Revista espírita 1864

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Revista espírita 1864

  1. 1. 1REVISTA ESPIRITAJORNALDE ESTUDOS PSICOLÓGICOSCOLETÂNEA FRANCESACONTENDOOs fatos de manifestação dos Espíritos, assim como todas as notícias relativas ao Espiritismo. - O ensino dos Espíritos sobre as coisasdo mundo visível e do mundo invisível, sobre as ciências, a moral, a imortalidade da alma, a natureza do homem e seu futuro. - Ahistória do Espiritismo na antigüidade; suas relações com o magnetismo e o sonambulismo; a explicação das lendas e crenças popula-res, da mitologia de todos os povos, etc.PUBLICADA SOB A DIREÇÃO DEALLAN KARDECTodo efeito tem uma causa.Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente.O poder da causa inteligente está na razão da grandeza do efeito.SÉTIMO ANO- l864INSTITUTO DE DIFUSÃO ESPÍRITAAv. Otto Barreto, 1067 - Caixa Postal 110Fone: (19) 541-0077 - Fax: (19) 541-0966CEP 13.602.970 -Araras - Estado de São Paulo – BrasilTítulo original em francês:REVUESPIRITEJOURNAL DÉTUDES PSYCHOLOGIQUESTradução: SALVADOR GENTILERevisão: ELIAS BARBOSA1aedição - 1.000 exemplares – 1993© 1993, Instituto de Difusão Espírita
  2. 2. 1ÍNDICE GERAL DAS MATÉRIASDO SÉTIMO VOLUMEANO 1864JANEIROAos assinantes da Revista EspíritaEstado do Espiritismo em 1863Médiuns CuradoresUm caso de possessão - Senhorita Julie (2- artigo)Conversas de além-túmulo - FrédégondeInauguração de vários grupos e sociedades espíritasPerguntas e Problemas - Progresso nas primeiras encarnaçõesVariedades - Fontenelle e os Espíritos batedores- Santo Atanásio, espírita sem o saber- Extrato do Opinion nationale- Um Espírito batedor no século XVIFEVEREIROO Sr Home em RomaPrimeiras lições de moral da infânciaUm drama íntimo - Apreciação moralO Espiritismo nas prisõesVariedades - Cura de uma obsessão de Marmande- Manifestações de PoitiersDissertações Espíritas - Necessidade da encarnação- Estudos sobre a reencarnaçáoNotícias bibliográficas - Revista Espírita de Anvers- No Céu se se reconhece, pelo R P Blot- A lenda do homem eterno, pelo Sr Armand DuratinMARÇODa perfeição dos seres criadosUm médium pintor cegoVariedades –Uma tentação- Manifestações de Poitiers (continuação)- A jovem obsidiada de Marmande (continuação)- Mons Bispo de Strasbourg- Uma rainha médium- Participação Espírita- Sr Home em Roma (conclusão)Instruções dos Espíritos - Jacquard e VaucansonBibliografia - Annali dello Spiritismo in Itália - O Salvador dos Povos-Necrologia - M MatthieuABRILBibliografia - Imitação do EvangelhoAutoridade da Doutrina Espírita Controle universal do ensinamento dosEspíritosResumo da lei dos fenômenos EspíritasCorrespondência -Sociedades dAnvers e de MarseilleInstruções dos Espíritos - Progressão do globo terrestre- A imprensa e a arquitetura- O Espiritismo e a franco-maçonaria- Aos obreiros
  3. 3. 2MAIOTeoria da PresciênciaVida de Jesus pelo Sr RenanSociedade Espírita de Paris; Discurso de abertura do 7- anoA escola espírita americanaCurso público de Espiritismo em Lyon e em BordeauxVariedades - Manifestações de Poitiers- O Tasso e seu Espírito estouvadoInstruções de Ciro aos seus filhosNotícias Bibliográficas - A guerra ao diabo e ao inferno - Cartasaos ignorantesJUNHOA vida de Jesus, pelo Sr Renan ( 2- artigo)Relato completo da cura da jovem obsedada de MarmandeAlgumas refutações: - Conspirações contra a fé-Uma instrução de catecismoO espírito batedor da irmã MarieVariedades : - O index da corte de RomaPerseguições militaresUm ato de justiçaJULHOReclamação do Sr Abade BarricandA religião e o progressoO Espiritismo em ConstantinoplaExtrato do Jornal do Commercio do Rio de JaneiroExtrato do Progrès colonial da Ilha MaurícioExtrato da Revista Espírita DAnversInstruções dos Espíritos - O castigo pela LuzNotícias Bibliográficas -A Educação maternalO Espiritismo em sua mais simples expressão, edição russaAGOSTONovos Detalhes sobre os possessos de MorzinesSuplemento ao capítulo das preces em A Imitação do EvangelhoPerguntas e problemas - Destruição dos aborígines do MéxicoCorrespondência - Resposta do redator de La Vérité à reclamação do Sr Abade BarricandConversas de além-túmulo - Julienne-Marie, a mendigaNotícias Bibliográficas - UAvenir, moniteurdu SpiritismeCartas sobre o Espiritismo, escritas a eclesiásticosOs milagres de nossos dias: relato das manifestações do médium Jean HillaireSETEMBROInfluência da música sobre os criminosos, os loucos e os idiotasO novo Bispo de BarcelonaInstruções dos Espíritos -Os Espíritos na EspanhaConversas de além-túmulo - Um Espírito que se crê médiumEstudos Morais - Uma família de monstrosVariedades - Um suicídio falsamente atribuído ao EspiritismoNotícias Bibliográficas - A pluralidade dos mundos habitados, por FlammarionA voz de além-túmulo, jornal EspiritaOUTUBROO sexto sentido e a visão espiritual - Ensaio teórico sobre os espelhos mágicosTransmissão do pensamento - Meu fantástico, por Émile Deschamps
  4. 4. 3O Espiritismo na BélgicaTiptologia rápida e inversaUm criminoso arrependidoEstudos Morais - Um retorno de FortunaUma vingançaVariedades - Sociedade alemã dos procuradores de tesourosUm quadro espírita na exposição de AnversNOVEMBROO Espiritismo é uma ciência positiva -Alocução aos Espíritas de Bruxelas e de AnversUma lembrança de existências passadas - M MéryUm criminoso arrependido (continuação)Conversas de além-túmulo - Pierre LegayDissertações - Sobre os Espíritos que se crêem ainda vivosVariedades - Suicídio falsamente atribuído ao EspiritismoSuicídio impedido pelo Espiritismo - Devotamento dos pobres operários de Lyon"Periocidade da Revista EspíritaDEZEMBRODa comunhão de pensamentos - A propósito da comunicação dos mortosSessão comemorativa na sociedade de Paris- Sr Jobard e os médiuns mercenários - Exemplo notável de concordânciaLouis-Henri, o trapeiro - Estudo moralNecrologia - Morte do Sr Bruneau - Discursos de Allan Kardec-Variedades - Comunicação em opostoNotícias Bibliográficas - Como e porque me tornei Espírita? por JB BorreauO mundo musical, jornal de BruxellesAuto-de-fé de BarcelonaComunicação Espírita -A propósito de A Imitação do EvangelhoSubscrição dos incendiados de Limoges
  5. 5. 2REVISTA ESPIRITAJORNALDE ESTUDOS PSICOLÓGICOS7aANO NO. 1 JANEIRO 1864AOS ASSINANTES DA REVISTA ESPÍRITA.A época da renovação das assinaturas da Revista, para muitos de nossos leitores,cujo número aumentou este ano numa proporção notável, é uma ocasião de testemunharseu devotamento à causa, e de manifestar, a nosso respeito, sentimentos dos quais so-mos vivamente tocados. As cartas que contêm a sua expressão são muito numerosaspara que nos seja possível responder a cada uma em particular. Dirigimo-lhes, pois, cole-tivamente, nossos agradecimentos sinceros pelas coisas obsequiosas que muito queremnos dizer e os votos que fazem por nós e para o futuro do Espiritismo; nossa condutapassada lhes é a garantia de que não faliremos em nossa tarefa, por pesada que seja, eque nos encontraremos sempre no primeiro lugar na luta. Até este dia suas preces foramatendidas, por isso os convidamos a agradecerem os bons Espíritos que nos assistem enos secundam da maneira mais evidente, afastando os obstáculos que poderiam entravara nossa marcha, e nos mostrando, cada vez mais claramente, o objetivo que devemosalcançar.Por muito tempo quase estivemos a sós, mas eis que novos lutadores entram na liçade todos os lados, trabalhando com o ardor, a perseverança e a abnegação que dá a fé,para a defesa e a propagação de nossa santa Doutrina, sem desanimarem com os obstá-culos, e sem temerem a perseguição; também a maioria viu a má vontade dobrar-se dian-te de sua firmeza. Que recebam aqui as nossas sinceras felicitações em nome de todosos Espíritas, presentes e futuros, na memória daquelesque viverão certamente. Logo terão a satisfação de ver numerosos imitadores cami-nharem sobre suas marcas, porque, uma vez dado o impulso, não se deterá mais; logotambém se verão sustentados por homens tendo autoridade, e que tomarão arrojadamen-te nas mãos a causa do Espiritismo, que é a do progresso e do bem-estar, material e mo-ral, da Humanidade.Saudações cordiais e fraternas a todos os nossos irmãos em Espiritismo de todos ospaíses.ALLAN KARDEC.__________________ESTADO DO ESPIRITISMO EM 1863.O ano que vem de se escoar não foi menos fecundo do que os precedentes para oEspiritismo, mas ele se distingue por vários traços particulares. Mais do que todos os ou-tros, foi marcado pela violência de certos ataques, sinal característico cuja importância
  6. 6. 3não escapou a ninguém. Todo o mundo diz para si mesmo: Uma vez que se ponha emcólera, é que se tem medo; tendo-se medo, é que há alguma coisa de séria.Como é hoje bem verificado que essas agressões fizeram o Espiritismo avançar, an-tes de detê-lo, ver-se-ão naturalmente diminuir os ataques de viva força; mas não é preci-so adormecer sobre a calma aparente, nem crer que os inimigos do Espiritismo logo vãotomar seu partido; é preciso, pois, muito se persuadir de que a luta não está terminada,mas que haverá mudança de tática; é porque dizemos aos Espíritas para vigiarem, semcessar, sobre o que se passa ao redor deles, e de se lembrarem do que dissemos no nú-mero de dezembro último, sobre o período da luta, da guerra surda e os conflitos; que nãose admirem, pois, se o inimigo se introduz até em suas fileiras; Deus o permite para expe-rimentar a fé, a coragem, a perseverança de seus verdadeiros servidores. O objetivo serádoravante de procurar todos os meios possíveis de comprometer o Espiritismo, a fim dedesacreditá-lo; de levar os grupos, sob a aparência do zelo e o pretexto de que é precisoir adiante a se ocupar de coisas estranhas ao objeto da Doutrina; a tratar das questõespolíticas ou outras de natureza a provocar discussões irritantes e a semear a divisão, tudoisso para ter pretextos de lhes pedir a firmeza.A moderação dos Espíritas é o que espanta e contraria mais os seus adversários;tentarão de tudo para fazê-los dela sair, mesmo a provocação; mas saberão frustrar es-sas manobras por sua prudência, como já o fizeram em mais de uma ocasião, e não caí-rem nas armadilhas que prepararem; verão, aliás, os instigadores se prenderem em suaspróprias redes, porque é impossível que, cedo ou tarde, não mostrem sua intenção. Esseserá o momento mais difícil a passar do que aquele da guerra aberta, onde se vê seu ini-migo face a face; mas, quanto mais a prova for rude, maior será o triunfo.De resto, essa campanha teve um imenso resultado, o de provar a impotência dasarmas dirigidas contra o Espiritismo; os homens mais capazes do partido oposto entraramem liça; todos os recursos da argumentação foram desdobrados, e, não tendo o Espiritis-mo sofrido, cada um permaneceu convencido de que não poderia se lhe opor nenhumarazão peremptória, e a maior prova da penúria de boas razões é que se recorreu ao tristee ignóbil recurso da calúnia: mas muito se quis fazer o Espiritismo dizer o contrário daqui-lo que ele diz: a Doutrina ali está, escrita em termos tão claros que proíbem toda interpre-tação falsa, por isso o odioso da calúnia recai sobre aqueles que a empregam, e os con-vence da impossibilidade. Está aí um fato considerável no ano que acabou, e não tivés-semos obtido senão esse resultado, com isso deveríamos estar satisfeitos; mas há outrosnão menos positivos.Este ano, sobretudo, está marcado pelo crescimento do número dos grupos ou soci-edade que se formaram numa multidão de localidades onde ainda não havia, tanto naFrança quanto no estrangeiro, sinal evidente do aumento do número dos adeptos e dadifusão da Doutrina; Paris, que tinha ficado para trás, cede, enfim, ao impulso geral e co-meça a se comover; cada dia vêem-se formarem reuniões particulares num objetivo emi-nentemente sério e em excelentes condições; a Sociedade que presidimos vê com alegriase multiplicarem, ao redor dela, rebentos vivazes, capazes de espalharem a boa semente.Os grupos particulares, quando são bem dirigidos, são muito úteis para a iniciação dosnovos adeptos; a Sociedade principal, em razão da extensão de suas relações, sendo ocentro para onde tudo chega das diversas partes do mundo, não pode e não deve se o-cupar senão do desenvolvimento da ciência e das questões gerais que absorvem todo oseu tempo; deve forçosamente se abster de tudo o que é elementar e pessoal; os gruposparticulares vêm, pois, preencher a lacuna que, forçosamente, ela deixa na prática, e épor isso que encoraja e fecunda com seus conselhos e seu apoio moral às pessoas quese devotam a essa obra de propagação. Se num instante pôde-se conceber alguns temo-res sobre o efeito de certas dissidências na maneira de encarar o Espiritismo, um fato denatureza a dissipá-los completamente, é o número sempre crescente das Sociedadesque, de todos os países, se colocam espontaneamente sob o patrocínio da de Paris, e
  7. 7. 4erguem a sua bandeira. É notório que a doutrina de O Livro dos Espíritos é hoje o pontopara onde converge a imensa maioria dos adeptos; a máxima: Fora da caridade não hásalvação tem ligado todos aqueles que vêem o lado moral do Espiritismo, porque não háduas maneiras de interpretá-lo, e que satisfaz todas as aspirações. Desde a constituiçãodo Espiritismo em corpo de doutrina, muitos sistemas isolados já caíram, e o pouco demarcas que deixam ainda são sem influência sobre a opinião geral. As bases sólidas so-bre as quais ele se apoia triunfarão sem dificuldade das divisões que seus adversáriosnão deixarão de suscitar, porque aqueles contam sem os Espíritos que protegem sua o-bra, e se servem de seus próprios inimigos para assegurar-lhes o sucesso. Teria sido semprecedente que uma doutrina pudesse se estabelecer sem dissidência, e se se pode es-pantar de uma coisa, é de ver, quanto ao Espiritismo, a unidade se formar tão prontamen-te.Seja como for, o Espiritismo não penetrou ainda por toda a parte, e em alguns luga-res é apenas conhecido de nome; os raros adeptos que ali se encontram o atribuem aduas causas: a primeira, ao caráter das populações muito absorvidas pelos interessesmateriais; a segunda, a ausência de pregações contrárias; é porque pedem, com todos osseus votos, sermões do gênero daqueles que foram pregados em outras partes, ou algu-ma manifestação estridente de hostilidade que desperte a atenção e atice a curiosidade;mas que tenham paciência, como é preciso que todo mundo ali chegue, os Espíritos sa-berão suprir isso por outros meios.Mas o traço mais característico do ano de 1863 é o movimento que produziu na opi-nião concernente à Doutrina Espírita; está-se surpreso com a facilidade com a qual oprincípio é aceito por pessoas que recentemente o tinham repelido e voltado em zombari-a; as resistências, falamos daquelas que não são sistemáticas e interessadas, diminuemsensivelmente. Citem-se vários escritores de boa fé que combateram com todo o exageroo Espiritismo, e que hoje, dominados pela sua sociedade, sem se confessarem vencidos,renunciam a uma luta reconhecida inútil. É que a necessidade de uma transformação mo-ral se faz sentir cada vez mais; a ruína do velho mundo é iminente, porque as idéias quepreconizam não estão mais à altura a que chegou a Humanidade inteligente; tudo parecea isso conduzir, e atrás disso se entrevêem vagamente novos horizontes; sente-se que épreciso alguma coisa de melhor do que o que existe, e a procuram inutilmente no mundoatual; alguma coisa circula no ar como uma corrente elétrica precursora, e cada um está àespera; mas cada um diz a si mesmo também que não é a Humanidade que deve recuar.Um outro fato não menos significativo que muitos notaram, e que é a conseqüênciado estado atual dos espíritos, é um número prodigioso de escritos, sérios ou levianos, fei-tos de fora, e provavelmente sem o conhecimento do Espiritismo, onde se encontrampensamentos espíritas. O princípio da pluralidade das existências, sobretudo, tem umatendência manifesta a entrar na opinião das massas e na filosofia moderna; muitos pen-sadores a ele são conduzidos pela lógica dos fatos, e dentro em pouco essa crença setornará popular; esses são evidentemente os precursores da adoção do Espiritismo, cujoscaminhos estão assim preparados e a rota aplainada. São todas essas idéias semeadasem diversos lados, em escritos que vão em todas as mãos, e que lhe tornam a aceitaçãocada vez mais fácil.O estado do Espiritismo em 1863 pode, pois, se resumir assim: ataques violentos;multiplicação de escritos pró e contra; extensão notável da Doutrina, mas sem sinais exte-riores de natureza a produzir uma sensação geral; as raízes se estendem, produzem bro-tos, à espera de que a árvore desdobre seus ramos. O momento de sua maturidade nãochegou ainda.Ao número de publicações que, neste último ano, vieram tomar parte na luta e con-correr para a defesa do Espiritismo, colocamos em primeiro lugar a Ruche de Bordeaux ea Verdade de Lyon, cujos redatores merecem o reconhecimento e os encorajamentos detodos os verdadeiros Espíritas pela perseverança, o devotamento e o desinteresse dos
  8. 8. 5quais deram prova. No centro espírita mais numeroso da França, e talvez do mundo intei-ro, a Verdade veio se colocar como atleta temido por seus artigos de uma lógica tão rigo-rosa, que não deixam nenhuma presa à crítica. O Espiritismo logo terá, o esperamos, umnovo e importante órgão na Itália, que, como seus primogênitos da França, caminhará deum comum acordo com os grandes princípios da Doutrina.________________MÉDIUNS CURADORES.Um oficial de caçadores, Espírita de longa data, e um dos numerosos exemplos dasreformas morais que o Espiritismo pode operar, nos transmite os detalhes seguintes:"Caro mestre, aproveitamos nossas longas horas de inverno para nos entregar comardor ao desenvolvimento de nossas faculdades medianímicas. A tríade do 4Çcaçador,sempre unida, sempre vivente, se inspira de seus deveres, e ensaia novos esforços. Semdúvida, desejais conhecer o objeto de nossos trabalhos, a fim de saber se o campo quecultivamos não é estéril. Disso podereis julgar pelos detalhes seguintes. Há alguns mesesnossos trabalhos têm por objetivo o estudo dos fluidos; esse estudo desenvolveu em nósa mediunidade curadora; também, aplicamo-la agora com sucesso. Há alguns dias, umasimples emissão fluídica de cinco minutos com minha mão, bastou para tirar uma nevral-gia violenta."Madame P... estava afetada, há vinte e oito anos, de uma hiperestesia aguda ousensibilidade exagerada da pele, enfermidade que a retinha em seu quarto há quinze a-nos. Ela mora numa pequena cidade vizinha, e, tendo ouvido falar de nosso grupo, veioprocurar alívio junto a nós. Ao cabo de trinta e cinco dias, voltou completamente curada.Durante esse tempo, recebeu cada dia um quarto de hora de emissão fluídica, com oconcurso de nossos guias espirituais."Dávamos, ao mesmo tempo, nossos cuidados a um epiléptico, atingido por essaterrível enfermidade há vinte e sete anos. As crises se renovavam quase cada noite, ecada vez sua mãe passava longas horas à sua cabeceira. Trinta e cinco dias bastarampara essa cura importante, e que estava feliz, essa mãe, acompanhando seu filho radi-calmente curado! Nós revezávamos, todos os três, de oito dias em oito dias, para a emis-são fluídica, colocávamos a mão, ora sobre a cavidade do estômago do enfermo, ora so-bre a nuca, no início do pescoço. Cada dia o enfermo podia constatar uma melhora; nósmesmos, depois da evocação e durante o recolhimento, sentíamos o fluido exterior nosinvadir, passar em nós, e escapar-se de nossos dedos alongados e de nosso braço es-tendido para o corpo do sujeito que tratávamos."Dávamos nesse momento nossos cuidados a um segundo epiléptico; desta vez, aenfermidade seria talvez mais rebelde, uma vez que é hereditária. O pai deixou, aos seusquatro filhos, o germe dessa afecção; enfim, com a ajuda de Deus e dos bons Espíritos,esperamos reduzi-la em todos os quatro."Caro mestre, reclamamos o socorro de vossas preces e as de nossos irmãos deParis. Esse socorro será para nós um encorajamento e um estímulo aos nossos esforços.Depois, vossos bons Espíritos podem vir em nossa ajuda, tornar o tratamento mais salutare abreviar-lhe a duração."Não aceitamos por toda recompensa, como bem o pensais, e ela deve ser suficien-te, senão a satisfação de ter feito nosso dever e de ter obedecido ao impulso dos bonsEspíritos. O verdadeiro amor ao próximo carrega consigo uma alegria sem mistura, e dei-xa em nós alguma coisa de luminosa, que encanta e que eleva a alma. Também procu-ramos, tanto quanto nossas imperfeições no-lo permitem, nos compenetrar dos deveresdo verdadeiro Espírita, que não devem ser senão a aplicação dos preceitos evangélicos."O Sr. G... de L... deve nos conduzir seu cunhado, que um Espírito malfazejo subju-ga há dois anos. Nosso guia espiritual Lamennais nos encarrega do tratamento dessa
  9. 9. 6obsessão rebelde. Deus nos daria também o poder de expulsar os demônios? Se assimfor, não teríamos senão que nos humilhar diante de um tão grande favor, em lugar de nosorgulharmos. Quanto maior ainda não seria para nós a obrigação de nos melhorar, paradisso testemunhar-lhe nosso reconhecimento e para não perder dons tão preciosos?"Essa interessante carta, tendo sido lida na Sociedade Espírita de Paris, na sua ses-são de 18 de dezembro de 1863, um dos nossos bons médiuns obteve espontaneamente,a esse respeito, as duas comunicações seguintes:"A vontade, existindo no homem em diferentes graus de desenvolvimento, serviu,em todas as épocas, seja para curar, seja para aliviar. É lamentável ser obrigado a cons-tatar que ela foi também a fonte de muitos males, mas é uma das conseqüências do abu-so que, freqüentemente, o ser faz de seu livre arbítrio. A vontade desenvolve o fluido sejaanimal, seja espiritual, porque, o sabeis todos agora, há vários gêneros de magnetismo,entre os quais estão o magnetismo animal e o magnetismo espiritual que pode, segundo aocorrência, pedir apoio ao primeiro. Um outro gênero de magnetismo, muito mais podero-so ainda, é a prece que uma alma pura e desinteressada dirige a Deus."A vontade foi, freqüentemente, mal compreendida; em geral aquele que magnetizanão pensa senão em desdobrar sua força fluídica, senão em derramar seu próprio fluidosobre o paciente submetido a seus cuidados, sem se ocupar se há ou não uma Providên-cia que nisso se interessa tanto e mais do que ele; agindo só, não pode obter senão o quesua única força pode produzir; ao passo que nossos médiuns curadores começam porelevar sua alma a Deus, e para reconhecer que, por eles mesmos, não podem nada; fa-zem, por isso mesmo, um ato de humildade, de abnegação; então, confessando-se muitofracos por si mesmos, Deus, em sua solicitude, lhes envia poderosos recursos que nãopode obter o primeiro, uma vez que se julga suficiente para a obra empreendida. Deusrecompensa sempre a humildade sincera elevando-a, ao passo que rebaixa o orgulho.Esse recurso que envia, são os bons Espíritos que vêm penetrar o médium de seu fluidobenfazejo, que este transmite ao enfermo. Também é por isso que o magnetismo empre-gado pelos médiuns curadores é tão poderoso e produz essas curas qualificadas de mira-culosas, e que são devidas simplesmente à natureza do fluido derramado sobre o mé-dium; ao passo que o magnetizador comum se esgota, freqüentemente, em vão, em fazerpasses, o médium curador infiltra um fluido regenerador pela única imposição das mãos,graças ao concurso dos bons Espíritos; mas esse concurso não é concedido senão à fésincera e à pureza de intenção."MESMER (Médium, Sr. Albert)."Uma palavra sobre os médiuns curadores, dos quais vindes de falar; estão todosnas disposições mais louváveis; têm a fé que ergue as montanhas, o desinteresse quepurifica os atos da vida, a humildade que os santifica. Que perseverem na obra de benefi-cência, que empreenderam; que se recordem bem que aquele que pratica as leis sagra-das que o Espiritismo ensina, se aproxima constantemente do Criador. Que, quando em-pregam sua faculdade, a prece, que é a vontade mais forte, seja sempre seu guia, seuponto de apoio. O Cristo vos deu, em toda a sua existência, a prova mais irrecusável davontade mais firme, mas era a vontade do bem e não a do orgulho. Quando dizia às ve-zes: Eu quero, essa palavra estava cheia de unção; seus apóstolos, que o cercavam, sen-tiam seus corações se abrirem a essa santa palavra. A doçura constante do Cristo, suasubmissão à vontade de seu Pai, sua perfeita abnegação, são os mais belos modelos devontade que se possa propor para exemplo."PAULO, apóstolo (Médium, Sr. Albert).Algumas explicações faraó facilmente compreender o que se passa nesta circuns-tância. Sabe-se que o fluido magnético comum pode dar, a certas substâncias, proprieda-des particulares ativas; neste caso, age de alguma sorte como agente químico, modifi-
  10. 10. 7cando o estado molecular dos corpos; nada há, pois, de espantoso em que possa mesmomodificar o estado de certos órgãos; mas compreende-se, igualmente, que sua ação,mais ou menos salutar, deve depender de sua qualidade; daí as expressões de "bom oumau fluido; fluido agradável ou penoso." Na ação magnética propriamente dita, é o fluidopessoal do magnetizador que é transmitido, e esse fluido que não é outro senão o perispí-rito, sabe-se que participa sempre, mais ou menos, das qualidades materiais do corpo, aomesmo tempo que sofre a influência moral do Espírito. É, pois, impossível que o fluidopróprio de um encarnado seja de uma pureza absoluta, e é por isso que sua ação curativaé lenta, algumas vezes nula, algumas vezes mesmo nociva, porque pode transmitir aoenfermo princípios mórbidos. De que um fluido seja bastante abundante e enérgico paraproduzir efeitos instantâneos de sono, de catalepsia, de atração ou de repulsão, não sesegue, de nenhum modo, que tenha qualidades necessárias para curar; é a força que a-bate, e não o bálsamo que abranda e repara; assim ocorre com os Espíritos desencarna-dos de uma ordem inferior, cujo fluido pode mesmo ser malfazejo, o que os Espíritas têm,a cada instante, a ocasião de constatar. Só nos Espíritos superiores o fluido perispiritualestá despojado de todas as impurezas da matéria; de alguma sorte, ele é quintessencia-do; sua ação, por conseqüência, deve ser mais salutar e mais pronta; é o fluido benfazejopor excelência. Uma vez que não se pode encontrá-lo entre os encarnados, nem entre osdesencarnados vulgares, é preciso, pois, pedi-lo aos Espíritos elevados, como se vai pro-curar nas regiões longínquas os remédios que não se encontram na sua. O médium cura-dor emite pouco de seu próprio fluido; ele sente a corrente do fluido estranho que o pene-tra e ao qual serve de condutor; é com esse fluido que magnetiza, e aí está o que caracte-riza o magnetismo espiritual e o distingue do magnetismo animal: um vem do homem, ooutro dos Espíritos. Como se vê, não há aí nada de maravilhoso, mas um fenômeno resul-tante de uma lei da Natureza que não se conhecia.Para curar pela terapêutica comum, não basta qualquer medicamento; são necessá-rios puros, não avariados ou adulterados, e convenientemente preparados; pela mesmarazão, para curar pela ação fluídica, os fluidos mais depurados são os mais saudáveis;uma vez que esses fluidos benfazejos são o próprio dos Espíritos superiores, é, pois, oconcurso destes últimos que é necessário obter; é por isso que a prece e a invocação sãonecessárias. Mas para orar, e sobretudo orar com fervor, é preciso a fé; para que a preceseja escutada, é preciso que seja feita com humildade e ditada por um sentimento real debenevolência e de caridade; ora, não há de verdadeira caridade sem devotamento, e nãohá de devotamento sem desinteresse; sem essas condições, o magnetizador, privado daassistência dos bons Espíritos, nisso está reduzido às suas próprias forças, freqüente-mente insuficientes, ao passo que com seu concurso podem ser centuplicados em podere em eficácia. Mas não há licor, tão puro que seja, que não se altere passando por umvaso impuro; assim ocorre com o fluido dos Espíritos superiores passando pelos encarna-dos; daí, para os médiuns em que se revela essa preciosa faculdade, e que querem vê-lacrescer e não se perder, há necessidade de trabalhar para a sua melhoria moral.Entre o magnetizador e o médium curador há, pois, esta diferença capital, que o pri-meiro magnetiza com seu próprio fluido, e o segundo com o fluido depurados dos Espíri-tos; de onde se segue que estes últimos dão seu concurso àqueles que querem e quandoquerem; que podem recusá-lo, e, por conseqüência, tirar a faculdade àquele que dela a-busasse ou a desviasse de seu objetivo humanitário e caridoso para dela fazer um tráfico.Quando Jesus disse aos seus apóstolos: "Ide! expulsai os demônios, curai os enfermos,"acrescentou: "Dai gratuitamente o que recebestes gratuitamente."Os médiuns curadores tendem a se multiplicar, assim como os Espíritos anunciaram,e isto tendo em vista propagar o Espiritismo pela impressão que essa nova ordem de fe-nômenos não pode deixar de produzir sobre as massas, porque não há ninguém que nãopense em sua saúde, mesmo os mais incrédulos. Quando, pois, se verá obter com o con-curso dos Espíritos o que a ciência não pode dar, seria preciso muito convir que há uma
  11. 11. 8força fora de nosso mundo; a ciência será assim conduzida a sair da via exclusivamentematerial onde permanece até este dia; quando os magnetizadores anti-espiritualistas, ouanti-espíritas, virem que existe um magnetismo mais poderoso do que o seu, serão muitoforçados a remontar à verdadeira causa.Importa, no entanto, premunir-se contra o charlatanismo, que não faltará em tentarexplorar, em seu proveito, essa nova faculdade. Há, para isso, um meio muito simples, éo de recordar-se de que não há charlatanismo desinteressado, e que o desinteresse ab-soluto, material e moral, é a melhor garantia de sinceridade. Sehá uma faculdade dada por Deus num objetivo santo, sem contradita, é esta, umavez que exige imperiosamente o concurso dos Espíritos superiores, e que esse concursonão pode ser adquirido pelo charlatanismo. E a fim de que se esteja bem edificado sobrea natureza toda especial dessa faculdade que a descrevemos com alguns detalhes. Em-bora tivéssemos podido constatar-lhe a existência por fatos autênticos, dos quais váriosse passaram sob os nossos olhos, pode-se dizer que ela é ainda rara, e que não existesenão parcialmente nos médiuns que a possuem, seja porque estes não tenham todas asqualidades requeridas para possuí-la em toda a sua plenitude, seja porque ela está emseu início; é porque os fatos não tiveram, até este dia, senão pouca repercussão; masnão tardará a tomar os desenvolvimentos de natureza a fixar a atenção geral; daqui apoucos anos se revelará em algumas pessoas predestinadas a esse efeito, com uma for-ça que triunfará de muitas obstinações; mas não são esses os únicos fatos que o futuronos reserva, e pelos quais Deus confundirá os orgulhosos e os convencerá da impotência.Os médiuns curadores são um dos mil meios providenciais para alcançar esse objetivo deacelerar o triunfo do Espiritismo. Compreende-se facilmente que essa qualificação nãopode ser dada aos médiuns escreventes, que obtêm prescrições médicas de certos Espí-ritos.Não encaramos a mediunidade curadora senão do ponto de vista fenomênico, e co-mo meio de propagação, mas não como recurso habitual; num próximo artigo trataremosde sua aliança possível com a medicina e a magnetização comum._______________________UM CASO DE POSSESSÃO. Senhorita Julie.(2oartigo. - Ver o número de dezembro de 1863.)Em nosso precedente artigo descrevemos a triste situação dessa jovem, e as cir-cunstâncias que provam nela uma verdadeira possessão. Estamos felizes ao confirmar oque dissemos de sua cura, hoje completa. Depois de ser livrada de seu Espírito obsessor,os violentos abalos que sentira durante mais de seis meses tinham-lhe trazido uma graveperturbação em sua saúde; agora está inteiramente refeita, mas não saiu de seu estadosonambúlico, o que não a impede de aplicar-se aos seus trabalhos habituais. Vamos ex-por as circunstâncias dessa cura.Várias pessoas tinham empreendido magnetizá-la, mas sem muito sucesso, salvouma leve e passageira melhora em seu estado patológico; quanto ao Espírito, estava ca-da vez mais tenaz, e as crises tinham atingido um grau de violência dos mais inquietan-tes. Teria sido preciso ali um magnetizador nas condições que indicamos no artigo prece-dente para os médiuns curadores, quer dizer, penetrando o enfermo de um fluido bastantepuro para eliminar o fluido do mau Espírito. Se há um gênero de mediunidade que exigeuma superioridade moral, é sem contradita no caso de obsessão, porque é necessário tero direito de impor sua autoridade ao Espírito. Os casos de possessão, segundo o que foianunciado, devem se multiplicar com uma grande energia daqui a algum tempo, a fim deque a impossibilidade dos meios empregados até o presente, para combatê-los, estejabem demonstrada. Uma circunstância mesmo, da qual não podemos ainda falar, mas que
  12. 12. 9tem uma certa analogia com o que se passou ao tempo do Cristo, contribuirá para desen-volver essa espécie de epidemia demoníaca. Não é, pois, duvidoso que surgirão médiunsespeciais tendo o poder de expulsar os maus Espíritos, como os apóstolos tinham o deexpulsar os demônios, seja porque Deus coloca sempre o remédio ao lado do mal, sejapara dar aos incrédulos uma nova prova da existência dos Espíritos.Para a senhorita Julie, como em todos os casos análogos, o magnetismo simples,embora enérgico que fosse, era, pois, insuficiente; seria preciso agir simultaneamentesobre o Espírito obsessor para domá-lo, e sobre o moral do enfermo enfraquecido portodos esses abalos; o mal físico não era senão consecutivo; era um efeito e não a causa;seria preciso, pois, tratar a causa antes do efeito; destruído o mal moral, o mal físico de-veria desaparecer por si mesmo. Mas para isso era preciso se identificar com a causa;estudar com o maior cuidado e em todas suas nuanças o curso das idéias, para lhe im-primir tal ou tal direção mais favorável, porque os sintomas variam segundo o grau de in-teligência do sujeito, o caráter do Espírito e os motivos da obsessão, motivos cuja origemremonta, quase sempre, às existências anteriores.O insucesso do magnetismo sobre a senhorita Julie fez com que várias pessoas ten-tassem; no número delas achava-se um jovem dotado de uma grande força fluídica, masa quem, infelizmente, faltava totalmente a experiência, e, sobretudo, conhecimentos ne-cessários em semelhante caso. Atribuía-se um poder absoluto sobre os Espíritos inferio-res que, segundo ele, não podiam resistir à sua vontade; essa pretensão, levada ao ex-cesso e fundada sobre sua força pessoal, e não sobre a assistência dos bons Espíritos,devia lhe atrair mais de uma decepção. Só isso teria devido bastar para mostrar, aos ami-gos da jovem, que lhe faltava a primeira das qualidades requeridas para lhe ser um socor-ro eficaz. Mas o que, acima de tudo, teria devido esclarecê-los, é que ele professava, so-bre os Espíritos em geral, uma opinião completamente falsa. Segundo ele, os Espíritossuperiores são de uma natureza fluídica muito etérea para poderem vir sobre a Terra co-municar-se com os homens e assisti-los; isso não é possível senão aos Espíritos inferio-res em razão de sua natureza mais grosseira. Essa opinião, que não é outra senão a dadoutrina da comunicação exclusiva dos demônios, tinha um erro muito grave de sustentá-la diante do enfermo, mesmo nos momentos de crise. Com esta maneira de ver, devianão contar senão consigo mesmo, e não podia invocar a única assistência que teria podi-do secundá-lo, assistência da qual, é verdade, acreditava não necessitar; a conseqüênciamais lastimável era para o enfermo que desencorajava, tirando-lhe a esperança da assis-tência dos bons Espíritos. No estado de enfraquecimento em que estava seu cérebro,uma tal crença, que dava toda presa ao Espírito obsessor, podia se tornar fatal para a suarazão, podia mesmo matá-la. Também repetia-lhe, sem cessar, nos momentos de crise:"Louca... louca... ele me tornará louca... inteiramente louca... não o sou ainda, mas tornar-me-ei." Falando de seu magnetizador, ela pintava perfeitamente sua ação dizendo: "Eleme dá a força do corpo, mas não me dá a força do espírito." Esta palavra era profunda-mente significativa, e, no entanto, ninguém lhe atribuía importância.Quando vimos a senhorita Julie, o mal estava em seu apogeu, e a crise, da qual fo-mos testemunha, foi uma das mais violentas; foi no momento mesmo em que nos aplica-mos em elevar seu moral, em que procuramos lhe inculcar o pensamento de que ela po-dia domar esse mau Espírito com a assistência dos bons e de seu anjo guardião, do qualinvocaria o apoio, foi nesse momento, dizíamos, que o jovem magnetizador, que se en-contrava presente, por uma circunstância providencial, sem dúvida, veio, sem provocaçãonenhuma, afirmar e desenvolver a sua teoria, destruindo de um lado o que fazíamos deoutro. Tivemos que lhe expor com energia que cometia uma ação má, assumindo sobre sia terrível responsabilidade da razão e da vida dessa infeliz jovem.Um fato dos mais singulares, que todo mundo havia observado, mas do qual nin-guém havia deduzido as conseqüências, se produzia na magnetização. Quando ela ocor-ria durante a luta com o mau Espírito, este último, sozinho, absorvia todo o fluido que lhe
  13. 13. 10dava mais força, ao passo que a enferma se achava enfraquecida e sucumbia sob seusapertos. Deve-se lembrar que ela estava sempre em estado de sonambulismo; via, porconseqüência, o que se passava, e é ela mesma que dá esta explicação. Não se viu nes-se fato senão uma malícia do Espírito, e contentou-se em abster-se de magnetizar nessesmomentos e de ficar como espectador da luta. Com o conhecimento da natureza dos flui-dos, pode-se facilmente se dar conta desse fenômeno. É evidente, primeiro, que absor-vendo o fluido para se dar a força em detrimento da enferma, o Espírito queria convencero magnetizador da impossibilidade com respeito à sua pretensão; se havia malícia de suaparte, era contra o magnetizador, uma vez que se servia da própria arma com a qual esteúltimo pretendia derrubá-lo; pode-se dizer que lhe tirava o bastão das mãos. Era não me-nos evidente que sua facilidade em se apropriar do fluido do magnetizador denotava umaafinidade entre esse fluido e o seu próprio, ao passo que os fluidos de uma natureza con-trária teriam se repelido, como a água e o azeite. Só esse fato bastaria para demonstrarque havia outras condições a preencher. É, pois, um erro dos mais graves, e podemosdizer dos mais funestos, o de não ver na ação magnética senão uma simples emissãofluídica, sem ter em conta da qualidade íntima dos fluidos. Na maioria dos casos, o su-cesso repousa inteiramente sobre essas qualidades, como na terapêutica depende daqualidade do medicamento. Não saberíamos muito chamar a atenção sobre este pontocapital, demonstrado, ao mesmo tempo, pela lógica e pela experiência.Para combater a influência da doutrina do magnetizador que, já, tinha influído sobreas idéias da enferma, dissemos a esta: "Minha filha, tende confiança em Deus; olhai aovosso redor; não vedes os bons Espíritos? - É verdade, disse ela; vejo-os luminosos, queFrédégonde não ousa olhar. - Pois bem! esses são aqueles que vos protegem e que nãopermitirão que o mau Espírito tenha o poder; implorai a sua assistência; orai com fervor;orai sobretudo para Frédégonde. -Oh! para isso, jamais o poderei. - Guardai-vos! vereiscom essa palavra os bons Espíritos se afastarem. Se quereis sua proteção, é preciso me-recê-la por vossos bons sentimentos, em vos esforçando sobretudo em ser melhor do quevosso inimigo. Como quereis que vos sustentem, se não vaieis mais do que ele? Pensaique, em outras existências, tivestes também censura a vos fazer; o que vos chega é umaexpiação; se quereis fazê-la cessar, é preciso vos melhorar, e para provar as vossas boasintenções, é preciso começar por vos mostrar boa e caridosa para com o vosso inimigo. Aprópria Frédégonde com isso será tocada, e talvez fareis entrar o arrependimento em seucoração. Refleti. - Eu o farei. -Fazei-o em seguida, e dizei comigo: "Meu Deus, eu perdôoa Frédégonde o mal que ela me fez; eu a aceito como uma prova e uma expiação quemereci; perdoai minhas próprias faltas, como lhe perdôo as suas; e vós, bons Espíritosque me cereais, abri seu coração a melhores sentimentos, e dai-me a força que me falta.Prometeis orar todos os dias por ela? - Eu o prometo. - Está bem; de meu lado vou meocupar convosco e dela; tende confiança. -Oh! obrigado! alguma coisa me diz que isto vailogo acabar."Tendo dado conta desta cena à Sociedade, as instruções seguintes ali foram dadasa este respeito:"O assunto do qual vos ocupais emocionou os próprios bons Espíritos que querem,ao seu turno, vir em ajuda a essa jovem com os seus conselhos. Ela apresenta um casode obsessão, com efeito muito grave, e entre aqueles que tendes visto, e que vereis ain-da, pode-se colocar este no número dos mais importantes, dos mais sérios, e sobretudodos mais interessantes pelas particularidades instrutivas que já apresentou e que vos ofe-recerá de novo."Como já vos disse, esses casos de obsessão se renovarão freqüentemente, e for-necerão dois assuntos distintos de utilidade, para vós primeiro, e para aqueles que o so-frerão em seguida."Para vós primeiro, naquilo que, do mesmo modo que vários eclesiásticos contribuí-ram poderosamente para difundir o Espiritismo entre aqueles que lhe eram perfeitamente
  14. 14. 11estranhos, do mesmo modo também esses obsidiados, cujo número se tornará bastanteimportante para que deles não se ocupe de maneira não superficial, mas grande e pro-funda, abrirão bastante as portas da ciência para que a filosofia espírita possa com elesnela penetrar, e ocupar, entre as pessoas de ciência e os médicos de todos os sistemas,o lugar ao qual tem direito."Para eles em seguida, naquilo que, no estado de Espírito, antes de se encarnarementre vós aceitaram essa luta que lhes proporciona a possessão que sofrem, tendo emvista o seu adiantamento, e essa luta, crede-o bem, faz cruelmente sofrer seu próprio Es-pírito que, quando seu corpo, de algum modo, não é mais seu, tem perfeitamente consci-ência do que se passa. Segundo terão suportado essa prova, da qual podeis abreviar-lhespoderosamente a duração por vossas preces, terão progredido mais ou menos; porque,estejais disto certos, apesar dessa possessão, sempre momentânea, guardam uma sufi-ciente consciência de si mesmos para discernir a causa e a natureza de sua obsessão."Para aquela que vos ocupa, um conselho é necessário. As magnetizações que lhefaz suportar o Espírito encarnado do qual lhe falastes, são funestas sob todos os aspec-tos. Esse Espírito é sistemático; e que sistema! Aquele que não relaciona todas as suasações à maior glória de Deus, que tira a vaidade das faculdades que lhe foram concedi-das, será sempre confundido; os presunçosos serão rebaixados, neste mundo, freqüen-temente, infalivelmente no outro. Tratai, pois, meu caro Kardec, que essas magnetizaçõescessem completamente, ou os inconvenientes mais graves resultarão de sua continuação,não só para a jovem, mas ainda para o imprudente que pensa ter sob suas ordens todosos Espíritos das trevas e os comandar como senhor."Vereis, digo, esses casos de possessão e de obsessão se desenvolverem duranteum certo período de tempo, porque são úteis ao progresso da ciência e do Espiritismo;será por aí que os médicos e os sábios abrirão, enfim, os olhos e aprenderão que há en-fermidades cujas causas não estão na matéria, e que não devem ser tratadas pela maté-ria. Esses casos de possessão, igualmente, vão abrir ao magnetismo horizontes totalmen-te novos e levá-lo a dar grande passo adiante pelo estudo, até o presente tão imperfeito,dos fluidos; com a ajuda desses novos conhecimentos, e pela sua aliança íntima com oEspiritismo, obterá as maiores coisas; infelizmente, no magnetismo, como na medicina,haverá por muito tempo ainda homens que crerão não terem mais nada a aprender. Es-sas obsessões freqüentes terão também um lado muito bom, naquilo que sendo penetra-da pela prece e pela força moral, pode-se fazê-las cessar e adquirir o direito de expulsaros maus Espíritos, cada um procurará, pela melhoria de sua conduta, adquirir esse direitoque o Espírito de Verdade, que dirige este globo, conferirá quando for merecido. Tende fée confiança em Deus, que não permite que se sofra inutilmente e sem motivo."HAHNEMANN (Médium, Sr. Albert)."Serei breve. Será muito fácil curar essa infeliz possessa; os meios para isto estãoimplicitamente contidos nas reflexões que foram emitidas há pouco por Allan Kardec. Épreciso não só uma ação material e moral, mas ainda uma ação puramente espiritual. AoEspírito encarnado que se encontra, como Julie, em estado de possessão, é preciso ummagnetizador experimentado e perfeitamente convencido da verdade Espírita; é precisoque seja, além disso, de uma moralidade irrepreensível e sem presunção. Mas, para agirsobre o Espírito obsessor, é necessário a ação não menos enérgica de um bom Espíritodesencarnado. Assim, pois, dupla ação: ação terrestre, ação extraterrena; encarnado so-bre encarnado, desencarnado sobre desencarnado; eis a lei. Se até esta hora essa açãonão foi cumprida, é justamente para vos levar ao estudo e à experimentação dessa inte-ressante questão; foi por este efeito que Julie não foi livrada mais cedo: ela deveria servirpara os vossos estudos."Isso nos demonstra o que tereis a fazer doravante nos casos de possessão mani-festa; é indispensável chamar em vossa ajuda
  15. 15. 12o concurso de um Espírito elevado, gozando, ao mesmo tempo, de um poder morale fluídico, como, por exemplo, o excelente cura dArs, e sabeis que podeis contar com aassistência desse digno e santo Vianney. Além disso, nosso concurso é dado a todos a-queles que nos chamarem em sua ajuda, com pureza do coração e fé verdadeira."Resumindo: Quando se magnetizar Julie, será preciso primeiro proceder pela fervo-rosa evocação do cura dArs e de outros bons Espíritos que se comunicam habitualmenteentre vós, rogando-lhes agirem contra os maus Espíritos que perseguem essa jovem, eque fugirão diante de suas falanges luminosas. Não é preciso esquecer, não mais, que aprece coletiva tem um poder muito grande, quando é feita por um certo número de pesso-as agindo de acordo, com fé viva e um desejo ardente de aliviar."ERASTO (Médium, Sr. dAmbel)Estas instruções foram seguidas; vários membros da Sociedade se entenderam paraagir pela prece em condições desejadas. Um ponto essencial era levar o Espírito obses-sor a se emendar, o que deveria, necessariamente, facilitar a cura. Foi o que se fez evo-cando-o e dando-lhe conselhos; prometeu não mais atormentar a senhorita Julie, e tevepalavra. Um de nossos colegas foi especialmente encarregado, por seu guia espiritual, desua educação moral, e ocorreu de nisso ser satisfeito. Esse Espírito, hoje, trabalha seria-mente pela sua melhoria e pede uma nova encarnação para expiar e reparar suas faltas.A importância do ensino que decorre deste fato e das observações às quais deu lu-gar, não escapará a ninguém, e cada um nele poderá haurir muitas instruções segundo aocorrência. Uma nota essencial que esse fato permitiu constatar, e que se compreenderásem dificuldade, é a influência do bem. É muito evidente que se a companhia secunda poruma comunidade de vista, de intenção e de ação, o enfermo se encontra numa espéciede atmosfera homogênea de fluidos benfazejos, o que deve, necessariamente, facilitar eapressar o sucesso; mas se houver desacordo, oposição; se cada um quer agir à suamaneira, disso resulta desacordos, correntes contrárias que paralisar forçosamente, e àsvezes anulam, os esforços tentados para a cura. Os eflúvios fluídicos, que constituem aatmosfera moral, se são maus, são também funestos a certos indivíduos quanto as exala-ções das regiões pantanosas._________________CONVERSAS DE ALÉM-TÚMULO.FrédégondeDamos a seguir as duas evocações do Espírito de Frédégonde, feitas na Sociedade,com um mês de intervalo, e que formam o complemento dos dois precedentes artigos so-bre a possessão da senhorita Julie. Esse Espírito não se manifestou com sinais de violên-cia, mas escrevia com uma dificuldade muito grande e cansava extremamente o médium,que com isso ficava mesmo indisposto, e cujas faculdades pareciam, de alguma sorte,paralisá-las. Na previsão desse resultado, tivemos o cuidado de não confiar essa evoca-ção a um médium muito delicado.Numa outra circunstância, um Espírito, interrogado à conta deste, dissera que, hámuito tempo procurava se reencarnar, mas que isso não lhe fora permitido, porque seuobjetivo não era ainda de se melhorar, sendo seu objetivo, ao contrário, de ter mais facili-dade para fazer o mal, com a ajuda de um corpo material. De tais disposições deviam tor-nar sua conversa muito difícil; ela não o foi, no entanto, tanto quanto se poderia temê-lo,graças, sem dúvida, ao concurso benevolente de todas as pessoas que nisso participa-ram, e talvez também porque tinha chegado o tempo em que esse Espírito deveria entrarno caminho do arrependimento.
  16. 16. 13(16 de outubro de 1863 - Médium, Sr. Leymarie.)1. Evocação. - Resp. Não sou Frédégonde; que quereis de mim?2. Quem sois, pois? - R Um Espírito que sofre.3. Uma vez que sofreis, deveis desejar não mais sofrer; nós vos assistiremos, por-que nos compadecemos com todos aqueles que sofrem neste mundo e no outro; mas épreciso que nos secundeis, e, para isso, é preciso que oreis. - R. Eu vos agradeço porisso, mas não posso orar.4. Vamos orar, isto vos ajudará; tende confiança na bondade de Deus, que perdoasempre àquele que se arrepende .-R Creio em vós; orai, orai; talvez eu possa me conver-ter.5. Mas não basta que oremos, é preciso orar de vosso lado. - R Eu quis orar, e nãopude; agora vou tentar com a vossa ajuda.6. Dizei conosco: Meu Deus, perdoai-me, porque pequei; arrependo-me do malque fiz. - R Eu o digo; depois.7. Isso não basta; é necessário escrever. - R Meu.... (Aqui o Espírito não pôde es-crever a palavra Deus; não foi senão depois de forte encorajamento que chegou a termi-nar a frase, de maneira irregular e pouco legível.)8. Não é preciso dizer isso pela forma; é necessário pensá-lo, e tomar a resoluçãode não mais fazer o mal, e vereis que logo estareis aliviada. - R Vou orar.9. Se orastes sinceramente, com isso não vos sentis melhor? - R Oh! sim!10. Agora, dai-nos alguns detalhes sobre a vossa vida e as causas de vossa obsti-nação contra Julie?- R Mais tarde... direi.... mas não posso hoje.11. Prometeis deixar Julie em repouso? O mal que lhe fazeis recai sobre vós e au-menta os vossos sofrimentos. - R Sim, mas sou impelida por outros Espíritos piores doque eu.12. É uma desculpa má que dais aí para vos desculpar; em todos os casos, deveister uma vontade, e com a vontade pode-se sempre resistir às más sugestões.— R Se eutivesse a vontade, não sofreria; sou punido porque não soube resistir.13. Isso mostraríeis, no entanto, bastante para atormentar Julie; mas vindes de to-mar boas resoluções, vos convidamos a persistir nisso, e pediremos aos bons Espíritospara vos secundarem.Nota.-Durante esta evocação, um outro médium obtinha de seu guia espiritual umacomunicação contendo, entre outras coisas, o que se segue: "Não vos inquieteis com asnegações que notais nas respostas deste Espírito: sua idéia fixa de se reencarnar fá-lorepelir toda solidariedade com o seu passado, se bem que não lhe suporta senão muitoos efeitos. Ela é bem aquela que foi nomeada, mas não quer convir nisso consigo mes-ma."(13 de novembro de 1863.)14. Evocação. - R. Estou pronta para responder.15. Tendes persistido na boa resolução em que estáveis na última vez? - R Sim.16. Como vos achastes com isso? - R Muito bem, porque orei e estou mais calma,bem mais feliz.17. Com efeito, sabemos que Julie não foi mais atormentada. Uma vez que podeisvos comunicar mais facilmente, quereis nos dizer porque vos obstinastes junto dela? - REstive esquecida durante séculos, e desejava que a maldição que cobre meu nome ces-sasse um pouco, a fim de que uma prece, uma só, viesse me consolar. Oro, creio emDeus; agora posso pronunciar o seu nome, e certamente é mais do que não poderia es-perar do benefício que podeis me conceder,
  17. 17. 14Nota. - No intervalo da primeira para a segunda evocação, o Espírito era chamadotodos os dias por aquele de nossos colegas que foi encarregado de instruí-lo. Um fatopositivo é que, a partir desse momento, a senhorita Julie deixou de ser atormentada.18. É muito duvidoso que apenas o desejo de obter uma prece tenha sido o móvelque vos levou a atormentar aquela jovem; quereis, sem dúvida, ainda procurar encobrirvossos erros; em todo o caso, era um meio mau de atrair sobre vós a compaixão dos ho-mens. - R. No entanto, se não tivesse atormentado muito Julie, não ferieis pensado emmim, e eu não teria saído do miserável estado em que me arrastava. Disso resultou umainstrução para vós e um grande bem para mim, uma vez que me abristes os olhos.19. (Ao guia do médium.) É bem Frédégonde que dá esta resposta? - R. Sim, é ela,um pouco ajudada, é verdade, porque está humilhada; mas este Espírito é muito maisavançado do que não credes; é-lhe preciso o progresso moral com o qual a ajudais a daro primeiro passo. Ela não vos disse que Julie tirará um grande proveito daquilo que sepassou para o seu adiantamento pessoal.20. (A Frédégonde.) A senhorita Julie vivia em vosso tempo, e poderíeis nos dizer oque ela era? - R. Sim; era uma de minhas damas de companhia, chamada Hildegarde;uma alma sofredora e resignada que fez a minha vontade; sofreu a pena de seus serviçosmuito humildes e muito complacentes a meu respeito.2,1. Desejais uma nova encarnação? - R . Sim, eu a desejo. Ó meu Deus! sofri miltorturas, e se tenho merecido uma pena justa, ai de mim! é tempo que eu possa, com aajuda de vossas preces, recomeçar uma existência melhor, a fim de me lavar de minhasantigas sujeiras. Deus é justo; orai por mim. Até este dia, eu tinha desconhecido toda aextensão de minha pena; tinha como a vertigem; mas no presente vejo, compreendo, de-sejo o perdão do Senhor com o de minhas vítimas. Meu Deus, quanto é doce o perdão!22. Dizei alguma coisa de Brunehaut! - R. BrunehautL. Esse nome me dá verti-gem.... Ela é a grande falta da minha vida, e senti meu velho ódio despertar a esse no-me!... Mas meu Deus me perdoará, e poderei doravante escrever este nome sem tremer.Mais feliz do que eu, ela está reencarnada pela segunda vez, e cumpre um papel que eudesejo, o de uma irmã de caridade.23. Estamos felizes com a vossa mudança, para isso vos encorajamos, vos susten-tamos com as nossas preces. - R. Obrigada! obrigada! bons Espíritos, Deus vo-lo restitui-rá.Nota. - Um fato característico nos maus Espíritos é a impossibilidade em que estão,freqüentemente, de pronunciarem ou escreverem o nome de Deus. Sem dúvida, isto de-nota uma natureza má, mas, ao mesmo tempo, um fundo de temor e de respeito que osEspíritos hipócritas não têm, menos maus em aparência; estes últimos, longe de recua-rem diante do nome de Deus, dele se servem impudentemente para captar a confiança.São eles infinitamente mais perversos e mais perigosos do que os Espíritos francamentemaus; é nesta classe que se acha a maioria dos Espíritos fascinadores, dos quais é maisdifícil de se desembaraçar do que dos outros, porque é do próprio Espírito que se apode-ram com a ajuda de uma falsa aparência de saber, de virtude ou de religião, ao passo queos outros se apoderam do corpo. Um Espírito que, como o de Frédégonde, recua diantedo nome de Deus, está muito mais perto de sua conversão do que aqueles que se co-brem com a máscara do bem. Ocorre o mesmo entre os homens, onde encontrareis es-sas duas categorias de Espíritos encarnados._________________________INAUGURAÇÃO DE VÁRIOS GRUPOS E SOCIEDADES ESPÍRITAS.
  18. 18. 15As reuniões espíritas que se formam são tão numerosas que nos seria impossível ci-tar todas as boas palavras que são ditas a esse respeito, e que testemunham os senti-mentos que a Doutrina estimula. O novo grupo que acaba de se formar na ilha de Oléroné tanto mais digno de simpatia quanto o Espiritismo foi, nessas regiões, o objeto de umaoposição bastante viva. Reportamos um dos discursos que foram pronunciados nessacircunstância, para provar de que maneira os Espíritas respondem aos seus adversários.DISCURSO DO PRESIDENTE DA SOCIEDADE ESPÍRITA DE MARENNES."Senhores e caros irmãos espíritas de Oléron,"A extensão que o Espiritismo toma cada dia em nossas regiões, é a prova mais evi-dente da impotência dos ataques dos quais é objeto; é que, assim como o disse o senhorAlian Kardec: "De duas coisas uma, ou é um erro ou é uma verdade; se for um erro cairápor si mesmo, como todas as utopias que não tiveram senão uma existência efêmera, eque morreram por falta da base sólida, única que pode dar a vida; se for uma dessasgrandes verdades que, pela vontade de Deus, devem tomar lugar na história do mundo, emarcar uma era de progresso da Humanidade, nada poderia deter-lhe a marcha.""A experiência aí está para mostrar em qual dessas duas categorias deve estar ali-nhado. A facilidade com a qual é aceito pelas massas, dizemos mais: a felicidade, a con-solação, a coragem conta a adversidade que se haure nesta crença, a rapidez inaudita desua propagação, não são o fato de uma idéia sem valor. O sistema mais excêntrico podeformar seita, e agrupar ao seu redor alguns partidários; mas como uma árvore sem raízes,se desfolha prontamente, e morre sem produzir rebentos. Ocorre assim com o Espiritis-mo? Não, vós o sabeis tão bem quanto eu. Desde o seu aparecimento, não parou decrescer, apesar dos ataques de que foi objeto, e hoje plantou sua bandeira sobre todos ospontos do globo; seus partidários contam-se por milhões; e considerando-se o caminhoque fez há dez anos, pode-se julgar o que ele será em dez anos daqui, tanto mais quantoos obstáculos se aplainam, à medida que ele avança, e que o número de seus adeptosaumenta. Pode-se, pois, dizer, com o Sr. Allan Kardec, que hoje o Espiritismo é um fatorealizado; a árvore tomou raiz; não lhe resta mais senão desenvolver-se, e tudo concorrepara lhe ser favorável; porque, apesar de algumas borrascas, o vento está para o Espiri-tismo; seria preciso ser cego para não reconhecê-lo."Uma circunstância contribuiu poderosamente para a sua extensão, é que não é ex-clusivo de alguma religião; sua divisa: Fora da caridade não há salvação pertence a to-das; ao mesmo tempo, é a bandeira da tolerância, da união e da fraternidade, ao redor daqual todo o mundo pode se unir sem renunciar à sua crença particular. Começa-se acompreender que é uma garantia de segurança para a sociedade. Quanto a mim, carosirmãos, vou mais longe, e penso que sois de minha opinião quando digo: Quando todosos povos tiverem inscrito sobre a sua bandeira: Fora da caridade não há salvação, a pazdo mundo estará assegurada, e todos os povos viverão como irmãos. Não é senão umbelo sonho? Não, senhores, é a promessa feita pelo Cristo, e estamos no tempo de seucumprimento."Que somos, nós outros, no grande movimento que se opera? Somos obscuros tra-balhadores que trazemos a nossa pedra ao edifício, mas quando milhões de operáriostiverem trazido milhões de pedras, o edifício será terminado. Trabalhemos, pois, com zeloe perseverança, sem nos desencorajar pela pequenez do sulco que traçamos, uma vezque numerosos sulcos se traçam ao nosso redor. Permiti-me uma comparação material,mas que responde a este pensamento. No começo das estradas de ferro, cada pequenalocalidade quis ter a sua parte; cada uma dessas partes era pouca coisa em si mesma,mas quando todas foram reunidas, teve-se essa imensa rede que cobre hoje o mundo eabaixa as barreiras dos povos. As estradas de ferro fizeram cair as barreiras materiais; a
  19. 19. 16palavra de ordem: Fora da caridade não há salvação fará cair as barreiras morais; sobre-tudo, fará cessar o antagonismo religioso, porque então Judeus, Católicos, Protestantes,Muçulmanos, se estenderão as mãos, adorando, cada um à sua maneira, o único Deusde misericórdia e de paz que é o mesmo para todos."O objetivo é grande, como o vedes, senhores e caros irmãos; restar-nos-ia a exa-minar a organização de nossa pequena esfera, para dela fazer uma organização útil doconjunto. Para isso, nossa tarefa se tornou fácil pelas instruções que encontramos nasobras de nosso chefe venerado, tornadas, pode-se dizer, as obras clássicas da Doutrina.Seguindo-as pontualmente, estamos certos de não nos desviarmos num falso caminho,porque essas instruções são o fruto da experiência. Que cada um de nós medite, pois,com cuidado essas obras, e nelas encontraremos tudo o que nos é necessário; aliás, dis-to estou seguro, o apoio e os conselhos do mestre jamais nos faltarão. Não é permitido anenhum de nós esquecer que, se a esperança e a fé reentraram na maioria de nossoscorações, se muitos dentre nós foram arrancados ao materialismo e à incredulidade, de-vemos à sua coragem perseverante, ao seu zelo, que nem as calúnias, nem as diatribes,nem os ataques de todas as espécies não abalaram. O primeiro soube compreender aimportância imensa do Espiritismo, e desde então tudo sacrificou para difundir-lhe os be-nefícios entre seus irmãos da Terra. Dizemos-lhe: evidentemente, foi escolhido para essegrande apostolado, porque é impossível desconhecer que cumpre uma missão moraliza-dora entre nós. Proponho-vos, senhores, votar-lhe os agradecimentos que todos os ver-dadeiros e sinceros Espíritas lhe devemos. Pecamos a Deus, ao mesmo tempo, continuara sustentá-lo numa empresa que é o único que está à altura de fazer frutificar completa-mente."Algumas palavras ainda, senhores, sobre o caráter desta reunião. A máxima quenos serve de guia é de natureza a tranqüilizar aqueles que o nome do Espiritismo poderiaassustar. O que se pode, com efeito, temer de pessoas que fazem do princípio da carida-de para todos, amigos e inimigos, a regra de sua conduta? E esse princípio é para nós tãosério, que dele nos fazemos a condição expressa de nossa salvação. Não é a melhor ga-rantia que poderíamos dar de nossas intenções pacíficas? Quem poderia, pois, ver commau olhar, mesmo entre aqueles que não partilham nossas crenças, pessoas que nãopregam senão a tolerância, a união e a concórdia, e cujo único objetivo é conduzir a Deusaqueles que dele se afastam, de combater o materialismo e a incredulidade que invadema sociedade e a ameaçam em seus fundamentos?"Dirijamo-nos, pois, àqueles que não crêem, e o campo a colher é bastante vasto,assim como o disse o senhor Allan Kardec; em virtude mesmo do princípio da caridadeque nos serve de guia, guardemo-nos de ir perturbar qualquer consciência; acolhamoscomo irmãos aqueles que vêm a nós, e não procuremos constranger ninguém em sua féreligiosa. Não viemos elevar altar contra altar, mas elevá-lo onde não o havia. Aquelesque acharem os nossos princípios bons, o adotarão; aqueles que os acharem maus, osdeixarão de lado, e por isso não os consideraremos menos como irmãos; se nos atiramuma pedra, pediremos a Deus perdoar-lhes sua falta de caridade, e chamá-los ao Evan-gelho e ao exemplo de Jesus Cristo, Nosso Senhor, que orou por seus carrascos."Oremos, pois, também, caros irmãos, a fim de que Deus se digne estender sobrenós a sua misericórdia, e nos perdoar nossas faltas, como perdoamos àqueles que nosdesejam o mal. Digamos todos, do fundo do coração:"Senhor, Deus Todo-Poderoso, que vedes no fundo das almas e vedes a pureza denossas intenções, dignai-vos nos sustentar em nossa obra, e protegei o nosso chefe; dai-nos a força de suportar com coragem e resignação, e como provas para a nossa fé e nos-sa perseverança, as misérias que a malevolência poderia nos suscitar; fazei que, a exem-plo dos primeiros mártires cristãos, estejamos prontos a todos os sacrifícios para vos pro-var a nossa submissão à vossa santa vontade. Que são, aliás, os sacrifícios dos bensdeste mundo quando se tem, como devem tê-lo todos os Espíritas sinceros, a certeza dos
  20. 20. 17bens imperecíveis da vida futura! Fazei, Senhor, que as preocupações da vida terrestrenão nos desviem do caminho santo no qual nos haveis conduzido, e dignai-nos enviar osbons Espíritos para nos manterem no caminho do bem; que a caridade, que é a vossa leie a nossa, nos torne indulgentes para com as faltas de nossos irmãos; que ela abafe emnós todo sentimento de orgulho, de ódio, de inveja e de ciúme, e nos torne bons e bene-volentes para todo o mundo, a fim de que preguemos pelos exemplos tanto quanto pelaspalavras."Estando reunidos, nessa ocasião, os delegados de diversos grupos das localidadesvizinhas, aos seus novos irmãos em crença; vários outros discursos foram pronunciados,que todos testemunhando e um perfeito acordo de um verdadeiro espírito do Espiritismo;lamentamos que a falta de espaço não nos permita citá-los, assim como uma notável co-municação obtida nessa sessão, assinada por François-Nicolas Madeleine, que traça emtermos simples e tocantes os deveres do verdadeiro Espírita.Em Lyon, um novo grupo acaba de se formar em condições especiais, que merecemser assinaladas, como encorajamento e bom exemplo. Essa reunião tem um duplo objeti-vo: a instrução e a beneficência. Sob o aspecto da instrução, propõe-se fazer uma partemenor do que se não o faz, geralmente, nas comunicações medianímicas, e disso fazer,em compensação, uma maior às instruções orais, tendo em vista desenvolver e explicaros princípios do Espiritismo. Sob o aspecto da beneficência, a nova sociedade se propõevir em ajuda às pessoas necessitadas, por doações em natureza de objetos usuais, taiscomo roupa branca, vestuário, etc. Além disso do que poderia recolher, as senhoras quedela tomam parte fornecem seu contingente por seus trabalhos pessoais para a confec-ção, e para as visitas aos pobres enfermos. Um dos membros dessa sociedade nos es-creveu a esse respeito: "Graças ao zelo da senhora G..., Lyon vai logo contar com umareunião espírita a mais. Essa reunião alcançará o objetivo a que se propôs? Será o futuroque isso decidirá. Se ela é pouco numerosa ainda, encerra pelo menos elementos devo-tados, cheios de fé e de caridade. Podemos fracassar em nosso empreendimento, masnossas intenções ao menos são boas; nos bastará que a sociedade de Paris, sob a égideda qual nos colocamos, nos aprove e nos ajude com seus conselhos, para que perseve-remos com a ajuda de seu apoio moral."Este apoio não faltará jamais a toda obra fundada segundo o verdadeiro espírito doEspiritismo, e que tem por objetivo a realização do bem. A Sociedade de Paris é semprefeliz de ver a Doutrina levar bons frutos; não declinará de toda solidariedade senão a res-peito dos grupos ou sociedades que, desconhecendo o princípio de caridade e de frater-nidade sem o qual não há verdadeiros Espíritas, veriam as outras reuniões com mau olho,lançando-lhes a pedra ou procurando denegri-las sob um pretexto qualquer. A caridade ea fraternidade se reconhecem por suas obras e não por palavras; é uma medida de apre-ciação que não pode enganar senão àqueles que se cegam quanto ao seu próprio mérito,mas não os terceiros desinteressados; é a pedra de toque pela qual se reconhece a sin-ceridade dos sentimentos; e quando se fala em caridade, em Espiritismo, sabe-se de quenão se trata somente daquela que dá, mas também e sobretudo daquela que esquece eperdoa, que é benevolente e indulgente, que repudia todo sentimento de ciúme e de ran-cor. Toda reunião espírita que não estivesse fundada sobre o princípio da verdadeira cari-dade, seria mais nociva do que útil à causa, porque tenderia a dividir em lugar de reunir;levaria, aliás, em si mesma, o seu elemento destruidor. Nossas simpatias pessoais serão,pois, sempre adquiridas de todas aquelas que provarem, por seus atos, o bom espíritoque as anima, porque os bons Espíritos não podem inspirar senão o bem.No próximo número, falaremos das novas sociedades espíritas de Bruxelas, de Tu-rim e de Smyrna, que se colocam igualmente sob o patrocínio da Sociedade de Paris._________________PERGUNTAS E PROBLEMAS.
  21. 21. 18Progresso nas primeiras encarnações.Pergunta. Duas almas, criadas simples e ignorantes, não conhecem nem o bem nemo mal, vindo sobre e Terra. Se, numa primeira existência, uma segue o caminho do bem ea outra o do mal, como é, de alguma sorte, o acaso que as conduz, não merecem nempunição nem recompensa. Essa primeira viagem terrestre não deve ter servido senão adar, a cada uma, a consciência de sua existência, consciência que não tinha de início.Para ser lógico, seria preciso admitir que as punições e as recompensas não começam aser infligidas, ou concedidas, senão a partir da segunda encarnação, quando os Espíritossabem distinguir o bem dentre o mal, experiência que lhes falta em sua criação, mas queadquiriram por meio de sua primeira encarnação. Esta opinião é fundada?Resposta. Embora esta questão já esteja resolvida pela Doutrina Espírita, vamosrespondê-la para a instrução de todos.Ignoramos absolutamente em quais condições são as primeiras encarnações da al-ma; é um desses princípios das coisas que estão nos segredos de Deus. Sabemos so-mente que elas são criadas simples e ignorantes, tendo todas assim um mesmo ponto departida, o que está conforme à justiça; o que sabemos ainda, é que o livre arbítrio não sedesenvolve senão pouco a pouco e depois de numerosas evoluções na vida corpórea.Não é, pois, nem depois da primeira, nem depois da segunda encarnação que a alma temuma consciência bastante limpa de si mesma, para ser responsável por seus atos; não étalvez senão depois da centésima, talvez da milésima; ocorre o mesmo com a criança quenão goza da plenitude das suas faculdades nem um, nem dois dias depois de seu nasci-mento, mas depois dos anos. E ainda, então que a alma goza de seu livre arbítrio, a res-ponsabilidade cresce em razão do desenvolvimento de sua inteligência; assim é, por e-xemplo, que um selvagem que come seus semelhantes é menos punido do que o homemcivilizado, que comete uma simples injustiça. Nossos selvagens, sem dúvida, estão muitoatrasados com relação a nós, e, no entanto, estão muito longe de seu ponto de partida.Durante longos períodos, a alma encarnada está submetida à influência exclusiva dosinstintos de conservação; pouco a pouco esses instintos se transformam em instintos inte-ligentes, ou, para melhor dizer, se equilibram com a inteligência; mais tarde, e sempregradualmente, a inteligência domina os instintos; é então somente que começa a respon-sabilidade séria.O autor da pergunta comete, além disso, dois erros graves: o primeiro é admitir queo acaso decide do bom ou do mau caminho que o Espírito segue em seu princípio. Sehouvesse acaso ou fatalidade, toda responsabilidade seria injusta. Como dissemos, o Es-pírito está, durante numerosas encarnações, num estado inconsciente; a luz da inteligên-cia não se faz senão pouco a pouco, e a responsabilidade real não começa senão quandoo Espírito age livremente e com conhecimento de causa.O segundo erro é admitir que as primeiras encarnações humanas têm lugar sobre aTerra. A Terra foi, mas não é mais um mundo primitivo; os seres humanos mais atrasadosque se acham sobre a sua superfície já despojaram os primeiros cueiros da encarnação,e nossos selvagens estão em progresso comparativamente ao que tinham antes de seuEspírito vir se encarnar sobre este globo. Que se julgue agora no número de existênciasque são necessárias a esses selvagens para transporem todos os graus que os separamda civilização mais avançada; todos esses graus intermediários se encontram sobre aTerra sem solução de continuidade, e pode-se segui-los observando-se as nuanças quedistinguem os diferentes povos; não há senão o começo e o fim que aqui não se encon-tram; o começo se perde para nós nas profundezas do passado, que não nos é dado pe-netrar. Isto, de resto, pouco nos importa, uma vez que este conhecimento não nos adian-taria em nada. Nós não somos perfeitos, eis o que é positivo; sabemos que as nossasimperfeições são os nossos únicos obstáculos para a nossa felicidade futura, estudemo-nos, pois, a fim de nos aperfeiçoarmos. No ponto onde estamos, a inteligência está bas-
  22. 22. 19tante desenvolvida para permitir ao homem julgar sadiamente o bem e o mal, e é nesteponto também que sua responsabilidade está mais empenhada; porque não se pode maisdizer dele o que disse Jesus: "Perdoai-lhes, Senhor, porque não sabem o que fazem."___________________VARIEDADESFontenelle e os Espíritos batedores.Devemos ao zelo do Sr. Flammarion a comunicação de uma carta que lhe foi dirigidae que contém o relato seguinte:Imaginai-vos provavelmente, caro senhor, ser o primeiro astrônomo que tenha seocupado de Espiritismo; desenganai-vos; há um século e meio, Fontenelle fazia a tiptolo-gia, com a senhorita Letard, médium. Divertindo-me esta manhã em folhear um velho ma-nual epistolar, publicado por Philipon de Ia Madeleine, há cinqüenta anos, encontro umacarta da senhorita de Launai, que foi mais tarde a senhora de Staal, dirigida da parte daduquesa do Maine, ao secretário da Academia das ciências, relativamente a uma aventu-ra da qual eis o resumo.Em 1713, uma jovem chamada Letard, pretendeu ter com os Espíritos um comércio,tal qual Sócrates o teve com o seu demônio. O Sr. de Fontenelle foi ver essa jovem, ecomo deixasse ver em seus propósitos algumas dúvidas sobre essa espécie de charlata-nismo, a senhora do Maine (que não duvidava) encarregou a senhorita de Launai de lheescrever a esse respeito.PHILIPON DE LA MADELEINE.Acha-se sobre esse fato a nota seguinte numa edição das obras escolhidas de Fon-tenelle, publicada em Londres em 1761.Uma jovem, chamada senhorita Letard, despertou no começo desse século a curio-sidade do público por um pretenso prodígio. Todo o mundo para ali correu, e o Sr. de Fon-tenelle, convidado pelo Mons. o duque de Orléans, foi também ver a maravilha. Foi a esserespeito que a senhorita de Launai lhe escrevera. - Eis essa carta:"A aventura da senhorita Letard fez menos ruído, senhor, do que o testemunho quedela haveis prestado. Espanta-se, e talvez com alguma razão, de que o destruidor dosoráculos, aquele que transtornou o tripé das sibilas, se tenha colocado de joelhos dianteda senhorita Letard. O quê! dizem os críticos, esse homem que colocou às claras as frau-des feitas a mil léguas longe, e mais de dois mil anos antes dele, não pôde descobrir umafraude tramada sob seus olhos! Os requintados pretendem que, como bom pirrôníco, a-chando tudo incerto, vós achais tudo possível. De um outro lado, os devotos parecemmuito edificados com as homenagens que prestastes ao diabo; esperam que isso poderáir mais longe. Por mim, senhor, suspendo meu julgamento até que esteja melhor esclare-cida."Resposta do Sr. de Fontenelle:Terei a honra, senhorita, de vos responder a mesma coisa que respondi a um demeus amigos, que me escreveu de Marly, no dia seguinte que estive com o Espírito. Par-ticipo-lhe que tinha ouvido ruídos dos quais não conhecia a mecânica; mas que, para de-cidir, seria preciso um exame mais exato do que aquele que tinha feito, e repeti-lo. Nãomudei de linguagem; mas porque não decidi absolutamente senão que era um artifício,imputei-lhe de crer que era um duende; e como o público não se detém em tão bom ca-minho, me fez dize-lo. Não há grande mal nisso. Se não se fizer o erro de me atribuir umdiscurso que não tive, se me faz a honra da atenção sobre mim, e um irá para o outro.Não acreditei dever descrer das velhas profetisas de Delfos, isso fosse um convite para
  23. 23. 20destruir uma jovem viva e da qual não se havia falado senão bem. Se, no entanto, acha-se que faltei ao meu dever, uma outra vez tomarei um tom mais impiedoso e mais filosófi-co. Há muito tempo que se me censura a minha pouca severidade. É preciso que eu sejabem incorrigível, uma vez que a idade, a experiência e as injustiças do mundo nisso nãome fazem bem. Eis, senhorita, tudo o que posso vos dizer sobre o Espírito que me atraiuuma carta que eu supô-la-ia, de bom grado, ter ditado, uma vez que, enfim, não estoulonge de nisso crer. Quando me virá também um demônio familiar, vos diria com maisgraça e com um tom mais engenhoso, mas não com mais sinceridade, que sou, etc."Nota. - Fontenelle, como se vê, não se pronuncia nem pró nem contra, e se limita aconstatar o fato; era da prudência, do que falta à maioria dos negadores de nossa época,que decidem sobre o que não se deram mesmo ao trabalho de observar, com risco dereceberem mais tarde o desmentido da experiência. No entanto, é evidente que se inclinapara a afirmativa, coisa notável para um homem em sua posição e no século de ceticismopor excelência. Longe de acusar a senhorita Letard de charlatanismo, reconhece que delanão se pode falar senão bem. Talvez mesmo estivesse mais convencido do que não que-ria parecer, e não estava retido senão pelo temor do ridículo, tão poderoso nessa época.Todavia, seria preciso que estivesse bem abalado, para não dizer, sem cerimônia que erauma fraude; ora, sua opinião sobre esse ponto é importante. Descartada a questão docharlatanismo, fica evidente que a senhorita Letard era uma médium espontânea no gê-nero das senhoritas Fox.Santo Atanásio, espírita sem o saber.A passagem seguinte, tirada de Santo Atanásio, patriarca de Alexandria, um dosPais da Igreja grega, parece ter sido escrita sob a inspiração das idéias espíritas de hoje."A alma não morre, mas o corpo morre quando ela dele se afasta. A própria alma é oseu próprio motor; o movimento da alma é a sua vida. Mesmo quando está prisioneira nocorpo, e como amarrada nele, ela não se diminui às sua estreitas proporções, não se en-cerra nele; mas, freqüentemente, quando o corpo está estendido imóvel, e como inanima-do, permanece desperta por sua própria virtude; e, saindo da matéria, embora nela seprenda ainda, ela concebe, contempla as existências além do globo terrestre; vê os san-tos desligados do envoltório dos corpos, vê os anjos e sobe até eles na liberdade de suapura inocência."Inteiramente separado do corpo, e quando praza a Deus tirar-lhe a cadeia que lheimpõe, não terá ela, eu vos peço, uma visão muito mais clara de sua natureza imortal? Sehoje mesmo, e nos entraves da carne, ela já vive de uma vida toda exterior, viverá muitomais depois da morte do corpo, graças a Deus que, por seu Verbo, a fez assim. Ela com-preende, abarca em si as idéias de eternidade, as idéias de infinito, porque é imortal. Domesmo modo que o corpo, que é mortal, nada percebe senão de material e de perecível,assim a alma que vê e medita as coisas imortais, é necessariamente imortal ela mesma, eviverá sempre: porque os pensamentos e as imagens de imortalidade não a deixam ja-mais e são nela como um foco vivo que nutre e assegura a sua imortalidade."(SanctAtan. Oper., t. l, p. 32. - VILLEMAIN, Quadro da eloqüência cristã rio quarto século.)Não está aí, com efeito, uma pintura exata da irradiação exterior da alma durante avida corpórea, e sua emancipação no sono, o êxtase, o sonambulismo e a catalepsia? OEspiritismo diz exatamente a mesma coisa, e prova-a pela experiência.Com as idéias esparsas contidas na Bíblia, nos Evangelhos, nos Apóstolos e nosPais da Igreja, sem falar dos escritores profanos, pode-se constituir toda a Doutrina Espí-rita moderna. Os comentários que foram feitos desses escritos, geralmente, o foram sobum ponto de vista exclusivo e com idéias preconcebidas, e muitos ali não viram senão o
  24. 24. 21que queriam ver, ou faltava a chave necessária para ali ver outra coisa; mas, hoje, o Espi-ritismo é a chave que dá o verdadeiro sentido das passagens mal compreendidas. Até opresente esses fragmentos são recolhidos parcialmente, mas virá um dia em que os ho-mens de paciência e de saber, e cuja autoridade não poderá ser desconhecida, farãodesse estudo o objeto de um trabalho especial e completo, que lançará a luz sobre todasessas questões, e, diante da evidência claramente demonstrada, será preciso muito serender. Esse trabalho considerável será, cremos poder dize-lo, a obra de membros emi-nentes da Igreja, que receberão essa missão, porque compreenderão que a religião deveser progressiva como a Humanidade, sob pena de ser extravasada, porque há idéias re-trógradas em religião como em política; em semelhante caso, não avançar é recuar. Oque faz os incrédulos, é precisamente porque a religião se mantém fora do movimentocientífico e progressivo; ela faz mais: declara esse movimento a obra do demônio, e o temsempre combatido. Disso resulta que a ciência, sendo repelida pela religião, a seu turno,repele a religião; daí um antagonismo que não cessará senão quando a religião compre-ender que não só deve caminhar com o progresso, mas que deve ser um elemento deprogresso. Todo o mundo crera em Deus, quando ela não o apresentar em contradiçãocom as leis da Natureza, que são obra sua.Extrato do Opinion nationale.Num artigo político muito sério sobre a Polônia, assinado por Bonneau, publicado noOpinion nationale de 10 de novembro de 1863, lê-se a passagem seguinte:"Que François-Joseph evoque a sombra em sua ajuda, que peça conselho a Marie-Thérèse, alma sofredora, perseguida pelo remorso da Polônia desmembrada, e a luz sefará de repente a seus olhos."Essas palavras não têm necessidade de comentário. Tínhamos razão em dizer, maisacima, que a idéia espírita penetra por toda a parte; ali onde é arrastada, apesar de si,logo transbordará.Um Espírito batedor no século XVI.Lê-se na Histoire de saint Martial, apóstolo das Gálias e notadamente do Aquitaine edo Limousin, pelo Rev. Pé. Bonaventu-re de Saint-Amable, religioso carmelita descalço,3aparte, p. 752:"No ano de 1518, no mês de dezembro, na casa de Pierre Juge, comerciante de Li-morges, um Espírito, durante quinze dias, fez grande ruído, batendo sobre as portas, aspranchas e o piso, e mudava os utensílios de um lugar para um outro. Vários religiosos aliforam dizer a missa, e passar a noite em vigília, com as velas acesas e a água benta, semque quisesse falar. Um jovem de dezesseis anos, nativo de Ussel, que servia esse co-merciante, confessou que esse Espírito, freqüentemente, o havia molestado em sua casae em vários outros lugares, e acrescentou que um seu parente, que o fizera herdeiro, ti-nha morrido na guerra, e que, com freqüência, apareceu a vários de seus parentes, e ti-nha ferido sua irmã, que morrera três dias depois. O supradito comerciante Juge, tendodespedido esse jovem, todo esse ruído cessou."Esse jovem, evidentemente, era um médium inconsciente, de efeitos físicos, comosempre o foi. O conhecimento das leis que regem as relações do mundo visível e domundo invisível fazem reentrar todos esses fatos, pretensamente maravilhosos, no domí-nio das leis naturais.ALLAN KARDEC.
  25. 25. 1REVISTA ESPIRITAJORNALDE ESTUDOS PSICOLÓGICOS7aANO NO. 2 FEVEREIRO 1864O SR. HOME EM ROMA.Vários jornais reproduziram o artigo seguinte:"O incidente da semana, escreveu-se de Roma ao Times, é a ordem dada ao Sr.Home, o célebre médium, de deixar a cidade pontifícia em três dias."Convidado a se apresentar diante da polícia romana, o Sr. Home sofreu um interro-gatório segundo as leis. Perguntou-se-lhe quanto tempo pensava ficar em Roma; se esta-va entregue às práticas do Espiritismo desde sua conversão ao catolicismo, etc., etc. Eisalgumas das palavras trocadas nessa circunstância, tais como o próprio Sr. Home con-signou-as em suas notas particulares, que comunica bastante facilmente, ao que parece.- Depois de vossa conversão ao catolicismo, tendes exercido vosso poder de mé-dium? - Nem depois nem antes exerci esse poder, porque, como não depende de minhavontade, não posso dizer que o exerço. - Considerais esse poder como um dom da Natu-reza? - Considero-o como um dom de Deus. - Que religião os Espíritos ensinam? - Issodepende. - Que fazeis para fazê-los vir? Respondi que não fazia nada; mas, no mesmoinstante, pancadas repetidas e distintas se fizeram ouvir sobre a mesa onde meu interro-gador escrevia. "Mas também fazeis as mesas se moverem?" disse-me. No mesmo ins-tante a mesa se pôs em movimento.""Pouco tocado desses prodígios, o chefe da polícia convidou o mágico a deixar Ro-ma em três dias. O Sr. Home se abrigando, como era seu direito, sob a proteção das leisinternacionais, referiu isso ao cônsul da Inglaterra, que obteve do Sr. Matteucci que o mui-to célebre médium não fosse inquietado e que poderia continuar sua permanência emRoma, desde que pensasse em se abster, durante esse tempo, de toda comunicação como mundo espiritual. Coisa espantosa! o Sr. Home acedeu a essa condição, e assinou ocompromisso que se lhe pediu. Como pôde comprometer-se em não usar de um podercujo exercício é independente de sua vontade? É o que procuraremos penetrar."Não sabemos até que ponto esse relato é exato em todos os seus detalhes, masuma carta escrita recentemente pelo Sr. Home a uma senhora de nosso conhecimentoparece confirmar um fato principal. Quanto às pancadas tão a propósito, cremos que sepode, sem medo, colocá-las entre os gracejos aos quais nos habituaram os jornais poucopreocupados em aprofundar as coisas do outro mundo.O Sr. Home, com efeito, está em Roma neste momento, e o motivo é muito honrosopara ele para que não o digamos, uma vez que os jornais creram dever aproveitar estaocasião para ridicularizá-lo.O Sr. Home não é rico, e não teme dizer que deve procurar no trabalho um suple-mento de recursos para prover os encargos aos quais deve recorrer. Pensou em procurarno talento natural que tem pela escultura, e foi para se aperfeiçoar nesta arte que foi aRoma. Com a notável faculdade medianímica que possui, poderia ser rico, muito ricomesmo, se tivesse querido explorá-la; a mediocridade de sua posição é a melhor resposta
  26. 26. 2ao epíteto de hábil charlatão que se lhe lançou à face. Mas ele sabe que essa faculdadelhe foi dada com um objetivo providencial, para os interesses de uma causa santa, e a-creditaria cometer um sacrilégio se a convertesse em ofício. Ele tem demasiadamente osentimento dos deveres que ela lhe impõe para não compreender que os Espíritos semanifestam pela vontade de Deus para conduzir os homens à fé na vida futura, e não pa-ra fazer demonstração de um espetáculo de curiosidades, em concorrência com os esca-moteadores, nem para servir à cupidez daqueles que pretendessem explorá-los. Aliás, elesabe também que os Espíritos não estão às ordens nem ao capricho de ninguém, e aindamenos de quem quisesse exibir seus fatos e gestos a tanto por sessão. Não há um sómédium no mundo que possa garantir a produção de um fenômeno espírita num instantedado; donde é necessário concluir que a pretensão contrária é a prova de uma ignorânciaabsoluta dos princípios mais elementares da ciência, e então toda suposição é permitida,porque, se os Espíritos não respondem ao chamado, ou não fazem coisas muito espanto-sas para satisfazer os curiosos e sustentar a reputação do médium, é preciso muito en-contrar meio de dá-lo aos espectadores por seu dinheiro, se não se quer lhes restituí-lo.Não saberíamos muito repetir, a melhor garantia de sinceridade é o desinteresse ab-soluto. Um médium é sempre forte quando pode responder àqueles que suspeitassem desua boa fé: "Quanto pagastes para vir aqui?"Ainda uma vez, a mediunidade séria não pode ser, e não será jamais, uma profis-são; não só porque estaria desacreditada moralmente, mas porque repousa sobre umafaculdade essencialmente móvel, fugidia e variável, que nenhum daqueles que a possuihoje não está seguro de possuí-la amanhã; só os charlatães estão sempre certos de simesmos. Outra coisa é um talento adquirido pelo estudo e pelo trabalho, que, por issomesmo, é uma propriedade da qual é naturalmente permitido tirar partido; a mediunidadenão está neste caso; explorá-la é dispor de uma coisa da qual não se é realmente senhor;é desviá-la de seu objetivo providencial; há mais: não é de si mesmo do que se dispõe,são os Espíritos, as almas dos mortos cujo concurso é posto a preço. Este pensamentorepugna instintivamente. É porque em todos os centros sérios onde se ocupa do Espiri-tismo santamente, religiosamente, como em Lyon, Bordeaux e tantos outros, os médiunsexploradores seriam completamente desconsiderados.Que aquele que, pois, não tem de que viver procure em outra parte os recursos enela não consagre, se for preciso, senão o tempo que pode dar-lhe materialmente; os Es-píritos levarão em conta o seu devotamento e os seus sacrifícios, ao passo que punem,cedo ou tarde, aqueles que dela esperam se fazerem um degrau, seja pela retirada dafaculdade, afastando-o dos bons Espíritos, as mistificações comprometedoras, seja pormeios mais desagradáveis ainda, assim como a experiência o prova.O Sr. Home sabe muito bem que perderia a assistência de seus bons Espíritos pro-tetores se abusasse de sua faculdade. Sua primeira punição seria perder a estima e aconsideração das famílias honradas onde é recebido como amigo e onde não seria maischamado senão com o mesmo título que as pessoas que vão dar representações a domi-cílio. Quando de sua primeira estada em Paris, sabemos que lhe foram feitas, por certoscírculos, ofertas muito vantajosas para ali dar sessão, e que sempre recusou. Todos a-queles que o conhecem e compreendem os verdadeiros interesses do Espiritismo aplau-dirão a resolução que toma hoje. Por nossa conta pessoal, nós lhe somos gratos do bomexemplo que dá.Se insistimos de novo sobre a questão do desinteresse dos médiuns, é que temosrazões de crer que a mediunidade fictícia e abusiva é um dos meios que os inimigos doEspiritismo contam empregar para procurar desacreditá-lo e apresentá-lo como uma obrade charlatanismo. É, pois, necessário que todos aqueles que se interessam pela causa daDoutrina se tenham por advertidos, a fim de desmascarar as manobras fraudulentas, seisso ocorrer, e mostrar que o Espiritismo verdadeiro nada tem de comum com as paródias
  27. 27. 3que dele se poderão fazer, e que ele repudia tudo o que se afasta do princípio moraliza-dor que é a sua essência.O artigo acima reportado oferece vários outros assuntos de observação. O autor crêdever qualificar o Sr. Home de mágico; não há ali nada senão de muito inocente; masmais adiante disse: "O muito célebre médium", expressão empregada a respeito dos indi-víduos que adquiriram uma deplorável celebridade. Onde estão, pois, os defeitos e oscrimes do Sr. Home? É uma injúria gratuita, não só para ele, mas ainda para todas aspessoas respeitáveis e altamente colocadas que o recebem e que parecem assim patro-cinar um homem de má fama.A última frase do artigo é mais curiosa, porque ela encerra uma dessas contradiçõesflagrantes das quais nossos adversários se inquietam muito pouco, de resto. O autor seadmira de que o Sr. Home haja consentido no compromisso que se lhe impôs e se per-gunta como pôde prometer de não usar de um poder independente de sua vontade? Sese prendesse em sabê-lo, o remeteríamos ao estudo dos fenômenos espíritas, de suascausas e de seu modo de produção, e saberia como o Sr. Home pode tomar um compro-misso que, de resto, não pode concernir às manifestações que obtém na intimidade, fossemesmo sob os ferrolhos da inquisição. Mas parece que o autor nisso não se prende tanto,porque acrescenta: "É o que procuraremos penetrar." Por essas palavras dá insidiosa-mente a entender que esses fenômenos não são senão da fraude.No entanto, a medida tomada pelo governo pontifício prova que este tem medo dasmanifestações ostensivas; ora, não se tem medo de um malabarismo. Esse mesmo go-verno interditaria os supostos físicos que se fazem muito em imitar essas manifestações?Não, certamente, porque em Roma permitem-se muitas outras coisas muito menos evan-gélicas; por que, pois, interditá-lasao Sr. Home? Por que querer expulsá-lo do país se não é senão um encenador? Éno interesse da religião, dir-se-á; seja; mas é, pois, tão frágil essa religião que pode sertão facilmente comprometida? Em Roma, como em outra parte, os escamoteadores exe-cutam com mais ou menos habilidade o jogo da garrafa encantada, e a água se transfor-ma em todas espécies de vinhos, e do chapéu mágico, onde se multiplicam os pães eoutros objetos; e, no entanto, não se teme que isso desacredite os milagres de JesusCristo, porque se sabe que não são senão imitações. Se se teme o Sr. Home, há, pois, desua parte, alguma coisa de sério, e não jogo de habilidades.Tal é a conseqüência que disso tira todo homem que reflete um pouco; não entraráno pensamento de nenhuma pessoa sensata que um governo, que uma corte soberana,composta de homens que, com razão, não passam portelos, se amedronte com um mito.Esta reflexão, não seremos os únicos a fazê-la, seguramente, e os jornais que se apres-saram em dar conta desse incidente, tendo em vista torná-lo em ridículo, vão provocá-lamuito naturalmente; de sorte que o resultado será, como o de tudo o que já se fez paramatar o Espiritismo, de popularizar-lhe a idéia. Assim, um fato insignificante, em aparên-cia, terá conseqüências mais sérias do que não se o havia pensado. Não duvidamos quenão haja sido suscitado para apressar a eclosão do Espiritismo na Itália, onde já contacom muitos numerosos representantes, mesmo no clero. Não duvidamos, não mais, que acorte de Roma não se torne, cedo ou tarde, sem o querer, um dos principais instrumentosde propagação da Doutrina nesse país, porque está no destino que seus próprios adver-sários devem servir para difundi-la por tudo que farão para destruí-la. Cego, pois, aqueleque não vê ali o dedo da Providência. Esse será, sem contradita, um dos fatos mais con-sideráveis da história do Espiritismo; um daqueles que melhor atestam o poder de suaorigem.____________________________

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