Violencia da rel tradutória, 2011 marcelo

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Violencia da rel tradutória, 2011 marcelo

  1. 1. 61Sobre a violência darelação tradutóriaMarcelo Jacques de Moraes**Professor da UniversidadeFederal do Rio de Janeiro(UFRJ) – Pesquisador Bolsistade Produtividade, 2, do CNPq.1 Este artigo foi desenvolvidoa partir da arguição dadissertação de mestrado“A noção Bermaniana derelação sob o viés Derridianoda hospitalidade”, escritapor Simone Christina Petrye orientada por MauricioMendonça Cardozo. Otrabalho foi defendido noPrograma de Pós-Graduaçãoem Letras da UniversidadeFederal do Paraná em janeirode 2011.resumo: O artigo discute, no âmbito da relação tradutória, aexperiência da violência do original sobre o tradutor e sua língua,violência que deflagra a pulsão de traduzir (Berman). A experi-ência da tradução é pensada como uma relação de saída já emmovimento, como uma tensão já estabelecida com um originalque, se exige intrinsecamente tradução (Benjamin), é justa-mente por apresentar-se desde sempre já em tensão tradutória.A partir daí explora-se a discussão da tradução como Bildung,não apenas no sentido de uma forma em busca de uma formaprópria (Berman), mas no sentido freudiano de uma forma emformação, por definição interminada e interminável.palavras-chave: tradução; relação; violência; Benjamin;Freud.résumé: L’article discute, dans le cadre de la relation traduisante,l’expérience de la violence de l’original sur le traducteur et aslangue, violence qui déchaîne la pulsion de traduire (Berman).L’expérience de la traduction est pensée entant qu’une relationd’emblée en mouvement, entant qu’une tension déjà établieun original qui, s’il exige intrinsèquement traduction (Benja-min), c’est précisément parce qu’il se présente depuis toujoursen tension traduisante. À partir de là, on explore la discussionde la traduction en tant que Bildung, non seulement au sensd’une forme à la recherche d’une forme propre, mais au sensfreudien d’une forme en formation, par définition inachevéeet inachevable.mots-clés: traduction; relation; violence; Benjamin; Freud.Para Simone e Mauricio1
  2. 2. 62 Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.19, 2011No Brasil e em toda parte, traduz-se hoje cada vezmais, e por inúmeras razões, com vistas aos mais diversosresultados, dos mais explicitamente comerciais aos maissupostamente desinteressados. Cobrem-se, na prática,quase todos os matizes da oposição posta por Humboldtno século XVIII em sua célebre formulação do dilema dotradutor, sempre dilacerado entre o autor e o leitor, a línguaestrangeira e a própria, o original e a tradução.2Mas, nodomínio que nos interessa mais especificamente aqui, queé o da Literatura, parece-me que se formou praticamenteum senso comum, a meu ver quase pacificado, ao menos noâmbito dos estudos da tradução literária, e que nos permitedizer que hoje se traduz, sobretudo, e cada vez mais, paradar a ler o original em toda a sua estrangeiridade. Senãono limite de sua alteridade, ao menos bastante atento a ela.A despeito de todas as nuances da questão, vigora hoje deforma relativamente aceita a posição de Antoine Bermansegundo a qual “a essência da tradução é ser abertura,diálogo, mestiçagem, descentralização”.3É claro que, naprática do mundo editorial, as coisas caminham lentamen-te, até porque ali não se serve a apenas dois senhores, paralembrar aqui mais uma famosa definição da tradução.4Mascreio que ao menos se pode dizer que a crítica à chamadatradução etnocêntrica tornou-se, em nosso campo de es-tudos, quase moeda corrente, modulando, parece-me, demaneira às vezes mais, às vezes menos explícita, a maiorparte das reflexões sobre a tradução que se fazem hoje naFrança, nos Estados Unidos ou aqui entre nós. Creio queessa é uma conquista importante, com resultados práticosque começam a aparecer, entre os quais eu destacariaespecialmente a tendência crescente a retraduzir, quereflete essa dimensão crítica e essa atenção cada vez maiscuidadosa com o estrangeiro.Por outro lado, há um efeito curioso desse processoque tende a idealizar a figura do tradutor, que passa aencarnar o altruísmo e a tolerância na relação com oestrangeiro, às vezes de maneira quase simplória. Nessesentido, invoca-se frequentemente, por exemplo, no mais2 Diz o filósofo e tradutornuma carta a Schlegel:“Cada tradutor deveinfalivelmente encontrar umdos dois escolhos seguintes:ele se limitará com demasiadaexatidão seja ao original,em detrimento do gosto eda língua de seu povo, sejaà originalidade de seu povo,em detrimento da obra aser traduzida.” Citado porBERMAN, Antoine. Aprova do estrangeiro: culturae tradução na Alemanharomântica. Tradução de MariaEmília Pereira Chanut. Bauru,SP: Edusc, 2002. p. 9.3 BERMAN, Antoine. Aprova do estrangeiro: culturae tradução na Alemanharomântica. Tradução de MariaEmília Pereira Chanut. Bauru,SP: Edusc, 2002. p. 17.4 Trata-se da definição deFranz Rosenzweig, segundo aqual “traduzir é servir a doissenhores”, “ao estrangeiro emsua estrangeirice, ao leitor emseu desejo de apropriação”.Citado por RICOEUR, Paul.Sur la traduction. Paris: Bayard,2004. p. 41.
  3. 3. Sobre a violência da relação tradutória 63das vezes ingenuamente, bem entendido, a necessidade doacolhimento incondicional ao estrangeiro a que se refereJacques Derrida em sua reflexão sobre a hospitalidade,5para sustentar a imagem de um tradutor voluntariamenteacolhedor, cheio de toda boa vontade para com o estrangei-ro, por mais radicalmente outro que este seja. Como se issofosse possível. Outras vezes, cai-se nos riscos implicadospor uma ecologia linguística que, no afã mais do que nobrede salvar línguas e culturas ameaçadas pela dominação deoutras mais poderosas, acaba, sobretudo, “reforçando oessencialismo cultural linguístico”,6como previne EmilyApter na introdução de seu Translation Zone, livro em queela discute a importância disso que chama de “zonas detradução” para os estudos de Literatura Comparada.7Não pretendo aqui recusar inteiramente essa pers-pectiva idealizadora de consideração do trabalho do tra-dutor, perspectiva que não deixa de ter sua importânciae sua razão de ser. Muito pelo contrário. Mas ela se tornatanto mais irrealista e enganosa se ignorarmos a dimensãonecessariamente ambivalente dessa relação com o outroimplicada de fato na experiência do tradutor, se ignorarmoso modo como essa dimensão está ligada a um processo desubjetivação que, intrinsecamente, não tem finalidadenem fim, e que é marcado por uma violência subjetiva quea relação tradutória, justamente, jamais resolve, mas, aocontrário, incessantemente reexpõe.Assim, o que me proponho a discutir aqui é a violên-cia fundamental intrínseca à relação tradutória, mas nãotanto em sua direção mais frequentemente referida, istoé, a violência do próprio sobre o estrangeiro que seria ope-rada pelo trabalho da tradução de vocação etnocêntrica,a violência da língua tradutora sobre a língua traduzida.Trata-se, antes, da experiência da violência do estrangeirosobre o próprio, da língua traduzida, da língua do originalsobre o tradutor e sua língua, e que é, a meu ver, a quedeflagra propriamente a “pulsão tradutória”8a que se refereBerman em seu já clássico ensaio A prova do estrangeiro,de 1984, em que discute a tradição alemã do pensamento5 Cf. DERRIDA, Jacques. Del’hospitalité. Paris: Calmann-Lévy, 1997.6 Apter, Emily. Thetranslation zone: a newcomparative literature. NewJersey: Princeton University,2006. p. 5.7 Que ela define inicialmentenos seguintes termos:“Amplamente concebida[...], a zona de traduçãoaplica-se a comunidadesde línguas da diáspora, aesferas públicas de impressãoe mídia, a instituições degovernamentalidade e dedecisão de políticas delíngua, a teatros de guerra,e a teorias literárias comparticular relevância para ahistória e o futuro da literaturacomparada.” Apter, Emily.The translation zone: a newcomparative literature. NewJersey: Princeton University,2006. p. 6.8 BERMAN, A. A prova doestrangeiro: cultura e traduçãona Alemanha romântica.Tradução de Maria EmíliaPereira Chanut. Bauru, SP:Edusc, 2002. p. 24.
  4. 4. 64 Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.19, 2011sobre a tradução. Aliás, creio que se pode dizer, no quetange a essa relação tradutória que quero explorar aqui,que não há primeiramente o original, apreendido na auto-nomia significante de sua língua, e depois a tradução, pormeio da qual o tradutor transporia esse original para suaprópria língua, ela também autônoma. A experiência datradução é de saída uma relação já em movimento, umatensão já estabelecida com um original que, se exige, sedeseja intrinsecamente tradução, como ensinou WalterBenjamin,9é justamente por apresentar-se desde semprejá em tensão tradutória. Por isso, se a tradução é Bildung,como queriam os românticos alemães, não é apenas nosentido de um “movimento em direção a uma forma queé uma forma própria”,10como disse Berman, não é apenasnesse sentido, mas também no sentido freudiano de umaforma em formação, em tensão consigo própria, de umaforma que se apresenta intrinsecamente numa perspectivaconflitante. Esclareço. É com o termo Bildung que Freuddesigna tanto a noção de formação de sintoma [Symptom-bildung] quanto outras noções por ela englobadas, comoas de formação substitutiva [Ersatzbildung], formaçãoreativa [Reaktionsbildung] ou formação de compromisso[Kompromissbildung].11Ou seja, na perspectiva freudiana,a Bildung está intrinsecamente ligada a processos e formasdesencadeados por um embate entre representações quenão se estabilizam, processos e formas que se dão a ver porsua implicação numa relação que a interpretação psica-nalítica deve, por sua vez, por que não dizê-lo?, traduzir...Tal perspectiva me parece constituir um pano de fundointeressante para a discussão dessa violência fundamentalque permeia a experiência do tradutor. Para esboçar o pro-blema, partirei de uma breve reflexão sobre a experiênciaprimeira do tradutor diante de um original, experiênciaanterior a qualquer decisão que ele tome de deter-se maispraticamente, mais pragmaticamente, em sua tarefa. Masexperiência decisiva para a compreensão dessa dimensãopulsional do traduzir. Vou falar um pouco disso agora, a9 Cf. BENJAMIN, Walter. A tarefado tradutor. Quatro traduçõespara o português. Organizaçãode Lúcia Castello Branco. BeloHorizonte: Fale/UFMG, 2008.p. 84. Essa edição comportaquatro traduções do textode Benjamin em português,feitas por Fernando Camacho,Karlheinz Barck e outros,Susana Kampff Lages e JoãoBarrento. Usarei aqui a deJoão Barrento, eventualmentemodificada com base natradução de Martine Broda,realizada a partir do semináriode Antoine Berman sobre otexto de Benjamin, realizadoem 1984-1985 e publicadoem 2008 por Isabelle Berman(BERMAN, Antoine. L’âgede la traduction. “La tâchedu traducteur” de WalterBenjamin, un commentaire.Saint-Denis: PressesUniversitaires de Vincennes,2008).10 BERMAN, A. A prova doestrangeiro: cultura e traduçãona Alemanha romântica.Tradução de Maria EmíliaPereira Chanut. Bauru, SP:Edusc, 2002. p. 80.11 Podemos encontraros quatro verbetes comas respectivas remissõesbibliográficas na obra de Freudem LAPLANCHE, Jean;PONTALIS, Jean-Baptiste.Vocabulário da psicanálise.Tradução de Pedro Tamen. SãoPaulo: Martins Fontes, 1983.p. 257-263.
  5. 5. Sobre a violência da relação tradutória 65fim de ir explicitando aos poucos a questão da violênciada tradução.Quando, diante de letra estrangeira, alguém decidetraduzir, é porque a experiência da tradução já se defla-grou. Como eu dizia, não há antes o original, radicalmenteestrangeiro, a desafiar o tradutor, e depois a tradução, pormeio da qual esse estrangeiro é enfrentado e transportadopara outra língua, para a língua do tradutor. A experiênciada tradução é, de saída, uma relação já em movimento, umatensão já estabelecida com um original que só se furta e exi-ge tradução por se apresentar virtualmente, desde sempre,em tradução, em tensão tradutória, justamente. Por issomesmo ela é Bildung, a um só tempo resultado e processo,forma e formação, forma em formação. Por isso mesmo,como diz Berman, a tradução, cito-o, ou “ela é relação, ouela não é nada”.12Se a tradução é essencialmente relação, éna medida em que ela só existe como tal se for assombradapelo estrangeiro, por este estrangeiro cujo sentido, já pormeio dela, da própria tradução, repito-o, se apresenta e sefurta, se furta exatamente ao se apresentar, se apresenta aose furtar, sustentando, assim, uma relação entre línguas,entre sentidos em tensão, em pulsação. Creio que é aíque podemos, com Freud, pensar a tradução por analogiaa uma Ersatzbildung, a uma formação substitutiva, que sedefine por este mecanismo paradoxal que é o recalque,mecanismo que só se dá a ver como bem-sucedido por seupróprio fracasso, já que é pelo retorno do recalcado que elese revela como tal, como recalque. Analogamente, pois,ao que ocorre com a formação substitutiva freudiana, aomesmo tempo traço e apagamento daquilo que a determi-na, analogamente, não há tradução bem ou malsucedidaque se revele como tal, que se revele como tradução, in-dependentemente de se oferecer como boa ou ruim, sem oretorno mais ou menos assombroso do original. Pois é porremeter, positiva ou negativamente, expressamente ou àsua revelia, a certa virtualidade ou a certas virtualidades desentido do original, virtualidades que ela vem revelar – e12 BERMAN, A. A prova doestrangeiro: cultura e traduçãona Alemanha romântica.Tradução de Maria EmíliaPereira Chanut. Bauru, SP:Edusc, 2002. p. 17.
  6. 6. 66 Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.19, 2011no mesmo movimento fixar –, é por essa remissão que elapode ser considerada boa ou ruim.Se assim for, o que será que está em jogo quandoBerman diz, repito, que a tradução “é relação, ou não énada”? O que seria a tradução que não é nada? Creio que,para Berman, não há dúvida: é justamente a traduçãoetnocêntrica, aquela que é baseada, nos termos do próprioautor em A tradução e a letra ou o albergue do longínquo, na“captação do sentido” do original, que, diz Berman, “afirmasempre a primazia de uma língua”.13A tradução que nãoé relação, e que por isso não é nada, seria aquela em quea língua do tradutor iluminaria o texto estrangeiro de talforma que o clássico problema da literalidade da traduçãosequer chegaria a se formular como tal. É a partir daí, aliás,que o teórico define a “transformação literária” operadapela tradução, que ele opõe justamente ao que reivindicacomo tradução literal.14Ora, mas se tal tradução – bem ou malsucedida, se-gundo o ponto de vista – existe, ela não se deve jamais, ameu ver, à presença ou à falta de qualidades intrínsecasa um trabalho específico de tradução, à presença ou àfalta de virtudes metodológicas de um tradutor empíricoqualquer, em qualquer sentido que seja. Até porque, pormais que uma prática etnocêntrica recalque o outro comotal, este sempre deixa seus traços, e o estrangeiro originalsempre acaba por retornar. Ao menos para quem conhecea língua do original.Aqui, aliás, abro parênteses, poderíamos inclusivecolocar em questão, no âmbito desta discussão, o que seriaessa tradução literal que Berman não cessa de reivindicar.Pois é essa espécie de retorno tautológico do original, paraquem conhece a língua em que ele é produzido, que fundaa sensação paradoxal de uma espécie de precedência aposteriori do literal sobre a predicação figural que qualquertradução não pode evitar derivar desse suposto originalliteral. O que a experiência da tradução como tal propiciaao transfigurar necessariamente o original em outra letra,desliteralizando-o inevitavelmente, é uma espécie de dife-13 Cf. BERMAN, Antoine. Atradução e a letra ou o alberguedo longínquo. Tradução deMarie-Hélène C. Torres,Mauri Furlan e AndréiaGuerini. Rio de Janeiro:7Letras, 2007. p. 33.14 Cf. BERMAN, Antoine. Atradução e a letra ou o alberguedo longínquo. Tradução deMarie-Hélène C. Torres,Mauri Furlan e AndréiaGuerini. Rio de Janeiro:7Letras, 2007. p. 28-44; 63-71.
  7. 7. Sobre a violência da relação tradutória 67rença original do original para consigo próprio, que o tornadesde sempre irremediavelmente distinto de si mesmo. Desua própria letra, sempre já traduzida em outra letra. Ouseja, parece-me que, ao fim e ao cabo, o literal é sempreo retorno enigmático do original em sua materialidadeirredutível a certa imaterialidade do sentido traída por suatradução. Quero dizer que não há o literal em estado puro,sem a sombra de suas predicações – de suas traduções maisou menos flutuantes. Mas passemos...Pois o ponto que quero explicitar agora é o seguinte:uma tradução que não é nada só poderia existir para quemnão conhece a língua do original. Porque, justamente,para quem não a conhece, jamais existe tradução. Eu, porexemplo, costumo dizer que não tenho ideia do que sejauma tradução de Dostoievski. Para mim, uma tradução deDostoievski não é relação. É nada. Se ouso dizer que leioDostoievski, é como um original em língua portuguesaque aprecio sem saber até que ponto a estranheza quenele reconheço em minha língua portuguesa é russa oudostoievskiana. Sem saber se ela é ou não é a invenção deum tradutor que, para mim, jamais se coloca de fato comotradutor, justamente, que, para mim, só pode se colocarcomo um escritor, como um produtor de originais. Pois,por detrás do Dostoievski que leio em uma “tradução”,aqui entre aspas, pois para mim ela não se coloca comotal, por detrás desse Dostoievski não ouço nenhumalíngua estrangeira, é puro silêncio... Por isso, para mim,essa tradução é nada. Dostoievski só pode soar como umoriginal em português para mim, pois o russo não me sopraao ouvido, não me assombra. Por outro lado, deem-meuma frase de Flaubert em português e não poderei evitarouvir, involuntariamente, ecos dessa frase em francês, in-dependentemente de conhecer a frase original. E, por maisflaubertiana que a frase possa me parecer em língua portu-guesa, a língua francesa continua a ressoar para mim portrás da tradução. E aí começo a ouvir o original “literal”, emnome do qual me ponho a criticar as predicações figuraisoperadas pela tradução em minha língua. Todos sabemos
  8. 8. 68 Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.19, 2011o burburinho da letra estrangeira que ouvimos diante datradução de um original de uma língua que conhecemos.Da mesma forma, não posso experimentar como relação atradução de um texto em minha língua para uma língua quenão conheço. Ano passado ouvi Marcelo Paiva de Souzalendo Drummond em polonês em tradução de Milosz.15Soava magnificamente, mas como uma música original.Como uma obra autônoma, encerrada em si mesma. Euaté podia ouvir um sistema rítmico e de repetições queeu identificava com as sucessivas retomadas de “Tinhauma pedra no meio do caminho, no meio do caminhotinha uma pedra...” do poema de Drummond. Mas quemme garante que um polonês não ouvia ali algo como: “Eucomia cobras na hora do almoço, na hora do almoço eucomia cobras...”? Não havia para mim a tensão inevitávelda experiência da tradução com o burburinho do originalliteral adivinhado. Porque na tradução que é relação nãoposso evitar contrapor a hesitação entre o som e o sentidoexperimentada numa língua e o modo como ela retorna naoutra, para evocar a famosa definição da experiência dalíngua na poesia feita por Paul Valéry. A rede de relaçõesnuma língua e noutra é necessariamente diferente e, dealgum modo, conflitante. Rede que reconstituo necessaria-mente ao ouvir Drummond em francês ou em inglês, porexemplo, constatando quase à minha revelia as necessáriastraições. Há, em suma, na tradução que é relação, umaviolência recíproca, de uma língua a outra. Onde até possoter arroubos, como queria Haroldo de Campos, de ver atradução como um original autônomo, forjando uma redede relações mais rica que o original, tradição diante da qualesse original soaria como a tradução.16Mas a instabilidadeda relação permanece.Ou seja, para quem não conhece o original, a traduçãotem o mesmo valor (que pode ser imenso!) que a traduçãoque faz um Guimarães Rosa de um original que não existe.Todos sabem a importância para Rosa das traduções, eevoco aqui um trecho de uma famosa carta do escritor ao15 Participei em setembro de2010 de mesa-redonda comMarcelo Paiva de Souza noII Simpósio Internacionalde Literatura Comparadae Tradução, realizado naUniversidade de SantaCatarina, em queele apresentoua comunicação “Um diálogono meio do caminho: CzesławMiłosz, leitor e tradutorde Carlos Drummond deAndrade”.16 Cf. CAMPOS, Haroldode. O que é mais importante:a escrita ou o escrito? Teoriada linguagem em WalterBenjamin. Revista da USP, n.15, p. 84, set/out/nov. 1992.
  9. 9. Sobre a violência da relação tradutória 69tradutor italiano. Escreve Rosa, não sem alguma conso-nância com as ideias de Haroldo:Eu quando escrevo um livro, vou fazendo como se o estives-se “traduzindo”, de algum alto original, existente alhures, nomundo astral ou no “plano das ideias”, dos arquétipos, porexemplo. Nunca sei se estou acertando ou falhando, nessa“tradução”. Assim, quando me “re”traduzem para outroidioma, nunca sei, também, em casos de divergência, senão foi o tradutor quem, de fato, acertou, restabelecendoa verdade do “original ideal”, que eu desvirtuara.17Ou seja, a tradução, para quem não conhece a línguado original, se inscreve na língua do leitor como esse tipode tradução primeira a que se refere Rosa, como repertóriono “interior da floresta da língua”,18para evocar uma vezmais Benjamin e sua Tarefa do tradutor. Mas, nessa tradu-ção que funciona como um original, a tensão da relaçãoentre duas letras, entre significantes que se “aparentam”mas se excluem, essa tensão da relação tradutória nãose põe. Em suma, a tradução, para quem não conhece alíngua do original, vale como um original qualquer, e nãocomo relação. Daí a célebre pergunta do filósofo alemão:“Uma tradução vale para os leitores que não entendemo original?”19Pois só para os que entendem o original atradução pode ser de fato – e é inevitavelmente – relação,a despeito do maior ou menor esforço relacional do tradu-tor. Assim, independentemente de a tradução ser boa ouruim, de ser mais ou menos etnocêntrica, sua importância,para os que não entendem o original, não está, a meu ver,em possibilitar a relação com o estrangeiro como tal. Masem despertar eventualmente esse desejo de relação, quesó pode de fato se realizar se o leitor for então levado aaprender outra língua, e assim estar continuamente expostoà experiência estrangeira inclusive em relação à próprialíngua. Até porque “é preciso compreender ao menos duaslínguas para saber que se fala uma”, como costuma dizer afilósofa Barbara Cassin.2017 GUIMARÃES ROSA,João. João Guimarães Rosa:correspondência com seutradutor italiano EdoardoBizzarri. Rio de Janeiro: NovaFronteira; Belo Horizonte:UFMG, 2003. p. 99.18 BENJAMIN, W. A tarefado tradutor. Quatro traduçõespara o português. Organizaçãode Lúcia Castello Branco. BeloHorizonte: Fale/UFMG, 2008.p. 91.19 BENJAMIN, W. A tarefado tradutor. Quatro traduçõespara o português. Organizaçãode Lúcia Castello Branco. BeloHorizonte: Fale/UFMG, 2008.p. 82.20 Cf. CASSIN, Barbara. Plusd’une langue. Appel pourune politique européennede la traduction. Disponívelem: <http://www.dglflf.culture.gouv.fr/publications/References10_Traduire.pdf>.Acesso em: 05/09/10.
  10. 10. 70 Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.19, 2011Por tudo isso, uma das questões impossíveis de seremrespondidas por quem lê uma tradução sem conhecer alíngua do original é a seguinte: até que ponto tal estra-nheza do original se deve à língua desse original ou aomodo como tal escritor a utiliza? No caso de Dostoievski,às vezes me pergunto: será que esta língua que tal tradutordo russo inventa aqui é uma potência interior à minhalíngua? Como a que inventa Rosa, por exemplo? Ou é umadaquelas línguas híbridas que só se produzem em tradução?Questão, aliás, muitas vezes impossível de ser respondida,já que sabemos que o próprio Rosa não teria inventado alíngua que inventou se não tivesse incorporado à línguaportuguesa virtualidades das muitas outras línguas queconhecia. Como, aliás, fazem muitos escritores. De todomodo, o que quero dizer aqui é que percebemos muitasvezes ao traduzir que produzimos uma língua que soa com-pletamente artificial em nossa língua: trata-se de defeito oude qualidade da tradução? São problemas práticos que secolocam para um tradutor e que ele jamais pode resolversatisfatoriamente: privilegiar a estrangeirice intrínseca dalíngua em que se fabrica o original ou tentar restituir natradução a posição daquele texto original em relação àsnormas dessa sua língua original? Sabemos que um textoabsolutamente normativo e burocrático numa língua podeconstituir uma experiência interessante e surpreendenteem outra.Assim, por exemplo, se traduzimos uma expressãoestabelecida numa língua estrangeira por uma que con-sideramos equivalente em nossa própria língua, deforma-mos certamente uma virtualidade da língua do original.Ocorreu-me, por exemplo, quando escrevia este texto umaexpressão que aprecio em inglês, “still life” (em alemão:“stil leben”), para dizer “natureza morta”; se resolvemostraduzir, digamos, “literalmente”, por “vida imóvel” ou por“ainda a vida”, também deformamos de outra maneira arelação do escritor que estamos traduzindo com sua próprialíngua. Mas, se não for um manual de pintura tradicional,por exemplo, pode ser que o autor em questão esteja ali
  11. 11. Sobre a violência da relação tradutória 71explorando voluntariamente certa dimensão “literal” daexpressão. O que se perde se eu traduzir por “naturezamorta”. Enfim, eis uma pergunta com que o tradutor, numou noutro momento, sempre se depara: quem fala nessafantasmagoria originária que é o original literal? A línguaou o sujeito? Quando um se impõe ao outro? Quem dobraquem?Nesse sentido, podemos evocar também um exemploclássico, no caso da filosofia, do famoso problema apontadopor Heidegger na tradução do grego physis para o latinonatura. Em relação a essa discussão, Andrew Benjaminafirma, por exemplo, para apresentar a posição de Heide-gger sobre a tradução:A perda que marca o presente filosófico é superada por atosde restauração, restabelecimento, e recuperação. Em cadainstância, o que precisa ser recuperado etc. e, portanto, oque foi perdido, é a arcaica realidade expressa na e coma palavra. A consequência é que o que está perdido natradução, ou antes o que foi destruído [“destruído” é umtermo que o autor retoma de Heidegger] na tradução dephysis por natura é essa realidade arcaica.21Ou seja, haveria, para Heidegger, uma equivalência,ainda que problemática, entre a palavra e o que ela diz.Equivalência que se recupera, ou que se destrói, na tra-dução. De todo modo, a pergunta que retorna é semprea mesma: O que resta do original como tal, o que restacomo seu sentido original atrelado à sua letra, quando essesentido só se dá a ver como tal já em tradução?Aqui posso também relatar uma anedota do escritorbilíngue Julian Green, que expõe de maneira interessanteesse impasse a partir de sua própria experiência de viverentre duas línguas, a inglesa materna, e a francesa, dopaís onde cresceu e viveu grande parte da vida. Primeiroele conta a história de uma criança francesa que teriaperguntado à mãe: “Quando você pensa, você pensa compensamentos ou com palavras?” Ao que a mãe respondeu21 Benjamin, Andrew.Translation and the nature ofphilosophy. A new theory ofwords. London/ New York:Routledge, 1989. p. 18-19.
  12. 12. 72 Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.19, 2011prontamente que pensava com pensamentos... Intrigada,porém, ela apresentou a questão a um amigo filósofo, quelhe teria dito: “Seria melhor que você dissesse ao seu filhoque não sabemos nada a respeito disso”. Na sequênciado relato, Green evoca a pergunta que sempre lhe faziame que sempre o aborrecia: “Você pensa em inglês ou emfrancês?” “Eu tinha uma resposta pronta”, continua ele:“Primeiro me diga se pensamos com palavras.”22Fim dahistória de Green. É o caso de nos perguntarmos o que restados pensamentos depois que os traduzimos em palavras.E, sobretudo, depois que traduzimos essas palavras porpalavras em outra língua. Em todo caso, trata-se de nossaeterna e espinhosa tarefa de seres de linguagem que nosleva irremediavelmente a nos mover entre a imaterialidadeassombrosa do sentido – o original primeiro de Rosa? – ea materialidade literal das palavras.De todo modo, é a partir dessa tensão entre original etradução que o original se revela como passível de múltiplasdeterminações em si. Ou seja, que o literal se desdobra emoutras letras, refigurando-se, ganhando e perdendo neces-sariamente predicações. Daí a célebre frase de Rimbaudao responder sobre o que queria dizer seu Une saison enenfer, Uma estadia no inferno, na tradução de Ivo Barroso.Disse o poeta: “Eu quis dizer o que isso diz, literalmentee em todos os sentidos”.23Primeiro Rimbaud aponta atautologia do sentido do literal: “eu quis dizer o que issodiz, literalmente”; para em seguida solicitar os sentidosda tradução operada pela leitura e por sua proliferaçãofigural, que ele marca pela conjunção aditiva e... Ele diz:“literalmente e em todos os sentidos”. Essa proliferação sereflete, por exemplo, nas várias traduções em portuguêsda palavra saison, do título: estadia, estação, temporada,época, sazão... e mesmo cerveja, Uma cerveja no inferno.24Qual seria a tradução literal? Talvez alguns tendessem adizer que fosse sazão? É, aliás, este conflito insolúvel entretraduzibilidade e intraduzibilidade que sustenta o infinitoprocesso de interpretação que define um texto para Derrida– ou o que Benjamin chama de sua sobrevida. Até porque,22 Green, Julian. Le langageet son double. Paris: Seuil,1987. p. 153-155.23 Citado por RIMBAUD,Isabelle. Rimbaud mystique.Paris: Le Mercure de France,1914. p. 699.24 Ivo Barroso apresentaalgumas dessas versões em seublog. Disponível em: <http://gavetadoivo.wordpress.com/2010/10/06/a-proposito-de-um-titulo/>. Acesso em:08/07/11.
  13. 13. Sobre a violência da relação tradutória 73se a tradução efetivamente se realizasse e estabilizasse otexto, ela o negaria como tal. Pois a tradução revela justa-mente, talvez melhor do que qualquer outro tipo de leitura,a instabilidade do sentido de um texto, e de uma língua.Feitas essas reflexões e digressões, que creio mais oumenos recorrentes para todos aqueles que vivem entreliteraturas e línguas estrangeiras, retorno ao ponto funda-mental em relação à experiência da tradução que propuscomo central deste ensaio. Pois, nessa experiência darelação implicada por um texto estrangeiro cuja traduçãonos solicita, não se escolhe ou bem dar ouvidos ou bemnão dar a tal ou qual irredutibilidade da letra estrangeira.Como eu dizia no início, há uma violência fundamentalna experiência da relação, e que não é a violência operadapelo chamado etnocentrismo da tradução. A violênciafundamental dessa experiência, e que deflagra de fato apulsão de traduzir, é, repito mais uma vez, a violência dooriginal sobre o tradutor. Como lembra, aliás, Berman, emseu seminário sobre a Tarefa de Benjamin, a tradução nãoé simplesmente uma circunstância fortuita da vida de umoriginal, produzida por um tradutor que, num belo momen-to, se interessaria por ele.25A tradução é uma solicitação,uma exigência do original, que este impõe justamente aofurtar-se a ela, à tradução, à relação, como eu também jádisse antes. E é ao furtar-se a ela que esse original violentaa língua do tradutor, atingindo assim a estrutura etnocên-trica da cultura do tradutor, em seu narcisismo, naquele“narcisismo das pequenas diferenças” de que falava Freud26– e que consolida cotidianamente – e reativamente – ainserção de cada um em sua própria cultura, por oposiçãoàs outras que o rodeiam de forma mais ou menos próxima.Assim, se a tradução etnocêntrica tem um caráter violentoe traiçoeiro em relação ao estrangeiro, tal violência respon-de, de certa forma, a uma violência anterior: à violência dooriginal sobre a língua do tradutor. Desse ponto de vista,será que não poderíamos apelidar a tradução etnocêntricade Reaktionsbildung, a formação reativa freudiana?25 Cf. BERMAN, A. L’âgede la traduction. “La tâchedu traducteur” de WalterBenjamin, un commentaire.Saint-Denis: PressesUniversitaires de Vincennes,2008. p. 52.26 Freud propõe a expressãoem “O tabu da virgindade”(1918), a partir da reflexãosobre a diferença sexual, eretoma-a mais tarde, sobretudoem seus textos sobre a cultura– particularmente em “Omal-estar na cultura” (1930)e “Moisés e o monoteísmo”(1939) – para refletir sobre a(in)tolerância do homem emrelação ao semelhante.
  14. 14. 74 Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.19, 2011Mas, para nos aproximarmos do fim, persistamos aindaum pouco nessa analogia com Freud e a trama de traduçõesque constitui a interpretação psicanalítica. Pensemos naErsatzbildung, na formação substitutiva. No âmbito dotrabalho analítico, o sentido que determina tal formaçãoe que ela, de certa maneira, traduz – o sentido do original– só pode ser construído a partir da rede de associaçõesque ela desencadeia. Temos aí dois níveis de tradução:27uma primeira tradução, digamos, simbólica – a Ersatzbil-dung, a formação que “substitui” uma forma original cujosentido de algum modo violenta o sujeito e de que ele nãoé capaz de se apropriar integralmente –, e a tradução dessatradução propiciada por meio de uma rede de associaçõesque só se materializa a posteriori, nachträglich, como diriaFreud (ou “só-depois”, conforme a tradução brasileira deMD Magno),28em função da instabilidade da primeiratradução. E que retrama as ligações associativas entre osuposto original e a primeira tradução, impondo um pro-cesso interminável de retraduções. O que vemos aí no atode tradução psicanalítica é, ao mesmo tempo, uma “produ-ção retrospectiva das pré-condições para a tradução”29e ainseparabilidade do original de suas sucessivas e infinitastraduções. Uma relação entre representações que se infi-nitiza por sua própria natureza conflituosa. Em suma – eretomo a ideia do início –, talvez tal analogia com a noçãode formação substitutiva possa nos ajudar a pensar aquelatradução que o tradutor faz à sua própria revelia de umoriginal que o assalta, deflagrando um processo infinitode retorno de um original que sempre revela e reivindicaoutra rede de determinações, atualizando, assim, a tensãoirredutível da relação tradutória.Da mesma maneira, como vimos, no que concerneà experiência da tradução de que estou tratando aqui, sóhá relação se houver violência, e isso não passa por umadecisão, por um arbítrio. A relação já se dá a partir da vio-lência da língua outra sobre a língua própria, produzindouma experiência vertiginosa de linguagem entre as duaslínguas, suspendendo o fluxo contínuo de ambas. Assim,27 Inspiro-me aqui emparte nas reflexões deAndrew Benjamin em seucapítulo “Psychoanalysis andtranslation”, de Translationand the nature of philosophy. Anew theory of words. London/New York: Routledge, 1989. p.109-149. Cf., em particular, p.143-147.28 Cf. verbete “Posterioridade,posterior, posteriormente”em LAPLANCHE, Jean;PONTALIS, Jean-Baptiste.Vocabulário da psicanálise.Tradução de Pedro Tamen.São Paulo: Martins Fontes,1983. p. 441-445. A traduçãobrasileira de MD Magno foiproposta a partir da traduçãofrancesa do termo por JacquesLacan – “après-coup”. Cf.LACAN, Jacques. O seminário.Livro I. Os escritos técnicosde Freud. Tradução de MDMagno. Rio de Janeiro: Zahar,1979.29 Cf. BENJAMIN, A.Translation and the nature ofphilosophy. A new theory ofwords. London/ New York:Routledge, 1989. p. 146.
  15. 15. Sobre a violência da relação tradutória 75da mesma maneira que o ato de hospitalidade reivindi-cado por Derrida, o ato tradutório não é voluntário, masimposto por uma violação da soberania, que não se tratade acatar ou não, com maior ou menor boa vontade. É,digamos, uma espécie de irrupção significante com que osujeito-tradutor tem de se haver à sua própria revelia. Épor isso que a relação de hospitalidade é, como reivindicaDerrida, incondicional,30e não porque seja motivada poralgum imperativo ético que teria levado alguém a decidirque ela o fosse, que ela fosse incondicional, por alguma es-pécie de generosidade, de boa vontade, de tolerância ou dealtruísmo, como eu dizia no início, que seriam intrínsecos aum tradutor empírico qualquer ou a uma certa posição detradutor. Assim, o que está em jogo na experiência-limiteda relação não é a incorporação de recursos e de valoresde uma língua, de uma cultura, por outra, como queriam,de certa forma, os alemães nos séculos XVIII e XIX. Arelação vale não tanto como experiência da incorporaçãoou da contaminação de diferenças, mas, sobretudo, comoexperiência da afirmação da sua irredutibilidade, da irredu-tibilidade das diferenças. Fazendo com que a tradução sejanecessariamente interminada e interminável. Ao menospara aqueles que têm – e para quem sempre se impõe –mais de uma língua.À guisa de conclusão, eu diria que o grande mérito daatual tendência crítica a que eu me referia no início, naárea dos estudos da tradução, a tendência crítica ao etno-centrismo necessariamente presente em toda tradução, éo de levar o leitor que não conhece a língua do original asuspeitar, a intuir essa violência original do processo e, con-sequentemente, a suspeitar e a intuir também a dimensãointrinsecamente interminável da tarefa do tradutor, queé efeito dessa violência. E, nesse sentido, estimular esseleitor a aprender línguas estrangeiras. Pois é isso que podefazer em face de uma das ambiguidades do crescimento daatividade da tradução, a um de seus aspectos negativos:como chama a atenção Emily Apter, “se a tradução é con-siderada essencial para a disseminação e a preservação da30 Cf. DERRIDA, J. Del’hospitalité. Paris: Calmann-Lévy, 1997.
  16. 16. 76 Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.19, 2011herança textual, ela também pode ser entendida como umagente de exterminação linguística”.31Afinal, sem aquelassuspeitas, qual o sentido de aprender a língua estrangeiraem nossos tempos em que, por um lado, a atividade detradução se intensifica, dando-nos a ler “generosamente”(digo generosamente entre aspas, não sem uma certa ironia,bem entendido...) toda espécie de estrangeiro – mas issosobretudo tendo como língua-alvo as línguas das economiasmais poderosas –, e ainda nestes nossos tempos em que,por outro lado, as ferramentas de tradução se automatizame se tornam cada vez mais eficazes?Por isso deve-se continuar, sim, é claro, a estimulartoda espécie de tradução, mas deve-se, sobretudo, estimu-lar a formação incessante de tradutores, destes homens que,longe de apagar as fronteiras entre as línguas, as conservam,ao mesmo tempo em que experimentam a possibilidadede circular entre elas. Em um livro publicado em 2010na França, e no qual faz, não sem polemizar, o “elogio dasfronteiras”, Régis Debray escreveu:A fronteira, este fortificante, nos dá vontade de nos desen-raizar, faz recuar a saciedade terminal. De sua salvaguardadepende a sobrevida não de “cidadãos do mundo”, clichêvaidoso e que não engaja a coisa alguma, mas cidadãos devários mundos ao mesmo tempo (dois ou três, já não é mau),e que se tornam, por aí mesmo, estes fecundos andróginosque são os homens-fronteiras.32Esses “fecundos andróginos”, esses “homens-frontei-ras”, que circulam não apenas nas fronteiras nacionais, masnestas zonas “in-translation” a que se refere Emily Apter,nestas zonas em translação/tradução, zonas intersticiais emque se desnaturaliza o espaço confortável de toda espéciede pertencimento identitário, esses homens-fronteira sãoprimeiramente e acima de tudo tradutores. Quando sub-metidas no dia a dia à violência da tradução, as reificaçõesidentitárias, solidamente calcadas nas identidades linguísti-cas, se desestabilizam. E uma centelha de heterogeneidade,31 APTER, Emily. Thetranslation zone: a newcomparative literature. NewJersey: Princeton University,2006. p.4.32 DEBRAY, Régis. Éloge defontières. Paris: Gallimard,2010. p. 93.
  17. 17. Sobre a violência da relação tradutória 77em letra vinda de alhures, pode nos levar a modular nossahostilidade de princípio ao estrangeiro.Para concluir em duas frases, eu diria apenas que nãoé exatamente lendo traduções mais ou menos etnocên-tricas que nos transformamos em humanos mais abertose mais tolerantes com o estrangeiro... Precisamos, acimade tudo, nos tornarmos todos, e cada vez mais, ao menosvirtualmente, homens-fronteiras, tradutores, para, dianteda violência que só entre línguas podemos experimentar,sermos capazes de dobrar aqui e ali, de fato, nossas pe-quenas e grandes diferenças, com toda a ambivalênciaque isso implica, e vislumbrar, assim, outras possibilidadesde vida.

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