TCC – “Se existem filhos da Umbanda é porque há uma mãe”
Em sociedade onde costumes religiosos são patriarcais, as religiões
afrodescendentes destacam as mulheres, permitem que elas liderem
templos e presidam ações importantes.
Tanto na Umbanda quanto no Candomblé, cultos afrodescentes comuns
no Brasil, o papel feminino é de destaque. Segundo as concepções dessas
religiões, a Mãe Natureza comanda todas as vertentes naturais presentes
no universo. A força do mundo está na mulher, que é capaz de gerar outro
ser, conceder alimento e auxiliar seus filhos. O homem possui seu papel
de destaque na evolução, mas é a mulher que é progenitora e provedora
de todo o poder humano.
Elas podem ser sacerdotisas e administrar todo o funcionamento de um
terreiro como Norma Gullarte Ballarini, mais conhecida como Mãe Norma
de Iansã, que dirige o Templo de Umbanda Cacique Pena Branca,
localizado no Jardim Brasil, Zona Norte de São Paulo. A líder, que vem de
uma família de Testemunhas de Jeová, passou por muitas dificuldades em
seu trajeto religioso, mas construiu seu respeito na Umbanda e hoje não
permite manifestações preconceituosas. “Eu imponho que me dêem
respeito, dignidade, que entendam que eu sou uma sacerdotisa como
qualquer ser, homem ou mulher. Eu imponho minha verdade, o que eu
acredito”, diz.
Mãe Norma, filha de Iansã
Uma mulher de traços fortes que não tem a cor da pele negra, mas define
em suas atitudes e porte físico o papel que exerce. De cabelos claros,
olhos castanhos e estatura mediana, a sacerdotisa fala com voz
imponente e firme, e não abre mão de auxiliar o próximo, mesmo com
uma agenda lotada por conta de seus compromissos.
Mãe Norma conta que quando criança foi submetida a exorcismos e
benzeduras, pois sua família acreditava que ela era possuída pelo diabo.
Até que um dia foi levada por sua mãe a um médico que as alertou sobre
sua mediunidade aflorada. Sem alguém que a guiasse pelos caminhos da
Umbanda, ela iniciou sua evolução religiosa através dos espíritos. “Eu não
comecei pela religião, eu comecei pelos espíritos, que tomavam meu corpo
e o usavam para fazer caridade”, acrescenta.
Ao ser indagada sobre seus ídolos femininos na religião, ela revela: “Não
conhecemos muitos ídolos femininos dentro da religião. São mulheres
humildes e que não se apresentam. Fazem seus trabalhos sociais em suas
casas e muitas vezes não as conhecemos pessoalmente. Meu ídolo na
Umbanda é minha mãe Iansã”.
Mãe Norma também administra e dirige a LIMUB (Liga das Mulheres
Umbandistas do Brasil), criada em 2004, com o intuito de exaltar a figura
feminina dentro da religião e desenvolver trabalhos sociais, culturais,
religiosos e políticos, baseado nos interesses das mulheres. Além disso, faz
parte da SOUESP (Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo),
entidade que atua com o objetivo de agregar líderes umbandistas e
presidentes de federações no estado de São Paulo, e exerce o cargo de
Primeira Sacerdotisa Decana (membro mais antigo da classe). Em 2006
quebrou regras e atuou como presidente da instituição, que antes era
administrada apenas por homens.
A dirigente do Templo de Umbanda não escondeu a emoção ao falar de
sua visão sobre a mulher. “Mulher para mim é um ser divino. É resignação,
é ajuda, é companheirismo, é entrega. Mulher é uma amplitude.” Ainda
completou que as divindades femininas presentes nas religiões de
matrizes africanas são como mães. “A concepção de dignidade e
humildade é passada por nossas Yabás, Iansã, Iemanjá e Oxum, como
uma mãe carnal passa para seu filho. Elas são nossas mães espirituais”.
Abdicação em nome de um destino
Maria Aparecida Naléssio, Mãe Cida, também é líder na Umbanda. É
sacerdotisa e preside o Primado do Brasil, uma Federação Umbandista
criada em 1945 por Félix Nascentes Pinto, que defende e difunde os
princípios da religião, além de associar outros templos. Cidinha, como é
carinhosamente chamada, possui cabelos claros e longos, olhos azuis e
uma voz doce e serena. Mora com seu pai em Franco da Rocha, São Paulo,
e vai diariamente de trem ao Primado do Brasil, localizado no bairro do
Brás.
As ações da descendente de italianos já extrapolaram os muros do
terreiro que dirige. Hoje ela é assídua em manifestações políticas e sociais
e trabalha na luta contra o preconceito que ainda existe em torno das
religiões afrodescendentes, além de garantir que os ensinamentos ditados
por Pai Félix continuem vivos.
Em Ato Solene, ocorrido no dia 13 de outubro, na Assembleia Legislativa,
em comemoração aos 49 anos de fundação do Primado do Brasil, Mãe
Cida afirmou em discurso que ainda havia muito a ser feito. “Nossa
semente foi plantada lá atrás com Pai Félix, agora temos que dar
continuidade ao trabalho de informação que ele iniciou, pois só assim o
preconceito se extinguirá”. No mesmo Ato Mãe Norma discursou sobre
sua religião e o quanto ela é matriarcal. “Em nossa religião, 89.9% são
mulheres. Temos que honrar esse número e lutar contra todas as mazelas
que porventura passamos. Somos fortes guerreiras e temos a força de
nossos orixás.”
Mãe Cida abdicou de uma família com marido e filhos para dedicar-se a
Umbanda. Quando questionada sobre o fato, ela é categórica. “Tenho
mais de 200 filhos pelo Brasil e todos os dias me aparece um novo. Minha
família às vezes me cobra a ausência, mas entendem que tenho minha
missão”.
Umbanda cantada
Atualmente a voz dessas mulheres umbandistas e candomblecistas ganha
força também no âmbito musical. Liz Hermann tem cabelos claros, pele
branca e olhos azuis. Sempre sorridente, ela canta aos Orixás por meio do
samba e resgata em suas canções as raízes da cultura afrodescendente.
Para a cantora, a mulher umbandista procura hoje seu verdadeiro
significado na sociedade, conquista espaços além de exercer a candura da
educação e a fúria em defesa de seus filhos. “Se existem filhos da
Umbanda é porque existe uma mãe. A Umbanda se expressa com fé, amor
e caridade, três itens que a mulher naturalmente já exerce em sua
vivência. Acredito em um mundo melhor se ele for matriarcal. Toda a
religião tem o objetivo de religar o ser humano ao Divino e este elo
principia na fé e se torna infinito no amor, amor de mãe, amor de mulher”.
Quando questionada a respeito do preconceito Liz Hermann afirmou não
gostar da palavra. “Não gosto da palavra preconceito. Ela nos remete a
julgamentos precoces, a má formação cultural e de caráter. Acredito que
já fui e sou julgada imaturamente a todo instante, mas não ligo e ignoro.
Tenho metas e objetivos bem traçados junto à espiritualidade e quem não
soma não caminha junto”.
“Jurema a mata está cantando. Princesa são seus filhos lhe chamando.
Okê Arô, valente e guerreira, Okê Aro cabocla flecheira. Mais serena que o
luar, tão guerreira quanto o ar, Jurema. Suas folhas dançam no ar, são
aromas a nos curar, Okê Aro Jurema. Com coragem em seu olhar,
mensageira de Oxalá, chegou linda Jurema. Mata virgem é seu lugar,
verde é vida a nos salvar, chegou linda Jurema, Jurema. Bate o pé, bate o
pé deixe o corpo balançar sinta a força de Oxóssi que veio para ficar.” –
Jurema é uma das canções que está presente no álbum recente de Liz
Hermann, “Umbanda em Nós” e foi composta por sua filha, Aline
Hermann.
Poder feminino
A candomblecista Marli Barbosa, conhecida como Iyá Ekedji Ogunlade,
tem a pele escura, olhos castanhos e estatura mediana. A estudante de
direito, que já deu voz de prisão a um pastor evangélico, não permite que
sua religião seja desrespeitada. Na ocasião, ocorria na Assembleia
Legislativa de São Paulo o Festival Mundial de Ifá – oráculo que se
desenvolveu na África Ocidental, especialmente nas regiões onde hoje
estão localizados a Nigéria e o Benin e que foi trazido para o Brasil durante
o período do escravismo -, com a presença do líder mundial dos
Bàbálawos, Àràbà Àgbáyé Awóyemi Àdìsà Awóreni, Òkè-Tasè Ilé Ifè, e de
outras personalidades religiosas da Nigéria. “Quando o pastor invadiu o
espaço no qual acontecia o evento e proferiu palavras preconceituosas eu
precisava fazer alguma coisa. Qualquer cidadão pode dar voz de prisão a
outro, se julgar que é preciso” .
Dentro do Candomblé ela exerce o cargo de ekedji, e seu papel é
acompanhar e cuidar das roupas e apetrechos do Orixá da casa, além dos
demais Orixás, e até mesmo visitantes, sendo uma espécie de dama de
honra. “Fui apontada por Oxum para o cargo que tenho hoje, ela me
escolheu”, contou.
Marli explicou que a responsável por trazer o Candomblé ao Brasil e torná-
lo uma religião de costumes matriarcais foi Iyá Nassô Oyo Akalagmabo
Olodumare ou Iyá Nassô. A africana é uma das fundadoras da primeira
casa de Candomblé, o Ilè Nassô, que antes funcionava em uma Roca na
Barroquinha, bairro antigo da cidade de Salvador e depois se estabeleceu
nas terras do Engenho Velho. A casa existe ainda hoje e possui cerca de
300 anos.
Religião igualitária
Em seu estudo de pós-graduação intitulado “O Candomblé e o Poder
Feminino”, a antropóloga Teresinha Bernardo afirma que um dos fatores
que faz a mulher ocupar cargos de destaque no Candomblé e na Umbanda
é o fato das iorubas sempre terem exercido em seus reinos um papel
político importante. No período da escravidão esse exercício era proibido,
porém realizado em um plano imaginário por meio da religião.
Quando indagada sobre a liderança feminina nas religiões
afrodescendentes a socióloga Carolina Wakiyama Bittar esclareceu que a
Umbanda e Candomblé não são totalmente matriarcais. “A religião não é
totalmente matriarcal, pelo contrário. Não há uma verticalidade nas
relações entre homens e mulheres, e sim uma horizontalidade. Sem o som
dos atabaques, que são tocados por homens, o orixá não vem á Terra
dançar nos corpos dos filhos de santo, ou seja, sem alabê não existiria
Candomblé. Sem o pejigan (ogã responsável por zelar pelos axés dos
terreiros) as iyalorixás (sacerdotisas) não conseguiriam cumprir sua
função”.
A socióloga ainda contou que nessas religiões é possível descrever de
forma bem definida os papéis exercidos por mulheres e homens nas
religiões afrodescendentes, pois há funções específicas para ambos os
sexos. ”Um homem não pode, por exemplo, preparar ajeum (alimento)
dos orixás, este é o papel da iyabassé da casa, a ekedji responsável pela
cozinha. Uma mulher não pode ter o cargo de alabê, ou seja, tocar
atabaque. É importante ressaltar que a definição clara das atividades
desempenhadas por ambos os sexos não deve ser lida com o olhar
ocidentalizado, senão irá cair na reprodução de um discurso em que a
desigualdade entre os sexos é prevalecente”.
Bittar finalizou ao explicar o destaque recebido pela mulher. “A questão é
que se dá uma importância maior às mulheres por diversos fundamentos
presentes na religião e, principalmente, pela capacidade do corpo
feminino de gerar. A mulher é o símbolo da fertilidade, é a essência capaz
de criar, de conceber a vida”.
Orixás femininos
“Os mitos são como os sonhos. Sempre tem algo a dizer a nosso coração.
Mas se apresentam com sua própria linguagem, seu próprio mundo, que é
bem diferente do nosso. Por isso, nos parecem tão mágicos e, ao mesmo
tempo, tão familiares” – Joseph Campbell, estudioso norte-americano de
mitologia e religião comparativa, em “As Máscaras de Deus”.
A palavra Orixá origina-se do iorubá e designa as divindades dos cultos
africanos. São forças e vibrações da natureza que se completam. A
mitologia africana menciona a existência de 600 orixás, divididos em duas
classes: 400 que habitam o céu e 200 que estão na Terra.
O pano de fundo da história dos orixás femininos é a força da mulher.
Valentes, generosas e inteligentes, essas divindades viveram em seu
panteão como mulheres determinadas e guerreiras. Para os adeptos das
religiões afrodescentes, essas figuras são sinônimo de garra e coragem e
impulsionam seus “filhos” a seguirem seus caminhos com sua proteção,
sempre fortalecidos na fé.
Iemanjá é a mãe poderosa e generosa que governa o mar, protege todos
os seus filhos, mas pode tornar-se instável como as águas do mar. Iansã é
guerreira e senhora dos relâmpagos, administra os ventos e as chuvas e
possui grande ligação com a morte por cuidar dos eguns (espíritos). Oxum
é dotada de uma vaidade natural. É o orixá feminino do rio, controla a
fecundidade das mulheres e rege a inteligência e a riqueza dos seres
humanos. Obá é a forte e energética lutadora das aldeias, cuida das águas
revoltas dos rios e as pororocas. Nanã era a dona dos pântanos e da
sabedoria. Turrona, firme e ranzinza, é considerada a avó de todos os
orixás.
“Odofiaba, Odoyá. Odofiaba, Odoyá. É maré que vai, mãe Yemanjá. É
maré que vem… Sereia do mar. Fui no mar, pedir outra vida, contendo a
chorar escondendo a dor. Querendo sonhar na espera de tudo melhorar.
Vestida de branco desfilei na areia, sobre o luar chamei as sereias. Pra
mãe Yemanjá pulei sete ondas, pra descarregar. Ouvi sua voz, como um
doce murmúrio,um belo cantar louvando o amor, que pode salvar quem
mergulha na fé e se deixa levar. Ó minha mãe, como é bom te encontrar,
sentir que contigo posso contar, pra não me perder no caminhar, ser feliz e
sonhar.” “Odoyá” é uma das canções que também está presente no CD de
Liz Hermann. A cantora apresenta nesta canção, composta por Aline
Hermann, a fé que move seus seguidores.
A mulher na sociedade africana
Na África a família iorubá se organiza de maneira polígama, ou seja, os
maridos possuem mais de uma esposa ao mesmo tempo. As mulheres
saem da casa de seus pais e seguem para seu novo lar, no propósito de
serem progenitoras e aumentarem a família do esposo. Essa condição não
as denigre, pelo contrário, tornam elas mais respeitadas e com certa
independência.
Na condição econômica e social da África a mulher também sempre teve
destaque. São grandes comerciantes, compram a colheita de seus
maridos, revendem em feiras e permanecem com o lucro. Porém, é
importante destacar que a mulher não trabalha para seu cônjuge. Além do
comércio, as iorubás são responsáveis por estreitar alianças importantes,
como casamentos e namoros, e trocam nessas feiras bens simbólicos,
como moda, receitas, músicas, entre outros.
Escravas em solo brasileiro
Trazidas ao Brasil na época da escravidão, as iorubás não perderam suas
características e iniciaram aqui verdadeiras feiras e comércios. O produto
mais comum era o charuto, produzido nas senzalas e vendido por elas nas
portas dos bares da cidade de Salvador. O sucesso dessas mulheres
destacava-se pelo controle que tinham sobre o comércio varejista de
produtos perecíveis. A partir daí elas ficaram conhecidas como mulheres
de banca.
Com o passar do tempo a mulher africana tomou outros caminhos,
ganhou seu dinheiro, comprou a alforria e tornou-se livre em território
brasileiro. Auxiliavam também seus respectivos companheiros e muitas
vezes os libertavam. O poder que possuíam na África as acompanhou no
Brasil e isso pode ser facilmente percebido no âmbito religioso.
Os números das religiões afrodescendentes
Segundo o Censo 2000, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatísticas (IBGE), os adpetos das religiões de matrizes africanas reúnem
571 mil seguidores (0,3%), sendo 89,9% são do sexo feminino. Dentro
desses números, uma curiosidade: o Candomblé e a Umbanda têm maior
participação na região Sul (0,7%), contra apenas 0,1% no Nordeste.
Há quem questione os números oficiais, julgando que as religiões
afrodescendentes totalizem o triplo de devotos. O motivo: muitos
adeptos, temerosos de sofrerem preconceito, teriam se declarado
católicos ou espíritas para os recenseadores.
Os dados acima foram extraídos de estatísticas do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatísticas (IBGE).
O que é Umbanda?
Genuinamente brasileira, a religião sincretiza elementos de religiões de
origem africana, católica, indígena e kardecista.
Na Umbanda admite-se a existência de um Deus criador, denominado
Olorum. Os adeptos cultuam os Orixás, entidades divinas com atributos e
histórias próprias, que correspondem a um panteão. Além disso, existem
os “guias”, espíritos que apresentam-se através de médiuns e incorporam
em seus corpos, comunicam-se através dos “filhos de santo” e praticam a
caridade.
Os cultos umbandistas são chamados de “giras” ou “ritos” e são
celebrados em um local denomindado “terreiro”. As giras, quase sempre
acompanhadas ao som de atabaques, são comandadas pelo “Pai de
Santo”, que zelam pelo bom andamento dos trabalhos e possuem
autoridade completa no terreiro.
Sincretismo Umbandista
Apesar dos rigores da escravidão e da vigilância da igreja, que obrigava os
escravos a converterem-se ao catolicismo, os negros cultuavam de forma
secreta seus deuses africanos. O sincretismo, sistema religioso que
combinava os princípios de diversas doutrinas, surgiu do desejo dos
escravos em manterem suas tradições religiosas.
Para que os castigos fossem acabados, os negros optaram por colocar em
seus altares imagens e ícones católicos. No entanto, enquanto rezavam
aos santos, na verdade cultuavam seus Orixás. Os deuses africanos foram
identificados, guardando certas diferenças regionais, com santos católicos.
Ogum corresponde a São Jorge; Iansã a Santa Bárbara; Xangô é São João
Batista; Iemanjá é Nossa Senhora Aparecida.
O Nascimento
Há controvérsias a respeito da origem da Umbanda. A versão “oficial” é
que sua anunciação ocorreu pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, no dia
15 de novembro de 1908, em uma sessão espírita, no Rio de Janeiro. Na
reunião espíritos de indígenas e escravos se manifestaram, porém, foram
convidados a retirarem-se por serem considerados atrasados moralmente,
culturalmente e espiritualmente. Em defesa desses, o Caboclo das Sete
Encruzilhadas manifestou-se e discursou a respeito da discriminação que
as entidades sofriam.
Na ocasião Zélio de Moraes, que viria a registrá-la em cartório no mesmo
ano, foi levado à sessão por decorrência de um problema de saúde que os
médicos não conseguiram curar (uns falam em paralisia, outros numa
série de crises semelhantes à epilepsia).
O antropólogo Emerson Giumbelli explica em seu livro “Zélio de Moraes e
as origens da Umbanda no Rio de Janeiro” os acontecimentos sucessores a
essa manifestação. “Os dirigentes da reunião espírita tentaram afastar o
próprio Caboclo das Sete Encruzilhadas, quando então este avisou que, se
não havia espaço ali para manifestação dos espíritos de negros e índios
considerados atrasados, seria fundado por ele mesmo na noite seguinte,
na casa de Zélio, um novo culto onde tais entidades poderiam exercer seus
trabalhos espirituais e passar suas mensagens. Às 20 horas do dia
seguinte, 16 de novembro de 1908, em meio a uma pequena multidão de
amigos, parentes, curiosos e kardecistas incrédulos, que se aglomeravam
na casa de Zélio, baixaram novamente o caboclo referido e declarou que
se iniciava a partir de então uma nova religião na qual pretos velhos e
caboclos poderiam trabalhar. Determinou também que a prática da
caridade seria a característica principal do culto; que este teria como base
o Evangelho Cristão e como mestre maior Jesus; que o uniforme utilizado
pelos médiuns deveria ser branco; que todos os atendimentos seriam
gratuitos; e que a religião se chamaria umbanda. Além disso, fundou
naquele dia aquela que, nesta narrativa, é descrita como a primeira tenda
de umbanda da história, a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade”.
O que é Candomblé?
A palavra Candomblé é derivada da língua bantu, e significa “lugar de
costume dos negros” ou “lugar de tradições dos negros”. A religião
originou-se em Ife, na África, e foi trazido ao Brasil por meio de sacerdotes
africanos escravizados.
As sessões candomblecistas tem por base a alma da natureza, e é
composta por uma teologia simples: há um Deus criador de todas as
coisas e deuses (Orixás) menores regentes da natureza. Essa doutrina é
representada por vários símbolos, onde o mais comum é a bandeira
branca, que simboliza a paz. A responsabilidade do culto é atribuída à
Mãe ou Pai de Santo – autoridades máximas na religião – que
correspondentes aos termos em ioruba “Babalorixá” ou “Iyalorixá”. Eles
são escolhidos pelos próprios Orixás, sendo levados naturalmente à
religião, onde assumem o cargo para o qual estão destinados. São pessoas
que de alguma forma são iluminadas pelos Orixás para que cumpram seu
destino.
O Babalorixá ou Iyalorixá são assistidos pelos Babás ou Iya Kekere (pais e
mães pequenos), que na ausência do Pai ou Mãe de Santo que assume o
comando do terreiro. Além desses, outros ajudantes também entram em
cena para o andamento do culto: Dagã ou Iyadagan, encarregada de
despachar o padê (cerimônia oferecida a Exu); a Iyátebexê, que dirigie os
cânticos aos Orixás nas cerimônias públicas; a Iyabassé, que supervisiona a
preparação das comidas destinada aos Orixás e visitantes; a Ekedi, Ajoiê e
Makota, que são encarregadas de cuidar dos Iaôs (Filhos de Santo)
quando entram em transe; o Sarepebê, que leva as mensagens ao terreiro;
a Ya Efun, que é encarregada
de pintar os Iaôs; o Axogum, que deve fazer os sacrifícios dos animais
oferecidos aos Orixás; o Alagbê, que é o chefe dos tocadores de atabaque.
Há também os Ogãs, que não tem funções religiosas especiais, mas
ajudam o terreiro de forma material e contribuem em sua defesa. Cada
um tem sua função determinada que não pode ser alterada uma vez que
atribuída.
Os instrumentos que compõem esse culto são três atabaques, que
recebem o nome de Rum, Rumpi e Le, um sino de percussão e um agogô,
que devem estar de acordo com os Orixás que serão evocados em cada
momento do culto.
No Brasil são cultuados 16 Orixás: Essú, Ògún, Osossi, Osanyin, Obalúayé,
Òsùmàré, Nàná Buruku, Sàngó, Oya, Obá, Ewa, Osun, Yemanjá, LogunEde,
Oságuian e Osàlufan.

TCC

  • 1.
    TCC – “Seexistem filhos da Umbanda é porque há uma mãe” Em sociedade onde costumes religiosos são patriarcais, as religiões afrodescendentes destacam as mulheres, permitem que elas liderem templos e presidam ações importantes. Tanto na Umbanda quanto no Candomblé, cultos afrodescentes comuns no Brasil, o papel feminino é de destaque. Segundo as concepções dessas religiões, a Mãe Natureza comanda todas as vertentes naturais presentes no universo. A força do mundo está na mulher, que é capaz de gerar outro ser, conceder alimento e auxiliar seus filhos. O homem possui seu papel de destaque na evolução, mas é a mulher que é progenitora e provedora de todo o poder humano. Elas podem ser sacerdotisas e administrar todo o funcionamento de um terreiro como Norma Gullarte Ballarini, mais conhecida como Mãe Norma de Iansã, que dirige o Templo de Umbanda Cacique Pena Branca, localizado no Jardim Brasil, Zona Norte de São Paulo. A líder, que vem de uma família de Testemunhas de Jeová, passou por muitas dificuldades em seu trajeto religioso, mas construiu seu respeito na Umbanda e hoje não permite manifestações preconceituosas. “Eu imponho que me dêem respeito, dignidade, que entendam que eu sou uma sacerdotisa como qualquer ser, homem ou mulher. Eu imponho minha verdade, o que eu acredito”, diz. Mãe Norma, filha de Iansã Uma mulher de traços fortes que não tem a cor da pele negra, mas define em suas atitudes e porte físico o papel que exerce. De cabelos claros, olhos castanhos e estatura mediana, a sacerdotisa fala com voz imponente e firme, e não abre mão de auxiliar o próximo, mesmo com uma agenda lotada por conta de seus compromissos. Mãe Norma conta que quando criança foi submetida a exorcismos e benzeduras, pois sua família acreditava que ela era possuída pelo diabo. Até que um dia foi levada por sua mãe a um médico que as alertou sobre sua mediunidade aflorada. Sem alguém que a guiasse pelos caminhos da Umbanda, ela iniciou sua evolução religiosa através dos espíritos. “Eu não comecei pela religião, eu comecei pelos espíritos, que tomavam meu corpo e o usavam para fazer caridade”, acrescenta. Ao ser indagada sobre seus ídolos femininos na religião, ela revela: “Não conhecemos muitos ídolos femininos dentro da religião. São mulheres humildes e que não se apresentam. Fazem seus trabalhos sociais em suas casas e muitas vezes não as conhecemos pessoalmente. Meu ídolo na Umbanda é minha mãe Iansã”.
  • 2.
    Mãe Norma tambémadministra e dirige a LIMUB (Liga das Mulheres Umbandistas do Brasil), criada em 2004, com o intuito de exaltar a figura feminina dentro da religião e desenvolver trabalhos sociais, culturais, religiosos e políticos, baseado nos interesses das mulheres. Além disso, faz parte da SOUESP (Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo), entidade que atua com o objetivo de agregar líderes umbandistas e presidentes de federações no estado de São Paulo, e exerce o cargo de Primeira Sacerdotisa Decana (membro mais antigo da classe). Em 2006 quebrou regras e atuou como presidente da instituição, que antes era administrada apenas por homens. A dirigente do Templo de Umbanda não escondeu a emoção ao falar de sua visão sobre a mulher. “Mulher para mim é um ser divino. É resignação, é ajuda, é companheirismo, é entrega. Mulher é uma amplitude.” Ainda completou que as divindades femininas presentes nas religiões de matrizes africanas são como mães. “A concepção de dignidade e humildade é passada por nossas Yabás, Iansã, Iemanjá e Oxum, como uma mãe carnal passa para seu filho. Elas são nossas mães espirituais”. Abdicação em nome de um destino Maria Aparecida Naléssio, Mãe Cida, também é líder na Umbanda. É sacerdotisa e preside o Primado do Brasil, uma Federação Umbandista criada em 1945 por Félix Nascentes Pinto, que defende e difunde os princípios da religião, além de associar outros templos. Cidinha, como é carinhosamente chamada, possui cabelos claros e longos, olhos azuis e uma voz doce e serena. Mora com seu pai em Franco da Rocha, São Paulo, e vai diariamente de trem ao Primado do Brasil, localizado no bairro do Brás. As ações da descendente de italianos já extrapolaram os muros do terreiro que dirige. Hoje ela é assídua em manifestações políticas e sociais e trabalha na luta contra o preconceito que ainda existe em torno das religiões afrodescendentes, além de garantir que os ensinamentos ditados por Pai Félix continuem vivos. Em Ato Solene, ocorrido no dia 13 de outubro, na Assembleia Legislativa, em comemoração aos 49 anos de fundação do Primado do Brasil, Mãe Cida afirmou em discurso que ainda havia muito a ser feito. “Nossa semente foi plantada lá atrás com Pai Félix, agora temos que dar continuidade ao trabalho de informação que ele iniciou, pois só assim o preconceito se extinguirá”. No mesmo Ato Mãe Norma discursou sobre sua religião e o quanto ela é matriarcal. “Em nossa religião, 89.9% são mulheres. Temos que honrar esse número e lutar contra todas as mazelas
  • 3.
    que porventura passamos.Somos fortes guerreiras e temos a força de nossos orixás.” Mãe Cida abdicou de uma família com marido e filhos para dedicar-se a Umbanda. Quando questionada sobre o fato, ela é categórica. “Tenho mais de 200 filhos pelo Brasil e todos os dias me aparece um novo. Minha família às vezes me cobra a ausência, mas entendem que tenho minha missão”. Umbanda cantada Atualmente a voz dessas mulheres umbandistas e candomblecistas ganha força também no âmbito musical. Liz Hermann tem cabelos claros, pele branca e olhos azuis. Sempre sorridente, ela canta aos Orixás por meio do samba e resgata em suas canções as raízes da cultura afrodescendente. Para a cantora, a mulher umbandista procura hoje seu verdadeiro significado na sociedade, conquista espaços além de exercer a candura da educação e a fúria em defesa de seus filhos. “Se existem filhos da Umbanda é porque existe uma mãe. A Umbanda se expressa com fé, amor e caridade, três itens que a mulher naturalmente já exerce em sua vivência. Acredito em um mundo melhor se ele for matriarcal. Toda a religião tem o objetivo de religar o ser humano ao Divino e este elo principia na fé e se torna infinito no amor, amor de mãe, amor de mulher”. Quando questionada a respeito do preconceito Liz Hermann afirmou não gostar da palavra. “Não gosto da palavra preconceito. Ela nos remete a julgamentos precoces, a má formação cultural e de caráter. Acredito que já fui e sou julgada imaturamente a todo instante, mas não ligo e ignoro. Tenho metas e objetivos bem traçados junto à espiritualidade e quem não soma não caminha junto”. “Jurema a mata está cantando. Princesa são seus filhos lhe chamando. Okê Arô, valente e guerreira, Okê Aro cabocla flecheira. Mais serena que o luar, tão guerreira quanto o ar, Jurema. Suas folhas dançam no ar, são aromas a nos curar, Okê Aro Jurema. Com coragem em seu olhar, mensageira de Oxalá, chegou linda Jurema. Mata virgem é seu lugar, verde é vida a nos salvar, chegou linda Jurema, Jurema. Bate o pé, bate o pé deixe o corpo balançar sinta a força de Oxóssi que veio para ficar.” – Jurema é uma das canções que está presente no álbum recente de Liz Hermann, “Umbanda em Nós” e foi composta por sua filha, Aline Hermann. Poder feminino A candomblecista Marli Barbosa, conhecida como Iyá Ekedji Ogunlade, tem a pele escura, olhos castanhos e estatura mediana. A estudante de
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    direito, que jádeu voz de prisão a um pastor evangélico, não permite que sua religião seja desrespeitada. Na ocasião, ocorria na Assembleia Legislativa de São Paulo o Festival Mundial de Ifá – oráculo que se desenvolveu na África Ocidental, especialmente nas regiões onde hoje estão localizados a Nigéria e o Benin e que foi trazido para o Brasil durante o período do escravismo -, com a presença do líder mundial dos Bàbálawos, Àràbà Àgbáyé Awóyemi Àdìsà Awóreni, Òkè-Tasè Ilé Ifè, e de outras personalidades religiosas da Nigéria. “Quando o pastor invadiu o espaço no qual acontecia o evento e proferiu palavras preconceituosas eu precisava fazer alguma coisa. Qualquer cidadão pode dar voz de prisão a outro, se julgar que é preciso” . Dentro do Candomblé ela exerce o cargo de ekedji, e seu papel é acompanhar e cuidar das roupas e apetrechos do Orixá da casa, além dos demais Orixás, e até mesmo visitantes, sendo uma espécie de dama de honra. “Fui apontada por Oxum para o cargo que tenho hoje, ela me escolheu”, contou. Marli explicou que a responsável por trazer o Candomblé ao Brasil e torná- lo uma religião de costumes matriarcais foi Iyá Nassô Oyo Akalagmabo Olodumare ou Iyá Nassô. A africana é uma das fundadoras da primeira casa de Candomblé, o Ilè Nassô, que antes funcionava em uma Roca na Barroquinha, bairro antigo da cidade de Salvador e depois se estabeleceu nas terras do Engenho Velho. A casa existe ainda hoje e possui cerca de 300 anos. Religião igualitária Em seu estudo de pós-graduação intitulado “O Candomblé e o Poder Feminino”, a antropóloga Teresinha Bernardo afirma que um dos fatores que faz a mulher ocupar cargos de destaque no Candomblé e na Umbanda é o fato das iorubas sempre terem exercido em seus reinos um papel político importante. No período da escravidão esse exercício era proibido, porém realizado em um plano imaginário por meio da religião. Quando indagada sobre a liderança feminina nas religiões afrodescendentes a socióloga Carolina Wakiyama Bittar esclareceu que a Umbanda e Candomblé não são totalmente matriarcais. “A religião não é totalmente matriarcal, pelo contrário. Não há uma verticalidade nas relações entre homens e mulheres, e sim uma horizontalidade. Sem o som dos atabaques, que são tocados por homens, o orixá não vem á Terra dançar nos corpos dos filhos de santo, ou seja, sem alabê não existiria Candomblé. Sem o pejigan (ogã responsável por zelar pelos axés dos terreiros) as iyalorixás (sacerdotisas) não conseguiriam cumprir sua função”.
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    A socióloga aindacontou que nessas religiões é possível descrever de forma bem definida os papéis exercidos por mulheres e homens nas religiões afrodescendentes, pois há funções específicas para ambos os sexos. ”Um homem não pode, por exemplo, preparar ajeum (alimento) dos orixás, este é o papel da iyabassé da casa, a ekedji responsável pela cozinha. Uma mulher não pode ter o cargo de alabê, ou seja, tocar atabaque. É importante ressaltar que a definição clara das atividades desempenhadas por ambos os sexos não deve ser lida com o olhar ocidentalizado, senão irá cair na reprodução de um discurso em que a desigualdade entre os sexos é prevalecente”. Bittar finalizou ao explicar o destaque recebido pela mulher. “A questão é que se dá uma importância maior às mulheres por diversos fundamentos presentes na religião e, principalmente, pela capacidade do corpo feminino de gerar. A mulher é o símbolo da fertilidade, é a essência capaz de criar, de conceber a vida”. Orixás femininos “Os mitos são como os sonhos. Sempre tem algo a dizer a nosso coração. Mas se apresentam com sua própria linguagem, seu próprio mundo, que é bem diferente do nosso. Por isso, nos parecem tão mágicos e, ao mesmo tempo, tão familiares” – Joseph Campbell, estudioso norte-americano de mitologia e religião comparativa, em “As Máscaras de Deus”. A palavra Orixá origina-se do iorubá e designa as divindades dos cultos africanos. São forças e vibrações da natureza que se completam. A mitologia africana menciona a existência de 600 orixás, divididos em duas classes: 400 que habitam o céu e 200 que estão na Terra. O pano de fundo da história dos orixás femininos é a força da mulher. Valentes, generosas e inteligentes, essas divindades viveram em seu panteão como mulheres determinadas e guerreiras. Para os adeptos das religiões afrodescentes, essas figuras são sinônimo de garra e coragem e impulsionam seus “filhos” a seguirem seus caminhos com sua proteção, sempre fortalecidos na fé. Iemanjá é a mãe poderosa e generosa que governa o mar, protege todos os seus filhos, mas pode tornar-se instável como as águas do mar. Iansã é guerreira e senhora dos relâmpagos, administra os ventos e as chuvas e possui grande ligação com a morte por cuidar dos eguns (espíritos). Oxum é dotada de uma vaidade natural. É o orixá feminino do rio, controla a fecundidade das mulheres e rege a inteligência e a riqueza dos seres humanos. Obá é a forte e energética lutadora das aldeias, cuida das águas revoltas dos rios e as pororocas. Nanã era a dona dos pântanos e da
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    sabedoria. Turrona, firmee ranzinza, é considerada a avó de todos os orixás. “Odofiaba, Odoyá. Odofiaba, Odoyá. É maré que vai, mãe Yemanjá. É maré que vem… Sereia do mar. Fui no mar, pedir outra vida, contendo a chorar escondendo a dor. Querendo sonhar na espera de tudo melhorar. Vestida de branco desfilei na areia, sobre o luar chamei as sereias. Pra mãe Yemanjá pulei sete ondas, pra descarregar. Ouvi sua voz, como um doce murmúrio,um belo cantar louvando o amor, que pode salvar quem mergulha na fé e se deixa levar. Ó minha mãe, como é bom te encontrar, sentir que contigo posso contar, pra não me perder no caminhar, ser feliz e sonhar.” “Odoyá” é uma das canções que também está presente no CD de Liz Hermann. A cantora apresenta nesta canção, composta por Aline Hermann, a fé que move seus seguidores. A mulher na sociedade africana Na África a família iorubá se organiza de maneira polígama, ou seja, os maridos possuem mais de uma esposa ao mesmo tempo. As mulheres saem da casa de seus pais e seguem para seu novo lar, no propósito de serem progenitoras e aumentarem a família do esposo. Essa condição não as denigre, pelo contrário, tornam elas mais respeitadas e com certa independência. Na condição econômica e social da África a mulher também sempre teve destaque. São grandes comerciantes, compram a colheita de seus maridos, revendem em feiras e permanecem com o lucro. Porém, é importante destacar que a mulher não trabalha para seu cônjuge. Além do comércio, as iorubás são responsáveis por estreitar alianças importantes, como casamentos e namoros, e trocam nessas feiras bens simbólicos, como moda, receitas, músicas, entre outros. Escravas em solo brasileiro Trazidas ao Brasil na época da escravidão, as iorubás não perderam suas características e iniciaram aqui verdadeiras feiras e comércios. O produto mais comum era o charuto, produzido nas senzalas e vendido por elas nas portas dos bares da cidade de Salvador. O sucesso dessas mulheres destacava-se pelo controle que tinham sobre o comércio varejista de produtos perecíveis. A partir daí elas ficaram conhecidas como mulheres de banca. Com o passar do tempo a mulher africana tomou outros caminhos, ganhou seu dinheiro, comprou a alforria e tornou-se livre em território brasileiro. Auxiliavam também seus respectivos companheiros e muitas
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    vezes os libertavam.O poder que possuíam na África as acompanhou no Brasil e isso pode ser facilmente percebido no âmbito religioso. Os números das religiões afrodescendentes Segundo o Censo 2000, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), os adpetos das religiões de matrizes africanas reúnem 571 mil seguidores (0,3%), sendo 89,9% são do sexo feminino. Dentro desses números, uma curiosidade: o Candomblé e a Umbanda têm maior participação na região Sul (0,7%), contra apenas 0,1% no Nordeste. Há quem questione os números oficiais, julgando que as religiões afrodescendentes totalizem o triplo de devotos. O motivo: muitos adeptos, temerosos de sofrerem preconceito, teriam se declarado católicos ou espíritas para os recenseadores. Os dados acima foram extraídos de estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). O que é Umbanda? Genuinamente brasileira, a religião sincretiza elementos de religiões de origem africana, católica, indígena e kardecista. Na Umbanda admite-se a existência de um Deus criador, denominado Olorum. Os adeptos cultuam os Orixás, entidades divinas com atributos e histórias próprias, que correspondem a um panteão. Além disso, existem os “guias”, espíritos que apresentam-se através de médiuns e incorporam em seus corpos, comunicam-se através dos “filhos de santo” e praticam a caridade. Os cultos umbandistas são chamados de “giras” ou “ritos” e são celebrados em um local denomindado “terreiro”. As giras, quase sempre acompanhadas ao som de atabaques, são comandadas pelo “Pai de Santo”, que zelam pelo bom andamento dos trabalhos e possuem autoridade completa no terreiro. Sincretismo Umbandista Apesar dos rigores da escravidão e da vigilância da igreja, que obrigava os escravos a converterem-se ao catolicismo, os negros cultuavam de forma secreta seus deuses africanos. O sincretismo, sistema religioso que combinava os princípios de diversas doutrinas, surgiu do desejo dos escravos em manterem suas tradições religiosas. Para que os castigos fossem acabados, os negros optaram por colocar em seus altares imagens e ícones católicos. No entanto, enquanto rezavam aos santos, na verdade cultuavam seus Orixás. Os deuses africanos foram identificados, guardando certas diferenças regionais, com santos católicos. Ogum corresponde a São Jorge; Iansã a Santa Bárbara; Xangô é São João Batista; Iemanjá é Nossa Senhora Aparecida.
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    O Nascimento Há controvérsiasa respeito da origem da Umbanda. A versão “oficial” é que sua anunciação ocorreu pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, no dia 15 de novembro de 1908, em uma sessão espírita, no Rio de Janeiro. Na reunião espíritos de indígenas e escravos se manifestaram, porém, foram convidados a retirarem-se por serem considerados atrasados moralmente, culturalmente e espiritualmente. Em defesa desses, o Caboclo das Sete Encruzilhadas manifestou-se e discursou a respeito da discriminação que as entidades sofriam. Na ocasião Zélio de Moraes, que viria a registrá-la em cartório no mesmo ano, foi levado à sessão por decorrência de um problema de saúde que os médicos não conseguiram curar (uns falam em paralisia, outros numa série de crises semelhantes à epilepsia). O antropólogo Emerson Giumbelli explica em seu livro “Zélio de Moraes e as origens da Umbanda no Rio de Janeiro” os acontecimentos sucessores a essa manifestação. “Os dirigentes da reunião espírita tentaram afastar o próprio Caboclo das Sete Encruzilhadas, quando então este avisou que, se não havia espaço ali para manifestação dos espíritos de negros e índios considerados atrasados, seria fundado por ele mesmo na noite seguinte, na casa de Zélio, um novo culto onde tais entidades poderiam exercer seus trabalhos espirituais e passar suas mensagens. Às 20 horas do dia seguinte, 16 de novembro de 1908, em meio a uma pequena multidão de amigos, parentes, curiosos e kardecistas incrédulos, que se aglomeravam na casa de Zélio, baixaram novamente o caboclo referido e declarou que se iniciava a partir de então uma nova religião na qual pretos velhos e caboclos poderiam trabalhar. Determinou também que a prática da caridade seria a característica principal do culto; que este teria como base o Evangelho Cristão e como mestre maior Jesus; que o uniforme utilizado pelos médiuns deveria ser branco; que todos os atendimentos seriam gratuitos; e que a religião se chamaria umbanda. Além disso, fundou naquele dia aquela que, nesta narrativa, é descrita como a primeira tenda de umbanda da história, a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade”. O que é Candomblé? A palavra Candomblé é derivada da língua bantu, e significa “lugar de costume dos negros” ou “lugar de tradições dos negros”. A religião originou-se em Ife, na África, e foi trazido ao Brasil por meio de sacerdotes africanos escravizados. As sessões candomblecistas tem por base a alma da natureza, e é composta por uma teologia simples: há um Deus criador de todas as coisas e deuses (Orixás) menores regentes da natureza. Essa doutrina é
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    representada por váriossímbolos, onde o mais comum é a bandeira branca, que simboliza a paz. A responsabilidade do culto é atribuída à Mãe ou Pai de Santo – autoridades máximas na religião – que correspondentes aos termos em ioruba “Babalorixá” ou “Iyalorixá”. Eles são escolhidos pelos próprios Orixás, sendo levados naturalmente à religião, onde assumem o cargo para o qual estão destinados. São pessoas que de alguma forma são iluminadas pelos Orixás para que cumpram seu destino. O Babalorixá ou Iyalorixá são assistidos pelos Babás ou Iya Kekere (pais e mães pequenos), que na ausência do Pai ou Mãe de Santo que assume o comando do terreiro. Além desses, outros ajudantes também entram em cena para o andamento do culto: Dagã ou Iyadagan, encarregada de despachar o padê (cerimônia oferecida a Exu); a Iyátebexê, que dirigie os cânticos aos Orixás nas cerimônias públicas; a Iyabassé, que supervisiona a preparação das comidas destinada aos Orixás e visitantes; a Ekedi, Ajoiê e Makota, que são encarregadas de cuidar dos Iaôs (Filhos de Santo) quando entram em transe; o Sarepebê, que leva as mensagens ao terreiro; a Ya Efun, que é encarregada de pintar os Iaôs; o Axogum, que deve fazer os sacrifícios dos animais oferecidos aos Orixás; o Alagbê, que é o chefe dos tocadores de atabaque. Há também os Ogãs, que não tem funções religiosas especiais, mas ajudam o terreiro de forma material e contribuem em sua defesa. Cada um tem sua função determinada que não pode ser alterada uma vez que atribuída. Os instrumentos que compõem esse culto são três atabaques, que recebem o nome de Rum, Rumpi e Le, um sino de percussão e um agogô, que devem estar de acordo com os Orixás que serão evocados em cada momento do culto. No Brasil são cultuados 16 Orixás: Essú, Ògún, Osossi, Osanyin, Obalúayé, Òsùmàré, Nàná Buruku, Sàngó, Oya, Obá, Ewa, Osun, Yemanjá, LogunEde, Oságuian e Osàlufan.