Criação e ilustração   Leopoldo Leal       AdaptaçãoAna Cristina Puttini      São Paulo, 2008
Prefácio                                                                                    OLAMEUAMIGOLEITORVOCEESTARADUR...
Lina        Menina esperta quedescobre o mundo das letras,     suas diferentes formas,    seus desenhistas... Com o  gato ...
Um sonho caligráfico                                                                                                      ...
A Coluna de Trajano                                                                                                    Lin...
No castelo de Carlos Magno             O tempo estava agradável, o céu limpíssimo. Era possível ver                — Seja ...
A oficina de Gutenberg     Bigato e Lina despediram-se rapidamente do monge ecaminharam para mais uma visita: a oficina de...
O navio de Garamond             Bigato e Lina tinham um novo destino: o navio de Claude Garamond.             — Chegamos! ...
De repente alguém bateu à porta. Bodoni recebeu e abraçou oA cantina de Bodoni                                            ...
O Capitão completou os relatos sobre o lado oriental da ilha:A macarronada de Bodoni                                      ...
Pensão Caslon                    Seguiram a trilha até que Lina avistou uma placa:                  “Pensão Caslon”. Bater...
A travessia     Por volta das 5 horas da manhã um dos tipos Caslon faz muito barulho para               Ao longe iam surgi...
— Sim, fique tranqüila, estamos na floresta dos Dingbats.                                                                 ...
A Floresta de Dingbats                                                                                                    ...
Roubo de ovelhas            Lina e Bigato mantiveram-se unidos ao grupo de Trajano e em passos firmes               O past...
Tipo sem serifa                                        Tipo com serifa       O primeiro encontro                          ...
Tipográfica. A subida era difícil, mas a vista era espetacular. Conforme iam       Os alpes                               ...
Só a antropofagia nos une    Lina e Bigato seguiram a caminhada. Bigato percebeu que Lina estava        O homem respondeu:...
Sopa de letrinhas       Oswald de Andrade tomou a liderança do grupo e, quando estava próximo                   Todos resp...
— Ahhhh Lina — disse Bigato com cara de orgulhoso —, não sei se minhaTratado tipográfico                                  ...
De volta à realidade     Depois de muito festejar com todos os seus amigos, Bigato disse a Lina:     — É hora de irmos, Li...
O fim, ahhhhh mas não dápara acabar assim     Nossa história acaba aqui, mas essa aventura não tem um fim. Todo os dias no...
Bigato conta a história de cada                                                      Johannes Gutenberg                   ...
Napoleão Bonaparte       Willian Caslon                                                                                   ...
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A ilha tipografica

  1. 1. Criação e ilustração Leopoldo Leal AdaptaçãoAna Cristina Puttini São Paulo, 2008
  2. 2. Prefácio OLAMEUAMIGOLEITORVOCEESTARADURANTEALEITURADESTELIVROREALIZANDO UMAAVENTURAFANTASTICAREPLETADEINFORMACOESEDESENSAOPADiretor editorial Eduardo LenEditor executivo Otávio Nazareth “Opa! Ao reler o meu texto, senti dificuldade em compreender mais rapidamente o significado das palavras. Vou tentar novamente.”Revisão Monalisa Neves OLAMEUAMIGOLEITORVOCEDURANTEALEITURADESTELIVROESTARAREALIZANDODesenhos complementares Daniel BittencourtProdução gráfica Marcos França UMAAVENTURAFANTASTICARELETADEINFORMACOESEDESENSAImpressão e acabamento Posipress Olá, meu amigo leitor, você estará, durante a leitura deste livro, realizando uma viagemAgradecimentos fantástica e repleta de informações e de sensações.Equipe Interbrand Brasil As informações revelarão para você dados históricos dos tipos gráficos dessas letras doFabio Manzano alfabeto com as quais escrevemos. A escrita alfabética foi uma incrível invenção humana.Família Leal Você já pensou: com alguns poucos caracteres (as letras), em função de uma engenhosaJoão MarcopitoLen Comunicação e Branding maquinária, somos capazes de escrever um número infindo de palavras, de arranjá-lasMaria Zilda Cunha de modo a construir muitos e profundos significados. Além disso, movido pelo senso deTatiana Capell praticidade e por uma sensibilidade estética peculiar ao homem, ele providenciou tamanhosThais Fonseca para diferenciar o uso dessas letras, bem como a separação entre agrupamentos de letras (as palavras), para orientar a ação do leitor. Se isso não tivesse ocorrido, imagine o tempo queEste projeto foi selecionado pelo 1º edital de co-patrocínio para primeiras obras levaríamos a decifrar o recadinho que escrevi para vocês, na forma como o fiz, logo acima.do Centro Cultural da Juventude da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, As letras, que inicialmente foram cunhadas em superfícies fixas, não ficaram tão comportadas assim, foram migrando para outros suportes, mais flexíveis e móveis atéo que viabilizou a produção. chegar a serem móbiles de luz em nossa tela de computador. Ao longo do tempo, com o desenvolvimento de estudos e das tecnologias de comunicação, elas ganharam movimento,Copyright © 2008, Editora Olhares cor como vemos nas publicidades, nos outdoors, assumiram muitas outras variações, a ponto de permitirem aos poetas realizarem textos que são verdadeiras arquiteturas gráficas. Se pensarmos bem, o escrever tem algo de lúdico, de jogo, de brincadeira, ao mudar o lugar Dados internacionais de catalogação na publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) das letras, mudamos o sentido, fazemos LOBO virar BOLO, AR virar RÃ, fazemos AMOR virar RAMO ou OMAR ou ainda O MAR, e, se quisermos ir mais longe, poderemos inventar estórias Leal, Leopoldo / Puttini, Ana Cristina com palavras escritas com letras e inventar estórias que contam a história dos tipos de letras. A Ilha Tipográfica / Leopoldo Leal e Ana Cristina Puttini. -- Ao fim e ao cabo, meu amigo, é só encontrar alguém com bastante talento para misturar São Paulo : Estúdio Substância : Editora Olhares, 2008. informação, conhecimento, jogo e aventura, criando com pistas deixadas pela história real, Inclui CD-ROM. uma divertida estória ficcional. É o caso de Leopoldo e Ana. Esses autores fizeram proeza ISBN 978-85-60492-03-9 de criar em linguagem verbal e não verbal um texto lúdico-informativo e, por meio de Lina e Bigato, levam você e outros leitores a uma viagem aventuresca à Ilha Tipográfica, 1. Ficção brasileira 2. Tipografia - História I. Título. vivenciando sensações de que há enigmas a serem decifrados. Bom divertimento. E não esqueçam de me contar se gostaram. 08-03683 CDD-869.93 Índices para catálogo sistemático : 1. Ficção : Literatura brasileira 869.93 Maria Zilda da Cunha {}
  3. 3. Lina Menina esperta quedescobre o mundo das letras, suas diferentes formas, seus desenhistas... Com o gato Bigato faz uma viagem inesquecível e passa a falar só por meio de rimas! Bigato Um gato listrado astuto e sabido que cativa Lina com seu conhecimento do mundo da tipografia.
  4. 4. Um sonho caligráfico Tipo Tipográfia Família Tipográfica Era tarde da noite, Lina fazia sua lição de caligrafia, copiando textos paraseu caderno. Achava esse exercício chato e tudo a distraía. Olhou para seu gatorajado e pensou: “Bem que você podia me ajudar, mas nem falar você sabe, quedirá escrever!” Cansada, Lina caiu em um sono profundo e sonhou com um mundocolorido, até que de repente apareceu um gato na sua frente! E não era um gatoqualquer; esse era roxo com listras vermelhas e falava sem parar! — Desculpe — disse o gato —, você está confusa, não é? Meu nome é Bigato, vamos para — Venha! Precisamos resolver um caso de tipofagia! a Ilha Tipográfica, onde vivem todas as letras. Elas também são chamadas de tipos, por isso — Quanta magia! Mas o que é tipofagia? — respondeu Lina. Ilha Tipográfica. Nós vamos para lá porque algo terrível está acontecendo: as letras estão — Não temos tempo. Venha comigo agora! sendo capturadas por canibais comedores de tipos, são os tipófagos! O gato pegou Lina pela mão. Os dois correram em direção ao mar e no — Tipos são letras: ok! Mas o que é tipografia ainda não sei!horizonte surgiu um barco. — Tipografia é tudo aquilo que é escrito, tudo aquilo que tem a ver com as letras, ou — Este barco — disse o gato — nos levará a uma ilha onde está acontecendo melhor, com os tipos. Quando eu digo canibal refiro-me àquele que come outras pessoasum caso inédito de tipofagia. – essa coisa horrível se chama antropofagia –; como na Ilha Tipográfica os canibais estão Lina estava curiosa: como um gato podia ser colorido e falar? Entraram no comendo tipos, o nome dado foi tipofagia... entendeu?barco e ela perguntou: — Ahhhhhhhh, entendi! E me surpreendi! Nada de tão terrível já ouvi! Como faremos — Sr. gato, quem é você? Eu preciso saber. E o significado de tipofagia? Eu para encontrar esses canibais aqui?quero entender. — E assim ela percebeu que sempre que seus pensamentos Bigato, com um olhar inteligente, disse:viravam palavras passavam a rimar. — Vamos percorrer a ilha e conhecer todos os moradores.{} {}
  5. 5. A Coluna de Trajano Lina, entusiasmada, perguntou: — Um imperador! Quanto esplendor! Como ele virou governador? — Lina, ele não governa esta ilha; Trajano é um dos célebres moradores. Na verdade a importância dele está em sua coluna: a Coluna de Trajano! E antes que você pense que se trata da coluna vertebral do moço, explico que é um monumento em que está escrita a história de uma batalha; sua base é o que tem de mais importante para essa ilha, pois ali estão as letras que viraram referência para toda a escrita do mundo. Lina começou a entender a importância desse monumento na história da tipografia e pediu a Bigato para falar mais sobre a Coluna de Trajano. — Esse monumento é um registro da evolução da escrita. As letras eram sempre maiúsculas e são chamadas de clássicas, pois têm proporções, curvas e espessura perfeitas. A criação das minúsculas surgiu muitos anos depois. A viagem seguiu e quando chegaram à ilha Bigato continuou sua conversa com Lina. Os novos amigos andaram mais uns dez minutos até avistarem uma bonita casa com a — Essa ilha é dividida em duas grandes extensões de terra ligadas por uma pequena famosa coluna no pátio central. Aproximando-se, puderam constatar que a casa estava vaziafaixa de areia; na parte ocidental moram os tipos com serifa, enquanto na outra parte, a e foram olhar a famosa coluna. Lina logo percebeu que havia algo de errado naquelas formasoriental, moram os tipos sem serifa ou grotescos, como são chamados pelos com serifa. e perguntou:Na faixa ocidental toda a área é conhecida e de fácil circulação, já o lado oriental é pouco — As palavras estão grudadas! Por que eles escrevem assim, com elas coladas?conhecido e tem florestas mais densas. Vamos caminhando até a fronteira para o lado — Antigamente, não se separavam as palavras. Com o passar do tempo fizeram umoriental da ilha, durante o trajeto faremos algumas visitas para investigar o caso e a triângulo para separação entre elas e só depois é que as separaram com espaço.primeira será ao imperador Trajano. Bigato procurou em cada canto da casa e infelizmente não encontrou ninguém.{} {}
  6. 6. No castelo de Carlos Magno O tempo estava agradável, o céu limpíssimo. Era possível ver — Seja bem-vindo, meu amigo Bigato, em que eu posso te ajudar? letrinhas voando no horizonte. Lina perguntou: — Olá, Carlos Magno, estamos com um sério problema. Canibais estão — Letras voando como pássaros... E nós, para onde direcionaremos raptando os tipos que vivem aqui na ilha. nossos passos? — Nossa, mas que desgraça, felizmente aqui no castelo nenhum tipo foi — Vamos para o castelo de Carlos Magno. devorado. Caminhe até o monastério aqui perto, quem sabe lá você consegue Lina ficou surpresa: mais informações com os monges copistas. — Carlos Magno, o imperador do Ocidente? Mas ele não Os dois foram em direção ao monastério. Ao se aproximarem perceberam mora no continente? uma grande confusão. Um monge veio correndo e gritando: — Sim, ele mesmo. Agora ele mora aqui. Carlos Magno é muito — Canibais, canibais, canibais! Canibais raptaram as letras góticas. importante para a tipografia, pois ele organizou a maneira de escrever Lina não entendeu nada e perguntou: obrigando todas as pessoas ilustres a terem calígrafos. Lembra — Mas não há lógica! O que é uma letra gótica? do seu caderno de caligrafia? O calígrafo é um profissional O monge tomou fôlego e começou a explicar: que desenha letras. E foi assim que surgiu a escrita feita de — Nós, os monges, desenhamos as letras góticas, que são apertadas e letras maiúsculas e minúsculas. cabem aos montes em cada folha de papel. Canibais altos e fortes vieram Lina pensou: “Nossa! Se soubesse disso antes até aqui e pegaram minhas letrinhas! Disseram que vão comê-las, por sorte não acharia meus exercícios de caligrafia tão chatos”. consegui salvar algumas. Quando chegaram ao castelo, foram recebidos Bigato disse ao monge, com um ar de detetive: calorosamente pelo próprio Carlos Magno: — Fique tranqüilo, iremos atrás desses canibais devoradores de tipos.{10} {11}
  7. 7. A oficina de Gutenberg Bigato e Lina despediram-se rapidamente do monge ecaminharam para mais uma visita: a oficina de Gutenberg,quem sabe ali encontrariam mais pistas. — Estamos indo visitar a oficina de um dos maisilustres moradores desta ilha: Johannes Gutenberg, oinventor do processo de impressão através dos tiposmóveis, que são letras em caixinhas de metal que recebemtinta e imprimem no papel, como um carimbo. Com seuinvento Gutenberg possibilitou a produção de livros porpreços muito menores e, conseqüentemente, as pessoastiveram mais acesso aos livros! — Bigato explicava a Lina,que estava fascinada com tudo que estava aprendendo. Chegaram à oficina, um lugar cheio de livros,papéis, tintas e diversos tipos móveis brincando no chão,esperando para serem impressos em algum livro. Bigato, como um verdadeiro detetive, pegou seu blocode anotações e interrompeu o trabalho de Gutenberg: — Sr. Gutenberg, estimado amigo, essa é Lina e estamos atrás dos canibais que estão minha oficina. Felizmente consegui esconder todos os tipos em suas caixas. Elesraptando os tipos de toda ilha. Você tem alguma informação que possa ser útil perguntaram onde estavam os tipos e eu respondi que eu era apenas um impressornas investigações? e que os tipos viviam livremente. Assim consegui convencê-los e eles se foram. Lina sentia-se importante, como uma verdadeira assistente na investigação e ouvia com — Você conseguiu descobrir alguma coisa sobre eles? — perguntou Bigatoatenção as palavras de Gutenberg. — Estava com tanto medo que não perguntei nada. Tentem falar com Claude — Olá amigos, tipos móveis fiquem em silêncio! O assunto aqui é importante. Fiquei Garamond, ele também é tipógrafo, quem sabe possa ajudar.sabendo desse caso de tipofagia há algum tempo, pois alguns canibais entraram em Agradeceram ao Gutenberg, que voltou ao trabalho, e saíram.{12} {13}
  8. 8. O navio de Garamond Bigato e Lina tinham um novo destino: o navio de Claude Garamond. — Chegamos! Esta é a caravela de Claude Garamond! Para que você saiba Lina, foi ele quem desenhou o tipo romano substituindo os tipos góticos, aqueles do monge, lembra? — foi explicando Bigato enquanto acenava ao Capitão Garamond, que na mesma hora ordenou que sua tripulação jogasse a escada. A tripulação era formada pelos tipos da família Garamond. Lina observava fascinada um “A” lavando o convés, um “B” arrumando o mastro, sendo ajudado por uma letra “T”, parecia um navio pirata. O Capitão Garamond gritou: — Bem-vindos, Bigato e menina! A família Garamond os saúda com grande alegria. Bigato cumprimentou o Capitão Garamond e respondeu: — Obrigado pela recepção, esta é minha amiga Lina. Estamos investigando o caso de tipofagia da ilha. — Aterrorizante essa história, mas aqui em meu navio nenhum tipo foi devorado nem devoramos ninguém... Lina estava curiosa e perguntou: — Mas Capitão, você tem alguma dica que nos ajude a resolver essa situação? — Algum tempo atrás os canibais, liderados por um que era gago, estiveram em meu navio e conversamos muito. Eles reclamavam que não tinham registros escritos e que a sua língua era somente falada. Com isso tinham sérios problemas em registrar fatos. Eu recomendei que eles usassem as letras do alfabeto e desenvolvessem uma tipografia própria, para conseguirem registrar todas as suas histórias e lendas. Nossa conversa foi sobre esse assunto e eu acredito que eles não comem mais carne humana... são pessoas muito boas. Depois de muito conversar, o Capitão Garamond convidou todos para jantar na cantina do italiano Bodoni e aproveitarem para investigar se ocorreu algum problema por lá. Bigato e Lina aceitaram o convite.{14} {15}
  9. 9. De repente alguém bateu à porta. Bodoni recebeu e abraçou oA cantina de Bodoni visitante, apresentando-o a todos: — Este é meu grande amigo Francesco Griffo, o sovina. — Olá Bodoni, fiquei sabendo do rapto de seus tipos minúsculos e vim até a cantina para me juntar a você! — Sr. Griffo, desculpe interromper, sou a Lina muito prazer, mas por que o senhor é sovina? Não consigo compreender. Sorrindo diante da inocência e da pergunta rimada da menina, Griffo respondeu: — Sovina significa mão-de-vaca e fui eu quem inventou o tipo itálico, ou cursivo, aquele inclinado à direita e mais estreito, que economiza espaço e páginas ao imprimir. Bigato pegou seu bloco de anotações e começou a fazer perguntas: Após uma tranqüila parada todos desembarcaram do — Sr. Francesco Griffo, você encontrou algum canibal nesta ilha, ou navio e caminharam numa trilha em direção à cantina. Quando tem alguma informação que possa nos ajudar? já estavam lá perto, Capitão Garamond gritou: — Eu não vi nenhum canibal até agora, mas sei de alguém que corre grande — Bodoni! Sou eu, Garamond! Trouxe alguns amigos para perigo: Willian Caslon, dono da pensão Caslon. Lá moram muitas letras, a família saborearem o seu macarrão! Caslon é muito numerosa, a maior da nossa ilha, se eles estão interessados em — Meu amigo, você não imagina o que aconteceu em devorar tipos lá os encontrarão em quantidade. minha cantina: um bando de canibais vieram almoçar, mas não comeram meu macarrão... levaram todos os tipos Bodoni minúsculos! Disseram que iam comê-los! Logo os meus pequeninos! Eu não sei o que fazer! — Com licença, Sr. Bodoni — disse Bigato. — Estamos investigando esse caso de tipofagia; como eram esses canibais? — Eram altos, fortes e liderados por um gago. — Finalmente acertamos! São os mesmos que conversaram com o Capitão Garamond, claro! O líder é gago! Garamond respondeu: — Muito estranho. Por que eles fariam isso? — É isso que vamos descobrir, o importante é que estamos no caminho certo! — Bigato respondeu, entusiasmado. O italiano, na esperança de que seus pequenos tipos retornassem, gritou: — Para comemorar a coragem e astúcia de vocês vamos comer o melhor macarrão desta ilha!{16} {17}
  10. 10. O Capitão completou os relatos sobre o lado oriental da ilha:A macarronada de Bodoni — Não conhecemos direito o outro lado da ilha, as trilhas são muito fechadas. Diversas criaturas ainda desconhecidas vivem por lá, dizem que todo cuidado é pouco na área da floresta, pois é a morada dos “Dingbats”. — Dingbats, que diferente! Que nome é esse que fica em minha mente? — perguntou Lina — É o nome dos símbolos, pequenos desenhos. Não são letras, mas pensam que são. Muito cuidado com eles! Bigato completou: — É nosso dever proteger todos os tipos, mesmo que não tenham serifa, que se disfarcem de desenho. Temos de visitar Willian Caslon, ele corre perigo! Preciso de ajuda para atravessar o rio. Francesco Griffo disse: — Eu posso ajudar, meu barco está lá. Garamond ficou na cantina de Bodoni para ajudar na proteção de novos ataques, enquanto Francesco Griffo guiou os dois amigos até o rio. O sol começava a se pôr na Ilha Tipográfica e um nevoeiro tomou conta do caminho. Lina disse baixinho: — Estou com medo, não enxergo nada além do meu dedo! — Não se preocupe, nada de errado vai acontecer. Francesco Griffo gritou: Bodoni saiu da cozinha — Pessoal! Para chegar à pensão de Caslon écom uma panela enorme de só seguir em frente nesta trilha. Adeus e espero quemacarrão al sugo; letras ajudaram-no a consigam resolver este caso.levar a panela até a mesa. O cheiro e o sabor erammaravilhosos e em poucos minutos a panela ficou vazia e, todossatisfeitos com a iguaria, conversavam sobre os perigos que habitavamo lado oriental da ilha. Bigato pulou sobre a mesa e berrou a todos: — Eu não tenho medo e vou caminhar por toda esta ilha! Uma letra “R” da tripulação de Garamond respondeu com uma voz amedrontada: — Você diz isso porque não conhece o outro lado da ilha. Lá só moram os tiposgrotescos, eles não têm serifa!{18} {19}
  11. 11. Pensão Caslon Seguiram a trilha até que Lina avistou uma placa: “Pensão Caslon”. Bateram na porta e de lá de dentro uma voz perguntou: — Quem são vocês e o que querem? — Eu sou Bigato e esta é minha amiga Lina. Willian Caslon aproximou-se, abraçou Bigato e disse em tom severo: — Bigato! É você? Entre. Caslon está no balcão, — Essas histórias não são mentiras. Tipos estão sumindo e não sabemos qual é a causa. vai ficar feliz em te ver. — Sr. Caslon, o sumiço dos tipos está acontecendo na ilha inteira e trata-se de um Quando a porta abriu foi possível visualizar o caso de tipofagia. Não são os tipos grotescos que estão fazendo isso, são canibais que estão porteiro, um pequeno asterisco. Ele trancou a porta e seqüestrando os tipos com o objetivo de comê-los. disse baixinho: — Sério? Isso explica o sumiço repentino de alguns tipos. Aqui em minha pensão — Devemos tomar muito cuidado à noite nesta somos muitos, é difícil controlar toda a família... vocês precisam descansar, tenho um região da ilha. quarto especial para vocês. — Os dois agradeceram em coro e seguiram Caslon até o andar — Por quê? — perguntou Bigato. superior. Foram acomodados num quarto grande e espaçoso. — Os antigos contam histórias de que tipos Bigato tomou a dianteira, atirou-se em uma cama e disse a Lina: grotescos caminham à noite, assustando e devorando — Vamos descansar um pouco, porque amanhã teremos mais investigações a fazer. qualquer um que estiver em seu caminho. Principalmente porque iremos atravessar para o lado oriental da ilha. Não devemos ter Bigato interrompeu: medo das letras sem serifa, mas a mata é muito fechada e contam histórias horripilantes — Deixe de bobagem! Sabemos claramente que os de lá. Durma bem, Lina. tipos sem serifa não são horríveis e que essas histórias não — Tentarei descansar, são tantas novidades que não consigo parar de pensar! — passam de mentiras. respondeu Lina{20} {21}
  12. 12. A travessia Por volta das 5 horas da manhã um dos tipos Caslon faz muito barulho para Ao longe iam surgindo, bem devagar, soldados com uniformes azuis e vermelhos.acordar Lina e Bigato, que esfregou os olhos e perguntou para a letra: Bigato entrou em desespero: — O que você está fazendo? Eu estava dormindo! — O que faremos? São os soldados de Napoleão! — Hora de levantar, Caslon pediu para acordá-los cedo. — Soldados de Napoleão! Mas o que eles fazem aqui nessa imensidão? — Caslon os esperava com uma mesa cheia de pães, queijos e doces: perguntou Lina. — Estávamos aguardando vocês para tomarmos o café-da-manhã. — De acordo com as histórias que contam, aparecem por aqui para saquear todos Sentaram-se à mesa e fizeram uma excelente refeição. Era chegado o momento da os tesouros das pirâmides. Vamos, depressa! Precisamos nos esconder!despedida. Bigato agradeceu toda a hospitalidade e Lina despediu-se de todos os tipos — Não há lugar onde poderíamos nos esconder! O que vamos fazer?Caslon. O sol estava nascendo quando os dois começaram a caminhada em direção O medo ia crescendo... De repente, um pequeno alçapão se abriu no meio doao lado oriental da ilha. Conforme chegavam próximo da estreita faixa de areia, a caminho e surgiu uma letra “D”:paisagem se modificava, a vegetação sumia devagar até chegarem numa região onde — Venham, venham depressa! Aqui vocês poderão se proteger dos soldados.havia apenas areia e muito vento. Bigato, demonstrando coragem, disse: Sem perder tempo, os dois pularam no alçapão. — Vamos seguir em frente, tenho certeza de que nada de mal vai nos acontecer! Após alguns minutos de caminhada o cenário era o mesmo. Apenas areia em todolugar, até que de repente avistaram uma pirâmide. Bigato arregalou os olhos e gritou: — Uma pirâmide egípcia! Então não era lenda, existem pirâmides na ilha!{22} {23}
  13. 13. — Sim, fique tranqüila, estamos na floresta dos Dingbats. Não os conhecemos direito, devemos apenas tomar cuidado, mas não somos letras, não temos o que temer.Por dentro do alçapão De repente, um barulho muito forte começou a se aproximar. Bigato subiu em uma árvore para observar de onde vinha o barulho; depois, abriu um sorriso e, feliz da vida, gritou: — Lina! Estamos com muita sorte! É Trajano com seu exército de letras. O alçapão dava acesso a uma grande galeria, muito iluminada por tochas. Bigato ficou — Por onde andou, Bigato? Havíamos pensado queolhando a letra “D” e perguntou: você também fora raptado. — Primeiramente, muito obrigado por nos salvar. A que família você pertence? — Felizmente estou bem, colhendo informações — Eu sou uma Clarendon. Podem reparar pela minha serifa quadrada, inspirada nas para resolver esse assunto.inscrições das pirâmides. Vamos em frente, pois há uma saída segura. Lina interrompeu: Após alguns passos nossos amigos encontraram uma grande sala e um — Meu nome é Lina, estou investigando esse caso dehomem de costas. tipofagia. O senhor conhece dos canibais a filosofia? — Sejam bem-vindos! Meu nome é Robert Besley. Mas o que vocês fazem por aqui? — Menina, que jeito engraçado de falar esse seu. Não — Estamos investigando um caso de tipofagia; tipos estão sendo raptados para serem conheço a filosofia desses canibais, mas podemos trabalhardevorados. juntos. Também estamos atrás deles. Soubemos desse — Nossa, que notícia horrível. Felizmente não enfrentamos esses problemas. Nosso caso e partimos imediatamente para omaior dilema são os soldados de Napoleão, que dificultam os estudos arqueológicos. lado oriental da ilha. Faremos — Que bom que vocês estão seguros senhor, nós temos que seguir adiante em nossa uma ótima parceria. Vamosviagem. Poderia nos indicar uma saída segura? marchar para dentro desta — Claro! Sigam a letra “D”. floresta. Levantem-se, letras, Eles seguiram em frente até outro alçapão. O ”D” se despediu e explicou que dali não temos o dia todo!em diante não teriam mais problemas com os soldados. Depois de uns minutos decaminhada sobre a areia quente, a paisagem mudou completamente para uma florestatropical, de mata muito fechada. Lina, com bastante medo, olhou para todas aquelas árvorese comentou baixinho: — Quantas árvores, está meio escuro. Você sabe o que nos reserva o futuro?{24} {25}
  14. 14. A Floresta de Dingbats — Estamos apenas de passagem, procuramos os canibais que estão raptando tipos — respondeu Bigato. — Nossa! Comendo tipos! Eles passaram por aqui e não desconfiamos A floresta era toda colorida, formada por plantas muito esquisitas. Todos estavam de nada, pareciam sujeitos muito bons e prestativos, ficaram conosco por apreensivos, pois não sabiam como seria a recepção em relação a eles. De repente algum tempo e depois partiram. encontraram o primeiro Dingbat. O pequeno, ao ver todo aquele exército, saiu correndo — Partiram para onde? — Bigato perguntou, nervoso em disparada. Todos foram atrás dele, em busca de alguma informação. — Foram em direção aos Alpes. Alguns metros depois, depararam com uma grande clareira, parecida com uma — Senhor, estamos perto de desmascará-los, peço permissão para aldeia. Não havia ninguém. Bigato perguntou a Lina: partirmos de sua aldeia. — Será que aqui é a aldeia dos canibais? — Permissão concedida, meu caro gato. Fiquem calmos, nós estávamos — Hummmmm, pergunta um tanto incomum. — Pensativa, Lina continuou: com mais medo e vimos que os canibais não tinham nada de suspeito. —Você mesmo disse que ninguém nunca entrou nesta floresta, como então — Desculpem-nos, é que nunca entramos nesta floresta, e são tantas poderia haver uma aldeia como esta? histórias que ouvimos daqui. Um barulho de tambores ensurdecedor tomou conta do lugar; ninguém sabia — Pois de agora em diante podem nos visitar quando quiserem. o que fazer. No topo das árvores ao redor da clareira começaram a aparecer vários As pessoas fantasiam com tudo o que não conhecem direito, são Dingbats. Em poucos instantes as árvores estavam abarrotadas deles. Um desses sinais preconceituosas, mas vocês puderam ver que aqui não há perigo algum. gritou do alto da árvore: — Muito obrigado, vocês foram muito gentis. Lina, vamos em — Eu sou o chefe Dingbat! O que vocês fazem em nossa floresta? direção aos Alpes.{26} {27}
  15. 15. Roubo de ovelhas Lina e Bigato mantiveram-se unidos ao grupo de Trajano e em passos firmes O pastor, mais calmo, agradeceu a cada um deles. rumaram para os Alpes. A paisagem daquela região era belíssima, com campos de Lina, Bigato, Trajano e sua equipe partiram para os Alpes, atravessaram um vegetação rasteira e pequenas flores coloridas e perfumadas. Lina estava calma, pequeno rio, que era bem raso, e aproveitaram para beber um pouco de água e tranqüilizada pela bela paisagem. Bigato viu bem de longe um pastor com suas encher seus cantis. Bigato tinha passado por ali há algum tempo e traçou uma letras pastando; o homem falava sozinho, parecia nervoso. rota alternativa, passando pela Floresta Negra e subindo os Alpes ao final dela. Aproximaram-se e Bigato perguntou: Trajano concordou, pois sabia que Bigato conhecia a ilha como ninguém. Com o — Tudo bem com o senhor? consentimento geral, seguiram para a Floresta Negra. — Não, não está tudo bem comigo! Eu estou arruinado, não consigo acreditar no que acabaram de fazer. — Conte-nos, assim poderemos ajudá-lo. — Eu estava aqui tirando uma soneca enquanto minhas letrinhas pastavam; de repente, quando acordo, vejo minhas letras sendo levadas. Por sorte acordei e consegui que eles não levassem todas. — Calma, senhor pastor, estamos investigando e vamos solucionar este caso, pode contar com nossa ajuda. — Obrigado, meu nome é Frederic Goudy, quem são vocês? Vocês podem trazer de volta minhas queridas letrinhas? — Meu nome é Bigato e essa é Lina, viemos para a Ilha Tipográfica para resolver esse terrível caso de tipofagia. Temos a ajuda de Trajano e sua equipe. E agora estamos bem perto de solucionar esse mistério. Já temos fortes pistas de quem está fazendo isso. Pode contar conosco, faremos todo o possível para trazer suas letrinhas de volta.{28} {29}
  16. 16. Tipo sem serifa Tipo com serifa O primeiro encontro — Nunca viram letras sem serifa e o que fazem então em nossa morada? — Você tem família? Trajano tenta mudar de assunto, mas só piora a situação. — Claro que eu tenho família! Você acha que eu sou sozinha no mundo? Sou a tipografia mais nova da família Caslon. — Caslon tem tipos sem serifa com ele? — Trajano parece indignado. — Claro que tem! Você acha que eu sou mentirosa? Olha, vocês não sabem de nada, me deixaram com um mau humor terrível, tenho de ir, vou procurar um lugar mais calmo A Floresta Negra era pequena, porém com árvores muito altas, que impediam onde não serei perturbada. a entrada de luz. No início da caminhada todos ficaram um pouco apreensivos, pois A letra foi embora deixando o grupo boquiaberto. Lina correu em sua era um ambiente assustador, cheio de árvores secas e muito escuro. O grupo avista direção e disse: uma letra “A” deitada no chão. Trajano olha fixamente para ela: — Não fique triste com quem não a — Pessoal, aquela letra tinha uma serifa e parece que foi cortada. Não pode ser! entende. Eu garanto que por conhecê-la Como alguém teria coragem de fazer uma barbaridade dessas? Ela está sem as estou muito contente. suas serifas! A letrinha sorriu e disse O grupo decidiu aproximar-se com o objetivo de ajudar a letra, mas de repente para Lina: ela levantou-se e começou a tagarelar: — É porque você, menina dona — Quem são vocês? O que fazem aqui? O que querem de mim? da rima, não tem preconceito, você — Está tudo bem com você? Estamos aqui para ajudá-la! — disse Trajano. possui uma das maiores e raras — Comigo está tudo bem, estava tirando uma gostosa soneca até vocês virtudes: o respeito às diferenças. me acordarem. Siga seu caminho e boa sorte — Mas você está machucada! Não está sentindo dor com a perda de suas na missão. serifas? — pergunta Bigato. Lina voltou para perto de seus — Serifas? Eu nunca tive serifas! companheiros; estava muito feliz — Você é uma grotesca? — diz Trajano com espanto. com o que ouvira. — Olhe o palavreado! Eu simplesmente não tenho serifa. — Desculpe-nos, ainda não havíamos encontrado nenhuma letra sem serifa. — Bigato tenta corrigir a grosseria de Trajano.{30} {31}
  17. 17. Tipográfica. A subida era difícil, mas a vista era espetacular. Conforme iam Os alpes subindo, o frio aumentava, pois se aproximavam do pico dos Alpes, onde a neve nunca derretia. Lina, curiosa, perguntou: — Bigato, o que há nestes Alpes de tão importante? Por que os canibais vieram para um lugar tão distante? — Dizem que um dos moradores daqui é Max Miedinger, um tipógrafo, desenhista de letras e alpinista nas horas vagas. Ele criou a família Helvetica, umas das mais famosas famílias tipográficas sem serifa. Seu desenho simples, sem enfeites e com muita facilidade para leitura, transformou essa tipografia na mais popular do século XX. De repente eles ouviram um grito que ecoou pelo ar: — Socorroooooooo! Aquiiiiiiiiiiii! No abiiiissssssmoooooooo! Todos olharam para o abismo e viram um homem e várias letras, pendurados por cordas. — Sou eu, Max Miedinger! Ajudem-me, estava fugindo de uns canibais que queriam capturar minhas helveticas para serem devoradas. O que estão esperando? Esta corda não vai nos agüentar por muito tempo. O exército de Trajano providenciou tudo que era necessário para o resgate. — Sr. Max, que bom que está bem. Nós estamos atrás desses canibais. — disse Bigato enquanto o ajudava. — Obrigado, mas apressem-se, pois eles passaram por aqui há Depois de quase duas horas caminhando pouquíssimo tempo. a paisagem mudou: árvores, flores, folhas Bigato gritou: dispostas de maneira simétrica, ou seja, — Trajano! É melhor você ficar para resgatar todas as letras. Eu e Lina organizadinhas, enfileiradas. Diante daquele iremos na frente. ambiente simétrico Lina não se conteve: Trajano achou a idéia pertinente e despediu-se dos amigos — Olhem esses triângulos formando o desejando sorte no final da batalha. gramado! Será que estamos em um desenho animado? Bigato respondeu: — Uma vez ouvi falar deste lugar. Um dos moradores daqui é Paul Renner, criador da tipografia futura. Uma tipografia sem serifa, uniforme e geométrica. Continuaram a caminhada até chegarem ao início da subida aos Alpes da Ilha{32} {33}
  18. 18. Só a antropofagia nos une Lina e Bigato seguiram a caminhada. Bigato percebeu que Lina estava O homem respondeu:muito apreensiva e disse: — Não pode ser, eu sou amigo dos canibais. Eles não fazem mal a ninguém. Xiii! Eu — Lina, eu enviei uma mensagem numa caligrafia que voará e avisará acho que fui mal-interpretado! Eu sou Oswald de Andrade. Durante um tempo convivi comBodoni e Garamond que estamos na direção dos canibais. os canibais e transmiti a eles meu manifesto antropofágico. “Só a Antropofagia nos une. Viram os canibais à distância. Então se esconderam e ficaram Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascaradaobservando o que eles estavam fazendo. Lina viu um homem bem vestido de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos osvindo na direção deles e disse: tratados de paz. Tupi or not tupi, that is the question”, e por aí vai... Eu não disse para eles — Hei, você aí! Esconda-se com a gente aqui! devorarem os tipos desta ilha, eles não me entenderam. Saiam desse esconderijo, devemos — Por que deveria esconder-me? fazer alguma coisa para mudar esta situação. Bigato ajudou: Lina respondeu: — Esconda-se rápido, antes que os canibais o vejam! Eles estão — Ah! Então é muito simples a conclusão! Vamos conversar com os canibais e explicarcapturando todos os tipos da ilha com a promessa de devorá-los. toda essa confusão! — Claro, mas devemos nos apressar, porque reparem o que está prestes a acontecer. — disse Bigato, revoltado. Os canibais estavam carregando grandes caldeirões para cozinhar os tipos. Trajano com seu exército e Max Miedinger com todas as suas helveticas estavam chegando perto dali e prestes a atacar os canibais. Oswald de Andrade ordenou: — Depressa pessoal, temos de evitar uma guerra, vamos para perto dos canibais antes que as letras de Trajano iniciem uma guerra por engano!{34} {35}
  19. 19. Sopa de letrinhas Oswald de Andrade tomou a liderança do grupo e, quando estava próximo Todos responderam que sim, mas olharam para Bodonidos canibais, gritou: admirados: o que ele pretendia com a água fervendo do caldeirão? — O que vocês estão fazendo? E Bodoni, orgulhoso, continuou: — Oswald, me... me... meu grande amigo! Veio à ce... ce... cerimônia tipofágica? — Perfeito, em nome da paz na ilha eu ofereçoHoje devo... devo... devoraremos todos os tipos que fo... foram capturados e assim a minha mais nova invenção: a sopa dete... te... te... teremos a tã... tão sonhada identidade tipográfica. letrinhas. As letras são feitas de massa — Canibal Gago! Você entendeu tudo errado! Quando eu falei em antropofagia, de macarrão!não era devorar outro ser, mas apropriar-se de todo conhecimento para desenvolver Todos riram da forma inteligentea sua própria identidade. como Bodoni encerrou a questão e Lina, Nesse momento, o exército de Trajano e as helveticas de Max Miedinger animada, gritou:apareceram prontos para atacar os canibais. Bigato correu na direção deles e — Que grande confusão!interrompeu o ataque: Agora, se querem comer as — Parem todos! Acalmem-se! O caso foi resolvido! letras que sejam de macarrão! — Como, resolvido? Olhem o caldeirão e todos os tipos presos nestas redes!— disse Trajano, indignado. — Acalmem-se! Tudo não passou de um mal-entendido. Vamos libertartodos esse tipos. Canibal Gago ordene que os outros canibais ajudem na libertaçãodos tipos. Oswald e Canibal Gago subiram numa pedra e começaram a discursar: — Pessoal, creio que devemos desculpas a todos por essa grande confusão, maspensem que foi por ele que nos encontramos de forma tão única. Vivemos a uniãodos tipos com e sem serifa. Vocês trabalharam em equipe, esta data deve entrar paraa história da Ilha Tipográfica. O dia em que o Ocidente e o Oriente se encontraram. Bigato olhou para o horizonte: — Olhem, é o navio de Garamond! O navio aportou no pequeno trapiche e Bodoni desceu correndo donavio e perguntou: — Algum tipo foi devorado? — Não, Bodoni, tudo foi resolvido. Tudo isso não passou de um grandemal-entendido! — exclamou Lina. — Senhores canibais, os caldeirões estão com água fervendo?{36} {37}
  20. 20. — Ahhhh Lina — disse Bigato com cara de orgulhoso —, não sei se minhaTratado tipográfico idéia é pela paz mundial, mas reforça a convivência pacífica na Ilha Tipográfica... — Além de colocar em prática de verdade o manifesto de Oswald de Andrade — interrompeu Lina. Bigato afastou-se, subiu nos caixotes de madeira em que Bodoni trouxe sua massa de macarrão e anunciou: — Por favor, um minuto de atenção: gostaria de aproveitar esse momento de festa para sugerir um acordo. Todos pararam o que estavam fazendo e prestaram a máxima atenção ao que Bigato tinha a dizer: — Gostaria que instaurássemos hoje aqui o tratado tipográfico de ajuda mútua entre Ocidente e Oriente. Por meio desse tratado os canibais liderados pelo Canibal Gago ficariam na Ilha Tipográfica aprendendo tudo sobre tipografia. Dessa forma, cultivaríamos corretamente os ideais antropofágicos de Oswald de Andrade. Todos ficam em silêncio por uns dez segundos, tempo suficiente para que Bigato ficasse temeroso. Depois de se entreolharem, todos responderam aos gritos: Era uma cena fantástica, — Viva o tratado tipográfico! Viva o Bigato! Viva a Lina,canibais conversando com a menina que rima!soldados de Trajano, tipos com e sem Após muito tempo de festa e diversão o sol foi se pondo e a festaserifa convivendo alegremente. Uma festa chegando ao fim. Garamond prometeu seguir o tratado e ajudar todosinimaginável. os tipos a voltar para suas famílias. As diferenças foram colocadas de lado. Todosexperimentaram e aprovaram a deliciosasopa de letrinhas de Bodoni, o caldo cheiode legumes dava mais sabor às letrinhasde massa de macarrão. No meio de tantaharmonia, Bigato teve uma idéia e pediu aopinião de Lina. — Lina, pensei em sugerir um acordopara que o Ocidente e o Oriente da ilhavivam sempre em paz e harmonia. — Que legal! Depois de tudo o queaconteceu uma idéia para a paz mundial!Sugira agora, aproveitando o momento defelicidade geral.{38} {39}
  21. 21. De volta à realidade Depois de muito festejar com todos os seus amigos, Bigato disse a Lina: — É hora de irmos, Lina. — Sim, creio que nosso trabalho chegou ao fim. Lina se debateu na água e foi segura pela mão por Bigato. Ela tentou subir à — Exato, nossa missão foi cumprida. tona, mas seus olhos se fecharam. — Será difícil me despedir, sinto que minha amizade com todos aqui só tende a progredir. Quando Lina recuperou os sentidos escutou o barulho da chuva forte e viu seu — Esse é o fim de uma missão, mas a amizade estará sempre guardada em sua gato rajado entrando em seu quarto pela janela, todo ensopado:memória e coração. — Nossa, tudo foi um sonho, parecia tão real. Vivi uma aventura sem igual. A despedida foi alegre, com promessa de retorno o mais breve possível. Os dois O gato rajado de Lina ficou olhando para ela.seguiram pela floresta dos tipos psicodélicos até o farol onde pegariam outro barco. A visita — E você? Seu gato danado! Por onde andou, que está todo molhado?à Ilha Tipográfica chegava ao fim. Bigato, um pouco triste, abraçou Lina: O fato de falar com rimas já não a incomodava mais, talvez fosse a forma dela — Foi uma grande aventura, não? nunca esquecer a aventura que vivera minutos atrás e ela concluiu: Ela sorriu com os olhos cheios de lágrimas. Eles entraram no barco para retornarem para — Nossa, já são 2 da manhã, vou vestir meu pijama e voltar para cama.casa. Lina perguntou: Hummmm quem sabe volte e sonhar com a Ilha Tipográfica e com aquela — Bigato, com tanto aprendizado e cultura, como voltarei para casa depois viagem fantástica.dessa aventura? Lina colocou seu pijama, deitou na cama e caiu rapidamente no sono. O gato, — Não se preocupe, você simplesmente retornará. olhando para a menina, disse baixinho: Após a última palavra de Bigato uma onda gigantesca encobriu o barco e todos — Durma bem querida! E quanto à sua pergunta: “por onde andei?”,caíram no mar. a resposta é simples: estive ao seu lado, o tempo todo.{40} {41}
  22. 22. O fim, ahhhhh mas não dápara acabar assim Nossa história acaba aqui, mas essa aventura não tem um fim. Todo os dias novostipógrafos criam e recriam suas famílias tipográficas. Você vai ter sempre novas letras paraconhecer e se encantar com suas histórias e belos desenhos. Todas as vezes que deparar com uma nova família de letras, seja nos livros, nos jogos ouno seu computador, lembre-se da Lina e do Bigato, quem sabe eles não aparecem aí no seuquarto e te levam para mais uma aventura de barco...{42} {43}
  23. 23. Bigato conta a história de cada Johannes Gutenberg Inventor alemão que se tornou famoso pela sua contribuição parapersonagem que visitou na ilha a tecnologia da impressão e tipografia. Criou uma liga para os tipos de metal e tintas à base de óleo, além de uma prensa gráfica, inspirada nas prensas utilizadas para espremer as uvas no fabrico do vinho. Tradicionalmente, crê-se que teria inventado os tipos móveis — que não passavam, no entanto, de uma melhoria dos blocos de impressão já em Imperador Trajano uso na Europa. (pág. 12) Marco Úlpio Nerva Trajano foi imperador em Roma de 98 a 117. Entre outras construções, fez a Coluna de Trajano, para glorificar sua capacidade militar. O seu baixo-relevo em espiral comemora as vitórias das Claude Garamond campanhas militares contra os Dácios. Depois de sua morte, em 117, Um dos mais importantes desenhistas de letras do século XVI, desenhou o Senado decidiu que as cinzas do seu corpo deviam ser enterradas a família de letras Garamond, obra-prima da tipografia na época e na base da coluna. (pág. 8) considerada, segundo pesquisas, a letra mais legível do mundo para textos. Redescoberta no século XX, teve várias reproduções. (pág. 15) Carlos Magno Foi sucessivamente rei dos Francos (de 771 a 814), rei dos Lombardos Giambattista Bodoni (a partir de 774), e ainda o primeiro imperador do Sacro Império Romano De Parma, na Itália, começou trabalhando na gráfica do Vaticano (coroado em 25 de dezembro do ano 800), restaurando, assim, o antigo e tornou-se um gênio não só pela beleza do desenho de sua família de Império Romano do Ocidente. Para unificar e fortalecer o seu império, letras mais famosa (bodoni), mas pelo conjunto de sua obra: os belíssimos Carlos Magno decidiu executar uma reforma na educação e instaurou livros que imprimiu e as inovações tecnólogicas nas máquinas de a Renascença Carolina, movimento de renovação cultural e intelectual impressão e nos materiais. Bodoni recebeu os prêmios mais importantes que trouxe, entre outras coisas, a escrita em letras maiúsculas de sua época (século XVIII), incluindo medalhas outorgadas por Napoleão e minúsculas à tona. (pág. 10) e pelos reis da Espanha. (pág. 16) Monges e letras Góticas Distinta do modelo carolíngio, a letra gótica teve origem por volta do Francesco Griffo século XI, na Bélgica e no norte da França. Em vários conventos medievais A sua maior façanha foi a invenção do itálico tipográfico, nos anos funcionavam as scriptorias, oficinas caligráficas encarregadas de copiar 1500-1501. Inicialmente ourives – como a maioria dos gravadores de tipos textos religiosos – e, por vezes, textos da Antiguidade. Era imperativo da época – e exímio artesão, é considerado o iniciador da independência economizar espaço na folha de pergaminho, compactação ainda reforçada nos desenhos dos tipos para impressão, das letras dos manuscritos pelo uso contínuo de abreviaturas. (pág. 11) humanistas, de onde era adaptada, na época, a maioria dos tipos venezianos (hoje conhecidos como ‘itálicos’). (pág. 17){44} {45}
  24. 24. Napoleão Bonaparte Willian Caslon Figura importante no cenário político mundial da época, já que esteve Foi o primeiro grande impressor inglês. Como era excelente desenhista, no poder da França durante 15 anos e nesse tempo conquistou grandes passou a desenhar tipos, abrindo a primeira fundição ao lado da partes do continente europeu. Os biógrafos afirmam que seu sucesso Universidade de Oxford. O estilo de letra de Caslon é limpo e legível; deu-se devido ao seu talento como estrategista e ao seu talento para a declaração de independência dos Estados Unidos foi composta por tipos empolgar os soldados com promessas de riqueza e glória após vencidas desenhados por ele. (pág. 20) as batalhas. Neste livro falamos do ataque ao Egito. A estratégia de Napoleão nessa batalha era atrair a Inglaterra para fora das Ilhas Britânicas, bloqueando-lhe o contato com seu império indiano. Nessa Robert Besley batalha ficaram conhecidos os saques aos tesouros das pirâmides. (pág. 23) Editou letras condensadas, sombreadas, perfiladas... Depois, editou o grupo de fontes que chamou Ionics, para finalmente desembocar na bela síntese de uma fonte inglesa com o nome de Clarendon. Max Miedinger Gravada, em Londres, no ano de 1845, a Clarendon tornou-se o protótipo de Tipógrafo suíço, desenhou a Helvetica, um tipo eficaz no uso cotidiano, todas as slab-serifs. (pág. 24) com alta legibilidade tanto para texto como para leitura à distância. Foi considerada a letra dos designers durante os anos 1950, 1960 e 1970 em todo o mundo, sendo considerada símbolo do bom desenho nesse período. Frederic Goudy (pág. 33) Tipógrafo norte-americano, desenhou por volta de 124 famílias de letras. Goudy, que não gostava do modo mecânico como as fundições comerciais traduziam os seus desenhos de tipos feitos à mão, decide criar a sua própria fundição em 1925 – para poder controlar todas as fases do Oswald de Andrade processo. (pág. 28) Foi um dos promotores da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, tornando-se um dos grandes nomes do modernismo literário brasileiro. Foi o autor de dois manifestos modernistas: O Manifesto da Paul Renner Poesia Pau Brasil e o Manifesto Antropófago. Esse manifesto Trabalhou como desenhista gráfico, tipógrafo, pintor e professor. constitui-se numa síntese de alguns pensamentos do autor sobre Lançou a letra Futura em 1927, exemplo máximo das letras geométricas o Modernismo Brasileiro. (pág. 35) sem serifa, considerado na época o tipo da nova tipografia baseado em formas geométricas representativas do estilo visual da Bauhaus dos anos 1920 e 1930. (pág. 32){46} {47}
  25. 25. ESTA OBRA FOI COMPOSTA EM THE SERIF E LINOTYPE CONRAD, TEVE SEUS ARQUIVOSPROCESSADOS EM CTP E FOI IMPRESSA PELA POSIPRESS EM OFFSET SOBRE PAPEL COUCHÉ DA COMPANHIA SUZANO PARA EDITORA OLHARES EM MAIO DE 2008

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