UNIVERSIDADE DE LISBOA             FACULDADE DE LETRAS   ÁREA DE LITERATURAS, ARTES E CULTURASA PALAVRA COMO ALICERCE DA N...
UNIVERSIDADE DE LISBOA              FACULDADE DE LETRAS   ÁREA DE LITERATURAS, ARTES E CULTURASA PALAVRA COMO ALICERCE DA ...
ii
A Palavra como Alicerce da NaçãoA afirmação da língua na construção discursiva da identidade eslovena© Silvia Valencich Fr...
iv
A Jože, Josip, Giuseppe e Josév
vi
Acredito que uma tese de mestrado seja o primeiro passo para o ingresso em um novouniverso, repleto de oportunidades, mas ...
viii
Resumo       Este trabalho propõe uma reflexão sobre o papel da língua e da literatura na construçãodiscursiva das identid...
x
Abstract       In this paper, we propose an analysis about the role of language and literature in thediscoursive construct...
xii
Índice1. Introdução                                             12. Os ‘novos’ nacionalismos do século XXI                ...
xiv
Índice de QuadrosQuadro 1 – Incidências de slovene no texto                                       53Quadro 2 – Incidências...
xvi
Introdução
2
A relação entre língua e identidade há muito suscita o interesse de quem se proponhaobservar a sociedade em que vivemos. D...
discurso carrega uma série de significados nem sempre evidentes, nem sempre intencionais.Repetimos como nosso o discurso a...
Assumindo como pressuposto que as identidades se constroem pela via discursiva, seráanalisado o discurso esloveno de const...
Os novos nacionalismos do século XXI              (Capítulo 1)                                                    Introduç...
A Palavra como Alicerce da Nação                                   8
Os novos nacionalismos do século XXIIntrodução       Nos últimos 20 anos, o mapa do mundo foi redesenhado inúmeras vezes p...
A Palavra como Alicerce da Nação        Por fim, aborda-se a questão das nações tardias, destacando-se algumas dascaracter...
Os novos nacionalismos do século XXIamálgama. Defender o Estado-nação significa defender um status quo, uma realidade soci...
A Palavra como Alicerce da Naçãoprincípio, favorece as comunidades locais  e suas respectivas elites  que mantêm contato...
Os novos nacionalismos do século XXIconstrução e disseminação de uma determinada identidade. Dizendo de outra forma, atua ...
A Palavra como Alicerce da Naçãode hoje. Parece mais razoável interpretar a declaração acima como indicativa de uma mudanç...
Os novos nacionalismos do século XXI       Nesse cenário, a extensão e os limites dos territórios nacionais ganham novosco...
A Palavra como Alicerce da Naçãoque produziriam a nação, definida pelo autor como sendo uma “comunidade políticaimaginada”...
Os novos nacionalismos do século XXI       Embora a diferença se faça sentir na alteridade, no contato com o outro, import...
A Palavra como Alicerce da Naçãosociedade, em rede, como propõe Castells (1997: xxix), cuja forma é resultante da “revoluç...
Os novos nacionalismos do século XXImovimento contínuo e acentuado de mudança. A língua e sua cultura surgem como referênc...
A Palavra como Alicerce da Naçãoincessantemente no tecido social, num processo colaborativo – ora consciente ora não – no ...
Os novos nacionalismos do século XXItransformam a nação em marca, tensões provocadas pelos movimentos migratórios, cenário...
A construção discursiva das identidades nacionais                    (Capítulo 2)                                         ...
A Palavra como Alicerce da Nação                                   24
A construção discursiva das identidades nacionaisIntrodução        No domínio dos processos de construção identitária, a p...
A Palavra como Alicerce da NaçãoA construção discursiva das identidades nacionais        É possível refletir sobre a quest...
A construção discursiva das identidades nacionaisidentidade nacional, tais esboços não passam de caricaturas, são incapaze...
A Palavra como Alicerce da Naçãoprocesso de criação de suas múltiplas identidades, de forma mais ou menos consciente, deac...
A construção discursiva das identidades nacionaisporque termina com a conclusão daquela interação processual; é múltipla p...
A Palavra como Alicerce da NaçãoUnião Europeia aceita, num processo que foi concretizado em 2004. Com um território depouc...
A construção discursiva das identidades nacionaispráticas linguísticas vivenciadas dentro das fronteiras do país. Como afi...
A Palavra como Alicerce da Nação“luta pela instauração, sustentação e universalização de discursos particulares” (Ramalho ...
A construção discursiva das identidades nacionaisrepresenta uma possibilidade de acesso a esta. Como afirma Gouveia (2009:...
A Palavra como Alicerce da Naçãodiscutida em contornos bastante gerais neste capítulo. Dentre as ferramentas disponíveis n...
Análise do texto: aspectos de textualização                 (Capítulo 3)                                                  ...
A Palavra como Alicerce da Nação                                   36
Análise do texto: aspectos de textualizaçãoIntrodução       Neste capítulo, será apresentado e discutido o texto seleciona...
A Palavra como Alicerce da NaçãoEstratégias de atração e convencimento        Antes de mais nada, é preciso ter em conta q...
Análise do texto: aspectos de textualização       During the long centuries without independence, despite the downdraft of...
A Palavra como Alicerce da NaçãoIntrodução à Eslovênia via coordenadas geográficas        As referências à posição geográf...
Análise do texto: aspectos de textualizaçãoassim, o presente, marcado pela autonomia e liberdade, pela afirmação da nação ...
A Palavra como Alicerce da Nação        Em outro momento, a menção à Europa ocidental surge num contexto de tentativa deap...
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
A palavra como alicerce da nação   21.02.12 - creative commons
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

A palavra como alicerce da nação 21.02.12 - creative commons

998 visualizações

Publicada em

0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
998
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
2
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
1
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

A palavra como alicerce da nação 21.02.12 - creative commons

  1. 1. UNIVERSIDADE DE LISBOA FACULDADE DE LETRAS ÁREA DE LITERATURAS, ARTES E CULTURASA PALAVRA COMO ALICERCE DA NAÇÃO A afirmação e valorização da língua na construção discursiva da identidade eslovena Silvia Valencich Frota MESTRADO EM CULTURA E COMUNICAÇÃO 2012
  2. 2. UNIVERSIDADE DE LISBOA FACULDADE DE LETRAS ÁREA DE LITERATURAS, ARTES E CULTURASA PALAVRA COMO ALICERCE DA NAÇÃO A afirmação e valorização da língua na construção discursiva da identidade eslovena Silvia Valencich Frota Tese orientada pelo Prof. Doutor Carlos A. M. Gouveia MESTRADO EM CULTURA E COMUNICAÇÃO 2012
  3. 3. ii
  4. 4. A Palavra como Alicerce da NaçãoA afirmação da língua na construção discursiva da identidade eslovena© Silvia Valencich Frota, Faculdade de Letras de Lisboa, Universidade de Lisboa, 2012A Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e a Universidade de Lisboa têm licença nãoexclusiva para arquivar e tornar acessível, nomeadamente através do seu repositórioinstitucional, esta dissertação/tese, no todo ou em parte, em suporte digital, para acessomundial. A Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e a Universidade de Lisboa estãoautorizadas a arquivar e, sem alterar o conteúdo, converter a tese ou dissertação entregue, paraqualquer formato de ficheiro, meio ou suporte, nomeadamente através da sua digitalização,para efeitos de preservação e acesso. iii
  5. 5. iv
  6. 6. A Jože, Josip, Giuseppe e Josév
  7. 7. vi
  8. 8. Acredito que uma tese de mestrado seja o primeiro passo para o ingresso em um novouniverso, repleto de oportunidades, mas também de indefinições. Nesse processo, o papel doorientador é fundamental. Agradeço ao meu orientador por seu interesse e sua disponibilidade,pelas leituras e revisões sucessivas e cuidadosas deste trabalho, pelo aprendizado. Admiro suahabilidade em conciliar a tarefa da orientação com o estímulo intelectual e a liberdadenecessários à realização de um trabalho como este, respeitando sempre as diferenças depercepção e as minhas capacidades e limitações. vii
  9. 9. viii
  10. 10. Resumo Este trabalho propõe uma reflexão sobre o papel da língua e da literatura na construçãodiscursiva das identidades nacionais a partir do estudo de caso da Eslovênia. Com esse objetivo,é analisado um texto da autoria de Mitja Čander e Aleš Šteger, que serve de introdução ao livroAngels Beneath the Surface: a Selection of Contemporary Slovene Fiction, editado por TomPriestly. Trata-se de uma antologia de contos eslovenos, publicada em inglês, em 2008, quereúne textos escritos entre 1990 e 2005. O ponto de partida consiste numa breve discussão a respeito das novas perspectivasadotadas pelas atuais teorias sobre os nacionalismos, especialmente a partir do final da segundametade do século XX. Adota-se a perspectiva da construção discursiva das identidades, entreelas, a identidade nacional. A opção metodológica incide sobre as possibilidades e ferramentasoferecidas pela análise do discurso, especialmente pela Linguística Sistêmico-Funcional. O discurso identitário esloveno, que se depreende da análise do texto, caracateriza-sepor uma forte associação entre a criação e preservação de uma identidade nacional e aafirmação e valorização da língua e da literatura eslovenas. Exemplo disso é a exaltação dafigura do poeta romântico France Prešeren (1800-1849), apontado como um dos grandesartífices da língua e defensor da ideia nacional. O Dia da Cultura, também chamado de Dia dePrešeren, é considerado feriado nacional e comemorado no aniversário da morte do poeta, nodia 8 de fevereiro. O recurso à língua comum como elemento fundante de uma pretensa identidadenacional não é novo, nem exclusivo da Eslovênia. Ainda assim, ele assume novos significadosem face do cenário atual, em que a conquista de visibilidade internacional e a efetiva integraçãoda Eslovênia na União Européia ganham prioridade na agenda do país. Palavras-Chave: Análise do Discurso, Eslovênia, Identidade Nacional, Língua,Literatura ix
  11. 11. x
  12. 12. Abstract In this paper, we propose an analysis about the role of language and literature in thediscoursive construction of national identities based on Slovenia’s study case. To reach thistarget, we analyse a text signed by Mitja Čander and Aleš Šteger introducing the book intitledAngels Beneath the Surface: a Selection of Contemporary Slovene Fiction, edited by TomPriestly. It’s a collection of Slovene short prose, published in English, in 2008, gathering textswritten between 1990 and 2005. We start with a brief discussion about the new perspectives presented by the nowadaystheories about nationalisms, especially those arisen in the second half of the 20 th century. Thenwe clarify our affiliation to the discoursive constructions of identities perspective – amongthem, the national ones – and adopt the discoursive analisys as the theory and methodology ofthis study, especially the Systemic Functional Linguistics. Based on the analysis of the text, Slovene indentity discourse is marked by a strongassociation between national identity creation and preservation and the affirmation andevaluation of language and literature. One example of that is the exaltation of France Prešeren(1800-1849), the romantic poet considered the inventor of the national language and a greatdefender or the national idea. Culture’s Day, also named Prešeren’s Day, is considered anational Holliday and is cellebrated in the poet’s death anniversary. The appeal to language as a founding element of an intended national identity is notnew or exclusive of Slovenia. Still, it gets new meanings face the actual scenario where theneeds of international visibility and efective integration in European Union seem to be ademand for Slovenia. Keywords: Discourse Analysis, Language, Literature, National Identity, Slovenia xi
  13. 13. xii
  14. 14. Índice1. Introdução 12. Os ‘novos’ nacionalismos do século XXI 73. A construção discursiva da identidade nacional 234. O texto em análise: aspectos de textualização 355. O texto em análise: aspectos de representação 496. Confluências: representação, discurso e identidade 717. Conclusão 838. Referências 899. Anexo1 9310. Anexo 2 103 xiii
  15. 15. xiv
  16. 16. Índice de QuadrosQuadro 1 – Incidências de slovene no texto 53Quadro 2 – Incidências de slovene por categoria 53Quadro 3 – Incidências de slovene na categoria Língua 54Quadro 4 – Incidências de slovene nas categorias Estado e Sociedade 54Quadro 5 – Incidências de termos que remetem à Eslovênia e/ou à ideia de nação 56Quadro 6 – Incidências de literature no texto 57Quadro 7 – Incidências de literature modificada por um adjetivo 57Quadro 8 – Incidências de literary no texto 58Quadro 9 – Incidências de literature e de literary no texto 58Quadro 10 – Incidências de literary por categoria 59Quadro 11 – Registros de Slovenia ou Literature no papel de atores sociais 61Quadro 12 – Registros de escritores identificados e não identificados 62Quadro 13 – Incidência dos processos relacionais no texto 65Quadro 14 – Incidência dos processos relacionais identificativos e atributivos 67Quadro 15 – Incidência dos processos relacionais identificativos no texto 67Quadro 16 – Incidência dos processos relacionais atributivos no texto 68 xv
  17. 17. xvi
  18. 18. Introdução
  19. 19. 2
  20. 20. A relação entre língua e identidade há muito suscita o interesse de quem se proponhaobservar a sociedade em que vivemos. Desde a antiguidade que a língua surge como recurso deidentificação ou diferença, afinal, de acordo com a versão bíblica, foi com a multiplicação daslínguas e a consequente incapacidade de comunicação entre os homens que Deus teria punidoos responsáveis pela construção da famosa torre de Babel. Com o desenvolvimento dos meios e tecnologias de comunicação e o simultâneoavanço do processo de globalização, o universo humano se ampliou e modificaram-se osdesafios inerentes à necessidade de troca e contato entre as pessoas. Nesse cenário, a mesmalíngua que possibilita a comunicação entre um certo grupo de pessoas, constrange o espaço noqual estas atuam. A mesma língua que separa é a que une, aproximando aqueles que seentendem por meio dela e diferenciando-os dos demais. Neste trabalho, interessa observar a relação entre língua e identidade nacional. Numcenário global marcado pela multiplicação dos contatos e por disputas e conflitos ‘entre’ e‘intra’ nações, o discurso de associação entre língua e identidade nacional é recorrente. É esse ocaso da Eslovênia, uma das ex-repúblicas iugoslavas, que conquistou sua independência em1991. O discurso de emancipação nacional da Eslovênia é fortemente embasado na afirmaçãoe valorização de uma língua e literatura nacionais. A língua eslovena, e a cultura a elaassociada, serve de prova e origem de uma identidade nacional. Com a adesão à UniãoEuropeia, em 2004, a Eslovênia viu-se frente a um novo desafio, o da integração num universomarcado por uma ainda maior pluralidade de línguas e nações. O discurso esloveno de aparente vinculação entre língua e identidade não é novo, nemexclusivo. Ainda no século XIX, as unificações alemã e italiana foram, em parte, devedorasdele. Como entender, no entanto, a longevidade desse discurso face às teorias atuais sobre onacionalismo, que reiteradamente questionam essa relação? Mais do que isso, qual será osignificado desse discurso hoje, uma vez que o contexto no qual ele se insere é bastante distintodaquele vivenciado por France Prešeren (1800-1849), poeta romântico apontado como um dosprincipais idealizadores da nação eslovena, na primeira metade do século XIX? Uma possível abordagem para essas questões é assumir como ponto de partida que o 3
  21. 21. discurso carrega uma série de significados nem sempre evidentes, nem sempre intencionais.Repetimos como nosso o discurso alheio muitas vezes sem nos darmos conta disso. Outro modode dizer o mesmo é recorrer à forte carga ideológica dos discursos, lembrando que um dosmecanismos por meio do qual a ideologia opera é o da naturalização. Ao se naturalizar umdiscurso, deixa-se de questioná-lo. Sem questionamento, há poucas oportunidades de mudança. Claro que é possível abordar essas questões a partir de muitas outras perspectivas. Aquestão da identidade no contexto da modernidade tardia suscita muitos questionamentos. Numcenário marcado pelo acirramento da mobilidade, em sentido amplo, e pela velocidade dastransformações, seja no campo social, seja no campo tecnológico, e em que o paradigma dadescontrução parece vigorar, nada pode permanecer o mesmo. Perdem-se antigas referências eé necessário substitui-las. Mas tais discussões, por mais interessantes que sejam, estão alémdo âmbito deste trabalho. Se não há nada de substancialmente novo no discurso que vincula certa língua a certaidentidade nacional, talvez a novidade resida na maneira como percebemos esse discurso hoje eno modo como muitas vezes o encontrarmos impregnado em nossa própria fala. Nesse sentido,a análise crítica do discurso tem muito a contribuir, à medida que revela esses conflitos nointerior dos discursos. Com menos de 2 milhões de habitantes e ocupando um território de pouco mais de 20mil Km2, a Eslovênia não se impõe pelo tamanho ou pela força. A língua, razão e símbolo desua identidade nacional, ao mesmo tempo em que promove a união entre as pessoas ‘dafronteira para dentro’, separa a Eslovênia do contexto internacional em que ela precisa seintegrar. Nesse sentido, o recurso à afirmação e valorização da língua na construção discursivada identidade eslovena precisa ser reavaliado. Com esse objetivo e a título de exemplo ehipótese de trabalho, será analisada a introdução a uma coletânea de contos de autoreseslovenos contemporâneos (Priestly, 2008), traduzida para a língua inglesa e publicada em2008, nos Estados Unidos (vd. Anexo1). O ponto de partida será uma breve reflexão sobre o desenvolvimento dos nacionalismosna Europa para então se destacar as teorias da segunda metade do século XX, que provocaramgrande mudança na percepção sobre o tema, reconhecendo um caráter inventivo e/ouimaginado à ideia de nação (vd. Anderson, 1983; Gellner, 1964; Hobsbawm, 1990). Esse é ofoco do primeiro capítulo, onde também é discutido o papel das línguas na construção daidentidade nacional em face das questões trazidas pela modernidade tardia, assim como odiscurso das novas nações, ou seja, aquelas surgidas a partir do final do século XX, como é ocaso da Eslovênia. 4
  22. 22. Assumindo como pressuposto que as identidades se constroem pela via discursiva, seráanalisado o discurso esloveno de construção da sua identidade nacional. Esse é o tema emdestaque no segundo capítulo, que se inicia com o desenvolvimento do paradigma daidentidade como construção para, a seguir, abordar alguns dos conceitos básicos que orientam aanálise crítica do discurso. Em linhas gerais, apresenta-se a metodologia de análise que seráadotada, destacando-se o arcabouço de ferramentas e possibilidades oferecido pela linguísticasistêmico-funcional. No capítulo 3, inicia-se efetivamente a análise do texto. Os critérios definidos nessaetapa circunscrevem-se ao âmbito da textualização. A introdução é tomada em seu conjunto eas estratégias de apresentação do texto e de conquista do leitor são destacadas e analisadas, semse perder de vista a função que a introdução se propõe desempenhar, ou seja, a de apresentaruma coletânea de textos de autores eslovenos contemporâneos a um público de língua inglesa.O recurso a referências espaciais para apresentar a Eslovênia ao leitor, especialmente a partir dautilização de coordenadas geográficas, também é avaliado. Por fim, o texto é apresentado ediscutido em função de sua divisão e organização em blocos, onde determinados episódios epersonagens da história da Eslovênia e do desenvolvimento de sua língua e literatura são oradestacados, ora suprimidos. No capítulo 4, prossegue-se à análise do texto, mas, dessa vez, são os aspectos derepresentação que ganham destaque. O ponto de partida consiste na indentificação das palavrasmais utilizadas na introdução e na observação dos seus respectivos significados no interior dosgrupos nominais de que fazem parte. A seguir, são identificadas as passagens do texto em quelíngua/literatura, por um lado, e Eslovênia/nação, por outro, desempenham o papel de atoressociais, aplicando-se, com essa finalidade, uma análise de sua agenciação. Por fim, o foco daanálise se volta para a identificação dos processos relacionais e sua classificação emidentificativos ou atributivos, para melhor compreender as representações construídas ao longodo texto. Esta Tese se encerra com uma reflexão sobre os novos significados que o discursoidentitário esloveno parece assumir no contexto atual, marcado pela necessidade de integraçãona União Europeia e de conquista de visibilidade no âmbito internacional. Os desafiosenfrentados pela Eslovênia, e por boa parte dos países que hoje fazem parte da União Europeia,passam por evitar que a mesma língua que é considerada um dos fatores básicos de identidadenacional se transforme em barreira nesse processo de internacionalização. 5
  23. 23. Os novos nacionalismos do século XXI (Capítulo 1) Introdução Nações e nacionalismos: uma perspectiva histórica A invenção da nação: os discursos da modernidade Nações tardias: novas nações, velhos nacionalismos Síntese
  24. 24. A Palavra como Alicerce da Nação 8
  25. 25. Os novos nacionalismos do século XXIIntrodução Nos últimos 20 anos, o mapa do mundo foi redesenhado inúmeras vezes para dar vazãoao surgimento de novas nações, muitas delas decorrentes da desintegração do conjunto depaíses que formavam a antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) ou aIugoslávia não-alinhada ao comunismo de Moscou. Se, a princípio, tal fato não representa nadade novo na história do século XX, especialmente em função das redefinições relacionadas aocontexto das duas grandes guerras, como entender esse movimento hoje, à luz das questõesapresentadas pelo estudo dos nacionalismos, em que se apregoa o fim da era das nações(Hobsbwawm, 1990) e em que a Europa se encontra em processo de união e de busca deidentidades transnacionais? Se é verdade que nação, nacionalismo e identidade nacional são atualmente expressõesrecorrentes, é preciso lembrar que nem sempre foi assim. A ideia de nação é relativamenterecente e firma-se apenas a partir do final do século XVIII, significativamente marcada pelosmovimentos sociais que culminaram na declaração de independência dos Estados Unidos daAmérica, em 1776, e na revolução francesa, em 1789 (Anderson, 1983: 192). Para melhor compreender os contornos contemporâneos da expressão identidadenacional e no pressuposto de sua redefinição em nossa modernidade tardia (Giddens, 1991),neste capítulo, parte-se de uma breve reflexão sobre o desenvolvimento do conceito de naçãodesde o século XIX e especialmente ao longo da segunda metade do século XX e início do XXI,discutindo-se alguns dos conceitos de nacionalismo e identidade nacional relevantes para otrabalho. Os discursos da modernidade, em especial os decorrentes do processo de globalização e,de certo modo em resposta a ele, o de afirmação e valorização de uma suposta cultura nacional,servem de baliza para uma reflexão sobre a questão dos nacionalismos em que se explora arelação entre identidade e um certo modo de vida  único, homogêneo e exclusivo  sintetizadode modo abstrato no conceito de cultura nacional. Nesse processo, o papel dos sistemas deensino e de valorização de uma língua nacional ganha destaque, quer como ícone de uma dadacultura quer como fator de viabilidade para o processo de comunicação. 9
  26. 26. A Palavra como Alicerce da Nação Por fim, aborda-se a questão das nações tardias, destacando-se algumas dascaracterísticas gerais que marcam os discursos desses novos países. Em geral, consistem emuma reapropriação do passado e na afirmação de uma identidade nacional homogênea eincontestável. Em comum, esses novos países se apresentam como velhas nações centenárias caracterizadas, de modo geral, pela existência de uma língua e cultura próprias e originais ,que agora conquistam o reconhecimento, embora tardio, do seu caráter nacional.Nações e nacionalismos: uma perspectiva histórica A ideia de nacionalismo, em seus contornos atuais, tem as suas raízes no século XVIII,com Rousseau, Herder, Fichte e Korais, os quais, ao lado de Mazzini, são considerados os „paisfundadores‟ de teorizações cujos conceitos centrais giram em torno de três valores: autonomia,unidade e identidade (vd. Hutchinson & Smith, 1994: 11). Foi no século XIX, no entanto, que onacionalismo desempenhou papel fulcral. Daí autores como Bagehot, citado por Hobsbawm(1990: 1), identificarem esse período como a era do apogeu dos nacionalismos. Na perspectiva europeia, as revoluções de 1848  a chamada “primavera dos povos” com forte apelo nacionalista, ao lado da unificação italiana, em 1861, e alemã, em 1871, servemde medida para a importância e valorização da ideia de nação e nacionalismo nesse momento,independentemente dos seus significados. É nesse período que Renan (1882: 17) profere sua célebre conferência sobre a nação, aqual caracteriza como um princípio espiritual, ou seja, uma ideia abstrata, um valor: “a nation isa soul, a spiritual principle”. A nação representaria um valor suficientemente forte para unirpessoas e mobilizá-las ao sacrifício: “A nation is a grand solidarity constituted by the sentimentof sacrifices which one has made and those that one is disposed to make again” (ibidem). Partindo desse princípio, o autor considera que o único critério válido para definição deuma nação seria o seu desejo de permanecer unida: “The desire of nations to be together is theonly real criterion that must always be taken into account” (Renan, 1882: 17). Trata-se,portanto, de uma escolha livre e coletiva, sempre renovada, numa espécie de “plebiscito” diário(ibidem). A clara distinção entre Estado e nação, que transparece da definição de Renan, nãoimpede, no entanto, que tais conceitos sejam cada vez mais apresentados em conjunto. Com asobreposição das noções de Estado e nação, patriotismo e nacionalismo também se confundem.O Estado garantidor da vida social e a ideia de nação que com ele se identifica formam um 10
  27. 27. Os novos nacionalismos do século XXIamálgama. Defender o Estado-nação significa defender um status quo, uma realidade social,um modo de vida e, em alguma medida, defender os nossos interesses contra os interesses deoutros. É ainda no século XIX que o papel da língua no desenvolvimento dos nacionalismosganha relevância. Embora, de acordo com Anderson (1983: 196), até o final do século anteriora existência de uma língua comum não fosse frequentemente associada ao sentimento depertença nacional, essa situação começa a se modificar a partir do século seguinte,especialmente no que diz respeito às chamadas “línguas de imprensa” (print-languages). Com o desenvolvimento da tipografia e de um mercado cada vez mais baseado naprodução em massa e no incentivo à circulação de mercadorias, as possibilidades de produçãoem série e de comercialização de livros e jornais se multiplicam e ganham relevância comoatividade econômica. A escolha de uma entre as várias línguas disponíveis como sendo aquelaem que determinado material será produzido, ou seja, como uma língua de imprensa, representavantagens para os indivíduos que forem aptos a se expressar por via dela e desvantagens para osdemais. Além da língua ou dialeto locais, agora é preciso que o indivíduo seja capaz de secomunicar nessa outra língua para fazer parte de um novo e importante mercado consumidor,que, impulsionado pela lógica do capitalismo, cada vez mais se amplia. A promoção de umalíngua local à categoria de língua de imprensa implica, portanto, o alargamento do número defalantes e do espaço geográfico em que é praticada. As línguas de imprensa rapidamente passam a ser associadas ao processo de formaçãode uma consciência nacional (Anderson, 1983: 44 et passim). Tais línguas permitem areprodução e disseminação de ideias por um território alargado, ao mesmo tempo em queestabelecem espaços comuns de troca e comunicação numa língua distinta tanto do latimquanto das línguas orais – “(…) they created unified fields of exchange and communicationbelow Latin and above the spoken vernaculars” – e conferem uma nova “fixidez” à língua,promovendo, assim, novas línguas de poder, distintas das línguas de administração. As línguas de imprensa, dessa forma, promovem uma nova solidariedade, agoraampliada, pois não dependem mais do contato direto entre as pessoas, como no caso das línguasorais, e podem ser disseminadas pela reprodução em massa e circulação física do materialimpresso. O âmbito de circulação da língua de imprensa, ou seja, a definição dos contornosdesses “campos unificados de trocas e comunicação”, permite, mais uma vez, que se coloqueem funcionamento um mecanismo de identificação e diferença. Por fim, a configuração das línguas de imprensa como línguas de poder distintas daslínguas de administração permite que se estabeleça um novo equilíbrio de forças, o qual, a 11
  28. 28. A Palavra como Alicerce da Naçãoprincípio, favorece as comunidades locais  e suas respectivas elites  que mantêm contatopermanente, em detrimento, muitas vezes, dos centros de poder localizados em territóriosdistantes. O desmantelamento dos impérios otomano e austro-húngaro, no início do século XX, ea eclosão das duas grandes guerras que abalaram a conjuntura mundial compõem esse cenáriode confronto, ajustes, criação e redefinição de territórios nacionais ou de Estados-nação em queo mapa da Europa é redesenhado. Nas décadas seguintes, fortalecem-se, em relação deoposição, dois grandes blocos: o dos países de regime comunista e o dos países de regimecapitalista. É nesse período que o nacionalismo ganha outra roupagem, especialmente a partirdos trabalhos de Gellner, Anderson e Hobsbawm. Em comum, esses autores partilham a ideiade nação como uma espécie de ficção ou criação – uma comunidade inventada, para Gellner(1964: 62), ou uma comunidade imaginada, para Anderson (1983: 6). Mas a nação como comunidade imaginada só se torna possível a partir dodesenvolvimento de um sistema educativo ampliado (Hobsbawm, 1990), que permite a partilhade um substrato comum  valores, princípios, história, representações, interpretações  por umnúmero alargado de pessoas. Permite, em alguma medida, a ampliação da comunidade que seimagina como una e homogênea, projetando uma imagem coletiva, partilhada por todos. Nesseprocesso, a língua mais uma vez desempenha papel essencial e indissociável dodesenvolvimento desse sistema ampliado de ensino, de bases nacionais. A existência de umalíngua comum, que permita a comunicação entre os indivíduos, é condição de viabilidade dosistema ao mesmo tempo em que este se encarrega de difundir o ensino e utilização dessalíngua. A relação entre língua, comunicação e identidade é analisada por Deutsch (1966: 27),que explora o viés da comunicação, numa perspectiva funcionalista, associando o partilhar deuma identidade nacional à capacidade de comunicação efetiva entre as pessoas pertencentes auma comunidade ampliada, em contrapartida às barreiras de comunicação que surgem nocontato com pessoas de comunidades distintas: “Membership in a people essentially consists inwide complementary of social communication. It consists in the ability to communicate moreeffectively, and over a wider range of subjects, with members of one large group than withoutsiders”. O papel da língua, no entanto, não se esgota em seu potencial de comunicação. Mesmono interior dos sistemas de ensino, ela assume outras funções. Um sistema educativoestruturado em torno de uma língua comum estimula a associação entre essa mesma língua eum conjunto de crenças e valores, de modos de pensar e de viver, permitindo, assim, a 12
  29. 29. Os novos nacionalismos do século XXIconstrução e disseminação de uma determinada identidade. Dizendo de outra forma, atua naconstrução e difusão das diferentes línguas e discursos dos nacionalismos. O desenvolvimento de um sistema educativo também está nas bases da ideia detradição, um dos recursos fundamentais à criação e perpetuação das identidades nacionais.Parte-se do discurso da tradição, entendida como uma prática antiga que se perpetua pelarepetição numa dada comunidade, um costume continuado e carregado de sentido, que atesta aexistência de uma história comum e de uma memória partilhada e é, de certa forma, indicadorde uma mesma origem. A tradição, nesse sentido, carrega uma grande carga de concretude. Daí,talvez, seu forte apelo como fator de comunhão e identidade. O discurso da tradição é frequentemente entretecido com o discurso da identidadenacional. Em alguma medida, a ideia de nação se fundamenta na partilha de tradições comuns.Mas o que Hobsbawm (1983: 77) destaca em seu estudo sobre o nacionalismo é que as hojevalorizadas tradições nacionais são criações. Para o autor, a invenção da tradição resultaria daconjugação de três fatores preponderantes: o desenvolvimento de um sistema secular deeducação primária equiparável à igreja, a invenção de cerimônias públicas e a construção emmassa de monumentos públicos (Hobsbawm, 1983: 77-78). A formulação do autor explicita opapel não só da educação, mas de um sistema educativo, no processo de invenção das tradições,que, em alguma medida, alimentarão a imaginação de futuras nações. O caráter inventivo da tradição também transparece da definição proposta por Giddens(1994: 61), em que esta é apresentada como um “meio de organização da memória colectiva”.Por trás da expressão “organização”, é possível encontrar o mesmo mecanismo de seleção edescarte, já referido por Anderson em sua definição de nação como comunidade imaginada.Talvez por esse motivo as tradições surjam no discurso da modernidade sempre com cargapositiva. As práticas negativas, que precisam ser extirpadas, esquecidas, apagadas, sublimadas,em geral não ganham o rótulo de tradição. Independentemente da amplitude do papel que se pretenda reconhecer para a existênciade uma língua nacional, para o desenvolvimento de um sistema nacional de educação ou para apartilha de tradições comuns no processo de desenvolvimento das identidades nacionais, não sepode negar a importância desses elementos para a compreensão das discussões atuais sobre osnacionalismos. Para Hobsbawm (1990: 169), o período que vai das grandes guerras até o final do séculoXX marca uma mudança significativa no ideário do nacionalismo. Se ele surge como forçapropulsora da história até a primeira metade do século passado, isso não acontece na atualidade,o que não significa dizer que os nacionalismos não estejam presentes e se façam sentir nos dias 13
  30. 30. A Palavra como Alicerce da Naçãode hoje. Parece mais razoável interpretar a declaração acima como indicativa de uma mudançano papel desempenhado pelos nacionalismos. Independentemente do desenvolvimento dos conceitos de nação e nacionalismo, parecehaver, no entanto, um ponto de ruptura nessa cronologia. Hobsbawm (1990: 4) ilustra bem essemovimento ao listar, na introdução do seu livro, algumas das obras que considera relevantespara a compreensão do tema, estabelecendo, assim, um claro recorte na produção anterior –“the number of works genuinely illuminating the question (…) is larger in the period 1968-88than for any earlier period of twice that length” (itálicos acrescentados). Anderson (1983/2005)demonstra a mesma preocupação ao registrar, no prefácio à segunda edição do seu livro, suaprópria seleção de trabalhos. Sejam quais forem as referências citadas por Anderson e Hobsbawm, o que importa éque estas parecem indicar não só uma ruptura no modo de pensar a questão dos nacionalismoscomo também uma mudança do movimento em si, do papel dos nacionalismos após as duasgrandes guerras. Anderson (1983: xii), ao comentar a proliferação de obras sobre o tema nasúltimas décadas do século XX, dá razão à afirmação de Hobsbawm de que a era donacionalismo teria chegado ao fim: “Hobsbawm has had the courage to conclude from thisscholarly explosion that the age of nationalism is near its end: Minerva‟s owl flies at dusk”.A invenção da nação: os discursos da modernidade A rigor, afirmar que a era dos nacionalismos, nos moldes vivenciados entre os séculosXIX e meados do XX, teria chegado ao fim, não significa decretar o fim dos nacionalismospropriamente ditos. Pode-se dizer, no entanto, que os nacionalismos que experimentamos hojetêm características próprias e, talvez, desempenhem funções distintas daquelas que marcaram operíodo anterior. Parte dessas mudanças deve-se ao contexto atual, marcado pelo processo deglobalização e pela concorrência dos vários discursos de valorização da diversidade cultural. A configuração de sistemas globais de diversas naturezas, em especial política eeconômica, delineia um cenário rico em interligações e interdependências. As empresas sefundem em grandes grupos financeiros e econômicos que atuam em diversos segmentos demercado e áreas geográficas. Os Estados se associam, criando organizações em âmbitointernacional, estabelecendo vínculos entre eles, mais ou menos estreitos, mais ou menosfirmes, mais ou menos duradouros. As línguas se misturam e confundem, transportadas por umsistema de comunicação em rede, ramificado, capaz de vencer distâncias em segundos. 14
  31. 31. Os novos nacionalismos do século XXI Nesse cenário, a extensão e os limites dos territórios nacionais ganham novoscontornos. A mobilidade e circulação de bens, pessoas e serviços evidenciam a porosidade dasfronteiras e intensificam os contatos entre pessoas que falam línguas diferentes, adotamcostumes distintos, possuem uma escala de valores própria, podem ver o outro como estranho.São pessoas nascidas em territórios diferentes, educadas em sistemas de ensino variados, comcrenças religiosas e morais específicas, história e memória coletiva próprias. Nesse ambiente de contato, mistura e choque, é mais uma vez posto em ação ummecanismo de identificação e diferença. Por um lado, a multiplicação de contatos parece acirrara percepção da diferença, por outro, e em sentido inverso, permite a criação de identidadesampliadas, transnacionais, como as de gênero, profissão, religião entre outras. É nesse contextoque se pretende inserir a questão da identidade nacional, como um dos recursos adotados nessejogo de contraposições. Um dos significados imediatos da expressão identidade nacional talvez ainda seja areferência a uma origem comum, quer em função da hereditariedade, quer em função da fixaçãonum dado território ao longo do tempo. O Estado-Nação  expressão disseminada no séculoXX  ao qual o indivíduo está ligado pelo nascimento, por sua história, língua, cultura oumesmo pela via da auto-identificação seria o vértice dessa comunidade. Parte-se do pressupostode que a partilha desses elementos implicaria necessariamente uma identidade comum. O nacionalismo, em suas várias facetas, invariavelmente estabelece um elo entre oindivíduo e a nação com a qual se identifica. É a natureza dessa identificação que agora é postaem causa. Se antes o pressuposto era de que a identidade nacional implicava necessariamente acomunhão de valores, história, memória, modo de vida e cultura, em sentido amplo, agora essaidentificação inata, natural, autêntica e verdadeira é questionada. Não é preciso ir muito longe nesse jogo de identificações e diferenças para constatar aausência da homogeneidade suposta. Num mesmo Estado nacional, os hábitos e costumes daspessoas variam não só em função da geografia, como também dos credos, do status financeiro,da classe social, da língua ou mesmo da história pessoal entre tantos outros fatores. Embora tera mesma nacionalidade de alguém não conduza a uma identidade necessária, seja em quesentido for, a referência a um certo caráter nacional é recorrente. O apelo a essa identidade, aofator nacional, como sendo um vínculo que se estabelece entre aqueles que partilham uma certanacionalidade, é extremamente sedutor, quase irresistível. A crença nessa identidade, que não precisa de prova ou confirmação e é dotada de fortecarga de espontaneidade, é uma das principais características da identidade nacional. SegundoAnderson (1983: 4), o fator nacional e o nacionalismo seriam “artefactos culturais” especiais 15
  32. 32. A Palavra como Alicerce da Naçãoque produziriam a nação, definida pelo autor como sendo uma “comunidade políticaimaginada”, ao mesmo tempo “limitada e soberana”  “it is an imagined political community –and imagined as both inherently limited and sovereign” (ibidem: 6). Respeitados os diferentes posicionamentos, o caráter imaginado da nação surge comoum substrato comum. O nacionalismo como produto da nação, como resultado da partilha devalores comuns, histórias, memórias, territórios, laços sanguíneos e afetivos, é superado pelaideia de criação e novidade. “Nationalism is not the awakening of nations toself-consciousness: it invents nations where they do not exist (...)” (Gellner, 1964: 62). ParaGellner (1983: 64), não são as nações que promovem o nacionalismo, mas sim o nacionalismoque inventa as nações. Não significa isto dizer que as nações sejam criações arbitrárias, resultantes da fantasiade grupos determinados, produzidas artificialmente no processo de disputa por controle e poderinerentes ao tecido social. O nacionalismo se vale de práticas existentes, mas, a partir de umvasto território delas, ele seleciona e recorta. Escolhe as práticas que deseja lembrar e descartaaquelas que deseja esquecer: “Admittedly, nationalism uses the pre-existing, historicallyinherited proliferation of cultures or cultural wealth, though it uses them very selectively, and itmost often transforms them radically” (Gellner, 1983: 64). Daí a crítica de Anderson (1983: 6) à definição, adotada por Gellner, de nação comoinvenção. Esse termo reforçaria, na opinião de Anderson, a compreensão equivocada de que anação e o nacionalismo seriam construções arbitrárias, sem qualquer relação com o contexto emque surgem. Por esse motivo, Anderson opta pelo termo “imaginada” para definir a nação. Apesar disso, o produto final desse processo inventivo, seja qual for, resulta numaespécie de ilusão coletiva. O verniz que o protege é o da homogeneidade, antiguidade,predestinação. Como num truque de mágica em que o ilusionista faz desaparecer ummonumento público com centenas de metros de altura e dezenas de toneladas sob o testemunhodas câmeras de TV e uma audiência de milhares de telespectadores, a referência a umanacionalidade, isto é, a utilização do rótulo “nacional” faz desaparecer diferenças e criasemelhanças. Ao contrário do primeiro truque, no entanto, esse é de ação continuada. Respeitando-se as diferenças de posicionamento, pode-se dizer que as teorias sobre osnacionalismos da segunda metade do século XX até hoje têm em comum a valorização dosconceitos de identidade e de cultura. A identidade que se estabelece entre aqueles queconsideram pertencer a uma dada nacionalidade cria um „nós‟ ampliado, capaz de envolvermilhões de pessoas, sobrepondo-se a critérios usualmente utilizados como distintivos, sejafaixa etária, gênero, classe social, religião, profissão entre tantos outros. 16
  33. 33. Os novos nacionalismos do século XXI Embora a diferença se faça sentir na alteridade, no contato com o outro, importa lembrarque o sujeito nacional também se constrói dentro do território do Estado-Nação. Esse sujeitonacional é referido no discurso político, jurídico e social incessantemente. Esse „macro-sujeito‟que não representa exatamente ninguém, não corresponde a um único indivíduo, é assumidocomo representante de todos. Em sentido contrário, para ser reconhecido como nacional, oumesmo para se auto-reconhecer como nacional, é preciso fazer um esforço para corresponderou se identificar com esse modelo.Nações tardias: novas nações, velhos nacionalismos Usando uma expressão que, em tempos, já foi utilizada em relação à unificação alemã eitaliana do final do século XIX, boa parte das atuais nações tardias, que surgiram entre o finaldo século XX e o início do atual, têm em comum a exiguidade do território e um discursonacional fortemente embasado na afirmação e valorização de uma língua e cultura nacionais,características já destacadas por Hobsbawm (1990) ao se referir aos nacionalismos da segundametade do século XX. No processo a favor do reconhecimento de suas respectivas identidades,resgatam uma história milenar, um passado compartilhado de lutas, sofrimentos e sacrifíciosem prol do bem maior: a afirmação do seu caráter nacional. Numa perspectiva histórica, a novidade do conceito de nação e nacionalismo é apagadaem favor de um passado justificador da demanda atual, como revela a seguinte afirmação deHobsbawm (1983: 76): “modern nations and all their impedimenta generally claim to be theopposite of novel, namely rooted in the remotest antiquity, and the opposite of constructed,namely human communities so „natural‟ as to require no definition other than self-assertion”. A afirmação de uma língua comum implica solidariedade, que se prolonga não só noespaço territorial da nação mas também no tempo, através de gerações, graças à fixidez eestabilidade que se tornam possíveis com a conversão de uma certa língua em língua deimprensa. Essa característica, como alerta Anderson (1983: 196), será bastante útil ao discursode afirmação nacional que procura atestar a sua antiguidade, pois encontra na longevidade daslínguas um forte argumento a seu favor: “once one starts thinking about nationality in terms ofcontinuity, few things seem as historically deep-rooted as languages, for which no dated originscan ever be given”. Ao contrário da Alemanha e da Itália dos finais do século XIX, no entanto, as atuaisnações tardias surgem num contexto diverso, caracterizado por uma nova organização da 17
  34. 34. A Palavra como Alicerce da Naçãosociedade, em rede, como propõe Castells (1997: xxix), cuja forma é resultante da “revoluçãodas tecnologias de informação” e da “reestruturação do capitalismo”. Esse novo modeloacentua a interdependência entre os diferentes Estados, que não mais prescindem de fazer partede organismos internacionais. O próprio conceito de soberania é posto em causa, uma vez que aindependência político-econômica parece não ser mais possível no exíguo território nacional.Billig (1995: 133) reproduz o discurso corrente, para criticá-lo logo a seguir, ao descrever ojogo de forças opostas que pressionam as fronteiras do Estado-Nação de fora para dentro  aglobalização  e de dentro para fora  a valorização das diferenças regionais e a ameaça defragmentação do território em novas unidades nacionais. “The result is that the sovereignty ofthe nation-state is collapsing under pressure from global and local forces. Economic necessitiesare compelling states to surrender parts of their sovereignty to supra-national organizations”(ibidem: 133). A virtualização do real, o esbatimento das fronteiras, o aumento da mobilidade, aformação de grandes grupos internacionais  políticos, econômicos, sociais  que caracterizama atualidade, modificam a própria noção de fronteira. Agora não mais prejudicam ou bloqueiama passagem de bens e pessoas, mas regulam, definem critérios e selecionam, determinam onível de porosidade. Nesse contexto, a mediação e a negociação ganham preeminência sobre ocontrole e a repressão. O caso da Europa é bastante ilustrativo do cenário atual. Em algum momento dasúltimas décadas, o próprio conceito de Europa perdeu parte do seu significado e tornou-seproblemático, impreciso. Mais do que a discussão sobre o que seria a identidade europeia, ospróprios limites da Europa se esvanecem confundidos entre a delimitação geográfica docontinente e as fronteiras estabelecidas pelo projeto que se intitula de União Europeia. Tudo isso só encontra sentido nos tempos atuais, em que a chamada modernidade tardiaparece dissolver as estruturas sólidas que sustentavam a sociedade, imprimindo velocidade emovimento e exigindo um novo senso de equilíbrio e alguma sensibilidade. A mobilidadecrescente e a multiplicação de contatos parecem acentuar a percepção da identidade e dadiferença; ao mesmo tempo, desafiam a definição e a perpetuação de uma identidade única, sejaela qual for. Nesse panorama, a apropriação de uma dada linguagem e da cultura a ela associadaatua como uma espécie de bálsamo contra as angústias do mundo contemporâneo e suasindefinições à medida que se reveste da ilusão da essência. Essa língua materna que nos é dada,e não escolhida, promove o estabelecimento de uma identificação imediata e dificilmentequestionada, derivando dessas características a sua força e estabilidade, num mundo em 18
  35. 35. Os novos nacionalismos do século XXImovimento contínuo e acentuado de mudança. A língua e sua cultura surgem como referênciasseguras num mundo em estado perpétuo de transformação. O discurso recorrente e repetitivo da identidade nacional parece ser, em alguma medida,a tentativa de resgate de uma identificação segura em meio a incerteza que caracteriza asociedade contemporânea. O caminho trilhado com maior frequência é o do apego e daidentificação a uma cultura nacional  conceito suficientemente amplo e abstrato paraacomodar as mais variadas práticas e, sobretudo, o discurso ilusionista da homogeneidade. Numa sociedade em que o papel de consumidor muitas vezes se sobrepõe ao papel docidadão e que oferece uma gama enorme e variada de identidades que o indivíduo ou grupopode escolher e descartar, vestir e despir a todo momento  uma espécie de mercado-livre deidentidades (Billig, 1995: 134) , a língua-cultura surge como contraponto a essas identidadesvoláteis  “the culture in which one has been taught to communicate becomes the core of one‟sidentity” (Gellner, 1983: 69). O discurso atual, sob a bandeira da globalização, é o da fragmentação e fortalecimentodos processos de internacionalização em quaisquer de suas naturezas - política, econômica,social e, em alguma medida, cultural. É o que afirma Billig (1995: 132): “the processes ofglobalization, which are diminishing differences and spaces between nations, are alsofragmenting the imagined unity within those nations”. As novas nações, mal alcançam aindependência, lançam-se numa nova batalha por um lugar ao sol na ordem global. Como resultado desse movimento, surgem novas identidades e uma pluralidade denarrativas (Billig, 1995: 133), que, muitas vezes, competem entre si. Nesse cenário, aidentidade nacional se afirma como uma dessas narrativas ou, na acepção de Bhabha (1990:300), a nação se apresenta como uma estratégia narrativa sempre em processo de construção:“Counter-narratives of the nation that continually evoke and erase its totalizing boundaries both actual and conceptual  disturb those ideological manoeuvres through which „imaginedcommunities‟ are given essentialist identities”. O espaço criado pela multiplicidade de narrativas e sua inconclusão permite que a ideiade nação se revista de diferentes identidades simultaneamente, acomodando assim não só assemelhanças – estratégia em que se baseia a abordagem essencialista da ideia de nação – mastambém as diferenças. A identidade nacional se liberta das suas amarras e permite margem demanobra para evitar conflitos e acolher a diferença. Mais do que desvendar um programa político responsável pelo planejamento edesenvolvimento de uma dada identidade, interessa observar como ela se constrói e se modifica 19
  36. 36. A Palavra como Alicerce da Naçãoincessantemente no tecido social, num processo colaborativo – ora consciente ora não – no qualtomam parte governo, academia, religião, sociedade e tantos outros agentes. Abandonada a visão essencialista da nação, dos nacionalismos e da identidade nacional,é preciso refletir sobre os processos que viabilizam essa identidade: “Culture is not a matter ofrace. It is learned, not carried in our genes” (Kuper, 1999: 227). Embora o fim da era dosnacionalismos já tenha sido declarado, o espraiamento do discurso nacional e sua capacidade demobilização atestam a relevância da ideia de nação e de identidade nacional na sociedadecontemporânea. A forte presença dos símbolos nacionais no mundo moderno, incorporados aocotidiano de forma quase imperceptível, constitui apenas um dos exemplos da força dessaidentidade ainda hoje.Síntese Uma breve retrospectiva histórica das reflexões sobre os nacionalismos a partir doséculo XIX até a atualidade é suficiente para ressaltar a pluralidade de abordagens adotadas edestacar alguns dos elementos intrinsecamente relacionados ao tema. O impacto provocadopelo capitalismo, associado ao desenvolvimento das línguas de imprensa e à criação de línguasnacionais, o desenvolvimento de um sistema ampliado de educação e o recurso a um conjuntode práticas aqui representadas pelo conceito de tradição para justificar uma espécie de caráternacional são alguns dos elementos considerados relevantes para este trabalho. O cenário atual, caracterizado pelo processo de globalização e pela crescentemobilidade de pessoas, intensifica o contato com o outro e coloca em relevo um mecanismo deidentificação e diferença essencial para a construção e percepção identitárias. A identidadenacional, assim como a identificação de e com uma cultura nacional, surgem como discursosrecorrentes, muitas vezes explícitos, outras, naturalizados pelas diferentes estratégiasnarrativas. O papel da língua, quer como ícone de uma dada cultura, quer como meiocatalisador do processo de comunicação, desponta como elemento essencial a esse processo. O preconizado fim da era dos nacionalismos traduz-se em uma nova percepção daquestão na sociedade atual, onde estes parecem se revestir de novas características edesempenhar funções sociais diferentes daquelas realizadas pelos nacionalismos do séculoXIX. Corrobora essa afirmação a assiduidade dos discursos de afirmação, valorização ediscriminação nacional que se repetem no dia-a-dia em todos os âmbitos da vida social.Conflitos armados, disputas econômicas, competições esportivas, campanhas de marketing que 20
  37. 37. Os novos nacionalismos do século XXItransformam a nação em marca, tensões provocadas pelos movimentos migratórios, cenários deexclusão e inclusão, preconceitos e discriminação são apenas alguns dos exemplos. No contexto atual, onde o caráter imaginado da nação é destacado e explicitado comoconstrução, a criação das nações tardias, que se tornaram independentes entre o final do séculoXX e os dias de hoje, serve de ponto de partida para uma reflexão sobre as novas roupagens queos nacionalismos adotam em face da contemporaneidade. Esse processo de construçãodiscursiva das identidades nacionais será discutido a seguir, assumindo como ponto de partidaas perspectivas adotadas pela análise crítica do discurso. 21
  38. 38. A construção discursiva das identidades nacionais (Capítulo 2) Introdução A construção discursiva das identidades nacionais O discurso de afirmação nacional da Eslovênia A análise crítica do discurso Síntese
  39. 39. A Palavra como Alicerce da Nação 24
  40. 40. A construção discursiva das identidades nacionaisIntrodução No domínio dos processos de construção identitária, a partir do momento em que seentende a identidade nacional como uma entre as múltiplas narrativas identitárias possíveis e sereconhece seu caráter imaginado, o indivíduo ganha certa autonomia. Em vez de objeto de umadada identidade, assume-se como sujeito, pois cabe a ele, em alguma medida, a definição dessahistória. Neste capítulo, será explicitada a adoção de uma perspectiva construtivista, baseada nodiscurso, para se pensar os processos por meio dos quais essas identidades podem serconstruídas e transformadas. Daí que neste trabalho se analise o discurso como forma demediação entre o indivíduo e a sociedade ou como modo de representação ou construção decenários e situações que se pretendem reais. A construção discursiva das identidades nacionais será o tema principal das reflexõesrealizadas, que partirão da análise de três paradigmas: o da identidade nacional como herança, oda identidade nacional como aprendizado e o da identidade nacional como construção. Esteúltimo modelo será o adotado ao longo deste trabalho. Nesse contexto, o processo de construção identitária das nações tardias será analisado,em especial no que se refere aos discursos que relacionam a afirmação e valorização de umalíngua e cultura nacionais com a existência incontestável de uma dada identidade. O caso daEslovênia, uma das repúblicas que formavam a ex-Iugoslávia, será destacado. A Eslovêniadeclarou-se independente em 1991; conta, portanto, com pouco mais de 20 anos de existênciaoficial como Estado-nação. No ano seguinte, em 1992, iniciou o processo de adesão à UniãoEuropéia, consolidado em 2004. A seguir, será apresentada e discutida a opção metodológia que permeará toda estareflexão: a análise crítica do discurso e, em seu âmbito, a abordagem proposta pela linguísticasistêmico-funcional. A relação de interdependência entre o sistema linguístico e o sistemasocial, o discurso como manifestação de e disputa pelo poder, o papel das ideologias, asmacro-funções da linguagem serão alguns dos temas em análise. 25
  41. 41. A Palavra como Alicerce da NaçãoA construção discursiva das identidades nacionais É possível refletir sobre a questão da identidade nacional a partir de diversasabordagens, como ilustra a multiplicidade de trabalhos disponíveis sobre o tema. Definindocomo ponto de partida desta reflexão o viés dos estudos culturais (vd. Hall, 1997), propõe-se odesenvolvimento de três paradigmas: o da identidade nacional como herança, o da identidadenacional como aprendizado e o da identidade nacional como construção (vd. Kuper, 1999, eTann, 2010). A identidade nacional como herança pressupõe algo inato, um conjunto decaracterísticas que seria herdado ao se nascer num determinado país e que induziria a um certocomportamento ou modo de pensar e sentir o mundo. Todo ser humano carregaria esses dadosem seus genes e pouco poderia fazer para escapar à ação deles. Mais do que uma visãoessencialista, trata-se de uma visão determinista das identidades, na qual o indivíduo assume opapel de objeto dessa suposta identidade nacional: ao invés de agir sobre ela, sofreria sua ação. Aceitar a visão determinista implica, em algum grau, acreditar que todos os indivíduosde uma certa nacionalidade partilham um dado conjunto de características das quais não podemfugir, estando, assim, condicionados a comportamentos específicos. Esses pressupostos nãocondizem com a diversidade que vivenciamos no dia a dia entre indivíduos pertencentes a umasó nação. Parece difícil, portanto, defender esse posicionamento à luz das sociedades modernase da ausência de homogeneidade suposta. No que diz respeito à identidade nacional como aprendizado, ela traz consigo a noção deque as identidades são ensinadas. Não nascem com o indivíduo, mas este, desde o início do seuprocesso de socialização, aprende a se comportar de uma dada maneira, a pensar e a sentir deacordo com um modelo pré-estabelecido. Mesmo sem dar-se conta desse processo deaprendizagem e mesmo que esse aprendizado não seja dirigido ou intencional, o indivíduoassume como própria a identidade que lhe é ensinada. Para seguir por essa linha de raciocínio, seria necessário aceitar a existência de ummodelo, de um modo de ser nacional, ou seja, de uma maneira específica de se identificar comoindivíduo pertencente e intrinsecamente vinculado a uma dada nação. Esse modelo claro edefinido seria replicado em todo o território nacional por meio de um poderoso sistema deensino, que englobaria não apenas as instituições de educação pública e privada, mas também oambiente social de forma mais alargada. Uma breve tentativa de descrever com clareza esse modelo é suficiente para verificarsua impossibilidade. Embora seja possível traçar imagens estereotipadas do que seria essa 26
  42. 42. A construção discursiva das identidades nacionaisidentidade nacional, tais esboços não passam de caricaturas, são incapazes de dar conta de todaa diversidade que caracteriza os diferentes modos de ser em sociedade. Claro que, com essaafirmação, não se pretende negar ou diminuir a relevância do sistema educativo na construçãode representações individuais ou coletivas. Reconhecer, no entanto, o papel decisivo do sistemaeducativo no processo pelo qual a nação é imaginada, como foi feito, aliás, no primeirocapítulo, não significa atribuir-lhe a autoria de uma nação real. A impossibilidade de se descrever em minúcias um dado caráter nacional, aplicável aoconjunto de indivíduos, não esvazia, no entanto, a força desses estereótipos. Embora, à partida,não seja possível descrever o que seria tal caráter, a referência ao mesmo e a sua presença,direta e indireta, em discursos, símbolos, imagens – em sentido amplo, no imaginário nacional– é recorrente. Passando ao terceiro paradigma, o da identidade nacional como construção, verifica-seque ele parte do pressuposto de que a identidade não é dada nem aprendida, mas sim construídae desconstruída repetida e incessantemente no contato com o outro. Não significa dizer quehaveria um conjunto de identidades prévias, pré-formatadas, que seriam chamadas a semanifestar numa dada situação. Pelo contrário, as identidades seriam construídas no âmbito deum processo relacional e durariam o tempo exato de duração desse processo. Nesse contexto, as identidades são recursos dos quais o indivíduo se vale para defenderou conquistar uma posição (vd. Tann, 2010). O discurso, como forma de mediação entre osindivíduos e entre estes e o mundo ao redor, é um dos recursos utilizados para construir essasidentidades e será essa a abordagem utilizada no âmbito deste trabalho. A noção de discurso aqui assumida é a elaborada por Foucault, que situa o discursocomo forma de organização de significados. Gouveia (2001: 337), referindo-se a esse conceito,afirma: “o discurso se refere aos modos, quase sempre linguísticos, mas não exclusivamentelinguísticos, de organizar o significado, aos sistemas de poder/conhecimento (pouvoir/savoir)em que assumimos posições de sujeito”. A ideia de construção discursiva das identidades permite acomodar a multiplicidade denarrativas, como propõe Bhabha (1990), e sua incompletude, seu estado de permanentetransformação. Ao mesmo tempo, atribui ao indivíduo o papel de sujeito ao longo desseprocesso, pois é ele quem constrói esses diversos discursos a partir dos elementos dos quaisdispõe. Cada indivíduo participa simultaneamente de diversos grupos sociais, no âmbito dosquais ora constrói sua identidade entre-pares, ora seleciona e retira elementos para construiroutras versões de identidade. Ele dispõe de uma grande variedade de fontes das quais se vale no 27
  43. 43. A Palavra como Alicerce da Naçãoprocesso de criação de suas múltiplas identidades, de forma mais ou menos consciente, deacordo com o contexto e com a situação (Cillia, 1999: 17). Adotar a visão construtivista e assumir o indivíduo como sujeito não significa, noentanto, afirmar que ele age com liberdade total, ao seu bel-prazer. Há uma série de elementosque conformam, constrangem e alimentam esse processo de construção, como a história devida, os hábitos e costumes adquiridos desde a infância, o processo de socialização, ostemperamentos. Os sistemas de comunicação, em geral, desempenham papel importante nesseprocesso, dada sua capacidade de selecionar e disseminar informação, assim como os sistemasde educação, com seus valores e princípios, e os sistemas de crença religiosa, entre outros. De forma invisível e insistente, o caráter nacional imprime sua marca no cotidiano, viameios de comunicação, via proliferação dos símbolos nacionais, via marketing ou mesmo nasconversas do dia a dia. O contato com o outro funciona como uma espécie de gatilho a dispararo mecanismo de identificação e diferença, onde um certo estereótipo nacional é chamado a agirsempre que necessário. A imagem nacional é desenhada a partir dos discursos cruzados de diversas fontes,sejam elas oficiais ou não. As dificuldades surgem quando alguns desses discursos sãoassimilados como essência e tomados como uma espécie de fato consumado e não mais comodiscurso-opção. À medida que algumas dessas narrativas se cristalizam, intensificam-se oschoques e embates entre elas e tantas outras versões contraditórias. É importante frisar que a perspectiva da construção discursiva não se confunde com aideia do discurso como modo de representação de uma ou várias identidades. Longe de secaracterizar como forma de materialização de uma dada identidade pré-existente, o discursodetermina o período de vigência dessa identidade, que nasce e morre com ele. Ela não existeantes ou fora do discurso; pelo contrário, começa e acaba com ele, sendo construída ereconstruída vezes sem conta, sem nunca ser exatamente a mesma. Pode-se pensar a natureza da construção discursiva das identidades, entre elas asnacionais, como sendo relacional e processual (vd. Tann, 2010). É relacional à medida que seconstrói em relação de comparação com o outro, seja em busca de semelhanças ou dediferenças – o próprio conceito de identidade não faz sentido senão num contexto plural. Éprocessual à medida que se constrói ao longo da dilação do tempo, a partir de peças que seinterligam, montando uma engrenagem, e que só em conjunto podem produzir como resultado aideia de identidade. Como decorrência do caráter processual, é possível ainda pensar a identidade comoefêmera, múltipla e mutável, estabelecendo-se um paralelo com o universo jurídico. É efêmera 28
  44. 44. A construção discursiva das identidades nacionaisporque termina com a conclusão daquela interação processual; é múltipla porque concorrempara o desenvolvimento do processo uma pluralidade de variáveis; e é mutável porque passívelde transformação a partir do controle dessas mesmas variáveis. A questão que surge, no entanto, é que o paradigma da construção discursiva dasidentidades não parece refletir o discurso corrente, que desconsidera a pluralidade e aefemeridade das identidades a favor da adoção dos conhecidos e propagados estereótiposnacionais, que imprimem marca significativa nas sociedades de hoje. O indivíduo surge, maisdo que condicionado, subordinado a essa identidade estereotipada, ora por vontade própria,numa espécie de autorreconhecimento, ora por não conseguir dela escapar. Tanto quanto odiscurso político ou midiático, o discurso do dia a dia é extremamente marcado pelo caráternacional, seja no âmbito das relações de consumo, de apreciações de contornos culturais oumesmo de um programa explícito de marketing nacional. Essa aparente contradição pode, talvez, ser melhor compreendida a partir doreconhecimento do conteúdo ideológico das identidades, assumindo, neste caso, que aideologia se traduz por “sistemas de pensamento, de valores e crenças (...) que denotam umponto de vista particular sobre o real, uma construção social da realidade, independentementede aspirarem ou não à preservação ou à mudança da ordem social” (Gouveia, 2001: 338). A comunidade imaginada como nação tem sua própria linguagem de pertença nacional(Bhabha, 1999: 293) e é construída e disseminada pelo discurso, em especial pelas narrativas deafirmação e valorização de uma cultura nacional (Cillia, 1999: 22). Moldada a partir de umamultiplicidade de fontes, entre elas o Estado, as instituições políticas e econômicas, as redes deensino, a mídia, as associações de interesses diversos ou mesmo o indivívuo, a identidadenacional se realiza no universo variado e difuso das práticas sociais, das quais resultam ascondições materiais e sociais às quais o indivíduo está sujeito. Nesse processo, a práticadiscursiva, como uma forma especial de prática social, desempenha papel essencial napercepção e disseminação das identidades nacionais (ibidem: 29-30).O discurso de afirmação nacional da Eslovênia No processo de construção discursiva das identidades nacionais uma série de elementospodem ser utilizados, alguns de forma recorrente, sendo a existência e partilha de uma línguanacional um exemplo deles. Veja-se o caso da Eslovênia, que obteve sua independência daentão Iugoslávia em 1991 e, logo no ano seguinte, em 22 de maio de 1992, teve sua adesão à 29
  45. 45. A Palavra como Alicerce da NaçãoUnião Europeia aceita, num processo que foi concretizado em 2004. Com um território depouco mais de 20 mil km2 e cerca de 2 milhões de habitantes, a Eslovênia possui mais de 40dialetos (Kmecl, 2005: 3), mas utiliza como um dos argumentos para afirmar e, em certamedida, justificar sua existência como nação a existência e valorização de uma língua nacional.De acordo com o discurso oficial esloveno, as bases dessa língua teriam sido lançados no séculoX, com os “Brižinski spomeniki” (ou “Manuscritos Freising”), que teriam sido os primeirostextos escritos em esloveno (ibidem: 19), sendo a emancipação à língua de cultura conquistadano século XIX, especialmente a partir do trabalho do poeta France Prešeren (1800-1849), íconeda nação eslovena, alçado à categoria de herói nacional. Em pouco mais de 20 anos de existência oficial como Estado-nação, a Eslovêniaempenha-se em afirmar sua viabilidade num mundo globalizado e de forte competição entrenações, num cenário em que a exclusividade de sua cultura nacional desempenha papel dedestaque. O projeto nacional esloveno, independentemente da construção da sua imagemintramuros, implica a divulgação desse caráter para o mundo, especialmente junto aos paísesque integram a União Européia, bloco do qual faz parte. Nesse contexto, a língua eslovenasurge simultaneamente como símbolo de unidade nacional e obstáculo à integraçãointernacional, num aparente estado de tensão. Ao mesmo tempo em que a Eslovênia concentraesforços na valorização e proteção da sua língua nacional, precisa, em alguma medida, abrirmão dela em favor de uma língua global de comunicação e acesso internacional. Entre as estratégias de unificação possíveis em favor da construção de uma identidadecoletiva, duas parecem ganhar destaque: a padronização, “baseada num referencial padrãopartilhado”, e a simbolização, baseada na “construção de símbolos de identificação coletiva”(Ramalho e Resende, 2011: 29). A existência de uma língua nacional responde a ambas asestratégias simultaneamente, quer na condição de código ou padrão de comunicaçãocompartilhado, quer na condição de símbolo de identidade nacional. Se, a partir da perspectiva construtivista, as identidades são construídas no diálogo como outro, de acordo com Kuper (1999: 235), é preciso ter em mente que elas são vivenciadas deoutro modo, numa espécie de autodescoberta que implica a identificação com os outros e,especialmente, a participação em identidades de natureza coletiva, como, por exemplo, aidentidade nacional: “The inner self finds its home in the world by participating in the identityof a collecvitivy (for example, a nation, ethnic minority, social class, political or religiousmovement)”. No caso da Eslovênia, a afirmação e a valorização da sua língua surgem como fator deidentificação e critério para participação em uma cultura nacional, independentemente das 30
  46. 46. A construção discursiva das identidades nacionaispráticas linguísticas vivenciadas dentro das fronteiras do país. Como afirma Kmecl (2005: 4),não sem antes destacar a exiguidade do território esloveno, que pode ser atravessado de Leste aOeste em cerca de três horas, a compreensão recíproca nem sempre é uma realidade: “it is quitepossible that a Slovene from the east will not be able to understand a Slovene from the west,while a Slovene living in the central part will comprehend neither, and vice versa”. Uma vez estabelecida a opção por uma visão construtivista das identidades nacionais,baseada no discurso, e introduzido o caso da Eslovênia, passa-se a uma breve reflexão sobre ametodologia a ser adotada, neste caso, a análise crítica do discurso e, em especial, asteorizações e ferramentas oferecidas pela Linguística Sistêmico-Funcional (LSF).A análise crítica do discurso A análise crítica do discurso tem como fundamento o pressuposto de que a linguagemestá intrinsecamente ligada à estrutura social, configurando-se simultaneamente em elementoestruturante e consequência dessa estruturação (Gouveia, 2009). A relação entre texto econtexto, ou entre discurso e prática social, é de tal natureza que, a partir do conhecimento deum, é possível apreender o outro, ou seja, representam um viés diferente de um mesmo objeto. Dentro do escopo da análise crítica do discurso podem ser encontradas várias teorias,abordagens e modelos que se distinguem entre si (Resende, 2009: 11). Não há uma única versãoda teoria geral, mas sim várias, o que garante sua consistência e lhe atribui maior elasticidade eriqueza com a multiplicidade das perspectivas. A abordagem adotada neste trabalho segue a proposta de Fairclough, que atribui aotexto a capacidade de provocar “efeitos causais sobre as pessoas (crenças, atitudes), as ações, asrelações sociais e o mundo material”, efeitos esses que seriam “mediados pela construção designificado” (Fairclough apud Resende, 2009: 23). Nessa versão da análise crítica do discurso,a vida social é compreendida como um “sistema aberto”, que se realiza num mundo social“constituído de redes de práticas articuladas” (Resende, 2009: 30). A análise crítica do discurso oferece os meios necessários para se perceber de que modoa linguagem é utilizada para a construção e perpetuação de discursos, valores e visões demundo que, embora representem os interesses de alguns e sejam resultado de escolhasdeterminadas, são assimilados como sendo universais e incontornáveis, transformando-se,assim, num eficiente mecanismo de produção e reprodução das ideologias (Resende, 2009:47-78). Essa estratégia de universalização caracteriza a disputa pelo poder, que consiste na 31
  47. 47. A Palavra como Alicerce da Nação“luta pela instauração, sustentação e universalização de discursos particulares” (Ramalho eResende, 2011: 25). Ao lado da estratégia de universalização e num mesmo sentido, opera a naturalização,que implica em transformar uma determinada construção social em algo considerado normal eassumido como certo ou garantido (Holliday, 1999: 251), ou seja, como senso-comum. Deacordo com Gouveia (2001: 341-2), é tarefa da análise crítica “relacionar o micro-evento(discursivo) com a macro-estrutura (social) e desnaturalizar o que foi naturalizado, ou seja, oque foi dissociado dos interesses da classe ou grupo social particular que o gerou”. Uma vez reconhecida a forte carga ideológica das práticas discursivas, as quais “pelomodo como representam a realidade e posicionam os sujeitos podem ajudar a produzir e areproduzir relações de poder desiguais” (Gouveia, 2001: 340), importa ressaltar que, no âmbitodeste trabalho, entende-se a ideologia “não como uma imagem distorcida do real, uma ilusão,mas como parte do real social, um elemento criativo e constitutivo das nossas vidas enquantoseres sociais” (ibidem: 338-9). Dentro do arcabouço de metodologias e abordagens oferecido pela análise crítica dodiscurso, a perspectiva adotada neste trabalho é a da linguística sistêmico-funcional. De acordocom essa teoria, a linguagem desempenha uma pluralidade de outros papéis, além da função decomunicação, dos quais os mais importantes seriam a função ideacional, a função interpessoal ea função textual. Na vertente ideacional, e de acordo com Gouveia (2009: 15), a linguagem serve “paradarmos conta da nossa experiência do mundo, seja este o real, exterior ao sujeito, seja este o danossa própria consciência, interno a nós próprios”. Na vertente interpessoal, a linguagem éutilizada “para estabelecermos e mantermos relações sociais uns com os outros, paradesempenharmos papéis sociais, incluindo os comunicativos, como ouvinte e falante”. Navertente textual, a linguagem “providencia-nos a possibilidade de estabelecermos relaçõesentre partes de uma mesma instância de uso da fala, entre essas partes e a situação particular deuso da linguagem”, criando, assim, uma série de outras possibilidades de construção de sentidoe relevância. A linguística sistêmico-funcional opera simultaneamente como uma “teoria geral dofuncionamento da linguagem humana” e um “modelo de análise textual” (Gouveia, 2009: 14),que será aquele adotado no âmbito deste trabalho. A língua é entendida como “uma realidadefundamentalmente social, concretizada na materialidade discursiva dos textos e da interaçãoverbal” (ibidem: 17). A língua como realidade social, condicionada e condicionante dessa realidade, 32
  48. 48. A construção discursiva das identidades nacionaisrepresenta uma possibilidade de acesso a esta. Como afirma Gouveia (2009: 25-6), “a relaçãoentre um texto e o seu contexto, é de tal forma motivada que, a partir de um contexto, serápossível prever os significados que serão ativados e as características linguísticas potenciaismais previsíveis para as codificar em texto” e vice-versa. É ao nível do discurso que as questões culturais, às quais a percepção de uma certaidentidade nacional está intrisecamente relacionada, são melhor compreendidas (Holliday,1999: 252), embora a equiparação da nação com a ideia de uma cultura em grande escala ehomogênea esteja no cerne do desenvolvimento do próprio conceito de nação no cenárioeuropeu: “Equating nation with homogeneous ideas of large culture also supported theconceptual development of European nations themselves” (ibidem: 243). Nesse processo de construção discursiva, que se faz e refaz incessantemente, não só aideia de cultura é elaborada, mas também o passado é trazido ao presente, em especial nareconstrução da história nacional. O embate entre várias narrativas possíveis, das quais umasemergem e outras são apagadas, revela a relação de poder que se estabelece entre os diversosgrupos: “Power comes visibly into play as soon the various narratives of the past are confrontedwith each other and elites select one of the competing narratives and naturalise it as the „past‟(what „really‟ happened)” (Martin e Wodak, 2003: 8). As estratégias de universalização enaturalização são, mais uma vez, postas em prática. O mesmo se dá no processo de construçãodas identidades nacionais: “Pasts are rearranged, transformed, recontextualized, substituted,mystified or totally changed” (ibidem, 2003: 11).Síntese É possível refletir sobre a questão da identidade nacional a partir de uma pluralidade deabordagens de acordo com o viés adotado: seja o da antrolopogia, da sociologia, da psicologia,da história entre outros. Neste capítulo, foi explicitada a opção pela abordagem dos estudosculturais (vd. Hall, 1997), a partir da adoção de uma visão construtivista, que entende asidentidades como uma espécie de tomada de posição construída no âmbito da prática discursiva(vd. Tann, 2010). No esforço de compreensão do processo de construção das identidades nacionais, e dopapel da língua dentro dele, optou-se pela análise do caso da Eslovênia, que será tomada comoreferência ao longo deste trabalho. A metodologia definida foi a da análise crítica do discurso, cuja fundamentação foi 33
  49. 49. A Palavra como Alicerce da Naçãodiscutida em contornos bastante gerais neste capítulo. Dentre as ferramentas disponíveis noâmbito da análise crítica do discurso, optou-se pelo portfólio desenvolvido pela linguísticasistêmico-funcional. A seguir, serão esclarecidos os critérios de análise efetivamente adotados e serárealizada a análise da introdução a uma coletânea de contos eslovenos de autorescontemporâneos, traduzidos para o inglês, publicados com o objetivo de divulgar a literaturaeslovena no cenário internacional. 34
  50. 50. Análise do texto: aspectos de textualização (Capítulo 3) Introdução Estratégias de atração e convencimento Introdução à Eslovênia via coordenadas geográficas Descrição e organização geral do texto Síntese
  51. 51. A Palavra como Alicerce da Nação 36
  52. 52. Análise do texto: aspectos de textualizaçãoIntrodução Neste capítulo, será apresentado e discutido o texto selecionado para análise: aintrodução do livro Angels Beneath the Surface – A Selection of Contemporary SloveneFiction (Priestly, 2008). Nesta primeira abordagem, serão privilegiados os aspectos detextualização, destacando-se a função desempenhada pelo texto e sua organização geral.Importa analisar a introdução em seu conjunto, antes de focar pontos específicos, para extrairdo texto o maior número de significados possíveis. O primeiro ponto abordado diz respeito às estratégias adotadas pelos autores daintrodução para cativar o leitor e atribuir credibilidade ao texto: por um lado, o humor, comorecurso para promover a aproximação e criar empatia com o leitor; por outro, odistanciamento, como recurso para construir a ilusão de imparcialidade e conquistar, assim,maior credibilidade. A seguir, o foco de atenção recairá sobre o critério adotado logo no início do textopara a apresentação da Eslovênia: o das referências geográficas. É a posição da Eslovênia nomapa do mundo, ou seja, a localização e delimitação de suas fronteiras, que surge como aprimeira opção dos autores para introduzir o país. A contraposição entre Leste e Oeste,bastante frequente no texto, também será considerada neste estudo. Por fim, a introdução em análise será apresentada em sua integralidade por meio dadescrição dos seis diferentes blocos que a constituem. Os recortes cronológicos e históricosserão destacados, de modo a proporcionar ao leitor uma ideia da lógica que rege aorganização do texto e a sua fragmentação para construção de um todo coeso, orgânico econsistente. A partir da análise da introdução de acordo com os três critérios acima indicados,pretende-se identificar se, e em que medida, o discurso esloveno de construção da suaidentidade nacional a partir da afirmação e valorização de uma língua e literatura nacionaisestá presente. Mais do que isso, busca-se compreender de que maneira esse discurso se realizaao longo do texto. 37
  53. 53. A Palavra como Alicerce da NaçãoEstratégias de atração e convencimento Antes de mais nada, é preciso ter em conta que o texto em análise se apresenta comointrodução a uma antologia de contos escritos por autores eslovenos contemporâneos etraduzidos para a língua inglesa. Todas as histórias foram criadas no período que vai de 1990 um ano antes da independência da Eslovênia  e 2005  um ano após a entrada do país naUnião Européia. A introdução, elaborada em inglês, é assinada por Mitja Čander, editor e críticoliterário, e Aleš Šteger, poeta e também crítico literário, ambos eslovenos. O objetivoexplícito e mais óbvio é o de apresentar aquela seleção de contos e, mais especificamente, aliteratura eslovena contemporânea. O menos óbvio, no entanto, mas logo percebido nasprimeiras linhas do texto, parece ser a apresentação de um país: Oh, Slovenia, Yeah, right. Hungarians to the north, Italians to the south. No, that can’t be right. Try again: Croatians to the north, Romanians to the South. And Ukraine to the west. Or is it Slovakia? Or Slavonia, rather? Bosnia, perhaps? Yes, that’s it. Bosnia to the west. Germany in the heart. And Russia, far, far away. [Linhas 1 a 5] O ponto de partida é a assunção de uma grande dose de desconhecimento da Eslovêniapor parte dos leitores. A definição das fronteiras é o critério escolhido para uma primeiraintrodução a esse país de fronteiras fugidias e confusas, como se a Eslovênia fosse umaespécie de território perdido ou imaginado. A opção pelo registro de humor na abertura do texto surge como um convite à leitura eparece assumir a dupla função de fator de atração do leitor, pela via da empatia, e defacilitador de entrada para esse pedaço de mundo semidesconhecido. Também reflete umcerto grau de informalidade e jovialidade, que podem ser associados à juventude, ou seja, ànova geração de autores apresentados. Esse mesmo tom é retomado no encerramento do texto: Still, if you, dear distant reader, alone or in pairs, manage to find us there, in the nowhere, to the west of Bosnia, to the left of Italy, we hope you will enjoy the reading. [Linhas 274 a 277] O recurso ao humor não se restringe, no entanto, à apresentação da Eslovênia, ele éestendido à caracterização do povo esloveno, como se vê nas passagens abaixo: For historians of a biological bent, Slovenes could easily serve as somewhat bizarre proof that even the small not only survive physically; sometimes they are rewarded for their persistence, fanaticism, and incestuous nature: the reward being a state of their own (itálicos acrescentados). [Linhas 8 a 11] 38
  54. 54. Análise do texto: aspectos de textualização During the long centuries without independence, despite the downdraft of history and a permanent cultural inferiority, The Slovene language became recognized as the common sacred emblem of its stubborn and often narrow-hearted speakers (itálicos acrescentados). [Linhas 21 a 24] As características atribuídas aos eslovenos dificilmente seriam tomadas comopositivas: fanatismo, natureza incestuosa, teimosia e mesquinhez. Mas são elas que, aliadas àpersistência, conduzem à recompensa final: um Estado próprio. A opção pelo humor podejustificar, em parte, a atribuição de qualidades negativas na caracterização do povo esloveno,mas é possível fazer outras leituras. Por fanatismo, pode-se ler fé religiosa; por naturezaincestuosa, pode-se ler identidade étnica; por teimosia, pode-se ler persistência; pormesquinhez, pode-se entender o desejo de um Estado próprio, ou seja, a construção de umaidentidade e de uma consciência nacionais. O humor surge carregado de uma boa dose de ironia e autocrítica, evidenciando umolhar reflexivo, que revela a conexão dos autores com o tema tratado  a Eslovênia ,conexão esta que logo será substituída por uma linguagem de distanciamento. Um bomexemplo desse tom irônico pode ser encontrado na passagem abaixo, que destaca um certoisolamento físico do país, seja pela existência de muralhas naturais, numa referência aosAlpes, seja pela exiguidade da costa marítima, de pouco mais de 46 km: High, uncrossable Alps throwing deep shadows, and the navy in the Slovene sea adding up to three boats, one of them being a rubber dinghy. [Linhas 5 a 7] Outro recurso utilizado pelos autores na abertura e no encerramento da introdução é oda interpelação do leitor. Ao longo de todo o desenvolvimento do texto eles não aparecem;afastam-se da narrativa e assim atribuem à história que contam uma aparência de verdade,como se narrassem fatos incontroversos, e não uma versão de tais acontecimentos. Os dadosoferecidos no texto surgem como fatos concretos e incontestáveis. A imparcialidade dosautores  que, embora sendo eslovenos, falam da Eslovênia e dos eslovenos como se nãofizessem parte desse grupo  dá o tom de veracidade e credibilidade. Ao mesmo tempo, a nãoidentificação dos autores como nacionais ameniza o eventual caráter ufanista do texto, decelebração da identidade eslovena, fortalecendo, assim, o discurso. Tanto o humor como a interpelação e o distanciamento consistem em estratégiasdiferentes de abordagem, embora complementares. Se o humor e a interpelação direta doleitor destacam-se como abordagens de conquista e pretendem cativar pela proximidade eempatia, numa espécie de apelo emocional, o afastamento dos autores procura convencer pelodistanciamento: afastam-se do leitor, agora cativo, para dar credibilidade ao texto. 39
  55. 55. A Palavra como Alicerce da NaçãoIntrodução à Eslovênia via coordenadas geográficas As referências à posição geográfica da Eslovênia, quer pela indicação de países ouregiões vizinhas ou próximas, quer pela contraposição entre Leste e Oeste, nesses casosmuitas vezes com acepção político-econômica, é recorrente na introdução. Na abertura dotexto, é uma constante. Toda essa passagem é construída em função dessas contraposições:Hungria, Croácia, Ucrânia, Eslováquia, Eslavônia, Bósnia, Alemanha, Rússia. A tal fatosoma-se a ausência de referência direta à Iugoslávia ou aos Bálcãs, que poderiam, a princípio,ser as referências mais imediatas do leitor. Se o ponto de partida da introdução é a assunção de desconhecimento do leitor emrelação à Eslovênia, apesar do tom de humor, a referência às fronteiras nacionais podemremeter a memórias de conflito e tensão entre países, especialmente na região dos Bálcãs, emfunção do histórico de violência ainda recente. A Alemanha aparece no coração da Eslovênia e a Rússia, muito distante (vd. citaçãosupra, na página 38), num aparente movimento de aproximação com a Europa, aliado àpossível lembrança de um passado comum, e de distanciamento da Rússia e, indiretamente,do seu passado comunista  ideia que parece reforçada pela não menção à Iugoslávia,conforme referido acima. Logo a seguir, ainda no início do texto, há mais três ocorrências de passagens queutilizam as referências geográficas para caracterizar e individualizar a Eslovênia. A primeira égenérica, associando o surgimento do Estado esloveno a mudanças no mapa da Europa emfunção de uma onda pós-comunista: The Slovene state arose from the wave of post-Communist changes on the map o Europe. [Linhas 11-12] A segunda, com conotação cultural, situa a Eslovênia no ponto de intersecção entrediferentes culturas (germânica, românica e húngara), enquanto a terceira contrapõe o país àsdemais nações eslavas, posicionando e, simultaneamente, diferenciando a Eslovênia como amais ocidental dessas nações: Historically Slovenes had stopped on the crowded crossroads between the Germanic, Romance, and Hungarian worlds to become the westernmost branch of Slavic nations. [Linhas 14-17] Aqui, pela primeira vez, a Iugoslávia e os Bálcãs são referidos, mas apenas nocontexto da independência da Eslovênia  e após esta ter sido mencionada , valorizando, 40
  56. 56. Análise do texto: aspectos de textualizaçãoassim, o presente, marcado pela autonomia e liberdade, pela afirmação da nação e não poruma referência ao seu passado de ausência de autonomia. Na menção à posição da Eslovênia como ponto de encontro entre culturas distintas, oreferencial geográfico é indireto, mas se faz sentir. Tem-se uma ideia mais clara dalocalização da Eslovênia no mapa, assim como da riqueza cultural que resulta daconvergência das influências de culturas distintas, representadas por países como a Alemanha,a Itália e a Hungria. Ao mesmo tempo, a Eslovênia só tem a ganhar com a associação da suahistória à de nações já reconhecidas. Outra mensagem que parece estar subentendida é o da vocação do país para amediação cultural, característica bastante valorizada hoje no cenário internacional ediretamente relacionada às questões de estabilidade política e de manutenção da paz. Emdocumento intitulado “Slovenia entering to EU – April 2004”, produzido pelo departamentode relações públicas da Eslovênia à época da entrada do país na União Europeia, essepotencial de mediação é destacado quer como uma contribuição da Eslovênia para a UniãoEuropeia, quer como um compromisso assumido com o futuro (vd. The Government PublicRelations and Media Office of Slovenia). Por fim, ao reconhecer-se como a nação eslava mais ocidental, a Eslovênia não sóreforça seu movimento de aproximação com o ocidente  cujo fato político mais marcantetalvez seja a adesão à União Européia em 2004  como acentua o seu processo dediferenciação das demais nações eslavas. Reconhece a origem comum e, exatamente porconta disso, busca a diferenciação como forma de fortalecer sua própria identidade. Talvez essa necessidade de afastamento e diferenciação em relação às demais naçõeseslavas seja o mais contundente desses movimentos. Ao se aproximar de um outro distante,aqui representado pela União Européia, a identidade nacional eslovena é realçada peladiferença. Já no contato com o próximo, nesse caso com as nações eslavas, essa diferençacorre o risco de se esvanecer. Nesse contexto, o suposto afastamento da Eslovênia em relaçãoao mundo eslavo talvez faça ainda mais sentido, considerando-se a necessidade dediferenciação como parte do processo de construção de sua identidade nacional. Ao longo do texto, verificam-se também quatro registros envolvendo, de forma diretaou não, a contraposição entre a Europa ocidental e a Europa oriental. No primeiro deles, aIugoslávia é posicionada entre uma e outra: Having overcome the 1948 dispute with Stalin, Yugoslavia engaged in finding a middle course between the East and the West... [Linhas 134-135] 41
  57. 57. A Palavra como Alicerce da Nação Em outro momento, a menção à Europa ocidental surge num contexto de tentativa deaproximação e relativização das barreiras: Despite certain restrictions, from the middle of the 1960s on, Slovene authors had virtually no lack of information concerning contemporary literary trends in Western Europe. [Linhas 137-139]. A mensagem geral que se depreende das citações acima é, mais uma vez, a dediferenciação e afastamento entre o regime comunista adotado pelo mundo soviético e aquelevivido na Iugoslávia. De modo geral, parece sugerir que o regime iugoslavo tenha sido maisbrando, menos opressor. Em duas outras passagens, os autores indiretamente situam a Iugoslávia como partedas nações do chamado bloco do Leste ao referirem-se a ela como “other Eastern blocnations/countries” (linhas 135 e 159). Essa questão representa um ponto de conflito que reside na inclusão ou não da entãoIugoslávia no grupo de países referidos como o bloco do Leste. Pelo registro do texto, osautores do prefácio parecem assumir essa participação, pois, ao se referirem aos outros paísesdo bloco de Leste, subentende-se que a Iugoslávia fazia parte desse grupo. Em sentidocontrário, alguns autores consideram que apenas os países alinhados com a URSS fariamparte desse bloco, o que excluiria a Iugoslávia. Ao final da introdução, como já referido, é retomado o discurso de abertura, com umanova tentativa de identificação da Eslovênia com suas sempre fugidias coordenadasgeográficas, perdida entre a Bósnia e a Itália: “in the nowhere, to the west of Bosnia, to theleft of Italy” (linhas 275 e 276).Descrição e organização geral do texto O texto está dividido em seis blocos de tamanhos desiguais. Com exceção dos doisprimeiros, que servem de apresentação do país sem que a literatura seja mencionada umaúnica vez, os demais traçam um breve painel da história da Eslovênia e da sua literatura, emordem cronológica, com destaque para grandes acontecimentos políticos. O primeiro bloco, ou seja, a abertura do texto, representa uma tentativa deaproximação dos autores em direção ao leitor, caracterizada pelo uso de interjeições e deinterpelações, simulando a fala direta, como já mencionado. Do segundo bloco em diante, otom assumido pelos autores é de distanciamento, quer do leitor, a quem não mais se dirigem 42

×