A bolinha da discórdia!

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A partir de um dos episódios mais marcantes do período de campanha eleitoral para presidente no Brasil
em 2010 – reconhecido publicamente como caso ‘bolinha de papel’, este artigo analisa a relação entre verdade e
realidade no telejornalismo nacional, questionando como os noticiários expressam os acontecimentos e de que modo
podem influenciar na apreensão e proposição de sentidos dos sujeitos frente ao que os afeta e na confiabilidade das
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A bolinha da discórdia!

  1. 1. Confederación Iberoamericana de Asociaciones Científicas y Académicas de la Comunicación A bolinha da discórdia! Uma discussão sobre acontecimento, verdade e realidade no telejornalismo Antônio Augusto Braighi1Resumo: A partir de um dos episódios mais marcantes do período de campanha eleitoral para presidente no Brasilem 2010 – reconhecido publicamente como caso ‘bolinha de papel’, este artigo analisa a relação entre verdade erealidade no telejornalismo nacional, questionando como os noticiários expressam os acontecimentos e de que modopodem influenciar na apreensão e proposição de sentidos dos sujeitos frente ao que os afeta e na confiabilidade dasinformações de que têm acesso. Como caminho metodológico, apresenta-se uma estrutura que permite observar oconceito de verdade aplicado no jornalismo, imbricado por uma realidade televisual, influenciado ainda pelasperspectivas do acontecimento e pelos campos problemáticos que insurgem em razão de sua dinâmica. Concebe-seque cada sujeito será afetado de uma forma em seu quadro de experiências e que a extração de um sentido, e aanuência de uma verdade, dependerão não só da relação dos indivíduos com os media que trataram do caso, mas deposições prévias frente aos candidatos envolvidos, aos partidos, entre e diante ao que socialmente caracteriza termoscomo política, mídia, violência, e demais vetores, no Brasil e no mundo.Palavras-chave: Telejornalismo; Verdade; Realidade; Acontecimento.Abstract: Starting from one of the episodes more striking the period of electoral campaign for president in Brazil in2010 – recognized openly as case ‘bolinha de papel’ (paper ball), this article analyzes the relationship between truthand reality in the national TV journalism, questioning as the news expresses the events and how can influence in theapprehension and proposition of senses of the subject front to the that affects them and in the reliability of theinformation that have access. As methodological road, comes a structure that allows to really observe the conceptapplied in the journalism, imbricated for a reality of television, still influenced by the perspectives of the event andfor the problematic fields that emerge in reason of its dynamics. It is conceived that each subject will be affected in away in its frame of experiences and that the extraction of a sense, and the adhesion to a truth, they will depend notonly of the individuals relationship with it measured them that they were about the case, but positions previous frontto involved candidates, to the parties, among and before to the that socially characterizes terms as politics, media,violence, and other vectors, in Brazil and in the world.Keywords: TV Journalism; Truth; Reality; Event.1. INTRODUÇÃO O dia 20 de Outubro de 2010 marca um dos acontecimentos mais reverberados nacampanha eleitoral para presidente da república no Brasil daquele ano. Após um tumultoenvolvendo representantes do PSDB e militantes do PT, o presidenciável José Serra, que faziacaminhada política na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro, foi atingido na cabeça porobjeto(s), supostamente atirado(s) por manifestantes petistas. Era o início de um evento que1 Antônio A. Braighi é especialista em Imagens e Culturas Midiáticas (UFMG) e mestre em Estudos de Linguagens (CEFET-MG). E-mail: antonioaugustorp@yahoo.com.br 1
  2. 2. repercutiria, intensamente, nos media, na própria campanha eleitoral, nos debates entre eleitoresnas ruas e na internet, e em muitas outras esferas. No mesmo dia, o Jornal Nacional, da Rede Globo, apresentou uma reportagem2 querelatava o caso, frisando que o candidato havia interrompido uma atividade de campanha após tersido “agredido num tumulto iniciado por militantes do PT”. O vídeo mostra o momento em quecomeça a confusão entre correligionários dos partidos rivais. Porém, reproduz fotos da agressãoao candidato, tiradas após ter sido atingido, com as mãos postas à cabeça, em meio à confusão. A reportagem indica que Serra teria sido atingido por uma bobina de fita crepe. Mas, namesma noite, outro telejornal – o ‘SBT Brasil’, exibiu matéria 3 que trazia imagens do momentoem que o peessedebista é atingido por, segundo propõe o âncora da atração, um “objeto nãoidentificado”. Contudo, como indica o responsável pela reportagem, o jornalista MarcoAlvarenga, é possível ver um objeto branco, que parece uma “bola de papel”, atingindo a cabeçado candidato. Indaga-se que esta matéria, de forma velada, ou não, dá a ver que, possivelmente,Serra teria simulado as dores na cabeça, ao indicar que o mesmo teria recebido uma ligação e,logo depois, volta a caminhar, aí sim, com a mão posta à cabeça. No dia seguinte, o mesmo Jornal Nacional apresenta outra matéria 4. Desta vez, trazia asimagens veiculadas pelo SBT, ratificando que o candidato teria sido de fato atingido por umobjeto mais leve. Contudo, também apresentava o registro feito via celular, onde é, propõe-se,possível ver o presidenciável sendo atingido também por outro objeto, circular, com entornotransparente, presumidamente um rolo de fita adesiva. Acredita-se, em meio à confusão de informações apresentadas, e o conflito frente a umapossível teatralidade, que as três reportagens, de modo complementar, fazem emergir amploscampos problemáticos, postos à mesa para a discussão dos sujeitos (QUÉRÉ, 2005). Um destescomplexos é justamente o que se refere à função, o compromisso e o modus operandi dos meiosde comunicação de massa, um dos objetos desta análise, tenuemente limítrofe com outros, taiscomo a luta pelo poder e as vinculações políticas, ideológicas e econômicas, entre outros. Em meio a estas colocações, questiona-se como, e com que intuito, os telejornais narramos acontecimentos e por meio de quais estratégias tentam constituir a verdade. Para tanto, serão2 Disponível em http://g1.globo.com/videos/jornal-nacional/v/jose-serra-interrompe-atividade-de-campanha-apos-ser-agredido-no-rio-de-janeiro/1360045/#/Edições/20101020/page/1, acessado em 05/01/2011 às 16h.3 Disponível em http://www.sbt.com.br/jornalismo/noticias/?c=1172, acessado em 05/01/2011 às 15h.4 Disponível em: http://g1.globo.com/videos/jornal-nacional/v/perito-analisa-suposta-agressao-a-jose-serra-no-rio/1360677/#/Edições/20101021/page/1, acessado em 05/01/2011 às 15h40. 2
  3. 3. analisadas as reportagens acima expostas e realizada uma reflexão de como os camposproblemáticos relacionados à política e aos media, entre outros, assim como os quadros deexperiência particulares, podem influenciar na apreensão e proposição de sentidos dos sujeitosfrente ao que os afeta e na confiabilidade das informações de que têm acesso.Com este propósito, autores de ordens distintas serão convocados para a discussão que ora sepretende desempenhar, apresentando-os em momentos oportunos. Não obstante, para escolher umcaminho metodológico, sugere-se uma estrutura que permita observar o conceito de verdadeaplicado no telejornalismo, imbricado por uma realidade televisual, influenciado ainda pelasperspectivas do acontecimento e pelos campos problemáticos que insurgem em razão de suadinâmica.2. A VERDADE NOS MEIOS A verdade é tema de discussão e desencontros na filosofia, e em tantos outros campos, hámuito tempo. Entre Platão e Aristóteles já havia a diferença. E, após o segundo ter fundado osteoremas fundamentais sobre a verdade, observações das mais diversas se apresentam, nos maisvariados cenários. Mas não é objetivo deste trabalho, levantar um plantel de autores e teoriasrelacionadas à verdade, mesmo por que seria preciso bem mais que um artigo para tanto, hajavista a amplitude e complexidade do tema. Ao modo de Cabral e Santana (2010), procura-se aquimais apresentar uma discussão adjacente a uma espécie de ‘verdade jornalística’. Todavia, algunsnomes como Foucault (2009) e Nietzsche (2007), trazem concepções que podem abrir adiscussão, tal como este, que se arrisca a dizer o que é, pois, a verdade, enquanto: um exército móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, numa palavra, uma soma de relações humanas que foram realçadas poética e retoricamente, transpostas e adornadas, e que, após uma longa utilização, parecem a um povo consolidadas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões das quais se esqueceu que elas assim o são, metáforas que se tornaram desgastadas e sem força sensível, moedas que perderam seu troquel e agora são levadas em conta apenas como metal, e não mais como moedas. (NIETZSCHE, 2007, p. 36-37). Mas onde então residiria a verdade? Segundo Nietzsche (2007), a verdade estaria nasuperficialidade humana, em sua subjetividade. O autor indica que o pathos universal aspira nãodiretamente à verdade, mas a uma crença, uma confiança em algo ao qual se dá o valor deverdade. É nesse sentido que se estabelece a busca e a luta da sociedade por uma verdade, e nãoamplamente ao ato pela verdade. E esta fé, esta procura, é necessária aos indivíduos, haja vista 3
  4. 4. que, “do contrário [sem a/uma verdade], o homem viveria em eterno ofuscamento”(NIETZSCHE, 2007, p.72). A crença em algo verdadeiro se faz presente e é fundamental, tendoem vista que a busca pela verdade plena seria impossível, isso pois, “todo conhecimento surgepor meio da separação, delimitação e abreviação; não há conhecimento absoluto de umatotalidade” (NIETZSCHE, 2007, p.66). Outro autor que se debruçou sobre as problemáticas da verdade foi Foucault (2009).Dentre tantas outras abordagens sobre as implicações desta (CANDIOTTO, 2010), em suacélebre aula inaugural no Collège de France, há mais de 40 anos, registrou que um sujeito aopensar na vontade de verdade que rege as aspirações humanas, e que historicamente atravessou aformação dos povos, deixando na contemporaneidade sua marca, verá que a oposição verdadeirox falso se constitui como um complexo de supressão dos indivíduos. O autor dirá que a força daverdade é análoga àquelas arbitrárias e é mantida por todo um aparato institucional que as impõee as reconduzem, ainda que no nível do discurso. (FOUCAULT, 2009). Em diversas passagens de suas obras, Foucault demonstra que a verdade está atrelada aodiscurso que a apresenta, diante às vicissitudes das regras do contexto em que é produzido erecebido, assim como frente às mudanças sócio-culturais que se sucedem ao longo do tempo. Ojogo das verdades se dá também na legitimação de discursos autorizados, e na supressão deoutros, considerados falsos por seu desprestígio. Essas regras são aceitas, subjetivamente, pelopúblico, que as incorpora e as pratica rotineiramente, adotando valor de verdade aos discursosque são considerados válidos. (CANDIOTTO, 2010). Não obstante, as escolhas são individuais.Cada sujeito será afetado de diferentes formas pela verdade; assim, irá agir e pautar seu modo devida de acordo com a perspectiva que adotar. (DREIFUS; RABINOW, 1995). Diante as ideias apresentadas, e frente aos objetivos que ora se propõem, algunsquestionamentos saltariam aos olhos; poder-se-ia falar dos meios de comunicação de massaenquanto um dos responsáveis pela manutenção desta ordem da verdade, apresentada porFoucault (2009)? Se sim, fazer contundentemente uma afirmação como esta, não seria limitardemasiadamente a perspicácia humana? Não, pois não se trataria de dizer que os indivíduos estão submissos ao poder realmidiático, mas, sim, de levar em consideração que os media se constituem como um dosprincipais mecanismos de experimentação dos sujeitos com o mundo, ainda que de formamediada, e que há muito a esfera midiática se tornou um dos locais preferenciais para a 4
  5. 5. apresentação e discussão dos fenômenos sociais, ofertando chaves de leitura para a compreensãoda sociedade. (ECO, 1984; LUHMANN, 2005). Neste sentido, se estabelece a ideia de que, munidos da credibilidade da sua audiência, osmeios de comunicação de massa recebem a outorga da verdade. Contudo, esta se dá não nacrença em um oráculo midiático, que tudo sabe, mas na medida em que os media devem buscar averdade dos acontecimentos, por meio da narração dos fatos e do uso de estratégias que depõem afavor do que se apresenta. Acerca do tipo de verdade que mais se aplicaria ao jornalismo, Tambosi (2007) analisouas três principais teorias trabalhadas na epistemologia contemporânea e identificou que a decorrespondência é a mais adequada ao campo. Isso pois, esta perspectiva indica que a verdade deuma assertiva consiste em sua relação com o mundo, na equação linguagem-realidade. Para oautor, o jornalista deve fundamentalmente reportar fatos, o que implica a teoria dacorrespondência como preponderante. Há, contudo, a ressalva de que os fatos, por vezes, seapresentam a partir de versões inverídicas. Isto posto, podem-se confundir afirmações (tidasverdadeiras) com fatos. “Recordemos que qualquer coisa que torne uma afirmação verdadeira éum fato, e que o fato é sempre extralinguístico, isto é, esta fora da linguagem” (TAMBOSI, 2007,p.46). Tambosi (2007), ainda faz considerações sobre a apreensão do fato, e o modo como ossujeitos os relatarão, o que remonta à condição extralinguística daquele; ou seja, os fatos sãoestáveis, as narrativas sobre eles, não. A ideia que vem à tona é sobre a articulação de atoresdepoentes, que se arranjam nas reportagens, mas não se deve esquecer que o jornalista também éum intérprete do acontecimento, fazendo, junto com seus entrevistados, a sua construçãodiscursiva acerca do fato. Afinal, a notícia não é o fato propriamente dito, mas o que se diz sobreo fato: o relato. (LUSTOSA, 1996). Iluska Coutinho resume bem este quadro, quando indica que “[...] o que vemos impressonos jornais não é a voz dos fatos, mas de pessoas que participaram deles ou ainda que foramespectadoras dos acontecimentos, também uma categoria carregada de julgamentos eintencionalidades” (2004, p.9). A consideração da autora demonstra não só as fragilidades daverdade midiática, mas já apresenta pistas acerca dos campos problemáticos. E quantas outras dificuldades o jornalismo não tem para apresentar a verdade; nãobastassem estas, ainda há o fator tempo, a objetividade, o grau de profundidade no tratamento dos 5
  6. 6. temas, as limitações do sistema produtivo, entre outros. Ainda assim, e mesmo diante àperspectiva de Nietzsche (2007), para quem a verdade é um ideal inalcançável, o jornalista nuncadeve assimilar esta prerrogativa, com o risco, inclusive, de perder o rigor da apuração, o quecomprometeria, este sim, a confiabilidade das informações, conforme preceituam Cabral eSantana (2010). Para estas autoras, a busca pela verdade dos fatos se configura como uma dasprincipais perspectivas do profissional do jornalismo. Ainda assim, o que os meios de comunicação de massa apresentam, por maior que seja origor na apuração e afastamento do jornalista frente ao que narra, é apenas um fragmento darealidade social (CABRAL; SANTANA, 2010). A ‘verdade jornalística’, ainda que carregada doutópico ideal de pleno conhecimento das razões, consequências e características dos fatos, nãoalcança este propósito, apresentando apenas uma ideia de verdade. Além disso, por mais que adiscussão não se encerre aqui, se vê inebriada com as limitações do próprio conceito de verdade –amplamente discutido na seara filosófica, os percalços relacionados ao fazer jornalístico, o modocomo a própria recepção encarará a construção dos fatos, sendo mais determinante ainda o tipo derelação que estabelece com determinado veículo – ínterim este onde se poderia pensar nasimplicações do contrato midiático, e na própria dinâmica dos meios com a produção de uma espéciede realidade midiática particular.3. A REALIDADE DOS MEIOS O que significa falar da realidade? Entre tantas outras abordagens, buscamos referênciasna psicanálise para estabelecer uma compreensão básica do termo. Jorge (2010), resume à suamaneira o raciocínio de Lacan sobre a realidade, ao exprimir que ela é “simbólico-imaginária, éuma construção eminentemente fantasística que, para cada sujeito, faz face ao real inominável”(p.10). Neste contexto, o real apresenta-se enquanto unidade estável pura, que foge a qualquertipo de representação e estabelecimento de sentido, enquanto a realidade é uma construçãocognitivo-psíquica (e uma apreensão) de cada individuo – ainda que, em alguns pontos,compartilhada socialmente, frente ao mundo, baseada na linguagem. (JORGE, 2010; JOST,2009). A discussão, assim como a compreensão dos conceitos, é muito mais ampla do que sepode tratar aqui. Neste sentido, questiona-se então: o que significaria falar de realidade para atelevisão? Jost (2004; 2009) se arriscou a responder. Após longo levantamento, e do 6
  7. 7. estabelecimento de esquemas de compreensão de como se articula a (promessa de) realidadeneste suporte, dirá que “para saber como a televisão trata a realidade, não há outro caminho que aanálise dos programas, que nos dizem em que visão da realidade eles são fundados” (JOST, 2009,p.30). Ora, uma vez que se tratam aqui de matérias exibidas em um (sub)gênero televisivo bemdefinido, em que visão de realidade se fundem os telejornais? Segundo Duarte e Curvello (2009),“o discurso do telejornal constrói-se tomando como referência o mundo real, exterior à mídia;trata-se de uma meta-realidade, cujo regime de crença proposto é a veridicação” (p.69). Indaga-seaqui que esta meta-realidade telejornalística produz, ou amplifica, sentidos outros, externos,quando não extremos, frente aos acontecimentos que apresenta. Para Baudrillard (1991, p.105), por exemplo, “a informação devora os seus própriosconteúdos. Devora a comunicação e o social”, isso, por dois motivos: um relacionado àperspectiva de encenação da informação, imposta pelos meios de comunicação de massa ao tentarcomunicar algo – impondo sentidos outros à informação, e um seguinte que se pauta peladesestruturação do real, implementando um processo de entropia do social. Para o autor, os media estabelecem, a sua maneira, um tipo de (re)apresentação do real –e/ou da realidade social, instituída por meio de uma realidade própria aos veículos: virtual.(BAUDRILLARD, 1991). Baudrillard, inclusive, irá resgatar ideias de MacLuhan, para quem omeio é a própria mensagem, em alusão a esta dinamicidade dos media e à sua capacidade deinstaurar um processo de hiperinflação dos sentidos, a “hiper-realidade da comunicação e dosentido. Mais real que o real, é assim que se anula o real” (1991, p.105). Assim, para Gumbrecht (1998, p.262), há tempos se estabeleceu “uma realidadetelevisiva própria, que, desde o início, esteve tão ligada à realidade do espectador que,paulatinamente, ela a transformou e, nesse meio tempo, começou a substituí-la”. Concluindo que“faz todo o sentido dizer que a realidade televisiva, no final do século XX, torna-se uma realidadecotidiana”. Estas considerações fazem todo sentido para as perspectivas de Eco (1984), aodescrever detalhadamente a relação da ‘tevê’ e o público, interessando aqui, entre tantas outrasassertivas, a ideia de que estamos diante a uma “situação televisiva em que a relação entreenunciado e fatos se torna cada vez menos relevante no que diz respeito à relação entre verdadedo ato de enunciação e experiência receptiva do espectador” (p.191). O que estaria em jogo narealidade televisiva então seria a sustentação de autenticidade dos atos de enunciação, de 7
  8. 8. expressão do acontecimento, de narrativa e encenação da verdade, que se estabelecem pormotivos particulares àquelas emissoras que os articulam. Neste contexto, mais do que uma realidade outra, o que se apresenta com a solidificaçãodos media na sociedade contemporânea é um entrançamento rizomático das nuances midiáticascom o real. Este imbricamento, cada dia mais voraz, escurece a mediação do real e implantaoutras condições de realidade, (não)lugares virtuais. E, diante a esta premissa, para Baudrillard,seria “inútil sonhar com uma revolução pela forma, já que médium e real são a partir de agorauma única nebulosa indecifrável na sua verdade” (1991, p.108). Ainda assim, os media continuam a atuar como instituições sociais viris, sendoimprescindível então fazer questionamentos ao seu funcionamento e impacto na vida social.Porém, Baudrillard conclui que a articulação e a dinâmica do sistema se dá, justamente, deacordo com os anseios da sociedade; “é o que fazem as massas: remetem para o sistema a suaprópria lógica reduplicando-a, devolvem, como um espelho, o sentido sem o absorver. Estaestratégia [...] leva a melhor hoje em dia”. (1991, p. 111). Outros pesquisadores, tal como Martín-Barbero (2003), irão verificar e destacar estarelação dos meios com as aspirações dos sujeitos de outra forma – relativizada, no mínimo, demodo um tanto menos pessimista. E não se pode perder de vista as concepções destes autores;haja vista o que interessa nesta parte do trabalho, acaba sendo importante, para compreender omaquinismo de funcionamento desta realidade midiática, assumir que, de fato, este entendimentopassa por levar em conta por que, e com que propósito, se motiva este mecanismo: em razãodaqueles a quem se dirige e, de forma retroalimentativa, pelos quais se fundamenta – o público. Neste imbróglio, Baudrillard (1991) irá marcar de forma contundente a relação dos mediacom os acontecimentos, ratificando sempre que o envolvimento, principalmente da televisão,com um determinado episódio, modifica a ideia inicial a ser apresentada, provocando um prejuízoa essência do que de fato aconteceu, além de causar avarias para a sua percepção e experiênciados sujeitos com o caso.4. O ACONTECIMENTO E AS IMPLICAÇÕES DO CAMPO PROBLEMÁTICO Entende-se acontecimento aqui sob as perspectivas de autores tais como Quéré (2005),para quem estes episódios, tenham eles a dimensão que tiverem, configuram a experiência socialdos sujeitos, marcando seu tempo, e organizando estruturas como passado e presente, einfluenciando, inclusive, nas decisões e acontecimentos futuros. 8
  9. 9. O acontecimento é singular, de ordem paradoxal, acomete os sujeitos de modoindividualizado e inaugura – com efeito, uma nova forma de pensar e agir. Promove uma cisãonas formas de ver o que está à volta e, sobretudo, frente ao que se relaciona diretamente aoepisódio, ainda que este não tenha, ou não se consiga articular a priori, uma explicação.(QUÉRÉ, 2005; BRAIGHI, 2010). Nesse sentido, o acontecimento “é um fenômeno de ordem hermenêutica: por um lado, elepede para ser compreendido, e não apenas explicado, por causas; por outro, ele faz compreenderas coisas – tem, portanto, um poder de revelação.” (QUÉRÉ, 2005, p.60). O acontecimentorevela, ou traz à tona – propulsiona à arena de debates, justamente os elementos que serelacionam com as causas e consequências do que aconteceu (sejam estes já existentes, ouinstituídos pelo episódio). Quéré (2005) tratará destas questões como campos problemáticos. Os campos problemáticos constituem a trama da vida dos sujeitos, e também de toda umasociedade, num dado momento. São questões pendentes para as quais não se assimilam respostasimediatas, devido a sua complexidade. Por vezes, são amplos problemas, que se constituem porelementos complicados como crises, disputas, incoerências e discrepâncias de interesses,convivendo, quando não, convergindo, numa desarmoniosa relação interna. (QUÉRÉ, 2005). Quéré (2005) entende que, apesar destes problemas afetarem os indivíduos, muitas vezesestes não são discutidos de forma ampla. Mas, os acontecimentos, com sua força, trazem umasérie de questões à visibilidade pública. Os episódios da vida, “ganham um lugar em camposproblemáticos e servem, pelo seu poder de esclarecimento e de discriminação, de pivôs dosinquéritos que procuram e elaboram soluções.” (QUÉRÉ, 2005, p.72). E, em meio às “intrigas”, arranjadas no mundo, os sujeitos partem em busca deexplicações. Como foi dito, os acontecimentos afetam os sujeitos de modo individual,influenciando a compreensão e o modo de agir, a partir do quadro de experiências de cada um.Neste contexto, vale o registro de que “a individualidade do acontecimento não é determinada,apenas, pelas características da sua ocorrência como fato, mas também pelas reações e pelasrespostas que suscita, via uma compreensão e uma apropriação, seja qual for o suporte.”(QUÉRÉ, 2005, p.68) Neste ponto, vale lembrar que os media, são um dos campos privilegiados para aexperimentação – ainda que mediada, do mundo pelos sujeitos. Contudo, “a televisão contribuidecisivamente para a incomunicabilidade da experiência”, (GUIMARÃES; LEAL, 2008, p.7), 9
  10. 10. pois ainda que apresente os acontecimentos, faz isso de modo fragmentado, reduz o episódio aovisível, e lhe aplica a carga da realidade televisiva. Diante ao acontecimento, a operação dos veículos consiste em duas frentes: torná-loexplicável, por meio de narrativas. Contudo, é na outra vertente, a explicativa, que se amplia olado paradoxal deste, uma vez que o sentido pode tomar proporções ainda maiores. Elementosenvolvidos na produção, apresentação e recepção influenciarão no modo como os indivíduosfazem a leitura e serão afetados pela informação; “o que as notícias fazem é tentar dar conta,linearmente, de toda a dinâmica do acontecimento a partir de seus fragmentos, que sãoorganizados segundo o saber jornalístico”. (LEAL, 2009, p.93). Mas, não obstante ao enquadramento midiático e a influência deste na apreensão – e aténa produção, os acontecimentos mantém sua força e complexidade, instituindo-se comodesafiadores da ação e do fazer jornalístico. (LEAL, 2009). O acontecimento está presente emuma sofisticada (e embaraçada) teia, onde os fios dos campos problemáticos se cruzam e secompelem, na busca por um ajustamento utópico. E estas disputas se dão no emaranhado cognitivo dos sujeitos e nas esferas públicas; oepisódio faz constituir um jogo entre sujeitos (sejam eles cidadãos comuns ou autoridadespolíticas) e instituições, que interpelam seus discursos em uma arena contraditória. Isso pois, nãose trata aí da razão pura como norte, mas sim das impressões dadas a partir da maneira como aquestão afetará cada um em seus campos de experiência, imbuídos de sentidos particulares,emanados pela expressão do acontecimento e sua apreensão. (BRAIGHI, 2010). Neste contexto,“[...] trata-se, sobretudo, de qualidades que, em virtude do acontecimento, impregnam assituações que o envolvem, afetam e modificam os seus elementos constitutivos assim como asrelações entre eles, penetram e coloram tudo o que está implicado na experiência”. (QUÉRÉ,2005, p.68).5. NA VERDADE, O QUE ACERTOU O SERRA FORAM... Bolinhas de papel? Bexiga d´água? Não importa. O que abriu-me o couro, caiu como maçã de Newton. Despertou reflexão muito mais ampla. Tem alcance maior que objetos não identificados. (Mary G.) 10
  11. 11. Mary G. é o pseudônimo com o qual a jornalista Mariana Gross assina textos em umblog5. Em “Democracia”, postado em 24 de Outubro de 2010, a profissional relata suaexperiência ao ser atingida por uma pedra durante o tumulto apresentado nas matérias acima.Para além de qualquer tipo de reflexão teórica acerca dos contornos do acontecimento, podem virà superfície, com este breve trecho, algumas percepções, tais como, e principalmente: o poder derevelação do acontecimento e a forma como os sujeitos são afetados, direta e individualmente,pelos acontecimentos. Na sequência de seu raciocínio, Mariana dá a ver alguns dos campos problemáticosenvolvidos neste episódio, que emergem e, particularmente, “despertam reflexão muito maisampla”: a discussão sobre a liberdade política, o ir e vir, a exposição de ideias e a imprensa livre,cerceadas nesta situação pelas provocações e impedimentos impostos, além de pedras lançadas aesmo, por aqueles que diziam representar os partidos políticos. Afetadas pelo acontecimento, aspessoas saem da zona de conforto e se projetam em busca de respostas. O depoimento, mais da cidadã que experimentou a situação, do que da jornalista, servecomo uma chave de leitura para este caso. Os 27 comentários que esta postagem suscitou noreferido blog, também poderiam atuar como norteadores da discussão, haja vista que muitos semanifestaram pontualmente a respeito do caso. Contudo, esta veiculação de Mariana Gross naInternet, apesar de apresentar o seu relato, e demonstrar como um acontecimento está inserido emum outro, dito mais amplo em razão de suas implicações, é também um mecanismo de mediaçãodos internautas com o(s) episódio(s). Nesse sentido, é preciso pensar na afetação dos sujeitos pelos acontecimentos a partir dasedificações de sentido realizadas em cada meio. Os indivíduos, em maioria, experimentam osfenômenos sociais a partir da confecção da realidade social promovida pelos media. Há, contudo,um imbróglio, onde vetores de ordens distintas se entrecruzam. A realidade dos media, em razãode sua própria dinamicidade, esfumaça a ‘verdade’. Mas o que se pode falar da verdade, se o quese tem da verdade é só um fragmento, ou uma ideia compartilhada, sobretudo neste meio? Se averdade plena não existe, e na concepção de Nietzsche (2007) todo saber emana por meio doafastamento e abreviação (de uma edição?), tão pouco haveria de existir, também, no(tele)jornalismo.5 Suspirada: Um respiro literário. Disponível em: http://suspirada.blogspot.com. Acessado em 29/01/2011 às 21h. 11
  12. 12. Neste veículo, apesar da construção das narrativas fazer toda a diferença, as imagens são ocarro-chefe, conferindo a carga de verdade; “no telejornal, que utiliza a imagem como prova daexistência desse real, isso fica ainda mais evidente. O jornalista não só “fala o mundo”, mas tambémo mostra” (DAVID-SILVA, 2005, p.23). E a questão que ora se apresenta tem a imagem comoponto fundamental. Mas o que a imagem mostra? O que há de verdade nas imagens? Por outro lado, é preciso pensar que a combinação do texto icônico com o linguístico dá oajuste necessário para uma determinada expressão de sentidos, e que o seu alojamento em umdeterminado campo do saber sócio-cultural irá selar a ideia por detrás da narrativa jornalística.Um exemplo disso se dá quando o telejornal do SBT articula a proposta de que: José Serra haviasido atingido por uma bola de papel; entra em um veículo; anda neste por alguns metros(minutos); sai novamente; recebe uma ligação (não se sabe de quem) e, em seguida, coloca umadas mãos na cabeça e começa a andar, como se estive sentido dores. Apesar do telejornal nãoafirmar categoricamente, o que emana como compreensão seria: Serra foi orientado, ao telefone,a simular uma dor, tendo em vista que estava sendo gravado e, como aquele era um período decampanha, o candidato poderia ganhar a simpatia de alguns eleitores e ainda depreciar ocomportamento de seus rivais, afetando a imagem de sua adversária? Não se pode dizer que sim, nem que não. Mas sabe-se que a simples presença dodispositivo cinematográfico no local (seja este de posse e operado pela mídia, ou os várioscelulares e câmeras digitais amadoras) influencia no comportamento dos sujeitos. Neste ponto, háuma série de acusações sobre a possível teatralidade do candidato, inclusive do próprio, entãopresidente, Lula, e da candidata Dilma6. Mas qual é a verdade aí? Quem, de fato, ligou para José Serra? E o que disse? E quandoligou? Antes ou depois da bolinha de papel? Antes ou depois do rolo de fita adesiva? Haveriarolo de fita adesiva? Se para Foucault (2009) a verdade está atrelada ao discurso que a apresenta,o que se tem neste episódio é um embate admirável, onde, aparentemente, não há vencedor. Nodia seguinte o Jornal Nacional apresenta matéria, com duração três vezes maior do que veicularaanteriormente, tentando desconstruir o processo cronológico veiculado pelo SBT (ou reconstituir,a sua maneira, ‘corretamente’, a cronologia do episódio). O que se tem é uma disputa pelaverdade entre as emissoras? Antes, nem todas as informações podiam ser ‘provadas’, vez que não6 Lula afirmou que Serra teria mentido, comparando a atitude do peessedebista ao goleiro chileno Rojas que, em 1989, em uma partida contra aseleção brasileira de futebol, simulou ter sido atingido por um foguete, ao passo que teria feito um corte no rosto, propositalmente, temendo quesua equipe fosse eliminada das eliminatórias para a Copa do Mundo de 1990. 12
  13. 13. se dão a ver pelas imagens, frente a sua possível inexistência – ausência do fato ou da imagem?Onde está a verdade? Emerge o discurso: O que dizem Serra e aqueles que dele estavam próximo (a maioria,representantes políticos), é que o candidato fora atingido por um rolo de fita adesiva. Mas um doscampos problemáticos é justamente sobre a verdade nos discursos dos políticos no Brasil,sobretudo no período de campanha. O que seria capaz de fazer um candidato a presidência que, jáno segundo turno, próximo ao dia da votação, está em segundo lugar nas pesquisas (outro campoproblemático: sua confiabilidade), com muitos pontos atrás de sua adversária? Questionamentodos indivíduos, de uma sociedade marcada pela corrupção e impunidade política. O candidato foi atingido por uma bolinha de papel! As imagens mostram isso. Verdade!Mas as imagens não podem provar que ele não foi atingido também por outro objeto. É precisoter provas: Depoimentos? Frágeis frente às imagens. Imagens? Só se tem das gravações de umcelular. Baixa resolução, pouca confiabilidade. Emerge novamente a necessidade do depoimento,desta vez de um especialista, que atestará a confiabilidade das imagens. Mas quem é o perito? 7 Foucault falará da legitimação de discursos autorizados, e do desprestigio a outros,considerados falsos ou, nesse caso, com relações diretas com os envolvidos (CANDIOTTO,2010). É o caso, por exemplo, das observações feitas por Lula sobre o médico que atendeu Serraneste episódio. Com o prestigio de cerca de 80% de aprovação popular 8, o presidente incita apossível simulação, ratificando que o Dr. Kligerman é ex-secretário de Saúde da administraçãoCésar Maia (DEM) e foi nomeado por Serra a cargo de confiança quando este foi ministro daSaúde9. Muitos outros discursos foram proferidos e rebatidos, na tentativa de legitimá-los ouquestioná-los; jogo de contra-argumentação incessante, realizado tanto em um nível macro (dastrocas entre os envolvidos na mídia) quanto local (na discussão entre os sujeitos). Mas no caso domédico, Lula toca nas vicissitudes de interesses e relações políticas, que é mais um dos camposproblemáticos, que configuram a complexidade de apreensão da questão, entre muitos outros. O7 Trata-se de Ricardo Molina, perito de vasto currículo profissional e acadêmico, tendo participado, na prestação de laudos e pareceres, de casosde grande repercussão no Brasil. Em alguns episódios, atuou de forma particular, a pedido de emissoras de televisão. Contudo, já forneceurelatórios discrepantes aos dos ‘peritos legitimados’, gerando contestação das instituições oficiais. Além disso, na internet , muitos se propuseram aquestionar a análise de Molina frente ao caso da “bolinha de papel”.8 Conforme matéria da Folha.com, disponível em http://www1.folha.uol.com.br/poder/820667-com-83-aprovacao-ao-governo-lula-bate-recorde-historico-mostra-datafolha.shtml, acessado em 05/02/2011 às 12h.9 As declarações de Lula ofenderam Kligerman, que entrou com um pedido de retratação pública no Supremo Tribunal Federal (STF). A petiçãofoi, contudo, arquivada pelo ministro Celso de Mello, informando que não havia qualquer ambiguidade ou dubiedade nas afirmações do presidenteda República. 13
  14. 14. próprio presidente, apesar do cargo e de gozar do apoio popular ao seu governo, tem o seudiscurso jogado ao desprestigio, vez que também é um interessado – este na vitória de usapartidária Dilma. Entre outros campos problemáticos envolvidos, também se pode falar da relação dosmeios de comunicação de massa. Este episódio, ao passo que demonstra, por um lado, limitaçõesdos telejornais, no que se refere principalmente aos erros e limitações na apuração, também fazemergir a crítica da sociedade frente ao programa da Rede Globo, considerada parcial epartidária, em inúmeras manifestações na internet, por exemplo, o que adensa ainda mais aextração de ideia de verdade frente ao que, de fato, aconteceu. Em 21 de outubro de 2010 um senhor de 68 anos foi alvejado na rua por uma bolinha depapel (e, conforme se afirma, também por um rolo de fita adesiva). Seria simples pensar assim.Mas a função social assumida por esta pessoa, seus interesses, as perspectivas contextuais, suarelação direta com os anseios de outros (de todo um país, por que não, de parte do mundo), e omodo como este caso foi tratado nos meios de comunicação de massa (levando em consideraçãoque os media atuam a partir de uma (re)construção da realidade de modo particular), ampliam pordemais os sentidos que poderiam ser extraídos do caso, complexificando a compreensão do casopor parte dos indivíduos. Independente disto, cada sujeito será afetado de diferentes formas em seus quadros deexperiência. A extração de um determinado sentido, e a anuência de uma verdade frente ao caso,dependerá de uma posição prévia dos indivíduos com os candidatos envolvidos, os partidos eseus partidários, os meios de comunicação que trataram do caso, entre outros, tais como a suarelação, por exemplo, com a liberdade de expressão e manifestação política (seja ela como for).Além disso, não só a disposição frente às partes, mas também diante ao que caracteriza termoscomo política, mídia, violência, entre outros, no Brasil, estarão em xeque quando os indivíduosforem processar o caso e suas implicações. A questão não se encerra aqui. Há muito mais a ser discutido, inclusive analisado, deforma mais pontual. O propósito, de colocar o tema em discussão, foi atingido, e servirá, indaga-se, enquanto referência para observações análogas, frente a acontecimentos que sempre se dão,rotineiramente, na dinâmica da vida social e dos media, fazendo emergir amplos e complexoscampos problemáticos. No mais, se compreende que a verdade nunca poderá ser extraída porcompleto, a realidade será sempre dependente e comungada socialmente em razão de um 14
  15. 15. determinado fim, e o mundo, nas palavras de Luhmann (2005), este “[...] jamais pode serobservado, menos ainda conhecido, pois toda observação produz, por meio de um ‘cruzamentoinexpresso’, um ‘espaço não marcado’, que ela não observa.” (p.156, grifos no original).REFERÊNCIASBAUDRILLARD, J. Simulacros e Simulações. Lisboa: Relógio D’água, 1991.BRAIGHI, A.A. Índices de produtividade rural: A revelação do problema pela força de umacontecimento público. Revista PJ:Br. VII, Ed. 13. Escola de Com. e Artes da USP, 2010.CABRAL, A.M.; SANTANA, A. O processo de construção da verdade no jornalismo:conceito, busca e método de apuração. SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores emJornalismo. VIII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo. São Luís: Univ. Fed. doMaranhão, 2010.CANDIOTTO, C. Foucault e a crítica da verdade. Belo Horizonte: Autêntica, 2010.COUTINHO, I. O conceito de verdade e sua utilização no Jornalismo. Anais do Celacom2004. Umesp: São Paulo, 2004.Disponível em: http://encipecom.metodista.br/mediawiki/images/2/2d/GT1Texto014.pdf,Acessado em 29/01/2011 às 19h30.DAVID-SILVA, G. A informação televisiva: uma encenação da realidade. Tese de doutorado.FALE/UFMG. Belo Horizonte, 2005.DREYFUS, H.; RABINOW, P. Michel Foucault, uma trajetória filosófica (para além doestruturalismo e da hermenêutica). Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.DUARTE, E.; CURVELLO, V. Telejornais: Quem dá o tom? In: GOMES, I.M. (org.). Televisãoe Realidade. Salvador: Edufba, 2009.ECO, U. Viagem na irrealidade cotidiana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.FOUCAULT, M. A ordem do discurso. 18ª edição. São Paulo: Ed. Loyola, 2009.GUIMARÃES, C.; LEAL, B.S. Experiência estética e experiência mediada. InTexto, PortoAlegre, v. 2, p.1-14, 2008.GUMBRECHT, H.U. Modernização dos sentidos. São Paulo: Ed. 34, 1998.JORGE, M.A.C. Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan: A clinica da fantasia. v.2. Riode Janeiro: Zahar, 2010.JOST, F. Seis lições sobre televisão. Porto Alegre: Sulina, 2004. 15
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