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e priorizamos atividades em função do que fazem as pessoas que serelacionam conosco ou que estão ligadas a nós em algum gr...
Como epígrafe de um dos capítulos de "Os filhos de Duna", o escritor deficção Frank Herbert (1976) colocou na boca de Harq...
Gholas sociais                                                    Um ghola não é um borgNo universo ficcional de Duna, obr...
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Pessoas são portas          “Toda pessoa é uma nova porta que se abre para outros mundos”Pessoas são portas. Abrem caminho...
muito conhecidas, obstruem conexões com a nuvem que as envolvem,desatalham clusters (ao se recusarem a servir como pontes)...
Pessoa já é rede | 3(1) HERBERT, Frank (1976). Os filhos de Duna. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1985.(2) CASTELLS, Manoel...
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Fluzz capítulo 3

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Fluzz capítulo 3

  1. 1. Capítulo 3 | Pessoa já é rede AUGUSTO DE FRANCO Vida humana e convivência social nos novosmundos altamente conectados do terceiro milênio 1
  2. 2. 2
  3. 3. 3 Pessoa já é rede Toda pessoa é uma pequena sociedade. Novalis em Pólen (1798) Não passamos de remoinhos num rio de água sempre a correr. Não somos material que subsista, mas padrões que se perpetuam a si próprios. Norbert Wiener em Cibernética e sociedade (1950) Uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas. (“Umuntu ngumuntu ngabantu”: Máxima Zulu) Todas as pessoas são feitas de todas as outras pessoas. http://twitter.com/augustodefranco (08/07/10)Toda pessoa é uma nova porta que se abre para outros mundos. John Guare em "Six degrees of separation" Peça de teatro na Broadway (1990) 3
  4. 4. Nos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio, vida humana e convivência social se aproximarão a ponto de revelar os “tanques axlotl” onde somos gerados como seres propriamente humanos. Todos compreenderemos a nossa natureza de “gholas sociais”. Os tanques onde somos formados como pessoas são clusters, “regiões” da rede social a que estamos mais imediatamente conectados. Um tipo especial de ghola: não um clone de um indivíduo, mas um “clone” de uma configuração de pessoas. Toda pessoa, como dizia Novalis (1798), é uma pequena sociedade; quer dizer, pessoa já é rede! Pessoa é um ente cultural que replica uma configuração. É um ghola social.Em um mundo fracamente conectado, os caminhos são individuais. Cadapessoa vive sua vida, faz suas escolhas, estabelece suas rotinas e tomasuas iniciativas sob a influência das demais, é claro, mas como se fosseuma unidade separada. Convive, por certo, com as demais, mas essaconvivência é vivida como distinta daquela outra vida, que seria a suaprópria vida. Pode viver a ilusão de que vive sua vida, fazendo suasescolhas, estabelecendo suas rotinas e tomando suas iniciativas de modoautônomo. Pode alimentar a crença de que já surgiu no mundo comopessoa, quer em virtude de uma instância super-humana que assim a tenhacriado, quer por força da genética (o “sangue”) e das experiênciasparticulares pelas quais passou logo após seu nascimento (o “berço”).Em mundos altamente conectados tende a se esvair essa separação entrevida humana e convivência social. Nossas escolhas racionais raramente sãonossas: reproduzimos padrões, imitamos comportamentos e cooperamoscom outras pessoas sem ter feito individualmente e conscientemente taisescolhas. Adotamos princípios, escolhemos carreiras, compramos produtos 4
  5. 5. e priorizamos atividades em função do que fazem as pessoas que serelacionam conosco ou que estão ligadas a nós em algum grau próximo deseparação, muitas vezes pessoas que nem conhecemos (como os amigosdos amigos de nossos amigos).Vivemos então, cada vez mais, a vida do nosso mundo constituído pelaconvivência e não apenas a nossa vida individual. Isso ocorre na razãodireta da interatividade do mundo em que estamos imersos. O fluxo danossa timeline pode chegar a atingir tal intensidade ou densidade que, nolimite, não podemos mais afirmar inequivocamente que há um eu quedeseja, julga, raciocina, escolhe e almeja de forma autônoma em relação ànuvem de conexões que nos envolve. Ao mesmo tempo, sentimos esabemos que continuamos sendo uma pessoa, única, totalmentediferenciada. Mas ao viver a nossa vida (a vida humana única dessa pessoaque somos), vivemos, na verdade, a convivência (social, também única,desse mundo construído pelo emaranhado de conexões onde estamosfluindo e que nos constitui como seres propriamente humanos).O social passa ser o modo de ser humano nas redes com alta tramatura dosnovos mundos-fluzz. Em outras palavras, passamos a constituir umorganismo humano “maior” do que nós. Passamos a compartilhar muitasvidas, com tudo o que isso compreende: memórias, sonhos, reflexões demultidões de pessoas, que ficam distribuídas por todo esse superorganismohumano. Podemos, como nunca antes, ter acesso imediato a um conjuntoenorme de informações e, muito mais do que isso, podemos gerarconhecimentos novos com uma velocidade espantosa e com umainteligência tipicamente humana (não de máquinas, computadores oualienígenas), porém assustadoramente “superior” a que experimentamosem todos os milênios pretéritos.E tudo isso pode ocorrer sem a necessidade de termos consciência(individual) do que está se passando. Ao viver a vida da rede, apenasvivemos a convivência: não precisamos mais tentar capturá-la e introjetá-la, circunscrevê-la ou mandalizá-la para conferir-lhe a condição detotalidade, erigindo um grande poder interior de confirmação para noscompletar da falta dos outros e nos orientar nos relacionamentos com eles.Tal necessidade havia enquanto podia haver a ilusão da existência doindivíduo separado de outros indivíduos; ou quando um (ainda) não eramuitos. Toda consciência é consciência da separação, inclusive aconsciência da unidade, da totalidade, ou da unidade na totalidade, é umaresposta à separação. No abismo em que estamos despencando ao entrarem fluzz, não há propriamente isso que chamávamos de consciência. 5
  6. 6. Como epígrafe de um dos capítulos de "Os filhos de Duna", o escritor deficção Frank Herbert (1976) colocou na boca de Harq al-Ada, cronista doJihad Butleriano (a guerra ludista contra as máquinas inteligentes) (1): "O pressuposto de que todo um sistema pode ser levado a funcionar melhor através da abordagem de seus elementos conscientes revela uma perigosa ignorância. Essa tem sido freqüentemente a abordagem ignorante daqueles que chamam a si mesmos de cientistas e tecnólogos". 6
  7. 7. Gholas sociais Um ghola não é um borgNo universo ficcional de Duna, obra monumental de Frank Herbert (1965-1985), os tanques axlotl são mulheres tleilaxu que sofreram um comacerebral químico induzido, a par de outras intervenções genéticas, paraservir como usinas de gholas (espécies de clones de uma pessoa morta apartir de seu material genético). Os Tleilaxu (ou Bene Tleilax) são umasociedade fechada de religiosos muito avançados tecnologicamente.No entanto, os gholas são réplicas que não manifestam automaticamente asqualidades dos originais. Para tanto eles devem passar por um processolongo de aprendizagem e devem viver certas experiências (sobretudo derelacionamento íntimo com seus treinadores) para despertar suashabilidades.A leitura das diversas camadas da escritura de Herbert (literal, alegórica oumetafórica, simbólica etc.) permite um paralelo (meramente evocativo epara efeitos heurísticos) entre o processo biológico-cultural de clonagem eaprendizagem de um ghola e o processo social de geração de uma pessoa(que seria, então, uma espécie de “ghola social”).Os “tanques axlotl” onde somos gerados como seres propriamente humanosseriam os clusters onde convivemos com outras pessoas (seres que jáforam humanizados pelo mesmo processo) a partir do nascimento. De sorteque não somos humanos apenas por força da genética, da reprodução ou dahereditariedade biológica (que replicamos como indivíduos da espéciehomo) e sim em virtude da rede social em que com-vivemos, cujaconfiguração particular replicamos como pessoas, ou seja, “gholas sociais”.Aquele que é geneticamente humanizável só consuma tal condição a partirdo relacionamento com seres humanizados. Somos (enquanto entesculturais) filhos da rede social. E não podemos ser humanos sem esse tipode relacionamento. Como reza a máxima Zulu, “uma pessoa é uma pessoaatravés de outras pessoas”.Tudo isso é para dizer que um ghola (social) não é um borg. Mas por que étão importante dizer isso?No universo ficcional de Star Trek os Borgs são uma “raça” alienígena deciborgues, humanóides de várias espécies assimilados e melhorados com a 7
  8. 8. injeção de nanossondas e a aplicação de implantes cibernéticos que alteramsua anatomia e seu funcionamento bioquímico, ampliando suas habilidadesmentais e físicas.Quando encontram suas presas - quaisquer membros de outras civilizações,aos quais andam a cata – os Borg recitam, com algumas variações, aseguinte litania: “Nós somos os Borg. A existência como vocês conhecem acabou. Adicionaremos suas qualidades biológicas e tecnológicas à nossa. Resistir é inútil”.Não existe uma rede social Borg, com algum grau significativo dedistribuição, porque não existe pessoa-Borg. Transformados em indivíduossubstituíveis, os borgs são replicados em série por uma estruturafortemente centralizada em sua rainha (sim, o regime é monárquicoabsoluto), a única que pode pensar livremente (se é que isso é possível semo conversar). Seus cérebros são conectados a uma mente coletiva (aColetividade Borg) controlada por um hub central (Unimatrix Um). Oobjetivo declarado do povo Borg (que só é um povo naquele particularsentido original da palavra latina ‘populus’: “contingente de tropas”) é“aperfeiçoar todas as espécies trazendo ordem ao caos”.Uma interpretação possível para a metáfora é a seguinte: de certo modoqualquer pessoa, transformada em peça substituível por uma organizaçãocentralizada (hierárquica), é – em alguma medida – um borg.Sim, o paralelo é mais fértil do que parece. Dizer que um ghola (social) nãoé um borg (biotecnológico), seria como colocar na boca do primeiro – nodealbar de uma época-fluzz – uma paródia da “saudação” borg como aseguinte: Nós somos gholas sociais. Novas possibilidades de existência, até agora desconhecidas de todos nós, estão sendo abertas. Nossas qualidades biológico-culturais estão se combinando em novos padrões sociais. É só preciso deixar-ir.A rigor, como uma configuração de pessoas está sempre ligada a outrasconfigurações, todas as pessoas estão de algum modo emaranhadas noespaço-tempo dos fluxos (quem sabe não era isso que chamávamos dehumanidade, uma prefiguração). Assim, no limite, todas as pessoas sãofeitas de todas as outras pessoas. 8
  9. 9. Pessoas são portas “Toda pessoa é uma nova porta que se abre para outros mundos”Pessoas são portas. Abrem caminhos. Na verdade, são caminhos. Atalhosentre clusters. Pontes. É sempre por meio de uma pessoa que podemosinteragir com quem está em outros mundos.Isso significa que os interworlds são realmente as pessoas, não um novoambiente tecnológico, mas um novo ambiente social com novos recursostecnológicos. Esta é uma típica compreensão-fluzz: pessoa não é oindividual e sim o social. Surpreendentemente, em mundos altamenteconectados as novas internets são... as pessoas!Não, não é somente uma imagem poética. É uma nova compreensão daspotencialidades humanas. Pessoas interagindo são seres humanos. A partirde certo grau de interatividade, são organismos sociais, quer dizer,superorganismos humanos.Quando a tecnologia fornecer os meios para manter as pessoascontinuamente conectadas e para acelerar a interação, ela o fará a partirdessa possibilidade social. Aliás, foi assim que nasceu a velha Internet:como percebeu Castells, sua estrutura interativa só foi projetada assimporque as pessoas que a projetaram a projetaram assim (2). E as pessoasque projetaram a Internet só a projetaram assim – com possibilidade deinteratividade – porque havia tal possibilidade social. Da mesma formaestão nascendo as novas internets: seja com o aperfeiçoamento dosdispositivos móveis interativos, seja com implantes bio-eletrônicos oucibernéticos, enquanto a topologia da rede for mais distribuída do quecentralizada não produziremos borgs, mas gholas-sociais.Há sempre um risco. O risco de ser borg. A fronteira entre um borg e umghola-social é móvel, nebulosa e quase sempre invisível. A hierarquiaproduz borgs. As redes humanas distribuídas geram gholas-sociais. Mas amaioria dos padrões de interação se configura no intervalo entrecentralização máxima e distribuição máxima.Evitar o risco é refugiar-se na vida individual, escolhendo racionalmente asinterações, sendo seletivo nos relacionamentos, fechando-se ao outro. Esseé o fracasso de todas as chamadas “pessoas de sucesso”. Fecham-se àinteração com o outro-imprevisível e, ao fazer isso, a despeito de serem 9
  10. 10. muito conhecidas, obstruem conexões com a nuvem que as envolvem,desatalham clusters (ao se recusarem a servir como pontes), excluemoutras pessoas do seu espaço de vida e simultaneamente se excluem deoutros mundos, isolando-se do superorganismo humano e deixando decontar com uma parte (justamente aquela parte inusitada, que osmarqueteiros, os políticos profissionais e os psicólogos sociais tantoprocuram e não conseguem encontrar) das imensas potencialidades dosocial.São raríssimas as pessoas de sucesso que se deixam abordar por qualquerum do povo. Seus endereços, e-mails e telefones são mantidos em sigilo.Seus ambientes de trabalho são protegidos por porteiros, agentes desegurança, secretários e assessores. Seus sites e blogs são fechados àcomentários ou mediados. Sua participação nas mídias sociais é semprepara usá-las como broadcast, para fazer relações públicas e propaganda desi-mesmas (para ficarem mais famosas e auferirem os benefícioseconômicos, sociais e políticos conferidos diferencialmente a quem alcançoutal condição).Isso acaba se manifestando no que acreditam que seja sua vida pessoal,como indivíduos, supostamente autônomos, tão importantes que nãopodem ficar vulneráveis aos paparazzi do relacionamento. Comoconseqüência começam a desenvolver aquela sociopatia mais conhecidapelo nome de fama. Na verdade ficam doentes por defict de interatividade.Quem não quer ser porta, não acha caminhos. O sucesso é o melhorcaminho para perder caminhos. A perda de caminhos é também umamedida de não-rede, ou seja, uma expressão do poder. A contraparte dequerer ser muito importante é a falta de importância para a rede (e nãoimporta para nada se essas pessoas de sucesso têm milhares ou milhões defollowers nas mídias sociais mais freqüentadas ou se seu blog tem milharesou milhões de pageviews).E o risco? Bem, nos Highly Connected Worlds a pessoa é compelida a correro risco, a fluir com o curso. Não pode se proteger, se sedentarizar em seumundo, se agarrar às coisas para tentar permanecer como é ou a ser mais-do-mesmo (do que já é) em vez de surfar nos interworlds, navegar, sernômade, fluzz.“Se não posso achar o caminho farei um”, escreveu Sêneca (3). Nos novosmundos-fluzz, seria o caso de dizer: como não há caminho, serei um (umaporta para outros mundos). 10
  11. 11. Pessoa já é rede | 3(1) HERBERT, Frank (1976). Os filhos de Duna. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1985.(2) CASTELLS, Manoel (2001). A Galáxia da Internet: reflexões sobre a Internet, osnegócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.(3) Trata-se de uma tradução forçada do provérbio “Viam aut aut faciam inveniam”cuja localização não foi possível determinar. Cf. a bibliografia de SENECA, LuciusAnnaeus (c. 3 a. E. C. – 65) em:<http://www.egs.edu/library/lucius-annaeus-seneca/biography/> 11

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