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QU4RTO DESAMP4RO
Esta é uma cópia digitalizada da 1ª 
edição artesanal. Foi disponibilizada pelo 
autor somente para download. O arquivo 
em PDF pode ser encontrado no blog 
http://quartodesamparo.blogspot.com. 
Proíbe-se qualquer outro tipo de 
reprodução do todo ou de qualquer parte 
da obra. 
2
QU4RTO 
DESAMP4RO 
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QU4RTO 
DESAMP4RO 
Danilo Barcelos Corrêa 
Vitória - 2010 
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Copyright © 2010 by Danilo Barcelos Corrêa 
Todos os direitos reservados ao autor. 
Proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem a devida 
autorização. 
Capa e revisão: do autor 
CORRÊA, Danilo Barcelos. Quarto desamparo. Vitória: Edição do 
Autor, 2010. 
ISBN: 978-85-908813-1-5 
1. Literatura Brasileira, Conto, Ficção 
B896.3 
5
agradeço a 
Dulce Mindlin 
Welber Santos 
Beatriz Bueno 
Luana Bastos 
Alex Moraes 
Rafaela Scardino 
6
Para 
Edmar Ávila 
Fabrício Gabriel de Souza 
Giuliano César dos Santos 
Fernando Marques Alvarenga 
Ana Luiza Barbosa 
Joana Wildhagen 
Vanessa Paiva 
7
“O número de nossos sósias é infinito no tempo e no espaço. (...) 
Esses sósias são de carne e osso, até de calças e paletó, de 
crinolina e de coque. Não são fantasmas, é a atualidade 
eternizada. Eis entretanto uma grande falha: não há progressos. 
O que chamamos progresso está enclausurado em cada terra e 
desaparece com ela. Sempre e em todo lugar, no campo 
terrestre, o mesmo drama, o mesmo cenário, no mesmo palco 
estreito, uma humanidade barulhenta, enfatuada de sua 
grandeza, acreditando-se ser o universo e vivendo na sua prisão 
como numa imensidão, para logo desaparecer com o planeta, 
que carregou com o mais profundo desprezo o fardo de seu 
orgulho.” 
Auguste Blanqui - L’eternité par lês astres 
“VLADIRMIR 
Qual é o nosso papel? O de suplicantes. 
ESTRAGON 
É tão ruim assim? 
VLADIMIR 
O senhor tem mais alguma exigência a fazer? 
ESTRAGON 
E os nossos direitos? Evaporaram? 
(riso de Vladimir, abruptamente abortado como antes...) 
VLADIMIR 
Você me faria rir, se não fosse proibido.” 
Samuel Beckett – Esperando Godot 
8
9
Um apartamento de subúrbio. 
Tem pão? No armário, segunda porta. 
Placas de verde nas paredes de pintura envelhecida, 
cheiro-azulado ruim de lixo na cozinha, esquecido, esperando 
encher-se. 
Manteiga? Acabou semana passada. Pensei em comprar, 
mas a grana anda curta. 
Janelas ferrugem-laranja, esperando troca, como tudo em 
volta esperando um pouco mais. 
Faz café! Depois... É tarde. E se você beber demais vai 
perder o sono e a gente vai acabar brigando de novo. 
10
Ele tinha um sono leve. Fumava muito, compulsivamente, 
um cigarro barato, mentolado, com cheiro enjoativo. 
Faz um pouco só, só pra acompanhar o cigarro. Já disse 
que você perde o sono e quem paga o pato sou eu. 
Ela também fumava. Um cigarro mais forte, filtro escuro. 
Tinha os dentes marrom-amarelos, as unhas cinza-pardas. 
O casal estava no quarto-sala que dividiam. Pouca 
mobília, pouco. 
Amanhã precisa sobrar dinheiro pra feira. Acabou o 
último tomate hoje. Você não tinha guardado um pouco pro fim 
de semana? Tinha, mas você fumou nesse cigarro. 
O apartamento era de segundo andar, teto descascado e 
uma infiltração no banheiro. A janela da sala dava para um muro 
e fazia entrar um cheiro de enxofrado-ácido de urina do beco. 
Pouco ventilado, a fumaça não tinha muito por onde escapar, 
azulando, delicada, o vazio. A cozinha acumulava vasilhas 
empilhadas esperando. Naquela noite de verão, o tédio. 
11
Liga a tv. Se quiser, você que ligue. Tá me achando com 
cara de empregada? Se eu tivesse grana pra empregada, fodia 
essa noite. 
Os dois se entreolham mudos. Era a primeira vez que se 
olhavam naquela noite. Talvez naquela semana. Talvez até 
naquele mês. Olharam-se profundamente e um silêncio quase se 
fez presente, incomodando. 
Ele tragou fundo: a brasa quase na guimba. Ela deu um 
trago leve. 
Ele passou a mão na cabeça, desatento, olhando o tubo 
desligado da tv. 
Liga essa merda logo, pô! Tá quase na hora do jornal! Já te 
falei que não sou sua empregada. Nem sua, nem de ninguém. Se 
fosse, até pensava em te foder. 
Ela se levantou. Não sentia mais atração pelo marido. 
Olhou o peito dele nu, camisa aberta, com um ralo pêlo que já lhe 
fora atraente. Olhou as mãos do homem que já a seguraram com 
desejo. Olhou os cabelos em que seus dedos já se perderam 
tantas noites. As mãos passaram a tremer, os olhos fumegaram, a 
12
boca crispou. Ameaçou cuspir, deu um tapa na coxa na falta de 
outro reflexo. Andou muda até diante dele. 
O que você disse, filho da puta? 
Ele ergueu os olhos. A cara da mulher, ali, enfurecida, era 
de longe a cara da mulher que ele dissera amar endoidecido, 
devoto. Os cabelos com uma pouca tinta já não tinham mais o 
viço dos cabelos castanhos de antes e o corte mal aparado não 
lhe dava mais o charme da juventude. Olhou a cintura, já sem a 
graça, e os seios caídos não o convidavam. 
Ela segurava o cigarro entre o polegar e a unha do 
indicador, as mãos trêmulas, uma sobrancelha arqueada, 
esperando. 
Repete, seu bicha. 
Os dentes dela amassavam as mútuas amálgamas. Bem 
no seu interior, ela pedia para não ter ouvido a ofensa. Pedia até 
só pelo sexo que ele vomitava em palavras. Pedia para que ele a 
abraçasse de novo e reacendesse o passado como ele fazia com o 
cigarro na beira da cama. 
13
Não é homem pra isso? Se você fosse empregada, eu te 
fodia. 
O cigarro dela voou aceso no peito dele. 
Sua vadia louca, quer me matar? 
Ela virou, enquanto ele limpava as cinzas do peito, 
soprava a queimadura. Ligou a tv, foi para a cozinha. Acendeu o 
fogão, pegou a caneca de metal, passou-lhe uma pouca água, 
encheu, pôs para esquentar. 
Precisava disso tudo pra ligar a tv? 
Ele gritava indignado, cortando o pequeno espaço que os 
dividia. 
Te disse pra não fazer café! Você disse que não ia fazer 
café. Você não me proíbe de nada. 
Ela tremia num sentimento que não entendia. Queria sair, 
deixá-lo, deixar aquele lugar imundo e ir para rua. Dormiria 
debaixo da ponte, na casa de alguém, num puteiro se fosse 
preciso. Mas algo a retia ali, perto dele, e ela não sabia o que era. 
Talvez um sentimento maternal. Talvez um resto de amor ao seu 
14
marido. Talvez uma esperança, uma esperança de que ele 
levantaria a bunda daquele sofá e que lhe viesse pedir desculpas, 
passar-lhe a mão pela cintura, juntar seu corpo no dela e dizer 
palavras doces. Mas ele não era homem dessas regalias. Não 
mais. Quando no início os dois se abraçavam era diferente. Ele lhe 
dava flores, dessas que nascem sem propósito nos meio-fios, dizia 
palavras moles ao pé do ouvido. Era perfumado, de camisa 
branca limpa, lavada, com cheiro de Comfort. 
Apoiou as duas mãos no pouco espaço da pia, olhando as 
vasilhas sujas e perdida, querendo chorar querendo gritar 
querendo correr sem conseguir nada, como se o mundo daquele 
quarto-sala a amarrasse de uma forma tal que a sufocasse. Olhou 
com atenção a faca. 
Ele resmungava palavrões no sofá, sem entender o que 
aquela vadia tinha na cabeça, de que mulher é tudo igual, e de 
que ela precisava apanhar um pouco para aprender. Resmungou 
entre dentes, raspou fundo a garganta, gemeu um ai fininho 
quando passou a mão sobre a ferida. Mulher maluca. 
Foi para a cama, acendeu o último cigarro. Olhando a 
parede suja, ele não entendia o que fazia naquele quarto. Não 
15
entendia porque não largava tudo e tentava algo novo. Não 
entendia o que de ruim o prendia àquela mulher maluca que não 
mais lhe atraía. Mulher que ele não conseguia mais comer e que 
lhe era um peso morto. Seus pensamentos se confundiram entre 
tantos outros, sentiu-se sozinho e pensou que talvez por isso ele 
ainda estivesse com ela, aquela vadia. 
Eram duas vítimas de mundos opostos. Duas almas 
desamparadas num mesmo espaço esquecido que se buscavam 
no escuro. Dois mancos que se escoravam. 
Ele respirou fundo, um suspiro de saco-cheio. 
A água ferveu e ela olhava a caneca sem pensar em 
passar o café. Olhava a caneca fervendo, as bolhas na água, o 
vapor subindo, e não pensava em nada. O metal da caneca tremia 
na grade do fogão fazendo um barulho irritante. 
Cê num vai passar esse maldito café não? 
Ela não se moveu. Encostada na pia, nem sentia que sua 
roupa molhava por causa de um empapado pano úmido. Cruzou 
os braços em câmera lenta, aturdida num labirinto do qual não 
conseguia sair. A visão turva via a caneca tremelicar no fogão e o 
16
cérebro gritava por uma ação que não era atendida. Nenhuma 
parte do seu corpo se manifestava a nada. Imagens soltas se 
embaralhavam na sua mente, apontando caminhos tão diversos 
que ela não entendia bem. 
Andou até a porta, sem mexer no fogão ou na faca. 
Olhou-o na cama, virado de costas para ela, fumando o cigarro 
mentolado enjoativo, sem a camisa. Apoiou-se no marco da 
porta, a cabeça escorada. 
Por que? Por que o quê, mulher? 
A boca dela tremeu. Uma voz rouca saiu, enquanto uma 
lágrima desceu macia e quente pela face. 
Por que? 
17
Era sim, era sim, na forma da liberdade-liberta-de. Era: 
sei. E não era obrigação, como bom dia. Era: sei. Não diga o 
contrário, não era o contrário. Eu penso no contrário, na pobreza, 
na sorte, mas não era isso. Era: sei. Diferente de bom dia. Era, 
enfim. Eu que já estava pelo que sei. 
Ela me deixa. Chama de rabugento meu jeito quando diz 
suas idéias das coisas, olhando as nuvens, me fazendo carícias. 
Não sei bem se posso dizer quando todas essas coisas se 
anunciam. Mas posso dizer que era, que poucas vezes foi. 
Ela estava enquanto era. Pude senti-la numa noite. 
Senti-la estando. Como tocar a noite. Eu e ela. Não era o que 
18
dizem ou que trocam. É o que tira. O que antecede, que busca. 
Era. 
Para o que era é preciso entrar. Passei o dia com ela e nos 
tocamos nas mãos como a burguesia comum se relaciona, presa 
entre os dedos como náufragos. Quando a conheci, existia entre 
nós o grande espaço. Aquele espaço branco e peguento como giz. 
Naquele momento amei o menor amor de todos, carregado. Nós 
dois, de olhos cheios, perto do que todos chamam absurdamente 
paz. Demo-nos, os dois, a liberdade, a que não se tem. 
Era dar a ela o direito que em nenhum momento seria. 
Então, distanciamos as mãos depois que o menor se tornou 
verdade. 
Não sei se é possível pensar em medo. Tinha nas mãos a 
forma espessa que chocava minhas unhas nas palmas das mãos e 
entre o visco e a mão tinha ela, a me olhar muda, vermelha e 
desesperadamente brilhante, lenta e completa, buscando a curva. 
O vento trouxe o calor da manhã, um calor incomum, 
colorido, como uma exposição sem ruído com cacos de coisas. 
Como se as cores do mundo já não mais fossem capazes de 
responder às necessidades de mim quando me perco em 
19
paredes. O sonho de um desespero que se prende num átimo de 
mão machucada, num gosto de noite, de frio da hora. 
É tamanho o que era. Era carne de sabão, dia de domingo. 
Era silêncio, escuro, sobra. Era pele? Era vermelho em rodopio. A 
vida comum e recorrente como a compra. 
As cores formavam-se como consoantes soltas. É por isso 
que era e ela com a dor absoluta dos meus dedos comprimidos 
no espesso. Chocar e amá-la me tornava no quarto desamparo, 
uma mescla que sobrava em perda. 
Alguém disse que para nós não existe liberdade e 
aceitamos essa verdade como válida, sabendo que não é verdade. 
Acho que no fundo somos dois covardes. Mas era, eu sei, era. 
20
Como os calcanhares no estômago: fica tudo azul-veia. A 
moça que saiu detrás da árvore era um vestido 
verde-pimentão-cozido sobre-entre sapatos vermelho-fogão. 
Calma, andava no azul-veia sem muita vontade de através. Entre, 
o vermelho-fogão sobrava como caldo de tomate em prato. 
Os palitos-dedos, como tentáculos, alisavam os soltos 
cabelos gregos quase azeite: o contorno-casca. 
O marrom-rapadura da terra pegava os pés por, entre, até 
o passo, enfim. Quando levantava o calcanhar, era como tirá-lo do 
estômago, voltando do azul-veia. 
No meio do largo, a moça entre, através, portou-se 
pronta. Detrás da árvore é o infinito sem sol. De lá, sai a 
mordedura que se espessa. 
21
Não pisa, a mordedura, com a graça coadjuvante de 
calcanhares no estômago. O passo-pressa nem tem tempo de 
enfim. Vai por, sobre, até. 
A moça, posta, em verde-pimentão-cozido, abre o vestido 
para a mordedura. No campo, os olhos dos dentes são a 
não-sombra do infinito. 
Os olhos olham o tudo em volta sem profícuos atos. 
Ouvem vozes, mas não suspendem o ataque mar afora. Olham o 
azul-veia da tarde por detrás, entre, através de soltos cabelos. 
Vêem o verde-alface o verde-repolho o verde-couve o verde-louro 
o verde-oliva o verde-garrafa da tarde em contraste com a mulher 
que já suspende pronta sem verde. 
É opala! Brilha como pedra-sacrifício e transpira cristais 
sob o sol, sobre. Pelo azul-veia. 
Os fulvos cabelos molhados pelo cristal, o rosa-bebê da 
flor-pus-púbis, a dobra cinza do fim-traço: corpo. Os cabelos 
gregos, azeite, quase quase! Suspensa sem verde, sobressalta à 
mordedura a onda dos seios no quebra-mar do plexo. No vácuo 
azul-cobalto do centro do ventre-mundo, o ponto da mordedura 
mais separa, sobre-sob o quebra-mar. 
22
Curiosa, a mordedura faz brotar tentáculos e lambuza de 
óleo e tinta preta a cor-de-papelão das ondas, o farelo-de-pão do 
ventre, o papel-manteiga do cristal, o papel-seda do rosa-bebê. 
Tudo é carne. 
Diz de sobressalto É proibido. 
Diz no fundo da voz Espera a noite. 
A mordedura oclusa presa no prateado-amálgama vê que 
a moça suspende os tentáculos e se põe em sacrossanto ato de 
entrega, para louvar e berrar no grito primeiro do combate. 
Aponta com os dedos-palitos-moles as partes da 
hecatombe e a mordedura brilha lâmpada de saliva. 
Dos tentáculos da mordedura, a unha-faca corta o 
azeite-cabelo e come exasperada. 
A mordedura olha os cabelos entrando na unha, 
azeitando. O gosto da mordedura está pronto para receber a 
hecatombe. 
Por, entre, sobre, através dos verdes, a mordedura 
começa por subir por toda a carne, ainda com seus sapatos 
23
vermelho-fogão. Cobre, com a tinta dos tentáculos, todos os 
papéis e todos os cristais. A mordedura cobre toda a face da 
moça, que ri maravilhada e berra, pouco a pouco, por detrás, 
sobre o sorriso. 
Os olhos da moça são de não-cor e os lábios de um 
rosa-mais-que-bebê. Um rosa-tarde. Por baixo, dentro da 
mordedura, fora. Com todo o traço cinza repartido, enquanto. 
Traços nos, dos tentáculos e muita tinta sobre o papelão, 
o farelo-de-pão, dentro, entre o papel-manteiga, papel-seda. A 
tinta preta é toda a mordedura por sobre a moça. 
Do nariz, o ar é forte verde-lima e é doce como cajá. Um 
cheiro de incenso, sândalo, sai de toda a mordedura na ebulição 
maciça do contato. 
A mordedura é lenta e já olha o azul-cobalto que se ergue 
ao céu, o amarelo-vezúvio que sai das suas costas comendo as 
partes do ofertado. 
Não há espaço para o longe em tudo. Oferenda e 
mordedura entre, através, por sob, sobre, demais, em. Moventes. 
Não existe mais o verde-pimentão-cozido, nem o papelão e nem 
24
tentáculos múltiplos que se pintam mutuamente. É tudo oferta. 
Sobra sobre o papel o líquido. O sagrado líquido que aumenta, 
enquanto, mútuos, se devoram em bruta-fome. 
Tudo falta e tudo sobra nesta sede, menos os sapatos 
vermelho-fogão. 
25
Era a primeira vez que via, colorida e maior que as outras. 
Grande, batia as asas pesadas no ar soltando cores que ele 
apanhava com olhos abertos no contraste-azul-lambuzado. 
Desenhava-se no ar. O olhar, cheio, se desviava. 
Nos volteios, a borboleta ia sobre, até. Pousou, enfim, e 
fez surgir atrás de si um busto. Os seios fizeram surgir os cabelos 
que fizeram surgir os ombros que fizeram surgir os olhos. Um 
encanto maior que a borboleta. 
Era a primeira vez que via, colorida e maior que as outras. 
Nessa dupla descoberta, a boca sem ação secou e um calor subiu 
à garganta. Preso, o olhar acabou a borboleta e os seios: cores. 
A borboleta fez surgir para a morena o menino: cores. 
26
Ela riu com uma claridade farta. O menino respirava forte, 
de bermuda de algodão-grosso-marrom-biscoito. Sorriu! A cor 
subiu e iluminou mais forte o contraste-azul-lambuzado. Trouxe o 
amarelo-ovo sobre os dois e intensificou o vermelho-ferrugem do 
chão. Intensificou a cor da janela, o vermelho-unhas da morena, 
cheio de gestos. 
O menino seguiu as cores que lhe convidavam para a 
aquarela. Uma voz cortou o ar, fazendo-o colorir os degraus da 
porta por sobre um mendigo. Entrou na casa, a morena 
estendeu-lhe a mão e lhe guiou para, entre, pelo fundo corredor. 
As sombras-azuis apagaram as luzes. Um forte cheiro 
invadia as narinas do menino que via na penumbra as saias de 
algodão-fino-manteiga, coxas, um calor, paredes verde-couve. 
Ouvia o desconhecido e tinha o carmim-coração disparado, 
apertado entre as mãos. A morena, entre os longos cachos do 
castanho, sorria. Apertava-lhe a mão, limpando o úmido da 
palma. 
Chegaram a uma porta de onde saía pouca cor. A morena 
tirou da penumbra o ruído-marrom, apresentando ao menino 
outras viscosidades densas: badulaques, colares, brincos, vidros, 
27
fotos, anéis, vestidos! Na cama, um urso de 
pelúcia-marrom-biscoito, um lençol flores-mingau. 
A mulher, então, passou-lhe a mão pelos ombros, 
cheirou-lhe o pescoço, beijou-lhe o macio lábio arfante. Olhando, 
a mulher nem era tão mais velha. Nem ele era tão mais novo. 
Deitados nas flores-mingau, ambos se entregaram a um possível 
amor-cereja. 
A semana corou de cereja a rotina: o menino acordava, 
saía, encontrava, adentrava. Era amor, ele pensava. Amor-cereja. 
Ele levava-lhe flores, cheirava-lhe os cabelos, dormia desfalecido 
nos moles braços: afagos. Ao perfume, o menino fez juras de 
amor das mais profundas. Tudo amor-cereja. 
Mas um átimo de vermelho trocou o tom de lugar. No 
meio das coisas da seqüência, o menino viu o amarelo-surpresa. 
Não encontrou o de costume. O vermelho do chão tomou o ar. 
Tudo era vermelho-ferro. Foi então que o menino notou que 
faltava algo na frente da casa. Algo que nunca reparou. 
Adentrou com pressa a casa e avançou pelo roxo-corredor 
até a porta aberta. Viu. De olhos arregalados, o mendigo subia na 
morena! Ria. Ria alto, cada vez mais alto. Soltava urros e a cama 
28
rangia forte. Uma violência vermelho-ferro que fez a vista do 
menino embaralhar-se. As coxas e os castanhos da morena por 
todos os lados da pequena cama, o ursinho jogado no chão, os 
urros do mendigo e a morena que gemia alto. O menino viu tapas 
no rosto, tapas no corpo e sentiu o coração bater violento no 
peito. O sangue fervia-lhe: ferro. 
O mendigo já mostrava as costas nuas, as calças 
abaixadas, as coxas sujas. O suor escorria pelos braços finos que 
se apoiavam nas flores. Gritou alto até cair desfalecido, mole 
marrom-lama sobre a morena. Respirou fundo e tossiu. A morena 
passou-lhe a mão nos cabelos-quase-azuis-molhados e olhou por 
sobre o homem o menino à porta. Olhou friamente o menino que 
não era tão mais novo. 
O amor-cereja dava lugar a um laranja, um forte laranja 
viscoso como um caldo grosso, um denso laranja-angústia. Foi 
então que o menino, gelado, virou-se e saiu correndo. 
Viu tudo laranja-angústia, até o sono que custou a chegar. 
Na cabeça, a cada instante, a cena laranja se repetia de forma 
mais intensa. Laranja o mendigo que ele nunca notara, o mendigo 
que gemia, o olhar laranja da morena. Como um carrossel que 
29
acelera e confunde formas, a noite foi um conjunto 
laranja-intenso. 
Na manhã seguinte, o menino saiu determinado. Ainda 
era tudo laranja-angústia: ruas, terra, poeira. O gosto 
laranja-amargo na boca. Uma procura. Na mão, um saco laranja e 
um visco-garrafa. 
O mendigo, estatelado, estava de volta à porta, que agora 
era sem rotina. 
Estendendo a garrafa, a mão pequena rompeu o silêncio 
Toma, pra você moço! O mendigo agradeceu. Deu um gole fundo, 
como se para matar uma longa sede. 
Instantes passaram e o mendigo se retorceu, babando. A 
boca espumava um visco amarelo-ovo e os olhos-vidros-sujos 
piscavam sem parar. Sacudiu-se o pobre tarde demais. 
O menino, olhando tudo com atenção, virou, saiu devagar. 
Depois correu. Um medo do mundo tomou-lhe e ele correu. 
Em casa, encostou-se do lado de dentro da porta, o 
coração batia. Não sentia culpa. Tinha nas mãos um sentimento 
diverso que vinha arrebentando as veias de seu corpo. Era fome, 
30
ele pensou. De um salto, sua cara de susto desfez-se num sorriso 
e uma gargalhada encheu os pulmões e foi ouvida em casa, na 
rua, dona de um completo azul. 
31
Eu, o outro, estava na cama com uma menina. Ambos, 
crianças. A menina me repreendia antes do bombardeio. Xingava 
com um rosto adulto e dizia Me respeita. Antes que as bombas 
caíssem, sufocamo-nos com o travesseiro. 
As bombas caíram. 
Ela se dissolveu por sob. 
Depois, aparecemos com um outro. Ela, adulta, entre 
todos nós. Sorria e me apontava, entre dedos, uma cabeça que 
era a de uma medusa, sem rosto que fosse seu, sendo outro: o da 
menina-mulher já adulta. O outro além de nós, ali, diante, era 
entre jovem e velho, rindo e não-rindo para todos e para a 
cabeça. 
32
O lugar era sagrado: uma não-igreja sem cadeiras e um 
altar-mor menor. Os não-santos eram entre o azul-marrom. Tudo 
num não-escuro e não-claro em que a menina-mulher com rosto 
de menina era com a cabeça. Sorriu e olhou-nos seguramente 
sem olhar o outro e disse A culpa é minha. Correu para um 
não-lugar marrom-azul. 
O outro, o outro, o eu e a cabeça correram atrás da 
menina-mulher que fazia pela velocidade de seus passos um 
ensurdecedor silêncio. Enquanto corria, corríamos entre e o que 
saía de um vão-nada lembrava sangue quente: muitas gotas 
minúsculas. A cabeça corria louca, sem olhar algum, olhando a 
nuca da menina-mulher que por causa da velocidade não deixava 
entrever seus acaios cabelos. 
Parou de repente num lugar azul-sem-quase-marrom, 
mas com marrom e azul. Ela vestia um vestido que só agora podia 
ser visto, por isso, tirou-o por sobre a cabeça. Jogou o vestido no 
chão ao lado de uma criança cheia de sangue. 
O outro ajoelhou perto da criança e, numa prece, 
arrancou parte de seu ventre. 
33
Na mão do outro, o ventre era como sérias serpentes 
rosa-lombrigadas. Eram móveis cordas em vermelho-rosa que 
aumentavam e diminuíam de tamanho na mão do outro que as 
segurava. O rosto do outro já não era o não-velho e o não-novo. 
Era calvo, de cabelos pretos e dentes enegrecidos que se abriam 
para engolir as serpentes. 
Enquanto, lenta, a boca abria entre o azul-marrom, a 
menina-mulher riu de cabeça inteira, voltando a cabeça de si para 
contra-si. A culpa é minha! 
A boca do calvo comeu as serpentes com as mãos ávidas 
de vontade, deixando o vermelho-mais-que-rosa escorrer 
abundante pelo queixo. Ao mastigar, a boca produzia outro 
silêncio quase de vogais. A mão voltava ao ventre e a velocidade 
de comer fazia com que já não se visse o que comia a mão, a 
serpente e a boca. Era tudo 
vermelho-rosa-mais-vermelho-que-mais-rosa. 
Eu tirei do bolso um lenço dobrado em quatro que, ao 
abrir, virou papel. Nele, o outro que não era o outro, que era o 
não-eu, vomitou um vermelho cheio de serpentes. O outro 
34
vomitou muitos vermelhos cheios de serpentes enquanto a boca 
comia a mão que comia as serpentes cheias de vermelho. 
A menina-mulher, no azul-marrom, ria alto para e por 
tudo. Atrás dela, uma sombra sobre uma escada gritou A culpa é 
minha. A cabeça olhou a cabeça, o menino no chão abriu os 
olhos: perdeu seus braços. Ele vestia amarelo e azul-marrom, 
estava ao lado de um vestido que não existia. Foi o bombardeio. 
O menino tinha serpentes que corriam de seus braços para 
ligá-los ao corpo, como macarrão com ovos esfacelados e queijo 
parmesão. As mãos buscavam os braços e as serpentes só 
esticavam. 
A mulher veio, então, sem a cabeça e se esfregou no 
não-outro: eu. Disse nua Come. O eu abraçou sua cintura com 
mãos fortes e o outro comeu por sob a calça. Come. E ele comeu 
por sob a calça. A culpa é minha: a mão cheia de serpentes. 
Os olhos e o peito do outro pancavam as costas da 
menina-mulher de acaios cabelos e por sob a calça fez cair sobre 
a mulher serpentes cor de macarrão. A cabeça riu, as costas 
acalmaram forte o peito. A menina-mulher virou-se e tomou das 
35
mãos o lenço de papel, passou-o por sobre o rosto. Era tudo 
amarelo-macarrão. Tudo a Grande Fome cheia de dentes brancos. 
Era sempre a mesma velha proibida sempre fome, dos 
bombardeios. 
A fome engoliu com sede a sombra por trás do 
marrom-azul. A sombra gritou à mão e a mão gritou do ventre A 
culpa é minha. O menino olhava fixo o céu do teto de estrelas e o 
amarelo-macarrão cobriu todo o seu rosto. Tudo era 
amarelo-macarrão! Até a sombra e a escada e o eu-outro. Como 
um pastoso macarrão com parmesão, a linda cor gorda com o 
vermelho das serpentes mais-que-rosa. Uma foto 
azul-marrom-macarrão! 
A menina-mulher de acaios cabelos sorria com fartos 
falsos-dentes da cabeça e dizia É a Grande Fome. Come. 
O eu-outro comeu e comi a menina-mulher cobertos 
todos por um grande travesseiro. Entre as mãos, a 
menina-mulher era toda amarelo-macarrão e o peito encostava 
calmo nos dentes que a cabeça comia. A Grande Fome. 
36
O amarelo-macarrão comeu tudo que pôde. Quanto 
vermelho-mais-que-rosa! E estrelas do teto! 
Come. A culpa é minha. Tudo amarelo-macarrão por sob a 
calça. 
37
De dentro, tem um jeito amarelo que lembra manga. Com 
casca, quem diria da manga madura seu amarelo? É 
amarelo-manga-sabor-amarelo. 
A casca-cega em cores-de-arroz e, sem festa, a saliva 
sobra desvairada no constante, entediada de esperar, boiando 
sozinha sob o metileno, rindo desesperada-fome da situação. Na 
palma da mão, os riscos que acalmam e tampam o sorriso do 
fiapo que deixa no dente-pérola quase amarelo-manga, de outro 
tom de amarelo, outros sentidos. 
Lembra outras manhãs mais grossas, manhãs de ontem. 
Manhã na cor-saber: como o amarelo-manga é mais que a cor de 
casca sem a casca do amarelo? 
38
Saindo de tudo, da casca, é impossível observar com 
cuidado as formas de todas as coisas, suas densidades. Mas é 
possível ter-lhes o tecido que palmilha a história e a superfície. 
Há, enfim, um toque febril e, no contato, o movimento 
vermelho, o azul-fumaça do automóvel, o mundo dodecafônico 
sobe da praça: cor! Em contraste ao metileno, às seis da tarde, 
em que um forte roxo avança por entre sobre umbrais e olhos, ela 
vê a incompletude de tudo fora da casca: o ápice a que um dia 
deram o nome liberdade. 
39
A mulher-amarelo-envelope entra sozinha no 
branco-chantili. A tarde parda olha a cena da janela do banheiro 
enegrecido onde a luz que erradia é de pêlos claros rentes da 
curva-negra divisiva. 
Molhada de esperma esbranquiçado, viscoso 
branco-chantili, ela se banha na espuma em que entra, desatenta, 
com unhas carmim na louça encardida: o arrepio das costas de 
quando joelhos repolhudos tocam a água fria, o cheiro de sabão 
no branco que se expande por todos os lugares. 
Ela não sabe que as cores a esperam por semanas. Às 
vezes até por meses, mas ela nunca se banha à tarde. Só o 
negro-azulviche da noite aproveita a clara pele de arrepios 
40
quando joelhos repolhudos abraçam o plexo das águas de 
chantili. 
O calor do ventre é muito para uma só noite, que se 
repete na semana. Mas à tarde, as cores dividem-se em outros 
calores para o ventre agüentar o máximo de chantili e de brilho 
no cristal da pele, na água fria. 
A mulher molha parte das costas, mergulha por completo 
todos os seus espessos pêlos, seus grudados-negros-molhados 
sobre a carne. Da porta a voz diz Sem susto. 
A cor de envelope nas águas da banheira assusta, mas 
não vira o rosto para encarar a voz na tarde, respondendo Não 
estou pronta. 
A voz da tarde sussurra estridente o vento que entra frio 
no labirinto Tem pressa. A mulher não tem, no quase branco. 
O amarelo-envelope começa a se dissolver alaranjando o 
chantili da banheira. Os olhos fechados mostram o viscoso 
carmim das pálpebras contra o sol e as unhas na banheira 
refletem o carmim da tarde que entra pela janela. O enegrecido 
das paredes e o cheiro de sabão se somam indo de, para: através. 
41
A boca da mulher abre. Brancos sobre brancos sujam-se. 
A voz estremece. A voz é só carne. 
A voz parece trêmula, à porta, ao reparar em tantos 
brancos. Incontida, invade o banheiro e resolve mergulhar nas 
cores de envelope. A boca sorri ao ver a voz entrar na água, 
arrepiando os pêlos das pernas. A boca mostra o fúcsia das 
gengivas, o branco-sêmen dos dentes no branco-chantili. No frio 
da água, a cor da voz, enegrecida como a umidade, pesa sobre os 
joelhos repolhudos: pressão que mistura. O fúcsia e o 
branco-sêmen já dividem iguais o mesmo campo, e o 
fúcsia-movente separa o sêmen para a entrada de uma cor opaca, 
a cor da voz. 
A cor de envelope mistura-se com a cor enegrecida, o 
carmim da tarde nas unhas carminiza o enegrecido da parede. O 
branco-chantili começa a ter manchas cor de envelope 
enegrecido das quais já não se sabe a fronteira. O branco-sêmen 
e o fúcsia-movente já estão todos de cor opaca e a curva negra já 
é círculo que furta o querer. Os negros-molhados-espessos 
escorrem pelo chão do banheiro e em pouco o chão é sob o preto 
sob as cores. Dissolvendo-se, a voz é quase espuma e a mulher 
tenta usá-la para mais. A mulher pega a voz para si e carrega para 
42
dentro dos pulmões todas as cores da banheira. Num único lance, 
forte em que o carmim sulca rios, em outros brancos mais 
opacos, o sabor do urro envia a explosão sistêmica na tarde. 
43
A mulher-azul via toda a cidade sob seus pés: um mar 
emaranhando gentes, buzinas, sirenes, camelôs, tudo sob um 
amarelo-fubá de um dia de semana. De pé, na beirada, a 
mulher-azul desorientada não sabia bem o que faria com aquele 
rio-preto-viscoso lá de baixo ou com o amarelo-fubá. 
Deu um passo vacilante até a beira do terraço. Olhou 
fixamente o rio-preto: um mundo colorido e viscoso banhado 
displicentemente pelo amarelo-fubá. Olhava o viscoso preto e o 
roxo-asfixia da alma refletida nas pálpebras fechadas. 
O vento aumentava. Era preciso pôr fim e bastava 
coragem para que tudo se tornasse parte daquele amarelo-fubá. 
Então, bastaria esperar lentamente as cores acelerarem e ouvir o 
baque surdo antes do vermelho-quente. 
44
A mulher-azul olhou novamente o rio-preto-viscoso e 
ouviu o zumbido colorido da cidade enquanto era açoitada pelo 
vento azul-comfort. Fechou de novo os olhos para o ver o 
roxo-asfixia. 
Era vazio o vermelho que batia descompassado no peito. 
Era vazia a vida que levava, o trabalho repetido e comum, os 
ônibus que pegava cheio de densos que não se viam. Era vazio o 
gosto da comida que comia na hora do almoço, as horas iguais de 
todos os dias. Tudo um rio-preto-viscoso, tudo amarelo-fubá. 
Sentia, ali, fazendo algo que era uma nova maneira de colorir-se. 
A vontade que rompe o silêncio, o grito que organiza. Ali, com o 
vento-comfort no rosto, era livre. Se tivesse a coragem dali a 
alguns instantes, seria de outra cor, talvez vermelho 
verdadeiramente quente. 
A cabeça embaralhava idéias estranhas, rostos, cidades, 
formigas, pontos que se agitam num zumbido baixo, regidas por 
um vento sem cor. Então, a mulher-azul ergueu a cabeça e olhou 
a cidade. Milhares de casas e prédios se acotovelavam no espaço 
das montanhas, tudo amarelo-fubá. Todos os volumes se 
acotovelavam e não guardavam a mulher-azul, que se jogaria na 
coragem de sua existência: a maior das verdades. 
45
O vento azul-comfort soprou mais forte. As imagens se 
montavam confusas. Lembrou-se do primeiro dia de aula, do 
primeiro beijo, do casamento dos amigos. Lembrou-se do 
primeiro emprego, do primeiro vestido e do primeiro porre, do 
cigarro escondido e das noites de frio, sozinha com seu cobertor. 
Lembrou-se de que todos os dias, há anos, fazia a mesma coisa. 
Que todos os dias se banhava, se vestia, saía e voltava para 
dormir. Que aos sábados, longos sábados que não acabavam 
mais, assistia à televisão entre um sono e um entre sono. Nada de 
telefonemas e que, quando saía com amigos, era sempre igual. 
Há anos ela dormia com homens-sem-cor de vez em quando e era 
vazio. Homens que ligavam, não ligavam, roncavam ou não. Uns 
prometiam o mundo, outros lhe davam o silêncio e ela usava a 
todos. Tudo um rio-preto-viscoso banhado por forte 
amarelo-fubá. 
Fora com essa sensação que ela acordou naquele dia e 
que a fez querer mais cores. Era essa a sensação que ela tinha ali 
e não queria mais: amarelo-fubá sobre rio-preto-viscoso. 
Sorrindo, abriu as mãos e os braços e entregou. 
46
Viu o céu, a cidade, o rio-preto-viscoso. Tudo mergulhado 
no amarelo-fubá. 
Durante a eternidade da cor, ouviu uma música, uma 
longa melodia que lhe surgia vermelha, talvez vermelha 
verdadeiramente quente. 
47
Aqui é um fechado. Muito fechado. Um fechado sem 
fotos. 
Um fechado onde não há ela, mas há imagens de vapor 
numa parede. 
Há pouco sol e a noite louca, desvairada, jogando sombra 
na parede e nas imagens de vapor. A noite é perfumada e vem 
dividir este fechado em que as imagens se aglutinam na parede. 
Não se sai daqui. 
Perde-se tudo no quadrado lá de fora, iluminado e caótico 
e desgovernado. Quadrado que incomoda muito, cheio de pontas 
por todos os lados em que se olha. 
48
Aqui pode florescer o medo que nunca dorme ou o sol 
que há. Medo feito de vermelho-tomate-seco, muito 
vermelho-tomate-seco que não é como o das imagens de vapor, 
ou de fotografias. Vem do além-sabor, pobre de outros 
vermelhos. 
Esse medo-tomate-seco lambuza quando começa a sair 
das coisas que existem dentro do fechado. Lambuza dedos, 
pálpebras, lambuza tudo como se voltasse de um lugar mais 
distante que a palavra manchada: vermelho. Medo-tomate-seco 
grosso como um caldo, como goiaba espremida. 
Aqui o medo-tomate-seco deita. Bate como um pulsar 
desgovernado. Não tem. É como um grito de pânico. Não é como 
nas esquinas do quadrado. Cresce como o mofo no silêncio e 
fede. 
O tempo, para o medo-tomate-seco, é caótico e precisa 
da noite sem o proibir. 
Aqui não cabe o corpo. No fechado, o corpo é os ossos do 
medo-tomate-seco. 
49
O medo-tomate-seco não sabe nada. Se soubesse, 
entenderia. 
As imagens de vapor se multiplicam nas paredes e tudo 
vive em harmonia. Não é preciso ter. 
É um fechado em tons de tomate-seco. 
50
Ando pelos cômodos no labirinto e não acho reflexos. É 
antes a marca de todos os antes. Se há milhares de anos um 
assentou-se aqui e disse qualquer coisa, cristalizou-se, como o 
qualquer coisa de todos que o sucederam. 
Não se entra nele. Entra-se, antes, pelo que o antecede, 
saindo de outro labirinto. Um sempre dentro do outro, como 
caixas mágicas. Nunca se está num só sem estar em todos. 
Assim é por quartos que se abrem para quartos que se 
abrem para corredores que se abrem para quartos e cozinhas que 
se abrem para um corredor improvável que não une. Sem fim 
nem começo, como suas largas paredes úmidas. Um cosmos 
aberto a todos os outros, cristaliza. 
51
Também as marcas que não desaparecem. O que sujou 
ainda suja, embora a tinta tente fossilizá-lo. 
O labirinto é o mesmo. É a vontade condensada 
influenciando os novos. Um lugar de muitos fantasmas que 
invadem os corredores, escondendo-se como sombras. 
Antes de rodar, pensa-se em todos que ele carrega em si, 
mesmo depois de edificado. No espectro que se perpetua mesmo 
quando transformado, trazendo a antiga fome ou só um cômodo 
vazio. O que foi volúpia tenta a cópula. O que dava é o que ali 
tenta. 
É sempre tudo o que o primeiro trazia, sem desmedidas e 
esforços. Sente-se em qualquer parte do labirinto as sensações 
misturadas dos antigos, como se carregasse eternamente funções 
que espaços desempenharam, independente do novo que ali se 
põe. 
Sempre todos em um e todos os que foram antes de ser o 
labirinto. 
52
Tudo não tem. Ia pedir para deixar. Sempre seduziu o 
vazio, o limpo, o sereno. 
No início pareceu agradável, depois, tornou-se um tédio. 
Pedia olhar, atenção. Olhava demais. 
Depois, não quis. 
Era como uma faca. Seu corpo, como uma faca. O 
primeiro. 
A angústia de saber, como um meio-quarto. 
Então, uma faca e um meio-quarto. Tudo morrerá sem 
possibilidade de ter. Isso não se vê como o primeiro. 
53
É assim: eu jogo para você e você devolve. Não, não 
machuca não. Um de cada vez, sem pressa, a gente acaba 
pegando o jeito. Pega pelo cabo que é mais fácil. Isso. Não precisa 
ter medo, não vai doer. Isso, agora joga. Não, com mais força. 
Tenta outra vez. Pelo cabo. Joga mais aqui para a esquerda. Isso. 
Melhorou, mas manda com mais um pouco de força e desta vez 
mira em mim. Tenta jogar nas pontas, aí eu mando para você de 
volta. Isso. 
54
Resolvi. Como? Resolvi. 
Estava resolvido. Ele nunca foi de desdizer. Não quero 
saber. Resolvi. 
Era cidade era frio era tarde era ele era ela era a mesa era 
o café era normal, muito normal, muito natural. Há tempos a 
discussão entre os dois crescia recheada de longos silêncios. 
Assunto delicado. Ela levantou-se, foi à janela. Do seu silêncio, ele 
a olhou e não se mexeu, não se levantou. Acendeu um cigarro, 
bebeu café. 
Estavam os dois num dilema que envolvia receios. Um 
dilema resolvido. Problema que não dava mais, a situação 
chegara ao caos, não tinham mais paz, aquela era a única saída, 
doeria nos dois, ele tentou evitar, ela tentou contornar e ele havia 
55
resolvido. A resolução explodiu nas mãos do tempo: o pai dele 
iria para um asilo. 
Casa de Saúde Nossa Senhora das Dores. Um prédio cinza 
que cheirava a morrinha e desinfetante, muitas grades cinza 
trancando do mundo janelas e portas. Um cofre-cinza. Zumbis 
cinzentos magros transladando um mundo de grades. Olhos no 
cinza do tempo. 
Rua da Consolação 126, Bairro da Graça. Quaresmeiras no 
pátio dianteiro, uma portaria de vidro. 
O pai dele era um homem de 70 anos e tinha um colchão 
de molas. Dormia na sala do pequeno apartamento. 
Havia sido resolvido. À noite, ele daria a notícia. 
Ela foi para o quarto. 
Sentados, pai e filho entreolharam-se distantes como 
desconhecidos. O pai, ainda com candura, sentira no ar o tremor 
das palavras antes de serem ditas. Pendeu os olhos. Resolvi, pai. 
Resolvi. 
56
Lágrimas rolaram frias, cinzas e silenciosas no ar. 
Formavam uma poça no chão. Para quando? Amanhã. 
O pai deitou-se cedo. A cabeça branca, cansada, 
pousou-se lentamente no travesseiro encardido, quase cinza. Ia 
ser a última noite em seu colchão de molas velho dentro do 
infinito da memória. Um corpo manteve-se inerte à espera de 
alguma cor na aurora. 
Nos labirintos do esquecido, o pai viu dois pés cansados 
andarem, passo a passo, ao lado dos passos de um menino. 
Caminhando na escuridão, o pai sentia a mão do menino crescer, 
o passo apertar-se. Os pés cansados já não davam mais conta de 
seguir o ritmo louco de um menino-homem que corria agarrado à 
sua mão. Dois fantasmas de mãos dadas sofrendo o sorriso do 
tempo dentro do frio da noite, num distanciamento que os braços 
já não mais suportavam. Na confusão dos caminhos do sonho, o 
menino-homem tinha ainda o rosto do menino, mas com braços 
longos que puxavam forte o velho pai que já não mais ensinava 
como caminhar. 
Quando as gotas da noite contaram seis horas, o vulto do 
menino-homem foi parado pelo peso do pai que não mais andava 
57
e, então, o velho ergueu o filho aos olhos. Nesse momento, os 
olhos já não eram os da criança ou os do homem. Eram os olhos 
frios que vira na hora da notícia. Era como se o menino se 
confundisse no homem e o homem se confundisse num rosto 
disforme, com quarenta anos, com os olhos para o chão. Um 
tempo entre as mãos do pai e os olhos de um desconhecido 
desaparecendo nos primeiros raios da manhã. 
Aos poucos, a figura ficou translúcida e gota a gota 
desfez-se no vapor. Pôs o velho olhando o claro do teto, 
acordando do leve sono. Seus olhos se preparavam e 
aguardavam, mudos, a partida. 
Às sete o café foi posto. Ela não disse palavra. Ele saiu do 
banho, sentou-se à mesa. Os dedos ossudos partiam o pão, assim 
como seu pai o partia, com os iguais dedos ossudos. Tinha muito 
de seu! 
Saíram. No caminho, ele pensou em reviver tempos, dizer 
palavras soltas, frias como um bom dia, dizer do dia nublado, do 
jogo de sábado, de uma visita. Mas calou-se num suspiro. 
O pai quase não tinha roupas, emboladas todas numa 
sacola plástica de supermercado. 
58
Bairro da Graça, Rua da Consolação, 126. Uma placa de 
ferro sustentava o letreiro: Casa de Saúde Nossa Senhora das 
Dores. 
Caminharam até a portaria. Ele apertou o interfone. Uma 
enfermeira pálida ameaçou um sorriso ao abrir a porta. Entraram. 
No corredor, à meia luz, em meio aos muitos vultos cinza 
que passavam, o pai olhou com olhos claros os olhos do homem. 
Isso me lembra o dia que te deixei na escola pela primeira vez. 
Abraçaram-se. Ele sorriu forçado. 
Levaram o pai pelo braço para o fim do corredor. 
Na rua, à porta do carro, ele soltou umas lágrimas, fechou 
os olhos. Ao os abrir, o mundo portou-se cinza, repleto de vultos 
que transladavam entre as sombras listradas das quaresmeiras no 
opaco da rua. 
59
Os vizinhos saem das casas, comentam, gesticulam. O 
velho não sai de casa há alguns dias. Os cães latem forte, a garoa 
engrossa. Há uma semana o velho não sai, não se senta na venda 
e não discute futebol. Há uma semana não volta para casa com 
um embrulho nos braços ou com uma sacola de pão. 
Os vizinhos não sossegam. A garoa impregna. Quando foi 
visto pela última vez, o velho subiu as escadas do sobrado com 
um embrulho debaixo do braço, fazendo ranger, no longe do 
tempo, as tábuas dos degraus. 
Nesse dia, o velho, consigo, foi à cozinha, pegou um 
caneco de metal velho, pôs água no fogo para preparar um café 
ralo como o da esposa. Nas empoeiradas lembranças de sua vida 
de erros, o velho caçou no passado o sorriso jovem enquanto 
60
fazia seu café. Os cabelos negros, pesados nos ombros, os olhos 
castanhos atentos ao pó, o corpo suado do calor de setembro e 
um vestido de chita solto, largo, que brincava com os movimentos 
das pernas firmes da moça. 
Ela olhava-o entrar na cozinha, partir o pão, limpar o 
farelo das barbas. Sorria ao vê-lo olhá-la, com uma fome restrita, 
envolto no vapor do café. Ajeitava com mimo os cabelos, piscava 
os olhos, levantava a alça do vestido. Vinha arrastando as chinelas 
pelo chão frio da cozinha e lhe roçava as coxas. Fazia brincar o 
pano do decote no nariz do velho. Trazia-lhe ali, depois de muito 
tempo, naquela cozinha vazia, o perfume mais forte, o gosto do 
beijo. 
O velho repisava sua caixa de retratos, arrastando o seu 
corpo pesado, cansado, preso num terno, para o seu quarto 
viúvo, para a penteadeira vazia com seu pó antigo. 
Pôs o embrulho na cama, arrastou os espelhos do quarto 
pondo-os perto de si. Abriu o paletó pesado, despiu-se. Viu a 
esposa escorada na porta: seu corpo jovem vindo e olhando para 
ele com um carinho. Entrando no quarto e fazendo o sol invadir a 
cortina, arrastando os pés no assoalho, tocando-o no peito há 
61
tanto esquecido, colando seu corpo no dele, enchendo-o com um 
vapor esquisito, esquecido e fazendo com que o velho se 
enchesse de vida e com que o quarto se enchesse de sol. 
A garoa adensa e os vizinhos se preocupam. Dois homens 
discutem urgências, resolvendo abrir a porta. O cheiro de carne 
podre desce as escadas sujas, está na sala invadida. Os vizinhos 
entram em bandos, os olhos comendo tudo. 
Na cozinha, a mesa posta para dois. Pães partidos, uma 
xícara antiga e um café ralo, frio, envelhecendo. Da copa, que 
dava acesso ao quarto, um brilho estranho ilumina um retrato de 
moça. Muitos passos se apressam no assoalho, afoitos, em 
direção ao aposento. 
Então, a curiosidade sumiu com o barulho dos tacos, com 
o cheiro, com a poeira da casa, com as moscas. 
Deitado na cama, à vista do povo, o velho dorme refletido 
no espelho. Uma cena esquisita para olhos curiosos. De costas, a 
cena se emoldura. O embrulho aberto aparece no chão. 
62
Com os braços cruzados, como num abraço, o velho surge 
perdido dentro de um vestido largo, de alças, muito antigo. Um 
corpo apodrecendo vestido com um vestido de chita. 
63
Você vai dançar comigo? Esperei tantos dias, você nunca 
chegava. Que dia você vai me levar pra sair? Quando a gente vai 
jantar fora? Amanhã? Ah, era tão bom quando a gente saía junto! 
Olhar a lua, ficávamos abraçados horas, você está prestando 
atenção? Você sempre diz isso. Quando a gente vai voltar a sair e 
se divertir? Quando a gente vai sair para dançar outra vez? Você 
vai dançar comigo ou não? Você sempre diz essas coisas. Vou 
colocar aquele vestido vermelho, bem vermelho, com o decote 
atrás. Você quer ver o vestido? Você que me deu o vestido, não se 
lembra? Você nunca se lembra. Foi no ano passado, no nosso 
aniversário. Era domingo, fazia sol. A gente dançou! Quero tanto 
dançar, você me leva? Quando você me leva? Você está me 
ouvindo? Você sempre faz essas coisas. E o vestido vai combinar 
com os sapatos pretos que você me deu ontem. Você gosta? Você 
64
nunca diz que gosta. Mas a gente dançará muito, não dançará? 
Você vai usar o que? Vai ficar bonito no terno do nosso 
casamento? E a gente dançará na rua também? A gente vai poder 
dançar aqui na sala, antes de sair, como quando você ia me 
buscar pra dançar? A gente podia dançar na cozinha também, a 
gente nunca dança na cozinha nem em lugar nenhum! Você podia 
fazer isso amanhã! Amanhã? Você precisa me levar pra dançar, 
me leva amanhã. Você está me escutando? 
65
Tarde da noite, o homem abriu a porta do apartamento e 
saiu. No corredor, em silêncio, o pé vacilou e a luz, que percebeu 
o movimento, iluminou o passo do delito a ser cometido. O 
homem caminhou evitando fazer ruído para não acordar 
ninguém. Ruído que saía da sombra e que o assustou quando 
apertou o botão do elevador. 
Os olhos arregalados, o coração batendo forte no peito 
apertado, a roupa incomodando como a luz e o ruído, as mãos 
transpirando. Quanto mais próximo o elevador, mais o barulho 
incomodava. O homem sabia que, ao abrir a porta, a sineta soaria 
e seria ensurdecedora e gritante como uma sirene. Ao pensar, o 
coração se apertava como se estivesse enfartando. 
66
O ruído das cordas da caixa metálica que subia era cada 
vez mais alto e se misturava ao da respiração do homem, 
acelerada. A espera que a porta se abrisse era agora uma agonia 
crescente – os olhos fixos no metal fosco, a saliva a faltar. O 
barulho do elevador ensurdecedor: a inevitável sirene soou 
denunciando a porta que se abria. 
De um pulo, como se jogasse seu corpo no fosso, num 
precipício, o homem entrou no destino-caixa e fitou-se ao 
espelho do fundo do elevador. A barba por fazer, os olhos, os 
ossos, a pele, os lábios, os dentes, o silêncio. 
O homem fechou as pálpebras apertado, pedindo para 
que o elevador começasse a caminhada. 
O solavanco da descida denunciou a pouca firmeza de 
suas pernas, trêmulas, vítimas do coração que batia vital como 
um sapo, uma sombra, um copo d’água. 
Foi quando acreditou que o elevador não descia nem 
subia. Era o fim da gravidade compacta que o prendia ao chão 
metálico. Os pés ali se fincavam por outra força que não a da 
Terra, uma força que emanava dele mesmo, centro que gravitava 
em outro caos. Tudo, de dentro de um abismo, saía em órbita e 
67
em agonia e o homem tentava em vão organizar seus 
pensamentos. Tudo era uma grande quantidade de cacos soltos 
que orbitavam seu rosto no pequeno espaço que o afastava do 
espelho. Dois universos se tocavam, elípticos, acelerando e 
expandindo. O vidro do espelho já não mais existia, fazendo com 
que os cacos que giravam em sentidos opostos se encontrassem e 
os choques produzissem luzes e galáxias e estrelas e planetas 
ínfimos, mas complexos, e tudo se dilatava, em choque, como no 
princípio. 
O homem, agora um deus, deslumbrado com o lugar sem 
tempo da origem, firmou os olhos no outro centro de gravidade, 
no outro que antes o encarava por detrás de um espelho desfeito. 
Os deuses gigantescos, centros de dois universos colados e em 
choque, encostaram a testa uma na outra e miraram-se. Cada 
qual, um ciclope rival. 
Era preciso então que este homem – feito primeiro deus e 
depois ciclope – pensasse, olhando o único e gigante olho que o 
encarava inquiridor. Mas os pensamentos eram confusos, 
desordenados, como tudo que girava em várias direções, se 
chocando e criando naquele novo e complexo universo que o 
rodeava. 
68
Todas as formas celestes ali já não mais permitiam ao 
homem perceber o fim e o início do elevador e ele ouvia as vozes 
das civilizações criadas, em dor e agonia, em combates e mortes, 
chocando e criando um movimento que ele mesmo já não sabia 
interferir, modificar, mandar. Recebia sinais de som, medições 
malucas: tudo se tornava cada vez mais complexo e absurdo. 
Tudo acontecendo enquanto ele mantinha o olho fixo no ciclope 
que o encarava. Um grande olho, translúcido, que refletia como 
um grande espelho todo o movimento vital que acontecia atrás 
dele. 
O homem agora podia ver tudo, em todas as dimensões 
sonhadas, todas as formas de luz e viu que era sim possível ver 
um objeto de todos os pontos de vista possível, sem recortes. 
Tudo era magnífico, sedutor, confuso e assustadoramente 
perturbador. 
A grandiosidade do movimento mostrava as eras dos 
tempos em cada ponto daquilo tudo que girava em torno das 
duas pupilas negras que se encaravam com um foco nítido, 
naquele movimento louco. O homem então começou a perder o 
controle da criação que ele não começara, mas da qual se sentia 
responsável. Percebeu o quão era complicado saber de cada uma 
69
das coisas da criação e sentia, de certa forma, tudo. Tudo era 
culpa dele, tudo imperfeito e em movimento, girando, chocando 
e criando luz e forma em torno de sua gravidade. 
Tudo crescia e ia clareando, ganhando volume e nitidez, 
começando a montar um mosaico. 
Naquele momento, ele pediu para esquecer e esqueceu, 
de forma divinal. Viu-se, como se de fora, em algum ponto do 
cosmos que emanava dele: um homem gigante, de pé, no centro 
de uma confusão limitada por um cubo de metal prata. 
Ali, daquele ponto de observação, via-se só pela primeira 
vez. Havia criado todo um universo e era só: um homem só de 
testa colada ao espelho de um elevador. Foi então que fechou os 
olhos e tudo em torno de si se desfez. De repente, como se 
instantâneo, o homem pôde sentir que o elevador descia 
suavemente pelas cordas e notou que sua testa doía diante de 
um vidro de um possível espelho. 
Afastou-se e ao abrir os olhos viu um outro que o 
encarava. Já não havia dois ciclopes e os desconhecidos se 
contemplavam com frieza, como dois homens comuns. Ia 
perdendo a memória do cosmos e agora era como se estivesse 
70
pela primeira vez na Terra. Era o primeiro homem olhando-se 
pela primeira vez na face de um lago, mas ainda cheio das marcas 
de todos os homens que o sucederam. 
Resolveu desmontar aquela imagem, buscar o que seria 
primordial já que era o primeiro dos viventes, completamente só. 
Com as mãos, fazia derreter tudo o que ali existia. Os traços e as 
máscaras tornavam-se cicatrizes e as cicatrizes tornavam-se outra 
coisa, confusa, distinta, que precisava ser também apagada. Viu 
todos os homens e todas as mulheres. Todas as etnias e todas as 
civilizações. Viu tudo que existiria depois do homem primordial. 
Tudo retrocedeu na figura de seu rosto e chegou a um compacto 
e inconcebível nada. 
Foi possível então ouvir um surdo som de agonia que saia, 
gutural, pela boca que não mais existia. Aquele era também o 
som elementar, o som antes de todos os homens, antes de tudo: 
urros de dor em silêncio, de forma seqüencial e alternada. 
Quando o homem acreditou ter chegado ao ponto 
máximo depois de tudo, no compacto nada, percebeu que seria 
infinda a busca e que nada desapareceria por debaixo do que foi 
desfeito, debaixo dos urros e dos surdos berros, dos rostos que se 
71
entreolharam desfeitos e exaustos por milênios. Tornou a fechar 
forte os olhos. Foi aí que percebeu que estava de novo em pé, 
num elevador. Ouviu silenciar tudo em volta, o som primordial. 
Era agora um silêncio que, pouco a pouco dava lugar ao barulho 
das cordas do elevador que descia. 
Silenciado e calmo, como se se visse pela primeira vez ao 
espelho, o homem vislumbrou a luz. Era a primeira vez: O 
resultado de um grande vazio cheio de verdade. 
Foi então que o homem assustou-se finalmente com 
tudo. Assustou-se ao ponto de soluçar e o soluço derramou um 
branco-cal sobre a sua face. Nesse momento, o homem 
entendeu. 
Ali, vencido e silenciado, ele teve posse do que procurava 
por uma vida, sem o saber. Teve posse do que sempre lhe 
escapara e que lhe escaparia instantes após aquilo. Mas isso não 
importava mais. Estava com a posse. Como quem segura 
fartamente água. 
Pronto de toda a sua posse, a face retornou ao rosto do 
homem, cheia de vitória. Então, ele beijou longamente seu 
reflexo no espelho e o choro convulso lhe desceu, carregado. 
72
As lágrimas saíram com mais força quando fechou 
apertado os olhos. Surgiram outros urros que limparam as veias, 
sujando-o com uma viscosidade morna, misturada à pele e ao 
suor, lavando-o. 
Cansado de estar em pé, pesado como se os séculos dos 
homens o pesassem as costas, como se a força ancestral daqueles 
que entraram consigo naquele elevador o puxassem mais forte 
que a gravidade, sabendo que estava cansado de um cansaço de 
eras, de um povo inteiro, de toda a civilização humana, de todos 
os erros do recomeço imperfeito de tudo que rodeia o universo 
mortal, imortal e constantemente inacabado, deitou-se na 
posição inercial de um feto. 
Abraçado ao seu calor, ele se preparava. Era preciso. 
O elevador, enfim, chegou ao térreo e abriu a porta. Uma 
luz plena entrou tomando tudo e o homem se levantou. Era 
preciso. 
Era ele: o homem que iria sair ao mundo? 
73
Acordou e pegou no armário o melhor terno. Jogado 
sobre a cama, o terno já não mais lhe impunha o medo impreciso 
que sentia quando olhava atentamente para ele, no armário, há 
mais de trinta anos. Olhava o terno, passava-lhe as mãos e não 
sabia que, dali a instantes, estaria deitado sobre aquela mesma 
cama, vestindo-o, barbeado e com sua melhor colônia, trêmulo 
por estar a instantes de colocar o revólver dentro de sua própria 
boca. 
74
Comia pão-sebo com salame todas as manhãs e dormia 
de meias para os pés não tocarem os tacos rachados do quarto. O 
pão no papel alumínio como a balconista da padaria. Era por 
causa do cigarro barato que fumava no banheiro. Desisto, não 
tem nada aqui pra fazer, lendo o jornal. Depois me chamam de 
preguiçosa, jogando o jornal à distância para não ter que colocar 
a mão nele. 
Foi ao banheiro e no espelho barato com borda vermelha 
ela se ria de dentes largos-sujos de restos de pão. 
O quarto era estranho: parecia uma grande revista. 
Figuras coloridas de sorrisos e dentes de crianças e tulipas 
amarelas e amassadas. Uma cama de madeira escura, um colchão 
de espuma fino mostarda-opaco, um lençol xadrez-verde-vestido 
75
rasgado e encardido, uma rachadura do lado direito, 
preta-infiltração, um teto-mancha, uma janela alumínio-gasto 
com vidros fosco-gordura. 
A cidade: espaço entre dois prédios recheados de janelas 
como rosas. Roupas por todos os lados e um 
cheiro-maquiagem-desodorante-para-os-pés. Uma penteadeira 
sem espelho repleta de anjos-cera ainda com a etiqueta-preço. 
A porta amarronzada do banheiro abriu-se e ela saiu de 
toalha rosa-menina ao peito, cabelos 
cacheados-molhados-shampoo, unhas pintadas e roídas. 
Há tempo procurava trabalho e sairá de novo, tonta, 
cidade afora, sem muita esperança até o pão-sebo de amanhã. 
76
Uma ânsia irresoluta em um presente nunca vivido. 
Interdita, a possibilidade de mais é sempre uma ausência. Sem o 
estar, mas a ausência como a gula. 
Sentir o estado incomum de tudo que faz falta, como a 
boca entreaberta na noite ou mesmo o caos que consome as 
vistas. Em tudo, cores e destroços. Em tudo é ânsia. 
Soubesse o presente de tudo, o seu presente em tudo, o 
sorriso brotaria da noite, grande, incalculável e insustentável de 
tamanha fluidez. E dele, alvo em pétalas, sairia a imagem, a 
sem-contorno imagem que criou no ar, em arabesco. 
Não mais, em nada. E se nada fosse? Ficou a ânsia na 
boca não tocada, na noite não vivida, na memória distante e 
empoeirada como um cais. Sem as partidas, tudo é destroço 
77
inalcançável, distante das mãos e dos olhos, como se no túnel se 
desfizesse em mil partículas e as partículas em mais mil pedaços 
de poeira e delas em átomos, e nem isso, perdurasse apenas o 
movimento ou o rastro dele no vazio. 
A gula. A maior das sebes. Sem fronteiras, numa 
imensidão que se propaga e que, a cada dia, distancia-se mais e 
mais daquela imagem, da forte imagem que sobrou de tudo no 
redemoinho. Distorcida, diferente, distante, ela agora tem outro 
peso, outra medida, outra textura e não se sabe feita de densa 
cor, como outrora. É feita de miragem, uma miragem cinza-ocre, 
como uma foto em decomposição em que os rostos vão se 
tornando sombra de suas próprias formas. 
Nesta distância toda, nem mesmo o som roça o caos. 
Afinal, o som é conseqüência de tudo. Sobra a gula que a boca 
pede e que a memória já não traz, de turva-sintonia. Não sobra, 
na ausência, a branca-fome. Sobra, desesperada, a não-vontade 
que poda a potência. Sem potência, tudo se perde e o que vem 
de longe, na memória, é um vulto estranho, um insosso sorriso 
que um dia pensou ser paz. 
78
Tem sapatos com os bicos abertos e muitos mortos nos 
ombros. Observa todos, com a cabeça mal disposta, e nota que 
quase todos são ela mesma em seus muitos outros momentos: 
seus mortos-de-si. 
Colocados como fotografias ladeadas, ela observa os 
mortos no tempo: quanto morreu em muitas faces nas quais não 
se reconhece mais e que não consegue efetivamente tocar. Um 
mosaico estranho, em uma pouca cor, mas que se apresentam em 
multifacetadas outras formas que abandonou, que a 
abandonaram, mas que são, em pedaços dela, um outro eu. 
No caleidoscópio de rostos, percebe outros, outros rostos 
que não são. Desmontados, são a soma que a atropela vida afora 
– porque todo contato com o outro é um atropelo. 
79
Violentos, os outros rostos precisam ser escamados, um a 
um, para que ela possa notar a marca que deixaram no 
pós-atropelo. Sob a marca de um, outro rosto diferente, de data 
não seqüencial. No fim, sobra um conjunto disforme que também 
não é seu rosto ou qualquer outro rosto seu abandonado, morto, 
mas o de todos os que a antecederam em eras mais imprecisas. 
Depois de tantos outros, de joelhos, o peso de todos 
sobre ela. Lembra-se de que é hora de cometer outra morte e, 
como se desencarnasse, recorda das outras vezes em que antes 
de morrer viu os mortos. Sairá outro rosto de tudo, mais leve, que 
não notará seus muitos mortos e ela terá, dali em diante, a 
sensação de que re-nascer é tornar-se novamente virgem de todo 
e qualquer contato. Tudo é sempre virgem para o novo, mesmo 
sendo o novo o repetido exercício do presente. 
80
Algumas questões desligadas: um malbec aberto, um par 
de olhos castanhos, uma sexta-feira gorda, ensebada, de difícil 
digestão. 
O conjunto todo traz cidades, ruas, serras nas manhãs 
malucas. É o malbec!, ela pensa. Na foz de todas as vertentes, 
tem jeito de dizer o exagero das palavras. 
"Ah, se eu pudesse fazer homens e estrelas" no som da 
voz agradecendo-a, moça, pelo gostar. Atenções coloridas desses 
jeitos loucos das pessoas. É o malbec!, ela pensa. 
Dançando nas palavras, ela traz uma cor de passado 
menos melancólico que ele. Tudo na música é saudade e não e 
dor que tem cor mais leve, sem tanta saudade. 
É o malbec!, ela pensa. 
81
Cometeu um erro que custará caro. Caro além das 
medidas. Caro como arrancar das plantas folhas que não mais 
trarão a vida-verde costumeira, a vida em fluxo, a vida em seiva – 
forma com que a natureza dá vida a todos os mortais. 
A forma-vida é seiva, é densa, mais que o tom do dia no 
poema acordado, mais que a força inconstante do problema. 
Saber: como respeitar e saber que tudo, em tudo, é seiva, 
independendo o nome, a cor e a forma. A brincadeira do leite 
derramado, do anel que se passou, vidro, vidrilho. A torta carne 
cortada pela verdade insalubre da eterna inércia, como um morto 
infante, como corpo cansado de gás. 
Cometeu um erro maior que a proporção indócil, maior 
que a cor indistintamente vermelha da agonia-chocolate. A 
82
gosma-vida que o mar transmite, cheia de sal e de vida do todo, 
tomando e agredindo o interno formato da alma, perturbando a 
paz dos contentados. A paz, a inconstante paz, a ilusória paz que 
se proíbe com a afirmação da própria paz. 
Não mais, porque de tanto, o que era vida em profusão, o 
gosto do corpo sobre o asfalto, é erro e sal, cor-serpentina. 
83
Ela acordou depois de um sonho-cor cata-vento cheia de 
nostalgias. Na verdade, cheia de falsas imagens cheias de um 
vapor de amor. 
Um vapor maior que o vapor comum, como quem é 
levado pelo sono às tortuosas curvas do passado que não 
aconteceu. Hoje, o passado, em pesados cabelos escuros e em 
sorrisos maiores que a eternidade, perfumou-a com a voz e o 
gosto nítido do beijo que tantas vezes em sono é de difícil 
distinção. 
Carregada dessa nostalgia, desses olhos castanhos e 
cabelos pesados, era uma criança em manhã de festa. Mas no 
meio da madrugada, aos delírios, cata-vento colorido-cor, 
84
abraçou na noite o corpo de vapor do baile de máscaras. O 
sempre estranho retorno do vapor na ante-sala madrugada. 
Riram muito, emparelhados pelas colunas do labirinto e a 
alegria, cheia do cheiro do sol, carregava líquida a luz da alvorada 
que saía daquele imenso sorriso, cheio de abraços e de olhos 
apertados, que a memória dela – a que sempre surge depois do 
instante – fez prolongar jogando com força a verdade crua na 
ausência. 
Como carne que reclama a perna abandonada, o pedaço 
amarrado em estreitos nós neste sonho reclamou atenção e 
trouxe o velho sabor: cor-roxa que esquenta a alma. 
85
É sempre preciso descarnar a cor – ele dizia sem parar. A 
cor-amêndoa do passado em meio à neblina quase branca da 
presença. A cor-voz do aveludado verde-creme, como pistache 
em estado frio. A cor-azeite-cabelo da cor-forma-derretida, como 
os sabores das cores do tempo. 
Nessa lógica imaginária, como num caleidoscópio, a 
palavra-carne que ele dizia era palavra-carne-silêncio. O silêncio 
incomunicável da verve, da voz no escuro: a alegria era em 
tons-sóis-carminizantes na rouca-esquerda-voz de detrás do 
espelho. A forma nova, repetida, como um holograma, para ele, é 
mágica em palavras desmedidas, em formas e sabores do cortar o 
pão pela manhã. 
86
Perseguiu eternamente o perfume, o tom, o toque, a 
cor-amêndoa do tempo que retorce as formas e traz, no 
incapturável momento eternizado, o ver-melho-mesa, o 
ver-melhor de uma segunda-feira. No segundo, sua mão tocou o 
passado, no vapor que é mais carne que a carne, no ser que é 
mais que o ser. O novo silêncio recheado de palavras trouxe os 
olhares, novos e velhos, no amêndoa. O amêndoa da neblina, da 
penumbra, da voz que ecoa na noite. 
Num átimo de serpente, habitou a agonia do não-tempo 
da palavra reservada para mais. A palavra perdida na cor-tempo, 
infinito como a consciência aberta ao toque, ao esquerdo formato 
do sorriso ao recuar do corpo involuntário. 
Juntas, formas e formas são mais a nostalgia agônica, mas 
de uma agonia boa, nova, mergulhada como o aroma no café – 
ele pensou. Mergulhada na vertigem das cores no sobre-tom 
cinza quase ao toque. Tantas condições divididas, sem o abraço 
cor-saudade. 
No conjunto, o constante-contante, sobrou o farto e a 
saudade-até, no além-aquém-cais 
87
A beleza-passado-menina aparece em sobrancelhas 
levantadas de passos de dança, no corpo que cheira a sândalo, 
incenso e cores. 
Nas perdidas paredes, grossas dessas umidades fartas, a 
leveza indomada do passado, suspenso nas sobrancelhas, traz um 
tom de castanho, a cor-vertigem das rugas do arqueado da testa, 
olhos que vêem de esguia a capacidade compacta do que negou 
em ter. 
Nos tons-toques de adamascado sabor, faz a 
beleza-passado-menina rodopiar sobre-sob as próprias cores. Um 
conjunto imutável de sensações que, suspensas no 
todo-sobrancelha, chocam como ossos que se partem, como 
caixas vazias. 
88
O bailado das sobrancelhas faz surgir o perfume do 
sândalo, cor-damasco, que a mulher carrega agora na ponta de 
seus dedos em mãos rabiscadas-cheias de incensos. 
Na dobra-sentido, a noite cobre como um soco e um 
travesseiro: sufocante travesseiro que teve insônia, marrom-café 
sem soluços. 
O que sobra é sândalo-sandália e se espalha como 
incenso para as sobrancelhas. 
89
Para ela, não há um perturbador contato no nada. 
Quer mãos que se esfreguem no escuro e que, com o 
inelutável choque das unhas, arranhe mais profundamente o que 
está por trás da carne. Tudo está por trás da carne. 
O jazz vive atrás da carne, sujeira-mundo que carrega. 
Desde. Esse por trás da carne, do corpo que ela carrega, mobília 
que envelhece e que ganha marcas. Não se troca. Troca é outro 
problema. A velha troca não existe mais, como relacionamentos 
entre fios, com o contato vazio entre pessoas que não mais se 
vêem. 
O mundo, o entorno e intocado mundo, continua lá, de 
fora de todas as coisas que quer tocar, as forte coisas, 
mergulhadas em seus profundos silêncios. Não abanam os braços 
90
e nem pedem abrigo. Não há um real contato, mesmo que a 
agonia dos dias a force à empreitada. 
Sob os seus pés, o que não esquece. Sobre tudo, o sol que 
não mais se sustenta e que reflete o calor no ar em suspensão. 
Tudo isso detrás da carne causaria um efeito lento, como 
em êxtase. Num bolero lento em que pés se pisam e se arrastam 
sem contato. Como o sexo sem a real entrega de corpos e de mais 
contatos. 
Tudo, em redor, para ela, é leve brisa que não agita as 
folhas e o que sobra – nas velhas e tortas retinas – é a lágrima e a 
chuva. 
91
O casal passou parte da noite fazendo um exercício que 
há muito não fazia. Arrumou mais ou menos as coisas da casa e 
sentou-se para olhar as lombadas de seus livros. Um café quente. 
O momento era de fechamento de coisas, de trocas. Tudo o que 
traz de novo as muitas histórias, histórias sobre histórias, o que 
abre milhares de caminhos. 
Um deles remeteu nele à sensação de sentar para olhar 
os livros. Nela, a sensação de como a casa era um ícone da 
individualidade que não nega a tradição. 
Para ele, a casa remetia a uma frase de um amigo, 
bêbado, num bar. Para ela, toda casa muito bonita, se olhada 
muito de perto, apresentava rachadura. 
92
A mulher, há alguns dias, disse que procurava casas que 
fossem outras vertentes. 
O homem, numa aula, disse que a palavra casa era 
exemplo de pluralidade de significações. Nas longas e frias 
madrugadas, ambos ficavam em férias, sozinhos, sentados, 
bebendo café e olhando os livros. 
Ler mesmo não os liam. Ali, imóveis, as estantes eram a 
Terra inteira sem a mão de alguém que se aventure por tal ou 
qual caminho. Distantes, como observadores mudos, viam 
sempre mais as coisas todas, os livros, a própria casa. 
Ele pensava mais detido nas histórias que os livros teriam 
vivenciado até aquele momento, ali, na estante. Ela, nas histórias 
que terão para além daquelas estantes, quando serão de tantos 
outros, em um destino ignorado, separados e vendidos em 
bancas, estocados em alguma biblioteca, herdados por amigos 
que também ignoram os destinos de seus livros depois que 
passarem por eles. Ele, nas casas que tiveram: as casas por que 
passaram até aquela, ela, nas que passarão além desta. Dos 
meses que eles mesmos passaram em outras casas, outras mãos. 
93
Ele, por ignorância, os tinha como coisas além das que ficam nas 
estantes. Para ela, cada um, como uma casa. 
Essa semana outro livro voltará da rua para casa depois 
de seis meses. Mas antes de chegar, outro partiu para breve 
estada fora. Um outro chegou depois de anos, de ameaças de 
destruição, de esquecimento em outras casas. Ele disse que o 
livro veio cheio de outros cheiros, como mulher que se deitou 
com outro. Ela pensou que tantos outros, em mais ou menos 
tempo, teriam destinos variados por cidades que desconhecia, 
mesmo depois de chegarem ali. E sabe-se lá o que causarão? 
Marcados de dedos, ambos curvos de outras estantes, 
muito cheios de seus livros, rodavam. Não contavam o que viram 
do mundo além do que lhes foi impresso como digitais. Além do 
que carregam como aquilo possível de se perceber, não menos 
intrigante e complexo do que o que se pode tocar. Como casas, 
que recebem tantos em tantas épocas. 
Não sabem o que a casa recebeu naquela noite e não 
saberão o que receberá depois. Como não sabiam nas outras 
casas que moraram e muito provável não saberão nas casas que 
virão. E de destino ignorado, como o dos livros, que só guardarão 
94
as digitais por baixo das tintas. E nas digitais outras histórias que 
as paredes não contam e que nunca tiveram testemunha e se 
perderam, como muitos dos que passaram por seus livros. 
95
Quatro da tarde de uma segunda-feira de sol de janeiro 
quando o homem viu a mulher entrar na livraria. Longa, leve, de 
olhos negros, mãos de dedos finos e um vestido com flores quase 
pálidas. Ela, com as mãos despretensiosas sobre lombadas de 
títulos ignorados, com olhar-ar, numa busca em um mapa imenso 
de muitos nomes. 
A mulher entrou na livraria como um clarão-luz, como um 
quarto fechado. Alheia a tantas pessoas, entrou nas lentes dos 
óculos do homem-oblíquo. 
Na rua antes da mulher, uma segunda-feira gordo-ruidosa 
de carros e ressaca. A confusão humana nas ruas lotadas e portas 
vistas através de vitrines, como um cenário colorido, como um 
cata-vento. 
96
A mulher na livraria. Ali, o jardim do vestido translúcido. 
Os longos dedos pálidos lentos em estantes, em um compasso 
solto no balcão. As unhas com um pouco esmalte e ruídos do 
arrasto. A mulher e os livros: perdidos. Solitária, entrava pela 
livraria: o olhar. 
O homem, ali. 
Uma mulher – balconista, secretaria, atendente, 
telefonista – ignorada, sem passado, sem identidade, sem cor na 
rua. Como uma samambaia ou um rabisco. Uma palavra no 
reduto das palavras buscando seus pares, conciliando-se com 
seus iguais, achando calor no formato vermelho da letra do 
romance na estante. Com o romance aberto diante de si, virou as 
costas para os livros e apoiou-se no balcão. Em frente. 
Um cabelo preto, em grandes cachos, caía sobre a pele 
branca do corpo magro da mulher de traços. Ela passava as 
páginas, os olhos em segredos. 
O homem via a mulher: encontrou seu princípio? Um 
passaporte para voltar ao seu mundo? Viu na mulher a saída para 
a anulação, encontrando de novo, felicitando, longos abraços, 
97
amores? Uma mulher indiferente. Uma mulher que não faz falta? 
Tem fibra, som, fundo? 
Continuou olhando a mulher que folheava o romance. 
Uma sede-sangue subia ao rosto. 
O homem raspou a sede-sangue da garganta, tentando 
livrar-se. Incomodado, ajeitou-se na cadeira sem achar lugar para 
o corpo. 
Vibrou alguma forma. A mulher notou. Olhou o homem. 
Um frio soprou na nuca dele e as mãos transpiraram, sem 
lugar. Olhos negros que o fitavam profundamente, respiração: um 
bicho. Sem controle, os olhos trêmulos, muito mais velhos do que 
os dela, como uma página de um livro a olhar um leitor. 
A mulher fechou o romance e avançou. Os passos 
duraram, fazendo aumentar o batimento do coração: um bicho. 
No trajeto, três passos. 
Ela baixou o livro antes do ataque, baixou a cabeça 
fazendo cair os cabelos sobre o rosto, segurou com os dedos o 
vestido e se agachou diante dele. 
98
Mudos, cada qual sentia o cheiro um do outro, 
envolvendo. O homem podia ver de perto, como a uma lanterna 
mágica. 
O coração do homem bateu: o zunido do mundo, um 
bicho? 
Neste instante, o homem se viu perdido, de mãos pensas. 
99
O silêncio da avenida o faz olhar para o cão que se senta e 
late. É marrom claro, o cão. Tem olhos grandes e desajustados. 
Sorri para o cão do outro lado da avenida e o cão late 
mais alto, sem sair do lugar. 
Passa a olhar para as coisas. Ninguém ali, além dele e do 
cão. 
Percebe a geometria da avenida e nota que pensaram o 
sol da cidade. O sol pensado que nunca bate de frente, nunca 
atrapalha. 
Vê as cores, o azul, o fundo guiando as veias pretas da 
cidade. Só ele e o cão, ali, prontos para a travessia. 
Há um profundo silêncio e venta forte repentinamente. 
100
É quando o cão parece amigável. Marrons, eles aguardam 
quietos. Venta mais forte e então atravessar a avenida torna-se 
um risco. 
Enfim, jogam os corpos contra o preto. Sentem frio nos 
ossos, mas se confortam com os olhares. 
Quando se aproximam do meio da trajetória, um grito. 
Percebem que irão se fundir, chegando à complexa verdade. 
Torna a ventar forte: agora vozes. 
Antes de tornarem-se outra coisa difusa e imprecisa, o 
latido do cão toma conta do espaço do rito. 
101
Ela sentia falta do sol. Não desse sol praiano que nasce 
majestoso e soberano, mostrando ao mundo que ele é a vida em 
profusão, mas do sol pálido, aquele que aparece no alto da 
montanha numa manhã, entre, sobre, que está nas coisas. Falta 
daquela suavidade, como criança. 
Ele sentia falta do frio. Aquele frio úmido, que dói os nós 
dos dedos, que faz esfregar as mãos uma na outra, ou aquecê-las 
na xícara de café. Só nessas épocas entendia o porquê de café 
quente pela manhã. O frio fazendo doer o nariz. O dia nascendo 
esquentando o resto de nuvem, evaporando o orvalho e dando 
ao ar um cheiro-manhã antes do sol aparecer sem força, 
acordando o azul-céu do edredom. 
102
Mas ela sentia mais falta do vento. Sentir o vento. 
Sensação de liberdade, os cabelos para trás, o corpo solto. As 
roupas coladas à pele e as lágrimas brotando açoitadas pela força, 
sem direito a durarem no rosto. Um vento cortante em que 
abriria seus braços, querendo tocar os pólos e o sabor da saliva 
quente dentro da boca, cortada de frio, que sangra ao menor 
sorriso. 
Ele acha que o vento tira do chão, que dificulta o passo. 
Uiva na esquina da rua, sofre, corre de agonia, foge. O vento 
como um bandido que joga atrás de si os objetos que encontra 
dificultando a perseguição, de braços abertos e aos saltos. 
Ela sentia falta do vento cuidando, dificultando-a, 
ciumento, impedindo-a de acabar de ler a página, 
despenteando-a como se sentisse saudades, tirando sua roupa 
com sede de tocar a pele e feri-la com seu sopro louco mais 
delirante. 
Para ele, o vento não precisa existir. O vento é dono de si 
e pode causar, derrubar o mundo ou levar a vida, esconder a voz 
e deixar atrás de si uma tempestade sem fim, com mortos. O 
vento cega. Não tem pátria, não tem. 
103
Às vezes, ela sentia falta de estar ao vento. Solta, 
deixando nele o seu passado, deixando-se ser carregada, sem 
memória, sem pátria, para o lugar mais longínquo e que não mais 
a perturbe. Ser-do-vento. Tentar controlá-lo com as mãos, tentar 
ter com ele rédeas curtas e vê-lo se agitar como um cavalo louco 
e indomável. Soltar-se nele por inteira e ser como ele, livre, sem 
lei, sem regras, sem forma definida, sem boa educação e bom 
humor fingido. Ser parte do vento, como era um pouco parte de 
todas as coisas. 
É das coisas do mundo que ele mais sentia falta. Nada lá 
fora dependeria do seu bom comportamento. Nada no mundo 
pararia pelo seu mal. 
Mas o homem, para ela, era insignificante na sua 
existência de erros: precisava do vento. Precisava se castigar 
porque era frágil demais diante do vento. Precisa de família 
porque era frágil demais. Precisava de leis porque era fraco. O 
homem, para ela, tem medo de si mesmo. 
O que mais a incomoda é que esses muros não deixam o 
vento entrar. Tanto abrigo, tanto esconder! Às vezes, se sentia a 
sujeira do mundo. Ali, fechada, não incomoda. 
104
Queriam muito ser menos que isso. Ser-mais-forte. 
Saberem a hora de morrer. 
Pensavam sempre que lei era algo em que se acredita. Se 
não acreditassem, ela não existiria. Se ela não existia, ela não os 
punia. Podiam se punir assim, por fora, sem as leis. A maior lei 
eram eles mesmos. Se eles não se puniam por dentro, não 
erravam, e mesmo que o mundo os punisse, apontando-lhes os 
dedos, eles eram livres e controversos, sem punição. 
Queriam, cada qual, estar ao vento. Para ser exato, 
queriam estar no vento agora para que no dia em que morrerem 
se tornarem parte do vento também. Ser-do-vento, 
Ser-mais-forte, sem medos. 
105
Índice de primeiras palavras 
106
Um apartamento de subúrbio. 17 
Era sim, era sim... 25 
Como os calcanhares... 28 
Era a primeira vez que via... 33 
Eu, o outro... 39 
De dentro... 45 
A mulher- amarelo- envelope... 47 
A mulher-azul... 51 
Aqui é um fechado. 55 
Ando pelos cômodos... 58 
Tudo não tem... 60 
107
É assim: 62 
Resolvi. 63 
Os vizinhos... 68 
Você vai dançar comigo? 72 
Tarde da noite... 74 
Acordou e pegou... 83 
Comia pão-sebo... 84 
Uma ânsia... 86 
Tem sapatos com... 89 
Algumas questões desligadas: 91 
Cometeu um erro... 93 
108
Ela acordou... 95 
É sempre preciso... 97 
A beleza-passado-menina... 100 
Para ela... 102 
O casal passou... 104 
Quatro da tarde... 108 
O silêncio da avenida... 112 
Ela sentia falta... 114 
109
110

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QU4RTO DESAMP4RO

  • 2. Esta é uma cópia digitalizada da 1ª edição artesanal. Foi disponibilizada pelo autor somente para download. O arquivo em PDF pode ser encontrado no blog http://quartodesamparo.blogspot.com. Proíbe-se qualquer outro tipo de reprodução do todo ou de qualquer parte da obra. 2
  • 4. QU4RTO DESAMP4RO Danilo Barcelos Corrêa Vitória - 2010 4
  • 5. Copyright © 2010 by Danilo Barcelos Corrêa Todos os direitos reservados ao autor. Proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem a devida autorização. Capa e revisão: do autor CORRÊA, Danilo Barcelos. Quarto desamparo. Vitória: Edição do Autor, 2010. ISBN: 978-85-908813-1-5 1. Literatura Brasileira, Conto, Ficção B896.3 5
  • 6. agradeço a Dulce Mindlin Welber Santos Beatriz Bueno Luana Bastos Alex Moraes Rafaela Scardino 6
  • 7. Para Edmar Ávila Fabrício Gabriel de Souza Giuliano César dos Santos Fernando Marques Alvarenga Ana Luiza Barbosa Joana Wildhagen Vanessa Paiva 7
  • 8. “O número de nossos sósias é infinito no tempo e no espaço. (...) Esses sósias são de carne e osso, até de calças e paletó, de crinolina e de coque. Não são fantasmas, é a atualidade eternizada. Eis entretanto uma grande falha: não há progressos. O que chamamos progresso está enclausurado em cada terra e desaparece com ela. Sempre e em todo lugar, no campo terrestre, o mesmo drama, o mesmo cenário, no mesmo palco estreito, uma humanidade barulhenta, enfatuada de sua grandeza, acreditando-se ser o universo e vivendo na sua prisão como numa imensidão, para logo desaparecer com o planeta, que carregou com o mais profundo desprezo o fardo de seu orgulho.” Auguste Blanqui - L’eternité par lês astres “VLADIRMIR Qual é o nosso papel? O de suplicantes. ESTRAGON É tão ruim assim? VLADIMIR O senhor tem mais alguma exigência a fazer? ESTRAGON E os nossos direitos? Evaporaram? (riso de Vladimir, abruptamente abortado como antes...) VLADIMIR Você me faria rir, se não fosse proibido.” Samuel Beckett – Esperando Godot 8
  • 9. 9
  • 10. Um apartamento de subúrbio. Tem pão? No armário, segunda porta. Placas de verde nas paredes de pintura envelhecida, cheiro-azulado ruim de lixo na cozinha, esquecido, esperando encher-se. Manteiga? Acabou semana passada. Pensei em comprar, mas a grana anda curta. Janelas ferrugem-laranja, esperando troca, como tudo em volta esperando um pouco mais. Faz café! Depois... É tarde. E se você beber demais vai perder o sono e a gente vai acabar brigando de novo. 10
  • 11. Ele tinha um sono leve. Fumava muito, compulsivamente, um cigarro barato, mentolado, com cheiro enjoativo. Faz um pouco só, só pra acompanhar o cigarro. Já disse que você perde o sono e quem paga o pato sou eu. Ela também fumava. Um cigarro mais forte, filtro escuro. Tinha os dentes marrom-amarelos, as unhas cinza-pardas. O casal estava no quarto-sala que dividiam. Pouca mobília, pouco. Amanhã precisa sobrar dinheiro pra feira. Acabou o último tomate hoje. Você não tinha guardado um pouco pro fim de semana? Tinha, mas você fumou nesse cigarro. O apartamento era de segundo andar, teto descascado e uma infiltração no banheiro. A janela da sala dava para um muro e fazia entrar um cheiro de enxofrado-ácido de urina do beco. Pouco ventilado, a fumaça não tinha muito por onde escapar, azulando, delicada, o vazio. A cozinha acumulava vasilhas empilhadas esperando. Naquela noite de verão, o tédio. 11
  • 12. Liga a tv. Se quiser, você que ligue. Tá me achando com cara de empregada? Se eu tivesse grana pra empregada, fodia essa noite. Os dois se entreolham mudos. Era a primeira vez que se olhavam naquela noite. Talvez naquela semana. Talvez até naquele mês. Olharam-se profundamente e um silêncio quase se fez presente, incomodando. Ele tragou fundo: a brasa quase na guimba. Ela deu um trago leve. Ele passou a mão na cabeça, desatento, olhando o tubo desligado da tv. Liga essa merda logo, pô! Tá quase na hora do jornal! Já te falei que não sou sua empregada. Nem sua, nem de ninguém. Se fosse, até pensava em te foder. Ela se levantou. Não sentia mais atração pelo marido. Olhou o peito dele nu, camisa aberta, com um ralo pêlo que já lhe fora atraente. Olhou as mãos do homem que já a seguraram com desejo. Olhou os cabelos em que seus dedos já se perderam tantas noites. As mãos passaram a tremer, os olhos fumegaram, a 12
  • 13. boca crispou. Ameaçou cuspir, deu um tapa na coxa na falta de outro reflexo. Andou muda até diante dele. O que você disse, filho da puta? Ele ergueu os olhos. A cara da mulher, ali, enfurecida, era de longe a cara da mulher que ele dissera amar endoidecido, devoto. Os cabelos com uma pouca tinta já não tinham mais o viço dos cabelos castanhos de antes e o corte mal aparado não lhe dava mais o charme da juventude. Olhou a cintura, já sem a graça, e os seios caídos não o convidavam. Ela segurava o cigarro entre o polegar e a unha do indicador, as mãos trêmulas, uma sobrancelha arqueada, esperando. Repete, seu bicha. Os dentes dela amassavam as mútuas amálgamas. Bem no seu interior, ela pedia para não ter ouvido a ofensa. Pedia até só pelo sexo que ele vomitava em palavras. Pedia para que ele a abraçasse de novo e reacendesse o passado como ele fazia com o cigarro na beira da cama. 13
  • 14. Não é homem pra isso? Se você fosse empregada, eu te fodia. O cigarro dela voou aceso no peito dele. Sua vadia louca, quer me matar? Ela virou, enquanto ele limpava as cinzas do peito, soprava a queimadura. Ligou a tv, foi para a cozinha. Acendeu o fogão, pegou a caneca de metal, passou-lhe uma pouca água, encheu, pôs para esquentar. Precisava disso tudo pra ligar a tv? Ele gritava indignado, cortando o pequeno espaço que os dividia. Te disse pra não fazer café! Você disse que não ia fazer café. Você não me proíbe de nada. Ela tremia num sentimento que não entendia. Queria sair, deixá-lo, deixar aquele lugar imundo e ir para rua. Dormiria debaixo da ponte, na casa de alguém, num puteiro se fosse preciso. Mas algo a retia ali, perto dele, e ela não sabia o que era. Talvez um sentimento maternal. Talvez um resto de amor ao seu 14
  • 15. marido. Talvez uma esperança, uma esperança de que ele levantaria a bunda daquele sofá e que lhe viesse pedir desculpas, passar-lhe a mão pela cintura, juntar seu corpo no dela e dizer palavras doces. Mas ele não era homem dessas regalias. Não mais. Quando no início os dois se abraçavam era diferente. Ele lhe dava flores, dessas que nascem sem propósito nos meio-fios, dizia palavras moles ao pé do ouvido. Era perfumado, de camisa branca limpa, lavada, com cheiro de Comfort. Apoiou as duas mãos no pouco espaço da pia, olhando as vasilhas sujas e perdida, querendo chorar querendo gritar querendo correr sem conseguir nada, como se o mundo daquele quarto-sala a amarrasse de uma forma tal que a sufocasse. Olhou com atenção a faca. Ele resmungava palavrões no sofá, sem entender o que aquela vadia tinha na cabeça, de que mulher é tudo igual, e de que ela precisava apanhar um pouco para aprender. Resmungou entre dentes, raspou fundo a garganta, gemeu um ai fininho quando passou a mão sobre a ferida. Mulher maluca. Foi para a cama, acendeu o último cigarro. Olhando a parede suja, ele não entendia o que fazia naquele quarto. Não 15
  • 16. entendia porque não largava tudo e tentava algo novo. Não entendia o que de ruim o prendia àquela mulher maluca que não mais lhe atraía. Mulher que ele não conseguia mais comer e que lhe era um peso morto. Seus pensamentos se confundiram entre tantos outros, sentiu-se sozinho e pensou que talvez por isso ele ainda estivesse com ela, aquela vadia. Eram duas vítimas de mundos opostos. Duas almas desamparadas num mesmo espaço esquecido que se buscavam no escuro. Dois mancos que se escoravam. Ele respirou fundo, um suspiro de saco-cheio. A água ferveu e ela olhava a caneca sem pensar em passar o café. Olhava a caneca fervendo, as bolhas na água, o vapor subindo, e não pensava em nada. O metal da caneca tremia na grade do fogão fazendo um barulho irritante. Cê num vai passar esse maldito café não? Ela não se moveu. Encostada na pia, nem sentia que sua roupa molhava por causa de um empapado pano úmido. Cruzou os braços em câmera lenta, aturdida num labirinto do qual não conseguia sair. A visão turva via a caneca tremelicar no fogão e o 16
  • 17. cérebro gritava por uma ação que não era atendida. Nenhuma parte do seu corpo se manifestava a nada. Imagens soltas se embaralhavam na sua mente, apontando caminhos tão diversos que ela não entendia bem. Andou até a porta, sem mexer no fogão ou na faca. Olhou-o na cama, virado de costas para ela, fumando o cigarro mentolado enjoativo, sem a camisa. Apoiou-se no marco da porta, a cabeça escorada. Por que? Por que o quê, mulher? A boca dela tremeu. Uma voz rouca saiu, enquanto uma lágrima desceu macia e quente pela face. Por que? 17
  • 18. Era sim, era sim, na forma da liberdade-liberta-de. Era: sei. E não era obrigação, como bom dia. Era: sei. Não diga o contrário, não era o contrário. Eu penso no contrário, na pobreza, na sorte, mas não era isso. Era: sei. Diferente de bom dia. Era, enfim. Eu que já estava pelo que sei. Ela me deixa. Chama de rabugento meu jeito quando diz suas idéias das coisas, olhando as nuvens, me fazendo carícias. Não sei bem se posso dizer quando todas essas coisas se anunciam. Mas posso dizer que era, que poucas vezes foi. Ela estava enquanto era. Pude senti-la numa noite. Senti-la estando. Como tocar a noite. Eu e ela. Não era o que 18
  • 19. dizem ou que trocam. É o que tira. O que antecede, que busca. Era. Para o que era é preciso entrar. Passei o dia com ela e nos tocamos nas mãos como a burguesia comum se relaciona, presa entre os dedos como náufragos. Quando a conheci, existia entre nós o grande espaço. Aquele espaço branco e peguento como giz. Naquele momento amei o menor amor de todos, carregado. Nós dois, de olhos cheios, perto do que todos chamam absurdamente paz. Demo-nos, os dois, a liberdade, a que não se tem. Era dar a ela o direito que em nenhum momento seria. Então, distanciamos as mãos depois que o menor se tornou verdade. Não sei se é possível pensar em medo. Tinha nas mãos a forma espessa que chocava minhas unhas nas palmas das mãos e entre o visco e a mão tinha ela, a me olhar muda, vermelha e desesperadamente brilhante, lenta e completa, buscando a curva. O vento trouxe o calor da manhã, um calor incomum, colorido, como uma exposição sem ruído com cacos de coisas. Como se as cores do mundo já não mais fossem capazes de responder às necessidades de mim quando me perco em 19
  • 20. paredes. O sonho de um desespero que se prende num átimo de mão machucada, num gosto de noite, de frio da hora. É tamanho o que era. Era carne de sabão, dia de domingo. Era silêncio, escuro, sobra. Era pele? Era vermelho em rodopio. A vida comum e recorrente como a compra. As cores formavam-se como consoantes soltas. É por isso que era e ela com a dor absoluta dos meus dedos comprimidos no espesso. Chocar e amá-la me tornava no quarto desamparo, uma mescla que sobrava em perda. Alguém disse que para nós não existe liberdade e aceitamos essa verdade como válida, sabendo que não é verdade. Acho que no fundo somos dois covardes. Mas era, eu sei, era. 20
  • 21. Como os calcanhares no estômago: fica tudo azul-veia. A moça que saiu detrás da árvore era um vestido verde-pimentão-cozido sobre-entre sapatos vermelho-fogão. Calma, andava no azul-veia sem muita vontade de através. Entre, o vermelho-fogão sobrava como caldo de tomate em prato. Os palitos-dedos, como tentáculos, alisavam os soltos cabelos gregos quase azeite: o contorno-casca. O marrom-rapadura da terra pegava os pés por, entre, até o passo, enfim. Quando levantava o calcanhar, era como tirá-lo do estômago, voltando do azul-veia. No meio do largo, a moça entre, através, portou-se pronta. Detrás da árvore é o infinito sem sol. De lá, sai a mordedura que se espessa. 21
  • 22. Não pisa, a mordedura, com a graça coadjuvante de calcanhares no estômago. O passo-pressa nem tem tempo de enfim. Vai por, sobre, até. A moça, posta, em verde-pimentão-cozido, abre o vestido para a mordedura. No campo, os olhos dos dentes são a não-sombra do infinito. Os olhos olham o tudo em volta sem profícuos atos. Ouvem vozes, mas não suspendem o ataque mar afora. Olham o azul-veia da tarde por detrás, entre, através de soltos cabelos. Vêem o verde-alface o verde-repolho o verde-couve o verde-louro o verde-oliva o verde-garrafa da tarde em contraste com a mulher que já suspende pronta sem verde. É opala! Brilha como pedra-sacrifício e transpira cristais sob o sol, sobre. Pelo azul-veia. Os fulvos cabelos molhados pelo cristal, o rosa-bebê da flor-pus-púbis, a dobra cinza do fim-traço: corpo. Os cabelos gregos, azeite, quase quase! Suspensa sem verde, sobressalta à mordedura a onda dos seios no quebra-mar do plexo. No vácuo azul-cobalto do centro do ventre-mundo, o ponto da mordedura mais separa, sobre-sob o quebra-mar. 22
  • 23. Curiosa, a mordedura faz brotar tentáculos e lambuza de óleo e tinta preta a cor-de-papelão das ondas, o farelo-de-pão do ventre, o papel-manteiga do cristal, o papel-seda do rosa-bebê. Tudo é carne. Diz de sobressalto É proibido. Diz no fundo da voz Espera a noite. A mordedura oclusa presa no prateado-amálgama vê que a moça suspende os tentáculos e se põe em sacrossanto ato de entrega, para louvar e berrar no grito primeiro do combate. Aponta com os dedos-palitos-moles as partes da hecatombe e a mordedura brilha lâmpada de saliva. Dos tentáculos da mordedura, a unha-faca corta o azeite-cabelo e come exasperada. A mordedura olha os cabelos entrando na unha, azeitando. O gosto da mordedura está pronto para receber a hecatombe. Por, entre, sobre, através dos verdes, a mordedura começa por subir por toda a carne, ainda com seus sapatos 23
  • 24. vermelho-fogão. Cobre, com a tinta dos tentáculos, todos os papéis e todos os cristais. A mordedura cobre toda a face da moça, que ri maravilhada e berra, pouco a pouco, por detrás, sobre o sorriso. Os olhos da moça são de não-cor e os lábios de um rosa-mais-que-bebê. Um rosa-tarde. Por baixo, dentro da mordedura, fora. Com todo o traço cinza repartido, enquanto. Traços nos, dos tentáculos e muita tinta sobre o papelão, o farelo-de-pão, dentro, entre o papel-manteiga, papel-seda. A tinta preta é toda a mordedura por sobre a moça. Do nariz, o ar é forte verde-lima e é doce como cajá. Um cheiro de incenso, sândalo, sai de toda a mordedura na ebulição maciça do contato. A mordedura é lenta e já olha o azul-cobalto que se ergue ao céu, o amarelo-vezúvio que sai das suas costas comendo as partes do ofertado. Não há espaço para o longe em tudo. Oferenda e mordedura entre, através, por sob, sobre, demais, em. Moventes. Não existe mais o verde-pimentão-cozido, nem o papelão e nem 24
  • 25. tentáculos múltiplos que se pintam mutuamente. É tudo oferta. Sobra sobre o papel o líquido. O sagrado líquido que aumenta, enquanto, mútuos, se devoram em bruta-fome. Tudo falta e tudo sobra nesta sede, menos os sapatos vermelho-fogão. 25
  • 26. Era a primeira vez que via, colorida e maior que as outras. Grande, batia as asas pesadas no ar soltando cores que ele apanhava com olhos abertos no contraste-azul-lambuzado. Desenhava-se no ar. O olhar, cheio, se desviava. Nos volteios, a borboleta ia sobre, até. Pousou, enfim, e fez surgir atrás de si um busto. Os seios fizeram surgir os cabelos que fizeram surgir os ombros que fizeram surgir os olhos. Um encanto maior que a borboleta. Era a primeira vez que via, colorida e maior que as outras. Nessa dupla descoberta, a boca sem ação secou e um calor subiu à garganta. Preso, o olhar acabou a borboleta e os seios: cores. A borboleta fez surgir para a morena o menino: cores. 26
  • 27. Ela riu com uma claridade farta. O menino respirava forte, de bermuda de algodão-grosso-marrom-biscoito. Sorriu! A cor subiu e iluminou mais forte o contraste-azul-lambuzado. Trouxe o amarelo-ovo sobre os dois e intensificou o vermelho-ferrugem do chão. Intensificou a cor da janela, o vermelho-unhas da morena, cheio de gestos. O menino seguiu as cores que lhe convidavam para a aquarela. Uma voz cortou o ar, fazendo-o colorir os degraus da porta por sobre um mendigo. Entrou na casa, a morena estendeu-lhe a mão e lhe guiou para, entre, pelo fundo corredor. As sombras-azuis apagaram as luzes. Um forte cheiro invadia as narinas do menino que via na penumbra as saias de algodão-fino-manteiga, coxas, um calor, paredes verde-couve. Ouvia o desconhecido e tinha o carmim-coração disparado, apertado entre as mãos. A morena, entre os longos cachos do castanho, sorria. Apertava-lhe a mão, limpando o úmido da palma. Chegaram a uma porta de onde saía pouca cor. A morena tirou da penumbra o ruído-marrom, apresentando ao menino outras viscosidades densas: badulaques, colares, brincos, vidros, 27
  • 28. fotos, anéis, vestidos! Na cama, um urso de pelúcia-marrom-biscoito, um lençol flores-mingau. A mulher, então, passou-lhe a mão pelos ombros, cheirou-lhe o pescoço, beijou-lhe o macio lábio arfante. Olhando, a mulher nem era tão mais velha. Nem ele era tão mais novo. Deitados nas flores-mingau, ambos se entregaram a um possível amor-cereja. A semana corou de cereja a rotina: o menino acordava, saía, encontrava, adentrava. Era amor, ele pensava. Amor-cereja. Ele levava-lhe flores, cheirava-lhe os cabelos, dormia desfalecido nos moles braços: afagos. Ao perfume, o menino fez juras de amor das mais profundas. Tudo amor-cereja. Mas um átimo de vermelho trocou o tom de lugar. No meio das coisas da seqüência, o menino viu o amarelo-surpresa. Não encontrou o de costume. O vermelho do chão tomou o ar. Tudo era vermelho-ferro. Foi então que o menino notou que faltava algo na frente da casa. Algo que nunca reparou. Adentrou com pressa a casa e avançou pelo roxo-corredor até a porta aberta. Viu. De olhos arregalados, o mendigo subia na morena! Ria. Ria alto, cada vez mais alto. Soltava urros e a cama 28
  • 29. rangia forte. Uma violência vermelho-ferro que fez a vista do menino embaralhar-se. As coxas e os castanhos da morena por todos os lados da pequena cama, o ursinho jogado no chão, os urros do mendigo e a morena que gemia alto. O menino viu tapas no rosto, tapas no corpo e sentiu o coração bater violento no peito. O sangue fervia-lhe: ferro. O mendigo já mostrava as costas nuas, as calças abaixadas, as coxas sujas. O suor escorria pelos braços finos que se apoiavam nas flores. Gritou alto até cair desfalecido, mole marrom-lama sobre a morena. Respirou fundo e tossiu. A morena passou-lhe a mão nos cabelos-quase-azuis-molhados e olhou por sobre o homem o menino à porta. Olhou friamente o menino que não era tão mais novo. O amor-cereja dava lugar a um laranja, um forte laranja viscoso como um caldo grosso, um denso laranja-angústia. Foi então que o menino, gelado, virou-se e saiu correndo. Viu tudo laranja-angústia, até o sono que custou a chegar. Na cabeça, a cada instante, a cena laranja se repetia de forma mais intensa. Laranja o mendigo que ele nunca notara, o mendigo que gemia, o olhar laranja da morena. Como um carrossel que 29
  • 30. acelera e confunde formas, a noite foi um conjunto laranja-intenso. Na manhã seguinte, o menino saiu determinado. Ainda era tudo laranja-angústia: ruas, terra, poeira. O gosto laranja-amargo na boca. Uma procura. Na mão, um saco laranja e um visco-garrafa. O mendigo, estatelado, estava de volta à porta, que agora era sem rotina. Estendendo a garrafa, a mão pequena rompeu o silêncio Toma, pra você moço! O mendigo agradeceu. Deu um gole fundo, como se para matar uma longa sede. Instantes passaram e o mendigo se retorceu, babando. A boca espumava um visco amarelo-ovo e os olhos-vidros-sujos piscavam sem parar. Sacudiu-se o pobre tarde demais. O menino, olhando tudo com atenção, virou, saiu devagar. Depois correu. Um medo do mundo tomou-lhe e ele correu. Em casa, encostou-se do lado de dentro da porta, o coração batia. Não sentia culpa. Tinha nas mãos um sentimento diverso que vinha arrebentando as veias de seu corpo. Era fome, 30
  • 31. ele pensou. De um salto, sua cara de susto desfez-se num sorriso e uma gargalhada encheu os pulmões e foi ouvida em casa, na rua, dona de um completo azul. 31
  • 32. Eu, o outro, estava na cama com uma menina. Ambos, crianças. A menina me repreendia antes do bombardeio. Xingava com um rosto adulto e dizia Me respeita. Antes que as bombas caíssem, sufocamo-nos com o travesseiro. As bombas caíram. Ela se dissolveu por sob. Depois, aparecemos com um outro. Ela, adulta, entre todos nós. Sorria e me apontava, entre dedos, uma cabeça que era a de uma medusa, sem rosto que fosse seu, sendo outro: o da menina-mulher já adulta. O outro além de nós, ali, diante, era entre jovem e velho, rindo e não-rindo para todos e para a cabeça. 32
  • 33. O lugar era sagrado: uma não-igreja sem cadeiras e um altar-mor menor. Os não-santos eram entre o azul-marrom. Tudo num não-escuro e não-claro em que a menina-mulher com rosto de menina era com a cabeça. Sorriu e olhou-nos seguramente sem olhar o outro e disse A culpa é minha. Correu para um não-lugar marrom-azul. O outro, o outro, o eu e a cabeça correram atrás da menina-mulher que fazia pela velocidade de seus passos um ensurdecedor silêncio. Enquanto corria, corríamos entre e o que saía de um vão-nada lembrava sangue quente: muitas gotas minúsculas. A cabeça corria louca, sem olhar algum, olhando a nuca da menina-mulher que por causa da velocidade não deixava entrever seus acaios cabelos. Parou de repente num lugar azul-sem-quase-marrom, mas com marrom e azul. Ela vestia um vestido que só agora podia ser visto, por isso, tirou-o por sobre a cabeça. Jogou o vestido no chão ao lado de uma criança cheia de sangue. O outro ajoelhou perto da criança e, numa prece, arrancou parte de seu ventre. 33
  • 34. Na mão do outro, o ventre era como sérias serpentes rosa-lombrigadas. Eram móveis cordas em vermelho-rosa que aumentavam e diminuíam de tamanho na mão do outro que as segurava. O rosto do outro já não era o não-velho e o não-novo. Era calvo, de cabelos pretos e dentes enegrecidos que se abriam para engolir as serpentes. Enquanto, lenta, a boca abria entre o azul-marrom, a menina-mulher riu de cabeça inteira, voltando a cabeça de si para contra-si. A culpa é minha! A boca do calvo comeu as serpentes com as mãos ávidas de vontade, deixando o vermelho-mais-que-rosa escorrer abundante pelo queixo. Ao mastigar, a boca produzia outro silêncio quase de vogais. A mão voltava ao ventre e a velocidade de comer fazia com que já não se visse o que comia a mão, a serpente e a boca. Era tudo vermelho-rosa-mais-vermelho-que-mais-rosa. Eu tirei do bolso um lenço dobrado em quatro que, ao abrir, virou papel. Nele, o outro que não era o outro, que era o não-eu, vomitou um vermelho cheio de serpentes. O outro 34
  • 35. vomitou muitos vermelhos cheios de serpentes enquanto a boca comia a mão que comia as serpentes cheias de vermelho. A menina-mulher, no azul-marrom, ria alto para e por tudo. Atrás dela, uma sombra sobre uma escada gritou A culpa é minha. A cabeça olhou a cabeça, o menino no chão abriu os olhos: perdeu seus braços. Ele vestia amarelo e azul-marrom, estava ao lado de um vestido que não existia. Foi o bombardeio. O menino tinha serpentes que corriam de seus braços para ligá-los ao corpo, como macarrão com ovos esfacelados e queijo parmesão. As mãos buscavam os braços e as serpentes só esticavam. A mulher veio, então, sem a cabeça e se esfregou no não-outro: eu. Disse nua Come. O eu abraçou sua cintura com mãos fortes e o outro comeu por sob a calça. Come. E ele comeu por sob a calça. A culpa é minha: a mão cheia de serpentes. Os olhos e o peito do outro pancavam as costas da menina-mulher de acaios cabelos e por sob a calça fez cair sobre a mulher serpentes cor de macarrão. A cabeça riu, as costas acalmaram forte o peito. A menina-mulher virou-se e tomou das 35
  • 36. mãos o lenço de papel, passou-o por sobre o rosto. Era tudo amarelo-macarrão. Tudo a Grande Fome cheia de dentes brancos. Era sempre a mesma velha proibida sempre fome, dos bombardeios. A fome engoliu com sede a sombra por trás do marrom-azul. A sombra gritou à mão e a mão gritou do ventre A culpa é minha. O menino olhava fixo o céu do teto de estrelas e o amarelo-macarrão cobriu todo o seu rosto. Tudo era amarelo-macarrão! Até a sombra e a escada e o eu-outro. Como um pastoso macarrão com parmesão, a linda cor gorda com o vermelho das serpentes mais-que-rosa. Uma foto azul-marrom-macarrão! A menina-mulher de acaios cabelos sorria com fartos falsos-dentes da cabeça e dizia É a Grande Fome. Come. O eu-outro comeu e comi a menina-mulher cobertos todos por um grande travesseiro. Entre as mãos, a menina-mulher era toda amarelo-macarrão e o peito encostava calmo nos dentes que a cabeça comia. A Grande Fome. 36
  • 37. O amarelo-macarrão comeu tudo que pôde. Quanto vermelho-mais-que-rosa! E estrelas do teto! Come. A culpa é minha. Tudo amarelo-macarrão por sob a calça. 37
  • 38. De dentro, tem um jeito amarelo que lembra manga. Com casca, quem diria da manga madura seu amarelo? É amarelo-manga-sabor-amarelo. A casca-cega em cores-de-arroz e, sem festa, a saliva sobra desvairada no constante, entediada de esperar, boiando sozinha sob o metileno, rindo desesperada-fome da situação. Na palma da mão, os riscos que acalmam e tampam o sorriso do fiapo que deixa no dente-pérola quase amarelo-manga, de outro tom de amarelo, outros sentidos. Lembra outras manhãs mais grossas, manhãs de ontem. Manhã na cor-saber: como o amarelo-manga é mais que a cor de casca sem a casca do amarelo? 38
  • 39. Saindo de tudo, da casca, é impossível observar com cuidado as formas de todas as coisas, suas densidades. Mas é possível ter-lhes o tecido que palmilha a história e a superfície. Há, enfim, um toque febril e, no contato, o movimento vermelho, o azul-fumaça do automóvel, o mundo dodecafônico sobe da praça: cor! Em contraste ao metileno, às seis da tarde, em que um forte roxo avança por entre sobre umbrais e olhos, ela vê a incompletude de tudo fora da casca: o ápice a que um dia deram o nome liberdade. 39
  • 40. A mulher-amarelo-envelope entra sozinha no branco-chantili. A tarde parda olha a cena da janela do banheiro enegrecido onde a luz que erradia é de pêlos claros rentes da curva-negra divisiva. Molhada de esperma esbranquiçado, viscoso branco-chantili, ela se banha na espuma em que entra, desatenta, com unhas carmim na louça encardida: o arrepio das costas de quando joelhos repolhudos tocam a água fria, o cheiro de sabão no branco que se expande por todos os lugares. Ela não sabe que as cores a esperam por semanas. Às vezes até por meses, mas ela nunca se banha à tarde. Só o negro-azulviche da noite aproveita a clara pele de arrepios 40
  • 41. quando joelhos repolhudos abraçam o plexo das águas de chantili. O calor do ventre é muito para uma só noite, que se repete na semana. Mas à tarde, as cores dividem-se em outros calores para o ventre agüentar o máximo de chantili e de brilho no cristal da pele, na água fria. A mulher molha parte das costas, mergulha por completo todos os seus espessos pêlos, seus grudados-negros-molhados sobre a carne. Da porta a voz diz Sem susto. A cor de envelope nas águas da banheira assusta, mas não vira o rosto para encarar a voz na tarde, respondendo Não estou pronta. A voz da tarde sussurra estridente o vento que entra frio no labirinto Tem pressa. A mulher não tem, no quase branco. O amarelo-envelope começa a se dissolver alaranjando o chantili da banheira. Os olhos fechados mostram o viscoso carmim das pálpebras contra o sol e as unhas na banheira refletem o carmim da tarde que entra pela janela. O enegrecido das paredes e o cheiro de sabão se somam indo de, para: através. 41
  • 42. A boca da mulher abre. Brancos sobre brancos sujam-se. A voz estremece. A voz é só carne. A voz parece trêmula, à porta, ao reparar em tantos brancos. Incontida, invade o banheiro e resolve mergulhar nas cores de envelope. A boca sorri ao ver a voz entrar na água, arrepiando os pêlos das pernas. A boca mostra o fúcsia das gengivas, o branco-sêmen dos dentes no branco-chantili. No frio da água, a cor da voz, enegrecida como a umidade, pesa sobre os joelhos repolhudos: pressão que mistura. O fúcsia e o branco-sêmen já dividem iguais o mesmo campo, e o fúcsia-movente separa o sêmen para a entrada de uma cor opaca, a cor da voz. A cor de envelope mistura-se com a cor enegrecida, o carmim da tarde nas unhas carminiza o enegrecido da parede. O branco-chantili começa a ter manchas cor de envelope enegrecido das quais já não se sabe a fronteira. O branco-sêmen e o fúcsia-movente já estão todos de cor opaca e a curva negra já é círculo que furta o querer. Os negros-molhados-espessos escorrem pelo chão do banheiro e em pouco o chão é sob o preto sob as cores. Dissolvendo-se, a voz é quase espuma e a mulher tenta usá-la para mais. A mulher pega a voz para si e carrega para 42
  • 43. dentro dos pulmões todas as cores da banheira. Num único lance, forte em que o carmim sulca rios, em outros brancos mais opacos, o sabor do urro envia a explosão sistêmica na tarde. 43
  • 44. A mulher-azul via toda a cidade sob seus pés: um mar emaranhando gentes, buzinas, sirenes, camelôs, tudo sob um amarelo-fubá de um dia de semana. De pé, na beirada, a mulher-azul desorientada não sabia bem o que faria com aquele rio-preto-viscoso lá de baixo ou com o amarelo-fubá. Deu um passo vacilante até a beira do terraço. Olhou fixamente o rio-preto: um mundo colorido e viscoso banhado displicentemente pelo amarelo-fubá. Olhava o viscoso preto e o roxo-asfixia da alma refletida nas pálpebras fechadas. O vento aumentava. Era preciso pôr fim e bastava coragem para que tudo se tornasse parte daquele amarelo-fubá. Então, bastaria esperar lentamente as cores acelerarem e ouvir o baque surdo antes do vermelho-quente. 44
  • 45. A mulher-azul olhou novamente o rio-preto-viscoso e ouviu o zumbido colorido da cidade enquanto era açoitada pelo vento azul-comfort. Fechou de novo os olhos para o ver o roxo-asfixia. Era vazio o vermelho que batia descompassado no peito. Era vazia a vida que levava, o trabalho repetido e comum, os ônibus que pegava cheio de densos que não se viam. Era vazio o gosto da comida que comia na hora do almoço, as horas iguais de todos os dias. Tudo um rio-preto-viscoso, tudo amarelo-fubá. Sentia, ali, fazendo algo que era uma nova maneira de colorir-se. A vontade que rompe o silêncio, o grito que organiza. Ali, com o vento-comfort no rosto, era livre. Se tivesse a coragem dali a alguns instantes, seria de outra cor, talvez vermelho verdadeiramente quente. A cabeça embaralhava idéias estranhas, rostos, cidades, formigas, pontos que se agitam num zumbido baixo, regidas por um vento sem cor. Então, a mulher-azul ergueu a cabeça e olhou a cidade. Milhares de casas e prédios se acotovelavam no espaço das montanhas, tudo amarelo-fubá. Todos os volumes se acotovelavam e não guardavam a mulher-azul, que se jogaria na coragem de sua existência: a maior das verdades. 45
  • 46. O vento azul-comfort soprou mais forte. As imagens se montavam confusas. Lembrou-se do primeiro dia de aula, do primeiro beijo, do casamento dos amigos. Lembrou-se do primeiro emprego, do primeiro vestido e do primeiro porre, do cigarro escondido e das noites de frio, sozinha com seu cobertor. Lembrou-se de que todos os dias, há anos, fazia a mesma coisa. Que todos os dias se banhava, se vestia, saía e voltava para dormir. Que aos sábados, longos sábados que não acabavam mais, assistia à televisão entre um sono e um entre sono. Nada de telefonemas e que, quando saía com amigos, era sempre igual. Há anos ela dormia com homens-sem-cor de vez em quando e era vazio. Homens que ligavam, não ligavam, roncavam ou não. Uns prometiam o mundo, outros lhe davam o silêncio e ela usava a todos. Tudo um rio-preto-viscoso banhado por forte amarelo-fubá. Fora com essa sensação que ela acordou naquele dia e que a fez querer mais cores. Era essa a sensação que ela tinha ali e não queria mais: amarelo-fubá sobre rio-preto-viscoso. Sorrindo, abriu as mãos e os braços e entregou. 46
  • 47. Viu o céu, a cidade, o rio-preto-viscoso. Tudo mergulhado no amarelo-fubá. Durante a eternidade da cor, ouviu uma música, uma longa melodia que lhe surgia vermelha, talvez vermelha verdadeiramente quente. 47
  • 48. Aqui é um fechado. Muito fechado. Um fechado sem fotos. Um fechado onde não há ela, mas há imagens de vapor numa parede. Há pouco sol e a noite louca, desvairada, jogando sombra na parede e nas imagens de vapor. A noite é perfumada e vem dividir este fechado em que as imagens se aglutinam na parede. Não se sai daqui. Perde-se tudo no quadrado lá de fora, iluminado e caótico e desgovernado. Quadrado que incomoda muito, cheio de pontas por todos os lados em que se olha. 48
  • 49. Aqui pode florescer o medo que nunca dorme ou o sol que há. Medo feito de vermelho-tomate-seco, muito vermelho-tomate-seco que não é como o das imagens de vapor, ou de fotografias. Vem do além-sabor, pobre de outros vermelhos. Esse medo-tomate-seco lambuza quando começa a sair das coisas que existem dentro do fechado. Lambuza dedos, pálpebras, lambuza tudo como se voltasse de um lugar mais distante que a palavra manchada: vermelho. Medo-tomate-seco grosso como um caldo, como goiaba espremida. Aqui o medo-tomate-seco deita. Bate como um pulsar desgovernado. Não tem. É como um grito de pânico. Não é como nas esquinas do quadrado. Cresce como o mofo no silêncio e fede. O tempo, para o medo-tomate-seco, é caótico e precisa da noite sem o proibir. Aqui não cabe o corpo. No fechado, o corpo é os ossos do medo-tomate-seco. 49
  • 50. O medo-tomate-seco não sabe nada. Se soubesse, entenderia. As imagens de vapor se multiplicam nas paredes e tudo vive em harmonia. Não é preciso ter. É um fechado em tons de tomate-seco. 50
  • 51. Ando pelos cômodos no labirinto e não acho reflexos. É antes a marca de todos os antes. Se há milhares de anos um assentou-se aqui e disse qualquer coisa, cristalizou-se, como o qualquer coisa de todos que o sucederam. Não se entra nele. Entra-se, antes, pelo que o antecede, saindo de outro labirinto. Um sempre dentro do outro, como caixas mágicas. Nunca se está num só sem estar em todos. Assim é por quartos que se abrem para quartos que se abrem para corredores que se abrem para quartos e cozinhas que se abrem para um corredor improvável que não une. Sem fim nem começo, como suas largas paredes úmidas. Um cosmos aberto a todos os outros, cristaliza. 51
  • 52. Também as marcas que não desaparecem. O que sujou ainda suja, embora a tinta tente fossilizá-lo. O labirinto é o mesmo. É a vontade condensada influenciando os novos. Um lugar de muitos fantasmas que invadem os corredores, escondendo-se como sombras. Antes de rodar, pensa-se em todos que ele carrega em si, mesmo depois de edificado. No espectro que se perpetua mesmo quando transformado, trazendo a antiga fome ou só um cômodo vazio. O que foi volúpia tenta a cópula. O que dava é o que ali tenta. É sempre tudo o que o primeiro trazia, sem desmedidas e esforços. Sente-se em qualquer parte do labirinto as sensações misturadas dos antigos, como se carregasse eternamente funções que espaços desempenharam, independente do novo que ali se põe. Sempre todos em um e todos os que foram antes de ser o labirinto. 52
  • 53. Tudo não tem. Ia pedir para deixar. Sempre seduziu o vazio, o limpo, o sereno. No início pareceu agradável, depois, tornou-se um tédio. Pedia olhar, atenção. Olhava demais. Depois, não quis. Era como uma faca. Seu corpo, como uma faca. O primeiro. A angústia de saber, como um meio-quarto. Então, uma faca e um meio-quarto. Tudo morrerá sem possibilidade de ter. Isso não se vê como o primeiro. 53
  • 54. É assim: eu jogo para você e você devolve. Não, não machuca não. Um de cada vez, sem pressa, a gente acaba pegando o jeito. Pega pelo cabo que é mais fácil. Isso. Não precisa ter medo, não vai doer. Isso, agora joga. Não, com mais força. Tenta outra vez. Pelo cabo. Joga mais aqui para a esquerda. Isso. Melhorou, mas manda com mais um pouco de força e desta vez mira em mim. Tenta jogar nas pontas, aí eu mando para você de volta. Isso. 54
  • 55. Resolvi. Como? Resolvi. Estava resolvido. Ele nunca foi de desdizer. Não quero saber. Resolvi. Era cidade era frio era tarde era ele era ela era a mesa era o café era normal, muito normal, muito natural. Há tempos a discussão entre os dois crescia recheada de longos silêncios. Assunto delicado. Ela levantou-se, foi à janela. Do seu silêncio, ele a olhou e não se mexeu, não se levantou. Acendeu um cigarro, bebeu café. Estavam os dois num dilema que envolvia receios. Um dilema resolvido. Problema que não dava mais, a situação chegara ao caos, não tinham mais paz, aquela era a única saída, doeria nos dois, ele tentou evitar, ela tentou contornar e ele havia 55
  • 56. resolvido. A resolução explodiu nas mãos do tempo: o pai dele iria para um asilo. Casa de Saúde Nossa Senhora das Dores. Um prédio cinza que cheirava a morrinha e desinfetante, muitas grades cinza trancando do mundo janelas e portas. Um cofre-cinza. Zumbis cinzentos magros transladando um mundo de grades. Olhos no cinza do tempo. Rua da Consolação 126, Bairro da Graça. Quaresmeiras no pátio dianteiro, uma portaria de vidro. O pai dele era um homem de 70 anos e tinha um colchão de molas. Dormia na sala do pequeno apartamento. Havia sido resolvido. À noite, ele daria a notícia. Ela foi para o quarto. Sentados, pai e filho entreolharam-se distantes como desconhecidos. O pai, ainda com candura, sentira no ar o tremor das palavras antes de serem ditas. Pendeu os olhos. Resolvi, pai. Resolvi. 56
  • 57. Lágrimas rolaram frias, cinzas e silenciosas no ar. Formavam uma poça no chão. Para quando? Amanhã. O pai deitou-se cedo. A cabeça branca, cansada, pousou-se lentamente no travesseiro encardido, quase cinza. Ia ser a última noite em seu colchão de molas velho dentro do infinito da memória. Um corpo manteve-se inerte à espera de alguma cor na aurora. Nos labirintos do esquecido, o pai viu dois pés cansados andarem, passo a passo, ao lado dos passos de um menino. Caminhando na escuridão, o pai sentia a mão do menino crescer, o passo apertar-se. Os pés cansados já não davam mais conta de seguir o ritmo louco de um menino-homem que corria agarrado à sua mão. Dois fantasmas de mãos dadas sofrendo o sorriso do tempo dentro do frio da noite, num distanciamento que os braços já não mais suportavam. Na confusão dos caminhos do sonho, o menino-homem tinha ainda o rosto do menino, mas com braços longos que puxavam forte o velho pai que já não mais ensinava como caminhar. Quando as gotas da noite contaram seis horas, o vulto do menino-homem foi parado pelo peso do pai que não mais andava 57
  • 58. e, então, o velho ergueu o filho aos olhos. Nesse momento, os olhos já não eram os da criança ou os do homem. Eram os olhos frios que vira na hora da notícia. Era como se o menino se confundisse no homem e o homem se confundisse num rosto disforme, com quarenta anos, com os olhos para o chão. Um tempo entre as mãos do pai e os olhos de um desconhecido desaparecendo nos primeiros raios da manhã. Aos poucos, a figura ficou translúcida e gota a gota desfez-se no vapor. Pôs o velho olhando o claro do teto, acordando do leve sono. Seus olhos se preparavam e aguardavam, mudos, a partida. Às sete o café foi posto. Ela não disse palavra. Ele saiu do banho, sentou-se à mesa. Os dedos ossudos partiam o pão, assim como seu pai o partia, com os iguais dedos ossudos. Tinha muito de seu! Saíram. No caminho, ele pensou em reviver tempos, dizer palavras soltas, frias como um bom dia, dizer do dia nublado, do jogo de sábado, de uma visita. Mas calou-se num suspiro. O pai quase não tinha roupas, emboladas todas numa sacola plástica de supermercado. 58
  • 59. Bairro da Graça, Rua da Consolação, 126. Uma placa de ferro sustentava o letreiro: Casa de Saúde Nossa Senhora das Dores. Caminharam até a portaria. Ele apertou o interfone. Uma enfermeira pálida ameaçou um sorriso ao abrir a porta. Entraram. No corredor, à meia luz, em meio aos muitos vultos cinza que passavam, o pai olhou com olhos claros os olhos do homem. Isso me lembra o dia que te deixei na escola pela primeira vez. Abraçaram-se. Ele sorriu forçado. Levaram o pai pelo braço para o fim do corredor. Na rua, à porta do carro, ele soltou umas lágrimas, fechou os olhos. Ao os abrir, o mundo portou-se cinza, repleto de vultos que transladavam entre as sombras listradas das quaresmeiras no opaco da rua. 59
  • 60. Os vizinhos saem das casas, comentam, gesticulam. O velho não sai de casa há alguns dias. Os cães latem forte, a garoa engrossa. Há uma semana o velho não sai, não se senta na venda e não discute futebol. Há uma semana não volta para casa com um embrulho nos braços ou com uma sacola de pão. Os vizinhos não sossegam. A garoa impregna. Quando foi visto pela última vez, o velho subiu as escadas do sobrado com um embrulho debaixo do braço, fazendo ranger, no longe do tempo, as tábuas dos degraus. Nesse dia, o velho, consigo, foi à cozinha, pegou um caneco de metal velho, pôs água no fogo para preparar um café ralo como o da esposa. Nas empoeiradas lembranças de sua vida de erros, o velho caçou no passado o sorriso jovem enquanto 60
  • 61. fazia seu café. Os cabelos negros, pesados nos ombros, os olhos castanhos atentos ao pó, o corpo suado do calor de setembro e um vestido de chita solto, largo, que brincava com os movimentos das pernas firmes da moça. Ela olhava-o entrar na cozinha, partir o pão, limpar o farelo das barbas. Sorria ao vê-lo olhá-la, com uma fome restrita, envolto no vapor do café. Ajeitava com mimo os cabelos, piscava os olhos, levantava a alça do vestido. Vinha arrastando as chinelas pelo chão frio da cozinha e lhe roçava as coxas. Fazia brincar o pano do decote no nariz do velho. Trazia-lhe ali, depois de muito tempo, naquela cozinha vazia, o perfume mais forte, o gosto do beijo. O velho repisava sua caixa de retratos, arrastando o seu corpo pesado, cansado, preso num terno, para o seu quarto viúvo, para a penteadeira vazia com seu pó antigo. Pôs o embrulho na cama, arrastou os espelhos do quarto pondo-os perto de si. Abriu o paletó pesado, despiu-se. Viu a esposa escorada na porta: seu corpo jovem vindo e olhando para ele com um carinho. Entrando no quarto e fazendo o sol invadir a cortina, arrastando os pés no assoalho, tocando-o no peito há 61
  • 62. tanto esquecido, colando seu corpo no dele, enchendo-o com um vapor esquisito, esquecido e fazendo com que o velho se enchesse de vida e com que o quarto se enchesse de sol. A garoa adensa e os vizinhos se preocupam. Dois homens discutem urgências, resolvendo abrir a porta. O cheiro de carne podre desce as escadas sujas, está na sala invadida. Os vizinhos entram em bandos, os olhos comendo tudo. Na cozinha, a mesa posta para dois. Pães partidos, uma xícara antiga e um café ralo, frio, envelhecendo. Da copa, que dava acesso ao quarto, um brilho estranho ilumina um retrato de moça. Muitos passos se apressam no assoalho, afoitos, em direção ao aposento. Então, a curiosidade sumiu com o barulho dos tacos, com o cheiro, com a poeira da casa, com as moscas. Deitado na cama, à vista do povo, o velho dorme refletido no espelho. Uma cena esquisita para olhos curiosos. De costas, a cena se emoldura. O embrulho aberto aparece no chão. 62
  • 63. Com os braços cruzados, como num abraço, o velho surge perdido dentro de um vestido largo, de alças, muito antigo. Um corpo apodrecendo vestido com um vestido de chita. 63
  • 64. Você vai dançar comigo? Esperei tantos dias, você nunca chegava. Que dia você vai me levar pra sair? Quando a gente vai jantar fora? Amanhã? Ah, era tão bom quando a gente saía junto! Olhar a lua, ficávamos abraçados horas, você está prestando atenção? Você sempre diz isso. Quando a gente vai voltar a sair e se divertir? Quando a gente vai sair para dançar outra vez? Você vai dançar comigo ou não? Você sempre diz essas coisas. Vou colocar aquele vestido vermelho, bem vermelho, com o decote atrás. Você quer ver o vestido? Você que me deu o vestido, não se lembra? Você nunca se lembra. Foi no ano passado, no nosso aniversário. Era domingo, fazia sol. A gente dançou! Quero tanto dançar, você me leva? Quando você me leva? Você está me ouvindo? Você sempre faz essas coisas. E o vestido vai combinar com os sapatos pretos que você me deu ontem. Você gosta? Você 64
  • 65. nunca diz que gosta. Mas a gente dançará muito, não dançará? Você vai usar o que? Vai ficar bonito no terno do nosso casamento? E a gente dançará na rua também? A gente vai poder dançar aqui na sala, antes de sair, como quando você ia me buscar pra dançar? A gente podia dançar na cozinha também, a gente nunca dança na cozinha nem em lugar nenhum! Você podia fazer isso amanhã! Amanhã? Você precisa me levar pra dançar, me leva amanhã. Você está me escutando? 65
  • 66. Tarde da noite, o homem abriu a porta do apartamento e saiu. No corredor, em silêncio, o pé vacilou e a luz, que percebeu o movimento, iluminou o passo do delito a ser cometido. O homem caminhou evitando fazer ruído para não acordar ninguém. Ruído que saía da sombra e que o assustou quando apertou o botão do elevador. Os olhos arregalados, o coração batendo forte no peito apertado, a roupa incomodando como a luz e o ruído, as mãos transpirando. Quanto mais próximo o elevador, mais o barulho incomodava. O homem sabia que, ao abrir a porta, a sineta soaria e seria ensurdecedora e gritante como uma sirene. Ao pensar, o coração se apertava como se estivesse enfartando. 66
  • 67. O ruído das cordas da caixa metálica que subia era cada vez mais alto e se misturava ao da respiração do homem, acelerada. A espera que a porta se abrisse era agora uma agonia crescente – os olhos fixos no metal fosco, a saliva a faltar. O barulho do elevador ensurdecedor: a inevitável sirene soou denunciando a porta que se abria. De um pulo, como se jogasse seu corpo no fosso, num precipício, o homem entrou no destino-caixa e fitou-se ao espelho do fundo do elevador. A barba por fazer, os olhos, os ossos, a pele, os lábios, os dentes, o silêncio. O homem fechou as pálpebras apertado, pedindo para que o elevador começasse a caminhada. O solavanco da descida denunciou a pouca firmeza de suas pernas, trêmulas, vítimas do coração que batia vital como um sapo, uma sombra, um copo d’água. Foi quando acreditou que o elevador não descia nem subia. Era o fim da gravidade compacta que o prendia ao chão metálico. Os pés ali se fincavam por outra força que não a da Terra, uma força que emanava dele mesmo, centro que gravitava em outro caos. Tudo, de dentro de um abismo, saía em órbita e 67
  • 68. em agonia e o homem tentava em vão organizar seus pensamentos. Tudo era uma grande quantidade de cacos soltos que orbitavam seu rosto no pequeno espaço que o afastava do espelho. Dois universos se tocavam, elípticos, acelerando e expandindo. O vidro do espelho já não mais existia, fazendo com que os cacos que giravam em sentidos opostos se encontrassem e os choques produzissem luzes e galáxias e estrelas e planetas ínfimos, mas complexos, e tudo se dilatava, em choque, como no princípio. O homem, agora um deus, deslumbrado com o lugar sem tempo da origem, firmou os olhos no outro centro de gravidade, no outro que antes o encarava por detrás de um espelho desfeito. Os deuses gigantescos, centros de dois universos colados e em choque, encostaram a testa uma na outra e miraram-se. Cada qual, um ciclope rival. Era preciso então que este homem – feito primeiro deus e depois ciclope – pensasse, olhando o único e gigante olho que o encarava inquiridor. Mas os pensamentos eram confusos, desordenados, como tudo que girava em várias direções, se chocando e criando naquele novo e complexo universo que o rodeava. 68
  • 69. Todas as formas celestes ali já não mais permitiam ao homem perceber o fim e o início do elevador e ele ouvia as vozes das civilizações criadas, em dor e agonia, em combates e mortes, chocando e criando um movimento que ele mesmo já não sabia interferir, modificar, mandar. Recebia sinais de som, medições malucas: tudo se tornava cada vez mais complexo e absurdo. Tudo acontecendo enquanto ele mantinha o olho fixo no ciclope que o encarava. Um grande olho, translúcido, que refletia como um grande espelho todo o movimento vital que acontecia atrás dele. O homem agora podia ver tudo, em todas as dimensões sonhadas, todas as formas de luz e viu que era sim possível ver um objeto de todos os pontos de vista possível, sem recortes. Tudo era magnífico, sedutor, confuso e assustadoramente perturbador. A grandiosidade do movimento mostrava as eras dos tempos em cada ponto daquilo tudo que girava em torno das duas pupilas negras que se encaravam com um foco nítido, naquele movimento louco. O homem então começou a perder o controle da criação que ele não começara, mas da qual se sentia responsável. Percebeu o quão era complicado saber de cada uma 69
  • 70. das coisas da criação e sentia, de certa forma, tudo. Tudo era culpa dele, tudo imperfeito e em movimento, girando, chocando e criando luz e forma em torno de sua gravidade. Tudo crescia e ia clareando, ganhando volume e nitidez, começando a montar um mosaico. Naquele momento, ele pediu para esquecer e esqueceu, de forma divinal. Viu-se, como se de fora, em algum ponto do cosmos que emanava dele: um homem gigante, de pé, no centro de uma confusão limitada por um cubo de metal prata. Ali, daquele ponto de observação, via-se só pela primeira vez. Havia criado todo um universo e era só: um homem só de testa colada ao espelho de um elevador. Foi então que fechou os olhos e tudo em torno de si se desfez. De repente, como se instantâneo, o homem pôde sentir que o elevador descia suavemente pelas cordas e notou que sua testa doía diante de um vidro de um possível espelho. Afastou-se e ao abrir os olhos viu um outro que o encarava. Já não havia dois ciclopes e os desconhecidos se contemplavam com frieza, como dois homens comuns. Ia perdendo a memória do cosmos e agora era como se estivesse 70
  • 71. pela primeira vez na Terra. Era o primeiro homem olhando-se pela primeira vez na face de um lago, mas ainda cheio das marcas de todos os homens que o sucederam. Resolveu desmontar aquela imagem, buscar o que seria primordial já que era o primeiro dos viventes, completamente só. Com as mãos, fazia derreter tudo o que ali existia. Os traços e as máscaras tornavam-se cicatrizes e as cicatrizes tornavam-se outra coisa, confusa, distinta, que precisava ser também apagada. Viu todos os homens e todas as mulheres. Todas as etnias e todas as civilizações. Viu tudo que existiria depois do homem primordial. Tudo retrocedeu na figura de seu rosto e chegou a um compacto e inconcebível nada. Foi possível então ouvir um surdo som de agonia que saia, gutural, pela boca que não mais existia. Aquele era também o som elementar, o som antes de todos os homens, antes de tudo: urros de dor em silêncio, de forma seqüencial e alternada. Quando o homem acreditou ter chegado ao ponto máximo depois de tudo, no compacto nada, percebeu que seria infinda a busca e que nada desapareceria por debaixo do que foi desfeito, debaixo dos urros e dos surdos berros, dos rostos que se 71
  • 72. entreolharam desfeitos e exaustos por milênios. Tornou a fechar forte os olhos. Foi aí que percebeu que estava de novo em pé, num elevador. Ouviu silenciar tudo em volta, o som primordial. Era agora um silêncio que, pouco a pouco dava lugar ao barulho das cordas do elevador que descia. Silenciado e calmo, como se se visse pela primeira vez ao espelho, o homem vislumbrou a luz. Era a primeira vez: O resultado de um grande vazio cheio de verdade. Foi então que o homem assustou-se finalmente com tudo. Assustou-se ao ponto de soluçar e o soluço derramou um branco-cal sobre a sua face. Nesse momento, o homem entendeu. Ali, vencido e silenciado, ele teve posse do que procurava por uma vida, sem o saber. Teve posse do que sempre lhe escapara e que lhe escaparia instantes após aquilo. Mas isso não importava mais. Estava com a posse. Como quem segura fartamente água. Pronto de toda a sua posse, a face retornou ao rosto do homem, cheia de vitória. Então, ele beijou longamente seu reflexo no espelho e o choro convulso lhe desceu, carregado. 72
  • 73. As lágrimas saíram com mais força quando fechou apertado os olhos. Surgiram outros urros que limparam as veias, sujando-o com uma viscosidade morna, misturada à pele e ao suor, lavando-o. Cansado de estar em pé, pesado como se os séculos dos homens o pesassem as costas, como se a força ancestral daqueles que entraram consigo naquele elevador o puxassem mais forte que a gravidade, sabendo que estava cansado de um cansaço de eras, de um povo inteiro, de toda a civilização humana, de todos os erros do recomeço imperfeito de tudo que rodeia o universo mortal, imortal e constantemente inacabado, deitou-se na posição inercial de um feto. Abraçado ao seu calor, ele se preparava. Era preciso. O elevador, enfim, chegou ao térreo e abriu a porta. Uma luz plena entrou tomando tudo e o homem se levantou. Era preciso. Era ele: o homem que iria sair ao mundo? 73
  • 74. Acordou e pegou no armário o melhor terno. Jogado sobre a cama, o terno já não mais lhe impunha o medo impreciso que sentia quando olhava atentamente para ele, no armário, há mais de trinta anos. Olhava o terno, passava-lhe as mãos e não sabia que, dali a instantes, estaria deitado sobre aquela mesma cama, vestindo-o, barbeado e com sua melhor colônia, trêmulo por estar a instantes de colocar o revólver dentro de sua própria boca. 74
  • 75. Comia pão-sebo com salame todas as manhãs e dormia de meias para os pés não tocarem os tacos rachados do quarto. O pão no papel alumínio como a balconista da padaria. Era por causa do cigarro barato que fumava no banheiro. Desisto, não tem nada aqui pra fazer, lendo o jornal. Depois me chamam de preguiçosa, jogando o jornal à distância para não ter que colocar a mão nele. Foi ao banheiro e no espelho barato com borda vermelha ela se ria de dentes largos-sujos de restos de pão. O quarto era estranho: parecia uma grande revista. Figuras coloridas de sorrisos e dentes de crianças e tulipas amarelas e amassadas. Uma cama de madeira escura, um colchão de espuma fino mostarda-opaco, um lençol xadrez-verde-vestido 75
  • 76. rasgado e encardido, uma rachadura do lado direito, preta-infiltração, um teto-mancha, uma janela alumínio-gasto com vidros fosco-gordura. A cidade: espaço entre dois prédios recheados de janelas como rosas. Roupas por todos os lados e um cheiro-maquiagem-desodorante-para-os-pés. Uma penteadeira sem espelho repleta de anjos-cera ainda com a etiqueta-preço. A porta amarronzada do banheiro abriu-se e ela saiu de toalha rosa-menina ao peito, cabelos cacheados-molhados-shampoo, unhas pintadas e roídas. Há tempo procurava trabalho e sairá de novo, tonta, cidade afora, sem muita esperança até o pão-sebo de amanhã. 76
  • 77. Uma ânsia irresoluta em um presente nunca vivido. Interdita, a possibilidade de mais é sempre uma ausência. Sem o estar, mas a ausência como a gula. Sentir o estado incomum de tudo que faz falta, como a boca entreaberta na noite ou mesmo o caos que consome as vistas. Em tudo, cores e destroços. Em tudo é ânsia. Soubesse o presente de tudo, o seu presente em tudo, o sorriso brotaria da noite, grande, incalculável e insustentável de tamanha fluidez. E dele, alvo em pétalas, sairia a imagem, a sem-contorno imagem que criou no ar, em arabesco. Não mais, em nada. E se nada fosse? Ficou a ânsia na boca não tocada, na noite não vivida, na memória distante e empoeirada como um cais. Sem as partidas, tudo é destroço 77
  • 78. inalcançável, distante das mãos e dos olhos, como se no túnel se desfizesse em mil partículas e as partículas em mais mil pedaços de poeira e delas em átomos, e nem isso, perdurasse apenas o movimento ou o rastro dele no vazio. A gula. A maior das sebes. Sem fronteiras, numa imensidão que se propaga e que, a cada dia, distancia-se mais e mais daquela imagem, da forte imagem que sobrou de tudo no redemoinho. Distorcida, diferente, distante, ela agora tem outro peso, outra medida, outra textura e não se sabe feita de densa cor, como outrora. É feita de miragem, uma miragem cinza-ocre, como uma foto em decomposição em que os rostos vão se tornando sombra de suas próprias formas. Nesta distância toda, nem mesmo o som roça o caos. Afinal, o som é conseqüência de tudo. Sobra a gula que a boca pede e que a memória já não traz, de turva-sintonia. Não sobra, na ausência, a branca-fome. Sobra, desesperada, a não-vontade que poda a potência. Sem potência, tudo se perde e o que vem de longe, na memória, é um vulto estranho, um insosso sorriso que um dia pensou ser paz. 78
  • 79. Tem sapatos com os bicos abertos e muitos mortos nos ombros. Observa todos, com a cabeça mal disposta, e nota que quase todos são ela mesma em seus muitos outros momentos: seus mortos-de-si. Colocados como fotografias ladeadas, ela observa os mortos no tempo: quanto morreu em muitas faces nas quais não se reconhece mais e que não consegue efetivamente tocar. Um mosaico estranho, em uma pouca cor, mas que se apresentam em multifacetadas outras formas que abandonou, que a abandonaram, mas que são, em pedaços dela, um outro eu. No caleidoscópio de rostos, percebe outros, outros rostos que não são. Desmontados, são a soma que a atropela vida afora – porque todo contato com o outro é um atropelo. 79
  • 80. Violentos, os outros rostos precisam ser escamados, um a um, para que ela possa notar a marca que deixaram no pós-atropelo. Sob a marca de um, outro rosto diferente, de data não seqüencial. No fim, sobra um conjunto disforme que também não é seu rosto ou qualquer outro rosto seu abandonado, morto, mas o de todos os que a antecederam em eras mais imprecisas. Depois de tantos outros, de joelhos, o peso de todos sobre ela. Lembra-se de que é hora de cometer outra morte e, como se desencarnasse, recorda das outras vezes em que antes de morrer viu os mortos. Sairá outro rosto de tudo, mais leve, que não notará seus muitos mortos e ela terá, dali em diante, a sensação de que re-nascer é tornar-se novamente virgem de todo e qualquer contato. Tudo é sempre virgem para o novo, mesmo sendo o novo o repetido exercício do presente. 80
  • 81. Algumas questões desligadas: um malbec aberto, um par de olhos castanhos, uma sexta-feira gorda, ensebada, de difícil digestão. O conjunto todo traz cidades, ruas, serras nas manhãs malucas. É o malbec!, ela pensa. Na foz de todas as vertentes, tem jeito de dizer o exagero das palavras. "Ah, se eu pudesse fazer homens e estrelas" no som da voz agradecendo-a, moça, pelo gostar. Atenções coloridas desses jeitos loucos das pessoas. É o malbec!, ela pensa. Dançando nas palavras, ela traz uma cor de passado menos melancólico que ele. Tudo na música é saudade e não e dor que tem cor mais leve, sem tanta saudade. É o malbec!, ela pensa. 81
  • 82. Cometeu um erro que custará caro. Caro além das medidas. Caro como arrancar das plantas folhas que não mais trarão a vida-verde costumeira, a vida em fluxo, a vida em seiva – forma com que a natureza dá vida a todos os mortais. A forma-vida é seiva, é densa, mais que o tom do dia no poema acordado, mais que a força inconstante do problema. Saber: como respeitar e saber que tudo, em tudo, é seiva, independendo o nome, a cor e a forma. A brincadeira do leite derramado, do anel que se passou, vidro, vidrilho. A torta carne cortada pela verdade insalubre da eterna inércia, como um morto infante, como corpo cansado de gás. Cometeu um erro maior que a proporção indócil, maior que a cor indistintamente vermelha da agonia-chocolate. A 82
  • 83. gosma-vida que o mar transmite, cheia de sal e de vida do todo, tomando e agredindo o interno formato da alma, perturbando a paz dos contentados. A paz, a inconstante paz, a ilusória paz que se proíbe com a afirmação da própria paz. Não mais, porque de tanto, o que era vida em profusão, o gosto do corpo sobre o asfalto, é erro e sal, cor-serpentina. 83
  • 84. Ela acordou depois de um sonho-cor cata-vento cheia de nostalgias. Na verdade, cheia de falsas imagens cheias de um vapor de amor. Um vapor maior que o vapor comum, como quem é levado pelo sono às tortuosas curvas do passado que não aconteceu. Hoje, o passado, em pesados cabelos escuros e em sorrisos maiores que a eternidade, perfumou-a com a voz e o gosto nítido do beijo que tantas vezes em sono é de difícil distinção. Carregada dessa nostalgia, desses olhos castanhos e cabelos pesados, era uma criança em manhã de festa. Mas no meio da madrugada, aos delírios, cata-vento colorido-cor, 84
  • 85. abraçou na noite o corpo de vapor do baile de máscaras. O sempre estranho retorno do vapor na ante-sala madrugada. Riram muito, emparelhados pelas colunas do labirinto e a alegria, cheia do cheiro do sol, carregava líquida a luz da alvorada que saía daquele imenso sorriso, cheio de abraços e de olhos apertados, que a memória dela – a que sempre surge depois do instante – fez prolongar jogando com força a verdade crua na ausência. Como carne que reclama a perna abandonada, o pedaço amarrado em estreitos nós neste sonho reclamou atenção e trouxe o velho sabor: cor-roxa que esquenta a alma. 85
  • 86. É sempre preciso descarnar a cor – ele dizia sem parar. A cor-amêndoa do passado em meio à neblina quase branca da presença. A cor-voz do aveludado verde-creme, como pistache em estado frio. A cor-azeite-cabelo da cor-forma-derretida, como os sabores das cores do tempo. Nessa lógica imaginária, como num caleidoscópio, a palavra-carne que ele dizia era palavra-carne-silêncio. O silêncio incomunicável da verve, da voz no escuro: a alegria era em tons-sóis-carminizantes na rouca-esquerda-voz de detrás do espelho. A forma nova, repetida, como um holograma, para ele, é mágica em palavras desmedidas, em formas e sabores do cortar o pão pela manhã. 86
  • 87. Perseguiu eternamente o perfume, o tom, o toque, a cor-amêndoa do tempo que retorce as formas e traz, no incapturável momento eternizado, o ver-melho-mesa, o ver-melhor de uma segunda-feira. No segundo, sua mão tocou o passado, no vapor que é mais carne que a carne, no ser que é mais que o ser. O novo silêncio recheado de palavras trouxe os olhares, novos e velhos, no amêndoa. O amêndoa da neblina, da penumbra, da voz que ecoa na noite. Num átimo de serpente, habitou a agonia do não-tempo da palavra reservada para mais. A palavra perdida na cor-tempo, infinito como a consciência aberta ao toque, ao esquerdo formato do sorriso ao recuar do corpo involuntário. Juntas, formas e formas são mais a nostalgia agônica, mas de uma agonia boa, nova, mergulhada como o aroma no café – ele pensou. Mergulhada na vertigem das cores no sobre-tom cinza quase ao toque. Tantas condições divididas, sem o abraço cor-saudade. No conjunto, o constante-contante, sobrou o farto e a saudade-até, no além-aquém-cais 87
  • 88. A beleza-passado-menina aparece em sobrancelhas levantadas de passos de dança, no corpo que cheira a sândalo, incenso e cores. Nas perdidas paredes, grossas dessas umidades fartas, a leveza indomada do passado, suspenso nas sobrancelhas, traz um tom de castanho, a cor-vertigem das rugas do arqueado da testa, olhos que vêem de esguia a capacidade compacta do que negou em ter. Nos tons-toques de adamascado sabor, faz a beleza-passado-menina rodopiar sobre-sob as próprias cores. Um conjunto imutável de sensações que, suspensas no todo-sobrancelha, chocam como ossos que se partem, como caixas vazias. 88
  • 89. O bailado das sobrancelhas faz surgir o perfume do sândalo, cor-damasco, que a mulher carrega agora na ponta de seus dedos em mãos rabiscadas-cheias de incensos. Na dobra-sentido, a noite cobre como um soco e um travesseiro: sufocante travesseiro que teve insônia, marrom-café sem soluços. O que sobra é sândalo-sandália e se espalha como incenso para as sobrancelhas. 89
  • 90. Para ela, não há um perturbador contato no nada. Quer mãos que se esfreguem no escuro e que, com o inelutável choque das unhas, arranhe mais profundamente o que está por trás da carne. Tudo está por trás da carne. O jazz vive atrás da carne, sujeira-mundo que carrega. Desde. Esse por trás da carne, do corpo que ela carrega, mobília que envelhece e que ganha marcas. Não se troca. Troca é outro problema. A velha troca não existe mais, como relacionamentos entre fios, com o contato vazio entre pessoas que não mais se vêem. O mundo, o entorno e intocado mundo, continua lá, de fora de todas as coisas que quer tocar, as forte coisas, mergulhadas em seus profundos silêncios. Não abanam os braços 90
  • 91. e nem pedem abrigo. Não há um real contato, mesmo que a agonia dos dias a force à empreitada. Sob os seus pés, o que não esquece. Sobre tudo, o sol que não mais se sustenta e que reflete o calor no ar em suspensão. Tudo isso detrás da carne causaria um efeito lento, como em êxtase. Num bolero lento em que pés se pisam e se arrastam sem contato. Como o sexo sem a real entrega de corpos e de mais contatos. Tudo, em redor, para ela, é leve brisa que não agita as folhas e o que sobra – nas velhas e tortas retinas – é a lágrima e a chuva. 91
  • 92. O casal passou parte da noite fazendo um exercício que há muito não fazia. Arrumou mais ou menos as coisas da casa e sentou-se para olhar as lombadas de seus livros. Um café quente. O momento era de fechamento de coisas, de trocas. Tudo o que traz de novo as muitas histórias, histórias sobre histórias, o que abre milhares de caminhos. Um deles remeteu nele à sensação de sentar para olhar os livros. Nela, a sensação de como a casa era um ícone da individualidade que não nega a tradição. Para ele, a casa remetia a uma frase de um amigo, bêbado, num bar. Para ela, toda casa muito bonita, se olhada muito de perto, apresentava rachadura. 92
  • 93. A mulher, há alguns dias, disse que procurava casas que fossem outras vertentes. O homem, numa aula, disse que a palavra casa era exemplo de pluralidade de significações. Nas longas e frias madrugadas, ambos ficavam em férias, sozinhos, sentados, bebendo café e olhando os livros. Ler mesmo não os liam. Ali, imóveis, as estantes eram a Terra inteira sem a mão de alguém que se aventure por tal ou qual caminho. Distantes, como observadores mudos, viam sempre mais as coisas todas, os livros, a própria casa. Ele pensava mais detido nas histórias que os livros teriam vivenciado até aquele momento, ali, na estante. Ela, nas histórias que terão para além daquelas estantes, quando serão de tantos outros, em um destino ignorado, separados e vendidos em bancas, estocados em alguma biblioteca, herdados por amigos que também ignoram os destinos de seus livros depois que passarem por eles. Ele, nas casas que tiveram: as casas por que passaram até aquela, ela, nas que passarão além desta. Dos meses que eles mesmos passaram em outras casas, outras mãos. 93
  • 94. Ele, por ignorância, os tinha como coisas além das que ficam nas estantes. Para ela, cada um, como uma casa. Essa semana outro livro voltará da rua para casa depois de seis meses. Mas antes de chegar, outro partiu para breve estada fora. Um outro chegou depois de anos, de ameaças de destruição, de esquecimento em outras casas. Ele disse que o livro veio cheio de outros cheiros, como mulher que se deitou com outro. Ela pensou que tantos outros, em mais ou menos tempo, teriam destinos variados por cidades que desconhecia, mesmo depois de chegarem ali. E sabe-se lá o que causarão? Marcados de dedos, ambos curvos de outras estantes, muito cheios de seus livros, rodavam. Não contavam o que viram do mundo além do que lhes foi impresso como digitais. Além do que carregam como aquilo possível de se perceber, não menos intrigante e complexo do que o que se pode tocar. Como casas, que recebem tantos em tantas épocas. Não sabem o que a casa recebeu naquela noite e não saberão o que receberá depois. Como não sabiam nas outras casas que moraram e muito provável não saberão nas casas que virão. E de destino ignorado, como o dos livros, que só guardarão 94
  • 95. as digitais por baixo das tintas. E nas digitais outras histórias que as paredes não contam e que nunca tiveram testemunha e se perderam, como muitos dos que passaram por seus livros. 95
  • 96. Quatro da tarde de uma segunda-feira de sol de janeiro quando o homem viu a mulher entrar na livraria. Longa, leve, de olhos negros, mãos de dedos finos e um vestido com flores quase pálidas. Ela, com as mãos despretensiosas sobre lombadas de títulos ignorados, com olhar-ar, numa busca em um mapa imenso de muitos nomes. A mulher entrou na livraria como um clarão-luz, como um quarto fechado. Alheia a tantas pessoas, entrou nas lentes dos óculos do homem-oblíquo. Na rua antes da mulher, uma segunda-feira gordo-ruidosa de carros e ressaca. A confusão humana nas ruas lotadas e portas vistas através de vitrines, como um cenário colorido, como um cata-vento. 96
  • 97. A mulher na livraria. Ali, o jardim do vestido translúcido. Os longos dedos pálidos lentos em estantes, em um compasso solto no balcão. As unhas com um pouco esmalte e ruídos do arrasto. A mulher e os livros: perdidos. Solitária, entrava pela livraria: o olhar. O homem, ali. Uma mulher – balconista, secretaria, atendente, telefonista – ignorada, sem passado, sem identidade, sem cor na rua. Como uma samambaia ou um rabisco. Uma palavra no reduto das palavras buscando seus pares, conciliando-se com seus iguais, achando calor no formato vermelho da letra do romance na estante. Com o romance aberto diante de si, virou as costas para os livros e apoiou-se no balcão. Em frente. Um cabelo preto, em grandes cachos, caía sobre a pele branca do corpo magro da mulher de traços. Ela passava as páginas, os olhos em segredos. O homem via a mulher: encontrou seu princípio? Um passaporte para voltar ao seu mundo? Viu na mulher a saída para a anulação, encontrando de novo, felicitando, longos abraços, 97
  • 98. amores? Uma mulher indiferente. Uma mulher que não faz falta? Tem fibra, som, fundo? Continuou olhando a mulher que folheava o romance. Uma sede-sangue subia ao rosto. O homem raspou a sede-sangue da garganta, tentando livrar-se. Incomodado, ajeitou-se na cadeira sem achar lugar para o corpo. Vibrou alguma forma. A mulher notou. Olhou o homem. Um frio soprou na nuca dele e as mãos transpiraram, sem lugar. Olhos negros que o fitavam profundamente, respiração: um bicho. Sem controle, os olhos trêmulos, muito mais velhos do que os dela, como uma página de um livro a olhar um leitor. A mulher fechou o romance e avançou. Os passos duraram, fazendo aumentar o batimento do coração: um bicho. No trajeto, três passos. Ela baixou o livro antes do ataque, baixou a cabeça fazendo cair os cabelos sobre o rosto, segurou com os dedos o vestido e se agachou diante dele. 98
  • 99. Mudos, cada qual sentia o cheiro um do outro, envolvendo. O homem podia ver de perto, como a uma lanterna mágica. O coração do homem bateu: o zunido do mundo, um bicho? Neste instante, o homem se viu perdido, de mãos pensas. 99
  • 100. O silêncio da avenida o faz olhar para o cão que se senta e late. É marrom claro, o cão. Tem olhos grandes e desajustados. Sorri para o cão do outro lado da avenida e o cão late mais alto, sem sair do lugar. Passa a olhar para as coisas. Ninguém ali, além dele e do cão. Percebe a geometria da avenida e nota que pensaram o sol da cidade. O sol pensado que nunca bate de frente, nunca atrapalha. Vê as cores, o azul, o fundo guiando as veias pretas da cidade. Só ele e o cão, ali, prontos para a travessia. Há um profundo silêncio e venta forte repentinamente. 100
  • 101. É quando o cão parece amigável. Marrons, eles aguardam quietos. Venta mais forte e então atravessar a avenida torna-se um risco. Enfim, jogam os corpos contra o preto. Sentem frio nos ossos, mas se confortam com os olhares. Quando se aproximam do meio da trajetória, um grito. Percebem que irão se fundir, chegando à complexa verdade. Torna a ventar forte: agora vozes. Antes de tornarem-se outra coisa difusa e imprecisa, o latido do cão toma conta do espaço do rito. 101
  • 102. Ela sentia falta do sol. Não desse sol praiano que nasce majestoso e soberano, mostrando ao mundo que ele é a vida em profusão, mas do sol pálido, aquele que aparece no alto da montanha numa manhã, entre, sobre, que está nas coisas. Falta daquela suavidade, como criança. Ele sentia falta do frio. Aquele frio úmido, que dói os nós dos dedos, que faz esfregar as mãos uma na outra, ou aquecê-las na xícara de café. Só nessas épocas entendia o porquê de café quente pela manhã. O frio fazendo doer o nariz. O dia nascendo esquentando o resto de nuvem, evaporando o orvalho e dando ao ar um cheiro-manhã antes do sol aparecer sem força, acordando o azul-céu do edredom. 102
  • 103. Mas ela sentia mais falta do vento. Sentir o vento. Sensação de liberdade, os cabelos para trás, o corpo solto. As roupas coladas à pele e as lágrimas brotando açoitadas pela força, sem direito a durarem no rosto. Um vento cortante em que abriria seus braços, querendo tocar os pólos e o sabor da saliva quente dentro da boca, cortada de frio, que sangra ao menor sorriso. Ele acha que o vento tira do chão, que dificulta o passo. Uiva na esquina da rua, sofre, corre de agonia, foge. O vento como um bandido que joga atrás de si os objetos que encontra dificultando a perseguição, de braços abertos e aos saltos. Ela sentia falta do vento cuidando, dificultando-a, ciumento, impedindo-a de acabar de ler a página, despenteando-a como se sentisse saudades, tirando sua roupa com sede de tocar a pele e feri-la com seu sopro louco mais delirante. Para ele, o vento não precisa existir. O vento é dono de si e pode causar, derrubar o mundo ou levar a vida, esconder a voz e deixar atrás de si uma tempestade sem fim, com mortos. O vento cega. Não tem pátria, não tem. 103
  • 104. Às vezes, ela sentia falta de estar ao vento. Solta, deixando nele o seu passado, deixando-se ser carregada, sem memória, sem pátria, para o lugar mais longínquo e que não mais a perturbe. Ser-do-vento. Tentar controlá-lo com as mãos, tentar ter com ele rédeas curtas e vê-lo se agitar como um cavalo louco e indomável. Soltar-se nele por inteira e ser como ele, livre, sem lei, sem regras, sem forma definida, sem boa educação e bom humor fingido. Ser parte do vento, como era um pouco parte de todas as coisas. É das coisas do mundo que ele mais sentia falta. Nada lá fora dependeria do seu bom comportamento. Nada no mundo pararia pelo seu mal. Mas o homem, para ela, era insignificante na sua existência de erros: precisava do vento. Precisava se castigar porque era frágil demais diante do vento. Precisa de família porque era frágil demais. Precisava de leis porque era fraco. O homem, para ela, tem medo de si mesmo. O que mais a incomoda é que esses muros não deixam o vento entrar. Tanto abrigo, tanto esconder! Às vezes, se sentia a sujeira do mundo. Ali, fechada, não incomoda. 104
  • 105. Queriam muito ser menos que isso. Ser-mais-forte. Saberem a hora de morrer. Pensavam sempre que lei era algo em que se acredita. Se não acreditassem, ela não existiria. Se ela não existia, ela não os punia. Podiam se punir assim, por fora, sem as leis. A maior lei eram eles mesmos. Se eles não se puniam por dentro, não erravam, e mesmo que o mundo os punisse, apontando-lhes os dedos, eles eram livres e controversos, sem punição. Queriam, cada qual, estar ao vento. Para ser exato, queriam estar no vento agora para que no dia em que morrerem se tornarem parte do vento também. Ser-do-vento, Ser-mais-forte, sem medos. 105
  • 106. Índice de primeiras palavras 106
  • 107. Um apartamento de subúrbio. 17 Era sim, era sim... 25 Como os calcanhares... 28 Era a primeira vez que via... 33 Eu, o outro... 39 De dentro... 45 A mulher- amarelo- envelope... 47 A mulher-azul... 51 Aqui é um fechado. 55 Ando pelos cômodos... 58 Tudo não tem... 60 107
  • 108. É assim: 62 Resolvi. 63 Os vizinhos... 68 Você vai dançar comigo? 72 Tarde da noite... 74 Acordou e pegou... 83 Comia pão-sebo... 84 Uma ânsia... 86 Tem sapatos com... 89 Algumas questões desligadas: 91 Cometeu um erro... 93 108
  • 109. Ela acordou... 95 É sempre preciso... 97 A beleza-passado-menina... 100 Para ela... 102 O casal passou... 104 Quatro da tarde... 108 O silêncio da avenida... 112 Ela sentia falta... 114 109
  • 110. 110