UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
          CENTRO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS
        LUCLÉCIA CRISTINA MORAIS DA SILVA




CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS EM SIRINHAÉM: UM CASO DE
               INJUSTIÇA AMBIENTAL




                     RECIFE
                      2010
LUCLÉCIA CRISTINA MORAIS DA SILVA




CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS EM SIRINHAÉM: UM CASO DE
               INJUSTIÇA AMBIENTAL




                                Trabalho de Conclusão de Curso
                         apresentado à coordenação do Curso de
                         Ciências Biológicas, da Universidade
                         Federal de Pernambuco, como parte dos
                         requisitos à obtenção do grau de Bacharel
                         em Ciências Biológicas.

                         Orientador:
                         Dr. Pedro Castelo Branco Silveira
                         (Coordenação    Geral  de   Estudos
                         Ambientais e da Amazônia – Fundação
                         Joaquim Nabuco).




                     RECIFE
                      2010
LUCLÉCIA CRISTINA MORAIS DA SILVA




     CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS EM SIRINHAÉM: UM CASO DE
                            INJUSTIÇA AMBIENTAL


                                                  Trabalho de Conclusão de Curso
                                           apresentado à coordenação do Curso de
                                           Ciências Biológicas, da Universidade
                                           Federal de Pernambuco, como parte dos
                                           requisitos à obtenção do grau de Bacharel
                                           em Ciências Biológicas.


                                           Data de Aprovação: ____/____/____

                                           Nota: ________________________

BANCA EXAMINADORA:

______________________________________________
Dr. Pedro Castelo Branco Silveira (Orientador)
(Coordenação Geral de Estudos Ambientais e da Amazônia – Fundação Joaquim
Nabuco).


______________________________________________
Dr. Cristiano Wellington Noberto Ramalho (1º Titular)
(Depº. de Ciências Sociais, Universidade Federal de Sergipe – UFS.


_________________________________________________
Drª. Simone Ferreira Teixeira (2º Titular)
(Instituto de Ciências Biológicas, Universidade de Pernambuco – UPE).


_________________________________________________
MSc. Beatriz Mesquita Jardim Pedrosa (Suplente)
(Coordenação Geral de Estudos Ambientais e da Amazônia – Fundação Joaquim
Nabuco).


                                      RECIFE
                                       2010
DEDICATÓRIA


   À minha querida avó Porcina Morais de Souza e a minha
mãe Luzinete Morais da Silva (in memoriam), pelo
aprendizado e por seus exemplos de vida, que me
impulsionaram sempre na condução de meus passos. Dedico
também a minha tia Mª Auxiliadora e ao meu irmão Josmar
Luiz pelo apoio e carinho durante a realização deste trabalho.
”No fundo da prática científica existe um discurso que
diz: nem tudo é verdadeiro; mas em todo lugar e a todo
momento existe uma verdade a ser dita e a ser vista, uma
verdade talvez adormecida, mas que no entanto está
somente à espera de nossa mão para ser desvelada. A nós
cabe achar a boa      perspectiva, o ângulo correto, os
instrumentos necessários, pois de qualquer maneira ela
está presente aqui e em todo lugar”.
                                              Foucault.
AGRADECIMENTOS


       Os agradecimentos são muitos, mas primeiramente agradeço a Deus por ter me
proporcionado a oportunidade de conhecer maravilhosas pessoas, que permanecerão
para sempre em minha memória.
       Agradeço ao meu orientador Pedro Silveira, que antes de tudo é um grande
amigo, pela ajuda e compreensão nessa jornada antropológica a qual decidi trilhar.
Sempre acreditando e compartilhando preciosos momentos de dificuldades, descobertas,
dúvidas, conflitos e soluções. Seus ensinamentos sempre me proporcionaram um amplo
aprendizado e especificamente na realização deste trabalho, foram imensamente
valiosos.
       Agradeço ao demais Professores que aceitaram participar como membros na
banca desta monografia, Cristiano Ramalho, Simone Teixeira e Beatriz Mesquita.
       Voltando um pouco no tempo, agradeço aos ensinamentos da Prof. Cecília
Patrícia Alves Costa (CCB-UFPE), que me despertaram para as questões
socioambientais e me impulsionaram a sempre buscar compreender tais questões.
       Quero agradecer a todos que tornaram possível este trabalho: a Beatriz Mesquita
e ao Allan Monteiro da FUNDAJ que enriqueceram meu trabalho com suas sugestões,
ao Frei Sinésio Araújo por seu apoio, dedicação e contribuição durante todos os
momentos de minha pesquisa e durante a coleta das entrevistas, ao Plácido Júnior pelas
informações, contribuições e parceria, às Irmãs Franciscanas Bernadinas de Barra de
Sirinhaém (Lucia, Gilbetânia, Celeste e Joice) por me acolherem tão gentilmente e com
tanto amor durante minha estadia em Sirinhaém, ao Severino Santos (Bill) da CPP pela
sua dedicação em me ajudar em vários momentos através de materiais de pesquisa, das
“caronas” até Sirinhaém e pelas conversas tão enriquecedoras ao meu trabalho, ao Luiz
Otávio Corrêa do IBAMA que esteve sempre disponível em me ajudar em qualquer
solicitação e aos profs. Gilberto Rodrigues e Clóvis Cavalcanti pelo apoio.
       Agradecimentos especiais a todos de Sirinhaém, aos pescadores e pescadoras
que carinhosamente me receberam e me ajudaram na realização deste trabalho. A todos
da Colônia Z-6 de Barra de Sirinhaém, representados nas figuras de Ronaldo e Arlene, e
aos ex-moradores das ilhas. Admiro suas lutas e essa sabedoria sobre o meio ambiente,
algo tão inerente ao peculiar modo de vida que vocês estabelecem com a natureza.
Espero ver um dia a pesca artesanal adquirindo seu real valor e para isso é
preciso força e união para não sucumbir às estratégias dos que visam suprimir essa
prática produtiva em nome dos projetos de desenvolvimento.
       Aos amigos, agradeço imensamente pela compreensão durante os períodos de
ausência, pelo apoio e carinho: Paula Carolina e Célia Fernanda; Kelma; Yana;
Amanda; Júlia; Ivson; Daniele Xavier; Juliana; Michele; Lindinalva; Dayana;
Valdemar; Clarissa; Thatiana, Caio e Diego “o trio do CTG”; a Prof. Lucilene Antunes;
Charles; Júnia e Bruna pelas conversas, pensamentos e opiniões que contribuíram
imensamente na realização deste trabalho e pela paciência em escutar sempre o mesmo
assunto durante este período.


                                                “Quem me dera pudesse compreender
                                                   Os segredos e mistérios dessa vida
                                                   Esse arranjo de chegadas e partidas
                                              Essa trama de pessoas que se encontram
                                                                        Se entrelaçam
                                                   E misturadas ganham outra direção
                                                    Quem me dera pudesse responder
                                                Quem sou eu nessa mistura tão bonita
                                            Tantos outros, sou na vida um Zé da Silva
                                                      Sofro as dores de outros nomes
                                                         Rio os risos de outras graças
                                                Trago em mim as falas dessa multidão
                                               Quem me dera pudesse compreender”.
                                                                   Pe. Fábio de Melo
Sumário

LISTA DE FIGURAS ................................................................................................................. 9
LISTA DE TABELAS E QUADROS ...................................................................................... 10
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS .............................................................................. 11
RESUMO ................................................................................................................................... 12
ABSTRACT ............................................................................................................................... 13
APRESENTAÇÃO .................................................................................................................... 14
1. INTRODUÇÃO E REVISÃO DE LITERATURA ........................................................... 17
   1.1. Populações tradicionais: território, biodiversidade e justiça ambiental ........................... 24
   1.2. Histórico das Unidades de Conservação no Brasil ........................................................... 24
   1.3. As Resex Marinhas no Brasil ........................................................................................... 27
   1.4. O mangue e sua importância na dinâmica socioambiental ............................................... 29
2. OBJETIVOS .......................................................................................................................... 32
   2.1. Objetivos Gerais ............................................................................................................... 32
   2.2. Objetivos específicos........................................................................................................ 32
3. METODOLOGIA ................................................................................................................. 33
   3.1. Área de Estudo ................................................................................................................. 37
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO .......................................................................................... 41
   4.1. A Reserva Extrativista Sirinhaém-Ipojuca e seus motivos............................................... 41
   4.2. Memórias de um lugar ...................................................................................................... 43
   4.3. O acirramento dos conflitos ............................................................................................. 51
   4.4. O processo de criação da Resex e suas dificuldades ........................................................ 57
   4.5. Pontos de vista.................................................................................................................. 63
   4.6. Resex: um benefício para todos ou um entrave ao desenvolvimento ............................... 74
   4.7. O conflito socioambiental frente ao contexto histórico, político e econômico de PE ...... 82
CONCLUSÃO ........................................................................................................................... 89
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................... 91
ANEXOS ........................................................................................................................97
APÊNDICES ..................................................................................................................98
LISTA DE FIGURAS

Figura 1: Número de Reservas Extrativistas no Brasil ...................................................28
Figura 2: Comunidade do Casado ..................................................................................37
Figura 3: Comunidade de Barra de Sirinhaém ...............................................................37
Figura 4: Comunidade do Oiteiro do Livramento ..........................................................37
Figura 5: Comunidade da Vila Nova da Cohab ..............................................................37
Figura 6: indústria sucroalcooleira .................................................................................39
Figura 7: Pesca Artesanal ...............................................................................................39
Figura 8: Imagem de satélite do complexo estuarino do Rio Sirinhaém .........................40




                                                                                                                         9
LISTA DE TABELAS E QUADROS

Tabela 1: categorias de unidades de conservação no Brasil ...........................................24
Quadro 1: cronologia dos documentos presentes nos seis volumes do processo de
criação da Resex Sirinhaém-Ipojuca, IBAMA nº 02019. 000307/2006-
31......................................................................................................................Apêndice 1.




                                                                                                                               10
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS


APA – Área de Proteção Ambiental
CNPT - Centro Nacional de Populações Tradicionais
CONSEMA - Conselho Estadual de Meio Ambiente
CPP – Conselho Pastoral dos Pescadores
CPRH – Agencia Estadual de Meio Ambiente e Recursos hídricos
CPT – Comissão Pastoral da Terra
DIUSP - Diretoria de Uso Sustentável e Populações Tradicionais
GRPU – Gerência regional do Patrimônio da União
IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
ICMBio - Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
MMA – Ministério do Meio Ambiente
ONG – Organização Não Governamental
MPA – Ministério de Pesca e Aqüicultura
RESEX – Reserva Extrativista
SECTMA – Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente
SNUC - Sistema Nacional de Unidades de Conservação
SPU – Secretaria do Patrimônio da União
UC – Unidade de Conservação




                                                                               11
RESUMO

Esta pesquisa relata o processo de criação de uma Reserva Extrativista no Litoral Sul do
Estado de Pernambuco, que tem como beneficiários pescadores artesanais dos
municípios de Sirinhaém e Ipojuca. Aborda o conflito socioambiental existente entre os
pescadores e os empreendimentos locais, quais são os principais problemas enfrentados
por essa população e como os impactos ambientais existentes na região têm afetado a
qualidade de vida deles. Traz um histórico da territorialização de 17 ilhas no estuário do
Rio Sirinhaém que eram habitadas por 53 famílias que faziam uso comum da terra e
possuíam também a pesca como meio de subsistência. E como tal conflito
socioambiental resultou na retirada dessa população de seus territórios para áreas
distantes da periferia do município de Sirinhaém, com a conseqüente perda da atividade
produtiva e de suas identidades. Nesse estudo foi privilegiado à pesquisa qualitativa,
onde foram feitas entrevistas com os principais atores sociais envolvidos no conflito,
como também observações em campo, consulta à documentação do processo elaborado
pelo IBAMA, entre outras fontes de pesquisa diversas. A partir dos relatos dos
pescadores, observa-se a importância do território e dos recursos naturais presentes na
manutenção de seus hábitos e modo de vida, motivos estes que levaram ao pedido de
criação da Resex. Há ainda um relato das dificuldades para a implementação dessa UC e
como os atores sociais envolvidos se posicionaram frente a tais questões definindo suas
motivações, ações e relações. Assim esse exemplo de luta pela garantia de territórios
tradicionalmente ocupados por povos que fazem uso comum da terra e possuem a
atividade pesqueira como algo inerente à própria existência, é também a luta por um
modelo de desenvolvimento mais justo e democrático. Essa população tenta defender os
recursos naturais ali existentes através da mobilização contra essa injustiça ambiental,
mostrando que um ambiente preservado pressupõe também a proteção da diversidade
sociocultural da região.

Palavras chave: Sirinhaém, Resex, Povos tradicionais, Justiça Ambiental, Pesca
Artesanal, Conflitos Socioambientais.




                                                                                       12
ABSTRACT


This research describes the creation process of an extractive reserve in the south coast of
Pernambuco state. Its beneficiaries are small-scale fishermen from the municipalities of
Sirinhaém and Ipojuca. The research deals with the social-environmental conflicts
between fishermen and local enterprises, either with the main problems faced by this
population and also how the environmental impacts in the area affected their life
quality. We show the territorialization process of 53 fishermen families in 17 estuarine
islands who use common-pool resources, and how this conflicts resulted in the remotion
of this families from their territories to faraway sites in the borders of the municipality
of Sirinhaém, though causing the loss of their productive activities and affecting their
identity. We chose a qualitative approach and so we interviewed the main social actors
involved in the process. We proceeded field observations, analysis of the documentation
process gathered by the Brazilian Natural Resources Agency (IBAMA) and of other
research sources. We observed the importance of the territory and of the natural
resources to maintaing this people lifestyle, fact that motivated the request for the
creation of the reserve. The text also tells the challenges to the implementation of this
protected area and how the social actors position themselves, defining their motivations,
actions and relations. Though, this example of struggle to the warrant of traditionally
settled territories by peoples who make use of common resources, who have fisheries as
part of their own existence, is also a struggle for a more fair and democractic
development model. This population tries to defend the local natural resources
mobilizating against environmental injustice, showing that a preserved environment
also suposes manatining cultural diversity.

Key words: Sirinhaém, Extractive Reserves, Traditional Peoples, Environmental
Justice, Traditional Fishing, Environmental Conflicts.




                                                                                        13
APRESENTAÇÃO

        A presente monografia analisa o processo de solicitação e criação de uma
Reserva Extrativista Marinha no Litoral Sul do Estado de Pernambuco. Relata os
problemas socioambientais enfrentados pela comunidade de pescadores artesanais na
região e como essa população tem se organizado frente à perda do território
tradicionalmente ocupado por eles. Contextualiza a destruição ambiental no município,
decorrente do processo de industrialização em curso no litoral sul pernambucano, e
quais conseqüências tem acarretado no cotidiano dos pescadores. Para isso, parte-se do
contexto histórico em que a solicitação da Resex foi feita, delineando-se a atuação dos
diferentes atores sociais envolvidos nesse conflito.
        Este trabalho traz em sua introdução uma discussão teórico-conceitual que faz
uma breve revisão sobre temas importantes para o caso posteriormente apresentado. A
seção 1.1 aborda as divergências existentes nas diferentes perspectivas sobre
conservação ambiental. Traz ainda reflexões acerca do conceito de povos tradicionais e
quais as dificuldades enfrentadas na elaboração de uma definição que contemple as
diferentes formas de uso comum da terra existente entre os diferentes sujeitos históricos.
Faz também um breve relato sobre o conceito de território e como os povos tradicionais
percebem e relacionam-se com ele para a manutenção da sua diversidade
socioambiental. Apresenta, por fim, um breve histórico do movimento de Justiça
Ambiental e relaciona os conflitos socioambientais a essa temática.
       Na seção 1.2 há um histórico da criação das Unidades de Conservação no Brasil
e dos órgãos ambientais. Relata-se ainda como surgiram as Reservas Extrativistas e
como essas UCs são regulamentadas pelo SNUC.
        A seção 1.3 traz o contexto histórico em que as Reservas Extrativistas Marinhas
surgiram e como tornaram-se um instrumento de defesa dos pescadores artesanais face à
destruição ambiental do litoral brasileiro. Aborda também como a pesca artesanal foi
vista pelos distintos órgãos governamentais que estiveram tratando dessa atividade
tradicional ao longo dos anos.
       A seção 1.4 faz uma breve caracterização do mangue e como o desconhecimento
da importância socioambiental do manguezal tem contribuído para a sistemática
eliminação desse ecossistema.



                                                                                       14
Após a apresentação dos objetivos e da metodologia, que inclui ainda a
descrição da aŕea de estudo, apresento o caso estudado. Inicio a descrição e a discussão
deste estudo de caso na seção 4.
        Na seção 4.1 elenco os principais motivos que levaram ao pedido de criação da
Reserva Extrativista Sirinhaém-Ipojuca, no estuário do Rio Sirinhaém.
       A seção 4.2 há um breve relato de como viviam as 53 famílias que habitavam
nas 17 ilhas estuarinas do Rio Sirinhaém, como construíram suas vidas nesse ambiente e
como perderam o direito de permanecer nesse território tradicionalmente ocupado em
decorrência da intensificação dos conflitos socioambientais existentes na região.
       A seção 4.3 descreve como ocorreu o acirramento dos conflitos e quais as ações
foram tomadas pelos diferentes atores sociais envolvidos, como os injustos
acontecimentos levaram ao pedido da Resex. Descreve também o processo de retirada
das famílias, cerca de 260 pessoas, que residiam nas ilhas estuarinas e quais as
dificuldades esses pescadores enfrentam atualmente.
       Na seção 4.4 há o relato das principais dificuldades ocorridas durante o processo
de criação da Resex: algumas dúvidas da população pesqueira beneficiada por essa UC
e algumas posições dos diferentes atores sociais envolvidos nesse conflito.
       A seção 4.5 exemplifica os diferentes pontos de vista existentes entre
representantes do governo, indústria e os próprios pescadores da região. Tal dificuldade
de reconhecer os distintos modos de relacionar-se com o meio ambiente resultam na
falta de uma maior articulação da comunidade beneficiada pela Resex.
       A seção 4.6 traz uma discussão sobre o dilema em proteger o meio ambiente e
compatibilizar os projetos de expansão industrial defendidos pelo Governo do Estado.
Há também alguns discursos que são repassados e as estratégias utilizadas pelos atores
sociais contrários à implantação da Resex, no intuito de desmobilizar a luta dos
pescadores artesanais.
       A seção 4.7 traz um breve histórico do contexto sociopolítico e econômico da
região e de PE e como esses fatores interferem no processo de criação da Resex
Sirinhaém-Ipojuca. Relata quais os argumentos do Governo Estadual para ser contrario
á criação da Resex e como a valorização de um modelo de desenvolvimento excludente
tem gerado a perda da qualidade de vida da população e a perda de sua própria
identidade.



                                                                                     15
O exemplo de luta pela proteção do meio ambiente e da diversidade
sociocultural existente no litoral sul de Pernambuco é apenas mais um conflito
socioambiental, dentre os muitos já existentes em PE. E apesar dos muitos entraves
existentes, tal conflito pode torna-se uma boa oportunidade para que os pescadores
artesanais se unam na reivindicação de seus direitos, promovam a valorização da prática
pesqueira e a proteção dos recursos naturais. Para isso é preciso buscar informação,
articular-se a outras instituições de luta e exigir participação nas discussões dos projetos
do Governo para o desenvolvimento da região.




                                                                                         16
1. INTRODUÇÃO


         1.1. Populações tradicionais: território, biodiversidade e justiça ambiental.


         O avanço tecnológico tem levado a certo distanciamento entre homem e
natureza. Hoje muitos agem como se os recursos consumidos não fossem obtidos a
partir do meio ambiente. Segue-se um modelo de desenvolvimento que vem alterando
de maneira constante, rápida e irreversível as paisagens. Tais alterações não apenas
destroem a diversidade biológica do planeta, mas tem também eliminado a diversidade
sociocultural representada nos diversos povos que dependem mais diretamente desses
recursos naturais.
         Apesar de não ser um tema recente1 proteger a biodiversidade pressupõe uma
reflexão sobre o que vem a ser a natureza e qual o papel do homem nesse contexto. Pois
a biodiversidade só será verdadeiramente protegida quando as divergências conceituais
sobre as questões ambientais forem melhor discutidas e quando a relação homem-
natureza deixar de ser percebida como algo dicotômico, ou seja, quando as análises
sobre o meio ambiente e a sociedade deixarem de serem feitas através da percepção do
homem como um simples beneficiário da natureza ou apenas como um dependente dela
(Branco, 1995).
         Sendo assim tem crescido a concepção socioambientalista, que defende não
apenas a sustentabilidade ambiental (espécies, ecossistemas e processos ecológicos),
mas também a sustentabilidade social (redução das desigualdades sociais e o
fortalecimento da ética, justiça e equidade social). Tem se fortalecido a ideia de que as
políticas públicas ambientais possuem eficácia social apenas se incluírem as
comunidades locais promovendo uma justa e equitativa repartição dos benefícios
oriundos da exploração dos recursos naturais. Nesta perspectiva a proteção da
biodiversidade pressupõe a manutenção da diversidade sociocultural, pois esta é

1
          O Relatório Brundtland, também intitulado de Nosso Futuro Comum (CMMAD, 1987), um documento
elaborado em 1987 pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, já recomendava a preservação
da biodiversidade e dos ecossistemas. O tema passou a ter maior força no cenário internacional após a conferência
Rio-92 (Novaes, 2002). A assembléia Geral das Nações Unidas declarou o ano de 2010 como o “Ano Internacional
da Biodiversidade” (Unesco, 2009)




                                                                                                             17
também resultante dos diversos modos de vida dos diferentes povos (Acselrad, 2010).
Assim, julga-se que não é suficiente estar protegendo a biodiversidade sem valorizar e
reconhecer a diversidade cultural dos povos tradicionais (Santilli, 2005).
          Mas nem sempre houve essa preocupação socioambiental. E uma das formas
criadas para enfrentar as diversas ameaças à biodiversidade foi através das áreas
“naturais” legalmente protegidas, que no Brasil têm o nome de unidades de
conservação. Privilegiou-se inicialmente a criação de recortes das paisagens, isolando-
os do uso humano. O principal representante desta categoria de unidade de conservação
são os parques2. Ocorre que em muitas dessas áreas protegidas existiam pessoas que há
muito tempo já ocupavam tais espaços (Diegues, 2000). A criação do primeiro parque
nacional americano, o Parque de Yellowstone, por exemplo, desalojou povos indígenas
como os crow, os blackfeet e os shoshone-bannock (Bensusan, 2006). De fato, a criação
de parques na maioria das vezes gerou historicamente uma série de conflitos sociais
(Diegues, 2000; Silveira, 2009).
         Nos países tropicais do dito terceiro mundo, grande parte das florestas e outras
áreas em bom estado de conservação ambiental foram e são já tradicionalmente
ocupadas por populações humanas dependentes destes recursos. Com a crescente
destruição ambiental em nome do progresso, estas áreas foram se tornando cada vez
mais raras. Este fato acirra os debates entre aqueles que querem ver estas áreas livres do
uso humano com a implantação de unidades de conservação do tipo parque, e aqueles
que desejam que a conservação dos ambientes seja feita com base nos usos tradicionais
das populações que ali habitam (Diegues, 2000).
         No Brasil, até pouco tempo atrás, a degradação ambiental era vista como algo
inerente ao processo de desenvolvimento do país. Em grandes empreendimentos de
expansão industrial e agrícola, não havia a preocupação se os mesmos afetariam ou não
a biodiversidade e as populações ali existentes. No período de auge dos ciclos agrícolas
brasileiros, como o café, a cana, a borracha, o ouro, entre outros, muitas pessoas de
2
          Movimento Preservacionista, do século XIX, surgido primeiramente na Europa e disseminado nos Estados
Unidos através John Muir, que pregava ser a interferência humana prejudicial à preservação do meio ambiente. Neste
mesmo período, entretanto, havia nos EUA Movimento dos Conservacionistas, também nos Estados Unidos, iniciado
por Gifford Pinchot, onde defendia-se a ideia de que o ser humano era capaz de auxiliar na preservação ambiental
(Diegues, 2000)




                                                                                                              18
várias regiões do país se deslocaram para os locais onde esses ciclos ocorriam. E com a
decadência desses ciclos, muitas pessoas ainda permaneceram morando nesses
territórios, com modos de vida agro-extrativista (A. Almeida, 2008).
        Essas comunidades criaram maneiras próprias de uso da terra, de obtenção dos
recursos naturais disponíveis e de organização social. Porém tais sistemas de uso
comum geralmente eram vistos como irrelevantes e condenados ao desaparecimento
pelo governo e suas análises econômicas (M. Cunha e M. Almeida, 2001). Assim, o
Estado brasileiro historicamente ignorou os sistemas de usufruto da terra por parte
destes grupos humanos, que posteriormente foram chamados de populações
tradicionais. Até recentemente, esses grupos não eram considerados nas pesquisas do
IBGE e eram vistos como modos de produção em extinção (A. Almeida, 2008).
        Segundo Little (2002), muitas das terras de uso comum foram até hoje
preservadas porque não eram cobiçadas pelas forças econômicas atuais. Como exemplo
dessa invisibilidade há inúmeros quilombos que sobreviveram em diversas áreas do
país.
        A partir do final dos anos de 1980, esses grupos passam a ter visibilidade
política porque passam a reivindicar direitos (M. Cunha e M.Almeida, 2001). No Brasil,
este período coincide com a elaboração da nova Constituição do país, ao fim de duas
décadas de ditadura militar, e com a realização, no Rio de Janeiro, da Conferência das
Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92), em que os
chamados povos da floresta tiveram destaque (Novaes, 2002). Assim, parte dos
ambientalistas e governantes perceberam que há diferentes modalidades de uso comum
do território por comunidades que preservam práticas sustentáveis de exploração dos
recursos naturais e influenciam na manutenção da biodiversidade (A. Almeida, 2008).
        Atualmente, numerosas evidências apontam situações práticas em que é possível
haver vantagens nos sistemas de uso comum da terra, evitando a chamada tragédia dos
espaços coletivos (“The tragedy of the commons”, Hardin, 1968; ver L. Cunha, 2004).
Destacam-se aí os estudos de Elinor Ostrom (Prêmio Nobel de Economia -2009) e
colaboradores (Tucker e Ostrom, 2009), que demonstraram que é possível para as
pessoas se organizarem de forma eficaz com base em regras costumeiras e assim gerir
os recursos ambientais.




                                                                                      19
De acordo com o decreto nº 6.040, de 8 de fevereiro de 2007 que instituiu a
Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades
tradicionais, povos e comunidades tradicionais são definidos como sendo: “grupos
culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas
próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais
como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica,
utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição”
       Inicialmente, percebe-se que o conceito de povos tradicionais surgiu a partir de
contextos diversos, mas apesar dessa heterogeneidade, em geral, eles tem em comum o
fato de que utilizam regimes de propriedade comum. Possuem ainda, um amplo
conhecimento sobre o ecossistema no qual residem, procuram defender sua autonomia
cultural e possuem o sentimento de pertencimento a um lugar, além de em geral
praticarem sustentáveis hábitos de exploração dos recursos naturais. (Little, 2002).
       Uma observação importante vem do fato de que o conceito de “tradicional” não
reflete necessariamente a definição de imobilidade cultural desses povos. O território de
um grupo social determinado, incluindo as condutas territoriais que o sustentam, pode
mudar ao longo do tempo dependendo das forças históricas que exercem pressão sobre
ele. Mas, essas mudanças são historicamente compreensíveis e não significam
necessariamente que tais povos perderam o modo costumeiro de manejar seus recursos
naturais. E a palavra “tradicional” não se refere necessariamente à antiguidade, mas ao
fato de que esses povos se originaram em um local específico. Essa noção de
pertencimento a um lugar não está vinculada a ideia de terras imemoriais, mas no
sentimento coletivo de que esses territórios socialmente construídos representam seu
verdadeiro “homeland” Little (2002).
       Assim, após adquirirem visibilidade na esfera política, as populações
tradicionais hoje não estão mais fora da economia central nem estão mais simplesmente
na periferia do sistema mundial. E também tornaram-se parceiras de grupos acadêmicos,
ONGs locais e nacionais, bem como setores do Estado brasileiro e mesmo instituições
centrais como as Nações Unidas, o Banco Mundial e as poderosas ONGs do primeiro
mundo (M. Cunha e M. Almeida, 2001). Muitas vezes essas parcerias “não-
tradicionais” têm o sentido de apoiar práticas consideradas tradicionalmente
sustentáveis.



                                                                                       20
Mesmo sendo muitas vezes esquecidas ou até mesmo ignoradas, essas
populações têm conseguindo obter algum avanço em suas lutas para terem legitimados
seus direitos de posse e soberania sobre seus territórios. Diante desse contexto e na
busca pela proteção da biodiversidade, as populações tradicionais passaram a ter
protegido juridicamente seu modos de vida e uso da terra. Nesse sentido, temos nas
Reservas Extrativistas um exemplo de instrumento pela manutenção dos meios próprios
de relacionar-se com os recursos naturais existentes a partir de um profundo
conhecimento sobre os mesmos e sobre os ciclos biológicos (Diegues, 2001).
         Dentre os diferentes contextos e argumentos que postulam o conceito de povos
tradicionais, percebe-se existir uma flexível definição na legislação oficial que
regulamenta essa categoria. Tal definição legal reitera a ideia de que o surgimento do
conceito de populações tradicionais tem um caráter político que pretende tentar
solucionar o suposto problema da presença de grupos humano em áreas destinadas a
preservação ambiental. E então, diferentes grupos sociais específicos são incorporados
nessa categoria legal que tenta diferenciá-los juridicamente para dar-lhes direito as
terras que tradicionalmente habitam ou habitavam. Assim a partir desse aspecto legal,
vê-se ser adotada para essa categoria de povos tradicionais perspectivas diversas, entre
elas, há a defesa de ser esta uma categoria político-legal, pois permite que diferentes
populações tenham assegurados seus direitos consuetudinários e seu território (Silveira,
2010).
         No nível internacional, a preocupação pelo respeito por parte dos Governos aos
direitos diferenciados dos povos tradicionais cresceu bastante, principalmente em
referência a questões fundiárias e territoriais. Um dos instrumentos mais importantes
sobre o tema é a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre
“Povos indígenas e tribais em países independentes”, de 1989, que estabelece, no Artigo
II, que os governos têm a responsabilidade de “proteger os direitos desses povos e
garantir o respeito à sua integridade”. A adoção dessa Convenção pelo governo federal
foi estabelecida pelo Senado Nacional em junho de 2002.
         No Brasil além da Constituição de 1988 que reconhece em seu artigo 216 o
Patrimônio Cultural Brasileiro como um bem jurídico e caracteriza-o como sendo "bens
de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores
de referência à identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos formadores da



                                                                                     21
sociedade brasileira", há também uma Medida Provisória nº 2.186-16, de 23 de agosto
de 2001, que regulamenta os incisos constitucionais relativos à Convenção sobre a
Diversidade Biológica, nos quais trata o conhecimento das comunidades tradicionais
como Patrimônio Cultural Brasileiro (Valencio, 2010).
       Contudo, com a crescente concepção de progresso difundida em nossa
sociedade, os conflitos pela posse dos territórios têm aumentado visivelmente. Pois em
nome da expansão do desenvolvimento, diversas comunidades que possuem formas
sociais de produção não-capitalistas vêm sofrendo com a perda de seus recursos naturais
e modos de vida. E a criação das políticas de proteção desses povos resulta em grande
parte da mobilização de grupos sociais diversos que se unem na busca efetiva de
construção de uma democracia (Acselrad et al., 2009) .
       É nessa luta pela afirmação de formas alternativas e de resistência contra essa
globalização hegemônica das formas de produção que vemos constituírem-se nas
Reservas Extrativista um meio de proteger o território desses povos e assegurar a
perpetuação de sua cultura, em busca da chamada justiça ambiental .
       Segundo Herculano (2008) a justiça ambiental é “o conjunto de princípios que
asseguram que nenhum grupo de pessoas, sejam grupos étnicos, raciais ou de classe,
suporte uma parcela desproporcional das conseqüências ambientais negativas de
operações econômicas, de políticas e programas federais, estaduais e locais, bem como
resultantes da ausência ou omissão de tais políticas”.
       Assim surgiu o movimento por Justiça Ambiental, originado inicialmente nos
Estados Unidos, que pretende alertar sobre a transferência social dos danos ambientais
do desenvolvimento, aos grupos marginalizados da sociedade.
       No Brasil ainda é recente a discussão sobre a justiça ambiental. Somente em
2001 as discussões ganharam força com o Colóquio Internacional sobre Justiça
Ambiental realizado na Universidade Federal Fluminense. Nesta mesma ocasião, nasceu
a Rede Brasileira de Justiça Ambiental (Herculano, 2002).
       A luta dos chamados povos tradicionais pela legitimação dos seus territórios é
também uma luta por justiça ambiental. Pois estes grupos sofrem de maneira desigual os
impactos dos grandes projetos de desenvolvimento e das estratégias excludentes de
conservação:




                                                                                    22
“como para a expansão da monocultura do eucalipto, perdem os
                       quilombolas suas terras e fontes de água; como, para a expansão
                       da soja transgênica, são inviabilizadas as atividades dos
                       pequenos agricultores orgânicos; como, por causa da produção
                       de energia barata para as multinacionais do alumínio, perdem os
                       pescadores e ribeirinhos do Tocantins sua capacidade de pescar;
                       como,    para    a   produção    de      petroquímicos,   perdem   os
                       trabalhadores sua saúde pela contaminação por poluentes
                       orgânicos persistentes” (Acselrad, 2010).


       O movimento por justiça ambiental traz um questionamento sobre a noção
corrente de produtividade, sustentando que não é “produtiva” a terra que produz
qualquer coisa a qualquer custo, acusando a grande agricultura químico-mecanizada de
destruir recursos em fertilidade e biodiversidade, e, assim, descumprir a função social
da terra. É nesse contexto adverso que vemos constituírem-se sujeitos coletivos que
exigem amplo acesso às informações relevantes sobre o uso dos recursos ambientais e
capacidade autônoma de decidir sobre seus territórios, pretendendo instaurar acesso
justo e equitativo aos recursos ambientais do país. E a destituição dos direitos desses
povos favorece a crescente destruição ambiental, já que o malefício desta não é
distribuído a todos, sendo transferido apenas a essa camada mais frágil da sociedade
(Acselrad, 2010).
       Na presente pesquisa há o exemplo da tentativa de reorganização de um grupo
social em busca da conquista do território reivindicado (Arruti, 2006). E assim, é na luta
pela conquista desse território que há a reelaboração da identidade desse grupo na
tentativa de terem reconhecido, pelo Estado, seus costumes, seus direitos de acesso a
terra e aos recursos naturais ali presentes (Silveira, 2010).
       Percebendo a relevância dessas questões, essa pesquisa traz o exemplo de luta de
moradores de municípios do Litoral Sul de Pernambuco pela implantação de uma
Reserva Extrativista no estuário do Rio Sirinhaém. As populações tradicionais aqui
referidas são os pescadores artesanais existentes no município de Sirinhaém e Ipojuca,
que possuem um modo próprio de uso e relação com os recursos naturais e praticam
atividades de baixo impacto ambiental. Ao tentarem ter reconhecido direitos universais



                                                                                          23
de acesso a um meio ambiente preservado e a continuação de suas práticas sociais,
postulam ao Estado serem incluídos em categorias especiais já presentes na legislação
ambiental vigente (Silveira, 2010).


       1.2.   Histórico das Unidades de Conservação no Brasil


       As áreas protegidas foram estabelecidas, no Brasil, pelo Código Florestal de
1934. Neste período foram criados dois modelos de unidades de conservação, os
parques nacionais e as florestas nacionais. O primeiro parque brasileiro foi o de Itatiaia,
criado em 1937, no Rio de Janeiro.
       Até 1967, as unidades de conservação (UCs) eram administradas pelo Ministério
da Agricultura, e então foi criado o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal
(IBDF). Posteriormente foi criada a Secretaria Especial do Meio Ambiente (SEMA),
em 1973, que juntamente com o IBDF se reuniram para formar o Instituto Brasileiro do
Meio Ambiente (IBAMA) em 1989 (Rylands e Brandon, 2005).
       Neste interim, foram sendo criadas diversas categorias de unidades de
conservação (Ucs) por leis e decretos diferentes, por iniciativa de diferentes grupos de
interesse. A Tabela 1 mostra as categorias de unidades de conservação hoje existentes e
o ano de criação da primeira unidade em cada categoria.


       Tabela 1: categorias de unidades de conservação no Brasil
Categoria                                           Sigla              Ano de Criação

Floresta Nacional                                   FLONA              1946

Área de Proteção Ambiental                          APA                1982

Área de Relevante Interesse Ecológico               ARIE               1985

Reserva Particular do Patrimônio Natural            RPPN               1990

Reserva Extrativista                                RESEX              1990

Reserva de Desenvolvimento Sustentável              RDS                1996

Reservas de Fauna                                     RF               2007

Parque Nacional                                     PARNA              1937



                                                                                        24
Reserva Biológica                                  REBIO           1974

Estação Ecológica                                   EE             1975

Monumentos Naturais                                MN              2009

Refúgios da Vida Silvestre                         REVIS            ---




        Apenas em 2000 foi estabelecida uma regulamentação das UCs no Brasil
através do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), que estabelece
critérios e normas para a criação, implantação e gestão das unidades de conservação. O
SNUC define as categorias de Unidade de Conservação em dois grupos: de proteção
integral e de uso sustentável. As áreas de proteção integral incluem os Parques
Nacionais, as Reservas Biológicas, as Estações Ecológicas, os Monumentos Naturais e
os Refúgios de Vida Silvestre. Já as áreas de uso sustentável que permitem diferentes
tipos de interferência humana, incluem as Florestas Nacionais, as Áreas de Proteção
Ambiental, as Áreas de Relevante Interesse Ecológico, as Reservas Extrativistas, as
Reservas de Fauna, as Reservas de Desenvolvimento Sustentável e as Reservas
Particulares do Patrimônio Cultural (MMA, 2006).
       Dentre as unidades de conservação de uso sustentável, estão as Reservas
Extrativistas que são definidas pelo SNUC como sendo:


                        “Uma área utilizada por populações tradicionais, cuja
                        subsistência baseia-se no extrativismo e, complementarmente,
                        na agricultura de subsistência e na criação de animais de
                        pequeno porte, e tem como objetivos básicos proteger os
                        meios de vida e a cultura dessas populações, e assegurar o
                        uso sustentável dos recursos naturais da unidade” (MMA,
                        2006).


       As Reservas Extrativistas são unidades de conservação estabelecidas em uma
área de interesse para a conservação biológica, em que o Estado estabelece uma
concessão de uso para a população tradicional residente na área. Não podem existir


                                                                                   25
áreas privadas em seu perímetro e elas possuem ainda um conselho deliberativo
formado por diferentes representantes da sociedade civil e do governo, sendo em sua
maioria composto pela população local (MMA, 2006).
         Diante dos diferentes grupos que habitam no território brasileiro, o surgimento
das Reservas Extrativista vem no sentido de assegurar essa diversidade socioambiental,
fortalecendo a democracia e a sustentabilidade (Diegues, 2001). Pois inicialmente,
apenas os índios tinham seus territórios protegidos através das reservas indígenas. Mas,
a partir das lutas dos seringueiros do Acre pelo reconhecimento formal de seus
territórios, surgiu em 1989 a modalidade de Reservas Extrativistas dentro da política
ambiental do país. E assim, a defesa de um território foi o incentivo para a criação de
um movimento nacional, que devido a uma série de alianças políticas, particularmente
com grupos ambientalistas, e a liderança singular de Chico Mendes, conseguiu construir
um novo espaço político e, nesse processo, instituir novos atores sociais no cenário
nacional (Little, 2002).
       Em 23 de janeiro de 1990 foi criada a Reserva Extrativista do Alto Juruá, como
a primeira unidade de conservação desse tipo. Toda a área da Resex foi destinada pela
União ao usufruto exclusivo dos moradores, por meio de contrato de concessão, e cuja
administração poderia ser realizada pelos convênios entre governo e as associações
representativas locais. Esta era uma solução para o problema fundiário e social, mas era
também uma solução para o problema de conservação, apoiada por pareceres de peritos
e relatórios de biólogos (M. Cunha e M. Almeida, 2001).
       As Reservas Extrativistas originaram-se portanto na luta dos seringueiros por
uma modalidade de reforma agrária que mantivesse suas formas costumeiras de uso, ou
seja, a existência de grandes áreas de floresta onde se poderia extrair látex e viver da
caça, pesca e da pequena agricultura. Neste processo, associou-se aos interesses
ambientalistas (M. Cunha e M. Almeida, 2001). Depois espalharam-se já no formato de
unidade de conservação, como solução para contextos diversos . Assim, foram fruto de
finalidades comuns que proporcionaram uma certa colaboração no fortalecimento das
lutas desses povos tradicionais. Enquanto alguns grupos sociais tentavam defender-se
da usurpação de seus territórios pelas fronteiras em expansão, outros já lutavam pela
autonomia territorial e cultural fundamentada em vínculos sociais e simbólicos que tais
povos mantinham com o ambiente (Little, 2002).



                                                                                     26
1.3.      As Resex Marinhas no Brasil


      Antes das Reservas Extrativistas Marinhas começarem a fazer parte da
conjuntura política e institucional do Ministério do Meio Ambiente, e os pescadores
artesanais estarem incluídos na categoria política das populações tradicionais, os
pescadores já tinham um longo histórico de relação com o Estado, segundo Silveira
(2009a):
             O setor da pesca era inicialmente administrado pela Marinha e
             posteriormente foi criada pelo Governo Federal a Superintendência do
             Desenvolvimento da Pesca (SUDEPE).                 Durante algum tempo a
             industrialização do setor pesqueiro foi bastante incentivada e a pesca
             artesanal ficou praticamente esquecida.
             Apenas em 1989, com a extinção da SUDEPE, a gestão da pesca ficou a
             cargo do IBAMA, sendo então elaboradas várias políticas de conservação
             dos recursos pesqueiros.
             Após algumas pressões para que a gestão da pesca voltasse aos órgãos de
             fomento, foi criado em 1998 o Departamento de Pesca e Aqüicultura, que
             transformaria-se em Secretaria Especial da Aqüicultura e da Pesca (SEAP), e
             posteriormente, em 2009 no Ministério da Pesca e Aqüicultura (MPA).
             As políticas desenvolvidas pelo MPA não estabelecem a criação de UCs para
             beneficiar a pesca. Tais políticas buscam o desenvolvimento da infra-
             estrutura para equipar os territórios e assim viabilizar a atividade produtiva.
             Porém as Resex são vistas pelos pescadores artesanais como uma alternativa
             para dirimir os conflitos existentes em seus territórios.
             Até hoje os pescadores artesanais continuam tendo pouca visibilidade, onde
             os mesmos percebem que uma mesma área é vista de distintas maneiras – o
             que para os pescadores é um espaço de sustentabilidade familiar e dos
             recursos pesqueiros, na visão dos empresários é espaço de lucro e exploração
             – até porque essas comunidades são consideradas atrasadas e um
             impedimento ao desenvolvimento.




                                                                                         27
E assim com o passar do tempo foram sendo percebidas relações existentes entre
investir na pesca, proteger os recursos pesqueiros e garantir o território dos pescadores.
Por esses motivos as Resex passaram a ser pleiteadas pelos pescadores artesanais
(Figura 1), que apesar de terem a consciência de que tal alternativa não é suficiente e
nem deve ser o único caminho, é por enquanto um importante instrumento de luta pela
garantia de seus direitos por esses territórios (Silveira, 2009a).
                         No Brasil já existem 53 Reservas Extrativistas, onde 22 desse total são Resex
Marinhas. Do total das Resex Marinhas, 11 estão localizadas no Nordeste, sendo 1 em
Pernambuco.

                                                         Reservas Extrativistas

                         60


                         50
    número de reservas




                         40

                                                                                                   Total
                         30                                                                        Resex Marinhas- Brasil
                                                                                                   Resex Marinhas- Nordeste
                         20


                         10


                         0
                              1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006 2008
                                                          ano


                                Figura 1: Número de Reservas Extrativistas no Brasil. Fonte: Silveira, 2009a.



                         As Reservas Extrativistas Marinhas começaram a ser solicitadas pelos
pescadores artesanais do litoral, tendo em vista a crescente perda do território pesqueiro
para os grandes empreendimentos. No ano de 1992 foi criada a primeira Resex Marinha
fora do limite da Amazônia, era a Reserva extrativista marinha de Pirajubaé em Santa
Catarina. Essa subcategoria das Resex identificada com os territórios marinhos tem
aumentado a cada ano. Esses pedidos para a delimitação de espaços secularmente
ocupados por pescadores artesanais evidenciam um indício de fortalecimento e



                                                                                                                        28
amadurecimento na organização e mobilização social de uma parcela populacional
historicamente marginalizada (Chamy, 2008).
       Em Pernambuco a discussão sobre proteger o litoral dos impactos ambientais
provenientes de empreendimentos diversos começou nos anos de 1970, mas foi nos
anos de 1980 com a morte de várias pessoas devido aos resíduos industriais, que tais
ocorrências passaram a ser combatidas pelo movimento dos pescadores. E assim, a
partir dos anos de 1990 os pescadores artesanais de Pernambuco, apoiados pelo
Conselho Pastoral dos Pescadores passaram a reivindicar a criação das Resex na
proteção de seus territórios. E como exemplo dessas articulações temos a criação da
Resex Acaú-Goiana em 2007, que integra parte dos estados de Pernambuco e Paraíba
(Silveira, 2009a).
       As Resex Marinhas são hoje um importante instrumento de luta dos pescadores
artesanais pela permanência dessas pessoas em espaços já anteriormente ocupados por
elas. Os pescadores vêem no estuário não apenas um espaço de atividades econômicas a
partir da extração de peixes, crustáceos, mariscos, entre outras espécies do mangue e do
ambiente marinho, mas também como um espaço de organização social e cultural, onde
a percepção de sua realidade não está dissociada do seu mundo natural e sobrenatural
(Cavalcanti, 2002).
       Um grande número de pescadores artesanais utiliza o manguezal como meio de
subsistência, pois além de ser um rico ecossistema, possui fácil acesso e não necessita
de onerosos apetrechos de pesca para captura das espécies lá presentes. É um
ecossistema muito utilizado também pelos pescadores ocasionais que em geral,
trabalham no corte da cana e que na entressafra tem nas espécies do mangue um meio
de subsistência.
       Logo, para entender a relação homem-natureza existente na região do estuário de
Sirinhaém, faz-se necessário conhecer algumas características do manguezal para
melhor compreender a importância desse ecossistema no cotidiano da população local.


       1.4.    O mangue e sua importância na dinâmica socioambiental


       Segundo Schaeffer-Novelli, o manguezal é um “Ecossistema costeiro, de
transição entre o ambiente terrestre e marinho, característico de regiões tropicais e



                                                                                     29
subtropicais, sujeito ao regime das marés. Constituído de espécies vegetais lenhosas
típicas (angiospermas) adaptadas à flutuação de salinidade e caracterizadas por
colonizarem sedimentos predominantemente lodosos, com baixos teores de oxigênio.
Ocorre em regiões costeiras abrigadas e apresenta condições propícias para alimentação,
proteção e reprodução de muitas espécies animais, sendo considerado importante
transformador de nutrientes em matéria orgânica e gerador de bens e serviços”
(SCHAEFFER-NOVELLI, 1991, p.3). Nesses locais, a força das marés é branda e a
velocidade das correntes é baixa, favorecendo intensa deposição de sedimentos finos e
matéria orgânica e caracteriza-se por uma constante conquista de novas áreas pelo
acúmulo de grandes massas de sedimentos e detritos trazidos pelos rios e pelo mar (IPT,
1988 In: AMBITEC BRASIL, 2008).
       As regiões estuarinas são áreas de extrema importância, não só ecológica, mas,
também, econômica, servindo de meio de vida para boa parte da população brasileira.
Junto com as zonas de ressurgência e as baías, as áreas costeiras estuarinas, embora
correspondam a apenas 10% da superfície marinha, produzem mais de 95% do alimento
que o homem captura no mar (CIRM, 1981). No entanto, tal ecossistema é um dos mais
ameaçados no mundo e em apenas duas décadas já perdeu cerca de 35% de sua área,
apesar de ser legalmente considerado como uma área de preservação permanente
(Meireles e Queiroz, 2010).
       Os estuários dos rios Formoso e Sirinhaém integram um dos mais importantes
conjuntos de manguezais do litoral pernambucano, representando 23,3% da extensão
total desses ecossistemas no estado. No município de Sirinhaém, onde deságua o rio
Sirinhaém, destaca-se a presença dos manguezais, com registro da ocorrência de
Rhizophora mangle, Laguncularia racemosa, Avicennia schauerianna, Avicennia
germinans e Conocarpus erectus. (LABOMAR, 2005). A Bacia do Rio Sirinhaém
possui considerável área alagada sujeita ao efeito de maré possuindo em seu estuário 17
ilhas fluviais, compartilhadas entre os municípios de Ipojuca e Sirinhaém.
       Dentro do ambiente estuarino os animais que mais caracterizam este ambiente
são os crustáceos. Segundo a CPRH (1999) as espécies com maior importância
comercial do estuário do rio Sirinhaém, conforme foi indicado também pelos próprios
catadores são: Ucides cordatus (caranguejo-uçá), Cardisoma guanhumi (guaiamum),




                                                                                    30
Callinectes spp (siris), Goniopsis cruentata (aratú do mangue) e Macrobrachium
acanthurus (camarão).
         A vegetação do manguezal é essencialmente homogênea caracterizada por
plantas lenhosas, arbustivas e subarbustivas, a qual difere ecológica e floristicamente da
vegetação de terra firme sendo composta, basicamente, pelas árvores dos gêneros
Rhizophora, Laguncularia e Avicennia (Lamberti, 1966)
         Uma grande quantidade dos peixes encontrados no estuário vive parte de sua
vida no mar, utilizando o estuário durante um período no ano e/ou entrando e saindo do
estuário conforme o fluxo da maré. As espécies marítimas que utilizam o estuário estão
à procura de alimentos ou em fase de reprodução. Há ainda espécies que são exclusivas
do estuário e também existem espécies de água doce que são eurihalinos, que suportam
uma larga amplitude de salinidade, na parte superior do estuário (AMBITEC BRASIL
2008).
         De importância ecológica já conhecida, são ecossistemas que desempenham
papel ecológico chave à medida que abrigam, além de suas espécies características,
aquelas que migram para a costa durante a fase reprodutiva. Sua fauna e a flora ainda
servem como fonte de alimento e meio de subsistência para as populações humanas.
Inúmeras comunidades ribeirinhas vivem tradicionalmente da exploração dos vários
recursos existentes nas regiões costeiras do Brasil, sendo que algumas populações
vivem quase que exclusivamente de recursos específicos de áreas de mangue, como
caranguejos, moluscos e outros crustáceos (Schaeffer-Novelli, 1999).




                                                                                       31
2. OBJETIVO


       2.1. Objetivo Geral


       Esta pesquisa analisa os conflitos socioambientais relativos ao processo de
solicitação de uma Reserva Extrativista que tem como beneficiários pescadores
artesanais, abrangendo o estuário e o mangue entre os municípios de Sirinhaém e
Ipojuca, no Litoral Sul de Pernambuco.


       2.2. Objetivos Específicos


       Relatar e discutir sobre o processo de criação da Reserva Extrativista de
Sirinhaém-Ipojuca e suas implicações socioambientais a partir da compreensão dos
principais problemas enfrentados pelos pescadores artesanais nesse conflito.
       Discutir sobre a importância do território e dos recursos naturais para a
manutenção dos hábitos de vida dos pescadores e como os impactos ambientais
existentes na região tem afetado a qualidade de vida deles.
       Relatar o conflito histórico e socioambiental existente a partir da apresentação
das dificuldades existentes durante o processo de criação da Resex e como os atores
sociais envolvidos se posicionaram frente a tais questões definindo suas motivações,
ações e relações.




                                                                                    32
3. METODOLOGIA


       Resolvi pesquisar sobre a criação da Reserva Extrativista de Sirinhaém ao entrar
em contato com o pesquisador Pedro Silveira, da Fundação Joaquim Nabuco, que estava
envolvido em uma pesquisa intitulada “Reservas Extrativistas e pesca artesanal:
etnografia do campo socioambiental em Pernambuco”. Nesse estudo eles já
acompanhavam a implementação da Reserva Extrativista de Acaú-Goiana, a primeira
Resex de Pernambuco.
       Decidi então analisar a criação da Resex de Sirinhaém-Ipojuca, que seria a
segunda Reserva Extrativista no Estado. O processo de criação da unidade estava
avançado, mas muitos conflitos dificultavam a sua criação. Pedro já tinha disponíveis os
seis volumes da documentação relativa ao processo de criação da referida Resex,
cedidos pelo Instituto Chico Mendes (ICMBio), que foram minha inicial fonte de
pesquisa.
       Tinha em mente um objetivo, escrever sobre um período histórico de um
determinado lugar e seus conflitos socioambientais, o que é algo um tanto complexo e
causa geralmente um sentimento de incerteza sobre o que deve ser mais bem destacado
e explorado.
       Mas, essa inquietude foi também o incentivo necessário para uma melhor
reflexão e análise das circunstâncias históricas vivenciadas pelos integrantes desse
conflito socioambiental, bem como de suas conseqüências, a fim de contribuir no
processo de descoberta de novas maneiras de ver, perceber e sentir as relações
socioambientais.
       Segundo Theodoro (2005), os conflitos ambientais fazem parte das relações
humanas e no estudo desses conflitos, faz-se necessário a identificação e análise dos
atores sociais para compreender os interesses específicos dos envolvidos. Sendo
importante ainda, um levantamento das interações entre cada um dos atores sociais, para
perceber a totalidade do conflito. Ainda segundo Carvalho e Scotto (1995) aspectos
como: descrição das características ambientais, breve histórico do processo de
povoamento, configuração das principais atividades econômicas, processo de avanço do
capital na região, identificação de macroproblemáticas ambientais na região; enunciação




                                                                                     33
dos diferentes campos de tensão, enfrentamento e resistência entre projetos e/ou forças
sociais em disputa, devem ser considerados.
       Na busca de fazer um diagnóstico dos conflitos sociais existentes na região,
priorizei o método qualitativo em minha pesquisa pois segundo Alves-Mazzotti e
Gewandsznajder (1999), as concepções, crenças e valores das pessoas são revelados a
partir de análises interpretativas.
       Os procedimentos utilizados foram pesquisa bibliográfica diversa sobre os temas
pesca artesanal, populações tradicionais, unidades de conservação, entre outros.
Consulta a fontes secundárias que caracterizam a área de estudo em seu contexto
histórico, econômico e socioambiental, na busca de informações sobre a região e sua
população.
       Houve ainda observações em campo e entrevistas com os principais atores
sociais envolvidos no conflito visando perceber o contexto político e institucional que
levou à proposta de criação da Resex de Sirinhaém-Ipojuca. As informações obtidas
pelas observações foram associadas às entrevistas com o propósito de fazer convergir
resultados de pesquisa sobre um mesmo objeto de análise. A contextualização das
fontes heterogêneas visa conferir uma maior confiabilidade entre as narrativas (Beaud e
Weber, 2007).
       Na pesquisa de campo, as entrevistas etnográficas buscaram ter acesso aos
relatos de historias de vida e a memória, bem como as impressões do passado e
presente. Nas entrevistas tentou-se entender a partir do texto e da fala, o contexto social
do grupo social estudado. Os relatos foram feitos livremente, onde um tema era
proposto e o entrevistado discursava sobre ele.
       As entrevistas visaram perceber os significados e sentimentos que os pescadores
artesanais e os demais envolvidos no processo atribuíam à região e as percepções que os
mesmos tinham à cerca do contexto histórico e social local. Após a coleta das
narrativas, as mesmas foram transcritas e analisadas a partir do universo de
interconhecimento entre os entrevistados (Beaud e Weber, 2007). Essa análise visa
transformar uma questão “abstrata” em uma série decomposta de práticas sociais e de
eventos, onde seja possível perceber em uma afirmação genérica do entrevistado as suas
crenças ou ideologias (Lefèvre e Lefévre, 2003).




                                                                                        34
Assim, essa metodologia foi utilizada como uma estratégia para construir uma
representação social de modo coerente e esclarecer as significações moldadas através do
tempo por esse grupo social (Moscovici, 2003).
       A partir da análise do histórico da demanda feita pelos pescadores, foi possível
perceber quais problemas os mesmos enfrentavam no seu cotidiano e quais os impactos
ambientais existentes no ambiente eram mais significativos e prejudiciais à sustentação
dos recursos pesqueiros e dos seus hábitos e modos de vida.
       Durante a pesquisa de campo tentei analisar, os significados locais com relação à
criação da Resex. No intuito de apresentar algumas visões dos atores sociais
diretamente envolvidos no processo de solicitação da Resex e também de alguns
pescadores locais.
       Diante da concepção de que os problemas ambientais não são isolados, e sim
situações onde as condições ambientais e territórios são representados e tornados objeto
de disputa entre projetos distintos, fizeram-se também necessário incorporar na presente
pesquisa os diferentes pontos de vista de instâncias oficiais, dos pescadores locais, bem
como também a visão dos movimentos sociais diretamente envolvidos no processo de
criação da Resex.
       De inicio, eu comecei lendo bibliografias referentes à questão, examinando
também notícias recentes que saíram em jornais sobre a Resex. Em seguida dei início à
leitura dos seis volumes do Processo nº 02019.000307/2006-31 de criação da Resex
Sirinhaém-Ipojuca. O processo continha vários documentos que foram produzidos pelos
órgãos não governamentais que juntamente com a comunidade de pescadores artesanais,
solicitaram ao IBAMA a criação da referida Reserva, bem como os documentos dos
órgãos governamentais envolvidos nesse processo.
       Logo após essas leituras, dei inicio às entrevistas com alguns dos principais
envolvidos no processo de criação da Resex, os pescadores artesanais de Barra de
Sirinhaém e também com alguns ex-moradores das ilhas. Ao longo da pesquisa, realizei
as seguintes entrevistas:
       Frei Sinésio Araújo, Secretário de Justiça, Paz e Ecologia dos franciscanos no
       Nordeste e agente da Comissão Pastoral da Terra, entidade que assessorou os
       moradores das ilhas na solicitação da Resex.




                                                                                      35
Luiz Otávio Corrêa, analista do IBAMA que coordenou o Estudo
       Socioambiental para a criação da Resex.
       Ronaldo Santana, Presidente da Colônia de Pescadores de Barra de Sirinhaém e
       Pescador da Região.
       Arlene Costa, Secretária da Colônia de Barra de Sirinhaém e Pescadora da
       Região.
       Severino Santos, do Conselho Pastoral dos Pescadores, entidade de assessoria
       que acompanha os Pescadores dos estados do Nordeste e as solicitações de
       Resex no litoral pernambucano.
       Cauby Figueiredo Filho, engenheiro agrônomo - Dep. Agrícola da Usina
       Trapiche.
       Flávio Vanderlei da Silva, pescador e Presidente da Associação dos Pescadores
       de Sirinhaém.
       João Francisco da Silva, pescador e membro da diretoria da Colônia de Barra de
       Sirinhaém.
       Sebastião Gaspar Senhorio, pescador e Presidente da Associação Mangue Verde.
       A. A. S. Pescador e ex-morador das ilhas.
       D. C. S. Pescador e ex-morador das ilhas.
       V. J. S. Pescador e ex-morador das ilhas.
       E. F. S. Pescador e ex-morador das ilhas.
       J. R. Pescador e ex-morador das ilhas.
       M. J. F. Pescador e ex-morador das ilhas.
       M. G. S. Pescador e ex-morador das ilhas.
       S. G. S. Pescador e ex-morador das ilhas.
(Devidos aos conflitos envolvendo os ex-moradores das ilhas, optei por preservar a
identidade deles).


       Realizei as entrevistas com os pescadores durante uma viagem de campo entre
os dias 7 e 10 de outubro de 2010, acompanhando o trabalho de frei Sinésio Araújo e
Plácido Júnior, assessor da CPT que já havia entrevistado todos os ex-moradores das
ilhas e me indicou os nomes de alguns pescadores e onde os mesmos moravam. Visitei
nesta ocasião ex-moradores das ilhas, que atualmente residem em distintas


                                                                                  36
comunidades: Oiteiro do Livramento e Vila Nova da Cohab, que localizam-se na sede
do Município de Sirinhaém; Barra de Sirinhaém e Casado, que localizam-se em Barra
de Sirinhaém. (Figuras 2, 3, 4, 5). Visitei ainda a Colônia Z-6, de Barra de Sirinhaém.
         Além de fazer entrevistas, participei de algumas reuniões da Colônia de Barra de
Sirinhaém e de algumas Reuniões do Litoral Sul, que reuniam várias lideranças de todas
as colônias do Litoral Sul. Visitei ainda a sedes da Comissão Pastoral da Terra, do
Conselho Pastoral dos Pescadores e da Prefeitura Municipal de Sirinhaém para recolher
informações e materiais de pesquisa.


Figuras 2 a 5: Comunidades visitadas.




Figura2: Comunidade do Casado.                   Figura 3: Comunidade de Barra de Sirinhaém.




Figura 4: Comunidade do Oiteiro do Livramento.   Figura 5: Comunidade da Vila Nova da Cohab.
Fonte: IBAMA (Luiz Otávio Corrêa).



3.1. Área de Estudo:
         O município de Sirinhaém encontra-se a 80 Km da cidade do Recife, têm uma
população de 33.046 habitantes segundo dados do IBGE (Censo, 2000) e localiza-se na


                                                                                               37
Mesorregião Mata, Microrregião Meridional do Estado de Pernambuco. Este município
limita-se a norte com Ipojuca e Escada, a sul com Rio Formoso e Tamandaré, a leste
com o Oceano Atlântico e a oeste com Ribeirão, com área municipal de 352,2km²,
representando 0,36% do Estado de Pernambuco (CPRM, 2005). É constituído pelos
distritos de Sirinhaém, Barra de Sirinhaém e Ibaritinga. Em Barra de Sirinhaém existe
uma população de 10.045 habitantes, de acordo com o Censo 2000/IBGE.
       O rio Sirinhaém nasce na Serra do Alho no município de Camocim de São Félix
com o nome Riacho Tanque das Piabas. Toma, inicialmente, a direção sul e, a seguir, a
direção geral sudeste, cortando os municípios de Bonito, Barra de Guabiraba, Cortês,
Ribeirão, Gameleira, Rio Formoso e Sirinhaém em cujo litoral deságua após compor,
com seus vários braços (rios Arrumador, Trapiche, Aquirá, além do próprio Sirinhaém),
um amplo e complexo estuário onde se encontram algumas lagoas, numerosas ilhas e
extenso manguezal com sua variada fauna (Diagnostico Socioambiental do Litoral Sul,
CPRH, 1999).
       Inserida em uma área de cerca de 3.000ha de manguezal, Sirinhaém está incluída
na categoria de “extrema importância biológica” no Atlas de Biodiversidade de
Pernambuco, pela SECTMA (2002). Pois as regiões estuarinas constituem áreas de alta
produtividade e diversidade biológica, uma vez que, pela natureza de seus componentes,
são encontrados nesse ecossistema, representantes de todos os elos da cadeia alimentar.
E por se tratar de um local onde várias espécies buscam alimento e refúgio em época de
reprodução.
       Sirinhaém tem como principais atividades socioeconômicas a indústria
sucroalcooleira e a pesca artesanal (Figuras 6, 7). Há na cidade uma extensa área de
cana-de-açúcar que pertence predominantemente à Usina Trapiche, existente desde o
século XIX na região. A população da cidade de Sirinhaém é composta por diversos
tipos de pescadores: existem os pescadores permanentes, que pescam o ano inteiro para
o consumo próprio de sua família e venda do excedente. Há o pescador temporário, que
não tem a atividade pesqueira como sua principal fonte de sobrevivência, mas que a
pratica eventualmente e os pescadores ocasionais que são, em geral, pequenos
agricultores e/ou trabalhadores rurais de engenhos próximos à região das ilhas que, na
entressafra da cana-de-açúcar, recorrem à pesca para complementar a alimentação de
seus familiares (IBAMA, 2008).



                                                                                    38
Figura 6: indústria sucroalcooleira (Foto do autor)   Figura 7: Pesca Artesanal (Foto de Luiz Otávio Corrêa)



         A pesca artesanal tem grande importância na produção pesqueira do estado de
Pernambuco, em 2007 correspondeu a 78,3% de toda a produção pesqueira. A pesca
industrial obteve 0,8% e a aqüicultura 20,9% onde o estado foi o 4º colocado na
produção de pescado e o 1º colocado na exportação da lagosta (881t), segundo dados do
IBAMA (Estatística da pesca, 2007).
         Em Sirinhaém a maior parte da produção é de camarão (58,5%), caranguejo
(45,2%), guarajuba (38,5%) e a lagosta vermelha (30,8%), Diagnóstico socioeconômico
da pesca artesanal do litoral de Pernambuco (2009). O município produziu em 2006,
409,5 t de pescado, correspondendo a 2,9% da produção estadual (CEPENE, 2006).
         Assim como em Sirinhaém, a pesca artesanal também possui grande relevância
no município de Ipojuca, o qual possui em seus limites, a maior parte do estuário do Rio
Sirinhaém. Ipojuca é constituído pelo distrito sede e pelos povoados de Camela, Nossa
Senhora do Ó, Rurópolis, Engenho Maranhão e Porto de Galinhas. Limita-se ao sul com
o município de Sirinhaém e possui além da pesca artesanal uma intensa atividade
turística e industrial, através do Pólo Portuário de Suape. Encontra-se inserido nos
domínios das bacias hidrográficas dos rios Ipojuca, Sirinhaém e do Grupo de Bacias de
Pequenos Rios Litorâneos. O município produziu, em 2006, 291,8 t de pescado,
correspondendo a 2,1 % da captura estadual. A maior parte da produção é de sardinha
(39,8 t), camarões (27,6 t) e agulha (23,6 t) (Diagnóstico socioeconômico da pesca
artesanal do litoral de Pernambuco, 2009).
         A pesca artesanal apresenta uma importância histórica e socioeconômica no
Brasil, sendo responsável por cerca de 65% da produção pesqueira nacional (I
Conferência da Pesca Artesanal, 2009) e o litoral sul de Pernambuco, onde a pesca



                                                                                                          39
artesanal tem forte tradição, vem sofrendo com os impactos das atividades turísticas,
industriais e do crescimento populacional (Governo de Pernambuco e Instituto
Oceanário, 2009). Atividades estas que ocasionam a perda da biodiversidade local, a
conseqüente diminuição dos estoques pesqueiros, a sobrepesca, a pesca predatória, além
de conflitos junto a empreendimentos vizinhos que poluem o estuário. Sendo necessária
ações que promovam a proteção deste fundamental ecossistema aos pescadores e
pescadoras artesanais.




Figura 8: Imagem de satélite (Google earth, 2007) do complexo estuarino do Rio Sirinhaém.




                                                                                            40
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

                     “A proteção do meio ambiente depende do combate à desigualdade ambiental.
                     Não se pode enfrentar a crise ambiental sem promover a justiça social”
                     (Acselrad et al., 2009).


       Exponho brevemente, a seguir, os principais conflitos presentes na criação da
Resex, de maneira sucinta e sem a presunção de esgotar todos os pontos de conflito
existentes.
       Apresento um breve histórico das dificuldades enfrentadas pela população local,
bem como também das enfrentadas pelos demais atores sociais durante o processo de
implementação da Resex, na busca de contribuir para uma maior objetividade das
discussões em torno dos problemas socioambientais.


4.1. A Reserva Extrativista Sirinhaém-Ipojuca e seus motivos


                      “Será esta liberdade, a liberdade de escolher entre ameaçadores infortúnios,
                      nossa única liberdade possível? O mundo ao avesso nos ensina a padecer a
                      realidade ao invés de transformá-la, a esquecer o passado ao invés de escutá-
                      lo e a aceitar o futuro ao invés de imaginá-lo: assim pratica o crime assim o
                      recomenda. Em sua escola, escola do crime, são obrigatórias as aulas de
                      impotência, amnésia e resignação. Mas está visto que não há desgraça sem
                      graça, nem cara que não tenha sua coroa, nem desalento que não busque seu
                      alento. Nem tampouco há escola que não encontre sua contraescola”.
                                                                           (Eduardo Galeano, 2010)



       Entre o município de Sirinhaém e o município de Ipojuca localiza-se o estuário
do Rio Sirinhaém, composto por 17 ilhas fluviais, algumas delas com denominações
próprias: Grande, Clemente, Macaco, Porto Tijolo, Canoé, Raposinha, entre outras.
Estas denominações foram dadas pela população de pescadores artesanais que nelas
habitavam. O manguezal ainda está bem preservado, apesar de ser alvo constante dos
impactos decorrentes dos empreendimentos vizinhos, como a expansão do canavial que
atualmente faz fronteira com o mangue.
       Porém, não apenas o mangue tem desaparecido, mas também populações que
tradicionalmente fizeram uso desse ecossistema e que nele residiam, utilizando seus
recursos naturais.




                                                                                                41
A região estuarina de Sirinhaém é uma área da União (“terras de Marinha”), que
desde 1898 foi aforada à Usina Trapiche. Ou seja, a empresa possui o direito de posse a
partir do pagamento de um aluguel anual, sendo a aplicação do regime de aforamento
das terras da União, competente à Secretaria do Patrimônio da União (SPU).
         Apesar desse ecossistema ser legalmente protegido por diversas leis e decretos,
vem recebendo constantemente a poluição de efluentes domésticos e industriais, entre
os mais freqüentes está o despejo do vinhoto, subproduto da fabricação do etanol a
partir da cana de açúcar. Toda essa poluição tem gerado a diminuição dos estoques
pesqueiros e diversos conflitos entre os pescadores artesanais e as diversas industrias3
canavieiras existentes na região.
         A contaminação do estuário de Sirinhaém não foge à regra do que vem
acontecendo nos demais estuários brasileiros, em especial em Pernambuco. Segundo o
estudo socioeconômico elaborado pelo IBAMA , nos depoimentos dos ex-moradores
das ilhas, existe um “saudosismo latente que reflete a relação de dependência com o
estuário do rio Sirinhaém; suas falas não mostram apenas conflitos pela posse da área
e uso dos recursos naturais, também explicitam autênticas declarações de amor e
fidelidade ao local em que viram seus descendentes nascer” (IBAMA, 2008 p. 128).
         O conflito socioambiental em Sirinhaém é apenas mais um dentro do contexto
sócio-político do estado de PE. Contudo assim como na fábula4 indiana “os cegos e o
elefante”, o que me parece é que o meio ambiente é percebido de diversas maneiras
pelos distintos atores sociais envolvidos nesse conflito. Assim como os cegos apenas
perceberam uma parte do elefante, sinto nos depoimentos presentes nessa pesquisa, que
cada um percebe o meio ambiente de uma maneira unilateral. E então, se cada pessoa
procurasse unir sua limitada visão às demais experiências sei que os conflitos




3
  Agroindústrias localizadas na área: usinas Cucaú, Trapiche, Salgado, Ipojuca, Central Barreiros, Santo André e
Bom Jesus.

4
   Nessa fábula indiana existe um grupo de cegos que foi levado a apalpar um elefante. Um apalpava a barriga, outro
a cauda, outro a orelha, outro a tromba, outro uma das pernas. Então, o que tinha apalpado a barriga disse que o
elefante era como uma enorme panela. O que tinha apalpado a cauda até os pelos da extremidade, disse que o elefante
se parecia mais com uma vassoura. O que tinha apalpado a orelha, disse que ele se parecia com um grande leque
aberto. O que apalpara a tromba disse que o elefante tem a forma, as ondulações e a flexibilidade de uma mangueira
de água. Já o que apalpara a perna, disse que ele era redondo como uma grande mangueira e rígido como um poste.
Os cegos se envolveram numa discussão sem fim, cada um querendo provar que os outros estavam errados.
Evidentemente cada um se apoiava na sua própria experiência e não conseguia entender como os demais podiam
afirmar o que afirmavam.


                                                                                                               42
continuariam a existir, mas, talvez fosse possível ter uma visão mais geral das questões
socioambientais.
          A situação de degradação do manguezal e injustiça ambiental já vinha
intensificando-se pouco a pouco, mas, particularmente em 1998 o conflito existente
entre a Usina Trapiche e os pescadores artesanais que habitavam nas ilhas estuarinas do
Rio Sirinhaém culminou em um processo de retirada das 53 famílias que lá residiam e
que possuíam um modo de vida mais isolado e de subsistência. E assim, para tentar
dirimir esse conflito, foi solicitado ao IBAMA a criação de uma Reserva Extrativista na
região.


4.2. Memórias de um lugar


                      “O pescador artesanal que, equilibrado em sua canoa, com fina destreza e
                      percepção, joga sua tarrafa para alcançar o cardume visado, sob um fundo em
                      que se confundem águas e entardecer, torna-se retrato para decorar o cenário
                      dos agentes que visam suprimi-lo da paisagem real” (Valencio, 2010).


          De acordo com relatos de antigos moradores, a ocupação das ilhas do estuário do
Rio Sirinhaém começou por volta do século XX e intensificou-se por volta de 1920
quando a Companhia Agrícola Mercantil de Pernambuco, hoje denominada Usina
Trapiche S.A., construiu um cais para escoar a sua produção. E assim, com o passar do
tempo as famílias que utilizavam os recursos do mangue durante a entressafra da cana
de açúcar começaram a aumentar em número devido aos casamentos entre os membros
da comunidade (IBAMA, 2008).
          Essas ilhas possuem tamanhos diversos e as pessoas foram se distribuindo na
área, denominando cada ilha de acordo com as relações estabelecidas com o local e seus
recursos naturais e distribuindo-se a partir de laços de parentesco e compadrio. Segundo
relatos dos moradores, nas ilhas maiores moravam até mais de cinco casas.
          E assim essa população residente nas ilhas foi construindo um modo próprio de
interagir com o ambiente. Eles extraiam do mangue os alimentos para a subsistência e
alguns também vendiam o excesso da produção pesqueira. Mantinham pequenas
produções agrícolas e frutíferas, além de criarem animais como galinha, cabra, porco,
entre outros, como relatam alguns ex-moradores das ilhas:




                                                                                               43
“Nasci lá nas ilhas, minha mãe chegou lá em 1914. Eu tive 21
                       filhos, tenho nove vivos, tudinho morava lá...
                       Eu criava porco, galinha, inté vaca eu criei.
                       Eu pescava amoré, guaiamum, caranguejo, siri, aratu camuri,
                       arapeba”.
               (Ex-morador das ilhas, D. C. S. - 64 anos – Entrevista ao autor em 09/10/10).

                       “A gente pescava caranguejo, botava camboa de rio e de mangue,
                       pegava Aratu, todo tipo de peixe. Tinha pé de coqueiro, muitas
                       galinhas, três viveiros de peixe. Quando a safra do mangue
                       fracassava aí já tinha o viveiro ou senão botava camboa de rio e
                       de mangue”.
                (Ex-morador das ilhas, V. J. S. - 30 anos – Entrevista ao autor em 09/10/10).

          A partir de 1988, os moradores começaram a ser pressionados pela Usina
Trapiche para saírem das ilhas, a qual possui o aforamento da área desde o século XIX.
Posteriormente, em 1998, com a venda da Usina Trapiche para um grupo alagoano que
atualmente administra a empresa, a pressão para a desocupação das ilhas se intensificou,
com a acusação de que as famílias que lá residiam estavam degradando o mangue.


                          “Nós quando chegamos aqui e sobrevoamos esse mangue de
                          helicóptero era de fazer pena. Eram 52 ou 53 famílias habitando
                          dentro desse mangue, tinha uma área chamada de carvoeiro, que o
                          pessoal fazia carvão, destruindo a vegetação de mangue.
                          Plantando lavoura branca dentro, com fruteiras dentro do mangue,
                          jaca, manga, macaxeira, utilizando madeira pra fazer carvão. Isso
                          foi um choque ambiental grande pra gente. E a gente foi mal visto
                          em função de que a gente tentou fazer um trabalho de
                          conscientização do pessoal pra que tirasse esse pessoal do mangue
                          pra gente recuperar o mangue”
                          (Cauby Figueiredo, representante da Usina Trapiche- Entrevista ao
                          autor, em 28/12/10).

          No estudo Socioeconômico realizado pelo IBAMA (2008), um representante da
usina Trapiche S.A. afirma que pelo fato de ter o aforamento da área, esta seria
responsabilizada em caso de favelização e degradação do mangue5




5
    De acordo com o Decreto Federal nº9.760/1946 em seu artigo 70, a foreira da área é obrigada a zelar pela
conservação do imóvel, sob pena de responsabilização.




                                                                                                         44
A estratégia utilizada pelos administradores da usina, segundo relato dos
pescadores, passou a ser a demolição das casas e a destruição das lavouras e das
fruteiras, chegando até ao fechamento da escola local.


                    “Eu morei 42 anos nas ilhas, eu to com 79 anos. Eu tive 23 filhos,
                    na ilha do Macaco, criava galinha, cabra, porco, cavalo. Tive pé
                    de jaqueira, mangueira coco, tem pé de coração de índia, cajueiro,
                    bananeira... tudo isso tinha...
                    “A minha casa derrubaram”.
                     (Ex-morador das ilhas, M. J. F – Entrevista ao autor em 09/10/10).

                  “Eu tinha cajueiro, mangueira, jaqueira... era de caju como daqui
                  em camboinha, de caju que a usina derrubou, fora as outras
                  coisa...”
          (Ex-morador das ilhas, D. C. S. – 64 anos – Entrevista ao autor em 09/10/10).

                   “A gente já morou na Raposinho, que a usina chegou a botar fogo,
                   aí fomos morar lá no Carvoeiro”.
           (Ex-morador das ilhas, V. J. S. – 30 anos – Entrevista ao autor em 09/10/10).

       Com a destruição das casas, das lavouras e das fruteiras tornou-se quase
impossível para os pescadores continuarem a habitar nas ilhas. E assim, pouco a pouco
os moradores foram saindo. Alguns mais resistentes chegaram a fazer acordos
individuais com a Usina Trapiche e receberam casas pelo município de Sirinhaém,
pequenas indenizações, material de construção, ou até mesmo empregos. Mas antigos
moradores reclamam que apenas os proprietários dos sítios receberam algum tipo de
indenização e os demais moradores que habitavam na propriedade nada receberam.
       Atualmente os ex-moradores das ilhas encontram-se espalhados por diversos
povoados na cidade de Sirinhaém. Alguns passaram a fazer parte da ocupação
desordenada da periferia do município, enquanto outros receberam pequenas moradias
como indenização. Ao visitar algumas dessas moradias, pude constatar que a maioria
das casas encontram-se em locais de difícil acesso, a distancias de cerca de 8 a 10 Km
do manguezal, sendo necessário um grande deslocamento dos pescadores para poder ter
acesso ao mangue.
       Ao realizar estas visitas percebi que os mais jovens já estavam mais adaptados à
vida urbana e alguns já haviam deixado de pescar. Porém se perguntados sobre aonde
preferiam viver, todos reportavam-se com saudade do tempo em que viveram nas ilhas e
a maioria manifestava o desejo de retornar


                                                                                     45
“Lá era bom, muitas vezes a gente sente até falta dali, porque era
                   um lugar muito assossegado, era um lugar que ninguém chegava
                   lá. Era uma paz”.
           (Ex-morador das ilhas, V. J. S. – 30 anos – Entrevista ao autor em 09/10/10).

                    “A gente quer voltar pras ilhas, é o meu lugar”.
               (Ex-morador das ilhas, J.R. – 22 anos – Entrevista ao autor em 09/10/10).

                                          “Tinha não, tenho vontade de voltar pra lá”.
          (Ex-morador das ilhas, M. G. S. – 47 anos – Entrevista ao autor em 09/10/10).


       Apenas em uma das casas visitadas uma moradora relatou que não tinha mais
condições de saúde para voltar a viver nas ilhas.
                     “Morar mesmo direto não, porque não tenho mais saúde pra viver
                     no mangue. Mas os filhos queriam voltar se botassem energia...
                     Eles vão pescar ainda”.

           (Ex-morador das ilhas, M. J. F. – 79 anos – Entrevista ao autor em 09/10/10).


       Em todas as famílias visitadas havia pelo menos um integrante que ainda
praticava a pesca artesanal no mangue. Assim, mesmo retirados das ilhas, os moradores
ainda tinham no mangue um meio de vida.
       Os mais idosos apresentavam uma grande tristeza e não adaptaram-se à vida na
cidade. Sentiam falta do modo de vida que possuíam junto ao mangue e ao redor dos
demais integrantes da comunidade, que hoje se encontram espalhados em vários bairros
distintos. Muitos continuavam pescando, mas uma boa parcela já apresentava algum
tipo de enfermidade que impossibilitava a prática da pesca.
       A partir da fragmentação dessa comunidade foram-se desfazendo os laços que
formavam essa rede social que favorecia a construção da identidade cultural dos seus
integrantes e propiciava um sentido às suas vidas (Rangel, 2007). É perceptível em seus
depoimentos o sentimento de não pertencimento ao lugar no qual habitam atualmente e
muitos não conseguiram se integrar em novas relações sociais junto aos demais
moradores dos locais onde hoje residem.
       Segundo relato de frei Sinésio Araújo presente no Estudo Socioeconômico do
IBAMA (2008):



                                                                                     46
“Problemas de ordem psicológica também são evidentes, pois
                    muitos entraram em estado depressivo, fruto do comprometimento
                    de sua identidade que lhe fora negada a partir do momento em que
                    foram forçados a sair de seu habitat natural e mudaram totalmente
                    a sua maneira de ser e agir. Seu Dudé, por exemplo, teve um filho
                    morto pelo envolvimento com drogas na periferia da Barra de
                    Sirinhaém e disse: “se meu filho estivesse nas ilhas, não se
                    envolveria nesta situação”.
                    (Sinésio Araújo, agente da CPT, entrevista em 14/04/2008 In:
                    IBAMA, 2008 p.123).

       Segundo Luiz Otávio Corrêa:
                    “A gente viu muita gente que não se adaptou. Principalmente os
                    mais idosos. Quem passou mais tempo, quem cresceu ali dentro do
                    manguezal, tem uma dificuldade muito grande de morar na cidade,
                    mesmo numa casa ate com melhores condições de moradia, mas
                    que não tem como tirar seu sustento da cidade, não tem nem
                    estudo... gente que nunca teve vizinho na vida, você colocar dentro
                    de um centro urbano, a questão psicológica dela.... Dona Antonia
                    chora sempre, ela consegue dar um bom quadro das dificuldades
                    que eles passam... é o ambiente deles.... Dona Antonia morava
                    numa ilha bem grande lá e praticamente não saia lá de dentro e
                    tinha uma área grande pra cultivo, tinha frutas, os filhos
                    pescavam, então a família toda sobrevivia dali, mesmo sem ter
                    esses luxos, sem ter... tinha a casa de farinha dela que todos os
                    vizinhos utilizavam também, então eles tinham o jeito deles de
                    viver ali que não foi levado em conta na hora de sair”.
                    (Luiz Otávio Corrêa, analista do IBAMA – entrevista ao autor em
                    29/10/10)

       Ao tentar imaginar como deve ter sido traumática essa mudança de vida, me
ocorre em mente depoimentos de pessoas amigas que passaram um curto período de
tempo em alguma região isolada e que ao retornarem à cidade já não conseguiam
atravessar a rua na mesma segurança de antes, que estranhavam certos hábitos vistos
pelos demais como usuais. E então, penso o quanto deve ter sido traumática a repentina
mudança de vida, desses ilhéus que passaram muitos anos ou até a vida toda em uma
isolada região junto ao estuário do rio Sirinhaém.
       Com o passar do tempo as pessoas adquirem um sentimento de apego ao lugar.
Muitos tipos de apego foram sugeridos por Shumaker e Taylor (1983) apud Gomes
(2008), porém dois podem ser claramente percebidos entre os ex-moradores das ilhas: o
apego funcional (relacionado à satisfação das necessidades básicas proporcionadas pelo



                                                                                    47
local) e o apego emocional (evidenciado pela construção da vida nesse local e pela
proximidade entre os moradores da área).


                    “Lá é um lugar de barriga cheia, tem lugar pra plantar uma
                    batata, uma macaxeira, pra pescar o suficiente”.
                     (Ex-morador das ilhas, M.G. S. – Entrevista ao autor em 09/10/10)


                    “Não gosto de morar em rua, morava dentro do sitio, fiquei com
                    pena do sitio que ela (a usina) derrubou, era bom o sitio lá de
                    casa, eu ia pra rua vender manga guaiamum, caranguejo, pegava
                    o carro de mão de pai e ia a pé mesmo. La não faltava nada dentro
                    de casa, tinha pé de manga, macaiba, jaca, goiaba, araçá, tinha de
                    tudo lá que mãe plantava. A gente pegava caranguejo, amoré, pai
                    botava covo, armava ratoeira pra pegar guaiamum, carapeba.
                    Muito peixe a gente pegava, camarão, pititinga, cuca, era muito”.
                     (Ex-morador das ilhas, E. F. S. – Entrevista ao autor em 09/10/10).

       O geógrafo Yi-Fu-Tuan (1980) denomina de Topofilia o elo afetivo existente
entre a pessoa e o lugar ou ambiente. E afirma que as pessoas em constante interação
com a natureza estabelecem um sentimento mais intenso com o ambiente, por dele
dependerem para sobreviver. Sendo provável que mudanças para outros locais causem
algum efeito psicológico entre os moradores deslocados, devido ao rompimento da
identidade com o espaço e com o grupo. Segundo Castells (2006), as pessoas
transformam o espaço em que vivem em lugar, ao relacionarem-se afetivamente com
ele.
       Dentre os vários relatos dos ex-moradores das ilhas, destaca-se um depoimento
que retrata bem qual o sentimento que foi construído pelos pescadores em relação à
região das ilhas, que reproduzo abaixo:
                    A senhora e seu esposo moravam nas ilhas desde quando?

                    “Morei no sitio 53 anos”.

                    Qual o nome do sitio que a senhora morava?

                    “Morava no sitio do Cais, a primeira casa. Quando eu fui morar lá
                    tinha um pé de pimenta malagueta”.

                    E a senhora plantou muita coisa?




                                                                                     48
“Vixe Maria, meu Deus, eu não gosto nem de falar, eu e Luis
fizemos o sitio, fiz o sitio... carregava coisa da rua, tinha uma casa
ali, com pé de jaca, de manga, eu dizia vou levar que no meu sitio
não tem nada. Era uma mata, eu plantei de tudo. Eu perdi muita
coisa, até minha casa de farinha ta por lá. Ainda ta minha prensa
ainda está lá”.

A senhora criava animais também?

“Criava tudo...”

A senhora teve quantos filhos?

“Tive 11 filhos”.

Quais as espécies vocês mais pescavam?

“Eu pescava camarão, amoré, aratu, siri, era.... e Luis ia na
jangada pescar de linha, de tarrafa, era...”

E então depois vocês ganharam essa casa aqui?

“Foi minha filha, eu ainda fui teimosa, ainda passei oito mês, o
sitio derrubado e eu lá emperrada sem querer sair. Essa casa feita
eu não queria vir não. Eu vim bem dizer nas mãos dos outros”.

Derrubaram suas fruteiras?

“As frutas todinhas, só deixaram a casinha, mais nada...
Derrubaram um pé de jaca meu que fazia dó e piedade, deu dois
caminhões de jaca, eles carregaram. Eu tinha quatorze pés de jaca
e quinze pés de manga e coqueiro, nem falo... e mais pé de laranja,
cravo, tudo... a ilha era grande, tinha escola, tinha tudo”.

Derrubaram também a escola?

“Só queria que você visse que jeito ficou... Fizeram de propósito,
desagasalhou muita gente. Eu vou dizer a você eu vim pra qui mas
não me dei não, acredita?
Eu estou morando aqui, mas eu não vivia numa vida dessa que eu
estou, numa condição dessa... Eu perdi minha saúde, tenho medo
de andar, não vou na rua, vez em quando é morrendo, eu lá morei
esse tempo todinho, onze filhos e nunca tive nada, foi eu bater aqui
e com dois meses acabou minha saúde até a data de hoje.
Ainda ontem eu tava dizendo... sei não meu Deus. Se não fosse
proibido eu já tinha ido pra debaixo de um pau. Não sei se foi o
costume, não me dou aqui não.



                                                                   49
Essas casas todinhas aí me pergunte que jeito, é que não sei de
                    nada, de nada, de nada, não vou pra canto nenhum é o dia todinho
                    dentro de casa e sem poder andar, perdi a perna, doente”.

                    Seu esposo ainda vai pescar?

                    “Luis, só quando ele morrer ele deixa...
                    Ele não vai todo dia não, mas vez em quando ele vai, porque não
                    tem onde guardar as coisas, onde botar. vai duas, três vezes por
                    semana.
                    E bagre não falta na mão dele... ele tem muito amor as ilhas, ele ta
                    com 76 anos.
                    Passa o dia, leva comer, lá por debaixo dos pés de pau pelo
                    mangue e lá ele fica. Quando ele vem eu pergunto:”ô, Luis,
                    passasse por lá, passasse por lá?”
                    Ele diz: “Antonia é capaz de nem saber onde é” ... e eu não fui
                    mais lá não. Eu digo: “tu visse algum pé de coisa..”. “Olha
                    Antonia aquele pé de manga que tu plantasse lá no sitio lá, ainda
                    tem ele”.
                    Ô meu Deus... Eu só vivia lá pelas ilhas, era pescando amoré,
                    tinha saúde, criava boi... galinha.
                    Eu perdi 75 cabeça de galinha, fora os pintos, cada galo bonito
                    essa menina, duas peruas, um peru.
                    Nada, roubaram tudinho, tudinho, tudinho... eu ia trazer pra qui,
                    pra onde? Um lugar desse... isso é lugar de nada... Perdi muita
                    coisa essa menina, muito mesmo”.

                    E se for criada a reserva extrativista a senhora ainda volta a morar
                    nas ilhas?

                   “Na mesma hora, volto na mesma hora. Ta vendo eu arrastando
                   assim... vixe, Maria, nem diga uma coisa dessa... eu dona Cosma...
                   quem era dona Cosma, perdemos a saúde da gente.. a gente vivia
                   do mangue...”
           (Ex-morador das ilhas, A. A. S. - 70 anos – Entrevista ao autor em 09/10/10).

       Em resumo, hoje os ex-moradores das ilhas enfrentam as dificuldades de
adaptação a uma vida bem diferente da qual eles estavam acostumados, perderam a
fonte de subsistência que compreendia não só o manguezal, mas também os cultivos, as
fruteiras e a criação de animais. Distanciaram-se dos laços afetivos construídos durante
os vários anos de convivência e foram obrigados a aumentar a lista das pessoas que
dependem da ajuda assistencialista do governo para sobreviver. A grande maioria desses
pescadores nunca contribuiu para a previdência e por isso encontram-se desassistidos
pelo INSS. Além de tudo isso, a desterritorialização do grupo social que habitava as



                                                                                       50
ilhas afastou os pescadores do manguezal e os pulverizou no espaço, contribuindo para
desagregar os laços sociais costumeiros deste grupo tradicional.


4.3. O acirramento dos conflitos
                          “Ocasiões de conflito liberam relações sociais na medida em que são, ao mesmo
                          tempo, relações de força e relações de sentidos” (Beaud e Weber, 2007).


         Percebendo a forte ligação dessas pessoas com o lugar, como também a
importância desse ecossistema na dinâmica local, a Comissão Pastoral da Terra6
juntamente com diversas ONGs e apoiada por um abaixo assinado dos ex-moradores
das ilhas, solicitaram em 2006 a criação de uma UC de uso sustentável na região.
         Atuando desde a década de 80 na região de Sirinhaém, a CPT acompanhou e deu
assistência aos pescadores que moravam na região das ilhas através de projetos diversos
desenvolvidos por frei Hilton, que inicialmente não encontrou grandes dificuldades para
desenvolver os trabalhos sociais da CPT com esses pescadores. Mas, posteriormente,
muitos conflitos começaram a surgir e foram bastante noticiados pela imprensa local
(anexo I). Frei Sinésio relata que, ao perceber a intensificação do conflito entre os ilhéus
e a usina, a entidade começou a conscientizar a comunidade pela busca de seus direitos.
         Os administradores da usina alegaram que existia um contrato de comodato de
10 anos feito em 1988 com os moradores das ilhas e que portanto, estaria sendo vencido
em 1998 (anexo II). Porém pelos documentos que foram encontrados sobre esse
comodato, sabe-se que o mesmo apenas se referia às famílias que moravam em duas das
17 ilhas habitadas, segundo relata o agente da Pastoral dos Pescadores:
                          “A gente avaliava desde o inicio que assim, se tivesse que sair, só
                          quem poderia sair da área era quem morava na ilha de
                          Constantino e do Clemente, porque eram as duas ilhas que tinham
                          no termo de comodato. As outras ilhas não estavam no termo de
                          comodato, não tinha nenhuma referencia no termo de comodato
                          pelo que a justiça colocava e também o aforamento que a usina
                          tinha não era claro em relação às outras ilhas, era claro só sobre
                          essas duas ilhas”.
                          (Severino Santos, da CPP – Entrevista ao autor em 15/12010).



6
   A Comissão Pastoral da Terra (CPT) é uma entidade de defesa dos direitos humanos e dos direitos dos
trabalhadores da terra, ligada à Igraja Católica. Essa entidade nasceu em 1975, durante a ditadura militar, com o
objetivo de defender na época, sobretudo os direitos dos trabalhadores rurais da região amazônica. E assim a CPT
passou a atuar em todo o país adequando suas ações de acordo com a demanda local.


                                                                                                             51
Ainda em 1998, o Conselho Pastoral dos Pescadores (uma outra entidade social
ligada à Igreja Católica e bastante atuante na região costeira de Sirinhaém 7) já havia
solicitado ao governo e ao Serviço de Patrimônio Publico de PE a desapropriação da
área pertencente à Marinha ocupada pela Usina Trapiche, bem como também um
levantamento sobre os débitos referentes ao não pagamento de alguns foros pela referida
usina e ainda a apreciação de denuncias de incêndios e derrubadas de algumas casas dos
pescadores da região (Anexo III).
         O representante do CPP-Nordeste narra os acontecimentos deste período (anexo
IV):
                          “De 98 pra cá a CPP veio dando uma ajuda, um acompanhamento
                          jurídico dos processos, que foram vários processos, um atrás do
                          outro. Tinha esse processo das duas famílias que a usina tinha
                          pedido o cancelamento do termo de comodato e depois disso veio
                          surgindo vários processos com denuncia das ações, que
                          funcionários da usina, pessoas ligadas à usina começaram a
                          agredir os pescadores: a queimar casa, a destruir roça, a soltar
                          animal, a destruir os aparelhos de pesca e aí foram surgindo
                          vários processos, varias denuncias formais, na delegacia do
                          município, no fórum tem pra mais de 40 denuncias”
                          (Severino Santos, CPP - Entrevista ao autor em 15/12/10).

         Em 28 de dezembro de 1998, nos últimos dias de mandato do governador
Miguel Arraes, enquanto estes conflitos aconteciam, o Governo do Estado criava a Área
de Proteção Ambiental de Sirinhaém8, em âmbito estadual, que inclui os manguezais do
rio Sirinhaém. Gianinna Cysneiros, técnica da Secretaria Estadual de Ciência,
Tecnologia e Meio Ambiente (SECTMA) que participou dos debates no período, conta
à equipe da Fundação Joaquim Nabuco (Beatriz Mesquita, comunicação pessoal) que a
APA de Sirinhaém fora criada porque quando os conflitos se acirraram em Sirinhaém,
os moradores e suas entidades assessoras solicitaram que as ilhas fossem incorporadas
na vizinha APA de Guadalupe. Como tal incorporação não era viável a curto prazo,
optou-se por um decreto criando uma nova APA, a de Sirinhaém. Esta APA até presente
momento, 13 anos depois, ainda não foi implantada. Posteriormente foi feita uma


7
  O Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP) é uma Pastoral Social composta por diversos agentes comprometidos
com uma sociedade mais justa e solidária para os pescadores e pescadoras artesanais. O trabalho da CPP foi iniciado
em 1968 em Pernambuco e mais tarde espalhou-se por todo o Brasil. Atualmente, a CPP acompanha e desenvolve
diversos projetos junto às colônias de pescadores da região, em Sirinhaém vem atuando desde 1984.
8
  Decreto n.º 21.229 de 28 de dezembro de 1998.



                                                                                                               52
recomendação para a proteção do estuário de Sirinhaém através da criação de uma
Resex, presente no Diagnostico Socioambiental do Litoral Sul (CPRH, 1999) e no
Zoneamento Ecológico-Econômico do Litoral Sul (CPRH, 1999).
       Entre 1998 e 2000, período de intensificação dos conflitos, muitos fatos
contribuíram para a desarticulação da comunidade de pescadores das ilhas: frei Hilton
foi transferido para outro estado e importantes lideranças no processo de resistência
local, como o presidente da Associação dos Pescadores e Pescadeiras da Ilha de
Sirinhaém e a representante local da CPP junto às famílias, foram contratados pela
usina, desmobilizando a atuação desta entidade na região. E então os pescadores foram
pouco a pouco deixando suas casas.
       Outro fato que contribuiu para a saída dos pescadores das ilhas foi às intensas
chuvas:
                    “em 2000 teve as chuvas no litoral sul e as casas dos pescadores
                    dentro das ilhas foram todas atingidas, a maior parte delas
                    caíram. A usina não deixava construir, eles não tinham recurso
                    financeiro pra construir fora. Nesse período a gente recebeu a
                    visita de um grupo da Holanda, que sempre a cada dez anos eles
                    fazem visita no CPP e eles foram lá. A gente tava com atividade
                    marcada pra lá e eles foram e deu origem a um projeto de
                    reconstrução das casas. Aí nesse processo foi feito muita
                    cooptação de liderança por parte da usina, tanto dos moradores
                    das ilhas, tanto como da pessoa que trabalhava em nome da CPP
                    na área. É tanto que a gente liberou em cheque recurso pra
                    construção de 25 casas, só foram construídas 12. E dessas 12,
                    quando a gente foi fazer a avaliação, apenas 8 estavam em pé, as
                    outras as pessoas já tinham, não sei de que forma, se amigável ou
                    pressionado, negociado com a usina e saído e estavam morando na
                    periferia de Sirinhaém. Foi feito ainda um convenio da usina com
                    a UFRPE (Dep. De Zootecnia ou floresta) e a CPRH e de certa
                    forma, quem passou a ser o gestor ambiental da área foi a própria
                    usina. E com a saída da família, eles desmatavam todo o sitio que
                    tinha, todos os pés eram derrubados e eram plantadas arvores que
                    não tinham fruto. Era o ingá e a sabiazeira. Aí eles desmatavam
                    todo o sitio para o pescador não voltar a viver lá, pra não ter nada
                    pra ninguém buscar. A usina começou a colocar placas dizendo
                    que era área de preservação, que o pessoal não podia estar lá.
                    (Severino Santos, CPP – Entrevista ao autor em 15/12/10)

       E dentre as diversas tentativas de legitimar suas ações, a Usina Trapiche chegou
a acusar os moradores por crimes ambientais ainda em 1998. E um Inquérito Civil
Público chegou a ser instaurado pelo Ministério Público para apurar as denúncias.


                                                                                     53
Técnicos do IBAMA e da CPRH compareceram ao local, mas não constataram a
destruição do meio ambiente. Pois o desmatamento provocado pelos pescadores era
incipiente e não representava risco ao meio ambiente, como relata Severino Santos
(Anexo V):
                    “Com o fechamento do termo de comodato a usina acusou os
                    pescadores de estar depredando o meio ambiente e entrou com
                    uma ação judicial solicitando o despejo de todas as famílias. Na
                    ocasião a gente fez um levantamento junto a GRPU e a usina tinha
                    sim o aforamento da área, só que estava atrasado há mais de 20
                    anos com pagamento do foro. A denuncia de depredação foi
                    averiguada pela CPRH e pelo IBAMA, no final de 98 teve uma
                    audiência publica no município aonde a CPRH e o IBAMA
                    apresentou o relatório que já tinha entregado antes, como peça do
                    processo, aonde eles colocavam que as famílias que moravam nas
                    17 ilhas não tinham agressão ao meio ambiente e que funcionavam
                    até como fiscalizadores ambientais da área”.
                    (Severino Santos, CPP – Entrevista ao autor em 15/12/10)


Em contrapartida, condutas lesivas ao meio ambiente foram descritas pelos técnicos
ambientais da CPRH que multaram a Usina por derramar o vinhoto nas águas do
estuário, além de serem acusados de também plantar espécies exóticas nas ilhas. Mas
sempre a usina recorreu de tais multas.
       Contudo, segundo depoimento do representante da Usina Trapiche:


                    “Quanto à vinhaça, toda a vinhaça da usina Trapiche ela é
                    aproveitada no campo. O rio Sirinhaém é composto por 4 usinas
                    do setor sulcroalcooleiro e nós somos a ultima, ou seja, nós somos
                    final de linha. Então tudo que venha acontecer de poluição no rio
                    Sirinhaém vem finalizar na usina Trapiche. Tudo que vier de
                    poluição, no final, vai cair na foz. E a gente está em cima da foz, a
                    maré sobe, o rio sobe e aquilo fica concentrado justamente nas
                    áreas da usina Trapiche. Então muitas das atribuições de poluição
                    que ocorrem se joga pra usina Trapiche. Ou seja, até agora nesses
                    treze anos e meio que a gente tá aqui, com todas as denuncias que
                    existem, nunca conseguiram provar que veio uma poluição da
                    usina Trapiche, porque realmente a gente não polui. Nós temos a
                    mentalidade que o vinhoto é importante pra empresa e jogando ele
                    no rio é a mesma coisa que jogar dinheiro fora” (Cauby
                    Figueiredo, representante da Usina Trapiche – Entrevista ao autor
                    em 28/12/10).




                                                                                      54
Devido a tais acontecimentos, em 2003 poucas famílias ainda continuavam a
morar na região das ilhas estuarinas. Nessa mesma época, segundo depoimento de Frei
Sinésio Araújo, um trabalho para restabelecer a confiança dos pescadores foi iniciado
pela CPT no intuito de garantir o direito da comunidade ao território de pesca utilizado
tradicionalmente pelos mesmos.
       A maneira como a Usina Trapiche encaminhou todo o processo de expulsão dos
ilhéus é bastante controverso, pois segundo representantes da empresa tudo foi feito de
forma pacífica. Segundo, Cauby Figueiredo, engenheiro agrônomo da Usina Trapiche:


                    “Nós tiramos esse pessoal gradativamente, aos poucos, aonde
                    íamos fazendo um trabalho de conscientização. Tanto é que não foi
                    nada forçado, que não foi nada de maneira agressiva que as
                    ultimas que saíram agora... já que não tava conseguindo sair de
                    uma forma assim, consciente, de uma forma tranquila... nós
                    tivemos que apelar para o lado jurídico. Mas as outras 51 famílias
                    saíram de uma forma gradativa, na medida em que a gente ia
                    convencendo, conscientizando e a gente dava uma área pra eles
                    construírem uma residência e onde tinha uma qualidade de vida
                    melhor, mais perto da zona urbana, com uma casa de melhor
                    qualidade, melhor padrão, uma melhor condição de vida” (Cauby
                    Figueiredo, representante da Usina Trapiche – Entrevista ao autor
                    em 28/12/10).


       De acordo com depoimento de Severino Santos (CPP), e também em entrevista
dos representantes da Usina Trapiche presente no Estudo Socioeconômico elaborado
pelo IBAMA, quando a notícia de que a usina iria indenizar as 53 famílias que residiam
nas ilhas se disseminou houve um aumento populacional na área e então vários conflitos
foram gerados pela derrubadas das casas. Contudo, tal fato apenas causou o aumento
dos conflitos já existentes, pois os antigos moradores das ilhas já estavam sofrendo com
as conseqüências das ações da usina pela desocupação da área.
       A intenção dos administradores da usina era fazer um acordo coletivo com os
moradores mais resistentes, mas devido ao apoio das entidades que acompanhavam os
pescadores, esses começaram a não aderir às pressões e então a usina começou a fazer
acordos individuais, a partir das diversas ações impetradas no órgão judicial local.
Nessas audiências cada morador recebia uma pequena casa e alguns também uma
irrisória quantia em dinheiro. Essas audiências eram na presença do próprio ministério



                                                                                     55
público do município, além das demais entidades de direitos humanos que
acompanhavam esse conflito. No entanto, as ações de reintegração de posse foram
julgadas procedentes na Justiça Estadual e onde foi negado inclusive o direito de
retenção das benfeitorias feitas pelos moradores (Leroy, 2004).
       Entre 2005 e 2006, restavam cerca de 5 famílias morando nas ilhas:


                     “Na ilha que tinha oito famílias estava só duas famílias e a maior
                    parte com a idade já avançada. Ai se sentiram assim... que
                    sozinhos lá dentro não iam conseguir, se os outros tivessem ficado,
                    se todos as oito tivessem ficado eles tinham a comunidade pra
                    resistir, mas como tava só as duas, eles não tinham mais forças pra
                    continuar lá dentro, aí eles negociaram, saíram, foram uns dos
                    últimos a saírem antes de Nazaré” (Severino Santos, CPP -
                    Entrevista ao autor em 15/12/10).

       O fato sobre como foi o processo de retirada dos pescadores das ilhas, se
arbitrário ou conciliativo, é apenas o pano de fundo de uma evidência maior: a de que a
complexidade e a diversidade das formas locais de imaginação do território foram
reduzidas a um conjunto de “imóveis” a serem removidos, ou seja, a existência de uma
forma coletiva de viver e relacionar-se com o ambiente foi vista a partir de processos
mercantis de indenizações feitas aos moradores (Zhouri & Oliveira, 2010).
       Segundo Valencio (2010), o projeto de desterritorialização da pesca artesanal
promove uma dissociação entre o individuo e sua prática e ainda tenta impor às pessoas
as formas capitalistas de trabalho. E ao “negar-se como individuo e como parte de um
grupo, desintegra-se rapidamente em outros fazeres e saberes homogeneizados e a
contento da lógica e das relações macroenvolventes que se apossam do território”.
       Ao iniciar minha pesquisa, apenas duas famílias continuavam a morar nas ilhas,
as irmãs Nazaré e Graça. Mas, ao fim do mês de outubro uma decisão judicial as
obrigou a abandonar àquele lugar ao qual há tanto tempo habitavam. Infelizmente não
cheguei a visitá-las lá nas ilhas, e hoje elas residem no distrito de Santo Amaro, em
Sirinhaém. De acordo com a ação judicial, a Usina Trapiche não era obrigada a
indenizar essas duas famílias, mas apesar dessa “injustiça da Justiça” a usina decidiu
construir suas casas em um terreno repassado pela mesma.
       Atualmente a situação dos ex-moradores das ilhas é bastante precária, pois a
grande maioria encontra-se desempregada, percorre grandes distancias para ter acesso


                                                                                    56
aos recursos pesqueiros do mangue e nas atuais moradias não há espaço para guardar as
jangadas que antes eles possuíam. Muitos relatam ainda que antes, colocavam os
apetrechos de pesca no mangue e iam realizar outros afazeres, retornando
posteriormente para pegá-los. Mas, hoje a distância, como também a fiscalização da
Usina dificultando o acesso dos pescadores ao mangue, são fatores que tem levado ao
abandono da prática de pesca.
       Assim, a criação de uma Reserva Extrativista é bastante defendida pelas diversas
entidades socioambientais atuantes em Sirinhaém, pois tais entidades vêem na
implantação de uma Resex Federal a possibilidade de estar garantindo a manutenção
dos modos e hábitos de vida desses povos e ainda a conservação e gestão dos recursos
naturais presentes na área. Até porque a criação de uma Resex possibilitaria que a
própria comunidade continuasse a fiscalizar a área da poluição industrial.
       Por possuírem uma intrínseca dependência dos recursos naturais, esses povos
não têm um grande potencial de mobilidade e a desestabilização dessas formas de
apropriação não capitalista da natureza costuma ficar invisível frente aos grandes
projetos de “desenvolvimento” que geram poucos empregos, mas em contrapartida, põe
em risco a subsistência de inúmeras pessoas (Acselrad et al., 2009).


4.4. O processo de criação da Resex e suas dificuldades


                    “O capitalismo contemporâneo não necessita de um regime político totalitário
                    para exercer sua hegemonia. Mas ele não estaria querendo impor uma ideologia
                    totalitária, pretendendo explicar todo o ser humano, ao reduzi-lo a um
                    consumidor e produzir uma sociedade em que tudo lhe é subordinado?” (Leroy,
                    2010).


       Em 1998 ocorre uma viagem de técnicos do Centro Nacional de Populações
Tradicionais (CNPT) , IBAMA, pelo litoral de Pernambuco, identificando demandas
dos movimentos sociais para proteção de áreas costeiras onde havia populações
tradicionais (Silveira, 2009). Neste período as primeiras Resex em áreas florestais já
haviam sido criadas na Amazônia há alguns anos e o conceito de Resex Marinhas se
fortalecia. Assim, a criação de Resex apareceu como uma forma interessante para os
pescadores de dar um encaminhamento institucional para os conflitos que aconteciam
no litoral pernambucano. Surgiram então propostas de Resex em Sirinhaém, onde havia
envolvimento da CPT e do CPP, e no Litoral Norte do estado, com atuação do CPP.

                                                                                             57
As diversas entidades sociais atuantes em Sirinhaém tentaram através de
denúncias aos órgãos governamentais proteger os direitos dos pescadores locais. Diante
dos recentes acontecimentos na política ambiental com o fortalecimento da proteção aos
povos tradicionais e da possibilidade de criação das Reservas Extrativistas, essas
entidades sociais passaram a discutir com os pescadores essa possibilidade de luta pela
obtenção de seus direitos de acesso ao território e de preservação dos recursos naturais,
os quais são à base de subsistência desses pescadores.
       Durante o processo de solicitação da Resex, foi feito um pedido ao GRPU para
que a área em questão voltasse aos domínios da União. E então devido às denuncias de
poluição ambiental ao estuário de Sirinhaém e pelo fato do regime de aforamento da
Usina Trapiche ter caducado por motivo de não pagamento de alguns foros, sendo tal
dado publicado no D.O. de 26 de julho de 1989 (Página 320 do volume II do processo
de criação da Resex), a GRPU-PE cancelou o aforamento da Usina Trapiche em 2007,
observando também que tratava-se de uma área de interesse público (Anexo VI).
       Mas, tal aforamento foi renovado após a Secretaria do Patrimônio da União em
Brasília, instância suprema nesse caso, vinculada ao Ministério do Planejamento, ter
decidido em favor da Usina Trapiche.
       Nessa mesma época, já estava em andamento em Pernambuco o processo de
criação da Reserva Extrativista Acaú-Goiana, na divisa entre Pernambuco e Paraíba,
que foi criada em 2007, por uma modificação da proposta inicial de uma Resex da Mata
Norte de Pernambuco. A solicitação da Resex Sirinhaém-Ipojuca pelas entidades dos
pescadores, apoiada pela Comissão Pastoral da Terra, entre outras ONGs foi feita no
inicio de 2006. E ainda no fim desse mesmo ano os técnicos do IBAMA visitaram a
área e sugeriram que um estudo socioambiental fosse feito na região.
       Em 2007, o trabalho em Sirinhaém foi intensificado, após a finalização dos
trabalhos na Resex de Acaú-Goiana. E ao final do ano de 2007 foi iniciada pelo
IBAMA a elaboração dos estudos para a criação da Resex Sirinhaém-Ipojuca:


                    “Em abril a gente fez a primeira vistoria, ao estuário.
                    Inicialmente, conhecer as ilhas, conhecer o rio Sirinhaém, aquela
                    região, ver como estava o manguezal”.
                    (Luiz Otávio Corrêa, analista do IBAMA – Entrevista ao autor em
                    29/10/10).



                                                                                      58
Na solicitação da Resex existia também um pedido para a desapropriação dos
Engenhos Anjo e Sibiró que fazem fronteira com o mangue, sendo denominados de
restinga. Pois está área era vista como um espaço para fazer as moradias dos pescadores
e a sede da Reserva. Segundo dados contidos no Processo de criação da Resex, tais
engenhos possuíam cadastro na SPU com conceituação de Marinha (Pag. 64 do
processo nº 02019. 000307/2006-31, IBAMA). No entanto esses engenhos não fizeram
parte da área prescrita pelo IBAMA na demarcação da Resex:


                    “No processo eles solicitavam a criação da reserva extrativista e
                    também a desapropriação dos engenhos pra ter as famílias
                    assentadas.... Mas, desde o inicio a gente deixou claro pra isso,
                    que já não era mais papel do IBAMA a gente trabalhar com os
                    engenhos. O papel da gente era ver a reserva extrativista, a área
                    que eles podiam utilizar.
                    Algumas partes pegavam área de mangue, mas era... Engenho de
                    cana de açúcar, não sei se era da usina Trapiche, mas que estava
                    no entorno daquele manguezal e também estava dentro da área do
                    aforamento que a usina tem. Aí teria que ser um processo paralelo
                    com o INCRA...
                    Então teve um certo debate, uma discussão: porque a gente falou
                    vai levar em conta o que? A área que eles utilizam, o manguezal ou
                    a gente vai pensar numa área pra estar de repente.... Então até
                    onde tem mangue a gente colocou como área da reserva.
                    Outra discussão foi em relação à questão marinha, se a reserva
                    sairia para o mar também ou ficaria só dentro do estuário... Até
                    pelo publico da gente, questão dos moradores das ilhas, eles não
                    praticarem a pesca de fora, mas pescarem só dentro do manguezal,
                    e pela resistência do poder municipal e da própria usina, a gente
                    falou... foi ate um fator de a gente não entrar em área de cana foi
                    essa, ne... de ser mais fácil...”
                    (Luiz Otávio Corrêa, analista do IBAMA - Entrevista ao autor em
                    29/10/10).

       Outra dificuldade enfrentada pelos técnicos do IBAMA durante a realização dos
estudos para a criação da reserva foi a divisão do IBAMA com a criação do ICMBio. As
vistorias técnicas em Sirinhaém estavam sendo em abril de 2007 e enquanto o IBAMA
se preparava para dar início ao estudo socioambiental, o ICMBio foi criado em
setembro de 2007:


                    “Então esse processo sairia da mão do IBAMA e seria
                    responsabilidade do ICMBio, que foi criado e não tinha estrutura


                                                                                    59
nenhuma aqui ainda. Era mais o pessoal, cada um ligado a sua
                    diretoria. Cada um ligado a sua Unidade de Conservação, mas
                    não tinha uma coordenação estadual, regional, nada disso, que era
                    quem seria responsável por tocar isso. Pois não dá para cada um
                    sair de sua unidade de conservação pra ir iniciar um processo
                    desses, né.
                    Mas, a gente decidiu que como o IBAMA começou, mesmo não
                    sendo responsabilidade mais, mas como a gente deu inicio a esse
                    processo a gente vai tocar isso. Só que o grande problema era
                    isso... O IBAMA não tinha recurso pra fazer esse trabalho e na
                    época o ICMBio também não tinha como pagar para o IBAMA... a
                    questão das diárias, tudo que a gente precisava pra fazer esse
                    trabalho em Sirinhaém. Então atrapalhou nesse sentido porque a
                    gente começou o trabalho em outubro, primeiro de outubro de
                    2007 a gente iniciou os estudos e sem recurso nenhum, durante
                    todo o processo a gente não recebeu nada pra fazer esse trabalho.
                    A distancia favorecia né, o trabalho até demorou um pouco porque
                    a gente não tinha como chegar e ficar uma semana em Sirinhaém,
                    porque a gente não tinha recurso pra estar garantindo a
                    hospedagem e a alimentação da gente. A gente ia fazer o trabalho
                    e no fim ou inicio da noite a gente voltava pra Recife, às vezes até
                    no dia seguinte a gente ia de novo pra Sirinhaém fazer o trabalho e
                    retornava”.
                    (Luiz Otávio Corrêa, analista do IBAMA - Entrevista ao autor em
                    29/10/10).


       Durante a definição da área da reserva, o IBAMA decidiu incluir todo o
manguezal que perfaz o estuário do Rio Sirinhaém, mesmo não fazendo parte da
solicitação inicial no pedido de solicitação da Resex, pois não era viável criar uma
reserva apenas para proteger alguns rios e outros não.


                    “A solicitação foi feita em cima das 17 ilhas e também já pega até
                    área de Ipojuca, tem algumas ilhas que estão já do lado de
                    Ipojuca, mas é metade do estuário só. Tem toda aquela parte norte
                    que esta em Ipojuca, proximo de Serrambi, em toquinho que não
                    esta na solicitação, mas faz parte do mesmo sistema. Então a gente
                    viu que não adiantava estar protegendo uma área, estar criando a
                    reserva pra uma área e deixando a maior parte do estuário lá em
                    cima sem estar protegido”.
                    (Luiz Otávio Corrêa, analista do IBAMA - Entrevista ao autor em
                    29/10/10).

       Na definição da área da Resex, ao fim dos estudos, julgou-se necessário incluir
todo o manguezal do estuário do Rio Sirinhaém e grande parte desse mangue localiza-se


                                                                                     60
já em Ipojuca, porém devido aos vários contratempos e por já existir o ICMBio, não foi
possível realizar um outro estudo socioambiental em Ipojuca. Mas, como os pescadores
de Ipojuca possuíam características parecidas com os pescadores de Barra de Sirinhaém,
não haveria um grande acréscimo de informações ao estudo já realizado:


                    “A gente entrou em contato com a colônia de pescadores de Porto
                    de Galinhas, que a gente já tinha feito contato e pediu que fosse
                    agendada uma reunião, antes ainda da oitiva, já em 2009 e antes
                    da consulta publica, pra que a gente entrasse em contato com esse
                    pessoal de Serrambi que a gente não tinha tido até porque a
                    decisão de incluir Ipojuca surgiu durante a realização do estudo
                    ambiental, então o socioeconômico realmente foi focado na área
                    de Sirinhaém. Mas a gente logo viu que não tinha muita diferença
                    entre o pescador de Barra de Sirinhaém e o pescador de Serrambi
                    (Luiz Otávio Corrêa, analista do IBAMA - Entrevista ao autor em
                    29/10/10).

       Mas, alguns fatos dificultaram a realização da reunião do IBAMA em Ipojuca,
pois algumas autuações aos pescadores locais tinham sido feitas recentemente por uma
outra equipe de fiscalização do IBAMA:


                    “Por causa das invasões de mangue lá em Serrambi, um problema
                    serio, em 2009 o IBAMA tinha feito uma grande operação lá,
                    foram mais de 200 famílias autuadas porque estavam morando
                    realmente dentro do mangue, casa construída lá dentro e foi
                    justamente nas vésperas que a gente foi fazer esse trabalho em
                    Serrambi. Então quando a gente chegou lá... até a reunião seria na
                    associação de moradores de Serrambi, e como o presidente da
                    associação soube que era uma reunião com o IBAMA, ele nem
                    deixou a gente entrar lá, “porque se vocês entrarem aqui vão
                    achar que fui eu que fiz a denuncia das invasões, melhor não fazer
                    pra não dar problema” e aí a gente foi ate para a casa de um
                    morador lá de Serrambi e a reunião foi feita lá no terraço com
                    alguns pescadores de lá. Cerca de 15 a 20 pescadores que faziam
                    parte da colônia, que é a colônia de Porto de Galinhas e o pessoal
                    de Serrambi faz parte como uma única colônia. Mas realmente
                    nessa reunião tinha muita gente de barco de pesca, mas o pessoal
                    que pesca no mangue de Serrambi justamente foram os que foram
                    autuados, são os que estão morando lá dentro, então esses ficaram
                    até com medo... que acharam que era uma reunião pra pegar nome
                    pra tirar eles de lá”.
                    (Luiz Otávio Corrêa, analista do IBAMA - Entrevista ao autor em
                    29/10/10).


                                                                                   61
O estudo socioambiental foi finalizado em janeiro de 2008 pelo IBAMA e para a
realização do estudo ambiental foi contratada uma consultoria. Os dois estudos foram
enviados à Brasília (DIUSP-ICMBio) na metade do ano de 2008, já com o mapa e o
memorial descritivo da área. Os estudos foram aprovados em Brasília e o próximo passo
seria então marcar a consulta pública.


                    “A data foi definida (a data da oitiva) e aí ate falamos: vai ter dois
                    ônibus saindo um de Porto de Galinhas e um de Serrambi,
                    justamente pra que esse pessoal esteja participando também da
                    consulta publica. Como a reunião tava marcada pra Sirinhaém
                    então a gente tinha que ter essa responsabilidade de estar
                    garantindo o transporte pra esse pessoal estar participando do
                    processo lá. E aí a audiência publica foi numa sexta e na quinta
                    feira de manhã foi feita a oitiva lá em Serrambi, lá a gente
                    apresentou a proposta da criação da unidade pra eles, tiramos as
                    dúvidas que eles tinham e lembramos que no dia seguinte iam ter
                    os ônibus levando o pessoal.
                    Foram três ônibus, como a consulta publica foi na Barra de
                    Sirinhaém: um saindo do centro de Sirinhaém até a Barra, um
                    outro saindo de Serrambi ate a Barra e um outro saindo de Porto
                    de Galinhas, entrando lá em Nossa Senhora do Ó e também indo
                    pra lá e alem disso uma Kombi do povoado de Santo Amaro lá em
                    Sirinhaém pra também participar, porque a gente tem algumas
                    famílias de ex-moradores das ilhas que moram hoje em Santo
                    Amaro ou pescadores de Santo Amaro que utilizam aquela área,
                    então outra coisa que a gente tem que levar em conta, alem da
                    infraestrutura do local, onde vai ser realizada a consulta, também
                    garantir o transporte pra comunidade tradicional estar
                    participando”. (Luiz Otávio Corrêa, analista do IBAMA -
                    Entrevista ao autor em 29/10/10).



       A consulta publica ocorreu em 21 de agosto de 2009, aproximadamente um ano
após o processo ter sido enviado à Brasília para ser analisado pela DIUSP (diretoria de
uso sustentável e populações tradicionais) do ICMBio. Inicialmente a data da consulta
pública era 15 de junho, mas a pedido do Governo do Estado que alegou não ter sido
consultado, a data foi adiada e remarcada para agosto após a Secretaria Estadual de
Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente (SECTMA) ter submetido à votação no Conselho
Estadual de Meio Ambiente (CONSEMA) de uma moção de repúdio ao processo de



                                                                                       62
criação da Resex (Apendices). E no dia da consulta pública, apesar dos muitos
entraves9, a maioria da população presente se colocou a favor da criação da Resex.
         Atualmente o processo para a criação da Resex Sirinhaém-Ipojuca que possui
2.649,13 hectares de área, encontra-se totalmente finalizado e a Resex aguarda tão
somente o seu Decreto para ser definitivamente implantada e dar prosseguimento aos
demais procedimentos.
         Este trabalho foi escrito mais de um ano depois da realização da audiência
pública. Segundo técnicos do ICMBio, a proposta de criação da reserva, neste
momento, já foi encaminhada à Casa Civil da Presidência da República, aguardando
aprovação. No ano de 2010 nenhuma nova Reserva Extrativista foi criada no Brasil,
apesar de solicitações surgirem de todas as regiões do Brasil. Um motivo para isto é que
a Casa Civil da Presidência da República passou a adotar como prática consultar as
Casas Civis dos estados sobre a criação de unidades de conservação ambiental federais.
Os governos estaduais, em geral mais preocupados com o desenvolvimento industrial
que com as populações tradicionais, tem se posicionado contrário à criação de Resex.
No caso de Pernambuco, o Governo Estadual tem se posicionado exatamente desta
forma, tanto em relação à Resex Acaú-Goiana, quanto à Resex de Sirinhaém. A
estratégia do Governo Estadual para inviabilizar a Resex tem sido a criação e
implantação de Áreas de Proteção Ambientais estaduais, que não tem como principais
beneficiários os pescadores artesanais. O órgão ambiental estadual (CPRH), tentou dar
início no segundo semestre de 2010 ao processo de implantação da APA de Sirinhaém,
como estratégia de desmobilizar a criação da Resex. Os representantes dos pescadores
reuniram-se e decidiram não comparecer à reunião marcada pela CPRH, pois estavam
interessados no andamento da Resex.
         No mesmo período, o Governo do Estado convidou também o ICMBio para um
debate sobre se as Resex solicitadas deveriam ser federais ou estaduais. Segundo a
representante da superintendência regional do ICMBio, Marisanta Nóbrega informou ao
pesquisador Pedro Silveira, o ICMBio recusou-se a continuar tal debate pelo fato de os
pescadores, solicitantes e principais beneficiários da Resex, não terem sido chamados a
participar desta discussão.

9
 A Prefeitura de Sirinhaém contratou ônibus trazendo vários pescadores com faixas que estavam contra a Resex,
mas muitos nem sequer sabiam sobre o que se tratava.




                                                                                                          63
4.5. Pontos de vista
                       “É pelo fato de uma ideologia ser dominante que se torna vulnerável.
                       Paradoxalmente, aquilo que é objeto de idealização é o que mais rapidamente
                       pode se esfumar, uma vez que é simulacro de um certo desejo coletivo
                       idealizado, mas permanentemente alimentado, espécie de teatro de sombra que
                       simula a realidade” (Floriani, 2000, pg.36)


        Existe em Sirinhaém a tentativa de desarticular a luta pela implantação da Resex
através do discurso de que tal solicitação não representa o desejo da comunidade
tradicional. No entanto, observa-se que os pescadores já vinham sofrendo com a perda
dos recursos pesqueiros há bastante tempo e os ex-moradores das ilhas eram os
primeiros a terem contato com a poluição oriunda das usinas da região. Percebendo que
de nada adiantava denunciar tal situação, os pescadores reconheceram na proposta da
Resex uma alternativa de preservação ambiental e de estarem construindo um destino
diferente do já traçado para essa população.
        No relatório final dos estudos, o IBAMA relata que “a atividade pesqueira
decaiu muito entre o ex-moradores das ilhas, que agora tem que andar cerca de uma
hora e meia para poder ter acesso ao mangue. Diz que à primeira vista, o retorno das
famílias para a região das ilhas, com a oferta de condições básicas de infra-estrutura,
seria a medida mais apropriada para proporcionar o resgate do estilo de vida ao qual
estavam acostumados, além de propiciar os benefícios sociais e econômicos aos quais
tinham acesso. Contudo, se estudos técnicos concluírem que a ocupação humana das
ilhas é incompatível com a sustentabilidade ambiental sugere-se discutir o
assentamento dessas famílias em áreas mais próximas do estuário e espaço disponível
para a realização de atividades complementares, praticadas tradicionalmente pelos ex-
moradores das ilhas”. Há ainda no referido estudo, o relato de que “a crise atual vivida
pelos ex-moradores das ilhas e demais usuários do estuário do rio Sirinhaém é produto
de intervenções equivocadas implantadas na região e de um modelo de conservação
ambiental que excluiu a comunidade usuária dos recursos naturais do estuário da
tomada de decisões e que não atua para o ordenamento da atividade pesqueira,
justificando dessa forma, a criação de uma Unidade de Uso Sustentável da categoria
Reserva Extrativista para a área como forma do poder público contribuir para a gestão
compartilhada com os reais usuários desses espaços protegidos” (IBAMA, 2008 p.
129).



                                                                                               64
Além das dificuldades inerentes ao processo de criação da Resex, há ainda
projetos governamentais na área de pesca (compra de barcos e reconstrução do prédio
da colônia) que são usados como “moeda de troca” para adquirir apoio dos pescadores
contra a Resex, segundo relata Severino Santos da CPP.
       As diversas estratégias usadas na tentativa de desarticular a lutas dos pescadores
artesanais têm levado a opiniões distintas entre estes:


                     “Eu acredito que uma Resex já implementada em nosso município,
                     a gente vai poder ter o sonho de acabar com a questão da poluição
                     do rio Sirinhaém através das usinas de cana de açúcar, a partir daí
                     a gente vai ter uma maior fiscalização, vai ter uma lei na realidade
                     federal que vai impedir que isso aconteça. É uma das coisas que
                     mais mexe com pescadores, a comunidade é essas usinas, semana
                     passada começou a jogar o vinhoto, é muito peixe morto, muito
                     mesmo” (F.V.S. Pescador de Barra de Sirinhaém e Presidente da
                     Associação de Pescadores de Sirinhaém – Entrevista ao autor em
                     09/10/10).

                     “Eles (Governo Federal) podia criar, agora joga pra cima de nós,
                     pra nós brigar com usineiro, com o governo estadual... não era pra
                     nós brigar com os dois... A gente pequeno pra lutar com os
                     grandes, coisa que o governo federal tem o poder de fazer....
                     (J.F.S. Pescador da Colônia de Barra de Sirinhaém – Entrevista ao
                     autor em 10/10/10).

                     Eu acho que a criação ia trazer beneficio, o principal de todos é
                     que não ia ser jogado mais esse vinhoto no rio, aí é a chave,
                     porque não jogando esse vinhoto no rio, o rio ia se recuperar, ia
                     ter mais peixe, porque o manguezal é o berçário... vem peixe do
                     mar reproduzir aqui no estuário, então ele ia se reproduzir ia ter
                     mais peixe, aos poucos ia se recuperando.
                     O maior impacto que a gente ia ter com Resex ia ser com os
                     caranguejeiros, mas com as pescadoras mesmo não ia ter muito
                     impacto porque ela não veve muito pescando aqui, elas já pescam
                     fora, a gente não ia ter muito impacto, o principal era os
                     caranguejeiros, mas sendo implantada a Resex e sem poder pegar
                     o caranguejo nesse período aí a gente ia correr atrás de um seguro
                     pra eles sobreviver até enquanto pudesse pescar.
                     (A. M. C. Pescador da Colônia de Barra de Sirinhaém – Entrevista
                     ao autor em 08/10/10).


                     “Eu creio verdadeiramente que não é viável, porque o que
                     acontece é isso... A gente já preservamos a própria área, os


                                                                                      65
próprios pescadores preserva. Aquilo que é cuidado pelo próprio
                    pescador, ele sabe zelar do que é dele, mas quando passa à uma
                    administração vindo de cima ele não tá sabendo o que estão
                    fazendo. De pesca eu entendo, de meio ambiente eu entendo, nasci
                    na pesca... Desde os 7 anos que saía pra pescar com meu pai. A
                    gente já trabalha em parceria com a CPRH, com o IBAMA e com
                    as empresas da região, então pra que mais o ICMBio?
                    Se Sirinhaém tem uma riqueza dessas de mangue, iam interditar.
                    Então essa área daqui até lá em cima ia, ninguém poderia pescar
                    mais. Ia ser tudo desocupado. Nem todo mundo que pesca ia poder
                    trabalhar... Hoje a gente tem 20% dos pescadores de Santo Amaro
                    na Associação e 80% não são sócios. Então quando passa a ser
                    uma área extrativista, só esses 20% passam a ter direito, os outros
                    tem que sair. O que seria desse povo? Eles não iam poder ir para o
                    mangue. Ia ter um estatuto, com aquela quantidade de pessoas que
                    pode pescar e desfrutar daquilo ali e as pessoas que não podem
                    entrar mais lá dentro.
                    Não é essa reserva que vai resolver a poluição das industrias, se
                    nenhum órgão nunca resolveu... Só a área extrativista vai resolver
                    isso aí? Não, o próprio governo do estado deveria aplicar as leis
                    nessas usinas pra ser multada. A realidade de Sirinhaem é essa...”
                    (Sebastião Gaspar, Pescador de Santo Amaro e Presidente da
                    Associação Mangue Verde – Entrevista ao autor em 28/12/10).



        Porem, em geral, ainda falta uma maior participação e mobilização dos
pescadores do próprio município de Sirinhaém, como também de Ipojuca que tiveram
parte de seu município incluído na área da Resex. Mas, como esses pescadores de
Ipojuca atualmente estão mais envolvidos no setor turístico, devido à própria escassez
dos recursos naturais, eles não se vêem motivados a estar fortemente engajados nessa
luta.
        A colônia de pescadores de Barra de Sirinhaém congrega apenas cerca de 600
pescadores de um total de aproximadamente 3.700 pescadores que existem no distrito, e
apenas cerca de 50 pessoas possuem o habito de participar das reuniões da colônia. A
estrutura do prédio da colônia está abandonada, necessitando de uma grande reforma. O
atual presidente da colônia foi eleito há pouco tempo, após um longo período (20 anos)
de administração por um único pescador, que saiu da diretoria através de mandato de
segurança devido aos desmandos realizados. A colônia então está em processo de
reogarnização. Barra conta também, com uma associação de pescadores que foi criada




                                                                                    66
na antiga gestão da colônia como uma dissidência dos pescadores com o presidente da
mesma (Governo do Estado de PE e Instituto Oceanário, 2009).
       Segundo depoimento de Severino Santos do CPP, a comunidade beneficiada
pela criação da Resex ainda não está amplamente organizada para estar lutando pela
Resex pois nem todos os pescadores são associados à colônia local e por isso não
participam das reuniões e ficam então desinformados sobre tais questões. Contudo
Severino acredita que este não deveria ser um grande empecilho para a mobilização, já
que existem diversas entidades que atuam na região e então, mesmo que nem todos
sejam associados à colônia, todos participam de algum modo das demais entidades
(igrejas diversas, associações diversas, etc). Mas, como essas entidades não dialogam
entre si, fica difícil um trabalho em conjunto com toda a comunidade beneficiada pela
criação da Resex.
       Durante a pesquisa de campo pude conversar com várias pessoas e elencar
algumas posições entre os diferentes atores sociais envolvidos nesse conflito:


           Os representantes da Usina, ao se oporem a perder uma parte da área aforada
           por eles (1.800 hectares de mangue), alegam que os ex-moradores das ilhas
           depredavam tal ecossistema e que hoje essa população pode viver em
           melhores condições de vida na zona urbana da cidade. E que a Resex é
           desnecessária, pois a referida área já é uma área de preservação permanente.
           Para a Usina, torna-se conveniente retirar os moradores de seus domínios em
           nome de uma perspectiva preservacionista de caráter questionável.


                    “E nós quando chegamos aqui e sobrevoamos esse mangue de
                    helicóptero era de fazer pena. Eram 52 ou 53 famílias habitando
                    dentro desse mangue, destruindo a vegetação. . E a gente foi mal
                    visto em função de que a gente tentou fazer um trabalho de
                    conscientização do pessoal, pra que tirasse esse pessoal do
                    mangue pra gente recuperar o mangue. Reflorestamos, e pra gente
                    era uma atividade nova, que nos custou dinheiro. Teve um custo de
                    três a quatro vezes mais alto do que nosso reflorestamento
                    convencional. E nós não medimos esforço pra fazer essa
                    recuperação.
                    E o mangue, alem do estrago que estava sendo feito lá dentro, a
                    condição de vida desse pessoal era... eles moravam em condições
                    altamente precária, tinham a residência de taipa, sem nenhum
                    saneamento, onde todas as necessidades fisiológicas eram feitas


                                                                                    67
nas portas de suas casas. Então era uma condição terrível,
                   inclusive na própria cheia que ocorreu, eles ficaram totalmente
                   ilhados lá dentro, eles iriam morrer se não fosse o salvamento da
                   usina Trapiche. Que a usina botou lancha e salvou todo mundo,
                   todo o pessoal lá dentro. Então a gente conseguiu conscientizar
                   esse pessoal da sua retirada daquela situação precária, pra ter
                   uma situação de vida melhor fora do mangue.
                   O ato de pesca, aqueles que queriam retornar, retornavam e
                   agente não poderia fazer nada e algumas dessas pessoas que
                   moravam dentro do mangue passou a ser nossos colaboradores.
                   Quanto a minha opinião a ser uma RESEX, sou totalmente
                   contrário, até porque conseguimos a saída do pessoal que habitava
                   o mangue, com grandes destruições, estamos em fase de
                   recuperação, já dando outra performance ao ambiente, então,
                   voltaria de novo a mesma situação de exploração dentro dessa
                   área. Acho também, como fosse dois pesos e duas medidas, fazer
                   uma Reserva Extrativista em uma área de APP, é realmente sem
                   explicação para um órgão ambiental federal”.
                   (Cauby Figueiredo, Representante da usina Trapiche – Entrevista
                   ao autor em 28/12/10).

      E atualmente, essa população que habitava nas ilhas, apesar de ter energia
elétrica em suas casas, segundo me relataram, não possui uma “vida melhor fora do
mangue”. O “ato de pesca” não é uma opção, é uma necessidade para aqueles que
sempre foram excluídos dos programas do governo e de outras oportunidades de vida.
Além de ser também, para a grande maioria, um modo de vida, que resiste a ser
usurpado (“aqueles que queriam retornar, retornavam”) pela vontade daqueles que
possuem outra maneira de relacionar-se com o ambiente.


          Os representantes da prefeitura local alegam que a pesca do município é feita
          no mar aberto e que não se faz necessário estar criando uma Resex para
          proteger um ecossistema já legalmente preservado e que é pouco utilizado
          pela população local. E também acreditam que os ex-moradores das ilhas
          possuem uma melhor qualidade de vida na área urbana da cidade.


                   “Quando assumimos a prefeitura, em 2005, tivemos a
                   oportunidade de constatar as condições sub-humanas em que
                   viviam as famílias que ainda permaneciam nas ilhas, sem energia
                   elétrica, água encanada e saneamento básico. Não havia a menor
                   condição de eles permanecerem no local, por isso, concordamos
                   com o processo de negociação entre a usina e os moradores, para


                                                                                    68
a desocupação das ilhas. Na opinião do entrevistado, o estuário é
                    utilizado para a subsistência de algumas famílias, por meio da
                    pesca artesanal, praticada em pequenas embarcações”.
                    (Entrevistado: Amaro Ricardo – Secretário de Agricultura e pesca,
                    Indústria, Comércio e Controle Ambiental - Prefeitura de
                    Sirinhaém, entrevista em 31/03/2008; In: IBAMA, 2008 p. 118.

       O atual Secretário de Agricultura, Indústria, Comércio e Controle Ambiental de
Sirinhaém, Luiz de França da Silva Filho, em entrevista dada à Beatriz Mesquita
(Pesquisadora da FUNDAJ) em 17/11/10, também confirmou a posição contraria da
prefeitura quanto à criação da Resex pois, a pesca em Sirinhaém “é toda feita no mar”.
Disse que “a usina Trapiche possui um Dep. De Meio Ambiente e que os filhos dos
pescadores não querem mais pescar, querem trabalhar no turismo e em Suape. E que
as pessoas envolvidas no processo de solicitação da Resex não representam as
comunidades tradicionais”.
       Os órgãos contrários à implantação da Resex, ao utilizarem o discurso de que a
população foi induzida a solicitar a reserva extrativista, culpam as entidades que apóiam
os pescadores de estar articulando essas pessoas humildes para não aceitar as decisões
impostas por eles e defendidas como sendo a melhor solução para todos. Verificamos,
no entanto, que essas entidades buscam esclarecer aos pescadores sobre seus direitos e
tentam ajudá-los a garantir uma escolha mais democrática nas decisões sobre os
problemas existentes na comunidade. Então qual seria o discurso mais legitimo? Quem
tenta impor um modo de vida defendido como “ideal” ou quem tenta saber quais são os
desejos dessas pessoas e a partir daí lhes mostram que existem outras opções de
resistência? Pois o direito à informação e à participação nas decisões governamentais de
políticas públicas é um principio democrático, onde tais decisões devem ser portanto,
discutidas em conjunto.
       E assim observa-se esse mesmo discurso no órgão de meio ambiente estadual
sobre a Resex:

                    “A pesca é um complemento de renda de uma família, não é a
                    renda única. São “pescadores parciais”, não é um pescador
                    tradicional do tempo de Caymmi. Está havendo uma distorção.
                    Não tem mais sentido hoje estar criando reserva extrativista de
                    estuário que não comporta mais a quantidade de gente que vai
                    pegar um suplemento de alimentação, um complemento de renda.
                    Não é a única renda. Existe uma constatação da CPRH desde 98


                                                                                      69
que estavam morando nessas ilhas perto de 57 famílias, mas a
                   maioria não tinha condições de habitação adequada. As ilhas são
                   estuarinas. Então a salinidade era máxima. A insalubridade de
                   vida era grande. No começo dessa discussão houve uma tendência
                   a aumentar o conflito através de denúncias da usina que essas 57
                   famílias estavam degradando o meio ambiente. No atendimento a
                   essa denúncia a CPRH foi fazer um relatório na maioria das ilhas.
                   Depois do relatório, a CPRH se posicionou e disse que não eram
                   os moradores das 57 famílias que estavam degradando o estuário.
                   O impacto ambiental de convivência deles com o estuário eram
                   mínimos e que os mesmos poderiam ser mantidos no local. Agora,
                   considerando as condições de habitação, era melhor que eles
                   saíssem dessas ilhas e fossem para junto da área urbana e fossem
                   para perto dos serviços sociais, se saúde, etc. Então foi a nova
                   estratégia que a usina utilizou. Negociou com a maioria das
                   famílias, deu casa ou arrendou. Eles pescavam. Era um misto entre
                   agricultura entre agricultura (coletores do estuário), pesca
                   interna. Então a pesca, na sua maioria era um complemento. A
                   maioria tinha uma relação de trabalho com a usina, a prefeitura...
                   Foi um benefício a retirada do povo daquelas ilhas. O que está
                   havendo agora, são grupos de interesse, que não são pescadores
                   que querem criar a Reserva Extrativista à força. Aquele estuário,
                   hoje, não tem como sustentar a quantidade de famílias que moram
                   em Barra de Sirinhaém e Sirinhaém e que são coletoras...”
(Assis Lacerda Lins, técnico da CPRH, entrevista ao Instituto Oceanário em 15/04/09;
In: Governo de Pernambuco e Instituto Oceanário, 2009).

          Quanto às distintas posições dos pescadores, pude observar que elas são
          fruto da pressão municipal e dos empreendimentos vizinhos, bem como das
          grandes dificuldades enfrentadas pelo órgão ambiental federal durante o
          início do processo de criação da Resex.


                   “Os pescadores apóiam, agora tem o seguinte, no inicio tivemos
                   dificuldade por que a prefeitura se envolveu nessa questão
                   defendendo os interesses da usina. Um lugar pequeno como o
                   nosso a questão política é muito forte, entendeu, quem ta no poder
                   hoje praticamente domina ou manipula as ideias das pessoas. Ai
                   pra gente combater isso... mas a gente conseguiu devagarinho. O
                   prefeito joga os cachorrinhos dele na rua fazendo a cabeça do
                   povo pescador e deu muito trabalho da gente conversar mas a
                   gente conseguiu. Hoje a maioria ta de acordo, tão apoiando”.
                   (Flavio Vanderlei da Silva, Pescador e Presidente da Associação
                   dos Pescadores de Sirinhaém – Entrevista ao autor em 09/10/10).




                                                                                  70
O IBAMA começou o estudo para a criação da Resex pela área solicitada pela
CPT (nas ilhas), pois essa entidade via na criação da reserva um meio de dirimir a
grande injustiça sofrida por aquela população. A CPT possui uma antiga luta na defesa
dos direitos humanos e percebendo o modo de vida de intrínseca relação com o
ambiente que possuía os moradores das ilhas, se viram motivados a estar tentando
ajudar a garantir os direitos dessa população tradicional e os recursos naturais presentes
nesse ecossistema através da criação dessa UC.
       Percebendo que não adiantava apenas garantir a proteção de metade do estuário
(a região das ilhas), os técnicos do IBAMA propuseram ampliar a área de abrangência
da Resex para proteger toda a área dos recursos naturais que são fonte de subsistência
não só dos ilhéus, como também dos demais pescadores de Sirinhaem que praticam a
pesca em alto mar e também no mangue. Então, o IBAMA começou a fazer reuniões
junto aos pescadores de Barra de Sirinhaém para explicar sobre o projeto de criação da
Resex, pois esses pescadores já sofriam com a poluição e a conseqüente diminuição dos
recursos pesqueiros, mas ainda não haviam se articulado para tentar discutir um meio de
solucionar esses problemas.


                      “Eles (IBAMA) no inicio da coisa foi só com o pessoal das ilhas,
                      porque eles viram a luta, a briga com o pessoal das ilhas, a
                      expulsão do pessoal. Aí iniciaram por eles e depois veio mostrar
                      a importância do que vinha ser a Resex pra gente aqui”
                      (Ronaldo J. Santana; Pescador e Presidente da Colônia de Barra
                      de Sirinhaém – Entrevista ao autor em 10/10/10).

       Contudo, no início do processo dos estudos para a criação da Resex, como o
IBAMA foi dividido para ser criado o ICMBio, que seria então o órgão responsável
pelas Unidades de Conservação, muitas dificuldades foram enfrentadas para dar
prosseguimento aos trabalhos. E mesmo já não tendo mais a competência e nem o
recursos necessários para realizar tais estudos, os técnicos do IBAMA se
comprometeram a realizar esse trabalho. Pois na visão dos técnicos do IBAMA, se eles
deixassem para que tal estudo fosse feito pelo ICMBio certamente seria ainda mais
complicado, já que o órgão recém criado não possuía as mínimas condições de
funcionamento e nem funcionários para realizar tal estudo.




                                                                                       71
E assim posteriormente, com a estruturação do ICMBio, os procedimentos para a
criação da Resex poderiam ser retomados. Foi nesse processo de transição entre
IBAMA e ICMBio que os estudos da Resex foram feitos. Hoje as condições de
funcionamento do ICMBio ainda deixam bastante a desejar, pois criado às pressas, esse
órgão ainda possui um numero insuficiente de funcionários para atender suas demandas.
       Porém, todas as dificuldades do IBAMA para a criação da Resex não são
percebidas por alguns pescadores que foram incluídos posteriormente nas discussões
para a criação da Resex. Mas, observo que essa posição de desconfiança é apenas uma
reação normal a tudo que é novo. Pois o ser humano tende a acostumar-se com uma
ideia ou informação aos poucos. E assim, para alguns pescadores de Barra de
Sirinhaém, essa “história” de Resex ainda não foi bem compreendida.


                    “Eu só fiquei sabendo da proposta (da Resex) quando entrei na
                    colônia, em outubro de 2007. A gente pensava que ia ser só os
                    manguezais mesmo (nas ilhas). Eu não imaginava que ia pegar até
                    a área de Porto de Galinha. A gente começou agora a conversar
                    com Jorge (Presidente da Colonia de Ipojuca), na audiência
                    publica. Ate à audiência a gente não tinha se entrosado com Jorge,
                    nesse processo não.
                    E a comunidade daqui também não tava sabendo não. Por isso até
                    hoje a gente fica assim com uma mosca atrás da orelha, porque a
                    Resex não veio... não foi de baixo pra cima. Veio de cima pra
                    baixo. Porque quando a gente chegou aqui caiu aquilo de cima pra
                    baixo, a gente ficou voando, um dizia uma coisa, outro dizia outra.
                    Uns dizia que era bom, outros dizia que era ruim e lá vai e o
                    IBAMA vinha fazer reunião, veio Bill, tudinho aí a preocupação é
                    essa porque não é um negocio que a gente... entendeu?
                    Ronaldo tinha medo de uma revolta dos pescadores, porque se for
                    implantada a Resex, os pescadores do mangue, os pescadores de
                    caranguejo ia ser limitado, ia ter que ter a quantidade de
                    caranguejo, o tamanho, se ia ser permitido pescar de laço ou não e
                    tudo isso ia se resolver depois da Resex for criada.
                    Até hoje a preocupação dele é essa, se os pescadores vão ter que
                    parar de pescar pra os caranguejo se reproduzir, eles vão viver de
                    que?
                    (A. M. C. Pescador da Colônia de Barra de Sirinhaém – Entrevista
                    ao autor em 08/10/10).

       Os pescadores possuem uma grande sabedoria sobre o meio ambiente,
construída ao longo dos anos. E então, para alguns, a presença de pessoas “de fora” para
esclarecer como proteger a natureza nem sempre é vista com bons olhos. Assim, diante


                                                                                     72
das circunstancias, vejo que talvez, se o IBAMA não tivesse se dividido, mas
permanecido trabalhando pela implantação da UC lá em Sirinhaém, hoje a confiança no
órgão ambiental federal poderia seria maior. Até porque esses pescadores são alvo de
constantes iniciativas do órgão ambiental estadual (CPRH) na tentativa de fazê-los
aceitar o projeto da APA de Sirinhaém.
       Mas, como o trabalho com as UC passou a ser do ICMBio, e este órgão ainda
não conseguiu se estruturar suficientemente para estar dando continuidade ao processo
de apoio para a criação da Resex, muitos pescadores ainda não estão bem esclarecidos
sobre a Resex. Pois é necessário um certo tempo para que novos conceitos passem a
fazer parte da vida e mentalidade desses pescadores que antes nunca tinham ouvido
falar no “conceito Resex”.
       É necessário um trabalho em conjunto entre os pescadores e outras instituições
na busca de apoio, esclarecimento e articulações de novas parcerias na luta por seus
direitos. Um bom exemplo de trabalho em conjunto foi realizado durante o Seminário
de Pesca Artesanal organizado pela Fundação Joaquim Nabuco em agosto de 2010,
onde alguns pescadores locais que participaram puderam trocar experiências com
pescadores de todo o Brasil e obter um maior esclarecimento sobre as UCs.


                    “Eu vejo a diferença entre uma APA e a Resex porque a APA ta aí
                    implantada há muito tempo e nada feito, vive parada. Então eu
                    acho que eles tão correndo agora pra implantar essa APA pra
                    abafar a Resex, depois que abafar a Resex, a APA vai ficar na
                    mesma coisa, porque a usina é o braço direito da prefeitura. Então
                    o que ela quer é isso é abafar a Resex pra continuar do mesmo
                    jeito que ta, essa APA que eles tão querendo implantar não, que já
                    ta implantada, que querem colocar ela pra funcionar só pra abafar
                    a Resex, mas depois que abafar a Resex ela vai ficar do mesmo
                    jeito que ta. E a gente quer uma Resex federal por que? Porque
                    federal não é a prefeitura que vai mandar e se for uma reserva
                    estadual vai ficar na mão da prefeitura, vai ficar a mesma coisa. A
                    usina vai mandar e desmandar e a prefeitura não vai fazer nada”.
                    (A. M. C. Pescador da Colônia de Barra de Sirinhaém – Entrevista
                    ao autor em 08/10/10).

       Atualmente já existe uma maior articulação entre as diversas entidades que dão
suporte às lutas dos pescadores locais (CPT, CPP, Colônias, Associações). Mas, essa
união e mobilização devem ser ainda mais fortes para que projetos em conjunto possam



                                                                                    73
estar oferecendo um maior esclarecimento sobre o que é uma Resex a toda comunidade
pesqueira de Sirinhaém no intuito de que as decisões possam ser amplamente discutidas,
com o máximo de pessoas possíveis e não haja nenhum mal entendido na construção de
um futuro comum a todos.


                     “Não depende só unir as colônias, unir só a gente. Tem que unir o
                     povo todo. Aqui a gente luta pela Resex bem dizer a colônia só,
                     sem o povo. O povo não se incomoda de nada. Pra você ver o povo
                     se incomoda de vim pra uma reunião uma vez no mês. Vem aquele
                     pouquinho de gente. Falta interesse do povo. Porque o povo
                     também não vem?
                     Porque ficam colocando coisa na cabeça do povo. Não, porque a
                     Resex vai ser ruim, porque Suape tá crescendo e Porto não
                     agüenta mais tanto turista e o povo vai correr pra cá e chegando
                     aqui não vai poder porque vai ser implantada a Resex. E aí ficam
                     botando isso na cabeça do povo e então o povo não se incomoda”.
                     (A. M. C. Pescador da Colônia de Barra de Sirinhaém – Entrevista
                     ao autor em 08/10/10).



         A organização e união em favor de um benefício comum faze toda a diferença
nessas situações de reivindicações territoriais. Os exemplos bem sucedidos de
mobilizações são inúmeros (Cunha e M.Almeida, 2001; A.Almeida, 2008; Valencio,
2010).
         Em todas as situações de conflitos é preciso união e ampla mobilização para que
existam informações disponíveis sobre os riscos e impactos ambientais na busca de
alternativas democráticas de justiça ambiental. Exemplos de resistência, desenvolvidas
através de redes onde articularam-se entidades diversas, podem ser observadas nos
movimentos do norte do estado do Rio de Janeiro e do sul da Bahia (Acselrad et al.,
2009).


4.6. Resex: um benefício para todos ou um entrave ao desenvolvimento?
                     “O modelo produtivista da sociedade – que concebe a produção e o consumo
                     como um fim em si – tende a internalizar a entropia, pois concebe a
                     transformação e o consumo da matéria como algo em si e de maneira ilimitada:
                     a contingência transforma-se em necessidade e a necessidade em contingência;
                     o supérfluo toma o lugar da necessidade e vice-versa” (Floriani, 2000).




                                                                                              74
Há em Sirinhaém uma busca por legitimar as ações do governo e dos
empreendimentos locais que reproduzem o modelo hegemônico de desenvolvimento da
sociedade que procura expandir o mercado através da aniquilação de formas sociais
não-capitalistas de apropriação da natureza (Acselrad et al., 2009) e que até há pouco
tempo eram invisíveis à sociedade.
       Segundo Santos (2009), os atores sociais se utilizam de discursos que são os
instrumentos de suas ações. E então, vê-se configurar no estudo de caso em questão,
alguns discursos que são utilizados como estratégias para desarticular a luta dos
pescadores, são eles: a ideia depreciativa das formas de uso comum da terra; a defesa de
um interesse “global” de conservação ambiental que se contrapõe a ideia da “poluição
legitima”; e a naturalização das desigualdades ambientais.
       O discurso depreciativo da pesca artesanal é bastante comum nas falas dos atores
sociais contrários a criação da Resex:


                     “Às vezes acontece de passar e ver peixe morto que
                     obrigatoriamente não é de uma poluição. Existe muito o uso por
                     pescadores de carrapaticida, inseticidas pra que haja a
                     mortalidade de peixe e então às vezes tem peixe morto e a gente
                     não vê a poluição de algum resíduo industrial, aí a gente chega à
                     conclusão, como a gente já viu, de alguns pescadores com barco
                     jogando esse carrapaticida no rio”.
                     “Na região das ilhas: o pessoal destruía a vegetação de mangue
                     plantando lavoura branca, com fruteiras dentro do mangue, jaca,
                     manga, macaxeira, utilizando madeira pra fazer carvão. Isso foi
                     um choque grande ambiental pra gente”.
                     (Cauby Figueiredo, Representante da usina Trapiche – Entrevista
                     ao autor em 28/12/10).

       No estudo Socioeconômico realizado pelo IBAMA (2008) o poder público
municipal afirma que o grande problema ambiental do estuário do rio Sirinhaém é a
extração irregular de madeira que era realizada pelos ex-moradores das ilhas e que
“Nem a prefeitura e nem o IBAMA tinham ou têm condições de fiscalizar de forma
efetiva a região, apenas a usina” (IBAMA, 2008, p. 119).
       E assim tentam repassar o discurso de que o pescador, por ter a necessidade de
utilizar os recursos naturais, estaria sendo uma barreira aos processos “globais” de
conservação ambiental. Onde os órgãos estatais e empresariais é que seriam os



                                                                                     75
verdadeiros defensores dos interesses “globais’ de conservação da biodiversidade
(Silveira, 2009b).
       De acordo com Valencio (2010), a pesca artesanal constitui-se em uma
identidade territorializada pois não se trata apenas de uma atividade produtiva, mas é
também um modo de vida. Contudo, os pescadores de Sirinhaém têm assistido a uma
apropriação de seus territórios em nome da “defesa” do meio ambiente.
       Nas palavras do representante da Usina Trapiche, os pescadores que moravam
nas ilhas estavam destruindo o manguezal desmatando-o e hoje, graças às ações da
Usina Trapiche o manguezal está recuperado. O governo municipal de Sirinhaém
também culpabiliza os ex-moradores da ilhas pelo desmatamento da área. Mas, antigos
moradores relatam que eram pagos pelos antigos donos da usina para produzir carvão
para abastecer as caldeiras.
          Porém ao observar a área do estuário de Sirinhaém é fácil comprovar que as
regiões das ilhas, onde os pescadores moravam, sempre estiveram bem conservadas e os
insipientes desmatamentos provocados pelos pescadores não comparam-se ao
desmatamento outrora ocorrido na região com o avanço das plantações de cana que
localizam-se bem próximas ao mangue. Para Acselrad (2004) os conflitos ambientais se
constituem a partir de duas formas: pela desigual posse, uso e controle do meio
ambiente e pela dimensão simbólica onde são estabelecidos distintos sentidos e projetos
que pleiteiam por reconhecimento e legitimidade.
       Ao observar o discurso de proteção ambiental que vai de encontro à política
ambiental internacional, percebe-se que a proteção de um interesse “global” é apenas
uma estratégia para estar garantindo a perpetuação dos interesses de um projeto de
desenvolvimento defendido como sendo a melhor alternativa para a sociedade (Silveira,
2009b).
       Segundo Zhouri e Oliveira (2010):


                     “Essas assimetrias revelam a hegemonia de determinadas
                     categorias do pensamento que pretendem construir o debate
                     ambiental como global, universal e consensual, obscurecendo as
                     relações de poder que, de fato, existem e promovem o




                                                                                    76
deslocamento da política para a economia, do debate sobre
                    direitos para o debate de interesses”.


       Há um esforço de relacionar pobreza a depredação ambiental evidenciando uma
percepção discriminatória que desconsidera que os ricos são os principais responsáveis
pela destruição do meio ambiente. E também desconsidera que as populações mais
carentes são constantemente excluídas das políticas públicas que deveriam garantir uma
melhor qualidade de vida e a proteção dos meios de subsistência destas (Silva, 2009).
       Essa tentativa de desqualificar os povos tradicionais em suas práticas é
observada em diversos trabalhos (Silva, 2009; Zhouri e Oliveira, 2010; Valencio, 2010).
É comum ainda a desqualificação do território através do discurso depreciativo aos
saberes locais e pela valorização da gestão do território pelos atores sociais que
representam a apropriação capitalista da natureza (Zhouri e Oliveira, 2010):


                    “Trata-se de uma sociopatia na qual a aproximação se torna
                    apropriação,     fechando-se     em      estratégias   absorvedoras,
                    silenciando o Outro através de critérios contestáveis de verdade”


       Um exemplo bastante claro dessa desqualificação da pesca artesanal em
Sirinhaém é o fato de que para a prefeitura local “a pesca não representa uma atividade
econômica”, segundo depoimento do representante da prefeitura feito à Beatriz
Mesquita (Pesquisadora da FUNDAJ) em 17/11/10.
       Mas, na realidade a pesca artesanal é uma atividade produtiva bastante
importante na região, onde os pescadores representam cerca de 25% de toda a
população do município:


                    “Geral em Barra de Sirinhaém são 3700 pescadores, associados
                    na colônia hoje são 576, só da Barra e incluindo Ao Ver o Mar
                    também. Mas no município geral tem na faixa de 5600 a 6000
                    pescadores”.
(Ronaldo José de Santana, 47 anos, Pescador e Presidente da Colônia Z-6, Barra de
Sirinhaém – Entrevista ao autor em 10/10/10).




                                                                                        77
Mas, paradoxalmente ao discurso de “defesa do manguezal” existem discursos
que disseminam a ideia da “poluição legitima” (Acselrad et al., 2009), ao defenderem
projetos de expansão do capital que não possuem um verdadeiro compromisso com o
ambiente social e natural circunvizinho, buscando apenas o lucro desenfreado. Pois o
estuário de Sirinhaém é um alvo freqüente de poluição ambiental e tal fato é bastante
comentado nas falas dos pescadores:


                   “São umas quatro usinas tudo nesse rio. Ai o aratu ainda resiste
                   mais porque quando a maré enche o aratu sobe, ele não vive
                   dentro da água, na maré cheia ele vive trepado nos paus, quando a
                   maré abaixa é que ele desce pra lama.
                   O siri acabou-se, quando desce carga mesmo o siri não agüenta,
                   ele sobe fica querendo subir nas croas, querendo sair da água. Ele
                   nem consegue viver dentro nem fora da água, porque se ele ta
                   dentro tem a poluição e se ele ta fora não consegue viver, aí
                   pronto...”
                   (A. M. C. Pescador da Colônia de Barra de Sirinhaém – Entrevista
                   ao autor em 08/10/10).

                   “agora (no verão) que começou a moagem e é quando a gente tem
                   o impacto da usina, que é o verão todinho jogando vinhoto no rio.
                   Já começou a moer. A água da torneira, da Compesa se você
                   cheirar é uma fedentina só e a gente fica com a pele irritada,
                   coçando. A água ta carga pura, chega trava na boca... amargando,
                   a água da compesa é azeda do vinhoto”
                   (T. S. Pescador da Colônia de Barra de Sirinhaém – Entrevista ao
                   autor em 08/10/10).

                   “Essa semana desceu uma carga, aí a gente vai pegar o quê? Vai
                   pegar é nada, nada mesmo. Porque a carga que desceu matou
                   peixe... época da moagem começa a soltar a calda e a gente não
                   tem o que lucrar”
                   (V. J. S. Pescador e ex-morador das ilhas – Entrevista ao autor em
                   09/10/10).

                   “Antes tinha muito pescado, hoje tem muito pouco. As pescadoras
                   de Aratu no verão sai em três kombi daqui pra Recife, pra pescar
                   aratu lá. Três kombi por semana, duas vezes por semana. Na
                   segunda, na quarta, na quinta. Aqui tem, mas é muito pouco, muito
                   miudinho. Eu mesmo já pesquei muito fora daqui, já pesquei em
                   Itapissuma, em Itamaracá, em Maria Farinha, Conceição, Abreu e
                   lima, Rio formoso, Alagoas, Atapuz, Paraíba, Pitimbu. Tanto sai
                   daqui a turma pra pegar aratu como sai a turma pra pegar
                   caranguejo em alagoas. E peixe aqui no rio nem se fala. Hoje por


                                                                                  78
muito pelejar ainda vai ali e pega um peixinho pra comer, mas
                    daqui a alguns anos não vai ter nem pra comer, porque já foi feita
                    uma pesquisa aqui e o oxigênio do rio tava zero, eles disseram que
                    não sabe como tinha peixe ali. Mas vai chegar um ponto que não
                    vai ter nada nem pra contar historia”
                    (A. M. C. Pescador da Colônia de Barra de Sirinhaém – Entrevista
                    ao autor em 08/10/10).

       Apesar das constantes poluições ao estuário, nenhum programa consistente e
continuo de monitoramento é feito para tentar encontrar os culpados, já que existem na
região inúmeras usinas. E assim a prefeitura, segundo depoimentos dos pescadores
locais, se coaduna com os interesses empresariais por entender que estes estão
promovendo o desenvolvimento da região:


                   “Hoje, a usina ainda promove a degradação ambiental, mas
                   também existe a preocupação em se preservar a natureza”
(Entrevistado: Amaro Ricardo – Secretário de Agricultura e pesca, Indústria, Comércio
e Controle Ambiental - Prefeitura de Sirinhaém - Data: 31/03/2008) In: IBAMA, 2008
p. 119.

       O discurso da “poluição legitima” muitas vezes se fundamenta na ideia de que o
livre mercado é a solução dos problemas ambientais, na “utopia” de que um bem estar
será alcançado apenas pela ação das forças de mercado. Até porque o risco
socioambiental atinge mais diretamente, na maioria das vezes, às populações mais
carentes e que não possuem expressão política. E assim o capitalismo impõe-se como
uma regra que aprisiona os indivíduos na “alternativa” de conviver com a destruição
ambiental para poder obter uma promessa de emprego. Pois a globalização tem
promovido o aumento dos empreendimentos que na busca do lucro a qualquer custo,
utilizam a “chantagem locacional” nos seus investimentos (Acselrad et al., 2009).


                    “Fazendo uso de sua enorme liberdade de se localizar e
                    deslocalizar, as grandes corporações procuram, de um só golpe,
                    desmontar o aparato regulatório social, urbano e ambiental, e
                    enfraquecer as resistências dos movimentos sociais” (Acselrad et
                    al., 2009).




                                                                                    79
Os conflitos ambientais ao adquirirem dimensões simbólicas distintas, refletem,
geralmente, a tentativa de deslegitimação das lutas dos pescadores que segundo
Foucault (2001), é o processo de interdição ao discurso promovido pelas categorias
dominantes da sociedade. Há um esforço em negar a existência das mobilizações locais
na tentativa de tornar invisível o conflito (Zhouri & Oliveira, 2010). E uma estratégia
bastante utilizada é a da naturalização das desigualdades ambientais, ou seja, todos estão
igualmente sujeitos aos efeitos nocivos da poluição pois a crise ambiental é um
fenômeno global (Acselrad et al., 2009).
       Segundo Silveira (2009b) os diferentes projetos de sociedade defendidos pelos
distintos atores sociais dão origem a conflitos. Valencio (2010) afirma que tais conflitos
muitas vezes são dissimulados, e relata a existência de três hipocrisias que fazem parte
da dissimulação dos conflitos ambientais: “a ocultação da instrumentalidade da ciência
aos interesses de grupos mais capitalizados que alimentam os laboratórios acadêmicos;
a confiança das soluções de harmonia social conduzidas pelos winners da modernidade;
e, por fim, a naturalização da assimetria de poder em que são colocados os povos
tradicionais”.
       Percebe-se então um duvidoso discurso de proteção ambiental que possui uma
visão contraria a criação da Resex por considerá-la um entrave ao desenvolvimento da
região, ao mesmo tempo em que se colocam os pescadores artesanais como vítimas do
seu destino, representantes do atraso e culpados pela degradação ambiental. Segundo
Abramovay apud Acselrad et al (2010), as empresas passam por um processo de
“ambientalização” a fim de tentar responder às aspirações sociais, mas que tal estratégia
apenas é um meio de desarmar tais demandas.


                      “Se você olhar tá tudo fechado, você dá uma volta hoje e o
                     pessoal sabe da área ambiental, diz assim: o mangue da usina
                     Trapiche é um dos mangues mais bem conservados, é um mangue
                     que foi recuperado graças a usina Trapiche. Se não fosse a usina
                     Trapiche esse mangue não estaria desse jeito. A gente tem um
                     reflorestamento total na empresa de, em torno, mais ou menos de
                     uns 400 ha e tem um plano de reflorestamento de 15 a 30 ha por
                     ano. Todo ano a gente tá reflorestando de 15 a 30 ha, tudo de
                     recurso próprio, de incentivo próprio e tudo de iniciativa própria”
                     (Cauby Figueiredo, Representante da Usina Trapiche – Entrevista
                     ao autor em 28/12/10).



                                                                                       80
Esse processo de “ambientalização” é resultante da utilização da questão
ambiental como instrumento para as distintas reivindicações. A interiorização do
discurso ambiental se dá pela institucionalização dos conflitos, que adquirem uma nova
fonte de legitimidade, argumentação e práticas (Lopes, 2006). As reivindicações das
populações tradicionais surgem a partir do momento em que essas populações antes
“invisíveis” passam a ter seus territórios cobiçados pela expansão do capital.
        Mas os pescadores não lutam por uma “fixidez dos lugares” (Zhouri e Oliveira,
2010) pois essas comunidades não estão voltadas ao passado, mas estão em permanente
processo evolutivo buscando adaptar-se às mudanças, mas sem distanciar-se de seus
valores culturais (Leroy, 2010). E assim, os agentes da modernidade, ao tentar livrar o
povo do atraso, almejam “salvá-lo dele próprio” (Valencio, 2010).
        Segundo depoimento de frei Sinésio Araújo, da CPT, “a preocupação maior não
está no fato dos pescadores voltarem ou não a morar nas ilhas, mas que eles possam
gerir a área aonde há muito tempo eles teriam residido”.
        E assim os pescadores, ao defenderem um projeto alternativo frente à sujeição
aos projetos hegemônicos do capital, buscam tão somente obter a capacidade de definir
a própria existência e projetos futuros. Não estarão alheios ou imóveis diante das
transformações sociais, apenas não reiteram os projetos impostos pelo Estado e pelos
empreendimentos privados (Zhouri e Oliveira ,2010).
        Segundo o Diagnóstico Socioambiental do Litoral Sul (CPRH, 1999), o Rio
Sirinhaém possui em sua bacia algumas cidades e indústrias de médio e grande porte,
tais como: as fábricas Capri e Faco (em Ribeirão), a destilaria Amaraji (em Amaraji), as
usinas Pedrosa (em Cortês), Estreliana (em Ribeirão), Cucaú (em Rio Formoso) e
Trapiche (em Sirinhaém), por isso recebe uma carga elevada de efluentes (domésticos e
industriais).
        Do mesmo modo que o governo defende a criação de oportunidades de
empregos “para todos”, com a implantação dessas empresas multinacionais, que no
fundo apenas possuem compromissos com seus lucros10, os pescadores também
defendem seus direitos de terem um meio ambiente que possa garantir a perpetuação de
um modo de vida escolhidos por eles como opção de trabalho ou vice-versa.

10
   Como a fábrica da Philips que em vésperas de Natal desempregou 500 trabalhadores em PE na busca de mão de
obra barata na China, depois de 43 anos de atividade na região (Notícia veiculada em 8/12/10 nos jornais em
circulação).


                                                                                                         81
Segundo Ramalho (2004) o trabalho na pesca artesanal é algo intrínseco e
subjetivo, é uma arte onde a produção adquire um aspecto material e imaterial, que tem
um componente estético em sua razão de existência. Pois o belo está justamente na
liberdade de observar o potencial da natureza e ter a habilidade necessária para viver do
mar sem ser subordinado às únicas opções de trabalho existentes na região (Ramalho,
2010).
         Portanto, esses grupos sociais reivindicam do Estado a compreensão de que a
questão ambiental não representa verdadeiramente um entrave ao desenvolvimento, mas
que apenas lutam contra a inviabilização de sua permanência em territórios
fundamentais à sua identidade na busca de um modelo de desenvolvimento mais
inclusivo e democrático (Acselrad et al., 2009).


4.7. O conflito socioambiental frente ao contexto histórico, político e econômico de
PE
                      “Refletir e agir no campo do estudo dos conflitos ambientais é, para o
                      pesquisador, entrar na luta política por uma outra sociedade. De quebra, numa
                      época em que a ciência se vende com tanta facilidade, tal atitude pode ajudar a
                      resgatar o lugar autônomo da ciência e do cientista” (Leroy, 2010).


         Para relatar o conflito socioambiental existente em Sirinhaém de uma maneira
mais ampla na busca de, como já mencionado anteriormente, tentar enxergar esse
“paquiderme” por inteiro, se faz necessário refletir sobre a trama de interesses que
envolvem tal questão.
         Através dos discursos proferidos pelos distintos atores sociais presentes nesta
pesquisa foi possível perceber uma oposição marcante entre os que estão mobilizados
pela visão dominante de apropriação do meio ambiente em nome do progresso e os que
lutam pela afirmação de seus direitos, buscando a manutenção de seus modos de vida e
territórios (Acselrad et al., 2009).
         A partir da análise dos diferentes discursos em pauta chega-se a conclusão de a
questão política é de fato o que existe de mais importante nesse conflito socioambiental.
Pois os históricos das ações em prol do meio ambiente deixam a desejar, apesar do
esforço governamental e empresarial em fazer da proteção ambiental uma bandeira de
luta. Nos relatos dos pescadores é possível observar que enquanto o avanço da cana
provoca um desmatamento crescente sem que nada seja feito, o mesmo não acontece se


                                                                                                  82
algum pescador for pego com alguns pedaços de madeira retirada do mangue. O que
caracteriza a prática da fiscalização para as minorias, relatada por Valencio (2010).
       Segundo Severino Santos (CPP) a concretização da Resex hoje, depende mais de
articulações políticas do que articulação e mobilização social. Pois com a expansão do
pólo de Suape muitas empresas irão se instalar na região e o governo têm receio de que
a área de amortecimento da Resex possa atrapalhar algum investimento:


                      “Até para um empreendimento na área de entorno de uma reserva
                     extrativista é preciso a autorização do comitê gestor da unidade de
                     conservação. Isso deixa o governo estadual engessado”, alega
                     Aristides, titular da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio
                     Ambiente (Sectma).
                     (Ciência & Meio Ambiente: questionada reserva extrativista
                     federal, Jornal do Comercio de 5 de Junho de 2009).

                     Os pescadores temem que o governo atrapalhe o processo de
                     criação da Resex. “O governador não pode dar as costas para nós.
                     Ele carrega no nome uma história de luta em favor do homem do
                     campo”, alega o presidente da Associação dos Pescadores de
                     Barra de Sirinhaém, Flávio Wanderley da Silva.
                     (Ciência & Meio Ambiente: Associação questiona reserva, Jornal
                     do Comercio de 6 de junho de 2009).

       Para alguns pescadores a interferência do governo estadual frente à autonomia
do ICMBio/IBAMA é um fato que tem desanimado as lutas:

                     “Quando a gente teve no seminário da pesca artesanal na
                     Fundação aí eu fiquei assim, porque teve um momento que Éricka
                     disse, que era do Chico Mendes, que agora mesmo pra ser
                     implantado uma reserva federal vai ter que ter a aprovação do
                     governo do estado, entendeu, aí vai ficando mais dificil.... o que vai
                     acontecer é isso é ficando do jeito que ta, o pescador hoje
                     procurando... Suape tá aí... e tudo procurando serviço fora. Hoje
                     tem muitos barcos, tem até o do meu marido encostado na beira do
                     porto, bom, mas não ta indo pescar porque não tem pescador. O
                     pescador vai pescar só o que pega dá mal pra comer, aí vai
                     procurar outro serviço, tem muitos mesmo, não é pouco não o
                     numero de pescadores que já pularam fora, já abandonaram a
                     pesca e tão como servente de pedreiro, é Suape, fazendo outras
                     coisas. Se essa resex não for implantada o que vai acontecer é isso,
                     vai acabar a pesca artesanal, aqui vai.... Aqui vai... a situação ta
                     ficando seria mesmo. Aqui já teve audiência publica, todo o estudo



                                                                                        83
ta favorável pra ser implantada a resex e essa resex não sai, sabe...
                     é muita pedra no caminho.
                     (A.M.C. Pescador da Colônia de Barra de Sirinhaém – Entrevista
                     ao autor em 08/10/10).

       As dificuldades são muitas até porque a região possui uma antiga tradição na
produção de cana através de diversas usinas. A usina Trapiche, uma das mais antigas,
foi fundada em 1887 e possui atualmente 38 mil e 800 hectares de área. E grande parte
da população de Sirinhaém que não possui a pesca como atividade produtiva depende
da industria canavieira para sobreviver.
       Na opinião do analista ambiental do IBAMA Luiz Otávio Corrêa, que coordenou
a elaboração dos estudos técnicos que fundamentaram a criação da Resex:


                     A finalidade é proteger o manguezal e garantir o ordenamento
                     pesqueiro. “A Resex de Sirinhaém oferecerá oportunidades para
                     que pescadores artesanais da região, abandonados pelos poderes
                     públicos municipal, estadual e federal, ganhem uma última chance
                     de sustentar suas famílias com a atividade que herdaram de seus
                     pais e avós, sem degradar o meio ambiente.” Para Corrêa, a Resex
                     é uma solução para os problemas ambientais e sociais da região.
                     “Se algo não for feito por eles, em pouco tempo a Barra de
                     Sirinhaém se transformará em uma comunidade ocupada por
                     milhares de desempregados que terão apenas a escolha entre a
                     marginalidade e o corte da cana”, prevê.
                     (Ciência & Meio Ambiente: Chico Mendes adia criação de reserva,
                     Jornal do Comercio de 10 de junho de 2009).

       Em 2009 ainda antes da audiência pública, a Usina Trapiche enviou ao ICMBio
um parecer técnico onde há uma avaliação do processo de criação da Resex e
recomendações para a área. Esse parecer foi contratado ao Prof. Ricardo Braga, da
UFPE e ex-presidente da CPRH. No documento existem criticas ao estudo feito pelo
IBAMA por não contemplar alguns tópicos:


           Estudo sobre a compatibilidade com programas e projetos governamentais
           de amplitude regional, em execução ou planejados.
           Estudo sobre potencialidades econômicas e sociais de uso da área, que sejam
           compatíveis com as atividades do entorno, permitindo a inserção da UC em
           uma política de desenvolvimento regional do litoral sul.


                                                                                       84
Nesse parecer técnico há ainda “a recomendação de que a UC mais adequada à
vocação da área é uma RDS estadual, uma vez que há outros usos presentes na região,
que não apenas o extrativismo, que devem ser compatibilizados com o mesmo. Pois
uma RDS permite um uso mais elástico e que a área circundante da Resex (zona de
amortecimento) seria cerca de duas vezes mais ampla do que a própria UC, sendo
portanto uma área pequena para ser Federal. Como também as atividades que possam
afetar a biota num raio de 10km do perímetro da Resex, devem ser licenciadas pelo
Governo Federal o que dificulta a governabilidade dos estados e municípios, pois a
criação de UCs Federais na zona da mata e no litoral sul de Pernambuco, significa a
presença intervencionista do governo central sobre pequenas áreas de interesse local e
suas vizinhanças. Que essas Resex são criadas à revelia do governo estadual, como
aconteceu em 2007 (Resex Acaú-Goiana), onde o Decreto atropelou o Conselho
Estadual de Meio Ambiente, que discutia formalmente o assunto. E por isso, o governo
estadual deve estar em alerta para esse processo, pois a omissão gerou o fato
consumado em 2007” (Processo nº02019.000307/2006-31, vol. VI, pg. 1028, IBAMA).
       Logo, o que se vê é que o discurso de “proteção ambiental” é apenas uma forma
de tentar disfarçar o real interesse para o estuário do Rio Sirinhaém, que é transformar a
área em um canteiro de obras turísticas e industriais. Onde os pescadores seriam cada
vez mais empurrados para a periferia da cidade e incentivados a estar abandonando a
tradicional arte da pesca para de adequar aos planos do “progresso”, ou seja, servindo
apenas como mão de obra para o enriquecimento de poucos.
       A origem do município de Sirinhaém, segundo o Diagnostico Socioambiental do
Litoral Sul (CPRH, 1999) foi a partir da ocupação dos portos fluviais localizados em
fundo de estuário, nos pontos onde os rios deixavam de ser navegáveis, que
desempenharam importante papel no escoamento do açúcar produzido. Mas com a
chegada das ferrovias, essas povoações foram altamente impactadas e algumas caíram
na invisibilidade, como os ex-moradores das ilhas. Enquanto os núcleos litorâneos,
menos dependentes da economia açucareira, como em Barra de Sirinhaém,continuaram
a ter seu crescimento dependente da pesca.


                     A aceleração do processo de expansão urbana da área, a partir
                     dos anos setenta, tem como fatores principais a expulsão, em


                                                                                       85
massa, de população da zona rural canavieira em decorrência da
                    implantação do PROÁLCOOL (1975) e a “descoberta” das praias
                    do Litoral Sul como opção de veraneio e lazer de fim de semana,
                    da classe média e média alta do núcleo metropolitano e dos
                    centros urbanos de porte médio, em fuga das praias de Recife e
                    municípios vizinhos já, naquela década, submetidas a acelerado
                    processo de adensamento populacional.
                    No primeiro caso, a população expulsa do campo passa a
                    aglomerar-se na periferia das cidades, em encostas com altas
                    declividades, manguezais, alagados e outras áreas impróprias
                    para assentamentos humanos, intensificando a proliferação de
                    bolsões de pobreza e seus desdobramentos sociais - mendicância
                    infantil, prostituição e violência, entre outros problemas que
                    afligem os núcleos urbanos da área.
                    (Diagnostico Socioambiental do Litoral Sul, CPRH, 1999 p. 25).

       Tal fato é também explicado por Assis Lacerda, Pesquisador/Técnico da CPRH:


                    “Na verdade o conflito fundiário das ilhas passa-se por décadas.
                    Era uma área da União, existiu o aforamento por parte da usina,
                    mas eles não se incomodavam com os moradores antigos, inclusive
                    a maioria trabalhava também na usina. Só que houve a mudança
                    de dono e o novo proprietário começou a redefinir o uso do solo
                    dos engenhos, começando a trazer para os engenhos principais ou
                    para os povoados de Santo Amaro, Barra de Sirinhaém e
                    Sirinhaém. A intenção era de concentrar mais as populações que
                    estavam espalhadas pelo engenho. Ele usou a mesma estratégia
                    para as ilhas”.
                    (Assis Lacerda Lins, técnico da CPRH, entrevista ao Instituto
                    Oceanário em 15/04/09; In: Governo de Pernambuco e Instituto
                    Oceanário, 2009).

       Segundo Moraes (1999), os portos de fato geraram zonas de adensamento em
seus entornos durante a ocupação da zona costeira brasileira. Este povoamento pontual
originou as populações litorâneas tradicionais ainda existentes em diversos locais do
litoral brasileiro e com a expansão da rede ferroviária, as produções passaram a escoar
mais ao interior. Para Moraes (1999, p.36):


                    O caráter básico da estrutura territorial brasileira não reside
                    numa vocação litorânea. O desenvolvimento de um conjunto
                    expressivo de cidades-portos antes expressa a dependência
                    estrutural do país na divisão do trabalho, desenhando no espaço o
                    fato de o Brasil fundamentalmente produzir para um mercado
                    externo


                                                                                    86
Logo, percebe-se que o contexto histórico político e econômico de uma área
sempre esteve ligado às industria da região. Segundo L. Cunha (2004): “A política é
tomada, então, em termos das relações de poder que moldam e integram todas as
interações humanas, caracterizadas por confrontação e negociação, e influenciadas
por sentidos simbólicos e discursivos”.
       No entanto as questões ambientais ainda carecem de uma análise de luta social e
política, pois apesar das políticas públicas ambientais já existentes, há ainda um
isolamento entre o “setor ambiental” e os demais setores do governo. Onde a questão
ambiental é exercida de maneira fragmentada e sempre deixada em segundo plano
(Acselrad et al., 2009).
       Para Valencio (2010), as fragmentações das instituições ambientais levam à
desarticulação das mobilizações sociais. Na pesca artesanal por exemplo, existem
demandas que são de competência do MPA e outras do MMA, havendo pouca interação
entre esses órgãos. Além dos distintos níveis de poder dos órgãos ambientais (federal,
estadual e municipal) geralmente resultarem em conflitos, entre os demais órgãos
governamentais vê-se que cada um prioriza apenas o seu âmbito de atuação.
       De acordo com L. Cunha (2004), para a ecologia política os recursos ambientais
não são dados, mas construídos e por isso a mudança ambiental é vista como um
processo político. Onde os conflitos socioambientais são decorrentes dessa construção
ambiental ao longo da história.
       Dessa forma, a partir dos conflitos socioambientais decorrem processos de
transformações sociais que podem ser observadas no nível individual (subjetivo), onde
as pessoas incorporam determinados discursos uteis às suas reivindicações através da
identificação de seus hábitos e costumes em alguma categoria especifica que é protegida
legalmente (Santos, 2009; Acselrad et al., 2009).
       Os pescadores artesanais de Sirinhaém, que antes tinham uma grande quantidade
de pescados, percebem que hoje suas práticas produtivas e seus modos de vida estão
ameaçados de desaparecer. E então, percebendo-se como uma minoria frente projeto de
desenvolvimento do Estado, passaram a se reconhecer como uma população tradicional
e buscam na implantação da Resex uma esperança de continuar a ter voz e vez nesse
jogo de poder.


                                                                                    87
“O estabelecimento de valores econômicos exige a desvalorização
                     de todas as outras formas de vida social. Essa desvalorização
                     transforma em um passe de mágica, habilidades em carências,
                     bens públicos em recursos, homens e mulheres em trabalho que se
                     compra e vende como um bem qualquer, tradições em fardo,
                     sabedoria em ignorância, autonomia em dependência (Esteva,
                     1992, p.18).


       Esse exemplo de luta, além de tentar proteger o ambiente natural e social ali
representado, traz uma discussão: se quisermos um meio ambiente conservado, temos
que também conservar as populações tradicionais que são as principais guardiãs desses
recursos naturais.




                                                                                  88
CONCLUSÃO

                     “A negação das especificidades culturais de qualquer povo equivale à negação
                     de sua dignidade” (Alpha Ouma Konaré; apud Cuéllar, 1997, p.69).

       Mostramos neste trabalho como se configura um campo conflitivo no estuário do
rio Sirinhaém, que se liga à luta de pescadores artesanais para permanecerem em seu
território, em que estão envolvidas perspectivas diversas de progresso, qualidade de
vida e proteção ambiental. Neste campo estão presentes entidades que agem em defesa
dos pescadores e dos direitos humanos, empreendimentos sucroalcooleiros em
transformação, choques entre poderes municipais, estaduais e federais e distintos
projetos de futuro para o território em questão.
       Nesse contexto, existe em Sirinhaém uma discussão para se garantir distintas
reivindicações com a criação da Resex, a partir da inclusão dessa população nas
decisões à cerca das políticas ambientais do governo. Hoje, as dificuldades enfrentadas
pelos pescadores de Barra de Sirinhaém são ainda diferentes das dificuldades
enfrentadas pelos ex-moradores das ilhas, pois estes últimos já tiveram descaracterizado
os seus modos de vida. Mas devido à expansão dos projetos industriais e turísticos sobre
o litoral sul, provavelmente os pescadores de Barra de Sirinhaém terão esse mesmo
destino, caso não se mobilizem em conjunto aos demais pescadores da região na
construção de uma luta comum. Nesse conflito de interesses diversos, a criação da
Resex se configura como um instrumento de luta, mas certamente não será o único
responsável por garantir a manutenção e a valorização da pesca artesanal nesse
município.
       Segundo Moré apud Ernandorena (2003) “o antagonismo não é destrutivo em si,
nem bom em si, mas pode ser entendido como um elemento da evolução, e mais, um dos
elementos da própria vida. Portanto, os antagonismos são parte integral do meio onde
nascemos, nos criamos e morremos; de forma que não podem ser extirpados, já que
fazem parte de nossos sistemas de interação”. Na cultura chinesa a palavra conflito é
composta por dois sinais superpostos: um quer dizer perigo e o outro, oportunidade.
       Há no conflito socioambiental de Sirinhaém duas possíveis situações: o perigo
de permanecer nesse impasse ou a oportunidade de considerar as distintas opções e
abrir-se a ocasiões que permitirão novas relações entre os indivíduos na finalidade de
inventar meios de solucionar os problemas cotidianos.


                                                                                              89
É importante que a comunidade de pescadores se articule para demonstrar aos
demais atores sociais desse conflito que possuem conhecimento de seus direitos e que
exijam respeito às suas reivindicações. É importante se construir redes locais e
nacionais no intuito de fortalecer a luta com diferentes instituições de apoio aos povos
tradicionais na busca de garantir um meio ambiente justo e socialmente democrático.
       O caminho para se garantir espaço em qualquer conflito, requer união entre toda
a comunidade pesqueira beneficiada pela Resex para que seja discutido uma melhor
maneira de estar decidindo as soluções viáveis para a construção de um futuro mais
justo a todos. Pois apesar dos discursos no intuito de desarticular a Resex, é possível
demonstrar à sociedade que os pescadores artesanais também querem se constituir como
sujeitos de seus ambientes. Esse conflito socioambiental pode se configurar em uma
oportunidade de estabelecer novas parcerias, obter novos conhecimentos, fortalecer a
tradição da pesca artesanal e garantir um litoral ambientalmente sustentável para as
futuras gerações. Pode ser também uma oportunidade de lutar para que o discurso
dominante de progresso não ocorra livremente, sendo portanto uma oportunidade de
construção de uma capacidade critica para se defender das injustiças ambientais, para
opor à lógica do interesse uma cultura de direitos. Pois enquanto os males ambientais
puderem ser transferidos para os mais pobres, a pressão geral sobre o meio ambiente
não cessará (Acselrad et al., 2009).
       Assim é necessário também compreender melhor como as distintas visões sobre
o meio ambiente são construídas e interpretadas pelos diferentes atores sociais para que
seja possível estabelecer diálogos mais eficazes na tentativa de proporcionar uma visão
mais ampla dos conflitos socioambientais, ou seja, talvez essa seja uma oportunidade de
proporcionar uma transformação na maneira de agir e pensar, pois como já disse
Saramago, “a necessidade mais urgente é discutir a democracia, que está por aí feito
santa de altar, de quem não se esperam mais milagres”.




                                                                                      90
BIBLIOGRAFIA
ACSELRAD, Henri; MELLO, Cecilia C. do A.; BEZERRA, Gustavo das N. O que é
justiça ambiental. Rio de Janeiro: Garamond, 2009. 160p.

ACSELRAD, H. Ambientalização das lutas sociais – o caso do movimento por
justiça ambiental. Estudos Avançados 24 (68), p. 103-119, 2010.

_________. As práticas espaciais e o campo dos conflitos ambientais. In: ____.
(org.). Conflitos ambientais no Brasil. Rio de Janeiro: Relume-Dumará; Fundação
Heinrich Böll, p. 13-35, 2004.

ALMEIDA, A. W. B. Terras de preto, terras de santo, terras de índio: uso comum e
conflito. In: Terras de Quilombo, Terras Indígenas, “Babaçuais Livres”. “Castanhais do
Povo”, Faxinais e Fundos de Pasto: terras tradicionalmente ocupadas. Manaus: PGSCA-
UFAM, Fundação Ford, 2008.

ALMEIDA, Mauro W. B. & CUNHA, Manuela C. da. Populações tradicionais e
conservação ambiental. Biodiversidade na Amazônia brasileira: avaliações e ações
prioritárias para a conservação, uso sustentável e repartição de benefícios. João Paulo
Ribeiro Capobianco et al. (org.). São Paulo, 2001.

AMBITEC BRASIL. Laudo Biológico para Determinação da Área de Influência do
Estuário do Rio Sirinhaém (PE). In: IBAMA - Processo 02019. 000307/2006-31.
Recife, 2008.

ARRUTI, José M. Mocambo: antropologia e história do processo de formação
quilombola. Florianópolis, EDUSC, 2006.

ALVES-MAZZOTTI, A. J.; GEWANDSZNAJDER, F. O método nas ciências
naturais e sociais – pesquisa quantitativa e qualitativa. São Paulo: Pioneira Thomson
Leraning, 2ªedição, 1999.

BEAUD, Stéphane & WEBER, Florence. Guia para a pesquisa de campo: produzir e
analisar dados etnográficos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007. 240p.

BRANCO, Samuel, M. Conflitos conceituais nos estudos sobre meio ambiente.
Estudos Avançados 9 (23), p. 217-233, 1995.

BENSUSAN, Nurit. Conservação da biodiversidade em áreas protegidas. Rio de
Janeiro: Editora FGV, 2006. 176p.

CARVALHO, I. C. M.; SCOTTO, G. Conflitos sócio-ambientais no Brasil. Rio de
Janeiro: IBASE, 1995.

CASTELLS, E. O Poder da Identidade. A era da informação: economia, sociedade
e cultura. Tradução: Klauss Brandini Gerhardt. 5ª edição. Volume II. São Paulo: Paz e
Terra, 530 p. 2006.


                                                                                    91
CAVALCANTI, C. Pensamento econômico, saber ecológico tradicional e regimes
de troca fundados no altruísmo: nova perspectiva disciplinar para entender a
sustentabilidade. I Encontro da ANPPAS – Indaiatuba, São Paulo, 2002. In:
____(org.). Desenvolvimento e natureza. Estudos para uma sociedade sustentável. 4.ed.
São Paulo: Cortez; Recife, PE: Fundação Joaquim Nabuco, 2003.

CDB – Convenção sobre Diversidade Biológica. Ministério do Meio Ambiente.
Brasilia, Decreto nº 2.519, de 16/03/1998.

CEPENE (Centro de Pesquisa e Gestão de Recursos Pesqueiros do Litoral do Nordeste).
Boletim Estatístico da Pesca Marítima e Estuarina do Nordeste do Brasil em 2006.
MMA       –       Ministério   do      Meio     Ambiente.      Disponível      em
http://www4.icmbio.gov.br/cepene/index.php?Id_menu=61. Acesso em out/2010.

CHAMY, Paula. Reservas extrativistas marinhas: um estudo sobre posse
tradicional e sustentabilidade. Encontro nacional da ANPPAS, Brasília, 2008.

CIRM. 1981. Comissão Internacional para os Recursos do Mar. III Plano Básico de
Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico. I Plano Setorial para os Recursos do Mar
(1982 – 1985). Brasília. 105p.

CMMAD. Nosso Futuro Comum. Rio de Janeiro: FGV, 1991.

CONDEPE/FIDEM - Agência Estadual de Planejamento e Pesquisas de
Pernambuco        –     Sirinhaém.      Disponível    em     http://www.bde.pe.gov.br/
estruturacaogeral/filtroCadernoEstatistico.aspx. Acesso em: out/2010.

MOVIMENTO dos Pescadores e Pescadoras Artesanais - I Conferência da Pesca
Artesanal. Pescadores e Pescadoras na luta por território, afirmando políticas de
direitos para a pesca artesanal. Brasilia, 2009.

CONVENÇÃO nº 169 da OIT sobre Povos Indígenas                            e   Tribais.
http://www.mte.gov.br/seg_sau/pub_cne_convencoes_oit.pdf

CPRM - Serviço Geológico do Brasil. Projeto cadastro de fontes de abastecimento por
água subterrânea. Diagnóstico do município de Serra Talhada, estado de Pernambuco /
Organizado [por] João de Castro Mascarenhas, Breno Augusto Beltrão, Luiz Carlos de
Souza Junior, Manoel Julio da Trindade G. Galvão, Simeones Néri Pereira, Jorge Luiz
Fortunato de Miranda. Recife: CPRM/PRODEEM, 2005.

CPRH. Diagnóstico Socioambiental do Litoral Sul de Pernambuco. Recife, 1999.

CPRH. Zoneamento Ecológico-Econômico Costeiro - Litoral Sul de Pernambuco.
Recife, 1999.

CPRH (PE). Diagnóstico Sirinhaém. SRH/PROAGUA, 2001. Disponível em:
www.cprh.pe.gov.br/downloads/sinhaem05.pdf. Acesso em: set/2010.


                                                                                   92
CUNHA, Luis H. Da “Tragédia dos Comuns” à Ecologia Política: perspectivas
analíticas para o manejo comunitário dos recursos naturais. Raízes, Campina
Grande, vol. 23, nº 01 e 02, p. 10-26, jan./dez. 2004.

DECRETO nº 6.040, de 7 de Fevereiro de 2007. Institui a Política Nacional de
Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais.

DIEGUES, Antonio C. O mito moderno da natureza intocada. São Paulo: Nupaub-
Núcelo de apoio à pesquisa sobre populações humanas e áreas úmidas brasileiras- USP,
São Paulo, 3ª Ed. 2000.

DIEGUES, Antonio C. & ARRUDA, Rinaldo S. V (orgs.). Saberes Tradicionais e
Biodiversidade no Brasil. Brasilia: Ministério do Meio Ambiente; São Paulo: USP,
2001. 169p.

ERNANDORENA, Paulo R. A ação civil pública e a resolução dos conflitos
ambientais em zona costeira de Santa Catarina. Dissertação de Mestrado do
programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção da UFSC, 2003.

FLORIANI, Dimas. Diálogos interdisciplinares para uma agenda socioambiental:
breve inventário do debate sobre ciência, sociedade e natureza. Desenvolvimento e
Meio Ambiente, nº1, p. 21-39, ján./jun. UFPR, 2000.

FOUCAULT, M. A ordem do discurso. São Paulo: Edições Loyola, 2001.

GALEANO, E. De pernas pro ar: A escola do mundo ao avesso. Tradução de
FARACO, S. Porto Alegre, RS: LPM, 2010. 384p.

GOMES, Carla C. de A. O apego pelo lugar de morar : Vila Monticelli em Goiânia –
GO. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Planejamento
Territorial) – Universidade Católica de Goiás, 177 p., 2008.

GOVERNO DO ESTADO DE PERNAMBUCO, Secretaria Especial da Juventude e
Emprego e Instituto Oceanário. Diagnóstico socioeconômico da pesca artesanal do
litoral de Pernambuco. CD-ROM, 2009.

HERCULANO, Selene. Riscos e desigualdade social: a temática da Justiça
Ambiental e sua construção no Brasil. I Encontro da ANPPAS. São Paulo, 2002.
Texto parcialmente extraído do panfleto de divulgação do Colóquio, de redação
coletiva,com a participação também de Henri Acselrad, José Augusto Pádua, Jean
PierreLeroy e Paulo Roberto Martins (mimeo).

___________. O clamor por Justiça Ambiental e contra o Racismo Ambiental.
INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio
Ambiente - v.3, n.1, Artigo 2, p.1-20, jan./abril 2008.




                                                                                 93
IBAMA. Estudo sócio-econômico dos ex-moradores e da comunidade pesqueira
usuária das ilhas e do estuario do Rio Sirinhaém/PE. In: IBAMA - Processo 02019.
000307/2006-31. Recife, 2008.

IBAMA. Estatística da pesca – Brasil/Grandes regiões e unidades da federação.
Diretoria de Uso Sustentável da Biodiversidade e Florestas - DBFLO Coordenação
Geral de Autorização de Uso e Gestão da Fauna e Recursos Pesqueiros – CGFAP.
Brasilia, 2007.

IBGE, Censo de 2000. BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censos
Demográficos de 1991 e 2000.

LAMBERTI, A. Contribuição ao conhecimento da ecologia das plantas do
manguezal de Itanhaém. São Paulo, 1966. 217p. Tese (Doutorado) – Faculdade de
Filosofia, Ciências e Letras, Universidade de São Paulo.

LABOMAR - UFC, Estudo das áreas de manguezais do nordeste do Brasil.
Avaliação das áreas de manguezais dos Estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do
Norte, Paraíba e Pernambuco. 2005.

LEFÈVRE, F. & LEFÈVRE, A. M. C. O discurso do sujeito coletivo: um novo
enfoque em pesquisa qualitativa (desdobramentos). EDUSC, 2003.

LEROY, Jean-Pierre (rel.); SILVESTRE, Daniel Ribeiro (ass.). Populações litorâneas
ameaçadas: carcinicultura, pesca industrial, turismo, empreendimentos públicos e
poluição. Relatoria Nacional para o Direito Humano ao Meio Ambiente, 2004 (mimeo).

_______. Amazônia: território do capital e territórios dos povos. In:
Desenvolvimento e conflitos ambientais. Andréa Zhouri & Klemens Larschefski
(org.). Belo Horizonte, UFMG, 2010.

LITTLE, Paul. E. Territórios sociais e povos tradicionais no Brasil: por uma
antropologia da territorialidade. Série Antropologia, p.1-32. UnB, Brasília: 2002.

LOPES, José S. L. Sobre processos de “ambientalização” dos conflitos e sobre
dilemas de participação. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 12, n.25, p.31-
64, jan./jun. 2006.

MEIRELES, Jeovah de A. e QUEIROZ, Luciana de S. A monocultura do camarão:
danos socioambientais à base da vida comunitária tradicional no litoral do
Nordeste brasileiro. In: Desenvolvimento e conflitos ambientais. Andréa Zhouri &
Klemens Larschefski (org.). Belo Horizonte, UFMG, p.224-249, 2010.

MORAES, Antonio Carlos Robert. Contribuições para gestão da zona costeira do
Brasil. São Paulo: Hucitec, 1999.

MOSCOVICI, Serge. Representações Sociais: investigações em psicologia social.
Petrópolis, RJ. Vozes, 2003.


                                                                                  94
NOVAES, Washington. A década do impasse: da Rio-92 à Rio + 10. São Paulo,
Estação Liberdade: Instituto Socioambiental, 2002.

RANGEL, M. Redes sociais pessoais: conceitos, práticas e metodologia. Tese de
Doutorado, Faculdade de Psicologia. PUCRS, Porto Alegre, 2007.

RAMALHO, Cristiano W. N. Estética marítima pesqueira: perfeição, resistência e
humanização do mar. Ambiente & Sociedade, Campinas, v.XIII, n.1, p.95-110, já./jun.
2010.

__________. O mundo das águas e seus laços de pertencimento. Raízes, Campina
Grande, vol.23, nº1 e 2, p.62-72, jan./dez. 2004.

RYLANDS, Anthony B. & BRANDON, Katrina. Unidades de conservação
brasileiras. Megadiversidade, vol. 1, nº1, p.27-35, 2005.

SANTILLI, Juliana. Socioambientalismo e novos direitos: proteção jurídica à
diversidade biológica e cultural. São Paulo: Peirópolis, 2005. 304p.

SANTOS, Leonardo B. dos. Trilhas da política ambiental: conflitos, agendas e
criação de unidades de conservação. Ambiente & Sociedade. Campinas, v. XII, nº1,
pg.133-150, jan.-jun. 2009.

SCHAEFFER-NOVELLI, Y. Manguezais Brasileiros. São Paulo, 1991. 42p. Tese
(Livre-Docência) - Instituto Oceanográfico, Universidade de São Paulo.

SCHAEFFER-NOVELLI, Y. Avaliação e ações prioritárias para a conservação da
biodiversidade da zona costeira e marinha. São Paulo: USP/IO, 1999. 56p.

SECTMA (Secretaria de Ciências, Tecnologia e Meio Ambiente). Atlas da
biodiversidade de Pernambuco. CD-ROM. Recife: SECTMA. 2002.

SILVA, Tarcísio A. A. da. A dinâmica dos conflitos ambientais na zona da mata de
Pernambuco: os assentados como vítimas e causadores de danos ambientais.
CIENTEC · Revista de Ciência, Tecnologia e Humanidades do IFPE - Ano I, Nº 1 -
Abril/2009.

SILVEIRA, Pedro C. B. (coord.). Reservas extrativistas e pesca artesanal: etnografia
do campo socioambiental em Pernambuco. Relatório Parcial de Pesquisa
Apresentado à FACEPE em janeiro de 2009a (mimeo).

_________. Um olhar antropológico sobre a conservação ambiental no Parque
Estadual Turístico do Alto Ribeira. Políticas Públicas e Meio Ambiente: da economia
política às ações setoriais / Alexandrina Sobreira de Moura (org.). Recife: FUNDAJ,
Ed. Massangana, cap. 6, p. 201-222, 2009b.




                                                                                 95
_________. Florestas e lutas por reconhecimento: território, identidades e direitos
na Mata Atlântica Brasileira. Pgs. 1-19, 2010 (mimeo).


MMA. Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza – SNUC, Lei nº
9.985, de 18 de Julho de 2000. 6ª ed. Brasília: Ministério do Meio Ambiente/Secretaria
de Biodiversidade e Floresta, 2006.

THEODORO, Suzi Huff (Org). Mediação de conflitos socioambientais. Rio de
Janeiro: Garamond, 2005.

TUAN, Yi-Fu. Topofilia: Um estudo da percepção, atitudes e valores do meio
ambiente. Tradução: Lívia de Oliveira. São Paulo:DIFEL- Difusão Editorial S/A, 1980,
288 p.

TUCKER, Catherine M. e OSTROM, Elinor. Pesquisa multidisciplinar –
relacionando instituições e transformações florestais. In: Ecossistemas florestais:
interação homem-ambiente. Emilio F. Moran e Elinor Ostrom (org.). Tradução de
Diógenes S. Alves e Mateus Batistela – São Paulo: Editora Senac São Paulo: Edusp,
2009.

VALENCIO, Norma. Conflitos ambientais no Velho Chico: o modus operandi da
desacreditação pública da pesca artesanal. In: Desenvolvimento e conflitos
ambientais. Andréa Zhouri & Klemens Larschefski (org.). Belo Horizonte, UFMG, p.
202-223, 2010.

ZHOURI, Andréa e OLIVEIRA, Raquel. Quando o lugar resiste ao espaço:
colonialidade, modernidade e processos de territorialização. In: Desenvolvimento e
conflitos ambientais. Andréa Zhouri & Klemens Larschefski (org.). Belo Horizonte,
UFMG, p. 439-462, 2010.




                                                                                   96
ANEXOS




         97
APÊNDICES




            98
APÊNDICE 1.


Quadro 1: Cronologia dos documentos para a criação da Resex Sirinhaém-
Ipojuca.



Origem/Destino                Data            Objetivos             Argumentos
                              Antes do Pedido
CPP/SPU                       Mar/98           Desapropriação       Denuncia de
                                               das ilhas            débitos nos
                                                                    foros e poluição
CPP/Governo                   Jun/98            Criação de uma      Declaração de
                                               APA na área das      interesse social
                                               ilhas
ZEEC                          Dez/99           Avaliar e orientar   Orientar o
                                               o uso e ocupação     processo de
                                               do solo              desenvolvimento
                                                                    do litoral sul
Usina Trapiche/TJ             Jun/01           Processo de          Desocupar as
                                               reintegração de      ilhas estuarinas
                                               posse das ilhas
Usina Trapiche/TJ             Ago/04           Ação de Interdito    Impedir novas
                                               Proibitório contra   construções na
                                               Nazareth Santos      ilha Constantino
CPT/IBAMA                     Mar/06           Desapropriação       Proteger o
                                               das 17 ilhas e       estuário e os
                                               criação de uma       pescadores
                                               Resex
CPT/IBAMA                     Abr/06           Realização de um     Iniciar o
                                               estudo sócio-        processo de
                                               ambiental na área    implantação da
                                                                    Resex
Terra de Direitos/IBAMA       Abr/06           Cassação do título   Poluição do rio e
                                               de aforamento na     plantações
                                               GRPU                 ilegais na área
Usina Trapiche/TJ             Set/06           Ação de Interdito    Retirar as irmãs
                                               é transformada       Nazareth e Graça
                                               em Ação de           da ilha
                                               Reintegração de      Constantino
                                               posse
                                  Pedido
CPT/IBAMA                     Abr/06           Pedido formal de     Resolução do
                                               implantação da       conflito pelo uso
                                               Resex                e acesso ao
                                                                    estuário
                               Após o Pedido


                                                                                  99
IBAMA                     Out/06            Parecer técnico de   Sugerir a
                                            visita à Sirinhaém   realização de um
                                            ocorrida em          estudo na área
                                            set/06
GRPU/Usina Trapiche       Jan/07            Cancelamento do      Reaver as Terras
                                            Aforamento da        da União
                                            Usina Trapiche
Usina Trapiche/GRPU       Jan/07            Recurso da Usina    Suspender o ato
                                            Trapiche            de cancelamento
                                                                do aforamento
GRPU/Usina Trapiche       Mar/07            Deferimento do      Suspender o
                                            pedido de efeito    cancelamento
                                            suspensivo do ato do aforamento
IBAMA                     Abr/07            Vistoria de campo Verificar o
                                            para reconhecer a estado do
                                            área                estuário e
                                                                conversar com
                                                                os pescadores
IBAMA                     Mai/07            Avaliação técnica   A área possui os
                                            do estuário do rio  atributos para a
                                            Sirinhaém           definição de
                                                                uma UC
Terra de Direitos/IBAMA   Jul/07            Denuncia de         Denuncia de
                                            prisões ilegais de  suposto
                                            duas pescadoras     desmatamento
                                                                de Mata
                                                                Atlântica
Governo do Estado         Out/07            Moção de            Tornar público
                                            descontentamento que não apóia a
                                                                implantação da
                                                                Resex
IBAMA                     Out/07 a Jan/08   Elaboração dos      Procedimentos
                                            estudos técnicos    formais para a
                                            para a criação da   implantação da
                                            Resex               Resex
IBAMA/DIUSP-ICMBio        Jun/08            Envio dos estudos Dar continuidade
                                            da Resex para       ao processo de
                                            Brasília            criação da Resex
SPU                       Dez/08            Certidão Negativa Provar que a
                                            de Débitos          Usina Trapiche
                                            Patrimoniais        não possui foros
                                                                em débito
DIUSP(ICMBio)             Dez/08            Aprovação dos       Constatação da
                                            estudos feitos pelo relevância da
                                            IBAMA               criação da Resex
ICMBio                    Mar/09            Reunião com os      Esclarecer sobre
                                            ilhéus feita pelo   os demais passos
                                            ICMBio              para a criação da
                                                                Resex


                                                                             100
Usina Trapiche/ICMBio                Mai/09             Parecer técnico      Solicitar novas
                                                        contratado pela      informações aos
                                                        Usina Trapiche       estudos (IBAMA)
                                                                             já aprovados
ICMBio                               Jun/09             Convite para a       Ouvir as opiniões
                                                        Consulta Pública a   sobre a criação
                                                        ser realizada no     da Resex e dar
                                                        dia 15/06 em         prosseguimento
                                                        Sirinhaém            ao processo
Governo do Estado (SECTMA)           Jun/09             Moção de Repudio     Tentar cancelar
                                                        à criação da Resex   o processo de
                                                                             criação da Resex
ICMBio                               Jun/09             Adiamento da         Escolher um
                                                        Consulta Pública     local mais
                                                                             adequado para
                                                                             a reunião.
Consulta Pública em Sirinhaém        Ago/09             Ouvir as opiniões    Procedimento
                                                        sobre a criação da   formal para a
                                                        Resex                criação da Resex
*
Fonte: Processo nº 02019.000307/2006-31, IBAMA.

*Em Nov/2010 foram retiradas as duas últimas famílias que ainda moravam nas ilhas estuarinas de
Sirinhaém.




                                                                                          101

Tcc luclecia impressão_final

  • 1.
    UNIVERSIDADE FEDERAL DEPERNAMBUCO CENTRO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS LUCLÉCIA CRISTINA MORAIS DA SILVA CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS EM SIRINHAÉM: UM CASO DE INJUSTIÇA AMBIENTAL RECIFE 2010
  • 2.
    LUCLÉCIA CRISTINA MORAISDA SILVA CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS EM SIRINHAÉM: UM CASO DE INJUSTIÇA AMBIENTAL Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à coordenação do Curso de Ciências Biológicas, da Universidade Federal de Pernambuco, como parte dos requisitos à obtenção do grau de Bacharel em Ciências Biológicas. Orientador: Dr. Pedro Castelo Branco Silveira (Coordenação Geral de Estudos Ambientais e da Amazônia – Fundação Joaquim Nabuco). RECIFE 2010
  • 3.
    LUCLÉCIA CRISTINA MORAISDA SILVA CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS EM SIRINHAÉM: UM CASO DE INJUSTIÇA AMBIENTAL Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à coordenação do Curso de Ciências Biológicas, da Universidade Federal de Pernambuco, como parte dos requisitos à obtenção do grau de Bacharel em Ciências Biológicas. Data de Aprovação: ____/____/____ Nota: ________________________ BANCA EXAMINADORA: ______________________________________________ Dr. Pedro Castelo Branco Silveira (Orientador) (Coordenação Geral de Estudos Ambientais e da Amazônia – Fundação Joaquim Nabuco). ______________________________________________ Dr. Cristiano Wellington Noberto Ramalho (1º Titular) (Depº. de Ciências Sociais, Universidade Federal de Sergipe – UFS. _________________________________________________ Drª. Simone Ferreira Teixeira (2º Titular) (Instituto de Ciências Biológicas, Universidade de Pernambuco – UPE). _________________________________________________ MSc. Beatriz Mesquita Jardim Pedrosa (Suplente) (Coordenação Geral de Estudos Ambientais e da Amazônia – Fundação Joaquim Nabuco). RECIFE 2010
  • 4.
    DEDICATÓRIA À minha querida avó Porcina Morais de Souza e a minha mãe Luzinete Morais da Silva (in memoriam), pelo aprendizado e por seus exemplos de vida, que me impulsionaram sempre na condução de meus passos. Dedico também a minha tia Mª Auxiliadora e ao meu irmão Josmar Luiz pelo apoio e carinho durante a realização deste trabalho.
  • 5.
    ”No fundo daprática científica existe um discurso que diz: nem tudo é verdadeiro; mas em todo lugar e a todo momento existe uma verdade a ser dita e a ser vista, uma verdade talvez adormecida, mas que no entanto está somente à espera de nossa mão para ser desvelada. A nós cabe achar a boa perspectiva, o ângulo correto, os instrumentos necessários, pois de qualquer maneira ela está presente aqui e em todo lugar”. Foucault.
  • 6.
    AGRADECIMENTOS Os agradecimentos são muitos, mas primeiramente agradeço a Deus por ter me proporcionado a oportunidade de conhecer maravilhosas pessoas, que permanecerão para sempre em minha memória. Agradeço ao meu orientador Pedro Silveira, que antes de tudo é um grande amigo, pela ajuda e compreensão nessa jornada antropológica a qual decidi trilhar. Sempre acreditando e compartilhando preciosos momentos de dificuldades, descobertas, dúvidas, conflitos e soluções. Seus ensinamentos sempre me proporcionaram um amplo aprendizado e especificamente na realização deste trabalho, foram imensamente valiosos. Agradeço ao demais Professores que aceitaram participar como membros na banca desta monografia, Cristiano Ramalho, Simone Teixeira e Beatriz Mesquita. Voltando um pouco no tempo, agradeço aos ensinamentos da Prof. Cecília Patrícia Alves Costa (CCB-UFPE), que me despertaram para as questões socioambientais e me impulsionaram a sempre buscar compreender tais questões. Quero agradecer a todos que tornaram possível este trabalho: a Beatriz Mesquita e ao Allan Monteiro da FUNDAJ que enriqueceram meu trabalho com suas sugestões, ao Frei Sinésio Araújo por seu apoio, dedicação e contribuição durante todos os momentos de minha pesquisa e durante a coleta das entrevistas, ao Plácido Júnior pelas informações, contribuições e parceria, às Irmãs Franciscanas Bernadinas de Barra de Sirinhaém (Lucia, Gilbetânia, Celeste e Joice) por me acolherem tão gentilmente e com tanto amor durante minha estadia em Sirinhaém, ao Severino Santos (Bill) da CPP pela sua dedicação em me ajudar em vários momentos através de materiais de pesquisa, das “caronas” até Sirinhaém e pelas conversas tão enriquecedoras ao meu trabalho, ao Luiz Otávio Corrêa do IBAMA que esteve sempre disponível em me ajudar em qualquer solicitação e aos profs. Gilberto Rodrigues e Clóvis Cavalcanti pelo apoio. Agradecimentos especiais a todos de Sirinhaém, aos pescadores e pescadoras que carinhosamente me receberam e me ajudaram na realização deste trabalho. A todos da Colônia Z-6 de Barra de Sirinhaém, representados nas figuras de Ronaldo e Arlene, e aos ex-moradores das ilhas. Admiro suas lutas e essa sabedoria sobre o meio ambiente, algo tão inerente ao peculiar modo de vida que vocês estabelecem com a natureza.
  • 7.
    Espero ver umdia a pesca artesanal adquirindo seu real valor e para isso é preciso força e união para não sucumbir às estratégias dos que visam suprimir essa prática produtiva em nome dos projetos de desenvolvimento. Aos amigos, agradeço imensamente pela compreensão durante os períodos de ausência, pelo apoio e carinho: Paula Carolina e Célia Fernanda; Kelma; Yana; Amanda; Júlia; Ivson; Daniele Xavier; Juliana; Michele; Lindinalva; Dayana; Valdemar; Clarissa; Thatiana, Caio e Diego “o trio do CTG”; a Prof. Lucilene Antunes; Charles; Júnia e Bruna pelas conversas, pensamentos e opiniões que contribuíram imensamente na realização deste trabalho e pela paciência em escutar sempre o mesmo assunto durante este período. “Quem me dera pudesse compreender Os segredos e mistérios dessa vida Esse arranjo de chegadas e partidas Essa trama de pessoas que se encontram Se entrelaçam E misturadas ganham outra direção Quem me dera pudesse responder Quem sou eu nessa mistura tão bonita Tantos outros, sou na vida um Zé da Silva Sofro as dores de outros nomes Rio os risos de outras graças Trago em mim as falas dessa multidão Quem me dera pudesse compreender”. Pe. Fábio de Melo
  • 8.
    Sumário LISTA DE FIGURAS................................................................................................................. 9 LISTA DE TABELAS E QUADROS ...................................................................................... 10 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS .............................................................................. 11 RESUMO ................................................................................................................................... 12 ABSTRACT ............................................................................................................................... 13 APRESENTAÇÃO .................................................................................................................... 14 1. INTRODUÇÃO E REVISÃO DE LITERATURA ........................................................... 17 1.1. Populações tradicionais: território, biodiversidade e justiça ambiental ........................... 24 1.2. Histórico das Unidades de Conservação no Brasil ........................................................... 24 1.3. As Resex Marinhas no Brasil ........................................................................................... 27 1.4. O mangue e sua importância na dinâmica socioambiental ............................................... 29 2. OBJETIVOS .......................................................................................................................... 32 2.1. Objetivos Gerais ............................................................................................................... 32 2.2. Objetivos específicos........................................................................................................ 32 3. METODOLOGIA ................................................................................................................. 33 3.1. Área de Estudo ................................................................................................................. 37 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO .......................................................................................... 41 4.1. A Reserva Extrativista Sirinhaém-Ipojuca e seus motivos............................................... 41 4.2. Memórias de um lugar ...................................................................................................... 43 4.3. O acirramento dos conflitos ............................................................................................. 51 4.4. O processo de criação da Resex e suas dificuldades ........................................................ 57 4.5. Pontos de vista.................................................................................................................. 63 4.6. Resex: um benefício para todos ou um entrave ao desenvolvimento ............................... 74 4.7. O conflito socioambiental frente ao contexto histórico, político e econômico de PE ...... 82 CONCLUSÃO ........................................................................................................................... 89 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................... 91 ANEXOS ........................................................................................................................97 APÊNDICES ..................................................................................................................98
  • 9.
    LISTA DE FIGURAS Figura1: Número de Reservas Extrativistas no Brasil ...................................................28 Figura 2: Comunidade do Casado ..................................................................................37 Figura 3: Comunidade de Barra de Sirinhaém ...............................................................37 Figura 4: Comunidade do Oiteiro do Livramento ..........................................................37 Figura 5: Comunidade da Vila Nova da Cohab ..............................................................37 Figura 6: indústria sucroalcooleira .................................................................................39 Figura 7: Pesca Artesanal ...............................................................................................39 Figura 8: Imagem de satélite do complexo estuarino do Rio Sirinhaém .........................40 9
  • 10.
    LISTA DE TABELASE QUADROS Tabela 1: categorias de unidades de conservação no Brasil ...........................................24 Quadro 1: cronologia dos documentos presentes nos seis volumes do processo de criação da Resex Sirinhaém-Ipojuca, IBAMA nº 02019. 000307/2006- 31......................................................................................................................Apêndice 1. 10
  • 11.
    LISTA DE ABREVIATURASE SIGLAS APA – Área de Proteção Ambiental CNPT - Centro Nacional de Populações Tradicionais CONSEMA - Conselho Estadual de Meio Ambiente CPP – Conselho Pastoral dos Pescadores CPRH – Agencia Estadual de Meio Ambiente e Recursos hídricos CPT – Comissão Pastoral da Terra DIUSP - Diretoria de Uso Sustentável e Populações Tradicionais GRPU – Gerência regional do Patrimônio da União IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ICMBio - Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade MMA – Ministério do Meio Ambiente ONG – Organização Não Governamental MPA – Ministério de Pesca e Aqüicultura RESEX – Reserva Extrativista SECTMA – Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente SNUC - Sistema Nacional de Unidades de Conservação SPU – Secretaria do Patrimônio da União UC – Unidade de Conservação 11
  • 12.
    RESUMO Esta pesquisa relatao processo de criação de uma Reserva Extrativista no Litoral Sul do Estado de Pernambuco, que tem como beneficiários pescadores artesanais dos municípios de Sirinhaém e Ipojuca. Aborda o conflito socioambiental existente entre os pescadores e os empreendimentos locais, quais são os principais problemas enfrentados por essa população e como os impactos ambientais existentes na região têm afetado a qualidade de vida deles. Traz um histórico da territorialização de 17 ilhas no estuário do Rio Sirinhaém que eram habitadas por 53 famílias que faziam uso comum da terra e possuíam também a pesca como meio de subsistência. E como tal conflito socioambiental resultou na retirada dessa população de seus territórios para áreas distantes da periferia do município de Sirinhaém, com a conseqüente perda da atividade produtiva e de suas identidades. Nesse estudo foi privilegiado à pesquisa qualitativa, onde foram feitas entrevistas com os principais atores sociais envolvidos no conflito, como também observações em campo, consulta à documentação do processo elaborado pelo IBAMA, entre outras fontes de pesquisa diversas. A partir dos relatos dos pescadores, observa-se a importância do território e dos recursos naturais presentes na manutenção de seus hábitos e modo de vida, motivos estes que levaram ao pedido de criação da Resex. Há ainda um relato das dificuldades para a implementação dessa UC e como os atores sociais envolvidos se posicionaram frente a tais questões definindo suas motivações, ações e relações. Assim esse exemplo de luta pela garantia de territórios tradicionalmente ocupados por povos que fazem uso comum da terra e possuem a atividade pesqueira como algo inerente à própria existência, é também a luta por um modelo de desenvolvimento mais justo e democrático. Essa população tenta defender os recursos naturais ali existentes através da mobilização contra essa injustiça ambiental, mostrando que um ambiente preservado pressupõe também a proteção da diversidade sociocultural da região. Palavras chave: Sirinhaém, Resex, Povos tradicionais, Justiça Ambiental, Pesca Artesanal, Conflitos Socioambientais. 12
  • 13.
    ABSTRACT This research describesthe creation process of an extractive reserve in the south coast of Pernambuco state. Its beneficiaries are small-scale fishermen from the municipalities of Sirinhaém and Ipojuca. The research deals with the social-environmental conflicts between fishermen and local enterprises, either with the main problems faced by this population and also how the environmental impacts in the area affected their life quality. We show the territorialization process of 53 fishermen families in 17 estuarine islands who use common-pool resources, and how this conflicts resulted in the remotion of this families from their territories to faraway sites in the borders of the municipality of Sirinhaém, though causing the loss of their productive activities and affecting their identity. We chose a qualitative approach and so we interviewed the main social actors involved in the process. We proceeded field observations, analysis of the documentation process gathered by the Brazilian Natural Resources Agency (IBAMA) and of other research sources. We observed the importance of the territory and of the natural resources to maintaing this people lifestyle, fact that motivated the request for the creation of the reserve. The text also tells the challenges to the implementation of this protected area and how the social actors position themselves, defining their motivations, actions and relations. Though, this example of struggle to the warrant of traditionally settled territories by peoples who make use of common resources, who have fisheries as part of their own existence, is also a struggle for a more fair and democractic development model. This population tries to defend the local natural resources mobilizating against environmental injustice, showing that a preserved environment also suposes manatining cultural diversity. Key words: Sirinhaém, Extractive Reserves, Traditional Peoples, Environmental Justice, Traditional Fishing, Environmental Conflicts. 13
  • 14.
    APRESENTAÇÃO A presente monografia analisa o processo de solicitação e criação de uma Reserva Extrativista Marinha no Litoral Sul do Estado de Pernambuco. Relata os problemas socioambientais enfrentados pela comunidade de pescadores artesanais na região e como essa população tem se organizado frente à perda do território tradicionalmente ocupado por eles. Contextualiza a destruição ambiental no município, decorrente do processo de industrialização em curso no litoral sul pernambucano, e quais conseqüências tem acarretado no cotidiano dos pescadores. Para isso, parte-se do contexto histórico em que a solicitação da Resex foi feita, delineando-se a atuação dos diferentes atores sociais envolvidos nesse conflito. Este trabalho traz em sua introdução uma discussão teórico-conceitual que faz uma breve revisão sobre temas importantes para o caso posteriormente apresentado. A seção 1.1 aborda as divergências existentes nas diferentes perspectivas sobre conservação ambiental. Traz ainda reflexões acerca do conceito de povos tradicionais e quais as dificuldades enfrentadas na elaboração de uma definição que contemple as diferentes formas de uso comum da terra existente entre os diferentes sujeitos históricos. Faz também um breve relato sobre o conceito de território e como os povos tradicionais percebem e relacionam-se com ele para a manutenção da sua diversidade socioambiental. Apresenta, por fim, um breve histórico do movimento de Justiça Ambiental e relaciona os conflitos socioambientais a essa temática. Na seção 1.2 há um histórico da criação das Unidades de Conservação no Brasil e dos órgãos ambientais. Relata-se ainda como surgiram as Reservas Extrativistas e como essas UCs são regulamentadas pelo SNUC. A seção 1.3 traz o contexto histórico em que as Reservas Extrativistas Marinhas surgiram e como tornaram-se um instrumento de defesa dos pescadores artesanais face à destruição ambiental do litoral brasileiro. Aborda também como a pesca artesanal foi vista pelos distintos órgãos governamentais que estiveram tratando dessa atividade tradicional ao longo dos anos. A seção 1.4 faz uma breve caracterização do mangue e como o desconhecimento da importância socioambiental do manguezal tem contribuído para a sistemática eliminação desse ecossistema. 14
  • 15.
    Após a apresentaçãodos objetivos e da metodologia, que inclui ainda a descrição da aŕea de estudo, apresento o caso estudado. Inicio a descrição e a discussão deste estudo de caso na seção 4. Na seção 4.1 elenco os principais motivos que levaram ao pedido de criação da Reserva Extrativista Sirinhaém-Ipojuca, no estuário do Rio Sirinhaém. A seção 4.2 há um breve relato de como viviam as 53 famílias que habitavam nas 17 ilhas estuarinas do Rio Sirinhaém, como construíram suas vidas nesse ambiente e como perderam o direito de permanecer nesse território tradicionalmente ocupado em decorrência da intensificação dos conflitos socioambientais existentes na região. A seção 4.3 descreve como ocorreu o acirramento dos conflitos e quais as ações foram tomadas pelos diferentes atores sociais envolvidos, como os injustos acontecimentos levaram ao pedido da Resex. Descreve também o processo de retirada das famílias, cerca de 260 pessoas, que residiam nas ilhas estuarinas e quais as dificuldades esses pescadores enfrentam atualmente. Na seção 4.4 há o relato das principais dificuldades ocorridas durante o processo de criação da Resex: algumas dúvidas da população pesqueira beneficiada por essa UC e algumas posições dos diferentes atores sociais envolvidos nesse conflito. A seção 4.5 exemplifica os diferentes pontos de vista existentes entre representantes do governo, indústria e os próprios pescadores da região. Tal dificuldade de reconhecer os distintos modos de relacionar-se com o meio ambiente resultam na falta de uma maior articulação da comunidade beneficiada pela Resex. A seção 4.6 traz uma discussão sobre o dilema em proteger o meio ambiente e compatibilizar os projetos de expansão industrial defendidos pelo Governo do Estado. Há também alguns discursos que são repassados e as estratégias utilizadas pelos atores sociais contrários à implantação da Resex, no intuito de desmobilizar a luta dos pescadores artesanais. A seção 4.7 traz um breve histórico do contexto sociopolítico e econômico da região e de PE e como esses fatores interferem no processo de criação da Resex Sirinhaém-Ipojuca. Relata quais os argumentos do Governo Estadual para ser contrario á criação da Resex e como a valorização de um modelo de desenvolvimento excludente tem gerado a perda da qualidade de vida da população e a perda de sua própria identidade. 15
  • 16.
    O exemplo deluta pela proteção do meio ambiente e da diversidade sociocultural existente no litoral sul de Pernambuco é apenas mais um conflito socioambiental, dentre os muitos já existentes em PE. E apesar dos muitos entraves existentes, tal conflito pode torna-se uma boa oportunidade para que os pescadores artesanais se unam na reivindicação de seus direitos, promovam a valorização da prática pesqueira e a proteção dos recursos naturais. Para isso é preciso buscar informação, articular-se a outras instituições de luta e exigir participação nas discussões dos projetos do Governo para o desenvolvimento da região. 16
  • 17.
    1. INTRODUÇÃO 1.1. Populações tradicionais: território, biodiversidade e justiça ambiental. O avanço tecnológico tem levado a certo distanciamento entre homem e natureza. Hoje muitos agem como se os recursos consumidos não fossem obtidos a partir do meio ambiente. Segue-se um modelo de desenvolvimento que vem alterando de maneira constante, rápida e irreversível as paisagens. Tais alterações não apenas destroem a diversidade biológica do planeta, mas tem também eliminado a diversidade sociocultural representada nos diversos povos que dependem mais diretamente desses recursos naturais. Apesar de não ser um tema recente1 proteger a biodiversidade pressupõe uma reflexão sobre o que vem a ser a natureza e qual o papel do homem nesse contexto. Pois a biodiversidade só será verdadeiramente protegida quando as divergências conceituais sobre as questões ambientais forem melhor discutidas e quando a relação homem- natureza deixar de ser percebida como algo dicotômico, ou seja, quando as análises sobre o meio ambiente e a sociedade deixarem de serem feitas através da percepção do homem como um simples beneficiário da natureza ou apenas como um dependente dela (Branco, 1995). Sendo assim tem crescido a concepção socioambientalista, que defende não apenas a sustentabilidade ambiental (espécies, ecossistemas e processos ecológicos), mas também a sustentabilidade social (redução das desigualdades sociais e o fortalecimento da ética, justiça e equidade social). Tem se fortalecido a ideia de que as políticas públicas ambientais possuem eficácia social apenas se incluírem as comunidades locais promovendo uma justa e equitativa repartição dos benefícios oriundos da exploração dos recursos naturais. Nesta perspectiva a proteção da biodiversidade pressupõe a manutenção da diversidade sociocultural, pois esta é 1 O Relatório Brundtland, também intitulado de Nosso Futuro Comum (CMMAD, 1987), um documento elaborado em 1987 pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, já recomendava a preservação da biodiversidade e dos ecossistemas. O tema passou a ter maior força no cenário internacional após a conferência Rio-92 (Novaes, 2002). A assembléia Geral das Nações Unidas declarou o ano de 2010 como o “Ano Internacional da Biodiversidade” (Unesco, 2009) 17
  • 18.
    também resultante dosdiversos modos de vida dos diferentes povos (Acselrad, 2010). Assim, julga-se que não é suficiente estar protegendo a biodiversidade sem valorizar e reconhecer a diversidade cultural dos povos tradicionais (Santilli, 2005). Mas nem sempre houve essa preocupação socioambiental. E uma das formas criadas para enfrentar as diversas ameaças à biodiversidade foi através das áreas “naturais” legalmente protegidas, que no Brasil têm o nome de unidades de conservação. Privilegiou-se inicialmente a criação de recortes das paisagens, isolando- os do uso humano. O principal representante desta categoria de unidade de conservação são os parques2. Ocorre que em muitas dessas áreas protegidas existiam pessoas que há muito tempo já ocupavam tais espaços (Diegues, 2000). A criação do primeiro parque nacional americano, o Parque de Yellowstone, por exemplo, desalojou povos indígenas como os crow, os blackfeet e os shoshone-bannock (Bensusan, 2006). De fato, a criação de parques na maioria das vezes gerou historicamente uma série de conflitos sociais (Diegues, 2000; Silveira, 2009). Nos países tropicais do dito terceiro mundo, grande parte das florestas e outras áreas em bom estado de conservação ambiental foram e são já tradicionalmente ocupadas por populações humanas dependentes destes recursos. Com a crescente destruição ambiental em nome do progresso, estas áreas foram se tornando cada vez mais raras. Este fato acirra os debates entre aqueles que querem ver estas áreas livres do uso humano com a implantação de unidades de conservação do tipo parque, e aqueles que desejam que a conservação dos ambientes seja feita com base nos usos tradicionais das populações que ali habitam (Diegues, 2000). No Brasil, até pouco tempo atrás, a degradação ambiental era vista como algo inerente ao processo de desenvolvimento do país. Em grandes empreendimentos de expansão industrial e agrícola, não havia a preocupação se os mesmos afetariam ou não a biodiversidade e as populações ali existentes. No período de auge dos ciclos agrícolas brasileiros, como o café, a cana, a borracha, o ouro, entre outros, muitas pessoas de 2 Movimento Preservacionista, do século XIX, surgido primeiramente na Europa e disseminado nos Estados Unidos através John Muir, que pregava ser a interferência humana prejudicial à preservação do meio ambiente. Neste mesmo período, entretanto, havia nos EUA Movimento dos Conservacionistas, também nos Estados Unidos, iniciado por Gifford Pinchot, onde defendia-se a ideia de que o ser humano era capaz de auxiliar na preservação ambiental (Diegues, 2000) 18
  • 19.
    várias regiões dopaís se deslocaram para os locais onde esses ciclos ocorriam. E com a decadência desses ciclos, muitas pessoas ainda permaneceram morando nesses territórios, com modos de vida agro-extrativista (A. Almeida, 2008). Essas comunidades criaram maneiras próprias de uso da terra, de obtenção dos recursos naturais disponíveis e de organização social. Porém tais sistemas de uso comum geralmente eram vistos como irrelevantes e condenados ao desaparecimento pelo governo e suas análises econômicas (M. Cunha e M. Almeida, 2001). Assim, o Estado brasileiro historicamente ignorou os sistemas de usufruto da terra por parte destes grupos humanos, que posteriormente foram chamados de populações tradicionais. Até recentemente, esses grupos não eram considerados nas pesquisas do IBGE e eram vistos como modos de produção em extinção (A. Almeida, 2008). Segundo Little (2002), muitas das terras de uso comum foram até hoje preservadas porque não eram cobiçadas pelas forças econômicas atuais. Como exemplo dessa invisibilidade há inúmeros quilombos que sobreviveram em diversas áreas do país. A partir do final dos anos de 1980, esses grupos passam a ter visibilidade política porque passam a reivindicar direitos (M. Cunha e M.Almeida, 2001). No Brasil, este período coincide com a elaboração da nova Constituição do país, ao fim de duas décadas de ditadura militar, e com a realização, no Rio de Janeiro, da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92), em que os chamados povos da floresta tiveram destaque (Novaes, 2002). Assim, parte dos ambientalistas e governantes perceberam que há diferentes modalidades de uso comum do território por comunidades que preservam práticas sustentáveis de exploração dos recursos naturais e influenciam na manutenção da biodiversidade (A. Almeida, 2008). Atualmente, numerosas evidências apontam situações práticas em que é possível haver vantagens nos sistemas de uso comum da terra, evitando a chamada tragédia dos espaços coletivos (“The tragedy of the commons”, Hardin, 1968; ver L. Cunha, 2004). Destacam-se aí os estudos de Elinor Ostrom (Prêmio Nobel de Economia -2009) e colaboradores (Tucker e Ostrom, 2009), que demonstraram que é possível para as pessoas se organizarem de forma eficaz com base em regras costumeiras e assim gerir os recursos ambientais. 19
  • 20.
    De acordo como decreto nº 6.040, de 8 de fevereiro de 2007 que instituiu a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades tradicionais, povos e comunidades tradicionais são definidos como sendo: “grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição” Inicialmente, percebe-se que o conceito de povos tradicionais surgiu a partir de contextos diversos, mas apesar dessa heterogeneidade, em geral, eles tem em comum o fato de que utilizam regimes de propriedade comum. Possuem ainda, um amplo conhecimento sobre o ecossistema no qual residem, procuram defender sua autonomia cultural e possuem o sentimento de pertencimento a um lugar, além de em geral praticarem sustentáveis hábitos de exploração dos recursos naturais. (Little, 2002). Uma observação importante vem do fato de que o conceito de “tradicional” não reflete necessariamente a definição de imobilidade cultural desses povos. O território de um grupo social determinado, incluindo as condutas territoriais que o sustentam, pode mudar ao longo do tempo dependendo das forças históricas que exercem pressão sobre ele. Mas, essas mudanças são historicamente compreensíveis e não significam necessariamente que tais povos perderam o modo costumeiro de manejar seus recursos naturais. E a palavra “tradicional” não se refere necessariamente à antiguidade, mas ao fato de que esses povos se originaram em um local específico. Essa noção de pertencimento a um lugar não está vinculada a ideia de terras imemoriais, mas no sentimento coletivo de que esses territórios socialmente construídos representam seu verdadeiro “homeland” Little (2002). Assim, após adquirirem visibilidade na esfera política, as populações tradicionais hoje não estão mais fora da economia central nem estão mais simplesmente na periferia do sistema mundial. E também tornaram-se parceiras de grupos acadêmicos, ONGs locais e nacionais, bem como setores do Estado brasileiro e mesmo instituições centrais como as Nações Unidas, o Banco Mundial e as poderosas ONGs do primeiro mundo (M. Cunha e M. Almeida, 2001). Muitas vezes essas parcerias “não- tradicionais” têm o sentido de apoiar práticas consideradas tradicionalmente sustentáveis. 20
  • 21.
    Mesmo sendo muitasvezes esquecidas ou até mesmo ignoradas, essas populações têm conseguindo obter algum avanço em suas lutas para terem legitimados seus direitos de posse e soberania sobre seus territórios. Diante desse contexto e na busca pela proteção da biodiversidade, as populações tradicionais passaram a ter protegido juridicamente seu modos de vida e uso da terra. Nesse sentido, temos nas Reservas Extrativistas um exemplo de instrumento pela manutenção dos meios próprios de relacionar-se com os recursos naturais existentes a partir de um profundo conhecimento sobre os mesmos e sobre os ciclos biológicos (Diegues, 2001). Dentre os diferentes contextos e argumentos que postulam o conceito de povos tradicionais, percebe-se existir uma flexível definição na legislação oficial que regulamenta essa categoria. Tal definição legal reitera a ideia de que o surgimento do conceito de populações tradicionais tem um caráter político que pretende tentar solucionar o suposto problema da presença de grupos humano em áreas destinadas a preservação ambiental. E então, diferentes grupos sociais específicos são incorporados nessa categoria legal que tenta diferenciá-los juridicamente para dar-lhes direito as terras que tradicionalmente habitam ou habitavam. Assim a partir desse aspecto legal, vê-se ser adotada para essa categoria de povos tradicionais perspectivas diversas, entre elas, há a defesa de ser esta uma categoria político-legal, pois permite que diferentes populações tenham assegurados seus direitos consuetudinários e seu território (Silveira, 2010). No nível internacional, a preocupação pelo respeito por parte dos Governos aos direitos diferenciados dos povos tradicionais cresceu bastante, principalmente em referência a questões fundiárias e territoriais. Um dos instrumentos mais importantes sobre o tema é a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre “Povos indígenas e tribais em países independentes”, de 1989, que estabelece, no Artigo II, que os governos têm a responsabilidade de “proteger os direitos desses povos e garantir o respeito à sua integridade”. A adoção dessa Convenção pelo governo federal foi estabelecida pelo Senado Nacional em junho de 2002. No Brasil além da Constituição de 1988 que reconhece em seu artigo 216 o Patrimônio Cultural Brasileiro como um bem jurídico e caracteriza-o como sendo "bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos formadores da 21
  • 22.
    sociedade brasileira", hátambém uma Medida Provisória nº 2.186-16, de 23 de agosto de 2001, que regulamenta os incisos constitucionais relativos à Convenção sobre a Diversidade Biológica, nos quais trata o conhecimento das comunidades tradicionais como Patrimônio Cultural Brasileiro (Valencio, 2010). Contudo, com a crescente concepção de progresso difundida em nossa sociedade, os conflitos pela posse dos territórios têm aumentado visivelmente. Pois em nome da expansão do desenvolvimento, diversas comunidades que possuem formas sociais de produção não-capitalistas vêm sofrendo com a perda de seus recursos naturais e modos de vida. E a criação das políticas de proteção desses povos resulta em grande parte da mobilização de grupos sociais diversos que se unem na busca efetiva de construção de uma democracia (Acselrad et al., 2009) . É nessa luta pela afirmação de formas alternativas e de resistência contra essa globalização hegemônica das formas de produção que vemos constituírem-se nas Reservas Extrativista um meio de proteger o território desses povos e assegurar a perpetuação de sua cultura, em busca da chamada justiça ambiental . Segundo Herculano (2008) a justiça ambiental é “o conjunto de princípios que asseguram que nenhum grupo de pessoas, sejam grupos étnicos, raciais ou de classe, suporte uma parcela desproporcional das conseqüências ambientais negativas de operações econômicas, de políticas e programas federais, estaduais e locais, bem como resultantes da ausência ou omissão de tais políticas”. Assim surgiu o movimento por Justiça Ambiental, originado inicialmente nos Estados Unidos, que pretende alertar sobre a transferência social dos danos ambientais do desenvolvimento, aos grupos marginalizados da sociedade. No Brasil ainda é recente a discussão sobre a justiça ambiental. Somente em 2001 as discussões ganharam força com o Colóquio Internacional sobre Justiça Ambiental realizado na Universidade Federal Fluminense. Nesta mesma ocasião, nasceu a Rede Brasileira de Justiça Ambiental (Herculano, 2002). A luta dos chamados povos tradicionais pela legitimação dos seus territórios é também uma luta por justiça ambiental. Pois estes grupos sofrem de maneira desigual os impactos dos grandes projetos de desenvolvimento e das estratégias excludentes de conservação: 22
  • 23.
    “como para aexpansão da monocultura do eucalipto, perdem os quilombolas suas terras e fontes de água; como, para a expansão da soja transgênica, são inviabilizadas as atividades dos pequenos agricultores orgânicos; como, por causa da produção de energia barata para as multinacionais do alumínio, perdem os pescadores e ribeirinhos do Tocantins sua capacidade de pescar; como, para a produção de petroquímicos, perdem os trabalhadores sua saúde pela contaminação por poluentes orgânicos persistentes” (Acselrad, 2010). O movimento por justiça ambiental traz um questionamento sobre a noção corrente de produtividade, sustentando que não é “produtiva” a terra que produz qualquer coisa a qualquer custo, acusando a grande agricultura químico-mecanizada de destruir recursos em fertilidade e biodiversidade, e, assim, descumprir a função social da terra. É nesse contexto adverso que vemos constituírem-se sujeitos coletivos que exigem amplo acesso às informações relevantes sobre o uso dos recursos ambientais e capacidade autônoma de decidir sobre seus territórios, pretendendo instaurar acesso justo e equitativo aos recursos ambientais do país. E a destituição dos direitos desses povos favorece a crescente destruição ambiental, já que o malefício desta não é distribuído a todos, sendo transferido apenas a essa camada mais frágil da sociedade (Acselrad, 2010). Na presente pesquisa há o exemplo da tentativa de reorganização de um grupo social em busca da conquista do território reivindicado (Arruti, 2006). E assim, é na luta pela conquista desse território que há a reelaboração da identidade desse grupo na tentativa de terem reconhecido, pelo Estado, seus costumes, seus direitos de acesso a terra e aos recursos naturais ali presentes (Silveira, 2010). Percebendo a relevância dessas questões, essa pesquisa traz o exemplo de luta de moradores de municípios do Litoral Sul de Pernambuco pela implantação de uma Reserva Extrativista no estuário do Rio Sirinhaém. As populações tradicionais aqui referidas são os pescadores artesanais existentes no município de Sirinhaém e Ipojuca, que possuem um modo próprio de uso e relação com os recursos naturais e praticam atividades de baixo impacto ambiental. Ao tentarem ter reconhecido direitos universais 23
  • 24.
    de acesso aum meio ambiente preservado e a continuação de suas práticas sociais, postulam ao Estado serem incluídos em categorias especiais já presentes na legislação ambiental vigente (Silveira, 2010). 1.2. Histórico das Unidades de Conservação no Brasil As áreas protegidas foram estabelecidas, no Brasil, pelo Código Florestal de 1934. Neste período foram criados dois modelos de unidades de conservação, os parques nacionais e as florestas nacionais. O primeiro parque brasileiro foi o de Itatiaia, criado em 1937, no Rio de Janeiro. Até 1967, as unidades de conservação (UCs) eram administradas pelo Ministério da Agricultura, e então foi criado o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF). Posteriormente foi criada a Secretaria Especial do Meio Ambiente (SEMA), em 1973, que juntamente com o IBDF se reuniram para formar o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA) em 1989 (Rylands e Brandon, 2005). Neste interim, foram sendo criadas diversas categorias de unidades de conservação (Ucs) por leis e decretos diferentes, por iniciativa de diferentes grupos de interesse. A Tabela 1 mostra as categorias de unidades de conservação hoje existentes e o ano de criação da primeira unidade em cada categoria. Tabela 1: categorias de unidades de conservação no Brasil Categoria Sigla Ano de Criação Floresta Nacional FLONA 1946 Área de Proteção Ambiental APA 1982 Área de Relevante Interesse Ecológico ARIE 1985 Reserva Particular do Patrimônio Natural RPPN 1990 Reserva Extrativista RESEX 1990 Reserva de Desenvolvimento Sustentável RDS 1996 Reservas de Fauna RF 2007 Parque Nacional PARNA 1937 24
  • 25.
    Reserva Biológica REBIO 1974 Estação Ecológica EE 1975 Monumentos Naturais MN 2009 Refúgios da Vida Silvestre REVIS --- Apenas em 2000 foi estabelecida uma regulamentação das UCs no Brasil através do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), que estabelece critérios e normas para a criação, implantação e gestão das unidades de conservação. O SNUC define as categorias de Unidade de Conservação em dois grupos: de proteção integral e de uso sustentável. As áreas de proteção integral incluem os Parques Nacionais, as Reservas Biológicas, as Estações Ecológicas, os Monumentos Naturais e os Refúgios de Vida Silvestre. Já as áreas de uso sustentável que permitem diferentes tipos de interferência humana, incluem as Florestas Nacionais, as Áreas de Proteção Ambiental, as Áreas de Relevante Interesse Ecológico, as Reservas Extrativistas, as Reservas de Fauna, as Reservas de Desenvolvimento Sustentável e as Reservas Particulares do Patrimônio Cultural (MMA, 2006). Dentre as unidades de conservação de uso sustentável, estão as Reservas Extrativistas que são definidas pelo SNUC como sendo: “Uma área utilizada por populações tradicionais, cuja subsistência baseia-se no extrativismo e, complementarmente, na agricultura de subsistência e na criação de animais de pequeno porte, e tem como objetivos básicos proteger os meios de vida e a cultura dessas populações, e assegurar o uso sustentável dos recursos naturais da unidade” (MMA, 2006). As Reservas Extrativistas são unidades de conservação estabelecidas em uma área de interesse para a conservação biológica, em que o Estado estabelece uma concessão de uso para a população tradicional residente na área. Não podem existir 25
  • 26.
    áreas privadas emseu perímetro e elas possuem ainda um conselho deliberativo formado por diferentes representantes da sociedade civil e do governo, sendo em sua maioria composto pela população local (MMA, 2006). Diante dos diferentes grupos que habitam no território brasileiro, o surgimento das Reservas Extrativista vem no sentido de assegurar essa diversidade socioambiental, fortalecendo a democracia e a sustentabilidade (Diegues, 2001). Pois inicialmente, apenas os índios tinham seus territórios protegidos através das reservas indígenas. Mas, a partir das lutas dos seringueiros do Acre pelo reconhecimento formal de seus territórios, surgiu em 1989 a modalidade de Reservas Extrativistas dentro da política ambiental do país. E assim, a defesa de um território foi o incentivo para a criação de um movimento nacional, que devido a uma série de alianças políticas, particularmente com grupos ambientalistas, e a liderança singular de Chico Mendes, conseguiu construir um novo espaço político e, nesse processo, instituir novos atores sociais no cenário nacional (Little, 2002). Em 23 de janeiro de 1990 foi criada a Reserva Extrativista do Alto Juruá, como a primeira unidade de conservação desse tipo. Toda a área da Resex foi destinada pela União ao usufruto exclusivo dos moradores, por meio de contrato de concessão, e cuja administração poderia ser realizada pelos convênios entre governo e as associações representativas locais. Esta era uma solução para o problema fundiário e social, mas era também uma solução para o problema de conservação, apoiada por pareceres de peritos e relatórios de biólogos (M. Cunha e M. Almeida, 2001). As Reservas Extrativistas originaram-se portanto na luta dos seringueiros por uma modalidade de reforma agrária que mantivesse suas formas costumeiras de uso, ou seja, a existência de grandes áreas de floresta onde se poderia extrair látex e viver da caça, pesca e da pequena agricultura. Neste processo, associou-se aos interesses ambientalistas (M. Cunha e M. Almeida, 2001). Depois espalharam-se já no formato de unidade de conservação, como solução para contextos diversos . Assim, foram fruto de finalidades comuns que proporcionaram uma certa colaboração no fortalecimento das lutas desses povos tradicionais. Enquanto alguns grupos sociais tentavam defender-se da usurpação de seus territórios pelas fronteiras em expansão, outros já lutavam pela autonomia territorial e cultural fundamentada em vínculos sociais e simbólicos que tais povos mantinham com o ambiente (Little, 2002). 26
  • 27.
    1.3. As Resex Marinhas no Brasil Antes das Reservas Extrativistas Marinhas começarem a fazer parte da conjuntura política e institucional do Ministério do Meio Ambiente, e os pescadores artesanais estarem incluídos na categoria política das populações tradicionais, os pescadores já tinham um longo histórico de relação com o Estado, segundo Silveira (2009a): O setor da pesca era inicialmente administrado pela Marinha e posteriormente foi criada pelo Governo Federal a Superintendência do Desenvolvimento da Pesca (SUDEPE). Durante algum tempo a industrialização do setor pesqueiro foi bastante incentivada e a pesca artesanal ficou praticamente esquecida. Apenas em 1989, com a extinção da SUDEPE, a gestão da pesca ficou a cargo do IBAMA, sendo então elaboradas várias políticas de conservação dos recursos pesqueiros. Após algumas pressões para que a gestão da pesca voltasse aos órgãos de fomento, foi criado em 1998 o Departamento de Pesca e Aqüicultura, que transformaria-se em Secretaria Especial da Aqüicultura e da Pesca (SEAP), e posteriormente, em 2009 no Ministério da Pesca e Aqüicultura (MPA). As políticas desenvolvidas pelo MPA não estabelecem a criação de UCs para beneficiar a pesca. Tais políticas buscam o desenvolvimento da infra- estrutura para equipar os territórios e assim viabilizar a atividade produtiva. Porém as Resex são vistas pelos pescadores artesanais como uma alternativa para dirimir os conflitos existentes em seus territórios. Até hoje os pescadores artesanais continuam tendo pouca visibilidade, onde os mesmos percebem que uma mesma área é vista de distintas maneiras – o que para os pescadores é um espaço de sustentabilidade familiar e dos recursos pesqueiros, na visão dos empresários é espaço de lucro e exploração – até porque essas comunidades são consideradas atrasadas e um impedimento ao desenvolvimento. 27
  • 28.
    E assim como passar do tempo foram sendo percebidas relações existentes entre investir na pesca, proteger os recursos pesqueiros e garantir o território dos pescadores. Por esses motivos as Resex passaram a ser pleiteadas pelos pescadores artesanais (Figura 1), que apesar de terem a consciência de que tal alternativa não é suficiente e nem deve ser o único caminho, é por enquanto um importante instrumento de luta pela garantia de seus direitos por esses territórios (Silveira, 2009a). No Brasil já existem 53 Reservas Extrativistas, onde 22 desse total são Resex Marinhas. Do total das Resex Marinhas, 11 estão localizadas no Nordeste, sendo 1 em Pernambuco. Reservas Extrativistas 60 50 número de reservas 40 Total 30 Resex Marinhas- Brasil Resex Marinhas- Nordeste 20 10 0 1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006 2008 ano Figura 1: Número de Reservas Extrativistas no Brasil. Fonte: Silveira, 2009a. As Reservas Extrativistas Marinhas começaram a ser solicitadas pelos pescadores artesanais do litoral, tendo em vista a crescente perda do território pesqueiro para os grandes empreendimentos. No ano de 1992 foi criada a primeira Resex Marinha fora do limite da Amazônia, era a Reserva extrativista marinha de Pirajubaé em Santa Catarina. Essa subcategoria das Resex identificada com os territórios marinhos tem aumentado a cada ano. Esses pedidos para a delimitação de espaços secularmente ocupados por pescadores artesanais evidenciam um indício de fortalecimento e 28
  • 29.
    amadurecimento na organizaçãoe mobilização social de uma parcela populacional historicamente marginalizada (Chamy, 2008). Em Pernambuco a discussão sobre proteger o litoral dos impactos ambientais provenientes de empreendimentos diversos começou nos anos de 1970, mas foi nos anos de 1980 com a morte de várias pessoas devido aos resíduos industriais, que tais ocorrências passaram a ser combatidas pelo movimento dos pescadores. E assim, a partir dos anos de 1990 os pescadores artesanais de Pernambuco, apoiados pelo Conselho Pastoral dos Pescadores passaram a reivindicar a criação das Resex na proteção de seus territórios. E como exemplo dessas articulações temos a criação da Resex Acaú-Goiana em 2007, que integra parte dos estados de Pernambuco e Paraíba (Silveira, 2009a). As Resex Marinhas são hoje um importante instrumento de luta dos pescadores artesanais pela permanência dessas pessoas em espaços já anteriormente ocupados por elas. Os pescadores vêem no estuário não apenas um espaço de atividades econômicas a partir da extração de peixes, crustáceos, mariscos, entre outras espécies do mangue e do ambiente marinho, mas também como um espaço de organização social e cultural, onde a percepção de sua realidade não está dissociada do seu mundo natural e sobrenatural (Cavalcanti, 2002). Um grande número de pescadores artesanais utiliza o manguezal como meio de subsistência, pois além de ser um rico ecossistema, possui fácil acesso e não necessita de onerosos apetrechos de pesca para captura das espécies lá presentes. É um ecossistema muito utilizado também pelos pescadores ocasionais que em geral, trabalham no corte da cana e que na entressafra tem nas espécies do mangue um meio de subsistência. Logo, para entender a relação homem-natureza existente na região do estuário de Sirinhaém, faz-se necessário conhecer algumas características do manguezal para melhor compreender a importância desse ecossistema no cotidiano da população local. 1.4. O mangue e sua importância na dinâmica socioambiental Segundo Schaeffer-Novelli, o manguezal é um “Ecossistema costeiro, de transição entre o ambiente terrestre e marinho, característico de regiões tropicais e 29
  • 30.
    subtropicais, sujeito aoregime das marés. Constituído de espécies vegetais lenhosas típicas (angiospermas) adaptadas à flutuação de salinidade e caracterizadas por colonizarem sedimentos predominantemente lodosos, com baixos teores de oxigênio. Ocorre em regiões costeiras abrigadas e apresenta condições propícias para alimentação, proteção e reprodução de muitas espécies animais, sendo considerado importante transformador de nutrientes em matéria orgânica e gerador de bens e serviços” (SCHAEFFER-NOVELLI, 1991, p.3). Nesses locais, a força das marés é branda e a velocidade das correntes é baixa, favorecendo intensa deposição de sedimentos finos e matéria orgânica e caracteriza-se por uma constante conquista de novas áreas pelo acúmulo de grandes massas de sedimentos e detritos trazidos pelos rios e pelo mar (IPT, 1988 In: AMBITEC BRASIL, 2008). As regiões estuarinas são áreas de extrema importância, não só ecológica, mas, também, econômica, servindo de meio de vida para boa parte da população brasileira. Junto com as zonas de ressurgência e as baías, as áreas costeiras estuarinas, embora correspondam a apenas 10% da superfície marinha, produzem mais de 95% do alimento que o homem captura no mar (CIRM, 1981). No entanto, tal ecossistema é um dos mais ameaçados no mundo e em apenas duas décadas já perdeu cerca de 35% de sua área, apesar de ser legalmente considerado como uma área de preservação permanente (Meireles e Queiroz, 2010). Os estuários dos rios Formoso e Sirinhaém integram um dos mais importantes conjuntos de manguezais do litoral pernambucano, representando 23,3% da extensão total desses ecossistemas no estado. No município de Sirinhaém, onde deságua o rio Sirinhaém, destaca-se a presença dos manguezais, com registro da ocorrência de Rhizophora mangle, Laguncularia racemosa, Avicennia schauerianna, Avicennia germinans e Conocarpus erectus. (LABOMAR, 2005). A Bacia do Rio Sirinhaém possui considerável área alagada sujeita ao efeito de maré possuindo em seu estuário 17 ilhas fluviais, compartilhadas entre os municípios de Ipojuca e Sirinhaém. Dentro do ambiente estuarino os animais que mais caracterizam este ambiente são os crustáceos. Segundo a CPRH (1999) as espécies com maior importância comercial do estuário do rio Sirinhaém, conforme foi indicado também pelos próprios catadores são: Ucides cordatus (caranguejo-uçá), Cardisoma guanhumi (guaiamum), 30
  • 31.
    Callinectes spp (siris),Goniopsis cruentata (aratú do mangue) e Macrobrachium acanthurus (camarão). A vegetação do manguezal é essencialmente homogênea caracterizada por plantas lenhosas, arbustivas e subarbustivas, a qual difere ecológica e floristicamente da vegetação de terra firme sendo composta, basicamente, pelas árvores dos gêneros Rhizophora, Laguncularia e Avicennia (Lamberti, 1966) Uma grande quantidade dos peixes encontrados no estuário vive parte de sua vida no mar, utilizando o estuário durante um período no ano e/ou entrando e saindo do estuário conforme o fluxo da maré. As espécies marítimas que utilizam o estuário estão à procura de alimentos ou em fase de reprodução. Há ainda espécies que são exclusivas do estuário e também existem espécies de água doce que são eurihalinos, que suportam uma larga amplitude de salinidade, na parte superior do estuário (AMBITEC BRASIL 2008). De importância ecológica já conhecida, são ecossistemas que desempenham papel ecológico chave à medida que abrigam, além de suas espécies características, aquelas que migram para a costa durante a fase reprodutiva. Sua fauna e a flora ainda servem como fonte de alimento e meio de subsistência para as populações humanas. Inúmeras comunidades ribeirinhas vivem tradicionalmente da exploração dos vários recursos existentes nas regiões costeiras do Brasil, sendo que algumas populações vivem quase que exclusivamente de recursos específicos de áreas de mangue, como caranguejos, moluscos e outros crustáceos (Schaeffer-Novelli, 1999). 31
  • 32.
    2. OBJETIVO 2.1. Objetivo Geral Esta pesquisa analisa os conflitos socioambientais relativos ao processo de solicitação de uma Reserva Extrativista que tem como beneficiários pescadores artesanais, abrangendo o estuário e o mangue entre os municípios de Sirinhaém e Ipojuca, no Litoral Sul de Pernambuco. 2.2. Objetivos Específicos Relatar e discutir sobre o processo de criação da Reserva Extrativista de Sirinhaém-Ipojuca e suas implicações socioambientais a partir da compreensão dos principais problemas enfrentados pelos pescadores artesanais nesse conflito. Discutir sobre a importância do território e dos recursos naturais para a manutenção dos hábitos de vida dos pescadores e como os impactos ambientais existentes na região tem afetado a qualidade de vida deles. Relatar o conflito histórico e socioambiental existente a partir da apresentação das dificuldades existentes durante o processo de criação da Resex e como os atores sociais envolvidos se posicionaram frente a tais questões definindo suas motivações, ações e relações. 32
  • 33.
    3. METODOLOGIA Resolvi pesquisar sobre a criação da Reserva Extrativista de Sirinhaém ao entrar em contato com o pesquisador Pedro Silveira, da Fundação Joaquim Nabuco, que estava envolvido em uma pesquisa intitulada “Reservas Extrativistas e pesca artesanal: etnografia do campo socioambiental em Pernambuco”. Nesse estudo eles já acompanhavam a implementação da Reserva Extrativista de Acaú-Goiana, a primeira Resex de Pernambuco. Decidi então analisar a criação da Resex de Sirinhaém-Ipojuca, que seria a segunda Reserva Extrativista no Estado. O processo de criação da unidade estava avançado, mas muitos conflitos dificultavam a sua criação. Pedro já tinha disponíveis os seis volumes da documentação relativa ao processo de criação da referida Resex, cedidos pelo Instituto Chico Mendes (ICMBio), que foram minha inicial fonte de pesquisa. Tinha em mente um objetivo, escrever sobre um período histórico de um determinado lugar e seus conflitos socioambientais, o que é algo um tanto complexo e causa geralmente um sentimento de incerteza sobre o que deve ser mais bem destacado e explorado. Mas, essa inquietude foi também o incentivo necessário para uma melhor reflexão e análise das circunstâncias históricas vivenciadas pelos integrantes desse conflito socioambiental, bem como de suas conseqüências, a fim de contribuir no processo de descoberta de novas maneiras de ver, perceber e sentir as relações socioambientais. Segundo Theodoro (2005), os conflitos ambientais fazem parte das relações humanas e no estudo desses conflitos, faz-se necessário a identificação e análise dos atores sociais para compreender os interesses específicos dos envolvidos. Sendo importante ainda, um levantamento das interações entre cada um dos atores sociais, para perceber a totalidade do conflito. Ainda segundo Carvalho e Scotto (1995) aspectos como: descrição das características ambientais, breve histórico do processo de povoamento, configuração das principais atividades econômicas, processo de avanço do capital na região, identificação de macroproblemáticas ambientais na região; enunciação 33
  • 34.
    dos diferentes camposde tensão, enfrentamento e resistência entre projetos e/ou forças sociais em disputa, devem ser considerados. Na busca de fazer um diagnóstico dos conflitos sociais existentes na região, priorizei o método qualitativo em minha pesquisa pois segundo Alves-Mazzotti e Gewandsznajder (1999), as concepções, crenças e valores das pessoas são revelados a partir de análises interpretativas. Os procedimentos utilizados foram pesquisa bibliográfica diversa sobre os temas pesca artesanal, populações tradicionais, unidades de conservação, entre outros. Consulta a fontes secundárias que caracterizam a área de estudo em seu contexto histórico, econômico e socioambiental, na busca de informações sobre a região e sua população. Houve ainda observações em campo e entrevistas com os principais atores sociais envolvidos no conflito visando perceber o contexto político e institucional que levou à proposta de criação da Resex de Sirinhaém-Ipojuca. As informações obtidas pelas observações foram associadas às entrevistas com o propósito de fazer convergir resultados de pesquisa sobre um mesmo objeto de análise. A contextualização das fontes heterogêneas visa conferir uma maior confiabilidade entre as narrativas (Beaud e Weber, 2007). Na pesquisa de campo, as entrevistas etnográficas buscaram ter acesso aos relatos de historias de vida e a memória, bem como as impressões do passado e presente. Nas entrevistas tentou-se entender a partir do texto e da fala, o contexto social do grupo social estudado. Os relatos foram feitos livremente, onde um tema era proposto e o entrevistado discursava sobre ele. As entrevistas visaram perceber os significados e sentimentos que os pescadores artesanais e os demais envolvidos no processo atribuíam à região e as percepções que os mesmos tinham à cerca do contexto histórico e social local. Após a coleta das narrativas, as mesmas foram transcritas e analisadas a partir do universo de interconhecimento entre os entrevistados (Beaud e Weber, 2007). Essa análise visa transformar uma questão “abstrata” em uma série decomposta de práticas sociais e de eventos, onde seja possível perceber em uma afirmação genérica do entrevistado as suas crenças ou ideologias (Lefèvre e Lefévre, 2003). 34
  • 35.
    Assim, essa metodologiafoi utilizada como uma estratégia para construir uma representação social de modo coerente e esclarecer as significações moldadas através do tempo por esse grupo social (Moscovici, 2003). A partir da análise do histórico da demanda feita pelos pescadores, foi possível perceber quais problemas os mesmos enfrentavam no seu cotidiano e quais os impactos ambientais existentes no ambiente eram mais significativos e prejudiciais à sustentação dos recursos pesqueiros e dos seus hábitos e modos de vida. Durante a pesquisa de campo tentei analisar, os significados locais com relação à criação da Resex. No intuito de apresentar algumas visões dos atores sociais diretamente envolvidos no processo de solicitação da Resex e também de alguns pescadores locais. Diante da concepção de que os problemas ambientais não são isolados, e sim situações onde as condições ambientais e territórios são representados e tornados objeto de disputa entre projetos distintos, fizeram-se também necessário incorporar na presente pesquisa os diferentes pontos de vista de instâncias oficiais, dos pescadores locais, bem como também a visão dos movimentos sociais diretamente envolvidos no processo de criação da Resex. De inicio, eu comecei lendo bibliografias referentes à questão, examinando também notícias recentes que saíram em jornais sobre a Resex. Em seguida dei início à leitura dos seis volumes do Processo nº 02019.000307/2006-31 de criação da Resex Sirinhaém-Ipojuca. O processo continha vários documentos que foram produzidos pelos órgãos não governamentais que juntamente com a comunidade de pescadores artesanais, solicitaram ao IBAMA a criação da referida Reserva, bem como os documentos dos órgãos governamentais envolvidos nesse processo. Logo após essas leituras, dei inicio às entrevistas com alguns dos principais envolvidos no processo de criação da Resex, os pescadores artesanais de Barra de Sirinhaém e também com alguns ex-moradores das ilhas. Ao longo da pesquisa, realizei as seguintes entrevistas: Frei Sinésio Araújo, Secretário de Justiça, Paz e Ecologia dos franciscanos no Nordeste e agente da Comissão Pastoral da Terra, entidade que assessorou os moradores das ilhas na solicitação da Resex. 35
  • 36.
    Luiz Otávio Corrêa,analista do IBAMA que coordenou o Estudo Socioambiental para a criação da Resex. Ronaldo Santana, Presidente da Colônia de Pescadores de Barra de Sirinhaém e Pescador da Região. Arlene Costa, Secretária da Colônia de Barra de Sirinhaém e Pescadora da Região. Severino Santos, do Conselho Pastoral dos Pescadores, entidade de assessoria que acompanha os Pescadores dos estados do Nordeste e as solicitações de Resex no litoral pernambucano. Cauby Figueiredo Filho, engenheiro agrônomo - Dep. Agrícola da Usina Trapiche. Flávio Vanderlei da Silva, pescador e Presidente da Associação dos Pescadores de Sirinhaém. João Francisco da Silva, pescador e membro da diretoria da Colônia de Barra de Sirinhaém. Sebastião Gaspar Senhorio, pescador e Presidente da Associação Mangue Verde. A. A. S. Pescador e ex-morador das ilhas. D. C. S. Pescador e ex-morador das ilhas. V. J. S. Pescador e ex-morador das ilhas. E. F. S. Pescador e ex-morador das ilhas. J. R. Pescador e ex-morador das ilhas. M. J. F. Pescador e ex-morador das ilhas. M. G. S. Pescador e ex-morador das ilhas. S. G. S. Pescador e ex-morador das ilhas. (Devidos aos conflitos envolvendo os ex-moradores das ilhas, optei por preservar a identidade deles). Realizei as entrevistas com os pescadores durante uma viagem de campo entre os dias 7 e 10 de outubro de 2010, acompanhando o trabalho de frei Sinésio Araújo e Plácido Júnior, assessor da CPT que já havia entrevistado todos os ex-moradores das ilhas e me indicou os nomes de alguns pescadores e onde os mesmos moravam. Visitei nesta ocasião ex-moradores das ilhas, que atualmente residem em distintas 36
  • 37.
    comunidades: Oiteiro doLivramento e Vila Nova da Cohab, que localizam-se na sede do Município de Sirinhaém; Barra de Sirinhaém e Casado, que localizam-se em Barra de Sirinhaém. (Figuras 2, 3, 4, 5). Visitei ainda a Colônia Z-6, de Barra de Sirinhaém. Além de fazer entrevistas, participei de algumas reuniões da Colônia de Barra de Sirinhaém e de algumas Reuniões do Litoral Sul, que reuniam várias lideranças de todas as colônias do Litoral Sul. Visitei ainda a sedes da Comissão Pastoral da Terra, do Conselho Pastoral dos Pescadores e da Prefeitura Municipal de Sirinhaém para recolher informações e materiais de pesquisa. Figuras 2 a 5: Comunidades visitadas. Figura2: Comunidade do Casado. Figura 3: Comunidade de Barra de Sirinhaém. Figura 4: Comunidade do Oiteiro do Livramento. Figura 5: Comunidade da Vila Nova da Cohab. Fonte: IBAMA (Luiz Otávio Corrêa). 3.1. Área de Estudo: O município de Sirinhaém encontra-se a 80 Km da cidade do Recife, têm uma população de 33.046 habitantes segundo dados do IBGE (Censo, 2000) e localiza-se na 37
  • 38.
    Mesorregião Mata, MicrorregiãoMeridional do Estado de Pernambuco. Este município limita-se a norte com Ipojuca e Escada, a sul com Rio Formoso e Tamandaré, a leste com o Oceano Atlântico e a oeste com Ribeirão, com área municipal de 352,2km², representando 0,36% do Estado de Pernambuco (CPRM, 2005). É constituído pelos distritos de Sirinhaém, Barra de Sirinhaém e Ibaritinga. Em Barra de Sirinhaém existe uma população de 10.045 habitantes, de acordo com o Censo 2000/IBGE. O rio Sirinhaém nasce na Serra do Alho no município de Camocim de São Félix com o nome Riacho Tanque das Piabas. Toma, inicialmente, a direção sul e, a seguir, a direção geral sudeste, cortando os municípios de Bonito, Barra de Guabiraba, Cortês, Ribeirão, Gameleira, Rio Formoso e Sirinhaém em cujo litoral deságua após compor, com seus vários braços (rios Arrumador, Trapiche, Aquirá, além do próprio Sirinhaém), um amplo e complexo estuário onde se encontram algumas lagoas, numerosas ilhas e extenso manguezal com sua variada fauna (Diagnostico Socioambiental do Litoral Sul, CPRH, 1999). Inserida em uma área de cerca de 3.000ha de manguezal, Sirinhaém está incluída na categoria de “extrema importância biológica” no Atlas de Biodiversidade de Pernambuco, pela SECTMA (2002). Pois as regiões estuarinas constituem áreas de alta produtividade e diversidade biológica, uma vez que, pela natureza de seus componentes, são encontrados nesse ecossistema, representantes de todos os elos da cadeia alimentar. E por se tratar de um local onde várias espécies buscam alimento e refúgio em época de reprodução. Sirinhaém tem como principais atividades socioeconômicas a indústria sucroalcooleira e a pesca artesanal (Figuras 6, 7). Há na cidade uma extensa área de cana-de-açúcar que pertence predominantemente à Usina Trapiche, existente desde o século XIX na região. A população da cidade de Sirinhaém é composta por diversos tipos de pescadores: existem os pescadores permanentes, que pescam o ano inteiro para o consumo próprio de sua família e venda do excedente. Há o pescador temporário, que não tem a atividade pesqueira como sua principal fonte de sobrevivência, mas que a pratica eventualmente e os pescadores ocasionais que são, em geral, pequenos agricultores e/ou trabalhadores rurais de engenhos próximos à região das ilhas que, na entressafra da cana-de-açúcar, recorrem à pesca para complementar a alimentação de seus familiares (IBAMA, 2008). 38
  • 39.
    Figura 6: indústriasucroalcooleira (Foto do autor) Figura 7: Pesca Artesanal (Foto de Luiz Otávio Corrêa) A pesca artesanal tem grande importância na produção pesqueira do estado de Pernambuco, em 2007 correspondeu a 78,3% de toda a produção pesqueira. A pesca industrial obteve 0,8% e a aqüicultura 20,9% onde o estado foi o 4º colocado na produção de pescado e o 1º colocado na exportação da lagosta (881t), segundo dados do IBAMA (Estatística da pesca, 2007). Em Sirinhaém a maior parte da produção é de camarão (58,5%), caranguejo (45,2%), guarajuba (38,5%) e a lagosta vermelha (30,8%), Diagnóstico socioeconômico da pesca artesanal do litoral de Pernambuco (2009). O município produziu em 2006, 409,5 t de pescado, correspondendo a 2,9% da produção estadual (CEPENE, 2006). Assim como em Sirinhaém, a pesca artesanal também possui grande relevância no município de Ipojuca, o qual possui em seus limites, a maior parte do estuário do Rio Sirinhaém. Ipojuca é constituído pelo distrito sede e pelos povoados de Camela, Nossa Senhora do Ó, Rurópolis, Engenho Maranhão e Porto de Galinhas. Limita-se ao sul com o município de Sirinhaém e possui além da pesca artesanal uma intensa atividade turística e industrial, através do Pólo Portuário de Suape. Encontra-se inserido nos domínios das bacias hidrográficas dos rios Ipojuca, Sirinhaém e do Grupo de Bacias de Pequenos Rios Litorâneos. O município produziu, em 2006, 291,8 t de pescado, correspondendo a 2,1 % da captura estadual. A maior parte da produção é de sardinha (39,8 t), camarões (27,6 t) e agulha (23,6 t) (Diagnóstico socioeconômico da pesca artesanal do litoral de Pernambuco, 2009). A pesca artesanal apresenta uma importância histórica e socioeconômica no Brasil, sendo responsável por cerca de 65% da produção pesqueira nacional (I Conferência da Pesca Artesanal, 2009) e o litoral sul de Pernambuco, onde a pesca 39
  • 40.
    artesanal tem fortetradição, vem sofrendo com os impactos das atividades turísticas, industriais e do crescimento populacional (Governo de Pernambuco e Instituto Oceanário, 2009). Atividades estas que ocasionam a perda da biodiversidade local, a conseqüente diminuição dos estoques pesqueiros, a sobrepesca, a pesca predatória, além de conflitos junto a empreendimentos vizinhos que poluem o estuário. Sendo necessária ações que promovam a proteção deste fundamental ecossistema aos pescadores e pescadoras artesanais. Figura 8: Imagem de satélite (Google earth, 2007) do complexo estuarino do Rio Sirinhaém. 40
  • 41.
    4. RESULTADOS EDISCUSSÃO “A proteção do meio ambiente depende do combate à desigualdade ambiental. Não se pode enfrentar a crise ambiental sem promover a justiça social” (Acselrad et al., 2009). Exponho brevemente, a seguir, os principais conflitos presentes na criação da Resex, de maneira sucinta e sem a presunção de esgotar todos os pontos de conflito existentes. Apresento um breve histórico das dificuldades enfrentadas pela população local, bem como também das enfrentadas pelos demais atores sociais durante o processo de implementação da Resex, na busca de contribuir para uma maior objetividade das discussões em torno dos problemas socioambientais. 4.1. A Reserva Extrativista Sirinhaém-Ipojuca e seus motivos “Será esta liberdade, a liberdade de escolher entre ameaçadores infortúnios, nossa única liberdade possível? O mundo ao avesso nos ensina a padecer a realidade ao invés de transformá-la, a esquecer o passado ao invés de escutá- lo e a aceitar o futuro ao invés de imaginá-lo: assim pratica o crime assim o recomenda. Em sua escola, escola do crime, são obrigatórias as aulas de impotência, amnésia e resignação. Mas está visto que não há desgraça sem graça, nem cara que não tenha sua coroa, nem desalento que não busque seu alento. Nem tampouco há escola que não encontre sua contraescola”. (Eduardo Galeano, 2010) Entre o município de Sirinhaém e o município de Ipojuca localiza-se o estuário do Rio Sirinhaém, composto por 17 ilhas fluviais, algumas delas com denominações próprias: Grande, Clemente, Macaco, Porto Tijolo, Canoé, Raposinha, entre outras. Estas denominações foram dadas pela população de pescadores artesanais que nelas habitavam. O manguezal ainda está bem preservado, apesar de ser alvo constante dos impactos decorrentes dos empreendimentos vizinhos, como a expansão do canavial que atualmente faz fronteira com o mangue. Porém, não apenas o mangue tem desaparecido, mas também populações que tradicionalmente fizeram uso desse ecossistema e que nele residiam, utilizando seus recursos naturais. 41
  • 42.
    A região estuarinade Sirinhaém é uma área da União (“terras de Marinha”), que desde 1898 foi aforada à Usina Trapiche. Ou seja, a empresa possui o direito de posse a partir do pagamento de um aluguel anual, sendo a aplicação do regime de aforamento das terras da União, competente à Secretaria do Patrimônio da União (SPU). Apesar desse ecossistema ser legalmente protegido por diversas leis e decretos, vem recebendo constantemente a poluição de efluentes domésticos e industriais, entre os mais freqüentes está o despejo do vinhoto, subproduto da fabricação do etanol a partir da cana de açúcar. Toda essa poluição tem gerado a diminuição dos estoques pesqueiros e diversos conflitos entre os pescadores artesanais e as diversas industrias3 canavieiras existentes na região. A contaminação do estuário de Sirinhaém não foge à regra do que vem acontecendo nos demais estuários brasileiros, em especial em Pernambuco. Segundo o estudo socioeconômico elaborado pelo IBAMA , nos depoimentos dos ex-moradores das ilhas, existe um “saudosismo latente que reflete a relação de dependência com o estuário do rio Sirinhaém; suas falas não mostram apenas conflitos pela posse da área e uso dos recursos naturais, também explicitam autênticas declarações de amor e fidelidade ao local em que viram seus descendentes nascer” (IBAMA, 2008 p. 128). O conflito socioambiental em Sirinhaém é apenas mais um dentro do contexto sócio-político do estado de PE. Contudo assim como na fábula4 indiana “os cegos e o elefante”, o que me parece é que o meio ambiente é percebido de diversas maneiras pelos distintos atores sociais envolvidos nesse conflito. Assim como os cegos apenas perceberam uma parte do elefante, sinto nos depoimentos presentes nessa pesquisa, que cada um percebe o meio ambiente de uma maneira unilateral. E então, se cada pessoa procurasse unir sua limitada visão às demais experiências sei que os conflitos 3 Agroindústrias localizadas na área: usinas Cucaú, Trapiche, Salgado, Ipojuca, Central Barreiros, Santo André e Bom Jesus. 4 Nessa fábula indiana existe um grupo de cegos que foi levado a apalpar um elefante. Um apalpava a barriga, outro a cauda, outro a orelha, outro a tromba, outro uma das pernas. Então, o que tinha apalpado a barriga disse que o elefante era como uma enorme panela. O que tinha apalpado a cauda até os pelos da extremidade, disse que o elefante se parecia mais com uma vassoura. O que tinha apalpado a orelha, disse que ele se parecia com um grande leque aberto. O que apalpara a tromba disse que o elefante tem a forma, as ondulações e a flexibilidade de uma mangueira de água. Já o que apalpara a perna, disse que ele era redondo como uma grande mangueira e rígido como um poste. Os cegos se envolveram numa discussão sem fim, cada um querendo provar que os outros estavam errados. Evidentemente cada um se apoiava na sua própria experiência e não conseguia entender como os demais podiam afirmar o que afirmavam. 42
  • 43.
    continuariam a existir,mas, talvez fosse possível ter uma visão mais geral das questões socioambientais. A situação de degradação do manguezal e injustiça ambiental já vinha intensificando-se pouco a pouco, mas, particularmente em 1998 o conflito existente entre a Usina Trapiche e os pescadores artesanais que habitavam nas ilhas estuarinas do Rio Sirinhaém culminou em um processo de retirada das 53 famílias que lá residiam e que possuíam um modo de vida mais isolado e de subsistência. E assim, para tentar dirimir esse conflito, foi solicitado ao IBAMA a criação de uma Reserva Extrativista na região. 4.2. Memórias de um lugar “O pescador artesanal que, equilibrado em sua canoa, com fina destreza e percepção, joga sua tarrafa para alcançar o cardume visado, sob um fundo em que se confundem águas e entardecer, torna-se retrato para decorar o cenário dos agentes que visam suprimi-lo da paisagem real” (Valencio, 2010). De acordo com relatos de antigos moradores, a ocupação das ilhas do estuário do Rio Sirinhaém começou por volta do século XX e intensificou-se por volta de 1920 quando a Companhia Agrícola Mercantil de Pernambuco, hoje denominada Usina Trapiche S.A., construiu um cais para escoar a sua produção. E assim, com o passar do tempo as famílias que utilizavam os recursos do mangue durante a entressafra da cana de açúcar começaram a aumentar em número devido aos casamentos entre os membros da comunidade (IBAMA, 2008). Essas ilhas possuem tamanhos diversos e as pessoas foram se distribuindo na área, denominando cada ilha de acordo com as relações estabelecidas com o local e seus recursos naturais e distribuindo-se a partir de laços de parentesco e compadrio. Segundo relatos dos moradores, nas ilhas maiores moravam até mais de cinco casas. E assim essa população residente nas ilhas foi construindo um modo próprio de interagir com o ambiente. Eles extraiam do mangue os alimentos para a subsistência e alguns também vendiam o excesso da produção pesqueira. Mantinham pequenas produções agrícolas e frutíferas, além de criarem animais como galinha, cabra, porco, entre outros, como relatam alguns ex-moradores das ilhas: 43
  • 44.
    “Nasci lá nasilhas, minha mãe chegou lá em 1914. Eu tive 21 filhos, tenho nove vivos, tudinho morava lá... Eu criava porco, galinha, inté vaca eu criei. Eu pescava amoré, guaiamum, caranguejo, siri, aratu camuri, arapeba”. (Ex-morador das ilhas, D. C. S. - 64 anos – Entrevista ao autor em 09/10/10). “A gente pescava caranguejo, botava camboa de rio e de mangue, pegava Aratu, todo tipo de peixe. Tinha pé de coqueiro, muitas galinhas, três viveiros de peixe. Quando a safra do mangue fracassava aí já tinha o viveiro ou senão botava camboa de rio e de mangue”. (Ex-morador das ilhas, V. J. S. - 30 anos – Entrevista ao autor em 09/10/10). A partir de 1988, os moradores começaram a ser pressionados pela Usina Trapiche para saírem das ilhas, a qual possui o aforamento da área desde o século XIX. Posteriormente, em 1998, com a venda da Usina Trapiche para um grupo alagoano que atualmente administra a empresa, a pressão para a desocupação das ilhas se intensificou, com a acusação de que as famílias que lá residiam estavam degradando o mangue. “Nós quando chegamos aqui e sobrevoamos esse mangue de helicóptero era de fazer pena. Eram 52 ou 53 famílias habitando dentro desse mangue, tinha uma área chamada de carvoeiro, que o pessoal fazia carvão, destruindo a vegetação de mangue. Plantando lavoura branca dentro, com fruteiras dentro do mangue, jaca, manga, macaxeira, utilizando madeira pra fazer carvão. Isso foi um choque ambiental grande pra gente. E a gente foi mal visto em função de que a gente tentou fazer um trabalho de conscientização do pessoal pra que tirasse esse pessoal do mangue pra gente recuperar o mangue” (Cauby Figueiredo, representante da Usina Trapiche- Entrevista ao autor, em 28/12/10). No estudo Socioeconômico realizado pelo IBAMA (2008), um representante da usina Trapiche S.A. afirma que pelo fato de ter o aforamento da área, esta seria responsabilizada em caso de favelização e degradação do mangue5 5 De acordo com o Decreto Federal nº9.760/1946 em seu artigo 70, a foreira da área é obrigada a zelar pela conservação do imóvel, sob pena de responsabilização. 44
  • 45.
    A estratégia utilizadapelos administradores da usina, segundo relato dos pescadores, passou a ser a demolição das casas e a destruição das lavouras e das fruteiras, chegando até ao fechamento da escola local. “Eu morei 42 anos nas ilhas, eu to com 79 anos. Eu tive 23 filhos, na ilha do Macaco, criava galinha, cabra, porco, cavalo. Tive pé de jaqueira, mangueira coco, tem pé de coração de índia, cajueiro, bananeira... tudo isso tinha... “A minha casa derrubaram”. (Ex-morador das ilhas, M. J. F – Entrevista ao autor em 09/10/10). “Eu tinha cajueiro, mangueira, jaqueira... era de caju como daqui em camboinha, de caju que a usina derrubou, fora as outras coisa...” (Ex-morador das ilhas, D. C. S. – 64 anos – Entrevista ao autor em 09/10/10). “A gente já morou na Raposinho, que a usina chegou a botar fogo, aí fomos morar lá no Carvoeiro”. (Ex-morador das ilhas, V. J. S. – 30 anos – Entrevista ao autor em 09/10/10). Com a destruição das casas, das lavouras e das fruteiras tornou-se quase impossível para os pescadores continuarem a habitar nas ilhas. E assim, pouco a pouco os moradores foram saindo. Alguns mais resistentes chegaram a fazer acordos individuais com a Usina Trapiche e receberam casas pelo município de Sirinhaém, pequenas indenizações, material de construção, ou até mesmo empregos. Mas antigos moradores reclamam que apenas os proprietários dos sítios receberam algum tipo de indenização e os demais moradores que habitavam na propriedade nada receberam. Atualmente os ex-moradores das ilhas encontram-se espalhados por diversos povoados na cidade de Sirinhaém. Alguns passaram a fazer parte da ocupação desordenada da periferia do município, enquanto outros receberam pequenas moradias como indenização. Ao visitar algumas dessas moradias, pude constatar que a maioria das casas encontram-se em locais de difícil acesso, a distancias de cerca de 8 a 10 Km do manguezal, sendo necessário um grande deslocamento dos pescadores para poder ter acesso ao mangue. Ao realizar estas visitas percebi que os mais jovens já estavam mais adaptados à vida urbana e alguns já haviam deixado de pescar. Porém se perguntados sobre aonde preferiam viver, todos reportavam-se com saudade do tempo em que viveram nas ilhas e a maioria manifestava o desejo de retornar 45
  • 46.
    “Lá era bom,muitas vezes a gente sente até falta dali, porque era um lugar muito assossegado, era um lugar que ninguém chegava lá. Era uma paz”. (Ex-morador das ilhas, V. J. S. – 30 anos – Entrevista ao autor em 09/10/10). “A gente quer voltar pras ilhas, é o meu lugar”. (Ex-morador das ilhas, J.R. – 22 anos – Entrevista ao autor em 09/10/10). “Tinha não, tenho vontade de voltar pra lá”. (Ex-morador das ilhas, M. G. S. – 47 anos – Entrevista ao autor em 09/10/10). Apenas em uma das casas visitadas uma moradora relatou que não tinha mais condições de saúde para voltar a viver nas ilhas. “Morar mesmo direto não, porque não tenho mais saúde pra viver no mangue. Mas os filhos queriam voltar se botassem energia... Eles vão pescar ainda”. (Ex-morador das ilhas, M. J. F. – 79 anos – Entrevista ao autor em 09/10/10). Em todas as famílias visitadas havia pelo menos um integrante que ainda praticava a pesca artesanal no mangue. Assim, mesmo retirados das ilhas, os moradores ainda tinham no mangue um meio de vida. Os mais idosos apresentavam uma grande tristeza e não adaptaram-se à vida na cidade. Sentiam falta do modo de vida que possuíam junto ao mangue e ao redor dos demais integrantes da comunidade, que hoje se encontram espalhados em vários bairros distintos. Muitos continuavam pescando, mas uma boa parcela já apresentava algum tipo de enfermidade que impossibilitava a prática da pesca. A partir da fragmentação dessa comunidade foram-se desfazendo os laços que formavam essa rede social que favorecia a construção da identidade cultural dos seus integrantes e propiciava um sentido às suas vidas (Rangel, 2007). É perceptível em seus depoimentos o sentimento de não pertencimento ao lugar no qual habitam atualmente e muitos não conseguiram se integrar em novas relações sociais junto aos demais moradores dos locais onde hoje residem. Segundo relato de frei Sinésio Araújo presente no Estudo Socioeconômico do IBAMA (2008): 46
  • 47.
    “Problemas de ordempsicológica também são evidentes, pois muitos entraram em estado depressivo, fruto do comprometimento de sua identidade que lhe fora negada a partir do momento em que foram forçados a sair de seu habitat natural e mudaram totalmente a sua maneira de ser e agir. Seu Dudé, por exemplo, teve um filho morto pelo envolvimento com drogas na periferia da Barra de Sirinhaém e disse: “se meu filho estivesse nas ilhas, não se envolveria nesta situação”. (Sinésio Araújo, agente da CPT, entrevista em 14/04/2008 In: IBAMA, 2008 p.123). Segundo Luiz Otávio Corrêa: “A gente viu muita gente que não se adaptou. Principalmente os mais idosos. Quem passou mais tempo, quem cresceu ali dentro do manguezal, tem uma dificuldade muito grande de morar na cidade, mesmo numa casa ate com melhores condições de moradia, mas que não tem como tirar seu sustento da cidade, não tem nem estudo... gente que nunca teve vizinho na vida, você colocar dentro de um centro urbano, a questão psicológica dela.... Dona Antonia chora sempre, ela consegue dar um bom quadro das dificuldades que eles passam... é o ambiente deles.... Dona Antonia morava numa ilha bem grande lá e praticamente não saia lá de dentro e tinha uma área grande pra cultivo, tinha frutas, os filhos pescavam, então a família toda sobrevivia dali, mesmo sem ter esses luxos, sem ter... tinha a casa de farinha dela que todos os vizinhos utilizavam também, então eles tinham o jeito deles de viver ali que não foi levado em conta na hora de sair”. (Luiz Otávio Corrêa, analista do IBAMA – entrevista ao autor em 29/10/10) Ao tentar imaginar como deve ter sido traumática essa mudança de vida, me ocorre em mente depoimentos de pessoas amigas que passaram um curto período de tempo em alguma região isolada e que ao retornarem à cidade já não conseguiam atravessar a rua na mesma segurança de antes, que estranhavam certos hábitos vistos pelos demais como usuais. E então, penso o quanto deve ter sido traumática a repentina mudança de vida, desses ilhéus que passaram muitos anos ou até a vida toda em uma isolada região junto ao estuário do rio Sirinhaém. Com o passar do tempo as pessoas adquirem um sentimento de apego ao lugar. Muitos tipos de apego foram sugeridos por Shumaker e Taylor (1983) apud Gomes (2008), porém dois podem ser claramente percebidos entre os ex-moradores das ilhas: o apego funcional (relacionado à satisfação das necessidades básicas proporcionadas pelo 47
  • 48.
    local) e oapego emocional (evidenciado pela construção da vida nesse local e pela proximidade entre os moradores da área). “Lá é um lugar de barriga cheia, tem lugar pra plantar uma batata, uma macaxeira, pra pescar o suficiente”. (Ex-morador das ilhas, M.G. S. – Entrevista ao autor em 09/10/10) “Não gosto de morar em rua, morava dentro do sitio, fiquei com pena do sitio que ela (a usina) derrubou, era bom o sitio lá de casa, eu ia pra rua vender manga guaiamum, caranguejo, pegava o carro de mão de pai e ia a pé mesmo. La não faltava nada dentro de casa, tinha pé de manga, macaiba, jaca, goiaba, araçá, tinha de tudo lá que mãe plantava. A gente pegava caranguejo, amoré, pai botava covo, armava ratoeira pra pegar guaiamum, carapeba. Muito peixe a gente pegava, camarão, pititinga, cuca, era muito”. (Ex-morador das ilhas, E. F. S. – Entrevista ao autor em 09/10/10). O geógrafo Yi-Fu-Tuan (1980) denomina de Topofilia o elo afetivo existente entre a pessoa e o lugar ou ambiente. E afirma que as pessoas em constante interação com a natureza estabelecem um sentimento mais intenso com o ambiente, por dele dependerem para sobreviver. Sendo provável que mudanças para outros locais causem algum efeito psicológico entre os moradores deslocados, devido ao rompimento da identidade com o espaço e com o grupo. Segundo Castells (2006), as pessoas transformam o espaço em que vivem em lugar, ao relacionarem-se afetivamente com ele. Dentre os vários relatos dos ex-moradores das ilhas, destaca-se um depoimento que retrata bem qual o sentimento que foi construído pelos pescadores em relação à região das ilhas, que reproduzo abaixo: A senhora e seu esposo moravam nas ilhas desde quando? “Morei no sitio 53 anos”. Qual o nome do sitio que a senhora morava? “Morava no sitio do Cais, a primeira casa. Quando eu fui morar lá tinha um pé de pimenta malagueta”. E a senhora plantou muita coisa? 48
  • 49.
    “Vixe Maria, meuDeus, eu não gosto nem de falar, eu e Luis fizemos o sitio, fiz o sitio... carregava coisa da rua, tinha uma casa ali, com pé de jaca, de manga, eu dizia vou levar que no meu sitio não tem nada. Era uma mata, eu plantei de tudo. Eu perdi muita coisa, até minha casa de farinha ta por lá. Ainda ta minha prensa ainda está lá”. A senhora criava animais também? “Criava tudo...” A senhora teve quantos filhos? “Tive 11 filhos”. Quais as espécies vocês mais pescavam? “Eu pescava camarão, amoré, aratu, siri, era.... e Luis ia na jangada pescar de linha, de tarrafa, era...” E então depois vocês ganharam essa casa aqui? “Foi minha filha, eu ainda fui teimosa, ainda passei oito mês, o sitio derrubado e eu lá emperrada sem querer sair. Essa casa feita eu não queria vir não. Eu vim bem dizer nas mãos dos outros”. Derrubaram suas fruteiras? “As frutas todinhas, só deixaram a casinha, mais nada... Derrubaram um pé de jaca meu que fazia dó e piedade, deu dois caminhões de jaca, eles carregaram. Eu tinha quatorze pés de jaca e quinze pés de manga e coqueiro, nem falo... e mais pé de laranja, cravo, tudo... a ilha era grande, tinha escola, tinha tudo”. Derrubaram também a escola? “Só queria que você visse que jeito ficou... Fizeram de propósito, desagasalhou muita gente. Eu vou dizer a você eu vim pra qui mas não me dei não, acredita? Eu estou morando aqui, mas eu não vivia numa vida dessa que eu estou, numa condição dessa... Eu perdi minha saúde, tenho medo de andar, não vou na rua, vez em quando é morrendo, eu lá morei esse tempo todinho, onze filhos e nunca tive nada, foi eu bater aqui e com dois meses acabou minha saúde até a data de hoje. Ainda ontem eu tava dizendo... sei não meu Deus. Se não fosse proibido eu já tinha ido pra debaixo de um pau. Não sei se foi o costume, não me dou aqui não. 49
  • 50.
    Essas casas todinhasaí me pergunte que jeito, é que não sei de nada, de nada, de nada, não vou pra canto nenhum é o dia todinho dentro de casa e sem poder andar, perdi a perna, doente”. Seu esposo ainda vai pescar? “Luis, só quando ele morrer ele deixa... Ele não vai todo dia não, mas vez em quando ele vai, porque não tem onde guardar as coisas, onde botar. vai duas, três vezes por semana. E bagre não falta na mão dele... ele tem muito amor as ilhas, ele ta com 76 anos. Passa o dia, leva comer, lá por debaixo dos pés de pau pelo mangue e lá ele fica. Quando ele vem eu pergunto:”ô, Luis, passasse por lá, passasse por lá?” Ele diz: “Antonia é capaz de nem saber onde é” ... e eu não fui mais lá não. Eu digo: “tu visse algum pé de coisa..”. “Olha Antonia aquele pé de manga que tu plantasse lá no sitio lá, ainda tem ele”. Ô meu Deus... Eu só vivia lá pelas ilhas, era pescando amoré, tinha saúde, criava boi... galinha. Eu perdi 75 cabeça de galinha, fora os pintos, cada galo bonito essa menina, duas peruas, um peru. Nada, roubaram tudinho, tudinho, tudinho... eu ia trazer pra qui, pra onde? Um lugar desse... isso é lugar de nada... Perdi muita coisa essa menina, muito mesmo”. E se for criada a reserva extrativista a senhora ainda volta a morar nas ilhas? “Na mesma hora, volto na mesma hora. Ta vendo eu arrastando assim... vixe, Maria, nem diga uma coisa dessa... eu dona Cosma... quem era dona Cosma, perdemos a saúde da gente.. a gente vivia do mangue...” (Ex-morador das ilhas, A. A. S. - 70 anos – Entrevista ao autor em 09/10/10). Em resumo, hoje os ex-moradores das ilhas enfrentam as dificuldades de adaptação a uma vida bem diferente da qual eles estavam acostumados, perderam a fonte de subsistência que compreendia não só o manguezal, mas também os cultivos, as fruteiras e a criação de animais. Distanciaram-se dos laços afetivos construídos durante os vários anos de convivência e foram obrigados a aumentar a lista das pessoas que dependem da ajuda assistencialista do governo para sobreviver. A grande maioria desses pescadores nunca contribuiu para a previdência e por isso encontram-se desassistidos pelo INSS. Além de tudo isso, a desterritorialização do grupo social que habitava as 50
  • 51.
    ilhas afastou ospescadores do manguezal e os pulverizou no espaço, contribuindo para desagregar os laços sociais costumeiros deste grupo tradicional. 4.3. O acirramento dos conflitos “Ocasiões de conflito liberam relações sociais na medida em que são, ao mesmo tempo, relações de força e relações de sentidos” (Beaud e Weber, 2007). Percebendo a forte ligação dessas pessoas com o lugar, como também a importância desse ecossistema na dinâmica local, a Comissão Pastoral da Terra6 juntamente com diversas ONGs e apoiada por um abaixo assinado dos ex-moradores das ilhas, solicitaram em 2006 a criação de uma UC de uso sustentável na região. Atuando desde a década de 80 na região de Sirinhaém, a CPT acompanhou e deu assistência aos pescadores que moravam na região das ilhas através de projetos diversos desenvolvidos por frei Hilton, que inicialmente não encontrou grandes dificuldades para desenvolver os trabalhos sociais da CPT com esses pescadores. Mas, posteriormente, muitos conflitos começaram a surgir e foram bastante noticiados pela imprensa local (anexo I). Frei Sinésio relata que, ao perceber a intensificação do conflito entre os ilhéus e a usina, a entidade começou a conscientizar a comunidade pela busca de seus direitos. Os administradores da usina alegaram que existia um contrato de comodato de 10 anos feito em 1988 com os moradores das ilhas e que portanto, estaria sendo vencido em 1998 (anexo II). Porém pelos documentos que foram encontrados sobre esse comodato, sabe-se que o mesmo apenas se referia às famílias que moravam em duas das 17 ilhas habitadas, segundo relata o agente da Pastoral dos Pescadores: “A gente avaliava desde o inicio que assim, se tivesse que sair, só quem poderia sair da área era quem morava na ilha de Constantino e do Clemente, porque eram as duas ilhas que tinham no termo de comodato. As outras ilhas não estavam no termo de comodato, não tinha nenhuma referencia no termo de comodato pelo que a justiça colocava e também o aforamento que a usina tinha não era claro em relação às outras ilhas, era claro só sobre essas duas ilhas”. (Severino Santos, da CPP – Entrevista ao autor em 15/12010). 6 A Comissão Pastoral da Terra (CPT) é uma entidade de defesa dos direitos humanos e dos direitos dos trabalhadores da terra, ligada à Igraja Católica. Essa entidade nasceu em 1975, durante a ditadura militar, com o objetivo de defender na época, sobretudo os direitos dos trabalhadores rurais da região amazônica. E assim a CPT passou a atuar em todo o país adequando suas ações de acordo com a demanda local. 51
  • 52.
    Ainda em 1998,o Conselho Pastoral dos Pescadores (uma outra entidade social ligada à Igreja Católica e bastante atuante na região costeira de Sirinhaém 7) já havia solicitado ao governo e ao Serviço de Patrimônio Publico de PE a desapropriação da área pertencente à Marinha ocupada pela Usina Trapiche, bem como também um levantamento sobre os débitos referentes ao não pagamento de alguns foros pela referida usina e ainda a apreciação de denuncias de incêndios e derrubadas de algumas casas dos pescadores da região (Anexo III). O representante do CPP-Nordeste narra os acontecimentos deste período (anexo IV): “De 98 pra cá a CPP veio dando uma ajuda, um acompanhamento jurídico dos processos, que foram vários processos, um atrás do outro. Tinha esse processo das duas famílias que a usina tinha pedido o cancelamento do termo de comodato e depois disso veio surgindo vários processos com denuncia das ações, que funcionários da usina, pessoas ligadas à usina começaram a agredir os pescadores: a queimar casa, a destruir roça, a soltar animal, a destruir os aparelhos de pesca e aí foram surgindo vários processos, varias denuncias formais, na delegacia do município, no fórum tem pra mais de 40 denuncias” (Severino Santos, CPP - Entrevista ao autor em 15/12/10). Em 28 de dezembro de 1998, nos últimos dias de mandato do governador Miguel Arraes, enquanto estes conflitos aconteciam, o Governo do Estado criava a Área de Proteção Ambiental de Sirinhaém8, em âmbito estadual, que inclui os manguezais do rio Sirinhaém. Gianinna Cysneiros, técnica da Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente (SECTMA) que participou dos debates no período, conta à equipe da Fundação Joaquim Nabuco (Beatriz Mesquita, comunicação pessoal) que a APA de Sirinhaém fora criada porque quando os conflitos se acirraram em Sirinhaém, os moradores e suas entidades assessoras solicitaram que as ilhas fossem incorporadas na vizinha APA de Guadalupe. Como tal incorporação não era viável a curto prazo, optou-se por um decreto criando uma nova APA, a de Sirinhaém. Esta APA até presente momento, 13 anos depois, ainda não foi implantada. Posteriormente foi feita uma 7 O Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP) é uma Pastoral Social composta por diversos agentes comprometidos com uma sociedade mais justa e solidária para os pescadores e pescadoras artesanais. O trabalho da CPP foi iniciado em 1968 em Pernambuco e mais tarde espalhou-se por todo o Brasil. Atualmente, a CPP acompanha e desenvolve diversos projetos junto às colônias de pescadores da região, em Sirinhaém vem atuando desde 1984. 8 Decreto n.º 21.229 de 28 de dezembro de 1998. 52
  • 53.
    recomendação para aproteção do estuário de Sirinhaém através da criação de uma Resex, presente no Diagnostico Socioambiental do Litoral Sul (CPRH, 1999) e no Zoneamento Ecológico-Econômico do Litoral Sul (CPRH, 1999). Entre 1998 e 2000, período de intensificação dos conflitos, muitos fatos contribuíram para a desarticulação da comunidade de pescadores das ilhas: frei Hilton foi transferido para outro estado e importantes lideranças no processo de resistência local, como o presidente da Associação dos Pescadores e Pescadeiras da Ilha de Sirinhaém e a representante local da CPP junto às famílias, foram contratados pela usina, desmobilizando a atuação desta entidade na região. E então os pescadores foram pouco a pouco deixando suas casas. Outro fato que contribuiu para a saída dos pescadores das ilhas foi às intensas chuvas: “em 2000 teve as chuvas no litoral sul e as casas dos pescadores dentro das ilhas foram todas atingidas, a maior parte delas caíram. A usina não deixava construir, eles não tinham recurso financeiro pra construir fora. Nesse período a gente recebeu a visita de um grupo da Holanda, que sempre a cada dez anos eles fazem visita no CPP e eles foram lá. A gente tava com atividade marcada pra lá e eles foram e deu origem a um projeto de reconstrução das casas. Aí nesse processo foi feito muita cooptação de liderança por parte da usina, tanto dos moradores das ilhas, tanto como da pessoa que trabalhava em nome da CPP na área. É tanto que a gente liberou em cheque recurso pra construção de 25 casas, só foram construídas 12. E dessas 12, quando a gente foi fazer a avaliação, apenas 8 estavam em pé, as outras as pessoas já tinham, não sei de que forma, se amigável ou pressionado, negociado com a usina e saído e estavam morando na periferia de Sirinhaém. Foi feito ainda um convenio da usina com a UFRPE (Dep. De Zootecnia ou floresta) e a CPRH e de certa forma, quem passou a ser o gestor ambiental da área foi a própria usina. E com a saída da família, eles desmatavam todo o sitio que tinha, todos os pés eram derrubados e eram plantadas arvores que não tinham fruto. Era o ingá e a sabiazeira. Aí eles desmatavam todo o sitio para o pescador não voltar a viver lá, pra não ter nada pra ninguém buscar. A usina começou a colocar placas dizendo que era área de preservação, que o pessoal não podia estar lá. (Severino Santos, CPP – Entrevista ao autor em 15/12/10) E dentre as diversas tentativas de legitimar suas ações, a Usina Trapiche chegou a acusar os moradores por crimes ambientais ainda em 1998. E um Inquérito Civil Público chegou a ser instaurado pelo Ministério Público para apurar as denúncias. 53
  • 54.
    Técnicos do IBAMAe da CPRH compareceram ao local, mas não constataram a destruição do meio ambiente. Pois o desmatamento provocado pelos pescadores era incipiente e não representava risco ao meio ambiente, como relata Severino Santos (Anexo V): “Com o fechamento do termo de comodato a usina acusou os pescadores de estar depredando o meio ambiente e entrou com uma ação judicial solicitando o despejo de todas as famílias. Na ocasião a gente fez um levantamento junto a GRPU e a usina tinha sim o aforamento da área, só que estava atrasado há mais de 20 anos com pagamento do foro. A denuncia de depredação foi averiguada pela CPRH e pelo IBAMA, no final de 98 teve uma audiência publica no município aonde a CPRH e o IBAMA apresentou o relatório que já tinha entregado antes, como peça do processo, aonde eles colocavam que as famílias que moravam nas 17 ilhas não tinham agressão ao meio ambiente e que funcionavam até como fiscalizadores ambientais da área”. (Severino Santos, CPP – Entrevista ao autor em 15/12/10) Em contrapartida, condutas lesivas ao meio ambiente foram descritas pelos técnicos ambientais da CPRH que multaram a Usina por derramar o vinhoto nas águas do estuário, além de serem acusados de também plantar espécies exóticas nas ilhas. Mas sempre a usina recorreu de tais multas. Contudo, segundo depoimento do representante da Usina Trapiche: “Quanto à vinhaça, toda a vinhaça da usina Trapiche ela é aproveitada no campo. O rio Sirinhaém é composto por 4 usinas do setor sulcroalcooleiro e nós somos a ultima, ou seja, nós somos final de linha. Então tudo que venha acontecer de poluição no rio Sirinhaém vem finalizar na usina Trapiche. Tudo que vier de poluição, no final, vai cair na foz. E a gente está em cima da foz, a maré sobe, o rio sobe e aquilo fica concentrado justamente nas áreas da usina Trapiche. Então muitas das atribuições de poluição que ocorrem se joga pra usina Trapiche. Ou seja, até agora nesses treze anos e meio que a gente tá aqui, com todas as denuncias que existem, nunca conseguiram provar que veio uma poluição da usina Trapiche, porque realmente a gente não polui. Nós temos a mentalidade que o vinhoto é importante pra empresa e jogando ele no rio é a mesma coisa que jogar dinheiro fora” (Cauby Figueiredo, representante da Usina Trapiche – Entrevista ao autor em 28/12/10). 54
  • 55.
    Devido a taisacontecimentos, em 2003 poucas famílias ainda continuavam a morar na região das ilhas estuarinas. Nessa mesma época, segundo depoimento de Frei Sinésio Araújo, um trabalho para restabelecer a confiança dos pescadores foi iniciado pela CPT no intuito de garantir o direito da comunidade ao território de pesca utilizado tradicionalmente pelos mesmos. A maneira como a Usina Trapiche encaminhou todo o processo de expulsão dos ilhéus é bastante controverso, pois segundo representantes da empresa tudo foi feito de forma pacífica. Segundo, Cauby Figueiredo, engenheiro agrônomo da Usina Trapiche: “Nós tiramos esse pessoal gradativamente, aos poucos, aonde íamos fazendo um trabalho de conscientização. Tanto é que não foi nada forçado, que não foi nada de maneira agressiva que as ultimas que saíram agora... já que não tava conseguindo sair de uma forma assim, consciente, de uma forma tranquila... nós tivemos que apelar para o lado jurídico. Mas as outras 51 famílias saíram de uma forma gradativa, na medida em que a gente ia convencendo, conscientizando e a gente dava uma área pra eles construírem uma residência e onde tinha uma qualidade de vida melhor, mais perto da zona urbana, com uma casa de melhor qualidade, melhor padrão, uma melhor condição de vida” (Cauby Figueiredo, representante da Usina Trapiche – Entrevista ao autor em 28/12/10). De acordo com depoimento de Severino Santos (CPP), e também em entrevista dos representantes da Usina Trapiche presente no Estudo Socioeconômico elaborado pelo IBAMA, quando a notícia de que a usina iria indenizar as 53 famílias que residiam nas ilhas se disseminou houve um aumento populacional na área e então vários conflitos foram gerados pela derrubadas das casas. Contudo, tal fato apenas causou o aumento dos conflitos já existentes, pois os antigos moradores das ilhas já estavam sofrendo com as conseqüências das ações da usina pela desocupação da área. A intenção dos administradores da usina era fazer um acordo coletivo com os moradores mais resistentes, mas devido ao apoio das entidades que acompanhavam os pescadores, esses começaram a não aderir às pressões e então a usina começou a fazer acordos individuais, a partir das diversas ações impetradas no órgão judicial local. Nessas audiências cada morador recebia uma pequena casa e alguns também uma irrisória quantia em dinheiro. Essas audiências eram na presença do próprio ministério 55
  • 56.
    público do município,além das demais entidades de direitos humanos que acompanhavam esse conflito. No entanto, as ações de reintegração de posse foram julgadas procedentes na Justiça Estadual e onde foi negado inclusive o direito de retenção das benfeitorias feitas pelos moradores (Leroy, 2004). Entre 2005 e 2006, restavam cerca de 5 famílias morando nas ilhas: “Na ilha que tinha oito famílias estava só duas famílias e a maior parte com a idade já avançada. Ai se sentiram assim... que sozinhos lá dentro não iam conseguir, se os outros tivessem ficado, se todos as oito tivessem ficado eles tinham a comunidade pra resistir, mas como tava só as duas, eles não tinham mais forças pra continuar lá dentro, aí eles negociaram, saíram, foram uns dos últimos a saírem antes de Nazaré” (Severino Santos, CPP - Entrevista ao autor em 15/12/10). O fato sobre como foi o processo de retirada dos pescadores das ilhas, se arbitrário ou conciliativo, é apenas o pano de fundo de uma evidência maior: a de que a complexidade e a diversidade das formas locais de imaginação do território foram reduzidas a um conjunto de “imóveis” a serem removidos, ou seja, a existência de uma forma coletiva de viver e relacionar-se com o ambiente foi vista a partir de processos mercantis de indenizações feitas aos moradores (Zhouri & Oliveira, 2010). Segundo Valencio (2010), o projeto de desterritorialização da pesca artesanal promove uma dissociação entre o individuo e sua prática e ainda tenta impor às pessoas as formas capitalistas de trabalho. E ao “negar-se como individuo e como parte de um grupo, desintegra-se rapidamente em outros fazeres e saberes homogeneizados e a contento da lógica e das relações macroenvolventes que se apossam do território”. Ao iniciar minha pesquisa, apenas duas famílias continuavam a morar nas ilhas, as irmãs Nazaré e Graça. Mas, ao fim do mês de outubro uma decisão judicial as obrigou a abandonar àquele lugar ao qual há tanto tempo habitavam. Infelizmente não cheguei a visitá-las lá nas ilhas, e hoje elas residem no distrito de Santo Amaro, em Sirinhaém. De acordo com a ação judicial, a Usina Trapiche não era obrigada a indenizar essas duas famílias, mas apesar dessa “injustiça da Justiça” a usina decidiu construir suas casas em um terreno repassado pela mesma. Atualmente a situação dos ex-moradores das ilhas é bastante precária, pois a grande maioria encontra-se desempregada, percorre grandes distancias para ter acesso 56
  • 57.
    aos recursos pesqueirosdo mangue e nas atuais moradias não há espaço para guardar as jangadas que antes eles possuíam. Muitos relatam ainda que antes, colocavam os apetrechos de pesca no mangue e iam realizar outros afazeres, retornando posteriormente para pegá-los. Mas, hoje a distância, como também a fiscalização da Usina dificultando o acesso dos pescadores ao mangue, são fatores que tem levado ao abandono da prática de pesca. Assim, a criação de uma Reserva Extrativista é bastante defendida pelas diversas entidades socioambientais atuantes em Sirinhaém, pois tais entidades vêem na implantação de uma Resex Federal a possibilidade de estar garantindo a manutenção dos modos e hábitos de vida desses povos e ainda a conservação e gestão dos recursos naturais presentes na área. Até porque a criação de uma Resex possibilitaria que a própria comunidade continuasse a fiscalizar a área da poluição industrial. Por possuírem uma intrínseca dependência dos recursos naturais, esses povos não têm um grande potencial de mobilidade e a desestabilização dessas formas de apropriação não capitalista da natureza costuma ficar invisível frente aos grandes projetos de “desenvolvimento” que geram poucos empregos, mas em contrapartida, põe em risco a subsistência de inúmeras pessoas (Acselrad et al., 2009). 4.4. O processo de criação da Resex e suas dificuldades “O capitalismo contemporâneo não necessita de um regime político totalitário para exercer sua hegemonia. Mas ele não estaria querendo impor uma ideologia totalitária, pretendendo explicar todo o ser humano, ao reduzi-lo a um consumidor e produzir uma sociedade em que tudo lhe é subordinado?” (Leroy, 2010). Em 1998 ocorre uma viagem de técnicos do Centro Nacional de Populações Tradicionais (CNPT) , IBAMA, pelo litoral de Pernambuco, identificando demandas dos movimentos sociais para proteção de áreas costeiras onde havia populações tradicionais (Silveira, 2009). Neste período as primeiras Resex em áreas florestais já haviam sido criadas na Amazônia há alguns anos e o conceito de Resex Marinhas se fortalecia. Assim, a criação de Resex apareceu como uma forma interessante para os pescadores de dar um encaminhamento institucional para os conflitos que aconteciam no litoral pernambucano. Surgiram então propostas de Resex em Sirinhaém, onde havia envolvimento da CPT e do CPP, e no Litoral Norte do estado, com atuação do CPP. 57
  • 58.
    As diversas entidadessociais atuantes em Sirinhaém tentaram através de denúncias aos órgãos governamentais proteger os direitos dos pescadores locais. Diante dos recentes acontecimentos na política ambiental com o fortalecimento da proteção aos povos tradicionais e da possibilidade de criação das Reservas Extrativistas, essas entidades sociais passaram a discutir com os pescadores essa possibilidade de luta pela obtenção de seus direitos de acesso ao território e de preservação dos recursos naturais, os quais são à base de subsistência desses pescadores. Durante o processo de solicitação da Resex, foi feito um pedido ao GRPU para que a área em questão voltasse aos domínios da União. E então devido às denuncias de poluição ambiental ao estuário de Sirinhaém e pelo fato do regime de aforamento da Usina Trapiche ter caducado por motivo de não pagamento de alguns foros, sendo tal dado publicado no D.O. de 26 de julho de 1989 (Página 320 do volume II do processo de criação da Resex), a GRPU-PE cancelou o aforamento da Usina Trapiche em 2007, observando também que tratava-se de uma área de interesse público (Anexo VI). Mas, tal aforamento foi renovado após a Secretaria do Patrimônio da União em Brasília, instância suprema nesse caso, vinculada ao Ministério do Planejamento, ter decidido em favor da Usina Trapiche. Nessa mesma época, já estava em andamento em Pernambuco o processo de criação da Reserva Extrativista Acaú-Goiana, na divisa entre Pernambuco e Paraíba, que foi criada em 2007, por uma modificação da proposta inicial de uma Resex da Mata Norte de Pernambuco. A solicitação da Resex Sirinhaém-Ipojuca pelas entidades dos pescadores, apoiada pela Comissão Pastoral da Terra, entre outras ONGs foi feita no inicio de 2006. E ainda no fim desse mesmo ano os técnicos do IBAMA visitaram a área e sugeriram que um estudo socioambiental fosse feito na região. Em 2007, o trabalho em Sirinhaém foi intensificado, após a finalização dos trabalhos na Resex de Acaú-Goiana. E ao final do ano de 2007 foi iniciada pelo IBAMA a elaboração dos estudos para a criação da Resex Sirinhaém-Ipojuca: “Em abril a gente fez a primeira vistoria, ao estuário. Inicialmente, conhecer as ilhas, conhecer o rio Sirinhaém, aquela região, ver como estava o manguezal”. (Luiz Otávio Corrêa, analista do IBAMA – Entrevista ao autor em 29/10/10). 58
  • 59.
    Na solicitação daResex existia também um pedido para a desapropriação dos Engenhos Anjo e Sibiró que fazem fronteira com o mangue, sendo denominados de restinga. Pois está área era vista como um espaço para fazer as moradias dos pescadores e a sede da Reserva. Segundo dados contidos no Processo de criação da Resex, tais engenhos possuíam cadastro na SPU com conceituação de Marinha (Pag. 64 do processo nº 02019. 000307/2006-31, IBAMA). No entanto esses engenhos não fizeram parte da área prescrita pelo IBAMA na demarcação da Resex: “No processo eles solicitavam a criação da reserva extrativista e também a desapropriação dos engenhos pra ter as famílias assentadas.... Mas, desde o inicio a gente deixou claro pra isso, que já não era mais papel do IBAMA a gente trabalhar com os engenhos. O papel da gente era ver a reserva extrativista, a área que eles podiam utilizar. Algumas partes pegavam área de mangue, mas era... Engenho de cana de açúcar, não sei se era da usina Trapiche, mas que estava no entorno daquele manguezal e também estava dentro da área do aforamento que a usina tem. Aí teria que ser um processo paralelo com o INCRA... Então teve um certo debate, uma discussão: porque a gente falou vai levar em conta o que? A área que eles utilizam, o manguezal ou a gente vai pensar numa área pra estar de repente.... Então até onde tem mangue a gente colocou como área da reserva. Outra discussão foi em relação à questão marinha, se a reserva sairia para o mar também ou ficaria só dentro do estuário... Até pelo publico da gente, questão dos moradores das ilhas, eles não praticarem a pesca de fora, mas pescarem só dentro do manguezal, e pela resistência do poder municipal e da própria usina, a gente falou... foi ate um fator de a gente não entrar em área de cana foi essa, ne... de ser mais fácil...” (Luiz Otávio Corrêa, analista do IBAMA - Entrevista ao autor em 29/10/10). Outra dificuldade enfrentada pelos técnicos do IBAMA durante a realização dos estudos para a criação da reserva foi a divisão do IBAMA com a criação do ICMBio. As vistorias técnicas em Sirinhaém estavam sendo em abril de 2007 e enquanto o IBAMA se preparava para dar início ao estudo socioambiental, o ICMBio foi criado em setembro de 2007: “Então esse processo sairia da mão do IBAMA e seria responsabilidade do ICMBio, que foi criado e não tinha estrutura 59
  • 60.
    nenhuma aqui ainda.Era mais o pessoal, cada um ligado a sua diretoria. Cada um ligado a sua Unidade de Conservação, mas não tinha uma coordenação estadual, regional, nada disso, que era quem seria responsável por tocar isso. Pois não dá para cada um sair de sua unidade de conservação pra ir iniciar um processo desses, né. Mas, a gente decidiu que como o IBAMA começou, mesmo não sendo responsabilidade mais, mas como a gente deu inicio a esse processo a gente vai tocar isso. Só que o grande problema era isso... O IBAMA não tinha recurso pra fazer esse trabalho e na época o ICMBio também não tinha como pagar para o IBAMA... a questão das diárias, tudo que a gente precisava pra fazer esse trabalho em Sirinhaém. Então atrapalhou nesse sentido porque a gente começou o trabalho em outubro, primeiro de outubro de 2007 a gente iniciou os estudos e sem recurso nenhum, durante todo o processo a gente não recebeu nada pra fazer esse trabalho. A distancia favorecia né, o trabalho até demorou um pouco porque a gente não tinha como chegar e ficar uma semana em Sirinhaém, porque a gente não tinha recurso pra estar garantindo a hospedagem e a alimentação da gente. A gente ia fazer o trabalho e no fim ou inicio da noite a gente voltava pra Recife, às vezes até no dia seguinte a gente ia de novo pra Sirinhaém fazer o trabalho e retornava”. (Luiz Otávio Corrêa, analista do IBAMA - Entrevista ao autor em 29/10/10). Durante a definição da área da reserva, o IBAMA decidiu incluir todo o manguezal que perfaz o estuário do Rio Sirinhaém, mesmo não fazendo parte da solicitação inicial no pedido de solicitação da Resex, pois não era viável criar uma reserva apenas para proteger alguns rios e outros não. “A solicitação foi feita em cima das 17 ilhas e também já pega até área de Ipojuca, tem algumas ilhas que estão já do lado de Ipojuca, mas é metade do estuário só. Tem toda aquela parte norte que esta em Ipojuca, proximo de Serrambi, em toquinho que não esta na solicitação, mas faz parte do mesmo sistema. Então a gente viu que não adiantava estar protegendo uma área, estar criando a reserva pra uma área e deixando a maior parte do estuário lá em cima sem estar protegido”. (Luiz Otávio Corrêa, analista do IBAMA - Entrevista ao autor em 29/10/10). Na definição da área da Resex, ao fim dos estudos, julgou-se necessário incluir todo o manguezal do estuário do Rio Sirinhaém e grande parte desse mangue localiza-se 60
  • 61.
    já em Ipojuca,porém devido aos vários contratempos e por já existir o ICMBio, não foi possível realizar um outro estudo socioambiental em Ipojuca. Mas, como os pescadores de Ipojuca possuíam características parecidas com os pescadores de Barra de Sirinhaém, não haveria um grande acréscimo de informações ao estudo já realizado: “A gente entrou em contato com a colônia de pescadores de Porto de Galinhas, que a gente já tinha feito contato e pediu que fosse agendada uma reunião, antes ainda da oitiva, já em 2009 e antes da consulta publica, pra que a gente entrasse em contato com esse pessoal de Serrambi que a gente não tinha tido até porque a decisão de incluir Ipojuca surgiu durante a realização do estudo ambiental, então o socioeconômico realmente foi focado na área de Sirinhaém. Mas a gente logo viu que não tinha muita diferença entre o pescador de Barra de Sirinhaém e o pescador de Serrambi (Luiz Otávio Corrêa, analista do IBAMA - Entrevista ao autor em 29/10/10). Mas, alguns fatos dificultaram a realização da reunião do IBAMA em Ipojuca, pois algumas autuações aos pescadores locais tinham sido feitas recentemente por uma outra equipe de fiscalização do IBAMA: “Por causa das invasões de mangue lá em Serrambi, um problema serio, em 2009 o IBAMA tinha feito uma grande operação lá, foram mais de 200 famílias autuadas porque estavam morando realmente dentro do mangue, casa construída lá dentro e foi justamente nas vésperas que a gente foi fazer esse trabalho em Serrambi. Então quando a gente chegou lá... até a reunião seria na associação de moradores de Serrambi, e como o presidente da associação soube que era uma reunião com o IBAMA, ele nem deixou a gente entrar lá, “porque se vocês entrarem aqui vão achar que fui eu que fiz a denuncia das invasões, melhor não fazer pra não dar problema” e aí a gente foi ate para a casa de um morador lá de Serrambi e a reunião foi feita lá no terraço com alguns pescadores de lá. Cerca de 15 a 20 pescadores que faziam parte da colônia, que é a colônia de Porto de Galinhas e o pessoal de Serrambi faz parte como uma única colônia. Mas realmente nessa reunião tinha muita gente de barco de pesca, mas o pessoal que pesca no mangue de Serrambi justamente foram os que foram autuados, são os que estão morando lá dentro, então esses ficaram até com medo... que acharam que era uma reunião pra pegar nome pra tirar eles de lá”. (Luiz Otávio Corrêa, analista do IBAMA - Entrevista ao autor em 29/10/10). 61
  • 62.
    O estudo socioambientalfoi finalizado em janeiro de 2008 pelo IBAMA e para a realização do estudo ambiental foi contratada uma consultoria. Os dois estudos foram enviados à Brasília (DIUSP-ICMBio) na metade do ano de 2008, já com o mapa e o memorial descritivo da área. Os estudos foram aprovados em Brasília e o próximo passo seria então marcar a consulta pública. “A data foi definida (a data da oitiva) e aí ate falamos: vai ter dois ônibus saindo um de Porto de Galinhas e um de Serrambi, justamente pra que esse pessoal esteja participando também da consulta publica. Como a reunião tava marcada pra Sirinhaém então a gente tinha que ter essa responsabilidade de estar garantindo o transporte pra esse pessoal estar participando do processo lá. E aí a audiência publica foi numa sexta e na quinta feira de manhã foi feita a oitiva lá em Serrambi, lá a gente apresentou a proposta da criação da unidade pra eles, tiramos as dúvidas que eles tinham e lembramos que no dia seguinte iam ter os ônibus levando o pessoal. Foram três ônibus, como a consulta publica foi na Barra de Sirinhaém: um saindo do centro de Sirinhaém até a Barra, um outro saindo de Serrambi ate a Barra e um outro saindo de Porto de Galinhas, entrando lá em Nossa Senhora do Ó e também indo pra lá e alem disso uma Kombi do povoado de Santo Amaro lá em Sirinhaém pra também participar, porque a gente tem algumas famílias de ex-moradores das ilhas que moram hoje em Santo Amaro ou pescadores de Santo Amaro que utilizam aquela área, então outra coisa que a gente tem que levar em conta, alem da infraestrutura do local, onde vai ser realizada a consulta, também garantir o transporte pra comunidade tradicional estar participando”. (Luiz Otávio Corrêa, analista do IBAMA - Entrevista ao autor em 29/10/10). A consulta publica ocorreu em 21 de agosto de 2009, aproximadamente um ano após o processo ter sido enviado à Brasília para ser analisado pela DIUSP (diretoria de uso sustentável e populações tradicionais) do ICMBio. Inicialmente a data da consulta pública era 15 de junho, mas a pedido do Governo do Estado que alegou não ter sido consultado, a data foi adiada e remarcada para agosto após a Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente (SECTMA) ter submetido à votação no Conselho Estadual de Meio Ambiente (CONSEMA) de uma moção de repúdio ao processo de 62
  • 63.
    criação da Resex(Apendices). E no dia da consulta pública, apesar dos muitos entraves9, a maioria da população presente se colocou a favor da criação da Resex. Atualmente o processo para a criação da Resex Sirinhaém-Ipojuca que possui 2.649,13 hectares de área, encontra-se totalmente finalizado e a Resex aguarda tão somente o seu Decreto para ser definitivamente implantada e dar prosseguimento aos demais procedimentos. Este trabalho foi escrito mais de um ano depois da realização da audiência pública. Segundo técnicos do ICMBio, a proposta de criação da reserva, neste momento, já foi encaminhada à Casa Civil da Presidência da República, aguardando aprovação. No ano de 2010 nenhuma nova Reserva Extrativista foi criada no Brasil, apesar de solicitações surgirem de todas as regiões do Brasil. Um motivo para isto é que a Casa Civil da Presidência da República passou a adotar como prática consultar as Casas Civis dos estados sobre a criação de unidades de conservação ambiental federais. Os governos estaduais, em geral mais preocupados com o desenvolvimento industrial que com as populações tradicionais, tem se posicionado contrário à criação de Resex. No caso de Pernambuco, o Governo Estadual tem se posicionado exatamente desta forma, tanto em relação à Resex Acaú-Goiana, quanto à Resex de Sirinhaém. A estratégia do Governo Estadual para inviabilizar a Resex tem sido a criação e implantação de Áreas de Proteção Ambientais estaduais, que não tem como principais beneficiários os pescadores artesanais. O órgão ambiental estadual (CPRH), tentou dar início no segundo semestre de 2010 ao processo de implantação da APA de Sirinhaém, como estratégia de desmobilizar a criação da Resex. Os representantes dos pescadores reuniram-se e decidiram não comparecer à reunião marcada pela CPRH, pois estavam interessados no andamento da Resex. No mesmo período, o Governo do Estado convidou também o ICMBio para um debate sobre se as Resex solicitadas deveriam ser federais ou estaduais. Segundo a representante da superintendência regional do ICMBio, Marisanta Nóbrega informou ao pesquisador Pedro Silveira, o ICMBio recusou-se a continuar tal debate pelo fato de os pescadores, solicitantes e principais beneficiários da Resex, não terem sido chamados a participar desta discussão. 9 A Prefeitura de Sirinhaém contratou ônibus trazendo vários pescadores com faixas que estavam contra a Resex, mas muitos nem sequer sabiam sobre o que se tratava. 63
  • 64.
    4.5. Pontos devista “É pelo fato de uma ideologia ser dominante que se torna vulnerável. Paradoxalmente, aquilo que é objeto de idealização é o que mais rapidamente pode se esfumar, uma vez que é simulacro de um certo desejo coletivo idealizado, mas permanentemente alimentado, espécie de teatro de sombra que simula a realidade” (Floriani, 2000, pg.36) Existe em Sirinhaém a tentativa de desarticular a luta pela implantação da Resex através do discurso de que tal solicitação não representa o desejo da comunidade tradicional. No entanto, observa-se que os pescadores já vinham sofrendo com a perda dos recursos pesqueiros há bastante tempo e os ex-moradores das ilhas eram os primeiros a terem contato com a poluição oriunda das usinas da região. Percebendo que de nada adiantava denunciar tal situação, os pescadores reconheceram na proposta da Resex uma alternativa de preservação ambiental e de estarem construindo um destino diferente do já traçado para essa população. No relatório final dos estudos, o IBAMA relata que “a atividade pesqueira decaiu muito entre o ex-moradores das ilhas, que agora tem que andar cerca de uma hora e meia para poder ter acesso ao mangue. Diz que à primeira vista, o retorno das famílias para a região das ilhas, com a oferta de condições básicas de infra-estrutura, seria a medida mais apropriada para proporcionar o resgate do estilo de vida ao qual estavam acostumados, além de propiciar os benefícios sociais e econômicos aos quais tinham acesso. Contudo, se estudos técnicos concluírem que a ocupação humana das ilhas é incompatível com a sustentabilidade ambiental sugere-se discutir o assentamento dessas famílias em áreas mais próximas do estuário e espaço disponível para a realização de atividades complementares, praticadas tradicionalmente pelos ex- moradores das ilhas”. Há ainda no referido estudo, o relato de que “a crise atual vivida pelos ex-moradores das ilhas e demais usuários do estuário do rio Sirinhaém é produto de intervenções equivocadas implantadas na região e de um modelo de conservação ambiental que excluiu a comunidade usuária dos recursos naturais do estuário da tomada de decisões e que não atua para o ordenamento da atividade pesqueira, justificando dessa forma, a criação de uma Unidade de Uso Sustentável da categoria Reserva Extrativista para a área como forma do poder público contribuir para a gestão compartilhada com os reais usuários desses espaços protegidos” (IBAMA, 2008 p. 129). 64
  • 65.
    Além das dificuldadesinerentes ao processo de criação da Resex, há ainda projetos governamentais na área de pesca (compra de barcos e reconstrução do prédio da colônia) que são usados como “moeda de troca” para adquirir apoio dos pescadores contra a Resex, segundo relata Severino Santos da CPP. As diversas estratégias usadas na tentativa de desarticular a lutas dos pescadores artesanais têm levado a opiniões distintas entre estes: “Eu acredito que uma Resex já implementada em nosso município, a gente vai poder ter o sonho de acabar com a questão da poluição do rio Sirinhaém através das usinas de cana de açúcar, a partir daí a gente vai ter uma maior fiscalização, vai ter uma lei na realidade federal que vai impedir que isso aconteça. É uma das coisas que mais mexe com pescadores, a comunidade é essas usinas, semana passada começou a jogar o vinhoto, é muito peixe morto, muito mesmo” (F.V.S. Pescador de Barra de Sirinhaém e Presidente da Associação de Pescadores de Sirinhaém – Entrevista ao autor em 09/10/10). “Eles (Governo Federal) podia criar, agora joga pra cima de nós, pra nós brigar com usineiro, com o governo estadual... não era pra nós brigar com os dois... A gente pequeno pra lutar com os grandes, coisa que o governo federal tem o poder de fazer.... (J.F.S. Pescador da Colônia de Barra de Sirinhaém – Entrevista ao autor em 10/10/10). Eu acho que a criação ia trazer beneficio, o principal de todos é que não ia ser jogado mais esse vinhoto no rio, aí é a chave, porque não jogando esse vinhoto no rio, o rio ia se recuperar, ia ter mais peixe, porque o manguezal é o berçário... vem peixe do mar reproduzir aqui no estuário, então ele ia se reproduzir ia ter mais peixe, aos poucos ia se recuperando. O maior impacto que a gente ia ter com Resex ia ser com os caranguejeiros, mas com as pescadoras mesmo não ia ter muito impacto porque ela não veve muito pescando aqui, elas já pescam fora, a gente não ia ter muito impacto, o principal era os caranguejeiros, mas sendo implantada a Resex e sem poder pegar o caranguejo nesse período aí a gente ia correr atrás de um seguro pra eles sobreviver até enquanto pudesse pescar. (A. M. C. Pescador da Colônia de Barra de Sirinhaém – Entrevista ao autor em 08/10/10). “Eu creio verdadeiramente que não é viável, porque o que acontece é isso... A gente já preservamos a própria área, os 65
  • 66.
    próprios pescadores preserva.Aquilo que é cuidado pelo próprio pescador, ele sabe zelar do que é dele, mas quando passa à uma administração vindo de cima ele não tá sabendo o que estão fazendo. De pesca eu entendo, de meio ambiente eu entendo, nasci na pesca... Desde os 7 anos que saía pra pescar com meu pai. A gente já trabalha em parceria com a CPRH, com o IBAMA e com as empresas da região, então pra que mais o ICMBio? Se Sirinhaém tem uma riqueza dessas de mangue, iam interditar. Então essa área daqui até lá em cima ia, ninguém poderia pescar mais. Ia ser tudo desocupado. Nem todo mundo que pesca ia poder trabalhar... Hoje a gente tem 20% dos pescadores de Santo Amaro na Associação e 80% não são sócios. Então quando passa a ser uma área extrativista, só esses 20% passam a ter direito, os outros tem que sair. O que seria desse povo? Eles não iam poder ir para o mangue. Ia ter um estatuto, com aquela quantidade de pessoas que pode pescar e desfrutar daquilo ali e as pessoas que não podem entrar mais lá dentro. Não é essa reserva que vai resolver a poluição das industrias, se nenhum órgão nunca resolveu... Só a área extrativista vai resolver isso aí? Não, o próprio governo do estado deveria aplicar as leis nessas usinas pra ser multada. A realidade de Sirinhaem é essa...” (Sebastião Gaspar, Pescador de Santo Amaro e Presidente da Associação Mangue Verde – Entrevista ao autor em 28/12/10). Porem, em geral, ainda falta uma maior participação e mobilização dos pescadores do próprio município de Sirinhaém, como também de Ipojuca que tiveram parte de seu município incluído na área da Resex. Mas, como esses pescadores de Ipojuca atualmente estão mais envolvidos no setor turístico, devido à própria escassez dos recursos naturais, eles não se vêem motivados a estar fortemente engajados nessa luta. A colônia de pescadores de Barra de Sirinhaém congrega apenas cerca de 600 pescadores de um total de aproximadamente 3.700 pescadores que existem no distrito, e apenas cerca de 50 pessoas possuem o habito de participar das reuniões da colônia. A estrutura do prédio da colônia está abandonada, necessitando de uma grande reforma. O atual presidente da colônia foi eleito há pouco tempo, após um longo período (20 anos) de administração por um único pescador, que saiu da diretoria através de mandato de segurança devido aos desmandos realizados. A colônia então está em processo de reogarnização. Barra conta também, com uma associação de pescadores que foi criada 66
  • 67.
    na antiga gestãoda colônia como uma dissidência dos pescadores com o presidente da mesma (Governo do Estado de PE e Instituto Oceanário, 2009). Segundo depoimento de Severino Santos do CPP, a comunidade beneficiada pela criação da Resex ainda não está amplamente organizada para estar lutando pela Resex pois nem todos os pescadores são associados à colônia local e por isso não participam das reuniões e ficam então desinformados sobre tais questões. Contudo Severino acredita que este não deveria ser um grande empecilho para a mobilização, já que existem diversas entidades que atuam na região e então, mesmo que nem todos sejam associados à colônia, todos participam de algum modo das demais entidades (igrejas diversas, associações diversas, etc). Mas, como essas entidades não dialogam entre si, fica difícil um trabalho em conjunto com toda a comunidade beneficiada pela criação da Resex. Durante a pesquisa de campo pude conversar com várias pessoas e elencar algumas posições entre os diferentes atores sociais envolvidos nesse conflito: Os representantes da Usina, ao se oporem a perder uma parte da área aforada por eles (1.800 hectares de mangue), alegam que os ex-moradores das ilhas depredavam tal ecossistema e que hoje essa população pode viver em melhores condições de vida na zona urbana da cidade. E que a Resex é desnecessária, pois a referida área já é uma área de preservação permanente. Para a Usina, torna-se conveniente retirar os moradores de seus domínios em nome de uma perspectiva preservacionista de caráter questionável. “E nós quando chegamos aqui e sobrevoamos esse mangue de helicóptero era de fazer pena. Eram 52 ou 53 famílias habitando dentro desse mangue, destruindo a vegetação. . E a gente foi mal visto em função de que a gente tentou fazer um trabalho de conscientização do pessoal, pra que tirasse esse pessoal do mangue pra gente recuperar o mangue. Reflorestamos, e pra gente era uma atividade nova, que nos custou dinheiro. Teve um custo de três a quatro vezes mais alto do que nosso reflorestamento convencional. E nós não medimos esforço pra fazer essa recuperação. E o mangue, alem do estrago que estava sendo feito lá dentro, a condição de vida desse pessoal era... eles moravam em condições altamente precária, tinham a residência de taipa, sem nenhum saneamento, onde todas as necessidades fisiológicas eram feitas 67
  • 68.
    nas portas desuas casas. Então era uma condição terrível, inclusive na própria cheia que ocorreu, eles ficaram totalmente ilhados lá dentro, eles iriam morrer se não fosse o salvamento da usina Trapiche. Que a usina botou lancha e salvou todo mundo, todo o pessoal lá dentro. Então a gente conseguiu conscientizar esse pessoal da sua retirada daquela situação precária, pra ter uma situação de vida melhor fora do mangue. O ato de pesca, aqueles que queriam retornar, retornavam e agente não poderia fazer nada e algumas dessas pessoas que moravam dentro do mangue passou a ser nossos colaboradores. Quanto a minha opinião a ser uma RESEX, sou totalmente contrário, até porque conseguimos a saída do pessoal que habitava o mangue, com grandes destruições, estamos em fase de recuperação, já dando outra performance ao ambiente, então, voltaria de novo a mesma situação de exploração dentro dessa área. Acho também, como fosse dois pesos e duas medidas, fazer uma Reserva Extrativista em uma área de APP, é realmente sem explicação para um órgão ambiental federal”. (Cauby Figueiredo, Representante da usina Trapiche – Entrevista ao autor em 28/12/10). E atualmente, essa população que habitava nas ilhas, apesar de ter energia elétrica em suas casas, segundo me relataram, não possui uma “vida melhor fora do mangue”. O “ato de pesca” não é uma opção, é uma necessidade para aqueles que sempre foram excluídos dos programas do governo e de outras oportunidades de vida. Além de ser também, para a grande maioria, um modo de vida, que resiste a ser usurpado (“aqueles que queriam retornar, retornavam”) pela vontade daqueles que possuem outra maneira de relacionar-se com o ambiente. Os representantes da prefeitura local alegam que a pesca do município é feita no mar aberto e que não se faz necessário estar criando uma Resex para proteger um ecossistema já legalmente preservado e que é pouco utilizado pela população local. E também acreditam que os ex-moradores das ilhas possuem uma melhor qualidade de vida na área urbana da cidade. “Quando assumimos a prefeitura, em 2005, tivemos a oportunidade de constatar as condições sub-humanas em que viviam as famílias que ainda permaneciam nas ilhas, sem energia elétrica, água encanada e saneamento básico. Não havia a menor condição de eles permanecerem no local, por isso, concordamos com o processo de negociação entre a usina e os moradores, para 68
  • 69.
    a desocupação dasilhas. Na opinião do entrevistado, o estuário é utilizado para a subsistência de algumas famílias, por meio da pesca artesanal, praticada em pequenas embarcações”. (Entrevistado: Amaro Ricardo – Secretário de Agricultura e pesca, Indústria, Comércio e Controle Ambiental - Prefeitura de Sirinhaém, entrevista em 31/03/2008; In: IBAMA, 2008 p. 118. O atual Secretário de Agricultura, Indústria, Comércio e Controle Ambiental de Sirinhaém, Luiz de França da Silva Filho, em entrevista dada à Beatriz Mesquita (Pesquisadora da FUNDAJ) em 17/11/10, também confirmou a posição contraria da prefeitura quanto à criação da Resex pois, a pesca em Sirinhaém “é toda feita no mar”. Disse que “a usina Trapiche possui um Dep. De Meio Ambiente e que os filhos dos pescadores não querem mais pescar, querem trabalhar no turismo e em Suape. E que as pessoas envolvidas no processo de solicitação da Resex não representam as comunidades tradicionais”. Os órgãos contrários à implantação da Resex, ao utilizarem o discurso de que a população foi induzida a solicitar a reserva extrativista, culpam as entidades que apóiam os pescadores de estar articulando essas pessoas humildes para não aceitar as decisões impostas por eles e defendidas como sendo a melhor solução para todos. Verificamos, no entanto, que essas entidades buscam esclarecer aos pescadores sobre seus direitos e tentam ajudá-los a garantir uma escolha mais democrática nas decisões sobre os problemas existentes na comunidade. Então qual seria o discurso mais legitimo? Quem tenta impor um modo de vida defendido como “ideal” ou quem tenta saber quais são os desejos dessas pessoas e a partir daí lhes mostram que existem outras opções de resistência? Pois o direito à informação e à participação nas decisões governamentais de políticas públicas é um principio democrático, onde tais decisões devem ser portanto, discutidas em conjunto. E assim observa-se esse mesmo discurso no órgão de meio ambiente estadual sobre a Resex: “A pesca é um complemento de renda de uma família, não é a renda única. São “pescadores parciais”, não é um pescador tradicional do tempo de Caymmi. Está havendo uma distorção. Não tem mais sentido hoje estar criando reserva extrativista de estuário que não comporta mais a quantidade de gente que vai pegar um suplemento de alimentação, um complemento de renda. Não é a única renda. Existe uma constatação da CPRH desde 98 69
  • 70.
    que estavam morandonessas ilhas perto de 57 famílias, mas a maioria não tinha condições de habitação adequada. As ilhas são estuarinas. Então a salinidade era máxima. A insalubridade de vida era grande. No começo dessa discussão houve uma tendência a aumentar o conflito através de denúncias da usina que essas 57 famílias estavam degradando o meio ambiente. No atendimento a essa denúncia a CPRH foi fazer um relatório na maioria das ilhas. Depois do relatório, a CPRH se posicionou e disse que não eram os moradores das 57 famílias que estavam degradando o estuário. O impacto ambiental de convivência deles com o estuário eram mínimos e que os mesmos poderiam ser mantidos no local. Agora, considerando as condições de habitação, era melhor que eles saíssem dessas ilhas e fossem para junto da área urbana e fossem para perto dos serviços sociais, se saúde, etc. Então foi a nova estratégia que a usina utilizou. Negociou com a maioria das famílias, deu casa ou arrendou. Eles pescavam. Era um misto entre agricultura entre agricultura (coletores do estuário), pesca interna. Então a pesca, na sua maioria era um complemento. A maioria tinha uma relação de trabalho com a usina, a prefeitura... Foi um benefício a retirada do povo daquelas ilhas. O que está havendo agora, são grupos de interesse, que não são pescadores que querem criar a Reserva Extrativista à força. Aquele estuário, hoje, não tem como sustentar a quantidade de famílias que moram em Barra de Sirinhaém e Sirinhaém e que são coletoras...” (Assis Lacerda Lins, técnico da CPRH, entrevista ao Instituto Oceanário em 15/04/09; In: Governo de Pernambuco e Instituto Oceanário, 2009). Quanto às distintas posições dos pescadores, pude observar que elas são fruto da pressão municipal e dos empreendimentos vizinhos, bem como das grandes dificuldades enfrentadas pelo órgão ambiental federal durante o início do processo de criação da Resex. “Os pescadores apóiam, agora tem o seguinte, no inicio tivemos dificuldade por que a prefeitura se envolveu nessa questão defendendo os interesses da usina. Um lugar pequeno como o nosso a questão política é muito forte, entendeu, quem ta no poder hoje praticamente domina ou manipula as ideias das pessoas. Ai pra gente combater isso... mas a gente conseguiu devagarinho. O prefeito joga os cachorrinhos dele na rua fazendo a cabeça do povo pescador e deu muito trabalho da gente conversar mas a gente conseguiu. Hoje a maioria ta de acordo, tão apoiando”. (Flavio Vanderlei da Silva, Pescador e Presidente da Associação dos Pescadores de Sirinhaém – Entrevista ao autor em 09/10/10). 70
  • 71.
    O IBAMA começouo estudo para a criação da Resex pela área solicitada pela CPT (nas ilhas), pois essa entidade via na criação da reserva um meio de dirimir a grande injustiça sofrida por aquela população. A CPT possui uma antiga luta na defesa dos direitos humanos e percebendo o modo de vida de intrínseca relação com o ambiente que possuía os moradores das ilhas, se viram motivados a estar tentando ajudar a garantir os direitos dessa população tradicional e os recursos naturais presentes nesse ecossistema através da criação dessa UC. Percebendo que não adiantava apenas garantir a proteção de metade do estuário (a região das ilhas), os técnicos do IBAMA propuseram ampliar a área de abrangência da Resex para proteger toda a área dos recursos naturais que são fonte de subsistência não só dos ilhéus, como também dos demais pescadores de Sirinhaem que praticam a pesca em alto mar e também no mangue. Então, o IBAMA começou a fazer reuniões junto aos pescadores de Barra de Sirinhaém para explicar sobre o projeto de criação da Resex, pois esses pescadores já sofriam com a poluição e a conseqüente diminuição dos recursos pesqueiros, mas ainda não haviam se articulado para tentar discutir um meio de solucionar esses problemas. “Eles (IBAMA) no inicio da coisa foi só com o pessoal das ilhas, porque eles viram a luta, a briga com o pessoal das ilhas, a expulsão do pessoal. Aí iniciaram por eles e depois veio mostrar a importância do que vinha ser a Resex pra gente aqui” (Ronaldo J. Santana; Pescador e Presidente da Colônia de Barra de Sirinhaém – Entrevista ao autor em 10/10/10). Contudo, no início do processo dos estudos para a criação da Resex, como o IBAMA foi dividido para ser criado o ICMBio, que seria então o órgão responsável pelas Unidades de Conservação, muitas dificuldades foram enfrentadas para dar prosseguimento aos trabalhos. E mesmo já não tendo mais a competência e nem o recursos necessários para realizar tais estudos, os técnicos do IBAMA se comprometeram a realizar esse trabalho. Pois na visão dos técnicos do IBAMA, se eles deixassem para que tal estudo fosse feito pelo ICMBio certamente seria ainda mais complicado, já que o órgão recém criado não possuía as mínimas condições de funcionamento e nem funcionários para realizar tal estudo. 71
  • 72.
    E assim posteriormente,com a estruturação do ICMBio, os procedimentos para a criação da Resex poderiam ser retomados. Foi nesse processo de transição entre IBAMA e ICMBio que os estudos da Resex foram feitos. Hoje as condições de funcionamento do ICMBio ainda deixam bastante a desejar, pois criado às pressas, esse órgão ainda possui um numero insuficiente de funcionários para atender suas demandas. Porém, todas as dificuldades do IBAMA para a criação da Resex não são percebidas por alguns pescadores que foram incluídos posteriormente nas discussões para a criação da Resex. Mas, observo que essa posição de desconfiança é apenas uma reação normal a tudo que é novo. Pois o ser humano tende a acostumar-se com uma ideia ou informação aos poucos. E assim, para alguns pescadores de Barra de Sirinhaém, essa “história” de Resex ainda não foi bem compreendida. “Eu só fiquei sabendo da proposta (da Resex) quando entrei na colônia, em outubro de 2007. A gente pensava que ia ser só os manguezais mesmo (nas ilhas). Eu não imaginava que ia pegar até a área de Porto de Galinha. A gente começou agora a conversar com Jorge (Presidente da Colonia de Ipojuca), na audiência publica. Ate à audiência a gente não tinha se entrosado com Jorge, nesse processo não. E a comunidade daqui também não tava sabendo não. Por isso até hoje a gente fica assim com uma mosca atrás da orelha, porque a Resex não veio... não foi de baixo pra cima. Veio de cima pra baixo. Porque quando a gente chegou aqui caiu aquilo de cima pra baixo, a gente ficou voando, um dizia uma coisa, outro dizia outra. Uns dizia que era bom, outros dizia que era ruim e lá vai e o IBAMA vinha fazer reunião, veio Bill, tudinho aí a preocupação é essa porque não é um negocio que a gente... entendeu? Ronaldo tinha medo de uma revolta dos pescadores, porque se for implantada a Resex, os pescadores do mangue, os pescadores de caranguejo ia ser limitado, ia ter que ter a quantidade de caranguejo, o tamanho, se ia ser permitido pescar de laço ou não e tudo isso ia se resolver depois da Resex for criada. Até hoje a preocupação dele é essa, se os pescadores vão ter que parar de pescar pra os caranguejo se reproduzir, eles vão viver de que? (A. M. C. Pescador da Colônia de Barra de Sirinhaém – Entrevista ao autor em 08/10/10). Os pescadores possuem uma grande sabedoria sobre o meio ambiente, construída ao longo dos anos. E então, para alguns, a presença de pessoas “de fora” para esclarecer como proteger a natureza nem sempre é vista com bons olhos. Assim, diante 72
  • 73.
    das circunstancias, vejoque talvez, se o IBAMA não tivesse se dividido, mas permanecido trabalhando pela implantação da UC lá em Sirinhaém, hoje a confiança no órgão ambiental federal poderia seria maior. Até porque esses pescadores são alvo de constantes iniciativas do órgão ambiental estadual (CPRH) na tentativa de fazê-los aceitar o projeto da APA de Sirinhaém. Mas, como o trabalho com as UC passou a ser do ICMBio, e este órgão ainda não conseguiu se estruturar suficientemente para estar dando continuidade ao processo de apoio para a criação da Resex, muitos pescadores ainda não estão bem esclarecidos sobre a Resex. Pois é necessário um certo tempo para que novos conceitos passem a fazer parte da vida e mentalidade desses pescadores que antes nunca tinham ouvido falar no “conceito Resex”. É necessário um trabalho em conjunto entre os pescadores e outras instituições na busca de apoio, esclarecimento e articulações de novas parcerias na luta por seus direitos. Um bom exemplo de trabalho em conjunto foi realizado durante o Seminário de Pesca Artesanal organizado pela Fundação Joaquim Nabuco em agosto de 2010, onde alguns pescadores locais que participaram puderam trocar experiências com pescadores de todo o Brasil e obter um maior esclarecimento sobre as UCs. “Eu vejo a diferença entre uma APA e a Resex porque a APA ta aí implantada há muito tempo e nada feito, vive parada. Então eu acho que eles tão correndo agora pra implantar essa APA pra abafar a Resex, depois que abafar a Resex, a APA vai ficar na mesma coisa, porque a usina é o braço direito da prefeitura. Então o que ela quer é isso é abafar a Resex pra continuar do mesmo jeito que ta, essa APA que eles tão querendo implantar não, que já ta implantada, que querem colocar ela pra funcionar só pra abafar a Resex, mas depois que abafar a Resex ela vai ficar do mesmo jeito que ta. E a gente quer uma Resex federal por que? Porque federal não é a prefeitura que vai mandar e se for uma reserva estadual vai ficar na mão da prefeitura, vai ficar a mesma coisa. A usina vai mandar e desmandar e a prefeitura não vai fazer nada”. (A. M. C. Pescador da Colônia de Barra de Sirinhaém – Entrevista ao autor em 08/10/10). Atualmente já existe uma maior articulação entre as diversas entidades que dão suporte às lutas dos pescadores locais (CPT, CPP, Colônias, Associações). Mas, essa união e mobilização devem ser ainda mais fortes para que projetos em conjunto possam 73
  • 74.
    estar oferecendo ummaior esclarecimento sobre o que é uma Resex a toda comunidade pesqueira de Sirinhaém no intuito de que as decisões possam ser amplamente discutidas, com o máximo de pessoas possíveis e não haja nenhum mal entendido na construção de um futuro comum a todos. “Não depende só unir as colônias, unir só a gente. Tem que unir o povo todo. Aqui a gente luta pela Resex bem dizer a colônia só, sem o povo. O povo não se incomoda de nada. Pra você ver o povo se incomoda de vim pra uma reunião uma vez no mês. Vem aquele pouquinho de gente. Falta interesse do povo. Porque o povo também não vem? Porque ficam colocando coisa na cabeça do povo. Não, porque a Resex vai ser ruim, porque Suape tá crescendo e Porto não agüenta mais tanto turista e o povo vai correr pra cá e chegando aqui não vai poder porque vai ser implantada a Resex. E aí ficam botando isso na cabeça do povo e então o povo não se incomoda”. (A. M. C. Pescador da Colônia de Barra de Sirinhaém – Entrevista ao autor em 08/10/10). A organização e união em favor de um benefício comum faze toda a diferença nessas situações de reivindicações territoriais. Os exemplos bem sucedidos de mobilizações são inúmeros (Cunha e M.Almeida, 2001; A.Almeida, 2008; Valencio, 2010). Em todas as situações de conflitos é preciso união e ampla mobilização para que existam informações disponíveis sobre os riscos e impactos ambientais na busca de alternativas democráticas de justiça ambiental. Exemplos de resistência, desenvolvidas através de redes onde articularam-se entidades diversas, podem ser observadas nos movimentos do norte do estado do Rio de Janeiro e do sul da Bahia (Acselrad et al., 2009). 4.6. Resex: um benefício para todos ou um entrave ao desenvolvimento? “O modelo produtivista da sociedade – que concebe a produção e o consumo como um fim em si – tende a internalizar a entropia, pois concebe a transformação e o consumo da matéria como algo em si e de maneira ilimitada: a contingência transforma-se em necessidade e a necessidade em contingência; o supérfluo toma o lugar da necessidade e vice-versa” (Floriani, 2000). 74
  • 75.
    Há em Sirinhaémuma busca por legitimar as ações do governo e dos empreendimentos locais que reproduzem o modelo hegemônico de desenvolvimento da sociedade que procura expandir o mercado através da aniquilação de formas sociais não-capitalistas de apropriação da natureza (Acselrad et al., 2009) e que até há pouco tempo eram invisíveis à sociedade. Segundo Santos (2009), os atores sociais se utilizam de discursos que são os instrumentos de suas ações. E então, vê-se configurar no estudo de caso em questão, alguns discursos que são utilizados como estratégias para desarticular a luta dos pescadores, são eles: a ideia depreciativa das formas de uso comum da terra; a defesa de um interesse “global” de conservação ambiental que se contrapõe a ideia da “poluição legitima”; e a naturalização das desigualdades ambientais. O discurso depreciativo da pesca artesanal é bastante comum nas falas dos atores sociais contrários a criação da Resex: “Às vezes acontece de passar e ver peixe morto que obrigatoriamente não é de uma poluição. Existe muito o uso por pescadores de carrapaticida, inseticidas pra que haja a mortalidade de peixe e então às vezes tem peixe morto e a gente não vê a poluição de algum resíduo industrial, aí a gente chega à conclusão, como a gente já viu, de alguns pescadores com barco jogando esse carrapaticida no rio”. “Na região das ilhas: o pessoal destruía a vegetação de mangue plantando lavoura branca, com fruteiras dentro do mangue, jaca, manga, macaxeira, utilizando madeira pra fazer carvão. Isso foi um choque grande ambiental pra gente”. (Cauby Figueiredo, Representante da usina Trapiche – Entrevista ao autor em 28/12/10). No estudo Socioeconômico realizado pelo IBAMA (2008) o poder público municipal afirma que o grande problema ambiental do estuário do rio Sirinhaém é a extração irregular de madeira que era realizada pelos ex-moradores das ilhas e que “Nem a prefeitura e nem o IBAMA tinham ou têm condições de fiscalizar de forma efetiva a região, apenas a usina” (IBAMA, 2008, p. 119). E assim tentam repassar o discurso de que o pescador, por ter a necessidade de utilizar os recursos naturais, estaria sendo uma barreira aos processos “globais” de conservação ambiental. Onde os órgãos estatais e empresariais é que seriam os 75
  • 76.
    verdadeiros defensores dosinteresses “globais’ de conservação da biodiversidade (Silveira, 2009b). De acordo com Valencio (2010), a pesca artesanal constitui-se em uma identidade territorializada pois não se trata apenas de uma atividade produtiva, mas é também um modo de vida. Contudo, os pescadores de Sirinhaém têm assistido a uma apropriação de seus territórios em nome da “defesa” do meio ambiente. Nas palavras do representante da Usina Trapiche, os pescadores que moravam nas ilhas estavam destruindo o manguezal desmatando-o e hoje, graças às ações da Usina Trapiche o manguezal está recuperado. O governo municipal de Sirinhaém também culpabiliza os ex-moradores da ilhas pelo desmatamento da área. Mas, antigos moradores relatam que eram pagos pelos antigos donos da usina para produzir carvão para abastecer as caldeiras. Porém ao observar a área do estuário de Sirinhaém é fácil comprovar que as regiões das ilhas, onde os pescadores moravam, sempre estiveram bem conservadas e os insipientes desmatamentos provocados pelos pescadores não comparam-se ao desmatamento outrora ocorrido na região com o avanço das plantações de cana que localizam-se bem próximas ao mangue. Para Acselrad (2004) os conflitos ambientais se constituem a partir de duas formas: pela desigual posse, uso e controle do meio ambiente e pela dimensão simbólica onde são estabelecidos distintos sentidos e projetos que pleiteiam por reconhecimento e legitimidade. Ao observar o discurso de proteção ambiental que vai de encontro à política ambiental internacional, percebe-se que a proteção de um interesse “global” é apenas uma estratégia para estar garantindo a perpetuação dos interesses de um projeto de desenvolvimento defendido como sendo a melhor alternativa para a sociedade (Silveira, 2009b). Segundo Zhouri e Oliveira (2010): “Essas assimetrias revelam a hegemonia de determinadas categorias do pensamento que pretendem construir o debate ambiental como global, universal e consensual, obscurecendo as relações de poder que, de fato, existem e promovem o 76
  • 77.
    deslocamento da políticapara a economia, do debate sobre direitos para o debate de interesses”. Há um esforço de relacionar pobreza a depredação ambiental evidenciando uma percepção discriminatória que desconsidera que os ricos são os principais responsáveis pela destruição do meio ambiente. E também desconsidera que as populações mais carentes são constantemente excluídas das políticas públicas que deveriam garantir uma melhor qualidade de vida e a proteção dos meios de subsistência destas (Silva, 2009). Essa tentativa de desqualificar os povos tradicionais em suas práticas é observada em diversos trabalhos (Silva, 2009; Zhouri e Oliveira, 2010; Valencio, 2010). É comum ainda a desqualificação do território através do discurso depreciativo aos saberes locais e pela valorização da gestão do território pelos atores sociais que representam a apropriação capitalista da natureza (Zhouri e Oliveira, 2010): “Trata-se de uma sociopatia na qual a aproximação se torna apropriação, fechando-se em estratégias absorvedoras, silenciando o Outro através de critérios contestáveis de verdade” Um exemplo bastante claro dessa desqualificação da pesca artesanal em Sirinhaém é o fato de que para a prefeitura local “a pesca não representa uma atividade econômica”, segundo depoimento do representante da prefeitura feito à Beatriz Mesquita (Pesquisadora da FUNDAJ) em 17/11/10. Mas, na realidade a pesca artesanal é uma atividade produtiva bastante importante na região, onde os pescadores representam cerca de 25% de toda a população do município: “Geral em Barra de Sirinhaém são 3700 pescadores, associados na colônia hoje são 576, só da Barra e incluindo Ao Ver o Mar também. Mas no município geral tem na faixa de 5600 a 6000 pescadores”. (Ronaldo José de Santana, 47 anos, Pescador e Presidente da Colônia Z-6, Barra de Sirinhaém – Entrevista ao autor em 10/10/10). 77
  • 78.
    Mas, paradoxalmente aodiscurso de “defesa do manguezal” existem discursos que disseminam a ideia da “poluição legitima” (Acselrad et al., 2009), ao defenderem projetos de expansão do capital que não possuem um verdadeiro compromisso com o ambiente social e natural circunvizinho, buscando apenas o lucro desenfreado. Pois o estuário de Sirinhaém é um alvo freqüente de poluição ambiental e tal fato é bastante comentado nas falas dos pescadores: “São umas quatro usinas tudo nesse rio. Ai o aratu ainda resiste mais porque quando a maré enche o aratu sobe, ele não vive dentro da água, na maré cheia ele vive trepado nos paus, quando a maré abaixa é que ele desce pra lama. O siri acabou-se, quando desce carga mesmo o siri não agüenta, ele sobe fica querendo subir nas croas, querendo sair da água. Ele nem consegue viver dentro nem fora da água, porque se ele ta dentro tem a poluição e se ele ta fora não consegue viver, aí pronto...” (A. M. C. Pescador da Colônia de Barra de Sirinhaém – Entrevista ao autor em 08/10/10). “agora (no verão) que começou a moagem e é quando a gente tem o impacto da usina, que é o verão todinho jogando vinhoto no rio. Já começou a moer. A água da torneira, da Compesa se você cheirar é uma fedentina só e a gente fica com a pele irritada, coçando. A água ta carga pura, chega trava na boca... amargando, a água da compesa é azeda do vinhoto” (T. S. Pescador da Colônia de Barra de Sirinhaém – Entrevista ao autor em 08/10/10). “Essa semana desceu uma carga, aí a gente vai pegar o quê? Vai pegar é nada, nada mesmo. Porque a carga que desceu matou peixe... época da moagem começa a soltar a calda e a gente não tem o que lucrar” (V. J. S. Pescador e ex-morador das ilhas – Entrevista ao autor em 09/10/10). “Antes tinha muito pescado, hoje tem muito pouco. As pescadoras de Aratu no verão sai em três kombi daqui pra Recife, pra pescar aratu lá. Três kombi por semana, duas vezes por semana. Na segunda, na quarta, na quinta. Aqui tem, mas é muito pouco, muito miudinho. Eu mesmo já pesquei muito fora daqui, já pesquei em Itapissuma, em Itamaracá, em Maria Farinha, Conceição, Abreu e lima, Rio formoso, Alagoas, Atapuz, Paraíba, Pitimbu. Tanto sai daqui a turma pra pegar aratu como sai a turma pra pegar caranguejo em alagoas. E peixe aqui no rio nem se fala. Hoje por 78
  • 79.
    muito pelejar aindavai ali e pega um peixinho pra comer, mas daqui a alguns anos não vai ter nem pra comer, porque já foi feita uma pesquisa aqui e o oxigênio do rio tava zero, eles disseram que não sabe como tinha peixe ali. Mas vai chegar um ponto que não vai ter nada nem pra contar historia” (A. M. C. Pescador da Colônia de Barra de Sirinhaém – Entrevista ao autor em 08/10/10). Apesar das constantes poluições ao estuário, nenhum programa consistente e continuo de monitoramento é feito para tentar encontrar os culpados, já que existem na região inúmeras usinas. E assim a prefeitura, segundo depoimentos dos pescadores locais, se coaduna com os interesses empresariais por entender que estes estão promovendo o desenvolvimento da região: “Hoje, a usina ainda promove a degradação ambiental, mas também existe a preocupação em se preservar a natureza” (Entrevistado: Amaro Ricardo – Secretário de Agricultura e pesca, Indústria, Comércio e Controle Ambiental - Prefeitura de Sirinhaém - Data: 31/03/2008) In: IBAMA, 2008 p. 119. O discurso da “poluição legitima” muitas vezes se fundamenta na ideia de que o livre mercado é a solução dos problemas ambientais, na “utopia” de que um bem estar será alcançado apenas pela ação das forças de mercado. Até porque o risco socioambiental atinge mais diretamente, na maioria das vezes, às populações mais carentes e que não possuem expressão política. E assim o capitalismo impõe-se como uma regra que aprisiona os indivíduos na “alternativa” de conviver com a destruição ambiental para poder obter uma promessa de emprego. Pois a globalização tem promovido o aumento dos empreendimentos que na busca do lucro a qualquer custo, utilizam a “chantagem locacional” nos seus investimentos (Acselrad et al., 2009). “Fazendo uso de sua enorme liberdade de se localizar e deslocalizar, as grandes corporações procuram, de um só golpe, desmontar o aparato regulatório social, urbano e ambiental, e enfraquecer as resistências dos movimentos sociais” (Acselrad et al., 2009). 79
  • 80.
    Os conflitos ambientaisao adquirirem dimensões simbólicas distintas, refletem, geralmente, a tentativa de deslegitimação das lutas dos pescadores que segundo Foucault (2001), é o processo de interdição ao discurso promovido pelas categorias dominantes da sociedade. Há um esforço em negar a existência das mobilizações locais na tentativa de tornar invisível o conflito (Zhouri & Oliveira, 2010). E uma estratégia bastante utilizada é a da naturalização das desigualdades ambientais, ou seja, todos estão igualmente sujeitos aos efeitos nocivos da poluição pois a crise ambiental é um fenômeno global (Acselrad et al., 2009). Segundo Silveira (2009b) os diferentes projetos de sociedade defendidos pelos distintos atores sociais dão origem a conflitos. Valencio (2010) afirma que tais conflitos muitas vezes são dissimulados, e relata a existência de três hipocrisias que fazem parte da dissimulação dos conflitos ambientais: “a ocultação da instrumentalidade da ciência aos interesses de grupos mais capitalizados que alimentam os laboratórios acadêmicos; a confiança das soluções de harmonia social conduzidas pelos winners da modernidade; e, por fim, a naturalização da assimetria de poder em que são colocados os povos tradicionais”. Percebe-se então um duvidoso discurso de proteção ambiental que possui uma visão contraria a criação da Resex por considerá-la um entrave ao desenvolvimento da região, ao mesmo tempo em que se colocam os pescadores artesanais como vítimas do seu destino, representantes do atraso e culpados pela degradação ambiental. Segundo Abramovay apud Acselrad et al (2010), as empresas passam por um processo de “ambientalização” a fim de tentar responder às aspirações sociais, mas que tal estratégia apenas é um meio de desarmar tais demandas. “Se você olhar tá tudo fechado, você dá uma volta hoje e o pessoal sabe da área ambiental, diz assim: o mangue da usina Trapiche é um dos mangues mais bem conservados, é um mangue que foi recuperado graças a usina Trapiche. Se não fosse a usina Trapiche esse mangue não estaria desse jeito. A gente tem um reflorestamento total na empresa de, em torno, mais ou menos de uns 400 ha e tem um plano de reflorestamento de 15 a 30 ha por ano. Todo ano a gente tá reflorestando de 15 a 30 ha, tudo de recurso próprio, de incentivo próprio e tudo de iniciativa própria” (Cauby Figueiredo, Representante da Usina Trapiche – Entrevista ao autor em 28/12/10). 80
  • 81.
    Esse processo de“ambientalização” é resultante da utilização da questão ambiental como instrumento para as distintas reivindicações. A interiorização do discurso ambiental se dá pela institucionalização dos conflitos, que adquirem uma nova fonte de legitimidade, argumentação e práticas (Lopes, 2006). As reivindicações das populações tradicionais surgem a partir do momento em que essas populações antes “invisíveis” passam a ter seus territórios cobiçados pela expansão do capital. Mas os pescadores não lutam por uma “fixidez dos lugares” (Zhouri e Oliveira, 2010) pois essas comunidades não estão voltadas ao passado, mas estão em permanente processo evolutivo buscando adaptar-se às mudanças, mas sem distanciar-se de seus valores culturais (Leroy, 2010). E assim, os agentes da modernidade, ao tentar livrar o povo do atraso, almejam “salvá-lo dele próprio” (Valencio, 2010). Segundo depoimento de frei Sinésio Araújo, da CPT, “a preocupação maior não está no fato dos pescadores voltarem ou não a morar nas ilhas, mas que eles possam gerir a área aonde há muito tempo eles teriam residido”. E assim os pescadores, ao defenderem um projeto alternativo frente à sujeição aos projetos hegemônicos do capital, buscam tão somente obter a capacidade de definir a própria existência e projetos futuros. Não estarão alheios ou imóveis diante das transformações sociais, apenas não reiteram os projetos impostos pelo Estado e pelos empreendimentos privados (Zhouri e Oliveira ,2010). Segundo o Diagnóstico Socioambiental do Litoral Sul (CPRH, 1999), o Rio Sirinhaém possui em sua bacia algumas cidades e indústrias de médio e grande porte, tais como: as fábricas Capri e Faco (em Ribeirão), a destilaria Amaraji (em Amaraji), as usinas Pedrosa (em Cortês), Estreliana (em Ribeirão), Cucaú (em Rio Formoso) e Trapiche (em Sirinhaém), por isso recebe uma carga elevada de efluentes (domésticos e industriais). Do mesmo modo que o governo defende a criação de oportunidades de empregos “para todos”, com a implantação dessas empresas multinacionais, que no fundo apenas possuem compromissos com seus lucros10, os pescadores também defendem seus direitos de terem um meio ambiente que possa garantir a perpetuação de um modo de vida escolhidos por eles como opção de trabalho ou vice-versa. 10 Como a fábrica da Philips que em vésperas de Natal desempregou 500 trabalhadores em PE na busca de mão de obra barata na China, depois de 43 anos de atividade na região (Notícia veiculada em 8/12/10 nos jornais em circulação). 81
  • 82.
    Segundo Ramalho (2004)o trabalho na pesca artesanal é algo intrínseco e subjetivo, é uma arte onde a produção adquire um aspecto material e imaterial, que tem um componente estético em sua razão de existência. Pois o belo está justamente na liberdade de observar o potencial da natureza e ter a habilidade necessária para viver do mar sem ser subordinado às únicas opções de trabalho existentes na região (Ramalho, 2010). Portanto, esses grupos sociais reivindicam do Estado a compreensão de que a questão ambiental não representa verdadeiramente um entrave ao desenvolvimento, mas que apenas lutam contra a inviabilização de sua permanência em territórios fundamentais à sua identidade na busca de um modelo de desenvolvimento mais inclusivo e democrático (Acselrad et al., 2009). 4.7. O conflito socioambiental frente ao contexto histórico, político e econômico de PE “Refletir e agir no campo do estudo dos conflitos ambientais é, para o pesquisador, entrar na luta política por uma outra sociedade. De quebra, numa época em que a ciência se vende com tanta facilidade, tal atitude pode ajudar a resgatar o lugar autônomo da ciência e do cientista” (Leroy, 2010). Para relatar o conflito socioambiental existente em Sirinhaém de uma maneira mais ampla na busca de, como já mencionado anteriormente, tentar enxergar esse “paquiderme” por inteiro, se faz necessário refletir sobre a trama de interesses que envolvem tal questão. Através dos discursos proferidos pelos distintos atores sociais presentes nesta pesquisa foi possível perceber uma oposição marcante entre os que estão mobilizados pela visão dominante de apropriação do meio ambiente em nome do progresso e os que lutam pela afirmação de seus direitos, buscando a manutenção de seus modos de vida e territórios (Acselrad et al., 2009). A partir da análise dos diferentes discursos em pauta chega-se a conclusão de a questão política é de fato o que existe de mais importante nesse conflito socioambiental. Pois os históricos das ações em prol do meio ambiente deixam a desejar, apesar do esforço governamental e empresarial em fazer da proteção ambiental uma bandeira de luta. Nos relatos dos pescadores é possível observar que enquanto o avanço da cana provoca um desmatamento crescente sem que nada seja feito, o mesmo não acontece se 82
  • 83.
    algum pescador forpego com alguns pedaços de madeira retirada do mangue. O que caracteriza a prática da fiscalização para as minorias, relatada por Valencio (2010). Segundo Severino Santos (CPP) a concretização da Resex hoje, depende mais de articulações políticas do que articulação e mobilização social. Pois com a expansão do pólo de Suape muitas empresas irão se instalar na região e o governo têm receio de que a área de amortecimento da Resex possa atrapalhar algum investimento: “Até para um empreendimento na área de entorno de uma reserva extrativista é preciso a autorização do comitê gestor da unidade de conservação. Isso deixa o governo estadual engessado”, alega Aristides, titular da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente (Sectma). (Ciência & Meio Ambiente: questionada reserva extrativista federal, Jornal do Comercio de 5 de Junho de 2009). Os pescadores temem que o governo atrapalhe o processo de criação da Resex. “O governador não pode dar as costas para nós. Ele carrega no nome uma história de luta em favor do homem do campo”, alega o presidente da Associação dos Pescadores de Barra de Sirinhaém, Flávio Wanderley da Silva. (Ciência & Meio Ambiente: Associação questiona reserva, Jornal do Comercio de 6 de junho de 2009). Para alguns pescadores a interferência do governo estadual frente à autonomia do ICMBio/IBAMA é um fato que tem desanimado as lutas: “Quando a gente teve no seminário da pesca artesanal na Fundação aí eu fiquei assim, porque teve um momento que Éricka disse, que era do Chico Mendes, que agora mesmo pra ser implantado uma reserva federal vai ter que ter a aprovação do governo do estado, entendeu, aí vai ficando mais dificil.... o que vai acontecer é isso é ficando do jeito que ta, o pescador hoje procurando... Suape tá aí... e tudo procurando serviço fora. Hoje tem muitos barcos, tem até o do meu marido encostado na beira do porto, bom, mas não ta indo pescar porque não tem pescador. O pescador vai pescar só o que pega dá mal pra comer, aí vai procurar outro serviço, tem muitos mesmo, não é pouco não o numero de pescadores que já pularam fora, já abandonaram a pesca e tão como servente de pedreiro, é Suape, fazendo outras coisas. Se essa resex não for implantada o que vai acontecer é isso, vai acabar a pesca artesanal, aqui vai.... Aqui vai... a situação ta ficando seria mesmo. Aqui já teve audiência publica, todo o estudo 83
  • 84.
    ta favorável praser implantada a resex e essa resex não sai, sabe... é muita pedra no caminho. (A.M.C. Pescador da Colônia de Barra de Sirinhaém – Entrevista ao autor em 08/10/10). As dificuldades são muitas até porque a região possui uma antiga tradição na produção de cana através de diversas usinas. A usina Trapiche, uma das mais antigas, foi fundada em 1887 e possui atualmente 38 mil e 800 hectares de área. E grande parte da população de Sirinhaém que não possui a pesca como atividade produtiva depende da industria canavieira para sobreviver. Na opinião do analista ambiental do IBAMA Luiz Otávio Corrêa, que coordenou a elaboração dos estudos técnicos que fundamentaram a criação da Resex: A finalidade é proteger o manguezal e garantir o ordenamento pesqueiro. “A Resex de Sirinhaém oferecerá oportunidades para que pescadores artesanais da região, abandonados pelos poderes públicos municipal, estadual e federal, ganhem uma última chance de sustentar suas famílias com a atividade que herdaram de seus pais e avós, sem degradar o meio ambiente.” Para Corrêa, a Resex é uma solução para os problemas ambientais e sociais da região. “Se algo não for feito por eles, em pouco tempo a Barra de Sirinhaém se transformará em uma comunidade ocupada por milhares de desempregados que terão apenas a escolha entre a marginalidade e o corte da cana”, prevê. (Ciência & Meio Ambiente: Chico Mendes adia criação de reserva, Jornal do Comercio de 10 de junho de 2009). Em 2009 ainda antes da audiência pública, a Usina Trapiche enviou ao ICMBio um parecer técnico onde há uma avaliação do processo de criação da Resex e recomendações para a área. Esse parecer foi contratado ao Prof. Ricardo Braga, da UFPE e ex-presidente da CPRH. No documento existem criticas ao estudo feito pelo IBAMA por não contemplar alguns tópicos: Estudo sobre a compatibilidade com programas e projetos governamentais de amplitude regional, em execução ou planejados. Estudo sobre potencialidades econômicas e sociais de uso da área, que sejam compatíveis com as atividades do entorno, permitindo a inserção da UC em uma política de desenvolvimento regional do litoral sul. 84
  • 85.
    Nesse parecer técnicohá ainda “a recomendação de que a UC mais adequada à vocação da área é uma RDS estadual, uma vez que há outros usos presentes na região, que não apenas o extrativismo, que devem ser compatibilizados com o mesmo. Pois uma RDS permite um uso mais elástico e que a área circundante da Resex (zona de amortecimento) seria cerca de duas vezes mais ampla do que a própria UC, sendo portanto uma área pequena para ser Federal. Como também as atividades que possam afetar a biota num raio de 10km do perímetro da Resex, devem ser licenciadas pelo Governo Federal o que dificulta a governabilidade dos estados e municípios, pois a criação de UCs Federais na zona da mata e no litoral sul de Pernambuco, significa a presença intervencionista do governo central sobre pequenas áreas de interesse local e suas vizinhanças. Que essas Resex são criadas à revelia do governo estadual, como aconteceu em 2007 (Resex Acaú-Goiana), onde o Decreto atropelou o Conselho Estadual de Meio Ambiente, que discutia formalmente o assunto. E por isso, o governo estadual deve estar em alerta para esse processo, pois a omissão gerou o fato consumado em 2007” (Processo nº02019.000307/2006-31, vol. VI, pg. 1028, IBAMA). Logo, o que se vê é que o discurso de “proteção ambiental” é apenas uma forma de tentar disfarçar o real interesse para o estuário do Rio Sirinhaém, que é transformar a área em um canteiro de obras turísticas e industriais. Onde os pescadores seriam cada vez mais empurrados para a periferia da cidade e incentivados a estar abandonando a tradicional arte da pesca para de adequar aos planos do “progresso”, ou seja, servindo apenas como mão de obra para o enriquecimento de poucos. A origem do município de Sirinhaém, segundo o Diagnostico Socioambiental do Litoral Sul (CPRH, 1999) foi a partir da ocupação dos portos fluviais localizados em fundo de estuário, nos pontos onde os rios deixavam de ser navegáveis, que desempenharam importante papel no escoamento do açúcar produzido. Mas com a chegada das ferrovias, essas povoações foram altamente impactadas e algumas caíram na invisibilidade, como os ex-moradores das ilhas. Enquanto os núcleos litorâneos, menos dependentes da economia açucareira, como em Barra de Sirinhaém,continuaram a ter seu crescimento dependente da pesca. A aceleração do processo de expansão urbana da área, a partir dos anos setenta, tem como fatores principais a expulsão, em 85
  • 86.
    massa, de populaçãoda zona rural canavieira em decorrência da implantação do PROÁLCOOL (1975) e a “descoberta” das praias do Litoral Sul como opção de veraneio e lazer de fim de semana, da classe média e média alta do núcleo metropolitano e dos centros urbanos de porte médio, em fuga das praias de Recife e municípios vizinhos já, naquela década, submetidas a acelerado processo de adensamento populacional. No primeiro caso, a população expulsa do campo passa a aglomerar-se na periferia das cidades, em encostas com altas declividades, manguezais, alagados e outras áreas impróprias para assentamentos humanos, intensificando a proliferação de bolsões de pobreza e seus desdobramentos sociais - mendicância infantil, prostituição e violência, entre outros problemas que afligem os núcleos urbanos da área. (Diagnostico Socioambiental do Litoral Sul, CPRH, 1999 p. 25). Tal fato é também explicado por Assis Lacerda, Pesquisador/Técnico da CPRH: “Na verdade o conflito fundiário das ilhas passa-se por décadas. Era uma área da União, existiu o aforamento por parte da usina, mas eles não se incomodavam com os moradores antigos, inclusive a maioria trabalhava também na usina. Só que houve a mudança de dono e o novo proprietário começou a redefinir o uso do solo dos engenhos, começando a trazer para os engenhos principais ou para os povoados de Santo Amaro, Barra de Sirinhaém e Sirinhaém. A intenção era de concentrar mais as populações que estavam espalhadas pelo engenho. Ele usou a mesma estratégia para as ilhas”. (Assis Lacerda Lins, técnico da CPRH, entrevista ao Instituto Oceanário em 15/04/09; In: Governo de Pernambuco e Instituto Oceanário, 2009). Segundo Moraes (1999), os portos de fato geraram zonas de adensamento em seus entornos durante a ocupação da zona costeira brasileira. Este povoamento pontual originou as populações litorâneas tradicionais ainda existentes em diversos locais do litoral brasileiro e com a expansão da rede ferroviária, as produções passaram a escoar mais ao interior. Para Moraes (1999, p.36): O caráter básico da estrutura territorial brasileira não reside numa vocação litorânea. O desenvolvimento de um conjunto expressivo de cidades-portos antes expressa a dependência estrutural do país na divisão do trabalho, desenhando no espaço o fato de o Brasil fundamentalmente produzir para um mercado externo 86
  • 87.
    Logo, percebe-se queo contexto histórico político e econômico de uma área sempre esteve ligado às industria da região. Segundo L. Cunha (2004): “A política é tomada, então, em termos das relações de poder que moldam e integram todas as interações humanas, caracterizadas por confrontação e negociação, e influenciadas por sentidos simbólicos e discursivos”. No entanto as questões ambientais ainda carecem de uma análise de luta social e política, pois apesar das políticas públicas ambientais já existentes, há ainda um isolamento entre o “setor ambiental” e os demais setores do governo. Onde a questão ambiental é exercida de maneira fragmentada e sempre deixada em segundo plano (Acselrad et al., 2009). Para Valencio (2010), as fragmentações das instituições ambientais levam à desarticulação das mobilizações sociais. Na pesca artesanal por exemplo, existem demandas que são de competência do MPA e outras do MMA, havendo pouca interação entre esses órgãos. Além dos distintos níveis de poder dos órgãos ambientais (federal, estadual e municipal) geralmente resultarem em conflitos, entre os demais órgãos governamentais vê-se que cada um prioriza apenas o seu âmbito de atuação. De acordo com L. Cunha (2004), para a ecologia política os recursos ambientais não são dados, mas construídos e por isso a mudança ambiental é vista como um processo político. Onde os conflitos socioambientais são decorrentes dessa construção ambiental ao longo da história. Dessa forma, a partir dos conflitos socioambientais decorrem processos de transformações sociais que podem ser observadas no nível individual (subjetivo), onde as pessoas incorporam determinados discursos uteis às suas reivindicações através da identificação de seus hábitos e costumes em alguma categoria especifica que é protegida legalmente (Santos, 2009; Acselrad et al., 2009). Os pescadores artesanais de Sirinhaém, que antes tinham uma grande quantidade de pescados, percebem que hoje suas práticas produtivas e seus modos de vida estão ameaçados de desaparecer. E então, percebendo-se como uma minoria frente projeto de desenvolvimento do Estado, passaram a se reconhecer como uma população tradicional e buscam na implantação da Resex uma esperança de continuar a ter voz e vez nesse jogo de poder. 87
  • 88.
    “O estabelecimento devalores econômicos exige a desvalorização de todas as outras formas de vida social. Essa desvalorização transforma em um passe de mágica, habilidades em carências, bens públicos em recursos, homens e mulheres em trabalho que se compra e vende como um bem qualquer, tradições em fardo, sabedoria em ignorância, autonomia em dependência (Esteva, 1992, p.18). Esse exemplo de luta, além de tentar proteger o ambiente natural e social ali representado, traz uma discussão: se quisermos um meio ambiente conservado, temos que também conservar as populações tradicionais que são as principais guardiãs desses recursos naturais. 88
  • 89.
    CONCLUSÃO “A negação das especificidades culturais de qualquer povo equivale à negação de sua dignidade” (Alpha Ouma Konaré; apud Cuéllar, 1997, p.69). Mostramos neste trabalho como se configura um campo conflitivo no estuário do rio Sirinhaém, que se liga à luta de pescadores artesanais para permanecerem em seu território, em que estão envolvidas perspectivas diversas de progresso, qualidade de vida e proteção ambiental. Neste campo estão presentes entidades que agem em defesa dos pescadores e dos direitos humanos, empreendimentos sucroalcooleiros em transformação, choques entre poderes municipais, estaduais e federais e distintos projetos de futuro para o território em questão. Nesse contexto, existe em Sirinhaém uma discussão para se garantir distintas reivindicações com a criação da Resex, a partir da inclusão dessa população nas decisões à cerca das políticas ambientais do governo. Hoje, as dificuldades enfrentadas pelos pescadores de Barra de Sirinhaém são ainda diferentes das dificuldades enfrentadas pelos ex-moradores das ilhas, pois estes últimos já tiveram descaracterizado os seus modos de vida. Mas devido à expansão dos projetos industriais e turísticos sobre o litoral sul, provavelmente os pescadores de Barra de Sirinhaém terão esse mesmo destino, caso não se mobilizem em conjunto aos demais pescadores da região na construção de uma luta comum. Nesse conflito de interesses diversos, a criação da Resex se configura como um instrumento de luta, mas certamente não será o único responsável por garantir a manutenção e a valorização da pesca artesanal nesse município. Segundo Moré apud Ernandorena (2003) “o antagonismo não é destrutivo em si, nem bom em si, mas pode ser entendido como um elemento da evolução, e mais, um dos elementos da própria vida. Portanto, os antagonismos são parte integral do meio onde nascemos, nos criamos e morremos; de forma que não podem ser extirpados, já que fazem parte de nossos sistemas de interação”. Na cultura chinesa a palavra conflito é composta por dois sinais superpostos: um quer dizer perigo e o outro, oportunidade. Há no conflito socioambiental de Sirinhaém duas possíveis situações: o perigo de permanecer nesse impasse ou a oportunidade de considerar as distintas opções e abrir-se a ocasiões que permitirão novas relações entre os indivíduos na finalidade de inventar meios de solucionar os problemas cotidianos. 89
  • 90.
    É importante quea comunidade de pescadores se articule para demonstrar aos demais atores sociais desse conflito que possuem conhecimento de seus direitos e que exijam respeito às suas reivindicações. É importante se construir redes locais e nacionais no intuito de fortalecer a luta com diferentes instituições de apoio aos povos tradicionais na busca de garantir um meio ambiente justo e socialmente democrático. O caminho para se garantir espaço em qualquer conflito, requer união entre toda a comunidade pesqueira beneficiada pela Resex para que seja discutido uma melhor maneira de estar decidindo as soluções viáveis para a construção de um futuro mais justo a todos. Pois apesar dos discursos no intuito de desarticular a Resex, é possível demonstrar à sociedade que os pescadores artesanais também querem se constituir como sujeitos de seus ambientes. Esse conflito socioambiental pode se configurar em uma oportunidade de estabelecer novas parcerias, obter novos conhecimentos, fortalecer a tradição da pesca artesanal e garantir um litoral ambientalmente sustentável para as futuras gerações. Pode ser também uma oportunidade de lutar para que o discurso dominante de progresso não ocorra livremente, sendo portanto uma oportunidade de construção de uma capacidade critica para se defender das injustiças ambientais, para opor à lógica do interesse uma cultura de direitos. Pois enquanto os males ambientais puderem ser transferidos para os mais pobres, a pressão geral sobre o meio ambiente não cessará (Acselrad et al., 2009). Assim é necessário também compreender melhor como as distintas visões sobre o meio ambiente são construídas e interpretadas pelos diferentes atores sociais para que seja possível estabelecer diálogos mais eficazes na tentativa de proporcionar uma visão mais ampla dos conflitos socioambientais, ou seja, talvez essa seja uma oportunidade de proporcionar uma transformação na maneira de agir e pensar, pois como já disse Saramago, “a necessidade mais urgente é discutir a democracia, que está por aí feito santa de altar, de quem não se esperam mais milagres”. 90
  • 91.
    BIBLIOGRAFIA ACSELRAD, Henri; MELLO,Cecilia C. do A.; BEZERRA, Gustavo das N. O que é justiça ambiental. Rio de Janeiro: Garamond, 2009. 160p. ACSELRAD, H. Ambientalização das lutas sociais – o caso do movimento por justiça ambiental. Estudos Avançados 24 (68), p. 103-119, 2010. _________. As práticas espaciais e o campo dos conflitos ambientais. In: ____. (org.). Conflitos ambientais no Brasil. Rio de Janeiro: Relume-Dumará; Fundação Heinrich Böll, p. 13-35, 2004. ALMEIDA, A. W. B. Terras de preto, terras de santo, terras de índio: uso comum e conflito. In: Terras de Quilombo, Terras Indígenas, “Babaçuais Livres”. “Castanhais do Povo”, Faxinais e Fundos de Pasto: terras tradicionalmente ocupadas. Manaus: PGSCA- UFAM, Fundação Ford, 2008. ALMEIDA, Mauro W. B. & CUNHA, Manuela C. da. Populações tradicionais e conservação ambiental. Biodiversidade na Amazônia brasileira: avaliações e ações prioritárias para a conservação, uso sustentável e repartição de benefícios. João Paulo Ribeiro Capobianco et al. (org.). São Paulo, 2001. AMBITEC BRASIL. Laudo Biológico para Determinação da Área de Influência do Estuário do Rio Sirinhaém (PE). In: IBAMA - Processo 02019. 000307/2006-31. Recife, 2008. ARRUTI, José M. Mocambo: antropologia e história do processo de formação quilombola. Florianópolis, EDUSC, 2006. ALVES-MAZZOTTI, A. J.; GEWANDSZNAJDER, F. O método nas ciências naturais e sociais – pesquisa quantitativa e qualitativa. São Paulo: Pioneira Thomson Leraning, 2ªedição, 1999. BEAUD, Stéphane & WEBER, Florence. Guia para a pesquisa de campo: produzir e analisar dados etnográficos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007. 240p. BRANCO, Samuel, M. Conflitos conceituais nos estudos sobre meio ambiente. Estudos Avançados 9 (23), p. 217-233, 1995. BENSUSAN, Nurit. Conservação da biodiversidade em áreas protegidas. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006. 176p. CARVALHO, I. C. M.; SCOTTO, G. Conflitos sócio-ambientais no Brasil. Rio de Janeiro: IBASE, 1995. CASTELLS, E. O Poder da Identidade. A era da informação: economia, sociedade e cultura. Tradução: Klauss Brandini Gerhardt. 5ª edição. Volume II. São Paulo: Paz e Terra, 530 p. 2006. 91
  • 92.
    CAVALCANTI, C. Pensamentoeconômico, saber ecológico tradicional e regimes de troca fundados no altruísmo: nova perspectiva disciplinar para entender a sustentabilidade. I Encontro da ANPPAS – Indaiatuba, São Paulo, 2002. In: ____(org.). Desenvolvimento e natureza. Estudos para uma sociedade sustentável. 4.ed. São Paulo: Cortez; Recife, PE: Fundação Joaquim Nabuco, 2003. CDB – Convenção sobre Diversidade Biológica. Ministério do Meio Ambiente. Brasilia, Decreto nº 2.519, de 16/03/1998. CEPENE (Centro de Pesquisa e Gestão de Recursos Pesqueiros do Litoral do Nordeste). Boletim Estatístico da Pesca Marítima e Estuarina do Nordeste do Brasil em 2006. MMA – Ministério do Meio Ambiente. Disponível em http://www4.icmbio.gov.br/cepene/index.php?Id_menu=61. Acesso em out/2010. CHAMY, Paula. Reservas extrativistas marinhas: um estudo sobre posse tradicional e sustentabilidade. Encontro nacional da ANPPAS, Brasília, 2008. CIRM. 1981. Comissão Internacional para os Recursos do Mar. III Plano Básico de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico. I Plano Setorial para os Recursos do Mar (1982 – 1985). Brasília. 105p. CMMAD. Nosso Futuro Comum. Rio de Janeiro: FGV, 1991. CONDEPE/FIDEM - Agência Estadual de Planejamento e Pesquisas de Pernambuco – Sirinhaém. Disponível em http://www.bde.pe.gov.br/ estruturacaogeral/filtroCadernoEstatistico.aspx. Acesso em: out/2010. MOVIMENTO dos Pescadores e Pescadoras Artesanais - I Conferência da Pesca Artesanal. Pescadores e Pescadoras na luta por território, afirmando políticas de direitos para a pesca artesanal. Brasilia, 2009. CONVENÇÃO nº 169 da OIT sobre Povos Indígenas e Tribais. http://www.mte.gov.br/seg_sau/pub_cne_convencoes_oit.pdf CPRM - Serviço Geológico do Brasil. Projeto cadastro de fontes de abastecimento por água subterrânea. Diagnóstico do município de Serra Talhada, estado de Pernambuco / Organizado [por] João de Castro Mascarenhas, Breno Augusto Beltrão, Luiz Carlos de Souza Junior, Manoel Julio da Trindade G. Galvão, Simeones Néri Pereira, Jorge Luiz Fortunato de Miranda. Recife: CPRM/PRODEEM, 2005. CPRH. Diagnóstico Socioambiental do Litoral Sul de Pernambuco. Recife, 1999. CPRH. Zoneamento Ecológico-Econômico Costeiro - Litoral Sul de Pernambuco. Recife, 1999. CPRH (PE). Diagnóstico Sirinhaém. SRH/PROAGUA, 2001. Disponível em: www.cprh.pe.gov.br/downloads/sinhaem05.pdf. Acesso em: set/2010. 92
  • 93.
    CUNHA, Luis H.Da “Tragédia dos Comuns” à Ecologia Política: perspectivas analíticas para o manejo comunitário dos recursos naturais. Raízes, Campina Grande, vol. 23, nº 01 e 02, p. 10-26, jan./dez. 2004. DECRETO nº 6.040, de 7 de Fevereiro de 2007. Institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais. DIEGUES, Antonio C. O mito moderno da natureza intocada. São Paulo: Nupaub- Núcelo de apoio à pesquisa sobre populações humanas e áreas úmidas brasileiras- USP, São Paulo, 3ª Ed. 2000. DIEGUES, Antonio C. & ARRUDA, Rinaldo S. V (orgs.). Saberes Tradicionais e Biodiversidade no Brasil. Brasilia: Ministério do Meio Ambiente; São Paulo: USP, 2001. 169p. ERNANDORENA, Paulo R. A ação civil pública e a resolução dos conflitos ambientais em zona costeira de Santa Catarina. Dissertação de Mestrado do programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção da UFSC, 2003. FLORIANI, Dimas. Diálogos interdisciplinares para uma agenda socioambiental: breve inventário do debate sobre ciência, sociedade e natureza. Desenvolvimento e Meio Ambiente, nº1, p. 21-39, ján./jun. UFPR, 2000. FOUCAULT, M. A ordem do discurso. São Paulo: Edições Loyola, 2001. GALEANO, E. De pernas pro ar: A escola do mundo ao avesso. Tradução de FARACO, S. Porto Alegre, RS: LPM, 2010. 384p. GOMES, Carla C. de A. O apego pelo lugar de morar : Vila Monticelli em Goiânia – GO. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Planejamento Territorial) – Universidade Católica de Goiás, 177 p., 2008. GOVERNO DO ESTADO DE PERNAMBUCO, Secretaria Especial da Juventude e Emprego e Instituto Oceanário. Diagnóstico socioeconômico da pesca artesanal do litoral de Pernambuco. CD-ROM, 2009. HERCULANO, Selene. Riscos e desigualdade social: a temática da Justiça Ambiental e sua construção no Brasil. I Encontro da ANPPAS. São Paulo, 2002. Texto parcialmente extraído do panfleto de divulgação do Colóquio, de redação coletiva,com a participação também de Henri Acselrad, José Augusto Pádua, Jean PierreLeroy e Paulo Roberto Martins (mimeo). ___________. O clamor por Justiça Ambiental e contra o Racismo Ambiental. INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.3, n.1, Artigo 2, p.1-20, jan./abril 2008. 93
  • 94.
    IBAMA. Estudo sócio-econômicodos ex-moradores e da comunidade pesqueira usuária das ilhas e do estuario do Rio Sirinhaém/PE. In: IBAMA - Processo 02019. 000307/2006-31. Recife, 2008. IBAMA. Estatística da pesca – Brasil/Grandes regiões e unidades da federação. Diretoria de Uso Sustentável da Biodiversidade e Florestas - DBFLO Coordenação Geral de Autorização de Uso e Gestão da Fauna e Recursos Pesqueiros – CGFAP. Brasilia, 2007. IBGE, Censo de 2000. BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censos Demográficos de 1991 e 2000. LAMBERTI, A. Contribuição ao conhecimento da ecologia das plantas do manguezal de Itanhaém. São Paulo, 1966. 217p. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Universidade de São Paulo. LABOMAR - UFC, Estudo das áreas de manguezais do nordeste do Brasil. Avaliação das áreas de manguezais dos Estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. 2005. LEFÈVRE, F. & LEFÈVRE, A. M. C. O discurso do sujeito coletivo: um novo enfoque em pesquisa qualitativa (desdobramentos). EDUSC, 2003. LEROY, Jean-Pierre (rel.); SILVESTRE, Daniel Ribeiro (ass.). Populações litorâneas ameaçadas: carcinicultura, pesca industrial, turismo, empreendimentos públicos e poluição. Relatoria Nacional para o Direito Humano ao Meio Ambiente, 2004 (mimeo). _______. Amazônia: território do capital e territórios dos povos. In: Desenvolvimento e conflitos ambientais. Andréa Zhouri & Klemens Larschefski (org.). Belo Horizonte, UFMG, 2010. LITTLE, Paul. E. Territórios sociais e povos tradicionais no Brasil: por uma antropologia da territorialidade. Série Antropologia, p.1-32. UnB, Brasília: 2002. LOPES, José S. L. Sobre processos de “ambientalização” dos conflitos e sobre dilemas de participação. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 12, n.25, p.31- 64, jan./jun. 2006. MEIRELES, Jeovah de A. e QUEIROZ, Luciana de S. A monocultura do camarão: danos socioambientais à base da vida comunitária tradicional no litoral do Nordeste brasileiro. In: Desenvolvimento e conflitos ambientais. Andréa Zhouri & Klemens Larschefski (org.). Belo Horizonte, UFMG, p.224-249, 2010. MORAES, Antonio Carlos Robert. Contribuições para gestão da zona costeira do Brasil. São Paulo: Hucitec, 1999. MOSCOVICI, Serge. Representações Sociais: investigações em psicologia social. Petrópolis, RJ. Vozes, 2003. 94
  • 95.
    NOVAES, Washington. Adécada do impasse: da Rio-92 à Rio + 10. São Paulo, Estação Liberdade: Instituto Socioambiental, 2002. RANGEL, M. Redes sociais pessoais: conceitos, práticas e metodologia. Tese de Doutorado, Faculdade de Psicologia. PUCRS, Porto Alegre, 2007. RAMALHO, Cristiano W. N. Estética marítima pesqueira: perfeição, resistência e humanização do mar. Ambiente & Sociedade, Campinas, v.XIII, n.1, p.95-110, já./jun. 2010. __________. O mundo das águas e seus laços de pertencimento. Raízes, Campina Grande, vol.23, nº1 e 2, p.62-72, jan./dez. 2004. RYLANDS, Anthony B. & BRANDON, Katrina. Unidades de conservação brasileiras. Megadiversidade, vol. 1, nº1, p.27-35, 2005. SANTILLI, Juliana. Socioambientalismo e novos direitos: proteção jurídica à diversidade biológica e cultural. São Paulo: Peirópolis, 2005. 304p. SANTOS, Leonardo B. dos. Trilhas da política ambiental: conflitos, agendas e criação de unidades de conservação. Ambiente & Sociedade. Campinas, v. XII, nº1, pg.133-150, jan.-jun. 2009. SCHAEFFER-NOVELLI, Y. Manguezais Brasileiros. São Paulo, 1991. 42p. Tese (Livre-Docência) - Instituto Oceanográfico, Universidade de São Paulo. SCHAEFFER-NOVELLI, Y. Avaliação e ações prioritárias para a conservação da biodiversidade da zona costeira e marinha. São Paulo: USP/IO, 1999. 56p. SECTMA (Secretaria de Ciências, Tecnologia e Meio Ambiente). Atlas da biodiversidade de Pernambuco. CD-ROM. Recife: SECTMA. 2002. SILVA, Tarcísio A. A. da. A dinâmica dos conflitos ambientais na zona da mata de Pernambuco: os assentados como vítimas e causadores de danos ambientais. CIENTEC · Revista de Ciência, Tecnologia e Humanidades do IFPE - Ano I, Nº 1 - Abril/2009. SILVEIRA, Pedro C. B. (coord.). Reservas extrativistas e pesca artesanal: etnografia do campo socioambiental em Pernambuco. Relatório Parcial de Pesquisa Apresentado à FACEPE em janeiro de 2009a (mimeo). _________. Um olhar antropológico sobre a conservação ambiental no Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira. Políticas Públicas e Meio Ambiente: da economia política às ações setoriais / Alexandrina Sobreira de Moura (org.). Recife: FUNDAJ, Ed. Massangana, cap. 6, p. 201-222, 2009b. 95
  • 96.
    _________. Florestas elutas por reconhecimento: território, identidades e direitos na Mata Atlântica Brasileira. Pgs. 1-19, 2010 (mimeo). MMA. Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza – SNUC, Lei nº 9.985, de 18 de Julho de 2000. 6ª ed. Brasília: Ministério do Meio Ambiente/Secretaria de Biodiversidade e Floresta, 2006. THEODORO, Suzi Huff (Org). Mediação de conflitos socioambientais. Rio de Janeiro: Garamond, 2005. TUAN, Yi-Fu. Topofilia: Um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. Tradução: Lívia de Oliveira. São Paulo:DIFEL- Difusão Editorial S/A, 1980, 288 p. TUCKER, Catherine M. e OSTROM, Elinor. Pesquisa multidisciplinar – relacionando instituições e transformações florestais. In: Ecossistemas florestais: interação homem-ambiente. Emilio F. Moran e Elinor Ostrom (org.). Tradução de Diógenes S. Alves e Mateus Batistela – São Paulo: Editora Senac São Paulo: Edusp, 2009. VALENCIO, Norma. Conflitos ambientais no Velho Chico: o modus operandi da desacreditação pública da pesca artesanal. In: Desenvolvimento e conflitos ambientais. Andréa Zhouri & Klemens Larschefski (org.). Belo Horizonte, UFMG, p. 202-223, 2010. ZHOURI, Andréa e OLIVEIRA, Raquel. Quando o lugar resiste ao espaço: colonialidade, modernidade e processos de territorialização. In: Desenvolvimento e conflitos ambientais. Andréa Zhouri & Klemens Larschefski (org.). Belo Horizonte, UFMG, p. 439-462, 2010. 96
  • 97.
  • 98.
  • 99.
    APÊNDICE 1. Quadro 1:Cronologia dos documentos para a criação da Resex Sirinhaém- Ipojuca. Origem/Destino Data Objetivos Argumentos Antes do Pedido CPP/SPU Mar/98 Desapropriação Denuncia de das ilhas débitos nos foros e poluição CPP/Governo Jun/98 Criação de uma Declaração de APA na área das interesse social ilhas ZEEC Dez/99 Avaliar e orientar Orientar o o uso e ocupação processo de do solo desenvolvimento do litoral sul Usina Trapiche/TJ Jun/01 Processo de Desocupar as reintegração de ilhas estuarinas posse das ilhas Usina Trapiche/TJ Ago/04 Ação de Interdito Impedir novas Proibitório contra construções na Nazareth Santos ilha Constantino CPT/IBAMA Mar/06 Desapropriação Proteger o das 17 ilhas e estuário e os criação de uma pescadores Resex CPT/IBAMA Abr/06 Realização de um Iniciar o estudo sócio- processo de ambiental na área implantação da Resex Terra de Direitos/IBAMA Abr/06 Cassação do título Poluição do rio e de aforamento na plantações GRPU ilegais na área Usina Trapiche/TJ Set/06 Ação de Interdito Retirar as irmãs é transformada Nazareth e Graça em Ação de da ilha Reintegração de Constantino posse Pedido CPT/IBAMA Abr/06 Pedido formal de Resolução do implantação da conflito pelo uso Resex e acesso ao estuário Após o Pedido 99
  • 100.
    IBAMA Out/06 Parecer técnico de Sugerir a visita à Sirinhaém realização de um ocorrida em estudo na área set/06 GRPU/Usina Trapiche Jan/07 Cancelamento do Reaver as Terras Aforamento da da União Usina Trapiche Usina Trapiche/GRPU Jan/07 Recurso da Usina Suspender o ato Trapiche de cancelamento do aforamento GRPU/Usina Trapiche Mar/07 Deferimento do Suspender o pedido de efeito cancelamento suspensivo do ato do aforamento IBAMA Abr/07 Vistoria de campo Verificar o para reconhecer a estado do área estuário e conversar com os pescadores IBAMA Mai/07 Avaliação técnica A área possui os do estuário do rio atributos para a Sirinhaém definição de uma UC Terra de Direitos/IBAMA Jul/07 Denuncia de Denuncia de prisões ilegais de suposto duas pescadoras desmatamento de Mata Atlântica Governo do Estado Out/07 Moção de Tornar público descontentamento que não apóia a implantação da Resex IBAMA Out/07 a Jan/08 Elaboração dos Procedimentos estudos técnicos formais para a para a criação da implantação da Resex Resex IBAMA/DIUSP-ICMBio Jun/08 Envio dos estudos Dar continuidade da Resex para ao processo de Brasília criação da Resex SPU Dez/08 Certidão Negativa Provar que a de Débitos Usina Trapiche Patrimoniais não possui foros em débito DIUSP(ICMBio) Dez/08 Aprovação dos Constatação da estudos feitos pelo relevância da IBAMA criação da Resex ICMBio Mar/09 Reunião com os Esclarecer sobre ilhéus feita pelo os demais passos ICMBio para a criação da Resex 100
  • 101.
    Usina Trapiche/ICMBio Mai/09 Parecer técnico Solicitar novas contratado pela informações aos Usina Trapiche estudos (IBAMA) já aprovados ICMBio Jun/09 Convite para a Ouvir as opiniões Consulta Pública a sobre a criação ser realizada no da Resex e dar dia 15/06 em prosseguimento Sirinhaém ao processo Governo do Estado (SECTMA) Jun/09 Moção de Repudio Tentar cancelar à criação da Resex o processo de criação da Resex ICMBio Jun/09 Adiamento da Escolher um Consulta Pública local mais adequado para a reunião. Consulta Pública em Sirinhaém Ago/09 Ouvir as opiniões Procedimento sobre a criação da formal para a Resex criação da Resex * Fonte: Processo nº 02019.000307/2006-31, IBAMA. *Em Nov/2010 foram retiradas as duas últimas famílias que ainda moravam nas ilhas estuarinas de Sirinhaém. 101