Livro 4ª edição

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  • é graças a esses praças que por quase a vida toda 'comeram apenas o bom e velho arroz com feijão' que tenho esperança de que o nosso Brasil ainda vai melhorar muito.
    Mesmo com a situação da nossa legislação, eu como PM espero um dia ter pelo menos metade da força e visão que esses heróis mostraram possuir durante uma crise vista por muitos como impossível de superar.
    Suas atitudes servirão como exemplo de superação de problemas até o fim dos tempos.
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Livro 4ª edição

  1. 1. O Dia em que aPolícia parou!4ª Edição - Janeio de 2013Preço deste exemplar: R$ 5,00
  2. 2. Capa e Diagramação: Edgard Nogueira Cherubino Júnior
  3. 3. O Dia em que aPolícia parou!A Verdadeira história da greve dapolícia mineira que parou o BrasilJúlio Cesar GomesCABO JÚLIO
  4. 4. Os recursos obtidos com a venda desta obra, serãodestinados integral e exclusivamente ao Institutode Ação Social Projeto Restaurando Vidas.Proibida a reprodução total ou parcial desta obra,por qualquer meio eletrônico, inclusive porprocesso xerográfico, sem permissão expressado autor (Lei nº 9.610, de 19/02/1998).Todos os direitos desta publicação reservado a:Agência: 1632-2Conta Corrente: 12009-xMG 040 KM 27,5Bairro Quinta das JangadasSarzedo - Minas GeraisCEP.: 32400-000www.blogdocabojulio.blogspot.comjullioo@uol.com.br
  5. 5. ÍNDICEAGRADECIMENTOS ................................................................................................. 7INTRODUÇÃO (CABO JÚLIO)......... .......................................................................................8O SONHO E A PAIXÃO PELA FARDA .............................................................................. 9A REALIDADE NOS QUARTÉIS .................................................................................. 11FALTA DINHEIRO ................................................................................................. 12CABO JÚLIO ....................................................................................................... 13O COMANDO É ALERTADO ...................................................................................... 14AUMENTO ÀS ESCONDIDAS ..................................................................................... 15BOATOS ............................................................................................................ 16SAI O REAJUSTE ................................................................................................... 16CÃO BANGUELO .................................................................................................. 17EXPLICAR O INEXPLICÁVEL ...................................................................................... 17SUICÍDIO ........................................................................................................... 18VIVENDO NO BANHEIRO ......................................................................................... 18GOVERNO NÃO TEM DEFINIÇÃO SOBRE SALÁRIOS ........................................................... 19ESTOPIM ........................................................................................................... 20IOGURTE ............................................................................................................ 21GUERRA DE NERVOS ............................................................................................. 21COMEÇA A GREVE ................................................................................................ 24FOGO ............................................................................................................... 25DESPREZO E VAIAS ............................................................................................... 26A GREVE SE ESPALHA ............................................................................................ 28NASCE UM LÍDER ................................................................................................ 29AH! EU TÔ É DURO! ............................................................................................. 29APOIO DA POPULAÇÃO .......................................................................................... 33COMISSÃO DEFINE REIVINDICAÇÕES ÀS PRESSAS ............................................................ 35CANCELADA A ORDEM DE CONFRONTO ....................................................................... 36PRIMEIRA REUNIÃO DE NEGOCIAÇÃO ......................................................................... 37ABRAÇO DO PIRULITO ........................................................................................... 37COMANDO-GERAL RECEBE OS PRAÇAS ........................................................................ 39GOVERNO FAZ PRONUNCIAMENTO ............................................................................. 39SARGENTO TENTA SUICÍDIO ..................................................................................... 43PRIMEIRA ASSEMBLÉIA .......................................................................................... 44INTERIOR ........................................................................................................... 45TÁTICA DO SILÊNCIO ............................................................................................. 47RECRUTAS DE PRONTIDÃO ....................................................................................... 47AS NEGOCIAÇÕES ................................................................................................ 48
  6. 6. 6GUERRA SUJA ..................................................................................................... 49O AMARELINHO .................................................................................................. 50A AMEAÇA DO SECRETÁRIO .................................................................................... 51A FORÇA LEGISTA (FORLEG) .................................................................................... 52TROCA DE COMANDO NO BPCHOQUE ........................................................................ 53MAIS GUERRA SUJA ............................................................................................. 54AS AMEAÇAS ..................................................................................................... 55A GRANDE ASSEMBLÉIA ......................................................................................... 55PRISÃO POR TELEFONE ........................................................................................... 57POLÍCIA UNIDA JAMAIS SERÁ VENCIDA ....................................................................... 58POLÍCIA CONTRA POLÍCIA ....................................................................................... 60TIROTEIO ........................................................................................................... 61GOVERNO CHAMA EXÉRCITO ................................................................................... 65BARRICADAS NO QUARTEL CENTRAL GERAL .................................................................. 68REABERTAS AS NEGOCIAÇÕES .................................................................................. 69ORDENS E CONTRA-ORDENS .................................................................................... 69CABO VALÉRIO EM ESTADO CRÍTICO .......................................................................... 70O DIA SEGUINTE .................................................................................................. 71GOVERNADOR FAZ PRONUNCIAMENTO ........................................................................ 72FALA O EXÉRCITO ................................................................................................ 73OS LAUDOS CONTRADITÓRIOS .................................................................................. 74SAI O ACORDO .................................................................................................... 75NOVA ASSEMBLÉIA É CANCELADA ............................................................................. 77TOLERÂNCIA ...................................................................................................... 79SUSPEITO SE APRESENTA ......................................................................................... 80VÍTIMA, HERÓI, OU MÁRTIR, O CABO VALÉRIO É ENTERRADO EM CLIMA DE EMOÇÃO .............. 81INQUÉRITOS POLICIAIS MILITARES (IPMS) ................................................................. 82PERÍCIAS E DEPOIMENTOS SE CONTRADIZEM ................................................................ 83LAUDO DUVIDOSO INOCENTA CORONEL ...................................................................... 84OFICIAIS INSATISFEITOS .......................................................................................... 85MOVIMENTO ESTOURA NO PAÍS ............................................................................... 86COMANDO AFASTA CABO JÚLIO PARA LONGE DA TROPA ................................................... 90PARANÓIA - DE OLHO NA MARACUTAIA ..................................................................... 92CONTINUAM OS IPMS .......................................................................................... 93EXPULSOS .......................................................................................................... 94JULGAMENTO ...................................................................................................... 95DEPOIMENTO DO COMANDANTE GERAL DA POLÍCIA MILITAR DE MINAS GERAIS ...................... 97CORONEL JOSÉ GUILHERME DO COUTO ...................................................................... 105TRECHOS DE DEPOIMENTOS DE OFICIAIS NO CONSELHO DE DISCIPLINA DO CABO JULIO ............ 112CONCLUSÃO ..................................................................................................... 114
  7. 7. 7AgradecimentosA Deus, que me inspirou a escrever este livro para contar a verdadeirahistória do movimento que mudou os rumos da Polícia Militar de Minas Gerais.Aos meus colegas de Corporação que me protegeram quando sofriaameaças de morte, e que me confiaram a difícil tarefa de representá-los.Ao pastor Raul Lima Neto (pos mortem) meu amigo e companheiro deMinistério que foi o vaso de Deus para abençoar a minha vida.Ao meu amigo Doutor Carlos Pimenta, advogado incansável em defesado praças, que não mediu esforços para me defender.A amiga Paula Rangel, jornalista brilhante, minha companheira nesta obra,que não mediu esforços em pesquisar e colher depoimentos para que este livropudesse detalher ao povo mineiro e ao povo brasileiro os bastidores daquelesmomentos; para que a verdadeira história viesse a tona.
  8. 8. 8IntroduçãoEste livro tem a finalidade de esclarecer ao povo brasileiro o que realmenteaconteceu durante o movimento inédito dos praças da Polícia Militar do Estadode Minas Gerais, que iniciou em 13 de junho de 1997.Foram quase cinco anos de pesquisa, busca de depoimentos. Você agoraconhecerá os bastidores do movimento que mudou a história da conservadoraPolícia de Minas Gerais.Vários boatos aconteceram: premeditação, ideologia política, infiltraçãoda esquerda, incitação sindical, etc. Mas não é verdade, ele não foi planejadoou idealizado, pois se assim o fosse, o serviço de informações da PM (P2),certamente o abafaria. O que aconteceu foi uma explosão natural e espontâneade uma classe esquecida e massacrada.A sociedade não conhecia sua Polícia Militar. Neste livro, procuramosrepassar para o leitor uma radiografia real de sua Polícia. Quando o cidadãoliga 190 (emergência) e solicita um policial para resolver seu problema, nãoimagina que o funcionário solicitado para resolver a situação na qual seencontra tem muito mais problemas que ele. Quem é pago para proteger estátotalmente desprotegido. Suicídios, alcoolismo, separações familiares eendividamento são problemas comuns na vida de um policial.Procurei contar todos os detalhes do acontecido, detalhes que, muitospraças que participaram do movimento, não sabem. Procuramos detalhar osbastidores das negociações, as ameaças, o desespero e as pressões. O descritoneste livro contém um depoimento fiel à realidade dos quartéis e à situação emque se encontram nossos irmãos da Polícia Civil.A Polícia Militar e a Polícia Civil de Minas Gerais são e sempre serão asmelhores do Brasil. Apesar de tudo, somos o patrimônio do povo mineiro.Agora você conhecerá aqueles que, mesmo com o sacrifício da própriavida, são vocacionados para a difícil missão de protegerem o cidadão, e, muitasvezes, estarem totalmente desprotegidos.
  9. 9. 9O sonho e a paixão pela fardaNasci em 19 de maio de 1970, no Hospital Belo Horizonte, bairroCachoeirinha, região norte de Belo Horizonte. Meu pai, um pernambucano dacidade de Caruaru, e minha mãe, mineira da cidade de Coluna, Zona da Mata,interior de Minas Gerais.Desde criança, sonhei em ser um militar. Aos sete anos de idade, sempreque visitava meus dois tios, ambos da Polícia Militar do Estado de MinasGerais, antes mesmo de pedir a benção, minhas palavras eram: Tio, me dê aroupa de Polícia.Aos onze anos de idade comecei a trabalhar, fazia de tudo, vendia picolés,refrigerantes, trabalhava como balconista, mas por necessidade e não porvocação. O sonho de ser militar continuava aceso. A cada ano que passava aansiedade de vestir uma farda aumentava mais. Após completar dezesseis anose terminar o segundo grau, formando-me como técnico em contabilidade, surgiuminha primeira oportunidade, a Marinha do Brasil. Disputando uma vaga naproporção de, aproximadamente, 50:1 (cinqüenta por um), passei no concursopara o Corpo de Fuzileiros Navais, tropa de elite da Marinha. As etapasseguintes não foram diferentes, passei em todas. Mas, faltando uma semanapara o ingresso, a decepção aconteceu. No último exame de saúde, ao passarpela junta médica, fui reprovado porque apresentava micoses na pele,decorrentes de um banho de piscina. O sonho começou a desmoronar. Entrelágrimas, já pensava no que fazer para realizar meu grande sonho. Com umasemana, as micoses já estavam curadas e estava pronto para uma nova tentativa.Foi então que veio a decisão: Vou ser um soldado da Policial Militar.Ainda sem qualquer informação a respeito de como ingressar na Corporação,procurei o 5° Batalhão, no bairro Gameleira, na capital, quartel onde meus tiostrabalhavam, para me informar a respeito de como fazer para me tornar umsoldado. Mas o destino já estava selado. Ao entrar no quartel, vi umaplaca: SEJA UM POLICIAL MILITAR. INSCRIÇÕES ABERTAS.Informei-me do que era necessário para fazer a inscrição e eu preenchiatodos os requisitos. As provas não foram difíceis e em pouco tempo jáestava realizando o sonho. No primeiro dia do mês de dezembro de 1988,
  10. 10. 10incorporava-me naquela unidade.Formei no mês de julho do ano seguinte, e, após um ano como soldado,estava cursando o Curso de Formação de Cabos. Ouvia falar muito em históriasde cabos importantes. Foi uma satisfação muito grande quando, em 1990,coloquei em minha farda as duas divisas de cabo.Cabo Júlio em frente ao Batalhão de Choque
  11. 11. 11A realidade nos quartéisEm outubro de 95, o Coronel aposentado, Dirceu Brás, publica um artigono jornal Estado de Minas intitulado Crise de fome da PM, enfatizando asituação de dificuldade salarial da tropa. Neste artigo, afirma que o Comandoda PM não reivindicava melhores salários e condições de trabalho para a tropaporque os coronéis do alto comando tinham rendimentos equivalentes aos desecretário de Estado. Segundo o Coronel, esses salários eram recebidos pelocomandante-geral, chefe do Estado Maior e chefe do gabinete militar. Era osalário cala-boca. O artigo desperta polêmica na opinião pública e entre ospraças da Corporação.Em outubro de 96, é divulgado por um grupo de militares da PMMG, quese autodenominou Policiais Sofredores, um documento apócrifo, comrevelações sobre a penúria dos policiais militares. A primeira revelação: o índicede criminalidade em Minas Gerais estaria aumentando, o que contestava asestatísticas divulgadas na imprensa pelo Comando da PM. O documentoquestiona ainda a própria credibilidade da Corporação, afirmando que oComando da PM estaria manipulando as estatísticas. Nesse documento, quechegou às redações entregue pessoalmente por praças da PM, os autoresafirmam que o sistema de policiamento comunitário, implantado recentemente,seria uma forma proposta pelo Comando para reduzir o policiamento ostensivonas ruas por falta de condições operacionais. Ainda de acordo com odocumento, só 40% do orçamento da Corporação havia sido repassado peloGoverno no ano de 96.
  12. 12. 12Falta dinheiroA PM está sem recursos para sua manutenção e para sustentar umcontigente de 45 mil homens da ativa e 12 mil reformados. Fornecedores apelamà imprensa para conseguir receber por serviços prestados ou produtosvendidos, principalmente fornecedores do setor de alimentação, que alegamestarem com os pagamentos atrasados em até dois anos. Vários comerciantesafirmam que foram obrigados a fechar as portas de seus estabelecimentosporque não receberam o pagamento pelos serviços prestados. O Comandoadmite a crise, atribuída ao difícil momento econômico por que passam oEstado e o País.As viaturas, quebradas nas oficinas dos Batalhões, são mostradas pelaTV Bandeirantes. Ambulâncias, Rotams, motos, patrulhas de trânsito seamontoam nas oficinas e não há verba para reposição de peças ou dos carros.O jornal Estado de Minas publica os contracheques dos praças, com saláriosbaixíssimos, sem identificação dos donos.Em outubro de 96, o chefe do gabinete militar do Governo, CoronelHamilton Brunelli, é convidado a depor na Assembléia Legislativa. Équestionado sobre o porquê do não pagamento aos PMs do adicional depericulosidade, de acordo com a Constituição Federal, que determina opagamento deste adicional para as atividades penosas, insalubres ou perigosas.Ele afirma que o benefício não poderia ser estendido a todos porque só ospoliciais de atividades operacionais e não os de função administrativa teriamdireito ao benefício, o que ameaçaria o princípio da isonomia salarial daCorporação. Este benefício significaria um acréscimo de 40% nos salários. Atéhoje, os policiais militares e civis não recebem este benefício.
  13. 13. 13Cabo JúlioEu trabalhava na Rotam (Rondas Tático Metropolitanas), atuava no Planode Repressão de Assaltos a Bancos (Praban), um grupo tático especial, formadopor 24 PMs, que receberam treinamento específico para coibir e agir nasocorrências de assaltos nas agências bancárias. Fazem parte do Praban: cincoRotams e quatro Motos-Rotams, que circulam na região central.Já existia, na época, uma insatisfação salarial que não era manifestada.Conversávamos sobre a situação difícil dos companheiros, um procurandoajudar o outro, pelo menos emocionalmente. A grande maioria dos PMs, 90% ,tinha até dois empregos, além do emprego na Corporação. O policial saía demanhã para o bico, trabalhando em serviços de segurança ou de entrega, dentreoutros, e a noite seguia para o seu plantão na Polícia.O policial passava a metade da outra noite no terceiro emprego, de acordocom a escala da PM e isso criava problemas familiares, pois era cobrado porsua ausência em casa, discutia com a mulher, batia nos filhos, etc. Ao mesmotempo, este policial precisava do outro emprego para sobreviver e não tinhacomo resolver este problema. Os PMs evitavam recorrer ao serviço de apoiopsicológico porque o psicólogo era oficial e havia o temor de que os problemaschegassem ao conhecimento do Comando.Muitos policiais procuram refúgio no álcool – 30% da tropa, segundominhas estimativas pessoais. Há casos de policiais que vão trabalhar comsintomas de embriaguez e são punidos com penas de prisão variando de um atrinta dias. O quarto problema é o mais grave: o suicídio. Para se ter uma idéiada dimensão deste problema, a estatística de suicídio no mundo é de umapessoa para cada 100 mil, na PM é de um para cada 10 mil. O temor doRegulamento Disciplinar da Polícia Militar impedia qualquer manifestação.
  14. 14. 14O comando é alertadoNo dia 14 de março de 97, o comandante de policiamento da Capital,Coronel José Guilherme do Couto, envia um memorando oficial (n. 046.1/97,do 8° CRPM) a todos os comandantes de unidades operacionais, recomendandoa criação de listagens com históricos de militares que se encontram em situaçãode extrema penúria financeira, ou algum tipo de desajuste conjugal, social e/ou emocional.No dia 15 de abril, um mês depois, a lista está pronta. O comandante depoliciamento da Capital encaminha ofício (n° 235.1/97) ao chefe do Estado-Maior, anexando a lista com os históricos dos praças nesta situação, segundoo levantamento feito pelos comandantes das unidades. Um documento pesado,que alerta sobre a situação real nos quartéis.Um mês antes da crise na PM, maio de 97, o comandante-geral, CoronelAntônio Carlos dos Santos participa de uma reunião com os comandantes, emContagem, onde é comunicado de que a situação da tropa era de penúriasalarial, com militares morando em barracos de lona, endividados e,consequentemente, do aumento dos casos de suicídio. O comandante-geraldesafia os oficiais presentes (comandantes do Batalhão de Choque, 1° BPM,5° BPM, 13° BPM, 16° BPM, 18° BPM , 22° BPM, Regimento de CavalariaAlferes Tiradentes, Batalhão de Missões Especiais, Batalhão de Trânsito,Batalhão de Bombeiros Militares e Batalhão de Guardas) a provarem que existedefasagem salarial na Corporação. O comandante sugere ainda que se usemindicadores econômicos para isto.Suicida-se um soldado do13° Batalhão, acusado de ter roubadouma lata de leite em pó.Ele é preso, levado sob escolta para casa para pegar o fardamento. Osuicídio acontece dentro do quarto dele, quando ele dá um tiro na cabeça nafrente da mulher e dos filhos. Segundo a assessoria do CPC (Comando dePoliciamento da Capital), o suicídio foi provocado por motivos pessoais.
  15. 15. 15Aumento às escondidasOutros motivos aumentam a insatisfação. 0 13° salário é parcelado emtrês vezes. Está proibida a conversão das férias-prêmio em dinheiro, há cortesde convênios na área médica e o Governo decreta um aumento da contribuiçãopara o Instituto de Previdência dos Servidores da PM de 10 para 13%, na mesmaépoca. Os policiais permanecem calados, mas sofrem com a falta dereconhecimento e de valorização pessoal e profissional. A moral está baixa natropa.O Governo cria o PDV (Programa de Desligamento Voluntário), mas aPolicial não pode entrar. Poderia haver uma correria dos praças que já tinhammais tempo de serviço e nenhuma expectativa de melhora de vida.Em maio de 97, a Associação dos Delegados da Polícia Civil de MGconquista, no Supremo Tribunal Federal, o direito à equiparação salarial com osprocuradores de Justiça. Durante uma festa, onde estavam presentes delegadose oficiais da PM, o assunto é comentado pelos delegados. O comandante depoliciamento da Capital, Coronel José Guilherme do Couto, fica então sabendodo aumento e que os delegados iriam receber a primeira das três parcelas.No outro dia pela manhã, o Coronel José Guilherme do Couto, comandantede policiamento da Capital (CPC) se encontra com o chefe do Estado Maior,Coronel Herberth Magalhães, que se indigna com a notícia. Os dois vão até ocomandante-geral levar a situação. Os coronéis querem o mesmo aumento, porum acordo de equiparação salarial entre as duas forças feito com o Governodo Estado.O Alto Comando da PM começa então a se mobilizar para pleitear, juntoao Governo do Estado, a extensão deste aumento para os oficiais. Váriasreuniões que estavam fora da agenda oficial do governador acontecem nestaépoca no Palácio da Liberdade, com representantes do Alto Comando.O secretário de administração, Cláudio Mourão, é convocado pelogovernador a apresentar um estudo sobre a viabilidade e a forma de se concedero aumento. Segundo pessoas presentes nesta reunião, o secretário afirma: Éimpossível aumentar de imediato os salários das duas corporações,governador. Só dentro de dois meses poderíamos dar o aumento para a PM.
  16. 16. 16O Coronel Herberth Magalhães não aceita a resposta do secretário: Nãoposso esperar nem mais uma hora, secretário. É inaceitável que um coronelganhe menos que um delegado.O governador Eduardo Azeredo consulta os coronéis: Seria possível darum aumento apenas para os oficiais sem provocar reações na tropa?A resposta foi enfática:“Pode dar o aumento, governador,nós seguramos a tropa”.BoatosComeçam a circular boatos na tropa. Um dos boatos dava conta de queo governador não gostava da PM. Dizia-se que um filho dele teria atirado cervejano rosto de um soldado, que estava na geral do estádio Mineirão num dia dejogo.Também circula a história da punição de um policial do 22° BPM que,num posto de gasolina da avenida Nossa Senhora do Carmo, aborda o filhodo governador e diz: Fala para o seu pai dar um aumento para a gente. Ocomentário do militar chega ao conhecimento do Comando, que o pune com atransferência para o interior. Estas histórias circulam rapidamente na tropa.Sai o reajusteAtravés do Decreto Estadual n. 38.818, de 3 de junho, o governadorconcede reajuste para 4 mil oficiais da PM, que variam entre 10,6 e 22%. Ossalários são equiparados aos dos delegados da Polícia Civil.As entidades dos Praças haviam tentado uma audiência com ogovernador no final de maio, mas o governador não os recebe.O gabinete alega que ogovernador só conversacom coronéis e não com praças.
  17. 17. 17As entidades estudam a possibilidade de entrar com ação na Justiçacontra o aumento exclusivo para oficiais. Houve inversão de prioridades, dizemos diretores das entidades.O comandante de policiamento da Capital (CPC), Coronel José Guilhermedo Couto, declara aos integrantes das entidades que os praças também vãoreceber aumento por gratificações de cursos e o Governo estaria estudandouma maneira para que o aumento fosse estendido também aos policiais civis,que não têm gratificações de cursos. Em entrevista, ele afirma:“Entendo a insatisfação dos praças manifestada pelos seus representantesdas Entidades, mas espero que haja compreensão e um voto de confiança nanegociação do comandante-geral com o governador Eduardo Azeredo”.Cão BangueloNa segunda semana de junho, quando das comemorações do aniversárioda 5aCia. de Cães do BPChoque, o Coronel do CPC, José Guilherme do Couto,fazendo uso da palavra em discurso para a tropa compara o adestramento deum cão e o de um policial.A expressão usada pelo coronel foium cão banguelo e desdentadoconsegue fazer seu serviço, assimcomo um policial adestrado,apesar das dificuldades.Este comentário foi feito para uma tropa formada, de aproximadamente200 policiais, e logo se estendeu para o Batalhão de Choque, criando umarevolta entre os choqueanos (policiais do Batalhão de Choque).Explicar o inexplicávelApesar do silêncio do Comando, vaza para a imprensa a informação deque só os oficiais da PM receberiam o aumento exclusivo, mas as informaçõeseram contraditórias quanto aos valores. O que surpreende é a informação deque o dinheiro já estava depositado. O comandante do CPC, Coronel José
  18. 18. 18Guilherme do Couto, bastante constrangido, convoca os jornalistas no inícioda noite ao Quartel Central Geral (QCG) para explicar o aumento, que seria naverdade uma equiparação ao salário conquistado na Justiça pelos delegados econtesta os índices que vinham sendo divulgados pela imprensa, de que oaumento era superior a 30%. Segundo o comandante, o aumento era escalonadoe os oficiais subalternos e intermediários (tenentes e capitães) receberiam mais(22%). Os oficiais superiores receberiam menos. O aumento variava entre 10 e22% e seria pago em três parcelas. A primeira parcela já havia sido paga. Ocoronel afirma ainda que o aumento para os praças dependeria da aprovaçãodo projeto de lei que o Governo enviaria para a Assembléia nos próximos dias.Com o aumento, o salário inicial dos oficiais subalternos (2otenente) passariapara R$ 1.500,00. O soldo inicial de um soldado era de R$ 332,00.SuicídioO soldado Leonardo Paulo de Souza (20) comete suicídio com um tirona boca, no dia 5 de junho, dentro do alojamento do 22° Batalhão, no bairroSanta Lúcia, zona sul de Belo Horizonte. Ele estava sendo acusado de furtarum carro. A Assessoria de Comunicação do CPC informa que era o sextosuicídio cometido por um PM na Grande BH no decorrer do ano.Na avaliação da PM, de acordo com a Assessoria:“Os suicídios estão dentro de um patamar normal e não significamdesespero com uma situação financeira difícil. A maioria dos suicídios édevida à situação pessoal e emocional das vítimas.”Vivendo no banheiroUm flagrante é registrado pela imprensa devido ao inusitado. Três policiaismilitares estão vivendo num banheiro do Fórum Laffayette, num espaço depouco mais de 4m2. Esta situação já durava dois anos, sem que ninguémtomasse providências. Apenas funcionários do Fórum tinham conhecimentoda moradia dos três policiais. Os PMs dormem em pedaços de espuma nochão. Suas mulheres e filhos moram no interior. O salário médio destes praçasé de R$ 250,00. Um deles busca marmita toda semana em Barbacena, onde vivea mulher, e a comida, que dá para uma semana, é guardada no refrigerador dacopa do 2° Tribunal de Justiça.
  19. 19. 19No dia 7 de junho, depois que a notícia sai nos jornais, os PMs sãotransferidos para um quarto de despejo no próprio Fórum e ganham belichespara dormir, abandonando os colchões de espuma. O Comando informa queestá estudando a situação deles.Governo não tem definiçãosobre saláriosO Governo envia à Assembléia Legislativa um projeto de lei, em regimede urgência urgentíssima, solicitando autorização para conceder reajustesdiferenciados ao funcionalismo por decreto.O secretário estadual de Administração, Cláudio Mourão, afirma que aindanão há definição sobre o percentual para o reajuste salarial do funcionalismopúblico. Mourão diz que por enquanto, o Governo aguarda a aprovação daAssembléia Legislativa para promover, via decreto, reajustes que não atingirãotodos os 452.297 servidores. A prioridade são as polícias Civil e Militar.
  20. 20. 20EstopimNo dia 6 de junho de 97, uma sexta-feira, o cabo Glendyson Hércules deMoura Costa (31), do 16° BPM, é baleado com cinco tiros, durante perseguiçãoa assaltantes que tentaram roubar uma casa lotérica no bairro Floresta, na regiãoleste. O cabo é atingido no pescoço, peito e barriga. Um dos tiros perfura opulmão. Ele é levado em estado grave para o HPS (Hospital de Pronto-SocorroJoão XXIII), onde os parentes dão entrevistas à imprensa, revoltados com asituação do militar. A irmã, Gleise de Moura (29), declara:“Os praças da PM são colocadoscomo escudo na frente dos bandidos equem recebe aumento salarialsão os oficiais.”A mãe do cabo Glendyson, Maria Evangelista Moura Costa (59), dizque o filho vivia em situação de miséria.“Com seis anos de PM, ele recebe R$ 340,00. Nós da família temosque ajudá-lo a manter sua mulher e suas duas filhas. E o pior, é quese ele tivesse matado o bandido, estaria hoje preso no quartel, sujeitoa cometer suicídio diante das pressões dos seus superiores, como vemacontecendo na PM”.O comandante-geral faz uma declaração sobre o aumento de salário dosoficiais:“Não há distinção entre as funções dos oficiais e dos praças. Realmentetemos lutado para melhorar o salário dos praças, o Governo quer estender oreajuste também às categorias mais baixas da Polícia Civil e isto somente seráfeito junto com os praças da PM, para haver equiparação salarial entre ascorporações”.No dia 8 de junho, depois de passar por várias cirurgias, o cabo Glendysoné transferido para o CTI, em estado gravíssimo. Ele não resiste aos ferimentose morre no dia 11 de junho, às 23h45. O enterro é marcado para o dia seguinteno cemitério da Paz, em frente ao BPChoque, no bairro Caiçara.
  21. 21. 21IogurteOs coronéis se reúnem, comentam a situação de hostilidade e umadeclaração do comandante da APM (Academia de Polícia Militar), CoronelEdgar Eleutério, chega aos ouvidos da tropa. Ele diz que é favorável àconcessão do aumento para os oficiais, porque acredita que eles consigamsegurar a tropa. O coronel afirma:“Antes de entrar para a PM, osoldado comia arroz e feijão; depoisde ingressar na PM, já pode comerarroz, feijão e carne. E agora aindaestá querendo comer iogurte”.O comandante-geral ainda defende que os salários não estãodefasados e garante que o Governo vai estender o reajuste aos praças,mas precisa encontrar uma maneira de não quebrar a isonomia com aPolícia Civil.Guerra de nervosOs praças iniciam uma greve branca. Muitos fazem corpo mole noatendimento de ocorrências. Eles distribuem cartas informando à imprensa queestão deixando de atender ocorrências, ou fingindo que não as vêem.A greve fria ou guerra de nervos é denunciada pela população. Apsicóloga Marisa Escaldas (28), disse que acionou uma Radiopatrulha parasolicitar providências no furto do carro de sua irmã e os militares se recusarama atendê-la. Eles responderam que não tiveram aumento de salário, só osoficiais, e não iriam fazer a ocorrência e nem tentar localizar o carro, declaraela.O Comando da PM nega a greve fria. Uma das cartas que chega àsredações diz:“Estamos vivendo momentos difíceis com os míseros salários recebidosatualmente e que estão desestabilizando a vida do policial militar, ocasionandoproblemas familiares e pessoais, como suicídio nos quartéis e participação emcrimes”.
  22. 22. 22Segundo o Comando da PM:“A carta é expressão de pessoas desajustadas ao se manifestarem.Qualquer manifestação somente irá prejudicar a situação, uma vez que ogovernador pretende estender o reajuste também às categorias mais baixas dasPolícias Civil e Militar”.O enterro do cabo Glendyson atrasa por causa da demora da liberaçãodo corpo e da chegada de oficiais. A viúva, mãe de duas crianças protesta:“Não entendo esta demora. Se fosse um oficial, já teria havido o enterro.Nos informaram que o corpo chegaria as 9 horas, depois mudaram para o meio-dia”.Ela conta detalhes da vida do marido:“Ele tinha um soldo de R$ 340,00 epara complementar esta rendatrabalhava como segurança de umacantina. Todo soldado e cabo da PMtêm que fazer bico, senão a famíliamorre de fome”.Soldados da PM carregam caixão com o corpo do cabo Glendyson Costa
  23. 23. 23Um PM à paisana comenta:“Somos os PMs mais mal pagos do Brasil e não podemos falar porque oregimento interno proíbe qualquer manifestação”.O comandante-geral não está presente ao enterro. O clima é de tensão ehostilidade contra os oficiais.Durante o enterro, quinze praças presentes anunciam à imprensa que iriaacontecer uma revolta porque a morte do companheiro é a gota d’água nainsatisfação dos policiais com os baixos salários.“A revolta é iminente. Não podemos nos expor muito porque há muitosoficiais aqui, inclusive à paisana”.Os praças dizem que o comandante-geral é diretamente responsável pelanegociação dos salários com o Governo e se consideram traídos pelo aumentoexclusivo. Eles falam em greve, mas ainda com receio de punição.Colegas do cabo Glendyson dão entrevistas aos jornalistas depois doenterro, sem dar nomes. Eles reclamam dos salários baixos, do não pagamentoda gratificação de risco de vida e comparam os salários dos praças da PM deMinas Gerais aos de outros estados, como o Distrito Federal e o Espírito Santo,onde o salário inicial de soldado é de R$ 1.000,00, segundo os praças.Outras reclamações: os salários já baixos têm muitos descontos dosempréstimos feitos por eles, os equipamentos de trabalho estão ultrapassados.Um deles afirma:“Enquanto os marginais usam pistolas semi-automáticas, como oassassino do cabo Glendyson, nós temos que trabalhar com armas calibre 38,com mais de dez anos de uso. Temos sorte quando elas funcionam”.O CPC, Coronel José Guilherme do Couto, é pressionado pelos jornalistasa comentar a insatisfação e a possibilidade de um movimento de praças na PMe responde:“Apoiamos qualquer luta pelos direitos dos policiais, desde queocorra dentro dos regulamentos e seja mantida a disciplina. Tambémacho que um soldado deveria ganhar R$ 1.000,00, mas o Estado nãotem como pagar”.O coronel comenta ainda a questão do armamento:“É praxe que a Polícia de todo o País só use arma calibre 38 quepossibilita maior pontaria, mas os bandidos realmente têm armas maispoderosas”.
  24. 24. 24Começa a greveNa hora do almoço, o clima é de revolta no Batalhão de Choque, o batalhãode elite, que tem um efetivo de mil policiais e um salário médio de R$ 320,00.Os policiais consideram que o aumento salarial dos oficiais significa que ospraças e suboficiais foram abandonados pelos próprios comandantes. Nachamada de 13hs., os policiais não entram em forma, ficam parados no pátiodo quartel, de braços cruzados, e se recusam a se deslocarem nas viaturaspara o centro da cidade, onde formariam o reforço do policiamento na região.A imprensa começa a chegar, por causa dos telefonemas dos praças alertandosobre o movimento. Alguns policiais falam em voz baixa para os jornalistasque eles decidiram entrar em greve por causa dos baixos salários.O comandante da 3acompanhia de Polícia de Choque, capitão Carlos,anuncia ao subcomandante do Batalhão de Choque, major Renato Vieira, quea tropa se nega a entrar em forma. O subcomandante reclama com o capitãoCarlos e designa um outro oficial, o capitão Valdeir, para deslocar-se até opátio e colocar a tropa em forma. O capitão Valdeir segue para o pátio e apósvárias tentativas retorna de cabeça baixa e informa ao major que também nãohavia conseguido.“Achei que estava acontecendo algo estranho, surpreendente, e continueitrabalhando, passando a observar a situação, mas ainda sem participar. Via onervosismo dos oficiais, que nunca tinham enfrentado uma situação semelhante.O medo estava estampado nos rostos deles. Aqueles oficiais mais temidos pelatropa, os chamados carrascos, eram os que tinham mais medo. Escondiam-seem seus gabinetes, evitando sair ao pátio do batalhão. Fui conversar comoutros PMs, que diziam Nós não vamos descer para as ruas. Chega de saláriode fome”, declara Cabo Júlio.O SubCmt Major Renato Vieira, que era considerado truculento e lixo(termo militar para atribuir alguém que é desumano) se trancou em seu gabinete.
  25. 25. 25FogoDentro do alojamento dos cabos e soldados, começa sair uma densafumaça, que chama a atenção de todos. O nervosismo entre os oficiais aumenta.Alguns colchões são queimados no interior do alojamento. O major e algunscapitães correm para todos os lados demonstrando desespero, o fogo aumenta,começa o corre-corre, todos os oficiais se mobilizam com baldes na mão paraapagar o fogo. Os colchões são arrastados para fora do alojamento. Os oficiaispercebem que a tropa não está brincando e que pode surgir uma revolta.Em uma tentativa de pressionar a tropa, em tom de desespero, o majorRenato diz para os oficiais:“Não coloquem a mão em nada, vamos acionar a perícia para tirar asimpressões digitais e descobrir quem fez isso”. (Ele se esqueceu que está noBrasil, e que isso só acontece nos filmes de TV).Os PMs não se intimidam e afirmam:“Essa ameaça não nos assusta. Já rompemos o elo principal: acabamosde rasgar o RDPM”.Do cemitério, os repórteres avistam a fumaça e correm para a porta doBatalhão de Choque. A tropa, numa tentativa de demonstrar a situação derevolta, cruza os braços no pátio, para alegria dos fotógrafos e cinegrafistas,que já chegavam às dezenas ao Batalhão.O comandante do Batalhão manda um assessor informar à imprensa quetinha acontecido um curto-circuito na fiação elétrica. Ninguém acredita. Ospoliciais riem. O comandante resolve fazer uma declaração à imprensa e acabapor admitir um clima de insatisfação generalizada.“Os baixos salários e a inadimplência com os compromissos financeirosestão realmente deixando os policiais aloprados, mas a situação está sobcontrole”.O comandante admite então que a queima de colchões pode ter sido umato criminoso. “Pode ter sido ação de uma pessoa desajustada, em funçãodos baixos salários e da morte de um colega”.
  26. 26. 26Desprezo e vaiasO comandante do CPC, Coronel José Guilherme do Couto, chegainstantes depois com a fisionomia preocupada, e não fala com a imprensa. Elese reúne primeiro com os oficiais e depois chama a tropa para uma reunião noauditório do batalhão. Ninguém vai para o auditório. Ele espera 20 minutos,apenas na presença dos oficiais. O coronel deixa o auditório e segue para aviatura que irá levá-lo de volta ao QCG. No caminho, a viatura passa pelo pátioe cerca de cem praças vaiam. O coronel deixa o prédio e é cercado pelosjornalistas, mas se recusa a dar entrevista. Ele apenas diz: Não tem mais jeito,eu tentei.A tarde toda permanece o impasse. Os policiais não saem e começam atomar coragem para declarar aos jornalistas que estão em greve. Alguns vãoaté à esquina do quartel para gravar entrevistas numa rua erma atrás docemitério. Eles estão com os rostos cobertos por gorros, blusas e cachecóis,emprestados pelos próprios jornalistas. Denunciam desmandos, regalias dosoficiais, falam sobre a revolta com os baixos salários e o aumento exclusivoque foi dado aos oficiais. Uma das denúncias mais graves feitas neste primeirodia da greve é a de que policiais militares estariam recebendo dinheiro detraficantes para fazerem vista grossa no caso de batidas policiais nos morros.Segundo a denúncia, os policiais que moravam em favelas, vizinhos aospróprios marginais, aceitavam propina e recebiam mais de R$ 3.000,00 por mêsde traficantes. Um dos policiais diz que enquanto ele trabalha o mês inteiropara ganhar pouco mais de R$ 300,00, um menino de 12 anos que vende crackna favela Sumaré, ganha até R$ 150,00 por dia. Diz que a proximidade entre umtraficante e um policial é bem curta.Quantas foram as vezes que o policialsai de casa deixando o aluguel atrasado,a luz cortada, sem nenhum alimento eno momento da prisão o traficanteoferece R$ 500,00? O coração começaa bater forte. Vem logo ao pensamentoque com aquele dinheiro pode colocar a vidaem ordem, mas o senso de responsabilidadefala mais alto para quem é um profissionalhonesto e consciente. Infelizmente,nem todos são assim.
  27. 27. 27Um policial do BPChoque diz:“A cabeça de um policial do Batalhão de Choque está valendo R$ 5.000,00na favela da Pedreira Prado Lopes. Como é que a gente trabalha assim?”.Quanto mais as horas passam, mais policiais querem falar, denunciar, masainda com medo de possíveis represálias. Eles fazem outras denúncias.“Sabemos de várias maracutaias de oficiais. No 1° BBM, os bombeirosforam obrigados a assinar nota fiscal onde um par de meias estava orçado emR$ 57,00. Em vez da farda anual a que têm direito, os bombeiros só receberameste ano duas camisetas, um calção e dois pares de meia, com preçossuperfaturados”.O fardamento é de responsabilidade da empresa Citeral, que funcionadentro do 5oBPM, no bairro da Gameleira, região oeste. O Comando nega asdenúncias.Essa empresa tem exclusivo monopólio para vender fardas para a PM,por isso põe o preço que quer. Dizem que paga comissão para os coronéispara que não permitam que outra empresa também entre nesse mercado. Parase ter idéia, no Distrito Federal o efetivo é cinco vezes menor, mas existem 10empresas que vendem fardamento.PMs do Batalhão de Choque cruzam os braços
  28. 28. 28A greve se espalhaComeçam a chegar informações de movimentos em outros quartéis. No22° BPM (bairro Santa Lúcia, região sul), vários colchões são queimados. No1° BPM (bairro Santa Efigênia, região leste), os policiais fazem um buzinaçonas viaturas na hora de sairem do quartel. No 16° BPM, (bairro Santa Tereza,região leste), o quarto turno atrasa quatro horas o seu lançamento (saída pararua) e os policiais jogam as armas no chão. No 1° BBM (Batalhão de BombeirosMilitares), a rede de rádio transmite o protesto, chamando os policiais parauma mobilização geral. Um dos diálogos ouvidos:– O coronel pediu aumento para nós?– Não é o coronel quem dá aumento. É aquele prechão do governador,que já falou que não tem aumento para nós. (risos) Então põe o coronel naescuta aí. Vamos pedir o aumento para ele!Os telefonemas chovem nas redações, policiais dizendo que a greve iriase alastrar por todo o Estado. No BPChoque, os policiais distribuem bilhetesaos jornalistas assumindo a responsabilidade pelo incêndio. Um dos bilhetesdiz:“Estamos passando fome. Moramos em favelas e às vezes chegamos apensar em suicídio. Não recebemos nenhum apoio do Alto Comando da PM.Queimamos os colchões porque nossa vontade é botar fogo em nossos saláriosde miséria. Como não podemos, colocamos fogo nos colchões”.Os policiais tinham receio de que, no caso de alguma unidade parar, oBatalhão de Choque ser chamado para reprimir os próprios policiais, já que erauma tropa especializada na repressão a movimentos grevistas. Com a explosãodo movimento no Batalhão de Choque, os policiais das outras unidades seencorajaram e o movimento se espalhou como uma onda. Neste dia, não havialíderes. A situação só não ficou pior porque o comandante do BPChoque erauma pessoa querida e respeitada pelos choqueanos.Às 19:30hs., chegam ao BPChoque integrantes da Associação deSubtenentes e Sargentos e do Centro Social de Cabos e Soldados que haviamsido convocados pelo comandante-geral para tentarem conversar econvencerem a tropa a retornar às atividades normais. Os representantes destasentidades alertam a tropa para o que poderia ocorrer: possíveis punições e atéexclusões. Eles também estão um pouco perdidos, até pelo ineditismo domovimento, tentando responder às inúmeras perguntas e questionamentos daspraças. Esta reunião dura cerca de uma hora, sem a presença de nenhum oficial.
  29. 29. 29Nasce um líderNesta reunião, comecei a despontar como líder, porque tive tranqüilidadee objetividade para encaminhar as principais dúvidas da tropa. Mas não houveescolha de representantes do movimento, até porque não estava definidanenhuma reunião de negociação com o Governo – achávamos isto impensável– e não se cogitava ainda em fazer passeatas.Não houve mais chamadas neste dia. Fica decidido que todas ascompanhias se fariam presentes no outro dia, acumulando no dia 13 todo oefetivo do BPChoque, até quem não estava de serviço, como os policiais emfolga ou em férias.Deixamos o batalhão, que ficou apenas com o 4° turno Rotam, que estavade plantão. Todos foram para casa. Nesta noite, em casa, pensava sobre o quetinha acontecido, mas não tinha a menor idéia da dimensão que o movimentoiria tomar. Estava tranqüilo, mas ansioso para saber o que aconteceria diantede uma situação tão nova, sem saber como seria o dia seguinte. A repercussãoainda era pequena, não se sabia que haveria um grande movimento.O Comando da PM se reúne à noite e o secretário da Casa Civil AgostinhoPatrus participa da reunião. O Comando redige nota oficial, que é publicadanos jornais no dia seguinte:“Foi apurado que 60 praças se mantiveram em posição de manifestaçãono BPChoque. Isso, dentro de um efetivo de 42 mil homens da Corporação noEstado, sendo 10 mil na Grande BH. Foi solicitado um reforço de policiamentopara suprir a ausência desses praças, o que foi de pronto atendido, mantendodessa forma o policiamento na Capital mineira”.AH! Eu tô é duro!No outro dia, cheguei cedo ao BPChoque, por volta de 7hs. Soube que oturno da noite fora normal. Dezenas de policiais de todas as companhiasestavam lá. Os policiais de folga ficaram sabendo do movimento e se dirigiramespontaneamente ao quartel, inclusive os licenciados e os que estavam deférias, que também foram para o quartel.Não há ainda liderança e os policiais continuam reunidos no pátio, semsaberem o que fazer. Não há chamada. Os oficiais não andam no pátio, só ficamreunidos com o comandante, tenente-coronel Cançado. Eu fui trabalhar no
  30. 30. 30computador na companhia ROTAM, numa sala que ficava de frente para o pátio.Os PMs ligam para a imprensa e pedem apoio. De repente começa umagritaria, que vira um coro: Vamos para a rua!. Os praças de outras unidadesligam para o BPChoque para confirmar as informações da paralisação que estãosendo veiculadas pela imprensa e anunciam que vão aderir. Para espanto detodos, o BPChoque vai para a rua. São 150 homens no início.Acompanhei o movimento. A passeata não tinha direcionamento, era umsentimento de cidadania, como se estivéssemos nos libertando de uma prisão,de um regulamento arcaico. O grito de liberdade que estava preso há 222 anosna garganta finalmente ecoara. Não tínhamos ainda nenhuma reivindicação,mas estávamos nos sentindo livres.A passeata segue pela avenida Américo Vespúcio, em direção a avenidaAntônio Carlos, acesso da região norte para o centro. A passeata engrossa, jásão 500 policiais participando.Não sabíamos bem qual era o nosso objetivo, se iríamos até à PraçaSete, no centro de Belo Horizonte, ou se chegaríamos até o QCG na Praçada Liberdade, onde também fica o Palácio da Liberdade, sede do Governoestadual. Eu tentava organizar a passeata, pedindo que os policiais sóficassem numa pista para liberar o trânsito, e foi nesta hora que muitos meviram como líder, inclusive colegas de patente superior a minha, comoPopulação aplaude a passeata dos policiais
  31. 31. 31sargentos, que me perguntavam o que fazer, se deviam ou não tirar asplaquetas de identificação e os bonés. Passamos pelo Departamento deInvestigações, da Polícia Civil, e chamamos os policiais civis paraparticipar. Alguns desceram. Incitei o pessoal a prosseguir para evitarprovocações em frente ao DI. Seguimos pela avenida.Na altura do viaduto da Lagoinha, quase no centro, o tenente-coronelCançado se posta de braços abertos na frente da tropa. Ele afirma que ocomandante-geral ordenou que fosse dada voz de prisão a todos que estavamna manifestação. Se prender um, isso vai virar uma guerra, respondem osmanifestantes. A passeata desvia-se dele e os PMs continuam a caminhar.Outros comandantes de batalhão, o tenente-coronel Rúbio Paulino,do 22° BPM e o tenente-coronel Severo, do Batalhão de Missões Especiaisacompanham o comandante do BPChoque, que segue o tempo todo aolado da passeata.Eles acompanhavam a passeata, pela lateral, em solidariedade ao tenente-coronel Cançado. Gritávamos: Polícia unida jamais será vencida!, ou entãoo famoso Ah, eu tô é duro!A passeata continua até a Praça Sete, sem incidentes. No caminho, umatropa da 6ª Companhia do 1° BPM, com cerca de 50 policiais, se junta aomovimento, além de outros policiais que estavam de serviço nas ruas por ondea passeata passava. Vinte policiais do BPTran e cinco batedores acompanhama passeata, coordenando o trânsito. Os bombeiros também aderem à passeata.Chegando à Praça Sete, os oficiais continuam a fazer apelos para que o pessoalvolte para os quartéis e não fizesse greve nas ruas. Eles diziam que isto iriaacabar com a Polícia Militar.
  32. 32. 32Um integrante da CUT/MG, com uma bandeira vermelha, tenta participarda passeata e é retirado pelos policiais. Ele insiste em ficar na avenida e ospoliciais rasgam a bandeira. O sindicalista desiste, vendo que os policiais orecebem com animosidade.Policiais de outras unidades, como os de trânsito, são levados a participardo movimento, com o chamado dos manifestantes, muitos até contra a vontade.Não tínhamos rumo, nem reivindicações, nem programação, nada. A idéiaagora era seguir para a Praça da Liberdade, demonstrar para o governador quea Polícia estava passando fome. Demonstrar como? Através de umaconcentração em frente ao Palácio da Liberdade. Iríamos ficar em silêncio, nãotínhamos idéia do que fazer.”Policiais fazem passeata pela Av. Amazonas
  33. 33. 33Apoio da populaçãoPor onde a passeata passa, a população aplaude, inclusive em prédiospúblicos, como a Prefeitura de Belo Horizonte, secretarias, bancos, lojas,prédios residenciais. Alguns jogam papel picado. Alguns manifestamabertamente o seu apoio, como o taxista Silvano dos Reis, que diz: Eles estãomais do que certos!Em frente ao Detran (Departamento Estadual de Trânsito), na avenidaJoão Pinheiro, os PMs chamam os policiais civis a aderirem. Eles gritam: Decamarote não, a luta é aqui no chão... Nas janelas do prédio vários aplaudem,alguns descem para acompanhar o movimento.Andamos 12 km e estávamos cansados, mas com total disposição paracontinuar o movimento. No final da subida da avenida João Pinheiro, oscoronéis verificaram que eu liderava o pessoal na organização da passeata eme pediram que não deixasse a manifestação passar pela alameda da praça daLiberdade. Eles diziam que a PM nunca deixou nenhuma classe de trabalhadoresem manifestação passar por lá, e não seriam os próprios PMs a passarem nolocal em manifestação. Naquele momento não era mais uma ordem, era umpedido, que não foi atendido. Passamos pela alameda e chegamos ao Palácioda Liberdade”.Chega a hora de negociar, para espanto dos próprios manifestantes.Não pensávamos que isto aconteceria. Tínhamos que reivindicar algo etentar negociar, mas não sabíamos o que queríamos e o que iríamos fazer. Estafalta de rumo foi devida à própria espontaneidade e ineditismo do protesto.Não tínhamos nenhum elemento nem condição objetiva para negociar, casonos chamássemos para uma reunião.Em frente ao Palácio da Liberdade, os manifestantes, que já eram 1.500,engrossados pelas novas adesões durante o caminho, inclusive com grandenúmero de reformados (aposentados da PM), cantam o Hino Nacional, viradosde costas para a sede do Governo. Eles fazem também uma oração, emhomenagem ao PM que morreu baleado por assaltantes, o cabo Glendyson.Depois, os manifestantes queimam contracheques.
  34. 34. 34Policiais sentam-se no chão em frente ao Palácio da Liberdade,sede do governo mineiroPoliciais queimam o contra-cheque
  35. 35. 35Comissão define reivindicaçõesàs pressasDois oficiais, a mando do comandante de policiamento da Capital,comunicam que aguardam a formação de uma Comissão dos praças paranegociar. Esta Comissão passa a ser formada pelos integrantes das entidadesrepresentativas (Centro Social de Cabos e Soldados e Associação deSubtenentes e Sargentos), além de três policiais do BPChoque, escolhidospelos companheiros porque tinham maior capacidade de liderança. Eu fui umdos escolhidos, numa pequena assembléia.Só neste momento definimos a pauta de reivindicações: o piso salarialde R$ 800,00, promoção por tempo de serviço – dez anos – e não apenas porconcursos internos, revisão imediata do RDPM (Regulamento Disciplinar daPolícia Militar) e do EPPM (Estatuto de Pessoal da Polícia Militar), que sãobaseados nos regulamentos de Exército. Queríamos também a não punição aosmanifestantes e uma política habitacional que atendesse especialmente oscabos e soldados.Nove representantes dos praças integram a Comissão, que seguiu parao Palácio para negociar.Foi um sentimento de poderinusitado. Como é que um cabo ouum sargento poderiam negociarrepresentando mais de 55 mil policiais?Nunca imaginei passar por ummomento assim.Logo que a Comissão entra, é recebida pelo chefe do Gabinete Militar doGoverno, cel. Hamilton Brunelli. Quando a Comissão entra no Palácio, a tropadesloca-se para a frente do Quartel Central Geral, onde funciona o Copom –Centro de Operações da Polícia Militar, o Comando-Geral, e outras unidadesadministrativas da PM. A tropa fica concentrada em frente ao prédio do QCG,próxima às escadarias.
  36. 36. 36Cancelada a ordem de confrontoO chefe da Cedec – Coordenadoria Estadual de Defesa Civil, CoronelCustódio Diniz, ordena que se postasse em frente ao prédio uma tropa decadetes, que estava de prontidão dentro do Palácio dos Despachos, anexoao Palácio da Liberdade. Um tenente-coronel discute com o chefe da Cedec,com medo de um confronto entre os manifestantes e os cadetes. Ele diz:Comandante, não faça esta loucura. Se esta tropa for colocada aqui, istovai virar uma guerra. O comandante de policiamento da Capital pedeautorização para uma contra-ordem para recolher a tropa. O chefe da Cedecdesiste e a ordem é cancelada. A tropa que estava de prontidão tinha cercade 50 cadetes enquanto que os manifestantes já eram mais de 2.000.O fato inédito em 222 anos de Polícia Militar pegou todos de surpresa. OCoronel Diniz havia passado toda a madrugada distribuindo cobertores, umasdas funções exercidas pelos agentes da Cedec. Ao amanhecer diante dasinformações de que poderia haver problemas, foi forçado a ficar no Paláciodos Despachos. Não sabia o que fazer, o aprendizado na Academia não o haviaensinado a lidar com uma situação como essa. Era uma situação inovadora.Nunca se esperava que fosse acontecer.Ao mesmo tempo que há mobilização de cadetes da PM, as ForçasArmadas também já estão de prontidão. Na 4ª Divisão de Exército (DE), a Políciado Exército está mobilizada dentro do quartel e se fosse necessário, sairia àsruas.
  37. 37. 37Primeira reunião de negociaçãoComissão conversa com Coronel Hamilton Brunelli. Ele demonstra,durante a conversa, eterno amor pelo militarismo. O coronel usa expressõescomo: Depois desta, o que será da Polícia Militar?; a PM vai acabaramanhã!; ou isto não poderia acontecer nunca!. Ninguém se intimida. Lá embaixo, começam sonoras vaias. Corremos à janela e vimos o comandante do CPCsendo vaiado pelos manifestantes. O Coronel Brunelli se desespera e diz: O queé isto? Agora é que acabou mesmo a Polícia Militar!Eu respondi: Não fomos nós que procuramos isso, coronel. Nossasituação é crítica. Por que concederam aumento só aos oficiais e deixaram ospraças em situação de miséria ?O secretário da Casa Civil, Agostinho Patrus, que é capitão médicoreformado da Polícia Militar, chega para coordenar a reunião em nome do Governo.Ele demonstra superioridade no trato com os praças. O secretário recebe asreivindicações e diz que não negocia com a Polícia na rua. A Comissão prometetentar tirar a tropa das ruas, mas com a garantia de haver negociação.Abraço do PirulitoDepois da reunião, que dura cerca de uma hora, os líderes se reúnemcom os manifestantes e marcam uma assembléia para o dia seguinte, sábado.Eles resolvem deixar a Praça da Liberdade em passeata. Os PMs gritam osjargões e a expressão de cidadania é total. Nos prédios das secretarias, aspessoas ainda aplaudem a passagem dos policiais. Na avenida Afonso Pena,alguns P-2 (policiamento secreto), infiltram-se na passeata. Um deles tem umacâmera e filma os integrantes do movimento. Aos gritos de traidor, os praçastomam a filmadora, que é quebrada no chão. Ele é expulso a pontapés e saicorrendo para não apanhar.A passeata segue em direção à Praça Sete, mas os líderes são chamados
  38. 38. 38para uma reunião no Comando-Geral. Os manifestantes já são 2.500 e continuamo protesto, abraçando o monumento do Pirulito. Quatro segurançasparticulares do governador, policiais militares da ativa, de terno e gravata, aderemao protesto. Um deles diz: Fazemos parte da tropa, apenas temos fardasdiferentes.Todos sentam-se no chão. O protesto é encerrado rapidamente porqueexiste uma preocupação de desimpedir o trânsito e não provocar transtornospara continuar com o apoio da população. Os repórteres entrevistam as pessoasna Praça Sete.A maioria da população apoiava o nosso movimento. Existia uma grandeconsciência de que a greve era por melhores salários. Muitas pessoas aplaudiamcom entusiasmo, como uma dona-de-casa que manifestou apoio e carinho pelospoliciais. Eles merecem ganhar mais e serem valorizados, disse ela.Abraços no pirulito na Praça Sete, Centro de Belo horizonte
  39. 39. 39Comando-geral recebe os praçasLogo após o retorno dos policiais aos quartéis, a Comissão retorna parauma nova reunião, desta vez no QCG com o Comando da Corporação. Alémdo comandante-geral, Coronel Antônio Carlos dos Santos, participam o chefedo Estado-Maior, Coronel Herberth Magalhães, o comandante de policiamentoda Capital, Coronel José Guilherme do Couto e o chefe da DPS – Diretoria dePromoção Social, cel. Pedro Seixas. A reunião começa tensa. O comandante-geral demonstra nervosismo.O tempo todo ele tentava explicar o inexplicável. Culpava os oficiais deunidades de não terem conseguido explicar para a tropa o aumento dos oficiais,usando a expressão: a explicação não chegou à ponta da linha.O comandante promete avaliar todas as reivindicações e garante que oGoverno já havia enviado à Assembléia Legislativa o pedido paraautorização de reajuste setorizado. Ele promete ainda conceder todas asreivindicações que fossem da competência do Comando da Corporação.O comandante diz ainda que reconhecia que o RDPM estava ultrapassadoe que já estava sendo feito um estudo, por um grupo de oficiais, para a revisãodo regulamento.Governo faz pronunciamentoO governador Eduardo Azeredo está de viagem marcada para a Europa,mas a viagem é adiada por causa da crise. Na noite de 13 de junho, o governadorfaz um pronunciamento oficial.“Como governador, venho prestar informações sobre os acontecimentosna PM: os delegados da Polícia Civil ganharam na Justiça equiparação comos procuradores do Estado, com reajuste de cerca de 11%, que foi repassadoaos oficiais da PM, em virtude de legislação específica. Reconhecendo serjusta a extensão do aumento dos praças, enviei na última segunda-feiraprojeto de lei solicitando, com urgência, autorização da AssembléiaLegislativa para ter meios de corrigir distorções nos menores salários do
  40. 40. 40funcionalismo”.O governador fala também sobre as dificuldades com a folha depagamento: a arrecadação mensal é de R$ 450 milhões e R$ 350 milhões vãopara a folha de pagamento, representando 77% das despesas.“A população aprendeu a admirar e a confiar nos bons serviços prestadospela PM, reconhecida como a melhor do Brasil. O Governo espera quepermaneça a normalidade. É fundamental que prevaleçam o direito, a lei, aordem e a tranqüilidade da população”.Apesar da declaração do governador, não há legislação, específica ounão, sobre a isonomia automática entre os salários dos coronéis da PM e dosdelegados da Polícia Civil. A isonomia é fruto de um acordo de cavalheiros,reivindicado pelos coronéis ao Governo e que foi implantado desde o GovernoNewton Cardoso, em 1989, depois da promulgação da Constituição Estadual.O objetivo é evitar rixas e criar clima de igual respeito e reconhecimento entreos comandos das duas Corporações.Na avaliação do governador, a manifestação dos PMs é restrita a umapequena parte da Corporação. “A situação está bem administrada pelosecretário da Casa Civil e pelo comandante-geral da PM”, afirma ogovernador. Já o secretário Agostinho Patrus fica irritado quando é perguntadopelos jornalistas se o Governo havia perdido o controle da PM:“Solicito à imprensa que possa transmitir a realidade dos fatos. Umapergunta como esta vai trazer intranqüilidade”.
  41. 41. 41Cabo Júlio discursa aos manifestantes na Praça Sete pouco antes do confronto na Pça da Liberdade
  42. 42. 42Cabo Júlio fala aos manifestantes na Praça Sete
  43. 43. 43Sargento tenta suicídioUm sargento de 38 anos, dezoito anos de serviço, com seis filhos e saláriode R$ 360,00 é internado no HPS depois de ingerir um vidro de formicida ecinqüenta cápsulas de Lexotan. Com a vida salva pelos médicos, o PM dáentrevista, mas pede que seu nome não seja divulgado.“Estava desesperado. Meu aluguel, deR$ 120,00, está atrasado há dois meses.Minha família vive de favores.Não tive apoio psicológico.Quando soube do aumento dos oficiais,me senti revoltado:eles só olham o bolso deles”.O chefe da sala de imprensa, major Jefferson Oliveira, comenta:“Se todo PM que se julgasse desesperado pelos baixos salários fossetentar suicídio, teríamos um extermínio na Corporação”.O comandante de policiamento da Capital afirma:“Reconheço que o salário é baixo, mas isto não é motivo para se matar.Se este fosse o motivo, a maioria da população brasileira já teria se matado”.O comandante do 1oBPM, tenente-coronel Antônio Luiz, admite que ospoliciais são mal remunerados:“O salário reivindicado é justo. É inconcebível que um policial recebaapenas R$ 330,00”.
  44. 44. 44Primeira assembléiaNo dia seguinte à passeata, realizamos assembléia no Clube de Cabos eSoldados. Cerca de 2.000 PMs participam, muitos acompanhados da mulher efilhos. Para chegar ao clube, no bairro da Gameleira, região oeste de BeloHorizonte, caminhavam dos batalhões em minipasseatas, fardados, e aindagritando os jargões da primeira passeata. A imprensa registra a presença depoliciais de várias unidades, Corpo de Bombeiros, Cavalaria, Hospital Militar,Polícia Feminina, e até do Quartel Central Geral.Os PMs apresentam um balanço da greve nos batalhões. Os policiais daCompanhia de Bombeiros do Aeroporto da Pampulha garantem que asoperações de abastecimento de aviões estavam sendo realizadas sem segurançapor causa da greve. Um policial do 22° BPM disse que o Comando tinhaordenado que ninguém deveria participar da assembléia, sob risco de punições.Os praças do 22° BPM dizem que não estavam dispostos a trabalhar a trocode nada. Não vamos arriscar a vida por essa miséria que a gente ganha. Um
  45. 45. 45casal de policiais, com o filho pequeno, exibe o contracheque com o salárioconjunto: pouco mais de R$ 800,00. Todos mostram os contracheques paradarem exemplos da situação salarial. Neste dia, os policiais já não tinham medode mostrarem a cara e dizerem o nome ao dar entrevistas.O Coronel Pedro Seixas, morrendo de medo, diretor de Promoção Social,em trajes civis e escondido em uma das salas do clube, acompanha a assembléia.A Comissão sabe da presença dele no local, mas não tinha como impedir porqueo clube pertence à DPS.Orientei a Comissão, e nos reunimos para discutir como seria oencaminhamento da assembléia. A nossa missão foi a de apresentar as propostasoferecidas pelo Governo e decidir um prazo para o atendimento dasreivindicações. Meia hora depois nos dirigimos ao palanque e pedimos apresença de todos.Começa a assembléia, tumultuada. Eu tive dificuldades de fazer osencaminhamentos, pelo clima dos grevistas e pela inexperiência. Depois de duashoras de debates, decidimos manter o piso de R$ 800,00 para os soldados, arevisão do Estatuto e do Regulamento Disciplinar, a não-punição aos grevistas,além da promoção por tempo de serviço e a criação de uma política habitacionalvoltada para os praças. Mais difícil é definir o prazo para que o Governo dêuma resposta. A Comissão propõe trinta dias, mas os participantes não aceitam.Inicialmente, não queriam dar nenhum prazo, permanecendo em greve até oatendimento das reivindicações. Depois, querem um prazo máximo de cincodias. Ao final, chegam a um consenso de dez dias. Outra assembléia é marcadapara o dia 24 de junho, no mesmo local. Os líderes pedem que todos voltemaos quartéis, sem tumulto ou passeatas.InteriorEm Montes Claros, no norte do Estado, PMs também fazem declaraçõesde protesto. Um policial sem se identificar diz:“Se o reajuste concedido aosoficiais e delegados não for estendidoaos praças, a adesão ao movimento serágeneralizada no Estado. Estamos sóesperando a orientação doCabo Júlio em Belo Horizonte”.
  46. 46. 46Recebia telefonemas de várias partes do Estado, querendo participar domovimento e acompanhar as negociações. Já se manifestam praças dosbatalhões de Ipatinga, Manhuaçú, Juiz de Fora, Barbacena, GovernadorValadares, Uberlândia, entre outros.A orientação para os praças do interior é aguardar até à véspera do dia24, quando deverão ser organizadas as caravanas para Belo Horizonte paraparticipar da assembléia no Clube de Cabos e Soldados.Em Juiz de Fora, na zona da Mata, um PM faz um protesto isolado. Osargento William da Silva Peçanha (30), do Serviço de Patrulha de Trânsito,desce da moto em um dos pontos mais movimentados da avenida Rio Branco,no centro, coloca o revólver e o cinturão no chão e grita palavras de ordemcontra os baixos salários. A manifestação do sargento dura sete minutos até achegada de uma viatura do 2° BPM, que o retira do local. Ele é levado para aClínica São Domingos, onde é submetido a uma avaliação de suas condiçõespsicológicas. O comandante regional de Juiz de Fora, Coronel Elvino deOliveira, diz que vai aguardar a avaliação médica do sargento, antes de estudara abertura de um Inquérito Policial Militar (IPM).Em Governador Valadares, policiais fazem duas passeatas. São 150 do 6°BPM e do 1° CRPM, além de policiais civis, que caminham pelas ruas do centro.Os policiais não usam fardas durante o protesto, também queimamcontracheques, assim como os manifestantes de Belo Horizonte.
  47. 47. 47Tática do silêncioDurante todo o sábado, o Alto Comando fica reunido com todos oscoronéis da Capital. A reunião começa ao mesmo tempo que a assembléia dospraças, às 10h e só termina às 17h30. Os coronéis discutem a crise deflagradapela greve inédita na Corporação.Poucas informações chegam à imprensa. O Comando adota a tática dosilêncio. A ausência de informações aumenta as especulações. Enquanto oscoronéis e oficiais não se pronunciam, os praças têm todo acesso à imprensae conseguem veicular informações do seu interesse.Recrutas de prontidãoNo dia da assembléia, todos os recrutas são convocados pelo Comandoe ficam de prontidão em suas unidades e na Academia. A orientação é queeles podem ter que assumir o policiamento na Capital, se persistir o movimentodos grevistas.No 16° BPM, no bairro Santa Tereza, região leste, os recrutas comentamentusiasmados a possibilidade de ir para as ruas, mesmo antes de completarsua formação. Os jornalistas questionam nos quartéis qual a viabilidade de umsistema de segurança feito por recrutas. A resposta de alguns comandantes éque os recrutas estão plenamente capacitados porque se formarão em breve.Os recrutas da PM têm uma formação de nove meses, onde recebemtreinamento e aprendizado sobre matérias como relações públicas e humanas,noções básicas de direito, legislação interna, regulamento disciplinar, instruçãomilitar básica e noções de primeiros socorros. No oitavo mês, os recrutaspassam por um período de estágio, onde são acompanhados por policiais jáformados, que repassam, no dia-a-dia das ruas, informações para o seuaprimoramento.
  48. 48. 48As negociaçõesEnquanto corre o prazo dado pelas praças ao Governo, continuam asreuniões de negociação. O governador envia à Assembléia Legislativa oanteprojeto que permite a concessão de aumentos diferenciados a setores dofuncionalismo público e viaja para a Europa, com atraso de dois dias. Os líderessão chamados para várias reuniões com o comandante-geral e com o chefe doEstado-Maior para discutirem as mudanças no Estatuto e no Regulamento.No dia 17 de junho, o comandante-geral da PM, Coronel Antônio Carlosdos Santos, divulga uma nota sobre A Questão Salarial da PM e o MomentoAtual, criticando o comportamento que ele considera emocional e sensitivodos manifestantes e justificando o reajuste salarial diferenciado. De acordo como comandante, o Governo manteria a equivalência entre os delegados e oficiais,estendendo depois os mesmos índices para os praças, depois da aprovaçãoda Assembléia Legislativa. O comandante diz ainda que os policiais devem tertranqüilidade e confiança na instituição.No dia 18 de junho, acontece mais uma rodada de negociações, no Paláciodos Despachos, com a participação dos secretários da Casa Civil eComunicação Social, Agostinho Patrus, da Fazenda, João Heraldo Lima, deRecursos Humanos e Administração, Cláudio Mourão, da Habitação, SílvioMitre, o comandante-geral da PM, Coronel Antônio Carlos dos Santos, o chefedo Gabinete Militar, Coronel Hamilton Brunelli, o presidente da Cohab –Companhia de Habitação do Estado de Minas Gerais, Reginaldo Arcouri, opresidente da União dos Reformados, Coronel Décio Pereira da Silva, opresidente do Clube dos Oficiais, Coronel Edvaldo Piccinini e osrepresentantes dos praças. A principal discussão é sobre o piso de R$ 800,00que não é aceito pelo Governo. Segundo o secretário da Casa Civil:“Este piso significaria um aumento de 90% para os praças, o que oGoverno não tem como bancar. O reajuste é impossível porque alguns praçaspoderiam ficar com salários superiores aos dos oficiais”.O secretário não fala em índices para o aumento.
  49. 49. 49“Estamos estudando este percentual de reajuste com base nasrepercussões que ocorrerão dentro da própria PM. Se dermos o aumento paraos soldados, isto vai influenciar os soldos de cabos, sargentos, subtenentes2otenentes, etc. Por causa disto não podemos divulgar um índice levianamente”.Pela primeira vez, o comandante-geral admite que os participantes domovimento podem ser punidos. O Coronel Antônio Carlos dos Santos disseque:“Todos os fatos serão apurados e o meio de investigação será atravésde IPM (Inquérito Policial Militar). Os fatos são graves e tomaremos decisõesa respeito após as investigações”.Guerra sujaO Comando da Polícia começa a trabalhar nos bastidores para destruir omovimento.Depois desta reunião, fui procurado, em minha casa, por um oficial queme perguntou o que eu queria para sair do movimento. Ele dava a entenderque queria me subornar. Segundo ele, o Comando considerava que a minhasaída poderia enfraquecer ou até acabar com o movimento, como se eu fosseo causador da revolta. Este oficial me perguntava: O que você aspira, o quevocê quer, cabo Júlio? Minha resposta era fatídica: dignidade para o policial.De repente eu disse: o senhor tem dois minutos para sair de minha casa.Ameacei chamar a imprensa. Ele saiu imediatamente.Os diretores da Associação de Subtenentes e Sargentos se reúnem no finalda tarde para avaliar a situação nos quartéis de Belo Horizonte e interior. Os 45diretores consideram a situação explosiva e acreditam que se o Governo nãoder o aumento esperado a paralisação será geral. Caravanas estão se preparandono interior para comparecer à assembléia em Belo Horizonte.No dia 20 de junho, os deputados aprovam o projeto do Governo.
  50. 50. 50O amarelinhoNeste mesmo dia, o assessor de imprensa do Comando-Geral entrega aoslíderes dos praças o anteprojeto de revisão do Estatuto e do Regulamento, epropõe um prazo de 30 dias para que eles apresentem sugestões. A propostaé aceita. A Comissão adianta a principal mudança desejada: o fim da penaprivativa de liberdade. “O amarelinho” só mudou cinco anos depois.Qualquer praça, por decisão do seu comandante, pode ser punido com aprisão no quartel de até treze dias, a critério do comandante, e ainda que nãohaja motivação clara. Isto é motivo de revolta de muitos policiais.O Regulamento Disciplinar, chamado Amarelinho é analisado pelaimprensa. Alguns artigos do regulamento chamam a atenção pelo que têm dearcaico. Exemplos: os praças têm que pedir permissão para casar enquanto queao oficial basta apenas comunicar. É proibido recorrer à Justiça sobre qualquerdireito individual. Até o tipo de guarda-chuva usado pelo policial é definidopelo regulamento. A falta de um botão na farda ou um bigode maior que opermitido pode levar à prisão do policial. Enquanto um cidadão comum só podeser preso mediante flagrância ou ordem judicial, o policial militar pode ser presopela simples vontade do comandante. É proibido ao policial contrair dívidassuperiores à sua capacidade de pagamento, ao mesmo tempo em que ele éobrigado a sustentar condignamente sua família.É comum a presença de credores dentro dos batalhões. O interessante éque o Estado é um dos maiores devedores das praças. A PM não paga seusfornecedores mas pune um policial quando ele atrasa os pagamentos de suasdívidas.
  51. 51. 51A ameaça do secretárioO Comando informa ainda que estuda convênios com a Secretaria Estadualde Habitação para financiamento de moradias específicas aos policiais.Outro convênio em estudos, com a Fundação Roberto Marinho, permitiriaa abertura de salas de aula nos quartéis, para os policiais que quisessemestudar.No dia 21, o governador volta da Europa e anuncia um abono de R$ 102,00para policiais civis e militares. O secretário da Casa Civil, Agostinho Patrus,afirma que é o valor máximo que o Governo chegará. Numa das reuniões, queacontece no Palácio dos Despachos, com a presença do comandante-geral, osecretário aponta o dedo em tom de ameaça para o meu rosto e diz:“O Governo não vai agir sobpressão, nem que cinco mil, dez milou quarenta mil policiais armadosestejam nas ruas.”A ameaça é gravada pelo repórter cinematográfico Mário, da TV Minas,que estava na sala fazendo imagens. A informação circula entre a imprensa.Depois, em entrevista coletiva, o secretário desmente o clima de hostilidadena reunião e acusa a imprensa de ter feito gravações indevidas.
  52. 52. 52A Força Legalista (Forleg)O Comando cria a Força Legalista (Forleg), formada por tropas do interior,alunos da Academia e alguns policiais da Capital, que eram procurados poroficiais para participarem da Força. Eles recebem a promessa de condecoraçõese promoções a graduação imediata caso aceitem.Os líderes rejeitam o abono e mantêm a reivindicação inicial de R$ 800,00de piso.Neste mesmo dia são destituídos os comandantes de Policiamento daCapital, Coronel José Guilherme do Couto, e do Estado Maior, CoronelHerberth Magalhães.No dia 22 de junho, novos chefes assumem os postos no Comando dePoliciamento da Capital e no Estado Maior. O comandante-geral convocaimediatamente a Comissão e apresenta os novos comandantes, o Coronel EdgarEleutério Cardoso que assume o CPC e o Coronel Osvaldo Miranda da Silva,a chefia do Estado Maior. Nesta reunião com a Comissão representativa, o novochefe do Estado-Maior assume uma postura de linha-dura, dizendo que nãovai tolerar indisciplina e cumprimenta um a um os integrantes da Comissão,com um forte aperto de mão e olhar ameaçador.O comandante-geral informa que o abono de R$ 102,00, que elevaria osalário para R$ 517,00, seria o valor máximo que o Governo chegaria. A partirdeste momento, segundo ele, estão encerradas as negociações em torno dossalários. Ele ordena à Comissão que levasse o valor à tropa como um pontofinal para o impasse.Eu disse ao comandante que cumpriria a ordem, levando este valoraos praças, mas já adiantei que era quase impossível a aceitação destesalário pela tropa.O chefe do Estado-Maior diz então que confiava na Comissão e que oproblema era meu.
  53. 53. 53Troca de comando no BPChoqueTroca de comando também no Batalhão de Choque. Cai o tenente-coronelCarlos Roberto Cançado e assume o tenente-coronel Maurício dos Santos.A missão dos novos comandantes, considerados linha-duras: conter omovimento dos praças que a esta altura já se alastrou por todo o Estado e poroutras capitais brasileiras. Toda a cúpula da PM passa o final de semanareunida, traçando estratégias com os comandantes de batalhões para esvaziara próxima assembléia marcada para a terça-feira.Para os praças, é indiferente a nomeação de qualquer um dos coronéis.Queremos uma nova postura por parte do Comando e salário no bolso. Nomesnão interessam.Os telefonemas do interior para o meu telefone celular não param. Váriosônibus já se deslocam para a Capital. As unidades do interior enviamrepresentantes e prometem acatar as decisões da assembléia.Os comandantes deixam para informar na véspera da assembléia que estáproibida a participação de policiais que estiverem em serviço. Também proíbemo uso de armas e de fardas. Os policiais que quiserem participar terão que ir àpaisana, por ordem dos comandantes.Nos quartéis, os PMs continuam a denunciar represálias. Segundo asdenúncias, estão recebendo ameaças dos comandantes de que serão presosse comparecerem à assembléia. Ao mesmo tempo, PMs do interior formamcaravanas para chegar à Belo Horizonte no dia 24. Os líderes acreditam quemais de 3 mil policiais vão comparecer à assembléia.No dia 23 de junho, véspera da assembléia, o Boletim-Geral da PolíciaMilitar informa que a Comissão de negociação dos praças terá caráterpermanente. A Comissão terá o papel de intermediar as discussões entre ocomando e os praças. A nomeação oficial da comissão e sua aceitação peloComando tem o objetivo de evitar a quebra de hierarquia na Corporação. Deacordo com a designação oficial da Comissão pelo comandante-geral:“Eles estão autorizados a manter contatos com a Chefia do Estado-Maior,para representar os interesses dos praças da Corporação sobre políticas derecursos humanos e de promoção social”.
  54. 54. 54Mais guerra sujaO CFAP – Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças étransformado em um grande cartório onde os alunos dos cursos de formaçãoe aperfeiçoamento de sargentos são dispensados. Caso houvesse prisões emflagrante, dos manifestantes, eles seriam levados para lá para prestaremdepoimento.Os praças do 13° BPM enviam uma carta às Comissões de DireitosHumanos da Câmara Municipal e da Assembléia Legislativa pedindo quevisitem os quartéis e verifiquem as condições das cadeias onde eles ficamtrancados por qualquer motivo.Na véspera da assembléia, cartas apócrifas circulam entre os PMs, comsupostas críticas aos integrantes da Comissão e desmobilizando a assembléia.Uma carta de um suposto soldado arrependido, de codinome Pedrão, pedeaos policiais que não façam mais movimentos de rua e voltem a trabalhar sembaderna. Ele se diz arrependido dos crimes que cometeu ao participar da grevee da passeata.As cartas tinham o objetivo de desmobilizar a assembléia. Elas forampreparadas, por ordem do Comando, como se os autores fossem praçasarrependidos de terem participado do movimento. Mas houve um grave erro.A linguagem usada não era depraças e sim de oficiais. Colocaramerros de português grosseiros.Dois dias antes delas começarem a aparecer, eu já tinha conhecimentode que seriam usadas no interior dos quartéis porque tinha informantes dentrodas reuniões do Alto Comando, assim como eles tinham informantes entre ospraças. Garanto que as informações são fidedignas porque me foram passadaspor pessoas insatisfeitos com os rumos definidos e decisões tomadas pelopróprio comandante-geral. É fato de conhecimento geral entre praças e oficiaisque existe uma rixa muito forte entre os coronéis pela disputa de poder. Alerteios integrantes da Comissão sobre essas cartas apócrifas para que jáestivéssemos preparados.
  55. 55. 55As ameaçasAlém das cartas estávamos recebendo ameaças de morte ou de seqüestro.No meu caso, foi feita uma ligação para um vizinho, quando uma pessoa, seidentificando como amiga, pediu o endereço da escola de minha filha, afirmandoque a buscaria, a meu pedido. O vizinho, desconfiado, disse que chamaria minhamulher para dar o endereço. A pessoa desligou imediatamente. Minha filhatinha um ano e três meses, na época, e não estava na escola. Recebi aindavários telefonemas de madrugada, com ameaças de morte. Em um destestelefonemas, a pessoa disse que na véspera da assembléia, no dia 23, haveriauma invasão em minha casa. Tive que tirar minha filha de casa e enviá-la paraum lugar escondido no interior. Em qualquer lugar por onde andava, era seguidopor oficiais do serviço secreto da Polícia Militar, a famosa P/2. Essa vigilânciaacontecia 24 horas por dia. Seguiam meus passos a todo momento.O Governo afirma que estão encerradas as negociações com os policiais.O abono de R$ 102,00 é a última proposta.A grande assembléiaChega o dia 24 de junho. Todas as atenções estão voltadas para o Clubede Cabos e Soldados onde os policiais já começam a se concentrar para aassembléia. Começam a chegar policiais dos quartéis do interior e da Capital.A ordem do Comando de que não poderiam participar policiais fardados ouem serviço é desobedecida. Boatos de uma possível invasão do Exército noclube começam a correr. Os ânimos se exaltam. Os bombeiros do 2° BBM e ospoliciais do 18° BPM de Contagem chegam em passeata e são saudados peloscolegas.O Coronel Seixas comparece novamente, permanecendo em trajes civis eescondido. Vários P-2 estão infiltrados na assembléia por ordem do Comando.Muitos, apesar de terem recebido ordens do Comando, participam como agentes
  56. 56. 56duplos. O que eles fazem, na verdade, é levar informações do Comando paraos praças. Até alguns oficiais da P-2 repassam informações ultra-secretas aoslíderes dos praças, como a confecção das cartas apócrifas e a ordem paragrampear telefones, que partiu do Exército. Os líderes do movimento continuamsendo seguidos 24 horas por dia. As fichas funcionais dos líderes estão sendoanalisadas na sede da PM-2, a chamada Fazendinha, por causa de sualocalização, escondida em um local ermo dentro do 5° BPM. Ao contrário daP-2, que é o serviço secreto dos batalhões, a PM-2 é o serviço secreto de todaa Polícia Militar e tem a função de fiscalizar e observar todos os policiais,inclusive oficiais. Os agentes foram treinados no extinto SNI (Serviço Nacionalde Informações).A assembléia começa tensa. Mais de três mil policiais estão na sede doclube. Não há tropa de repressão visível nas proximidades, mas os praças estãoatentos a todas as informações e mantêm vigilância na região e nas portarias.O Coronel reformado William daCosta Baía, ex-comandante doBPChoque, tenta entrar no clube etoma uma vaia logo na escadaria.Sai fora! Gritam os policiais.Subi no palanque e passei as informações dos resultados das negociaçõescom o Governo, as vitórias conquistadas e a decisão do Governo de bater omartelo e fechar as negociações em torno do abono de R$ 102,00 o que davaum piso de R$ 517,00. Por unanimidade, os policiais rejeitam a proposta ecomeçam a gritar: Prá fora, prá rua!. A muito custo, consegui segurar ospoliciais por 10 minutos, para tentar reabrir as negociações
  57. 57. 57Prisão por telefoneTelefonei para o chefe do Estado-Maior, Coronel Miranda e comuniqueia decisão da assembléia.– Coronel, pelo amor de Deus, tente reabrir as negociações com oGoverno. Os praças não aceitam o abono e vão para as ruas.Em desespero, o Coronel responde:– Segure este pessoal aí, não brinque com a lei. Vocês não podem ir paraa rua de jeito nenhum.–Nós já estamos indo, não há como segurar-nos.–Então você está preso em flagrante!–Tudo bem, mas isto não vai adiantar. Eles estão indo, e eu voujunto.Procurei não comunicar à assembléia que estava preso em flagrante portelefone, temendo uma revolta generalizada. Eu me desloquei ao palanque econsegui fazer os policiais retornarem ao clube.Pedi calma e os informei dos perigos que poderiam acontecer a partir destasegunda passeata, como perseguições, retaliações e prisões. Pedi ainda queeles guardassem as armas dentro da farda e não as expusessem em momentoalgum. Mas a decisão de sair para as ruas já estava tomada e os policiaiscomeçaram a deixar o clube em passeata.Em frente ao 5° Batalhão e ao Batalhão de Trânsito a passeata pára e ospoliciais chamam os colegas para que aderissem ao movimento. Cerca de 3.500policiais seguiam pela avenida Amazonas. Alguns policiais que sabem dasameaças de morte insistem comigo para que coloque o colete à prova de balas,esquecido dentro do meu carro, estacionado em frente ao clube. Um sargentovolta de moto ao clube para buscar o colete.Toca o meu celular.Era o Coronel me desprendendo. Desta vez, ele não ordenou, e sim, mepediu, que a gente tentasse não deixar que a tropa seguisse até o Palácioda Liberdade. A praça já estava cercada pela Forleg nessa hora, mas euainda não sabia.
  58. 58. 58Polícia unida jamais serávencidaNo cruzamento com a avenida Barbacena chegam os policiais civis, quetambém tinham realizado assembléia no mesmo dia e decidido aderir à greve. Oencontro entre os policiais das duas Corporações acontece em tom de emoção,com gritos de saudação, abraços, e até choro de alguns policiais. O grito dePolícia unida jamais será vencida! ecoa pela avenida. Seis mil pessoas, entrepoliciais, parentes, aposentados e simpatizantes se dirigem para a Praça Sete,coração de Belo Horizonte.Os policiais apitam e carregam faixas com os dizeres:Queremos salário e não esmola.Queremos respeito pelos nossos direitos constitucionais; a Associaçãodos Delegados apoia irrestritamente o movimento dos policiais; chega dedivisão, queremos a unificação das polícias já e Somos por uma Polícia única.Os policiais gritam:Greve! Greve!
  59. 59. 59Na Praça Sete, acontece uma nova assembléia, tumultuadíssima. A maioriados policiais quer seguir para a Praça da Liberdade. Os líderes tentam encerraro protesto, mas não conseguem. Representantes dos policiais civis sãochamados para subirem e falarem, ajudando a conter os ânimos. Os líderes dospraças também falam, mas os manifestantes querem seguir em frente. Os líderesnão têm outra opção senão acompanhar a passeata. Às pressas, o Sindicatodos Trabalhadores da Construção Civil cede um carro de som para que aslideranças possam coordenar o protesto. Este mesmo carro de som já foiapreendido várias vezes por policiais militares durante as greves dosoperários.Por volta de 14hs., os repórteres são informados pelas redações que aPraça da Liberdade estava cercada por uma tropa também de PMs.Alguns sindicalistas da CUT chegam com as bandeiras vermelhas, já nasubida da avenida João Pinheiro. Os policiais rasgam as bandeiras e só nãoagridem os sindicalistas por minha interferência. Os policiais se recusam a darconotação ideológica ou política no movimento.Na subida da avenida João Pinheiro, tomei conhecimento de que haviauma tropa repressora cercando a Praça da Liberdade. Pedi a dois policiais damanifestação que fossem rapidamente ao QCG e implorassem ao comandantedaquela tropa para retirá-la. Os policiais foram orientados a lembrar aocomandante que na primeira passeata, no dia 13, não havia tropa repressora etudo correu tranqüilamente. Eu temia um confronto. Os policiais foram correndona frente e retornaram com a resposta: o Comando afirmara que todas asmedidas necessárias já tinham sido tomadas e que não retiraria a tropa.Em frente ao Detran a passeata parou e chamamos os policiais civis paraengrossarem o movimento. Desta vez, dezenas de policiais deixam o prédio doDetran e acompanham a passeata.
  60. 60. 60Polícia contra políciaA passeata chega à Praça da Liberdade. Logo no início do contorno dapraça dá para avistar a tropa de repressão, com policiais de capacetes brancos,de choque, armados, postados ao longo do Palácio da Liberdade e do prédiodo QCG. Outra tropa, dentro dos jardins do palácio, usa capacetes pretos,conhecidos como formigões. Uma terceira tropa vem correndo, em formaçãode choque, para fortalecer o cordão de isolamento. Quinhentos cadetes epoliciais do interior integram a Forleg, ou tropa da legalidade, como foidenominada pelo Comando. Os manifestantes são mais de 6 mil.Eu desci do carro de som e pedi calma aos manifestantes. Pedi que oprotesto fosse encerrado e que os policiais voltassem. A passeata continua aavançar. Na esquina com avenida Bias Fortes, acontece o primeiro incidenteentre os policiais dos dois lados. Começa um empurra-empurra, ombro a ombro.A tropa de repressão representa um desafio para os policiais que estãoManifestantes chegam à Praça da Liberdade e encontram a Força Legalista
  61. 61. 61protestando. O tumulto aumenta e os policiais avançam sobre a Forleg, quetem que recuar. Quando a situação se agrava, o comandante de policiamentoda Capital, Coronel Edgar Eleutério, que está no Comando da Forleg, em frenteao Palácio da Liberdade, é puxado pelo braço pelo comandante do 1° BPM,tenente-coronel Antônio Luiz, e sai do local.Cadetes e oficiais arrancam os galões, que são jogados no chão. Eles semisturam aos manifestantes. A Forleg recua correndo para a frente do QCG. Otumulto aumenta. O jornalistas estão no meio da confusão. Algumas pessoasconseguem atravessar a barricada para entrar no prédio, mas a maioria fica retidanas escadas. Os oficiais estão à frente da Forleg, impassíveis. No Comandoda Forleg está o novo comandante de Policiamento da Capital, Edgar EleutérioCardoso, que se posta em frente à escada.Alguns integrantes da Forleg arrancam as braçadeiras brancas deidentificação da tropa e, desesperados, passam para o lado dos manifestantes,dizendo que estavam ali obrigados e não queriam o confronto. Dentro do prédiodo QCG, todos os andares estão ocupados por oficiais, portando armas degrosso calibre (fuzis, escopetas e metralhadoras). No alto do prédio,atiradores de elite estão em posição de tiro, com as armas apontadas paraos manifestantes.TiroteioVários policiais, civis, praças e oficiais, estão com armas na mão. Otumulto é generalizado. Começam os tiros. O cabo Valério de Oliveira, queestá com os manifestantes, ao meu lado, no alto da mureta, pede calma.O cabo Valério está exatamente aomeu lado, sobre a mureta e empoucos segundos, nós trocamos delugar, e ele ficou um pouco à minhafrente, ligeiramente abaixado, com orosto virado para a direita, aindapedindo calma aos colegas.
  62. 62. 62Estendi braços para a frente, sinalizando para conter a multidão, que querinvadir o QCG. O cabo Valério vê as armas, vira-se para a fotógrafa Isa Nigrie alerta: Cuidado, tem pessoas armadas aqui. Segundos depois, acontece oprimeiro tiro, e outro logo em seguida. Ele é atingido na cabeça pelo segundotiro e cai desfalecido. A fotógrafa registra a cena. Cinegrafistas tambémconseguem captar o instante em que o militar foi atingido.Acontecem outros disparos depois de 20 segundos, o que provocacorreria e debandada geral. Enquanto isto, o cabo Valério é socorrido por umgrupo de praças e oficiais, em meio à gritaria e confusão. Ele é levado paradentro do prédio. Do lado de fora, policiais e jornalistas deitam-se no chão.Novos disparos são ouvidos. No total, oito tiros são disparados.Vários colegas afirmam que ocoronel. Eleutério atirou.Um deles é o cabo Fernando, do 18° BPM:“Eu vi o cabo caindo e o coroneltrocando a arma com um cadete, elecom a arma que atirou na mão.”Policiais deitam-se no chão depois que começam os tiros
  63. 63. 63A Forleg recua para a portaria principal do QCG. Os manifestantes cercamo prédio. O cabo Valério é colocado numa viatura na garagem do QCG e levadopara o Hospital João XXIII, onde é internado em coma profundo.Depois dos tiros, vêm as pedras, atiradas de todas as direções, até dedentro do prédio. Uma delas atinge o vidro da Sala de Imprensa, provocandopânico nas policiais femininas, que correm para o banheiro. Uma oficial médicapede socorro à mãe pelo telefone celular. As funcionárias da limpeza deixam oprédio pela janela.O Coronel Eleutério foge pelo fosso que dá acesso à garagem. Umaviatura cheia de armamento pesado deixa o prédio em alta velocidade e éperseguida pelos policiais, que pensavam estar dentro dela o Coronel Eleutério.A situação se acalma.Fui cercado por policiais que me protegiam, inclusive usando tenerê(máscaras que cobrem todo o rosto, deixando de fora apenas os olhos), subino carro de som e voltei a pedir calma, que se concentrassem calmamente paraesperar, pois a Comissão seria recebida pelo comandante-geral.Quem atirou, atirou para me matar,pois o Cabo Valério não fazia parteda comissão. Atiraram na cabeça.Cabo Valério baleado na cabeça
  64. 64. 64Força legalista se posiciona à frente do prédio do comando da PMMGEu era o único dos seis mil policiaisque estava de coletes. Ele trocou delugar comigo cerca de cincosegundos antes do tiro.

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