Fluzz capítulo 4

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Fluzz capítulo 4

  1. 1. Capítulo 4 | Anisotropias no espaço-tempo dos fluxos AUGUSTO DE FRANCO Vida humana e convivência social nos novosmundos altamente conectados do terceiro milênio 1
  2. 2. 2
  3. 3. 4Anisotropias no espaço-tempo dos fluxos Os deuses eram ventos. Arturjotaef em Numância (2010) Ama-gi é uma palavra suméria para expressar alforria... Traduzida literalmente significa “retorno à mãe” - na medida em que os ex-escravos eram “devolvidos às suas mães (i. e., libertados)”. Acredita-se ser a primeira expressão escrita do conceito de liberdade. Wikipedia (2010) Vulcanos têm “sete sentidos”, que incluem os cinco sentidos conhecidos pelos humanos e um sexto sentido animal, que é “a habilidade de sentir a presença de distúrbio em campos magnéticos”. Walter Robinson (Ritoku, pessoa-zen) citando Gene Roddemberry (1979) em Morte e Renascimento de uma Mente Vulcana (2008) 3
  4. 4. Não há nada a fazer. Deixem fluzz soprar para ver o que acontece. (Na verdade, dizer ‘deixem fluzz soprar’ é apenas uma maneira de dizer, pois fluzz já é o sopro). Quando fluzz soprar, prá que ensino, prá que escola? Quando fluzz soprar, para que religião, para que igreja? Quando fluzz soprar, para que corporação, para que partido? Quando fluzz soprar, para que nação, para que Estado? Oh! É claro que todas essas instituições perdurarão: como remanescências. Não serão mais prevalecentes. Aliás, como já se prenuncia, elas se contaminarão mutuamente: nações serão religiões, escolas serão igrejas, Estados serão corporações... e tudo será, afinal, o que é – sempre a mesma coisa: programas verticalizadores que “rodam” na rede social instalando anisotropias no espaço-tempo dos fluxos.O cordobés Lucius Annaeus Sêneca (c. 3 a. E. C. – 65) escreveu que “se umhomem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe será favorável”(1). Mas é o contrário. Pouco importa onde está Ítaca. É o vento, soprandolivre sobre a superfície das águas, que constitui o não-caminho (oudesconstitui todos os caminhos).Como cantou Konstantinos Kaváfis, “se partires um dia rumo a Ítaca, fazvotos de que o caminho seja longo, repleto de aventuras... Melhor muitosanos levares de jornada e fundeares na ilha, velho enfim, rico de quantoganhaste no caminho, sem esperar riquezas que Ítaca te desse. Uma belaviagem deu-te Ítaca... Tu te tornaste sábio, um homem de experiência, eagora sabes o que significam Ítacas” (2).Manobrando o leme para seguir uma rota já traçada não há como viver emprocesso de Ítaca. É preciso deixar-se ao sabor do vento. 4
  5. 5. Quando o sopro não percorre livremente os mundos é porque houvedirecionamento de fluxo. Pré-cursos foram estabelecidos. Velas foramorientadas para capturar e condicionar o vento. Em geral isso é feito poressas intervenções antrópicas resultantes do congelamento de fluxos quechamamos de instituições: escolas, ensino, religiões, igrejas, corporações,partidos, nações, Estados. São artifícios para exercer a Força, ou seja, paraimpor caminhos.A pergunta é: quando fluzz soprar, para que forçar? Por isso se diz: não hánada a fazer (quando fluzz soprar). Não há nada a fazer significa que épreciso deixar-ir. Ter um comportamento fluzz é deixar-ir. Fluzz não é aforça. Fluzz é o curso.Impor caminhos é deformar um tecido, perturbar um campo. Se pessoasinteragindo com pessoas são redes, o tecido deformado é sempre uma redeque se tornou mais centralizada ou menos distribuída. Se o campo social écomposto pelo emaranhado de conexões, a perturbação é sempre umdesemaranhar, de sorte que alguns mundos perderão contato com outros;ou melhor, deixarão de estar sujeitos às mesmas interações. Se issoacontece é porque interworlds foram aniquilados.Quando forçamos um caminho exterminamos mundos (para nós, é claro –mas o que dá no mesmo, se não podemos mais interagir com eles).Perdemos então as oportunidades – de que fala o belo poema de Kaváfis –de “entrar pela primeira vez um porto para correr as lojas dos fenícios ebelas mercancias adquirir” ou de peregrinar naquelas “muitas cidades doEgito... para aprender” (3). 5
  6. 6. Deformando a rede-mãe Na ausência do poder as redes tendem a permanecer distribuídasA investigação das redes sociais leva-nos a uma nova hipóteseantropológica: uma outra visão da natureza humana (seja lá o que isso for),que se afasta do que foi concebido como Homo economicus, para seaproximar – como sugeriram Christakis e Fowler – do que eles chamaramde Homo dictyous (do latim homo, “humano”, e do grego dicty, “rede”) (4).Indivíduos biológicos da espécie humana se tornam Homo dictyous (sereshumanos), quando interagem. Mas quando interagem constituem rede.Logo, sem essa rede não podemos ser humanos.Em outras palavras: se, como pessoas, já somos rede – do contrário nãopoderia haver a realidade biológico-cultural que chamamos de ‘ser humano’– então, para nós, humanos, no princípio era a rede. Isso significa quesomos “filhos” da rede. Logo, podemos dizer que a rede é a nossa “mãe”.Ou seja, que existe uma rede-mãe.A interpretação que revela tal sentido é alegórica ou metafórica. Mas ametáfora da rede-mãe pode revelar mais coisas do que imaginamos. Elasugere que, deixados a si mesmos, os humanos farão (ou melhor, serão)redes em vez de se engalfinharem em uma guerra de todos contra todostransformando sua vida em uma realidade “solitária, miserável, sórdida,brutal e curta”, como queria o agourento Hobbes (1651) (5).Os pensadores e os economistas que cunharam e trabalharam com aconcepção do homo economicus simplesmente partiram desse fundamentohobbesiano para reificar a existência da abstração chamada indivíduo.Trata-se de uma visão da natureza humana – na verdade quase uma tara –baseada no egoísmo, para a qual, como escreveu Hobbes, na ausência de“um poder que domestique os homens... não há sociedade; e o que é piordo que tudo, [há] um medo contínuo e perigo de morte violenta” (6).Vivendo nesse “mundo cão brutal em que a preocupação com o bem-estardos outros não existe” (7) existiria, entretanto, paradoxalmente, o indivíduoenquanto unidade isolada dos outros indivíduos. Evidentemente, diante detantos atos gratuitos de colaboração que praticamos e presenciamos no dia-a-dia, essa construção intelectual só pode se revelar uma perversão. Daí atara individualista, tão freqüente e inadequadamente denominada deliberalismo (econômico). 6
  7. 7. Não há nenhuma evidência científica de que os seres humanosabandonados à sua própria sorte (como se pudesse haver outra sorte...)poriam fim à sua convivência. As evidências apontam justamente ocontrário. Não havendo motivo para guerrear, as pessoas – seguindo ofluxo da vida – viveriam sua convivência – ou seja, viveriam em rede. Comodisse Lynn Margulis (1986): “A vida não se apossa do globo pelo combate,mas sim pela formação de redes” (8).A alegação de Hobbes de que é o poder que evita a destruição coletiva deveser invertida. Quando há poder, aí sim, é porque houve motivo paraguerrear e a convivência fica ameaçada.Na ausência de um poder que as domestique (para insistir na expressão deHobbes), pessoas interagindo com pessoas tendem a configurar redesdistribuídas em pequenos grupos, só não o fazendo, em grupos maiores,em virtude da falta de condições biológicas ou tecnológicas de interatividadeampliada e à distância. Não haveria motivo para obstruírem fluxos,separarem clusters ou excluírem nodos dessas redes (que é, exatamente, oque faz o poder), a menos que queiramos lançar mão de uma hipótesereligiosa para vaticinar que o homem é inerentemente competitivo (ou emparte competitivo, por sua própria natureza – seja lá o que isso for). Talhipótese é absurda neste contexto porque pressupõe que possam existirseres humanos (entes biológico-culturais) como entes (biológicos) isolados.Mas não existe no ser humano nenhum atributo cultural (comportamental)que se possa dizer inerente. A “natureza” do Homo dictyous – se é que sepode afirmar que exista uma ‘natureza da cultura’ – é relacional.Todo poder acarreta anisotropias no espaço-tempo dos fluxos(verticalizando a rede). E é por isso que o poder se define como umamedida de não-rede (em termos de rede distribuída) (9). Na ausência dopoder (centralização) a rede tende a permanecer distribuída. Podemos dizerque o bios (Basic Input-Output System) pré-gravado lá no firmware darede-mãe não é um programa verticalizador (centralizador) pelo simplesmotivo de que não há qualquer razão para sê-lo. Nesse caso, o que precisaser explicado é o processo de centralização, não o estado de distribuição.São os obstáculos colocados à livre convivência que precisam serjustificados, não a convivência.Por certo a rede-mãe não permanece com topologia distribuída na presençade programas verticalizadores. Aqui é um daqueles casos – mais comuns doque se pensa – em que o software modifica o hardware (como quando 7
  8. 8. aprendemos uma língua e alteramos para tanto nossas conexõesneuronais).Programas verticalizadores deformam a rede-mãe, sejam programasmeméticos (como os que chamamos de deuses – quando lhes atribuímosatributos super-humanos), sejam programas organizacionais (que rodamcomandos de ordem, hierarquia, disciplina e obediência – como escolas,igrejas, partidos, corporações, Estados e outras instituições assemelhadascom todos os seus aparatos).No interior e no entorno dessas organizações hierárquicas o campo social éprofundamente perturbado. O espaço-tempo dos fluxos é deformadoobrigando as fluições a percorrerem caminhos estranhos. A interação édisciplinada sem qualquer outra razão que a de manter tais estruturasmonstruosas funcionando e se reproduzindo. A imagem da Fig. 2 éaterrorizante. Lembra à primeira vista aquelas naves de alienígenaspredadores do filme de Roland Emmerich (1996) Independence Day. Talveznão por acaso: organizações hierárquicas de seres humanos geram seresnão-humanos. Mas se trata apenas de uma outra maneira de representar odiagrama (B) de Paul Baran (1964) já exposto aqui na Fig. 1. Fig. 2 | Organograma de uma organização hierárquicaSe o fluxo deixar de ser aprisionado, orientado, conduzido, compelido aescorrer pelas valetas cavadas para pré-traçar caminhos (eliminando outros 8
  9. 9. caminhos), a rede-mãe volta à sua topologia distribuída. É curioso que aprimeira expressão escrita do conceito de liberdade – a palavra sumériaAma-gi – signifique literalmente “retorno à mãe”.Por isso se diz: quando fluzz soprar, prá que ensino, prá que escola?Quando fluzz soprar, para que religião, para que igreja? Quando fluzzsoprar, para que corporação, para que partido? Quando fluzz soprar, paraque nação, para que Estado?Um sinal de que fluzz está soprando é que tais instituições estão semisturando e se confundindo, quer dizer, está ficando cada vez mais claroque elas são aspectos das mesmas deformações ou do mesmo tronco deprogramas verticalizadores que “rodam” na rede social provocandoanisotropias no espaço-tempo dos fluxos.É assim que as perturbações no campo social que geram religiões revelam-se as mesmas que geram nações. De sorte que, nos múltiplos mundosaltamente conectados que estão emergindo, os nômades optarão por essaou aquela nação por mera preferência individual, como há bastante tempojá fazemos com as religiões que professamos quando nos convertemosdepois de adultos. Alguém preferirá ser brasileiro por simpatia ou por outrasrazões afetivas, empáticas ou culturais; outro, por razões análogas,preferirá se identificar com uma região ou cidade: será californiano oucidadão-cultural de Lyon.Da mesma forma, ao renunciar a igrejas muitas pessoas retirarão tambémseus filhos das escolas (compreendendo que as duas coisas são – nacondição de centros de deformação da rede-mãe ou de fontes deperturbação no campo social – basicamente a mesma coisa). O movimentodo homeschooling já começou e avançará para o communityschooling (nalinha do unschooling). Comunidades de aprendizagem em rede tendem aflorescer e se multiplicar nos Highly Connected Worlds substituindo asatuais burocracias do ensinamento (chamadas de escolas).Ainda: Estados (nacionais) dividirão com corporações (transnacionais) ocontrole dos fluxos econômicos e políticos mundiais globalizados e essapulverização (dos 193 exemplares atuais do modelo europeu de Estado-nação – um anacrônico fruto da guerra, da paz de Westfalia – para milharesde centros com autonomia crescente), dará margem à configuração denovos modelos glocais de governança baseados no localismo cosmopolita demiríades de cidades como redes de comunidades interdependentes. 9
  10. 10. É claro que todas as velhas instituições perdurarão vestigialmente, comoremanescências do mundo único. Não serão destruídas, simplesmente setornarão inadequadas por não suportarem a fluição de alta intensidade queatravessará os interworlds dos mundos altamente conectados do terceiromilênio. 10
  11. 11. Perturbações no campo socialA nuvem que envolve-e-se-move-com uma pessoa conectada tem acapacidade de “sentir” perturbações no campo socialWalter Robinson (2008), também conhecido por Ritoku – um zen-budistaque dá aulas de filosofia na Universidade de Indiana – escrevendo “Morte eRenascimento de uma Mente Vulcana” (10), observa que “Vulcanos têm“sete sentidos”, que incluem os cinco sentidos conhecidos pelos humanos eum sexto sentido animal, que é “a habilidade de sentir a presença dedistúrbio em campos magnéticos” (11).A metáfora, se não cai como uma luva, serve aos propósitos da presentedigressão. Por certo, admitir a hipótese e trabalhar com o modelo deperturbações no campo social pode ser mais fácil do que sentir essasperturbações. Não é preciso ir muito longe para saber se um campo socialfoi deformado: basta entrar em uma organização hierárquica; por exemplo,basta visitar uma instituição estatal ou uma grande empresa para constatarcom que intensidade o “campo gravitacional” em torno dos chefes modificaa estrutura do espaço (no caso, do espaço-tempo dos fluxos). Os fluxos seabismam nesses buracos negros. Eles são sumidouros, engolidouros,alçapões de fluxos.Tão forte às vezes é a gravitatem dos hierarcas que a deformação do camposocial sob sua influência alcança até mesmo os stakeholders externos daorganização, transbordando para seu entorno. É por isso que uma grandeempresa ou corporação, em uma pequena localidade na qual não existamoutras organizações de mesmo porte, em vez de – como se acreditava –impulsionar seu desenvolvimento, faz o contrário: extermina o capital sociallocal (quer dizer, centraliza a rede social). Existem exemplos à farta.Nas organizações altamente centralizadas, as pessoas perdem a capacidadede ser elas mesmas (à medida que cresce sua porção-borg diminui a suadimensão de pessoa, quer dizer, sua porção ghola-social). Vestem sempreuma espécie de farda; mesmo nas organizações civis que não usamuniformes elas se uniformizam interiormente. E até exteriormente: não raropreferem roupas que escondem o corpo e os tons de cinza para o vestuário.No exercício continuado da servidão voluntária, autolimitam suaspotencialidades escondendo-se na penumbra das rotinas e optando por nãose aventurar na claridade do ato inédito. Fazem tudo – sobretudo o que 11
  12. 12. delas não é explicitamente exigido, eis o ponto! – para se submeter aosistema e aos seus chefes.E há uma reverência indevida, uma espécie de sujeição, quase umagenuflexão psicológica quando alguém se dirige a algumas dessasencarnações de Dario (aquele monstro Darayavahush, um rei-borg que,após perpetrar um golpe de Estado, dominou os persas entre 521 e 486 a.E. C. exigindo-lhes prosternação física à sua passagem).Ésquilo (427 a. E. C.), em Os Persas – talvez a primeira obra escrita em quese menciona a democracia dos atenienses como realidade oposta adaqueles povos que têm um senhor – descreve bem a deformação docampo social sob o domínio da sombra de Dario (12). O regime monstruosonão tinha, ao contrário do que se propagou, grandes vantagens militares.Os persas foram rechaçados pelos irreverentes, insolentes e mais livresatenienses e seus aliados na planície de Maratona (em 490). Sim, mas oque é realmente monstruoso é que tal programa (que poderia ser chamado,em homenagem a Ésquilo, de A Sombra de Dario) – instalado quase trêsmilênios antes de Dario – continue a rodar... quase três milênios depois!Todavia, essas deformações já começam a ser sentidas. Um sexto sentidohumano-social está surgindo nos Highly Connected Worlds. Não épropriamente um sentido individual. A nuvem que envolve-e-se-move-comuma pessoa conectada tem a capacidade de “sentir” perturbações no camposocial. Uma rede altamente distribuída rechaçará de pronto, mesmo queseus membros não tenham consciência disso, quaisquer tentativas decomando-e-controle. Eis porque burocratas sacerdotais do conhecimento ouensinadores, codificadores de doutrinas, aprisionadores de corpos,construtores de pirâmides, fabricantes de guerras e condutores de rebanhosnão se dão muito bem em redes sociais distribuídas e, nem mesmo, nasmídias sociais, quer dizer, nas plataformas interativas que são utilizadascomo ferramentas de netweaving dessas redes. Porque são, todos,netavoids.Esta é uma das razões – até agora muito pouco compreendida – pelas quaiso comando-e-controle, além de não poder se exercer, também não se faznecessário em uma rede distribuída (na medida, é claro, do seu grau dedistribuição). Dizer que o emaranhado “sente” quer dizer que ele detectadistorções. Mais do que isso: primeiro ele encapsula e depois acabametabolizando as fontes de perturbações que causam anisotropias noespaço-tempo dos fluxos. E são esses incríveis seres sociais que chamamosde pessoas que sentem isso: ainda quando não saibam explicar os motivosdessa sensação, elas (as pessoas) percebem que “alguma coisa está 12
  13. 13. errada” quando aparece um daqueles netavoids, ou um arrivista (ou mesmoum troll, nas mídias sociais).É a rede-mãe se defendendo. Mas ela nem sempre consegue fazer isso. 13
  14. 14. Destruidores de mundosPersistimos erigindo organizações que não são interfaces adequadas paraconversar com a rede-mãeDarayavahush é um destruidor de mundos. Joseph Campbell diria que elerepresenta “uma força monstruosa, a força do Império, que se baseia naintenção de conquistar e comandar” (13). Como aquele Darth Vader doprimeiro episódio da série que veio à luz – Uma Nova Esperança (1977) –,na decifração de Joseph Campbell (1988), ele não é uma pessoa. É umprograma malicioso que se instalou na rede. Um programa verticalizador.Não, não estamos tratando propriamente da figura histórica de Dario, ohomem que governou a Pérsia. Todos os hierarcas – inclusive o próprioDario – replicam o mesmo padrão Darth Vader porque estão emaranhadosem configurações deformadas da rede-mãe, com deformações semelhantes.Qualquer um, inserido em sistemas com tais configurações, manifestará –em alguma medida – características de Darayavahush. E será em algumamedida destruidor de mundos. Na verdade, aniquilará interfaces(interworlds) estreitando o fluxo das interações, impedindo que pessoas seconectem livremente com pessoas. É por isso que organizações hierárquicastêm tanta dificuldade de gerar pessoas.Sim, gerar pessoa é um processo contínuo que não se dá no nascimento enem apenas logo após o nascimento, mas prossegue por toda a vida (acom-vida, quer dizer, aquela ‘vida social’ que se realiza quando vivemos aconvivência). É algo assim como o que certas tradições espirituaischamaram de formação da alma humana: um veículo para “atravessar amorte” (em vez de tentar evitá-la, querendo ser imortal: o motivo dacriação dos deuses à imagem e semelhança dos hierarcas) aceitando o fluxotransformador da vida.Para continuar com o paralelo, se a alma humana é formada com a energiada compaixão, obtida nos atos gratuitos de valorizar a vida, compartilhar oalimento, aliviar os sofrimentos e promover a liberdade, Darth Vader nãotem alma porque, ao invés de formá-la, criou um veículo-substituto paraescapar de fluzz: sua nave-simulacro é feita com a energia da violência,obtida nos atos instrumentais de tirar a vida, se apoderar dos recursosvitais, infligir sofrimentos e, sobretudo, eliminar caminhos (pela imposiçãoda ordem). 14
  15. 15. Nas organizações hierárquicas, um processo intermitente dedespersonalização é posto em marcha quando obstruímos fluxos,separamos clusters e excluímos nodos. O resultado de tal processo poderiaser interpretado, lançando-se mão de nossa metáfora, como uma perda decontato com a rede-mãe. É por isso que nossas organizações de todos ossetores têm tanta dificuldade de contar com (a adesão voluntária das)pessoas. A reclamação geral é sempre a de que “as pessoas nãoparticipam”. Imaginam alguns que o motivo dessa dificuldade seria a visão,a missão, a causa da organização ou do movimento, avaliadas então comoincapazes de empolgar mais gente, porém a verdadeira razão está nadeformação da rede. As pessoas sentem – mesmo quando não conseguemexplicitar racionalmente seus motivos – que não lhes cabe entrar em umespaço já configurado de uma determinada maneira. Não querem‘participar’ (tornar-se partes ou partícipes de alguma coisa) nos termosestabelecidos por outrem, senão ‘interagir’ nos seus próprios termos.Mesmo assim, persistimos erigindo organizações que não são interfacesadequadas para conversar com a rede-mãe. Porque continuamos criandoobstáculos à livre conversação entre pessoas.Pessoas conversam com pessoas. Redes conversam com redes.Organizações hierárquicas não podem conversar com redes.Organizações hierárquicas (ou com alto grau de centralização) têm imensasdificuldades de provocar mudanças sociais no ambiente onde estão imersas.A rede social que existe independentemente de nossos esforços conectivos– ou que existiria se tais esforços não fossem verticalizadores; quer dizer, oque chamamos aqui de rede-mãe – não recebe bem a influência dessasorganizações e continua funcionando mais ou menos como se nada tivesseacontecido.É o que ocorre quando ouvimos relatos de organizações sociaisprofundamente dedicadas ao trabalho comunitário. Seus dirigentesreportam que estão lutando há anos, com grande afinco, em umadeterminada localidade, mas a impressão que têm é a de que seus esforçosnão adiantam muito. O povo não reconhece o seu papel, as relações nãomudam, parece que tudo continua como d’antes...Se formos analisar as circunstâncias da atuação dessas organizações debase, veremos que elas terão um alto grau de centralização (ou um grau deenredamento insuficiente). É um problema de comunicação. A rede socialque existe de fato naquela localidade não está reconhecendo as mensagensemitidas pela organização. É muito provável que essa organização estejaestruturada e funcione como uma pequena fortaleza, um castelinho, uma 15
  16. 16. igrejinha... É muito provável que ela faça parte da ‘nova burocracia dasONGs’, ou seja, que tenha dono, chefe, diretoria – às vezes até familiar –com baixíssimo grau de rotatividade (menor ainda do que o dos partidos eorganizações corporativas). É muito provável que seus chefes queiram seeternizar no poder (no caso, um micro-poder, é verdade, mas todo poderhierárquico, vertical, seja grande ou pequeno, se comporta mais ou menosda mesma maneira, sempre a partir do poder de excluir o outro...) porqueprecisem (ou imaginem que precisem) auferir o crédito ou obter oreconhecimento social pela sua atuação.Se essa organização que não consegue boa comunicação com a rede-mãefor uma corporação ou partido, será bem pior. Ela estará estruturada apartir de um impulso privatizante, seja com base no interesse econômico,seja com base no interesse político de um grupo particular que quermanobrar o coletivo maior em prol de sua própria satisfação. A rede socialnão-deformada é sempre pública. Mas as interfaces hierárquicas queconstruímos para conversar com ela ou para tentar manipulá-la são sempreprivadas, mesmo quando urdimos teorias estranhas para legitimar aprivatização, como aquela velha crença de que existem interesses privadosque, por obra de alguma lei sócio-histórica, teriam o condão de seuniversalizar, quer dizer, de universalizar o seu particularismo quandosatisfeitos.Só há uma maneira de conseguir uma boa comunicação com “a matriz”.Copiando-a o mais fielmente que conseguirmos; ou seja, construindointerfaces – redes voluntárias – com o maior grau de distribuição que forpossível. Quanto mais distribuídas forem as redes que construirmos paracopiar a rede-mãe melhor será a comunicação com ela.Nos novos mundos altamente conectados que estão emergindo ficará cadavez mais difícil recrutar, arrebanhar, enquadrar ou aprisionar pessoas emorganizações erigidas com base na seleção de caminhos válidos (ou nanormatização de caminhos inválidos). Desde que tenham essa possibilidade,as pessoas perfurarão os muros, abrirão continuamente seus próprioscaminhos mutantes e – na sua jornada para Ítaca – peregrinarão paraaprender naquelas “muitas cidades do Egito...” 16
  17. 17. Anisotropias no espaço-tempo dos fluxos | 4(1) SENECA, Lucius Annaeus (c. 3 a. E. C. – 65). Cf. Wikiquote:<http://pt.wikiquote.org/wiki/S%C3%AAneca>Não foi possível determinar a localização desta citação. Cf. a bibliografia deSENECA: <http://www.egs.edu/library/lucius-annaeus-seneca/biography/>(2) KAVÁFIS, Konstantinos (1911). Ithaca. Kaváfis não publicou nenhum livro emvida. Estão disponíveis online as traduções de José Paulo Paes e Haroldo deCampos em:<http://www.org2.com.br/kavafis.htm>(3) KAVÁFIS: Op. cit.(4) CHRISTAKIS, Nicholas e FOWLER, James (2009): Connected: o poder dasconexões. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.(5) HOBBES, Thomas (1651). Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2003.(6) HOBBES: Op. cit.(7) CHRISTAKIS, Nicholas e FOWLER, James: Op. cit.(8) MARGULIS, Lynn e SAGAN, Dorion (1986). Microcosmos: four billion years ofmicrobial evolution. Los Angeles: University of California Press, 1997.(9) Cf. FRANCO, Augusto (2009). O poder nas redes sociais. Slideshare [1893views em 23/01/2011]<http://www.slideshare.net/augustodefranco/o-poder-nas-redes-sociais-2a-versao>(10) ROBINSON, Walter (2008). “Morte e renascimento de uma mente vulcana” inEBERL, Jason & DECKER, Kevin (2008). Star Treck e a filosofia: a ira de Kant. SãoPaulo: Madras, 2010.(11) O sétimo sentido seria “o senso de unicidade com Tudo, isto é, Universo, aforça criativa, ou o que alguns humanos poderiam chamar de Deus. Vulcanos nãovêem, contudo, isso como uma crença, seja religiosa ou filosófica. Eles tratam issocomo um simples fato que insistem não ser mais incomum ou difícil de entender doque a habilidade de ouvir ou ver” [como escreveu o criador da série Star Trek,Gene Roddenberry (1979)]. Vulcanos chamam essa filosofia de “Nome”, querendo 17
  18. 18. dizer “uma combinação de uma diversidade de coisas para fazer com que aexistência valha a pena” (Episódio “Por trás da cortina”: The Original Series)”. Cf.RODDENBERRY, Gene (1979). The Motion Picture. New York: Pocket Books, 1979.(12) Em Os Persas, Ésquilo descreve os reveses de Xerxes, filho de Dario. Já mortona ocasião, Dario vai então aparecer na peça como uma sombra para advertir aospersas que jamais movam novamente uma guerra aos gregos. Depois de dar adeusaos anciãos e de recomendar que, mesmo “em meio a desgraças, alegrem-se nafruição do mundo... a Sombra de Dario esfuma-se no túmulo”.(13) CAMPBELL, Joseph (1988). O poder do mito (entrevistas concedidas a BillMoyers: 1985-1986). São Paulo: Palas Athena, 1990. 18

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