ZERO HORA > SEGUNDA | 13 | AGOSTO | 2007                                                       Especial > | 33 |


Sem
descanso
nem no
almoço

Q              ue celular, que nada. É o ve-
             lho telefone sem fio que os
             sócios Ildo Tibola e Ronaldo
              Guterres levam para o res-
              taurante na hora do almoço.
             A fábrica de objetos de fibra
             que têm está ao lado do Velho
            Coração, no bairro Navegan-
            tes, em Porto Alegre. Por isso, o
aparelho pode ficar conectado à base.
   Às vezes, o telefone toca durante a refei-
ção e alguém tem de deixar o prato pela
                                                  De plantão, Ildo (de óculos), Ronaldo (de boné) e
                                                  Wiliam levam o telefone sem fio ao restaurante, que fica
                                                                                                                                              vida melhorou para ele:
                                                                                                                                                – Eu era empregado. Hoje sou patrão.
                                                                                                                                                Para René Leuck, que senta-se na me-
                                                                                                                                              sa mais próxima à TV, uma 21 polegadas
                                                  ao lado da firma, para não deixar de atender a clientela.
metade para ir até a empresa receber um                                                                                                       sem controle remoto, os negócios piora-
cliente. À frente de um pequeno negócio,                                                                                                      ram nos últimos sete anos. Dono de uma
não podem se dar ao luxo de não atender         fatura de R$ 10 mil a R$ 15 mil por mês,           Passado o almoço, os dois voltam à         oficina de retroescavadeiras que funciona
à clientela só porque é meio-dia.               não dá prejuízo e tem um funcionário, o         empresa, de onde saem baús de motos e         há quase 30 anos, René é um dos mais
   Ildo assumiu o negócio há cinco anos,        garoto Wiliam Santos.                           caixas de luz feitos de fibra. Ildo entende   antigos clientes do restaurante. Nos anos
depois de o antigo dono retirar-se e dei-          O prédio no qual a firma está instalada      tudo disso. Conta que fazia a carcaça do      de 1999 e 2000, a oficina chegou a ter seis
xar dívidas para trás, inclusive com ele,       foi abandonado pelo antigo dono.                Miura, um carro esportivo fabricado em        funcionários. Hoje, tem só ele. Enquanto
então funcionário. De lá para cá, Ildo con-        – É comum nesses bairros mais velhos         Porto Alegre, bem-sucedido na década de       almoça, lembra dos tempos em que podia
seguiu honrar cerca de R$ 5 mil em che-         haver casas e pavilhões abandonados –           1980 e que deixou de ser produzido. Ho-       deixar a firma aberta ao meio-dia, com
ques emprestados. Hoje, a empresa, que          diz Ronaldo, enquanto enfrenta com a mão        je, de suas mãos não sai um resultado tão     um funcionário tomando conta e alguém
há dois anos tem Ronaldo como sócio,            e a faca uma enorme coxa de galinha.            glamouroso como um automóvel, mas a           para ajudar na parte administrativa.



Pelo custo
mais baixo
  Terminado o almoço, Edson Duarte Pin-
to se distrai com o palito à boca. Com uma
expressão tensa, sobrancelhas contraídas,
o dono de uma oficina de equipamentos
industriais, localizada ao lado do restau-
rante Velho Coração, troca breves palavras
com o filho e funcionário Elias.
  Nos próximos meses, o empresário pen-
sa em sair do bairro Navegantes. A empre-
sa tem uma sede administrativa e mais
dois depósitos na região. A existência de
três prédios tornou a logística mais com-
plicada e os custos maiores. Por isso, Ed-
son busca um terreno para se instalar em
Canoas, onde o Imposto Sobre Serviços é
menor (de 3% sobre a receita bruta, ante
5% na Capital). Vai tentar financiamento
bancário para o investimento estimado
em R$ 600 mil. Se não conseguir, usará re-      de Estudos Avançados em Pequenos Negó-
cursos próprios, incluindo os obtidos com       cios, Empreendedorismo e Microfinanças            Pouco afeito à área administrativa, Edson gosta é das
a venda das instalações atuais. Afinal, é as-   da Fundação Getulio Vargas. O instrumen-          lides operacionais do negócio, montado ao lado do bufê
sim que tem sido sua trajetória.                to malvisto, porém, pode ser fundamental
  Na empresa, trabalham Edson, um só-           para crescer, diz. Na maior parte das vezes,      Velho Coração. Evita entrar em bancos, mas já tentou
cio e mais cinco funcionários. Há 17 anos,      os negócios populares não dispõem de ga-          empréstimo quatro vezes. Nunca conseguiu.
quando a firma foi criada, os donos tra-        rantias para obter financiamento e o pró-
balhavam sem empregados. Para crescer,          prio acesso ao microcrédito passa pelo cri-
nunca contaram com crédito bancário,            vo da Serasa, observa a socióloga Rosinha
apesar de terem tentado.                        Machado Carrion.
  – Já tentei crédito umas quatro vezes.           Além da falta de crédito, a mordida do
Uma vez pedi, e o banco não tinha código        Fisco também trava pequenos negócios.
para o tipo de empréstimo que precisáva-        Edson calcula que terá de pagar cerca de
mos. Outras vezes, os juros eram sempre         R$ 3,5 mil a mais em impostos este ano
muito altos. Tudo que construímos foi com       por conta de uma alteração na legislação
recursos próprios – afirma.                     tributária. Não é pouco para uma firma
  É uma característica cultural achar que o     que fatura cerca de R$ 45 mil por mês.
empréstimo é ruim no Brasil, explica Fran-         – Se seguir assim, talvez eu tenha de dis-
cisco Barone, coordenador do Programa           pensar dois funcionários – lamenta.                          Leia a reportagem anterior em              zh.clicrbs.com.br
Data Publicação : 13/08/2007




Prato do Dia (2) (série), Restaurante de bairro: No improviso, gestão da economia popular,
Alimentação, Alimento

Série Restaurante Popular (5)

  • 1.
    ZERO HORA >SEGUNDA | 13 | AGOSTO | 2007 Especial > | 33 | Sem descanso nem no almoço Q ue celular, que nada. É o ve- lho telefone sem fio que os sócios Ildo Tibola e Ronaldo Guterres levam para o res- taurante na hora do almoço. A fábrica de objetos de fibra que têm está ao lado do Velho Coração, no bairro Navegan- tes, em Porto Alegre. Por isso, o aparelho pode ficar conectado à base. Às vezes, o telefone toca durante a refei- ção e alguém tem de deixar o prato pela De plantão, Ildo (de óculos), Ronaldo (de boné) e Wiliam levam o telefone sem fio ao restaurante, que fica vida melhorou para ele: – Eu era empregado. Hoje sou patrão. Para René Leuck, que senta-se na me- sa mais próxima à TV, uma 21 polegadas ao lado da firma, para não deixar de atender a clientela. metade para ir até a empresa receber um sem controle remoto, os negócios piora- cliente. À frente de um pequeno negócio, ram nos últimos sete anos. Dono de uma não podem se dar ao luxo de não atender fatura de R$ 10 mil a R$ 15 mil por mês, Passado o almoço, os dois voltam à oficina de retroescavadeiras que funciona à clientela só porque é meio-dia. não dá prejuízo e tem um funcionário, o empresa, de onde saem baús de motos e há quase 30 anos, René é um dos mais Ildo assumiu o negócio há cinco anos, garoto Wiliam Santos. caixas de luz feitos de fibra. Ildo entende antigos clientes do restaurante. Nos anos depois de o antigo dono retirar-se e dei- O prédio no qual a firma está instalada tudo disso. Conta que fazia a carcaça do de 1999 e 2000, a oficina chegou a ter seis xar dívidas para trás, inclusive com ele, foi abandonado pelo antigo dono. Miura, um carro esportivo fabricado em funcionários. Hoje, tem só ele. Enquanto então funcionário. De lá para cá, Ildo con- – É comum nesses bairros mais velhos Porto Alegre, bem-sucedido na década de almoça, lembra dos tempos em que podia seguiu honrar cerca de R$ 5 mil em che- haver casas e pavilhões abandonados – 1980 e que deixou de ser produzido. Ho- deixar a firma aberta ao meio-dia, com ques emprestados. Hoje, a empresa, que diz Ronaldo, enquanto enfrenta com a mão je, de suas mãos não sai um resultado tão um funcionário tomando conta e alguém há dois anos tem Ronaldo como sócio, e a faca uma enorme coxa de galinha. glamouroso como um automóvel, mas a para ajudar na parte administrativa. Pelo custo mais baixo Terminado o almoço, Edson Duarte Pin- to se distrai com o palito à boca. Com uma expressão tensa, sobrancelhas contraídas, o dono de uma oficina de equipamentos industriais, localizada ao lado do restau- rante Velho Coração, troca breves palavras com o filho e funcionário Elias. Nos próximos meses, o empresário pen- sa em sair do bairro Navegantes. A empre- sa tem uma sede administrativa e mais dois depósitos na região. A existência de três prédios tornou a logística mais com- plicada e os custos maiores. Por isso, Ed- son busca um terreno para se instalar em Canoas, onde o Imposto Sobre Serviços é menor (de 3% sobre a receita bruta, ante 5% na Capital). Vai tentar financiamento bancário para o investimento estimado em R$ 600 mil. Se não conseguir, usará re- de Estudos Avançados em Pequenos Negó- cursos próprios, incluindo os obtidos com cios, Empreendedorismo e Microfinanças Pouco afeito à área administrativa, Edson gosta é das a venda das instalações atuais. Afinal, é as- da Fundação Getulio Vargas. O instrumen- lides operacionais do negócio, montado ao lado do bufê sim que tem sido sua trajetória. to malvisto, porém, pode ser fundamental Na empresa, trabalham Edson, um só- para crescer, diz. Na maior parte das vezes, Velho Coração. Evita entrar em bancos, mas já tentou cio e mais cinco funcionários. Há 17 anos, os negócios populares não dispõem de ga- empréstimo quatro vezes. Nunca conseguiu. quando a firma foi criada, os donos tra- rantias para obter financiamento e o pró- balhavam sem empregados. Para crescer, prio acesso ao microcrédito passa pelo cri- nunca contaram com crédito bancário, vo da Serasa, observa a socióloga Rosinha apesar de terem tentado. Machado Carrion. – Já tentei crédito umas quatro vezes. Além da falta de crédito, a mordida do Uma vez pedi, e o banco não tinha código Fisco também trava pequenos negócios. para o tipo de empréstimo que precisáva- Edson calcula que terá de pagar cerca de mos. Outras vezes, os juros eram sempre R$ 3,5 mil a mais em impostos este ano muito altos. Tudo que construímos foi com por conta de uma alteração na legislação recursos próprios – afirma. tributária. Não é pouco para uma firma É uma característica cultural achar que o que fatura cerca de R$ 45 mil por mês. empréstimo é ruim no Brasil, explica Fran- – Se seguir assim, talvez eu tenha de dis- cisco Barone, coordenador do Programa pensar dois funcionários – lamenta. Leia a reportagem anterior em zh.clicrbs.com.br
  • 2.
    Data Publicação :13/08/2007 Prato do Dia (2) (série), Restaurante de bairro: No improviso, gestão da economia popular, Alimentação, Alimento