Alfa e Beta

Raphael Vaz

Tudo começou porque era domingo. Na já costumeira programação de futilidades e quadros apelativos, a briga
pela audiência continuava intensa entre os principais concorrentes dominicais: Gugu Liberato com o Domingo
Legal e Fausto Silva com o Domingão do Faustão. E neste caso o adjetivo “intensa” é mais que literal. Domingo
após domingo os apresentadores inovavam, buscando quadros e atrações que fossem capazes de conquistar o
telespectador.

A grande questão neste caso e até que ponto é válido ir para conquistar a audiência. Até que artifícios é possível
apelar para seduzir o telespectador. Mais do que simplesmente selecionar o que irá ao ar ou não, existe toda uma
gama de conceitos e variáveis éticas que conduzem normas para classificar a programação, definindo-a como boa
ou ruim.

Nos tempos de batalha pelo Ibope, Fausto Silva apelou para quadros como o Sushi Erótico, em que celebridades
degustavam peixe cru sobre o corpo seminu de mulheres contratadas. Na linha contrária, o Domingo Legal apre-
sentava quadros que procuravam causar comoção no público. Eram exibidos casos de mulheres pobres que pas-
savam um dia de princesa com o cantor Netinho ou reportagens sensacionalistas.

A verdade é que durante um bom tempo, o programa de Gugu Liberato vinha dominando o Ibope do domingo,
graças a essa programação metamórfica. Mesmo que de mau gosto, esse jornalismo sensacionalista auxiliava o
programa a ter uma opção diferenciada do seu concorrente e conquistar mais telespectadores. Até que o pro-
grama pecou contra si mesmo.

Tiro no pé

Era o domingo sete de setembro de 2003. O Domingo Legal coloca no ar dois supostos integrantes da facção
criminosa PCC. Numa teórica entrevista exclusiva, os dois bandidos que apareciam encapuzados e que atendiam
sobre o codinome Alfa e Beta, explicavam que a facção havia sido responsável por uma tentativa de seqüestro
ao padre Marcelo Rossi e ameaçavam jornalistas de emissoras concorrentes e o então vice-prefeito de São Paulo,
Hélio Bicudo.

No dia seguinte, os ameaçados, a polícia e o Ministério Público entraram com um pedido para que fossem inves-
tigados os dois supostos integrantes da quadrilha. Pouco tempo depois, veio à tona que a entrevista não passara
de uma farsa. Os dois bandidos, na verdade, eram atores contratados por R$ 150,00 cada um.

Embate ético

O grande fator para ser avaliado neste pitoresco episódio é até onde a capacidade dos produtores e dos programas
de televisão são capazes de ir em prol de maior audiência. Já não se pode exigir muito de uma programação que
não possui conteúdo nem sustância cultural. Mas exceder essa limitação proposital e fraudar um quadro que,
além disso, vai contra a integridade física de terceiros, é um cúmulo ao qual o processo comunicativo não se pode
submeter.

Na época, o apresentador do programa disse desconhecer que tudo se tratava de uma farsa e que nada teve a ver
com o ocorrido. O que no mínimo já atesta incompetência. Espera-se que a pessoa que apresenta um programa
acompanhe durante o seu tempo de produção os caminhos que as matérias vão tomando. E o que é pior. Eximir-
se da responsabilidade do que foi exibido no seu programa é covarde e grosseiro.

Atitudes como essa irrompem contra o principal patrimônio da comunicação. O consumidor. Veicular uma ma-
téria mentirosa e logo depois ser desmascarado abala todo o processo de confiança que é construído durante
programas com o telespectador. Além disso, deixa aos mais críticos a dúvida do quanto os programas são de fato
verdadeiros em suas matérias ou quadros.

Não é difícil concluir que após esse episódio o programa teve uma queda de Ibope. Processos e mais processos
foram movimentados contra Gugu e o Domingo Legal. No fim, Augusto Liberato aceitou pagar uma multa de R$
750 mil a instituições carentes e encerrar o caso. E o programa continua povoando a programação dominical
brasileira. Fomos mais uma vez vítimas da passividade da sociedade, de uma justiça benigna e de uma mídia
formada pela malevolência daqueles que sempre querem estar um passo a frente. Nem que para isso seja ne-
cessário transgredir o fator principal das relações humanas. O respeito.

Canal da Imprensa - 90

  • 1.
    Alfa e Beta RaphaelVaz Tudo começou porque era domingo. Na já costumeira programação de futilidades e quadros apelativos, a briga pela audiência continuava intensa entre os principais concorrentes dominicais: Gugu Liberato com o Domingo Legal e Fausto Silva com o Domingão do Faustão. E neste caso o adjetivo “intensa” é mais que literal. Domingo após domingo os apresentadores inovavam, buscando quadros e atrações que fossem capazes de conquistar o telespectador. A grande questão neste caso e até que ponto é válido ir para conquistar a audiência. Até que artifícios é possível apelar para seduzir o telespectador. Mais do que simplesmente selecionar o que irá ao ar ou não, existe toda uma gama de conceitos e variáveis éticas que conduzem normas para classificar a programação, definindo-a como boa ou ruim. Nos tempos de batalha pelo Ibope, Fausto Silva apelou para quadros como o Sushi Erótico, em que celebridades degustavam peixe cru sobre o corpo seminu de mulheres contratadas. Na linha contrária, o Domingo Legal apre- sentava quadros que procuravam causar comoção no público. Eram exibidos casos de mulheres pobres que pas- savam um dia de princesa com o cantor Netinho ou reportagens sensacionalistas. A verdade é que durante um bom tempo, o programa de Gugu Liberato vinha dominando o Ibope do domingo, graças a essa programação metamórfica. Mesmo que de mau gosto, esse jornalismo sensacionalista auxiliava o programa a ter uma opção diferenciada do seu concorrente e conquistar mais telespectadores. Até que o pro- grama pecou contra si mesmo. Tiro no pé Era o domingo sete de setembro de 2003. O Domingo Legal coloca no ar dois supostos integrantes da facção criminosa PCC. Numa teórica entrevista exclusiva, os dois bandidos que apareciam encapuzados e que atendiam sobre o codinome Alfa e Beta, explicavam que a facção havia sido responsável por uma tentativa de seqüestro ao padre Marcelo Rossi e ameaçavam jornalistas de emissoras concorrentes e o então vice-prefeito de São Paulo, Hélio Bicudo. No dia seguinte, os ameaçados, a polícia e o Ministério Público entraram com um pedido para que fossem inves- tigados os dois supostos integrantes da quadrilha. Pouco tempo depois, veio à tona que a entrevista não passara de uma farsa. Os dois bandidos, na verdade, eram atores contratados por R$ 150,00 cada um. Embate ético O grande fator para ser avaliado neste pitoresco episódio é até onde a capacidade dos produtores e dos programas de televisão são capazes de ir em prol de maior audiência. Já não se pode exigir muito de uma programação que não possui conteúdo nem sustância cultural. Mas exceder essa limitação proposital e fraudar um quadro que, além disso, vai contra a integridade física de terceiros, é um cúmulo ao qual o processo comunicativo não se pode submeter. Na época, o apresentador do programa disse desconhecer que tudo se tratava de uma farsa e que nada teve a ver com o ocorrido. O que no mínimo já atesta incompetência. Espera-se que a pessoa que apresenta um programa acompanhe durante o seu tempo de produção os caminhos que as matérias vão tomando. E o que é pior. Eximir- se da responsabilidade do que foi exibido no seu programa é covarde e grosseiro. Atitudes como essa irrompem contra o principal patrimônio da comunicação. O consumidor. Veicular uma ma- téria mentirosa e logo depois ser desmascarado abala todo o processo de confiança que é construído durante programas com o telespectador. Além disso, deixa aos mais críticos a dúvida do quanto os programas são de fato
  • 2.
    verdadeiros em suasmatérias ou quadros. Não é difícil concluir que após esse episódio o programa teve uma queda de Ibope. Processos e mais processos foram movimentados contra Gugu e o Domingo Legal. No fim, Augusto Liberato aceitou pagar uma multa de R$ 750 mil a instituições carentes e encerrar o caso. E o programa continua povoando a programação dominical brasileira. Fomos mais uma vez vítimas da passividade da sociedade, de uma justiça benigna e de uma mídia formada pela malevolência daqueles que sempre querem estar um passo a frente. Nem que para isso seja ne- cessário transgredir o fator principal das relações humanas. O respeito.