03
A Fundação João Mangabeira e o Partido
Socialista Brasileiro em parceria com o Insti-
tuto Miguel Arraes apresentam o centenário
de vida Miguel Arraes, ícone da luta em prol
do socialismo democrático no Brasil e no
mundo. A programação prevê diversas ativi-
dades e comemorações que objetivam o
intercâmbio de informações e o debate do
legado político do companheiro Arraes. Serão
lançados livros, exposições, seminários temá-
ticos e uma programação especial nos even-
tos nacionais do PSB no ano de 2016.
Arraes era cearense de nascimento, mas cons-
truiu sua carreira política em Pernambuco e
se tornou um dos maiores expoentes da
esquerda brasileira. Foi deputado estadual,
federal e governador de Pernambuco por três
vezes. Por conta de seu direcionamento e par-
ticipação política, foi deposto pelo golpe mili-
tar em 1964, sendo preso e depois exilado por
14 anos na Argélia. No exterior, participou
ativamente do processo de independência de
outros países de língua portuguesa. Conheci-
do como “Pai Arraia” pelos integrantes dos
movimentos populares, tinha uma relação
muito próxima com a população, em particu-
lar a do interior e da periferia metropolitana.
ACESSE A LINHA
DO TEMPO MIGUEL
ARRAES 100 ANOS
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PolitiKa
Revista
Nº3_ Março_2016
ISSN 2358-9841
federação | política | previdência social | saúde pública
sistema tributário | investimentos públicos | educação
Reforma do Estado03RevistaPolitiKa
Nº 2 _ JUNHO 2015
Revista PolitiKa
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R454 Revista Politika /Fundação João Mangabeira.
	 – Vol. 1, n. 3, (jan – jun 2016). Brasília: Editora FJM, 2016
	Semestral
	 Publicação on-line: <www.fjmangabeira.org.br/revistapolitika>
	 ISSN: 2358-9841
	 1.Política – Periódicos 2. Políticas públicas – Periódicos. I.
	 Fundação João Mangabeira. II Revista Politika.
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Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 2 22/03/16 17:39
PolitiKa
Renato Casagrande Aspásia Camarago
Ligia Bahia
Leda Paulani
Evilásio Salvador
Denise Lobato Gentil
César Benjamin
4 6
22
48
36
58
8270
editorial federação
política
saúde pública
investimentos públicos
sistema tributário
previdência social
educação
sumário
Um novo federalismo para o Brasil: como corrigir
o nosso federalismo assimétrico e incompleto
Riberti de Almeida Felisbino
Vitor Amorim de Angelo
Governança e instituições democráticas
no Brasil contemporâneO
Perspectivas e constrangimentos
do sistema de previdência
pública no Brasil
Políticas de saúde no Brasil:
notas para o debate
de alternativas
O injusto sistema
tributário brasileiro
Capitalismo e Estado no Brasil
A saga dos investimentos públicos
Educação e projeto nacional
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 3 22/03/16 17:39
Nº 3 _ MARÇO 2016
Renato Casagrande
4editorial
Reforma do Estado é o tema geral
deste número da revista Politika,
que a Fundação João Mangabeira
edita junto com a Universidade
Humboldt-Viadrina, da
Alemanha, com versões em
português, inglês e espanhol.
É um tema central para nós.
O Brasil conta hoje com um
Estado forte e ágil para premiar
amigos e punir adversários
políticos dos governantes,
mas fraco e inoperante para
mobilizar a sociedade em torno
de um projeto nacional. Isso
deixa o país à deriva.
Essa crise do Estado tem
múltiplas dimensões, como se
verá nos artigos desta terceira
edição. Aspásia Camargo trata
do federalismo brasileiro, “uma das
mais antigas soluções que
encontramos para administrar
melhor o nosso gigantismo
territorial, mas também o nosso
problema mais insistente e mais mal
resolvido”. Em uma trajetória
pendular, que alternou
centralização e descentralização
excessivas, consagramos um
“federalismo trino” – ou seja, com
três instâncias de governo – que
é uma especificidade do Brasil.
A arquitetura desse sistema
apresenta muitas fissuras. A carga
tributária tem se concentrado
desde a década de 1990, pois a
União amplia o recolhimento
dos recursos que lhe são
exclusivos, em detrimento
daqueles que precisam ser
repartidos. Ao mesmo tempo,
diante das omissões do governo
federal, estados e municípios são
levados a assumir novas
responsabilidades, para as quais
não estão preparados. Aumenta
o desequilíbrio na distribuição de
atribuições e recursos entre as
três instâncias de poder.
A reorganização do nosso pacto
federativo exigirá uma revisão
constitucional. Talvez seja o
momento de aprendermos com a
Constituição da Alemanha, que
adota o princípio da subsidiariedade,
hoje expandido para toda a Europa.
Trata-se de governar de baixo para
cima: no momento de definir
competências, a sociedade civil tem
prioridade sobre o Estado; para
cumprir as funções que a sociedade,
sozinha, não consegue assumir,
deve-se olhar, em primeiro lugar,
para os poderes locais; se as tarefas
estão além das capacidades
municipais, apela-se aos estados. O
governo federal só é chamado a
atuar nas questões que ultrapassam as
competências de todas as instâncias
inferiores.
Nossa construção institucional
sempre seguiu o caminho
inverso, imaginando soluções de
cima para baixo. Isso mostra que,
mais do que uma simples
alteração nas leis, é de uma
mudança cultural que se trata.
Riberti de Almeida
Felisbino e Vitor Amorim
de Angelo estudam as condições
de governabilidade presentes em
nosso sistema político. Começam
destacando um paradoxo: temos
uma democracia consolidada e
apoiada, em tese, pela grande
maioria da população. Ao mesmo
tempo, essa mesma população
considera que nossas instituições
políticas não são confiáveis. A crise
de representatividade atinge em
cheio o Congresso Nacional
e os partidos. Mesmo assim, os
autores reconhecem que ambos são
imprescindíveis para a manutenção
da capacidade de governar.
Denise Lobato Gentil recusa
a afirmação, tão difundida, de que
a previdência social brasileira seja
deficitária. Registra que estamos
sujeitos a uma narrativa
contraditória, pois o uso
indiscriminado de desonerações
tributárias a fim de estimular o
investimento privado atingiu
fortemente a arrecadação do
sistema de seguridade. O governo
abriu mão de recursos previstos
na Constituição para financiá-lo,
enquanto anunciava a necessidade
de combater um suposto déficit.
Gentil demonstra que os
números não confirmam a tese
do déficit e argumenta que
as variáveis determinantes para
a sustentabilidade do sistema,
no longo prazo, estão fora dele:
o emprego formal, o patamar
dos salários, a produtividade do
trabalho. Para afastar o risco
de um colapso no financimento
do sistema previdenciário “é
preciso que o país cresça,
aumente o nível de ocupação
formal e eleve a renda média
no mercado de trabalho,
promovendo mobilidade social.
A política econômica é o
principal elemento que precisa
entrar no debate sobre a ‘crise’
da previdência.” Não é possível
analisar a questão previdenciária
em si mesma, desvinculada da
evolução da economia como
um todo.
Nosso quarto tema é a saúde
pública. Nosso Sistema Único de
Saúde (SUS) foi concebido para
atender a todos os cidadãos. Ligia
Bahia diz que o debate sobre ele
tem sido rarefeito e acidental, o
que produz um “consenso vazio”,
pois esconde a incapacidade de o
sistema atender a todos com
Por um Estado melhor
Renato Casagrande
Presidente da Fundação
João Mangabeira
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 4 22/03/16 17:39
Por um Estado melhor
5
PolitiKa
qualidade. Houve iniciativas positivas,
como a ampla cobertura de vacinação, o
programa contra a AIDS, os transplantes, a
reforma manicomial, o programa Saúde da
Família e o maior acesso aos medicamentos.
A proibição da propaganda de cigarros
também deve ser citada. Mas há um
problema crônico de subfinanciamento
do SUS, além da precariedade da gestão,
que se reflete na percepção da opinião
pública sobre a baixa qualidade do
atendimento. Isso garante uma medicina
privada muito lucrativa. Os setores que se
opuseram à aprovação do direito universal
à saúde durante a elaboração do texto
constitucional nunca precisaram se opor ao
SUS, pois os negócios nessa área
continuaram a prosperar.
A questão do financiamento
das políticas de Estado nos remete ao
sistema tributário, o quinto tema da nossa
revista, entregue à apreciação de Evilásio
Salvador. Temos aqui mais um
paradoxo: a necessidade de uma reforma
tributária é consensual há muitos anos,
mas o tema não consegue avançar, pois
envolve um complexo conflito
distributivo entre sociedade e Estado,
entre diferentes entes estatais e entre
grupos sociais. O atual quadro recessivo
agrava o problema, ao provocar grandes
perdas na receita
de arrecadação do Governo.
Os princípios gerais enunciados na
Constituição de 1988 – equidade,
capacidade contributiva, progressividade –
estão corretos, mas a legislação
infraconstitucional posterior caminhou
na direção oposta, aprofundando a
regressividade do sistema ao transferir, cada
vez mais, o ônus tributário para as rendas
do trabalho. Mais da metade da arrecadação
do Estado brasileiro vem de tributos que
incidem sobre bens e serviços, e é baixa a
tributação sobre renda e patrimônio –
exatamente o contrário do que ocorre nos
países desenvolvidos. Essa é uma questão
essencial para iniciarmos uma nova etapa de
desenvolvimento.
As intenções dos constituintes na área
tributária foram, em grande medida,
frustradas. Estudo do Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea) mostra que as
famílias mais pobres destinam 32% de sua
renda ao pagamento de tributos, enquanto
as mais ricas destinam apenas 21%. Além
disso, a desejada descentralização das
capacidades estatais começou a ser revertida
já a partir de 1993, quando foi introduzida
a desvinculação de receitas das
contribuições sociais, que a União não
compartilha com estados e municípios.
Também aqui a ação governamental
tem sido frustrante. As principais
iniciativas da presidente Dilma Rousseff
na área tributária foram as desonerações
que beneficiaram as empresas. Não
houve nenhuma iniciativa de propor uma
reforma abrangente, de caráter
progressista, cada vez mais importante
para o país.
Chegamos, então, ao nosso sexto tema:
a capacidade de investimento do setor
público. Leda Paulani recupera a nossa
trajetória histórica e defende uma tese
importante: ao contrário do que dizem os
economistas com maior visibilidade na
mídia, investimentos públicos e privados
não concorrem entre si, mas são
complementares.
O diagnóstico conservador, de que é
preciso cortar os primeiros para aumentar
os segundos, não se sustenta nem na
história nem nos fatos da atual conjuntura.
Paulani aborda uma questão central
para o atual debate brasileiro: por que a
chamada “nova matriz macroeconômica”
do governo federal deu errado? Grandes
desonerações fiscais, acompanhadas da
obrigação de produzir superávits primários,
deprimiram o investimento público, que já
era muito baixo, e não estimularam o setor
privado a investir. Diante da queda nas
taxas de crescimento, impulsionada
também por uma situação internacional
menos favorável, o governo aceitou o
diagnóstico ortodoxo. O receituário que
dele decorre vem agravando a situação
financeira do Estado, pois o aumento da
taxa básica de juros eleva a dívida pública,
enquanto a recessão faz despencar a
arrecadação.
César Benjamin discute o tema
“Educação e projeto nacional”. Critica a
visão que reduz a educação a uma
ferramenta do crescimento econômico,
mostrando que há outras questões de
fundo envolvidas. Na verdade, quando a
demanda por educação se generalizou no
mundo moderno, a correlação dela com a
economia sequer havia sido estabelecida.
Tanto na Europa do século XIX quanto
no Brasil do século XX, as redes de
escolas públicas surgiram e se expandiram
como expressões da afirmação dos Estados
nacionais, que as sustentavam material e
ideologicamente. A crise da educação
brasileira, especialmente visível em
desastrosos indicadores de qualidade,
reflete a crise do nosso Estado: “A falta de
projeto [nacional] é mais angustiante que
a de dinheiro.”
Fatores de natureza sociológica também
contribuem para a crise da escola: “Os
professores ainda são formados para servir à
subjetividade cidadã, enquanto os alunos,
cada vez mais, são portadores de uma
subjetividade midiática, imagética, errática,
que não facilita a permanência produtiva
em uma sala de aula.”
Não se trata, pois, de apenas pedir mais
dinheiro e mais vontade política em apoio
à educação. Nosso sistema educacional
precisa passar por uma refundação.
A Revista Politika traz sempre temas de
grande relevância para o país – na primeira
edição “Reforma Urbana”, na segunda,
“Trinta anos de Redemocratização”, e
agora o terceiro número apresenta sete
abordagens decisivas para a proposição da
Reforma do Estado brasileiro. Os temas
tratados aqui, certamente, não esgotam todo
o contexto. Há muito que avançar sobre
outros assuntos como segurança pública e
reforma política, sempre sob reflexões
permanentes da Fundação João Mangabeira,
segmentos sociais e detentores de mandatos
do Partido Socialista Brasileiro. Temos
convicção de que estamos contribuindo
para um debate nacional mais qualificado na
esperança que a sociedade seja, cada vez
mais, atuante para construir uma nova e
histórica etapa para o Brasil.
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Nº 3 _ MARÇO 2016
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Erradicar do federalismo a
influência das oligarquias
O federalismo é uma das mais an-
tigas soluções que encontramos
para administrar melhor o nosso
gigantismo territorial, mas é tam-
bém o nosso problema mais insis-
tente e mais mal resolvido. Ao
longo da história, oscilamos de
forma pendular, ora centralizando
o Estado em demasia, ora o des-
centralizando, às vezes também
em demasia, como ocorreu na Re-
pública Velha, quando o poder fe-
deral limitava-se a administrar os
centros exportadores que lhe ali-
mentavam os impostos.
Em regimes democráticos, é
preciso dizer, as oligarquias se
apropriaram da estrutura mais
descentralizada do federalismo
para contra ele usar o seu cavalo
de Tróia, e em seu nome exercer
o velho poder. O patrimonialis-
mo disfarçado de federalismo aca-
bou gerando a contraofensiva
centralista do Estado Novo.
O feito se repetiu em 1946.
Mesmo na democracia de 1988,
precisamos estar alertas ao poder
imperial de prefeitos que, muitas
vezes, perdem seus mandatos por
cometerem abusos e malfeitos. No
entanto, é preciso reconhecer que
o exemplo vem de cima, do mo-
delo patrimonial que se reproduz
para baixo.
Fortalecer o município
na federação desregulada
Apesar das dificuldades crônicas e
dos vícios de origem acima desta-
cados, que precisam ser blindados
pela prática política, pelos novos
Aspásia
Camargo
Doutora em
sociologia pela École
des Hautes Études
en Sciences Sociales,
Universidade de Paris.
Vivemos uma situação de grave desequilíbrio.
Crescem as responsabilidades dos municípios e dos
estados, enquanto os recursos disponíveis estão
cada vez mais mal distribuídos. A centralização
federal não trouxe eficiência e melhora dos serviços
públicos. Há um crônico desequilíbrio entre a
competência dos entes federativos e a distribuição
de recursos arrecadados. Os municípios absorvem
cada vez mais responsabilidades, tentando
responder à omissão federal, enquanto seus
recursos minguam em igual proporção, na medida
em que os repasses constitucionais diminuem,
concentrando recursos na União. O pacto federativo
e a revisão constitucional são uma necessidade
emergencial que não pode ser postergada.
Um novo federalismo para o Brasil
como corrigir o nosso federalismo assimétrico e incompleto
I. O federalismo incompleto na estrutura
patrimonial do Estado
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Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 6 22/03/16 17:39
PolitiKa
Um novo federalismo para o Brasil
7
costumes e pelas leis, é preciso reconhecer o papel,
cada vez maior, que os municípios vêm assumindo
na estrutura caótica do federalismo brasileiro.
Essa é a tendência que se firmou nos últimos
25 anos, seja porque as instâncias superiores – dis-
tantes do eleitor – não se sentem constrangidas a
cumprir suas funções, seja porque faltam recursos,
seja porque, de fato, o prefeito acaba sendo obri-
gado a improvisar tarefas, ocupando o vácuo po-
lítico que se cria, sob a pressão direta da popula-
ção e do eleitor.
O federalismo não conseguiu exercer seus inú-
meros objetivos constitucionais. Em realidade, per-
maneceu incompleto, à espera das necessárias regu-
lamentações que o tornariam mais pragmático e efi-
ciente. Nem isso tivemos. Artigos da Constituição
tão importantes quanto o 23 permanecem, inexpli-
cavelmente, sem regulamentação, em uma área vital
para o bom funcionamento da Carta, que é a da de-
finição comum entre os entes federativos.
Sem esta definição clara de competências preva-
lece a incerteza dos entes federativos, em disputas
constantes uns com os outros, ou fugindo de suas
competências, dependendo do interesse ou desinte-
resse que tenham pelo assunto em questão. O nú-
mero de “fricções federativas” é muito grande.
As fricções podem ocorrer em torno de proble-
mas ambientais, de prédios e espaços públicos aban-
donados, que perderam serventia, de tensões sociais
ou de carências de infraestrutura. Vale o princípio
geral de que os entes federativos podem ou devem
fazer tudo em certas situações, nada em outras, de
natureza equivalente. É o imponderável que domi-
na, enfraquecendo as instituições e deixando a po-
pulação insegura e ressentida.
Outras questões fundamentais sobre as compe-
tências federativas permaneceram sem solução, co-
mo, por exemplo, a heterogeneidade dos nossos 5.570
municípios, equivocadamente tratados como iguais.
Nenhum legislador se atreveu a classificá-los por ta-
manho e renda, para fazer justiça federativa e obter
melhores resultados políticos.
É necessário reconhecer que muitas atividades exer-
cidas, de fato, pelos municípios não são, de direito, sua
atribuição. Um encontro de contas deveria ser reali-
zado em torno das competências reais assumidas e dos
recursos que são repassados para estados e municípios.
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Nº 3 _ MARÇO 2016
Aspásia Camargo
8federação
A descentralização democrática
exige o federalismo fiscal, por meio
de repasses automáticos maiores,
vindos da União e dos estados, pa-
ra os municípios; e, vindos da
União, para os estados. A parcela
hoje reservada aos estados e muni-
cípios tem sido burlada pelo con-
gelamento dos recursos fiscais a
serem repartidos e pela ampliação
das taxas e recursos exclusivos da
União. Não resta dúvida: os 22,5%
do imposto de renda e do imposto
sobre produtos industrializados re-
servados aos estados e municípios
têm sido insuficientes, por causa
das omissões dos entes superiores
e da sobrecarga dos municípios.
Seria justo aumentar de 22,5% pa-
ra 25% os repasses, desde que eles
fossem compatíveis com as funções
consolidadas de cada ente, elimi-
nando boa parte da dependência e
da subalternidade políticas em re-
lação ao governo federal.
Esses repasses devem ser calcu-
lados tecnicamente, mas sabemos de
antemão que em áreas críticas, co-
mo as da saúde, do ensino técnico
e de segundo grau, da infraestrutu-
ra da habitação, saneamento e trans-
portes, o governo federal e os esta-
dos não vêm cumprindo suas fun-
ções. O agravamento da segurança
pública tem sido muito onerosa pa-
ra os estados e exige reparação por
conta das omissões do governo fe-
deral em sua função exclusiva de
controle das fronteiras externas e
internas, o que facilita o contraban-
do de armas e drogas, de responsa-
bilidade exclusiva da União. Tais
compensações poderiam vir do or-
çamento, fonte cada vez mais instá-
vel, mas, sobretudo, dos repasses au-
tomáticosdosfundosdeparticipação.
Municípios pequenos e pobres,
a rebelião dos distritos isolados
Os municípios brasileiros são, em
grande maioria, compostos de
cidades muito pequenas, às vezes
isoladas e sem renda própria. Es-
sa situação os deixa politicamen-
te dependentes de repasses fede-
rais e estaduais, além de tecnica-
mente despreparados para
melhorar as condições em que
vivem, sobretudo nas regiões
mais pobres.
Mais grave é a situação dos
distritos situados em municípios
de grande extensão territorial,
incapazes de atender as áreas mais
isoladas e distantes. Abandonado
pela sede, sempre mais bem ser-
vida de atenção e recursos, ou
porque está longe dela, ou porque
o tamanho de sua população não
merece a devida atenção, o dis-
AlessioMoiola/shutterstock.com
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 8 22/03/16 17:39
PolitiKa
Um novo federalismo para o Brasil
9
trito permanece carente de ser-
viços públicos. Essa situação de
carência gerou, anos atrás, a pro-
liferação descontrolada dos mu-
nicípios, especialmente em alguns
estados como Minas, Paraná e
Maranhão. A tendência foi inter-
rompida quando se passou a exi-
gir o consentimento do Congres-
so Nacional. Mas o problema do
abandono, pela distância ou pelo
desinteresse, persiste.
Esse é o caso do município de
Búzios, uma joia do litoral flumi-
nense, centro turístico importan-
te, que era tratado com displicên-
cia por Cabo Frio, do qual acabou
conseguindo se emancipar. A
emancipação não eliminou sua de-
pendência política do município-
-sede, nem tornou sua classe po-
lítica melhor, mas permitiu a au-
tonomia necessária para assumir
suas responsabilidades perante a
população e para explorar melhor
sua vocação turística e sua infra-
estrura urbana.
É preciso frisar que as regras de
distribuição equitativas, segundo
critérios técnicos, dos fundos de
participação não foram devidamen-
te regulamentadas. Os critérios de
distribuição continuam a ser regi-
dos por regras puramente patrimo-
niais. Até hoje o Congresso Na-
cional não conseguiu regulamentar
adequadamente a lei, apesar do pra-
zo-limite, já ultrapassado, imposto
pelo Supremo Tribunal Federal,
em um exemplo claro de que a
omissão dos poderes gera a supre-
macia do Judiciário, alimentando
a tendência à judicialização.
A metrópole na orfandade
do federalismo incompleto
O status especial da metrópole,
recentemente regulada por lei
federal, preenche o vazio jurídi-
co em torno das regiões metro-
politanas, de competência esta-
dual, mas em geral abandonadas
à própria sorte, vivendo de mi-
galhas e atenções descontínuas
dos governos dos estados.1
Isso
não resolve os problemas crôni-
cos, dentro da lógica do federa-
lismo trino brasileiro.
Nosso federalismo valorizou
os municípios menores, relegan-
do as grandes cidades ao limbo
político. Isso atinge especialmen-
te as metrópoles, tratadas como
órfãs em nossa estrutura federa-
tiva. O “municipalismo” acabou
oferecendo abrigo ao sentimen-
to comum, ideológico, dos pe-
quenos municípios, cujos inte-
resses estão bem representados
pela Confederação Nacional dos
Municípios, liderada por Paulo
Zuilkovski.
Ex-prefeito de uma pequena
cidade gaúcha, Zuilkovski orga-
niza anualmente um lobby em Bra-
sília que protege os pequenos pre-
feitos em busca de uma aliança
privilegiada com a União. Ele che-
gou a impor uma agenda nacional
para capturar boa parte dos royal-
ties gerados pelo petróleo no Rio
de Janeiro. Com as transferências
constitucionais em queda livre, a
situação agravou-se.
No caso dos municípios me-
tropolitanos, a arrecadação é bai-
xa porque os municípios são po-
bres e, em geral, não têm vocação
industrial. Embora o populismo
dos prefeitos agrave a situação
fiscal, são injustos os reduzidos
repasses constitucionais, despro-
porcionais ao tamanho de suas
populações.
No recente Estatuto da Me-
trópole, é lamentável que o fun-
do que estava previsto tenha sido
vetado pela presidente, tornando
o estatuto mais um aparato legal
sem consequências práticas po-
sitivas para a administração pú-
blicas dessas cidades metropoli-
tanas que padecem de graves ca-
rências em transporte, saúde,
saneamento e habitação.
A omissão metropolitana nos
revela a natureza de nosso fede-
ralismo, muito mais voltado pa-
ra a distribuição geográfica do
território do que para a concen-
tração espacial de sua população.
Como resolver tal situação? As
regiões metropolitanas do estado
de São Paulo estão avançando em
suas ações coordenadas e em par-
ceria. No Rio de Janeiro, apesar
do atraso acumulado, um pro-
grama de planejamento estraté-
gico financiado pelo Banco Mun-
dial acaba de ser iniciado, pro-
duzindo expectativas positivas
de racionalização das políticas
públicas no caos metropolitano
do Grande Rio.
É urgente a criação de agên-
cias interfederativas de planeja-
mento e gestão, capazes de or-
Nosso federalismo adquiriu
características desequilibradas
que hipertrofiam as funções
federais, pesando cada vez
mais sobre os municípios
e reduzindo a importância
dos governos estaduais.
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 9 22/03/16 17:39
Nº 3 _ MARÇO 2016
Aspásia Camargo
10federação
ganizar ações estratégicas con-
juntas de longo prazo e de
elaborar projetos de curto prazo,
oferecendo formas de colabora-
ção aos entes federados. E é pre-
ciso retomar a criação dos fundos
de investimento metropolitanos,
vetados pelo governo federal,
atraindo recursos federais, estaduais
e intermunicipais para as priorida-
des definidas pelo planejamento.
O esvaziamento dos estados
e as dívidas federais
O federalismo brasileiro adquiriu
características desequilibradas que
hipertrofiam as funções federais,
pesando cada vez mais sobre os mu-
nicípios e reduzindo a importância
dos governos estaduais. Os estados
teriam mais razões para se queixar
do que os municípios, ao discutir
a parte que lhes cabe em nosso fe-
deralismo incompleto. A Consti-
tuição ignorou a histórica impor-
tância dos estados no federalismo
mundial, provavelmente encantada
com a novidade que inventou, o
inédito “federalismo trino”.
A trindade federativa dificulta
muito a discussão das competên-
cias entre três entes. Não existe
jurisprudência internacional sobre
isso. Diante do medo da improvi-
sação, de seus prováveis riscos, da
complexidade dos entes e das fun-
ções de Estado envolvidas, os le-
gisladores e assessores parlamen-
tares optaram pelo silêncio e a
omissão. O parágrafo 3o
do Arti-
go 23 permaneceu à espera. Na
Constituição Federal, as compe-
tências estaduais se reduziram a
quase nada, permanecendo vagas
e indefinidas, comprimidas entre
duas poderosas instâncias: a fede-
ral e a municipal.
Com o endividamento dos es-
tados, agravado pelo período in-
flacionário que precedeu o Plano
Real, eles contraíram dívidas im-
pagáveis com o governo federal,
tendo em vista a correção e os ju-
ros que foram impostos. A tal pon-
to que a dívida dos estados é hoje
maior do que quando o pagamen-
to começou, configurando uma
relação de especulação e usura en-
tre o governo federal e os estados.
O esvaziamento resultou tam-
bém da privatização das empresas
públicas e dos bancos estaduais que
se disseminou nos estados, inclu-
sive para evitar a penúria. Mas a
competência maior na regulação
das Regiões Metropolitanas em
geral não foi cumprida pelos esta-
dos, que continuaram a tratar a
capital e os municípios de seu en-
torno com dupla cautela: o medo
da capital, sempre belicosa e ame-
açadora para os projetos políticos
dos governadores; e os municípios
pobres dos entornos, concentran-
do um caldeirão explosivo de pro-
blemas sociais. Nos dois casos, a
solução dependeria de recursos
disponíveis, em geral ausentes.
A herança patrimonialista dos
estados é maior do que a dos mu-
nicípios brasileiros. Enquanto os
primeiros, segundo a tradição
portuguesa, foram a alma da na-
ção, criados a partir de interesses
locais congregados em torno dos
“homens bons” do lugar, os es-
tados, ao contrário, originaram-
-se do patrimonialismo imperial
– com espírito semelhante ao das
capitanias hereditárias, segundo
critérios arbitrários de definição
de fronteiras, formalmente geo-
gráficos mas também políticos,
tendo como objetivo central a
segurança e o fortalecimento do
poder central.
Essas estruturas guardam o ran-
ço patrimonialista e costumam
funcionar com fortes relações de
subordinação e dependência po-
lítica entre o governador e os pre-
feitos, isto é, entre o rei e seus vas-
salos. Cabe aos prefeitos “agradar”
e obedecer à vontade do governa-
dor, e cabe a este apaziguar, na
medida do possível, as demandas
das prefeituras, sempre ávidas de
recursos públicos. Esse padrão de
relação costuma ser sólido, sedi-
mentado pela cultura política.
Quando suas regras são descum-
pridas, os riscos são grandes, de
parte a parte.
O enfraquecimento dos esta-
dos levou o governo federal a res-
suscitar uma hábil prática patri-
monial, também herança portu-
guesa, que é a de valorizar a
aliança direta do poder central com
o poder local. Durante a Regên-
cia iniciou-se a prática do muni-
cipalismo cultivado pelo poder
central, para burlar os belicosos
presidentes de província, estimu-
lados pela liberdade maior que lhes
foi concedida pelo Ato Adicional.
Cabe propor orçamentos
regionalizados e
um processo de
desenvolvimento regional
participativo que tenha como
ponto forte as identidades
naturais das regiões, com
suas respectivas vocações.
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 10 22/03/16 17:39
PolitiKa
Um novo federalismo para o Brasil
11
A prática federal de cultivar
alianças com prefeituras repetiu-se
com Vargas, no Estado Novo, que
nomeou Juscelino Kubitschek pa-
ra a delicada tarefa de coordenação
política dos prefeitos. Este foi o
caminho que valeu a Kubitschek
a prefeitura de Belo Horizonte,
ainda pelas mãos de Vargas e, pos-
teriormente, o governo de Minas
e a Presidência da República.
Com o enfraquecimento das
práticas patrimoniais é provável
que se reforcem tendências cen-
trífugas em favor da regionali-
zação dos estados. Essa tendência
natural cria novas oportunidades
de desenvolvimento econômico
e de definição de vocações pro-
dutivas que produzem mais au-
tonomia quando o projeto é bem-
-sucedido.
Muitas vezes o enriquecimen-
to de determinadas regiões do es-
tado as estimula a reinvidicar au-
tonomia ou a negociar uma alfor-
ria com o governador. No rastro
dessa tendência, cabe propor um
orçamento regionalizado e um
processo de desenvolvimento re-
gional participativo que tenha co-
mo ponto forte as identidades na-
turais das regiões, com suas res-
pectivas vocações produtivas.
O que poderia se propor para
resgatar os estados desse prolon-
gado processo de esvaziamento,
que já dura quase três décadas?
Eles deveriam assumir um papel
de liderança no desenvolvimento
regional, algo que dificilmente
caberia ao município, a não ser
como função subsidiária, e que o
governo federal tem sido incapaz
de fazer. A regionalização seria
coordenada pelo governador e por
consórcios de municípios ou agên-
cias regionais, com o suporte do
orçamento regional e de fundos
de desenvolvimento, sempre ze-
lando pelo equilíbrio dos entes
municipais, acima de partidos e
de interesses locais.
Desequilíbrio territorial
e federalismo assimétrico
Convém lembrar que o federalis-
mo é um sistema de governo que
parece ter sido inventado para o
Brasil. Ele foi criado pelos pais da
democracia americana para unir as
colônias emancipadas sem prejudi-
car suas autonomias. Essa “dupla
soberania”, ao mesmo tempo fede-
ral e estadual, funciona segundo o
princípio da “unidade na diversi-
dade”. Tal filosofia prosperou no
século XIX em países continentais
de extensa base territorial, eman-
cipados de sua origem colonial e
de formação política recente, como
os Estados Unidos, o Canadá, a Ín-
dia, a Austrália e o Brasil.
Essa engenharia política pros-
perou graças à sua flexibilidade e
capacidade de adaptação, e seu su-
cesso estendeu-se a outros países
emancipados ou de unidade pro-
blemática mais recente, como a
Alemanha, a África do Sul e a Bél-
gica, que buscaram acomodar su-
as divisões territoriais internas –
religiosas, étnicas ou culturais.
O federalismo brasileiro é de
natureza assimétrica, em função de
nossa morfologia social, constituí-
da por um grande território com
população reduzida, carente e dis-
persa. Segundo Domingos Velasco,
um dos fundadores do PSB, esse
quadro configura a baixa capaci-
dade de gerar “coalescência”, isto
é, uma sociedade civil presente e
ativa, capital social e a coesão ne-
cessária para estimular organização
própria, construindo a democracia.
Esta seria a clássica diferença
com os Estados Unidos, onde a co-
lonização se desenvolveu, na maio-
ria das antigas colônias, a partir da
“arte de se associar”, levando a so-
ciedade a empreender inúmeras
ações de caráter civil, sem a parti-
cipação do governo. O mesmo mi-
lagre vingou no norte da Itália, se-
gundo Robert Putnam, a partir de
uma leitura moderna de Tocque-
ville.2
Para ambos, a vida comu-
nitária anima e aquece o desenvol-
vimento político. Tudo indica que
é por esse caminho promissor que
deveremos seguir.
As assimetrias provocadas por
um grande território pouco ocu-
pado se agravaram, produzindo for-
tes desigualdades com a ocupação
econômica feita em “ciclos de mo-
nocultura”, com agricultura itine-
rante e predatória. No final de ca-
da ciclo, o resultado desolador era
o abandono e a miséria que se ins-
talavam junto com as populações
que permaneciam no local.
Esse tipo de situação ocorreu
nas antigas áreas de exploração do-
eouro, de cana e de café, bem co-
mo nas regiões atingidas pela seca,
especialmente no Nordeste. O pro-
blema adquiriu dimensão política
e constitucional desde a década de
1910, chamando a atenção para a
necessidade de combater os núcle-
os resistentes de miséria e pobreza.
A Constituição Federal assumiu
esse compromisso, e políticas de
Estado se sucederam, no corpo de
seus compromissos permanentes,
para combater tais assimetrias e de-
sigualdades. Precisamos avançar
nessa direção, alimentando o de-
bate federativo com novas soluções.
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 11 22/03/16 17:39
Nº 3 _ MARÇO 2016
Aspásia Camargo
12federação
O princípio da subsidiariedade:
descentralização com democracia
Para garantir a alforria da sociedade civil, prisionei-
ra do Estado, é preciso que se incentive a formação
e acumulação de capital social, “empoderando”3
a
sociedade e transformando-a em interlocutora per-
manente de um poder público fortalecido.
Dentro desse princípio geral – de ampliar a
autonomia e o protagonismo da sociedade –, de-
vemos redimensionar o federalismo femocrático
para livrá-lo dos vícios patrimonialistas que im-
pregnaram os períodos de descentralização de-
mocrática, permeáveis às oligarquias e a outros
poderes paralelos.
Aplique-se a esse federalismo democrático o prin-
cípio da subsidiariedade, consagrado no direito ale-
mão e incorporado à Constituição Européia, que
funciona como uma espécie de dogma federativo,
propondo-se a governar de baixo para cima, ao con-
trário do que reza nossa tradição.
O princípio da subsidiariedade estava presente
na Igreja Católica na década de 1930 e foi introdu-
zido na Constituição Alemã de 1949, por Adenauer,
sendo posteriormente adotado na Constituição Eu-
ropéia. Franco Montoro foi grande adepto desse
princípio descentralizador, que inclui a sociedade
civil como o primeiro patamar na divisão das atri-
buições federativas.
Em um primeiro passo se estabelece a prioridade
natural da sociedade civil sobre o Estado na realiza-
ção das competências; em seguida, cabe a priorida-
de ao município, para cumprir funções que a socie-
dade não consegue fazer; e ao estado, quando os
municípios se revelarem incapazes; finalmente, ao
governo federal, quando nenhuma das instâncias
abaixo dele tiverem capacidade ou predisposição na-
tural para cumprir a função.
No Brasil, a subsidiariedade funciona ao con-
trário, de cabeça para baixo, cabendo ao governo
federal a capacidade de tudo regular, ainda que de
II. Corrigir o federalismo assimétrico e fortalecer a participação democrática
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PolitiKa
Um novo federalismo para o Brasil
13
forma mal definida e com baixa
capacidade de execução, que a
todos paralisa. A sociedade civil,
tutelada, quase nada pode fazer
sem se render a uma numerosa
linha de controles, em geral com-
pletamente inúteis. As atividades
produtivas, as regulações finan-
ceiras, sociais e administrativas
permanecem, em boa parte, re-
féns do governo e dependentes
da autoridade deste. É o patri-
monialismo em sua plenitude,
mas dotado de uma inédita com-
plexidade, cujo emaranhado pa-
ralisa o próprio governo.
O princípio da subsidiarieda-
de impõe uma nova classificação
de competências federativas, me-
nos formal e mais pragmática,
em função da situação real de
cada ente federado. É preciso fle-
xibilizar a padronização rígida e
levar em conta as diferenças em
cada categoria. As prefeituras te-
riam interesse nesse tipo de me-
dida, que permitiria usufruir de
benefícios inerentes à sua real
condição. Usaríamos assim o
princípio da subsidiariedade co-
mo meio de correção do federa-
lismo assimétrico brasileiro, com
suas extremas desigualdades es-
paciais e sua heterogeneidade so-
cial e cultural.
Em nosso caso, essas compe-
tências desiguais se manifestam
nos níveis estadual e municipal.
É urgente fazer uma revisão de
tais competências, segundo cri-
térios técnicos e políticos que
levem em conta essas caracterís-
ticas especiais e a capacidade re-
al de cada município ou estado.
Politicamente, devemos estimu-
lar os municípios a assumir suas
funções, com o provimento de
recursos necessários, mas corres-
pondentes à sua real autonomia
financeira, técnica, política e ad-
ministrativa, correspondente às
suas justas atribuições.
A subsidiariedade poderia ser
um instrumento classificatório im-
portante, organizando melhor as
referidas competências que, hoje,
são injustamente padronizadas e
irreais. Essas competências deve-
riam variar em função do tamanho
e da renda do município, além de
seu isolamento dos centros dinâ-
micos regionais.
Muitos estados, especialmen-
te ex-territórios, jamais tiveram
a assistência federal necessária e
permanecem passivos e depen-
dentes de recursos federais, sem
ter poder nem instrumentos para
cumprir plenamente suas funções
federativas. Nesse caso, cabe à
União financiar o planejamento
estratégico desses novos estados,
de modo que a médio prazo eles
reduzam sua dependência dos re-
cursos federais.
Desigualdades espaciais e
sociais e o desenvolvimento
local sustentável
Para resolver os problemas gerados
por essa assimetria, especialmente
a existência de desigualdades, a
Constituição Federal determina
que a redução dos desequilíbrios
regionais é uma prioridade de Es-
tado, reconhecendo, corretamen-
te, sua interdependência com os
desequilíbrios sociais. Distribuir
e equalizar melhor a renda nacio-
nal é função do Estado, especial-
mente da União.
Tais esforços, como veremos,
não foram até agora bem-suce-
didos. As políticas de redução das
desigualdades têm sido débeis,
imprecisas, desfocadas e equivo-
cadas. Ao longo dos anos, o go-
verno federal demonstrou que
tais políticas, sempre que possí-
vel, podem deslocar-se para os
estados por meio de fundos in-
terfederativos e com o aporte de
capitais privados.
Ao longo de décadas, as polí-
ticas federais e o Ministério da In-
tegração Regional não consegui-
ram reduzir, ou sequer amenizar,
as desigualdades regionais, como
a Constituição Federal determina.
A falta de infraestrutura e de
recursos para investimentos agra-
va o isolamento de muitas regi-
ões, inviabilizando as oportuni-
dades e estimulando a perma-
nência de uma economia não
monetária e autárquica. Enquan-
to isso, estreitos espaços territo-
riais, especialmente no Sudeste
e no Sul, concentram a produção,
o consumo e a riqueza, consoli-
Atualmente, a
máquina do Estado
é, ao mesmo tempo,
uma presa e um
monstro devorador,
voraz, ineficiente e
ilegítimo, que não
consegue mais
cumprir suas
velhas e bem
conhecidas funções.
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Nº 3 _ MARÇO 2016
Aspásia Camargo
14federação
dando a excessiva concentração
territorial da renda.
De fato, seria possível promover
investimentos de infraestrutura
acessíveis, aproveitando melhor as
“vocações naturais” e o potencial
cultural das nossas regiões e sub-
-regiões. Conselhos de Desenvol-
vimento Sustentável, que se espa-
lharam pelo país a partir do final
da década de 1990, seriam núcleos
dinâmicos de definição de projetos
e capacitação de capital humano
em torno de áreas protegidas, par-
ques, áreas de preservação ambien-
tal e afins, para fins turísticos, cul-
turais e de lazer. Esses projetos per-
manentes seriam melhor
alternativa econômica e social do
que a ocupação predatória e itine-
rante de terras pelo gado e a soja.
É surpreendente que um par-
que arqueológico como o da Ca-
pivara, no Piauí, de beleza inigua-
lável, impecavelmente preservado
com o esforço da comunidade
científica internacional, possa en-
contrar-se até hoje subutilizado,
como tantos outros pelo Brasil afo-
ra que poderiam estar contribuin-
do para gerar renda e distribuir
riqueza. Passados mais de vinte
anos, o parque da Capivara con-
tinua à espera da construção de
um modesto aeroporto que o co-
nectaria diretamente com Pernam-
buco, facilitando a entrada dos
turistas e os trabalhos de manu-
tenção. De fato, os recursos do
orçamento são anualmente retira-
dos em benefício de outros inves-
timentos. Políticas de desenvolvi-
mento local, integrado e susten-
tável que conseguiram vingar em
regiões como Bonito, em Mato
Grosso do Sul, poderiam render
mais e melhores frutos.
Desenvolvimento regional e
vocações produtivas: novas
políticas de combate à pobreza
Políticas de desenvolvimento re-
gional fracassaram ou, no mínimo,
não corresponderam aos esforços
e aos recursos que se mobilizaram
para resolver as iniquidades espa-
ciais e sociais. Tais práticas se per-
petuaram ao longo de décadas,
criando clientelas próprias. Em
vez de resolver, estimulam a de-
pendência e uma cadeia de inte-
resses políticos que, no governo
de Juscelino Kubitschek, foram
identificados como “os industriais
da seca”. Tais interesses, na ver-
dade, procriam à sombra do setor
público. E a distância se perpetua
entre o Nordeste, nosso maior
território de pobreza, e o Sudes-
te e o Sul, pólos mais desenvol-
vidos do país.
Os avanços modestos que se
realizaram no curso das últimas
décadas foram incapazes de in-
terromper o círculo vicioso das
desigualdades e das diferenças en-
tre a renda média brasileira e a
nordestina. Em 2013, essas desi-
gualdades eram muito próximas
às de cinquenta anos atrás, quan-
do, pelas mesmas razões, Kubits-
chek criou a Sudene.
A política de desenvolvimen-
to sustentável para o Nordeste,
que permite o ingresso na era do
conhecimento, da tecnologia e
da informação, foi bem repre-
sentada pelo legado de Eduardo
Campos e pelo esforço bem-su-
cedido de modernização da eco-
nomia pernambucana, um dos
objetivos estratégicos de nosso
programa de governo. As refor-
mas do Estado que defendemos
deveriam dar prioridade política,
mas também econômica e social
– mais uma vez –, à correção das
desigualdades territoriais brasi-
leiras. E examinar de perto de
que maneira, dessa vez, essas po-
líticas poderiam ser mais bem-
-sucedidas.
O Nordeste modestamente
progrediu (ou estacionou?) de
12% para 14% do PIB nacional
em 2013, ao mesmo tempo em
que sua população se reduziu pro-
porcionalmente de 30% para 28%
da população do país. Com a cri-
se atual, a situação da região se
deteriora rapidamente, chegando
a comprometer os avanços sociais
comemorados recentemente. O
desemprego e os cortes orçamen-
tários atingem mais duramente
a região, devolvendo às classes D
e E muitos dos que conseguiram
ascender a padrões de classe mé-
dia ou acima da linha da pobre-
za. A inflação e a queda dos sa-
lários reais provocam regressão
econômica, fazendo a renda das
famílias encolher socialmente.
De fato, 1,2 milhão de famílias
andaram para trás nos últimos
doze meses. Algumas caíram da
classe C para D; outras, na clas-
se D, retornaram para a classe E.4
Da mesma forma, cabe cha-
mar a atenção para o abandono
a que foram relegados os estados
do Norte, potencialmente muito
ricos, mas impossibilitados de se
defender das amarras e regula-
ções federais, e de angariar por
si mesmos os fundos necessários
– não para a repartição patrimo-
nial e corrupta dos Fundos de
Desenvolvimento do Norte e
Centro Oeste, mas para o real e
efetivo desenvolvimento susten-
tável da região.
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PolitiKa
Um novo federalismo para o Brasil
15
A centralização das competências
federais: partilha e fragmentação
do poder
O excesso de centralização provocou, no
médio prazo, o esvaziamento e o esquarte-
jamento do Estado brasileiro. Ao mesmo
tempo em que concentra poderes – falsos
poderes –, ele é obrigado também a ceder
espaços cooptados, dividido em uma ampla
coalizão de partidos e interesses fragmenta-
dos, o que, como nos ensina a teoria das co-
ligações, provoca uma inevitável paralisia.
Quanto maior o número de pessoas em uma
mesma carroça, menos a carroça anda.
Atualmente, a máquina deteriorada abri-
ga diferentes facções do mesmo partido. E o
que é mais grave: para consolidar alianças
que não funcionam. O Estado é, ao mesmo
tempo, uma presa e um monstro devorador,
voraz, ineficiente e ilegítimo, que não con-
segue mais cumprir suas velhas e bem co-
nhecidas funções.
O Parque Nacional
da Capivara
(PI) continua
subutilizado e
em processo
de degradação,
enquanto a região
de Bonito (MS) é
um caso de êxito
de políticas de
desenvolvimento
local e regional.
Matheusfo/wikimediacommonsArturWarchavchik/wikimediacommons
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Nº 3 _ MARÇO 2016
Aspásia Camargo
16federação
O orçamento padece de “rigi-
dez cadavérica” e mal pode atender
às demandas crescentes de uma so-
ciedade ávida de pequenos (e gran-
des) favores, mas amordaçada e im-
potente. Uma economia de baixo
dinamismo vive submissa, sob tu-
tela do Estado, dependendo de cré-
ditos subsidiados e dos caprichos do
poder. A fonte secou. Somos um
país pouco produtivo e muito en-
dividado. Nosso empreendedoris-
moamordaçadobuscacadavezmais
os caminhos da informalidade e
reivindica a alforria.
Desburocratizar a máquina
para combater o “buraco
negro” da centralização
A idéia de que a burocracia se ex-
pande por si mesma, sendo lenta
por indiferença ou inércia, é um
dos mitos que se construíram em
torno do poder impessoal de sua
máquina, que funciona como po-
der opressor, a partir de seu gigan-
tismo e de seu poder de controlar
o cidadão comum. De fato, o que
a burocracia procura é aumentar
seu próprio poder, que se alimen-
ta das regulações que o próprio
Estado cria – novas leis, por exem-
plo –, além de multiplicar, sempre
que possível, suas funções de fis-
calização e controle. Estas são uma
inesgotável fonte de recursos para
o funcionário corrupto, cujos ga-
nhos são marginais, e para a má-
quina de Estado em si mesma, que
se apropria da maior parcela do
bolo. Regulações em excesso ge-
ram burocracia em igual propor-
ção. A burocracia, por sua vez,
gera corrupção.
Na esfera dos princípios preven-
tivos de combate à corrupção, a
primeira lei de ferro é restringir a
capacidade reguladora do Estado
ao ponto necessário, evitando sua
proliferação. A segunda é descen-
tralizar a máquina de Estado, evi-
tando que uma densa cadeia de in-
teresses se crie à sua volta, em bus-
ca de sua benevolência, de grandes
epequenosfavoresquetransformam
a atividade-fim em atividade-meio.
O patrimonialismo do Esta-
do se alimenta da possibilidade
de dividir os recursos extraídos
da máquina com parceiros e alia-
dos, deles tirando o maior pro-
veito possível. Tais práticas se
instalaram dentro do Estado des-
de tempos imemoriais – o das
monarquias absolutas – e só fo-
ram controladas a partir da mo-
dernização política que se insta-
lou no século XVIII.
Um emaranhado de regulações
garante o poder fiscalizador do
Estado e seu poder de transferir
riquezas a cúmplices e protegidos.
Qualquer tentativa de reduzir o
poder paralisante e inibidor da má-
quina e da burocracia que a co-
manda desperta enormes resistên-
cias que, na maioria absoluta das
vezes, acabam vencedoras.
O melhor exemplo de boa ini-
ciativa fracassada foi o de Hélio
Beltrão. Ele tentou, em vão, des-
burocratizar a fúria centralizado-
ra e paralisante do regime militar,
que Golbery do Couto e Silva cha-
mou de “buraco negro”, no jogo
pendular das sístoles e das diásto-
les, isto é, dos ciclos de centrali-
zação e descentralização da vida
política brasileira. Hélio Beltrão
tentou simplificar a vida do cida-
dão a partir de seus documentos
pessoais, símbolos invertidos de
sua cidadania.
De fato, os malabarismos que a
burocracia comete para infernizar
o cidadão só rivalizam com o In-
ferno de Dante ou com os proces-
sos de Kafka em seu misterioso cas-
telo. Em nome de sua identidade e
da segurança do Estado, os atuais
controles se multiplicam, sempre
em busca de uma ampliação das re-
ceitas, nos mais diversos níveis. Car-
teiras de identidade ou de motoris-
ta, que poderiam ser definitivas,
tornam-se temporárias ou provisó-
rias, sob os mais diversos pretextos.
A prestação desses serviços inúteis
aumentou muito desde os tempos
de Beltrão, que, aos poucos, desis-
tiu da sua missão impossível.
A estratégia alternativa foi mu-
dar de foco e escolher uma área re-
gulatória cheia de contradições e
embaraços que dificultavam sua
ação e a vida normal da econo-
mia. Mesmo assim, os resultados
foram segmentados e pífios. Ou-
tro problema é que, enquanto a
Comissão de Desburocratização
eliminava papéis e regulações,
de um lado, a lógica perversa das
regulações as recriavam, de ou-
tro. O emaranhado de leis, de-
cretos e resoluções se acumula
de tal forma que paralisa e inibe
o sistema produtivo em geral.
O que conquistamos nos últimos
setenta anos, ao criarmos um
Estado moderno, regrediu a
métodos tradicionais, vigentes
na Repúplica Velha. Nesse
contexto, renasce o preconceito
contra os políticos.
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 16 22/03/16 17:39
PolitiKa
Um novo federalismo para o Brasil
17
Para o bem da economia e do
empreendedorismo brasileiro, é
preciso retomar, com mais astú-
cia e vigor – e com mais ousadia
–, a reforma da “ burocracia car-
torial”, iniciativa que Beltrão nos
deixou como legado de um so-
nho inconcluso.5
Vivemos, na realidade, a ten-
dência oposta. A natureza do Es-
tado se alimenta da ânsia de criar
e multiplicar poderes que possam
ser partilhados na distribuição de
recursos e favores. O governo
federal expande inexoravelmen-
te sua máquina, em troca de le-
aldade política para se perpetuar
no poder. Não é por acaso que
aumentam as despesas com a má-
quina pública e com seus funcio-
nários, que, paradoxalmente,
crescem mais do que o PIB. Tra-
ta-se de aumentar despesas e di-
minuir receitas ou de criar mi-
nistérios para acomodar cliente-
las políticas que dão votos. Ou
ainda, para acomodar disputas
entre aliados do governo.
O enxugamento, vez por ou-
tra, é apenas a tentativa engano-
sa de apaziguar a opinião públi-
ca e de conter a voracidade po-
lítica, que resultou em aumento
dos ministérios, de 23 no gover-
no Itamar Franco, para 30 no
período Fernando Henrique,
chegando ao número inédito de
39 ministérios com Dilma Rous-
seff. Quanto maior o número de
ministérios e empresas estatais,
menos recursos para cumprir as
funções gerenciais do Estado, no
âmbito político-administrativo.
No quadro atual, o Estado bra-
sileiro se reduz a uma carcaça pe-
sada e inútil, que precisa descen-
tralizar suas funções. Cabe à União
adequar-se a uma moderna filo-
sofia de governo, fortalecendo seus
mecanismos de governança: for-
talecer suas atribuições genuínas e
insubstituíveis, como capacitar
quadros de alto nível, subsidiar
funções, estimular complementa-
ridades que exijam sua natural
competência, remodelar suas es-
truturas de governo. É urgente
separar com clareza as funções de
Estado e as funções de governo,
requalificando o funcionalismo,
além de redefinir os fluxos dos
processos decisórios, estimulando
parcerias e ações integradas, dis-
tribuindo funções e melhorando
a qualidade da gestão.
As distorções se acumularam
durante a ditadura e continuaram
no regime democrático, apesar
do enxugamento forçado, pro-
vocado pela crise da década de
1990. O pecado capital é sempre
o mesmo e gira em torno do mes-
mo denominador comum: o Es-
tado patrimonial confunde as di-
mensões pública e privada. Daí
a facilidade com que a corrupção
penetra no corroído tecido esta-
tal, pois, afinal, o Estado é uma
entidade superior a serviço in-
condicional do monarca, de di-
reito divino.
Nosso presidencialismo, ape-
sar de sacramentado por vigoro-
sa competição eleitoral, guarda
essas características imperiais, li-
gadas a uma cultura política de
relações hierárquicas, de indefi-
nição entre o domínio público e
o privado, e adocicado pelas re-
lações pessoais, de cunho patriar-
cal, inseminadas pelo nepotismo
e pelas trocas de favor.
O presidencialismo delega ao
seu mandatário poderes simbo-
licamente absolutos, além de pou-
co controlados. Tais poderes são
apropriados pelo aparelho Esta-
tal, que tem dono, e se estendem
à parentela, aos protegidos, aos
amigos dos amigos.
Por isso, a máquina de Estado
perpetua a iniquidade, é antide-
mocrática, ignora os direitos hu-
manos e alimenta desigualdades
com a má distribuição de seus ser-
viços. Por isso, o Estado brasilei-
ro parece cada vez mais distante
daqueles a quem deveria servir e
de sua função principal, que é de-
fender o interesse coletivo.
Mesmo as parcelas mais mo-
dernas do Estado brasileiro, co-
mo é o caso das empresas estatais
– criadas na Era Vargas e, depois,
no regime militar – regrediram,
entregues aos negócios ligados
ao capitalismo de Estado, misto
de corrupção empresarial e de
sucateamento político-partidário.
O que conquistamos nos úl-
timos setenta anos, ao criarmos
um Estado moderno, regrediu a
métodos tradicionais, vigentes
na República Velha, derrubada
pela Revolução de 1930. Como
naquela época, renasce o precon-
ceito contra os políticos, contra
a anarquia e os excessos das de-
mocracias liberais, uma apologia
indireta do Estado autoritário e
corporativo.
O colapso da segurança
pública: guerra federativa
entre os três poderes
A sociedade, impotente, reage co-
mo em Leviatã ao estado de guer-
ra de todos contra todos. Nenhum
dos três poderes cumpre sua parte
ou consegue dar conta de suas res-
ponsabilidades legítimas.
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 17 22/03/16 17:39
Nº 3 _ MARÇO 2016
Aspásia Camargo
18federação
A segurança pública é o mais
grave problema federativo que en-
frentamos hoje. Sendo missão do
Estado, sua responsabilidade recai
em demasia sobre as polícias esta-
duais, pois cabe ao governo fede-
ral zelar por nossas fronteiras, atra-
vés das quais circula livremente o
contrabando de armas e drogas
para as grandes cidades brasileiras.
A polícia estadual, hipertrofia-
da e mal preparada, sequer dispõe
de um eficiente sistema de perícia.
Seus funcionários não têm exclu-
sividade no emprego público. São
despreparados e expostos à cor-
rupção. Impossibilitada constitu-
cionalmente de agir à altura, a Po-
lícia se vê obrigada e a se benefi-
ciar de recursos crescentes
extraídos de outras áreas vitais dos
governos estaduais. Pagamos o pre-
ço do extermínio de policiais e da
população brasileira.
É necessário reforçar a respon-
sabilidade federal na política de se-
gurança dos estados, exigindo tra-
balho investigativo e policiamento
ostensivo nos portos, aeroportos e
fronteiras estaduais. Além disso, a
política de segurança deve exigir a
presença direta do governo federal
em áreas sublevadas, especialmen-
te urbanas, hoje entregues à ação
das milícias e do tráfico.
O sistema legal está gravemen-
te comprometido. A Lei, que de-
veria proteger o cidadão, em rea-
lidade protege os criminosos, atra-
vés de inúmeros procedimentos
legais e infraconstitucionais, como
o Código Penal, e mais ainda, a
Lei de Execução Penais, que pre-
cisam ser revistos.
Por uma questão de justiça,
devemos adotar o princípio bá-
sico de que a intensidade da pe-
na deve corresponder à gravida-
de do crime. As penalidades de-
vem incidir, de forma exemplar,
sobre o crime organizado e o
crime de morte, e ter como me-
ta a redução dos homicídios em
geral. Cabe combater radical-
mente quaisquer condutas que
representem ameaças à vida. Da
mesma forma, cabe estimular,
com as penalidades impostas, a
convivência e a paz social.
O sistema carcerário precisa ser
corrigido com urgência em sua
filosofia e seu perfil de graves in-
justiças sociais que penalizam os
pobres, aqueles que não dispõem
de assistência jurídica. Especial-
O país se desagrega, pela
desordem social, pelas
injustiças acumuladas, pela
ineficiência das instituições,
pela desconfiança dos cidadãos.
Uma nova repartição de
recursos pode estar a caminho.
Celsopupo/shutterstock.com
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 18 22/03/16 17:39
PolitiKa
Um novo federalismo para o Brasil
19
mente os jovens negros, que não
conseguem obter resultados posi-
tivos de ressocialização. Ao deixar
a prisão, tampouco dispõem de
assistência real que lhes permita a
reintegração social. A situação re-
al e inaceitável é que as prisões,
em vez de serem educativas, são
as melhores escolas do crime. To-
dos sabem disso.
Não devemos aceitar a justifica-
tiva de que as prisões estão cheias
para, com esse argumento, atenuar
a pena e libertar o criminoso, espe-
cialmente de crimes por morte. Em
compensação,urgentesprovidências
devem ser tomadas para que o sis-
temacarceráriolibereosquejácum-
priram a pena e lá continuam. Ou
aqueles que, por falta de assistência
jurídica, estão presos, mas poderiam
sercondenadosapagamentodemul-
tas ou a penas alternativas.
No país que estimula a judi-
cialização, é preciso ampliar a
punição através da multa, desde
que as mesmas tenham real in-
cidência sobre a renda do infra-
tor. Do contrário, a solução seria
enganosa.
A política de segurança é pre-
cária e está um século atrasada,
pois ainda não conseguiu estimu-
lar a profissionalização de seus
quadros na área da perícia, que
acelera e dá maior segurança à
apuração dos crimes. É preciso
separar com mais clareza as fun-
ções da polícia civil e da polícia
militar, a primeira investigativa
e a segunda, ostensiva. É conhe-
cida a disputa entre os dois seg-
mentos, o que enfraquece o siste-
ma de segurança como um todo.
Existe ainda uma surda com-
petição entre a polícia civil e o
Poder Judiciário, que resulta em
incapacidade de identificar e pu-
nir culpados. Essa fraqueza crôni-
ca da perícia é a principal respon-
sável por um número excessivo de
crimes sem apuração conclusiva:
uma percentagem de menos de 8%
de infratores acaba na cadeia.
Em suma, o Estado precisa re-
forçar a polícia e as políticas pre-
ventivas, protegendo as populações
vulneráveis e evitando que peque-
nos delitos evoluam para crimes
mais graves. Desenvolver políticas
de inclusão e capacitação de jovens
negros é cortar pela raiz o exter-
mínio em massa, modalidade de
crime silencioso para o qual con-
tribui o próprio poder público, em
balas perdidas e confrontos de rua.
A disputa entre os poderes é
cada vez mais visível, tanto na
distribuição desigual das despe-
sas, quanto nos salários e na alo-
cação dos recursos. A judiciali-
zação crescente resulta, de um
lado, da omissão dos poderes Exe-
cutivo e Legislativo, que deixam
espaços vazios para o Poder Ju-
diciário ocupar; de outro, da
pressão da cidadania sobre o Mi-
nistério Público e o Poder Judi-
ciário, tornando tentadora a ação
daqueles que enfrentam os po-
deres omissos.
O país, fragmentado, se desa-
grega, pela desordem social, pelas
injustiças acumuladas, pela inefi-
ciência das instituições, pela des-
confiança dos cidadãos O dese-
quilíbrio entre o governo federal,
os estados e os municípios se agra-
va. Uma nova repartição de re-
cursos pode estar a caminho.
III. O novo pacto federativo: Que fazer? Com quem fazer?
■ Distribuir competências: quem
faz o que em nosso federalismo
trino? O primeiro compromisso
do pacto federativo é a descentra-
lização com centralidade, procu-
rando fortalecer as funções federais
de coordenação e de integração,
mas buscando livrar o governo fe-
deral das transferências de poder
para outra instância a partir das
nomeações federais nos estados,
por exemplo, que garantem fide-
lidade e vassalagem dos partidos,
mas o obrigam a abdicar de for-
mular e implementar políticas na-
cionais. Precisamos aplicar com
mais clareza as diferentes compe-
tências de nosso “federalismo tri-
no”, distribuído entre o governo
federal, os estados e os municípios.
■ Introduzir uma repartição co-
erente entre competências e re-
ceitas, estabelecendo como prio-
ridade política uma redivisão do
Fundo de Participação dos Esta-
dos (FPE) e dos Municípios
(FPM), compatível com as trans-
ferências de funções e seus custos
reais, assumidos por estados e mu-
nicípios nos últimos anos.
■ Aumentar de 21,5% para 22,5%
a transferência de recursos fede-
rais através do FPM, para com-
pensar o aumento crescente de
atribuições municipais orginal-
mente sob a responsabilidade fe-
deral, como a saúde. Os muni-
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 19 22/03/16 17:39
Nº 3 _ MARÇO 2016
Aspásia Camargo
20federação
cípios aumentaram suas respon-
sabilidades na área de saúde,
saneamento e habitação e os es-
tados na área de segurança pú-
blica, ligada a contrabando e dro-
gas, além de transporte e saúde.
■ Elevar de 21,5% para 24,5% a
alíquota do FPE e do FPM para
propiciar o verdadeiro equilíbrio
federativo, e não apenas uma com-
pensação menor, que não satisfaz
a ninguém. Esses recursos comple-
mentares devem ser destinados a
atividades-fim, restringindo a ex-
pansão de despesas com atividades
supérfluas ou com a contratação
de pessoal, que vem inchando as
prefeituras. O objetivo do fundo
seria o de ampliar a renda dos mu-
nicípios através de impostos.
■ Combater uma distorção que se
acumulou com os anos: fruto do
velho patrimonialismo, cresceram
as transferências voluntárias do go-
verno federal, que se dirigem a
parceiros amigos, enquanto dimi-
nuíram as transferências automá-
ticas, de natureza democrática e
universalista, que vão para fins de-
terminados e que garantem a iso-
nomia nas relações federativas.
■ Instituir como regra democrá-
tica reguladora o princípio da
subsidiariedade, que estabelece
uma hierarquia de competências
de baixo para cima, valorizando
a sociedade civil perante o Esta-
do e o município frente às suas
instâncias superiores, o estado e
o governo federal.
■ Regulamentar de forma adequa-
da o parágrafo único do Artigo 23
da Constituição Federal, que de-
fine amplas competências comuns
entre os entes federados. A falta de
jurisprudência do federalismo tri-
no deixou indefinidas as funções,
por insegurança do legislador. Es-
sa omissão acabou por criar um
imbróglio federativo, ao permitir
enorme superposição de funções
entre os entes federados, junto com
vazios e omissões, no que diz res-
peito a um grande número de po-
líticas públicas.
■ Promover a cooperação e a in-
tegração entre municípios vizi-
nhos de uma mesma região, atra-
vés de diferentes tipos de parce-
rias: consórcios, organizações
sociais, empresas ou qualquer ou-
tro tipo de organização. Zelar
também para que os consórcios
possam se integrar verticalmen-
te, associando o governo federal
aos estados e municípios.
■ Criar conselhos de desenvolvi-
mento sustentável, com visão es-
tratégica e participativa de médio
e longo prazos. Apostar no de-
senvolvimento local, integrado
e sustentável, a partir de uma vi-
são de regionalização do desen-
volvimento, abandonada nas úl-
timas décadas, tendo como pila-
res uma nova economia para a
sociedade do conhecimento, o
empreendedorismo e a inclusão
social, além da responsabilidade
ambiental e do uso sustentável
dos recursos naturais, da cultura,
do turismo e do lazer, para gerar
emprego e renda.
■ Exigir a regionalização dos go-
vernos estaduais e de seu orçamen-
to descentralizado, além de planos
estratégicos regionais participati-
vos. E impedir que a alocação de
recursos se faça por critérios de
proteção a aliados políticos.
■ Estimular a competição através
das boas práticas que possam ser
confrontadas entre entes de peso
equivalente, como seria o caso
de municípios de até 10 mil ha-
bitantes ou de mais de 500 mil.
O federalismo é um sistema ao
mesmo tempo cooperativo e
competitivo, e aí reside o equi-
líbrio que dinamiza a federação.
■ Incorporar à Federação um en-
te intermediário, a região metro-
politana, cujo Estatuto da Me-
trópole foi votado pelo Congres-
so Nacional. No entanto, a
presidente vetou a proposta do
Fundo Metropolitano, tornando
o estatuto mais um documento
de utilidade discutível. Agências
metropolitanas precisam ser cria-
das com fundos compostos por
recursos interfederativos, tendo
em vista estimular iniciativas co-
muns, reduzir desigualdades, pro-
Há uma vinculação
entre centralismo
e corrupção, na
medida em que
os repasses
automáticos do
governo federal
são substituídos
por repasses
voluntários.
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 20 22/03/16 17:39
PolitiKa
Um novo federalismo para o Brasil
21
teger o meio ambiente e, sobre-
tudo, incentivar atividades eco-
nômicas produtivas.
■ Recuperar o nosso pacto fede-
rativo, duramente reconquistado
(e aperfeiçoado) pela Constitui-
ção de 1988, que defendeu a des-
centralização administrativa e
fiscal, e promoveu uma inovação
singular: incorporou o municí-
pio como “ente federativo”, con-
sagrando o municipalismo que
vem da Colônia e do Império.
A crise econômica e a amea-
ça de desagregação política das
décadas de 1980 e 1990 fortale-
ceram o governo federal com um
conjunto de emendas constitu-
cionais e medidas provisórias que
restauraram a centralização. Além
disso, estimularam uma excessi-
va dependência dos estados e mu-
nicípios, ao mesmo tempo em
que o governo federal recupera-
va seus recursos perdidos. Vive-
mos, portanto, um grave dese-
quilíbrio fiscal: ampliação das
responsabilidades dos municípios
e dos estados, enquanto os re-
cursos disponíveis estão cada vez
mais mal distribuídos. Para agra-
var a situação, a centralização
federal não trouxe eficiência e
melhora dos serviços públicos.
Do ponto de vista territorial,
existe um crônico desequilíbrio
entre a competência dos entes
federativos e a distribuição de
recursos arrecadados. Os muni-
cípios absorvem cada vez mais
responsabilidades, tentando res-
ponder à omissão federal, en-
quanto seus recursos minguam
em igual proporção, na medida
em que os repasses constitucio-
nais diminuem, concentrando
recursos na União. O pacto fe-
derativo e a revisão constitucio-
nal são, portanto, uma necessi-
dade emergencial que não pode
ser postergada.
Quais os limites toleráveis de
centralismo e de arbítrio, e como
é possível corrigir a acumulação
excessiva de funções federais,
compatível com a boa governan-
ça e com o funcionamento nor-
mal da sociedade?
Existe uma vinculação natu-
ral entre centralismo e corrup-
ção, como já apontou, no passa-
do, Tavares Bastos6
na medida
em que os repasses automáticos
do governo federal são substitu-
ídos por repasses voluntários,
através de acordos e cumplicida-
des políticas.
Como se pode tratar de manei-
ra equivalente os 5.570 municípios
brasileiros, em sua maioria pobres
e pequenos, mas com bases terri-
toriais e populacionais heterogê-
neas, e com capacidade de arreca-
dação e de gerar riquezas tão dís-
pares? Como controlar despesas
que não se sustentam em arreca-
dação e receitas próprias? Como
alimentar câmaras de vereadores e
estruturas administrativas incom-
patíveis com seus níveis de renda?
Como tratar os estados, velhas
estruturas obsoletas, herdadas do
Império, segundo um princípio
de distribuição semelhante ao das
capitanias hereditárias, e que ho-
je se encontram esvaziados em
suas funções residuais, mas ainda
têm poder patrimonial movido
pelo arbítrio? n
Notas
1. A lei denominada Estatuto da Metrópole foi regulamentada em 12 de janeiro de 2015 e determina
prazo de dois anos para ser reconhecida e regulamentadas nos municípios que compõem a grande
metropole.
2. Aléxis de Tocqueville, Democracia na América e Robert Putnam, Making democracy Work: Civic Traditions
in Modern Italy, Princeton University Press, 1992. Mais recentemente, Putnam retoma o tema em “A
Arte de Estar Juntos”, Better Together, Restoring the American Community, em coautoria com Lewis Feldstein,
N,Y, Simon & Schuster Paperbacks, 2003.
3. A palavra original em inglês é empowerment, isto é, dar mais poder a um segmento sub-representado ou
a alguma estrutura em igual situação.
4. Segundo a Federação do Comércio do Estado de São Paulo, um reflexo desse rebaixamento aparece na
perda do poder de consumo nos supermercados. Segundo o IBGE, em julho as famílias sairam dos su-
permercados com um volume 2% menor. A evolução do custo de vida por classe social nos doze meses,
medida pela Fecomércio em julho de 2015, mostra que o custo de vida aumentou 8,73% para a classe
A, 8,82% para a classe B, 9,87% para a classe C, 11,26% e 11,16% para as classes D e E. A classe E au-
mentou de 21,6% da população para 23,1%. A perda salarial foi responsável por uma queda de 2,5 pon-
tos percentuais do rendimento médio das famílias no último ano.
5. Hélio Beltrão parece ter se inspirado em Hélio Jaguaribe ao definir o Estado cartorial em Cadernos do
Povo Brasileiro, o precursor do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), no início da década de
1950.
6. Tavares Bastos, em A provincia, faz a mais antiga e contundente crítica da herança centralista portu-
guêsa e imperial, e das irracionalidades e aberrações políticas provocadas pela excessiva centralização
do Império.
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 21 22/03/16 17:39
Nº 3 _ MARÇO 2016
22
Governança e instituições democráticas
no Brasil contemporâneo
Já faz algum tempo que o Brasil
vive um dilema parecido com o
de outros países democráticos. Por
um lado, suas instituições estão
razoavelmente estabelecidas e con-
solidadas, em que pesem as dife-
rentes propostas de reforma do
sistema político-eleitoral. A de-
mocracia brasileira, hoje, atende
tanto aos princípios formais defi-
nidos por Manin (1996)1
para a
existência de um governo repre-
sentativo como aos critérios for-
mulados por Dahl (1989) para o
estabelecimento de uma poliarquia.2
Por outro lado, os brasileiros pa-
recem confiar cada vez menos em
suas instituições políticas, colo-
cando à prova, assim, o próprio
regime democrático em vigor des-
de a década de 1980. A expressão
maior deste dilema está na con-
traditória combinação entre o que
Santos e Avritzer (2003, p. 41-42)
chamaram de “concepção hege-
mônica de democracia” e “degra-
dação das práticas democráticas”.
Esse modelo hegemônico, es-
tabelecido a partir da Segunda
Guerra Mundial, deu forma a uma
“democracia de baixa intensida-
de”. Em outras palavras, o tipo
de regime político que se conso-
lidou na segunda metade do sé-
culo XX pressupunha uma con-
tradição entre institucionalização
e mobilização, valorizava a apatia
política, concentrava o debate so-
bre o regime democrático nos
seus desenhos eleitorais, apontava
o pluralismo como forma de in-
corporação partidária e disputa
entre elites, e defendia uma solu-
ção minimalista para o problema
da participação política. Na me-
dida em que o modelo hegemô-
Riberti de Almeida
Felisbino
Doutor em ciências sociais
pela Universidade Federal
de São Carlos, com pós-
doutorado pela Universidade
Estadual Paulista Júlio
de Mesquita Filho e pela
Universidade Federal
de São Paulo. Professor do
Programa de Pós-Graduação
em Sociologia Política da
Universidade Vila Velha (ES).
E-mail: riberti.felisbino@uvv.br
Vitor Amorim
de Angelo
Doutor em ciências sociais
pela Universidade Federal
de São Carlos. Professor
do Programa de Pós-
Graduação em Sociologia
Política da Universidade
Vila Velha (ES).
E-mail: vitor.angelo@uvv.br
Pesquisas de opinião vêm mostrando uma baixa confiança dos cidadãos nas
instituições democráticas brasileiras, sobretudo nos partidos políticos. O
atual desenho do sistema político é composto por várias instituições. Sua
combinação – ou seu desenho institucional – ensejou uma série de
discussões de natureza política e acadêmica. Este artigo expõe algumas
particularidades do sistema político brasileiro e os dilemas vividos pela
nossa democracia, com reflexos para o seu funcionamento e o exercício da
própria governança. No tocante aos partidos, embora estejam em descrédito
junto à sociedade civil, nosso argumento é que as legendas ainda são
instituições fundamentais para a garantia de governança.
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 22 22/03/16 17:39
Governança e instituições democráticas no Brasil contemporâneo
23
nico de democracia se consolidava, for-
mularam-se propostas contra-hegemô-
nicas, cujas críticas se concentravam,
especialmente, na forma como a repre-
sentação e a participação eram compre-
endidas na concepção tradicional de
democracia então predominante.
Um dos sintomas visíveis do dilema
expresso na contradição entre consoli-
dação das instituições democráticas e
falta de confiança na democracia é a
“dupla patologia” (Santos e Avritzer,
2003, p. 42), marcada pelo aumento da
abstenção, pelo lado da participação, e
pelo distanciamento cada vez maior en-
tre eleitos e eleitores, pelo lado da re-
presentação. Se no Brasil, onde o voto
é obrigatório, o abstencionismo tem al-
cançado percentuais elevados, em de-
mocracias como os Estados Unidos e a
França, por exemplo, a proporção de
eleitores que simplesmente não compa-
recem às urnas – ou, quando o fazem,
votam em branco ou nulo – permanece
em patamares dramáticos para um regi-
me político que tem como um de seus
princípios fundamentais a eleição peri-
ódica para a escolha de representantes.3
No caso da representação, os protes-
tos de julho de 2013 em várias cidades
brasileiras parecem indicar como o dis-
tanciamento e a falta de identificação
entre eleitos e eleitores, a fragilidade dos
mecanismos de controle que estes têm
sobre aqueles e a ausência de mandatos
responsivos em relação aos representados
são características do nosso quadro po-
lítico atual. Nesse sentido, as manifes-
tações populares a que o país assistiu há
dois anos, longe de representarem um
revigoramento da democracia, podem
ser interpretadas, na verdade, como ex-
pressão de uma inquietante descrença
nos valores e nas instituições do regime
democrático. Não obstante verbalizas-
sem reivindicações concretas e reais, os
protestos revelaram muito de intolerân-
cia e incompreensão, sem oferecer solu-
ções aos problemas político-institucionais
presentes na agenda de discussões no
Brasil de hoje (Nogueira, 2013).
Em seu trabalho sobre a confiança dos
brasileiros na democracia, Moisés (2005,
p. 34) lembra que, no país, “a percepção
negativa das instituições atravessa todos os
segmentos de renda, escolaridade, idade e
distribuição ecológica, chegando a influir
na disposição dos cidadãos para participar
de processos políticos”. Se esse sentimen-
to negativo sobre as instituições é gene-
ralizado entre os brasileiros, corroboran-
do o diagnóstico da “patologia” defendi-
do por Santos e Avritzer (2003), o que os
estudiosos dizem do nosso sistema políti-
co? Os partidos, por exemplo, ainda têm
alguma relevância nesse cenário de des-
crédito? Nesse contexto, a governança
tende ao caos ou à ordem? O objetivo do
texto a seguir é discutir algumas particu-
PolitiKa
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 23 22/03/16 17:39
Nº 3 _ MARÇO 2016
Riberti de Almeida Felisbino | Vitor Amorim de Angelo
24política
laridades do sistema político brasi-
leiro e os dilemas vividos pela de-
mocracia atual, com reflexos sobre
seu funcionamento e o exercício do
próprio governo.
Adesão democrática
e desconfiança nas
instituições
Desde o final da década de 1970,
a América Latina passou por um
processo generalizado – mas bas-
tante diferenciado internamente
– de mudança de regimes políti-
cos, dentro daquilo que foi cha-
mado por Huntington (1994) de
“terceira onda de democratização”.
Nesse contexto, países como Bra-
sil, Argentina, Uruguai, Paraguai
e Chile fizeram a transição de re-
gimes autoritários para regimes
democráticos, liberal-representa-
tivos. No meio acadêmico, o in-
teresse pelo processo de consoli-
dação dessas democracias e pela
qualidade dos novos regimes po-
líticos deu origem a um amplo e
diversificado conjunto de traba-
lhos. Numa região marcada pela
violência dos governos militares
que dominaram a cena política nas
últimas décadas do século XX, o
interesse dessa produção pode ser
explicado pela importância que a
democracia representava na histó-
ria dos países latino-americanos.
No que se refere ao Brasil, em
1995, uma década após o fim da
ditadura, o brasilianista Thomas
Skidmore publicou um pequeno
artigo, intitulado “Partidos tor-
nam o Brasil ingovernável”, no
jornal Folha de S. Paulo, questio-
nando o que seria possível dizer,
àquela altura, das instituições po-
líticas democráticas brasileiras. Se-
gundo Skidmore (1995), “o mais
sério é o caso do sistema eleitoral,
que funciona mal e criou o siste-
ma partidário mais fragmentado
de qualquer democracia no mun-
do”. Em sua opinião, “a coesão
partidária e as coalizões partidárias
são indispensáveis à administração
da política democrática [...] no en-
tanto, o Brasil produziu uma fór-
mula que virtualmente impossi-
bilita tal comportamento partidá-
rio responsável”. Na época,
comentários desse tipo eram fre-
quentes. Acreditava-se que a de-
mocracia brasileira talvez não per-
durasse muito mais tempo, em
vista dos seus problemas e da fra-
queza de suas instituições.
Passadas mais de duas décadas
desde o artigo de Skidmore, não
apenas a tese implícita em comen-
tários dessa natureza não se con-
firmou como trabalhos posteriores
passaram, por consequência, a ana-
lisar a qualidade de um regime
democrático que, em abril de 2015,
completou três décadas – nesta que
já é a nossa mais longeva experi-
ência democrática. Observando
particularmente o contexto bra-
sileiro, estudos como o de Moisés
(2005; 2010) e do Latinobaróme-
tro indicam que a democracia vem
se consolidando no Brasil, mas,
contraditoriamente, os brasileiros
não confiam nas instituições, so-
bretudo nos partidos. Tal descon-
fiança pode criar um “ambiente
favorável a que os membros da
comunidade política sintam-se
descomprometidos com a vida pú-
blica, podendo recusar-se a coo-
perar com as diretrizes do Estado
ou ignorar as leis e as normas que
regulam e organizam a vida social
e política” (Moisés, 2010, p.12).
Aqui, podemos notar o “di-
lema” sobre o qual já falamos,
produzido pela combinação con-
traditória entre a expansão do
modelo hegemônico de demo-
cracia e a degradação das práticas
democráticas. Os dados a respei-
to do que ocorre no Brasil nos
permitem deduzir que a descren-
ça nos valores democráticos po-
de gerar um ambiente de anor-
malidade institucional, colocan-
do em dúvida as instituições em
que se fundamenta própria de-
mocracia. Por exemplo, em re-
cente pesquisa que coordenamos
no Espírito Santo a respeito da
manifestação contra o governo
federal ocorrida em agosto de
2015,4
muito chamou a atenção
o fato de que, em contraste com
a avaliação positiva da democra-
cia como forma de governo, pou-
cos manifestantes mostraram-se
abertamente contrários a uma
intervenção militar – o que re-
presentaria a quebra da própria
ordem democrática com a qual
os respondentes, de maneira ge-
ral, disseram se alinhar.
Na Figura 1 é possível notar
que a democracia é bem avaliada
por praticamente 3/4, sendo con-
siderada “sempre a melhor forma
de governo”. No entanto, uma vez
perguntados sobre a democracia
no Brasil, ou seja, sobre o regime
realmente existente, e não sobre uma
concepção teórica e filosófica do
que venha a ser democracia, a re-
lação se inverte. Apenas 1/4 dos
manifestantes se mostrou plena-
mente confiante na democracia
brasileira, como mostra a Figura
2. Além do reduzido suporte a es-
se regime político entre os respon-
dentes da pesquisa, outro dado
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 24 22/03/16 17:39
PolitiKa
Governança e instituições democráticas no Brasil contemporâneo
25
A democracia é sempre a
melhor forma de governo
73,77%
Totalmente contra 47,27%
19,67%
A democracia às vezes é
melhor forma de governo
Favorável sob
algumas circunstâncias
3,01%NS/NR
Totalmente favorável
2,46%É indiferente ter ou não
uma democracia
Contrário sob
algumas circunstâncias
1,09%
A democracia nunca é a
melhor forma de governo
Indiferentes
Figura 1 Opinião em relação à democracia – Espírito Santo (2015)
Fonte: Pesquisa “Manifestação 16/8: perfil e percepção dos manifestantes em Vitória (ES)”, 2015.
Insatisfeito 29,51%
28,14%Muito insatisfeito
22,4%Regular
3,01%Muito satisfeito
15,85%Satisfeito
1,09%NS/NR
Figura 2 Satisfação com a democracia brasileira – Espírito Santo (2015)
Fonte: Pesquisa “Manifestação 16/8: perfil e percepção dos manifestantes em Vitória (ES)”, 2015.
Figura 3 Apoio à volta dos militares ao poder – Espírito Santo (2015)
Fonte: Pesquisa “Manifestação 16/8: perfil e percepção dos manifestantes em Vitória (ES)”, 2015.
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 25 22/03/16 17:39
Nº 3 _ MARÇO 2016
Riberti de Almeida Felisbino | Vitor Amorim de Angelo
26política
bastante significativo foi o percentual elevado de
pessoas que admitiriam uma intervenção militar
no Brasil, conforme a Figura 3, percentual que su-
pera, na soma, a quantidade de manifestantes “to-
talmente contrária” à interrupção da ordem demo-
crática no país.
Os resultados da pesquisa realizada no Espíri-
to Santo convergem para os dados divulgados pe-
lo Latinobarómetro sobre a adesão dos brasileiros
à democracia, igualmente baixos. Também im-
porta destacar que o mesmo instituto de pesquisa
vem aferindo, ao longo de muitos anos, que as le-
gendas partidárias possuem uma baixa confiabili-
dade no Brasil. Os gráficos ao lado mostram a os-
cilação do apoio à democracia (Figura 4) e a cres-
cente desconfiança em relação aos partidos
(Figura 5) no país.
Como podemos observar na Figura 4, 83% dos
surveys realizados pelo Latinobarómetro constataram
que o percentual dos brasileiros que preferem a de-
mocracia a qualquer outra forma de regime político
nunca ultrapassou 50%, indicando que a democracia
não foi bem avaliada pelos entrevistados. Por outro
lado, nos anos de 2009, 2010 e 2015, o Latinobaró-
metro revelou que os respectivos percentuais che-
garam a 55%, 54% e 54% do total, com um peque-
no aumento na adesão ao regime democrático no
país. Quanto à Figura 5, fica evidente que os parti-
dos são instituições com pouca ou nenhuma con-
fiança no interior da sociedade civil. Em pesquisa
recente com os eleitores paulistanos, o Datafolha
identificou que 71% dos entrevistados não têm pre-
ferência por qualquer sigla partidária.5
Os dados dos
surveys apresentados indicam a baixa aceitabilidade
da democracia e das suas instituições. Apesar disso,
como Freidenberg (2007, p.2) bem disse, a “Amé-
rica Latina é hoje muito mais democrática do que
há trinta anos” (tradução dos autores).
Desenho institucional
e suas combinações
As informações da Figura 6 (próxima página) mos-
tram o atual desenho institucional do sistema polí-
tico do Brasil, que combina o presidencialismo com
um regime político democrático e um modelo de
Estado federal. Tal estrutura também conta com a
1995
1996
1997
1998
2000
2001
2002
2003
2004
2005
2006
2007
2008
2009
2010
2011
2013
2015
60
50
40
30
20
10
0
Figura 4 Adesão à democracia – Brasil (1995-2015)
Fonte: Pesquisa Latinobarómetro, 2015.
A democracia é preferrível Indiferente ou não democracia
Em alguns momento, um
governo autoriário é preferível
1995
1996
1997
1998
2000
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60
50
40
30
20
10
0
Nenhuma Pouca Alguma Muita
Figura 5 Grau de confiança nos partidos políticos – Brasil (1995-2015)
Fonte: Pesquisa Latinobarómetro, 2015.
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 26 22/03/16 17:39
PolitiKa
Governança e instituições democráticas no Brasil contemporâneo
27
presença de um sistema eleitoral
de representação majoritária e pro-
porcional com lista aberta,6
abri-
gando, atualmente, 35 legendas
partidárias (multipartidarismo) em
constante disputa na arena eleito-
ral. No bicameralismo brasileiro,
do total de 35 partidos, 28 têm
assento na Câmara dos Deputados
e 15, no Senado Federal.
Uma parte da literatura espe-
cializada pode ser agrupada pelos
estudos que analisam o sistema de
governo e os sistemas eleitoral e
partidário, defendendo a ideia de
que a combinação dessas insti-
tuições cria instabilidade insti-
tucional – consequência que, por
seu turno, oferece aos titulares
do poder pouca governança
(Ames, 2003, 1986; Lamounier,
1989; Lamounier e Meneguello,
1986; Mainwaring, 2003, 1993,
1991; Mainwaring e Shugart,
1993; Mainwaring e Scully, 1994;
Mainwaring e Liñan, 1998; Linz,
1991; Campos, 1974; Kinzo,
1988). Outra parte foca na aná-
lise das regras do processo legis-
lativo, defendendo a tese de que
existem mecanismos institucio-
nais que permitem a governança
e a estabilidade das decisões (Amo-
rim Neto, 2000, 1994; Amorim
Neto e Tafner, 1999; Cheibub,
Przeworski e Saiegh, 2002; Fi-
gueiredo e Limongi, 2006, 2004,
2002, 1999, 1995a, 1995b, 1994;
Meneguelo, 1998; Pereira e Muel-
ler, 2002; Santos, 2003, 2002,
2000, 1998, 1997).
Essas ideias decorrem das con-
clusões dos trabalhos publicados
por Juan J. Linz e outros sobre o
sistema de governo (presidencia-
lismo) adotado nos países da
América Latina. Para Linz (1991),
a funcionabilidade do presiden-
cialismo poderia criar dificulda-
des à governança e ameaçar a es-
tabilidade do regime democráti-
co. Todavia, se combinado com
a representação proporcional de
lista aberta e com um sistema
multipartidário, o presidencialis-
mo poderia aumentar ainda mais
os conflitos entre os poderes Exe-
cutivo e Legislativo, o que, por
sua vez, afetaria drasticamente a
governança (Mainwaring e Shu-
gart, 1993). Visto que o Brasil
apresenta essa combinação, seria
presumível que o país vivesse,
como afirma Lamounier (1992,
1992a), uma “síndrome de para-
lisia hiperativa”. Esse prognósti-
co, no entanto, não se confirma
no funcionamento das institui-
ções brasileiras.
Sérgio Abranches, em seu ar-
tigo seminal O presidencialismo de
coalizão: o dilema institucional brasi-
leiro, defende que o conflito entre
os poderes Executivo e Legislati-
vo é um problema para a estabili-
dade da democracia e da capaci-
dade de governar. Esse conflito
seria causado por dois fatores: a
grande fragmentação partidária no
interior do poder Legislativo, de
um lado, e a “agenda inflacionada
de problemas e demandas impos-
ta ao Executivo”, de outro (Abran-
ches, 1988, p.8). O mais proble-
mático dos dois fatores, segundo
o autor, é a alta fragmentação par-
tidária, que comprometeria a for-
mação de maiorias estáveis para
aprovar as reformas propostas pe-
lo presidente da República. A so-
lução para esse “dilema institu-
cional brasileiro” (Abranches,
1988) seria criar coalizões gover-
namentais – prática comum, há
muito tempo, por parte do Exe-
cutivo federal.
A essa prática, que combina
proporcionalidade, multipartida-
rismo, um presidencialismo que
confere muitas atribuições ao che-
fe do Executivo e um governo que
opera com grandes coalizões,
Abranches atribui o nome de “pre-
sidencialismo de coalizão”. A ar-
ticulação existente no sistema po-
lítico brasileiro entre representação
proporcional de lista aberta, mul-
tipartidarismo extremado e presi-
dencialismo, num mesmo arranjo
estratégico, comprovou que as pro-
posições de Linz carecem de sus-
Sistema de governo
Regime
Político
Modelo
de Estado
Sistema
Eleitoral
Sistema
Partidário
Estrutura
Legislativa
Presidencialismo Democracia Federal
Representação
majoritária e
proporcional com
lista aberta
Multipartidário Bicameral
Figura 6 Desenho institucional – Brasil
Fonte: Elaboração própria.
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 27 22/03/16 17:39
Nº 3 _ MARÇO 2016
Riberti de Almeida Felisbino | Vitor Amorim de Angelo
28política
tentação empírica. Trabalhos co-
mo o de Limongi (2006) afirmam
que o presidencialismo brasileiro
não possui nada de “peculiar, de
especial”, a ponto de exigir algu-
ma forma de qualificação, como
se “não praticássemos um presi-
dencialismo normal ou corriquei-
ro”. A despeito da falta de con-
fiança nas instituições democrá-
ticas, como vimos na primeira
parte deste texto, Limongi (2006)
demonstra que, na comparação
com outras democracias que ado-
tam o presidencialismo, ou mes-
mo em comparação com regimes
parlamentaristas, o processo de-
cisório – ou seja, a capacidade de
governar – verificado no Brasil é
muito semelhante.
Presidencialismo e
instabilidade institucional
Segundo a perspectiva neoinsti-
tucionalista, na sua vertente da
escolha racional, os indivíduos
têm interesses próprios e, para
atingi-los, procuram agir estra-
tegicamente, da maneira mais
racional possível. Para evitar que
suas ações prejudiquem os demais
atores, o arranjo institucional é
importante para disciplinar e co-
agir seus comportamentos. Este
raciocínio pode ser aplicado aos
membros que ocupam os pode-
res Executivo e Legislativo, pois
estes também têm seus anseios.
Para concretizá-los, constroem
coalizões políticas para facilitar
a troca de interesses entre os ato-
res envolvidos no processo de
tomada de decisão. Essas coali-
zões permitem agregar diversos
interesses, que, por sua vez, sus-
tentam a democracia e o presi-
dencialismo, possibilitando um
exercício eficiente e coerente da
governança.
A literatura que trata do presi-
dencialismo é extremamente ampla
e diversificada. Com frequência,
como em Limongi (2006), os tra-
balhos sobre o presidencialismo
comparam esse sistema de governo
com o parlamentarismo. Essa com-
paração pode parecer imprópria,
mas consideramos relevante reali-
zá-la, uma vez que permite iden-
tificar os problemas e as virtudes
desses sistemas, sobretudo o presi-
dencialismo. Quando parte da li-
teratura realiza essa comparação,
seu intento é investigar a suposta
ineficiência e instabilidade do pre-
sidencialismo, por sua natural di-
visão de poderes, que gera conflitos
permanentes entre Executivo e Le-
gislativo (Linz, 1991). Para alguns
estudiosos, como Mainwaring
(1993), por exemplo, esse conflito
pode ameaçar a sobrevivência do
próprio regime democrático, es-
tando, portanto, implicitamente
defendida a tese de que a combi-
nação entre presidencialismo e de-
mocracia é uma união indesejada.
Essa visão distorcida da reali-
dade resulta das conclusões de tra-
balhos como os publicados por
Linz (1991) e por outros especia-
listas, como Arturo Valenzuela,
Arend Lijphart e Alfred Stepan,
sobre o sistema de governo pre-
dominante na América Latina a
partir da “terceira onda de demo-
cratização”. Para Linz (1991), a
rigidez institucional do presiden-
cialismo produziria crises de go-
vernança, dificultando a atividade
governamental e ameaçando a es-
tabilidade do regime democrático,
sendo a governança, aqui, enten-
dida como a capacidade de o che-
fe do poder Executivo aprovar sua
agenda no interior no Legislativo
(Sáez, 1993; Lacerda, 2005).
Essas crises ocorreriam porque
os ordenamentos jurídicos, como
a Constituição Federal, não dis-
põem de mecanismos para resolver
os frequentes conflitos entre os
poderes Executivo e Legislativo.
A situação poderia ser ainda mais
complexa nos sistemas políticos
que, a exemplo do Brasil, combi-
nam o presidencialismo com ou-
tras instituições, como a represen-
tação proporcional de lista aberta
ou o sistema partidário altamente
fragmentado; ou, ainda, com am-
bos. Quanto ao desenho institu-
cional existente no Brasil, Mainwa-
ring (1993, p. 67) ressalta que a
união de “presidencialismo em um
sistema multipartidário fragmen-
tado contribui para as dificuldades
de constituição de um governo
democrático eficaz”.
Essa combinação institucio-
nal geraria governos minoritários
e divididos em coalizões frágeis
e incoerentes, aumentando, por
sua vez, os conflitos entre os po-
deres Executivo e Legislativo.
Todos os países latino-
americanos são
presidencialistas, com
exceção da Bolívia, que tem
um sistema presidencialista
parlamentarizado.
A explicação está na formação
de coalizões de governo.
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 28 22/03/16 17:39
PolitiKa
Governança e instituições democráticas no Brasil contemporâneo
29
Também essa combinação pro-
duziria um desenho institucional
que frequentemente é citado pe-
la literatura como o mais incapaz
de produzir políticas públicas efi-
cientes e de promover a gover-
nança. Kinzo (1988), também se
referindo ao Brasil, lembra que as
reformas promovidas pelos cons-
tituintes na década de 1980 não
alteraram as instituições que mais
fortemente influenciam os siste-
mas eleitoral e partidário. Para a
autora, “a preservação do presi-
dencialismo [...] não deixará de
ser um fator a dificultar o ama-
durecimento dos partidos no sen-
tido de se tornarem mais respon-
sivos em sua função representati-
va” (Kinzo, 1988, p. 34-35).
No Brasil, de acordo com Ca-
rey (1997, p. 68), “o sistema elei-
toral cria fortes incentivos para os
legisladores cultivarem lealdades
pessoais entre os eleitores, mesmo
quando isso significa ignorar a
agenda de suas bancadas partidá-
rias” (tradução dos autores). Ca-
rey ressalta, ainda, que, dessa for-
ma, “os presidentes não podem
contar com coalizões legislativas
estáveis para negociar sua políti-
ca”. Em Nem presidencialismo, nem
parlamentarismo, Sartori (1993) es-
tá de acordo com esses argumen-
tos, chamando a atenção para o
fato de que os políticos “mudam
de partido e, frequentemente, vo-
tam em desacordo com sua orien-
tação e se recusam a aceitar qual-
quer tipo de disciplina partidária”.
Nessas condições, o autor conclui
que, no Brasil, os partidos “são
entidades voláteis e destituídas de
poder” e que o “presidente brasi-
leiro fica boiando num vácuo, so-
bre um Parlamento incontrolável
e eminentemente atomizado”
(Sartori, 1993, p. 11).
Outros trabalhos destacam que
a baixa disciplina dos principais
partidos seria uma das caracterís-
ticas negativas do sistema político
brasileiro (Mainwaring 2003,
1993, 1991; Mainwaring e Shu-
gart, 1993; Mainwaring e Scully,
1994; Mainwaring e Liñan, 1998).
Dessa perspectiva, nossos sistemas
eleitoral e partidário, quando com-
parados aos de outras nações, se-
riam subdesenvolvidos, e as legen-
das partidárias não ofereceriam
governança aos detentores do po-
der. Mainwaring (1993) chega a
considerar que os responsáveis pe-
lo mau funcionamento do sistema
político são os partidos, pois eles
concentram políticos com vocação
individualista, que, uma vez elei-
tos, buscam seus interesses por
meio do clientelismo. Comparti-
lhando algumas percepções de
Mainwaring, Ames (2003, 1986)
destaca que as siglas partidárias
brasileiras dificilmente poderiam
ser consideradas verdadeiras legen-
das partidárias.
Presidencialismo e
estabilidade institucional
Do ponto de vista histórico, as de-
mocracias mais estáveis no mundo
são parlamentaristas. A Figura 7,
a seguir, apresenta as democracias
estáveis, por eleições populares
ininterruptas, e o tipo de sistema
de governo no período de 1967 a
1992. Depreende-se da tabela que
24 países são parlamentaristas, en-
quanto apenas quatro são presi-
dencialistas; os demais são semi-
presidencialistas (França e Finlân-
dia) ou híbrido (Suiça).
Talvez as informações da tabela
possam ter estimulado Linz e ou-
tros a pensarem no fracasso do
presidencialismo frente ao parla-
mentarismo.7
Embora as informa-
ções coroem o sucesso do sistema
parlamentarista mundo afora, ain-
da de acordo com Mainwaring e
Shugart (1993, p. 196) “não está
claro até que ponto o presiden-
cialismo per se é responsável pela
baixa taxa de sucesso das demo-
cracias presidencialistas”. Estes
autores cogitam que, talvez, essa
baixa taxa de sucesso esteja rela-
cionada com os países menos de-
senvolvidos e com o descompro-
misso das elites políticas com os
valores democráticos.
Linz (1991) apresenta cinco ca-
racterísticas negativas relacionadas
a esse sistema de governo, sendo
duas pautadas nos aspectos insti-
tucionais e as demais, nos aspectos
políticos. As características nega-
tivas, segundo o autor, poderiam
comprometer o funcionamento da
democracia. Um primeiro aspec-
to destacado pelo autor diz respei-
to ao que se poderia considerar
um conflito de legitimidade entre
o presidente da República e os
parlamentares. Tanto o chefe do
poder Executivo quanto os parla-
mentares são eleitos pelo voto po-
pular. Quando apresentam pro-
postas de lei divergentes, ambos
podem apelar diretamente ao po-
vo como sustento da sua autorida-
de. “Quem está mais legitimado
para falar em nome do povo?”,
pergunta Linz (1991, p. 66). O au-
tor ressalta que tal impasse pode
criar conflitos com chances de
romper o regime. Geralmente, os
impasses acontecem no momento
do aperfeiçoamento das propostas
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 29 22/03/16 17:39
Nº 3 _ MARÇO 2016
Riberti de Almeida Felisbino | Vitor Amorim de Angelo
30política
de lei, inexistindo uma terceira ins-
tância que possa resolver o conflito.8
Outra característica negativa
está ligada ao mandato fixo do che-
fe do Executivo e à impossibilida-
de de reeleição. Nesse sistema de
governo, o presidente da Repúbli-
ca é eleito por um período que não
pode ser modificado. O mandato
fixo, segundo Linz, é um proble-
ma, pois um presidente da Repú-
blica considerado impopular e um
que tenha perdido o apoio da maio-
ria dos parlamentares só podem ser
afastados pelo impeachment. Em re-
lação ao impeachment, ele só é usado
para afastar o presidente da Repú-
blica, como aconteceu no Brasil em
1992, com Fernando Collor de
Mello, quando é comprovado seu
envolvimento em atos ilícitos, co-
mo corrupção, por exemplo.
Para Linz, a impossibilidade da
reeleição do presidente dificultaria
julgá-lo ou recompensá-lo pelo seu
exercício frente ao poder Executi-
vo. Como observado pelo autor há
algum tempo, “um presidente que
não pode ser reeleito não é respon-
sável” (Linz, 1994 apud Mayorga,
2001, p.101). Quanto à reeleição,
vale lembrar que este instituto exis-
te, hoje, em muitas constituições,
dentre as quais a brasileira. Entre-
tanto, nos países em que a reeleição
não é permitida, como no México,
isso não afeta a estabilidade nem a
legitimidade do regime, pois as ins-
tituições estruturam as regras, fi-
xando os comportamentos dos ato-
res envolvidos.
A terceira característica nega-
tiva é que a Presidência da Repú-
blica não se divide. Em outras pa-
lavras, como no velho ditado po-
pular, “o ganhador leva tudo e o
perdedor chupa os dedos”. Se o
Paises A*
Tipos de sistema de governo
Parlamentarista Presidencialista Semipresedencialista Híbrido
Austrália 1900
Áustria 1945
Alemanha 1949
Bélgica 1831
Botswana 1960
Barbados 1966
Canadá 1867
Dinamarca 1855
Holanda 1848
Islândia 1874
Irlanda 1921
Itália 1946
Israel 1949
Índia 1952
Japão 1946
Jamaica 1962
Luxemburgo 1868
Liechtenstein 1918
Malta 1964
Noruega 1814
Nova Zelândia 1852
Reino Unido 1832
Suécia 1866
Trindade e Tobago 1962
Colômbia 1958
Costa Rica 1958
Estados Unidos 1788
Venezuela 1958
Finlândia 1906
França 1946
Suíça 1848
Figura 7 Eleições populares ininterruptas e tipos de sistema de governo
Fonte: Adaptado de Mainwaring e Shugart (1993), p. 195.
A* = Eleições populares ininterruptas.
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 30 22/03/16 17:39
PolitiKa
Governança e instituições democráticas no Brasil contemporâneo
31
partido do chefe do Executivo dis-
põe de apoio suficiente no Poder
Legislativo, o presidente da Re-
pública não terá incentivos para
compartilhar a composição do seu
governo com as outras forças po-
líticas dentro do Legislativo. Co-
mo se sabe, tal situação vai depen-
der muito do tipo de sistema par-
tidário. No caso do Brasil, onde a
fragmentação é significativa, é im-
provável que a legenda do presi-
dente da República consiga essa
maioria. Logo, a solução é dividir
o governo com outros partidos a
fim de garantir a governança e
conseguir aprovar a agenda do
Executivo no Legislativo. Em ou-
tros termos, isso significa criar uma
coalizão que permita coordenar as
atividades de governança, confor-
me explica Limongi (2006, p.19):
“Presidentes sempre seriam força-
dos a formar coalizões para gover-
nar, mesmo, por paradoxal que
pareça, se seu partido fosse majo-
ritário. Isso porque coalizões não
seriam formadas apenas de acordo
com o critério partidário. Ou me-
lhor, esse método usual de forma-
ção de coalizões seria insuficiente
para dar a sustentação política ne-
cessária ao presidente. Federalis-
mo, o poder dos governadores e a
diversidade e heterogeneidade da
sociedade brasileira, mais do que
o número de partidos, tornavam
coalizões imperiosas.”
Por regra, caso queira efetiva-
mente governar, o presidente terá
que recorrer à coalizão. Para al-
guns analistas, o desenho institu-
cional dos sistemas eleitoral e par-
tidário brasileiro estimularia os
políticos a terem um comporta-
mento individualista para conquis-
tar uma cadeira no Legislativo.
Depois de eleitos, eles carregariam
para a arena legislativa o sentimen-
to individualista, e, nesse espaço,
agiriam independentemente do
partido, reforçando a fraqueza das
legendas (Mainwaring, 2003;
Ames, 2003). Isso significa que as
coalizões estariam fadadas ao fra-
casso, trazendo instabilidade à go-
vernança e impulsionando o de-
sequilíbrio entre os poderes.
Todavia, alguns estudos apre-
sentam uma releitura da funcio-
nabilidade do sistema político bra-
sileiro. Esses estudiosos se contra-
põem à parte da literatura sobre o
tema, resgatando a atuação dos
partidos no processo decisório e a
importância da organização legis-
lativa no interior das duas casas do
Congresso Nacional. Esses analis-
tas nos oferecem evidências em-
píricas de que, no Brasil, os pro-
cessos legislativos são centralizados
e favoráveis ao governo na apro-
vação de suas agendas.
Os problemas criados pelos sis-
temas eleitoral e partidário, ante-
riormente apontados, são anulados
na arena legislativa, que garantiria
mais estabilidade às decisões co-
letivas. A governança não seria
prejudicada por possíveis proble-
mas produzidos pela junção do
presidencialismo com os sistemas
eleitoral e partidário. Na arena le-
gislativa o comportamento dos
parlamentares seria influenciado
pelos partidos em suas votações.
Ao analisar as votações nominais
do período de 1989 a 1999 e as
regras do processo decisório nesse
período, o trabalho de Figueiredo
e Limongi (1999) revelou existir
disciplina partidária na Câmara
dos Deputados, o que significa que
a instabilidade está longe de ocor-
rer. A estabilidade é o padrão da
ação coletiva naquela arena.
Como recordado pelos autores,
“a teoria existente nos diz que não
deveria haver disciplina partidária
no Congresso brasileiro. [Porém],
em média, 89,4% do plenário vo-
tam de acordo com a orientação
de seu líder, taxa suficiente para
predizer, com acerto, 93,7% das
votações nominais” (Figueiredo e
Limongi, 1999, p. 20). Ao mesmo
tempo, o plenário também seria
influenciado pelas regras do jogo
parlamentar, que são altamente
centralizadas em um pequeno gru-
po, chamado de “colégio de líde-
res”. É importante dizer que esse
colégio funciona como um órgão
auxiliar da mesa diretora da Câ-
mara dos Deputados: elabora a
agenda de apreciação de proposi-
ções para o estabelecimento da
ordem do dia do plenário e, o que
é mais importante, interfere subs-
tantivamente nas decisões por meio
do recurso de tramitação urgente
(Figueiredo e Limongi, 1999). Is-
so significa que essa instância não
apenas concentra poder de deci-
são, como controla a pauta dos
trabalhos legislativos.
A contestação das ideias expos-
tas na seção anterior somente foi
possível porque aqueles estudos, na
sua maioria, fundamentavam-se
“em teses formais, baseando suas
argumentações nas expectativas ló-
gicas que os modelos teóricos ad-
vogam para a realidade, sem, con-
tudo, atentar tanto para a realidade
política em si quanto para outras
variáveis não previstas pelos mode-
los” (Peres, 2000, p. 92). É exata-
mente esta a postura metodológica
adotada por Figueiredo e Limongi,
que propuseram um novo direcio-
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Riberti de Almeida Felisbino | Vitor Amorim de Angelo
32política
namento analítico, deslocando a
análise dos sistemas eleitoral e par-
tidário para o processo de decisão
no interior do Poder Legislativo. O
segredo do sucesso estaria na pró-
pria organização legislativa e no
controle rígido que alguns atores
institucionais – o presidente da Re-
pública, os presidentes da mesa di-
retora e das principais comissões
permanentes e, especialmente, as
lideranças partidárias – exercem so-
bre a maioria dos parlamentares nas
casas legislativas.
Retomando o trabalho de
Linz (1991), lembremos que o
presidencialismo, segundo o au-
tor, cria no presidente da Repú-
blica um sentimento de que a
legitimidade do mandato popu-
lar reside na sua pessoa. Este fa-
to é um dos grandes problemas
dos sistemas eleitoral e partidário
que incentivam a personificação
do político. Tal constatação cons-
titui a quarta característica ne-
gativa apresentada por Linz
(1991). O presidente descarta que
existam outras instituições polí-
ticas, como o Poder Legislativo
e até mesmo os partidos, passan-
do a governar com medidas pro-
visórias, sem o apoio direto des-
tas instituições. Finalmente, a
última característica negativa
apontada pelo autor diz respeito
ao acesso de pessoas com pouca
ou nenhuma experiência políti-
ca e administrativa à coordena-
ção do governo. Sua chegada ao
poder pode produzir drásticas
consequências à democracia. A
história política da América La-
tina já testemunhou casos dessa
natureza, como o Brasil de Fer-
nando Collor e o Peru de Alber-
to Fujimori.
À guisa de conclusão
Devemos ser céticos com as nega-
tividades sobre a relação entre o
presidencialismo e as demais ins-
tituições políticas, sob o risco de
fazermos análises enviesadas de
todo o sistema e não vislumbrar-
mos os aspectos positivos que o
presidencialismo apresenta.
Mainwaring e Shugart (1993) ve-
rificaram a pertinência das carac-
terísticas negativas atribuídas por
Linz ao presidencialismo e con-
cluíram que elas precisariam ser
relativizadas. Os autores mostra-
ram que o sistema parlamentaris-
ta também tem seus problemas,
sendo um deles – compartilhado
com o sistema presidencialista – a
possibilidade de conflito de legi-
timidade. Segundo Mainwaring
e Shugart (1993), esse conflito é
inerente a todos os sistemas que
adotam alguma forma de divisão
de poderes. Os autores também
reconhecem que o mandato fixo
do presidente da República difi-
culta sua substituição em caso de
perda de apoio, mas, em contra-
partida, o chefe do Executivo po-
de recuperar apoio ao longo do
mandato, sem interromper seu pro-
grama de governo, como aconte-
ce no sistema parlamentarista.
Embora Linz tenha chamado
aatençãodosestudiososedosmem-
bros das elites políticas para os pro-
blemas gerados pelo presidencia-
lismo,muitosregimesdemocráticos
com esse sistema de governo têm
sobrevivido mundo afora. O que
explicaria, então, a estabilidade do
presidencialismo na América Lati-
na, sobretudo no Brasil? O curio-
so é que todos os países latino-ame-
ricanos são presidencialistas, à ex-
ceção da Bolívia, que, segundo
Mayorga (2001), tem um sistema
presidencialista parlamentarizado.9
A explicação para tal permanência
do sistema está na formação de co-
alizões de governo.
Quanto à coalizão, Amorim
Neto (1994) observa que, em 25
anos de governo presidencialista
nos períodos democráticos (1946-
1964 e pós-1988), a maioria dos
chefes do Executivo do Brasil op-
tou pela formação de coalizão. A
Figura 8, a seguir, mostra os tipos
de governo no Brasil nos dois pe-
ríodos, podendo-se observar que
63,1% deles constituíram governos
de coalizão. Essa informação sig-
nifica que a maioria dos governos
formados nas duas experiências
democráticas brasileiras seguiu a
estratégia de construção de apoio
partidário no Congresso Nacio-
Coalizão
Cooptação
Figura 8 Tipos de governo no presidencialismo brasileiro – (1946-1964/1988-1994)
Fonte: Adaptado, (Amorim Neto, 1994 apud Peres, 2000, p. 93).
Apartidário
63,1%
31,5%
5,4%
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PolitiKa
Governança e instituições democráticas no Brasil contemporâneo
33
nal, ou seja, um acordo entre o
chefe do Executivo e os partidos
que integram a base de apoio ao
governo. Essa estratégia tem por
objetivo articular uma composi-
ção majoritária em torno do par-
tido do presidente da República.
Quando não existe um acordo en-
tre o presidente e os partidos, o
chefe do Executivo tem duas op-
ções: formar um governo por co-
optação ou fazer um governo apar-
tidário. Ao longo dos períodos de
1946 a 1964 e de 1988 a 1994,
31,5% foram governos de coopta-
ção, enquanto somente 5,4% fo-
ram governos apartidários.
Alguns analistas denominam
essa coalizão de governo de “pre-
sidencialismo de coalizão” (Abran-
ches, 1988), “presidencialismo de
compromisso” (Lanzaro, s/d) ou,
ainda, “presidencialismo de coa-
lizão racionalizado”, como prefe-
rem outros estudiosos (Huber,
1996 apud Santos, 2003). Tais de-
nominações são meros ajustes lin-
guísticos, pois o mais importante
é que o arranjo mantenha o equi-
líbrio entre os poderes para evitar
instabilidades na governança. Es-
se equilíbrio, segundo a teoria de
Nash, é a situação em que nenhum
ator tem incentivos para desviar-
-se de determinado curso de ação,
tendo em vista que os outros tam-
bém não o terão (Sánchez-Cuen-
ca, 2004; Gibbons, 1992; Pérez,
Jimeno e Cerda, 2004).
Como vimos, Linz aponta al-
gumas características negativas do
presidencialismo que constituiriam
um perigo à estabilidade da de-
mocracia. Esse perigo poderia ser
mais crítico se o presidencialismo
fosse combinado com o multipar-
tidarismo e com a representação
proporcional de lista aberta. En-
tretanto, as previsões linznianas
não foram confirmadas. O segre-
do da estabilidade, sobretudo no
Brasil, está no dito presidencialis-
mo de coalizão, que convive ami-
gavelmente com uma espécie de
“touro de minos”, assim caracte-
rizado por Carvalho (2003, p. 211):
“[...] de um lado, uma cabeça le-
gislativa inglesa – Congresso com
partidos disciplinados, estrutura
interna centralizada e agenda mo-
nopolizada pelo Executivo – de
outro, um corpo eleitoral norte-
-americano – voto personalizado,
individualização e atomização do
processo político e, sobretudo, um
único conjunto de incentivos se
dirigindo à arena legislativa: a ló-
gica do particularismo, a perse-
guição, por parte dos eleitos, de
benefícios desagregados como ca-
minho de reprodução de seus res-
pectivos mandatos.”
Assim é o Brasil, portanto. Co-
mo um Minotauro, que possui um
corpo (sistemas eleitoral e partidá-
rio) que cria atores totalmente in-
dependentes, em busca de benefí-
cios para atender a seus objetivos, e
uma cabeça (sistema parlamentar)
que reeduca estes atores, constran-
gendo-os a agir de forma sintoni-
zada com seus partidos, oferecendo,
assim, governança ao Brasil, inde-
pendentemente das avaliações ne-
gativas a seu respeito e da percepção
um tanto difusa de que já não im-
portam para o sistema político.
Em síntese, os problemas ocor-
ridos no interior do sistema políti-
co são bloqueados por várias ins-
tâncias e atores no interior do Con-
gresso Nacional, arena das
principais e mais abrangentes de-
cisões políticas tomadas no país.
Isso significa dizer que, ao chega-
rem ao Legislativo, os parlamenta-
res são condicionados por uma es-
trutura de oportunidades que os
leva a seguir as diretrizes partidá-
rias, tornando o partido uma ins-
tituição imprescindível para a ma-
nutenção da capacidade de gover-
nar. Apesar das considerações de
Moisés (2010) sobre a falta de con-
fiança dos brasileiros nas institui-
ções democráticas, os partidos –
que, provavelmente, constituem
uma das principais instituições des-
te regime – continuam sendo um
elemento fundamental para a go-
vernança no Brasil dentro do de-
senho institucional existente no
país. Sem diminuir a dimensão po-
lítica e social do problema, o fato
é que a contradição entre essa im-
portância dos partidos e sua péssi-
ma avaliação, como revelado nas
pesquisas citadas antes, é uma ques-
tão de outra natureza, ligada à in-
capacidade crescente de as legendas
conseguirem mobilizar a sociedade
e fazê-la se identificar com seus re-
presentantes políticos. No entanto,
do ponto de vista institucional (par-
lamentar), os partidos continuam
sendo, sim, uma instituição impres-
cindível para governar. n
Há uma contradição entre
a importância dos partidos
e a péssima avaliação
que se faz sobre eles.
Do ponto de vista institucional,
os partidos continuam
a ser imprescindíveis.
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Notas
1.	 Segundo Manin, num governo representati-
vo, (1) os representantes são escolhidos pelos
representados em eleições periódicas; (2) no
exercício de seus mandatos, os representantes
conservam certa independência em relação às
preferências dos eleitores; (3) a opinião públi-
ca sobre assuntos políticos pode se manifestar
sem o controle do governo; e (4) as decisões
políticas são tomadas em assembléia, pelos re-
presentantes, após debate.
2. Dahl enumera oito garantias institucionais
mínimas para a existência de um regime de-
mocrático inclusivo, com grande número de
pessoas: (1) liberdade de formar e aderir a or-
ganizações, (2) liberdade de expressão, (3)
direito de voto, (4) elegibilidade para cargos
políticos, (5) direito de líderes políticos dis-
putarem apoio, (6) eleições livres e idôneas,
(7) fontes alternativas de informação e (8) ins-
tituições para fazer com que as políticas go-
vernamentais dependam de eleições e de ou-
tras manifestações de preferência.
3. Nas últimas duas décadas, com variações, as
eleições norte-americanas têm mobilizado
entre 1/3 e 2/3 dos eleitores. Na França, a
abstenção vem crescendo desde o final dos
anos 1970, chegando a 35,91% no primeiro
turno das eleições municipais de 2014. No
Brasil, no primeiro turno da última eleição
presidencial, as abstenções somaram 27,6 mi-
lhões de votos. Junto com os votos brancos
(4,4 milhões) e nulos (6,6 milhões), a quan-
tidade de eleitores que não votou em nenhum
candidato a presidente (38,6 milhões) supera
o total de votos recebidos por Aécio Neves
(37,8 milhões). 	
4. Pesquisa Manifestação 16/8: perfil e percepção dos
manifestantes em Vitória (ES). Disponível em
www.uvv.br/sociologia.
5. Desinteresse pelos partidos em São Paulo é recorde,
mostra Datafolha. Disponível em www.folha-
online.com.br. Acesso em 03 nov. 2015. A
pesquisa Manifestação 16/8: perfil e percepção
dos manifestantes em Vitória (ES) chegou a re-
sultados semelhantes. Em Vitória, apenas
0,55% dos entrevistados declararam ter “mui-
ta confiança” nos partidos, sendo que 60,66%
disseram ter “nenhuma confiança” nas legen-
das existentes, hoje, no país.
6. A representação com dois turnos é utilizada
nas eleições presidente da República, gover-
nadores e prefeitos de municípios com mais
de 200 mil eleitores. A maioria simples, por
sua vez, é usada nas eleições para prefeitos de
cidades com menos de 200 mil eleitores e pa-
ra o Senado. A representação proporcional
com lista aberta é aplicada nas eleições para
deputados federais, deputados estaduais e ve-
readores.
7. Não podemos esquecer que, no Brasil, entre
setembro de 1961 e janeiro de 1963, três ga-
binetes parlamentaristas se sucederam no po-
der, chefiados, respectivamente, pelos primei-
ros-ministros Tancredo Neves (PDS/MG),
Brochado da Rocha (PDS/RS) e Hermes Li-
ma (PSB/BA).
8. Quanto a isto, deve-se dizer que as constitui-
ções preveem mecanismos institucionais para
revolver os impasses entre os poderes Execu-
tivo e Legislativo, como, por exemplo, o veto
do presidente da República e a recusa do ve-
to pelos parlamentares.
9. O artigo 90 da atual Constituição boliviana
estabelece que os parlamentares elegerão, ca-
so nenhum candidato a presidente da Repú-
blica receba a maioria absoluta dos votos, o
chefe do Executivo por maioria absoluta entre
os dois mais votados.
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36
A Seguridade Social e a economia brasileira
no início do século XXI
O gasto público com políticas sociais conquistou um novo lugar entre
os instrumentos de política econômica após 2004, quando passou a ser
um dos determinantes do dinamismo da economia nacional. A cone-
xão entre benefícios sociais e nível de atividade econômica foi decisi-
va. Ao ativar diretamente o consumo das famílias, esse tipo de gasto
passou a impulsionar a demanda agregada, por sua elevada magnitude
(12,6% do PIB em 2014)1
e por ser uma renda dirigida a uma popu-
lação com alta propensão a consumir (idosos carentes, pensionistas,
enfermos, acidentados, famílias de baixa renda e desempregados).
A redução da pobreza e da desigualdade, medidas pelo índice de
Gini, foi saudada como um evento histórico único para o Brasil e a
Denise Lobato Gentil
Doutora pelo Instituto de Economia
da UFRJ, onde leciona macroeconomia
e economia do setor público.
Pesquisa na área de macroeconomia,
com ênfase em política fiscal e
Sistema de Seguridade Social.
E-mail: deniselg@uol.com.br
O sistema de previdência pública no Brasil voltou a ser alvo de reformas
com o severo ajuste fiscal que norteia a estratégia do governo de 2015.
O Brasil vive agora uma nova realidade, com queda acentuada do PIB,
elevação do desemprego e redução dos salários. O debate sobre os
mecanismos de sustentação da previdência pública exige respostas
diferentes daquelas que usualmente são empregadas pelo discurso liberal-
ortodoxo. Este artigo reúne argumentos para provar que as variáveis mais
importantes da equação financeira da previdência pública
são o nível do emprego formal, o patamar dos salários e a produtividade
do trabalho. Portanto, a política econômica é o principal elemento que
precisa ser levado em conta no debate sobre a “crise” da previdência.
As grandes fragilidades estruturais de um sistema previdenciário também
decorrem da baixa produtividade da indústria, incapaz elevar a produção
dos trabalhadores ativos, que serão os agentes de sustentação da população
idosa, enferma e desempregada. Não é possível analisar a questão
previdenciária dentro de si mesma. Seus determinantes estão na economia
vista como um todo.
Perspectivas e constrangimentos
do sistema de previdência
pública no Brasil
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 36 22/03/16 17:39
PolitiKa
Perspectivas e constrangimentos do sistema de previdência pública no Brasil
37
América do Sul no período 2011-
2014 (Cepal, 2012 e 2012B). Os
mecanismos que produziram esse
resultado de forte impacto políti-
co foram as transferências de ren-
da para as famílias, o crescimento
real do salário mínimo, a expansão
do crédito para pessoas de baixa
renda e para pequenas e médias
empresas e, sobretudo, o cresci-
mento do emprego formal. Essa
mudança tornou-se viável num
cenário de relaxamento das restri-
ções externas no Brasil e nos pa-
íses sul-americanos, por causa da
maior liquidez internacional e da
elevação do preço das commodities,
o que facilitou o crescimento eco-
nômico da região, apoiado, sobre-
tudo, na expansão do consumo.
O novo cenário de crescimento
levou também a um afrouxamen-
to das restrições fiscais, com cres-
cimento das receitas tributárias,
mais especialmente das receitas
vinculadas aos gastos sociais na
área de previdência, saúde e assis-
tência social.
No entanto, os governos do
Partido dos Trabalhadores apenas
adicionaram políticas de impacto
social à política econômica con-
servadora criada durante o se-
gundo governo de Fernando
Henrique Cardoso, quando vi-
gorou o dogma do tripé macro-
econômico (metas de inflação,
metas fiscais e câmbio flutuante).
Por esse motivo, os aspectos
virtuosos do período histórico
recente foram erguidos num ce-
nário de enormes debilidades es-
truturais, que acabaram por abre-
viar as conquistas sociais, trans-
formando-as apenas num
resultado transitório de um ciclo
favorável que começou a se esgo-
tar em 2014-2015. A partir de
2011, a desaceleração persistente
no cenário internacional e a re-
orientação da política macroeco-
nômica doméstica para um viés
mais ortodoxo, de corte recessi-
vo, foram deteriorando os indi-
cadores econômicos e sociais até
derrubar em alguns meses, em
2015, o que havia sido conquis-
tado em muitos anos. Os com-
ponentes internos, muito mais
que os externos, interromperam
os avanços obtidos na primeira
década do século XX.
Argumenta-se neste artigo
que a baixa produtividade da eco-
nomia brasileira, a perda de di-
namismo da indústria nacional e
a política macroeconômica con-
tracionista nos campos fiscal e
monetário conduziram, inicial-
mente, ao enfraquecimento das
políticas de previdenciárias e, pos-
teriormente, no período 2011-
2015, ao retrocesso delas.
O Brasil vive uma nova rea-
lidade. O contexto atual é de que-
da rápida e acentuada do PIB (que
vinha de uma taxa de 4,6% ao
ano, em média, no período de
2007-2010, para 2,1% ao ano em
2011-2014, e -3,8% em 2015),
inflação bem acima do limite su-
perior da meta estabelecida pelo
Banco Central, crescimento do
desemprego, queda brusca da pro-
dução industrial, desaceleração
do investimento privado e do
consumo das famílias e cresci-
mento do déficit primário no se-
tor público consolidado.
Um programa de austeridade
fiscal está produzindo esses in-
dicadores e gerando o achata-
mento de gastos sociais e dos
investimentos públicos. A pre-
LisaS./shutterstock.com
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 37 22/03/16 17:40
Nº 3 _ MARÇO 2016
Denise Lobato Gentil
38previdência social
vidência voltou a ser alvo de re-
formas propostas pelas estratégias
de contenção fiscal. O governo
Dilma foi capturado pelo mes-
mo discurso de ajuste fiscal que
vem sendo usado na Europa co-
mo instrumento ideológico pa-
ra desmontar o Estado de Bem-
-Estar Social.
Por que o sistema público de
previdência voltou a ser o alvo
das reformas do Estado? Como
lidar com corte de gastos, se o
número de pessoas idosas cresce
a cada ano? Quais variáveis ma-
croeconômicas asseguram a sus-
tentabilidade financeira de um
sistema público de previdência?
As respostas exigem uma avalia-
ção da base produtiva sobre a qual
o sistema previdenciário brasilei-
ro está assentado.
O problema da baixa
produtividade e sua
relação com o sistema
previdenciário nos
anos 2000
A variável produtividade é estra-
tégica numa sociedade em que o
número de idosos cresce em cada
década. Mais indivíduos podem
ser amparados pelo sistema de
proteção social quanto maior for
a produção de cada trabalhador
ativo em cada ciclo produtivo.
Isto quer dizer que a relação PIB/
população ocupada deve crescer
para atender às necessidades dos
que ficaram inativos, temporária
ou definitivamente. No entanto,
a economia brasileira conviveu
nos últimos quinze anos com a
estagnação da produtividade em
setores estratégicos. Em conse-
quência, o salário médio aumen-
tou muito acima do crescimento
da produtividade média. Esse me-
canismo criou dificuldades pro-
gressivas para acomodar o con-
flito distributivo latente entre ca-
pital e trabalho. Por fim, ele
culminou no ajuste fiscal reces-
sivo de 2014-2015 que, com a
brusca redução do crescimento e
a elevação do desemprego, está
produzindo uma rápida queda do
salário médio real.
A Figura 1 permite avaliar a
evolução da produtividade física
do trabalho na indústria de trans-
formação e a remuneração real
média em dólar e em reais2
.
Quando os salários são avaliados
em reais, o hiato entre produti-
vidade e salários fica grande en-
180
160
140
120
100
80
60
jan/06
mai/06
set/06
jan/07
mai/07
set/07
jan/08
mai/08
set/08
jan/09
mai/09
set/09
jan/10
mai/10
set/10
jan/11
mai/11
set/11
jan/12
mai/12
set/12
jan/13
mai/13
set/13
jan/14
mai/14
set/14
jan/15
mai/15
set/15
Rendimento real médio em US$
117,7
102,1
68,5
Produtividade
Figura 1 Produtividade do trabalho e Rendimento médio real em US$ e em R$
Brasil / Série dessazonalizada (Número Índice: Jan/2006 = 100)
Rendimento real médio em R$
Fonte: PIM-PF/IBGE e Indicadores Industriais/CNI. Elaboração: FIESP
riggsby/shutterstock.com
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 38 22/03/16 17:40
PolitiKa
Perspectivas e constrangimentos do sistema de previdência pública no Brasil
39
tre 2006 e 2015. Verifica-se que
o “descolamento” das séries de
salários (em reais) e de produti-
vidade do trabalho permanece
mesmo depois do recuo dos sa-
lários reais em 2015. Entretanto,
quando se compara o indicador
de produtividade com o salário
médio em dólar, percebe-se que
o hiato entre essas duas variáveis
se reduziu progressivamente ao
longo do governo Dilma. A par-
tir de 2015, o hiato foi fechado
e ocorreu uma reversão, com uma
brusca redução da remuneração
real média (em dólares), muito
abaixo da produtividade do tra-
balho. É um efeito da desvalori-
zação do real.
O que se quer argumentar é
que um ciclo de crescimento co-
mandado pela demanda decor-
rente de políticas sociais preci-
saria ter sido acompanhado por
um rápido desenvolvimento in-
dustrial, condição para que ocor-
resse um aumento contínuo na
produtividade média da econo-
mia, o que não ocorreu no Bra-
sil no período estudado.
A produtividade é, de fato,
uma variável-chave na equação
do sistema previdenciário. Em
primeiro lugar, porque o consu-
mo mais elevado, que decorre do
crescimento do número de ina-
tivos, precisa ser compensado com
o aumento da produção dos tra-
balhadores ativos. Em segundo,
porque o sistema previdenciário
se apoia em receitas oriundas da
massa salarial, dos lucros e do fa-
turamento; assim, o crescimento
da produtividade é essencial pa-
ra aumentar essa base de incidên-
cia de tributos. Em terceiro, por-
que os postos de trabalho do se-
tor industrial, por serem de mais
elevada produtividade, formali-
zados e de melhor remuneração,
funcionam como um farol para
o restante da economia. Salários
mais altos e mais empregos for-
mais reforçam o fundo previden-
ciário e aumentam a cobertura
do sistema. Por fim, numa con-
juntura como a brasileira, a ele-
vação da produtividade média é
decisiva para sustentar o poder
de compra dos salários mínimo
e médio, para que não se agrave
ainda mais o conflito distributi-
vo entre lucros e salários e não
ocorra maior elevação dos preços.
A queda da margem de lucros le-
va empresários a corrigir preços,
insistir na redução de salários e
apelar por reformas trabalhistas
e previdenciárias que reduzam
direitos sociais.
É necessário, portanto, avaliar
a hierarquia de causalidade que
determina o comportamento da
produtividade de uma economia
e seu vínculo com a indústria. O
circuito começa com a política
macroeconômica. Suas principais
variáveis (taxa de câmbio, taxa de
juro e gastos do governo) afetam
diretamente a demanda agregada,
a qual, por sua vez, determina a
acumulação de capital físico e o
progresso tecnológico. O cresci-
mento é essencial para absorver
novas técnicas, mas não qualquer
tipo de crescimento, e sim aque-
le apoiado nas manufaturas, pois
elas determinam o comportamen-
to da produtividade, por sua alta
capacidade de gerar inovações e
disseminar tecnologia melhor. A
indústria manufatureira opera
com retornos crescentes de esca-
la, estáticos e dinâmicos, e por
isso possui a mais elevada capaci-
dade para disseminar seus ganhos
de produtividade para a economia
como um todo (Nassif, Feijó e
Araújo, 2012).
No Brasil, essa cadeia de cau-
salidade não ocorreu. Houve a
combinação de uma política ma-
croeconômica conservadora, que
produziu um crescimento apenas
moderado e instável, com baixa
geração de capital físico, perda de
participação da indústria de trans-
formação no PIB e estagnação da
produtividade. Essa foi a caracte-
riggsby/shutterstock.com
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 39 22/03/16 17:40
Nº 3 _ MARÇO 2016
Denise Lobato Gentil
40previdência social
rística fundamental do comporta-
mento da base produtiva dos anos
2000-2014. O setor de serviços e
o agronegócio voltado para a ex-
portação impulsionaram a econo-
mia nacional em sua fase de cres-
cimento na década de 2000.
Segundo relatório da Federa-
ção das Indústrias do Estado de
São Paulo (Fiesp, 2015) com base
na nova série de PIB do IBGE, a
participação da indústria de trans-
formação no PIB brasileiro foi de
somente 10,9% em 2014, contra
17,9% em 2004. Em dez anos, a
indústria de transformação brasi-
leira perdeu sete pontos percentu-
ais de participação no PIB. En-
quanto isso, em 2013 esse indica-
dor foi de 31,8% na China, 32,9%
na Tailândia, 31,1% na Coréia,
11,5% no Chile, 17,8% no Méxi-
co e 15,3% na Argentina.
Considerando uma amostra de
vinte países que possuem renda per
capita semelhante à do Brasil, esse
estudo mostra que a taxa de cres-
cimento do PIB da indústria de
transformação brasileira foi das
menores entre 2001 e 2013 – ape-
nas 2,3% –, enquanto o cresci-
mento médio anual foi de 11,5%
na China, 6,8% na Índia, 6% na
Coréia, 4,3% na Argentina, 2,8%
na Colômbia e 2,7% no Chile.
Teixeira e Angeli (2012, p.18)
demonstram que, entre 1970 e
2007, “o processo de perda de di-
namismo econômico de alguns dos
mais importantes países da econo-
mia mundial foi acompanhado pa-
ri passu pela perda relativa, ou pe-
la elevação marginal, de impor-
tância do setor secundário na
composição da renda nacional, ao
passo que aqueles que lograram al-
cançar melhores taxas de cresci-
mento econômico vivenciaram
experiência oposta, com um gran-
de aumento da contribuição in-
dustrial no valor adicionado da
economia nacional”. A perda de
dinamismo econômico do Brasil
pode ser explicada, em grande par-
te, pela perda de capacidade de li-
derança do setor industrial.
Os sistemas de proteção social,
principalmente o sistema previ-
denciário, foram criados no fim
do século XIX e na primeira me-
tade do século XX como um pro-
duto do avanço do capitalismo da
era industrial. No século XXI, a
conexão entre indústria e sistema
previdenciário é essencial num ce-
nário de progressivo envelheci-
mento da população, quando a
produtividade do trabalho, junto
com o nível de emprego, assume
uma importância estratégica para
a sustentação financeira dos esque-
mas de proteção social.
A relação do sistema
previdenciário com o
mercado de trabalho e a
política macroeconômica
A expansão da cobertura do siste-
ma previdenciário brasileiro e sua
sustentação financeira ao longo do
tempo têm uma forte ligação com
o comportamento do mercado de
trabalho e com o regime de polí-
tica macroeconômica que lhe cor-
responde (política fiscal e mone-
tária), visto como determinante
do ritmo de expansão econômica
e dos ganhos de produtividade.
O mercado de trabalho afeta
diretamente os recursos tributários
que financiam o sistema previden-
ciário Os indicadores mais rele-
vantes sobre isso são a taxa de de-
semprego, o grau de formalização
da força de trabalho e o nível de
rendimento médio da população
ocupada. Para assegurar o paga-
mento de aposentadorias e pen-
sões, no curto e no longo prazos,
é fundamental que a política ma-
croeconômica tenha como meta
o pleno emprego, pois dessa forma
o número de afiliados ao sistema
crescerá, a renda dos trabalhadores
aumentará e a carga das aposenta-
dorias será mais leve.
Essa construção institucional
é fundamental para responder ao
desafio da “bomba demográfica”
– termo catastrofista usado para
denominar o processo de enve-
beeboys/shutterstock.com
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 40 22/03/16 17:40
PolitiKa
Perspectivas e constrangimentos do sistema de previdência pública no Brasil
41
As receitas previstas na
Constituição de 1988 são
suficientes para financiar,
sem déficit, todos os gastos
do governo federal
com previdência, saúde
e assistência social.
lhecimento da população e de re-
dução da taxa de natalidade. O
problema de sustentabilidade de
um sistema público de previdên-
cia em regime de repartição não
pode ser reduzido a um determi-
nismo demográfico. Deve ser tra-
tado como a busca de um cresci-
mento puxado pela demanda pa-
ra gerar o nível de emprego mais
elevado possível, procurando si-
multaneamente intervir na forma
como a renda será distribuída en-
tre ativos e inativos. Nesse senti-
do, políticas monetária e fiscal ex-
pansivas e uma política industrial,
interferindo no produto, no em-
prego e na produtividade, têm um
papel decisivo para os rumos do
sistema previdenciário.
O equilíbrio do orçamento
previdenciário, em face do enve-
lhecimento da população, terá que
ser perseguido através de políticas
de pleno emprego e de elevação
da produtividade. A idade e o va-
lor das aposentadorias estão longe
de ser os únicos determinantes da
carga previdenciária, como pre-
valece nas reformas previdenciá-
rias neoliberais, que normalmen-
te buscam o ajuste do sistema ele-
vando o valor das contribuições
sociais, reduzindo os benefícios e
aumentando a idade de acesso.
O Brasil deu uma boa demons-
tração dos efeitos do arranjo entre
política macroeconômica, merca-
do de trabalho e finanças supera-
vitárias do sistema previdenciário.
O ano de 2003 marcou uma im-
portante inflexão no mercado de
trabalho brasileiro, que passou a
registrar taxas de desemprego sis-
tematicamente decrescentes. Se-
gundo dados da PME/IBGE, en-
tre 2003 e 2014 a taxa de desem-
prego aberto caiu de 12,3% para
4,8%. Houve crescimento siste-
mático dos rendimentos médios
do trabalho principal, que passa-
ram de R$ 1.771,68 em janeiro de
2003 para R$ 2.318,36 em janei-
ro de 2014, um crescimento real
de 30,8%. Houve também expan-
são do percentual médio de tra-
balhadores com carteira assinada
no setor privado, em relação à po-
pulação ocupada. Essa proporção
era de 39,7% (7,3 milhões) em 2003
e passou para 50,8% (11,7 milhões)
em 2014. Em doze anos, esse con-
tingente cresceu 59,6% (ou mais
4,4 milhões de trabalhadores).
O mercado de trabalho atraves-
sou de forma positiva os momentos
mais duros da crise mundial até o
fim de 2014. A partir de 2015, en-
tretanto, esses indicadores favorá-
veis sofreram enorme reversão, com
a adoção de um austero ajuste fis-
cal, uma política monetária de ju-
ros elevados e contração do crédi-
to. Segundo a Pesquisa Mensal de
Emprego (PME/IBGE), o Brasil
enfrentou no segundo trimestre de
2015 uma taxa de desemprego ge-
ral de 8,3%, correspondente a uma
elevação de mais de três pontos
percentuais em apenas seis meses
de 2015, em relação ao ano ante-
rior. Em julho de 2015 os empre-
gos com carteira assinada caíram
para 11,3 milhões, um número 3,1%
menor que o observado em julho
de 2014. Esses dados são revelado-
res do potencial negativo sobre o
mercado de trabalho de uma polí-
tica de redução brusca de gastos do
governo federal.
Os dados corroboram a tese de
que o sistema previdenciário tor-
na-se financeiramente viável quan-
do políticas fiscais de elevação dos
gastos sociais (ou de qualquer gas-
to autônomo) impulsionam a de-
manda agregada e a renda, e de-
pois (por consequência) as receitas
de contribuições previdenciárias
se elevam, permitindo que a po-
lítica de gastos continue.
De fato, os gastos com benefí-
cios previdenciários se elevaram
substancialmente entre 2004 e
2015. Entre fins de 2004 e janeiro
de 2014, o aumento real do salário
mínimo foi de 68% (Dieese, 2014),
elevando o valor dos benefícios
previdenciários e fazendo crescer
a renda disponível dos trabalha-
dores ativos que recorreram à pro-
teção do Estado, dos aposentados
e pensionistas. Pode-se afirmar
que a política de elevação do sa-
lário mínimo explica a maior par-
te da expansão das transferências
de assistência e previdência duran-
te o período considerado.
Mais de 82% dos benefícios
previdenciários concentram-se na
faixa de um a dois salários míni-
mos. Em 2002, a quantidade de
benefícios emitidos era de 18,8
milhões. Em 2015 estava em 28,2
milhões, um crescimento de cer-
ca de 50%, equivalente a um acrés-
cimo de 9,6 milhões de benefícios
beeboys/shutterstock.com
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 41 22/03/16 17:40
Nº 3 _ MARÇO 2016
Denise Lobato Gentil
42previdência social
em treze anos. Em 2002, o valor
médio dos benefícios pagos foi de
R$ 362,72; em 2014, passou para
R$ 959,15 (Figura 2).
O crescimento no número de
benefícios sociais e da massa sa-
larial no período de 2003-2014
teve efeitos positivos na arreca-
dação de receitas de contribuições
previdenciárias, as únicas receitas
que cresceram sistematicamente
acima do PIB nesse período em
todos os anos, mesmo após 2009,
quando os efeitos internos da cri-
se mundial já eram sentidos (Fi-
gura 3). Essas contribuições, pa-
gas por empregadores, trabalha-
dores assalariados e autônomos,
representam a principal fonte de
receita da previdência social. Por-
tanto, o circuito virtuoso de sus-
tentação financeira dos sistemas
públicos de previdência tem co-
mo ponto de partida uma políti-
ca fiscal de elevação de gastos que
expandem a demanda agregada e
o crescimento. A elevação das re-
ceitas tributárias (resultado do
crescimento de salários e lucros)
fecha o circuito, tornando o sis-
tema autossustentável.
Desonerações tributárias
em grande escala e
impactos sobre o
orçamento da seguridade
Durante a década de 2000, os go-
vernos petistas de Lula e de Dil-
ma Rousseff colocaram em prá-
tica uma ampla política de deso-
nerações de tributos com o
objetivo de estimular o investi-
mento privado, gerar emprego e
melhorar as condições de com-
petitividade da indústria nacional.
Durante o primeiro governo de
Dilma Rousseff (2011-2014) o
uso em larga escala das desone-
rações transformou-se num indi-
cador da opção por uma estraté-
gia de forte contração do papel
do Estado e de atribuição de um
maior protagonismo ao capital
privado na condução da econo-
mia nacional. Essa política, en-
tretanto, não obteve resposta fa-
vorável do investimento agregado,
que apresentou menores taxas de
crescimento. No período 2011-
2014, a taxa média de crescimen-
to real dessa variável foi de apenas
1,8% contra 9,9% no período
2007-2010. As desonerações pri-
varam a sociedade de recursos que
poderiam ter sido empregados de
forma mais eficiente para gerar
bem-estar e crescimento.
A Figura 4 resume as estima-
tivas do Ministério da Fazenda
para o total das desonerações (ou
gastos tributários) federais para o
período 2009-2015 e o valor das
renúncias de receitas pertencen-
tes ao sistema de seguridade so-
cial, medidas em temos absolutos
e relativos.
Os dados confirmam que, no
período de desaceleração, uma
das estratégias mais importantes
de política fiscal do governo fe-
deral para estimular o investimen-
to privado foi a redução da carga
de impostos sobre as empresas.
Nota-se que, em 2009, o total das
desonerações foi de R$ 119,8 bi-
lhões ou 3,76% do PIB. Em 2011,
primeiro ano do governo de Dil-
ma Rousseff, o gasto tributário
foi de 3,52% do PIB, equivalente
a R$ 137,2 bilhões, até chegar ao
montante de 4,9% do PIB ou R$
282,4 bilhões em 2015. Essa im-
pressionante quantia que o Esta-
ANO Nº de benefícios
Valor médio do
benefício R$
2002 18.859.775 362,72
2003 19.510.519 435,94
2004 20.506.649 473,26
2005 21.149.561 495,78
2006 21.644.886 535,43
2007 22.066.263 562,26
2008 22.776.205 606,68
2009 23.534.497 657,69
2010 24.426.882 713,54
2011 25.176.323 757,71
2012 26.032.855 830,60
2013 27.009.011 899,30
2014 27.818.973 959,15
2015 (ago) 28.217.023 1.036,35
Figura 2 Regime Geral de Previdência Social | 2002–2015
Fonte: Ministério da Previdência, Boletins Estatísticos da Previdência.
ANO Valor Nominal Valor Real
Taxa de
Crescimento
real (%)
2002 71.028 141.103
2003 80.730 146.731 4,0
2004 93.765 158.385 7,9
2005 108.434 172.992 9,2
2006 123.520 191.394 10,6
2007 140.493 208.599 9,0
2008 163.355 228.599 9,6
2009 182.008 244.459 6,9
2010 211.968 269.117 10,1
2011 245.892 292.969 8,9
2012 278.173 313.320 6,9
2013 308.557 328.336 4,8
2014 357.851 357.851 9,0
Figura 3 Contribuição Previdenciária em R$ milhões
Fonte: Ministério da Previdência, Boletins Estatísticos da Previdência.
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 42 22/03/16 17:40
PolitiKa
Perspectivas e constrangimentos do sistema de previdência pública no Brasil
43
do deixou de arrecadar nesse ano
é maior do que a soma de tudo o
que foi gasto, na esfera federal,
com saúde (R$ 93 bilhões), edu-
cação (R$ 93,9 bilhões), assistên-
cia social (R$ 71 bilhões), trans-
porte (R$ 13,8 bilhões) e ciência
e tecnologia (R$ 6,1 bilhões) no
ano de 20143
.
É importante chamar a aten-
ção para os valores das renúncias
tributárias na área da seguridade
social. Em 2009, por exemplo, a
renúncia de contribuições sociais
foi estimada em R$ 59 bilhões,
que correspondem a 1,85% PIB
e a 49,3% da renúncia tributária
total daquele ano. Em 2015, o va-
lor estimado ficou em R$ 157,6
bilhões, ou seja, 2,75% do PIB e
55,8% do total desonerado no ano.
As desonerações abrangem a ces-
ta básica, a folha de salários, o
Simples nacional, a Zona Franca
de Manaus, entidades sem fins
lucrativos, medicamentos, cons-
trução civil, máquinas e equipa-
mentos, biodiesel e outros setores.
É inescapável concluir que o
governo adota uma narrativa con-
traditória, já que abre mão de re-
cursos da seguridade social e
aponta um suposto déficit da pre-
vidência. Segunda constatação:
por meio da redução selecionada
de desonerações há bastante mar-
gem para se arrecadar receitas su-
ficientes para uma ampla política
de desenvolvimento do sistema
de saúde ou para educação. Essa
estratégia não produziu o espera-
do aumento do investimento pri-
vado, não se convertendo, por-
tanto, na geração de emprego,
renda e produção. O efeito mais
provável foi o aumento das mar-
gens de lucro dos setores favore-
cidos. O aumento da arrecadação
federal pela via da revisão do gas-
to tributário poderia ampliar as
verbas orçamentárias destinadas
a áreas que enfrentam escassez de
recursos, como as da saúde e sa-
neamento, com efeitos multipli-
cadores na economia e na eleva-
ção do bem-estar da população
de menor renda. O uso mais per-
verso das desonerações seria o seu
relaxamento (volta da tributação)
para fazer superávit primário, co-
mo parece sugerir a proposta de
ajuste fiscal do governo.
O orçamento da
seguridade social:
existe déficit?
Segundo o artigo 195 da Consti-
tuição Federal de 1988, a seguri-
dade social, da qual o sistema pre-
videnciário é parte fundamental,
deve ter várias fontes de receitas.
Nelas estão incluídas a contribui-
ção dos empregadores e trabalha-
dores à seguridade social (contri-
buição previdenciária ao INSS), a
Cofins (inclusive sobre importa-
ções), a CSLL e a receita de con-
cursos de prognósticos. Até 2007
a CPMF também era uma fonte
de recursos do sistema de seguri-
dade. Como se vê, ele foi criado
com uma sólida estrutura de fi-
nanciamento, apoiada em uma di-
versificada base de arrecadação que
está preservada até hoje no texto
da Constituição. As investidas li-
berais-privatizantes não consegui-
ram viabilizar econômica e poli-
ticamente sua alteração.
Quando se leva em considera-
ção esse conjunto de receitas, ve-
rifica-se que elas são suficientes
para financiar todos os gastos do
governo federal com previdência,
saúde e assistência social, confor-
me demonstra a Figura 5. O en-
contro de receitas e despesas é am-
plamente superavitário, incluindo-
-se os gastos administrativos com
pessoal, custeio e pagamento da
dívida de cada setor. O superávit
foi de R$ 56,7 bilhões em 2010,
R$ 78,1 bilhões em 2012 e R$
56,4 bilhões em 2014, apesar das
enormes desonerações tributárias
realizadas nos últimos cinco anos.
Os números mostram mais do que
isso. Elucidam que o governo gas-
ta, de forma sistemática, recursos
ANO
Desoneração
total
% do PIB
Desoneração de
contribuições
sociais1
% do PIB % do total
2009 119.861 3,76 59.061 1,85 49,3
2010 132.059 3,47 67.355 2,03 51,0
2011 137.239 3,52 68.146 1,75 49,6
2012 170.389 3,76 80.909 1,78 47,5
2013 170.016 4,10 97.731 1,97 48,0
2014 249.761 4,76 136.541 2,61 54,6
2015 282.437 4,93 157.644 2,75 55,8
Figura 4 Desonerações Tributários Federais1
(Em R$ milhões e % do total)
Fonte: Receita Federal, Ministério da Fazenda, Demonstrativo dos Gastos Tributários.
(1) Inclui Contribuições Previdenciárias, Cofins, CSLL PIS/PASEP
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 43 22/03/16 17:40
Nº 3 _ MARÇO 2016
Denise Lobato Gentil
44previdência social
da seguridade social em despesas
da União que pertencem ao orça-
mento fiscal, subtraindo recursos
que constitucionalmente estão vin-
culados aos gastos sociais.
Essa informação não tem sido
repassada para a população, que ado-
tou a noção, amplamente veiculada
pela mídia, de que o sistema de se-
guridade social brasileiro enfrenta
uma crise de grandes proporções
em função do crescimento dos gas-
tos previdenciários, necessitando
por isso de reformas que implicam
corte de direitos sociais. Há uma
idéia depreciativa do sistema – de
insolvência e de precariedade ge-
neralizada –, que não corresponde
à realidade. Os dados refutam essa
tese e mostram que o sistema de
seguridade social tem sido autos-
sustentável, mesmo durante o pe-
ríodo de recessão recente, o que
torna viável a expansão de benefí-
cios e serviços muito importantes
para a sobrevivência da grande
maioria da população. Com o su-
perávit de 2014 seria possível elevar
em 60% os gastos com saúde pú-
blica, por exemplo, o que poderia
viabilizar uma grande transforma-
ção na prestação desses serviços.
A Constituição de 1988 deter-
mina que sejam elaborados três
orçamentos: o orçamento fiscal,
o orçamento da seguridade social
e o orçamento de investimentos
das estatais. O que ocorre é que,
na prática da execução orçamen-
Receitas1
2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014
Receita Previdenciaria 140.493 163.355 182.008 211.968 245.892 278.173 308.557 357.851
CSLL 34.411 42.502 43.592 45.754 57.845 57.488 65.732 65.534
COFINS 102.463 120.094 116.759 140.023 259.891 181.555 201.527 195.179
PIS/PASEP2
26.709 30.830 31.031 40.373 42.023 47.778 51.065 51.881
CPMF 36.483 3.058 2.497 3.148 3.414 3.765 0 0
Receitas de órgãos da Seguridade3
14.255 13.528 14.173 14.883 16.873 20.044 10.923 7.415
Contrapartida do Orç. Fiscal p/EDU 1.766 2.048 2.015 2.136 2.256 1.774 1.273 1.391
Receita total da seguridade 356.580 375.415 392.075 458.285 528.194 590.577 639.077 679.251
Despesas 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014
Benefícios Previdenciários 182.575 199.562 224.876 254.859 281.438 316.590 357.003 402.087
Benefícios LOAS e RMV 14.192 15.641 18.712 22.234 25.116 30.324 34.323 38.447
Bolsa-Família e outras transferências 8.756 10.605 11.877 13.493 16.767 20.530 23.997 26.156
EPU 1.766 2.048 2.015 2.136 2.256 1.774 1.273 1.439
FAT (seguro-desemprego, abono, outros) 17.957 21.416 27.742 29.755 34.738 40.491 46.561 51.833
Minist. Saúde - MS 45.212 50.270 58.270 61.965 72.332 80.063 84.412 83.935
Minist. Desenvolvimento Social - MDS 2.278 2.600 2.746 3.425 4.033 5.669 6.719 3.986
Minist. Pevidência - MP 4.496 4.755 6.265 6.482 6.767 7.171 7.280 5.188
Outras ações da Seguridade 3.365 3.819 6.692 7.260 7.552 9.824 9.824 9.824
Despesa total da seguridade 280.596 310.716 359.195 401.609 450.999 512.436 571.392 622.895
Resultado da Seguridade 75.984 64.699 32.880 56.676 77.195 78.141 67.685 56.356
Figura 5 Receita, despesa e resultado da Seguridade Social | 2007 – 2014 (Valores correntes em R$ milhões)
www.previdencia.gov.br; Minist. da Fazenda, Arrecadação, Análise Mensal da Receita - www.receita.fazenda.gov.br/ | Federal - www.orcamentofederal.gov.br. Informações Orçamentárias, Estatísticas Fiscais, Despesas
Orçamentárias por Agregados Funcionais | Servidores Públicos nem as Receitas para o Regime de Previdência dos Militares por não pertencerem ao sistema de Seguridade Social definido | (2) Por lei, destinam-se à cobertura do
seguro-desemprego e abono salarial | (3) Inclui as receitas próprias do MS, MPA, MDS e FAT. | Fonte:”Resultado Primário da Seguridade Social” – SOF, www.orcamentofederal.gov.br | não pertencerem ao sistema de Seguridade
Social definido pela CF/1988.
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 44 22/03/16 17:40
Perspectivas e constrangimentos do sistema de previdência pública no Brasil
45
PolitiKa
tária, o governo apresenta não três,
mas dois orçamentos, o orçamen-
to de investimentos e o “orçamen-
to fiscal e da seguridade social”,
no qual consolida todas as receitas
e despesas, unificando o resulta-
do. Com este artifício não é pos-
sível identificar a transferência de
recursos do orçamento da segu-
ridade social para financiar gastos
do orçamento fiscal. Para tornar
o quadro ainda mais confuso, iso-
la-se, para efeito de análise orça-
mentária, o resultado previdenci-
ário e o resto do orçamento da
seguridade social. Com esse arti-
fício contábil, tenta-se mostrar
que é necessário transferir cada
vez mais recursos para cobrir o
suposto rombo da previdência.
A idéia de déficit no orçamen-
to da previdência é amplamente
divulgada pela mídia com o su-
porte do governo federal. Com o
objetivo de reduzir os gastos pre-
videnciários, considerados insus-
tentáveis, o governo federal reali-
zou, no final do ano de 2014, uma
ampla reforma no acesso aos be-
nefícios de seguro-desemprego,
pensão por morte, auxílio-doença,
abono salarial e aposentadoria por
tempo de contribuição. Para eco-
nomizar recursos, foram ampliadas
as carências e reduzidos os bene-
fícios. O peso do ajuste irá recair,
em grande parte, sobre os traba-
lhadores, enquanto a política mo-
netária defende os bancos e os fun-
dos de investimentos, sobrecarre-
gando o orçamento público com
despesas financeiras em patamares
extremamente elevados.
Não se sabe se a economia de
recursos pela via da redução de gas-
tos sociais proporcionará recursos
suficientes para pagar os gastos ex-
traordinários com juros da dívida
pública, mas se sabe que atingirá a
populaçãoquedependedessastrans-
ferências de renda para sobreviver.
Entre 2011-2014, o governo Dilma
pagou um montante médio anual
superior a 4% do PIB com juros.
Em 2014, esse valor chegou a R$
251 bilhões (quase 5% do PIB) e
nos últimos doze meses encerrados
em agosto de 2015, R$ 399 bilhões
(Figura 6). São recursos esteriliza-
dos. Não ingressam no circuito pro-
dutivo para gerar emprego e renda,
nem se destinam a elevar a oferta
de serviços públicos de que a po-
pulação necessita. Reduzir esse gas-
to implicaria mudar radicalmente
uma política monetária restritiva e
de baixa eficiência. O aumento das
despesas financeiras no governo de
ANO R$ milhões % do PIB
2010 124.509 3,30
2011 180.553 4,36
2012 147.268 3,35
2013 185.846 3,84
2014 251.070 4,90
2015* 399.483 7,20
Figura 6 Gasto com Juros Nominais | 2010 – 2014
Fonte: Ministério da Fazenda, STN.
Anuário Estatístico - Estatísticas Fiscais acima da linha. Elaboração própria.
(*) Acumulado em 12 meses até agosto/2015.
BirgitReitz-Hofmann/shutterstock.com
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 45 22/03/16 17:40
Nº 3 _ MARÇO 2016
Denise Lobato Gentil
46previdência social
Dilma Rousseff reflete um alto grau
de conservadorismo no combate à
inflação, que se mantém mais ele-
vada nos anos de 2011-2014, alcan-
çando um patamar próximo a 10%
em 2015, muito acima do limite
superior da meta estabelecida pelo
Banco Central.
A reversão da política de juros
elevados e a consequente redução
dos gastos financeiros poderiam
abrir espaço para a construção de
uma política fiscal anticíclica mais
ativa, apoiada em investimentos pú-
blicos e nos gastos sociais, incluin-
do aqueles que têm se mantido his-
toricamente em baixos patamares,
como saneamento básico, habitação
popular, infraestrutura de transpor-
te urbano e cultura.
Algumas conclusões
No Brasil, a ideia de que a pre-
vidência vive uma crise financei-
ra vem sendo propagada insisten-
temente há mais de vinte anos,
embora os dados contradigam
esse discurso. O cálculo do su-
posto déficit previdenciário não
se baseia no que prevê a Consti-
tuição Federal de 1988, que es-
tabelece o arcabouço jurídico do
sistema de seguridade social, no
qual insere-se a previdência pú-
blica. O falso déficit previdenci-
ário leva em consideração apenas
a receita da contribuição previ-
denciária (ao INSS), mas há ou-
tras fontes de receita que não são
computadas: a contribuição para
o financiamento da seguridade
social (Cofins), a contribuição
social sobre o lucro líquido
(CSLL), o PIS/PASEP e a recei-
ta de concursos de prognósticos.
Esse conjunto de receitas pode
financiar com superávit os gastos
com saúde, assistência social e
previdência.
Precisamos reconhecer que a
previdência é muito mais que
uma transferência de renda a ne-
cessitados. O gasto com benefí-
cios previdenciários tem o papel
de alavancar o crescimento eco-
nômico. Trata-se de um gasto
autônomo, uma transferência de
renda que se converte integral-
mente em consumo de alimen-
tos, serviços e produtos essenciais,
e que, portanto, retorna das mãos
dos beneficiários para o merca-
do, dinamizando a produção, es-
timulando o emprego e multi-
plicando a renda.
A política econômica expan-
sionista, com seu papel de dina-
mizadora do mercado de traba-
lho, é decisiva para enfrentar o
problema do envelhecimento da
população nas próximas décadas.
O determinismo demográfico
precisará ser vencido por uma
política econômica ajustada para
promover o crescimento e o ple-
no emprego.
As variáveis mais importantes
da equação financeira da previ-
dência pública são o nível do em-
prego formal, o patamar dos sa-
lários e a produtividade do tra-
balho. Para que não haja risco do
sistema previdenciário ter um
colapso de financiamento é pre-
ciso que o país cresça, aumente
o nível de ocupação formal e ele-
ve a renda média no mercado de
trabalho, promovendo mobili-
dade social. Portanto, a política
econômica é o principal elemen-
to que precisa entrar no debate
sobre a “crise” da previdência.
Mas isso não é tudo. Para além
do regime de política econômi-
ca em vigor, a análise do sistema
de seguridade social deve consi-
derar o arcabouço material do
sistema produtivo brasileiro, que
lhe dá sustentação. Não é sufi-
ciente manter o gasto social em
patamares elevados e gerar cres-
cimento. Para consolidar as mu-
danças sociais já obtidas é im-
prescindível, no longo prazo,
produzir mudanças estruturais
que elevem a produtividade do
trabalho, o que dependerá de in-
vestimentos em capital físico,
educação, ciência, tecnologia e
inovação. As grandes fragilidades
estruturais do sistema previden-
ciário decorrem da baixa produ-
tividade da indústria, incapaz ele-
var a produção dos trabalhadores
ativos, que são os agentes de sus-
tentação da população idosa, en-
ferma e desempregada. Não é
possível analisar a questão pre-
videnciária dentro de si mesma.
Seus determinantes estão na to-
talidade econômica mais ampla
dentro da qual está inserida. As
variáveis macroeconômicas que
determinam o crescimento, a
produtividade e a distribuição da
riqueza no longo prazo são de-
cisivas para definir os rumos das
políticas sociais. n
As variáveis macroeconômicas
que determinam o crescimento,
a produtividade e a distribuição
de riqueza no longo prazo são
decisivas para definir os rumos
das políticas sociais.
LisaS./shutterstock.com
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 46 22/03/16 17:40
PolitiKa
Perspectivas e constrangimentos do sistema de previdência pública no Brasil
47
Notas
1. Soma dos gastos com o regime geral de previdência Social,
regime próprio de previdência social dos funcionários pú-
blicos federais e de assistência social na esfera federal em 2014.
2. O indicador de produtividade foi elaborado pelo Depecon/
Fiesp a partir dos dados das pesquisas PIM-PF do IBGE e
das pesquisas “Indicadores Industriais” da CNI e “Levanta-
mento de Conjuntura” da Fiesp. O indicador de produtivi-
dade mede a relação entre a produção física da indústria de
transformação e o número de horas trabalhadas na produção.
3. Ministério do Planejamento, SOF, “Despesa orçamentária
por agregados funcionais e programáticos”.
Referências Bibliográficas
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“Estudo Econômico da América Latina e do Caribe,
2010-2011.” Disponível em http://www.eclac.org/pu-
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ponível em www.cepal.org/publicaciones.
Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeco-
nômicos (2014). “A Política de Valorização do Salário
Mínimo: persistir para melhorar”. Nota Técnica, maio.
Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) (2015).
“Perda de Participação da Indústria de Transformação
no PIB”. Departamento de Pesquisa e Estudos Econô-
micos, maio.
NASSIF, A.; FEIJÓ, C. e ARAÚJO, E. (2012). Structural chan-
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TEIXEIRA, L. e ANGELI, E. (2012). A industrialização co-
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Brasil. Anpec. www.anpec.org.br
LisaS./shutterstock.com
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 47 22/03/16 17:40
Nº 3 _ MARÇO 2016
48
Políticas de saúde
no Brasil
notas para o debate de alternativas
O debate sobre o Sistema Único
de Saúde (SUS), sobre as políticas
de saúde no Brasil, tem sido rare-
feito e acidental. É preocupante
a obstrução das polêmicas públicas
sobre como conciliar acesso, in-
clusive a novas tecnologias, qua-
lidade e custos da atenção para
uma população que envelhece ace-
leradamente. Os reflexos imedia-
tos da quase ausência do tema na
agenda pública são a superficiali-
dade das proposições sobre o SUS
nos programas eleitorais dos can-
didatos à Presidência da Repúbli-
ca. No Brasil, as propostas para a
saúde das duas principais candida-
turas em 2014 se resumiram a
enunciados vagos: reafirmaram
ações em curso, usaram termos
genéricos e se omitiram sobre o
volume e destinação dos gastos
públicos, a abertura de unidades
assistenciais e o aumento de mé-
dicos. O contraste com outros paí-
-ses, inclusive da América Latina,
é flagrante.
Nos Estados Unidos, o último
debate presidencial sobre saúde foi
objeto de acirradas controvérsias
em torno da obrigatoriedade do
seguro-saúde e, portanto, da am-
pliação do papel governamental.
A gafe do candidato republicano
Lígia Bahia
Médica Sanitarista, Professora
da Faculdade de Medicina e do
Instituto de Saúde Coletiva da UFRJ,
Bolsista de Produtividade do CNPq.
ligiabahia@terra.com.br
A saúde tem sido um tema
obrigatório nas disputas
eleitorais em diversos países.
No Brasil, o Sistema Único de
Saúde (SUS) é uma
unanimidade, mas esse é um
consenso vazio: sua capacidade
de atender a todos e a
qualidade desse atendimento
não são objeto de polêmicas.
Tanto as interpretações que
usam o argumento das
desigualdades estruturais,
como as que apresentam
evidências sobre a
prosperidade de empresas
privadas de saúde
desconsideram o papel dos
governos e do debate político.
É preciso retomar as críticas
sobre a medicalização da vida
e a imposição de padrões
tecnológicos excludentes,
movidos pela mercantilizarão
da saúde e da doença.
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 48 22/03/16 17:40
Políticas de saúde no Brasil
49
Mitt Romney, mencionando o
azar de quem não tem seguro-
-saúde e sofre um infarto, expli-
citou divergências programáticas
e tornou-se um dos elementos-
-chave da disputa eleitoral. Mi-
chelle Bachelet, em 2013, com-
prometeu-se com a duplicação dos
gastos públicos e a ampliação da
rede assistencial estatal no Chile.
A plataforma de Justin Trudeau
incluiu a proposição de investir
US$ 3 bilhões ao longo de quatro
anos para oferecer mais e melho-
res serviços de assistência domici-
liar para todos os canadenses.
A ausência de polêmicas em
torno da política nacional de saú-
de pode ser explicada pelo con-
senso existente em torno do SUS.
Não há exagero na afirmação: o
SUS é uma unanimidade. Partidos
políticos situados em qualquer
ponto do espectro político-ideo-
lógico, entidades médicas e sindi-
cais apoiam declaradamente o sis-
tema público de saúde. Sob um
enfoque otimista, uma convergên-
cia tão ampla poderia atestar os
avanços decorrentes da constitu-
cionalização do direito à saúde.
Assim, o país se aproximaria da-
quelas nações cujos sistemas de
proteção social podem ser afetados,
mas não são destruídos, pelos di-
ferentes governos. Uma interpre-
PolitiKa
MarcelloCasalJr./ABR
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 49 22/03/16 17:40
Nº 3 _ MARÇO 2016
Lígia Bahia
50saúde públicaValterCampanato/ABr
tação alternativa considera que o
SUS é um consenso vazio, na me-
dida em que não tem sido discu-
tida sua capacidade de atender a
todos com qualidade.
Concordar que o SUS mitiga
tensões distributivas e vem am-
pliando o acesso e as coberturas
não é o mesmo que implementar
um sistema universal de saúde. Os
dissensos existentes não são sobre
a arquitetura institucional e os ob-
jetivos do SUS, mas sim sobre a
abrangência de suas ações e seu
financiamento, as duas dimensões
essenciais para definir a natureza
do sistema de saúde. Podemos sau-
dar o consenso sobre a necessida-
de de políticas de saúde, que não
deixa espaço para propostas que
preconizam que o governo se re-
traia ou se retire desse setor. Mas
isso não significa ausência de con-
tradições sobre os direitos sociais
e o padrão de desenvolvimento
econômico. Sem enfrentá-las não
chegaremos a políticas de saúde
efetivamente equânimes.
Interpretações sobre o SUS
A inclusão do direito universal à
saúde na Constituição de 1988 foi
uma das expressões dos avanços
da agenda democrática recepcio-
nada por uma aliança entre o
PMDB, os partidos de esquerda e
os movimentos sociais, consolida-
da durante a luta pelas “diretas já”.
A partir daí, a extensão e intensi-
dade das políticas sociais depen-
deriam da força (capacidade de
formulação, convencimento, ges-
tão e renovação de articulações
político-partidárias) da “fração
jacobina”. A saúde foi uma das
áreas que houve continuidade en-
tre a intenção e o gesto: depois da
elaboração do texto constitucio-
nal, lideranças do “movimento
sanitário” foram nomeadas para
instituições setoriais estratégicas.
Mesmo assim, as mudanças no
cenário político após a posse de
José Sarney – que dizia que os di-
reitos sociais estabelecidos pela
Constituinte eram inviáveis – afe-
taram o SUS, especialmente por
não ter sido estabelecido o orça-
mento da Seguridade Social, pre-
visto na Constituição, que garan-
tiria os repasses financeiros pre-
vistos. Além disso, o ocupante da
instituição que unificou a medi-
cina previdenciária com os órgãos
de saúde pública veio a ser substi-
tuído. Apesar da enorme reforma
administrativa que resultou na
criação de um Ministério da Saú-
de moderno e dotado de compe-
tências para exercer o papel de au-
toridade sanitária nacional, não
foi possível realizar transformações
imprescindíveis na oferta de ser-
viços para atenção individual.
O subfinanciamento do SUS,
adotado na Nova República e de-
pois perenizado, impediu a orga-
nização de uma rede assistencial
pública para efetivar cuidados à
saúde suficientes, de boa qualida-
de e mais homogêneos no terri-
tório nacional. Problemas preté-
ritos, como as disparidades regio-
nais, a concentração de recursos
Não há consenso
sobre as duas
dimensões
essenciais para
definir a natureza do
sistema de saúde:
a abrangência das
ações do SUS e o
modo como devem
ser financiadas.
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 50 22/03/16 17:40
PolitiKa
Políticas de saúde no Brasil
51
em algumas cidades e o predomí-
nio de hospitais e leitos privados
não foram resolvidos e, em certas
especialidades, se acentuaram. A
eleição de Fernando Collor de
Mello reiterou os limites estrutu-
rais para a efetivação do SUS e
emitiu sinais favoráveis à intensi-
ficação do empresariamento pri-
vado da saúde. Governos de dis-
tintas extrações ideológicas e co-
alizões nucleadas pelo PSDB e
pelo PT, embora com nuances,
deram continuidade ao regime de
constrangimento de um SUS uni-
versal e de qualidade.
Ao longo do tempo, houve mo-
mentos em que se renovaram as
esperanças de expandir e imple-
mentar políticas de saúde de cor-
te universal. O bem-sucedido pro-
grama contra a AIDS e a reforma
antimanicomial demonstraram o
potencial do SUS. No segundo
mandato do presidente Lula, a in-
dicação de uma liderança sanita-
rista para o Ministério da Saúde e
as promessas de devolver os recur-
sos da Contribuição Compulsória
sobre Movimentação Financeira
(CPFM) para a saúde pareceram
um aceno à retomada do SUS cons-
titucional. Porém, a extinção da
CPFM turbinou a concepção de
um SUS condicionado ao que “a
sociedade” ou “o Parlamento” de-
cidiam, como se o SUS fosse uma
política nova e dependesse exclu-
sivamente de novas fontes de re-
cursos, e não um projeto essencial
para a democracia.
Parcela significativa de profis-
sionais de saúde e de entidades da
sociedade civil simpáticos aos go-
vernos do PT adotaram um dis-
curso defensivo sobre os obstácu-
Depois de
promulgada a
Constituição de
1988, lideranças
do movimento
sanitarista foram
nomeadas para
funções estratégicas
no Ministério da
Saúde. Isso garantiu
a continuidade entre
a intenção e o gesto.
ARQUIVO/ABR
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 51 22/03/16 17:40
Nº 3 _ MARÇO 2016
Lígia Bahia
52saúde pública
los ao SUS. Às vezes, esse discur-
so recorre a metáforas, como se o
SUS estivesse na infância ou na
adolescência, enfrentando dificul-
dades de crescimento, ou então
como se assistíssemos a uma nova
luta de Davi (os aguerridos sani-
taristas) contra Golias (os capita-
listas que atuam no setor). Tanto
a versão que ressalta a dimensão
temporal quanto a que se refere à
correlação de forças deixam de la-
do o papel dos governos e do de-
bate político.
Ainda que seja pequeno o po-
tencial explicativo de analogias
entre, de um lado, projetos e cons-
truções sociais e, de outro, ciclos
biológicos de vida ou uma estru-
tura imutável, as equivalências são
tentadoras. Além disso, há o pas-
sado de árduas lutas por direitos
sociais. Se não for importante com-
preender o presente, as afirmações
sobre a existência de um processo
de conquistas ainda imaturo, em
construção, resolvem a questão.
Abstrair o presente facilita emitir
avaliações otimistas, mais afeitas
às profecias sobre o destino ine-
xoravelmente grandioso de um
país de muitas riquezas.
Mas a ausência de posiciona-
mentos polares sobre as políticas
de saúde também pode ser inter-
pretada tão somente como condes-
cendência. Os setores que se opu-
seram à aprovação do direito à saú-
de durante a elaboração do texto
constitucional não precisariam ma-
nifestar uma posição contrária ao
SUS, na medida em que os negó-
cios privados prosperaram. Seja
causa ou consequência, observa-se
uma mudança nas posições de gran-
des empresários da saúde, mani-
festa no apoio explícito a dirigen-
tes e governos petistas.
A saúde tem sido
o principal motivo
de reclamações
nas pesquisas de
opinião pública,
ultrapassando até
mesmo a educação.
Em março de
2015, 89% dos
entrevistados pelo
Ibope reprovaram
a política de saúde
levada adiante pelo
governo federal.
ValterCampanato/ABr
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 52 22/03/16 17:40
PolitiKa
Políticas de saúde no Brasil
53
O debate rarefeito
O SUS vai e não vai bem. Entre
2003 e 2008 houve uma signifi-
cativa ampliação do acesso da po-
pulação a cuidados de saúde: a pro-
porção de pessoas que se consul-
taram com médicos aumentou de
55% para 70%, e diminuíram as
diferenças no uso desses serviços
entre a primeira e a última faixa
de renda. Mesmo assim, a saúde
tem sido o principal motivo de
reclamações nas pesquisas de opi-
nião. Em pesquisa do Ibope di-
vulgado em março de 2015, 89%
dos entrevistados reprovaram a
política de saúde do governo fe-
deral. Tamanha indisposição tam-
bém reflete, é claro, uma conjun-
tura específica de instabilidade da
coalizão governamental, embora
a alta insatisfação com a saúde te-
nha sido indicada em investigações
anteriores. Em dezembro de 2009,
no contexto de elevada aprovação
do governo de Lula (com 83% de
aprovação), a saúde foi avaliada
como pior que a educação.
Em outro registro, o da prio-
ridade política, o SUS também se
apresenta combalido como políti-
ca de Estado. A recente entrega da
pasta da saúde para uma parte da
bancada do PMDB, sem nenhum
constrangimento ou declaração
sobre compromissos com metas
sanitárias, explicita que a saúde
ainda é compreendida como um
programa assessório, periférico ao
núcleo das políticas públicas: a saú-
de foi considerada como um
“anel”, não como um dos “dedos”.
O desencontro entre o aumen-
to das oportunidades de acesso aos
serviços de saúde e o aumento das
queixas pode ser explicado de du-
as maneiras. A primeira, mais di-
fundida, é a que se refere à saúde
como um saco sem fundo, com
demandas crescentes, impossíveis
de serem atendidas tanto em ter-
mos assistenciais quanto financei-
ros. A segunda considera os pro-
blemas de racionamento e de qua-
lidade das ações de saúde. São
diagnósticos divergentes, e deles
emanam recomendações opostas.
Quem compartilha a ideia da saú-
de como área eternamente confla-
grada considera que não há muito
o que mudar: tudo o que se fizer
será pouco e gerará novos proble-
mas. Na posição contrária situam-
-se os que consideram que políti-
cas de saúde adequadas são as que
respondem a demandas e necessi-
dades relacionadas com o atual per-
fil de morbidade, afetando positi-
vamente as condições de vida.
O discurso que considera inó-
cua ou mesmo maléfica a inter-
venção pública em esferas da vida
cotidiana relacionadas com riscos
sociais, as quais também são ob-
jeto de atividades de grupos em-
presariais poderosos, não se res-
tringe à saúde. Um estudo sobre
seguro social tentou demonstrar
que a baixa taxa de poupança no
Brasil está associada às elevadas
coberturas dos programas de pro-
teção aos idosos: programas de
bem-estar estimulariam “compor-
tamentos de cigarra”. Transposto
para a saúde, o escopo desse racio-
cínio diminui, admitindo-se que
a saúde básica deva ser uma res-
ponsabilidade pública.
Há consenso sobre a necessida-
de da intervenção estatal na saúde,
mas também há uma disputa entre
duas concepções de SUS. A pri-
meira o define como um compo-
nente das políticas de proteção so-
cial, integrante do processo de dis-
tribuição de cuidados, serviços e
benefícios sociais gerados pelo uso
dos impostos, considerando o bi-
nômio saúde-doença como social-
mente determinado. A segunda,
que conta com muitos adeptos, é
a “SUS para pobres”, como pro-
grama de assistência aos que “não
podem” pagar. Na prática, as duas
inspiraram políticas de saúde em
governos de distintos matizes par-
tidários. A reforma psiquiátrica,
que se filia à matriz original de
formulação do SUS, foi aprovada
durante a gestão de Fernando Hen-
rique Cardoso, enquanto a exten-
são das coberturas para atendimen-
to de urgência e odontológico
ocorreu no governo Lula.
Portanto, é incorreto estabele-
cer uma relação unívoca entre as
políticas macroeconômicas das co-
alizões que venceram eleições e as
políticas de saúde. O ponto comum
a todos os governos posteriores à
Constituição de 1988 é o subfi-
nanciamento do SUS e a liberação
de transferências, diretas e indire-
tas, sob a forma subsídios e dedu-
ções fiscais, para empresas privadas
que comercializam planos e assis-
tência à saúde. Tirar com uma mão
do SUS e dar com a outra ao setor
privado tornou-se uma prática per-
manente dos governos federais. Em
2016, o orçamento federal para a
saúde será proporcionalmente me-
nor que o de 2000 (13,2% e 14%
da receita corrente liquida), en-
quanto, no mesmo período, as re-
núncias fiscais para gastos privados
com saúde passaram de R$ 2 bi-
lhões para R$ 20 bilhões.
Políticos, líderes empresariais
e sindicalistas são no mínimo cé-
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 53 22/03/16 17:40
Nº 3 _ MARÇO 2016
Lígia Bahia
54saúde pública
ticos em relação ao SUS efetiva-
mente universal. Uns avaliam que
chegamos a uma situação equili-
brada: o SUS, com seus parcos re-
cursos, atende os pobres, enquan-
to os segmentos de maior renda,
“que pagam duas vezes” (pelo SUS
e pelos planos), merecem desone-
rações dos gastos com saúde. Ou-
tros consideram que tudo o que se
fizer em relação à saúde será mo-
tivo para novas queixas: a área é
conflagrada mesmo, especialmen-
te por uma mídia que “só divulga
o que não dá certo”. Para muitas
prefeituras – o final da linha dos
problemas do atendimento –, a
saúde passou a ser um transtorno.
A abertura de novas unidades as-
sistenciais pelos governos federal
e estaduais, sem recursos para con-
tratação de pessoal e custeio, criou
estabelecimentos fantasmas.
O debate sobre o SUS, que ad-
quiriu visibilidade no processo de
elaboração da Constituição, refluiu
para as instituições acadêmicas.
Atribui-se ao pragmatismo da go-
vernabilidade o fato de que 70%
das doações dos empresários da saú-
de nas eleições de 2014 foram para
o PT. As políticas racionalizadoras
restringiram o âmbito de atuação
da saúde, impediram o uso com-
partilhado de recursos da Seguri-
dade Social e não detiveram os pro-
cessos pretéritos de fragmentação
e segmentação do sistema de saúde.
Existem duas políticas públicas de
saúde: o SUS, com suas virtudes e
insuficiências, e o suporte político
e financeiro para a privatização.
No senso comum, o SUS é com-
plementado pelos planos privados.
Ficou para os técnicos a árdua ta-
refa de comprovar que os sistemas
universais de saúde são exatamen-
te aqueles que reconheceram que
a privatização subsidiada compete
com a saúde pública.
Mesmo quando economistas
como Paul Krugman (2015) e o
ortodoxo Kenneth Arrow (1963)
falam sobre o impacto das imper-
feições de mercado sobre a saúde,
seus posicionamentos têm pouca
repercussão. Um debate rarefeito
é funcional para que se defenda a
eficiência do privado em relação
ao público e a ideia de que os sis-
temas universais não são um vetor
de redução de desigualdades. A
troca entre consequência e causa
tem como corolário duas inter-
pretações: à direita, o SUS só seria
viável em um país mais rico e equi-
tativo; à esquerda, após a revolu-
ção socialista.
No início da década de 2000,
os limites do SUS se tornaram vi-
síveis não apenas pela reiteração
dos discursos contrários aos direi-
tos sociais universais e o retorno
das propostas de privatização e ca-
pitalização da Previdência, mas
sobretudo pela restrição orçamen-
tária e a prioridade dada a políticas
sociais focalizadas. Têm sido re-
novadas as políticas públicas em
apoio a empresas de assistência e
de comercialização de planos de
saúde, e consolidou-se a clivagem
entre demanda e oferta de cuida-
dos. A expansão de coberturas pa-
ra medicamentos, com o programa
Farmácia Popular, e para assistên-
cia móvel de emergência, com o
Sistema de Atendimento Médico
de Urgência (Samu) foi anunciada
e implementada com certa inde-
pendência em relação ao SUS.
Mais recentemente, uma mu-
dança constitucional permitiu a
atuação do capital estrangeiro em
qualquer atividade da saúde. As
críticas dos especialistas, baseadas
na sinergia entre o corte orçamen-
tário para o SUS e a captação de
recursos de fundos internacionais,
foram respondidas mais uma vez
com o argumento de que o forta-
lecimento do setor privado não
diz respeito ao SUS, como se o
fato de o Brasil possuir o segundo
maior mercado de planos privados
do mundo fosse um evento natu-
ral e inexorável. As conexões po-
líticas e financeiras entre empre-
sários da saúde, partidos e coalizões
políticas que governam o país não
são vistas com maus olhos. Ao con-
trário, as colunas sociais têm re-
gistrado o atendimento de políti-
cos de diversas origens e vincula-
ções partidárias em hospitais
particulares paulistas e a presença
deles em festas e em temporadas
de férias nas casas de empresários
da saúde. Podem não ser gestos de
má-fé, mas refletem o assentimen-
to ou a resignação com um siste-
ma de saúde que segrega o aten-
dimento a pobres e ricos. Carre-
gam preconceitos e ignorâncias
sobre os sistemas universais, junto
com crenças nas estratégias indi-
vidualizadas como respostas a pro-
blemas de saúde, que são coletivos.
Esses juízos pragmáticos reiteram
as evidências das desigualdades e
comungam com o ideário segun-
do o qual o acesso às ações de saú-
de deva ser modulado pela capa-
cidade de pagamento, e não pelas
necessidades de saúde.
As pesquisas disponíveis não
estudam o grau de compreensão
em relação ao SUS e as expecta-
tivas em relação a ele. Nos debates
públicos, o dito fica pelo não dito:
pode se dizer que o SUS “não saiu
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 54 22/03/16 17:40
PolitiKa
Políticas de saúde no Brasil
55
A abertura de novas
unidades assistenciais
pelos governos
federal e estaduais,
sem recursos para
contratação de pessoal
e para custeio, tem
criado postos de saúde
que não chegam a
funcionar. Para muitas
prefeituras, isso tem
sido um transtorno
considerável.
do papel”, ou que “é um excelen-
te modelo, mas que, na prática,
não deu muito certo”, ou ainda
que é “a maior política de inclu-
são do mundo”. Essas avaliações
são imprecisas. Não se trata de
mais um episódio de “ganhamos,
mas não levamos”.
A tarefa primordial para deba-
ter políticas de saúde é retomar o
fio da meada, as críticas à medi-
calização da vida e a imposição de
padrões excludentes de consumo
de tecnologias, movidos pela mer-
cantilizarão do processo saúde-
-doença. O direito constitucional
à saúde não se limita ao acesso a
ações assistenciais; estende-se pa-
ra a proteção contra os riscos, es-
pecialmente os sociais. Uma agen-
da de políticas de saúde deve ser
construída em conjunto com as
políticas para as cidades – trans-
porte, segurança, trabalho e renda
CreativeCommons
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 55 22/03/16 17:40
Nº 3 _ MARÇO 2016
Lígia Bahia
56saúde pública
– e dialogar com as políticas de
reconhecimento de gênero, raça-
-cor e identidades étnicas.
Subsídios para uma
agenda sobre políticas
de saúde
É desnecessário detalhar a cons-
trução das inúmeras veredas que
confluíram para estruturar o atu-
al sistema brasileiro de saúde. Bas-
ta recordar que a intervenção es-
tatal na atenção à saúde tem sido
muito extensa e intensa ao longo
da nossa história. No Brasil, as
tensões não se referem à interven-
ção do Estado. Descontos no im-
posto de renda são considerados
devidos, são direitos. Já o SUS
tende a ser encarado como favor.
As manifestações de junho de
2013 estimularam a reflexão sobre
o SUS, sobre a necessidade de com-
preender seus estrangulamentos e
transformar conhecimentos em
ação. Avançaremos se formos ca-
pazes de reconhecer a interdepen-
dência e os gargalos estruturais, mas
também as possibilidades de usar
melhor o que temos, enfrentar os
problemas de gestão de recursos e
de profissionais de saúde, desde a
formação, passando pela motivação
até a avaliação. A memória sobre
os sucessos e insucessos do SUS po-
dem, no mínimo, alertar e evitar
que se cometam os mesmos erros.
Com o tempo, fica mais claro que
um sistema de saúde que ofereça
alta qualidade e seja gratuito é a
resposta para necessidades – antigas
e novas – da sociedade.
No mundo ocidental contem-
porâneo, os sistemas de saúde têm
sido classificados segundo uma ti-
pologia que os agrega segundo a
natureza e a extensão da interven-
ção estatal em financiamento, ges-
tão e provisão de serviços. Os sis-
temas universais são aqueles nos
quais todos os cidadãos têm direi-
to à saúde mediante acesso à ofer-
ta de cuidados e serviços disponí-
veis. Os meritocráticos são os sis-
temas baseados no seguro social.
O terceiro tipo de sistema é o de-
nominado residual, no qual a in-
tervenção do Estado limita-se à
assistência focalizada a determi-
nados grupos populacionais, de-
finidos por situação socioeconô-
mica, patologias, deficiências e
idade. Os paradigmas dessa clás-
sica tipologia são, respectivamen-
te, Inglaterra, Alemanha e Estados
Unidos. Após a Segunda Guerra
Mundial, os sistemas universais se
consolidaram na Europa. Nos Es-
tados Unidos, constituíram-se or-
ganizações não lucrativas de por-
te estadual e nacional e, posterior-
mente, as seguradoras comerciais
ingressaram no sistema.
Ainda que o SUS tenha sido
inspirado no National Healh Sys-
tem inglês, não deve ser preserva-
do em formol. As pressões demo-
gráficas e tecnológicas sobre a saú-
de devem ser levadas em conta na
aplicação de noções sobre consu-
mo de procedimentos médicos e
hospitalares ou construção de re-
lações entre cidadania e Estado. A
expectativa de vida aumentou ra-
pidamente. Atualmente, os siste-
mas de saúde precisarão lidar com
mais exigências de atenção no lon-
go prazo, como hipertensão, dia-
betes e cânceres.
É essencial que a
ANS deixe de ser
um entreposto de
negócios e assuma
seu papel de regular
o mercado de planos
de saúde, incluindo
o ressarcimento de
recursos ao SUS.
CintiaErdensPaiva/shutterstock.com
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 56 22/03/16 17:40
PolitiKa
Políticas de saúde no Brasil
57
Os investimentos na saúde de-
verão ser orientados para prolon-
gar a vida com qualidade, aten-
dendo as pessoas fora dos hospitais,
evitando internações e respeitan-
do expectativas de usuários e pa-
cientes. O Brasil tem um SUS
desgastado, mas seu arcabouço é
de um sistema universal, tal como
recomendam os estudiosos do te-
ma (Nolte e Mckee, 2008). É ne-
cessário atualizá-lo, dotá-lo de
recursos materiais e simbólicos,
além de instrumentos administra-
tivos ágeis, que assegurem parti-
cipação e autonomia de usuários
e trabalhadores da saúde nas de-
cisões sobre políticas e nas alter-
nativas assistenciais.
O primeiro ponto de uma agen-
da que conecte saúde com desen-
volvimento econômico e social é o
fortalecimento dos valores de uni-
versalidade, com a reafirmação da
saúde como direito. É necessário
ampliar e qualificar a oferta pública
de serviços de saúde, incluindo re-
formas nas instalações físicas e nos
equipamentos da rede hospitalar de
hospitais universitários e das secre-
tarias de saúde. Os filantrópicos de-
vem ser atraídos para atuar como se
públicosfossem,intervindonospro-
cessos de formação e avaliação da
qualidade das atividades desempe-
nhadas pelos profissionais públicos
de saúde. Outro aspecto não menos
importante refere-se à ampliação da
capacidade nacional de pesquisa e
inovação tecnológica e à produção
de insumos para saúde. Até aqui
costuma existir um consenso, em-
bora meramente formal.
O segundo eixo de proposições
refere-se à falsa disjuntiva público-
-privado. O esclarecimento sobre
o imbricamento público-privado
do sistema de saúde brasileiro pode
contribuir para a tomada de deci-
sões governamentais que observem
as diferenças entre os horizontes
temporais e as responsabilidades sa-
nitárias dos agentes que represen-
tam os interesses da financeirização
da saúde e dos que defendem o SUS.
Para tanto, é necessário buscar que
as entidades empresariais dos seto-
res produtivos, como as federações
das indústrias e as entidades sindi-
cais, se posicionem.
Trata-se de explicitar as con-
tradições, os conflitos de interesses,
para encontrar novas possibilidades
de relacionamento entre público e
privado que se coadunem com a
universalização da saúde. Para tan-
to, é preciso formular e implemen-
tar uma política nacional de preços
voltada para “desestratificar” a aten-
ção à saúde no Brasil. Remunerar
serviços mediante tabelas, e ainda
por cima com valores diferencia-
dos de acordo com a capacidade de
pagamento, é um caminho que cria
iniquidades que podem ser evita-
das. É claro que o esforço para pa-
dronizar preços terá que se apoiar
nas secretarias de saúde, nas enti-
dades médicas e na ampla divulga-
ção dos valores correspondentes às
atividades e às ações de saúde.
Outra medida imprescindível
para conferir transparência à in-
tervenção estatal no financia-
mento do setor privado de saúde
é a imposição de limites à renún-
cia fiscal, tanto no que concerne
às deduções, quanto no que diz
respeito ao não-pagamento de
impostos pelas empresas do setor.
As isenções e abatimentos são
obtidos mediante o apelo à rele-
vância pública da saúde, mas ca-
talisam iniquidades.
O terceiro ponto de uma agen-
da para atualizar o SUS refere-se
à elaboração e implementação de
padrões de qualidade assistencial.
A criação de um instituto de qua-
lidade do SUS, com autonomia
para avaliar e monitorar a rede
pública e privada e normatizar as
ações e atividades de saúde, exige
poucos investimentos financeiros
e afirma a centralidade do SUS
como autoridade sanitária, com
valores e padrões universais.
No que tange aos planos priva-
dos é fundamental que a Agência
Nacional de Saúde (ANS) deixe de
ser um entreposto de negócios e
assuma seu papel de regulação do
mercado, usando os meios legais
de que dispõe para estabelecer bar-
reiras à entrada de planos com co-
berturas restritas, cobrar o ressar-
cimento ao SUS e punir as empre-
sas que não observarem a legislação.
Quanto aos planos e aos hospitais,
é importante levantar, divulgar e
debater o montante de recursos
aplicados nessas empresas, seja em
termos de renúncias e deduções
fiscais, seja computando emprésti-
mos e créditos concedidos por ban-
cos estatais. n
Referências Bibliográficas
Arrow, Kenneth J. “Uncertainty and
the welfare economics of medical
care”. The American Economic Re-
view. v.5 (3): 941-973, 1963
Krugman, Paul. “Hate Good Gover-
nment”. New York Times, 18 de Ja-
neiro de 2015
Nolte, Ellen e Mckee, Martin C.
“Measuring The Health Of Na-
tions: Updating An Earlier Analy-
sis”. Health Affairs v.27 (1) 58-71,
2008
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 57 22/03/16 17:40
Nº 3 _ MARÇO 2016
58
O injusto sistema
tributário brasileiro
A reforma tributária vem sendo considerada como
uma prioridade nacional, mas parece condenada a ser
um eterno projeto. Ela enfrentaria um duplo conflito
distributivo: o primeiro refere-se à distribuição da
carga tributária entre os membros da sociedade
e o segundo, à falta de um acordo entre os entes
federados. A Constituição indica princípios para um
sistema tributário mais justo, mas o que ocorreu
no país a partir da década de 1990 foi um aumento
da regressividade tributária, onerando os mais pobres
e a renda do trabalho.
Evilasio Salvador
Economista. Mestre e doutor em política social pela
Universidade Brasília (UnB). Professor no Programa
de Pós-Graduação em Política Social da UnB.
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 58 22/03/16 17:40
PolitiKa
O injusto sistema tributário brasileiro
59
Há muitos anos a reforma tribu-
tária brasileira vem sendo consi-
derada como uma prioridade na-
cional, mas parece condenada a
ser um eterno projeto. Apesar de
haver consenso quanto à sua ne-
cessidade, a discussão não avança.
Depois da Constituição de 1988
inúmeros projetos1
foram encami-
nhados pelo Poder Executivo ao
Congresso Nacional e diversos
parlamentares propuseram altera-
ções mais profundas no sistema
tributário brasileiro. A hipótese
provável para explicar a falta de
avanço de uma reforma tributária
é o fato de ela enfrentar um duplo
conflito distributivo: o primeiro
refere-se à distribuição da carga
tributária entre os membros da
sociedade e o segundo, à falta de
acordo entre os entes federados,
notadamente os estados, que de-
têm a atribuição constitucional de
arrecadar o principal imposto do
país, o imposto sobre a circulação
de mercadorias e sobre prestações
de serviços de transporte interes-
tadual e intermunicipal e de co-
municação (ICMS).
Com o agravamento da situa-
ção fiscal nos últimos dois anos,
abre-se novamente um espaço na
agenda do país para pautar a ques-
tão da reforma tributária, pois,
apesar de o Brasil ter praticado ao
longo da última década os maio-
res superávits primários do mun-
do,2
no ano passado o resultado
primário do governo central fe-
chou negativo: -0,34% do produ-
to interno bruto (PIB).
Diante desse quadro, o gover-
no federal anunciou uma política
de corte de gastos públicos, nota-
damente daqueles relacionados aos
direitos sociais: pensões, aposen-
tadorias por invalidez, auxílio-
SvitlanaMedvedieva/shutterstock.com
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 59 22/03/16 17:40
Nº 3 _ MARÇO 2016
Evilasio Salvador
60sistema tributário
-reclusão, abono salarial, seguro-
-desemprego e seguro-defeso. Pa-
ralelamente, a adoção de políticas
econômicas recessivas no novo
mandato da presidente Dilma
Rousseff tem produzido uma que-
da na arrecadação tributária: em
setembro de 2015, a arrecadação
registrou o pior resultado dos úl-
timos cinco anos. Os dados divul-
gados pela Receita Federal reve-
lam que, no acumulado dos nove
primeiros meses de 2015, ela to-
talizou R$ 901,05 bilhões, com
queda real de 3,72% frente ao mes-
mo período do ano anterior. O
governo enviou para o Congresso
Nacional o projeto de recriação
da contribuição provisória sobre
movimentação financeira (CPMF),
apontada como uma das alterna-
tivas para reforçar o caixa, em vez
de aproveitar a oportunidade para
realizar um debate mais amplo so-
bre a questão tributária.
Uma proposta de reforma tri-
butária no Brasil deveria ser pau-
tada pela retomada dos princípios
de equidade, progressividade e ca-
pacidade contributiva, tendo co-
mo objetivo obter maior justiça
fiscal e social, com redistribuição
de renda. As tributações da renda
e do patrimônio nunca ocuparam
lugar de destaque na agenda na-
cional e nos projetos de reforma
tributária após a Constituição de
1988. Assim, é oportuno recupe-
rar os princípios constitucionais
basilares da justiça fiscal: equida-
de, capacidade contributiva e pro-
gressividade. A tributação é um
dos melhores instrumentos para
erradicar a pobreza e reduzir as
desigualdades sociais, objetivos es-
senciais da República, tal como
definidos na Constituição de 1988.
Este texto apresenta duas se-
ções centrais: a primeira resgata
os princípios tributários da Cons-
tituição e aponta mudanças regres-
sivas no sistema tributário; a se-
gunda faz uma análise do perfil
do sistema tributário brasileiro,
identificando a injustiça que está
presente nele. Nas considerações
finais apresentamos indicações bre-
ves para a realização de uma re-
forma tributária que reduza a re-
gressividade do sistema.
Princípios tributários e
mudanças regressivas no
sistema tributário
A Constituição de 1988 estabe-
leceu um conjunto de princípios
que constituíam uma base impor-
tante para edificar um sistema tri-
butário orientado para a justiça
fiscal e social. Eles começam pe-
la solidariedade que está presente
em todos os princípios tributários:
a isonomia, a universalidade, a
capacidade contributiva, a essen-
cialidade. A tributação deve ser,
preferencialmente, direta, de ca-
ráter pessoal e progressiva (Salva-
dor, 2010).
No artigo 150 fica assegurada
a isonomia tributária, pois se proí-
-be o tratamento desigual entre
contribuintes em situação equiva-
lente, não sendo permitida distin-
ção em razão de ocupação profis-
sional ou de função, independen-
temente da denominação jurídica
dos rendimentos, títulos ou direi-
tos. Com isso, o quantum com que
cada um contribui para as despesas
do Estado deve alcançar todos os
cidadãos que estão na mesma si-
tuação jurídica, sem privilégios
para indivíduos ou classes sociais.
A lei tributária deve ser igual pa-
ra todos e a todos deve ser aplica-
da com igualdade (Hickmann e
Salvador, 2006).
Contudo, os princípios cons-
titucionais que permitiriam um
novo desenho para o sistema tri-
butário não foram postos em prá-
tica após a promulgação da Cons-
tituição. Ainda no governo Sarney
foi reduzida a progressividade do
imposto de renda, na contramão
do que seria estabelecido no texto
constitucional. Das nove faixas
existentes em 1988, ficaram ape-
nas duas no ano seguinte (atual-
mente são quatro).
Para Oliveira (2006), as mu-
danças na parte tributária da Cons-
tituição apontavam para descen-
tralizar a arrecadação, em sentido
oposto ao da centralização reali-
zada na ditadura militar. O autor
também destaca o maior compro-
misso do texto constitucional com
a equidade, visando a tornar o sis-
tema tributário mais justo do pon-
to de vista fiscal, distribuindo me-
lhor seu ônus entre os membros
da sociedade. A descentralização
aparecia no aumento das compe-
tências tributárias das esferas sub-
nacionais e no expressivo aumen-
to dos fundos de participação de
estados e municípios.
As políticas econômicas prati-
cadas na década de 1990 desagua-
ram em uma legislação tributária
que minou os avanços obtidos na
Constituição. Os questionamentos
sobre a intervenção do Estado na
economia e a chamada “crise fis-
cal” estabeleceram novos condi-
cionantes para a extração de re-
cursos da sociedade pela via tri-
butária. O novo arranjo de
políticas macroeconômicas anu-
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PolitiKa
O injusto sistema tributário brasileiro
61
lava qualquer tentativa de desen-
volvimento econômico; a defini-
ção da regulação tributária seria
um elemento decisivo das “con-
dições globais de inserção da eco-
nomia brasileira no mercado in-
ternacional” (Bisato Jr. 2006). O
próprio desenho da descentraliza-
ção foi desarticulado a partir de
1993, com a desvinculação de re-
cursos das contribuições sociais,
que não são compartilhadas com
os estados e os municípios.
As alterações na legislação in-
fraconstitucional, realizadas a par-
tir de 1995, enfraqueceram os prin-
cípios básicos do sistema tributário
da Constituição de 1988, agravan-
do as distorções e, sobretudo, apro-
fundando a regressividade do sis-
tema. As modificações, que usaram
leis ordinárias e regulamentos,
transferiram o ônus para a renda
do trabalho e a população mais
pobre, alterando o perfil da arre-
cadação.
As análises de Farias et al (2006)
e Salvador (2010; 2014) apontam
as principais alterações que enfra-
quecem a justiça fiscal no Brasil:
a) a isenção de imposto de ren-
da na distribuição de lucros a pes-
soas físicas, eliminando o imposto
na fonte sobre lucros e dividendos
distribuídos para os resultados apu-
rados a partir de 1º de janeiro de
1996, seja o sócio capitalista resi-
dente no país ou no exterior. An-
tes dessa mudança, a alíquota era
de 15% (Lei n° 9.249/95, art. 10º);
b) instituição dos “juros sobre
capital próprio”, que é a possibi-
lidade de remunerar com juros o
capital próprio das empresas. Na
prática, isso significa uma redução
da base tributária do imposto de
renda e da contribuição social do
lucro líquido, além de ser uma for-
ma secundária de distribuição de
lucros e dividendos (Lei n°
9.249/95, art. 9º);
c) eliminação da alíquota de
35% do imposto de renda de pes-
soa física, reduzindo a progressi-
vidade desse imposto (Lei n°
9.250/95);
e) elevação da alíquota do im-
posto de renda de pessoa física, de
25% para 27,5% (Lei n° 9.532/97,
art. 11º);
f) aumento do número de de-
clarantes do imposto de renda, pois
a tabela desse imposto deixou de
ser corrigida (1996 a 2001), fazen-
do com o que os trabalhadores de
mais baixa renda passassem a ser
tributados (Lei nº 9.430/96). Não
houve um aumento na quantidade
de contribuintes em função do
aumento da renda tributável de
elevado potencial contributivo.
g) redução para zero das alí-
quotas de imposto de renda e
de CPMF para investidores es-
trangeiros no Brasil, garantida
pela medida provisória nº 281
(15/02/2006). Foram agraciadas
cotas de fundos de investimentos
exclusivos para investidores não
residentes que possuam, no mí-
nimo, 98% de títulos públicos
federais. Os grandes beneficiados
pela medida foram os bancos.
Hoje, essas operações permane-
cem isentas de imposto de renda
e também de imposto sobre ope-
rações financeiras.
h) significativas alterações no
tratamento tributário das aplica-
ções financeiras (Lei n° 11.033, de
21/12/2004), favorecendo os apli-
cadores no mercado financeiro e
na bolsa de valores. Para as apli-
cações financeiras em chamados
“fundos de investimento” e demais
aplicações de renda fixa foi ado-
tado um sistema de tributação de-
crescente, de acordo com o prazo
de permanência dos recursos na
aplicação, variando de 22,5% (até
seis meses) a 15% (nas aplicações
acima de 24 meses).
Durante o primeiro governo
da presidente Dilma Rousseff, as
principais iniciativas relativas ao
sistema tributário foram as deso-
nerações concedidas.3
O governo
não tomou a iniciativa de apresen-
tar uma nova proposta de reforma
tributária ao Congresso Nacional
(Salvador, 2014).
Um balanço das medidas tri-
butárias adotadas nos últimos do-
ze anos indica que elas foram pon-
tuais, com pouco impacto sobre a
justiça social e a redução das de-
sigualdades (Ipea, 2011; Salvador,
2014). Em grande parte, as inicia-
tivas legislativas pretendiam obter
uma simplificação tributária, com
desonerações de impostos para as
empresas e busca de maior com-
petitividade no cenário interna-
cional. As medidas voltadas para
produzir algum impacto na redu-
ção das desigualdades sociais limi-
taram-se à maior progressividade
Os governos do PT não
apresentaram propostas de
reforma tributária. As medidas
adotadas nos últimos doze anos
foram pontuais, com pouco
impacto sobre a justiça social
e a redução das desigualdades.
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Nº 3 _ MARÇO 2016
Evilasio Salvador
62sistema tributário
do imposto territorial rural, ao
aumento da alíquota da contribui-
ção social sobre o lucro líquido
dos bancos e a alguns efeitos pe-
riféricos do imposto sobre opera-
ções financeiras (Cagnin e Freitas,
2011). Nos últimos doze anos não
foi revogada nenhuma das medi-
das regressivas adotadas na década
de 1990, destacadamente a isenção
de imposto de renda sobre a dis-
tribuição de lucros e dividendos a
pessoas físicas residentes no Brasil
ou no exterior.
Neste momento de crise, a re-
versão dos privilégios tributários
concedidos às classes mais ricas
poderia ser uma das alternativas
progressistas, pois permitiria ar-
recadar os recursos necessários pa-
ra manter as políticas sociais e re-
tomar investimentos públicos,
apontando ainda para a necessária
desconcentração de riqueza.
Projeções realizadas por Intro-
íni (2015) indicam que é possível
obter uma expressiva arrecadação
tributária direta com a reintrodu-
ção da tributação sobre lucros e
dividendos recebidos pelas pesso-
as físicas. Conforme dados da Re-
ceita Federal, no ano-calendário
de 2012 foram declarados R$ 207
bilhões recebidos por pessoas físi-
cas dessa forma, enquanto o mon-
tante de lucros e dividendos dis-
tribuídos – incluindo pessoas físi-
cas e jurídicas, exceto as optantes
pelo Simples – foi de R$ 436 bi-
lhões no mesmo ano. Introíni mos-
tra que a aplicação de uma alíquo-
ta efetiva de 25% sobre esses ren-
dimentos resultaria em uma
arrecadação adicional superior a
R$ 100 bilhões somente no im-
posto de renda.
O regressivo sistema
tributário brasileiro
A carga tributária bruta, incluindo
a arrecadação da União, estados,
Distrito Federal e municípios, au-
mentou significativamente entre
1995 e 2004, passando de 27% pa-
ra 33% do PIB. Mas nosso sistema
está concentrado em tributos re-
gressivos e indiretos, justamente
os que oneram mais os trabalha-
dores e os pobres. Mais da metade
da arrecadação provém de tributos
que incidem sobre bens e serviços,
com baixa tributação sobre renda
Fonte: OCDE (http://www.oecd.org/ctp/tax-policy/tax-database.htm) e PNUD (Human Development Report 2013). Os dados do Brasil são de 2011.
Figura 1 | Relação entre carga tributária e concentração de renda (países selecionados — 2010)
60
55
50
45
40
35
30
25
20
15
10
0,20 0,25 0,30 0,35 0,40 0,45 0,50 0,55 0,60
Carga
tributária
Índice
de Gini
Suécia
Finlândia
Áustria
Bélgica
Itália
Reino Unido
Canadá
Suiça
Turquia
EUA
México
Brasil
Alemanha
Espanha
Chile
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PolitiKa
O injusto sistema tributário brasileiro
63
e patrimônio. Nos países mais de-
senvolvidos, a tributação sobre o
patrimônio e a renda corresponde
a cerca de 2/3 da arrecadação, con-
forme dados da Organização para
a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico (OCDE).4
A eficácia
redistributiva da política tributária
brasileira é baixa, pois ela não tri-
buta o patrimônio e os rendimen-
tos mais elevados, não originários
do trabalho – aluguéis, aplicações
financeiras, lucros e dividendos
(Silveira et al, 2008).
A forte correlação negativa en-
tre o índice de Gini e a carga tri-
butária reforça a ideia de que o
sistema tributário não contribui
para a redistribuição de renda no
Brasil. Ao contrário, ele deprime
o poder de compra da população
de baixa renda, alijando-a do mer-
cado de consumo. Estudo publi-
cado pelo Instituto de Estudos So-
cioeconômicos (Inesc) destaca que
em vários países da OCDE a ele-
vada carga tributária bruta acom-
panha uma melhor distribuição de
renda, mas o sistema tributário
brasileiro, fortemente regressivo,
associa-se a uma elevada concen-
tração de renda. A Figura 1 repro-
duz os dados do estudo do Inesc
(Salvador, 2014), mostrando a re-
lação entre a carga tributária (eixo
vertical) e a desigualdade de ren-
da mensurada pelo índice de Gini
(eixo horizontal) para uma amos-
tra de países da OCDE em 2010.
O aumento da carga tributária
bruta não ocorreu de forma ho-
mogênea para todas as classes so-
ciais e faixas de renda no país. A
Figura 2 mostra a arrecadação de
2014 das três esferas de governo
– que alcançou 33,47% do PIB,
conforme os dados consolidados
pela Receita Federal
(2015) – por bases de
incidência econômica.
Aparece ali o predomí-
nio de tributos indiretos
(sobre o consumo) e de
tributos sobre a renda do
trabalho. Da arrecadação tri-
butária de 2014, de R$ 1,8
trilhão, 13% vêm de tributos
que incidem diretamente so-
bre a renda dos trabalhadores,
incluindo a contribuição dos
empregados para a previdência
social. Os tributos sobre o consu-
mo (bens e serviços) representam
51%. Considerando-se que a con-
tribuição dos empregadores para
a previdência social é um custo
que as empresas repassam para ao
consumidor, a tributação indireta
sobre bens e serviços, na prática,
pode representar mais de 60% da
carga tributária.
O principal tributo sobre o
consumo é o imposto sobre cir-
culação de mercadorias e serviços
(ICMS), de competência dos es-
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Evilasio Salvador
64sistema tributário
tados e do Distrito Federal. Ele é
responsável por 20% da arrecada-
ção tributária, uma peculiaridade
do sistema brasileiro, pois em ou-
tros países não é comum que o
principal imposto pertença a uma
esfera subnacional.
O ICMS é um tributo regres-
sivo, que onera a população mais
pobre. Uma das principais ques-
tões sobre ele diz respeito às inú-
meras alíquotas envolvidas e à fal-
ta de harmonização da legislação
no país. As alíquotas das operações
internas são estabelecidas pelos es-
tados e o Distrito Federal, poden-
do ser seletivas conforme a essen-
cialidade do bem: produtos básicos
deveriam ter alíquotas menores
que os supérfluos.
Contudo, a situação que pre-
domina no país é exatamente a
inversa, com os bens supérfluos
sendo menos tributados que os
bens essenciais (Lima, 2009). O
ICMS responde por 45% dos tri-
butos que incidem sobre os ali-
mentos, com uma alíquota-padrão
em torno de 17%. Em alguns es-
tados chegam a ser estabelecidas
mais de quarenta alíquotas dife-
rentes para esses produtos (Máxi-
mo, 2013). Como não há harmo-
nização das normas desse imposto,
o ICMS, na prática, é regulamen-
tado por 27 legislações. Ademais,
é prática usual no Brasil a cobran-
ça “por dentro”: os tributos inci-
dem sobre outros tributos, de mo-
do que as alíquotas nominais são
menores do que as efetivas.
Os tributos indiretos são re-
gressivos, pois têm uma relação
inversa com o nível de renda do
contribuinte, prejudicando as pes-
soas de menor poder aquisitivo.
Eles incidem sobre a produção e
Figura 2 | Estimativa da carga tributária brasileira por base de incidência em 2014
Tributação por base 	 R$ milhões	 % PIB	 %
de incidência econômica	 mil milhões	
Fonte: Receita Federal. Carga Tributária no Brasil – 2014: análise por tributos e bases de incidência. Brasília: Secretaria da Receita Federal do Brasil,
outubro de 2015. Elaboração própria.
Total da Receita Tributária	 1.847.739,70	 33,47%	 100,00%
Tributos sobre a Renda	 332.879,71	 6,03%	 18,02%
Pessoa Física	 145.206,46	 2,63%	 7,86%
Pessoa Jurídica	 117.600,95	 2,13%	 6,36%
Retenções não Alocáveis	 70.072,30	 1,27%	 3,79%
Tributos sobre a Folha de Salários	 465.301,80	 8,43%	 25,18%
Previdência Social	 306.110,54	 5,54%	 16,57%
Empregador	 190.546,71	3,45%	10,31%
Empregado	 96.406,68	1,75%	 5,22%
Autônomo	 12.372,30	0,22%	 0,67%
Outros	 6.784,86	0,12%	 0,37%
Seguro Desemprego	 108.781,72	 1,97%	 5,89%
Outros	 50.409,55	0,91%	 2,73%
Tributos sobre a Propriedade	 77.077,43	 1,40%	 4,17%
Propriedade Imobiliária	 28.876,05	 0,52%	 1,56%
Propriedade de Veículos Automotores	 32.452,96	 0,59%	 1,76%
Transferências Patrimoniais	 15.748,41	 0,29%	 0,85%
Tributos sobre Bens e Serviços	 942.666,55	 17,07%	 51,02%
Gerais	 646.964,09	11,72%	 35,01%
Não Cumulativos	 408.982,43	 7,41%	 22,13%
Cumulativos	 237.981,66	 4,31%	12,88%
Seletivos	 177.527,63	3,22%	 9,61%
Automóveis	 40.345,95	0,73%	 2,18%
Bebidas	 16.177,43	0,29%	 0,88%
Combustíveis	 45.329,57	0,82%	 2,45%
Energia Elétrica	 30.828,74	 0,56%	 1,67%
Tabaco	 9.846,48	0,18%	 0,53%
Telecomunicações	 34.999,45	0,63%	 1,89%
Comércio exterior	 36.773,72	 0,67%	 1,99%
Taxas - Prest. Serviços e Poder Polícia	 44.071,51	 0,80%	 2,39%
Contribuições Previdenciárias	 22.885,00	 0,41%	 1,24%
Outras Contribuições Sociais e Econômicas	 14.444,60	 0,26%	 0,78%
Tributos sobre Transações Financeiras	 29.819,44	 0,54%	 1,61%
Trib. s/ Débitos e Créditos Bancários	 63,29	 0,00%	 0,00%
Outros	 29.756,15	0,54%	 1,61%
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PolitiKa
O injusto sistema tributário brasileiro
65
o consumo de bens e serviços, sen-
do passíveis de transferência para
terceiros, ou seja, para os preços
dos produtos. Os consumidores
pagam o tributo com a mediação
das empresas produtoras ou ven-
dedoras, que são as contribuintes
legais. Como o consumo é pro-
porcionalmente decrescente em
relação à renda, isso prejudica mais
os contribuintes de menor poder
aquisitivo. Para Oliveira (2009)
trata-se do “fetiche” do imposto:
o empresário nutre a ilusão de que
recai sobre seus ombros o ônus do
tributo, mas este, incorporado à
estrutura de custos da empresa, na
verdade é repassado aos preços.
A Figura 2 destaca a irrisória
tributação do patrimônio no Bra-
sil: somente 1,4% do PIB, o que
equivale a 4,18% da arrecadação
tributária realizada em 2011. Nos
principais países capitalistas, con-
forme Owens (2005), os tributos
sobre o patrimônio representam
mais de 10% da arrecadação tri-
butária: 10% no Canadá, 10,3%
no Japão, 11,8% na Coreia, 11,9%
na Grã-Bretanha e 12,15% nos Es-
tados Unidos.
A tributação sobre patrimônio
reapareceu no debate internacio-
nal depois da publicação de O ca-
pital no século XXI, de Thomas Pi-
ketty (2014). A partir da análise
de dados tributários e apresentan-
do vasta evidência empírica, o au-
tor demostra que houve um au-
mento espetacular na desigualdade
de renda nas principais economias
do mundo. E faz um apelo, espe-
cialmente, por impostos sobre a
riqueza, se possível em escala mun-
dial, a fim de restringir o crescen-
te poder da riqueza hereditária.
No caso brasileiro, o imposto
sobre herança é conhecido como
imposto de transmissão causa mor-
tis e doação (ITCMD), e sua ar-
recadação compete aos governos
estaduais. Em 2014 foram arreca-
dados apenas R$ 4,7 bilhões, so-
mente 0,25% do total, conforme
estudo da Receita Federal (2015).
Oliveira e Biasoto Jr. (2015) des-
tacam que esse imposto, criado em
1988, permanece com pouca re-
levância no sistema tributário bra-
sileiro e nem chega a ser regula-
mentado em vários estados. Mui-
tas vezes, sequer é cobrado na
transmissão de imóveis por moti-
vo de morte.
Oliveira e Biasoto Jr. (2015, p.
27), com base em dados da Re-
ceita Federal, afirmam que “os
valores dos bens e direitos decla-
rados como recebidos como he-
ranças e doações, isentos da inci-
dência do imposto de renda, fo-
ram, em 2013, de R$ 51 bilhões.
Trata-se de uma transferência de
riqueza apreciável e, a não ser no
caso do cônjuge, imerecida por
quem a recebe, por não ser fruto
do trabalho, mas resultado apenas
da sorte.”
A insignificante arrecadação
também resulta da baixa alíquota
do ITCDM, que em 1992 foi fixa-
da pelo Senado Federal em 8%, mas
raramente passa de 5% nos estados,
na maioria das vezes sem progres-
sividade, como é o caso de São Pau-
lo, onde a alíquota única é de 4%.
Na média dos países da OCDE
essa alíquota é de 15%, mas há paí­
ses, como Japão, em que alíquota
máxima chega a 55%. Na Bélgica
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Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 65 22/03/16 17:40
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Evilasio Salvador
66sistema tributário
chega a 50% e na França é de 45%.
No Reino Unido, o teto da tri-
butação sobre herança é de 40%.
Na América Latina, o Chile tem
uma alíquota máxima de imposto
sobre herança de 25% (Oliveira e
Biasoto Jr., 2015).
Há outras particularidades da
tributação sobre patrimônio no
Brasil. No período de 2000 a 2011,
o acréscimo na arrecadação tribu-
tária sobre o patrimônio decorreu,
principalmente, do maior recolhi-
mento do imposto sobre a pro-
priedade de veículos automotores
(IPVA), consequência do cresci-
mento da venda de automóveis
(Salvador, 2014). Entre 2003 e
2012 houve um aumento de 98%
na produção de veículos automo-
tores, colocando o Brasil como o
quarto maior fabricante de carros
e o detentor da sétima maior fro-
ta, de acordo com a Associação
Nacional dos Fabricantes de Veí-
culos Automotores (Anfavea).6
Convém ressaltar que o IPVA não
incide sobre veículos como jatos,
helicópteros, iates e lanchas por-
que, sendo sucessor da antiga taxa
rodoviária única, a jurisprudência
estabeleceu que sua incidência li-
mita-se aos veículos terrestres.
Apesar de ser um país com for-
te presença de latifúndios, o Bra-
sil cobra um imposto irrisório so-
bre as propriedades rurais. Os da-
dos da Receita Federal (2015)
revelam que o imposto territorial
rural arrecada 0,01% do PIB. A
Constituição prevê progressivida-
de na cobrança do imposto sobre
propriedade territorial urbana, de
competência municipal, mas têm
sido estabelecidas alíquotas neu-
tras para ele (Silveira et al, 2008).
Além disso, até hoje não foi regu-
lamentado o imposto sobre gran-
de fortunas, de competência da
União, estabelecido na Constitui-
ção de 1988.
Também é irrisória a tributa-
ção das transações financeiras: ape-
nas 0,54% do PIB, conforme a
Figura 2, arrecadado basicamente
com o imposto sobre operações
financeiras (IOF). No ano 2000,
o IOF arrecadava o equivalente a
0,29% do PIB, apresentando um
crescimento percentual da ordem
de 267% no período de 2000 a
2011 (Salvador, 2014) e alcançan-
do R$ 29,4 bilhões em 2014 (Re-
ceita Federal, 2015).
O IOF foi criado na reforma
tributária de 1966, realizada pela
ditadura militar, concebido como
instrumento auxiliar das políticas
monetária e cambial para facilitar
o alcance dos objetivos macroe-
conômicos estabelecidos pelo go-
verno federal. O financiamento
das políticas públicas não é sua
principal função, pois se trata de
um imposto regulatório. Mas as
funções do IOF foram paulatina-
mente ampliadas. Hoje, ele incide
sobre diversas operações e serviços
oferecidos pelo sistema bancário,
destacadamente: operações com
títulos mobiliários, com câmbio,
com seguro e com crédito, deri-
vativos e ouro.
O IOF vem cumprindo tam-
bém uma função arrecadatória,
contribuindo para repor parcial-
mente os recursos perdidos com
o fim da CPMF. Em tese, trata-se
de um imposto repassado ao pre-
ço de bens e serviços finais, com
características regressivas. Con-
tudo, o IOF pode se transformar
em um imposto sobre a taxação
de transações financeiras se ad-
quirir características de progres-
sividade, isentando as operações
de crédito popular e alargando a
base de tributação para atingir um
conjunto de produtos financeiros
especulativos.
Um aspecto particular da tri-
butação sobre a renda no Brasil é
que nem todos os rendimentos
tributáveis de pessoas físicas são
levados obrigatoriamente à tabe-
la progressiva do imposto e sujei-
tos ao ajuste anual de declaração
de renda. A tributação dos salários
obedece às quatro alíquotas esta-
belecidas na legislação, mas os
rendimentos decorrentes de ren-
da fundiária variam de 0,03% a
20%, conforme o grau de utili-
zação da terra e a área total do
imóvel. Os rendimentos de apli-
cações financeiras têm alíquotas
que variam entre 0,01% e 22,5%,
Estudos do Ipea
mostram que as
famílias brasileiras
mais pobres
destinam 32%
da sua renda para
o pagamento de
tributos. Essa
percentagem cai
para apenas
21% nas famílias
mais ricas.
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 66 22/03/16 17:40
PolitiKa
O injusto sistema tributário brasileiro
67
conforme o prazo e o tipo de apli-
cação, o que privilegia os rentis-
tas. Essa situação evidencia que,
em pleno século XXI, tributamos
mais fortemente as rendas deri-
vadas do trabalho.
Isso ocorre porque a atual le-
gislação não submete à tabela pro-
gressiva do imposto de renda os
rendimentos de capital e outras
rendas da economia, que são tri-
butados com alíquotas inferiores
à do imposto que incide sobre a
renda do trabalho. Ao permitir a
incidência exclusiva de determi-
nados rendimentos na fonte, a le-
gislação tributária acaba estabele-
cendo discriminações na origem
da renda dos contribuintes, que
acabam sendo tributados apenas
proporcionalmente, fugindo da
progressividade. Trata-se de um
contraste com o que está estabe-
lecido na Constituição, que não
permite discriminação em razão
da ocupação profissional ou da
função exercida pelos contribuin-
tes, independentemente da deno-
minação jurídica dos rendimentos,
dos títulos ou dos direitos. (Sin-
difisco Nacional, 2010).
Essa falta de isonomia criou
uma situação esdrúxula no país,
com um número relativamente
reduzido de contribuintes apre-
sentando elevada renda tributável.
Análise realizada por Gobetti e
Orair (2015), com base na publi-
cação da Receita Federal denomi-
nada “Grandes números do IR-
PF”,7
compara como as distintas
rendas que se distribuem na socie-
dade e mostra como a desigualda-
de leva a números surpreendentes
de injustiça tributária. Em 2013,
71.440 declarantes estavam no to-
po da pirâmide de renda no país,
com rendimento igual ou maior
que 160 salários mínimos, o que
correspondia a R$ 108.480,00
mensais. Esses declarantes repre-
sentavam 0,3% do total de pesso-
as que prestaram informações ao
Fisco, ou aproximadamente 0,05%
da população economicamente ati-
va (Gobetti e Orair, 2015). Em
2013, essas pessoas tinham um “pa-
trimônio líquido de R$ 1,2 trilhão
(23% do total) e uma renda total
de R$ 298 bilhões (14% do total),
dos quais R$ 196 bilhões em ren-
dimentos isentos e R$ 64,5 bilhões
em rendimentos tributados exclu-
sivamente na fonte” (Gobetti;
Orair, 2015, p. 15). Somente cer-
ca de 1/3 desses indivíduos pagam
algum imposto de renda; 2/3 são
isentos. A média da alíquota paga
equivale a 2,6% sobre a renda to-
tal. Isso é uma consequência di-
reta da isenção de imposto de ren-
da sobre lucros e dividendos: des-
ses 71.440 declarantes, 51.419
receberam dividendos e lucros,
isentos de imposto de renda (Go-
betti e Orair, 2015).
Estudo do Instituto de Pesqui-
sa Econômica Aplicada (Ipea,
2011) confirma a elevada regres-
sividade do sistema tributário bra-
sileiro: os 10% das famílias mais
pobres do Brasil destinam 32%
da renda disponível para o paga-
mento de tributos, enquanto o
peso dos tributos cai para 21% da
renda dos 10% mais ricos. O es-
tudo do Ipea é baseado na Pes-
quisa de Orçamentos Familiares
(POF) de 2008-2009 do IBGE e
apresenta resultados consistentes
para a incidência dos tributos in-
diretos nos primeiros décimos de
renda. No caso dos tributos indi-
retos, a avaliação se baseia na ren-
da disponível, já descontados os
tributos diretos.
Por isso não surpreende que a
BBC Brasil (14/03/2014) tenha
noticiado que “rico é menos ta-
xado no Brasil do que na maioria
do G20”.8
O texto da jornalista
Mariana Schreiber destaca que a
elite brasileira costuma reclamar
dos impostos, mas sua queixa não
procede na comparação interna-
cional, pois os mais pobres é que
financiam o Estado brasileiro. A
reportagem publicada pela BBC
Brasil foi feita a partir do levan-
tamento da PricewaterhouseCo-
opers (PWC) realizado em deze-
nove países que integram o G20
(grupo que reúne as dezenove
maiores economias do mundo
mais a União Europeia) e concluiu
que os brasileiros pagam menos
imposto de renda que os cidadãos
dos países do G20.
Esse sistema tributário onera a
população de baixa renda, que su-
porta uma elevada tributação in-
direta. Além disso, os impostos
diretos têm baixa progressividade
e incidem fortemente sobre a ren-
da dos trabalhadores.
Considerações Finais9
O debate sobre a reforma tributá-
ria no Brasil não pode ignorar a
injustiça social predominante. As
modificações devem apontar para
uma estrutura de impostos mais
progressiva e mais justa. Com isso,
as classes de elevado poder aqui-
sitivo passariam a arcar com o
maior ônus tributário, permitindo,
na prática, uma redistribuição de
renda no país e a desoneração da
tributação sobre o consumo e a
própria produção.
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 67 22/03/16 17:40
Nº 3 _ MARÇO 2016
Evilasio Salvador
68sistema tributário
É necessário revogar algumas
alterações realizadas na legislação
infraconstitucional após 1995, que
sepultaram a isonomia tributária
no Brasil, favorecendo a renda do
capital em detrimento da renda do
trabalho. Entre essas mudanças
destacam-se: o fim da possibilida-
de de remunerar com juros o ca-
pital próprio das empresas, redu-
zindo o imposto de renda e a con-
tribuição social sobre o lucro
líquido; o fim da isenção de im-
posto de renda na distribuição dos
lucros e dividendos, na remessa de
lucros e dividendos ao exterior e
nas aplicações financeiras de in-
vestidores estrangeiros no Brasil.
A criação do imposto sobre
grandes fortunas, previsto na
Constituição e não regulamenta-
do até hoje, pode ser uma opor-
tunidade para a prática da justiça
tributária, aplicando corretamen-
te o princípio constitucional da
capacidade contributiva e oneran-
do o patrimônio dos mais ricos no
país. De forma complementar ao
imposto sobre grandes fortunas,
deve ser introduzida a progressi-
vidade no imposto de transmissão
causa mortis e doação, adotando-se,
a exemplo do imposto de renda,
uma faixa de isenção e uma tabe-
la progressiva de contribuição,
conforme o valor do bem doado
ou transmitido. Outra forma de
avançar na justiça fiscal para redu-
zir as desigualdades sociais é am-
pliar a tributação do imposto sobre
a propriedade de veículos auto-
motores, que possui baixa progres-
sividade e não incide sobre a pro-
priedade de embarcações e aero-
naves particulares. No tocante à
tributação sobre o consumo, os
bens e produtos devem ser tribu-
tados de forma seletiva em função
de sua essencialidade, taxando-se
mais os bens supérfluos e menos
os produtos essenciais à vida.
Também é necessário reorien-
tar a tributação para que ela incida
prioritariamente sobre o patrimô-
nio e a renda dos contribuintes. O
pilar do sistema tributário deve ser
o imposto de renda, o imposto di-
reto mais importante, capaz de ga-
rantir o caráter pessoal e a gradu-
ação de acordo com a capacidade
econômica do contribuinte. Por
meio do imposto de renda é pos-
sível inverter a regressividade da
estrutura tributária brasileira, pois
ele é o imposto mais progressivo.
A desigual tributação da ren-
da, que beneficia o topo da pirâ-
mide social, poderia ser resolvida
se os rendimentos fossem tribu-
tados pela tabela progressiva do
imposto de renda, com novas alí-
quotas e maior número de faixas
de contribuição. O resultado se-
ria uma inversão na distribuição
da carga tributária, que passaria
a ser concentrada em tributos di-
retos, ou seja, sobre a renda e o
patrimônio, garantindo maior
justiça social. n
SvitlanaMedvedieva/shutterstock.com
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 68 22/03/16 17:40
PolitiKa
O injusto sistema tributário brasileiro
69
Notas
1.	 Para ficar no período mais recente destaca-se a iniciativa no início do
governo de Fernando Henrique Cardoso da proposta emenda consti-
tucional (PEC) 175, de 1995. No governo de Luís Inácio Lula da Sil-
va foram encaminhadas a PEC 41/2003 e a PEC 233/2008.
2.	 Conforme matéria publicada na revista Carta Capital (07/03/2014), o
superávit brasileiro é um dos cinco maiores do mundo.
3.	 Um detalhamento das medidas de desonerações tributárias tomadas
no período de 2011 a 2014 pode ser vista em: SALVADOR, Evilasio.
Renúncias Tributárias: os Impactos no Financiamento das Políticas Sociais no
Brasil. Brasilia: Inesc, 2015 .
4.	 Conforme http://www.oecd-ilibrary.org/taxation/taxation-key-ta-
bles-from-oecd_20758510
5.	 Siqueira, Nogueira e Souza (2001) corroboram a hipótese aqui adota-
da de translação total, isto é, de repasse aos preços de bens e serviços
dos encargos tributários de responsabilidade das empresas. Um estudo
baseado em modelos econométricos, que segue uma proxy dessa clas-
sificação, pode ser visto em Fullerton e Metcalf (2002), disponível em
http://paper.nber.org/papers/w8829
6.	http://www.anfavea.com.br
7.	 Os Dados estão disponíveis em http://idg.receita.fazenda.gov.br/da-
dos/receitadata/estudos-e-tributarios-e-aduaneiros/estudos-e-
-estatisticas/11-08-2014-grandes-numeros-dirpf/grandes-numeros-
-dirpf-capa
8.	 Disponível em http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/
2014/03/140313_impostos_ricos_ms.shtml
9.	 Um conjunto de propostas para um sistema tributário mais justo pode
ser visto em Salvador (2014).
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SvitlanaMedvedieva/shutterstock.com
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Nº 3 _ MARÇO 2016
70
Capitalismo e Estado no Brasil
A saga dos investimentos públicos
A “nova matriz
macroeconômica” e
os investimentos públicos
Em meados de 2011, no início da
primeira gestão da presidente Dil-
ma Rousseff, a política econômi-
ca, praticada até então dentro dos
cânones da ortodoxia liberal, so-
freu uma ligeira inflexão. Alguns
meses depois, o próprio ministro
da Fazenda deu nome aos bois e
admitiu a adoção de uma “nova
matriz macroeconômica”.1
Tudo indica que o que moti-
vou a mudança foi um diagnós-
tico da evolução macroeconômi-
ca depois da crise financeira in-
ternacional de 2008. Percebia-se
um esgotamento da possibilidade
de o consumo, alavancado pelo
crédito, continuar a funcionar co-
mo a variável dinâmica do cres-
cimento. De fôlego naturalmen-
te curto, essa variável esbarrava
no crescimento do nível de endi-
vidamento das famílias, que en-
costava nos limites.
Ao mesmo tempo, o desenro-
lar da crise internacional não per-
mitia prever um comportamento
promissor da demanda externa.
Em particular, com a China dan-
do nítidos sinais de que desacele-
raria sua economia – no mínimo,
reduziria o ritmo de crescimento
de sua formação bruta de capital
fixo (FBKF) –, ficava evidente
que o boom de preços das commo-
dities, que tanto beneficiara o Bra-
sil até o estouro da crise, era coi-
sa do passado.
Restava tentar recuperar o in-
vestimento para que funcionasse
da maneira como tem de funcio-
nar no capitalismo, ou seja, como
a variável dinâmica por excelência.
Os dados eram claros em mostrar
a queda na taxa de crescimento
real do investimento no período
recente (gráfico 1). Além disso, a
recuperação do investimento de-
veria impulsionar o aumento da
produtividade da economia, outra
necessidade premente para garan-
tir o crescimento.
A “nova matriz macroeco-
nômica” nasceu, pois, com a ta-
refa de recuperar a taxa de cres-
cimento da formação bruta de
capital fixo, sob pena de com-
prometer as condições futuras do
crescimento econômico. Se bem-
-sucedida, a política deveria levar
a um aumento da participação
do investimento no PIB. Apesar
de uma ligeira recuperação des-
de 2003, esse indicador continu-
ava muito aquém dos níveis exi-
gidos para garantir um cresci-
Leda Maria Paulani
Professora titular do
Departamento de Economia da
FEA-USP e da Pós-graduação
em Economia do IPE-USP
O governo brasileiro aceitou o diagnóstico ortodoxo
de que os investimentos público e privado concorrem
entre si, de modo que seria preciso encolher o
primeiro para expandir o segundo. Mas nossa história
mostra que essa ideia é um equívoco. Há uma
inter-relação extremamente positiva entre os
investimentos público e privado. Apesar de sua menor
dimensão em termos absolutos, o investimento público
tem um papel de liderança na condução do ritmo
de crescimento da economia. DadoPhotos/shutterstock.com
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 70 22/03/16 17:40
PolitiKa
mento futuro sustentável, capaz
de dar continuidade ao processo
de inclusão social que estava em
curso. Também estava longe dos
níveis que atingira historicamen-
te no país.
A redução acelerada da taxa de
juros foi o principal instrumento
da “nova matriz”. Buscava-se com
isso um triplo resultado: (a) redu-
zir a apreciação do câmbio para
recuperar espaço de mercado (ex-
terno e interno) para a produção
nacional, aumentando a eficiência
marginal do capital e incentivando
o investimento; (b) elevar o preço
de demanda dos bens de capital,
induzindo o investimento; (c) re-
duzir os custos das empresas, abrin-
do espaço para o investimento.2
O enfrentamento dos juros foi
seguramente a marca maior a en-
sejar o batismo de nova matriz,
bem como o início das discussões
sobre o caráter desenvolvimen-
tista ou não de tal política.3
A
esse ingrediente soma-se outro,
destinado a impor controles mí-
nimos ao fluxo internacional de
capitais,4
evitando que, do ponto
de vista da apreciação cambial a
ser reduzida, os humores dos ca-
pitais internacionais desfizessem
com uma mão o esforço que o
governo fazia com a outra, ao di-
minuir bruscamente a taxa bási-
ca de juros e enfrentar os inte-
resses rentistas internos.
71
Fonte: Ipeadata (IBGE, contas nacionais, base 2010). Elaboração própria
2010 T1 2010 T2 2010 T3 2010 T4 2010 T1 2011 T2 2011 T3
35
30
25
20
15
10
5
0
GRÁFICO 1 | FBKF - Formação Bruta de Capital Fixo | 2010 – 2011
taxa de crescimento real (%)
DadoPhotos/shutterstock.com
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 71 22/03/16 17:40
Nº 3 _ MARÇO 2016
Leda Maria Paulani
72investimentos públicos
Se se reduzisse a isso e se a es-
sas duas medidas se somasse a con-
tinuidade e mesmo o fortaleci-
mento do investimento público,
que vinha crescendo monotoni-
camente desde 2004 no âmbito do
governo central, o rótulo “nova
matriz” ou “nova política” estaria
mais bem aplicado. Mas não foi
isso o que se deu. Ao contrário,
na esteira do que havia sido feito
no imediato após-crise (subsídios
aos setores de eletrodomésticos e
automotivo), optou-se por adicio-
nar a essas medidas uma política
de desonerações da folha de paga-
mentos, que começou seletiva e
depois se generalizou.
Mantida a obrigação de pro-
duzir substantivos superávits pri-
mários, com a economia desace-
lerando, o único meio de encon-
trar espaço fiscal para acomodar
o custo das desonerações foi re-
duzir o investimento público (grá-
fico 2). Em outras palavras, o go-
verno decidiu usar o reduzido es-
paço discricionário que detém no
manejo do orçamento para incen-
tivar o investimento privado (po-
lítica pelo lado da oferta), em vez
de continuar a elevar o investi-
mento público (política pelo lado
da demanda).
O resultado foi desastroso, pois
o investimento privado não cor-
respondeu às expectativas e não
reagiu. A taxa de crescimento re-
al da FBKF continuou a declinar
em 2012, chegando a se tornar
negativa. Esboçou uma ligeira re-
cuperação em 2013 e mergulhou
de vez em 2014-2015 (gráfico 3).
Com isso, não só assistimos à
continuidade da queda da relação
FBKF/PIB (gráfico 4),5
como tes-
temunhamos o agravamento dos
resultados relativos ao crescimen-
to do produto (gráfico 5).
Não é o caso de discutir aqui
em detalhes quais foram as razões
do torpor do investimento priva-
do e/ou qual delas foi a determi-
nante para esse resultado. Mas
pensamos não errar muito se dis-
sermos que devem ter se combi-
nado, de um lado, a continuidade
das expectativas ruins sobre a ren-
da e o consumo futuros, depri-
mindo a eficiência marginal do
capital, e, de outro, a pouca dis-
posição política de investir e for-
talecer um governo visto cada vez
mais como intervencionista.6
Num
ambiente de incerteza econômica
e desconforto político, os cerca de
R$ 80 bilhões adicionais (a preços
de 2014) gastos pelo governo fe-
deral em subsídios e desonerações
de folha entre 2012 e 20147
en-
gordaram as margens de lucro,
mas não se transformaram em am-
pliação de capacidade e elevação
de produtividade.
Independentemente da inten-
ção de quem tomou a decisão, a
opção do governo seguiu o diag-
nóstico ortodoxo de que há uma
GRÁFICO 2 | FBKF do governo federal (% PIB)
2002	2003	2004	 2005	 2006	 2007	 2008	 2009	 2010	 2011	 2012	 2013	 2014
0,9
0,8
0,7
0,6
0,5
0,4
0,3
0,2
0,1
0
Fonte dos dados primários: Afonso e Fajardo (2015). Elaboração própria
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 72 22/03/16 17:40
PolitiKa
73
A saga dos investimentos públicos
Fonte dos dados primários:
Ipeadata (IBGE - Contas
Nacionais- base 2010).
Elaboração própria.
GRÁFICO 3 | FBKF taxa de crescimento real (%)
GRÁFICO 4 | Taxa de Investimento - FBKF/PIB (%) | 1986 – 2014
GRÁFICO 5 | PIB taxa acumulada em quatro trimestres (%)
8,00
7,00
6,00
5,00
4,00
3,00
2,00
1,00
0,00
-1,00
-2,00
28
26
24
22
20
18
16
14
35
30
25
20
15
10
5
0
-5
-10
-15
2006t1
2006t3
2007t1
2007t3
2008t1
2008t3
2009t1
2009t3
2010t1
2010t3
2011t1
2011t3
2012t1
2012t3
2013t1
2013t3
2014t1
2014t3
2015t1
1987
1988
1989
1990
1991
1992
1993
1994
1995
1996
1997
1998
1999
2000
2001
2002
2003
2004
2005
2006
2007
2008
2009
2010
2011
2012
2013
2014
2010t1
2010t2
2010t3
2010t4
2011t1
2011t2
2011t3
2011t4
2012t1
2012t2
2012t3
2012t4
2013t1
2013t2
2013t3
2013t4
2014t1
2014t2
2014t3
2014t4
2015t1
2015t2
Início da nova matriz
Início da nova matriz
Início da nova matriz
Fonte dos dados primários:
Ipeadata (IBGE, Contas Nacionais,
base 2010). Elaboração própria
Fonte dos dados primários:
Ipeadata (IBGE - Contas Nacionais).
Elaboração própria
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Nº 3 _ MARÇO 2016
Leda Maria Paulani
74investimentos públicos
relação de concorrência entre o
investimento público e o privado
(fenômeno conhecido na litera-
tura econômica como crowding
out), de modo que o último só te-
ria lugar de modo mais firme dian-
te do encolhimento do primeiro.
Ainda que isolado, esse episódio
comprova que a tese é equivoca-
da: no período que estamos ana-
lisando, a economia brasileira fi-
cou sem um e sem outro (consi-
derado o triênio 2012-2014, o
investimento do setor privado
apresentou crescimento real ne-
gativo de 1,3%).
A história brasileira, porém,
tem evidências bem mais contun-
dentes desse equívoco. Ao contrá-
rio da tese ortodoxa, ela revela
uma inter-relação extremamente
positiva entre o investimento pú-
blico e o privado e, apesar de sua
menor dimensão em termos abso-
lutos, um papel de liderança do
primeiro na condução do ritmo
de crescimento da economia. Re-
trocedamos, então.
Primeiro ato: o setor
produtivo estatal como
prima donna
Entre 1930 e 1980, a economia
brasileira foi a que mais cresceu
no mundo. Atingiu uma taxa mé-
dia de crescimento real do PIB
de 6,5% ao ano, chegando a al-
cançar 8,8%, um padrão verda-
deiramente chinês, na década de
1970. Esse período assistiu tam-
bém o crescimento quase siste-
mático da taxa de investimento
(FBKF/PIB), que saiu de uma
média de 11% no quinquênio
1940-1944 para uma média de
23% no quinquênio 1975-1979,
decaindo a partir daí. Por trás dis-
so, por diferentes razões e com
diferentes modelos, houve uma
insistente disposição do Estado
brasileiro em aumentar a veloci-
dade da locomotiva do investi-
mento público para alavancar e
arrastar o investimento privado.
Estruturalmente, foi essa, afinal,
a espinha dorsal do assim chama-
do nacional-desenvolvimentismo,
que conhece o ocaso na crise da
década de 1980 e, depois, no pre-
domínio das ideias e programas
liberais a partir da década de 1990.
Nos trinta anos que vão de 1947
a 1977, o investimento público
cresceu sistematicamente em uma
velocidade maior do que a dos in-
vestimentos privados, invertendo-
-se a tendência a partir daí.8
O
período de maior crescimento do
PIB – a década 1970 – foi também
o que registrou as maiores taxas
de investimento público (FBKF
do setor público/PIB), apresen-
tando a média de 8,6% e chegan-
do a alcançar o recorde de 11,7%
em 1976 (para efeitos de compa-
ração, cabe lembrar que, hoje, es-
sa taxa anda em torno dos 4%,
incluindo-se o investimento das
estatais). Avaliando-se a série por
quinquênios, o quinquênio com
taxa média mais elevada (9,4%) é,
não por acaso, o de 1975-1979,
precisamente aquele que concen-
trou os pesados investimentos es-
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Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 74 22/03/16 17:40
PolitiKa
A saga dos investimentos públicos
75
tatais em infraestrutura, bens de
capital e insumos básicos que cons-
tituíram o II Plano Nacional de
Desenvolvimento (II PND).
Ao longo de todo esse período,
mas principalmente a partir do
início da década de 1950, com a
constituição e consolidação das
poderosas empresas estatais brasi-
leiras, ficou evidente a sinergia
entre investimentos públicos e pri-
vados no Brasil. Como lembra
Belluzzo, “o setor produtivo esta-
tal – num país periférico e de in-
dustrialização tardia – funcionava
como um provedor de externali-
dades positivas para o setor priva-
do. A sinergia público-privado
ocorria em três frentes: 1) o in-
vestimento público (sobretudo na
área de energia e transportes) cor-
ria na frente da demanda corren-
te; 2) as empresas do governo ofe-
reciam insumos generalizados
(bens e serviços) em condições e
preços adequados; e 3) [as empre-
sas do governo] começavam a se
constituir – ainda de forma inci-
piente – em centros de inovação
tecnológica” (2015, p.19-20).
A partir do início da década de
1960, quando estavam em torno
de 0,5% do PIB, os investimentos
do setor produtivo estatal só fize-
ram crescer, tornando-se a grande
estrela da FBKF e dos investimen-
tos públicos e chegando a atingir
os 7,0% do PIB no final da década
de 1970. A brutal elevação dos ju-
ros americanos em 1979 e o se-
gundo choque do petróleo, no
mesmo ano, mudaram bastante
esse cenário, dando início a um
período de crise e desestabilização.
No caso das estatais brasileiras,
a restrição de divisas que passou a
marcar o país envolveu-as direta-
mente na chamada crise da dívida
externa, pois retirou-lhes a capa-
cidade de honrar, em moeda forte,
os empréstimos externos que elas
haviam sido induzidas a tomar (na
tentativa de enfrentar o constran-
gimento do balanço de pagamen-
tos do país, resultante do primeiro
choque do petróleo). Na sequên-
cia, na década de 1990, os progra-
mas de privatização, inspirados no
Consenso de Washington, redu-
ziram o tamanho do setor produ-
tivo estatal e, portanto, sua capa-
cidade de induzir o investimento
privado. Vejamos mais de perto.
Segundo ato: uma estrela
se apaga
A crise cambial que tomou conta
da economia brasileira no início
da década de 1980 obrigou um
ajuste forçado de seu ritmo de cres-
cimento às novas condições do
mercado internacional de capitais.
Sem a opção de aumentar seu pas-
sivo externo, opção que estivera
tão à mão na década anterior, o
único caminho foi reduzir o ta-
manho da economia e o montan-
te de suas despesas correntes em
divisas. No triênio 1981-1983, a
economia brasileira encolheu
6,3%. Contudo, o impacto dessa
redução na FBKF demorou mais
a se fazer sentir. Nos anos imedia-
tamente posteriores à crise, entre
1979 e 1982, a relação FBKF/PIB
manteve-se na casa dos 22%, só
se reduzindo para a cerca de 18%
a partir de 1983.9
Em paralelo, a
relação FBKF do setor público/
PIB, nesse mesmo período, man-
teve-se no patamar, ainda elevado,
de 6,5% a 7,0% no período 1979-
1982, só caindo para 5,3% em
1983. Apesar da restrição externa
e da situação cada vez mais com-
plicada das contas públicas, o setor
público (estatais inclusive) carre-
gava o peso da conclusão de vários
investimentos do IIPND, que ha-
viam atrasado.
Na contramão da ortodoxia e
sua teoria dos sunk costs, segundo
a qual custos passados são irreme-
diáveis e não podem determinar
nossas decisões presentes, os in-
vestimentos atrasados do II PND
foram concluídos, apesar de tudo.
Isso ajudou a aumentar a taxa de
investimento da economia, mes-
mo com a crise já instalada. Na
interpretação clássica de Barros de
Castro, “a economia brasileira es-
tava grávida dos investimentos” e
não havia outra saída racional que
não fosse continuar forçadamente
sua marcha em direção ao amadu-
recimento do estratégico pacote
Os juros elevados, a
manutenção de
gastos com subsídios
e as desonerações
tributárias
desestruturaram as
contas públicas e
levaram a presidente
Dilma a recorrer ao
receituário ortodoxo,
que agravou
os problemas.
DadoPhotos/shutterstock.com
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 75 22/03/16 17:40
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Leda Maria Paulani
76investimentos públicos
do II PND,10
o qual, como se sa-
be, foi o responsável pela conclu-
são de nossa matriz interindustrial.
Em todo o período 1979-1982, o
setor produtivo estatal continuou
a ser a grande estrela do investi-
mento público. O esforço de in-
vestimento das estatais brasileiras
visando a conclusão dos investi-
mentos do II PND fez com que
sua participação no investimento
público total girasse sempre em
torno a 2/3, o que significava cer-
ca de 4% do PIB.
Depois disso, porém, apesar da
relativa recuperação do crescimen-
to da economia nos três anos sub-
sequentes (a taxa média de cresci-
mento real do PIB ficou na casa
dos 6,8% entre 1984 e 1986), en-
sejada principalmente pelos bons
resultados das transações correntes
(como efeito da própria conclusão
do II PND) e da euforia pós-Plano
Cruzado, a relação FBKF do setor
público/PIB nunca mais retornou
aos patamares anteriores. A taxa de
crescimento dessa parcela da FBKF
nunca mais se colocou à frente da
taxa de crescimento da FBKF do
setor privado, como ocorrera até o
final da década de 1970. De início
provocada pela dificuldade das con-
tas públicas brasileiras na década
de 1980, essa contínua perda de
importância dos investimentos pú-
blicos foi consolidada com o pro-
cesso de privatização da década de
1990, que acabou por encolher
substantivamente o setor produtivo
estatal brasileiro.11
Como mostra o gráfico 4, apre-
sentado na primeira seção deste
artigo, a partir do final da década
de 1980 a taxa de investimento da
economia brasileira sofre um pro-
cesso de declínio que atinge o fun-
do poço em 2003, quando mal
passa dos 15%. Ao longo de todo
esse período, o investimento pú-
blico perde importância sistema-
ticamente e não retorna mais a 5%
do PIB: na primeira metade da
década de 1990 gira em torno de
4%, cai para 3% na segunda me-
tade e fecha o milênio em torno
dos 2,0%. A participação das em-
presas estatais, que tinha alcança-
do 7% em meados da década de
1970, fecha a década de 1990 com
exíguos 0,5% (a mesma cifra do
início da década de 1960).
O investimento só dá sinais de
recuperação no segundo mandato
do presidente Lula. No final de
2006 lança-se o Programa de Ace-
leração do Crescimento (PAC). Um
substantivo pacote de investimen-
tos (cerca de 13% do PIB) previsto
para quatro anos em áreas de in-
fraestrutura (transporte, energia,
recursos hídricos e saneamento) e
habitação está relacionado com es-
se movimento, não só pelo volume
maior de gastos em formação de
capital fixo, prometido pelo Esta-
do, como pela sinalização ao setor
privado. A crise financeira inter-
nacional vem colher a economia
brasileira justamente aí.
Epílogo: a esperança do
resgate e o ocaso
A partir do segundo semestre de
2004 a economia brasileira dera
sinais de um crescimento mais fir-
me, com a taxa acumulada em do-
ze meses ultrapassando os 4% por
vários trimestres seguidos. O país
punha-se em linha com o que
ocorria no mundo: um movimen-
to aparentemente sustentado de
crescimento – depois de uma dé-
A estratégia de fazer
crescer o consumo
pela via da
expansão do crédito
tem fôlego curto,
não sendo capaz de
produzir um
crescimento
sustentado da
demanda agregada
e, portanto, do
produto e da renda.
A variável autônoma
e dinâmica,
por definição,
é o investimento.
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 76 22/03/16 17:40
PolitiKa
A saga dos investimentos públicos
77
cada marcada por crises financei-
ras – puxado fundamentalmente
pela recuperação da economia
americana depois da crise de 2000-
2001, detonada pelo estouro da
bolha acionária (crise das “empre-
sas ponto com”), e pelo acelerado
crescimento da gigantesca China.
Para o Brasil, isso significava o
início de um período favorável: o
país foi diretamente beneficiado
pela elevação sem precedentes do
preço das commodities, o que per-
mitiu um acúmulo inédito de re-
servas (com o consequente movi-
mento de apreciação cambial, que
mais à frente cobraria a conta).
Assim, o segundo mandato do
presidente Lula nasceu promissor,
sob os auspícios da fase positiva do
ciclo de commodities e das expec-
tativas otimistas produzidas pelo
lançamento do PAC. A melhora
constante das expectativas, junto
com a permanência de um cená-
rio alvissareiro no plano interna-
cional produzia, pela primeira vez
em décadas, um crescimento ro-
busto e aparentemente firme. Ao
longo de dez trimestres seguidos
(do terceiro de 2006 ao último de
2008), a economia brasileira cres-
ceu 5,2% (na taxa média acumu-
lada em doze meses).
As finanças públicas também
sentiam o bom o momento, pois
a receita crescia à frente do pro-
duto e permitia acomodar os gas-
tos decorrentes das políticas so-
ciais de alto impacto que marca-
vam o governo de Lula desde o
início (inclusive o aumento real
do salário mínimo), o crescimen-
to natural das demais despesas
correntes e a elevação das despe-
sas com investimento. Nota-se
um sensível crescimento dos gas-
tos do governo federal em FBKF
a partir do lançamento do PAC.
A preços de 2014, esse investi-
mento sai do patamar de R$ 16
bilhões anuais em 2006 para o de
R$ 38 bilhões em 2010.
A crise internacional eclodiu
no último trimestre de 2008, mas,
mesmo assim, o governo federal
manteve os gastos em investimen-
to previstos: a taxa real de cresci-
mento desses gastos foi de 34% em
2009 e 38% em 2010. O Estado
brasileiro agiu, portanto, de ma-
neira contracíclica. Apesar do vo-
lume diminuto de seus gastos fren-
te ao que já fora em outras épo-
cas,12
ele produziu uma sinalização
positiva para o setor privado. De-
pois da estagnação de 2009, resul-
tado imediato da crise, colheu um
crescimento real da economia de
7,5% em 2010. Chegou-se a dizer,
nessa época, que a crise havia sido
completamente superada, o que
mostrava uma interpretação equi-
vocada sobre o que de fato ocorria
no plano mundial.
A essa política claramente in-
dutora do crescimento pelo lado
da demanda juntou-se a concessão
de subsídios tributários, uma po-
lítica pelo lado da oferta, que visa
a induzir o crescimento através de
medidas microeconômicas que
melhorem o ambiente de negócios
e diminuam impostos. Sem uma
política industrial claramente de-
finida e em meio a um movimen-
to de contínua valorização da moe-
-da doméstica, reduziu-se (tem-
porariamente) o imposto sobre
produtos industrializados (IPI) pa-
ra veículos, eletrodomésticos da
linha branca, materiais de cons-
trução e bens de capital. Ao mes-
mo tempo, para estimular a ex-
pansão do crédito pessoal, redu-
ziu-se a alíquota do imposto sobre
operações financeiras (IOF) para
o crédito concedido a pessoas fí-
sicas. A redução dos tributos in-
diretos mexeu com os preços, si-
tuação que, aliada à expansão sem
precedentes do crédito, sustentou
a demanda agregada pelo lado da
elevação do consumo final das fa-
mílias e auxiliou na produção do
surpreendente crescimento alcan-
çado pelo PIB em 2010.
Mas a crise não estava supera-
da, nem interna, nem externamen-
te. Internamente, porque, apesar
do resultado exuberante de 2010,
a taxa de crescimento ficou em
3,5% na média do biênio 2009-
2010, bem abaixo da média de
5,2% dos dez trimestres anteriores.
Além disso, a estratégia de fazer
crescer o consumo pela via da ex-
pansão do crédito tem, regra geral,
fôlego curto, não sendo capaz de
produzir um crescimento susten-
tado da demanda agregada e, por-
tanto, do produto e da renda. Co-
mo se sabe, a variável autônoma e
dinâmica, por definição, é o in-
vestimento. Este, como vimos no
gráfico 3, iniciou no primeiro tri-
mestre de 2010 uma trajetória de
queda em sua taxa de crescimen-
to, que resultaria em encolhimen-
to (crescimento negativo) no se-
gundo trimestre de 2012.
No plano externo, os recor-
rentes pacotes de ajuda proporcio-
nados pelos governos dos países
centrais não foram suficientes pa-
ra apagar as marcas da maior crise
do capitalismo desde a década de
1930 e resgatar a confiança. Em
meio a uma economia cada vez
mais financeirizada, onde a rique-
za financeira cresce, há pelo me-
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78investimentos públicos
nos 35 anos, com uma velocidade
quase quatro vezes maior que a do
PIB mundial, a formação de bo-
lhas de ativos com as consequentes
crises financeiras é uma situação
recorrente, junto com o baixo cres-
cimento. Os sete anos que decor-
reram entre 2002 e 2008 consti-
tuíram um verdadeiro parêntese
de crescimento mais elevado e re-
lativa estabilidade, até que a crise
eclodiu, com a força que conhe-
cemos, no final de 2008.
Voltando ao seu, digamos assim,
“leito normal”, mas num nível ain-
damaisrebaixado,aeconomiamun-
dial provocou, em conjunto com
seus problemas internos, uma sen-
sível mudança na política econômi-
ca da China, que optou por desa-
celerar seu crescimento, em parti-
cular por reduzir a taxa de
crescimento de sua formação bruta
de capital fixo, e focar no consumo.
Atuando conjuntamente, esses
movimentos tiveram consequên-
cias funestas para a economia bra-
sileira, entre as quais se destaca a
substantiva redução dos preços das
commodities, que a decisão chinesa
acabou por provocar. Sem poder
esperar nada de positivo da de-
manda externa, com o consumo
alcançando seus limites e os gastos
governamentais premidos pela per-
manente necessidade de produzir
superávits primários, o primeiro
governo Dilma começou, como
vimos, buscando resgatar o nível
de investimentos da economia pa-
ra mantê-la em trajetória de cres-
cimento. Para isso, lançou mão da
“nova matriz macroeconômica”,
cujos elementos mais importantes,
como vimos, foram a redução dos
juros e a desoneração de encargos
trabalhistas.14
O insucesso da política, dada
a inércia do investimento privado
e o enfraquecimento dos investi-
mentos públicos, aliado à elevação
do IPCA, que ameaçava trazer a
inflação do centro da meta para
seu teto, fez o governo Dilma re-
ver um dos pilares da “nova ma-
triz”: a taxa básica de juros (Selic)
voltou a subir a partir de julho de
2013, e desde então cresceu inin-
terruptamente até alcançar, em
julho de 2015, os estratosféricos
GRÁFICO 6 | Necessidade de financiamento do setor público (% do PIB) | 2011 – 2015
4
2
0
-2
-4
-6
-8
-10
Fonte dos dados primários: Ipeadata. Elaboração própria
jan/11
mai/11
set/11
jan/12
mai/12
set/12
jan/13
mai/13
set/13
jan/14
mai/14
set/14
jan/15
mai/15
set/15
Primário Nominal Total
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PolitiKa
A saga dos investimentos públicos
79
14,25% anuais, praticamente do-
brando em dois anos.
Os juros elevados, combinados
com a manutenção dos gastos com
subsídios e desonerações e, aliados
esses dois elementos, à tibieza do
produto, que enfraquecia a receita
de tributos, desestruturou as con-
tas públicas. O ano de 2014 fechou
com um resultado primário nega-
tivo pela primeira vez desde 2002
(muito pequeno, inclusive em ter-
mos internacionais, apenas 0,6%
do PIB, mas ainda assim negativo,
como mostra o gráfico 6).15
O terror midiático gerado por
esse resultado, combinado com
um resultado eleitoral positivo,
mas muito fraco, e com o agrava-
mento das denúncias de corrupção
na esteira das operações da Polícia
Federal, levaram a presidente Dil-
ma a iniciar seu segundo manda-
to fazendo uma política de auste-
ridade, de recorte completamente
ortodoxo, que busca equilibrar as
contas públicas meramente cor-
tando gastos. O resultado tem si-
do o agravamento do problema,
pois a receita cai a uma velocidade
muito maior do que qualquer es-
forço que se faça para reduzir as
despesas correntes.
O objetivo deste artigo não é
discutir a política de ajuste do se-
gundo mandato da presidente Dil-
ma, mas sim refletir sobre o papel
dos investimentos públicos na eco-
nomia brasileira, olhando um pou-
co para sua história. Resta, pois,
comentar o papel desses investi-
mentos nesta última etapa, que
culminou com o completo aban-
dono da “nova matriz”.
A primeira observação a fazer
é que, se o governo federal, em vez
de comprimir seus investimentos,
tivesse mantido a taxa média de
crescimento que esses gastos apre-
sentaram ao longo do período
2003-2010, seu gasto adicional não
seria muito diferente daquele que
teve de suportar para bancar as de-
sonerações de folha de pagamento
(a preços de 2014, alguma coisa em
torno de R$ 70 bilhões no período
2011-2014).16
O resultado desse gas-
to, porém seria muito mais efetivo
para ativar a economia, pois seria
um aumento direto da demanda
agregada e não um conjunto de
suposições sobre o que poderia le-
var os empresários a investir.
Além disso, os investimentos
públicos, mesmo não muito ex-
pressivos, funcionam como sina-
lizadores para o restante da eco-
nomia e para as decisões de inves-
timento. Abrir espaço para o
investimento privado sem sinalizar
positivamente para as expectativas
futuras eleva a renda dos empre-
sários, que lucram e não investem,
mas não puxa o crescimento da
economia, nem aumenta sua pos-
siblidade de gerar emprego e ren-
da, nem incrementa sua produti-
vidade ou sua capacidade produ-
tiva futura. Isso é ainda mais
verdadeiro em um país periférico
como o Brasil, cuja história de de-
senvolvimento, como vimos aqui
brevemente, é colada no desem-
penho do Estado. Isso nos permi-
te fazer um último comentário
sobre a questão do caráter desen-
volvimentista ou não da política
econômica do primeiro mandato
da presidenta Dilma Roussef.
A meu ver, Fonseca (2014) ofe-
rece a melhor definição que temos
sobre o termo desenvolvimentis-
mo. Ela resultou de uma pesquisa
historiográfica sobre o surgimen-
to do conceito na América Latina
em meados do século passado, bem
como de uma pesquisa histórica
sobre mais de uma dezena de ex-
periências concretas com tal polí-
tica no continente. De acordo com
essa definição, uma dada política,
para poder ser chamada de desen-
volvimentista, precisa contemplar
um forte processo de intervenção
estatal destinado ao fortalecimen-
to da indústria e ancorado num
projeto nacional.
Não é difícil perceber que o
conjunto de medidas da “nova ma-
triz” está bem longe de uma po-
lítica desenvolvimentista.17
É ver-
dade que existiu uma preocupação
com a indústria, mas ela decorre
da preocupação com a desacelera-
ção do crescimento, mais do que
com o fortalecimento do setor por
sua capacidade de elevar a produ-
tividade da economia e colocar o
país numa posição mais vantajosa
na divisão internacional do traba-
lho. Ainda que a “nova matriz”
tenha contemplado, por exemplo,
medidas de proteção ao produto
nacional, essa política não estava
assentada num verdadeiro projeto
nacional, que, de resto, também
não existia e não existiu nos go-
vernos de Lula.
Além disso, em tempos de se-
tor produtivo estatal diminuto e
com forte participação do capital
privado, a intervenção governa-
mental mais forte da “nova ma-
triz” se deu por meio da reforma
do setor elétrico, que foi bastante
ruidosa e acabou por reforçar a
imagem de um governo interven-
cionista, o que seguramente cola-
borou com a falta de disposição de
investir do empresariado no pri-
meiro mandato de Dilma.
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Leda Maria Paulani
80investimentos públicos
Na ausência desses componen-
tes (projeto nacional e política in-
dustrial claramente definida), to-
dos os benefícios fornecidos ao
setor empresarial na esperança de
que a taxa de investimento da eco-
nomia cresça podem se esfumaçar.
Por trás dessa dificuldade de cons-
truir uma política mais efetiva de
garantia do crescimento econô-
mico do país e de sua evolução
tecnológica está uma institucio-
nalidade em tudo favorável à ri-
queza financeira e que toma o cres-
cimento da riqueza e do produto
reais como um subproduto, que
pode existir ou não, de uma polí-
tica econômica que está primei-
ramente destinada a beneficiar o
rentismo e a acumulação financei-
ra. Essa institucionalidade foi cons-
truída no Brasil na década de 1990
e nenhum dos três governos do
Partido dos Trabalhadores no ní-
vel federal foi capaz de afrontá-la.
A tentativa de Dilma de reduzir
os juros, fortalecer os bancos pú-
blicos e usar essas instituições pa-
ra reduzir os absurdos spreads ban-
cários durou pouco, como vimos.
Por isso, a saga dos investimen-
tos públicos no Brasil terminou
melancolicamente. Os investi-
mentos da segunda rodada do Pro-
grama de Aceleração do Cresci-
mento (PAC2), lançado por Lula,
foram a vítima mais fácil da po-
lítica de austeridade adotada no
início de 2015. Em maio, Joaquim
Levy, então ministro da Fazenda,
anunciou um corte de cerca de
40% no orçamento previsto para
o programa nesse ano18
(algo em
torno de R$ 26 bilhões).19
A di-
ferença com a “marcha forçada”
dos investimentos do II PND, em
plena crise dupla (do segundo cho-
que do petróleo e dos juros), no
início da década de 1980, é gri-
tante o suficiente para indicar o
ocaso dos investimentos públicos
no Brasil e a frustração da tenta-
tiva de resgatá-los. n
Notas
1.	 Em 4 de julho de 2012 o ministro Guido Mantega admitiu, pela primeira vez,
que o governo praticava uma “nova matriz macroeconômica”, com o objetivo de
reduzir os juros e praticar uma “política cambial mais ativa”, que impedisse a con-
tinuidade da apreciação da moeda nacional. http://economia.estadao.com.br/
noticias/geral,mantega-indica-novo-modelo-economico-imp-,896017, acessado
em 12 de novembro de 2015.
2.	 Independentemente de trabalhar com capital próprio ou de terceiros, o juro so-
bre o capital é percebido como custo pelos empresários. Se o capital é de tercei-
ros, porque ele se constitui de fato como custo; se é próprio, porque constitui o
custo de oportunidade de aplicação do capital.
3.	 Retornaremos ao tema ao final do artigo.
4.	 Essa política envolveu a elevação do IOF sobre investimentos estrangeiros em
carteira e as captações externas de recursos, inclusive os empréstimos intercom-
panhia. Além disso, foi imposto um recolhimento compulsório sobre as posições
vendidas dos bancos no mercado de câmbio à vista, bem como IOF de 1% nas
posições líquidas vendidas em derivativos de câmbio acima de US$ 10 milhões.
5.	 Nessa variável, por precisarmos de uma série mais longa, optamos por usar a série
das contas nacionais com a metodologia antiga, que tem como base o ano de 2000.
As diferenças na taxa de investimento entre as duas séries (base 2000 e base 2010)
não são significativas.
6.	 Segundo algumas interpretações, este último fator teria sido decisivo para o pés-
simo resultado da política. O mais claro a esse respeito é Rugitiski (2015), que
chega a falar, usando um argumento kaleckiano, em “greve de investimentos”.
Singer (2015) coloca a indisposição do empresariado para com o governo de Dil-
ma como possibilidade. Boito (2013) parte de análise que advoga a formação de
uma frente neodesenvolvimentista ao longo dos governos Lula, a qual teria sido
continuada pelo primeiro governo Dilma. Em palestra oral (em 2015) afirmou
que essa frente teria se rompido mais ou menos no final da primeira metade do
primeiro mandato da presidente.
7.	 Para a estimativa, consideramos os benefícios tributários (Imposto sobre a Renda
e Cofins) e as renúncias previdenciárias (desoneração de folha) a partir dos dados
a preços constantes de 2013 apresentados por Diniz e Afonso (2014) para o perí-
odo 2008-2014. Supusemos que, na ausência da “nova matriz”, esses gastos con-
tinuariam a crescer à taxa média apresentada no período 2008-2011. Calculamos
então a diferença desse valor em relação aos gastos efetuados no período 2012-
2014 e atualizamos o resultado para preços de 2014, usando o IPCA. Mais da me-
tade da diferença explica-se pela desoneração da folha.
8.	 Séries longas construídas por trabalho editado pelo Ipea, coordenado por Cam-
pos, Amorim e Garcia.
9.	 Essa relação volta a subir uma última vez ao final da década de 1980. Depois dis-
so, retoma a trajetória de queda.
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PolitiKa
A saga dos investimentos públicos
81
10.	 O famoso livro de Antonio Barros de Castro e Francisco Eduardo Pi-
res de Souza (1985) sobre o tema tem justamente o título de A econo-
mia brasileira em marcha forçada.
11. Entre 1991 e 2000, o governo federal obteve cerca de US$ 100 bilhões
com as privatizações de empresas do setor produtivo estatal. Os setores
onde elas se concentraram foram, nessa ordem: telecomunicações,
energia elétrica, petróleo e gás, mineração e siderurgia. Só para se ter
uma ideia dos montantes de investimentos públicos perdidos com as
privatizações, consideradas apenas a Companhia Vale do Rio Doce e
as empresas do sistema Telebrás, o investimento médio anual ao longo
do período 1981-1992 foi de cerca de 0,9% do PIB (estimativas de
Reis, 2007).
12.	O foco é o da discussão das decisões envolvendo o governo federal.
Por isso, nos referimos aqui apenas aos gastos dessa esfera de governo,
enquanto anteriormente nos referimos à totalidade dos investimentos
públicos: União, estados, municípios e empresas estatais. De qualquer
forma, no período de 1950 a 1980, mesmo considerado só o governo
central, o montante dos investimentos em percentagem do PIB era
cerca de três a quatro vezes maior. Além disso, no que diz respeito às
empresas estatais, a conta não pode ser feita da mesma forma, pois,
agora, mesmo aquelas que não foram integralmente privatizadas con-
tam com parcela substantiva de recursos privados em sua composição.
De qualquer forma, cabe registrar que também as empresas estatais
apresentaram elevação substantiva de seus investimentos no imediato
pós-crise (com destaque para o setor de petróleo e gás), tendência que
se reverteu em 2014.
13.	Os dados sobre riqueza financeira mundial são produzidos de forma
não sistemática pela consultoria internacional McKinsey. Os dados
sobre PIB mundial estão disponíveis nos sítios das agências multilate-
rais, em especial o FMI. A esse respeito ver: Paulani, 2010.
14.	As outras medidas que compuseram o pacote de benefícios ao setor
privado foram: o uso intensivo do BNDES para oferecer crédito sub-
sidiado para investimento; medidas para estabelecer algum controle
sobre o fluxo internacional de capitais (ver nota 4); e algumas medidas
de proteção ao produto nacional, com foco nos setores automotivo, de
construção naval e de máquinas e equipamentos.
15.	2001 é o ano em que se inicia a série dessas informações, tal como é
hoje calculada. O ano de 2002 é o primeiro para o qual há informa-
ções cheias (incluindo todo o ano).
16.	Estimativas próprias a partir dos dados de Afonso e Fajardo (2015).
17.		Não é o caso de entrarmos aqui na discussão do tipo de neodesenvol-
vimentismo que estaria em jogo. Os leitores interessados podem con-
sultar Bastos (2012).
18.	http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/05/1632501-governo-
-confirma-corte-orcamentario-de-r-699-bilhoes-pac-sofre-bloqueio-
-de-r-257-bilhoes.shtml
19.		Mas mesmo antes disso, como resultado da própria nova matriz, os
recursos do PAC 2 já tinham ficado escassos. Dos R$ 6,5 bilhões do
PAC2 prometidos ao município de São Paulo para chegarem ao longo
do período 2013-2016, só haviam chegado, no início de 2015, ou se-
ja, decorrida metade do prazo, cerca de R$ 400 milhões. Esta escriba
era secretária municipal de planejamento, orçamento e gestão da ci-
dade e pôde testemunhar o enxugamento.
Referências bibliográficas
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indução pelo setor público. Nota Técnica. Ibre-FGV.
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tismo e do social-desenvolvimentismo”, Economia e Sociedade, v. 21,
número especial.
Belluzzo, L. G. (2015). “As razões estruturais do desajuste macroeco-
nômico”, Novos Estudos, nº 102.
Boito Jr, A. e Berringer, T. (2013). “Brasil: classes sociais, neodesen-
volvimentismo e política externa nos governos Lula e Dilma”, Re-
vista de Sociologia e Política, v. 21, nº 47.
Campos, A. G., Amorim, R. L. C. e Garcia, R. C. (2007). Estado, cres-
cimento e desenvolvimento: a eficiência do setor público no Brasil. Livro da
série “O Estado de uma Nação”. Ipea.
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Paulani, L. M. (2010). “Brazil in the Crisis of the Finance-Led Regime
of Accumulation”, Review of Radical Political Economics, v. 42, no 3.
Reis, C. F. B. (2008). “Os efeitos do investimento público sobre o de-
senvolvimento econômico: análise aplicada para a economia brasi-
leira entre 1950 e 2006.” Monografia premiada no certame XIII
Prêmio Tesouro Nacional em Finanças Públicas (segundo lugar),
Tesouro Nacional.
Rugitsky, F. (2015). “Do ensaio desenvolvimentista à austeridade: uma
leitura kaleckiana”. Sítio eletrônico Carta Maior, 8 de maio, dispo-
nível em http://cartamaior.com.br/
?%2FEditoria%2 FEconomia%2F
Do-Ensaio-Desenvolvimentista-a-austeridade-uma-leitura-Ka-
leckiana%2F7%2F33448).
Singer, A. (2015). “Cutucando onças com varas curtas: o ensaio desen-
volvimentista no primeiro mandato de Dilma Rousseff”, Novos Es-
tudos, no 102.
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82
Educação
e projeto nacional
1Os economistas ganharam uma centralidade
abusiva no debate contemporâneo, ao mesmo
tempo em que sua visão se tornava cada vez mais
estreita. Se o território do Brasil fosse outro, nada
mudaria nos modelos que usam, pois eles ignoram
o espaço. O longo prazo – a verdadeira escala tem-
poral em que as nações se constroem – foi substi­
tuído pelo tempo curto das operações financeiras.
E as pessoas, quando muito, tornaram-se meros
coadjuvantes, na condição de força de trabalho ou
de consumidores. É um pensamento pobre, que es-
quece as múltiplas dimensões da sociedade e destaca
apenas o que afeta os negócios.
Tal contexto contamina também o debate so-
bre educação. Falamos muito no papel da educa-
ção no crescimento econômico, quando devería-
mos fazer a abordagem inversa. Pois economia é
meio, educação é fim. O aumento da capacidade
produtiva só tem sentido se criar condições mate-
riais para as pessoas se libertarem de uma existência
estreita, repetitiva e cansada, de modo a poder se
dedicar, cada vez mais, a obter conhecimentos,
César Benjamin
Editor da Contraponto Editora
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PolitiKa
Educação e projeto nacional
83
prazer estético e transcendência,
atividades humanas por excelên-
cia, que em grande medida de-
pendem de aprendizado.
Um povo que alcança um alto
padrão educacional e cultural tam-
bém é mais capaz de edificar uma
economia moderna e produtiva, é
claro, pelo simples fato de que es-
se tipo de economia é uma das ex-
pressões de certo grau de civiliza-
ção. Mas isso não é o mais impor-
tante. Quando a demanda por
educação ganhou força no mundo
moderno, essa correlação ainda não
era sequer cogitada.
2A proposta de dar educação for-
mal a toda a população é uma
extravagância das sociedades con-
temporâneas, quando comparadas
às que existiram na pré-moderni-
dade. Nenhuma sociedade ante-
rior havia disseminado essa práti-
ca, nem mesmo a Grécia clássica,
cuja herança cultural nos marcou
tão profundamente. A educação
formal sempre foi restrita a peque-
nas elites ou a grupos fechados,
especialmente os religiosos.
Na Europa, centro do moder-
no sistema-mundo, essa mudança
envolveu diversos acontecimentos
e processos. Podemos vê-la des-
pontar já na Reforma Protestante,
com a ideia de que todo cristão
deve ser alfabetizado para poder ler
a Bíblia. Ela amadurece intelec­
tualmente no século XVIII, duran-
te o Iluminismo, quando se forta-
lece a ideia de refundar a socieda-
de sob o predomínio da razão, em
vez da tradição. Rousseau, fazendo
a crítica a Hobbes, destaca o papel
fundamental da educação.
Hobbes havia proposto um
modelo histórico estilizado para
explicar como e por que a hu-
manidade deixara para trás o es-
tado de natureza, marcado pela
luta de todos contra todos em
busca do próprio prazer, e ingres-
sara no estado civil, no qual a vi-
da social é regulada por institui-
ções estatais. Para ele, a própria
dinâmica do estado de natureza
conduz a esse salto, pois a luta
sem fim acaba por se tornar des-
vantajosa para todos, e a paz se
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César Benjamin
84educação
impõe como necessidade primei-
ra. Por isso os indivíduos – que,
em Hobbes, se movem a partir dos
sentimentos do desejo e do medo
– são levados a renunciar à liber-
dade e a reconhecer um poder dis-
ciplinador, o Leviatã, que se impõe
pela força, a qual institui o direito.
Rousseau critica essa formula-
ção. Para ele, ceder à força é um ato
de necessidade e prudência, de mo-
do que o “direito do mais forte”, de
Hobbes, lhe parece uma expressão
sem sentido: a força cria situações
de fato, mas não estabelece o direi-
to. Como o retorno ao estado de
natureza é impensável, impõe-se a
necessidade de buscar outro funda-
mento para a vida em sociedade, de
modo a torná-la com­­patível com a
liberdade. Problema difícil, talvez
insolúvel, que continua atual.
Para resolvê-lo, Rousseau pro-
pôs que liberdade é obediência es-
pontânea às leis que expressam a
vontade geral, “a razão em sua di-
mensão prática”. Kant retomou es-
se caminho ao tratar do imperativo
categórico: a condição para uma
sociedade livre é que os homens,
agindo livremente, aceitem limitar
a própria liberdade.
Isso exigia formar homens do-
tados de sentimentos muito mais am-
plos e mais complexos que o desejo
e o medo primitivos, de Hobbes. Daí
a importância da educação, consi-
derada desde então como condição
para que possa existir uma convi-
vência, ao mesmo tempo, regulada
e livre.
Assim concebido, o espaço da
liberdade humana não é aquele em
que cada um faz o que quer, ou faz
o que é capaz de fazer, em desaba-
lada competição com os demais. É
aquele em que o potencial criador
das pessoas se exerce de maneiras
culturalmente delimitadas, social-
mente legítimas, em que o certo e
o errado, o bem e o mal estão de-
finidos com suficiente clareza. Esse
espaço não é rígido e imutável, é
certo, mas precisa existir sempre.
Fora dele, o que se tem é a anomia,
que, cedo ou tarde, conduz à su-
pressão da liberdade, como Hobbes
havia descrito.
3As condições políticas para rea-
lizar a revolução educacional na Eu-
ropa demoraram a chegar. Surgiram,
paradoxalmente, a partir de uma
mudança no modo de fazer a guer-
ra. Até o fim do século XVIII, as
guerras europeias eram travadas por
exércitos profissionais, formados por
mercenários a serviço de impera-
dores, príncipes, duques e barões.
Logo depois da Revolução Fran-
cesa, a nobreza europeia lançou
suas tropas mercenárias contra a jo-
vem República. Elas chegaram vi-
toriosas às portas de Paris, levando
os revolucionários a convocar um
alistamento geral – “levée en masse”
– para formar um exército de ci-
dadãos. Quinhentos mil franceses
foram alistados. Não eram soldados
profissionais, mas inverteram o cur-
so da guerra.
Napoleão Bonaparte herdou
essa experiência. Formou grandes
exércitos de massas e com eles al-
terou profundamente a geopolítica
continental. Terminadas as guerras
napoleônicas, as nações europeias
perceberam que não podiam mais
se defender e sobreviver se não con-
tassem com infantarias extensas. A
época da guerra mercenária che-
gara ao fim. Agora, o desafio era
formar exércitos de cidadãos, mui-
to maiores. Ele continha uma pre-
missa: formar cidadãos.
Para isso, a Europa generalizou
dois grandes processos no século
XIX. O primeiro foi a supressão
dos direitos feudais remanescentes,
o que incluiu, em muitas regiões,
reformas agrárias. O segundo foi a
criação dos sistemas de educação
de massas. Pois a consolidação das
nações modernas pressupunha a
existência de grandes contingentes
humanos dotados de um novo tipo
de identidade, a identidade nacio-
nal. Para afirmá-la, os Estados nas-
centes ou em via de consolidação
criaram instituições voltadas a uni-
ficar as línguas, descobrir e disse-
minar uma literatura, elaborar e
contar a história de um passado
comum, difundir a ideia de direitos
e deveres, e assim por diante.
Isso não se fez sem debate. Na
época, muita gente defendia que
educação para todos era uma mira-
gem, um sonho inconsequente, pois
educação formal é um processo pro-
longado, difícil e caro. Não fazia sen-
tido imaginar que todos coubessem
nele. Depois, quando a nova ideia se
afirmou, outras vozes se levantaram
para defender a criação de sistemas
diferenciados, lembrando que a gran-
de maioria das pessoas estava desti-
nada, desde cedo, ao trabalho ma-
nual nas minas, nas fábricas e na agri-
cultura. Só uma pequena minoria
participaria do mundo da adminis-
tração, da direção, do planejamento.
Os sistemas educacionais deveriam
incorporar essa desigualdade de fac-
to, oferecendo a todos uma educa-
ção compacta, rápida, básica, ele-
mentar, e a alguns, uma educação
completa,voltadaaumdomíniomais
amplo da cultura e da técnica.
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 84 22/03/16 17:40
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Educação e projeto nacional
85
Numa Europa convulsionada
por lutas sociais incessantes, preva-
leceu a ideia mais ousada e mais pro-
gressista: oferecer educação para to-
dos em instituições estatais planeja-
das para disseminar uma base
cultural comum, tendo em vista
constituir e consolidar “comunida-
des imaginadas” – as nações – bem
maiores e mais complexas que as
comunidades tradicionais.
Em vários casos, de muitos po-
vos era preciso fazer um só. Mazzi-
ni viu bem o problema. Logo de-
pois da unificação política da pe-
nínsula italiana, em 1870, escreveu:
“Fizemos a Itália. Agora, precisamos
fazer os italianos.”
Nascem nesses contextos os sis-
temas públicos de educação de mas-
sas, instituições dos Estados nacionais.
4O Brasil não acompanhou ne-
nhum desses processos, nem mes-
mo remotamente. Nossa agenda
do século XIX foi outra: na pri-
meira metade, o jovem Estado bra-
sileiro cuidou, antes de tudo, de
preservar a unidade territorial con-
tra as fortes tendências à fragmen-
tação do país; na segunda, tateamos
para realizar uma abolição “lenta,
gradual e segura” da escravidão, de
modo a não desarticular a econo-
mia primário-exportadora basea-
da na grande propriedade.
Na época em que a Europa uni-
versalizava a escola pública, o Bra-
sil marcava passo. Nossa tradição já
não era boa: em contraste com as
colônias da América espanhola, a
América portuguesa nunca teve uma
universidade para formar os próprios
quadros. As universidades do Mé-
xico e de Lima foram fundadas ain-
da no século XVI, e as das demais
capitais seguiram-se a elas. Todos
os vice-reinados da Espanha tinham
uma estrutura de governo e uma
universidade, em torno das quais
gravitava uma elite local.
A elite brasileira era levada a es-
tudar em Coimbra e permanecia
muito tempo na Metrópole, onde
se integrava ao aparato do Estado
português. Retornava ao Brasil nes-
sa condição, como mostra a trajetó-
ria de José Bonifácio. Na época co-
lonial, o único grupo que disseminou
alguma educação formal foram os
jesuítas, expulsos em 1750. Depois
disso, a questão da educação prati-
camente desapareceu do horizonte
brasileiro por muito tempo, mesmo
depois da Independência. Não fazia
sentido pensar em educação de mas-
sas em uma sociedade que conti­
nuava, tardiamente, escravista.
Praticamente nenhum avanço
houve durante o longo reinado de
Pedro II, não obstante sua imagem
de aristocrata bom, amante da cul-
tura e das artes. O imperador fun-
dou uma escola para cegos, outra
para surdos-mudos, por caridade.
Algumas escolas foram abertas com
doações pessoais. Mas sistema pú-
blico de educação, como política
de Estado, isso não existiu.
5A agenda brasileira do século
XIX destoou enormemente da
agenda dos países que ocupavam
o centro do sistema-mundo ou dos
dois – Estados Unidos e Japão –
que conseguiram penetrar nele.
Nos países centrais, de diferentes
maneiras, com diferentes ritmos,
predominaram as revoluções edu-
cacionais, as reformas agrárias e a
industrialização. No Brasil, no mes-
mo período, cuidamos da unidade
territorial e do problemático pro-
longamento da escravidão. Não vi-
vemos a fase da educação de mas-
sas como formadora da nação.
A situação não mudou nas pri-
meiras décadas do século XX, pois
a proclamação da República, em
1889, não alterou as condições es-
truturais do país. Permanecemos
primário-exportadores, e a transição
conservadora do escravismo man-
teve a brutal segregação social. Con-
tinuamos sem políticas de Estado
para a educação, ainda considerada
uma questão particular ou, no má-
ximo, afeita a poderes locais.
As novidades que surgiram na
década de 1920 não vieram do Es-
tado, mas da própria sociedade. Mo-
vimentos sociais, culturais, políticos
e político-militares colocaram na
agenda brasileira dois temas até en-
tão negligenciados: identidade e de-
senvolvimento. O povo brasileiro
começou a emergir como produtor
de cultura, e nossa “vocação agrí-
cola” passou a ser contestada pelos
defensores, civis e militares, da in-
dústria. O Brasil se reconhecia, cada
vez mais, como um país atrasado,
desafiado a apressar o ritmo da pró-
pria história.
A Revolução de 1930 foi her-
deira desses movimentos e se tor-
nou o marco inaugural de uma re-
fundação do Estado brasileiro. Isso
se traduziu, entre outras coisas, na
criação do Ministério da Educação
e na formulação das nossas primei-
ras políticas educacionais. Com
muito atraso, o Brasil começou a
formar professores, sistemática e
planejadamente, e a implantar uma
rede pública de ensino que, com o
tempo, iria se universalizar. Sonha-
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César Benjamin
86educação
mos com uma educação unitária e
para todos, seguindo a melhor tra-
dição europeia.
A construção desse sistema, co-
mo não poderia deixar de ser, ex-
perimentou tensões. Uma delas foi
a oposição entre a ideia de uma edu-
cação clássica, humanista, generalis-
ta, e a de uma educação prática, di-
retamente voltada à inserção das
pessoas no mundo do trabalho. A
concepçãoclássicapredominou,mas,
ao longo do ciclo desenvolvimen-
tista, também ganhou força a asso-
ciação direta entre esforço educa-
cional e desenvolvimento econô-
mico, inclusive como forma de
legitimar o primeiro. Nas décadas
de 1940 e 1950, isso coincidiu com
a difusão mundial da ideia de que
os processos de desenvolvimento
dependem do que se convencionou
chamar de “capital humano”. Fun-
daram-se escolas técnicas, cresceu
o chamado “Sistema S”, com Senacs
e Senais, seguindo a concepção de
que a educação deveria, antes de
tudo, formar a mão de obra neces-
sária ao desenvolvimento, especial-
mente à indústria.
A vontade era tanta que todos os
tipos de escolas se multiplicaram. Por
trás delas, e de outras instituições
igualmente jovens, havia um Estado
nacional em construção. Ele criava
e reproduzia as condições gerais em
que as instituições parciais – da ci-
dadania,dodesenvolvimento,dopla-
nejamento, da vigilância e da puni-
ção – se apoiavam.
Por sua abrangência, sua capila-
ridade e seu papel, a rede de escolas
públicas, aqui e em outros países, foi
a mais importante criação desse Es-
tado. Pela primeira vez, milhões de
crianças e jovens passaram a compar-
tilhar, todos os dias, os mesmos es-
paços estatais obrigatórios. Educá-los
era, antes de tudo, forjar neles uma
consciência nacional e transmitir sa-
beres consolidados. A narrativa de
um passado comum, que conferia
sentido ao presente, e o domínio da
língua e da escrita eram as etapas ini-
ciais desse processo de formação.
6O ciclo desenvolvimentista,
como se sabe, terminou na década
de 1980. Graças ao seu impulso, na
década seguinte o Brasil conseguiu
universalizar, ou quase, o acesso às
escolas de primeiro grau. Além disso,
expandimos significativamente as
redes de segundo e de terceiro graus,
de modo que, na virada do século,
entrar na escola deixou de ser a
grande barreira. Importante vitória.
Mesmo assim, todos reconhe-
cem que a educação brasileira per-
manece um problema não resolvido.
As evidências disso se multiplicam
nos indicadores de qualidade. Um
teste recentemente aplicado em uma
amostra muito significativa – 338
mil alunos do segundo ao quinto
ano em 350 municípios espalhados
por 21 estados – mostrou que 70%
das crianças e jovens das escolas pú-
blicas permanecem analfabetos, in-
dependentemente da série em que
estão. Mais da metade dos alunos
do quinto ano foram classificados
assim. As avaliações internacionais
que aferem o domínio dos funda-
mentos da matemática nos colocam,
invariavelmente, nos últimos luga-
res, ao lado de países muito mais
pobres. Professores lamentam a
quantidade de analfabetos funcio-
nais em universidades.
Temos escolas para todos, ou
quase todos, mas não conseguimos
disseminar educação. O debate
sobre isso limita-se às reivindica-
ções de mais recursos e mais “von-
tade política” para reverter esse
quadro. É uma abordagem pobre.
A crise da escola reflete questões
bem mais profundas.
Vimos que a educação de mas-
sas se afirmou no século XIX, quan-
do foi associada à consolidação das
nações, mas o Brasil não viveu essa
experiência. Depois, ela se legiti-
mou ao ser considerada parte es-
sencial de projetos nacionais de de-
senvolvimento. Pegamos carona
nessa concepção, mas ela caducou,
pois nas últimas décadas o Brasil se
acostumou a viver sem projeto.
Como parte dessa deriva, aban-
donamos, na prática, o sonho de
uma educação unitária, voltada
para formar cidadãos, pois recria-
mos as escolas de pobres (públicas)
e as escolas de ricos (privadas), ou
seja, aquela educação compacta
para muitos e extensa para pou-
cos, que a Europa recusou no sé-
culo XIX. As classes média e alta
voltaram a considerar a educação
um assunto privado, cuja função
é garantir, aos seus filhos, status e
acesso a uma renda diferencial. As
Os gregos da idade clássica
enxergaram uma verdade que
convém jamais esquecer: seres
vocacionados para a liberdade
são livres para se destruir.
O mundo só se torna seguro,
para esses seres, se eles se
abrigarem no domínio do ethos.
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Educação e projeto nacional
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boas escolas passaram a ser vistas
como empresas especializadas em
prestar um serviço, a capacitação
para um mercado de trabalho ex-
cludente e competitivo. Hoje, elas
separam e discriminam, em vez
de promover o encontro. É uma
enorme mutação ideológica no
conceito de educação.
A escola pública ficou órfã, pois
o Estado que a concebeu e a sus-
tentava, material e ideologicamen-
te, já não articula as práticas sociais
dominantes. Em seu lugar entrou
o mercado, com seu apelo concor-
rencial, sua volatilidade, sua velo-
cidade. Nesse contexto, a maioria
dos jovens não é levada a desen-
volver uma subjetividade cidadã,
não reconhece conhecimentos con-
solidados, não vive a expectativa
de um futuro em construção. O
tempo é agora. No lugar de leis
gerais, típicas da cidadania, valem
as regras que o próprio grupo es-
tabelece em cada momento. Se tu-
do é cambiante, nada é relevante.
E numa sociedade em que todos
têm alguma informação sobre qual-
quer assunto, o que importa é opi-
nar, não conhecer.
Tudo isso questiona o estatuto
da escola. Sem poder cumprir suas
antigas funções de disciplinamento
e preparação para a cidadania, e sem
condições para se integrar à desen-
freada dinâmica mercantil, a escola
pública, sem papel claramente de-
finido, entrou em um regime de
funcionamento cego, próximo à
anomia. O desafio tradicional dos
professores era descobrir como ir
além de uma simples aula, tendo
em vista superar a rotina instituída;
hoje, o mais das vezes, o desafio é
conseguir dar uma aula. Há um cho-
que de subjetividades nas escolas,
até aqui insolúvel. Os professores
ainda são formados para servir à sub-
jetividade cidadã, enquanto os alu-
nos, cada vez mais, são portadores
de uma subjetividade midiática, ima-
gética, errática, que não facilita a
permanência produtiva em uma sa-
la de aula. Não se trata de uma ano-
malia específica ou de despreparo
individual de um ou outro estudan-
te. É de condições sociais que esta-
mos falando.
7Éhoraderepensarfundamentos.
Para que, afinal, precisamos de
escola pública? Para educar as
pessoas. Mas o que isso significa?
O ser humano não apenas age,
como os demais animais, mas inter-
preta sua ação. Todas as ações huma-
nas são ações interpretadas, e todas
resultam de alguma interpretação
prévia. Educar é atuar sobre os sis-
temas de interpretação construídos
pela imaginação de cada um, o que
nos remete ao universo simbólico,
constitutivo da nossa existência tan-
to quanto o nosso corpo físico.
No homem, ser e dever-ser são
aspectos indissolúveis. Este é o fun-
damento ontológico da ética. Ethos,
em grego, designa a morada do ho-
mem. Se a palavra tomou um sig-
nificado mais amplo, é porque os
gregos da idade clássica enxergaram
uma verdade que convém jamais
esquecer: seres vocacionados para
a liberdade são livres para se des-
truir. O espaço do mundo só se tor-
na seguro e habitável, para esses se-
res, se eles se abrigarem na sua mo-
rada, o domínio do ethos.
Ao contrário do que imagina
o senso comum, isso é cada vez
mais importante. Graças à racio-
nalidade técnica e instrumental,
tão a gosto dos economistas, os
perigos externos – as intempéries,
os predadores, a falta de alimentos
– praticamente não nos ameaçam
mais. Mas essa racionalidade é in-
suficiente – e pode ser contrapro-
ducente – para enfrentar os nossos
maiores desafios atuais. Pois hoje
a nossa existência só está ameaça-
da por nós mesmos, pela nossa in-
capacidade de construir, em paz,
uma vida em comum.
Uma sociedade que perde a ca-
pacidade de se comunicar dialogi-
camente – estabelecendo valores e
fins compartilhados, diferenciando
o bem e o mal, fixando comporta-
mentos legítimos – acaba por se des-
truir. Perde o direito à liberdade,
pois recria as multidões hobbesia-
nas, movidas apenas pelo desejo e o
medo. Isso chama o Leviatã.
Permanece insubstituível o papel
da educação e dos educadores, pois
os sistemas educacionais estão entre
os últimos espaços que ainda podem
fazer prevalecer a racionalidade co-
municativa, cultivando a linguagem
centrada na razão e na palavra, a lin-
guagemhumanaporexcelência.Nes-
ses espaços, cada vez mais raros, as
interações humanas podem existir
sem que estejam dominadas pela uni-
direcionalidade e a velocidade, típi-
cas da comunicação de massas.
Formar cidadãos, não consumi-
dores passivos e frustrados, continua
a ser o insubstituível papel da rede
pública de educação. Mas ela não
conseguirá renascer sozinha, pelos
próprios esforços, independente-
mente de quanto dinheiro se gaste.
Filha de um projeto nacional, ela
depende dele para recuperar sua ra-
zão de ser. A falta de projeto é mais
angustiante que a de dinheiro. n
Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 87 22/03/16 17:40
“A Fundação João Mangabeira do Partido
Socialista Brasileiro completa 25 anos
atuando em ações de formação política,
formulação de políticas públicas e de
construção da memória socialista.
Ao consolidar a história do PSB, a Fundação
fortalece sua identidade, ao mesmo tempo
em que garante coerência,
contemporaneidade e protagonismo na
participação política do Partido.”
Renato Casagrande
Presidente da FJM
ACESSE A LINHA DO
TEMPO FJM 25 ANOS
PELO LINK OU QR CODE
W W W . F J M A N G A B E I R A . O R G . B R / F J M 2 5 A N O S
03
A Fundação João Mangabeira e o Partido
Socialista Brasileiro em parceria com o Insti-
tuto Miguel Arraes apresentam o centenário
de vida Miguel Arraes, ícone da luta em prol
do socialismo democrático no Brasil e no
mundo. A programação prevê diversas ativi-
dades e comemorações que objetivam o
intercâmbio de informações e o debate do
legado político do companheiro Arraes. Serão
lançados livros, exposições, seminários temá-
ticos e uma programação especial nos even-
tos nacionais do PSB no ano de 2016.
Arraes era cearense de nascimento, mas cons-
truiu sua carreira política em Pernambuco e
se tornou um dos maiores expoentes da
esquerda brasileira. Foi deputado estadual,
federal e governador de Pernambuco por três
vezes. Por conta de seu direcionamento e par-
ticipação política, foi deposto pelo golpe mili-
tar em 1964, sendo preso e depois exilado por
14 anos na Argélia. No exterior, participou
ativamente do processo de independência de
outros países de língua portuguesa. Conheci-
do como “Pai Arraia” pelos integrantes dos
movimentos populares, tinha uma relação
muito próxima com a população, em particu-
lar a do interior e da periferia metropolitana.
ACESSE A LINHA
DO TEMPO MIGUEL
ARRAES 100 ANOS
PELO LINK OU
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W W W . F J M A N G A B E I R A . O R G . B R / M I G U E L A R R A E S 1 0 0 A N O S
PolitiKa
Revista
Nº3_ Março_2016
ISSN 2358-9841
federação | política | previdência social | saúde pública
sistema tributário | investimentos públicos | educação
Reforma do Estado03RevistaPolitiKa

Revista Politika nº 3

  • 1.
    03 A Fundação JoãoMangabeira e o Partido Socialista Brasileiro em parceria com o Insti- tuto Miguel Arraes apresentam o centenário de vida Miguel Arraes, ícone da luta em prol do socialismo democrático no Brasil e no mundo. A programação prevê diversas ativi- dades e comemorações que objetivam o intercâmbio de informações e o debate do legado político do companheiro Arraes. Serão lançados livros, exposições, seminários temá- ticos e uma programação especial nos even- tos nacionais do PSB no ano de 2016. Arraes era cearense de nascimento, mas cons- truiu sua carreira política em Pernambuco e se tornou um dos maiores expoentes da esquerda brasileira. Foi deputado estadual, federal e governador de Pernambuco por três vezes. Por conta de seu direcionamento e par- ticipação política, foi deposto pelo golpe mili- tar em 1964, sendo preso e depois exilado por 14 anos na Argélia. No exterior, participou ativamente do processo de independência de outros países de língua portuguesa. Conheci- do como “Pai Arraia” pelos integrantes dos movimentos populares, tinha uma relação muito próxima com a população, em particu- lar a do interior e da periferia metropolitana. ACESSE A LINHA DO TEMPO MIGUEL ARRAES 100 ANOS PELO LINK OU QR CODE W W W . F J M A N G A B E I R A . O R G . B R / M I G U E L A R R A E S 1 0 0 A N O S PolitiKa Revista Nº3_ Março_2016 ISSN 2358-9841 federação | política | previdência social | saúde pública sistema tributário | investimentos públicos | educação Reforma do Estado03RevistaPolitiKa
  • 2.
    Nº 2 _JUNHO 2015 Revista PolitiKa Conselho Editorial Renato Casagrande Carlos Siqueira Gesine Schwan Alexander Blankenagel César Benjamin Marcia H. G. Rollemberg Rafael Araripe Carneiro Adriano Sandri Paulo Bracarense Manfred Nitsch Osvaldo Saldías Tania Bacelar de Araújo Raimundo Pereira Diretor REsponsável Renato Casagrande Editor César Benjamin Coordenação editorial Marcia H. G. Rollemberg Jornalista Responsável Handerson Siqueira Revisão Tereza da Rocha Handerson Siqueira Projeto Gráfico e Diagramação Traço Design IMAGEM DE CAPA A PÁTRIA; óleo/tela; autoria Pedro Bruno; Acervo Museu da República; Instituto Brasileiro de Museus - Ibram, Ministério da Cultura – MinC (nº de autorização 02/2016) Fundação João MAngabeira Sede própria – SHIS QI 5 – Conjunto 2 casa 2 CEP 71615-020 - Lago Sul - Brasília, DF Telefax: (61) 3365-4099/3365-5277/3365-5279 www.fjmangabeira.org.br www.tvjoaomangabeira.org.br facebook.com/Fjoaomangabeira - twitter.com/fj_mangabeira http://fjmangabeira.org.br/revistapolitika Humboldt-Viadrina Governance Platform Pariser Platz 6, Im Allianz Forum 10117 Berlin - Germany Tel. +49 30 2005 971 10 office.schwan@humboldt-viadrina.org R454 Revista Politika /Fundação João Mangabeira. – Vol. 1, n. 3, (jan – jun 2016). Brasília: Editora FJM, 2016 Semestral Publicação on-line: <www.fjmangabeira.org.br/revistapolitika> ISSN: 2358-9841 1.Política – Periódicos 2. Políticas públicas – Periódicos. I. Fundação João Mangabeira. II Revista Politika. CDD 32(05) CDU: 32 Catalogação na Publicação (CIP) Ficha catalográfica elaborada pelo Bibliotecário Wilians Juvêncio da Silva CRB 620 – 1ªRegião. DOX Gestão da Informação. Tiragem Português: 2.000 Tiragem Inglês: 500 Fundação João MAngabeira Diretoria Executiva Presidente Renato Casagrande Diretor Administrativo Milton Coelho da Silva Neto Diretor Financeiro Renato Xavier Thiebaut Diretor de Assessoria Jocelino Francisco de Menezes Conselho Curador Membros Titulares Presidente Carlos Siqueira Serafim Corrêa Dalvino Troccoli Franca Kátia Born Álvaro Cabral Adilson Gomes da Silva Eliane Novais Paulo Afonso Bracarense Manoel Alexandre Bruno da Mata James Lewis Silvânio Medeiros dos Santos Francisco Cortez Gabriel Gelpke Joilson Cardoso Conselho Curador (Suplentes) Jairon Alcir do Nascimento Paulo Blanco Barroso Felipe Rocha Martins Henrique José Antão de Carvalho Conselho Fiscal Cacilda de Oliveira Chequer Ana Lúcia de Faria Nogueira Gerson Bento da Silva Filho Conselho Fiscal (Suplentes) Marcos José Mota Cerqueira Dalton Rosa Freitas Diretoria Executiva Márcia H. G. Rollemberg Coordenação da Escola João Mangabeira Adriano Sandri Assessoria de Comunicação Handerson Siqueira Luciana Capiberibe Copyright ©Fundação João Mangabeira 2016 Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 2 22/03/16 17:39
  • 3.
    PolitiKa Renato Casagrande AspásiaCamarago Ligia Bahia Leda Paulani Evilásio Salvador Denise Lobato Gentil César Benjamin 4 6 22 48 36 58 8270 editorial federação política saúde pública investimentos públicos sistema tributário previdência social educação sumário Um novo federalismo para o Brasil: como corrigir o nosso federalismo assimétrico e incompleto Riberti de Almeida Felisbino Vitor Amorim de Angelo Governança e instituições democráticas no Brasil contemporâneO Perspectivas e constrangimentos do sistema de previdência pública no Brasil Políticas de saúde no Brasil: notas para o debate de alternativas O injusto sistema tributário brasileiro Capitalismo e Estado no Brasil A saga dos investimentos públicos Educação e projeto nacional Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 3 22/03/16 17:39
  • 4.
    Nº 3 _MARÇO 2016 Renato Casagrande 4editorial Reforma do Estado é o tema geral deste número da revista Politika, que a Fundação João Mangabeira edita junto com a Universidade Humboldt-Viadrina, da Alemanha, com versões em português, inglês e espanhol. É um tema central para nós. O Brasil conta hoje com um Estado forte e ágil para premiar amigos e punir adversários políticos dos governantes, mas fraco e inoperante para mobilizar a sociedade em torno de um projeto nacional. Isso deixa o país à deriva. Essa crise do Estado tem múltiplas dimensões, como se verá nos artigos desta terceira edição. Aspásia Camargo trata do federalismo brasileiro, “uma das mais antigas soluções que encontramos para administrar melhor o nosso gigantismo territorial, mas também o nosso problema mais insistente e mais mal resolvido”. Em uma trajetória pendular, que alternou centralização e descentralização excessivas, consagramos um “federalismo trino” – ou seja, com três instâncias de governo – que é uma especificidade do Brasil. A arquitetura desse sistema apresenta muitas fissuras. A carga tributária tem se concentrado desde a década de 1990, pois a União amplia o recolhimento dos recursos que lhe são exclusivos, em detrimento daqueles que precisam ser repartidos. Ao mesmo tempo, diante das omissões do governo federal, estados e municípios são levados a assumir novas responsabilidades, para as quais não estão preparados. Aumenta o desequilíbrio na distribuição de atribuições e recursos entre as três instâncias de poder. A reorganização do nosso pacto federativo exigirá uma revisão constitucional. Talvez seja o momento de aprendermos com a Constituição da Alemanha, que adota o princípio da subsidiariedade, hoje expandido para toda a Europa. Trata-se de governar de baixo para cima: no momento de definir competências, a sociedade civil tem prioridade sobre o Estado; para cumprir as funções que a sociedade, sozinha, não consegue assumir, deve-se olhar, em primeiro lugar, para os poderes locais; se as tarefas estão além das capacidades municipais, apela-se aos estados. O governo federal só é chamado a atuar nas questões que ultrapassam as competências de todas as instâncias inferiores. Nossa construção institucional sempre seguiu o caminho inverso, imaginando soluções de cima para baixo. Isso mostra que, mais do que uma simples alteração nas leis, é de uma mudança cultural que se trata. Riberti de Almeida Felisbino e Vitor Amorim de Angelo estudam as condições de governabilidade presentes em nosso sistema político. Começam destacando um paradoxo: temos uma democracia consolidada e apoiada, em tese, pela grande maioria da população. Ao mesmo tempo, essa mesma população considera que nossas instituições políticas não são confiáveis. A crise de representatividade atinge em cheio o Congresso Nacional e os partidos. Mesmo assim, os autores reconhecem que ambos são imprescindíveis para a manutenção da capacidade de governar. Denise Lobato Gentil recusa a afirmação, tão difundida, de que a previdência social brasileira seja deficitária. Registra que estamos sujeitos a uma narrativa contraditória, pois o uso indiscriminado de desonerações tributárias a fim de estimular o investimento privado atingiu fortemente a arrecadação do sistema de seguridade. O governo abriu mão de recursos previstos na Constituição para financiá-lo, enquanto anunciava a necessidade de combater um suposto déficit. Gentil demonstra que os números não confirmam a tese do déficit e argumenta que as variáveis determinantes para a sustentabilidade do sistema, no longo prazo, estão fora dele: o emprego formal, o patamar dos salários, a produtividade do trabalho. Para afastar o risco de um colapso no financimento do sistema previdenciário “é preciso que o país cresça, aumente o nível de ocupação formal e eleve a renda média no mercado de trabalho, promovendo mobilidade social. A política econômica é o principal elemento que precisa entrar no debate sobre a ‘crise’ da previdência.” Não é possível analisar a questão previdenciária em si mesma, desvinculada da evolução da economia como um todo. Nosso quarto tema é a saúde pública. Nosso Sistema Único de Saúde (SUS) foi concebido para atender a todos os cidadãos. Ligia Bahia diz que o debate sobre ele tem sido rarefeito e acidental, o que produz um “consenso vazio”, pois esconde a incapacidade de o sistema atender a todos com Por um Estado melhor Renato Casagrande Presidente da Fundação João Mangabeira Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 4 22/03/16 17:39
  • 5.
    Por um Estadomelhor 5 PolitiKa qualidade. Houve iniciativas positivas, como a ampla cobertura de vacinação, o programa contra a AIDS, os transplantes, a reforma manicomial, o programa Saúde da Família e o maior acesso aos medicamentos. A proibição da propaganda de cigarros também deve ser citada. Mas há um problema crônico de subfinanciamento do SUS, além da precariedade da gestão, que se reflete na percepção da opinião pública sobre a baixa qualidade do atendimento. Isso garante uma medicina privada muito lucrativa. Os setores que se opuseram à aprovação do direito universal à saúde durante a elaboração do texto constitucional nunca precisaram se opor ao SUS, pois os negócios nessa área continuaram a prosperar. A questão do financiamento das políticas de Estado nos remete ao sistema tributário, o quinto tema da nossa revista, entregue à apreciação de Evilásio Salvador. Temos aqui mais um paradoxo: a necessidade de uma reforma tributária é consensual há muitos anos, mas o tema não consegue avançar, pois envolve um complexo conflito distributivo entre sociedade e Estado, entre diferentes entes estatais e entre grupos sociais. O atual quadro recessivo agrava o problema, ao provocar grandes perdas na receita de arrecadação do Governo. Os princípios gerais enunciados na Constituição de 1988 – equidade, capacidade contributiva, progressividade – estão corretos, mas a legislação infraconstitucional posterior caminhou na direção oposta, aprofundando a regressividade do sistema ao transferir, cada vez mais, o ônus tributário para as rendas do trabalho. Mais da metade da arrecadação do Estado brasileiro vem de tributos que incidem sobre bens e serviços, e é baixa a tributação sobre renda e patrimônio – exatamente o contrário do que ocorre nos países desenvolvidos. Essa é uma questão essencial para iniciarmos uma nova etapa de desenvolvimento. As intenções dos constituintes na área tributária foram, em grande medida, frustradas. Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que as famílias mais pobres destinam 32% de sua renda ao pagamento de tributos, enquanto as mais ricas destinam apenas 21%. Além disso, a desejada descentralização das capacidades estatais começou a ser revertida já a partir de 1993, quando foi introduzida a desvinculação de receitas das contribuições sociais, que a União não compartilha com estados e municípios. Também aqui a ação governamental tem sido frustrante. As principais iniciativas da presidente Dilma Rousseff na área tributária foram as desonerações que beneficiaram as empresas. Não houve nenhuma iniciativa de propor uma reforma abrangente, de caráter progressista, cada vez mais importante para o país. Chegamos, então, ao nosso sexto tema: a capacidade de investimento do setor público. Leda Paulani recupera a nossa trajetória histórica e defende uma tese importante: ao contrário do que dizem os economistas com maior visibilidade na mídia, investimentos públicos e privados não concorrem entre si, mas são complementares. O diagnóstico conservador, de que é preciso cortar os primeiros para aumentar os segundos, não se sustenta nem na história nem nos fatos da atual conjuntura. Paulani aborda uma questão central para o atual debate brasileiro: por que a chamada “nova matriz macroeconômica” do governo federal deu errado? Grandes desonerações fiscais, acompanhadas da obrigação de produzir superávits primários, deprimiram o investimento público, que já era muito baixo, e não estimularam o setor privado a investir. Diante da queda nas taxas de crescimento, impulsionada também por uma situação internacional menos favorável, o governo aceitou o diagnóstico ortodoxo. O receituário que dele decorre vem agravando a situação financeira do Estado, pois o aumento da taxa básica de juros eleva a dívida pública, enquanto a recessão faz despencar a arrecadação. César Benjamin discute o tema “Educação e projeto nacional”. Critica a visão que reduz a educação a uma ferramenta do crescimento econômico, mostrando que há outras questões de fundo envolvidas. Na verdade, quando a demanda por educação se generalizou no mundo moderno, a correlação dela com a economia sequer havia sido estabelecida. Tanto na Europa do século XIX quanto no Brasil do século XX, as redes de escolas públicas surgiram e se expandiram como expressões da afirmação dos Estados nacionais, que as sustentavam material e ideologicamente. A crise da educação brasileira, especialmente visível em desastrosos indicadores de qualidade, reflete a crise do nosso Estado: “A falta de projeto [nacional] é mais angustiante que a de dinheiro.” Fatores de natureza sociológica também contribuem para a crise da escola: “Os professores ainda são formados para servir à subjetividade cidadã, enquanto os alunos, cada vez mais, são portadores de uma subjetividade midiática, imagética, errática, que não facilita a permanência produtiva em uma sala de aula.” Não se trata, pois, de apenas pedir mais dinheiro e mais vontade política em apoio à educação. Nosso sistema educacional precisa passar por uma refundação. A Revista Politika traz sempre temas de grande relevância para o país – na primeira edição “Reforma Urbana”, na segunda, “Trinta anos de Redemocratização”, e agora o terceiro número apresenta sete abordagens decisivas para a proposição da Reforma do Estado brasileiro. Os temas tratados aqui, certamente, não esgotam todo o contexto. Há muito que avançar sobre outros assuntos como segurança pública e reforma política, sempre sob reflexões permanentes da Fundação João Mangabeira, segmentos sociais e detentores de mandatos do Partido Socialista Brasileiro. Temos convicção de que estamos contribuindo para um debate nacional mais qualificado na esperança que a sociedade seja, cada vez mais, atuante para construir uma nova e histórica etapa para o Brasil. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 5 22/03/16 17:39
  • 6.
    Nº 3 _MARÇO 2016 6 Erradicar do federalismo a influência das oligarquias O federalismo é uma das mais an- tigas soluções que encontramos para administrar melhor o nosso gigantismo territorial, mas é tam- bém o nosso problema mais insis- tente e mais mal resolvido. Ao longo da história, oscilamos de forma pendular, ora centralizando o Estado em demasia, ora o des- centralizando, às vezes também em demasia, como ocorreu na Re- pública Velha, quando o poder fe- deral limitava-se a administrar os centros exportadores que lhe ali- mentavam os impostos. Em regimes democráticos, é preciso dizer, as oligarquias se apropriaram da estrutura mais descentralizada do federalismo para contra ele usar o seu cavalo de Tróia, e em seu nome exercer o velho poder. O patrimonialis- mo disfarçado de federalismo aca- bou gerando a contraofensiva centralista do Estado Novo. O feito se repetiu em 1946. Mesmo na democracia de 1988, precisamos estar alertas ao poder imperial de prefeitos que, muitas vezes, perdem seus mandatos por cometerem abusos e malfeitos. No entanto, é preciso reconhecer que o exemplo vem de cima, do mo- delo patrimonial que se reproduz para baixo. Fortalecer o município na federação desregulada Apesar das dificuldades crônicas e dos vícios de origem acima desta- cados, que precisam ser blindados pela prática política, pelos novos Aspásia Camargo Doutora em sociologia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, Universidade de Paris. Vivemos uma situação de grave desequilíbrio. Crescem as responsabilidades dos municípios e dos estados, enquanto os recursos disponíveis estão cada vez mais mal distribuídos. A centralização federal não trouxe eficiência e melhora dos serviços públicos. Há um crônico desequilíbrio entre a competência dos entes federativos e a distribuição de recursos arrecadados. Os municípios absorvem cada vez mais responsabilidades, tentando responder à omissão federal, enquanto seus recursos minguam em igual proporção, na medida em que os repasses constitucionais diminuem, concentrando recursos na União. O pacto federativo e a revisão constitucional são uma necessidade emergencial que não pode ser postergada. Um novo federalismo para o Brasil como corrigir o nosso federalismo assimétrico e incompleto I. O federalismo incompleto na estrutura patrimonial do Estado FredCardoso/shutterstock.com Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 6 22/03/16 17:39
  • 7.
    PolitiKa Um novo federalismopara o Brasil 7 costumes e pelas leis, é preciso reconhecer o papel, cada vez maior, que os municípios vêm assumindo na estrutura caótica do federalismo brasileiro. Essa é a tendência que se firmou nos últimos 25 anos, seja porque as instâncias superiores – dis- tantes do eleitor – não se sentem constrangidas a cumprir suas funções, seja porque faltam recursos, seja porque, de fato, o prefeito acaba sendo obri- gado a improvisar tarefas, ocupando o vácuo po- lítico que se cria, sob a pressão direta da popula- ção e do eleitor. O federalismo não conseguiu exercer seus inú- meros objetivos constitucionais. Em realidade, per- maneceu incompleto, à espera das necessárias regu- lamentações que o tornariam mais pragmático e efi- ciente. Nem isso tivemos. Artigos da Constituição tão importantes quanto o 23 permanecem, inexpli- cavelmente, sem regulamentação, em uma área vital para o bom funcionamento da Carta, que é a da de- finição comum entre os entes federativos. Sem esta definição clara de competências preva- lece a incerteza dos entes federativos, em disputas constantes uns com os outros, ou fugindo de suas competências, dependendo do interesse ou desinte- resse que tenham pelo assunto em questão. O nú- mero de “fricções federativas” é muito grande. As fricções podem ocorrer em torno de proble- mas ambientais, de prédios e espaços públicos aban- donados, que perderam serventia, de tensões sociais ou de carências de infraestrutura. Vale o princípio geral de que os entes federativos podem ou devem fazer tudo em certas situações, nada em outras, de natureza equivalente. É o imponderável que domi- na, enfraquecendo as instituições e deixando a po- pulação insegura e ressentida. Outras questões fundamentais sobre as compe- tências federativas permaneceram sem solução, co- mo, por exemplo, a heterogeneidade dos nossos 5.570 municípios, equivocadamente tratados como iguais. Nenhum legislador se atreveu a classificá-los por ta- manho e renda, para fazer justiça federativa e obter melhores resultados políticos. É necessário reconhecer que muitas atividades exer- cidas, de fato, pelos municípios não são, de direito, sua atribuição. Um encontro de contas deveria ser reali- zado em torno das competências reais assumidas e dos recursos que são repassados para estados e municípios. FredCardoso/shutterstock.com rocharibeiro/shutterstock.com Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 7 22/03/16 17:39
  • 8.
    Nº 3 _MARÇO 2016 Aspásia Camargo 8federação A descentralização democrática exige o federalismo fiscal, por meio de repasses automáticos maiores, vindos da União e dos estados, pa- ra os municípios; e, vindos da União, para os estados. A parcela hoje reservada aos estados e muni- cípios tem sido burlada pelo con- gelamento dos recursos fiscais a serem repartidos e pela ampliação das taxas e recursos exclusivos da União. Não resta dúvida: os 22,5% do imposto de renda e do imposto sobre produtos industrializados re- servados aos estados e municípios têm sido insuficientes, por causa das omissões dos entes superiores e da sobrecarga dos municípios. Seria justo aumentar de 22,5% pa- ra 25% os repasses, desde que eles fossem compatíveis com as funções consolidadas de cada ente, elimi- nando boa parte da dependência e da subalternidade políticas em re- lação ao governo federal. Esses repasses devem ser calcu- lados tecnicamente, mas sabemos de antemão que em áreas críticas, co- mo as da saúde, do ensino técnico e de segundo grau, da infraestrutu- ra da habitação, saneamento e trans- portes, o governo federal e os esta- dos não vêm cumprindo suas fun- ções. O agravamento da segurança pública tem sido muito onerosa pa- ra os estados e exige reparação por conta das omissões do governo fe- deral em sua função exclusiva de controle das fronteiras externas e internas, o que facilita o contraban- do de armas e drogas, de responsa- bilidade exclusiva da União. Tais compensações poderiam vir do or- çamento, fonte cada vez mais instá- vel, mas, sobretudo, dos repasses au- tomáticosdosfundosdeparticipação. Municípios pequenos e pobres, a rebelião dos distritos isolados Os municípios brasileiros são, em grande maioria, compostos de cidades muito pequenas, às vezes isoladas e sem renda própria. Es- sa situação os deixa politicamen- te dependentes de repasses fede- rais e estaduais, além de tecnica- mente despreparados para melhorar as condições em que vivem, sobretudo nas regiões mais pobres. Mais grave é a situação dos distritos situados em municípios de grande extensão territorial, incapazes de atender as áreas mais isoladas e distantes. Abandonado pela sede, sempre mais bem ser- vida de atenção e recursos, ou porque está longe dela, ou porque o tamanho de sua população não merece a devida atenção, o dis- AlessioMoiola/shutterstock.com Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 8 22/03/16 17:39
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    PolitiKa Um novo federalismopara o Brasil 9 trito permanece carente de ser- viços públicos. Essa situação de carência gerou, anos atrás, a pro- liferação descontrolada dos mu- nicípios, especialmente em alguns estados como Minas, Paraná e Maranhão. A tendência foi inter- rompida quando se passou a exi- gir o consentimento do Congres- so Nacional. Mas o problema do abandono, pela distância ou pelo desinteresse, persiste. Esse é o caso do município de Búzios, uma joia do litoral flumi- nense, centro turístico importan- te, que era tratado com displicên- cia por Cabo Frio, do qual acabou conseguindo se emancipar. A emancipação não eliminou sua de- pendência política do município- -sede, nem tornou sua classe po- lítica melhor, mas permitiu a au- tonomia necessária para assumir suas responsabilidades perante a população e para explorar melhor sua vocação turística e sua infra- estrura urbana. É preciso frisar que as regras de distribuição equitativas, segundo critérios técnicos, dos fundos de participação não foram devidamen- te regulamentadas. Os critérios de distribuição continuam a ser regi- dos por regras puramente patrimo- niais. Até hoje o Congresso Na- cional não conseguiu regulamentar adequadamente a lei, apesar do pra- zo-limite, já ultrapassado, imposto pelo Supremo Tribunal Federal, em um exemplo claro de que a omissão dos poderes gera a supre- macia do Judiciário, alimentando a tendência à judicialização. A metrópole na orfandade do federalismo incompleto O status especial da metrópole, recentemente regulada por lei federal, preenche o vazio jurídi- co em torno das regiões metro- politanas, de competência esta- dual, mas em geral abandonadas à própria sorte, vivendo de mi- galhas e atenções descontínuas dos governos dos estados.1 Isso não resolve os problemas crôni- cos, dentro da lógica do federa- lismo trino brasileiro. Nosso federalismo valorizou os municípios menores, relegan- do as grandes cidades ao limbo político. Isso atinge especialmen- te as metrópoles, tratadas como órfãs em nossa estrutura federa- tiva. O “municipalismo” acabou oferecendo abrigo ao sentimen- to comum, ideológico, dos pe- quenos municípios, cujos inte- resses estão bem representados pela Confederação Nacional dos Municípios, liderada por Paulo Zuilkovski. Ex-prefeito de uma pequena cidade gaúcha, Zuilkovski orga- niza anualmente um lobby em Bra- sília que protege os pequenos pre- feitos em busca de uma aliança privilegiada com a União. Ele che- gou a impor uma agenda nacional para capturar boa parte dos royal- ties gerados pelo petróleo no Rio de Janeiro. Com as transferências constitucionais em queda livre, a situação agravou-se. No caso dos municípios me- tropolitanos, a arrecadação é bai- xa porque os municípios são po- bres e, em geral, não têm vocação industrial. Embora o populismo dos prefeitos agrave a situação fiscal, são injustos os reduzidos repasses constitucionais, despro- porcionais ao tamanho de suas populações. No recente Estatuto da Me- trópole, é lamentável que o fun- do que estava previsto tenha sido vetado pela presidente, tornando o estatuto mais um aparato legal sem consequências práticas po- sitivas para a administração pú- blicas dessas cidades metropoli- tanas que padecem de graves ca- rências em transporte, saúde, saneamento e habitação. A omissão metropolitana nos revela a natureza de nosso fede- ralismo, muito mais voltado pa- ra a distribuição geográfica do território do que para a concen- tração espacial de sua população. Como resolver tal situação? As regiões metropolitanas do estado de São Paulo estão avançando em suas ações coordenadas e em par- ceria. No Rio de Janeiro, apesar do atraso acumulado, um pro- grama de planejamento estraté- gico financiado pelo Banco Mun- dial acaba de ser iniciado, pro- duzindo expectativas positivas de racionalização das políticas públicas no caos metropolitano do Grande Rio. É urgente a criação de agên- cias interfederativas de planeja- mento e gestão, capazes de or- Nosso federalismo adquiriu características desequilibradas que hipertrofiam as funções federais, pesando cada vez mais sobre os municípios e reduzindo a importância dos governos estaduais. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 9 22/03/16 17:39
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Aspásia Camargo 10federação ganizar ações estratégicas con- juntas de longo prazo e de elaborar projetos de curto prazo, oferecendo formas de colabora- ção aos entes federados. E é pre- ciso retomar a criação dos fundos de investimento metropolitanos, vetados pelo governo federal, atraindo recursos federais, estaduais e intermunicipais para as priorida- des definidas pelo planejamento. O esvaziamento dos estados e as dívidas federais O federalismo brasileiro adquiriu características desequilibradas que hipertrofiam as funções federais, pesando cada vez mais sobre os mu- nicípios e reduzindo a importância dos governos estaduais. Os estados teriam mais razões para se queixar do que os municípios, ao discutir a parte que lhes cabe em nosso fe- deralismo incompleto. A Consti- tuição ignorou a histórica impor- tância dos estados no federalismo mundial, provavelmente encantada com a novidade que inventou, o inédito “federalismo trino”. A trindade federativa dificulta muito a discussão das competên- cias entre três entes. Não existe jurisprudência internacional sobre isso. Diante do medo da improvi- sação, de seus prováveis riscos, da complexidade dos entes e das fun- ções de Estado envolvidas, os le- gisladores e assessores parlamen- tares optaram pelo silêncio e a omissão. O parágrafo 3o do Arti- go 23 permaneceu à espera. Na Constituição Federal, as compe- tências estaduais se reduziram a quase nada, permanecendo vagas e indefinidas, comprimidas entre duas poderosas instâncias: a fede- ral e a municipal. Com o endividamento dos es- tados, agravado pelo período in- flacionário que precedeu o Plano Real, eles contraíram dívidas im- pagáveis com o governo federal, tendo em vista a correção e os ju- ros que foram impostos. A tal pon- to que a dívida dos estados é hoje maior do que quando o pagamen- to começou, configurando uma relação de especulação e usura en- tre o governo federal e os estados. O esvaziamento resultou tam- bém da privatização das empresas públicas e dos bancos estaduais que se disseminou nos estados, inclu- sive para evitar a penúria. Mas a competência maior na regulação das Regiões Metropolitanas em geral não foi cumprida pelos esta- dos, que continuaram a tratar a capital e os municípios de seu en- torno com dupla cautela: o medo da capital, sempre belicosa e ame- açadora para os projetos políticos dos governadores; e os municípios pobres dos entornos, concentran- do um caldeirão explosivo de pro- blemas sociais. Nos dois casos, a solução dependeria de recursos disponíveis, em geral ausentes. A herança patrimonialista dos estados é maior do que a dos mu- nicípios brasileiros. Enquanto os primeiros, segundo a tradição portuguesa, foram a alma da na- ção, criados a partir de interesses locais congregados em torno dos “homens bons” do lugar, os es- tados, ao contrário, originaram- -se do patrimonialismo imperial – com espírito semelhante ao das capitanias hereditárias, segundo critérios arbitrários de definição de fronteiras, formalmente geo- gráficos mas também políticos, tendo como objetivo central a segurança e o fortalecimento do poder central. Essas estruturas guardam o ran- ço patrimonialista e costumam funcionar com fortes relações de subordinação e dependência po- lítica entre o governador e os pre- feitos, isto é, entre o rei e seus vas- salos. Cabe aos prefeitos “agradar” e obedecer à vontade do governa- dor, e cabe a este apaziguar, na medida do possível, as demandas das prefeituras, sempre ávidas de recursos públicos. Esse padrão de relação costuma ser sólido, sedi- mentado pela cultura política. Quando suas regras são descum- pridas, os riscos são grandes, de parte a parte. O enfraquecimento dos esta- dos levou o governo federal a res- suscitar uma hábil prática patri- monial, também herança portu- guesa, que é a de valorizar a aliança direta do poder central com o poder local. Durante a Regên- cia iniciou-se a prática do muni- cipalismo cultivado pelo poder central, para burlar os belicosos presidentes de província, estimu- lados pela liberdade maior que lhes foi concedida pelo Ato Adicional. Cabe propor orçamentos regionalizados e um processo de desenvolvimento regional participativo que tenha como ponto forte as identidades naturais das regiões, com suas respectivas vocações. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 10 22/03/16 17:39
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    PolitiKa Um novo federalismopara o Brasil 11 A prática federal de cultivar alianças com prefeituras repetiu-se com Vargas, no Estado Novo, que nomeou Juscelino Kubitschek pa- ra a delicada tarefa de coordenação política dos prefeitos. Este foi o caminho que valeu a Kubitschek a prefeitura de Belo Horizonte, ainda pelas mãos de Vargas e, pos- teriormente, o governo de Minas e a Presidência da República. Com o enfraquecimento das práticas patrimoniais é provável que se reforcem tendências cen- trífugas em favor da regionali- zação dos estados. Essa tendência natural cria novas oportunidades de desenvolvimento econômico e de definição de vocações pro- dutivas que produzem mais au- tonomia quando o projeto é bem- -sucedido. Muitas vezes o enriquecimen- to de determinadas regiões do es- tado as estimula a reinvidicar au- tonomia ou a negociar uma alfor- ria com o governador. No rastro dessa tendência, cabe propor um orçamento regionalizado e um processo de desenvolvimento re- gional participativo que tenha co- mo ponto forte as identidades na- turais das regiões, com suas res- pectivas vocações produtivas. O que poderia se propor para resgatar os estados desse prolon- gado processo de esvaziamento, que já dura quase três décadas? Eles deveriam assumir um papel de liderança no desenvolvimento regional, algo que dificilmente caberia ao município, a não ser como função subsidiária, e que o governo federal tem sido incapaz de fazer. A regionalização seria coordenada pelo governador e por consórcios de municípios ou agên- cias regionais, com o suporte do orçamento regional e de fundos de desenvolvimento, sempre ze- lando pelo equilíbrio dos entes municipais, acima de partidos e de interesses locais. Desequilíbrio territorial e federalismo assimétrico Convém lembrar que o federalis- mo é um sistema de governo que parece ter sido inventado para o Brasil. Ele foi criado pelos pais da democracia americana para unir as colônias emancipadas sem prejudi- car suas autonomias. Essa “dupla soberania”, ao mesmo tempo fede- ral e estadual, funciona segundo o princípio da “unidade na diversi- dade”. Tal filosofia prosperou no século XIX em países continentais de extensa base territorial, eman- cipados de sua origem colonial e de formação política recente, como os Estados Unidos, o Canadá, a Ín- dia, a Austrália e o Brasil. Essa engenharia política pros- perou graças à sua flexibilidade e capacidade de adaptação, e seu su- cesso estendeu-se a outros países emancipados ou de unidade pro- blemática mais recente, como a Alemanha, a África do Sul e a Bél- gica, que buscaram acomodar su- as divisões territoriais internas – religiosas, étnicas ou culturais. O federalismo brasileiro é de natureza assimétrica, em função de nossa morfologia social, constituí- da por um grande território com população reduzida, carente e dis- persa. Segundo Domingos Velasco, um dos fundadores do PSB, esse quadro configura a baixa capaci- dade de gerar “coalescência”, isto é, uma sociedade civil presente e ativa, capital social e a coesão ne- cessária para estimular organização própria, construindo a democracia. Esta seria a clássica diferença com os Estados Unidos, onde a co- lonização se desenvolveu, na maio- ria das antigas colônias, a partir da “arte de se associar”, levando a so- ciedade a empreender inúmeras ações de caráter civil, sem a parti- cipação do governo. O mesmo mi- lagre vingou no norte da Itália, se- gundo Robert Putnam, a partir de uma leitura moderna de Tocque- ville.2 Para ambos, a vida comu- nitária anima e aquece o desenvol- vimento político. Tudo indica que é por esse caminho promissor que deveremos seguir. As assimetrias provocadas por um grande território pouco ocu- pado se agravaram, produzindo for- tes desigualdades com a ocupação econômica feita em “ciclos de mo- nocultura”, com agricultura itine- rante e predatória. No final de ca- da ciclo, o resultado desolador era o abandono e a miséria que se ins- talavam junto com as populações que permaneciam no local. Esse tipo de situação ocorreu nas antigas áreas de exploração do- eouro, de cana e de café, bem co- mo nas regiões atingidas pela seca, especialmente no Nordeste. O pro- blema adquiriu dimensão política e constitucional desde a década de 1910, chamando a atenção para a necessidade de combater os núcle- os resistentes de miséria e pobreza. A Constituição Federal assumiu esse compromisso, e políticas de Estado se sucederam, no corpo de seus compromissos permanentes, para combater tais assimetrias e de- sigualdades. Precisamos avançar nessa direção, alimentando o de- bate federativo com novas soluções. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 11 22/03/16 17:39
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Aspásia Camargo 12federação O princípio da subsidiariedade: descentralização com democracia Para garantir a alforria da sociedade civil, prisionei- ra do Estado, é preciso que se incentive a formação e acumulação de capital social, “empoderando”3 a sociedade e transformando-a em interlocutora per- manente de um poder público fortalecido. Dentro desse princípio geral – de ampliar a autonomia e o protagonismo da sociedade –, de- vemos redimensionar o federalismo femocrático para livrá-lo dos vícios patrimonialistas que im- pregnaram os períodos de descentralização de- mocrática, permeáveis às oligarquias e a outros poderes paralelos. Aplique-se a esse federalismo democrático o prin- cípio da subsidiariedade, consagrado no direito ale- mão e incorporado à Constituição Européia, que funciona como uma espécie de dogma federativo, propondo-se a governar de baixo para cima, ao con- trário do que reza nossa tradição. O princípio da subsidiariedade estava presente na Igreja Católica na década de 1930 e foi introdu- zido na Constituição Alemã de 1949, por Adenauer, sendo posteriormente adotado na Constituição Eu- ropéia. Franco Montoro foi grande adepto desse princípio descentralizador, que inclui a sociedade civil como o primeiro patamar na divisão das atri- buições federativas. Em um primeiro passo se estabelece a prioridade natural da sociedade civil sobre o Estado na realiza- ção das competências; em seguida, cabe a priorida- de ao município, para cumprir funções que a socie- dade não consegue fazer; e ao estado, quando os municípios se revelarem incapazes; finalmente, ao governo federal, quando nenhuma das instâncias abaixo dele tiverem capacidade ou predisposição na- tural para cumprir a função. No Brasil, a subsidiariedade funciona ao con- trário, de cabeça para baixo, cabendo ao governo federal a capacidade de tudo regular, ainda que de II. Corrigir o federalismo assimétrico e fortalecer a participação democrática AlessioMoiola/shutterstock.com Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 12 22/03/16 17:39
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    PolitiKa Um novo federalismopara o Brasil 13 forma mal definida e com baixa capacidade de execução, que a todos paralisa. A sociedade civil, tutelada, quase nada pode fazer sem se render a uma numerosa linha de controles, em geral com- pletamente inúteis. As atividades produtivas, as regulações finan- ceiras, sociais e administrativas permanecem, em boa parte, re- féns do governo e dependentes da autoridade deste. É o patri- monialismo em sua plenitude, mas dotado de uma inédita com- plexidade, cujo emaranhado pa- ralisa o próprio governo. O princípio da subsidiarieda- de impõe uma nova classificação de competências federativas, me- nos formal e mais pragmática, em função da situação real de cada ente federado. É preciso fle- xibilizar a padronização rígida e levar em conta as diferenças em cada categoria. As prefeituras te- riam interesse nesse tipo de me- dida, que permitiria usufruir de benefícios inerentes à sua real condição. Usaríamos assim o princípio da subsidiariedade co- mo meio de correção do federa- lismo assimétrico brasileiro, com suas extremas desigualdades es- paciais e sua heterogeneidade so- cial e cultural. Em nosso caso, essas compe- tências desiguais se manifestam nos níveis estadual e municipal. É urgente fazer uma revisão de tais competências, segundo cri- térios técnicos e políticos que levem em conta essas caracterís- ticas especiais e a capacidade re- al de cada município ou estado. Politicamente, devemos estimu- lar os municípios a assumir suas funções, com o provimento de recursos necessários, mas corres- pondentes à sua real autonomia financeira, técnica, política e ad- ministrativa, correspondente às suas justas atribuições. A subsidiariedade poderia ser um instrumento classificatório im- portante, organizando melhor as referidas competências que, hoje, são injustamente padronizadas e irreais. Essas competências deve- riam variar em função do tamanho e da renda do município, além de seu isolamento dos centros dinâ- micos regionais. Muitos estados, especialmen- te ex-territórios, jamais tiveram a assistência federal necessária e permanecem passivos e depen- dentes de recursos federais, sem ter poder nem instrumentos para cumprir plenamente suas funções federativas. Nesse caso, cabe à União financiar o planejamento estratégico desses novos estados, de modo que a médio prazo eles reduzam sua dependência dos re- cursos federais. Desigualdades espaciais e sociais e o desenvolvimento local sustentável Para resolver os problemas gerados por essa assimetria, especialmente a existência de desigualdades, a Constituição Federal determina que a redução dos desequilíbrios regionais é uma prioridade de Es- tado, reconhecendo, corretamen- te, sua interdependência com os desequilíbrios sociais. Distribuir e equalizar melhor a renda nacio- nal é função do Estado, especial- mente da União. Tais esforços, como veremos, não foram até agora bem-suce- didos. As políticas de redução das desigualdades têm sido débeis, imprecisas, desfocadas e equivo- cadas. Ao longo dos anos, o go- verno federal demonstrou que tais políticas, sempre que possí- vel, podem deslocar-se para os estados por meio de fundos in- terfederativos e com o aporte de capitais privados. Ao longo de décadas, as polí- ticas federais e o Ministério da In- tegração Regional não consegui- ram reduzir, ou sequer amenizar, as desigualdades regionais, como a Constituição Federal determina. A falta de infraestrutura e de recursos para investimentos agra- va o isolamento de muitas regi- ões, inviabilizando as oportuni- dades e estimulando a perma- nência de uma economia não monetária e autárquica. Enquan- to isso, estreitos espaços territo- riais, especialmente no Sudeste e no Sul, concentram a produção, o consumo e a riqueza, consoli- Atualmente, a máquina do Estado é, ao mesmo tempo, uma presa e um monstro devorador, voraz, ineficiente e ilegítimo, que não consegue mais cumprir suas velhas e bem conhecidas funções. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 13 22/03/16 17:39
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Aspásia Camargo 14federação dando a excessiva concentração territorial da renda. De fato, seria possível promover investimentos de infraestrutura acessíveis, aproveitando melhor as “vocações naturais” e o potencial cultural das nossas regiões e sub- -regiões. Conselhos de Desenvol- vimento Sustentável, que se espa- lharam pelo país a partir do final da década de 1990, seriam núcleos dinâmicos de definição de projetos e capacitação de capital humano em torno de áreas protegidas, par- ques, áreas de preservação ambien- tal e afins, para fins turísticos, cul- turais e de lazer. Esses projetos per- manentes seriam melhor alternativa econômica e social do que a ocupação predatória e itine- rante de terras pelo gado e a soja. É surpreendente que um par- que arqueológico como o da Ca- pivara, no Piauí, de beleza inigua- lável, impecavelmente preservado com o esforço da comunidade científica internacional, possa en- contrar-se até hoje subutilizado, como tantos outros pelo Brasil afo- ra que poderiam estar contribuin- do para gerar renda e distribuir riqueza. Passados mais de vinte anos, o parque da Capivara con- tinua à espera da construção de um modesto aeroporto que o co- nectaria diretamente com Pernam- buco, facilitando a entrada dos turistas e os trabalhos de manu- tenção. De fato, os recursos do orçamento são anualmente retira- dos em benefício de outros inves- timentos. Políticas de desenvolvi- mento local, integrado e susten- tável que conseguiram vingar em regiões como Bonito, em Mato Grosso do Sul, poderiam render mais e melhores frutos. Desenvolvimento regional e vocações produtivas: novas políticas de combate à pobreza Políticas de desenvolvimento re- gional fracassaram ou, no mínimo, não corresponderam aos esforços e aos recursos que se mobilizaram para resolver as iniquidades espa- ciais e sociais. Tais práticas se per- petuaram ao longo de décadas, criando clientelas próprias. Em vez de resolver, estimulam a de- pendência e uma cadeia de inte- resses políticos que, no governo de Juscelino Kubitschek, foram identificados como “os industriais da seca”. Tais interesses, na ver- dade, procriam à sombra do setor público. E a distância se perpetua entre o Nordeste, nosso maior território de pobreza, e o Sudes- te e o Sul, pólos mais desenvol- vidos do país. Os avanços modestos que se realizaram no curso das últimas décadas foram incapazes de in- terromper o círculo vicioso das desigualdades e das diferenças en- tre a renda média brasileira e a nordestina. Em 2013, essas desi- gualdades eram muito próximas às de cinquenta anos atrás, quan- do, pelas mesmas razões, Kubits- chek criou a Sudene. A política de desenvolvimen- to sustentável para o Nordeste, que permite o ingresso na era do conhecimento, da tecnologia e da informação, foi bem repre- sentada pelo legado de Eduardo Campos e pelo esforço bem-su- cedido de modernização da eco- nomia pernambucana, um dos objetivos estratégicos de nosso programa de governo. As refor- mas do Estado que defendemos deveriam dar prioridade política, mas também econômica e social – mais uma vez –, à correção das desigualdades territoriais brasi- leiras. E examinar de perto de que maneira, dessa vez, essas po- líticas poderiam ser mais bem- -sucedidas. O Nordeste modestamente progrediu (ou estacionou?) de 12% para 14% do PIB nacional em 2013, ao mesmo tempo em que sua população se reduziu pro- porcionalmente de 30% para 28% da população do país. Com a cri- se atual, a situação da região se deteriora rapidamente, chegando a comprometer os avanços sociais comemorados recentemente. O desemprego e os cortes orçamen- tários atingem mais duramente a região, devolvendo às classes D e E muitos dos que conseguiram ascender a padrões de classe mé- dia ou acima da linha da pobre- za. A inflação e a queda dos sa- lários reais provocam regressão econômica, fazendo a renda das famílias encolher socialmente. De fato, 1,2 milhão de famílias andaram para trás nos últimos doze meses. Algumas caíram da classe C para D; outras, na clas- se D, retornaram para a classe E.4 Da mesma forma, cabe cha- mar a atenção para o abandono a que foram relegados os estados do Norte, potencialmente muito ricos, mas impossibilitados de se defender das amarras e regula- ções federais, e de angariar por si mesmos os fundos necessários – não para a repartição patrimo- nial e corrupta dos Fundos de Desenvolvimento do Norte e Centro Oeste, mas para o real e efetivo desenvolvimento susten- tável da região. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 14 22/03/16 17:39
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    PolitiKa Um novo federalismopara o Brasil 15 A centralização das competências federais: partilha e fragmentação do poder O excesso de centralização provocou, no médio prazo, o esvaziamento e o esquarte- jamento do Estado brasileiro. Ao mesmo tempo em que concentra poderes – falsos poderes –, ele é obrigado também a ceder espaços cooptados, dividido em uma ampla coalizão de partidos e interesses fragmenta- dos, o que, como nos ensina a teoria das co- ligações, provoca uma inevitável paralisia. Quanto maior o número de pessoas em uma mesma carroça, menos a carroça anda. Atualmente, a máquina deteriorada abri- ga diferentes facções do mesmo partido. E o que é mais grave: para consolidar alianças que não funcionam. O Estado é, ao mesmo tempo, uma presa e um monstro devorador, voraz, ineficiente e ilegítimo, que não con- segue mais cumprir suas velhas e bem co- nhecidas funções. O Parque Nacional da Capivara (PI) continua subutilizado e em processo de degradação, enquanto a região de Bonito (MS) é um caso de êxito de políticas de desenvolvimento local e regional. Matheusfo/wikimediacommonsArturWarchavchik/wikimediacommons Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 15 22/03/16 17:39
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Aspásia Camargo 16federação O orçamento padece de “rigi- dez cadavérica” e mal pode atender às demandas crescentes de uma so- ciedade ávida de pequenos (e gran- des) favores, mas amordaçada e im- potente. Uma economia de baixo dinamismo vive submissa, sob tu- tela do Estado, dependendo de cré- ditos subsidiados e dos caprichos do poder. A fonte secou. Somos um país pouco produtivo e muito en- dividado. Nosso empreendedoris- moamordaçadobuscacadavezmais os caminhos da informalidade e reivindica a alforria. Desburocratizar a máquina para combater o “buraco negro” da centralização A idéia de que a burocracia se ex- pande por si mesma, sendo lenta por indiferença ou inércia, é um dos mitos que se construíram em torno do poder impessoal de sua máquina, que funciona como po- der opressor, a partir de seu gigan- tismo e de seu poder de controlar o cidadão comum. De fato, o que a burocracia procura é aumentar seu próprio poder, que se alimen- ta das regulações que o próprio Estado cria – novas leis, por exem- plo –, além de multiplicar, sempre que possível, suas funções de fis- calização e controle. Estas são uma inesgotável fonte de recursos para o funcionário corrupto, cujos ga- nhos são marginais, e para a má- quina de Estado em si mesma, que se apropria da maior parcela do bolo. Regulações em excesso ge- ram burocracia em igual propor- ção. A burocracia, por sua vez, gera corrupção. Na esfera dos princípios preven- tivos de combate à corrupção, a primeira lei de ferro é restringir a capacidade reguladora do Estado ao ponto necessário, evitando sua proliferação. A segunda é descen- tralizar a máquina de Estado, evi- tando que uma densa cadeia de in- teresses se crie à sua volta, em bus- ca de sua benevolência, de grandes epequenosfavoresquetransformam a atividade-fim em atividade-meio. O patrimonialismo do Esta- do se alimenta da possibilidade de dividir os recursos extraídos da máquina com parceiros e alia- dos, deles tirando o maior pro- veito possível. Tais práticas se instalaram dentro do Estado des- de tempos imemoriais – o das monarquias absolutas – e só fo- ram controladas a partir da mo- dernização política que se insta- lou no século XVIII. Um emaranhado de regulações garante o poder fiscalizador do Estado e seu poder de transferir riquezas a cúmplices e protegidos. Qualquer tentativa de reduzir o poder paralisante e inibidor da má- quina e da burocracia que a co- manda desperta enormes resistên- cias que, na maioria absoluta das vezes, acabam vencedoras. O melhor exemplo de boa ini- ciativa fracassada foi o de Hélio Beltrão. Ele tentou, em vão, des- burocratizar a fúria centralizado- ra e paralisante do regime militar, que Golbery do Couto e Silva cha- mou de “buraco negro”, no jogo pendular das sístoles e das diásto- les, isto é, dos ciclos de centrali- zação e descentralização da vida política brasileira. Hélio Beltrão tentou simplificar a vida do cida- dão a partir de seus documentos pessoais, símbolos invertidos de sua cidadania. De fato, os malabarismos que a burocracia comete para infernizar o cidadão só rivalizam com o In- ferno de Dante ou com os proces- sos de Kafka em seu misterioso cas- telo. Em nome de sua identidade e da segurança do Estado, os atuais controles se multiplicam, sempre em busca de uma ampliação das re- ceitas, nos mais diversos níveis. Car- teiras de identidade ou de motoris- ta, que poderiam ser definitivas, tornam-se temporárias ou provisó- rias, sob os mais diversos pretextos. A prestação desses serviços inúteis aumentou muito desde os tempos de Beltrão, que, aos poucos, desis- tiu da sua missão impossível. A estratégia alternativa foi mu- dar de foco e escolher uma área re- gulatória cheia de contradições e embaraços que dificultavam sua ação e a vida normal da econo- mia. Mesmo assim, os resultados foram segmentados e pífios. Ou- tro problema é que, enquanto a Comissão de Desburocratização eliminava papéis e regulações, de um lado, a lógica perversa das regulações as recriavam, de ou- tro. O emaranhado de leis, de- cretos e resoluções se acumula de tal forma que paralisa e inibe o sistema produtivo em geral. O que conquistamos nos últimos setenta anos, ao criarmos um Estado moderno, regrediu a métodos tradicionais, vigentes na Repúplica Velha. Nesse contexto, renasce o preconceito contra os políticos. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 16 22/03/16 17:39
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    PolitiKa Um novo federalismopara o Brasil 17 Para o bem da economia e do empreendedorismo brasileiro, é preciso retomar, com mais astú- cia e vigor – e com mais ousadia –, a reforma da “ burocracia car- torial”, iniciativa que Beltrão nos deixou como legado de um so- nho inconcluso.5 Vivemos, na realidade, a ten- dência oposta. A natureza do Es- tado se alimenta da ânsia de criar e multiplicar poderes que possam ser partilhados na distribuição de recursos e favores. O governo federal expande inexoravelmen- te sua máquina, em troca de le- aldade política para se perpetuar no poder. Não é por acaso que aumentam as despesas com a má- quina pública e com seus funcio- nários, que, paradoxalmente, crescem mais do que o PIB. Tra- ta-se de aumentar despesas e di- minuir receitas ou de criar mi- nistérios para acomodar cliente- las políticas que dão votos. Ou ainda, para acomodar disputas entre aliados do governo. O enxugamento, vez por ou- tra, é apenas a tentativa engano- sa de apaziguar a opinião públi- ca e de conter a voracidade po- lítica, que resultou em aumento dos ministérios, de 23 no gover- no Itamar Franco, para 30 no período Fernando Henrique, chegando ao número inédito de 39 ministérios com Dilma Rous- seff. Quanto maior o número de ministérios e empresas estatais, menos recursos para cumprir as funções gerenciais do Estado, no âmbito político-administrativo. No quadro atual, o Estado bra- sileiro se reduz a uma carcaça pe- sada e inútil, que precisa descen- tralizar suas funções. Cabe à União adequar-se a uma moderna filo- sofia de governo, fortalecendo seus mecanismos de governança: for- talecer suas atribuições genuínas e insubstituíveis, como capacitar quadros de alto nível, subsidiar funções, estimular complementa- ridades que exijam sua natural competência, remodelar suas es- truturas de governo. É urgente separar com clareza as funções de Estado e as funções de governo, requalificando o funcionalismo, além de redefinir os fluxos dos processos decisórios, estimulando parcerias e ações integradas, dis- tribuindo funções e melhorando a qualidade da gestão. As distorções se acumularam durante a ditadura e continuaram no regime democrático, apesar do enxugamento forçado, pro- vocado pela crise da década de 1990. O pecado capital é sempre o mesmo e gira em torno do mes- mo denominador comum: o Es- tado patrimonial confunde as di- mensões pública e privada. Daí a facilidade com que a corrupção penetra no corroído tecido esta- tal, pois, afinal, o Estado é uma entidade superior a serviço in- condicional do monarca, de di- reito divino. Nosso presidencialismo, ape- sar de sacramentado por vigoro- sa competição eleitoral, guarda essas características imperiais, li- gadas a uma cultura política de relações hierárquicas, de indefi- nição entre o domínio público e o privado, e adocicado pelas re- lações pessoais, de cunho patriar- cal, inseminadas pelo nepotismo e pelas trocas de favor. O presidencialismo delega ao seu mandatário poderes simbo- licamente absolutos, além de pou- co controlados. Tais poderes são apropriados pelo aparelho Esta- tal, que tem dono, e se estendem à parentela, aos protegidos, aos amigos dos amigos. Por isso, a máquina de Estado perpetua a iniquidade, é antide- mocrática, ignora os direitos hu- manos e alimenta desigualdades com a má distribuição de seus ser- viços. Por isso, o Estado brasilei- ro parece cada vez mais distante daqueles a quem deveria servir e de sua função principal, que é de- fender o interesse coletivo. Mesmo as parcelas mais mo- dernas do Estado brasileiro, co- mo é o caso das empresas estatais – criadas na Era Vargas e, depois, no regime militar – regrediram, entregues aos negócios ligados ao capitalismo de Estado, misto de corrupção empresarial e de sucateamento político-partidário. O que conquistamos nos úl- timos setenta anos, ao criarmos um Estado moderno, regrediu a métodos tradicionais, vigentes na República Velha, derrubada pela Revolução de 1930. Como naquela época, renasce o precon- ceito contra os políticos, contra a anarquia e os excessos das de- mocracias liberais, uma apologia indireta do Estado autoritário e corporativo. O colapso da segurança pública: guerra federativa entre os três poderes A sociedade, impotente, reage co- mo em Leviatã ao estado de guer- ra de todos contra todos. Nenhum dos três poderes cumpre sua parte ou consegue dar conta de suas res- ponsabilidades legítimas. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 17 22/03/16 17:39
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Aspásia Camargo 18federação A segurança pública é o mais grave problema federativo que en- frentamos hoje. Sendo missão do Estado, sua responsabilidade recai em demasia sobre as polícias esta- duais, pois cabe ao governo fede- ral zelar por nossas fronteiras, atra- vés das quais circula livremente o contrabando de armas e drogas para as grandes cidades brasileiras. A polícia estadual, hipertrofia- da e mal preparada, sequer dispõe de um eficiente sistema de perícia. Seus funcionários não têm exclu- sividade no emprego público. São despreparados e expostos à cor- rupção. Impossibilitada constitu- cionalmente de agir à altura, a Po- lícia se vê obrigada e a se benefi- ciar de recursos crescentes extraídos de outras áreas vitais dos governos estaduais. Pagamos o pre- ço do extermínio de policiais e da população brasileira. É necessário reforçar a respon- sabilidade federal na política de se- gurança dos estados, exigindo tra- balho investigativo e policiamento ostensivo nos portos, aeroportos e fronteiras estaduais. Além disso, a política de segurança deve exigir a presença direta do governo federal em áreas sublevadas, especialmen- te urbanas, hoje entregues à ação das milícias e do tráfico. O sistema legal está gravemen- te comprometido. A Lei, que de- veria proteger o cidadão, em rea- lidade protege os criminosos, atra- vés de inúmeros procedimentos legais e infraconstitucionais, como o Código Penal, e mais ainda, a Lei de Execução Penais, que pre- cisam ser revistos. Por uma questão de justiça, devemos adotar o princípio bá- sico de que a intensidade da pe- na deve corresponder à gravida- de do crime. As penalidades de- vem incidir, de forma exemplar, sobre o crime organizado e o crime de morte, e ter como me- ta a redução dos homicídios em geral. Cabe combater radical- mente quaisquer condutas que representem ameaças à vida. Da mesma forma, cabe estimular, com as penalidades impostas, a convivência e a paz social. O sistema carcerário precisa ser corrigido com urgência em sua filosofia e seu perfil de graves in- justiças sociais que penalizam os pobres, aqueles que não dispõem de assistência jurídica. Especial- O país se desagrega, pela desordem social, pelas injustiças acumuladas, pela ineficiência das instituições, pela desconfiança dos cidadãos. Uma nova repartição de recursos pode estar a caminho. Celsopupo/shutterstock.com Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 18 22/03/16 17:39
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    PolitiKa Um novo federalismopara o Brasil 19 mente os jovens negros, que não conseguem obter resultados posi- tivos de ressocialização. Ao deixar a prisão, tampouco dispõem de assistência real que lhes permita a reintegração social. A situação re- al e inaceitável é que as prisões, em vez de serem educativas, são as melhores escolas do crime. To- dos sabem disso. Não devemos aceitar a justifica- tiva de que as prisões estão cheias para, com esse argumento, atenuar a pena e libertar o criminoso, espe- cialmente de crimes por morte. Em compensação,urgentesprovidências devem ser tomadas para que o sis- temacarceráriolibereosquejácum- priram a pena e lá continuam. Ou aqueles que, por falta de assistência jurídica, estão presos, mas poderiam sercondenadosapagamentodemul- tas ou a penas alternativas. No país que estimula a judi- cialização, é preciso ampliar a punição através da multa, desde que as mesmas tenham real in- cidência sobre a renda do infra- tor. Do contrário, a solução seria enganosa. A política de segurança é pre- cária e está um século atrasada, pois ainda não conseguiu estimu- lar a profissionalização de seus quadros na área da perícia, que acelera e dá maior segurança à apuração dos crimes. É preciso separar com mais clareza as fun- ções da polícia civil e da polícia militar, a primeira investigativa e a segunda, ostensiva. É conhe- cida a disputa entre os dois seg- mentos, o que enfraquece o siste- ma de segurança como um todo. Existe ainda uma surda com- petição entre a polícia civil e o Poder Judiciário, que resulta em incapacidade de identificar e pu- nir culpados. Essa fraqueza crôni- ca da perícia é a principal respon- sável por um número excessivo de crimes sem apuração conclusiva: uma percentagem de menos de 8% de infratores acaba na cadeia. Em suma, o Estado precisa re- forçar a polícia e as políticas pre- ventivas, protegendo as populações vulneráveis e evitando que peque- nos delitos evoluam para crimes mais graves. Desenvolver políticas de inclusão e capacitação de jovens negros é cortar pela raiz o exter- mínio em massa, modalidade de crime silencioso para o qual con- tribui o próprio poder público, em balas perdidas e confrontos de rua. A disputa entre os poderes é cada vez mais visível, tanto na distribuição desigual das despe- sas, quanto nos salários e na alo- cação dos recursos. A judiciali- zação crescente resulta, de um lado, da omissão dos poderes Exe- cutivo e Legislativo, que deixam espaços vazios para o Poder Ju- diciário ocupar; de outro, da pressão da cidadania sobre o Mi- nistério Público e o Poder Judi- ciário, tornando tentadora a ação daqueles que enfrentam os po- deres omissos. O país, fragmentado, se desa- grega, pela desordem social, pelas injustiças acumuladas, pela inefi- ciência das instituições, pela des- confiança dos cidadãos O dese- quilíbrio entre o governo federal, os estados e os municípios se agra- va. Uma nova repartição de re- cursos pode estar a caminho. III. O novo pacto federativo: Que fazer? Com quem fazer? ■ Distribuir competências: quem faz o que em nosso federalismo trino? O primeiro compromisso do pacto federativo é a descentra- lização com centralidade, procu- rando fortalecer as funções federais de coordenação e de integração, mas buscando livrar o governo fe- deral das transferências de poder para outra instância a partir das nomeações federais nos estados, por exemplo, que garantem fide- lidade e vassalagem dos partidos, mas o obrigam a abdicar de for- mular e implementar políticas na- cionais. Precisamos aplicar com mais clareza as diferentes compe- tências de nosso “federalismo tri- no”, distribuído entre o governo federal, os estados e os municípios. ■ Introduzir uma repartição co- erente entre competências e re- ceitas, estabelecendo como prio- ridade política uma redivisão do Fundo de Participação dos Esta- dos (FPE) e dos Municípios (FPM), compatível com as trans- ferências de funções e seus custos reais, assumidos por estados e mu- nicípios nos últimos anos. ■ Aumentar de 21,5% para 22,5% a transferência de recursos fede- rais através do FPM, para com- pensar o aumento crescente de atribuições municipais orginal- mente sob a responsabilidade fe- deral, como a saúde. Os muni- Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 19 22/03/16 17:39
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Aspásia Camargo 20federação cípios aumentaram suas respon- sabilidades na área de saúde, saneamento e habitação e os es- tados na área de segurança pú- blica, ligada a contrabando e dro- gas, além de transporte e saúde. ■ Elevar de 21,5% para 24,5% a alíquota do FPE e do FPM para propiciar o verdadeiro equilíbrio federativo, e não apenas uma com- pensação menor, que não satisfaz a ninguém. Esses recursos comple- mentares devem ser destinados a atividades-fim, restringindo a ex- pansão de despesas com atividades supérfluas ou com a contratação de pessoal, que vem inchando as prefeituras. O objetivo do fundo seria o de ampliar a renda dos mu- nicípios através de impostos. ■ Combater uma distorção que se acumulou com os anos: fruto do velho patrimonialismo, cresceram as transferências voluntárias do go- verno federal, que se dirigem a parceiros amigos, enquanto dimi- nuíram as transferências automá- ticas, de natureza democrática e universalista, que vão para fins de- terminados e que garantem a iso- nomia nas relações federativas. ■ Instituir como regra democrá- tica reguladora o princípio da subsidiariedade, que estabelece uma hierarquia de competências de baixo para cima, valorizando a sociedade civil perante o Esta- do e o município frente às suas instâncias superiores, o estado e o governo federal. ■ Regulamentar de forma adequa- da o parágrafo único do Artigo 23 da Constituição Federal, que de- fine amplas competências comuns entre os entes federados. A falta de jurisprudência do federalismo tri- no deixou indefinidas as funções, por insegurança do legislador. Es- sa omissão acabou por criar um imbróglio federativo, ao permitir enorme superposição de funções entre os entes federados, junto com vazios e omissões, no que diz res- peito a um grande número de po- líticas públicas. ■ Promover a cooperação e a in- tegração entre municípios vizi- nhos de uma mesma região, atra- vés de diferentes tipos de parce- rias: consórcios, organizações sociais, empresas ou qualquer ou- tro tipo de organização. Zelar também para que os consórcios possam se integrar verticalmen- te, associando o governo federal aos estados e municípios. ■ Criar conselhos de desenvolvi- mento sustentável, com visão es- tratégica e participativa de médio e longo prazos. Apostar no de- senvolvimento local, integrado e sustentável, a partir de uma vi- são de regionalização do desen- volvimento, abandonada nas úl- timas décadas, tendo como pila- res uma nova economia para a sociedade do conhecimento, o empreendedorismo e a inclusão social, além da responsabilidade ambiental e do uso sustentável dos recursos naturais, da cultura, do turismo e do lazer, para gerar emprego e renda. ■ Exigir a regionalização dos go- vernos estaduais e de seu orçamen- to descentralizado, além de planos estratégicos regionais participati- vos. E impedir que a alocação de recursos se faça por critérios de proteção a aliados políticos. ■ Estimular a competição através das boas práticas que possam ser confrontadas entre entes de peso equivalente, como seria o caso de municípios de até 10 mil ha- bitantes ou de mais de 500 mil. O federalismo é um sistema ao mesmo tempo cooperativo e competitivo, e aí reside o equi- líbrio que dinamiza a federação. ■ Incorporar à Federação um en- te intermediário, a região metro- politana, cujo Estatuto da Me- trópole foi votado pelo Congres- so Nacional. No entanto, a presidente vetou a proposta do Fundo Metropolitano, tornando o estatuto mais um documento de utilidade discutível. Agências metropolitanas precisam ser cria- das com fundos compostos por recursos interfederativos, tendo em vista estimular iniciativas co- muns, reduzir desigualdades, pro- Há uma vinculação entre centralismo e corrupção, na medida em que os repasses automáticos do governo federal são substituídos por repasses voluntários. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 20 22/03/16 17:39
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    PolitiKa Um novo federalismopara o Brasil 21 teger o meio ambiente e, sobre- tudo, incentivar atividades eco- nômicas produtivas. ■ Recuperar o nosso pacto fede- rativo, duramente reconquistado (e aperfeiçoado) pela Constitui- ção de 1988, que defendeu a des- centralização administrativa e fiscal, e promoveu uma inovação singular: incorporou o municí- pio como “ente federativo”, con- sagrando o municipalismo que vem da Colônia e do Império. A crise econômica e a amea- ça de desagregação política das décadas de 1980 e 1990 fortale- ceram o governo federal com um conjunto de emendas constitu- cionais e medidas provisórias que restauraram a centralização. Além disso, estimularam uma excessi- va dependência dos estados e mu- nicípios, ao mesmo tempo em que o governo federal recupera- va seus recursos perdidos. Vive- mos, portanto, um grave dese- quilíbrio fiscal: ampliação das responsabilidades dos municípios e dos estados, enquanto os re- cursos disponíveis estão cada vez mais mal distribuídos. Para agra- var a situação, a centralização federal não trouxe eficiência e melhora dos serviços públicos. Do ponto de vista territorial, existe um crônico desequilíbrio entre a competência dos entes federativos e a distribuição de recursos arrecadados. Os muni- cípios absorvem cada vez mais responsabilidades, tentando res- ponder à omissão federal, en- quanto seus recursos minguam em igual proporção, na medida em que os repasses constitucio- nais diminuem, concentrando recursos na União. O pacto fe- derativo e a revisão constitucio- nal são, portanto, uma necessi- dade emergencial que não pode ser postergada. Quais os limites toleráveis de centralismo e de arbítrio, e como é possível corrigir a acumulação excessiva de funções federais, compatível com a boa governan- ça e com o funcionamento nor- mal da sociedade? Existe uma vinculação natu- ral entre centralismo e corrup- ção, como já apontou, no passa- do, Tavares Bastos6 na medida em que os repasses automáticos do governo federal são substitu- ídos por repasses voluntários, através de acordos e cumplicida- des políticas. Como se pode tratar de manei- ra equivalente os 5.570 municípios brasileiros, em sua maioria pobres e pequenos, mas com bases terri- toriais e populacionais heterogê- neas, e com capacidade de arreca- dação e de gerar riquezas tão dís- pares? Como controlar despesas que não se sustentam em arreca- dação e receitas próprias? Como alimentar câmaras de vereadores e estruturas administrativas incom- patíveis com seus níveis de renda? Como tratar os estados, velhas estruturas obsoletas, herdadas do Império, segundo um princípio de distribuição semelhante ao das capitanias hereditárias, e que ho- je se encontram esvaziados em suas funções residuais, mas ainda têm poder patrimonial movido pelo arbítrio? n Notas 1. A lei denominada Estatuto da Metrópole foi regulamentada em 12 de janeiro de 2015 e determina prazo de dois anos para ser reconhecida e regulamentadas nos municípios que compõem a grande metropole. 2. Aléxis de Tocqueville, Democracia na América e Robert Putnam, Making democracy Work: Civic Traditions in Modern Italy, Princeton University Press, 1992. Mais recentemente, Putnam retoma o tema em “A Arte de Estar Juntos”, Better Together, Restoring the American Community, em coautoria com Lewis Feldstein, N,Y, Simon & Schuster Paperbacks, 2003. 3. A palavra original em inglês é empowerment, isto é, dar mais poder a um segmento sub-representado ou a alguma estrutura em igual situação. 4. Segundo a Federação do Comércio do Estado de São Paulo, um reflexo desse rebaixamento aparece na perda do poder de consumo nos supermercados. Segundo o IBGE, em julho as famílias sairam dos su- permercados com um volume 2% menor. A evolução do custo de vida por classe social nos doze meses, medida pela Fecomércio em julho de 2015, mostra que o custo de vida aumentou 8,73% para a classe A, 8,82% para a classe B, 9,87% para a classe C, 11,26% e 11,16% para as classes D e E. A classe E au- mentou de 21,6% da população para 23,1%. A perda salarial foi responsável por uma queda de 2,5 pon- tos percentuais do rendimento médio das famílias no último ano. 5. Hélio Beltrão parece ter se inspirado em Hélio Jaguaribe ao definir o Estado cartorial em Cadernos do Povo Brasileiro, o precursor do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), no início da década de 1950. 6. Tavares Bastos, em A provincia, faz a mais antiga e contundente crítica da herança centralista portu- guêsa e imperial, e das irracionalidades e aberrações políticas provocadas pela excessiva centralização do Império. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 21 22/03/16 17:39
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    Nº 3 _MARÇO 2016 22 Governança e instituições democráticas no Brasil contemporâneo Já faz algum tempo que o Brasil vive um dilema parecido com o de outros países democráticos. Por um lado, suas instituições estão razoavelmente estabelecidas e con- solidadas, em que pesem as dife- rentes propostas de reforma do sistema político-eleitoral. A de- mocracia brasileira, hoje, atende tanto aos princípios formais defi- nidos por Manin (1996)1 para a existência de um governo repre- sentativo como aos critérios for- mulados por Dahl (1989) para o estabelecimento de uma poliarquia.2 Por outro lado, os brasileiros pa- recem confiar cada vez menos em suas instituições políticas, colo- cando à prova, assim, o próprio regime democrático em vigor des- de a década de 1980. A expressão maior deste dilema está na con- traditória combinação entre o que Santos e Avritzer (2003, p. 41-42) chamaram de “concepção hege- mônica de democracia” e “degra- dação das práticas democráticas”. Esse modelo hegemônico, es- tabelecido a partir da Segunda Guerra Mundial, deu forma a uma “democracia de baixa intensida- de”. Em outras palavras, o tipo de regime político que se conso- lidou na segunda metade do sé- culo XX pressupunha uma con- tradição entre institucionalização e mobilização, valorizava a apatia política, concentrava o debate so- bre o regime democrático nos seus desenhos eleitorais, apontava o pluralismo como forma de in- corporação partidária e disputa entre elites, e defendia uma solu- ção minimalista para o problema da participação política. Na me- dida em que o modelo hegemô- Riberti de Almeida Felisbino Doutor em ciências sociais pela Universidade Federal de São Carlos, com pós- doutorado pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e pela Universidade Federal de São Paulo. Professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da Universidade Vila Velha (ES). E-mail: riberti.felisbino@uvv.br Vitor Amorim de Angelo Doutor em ciências sociais pela Universidade Federal de São Carlos. Professor do Programa de Pós- Graduação em Sociologia Política da Universidade Vila Velha (ES). E-mail: vitor.angelo@uvv.br Pesquisas de opinião vêm mostrando uma baixa confiança dos cidadãos nas instituições democráticas brasileiras, sobretudo nos partidos políticos. O atual desenho do sistema político é composto por várias instituições. Sua combinação – ou seu desenho institucional – ensejou uma série de discussões de natureza política e acadêmica. Este artigo expõe algumas particularidades do sistema político brasileiro e os dilemas vividos pela nossa democracia, com reflexos para o seu funcionamento e o exercício da própria governança. No tocante aos partidos, embora estejam em descrédito junto à sociedade civil, nosso argumento é que as legendas ainda são instituições fundamentais para a garantia de governança. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 22 22/03/16 17:39
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    Governança e instituiçõesdemocráticas no Brasil contemporâneo 23 nico de democracia se consolidava, for- mularam-se propostas contra-hegemô- nicas, cujas críticas se concentravam, especialmente, na forma como a repre- sentação e a participação eram compre- endidas na concepção tradicional de democracia então predominante. Um dos sintomas visíveis do dilema expresso na contradição entre consoli- dação das instituições democráticas e falta de confiança na democracia é a “dupla patologia” (Santos e Avritzer, 2003, p. 42), marcada pelo aumento da abstenção, pelo lado da participação, e pelo distanciamento cada vez maior en- tre eleitos e eleitores, pelo lado da re- presentação. Se no Brasil, onde o voto é obrigatório, o abstencionismo tem al- cançado percentuais elevados, em de- mocracias como os Estados Unidos e a França, por exemplo, a proporção de eleitores que simplesmente não compa- recem às urnas – ou, quando o fazem, votam em branco ou nulo – permanece em patamares dramáticos para um regi- me político que tem como um de seus princípios fundamentais a eleição peri- ódica para a escolha de representantes.3 No caso da representação, os protes- tos de julho de 2013 em várias cidades brasileiras parecem indicar como o dis- tanciamento e a falta de identificação entre eleitos e eleitores, a fragilidade dos mecanismos de controle que estes têm sobre aqueles e a ausência de mandatos responsivos em relação aos representados são características do nosso quadro po- lítico atual. Nesse sentido, as manifes- tações populares a que o país assistiu há dois anos, longe de representarem um revigoramento da democracia, podem ser interpretadas, na verdade, como ex- pressão de uma inquietante descrença nos valores e nas instituições do regime democrático. Não obstante verbalizas- sem reivindicações concretas e reais, os protestos revelaram muito de intolerân- cia e incompreensão, sem oferecer solu- ções aos problemas político-institucionais presentes na agenda de discussões no Brasil de hoje (Nogueira, 2013). Em seu trabalho sobre a confiança dos brasileiros na democracia, Moisés (2005, p. 34) lembra que, no país, “a percepção negativa das instituições atravessa todos os segmentos de renda, escolaridade, idade e distribuição ecológica, chegando a influir na disposição dos cidadãos para participar de processos políticos”. Se esse sentimen- to negativo sobre as instituições é gene- ralizado entre os brasileiros, corroboran- do o diagnóstico da “patologia” defendi- do por Santos e Avritzer (2003), o que os estudiosos dizem do nosso sistema políti- co? Os partidos, por exemplo, ainda têm alguma relevância nesse cenário de des- crédito? Nesse contexto, a governança tende ao caos ou à ordem? O objetivo do texto a seguir é discutir algumas particu- PolitiKa Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 23 22/03/16 17:39
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Riberti de Almeida Felisbino | Vitor Amorim de Angelo 24política laridades do sistema político brasi- leiro e os dilemas vividos pela de- mocracia atual, com reflexos sobre seu funcionamento e o exercício do próprio governo. Adesão democrática e desconfiança nas instituições Desde o final da década de 1970, a América Latina passou por um processo generalizado – mas bas- tante diferenciado internamente – de mudança de regimes políti- cos, dentro daquilo que foi cha- mado por Huntington (1994) de “terceira onda de democratização”. Nesse contexto, países como Bra- sil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile fizeram a transição de re- gimes autoritários para regimes democráticos, liberal-representa- tivos. No meio acadêmico, o in- teresse pelo processo de consoli- dação dessas democracias e pela qualidade dos novos regimes po- líticos deu origem a um amplo e diversificado conjunto de traba- lhos. Numa região marcada pela violência dos governos militares que dominaram a cena política nas últimas décadas do século XX, o interesse dessa produção pode ser explicado pela importância que a democracia representava na histó- ria dos países latino-americanos. No que se refere ao Brasil, em 1995, uma década após o fim da ditadura, o brasilianista Thomas Skidmore publicou um pequeno artigo, intitulado “Partidos tor- nam o Brasil ingovernável”, no jornal Folha de S. Paulo, questio- nando o que seria possível dizer, àquela altura, das instituições po- líticas democráticas brasileiras. Se- gundo Skidmore (1995), “o mais sério é o caso do sistema eleitoral, que funciona mal e criou o siste- ma partidário mais fragmentado de qualquer democracia no mun- do”. Em sua opinião, “a coesão partidária e as coalizões partidárias são indispensáveis à administração da política democrática [...] no en- tanto, o Brasil produziu uma fór- mula que virtualmente impossi- bilita tal comportamento partidá- rio responsável”. Na época, comentários desse tipo eram fre- quentes. Acreditava-se que a de- mocracia brasileira talvez não per- durasse muito mais tempo, em vista dos seus problemas e da fra- queza de suas instituições. Passadas mais de duas décadas desde o artigo de Skidmore, não apenas a tese implícita em comen- tários dessa natureza não se con- firmou como trabalhos posteriores passaram, por consequência, a ana- lisar a qualidade de um regime democrático que, em abril de 2015, completou três décadas – nesta que já é a nossa mais longeva experi- ência democrática. Observando particularmente o contexto bra- sileiro, estudos como o de Moisés (2005; 2010) e do Latinobaróme- tro indicam que a democracia vem se consolidando no Brasil, mas, contraditoriamente, os brasileiros não confiam nas instituições, so- bretudo nos partidos. Tal descon- fiança pode criar um “ambiente favorável a que os membros da comunidade política sintam-se descomprometidos com a vida pú- blica, podendo recusar-se a coo- perar com as diretrizes do Estado ou ignorar as leis e as normas que regulam e organizam a vida social e política” (Moisés, 2010, p.12). Aqui, podemos notar o “di- lema” sobre o qual já falamos, produzido pela combinação con- traditória entre a expansão do modelo hegemônico de demo- cracia e a degradação das práticas democráticas. Os dados a respei- to do que ocorre no Brasil nos permitem deduzir que a descren- ça nos valores democráticos po- de gerar um ambiente de anor- malidade institucional, colocan- do em dúvida as instituições em que se fundamenta própria de- mocracia. Por exemplo, em re- cente pesquisa que coordenamos no Espírito Santo a respeito da manifestação contra o governo federal ocorrida em agosto de 2015,4 muito chamou a atenção o fato de que, em contraste com a avaliação positiva da democra- cia como forma de governo, pou- cos manifestantes mostraram-se abertamente contrários a uma intervenção militar – o que re- presentaria a quebra da própria ordem democrática com a qual os respondentes, de maneira ge- ral, disseram se alinhar. Na Figura 1 é possível notar que a democracia é bem avaliada por praticamente 3/4, sendo con- siderada “sempre a melhor forma de governo”. No entanto, uma vez perguntados sobre a democracia no Brasil, ou seja, sobre o regime realmente existente, e não sobre uma concepção teórica e filosófica do que venha a ser democracia, a re- lação se inverte. Apenas 1/4 dos manifestantes se mostrou plena- mente confiante na democracia brasileira, como mostra a Figura 2. Além do reduzido suporte a es- se regime político entre os respon- dentes da pesquisa, outro dado Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 24 22/03/16 17:39
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    PolitiKa Governança e instituiçõesdemocráticas no Brasil contemporâneo 25 A democracia é sempre a melhor forma de governo 73,77% Totalmente contra 47,27% 19,67% A democracia às vezes é melhor forma de governo Favorável sob algumas circunstâncias 3,01%NS/NR Totalmente favorável 2,46%É indiferente ter ou não uma democracia Contrário sob algumas circunstâncias 1,09% A democracia nunca é a melhor forma de governo Indiferentes Figura 1 Opinião em relação à democracia – Espírito Santo (2015) Fonte: Pesquisa “Manifestação 16/8: perfil e percepção dos manifestantes em Vitória (ES)”, 2015. Insatisfeito 29,51% 28,14%Muito insatisfeito 22,4%Regular 3,01%Muito satisfeito 15,85%Satisfeito 1,09%NS/NR Figura 2 Satisfação com a democracia brasileira – Espírito Santo (2015) Fonte: Pesquisa “Manifestação 16/8: perfil e percepção dos manifestantes em Vitória (ES)”, 2015. Figura 3 Apoio à volta dos militares ao poder – Espírito Santo (2015) Fonte: Pesquisa “Manifestação 16/8: perfil e percepção dos manifestantes em Vitória (ES)”, 2015. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 25 22/03/16 17:39
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Riberti de Almeida Felisbino | Vitor Amorim de Angelo 26política bastante significativo foi o percentual elevado de pessoas que admitiriam uma intervenção militar no Brasil, conforme a Figura 3, percentual que su- pera, na soma, a quantidade de manifestantes “to- talmente contrária” à interrupção da ordem demo- crática no país. Os resultados da pesquisa realizada no Espíri- to Santo convergem para os dados divulgados pe- lo Latinobarómetro sobre a adesão dos brasileiros à democracia, igualmente baixos. Também im- porta destacar que o mesmo instituto de pesquisa vem aferindo, ao longo de muitos anos, que as le- gendas partidárias possuem uma baixa confiabili- dade no Brasil. Os gráficos ao lado mostram a os- cilação do apoio à democracia (Figura 4) e a cres- cente desconfiança em relação aos partidos (Figura 5) no país. Como podemos observar na Figura 4, 83% dos surveys realizados pelo Latinobarómetro constataram que o percentual dos brasileiros que preferem a de- mocracia a qualquer outra forma de regime político nunca ultrapassou 50%, indicando que a democracia não foi bem avaliada pelos entrevistados. Por outro lado, nos anos de 2009, 2010 e 2015, o Latinobaró- metro revelou que os respectivos percentuais che- garam a 55%, 54% e 54% do total, com um peque- no aumento na adesão ao regime democrático no país. Quanto à Figura 5, fica evidente que os parti- dos são instituições com pouca ou nenhuma con- fiança no interior da sociedade civil. Em pesquisa recente com os eleitores paulistanos, o Datafolha identificou que 71% dos entrevistados não têm pre- ferência por qualquer sigla partidária.5 Os dados dos surveys apresentados indicam a baixa aceitabilidade da democracia e das suas instituições. Apesar disso, como Freidenberg (2007, p.2) bem disse, a “Amé- rica Latina é hoje muito mais democrática do que há trinta anos” (tradução dos autores). Desenho institucional e suas combinações As informações da Figura 6 (próxima página) mos- tram o atual desenho institucional do sistema polí- tico do Brasil, que combina o presidencialismo com um regime político democrático e um modelo de Estado federal. Tal estrutura também conta com a 1995 1996 1997 1998 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2013 2015 60 50 40 30 20 10 0 Figura 4 Adesão à democracia – Brasil (1995-2015) Fonte: Pesquisa Latinobarómetro, 2015. A democracia é preferrível Indiferente ou não democracia Em alguns momento, um governo autoriário é preferível 1995 1996 1997 1998 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2013 2015 60 50 40 30 20 10 0 Nenhuma Pouca Alguma Muita Figura 5 Grau de confiança nos partidos políticos – Brasil (1995-2015) Fonte: Pesquisa Latinobarómetro, 2015. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 26 22/03/16 17:39
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    PolitiKa Governança e instituiçõesdemocráticas no Brasil contemporâneo 27 presença de um sistema eleitoral de representação majoritária e pro- porcional com lista aberta,6 abri- gando, atualmente, 35 legendas partidárias (multipartidarismo) em constante disputa na arena eleito- ral. No bicameralismo brasileiro, do total de 35 partidos, 28 têm assento na Câmara dos Deputados e 15, no Senado Federal. Uma parte da literatura espe- cializada pode ser agrupada pelos estudos que analisam o sistema de governo e os sistemas eleitoral e partidário, defendendo a ideia de que a combinação dessas insti- tuições cria instabilidade insti- tucional – consequência que, por seu turno, oferece aos titulares do poder pouca governança (Ames, 2003, 1986; Lamounier, 1989; Lamounier e Meneguello, 1986; Mainwaring, 2003, 1993, 1991; Mainwaring e Shugart, 1993; Mainwaring e Scully, 1994; Mainwaring e Liñan, 1998; Linz, 1991; Campos, 1974; Kinzo, 1988). Outra parte foca na aná- lise das regras do processo legis- lativo, defendendo a tese de que existem mecanismos institucio- nais que permitem a governança e a estabilidade das decisões (Amo- rim Neto, 2000, 1994; Amorim Neto e Tafner, 1999; Cheibub, Przeworski e Saiegh, 2002; Fi- gueiredo e Limongi, 2006, 2004, 2002, 1999, 1995a, 1995b, 1994; Meneguelo, 1998; Pereira e Muel- ler, 2002; Santos, 2003, 2002, 2000, 1998, 1997). Essas ideias decorrem das con- clusões dos trabalhos publicados por Juan J. Linz e outros sobre o sistema de governo (presidencia- lismo) adotado nos países da América Latina. Para Linz (1991), a funcionabilidade do presiden- cialismo poderia criar dificulda- des à governança e ameaçar a es- tabilidade do regime democráti- co. Todavia, se combinado com a representação proporcional de lista aberta e com um sistema multipartidário, o presidencialis- mo poderia aumentar ainda mais os conflitos entre os poderes Exe- cutivo e Legislativo, o que, por sua vez, afetaria drasticamente a governança (Mainwaring e Shu- gart, 1993). Visto que o Brasil apresenta essa combinação, seria presumível que o país vivesse, como afirma Lamounier (1992, 1992a), uma “síndrome de para- lisia hiperativa”. Esse prognósti- co, no entanto, não se confirma no funcionamento das institui- ções brasileiras. Sérgio Abranches, em seu ar- tigo seminal O presidencialismo de coalizão: o dilema institucional brasi- leiro, defende que o conflito entre os poderes Executivo e Legislati- vo é um problema para a estabili- dade da democracia e da capaci- dade de governar. Esse conflito seria causado por dois fatores: a grande fragmentação partidária no interior do poder Legislativo, de um lado, e a “agenda inflacionada de problemas e demandas impos- ta ao Executivo”, de outro (Abran- ches, 1988, p.8). O mais proble- mático dos dois fatores, segundo o autor, é a alta fragmentação par- tidária, que comprometeria a for- mação de maiorias estáveis para aprovar as reformas propostas pe- lo presidente da República. A so- lução para esse “dilema institu- cional brasileiro” (Abranches, 1988) seria criar coalizões gover- namentais – prática comum, há muito tempo, por parte do Exe- cutivo federal. A essa prática, que combina proporcionalidade, multipartida- rismo, um presidencialismo que confere muitas atribuições ao che- fe do Executivo e um governo que opera com grandes coalizões, Abranches atribui o nome de “pre- sidencialismo de coalizão”. A ar- ticulação existente no sistema po- lítico brasileiro entre representação proporcional de lista aberta, mul- tipartidarismo extremado e presi- dencialismo, num mesmo arranjo estratégico, comprovou que as pro- posições de Linz carecem de sus- Sistema de governo Regime Político Modelo de Estado Sistema Eleitoral Sistema Partidário Estrutura Legislativa Presidencialismo Democracia Federal Representação majoritária e proporcional com lista aberta Multipartidário Bicameral Figura 6 Desenho institucional – Brasil Fonte: Elaboração própria. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 27 22/03/16 17:39
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Riberti de Almeida Felisbino | Vitor Amorim de Angelo 28política tentação empírica. Trabalhos co- mo o de Limongi (2006) afirmam que o presidencialismo brasileiro não possui nada de “peculiar, de especial”, a ponto de exigir algu- ma forma de qualificação, como se “não praticássemos um presi- dencialismo normal ou corriquei- ro”. A despeito da falta de con- fiança nas instituições democrá- ticas, como vimos na primeira parte deste texto, Limongi (2006) demonstra que, na comparação com outras democracias que ado- tam o presidencialismo, ou mes- mo em comparação com regimes parlamentaristas, o processo de- cisório – ou seja, a capacidade de governar – verificado no Brasil é muito semelhante. Presidencialismo e instabilidade institucional Segundo a perspectiva neoinsti- tucionalista, na sua vertente da escolha racional, os indivíduos têm interesses próprios e, para atingi-los, procuram agir estra- tegicamente, da maneira mais racional possível. Para evitar que suas ações prejudiquem os demais atores, o arranjo institucional é importante para disciplinar e co- agir seus comportamentos. Este raciocínio pode ser aplicado aos membros que ocupam os pode- res Executivo e Legislativo, pois estes também têm seus anseios. Para concretizá-los, constroem coalizões políticas para facilitar a troca de interesses entre os ato- res envolvidos no processo de tomada de decisão. Essas coali- zões permitem agregar diversos interesses, que, por sua vez, sus- tentam a democracia e o presi- dencialismo, possibilitando um exercício eficiente e coerente da governança. A literatura que trata do presi- dencialismo é extremamente ampla e diversificada. Com frequência, como em Limongi (2006), os tra- balhos sobre o presidencialismo comparam esse sistema de governo com o parlamentarismo. Essa com- paração pode parecer imprópria, mas consideramos relevante reali- zá-la, uma vez que permite iden- tificar os problemas e as virtudes desses sistemas, sobretudo o presi- dencialismo. Quando parte da li- teratura realiza essa comparação, seu intento é investigar a suposta ineficiência e instabilidade do pre- sidencialismo, por sua natural di- visão de poderes, que gera conflitos permanentes entre Executivo e Le- gislativo (Linz, 1991). Para alguns estudiosos, como Mainwaring (1993), por exemplo, esse conflito pode ameaçar a sobrevivência do próprio regime democrático, es- tando, portanto, implicitamente defendida a tese de que a combi- nação entre presidencialismo e de- mocracia é uma união indesejada. Essa visão distorcida da reali- dade resulta das conclusões de tra- balhos como os publicados por Linz (1991) e por outros especia- listas, como Arturo Valenzuela, Arend Lijphart e Alfred Stepan, sobre o sistema de governo pre- dominante na América Latina a partir da “terceira onda de demo- cratização”. Para Linz (1991), a rigidez institucional do presiden- cialismo produziria crises de go- vernança, dificultando a atividade governamental e ameaçando a es- tabilidade do regime democrático, sendo a governança, aqui, enten- dida como a capacidade de o che- fe do poder Executivo aprovar sua agenda no interior no Legislativo (Sáez, 1993; Lacerda, 2005). Essas crises ocorreriam porque os ordenamentos jurídicos, como a Constituição Federal, não dis- põem de mecanismos para resolver os frequentes conflitos entre os poderes Executivo e Legislativo. A situação poderia ser ainda mais complexa nos sistemas políticos que, a exemplo do Brasil, combi- nam o presidencialismo com ou- tras instituições, como a represen- tação proporcional de lista aberta ou o sistema partidário altamente fragmentado; ou, ainda, com am- bos. Quanto ao desenho institu- cional existente no Brasil, Mainwa- ring (1993, p. 67) ressalta que a união de “presidencialismo em um sistema multipartidário fragmen- tado contribui para as dificuldades de constituição de um governo democrático eficaz”. Essa combinação institucio- nal geraria governos minoritários e divididos em coalizões frágeis e incoerentes, aumentando, por sua vez, os conflitos entre os po- deres Executivo e Legislativo. Todos os países latino- americanos são presidencialistas, com exceção da Bolívia, que tem um sistema presidencialista parlamentarizado. A explicação está na formação de coalizões de governo. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 28 22/03/16 17:39
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    PolitiKa Governança e instituiçõesdemocráticas no Brasil contemporâneo 29 Também essa combinação pro- duziria um desenho institucional que frequentemente é citado pe- la literatura como o mais incapaz de produzir políticas públicas efi- cientes e de promover a gover- nança. Kinzo (1988), também se referindo ao Brasil, lembra que as reformas promovidas pelos cons- tituintes na década de 1980 não alteraram as instituições que mais fortemente influenciam os siste- mas eleitoral e partidário. Para a autora, “a preservação do presi- dencialismo [...] não deixará de ser um fator a dificultar o ama- durecimento dos partidos no sen- tido de se tornarem mais respon- sivos em sua função representati- va” (Kinzo, 1988, p. 34-35). No Brasil, de acordo com Ca- rey (1997, p. 68), “o sistema elei- toral cria fortes incentivos para os legisladores cultivarem lealdades pessoais entre os eleitores, mesmo quando isso significa ignorar a agenda de suas bancadas partidá- rias” (tradução dos autores). Ca- rey ressalta, ainda, que, dessa for- ma, “os presidentes não podem contar com coalizões legislativas estáveis para negociar sua políti- ca”. Em Nem presidencialismo, nem parlamentarismo, Sartori (1993) es- tá de acordo com esses argumen- tos, chamando a atenção para o fato de que os políticos “mudam de partido e, frequentemente, vo- tam em desacordo com sua orien- tação e se recusam a aceitar qual- quer tipo de disciplina partidária”. Nessas condições, o autor conclui que, no Brasil, os partidos “são entidades voláteis e destituídas de poder” e que o “presidente brasi- leiro fica boiando num vácuo, so- bre um Parlamento incontrolável e eminentemente atomizado” (Sartori, 1993, p. 11). Outros trabalhos destacam que a baixa disciplina dos principais partidos seria uma das caracterís- ticas negativas do sistema político brasileiro (Mainwaring 2003, 1993, 1991; Mainwaring e Shu- gart, 1993; Mainwaring e Scully, 1994; Mainwaring e Liñan, 1998). Dessa perspectiva, nossos sistemas eleitoral e partidário, quando com- parados aos de outras nações, se- riam subdesenvolvidos, e as legen- das partidárias não ofereceriam governança aos detentores do po- der. Mainwaring (1993) chega a considerar que os responsáveis pe- lo mau funcionamento do sistema político são os partidos, pois eles concentram políticos com vocação individualista, que, uma vez elei- tos, buscam seus interesses por meio do clientelismo. Comparti- lhando algumas percepções de Mainwaring, Ames (2003, 1986) destaca que as siglas partidárias brasileiras dificilmente poderiam ser consideradas verdadeiras legen- das partidárias. Presidencialismo e estabilidade institucional Do ponto de vista histórico, as de- mocracias mais estáveis no mundo são parlamentaristas. A Figura 7, a seguir, apresenta as democracias estáveis, por eleições populares ininterruptas, e o tipo de sistema de governo no período de 1967 a 1992. Depreende-se da tabela que 24 países são parlamentaristas, en- quanto apenas quatro são presi- dencialistas; os demais são semi- presidencialistas (França e Finlân- dia) ou híbrido (Suiça). Talvez as informações da tabela possam ter estimulado Linz e ou- tros a pensarem no fracasso do presidencialismo frente ao parla- mentarismo.7 Embora as informa- ções coroem o sucesso do sistema parlamentarista mundo afora, ain- da de acordo com Mainwaring e Shugart (1993, p. 196) “não está claro até que ponto o presiden- cialismo per se é responsável pela baixa taxa de sucesso das demo- cracias presidencialistas”. Estes autores cogitam que, talvez, essa baixa taxa de sucesso esteja rela- cionada com os países menos de- senvolvidos e com o descompro- misso das elites políticas com os valores democráticos. Linz (1991) apresenta cinco ca- racterísticas negativas relacionadas a esse sistema de governo, sendo duas pautadas nos aspectos insti- tucionais e as demais, nos aspectos políticos. As características nega- tivas, segundo o autor, poderiam comprometer o funcionamento da democracia. Um primeiro aspec- to destacado pelo autor diz respei- to ao que se poderia considerar um conflito de legitimidade entre o presidente da República e os parlamentares. Tanto o chefe do poder Executivo quanto os parla- mentares são eleitos pelo voto po- pular. Quando apresentam pro- postas de lei divergentes, ambos podem apelar diretamente ao po- vo como sustento da sua autorida- de. “Quem está mais legitimado para falar em nome do povo?”, pergunta Linz (1991, p. 66). O au- tor ressalta que tal impasse pode criar conflitos com chances de romper o regime. Geralmente, os impasses acontecem no momento do aperfeiçoamento das propostas Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 29 22/03/16 17:39
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Riberti de Almeida Felisbino | Vitor Amorim de Angelo 30política de lei, inexistindo uma terceira ins- tância que possa resolver o conflito.8 Outra característica negativa está ligada ao mandato fixo do che- fe do Executivo e à impossibilida- de de reeleição. Nesse sistema de governo, o presidente da Repúbli- ca é eleito por um período que não pode ser modificado. O mandato fixo, segundo Linz, é um proble- ma, pois um presidente da Repú- blica considerado impopular e um que tenha perdido o apoio da maio- ria dos parlamentares só podem ser afastados pelo impeachment. Em re- lação ao impeachment, ele só é usado para afastar o presidente da Repú- blica, como aconteceu no Brasil em 1992, com Fernando Collor de Mello, quando é comprovado seu envolvimento em atos ilícitos, co- mo corrupção, por exemplo. Para Linz, a impossibilidade da reeleição do presidente dificultaria julgá-lo ou recompensá-lo pelo seu exercício frente ao poder Executi- vo. Como observado pelo autor há algum tempo, “um presidente que não pode ser reeleito não é respon- sável” (Linz, 1994 apud Mayorga, 2001, p.101). Quanto à reeleição, vale lembrar que este instituto exis- te, hoje, em muitas constituições, dentre as quais a brasileira. Entre- tanto, nos países em que a reeleição não é permitida, como no México, isso não afeta a estabilidade nem a legitimidade do regime, pois as ins- tituições estruturam as regras, fi- xando os comportamentos dos ato- res envolvidos. A terceira característica nega- tiva é que a Presidência da Repú- blica não se divide. Em outras pa- lavras, como no velho ditado po- pular, “o ganhador leva tudo e o perdedor chupa os dedos”. Se o Paises A* Tipos de sistema de governo Parlamentarista Presidencialista Semipresedencialista Híbrido Austrália 1900 Áustria 1945 Alemanha 1949 Bélgica 1831 Botswana 1960 Barbados 1966 Canadá 1867 Dinamarca 1855 Holanda 1848 Islândia 1874 Irlanda 1921 Itália 1946 Israel 1949 Índia 1952 Japão 1946 Jamaica 1962 Luxemburgo 1868 Liechtenstein 1918 Malta 1964 Noruega 1814 Nova Zelândia 1852 Reino Unido 1832 Suécia 1866 Trindade e Tobago 1962 Colômbia 1958 Costa Rica 1958 Estados Unidos 1788 Venezuela 1958 Finlândia 1906 França 1946 Suíça 1848 Figura 7 Eleições populares ininterruptas e tipos de sistema de governo Fonte: Adaptado de Mainwaring e Shugart (1993), p. 195. A* = Eleições populares ininterruptas. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 30 22/03/16 17:39
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    PolitiKa Governança e instituiçõesdemocráticas no Brasil contemporâneo 31 partido do chefe do Executivo dis- põe de apoio suficiente no Poder Legislativo, o presidente da Re- pública não terá incentivos para compartilhar a composição do seu governo com as outras forças po- líticas dentro do Legislativo. Co- mo se sabe, tal situação vai depen- der muito do tipo de sistema par- tidário. No caso do Brasil, onde a fragmentação é significativa, é im- provável que a legenda do presi- dente da República consiga essa maioria. Logo, a solução é dividir o governo com outros partidos a fim de garantir a governança e conseguir aprovar a agenda do Executivo no Legislativo. Em ou- tros termos, isso significa criar uma coalizão que permita coordenar as atividades de governança, confor- me explica Limongi (2006, p.19): “Presidentes sempre seriam força- dos a formar coalizões para gover- nar, mesmo, por paradoxal que pareça, se seu partido fosse majo- ritário. Isso porque coalizões não seriam formadas apenas de acordo com o critério partidário. Ou me- lhor, esse método usual de forma- ção de coalizões seria insuficiente para dar a sustentação política ne- cessária ao presidente. Federalis- mo, o poder dos governadores e a diversidade e heterogeneidade da sociedade brasileira, mais do que o número de partidos, tornavam coalizões imperiosas.” Por regra, caso queira efetiva- mente governar, o presidente terá que recorrer à coalizão. Para al- guns analistas, o desenho institu- cional dos sistemas eleitoral e par- tidário brasileiro estimularia os políticos a terem um comporta- mento individualista para conquis- tar uma cadeira no Legislativo. Depois de eleitos, eles carregariam para a arena legislativa o sentimen- to individualista, e, nesse espaço, agiriam independentemente do partido, reforçando a fraqueza das legendas (Mainwaring, 2003; Ames, 2003). Isso significa que as coalizões estariam fadadas ao fra- casso, trazendo instabilidade à go- vernança e impulsionando o de- sequilíbrio entre os poderes. Todavia, alguns estudos apre- sentam uma releitura da funcio- nabilidade do sistema político bra- sileiro. Esses estudiosos se contra- põem à parte da literatura sobre o tema, resgatando a atuação dos partidos no processo decisório e a importância da organização legis- lativa no interior das duas casas do Congresso Nacional. Esses analis- tas nos oferecem evidências em- píricas de que, no Brasil, os pro- cessos legislativos são centralizados e favoráveis ao governo na apro- vação de suas agendas. Os problemas criados pelos sis- temas eleitoral e partidário, ante- riormente apontados, são anulados na arena legislativa, que garantiria mais estabilidade às decisões co- letivas. A governança não seria prejudicada por possíveis proble- mas produzidos pela junção do presidencialismo com os sistemas eleitoral e partidário. Na arena le- gislativa o comportamento dos parlamentares seria influenciado pelos partidos em suas votações. Ao analisar as votações nominais do período de 1989 a 1999 e as regras do processo decisório nesse período, o trabalho de Figueiredo e Limongi (1999) revelou existir disciplina partidária na Câmara dos Deputados, o que significa que a instabilidade está longe de ocor- rer. A estabilidade é o padrão da ação coletiva naquela arena. Como recordado pelos autores, “a teoria existente nos diz que não deveria haver disciplina partidária no Congresso brasileiro. [Porém], em média, 89,4% do plenário vo- tam de acordo com a orientação de seu líder, taxa suficiente para predizer, com acerto, 93,7% das votações nominais” (Figueiredo e Limongi, 1999, p. 20). Ao mesmo tempo, o plenário também seria influenciado pelas regras do jogo parlamentar, que são altamente centralizadas em um pequeno gru- po, chamado de “colégio de líde- res”. É importante dizer que esse colégio funciona como um órgão auxiliar da mesa diretora da Câ- mara dos Deputados: elabora a agenda de apreciação de proposi- ções para o estabelecimento da ordem do dia do plenário e, o que é mais importante, interfere subs- tantivamente nas decisões por meio do recurso de tramitação urgente (Figueiredo e Limongi, 1999). Is- so significa que essa instância não apenas concentra poder de deci- são, como controla a pauta dos trabalhos legislativos. A contestação das ideias expos- tas na seção anterior somente foi possível porque aqueles estudos, na sua maioria, fundamentavam-se “em teses formais, baseando suas argumentações nas expectativas ló- gicas que os modelos teóricos ad- vogam para a realidade, sem, con- tudo, atentar tanto para a realidade política em si quanto para outras variáveis não previstas pelos mode- los” (Peres, 2000, p. 92). É exata- mente esta a postura metodológica adotada por Figueiredo e Limongi, que propuseram um novo direcio- Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 31 22/03/16 17:39
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Riberti de Almeida Felisbino | Vitor Amorim de Angelo 32política namento analítico, deslocando a análise dos sistemas eleitoral e par- tidário para o processo de decisão no interior do Poder Legislativo. O segredo do sucesso estaria na pró- pria organização legislativa e no controle rígido que alguns atores institucionais – o presidente da Re- pública, os presidentes da mesa di- retora e das principais comissões permanentes e, especialmente, as lideranças partidárias – exercem so- bre a maioria dos parlamentares nas casas legislativas. Retomando o trabalho de Linz (1991), lembremos que o presidencialismo, segundo o au- tor, cria no presidente da Repú- blica um sentimento de que a legitimidade do mandato popu- lar reside na sua pessoa. Este fa- to é um dos grandes problemas dos sistemas eleitoral e partidário que incentivam a personificação do político. Tal constatação cons- titui a quarta característica ne- gativa apresentada por Linz (1991). O presidente descarta que existam outras instituições polí- ticas, como o Poder Legislativo e até mesmo os partidos, passan- do a governar com medidas pro- visórias, sem o apoio direto des- tas instituições. Finalmente, a última característica negativa apontada pelo autor diz respeito ao acesso de pessoas com pouca ou nenhuma experiência políti- ca e administrativa à coordena- ção do governo. Sua chegada ao poder pode produzir drásticas consequências à democracia. A história política da América La- tina já testemunhou casos dessa natureza, como o Brasil de Fer- nando Collor e o Peru de Alber- to Fujimori. À guisa de conclusão Devemos ser céticos com as nega- tividades sobre a relação entre o presidencialismo e as demais ins- tituições políticas, sob o risco de fazermos análises enviesadas de todo o sistema e não vislumbrar- mos os aspectos positivos que o presidencialismo apresenta. Mainwaring e Shugart (1993) ve- rificaram a pertinência das carac- terísticas negativas atribuídas por Linz ao presidencialismo e con- cluíram que elas precisariam ser relativizadas. Os autores mostra- ram que o sistema parlamentaris- ta também tem seus problemas, sendo um deles – compartilhado com o sistema presidencialista – a possibilidade de conflito de legi- timidade. Segundo Mainwaring e Shugart (1993), esse conflito é inerente a todos os sistemas que adotam alguma forma de divisão de poderes. Os autores também reconhecem que o mandato fixo do presidente da República difi- culta sua substituição em caso de perda de apoio, mas, em contra- partida, o chefe do Executivo po- de recuperar apoio ao longo do mandato, sem interromper seu pro- grama de governo, como aconte- ce no sistema parlamentarista. Embora Linz tenha chamado aatençãodosestudiososedosmem- bros das elites políticas para os pro- blemas gerados pelo presidencia- lismo,muitosregimesdemocráticos com esse sistema de governo têm sobrevivido mundo afora. O que explicaria, então, a estabilidade do presidencialismo na América Lati- na, sobretudo no Brasil? O curio- so é que todos os países latino-ame- ricanos são presidencialistas, à ex- ceção da Bolívia, que, segundo Mayorga (2001), tem um sistema presidencialista parlamentarizado.9 A explicação para tal permanência do sistema está na formação de co- alizões de governo. Quanto à coalizão, Amorim Neto (1994) observa que, em 25 anos de governo presidencialista nos períodos democráticos (1946- 1964 e pós-1988), a maioria dos chefes do Executivo do Brasil op- tou pela formação de coalizão. A Figura 8, a seguir, mostra os tipos de governo no Brasil nos dois pe- ríodos, podendo-se observar que 63,1% deles constituíram governos de coalizão. Essa informação sig- nifica que a maioria dos governos formados nas duas experiências democráticas brasileiras seguiu a estratégia de construção de apoio partidário no Congresso Nacio- Coalizão Cooptação Figura 8 Tipos de governo no presidencialismo brasileiro – (1946-1964/1988-1994) Fonte: Adaptado, (Amorim Neto, 1994 apud Peres, 2000, p. 93). Apartidário 63,1% 31,5% 5,4% Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 32 22/03/16 17:39
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    PolitiKa Governança e instituiçõesdemocráticas no Brasil contemporâneo 33 nal, ou seja, um acordo entre o chefe do Executivo e os partidos que integram a base de apoio ao governo. Essa estratégia tem por objetivo articular uma composi- ção majoritária em torno do par- tido do presidente da República. Quando não existe um acordo en- tre o presidente e os partidos, o chefe do Executivo tem duas op- ções: formar um governo por co- optação ou fazer um governo apar- tidário. Ao longo dos períodos de 1946 a 1964 e de 1988 a 1994, 31,5% foram governos de coopta- ção, enquanto somente 5,4% fo- ram governos apartidários. Alguns analistas denominam essa coalizão de governo de “pre- sidencialismo de coalizão” (Abran- ches, 1988), “presidencialismo de compromisso” (Lanzaro, s/d) ou, ainda, “presidencialismo de coa- lizão racionalizado”, como prefe- rem outros estudiosos (Huber, 1996 apud Santos, 2003). Tais de- nominações são meros ajustes lin- guísticos, pois o mais importante é que o arranjo mantenha o equi- líbrio entre os poderes para evitar instabilidades na governança. Es- se equilíbrio, segundo a teoria de Nash, é a situação em que nenhum ator tem incentivos para desviar- -se de determinado curso de ação, tendo em vista que os outros tam- bém não o terão (Sánchez-Cuen- ca, 2004; Gibbons, 1992; Pérez, Jimeno e Cerda, 2004). Como vimos, Linz aponta al- gumas características negativas do presidencialismo que constituiriam um perigo à estabilidade da de- mocracia. Esse perigo poderia ser mais crítico se o presidencialismo fosse combinado com o multipar- tidarismo e com a representação proporcional de lista aberta. En- tretanto, as previsões linznianas não foram confirmadas. O segre- do da estabilidade, sobretudo no Brasil, está no dito presidencialis- mo de coalizão, que convive ami- gavelmente com uma espécie de “touro de minos”, assim caracte- rizado por Carvalho (2003, p. 211): “[...] de um lado, uma cabeça le- gislativa inglesa – Congresso com partidos disciplinados, estrutura interna centralizada e agenda mo- nopolizada pelo Executivo – de outro, um corpo eleitoral norte- -americano – voto personalizado, individualização e atomização do processo político e, sobretudo, um único conjunto de incentivos se dirigindo à arena legislativa: a ló- gica do particularismo, a perse- guição, por parte dos eleitos, de benefícios desagregados como ca- minho de reprodução de seus res- pectivos mandatos.” Assim é o Brasil, portanto. Co- mo um Minotauro, que possui um corpo (sistemas eleitoral e partidá- rio) que cria atores totalmente in- dependentes, em busca de benefí- cios para atender a seus objetivos, e uma cabeça (sistema parlamentar) que reeduca estes atores, constran- gendo-os a agir de forma sintoni- zada com seus partidos, oferecendo, assim, governança ao Brasil, inde- pendentemente das avaliações ne- gativas a seu respeito e da percepção um tanto difusa de que já não im- portam para o sistema político. Em síntese, os problemas ocor- ridos no interior do sistema políti- co são bloqueados por várias ins- tâncias e atores no interior do Con- gresso Nacional, arena das principais e mais abrangentes de- cisões políticas tomadas no país. Isso significa dizer que, ao chega- rem ao Legislativo, os parlamenta- res são condicionados por uma es- trutura de oportunidades que os leva a seguir as diretrizes partidá- rias, tornando o partido uma ins- tituição imprescindível para a ma- nutenção da capacidade de gover- nar. Apesar das considerações de Moisés (2010) sobre a falta de con- fiança dos brasileiros nas institui- ções democráticas, os partidos – que, provavelmente, constituem uma das principais instituições des- te regime – continuam sendo um elemento fundamental para a go- vernança no Brasil dentro do de- senho institucional existente no país. Sem diminuir a dimensão po- lítica e social do problema, o fato é que a contradição entre essa im- portância dos partidos e sua péssi- ma avaliação, como revelado nas pesquisas citadas antes, é uma ques- tão de outra natureza, ligada à in- capacidade crescente de as legendas conseguirem mobilizar a sociedade e fazê-la se identificar com seus re- presentantes políticos. No entanto, do ponto de vista institucional (par- lamentar), os partidos continuam sendo, sim, uma instituição impres- cindível para governar. n Há uma contradição entre a importância dos partidos e a péssima avaliação que se faz sobre eles. Do ponto de vista institucional, os partidos continuam a ser imprescindíveis. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 33 22/03/16 17:39
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Riberti de Almeida Felisbino | Vitor Amorim de Angelo 34política Notas 1. Segundo Manin, num governo representati- vo, (1) os representantes são escolhidos pelos representados em eleições periódicas; (2) no exercício de seus mandatos, os representantes conservam certa independência em relação às preferências dos eleitores; (3) a opinião públi- ca sobre assuntos políticos pode se manifestar sem o controle do governo; e (4) as decisões políticas são tomadas em assembléia, pelos re- presentantes, após debate. 2. Dahl enumera oito garantias institucionais mínimas para a existência de um regime de- mocrático inclusivo, com grande número de pessoas: (1) liberdade de formar e aderir a or- ganizações, (2) liberdade de expressão, (3) direito de voto, (4) elegibilidade para cargos políticos, (5) direito de líderes políticos dis- putarem apoio, (6) eleições livres e idôneas, (7) fontes alternativas de informação e (8) ins- tituições para fazer com que as políticas go- vernamentais dependam de eleições e de ou- tras manifestações de preferência. 3. Nas últimas duas décadas, com variações, as eleições norte-americanas têm mobilizado entre 1/3 e 2/3 dos eleitores. Na França, a abstenção vem crescendo desde o final dos anos 1970, chegando a 35,91% no primeiro turno das eleições municipais de 2014. No Brasil, no primeiro turno da última eleição presidencial, as abstenções somaram 27,6 mi- lhões de votos. Junto com os votos brancos (4,4 milhões) e nulos (6,6 milhões), a quan- tidade de eleitores que não votou em nenhum candidato a presidente (38,6 milhões) supera o total de votos recebidos por Aécio Neves (37,8 milhões). 4. Pesquisa Manifestação 16/8: perfil e percepção dos manifestantes em Vitória (ES). Disponível em www.uvv.br/sociologia. 5. Desinteresse pelos partidos em São Paulo é recorde, mostra Datafolha. Disponível em www.folha- online.com.br. Acesso em 03 nov. 2015. A pesquisa Manifestação 16/8: perfil e percepção dos manifestantes em Vitória (ES) chegou a re- sultados semelhantes. Em Vitória, apenas 0,55% dos entrevistados declararam ter “mui- ta confiança” nos partidos, sendo que 60,66% disseram ter “nenhuma confiança” nas legen- das existentes, hoje, no país. 6. A representação com dois turnos é utilizada nas eleições presidente da República, gover- nadores e prefeitos de municípios com mais de 200 mil eleitores. A maioria simples, por sua vez, é usada nas eleições para prefeitos de cidades com menos de 200 mil eleitores e pa- ra o Senado. A representação proporcional com lista aberta é aplicada nas eleições para deputados federais, deputados estaduais e ve- readores. 7. Não podemos esquecer que, no Brasil, entre setembro de 1961 e janeiro de 1963, três ga- binetes parlamentaristas se sucederam no po- der, chefiados, respectivamente, pelos primei- ros-ministros Tancredo Neves (PDS/MG), Brochado da Rocha (PDS/RS) e Hermes Li- ma (PSB/BA). 8. Quanto a isto, deve-se dizer que as constitui- ções preveem mecanismos institucionais para revolver os impasses entre os poderes Execu- tivo e Legislativo, como, por exemplo, o veto do presidente da República e a recusa do ve- to pelos parlamentares. 9. O artigo 90 da atual Constituição boliviana estabelece que os parlamentares elegerão, ca- so nenhum candidato a presidente da Repú- blica receba a maioria absoluta dos votos, o chefe do Executivo por maioria absoluta entre os dois mais votados. Referências Abranches, Sérgio (1988). “Presidencialis- mo de coalizão: o dilema institucional bra- sileiro”, Rio de Janeiro, Revista Dados, v.31, nº. 1. Ames, Barry (2003). Os entraves da democracia no Brasil, Rio de Janeiro, Editora FGV. _______________(1986). “O Congresso e a po- lítica orçamentária no Brasil durante o pe- ríodo pluripartidário”, Rio de Janeiro, Re- vista Dados, v. 29, nº. 2. Amorim Neto, Octávio (2000). “Gabinetes presidenciais, ciclos eleitorais e disciplina legislativa no Brasil”, Rio de Janeiro, Re- vista Dados, v. 43, nº. 3. _______________ (1994). “Formação de gabi- netes presidenciais no Brasil: coalizão ver- sus cooperação”, Belo Horizonte, Revista Nova Economia, v. 4, nº. 1. 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    Nº 3 _MARÇO 2016 36 A Seguridade Social e a economia brasileira no início do século XXI O gasto público com políticas sociais conquistou um novo lugar entre os instrumentos de política econômica após 2004, quando passou a ser um dos determinantes do dinamismo da economia nacional. A cone- xão entre benefícios sociais e nível de atividade econômica foi decisi- va. Ao ativar diretamente o consumo das famílias, esse tipo de gasto passou a impulsionar a demanda agregada, por sua elevada magnitude (12,6% do PIB em 2014)1 e por ser uma renda dirigida a uma popu- lação com alta propensão a consumir (idosos carentes, pensionistas, enfermos, acidentados, famílias de baixa renda e desempregados). A redução da pobreza e da desigualdade, medidas pelo índice de Gini, foi saudada como um evento histórico único para o Brasil e a Denise Lobato Gentil Doutora pelo Instituto de Economia da UFRJ, onde leciona macroeconomia e economia do setor público. Pesquisa na área de macroeconomia, com ênfase em política fiscal e Sistema de Seguridade Social. E-mail: deniselg@uol.com.br O sistema de previdência pública no Brasil voltou a ser alvo de reformas com o severo ajuste fiscal que norteia a estratégia do governo de 2015. O Brasil vive agora uma nova realidade, com queda acentuada do PIB, elevação do desemprego e redução dos salários. O debate sobre os mecanismos de sustentação da previdência pública exige respostas diferentes daquelas que usualmente são empregadas pelo discurso liberal- ortodoxo. Este artigo reúne argumentos para provar que as variáveis mais importantes da equação financeira da previdência pública são o nível do emprego formal, o patamar dos salários e a produtividade do trabalho. Portanto, a política econômica é o principal elemento que precisa ser levado em conta no debate sobre a “crise” da previdência. As grandes fragilidades estruturais de um sistema previdenciário também decorrem da baixa produtividade da indústria, incapaz elevar a produção dos trabalhadores ativos, que serão os agentes de sustentação da população idosa, enferma e desempregada. Não é possível analisar a questão previdenciária dentro de si mesma. Seus determinantes estão na economia vista como um todo. Perspectivas e constrangimentos do sistema de previdência pública no Brasil Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 36 22/03/16 17:39
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    PolitiKa Perspectivas e constrangimentosdo sistema de previdência pública no Brasil 37 América do Sul no período 2011- 2014 (Cepal, 2012 e 2012B). Os mecanismos que produziram esse resultado de forte impacto políti- co foram as transferências de ren- da para as famílias, o crescimento real do salário mínimo, a expansão do crédito para pessoas de baixa renda e para pequenas e médias empresas e, sobretudo, o cresci- mento do emprego formal. Essa mudança tornou-se viável num cenário de relaxamento das restri- ções externas no Brasil e nos pa- íses sul-americanos, por causa da maior liquidez internacional e da elevação do preço das commodities, o que facilitou o crescimento eco- nômico da região, apoiado, sobre- tudo, na expansão do consumo. O novo cenário de crescimento levou também a um afrouxamen- to das restrições fiscais, com cres- cimento das receitas tributárias, mais especialmente das receitas vinculadas aos gastos sociais na área de previdência, saúde e assis- tência social. No entanto, os governos do Partido dos Trabalhadores apenas adicionaram políticas de impacto social à política econômica con- servadora criada durante o se- gundo governo de Fernando Henrique Cardoso, quando vi- gorou o dogma do tripé macro- econômico (metas de inflação, metas fiscais e câmbio flutuante). Por esse motivo, os aspectos virtuosos do período histórico recente foram erguidos num ce- nário de enormes debilidades es- truturais, que acabaram por abre- viar as conquistas sociais, trans- formando-as apenas num resultado transitório de um ciclo favorável que começou a se esgo- tar em 2014-2015. A partir de 2011, a desaceleração persistente no cenário internacional e a re- orientação da política macroeco- nômica doméstica para um viés mais ortodoxo, de corte recessi- vo, foram deteriorando os indi- cadores econômicos e sociais até derrubar em alguns meses, em 2015, o que havia sido conquis- tado em muitos anos. Os com- ponentes internos, muito mais que os externos, interromperam os avanços obtidos na primeira década do século XX. Argumenta-se neste artigo que a baixa produtividade da eco- nomia brasileira, a perda de di- namismo da indústria nacional e a política macroeconômica con- tracionista nos campos fiscal e monetário conduziram, inicial- mente, ao enfraquecimento das políticas de previdenciárias e, pos- teriormente, no período 2011- 2015, ao retrocesso delas. O Brasil vive uma nova rea- lidade. O contexto atual é de que- da rápida e acentuada do PIB (que vinha de uma taxa de 4,6% ao ano, em média, no período de 2007-2010, para 2,1% ao ano em 2011-2014, e -3,8% em 2015), inflação bem acima do limite su- perior da meta estabelecida pelo Banco Central, crescimento do desemprego, queda brusca da pro- dução industrial, desaceleração do investimento privado e do consumo das famílias e cresci- mento do déficit primário no se- tor público consolidado. Um programa de austeridade fiscal está produzindo esses in- dicadores e gerando o achata- mento de gastos sociais e dos investimentos públicos. A pre- LisaS./shutterstock.com Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 37 22/03/16 17:40
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Denise Lobato Gentil 38previdência social vidência voltou a ser alvo de re- formas propostas pelas estratégias de contenção fiscal. O governo Dilma foi capturado pelo mes- mo discurso de ajuste fiscal que vem sendo usado na Europa co- mo instrumento ideológico pa- ra desmontar o Estado de Bem- -Estar Social. Por que o sistema público de previdência voltou a ser o alvo das reformas do Estado? Como lidar com corte de gastos, se o número de pessoas idosas cresce a cada ano? Quais variáveis ma- croeconômicas asseguram a sus- tentabilidade financeira de um sistema público de previdência? As respostas exigem uma avalia- ção da base produtiva sobre a qual o sistema previdenciário brasilei- ro está assentado. O problema da baixa produtividade e sua relação com o sistema previdenciário nos anos 2000 A variável produtividade é estra- tégica numa sociedade em que o número de idosos cresce em cada década. Mais indivíduos podem ser amparados pelo sistema de proteção social quanto maior for a produção de cada trabalhador ativo em cada ciclo produtivo. Isto quer dizer que a relação PIB/ população ocupada deve crescer para atender às necessidades dos que ficaram inativos, temporária ou definitivamente. No entanto, a economia brasileira conviveu nos últimos quinze anos com a estagnação da produtividade em setores estratégicos. Em conse- quência, o salário médio aumen- tou muito acima do crescimento da produtividade média. Esse me- canismo criou dificuldades pro- gressivas para acomodar o con- flito distributivo latente entre ca- pital e trabalho. Por fim, ele culminou no ajuste fiscal reces- sivo de 2014-2015 que, com a brusca redução do crescimento e a elevação do desemprego, está produzindo uma rápida queda do salário médio real. A Figura 1 permite avaliar a evolução da produtividade física do trabalho na indústria de trans- formação e a remuneração real média em dólar e em reais2 . Quando os salários são avaliados em reais, o hiato entre produti- vidade e salários fica grande en- 180 160 140 120 100 80 60 jan/06 mai/06 set/06 jan/07 mai/07 set/07 jan/08 mai/08 set/08 jan/09 mai/09 set/09 jan/10 mai/10 set/10 jan/11 mai/11 set/11 jan/12 mai/12 set/12 jan/13 mai/13 set/13 jan/14 mai/14 set/14 jan/15 mai/15 set/15 Rendimento real médio em US$ 117,7 102,1 68,5 Produtividade Figura 1 Produtividade do trabalho e Rendimento médio real em US$ e em R$ Brasil / Série dessazonalizada (Número Índice: Jan/2006 = 100) Rendimento real médio em R$ Fonte: PIM-PF/IBGE e Indicadores Industriais/CNI. Elaboração: FIESP riggsby/shutterstock.com Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 38 22/03/16 17:40
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    PolitiKa Perspectivas e constrangimentosdo sistema de previdência pública no Brasil 39 tre 2006 e 2015. Verifica-se que o “descolamento” das séries de salários (em reais) e de produti- vidade do trabalho permanece mesmo depois do recuo dos sa- lários reais em 2015. Entretanto, quando se compara o indicador de produtividade com o salário médio em dólar, percebe-se que o hiato entre essas duas variáveis se reduziu progressivamente ao longo do governo Dilma. A par- tir de 2015, o hiato foi fechado e ocorreu uma reversão, com uma brusca redução da remuneração real média (em dólares), muito abaixo da produtividade do tra- balho. É um efeito da desvalori- zação do real. O que se quer argumentar é que um ciclo de crescimento co- mandado pela demanda decor- rente de políticas sociais preci- saria ter sido acompanhado por um rápido desenvolvimento in- dustrial, condição para que ocor- resse um aumento contínuo na produtividade média da econo- mia, o que não ocorreu no Bra- sil no período estudado. A produtividade é, de fato, uma variável-chave na equação do sistema previdenciário. Em primeiro lugar, porque o consu- mo mais elevado, que decorre do crescimento do número de ina- tivos, precisa ser compensado com o aumento da produção dos tra- balhadores ativos. Em segundo, porque o sistema previdenciário se apoia em receitas oriundas da massa salarial, dos lucros e do fa- turamento; assim, o crescimento da produtividade é essencial pa- ra aumentar essa base de incidên- cia de tributos. Em terceiro, por- que os postos de trabalho do se- tor industrial, por serem de mais elevada produtividade, formali- zados e de melhor remuneração, funcionam como um farol para o restante da economia. Salários mais altos e mais empregos for- mais reforçam o fundo previden- ciário e aumentam a cobertura do sistema. Por fim, numa con- juntura como a brasileira, a ele- vação da produtividade média é decisiva para sustentar o poder de compra dos salários mínimo e médio, para que não se agrave ainda mais o conflito distributi- vo entre lucros e salários e não ocorra maior elevação dos preços. A queda da margem de lucros le- va empresários a corrigir preços, insistir na redução de salários e apelar por reformas trabalhistas e previdenciárias que reduzam direitos sociais. É necessário, portanto, avaliar a hierarquia de causalidade que determina o comportamento da produtividade de uma economia e seu vínculo com a indústria. O circuito começa com a política macroeconômica. Suas principais variáveis (taxa de câmbio, taxa de juro e gastos do governo) afetam diretamente a demanda agregada, a qual, por sua vez, determina a acumulação de capital físico e o progresso tecnológico. O cresci- mento é essencial para absorver novas técnicas, mas não qualquer tipo de crescimento, e sim aque- le apoiado nas manufaturas, pois elas determinam o comportamen- to da produtividade, por sua alta capacidade de gerar inovações e disseminar tecnologia melhor. A indústria manufatureira opera com retornos crescentes de esca- la, estáticos e dinâmicos, e por isso possui a mais elevada capaci- dade para disseminar seus ganhos de produtividade para a economia como um todo (Nassif, Feijó e Araújo, 2012). No Brasil, essa cadeia de cau- salidade não ocorreu. Houve a combinação de uma política ma- croeconômica conservadora, que produziu um crescimento apenas moderado e instável, com baixa geração de capital físico, perda de participação da indústria de trans- formação no PIB e estagnação da produtividade. Essa foi a caracte- riggsby/shutterstock.com Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 39 22/03/16 17:40
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Denise Lobato Gentil 40previdência social rística fundamental do comporta- mento da base produtiva dos anos 2000-2014. O setor de serviços e o agronegócio voltado para a ex- portação impulsionaram a econo- mia nacional em sua fase de cres- cimento na década de 2000. Segundo relatório da Federa- ção das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp, 2015) com base na nova série de PIB do IBGE, a participação da indústria de trans- formação no PIB brasileiro foi de somente 10,9% em 2014, contra 17,9% em 2004. Em dez anos, a indústria de transformação brasi- leira perdeu sete pontos percentu- ais de participação no PIB. En- quanto isso, em 2013 esse indica- dor foi de 31,8% na China, 32,9% na Tailândia, 31,1% na Coréia, 11,5% no Chile, 17,8% no Méxi- co e 15,3% na Argentina. Considerando uma amostra de vinte países que possuem renda per capita semelhante à do Brasil, esse estudo mostra que a taxa de cres- cimento do PIB da indústria de transformação brasileira foi das menores entre 2001 e 2013 – ape- nas 2,3% –, enquanto o cresci- mento médio anual foi de 11,5% na China, 6,8% na Índia, 6% na Coréia, 4,3% na Argentina, 2,8% na Colômbia e 2,7% no Chile. Teixeira e Angeli (2012, p.18) demonstram que, entre 1970 e 2007, “o processo de perda de di- namismo econômico de alguns dos mais importantes países da econo- mia mundial foi acompanhado pa- ri passu pela perda relativa, ou pe- la elevação marginal, de impor- tância do setor secundário na composição da renda nacional, ao passo que aqueles que lograram al- cançar melhores taxas de cresci- mento econômico vivenciaram experiência oposta, com um gran- de aumento da contribuição in- dustrial no valor adicionado da economia nacional”. A perda de dinamismo econômico do Brasil pode ser explicada, em grande par- te, pela perda de capacidade de li- derança do setor industrial. Os sistemas de proteção social, principalmente o sistema previ- denciário, foram criados no fim do século XIX e na primeira me- tade do século XX como um pro- duto do avanço do capitalismo da era industrial. No século XXI, a conexão entre indústria e sistema previdenciário é essencial num ce- nário de progressivo envelheci- mento da população, quando a produtividade do trabalho, junto com o nível de emprego, assume uma importância estratégica para a sustentação financeira dos esque- mas de proteção social. A relação do sistema previdenciário com o mercado de trabalho e a política macroeconômica A expansão da cobertura do siste- ma previdenciário brasileiro e sua sustentação financeira ao longo do tempo têm uma forte ligação com o comportamento do mercado de trabalho e com o regime de polí- tica macroeconômica que lhe cor- responde (política fiscal e mone- tária), visto como determinante do ritmo de expansão econômica e dos ganhos de produtividade. O mercado de trabalho afeta diretamente os recursos tributários que financiam o sistema previden- ciário Os indicadores mais rele- vantes sobre isso são a taxa de de- semprego, o grau de formalização da força de trabalho e o nível de rendimento médio da população ocupada. Para assegurar o paga- mento de aposentadorias e pen- sões, no curto e no longo prazos, é fundamental que a política ma- croeconômica tenha como meta o pleno emprego, pois dessa forma o número de afiliados ao sistema crescerá, a renda dos trabalhadores aumentará e a carga das aposenta- dorias será mais leve. Essa construção institucional é fundamental para responder ao desafio da “bomba demográfica” – termo catastrofista usado para denominar o processo de enve- beeboys/shutterstock.com Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 40 22/03/16 17:40
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    PolitiKa Perspectivas e constrangimentosdo sistema de previdência pública no Brasil 41 As receitas previstas na Constituição de 1988 são suficientes para financiar, sem déficit, todos os gastos do governo federal com previdência, saúde e assistência social. lhecimento da população e de re- dução da taxa de natalidade. O problema de sustentabilidade de um sistema público de previdên- cia em regime de repartição não pode ser reduzido a um determi- nismo demográfico. Deve ser tra- tado como a busca de um cresci- mento puxado pela demanda pa- ra gerar o nível de emprego mais elevado possível, procurando si- multaneamente intervir na forma como a renda será distribuída en- tre ativos e inativos. Nesse senti- do, políticas monetária e fiscal ex- pansivas e uma política industrial, interferindo no produto, no em- prego e na produtividade, têm um papel decisivo para os rumos do sistema previdenciário. O equilíbrio do orçamento previdenciário, em face do enve- lhecimento da população, terá que ser perseguido através de políticas de pleno emprego e de elevação da produtividade. A idade e o va- lor das aposentadorias estão longe de ser os únicos determinantes da carga previdenciária, como pre- valece nas reformas previdenciá- rias neoliberais, que normalmen- te buscam o ajuste do sistema ele- vando o valor das contribuições sociais, reduzindo os benefícios e aumentando a idade de acesso. O Brasil deu uma boa demons- tração dos efeitos do arranjo entre política macroeconômica, merca- do de trabalho e finanças supera- vitárias do sistema previdenciário. O ano de 2003 marcou uma im- portante inflexão no mercado de trabalho brasileiro, que passou a registrar taxas de desemprego sis- tematicamente decrescentes. Se- gundo dados da PME/IBGE, en- tre 2003 e 2014 a taxa de desem- prego aberto caiu de 12,3% para 4,8%. Houve crescimento siste- mático dos rendimentos médios do trabalho principal, que passa- ram de R$ 1.771,68 em janeiro de 2003 para R$ 2.318,36 em janei- ro de 2014, um crescimento real de 30,8%. Houve também expan- são do percentual médio de tra- balhadores com carteira assinada no setor privado, em relação à po- pulação ocupada. Essa proporção era de 39,7% (7,3 milhões) em 2003 e passou para 50,8% (11,7 milhões) em 2014. Em doze anos, esse con- tingente cresceu 59,6% (ou mais 4,4 milhões de trabalhadores). O mercado de trabalho atraves- sou de forma positiva os momentos mais duros da crise mundial até o fim de 2014. A partir de 2015, en- tretanto, esses indicadores favorá- veis sofreram enorme reversão, com a adoção de um austero ajuste fis- cal, uma política monetária de ju- ros elevados e contração do crédi- to. Segundo a Pesquisa Mensal de Emprego (PME/IBGE), o Brasil enfrentou no segundo trimestre de 2015 uma taxa de desemprego ge- ral de 8,3%, correspondente a uma elevação de mais de três pontos percentuais em apenas seis meses de 2015, em relação ao ano ante- rior. Em julho de 2015 os empre- gos com carteira assinada caíram para 11,3 milhões, um número 3,1% menor que o observado em julho de 2014. Esses dados são revelado- res do potencial negativo sobre o mercado de trabalho de uma polí- tica de redução brusca de gastos do governo federal. Os dados corroboram a tese de que o sistema previdenciário tor- na-se financeiramente viável quan- do políticas fiscais de elevação dos gastos sociais (ou de qualquer gas- to autônomo) impulsionam a de- manda agregada e a renda, e de- pois (por consequência) as receitas de contribuições previdenciárias se elevam, permitindo que a po- lítica de gastos continue. De fato, os gastos com benefí- cios previdenciários se elevaram substancialmente entre 2004 e 2015. Entre fins de 2004 e janeiro de 2014, o aumento real do salário mínimo foi de 68% (Dieese, 2014), elevando o valor dos benefícios previdenciários e fazendo crescer a renda disponível dos trabalha- dores ativos que recorreram à pro- teção do Estado, dos aposentados e pensionistas. Pode-se afirmar que a política de elevação do sa- lário mínimo explica a maior par- te da expansão das transferências de assistência e previdência duran- te o período considerado. Mais de 82% dos benefícios previdenciários concentram-se na faixa de um a dois salários míni- mos. Em 2002, a quantidade de benefícios emitidos era de 18,8 milhões. Em 2015 estava em 28,2 milhões, um crescimento de cer- ca de 50%, equivalente a um acrés- cimo de 9,6 milhões de benefícios beeboys/shutterstock.com Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 41 22/03/16 17:40
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Denise Lobato Gentil 42previdência social em treze anos. Em 2002, o valor médio dos benefícios pagos foi de R$ 362,72; em 2014, passou para R$ 959,15 (Figura 2). O crescimento no número de benefícios sociais e da massa sa- larial no período de 2003-2014 teve efeitos positivos na arreca- dação de receitas de contribuições previdenciárias, as únicas receitas que cresceram sistematicamente acima do PIB nesse período em todos os anos, mesmo após 2009, quando os efeitos internos da cri- se mundial já eram sentidos (Fi- gura 3). Essas contribuições, pa- gas por empregadores, trabalha- dores assalariados e autônomos, representam a principal fonte de receita da previdência social. Por- tanto, o circuito virtuoso de sus- tentação financeira dos sistemas públicos de previdência tem co- mo ponto de partida uma políti- ca fiscal de elevação de gastos que expandem a demanda agregada e o crescimento. A elevação das re- ceitas tributárias (resultado do crescimento de salários e lucros) fecha o circuito, tornando o sis- tema autossustentável. Desonerações tributárias em grande escala e impactos sobre o orçamento da seguridade Durante a década de 2000, os go- vernos petistas de Lula e de Dil- ma Rousseff colocaram em prá- tica uma ampla política de deso- nerações de tributos com o objetivo de estimular o investi- mento privado, gerar emprego e melhorar as condições de com- petitividade da indústria nacional. Durante o primeiro governo de Dilma Rousseff (2011-2014) o uso em larga escala das desone- rações transformou-se num indi- cador da opção por uma estraté- gia de forte contração do papel do Estado e de atribuição de um maior protagonismo ao capital privado na condução da econo- mia nacional. Essa política, en- tretanto, não obteve resposta fa- vorável do investimento agregado, que apresentou menores taxas de crescimento. No período 2011- 2014, a taxa média de crescimen- to real dessa variável foi de apenas 1,8% contra 9,9% no período 2007-2010. As desonerações pri- varam a sociedade de recursos que poderiam ter sido empregados de forma mais eficiente para gerar bem-estar e crescimento. A Figura 4 resume as estima- tivas do Ministério da Fazenda para o total das desonerações (ou gastos tributários) federais para o período 2009-2015 e o valor das renúncias de receitas pertencen- tes ao sistema de seguridade so- cial, medidas em temos absolutos e relativos. Os dados confirmam que, no período de desaceleração, uma das estratégias mais importantes de política fiscal do governo fe- deral para estimular o investimen- to privado foi a redução da carga de impostos sobre as empresas. Nota-se que, em 2009, o total das desonerações foi de R$ 119,8 bi- lhões ou 3,76% do PIB. Em 2011, primeiro ano do governo de Dil- ma Rousseff, o gasto tributário foi de 3,52% do PIB, equivalente a R$ 137,2 bilhões, até chegar ao montante de 4,9% do PIB ou R$ 282,4 bilhões em 2015. Essa im- pressionante quantia que o Esta- ANO Nº de benefícios Valor médio do benefício R$ 2002 18.859.775 362,72 2003 19.510.519 435,94 2004 20.506.649 473,26 2005 21.149.561 495,78 2006 21.644.886 535,43 2007 22.066.263 562,26 2008 22.776.205 606,68 2009 23.534.497 657,69 2010 24.426.882 713,54 2011 25.176.323 757,71 2012 26.032.855 830,60 2013 27.009.011 899,30 2014 27.818.973 959,15 2015 (ago) 28.217.023 1.036,35 Figura 2 Regime Geral de Previdência Social | 2002–2015 Fonte: Ministério da Previdência, Boletins Estatísticos da Previdência. ANO Valor Nominal Valor Real Taxa de Crescimento real (%) 2002 71.028 141.103 2003 80.730 146.731 4,0 2004 93.765 158.385 7,9 2005 108.434 172.992 9,2 2006 123.520 191.394 10,6 2007 140.493 208.599 9,0 2008 163.355 228.599 9,6 2009 182.008 244.459 6,9 2010 211.968 269.117 10,1 2011 245.892 292.969 8,9 2012 278.173 313.320 6,9 2013 308.557 328.336 4,8 2014 357.851 357.851 9,0 Figura 3 Contribuição Previdenciária em R$ milhões Fonte: Ministério da Previdência, Boletins Estatísticos da Previdência. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 42 22/03/16 17:40
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    PolitiKa Perspectivas e constrangimentosdo sistema de previdência pública no Brasil 43 do deixou de arrecadar nesse ano é maior do que a soma de tudo o que foi gasto, na esfera federal, com saúde (R$ 93 bilhões), edu- cação (R$ 93,9 bilhões), assistên- cia social (R$ 71 bilhões), trans- porte (R$ 13,8 bilhões) e ciência e tecnologia (R$ 6,1 bilhões) no ano de 20143 . É importante chamar a aten- ção para os valores das renúncias tributárias na área da seguridade social. Em 2009, por exemplo, a renúncia de contribuições sociais foi estimada em R$ 59 bilhões, que correspondem a 1,85% PIB e a 49,3% da renúncia tributária total daquele ano. Em 2015, o va- lor estimado ficou em R$ 157,6 bilhões, ou seja, 2,75% do PIB e 55,8% do total desonerado no ano. As desonerações abrangem a ces- ta básica, a folha de salários, o Simples nacional, a Zona Franca de Manaus, entidades sem fins lucrativos, medicamentos, cons- trução civil, máquinas e equipa- mentos, biodiesel e outros setores. É inescapável concluir que o governo adota uma narrativa con- traditória, já que abre mão de re- cursos da seguridade social e aponta um suposto déficit da pre- vidência. Segunda constatação: por meio da redução selecionada de desonerações há bastante mar- gem para se arrecadar receitas su- ficientes para uma ampla política de desenvolvimento do sistema de saúde ou para educação. Essa estratégia não produziu o espera- do aumento do investimento pri- vado, não se convertendo, por- tanto, na geração de emprego, renda e produção. O efeito mais provável foi o aumento das mar- gens de lucro dos setores favore- cidos. O aumento da arrecadação federal pela via da revisão do gas- to tributário poderia ampliar as verbas orçamentárias destinadas a áreas que enfrentam escassez de recursos, como as da saúde e sa- neamento, com efeitos multipli- cadores na economia e na eleva- ção do bem-estar da população de menor renda. O uso mais per- verso das desonerações seria o seu relaxamento (volta da tributação) para fazer superávit primário, co- mo parece sugerir a proposta de ajuste fiscal do governo. O orçamento da seguridade social: existe déficit? Segundo o artigo 195 da Consti- tuição Federal de 1988, a seguri- dade social, da qual o sistema pre- videnciário é parte fundamental, deve ter várias fontes de receitas. Nelas estão incluídas a contribui- ção dos empregadores e trabalha- dores à seguridade social (contri- buição previdenciária ao INSS), a Cofins (inclusive sobre importa- ções), a CSLL e a receita de con- cursos de prognósticos. Até 2007 a CPMF também era uma fonte de recursos do sistema de seguri- dade. Como se vê, ele foi criado com uma sólida estrutura de fi- nanciamento, apoiada em uma di- versificada base de arrecadação que está preservada até hoje no texto da Constituição. As investidas li- berais-privatizantes não consegui- ram viabilizar econômica e poli- ticamente sua alteração. Quando se leva em considera- ção esse conjunto de receitas, ve- rifica-se que elas são suficientes para financiar todos os gastos do governo federal com previdência, saúde e assistência social, confor- me demonstra a Figura 5. O en- contro de receitas e despesas é am- plamente superavitário, incluindo- -se os gastos administrativos com pessoal, custeio e pagamento da dívida de cada setor. O superávit foi de R$ 56,7 bilhões em 2010, R$ 78,1 bilhões em 2012 e R$ 56,4 bilhões em 2014, apesar das enormes desonerações tributárias realizadas nos últimos cinco anos. Os números mostram mais do que isso. Elucidam que o governo gas- ta, de forma sistemática, recursos ANO Desoneração total % do PIB Desoneração de contribuições sociais1 % do PIB % do total 2009 119.861 3,76 59.061 1,85 49,3 2010 132.059 3,47 67.355 2,03 51,0 2011 137.239 3,52 68.146 1,75 49,6 2012 170.389 3,76 80.909 1,78 47,5 2013 170.016 4,10 97.731 1,97 48,0 2014 249.761 4,76 136.541 2,61 54,6 2015 282.437 4,93 157.644 2,75 55,8 Figura 4 Desonerações Tributários Federais1 (Em R$ milhões e % do total) Fonte: Receita Federal, Ministério da Fazenda, Demonstrativo dos Gastos Tributários. (1) Inclui Contribuições Previdenciárias, Cofins, CSLL PIS/PASEP Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 43 22/03/16 17:40
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Denise Lobato Gentil 44previdência social da seguridade social em despesas da União que pertencem ao orça- mento fiscal, subtraindo recursos que constitucionalmente estão vin- culados aos gastos sociais. Essa informação não tem sido repassada para a população, que ado- tou a noção, amplamente veiculada pela mídia, de que o sistema de se- guridade social brasileiro enfrenta uma crise de grandes proporções em função do crescimento dos gas- tos previdenciários, necessitando por isso de reformas que implicam corte de direitos sociais. Há uma idéia depreciativa do sistema – de insolvência e de precariedade ge- neralizada –, que não corresponde à realidade. Os dados refutam essa tese e mostram que o sistema de seguridade social tem sido autos- sustentável, mesmo durante o pe- ríodo de recessão recente, o que torna viável a expansão de benefí- cios e serviços muito importantes para a sobrevivência da grande maioria da população. Com o su- perávit de 2014 seria possível elevar em 60% os gastos com saúde pú- blica, por exemplo, o que poderia viabilizar uma grande transforma- ção na prestação desses serviços. A Constituição de 1988 deter- mina que sejam elaborados três orçamentos: o orçamento fiscal, o orçamento da seguridade social e o orçamento de investimentos das estatais. O que ocorre é que, na prática da execução orçamen- Receitas1 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 Receita Previdenciaria 140.493 163.355 182.008 211.968 245.892 278.173 308.557 357.851 CSLL 34.411 42.502 43.592 45.754 57.845 57.488 65.732 65.534 COFINS 102.463 120.094 116.759 140.023 259.891 181.555 201.527 195.179 PIS/PASEP2 26.709 30.830 31.031 40.373 42.023 47.778 51.065 51.881 CPMF 36.483 3.058 2.497 3.148 3.414 3.765 0 0 Receitas de órgãos da Seguridade3 14.255 13.528 14.173 14.883 16.873 20.044 10.923 7.415 Contrapartida do Orç. Fiscal p/EDU 1.766 2.048 2.015 2.136 2.256 1.774 1.273 1.391 Receita total da seguridade 356.580 375.415 392.075 458.285 528.194 590.577 639.077 679.251 Despesas 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 Benefícios Previdenciários 182.575 199.562 224.876 254.859 281.438 316.590 357.003 402.087 Benefícios LOAS e RMV 14.192 15.641 18.712 22.234 25.116 30.324 34.323 38.447 Bolsa-Família e outras transferências 8.756 10.605 11.877 13.493 16.767 20.530 23.997 26.156 EPU 1.766 2.048 2.015 2.136 2.256 1.774 1.273 1.439 FAT (seguro-desemprego, abono, outros) 17.957 21.416 27.742 29.755 34.738 40.491 46.561 51.833 Minist. Saúde - MS 45.212 50.270 58.270 61.965 72.332 80.063 84.412 83.935 Minist. Desenvolvimento Social - MDS 2.278 2.600 2.746 3.425 4.033 5.669 6.719 3.986 Minist. Pevidência - MP 4.496 4.755 6.265 6.482 6.767 7.171 7.280 5.188 Outras ações da Seguridade 3.365 3.819 6.692 7.260 7.552 9.824 9.824 9.824 Despesa total da seguridade 280.596 310.716 359.195 401.609 450.999 512.436 571.392 622.895 Resultado da Seguridade 75.984 64.699 32.880 56.676 77.195 78.141 67.685 56.356 Figura 5 Receita, despesa e resultado da Seguridade Social | 2007 – 2014 (Valores correntes em R$ milhões) www.previdencia.gov.br; Minist. da Fazenda, Arrecadação, Análise Mensal da Receita - www.receita.fazenda.gov.br/ | Federal - www.orcamentofederal.gov.br. Informações Orçamentárias, Estatísticas Fiscais, Despesas Orçamentárias por Agregados Funcionais | Servidores Públicos nem as Receitas para o Regime de Previdência dos Militares por não pertencerem ao sistema de Seguridade Social definido | (2) Por lei, destinam-se à cobertura do seguro-desemprego e abono salarial | (3) Inclui as receitas próprias do MS, MPA, MDS e FAT. | Fonte:”Resultado Primário da Seguridade Social” – SOF, www.orcamentofederal.gov.br | não pertencerem ao sistema de Seguridade Social definido pela CF/1988. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 44 22/03/16 17:40
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    Perspectivas e constrangimentosdo sistema de previdência pública no Brasil 45 PolitiKa tária, o governo apresenta não três, mas dois orçamentos, o orçamen- to de investimentos e o “orçamen- to fiscal e da seguridade social”, no qual consolida todas as receitas e despesas, unificando o resulta- do. Com este artifício não é pos- sível identificar a transferência de recursos do orçamento da segu- ridade social para financiar gastos do orçamento fiscal. Para tornar o quadro ainda mais confuso, iso- la-se, para efeito de análise orça- mentária, o resultado previdenci- ário e o resto do orçamento da seguridade social. Com esse arti- fício contábil, tenta-se mostrar que é necessário transferir cada vez mais recursos para cobrir o suposto rombo da previdência. A idéia de déficit no orçamen- to da previdência é amplamente divulgada pela mídia com o su- porte do governo federal. Com o objetivo de reduzir os gastos pre- videnciários, considerados insus- tentáveis, o governo federal reali- zou, no final do ano de 2014, uma ampla reforma no acesso aos be- nefícios de seguro-desemprego, pensão por morte, auxílio-doença, abono salarial e aposentadoria por tempo de contribuição. Para eco- nomizar recursos, foram ampliadas as carências e reduzidos os bene- fícios. O peso do ajuste irá recair, em grande parte, sobre os traba- lhadores, enquanto a política mo- netária defende os bancos e os fun- dos de investimentos, sobrecarre- gando o orçamento público com despesas financeiras em patamares extremamente elevados. Não se sabe se a economia de recursos pela via da redução de gas- tos sociais proporcionará recursos suficientes para pagar os gastos ex- traordinários com juros da dívida pública, mas se sabe que atingirá a populaçãoquedependedessastrans- ferências de renda para sobreviver. Entre 2011-2014, o governo Dilma pagou um montante médio anual superior a 4% do PIB com juros. Em 2014, esse valor chegou a R$ 251 bilhões (quase 5% do PIB) e nos últimos doze meses encerrados em agosto de 2015, R$ 399 bilhões (Figura 6). São recursos esteriliza- dos. Não ingressam no circuito pro- dutivo para gerar emprego e renda, nem se destinam a elevar a oferta de serviços públicos de que a po- pulação necessita. Reduzir esse gas- to implicaria mudar radicalmente uma política monetária restritiva e de baixa eficiência. O aumento das despesas financeiras no governo de ANO R$ milhões % do PIB 2010 124.509 3,30 2011 180.553 4,36 2012 147.268 3,35 2013 185.846 3,84 2014 251.070 4,90 2015* 399.483 7,20 Figura 6 Gasto com Juros Nominais | 2010 – 2014 Fonte: Ministério da Fazenda, STN. Anuário Estatístico - Estatísticas Fiscais acima da linha. Elaboração própria. (*) Acumulado em 12 meses até agosto/2015. BirgitReitz-Hofmann/shutterstock.com Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 45 22/03/16 17:40
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Denise Lobato Gentil 46previdência social Dilma Rousseff reflete um alto grau de conservadorismo no combate à inflação, que se mantém mais ele- vada nos anos de 2011-2014, alcan- çando um patamar próximo a 10% em 2015, muito acima do limite superior da meta estabelecida pelo Banco Central. A reversão da política de juros elevados e a consequente redução dos gastos financeiros poderiam abrir espaço para a construção de uma política fiscal anticíclica mais ativa, apoiada em investimentos pú- blicos e nos gastos sociais, incluin- do aqueles que têm se mantido his- toricamente em baixos patamares, como saneamento básico, habitação popular, infraestrutura de transpor- te urbano e cultura. Algumas conclusões No Brasil, a ideia de que a pre- vidência vive uma crise financei- ra vem sendo propagada insisten- temente há mais de vinte anos, embora os dados contradigam esse discurso. O cálculo do su- posto déficit previdenciário não se baseia no que prevê a Consti- tuição Federal de 1988, que es- tabelece o arcabouço jurídico do sistema de seguridade social, no qual insere-se a previdência pú- blica. O falso déficit previdenci- ário leva em consideração apenas a receita da contribuição previ- denciária (ao INSS), mas há ou- tras fontes de receita que não são computadas: a contribuição para o financiamento da seguridade social (Cofins), a contribuição social sobre o lucro líquido (CSLL), o PIS/PASEP e a recei- ta de concursos de prognósticos. Esse conjunto de receitas pode financiar com superávit os gastos com saúde, assistência social e previdência. Precisamos reconhecer que a previdência é muito mais que uma transferência de renda a ne- cessitados. O gasto com benefí- cios previdenciários tem o papel de alavancar o crescimento eco- nômico. Trata-se de um gasto autônomo, uma transferência de renda que se converte integral- mente em consumo de alimen- tos, serviços e produtos essenciais, e que, portanto, retorna das mãos dos beneficiários para o merca- do, dinamizando a produção, es- timulando o emprego e multi- plicando a renda. A política econômica expan- sionista, com seu papel de dina- mizadora do mercado de traba- lho, é decisiva para enfrentar o problema do envelhecimento da população nas próximas décadas. O determinismo demográfico precisará ser vencido por uma política econômica ajustada para promover o crescimento e o ple- no emprego. As variáveis mais importantes da equação financeira da previ- dência pública são o nível do em- prego formal, o patamar dos sa- lários e a produtividade do tra- balho. Para que não haja risco do sistema previdenciário ter um colapso de financiamento é pre- ciso que o país cresça, aumente o nível de ocupação formal e ele- ve a renda média no mercado de trabalho, promovendo mobili- dade social. Portanto, a política econômica é o principal elemen- to que precisa entrar no debate sobre a “crise” da previdência. Mas isso não é tudo. Para além do regime de política econômi- ca em vigor, a análise do sistema de seguridade social deve consi- derar o arcabouço material do sistema produtivo brasileiro, que lhe dá sustentação. Não é sufi- ciente manter o gasto social em patamares elevados e gerar cres- cimento. Para consolidar as mu- danças sociais já obtidas é im- prescindível, no longo prazo, produzir mudanças estruturais que elevem a produtividade do trabalho, o que dependerá de in- vestimentos em capital físico, educação, ciência, tecnologia e inovação. As grandes fragilidades estruturais do sistema previden- ciário decorrem da baixa produ- tividade da indústria, incapaz ele- var a produção dos trabalhadores ativos, que são os agentes de sus- tentação da população idosa, en- ferma e desempregada. Não é possível analisar a questão pre- videnciária dentro de si mesma. Seus determinantes estão na to- talidade econômica mais ampla dentro da qual está inserida. As variáveis macroeconômicas que determinam o crescimento, a produtividade e a distribuição da riqueza no longo prazo são de- cisivas para definir os rumos das políticas sociais. n As variáveis macroeconômicas que determinam o crescimento, a produtividade e a distribuição de riqueza no longo prazo são decisivas para definir os rumos das políticas sociais. LisaS./shutterstock.com Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 46 22/03/16 17:40
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    PolitiKa Perspectivas e constrangimentosdo sistema de previdência pública no Brasil 47 Notas 1. Soma dos gastos com o regime geral de previdência Social, regime próprio de previdência social dos funcionários pú- blicos federais e de assistência social na esfera federal em 2014. 2. O indicador de produtividade foi elaborado pelo Depecon/ Fiesp a partir dos dados das pesquisas PIM-PF do IBGE e das pesquisas “Indicadores Industriais” da CNI e “Levanta- mento de Conjuntura” da Fiesp. O indicador de produtivi- dade mede a relação entre a produção física da indústria de transformação e o número de horas trabalhadas na produção. 3. Ministério do Planejamento, SOF, “Despesa orçamentária por agregados funcionais e programáticos”. Referências Bibliográficas Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) (2012). “Estudo Econômico da América Latina e do Caribe, 2010-2011.” Disponível em http://www.eclac.org/pu- blicaciones/xml/5/44125/Estudo_econ%C3%B4mico_ da_Am%C3%A9rica_Latina_e do_Caribe.pdf ____________(2012B) “Cambio estructural para la igualdade. Una visión integrada del desarrollo”. San Salvador. Dis- ponível em www.cepal.org/publicaciones. Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeco- nômicos (2014). “A Política de Valorização do Salário Mínimo: persistir para melhorar”. Nota Técnica, maio. Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) (2015). “Perda de Participação da Indústria de Transformação no PIB”. Departamento de Pesquisa e Estudos Econô- micos, maio. NASSIF, A.; FEIJÓ, C. e ARAÚJO, E. (2012). Structural chan- ge and economic development: is Brazil catching up or falling behind? Porto de Galinhas, Encontro Nacional de Eco- noia - ANPEC. TEIXEIRA, L. e ANGELI, E. (2012). A industrialização co- mo Estratégia de Desenvolvimento Econômico para o Brasil. Anpec. www.anpec.org.br LisaS./shutterstock.com Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 47 22/03/16 17:40
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    Nº 3 _MARÇO 2016 48 Políticas de saúde no Brasil notas para o debate de alternativas O debate sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), sobre as políticas de saúde no Brasil, tem sido rare- feito e acidental. É preocupante a obstrução das polêmicas públicas sobre como conciliar acesso, in- clusive a novas tecnologias, qua- lidade e custos da atenção para uma população que envelhece ace- leradamente. Os reflexos imedia- tos da quase ausência do tema na agenda pública são a superficiali- dade das proposições sobre o SUS nos programas eleitorais dos can- didatos à Presidência da Repúbli- ca. No Brasil, as propostas para a saúde das duas principais candida- turas em 2014 se resumiram a enunciados vagos: reafirmaram ações em curso, usaram termos genéricos e se omitiram sobre o volume e destinação dos gastos públicos, a abertura de unidades assistenciais e o aumento de mé- dicos. O contraste com outros paí- -ses, inclusive da América Latina, é flagrante. Nos Estados Unidos, o último debate presidencial sobre saúde foi objeto de acirradas controvérsias em torno da obrigatoriedade do seguro-saúde e, portanto, da am- pliação do papel governamental. A gafe do candidato republicano Lígia Bahia Médica Sanitarista, Professora da Faculdade de Medicina e do Instituto de Saúde Coletiva da UFRJ, Bolsista de Produtividade do CNPq. ligiabahia@terra.com.br A saúde tem sido um tema obrigatório nas disputas eleitorais em diversos países. No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) é uma unanimidade, mas esse é um consenso vazio: sua capacidade de atender a todos e a qualidade desse atendimento não são objeto de polêmicas. Tanto as interpretações que usam o argumento das desigualdades estruturais, como as que apresentam evidências sobre a prosperidade de empresas privadas de saúde desconsideram o papel dos governos e do debate político. É preciso retomar as críticas sobre a medicalização da vida e a imposição de padrões tecnológicos excludentes, movidos pela mercantilizarão da saúde e da doença. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 48 22/03/16 17:40
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    Políticas de saúdeno Brasil 49 Mitt Romney, mencionando o azar de quem não tem seguro- -saúde e sofre um infarto, expli- citou divergências programáticas e tornou-se um dos elementos- -chave da disputa eleitoral. Mi- chelle Bachelet, em 2013, com- prometeu-se com a duplicação dos gastos públicos e a ampliação da rede assistencial estatal no Chile. A plataforma de Justin Trudeau incluiu a proposição de investir US$ 3 bilhões ao longo de quatro anos para oferecer mais e melho- res serviços de assistência domici- liar para todos os canadenses. A ausência de polêmicas em torno da política nacional de saú- de pode ser explicada pelo con- senso existente em torno do SUS. Não há exagero na afirmação: o SUS é uma unanimidade. Partidos políticos situados em qualquer ponto do espectro político-ideo- lógico, entidades médicas e sindi- cais apoiam declaradamente o sis- tema público de saúde. Sob um enfoque otimista, uma convergên- cia tão ampla poderia atestar os avanços decorrentes da constitu- cionalização do direito à saúde. Assim, o país se aproximaria da- quelas nações cujos sistemas de proteção social podem ser afetados, mas não são destruídos, pelos di- ferentes governos. Uma interpre- PolitiKa MarcelloCasalJr./ABR Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 49 22/03/16 17:40
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Lígia Bahia 50saúde públicaValterCampanato/ABr tação alternativa considera que o SUS é um consenso vazio, na me- dida em que não tem sido discu- tida sua capacidade de atender a todos com qualidade. Concordar que o SUS mitiga tensões distributivas e vem am- pliando o acesso e as coberturas não é o mesmo que implementar um sistema universal de saúde. Os dissensos existentes não são sobre a arquitetura institucional e os ob- jetivos do SUS, mas sim sobre a abrangência de suas ações e seu financiamento, as duas dimensões essenciais para definir a natureza do sistema de saúde. Podemos sau- dar o consenso sobre a necessida- de de políticas de saúde, que não deixa espaço para propostas que preconizam que o governo se re- traia ou se retire desse setor. Mas isso não significa ausência de con- tradições sobre os direitos sociais e o padrão de desenvolvimento econômico. Sem enfrentá-las não chegaremos a políticas de saúde efetivamente equânimes. Interpretações sobre o SUS A inclusão do direito universal à saúde na Constituição de 1988 foi uma das expressões dos avanços da agenda democrática recepcio- nada por uma aliança entre o PMDB, os partidos de esquerda e os movimentos sociais, consolida- da durante a luta pelas “diretas já”. A partir daí, a extensão e intensi- dade das políticas sociais depen- deriam da força (capacidade de formulação, convencimento, ges- tão e renovação de articulações político-partidárias) da “fração jacobina”. A saúde foi uma das áreas que houve continuidade en- tre a intenção e o gesto: depois da elaboração do texto constitucio- nal, lideranças do “movimento sanitário” foram nomeadas para instituições setoriais estratégicas. Mesmo assim, as mudanças no cenário político após a posse de José Sarney – que dizia que os di- reitos sociais estabelecidos pela Constituinte eram inviáveis – afe- taram o SUS, especialmente por não ter sido estabelecido o orça- mento da Seguridade Social, pre- visto na Constituição, que garan- tiria os repasses financeiros pre- vistos. Além disso, o ocupante da instituição que unificou a medi- cina previdenciária com os órgãos de saúde pública veio a ser substi- tuído. Apesar da enorme reforma administrativa que resultou na criação de um Ministério da Saú- de moderno e dotado de compe- tências para exercer o papel de au- toridade sanitária nacional, não foi possível realizar transformações imprescindíveis na oferta de ser- viços para atenção individual. O subfinanciamento do SUS, adotado na Nova República e de- pois perenizado, impediu a orga- nização de uma rede assistencial pública para efetivar cuidados à saúde suficientes, de boa qualida- de e mais homogêneos no terri- tório nacional. Problemas preté- ritos, como as disparidades regio- nais, a concentração de recursos Não há consenso sobre as duas dimensões essenciais para definir a natureza do sistema de saúde: a abrangência das ações do SUS e o modo como devem ser financiadas. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 50 22/03/16 17:40
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    PolitiKa Políticas de saúdeno Brasil 51 em algumas cidades e o predomí- nio de hospitais e leitos privados não foram resolvidos e, em certas especialidades, se acentuaram. A eleição de Fernando Collor de Mello reiterou os limites estrutu- rais para a efetivação do SUS e emitiu sinais favoráveis à intensi- ficação do empresariamento pri- vado da saúde. Governos de dis- tintas extrações ideológicas e co- alizões nucleadas pelo PSDB e pelo PT, embora com nuances, deram continuidade ao regime de constrangimento de um SUS uni- versal e de qualidade. Ao longo do tempo, houve mo- mentos em que se renovaram as esperanças de expandir e imple- mentar políticas de saúde de cor- te universal. O bem-sucedido pro- grama contra a AIDS e a reforma antimanicomial demonstraram o potencial do SUS. No segundo mandato do presidente Lula, a in- dicação de uma liderança sanita- rista para o Ministério da Saúde e as promessas de devolver os recur- sos da Contribuição Compulsória sobre Movimentação Financeira (CPFM) para a saúde pareceram um aceno à retomada do SUS cons- titucional. Porém, a extinção da CPFM turbinou a concepção de um SUS condicionado ao que “a sociedade” ou “o Parlamento” de- cidiam, como se o SUS fosse uma política nova e dependesse exclu- sivamente de novas fontes de re- cursos, e não um projeto essencial para a democracia. Parcela significativa de profis- sionais de saúde e de entidades da sociedade civil simpáticos aos go- vernos do PT adotaram um dis- curso defensivo sobre os obstácu- Depois de promulgada a Constituição de 1988, lideranças do movimento sanitarista foram nomeadas para funções estratégicas no Ministério da Saúde. Isso garantiu a continuidade entre a intenção e o gesto. ARQUIVO/ABR Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 51 22/03/16 17:40
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Lígia Bahia 52saúde pública los ao SUS. Às vezes, esse discur- so recorre a metáforas, como se o SUS estivesse na infância ou na adolescência, enfrentando dificul- dades de crescimento, ou então como se assistíssemos a uma nova luta de Davi (os aguerridos sani- taristas) contra Golias (os capita- listas que atuam no setor). Tanto a versão que ressalta a dimensão temporal quanto a que se refere à correlação de forças deixam de la- do o papel dos governos e do de- bate político. Ainda que seja pequeno o po- tencial explicativo de analogias entre, de um lado, projetos e cons- truções sociais e, de outro, ciclos biológicos de vida ou uma estru- tura imutável, as equivalências são tentadoras. Além disso, há o pas- sado de árduas lutas por direitos sociais. Se não for importante com- preender o presente, as afirmações sobre a existência de um processo de conquistas ainda imaturo, em construção, resolvem a questão. Abstrair o presente facilita emitir avaliações otimistas, mais afeitas às profecias sobre o destino ine- xoravelmente grandioso de um país de muitas riquezas. Mas a ausência de posiciona- mentos polares sobre as políticas de saúde também pode ser inter- pretada tão somente como condes- cendência. Os setores que se opu- seram à aprovação do direito à saú- de durante a elaboração do texto constitucional não precisariam ma- nifestar uma posição contrária ao SUS, na medida em que os negó- cios privados prosperaram. Seja causa ou consequência, observa-se uma mudança nas posições de gran- des empresários da saúde, mani- festa no apoio explícito a dirigen- tes e governos petistas. A saúde tem sido o principal motivo de reclamações nas pesquisas de opinião pública, ultrapassando até mesmo a educação. Em março de 2015, 89% dos entrevistados pelo Ibope reprovaram a política de saúde levada adiante pelo governo federal. ValterCampanato/ABr Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 52 22/03/16 17:40
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    PolitiKa Políticas de saúdeno Brasil 53 O debate rarefeito O SUS vai e não vai bem. Entre 2003 e 2008 houve uma signifi- cativa ampliação do acesso da po- pulação a cuidados de saúde: a pro- porção de pessoas que se consul- taram com médicos aumentou de 55% para 70%, e diminuíram as diferenças no uso desses serviços entre a primeira e a última faixa de renda. Mesmo assim, a saúde tem sido o principal motivo de reclamações nas pesquisas de opi- nião. Em pesquisa do Ibope di- vulgado em março de 2015, 89% dos entrevistados reprovaram a política de saúde do governo fe- deral. Tamanha indisposição tam- bém reflete, é claro, uma conjun- tura específica de instabilidade da coalizão governamental, embora a alta insatisfação com a saúde te- nha sido indicada em investigações anteriores. Em dezembro de 2009, no contexto de elevada aprovação do governo de Lula (com 83% de aprovação), a saúde foi avaliada como pior que a educação. Em outro registro, o da prio- ridade política, o SUS também se apresenta combalido como políti- ca de Estado. A recente entrega da pasta da saúde para uma parte da bancada do PMDB, sem nenhum constrangimento ou declaração sobre compromissos com metas sanitárias, explicita que a saúde ainda é compreendida como um programa assessório, periférico ao núcleo das políticas públicas: a saú- de foi considerada como um “anel”, não como um dos “dedos”. O desencontro entre o aumen- to das oportunidades de acesso aos serviços de saúde e o aumento das queixas pode ser explicado de du- as maneiras. A primeira, mais di- fundida, é a que se refere à saúde como um saco sem fundo, com demandas crescentes, impossíveis de serem atendidas tanto em ter- mos assistenciais quanto financei- ros. A segunda considera os pro- blemas de racionamento e de qua- lidade das ações de saúde. São diagnósticos divergentes, e deles emanam recomendações opostas. Quem compartilha a ideia da saú- de como área eternamente confla- grada considera que não há muito o que mudar: tudo o que se fizer será pouco e gerará novos proble- mas. Na posição contrária situam- -se os que consideram que políti- cas de saúde adequadas são as que respondem a demandas e necessi- dades relacionadas com o atual per- fil de morbidade, afetando positi- vamente as condições de vida. O discurso que considera inó- cua ou mesmo maléfica a inter- venção pública em esferas da vida cotidiana relacionadas com riscos sociais, as quais também são ob- jeto de atividades de grupos em- presariais poderosos, não se res- tringe à saúde. Um estudo sobre seguro social tentou demonstrar que a baixa taxa de poupança no Brasil está associada às elevadas coberturas dos programas de pro- teção aos idosos: programas de bem-estar estimulariam “compor- tamentos de cigarra”. Transposto para a saúde, o escopo desse racio- cínio diminui, admitindo-se que a saúde básica deva ser uma res- ponsabilidade pública. Há consenso sobre a necessida- de da intervenção estatal na saúde, mas também há uma disputa entre duas concepções de SUS. A pri- meira o define como um compo- nente das políticas de proteção so- cial, integrante do processo de dis- tribuição de cuidados, serviços e benefícios sociais gerados pelo uso dos impostos, considerando o bi- nômio saúde-doença como social- mente determinado. A segunda, que conta com muitos adeptos, é a “SUS para pobres”, como pro- grama de assistência aos que “não podem” pagar. Na prática, as duas inspiraram políticas de saúde em governos de distintos matizes par- tidários. A reforma psiquiátrica, que se filia à matriz original de formulação do SUS, foi aprovada durante a gestão de Fernando Hen- rique Cardoso, enquanto a exten- são das coberturas para atendimen- to de urgência e odontológico ocorreu no governo Lula. Portanto, é incorreto estabele- cer uma relação unívoca entre as políticas macroeconômicas das co- alizões que venceram eleições e as políticas de saúde. O ponto comum a todos os governos posteriores à Constituição de 1988 é o subfi- nanciamento do SUS e a liberação de transferências, diretas e indire- tas, sob a forma subsídios e dedu- ções fiscais, para empresas privadas que comercializam planos e assis- tência à saúde. Tirar com uma mão do SUS e dar com a outra ao setor privado tornou-se uma prática per- manente dos governos federais. Em 2016, o orçamento federal para a saúde será proporcionalmente me- nor que o de 2000 (13,2% e 14% da receita corrente liquida), en- quanto, no mesmo período, as re- núncias fiscais para gastos privados com saúde passaram de R$ 2 bi- lhões para R$ 20 bilhões. Políticos, líderes empresariais e sindicalistas são no mínimo cé- Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 53 22/03/16 17:40
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Lígia Bahia 54saúde pública ticos em relação ao SUS efetiva- mente universal. Uns avaliam que chegamos a uma situação equili- brada: o SUS, com seus parcos re- cursos, atende os pobres, enquan- to os segmentos de maior renda, “que pagam duas vezes” (pelo SUS e pelos planos), merecem desone- rações dos gastos com saúde. Ou- tros consideram que tudo o que se fizer em relação à saúde será mo- tivo para novas queixas: a área é conflagrada mesmo, especialmen- te por uma mídia que “só divulga o que não dá certo”. Para muitas prefeituras – o final da linha dos problemas do atendimento –, a saúde passou a ser um transtorno. A abertura de novas unidades as- sistenciais pelos governos federal e estaduais, sem recursos para con- tratação de pessoal e custeio, criou estabelecimentos fantasmas. O debate sobre o SUS, que ad- quiriu visibilidade no processo de elaboração da Constituição, refluiu para as instituições acadêmicas. Atribui-se ao pragmatismo da go- vernabilidade o fato de que 70% das doações dos empresários da saú- de nas eleições de 2014 foram para o PT. As políticas racionalizadoras restringiram o âmbito de atuação da saúde, impediram o uso com- partilhado de recursos da Seguri- dade Social e não detiveram os pro- cessos pretéritos de fragmentação e segmentação do sistema de saúde. Existem duas políticas públicas de saúde: o SUS, com suas virtudes e insuficiências, e o suporte político e financeiro para a privatização. No senso comum, o SUS é com- plementado pelos planos privados. Ficou para os técnicos a árdua ta- refa de comprovar que os sistemas universais de saúde são exatamen- te aqueles que reconheceram que a privatização subsidiada compete com a saúde pública. Mesmo quando economistas como Paul Krugman (2015) e o ortodoxo Kenneth Arrow (1963) falam sobre o impacto das imper- feições de mercado sobre a saúde, seus posicionamentos têm pouca repercussão. Um debate rarefeito é funcional para que se defenda a eficiência do privado em relação ao público e a ideia de que os sis- temas universais não são um vetor de redução de desigualdades. A troca entre consequência e causa tem como corolário duas inter- pretações: à direita, o SUS só seria viável em um país mais rico e equi- tativo; à esquerda, após a revolu- ção socialista. No início da década de 2000, os limites do SUS se tornaram vi- síveis não apenas pela reiteração dos discursos contrários aos direi- tos sociais universais e o retorno das propostas de privatização e ca- pitalização da Previdência, mas sobretudo pela restrição orçamen- tária e a prioridade dada a políticas sociais focalizadas. Têm sido re- novadas as políticas públicas em apoio a empresas de assistência e de comercialização de planos de saúde, e consolidou-se a clivagem entre demanda e oferta de cuida- dos. A expansão de coberturas pa- ra medicamentos, com o programa Farmácia Popular, e para assistên- cia móvel de emergência, com o Sistema de Atendimento Médico de Urgência (Samu) foi anunciada e implementada com certa inde- pendência em relação ao SUS. Mais recentemente, uma mu- dança constitucional permitiu a atuação do capital estrangeiro em qualquer atividade da saúde. As críticas dos especialistas, baseadas na sinergia entre o corte orçamen- tário para o SUS e a captação de recursos de fundos internacionais, foram respondidas mais uma vez com o argumento de que o forta- lecimento do setor privado não diz respeito ao SUS, como se o fato de o Brasil possuir o segundo maior mercado de planos privados do mundo fosse um evento natu- ral e inexorável. As conexões po- líticas e financeiras entre empre- sários da saúde, partidos e coalizões políticas que governam o país não são vistas com maus olhos. Ao con- trário, as colunas sociais têm re- gistrado o atendimento de políti- cos de diversas origens e vincula- ções partidárias em hospitais particulares paulistas e a presença deles em festas e em temporadas de férias nas casas de empresários da saúde. Podem não ser gestos de má-fé, mas refletem o assentimen- to ou a resignação com um siste- ma de saúde que segrega o aten- dimento a pobres e ricos. Carre- gam preconceitos e ignorâncias sobre os sistemas universais, junto com crenças nas estratégias indi- vidualizadas como respostas a pro- blemas de saúde, que são coletivos. Esses juízos pragmáticos reiteram as evidências das desigualdades e comungam com o ideário segun- do o qual o acesso às ações de saú- de deva ser modulado pela capa- cidade de pagamento, e não pelas necessidades de saúde. As pesquisas disponíveis não estudam o grau de compreensão em relação ao SUS e as expecta- tivas em relação a ele. Nos debates públicos, o dito fica pelo não dito: pode se dizer que o SUS “não saiu Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 54 22/03/16 17:40
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    PolitiKa Políticas de saúdeno Brasil 55 A abertura de novas unidades assistenciais pelos governos federal e estaduais, sem recursos para contratação de pessoal e para custeio, tem criado postos de saúde que não chegam a funcionar. Para muitas prefeituras, isso tem sido um transtorno considerável. do papel”, ou que “é um excelen- te modelo, mas que, na prática, não deu muito certo”, ou ainda que é “a maior política de inclu- são do mundo”. Essas avaliações são imprecisas. Não se trata de mais um episódio de “ganhamos, mas não levamos”. A tarefa primordial para deba- ter políticas de saúde é retomar o fio da meada, as críticas à medi- calização da vida e a imposição de padrões excludentes de consumo de tecnologias, movidos pela mer- cantilizarão do processo saúde- -doença. O direito constitucional à saúde não se limita ao acesso a ações assistenciais; estende-se pa- ra a proteção contra os riscos, es- pecialmente os sociais. Uma agen- da de políticas de saúde deve ser construída em conjunto com as políticas para as cidades – trans- porte, segurança, trabalho e renda CreativeCommons Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 55 22/03/16 17:40
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Lígia Bahia 56saúde pública – e dialogar com as políticas de reconhecimento de gênero, raça- -cor e identidades étnicas. Subsídios para uma agenda sobre políticas de saúde É desnecessário detalhar a cons- trução das inúmeras veredas que confluíram para estruturar o atu- al sistema brasileiro de saúde. Bas- ta recordar que a intervenção es- tatal na atenção à saúde tem sido muito extensa e intensa ao longo da nossa história. No Brasil, as tensões não se referem à interven- ção do Estado. Descontos no im- posto de renda são considerados devidos, são direitos. Já o SUS tende a ser encarado como favor. As manifestações de junho de 2013 estimularam a reflexão sobre o SUS, sobre a necessidade de com- preender seus estrangulamentos e transformar conhecimentos em ação. Avançaremos se formos ca- pazes de reconhecer a interdepen- dência e os gargalos estruturais, mas também as possibilidades de usar melhor o que temos, enfrentar os problemas de gestão de recursos e de profissionais de saúde, desde a formação, passando pela motivação até a avaliação. A memória sobre os sucessos e insucessos do SUS po- dem, no mínimo, alertar e evitar que se cometam os mesmos erros. Com o tempo, fica mais claro que um sistema de saúde que ofereça alta qualidade e seja gratuito é a resposta para necessidades – antigas e novas – da sociedade. No mundo ocidental contem- porâneo, os sistemas de saúde têm sido classificados segundo uma ti- pologia que os agrega segundo a natureza e a extensão da interven- ção estatal em financiamento, ges- tão e provisão de serviços. Os sis- temas universais são aqueles nos quais todos os cidadãos têm direi- to à saúde mediante acesso à ofer- ta de cuidados e serviços disponí- veis. Os meritocráticos são os sis- temas baseados no seguro social. O terceiro tipo de sistema é o de- nominado residual, no qual a in- tervenção do Estado limita-se à assistência focalizada a determi- nados grupos populacionais, de- finidos por situação socioeconô- mica, patologias, deficiências e idade. Os paradigmas dessa clás- sica tipologia são, respectivamen- te, Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos. Após a Segunda Guerra Mundial, os sistemas universais se consolidaram na Europa. Nos Es- tados Unidos, constituíram-se or- ganizações não lucrativas de por- te estadual e nacional e, posterior- mente, as seguradoras comerciais ingressaram no sistema. Ainda que o SUS tenha sido inspirado no National Healh Sys- tem inglês, não deve ser preserva- do em formol. As pressões demo- gráficas e tecnológicas sobre a saú- de devem ser levadas em conta na aplicação de noções sobre consu- mo de procedimentos médicos e hospitalares ou construção de re- lações entre cidadania e Estado. A expectativa de vida aumentou ra- pidamente. Atualmente, os siste- mas de saúde precisarão lidar com mais exigências de atenção no lon- go prazo, como hipertensão, dia- betes e cânceres. É essencial que a ANS deixe de ser um entreposto de negócios e assuma seu papel de regular o mercado de planos de saúde, incluindo o ressarcimento de recursos ao SUS. CintiaErdensPaiva/shutterstock.com Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 56 22/03/16 17:40
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    PolitiKa Políticas de saúdeno Brasil 57 Os investimentos na saúde de- verão ser orientados para prolon- gar a vida com qualidade, aten- dendo as pessoas fora dos hospitais, evitando internações e respeitan- do expectativas de usuários e pa- cientes. O Brasil tem um SUS desgastado, mas seu arcabouço é de um sistema universal, tal como recomendam os estudiosos do te- ma (Nolte e Mckee, 2008). É ne- cessário atualizá-lo, dotá-lo de recursos materiais e simbólicos, além de instrumentos administra- tivos ágeis, que assegurem parti- cipação e autonomia de usuários e trabalhadores da saúde nas de- cisões sobre políticas e nas alter- nativas assistenciais. O primeiro ponto de uma agen- da que conecte saúde com desen- volvimento econômico e social é o fortalecimento dos valores de uni- versalidade, com a reafirmação da saúde como direito. É necessário ampliar e qualificar a oferta pública de serviços de saúde, incluindo re- formas nas instalações físicas e nos equipamentos da rede hospitalar de hospitais universitários e das secre- tarias de saúde. Os filantrópicos de- vem ser atraídos para atuar como se públicosfossem,intervindonospro- cessos de formação e avaliação da qualidade das atividades desempe- nhadas pelos profissionais públicos de saúde. Outro aspecto não menos importante refere-se à ampliação da capacidade nacional de pesquisa e inovação tecnológica e à produção de insumos para saúde. Até aqui costuma existir um consenso, em- bora meramente formal. O segundo eixo de proposições refere-se à falsa disjuntiva público- -privado. O esclarecimento sobre o imbricamento público-privado do sistema de saúde brasileiro pode contribuir para a tomada de deci- sões governamentais que observem as diferenças entre os horizontes temporais e as responsabilidades sa- nitárias dos agentes que represen- tam os interesses da financeirização da saúde e dos que defendem o SUS. Para tanto, é necessário buscar que as entidades empresariais dos seto- res produtivos, como as federações das indústrias e as entidades sindi- cais, se posicionem. Trata-se de explicitar as con- tradições, os conflitos de interesses, para encontrar novas possibilidades de relacionamento entre público e privado que se coadunem com a universalização da saúde. Para tan- to, é preciso formular e implemen- tar uma política nacional de preços voltada para “desestratificar” a aten- ção à saúde no Brasil. Remunerar serviços mediante tabelas, e ainda por cima com valores diferencia- dos de acordo com a capacidade de pagamento, é um caminho que cria iniquidades que podem ser evita- das. É claro que o esforço para pa- dronizar preços terá que se apoiar nas secretarias de saúde, nas enti- dades médicas e na ampla divulga- ção dos valores correspondentes às atividades e às ações de saúde. Outra medida imprescindível para conferir transparência à in- tervenção estatal no financia- mento do setor privado de saúde é a imposição de limites à renún- cia fiscal, tanto no que concerne às deduções, quanto no que diz respeito ao não-pagamento de impostos pelas empresas do setor. As isenções e abatimentos são obtidos mediante o apelo à rele- vância pública da saúde, mas ca- talisam iniquidades. O terceiro ponto de uma agen- da para atualizar o SUS refere-se à elaboração e implementação de padrões de qualidade assistencial. A criação de um instituto de qua- lidade do SUS, com autonomia para avaliar e monitorar a rede pública e privada e normatizar as ações e atividades de saúde, exige poucos investimentos financeiros e afirma a centralidade do SUS como autoridade sanitária, com valores e padrões universais. No que tange aos planos priva- dos é fundamental que a Agência Nacional de Saúde (ANS) deixe de ser um entreposto de negócios e assuma seu papel de regulação do mercado, usando os meios legais de que dispõe para estabelecer bar- reiras à entrada de planos com co- berturas restritas, cobrar o ressar- cimento ao SUS e punir as empre- sas que não observarem a legislação. Quanto aos planos e aos hospitais, é importante levantar, divulgar e debater o montante de recursos aplicados nessas empresas, seja em termos de renúncias e deduções fiscais, seja computando emprésti- mos e créditos concedidos por ban- cos estatais. n Referências Bibliográficas Arrow, Kenneth J. “Uncertainty and the welfare economics of medical care”. The American Economic Re- view. v.5 (3): 941-973, 1963 Krugman, Paul. “Hate Good Gover- nment”. New York Times, 18 de Ja- neiro de 2015 Nolte, Ellen e Mckee, Martin C. “Measuring The Health Of Na- tions: Updating An Earlier Analy- sis”. Health Affairs v.27 (1) 58-71, 2008 Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 57 22/03/16 17:40
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    Nº 3 _MARÇO 2016 58 O injusto sistema tributário brasileiro A reforma tributária vem sendo considerada como uma prioridade nacional, mas parece condenada a ser um eterno projeto. Ela enfrentaria um duplo conflito distributivo: o primeiro refere-se à distribuição da carga tributária entre os membros da sociedade e o segundo, à falta de um acordo entre os entes federados. A Constituição indica princípios para um sistema tributário mais justo, mas o que ocorreu no país a partir da década de 1990 foi um aumento da regressividade tributária, onerando os mais pobres e a renda do trabalho. Evilasio Salvador Economista. Mestre e doutor em política social pela Universidade Brasília (UnB). Professor no Programa de Pós-Graduação em Política Social da UnB. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 58 22/03/16 17:40
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    PolitiKa O injusto sistematributário brasileiro 59 Há muitos anos a reforma tribu- tária brasileira vem sendo consi- derada como uma prioridade na- cional, mas parece condenada a ser um eterno projeto. Apesar de haver consenso quanto à sua ne- cessidade, a discussão não avança. Depois da Constituição de 1988 inúmeros projetos1 foram encami- nhados pelo Poder Executivo ao Congresso Nacional e diversos parlamentares propuseram altera- ções mais profundas no sistema tributário brasileiro. A hipótese provável para explicar a falta de avanço de uma reforma tributária é o fato de ela enfrentar um duplo conflito distributivo: o primeiro refere-se à distribuição da carga tributária entre os membros da sociedade e o segundo, à falta de acordo entre os entes federados, notadamente os estados, que de- têm a atribuição constitucional de arrecadar o principal imposto do país, o imposto sobre a circulação de mercadorias e sobre prestações de serviços de transporte interes- tadual e intermunicipal e de co- municação (ICMS). Com o agravamento da situa- ção fiscal nos últimos dois anos, abre-se novamente um espaço na agenda do país para pautar a ques- tão da reforma tributária, pois, apesar de o Brasil ter praticado ao longo da última década os maio- res superávits primários do mun- do,2 no ano passado o resultado primário do governo central fe- chou negativo: -0,34% do produ- to interno bruto (PIB). Diante desse quadro, o gover- no federal anunciou uma política de corte de gastos públicos, nota- damente daqueles relacionados aos direitos sociais: pensões, aposen- tadorias por invalidez, auxílio- SvitlanaMedvedieva/shutterstock.com Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 59 22/03/16 17:40
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Evilasio Salvador 60sistema tributário -reclusão, abono salarial, seguro- -desemprego e seguro-defeso. Pa- ralelamente, a adoção de políticas econômicas recessivas no novo mandato da presidente Dilma Rousseff tem produzido uma que- da na arrecadação tributária: em setembro de 2015, a arrecadação registrou o pior resultado dos úl- timos cinco anos. Os dados divul- gados pela Receita Federal reve- lam que, no acumulado dos nove primeiros meses de 2015, ela to- talizou R$ 901,05 bilhões, com queda real de 3,72% frente ao mes- mo período do ano anterior. O governo enviou para o Congresso Nacional o projeto de recriação da contribuição provisória sobre movimentação financeira (CPMF), apontada como uma das alterna- tivas para reforçar o caixa, em vez de aproveitar a oportunidade para realizar um debate mais amplo so- bre a questão tributária. Uma proposta de reforma tri- butária no Brasil deveria ser pau- tada pela retomada dos princípios de equidade, progressividade e ca- pacidade contributiva, tendo co- mo objetivo obter maior justiça fiscal e social, com redistribuição de renda. As tributações da renda e do patrimônio nunca ocuparam lugar de destaque na agenda na- cional e nos projetos de reforma tributária após a Constituição de 1988. Assim, é oportuno recupe- rar os princípios constitucionais basilares da justiça fiscal: equida- de, capacidade contributiva e pro- gressividade. A tributação é um dos melhores instrumentos para erradicar a pobreza e reduzir as desigualdades sociais, objetivos es- senciais da República, tal como definidos na Constituição de 1988. Este texto apresenta duas se- ções centrais: a primeira resgata os princípios tributários da Cons- tituição e aponta mudanças regres- sivas no sistema tributário; a se- gunda faz uma análise do perfil do sistema tributário brasileiro, identificando a injustiça que está presente nele. Nas considerações finais apresentamos indicações bre- ves para a realização de uma re- forma tributária que reduza a re- gressividade do sistema. Princípios tributários e mudanças regressivas no sistema tributário A Constituição de 1988 estabe- leceu um conjunto de princípios que constituíam uma base impor- tante para edificar um sistema tri- butário orientado para a justiça fiscal e social. Eles começam pe- la solidariedade que está presente em todos os princípios tributários: a isonomia, a universalidade, a capacidade contributiva, a essen- cialidade. A tributação deve ser, preferencialmente, direta, de ca- ráter pessoal e progressiva (Salva- dor, 2010). No artigo 150 fica assegurada a isonomia tributária, pois se proí- -be o tratamento desigual entre contribuintes em situação equiva- lente, não sendo permitida distin- ção em razão de ocupação profis- sional ou de função, independen- temente da denominação jurídica dos rendimentos, títulos ou direi- tos. Com isso, o quantum com que cada um contribui para as despesas do Estado deve alcançar todos os cidadãos que estão na mesma si- tuação jurídica, sem privilégios para indivíduos ou classes sociais. A lei tributária deve ser igual pa- ra todos e a todos deve ser aplica- da com igualdade (Hickmann e Salvador, 2006). Contudo, os princípios cons- titucionais que permitiriam um novo desenho para o sistema tri- butário não foram postos em prá- tica após a promulgação da Cons- tituição. Ainda no governo Sarney foi reduzida a progressividade do imposto de renda, na contramão do que seria estabelecido no texto constitucional. Das nove faixas existentes em 1988, ficaram ape- nas duas no ano seguinte (atual- mente são quatro). Para Oliveira (2006), as mu- danças na parte tributária da Cons- tituição apontavam para descen- tralizar a arrecadação, em sentido oposto ao da centralização reali- zada na ditadura militar. O autor também destaca o maior compro- misso do texto constitucional com a equidade, visando a tornar o sis- tema tributário mais justo do pon- to de vista fiscal, distribuindo me- lhor seu ônus entre os membros da sociedade. A descentralização aparecia no aumento das compe- tências tributárias das esferas sub- nacionais e no expressivo aumen- to dos fundos de participação de estados e municípios. As políticas econômicas prati- cadas na década de 1990 desagua- ram em uma legislação tributária que minou os avanços obtidos na Constituição. Os questionamentos sobre a intervenção do Estado na economia e a chamada “crise fis- cal” estabeleceram novos condi- cionantes para a extração de re- cursos da sociedade pela via tri- butária. O novo arranjo de políticas macroeconômicas anu- Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 60 22/03/16 17:40
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    PolitiKa O injusto sistematributário brasileiro 61 lava qualquer tentativa de desen- volvimento econômico; a defini- ção da regulação tributária seria um elemento decisivo das “con- dições globais de inserção da eco- nomia brasileira no mercado in- ternacional” (Bisato Jr. 2006). O próprio desenho da descentraliza- ção foi desarticulado a partir de 1993, com a desvinculação de re- cursos das contribuições sociais, que não são compartilhadas com os estados e os municípios. As alterações na legislação in- fraconstitucional, realizadas a par- tir de 1995, enfraqueceram os prin- cípios básicos do sistema tributário da Constituição de 1988, agravan- do as distorções e, sobretudo, apro- fundando a regressividade do sis- tema. As modificações, que usaram leis ordinárias e regulamentos, transferiram o ônus para a renda do trabalho e a população mais pobre, alterando o perfil da arre- cadação. As análises de Farias et al (2006) e Salvador (2010; 2014) apontam as principais alterações que enfra- quecem a justiça fiscal no Brasil: a) a isenção de imposto de ren- da na distribuição de lucros a pes- soas físicas, eliminando o imposto na fonte sobre lucros e dividendos distribuídos para os resultados apu- rados a partir de 1º de janeiro de 1996, seja o sócio capitalista resi- dente no país ou no exterior. An- tes dessa mudança, a alíquota era de 15% (Lei n° 9.249/95, art. 10º); b) instituição dos “juros sobre capital próprio”, que é a possibi- lidade de remunerar com juros o capital próprio das empresas. Na prática, isso significa uma redução da base tributária do imposto de renda e da contribuição social do lucro líquido, além de ser uma for- ma secundária de distribuição de lucros e dividendos (Lei n° 9.249/95, art. 9º); c) eliminação da alíquota de 35% do imposto de renda de pes- soa física, reduzindo a progressi- vidade desse imposto (Lei n° 9.250/95); e) elevação da alíquota do im- posto de renda de pessoa física, de 25% para 27,5% (Lei n° 9.532/97, art. 11º); f) aumento do número de de- clarantes do imposto de renda, pois a tabela desse imposto deixou de ser corrigida (1996 a 2001), fazen- do com o que os trabalhadores de mais baixa renda passassem a ser tributados (Lei nº 9.430/96). Não houve um aumento na quantidade de contribuintes em função do aumento da renda tributável de elevado potencial contributivo. g) redução para zero das alí- quotas de imposto de renda e de CPMF para investidores es- trangeiros no Brasil, garantida pela medida provisória nº 281 (15/02/2006). Foram agraciadas cotas de fundos de investimentos exclusivos para investidores não residentes que possuam, no mí- nimo, 98% de títulos públicos federais. Os grandes beneficiados pela medida foram os bancos. Hoje, essas operações permane- cem isentas de imposto de renda e também de imposto sobre ope- rações financeiras. h) significativas alterações no tratamento tributário das aplica- ções financeiras (Lei n° 11.033, de 21/12/2004), favorecendo os apli- cadores no mercado financeiro e na bolsa de valores. Para as apli- cações financeiras em chamados “fundos de investimento” e demais aplicações de renda fixa foi ado- tado um sistema de tributação de- crescente, de acordo com o prazo de permanência dos recursos na aplicação, variando de 22,5% (até seis meses) a 15% (nas aplicações acima de 24 meses). Durante o primeiro governo da presidente Dilma Rousseff, as principais iniciativas relativas ao sistema tributário foram as deso- nerações concedidas.3 O governo não tomou a iniciativa de apresen- tar uma nova proposta de reforma tributária ao Congresso Nacional (Salvador, 2014). Um balanço das medidas tri- butárias adotadas nos últimos do- ze anos indica que elas foram pon- tuais, com pouco impacto sobre a justiça social e a redução das de- sigualdades (Ipea, 2011; Salvador, 2014). Em grande parte, as inicia- tivas legislativas pretendiam obter uma simplificação tributária, com desonerações de impostos para as empresas e busca de maior com- petitividade no cenário interna- cional. As medidas voltadas para produzir algum impacto na redu- ção das desigualdades sociais limi- taram-se à maior progressividade Os governos do PT não apresentaram propostas de reforma tributária. As medidas adotadas nos últimos doze anos foram pontuais, com pouco impacto sobre a justiça social e a redução das desigualdades. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 61 22/03/16 17:40
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Evilasio Salvador 62sistema tributário do imposto territorial rural, ao aumento da alíquota da contribui- ção social sobre o lucro líquido dos bancos e a alguns efeitos pe- riféricos do imposto sobre opera- ções financeiras (Cagnin e Freitas, 2011). Nos últimos doze anos não foi revogada nenhuma das medi- das regressivas adotadas na década de 1990, destacadamente a isenção de imposto de renda sobre a dis- tribuição de lucros e dividendos a pessoas físicas residentes no Brasil ou no exterior. Neste momento de crise, a re- versão dos privilégios tributários concedidos às classes mais ricas poderia ser uma das alternativas progressistas, pois permitiria ar- recadar os recursos necessários pa- ra manter as políticas sociais e re- tomar investimentos públicos, apontando ainda para a necessária desconcentração de riqueza. Projeções realizadas por Intro- íni (2015) indicam que é possível obter uma expressiva arrecadação tributária direta com a reintrodu- ção da tributação sobre lucros e dividendos recebidos pelas pesso- as físicas. Conforme dados da Re- ceita Federal, no ano-calendário de 2012 foram declarados R$ 207 bilhões recebidos por pessoas físi- cas dessa forma, enquanto o mon- tante de lucros e dividendos dis- tribuídos – incluindo pessoas físi- cas e jurídicas, exceto as optantes pelo Simples – foi de R$ 436 bi- lhões no mesmo ano. Introíni mos- tra que a aplicação de uma alíquo- ta efetiva de 25% sobre esses ren- dimentos resultaria em uma arrecadação adicional superior a R$ 100 bilhões somente no im- posto de renda. O regressivo sistema tributário brasileiro A carga tributária bruta, incluindo a arrecadação da União, estados, Distrito Federal e municípios, au- mentou significativamente entre 1995 e 2004, passando de 27% pa- ra 33% do PIB. Mas nosso sistema está concentrado em tributos re- gressivos e indiretos, justamente os que oneram mais os trabalha- dores e os pobres. Mais da metade da arrecadação provém de tributos que incidem sobre bens e serviços, com baixa tributação sobre renda Fonte: OCDE (http://www.oecd.org/ctp/tax-policy/tax-database.htm) e PNUD (Human Development Report 2013). Os dados do Brasil são de 2011. Figura 1 | Relação entre carga tributária e concentração de renda (países selecionados — 2010) 60 55 50 45 40 35 30 25 20 15 10 0,20 0,25 0,30 0,35 0,40 0,45 0,50 0,55 0,60 Carga tributária Índice de Gini Suécia Finlândia Áustria Bélgica Itália Reino Unido Canadá Suiça Turquia EUA México Brasil Alemanha Espanha Chile SvitlanaMedvedieva/shutterstock.com Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 62 22/03/16 17:40
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    PolitiKa O injusto sistematributário brasileiro 63 e patrimônio. Nos países mais de- senvolvidos, a tributação sobre o patrimônio e a renda corresponde a cerca de 2/3 da arrecadação, con- forme dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).4 A eficácia redistributiva da política tributária brasileira é baixa, pois ela não tri- buta o patrimônio e os rendimen- tos mais elevados, não originários do trabalho – aluguéis, aplicações financeiras, lucros e dividendos (Silveira et al, 2008). A forte correlação negativa en- tre o índice de Gini e a carga tri- butária reforça a ideia de que o sistema tributário não contribui para a redistribuição de renda no Brasil. Ao contrário, ele deprime o poder de compra da população de baixa renda, alijando-a do mer- cado de consumo. Estudo publi- cado pelo Instituto de Estudos So- cioeconômicos (Inesc) destaca que em vários países da OCDE a ele- vada carga tributária bruta acom- panha uma melhor distribuição de renda, mas o sistema tributário brasileiro, fortemente regressivo, associa-se a uma elevada concen- tração de renda. A Figura 1 repro- duz os dados do estudo do Inesc (Salvador, 2014), mostrando a re- lação entre a carga tributária (eixo vertical) e a desigualdade de ren- da mensurada pelo índice de Gini (eixo horizontal) para uma amos- tra de países da OCDE em 2010. O aumento da carga tributária bruta não ocorreu de forma ho- mogênea para todas as classes so- ciais e faixas de renda no país. A Figura 2 mostra a arrecadação de 2014 das três esferas de governo – que alcançou 33,47% do PIB, conforme os dados consolidados pela Receita Federal (2015) – por bases de incidência econômica. Aparece ali o predomí- nio de tributos indiretos (sobre o consumo) e de tributos sobre a renda do trabalho. Da arrecadação tri- butária de 2014, de R$ 1,8 trilhão, 13% vêm de tributos que incidem diretamente so- bre a renda dos trabalhadores, incluindo a contribuição dos empregados para a previdência social. Os tributos sobre o consu- mo (bens e serviços) representam 51%. Considerando-se que a con- tribuição dos empregadores para a previdência social é um custo que as empresas repassam para ao consumidor, a tributação indireta sobre bens e serviços, na prática, pode representar mais de 60% da carga tributária. O principal tributo sobre o consumo é o imposto sobre cir- culação de mercadorias e serviços (ICMS), de competência dos es- SvitlanaMedvedieva/shutterstock.com Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 63 22/03/16 17:40
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Evilasio Salvador 64sistema tributário tados e do Distrito Federal. Ele é responsável por 20% da arrecada- ção tributária, uma peculiaridade do sistema brasileiro, pois em ou- tros países não é comum que o principal imposto pertença a uma esfera subnacional. O ICMS é um tributo regres- sivo, que onera a população mais pobre. Uma das principais ques- tões sobre ele diz respeito às inú- meras alíquotas envolvidas e à fal- ta de harmonização da legislação no país. As alíquotas das operações internas são estabelecidas pelos es- tados e o Distrito Federal, poden- do ser seletivas conforme a essen- cialidade do bem: produtos básicos deveriam ter alíquotas menores que os supérfluos. Contudo, a situação que pre- domina no país é exatamente a inversa, com os bens supérfluos sendo menos tributados que os bens essenciais (Lima, 2009). O ICMS responde por 45% dos tri- butos que incidem sobre os ali- mentos, com uma alíquota-padrão em torno de 17%. Em alguns es- tados chegam a ser estabelecidas mais de quarenta alíquotas dife- rentes para esses produtos (Máxi- mo, 2013). Como não há harmo- nização das normas desse imposto, o ICMS, na prática, é regulamen- tado por 27 legislações. Ademais, é prática usual no Brasil a cobran- ça “por dentro”: os tributos inci- dem sobre outros tributos, de mo- do que as alíquotas nominais são menores do que as efetivas. Os tributos indiretos são re- gressivos, pois têm uma relação inversa com o nível de renda do contribuinte, prejudicando as pes- soas de menor poder aquisitivo. Eles incidem sobre a produção e Figura 2 | Estimativa da carga tributária brasileira por base de incidência em 2014 Tributação por base R$ milhões % PIB % de incidência econômica mil milhões Fonte: Receita Federal. Carga Tributária no Brasil – 2014: análise por tributos e bases de incidência. Brasília: Secretaria da Receita Federal do Brasil, outubro de 2015. Elaboração própria. Total da Receita Tributária 1.847.739,70 33,47% 100,00% Tributos sobre a Renda 332.879,71 6,03% 18,02% Pessoa Física 145.206,46 2,63% 7,86% Pessoa Jurídica 117.600,95 2,13% 6,36% Retenções não Alocáveis 70.072,30 1,27% 3,79% Tributos sobre a Folha de Salários 465.301,80 8,43% 25,18% Previdência Social 306.110,54 5,54% 16,57% Empregador 190.546,71 3,45% 10,31% Empregado 96.406,68 1,75% 5,22% Autônomo 12.372,30 0,22% 0,67% Outros 6.784,86 0,12% 0,37% Seguro Desemprego 108.781,72 1,97% 5,89% Outros 50.409,55 0,91% 2,73% Tributos sobre a Propriedade 77.077,43 1,40% 4,17% Propriedade Imobiliária 28.876,05 0,52% 1,56% Propriedade de Veículos Automotores 32.452,96 0,59% 1,76% Transferências Patrimoniais 15.748,41 0,29% 0,85% Tributos sobre Bens e Serviços 942.666,55 17,07% 51,02% Gerais 646.964,09 11,72% 35,01% Não Cumulativos 408.982,43 7,41% 22,13% Cumulativos 237.981,66 4,31% 12,88% Seletivos 177.527,63 3,22% 9,61% Automóveis 40.345,95 0,73% 2,18% Bebidas 16.177,43 0,29% 0,88% Combustíveis 45.329,57 0,82% 2,45% Energia Elétrica 30.828,74 0,56% 1,67% Tabaco 9.846,48 0,18% 0,53% Telecomunicações 34.999,45 0,63% 1,89% Comércio exterior 36.773,72 0,67% 1,99% Taxas - Prest. Serviços e Poder Polícia 44.071,51 0,80% 2,39% Contribuições Previdenciárias 22.885,00 0,41% 1,24% Outras Contribuições Sociais e Econômicas 14.444,60 0,26% 0,78% Tributos sobre Transações Financeiras 29.819,44 0,54% 1,61% Trib. s/ Débitos e Créditos Bancários 63,29 0,00% 0,00% Outros 29.756,15 0,54% 1,61% SvitlanaMedvedieva/shutterstock.com Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 64 22/03/16 17:40
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    PolitiKa O injusto sistematributário brasileiro 65 o consumo de bens e serviços, sen- do passíveis de transferência para terceiros, ou seja, para os preços dos produtos. Os consumidores pagam o tributo com a mediação das empresas produtoras ou ven- dedoras, que são as contribuintes legais. Como o consumo é pro- porcionalmente decrescente em relação à renda, isso prejudica mais os contribuintes de menor poder aquisitivo. Para Oliveira (2009) trata-se do “fetiche” do imposto: o empresário nutre a ilusão de que recai sobre seus ombros o ônus do tributo, mas este, incorporado à estrutura de custos da empresa, na verdade é repassado aos preços. A Figura 2 destaca a irrisória tributação do patrimônio no Bra- sil: somente 1,4% do PIB, o que equivale a 4,18% da arrecadação tributária realizada em 2011. Nos principais países capitalistas, con- forme Owens (2005), os tributos sobre o patrimônio representam mais de 10% da arrecadação tri- butária: 10% no Canadá, 10,3% no Japão, 11,8% na Coreia, 11,9% na Grã-Bretanha e 12,15% nos Es- tados Unidos. A tributação sobre patrimônio reapareceu no debate internacio- nal depois da publicação de O ca- pital no século XXI, de Thomas Pi- ketty (2014). A partir da análise de dados tributários e apresentan- do vasta evidência empírica, o au- tor demostra que houve um au- mento espetacular na desigualdade de renda nas principais economias do mundo. E faz um apelo, espe- cialmente, por impostos sobre a riqueza, se possível em escala mun- dial, a fim de restringir o crescen- te poder da riqueza hereditária. No caso brasileiro, o imposto sobre herança é conhecido como imposto de transmissão causa mor- tis e doação (ITCMD), e sua ar- recadação compete aos governos estaduais. Em 2014 foram arreca- dados apenas R$ 4,7 bilhões, so- mente 0,25% do total, conforme estudo da Receita Federal (2015). Oliveira e Biasoto Jr. (2015) des- tacam que esse imposto, criado em 1988, permanece com pouca re- levância no sistema tributário bra- sileiro e nem chega a ser regula- mentado em vários estados. Mui- tas vezes, sequer é cobrado na transmissão de imóveis por moti- vo de morte. Oliveira e Biasoto Jr. (2015, p. 27), com base em dados da Re- ceita Federal, afirmam que “os valores dos bens e direitos decla- rados como recebidos como he- ranças e doações, isentos da inci- dência do imposto de renda, fo- ram, em 2013, de R$ 51 bilhões. Trata-se de uma transferência de riqueza apreciável e, a não ser no caso do cônjuge, imerecida por quem a recebe, por não ser fruto do trabalho, mas resultado apenas da sorte.” A insignificante arrecadação também resulta da baixa alíquota do ITCDM, que em 1992 foi fixa- da pelo Senado Federal em 8%, mas raramente passa de 5% nos estados, na maioria das vezes sem progres- sividade, como é o caso de São Pau- lo, onde a alíquota única é de 4%. Na média dos países da OCDE essa alíquota é de 15%, mas há paí­ ses, como Japão, em que alíquota máxima chega a 55%. Na Bélgica SvitlanaMedvedieva/shutterstock.com Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 65 22/03/16 17:40
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Evilasio Salvador 66sistema tributário chega a 50% e na França é de 45%. No Reino Unido, o teto da tri- butação sobre herança é de 40%. Na América Latina, o Chile tem uma alíquota máxima de imposto sobre herança de 25% (Oliveira e Biasoto Jr., 2015). Há outras particularidades da tributação sobre patrimônio no Brasil. No período de 2000 a 2011, o acréscimo na arrecadação tribu- tária sobre o patrimônio decorreu, principalmente, do maior recolhi- mento do imposto sobre a pro- priedade de veículos automotores (IPVA), consequência do cresci- mento da venda de automóveis (Salvador, 2014). Entre 2003 e 2012 houve um aumento de 98% na produção de veículos automo- tores, colocando o Brasil como o quarto maior fabricante de carros e o detentor da sétima maior fro- ta, de acordo com a Associação Nacional dos Fabricantes de Veí- culos Automotores (Anfavea).6 Convém ressaltar que o IPVA não incide sobre veículos como jatos, helicópteros, iates e lanchas por- que, sendo sucessor da antiga taxa rodoviária única, a jurisprudência estabeleceu que sua incidência li- mita-se aos veículos terrestres. Apesar de ser um país com for- te presença de latifúndios, o Bra- sil cobra um imposto irrisório so- bre as propriedades rurais. Os da- dos da Receita Federal (2015) revelam que o imposto territorial rural arrecada 0,01% do PIB. A Constituição prevê progressivida- de na cobrança do imposto sobre propriedade territorial urbana, de competência municipal, mas têm sido estabelecidas alíquotas neu- tras para ele (Silveira et al, 2008). Além disso, até hoje não foi regu- lamentado o imposto sobre gran- de fortunas, de competência da União, estabelecido na Constitui- ção de 1988. Também é irrisória a tributa- ção das transações financeiras: ape- nas 0,54% do PIB, conforme a Figura 2, arrecadado basicamente com o imposto sobre operações financeiras (IOF). No ano 2000, o IOF arrecadava o equivalente a 0,29% do PIB, apresentando um crescimento percentual da ordem de 267% no período de 2000 a 2011 (Salvador, 2014) e alcançan- do R$ 29,4 bilhões em 2014 (Re- ceita Federal, 2015). O IOF foi criado na reforma tributária de 1966, realizada pela ditadura militar, concebido como instrumento auxiliar das políticas monetária e cambial para facilitar o alcance dos objetivos macroe- conômicos estabelecidos pelo go- verno federal. O financiamento das políticas públicas não é sua principal função, pois se trata de um imposto regulatório. Mas as funções do IOF foram paulatina- mente ampliadas. Hoje, ele incide sobre diversas operações e serviços oferecidos pelo sistema bancário, destacadamente: operações com títulos mobiliários, com câmbio, com seguro e com crédito, deri- vativos e ouro. O IOF vem cumprindo tam- bém uma função arrecadatória, contribuindo para repor parcial- mente os recursos perdidos com o fim da CPMF. Em tese, trata-se de um imposto repassado ao pre- ço de bens e serviços finais, com características regressivas. Con- tudo, o IOF pode se transformar em um imposto sobre a taxação de transações financeiras se ad- quirir características de progres- sividade, isentando as operações de crédito popular e alargando a base de tributação para atingir um conjunto de produtos financeiros especulativos. Um aspecto particular da tri- butação sobre a renda no Brasil é que nem todos os rendimentos tributáveis de pessoas físicas são levados obrigatoriamente à tabe- la progressiva do imposto e sujei- tos ao ajuste anual de declaração de renda. A tributação dos salários obedece às quatro alíquotas esta- belecidas na legislação, mas os rendimentos decorrentes de ren- da fundiária variam de 0,03% a 20%, conforme o grau de utili- zação da terra e a área total do imóvel. Os rendimentos de apli- cações financeiras têm alíquotas que variam entre 0,01% e 22,5%, Estudos do Ipea mostram que as famílias brasileiras mais pobres destinam 32% da sua renda para o pagamento de tributos. Essa percentagem cai para apenas 21% nas famílias mais ricas. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 66 22/03/16 17:40
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    PolitiKa O injusto sistematributário brasileiro 67 conforme o prazo e o tipo de apli- cação, o que privilegia os rentis- tas. Essa situação evidencia que, em pleno século XXI, tributamos mais fortemente as rendas deri- vadas do trabalho. Isso ocorre porque a atual le- gislação não submete à tabela pro- gressiva do imposto de renda os rendimentos de capital e outras rendas da economia, que são tri- butados com alíquotas inferiores à do imposto que incide sobre a renda do trabalho. Ao permitir a incidência exclusiva de determi- nados rendimentos na fonte, a le- gislação tributária acaba estabele- cendo discriminações na origem da renda dos contribuintes, que acabam sendo tributados apenas proporcionalmente, fugindo da progressividade. Trata-se de um contraste com o que está estabe- lecido na Constituição, que não permite discriminação em razão da ocupação profissional ou da função exercida pelos contribuin- tes, independentemente da deno- minação jurídica dos rendimentos, dos títulos ou dos direitos. (Sin- difisco Nacional, 2010). Essa falta de isonomia criou uma situação esdrúxula no país, com um número relativamente reduzido de contribuintes apre- sentando elevada renda tributável. Análise realizada por Gobetti e Orair (2015), com base na publi- cação da Receita Federal denomi- nada “Grandes números do IR- PF”,7 compara como as distintas rendas que se distribuem na socie- dade e mostra como a desigualda- de leva a números surpreendentes de injustiça tributária. Em 2013, 71.440 declarantes estavam no to- po da pirâmide de renda no país, com rendimento igual ou maior que 160 salários mínimos, o que correspondia a R$ 108.480,00 mensais. Esses declarantes repre- sentavam 0,3% do total de pesso- as que prestaram informações ao Fisco, ou aproximadamente 0,05% da população economicamente ati- va (Gobetti e Orair, 2015). Em 2013, essas pessoas tinham um “pa- trimônio líquido de R$ 1,2 trilhão (23% do total) e uma renda total de R$ 298 bilhões (14% do total), dos quais R$ 196 bilhões em ren- dimentos isentos e R$ 64,5 bilhões em rendimentos tributados exclu- sivamente na fonte” (Gobetti; Orair, 2015, p. 15). Somente cer- ca de 1/3 desses indivíduos pagam algum imposto de renda; 2/3 são isentos. A média da alíquota paga equivale a 2,6% sobre a renda to- tal. Isso é uma consequência di- reta da isenção de imposto de ren- da sobre lucros e dividendos: des- ses 71.440 declarantes, 51.419 receberam dividendos e lucros, isentos de imposto de renda (Go- betti e Orair, 2015). Estudo do Instituto de Pesqui- sa Econômica Aplicada (Ipea, 2011) confirma a elevada regres- sividade do sistema tributário bra- sileiro: os 10% das famílias mais pobres do Brasil destinam 32% da renda disponível para o paga- mento de tributos, enquanto o peso dos tributos cai para 21% da renda dos 10% mais ricos. O es- tudo do Ipea é baseado na Pes- quisa de Orçamentos Familiares (POF) de 2008-2009 do IBGE e apresenta resultados consistentes para a incidência dos tributos in- diretos nos primeiros décimos de renda. No caso dos tributos indi- retos, a avaliação se baseia na ren- da disponível, já descontados os tributos diretos. Por isso não surpreende que a BBC Brasil (14/03/2014) tenha noticiado que “rico é menos ta- xado no Brasil do que na maioria do G20”.8 O texto da jornalista Mariana Schreiber destaca que a elite brasileira costuma reclamar dos impostos, mas sua queixa não procede na comparação interna- cional, pois os mais pobres é que financiam o Estado brasileiro. A reportagem publicada pela BBC Brasil foi feita a partir do levan- tamento da PricewaterhouseCo- opers (PWC) realizado em deze- nove países que integram o G20 (grupo que reúne as dezenove maiores economias do mundo mais a União Europeia) e concluiu que os brasileiros pagam menos imposto de renda que os cidadãos dos países do G20. Esse sistema tributário onera a população de baixa renda, que su- porta uma elevada tributação in- direta. Além disso, os impostos diretos têm baixa progressividade e incidem fortemente sobre a ren- da dos trabalhadores. Considerações Finais9 O debate sobre a reforma tributá- ria no Brasil não pode ignorar a injustiça social predominante. As modificações devem apontar para uma estrutura de impostos mais progressiva e mais justa. Com isso, as classes de elevado poder aqui- sitivo passariam a arcar com o maior ônus tributário, permitindo, na prática, uma redistribuição de renda no país e a desoneração da tributação sobre o consumo e a própria produção. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 67 22/03/16 17:40
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Evilasio Salvador 68sistema tributário É necessário revogar algumas alterações realizadas na legislação infraconstitucional após 1995, que sepultaram a isonomia tributária no Brasil, favorecendo a renda do capital em detrimento da renda do trabalho. Entre essas mudanças destacam-se: o fim da possibilida- de de remunerar com juros o ca- pital próprio das empresas, redu- zindo o imposto de renda e a con- tribuição social sobre o lucro líquido; o fim da isenção de im- posto de renda na distribuição dos lucros e dividendos, na remessa de lucros e dividendos ao exterior e nas aplicações financeiras de in- vestidores estrangeiros no Brasil. A criação do imposto sobre grandes fortunas, previsto na Constituição e não regulamenta- do até hoje, pode ser uma opor- tunidade para a prática da justiça tributária, aplicando corretamen- te o princípio constitucional da capacidade contributiva e oneran- do o patrimônio dos mais ricos no país. De forma complementar ao imposto sobre grandes fortunas, deve ser introduzida a progressi- vidade no imposto de transmissão causa mortis e doação, adotando-se, a exemplo do imposto de renda, uma faixa de isenção e uma tabe- la progressiva de contribuição, conforme o valor do bem doado ou transmitido. Outra forma de avançar na justiça fiscal para redu- zir as desigualdades sociais é am- pliar a tributação do imposto sobre a propriedade de veículos auto- motores, que possui baixa progres- sividade e não incide sobre a pro- priedade de embarcações e aero- naves particulares. No tocante à tributação sobre o consumo, os bens e produtos devem ser tribu- tados de forma seletiva em função de sua essencialidade, taxando-se mais os bens supérfluos e menos os produtos essenciais à vida. Também é necessário reorien- tar a tributação para que ela incida prioritariamente sobre o patrimô- nio e a renda dos contribuintes. O pilar do sistema tributário deve ser o imposto de renda, o imposto di- reto mais importante, capaz de ga- rantir o caráter pessoal e a gradu- ação de acordo com a capacidade econômica do contribuinte. Por meio do imposto de renda é pos- sível inverter a regressividade da estrutura tributária brasileira, pois ele é o imposto mais progressivo. A desigual tributação da ren- da, que beneficia o topo da pirâ- mide social, poderia ser resolvida se os rendimentos fossem tribu- tados pela tabela progressiva do imposto de renda, com novas alí- quotas e maior número de faixas de contribuição. O resultado se- ria uma inversão na distribuição da carga tributária, que passaria a ser concentrada em tributos di- retos, ou seja, sobre a renda e o patrimônio, garantindo maior justiça social. n SvitlanaMedvedieva/shutterstock.com Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 68 22/03/16 17:40
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    PolitiKa O injusto sistematributário brasileiro 69 Notas 1. Para ficar no período mais recente destaca-se a iniciativa no início do governo de Fernando Henrique Cardoso da proposta emenda consti- tucional (PEC) 175, de 1995. No governo de Luís Inácio Lula da Sil- va foram encaminhadas a PEC 41/2003 e a PEC 233/2008. 2. Conforme matéria publicada na revista Carta Capital (07/03/2014), o superávit brasileiro é um dos cinco maiores do mundo. 3. Um detalhamento das medidas de desonerações tributárias tomadas no período de 2011 a 2014 pode ser vista em: SALVADOR, Evilasio. Renúncias Tributárias: os Impactos no Financiamento das Políticas Sociais no Brasil. Brasilia: Inesc, 2015 . 4. Conforme http://www.oecd-ilibrary.org/taxation/taxation-key-ta- bles-from-oecd_20758510 5. Siqueira, Nogueira e Souza (2001) corroboram a hipótese aqui adota- da de translação total, isto é, de repasse aos preços de bens e serviços dos encargos tributários de responsabilidade das empresas. Um estudo baseado em modelos econométricos, que segue uma proxy dessa clas- sificação, pode ser visto em Fullerton e Metcalf (2002), disponível em http://paper.nber.org/papers/w8829 6. http://www.anfavea.com.br 7. Os Dados estão disponíveis em http://idg.receita.fazenda.gov.br/da- dos/receitadata/estudos-e-tributarios-e-aduaneiros/estudos-e- -estatisticas/11-08-2014-grandes-numeros-dirpf/grandes-numeros- -dirpf-capa 8. Disponível em http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/ 2014/03/140313_impostos_ricos_ms.shtml 9. Um conjunto de propostas para um sistema tributário mais justo pode ser visto em Salvador (2014). Referências BIASOTO JR., Geraldo. “O sistema tributário brasileiro: uma trajetória de fragmentação”. In: PINTO, Marcio; BIASOTO JR., Geraldo (orgs.). Política fiscal e desenvolvimento no Brasil. Campinas: Editora da Unicamp, 2006, p. 21-38. CAGNIN, Rafael e FREITAS, Maria. A experiência brasileira com a tributa- ção das transações financeiras. Brasília: Cepal-Ipea, 2011. 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    Nº 3 _MARÇO 2016 70 Capitalismo e Estado no Brasil A saga dos investimentos públicos A “nova matriz macroeconômica” e os investimentos públicos Em meados de 2011, no início da primeira gestão da presidente Dil- ma Rousseff, a política econômi- ca, praticada até então dentro dos cânones da ortodoxia liberal, so- freu uma ligeira inflexão. Alguns meses depois, o próprio ministro da Fazenda deu nome aos bois e admitiu a adoção de uma “nova matriz macroeconômica”.1 Tudo indica que o que moti- vou a mudança foi um diagnós- tico da evolução macroeconômi- ca depois da crise financeira in- ternacional de 2008. Percebia-se um esgotamento da possibilidade de o consumo, alavancado pelo crédito, continuar a funcionar co- mo a variável dinâmica do cres- cimento. De fôlego naturalmen- te curto, essa variável esbarrava no crescimento do nível de endi- vidamento das famílias, que en- costava nos limites. Ao mesmo tempo, o desenro- lar da crise internacional não per- mitia prever um comportamento promissor da demanda externa. Em particular, com a China dan- do nítidos sinais de que desacele- raria sua economia – no mínimo, reduziria o ritmo de crescimento de sua formação bruta de capital fixo (FBKF) –, ficava evidente que o boom de preços das commo- dities, que tanto beneficiara o Bra- sil até o estouro da crise, era coi- sa do passado. Restava tentar recuperar o in- vestimento para que funcionasse da maneira como tem de funcio- nar no capitalismo, ou seja, como a variável dinâmica por excelência. Os dados eram claros em mostrar a queda na taxa de crescimento real do investimento no período recente (gráfico 1). Além disso, a recuperação do investimento de- veria impulsionar o aumento da produtividade da economia, outra necessidade premente para garan- tir o crescimento. A “nova matriz macroeco- nômica” nasceu, pois, com a ta- refa de recuperar a taxa de cres- cimento da formação bruta de capital fixo, sob pena de com- prometer as condições futuras do crescimento econômico. Se bem- -sucedida, a política deveria levar a um aumento da participação do investimento no PIB. Apesar de uma ligeira recuperação des- de 2003, esse indicador continu- ava muito aquém dos níveis exi- gidos para garantir um cresci- Leda Maria Paulani Professora titular do Departamento de Economia da FEA-USP e da Pós-graduação em Economia do IPE-USP O governo brasileiro aceitou o diagnóstico ortodoxo de que os investimentos público e privado concorrem entre si, de modo que seria preciso encolher o primeiro para expandir o segundo. Mas nossa história mostra que essa ideia é um equívoco. Há uma inter-relação extremamente positiva entre os investimentos público e privado. Apesar de sua menor dimensão em termos absolutos, o investimento público tem um papel de liderança na condução do ritmo de crescimento da economia. DadoPhotos/shutterstock.com Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 70 22/03/16 17:40
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    PolitiKa mento futuro sustentável,capaz de dar continuidade ao processo de inclusão social que estava em curso. Também estava longe dos níveis que atingira historicamen- te no país. A redução acelerada da taxa de juros foi o principal instrumento da “nova matriz”. Buscava-se com isso um triplo resultado: (a) redu- zir a apreciação do câmbio para recuperar espaço de mercado (ex- terno e interno) para a produção nacional, aumentando a eficiência marginal do capital e incentivando o investimento; (b) elevar o preço de demanda dos bens de capital, induzindo o investimento; (c) re- duzir os custos das empresas, abrin- do espaço para o investimento.2 O enfrentamento dos juros foi seguramente a marca maior a en- sejar o batismo de nova matriz, bem como o início das discussões sobre o caráter desenvolvimen- tista ou não de tal política.3 A esse ingrediente soma-se outro, destinado a impor controles mí- nimos ao fluxo internacional de capitais,4 evitando que, do ponto de vista da apreciação cambial a ser reduzida, os humores dos ca- pitais internacionais desfizessem com uma mão o esforço que o governo fazia com a outra, ao di- minuir bruscamente a taxa bási- ca de juros e enfrentar os inte- resses rentistas internos. 71 Fonte: Ipeadata (IBGE, contas nacionais, base 2010). Elaboração própria 2010 T1 2010 T2 2010 T3 2010 T4 2010 T1 2011 T2 2011 T3 35 30 25 20 15 10 5 0 GRÁFICO 1 | FBKF - Formação Bruta de Capital Fixo | 2010 – 2011 taxa de crescimento real (%) DadoPhotos/shutterstock.com Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 71 22/03/16 17:40
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Leda Maria Paulani 72investimentos públicos Se se reduzisse a isso e se a es- sas duas medidas se somasse a con- tinuidade e mesmo o fortaleci- mento do investimento público, que vinha crescendo monotoni- camente desde 2004 no âmbito do governo central, o rótulo “nova matriz” ou “nova política” estaria mais bem aplicado. Mas não foi isso o que se deu. Ao contrário, na esteira do que havia sido feito no imediato após-crise (subsídios aos setores de eletrodomésticos e automotivo), optou-se por adicio- nar a essas medidas uma política de desonerações da folha de paga- mentos, que começou seletiva e depois se generalizou. Mantida a obrigação de pro- duzir substantivos superávits pri- mários, com a economia desace- lerando, o único meio de encon- trar espaço fiscal para acomodar o custo das desonerações foi re- duzir o investimento público (grá- fico 2). Em outras palavras, o go- verno decidiu usar o reduzido es- paço discricionário que detém no manejo do orçamento para incen- tivar o investimento privado (po- lítica pelo lado da oferta), em vez de continuar a elevar o investi- mento público (política pelo lado da demanda). O resultado foi desastroso, pois o investimento privado não cor- respondeu às expectativas e não reagiu. A taxa de crescimento re- al da FBKF continuou a declinar em 2012, chegando a se tornar negativa. Esboçou uma ligeira re- cuperação em 2013 e mergulhou de vez em 2014-2015 (gráfico 3). Com isso, não só assistimos à continuidade da queda da relação FBKF/PIB (gráfico 4),5 como tes- temunhamos o agravamento dos resultados relativos ao crescimen- to do produto (gráfico 5). Não é o caso de discutir aqui em detalhes quais foram as razões do torpor do investimento priva- do e/ou qual delas foi a determi- nante para esse resultado. Mas pensamos não errar muito se dis- sermos que devem ter se combi- nado, de um lado, a continuidade das expectativas ruins sobre a ren- da e o consumo futuros, depri- mindo a eficiência marginal do capital, e, de outro, a pouca dis- posição política de investir e for- talecer um governo visto cada vez mais como intervencionista.6 Num ambiente de incerteza econômica e desconforto político, os cerca de R$ 80 bilhões adicionais (a preços de 2014) gastos pelo governo fe- deral em subsídios e desonerações de folha entre 2012 e 20147 en- gordaram as margens de lucro, mas não se transformaram em am- pliação de capacidade e elevação de produtividade. Independentemente da inten- ção de quem tomou a decisão, a opção do governo seguiu o diag- nóstico ortodoxo de que há uma GRÁFICO 2 | FBKF do governo federal (% PIB) 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 0,9 0,8 0,7 0,6 0,5 0,4 0,3 0,2 0,1 0 Fonte dos dados primários: Afonso e Fajardo (2015). Elaboração própria Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 72 22/03/16 17:40
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    PolitiKa 73 A saga dosinvestimentos públicos Fonte dos dados primários: Ipeadata (IBGE - Contas Nacionais- base 2010). Elaboração própria. GRÁFICO 3 | FBKF taxa de crescimento real (%) GRÁFICO 4 | Taxa de Investimento - FBKF/PIB (%) | 1986 – 2014 GRÁFICO 5 | PIB taxa acumulada em quatro trimestres (%) 8,00 7,00 6,00 5,00 4,00 3,00 2,00 1,00 0,00 -1,00 -2,00 28 26 24 22 20 18 16 14 35 30 25 20 15 10 5 0 -5 -10 -15 2006t1 2006t3 2007t1 2007t3 2008t1 2008t3 2009t1 2009t3 2010t1 2010t3 2011t1 2011t3 2012t1 2012t3 2013t1 2013t3 2014t1 2014t3 2015t1 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2010t1 2010t2 2010t3 2010t4 2011t1 2011t2 2011t3 2011t4 2012t1 2012t2 2012t3 2012t4 2013t1 2013t2 2013t3 2013t4 2014t1 2014t2 2014t3 2014t4 2015t1 2015t2 Início da nova matriz Início da nova matriz Início da nova matriz Fonte dos dados primários: Ipeadata (IBGE, Contas Nacionais, base 2010). Elaboração própria Fonte dos dados primários: Ipeadata (IBGE - Contas Nacionais). Elaboração própria Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 73 22/03/16 17:40
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Leda Maria Paulani 74investimentos públicos relação de concorrência entre o investimento público e o privado (fenômeno conhecido na litera- tura econômica como crowding out), de modo que o último só te- ria lugar de modo mais firme dian- te do encolhimento do primeiro. Ainda que isolado, esse episódio comprova que a tese é equivoca- da: no período que estamos ana- lisando, a economia brasileira fi- cou sem um e sem outro (consi- derado o triênio 2012-2014, o investimento do setor privado apresentou crescimento real ne- gativo de 1,3%). A história brasileira, porém, tem evidências bem mais contun- dentes desse equívoco. Ao contrá- rio da tese ortodoxa, ela revela uma inter-relação extremamente positiva entre o investimento pú- blico e o privado e, apesar de sua menor dimensão em termos abso- lutos, um papel de liderança do primeiro na condução do ritmo de crescimento da economia. Re- trocedamos, então. Primeiro ato: o setor produtivo estatal como prima donna Entre 1930 e 1980, a economia brasileira foi a que mais cresceu no mundo. Atingiu uma taxa mé- dia de crescimento real do PIB de 6,5% ao ano, chegando a al- cançar 8,8%, um padrão verda- deiramente chinês, na década de 1970. Esse período assistiu tam- bém o crescimento quase siste- mático da taxa de investimento (FBKF/PIB), que saiu de uma média de 11% no quinquênio 1940-1944 para uma média de 23% no quinquênio 1975-1979, decaindo a partir daí. Por trás dis- so, por diferentes razões e com diferentes modelos, houve uma insistente disposição do Estado brasileiro em aumentar a veloci- dade da locomotiva do investi- mento público para alavancar e arrastar o investimento privado. Estruturalmente, foi essa, afinal, a espinha dorsal do assim chama- do nacional-desenvolvimentismo, que conhece o ocaso na crise da década de 1980 e, depois, no pre- domínio das ideias e programas liberais a partir da década de 1990. Nos trinta anos que vão de 1947 a 1977, o investimento público cresceu sistematicamente em uma velocidade maior do que a dos in- vestimentos privados, invertendo- -se a tendência a partir daí.8 O período de maior crescimento do PIB – a década 1970 – foi também o que registrou as maiores taxas de investimento público (FBKF do setor público/PIB), apresen- tando a média de 8,6% e chegan- do a alcançar o recorde de 11,7% em 1976 (para efeitos de compa- ração, cabe lembrar que, hoje, es- sa taxa anda em torno dos 4%, incluindo-se o investimento das estatais). Avaliando-se a série por quinquênios, o quinquênio com taxa média mais elevada (9,4%) é, não por acaso, o de 1975-1979, precisamente aquele que concen- trou os pesados investimentos es- DadoPhotos/shutterstock.com Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 74 22/03/16 17:40
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    PolitiKa A saga dosinvestimentos públicos 75 tatais em infraestrutura, bens de capital e insumos básicos que cons- tituíram o II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND). Ao longo de todo esse período, mas principalmente a partir do início da década de 1950, com a constituição e consolidação das poderosas empresas estatais brasi- leiras, ficou evidente a sinergia entre investimentos públicos e pri- vados no Brasil. Como lembra Belluzzo, “o setor produtivo esta- tal – num país periférico e de in- dustrialização tardia – funcionava como um provedor de externali- dades positivas para o setor priva- do. A sinergia público-privado ocorria em três frentes: 1) o in- vestimento público (sobretudo na área de energia e transportes) cor- ria na frente da demanda corren- te; 2) as empresas do governo ofe- reciam insumos generalizados (bens e serviços) em condições e preços adequados; e 3) [as empre- sas do governo] começavam a se constituir – ainda de forma inci- piente – em centros de inovação tecnológica” (2015, p.19-20). A partir do início da década de 1960, quando estavam em torno de 0,5% do PIB, os investimentos do setor produtivo estatal só fize- ram crescer, tornando-se a grande estrela da FBKF e dos investimen- tos públicos e chegando a atingir os 7,0% do PIB no final da década de 1970. A brutal elevação dos ju- ros americanos em 1979 e o se- gundo choque do petróleo, no mesmo ano, mudaram bastante esse cenário, dando início a um período de crise e desestabilização. No caso das estatais brasileiras, a restrição de divisas que passou a marcar o país envolveu-as direta- mente na chamada crise da dívida externa, pois retirou-lhes a capa- cidade de honrar, em moeda forte, os empréstimos externos que elas haviam sido induzidas a tomar (na tentativa de enfrentar o constran- gimento do balanço de pagamen- tos do país, resultante do primeiro choque do petróleo). Na sequên- cia, na década de 1990, os progra- mas de privatização, inspirados no Consenso de Washington, redu- ziram o tamanho do setor produ- tivo estatal e, portanto, sua capa- cidade de induzir o investimento privado. Vejamos mais de perto. Segundo ato: uma estrela se apaga A crise cambial que tomou conta da economia brasileira no início da década de 1980 obrigou um ajuste forçado de seu ritmo de cres- cimento às novas condições do mercado internacional de capitais. Sem a opção de aumentar seu pas- sivo externo, opção que estivera tão à mão na década anterior, o único caminho foi reduzir o ta- manho da economia e o montan- te de suas despesas correntes em divisas. No triênio 1981-1983, a economia brasileira encolheu 6,3%. Contudo, o impacto dessa redução na FBKF demorou mais a se fazer sentir. Nos anos imedia- tamente posteriores à crise, entre 1979 e 1982, a relação FBKF/PIB manteve-se na casa dos 22%, só se reduzindo para a cerca de 18% a partir de 1983.9 Em paralelo, a relação FBKF do setor público/ PIB, nesse mesmo período, man- teve-se no patamar, ainda elevado, de 6,5% a 7,0% no período 1979- 1982, só caindo para 5,3% em 1983. Apesar da restrição externa e da situação cada vez mais com- plicada das contas públicas, o setor público (estatais inclusive) carre- gava o peso da conclusão de vários investimentos do IIPND, que ha- viam atrasado. Na contramão da ortodoxia e sua teoria dos sunk costs, segundo a qual custos passados são irreme- diáveis e não podem determinar nossas decisões presentes, os in- vestimentos atrasados do II PND foram concluídos, apesar de tudo. Isso ajudou a aumentar a taxa de investimento da economia, mes- mo com a crise já instalada. Na interpretação clássica de Barros de Castro, “a economia brasileira es- tava grávida dos investimentos” e não havia outra saída racional que não fosse continuar forçadamente sua marcha em direção ao amadu- recimento do estratégico pacote Os juros elevados, a manutenção de gastos com subsídios e as desonerações tributárias desestruturaram as contas públicas e levaram a presidente Dilma a recorrer ao receituário ortodoxo, que agravou os problemas. DadoPhotos/shutterstock.com Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 75 22/03/16 17:40
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Leda Maria Paulani 76investimentos públicos do II PND,10 o qual, como se sa- be, foi o responsável pela conclu- são de nossa matriz interindustrial. Em todo o período 1979-1982, o setor produtivo estatal continuou a ser a grande estrela do investi- mento público. O esforço de in- vestimento das estatais brasileiras visando a conclusão dos investi- mentos do II PND fez com que sua participação no investimento público total girasse sempre em torno a 2/3, o que significava cer- ca de 4% do PIB. Depois disso, porém, apesar da relativa recuperação do crescimen- to da economia nos três anos sub- sequentes (a taxa média de cresci- mento real do PIB ficou na casa dos 6,8% entre 1984 e 1986), en- sejada principalmente pelos bons resultados das transações correntes (como efeito da própria conclusão do II PND) e da euforia pós-Plano Cruzado, a relação FBKF do setor público/PIB nunca mais retornou aos patamares anteriores. A taxa de crescimento dessa parcela da FBKF nunca mais se colocou à frente da taxa de crescimento da FBKF do setor privado, como ocorrera até o final da década de 1970. De início provocada pela dificuldade das con- tas públicas brasileiras na década de 1980, essa contínua perda de importância dos investimentos pú- blicos foi consolidada com o pro- cesso de privatização da década de 1990, que acabou por encolher substantivamente o setor produtivo estatal brasileiro.11 Como mostra o gráfico 4, apre- sentado na primeira seção deste artigo, a partir do final da década de 1980 a taxa de investimento da economia brasileira sofre um pro- cesso de declínio que atinge o fun- do poço em 2003, quando mal passa dos 15%. Ao longo de todo esse período, o investimento pú- blico perde importância sistema- ticamente e não retorna mais a 5% do PIB: na primeira metade da década de 1990 gira em torno de 4%, cai para 3% na segunda me- tade e fecha o milênio em torno dos 2,0%. A participação das em- presas estatais, que tinha alcança- do 7% em meados da década de 1970, fecha a década de 1990 com exíguos 0,5% (a mesma cifra do início da década de 1960). O investimento só dá sinais de recuperação no segundo mandato do presidente Lula. No final de 2006 lança-se o Programa de Ace- leração do Crescimento (PAC). Um substantivo pacote de investimen- tos (cerca de 13% do PIB) previsto para quatro anos em áreas de in- fraestrutura (transporte, energia, recursos hídricos e saneamento) e habitação está relacionado com es- se movimento, não só pelo volume maior de gastos em formação de capital fixo, prometido pelo Esta- do, como pela sinalização ao setor privado. A crise financeira inter- nacional vem colher a economia brasileira justamente aí. Epílogo: a esperança do resgate e o ocaso A partir do segundo semestre de 2004 a economia brasileira dera sinais de um crescimento mais fir- me, com a taxa acumulada em do- ze meses ultrapassando os 4% por vários trimestres seguidos. O país punha-se em linha com o que ocorria no mundo: um movimen- to aparentemente sustentado de crescimento – depois de uma dé- A estratégia de fazer crescer o consumo pela via da expansão do crédito tem fôlego curto, não sendo capaz de produzir um crescimento sustentado da demanda agregada e, portanto, do produto e da renda. A variável autônoma e dinâmica, por definição, é o investimento. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 76 22/03/16 17:40
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    PolitiKa A saga dosinvestimentos públicos 77 cada marcada por crises financei- ras – puxado fundamentalmente pela recuperação da economia americana depois da crise de 2000- 2001, detonada pelo estouro da bolha acionária (crise das “empre- sas ponto com”), e pelo acelerado crescimento da gigantesca China. Para o Brasil, isso significava o início de um período favorável: o país foi diretamente beneficiado pela elevação sem precedentes do preço das commodities, o que per- mitiu um acúmulo inédito de re- servas (com o consequente movi- mento de apreciação cambial, que mais à frente cobraria a conta). Assim, o segundo mandato do presidente Lula nasceu promissor, sob os auspícios da fase positiva do ciclo de commodities e das expec- tativas otimistas produzidas pelo lançamento do PAC. A melhora constante das expectativas, junto com a permanência de um cená- rio alvissareiro no plano interna- cional produzia, pela primeira vez em décadas, um crescimento ro- busto e aparentemente firme. Ao longo de dez trimestres seguidos (do terceiro de 2006 ao último de 2008), a economia brasileira cres- ceu 5,2% (na taxa média acumu- lada em doze meses). As finanças públicas também sentiam o bom o momento, pois a receita crescia à frente do pro- duto e permitia acomodar os gas- tos decorrentes das políticas so- ciais de alto impacto que marca- vam o governo de Lula desde o início (inclusive o aumento real do salário mínimo), o crescimen- to natural das demais despesas correntes e a elevação das despe- sas com investimento. Nota-se um sensível crescimento dos gas- tos do governo federal em FBKF a partir do lançamento do PAC. A preços de 2014, esse investi- mento sai do patamar de R$ 16 bilhões anuais em 2006 para o de R$ 38 bilhões em 2010. A crise internacional eclodiu no último trimestre de 2008, mas, mesmo assim, o governo federal manteve os gastos em investimen- to previstos: a taxa real de cresci- mento desses gastos foi de 34% em 2009 e 38% em 2010. O Estado brasileiro agiu, portanto, de ma- neira contracíclica. Apesar do vo- lume diminuto de seus gastos fren- te ao que já fora em outras épo- cas,12 ele produziu uma sinalização positiva para o setor privado. De- pois da estagnação de 2009, resul- tado imediato da crise, colheu um crescimento real da economia de 7,5% em 2010. Chegou-se a dizer, nessa época, que a crise havia sido completamente superada, o que mostrava uma interpretação equi- vocada sobre o que de fato ocorria no plano mundial. A essa política claramente in- dutora do crescimento pelo lado da demanda juntou-se a concessão de subsídios tributários, uma po- lítica pelo lado da oferta, que visa a induzir o crescimento através de medidas microeconômicas que melhorem o ambiente de negócios e diminuam impostos. Sem uma política industrial claramente de- finida e em meio a um movimen- to de contínua valorização da moe- -da doméstica, reduziu-se (tem- porariamente) o imposto sobre produtos industrializados (IPI) pa- ra veículos, eletrodomésticos da linha branca, materiais de cons- trução e bens de capital. Ao mes- mo tempo, para estimular a ex- pansão do crédito pessoal, redu- ziu-se a alíquota do imposto sobre operações financeiras (IOF) para o crédito concedido a pessoas fí- sicas. A redução dos tributos in- diretos mexeu com os preços, si- tuação que, aliada à expansão sem precedentes do crédito, sustentou a demanda agregada pelo lado da elevação do consumo final das fa- mílias e auxiliou na produção do surpreendente crescimento alcan- çado pelo PIB em 2010. Mas a crise não estava supera- da, nem interna, nem externamen- te. Internamente, porque, apesar do resultado exuberante de 2010, a taxa de crescimento ficou em 3,5% na média do biênio 2009- 2010, bem abaixo da média de 5,2% dos dez trimestres anteriores. Além disso, a estratégia de fazer crescer o consumo pela via da ex- pansão do crédito tem, regra geral, fôlego curto, não sendo capaz de produzir um crescimento susten- tado da demanda agregada e, por- tanto, do produto e da renda. Co- mo se sabe, a variável autônoma e dinâmica, por definição, é o in- vestimento. Este, como vimos no gráfico 3, iniciou no primeiro tri- mestre de 2010 uma trajetória de queda em sua taxa de crescimen- to, que resultaria em encolhimen- to (crescimento negativo) no se- gundo trimestre de 2012. No plano externo, os recor- rentes pacotes de ajuda proporcio- nados pelos governos dos países centrais não foram suficientes pa- ra apagar as marcas da maior crise do capitalismo desde a década de 1930 e resgatar a confiança. Em meio a uma economia cada vez mais financeirizada, onde a rique- za financeira cresce, há pelo me- Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 77 22/03/16 17:40
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Leda Maria Paulani 78investimentos públicos nos 35 anos, com uma velocidade quase quatro vezes maior que a do PIB mundial, a formação de bo- lhas de ativos com as consequentes crises financeiras é uma situação recorrente, junto com o baixo cres- cimento. Os sete anos que decor- reram entre 2002 e 2008 consti- tuíram um verdadeiro parêntese de crescimento mais elevado e re- lativa estabilidade, até que a crise eclodiu, com a força que conhe- cemos, no final de 2008. Voltando ao seu, digamos assim, “leito normal”, mas num nível ain- damaisrebaixado,aeconomiamun- dial provocou, em conjunto com seus problemas internos, uma sen- sível mudança na política econômi- ca da China, que optou por desa- celerar seu crescimento, em parti- cular por reduzir a taxa de crescimento de sua formação bruta de capital fixo, e focar no consumo. Atuando conjuntamente, esses movimentos tiveram consequên- cias funestas para a economia bra- sileira, entre as quais se destaca a substantiva redução dos preços das commodities, que a decisão chinesa acabou por provocar. Sem poder esperar nada de positivo da de- manda externa, com o consumo alcançando seus limites e os gastos governamentais premidos pela per- manente necessidade de produzir superávits primários, o primeiro governo Dilma começou, como vimos, buscando resgatar o nível de investimentos da economia pa- ra mantê-la em trajetória de cres- cimento. Para isso, lançou mão da “nova matriz macroeconômica”, cujos elementos mais importantes, como vimos, foram a redução dos juros e a desoneração de encargos trabalhistas.14 O insucesso da política, dada a inércia do investimento privado e o enfraquecimento dos investi- mentos públicos, aliado à elevação do IPCA, que ameaçava trazer a inflação do centro da meta para seu teto, fez o governo Dilma re- ver um dos pilares da “nova ma- triz”: a taxa básica de juros (Selic) voltou a subir a partir de julho de 2013, e desde então cresceu inin- terruptamente até alcançar, em julho de 2015, os estratosféricos GRÁFICO 6 | Necessidade de financiamento do setor público (% do PIB) | 2011 – 2015 4 2 0 -2 -4 -6 -8 -10 Fonte dos dados primários: Ipeadata. Elaboração própria jan/11 mai/11 set/11 jan/12 mai/12 set/12 jan/13 mai/13 set/13 jan/14 mai/14 set/14 jan/15 mai/15 set/15 Primário Nominal Total Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 78 22/03/16 17:40
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    PolitiKa A saga dosinvestimentos públicos 79 14,25% anuais, praticamente do- brando em dois anos. Os juros elevados, combinados com a manutenção dos gastos com subsídios e desonerações e, aliados esses dois elementos, à tibieza do produto, que enfraquecia a receita de tributos, desestruturou as con- tas públicas. O ano de 2014 fechou com um resultado primário nega- tivo pela primeira vez desde 2002 (muito pequeno, inclusive em ter- mos internacionais, apenas 0,6% do PIB, mas ainda assim negativo, como mostra o gráfico 6).15 O terror midiático gerado por esse resultado, combinado com um resultado eleitoral positivo, mas muito fraco, e com o agrava- mento das denúncias de corrupção na esteira das operações da Polícia Federal, levaram a presidente Dil- ma a iniciar seu segundo manda- to fazendo uma política de auste- ridade, de recorte completamente ortodoxo, que busca equilibrar as contas públicas meramente cor- tando gastos. O resultado tem si- do o agravamento do problema, pois a receita cai a uma velocidade muito maior do que qualquer es- forço que se faça para reduzir as despesas correntes. O objetivo deste artigo não é discutir a política de ajuste do se- gundo mandato da presidente Dil- ma, mas sim refletir sobre o papel dos investimentos públicos na eco- nomia brasileira, olhando um pou- co para sua história. Resta, pois, comentar o papel desses investi- mentos nesta última etapa, que culminou com o completo aban- dono da “nova matriz”. A primeira observação a fazer é que, se o governo federal, em vez de comprimir seus investimentos, tivesse mantido a taxa média de crescimento que esses gastos apre- sentaram ao longo do período 2003-2010, seu gasto adicional não seria muito diferente daquele que teve de suportar para bancar as de- sonerações de folha de pagamento (a preços de 2014, alguma coisa em torno de R$ 70 bilhões no período 2011-2014).16 O resultado desse gas- to, porém seria muito mais efetivo para ativar a economia, pois seria um aumento direto da demanda agregada e não um conjunto de suposições sobre o que poderia le- var os empresários a investir. Além disso, os investimentos públicos, mesmo não muito ex- pressivos, funcionam como sina- lizadores para o restante da eco- nomia e para as decisões de inves- timento. Abrir espaço para o investimento privado sem sinalizar positivamente para as expectativas futuras eleva a renda dos empre- sários, que lucram e não investem, mas não puxa o crescimento da economia, nem aumenta sua pos- siblidade de gerar emprego e ren- da, nem incrementa sua produti- vidade ou sua capacidade produ- tiva futura. Isso é ainda mais verdadeiro em um país periférico como o Brasil, cuja história de de- senvolvimento, como vimos aqui brevemente, é colada no desem- penho do Estado. Isso nos permi- te fazer um último comentário sobre a questão do caráter desen- volvimentista ou não da política econômica do primeiro mandato da presidenta Dilma Roussef. A meu ver, Fonseca (2014) ofe- rece a melhor definição que temos sobre o termo desenvolvimentis- mo. Ela resultou de uma pesquisa historiográfica sobre o surgimen- to do conceito na América Latina em meados do século passado, bem como de uma pesquisa histórica sobre mais de uma dezena de ex- periências concretas com tal polí- tica no continente. De acordo com essa definição, uma dada política, para poder ser chamada de desen- volvimentista, precisa contemplar um forte processo de intervenção estatal destinado ao fortalecimen- to da indústria e ancorado num projeto nacional. Não é difícil perceber que o conjunto de medidas da “nova ma- triz” está bem longe de uma po- lítica desenvolvimentista.17 É ver- dade que existiu uma preocupação com a indústria, mas ela decorre da preocupação com a desacelera- ção do crescimento, mais do que com o fortalecimento do setor por sua capacidade de elevar a produ- tividade da economia e colocar o país numa posição mais vantajosa na divisão internacional do traba- lho. Ainda que a “nova matriz” tenha contemplado, por exemplo, medidas de proteção ao produto nacional, essa política não estava assentada num verdadeiro projeto nacional, que, de resto, também não existia e não existiu nos go- vernos de Lula. Além disso, em tempos de se- tor produtivo estatal diminuto e com forte participação do capital privado, a intervenção governa- mental mais forte da “nova ma- triz” se deu por meio da reforma do setor elétrico, que foi bastante ruidosa e acabou por reforçar a imagem de um governo interven- cionista, o que seguramente cola- borou com a falta de disposição de investir do empresariado no pri- meiro mandato de Dilma. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 79 22/03/16 17:40
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    Nº 3 _MARÇO 2016 Leda Maria Paulani 80investimentos públicos Na ausência desses componen- tes (projeto nacional e política in- dustrial claramente definida), to- dos os benefícios fornecidos ao setor empresarial na esperança de que a taxa de investimento da eco- nomia cresça podem se esfumaçar. Por trás dessa dificuldade de cons- truir uma política mais efetiva de garantia do crescimento econô- mico do país e de sua evolução tecnológica está uma institucio- nalidade em tudo favorável à ri- queza financeira e que toma o cres- cimento da riqueza e do produto reais como um subproduto, que pode existir ou não, de uma polí- tica econômica que está primei- ramente destinada a beneficiar o rentismo e a acumulação financei- ra. Essa institucionalidade foi cons- truída no Brasil na década de 1990 e nenhum dos três governos do Partido dos Trabalhadores no ní- vel federal foi capaz de afrontá-la. A tentativa de Dilma de reduzir os juros, fortalecer os bancos pú- blicos e usar essas instituições pa- ra reduzir os absurdos spreads ban- cários durou pouco, como vimos. Por isso, a saga dos investimen- tos públicos no Brasil terminou melancolicamente. Os investi- mentos da segunda rodada do Pro- grama de Aceleração do Cresci- mento (PAC2), lançado por Lula, foram a vítima mais fácil da po- lítica de austeridade adotada no início de 2015. Em maio, Joaquim Levy, então ministro da Fazenda, anunciou um corte de cerca de 40% no orçamento previsto para o programa nesse ano18 (algo em torno de R$ 26 bilhões).19 A di- ferença com a “marcha forçada” dos investimentos do II PND, em plena crise dupla (do segundo cho- que do petróleo e dos juros), no início da década de 1980, é gri- tante o suficiente para indicar o ocaso dos investimentos públicos no Brasil e a frustração da tenta- tiva de resgatá-los. n Notas 1. Em 4 de julho de 2012 o ministro Guido Mantega admitiu, pela primeira vez, que o governo praticava uma “nova matriz macroeconômica”, com o objetivo de reduzir os juros e praticar uma “política cambial mais ativa”, que impedisse a con- tinuidade da apreciação da moeda nacional. http://economia.estadao.com.br/ noticias/geral,mantega-indica-novo-modelo-economico-imp-,896017, acessado em 12 de novembro de 2015. 2. Independentemente de trabalhar com capital próprio ou de terceiros, o juro so- bre o capital é percebido como custo pelos empresários. Se o capital é de tercei- ros, porque ele se constitui de fato como custo; se é próprio, porque constitui o custo de oportunidade de aplicação do capital. 3. Retornaremos ao tema ao final do artigo. 4. Essa política envolveu a elevação do IOF sobre investimentos estrangeiros em carteira e as captações externas de recursos, inclusive os empréstimos intercom- panhia. Além disso, foi imposto um recolhimento compulsório sobre as posições vendidas dos bancos no mercado de câmbio à vista, bem como IOF de 1% nas posições líquidas vendidas em derivativos de câmbio acima de US$ 10 milhões. 5. Nessa variável, por precisarmos de uma série mais longa, optamos por usar a série das contas nacionais com a metodologia antiga, que tem como base o ano de 2000. As diferenças na taxa de investimento entre as duas séries (base 2000 e base 2010) não são significativas. 6. Segundo algumas interpretações, este último fator teria sido decisivo para o pés- simo resultado da política. O mais claro a esse respeito é Rugitiski (2015), que chega a falar, usando um argumento kaleckiano, em “greve de investimentos”. Singer (2015) coloca a indisposição do empresariado para com o governo de Dil- ma como possibilidade. Boito (2013) parte de análise que advoga a formação de uma frente neodesenvolvimentista ao longo dos governos Lula, a qual teria sido continuada pelo primeiro governo Dilma. Em palestra oral (em 2015) afirmou que essa frente teria se rompido mais ou menos no final da primeira metade do primeiro mandato da presidente. 7. Para a estimativa, consideramos os benefícios tributários (Imposto sobre a Renda e Cofins) e as renúncias previdenciárias (desoneração de folha) a partir dos dados a preços constantes de 2013 apresentados por Diniz e Afonso (2014) para o perí- odo 2008-2014. Supusemos que, na ausência da “nova matriz”, esses gastos con- tinuariam a crescer à taxa média apresentada no período 2008-2011. Calculamos então a diferença desse valor em relação aos gastos efetuados no período 2012- 2014 e atualizamos o resultado para preços de 2014, usando o IPCA. Mais da me- tade da diferença explica-se pela desoneração da folha. 8. Séries longas construídas por trabalho editado pelo Ipea, coordenado por Cam- pos, Amorim e Garcia. 9. Essa relação volta a subir uma última vez ao final da década de 1980. Depois dis- so, retoma a trajetória de queda. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 80 22/03/16 17:40
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    PolitiKa A saga dosinvestimentos públicos 81 10. O famoso livro de Antonio Barros de Castro e Francisco Eduardo Pi- res de Souza (1985) sobre o tema tem justamente o título de A econo- mia brasileira em marcha forçada. 11. Entre 1991 e 2000, o governo federal obteve cerca de US$ 100 bilhões com as privatizações de empresas do setor produtivo estatal. Os setores onde elas se concentraram foram, nessa ordem: telecomunicações, energia elétrica, petróleo e gás, mineração e siderurgia. Só para se ter uma ideia dos montantes de investimentos públicos perdidos com as privatizações, consideradas apenas a Companhia Vale do Rio Doce e as empresas do sistema Telebrás, o investimento médio anual ao longo do período 1981-1992 foi de cerca de 0,9% do PIB (estimativas de Reis, 2007). 12. O foco é o da discussão das decisões envolvendo o governo federal. Por isso, nos referimos aqui apenas aos gastos dessa esfera de governo, enquanto anteriormente nos referimos à totalidade dos investimentos públicos: União, estados, municípios e empresas estatais. De qualquer forma, no período de 1950 a 1980, mesmo considerado só o governo central, o montante dos investimentos em percentagem do PIB era cerca de três a quatro vezes maior. Além disso, no que diz respeito às empresas estatais, a conta não pode ser feita da mesma forma, pois, agora, mesmo aquelas que não foram integralmente privatizadas con- tam com parcela substantiva de recursos privados em sua composição. De qualquer forma, cabe registrar que também as empresas estatais apresentaram elevação substantiva de seus investimentos no imediato pós-crise (com destaque para o setor de petróleo e gás), tendência que se reverteu em 2014. 13. Os dados sobre riqueza financeira mundial são produzidos de forma não sistemática pela consultoria internacional McKinsey. Os dados sobre PIB mundial estão disponíveis nos sítios das agências multilate- rais, em especial o FMI. A esse respeito ver: Paulani, 2010. 14. As outras medidas que compuseram o pacote de benefícios ao setor privado foram: o uso intensivo do BNDES para oferecer crédito sub- sidiado para investimento; medidas para estabelecer algum controle sobre o fluxo internacional de capitais (ver nota 4); e algumas medidas de proteção ao produto nacional, com foco nos setores automotivo, de construção naval e de máquinas e equipamentos. 15. 2001 é o ano em que se inicia a série dessas informações, tal como é hoje calculada. O ano de 2002 é o primeiro para o qual há informa- ções cheias (incluindo todo o ano). 16. Estimativas próprias a partir dos dados de Afonso e Fajardo (2015). 17. Não é o caso de entrarmos aqui na discussão do tipo de neodesenvol- vimentismo que estaria em jogo. Os leitores interessados podem con- sultar Bastos (2012). 18. http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/05/1632501-governo- -confirma-corte-orcamentario-de-r-699-bilhoes-pac-sofre-bloqueio- -de-r-257-bilhoes.shtml 19. Mas mesmo antes disso, como resultado da própria nova matriz, os recursos do PAC 2 já tinham ficado escassos. Dos R$ 6,5 bilhões do PAC2 prometidos ao município de São Paulo para chegarem ao longo do período 2013-2016, só haviam chegado, no início de 2015, ou se- ja, decorrida metade do prazo, cerca de R$ 400 milhões. Esta escriba era secretária municipal de planejamento, orçamento e gestão da ci- dade e pôde testemunhar o enxugamento. Referências bibliográficas Afonso, J. R. e Fajardo, B. (2015). Evolução da taxa de investimento e a indução pelo setor público. Nota Técnica. Ibre-FGV. Bastos, P. P. Z. (2012). “A economia política do novo-desenvolvimen- tismo e do social-desenvolvimentismo”, Economia e Sociedade, v. 21, número especial. Belluzzo, L. G. (2015). “As razões estruturais do desajuste macroeco- nômico”, Novos Estudos, nº 102. Boito Jr, A. e Berringer, T. (2013). “Brasil: classes sociais, neodesen- volvimentismo e política externa nos governos Lula e Dilma”, Re- vista de Sociologia e Política, v. 21, nº 47. Campos, A. G., Amorim, R. L. C. e Garcia, R. C. (2007). Estado, cres- cimento e desenvolvimento: a eficiência do setor público no Brasil. Livro da série “O Estado de uma Nação”. Ipea. Castro, A. B. e Souza, F. E. P. (1985). A economia brasileira em marcha forçada. Rio de Janeiro, Paz e Terra. Diniz, E. e Afonso, J. R. (2014). “Benefícios fiscais concedidos (e men- surados) pelo governo federal”. Texto de Discussão, Ibre-FGV. Paulani, L. M. (2010). “Brazil in the Crisis of the Finance-Led Regime of Accumulation”, Review of Radical Political Economics, v. 42, no 3. Reis, C. F. B. (2008). “Os efeitos do investimento público sobre o de- senvolvimento econômico: análise aplicada para a economia brasi- leira entre 1950 e 2006.” Monografia premiada no certame XIII Prêmio Tesouro Nacional em Finanças Públicas (segundo lugar), Tesouro Nacional. Rugitsky, F. (2015). “Do ensaio desenvolvimentista à austeridade: uma leitura kaleckiana”. Sítio eletrônico Carta Maior, 8 de maio, dispo- nível em http://cartamaior.com.br/ ?%2FEditoria%2 FEconomia%2F Do-Ensaio-Desenvolvimentista-a-austeridade-uma-leitura-Ka- leckiana%2F7%2F33448). Singer, A. (2015). “Cutucando onças com varas curtas: o ensaio desen- volvimentista no primeiro mandato de Dilma Rousseff”, Novos Es- tudos, no 102. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 81 22/03/16 17:40
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    Nº 3 _MARÇO 2016 82 Educação e projeto nacional 1Os economistas ganharam uma centralidade abusiva no debate contemporâneo, ao mesmo tempo em que sua visão se tornava cada vez mais estreita. Se o território do Brasil fosse outro, nada mudaria nos modelos que usam, pois eles ignoram o espaço. O longo prazo – a verdadeira escala tem- poral em que as nações se constroem – foi substi­ tuído pelo tempo curto das operações financeiras. E as pessoas, quando muito, tornaram-se meros coadjuvantes, na condição de força de trabalho ou de consumidores. É um pensamento pobre, que es- quece as múltiplas dimensões da sociedade e destaca apenas o que afeta os negócios. Tal contexto contamina também o debate so- bre educação. Falamos muito no papel da educa- ção no crescimento econômico, quando devería- mos fazer a abordagem inversa. Pois economia é meio, educação é fim. O aumento da capacidade produtiva só tem sentido se criar condições mate- riais para as pessoas se libertarem de uma existência estreita, repetitiva e cansada, de modo a poder se dedicar, cada vez mais, a obter conhecimentos, César Benjamin Editor da Contraponto Editora Andresr/shutterstock.com Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 82 22/03/16 17:40
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    PolitiKa Educação e projetonacional 83 prazer estético e transcendência, atividades humanas por excelên- cia, que em grande medida de- pendem de aprendizado. Um povo que alcança um alto padrão educacional e cultural tam- bém é mais capaz de edificar uma economia moderna e produtiva, é claro, pelo simples fato de que es- se tipo de economia é uma das ex- pressões de certo grau de civiliza- ção. Mas isso não é o mais impor- tante. Quando a demanda por educação ganhou força no mundo moderno, essa correlação ainda não era sequer cogitada. 2A proposta de dar educação for- mal a toda a população é uma extravagância das sociedades con- temporâneas, quando comparadas às que existiram na pré-moderni- dade. Nenhuma sociedade ante- rior havia disseminado essa práti- ca, nem mesmo a Grécia clássica, cuja herança cultural nos marcou tão profundamente. A educação formal sempre foi restrita a peque- nas elites ou a grupos fechados, especialmente os religiosos. Na Europa, centro do moder- no sistema-mundo, essa mudança envolveu diversos acontecimentos e processos. Podemos vê-la des- pontar já na Reforma Protestante, com a ideia de que todo cristão deve ser alfabetizado para poder ler a Bíblia. Ela amadurece intelec­ tualmente no século XVIII, duran- te o Iluminismo, quando se forta- lece a ideia de refundar a socieda- de sob o predomínio da razão, em vez da tradição. Rousseau, fazendo a crítica a Hobbes, destaca o papel fundamental da educação. Hobbes havia proposto um modelo histórico estilizado para explicar como e por que a hu- manidade deixara para trás o es- tado de natureza, marcado pela luta de todos contra todos em busca do próprio prazer, e ingres- sara no estado civil, no qual a vi- da social é regulada por institui- ções estatais. Para ele, a própria dinâmica do estado de natureza conduz a esse salto, pois a luta sem fim acaba por se tornar des- vantajosa para todos, e a paz se Andresr/shutterstock.com Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 83 22/03/16 17:40
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    Nº 3 _MARÇO 2016 César Benjamin 84educação impõe como necessidade primei- ra. Por isso os indivíduos – que, em Hobbes, se movem a partir dos sentimentos do desejo e do medo – são levados a renunciar à liber- dade e a reconhecer um poder dis- ciplinador, o Leviatã, que se impõe pela força, a qual institui o direito. Rousseau critica essa formula- ção. Para ele, ceder à força é um ato de necessidade e prudência, de mo- do que o “direito do mais forte”, de Hobbes, lhe parece uma expressão sem sentido: a força cria situações de fato, mas não estabelece o direi- to. Como o retorno ao estado de natureza é impensável, impõe-se a necessidade de buscar outro funda- mento para a vida em sociedade, de modo a torná-la com­­patível com a liberdade. Problema difícil, talvez insolúvel, que continua atual. Para resolvê-lo, Rousseau pro- pôs que liberdade é obediência es- pontânea às leis que expressam a vontade geral, “a razão em sua di- mensão prática”. Kant retomou es- se caminho ao tratar do imperativo categórico: a condição para uma sociedade livre é que os homens, agindo livremente, aceitem limitar a própria liberdade. Isso exigia formar homens do- tados de sentimentos muito mais am- plos e mais complexos que o desejo e o medo primitivos, de Hobbes. Daí a importância da educação, consi- derada desde então como condição para que possa existir uma convi- vência, ao mesmo tempo, regulada e livre. Assim concebido, o espaço da liberdade humana não é aquele em que cada um faz o que quer, ou faz o que é capaz de fazer, em desaba- lada competição com os demais. É aquele em que o potencial criador das pessoas se exerce de maneiras culturalmente delimitadas, social- mente legítimas, em que o certo e o errado, o bem e o mal estão de- finidos com suficiente clareza. Esse espaço não é rígido e imutável, é certo, mas precisa existir sempre. Fora dele, o que se tem é a anomia, que, cedo ou tarde, conduz à su- pressão da liberdade, como Hobbes havia descrito. 3As condições políticas para rea- lizar a revolução educacional na Eu- ropa demoraram a chegar. Surgiram, paradoxalmente, a partir de uma mudança no modo de fazer a guer- ra. Até o fim do século XVIII, as guerras europeias eram travadas por exércitos profissionais, formados por mercenários a serviço de impera- dores, príncipes, duques e barões. Logo depois da Revolução Fran- cesa, a nobreza europeia lançou suas tropas mercenárias contra a jo- vem República. Elas chegaram vi- toriosas às portas de Paris, levando os revolucionários a convocar um alistamento geral – “levée en masse” – para formar um exército de ci- dadãos. Quinhentos mil franceses foram alistados. Não eram soldados profissionais, mas inverteram o cur- so da guerra. Napoleão Bonaparte herdou essa experiência. Formou grandes exércitos de massas e com eles al- terou profundamente a geopolítica continental. Terminadas as guerras napoleônicas, as nações europeias perceberam que não podiam mais se defender e sobreviver se não con- tassem com infantarias extensas. A época da guerra mercenária che- gara ao fim. Agora, o desafio era formar exércitos de cidadãos, mui- to maiores. Ele continha uma pre- missa: formar cidadãos. Para isso, a Europa generalizou dois grandes processos no século XIX. O primeiro foi a supressão dos direitos feudais remanescentes, o que incluiu, em muitas regiões, reformas agrárias. O segundo foi a criação dos sistemas de educação de massas. Pois a consolidação das nações modernas pressupunha a existência de grandes contingentes humanos dotados de um novo tipo de identidade, a identidade nacio- nal. Para afirmá-la, os Estados nas- centes ou em via de consolidação criaram instituições voltadas a uni- ficar as línguas, descobrir e disse- minar uma literatura, elaborar e contar a história de um passado comum, difundir a ideia de direitos e deveres, e assim por diante. Isso não se fez sem debate. Na época, muita gente defendia que educação para todos era uma mira- gem, um sonho inconsequente, pois educação formal é um processo pro- longado, difícil e caro. Não fazia sen- tido imaginar que todos coubessem nele. Depois, quando a nova ideia se afirmou, outras vozes se levantaram para defender a criação de sistemas diferenciados, lembrando que a gran- de maioria das pessoas estava desti- nada, desde cedo, ao trabalho ma- nual nas minas, nas fábricas e na agri- cultura. Só uma pequena minoria participaria do mundo da adminis- tração, da direção, do planejamento. Os sistemas educacionais deveriam incorporar essa desigualdade de fac- to, oferecendo a todos uma educa- ção compacta, rápida, básica, ele- mentar, e a alguns, uma educação completa,voltadaaumdomíniomais amplo da cultura e da técnica. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 84 22/03/16 17:40
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    PolitiKa Educação e projetonacional 85 Numa Europa convulsionada por lutas sociais incessantes, preva- leceu a ideia mais ousada e mais pro- gressista: oferecer educação para to- dos em instituições estatais planeja- das para disseminar uma base cultural comum, tendo em vista constituir e consolidar “comunida- des imaginadas” – as nações – bem maiores e mais complexas que as comunidades tradicionais. Em vários casos, de muitos po- vos era preciso fazer um só. Mazzi- ni viu bem o problema. Logo de- pois da unificação política da pe- nínsula italiana, em 1870, escreveu: “Fizemos a Itália. Agora, precisamos fazer os italianos.” Nascem nesses contextos os sis- temas públicos de educação de mas- sas, instituições dos Estados nacionais. 4O Brasil não acompanhou ne- nhum desses processos, nem mes- mo remotamente. Nossa agenda do século XIX foi outra: na pri- meira metade, o jovem Estado bra- sileiro cuidou, antes de tudo, de preservar a unidade territorial con- tra as fortes tendências à fragmen- tação do país; na segunda, tateamos para realizar uma abolição “lenta, gradual e segura” da escravidão, de modo a não desarticular a econo- mia primário-exportadora basea- da na grande propriedade. Na época em que a Europa uni- versalizava a escola pública, o Bra- sil marcava passo. Nossa tradição já não era boa: em contraste com as colônias da América espanhola, a América portuguesa nunca teve uma universidade para formar os próprios quadros. As universidades do Mé- xico e de Lima foram fundadas ain- da no século XVI, e as das demais capitais seguiram-se a elas. Todos os vice-reinados da Espanha tinham uma estrutura de governo e uma universidade, em torno das quais gravitava uma elite local. A elite brasileira era levada a es- tudar em Coimbra e permanecia muito tempo na Metrópole, onde se integrava ao aparato do Estado português. Retornava ao Brasil nes- sa condição, como mostra a trajetó- ria de José Bonifácio. Na época co- lonial, o único grupo que disseminou alguma educação formal foram os jesuítas, expulsos em 1750. Depois disso, a questão da educação prati- camente desapareceu do horizonte brasileiro por muito tempo, mesmo depois da Independência. Não fazia sentido pensar em educação de mas- sas em uma sociedade que conti­ nuava, tardiamente, escravista. Praticamente nenhum avanço houve durante o longo reinado de Pedro II, não obstante sua imagem de aristocrata bom, amante da cul- tura e das artes. O imperador fun- dou uma escola para cegos, outra para surdos-mudos, por caridade. Algumas escolas foram abertas com doações pessoais. Mas sistema pú- blico de educação, como política de Estado, isso não existiu. 5A agenda brasileira do século XIX destoou enormemente da agenda dos países que ocupavam o centro do sistema-mundo ou dos dois – Estados Unidos e Japão – que conseguiram penetrar nele. Nos países centrais, de diferentes maneiras, com diferentes ritmos, predominaram as revoluções edu- cacionais, as reformas agrárias e a industrialização. No Brasil, no mes- mo período, cuidamos da unidade territorial e do problemático pro- longamento da escravidão. Não vi- vemos a fase da educação de mas- sas como formadora da nação. A situação não mudou nas pri- meiras décadas do século XX, pois a proclamação da República, em 1889, não alterou as condições es- truturais do país. Permanecemos primário-exportadores, e a transição conservadora do escravismo man- teve a brutal segregação social. Con- tinuamos sem políticas de Estado para a educação, ainda considerada uma questão particular ou, no má- ximo, afeita a poderes locais. As novidades que surgiram na década de 1920 não vieram do Es- tado, mas da própria sociedade. Mo- vimentos sociais, culturais, políticos e político-militares colocaram na agenda brasileira dois temas até en- tão negligenciados: identidade e de- senvolvimento. O povo brasileiro começou a emergir como produtor de cultura, e nossa “vocação agrí- cola” passou a ser contestada pelos defensores, civis e militares, da in- dústria. O Brasil se reconhecia, cada vez mais, como um país atrasado, desafiado a apressar o ritmo da pró- pria história. A Revolução de 1930 foi her- deira desses movimentos e se tor- nou o marco inaugural de uma re- fundação do Estado brasileiro. Isso se traduziu, entre outras coisas, na criação do Ministério da Educação e na formulação das nossas primei- ras políticas educacionais. Com muito atraso, o Brasil começou a formar professores, sistemática e planejadamente, e a implantar uma rede pública de ensino que, com o tempo, iria se universalizar. Sonha- Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 85 22/03/16 17:40
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    Nº 3 _MARÇO 2016 César Benjamin 86educação mos com uma educação unitária e para todos, seguindo a melhor tra- dição europeia. A construção desse sistema, co- mo não poderia deixar de ser, ex- perimentou tensões. Uma delas foi a oposição entre a ideia de uma edu- cação clássica, humanista, generalis- ta, e a de uma educação prática, di- retamente voltada à inserção das pessoas no mundo do trabalho. A concepçãoclássicapredominou,mas, ao longo do ciclo desenvolvimen- tista, também ganhou força a asso- ciação direta entre esforço educa- cional e desenvolvimento econô- mico, inclusive como forma de legitimar o primeiro. Nas décadas de 1940 e 1950, isso coincidiu com a difusão mundial da ideia de que os processos de desenvolvimento dependem do que se convencionou chamar de “capital humano”. Fun- daram-se escolas técnicas, cresceu o chamado “Sistema S”, com Senacs e Senais, seguindo a concepção de que a educação deveria, antes de tudo, formar a mão de obra neces- sária ao desenvolvimento, especial- mente à indústria. A vontade era tanta que todos os tipos de escolas se multiplicaram. Por trás delas, e de outras instituições igualmente jovens, havia um Estado nacional em construção. Ele criava e reproduzia as condições gerais em que as instituições parciais – da ci- dadania,dodesenvolvimento,dopla- nejamento, da vigilância e da puni- ção – se apoiavam. Por sua abrangência, sua capila- ridade e seu papel, a rede de escolas públicas, aqui e em outros países, foi a mais importante criação desse Es- tado. Pela primeira vez, milhões de crianças e jovens passaram a compar- tilhar, todos os dias, os mesmos es- paços estatais obrigatórios. Educá-los era, antes de tudo, forjar neles uma consciência nacional e transmitir sa- beres consolidados. A narrativa de um passado comum, que conferia sentido ao presente, e o domínio da língua e da escrita eram as etapas ini- ciais desse processo de formação. 6O ciclo desenvolvimentista, como se sabe, terminou na década de 1980. Graças ao seu impulso, na década seguinte o Brasil conseguiu universalizar, ou quase, o acesso às escolas de primeiro grau. Além disso, expandimos significativamente as redes de segundo e de terceiro graus, de modo que, na virada do século, entrar na escola deixou de ser a grande barreira. Importante vitória. Mesmo assim, todos reconhe- cem que a educação brasileira per- manece um problema não resolvido. As evidências disso se multiplicam nos indicadores de qualidade. Um teste recentemente aplicado em uma amostra muito significativa – 338 mil alunos do segundo ao quinto ano em 350 municípios espalhados por 21 estados – mostrou que 70% das crianças e jovens das escolas pú- blicas permanecem analfabetos, in- dependentemente da série em que estão. Mais da metade dos alunos do quinto ano foram classificados assim. As avaliações internacionais que aferem o domínio dos funda- mentos da matemática nos colocam, invariavelmente, nos últimos luga- res, ao lado de países muito mais pobres. Professores lamentam a quantidade de analfabetos funcio- nais em universidades. Temos escolas para todos, ou quase todos, mas não conseguimos disseminar educação. O debate sobre isso limita-se às reivindica- ções de mais recursos e mais “von- tade política” para reverter esse quadro. É uma abordagem pobre. A crise da escola reflete questões bem mais profundas. Vimos que a educação de mas- sas se afirmou no século XIX, quan- do foi associada à consolidação das nações, mas o Brasil não viveu essa experiência. Depois, ela se legiti- mou ao ser considerada parte es- sencial de projetos nacionais de de- senvolvimento. Pegamos carona nessa concepção, mas ela caducou, pois nas últimas décadas o Brasil se acostumou a viver sem projeto. Como parte dessa deriva, aban- donamos, na prática, o sonho de uma educação unitária, voltada para formar cidadãos, pois recria- mos as escolas de pobres (públicas) e as escolas de ricos (privadas), ou seja, aquela educação compacta para muitos e extensa para pou- cos, que a Europa recusou no sé- culo XIX. As classes média e alta voltaram a considerar a educação um assunto privado, cuja função é garantir, aos seus filhos, status e acesso a uma renda diferencial. As Os gregos da idade clássica enxergaram uma verdade que convém jamais esquecer: seres vocacionados para a liberdade são livres para se destruir. O mundo só se torna seguro, para esses seres, se eles se abrigarem no domínio do ethos. Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 86 22/03/16 17:40
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    PolitiKa Educação e projetonacional 87 boas escolas passaram a ser vistas como empresas especializadas em prestar um serviço, a capacitação para um mercado de trabalho ex- cludente e competitivo. Hoje, elas separam e discriminam, em vez de promover o encontro. É uma enorme mutação ideológica no conceito de educação. A escola pública ficou órfã, pois o Estado que a concebeu e a sus- tentava, material e ideologicamen- te, já não articula as práticas sociais dominantes. Em seu lugar entrou o mercado, com seu apelo concor- rencial, sua volatilidade, sua velo- cidade. Nesse contexto, a maioria dos jovens não é levada a desen- volver uma subjetividade cidadã, não reconhece conhecimentos con- solidados, não vive a expectativa de um futuro em construção. O tempo é agora. No lugar de leis gerais, típicas da cidadania, valem as regras que o próprio grupo es- tabelece em cada momento. Se tu- do é cambiante, nada é relevante. E numa sociedade em que todos têm alguma informação sobre qual- quer assunto, o que importa é opi- nar, não conhecer. Tudo isso questiona o estatuto da escola. Sem poder cumprir suas antigas funções de disciplinamento e preparação para a cidadania, e sem condições para se integrar à desen- freada dinâmica mercantil, a escola pública, sem papel claramente de- finido, entrou em um regime de funcionamento cego, próximo à anomia. O desafio tradicional dos professores era descobrir como ir além de uma simples aula, tendo em vista superar a rotina instituída; hoje, o mais das vezes, o desafio é conseguir dar uma aula. Há um cho- que de subjetividades nas escolas, até aqui insolúvel. Os professores ainda são formados para servir à sub- jetividade cidadã, enquanto os alu- nos, cada vez mais, são portadores de uma subjetividade midiática, ima- gética, errática, que não facilita a permanência produtiva em uma sa- la de aula. Não se trata de uma ano- malia específica ou de despreparo individual de um ou outro estudan- te. É de condições sociais que esta- mos falando. 7Éhoraderepensarfundamentos. Para que, afinal, precisamos de escola pública? Para educar as pessoas. Mas o que isso significa? O ser humano não apenas age, como os demais animais, mas inter- preta sua ação. Todas as ações huma- nas são ações interpretadas, e todas resultam de alguma interpretação prévia. Educar é atuar sobre os sis- temas de interpretação construídos pela imaginação de cada um, o que nos remete ao universo simbólico, constitutivo da nossa existência tan- to quanto o nosso corpo físico. No homem, ser e dever-ser são aspectos indissolúveis. Este é o fun- damento ontológico da ética. Ethos, em grego, designa a morada do ho- mem. Se a palavra tomou um sig- nificado mais amplo, é porque os gregos da idade clássica enxergaram uma verdade que convém jamais esquecer: seres vocacionados para a liberdade são livres para se des- truir. O espaço do mundo só se tor- na seguro e habitável, para esses se- res, se eles se abrigarem na sua mo- rada, o domínio do ethos. Ao contrário do que imagina o senso comum, isso é cada vez mais importante. Graças à racio- nalidade técnica e instrumental, tão a gosto dos economistas, os perigos externos – as intempéries, os predadores, a falta de alimentos – praticamente não nos ameaçam mais. Mas essa racionalidade é in- suficiente – e pode ser contrapro- ducente – para enfrentar os nossos maiores desafios atuais. Pois hoje a nossa existência só está ameaça- da por nós mesmos, pela nossa in- capacidade de construir, em paz, uma vida em comum. Uma sociedade que perde a ca- pacidade de se comunicar dialogi- camente – estabelecendo valores e fins compartilhados, diferenciando o bem e o mal, fixando comporta- mentos legítimos – acaba por se des- truir. Perde o direito à liberdade, pois recria as multidões hobbesia- nas, movidas apenas pelo desejo e o medo. Isso chama o Leviatã. Permanece insubstituível o papel da educação e dos educadores, pois os sistemas educacionais estão entre os últimos espaços que ainda podem fazer prevalecer a racionalidade co- municativa, cultivando a linguagem centrada na razão e na palavra, a lin- guagemhumanaporexcelência.Nes- ses espaços, cada vez mais raros, as interações humanas podem existir sem que estejam dominadas pela uni- direcionalidade e a velocidade, típi- cas da comunicação de massas. Formar cidadãos, não consumi- dores passivos e frustrados, continua a ser o insubstituível papel da rede pública de educação. Mas ela não conseguirá renascer sozinha, pelos próprios esforços, independente- mente de quanto dinheiro se gaste. Filha de um projeto nacional, ela depende dele para recuperar sua ra- zão de ser. A falta de projeto é mais angustiante que a de dinheiro. n Revista PolitiKa nº3 - PT.indb 87 22/03/16 17:40
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    “A Fundação JoãoMangabeira do Partido Socialista Brasileiro completa 25 anos atuando em ações de formação política, formulação de políticas públicas e de construção da memória socialista. Ao consolidar a história do PSB, a Fundação fortalece sua identidade, ao mesmo tempo em que garante coerência, contemporaneidade e protagonismo na participação política do Partido.” Renato Casagrande Presidente da FJM ACESSE A LINHA DO TEMPO FJM 25 ANOS PELO LINK OU QR CODE W W W . F J M A N G A B E I R A . O R G . B R / F J M 2 5 A N O S
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    03 A Fundação JoãoMangabeira e o Partido Socialista Brasileiro em parceria com o Insti- tuto Miguel Arraes apresentam o centenário de vida Miguel Arraes, ícone da luta em prol do socialismo democrático no Brasil e no mundo. A programação prevê diversas ativi- dades e comemorações que objetivam o intercâmbio de informações e o debate do legado político do companheiro Arraes. Serão lançados livros, exposições, seminários temá- ticos e uma programação especial nos even- tos nacionais do PSB no ano de 2016. Arraes era cearense de nascimento, mas cons- truiu sua carreira política em Pernambuco e se tornou um dos maiores expoentes da esquerda brasileira. Foi deputado estadual, federal e governador de Pernambuco por três vezes. Por conta de seu direcionamento e par- ticipação política, foi deposto pelo golpe mili- tar em 1964, sendo preso e depois exilado por 14 anos na Argélia. No exterior, participou ativamente do processo de independência de outros países de língua portuguesa. Conheci- do como “Pai Arraia” pelos integrantes dos movimentos populares, tinha uma relação muito próxima com a população, em particu- lar a do interior e da periferia metropolitana. ACESSE A LINHA DO TEMPO MIGUEL ARRAES 100 ANOS PELO LINK OU QR CODE W W W . F J M A N G A B E I R A . O R G . B R / M I G U E L A R R A E S 1 0 0 A N O S PolitiKa Revista Nº3_ Março_2016 ISSN 2358-9841 federação | política | previdência social | saúde pública sistema tributário | investimentos públicos | educação Reforma do Estado03RevistaPolitiKa