um evento que une numa mesma ação vitrines das lojas, farmácias e cafés as obras dadeiramente competir pra ver quem con- a divulgação de artistas pouco conhecidos visuais do grupo de artistas franceses que quista mais localizações pela cidade. Agora ou à margem do grande circuito, um passeio integraram o projeto. Boa parte dos traba- eu já posso contar que isso é exatamente o agradabilíssimo para os casais pelo centro lhos era de pinturas e ilustrações, mas tam- que está acontecendo em Londres. de Paris e uma proposta de interação com bém podia-se achar fotografia e até moda o espaço urbano muito legal. Tudo isso foi via personalização de tênis – sempre com A ideia é simples: cada vez que o passageiro chamado de “Paris, Je t’aime = parcours ar- alguma temática relacionada ao “dia dos chega em uma estação, ele usa o seu cartão tistique en forme de couer”. amantes”. de transporte público para passar pela ca- traca, certo? Isso gera um registro no siste- ma do jogo, e a partir desse momento o seu Pra quem está apaixonado tudo isso já é trajeto passa a ser monitorado até o próximo maravilhoso! Mas tem ainda um outro pon- ponto onde ele utilizar o cartão. Quando ele to ainda mais interessante sobre isso tudo. chegar em casa (e se tiver um smartphone Se passear bem acompanhado pelo centro nem precisa disso), seu percurso já vai es- apreciando o olhar de outras pessoas sobre tar disponível para visualização online, e vai o grande tema da noite já é legal, fica ainda ser baseado no tipo de deslocamento que mais com a sensação da busca, como se es- ele teve pela cidade que serão destravados tivéssemos fazendo uma verdadeira explora- os extras que o jogo oferece, desde histórias ção pela cidade atrás de pequenos tesouros sobre cada local até mesmo algumas “mis- que só quem olha com cuidado encontra. É sões”, que têm de ser realizadas sempre em
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    ParIs ParIs determinado espaço de tempo em um de- teração com o espaço urbano, partindo das dência tecnológica (o que existe é inovação É aí que a gente vê que tudo se amarra, e que terminado lugar e, pelo menos pra mim, são possibilidades que a tecnologia oferece para tecnológica estimulando ou fortacelendo exemplos como o daquele bar de Barcelona a melhor parte do jogo. estimular novos comportamentos a partir da comportamentos), e se eu acho interessan- – que na verdade era sede de uma agência de interatividade digital. A ideia do “play the te falar do “Paris je t’aime” e do “Chroma- viagens que oferecia passeios não turísticos, No blog do pop-up-city eu fiquei sabendo city as you travel” tanto aumenta a experiên- roma” é porque a ideia do “own your city” é dava aulas de drinks e às vezes até ensinava até que uma delas abre toda uma série de cia de uma viagem cotidiana quanto estimu- um ponto fortíssimo para os próximos anos. a fazer comida catalã – não são pontos tão outras missões relacionada aos lugares mal la uma atitude exploratória que pode levar o É o que permite evitar a sensação de peixe fora da curva assim. Quem percebeu que o assombrados de Londres, e só dá os pontos usuário à descoberta de lugares que talvez fora d’água que só repete trajetos que todos grande trunfo é fazer o visitante se sentir um ao jogador se ele aparecer nas as estações nem sequer soubesse que existiam, e isso é já fizeram pelas vias que todos já conhecem. explorador está no conjunto dos pontos que onde isso acontece entre 11 da noite e uma o grande trunfo da história toda. Se você é “dono” de um lugar, escolhe o ca- entenderam o desenho que a curva ainda vai da manhã, dentro do prazo que o jogo de- minho que quiser, e pode decidir qual é a ter e começaram eles mesmos a desenhá-la. termina. melhor maneira pra desenhar a sua própria “trajetória”, para que ela tenha a “sua cara”. Em outras palavras, se, como eu escrevi aqui (Perceberam agora o sentido simbólico de antes, a grande questão é mesmo colecionar ter a sua trajetória traçada nos mapas inte- histórias e ter sempre cada vez mais “exclu- Como se pode ver, não estamos falando só Eu não estaria falando disso se não pensasse rativos do metrô?) sividades pra compartilhar”, não tem como de uma diversão a mais para o passageiro que é mais do que uma “legalzisse”. Eu já dis- escapar. Definitivamente, o Own your city habitual, mas de uma nova alternativa de in- se aqui que não existe essa história de ten- chegou pra ficar.
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    ParIs ParIs Um pouco bizarro, não? Eu também pensei to é uma das coisas mais corta-tesão que POst nisso, mas depois que comecei a olhar os existem, então não dá pra ignorar o esforço 34 15 fev desenhos e ver as sacadas geniais do cara, hercúleo que é transformar esse jegue em UMA MORTE POR DIA – ESSA VIAGEM SÓ SE FAZ UMA VEZ. me lembrei que humor realmente não deve alazão, utilizando-se do tema da morte como ter limites nunca. Pra falar a verdade, essa plataforma pra uma obra que faz sorrir. história de misturar temas pesados com um (Morte de Dorothy Height, integrante histórica do movimento dos direitos No vídeo pra ganhar o concurso eu já tinha falado que uma caminhada no parque pode te tom extremamente “soft” tá meio em voga civis, ao lado de Martin Luther King. Ela dedicou sua vida a lutar pela igual- dade.” – No balãozinho, MLK pergunta “você não é negra, pelo menos?”) ensinar tanto quanto uma noite numa biblioteca. Como o que mais fiz até agora foi caminhar, mesmo… resolvi que era hora de parar numa livraria e procurar lá mesmo algumas novidades. O esforço se pagou e eu saí de lá com dois livros na mão. O primeiro deles é de um desenhista francês chamado Muzo (ou, pelo menos pra sua mãe, Jean-Philipe Masson), que acabou de publicar um coisa tão boa que eu até comprei. Todo mundo faz aquele balanço de fim de ano em janeiro, certo? Ele também fez o seu, mas não qualquer um: depois de uma longa pesquisa, juntou 365 notícias de mortes do ano passado, decidiu ilustrar cada uma delas, e publicou um livro. Um pouco antes de sair do Brasil, por exem- Mas o que é que leva alguém a tratar desse plo, eu já tinha assistido um filme dos mes- tema? O que que a morte tem de tão interes- mos produtores de Pequena Miss Sunshine sante pra vir à tona assim? Pra que tipo de (não por acaso chamado Sunshine Cleaning, coisa se quer chamar a atenção? Conforme o ou “Trabalho Sujo” na versão brasileira) que próprio autor declara nessa entrevista para a fala de duas irmãs abrindo um negócio no Radio Europe1, a primeira razão vem de uma ramo de limpeza e remoção de material de certeza óbvia, a de que ela é a única coisa cenas de crime. Vamos combinar que defun- que nos torna verdadeiramente iguais. Não
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    ParIs ParIs existe nada que nos aproxime mais que essa Porque essa é uma aventura que ninguém POst certeza. No entanto, geralmente a morte de repete. De todas as histórias que a gente uma “celebridade” nos atinge com muito pode juntar pra contar, nenhuma chega per- 35 17 fev POST 35: PARIS, CHINA. – ASSOCIAÇÃO FRANCESA CHINART QUER mais intensidade do que a de um desconhe- to desse nível de exclusividade. TRANSFORMAR A MANEIRA COMO VEMOS O ORIENTE. cido, e talvez não devesse ser assim (afinal de contas, morto é morto). Caminhando com duas amigas pelo bairro de Marrais, me deparei com uma lojinha de souve- nirs. Foi o olhar afiado de Batatinha (que consegue enxergar um pedaço de Tag a 500 metros de distância meio segundo depois de virar a esquina) que fez com que a gente entrasse, ao perceber, no canto da loja, umas bolsas completamente cobertas por graffitis, numa técnica de impressão onde cada pixel é marcado diretamente no tecido, como se ele mesmo fosse o muro. Muito bonito, interessante, tudo isso, mas o que eu não conseguia explicar pra mim mes- mo era por que, numa cidade tão repleta de graffiti como Paris, todas as imagens usadas eram de muros de… Hong Kong. Ao ilustrar as mortes de pessoas desconhe- cidas junto com as das celebridades, Muzo lhes dá a fama que não tiveram em vida, colocando-as, ao fim e ao cabo, no mesmo patamar dessas celebridades. No final das contas, o livro mostra que morrer pode dar Pensei comigo mesmo: aí tem. E tinha: a dona da loja nos encaminhou para a galeria-loja onde status! Esse é o ponto essencial da questão: o trabalho do fotógrafo estava exposto, e foi aí que eu encontrei a ChinArt, onde não só desco- tudo depende da maneira que você sai de bri novos trabalhos com também uma nova maneira de ver o Oriente no Ocidente. cena… e sabem por quê? Sinceridade aqui, galera: em que vocês pensam quando alguém fala da China? “Made-in-China”, condições desagradáveis de trabalho, cópias em escala industrial de tudo que o ocidente faz?
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    ParIs ParIs Foi por isso que a ChinArt surgiu, como uma exposição. “Não é como achar um chaveiri- criativos, supreendentes, encantadores e nada que nos aproxime mais que essa certe- associação de apaixonados pela China que nho bonito numa prateleira de loja, sem ter fascinantes. É esse universo criativo que ela za. No entanto, geralmente a morte de uma queriam mostrar que essa é uma imagem contato nenhum com o universo do artista. acredita que não pode mais ficar restrito às “celebridade” nos atinge com muito mais in- muito distorcida do que ela realmente é. fronteiras do país: vai transbordar daqui a tensidade do que a de um desconhecido, e pouco com a mesma força com que o país talvez não devesse ser assim (afinal de con- cresce economicamente. tas, morto é morto). Ao ilustrar as mortes de pessoas desconhe- Antes de me despedir e deixar vocês com cidas junto com as das celebridades, Muzo algumas imagens da exposição atual (Cho- lhes dá a fama que não tiveram em vida, colate Rain) na fanpage da galeria, queria só colocando-as, ao fim e ao cabo, no mesmo dividir mais uma impressão. Eu já falei aqui patamar dessas celebridades. No final das da questão do exclusivismo, do segredo, de contas, o livro mostra que morrer pode dar só “botar na roda” aquilo que ninguém pode status! Esse é o ponto essencial da questão: repetir. Aqui acaba de aparecer o primeiro tudo depende da maneira que você sai de choque oriente x ocidente. Se por aqui essa cena… e sabem por quê? tendência aparece como resposta ao com- Porque essa é uma aventura que ninguém partilhamento sem precedentes das redes repete. De todas as histórias que a gente sociais (tentando manter o status a partir pode juntar pra contar, nenhuma chega per- do exclusivo), parece que, pelo menos pros to desse nível de exclusividade. artistas chineses, essa história de “botar na roda” não incomoda tanto, e, ao invés de res- É impressionante como um país que cresce Primeiro você se encanta (e a experiência ponder ao movimento, eles estão mesmo é mais rápido que chuchu em pé de serra con- tem que ser completa). Depois leva pra sua alimentando o bicho. tinua uma interrogação tão grande na nossa casa sabendo de onde veio.”. cabeça. A idealizadora do projeto sabe dis- Se por aqui a proliferação das redes sociais so, e foi pra quebrar esse gelo que escolheu Ela defende que, se essa imagem caricatu- gera respostas restritivas, quem sabe não é o formato de loja-galeria. A ideia da ChinArt rizada da China existe, é porque nós os for- por causa da restrição à internet por lá que não é só vender um trabalho: é convidar o çamos a ser assim. A associação existe pra estão surgindo respostas multiplicadoras? público a mergulhar nesse universo desco- mostrar que quando os chineses fazem al- Por enquanto isso é só uma impressão, um nhecido, e é por isso que a loja troca tudo guma coisa para si mesmos, e não para ven- palpite abusado. Mas vou olhar isso com que põe à venda todas as vezes que troca de der ao mundo, demonstram o quanto são mais calma quando estiver por lá.existe
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    ParIs ParIs Antes desse passeio eu já tinha passado uns qualquer um pode ser um Space-Invader na POst quatro dias seguidos me deparando com as sua cidade, e o site oficial dos parisienses se 36 18 fev figuras aí em baixo em vários pontos da ci- tornou mesmo um grande ponto de encon- UM TRAMPOLIM, DUAS OU TRÊS PISCINAS – SPACE-INVADERS dade. Nenhuma delas tem assinatura. Mas tro para todos que fazem essa atividade pelo NA ARTE DE RUA todo mundo sabe de quem são: um grupo mundo compartilharem seus feitos. chamado Space-Invaders, que começou a Parece que pra esse pessoal importa menos Numa viagem como essa a gente se pergunta: afinal de contas, onde é que eu acho essas tais usar esses mosaicos para lembrar os pixels a “marcação de território” do que pros gra- de tendências? Um dos lugares onde mais tenho procurado sinais são os muros das ruas. De- dos ícones mais clássicos da história dos ga- fiteiros. E essa é uma diferença fundamental finitivamente, eles são uma fonte impressionante de informações, uma plataforma pra expres- mes já faz mais de sete anos. dentro da arte de rua. A gente nunca sabe são direta de muitos desejos, e é sobre eles que eu queria falar hoje. Fui a Belleville com duas amigas grafiteiras, que me ensinaram um pouco sobre os códigos por trás dos graffitis. Passaram o dia me falando de aspectos como a maneira de sinalizar que o artista não é local (estrela em alguma parte do trabalho) ou que está aí há muito tempo (algum símbolo que remeta ao infinito), o significado das setas, a diferença entre linhas que dão profundidade ou significados… isso sem falar nas regras pra saber onde é permitido deixar sua marca e onde fazer isso representa declarar guerra a outro artista. Se tudo isso me deixou muito animado (não é todo dia que você é alfabetizado numa linguagem), não tenho como negar que toda essa questão da “marcação de território” me deixou meio com a pulga atrás da orelha… e explico o porquê. A questão toda é que todo mundo sabe de quanto tempo vai durar o que se faz nela, quem é, mas ninguém sabe mais quem são mas parece que pros Space-Invaders isso é os Space-Invaders. Se 1) é muito fácil fazer um pouco menos importante, porque seu esse tipo de mosaico e 2) o que não falta é fã trabalho precisa só de uma fotografia mo- de jogo antigo, não precisa ser nenhum gênio mentos depois de ser feito pra entrar no pra perceber que era uma questão de tempo jogo de compartilhamento da internet, que até que a brincadeira dos fãs nostálgicos de é o mais dinâmico da história toda. Vai dizer Paris ganhasse mundo. A ideia original era pros grafiteiros que não importa o que acon- simples, mas suas consequências não. Hoje, tece com o seu trabalho depois de pronto…
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    ParIs ParIs A arte de rua tem sempre um elemento de POst virar dono de um espaço. Seja pra tirá-lo das mãos da publicidade, seja pra marcar a pre- 37 19 fev #SHARING9 – LE CAFÉ QUI PARLE RECEBE DE BRAÇOS sença de quem é “da área”, sempre tem um ABERTOS O TRABALHO DO RAPHAEL SONSINO elemento desse. É por isso que tem alguma coisa de importante aí, nessa diferença en- Quando saí do Brasil eu tinha a missão de levar uma ilustração do Raphael Sonsino pra algum tre como cada um desses dois grupos vira café de Paris. Mas não podia ser qualquer um. Depois do jeito com que a sua já famosa avó “dono” do “seu espaço”, porque a verdade é me tratou (regado a doces e iguaria francesas da maior qualidade), eu tinha que encontrar um que só a plataforma é a mesma, mas os es- lugar à altura da sua casa: agradável, com um atendimento simpatissímo e tão jovial e artístico paços não. O de um é concreto. O do outro quanto tradicional e confortável. Conforme prometido, lá fui eu. é digital. (Isso pra não falar no das galerias de arte…) Desde que artistas como o Banksy (aliás, não deixem de assistir o filme Exit Through the Gift Shop por nada) abriram as portas do mundo das “fine arts” pra arte de rua, to- das essas nuances são relevantes pra saber como ela vai influenciar comportamentos e mentalidades daqui pra frente. O bairro é Montmartre, que boa parte de vocês deve conhecer por causa do filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. O café é o Le Café qui Parle (o café que fala). O nome foi escolhido por causa de uma padaria que ficava em frente e se chamava Le Pain que Parle (sabem quando ele sai tão quente do forno que chega faz “crack-crack-crack” quando a gente tira de lá? Esse som mesmo). Há quatro anos sob direção de Damien Mouef, o café é também um espaço de ex- posição para novos artistas, divulgando os trabalhos que o “patrón” acha interessantes, sem co- brar nada por isso. Nada mesmo, nem aquela famosa comissão de venda que todo mundo quer.
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    ParIs ParIs Se deixar num lugar bacana já é bom, melhor POst ainda é deixar com alguém que realmente gostou muito do que viu. Quando eu cheguei 38 21 fev DE BRINQUEDINHO PRO NATAL A CELEBRIDADE VIRTUAL – lá, contei da viagem e mostrei o desenho, ele A ASCENÇÃO METEÓRICA DO PROTOTO já abriu o sorriso. Acho que nem precisava eu pegar o computador pra mostrar os ou- É uma pena quando a gente conhece a pes- está indo muito além do que o criador ima- tros trabalhos do Sonsino e falar de como soa mais interessante de cada cidade só no ginava. Trata-se do ProToTo, um bonequinho ele gostava de brincar com os possíveis sig- nosso último dia nela. Foi assim em Milão e feito de ímãs que pode se transformar em nificados que a pintura pode ter, porque en- em Paris também, onde o eu encontrei uma quase tudo que você quiser e a sua criativi- quanto eu falava o Damien já tava viajando figura sensacional, chamada Manuel Flech, dade permitir. no desenho. Quando finalmente perguntei se ele queria o quadro, o “Biensur” já estava na ponta da língua, só esperando a hora de ser usado. Agora o CantaroleiroVioleiro está na parede pra quem quiser ver, levando um pouquinho do talento brasileiro pra galera da França descobrir. Quem sabe da próxima vez o Ra- phael mesmo não dá uma chegada por lá com sua querida avó e leva algumas coisas novas pra mostrar? Eu acho que dava certo… que não sei nem como descrever, porque Vocês podem se perguntar: “E daí?” E daí numa tarde só eu já descobri que ele era ar- que o ProToTo virou celebridade digital! Seja pelas pinturas, pelas fotografias, ou pelo tesão, designer e cineasta com dois filmes na café, a dica está dada. Arte e café fresqui- praça: Marie-Louise ou La Permission e Bella, A história é a seguinte: El Flech criou o bo- nhos, referendados por vários guias e com o la guérre et le Soldat Rousseau. nequinho há apenas dois meses, para o na- 99novas marcando presença, só no Le Café tal. Os jovens que compraram ou ganharam qui Parle. O homem é um laboratório pipocando ideias, o presente começaram, obviamente, a bulir e foi a mais recente delas que me levou até no bicho e criar figuras cada vez mais in- seu atelier, uma pequena invencionice sur- teressantes. Como somos uma geração do preendente quase que por definição, que compartilhamento, não demorou muito (na
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    ParIs ParIs Depois começou uma história de ProToTo Tem uma linha tênue que separa a apropria- Se a ideia original de Maneul Flech era tratar pelo mundo, e pipocaram fotos suas em lu- ção da cópia. O que está acontecendo com do polimorfismo (a maneira como uma coi- gares tão diferentes quanto China, Inglaterra o ProToTo é a apropriação coletiva de uma sa pode transformar a própria forma, como e áfrica. Agora é que não tem mais limites ideia a partir da qual se contrói uma obra os contorcionistas fazem com o próprio cor- mesmo, porque o ProToTo ganhou um perfil igualmente coletiva, onde não existe distin- po) o resultado foi muito além disso tudo e no Facebook onde todo mundo pode divul- ção entre os autores. Não existe essa coisa revelou ainda outra forma de transformar o gar o que ele anda aprontando por aí. Lem- de “olha o que o fulano fez com o ProToTo objeto: de brinquedo em personalidade. Isso bram da obra do Ai Wei Wei com os italia- dele”, que poderia transformar o brinquedo tudo em dois meses. Imaginem o que ainda nos do IOCOSE de que falei aqui no blog uns em meio pra projeção individual. O único au- não pode vir por aí… quinze dias atrás? Antenado que é, nosso tor que aparece é o criador do gadjet, por- *Em francês, Magnetami tem um jogo de verdade não demorou nada mesmo!) pra “amigo magnético”* não podia ficar por fora que o foco está mesmo no “olha só o que o palavras que brinca também com a ideia de começarem a aparecer imagens do ProToTo e também foi conferir o que tava rolando na ProToTo fez!”. ele ser quase um origami magnético. Vejam em forma de animais (cachorro, abelha, ves- Tate Gallery. Aliás, ele já até deu um passo mais fotos no seu perfil do facebook. pa…), fazendo caras e bocas, ou perambu- adiante e virou ele mesmo artista de rua, lando pela casa. com stencil próprio e tudo. e o que é que o criador acha dessa badala- da vida da sua criatura? “Eu acho ótimo! São várias pessoas colo- cando a sua criatividade por cima da plata- forma que eu criei e se apropriando do meu trabalho de uma maneira maravilhosa! Não é como se estivessem copiando, ninguém está fazendo isso como se o ProToTo fosse criação sua. Eles se apropriam da ideia pra criar uma coisa nova, e acaba surgindo esse personagem virtual que em dois meses já tem mais de duzentas fotos no seu perfil do Facebook!”
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    ParIs ParIs O show é feito em Inglês, Francês, Espanhol, aprendendo a lidar (nem sempre da melhor POst Alemão, Sérvio e Romeno, assim como o tí- maneira possível) e pra qual o La Caravane 39 19 fev tulo do novo disco: “Ahora in da Futur”. No Passe presta a homenagem com a música GIPSY MUSIC WORLD RAP BALKAM SKA ELECTRO ROCK – palco, o que a gente vê são verdadeiros pro- ZinZin Moreto. “LA CARAVANE PASSE” TRAZ TUDO ISSO, EM SEIS IDIOMAS, PRA BANGKOK fetas do futuro, com algumas declarações como a que dá nome ao vídeo aí em baixo, Nossa, quase me esqueci de postar sobre Eu já estava começando a achar que assis- sobre a inescapável realidade a que nós, ho- isso! Em Bangkok tive a chance (e a sorte de tir show sentado no gramado devia ser al- mens, seremos relegados daqui a vinte anos ficar sabendo a tempo) de conferir um fes- gum costume tailandês, mas quando esse (ou menos), quando as mulheres já estive- tival organizado pela Aliança Françesa pra caras chegaram não restou a menor chan- rem dominando completamente o mundo. celebrar a Fête de la Musique. Um sequência ce de ficar parado. Em alguns momentos maravilhosa de shows, todos de graça, na eles me lembravam o som de grupos como parte de fora do Museu de Siam. O “line-up” a Orquestra Voadora, do Rio, ou a The No começava com bandas locais – de reggae ao Smoking Orquestra (liderada pelo Emir Kus- Eu podia seguir falando de como eles cap- mais puro Metal Tailandês – e terminava com turica), que é uma loucura tão grande em taram que o bigode tá voltando com tudo a grande atração da noite, a mais nova sen- Buenos Aires que parece até a Nação Zumbi (ainda vou botar umas fotos na fanpage com sação da “Gypsy-music World-rap Balkam- em Recife. Já em outros, eram tão trash que os modelitos mais impressionantes da via- ska Electro-rock”: La Caravane Passe. não tinha nem como comparar, só dar risada. gem…), de outros vídeos que mostram como eles conseguem variar de tom de uma música pra outra, ou de como esse trabalho é forno Outra fala da situação de ser estrangeiro na pra fundir tantas referências europeias. Mas terra que escolheu. Tendo vindo da França vou parar por aqui e deixar vocês com esse fica bem claro do que estão falando. A gen- último, da apresentação em Bangkok. Aliás, te tem que adimitir que a França é linda e eu apareço no vídeo! Atenção quando marcar encantadora, mas também não tem como 0:47 no carinha coçando a cabeça na parte negar que enquanto cidades como Londres superior esquerda da tela. A partir da metade são como jovens inovadores desbravando o lembra mais o The No Smoking Orquesta. mundo, Paris parece mesmo um cinquentão cheio de história pra contar. Inovação pra valer está vindo é dessa massa criativa imi- No mais, é isso aí. #Ficaadica e vâmo grante com quem o país inteiro ainda está embora.
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    lONDrEs lONDrEs POst POst 40 19 fev 41 19 fev #SHARING9 – IAN BLACK MANDA LEMBRANÇAS DO REI PRA RAINHA NÃO PRECISA SER úNICO. EM LONDRES MAS FAÇA O FAVOR DE SER AUTÊNTICO Mal cheguei em Londres e já descobri coisas Um grupo de quatro pessoas resolveu fun- O quinto presente do #Sharing9 veio do Ian Black. Ele mandou muito bem e me deu uma relí- indescritivelmente interessantes. A primei- dar uma sociedade, que tinha como único quia valiosíssima pra quem quiser conhecer, como ele mesmo diz, a verdadeira Música Popular ra delas, na verdade, se encaixa na catego- produto um par de sapatos. O desenho é Brasileira: um vinil do Roberto Carlos de 1975! Esse aí vai direto pra Londres, e eu vou fazer ques- ria daquelas que chegam pra clarear o que bem “clean” e os materiais da mais alta qua- tão de botar pra tocar em algum Pub antes de escolher um felizardo(a) pra ganhar essa joia. a gente já viu mas ainda não tinha se dado lidade. Mas a quantidade produzida não era conta, embora estivesse cheio de sinais e muito normal: apenas 27 pares. até mesmo escrevendo sobre isso. Trata-se da Society27, uma iniciativa que revela mui- O site oficial da empresa é uma página do to mais do que a gente imagina sobre o que facebook, onde as pessoas podem acompa- está por vir por aí. nhar o processo de fabricação completo dos tênis e toda a repercussão internacional do projeto. Desde o momento da chegada do material, passando pela costura das partes até ele ficar pronto pro envio, está tudo do- cumentado em fotos e disponível na rede. Se parasse por aí eu já diria “Nossa! olha o ‘know your own stuff’ spirit aí na sua máxima potência!” ou então “Hum… exclusivismo no ar…”. Mas continua, e é aí que fica realmente Vejam aí em baixo como foi a visita ao Ian Pra encerrar, ainda rolou no verso da capa interessante. Black. Que ele é um cara mega-influente nas um “From Brazil to my new english friend”. Os 27 compradores passam a fazer parte do mídias sociais isso é de conhecimento geral, Muito bem colocado, não? processo colaborativo de criação dos próxi- mas da sua paixão por Roberto Carlos pouca mos produtos da sociedade! Quer dizer, ter gente sabe, e ele aproveitou a oportunidade Pra saber mais sobre o Ian, acesse: esse sapato não é apenas uma questão de pra mostrar o porquê de tanta admiração http://ianblack.com.br/ comprar algo exclusivo, que pouca gente pelo Rei. @ianblack tem. É um convite a fazer parte de um grupo
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    lONDrEs lONDrEs que é referência que a gente tem no mundo Esse conceito de autenticidade é meio difícil Aliás… tem um aspecto do ProToTo (tema de hoje pra chegar até a grande questão da de explicar. É por isso que eu não podia dei- do post passado) que eu esqueci de men- “authenticity”, a verdadeira bola da vez que xar de compartilhar com vocês esse vídeo cionar: pelo menos por enquanto, existem eu ainda não tinha conseguido enxergar. do Joseph Pine no TED. É INCRÍVEL! Faz apenas 100 ProToTos numerados espalha- meia hora que descobri que ele tem um livro dos pelo mundo (o meu é o 89, ano em tan- Afinal de contas, interessa tanto assim ser cujo tema é exatamente, pasmem vocês, a to eu quanto a DM9 nascemos). Assim como único? A nossa geração talvez seja a pri- maneira como passamos de uma socieda- um tênis da Society27, ter um ProToTo certa- meira na história da humanidade a conviver de onde se acumulava bens e mercadorias mente flerta com o sentimento do exclusivo, com uma avalanche de “cross-references” para uma onde se coleciona experiências! mas rapidamente se converte na experiência tão grande a ponto de dinamitar a própria Nesse vídeo ele explica como essa transição da criação coletiva de algo autêntico. de criação coletiva! A ideia de que “um tra- noção de identidade pessoal que viemos deu origem à busca pela autenticidade e um balho coletivo pode levar à criação de algo nutrindo ao longo do tempo: de que cada pouco mais do que significa essa ideia. Não único” é o eixo central da sociedade (confor- um tem em si mesmo alguma coisa que o concordo com tudo que ele diz… Mas tiro o me eles mesmos declaram nessa entrevista torna especial Quanto mais fundo entramos meu chapéu sem medo se ser feliz. Como a para a revista digital russa kyky.org). nas redes sociais, mais nos damos conta de gente diz na Bahia, “esse cara broca muito, que ninguém é “tão único assim” e que exis- pai!”. te uma quantidade enorme de pessoas que fazem as mesmas coisas que a gente, têm os Agora a gente pode parar pra pensar, por mesmo interesses que a gente, até mesmo exemplo, que se a questão essencial fosse pensam parecido com a gente. “uniqueness”, a Society 27 poderia muito bem ter produzido apenas um par de sapa- Não temos medo de nos perder na multidão. O que temos de diferente é que ao invés tos pra vender como obra de arte conceitual Temos vontade de participar dela de alguma de nos desesperar por conta disso, criamos pra algum distinto comprador. Não fez isso. maneira memorável que reflita o que temos Aqui em Londres eu conheci um desses 27 meios de pontencializar essas possibilidades Escolheu fazer 27, o que torna-os não “tão de verdadeiro. Não importa o quanto pe- compradores espalhados pelo mundo. Ele se de interação e trasformá-las em plataformas únicos assim”, mas permite juntar 27 pes- quena seja essa ação, importa que ela seja chama Erick Arash, estuda fotografia na Lon- de criação coletiva. soas com afinidades e interesses comuns autêntica. Se estamos colecionando expe- don College of Communication e me propor- dispostos a trabalhar juntos no processo de riências e a memória é uma ilha de edição, cionou uma das mais interessantes conver- Não importa mais tanto assim se somos os criação de algo novo que reflita exatamente melhor que a gente só tenha material verda- sas da viagem até agora. O primeiro ponto únicos as ter certas coisas. Importa que elas o que os une. Algo que seja, portanto, quase deiro pra editar. em que tocamos foi essa questão da “uni- sejam aquilo qua mais queremos que elas que por definição, autêntico. queness” do trabalho… passando por tudo sejam: autênticas.
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    lONDrEs lONDrEs o roteiro. O tour é muito mais que visitar os de entrar “arrumadas demais”, passando por POst pontos conhecidos do lugar. É conhecer um praças e fundos de igreja onde nosso guia 42 19 fev olhar que nunca teve a chance de se mostrar Henry já foi preso por dormir (bem como THE SOCK MOB E UNSEEN TOURS – UM OLHAR COMPLETAMENTE e que está repleto de experiências interes- as mutretas todas envolvendo os policiais NOVO SOBRE A CIDADE E A PARTIR DE SEUS HOMELESS. santíssimas, ricas e, acima de tudo, comple- e moradores dos prédios) até chegar num tamente autênticas. pub que já causou um certo reboliço por exi- Antes de sair do Brasil, um amigo me disse responder. Mas um grupo de pessoas aqui bir um filme não muito ortodoxo envolven- pra prestar muita atenção nos olhares das de Londres decidiu quebrar o gelo, simples- do uma mulher e um… jumento. Henry usava crianças e dos velhos, porque às vezes a no- mente oferecendo um par de meias e se a pitada de sarcasmo que a rua lhe deu pra vidade mais importante é simplesmente um sentando pra conversar com eles, numa ini- comentar que “nunca mais vi os animais da jeito novo de olhar pro que está aí a mais tem- ciativa que foi batizada de The Sock Mob. A mesma maneira…”. po. Hoje foi um dia de fazer isso, e descobrir ideia não era fazer filantropia nem caridade, um olhar que em 45 dias de viagem eu ain- mas sim acabar com alguns estigmas asso- Nem a escola de circo da região (onde vou da não tinha chegado perto de conhecer. Se ciados a grupos como esse que os impedem fazer uma aula na segunda feira) ficou imu- eu contasse que isso aconteceu num passeio de participar ativamente na vida cultural e ne aos seus comentários. O percurso ainda turístico talvez ninguém me desse crédito. social da cidade. incluiu a localização verdadeira do primeiro Mas… e se o guia fosse um morador de rua? teatro de Shakespeare (não é aquele onde todo mundo tira foto!), que já está no pro- cesso de desapropriação dos prédios vizi- nhos para ser reconstruído em cinco anos, e uma quantidade enorme de outros pontos, histórias e mutretas que tornam tudo ainda Fiz o percurso da Old Street, em East Lon- mais autêntico. Isso pra não mencionar o fato don, um lugar que atualmente tem uma de ele falar que conhece o Banksy como se grande concentração de pubs e galerias de fosse a coisa mais natural do mundo! Depois arte, mas que não faz muito tempo era um do passeio paramos num bar pra conversar Você já pararam pra pensar no tanto de his- E foi isso que eles fizeram ao criar o London centro industrial morto fora do horário co- um pouco mais sobre todas essas histórias, tórias que essas pessoas têm pra contar? Unseen Tours, e transformá-los de figuras mercial. Não posso contar tudo pra não es- é claro, e você todos podem fazer o mesmo. Provavelmente não, né? Devíamos estar marginalizadas do enredo a protagonistas tragar o passeio. Mas em duas horas descobri ocupados demais pra perguntar, ou preo- das histórias dos seus bairros. Como não po- desde a locação de um centro cultural, hoje A questão mais marcante quando voltamos cupados demais com o que eles poderiam dia deixar de ser, são eles mesmo que fazem demolido, onde as pessoas eram proibidas pra casa, no entanto, é pensar no significado
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    lONDrEs lONDrEs que esse trabalho tem para os guias. Não es- absolutamente autênticas prontas pra serem POst tou falando da perspectiva de parar de pedir na rua, de melhorar de condições financei- compartilhadas! É estranho de se pensar nis- so, mas o homeless do Underseen Tour re- 43 19 fev CABARÉS TOMAM CONTA DE LONDRES – ras, nada disso. Estou falando de ver, pela presenta numa figura só o paradoxo repulsi- PORQUE DO DIAMANTE NÃO NASCE NADA, MAS DO LODO… primeira vez na vida, que as suas histórias vo-atrativo de um mundo que rejeita a fonte são algo de valor, que aquilo que sempre os do que busca. Não sei qual será o futuro do Se tem uma coisa que vem crescendo em Hoje em dia nesse saco de variedades cabe Londres sem parar nos últimos anos são os tanto burlesco quanto circo, drag, stand-up, cabarés. Pode ser que pra gente, que não fantoche, e, muito mais usualmente do que se tem essa tradição tão forte ou tão viva no pensa, o mais bizarro, freak e assustador que Brasil, a primeira coisa que nos venha à ca- se possa imaginar. Um dos mais importantes beça seja alguma mulher cantando e dançan- desses cabarés – não tanto por seus números do enquanto esperamos que ela coloque os mais provocativos, mas pelo caráter pioneiro peitos pra fora. Mas essa imagem só condiz que teve para o crescimento dessa cena na com uma determinada época que já passou cidade – se chamava La Clique, e estreou não (há muito tempo!) e está tão distante do que faz tanto tempo assim a sua continuação (La ele representa hoje quanto dizer que o cam- Soirée), que fui assistir hoje. peonato brasileiro só tem Fla-Flu. O espaço é muito maior do que o normal para esses shows. Mas o palco não: se ti- ver três metros de diâmetro é muito, e esse elemento é absolutamente essencial. Nada funciona se o palco virar um espaço inatin- tornava figuras indesejáveis podia também projeto, mas ele já não acaba em si mesmo. gível, porque todo cabaré é um convite. Um torná-los admiráveis. Você vê que contar as Assim como uma obra de arte, ele começa convite a uma viagem insólita onde a gente histórias, e até mesmo as histórias de dor, é no quadro pra continuar na cabeça de quem só embarca se se sentir no mesmo nível de sentir-se no lugar de quem tem algo pra ofe- viu. quem está no palco. Num cabaré, o artista cerer ao invés de pedir. Então oferecem tudo Essa vai continuar ainda muito tempo. está vulnerável o tempo todo. de peito aberto. Eles têm de sobra o que o mundo de hoje Quando o Capitain Frodo entra em cena busca com mais afinco: experiências. Muito você obviamente ri. Afinal de contas, ele é mais do que isso: experiências originais e
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    lONDrEs ridículo. Mas issonão é nem pode ser um entretenimento vazio. A risadas e estôma- Eu podia encerrar o post aqui, tudo muito gos embrulhados que ele provoca enquanto lindo e fechadinho. Mas nem tudo que é in- desloca as partes do seu corpo pra criar for- teressante é bonito, e esse vídeo aí embaixo mas estranhas e inacreditáveis estão a favor não me deixa mentir. O que eu estou aqui pra de uma provocação maior, que ele mesmo fazer é apontar tendências, e esse pessoal em algumas poucas palavras: acredita que, mesmo nesse curto espaço de tempo, Londres já está saturada de burlesco e circo, então a gente precisa olhar pro que ainda está pra vir. Se vocês quiserem algo realmente alternativo… se preparem para o “Side Show”. O que de mais bizarro existe nesse mundo está lá, e é de lá que ainda vai “Não é incrível o que as pessoas podem fa- zer pra ganhar a vida? Vocês já devem ter pensado em alguma ideia absurda de algo supercriativo pra fazer mas que nunca tive- ram a coragem de tentar. Bem, depois de ver sair muita coisa pra bombar por fora. o que a gente fez essa noite talvez ela não (Aliás, de onde veio o Captain Frodo? É sem- pareça mais tão aburda assim… Então vai lá pre bom avisar…) atrás dela!”. Existe alguma coisa que nos empurrando a Tudo isso pode ser muito estranho. Mas, por perder a vergonha se ser quem somos. Al- incrível que pareça, é autêntico. E é isso que guém aí se lembra do Air Sex Championship? importa agora. “Seja você mesmo e ponha pra fora suas fan- tasias!”. O que é que o Capitain Frodo estava dizendo mesmo?
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    lONDrEs lONDrEs a invadir o espaço e extravasar toda a cria- Enquanto, isso, num sala próxima, acontece POst tividade que tem. As portas abrem, e cada nada mais nada menos que a audição para 44 19 fev pincel é uma cabeça a mais pra trabalhar a companhia de balé de um certo… Boris SECRET CINEMA – PARTE 1 (FREEDOM TO CREATE) junto naquela pintura. Já não são só telas. Lermontov. Fico de voltar às “9pm da ma- nhã seguinte”, mas ao sair da sala uma mul- tidão de bailarinas irrompe numa corrida Quatro da tarde. Estação de metrô Wap- mais pura vontade de criar, seja na platafor- acelerada para o lugar onde antes estava a ping. Saio do trem, ajeito minha boina, e ma que for, sem se importar se será bonito orquestra e transforma-a num grande palco dou mais alguns passos em direção à es- ou feio, naquilo que chamamos de “Unkno- para uma performance inesquecível. E isso cada. Busco alguém com o mesmo dress wn Culture Movement”. Vamos até a praça. não é nem 20% do que aconteceu por todo code que eu (final da década de 40), mas E é lá que tudo começa. o espaço. quando finalmente chego à saída, descubro No local do evento, a fila já dobra a esqui- que eles não são dois nem três. Contam-se na. Me posiciono pra esperar, quando uma às centenas, e aguardam todos algum sinal dama do chapéu roxo e cabelos ruivos me Ouço o som de um bumbo. Uma panela o que não se sabe de onde virá. De repente segura pelo braço e diz: “venha, eu tenho acompanha. A caixa está esperando pra ser ele chega. um trabalho pra você”. tocada, e quando menos se espera, uma orquestra espontânea está formada. Nosso ensaio é música de fundo para que ainda mais gente crie um poema coletivo, onde cada um escolhe apenas uma palavra e só a união dessa massa disforme pode criar algo Uma bailarina ruiva de vestido branco pen- assim. Declamam-no num alto-falante que dia sobre o parapeito num equilíbrio instável. nada mais é do que um cone de papelão. Eu não estou entendendo mais nada. Mas ela usava sapatos vermelhos… Sob gritos de “FREEDOM! FREEDOM! FRE- Passamos pela entrada, e já dentro do gal- EDOM TO CREATE!”, seguimos em passea- pão secreto começamos a preparar telas ta pelas ruas, com placas que manifestam a gigantes para a multidão que está prestes
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    lONDrEs lONDrEs Mas era muito mais que isso: uma verdadei- deve se sentir o fã de um desses filmes ao POst ra proposta de revolução na maneira como saber disso tudo só uma semana depois e 45 19 fev vemos cinema! Que 3D que nada! Tecnolo- não ter mais a oportunidade de adicionar o SECRET CINEMA – PARTE 2 (THE RED SHOES…) gia nenhuma chega perto do tipo de imer- seu toque pessoal a uma obra dessas!!!) são no universo do filme que essa iniciativa O que eles talvez ainda não saibam é o ta- conseguiu criar. manho do favor que estão fazendo pra to- Até o momento em que acabou o post an- tov era o dono da companhia de balé onde terior, eu não estava entendendo mais nada o filme todo se passava; nossa loucura do que estava acontecendo, e foi assim que percussiva era a orquestra do espetáculo; subi pra uma sala e me sentei pra assistir o as telas e colunas que pintamos tinham a filme da noite, que até então ninguém co- mesma forma do cenário, e cada uma das nhecia: The Red Shoes. Foi só aí que eu me outras performances que vimos pipocava dei conta… pouco a pouco, inconfundível! …de que tudo que a gente fez antes eram Pra completar o pacote, o filme era de 1948. Não tem nada que eu possa dizer que dê das as artes envolvidas no projeto, quando cenas do filme. Isso explica por que estávamos todos vesti- uma ideia próxima do que é a sensação de nos convidam a redescobrir o prazer táctil Devia ter uma maneira de dar uma pausa dos daquele jeito. estar lá, e o Unknow Culture Moviment sabe de experimentá-las e fazer de tudo isso um na leitura, tipo um sinal de silêncio pra colo- Quando eu descobri e decidi ir ao Secret disso. Sabe que quem experimentou essa canal de estímulo para o que temos de mais car exatamente depois dessa frase. Porque Cinema, pensei que era só mais uma dessas imersão uma vez vai querer experimentar transformador: a criatividade. foi assim que eu fiquei por dentro, sem sa- mobilizações que aproveita o fetiche do de novo. Sabe que isso faz com que elas se ber o que dizer. Conforme o filme avançava, “escondido” e do “exclusivo” (de que tanto sintam especiais. Sabe que quem perdeu… Cinema é uma coisa impessoal? Produzi- cada elemento que experimentamos antes já falei nesse blog) pra organizar festas e perdeu, e vai se morder todo de não ter essa da em escala industrial e copiada pra todo ia surgindo na tela: o tal de Bóris Lermon- aglutinar pessoas com os mesmos gostos. experiência pra contar. (Pensem em como mundo ver igualzinho? Não mais.
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    lONDrEs lONDrEs Teatro é mais uma dessas artes que todo ajudei de algum jeito a levar essa ideia mais mundo enche a boca pra condenar ao os- longe. Tem certas coisas que são boas de- tracismo depois que a tecnologia abriu es- mais pra ficar restritas. paços pra realizações maiores? Tampouco. Essa é uma delas. O Secret Cinema conseguiu me surpeen- (AH! Não deixem de assistir o filme! Ele der num dia só mais do que muita gente acaba de ser restaurado e receber de volta num ano inteiro. Fiquem de olho pra saber toda a cor e esplendor que fez com Mar- da próxima iniciativa. Querem fazer melhor tin Scorcese declarasse publicamente seu ainda? Multipliquem-na! Se essa viagem amor pelo filme numa pequena nota escri- terminasse hoje, eu já voltava pra casa feliz. ta especialmente para o Secret Cinema. É Mas só voltava realizado se soubesse que uma obra prima.)
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    lONDrEs lONDrEs POst 46 19 fev MINHA DICA PRO WORLD BOOK DAY – LITTLE PEOPLE IN THE CITY Dia 3 de Março é o World Book Day, e, pelo menos em Londres, essa data é muito especial. Pra começar, todas as crianças vão pra escola vestidas como seus personagens favoritos e várias atividades de leitura, contação de histórias e troca de livros se espalham pela cidade. Eu resolvi dar a minha contribuição pessoal pra esse dia já hoje, recomendando um livro sensacional que comprei nessa viagem e ao mesmo tempo oferecer mais um novo olhar so- bre essa cidade que me conquista cada vez mais. O livro se chama Little People in the City. Pra ler esse não precisa nem saber inglês! O livro é uma coletânea de fotografias de um um artista inglês chamado Slinkachu, que acaba de abrir uma nova exposição chamada Con- “This is not a pet, Susan…”) crete Ocean, de cuja concorridíssima abertura acabo de chegar. Vejam que coisa LINDJA! Quando nos deparamos com a fragilidade dessas pessoinhas, pra quem tudo é muito mais difícil, vemos como essa plataforma é maravilhosa pra trabalhar temas como a frustração… a impotência… e nos chamar a atenção pro quanto nós mesmos somos frágeis. Sem ficar piegas nem derrotista, Slinkachu volta a atenção para essas pe- “No” quenas delicadezas da vida: um sonho que parece inalcançável, o peso de um “não”, o encantamento de uma criança… Little People in the City é um grande livro Slinkashu usa bonecos na escala de 1:87 pra criar seu próprio mundo de seres minúscu- de pequenas coisas, que nos mostra que o los onde tudo aquilo com que lidamos ganha, literalmente, novas dimensões. Estamos tão verdadeiro tamanho de qualquer coisa na acostumados a nos fazer “casca grossa”, durões, prontos pras asperezas da vida, que nos nossa vida depende só do peso que nós da- esquecemos de como pequenos detalhes podem fazer toda a diferença na vida de alguém. mos pra ela. “High Expectations”
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    lONDrEs lONDrEs POst 47 19 fev ECOBUILD – SUSTENTABILIDADE EM DESIGN E ARQUITETURA E PALPITES PRO MUNDO DAQUI A VINTE ANOS. Londres está recebendo a Ecobuild, a maior feira do mundo de construção, design e arqui- tetura com preocupação ambiental. O canal por onde fiquei sabendo desse evento foi nada menos que o top trends do twitter, então dá pra ter uma ideia da repercussão do que acon- tece por lá. Pra falar a verdade, eu acho que o movimento do “going green” já é algo tão inescapável pra todos nós que nem sei mais se ainda dá pra chamar isso de tendência ou se já virou uma exigência mesmo, mas, de toda maneira, fui conferir as novidades. outro não é resolver o problema, os estu- futuro das cidades. Um tecnólogo, um ar- dantes simplesmente criaram um… buraco. quiteto e um antropólogo juntos na mes- É, isso mesmo, bem no limite entre a ideia ma mesa tentando dizer como seria o nos- mais açougueira e a solução mais sofistica- so mundo em 2030. O primeiro ponto em da e “fora da caixa”, decidiram cortar seu comum entre eles é uma sutil mudança de prédio no meio pra deixar o sol passar. interpretação que muda todo o significado Pode ser estranho, mas nem por isso dei- das coisas. xa de ser brilhante. “Radicalizar bonito” é uma das melhores maneiras de estabelecer No mundo do compartilhamento, interati- Um dos stands com ideias mais inovadoras era o da Isover, que lançou um concurso desa- um conceito, e esse é um caso em que a vidade e conectividade, o espaço público fiando estudantes a criar um projeto ambientalmente responsável para um arranha-céu em ousadia do projeto cumpre o objetivo da não é mais por excelência o local da socia- Manhattan. O ponto principal em todos os projetos tinha de ser o Passive Housing – a bola redução de energia e ainda estabelece a bilidade (essa função está sendo dividida da vez no mundo da sustentabilidade – buscando reduzir o consumo de energia ao mínimo integração com o espaço ao redor como cada vez mais com outras esferas, como a imaginável através do aproveitamento máximo de todas as fontes naturalmente disponíveis prioridade número zero pra qualquer em- digital). Cada vez mais ele está se conver- no local desde o momento da construção. preendimento daqui pra frente. tendo no local da “recordability”, do regis- Os autores do Solar Slice pararam pra pensar em algo que quase ninguém pensa: os vizi- tro. nhos, e o fato de que construir um arranha céu ali ia acabar com a iluminação natural de que O grande momento do dia, no entanto, foi eles desfrutavam a mais de 80 anos. Sabendo que resolver um problema transferindo-o pra mesmo o debate de encerramento sobre o Como todo movimento que se impõe, esse
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    lONDrEs lONDrEs também cria resistências, e é isso que a quitetura física e a arquitetura digital con- gente vê na busca pelas chamados “tran- vergem, e a inundação de links para a esfera sient spaces” ou “green spaces”, onde esta- digital no mundo físico é a nova linguagem ríamos “a salvo” dessa “recordability” toda para essas realizações. e poderíamos nos dedicar ao pleno gozo de A Ecobuild conseguiu ir além de uma ação corpo presente de alguma experiência. (Aí segmentada a um setor restrito e mostrar que entra toda a onda dos “secret qualquer que temas realmente importantes e deter- coisa” de que eu tanto estou explorando). minantes para o nosso futuro não estão Se isso tende a se potencializar, o maior jamais separados. Pra entender pra onde desafio que as grandes cidades têm pela vamos é preciso mais do que uma visão frente é o de se apropriar dos instrumentos profunda. É preciso um olhar amplo. de conectividade para gerenciar ao vivo a dinâmica dos grandes centros a partir dos registros dos cidadãos. Cada vez mais a ar-
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    lONDrEs lONDrEs E eu que achava a sorveteria da Eliana o “Sem contar a parte mais importante de to- POst pico da tecnologia… Aquilo que ele coloca das: você vê o sorvete ser feito. Sabe de 48 02 mar no pote é NITROGÊNIO LÍQUIDO! A uma onde veio e vê como faz. Isso faz toda a UM LABORATÓRIO? UM CIENTISTA MALUCO? NÃO. É SORVETE temperatura de nada mais que -196 GRAUS! diferença.” DE NITROGÊNIO LÍQUIDO! Londres é inacreditável. Quando você pensa que viu tudo que tinha de novidade pra ver, aparece não sei de onde uma invenção mais insólita que a outra. No mesmo dia eu descobri duas coisas que mudaram completamente minha visão sobre sorvete. Tenho certeza que a de vocês também. A primeira é bizarra, mas um sucesso de publicidade memorável. Acaba de ser lançado um novo sabor, exclusividade de uma determinada sorveteria em Convent Garden, carinhosa- mente apelidado de “Baby Gaga”. A razão pro nome? Bem… é feito com um tipo especial de leite: materno. Cool é pouco pra falar desse lugar. E sabem Se eu tivesse que escolher, essa seria a ra- do que mais? É muito gostoso. Mesmo. zão pra dizer que esse é o futuro do sorvete. “Muita gente fica preocupada porque acha Porque esse é o futuro de quase qualquer que tem muita química, mas não tem nada! área: conhecer o processo por trás das coi- Como é tudo feito na hora, não tem esta- sas, o tal “know your own stuff” spirit. Seja bilizante nem aditivo nenhum, e esse é o pra se sentir dentro de um laboratório, seja mesmo nitrogênio que você coloca no pul- por causa da novidade, do chique, da loca- mão quando respira. Só que gelado. A qua- lização, da ideia, do sabor ou até mesmo lidade do sorvete é muito melhor.” da agradável companhia de duas pessoas No final das contas é meio que muita farinha pra pouco pirão, porque nem a sorveteria tinha Existem alguns pouquíssimos restaurantes simpaticíssimas com um sorriso no rosto, a estoque pra atender essa demanda e nem o sorvete era de leite materno (na verdade é a que servem esse sorvete como a coisa mais Chin-Chin Labaratorists é mais uma dessas calda vai por cima que é). Mas o que o dono queria mesmo era a publicidade… e isso ele chique e sofisticada do mundo, o futuro do experiências em que, mais do que me mer- conseguiu fácil! Quando a Lady Gaga anunciou ontem que vai processar a sorveteria por sorvete. E cobram 25 pounds (75 reais!!!) gulhar, eu aposto. causa do nome do sorvete então… ele deve ter dado pulos de alegria. por isso. Ahrash e a Nyishe, donos do lugar, Agora, quem REALMENTE faz um negócio incrível é o pessoal do Chin-Chin Laboratorists, são os primeiros a disponibilizar a novidade em Candem Town. Eu não vou falar nada, só vejam esse vídeo aí e depois a gente conversa. de uma maneira acessível, a módicos 3,95.
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    lONDrEs lONDrEs POst POst 49 50 04 mar MERGULHE, SE LAMBUZE, E DEPOIS ME CONTE COMO FOI. BURNING 03 mar #SHARING9 LONDRES – SOM DO ROBERTO CARLOS ENVIADO PELO MAN E A TENDÊNCIA DOS POP-UP QUALQUER COISA @IANBLACK CHEGA AO LOCKSIDE LOUNGE Uma cidade não é só feita de lugares, mas também dos encontros que proporciona. E foi num Mais uma missão completada. O Ian Black Encontrei o que procurava no Lockside fim de tarde em Londres que eu encontrei James Hanusa e um universo de eventos inovadores tinha mandado um vinil do Rei pra terra da Louge. Era a noite de aniversário do One- que eu ignorava completamente. Ele é membro da Burning Man Organization, e se vocês tam- rainha, mas dessa vez não bastava entregar glove Club, e quem assumia o som era o DJ bém nunca ouviram falar desse grupo, vão ficar sabendo agora. pra alguém: eu tinha que colocar pra tocar Naked Jake. Ele foi super simpático, gostou num pub antes também. da ideia, e colocou o nosso som pra tocar lá de boa. Depois de eu explicar a importância desse tal Roberto Carlos e conversar um pouco mais sobre música brasileira, decidi que ia ser ele mesmo que ia levar o disco. Foi mi- nha maneira de presentear o OneGlove Club no seu aniversário. Quem sabe assim come- ça a incorporar mais referências brasileira no seu trabalho e assim multiplicar ainda mais a Desde 1991, todos os anos um número cada vez maior de pessoas se reúne no meio do deserto nossa música pelo mundo? de Black Rock, nos Estados Unidos, para um acontecimento memorável. Uma semana antes, a única coisa que se vê é areia, vento e um lago. Uma semana depois também. No entanto, duran- Espero que você tenha gostado, Ian. Quem te a semana do evento, 48 mil pessoas (!!!) transformam a locação no melhor lugar do mundo já tava ficando apegado depois de dois me- para criar, ousar, interagir, sobreviver, despirocar e experimentar um espírito de inovação que ses vendo essa capa todo dia era eu. Mas talvez não se encontre em nenhum outro lugar. Mas se vocês estão pensando que isso tudo é só agora sei que está com alguém que vai fazer uma festa, vamos começar a esclarecer algumas coisas. bom uso. Até a próxima! Decidi que o lugar pra isso ia ser Candem . 1) Absolutamente nada está a venda, a não ser café e gelo. Todos os itens necessários à so- Town, e saí procurando um DJ com vitrola e brevivência durante a semana têm de ser trazidos de casa (e levados embora). O princípio mais cabeça abertas pra conhecer mais da Músi- básico da filosofia do Burning Man é a autossuficiência radical e o “Leave no Traces”. ca Popular Brasileira.
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    lONDrEs lONDrEs 2) Esse não é um evento para espectadores. É simplesmente uma cidade inteira com infra- um experimento de comunidade temporária, estrutura completa de água, energia, mora- onde relações são criadas e a sobrevivência dia e comunicação para quase cinquenta mil é desafiada. A palavra de ordem é participar, pessoas erguida numa questão de dias! criando um mundo novo onde todos preci- sam e confiam uns outros e o gifting (dar sem No ano passado, por exemplo, os criadores esperar nada em troca) é parte essencial. aproveitaram esse maravilhoso laboratório (especialmente para os 60% da superfície Burning Man e o TED têm mais em comum do globo e 40% da população que ainda não do que a gente pensa. Grandes cabeças ten- tem cobertura de celular) com capacidade dem a ser atraídas por grandes experiências, de modificar profundamente comportamen- e não é tanta surpresa assim os dois eventos tos. Afinal de contas, quando a comunicação contarem com gente como os fundadores chega, vem junto com ela melhorias na eco- do Google como frequentadores. De acordo nomia local, educação, novos empregos… e com a Inc, “ambos são experiências intensas por aí vai. e imersivas quase como nenhuma outra: um No entanto, se essa vitrine tecnológica já é domina a mente com uma overdose de ideias interessantíssima, ela não chega perto do e insights de quase todas as áreas e campos, 3) Esse é um lugar para desafiar a criativida- humano para testar um novo sistema de co- verdadeiro carro chefe do Burning Man: a enquanto o outro toma de assalto os olhos de humana no limite de toda sua potenciali- municação que pode ser montado em uma experiência humana, artística e criativa que e ouvidos com experiências sensoriais como dade. Ele existe para se respirar arte, e nin- hora e prover telefonia gratuita para qualquer toma conta do espírito de qualquer um que em nenhum outro lugar.” guém sai de lá sem criar alguma coisa nova. aparelho de celular consumindo uma quanti- estiver lá dentro. É uma verdadeira imersão E é isso que nos leva ao outro ponto mais in- dade de energia tão pequena que pode ser num mundo tão diferente, fascinante e vasto teressante, pelo menos pra mim: tanto o TED Tem muito pra falar de tudo isso, mas va- alimentada até por energia solar! Eu não en- que é impossível de capturar na totalidade, quanto o Burning Man nos obrigam a sair da mos por partes. Começando pela inovação tendo nada de tecnologia, mas essa reporta- instigando os frequentadores a explorá-lo rotina para mergulhar nesse mundo, e “não tecnológica. Já pararam pra pensar no que gem indicada pelo Triple Pundit explica to- cada vez mais. importa quanto sucesso você tenha na sua esse experiência pode oferecer em termos dos os detalhes e mostra como isso é uma Não é à toa que a revista INC publicou (an- vida, nada disso consegue te impedir de di- práticos para outros lugares do mundo? É alternativa viável para um futuro próximo teontem!) esse artigo pra mostrar por que o zer ‘uau!’ pro espetáculo de potencial huma-
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    lONDrEs lONDrEs no que te cerca nesses lugares”. Se a rotina é (onde todos vão para uma locação misterio- fatigante, os dois eventos nos chamam a re- sa vestidos como no final dos anos vinte para descobrir a maravilha da experiência humana mergulhar na Nova Orleans daquela época através de uma curta imersão participativa e redescobrir o jazz dos velhos); em alguns no seu esplendor. Repetindo as palavras cha- meses vai ser “inaugurado” o primeiro pop- ve: curta e imersiva. up shopping do mundo, feito de containers, em frente à estação de Shoreditch; a livraria É essa a grande tendência que eu estou ven- em Milão onde eu conheci as pessoas mais do por todos os lugares por onde passei e interessantes na cidade abriu com data cer- que finalmente entendi depois de escutar ta pra fechar 121 dias depois; em Brick Lane essa história. Por todos os lados, pipocam os eu encontrei minha boina numa “vintage “pop-up” qualquer coisa. Tudo se resume a clothing pop-up store” e uma camisa numa uma experiência curta e de um mergulho em “pop-up secret sample”… Além do mais, por algum universo determinado, que, tão rápido que é que os flash mobs surgiram e cresce- quanto surge… desaparece. ram tanto só na final dessa última década? O que era o Secret Cinema se não isso? Um Pra nossa geração, uma impressão pode ser mergulho no universo de um filme através do mais importante que uma permanência. E convite a ser criativo da maneira mais parti- por importante eu digo também mais dese- cipativa possível, pra depois sumir deixando jada e até mesmo mais duradoura. Se é as- de legado as criações coletivas e um uni- sim, só me resta uma recomendação a quem verso construído apenas na memória. Aliás, já percebeu que é esse o espírito do nosso amanhã tem o Candlelight Club em Londres tempo:
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    mumbaI mumbaI POst 51 05 mar #SHARING9 – COLETIVO SHN ESPALHA STICKERS POR MUMBAI. Dessa vez o presente não vem de uma pes- do os restos do material da fábrica, aquilo soa só, mas sim de um coletivo. Quem me que seria lixo se transformava em posters e entregou foi o Eduardo Saretta, mas em fichas de cerveja pros shows que organiza- rista, que passa rápido demais e só vê algo mento que estamos já ficando mais acos- nome do coletivo SHN de arte, de que faz vam. Até hoje essa marca mais “crua”, ou, grande, o geral. O foco é no pedestre, que tumados a conviver na internet. Mais uma parte há mais de 12 anos. Eles me deram um pelo menos, menos “amaciada” pra apare- vai poder reparar nesses detalhes com mais prova de que não existe essa história de pacotão de stickers pra espalhar pela pai- cer “bonitinha”, está impressa no trabalho. calma. dois mundos diferentes: o virtual e o real. É sagem de Mumbai enquanto estiver por lá. Vale mais um adesivo resistente que demore Outro ponto essencial do trabalho é que ele tudo uma coisa só: comportamento huma- Vejam aí um pouco do que estou levando a sumir com o sol e a chuva do que um todo não precisa de assinatura. É aí que eu acho no. É ele que circula pelo meio que for, e a e de como foi a entrega na Galeria Choque trabalhado que vai desaparecer com a pri- que a coisa fica muito mais interessante! Os tecnologia é só mais um caminho pra ele se Cultural, em São Paulo. meira água. adesivos podem ser um verdadeiro viral ur- infiltrar. Eu me perguntava antes de chegar lá: como bano potente pra c#%*&!!! Particularmente, assim espalhar adesivos pela cidade? Onde pra mim essa é a grande sacada do negócio: eles colocam isso? Qual é o foco da ação? não tendo nome, qualquer um pode se iden- E ele me respondeu tudo isso, dizendo, por tificar com o trabalho, e ele não tem mais exemplo, que um dos lugares preferidos pra limites. O Eduardo contou de uma vez que se colar são os chamados “espaços mortos” foi num show e o guitarrista tinha um adesi- da cidade, como a parte de trás das placas vo dele na guitarra; outra vez entrou no taxi de trânsito, caixas de telefone… e quando olhou pro porta luva… adivinha; e Já pararam pra pensar nisso? O fundo de imagine o que não deve ter pensado quan- Eu disse que o coletivo existe há 12 anos, uma placa é absolutamente morto! Ele pra- do deu de cara com o seu trabalho em plena mas, na verdade, o trabalho começou muito ticamente não existe, não passa nem pela áfrica do Sul! antes disso, lá no final dos anos 80, quando rabeira do pensamento de qualquer cidadão É isso que eu vou ajudar a fazer: espalhar eles começaram a usar o acesso que tinham no dia a dia. Mas quando o adesivo chega, ainda mais o que é bom. Essa proposta me Para saber mais sobre o coletivo: a uma fábrica de etiquetas adesivas pra co- ele ganha vida. Especialmente para o tran- interessa demais, pois é mais uma ação que @ssshhhnnn locar na prática o “faça você mesmo”. Usan- seunte. O foco maior da ação não é o moto- traz pro mundo concreto um tipo de movi- http://www.shn.art.br/
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    mumbaI mumbaI POst 52 06 mar POST 52: ALGUMA IMPRESSÕES DE UM MUNDO NOVO – PRIMEIRO DIA EM MUMBAI. A viagem acaba de recomeçar. Pus meus pés pela primeira vez no Oriente. Esse é um mundo completamente diferente de tudo que já vi, o que por um lado é fascinante e por outro torna o desafio de buscar tendências muito mais difícl. É muito fácil confundir o novo com o exótico de um olhar estrangeiro, por isso decidi que ideia muito mais presente na mentalidade entrar no templo sem a menor preocupação minha primeira incursão na Índia não podia ser em nenhuma área moderna ou pretensamente dos hindi do que na nossa ocidental. quanto a alguém levá-la embora. inovadora: primeiro eu precisava olhar pras pessoas, e tentar entender alguma coisa do ritmo Seguimos para o mercado de Santa Cruz desse mundo. Antes de ser um observador de novidades, eu tinha que ser um observador de (num trânsito que realmente é a experiên- gente, e essas imagens são resultado dessa tarde. cia mais próxima de um caos que já experi- mentei numa cidade). Todas as áreas estão armengadas e abarrotadas de gente, carros e produtos amontoados em estrutura pre- cárias. Mas sabe do que mais? Ninguém se estressa. Tem um carro passando a meio centrímetro do seu calcanhar, e niguém de- monstra a menor preocupação. É como se ti- vessem certeza que com calma tudo se ajei- Absolutamente ninguém pede o seu ticket ta, é só não abusar da boa vontade alheia. de trem, que custa menos que 25 centavos Mas o que foi mais marcante mesmo foi o encontro com Vigya, um vendedor ambulante da O espaço público em Mumbai é muito mais de real. No entanto, quando fui pedir infor- praia de Juhu. Depois de tentar me vender um mapa e não conseguir, começamos a jogar versátil do que pra nós. mação e vi que precisava saltar duas esta- conversa fora até ele se oferecer pra me mostrar os arredores. Começamos por um pequeno Todo mundo fala, com razão pra se impres- ções depois daquela pra qual tinha ticket, templo hindu a quinze minutos de caminhada de onde estávamos. sionar, de como uma população miserável me disseram a pra descer e comprar outro. Eu pensava que ia me sentir como um gringo numa escola de samba, com aquela festa de como os 60% de Mumbai que vive no equi- A diferença era de 10 centavos. O senso de cores e formas. Mas o curioso é que, apesar de os elementos indianos que a gente conhece valente às nossas favelas não é violenta de hierarquia e dever aqui é muito forte, e o jei- (os aromas, os tecidos, as figuras) estarem todos lá, o lugar não era turístico. Me pareceu que maneira nenhuma. Vigya deixava sua mer- tinho indiano que permite que o caos urba- esses elementos estavam lá muito mais pra servir que pra se mostrar, e parece que essa é uma cadoria encostada numa árvore antes de no não exploda é muito diferente do nosso.
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    mumbaI mumbaI Um garoto como o Vigya anda 15 kilôme- Resta tentar descobrir pra onde está indo POst tros todo dia pra trabalhar porque não tem esse mundo, que recebe cada vez mais pes- 53 07 mar O QUE ATRAI TANTA GENTE DE FORA PRA MUMBAI? dinheiro pra pagar o ônibus entre a praia e soas de fora atraídas pelas possibilidades de sua casa. Ele tem como sonho mais imedia- transformação e crescimento e tem um bi- to de mudar de vida passar de vendedor de lhão de pessoas (só em Mumbai são 20 mi- mapas a engraxate, e no entanto se ofere- lhões) pra trazer junto nesse barco. Hoje descobri o trabalho da jornalista Amana Fontanella-Khan, que escreve sobre a vida em ce pra me ajudar sem pedir nada em troca, Mumbai para o portal “CNN Go”. Depois de ler seu artigo sobre a (inexistência de uma) vida no- simplesmente porque o movimento estava turna alternativa em Mumbai, decidi que o melhor jeito de compartilhar impressões e começar fraco e “if you’re happy, I’m happy”. E não a mergulhar na cidade era simplesmente… ligar pra ela. é o primeiro que faz isso: já teve gente me guiando até o ponto de ônibus e esperando meia hora comigo quando tinha mesmo é que ir pra outro lado completamente opos- to. Esse é um lugar muito diferente. Juntando a conversa com outros artigos no portal e o material publicado no seu blog, pude esboçar os primeiros movimentos pelos quais a cidade está passando. Curiosamente, o seu último artigo fala exatamente do mesmo que o último parágrafo do meu post anterior: o que é qye tanto atrai estrangeiros a deixar vidas consolidadas em seus países e começar tudo de novo por aqui? Embora não esteja declarado em todos os discursos, existe ao menos uma impressão que os une todos: a de que estão saindo de um lugar estagnado para outro onde as coisas são novas, crescem e evoluem. Ninguém sabe definir ao certo que tipo de evolução é essa. Uns tentam explicá-la como efeito de uma “mentalidade mais aberta ao novo”, mais propensa a experimentar do que a catalogar, e é até provável que estejam certos nesse sentido (como já dizia o Delfim Neto, nenhuma so- ciedade cresce no ritmo que a indiana cresce sem transformar isso num “estado de espírito” que alimenta a si mesmo). Vejam o depoimento da francesa Eve Lemesle, diretora da agência
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    mumbaI mumbaI ticas culturais do governo, seja pela falta de jeito ou de outro, essa cidade experimenta autenticidade do que está disponível. No en- um ambiente muito propício para a proposi- tanto, longe de fazer disso derrotismo, o que ção de qualquer coisa, e esse é o melhor es- ela verdadeiramente afirma é que essa seria tado de espírito para o surgimento das ten- a hora ideal para os grupos criativos locias dências mais influentes que se pode buscar. tomarem conta desse movimento e determi- nar os rumos do que pode ser algo realmente inovador daqui pra frente numa cidade que necessita de algo assim. Em que medida as novidades por aqui são macaqueadas ou autênticas é uma questão que eu ainda tenho um bom tempo pra ex- plorar. O que não dá pra negar é que, de um “What about art?“, para a matéria de Amana: É aí que eu ainda fico com a pulga atrás da “Paris é uma linda cidade velha, mas nada de orelha. Pra ser bem sincero, eu não sei até que novo está acontecendo lá. Bombaim está mu- ponto essa transformação toda se estende dando o tempo todo. Tem um tipo de energia pra cidade inteira ou se restringe a um grupo de Nova Iorque na cidade que eu amo.” de estrangeiros e uma elite local que se fazem valer da sua formação artística e intelectual Os DJs Mathieu Josso e Charles Nuez adicio- em outros países pra se tornarem pioneiros nam outro ponto muito importante na mes- da implementação de algo não tão novo num ma reportagem: lugar onde ele é inédito. Pronto, falei. “Eu adoro me encontrar com artistas emer- Foi por isso que eu me interessei pelo artigo gentes aqui e fazer parte da cena under- da Amana, em que ela denuncia que a cena ground. (…) Ela é muito pequena ainda” da vida noturna alternativa não existe de ver- dade por aqui, seja pelas restrições das polí-
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    mumbaI mumbaI POst 54 08 mar “NOSTALGIA, PRIDE AND FEAR” – SER FRáGIL NÃO É SER EMO. Hoje fui à abertura de uma exposição coletiva chamada “Nostalgia, Pride and Fear” numa galeria bem difícil de achar. Chegando lá me deparei com esse trabalho de uma artista chama- da Soazic Guézennec. Como vocês podem ver, é uma série de recortes em forma de insetos Colocá-los em pequenas caixas de expo- do, por exemplo, ao que os góticos fizeram feitos a partir de imagens de homens de negócios expostas em caixas entomológicas. Legal, sição de insetos é um pouco mais que di- com o punk. O que eu estou chamando a divertido, bem feito. Mas como abertura de exposição geralmente tem o próprio autor por versão (tipo: hehe, vou punir vocês agora, atenção aqui é pra um tipo de fragilidade perto, percebi que podia tirar de lá mais do que uma foto e decidi fazer pra ela a pergunta sacaninhas!): é também uma maneira de mais associada à modéstia do que à exacer- mais importante pra um caçador de tendências: por que você fez isso? subverter a escala com que esses homens bação de sentimentos. estão acostumados a lidar e a se pintar. Fa- zê-los insetos é torná-los frágeis na mesma A dimensão da marcha da humanidade nos intensidade que eles mais desejam evitar, e coloca numa posição de muito pouca mo- é aí que o trabalho da Soazic encontra o do déstia, que só foi desafiada três anos atrás Slinkashu (de que falei em Londres) e mos- com o pipoco do mercado financeiro. É nes- tra o seu lado mais interessante. se contexto que a fragilidade do Slinkashu e da Soazic se encontram de alguma maneira A questão da fragilidade tem dado o tom pra dar sentido ao título da exposição: Nos- por muitos lados. Não falo só dos “emos” talgia (pelo que tínhamos), Pride (pelo que que a gente passou tanto tempo vendo no temos, como esse crescimento espetacular) Ela me disse que decidiu fazer esse trabalho por causa do incômodo com a maneira como esse Brasil antes do happy rock do Restart assu- e ao mesmo tempo Fear (pelo que podemos crescimento tão pujante da Índia se impõe sobre tudo e todos. Seria como se os executivos das mir a ponta. Pra falar a verdade, se o que me não ter mais por causa desse pedestal de or- megaempresas se colocassem num lugar acima do resto da população, fazendo da escala das contaram está certo e a expressão “emo- gulho todo). suas realizações o trampolim para seu destaque. core” vem de “emotional hardcore” (uma Posso não saber onde vai chegar essa onda “Na verdade, eles são tão pequenos quanto qualquer um de nós, e não há nada de especial- maneira de humanizar e exaltar um sensibi- de tomar consciência da fragilidade. Só sei mente distintivo nesse trabalho que possa colocá-los num patamar acima do resto da socieda- lidade sem se afastar tanto da pegada mais que seis artistas de seis países diferentes e de. Pelo contrário: frequentemente os homens de negócio atuam de uma maneira muito mais pesada do hardcore), esse movimento não que não se conheciam não refletem sobre o primitiva e parecida com animais do que o resto da população de que buscam se distinguir.” tem nem tanta novidade assim se compara- mesmo tema à toa.
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    mumbaI mumbaI POst 55 09 mar THE WALL PROJECT – PINTAR MUROS TAMBÉM É SER DONO DE UM LUGAR Se tem uma coisa eu percebi em Mumbai é O projeto em si começou em 2007, quando que a juventude está se coçando toda de ela percebeu que o muro em frente à sua vontade de fazer coisas novas. Se em geral casa estava branco demais e precisava de lugares não se importa nem em esconder Dhanya me contou de casos ainda mais a gente consegue ver mudanças de com- mais cores, puxando o gatilho do que seria os fios desencapados e pedaços de parede marcantes, como o de um motorista em alta portamento a cada 20 ou 10 anos a ponto a maior explosão de graffiti que a cidade já sem pintura. Se o produto estiver consumí- velocidade que fritou pneu, parou, deu mar- de dizer que nasceu uma nova geração, aqui viu. No entanto, o verdadeiro diferencial do vel, não tem muito mais com o que se pre- cha ré até o muro e saiu do carro pra dar um às vezes não precisa nem de 5 anos pra ver The Wall Project não está na sua arte final, e ocupar. É uma mentalidade muito mais fun- esporro em quem estava fazendo xixi nas isso. Foi com esse olhar que conversei com a sim no seu objetivo. A ideia não é criar um cional do que estética, que permite que pra pinturas. “Essa é a grande transformação. As idealizadora de uma das iniciativas que mais grupo pra cobrir a cidade toda com a sua alguém cortar o cabelo, fazer a barba, se ta- pessoas queriam melhorar o lugar onde vi- tem alimentado esse espírito pela cidade: arte, e sim convidar a população toda a to- tuar ou até mesmo receber uma massagem viam, mas o governo não fazia nada e ficava Dhanya Pilo, criadora do The Wall Project. mar pra si a tarefa de embelezá-la com as de corpo inteiro no meio da rua (juro, vejam tudo como estava. Agora elas se sentem do- próprias mãos. aqui, aqui e aqui) basta que quem esteja fa- nas da cidade e arregaçam as mangas elas zendo o serviço saiba o que faz. mesmas tanto pra melhorar quanto pra de- É muito importante que eu diga uma coisa fender o que está lá. Está surgindo um senti- aqui antes de continuar. Mumbai é uma ci- É por isso que o The Wall Project é mais do mento de ‘ownership’ que antes não existia, dade MUITO poluída visualmente. Além do que uma explosão de graffiti. É uma trans- e isso faz toda a diferença.” mais, o senso de design e estética por aqui é formação de comportamento. Fui em um muito diferente do nosso, pra não dizer que dos lugares onde tudo começou, Chapel é realmente menor mesmo. Se no Brasil a Road, e conversei com um dos moradores, gente se importa com a aparência do lugar, Jo, que me disse que “antes as pessoas ti- a impressão visual que ele causa e em fazer nham o hábito de mascar folhas e cuspir na o cliente se lembrar de nós por algo além do parede. Hoje ninguém mais faz isso, porque produto que está à venda (mesmo se for um desiste quando vê o trabalho no muro. Elas carrinho de cachorro quente ou um isopor respeitam, porque isso é bonito, ninguém de sanduíche na praia), aqui boa parte dos vai cuspir numa obra de arte”.
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    mumbaI mumbaI No fundo, o The Wall Project é um grande vários filmes, e no final das contas todos provocador disposto a alimentar ao mesmo queriam voltar justamente pelo fato de tudo tempo a veia expressiva e estética de toda fazer parte de um universo tangível a todos a população. Pra isso eles fazem muito mais eles, ao contrário do scape-reality em que que pintar os muros. Num determinado do- a indústria do cinema de Bollywood tem se mingo, por exemplo, o grupo saiu vestido de tornado. super-heróis em bicicletas, ajudou um mon- Antes de encerrar, deixo também a dica do te de gente a fazer pequenas coisas, organi- Cec (Carnival of e-Creativity) 2011, um fes- zou um encontro de jogos de tabuleiros nos tival de três dias sobre tudo que rola na jardins que não estavam sendo utilizados, cena eletrônica da Índia e de onde a Dhanya um chá de fim de tarde temático de Alice no voltou há menos de um mês. Fiquem ago- passeio público, e convidou todos os curio- ra com mais imagens de muros por onde o sos para um festival de filmes onde cada fita projeto já deixou a sua marca. tinha no máximo três minutos e tinha a obri- gação de ser tão caseira quanto um bebê comendo papa ou aprendendo a andar. Foi um sucesso, as pessoas pediam pra repetir
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    mumbaI mumbaI POst 56 10 mar USER GENERATED CITIES – URBZ FAZ HOJE O QUE OS PALESTRANTES DA ECOBUILD PREVIRAM PRA 2030. Mumbai está sendo uma ótima oportuni- mas das ideias mais importantes da viagem dade de conhecer pessoas envolvidas em numa só proposta de criação participativa grandes projetos de transformação. Primei- de soluções para o espaço urbano em Dha- ro a Dhanya, do The Wall Project, agora o ravi, também conhecida como “a maior fa- Matias, do URBZ, e amanhã a Aarti, do Gra- vela da ásia”. Lembram quando os palestrantes do Eco- tos de fora do sistema (outsiders), que po- build disseram aqui que a arquitetura física dem ser tanto engenheiros, arquitetos e jor- e a arquitetura digital tendem a convergir no nalistas quanto moradores de outras áreas e futuro? Matias aplica essa ideia já hoje. Ele curiosos. Eles trabalham a partir dos aportes defende, por exemplo, que, antes de propor dos usuários, e o trabalho do URBZ é ajudar uma solução para um problema, é preciso a construir essa cooperação. entender como o sistema funciona, para sub- vertê-lo por dentro. Sabem como ele chama Já que a ideia é conhecer por dentro e a esse tipo de estratégia? “Hacktivismo” social. produção de informação sobre o lugar tem Simples assim: agir na sociedade do mesmo que ser participativa, que tal começar com jeito que um hacker age no computador. um… Wiki? Foi isso que eles fizeram quando criaram o portal dharavi.org, que já tem mais Matias tirou as palavras da minha boca ao de 400.000 acessos e cerca de 500 usuá- dizer que autenticidade só é produzida por rios registrados em sua breve existência. meen Creative Labs. Matias Echanove é um Sabem quando o Banco Mundial vem com meio da interação (olhem esse post aqui), arquiteto suíço, com PhD em planejamento uma proposta de inclusão participativa onde todos são atores da mesma maneira. “Pra transformar o espaço físico é preciso urbano e informação pela universidade de pronta e um saco de dinheiro em cima da Portanto, o único jeito de construir soluções também ocupar o espaço virtual. De que Tóquio, que ajudou a fundar juntamente mesa e diz: “Nós viemos resolver o proble- autênticas para os problemas de Dharavi é outra maneira o mundo vai descobrir que com Rahul Srivastava o URBZ de Mumbai. ma de vocês, agora participem”? Isso é o realizar a interação entre quem os conhece Dharavi não é só ‘a maior favela da ásia’ mas O projeto é uma pérola que condensa algu- contrário do que o URBZ quer fazer. melhor (os usuários, insiders) e os elemen- também um dos lugares mais ativos de toda
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    mumbaI mumbaI Mumbai, com 88 bairros? Como é que vão “Pra fazer o que a gente quer fazer a gente POst descobrir que a população construiu, sem uma única obra estatal, um sistema de abas- tem que assumir que não sabe fazer. Só a partir daí começa a ficar possível construir 57 11 mar SE FOR CHEGAR ATRASADO, ENTRE COM ESTILO – tecimento em que todos podem ter água alguma coisa junto. E o que a gente quer OBATAIMU, A PRIMEIRA POP UP STORE DE MUMBAI corrente num lugar onde quase todo des- construir é uma user generated city.” locamento é pedestre? Tudo isso era igno- rado, mas agora pode ser descoberto sem O URBZ é o melhor exemplo que eu co- ter que vir aqui. Nós estamos influenciando nheço de como aliar planejamento urbano a tomada de decisões através da pressão do com a sociedade da informação. Mais do conhecimento”. que um caso isolado, é um sinal de que um De fato, o que se conhece não se ignora. novo comportamento está chegando tam- Tenho que fazer uma confissão: de vez em Mumbai, aberta a menos de dois meses. Outra das iniciativas atualmente em curso bém ao espaço público. Um comportamen- quando eu chuto. Tem vezes em que eu O nome do lugar é Obataimu, que em ja- é o mapeamento completo de todo o sis- to que parte do usuário e se vale de todas acho uma coisa tão interessante que acabo ponês significa “overtime” (aquela horinha tema de água de Dharavi a partir de foto- as ferramentas de interação disponíveis pra dizendo que ela é tendência mais porque tô a mais no final do expediente, a famosa es- grafias enviadas pelos moradores. É quase construir soluções que, nessa escala, não só torcendo que seja do que porque acho que ticadinha pra “saideira”, um tempinho pra um Google Earth subterrâneo: colaborativo serão as mais autênticas como as mais efi- é, e já queimei a língua umas duas vezes por nós mesmos). Como toda pop up que se e incremental. Uma vez com o material em cazes para todos eles. causa disso. Por outro lado, quando vejo respeita, o endereço é aquela história do mãos, os engenheiros podem desvendar o que um palpite desses tá certo e se repete tipo “a roupa nova do imperador”, que só mistério de como foi construída a malha e por todo canto, dá um misto de satisfação inteligente vê. Tirando o vídeo aí em cima, propor melhoramentos não só muito mais e alívio que vocês não têm ideia. Hoje foi eles não têm material de divulgação ne- eficientes do que simplesmente botar tudo um dia desses, em que a gente encontra um nhum além do boca a boca de quem en- abaixo como também orientados para e lugar quase didático pra demostrar o que controu por acaso ou foi sagaz o suficiente pelo usuário. vinha falando: a primeira “pop up store” de pra sacar a dica do cavalo preto.
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    mumbaI mumbaI Quem der a sorte de chegar lá antes de Ter conceito é bom, mas precisa ir além do o tecido até a costura, no que se aproxima cada vez mais do resgate proposto no Craftifesto. mudarem de endereço vai descobrir o re- produto final pra eu acreditar que não é só Ah! E só pra não dizer que eu deixei passar batido… alguém adivinha onde é que a ideali- quinte de quem oferece mais do que sim- gogó. É por isso o diferencial da Obataimu zadora do projeto está nesse exato momento atrás de ideias pras próximas criações? No ples roupas e acessórios, mas também con- está em explicitar o processo de produção mesmo lugar onde ela descobriu o couro de escama de peixe de que quase ninguém tinha ceitos. As peças estão separadas de acordo de tudo que tem. Se você já encontrou o lu- ouvido falar antes dela transformar na coisa mais “in” e eco-friendly do mundo: no Brasil. com o estilo de homem que você transmite gar, eles não têm mais porque ter segredos ser ao usá-las: o Geek, o Bloke, o Collector, contigo, então aproveite pra descobrir a o Bum… todas com a devida explicação pra equipe de desenvolvimento de tecidos que que ninguém passe a mensagem errada. garante a exclusividade da história toda, com tecnologias que envolvem métodos Tem espaço até pra brincar com a ideia do como lavar a malha centenas de vezes até Hikimori japonês (aquele cara que vive tão ela ficar tão confortável quanto aquela sua grudado no computador que não larga dele camisa do Brizola em 82 que você usa até nem pra comer ou ir no banheiro). Quem hoje só porque é gostoso. quiser pode comprar uma capa de laptop especialmente acolchoada para virar tra- E se alguém ainda está achando pouco, fal- vesseiro quando o computador estiver lá tou contar que cada peça é fabricada por dentro. O kit ainda acompanha a venda, pra uma pessoa só. Não tem linha de monta- garantir que nada atrapalhe o seu merecido gem. Cada um da equipe leva uns cinco dias descanso. pra passar por todas as etapas, de preparar Mumbai pode ter demorado pra surfar essas ondas. Mas chegou causando. Agora, o que estão fazendo mesmo é mostrar pro mundo que podem debutar com a mesma autoridade de quem já está é muito do calejado.
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    mumbaI mumbaI POst 58 12 mar #SHARING9 MUMBAI – STICKERS DO SHN ESPALHADOS PELA CIDADE Esse #sharing9 teve um gosto diferente. seunte. Desse jeito, alguém vai se surpreen- Dessa vez não foi só cumprir a tarefa de tra- der quando for buscar sua correspondência zer a arte de rua do coletivo SHN pra Mum- e encontrar aquele elefante na caixa do cor- bai. Foi também me colocar um pouco de reio; pensar mais de uma vez antes de pegar mim mesmo na posição de ser o artista, afi- na caixa de tensão onde agora a caveira é nal de contas, uma das partes mais impor- muito mais expressiva; se dar conta do tipo tantes do processo de espalhar stickers é de aventura em que está se metendo quan- justamente escolher onde colocar cada um. do entrar num rickshaw (tipo de taxi indiano no qual eu tive a certeza de que ia morrer algumas vezes) com um “freak” na frente do banco do passageiro; descobrir mais um es- paço morto da cidade no fundo de uma pla- ca ou num quadro de energia doméstico ou até mesmo queimar o tempo descobrindo uma nova maneira de usar as mãos enquan- to espera na fila pra pagar pela comida. Meu foco principal foi nos arredores de Cha- pel Road, berço do The Wall Project e um Nesse caso não tem muita historinha a mais dos lugares onde as pessoas mais respeitam pra contar não, então vamos direto pra ima- a arte de rua na cidade. Fiz isso na tentati- gens que é o que interessa. va de fazer os adesivos terem uma vida tão Escolhi tanto locações móveis quanto fixas, longa quanto sua cola permitir, sem se preo- tentando sempre pensar no que o Eduardo cupar se hoje ou amanhã alguém vai chegar Valeu, Eduardo. Valeu, SHN. E até a próxima! Saretta falou: o foco não é o carro, é o tran- lá pra tirar tudo e jogar fora.
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    mumbaI mumbaI desh. O cara é simplesmente inspirador, mas no próprio negócio, garantindo que o foco POst a razão pra tanta empolgação da minha par- continue sendo crescer para resolver o pro- 59 13 mar DO GRAMEEN CREATIVE LABS AO SOCIAL BUSINESS - PARTE 1 (A IDEIA) te está no fato de que, se a gente pode dizer blema de ainda mais gente. que tem um monte de tendências vindas de fora e se manifestando por aqui, no caso do Um exemplo que a Aarti adora é o da Dano- Social Business o sentido é outro: de Índia, ne, que em 2006 chegou pro Yunus dizen- Bangladesh e Paquistão para o mundo. Sen- do que queria ajudar a resolver o problema do assim, está mais do que na hora de en- da desnutrição em Bangladesh. A intenção tender de que se trata a história toda. era fazer um iogurte muito fortalecido pra O objetivo é construir soluções para pro- alimentar o pessoal e vendê-lo por algo em blemas socias a partir de propostas de ne- torno de 15 centavos de real. Depois de al- gócios, de uma maneira que elas possam gum tempo, apresentaram um projeto de sustentar a si mesmas. Como a caridade e planta supermoderna, eficiente e no mais filantropia não são auto-sustentáveis, as alto patamar da tecnologia de automação ONGs dependem muito de financiamento de que se dispunha no momento, ao que o externo e os governos nem sempre estão Yunus respondeu: dispostos a enfrentar esses problemas, usar o funcionamento de um negócio como meio “Não. Acho que vocês não entenderam a de auto-sustentação pode ser uma alterna- ideia ainda. Não é só o produto final que tiva não só mais viável como também mais importa, mas também fazer com que ele duradoura e dinâmica para as comunidades. seja fabricado de uma maneira sustentável, A diferença fundamental entre o Social Bu- não só para a empresa, mas principalmen- siness e um negócio comum é simples: o ob- te para a comunidade que ele quer atender. Meu lado economista se esbaldou nesse experiências quanto novas ideias para essa jetivo é solucionar o problema, não ganhar Em outras palavras, vamos refazer o projeto domingo. Conversei com a Aarti Wig, que prática. dinheiro. É importante que eu reforce esse todo. Que tal se a gente comprasse o leite fez a gentileza de encontrar uma pausa no As reuniões são uma iniciativa do Grameen ponto, porque ele é o centro da proposta do dos pequenos produtores locais, empregas- seu trabalho pra me explicar como surgiu a Bank, dirigido por ninguém menos que Muh- Yunus: utilizar o conhecimento do lado “sel- se o máximo de gente possível na produção ideia do Social Business e porque ele tem hamad Yunus. Pra quem não conhece, ele foi fish” do mundo dos negócios pra alimentar do iogurte, distribuísse através de vendas tanto potencial na Índia. Ela trabalha com o o primeiro banqueiro do mundo a receber o lado “selfless” de que todo ser humano comissionadas com moradoras da própria Grameen Creative Labs, que acaba de abrir o prêmio Nobel da Paz, em 2006, por con- precisa. Pori isso que o “lucro” de um So- região e ainda criasse um sistema que ga- o seu primeiro escritório justamente em ta do seu modelo baseado no microcrédito cial Business é reinvestido integralmente rantisse que o que não for vendido pode ser Mumbai, com a intenção de aglutinar tanto para resolver problemas sociais em Bangla-
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    mumbaI mumbaI devolvido?” (Pra melhorar ainda mais, só se Já deu pra entender que é disso que o ban- eu contar que a energia da nova fábrica da co e o modelo todo se tratam. Grameen Danone é solar e a embalagem do iogurte biodegradável) Como vocês podem perceber, quando o foco está no processo e não na rentabilida- de, o objetivo é bem mais fácil de alcançar. Faltou avisar que “grameen” significa “da vila” ou “do lugar”, mas depois dessa histó- ria toda acho que eu nem precisava explicar.
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    mumbaI mumbaI dinheiro, o que torna a escolha dos toma- grana num projeto que não dá lucros, eles POst dores uma das etapas mais delicadas da aparentemente não tinham escapatória a 60 14 mar DO GRAMEEN CREATIVE LABS AO SOCIAL BUSINESS – história. (Em geral, o dinheiro é emprestado não ser oferecer alguma remuneração a para um grupo de mulheres que ficam todas esse pessoal… PARTE 2 (O PIPOCO) sem acesso a qualquer novo financiamento Só que aí o bicho pega. E é “pau viola”, pai. se apenas uma delas não pagar, o que acaba Porque desde que o mundo é mundo só fazendo com que a responsável pela verba tem um jeito de um banco ganhar dinheiro receba fiscalização de todos os lados para com dinheiro dos outros: emprestando. E o fazer seu negócio dar certo e evitar que o que acontece quando você sai emprestando nome do grupo todo fique sujo na praça) dinheiro mais preocupado em bater meta Tem mais uma razão pra eu estar escreven- Vamos lá, a minha formação de economista do sobre a ideia do Social Business nesse tinha que servir pra alguma coisa nessa via- momento, e não é uma boa razão. Acontece gem, então eu vou explicar o que está acon- que qualquer leitor atento ao noticiário eco- tecendo. Toda a estrutura do Grameen Bank nômico deve ter percebido nesses dias que está montada sobre a filosofia do micro-cré- o Grameen Bank está passando pela pior dito, onde pequenos empréstimos são fei- O que acontece é que o Grameen chegou do que em perguntar que tipo de negócio crise de toda a sua história, um verdadei- tos somente para grupos de pessoas muito num dilema: brigar para crescer e espalhar a pessoa quer abrir? Calote. O negócio dá ro escândalo, cujas consequências podem pobres, que passam a utilizá-lo para criar o tudo isso pelo mundo ou permanecer pe- errado, acaba o dinheiro pra pagar, o ban- impactar definitivamente nos rumos desse próprio negócio. É ele que vai gerar a renda queno porém com ótimos resultados. Se a co não tem o que tomar de volta do pobre tipo de trabalho daqui pra frente. Pra vocês necessária para honrar o que devem. Como resposta fosse “crescer”, eles precisariam como garantia, e fica sem saber se deixa por terem uma ideia, o próprio Yunus está quase o princípio do Grameen é tirar as pessoas de um pouco mais de dinheiro… Mas como isso mesmo e faz todo mundo pensar que saindo do banco por causa disso. da pobreza, ele não pode exigir garantia ne- nenhum investidor convencional vai colocar “é festa” e também não precisa pagar ou se nhuma de ninguém antes de emprestar o
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    mumbaI mumbaI pressiona a família pra dar seus pulos e in- fundamental de não distribuir lucros e rein- Longa vida ao Social Business. Que ele pos- ventar um jeito de pagar. vestir todo o excedente de volta no negócio. sa continuar ajudando a liberar o potencial O nocócio só fica feio mesmo é no próximo Isso ainda vai dar o que falar… é a primei- criativo de quem sempre esteve impedido da história, quando o cara se mata, porque ra vez na minha vida que eu torço por um de praticá-lo na vida social. Assim como o não tem como pagar o deve, o banco fica banco no meio de uma confusão. Mas nesse Unseen Tour fez em Londres, tá na hora de queimadaço com a opinião pública, e o Yu- caso dá pra entender: não é qualquer banco, trazer essa galera toda pra cima do palco nus finalmente se dá conta de que essa ideia é um dos únicos no mundo que se preocupa como protagonistas da história, e a gente de gerico é mais uma repetição do tipo de se vai fechar ou não por causa do tanto de não pode perder um aliado tão importante modelo que deu origem à crise nos EUA, gente que vai deixar de ajudar ao invés do quanto simbólico feito esse assim de graça. com o agravante de que o pipoco é todo tanto de investidores que vai desagradar. dentro do próprio banco. Só aí é que se per- cebe que esse aporte de dinheiro de inves- tidores externos não tem nada a ver com o espírito do Social Business, que o Yunus tem todas as razões do muito pra estar trans- bordando de raiva com quem fez isso, e que tem que fazer alguma coisa pra resgatar a imagem do banco antes que todo o modelo de microcrédito vá pelos ares . Pra piorar a situação, o governo de Bangladesh “apro- veitou” o momento pra tentar destituir o Yu- nus do cargo de diretor, alegando que ele não podia assumir esse cargo com mais de 60 anos, num movimento que, no final das contas, pode complicar ainda mais a inde- pedência do banco e levar à sua estatização. (Vocês podem apoiar o Yunus contra esses ataques clicando aqui, aqui, aqui e aqui) O Social Business pode crescer pelo mundo? Pode. Mas não a qualquer custo. Muito me- nos ao custo do sacrifício do seu princípio
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    baNgCOK baNgCOK POst POst 61 14 mar #SHARING9 – LIDI FARIA PREPARA EM TEMPO RECORDE UM BORDADO 62 16 mar BANGKOK, SUA LINDA… A MINI-SAIA VOLTOU! PRA BANGKOK Ê satisfação… tem dias que a gente desco- Voltando pro hostel eu fui conversar com a bre um nova tão boa que sente que tem atendente mais “trendy” do lugar pra per- que divulgar. Tenho obrigação de estimular guntar se isso era só coisa da minha cabe- essa transformação de hábitos tão agradá- ça ou se estava crescendo mesmo. Quando vel pelo mundo todo, não é não? É que no mostrei as fotos ela disse: “Nossa! Que legal! meu primeiro dia em Bangkok eu descobri Isso é coisa de um mês ou dois pra cá. Mini- que o que está voltando, com toda a força, saia a gente usa, mas esse tipo feito com o por todo lado e de uma maneira totalmen- tecido leve assim eu tinha visto muito pouco te acachapante (nossa, fazia tempo que eu ainda. Essa quantidade de gente usando e não usava essa), é uma nossa velha conheci- de vitrines está começando a mostrar é algo da: a mini-saia!!! muito novo que está explodindo agora”. Ela mesma! E não venham me dizer que eu Só pra reforçar ainda mais o ponto de vista, Organizar o #Sharing9 em uma única sema- como foi a entrega, uma hora antes de eu ir tô forçando a barra pra chamar de tendên- seguia eu caminhando traquilamente pela na logo antes de partir já era por si só uma pro aeroporto: cia só porque eu queria que fosse (quem, praça quando me deparo com nada menos tarefa difícil (parabéns ao pessoal de Social Nosso contato foi tão rápido que não deu eu? que é isso…). Olhem o que o que eu en- que um ensaio fotográfico para um novo Media da DM9, que inventou e correu atrás tempo de conversar muito mais sobre al- contrei em meia horinha de caminhada por catálogo de moda. Adivinha o que todas as de tudo!). Ela seria impossível se não existis- guns outros trabalhos dela… Mas se vocês aqui: meninas estavam vestindo??? Ela mesma… sem artistas como a Lidi Faria, que preparou quiserem, podem se inteirar de tudo visitan- quase imperceptível mas sempre lá. o nosso presente pra Bangkok. Imaginem do o site dela ou seguindo o seu twitter vocês que ela fez tudo num ônibus, voltan- @lidifaria. O outro sinal de como Bangkok é uma cida- do de viagem! de up-to-date apareceu quando eu resolvi Ela preparou algo delicado e cuidadoso – perguntar pro fotógrafo, que não fala inglês, um bordado – e me incumbiu de entregá-lo o que estava rolando. Sabem o que ele fez? a uma criança muito fofa na Tailândia. Ago- Com toda naturalidade do mundo, tirou o ra temos também um pouco de artesanato seu iPhone do bolso, abriu o Google Trans- brasileiro pra levar pro mundo. Vejam aqui
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    baNgCOK baNgCOK POst 63 17 mar CONGELAMENTO DE PESSOAS? BEM… QUASE ISSO… late, configurou em Inglês/Thai e botou na minha mão. Não vou mentir que ri alto, mas o pior é que funcionou! Primeira vez que eu tive uma conversa presencial através de Esse é o primeiro post “ponha seu rabo en- Mas eu tive uma segunda chance! 24 horas uma máquina com alguém. E podem escre- tre as pernas” da viagem. Uma galera me depois, num lugar completamente diferen- ver que essa é outra trend comportamental escutou no twitter falando sobre o tal con- te da cidade (Weekend Market de Chatu- que aproxima as pessoas através da tecno- gelamento de pessoas, uma dessas ações chak), eu me senti o homem mais sortudo logia para que quando a linguagem univer- organizadas por grupos de intervenção ur- do mundo por ter conseguido gravar isso: sal dos gestos não funcione, a barreira do bana como o Improv Everywhere, em que idioma não seja mais tão drástica. uma multidão de repente pára tudo que está fazendo e congela, como se fosse uma Agora vamos adiante que ainda a cidade só estátua viva, enquanto o resto das pessoas tá começando. fica com cara de besta sem entender nada. Eu mesmo já postei aqui um vídeo sobre o maior congelamento já feito no mundo, em 2008, com cerca de 3000 pessoas em frente à Torre Eiffel. Pois ontem eu estava descendo a escada do skytrain de Siam Square quando, de re- No entanto, o que eu descobri mais tarde pente, pareceu que a estação inteira tinha foi um belo balde de água fria no meu en- parado. Um negócio incrível! Eu não sabia o tusiasmo. que fazer, fiquei pensando “MEU DEUS! Eu estou ao vivo no meio de um congelamen- Todo santo dia, precisamente às oito da to humano!”, e quando finalmente consegui manhã e às seis da tarde, o Hino Nacional pegar minha câmera… todo mundo já tinha da Tailândia toca. E todo mundo pára pra voltado a andar. escutar.
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    baNgCOK baNgCOK POst 64 18 mar PRA TIRAR MAIS DE UMA GALERIA, QUE TAL SE SEU CORPO VIRAR Não importa o que estejam fazendo. Todos os tailandeses param, em sinal de respeito TELA? MúSICA E BODY-PAINTING COM LUZ NEGRA pelo seu hino, o símbolo máximo da única nação do sudeste asiático que nunca foi co- lonizada. Inclusive, se você não parar, pode ter a desagradável surpresa de ser detido e preso. Prestem atenção de novo no vídeo aí em cima. A única pessoa que não parou era um gringo tão ignorante feito eu que deve ter acreditado que estava presenciando a maior provocação subversiva do grupo de intervenção urbana mais inovador de que conhece. Só me resta por o meu rabo entre as per- nas. Não é que em Bangkok não existam Caminhando por aí, descobri uma galeria pra dentro da galeria” congelamentos humanos (vide esse link onde estava rolando a exposição “Explora- aqui). Mas o que eu queria dizer com essa tion of Darkness”, organizada pelo The Wet Não é só o The Wet Carpet que pensa que história toda é que se hoje eu passei ver- Carpet. Trata-se de uma coleção de pinturas ir a uma galeria tem que ser uma experiência gonha de vender gato por lebre pra todo e video-instalações feitas pra brilhar com luz memorável: quando eu estava em Nova Ior- mundo que me lê, eu também aprendi uma negra. O visual é bem interessante, mas a ra- que descobri que o planetário do American coisa que não vou esquecer tão cedo quan- zão de eu estar escrevendo sobre isso é outra. Museum of Natural History se transforma uma do chegar numa cidade: Comece aceitando Se durante o dia temos uma exibição, à noite vez por mês em pista de dança numa festa que não sabe nada. Só depois desconfie de a galeria se transforma num espaço de experi- chamada One Step Beyond. O mesmo acon- alguma coisa. mentação para DJs e VJs em festas inusitadas. teceu na reinauguração do Museum of The “A gente trabalhou muito tempo levando a Moving Image, que ofereceu um final de se- arte que fazia pra dentro dos clubes. Agora mana de música, luzes e projeções pra marcar decidimos fazer o contrário: trazer os clubes a data.
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    baNgCOK baNgCOK do “Mergulhe, se lambuze e depois me con- te como foi” ela se encaixa? Não importa o que estejam fazendo. Todos os tailandeses param, em sinal de respeito pelo seu hino, o símbolo máximo da única nação do sudeste asiático que nunca foi co- lonizada. Inclusive, se você não parar, pode ter a desagradável surpresa de ser detido e preso. Prestem atenção de novo no vídeo aí em cima. A única pessoa que não parou era um gringo tão ignorante feito eu que deve “É um erro achar que num club as pesso- negra? Essa nem eu esperava, e é por isso ter acreditado que estava presenciando a as prestam mais atenção na música do que que cada detalhe ficou marcado mais forte maior provocação subversiva do grupo de em outros lugares. Por ser a razão principal na memória: o frio na pele, o tato, a rigidez intervenção urbana mais inovador de que pra ir lá, ela é também o elemento menos da tinta quando seca… e a possibilidade de conhece. surpreendente de todos. Por outro lado, explorar o corpo do outro como tela para o se você está num museu e começa a escu- seu trabalho. Aliás, quem se lembra do Un- Só me resta por o meu rabo entre as per- tar uma música, presta uma atenção muito derground Rebel Bingo Club? Aquela “festa nas. Não é que em Bangkok não existam maior, porque aquele não é um ambiente secreta” em que eu fui em Nova Iorque, em congelamentos humanos (vide esse link no qual você está acostumado a receber que na entrada a primeira coisa que a gente aqui). Mas o que eu queria dizer com essa esse tipo de informação. A nossa ideia é recebia era uma cartela e uns marcadores. história toda é que se hoje eu passei ver- sair do convencional e propor uma experi- Ninguém dizia que eles eram só pra marcar gonha de vender gato por lebre pra todo mentação nova a um público que não está a cartela: eram também (e principalmente) mundo que me lê, eu também aprendi uma acostumado com isso” para desenhar nos corpos das outras pes- coisa que não vou esquecer tão cedo quan- soas, e eu garanto a vocês que ninguém do chegar numa cidade: Comece aceitando E se a história é falar de experiências novas, saía limpo de lá. que não sabe nada. Só depois desconfie de que tal se eu contar que ainda participei alguma coisa. de um workshop de Body-Painting com luz Alguém ainda tem dúvida de em que parte
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    baNgCOK baNgCOK mitação de recursos, essa economia pode ser radia a partir de um pequeno negócio. A ‘in- POst essencial, sem falar no fato de que tudo pode dustrial hemp’ tem recurso pra tudo isso, mas 65 19 mar AGORA EU SÓ VISTO MACONHA – INDUSTRIAL HEMP DO ser feito a partir de pequenas propriedades, a gente ainda sofre muito com o preconceito, beneficiando muito mais gente.” construído ao longo de anos sobre os efeitos RE3-GENERATION PRA FAZER MELHOR QUE JEANS E AJUDAR O CAMBOJA Através desse projeto, chamado Re3-Genera- do THC. Enquanto as pessoas não percebem Calma, calma: eu não comecei a fumar e nem de produzir (chamadas de hemp), podem se tion (Resource, Repower, Restore), Mathew e que o nosso trabalho não tem THC, quem se estou fazendo apologia nenhuma. O que converter numa das mais resistentes fontes Eny querem chamar a atenção também para alimenta da confusão é a indústria do algo- acontece é que em Bangkok eu conheci um de fibras para tecidos no mundo, e mesmo as um tipo de iniciativa que oferece soluções lo- dão, que não ajuda em nada a resolver ne- casal que está fazendo um trabalho interes- outras variedades (chamadas de marijuana) cais para alavancar a condição de vida de um nhum desses problemas.” santíssimo no Camboja e me deu razões de podem servir se cortadas antes da etapa em pequeno produtor a partir de algum negócio sobra pra escrever sobre eles. Quem aí sabia que o produzem. Para fins práticos, no entan- que seja auto-sustentável. Conversando um Pra mostrar como a história é importante, o que dá pra fazer tecido a partir da maconha? to, (e para evitar possíveis confusões) só se pouco mais, Mathew me disse que a ideia que ministério da agricultura do Camboja está Você que pensava que ela só existia pra “fazer trabalha com o primeiro tipo. tinha quando deixou a Califórnia era muito apoiando o projeto por uma série de razões. a cabeça” dos “muitcho dôdjos”, tá na hora de próxima da do Social Business. Entre 1975 e 1979, o país passou por um ge- rever os seus conceitos… “Nós estamos tentando fugir do rótulo de hi- nocídio que exterminou 2 milhões de pessoas ppie. A nossa motivação é outra, é ambiental. “Parece mentira, mas é incrível o que a gente (25% da população) e levou junto com elas a Não é toda variedade da Canabis que pro- Com a ‘industrial hemp’ você pode produzir pode fazer com a ‘industrial hemp’. Sabendo maior parte do conhecimento sobre como uti- duz o tal do THC, psicoativo responsável pela um tecido de três a sete vezes mais forte e usar, ela se torna o elo de uma cadeia que aju- lizar a maconha industrial. Desde então, Ma- “viagem” toda. O que o Mathew e a Eny me resistente que o algodão, em metade do tem- da a solucionar problemas tão graves como a thew e Eny são os primeiros a trabalhar com explicaram é que principalmente as incapazes po e com metade da água. Num país com li- desnutrição, a tuberculose e o déficit de mo- ela, o que faz com que o governo enxergue na
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    baNgCOK baNgCOK iniciativa mais do que um empreendimendo para modificar a vida de pequenos agriculto- res, mas também a possibilidade de resgatar uma tradição perdida no tempo. Tenho minhas opiniões sobre a questão das drogas, da legalização e tudo, mas não é meu papel falar delas aqui. O que eu não podia dei- xar de mostrar é um movimento que está em plena rota de crescimento, pretende se encai- xar numa proposta que eu identifiquei com uma grande tendência da ásia pro mundo (o Social Business), e ainda por cima tem como objetivo de expansão mais imediato… o Brasil! (Sim, a Eny é uma Nipo-brasileira que deixou o país há 11 anos e está louca pra aproveitar o nosso momento especial de florescimento e voltar pra casa com a novidade). Se isso vai conseguir chegar até Brasil eu não sei. Só sei que a calça que eu ganhei vai. E como daqui pra lá ainda falta quase um mês, nesse tempo todo eu ainda vou vestir maco- nha um montão de vezes.
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    baNgCOK baNgCOK POst 66 20 mar O QUE FAZ UM TEEN DE BANGKOK? Dessa vez decidi dar um mergulho no uni- Eles podem não querer nada, mas dizem verso teen de Bangkok. Mais por imposição muito quando colocam uma música coreana dos fatos do que por escolha, porque quan- pra tocar e adotam esse tipo de visual. De do você está saindo de um shopping e vê fato, a Coreia tem se tornado a maior referên- um negócio desse, tem obrigação de parar e cia externa para o comportamento tailandês. perguntar o que é. Seja pela vestimenta, pela música, onde for, ração entre a multidão e as grandes estrelas virais como a tal da Rebecca Black. Alguém, do mais novo blockbuster do cinema teen pelo amor de Deus, me explique por que ela tailandês. O filme estreou não tem duas se- tá no top trends do twitter há DIAS se não manas, e se chama “Suckseed”. for por causa da vergonha alheia pela voz de A história é a mais velha do mundo: um gru- gralha de uma menina que tem a coragem de po de garotos decide formar uma banda pra se prestar ao des-serviço de cantar a letra de impressionar as garotas da sua idade. A di- “Friday”. É aquele tipo de constrangimento ferença começa a aparecer no fato de que tão grande que não pode ficar restrito ao ser eles não se importam em serem muito ruins, humano que vê e precisa ser compartilhado e aí tem algum ponto de interessante. Parece com alguém imediatamente. que a mensagem do filme, assim como tem repercutido nos jornais locais, é de que deve Exceções à parte, a questão, no entanto, é Não, eles não estavam pedindo dinheiro, é ela que está estabelecendo o que é “cool” haver alguma razão pra o mundo ter mais que as maneiras de interagir são tão grandes tampouco inventando flash mob e muito para a juventude daqui. jovens participando de bandas do que no na nossa sociedade digital que realmente não menos a fim de subverter espaço nenhum. Continuei então o meu caminho até ser obri- exército, embora não haja evidentemente es- tem mais tanta razão pra alguém ter vergo- Me disseram que estavam só ensaiando pra gado a parar de novo por causa de outra paço pra tanta gente. A grande razão para o nha do que gosta de fazer. A minha geração um campeonato de dança que ia ter dali a horda de teenagers ensandecidos se acoto- seu “sucesso” é mostrar que a questão não é aprendeu que, usando bem as ferramentas, uns dias. “Por que a gente decidiu fazer isso velando pra ver quem chegava mais perto de mais ter “sucesso”, é sim apenas se expressar, todo mundo acha plateia. A dessas crianças aqui? Sei lá, a gente gosta e pronto. uma parede de vidro. A parede em questão sem medo de ser feliz. já nasceu sabendo. We don’t care”. era de uma cabine de rádio, que fazia a sepa- Eventualmente, essa falta de medo vai causar Agora é ver onde é que eles vão chegar.
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    baNgCOK baNgCOK Uma biblioteca INCRÍVEL vocês podem ima- sign, mas oferece o suporte completo para o POst ginar. Mas uma sala onde as estantes estão “thinking process” da inovação. 67 21 mar cobertas de amostras de todo tipo de ma- ECONOMIA CRIATIVA E A FASCINANTE “SALA DE MATERIAIS” – terial, catalogados pelo processo de fabrica- De curioso que sou, ainda dei uma futucada TCDC BANGKOK ção, com legendas explicando como pode a mais até descobrir que a outra menina dos ser utilizado… eu nunca tinha visto. A “Sala olhos de lá é “Trend Book” da biblioteca. Ló- No começo do ano, o nosso Ministério da sos) do nosso futuro: as ideias. Acontece que de Materias” do TCDC (aliás, só existem cin- gico que eu joguei um lero pra atendente me Cultura criou (finalmente!) uma pasta para a na Tailândia eles perceberam isso uns três ou Economia Criativa. Não sabem o que é isso? quatro anos atrás, e foi aí que surgiu a ideia Grosso modo, é toda a produção de riqueza de criar o TCDC (Thailand Creative & Design econômica a partir das atividades artísticas, Center), um dos lugares mais fascinantes que culturais, conceituais, etc. produzidas no nos- conheci na viagem toda. Ele está fundamen- tado em torno de cinco objetivos: 1) Prover conhecimento. 2) Prover inspiração 3) Prover oportunidades para pessoas lo- cais nas suas próprias províncias (existem mini-TCDC espalhados pelo país, além de transmissão ao vivo das palestras que acon- co dessas no mundo inteiro) é o paraíso de deixar dar uma olhada (geralmente só sócios tecem em Bangkok). qualquer designer realmente criativo. Já pen- tem acesso ao livro), e com uma ajudinha da 4) servir de ponte entre pessoas interessa- saram na alegria de saber que pra “todo pro- sorte consegui folhear a mais nova edição de das e os designers (catálogo de trabalhos na blema real existe uma solução material” bem todas: Interiores no outono-inverno de 2012- internet e mural com cartões, bem à moda ali, depois da porta? 2013. Rapaz, que felicidade… foi abrir o livro e antiga, na sede). dar de cara com pelo menos mais duas tren- 5) usar todos as itens anteriores para impul- Mas é exatamente essa a ideia do lugar: pro- ds que eu vinha matutando e não tinha senti- sionar a economia nacional. ver tudo que for necessário para as mentes do firmeza pra divulgar ainda. Agora podem criativas desenvolverem os produtos ou con- deixar que os próximos posts vão ser exata- so país. Já estava mais do que na hora de to- De todos os itens acima, eu só vou falar do ceitos capazes tanto de gerar riquezas quan- mente sobre elas. mar consciência que é por esse lado que vão primeiro e do último. Um é o que torna-o tão to de se tornar a representação da Tailândia sair os elementos mais valiosos (e podero- apaixonante. O outro faz dele uma tendência. no mundo. O TCDC não é uma escola de de- Pra não acabar esse post sem falar da ten-
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    baNgCOK baNgCOK dência que o TCDC representa em si mesmo O pulo do gato está aí, em perceber que é POst ao abraçar a ideia da economia criativa, nada investindo o potencial de pessoas criativas melhor do que a declaração que ouvi de uma no desenvolvimento de novos conteúdos e 68 22 mar VENTILADORES SEM Pá – UMA NOVA MANEIRA DE BRINCAR COM O AR brasileira (cujo nome ainda vou me lembrar) conceitos relacionados a atos como “dançar” num programa de TV logo antes de deixar o que nós vamos acionar o gatilho da grande Brasil: onda de transformações que podemos dese- Como eu disse no post passado, o “Trend Book” do TCDC de Bangkok me deu insights suficien- “Se você pega a economia da ‘dança’, é um jar. O TCDC não quer só desenvolver produ- tes pra juntar uns pontos e colocar aqui no blog. Como algumas coisas são melhor vistas do que negocinho desse tamanho… envolve os pro- tos, quer desenvolver ideias, porque o gover- ditas, vejam esse vídeo aqui: fessores, bailarinos, escolas, todo mundo di- no agora se deu conta do valor que elas têm retamente relacionado com a dança enquan- nessas áreas. Só pra fortalecer o argumento, to atividade profissional. No entanto, se você sabem qual é o tema da exposição de cuja pega a economia do ‘dançar’, essa é ENOR- abertura eu acabo de chegar? “Games e ani- ME! Envolve todo tipo de atividade gerada a mação na era digital”. partir do ato de dançar, e nesse bolo entram as festas, shows e até mesmo o carnaval! E Ou vocês acham que o primeiro ministro de todo mundo sabe a quantidade momumen- um país vai pessoalmente a um evento desse tal de recursos que essa atividades movi- só porque curte um Playstation? mentam.” Sim, querido leitor. Esses aros que você está vendo são ventiladores sem pá. Não vou mentir que até agora não entendi como funciona essa história, mas o anúncio promete um fluxo de ar até 15 vezes mais forte que os modelos convencionais com um consumo de energia consideravelmen- te menor. Pode até ser verdade, mas não é essa a razão que deixa a gente boquiaberto com o vídeo. O que enche os olhos é mesmo a beleza estética de uma tecnologia que faz tudo parecer muito mais simples. No entanto, talvez o grande mérito do Air Multiplier Fan esteja menos na sua tecnologia inovado- ra do que no momento em que desenvolve essa solução. Desde a primeira parada da viagem (e até mesmo antes, no Brasil), eu venho percebendo que um dos lugares para onde as mentes cria-
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    baNgCOK baNgCOK tivas mais têm apontado a sua atenção não Já em Paris, eu descobri uma loja de conser- demolição de um imóvel antigo abriu entre está nem nos muros, nem no chão, nem em to de relógios antigos em que a decoração, dois prédios, ele enfiou algumas vigas de qualquer superfície, mas sim no único espaço no entanto, tinha sido deixada a cargo de um metal de uma parede à outra e pronto: trans- realmente livre de contato humano: o ar. artista que trabalhava apenas como móbiles. formou tudo numa grande galeria suspensa. Ainda em Nova Iorque, no comecinho da via- Quando perguntei por que ele tinha decido O que eu quero mostrar é que assim como gem, uma rápida visita ao MoMA já tinha co- fazer isso, ele me respondeu que “bem, tinha muitas ideias brilhantes às vezes demoram a meçado a me convencer de como isso está um francês* que dizia que os espaços hori- ter aceitação por não encontrarem o ambien- despontando como um horizonte de possi- zontais estavam todos tomados por carros e te adequado para recebê-las, eu acredito que o caso do Air Multiplier Fan é exatamente o oposto: uma tecnologia que permite manipu- lar com uma funcionalidade incrível o espaço aéreo no momento em que mais queremos explorá-lo, ao mesmo tempo em que se afina com a tendência de transportar a limpeza e simplicidade da arquitetura digital pra tantos lugares quanto for possível. Convergência é a palavra de ordem. Melhor para a fabricante, que apostou nisso pra se levantar no único espaço realmente “touch- less” do nosso mundo real. bilidades. Com dois ventiladores, o artista li- pessoas, então restava o espaço vertical pra tuano Zilvinas Kempinas conseguia criar dois explorar nas cidades. O que eu acho é que círculos de rolo de VHS que flutuavam eter- até o espaço vertical está começando a ficar namente entre eles, numa exposição que tra- saturado, então a gente tem que criar solu- tava de como o desenho saía do achatado do ções pra usar o único espaço que ainda te- papel para conquistar o incontível do espaço. mos verdadeiramente livre: o ar”. Era o suficiente pra paralizar meio mundo de Duas ruas depois, no mesmo bairro de Mont- gente, que passava minutos parado ali, besta, martre, outro artista também tinha feito a sua olhando o negocinho voar. parte pra explorar essa ideia. No vão que a
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    baNgCOK baNgCOK POst 69 23 mar GATHERING SOCIAL – RETALHOS FAZEM MAIS QUE ROUPAS BONITAS. Outra tendência que o Trend Book do TCDC Eu comecei a suspeitar quando vi que a histó- de Bangkok apontou (e pra qual eu já vinha ria da “guerrilha do crochê” era mais conhe- colecionando sinais há um tempo) tem a ver cida no mundo do que eu supunha. Eu até com retalhos. Não precisa ser consultor de arriscaria dizer que essa onda de retalhos na moda pra perceber quando uma coisa co- moda já é reflexo do sucesso das experiên- meça a aparecer como um padrão por onde cias do knit graffiti por aí. No entanto, como eu posso fazer é dizer que tipo de compor- Vejam só o que aconteceu em Cambridge em passa. Vocês também não começariam a sus- eu não estou aqui pra falar de moda (não vou tamento eu vejo encontrar expressão nessa setembro do ano passado. Para Sue Sturdy, peitar de algo se vissem isso se repetindo as- gastar o tempo de vocês me metendo a bes- história toda. não bastava cobrir uma ponte inteira com cro- sim? ta em assunto que eu não conheço), o que chê. Tinha que ser o recorde mundial do maior número de pessoas costurando juntas. E foi. Por definição, um trabalho com retalhos é Desde o começo, a artista já explicava que “as algo que une peças separadas. Esses retalhos contribuições para essa colaboração artística podem não ter sido feitos para aquele deter- comunitária são chave para o seu sucesso. minado fim, mas quando se envolvem nesse Uma pessoa sozinha iria se debater com um fim encaixam de alguma forma, e a arte toda projeto dessa magnitude, mas juntos nós po- está em saber encaixar. demos criar uma incrível obra de arte que vai incluir um caleidoscópio de texturas, cores e Se você faz um casaco de retalhos sozinho, individualidade“, mostrando que, ao contrário ótimo. Está desenvolvendo a própria habi- de anular, a criação coletiva potencializa as lidade de resignificar o que antes era outra particularidades. coisa. Porém, se tem a oportunidade de par- A razão de eu estar falando disso tudo não é ticipar da experiência do retalho coletivo, outra que não sublinhar que nós vivemos no leva a atividade à última escala: encontrar um mundo do “Gathering”. E isso nada mais é do jeito de aproximar as criações de um monte que a convergência de pessoas. Os retalhos de gente a partir do que elas têm em comum. coletivos aprenderam a fazer isso muito bem,
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    baNgCOK baNgCOK com a certeza de que esse processo vai levar à em forma concreta”. É por isso que eu acre- composição de algo extremamente autêntico. dito que pra entendê-la a gente precisa olhar Se a gente fala tanto em convergência de tec- primeiro pra como as pessoas pensam, e só nologia e mídias, a razão pra isso não pode depois pra como os engenheiros desenham. estar em outro lugar que não numa mudança Retalhos só crescem do jeito que estão cres- de comportamento humano, social. Na pales- cendo porque representam de maneira con- tra de encerramento da Ecobuild em Londres, creta o que estamos vivendo. E assim vai um antropólogo sumarizou tudo isso com continuar por um bom tempo. uma frase só: “tecnologia é uma relação social
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    baNgCOK baNgCOK Além da ajuda essencial de Pla com a tra- Enfim, foi por razões como essas que eu não POst 70 dução e tudo o mais, eu ainda pude contar tive problema nenhum em documentar a en- com o fato de que os tailandeses são o povo trega do presente que a Lidi preparou com 24 mar #SHARING9 BANGKOK – BORDADO DA LIDI FARIA PRA ALEGRIA DA FAI, mais parecido com o brasileiro que eu já vi tanto carinho pra uma das crianças mais fo- UMA LINDA CRIANÇA TAILANDESA no mundo. Eu fico impressionado com como fas que eu vi na cidade. Muito obrigado, Lidi, eu não sabia disso! Além de serem notada- pela prontidão e por nos ajudar a levar um Conforme prometido, rodei um tanto de Ban- mente conhecidos pelo sorriso que sempre pouco do artesanato brasileiro pro mundo gkok à procura de uma “criança fofa” pra re- carregam no rosto e pela maneira como cos- conhecer. Antes de a viagem começar eu ceber o presente da Lidi Faria. Em uma das tumam responder a um pedido com “por que não tinha dimensão do quanto essa ativida- voltas que dei, encontrei Fai, sentada numa não?” ao invés de “por que eu deveria fazer de está crescendo, mas hoje fico feliz de ter cadeirinha tomando seu suco e rindo solta pra isso?”, vocês sabiam que eles comem TAPIO- levado um pouco dela comigo. Espero que quem quisesse ver. CA??? Eu quase chorei de emoção quando vi você também tenha gostado. isso. No Rio, as pessoas me conhecem por Não vou mentir que a minha preocupação oferecer tapiocadas aos meus amigos e tro- Um abraço, e até a próxima! com esse #Sharing9 era conseguir que os car o misto do café da manhã por uma re- pais me deixassem fotografar a criança, sem cheada de coco com queijo. PENSEM numa pensarem que eu era um gringo tarado que ia saudade lerda que eu matei então!… jogar as fotos dela na net sabe-se lá pra quê. Pra resolver esse problema eu contei com duas ajudas. Primeiro, com Pla, que trabalha na recepção do hostel onde eu estava hospedado e se ofe- receu de coração aberto não só pra me ajudar na tarefa como pra me mostrar a cidade intei- ra! Durante três dias, eu esperava ela terminar o expediente no meio da tarde para sairmos e explorar a culinária de rua da Tailândia, os lu- gares onde os locais vão, e, inclusive, o TCDC (que foi ela que me indicou quando me viu perdido sem saber aonde ir na primeira tarde).
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    xaNgaI xaNgaI POst 71 14 mar #SHARING9 – BIA GRANJA ESPALHA A INTERNET BRASILEIRA POR XANGAI. voltado pra fora da revista, convocando a ga- a maravilhosa relíquia que é a 1a edição da lera mesmo, qual seria o nome do encontro? (então ainda) Pix! – e um monte de bottons youPix. também. Ah, quase esqueci… também tenho O fato é que esses eventos cresceram tanto a missão de explicar o que é a #sualinda pra que se tornaram talvez maiores do que a pró- uma pessoa por lá. Se ela entender, ganha um pria revista! Pra se ter uma ideia do alcance botton! da parada, uma das figuras ilustres a prestigiar Pra saber mais sobre a revista e o que está uma das edições foi ninguém mais ninguém bombando na internet brasileira, procure uma menos que David After Dentist!!! Quem não Pix, ou acesse: se lembra dele? Então pra juntar tudo de uma Site oficial: http://mypix.com.br vez, ficou melhor mudar tudo pra youPix logo. @NaPix Esse sim é um presente valioso!!! Todo mun- conhecê-la simplesmente pelo nome de Pix, Dito isso, estou levando um catatau do último @BiaGranja do sabe que a China tem sérias restrições a pelo qual ficou conhecida. Mas sabe como é… exemplar da revista pra espalhar por lá, junto algumas redes sociais como o Facebook e o A revista começa impressa e o caminho natu- com alguns números mais antigos – incluindo Twitter. Não que isso impeça totalmente as ral (principalmente se o foco dela é internet) pessoas de participar delas de alguma manei- é ganhar um site. Como o domínio pix.com.br ra, mas dificulta muito o acesso ao que está já existia, foi pelo MyPix.com.br que ela entrou sendo disseminado livremente por esses ca- na rede. nais em outros lugares. Que tal então levar de Se parasse por aí tudo bem, mas o pessoal presente um pouco da internet brasileira pra não se contenta e começou também a organi- Shanghai? zar eventos, oportunidades pra o pessoal das Foi essa a proposta da visita à sede da you- redes sociais se encontrar e adicionar mais Pix e do encontro com a Bia Granja, editora da essa esfera às suas possibilidades de sharing. revista. Na verdade, a maioria de vocês deve Colocando o foco no fato de que ele estava
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    xaNgaI xaNgaI POst 72 27 mar 3, 2, 1, BIKE POLO!!! Bicicletas são uma alternativa barata, eco- cavalos corram pra lá e pra cá com seus logicamente correta e saudável para o cavaleiros disputando uma bola? (Aliás, transporte urbano. Ok, todo mundo sabe quem é que tem seis cavalos numa metró- disso. O que pouca gente sabe é que agora pole!?!?!). Mas se a gente trocar os cavalos existe um esporte completamente novo e por bicicletas, o gramado por um estacio- uma preocupação muito grande). Fora isso, Eu tentei jogar, e vou confessar que é difícil inusitado usando as bikes nossas de cada namento, e os drinks sofisticados por cer- o jogo é bem simples: três pra um lado, três pra CAR@#&0*! Me senti quase um corea- dia. Se vocês também nunca tinham ouvido vejas com os amigos… tudo muda de figu- pro outro, cada time defendendo um gol. no no forró. Mas não precisei me preocupar falar nisso, bem vindos ao BIKE POLO! ra. Agora podemos ter o primeiro esporte Cada jogador carrega um taco e só pode porque nem todo mundo está lá pra jogar. coletivo com bicicletas do mundo em qual- atirar ou passar a bola com ele. A bola fica O evento é também um grande encontro Se algum de vocês já tiver jogado Polo na quer cantinho da nossa cidade. no meio, ao apito do juiz os times correm da bike comunity de Shanghai, uma opor- vida, eu vou tomar um susto – em que cida- O Bike Polo só se preocupou em criar uma para disputá-la, e quem marcar cinco gols tunidade de conhecer pessoas novas e tro- de do mundo você encontra um gramado regra nova: não por o pé no chão (o que, primeiro, vence. car ideias sobre as novidades da vida em amplo o suficiente para permitir que seis pra quem está num cavalo, não devia ser
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    xaNgaI xaNgaI duas rodas. te e diminuir o ritmo do pedal pra depois vos, cores e formas dos quadros até o ban- do, um esporte que também é mais que Foi conversando com eles que eu fiquei segurar e cantar pneu, o que coloca os seus co em que o pai aprendeu a andar 50 anos uma modalidade, e tem potencial pra aglu- sabendo, por exemplo, da onda das Fixed donos em outro patamar de perícia em re- atrás, tudo tem um significado. tinar e desenvolver uma cultura própria em Gear Bikes, bicicletas sem marcha e sem lação a nós, reles mortais montando Calois. Assim como vestir-se não é só cobrir o cor- torno de si pra influenciar o comportamen- freio em que a corrente encaixa numa ca- O mais interessante, no entanto, é o fato po, andar de bicicleta não é só se transpor- to de muita gente. traca fixa, de modo que, quando a roda das Fixies serem a plataforma para uma tar. E vai ser cada vez mais assim daqui pra gira, o pedal sempre acompanha (tanto pra personalização enorme. Nenhuma é igual à frente. Me despeço hoje deixando vocês frente quanto pra trás). Pra frear uma “Fi- outra, e é isso que está transformando-as com esse minidocumentário de 5 minutos xie”, você precisa inclinar o corpo pra fren- também em canal de expressão. Dos adesi- trançando as origens do Bike Polo no mun-
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    xaNgaI xaNgaI utilidade pra quem não usa bicicleta? Claro! net, música e informação na palma da mão POst 73 Uma mesa é sempre útil pra qualquer pedes- pra onde formos, antes de inovações como tre. Ainda assim, o Pit In continuaria relegado essa (ou essa) ainda tínhamos que conviver 28 mar DON’T PIT-STOP. PLEASE PIT-IN ao hall das excentricidades de estação, que com a obrigação de dar um “break” em al- não deixam muito mais que uma lembrança gum momento pra recarregar as baterias. engraçada na memória de que viu, não fosse Agora não mais. o conceito do “non-stop” que traz incorpo- A primeira vez que vi uma foi na “Sala de A invenção é japonesa, do Muu Design Stu- rado em si mesmo. Materiais” do TCDC Bangkok, mas assim que dio, mas eu descobri na China. Quem me De fato, não é à tôa que o nome é Pit-In ao cheguei no hostel meu colega de quarto me mostrou a ideia foi um dos organizadores invés de Pit-Stop. É como se você não tives- disse que já tinha visto várias na Suíça, de do Bike Polo, que também é editor um site se que interromper sua jornada pra fazer o onde vinha. Em outras palavras, me garantiu inteiramente dedicado à paixão por bicicle- que tem que ser feito parado. Essa ideia está que a tecnologia é funcional e não apenas tas em Shanghai, o People’s Bike. A paixão é crescendo muito, e pode ser observada em conceitual. Faz tempo que é possível estar tão grande que acabou de nascer uma seção produtos tão variados como o mochila aí em “on-line” 24 horas por dia. O que está se tor- chamada “Bike Porn”, onde são postadas as baixo, chamada de “mochila solar”. nando possível (e imperativo) é continuar as- fotos das Fixed Gear Bikes “mais desejadas Os painéis do lado de fora aproveitam a luz sim em qualquer lugar, em qualquer situação, da cidade”. Além do mais, como eu não vou do sol de que a gente tanto reclama quando e sem interrupções de percurso. mais passar no Japão, não faz mal home- carrega peso pra gerar em energia e recarre- nagear uma criação de lá, então dêem uma gar celulares, laptops, MP3s ou câmeras fo- Seja numa bike ou no computador, a vida é olhada nisso aqui. tográficas dentro da mochila. Se todos nós uma só. E se parar você cai. O nome do modelo é Pit In. Como vocês adoramos a possibilidade de carregar inter- podem ver, a pessoa chega na sua bike, en- caixa a roda da frente, e não precisa mais se preocupar se alguém vai levá-la embora en- quanto faz um lanche. Simplesmente come lá mesmo, em cima dela. Depois abre a sua mochila, tira o lap-top, dá uma olhada nas re- des sociais, começa a pesquisar alguma coi- sa, um endereço… e aí é só pedalar de novo que já está no caminho pra lá. A ideia é prática? Sim. Viável? Também. Tem
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    xaNgaI xaNgaI POst 74 29 mar WELCOME TO ENTER – OPEN SOURCE FILM só cabem seis pessoas de cada vez, no se- gundo andar de uma loja de roupas cha- mada Source. Pra me iniciar no negócio fui assistir a um projeto chamado “Open Sour- ce Film”, e tenho que dizer que já comecei tirando o chapéu. Funciona mais ou menos assim. Quando você compra um ingresso, recebe um email com uma pergunta. Você responde dizen- é o quarto dela. Com direito a gato passan- Passado meu momento comentarista de do o que gostaria de ver quando chegar o do no meio das falas, telefone tocando e teatro (o que, cá entre nós, eu adoro fazer), dia da apresentação. Quando tiver todas as tudo o mais. fica a lembrança de como as obras interati- Está rolando em Shanghai um festival cha- respostas, o responsável pela iniciativa, Mi- Coisa boa a gente tem que elogiar, e o tra- vas, em que o espectador é convidado a to- mado JUE, que significa “amanhecer”. Com chael Beets, vai enviá-las pra uma atriz em balho que ela fez foi muito bom mesmo! mar parte da construção do acontecimento a clara intenção de ser uma vitrine para no- Nova Iorque, e ela vai fazer alguma coisa Textos interessantes, interatividade na me- ao invés de ficar separado do artista pela vos talentos na música e nas artes, o fes- juntando todos esses pedidos numa perfor- dida certa, e uma obra que traz o público tão famosa quarta parede, estão pipocando tival ainda possui uma mostra paralela de mance só. pra dentro da construção sem abrir mão da por todos os lugares. Definitivamente essa performances chamada Enter. Pode ter autoria nem cair no “tudo vale”. Além do é uma tendência muito forte, e eu tenho ra- muita coisa boa rolando no JUE, mas é essa E como é que faz pra ver a mulher se apre- mais, realmente saí sem a menor noção de zões de sobra pra acreditar nisso conforme mostra o hors concours da história toda. sentar lá de Nova Iorque? Skype, é claro! que parte dos incidentes eram ocasionais documentei aqui, aqui, aqui e aqui. Sem dúvida nenhuma, a cereja do bolo. São sete e meia da noite aqui e sete e meia pelo fato de ela estar no quarto dela e quais da manhã por lá, mas dentro da salinha es- eram propositais pra brincar com a gente. E uma cereja pra muito pouca gente, por- tamos todos nos vendo ao vivo, sem delay, Enfim, linha tênue entre atuação e exposi- que todas as apresentações acontecem e interagindo do mesmo jeito que se esti- ção, com entrega e sinceridade. dentro de um cubículo de talvez 3 x 3, onde véssemos de frente pro palco, que, no caso,
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    xaNgaI xaNgaI 3m. O choque pode até ter sido “too much Esse vídeo é uma delas: sediado em Nova POst 75 information” pra cultura daqui, mas que foi Iorque, o The Box se propõe a ser um espa- memorável foi. ço de ousadia e criatividade na cultura de 30 mar WELCOME TO ENTER 2 – BOYLESQUE, SPEED DATING E AN XIAO cabaré. Aliás, corre na boca pequena que Realmente, quando estive em Londres eles já tem inclusive planos de expandir pude ver o tamanho dessa onda do burles- para Londres muito em breve. co na cultura dos cabarés. Em Paris idem, e em Milão até premiação anual especializa- Seguindo na programação do Enter, tive- da na categoria já está rolando. O problema mos experimentações com música eletrô- é que ele vem expandindo de uma maneira nica, teatro físico, e até “Speed Dating”. No post passado eu falei de um festival cha- mado Enter. Como eu tinha conferido só o Pra começar, uma performance chamada primeiro dia, foquei na história do Open “Boylesque”. Sim, burlesco com um ho- Source Film. Só que o evento tinha muito mem, que diz que já está de saco dessa tão acachapante quanto previsível, o que Nesse caso, oito homens e oito mulheres fi- mais a oferecer, e depois de um bom fim cena saturada e por isso decidiu fazer algo incomoda muitíssimo gente como o Tidia- cavam no cubo e cada pessoa um tinha um de tarde conversando com a sua curado- novo pra ela. Imaginem a cara dos chineses ne, do Boylesque. A questão então é: que minuto pra conversar com o outro. Minuto ra (Anita Hawkins, da Malásia) eu simples- chegando pra ver um cara se apresentar de tipo de resposta os artistas inovadores tem acabado, encontro encerrado e vamos pro mente não tinha como não falar mais um cinta-liga, peruca e plumas junto com uma tentado dar para esse problema? próximo. pouco do que está rolando. “assistente de palco” num cubo de 3m x
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    xaNgaI xaNgaI POst 76 31 mar BENS QUE CONTAM HISTÓRIAS – DOS ESCOMBROS à ALTA SOCIEDADE DE SHANGHAI Que a economia da China está crescendo es- pantosamente todo mundo sabe. Dá pra ver isso claramente na paisagem da cidade, com a demolição de prédios e casas antigas pra dar espaço ao ritmo avassalador da constru- ção civil. O que nem todo mundo sabe é que nem tudo que é posto abaixo tem que ser deixado pra trás. Quem também deu o ar da graça no festi- melhante ao Twitter (pra não dizer melhor). val foi a “social media artist” An Xiao, que Quando receber a resposta do email que Pois hoje eu conheci um cara que faz dos res- trabalha atualmente em parceria com nin- enviei pra ela com perguntas sobre a mídia tos de demolição matéria prima para novas guém menos que Ai Wei Wei – o chinês do social na China e o trabalho que ela desen- criações. Da combinação entre os elementos “Sunflower Seeds” da Tate Modern (já falei volve, divido mais com vocês. Por enquanto encontrados nesses locais e outros tão anti- dele aqui) e autor de projetos tão impor- só posso deixar essa micro entrevista aí que gos quanto caixas de biscoito metálicas, ele tantes como o estádio Ninho de Pássaro, ela deu ano passado. O mais interessante é cria móveis como esses aqui: o símbolo maior de toda a Olimpíada de quando ela toca suavemente nesssa ques- 2008 em Beijing. Ainda mais exclusiva, a tão de as “experiências” estarem tomando Jonas Merian veio da Suíça para Shanghai performance dela era para apenas um es- conta das artes, sobre a qual eu já falei bas- trabalhar na indústria de próteses ortopédi- pectador. tante. Afinal de contas, não foi à toa que cas. Cansado da maneira como os negócios Como esse espectador não fui eu, só sei eu preferi ir pro festival de performances ao funcionam na China – segundo ele o reco- que dentro do cubo tinha uma mesa, duas invés de pra mostra de belas artes… nhecimento aqui vem muito mais por uma cadeiras e dois computadores, e que ape- questão de prestígio e bons relacionamentos sar de An Xiao e o visitante ficarem a ape- do que pelo ciclo “normal” das coisas (bom nas um metro de distância, toda comunica- produto, bom preço e pessoas comprando) ção entre os dois só podia ser feita via Sina – há um ano ele abandonou a atividade para Weibo, o serviço de microblog chinês se-
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    xaNgaI xaNgaI se dedicar a aquilo de que mais sentia falta: Em países como China, Índia e Brasil, o mo- guir dessa massa que tão “perigosamente” O que estamos vendo é a incorporação da trabalhar com as próprias mãos. delo de crescimento baseado na incorpora- se aproxima. É esse movimento que Jonas vê experiência no bem. É essa a tendência de “É interessante ver como essa questão de ção dos mais pobres como consumidores no muito claramente em relação ao seu trabalho. que estou falando. Podem escrever. ser feito manualmente interessa às pessoas. mercado (a tão falada ascensão da “classe “Se o que você diz é verdade e nós realmen- Além do mais, eu uso materiais que já tive- C”) tem gerado um fenômeno de compor- te estamos migrando de uma sociedade que ram uma vida pregressa, então é como se tamento muito interessante. Enquanto esses coleciona bens pra uma que coleciona expe- o móvel tivesse uma história pra contar. Por grupos elevam o seu padrão de vida pela via riências, eu posso dizer que é isso que move isso também que, ao invés de tirar as imper- do acesso a bens (televisão, geladeira, auto- muita gente a comprar os meus móveis. Eles feições, eu tento manter tudo o mais próximo móveis…) e serviços (como viagens de avião, enxergam a possibilidade de possuir um bem possível do original. As pessoas entendem por exemplo), a parcela mais rica da popu- através do qual podem contar uma história que esses riscos, furos e mossas na verdade lação se empenha em criar novos símbolos (a história dos materiais até chegarem em não são defeitos: são marcas” de status a partir dos quais possa se distin- suas casas)”
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    xaNgaI xaNgaI locar as pessoas numa situação tão próxima Mas será que é realmente esse contato com POst do que está acontecendo a ponto de se per- a arte que atrai as pessoas pra lá? A própria 77 01 abr guntarem: “Ora, se eles pode fazer isso por Bree acha que não, mas é por isso mesmo VER E SER VISTO – BATALHA DE DESIGNERS, ARTISTAS E VOYEURS que eu não posso também?” que acredita na ideia: Passados mais algumas semanas, outro even- to sacudiu Shanghai. Dessa vez foi uma “Di- “O mais importante de tudo é reconhecer gital Design Battle”, em que a produção do que existe uma coisa de voyeur no ar. Quan- evento lançava o tema a partir do qual os de- do você olha pras redes sociais, tem uma bela signers teriam que criar uma estampa para a combinação entre o poder de fuçar na vida marca Hongmen Art dentro de um intervalo dos outros e o prazer de compartilhar (share) de tempo determinado. Durante esse proces- experiências e descobertas. É ver e ser visto. so, tudo que faziam era projetado num telão O que a gente tá fazendo com esses eventos para que o público visse, e a reação popular é alimentar esse sentimento. Você quer ver era um dos maiores termômetros do êxito do como é que faz? Então venha e veja. Você trabalho. Para o diretor da Hongmen Art, esse é artista e quer mostrar seu trabalho? Então caráter participativo do público é o melhor venha e mostre.” termômetro de quais são as estampas que podem fazer sucesso, além de uma etapa im- Se as pessoas estão curiosas pelos processos portante do processo de crowdsourcing que e já não se satisfazem em saber apenas dos às vezes eu gosto quando encontro uma coi- outubro do ano passado, eles encontraram é a base da sua produção. resultados finais, esse tipo de batalha lhes dá sa completamente nova, bem característica um antigo galpão, ambientaram-no devi- Se você parar pra pensar, esse é exatamen- exatamente o que querem. O grande lance de um lugar, quase endêmica. Já em outras, é damente, convidaram uma galera do street te o molde do Cut n’ Paste, festival de que é que os organizadores aprenderam usar o a descoberta de um padrão de repetição que dance pra chamar atenção, e organizaram o nosso querido Raphael Sonsino (do #Sha- fetiche pra gerar interesse no que quiserem. me deixa mais satisfeito, porque ele começa uma batalha de artistas plásticos. ring9 de Paris) participou ano passado em a dar a dica de quais são as coisas que estão São Paulo. E segundo Bree é isso mesmo! realmente na rota de influenciar mais pesso- O atividade tinha como objetivo não só ser “Uns dias depois nós recebemos até uma as. O encontro de hoje foi um desses. vitrine para novos talentos mas também co- carta da organização mundial do Cut n’ Pas- Conversei com Bree Harisson, que trabalha locar o público numa situação de proximida- te! Só que ao invés de reclamar, eles estavam na Dyce Productions, sobre um tipo de even- de maior com a arte, vendo o processo acon- era nos parabenizando pela realização do to que ela tem ajudado a organizar em Shan- tecer na sua frente. Sob o slogan de “belas evento e dando todo o incentivo para que ghai e que vem crescendo cada vez mais. Em artes como entretenimento” a Dyce quer co- continuássemos fazendo outros”.
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    xaNgaI xaNgaI seja por causa da censura ou por causa da POst falta de estímulo à produção artística. Por 79 03 abr causa disso acaba que é da comunidade PRA ONDE VAI A CHINA? – PARTE 1 – WHAT IS (AI WEI WEI E JASMINE estrangeira que vem a maior parte das ini- REVOLUTION) ciativas relacionadas à arte. A gente sente que a China vive um momento especial, A China é um país que enche todo mundo o potencial criativo chinês. Eu só podia fo- tem um potencial criativo enorme, mas não de curiosidade. Tem sempre algum mistério tografar muito pouco, e essas são algumas está canalizando isso da maneira correta, envolvendo esse lugar, uma coisa de “como imagens que eu pude guardar. No entanto, então tenta dar a contribuição que pode é que pode?”. E conforme eu fui conversan- o que minhas conversas tanto com a Bree pra estimular essa atividade por aqui.” do com as pessoas, percebi que às vezes Harisson quanto com a Anita Hawkins (or- mais interessante que os feitos que ela al- ganizadoras da batalha de designers e do Mas como é que a gente reconhece essa cança é a maneira contraditória como ela Welcome to Enter) revelaram foi uma ima- falta de estímulo ou esses olhos vigilantes chega lá. gem completamente diferente. do governo? É só olhar pra exemplos como o do Ai Wei Wei, que é uma das maiores re- Por exemplo, em Shanghai existe uma “Pode não parecer, mas a China é um país ferências da arte contemporânea chinesa, área chamada M50, com uma concentra- que valoriza muito pouco a arte. Você não reconhecido no mundo todo. No momento ção enorme de galerias de arte, de onde a estaria errado em pensar que as mentes re- em que quer mostrar para o mundo o quão gente sai absolutamente maravilhado com almente inovadoras acabam saindo daqui, criativa, inovadora e poderosa é essa nação, o governo convida-o a desenhar o maior símbolo das Olimpíadas de Beijing (o está- dio Ninho de Pássaro). O cara é celebrado, Como é que fica o país numa hora dessas? abraçado, e tudo o mais, só que que man- Você pode limitar o acesso às redes sociais tém sua postura crítica ao governo quan- no mundo, mas não pode impedir que in- do está fora da China. Daí o que acontece? formações como essa circulem. Vai bloque- Acontece que hoje, dia 3 de abril de 2011, ar o site do New York Times também? Até ele tenta desembarcar em Beijing e não só a Folha falou sobre isso! É impressionante é “detido”, como tem seu atelier invadido, como o governo chinês tem medo do po- e, literalmente, desaparece do mapa (até der da repercussão dos grandes movimen- agora não há nenhuma informação da polí- tos do mundo dentro das suas fronteiras, cia sobre pra onde ele foi levado). e nada demonstra melhor essa história do
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    xaNgaI xaNgaI que o caso impagável que vou contar ago- berdade” no país. O governo ficou sabendo, quanto pudesse, acusando-os de participar pessoas. Eu só digo uma coisa: se eu fosse ra, chamado Revolução das Jasmins. Nunca se preparou para o grande dia, e, quando da Jasmine Revolution, enquanto esses di- o governo, teria razão pra me preocupar. ouviram falar? Então escutem essa: chegou a hora, centenas de policiais se en- ziam que “não, não! eu só estou passando!”. Porque se tem uma coisa que chinês não é, Primeiro Egito, depois Síria… o mundo pe- fileiravam nos locais de encontro. Mas sabe é besta, e eles já estão aprendendo a usar gando fogo e se perguntando “who’s next?” quantas pessoas apareceram? NENHUMA! Piada pronta? Pode até ser. Mas um belo essas mídias muito bem sim senhor. às ve- na onda de revolta popular. É claro que na Zero, nada. Pra não passar vergonha e mos- exemplo do quão assustadas as pessoas zes bem até demais. China ia acontecer alguma coisa, e as pes- trar serviço, a polícia prendeu uma equipe estão com o seu governo, e do quanto ele soas usaram os canais da mídia social para de jornalistas que tinha ido cobrir o evento, mesmo está assustado com o poder que organizar uma grande ato em favor da “li- e saiu tentando deter tantos transeuntes essas ferramentas podem ter nas mãos das
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    xaNgaI xaNgaI Hunt, é esclarecedor: POst “Quando eu comecei, as pessoas chegavam, 80 04 abr provavam as roupas e perguntavam de onde PRA ONDE VAI A CHINA? – PARTE 2 – WHAT IF (INSH, FEIYUE E PROUDLY eram. Ao descobrir que era de uma designer MADE IN CHINA) local, perguntavam ‘por que um marca chine- sa tão cara?’, afinal de contas, poderiam ir ao mercado de Xiangyang e gastar 20 yuan num roupa local! Muitas disseram até que eu deve- ria trocar o nome da marca de insh pra In Paris! Ninguém diria isso agora. Antes, tudo girava em torno de ter a bolsa da Prada ou da Louis Vitton, mas agora cada vez mais pessoas es- tão felizes em ‘descobrir’ novos designer. Essa mada SUDU que chama a atenção. é uma grande mudança que eu vi” Ter um Feiyue original não só estar em pé de Não é só o sucesso da Insh que dá sinais da igualdade com qualquer usuário do francês valorização do que é feito na China. Já tem (com a vantagem de que ele é, de fato, mais um tempo que um tipo de sapato chamado confortável), mas também ter o orgulho portar Feiyue ganhou as vitrines do mercado euro- um produto reconhecidamente made in China. Se a parte 1 desse post era sobre o que está no como caminho pra consagração nacional. peu. Originalmente, ele era simplesmente um ChinART, insh, Feiyue e até mesmo sites como acontecendo na China, a parte 2 é a que real- Mas não! Mais uma vez a China bota o jogo de tipo barato e confortável de calçado, acessível o nicelymadeinchina.com e o Creative Hunt mente importa pra esse blog: o que vai acon- cabeça pra baixo e começa a engatar numa aos trabalhadores mais pobres das cidades. são exemplos de como, apesar do pouco in- tecer. No fundo é aqui que fica claro porque tendência que só pode ser chamada de Prou- Mas quando chegou na França foi suavemente centivo, da fuga de cerébros e da censura, a um país desse é tão surpreendente e contra- dly Made in China. modificado para virar símbolo pra aqueles que gente pode sair do mero “what is” China pra ditório quando você começa a palpitar sobre Alguns anos atrás, desafiando todos os prog- queriam levantar o dedo para a cultura mains- dizer que a ela se encaminha pra um futuro pra onde ele vai. nósticos, a designer de moda Helen Lee de- tream. O sucesso foi tão grande que os pró- onde cabe mais orgulho de si mesma e do que Se o estímulo à arte e inovação é realmente cidiu lançar uma empreitada onde todos os prios chineses começaram a comprar o Fren- tem para oferecer. E é por causa do “what if” tão pequeno assim, era de se esperar que as produtos seriam feitos em Shanghai, com ma- ch Feiyue! No entanto, se isso seria mais um de gente como a Helen Lee, que aposta num coisas mais valiosas fossem aquelas que vem teriais de Shanghai e por pessoas de Shanghai, exemplo de consagração nacional por causa caminho quando quase tudo aponta pro ou- de fora, certo? Em parte sim, porque ainda há de modo que o nome da marca também não do reconhecimento externo, é o fato de agora tro, que tudo isso está acontecendo. um fetiche muito grande pelas grandes mar- poderia ser outro: “InSh”. O que ela conta na a versão original, sem os toques franceses, es- cas importadas e pelo reconhecimento exter- entrevista para Frances Arnold, do Creative tar sendo relançada por uma companhia cha-
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    xaNgaI xaNgaI nal das contas, acho que nós podemos até Só vou ter dimensão de como isso mudou a POst ter algumas datas de comemoração seme- minha vida na hora que voltar pra casa, dei- 81 05 abr lhantes, mas celebramos coisas muito dife- tar na minha rede e olhar pela janela. Com ZAI JIAN, CHINA – ATÉ A PRÓXIMA rentes. a certeza de que por detrás dela agora tem muito mais do que eu podia imaginar. Não sei se me sinto à vontade pra dizer mais do que isso agora. Falar de como essa experiência na ásia mudou a minha vida, ou algo assim. Nessa viagem, cada passagem é um mergulho em queda livre. E quando a gente está no ar não sente peso. É chegada a hora da partida. A última antes Todas foram feitas numa mesma tarde de de voltar pro Brasil. Fica pra trás o conti- feriado. Um dia só, mas que condensa mui- nente asiático, e é hora de voltar pra Améri- to do que torna esse lugar tão fascinante. ca. Depois de um mês por aqui, posso dizer É outro ritmo, outra cabeça. Enquanto a que tenho muito mais que depoimentos pra gente passa o feriado tomando uma, olha dar: carrego imagens marcadas de um jei- o que eles tão fazendo do outro lado do to que não vai sair tão cedo dessas fatiga- mundo! hehhehe E olha a idade do pesso- das retinas. É por isso que o mínimo que eu al lotando a praça pra se exercitar, o jeito podia fazer era dividir algumas delas com como as crianças olham pros adultos, a ma- vocês. Talvez falem mais do que eu possa neira como eles se juntam pra dançar numa descrever, e levem o que ficou guardado cultura onde o toque tem um significado um pouco mais além de mim mesmo. completamente diferente do nosso. No fi-
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    sÃO FraNCIsCO sÃO FraNCIsCO POst 82 19 jan #SHARING9 – INAGAKI ESPALHA SUA PALAVRA POR TÓQUIO Agora sim. Se a missão de explicar a #sualin- louquece. Pense nisso”) desde 1999, e já se da pra alguém na China já era difícil, o pes- estabeleceu como uma das referências “cul- soal da DM9 resolveu complicar um pouco tas” ou “inteligentes” do meio. No entanto, Quem quiser pode ver mais sobre ele na en- mais minha vida: o presente do #Sharing9 prefire dizer apenas que tem uma preocu- trevista que a youPix (#Sharing9 da China) pro Japão… são… vejam vocês… (suspense e pação maior com conteúdo do que, infeliz- fez com ele em Julho. tambores rufando)… metáforas. Isso mesmo. mente, boa parte dos blogs brasileiros, que Chegando em Tóquio eu vou me virar para se ocupam muito mais em reproduzir do Sigam ele também por esse canais: espalhar a “palavra de Inagaki” por onde for que em produzir esse conteúdo todo. http://inagaki.tumblr.com/ (é, irmão, pode começar a se sentir o Mes- @inagaki sias agora). Outro traço pelo qual é reconhecido é pela constante criação de metáforas. E são al- Pra quem não conhece, Inagaki é uma figura gumas delas que vou levar pro Japão pra, muito importante na “websfera” brasileira. depois de encontrar algum tradutor muito Ele escreve para o seu blog (“Pensar en- bom, disseminar pelos cantos.
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    sÃO FraNCIsCO sÃO FraNCIsCO reerguer rápido, sair dessa, e no final dar sen- Até a próxima, Tóquio. Um dia eu chego aí. POst tido à camisa que está aqui nesse post, que Bom dia, São Francisco. Where do we start? 83 06 jan fotografei hoje em São Francisco. O Japão é ATÉ MAIS, TÓQUIO. BOM DIA, SÃO FRANCISCO um coitado? Não. Precisa de ajuda? Sim. Mas o que tem que ficar mesmo é que a gente Um dia em Mumbai, acordei assustado. Al- ção toda. Aguardei ansiosamente o dia, tor- não deveria precisar de um terremoto pra guém estava falando no Twitter que um ter- cendo pra que a crise nuclear fosse resolvida ajudar um ao outro. remoto enorme tinha atingido o Japão. Li- logo e não ganhasse proporções piores do guei a televisão, e só se falava nisso. Fiquei que já tinha. abismado com as imagens, tanto que me Mas não foi assim que aconteceu. E o Japão senti na obrigação de passar aquelas infor- mergulhou na pior crise nuclear do sua histó- mações a quem não conseguia acompanhar ria, o que levou a DM9 a cancelar a passagem a cobertura no Brasil, onde nenhum portal por Tóquio em nome da minha segurança parecia estar sabendo de nada. Algumas pessoal contra essa ameaça invisível. Enten- pessoas acharam inclusive que eu estava lá, di? Claro que entendi. Esqueci? Não, e conti- e me mandaram mensagens perguntando se nuo torcendo para que a situação se resolva estava tudo bem. e para que o país possa se reerguer. Só que agora faço isso de São Francisco, cidade que Eu não estava lá, mas Tóquio era o destino substituiu Tóquio no percurso. final de minha viagem, e eu deveria estar lá em menos de um mês. Esse dia seria preci- É por isso que o #Sharing9 com as metáfo- samente hoje. ras do @Inagaki continua de pé. Não posso mais espalhá-las por Tóquio, mas posso ir até Imediatamente fui tomado por uma ânsia de o lugar onde a população japonesa vive em chegar lá. Muita gente queria correr do pro- São Francisco e levá-las até eles. Assim, se blema, mas eu queria ir, logo. Ser testemunha elas não podem chegar aonde deviam, pelo ocular da história, ter a chance de ver o es- menos vão chegar em quem deveriam. pírito japonês manifestar os mais profundos laços que unem essa nação, no momento de O terremoto foi terrível, a tsunami e a crise maior dificuldade, e dar a minha parcela de também. Mas se tem uma coisa que japonês contribuição humanitária pra essa reconstru- detesta é ser visto como coitado. Eles vão se
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    sÃO FraNCIsCO sÃO FraNCIsCO POst 84 07 jan ART EXPLOSION OPEN STUDIOS Pra começar a passagem por San Francisco, decidi conferir um história chamada Art Ex- plosion Open Studios. Junto com a entrada da primavera, coletivos de artistas por toda a cidade estão abrindo as portas dos seus estú- dios para mostrar o que andaram preparando no inverno. De tudo que eu vi, dois trabalhos merecem destaque. O primeiro deles é o da Ehren Reed, e se cha- ma “Avatar, Proximities”. à primeira vista po- dem parecer apenas retratos pixelizados, mais voltando à tona como resposta à rejeição dos ca distância entre nós e o “fabricante” fosse um trabalho sobre os elementos básicos do processo industriais, que criam bens em enor- o tempo que ele se deu pra aprender aquela mundo digital. No entanto, não precisa muito me quantidade mas não criam identidades. Lá técnica. tempo pra perceber que cada pequeno pixel no comecinho, ainda em Barcelona, a dona de é na verdade costurado no papel, à mão. Nada uma loja de antiguidades tecnológicas tinha E é aí que a gente chega no segundo traba- de impressão, nenhum processo mecânico re- me dito que, num futuro próximo, “os jovens lho, de um vietnamita chamado Tuan Tran. Ele produzível em larga escala. Os componentes vão ter as novidades tecnológicas pra usá-las, trabalhou durante muito tempo com pintura, da imagem digital são todos feitos um por enquanto vão ter as minha antiguidades para mas quando descobriu os elementos poluen- um, por alguém que cuidadosamente prepa- vivê-las”. No fundo, é exatamente isso que tes que faziam parte do processo industrial de rou isso. está acontecendo por aqui também, com a produção das tintas que usava, prometeu a si arte da costura e do tricô. mesmo que nunca mais usaria tinta e que não Eu podia me estender horas nesse assunto, precisaria delas pra dar cor a coisa alguma. mas não preciso, porque acredito que ao lon- Não basta ser funcional, tem que ser táctil. É Partiu para o uso de materiais reciclados, que go dessa viagem já tenha dado indicações su- quase como se a gente tivesse que se sentir já tinham naturalmente cores distintas, tanto ficientes do quanto as soluções manuais estão capaz de fazer a mesma coisa, como se a úni- para cobrir superfícies quanto para criar for-
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    sÃO FraNCIsCO sÃO FraNCIsCO mas ousadas e até mesmo roupas conceitual- existe mais desde a fibra óptica). Mas juntos que inovar no momento errado. Melhor pra mente interessantes. eles são alguma coisa de muito mais bonito.” ele, que tem talento pra ir muito além com a Pode até ser que o seu trabalho não traga tan- ideia. Além dessa questão da reciclagem e do “feito- ta novidade assim (por mais impressionantes Pra encerrar, fica o vídeo desse tesouro que à-mão” em lugar de métodos industriais, Tuan que suas formas coloridas possam ser, uma ele guarda há anos trancado numa caixa, mas Tran chama a atenção para um outro aspecto artista chamada Ruth Asawa já fazia “croche- que depois de uma boa conversa decidiu de quase toda obra de arte. “Sozinhos, esses ted-wire” em cobre e prata desde a década compartilhar. Agora vocês também podem se elementos não são nada. São apenas fios de de 50), mas nem sempre é a novidade que faz deliciar com a delicadeza que só um trabalho cobre de telefonia velhos com cores diferen- uma tendência. às vezes, escolher a técnica minimalista e paciente como esse pode gerar. tes sinalizando onde ia cada linha (o que não certa no momento certo é mais importante Esses asiáticos são incríveis mesmo.
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    sÃO FraNCIsCO sÃO FraNCIsCO Able, membro da organização, explica: Por isso que o nome da história toda é Edu- POst “Por que eu deveria dizer que esse é um mo- tainment for Change. Educar através do en- 85 08 jan mento terrível para se viver? Isso não é verda- tretenimento para construir a mudança que EDUTAINMENT FOR CHANGE – CHEGA DE APOCALIPSE de! Nós vivemos num dos melhores momentos queremos. No fundo, no fundo, eu não estou que já existiram para estar vivo! Nunca antes falando disso só porque eles acabaram com a na história da humanidade nossas decisões ti- história do apocalipse e partiram pra constru- veram meios pra impactar tão profundamen- ção de uma mentalidade transformadora que te e repercutir tão longe quanto agora. Nun- saiba usar as ferramentas que tem, mas tam- ca tivemos tanto poder pra ir além do nosso bém porque esse movimento representa uma quintal e afetar pessoas em todos os lugares tentativa de transformação que leva as pesso- do mundo. Nunca tivemos como aproveitar as a se engajar sem que elas tenham que sair tantas experiências vindas de tantos lugares do seu lugar. Prestem atenção que isso não é diferentes e fazer todas elas convergirem para bobagem. fins comuns. Ao invés de celebrar o desastre, a gente devia focar as nossas energia em res- Ninguém precisa deixar de ser skatista pra ponder uma pergunta: como é que a gente se engajar num mundo mais sustentável. Ali- usa tudo isso para criar uma nova consciência ás, conforme eu percebi ano passado no dia ambiental?” mundial do combate à AIDS, até ser tiete da E é aí que o projeto fica realmente interessan- Lady GaGa pode ajudar em grandes causas. É Esse final de semana São Francisco está rece- frente do que está indo agora. te. O objetivo é olhar pras tendências culturais tudo uma questão de saber usar a ferramenta bendo o Green Festival, o maior festival rela- Qual é a primeira coisa que vêm à sua cabeça e artísticas da juventude e se juntar a elas. Por certa, e é isso que o pessoal da Balance está cionado à sustentabilidade dos EUA. Foi numa quando se fala em aquecimento global? Talvez exemplo: se existe toda uma cultura em torno se propondo a fazer por aqui, na Baía de São das apresentações que assisti lá que me dei alguma imagem meio catastrófica, não é não? do hip-hop, por que não colocar tudo junto e Francisco. conta do quanto estamos viciados em algu- Nível do mar subindo, furacões e tempestades, organizar um show totalmente movido a ener- mas maneiras limitadas de pensar o tema. Se, secas prolongadas, falta d’água, etc. O que a gia solar? Se as crianças amam tanto histórias, no final das contas, a viagem toda é pra tentar Balance acredita é que a gente vem contando porque não usar a contação de histórias pra encontrar novos comportamentos, não tinha essa história de apocalipse há tempo demais, construir a consciência que a Balance quer como eu não falar do trabalho do pessoal de e já chega! Não vai ser mantendo as pessoas criar? Bicicleta, skate, tudo isso move pesso- uma edutainment company chamada Balance assustadas que qualquer movimento vai ga- as porque move uma cultura, então a questão que acredita que com uma pequena mudança nhar a sua adesão. E, se ganhar, não vai ser ambiental tem que se mover com eles tamém. de abordagem a gente pode ir muito mais pra pelos motivos que deveriam movê-las. Aaron
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    sÃO FraNCIsCO sÃO FraNCIsCO POst 86 09 jan FREE2WORK – CHANGE THE WORLD BY BEING WHO YOU ARE desempenhando um papel essencial na nos- não só te preocupa mas também te orienta sa sociedade. A segunda vem do fato de as na hora de escolher os produtos que coloca empresas não precisarem “contratar” dire- em casa, o impacto pode ser tão grande ou tamente trabalho escravo para receber uma maior do que todas essas alternativas. avaliação ruim no sistema (basta que as ma- Tudo isso mostra como o empreendedorismo térias primas que ela compra para a sua ati- de qualquer tipo, seja ele de negócios, social Quando alguém me pergunta o que eu acho iPhone e Android. vidade sejam produzidas por esses meios ou ou cultural, está aprendendo a ir onde as pes- que vai acontecer com o mundo daqui pra Funciona assim: primeiro, você baixa o apli- até mesmo que ela não faça nada para evitar soas estão ao invés de trazê-las para onde frente eu respondo quase sempre de uma cativo no seu telefone. Depois, segue a sua esse tipo de atividade, o que, no fundo, é a gostaria que estivessem. No fundo, não só as maneira otimista, a ponto de às vezes virar vida exatamente como sempre fez, vai ao ideia de que fazer parte de uma cadeia injus- informações que estão disponíveis em qual- piada. No entanto, são pequenas coisas como supermercado, ao restaurante, à loja de rou- ta é praticar a injustiça também). Mas era na quer lugar a qualquer hora. São as pessoas esse projeto que me levam a crer que mudan- pas, tudo igualzinho. Só muda que, antes de terceira que eu queria focar agora. que estão. ças importantes estão, sim, acontecendo em comprar qualquer coisa, você pode usar o O que o Free2Work oferece de novidade Além do mais, no mundo da informação algum nível no nosso comportamento. aplicativo pra saber o quanto de trabalho es- mesmo é a possibilidade de se envolver num up-to-date não existe mais “lavo as minhas A princípio, a ideia do Free2Work pode não cravo, infantil ou forçado esteve envolvido na projeto de mudança social sem precisar mu- mãos”. Já tem muita gente pra quem igno- ser novidade: um grupo de pessoas preocu- produção daquele bem, e tomar sua decisão dar quem você é. Ninguém está pedindo pra rar informação, quando ela está disponível, é pado com o fato de que ainda existem 27 mi- quanto a comprá-lo ou não baseado no co- você sair da sua rotina e viajar pro Paquistão se sujar do mesmo jeito. É uma questão de lhões de pessoas em situação de trabalho es- nhecimento sobre esse processo. num cruzada humanitária contra o trabalho tempo até que isso seja visto assim pela so- cravo, infantil ou forçado pelo mundo, e que Tem pelo menos três coisas muito interes- infantil. Nem doações anônimas pra que al- ciedade inteira. resolveu fazer algo a respeito. A grande mu- santes quanto a essa ideia. A primeira delas guém faça isso em seu lugar, o que no fun- dança, no entanto, está no caminho que eles é quanto a perceber como a questão de co- do seria a mesma coisa. Se você demonstrar, escolheram pra fazê-lo: um aplicativo para nhecer o processo por trás das coisas está no seu dia a dia, que esta é uma questão que
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    sÃO FraNCIsCO sÃO FraNCIsCO POst 87 10 jan #SHARING9 SAN FRANCISCO – METáFORAS DO INAGAKI POR JAPANTOWN cada metáfora, em inglês e japonês, com o link Agora que a missão está cumprida in loco, para o blog do Inagaki no final. Desse modo, não custa nada enviar também a todos vo- mais do que ver, ele pode levá-la pra casa na cês as mensagens dele. Espero que gostem, palma da mão, sem tirar a folha do lugar, dei- e aproveitem pra dar uma visitada no seu xando que ainda mais pessoas passem por lá blog. Grande abraço! E obrigado por todos Muita gente duvidou desse #Sharing9. Como antes de ela voltar pra Nova Iorque, onde e descubram as surpresas preparadas pra elas. os #Sharing9 que eu tive a chance de realizar é que eu ia conseguir traduzir as metáforas mora há treze anos, e foi de lá mesmo que Como vocês podem ver, de garçonete a fã de e dividir aqui, levando um pouco do Brasil pra do Inagaki e espalhar por Tóquio de um jei- ela traduziu as metáforas pro japonês, usando Star Wars, japoneses dos mais variados tipos fora enquanto tirava tanta coisa do mundo. to que todo mundo encontrasse e entendes- mais uma das suas habilidades nas seis línguas vão poder curtir o trabalho do Inagaki. No fi- P.S.: Se eu dizia que queria encontrar algo ca- se? Dei meu jeito, e se não deu pra ser no que domina. Liz, meus agradecimentos mais nal do dia, pra encerrar, ainda fui num lugar paz de influenciar pessoas mas que ainda es- Japão, pelo menos foi no bairro japonês de do que especiais. Sem você nada teria acon- onde as pessoas penduravam mensagens de tava no caminho de se tornar grande, o nos- São Francisco onde até as placas com os no- tecido. apoio e força ao Japão junto com origamis. so querido Emicida, do #Sharing9 de Nova mes das ruas são escritas nas duas línguas: A outra parte foi ideia minha. Sabendo que os Usei um dos papéis onde tinha impresso as Iorque, conseguiu fazer isso ainda antes de Japantown. japoneses já estão familiarizados com a tecno- metáforas na íntegra, sem código QR, como a viagem acabar! Agora ela vai tocar no Co- Como cada parte da solução veio de uma logia do QR code há muito tempo, eu decidi material para fazer o corpo de um tsuru, que achella, e merece muito mais do que só uma vez, aqui eu também conto separado. A tra- criar eu mesmo um QR code pra cada metáfo- pendurei no varal junto com uma mensagem menção por isso. Se isso não é ser grande, dução foi feita pela Elizabeth Yao, uma chi- ra e espalhá-los pela cidade. Quando um pas- que escrevi de próprio punho, me despedin- então eu não sei o que é. Valeu, mano! Força nesa absolutamente apaixonante que estava sante usar o seu smart phone pra fotografar o do do #Sharing9 como quem diz até logo ao aí, e representa. explorando a cidade com a mesma emoção código, seu celular vai automaticamente levá- Japão. que eu. Nos conhecemos no Hostel três dias lo para a página na internet onde eu hospedei
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    sÃO FraNCIsCO sÃO FraNCIsCO tomado pela vernissage coletiva. Logo na Bicycle Café (aliás, em Londres eu já tinha POst primeira parada, eu já ganhei o dia. Dêem visto um muito parecido, chamado Cycle- 88 11 jan uma olhada nos figurinos do pessoal que Lab). Mas como usar um dia desses pra fa- ART WALK – DIVISADERO NÃO É RUA, É CORREDOR foi prestigiar o evento na Swankety Swank: lar dos espaços é igual a comprar a Playboy só pra ler as matérias, eu deixo vocês com Pra não dizer que não deixei registrado, o as imagens de alguns dos trabalhos. Posso cara de cartola joga tarô de X-Men. É, tarô ter perdido o despertar das cerejeiras no de X-Men. Ele me explicou mais ou menos Japão, mas não perdi o sprung das artes na como era descobrir que o arquétipo que Baía de São Francisco. E se depender de rege o seu destino é o de… Wolverine, e mim vocês também não vão perder. queria por que queria jogar as cartas pra mim. Hora de olhar pra ele e dizer que achei tudo muito interessante mas “tá bom, ago- ra senta, Cláudia”. Esquisitices à parte, a exposição em ques- tão era da Sheri DeBow, que passou a vida inteira fazendo bonecas pra si mesma até perceber, de uns cinco anos pra cá, que quando as tirava da estante e pendurava na parede parecia que o pessoal ficava mais propenso a considerar tudo arte. Foi aí que É uma maravilha quando uma caminhada tória, e por puro acaso, calhei de estar lá de começou a trabalhar com galerias, e expor começa despretensiosa e te surpreende. Eu novo no dia e na hora certos. o que tinha levado uma vida aprendendo tinha lido no meu primeiro dia em San Fran- a fazer. Prestem atenção nos olhos dessas cisco um cartaz sobre uma tal de Art Walk, Foi aí que eu descobri que era bem mais bonecas, que são o que de mais expressivo onde não se explicava absolutamente nada interessante: lojas, salões de beleza, bares eu guardei da exposição. a não ser o horário e o nome das ruas onde e cafés foram transformados em galerias ia acontecer. Fiquei me perguntando o que de arte, e, nesse determinado dia, abriam Segui pela Divisadero passando por outros seria aquilo (uma passeata, uma grafitagem as portas todos ao mesmo tempo para fa- lugares, incluindo uma interessante mistura coletiva?) mas acabei esquecendo da his- zer da rua Divisadero um grande corredor de café com loja de bicicleta chamado Mojo
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    sÃO FraNCIsCO sÃO FraNCIsCO quão divertido pode ser um bêbado se equi- as massas. Por isso mesmo, não deve ficar POst librando em rodinhas pra tomar mais uma restrita a um clube seleto que frequenta ba- 89 12 jan cerveja? res e festas. E, de fato, um dos melhores mo- ROLLER DISCO – BLACK ROCK N’ ROLLING mentos pra se viver essa paixão é quando Isso pra não falar que a comunidade do Rol- ela acontece ao ar livre, nas praças e par- ler Disco já é grande a ponto de se tornar ques da cidade. conhecida por organizar um dos melhores acampamentos do do Burning Man todos Antes de encerrar, queria só sublinhar que os anos. A festa dessa sexta feira, aliás, foi esse também não é só um fenômeno local. realizada com o intuito específico de arre- Ainda em outubro de 2009, eu caminha- cadar fundos para comprar um novo piso de va pelo Central Park num tarde de sábado patins para a edição desse ano, já que as in- quando dei de cara com exatamente a mes- tempéries do deserto de Black Rock destru- ma cena que vocês viram aí em cima. Gente íram a estrutura que eles tinham usado ano de toda a cidade junta pra dançar em patins, passado. e eu chegando de ousado pra aprender os É sempre bom lembrar também que a Black passos da coreografia. Se passar por lá em Rock Roller Disco Party é parte de um esfor- janeiro e não encontrar nada além de neve ço maior para reintroduzir a patinação para foi frustrante, São Francisco me tranquilizou Essa é sensacional. Na Bahia eu me acostu- (especialmente funk e groove no melhor da mei a escutar “não quero ver ninguém para- moda antiga), com um pequeno detalhe que do!” em tudo que é começo de show, mas faz toda a diferença: todo mundo de patins. aqui em São Francisco ninguém precisa di- zer nada pra ver todo mundo se mexendo Podem me chamar de besta, dizer que o pra todos os lados. Aliás, é mais provável que tempo dos patins já foi, ou o que quiserem. se alguém quisesse parar tivesse mesmo que Nada disso muda a minha opinião de que ir embora, porque nessa sexta, na CellSpace, coisa boa não tem idade e de que uma das foi dia de Roller Disco! coisas mais interessantes de se ver é uma geração nova se apropriando dos hits de um Não sabe que é Roller Disco? Digamos que é mais antiga pra fazer com eles sua própria uma festa, ao som de música muito dançante identidade. Além do mais, já pensaram no
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    sÃO FraNCIsCO sÃO FraNCIsCO com a certeza de que a “velha novidade” não morreu. Estava só de repouso, mas con- tinua completamente viva. Alive and kicking. Black Rock n’ Rolling.
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    PÓsFaCIO Por Sergio Valente Aviagem do Lucas terminou. Foram 99 dias divididos entre Nova Iorque, Barcelona, Londres, Milão, Paris, Bangcoc, Mumbai, Xangai e São Francisco, que entrou no rotei- ro na última hora, substituindo Tóquio. Pode-se esperar assim, que o 99Novas tenha chegado ao final. Adianto, a você que curtiu com a gente essa empreitada, que não há nada mais equivocado que tal conclusão. O 99Novas ainda terá longa vida. Este é um projeto de comunicação moderno, que começa quando termina. Como estes posts que você acaba de ler tratam de tendências, ainda veremos muito dos aspectos abordados pelo Lucas estamparem as manchetes de jornal do amanhã. Hacktivismo social, moda trashion são conceitos que ainda exploramos muito pouco no Brasil. E mesmo as questões de sustentabilidade, a busca pelo Uniqueness, a ten- dência da sociedade se preocupar cada vez mais com a origem do produto que con- some ainda precisam de um bom tempo para se desenvolverem. 99Novas trata do futuro. E como será o amanhã, nem eu, nem o 99Novas, nem mesmo o samba sabe... responda quem puder e quem souber identificar nas tendências uma possibilidade de futuro. Observe tendências e você saberá mais ou menos o que vai acontecer. Por isso investimos nesse projeto. Para tentar estar na frente, saber antes, surfar na onda que se inicia. O blog www.99novas.com.br ficou aberto durante toda viagem, e seu conteúdo perma- necerá assim: aberto ao público, pronto para ser compartilhado, refletido e transforma- do. Se você preferir, pode pedir um livreto como este e ler no papel, ou ver alguns vídeos no youtube. E escolhemos assim, porque no fundo é nisso que a DM9, no auge dos seus 21 anos, acredita. Acreditamos em um mundo beta, multiplataforma, integrado onde o que importa é a inteligência com que se trata um conteúdo relevante. O Lucas acabou a viagem dele. A DM9 só está começando a sua. Vamos viajar? @sergio_valente, presidente da DM9DDB