Precariedade na educação        Povo Pataxó Hã-Hã-Hãe                          Cimi recebe prêmio
                                                  escolar indígena de Manicoré    retoma terras tradicionais                     de Direitos Humanos
                                                             Página 5                         Página 7                                      Página 13




                                                                                                                                                                 ISSN 0102-0625
                                                                                                                 Em defesa da causa indígena
                                                                                                            Ano XXXIII • N0 329 • Brasília-DF • Outubro – 2010
                                                                                                                                                       R$ 3,00




                                                                                 RetRospectiva

                                                                               Com a nova
                                                                              Secretaria de
                                                                              Saúde indígena
                                                                            haverá melhorias?
Povo Bakairi, Mato Grosso – Foto – Arquivo Cimi




                                                                                         Páginas 3, 8 e 9
Opinião
                                                                                                                                                                                  Porantinadas
                   Lula, Dilma e os Guarani

                     P
                                 assados os dias da ressaca, dos santos e                                mãe do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e
                                                                                                                                                                                  Luz para Poucos
                                                                                                                                                                                      O governo federal não cansa de apregoar
                                 dos mortos, um feriadão inesquecível,                                   agora como presidente poderia ter a histórica iniciativa
                                                                                                                                                                                  que as várias hidrelétricas previstas para
                                 voltemos aos primeiros habitantes dessa                                 do “programa de aceleração da demarcação das terras
                                                                                                                                                                                  serem construídas no país irão gerar energia
                                 Terra de Santa Cruz. Para boa parte deles                               Guarani (PAG)”.                                                          suficiente para atender a toda a população.
                                 todos esses rituais pouco significam. O                                                                                                          Eles ainda propagam pelos quatro cantos
                                 gesto maior de cidadania e democracia,                                                      Pedra no sapato
                                                                                                                                                                                  os benefícios do programa Luz para Todos,
                                 que foi apertar dois números, foi apenas                                    Provavelmente a recém eleita presidente do país,                     que teria levado energia elétrica a quase
                                 mais um voto de esperança.                                              Dilma Rousseff, herdará uma pedra no sapato – a não                      100% das propriedades rurais brasileiras. No
                       Em muitas comunidades houve celebração e come-                                    demarcação e garantia das terras dos Kaiowá Guarani,                     entanto, diversas famílias continuam sem
                   moração pela vitória da candidata Dilma Rousseff, que                                 no Mato Grosso do Sul. É bom, que ao pensar a transição                  acesso a esses pretensos benefícios, como
                   governará o país pelos próximos quatro anos. Já tarde                                 (continuidade) a equipe não se esqueça dessa agenda,                     o povo Krahô, que até o momento não tem
                   da noite, toca o telefone: - “Estamos comemorando a                                   que via de regra fica para o final da fila, depois de con-               rede de energia elétrica em suas aldeias.
                   vitória da Dilma aqui na aldeia Paraguasu”, me diz uma                                templar todos os interesses envolvidos na composição
                   liderança Guarani. Fico surpreso com a notícia e, ainda
                   meio sonolento, os felicito pelo gesto. Felicito-os, pois
                                                                                                         do poder.
                                                                                                             O presidente Lula tem menos de dois meses para
                                                                                                                                                                                  Desmatamento
                   a cada eleição renovam a esperança, mesmo que depois,                                 diminuir sua dívida histórica com o grande povo Gua-                     autorizado
                   ao longo do mandato, amarguem muitas decepções. Ao                                    rani, fazendo avançar os processos de identificação e                        Sob pressão, o órgão que deveria coibir
                   telefone, ainda ouço as razões para tanta festa: “Pobre                               regularização das terras. O que Lula não conseguir fazer                 o desmatamento no país e fiscalizar as ma-
                   vota em pobre!”.                                                                      em oito anos, espera-se que Dilma faça nos primeiros                     zelas praticadas contra o meio ambiente,
                       No dia seguinte vou conversar com Anastácio Guara-                                anos de governo. Os Kaiowá Guarani têm uma paciência                     o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente
                   ni Kaiowá, liderança que por diversas vezes teve a opor-                              secular, mas não é infinita. E chegou ao limite.                         e Recursos Renováveis (Ibama), permite,
                   tunidade de conversar com o presidente Lula e alertá-lo                                   Os Guarani comemoraram com os milhões de bra-                        por meio de portaria, o desmatamento
                   da grave situação em que vive seu povo por causa da não                               sileiros e pessoas no mundo inteiro, especialmente na                    de 3.202,63 dos 15 mil hectares da mata
                   demarcação das terras. “Espero que Dilma, enquanto                                    América Latina, a vitória da presidente Dilma. Especial-                 que sumirá para dar lugar ao lago da usina
                   mulher, mãe e presidente, seja sensível à causa dos povos                             mente os pobres e empobrecidos deste país, os expulsos                   hidrelétrica de Jirau, no rio Madeira, em Ron-
                   indígenas, e tenha especial consideração com a difícil                                das terras, os sem terra, os índios, os quilombolas e                    dônia. Inacreditável: o próprio presidente
                   situação do grande povo Guarani e cumpra o disposto                                   os excluídos, de uma maneira geral, esperam ter seus                     do órgão criou e assinou a Portaria 17, que
                   na Constituição, demarcando todas as terras indígenas                                 direitos respeitados e sua vida e dignidade asseguradas.                 lhe garante poderosos instrumentos para
                                                                                                                                                                                  realizar esse tipo de centralização.
                   e também garantindo os demais direitos que aí temos”.
                       Com uma pitadinha de ironia e desconfiança, Anas-                                                                                   Egon Heck
                   tácio arrisca uma sugestão “a senhora como ministra foi                                                                      Cimi Regional MS                  Código Florestal para
                                                                                                                                                                                  ruralistas
                   MARIOSAN                                                                                                                                                            “O vice-presidente da Frente Parlamen-
                                                                                                                                                                                  tar da Agricultura para a Região Sul, Luiz
                                                                                                                                                                                  Carlos Heinze, afirmou que a situação de ins-
                                                                                                                                                                                  tabilidade no campo tornou-se insustentável
                                                                                                                                                                                  e poderá prejudicar a agricultura” (Jornal Alô
                                                                                                                                                                                  Brasília, sobre o interesse de parlamentares
                                                                                                                                                                                  em modificar o código florestal rapidamen-
                                                                                                                                                                                  te). Colocando lobos para cuidar de ovelhas.
                                                                                                                                                                                  É o que nos vem à mente quando lemos no
                                                                                                                                                                                  jornal o grande interesse dos ruralistas pelo
                                                                                                                                                                                  código florestal. Nos jornais, parlamentares
                                                                                                                                                                                  ruralistas propagam a crise e a instabilidade
                                                                                                                                                                                  no campo e a culpa é toda das florestas que
                                                                                                                                                                                  são tão grandes neste país. Coitados, tão
                                                                                                                                                                                  pobrezinhos, sem terras para plantar suas
                                                                                                                                                                                  monoculturas, sem rios para causar erosões!
                                                                                                                                                                                  Os parlamentares precisam urgentemente
                                                                                                                                                                                  retomar a pauta do Código, pois os pobres
                                                                                                                                                                                  latifundiários estão num sofrimento...
                   ISSN 0102-0625




                                                                                       Na língua da nação indígena    coNselho De reDAção     eDITorAção eleTrôNIcA:       reDAção e ADMINIsTrAção:             Faça sua assinatura
                                                                                        sateré-Mawé, PorANTIM           Antônio C. Queiroz      licurgo s. Botelho       sDs - ed. Venâncio III, sala 310          pela internet:
                                                                                     significa remo, arma, memória.       Benedito Prezia         (61) 3034-6279          ceP 70.393-902 - Brasília-DF       adm.porantim@cimi.org.br
                                          Edição fechada em 11/11/2010                                                     Egon D. Heck                                        Tel: (61) 2106-1650
                                                                                          Dom Erwin Kräutler                                       IMPressão:                                                        Preços:
                                    Publicação do Conselho Indigenista Missionário           PresIDeNTe                    Nello Ruffaldi        Gráfica Teixeira              Fax: (61) 2106-1651
                                                                                                                         Paulo Guimarães         (61) 3336-4040        e-mail: editor.porantim@cimi.org.br       Ass. anual: r$ 40,00
                                      (Cimi), organismo vinculado à Conferência
                                                                                            Maíra Heinen                                                                                                      Ass. de apoio: r$ 60,00
                                        Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).           eDITorA - rP 2238/Go               Paulo Suess                                   cimi Internet: www.cimi.org.br
                                                                                                                                                seleção De FoTos:
                                                                                                                                                      Aida                 registro nº 4, Port. 48.920,      América latina: Us$ 40,00
                      APOIADORES                                                         Cleymenne Cerqueira             ADMINIsTrAção:                                        cartório do 2º ofício
                                                                                         eDITorA - rP 7901/DF          ronay de Jesus costa                                                                   outros Países: Us$ 60,00
                                                                                                                                                                            de registro civil - Brasília


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Outubro–2010   2
Conjuntura
Os rumos da política indigenista e a criação da
Secretaria Especial de Atenção à Saúde Indígena
                Roberto Antônio Liebgott




                                             Fotos: Arquivo Cimi
                   Vice-presidente do Cimi




A
         s expectativas, depois do plei-
         to eleitoral, não são muito
         animadoras para a maioria da
         população. No horizonte bra-
sileiro não se vislumbram perspectivas
de mudanças quanto à postura dos
governantes na condução das políticas,
bem como às concepções de modelo de
Estado e de desenvolvimento, ambas
privatistas e centradas na exploração
dos recursos naturais, hídricos e mi-
nerais. O fosso que se abriu, para con-
solidar o projeto desenvolvimentista
em curso, tende a ficar mais profundo                         expansão do agronegócio,                                                                        que o atendimento às comu-           As políticas
                                                                                                                                                                                                   indigenistas,
e sombrio, haja vista que pretendem                           exploração madeireira).                                                                         nidades seja garantido até           tanto na
acentuar a intervenção sobre o meio                           Não é sem razão que nos                                                                         que a Sesai tenha condições          saúde,
ambiente objetivando, exclusivamente,                         últimos meses o órgão                                                                           de fazê-lo.                          quanto em
                                                                                                                                                                                                   outras áreas
a obtenção de lucros econômicos.                              indigenista priorizou o                                                                             A Sesai estará vinculada ao      carecem
    Os discursos e as propostas proferi-                      acompanhamento, ma-                                                                             Ministério da Saúde e deve fa-       de urgente
                                                              peamento e estabeleci-                                                                          zer a gestão do Subsistema de        atenção
dos na campanha eleitoral expressaram
esta tendência pelos investimentos em                         mento de condicionantes                                                                         Saúde Indígena vinculado ao
grandes obras direcionando, com isso,                         que facilitem os licencia-                                                                      Sistema Único de Saúde (SUS)
que as prioridades serão para a inicia-                       mentos dos projetos que                                                                         e que está previsto na Lei
tiva privada. Na outra ponta, no que se                       afetam terras indígenas                                                                         9.836/99 (Lei Arouca). Portan-
refere às políticas estruturantes e que                       no país;                                                                                        to, precisará de uma estrutura
deveriam beneficiar os mais pobres,                               u Demarcações de terras: para         pressões desencadeadas pelos povos          que possa favorecer o funcionamento
os discursos foram pela manutenção                            não desagradar seus aliados políticos,    indígenas exigindo que a Secretaria         dos Distritos Sanitários de Saúde como
das políticas de caráter compensatório                        o governo Lula paralisou totalmente       de Atenção Especial à Saúde Indígena        unidades gestoras. Por conta disso,
através da entrega de bolsas para os                          os procedimentos demarcatórios. Nem       (Sesai) fosse criada, o que se concreti-    deverá contar com orçamento próprio
mais pobres.                                                  mesmo a situação de genocídio enfren-     zou oficialmente através do Decreto         para cada um dos DSEIs, com estrutura
    Aos povos indígenas não foi apre-                         tada pelos Guarani Kaiowá consegue        nº 7.336, de 19 de outubro de 2010. A       administrativa e financeira, com equipa-
sentada ou dita, pelos candidatos,                            sensibilizar o governo federal. Além de   Secretaria retira da Fundação Nacional      mentos, medicamentos, contratação de
nenhuma palavra que possa significar                          não criar os grupos de trabalho neces-    de Saúde (Funasa) as responsabilidades      funcionários e profissionais em saúde,
algum compromisso com sua realidade                           sários para que as mais de 320 terras     quanto à saúde e saneamento básico          pólos base de assistência, hospitais
e direitos. Ao contrário, de tudo o que                       reivindicadas pelos povos indígenas       nas comunidades indígenas.                  de referência. Os distritos devem fun-
se falou, as perspectivas apontam para                        sejam demarcadas, o ministro da Jus-          Segundo o que estabelece o decre-       cionar a partir de planos distritais a
a exploração desenfreada das terras                           tiça, Luiz Paulo Barreto, mostrando-se    to, o Ministério da Saúde e a própria       serem elaborados pelas comunidades
indígenas e a restrição às garantias                          no mínimo desinformado, declarou em       Funasa terão 180 dias para fazer a          indígenas e pelos demais envolvidos
constitucionais.                                              entrevista que 95% das terras já foram    transição gradual do sistema, a fim de      com as ações e serviços em saúde. Além
    Pode-se avaliar que as temáticas que                      demarcadas. Além de não reconhecer as     evitar prejuízos ao atendimento dessas      disso, de fundamental importância
envolvem os mais de 240 povos foram                           reivindicações das comunidades indíge-    comunidades. No entanto, não é o que        será o exercício do controle social, que
omitidas por duas razões fundamentais:                        nas, o ministro ainda vem suspendendo     se observa em várias localidades do         precisa ser adequadamente realizado
por não serem demandas que rendem                             os efeitos de diversas portarias decla-   país. Há informações de lideranças e        através dos conselhos locais e distritais.
votos e popularidade, visto que em                            ratórias assinadas anteriormente. Tal     comunidades indígenas de diferentes         Serão as comunidades indígenas e seus
certas regiões a questão indígena é                           medida, sem nenhum fundamento legal       regiões de que os atuais servidores da      conselheiros os responsáveis pelo pla-
tratada como entrave ao “crescimen-                           ou administrativo, nunca foi adotada no   Funasa já estão se negando a atender        nejamento, avaliação e fiscalização das
to econômico”; e por não haver, do                            país, nem mesmo nos anos sombrios da      as comunidades. Há relatos inclusive        ações em saúde.
ponto de vista político administrativo,                       ditadura militar.                         de localidades em que servidores já             O governo federal precisa, portan-
interesse em lidar com as realidades                              u Estatuto dos Povos Indígenas:       afixaram cartazes informando que o          to, implementar de forma imediata
que apontem para a consolidação dos                           a tramitação do projeto do estatuto       atendimento não ocorrerá mais, a partir     um programa de transição do modelo
direitos dos etnicamente diferentes.                          no Congresso Nacional na próxima          do dia 28 de outubro.                       antigo à nova política, a fim de que
    Seja qual for o próximo governo, os                       legislatura será, sem dúvida, um dos          Para evitar maiores prejuízos aos       nos primeiros meses do próximo ano
povos indígenas continuarão enfrentan-                        mais importantes temas de discussões e    povos indígenas, é necessário que o         a execução das ações e serviços sejam
do sérios obstáculos e há que se manter                       disputas. A proposta indígena restringe   movimento indígena, as entidades            realizados no âmbito dos DSEIs. Mas,
a atenção quanto:                                             e se contrapõe ao modelo de desenvol-     indigenistas e o Ministério Público Fe-     para que isso aconteça, há muito que
    u Estrutura da Funai: vem sendo                           vimento impulsionado pelos programas      deral, cobrem do Ministério da Saúde        fazer, especialmente quanto à capacita-
reformulada para adequar o órgão às                           de governo, especialmente o PAC.          um acompanhamento minucioso da              ção de pessoas e realização de concurso
demandas dos grandes investimentos                                A novidade, nestes últimos meses,     atual transição entre a Funasa e a Sesai.   público para contratação de profissio-
econômicos (hidrelétricas, mineração,                         ficou por conta da mobilização e das      Também é de fundamental importância         nais em saúde. n                             3 Outubro–2010
Participação




                                                                                                Fotos: Cimi Regional Leste/Equipe Itabuna
                       Jovens indígenas
                       do Regional Leste
                       realizam seminário
                       J
                                ovens Indígenas do Regional         dades: Estadual de Feira de Santana e
                                Leste realizaram entre os dias 7    Federal do Recôncavo- Bahia, Federal
                                e 10 de outubro o V Seminário       do Espírito Santo, Rede Nacional de
                                Cultural, com o tema: “Luta, For-   Advogados Populares, Funai, Secretaria
                       ça e Resistência dos Jovens Indígenas em     de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos
                       defesa de suas comunidades”. O evento        do estado da Bahia.
                       aconteceu na Aldeia Serra do Padeiro,            O tema proposto levou os partici-
        Jovens         do povo Tupinambá, no município de           pantes a se aprofundarem através dos
    lideranças
 indígenas do          Buerarema, sul da Bahia.                     painéis e das oficinas e a pensarem em
 Sul da Bahia              Cerca de 400 jovens dos povos            estratégias de intervenção, articulação
    discutiram         Tupinambá de Olivença de diversas            e mobilização que venham a contribuir
       direitos,
                       comunidades, Pataxó do Extremo Sul e         com suas lutas e na defesa de suas co-
   desafios do
    movimento          Pataxó Hã-Hã-Hãe (Bahia), Xakriabá (Mi-      munidades.
  indígena e a         nas Gerais) e Tupinikim (Espírito Santo)          As oficinas “Criminalização das
   luta por um         se encontraram mais uma vez para discu-      Lideranças”, “Desafios da atualidade”,                                  projetos. Esta oficina levantou diversas      desencadeado contra o povo Tupinambá
futuro melhor
     para suas
                       tirem suas lutas e sonhos e, juntamente      “Movimento Indígena”, “Direitos In-                                     dificuldades encontradas para o acesso        de Olivença.
comunidades            com a presença de diversos parceiros e       dígenas” e “Política”, proporcionaram                                   a projetos desta carteira devido à falta          O documento final do V seminário
                       aliados, realizaram um rico e profundo       momentos de muita partilha, conhe-                                      de informações.                               traz no seu bojo uma serie de manifes-
                       encontro. Participaram do evento: Cimi,      cimento, sabedoria e o surgimento                                           Um clima de repúdio às atuações           tações e reivindicações, que surgiram a
                       CPT, Rede de Acampados e Assentados          de muitas propostas, sugestões que                                      do judiciário dominou o seminário, a          partir das reflexões dos jovens e das suas
                       do sul da Bahia, Associação Nacional         venham fortalecer a luta das diversas                                   partir de decisões parciais e arbitrárias     atuações nas comunidades, os desafios,
                       de Ação Indigenista, Pineb, Apoinme,         comunidades. Houve uma oficina                                          que o mesmo vem tomando visando               os avanços, e, sobretudo, a presença
                       Coordenadoria Ecumênica de Serviço,          específica que discutiu a questão das                                   criminalizar a luta e as lideranças indíge-   destes nos diversos espaços de luta de
                       estudantes e professores das Universi-       mulheres e o seu acesso à carteira de                                   nas. O destaque foi o intenso processo        seus povos.


                                                                                       CARtA FInAL
                          “LUTA, FORÇA E RESISTÊNCIA DOS JOVENS INDÍGENAS EM DEFESA DE SUAS COMUNIDADES”
                          N    ós, jovens indígenas dos povos Tupinambá, Pataxó
                               Hã-Hã-Hãe, Pataxó, do estado da Bahia; Xacriabá,
                          do estado de Minas Gerais, e Tupiniquim, do estado do
                                                                                    rosidade seletiva, nas decisões parciais e arbitrárias,
                                                                                    que acabam por criminalizar os movimentos sociais;
                                                                                    que nos impedem de transitar livremente pelo nosso
                                                                                                                                                                             de julgamento do território Pataxó Hã-Hã-Hãe,
                                                                                                                                                                             dos dois processos demarcatórios dos territórios
                                                                                                                                                                             de Monte Pascoal e Caí, na Bahia, e Xacriabá, em
                          Espírito Santo; entidades aliadas, parceiros, e univer-   território; e que encarceram injustamente nossas                                         Minas Gerais;
                          sidades, estivemos reunidos na aldeia Tupinambá de        lideranças, a ponto de não sabermos, quando é o                                        – a necessidade de realizar um curso de Direitos
                          Serra do Padeiro, município de Buerarema, Bahia, entre    caso, onde se encontram presos. No caso específico                                       Indígenas para Jovens Indígenas;
                          os dias 7 a 10 de outubro de 2010, para a realização do   dos Tupinambá da Serra do Padeiro, ainda a negação                                     – participação dos indígenas da Bahia, Minas Ge-
                          V Seminário Cultural dos jovens Indígenas Tupinambá       de emissão de registro civil de crianças. Ressaltamos                                    rais e Espírito Santo nas atividades do Tribunal
                          da Serra do Padeiro e I Seminário Cultural dos Jovens     a maneira truculenta em que as ações da Polícia Fede-                                    Popular do Judiciário, iniciativa muito avançada
                          Indígenas do Regional Leste. O Seminário deste ano        ral são realizadas em áreas indígenas, deixando um                                       em outros estados;
                          teve uma dimensão maior, pois se tornou um seminário      rastro de medo, e de sequelas físicas e emocionais.                                    – realização de um Seminário para discutir proces-
                          regional, que teve como tema central “Luta, Força e            Entendemos que muitos desafios nos afetam                                           sos de criminalização;
                          Resistência dos Jovens Indígenas em defesa das suas       na atualidade, tais como: estabelecer um diálogo
                                                                                                                                                                           – elaboração de um plano político abrangente a
                          comunidades”. Neste sentido, conseguimos ampliar          positivo entre o conhecimento que vem de fora e
                                                                                                                                                                             partir de diálogo entre as instituições indígenas
                          o objetivo principal que é despertar nos jovens uma       a nossa cultura e tradição; saber usar, em benefício
                                                                                                                                                                             para acompanhar o processo de demarcação de
                          maior responsabilidade pela luta, o fortalecimento da     da comunidade, toda a tecnologia a que hoje temos
                                                                                                                                                                             terras, bem como as atuações da FUNAI, FUNASA,
                          nossa autoestima, e da visibilidade da nossa participa-   acesso, não esquecendo as nossas tradições, costu-
                                                                                                                                                                             e outras organizações, em nossas aldeias;
                          ção nas lutas dos povos.                                  mes e crenças; continuar com as nossas atividades
                                                                                                                                                                           – realização de um trabalho de formação política
                              Percebemos que continuam ainda presentes              cotidianas mesmo com todas as perseguições e
                                                                                                                                                                             nas bases, e criação de uma comissão regional de
                          muitas dificuldades e conflitos relatados e debatidos     dificuldades; romper com a imagem de índio que
                                                                                                                                                                             jovens indígenas;
                          em seminários anteriores, tais como a morosidade          prevalece na mídia e nos livros didáticos. Do mesmo
                          na demarcação e regulamentação das nossas terras,         modo, reconhecemos a necessidade, nos dias de hoje,                                    – criação de uma rede de comunicação entre as
                          a precária situação da saúde nas aldeias, e, princi-      de que para a luta é imprescindível conhecer nossos                                      comunidades do Regional Leste;
                          palmente, a criminalização das nossas lideranças,         direitos e deveres, as leis que dizem respeito aos                                     – o desejo de continuidade dos nossos seminários
                          homens e mulheres, jovens e adultos.                      povos indígenas, a Constituição Federal Brasileira,                                      regionais, ampliando cada vez mais a participação
                              Através da realização de oficinas temáticas e         e os acordos internacionais. A oficina das mulheres                                      dos jovens, e fortalecendo o intercâmbio entre os
                          grandes plenárias, conseguimos discutir e avaliar         diagnosticou a dificuldade que elas estão enfrentando                                    povos, afinal os nossos velhos são os guardiões
                          os seguintes temas: Juventude e Criminalização das        para acessar as políticas específicas, em virtude da                                     da tradição, e os jovens fortalecem o presente
                          Lutas e Lideranças; Juventude e Desafios da Atua-         pouca informação e da dificuldade de comunicação                                         para garantir o futuro da nação indígena.
                          lidade; Juventude, Política, e Movimento Indígena;        que ainda existe nas aldeias.                                                            Por fim, deixamos a pergunta: “Até quando o
                          Juventude e Direitos Indígenas; Juventude e Políticas          Após discussão e avaliação das questões levanta-                                 nosso sangue continuará sendo derramado para que
                          para as Mulheres.                                         das, MANIFESTAMOS:                                                                    nossos direitos sejam garantidos e respeitados?”.
                              Desse modo, REPUDIAMOS as medidas do Judici-           – a cobrança das questões levantadas no IV Seminá-                                                 Aldeia Tupinambá de Serra do Padeiro
                          ário que contradizem os nossos direitos na sua mo-             rio, especialmente no que se refere ao processo                                                              10 de Outubro de 2010
Outubro–2010       4
Políticas públicas




                                                                                       Fotos: Arquivo Cimi
MunICíPIO DE MAnICORé (AM)

Precariedade e
descaso na educação
escolar indígena
                          Osmar Marçoli               Mais problemas



A
                   Cimi Regional Rondônia
                                                Outra problemática se refere à me-
         s lideranças das comunidades       renda escolar que sai do município de
         indígenas do povo Tenharim,        Manicoré e para chegar até as aldeias
         que estão situadas ao longo da     leva dois dias de barco e um dia pela
BR-230 (Transamazônica), município de       rodovia Transamazônica. É insuficiente
Manicoré (AM), há muito tempo vem           pelo número de alunos matriculados e                        técnico da área, projeto básico e enviar    um comandante da polícia impondo à             A falta de
                                                                                                                                                                                                   locação
reivindicando aos órgãos competentes        com a distância e o atraso na entrega,                      a Brasília para liberação dos recursos      diretora a acatar tal postura.                 adequada
condições mínimas para que possam ter       os alimentos perecíveis já chegam                           financeiros, o que ainda não ocorreu.           Desde então, Daiane e Valdinar             para que as
direito à educação escolar.                 estragados. A proposta das comunida-                            “Desde várias gestões passadas da       Tenharim percorrem diariamente 90              aulas sejam
                                                                                                                                                                                                   ministradas
    O povo Tenharim denuncia a falta        des indígenas é que a prefeitura faça a                     prefeitura de Manicoré o assunto da         km (ida e volta) no próprio veículo            é apenas um
de assistência educacional nas aldeias      compra em Santo Antonio do Matupi                           educação escolar indígena Tenharim da       (uma moto) enfrentando o cansaço, a            dos problemas
Bela Vista, Trakoá, Kampinho, Taboca,                                                                   Transamazônica não é levado a sério.        forte poeira da estrada e se expondo a         enfrentados
                                            (distrito de Manicoré), que está a 40 km                                                                                                               pelos
Mafuí e Karanaí. “Estamos sem prédios       das aldeias, onde a entrega da merenda                      Tudo indica que a construção das esco-      acidentes. A Seduc foi notificada desta        indígenas
escolares, materiais didáticos, trans-      aconteceria com mais eficiência. Em                         las passará para o exercício de 2011 e      situação, mas nenhuma providência              em Manicoré
                                                                                                                                                                                                   em relação à
porte escolar. Não há condições para o      algumas escolas, as merendeiras têm                         assim sucessivamente” - diz Margarida       foi tomada. A denúncia também já foi           educação
trabalho dos professores.”, diz Daiane      que utilizar seus próprios utensílios                       Tenharim, liderança da aldeia Mafuí.        encaminhada ao Ministério Público. No
Tenharim, professora da aldeia Kampi-       domésticos para preparar a merenda:                             Sendo assim, o povo indígena Te-        início do mês de abril/2010 as lideran-
nho e estudante no ensino médio.            não há pratos, canecos, panelas.                            nharim da Transamazônica reivindica         ças indígenas pediram ao prefeito de
    A educação escolar indígena na re-          O povo Tenharim também reivindica                       três ações prioritárias:                    Manicoré, ao secretário da Semed e à
gião passa por um processo de descaso,      o transporte escolar para os alunos ma-                      1) Formação continuada e acompanha-        coordenadora local da Seduc/AM para
uma vez que está sendo administrada         triculados no 6º ao 9º ano. Por enquan-                         mento aos professores indígenas;        que o ônibus escolar fizesse o trajeto
pelo poder público municipal. Na            to os estudantes têm que utilizar seus                       2) Transporte escolar a partir da reali-   das aldeias Kampinho e Mafuí até o
aldeia Taboca, por exemplo, as aulas        próprios meios de transporte (moto)                             dade de cada aldeia;                    colégio estadual onde os alunos cursam
começaram com o professor indígena          correndo riscos de acidentes devido                          3) Construção urgente de prédios           o ensino médio, mas até hoje isto não
Domiceno Tenharim à sombra de uma           ao grande fluxo de carros e caminhões                           escolares.                              aconteceu.
mangueira. No ano seguinte, a comu-         nesta rodovia.                                                                                              Os pais dos estudantes além de
nidade construiu o primeiro prédio              As comunidades estão lutando para                               Discriminação racial                arcarem com a manutenção do veículo
escolar. Materiais permanentes e didá-      que o ensino médio aconteça dentro                              Por não haver ensino médio nas          também estão preocupados devido ao
ticos foram emprestados das demais          das aldeias. O sistema de ensino médio                      aldeias dois estudantes Tenharim estão      grande risco de acidentes e pela chega-
comunidades de seu povo.                    conhecido como Sistema de Mediação                          matriculados no colégio estadual no         da das chuvas, o que impedirá o acesso
    Na escola Tikwatija, aldeia Mafuí, a    Tecnológica (televisivo e sem professor                     distrito de Santo Antonio do Matupi. No     aos estudos.
casa de reunião construída pela comu-       em sala de aula) apresenta falhas e não                     mês de março/2010 foram impedidos               O poder público é o responsável em
nidade também passou a ser o prédio         está sendo aprovado pelas comuni-                           de utilizar o ônibus escolar, pois um       providenciar às escolas o financiamen-
escolar, e assim funciona desde há 15       dades.                                                      fazendeiro da região, em retaliação         to e a estrutura necessários para que
anos. O cacique Ivan Tenharim, aldeia           Existe uma proposta de serem                            por ter sua moto apreendida pelos           o ensino e a aprendizagem em todas
Kampinho, cedeu sua própria casa para       construídas três escolas na região da                       Tenharim em épocas passadas, proibiu        as comunidades dos povos indígenas
que as crianças não ficassem sem a          Transamazônica (BR-230) através de re-                      a utilização do transporte escolar aos      realmente aconteçam. Mas, diante da
educação escolar, uma vez que não há        cursos do MEC. Para isso o município se                     estudantes indígenas. O fazendeiro foi      falta de vontade política, a educação
prazo para a construção do prédio para      responsabilizou em fazer o diagnóstico                      até a escola estadual juntamente com        escolar indígena ainda não venceu os
esta finalidade.                                                                                                                                    desafios de sanar a arritmia entre os
    Toda a iniciativa aconteceu por par-                                                                                                            governos Federal, Estadual e Municipal
te das comunidades indígenas onde a                                                                                                                 e a distância existente entre a legislação
prefeitura apenas entrou com o salário                                                                                                              e as políticas já conquistadas.
dos professores. As escolas são cobertas                                                                                                                Desta maneira, o povo Tenharim
de palha e de chão-batido. Os materiais                                                                                                             continua na luta para que seja garantida
escolares também são insuficientes e                                                                                                                e respeitada uma educação específica,
algumas escolas nem sequer possuem                                                                                                                  diferenciada, de qualidade e que aten-
quadros ou mesa para o professor. Além                                                                                                              da os interesses de cada comunidade.
do mais, os salários das merendeiras e                                                                                                              Simplesmente que se faça cumprir
de alguns professores estão atrasados.                                                                                                              os direitos contidos na Constituição
Em algumas escolas, a comunidade                                                                                                                    Federal e leis vigentes que asseguram
é que se responsabiliza em comprar                                                                                                                  a educação escolar indígena no país.
canetas, borrachas e cadernos para que                                                                                                              Que os direitos humanos possam ser
os alunos tenham a mínima condição                                                                                                                  respeitados e que a justiça seja feita,
para o estudo.                                                                                                                                      com urgência. n                              5 Outubro–2010
tERRA InDíGEnA ARARIbóIA




                                                                                                              Fotos – Cimi MA/Equipe Imperatriz
   País
   Afora
                                Povo Awá-Guajá
                                pede socorro!
                                    Gilderlan Rodrigues da Silva
                                       CIMI-MA/Equipe Imperatriz




                       A
                                terra indígena Araribóia, loca-
                                lizada na pré-Amazônia mara-
      Madeiras                  nhense, é demarcada e homolo-                                                                                                            desses grupos que      para sobreviver, realizar suas festas
      ilegais na
                                gada com 413 mil hectares para                                                                                                           estão na eminência     tradicionais como relata a liderança
        beira da
estrada dentro         o povo Tenetehara/Guajajara. A mesma                                                                                                              de desaparecerem.      indígena Raimundo Guajajara da Aldeia
        da terra       abrange os municípios de Bom Jesus                                                                                                                    Operações espo-    Marajá: “Nós estávamos indo caçar
     indígena e
caminhão com
                       das Selvas, Arame, Amarante do Mara-                                                                                                              rádicas como a Ope-    na região da lagoa buritizal quando
 carregamento          nhão, Buriticupu e Santa Luzia, todos                                                                                                             ração Araribóia em     encontramos os madeireiros. Pedimos
também ilegal          no estado do Maranhão. Vive também                                                                                                                2007, e a Operação     para que eles fossem embora, eles
      na mesma
    estrada: os        nessa terra o povo Awá-Guajá: grupos        -Guajá sem contato. Os madeireiros                                                Atarawaca/Arco de Fogo, em dezembro        foram, mas agora eles voltaram e nós
    Awá Guajá          autônomos, sem contato com a nossa          continuam abrindo estradas clandes-                                               de 2009, realizadas pela Funai, Polícia    estamos com medo de ir caçar para
   reivindicam         sociedade ou com os indígenas Guaja-        tinas em direção às Lagoas do Marajá,                                             Federal, Força Nacional, Polícia Rodo-     fazer a festa do moqueado, porque te-
  ação urgente
          contra       jara, que estão ameaçados e correndo        Buritizal onde se encontram os grupos                                             viária Federal, Ibama, para extrusão da    mos medo que os madeireiros reajam
    exploração         risco de extinção com o aceleramento        de Awá-Guajá que estão procurando                                                 terra indígena e a proteção dos indíge-    com violência”.
 criminosa em
  seu território
                       do desmatamento e a exploração ilegal       refúgio por ser uma região abundante                                              nas “sem contato”, não resolveram o            Diante disso, faz-se necessário e
                       de madeira, prática que atinge todas as     de água e caça. Porém os madeireiros                                              problema da invasão na terra indígena      urgente a realização de um programa de
                       terras indígenas demarcadas no esta-        estão alcançando esse último espaço                                               Araribóia, pois os invasores, sobretudo    vigilância e extrusão da terra indígena
                       do. Com isso a situação se torna cada       de sobrevivência desses grupos. Com                                               os madeireiros, ainda continuam com        Araribóia para os indígenas que depen-
                       vez mais desesperadora, uma vez que         a atividade madeireira destruindo sua                                             a atividade de exploração madeireira.      dem unicamente desse território para
                       também aumenta o relato de indígenas        base alimentar e sem terem mais para                                              E como é de conhecimento de todos,         sobreviver, em especial os Awá-Guajá.
                       Guajajara sobre a presença de indígenas     onde fugir, a vida dos grupos Awá-                                                tão logo os agentes federais se retiram,   Esse povo precisa ficar fora do risco
                       Awá-Guajá próxima às suas aldeias em        -Guajá passa a depender de medidas                                                os madeireiros retornam às atividades      de morte anunciado com a constante
                       busca de água.                              urgentes, sérias e duradouras de pro-                                             ilegais e com mais veemência principal-    invasão madeireira e as queimadas
                           As matas que ainda restam, onde         teção e garantia territorial por parte                                            mente sobre o território onde estão os     das matas. Caso nenhuma medida seja
                       os grupos Awá-Guajá isolados se refu-       do Estado. A Funai tendo, finalmente,                                             Awá-Guajá onde ainda se encontra uma       tomada urgentemente, presenciaremos
                       giam já não lhes garantem segurança         reconhecido a existência dos grupos                                               abundância de madeira de lei.              a dizimação desses grupos Awá-Guajá
                       alguma. É o que acontece nas matas          Awá-Guajá sem contato na terra indíge-                                                Com essa realidade de exploração,      que optaram por viver conforme o seu
                       da terra indígena Araribóia, território     na Araribóia, já não pode se eximir de                                            não apenas os Awá-Guajá estão sofren-      modo de vida tradicional e sem contato
                       de caça, pesca e coleta de grupos Awá-      sua responsabilidade quanto ao futuro                                             do, mas todos que dependem da terra        com a sociedade não índia. n




                       Comunidades tradicionais e camponesas reafirmam
                       “Você teve inducação, aprendeu munta ciença mas das coisas
                                                                                                              Fotos – Gilberto Vieira dos Santos/Cimi MT




                       do sertão não tem boa esperiença. Nunca fez uma paioça, nunca
                       trabaiou na roça, não pode conhece bem. Pois nesta penosa
                       vida, só quem provou da comida sabe o gôsto que ela tem”.
                                                                                         Patativa do Assaré

    Indígenas                         Gilberto Vieira dos Santos   se deu sequência ao mapeamento dos
participam do                                           Cimi MT
 II Seminário
                                                                   conflitos ambientais em Mato Grosso,
           de                                                      o destaque foi a expressiva participação



                       A
 Mapeamento                     partir do tema ‘Territórios e      dos diferentes seguimentos que com-
Social no MT
                                Identidades’, a Rede Mato-         põem a diversidade mato-grossense:
                                -Grossense de Educação Am-         quilombolas, indígenas, camponeses,                                               conômico e Social de Mato Grosso os        encontro possibilitou que estas e outras
                                biental – REMTEA realizou          atingidos por barragens, retireiros,                                              rostos destes grupos e comunidades         comunidades pudessem expressar sua
                       entre os dias 6 e 8 de outubro o seu 6º     morroquianos e outras comunidades                                                 que não se reconheciam na proposta         territorialidade, partilhar seus desafios
                       Encontro. Durante o evento foram reali-     tradicionais marcaram sua presença                                                até então apresentada. Promovido pela      e conflitos nos quais se encontravam,
                       zados outros paralelos, como o I Encon-     contribuindo nos debates e partilhando                                            REMTEA, em conjunto com o Grupo            principalmente em torno dos territó-
                       tro das Juventudes Mato-Grossenses,         suas culturas e saberes.                                                          Pesquisador em Educação Ambiental          rios. Pelo menos 104 conflitos foram
                       o III Encontro da Educação Ambiental            O primeiro Mapeamento Social,                                                 (GPEA) e Grupo de Trabalho de Mobili-      mapeados naquele momento, sendo
                       Escolarizada e o II Seminário de Mape-      realizado em 2008, buscou trazer para                                             zação Social (GT-MS) – articulação que     que em muitos destes havia ameaças
 Outubro–2010      6   amento Social. Neste último, em que         a discussão do Zoneamento Socioe-                                                 reúne vários grupos e entidades - o        de morte, assassinatos, invasão e dis-
Pataxó Hã-Hã-Hãe




                                                                                            Fotos: Cimi Regional Leste/Equipe Itabuna
  retomam terras
  tradicionais na bahia
                             Haroldo Heleno
                               Equipe Itabuna




  n
          a madrugada do dia 4 de ou-
          tubro, cerca de 70 famílias
          indígenas do povo Pataxó Hã-
          -Hã-Hãe, aproximadamente
  350 pessoas, retomaram as áreas hoje
  denominadas de Santa Maria, Santa Ma-
  dalena, Serra das Águas, Serra do Ouro
  e Iracema, totalizando cerca de cinco
  mil hectares, todas localizadas na região
  dos Vinte e Cinco, entre os municípios
  de Pau Brasil e Itajú do Colônia. Estas        com os procuradores de Ilhéus para que                                           de gado e cacau e, desde 1982, a co-     Pataxó Hã-Hã-Hãe, mas toda a região          Indígenas
                                                                                                                                                                                                                        na terra
  fazendas já haviam sido retomadas em           tomem o depoimento das pessoas que                                               munidade aguarda o resultado de uma      do entorno da terra indígena, com            retomada:
  2002, porém, com medidas judiciais,            presenciaram a situação. Na Funai, con-                                          Ação Cível Original de Nulidade de       a falta de segurança, proliferação e         ameaças de
  os fazendeiros conseguiram retirar os          versaram com o procurador do órgão,                                              Títulos (ACO) impetrada pela Funai em    disseminação do consumo de drogas,           fazendeiros
                                                                                                                                                                                                                        são
  indígenas das terras.                          Antônio Salmeirão, sobre a situação de                                           favor da comunidade.                     sendo muitas destas ações/atividades         constantes
      No dia 10 de outubro, pistoleiros          violência e também sobre o processo de                                               No documento eles afirmam que        patrocinadas pelos agentes interessa-
  entraram atirando na área de retomada          homologação de suas terras que corre                                             percebem que nada tem sido feito         dos em nossas terras”, afirmam.
  e os próprios indígenas acreditam na           no STF há anos. Salmeirão afirmou que                                            pelo governo em relação à causa Pa-          Ainda segundo as lideranças, a
  presença de policiais no bando. Após a         não sabe dizer se o julgamento ocorrerá                                          taxó Hã-Hã-Hãe e que isso contribui      intenção da ocupação é pressionar
  situação de terror, um grupo de lideran-       ainda este ano.                                                                  diretamente com os conflitos entre       o governo a resolver a questão das
  ças decidiu ir a Brasília relatar a situação                                                                                    indígenas e fazendeiros na região.       terras, além de unir esforços junto aos
  às autoridades competentes. De acordo                   Reivindicações da                                                       “Lutamos pela ocupação integral de       parceiros nesta luta. Eles finalizam o
  com a cacique Ilza Pataxó Hã-Hã-Hãe,                      comunidade                                                            nossas terras com grandes latifundi-     documento dizendo que ocuparam a
  as lideranças conseguiram conversar                Segundo documento assinado                                                   ários que defendem à “chumbo” seus       área que lhes é de direito e solicitando
  com o senador Cristovam Buarque, que           pelas lideranças e enviado à Fundação                                            interesses, o que têm ao longo dos       o apoio da sociedade civil. “Para nós é
  garantiu alertar a Polícia Federal para        Nacional do Índio (Funai) e às entidades                                         anos nos legado grandes perdas. Essa     importante que a sociedade civil orga-
  que fiquem atentos à situação. Na 6ª           de apoio, eles aguardam há mais de 28                                            situação mais tem demonstrado a falta    nizada e o poder público saibam que
  Câmara de Conciliação do Ministério            anos por uma solução para que possam                                             de interesse dos nossos governantes      nossa intenção é reivindicar através
  Público Federal, ficou acordado que            voltar em definitivo às suas terras. As                                          em resolver um problema que não          das retomadas (símbolo da resistência
  o MPF em Brasília entrará em contato           áreas estão invadidas por fazendeiros                                            atinge apenas a comunidade indígena      Pataxó Hã-Hã-Hãe) a ocupação de nos-
                                                                                                                                                                           sas terras, enquanto o governo nada
                                                                                                                                                                           faz para resolver nossos problemas.

suas identidades e territorialidades                                                                                                                                       Diante do exposto solicitamos apoio
                                                                                                                                                                           da sociedade civil organizada, ONGs,
                                                                                                                                                                           autoridades e órgãos governamentais
                                                                                                                                                                           responsáveis pela questão indígena,
                                                 cionais trouxeram novos elementos                                                a necessidade e disposição de uma        na garantia dos nossos direitos confor-
                                                 que possibilitaram uma atualização                                               aliança para a luta conjunta. A partir   me manifestado na CF de 1988, assim
                                                 dos conflitos e dos principais temas em                                          desta, a efetivação e garantia dos       como, a nossa proteção física”.
                                                 disputa na região.                                                               direitos constitucionais virá como
                                                     Apesar da diversidade de inserções                                           sempre se deu na ‘história deste                       Histórico
                                                 no território, chegou-se à conclusão                                             país’: na marra!                             Após 26 anos de espera, o Supremo
                                                 de que as ameaças aos seguimentos                                                    Para o capital que, com o apoio      Tribunal Federal (STF) finalmente deu
                                                 presentes são comuns: o agronegócio,                                             governamental e financiado pelos         início ao processo de julgamento da
                                                 as consequentes contaminações do                                                 rios de dinheiro do BNDES, se alas-      ACO nº 321 no dia 24 de outubro de
                                                 solo, água e ar pelo uso de agrotóxicos,                                         tra interferindo ‘nas amazônias’ da      2008. Após rico e bem fundamentado
                                                 a pressão exercida pelo poder latifun-                                           Amazônia, fica a voz do povo que         voto favorável do ministro Relator Eros
                                                 diário e os empreendimentos e obras de                                           diz através do poeta: “...aqui findo     Grau, o ministro Menezes Direito solici-
  puta por territórios. Em cada conflito,        infraestrutura vinculadas ao Programa                                            esta verdade, toda cheia de razão.       tou vista do processo frustrando a co-
  a busca constante pela reafirmação             de Aceleração do Crescimento (PAC),                                              Fique na sua cidade, que eu fico no      munidade Pataxó de ver por definitivo
  das diferentes identidades que faz da          principalmente os de geração e trans-                                            meu sertão. Já lhe mostrei um es-        a questão da suas terras resolvida. Para
  região um belo e diverso quadro, em            missão de energia.                                                               pêio, já lhe dei grande consêio que      piorar a situação, o ministro Menezes
  contrapartida ao discurso homogenei-               Questionando a visão de desen-                                               você deve toma: por favo, não mêxa       veio a falecer logo após este pedido
  zador do agronegócio em que tudo é             volvimento que suplanta direitos, que                                            aqui, que eu também não mexo aí.         de vista, não externando seu voto. Um
  ‘mono’-cultivo.                                interfere nas diferentes formas de ser                                           Cante lá que eu canto cá.”(*)            novo ministro, Antônio Dias Toffoli, foi
      Neste segundo mapeamento, os               e conviver nos territórios, os povos e                                           ( )
                                                                                                                                        * Cante lá que eu canto cá.
                                                                                                                                                                           indicado para a sua vaga, mas até hoje
  povos, grupos e comunidades tradi-             comunidades tradicionais reafirmaram                                                     Patativa do Assaré               o julgamento não foi retomado. n           7 Outubro–2010
Retrospectiva




                                                                                                                                                                               Fotos: Gustavo Macedo
                                    A política de atenção
                                    à saúde e o futuro
                                    dos povos indígenas
                                                       Roberto Antonio Liebgott      de planejamento, execução e avaliação das Raposa Serra do Sol. Este se tornou mo-
                                                           Vice-Presidente do Cimi   ações a serem desenvolvidas. Já naquela delo e referência para a criação de outros




                                         C
                                                                                     conferência ficou definido que a política distritos. Também em 1993 foi realizada
                                               om a promulgação da Constitui-        respeitaria as especificidades étnicas, a II Conferência Nacional de Saúde para os
                                               ção Federal em 1988 ficou esta-       socioculturais e as práticas terapêuticas Povos Indígenas que reiterou a defesa do
                                               belecido o reconhecimento e o         de cada povo. Além disso, se garantiria modelo dos DSEIs como base operacional,
                                               respeito às organizações sociais,     a participação nas políticas de saúde e no âmbito do SUS, para a política de aten-
                                               políticas, culturais dos povos in-    que seria criada uma secretaria específica ção à saúde das populações indígenas. Os                         saúde do índio, cujas ações serão executa-
                                               dígenas. Ficou também definido        para assuntos indígenas. Nasceu, naquela distritos seriam vinculados diretamente ao                         das pela Funasa.” A Lei Arouca determinou
                                    que a União é a responsável pela execução        conferência, a primeira propo-                           MS e administrados por Con-                        que o Governo Federal instituísse o Subsis-
                                    das políticas a serem desenvolvidas junto        sição de modelo dos Distritos         Em 1986, em        selhos de Saúde com partici-                       tema de Atenção à Saúde Indígena, tendo
                                    aos povos e comunidades indígenas. O             Sanitários Especiais Indígenas         função das        pação indígena. Ficou também                       por base os Distritos Sanitários Especiais
                                    mesmo marco legal criou o Sistema Único          (DSEIs) e que estes deveriam articulações dos definido que no âmbito do                                     Indígenas. Foram, na época, criados 34
                                    de Saúde (SUS), regulamentados pela Lei          ficar sob a gestão do Ministé-                           Governo Federal haveria uma                        DSEIs, (Portaria 852/99). Todos os serviços
                                                                                                                         povos indígenas,
                                    8.080/90 onde estabelece a vinculação            rio da Saúde.                                            instância responsável pela                         em saúde (atenção básica, prevenção, sane-
                                    da assistência em saúde ao Ministério da             Em fevereiro de 1991, com        foi convocada       saúde indígena do país. Já em                      amento) passaram a ser executados através
                                    Saúde (MS).                                      a edição do Decreto Presiden-           a primeira       1993 os povos indígenas vi-                        de convênios firmados com organizações
                                        Há muitas décadas se discute sobre           cial nº. 23 houve a transfe- “Conferência de nham reivindicando a criação                                   da sociedade civil - associações indígenas
                                    a realidade dos povos indígenas e as             rência da assistência à saúde Saúde do Índio” de uma secretaria especial                                    e indigenistas - e alguns municípios. A
                                    políticas a serem implementadas para as-         indígena para o Ministério da                            para a gestão da política de                       perspectiva, no âmbito do Ministério da
                                    segurar-lhes vida e saúde no Brasil. Muitas      Saúde, ao qual cabia a responsabilidade atenção à saúde.                                                    Saúde, era de que a União deveria trans-
                                    têm sido as mobilizações do movimento            pela coordenação de todas as ações em            No dia 19 de maio de 1994 foi editado                      ferir as suas responsabilidades, no tocante
                                    indígena e das organizações que atuam no         saúde. Foi criado naquele ano o Distrito o Decreto Presidencial de nº 1.141/94, que                         à gestão e execução das ações em saúde
                                    campo da saúde, com o objetivo de exigir         Sanitário Yanomami. Também foi consti- revogou o Decreto n° 23/1991, constituin-                            indígena, para terceiros.
                                    que o Estado brasileiro estruture políticas      tuída, no âmbito do Ministério da Saúde, do, a partir de então, a Comissão Interse-                             A partir destas mudanças, as delibera-
                                    que possibilitem a atenção diferenciada          a Coordenação de Saúde do Índio (COSAI) torial de Saúde. Esta, na prática, devolveu                         ções das Conferências Nacionais de Saúde
                                    aos povos indígenas.                             com incumbência de implementar um a coordenação da saúde indígena para a                                    se tornaram inócuas e os Conselhos de
                                        Em 1986, em função das articulações          modelo de atenção à saúde. No mesmo Funai, tornando-a responsável pela recu-                                Saúde Indígena, por sua vez, entes figu-
                                    dos povos indígenas, foi convocada a pri-        período o Conselho Nacional de Saúde peração dos índios doentes enquanto o                                  rativos diante das ações e decisões dos
                                    meira “Conferência de Saúde do Índio”,           criou através da Resolução CNS nº 011, de MS se encarregaria das ações preventivas.                         conveniados. O controle social foi sendo
                                    quando pela primeira vez se propôs um            31 de outubro de 1991, a Comissão Inter-         No ano de 1999, com a edição do                            paulatinamente desconsiderado por gran-
                                    modelo de atendimento diferenciado para          setorial de Saúde do Índio (CISI). Esta, com Decreto nº 3.156/99 e a aprovação da                           de parte dos gestores, ampliando, com
                                    estes povos. A partir das propostas referen-     a função de assessorar o CNS na elaboração “Lei Arouca” (n° 9.836 de 23 de setembro                         isso, os problemas nos espaços de organi-
                                    dadas naquela conferência, os indígenas          dos princípios e diretrizes para as políticas de 1999), a política de saúde passou ao                       zação dos serviços em saúde. Os Distritos
                                    passariam a ter direito ao acesso universal      no campo da saúde indígena.                   encargo do MS: “O Ministério da Saúde                         Sanitários Especiais Indígenas, que seriam
                                    e integral à saúde, bem como poderiam                Em 1993 foi criado o Distrito Sanitário estabelecerá as políticas e diretrizes para                     a base de toda a política, tornaram-se ape-
                                    participar em todas as etapas do processo        do Leste de Roraima, na Terra Indígena a promoção, prevenção e recuperação da                               nas uma espécie de referência geográfica
                   Fotos: Arquivo Cimi




                                                                                                         Há anos os povos
                                                                                                        indígenas sofrem a
                                                                                                       espera de soluções
                                                                                                        para os problemas
                                                                                                           da saúde: falta
                                                                                                           de transportes
                                                                                                          de doentes e de
                                                                                                          postos de saúde,
                                                                                                           desrespeito às
                                                                                                         tradições de cada
                                                                                                       povo, má gestão do
                                                                                                       dinheiro direcionado
                                                                                                             os distritos
                                                                                                              sanitários
Outubro–2010   8
para que a Funasa pudesse definir os tipos     ção, pois na prática a Funasa administrava com ênfase nas questões relativas à gestão      tamente ao Ministério da Saúde; vincular         Lula assina
                                                                                                                                                                                           decreto que
de convênios e as atribuições dos presta-      a política de acordo com os interesses dos da política de saúde. Concomitante a isso       os DSEIs à Secretaria Especial; assegurar a      oficializa a
dores de serviços. Posteriormente foram        grupos que a comandavam.                     a Justiça do Trabalho determinou que o        autonomia administrativa e financeira dos        criação da
realizadas mais duas conferências de saúde         No ano de 2004 a Funasa, através das Governo Federal fosse o responsável e,            distritos, que deve ser alcançada com a sua      Secretaria
                                                                                                                                                                                           de Saúde
indígena (2000 e 2006), mas ambas foram        portarias n° 69 e 70, estabeleceu novas portanto, o gestor da política de saúde e          transformação em unidades gestoras do Sis-       Indígena: uma
conduzidas pelos agentes da Funasa com         diretrizes da saúde indígena, recuperou que a terceirização era uma prática ilegal.        tema Único de Saúde (SUS), contando com          vitória dos
o objetivo de referendar a perspectiva da      a execução direta e reduziu o papel das Só então, depois de todas estas ações, o           orçamentos próprios administrados através        movimentos
                                                                                                                                                                                           indígena e
terceirização e a dimi- nuição ou restrição    conveniadas, limitando-as à contratação Governo Federal manifestou algum inte-             dos Fundos Distritais de Saúde; criar plano      indigenista!
à participação indígena no controle social.    de pessoal, à atenção nas aldeias com resse pela política de saúde.                        de carreira específica para profissionais de
    Vale ressaltar que pelas determinações     insumos, ao deslocamento dos indígenas           No final do ano de 2008 foi apre-         saúde indígena com condições trabalhistas
legais os DSEIs teriam um Conselho Distri-     das aldeias e à compra de combustível para sentada uma proposta de projeto de lei          adequadas às complexas e diferentes rea-
tal de Saúde Indígena, órgão de controle       a realização desses deslocamentos.           (3.958/2008) para alterar a Lei 10.683/2003   lidades dos DSEIs; assegurar que os chefes
social e com atribuições, dentre as quais,         Em 17 de outubro de 2007 foi editada que dispõe sobre a organização da Presi-          ou coordenadores dos distritos sejam apro-
de aprovar o Plano de Saúde Distrital e        a polêmica Portaria nº 2.656, que dispunha dência da República e dos Ministérios e cria    vados pelos conselhos distritais; garantir
fiscalizar a prestação de contas dos ór-       sobre a regulamentação dos Incentivos de a Secretaria de Atenção Primária e Promo-         que o controle social seja efetivo, com
gãos e instituições executoras das ações       Atenção Básica e Especializada aos Povos ção da Saúde e na qual ficaria abrigada a         participação indígena legítima em todas as
em saúde. Tais conselhos deveriam ser          Indígenas, revogando a Portaria nº 1.633/ saúde indígena. Na exposição de motivos          instâncias de decisão; formar um quadro
paritários, formados por representantes        GM, de 14 de setembro de                                  deste projeto o ministro da      estável de recursos humanos (servidores
dos usuários, indicados pelas respectivas      1999. Esta portaria gerou De nada adiantam Saúde propôs a transferência                    públicos) adequado às necessidades estra-
comunidades e representantes de insti-         grandes manifestações dos           as normas e os        das competências e atribui-      tégicas da gestão, o que só será possível
tuições governamentais, prestadores de         povos indígenas que, insa-          discursos bem         ções exercidas pela Funasa       por meio de concurso público diferenciado
serviços e trabalhadores do setor de saúde.    tisfeitos com a política que
                                                                                  formulados se a para essa secretaria. Também,           e que assegure a participação indígena nos
Os conselheiros indígenas deveriam ser         tinha como gestora a Funasa,                              fruto das pressões dos povos     processos de seleção; assegurar que no ór-
                                                                                 política de saúde
escolhidos pelas comunidades atendidas,        reivindicaram a criação do                                indígenas, constitui-se um       gão gestor da saúde indígena os servidores
bem como participar de reuniões perió-         modelo de política com-            não estiver sob        Grupo de Trabalho com a          tenham perfil técnico independente das
dicas organizadas pelos prestadores de         patível com a lei Arouca e           um autêntico         participação de lideranças in-   ingerências políticas.
serviço de cada DSEI. Na prática, a relação    com as diretrizes da segunda        controle social       dígenas (Portarias 3034/2008         Por fim, é importante enfatizar que de
entre os povos indígenas e os prestadores      Conferência nacional de Saú-          dos povos           e 3035/2008 GAB/MS) cujo         nada adiantam as normas e os discursos
de serviço sempre foi tensa, permeada          de Indígena. A portaria além           indígenas          objetivo foi de discutir e       bem formulados se a política de saúde não
por problemas relacionados à gestão e a        de fortalecer a Funasa abria                              apresentar propostas, ações      estiver sob um autêntico controle social
aplicação de recursos.                         perspectivas para a municipalização da e medidas a serem implantadas no âmbito             dos povos indígenas. Mas, para que isso
    O Ministério da Saúde editou a Portaria    saúde, exatamente na contramão do que do Ministério da Saúde, no que se refere             aconteça, o governo precisa mudar sua
n° 254, em 31 de janeiro de 2002, que          pretendiam os povos indígenas.               à gestão dos serviços de saúde oferecidos     concepção acerca da administração públi-
aprovou a Política Nacional de Atenção             Somente em agosto de 2008 - depois aos povos indígenas.                                ca, ou seja, ela não deve estar submetida
à Saúde dos Povos Indígenas. A portaria        das constantes manifestações realizadas          Depois de dois anos de espera, o          ao clientelismo e ao loteamento político.
determinava que os órgãos e entidades          pelo movimento indígena contra a Funasa, governo editou a Medida Provisória 483,           Além disso, o governo deve investir re-
do Ministério da Saúde promovessem             depois que foram veiculadas inúmeras aprovada pelo Congresso Nacional e                    cursos para formação e capacitação junto
a elaboração ou a readequação de seus          notícias de corrupção naquele órgão e em transformada na Lei 12.314/2010 que pos-          aos povos e comunidades indígenas, bem
planos, programas, projetos e atividades       função das constantes denúncias sobre o sibilitou a criação da referida Secretaria. E      como dos servidores públicos a serem
em conformidade com ela. O propósito da        descaso na execução das ações e serviços no dia 19/10/2010 foi editado o Decreto           contratados através de concursos sérios. E,
política seria o de garantir aos povos indí-   nas áreas indígenas que vinha gerando 7.336/2010 que oficializou a criação da              fundamentalmente, deve ser realizada uma
genas o acesso à atenção integral à saúde,     avassaladora mortalidade infantil e alas- Secretaria de Saúde Indígena.                    verdadeira Conferência de Saúde Indígena,
de acordo com os princípios e diretrizes       tramento de doenças, o Ministro da Saúde         O novo modelo de gestão da saúde          sem manipulação (espécie de conceito já
do Sistema Único de Saúde, contemplando        resolveu ouvir as reclamações e propostas indígena deverá, se o governo cumprir            institucionalizado no âmbito dos gestores
a diversidade social, cultural, geográfica,    dos povos indígenas. Também no mesmo com as deliberações legais, estruturar a              das políticas públicas), tendo ela o poder
histórica e política. No entanto, as normas    período o Tribunal de Contas da União Secretaria de Atenção Especial à Saúde               de traçar, definir e deliberar sobre a polí-
e recomendações não passaram de inten-         desenvolveu uma auditoria sobre a Funasa, Indígena de caráter executivo ligada dire-       tica a ser executada. n                        9 Outubro–2010
Plebiscito                                                                                                                     Decisão
                  Sociedade brasileira quer limites para o                                                                                                             tribunal segue
                  tamanho das propriedades de terras no brasil                                                                                                         argumentos do
                  Dados do plebiscito pelo limite da propriedade foram apresentados no dia 19 de outubro                                                               MPF e confirma
                                                                                                                                                                       terra indígena
                  O
                           Fórum Nacional pela Reforma




                                                              Foto: Maíra Heinen
                           Agrária e Justiça no Campo
                           (FNRA) apresentou aos jornalis-
                                                                                                                                                                       em MS
                           tas, em coletiva de imprensa dia                                                                                                            Justiça Federal já havia
                  19 de outubro, o resultado do Plebiscito                                                                                                             determinado, de forma
                  Popular pelo Limite da Propriedade. A                                                                                                                inédita, que índios
                  campanha foi realizada entre os dias 1º
                                                                                                                                                                       aguardassem dentro da área
                  a 12 de setembro deste ano e contou
                                                                                                                                                                       reivindicada o fim do processo
                  com a participação de 519.623 pessoas.
                  Participaram da coletiva Gilberto Portes                                                                                                             judicial


                                                                                                                                                                       O
                  do FNRA, o professor Ariovaldo Umbeli-
    Em toda a                                                                                                                                                                 Tribunal Regional Federal da
                  no, da Universidade de São Paulo (USP),
      coletiva,                                                                                                                                                               3ª Região (TRF-3) acatou os
     o tom dos    Willian Clementino, da Confederação
                                                                                                                                                                              argumentos do Ministério
 participantes    Nacional dos Trabalhadores na Agricul-                                                                                                               Público Federal (MPF) e rejeitou re-
         era de
    satisfação
                  tura (Contag), Dom Pedro Stringhini,                                                                                                                 curso que visava a reocupação da TI
     por terem    da Conferência Nacional dos Bispos do                                                                                                                Sucury’i, já demarcada e homologada
   conseguido     Brasil (CNBB) e Pe. Gabriele Cipriani, do                                                                                                            pelo Governo Federal em 1996. Os
   um número
expressivo de     Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do                                                                                                              antigos proprietários e o Município
 participantes    Brasil (Conic).                                             gócio. “A agricultura familiar produz         centração, o Brasil situa-se atualmente    de Maracaju ajuizaram apelação con-
 e de pessoas         Em toda a coletiva, o tom dos par-                                                                                                               tra a decisão de 1ª instância, que, de
que disseram
                                                                              trabalho, alimento saudável e protege         no nível 0,854, o que é considerado
         sim ao   ticipantes era de satisfação por terem                      o meio ambiente. Falo isso porque vejo        muito alto. “O Estado brasileiro tem       forma inédita, determinou que os 235
      limite da   conseguido um número expressivo de                          em São Paulo que o ambiente natural           os maiores latifúndios da humanidade       indígenas da etnia guarani-kaiowá
  propriedade
                  participantes e de pessoas que disseram                     está devastado pela monocultura da            e nunca teve uma atitude política de       ocupassem área, que fica em Maraca-
      de terras                                                                                                                                                        ju, sul do estado, e tem 535 hectares.
                  sim ao limite da propriedade de terras.                     cana”. De acordo com o bispo, a luta          controlar seus territórios”.
                  O plebiscito questionou se concordava                                                                                                                     A decisão foi tomada em caráter
                                                                              primordial é pela dignidade do traba-             Outros dados apresentados foram
                                                                                                                                                                       conclusivo pela 3ª Turma do TRF-3,
                  que as grandes propriedades de terras                       lhador no campo e na cidade e que as          os dos maiores proprietários de terras     que seguiu o voto da relatora do
                  no Brasil precisavam de um limite de                        pastorais se juntam aos movimentos            no país, onde se situam em 4º e 6º         processo, desembargadora federal
                  tamanho e se concordava que o limite                        sociais neste embate.                         lugar o Banco do Brasil, com 164 mil       Vesna Kolmar. A decisão foi publi-
                  na propriedade de terras possibilitaria                                                                   hectares e o Banco Bradesco, com 131       cada em 22 de outubro. O Tribunal
                  o aumento da produção de alimentos                                    Dados alarmantes                    mil hectares, respectivamente. Pelos       confirmou decisão da Justiça Federal
                  saudáveis e melhores condições de                               Muitos exemplos de violação à             números apresentados por Ariovaldo         de Dourados, que em 2007 atendeu
                  vida no campo. 95,52% responderam                           função social da terra foram dados            Umbelino também se percebe que os          pedido do MPF para que não mais os
                  afirmativamente à primeira pergunta e                       pelo professor da área de Geografia da        maiores latifúndios se concentram na       índios esperassem fora da terra até
                  94,39% responderam afirmativamente                          USP, Ariovaldo Umbelino. Ele ressaltou        região norte do país.                      o final do processo judicial - como
                  à segunda questão.                                          que na própria constituinte o limite              Para Umbelino, o próprio cadastro      de praxe - mas que os proprietários
                      O secretário de política agrária da                     da propriedade de terra foi removido          de terras do Incra precisa ser investi-    o fizessem.
                  Contag, Willian Clementino, afirmou                         para tentar destruir a possibilidade de       gado, pois existem muitas divergências          Localizada no Município de Ma-
                  que está feliz com o resultado e que                                                                                                                 racaju, a Terra Indígena Sucuri´y foi
                                                                              estabelecer limites. “A função social da      com cartórios e muitos erros que im-
                                                                                                                                                                       identificada e delimitada na década
                  esta não é a primeira nem a última                          terra não vem sendo cumprida, pois            possibilitam a pesquisa correta sobre
                                                                                                                                                                       de 90. A portaria declaratória foi as-
                  iniciativa na luta pela terra no país.                      200 mil hectares de terras são impro-         grandes donos de terras no país.           sinada pelo então ministro da Justiça
                  “Foi uma grande oportunidade de                             dutivos no Brasil. Além disso, com a                                                     Nelson Jobim, em maio de 1996. Os
                  dialogar com a sociedade para que ela                       proposta de um novo código florestal,              Importância da iniciativa
                                                                                                                                                                       indígenas se indignavam com o fato
                  compreenda a urgência na mudança da                         os latifundiários querem uma lei que os           A magnitude da campanha foi res-       de que a TI Sucuri´y fora homologa-
                  estrutura agrária vigente”, declarou.                       favoreça”, destacou.                          saltada por Gilberto Portes, do FNRA.      da pelo presidente da República e,
                  Ele também destacou que o plebiscito                            Umbelino também lembrou as                “São mais de 54 entidades envolvidas       mesmo assim, continuavam a esperar
                  também serviu para tornar público que                       questões trabalhistas dentro do agro-         nesse processo que resultou numa           o desfecho da causa. Desde então,
                  são os pequenos trabalhadores rurais                        negócio. “Os latifundiários não se pre-       grande consulta popular com resultado      peregrinaram por vários órgãos pú-
                  que alimentam a sociedade brasileira.                       ocupam com leis. A própria legislação         quase unânime”,destacou.                   blicos, a fim de viabilizar a entrada
                                                                              trabalhista não é respeitada. Em terra            Segundo Portes, a próxima iniciativa   definitiva na terra.
                           Igreja participativa                               onde se encontram cultivos de dro-            será entrar com uma proposta de emen-           Em 1997, para tentar acelerar o
                    Dom Pedro Stringhini, bispo da                            gas, as terras não são expropriadas”,         da constitucional para que o limite da     processo, os índios ocuparam parte
                CNBB e membro da comissão episcopal                                                                                                                    da área reivindicada. Em 8 de agosto
                                                                              ressaltou. Ele também deu destaque            terra tenha destaque na Constituição
                                                                                                                                                                       daquele ano, houve audiência conci-
                de pastorais sociais na entidade, ressal-                     à questão da empregabilidade. “Pelo           Federal e também lutar para que o go-
                                                                                                                                                                       liatória na Justiça, com a presença do
                tou que desde a sua fundação a CNBB                           agronegócio, 1,4 trabalhadores são            verno estabeleça o 3ª Plano Nacional de    MPF, da qual resultou acordo entre
                sempre pautou a questão fundiária e a                         empregados por propriedade, já pela           Reforma Agrária. “O Plano é diretamen-     os índios e os proprietários. Ficou
                luta pela terra, através de várias ações                      agricultura familiar, são 17”.                te ligado ao modelo de produção que        acertado que os Kaiowá permanece-
                e publicações. “A luta pela terra é uma                           Informações importantes de con-           queremos, tem a ver com a economia,        riam numa área de 64 hectares “até
                questão prioritária para a comissão de                        centração de terras foram apresentadas        com o tipo de emprego e com a preser-      o trânsito em julgado da sentença”.
                pastorais sociais”, afirmou.                                  pelo professor. Segundo ele, pelo índice      vação do ambiente. É uma obrigação do      A situação só foi definida com a
                    Stringhini ressaltou também a gran-                       de concentração de terras, que varia de       Estado elaborar este plano de reforma      decisão inédita da Justiça Federal,
                de diferença entre a agricultura familiar,                    0 a 1, onde o zero seria a perfeita distri-   agrária e também vamos insistir para       em 2007, confirmada agora pelo
Outubro–2010 10 fruto de reforma agrária, e o agrone-                         buição de terras e o 1 a mais alta con-       que isto seja feito”, finalizou. n         TRF-3. n  (MPF/MS)
Justiça




                                                                                     Fotos: Cimi Regional Leste/Equipe Itabuna
MPF cita união por
atos abusivos da PF
A União pode pagar indenização de 500 mil reais à comunidade
Tupinambá, na Bahia por atos abusisvos da Polícia Federal. A União
foi citada em 25 de setembro, mas só agora a notícia veio a público




O
         Ministério Público Federal        policiais já chegaram à Fazenda Santa
         (MPF), na pessoa da procura-      Rosa disparando tiros.
         dora Flávia Galvão Arruti, da         Assustados, muitos indígenas fu-
         Procuradoria da República em      giram para a mata. Mas os indígenas
Ilhéus, propôs uma Ação Civil Pública      José Otávio Freitas Filho, Carmelindo
por dano moral coletivo e individual       Batista da Silva, Osmário de Oliveira                      Contexto                     o que só confirma as denúncias que a
                                                                                                                                   comunidade vem fazendo”, afirmou.
em face da União, pelos atos pratica-      Barbosa, Ailza Silva Barbosa e Alzenar          O conflito pela disputa de terras
                                                                                                                                       Ainda de acordo com Saulo, a ação,
dos pela Polícia Federal (PF) no dia 2     Oliveira Silva foram surpreendidos indígenas na região sul da Bahia é de
                                                                                                                                   além do ganho jurídico, é também um
de junho de 2009 em relação à comu-        pelos agentes e se renderam, vendo a conhecimento público e a própria ação
                                                                                                                                   ganho político. “Esta ação significa
nidade Tupinambá. O MPF requer a           impossibilidade de fuga do local.           do MPF salienta o fato. “A comunidade
                                                                                                                                   simbolicamente uma reação à criminali-
condenação da União ao pagamento               Em seus depoimentos, os agentes indígena Tupinambá da Serra do Padei-
                                                                                                                                   zação que vem sendo instaurada contra
estipulado no valor de 500 mil reais,      confirmaram o uso da força e da arma ro, juntamente com outras comunida-
                                                                                                                                   os povos indígenas. Esperamos que
que deve ser revertido à comunidade.       teaser (ferramenta que aplica choques des, há anos luta pelo reconhecimento
                                                                                                                                   ajude a inibir outros fatos como este”,
O MPF entrou com a ação no dia 26 de       elétricos) para imobilizar os indígenas e demarcação da terra indígena. No ano                                                          O povo
                                                                                                                                   declarou. No entendimento de Saulo, a
julho de 2010.                             citados. Na ação, o MPF afirma que só de 2009 foi publicado pela Funai, após                                                            Tupinambá
                                                                                                                                   petição também identifica e deixa clara         vem sofrendo
    A ação foi movida visando reparação    com o depoimento dos policiais já é realização de minucioso estudo antro-                                                               seguidos
                                                                                                                                   a prática racista do órgão do governo
dos danos sofridos por indígenas Tupi-     possível afirmar que a PF empregou pológico, o relatório de demarcação                                                                  ataques e
                                                                                                                                   contra os povos indígenas.
nambá quando, em junho do ano passa-       força desnecessária e a situação reclama da Terra Indígena Tupinambá.”, afirma.                                                         é vítima
                                                                                                                                                                                   constante dos
do, foram violentados e torturados por     por indenização em favor da comu-               A petição também ressalta que o               “Não dá para amenizar”                    desmandos de
agentes da PF. Segundo os agentes, eles    nidade indígena ofendida. “...consta direito dos indígenas à terra é um di-                 Glicéria Tupinambá, liderança da            fazendeiros
se dirigiram à Fazenda Santa Rosa, mu-     nos autos a inacreditável narração de reito originário e que portanto não é             comunidade e irmã do cacique Babau,             e da própria
                                                                                                                                                                                   Polícia
nicípio de São José da Vitória (BA), no    que fora necessária a aplicação de cho- necessário nenhum ato do poder público          destacou a importância da ação. “Quan-          Federal. Uma
intuito de constatar o delito de esbulho   ques elétricos por mais de                               para constituir tal direito,   do meu irmão estava preso, eu estive            indenização
                                                                                                                                                                                   seria um
possessório, ou seja, invasão de terras.   quatro minutos e de spray       A petição ressalta sendo os procedimentos               no MPF e me avisaram que estavam                pequeno
Na ação, o MPF apresenta as versões da     de pimenta para que os           que o direito dos       demarcatórios somente          entrando com essa ação, mas eu acabei           esforço para
PF e dos indígenas, mas, em ambos os       seis policiais federais bem indígenas à terra é declaratórios. Assim, o                 não acreditando. Agora estou vendo              amenizar as
                                                                                                                                                                                   consequências
casos, o emprego excessivo da força é      treinados desarmassem e um direito originário conflito na região da Serra               que é verdade. Não dá para amenizar             da violência.
configurado.                               imobilizassem dois índios:         e que portanto        do Padeiro teve início com     tudo que já passamos, mas é o mínimo
    Assim, tendo ambos os depoimen-        Otávio e Osmário.”, decla-       não é necessário        o fato de os integrantes da    que podemos receber por todo esse
tos e os exames de corpo de delito, o      ra a procuradora na ação.         nenhum ato do          comunidade retomarem           sofrimento.”, declarou.
MPF constatou que o modo de agir da            A ação também mostra           poder público         suas terras tradicionais,          Segundo Glicéria, a luta pela terra
PF configurou-se em verdadeira tortura     que, independente da for-       para constituir tal      que estão invadidas por        é muito ampla e ultrapassa essas ques-
contra os indígenas.                       ma como ocorreram os fa-         direito, sendo os       fazendeiros.                   tões, mas a ação é uma pequena vitória.
                                           tos, a única conclusão pos-       procedimentos              Para Saulo Feitosa, se-    Glicéria esteve presa no Conjunto Penal
               Os fatos                    sível é a necessidade do           demarcatórios         cretário adjunto do Cimi, é    de Jequié de junho até o final de agosto
    De acordo com indígenas (o que foi     pagamento de indenização              somente            preciso destacar a atitude     deste ano. Ela foi detida, juntamente com
confirmado pelos exames de corpo de        pela União à comunidade             declaratórios        do MPF. “Por esta ação, po-    seu filho de apenas dois meses à época,
delito), a PF utilizou spray de pimenta    indígena e que a pena deve                               demos perceber que o MPF       quando desembarcava no aeroporto de
nos olhos das vítimas, deram tapas,        ser aplicada “em razão da violência, assume o seu dever constitucional de               Ilhéus na volta de uma reunião com o
chutes, pisões, choques elétricos e        humilhação, desrespeito aos direitos defesa dos povos indígenas. Além disso,            presidente Lula, em Brasília. Os motivos
puxões de cabelo. Em depoimento,           fundamentais que sofreram justamente deixa-se claro que a PF agiu de maneira            da prisão foram os mesmos de seu irmão:
os indígenas também afirmam que os         em virtude de serem indígenas”.             abusiva e causou danos à comunidade,        a luta pela terra. n (Com dados do MPF)




                                                                                                                                                                               11 Outubro–2010
Relato Missionário




                                                                                                                Fotos: Arquivo Cimi
                  A dor do povo
                  é a nossa dor
                                    Ir. Joana Aparecida Ortiz
                  Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa
                                           Senhora Aparecida




                  C
                           omo membro da Conferência
                           dos Religiosos do Brasil (CRB)
                           e da Congregação Franciscana
                           de Nossa Senhora Aparecida,
Irmã faz relato
  de visita aos   estive, entre os dias 19 e 22 de setem-
   Guarani: “Vi   bro, na região de Dourados (MS) junto
     de perto o
                  ao Cimi, numa visita aos acampamentos
    sofrimento,
       a dor do   e aldeias de partes da região de Rio
  povo Guarani    Brilhante, Douradina, Dourados, Coro-
Kaiowá na luta
                  nel Sapucaia e Ponta Porã. Vi de perto            Evangelho vivo de cada dia                                   presença da Igreja, exceto as irmãs e         e do nosso lado uma palavra do Cimi.
pela retomada                                                                                                                    agora Pe. Teodoro, que fala o Guarani             Senti como no tempo de Jesus. “Daí-
        de seus   o sofrimento, a dor do povo Guarani               Dia 20 fomos para Passo Piraju –
       Tekoha”    Kaiowá na luta pela retomada de seus                                                                           e está sendo uma presença animadora           -lhes, vós mesmos de comer”, assim é
                                                                uma terra de retomada. O Evangelho de
                  Tekoha (terra sagrada).                                                                                        ao povo junto com as irmãs.                   o papel do Cimi. Não uma comida que
                                                                hoje nos diz que a luz não foi feita para
                      Vários acampamentos sofrem ame-                                                                                           Esperança                      sustenta no momento, mas o alimento
                                                                ficar escondida. Esta luz da luta do Cimi
                  aças, líderes são perseguidos, crianças                                                                                                                      que ajuda no protagonismo deste povo.
                                                                não pode ser escondida. Os avanços e                                  Dia 21 de setembro, Dia da árvore!
                  morrem de desnutrição, falta de atendi-                                                                                                                      Um alimento que ajuda na reconquista
                                                                lutas incansáveis destes missionários                            Véspera de primavera! Há sinais de es-
                  mento médico e alimentação adequada.                                                                                                                         de seus Tekoha, de sua dignidade como
                                                                e missionárias, verdadeiros profetas,                            perança. E como dizia D. Hélder: “onde
                  Em algumas áreas nunca tiveram a pre-                                                                                                                        pessoa humana. Este testemunho do
                                                                deve ser publicado nos quatro cantos                             existe um restinho de esperança é meu dever
                  sença da Funasa, alegando serem áreas                                                                                                                        Cimi é uma resposta ao mandato de
                                                                do mundo. Quanto brilho nos olhos do                             alimentá-la”.
                  de conflito. Em outras, a alimentação                                                                                                                        Jesus acima citado.
                                                                povo indígena quando recebe a presen-                                 O Evangelho de hoje fala que depois
                  entregue pela Funai chega com atraso.         ça do Cimi em sua terra.                                         da morte de João Batista, Jesus foi com                     Ponta Porã
                  Nestes lugares o Cimi está presente,              Tivemos o depoimento do senhor                               seus discípulos para um lugar afastado.
                  animando o povo em sua luta.                                                                                                                                      No mesmo dia fomos para Ponta Porã
                                                                Carlito e seu genro Valmir. Estes de-                            As multidões vão ao encontro dele. Uma
                      Como CRB Regional, no que tange à                                                                                                                        onde Egon tinha uma entrevista sobre
                                                                poimentos foram proféticos da dor do                             multidão faminta e doente. Jesus as
                  questão indígena, assumimos uma prio-                                                                                                                        o caso do Ypoí, uma área de retomada
                                                                povo Guarani Kaiowá. Quem grita os                               acolhe e fala a elas do Reino e restitui a
                  ridade que ai está: Avivar a dimensão                                                                                                                        onde os povos indígenas se encontram
                                                                seus direitos, corre o risco de ser aba-                         saúde de todos que precisavam de cura.
                  profético-missionária da CRB, atuando                                                                                                                        sitiados pelos produtores rurais. Neste
                                                                fado pelo poder, pela polícia repressiva.                             Hoje eu vivenciei esta passagem
                  em rede e parcerias nas novas periferias                                                                                                                     local foram assassinados Genivaldo e
                                                                Assim aconteceu com este povo. Mas                               do Evangelho nas pessoas do Cimi em
                  e fronteiras, intensificando a opção pe-                                                                                                                     Rolindo Vera, professores indígenas.
                                                                como dizia Carlito: “Deus conhece, Ele                           contato com os povos indígenas. Fomos
                  los empobrecidos, assentados e indíge-        sabe... Deus nos deixou este ‘Lençol’(terra).                    visitar a retomada de Kurusu Ambá, mu-             Retornando para Dourados, no
                  nas e fortalecendo o compromisso com          Só que ela está com um novo lençol que não                       nicípio de Coronel Sapucaia, fronteira        entardecer, o sol se pondo e o luar
                  as causas sociais, econômicas, políticas      é o dado por Deus”.                                              com o Paraguai. Este povo é mais um           surgindo entre a árvore seca à beira da
                  e ambientais.                                     Após depoimento indígena, Egon                               sinal de resistência e luta em busca de       Rodovia 463, chegamos ao barraco de
                                                                Heck informava a comunidade sobre o                              seu Tekoha. Já é a quarta vez que voltam      dona Damiana Cavanha – líder indígena
                           Laranjeira Ñanderu                   andamento dos processos e situações                              ao seu território. A Funai está fazendo o     do Acampamento Apycaí, Curral de
                     Dia 19 de setembro, na beira da BR         das demais comunidades em luta e re-                             trabalho de identificação. Chegamos de        Arame. Esta retomada já tem dez anos.
                 163, acampamento Laranjeira Ñanderu,           tomada. Esta rede e sintonia fortalecem                          surpresa, pois é difícil a comunicação.            Assim passaram estes dias nestas
                 onde desci do ônibus e fui acolhida por        e animam as comunidades.                                              Logo ao chegarmos à aldeia a jovem       terras indígenas que esperamos, não
                 este povo sofrido e alegre. Estava no              Paulo Suess lhes dá uma palavra de                           Berenice nos falou sobre uma criança          demore muito, sejam devolvidas aos
                 momento da reza de acolhida. Lá já se          conforto e esperança dizendo que a                               de apenas três anos, que se encontrava        seus verdadeiros donos. Ficaram em
                 encontravam os missionários do Cimi:           “luta indígena é como o rio, mesmo sendo                         gravemente enferma. Prontamente a             mim a marca, a convicção e o desejo
                 Egon Heck (MS), Paulo Suess (Nacional)         desviado do seu curso, um dia ele retoma o                       equipe do Cimi foi ao local onde se en-       cada vez mais forte de continuar nesta
                 e Geraldo (MS), também o líder indígena        seu leito normal. E assim está acontecendo                       contrava a criança e sua mãe e de lá as       causa e de levar às demais pessoas que
                 Zezinho que partilhava conosco a reali-        com os povos indígenas do Mato Grosso do                         acompanhamos até a Casa do Índio em           ainda desconhecem esta realidade.
                 dade. Para mim foi um momento único.           Sul e tantos outros povos”.                                      Amambaí. Laila com a criança doente                Diante do Evangelho de hoje encer-
                 O sonho de estar junto a este povo se              À tarde fizemos visita a Comunida-                           nos braços. A mãe da criança ao lado          ro agradecida a Deus, a Congregação,
                 tornava realidade.                             de Religiosa das Irmãs da Consolata.                             com outro filho no colo. A criança sem        a CRB e em especial ao Cimi, por este
                     Seguimos para Dourados. A tar-             Elas partilharam sobre a realidade de                            forças, desidratada, pedia água. Egon na      espaço e esta oportunidade de vivenciar
                 de fomos ao acampamento Ita’Y                  trabalho com as mulheres indígenas:                              direção acelerava para chegar a tempo         mais de perto o Evangelho de Jesus
                 Ka`Aguyrusu, município de Douradina.           projeto corte costura e acompanha-                               de socorrê-la. A distância era longa. Na      Cristo junto aos Povos Indígenas.
                 Nesta região o povo sofre perseguições         mento religioso. Falaram do grande                               manhã do dia seguinte nos informaram              “Em qualquer casa onde vocês entrarem,
                 e ameaças constantes por parte dos             desafio de grupos religiosos na aldeia                           que ela havia morrido.                        fiquem aí, até vocês se retirarem”. Agrade-
                 produtores rurais. Estão sitiados. Seus        que vão matando a expressão própria                                   Como em todos os locais por onde         cida pela acolhida e mais fortalecida pelo
                 barracos foram queimados e os mesmos           dos indígenas. É fraco o catolicismo.                            passamos, houve um momento de ESCU-           testemunho incansável da equipe do Cimi –
 Outubro–2010 12 despejados na beira da estrada.                Há pouca presença ou quase nada da                               TA por nossa parte, sobre suas realidades     Campo Grande e Dourados (MS). n
Homenagem




                                                                                     Foto: Arquivo Cimi
Cimi recebe prêmio
João Canuto
Homenagem é creditada à atuação dos missionários e
missionárias da entidade
                   Cleymenne Cerqueira                Homenageado
                                Repórter
                                               A homenagem ao Cimi é resulta-
                                           do da atuação da entidade junto aos



O
         Conselho Indigenista Missio-      povos indígenas do país. O Conselho
         nário (Cimi) recebeu no dia       Indigenista é um organismo vinculado
         21 de outubro, o Prêmio João      à Conferência Nacional dos Bispos do
         Canuto 2010. A entidade foi       Brasil (CNBB).                                               O movimento indígena já recebeu             O Movimento Humanos Direitos                Vice-
                                                                                                                                                                                                presidente do
representada por seu vice-presidente,          O Cimi conta atualmente com 114                       outras homenagens do Prêmio João           atua diretamente por meio de execução           Cimi, Roberto
Roberto Antônio Liebgott, que credita a    equipes de trabalho, formadas por                         Canuto por sua atuação junto aos           de projetos, programas ou planos de             Liebgott,
homenagem à atuação dos missionários       leigos e religiosos, que atuam em                         povos indígenas. Em 2006, dom Pedro        ações desenvolvidos em prol da paz e            recebe a
                                                                                                                                                                                                premiação
e missionárias da entidade.                diversas regiões do país. As ativida-                     Casaldáliga, um dos fundadores do          dos direitos humanos. Seu trabalho está         da entidade
     O prêmio, oferecido anualmente        des junto às comunidades indígenas                        Cimi, também foi premiado.                 voltado para os problemas do trabalho           Humanos
                                                                                                                                                escravo, dos abusos praticados contra           Direitos, no RJ
pelo grupo de pesquisa Trabalho            têm como princípios o respeito pela
Escravo, do Núcleo de Estudos de Po-       alteridade indígena e sua pluralidade                                  Premiações                    crianças e adolescentes e sobre as
líticas Públicas em Direitos Humanos       étnico-cultural, bem como a opção e                           Ao longo de sua existência, o Con-     questões que envolvem meio ambiente
(Nepp-DH), da Universidade Federal         compromisso com a causa indígena                          selho Indigenista Missionário vem rece-    e comunidades tradicionais, como as
do Rio de Janeiro, e pelo Movimento        dentro de uma perspectiva mais ampla                      bendo seguidas homenagens por sua          indígenas e quilombolas.
Humanos Direitos (MHuD), tem por           de uma sociedade democrática, justa                       atuação. Em 2009, a entidade recebeu           Diversos artistas e intelectuais fa-
objetivo dar visibilidade a empreende-     e solidária.                                              o Prêmio Victor Gollancz, da entidade      zem parte do quadro de associados do
dores sociais e organizações rurais e          Para o vice-presidente da entidade,                   alemã Associação para Povos Ameaçados      Movimento. Entre eles, os atores Chico
urbanas que se dedicam à defesa dos        a premiação vem em função da luta                         (GfbV). No ano anterior, o Cimi recebeu    Diaz, Carla Marins, Camila Pitanga,
direitos humanos.                          do Conselho pela garantia de direitos                     o IX Prêmio USP de Direitos Humanos,       Wagner Moura, Pepita Rodrigues, Os-
     Este ano, além do Cimi, receberam     dos povos indígenas. “O prêmio faz                        na categoria institucional. A premiação    mar Prado, Letícia Sabatella e Dira Paes.
homenagens o Comitê Popular pela Er-       um reconhecimento ao trabalho que                         homenageou pessoas e instituições que,
radicação do Trabalho Escravo no Norte     os missionários e missionárias do Cimi                                                                               Prêmio
                                                                                                     através de suas atividades exemplares,
Fluminense, Alexandre Anderson, MV         vêm desenvolvendo ao longo de quase                       contribuíram para a difusão e divulgação      O nome do Prêmio é uma home-
Bill, Leonardo Sakamoto; Movimento         40 anos pela defesa dos direitos dos                      dos direitos humanos no Brasil.            nagem ao primeiro presidente do
11 de Dezembro, de Santo Antônio           povos indígenas”.                                             Este ano, além da presente home-       Sindicato dos Trabalhadores Rurais
de Jesus, Bahia; Zilda Arns, in memo-          Liebgott fala ainda sobre a impor-                                                               do Rio Maria, no Pará, João Canuto de
                                                                                                     nagem, Dom Erwin Kräutler, presiden-
riam; Dom Xavier Gilles de Maupeou         tância da iniciativa: “Essa premiação                                                                Oliveira, assassinado em dezembro
                                                                                                     te da entidade e bispo da Prelazia do
d´Ableiges e o Instituto Materno-          é de suma importância porque a ação                                                                  de 1985. Caso que levou o Brasil à
                                                                                                     Xingu, foi um dos quatro ganhadores
-Infantil de Pernambuco (Imip).            missionária recebe acompanhamen-                                                                     condenação pela Corte Interamericana
     Como nas edições anteriores, a pre-   to de outros setores da sociedade,                        do Prêmio Right Livelihood 2010, o         de Direitos Humanos da OEA, tanto
miação deste ano foi realizada durante     não somente aqueles atrelados à                           prêmio Nobel Alternativo da Paz. Dom       pela demora no julgamento do crime,
as atividades do VII Fórum Anual do        causa indígena. O acompanhamento                          Erwin foi homenageado também com           como pelo fato de o Estado não ter
MHuD, que na ocasião debateu o tema        e apoio vêm inclusive de artistas e                       o Prêmio de Direitos Humanos José          garantido sua segurança, apesar de ter
“Escravidão Contemporânea e Questões       intelectuais, que nos rendem essa                         Carlos Castro, oferecido pela Ordem        recebido as denúncias do sindicalista
Correlatas”.                               homenagem”.                                               dos Advogados do Brasil, Seção Pará.       pelas ameaças sofridas. n




                                                                                                     Em visita Ad limina, bispo de São
                                                                                                     Gabriel da Cachoeira (AM) e Papa bento
                                                                                                     XVI conversam sobre questões indígenas

                                                                                                          O
                                                                                                            Bispo de São Gabriel da Cachoeira, dom Edson Damian, foi recebido pelo
                                                                                                            Papa Bento XVI, no dia 1º de outubro, em visita Ad limina. Dom Edson con-
                                                                                                            versou com o Papa durante 20 minutos, acompanhado do Pe. Reginaldo
                                                                                                     Cordeiro, salesiano, e indígena do povo Arapaso, de S. Gabriel da Cachoeira, que
                                                                                                     havia sido ordenado presbítero por dom Edson no dia 15 de agosto deste ano.
                                                                                                                                            Segundo dom Edson, a visita foi bastante
                                                                                                                                        proveitosa e o Papa mostrou seu carinho espe-
                                                                                                                                        cial pelos índios e pela Amazônia. Dom Edson
                                                                                                                                        afirmou que Bento XVI fez muitas perguntas
                                                                                                                                        sobre os indígenas da Amazônia e em especial
                                                                                                                                        do rio Negro. Ao final da visita, dom Edson
                                                                                                                                        presenteou o Papa com um colar indígena. n
                                                                                                                                                                                            13 Outubro–2010
Eleições 2010
                        Entidades indígenas enviam carta pública
                        aos presidenciáveis
                        “
                           E
                                   speramos que o próximo                                                                                                                   que se encontram, bem
                                   governo coloque de fato a                                                                                                                 como todo e qualquer
                                   questão indígena na centrali-                                                                                                              projeto do governo
                                   dade das políticas do Estado,                                                                                                              federal que priorize
                        garantindo os nossos direitos de cida-                                                                                                                o desenvolvimento
                        dãos brasileiros, mas também de povos                                                                                                                 em detrimento à vida.
                        com direitos coletivos diferenciados,                                                                                                                    “Diante desse
                        com quem este país tem ainda enormes                                                                                                                quadro, somos contra
                        dívidas históricas e sociais por pagar”                                                                                                           qualquer proposta de de-
                            A poucos dias do segundo turno das                                                                                                          senvolvimento que, mesmo
                        eleições deste ano, entidades represen-                                                                                                       se dizendo sustentável, não
                        tativas dos diversos povos indígenas do                                                                                                   contraria a lógica mercantilista,
                        país enviaram carta pública aos candi-                                                                                               desenvolvimentista a qualquer custo e
                        datos à Presidência da República, José                                                          biodiversidade e outras poten-      o consumo exacerbado, dominado pela
   Carta com as         Serra (PMDB) e Dilma Rousseff (PT). A                                                           cialidades, incluindo uma das       privatização da água, das florestas, da
 reivindicações         iniciativa foi motivada pelo momento                                                            maiores diversidades étnicas        atmosfera, enfim da vida, rompendo a
      indígenas
 assinada pelos         político-eleitoral quando os candidatos                                                         do planeta, que há milhares         harmonia e a unidade entre vida-socie-
presidenciáveis         apresentam propostas que afetarão o                                                             de anos preservamos”. [Trecho       dade e cultura que milenarmente pra-
      antes das
                        futuro do país e o destino de todos                                                             da carta].                          ticamos”. [Trecho da carta na íntegra].
        eleições
                        os brasileiros e brasileiras, entre eles                                                            Mesmo com o reconheci-              O documento é assinado pela Arti-
                        os povos indígenas, também cidadãos                                                             mento da diversidade etnocul-       culação dos Povos Indígenas do Brasil
                        desta nação.                               governo federal e também a criminali-      tural do país e da garantia dos direitos      (APIB), Coordenação das Organizações
                            O documento aborda a garantia          zação de lideranças indígenas.             dos povos indígenas na Constituição Fe-       Indígenas da Amazônia Brasileira
                        dos direitos dos povos indígenas no            “A partir desta matriz neocolonial,    deral Brasileira, esses povos continuam       (COIAB); Articulação dos Povos e Orga-
                        novo governo, bem como agilidade no        setores ou representantes do latifúndio,   vítimas de preconceito, discriminação         nizações Indígenas do Nordeste, Minas
                        atendimento de antigas demandas, que       do agronegócio, das mineradoras, das       e racismo. Muitas comunidades têm             Gerais e Espírito Santo (APOINME);
                        têm, historicamente, pautado a luta        madeireiras, dos grandes empreendi-        enfrentado, inclusive, ações violentas e      Articulação dos Povos Indígenas do
                        desses povos na defesa de suas terras,     mentos ou dos próprios governos têm        truculentas, como perseguições, amea-         Sul (ARPINSUL); Articulação dos Po-
                        identidades e culturas. O texto traz       se articulado para reverter os direitos    ças, prisões e assassinatos.                  vos Indígenas do Pantanal (ARPIPAN);
                        referência a ações que afetam direta       constitucionais dos povos indígenas e          Os povos indígenas manifestam             Grande Assembléia do Povo Guarani
                        e indiretamente a vida desses povos,       tomar por assalto as terras indígenas      através da carta total repúdio à atual si-    (Aty Guasu) e Articulação dos Povos
                        como os grandes empreendimentos do         e os recursos naturais, hídricos, da       tuação de desassistência e violência em       Indígenas do Sudeste (ARPINSUDESTE).


                                                                                    Veja principais reivindicações
                            1) Aprovação do Novo Estatuto dos Povos Indígenas, engavetado há mais                    rodovias, ferrovias, portos, hidrovias, torres e linhas de transmissão e
                               de 15 anos no Congresso Nacional;                                                     outros empreendimentos do Programa de Aceleração do Crescimento
                            2) Aprovação do Projeto de Lei e efetivação do Conselho Nacional de Política             (PAC II);
                               Indigenista;                                                                    6)    Fim da criminalização e prisão arbitrária de lideranças indígenas que
                            3) Implementação da Secretaria Especial de Saúde Indígena e efetivação da                lutam pelos direitos de seus povos e comunidades;
                               autonomia política, financeira e administrativa dos Distritos Sanitários        7)    Criação e implementação da Política Nacional de Gestão Territorial e
                               Especiais Indígenas (DSEI`s), com a participação plena e controle social              Ambiental das Terras;
                               efetivo dos nossos povos e organizações nos distintos âmbitos, local e          8)    Adequação da Fundação Nacional do Índio (Funai) a um novo patamar
                               nacional;                                                                             da política indigenista, que não seja paternalista, assistencialista, tutelar
                            4) Demarcação, proteção e desintrusão de todas as terras indígenas priori-               e autoritário, em respeito ao reconhecimento da autonomia dos povos
                               zando com urgência o caso crítico dos povos indígenas de Mato Grosso                  indígenas e conforme suas reais necessidades e aspirações;
                               do Sul, principalmente os Guarani Kaiowá;                                       9)    Garantia de acesso de todos os indígenas à educação de qualidade, de
                            5) Não construção de empreendimentos que impactam direta ou indi-                        forma continuada e permanente, nas aldeias, na terra indígena ou próxima
                               retamente as terras indígenas, tais como: a Transposição do Rio São                   da mesma, conforme a necessidade de cada povo;
                               Francisco, o Complexo Hidrelétrico de Belo Monte e as Pequenas Cen-             10)   Participação dos povos indígenas na discussão e estabelecimento de
                               trais Hidrelétricas (PCH`s) no Xingu e na região Sul do país, bem como                quaisquer medidas ou políticas públicas que os afete. n




                            Ouça o Potyrõ                                                                                Também estamos on line pelo portal www.a12.com

                            Todos os sábados e domingos, às 12h35,
                            dentro do Programa Caminhos da Fé, na rádio Aparecida.

  Outubro–2010     14
                            A transmissão é para todo o Brasil.                            820 kHz
Resenha
Estrangeiros na Própria terra
Presença Guarani e Estados Nacionais
                                Leda Bosi    tulo que apresenta a importância das na esfera transcendental, a busca da
                                   Sedoc     reduções no universo Guarani (século terra sem mal, espaços preservados
                                             18), em que a redução implicava aos que possibilitem viver a passagem para



O
         autor é membro do Conselho          indígenas abandonar seus costumes o sagrado. Nesse sentido, são vários
         Indigenista Missionário (Cimi),     e se submeter às regras dos religiosos os depoimentos colhidos pelo autor,
         atuando há mais de 20 anos          e ao trabalho disciplinado, vê-se que sobre a quantidade de deslocamentos
         com populações indígenas,           a redução não foi uma tarefa fácil. O efetuados pelos Guarani, durante a vida,
trabalhando diretamente nas aldeias e        texto mostra alguns aspectos dos con- tendo como ponto de partida alguma
por meio de pesquisas científicas sobre      frontos guarani com o sistema colonial aldeia situada em território paraguaio,
esses povos. O texto ajuda a compreen-       e as estratégias de resistência por eles argentino ou brasileiro. O que se infere
der o processo da ocupação territorial       adotadas. Destaca-se aqui, o fato de se desses depoimentos, idas e vindas de
e a situação fundiária do povo Guarani.      ver o Guarani não apenas como vítima e para muitas direções, são em geral
    O povo indígena Guarani é atual-         ou figurante relacionado a um siste- a determinação de não aceitar a domi-
mente um dos maiores povos do Cone           ma, mas como agente dinamizador de nação, a busca de espaços adequados
Sul da América. Ele se faz presente em       sua história, que resistiu, enfrentou e às necessidades de viver as relações
pelo menos cinco países: Brasil, Argen-      participou de projetos com colonos e sociais próprias , seja na esfera reli-
tina, Uruguai, Paraguai e Bolívia, amplo     missionários.                              giosa mítica, seja na esfera econômica
território de ocupação e mobilidade              Percorrendo as páginas do livro, e social.
tradicional guarani, onde esse povo se       acompanhamos a ori-                                                                       Clóvis Antonio Brighenti
                                                                                                                                       Florianópolis : UFSC; Chapecó : Argos, 2010
movimenta e vive num território não          gem e a dispersão dos
                                                                                                                                       282 p.
exclusivo, que vai além das fronteiras       Guarani, sua organiza- Eu sou nascido no Passo Feio (RS). Morei
dos Estados-Nação.                           ção linguística, cultura uns tempos na Limeira (Xapecozinho), no
    O livro é resultado de pesquisa e        e organização social,                                                                     Ressalte-se aqui a importância da
                                                                           Paraná, e depois vim pra Argentina. Mas
análise junto a aldeias guarani no esta-     a sua economia e, em                                                                  bibliografia consultada, histórica, ar-
do de Santa Catarina (Brasil) e na provín-   especial, um aspecto pra lá não dava (referindo-se às aldeias onde                    queológica, antropológica e da ciência
cia de Misiones (Argentina). Apresenta       fundamental do modo morou, em Misiones). Daí vim aqui (Peperi                         política, legislação indigenista nacional
um estudo comparado do tratamento            de ser Guarani, a rela- Guaçu), aqui ninguém incomoda(...).                           e internacional. Estudos esses, acres-
sociojurídico entre esses dois países no     ção que estabelecem                                                                   cidos de observação direta em campo
                                                                                                         Liderança Guarani M.S
que tange à especificidade Guarani. Em       com a terra. Além de                                                                  e acompanhamento das conjunturas
Santa Catarina há, no momento, mais          ser um espaço de re-                                                                  locais. A esse conjunto destaca-se a
de 20 aldeias, localizadas sobretudo         sidência e cultivo, é, principalmente,         Fruto dos constantes deslocamen-       apresentação de mapas, gráficos, qua-
no litoral, e em Misiones esse número        o lugar de vivência cultural e religiosa. tos, muitas vezes nas discussões, deba-     dros, figuras e fotografias. Esse rico
ultrapassa 50                                A terra se identifica com o tekoa – a tes, na etnografia, é comum ouvir ou ver        material oferece subsídios e desafios a
    O estudo abrange a história do povo      terra perfeita, a terra sem mal, o ideal as expressões “são índios paraguaios”,       pesquisadores, técnicos de instituições
Guarani do passado ao presente, antes        de terra para os Guarani, lugar onde se são “estrangeiros”, “vieram da Argen-         governamentais e ONGs, além de políti-
da invasão européia, durante o período       dão as condições de possibilidade do tina”. Nesse sentido, segundo o autor,           cos, juristas, entre outros profissionais
colonial e o que ocorre atualmente.          modo de ser Guarani.                       pode-se fazer uma análise político/        e interessados.
Dentro da história do Brasil colônia,            Na busca dessa terra, o povo Gua- ideológico, especialmente por parte do              As informações e reflexões apre-
vemos como os mecanismos culturais           rani se distingue pelos constantes Estado, que destaca esta questão para              sentadas pelo autor são de grande
dos Guarani possibilitaram a resistência     deslocamentos. Há várias análises de negar-lhes ou reduzir-lhes os direitos,          valia para que se encontrem formas
depois de cinco séculos de contatos e        historiadores, antropólogos, para expli- argumentando que, sendo estrangeiros,        de avançar em definições e resultados
conflitos com os não-indígenas, e tei-       car esse constante ir e vir. Mas o aspecto os direitos não serão os mesmos que        centrados na temática fundiária – eixo
mosamente continuam insistindo em            comum nessas análises é a busca, pelos dos brasileiros, especialmente quanto          norteador do trabalho, e que possam
manter a identidade e em lutar para          Guarani, de espaço, de terra, tanto na ao reconhecimento e à demarcação das           ser avaliados como positivos pelos
preservar sua rica cultura. No capí-         esfera física - espaço concreto, quanto terras que tradicionalmente ocupam.           próprios Guarani. n




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    agência: 0606-8 – Conta Corrente: 144.473-5
                                                                               sds – ed. venâncio iii, salas 309/314 – CeP: 70393-902 – brasília-dF
    ConselHo indigenisTa missionÁrio                                           – Para a sua segurança, se for enviar cheque, mande-o por carta registrada!
    envie cópia do depósito por e-mail, fax (61-2106-1651) ou                  – Comunique sempre a finalidade do depósito ou cheque que enviar.
    correio e especifique a finalidade do mesmo.                               – Inclua seus dados: nome, endereço, telefone e e-mail.
                                                                         P    r   e   ç   O    s
           Ass. anual: R$ 40,00               *Ass. de apoio: R$ 60,00                  América Latina: US$ 40,00                 Outros países: US$ 60,00
          * Com a assinaTura de aPoio voCê ConTribui Para o envio do jornal a diversas Comunidades indígenas do País.
                                                                                                                                                                               15 Outubro–2010
Os Payayá massacram paulistas
                                                        Benedito Prezia    Apresentavam alguns traços culturais dos povos       este português continuava se envolvendo no
                                                             Historiador   de língua jê, como a corrida de tora, além de um     tráfico de escravos. Assim em 1657 foi chamado




                     S
                                                                           endocanibalismo realizado no ritual funerário. É     para reprimir os ataques do Payayá, no interior
                              e o século 16 significou a conquista do      possível que, como os Tupi, praticassem também       baiano, a pedido do governador-geral. Embora
                              litoral do Brasil pelos portugueses, no      a antropofagia, como afirmam relatos da época.       sexagenário, Calheiros aceitou este desafio, do
                              século seguinte ocorreu a conquista              Incapaz de deter os ataques deste belicoso       qual se arrependeria mais tarde.
                              do interior, onde viviam povos, na sua       povo, o governador-geral Francisco Barreto, em           Em fevereiro do ano seguinte o batalhão
                              maioria de língua jê. Não sem razão fo-      1657, fez um apelo aos paulistas, já que tinham      paulista, comandado por Domingos Calheiros e
                    ram chamados de muralhas do sertão, pois muito         fama de serem os únicos a controlar as rebeliões     por seus dois adjuntos, Fernando de Camargo, o
                    dificultaram a expansão lusitana.                      indígenas. O que mais os animavam nestas ações       moço, e Bernardo Sanches de Aguiar, passaram
                        Entre os vários episódios ocorridos nesse sé-      é que parte do pagamento era feito com escravos      a recrutar na Bahia pessoas para a expedição,
                    culo, destaca-se a resistência do povo Payayá, que     capturados.                                          pois haviam trazido um número bem menor de
                    vivia nas regiões de Utinga e Jacobina, na parte           Os paulistas foram os grandes exterminado-       portugueses e guerreiros indígenas do que o
                    central da Bahia. Periodicamente desciam ao lito-      res dos indígenas do Vale do Paraíba e das mis-      prometido. Isso fez com que partissem somente
                    ral, atacando e destruindo fazendas e engenhos.        sões jesuíticas do Sul. Sem poder ter armas de       em outubro. Entre os membros da expedição
                        Os Payayá fazem parte da grande nação Kariri,      fogo, os Guarani aldeados e os padres viam suas      estavam vários paulistas conhecidos, como os
                    sendo muito apegados às suas tradições reli-           reduções serem destruídas e seus moradores se-       irmãos Francisco e João Jorge Leite e o capelão,
                    giosas, como se lê em alguns relatos jesuíticos.       rem levados como escravos para São Paulo. Com        Pe. Mateus Nunes de Siqueira, conhecido fazen-
                                                                               a autorização do rei da Espanha, os indígenas    deiro paulista, dono de terras e escravos.
                                                                                missioneiros começaram a se defender com            A bandeira sertanista, à medida que ia aden-
                                                                                armas de fogo, impondo muitas derrotas          trando o sertão, recrutava mais portugueses e,
                                                                                aos paulistas, como foi o caso de Domingos      sobretudo indígenas aliados, como os das aldeias
                                                                                Barbosa Calheiros e de seus comandados,         de Jaguaripe e Tocos. Nas terras de Francisco Dias
                                                                                   que foram derrotados pelos Guarani da        d’Ávila, grande latifundiário baiano, receberam
                                                                                         redução de Santa Teresa, na região                    um reforço importante de alguns
                                                                                              de Corrientes, atual Argentina.                     indígenas Payayá dissidentes, que
                                                                                                   Voltando para São Paulo,                        sob o comando de Jaquarique,
                                                                                                                                                  iriam servir de guias. A bandeira
                                                                                                                                            projetava exterminar não somente os
                                                                                                                                     Payayá, como também atacar as aldeias dos
                                                                                                                                Marakaguaçu e dos Tupini, na região de Orobó,
                                                                                                                                pois eram indígenas bastante apreciados, pelo
                                                                                                                                fato de falarem tupi, a mesma língua dos pau-
                                                                                                                                listas.
                                                                                                                                    A expedição que muito prometia, começou a
                                                                                                                                ver seus projetos frustrados à medida que pene-
                                                                                                                                trava naquele escaldante sertão. Na verdade os
                                                                                                                                  Payayá que se ofereceram como guias não eram
                                                                                                                                    dissidentes, mas guerreiros, disfarçados de
                                                                                                                                      amigos para levar os paulistas ao massacre.
                                                                                                                                            Na região de Tapuricé, próximo à Jaco-
                                                                                                                                        bina, o batalhão de quase 200 portugueses
                                                                                                                                         começou a ser atacado. A documentação
                                                                                                                                          da época não dá muitos detalhes, mas
                                                                                                                                          afirma que Domingos Calheiros conse-
                                                                                                                                          guiu escapar com vida, juntamente com
                                                                                                                                          alguns outros, que com muita dificul-
                                                                                                                                          dade chegaram até Salvador, depois de
                                                                                                                                          enfrentar fome e sede. Em 1660 já esta-
                                                                                                                                          vam em São Paulo, tendo este sertanista
                                                                                                                                         falecido logo depois, certamente devido
                                                                                                                                        às agruras desta jornada. O Pe. Mateus de
                                                                                                                                       Siqueira, que estava entre os sobreviventes,
                                                                                                                                      morrerá mais tarde, pois fará seu testamen-
                                                                                                                                   to em 1682, deixando para sua irmã fazenda e
 APOIADORES                                                                                                                       os escravos que possuía na região do Tatuapé,
                                                                                                                                  onde até hoje existe uma casa bandeirista.
                                                                                                                                                 Infelizmente a história de resistên-
                                                                                                                                             cia dos Payayá ainda não foi escrita,
                                                                                                                                             precisando ser recuperados seus feitos
                                                                                                                                             e seus heróis. n

Outubro–2010   16

Porantim 329 final

  • 1.
    Precariedade na educação Povo Pataxó Hã-Hã-Hãe Cimi recebe prêmio escolar indígena de Manicoré retoma terras tradicionais de Direitos Humanos Página 5 Página 7 Página 13 ISSN 0102-0625 Em defesa da causa indígena Ano XXXIII • N0 329 • Brasília-DF • Outubro – 2010 R$ 3,00 RetRospectiva Com a nova Secretaria de Saúde indígena haverá melhorias? Povo Bakairi, Mato Grosso – Foto – Arquivo Cimi Páginas 3, 8 e 9
  • 2.
    Opinião Porantinadas Lula, Dilma e os Guarani P assados os dias da ressaca, dos santos e mãe do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e Luz para Poucos O governo federal não cansa de apregoar dos mortos, um feriadão inesquecível, agora como presidente poderia ter a histórica iniciativa que as várias hidrelétricas previstas para voltemos aos primeiros habitantes dessa do “programa de aceleração da demarcação das terras serem construídas no país irão gerar energia Terra de Santa Cruz. Para boa parte deles Guarani (PAG)”. suficiente para atender a toda a população. todos esses rituais pouco significam. O Eles ainda propagam pelos quatro cantos gesto maior de cidadania e democracia, Pedra no sapato os benefícios do programa Luz para Todos, que foi apertar dois números, foi apenas Provavelmente a recém eleita presidente do país, que teria levado energia elétrica a quase mais um voto de esperança. Dilma Rousseff, herdará uma pedra no sapato – a não 100% das propriedades rurais brasileiras. No Em muitas comunidades houve celebração e come- demarcação e garantia das terras dos Kaiowá Guarani, entanto, diversas famílias continuam sem moração pela vitória da candidata Dilma Rousseff, que no Mato Grosso do Sul. É bom, que ao pensar a transição acesso a esses pretensos benefícios, como governará o país pelos próximos quatro anos. Já tarde (continuidade) a equipe não se esqueça dessa agenda, o povo Krahô, que até o momento não tem da noite, toca o telefone: - “Estamos comemorando a que via de regra fica para o final da fila, depois de con- rede de energia elétrica em suas aldeias. vitória da Dilma aqui na aldeia Paraguasu”, me diz uma templar todos os interesses envolvidos na composição liderança Guarani. Fico surpreso com a notícia e, ainda meio sonolento, os felicito pelo gesto. Felicito-os, pois do poder. O presidente Lula tem menos de dois meses para Desmatamento a cada eleição renovam a esperança, mesmo que depois, diminuir sua dívida histórica com o grande povo Gua- autorizado ao longo do mandato, amarguem muitas decepções. Ao rani, fazendo avançar os processos de identificação e Sob pressão, o órgão que deveria coibir telefone, ainda ouço as razões para tanta festa: “Pobre regularização das terras. O que Lula não conseguir fazer o desmatamento no país e fiscalizar as ma- vota em pobre!”. em oito anos, espera-se que Dilma faça nos primeiros zelas praticadas contra o meio ambiente, No dia seguinte vou conversar com Anastácio Guara- anos de governo. Os Kaiowá Guarani têm uma paciência o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente ni Kaiowá, liderança que por diversas vezes teve a opor- secular, mas não é infinita. E chegou ao limite. e Recursos Renováveis (Ibama), permite, tunidade de conversar com o presidente Lula e alertá-lo Os Guarani comemoraram com os milhões de bra- por meio de portaria, o desmatamento da grave situação em que vive seu povo por causa da não sileiros e pessoas no mundo inteiro, especialmente na de 3.202,63 dos 15 mil hectares da mata demarcação das terras. “Espero que Dilma, enquanto América Latina, a vitória da presidente Dilma. Especial- que sumirá para dar lugar ao lago da usina mulher, mãe e presidente, seja sensível à causa dos povos mente os pobres e empobrecidos deste país, os expulsos hidrelétrica de Jirau, no rio Madeira, em Ron- indígenas, e tenha especial consideração com a difícil das terras, os sem terra, os índios, os quilombolas e dônia. Inacreditável: o próprio presidente situação do grande povo Guarani e cumpra o disposto os excluídos, de uma maneira geral, esperam ter seus do órgão criou e assinou a Portaria 17, que na Constituição, demarcando todas as terras indígenas direitos respeitados e sua vida e dignidade asseguradas. lhe garante poderosos instrumentos para realizar esse tipo de centralização. e também garantindo os demais direitos que aí temos”. Com uma pitadinha de ironia e desconfiança, Anas- Egon Heck tácio arrisca uma sugestão “a senhora como ministra foi Cimi Regional MS Código Florestal para ruralistas MARIOSAN “O vice-presidente da Frente Parlamen- tar da Agricultura para a Região Sul, Luiz Carlos Heinze, afirmou que a situação de ins- tabilidade no campo tornou-se insustentável e poderá prejudicar a agricultura” (Jornal Alô Brasília, sobre o interesse de parlamentares em modificar o código florestal rapidamen- te). Colocando lobos para cuidar de ovelhas. É o que nos vem à mente quando lemos no jornal o grande interesse dos ruralistas pelo código florestal. Nos jornais, parlamentares ruralistas propagam a crise e a instabilidade no campo e a culpa é toda das florestas que são tão grandes neste país. Coitados, tão pobrezinhos, sem terras para plantar suas monoculturas, sem rios para causar erosões! Os parlamentares precisam urgentemente retomar a pauta do Código, pois os pobres latifundiários estão num sofrimento... ISSN 0102-0625 Na língua da nação indígena coNselho De reDAção eDITorAção eleTrôNIcA: reDAção e ADMINIsTrAção: Faça sua assinatura sateré-Mawé, PorANTIM Antônio C. Queiroz licurgo s. Botelho sDs - ed. Venâncio III, sala 310 pela internet: significa remo, arma, memória. Benedito Prezia (61) 3034-6279 ceP 70.393-902 - Brasília-DF adm.porantim@cimi.org.br Edição fechada em 11/11/2010 Egon D. Heck Tel: (61) 2106-1650 Dom Erwin Kräutler IMPressão: Preços: Publicação do Conselho Indigenista Missionário PresIDeNTe Nello Ruffaldi Gráfica Teixeira Fax: (61) 2106-1651 Paulo Guimarães (61) 3336-4040 e-mail: editor.porantim@cimi.org.br Ass. anual: r$ 40,00 (Cimi), organismo vinculado à Conferência Maíra Heinen Ass. de apoio: r$ 60,00 Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). eDITorA - rP 2238/Go Paulo Suess cimi Internet: www.cimi.org.br seleção De FoTos: Aida registro nº 4, Port. 48.920, América latina: Us$ 40,00 APOIADORES Cleymenne Cerqueira ADMINIsTrAção: cartório do 2º ofício eDITorA - rP 7901/DF ronay de Jesus costa outros Países: Us$ 60,00 de registro civil - Brasília Permitimos a reprodução de nossas matérias e artigos, desde que citada a fonte. As matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores. Outubro–2010 2
  • 3.
    Conjuntura Os rumos dapolítica indigenista e a criação da Secretaria Especial de Atenção à Saúde Indígena Roberto Antônio Liebgott Fotos: Arquivo Cimi Vice-presidente do Cimi A s expectativas, depois do plei- to eleitoral, não são muito animadoras para a maioria da população. No horizonte bra- sileiro não se vislumbram perspectivas de mudanças quanto à postura dos governantes na condução das políticas, bem como às concepções de modelo de Estado e de desenvolvimento, ambas privatistas e centradas na exploração dos recursos naturais, hídricos e mi- nerais. O fosso que se abriu, para con- solidar o projeto desenvolvimentista em curso, tende a ficar mais profundo expansão do agronegócio, que o atendimento às comu- As políticas indigenistas, e sombrio, haja vista que pretendem exploração madeireira). nidades seja garantido até tanto na acentuar a intervenção sobre o meio Não é sem razão que nos que a Sesai tenha condições saúde, ambiente objetivando, exclusivamente, últimos meses o órgão de fazê-lo. quanto em outras áreas a obtenção de lucros econômicos. indigenista priorizou o A Sesai estará vinculada ao carecem Os discursos e as propostas proferi- acompanhamento, ma- Ministério da Saúde e deve fa- de urgente peamento e estabeleci- zer a gestão do Subsistema de atenção dos na campanha eleitoral expressaram esta tendência pelos investimentos em mento de condicionantes Saúde Indígena vinculado ao grandes obras direcionando, com isso, que facilitem os licencia- Sistema Único de Saúde (SUS) que as prioridades serão para a inicia- mentos dos projetos que e que está previsto na Lei tiva privada. Na outra ponta, no que se afetam terras indígenas 9.836/99 (Lei Arouca). Portan- refere às políticas estruturantes e que no país; to, precisará de uma estrutura deveriam beneficiar os mais pobres, u Demarcações de terras: para pressões desencadeadas pelos povos que possa favorecer o funcionamento os discursos foram pela manutenção não desagradar seus aliados políticos, indígenas exigindo que a Secretaria dos Distritos Sanitários de Saúde como das políticas de caráter compensatório o governo Lula paralisou totalmente de Atenção Especial à Saúde Indígena unidades gestoras. Por conta disso, através da entrega de bolsas para os os procedimentos demarcatórios. Nem (Sesai) fosse criada, o que se concreti- deverá contar com orçamento próprio mais pobres. mesmo a situação de genocídio enfren- zou oficialmente através do Decreto para cada um dos DSEIs, com estrutura Aos povos indígenas não foi apre- tada pelos Guarani Kaiowá consegue nº 7.336, de 19 de outubro de 2010. A administrativa e financeira, com equipa- sentada ou dita, pelos candidatos, sensibilizar o governo federal. Além de Secretaria retira da Fundação Nacional mentos, medicamentos, contratação de nenhuma palavra que possa significar não criar os grupos de trabalho neces- de Saúde (Funasa) as responsabilidades funcionários e profissionais em saúde, algum compromisso com sua realidade sários para que as mais de 320 terras quanto à saúde e saneamento básico pólos base de assistência, hospitais e direitos. Ao contrário, de tudo o que reivindicadas pelos povos indígenas nas comunidades indígenas. de referência. Os distritos devem fun- se falou, as perspectivas apontam para sejam demarcadas, o ministro da Jus- Segundo o que estabelece o decre- cionar a partir de planos distritais a a exploração desenfreada das terras tiça, Luiz Paulo Barreto, mostrando-se to, o Ministério da Saúde e a própria serem elaborados pelas comunidades indígenas e a restrição às garantias no mínimo desinformado, declarou em Funasa terão 180 dias para fazer a indígenas e pelos demais envolvidos constitucionais. entrevista que 95% das terras já foram transição gradual do sistema, a fim de com as ações e serviços em saúde. Além Pode-se avaliar que as temáticas que demarcadas. Além de não reconhecer as evitar prejuízos ao atendimento dessas disso, de fundamental importância envolvem os mais de 240 povos foram reivindicações das comunidades indíge- comunidades. No entanto, não é o que será o exercício do controle social, que omitidas por duas razões fundamentais: nas, o ministro ainda vem suspendendo se observa em várias localidades do precisa ser adequadamente realizado por não serem demandas que rendem os efeitos de diversas portarias decla- país. Há informações de lideranças e através dos conselhos locais e distritais. votos e popularidade, visto que em ratórias assinadas anteriormente. Tal comunidades indígenas de diferentes Serão as comunidades indígenas e seus certas regiões a questão indígena é medida, sem nenhum fundamento legal regiões de que os atuais servidores da conselheiros os responsáveis pelo pla- tratada como entrave ao “crescimen- ou administrativo, nunca foi adotada no Funasa já estão se negando a atender nejamento, avaliação e fiscalização das to econômico”; e por não haver, do país, nem mesmo nos anos sombrios da as comunidades. Há relatos inclusive ações em saúde. ponto de vista político administrativo, ditadura militar. de localidades em que servidores já O governo federal precisa, portan- interesse em lidar com as realidades u Estatuto dos Povos Indígenas: afixaram cartazes informando que o to, implementar de forma imediata que apontem para a consolidação dos a tramitação do projeto do estatuto atendimento não ocorrerá mais, a partir um programa de transição do modelo direitos dos etnicamente diferentes. no Congresso Nacional na próxima do dia 28 de outubro. antigo à nova política, a fim de que Seja qual for o próximo governo, os legislatura será, sem dúvida, um dos Para evitar maiores prejuízos aos nos primeiros meses do próximo ano povos indígenas continuarão enfrentan- mais importantes temas de discussões e povos indígenas, é necessário que o a execução das ações e serviços sejam do sérios obstáculos e há que se manter disputas. A proposta indígena restringe movimento indígena, as entidades realizados no âmbito dos DSEIs. Mas, a atenção quanto: e se contrapõe ao modelo de desenvol- indigenistas e o Ministério Público Fe- para que isso aconteça, há muito que u Estrutura da Funai: vem sendo vimento impulsionado pelos programas deral, cobrem do Ministério da Saúde fazer, especialmente quanto à capacita- reformulada para adequar o órgão às de governo, especialmente o PAC. um acompanhamento minucioso da ção de pessoas e realização de concurso demandas dos grandes investimentos A novidade, nestes últimos meses, atual transição entre a Funasa e a Sesai. público para contratação de profissio- econômicos (hidrelétricas, mineração, ficou por conta da mobilização e das Também é de fundamental importância nais em saúde. n 3 Outubro–2010
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    Participação Fotos: Cimi Regional Leste/Equipe Itabuna Jovens indígenas do Regional Leste realizam seminário J ovens Indígenas do Regional dades: Estadual de Feira de Santana e Leste realizaram entre os dias 7 Federal do Recôncavo- Bahia, Federal e 10 de outubro o V Seminário do Espírito Santo, Rede Nacional de Cultural, com o tema: “Luta, For- Advogados Populares, Funai, Secretaria ça e Resistência dos Jovens Indígenas em de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos defesa de suas comunidades”. O evento do estado da Bahia. aconteceu na Aldeia Serra do Padeiro, O tema proposto levou os partici- Jovens do povo Tupinambá, no município de pantes a se aprofundarem através dos lideranças indígenas do Buerarema, sul da Bahia. painéis e das oficinas e a pensarem em Sul da Bahia Cerca de 400 jovens dos povos estratégias de intervenção, articulação discutiram Tupinambá de Olivença de diversas e mobilização que venham a contribuir direitos, comunidades, Pataxó do Extremo Sul e com suas lutas e na defesa de suas co- desafios do movimento Pataxó Hã-Hã-Hãe (Bahia), Xakriabá (Mi- munidades. indígena e a nas Gerais) e Tupinikim (Espírito Santo) As oficinas “Criminalização das luta por um se encontraram mais uma vez para discu- Lideranças”, “Desafios da atualidade”, projetos. Esta oficina levantou diversas desencadeado contra o povo Tupinambá futuro melhor para suas tirem suas lutas e sonhos e, juntamente “Movimento Indígena”, “Direitos In- dificuldades encontradas para o acesso de Olivença. comunidades com a presença de diversos parceiros e dígenas” e “Política”, proporcionaram a projetos desta carteira devido à falta O documento final do V seminário aliados, realizaram um rico e profundo momentos de muita partilha, conhe- de informações. traz no seu bojo uma serie de manifes- encontro. Participaram do evento: Cimi, cimento, sabedoria e o surgimento Um clima de repúdio às atuações tações e reivindicações, que surgiram a CPT, Rede de Acampados e Assentados de muitas propostas, sugestões que do judiciário dominou o seminário, a partir das reflexões dos jovens e das suas do sul da Bahia, Associação Nacional venham fortalecer a luta das diversas partir de decisões parciais e arbitrárias atuações nas comunidades, os desafios, de Ação Indigenista, Pineb, Apoinme, comunidades. Houve uma oficina que o mesmo vem tomando visando os avanços, e, sobretudo, a presença Coordenadoria Ecumênica de Serviço, específica que discutiu a questão das criminalizar a luta e as lideranças indíge- destes nos diversos espaços de luta de estudantes e professores das Universi- mulheres e o seu acesso à carteira de nas. O destaque foi o intenso processo seus povos. CARtA FInAL “LUTA, FORÇA E RESISTÊNCIA DOS JOVENS INDÍGENAS EM DEFESA DE SUAS COMUNIDADES” N ós, jovens indígenas dos povos Tupinambá, Pataxó Hã-Hã-Hãe, Pataxó, do estado da Bahia; Xacriabá, do estado de Minas Gerais, e Tupiniquim, do estado do rosidade seletiva, nas decisões parciais e arbitrárias, que acabam por criminalizar os movimentos sociais; que nos impedem de transitar livremente pelo nosso de julgamento do território Pataxó Hã-Hã-Hãe, dos dois processos demarcatórios dos territórios de Monte Pascoal e Caí, na Bahia, e Xacriabá, em Espírito Santo; entidades aliadas, parceiros, e univer- território; e que encarceram injustamente nossas Minas Gerais; sidades, estivemos reunidos na aldeia Tupinambá de lideranças, a ponto de não sabermos, quando é o – a necessidade de realizar um curso de Direitos Serra do Padeiro, município de Buerarema, Bahia, entre caso, onde se encontram presos. No caso específico Indígenas para Jovens Indígenas; os dias 7 a 10 de outubro de 2010, para a realização do dos Tupinambá da Serra do Padeiro, ainda a negação – participação dos indígenas da Bahia, Minas Ge- V Seminário Cultural dos jovens Indígenas Tupinambá de emissão de registro civil de crianças. Ressaltamos rais e Espírito Santo nas atividades do Tribunal da Serra do Padeiro e I Seminário Cultural dos Jovens a maneira truculenta em que as ações da Polícia Fede- Popular do Judiciário, iniciativa muito avançada Indígenas do Regional Leste. O Seminário deste ano ral são realizadas em áreas indígenas, deixando um em outros estados; teve uma dimensão maior, pois se tornou um seminário rastro de medo, e de sequelas físicas e emocionais. – realização de um Seminário para discutir proces- regional, que teve como tema central “Luta, Força e Entendemos que muitos desafios nos afetam sos de criminalização; Resistência dos Jovens Indígenas em defesa das suas na atualidade, tais como: estabelecer um diálogo – elaboração de um plano político abrangente a comunidades”. Neste sentido, conseguimos ampliar positivo entre o conhecimento que vem de fora e partir de diálogo entre as instituições indígenas o objetivo principal que é despertar nos jovens uma a nossa cultura e tradição; saber usar, em benefício para acompanhar o processo de demarcação de maior responsabilidade pela luta, o fortalecimento da da comunidade, toda a tecnologia a que hoje temos terras, bem como as atuações da FUNAI, FUNASA, nossa autoestima, e da visibilidade da nossa participa- acesso, não esquecendo as nossas tradições, costu- e outras organizações, em nossas aldeias; ção nas lutas dos povos. mes e crenças; continuar com as nossas atividades – realização de um trabalho de formação política Percebemos que continuam ainda presentes cotidianas mesmo com todas as perseguições e nas bases, e criação de uma comissão regional de muitas dificuldades e conflitos relatados e debatidos dificuldades; romper com a imagem de índio que jovens indígenas; em seminários anteriores, tais como a morosidade prevalece na mídia e nos livros didáticos. Do mesmo na demarcação e regulamentação das nossas terras, modo, reconhecemos a necessidade, nos dias de hoje, – criação de uma rede de comunicação entre as a precária situação da saúde nas aldeias, e, princi- de que para a luta é imprescindível conhecer nossos comunidades do Regional Leste; palmente, a criminalização das nossas lideranças, direitos e deveres, as leis que dizem respeito aos – o desejo de continuidade dos nossos seminários homens e mulheres, jovens e adultos. povos indígenas, a Constituição Federal Brasileira, regionais, ampliando cada vez mais a participação Através da realização de oficinas temáticas e e os acordos internacionais. A oficina das mulheres dos jovens, e fortalecendo o intercâmbio entre os grandes plenárias, conseguimos discutir e avaliar diagnosticou a dificuldade que elas estão enfrentando povos, afinal os nossos velhos são os guardiões os seguintes temas: Juventude e Criminalização das para acessar as políticas específicas, em virtude da da tradição, e os jovens fortalecem o presente Lutas e Lideranças; Juventude e Desafios da Atua- pouca informação e da dificuldade de comunicação para garantir o futuro da nação indígena. lidade; Juventude, Política, e Movimento Indígena; que ainda existe nas aldeias. Por fim, deixamos a pergunta: “Até quando o Juventude e Direitos Indígenas; Juventude e Políticas Após discussão e avaliação das questões levanta- nosso sangue continuará sendo derramado para que para as Mulheres. das, MANIFESTAMOS: nossos direitos sejam garantidos e respeitados?”. Desse modo, REPUDIAMOS as medidas do Judici- – a cobrança das questões levantadas no IV Seminá- Aldeia Tupinambá de Serra do Padeiro ário que contradizem os nossos direitos na sua mo- rio, especialmente no que se refere ao processo 10 de Outubro de 2010 Outubro–2010 4
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    Políticas públicas Fotos: Arquivo Cimi MunICíPIO DE MAnICORé (AM) Precariedade e descaso na educação escolar indígena Osmar Marçoli Mais problemas A Cimi Regional Rondônia Outra problemática se refere à me- s lideranças das comunidades renda escolar que sai do município de indígenas do povo Tenharim, Manicoré e para chegar até as aldeias que estão situadas ao longo da leva dois dias de barco e um dia pela BR-230 (Transamazônica), município de rodovia Transamazônica. É insuficiente Manicoré (AM), há muito tempo vem pelo número de alunos matriculados e técnico da área, projeto básico e enviar um comandante da polícia impondo à A falta de locação reivindicando aos órgãos competentes com a distância e o atraso na entrega, a Brasília para liberação dos recursos diretora a acatar tal postura. adequada condições mínimas para que possam ter os alimentos perecíveis já chegam financeiros, o que ainda não ocorreu. Desde então, Daiane e Valdinar para que as direito à educação escolar. estragados. A proposta das comunida- “Desde várias gestões passadas da Tenharim percorrem diariamente 90 aulas sejam ministradas O povo Tenharim denuncia a falta des indígenas é que a prefeitura faça a prefeitura de Manicoré o assunto da km (ida e volta) no próprio veículo é apenas um de assistência educacional nas aldeias compra em Santo Antonio do Matupi educação escolar indígena Tenharim da (uma moto) enfrentando o cansaço, a dos problemas Bela Vista, Trakoá, Kampinho, Taboca, Transamazônica não é levado a sério. forte poeira da estrada e se expondo a enfrentados (distrito de Manicoré), que está a 40 km pelos Mafuí e Karanaí. “Estamos sem prédios das aldeias, onde a entrega da merenda Tudo indica que a construção das esco- acidentes. A Seduc foi notificada desta indígenas escolares, materiais didáticos, trans- aconteceria com mais eficiência. Em las passará para o exercício de 2011 e situação, mas nenhuma providência em Manicoré em relação à porte escolar. Não há condições para o algumas escolas, as merendeiras têm assim sucessivamente” - diz Margarida foi tomada. A denúncia também já foi educação trabalho dos professores.”, diz Daiane que utilizar seus próprios utensílios Tenharim, liderança da aldeia Mafuí. encaminhada ao Ministério Público. No Tenharim, professora da aldeia Kampi- domésticos para preparar a merenda: Sendo assim, o povo indígena Te- início do mês de abril/2010 as lideran- nho e estudante no ensino médio. não há pratos, canecos, panelas. nharim da Transamazônica reivindica ças indígenas pediram ao prefeito de A educação escolar indígena na re- O povo Tenharim também reivindica três ações prioritárias: Manicoré, ao secretário da Semed e à gião passa por um processo de descaso, o transporte escolar para os alunos ma- 1) Formação continuada e acompanha- coordenadora local da Seduc/AM para uma vez que está sendo administrada triculados no 6º ao 9º ano. Por enquan- mento aos professores indígenas; que o ônibus escolar fizesse o trajeto pelo poder público municipal. Na to os estudantes têm que utilizar seus 2) Transporte escolar a partir da reali- das aldeias Kampinho e Mafuí até o aldeia Taboca, por exemplo, as aulas próprios meios de transporte (moto) dade de cada aldeia; colégio estadual onde os alunos cursam começaram com o professor indígena correndo riscos de acidentes devido 3) Construção urgente de prédios o ensino médio, mas até hoje isto não Domiceno Tenharim à sombra de uma ao grande fluxo de carros e caminhões escolares. aconteceu. mangueira. No ano seguinte, a comu- nesta rodovia. Os pais dos estudantes além de nidade construiu o primeiro prédio As comunidades estão lutando para Discriminação racial arcarem com a manutenção do veículo escolar. Materiais permanentes e didá- que o ensino médio aconteça dentro Por não haver ensino médio nas também estão preocupados devido ao ticos foram emprestados das demais das aldeias. O sistema de ensino médio aldeias dois estudantes Tenharim estão grande risco de acidentes e pela chega- comunidades de seu povo. conhecido como Sistema de Mediação matriculados no colégio estadual no da das chuvas, o que impedirá o acesso Na escola Tikwatija, aldeia Mafuí, a Tecnológica (televisivo e sem professor distrito de Santo Antonio do Matupi. No aos estudos. casa de reunião construída pela comu- em sala de aula) apresenta falhas e não mês de março/2010 foram impedidos O poder público é o responsável em nidade também passou a ser o prédio está sendo aprovado pelas comuni- de utilizar o ônibus escolar, pois um providenciar às escolas o financiamen- escolar, e assim funciona desde há 15 dades. fazendeiro da região, em retaliação to e a estrutura necessários para que anos. O cacique Ivan Tenharim, aldeia Existe uma proposta de serem por ter sua moto apreendida pelos o ensino e a aprendizagem em todas Kampinho, cedeu sua própria casa para construídas três escolas na região da Tenharim em épocas passadas, proibiu as comunidades dos povos indígenas que as crianças não ficassem sem a Transamazônica (BR-230) através de re- a utilização do transporte escolar aos realmente aconteçam. Mas, diante da educação escolar, uma vez que não há cursos do MEC. Para isso o município se estudantes indígenas. O fazendeiro foi falta de vontade política, a educação prazo para a construção do prédio para responsabilizou em fazer o diagnóstico até a escola estadual juntamente com escolar indígena ainda não venceu os esta finalidade. desafios de sanar a arritmia entre os Toda a iniciativa aconteceu por par- governos Federal, Estadual e Municipal te das comunidades indígenas onde a e a distância existente entre a legislação prefeitura apenas entrou com o salário e as políticas já conquistadas. dos professores. As escolas são cobertas Desta maneira, o povo Tenharim de palha e de chão-batido. Os materiais continua na luta para que seja garantida escolares também são insuficientes e e respeitada uma educação específica, algumas escolas nem sequer possuem diferenciada, de qualidade e que aten- quadros ou mesa para o professor. Além da os interesses de cada comunidade. do mais, os salários das merendeiras e Simplesmente que se faça cumprir de alguns professores estão atrasados. os direitos contidos na Constituição Em algumas escolas, a comunidade Federal e leis vigentes que asseguram é que se responsabiliza em comprar a educação escolar indígena no país. canetas, borrachas e cadernos para que Que os direitos humanos possam ser os alunos tenham a mínima condição respeitados e que a justiça seja feita, para o estudo. com urgência. n 5 Outubro–2010
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    tERRA InDíGEnA ARARIbóIA Fotos – Cimi MA/Equipe Imperatriz País Afora Povo Awá-Guajá pede socorro! Gilderlan Rodrigues da Silva CIMI-MA/Equipe Imperatriz A terra indígena Araribóia, loca- lizada na pré-Amazônia mara- Madeiras nhense, é demarcada e homolo- desses grupos que para sobreviver, realizar suas festas ilegais na gada com 413 mil hectares para estão na eminência tradicionais como relata a liderança beira da estrada dentro o povo Tenetehara/Guajajara. A mesma de desaparecerem. indígena Raimundo Guajajara da Aldeia da terra abrange os municípios de Bom Jesus Operações espo- Marajá: “Nós estávamos indo caçar indígena e caminhão com das Selvas, Arame, Amarante do Mara- rádicas como a Ope- na região da lagoa buritizal quando carregamento nhão, Buriticupu e Santa Luzia, todos ração Araribóia em encontramos os madeireiros. Pedimos também ilegal no estado do Maranhão. Vive também 2007, e a Operação para que eles fossem embora, eles na mesma estrada: os nessa terra o povo Awá-Guajá: grupos -Guajá sem contato. Os madeireiros Atarawaca/Arco de Fogo, em dezembro foram, mas agora eles voltaram e nós Awá Guajá autônomos, sem contato com a nossa continuam abrindo estradas clandes- de 2009, realizadas pela Funai, Polícia estamos com medo de ir caçar para reivindicam sociedade ou com os indígenas Guaja- tinas em direção às Lagoas do Marajá, Federal, Força Nacional, Polícia Rodo- fazer a festa do moqueado, porque te- ação urgente contra jara, que estão ameaçados e correndo Buritizal onde se encontram os grupos viária Federal, Ibama, para extrusão da mos medo que os madeireiros reajam exploração risco de extinção com o aceleramento de Awá-Guajá que estão procurando terra indígena e a proteção dos indíge- com violência”. criminosa em seu território do desmatamento e a exploração ilegal refúgio por ser uma região abundante nas “sem contato”, não resolveram o Diante disso, faz-se necessário e de madeira, prática que atinge todas as de água e caça. Porém os madeireiros problema da invasão na terra indígena urgente a realização de um programa de terras indígenas demarcadas no esta- estão alcançando esse último espaço Araribóia, pois os invasores, sobretudo vigilância e extrusão da terra indígena do. Com isso a situação se torna cada de sobrevivência desses grupos. Com os madeireiros, ainda continuam com Araribóia para os indígenas que depen- vez mais desesperadora, uma vez que a atividade madeireira destruindo sua a atividade de exploração madeireira. dem unicamente desse território para também aumenta o relato de indígenas base alimentar e sem terem mais para E como é de conhecimento de todos, sobreviver, em especial os Awá-Guajá. Guajajara sobre a presença de indígenas onde fugir, a vida dos grupos Awá- tão logo os agentes federais se retiram, Esse povo precisa ficar fora do risco Awá-Guajá próxima às suas aldeias em -Guajá passa a depender de medidas os madeireiros retornam às atividades de morte anunciado com a constante busca de água. urgentes, sérias e duradouras de pro- ilegais e com mais veemência principal- invasão madeireira e as queimadas As matas que ainda restam, onde teção e garantia territorial por parte mente sobre o território onde estão os das matas. Caso nenhuma medida seja os grupos Awá-Guajá isolados se refu- do Estado. A Funai tendo, finalmente, Awá-Guajá onde ainda se encontra uma tomada urgentemente, presenciaremos giam já não lhes garantem segurança reconhecido a existência dos grupos abundância de madeira de lei. a dizimação desses grupos Awá-Guajá alguma. É o que acontece nas matas Awá-Guajá sem contato na terra indíge- Com essa realidade de exploração, que optaram por viver conforme o seu da terra indígena Araribóia, território na Araribóia, já não pode se eximir de não apenas os Awá-Guajá estão sofren- modo de vida tradicional e sem contato de caça, pesca e coleta de grupos Awá- sua responsabilidade quanto ao futuro do, mas todos que dependem da terra com a sociedade não índia. n Comunidades tradicionais e camponesas reafirmam “Você teve inducação, aprendeu munta ciença mas das coisas Fotos – Gilberto Vieira dos Santos/Cimi MT do sertão não tem boa esperiença. Nunca fez uma paioça, nunca trabaiou na roça, não pode conhece bem. Pois nesta penosa vida, só quem provou da comida sabe o gôsto que ela tem”. Patativa do Assaré Indígenas Gilberto Vieira dos Santos se deu sequência ao mapeamento dos participam do Cimi MT II Seminário conflitos ambientais em Mato Grosso, de o destaque foi a expressiva participação A Mapeamento partir do tema ‘Territórios e dos diferentes seguimentos que com- Social no MT Identidades’, a Rede Mato- põem a diversidade mato-grossense: -Grossense de Educação Am- quilombolas, indígenas, camponeses, conômico e Social de Mato Grosso os encontro possibilitou que estas e outras biental – REMTEA realizou atingidos por barragens, retireiros, rostos destes grupos e comunidades comunidades pudessem expressar sua entre os dias 6 e 8 de outubro o seu 6º morroquianos e outras comunidades que não se reconheciam na proposta territorialidade, partilhar seus desafios Encontro. Durante o evento foram reali- tradicionais marcaram sua presença até então apresentada. Promovido pela e conflitos nos quais se encontravam, zados outros paralelos, como o I Encon- contribuindo nos debates e partilhando REMTEA, em conjunto com o Grupo principalmente em torno dos territó- tro das Juventudes Mato-Grossenses, suas culturas e saberes. Pesquisador em Educação Ambiental rios. Pelo menos 104 conflitos foram o III Encontro da Educação Ambiental O primeiro Mapeamento Social, (GPEA) e Grupo de Trabalho de Mobili- mapeados naquele momento, sendo Escolarizada e o II Seminário de Mape- realizado em 2008, buscou trazer para zação Social (GT-MS) – articulação que que em muitos destes havia ameaças Outubro–2010 6 amento Social. Neste último, em que a discussão do Zoneamento Socioe- reúne vários grupos e entidades - o de morte, assassinatos, invasão e dis-
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    Pataxó Hã-Hã-Hãe Fotos: Cimi Regional Leste/Equipe Itabuna retomam terras tradicionais na bahia Haroldo Heleno Equipe Itabuna n a madrugada do dia 4 de ou- tubro, cerca de 70 famílias indígenas do povo Pataxó Hã- -Hã-Hãe, aproximadamente 350 pessoas, retomaram as áreas hoje denominadas de Santa Maria, Santa Ma- dalena, Serra das Águas, Serra do Ouro e Iracema, totalizando cerca de cinco mil hectares, todas localizadas na região dos Vinte e Cinco, entre os municípios de Pau Brasil e Itajú do Colônia. Estas com os procuradores de Ilhéus para que de gado e cacau e, desde 1982, a co- Pataxó Hã-Hã-Hãe, mas toda a região Indígenas na terra fazendas já haviam sido retomadas em tomem o depoimento das pessoas que munidade aguarda o resultado de uma do entorno da terra indígena, com retomada: 2002, porém, com medidas judiciais, presenciaram a situação. Na Funai, con- Ação Cível Original de Nulidade de a falta de segurança, proliferação e ameaças de os fazendeiros conseguiram retirar os versaram com o procurador do órgão, Títulos (ACO) impetrada pela Funai em disseminação do consumo de drogas, fazendeiros são indígenas das terras. Antônio Salmeirão, sobre a situação de favor da comunidade. sendo muitas destas ações/atividades constantes No dia 10 de outubro, pistoleiros violência e também sobre o processo de No documento eles afirmam que patrocinadas pelos agentes interessa- entraram atirando na área de retomada homologação de suas terras que corre percebem que nada tem sido feito dos em nossas terras”, afirmam. e os próprios indígenas acreditam na no STF há anos. Salmeirão afirmou que pelo governo em relação à causa Pa- Ainda segundo as lideranças, a presença de policiais no bando. Após a não sabe dizer se o julgamento ocorrerá taxó Hã-Hã-Hãe e que isso contribui intenção da ocupação é pressionar situação de terror, um grupo de lideran- ainda este ano. diretamente com os conflitos entre o governo a resolver a questão das ças decidiu ir a Brasília relatar a situação indígenas e fazendeiros na região. terras, além de unir esforços junto aos às autoridades competentes. De acordo Reivindicações da “Lutamos pela ocupação integral de parceiros nesta luta. Eles finalizam o com a cacique Ilza Pataxó Hã-Hã-Hãe, comunidade nossas terras com grandes latifundi- documento dizendo que ocuparam a as lideranças conseguiram conversar Segundo documento assinado ários que defendem à “chumbo” seus área que lhes é de direito e solicitando com o senador Cristovam Buarque, que pelas lideranças e enviado à Fundação interesses, o que têm ao longo dos o apoio da sociedade civil. “Para nós é garantiu alertar a Polícia Federal para Nacional do Índio (Funai) e às entidades anos nos legado grandes perdas. Essa importante que a sociedade civil orga- que fiquem atentos à situação. Na 6ª de apoio, eles aguardam há mais de 28 situação mais tem demonstrado a falta nizada e o poder público saibam que Câmara de Conciliação do Ministério anos por uma solução para que possam de interesse dos nossos governantes nossa intenção é reivindicar através Público Federal, ficou acordado que voltar em definitivo às suas terras. As em resolver um problema que não das retomadas (símbolo da resistência o MPF em Brasília entrará em contato áreas estão invadidas por fazendeiros atinge apenas a comunidade indígena Pataxó Hã-Hã-Hãe) a ocupação de nos- sas terras, enquanto o governo nada faz para resolver nossos problemas. suas identidades e territorialidades Diante do exposto solicitamos apoio da sociedade civil organizada, ONGs, autoridades e órgãos governamentais responsáveis pela questão indígena, cionais trouxeram novos elementos a necessidade e disposição de uma na garantia dos nossos direitos confor- que possibilitaram uma atualização aliança para a luta conjunta. A partir me manifestado na CF de 1988, assim dos conflitos e dos principais temas em desta, a efetivação e garantia dos como, a nossa proteção física”. disputa na região. direitos constitucionais virá como Apesar da diversidade de inserções sempre se deu na ‘história deste Histórico no território, chegou-se à conclusão país’: na marra! Após 26 anos de espera, o Supremo de que as ameaças aos seguimentos Para o capital que, com o apoio Tribunal Federal (STF) finalmente deu presentes são comuns: o agronegócio, governamental e financiado pelos início ao processo de julgamento da as consequentes contaminações do rios de dinheiro do BNDES, se alas- ACO nº 321 no dia 24 de outubro de solo, água e ar pelo uso de agrotóxicos, tra interferindo ‘nas amazônias’ da 2008. Após rico e bem fundamentado a pressão exercida pelo poder latifun- Amazônia, fica a voz do povo que voto favorável do ministro Relator Eros diário e os empreendimentos e obras de diz através do poeta: “...aqui findo Grau, o ministro Menezes Direito solici- puta por territórios. Em cada conflito, infraestrutura vinculadas ao Programa esta verdade, toda cheia de razão. tou vista do processo frustrando a co- a busca constante pela reafirmação de Aceleração do Crescimento (PAC), Fique na sua cidade, que eu fico no munidade Pataxó de ver por definitivo das diferentes identidades que faz da principalmente os de geração e trans- meu sertão. Já lhe mostrei um es- a questão da suas terras resolvida. Para região um belo e diverso quadro, em missão de energia. pêio, já lhe dei grande consêio que piorar a situação, o ministro Menezes contrapartida ao discurso homogenei- Questionando a visão de desen- você deve toma: por favo, não mêxa veio a falecer logo após este pedido zador do agronegócio em que tudo é volvimento que suplanta direitos, que aqui, que eu também não mexo aí. de vista, não externando seu voto. Um ‘mono’-cultivo. interfere nas diferentes formas de ser Cante lá que eu canto cá.”(*) novo ministro, Antônio Dias Toffoli, foi Neste segundo mapeamento, os e conviver nos territórios, os povos e ( ) * Cante lá que eu canto cá. indicado para a sua vaga, mas até hoje povos, grupos e comunidades tradi- comunidades tradicionais reafirmaram Patativa do Assaré o julgamento não foi retomado. n 7 Outubro–2010
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    Retrospectiva Fotos: Gustavo Macedo A política de atenção à saúde e o futuro dos povos indígenas Roberto Antonio Liebgott de planejamento, execução e avaliação das Raposa Serra do Sol. Este se tornou mo- Vice-Presidente do Cimi ações a serem desenvolvidas. Já naquela delo e referência para a criação de outros C conferência ficou definido que a política distritos. Também em 1993 foi realizada om a promulgação da Constitui- respeitaria as especificidades étnicas, a II Conferência Nacional de Saúde para os ção Federal em 1988 ficou esta- socioculturais e as práticas terapêuticas Povos Indígenas que reiterou a defesa do belecido o reconhecimento e o de cada povo. Além disso, se garantiria modelo dos DSEIs como base operacional, respeito às organizações sociais, a participação nas políticas de saúde e no âmbito do SUS, para a política de aten- políticas, culturais dos povos in- que seria criada uma secretaria específica ção à saúde das populações indígenas. Os saúde do índio, cujas ações serão executa- dígenas. Ficou também definido para assuntos indígenas. Nasceu, naquela distritos seriam vinculados diretamente ao das pela Funasa.” A Lei Arouca determinou que a União é a responsável pela execução conferência, a primeira propo- MS e administrados por Con- que o Governo Federal instituísse o Subsis- das políticas a serem desenvolvidas junto sição de modelo dos Distritos Em 1986, em selhos de Saúde com partici- tema de Atenção à Saúde Indígena, tendo aos povos e comunidades indígenas. O Sanitários Especiais Indígenas função das pação indígena. Ficou também por base os Distritos Sanitários Especiais mesmo marco legal criou o Sistema Único (DSEIs) e que estes deveriam articulações dos definido que no âmbito do Indígenas. Foram, na época, criados 34 de Saúde (SUS), regulamentados pela Lei ficar sob a gestão do Ministé- Governo Federal haveria uma DSEIs, (Portaria 852/99). Todos os serviços povos indígenas, 8.080/90 onde estabelece a vinculação rio da Saúde. instância responsável pela em saúde (atenção básica, prevenção, sane- da assistência em saúde ao Ministério da Em fevereiro de 1991, com foi convocada saúde indígena do país. Já em amento) passaram a ser executados através Saúde (MS). a edição do Decreto Presiden- a primeira 1993 os povos indígenas vi- de convênios firmados com organizações Há muitas décadas se discute sobre cial nº. 23 houve a transfe- “Conferência de nham reivindicando a criação da sociedade civil - associações indígenas a realidade dos povos indígenas e as rência da assistência à saúde Saúde do Índio” de uma secretaria especial e indigenistas - e alguns municípios. A políticas a serem implementadas para as- indígena para o Ministério da para a gestão da política de perspectiva, no âmbito do Ministério da segurar-lhes vida e saúde no Brasil. Muitas Saúde, ao qual cabia a responsabilidade atenção à saúde. Saúde, era de que a União deveria trans- têm sido as mobilizações do movimento pela coordenação de todas as ações em No dia 19 de maio de 1994 foi editado ferir as suas responsabilidades, no tocante indígena e das organizações que atuam no saúde. Foi criado naquele ano o Distrito o Decreto Presidencial de nº 1.141/94, que à gestão e execução das ações em saúde campo da saúde, com o objetivo de exigir Sanitário Yanomami. Também foi consti- revogou o Decreto n° 23/1991, constituin- indígena, para terceiros. que o Estado brasileiro estruture políticas tuída, no âmbito do Ministério da Saúde, do, a partir de então, a Comissão Interse- A partir destas mudanças, as delibera- que possibilitem a atenção diferenciada a Coordenação de Saúde do Índio (COSAI) torial de Saúde. Esta, na prática, devolveu ções das Conferências Nacionais de Saúde aos povos indígenas. com incumbência de implementar um a coordenação da saúde indígena para a se tornaram inócuas e os Conselhos de Em 1986, em função das articulações modelo de atenção à saúde. No mesmo Funai, tornando-a responsável pela recu- Saúde Indígena, por sua vez, entes figu- dos povos indígenas, foi convocada a pri- período o Conselho Nacional de Saúde peração dos índios doentes enquanto o rativos diante das ações e decisões dos meira “Conferência de Saúde do Índio”, criou através da Resolução CNS nº 011, de MS se encarregaria das ações preventivas. conveniados. O controle social foi sendo quando pela primeira vez se propôs um 31 de outubro de 1991, a Comissão Inter- No ano de 1999, com a edição do paulatinamente desconsiderado por gran- modelo de atendimento diferenciado para setorial de Saúde do Índio (CISI). Esta, com Decreto nº 3.156/99 e a aprovação da de parte dos gestores, ampliando, com estes povos. A partir das propostas referen- a função de assessorar o CNS na elaboração “Lei Arouca” (n° 9.836 de 23 de setembro isso, os problemas nos espaços de organi- dadas naquela conferência, os indígenas dos princípios e diretrizes para as políticas de 1999), a política de saúde passou ao zação dos serviços em saúde. Os Distritos passariam a ter direito ao acesso universal no campo da saúde indígena. encargo do MS: “O Ministério da Saúde Sanitários Especiais Indígenas, que seriam e integral à saúde, bem como poderiam Em 1993 foi criado o Distrito Sanitário estabelecerá as políticas e diretrizes para a base de toda a política, tornaram-se ape- participar em todas as etapas do processo do Leste de Roraima, na Terra Indígena a promoção, prevenção e recuperação da nas uma espécie de referência geográfica Fotos: Arquivo Cimi Há anos os povos indígenas sofrem a espera de soluções para os problemas da saúde: falta de transportes de doentes e de postos de saúde, desrespeito às tradições de cada povo, má gestão do dinheiro direcionado os distritos sanitários Outubro–2010 8
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    para que aFunasa pudesse definir os tipos ção, pois na prática a Funasa administrava com ênfase nas questões relativas à gestão tamente ao Ministério da Saúde; vincular Lula assina decreto que de convênios e as atribuições dos presta- a política de acordo com os interesses dos da política de saúde. Concomitante a isso os DSEIs à Secretaria Especial; assegurar a oficializa a dores de serviços. Posteriormente foram grupos que a comandavam. a Justiça do Trabalho determinou que o autonomia administrativa e financeira dos criação da realizadas mais duas conferências de saúde No ano de 2004 a Funasa, através das Governo Federal fosse o responsável e, distritos, que deve ser alcançada com a sua Secretaria de Saúde indígena (2000 e 2006), mas ambas foram portarias n° 69 e 70, estabeleceu novas portanto, o gestor da política de saúde e transformação em unidades gestoras do Sis- Indígena: uma conduzidas pelos agentes da Funasa com diretrizes da saúde indígena, recuperou que a terceirização era uma prática ilegal. tema Único de Saúde (SUS), contando com vitória dos o objetivo de referendar a perspectiva da a execução direta e reduziu o papel das Só então, depois de todas estas ações, o orçamentos próprios administrados através movimentos indígena e terceirização e a dimi- nuição ou restrição conveniadas, limitando-as à contratação Governo Federal manifestou algum inte- dos Fundos Distritais de Saúde; criar plano indigenista! à participação indígena no controle social. de pessoal, à atenção nas aldeias com resse pela política de saúde. de carreira específica para profissionais de Vale ressaltar que pelas determinações insumos, ao deslocamento dos indígenas No final do ano de 2008 foi apre- saúde indígena com condições trabalhistas legais os DSEIs teriam um Conselho Distri- das aldeias e à compra de combustível para sentada uma proposta de projeto de lei adequadas às complexas e diferentes rea- tal de Saúde Indígena, órgão de controle a realização desses deslocamentos. (3.958/2008) para alterar a Lei 10.683/2003 lidades dos DSEIs; assegurar que os chefes social e com atribuições, dentre as quais, Em 17 de outubro de 2007 foi editada que dispõe sobre a organização da Presi- ou coordenadores dos distritos sejam apro- de aprovar o Plano de Saúde Distrital e a polêmica Portaria nº 2.656, que dispunha dência da República e dos Ministérios e cria vados pelos conselhos distritais; garantir fiscalizar a prestação de contas dos ór- sobre a regulamentação dos Incentivos de a Secretaria de Atenção Primária e Promo- que o controle social seja efetivo, com gãos e instituições executoras das ações Atenção Básica e Especializada aos Povos ção da Saúde e na qual ficaria abrigada a participação indígena legítima em todas as em saúde. Tais conselhos deveriam ser Indígenas, revogando a Portaria nº 1.633/ saúde indígena. Na exposição de motivos instâncias de decisão; formar um quadro paritários, formados por representantes GM, de 14 de setembro de deste projeto o ministro da estável de recursos humanos (servidores dos usuários, indicados pelas respectivas 1999. Esta portaria gerou De nada adiantam Saúde propôs a transferência públicos) adequado às necessidades estra- comunidades e representantes de insti- grandes manifestações dos as normas e os das competências e atribui- tégicas da gestão, o que só será possível tuições governamentais, prestadores de povos indígenas que, insa- discursos bem ções exercidas pela Funasa por meio de concurso público diferenciado serviços e trabalhadores do setor de saúde. tisfeitos com a política que formulados se a para essa secretaria. Também, e que assegure a participação indígena nos Os conselheiros indígenas deveriam ser tinha como gestora a Funasa, fruto das pressões dos povos processos de seleção; assegurar que no ór- política de saúde escolhidos pelas comunidades atendidas, reivindicaram a criação do indígenas, constitui-se um gão gestor da saúde indígena os servidores bem como participar de reuniões perió- modelo de política com- não estiver sob Grupo de Trabalho com a tenham perfil técnico independente das dicas organizadas pelos prestadores de patível com a lei Arouca e um autêntico participação de lideranças in- ingerências políticas. serviço de cada DSEI. Na prática, a relação com as diretrizes da segunda controle social dígenas (Portarias 3034/2008 Por fim, é importante enfatizar que de entre os povos indígenas e os prestadores Conferência nacional de Saú- dos povos e 3035/2008 GAB/MS) cujo nada adiantam as normas e os discursos de serviço sempre foi tensa, permeada de Indígena. A portaria além indígenas objetivo foi de discutir e bem formulados se a política de saúde não por problemas relacionados à gestão e a de fortalecer a Funasa abria apresentar propostas, ações estiver sob um autêntico controle social aplicação de recursos. perspectivas para a municipalização da e medidas a serem implantadas no âmbito dos povos indígenas. Mas, para que isso O Ministério da Saúde editou a Portaria saúde, exatamente na contramão do que do Ministério da Saúde, no que se refere aconteça, o governo precisa mudar sua n° 254, em 31 de janeiro de 2002, que pretendiam os povos indígenas. à gestão dos serviços de saúde oferecidos concepção acerca da administração públi- aprovou a Política Nacional de Atenção Somente em agosto de 2008 - depois aos povos indígenas. ca, ou seja, ela não deve estar submetida à Saúde dos Povos Indígenas. A portaria das constantes manifestações realizadas Depois de dois anos de espera, o ao clientelismo e ao loteamento político. determinava que os órgãos e entidades pelo movimento indígena contra a Funasa, governo editou a Medida Provisória 483, Além disso, o governo deve investir re- do Ministério da Saúde promovessem depois que foram veiculadas inúmeras aprovada pelo Congresso Nacional e cursos para formação e capacitação junto a elaboração ou a readequação de seus notícias de corrupção naquele órgão e em transformada na Lei 12.314/2010 que pos- aos povos e comunidades indígenas, bem planos, programas, projetos e atividades função das constantes denúncias sobre o sibilitou a criação da referida Secretaria. E como dos servidores públicos a serem em conformidade com ela. O propósito da descaso na execução das ações e serviços no dia 19/10/2010 foi editado o Decreto contratados através de concursos sérios. E, política seria o de garantir aos povos indí- nas áreas indígenas que vinha gerando 7.336/2010 que oficializou a criação da fundamentalmente, deve ser realizada uma genas o acesso à atenção integral à saúde, avassaladora mortalidade infantil e alas- Secretaria de Saúde Indígena. verdadeira Conferência de Saúde Indígena, de acordo com os princípios e diretrizes tramento de doenças, o Ministro da Saúde O novo modelo de gestão da saúde sem manipulação (espécie de conceito já do Sistema Único de Saúde, contemplando resolveu ouvir as reclamações e propostas indígena deverá, se o governo cumprir institucionalizado no âmbito dos gestores a diversidade social, cultural, geográfica, dos povos indígenas. Também no mesmo com as deliberações legais, estruturar a das políticas públicas), tendo ela o poder histórica e política. No entanto, as normas período o Tribunal de Contas da União Secretaria de Atenção Especial à Saúde de traçar, definir e deliberar sobre a polí- e recomendações não passaram de inten- desenvolveu uma auditoria sobre a Funasa, Indígena de caráter executivo ligada dire- tica a ser executada. n 9 Outubro–2010
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    Plebiscito Decisão Sociedade brasileira quer limites para o tribunal segue tamanho das propriedades de terras no brasil argumentos do Dados do plebiscito pelo limite da propriedade foram apresentados no dia 19 de outubro MPF e confirma terra indígena O Fórum Nacional pela Reforma Foto: Maíra Heinen Agrária e Justiça no Campo (FNRA) apresentou aos jornalis- em MS tas, em coletiva de imprensa dia Justiça Federal já havia 19 de outubro, o resultado do Plebiscito determinado, de forma Popular pelo Limite da Propriedade. A inédita, que índios campanha foi realizada entre os dias 1º aguardassem dentro da área a 12 de setembro deste ano e contou reivindicada o fim do processo com a participação de 519.623 pessoas. Participaram da coletiva Gilberto Portes judicial O do FNRA, o professor Ariovaldo Umbeli- Em toda a Tribunal Regional Federal da no, da Universidade de São Paulo (USP), coletiva, 3ª Região (TRF-3) acatou os o tom dos Willian Clementino, da Confederação argumentos do Ministério participantes Nacional dos Trabalhadores na Agricul- Público Federal (MPF) e rejeitou re- era de satisfação tura (Contag), Dom Pedro Stringhini, curso que visava a reocupação da TI por terem da Conferência Nacional dos Bispos do Sucury’i, já demarcada e homologada conseguido Brasil (CNBB) e Pe. Gabriele Cipriani, do pelo Governo Federal em 1996. Os um número expressivo de Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do antigos proprietários e o Município participantes Brasil (Conic). gócio. “A agricultura familiar produz centração, o Brasil situa-se atualmente de Maracaju ajuizaram apelação con- e de pessoas Em toda a coletiva, o tom dos par- tra a decisão de 1ª instância, que, de que disseram trabalho, alimento saudável e protege no nível 0,854, o que é considerado sim ao ticipantes era de satisfação por terem o meio ambiente. Falo isso porque vejo muito alto. “O Estado brasileiro tem forma inédita, determinou que os 235 limite da conseguido um número expressivo de em São Paulo que o ambiente natural os maiores latifúndios da humanidade indígenas da etnia guarani-kaiowá propriedade participantes e de pessoas que disseram está devastado pela monocultura da e nunca teve uma atitude política de ocupassem área, que fica em Maraca- de terras ju, sul do estado, e tem 535 hectares. sim ao limite da propriedade de terras. cana”. De acordo com o bispo, a luta controlar seus territórios”. O plebiscito questionou se concordava A decisão foi tomada em caráter primordial é pela dignidade do traba- Outros dados apresentados foram conclusivo pela 3ª Turma do TRF-3, que as grandes propriedades de terras lhador no campo e na cidade e que as os dos maiores proprietários de terras que seguiu o voto da relatora do no Brasil precisavam de um limite de pastorais se juntam aos movimentos no país, onde se situam em 4º e 6º processo, desembargadora federal tamanho e se concordava que o limite sociais neste embate. lugar o Banco do Brasil, com 164 mil Vesna Kolmar. A decisão foi publi- na propriedade de terras possibilitaria hectares e o Banco Bradesco, com 131 cada em 22 de outubro. O Tribunal o aumento da produção de alimentos Dados alarmantes mil hectares, respectivamente. Pelos confirmou decisão da Justiça Federal saudáveis e melhores condições de Muitos exemplos de violação à números apresentados por Ariovaldo de Dourados, que em 2007 atendeu vida no campo. 95,52% responderam função social da terra foram dados Umbelino também se percebe que os pedido do MPF para que não mais os afirmativamente à primeira pergunta e pelo professor da área de Geografia da maiores latifúndios se concentram na índios esperassem fora da terra até 94,39% responderam afirmativamente USP, Ariovaldo Umbelino. Ele ressaltou região norte do país. o final do processo judicial - como à segunda questão. que na própria constituinte o limite Para Umbelino, o próprio cadastro de praxe - mas que os proprietários O secretário de política agrária da da propriedade de terra foi removido de terras do Incra precisa ser investi- o fizessem. Contag, Willian Clementino, afirmou para tentar destruir a possibilidade de gado, pois existem muitas divergências Localizada no Município de Ma- que está feliz com o resultado e que racaju, a Terra Indígena Sucuri´y foi estabelecer limites. “A função social da com cartórios e muitos erros que im- identificada e delimitada na década esta não é a primeira nem a última terra não vem sendo cumprida, pois possibilitam a pesquisa correta sobre de 90. A portaria declaratória foi as- iniciativa na luta pela terra no país. 200 mil hectares de terras são impro- grandes donos de terras no país. sinada pelo então ministro da Justiça “Foi uma grande oportunidade de dutivos no Brasil. Além disso, com a Nelson Jobim, em maio de 1996. Os dialogar com a sociedade para que ela proposta de um novo código florestal, Importância da iniciativa indígenas se indignavam com o fato compreenda a urgência na mudança da os latifundiários querem uma lei que os A magnitude da campanha foi res- de que a TI Sucuri´y fora homologa- estrutura agrária vigente”, declarou. favoreça”, destacou. saltada por Gilberto Portes, do FNRA. da pelo presidente da República e, Ele também destacou que o plebiscito Umbelino também lembrou as “São mais de 54 entidades envolvidas mesmo assim, continuavam a esperar também serviu para tornar público que questões trabalhistas dentro do agro- nesse processo que resultou numa o desfecho da causa. Desde então, são os pequenos trabalhadores rurais negócio. “Os latifundiários não se pre- grande consulta popular com resultado peregrinaram por vários órgãos pú- que alimentam a sociedade brasileira. ocupam com leis. A própria legislação quase unânime”,destacou. blicos, a fim de viabilizar a entrada trabalhista não é respeitada. Em terra Segundo Portes, a próxima iniciativa definitiva na terra. Igreja participativa onde se encontram cultivos de dro- será entrar com uma proposta de emen- Em 1997, para tentar acelerar o Dom Pedro Stringhini, bispo da gas, as terras não são expropriadas”, da constitucional para que o limite da processo, os índios ocuparam parte CNBB e membro da comissão episcopal da área reivindicada. Em 8 de agosto ressaltou. Ele também deu destaque terra tenha destaque na Constituição daquele ano, houve audiência conci- de pastorais sociais na entidade, ressal- à questão da empregabilidade. “Pelo Federal e também lutar para que o go- liatória na Justiça, com a presença do tou que desde a sua fundação a CNBB agronegócio, 1,4 trabalhadores são verno estabeleça o 3ª Plano Nacional de MPF, da qual resultou acordo entre sempre pautou a questão fundiária e a empregados por propriedade, já pela Reforma Agrária. “O Plano é diretamen- os índios e os proprietários. Ficou luta pela terra, através de várias ações agricultura familiar, são 17”. te ligado ao modelo de produção que acertado que os Kaiowá permanece- e publicações. “A luta pela terra é uma Informações importantes de con- queremos, tem a ver com a economia, riam numa área de 64 hectares “até questão prioritária para a comissão de centração de terras foram apresentadas com o tipo de emprego e com a preser- o trânsito em julgado da sentença”. pastorais sociais”, afirmou. pelo professor. Segundo ele, pelo índice vação do ambiente. É uma obrigação do A situação só foi definida com a Stringhini ressaltou também a gran- de concentração de terras, que varia de Estado elaborar este plano de reforma decisão inédita da Justiça Federal, de diferença entre a agricultura familiar, 0 a 1, onde o zero seria a perfeita distri- agrária e também vamos insistir para em 2007, confirmada agora pelo Outubro–2010 10 fruto de reforma agrária, e o agrone- buição de terras e o 1 a mais alta con- que isto seja feito”, finalizou. n TRF-3. n  (MPF/MS)
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    Justiça Fotos: Cimi Regional Leste/Equipe Itabuna MPF cita união por atos abusivos da PF A União pode pagar indenização de 500 mil reais à comunidade Tupinambá, na Bahia por atos abusisvos da Polícia Federal. A União foi citada em 25 de setembro, mas só agora a notícia veio a público O Ministério Público Federal policiais já chegaram à Fazenda Santa (MPF), na pessoa da procura- Rosa disparando tiros. dora Flávia Galvão Arruti, da Assustados, muitos indígenas fu- Procuradoria da República em giram para a mata. Mas os indígenas Ilhéus, propôs uma Ação Civil Pública José Otávio Freitas Filho, Carmelindo por dano moral coletivo e individual Batista da Silva, Osmário de Oliveira Contexto o que só confirma as denúncias que a comunidade vem fazendo”, afirmou. em face da União, pelos atos pratica- Barbosa, Ailza Silva Barbosa e Alzenar O conflito pela disputa de terras Ainda de acordo com Saulo, a ação, dos pela Polícia Federal (PF) no dia 2 Oliveira Silva foram surpreendidos indígenas na região sul da Bahia é de além do ganho jurídico, é também um de junho de 2009 em relação à comu- pelos agentes e se renderam, vendo a conhecimento público e a própria ação ganho político. “Esta ação significa nidade Tupinambá. O MPF requer a impossibilidade de fuga do local. do MPF salienta o fato. “A comunidade simbolicamente uma reação à criminali- condenação da União ao pagamento Em seus depoimentos, os agentes indígena Tupinambá da Serra do Padei- zação que vem sendo instaurada contra estipulado no valor de 500 mil reais, confirmaram o uso da força e da arma ro, juntamente com outras comunida- os povos indígenas. Esperamos que que deve ser revertido à comunidade. teaser (ferramenta que aplica choques des, há anos luta pelo reconhecimento ajude a inibir outros fatos como este”, O MPF entrou com a ação no dia 26 de elétricos) para imobilizar os indígenas e demarcação da terra indígena. No ano O povo declarou. No entendimento de Saulo, a julho de 2010. citados. Na ação, o MPF afirma que só de 2009 foi publicado pela Funai, após Tupinambá petição também identifica e deixa clara vem sofrendo A ação foi movida visando reparação com o depoimento dos policiais já é realização de minucioso estudo antro- seguidos a prática racista do órgão do governo dos danos sofridos por indígenas Tupi- possível afirmar que a PF empregou pológico, o relatório de demarcação ataques e contra os povos indígenas. nambá quando, em junho do ano passa- força desnecessária e a situação reclama da Terra Indígena Tupinambá.”, afirma. é vítima constante dos do, foram violentados e torturados por por indenização em favor da comu- A petição também ressalta que o “Não dá para amenizar” desmandos de agentes da PF. Segundo os agentes, eles nidade indígena ofendida. “...consta direito dos indígenas à terra é um di- Glicéria Tupinambá, liderança da fazendeiros se dirigiram à Fazenda Santa Rosa, mu- nos autos a inacreditável narração de reito originário e que portanto não é comunidade e irmã do cacique Babau, e da própria Polícia nicípio de São José da Vitória (BA), no que fora necessária a aplicação de cho- necessário nenhum ato do poder público destacou a importância da ação. “Quan- Federal. Uma intuito de constatar o delito de esbulho ques elétricos por mais de para constituir tal direito, do meu irmão estava preso, eu estive indenização seria um possessório, ou seja, invasão de terras. quatro minutos e de spray A petição ressalta sendo os procedimentos no MPF e me avisaram que estavam pequeno Na ação, o MPF apresenta as versões da de pimenta para que os que o direito dos demarcatórios somente entrando com essa ação, mas eu acabei esforço para PF e dos indígenas, mas, em ambos os seis policiais federais bem indígenas à terra é declaratórios. Assim, o não acreditando. Agora estou vendo amenizar as consequências casos, o emprego excessivo da força é treinados desarmassem e um direito originário conflito na região da Serra que é verdade. Não dá para amenizar da violência. configurado. imobilizassem dois índios: e que portanto do Padeiro teve início com tudo que já passamos, mas é o mínimo Assim, tendo ambos os depoimen- Otávio e Osmário.”, decla- não é necessário o fato de os integrantes da que podemos receber por todo esse tos e os exames de corpo de delito, o ra a procuradora na ação. nenhum ato do comunidade retomarem sofrimento.”, declarou. MPF constatou que o modo de agir da A ação também mostra poder público suas terras tradicionais, Segundo Glicéria, a luta pela terra PF configurou-se em verdadeira tortura que, independente da for- para constituir tal que estão invadidas por é muito ampla e ultrapassa essas ques- contra os indígenas. ma como ocorreram os fa- direito, sendo os fazendeiros. tões, mas a ação é uma pequena vitória. tos, a única conclusão pos- procedimentos Para Saulo Feitosa, se- Glicéria esteve presa no Conjunto Penal Os fatos sível é a necessidade do demarcatórios cretário adjunto do Cimi, é de Jequié de junho até o final de agosto De acordo com indígenas (o que foi pagamento de indenização somente preciso destacar a atitude deste ano. Ela foi detida, juntamente com confirmado pelos exames de corpo de pela União à comunidade declaratórios do MPF. “Por esta ação, po- seu filho de apenas dois meses à época, delito), a PF utilizou spray de pimenta indígena e que a pena deve demos perceber que o MPF quando desembarcava no aeroporto de nos olhos das vítimas, deram tapas, ser aplicada “em razão da violência, assume o seu dever constitucional de Ilhéus na volta de uma reunião com o chutes, pisões, choques elétricos e humilhação, desrespeito aos direitos defesa dos povos indígenas. Além disso, presidente Lula, em Brasília. Os motivos puxões de cabelo. Em depoimento, fundamentais que sofreram justamente deixa-se claro que a PF agiu de maneira da prisão foram os mesmos de seu irmão: os indígenas também afirmam que os em virtude de serem indígenas”. abusiva e causou danos à comunidade, a luta pela terra. n (Com dados do MPF) 11 Outubro–2010
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    Relato Missionário Fotos: Arquivo Cimi A dor do povo é a nossa dor Ir. Joana Aparecida Ortiz Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora Aparecida C omo membro da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) e da Congregação Franciscana de Nossa Senhora Aparecida, Irmã faz relato de visita aos estive, entre os dias 19 e 22 de setem- Guarani: “Vi bro, na região de Dourados (MS) junto de perto o ao Cimi, numa visita aos acampamentos sofrimento, a dor do e aldeias de partes da região de Rio povo Guarani Brilhante, Douradina, Dourados, Coro- Kaiowá na luta nel Sapucaia e Ponta Porã. Vi de perto Evangelho vivo de cada dia presença da Igreja, exceto as irmãs e e do nosso lado uma palavra do Cimi. pela retomada agora Pe. Teodoro, que fala o Guarani Senti como no tempo de Jesus. “Daí- de seus o sofrimento, a dor do povo Guarani Dia 20 fomos para Passo Piraju – Tekoha” Kaiowá na luta pela retomada de seus e está sendo uma presença animadora -lhes, vós mesmos de comer”, assim é uma terra de retomada. O Evangelho de Tekoha (terra sagrada). ao povo junto com as irmãs. o papel do Cimi. Não uma comida que hoje nos diz que a luz não foi feita para Vários acampamentos sofrem ame- Esperança sustenta no momento, mas o alimento ficar escondida. Esta luz da luta do Cimi aças, líderes são perseguidos, crianças que ajuda no protagonismo deste povo. não pode ser escondida. Os avanços e Dia 21 de setembro, Dia da árvore! morrem de desnutrição, falta de atendi- Um alimento que ajuda na reconquista lutas incansáveis destes missionários Véspera de primavera! Há sinais de es- mento médico e alimentação adequada. de seus Tekoha, de sua dignidade como e missionárias, verdadeiros profetas, perança. E como dizia D. Hélder: “onde Em algumas áreas nunca tiveram a pre- pessoa humana. Este testemunho do deve ser publicado nos quatro cantos existe um restinho de esperança é meu dever sença da Funasa, alegando serem áreas Cimi é uma resposta ao mandato de do mundo. Quanto brilho nos olhos do alimentá-la”. de conflito. Em outras, a alimentação Jesus acima citado. povo indígena quando recebe a presen- O Evangelho de hoje fala que depois entregue pela Funai chega com atraso. ça do Cimi em sua terra. da morte de João Batista, Jesus foi com Ponta Porã Nestes lugares o Cimi está presente, Tivemos o depoimento do senhor seus discípulos para um lugar afastado. animando o povo em sua luta. No mesmo dia fomos para Ponta Porã Carlito e seu genro Valmir. Estes de- As multidões vão ao encontro dele. Uma Como CRB Regional, no que tange à onde Egon tinha uma entrevista sobre poimentos foram proféticos da dor do multidão faminta e doente. Jesus as questão indígena, assumimos uma prio- o caso do Ypoí, uma área de retomada povo Guarani Kaiowá. Quem grita os acolhe e fala a elas do Reino e restitui a ridade que ai está: Avivar a dimensão onde os povos indígenas se encontram seus direitos, corre o risco de ser aba- saúde de todos que precisavam de cura. profético-missionária da CRB, atuando sitiados pelos produtores rurais. Neste fado pelo poder, pela polícia repressiva. Hoje eu vivenciei esta passagem em rede e parcerias nas novas periferias local foram assassinados Genivaldo e Assim aconteceu com este povo. Mas do Evangelho nas pessoas do Cimi em e fronteiras, intensificando a opção pe- Rolindo Vera, professores indígenas. como dizia Carlito: “Deus conhece, Ele contato com os povos indígenas. Fomos los empobrecidos, assentados e indíge- sabe... Deus nos deixou este ‘Lençol’(terra). visitar a retomada de Kurusu Ambá, mu- Retornando para Dourados, no nas e fortalecendo o compromisso com Só que ela está com um novo lençol que não nicípio de Coronel Sapucaia, fronteira entardecer, o sol se pondo e o luar as causas sociais, econômicas, políticas é o dado por Deus”. com o Paraguai. Este povo é mais um surgindo entre a árvore seca à beira da e ambientais. Após depoimento indígena, Egon sinal de resistência e luta em busca de Rodovia 463, chegamos ao barraco de Heck informava a comunidade sobre o seu Tekoha. Já é a quarta vez que voltam dona Damiana Cavanha – líder indígena Laranjeira Ñanderu andamento dos processos e situações ao seu território. A Funai está fazendo o do Acampamento Apycaí, Curral de Dia 19 de setembro, na beira da BR das demais comunidades em luta e re- trabalho de identificação. Chegamos de Arame. Esta retomada já tem dez anos. 163, acampamento Laranjeira Ñanderu, tomada. Esta rede e sintonia fortalecem surpresa, pois é difícil a comunicação. Assim passaram estes dias nestas onde desci do ônibus e fui acolhida por e animam as comunidades. Logo ao chegarmos à aldeia a jovem terras indígenas que esperamos, não este povo sofrido e alegre. Estava no Paulo Suess lhes dá uma palavra de Berenice nos falou sobre uma criança demore muito, sejam devolvidas aos momento da reza de acolhida. Lá já se conforto e esperança dizendo que a de apenas três anos, que se encontrava seus verdadeiros donos. Ficaram em encontravam os missionários do Cimi: “luta indígena é como o rio, mesmo sendo gravemente enferma. Prontamente a mim a marca, a convicção e o desejo Egon Heck (MS), Paulo Suess (Nacional) desviado do seu curso, um dia ele retoma o equipe do Cimi foi ao local onde se en- cada vez mais forte de continuar nesta e Geraldo (MS), também o líder indígena seu leito normal. E assim está acontecendo contrava a criança e sua mãe e de lá as causa e de levar às demais pessoas que Zezinho que partilhava conosco a reali- com os povos indígenas do Mato Grosso do acompanhamos até a Casa do Índio em ainda desconhecem esta realidade. dade. Para mim foi um momento único. Sul e tantos outros povos”. Amambaí. Laila com a criança doente Diante do Evangelho de hoje encer- O sonho de estar junto a este povo se À tarde fizemos visita a Comunida- nos braços. A mãe da criança ao lado ro agradecida a Deus, a Congregação, tornava realidade. de Religiosa das Irmãs da Consolata. com outro filho no colo. A criança sem a CRB e em especial ao Cimi, por este Seguimos para Dourados. A tar- Elas partilharam sobre a realidade de forças, desidratada, pedia água. Egon na espaço e esta oportunidade de vivenciar de fomos ao acampamento Ita’Y trabalho com as mulheres indígenas: direção acelerava para chegar a tempo mais de perto o Evangelho de Jesus Ka`Aguyrusu, município de Douradina. projeto corte costura e acompanha- de socorrê-la. A distância era longa. Na Cristo junto aos Povos Indígenas. Nesta região o povo sofre perseguições mento religioso. Falaram do grande manhã do dia seguinte nos informaram “Em qualquer casa onde vocês entrarem, e ameaças constantes por parte dos desafio de grupos religiosos na aldeia que ela havia morrido. fiquem aí, até vocês se retirarem”. Agrade- produtores rurais. Estão sitiados. Seus que vão matando a expressão própria Como em todos os locais por onde cida pela acolhida e mais fortalecida pelo barracos foram queimados e os mesmos dos indígenas. É fraco o catolicismo. passamos, houve um momento de ESCU- testemunho incansável da equipe do Cimi – Outubro–2010 12 despejados na beira da estrada. Há pouca presença ou quase nada da TA por nossa parte, sobre suas realidades Campo Grande e Dourados (MS). n
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    Homenagem Foto: Arquivo Cimi Cimi recebe prêmio João Canuto Homenagem é creditada à atuação dos missionários e missionárias da entidade Cleymenne Cerqueira Homenageado Repórter A homenagem ao Cimi é resulta- do da atuação da entidade junto aos O Conselho Indigenista Missio- povos indígenas do país. O Conselho nário (Cimi) recebeu no dia Indigenista é um organismo vinculado 21 de outubro, o Prêmio João à Conferência Nacional dos Bispos do Canuto 2010. A entidade foi Brasil (CNBB). O movimento indígena já recebeu O Movimento Humanos Direitos Vice- presidente do representada por seu vice-presidente, O Cimi conta atualmente com 114 outras homenagens do Prêmio João atua diretamente por meio de execução Cimi, Roberto Roberto Antônio Liebgott, que credita a equipes de trabalho, formadas por Canuto por sua atuação junto aos de projetos, programas ou planos de Liebgott, homenagem à atuação dos missionários leigos e religiosos, que atuam em povos indígenas. Em 2006, dom Pedro ações desenvolvidos em prol da paz e recebe a premiação e missionárias da entidade. diversas regiões do país. As ativida- Casaldáliga, um dos fundadores do dos direitos humanos. Seu trabalho está da entidade O prêmio, oferecido anualmente des junto às comunidades indígenas Cimi, também foi premiado. voltado para os problemas do trabalho Humanos escravo, dos abusos praticados contra Direitos, no RJ pelo grupo de pesquisa Trabalho têm como princípios o respeito pela Escravo, do Núcleo de Estudos de Po- alteridade indígena e sua pluralidade Premiações crianças e adolescentes e sobre as líticas Públicas em Direitos Humanos étnico-cultural, bem como a opção e Ao longo de sua existência, o Con- questões que envolvem meio ambiente (Nepp-DH), da Universidade Federal compromisso com a causa indígena selho Indigenista Missionário vem rece- e comunidades tradicionais, como as do Rio de Janeiro, e pelo Movimento dentro de uma perspectiva mais ampla bendo seguidas homenagens por sua indígenas e quilombolas. Humanos Direitos (MHuD), tem por de uma sociedade democrática, justa atuação. Em 2009, a entidade recebeu Diversos artistas e intelectuais fa- objetivo dar visibilidade a empreende- e solidária. o Prêmio Victor Gollancz, da entidade zem parte do quadro de associados do dores sociais e organizações rurais e Para o vice-presidente da entidade, alemã Associação para Povos Ameaçados Movimento. Entre eles, os atores Chico urbanas que se dedicam à defesa dos a premiação vem em função da luta (GfbV). No ano anterior, o Cimi recebeu Diaz, Carla Marins, Camila Pitanga, direitos humanos. do Conselho pela garantia de direitos o IX Prêmio USP de Direitos Humanos, Wagner Moura, Pepita Rodrigues, Os- Este ano, além do Cimi, receberam dos povos indígenas. “O prêmio faz na categoria institucional. A premiação mar Prado, Letícia Sabatella e Dira Paes. homenagens o Comitê Popular pela Er- um reconhecimento ao trabalho que homenageou pessoas e instituições que, radicação do Trabalho Escravo no Norte os missionários e missionárias do Cimi Prêmio através de suas atividades exemplares, Fluminense, Alexandre Anderson, MV vêm desenvolvendo ao longo de quase contribuíram para a difusão e divulgação O nome do Prêmio é uma home- Bill, Leonardo Sakamoto; Movimento 40 anos pela defesa dos direitos dos dos direitos humanos no Brasil. nagem ao primeiro presidente do 11 de Dezembro, de Santo Antônio povos indígenas”. Este ano, além da presente home- Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Jesus, Bahia; Zilda Arns, in memo- Liebgott fala ainda sobre a impor- do Rio Maria, no Pará, João Canuto de nagem, Dom Erwin Kräutler, presiden- riam; Dom Xavier Gilles de Maupeou tância da iniciativa: “Essa premiação Oliveira, assassinado em dezembro te da entidade e bispo da Prelazia do d´Ableiges e o Instituto Materno- é de suma importância porque a ação de 1985. Caso que levou o Brasil à Xingu, foi um dos quatro ganhadores -Infantil de Pernambuco (Imip). missionária recebe acompanhamen- condenação pela Corte Interamericana Como nas edições anteriores, a pre- to de outros setores da sociedade, do Prêmio Right Livelihood 2010, o de Direitos Humanos da OEA, tanto miação deste ano foi realizada durante não somente aqueles atrelados à prêmio Nobel Alternativo da Paz. Dom pela demora no julgamento do crime, as atividades do VII Fórum Anual do causa indígena. O acompanhamento Erwin foi homenageado também com como pelo fato de o Estado não ter MHuD, que na ocasião debateu o tema e apoio vêm inclusive de artistas e o Prêmio de Direitos Humanos José garantido sua segurança, apesar de ter “Escravidão Contemporânea e Questões intelectuais, que nos rendem essa Carlos Castro, oferecido pela Ordem recebido as denúncias do sindicalista Correlatas”. homenagem”. dos Advogados do Brasil, Seção Pará. pelas ameaças sofridas. n Em visita Ad limina, bispo de São Gabriel da Cachoeira (AM) e Papa bento XVI conversam sobre questões indígenas O Bispo de São Gabriel da Cachoeira, dom Edson Damian, foi recebido pelo Papa Bento XVI, no dia 1º de outubro, em visita Ad limina. Dom Edson con- versou com o Papa durante 20 minutos, acompanhado do Pe. Reginaldo Cordeiro, salesiano, e indígena do povo Arapaso, de S. Gabriel da Cachoeira, que havia sido ordenado presbítero por dom Edson no dia 15 de agosto deste ano. Segundo dom Edson, a visita foi bastante proveitosa e o Papa mostrou seu carinho espe- cial pelos índios e pela Amazônia. Dom Edson afirmou que Bento XVI fez muitas perguntas sobre os indígenas da Amazônia e em especial do rio Negro. Ao final da visita, dom Edson presenteou o Papa com um colar indígena. n 13 Outubro–2010
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    Eleições 2010 Entidades indígenas enviam carta pública aos presidenciáveis “ E speramos que o próximo que se encontram, bem governo coloque de fato a como todo e qualquer questão indígena na centrali- projeto do governo dade das políticas do Estado, federal que priorize garantindo os nossos direitos de cida- o desenvolvimento dãos brasileiros, mas também de povos em detrimento à vida. com direitos coletivos diferenciados, “Diante desse com quem este país tem ainda enormes quadro, somos contra dívidas históricas e sociais por pagar” qualquer proposta de de- A poucos dias do segundo turno das senvolvimento que, mesmo eleições deste ano, entidades represen- se dizendo sustentável, não tativas dos diversos povos indígenas do contraria a lógica mercantilista, país enviaram carta pública aos candi- desenvolvimentista a qualquer custo e datos à Presidência da República, José biodiversidade e outras poten- o consumo exacerbado, dominado pela Carta com as Serra (PMDB) e Dilma Rousseff (PT). A cialidades, incluindo uma das privatização da água, das florestas, da reivindicações iniciativa foi motivada pelo momento maiores diversidades étnicas atmosfera, enfim da vida, rompendo a indígenas assinada pelos político-eleitoral quando os candidatos do planeta, que há milhares harmonia e a unidade entre vida-socie- presidenciáveis apresentam propostas que afetarão o de anos preservamos”. [Trecho dade e cultura que milenarmente pra- antes das futuro do país e o destino de todos da carta]. ticamos”. [Trecho da carta na íntegra]. eleições os brasileiros e brasileiras, entre eles Mesmo com o reconheci- O documento é assinado pela Arti- os povos indígenas, também cidadãos mento da diversidade etnocul- culação dos Povos Indígenas do Brasil desta nação. governo federal e também a criminali- tural do país e da garantia dos direitos (APIB), Coordenação das Organizações O documento aborda a garantia zação de lideranças indígenas. dos povos indígenas na Constituição Fe- Indígenas da Amazônia Brasileira dos direitos dos povos indígenas no “A partir desta matriz neocolonial, deral Brasileira, esses povos continuam (COIAB); Articulação dos Povos e Orga- novo governo, bem como agilidade no setores ou representantes do latifúndio, vítimas de preconceito, discriminação nizações Indígenas do Nordeste, Minas atendimento de antigas demandas, que do agronegócio, das mineradoras, das e racismo. Muitas comunidades têm Gerais e Espírito Santo (APOINME); têm, historicamente, pautado a luta madeireiras, dos grandes empreendi- enfrentado, inclusive, ações violentas e Articulação dos Povos Indígenas do desses povos na defesa de suas terras, mentos ou dos próprios governos têm truculentas, como perseguições, amea- Sul (ARPINSUL); Articulação dos Po- identidades e culturas. O texto traz se articulado para reverter os direitos ças, prisões e assassinatos. vos Indígenas do Pantanal (ARPIPAN); referência a ações que afetam direta constitucionais dos povos indígenas e Os povos indígenas manifestam Grande Assembléia do Povo Guarani e indiretamente a vida desses povos, tomar por assalto as terras indígenas através da carta total repúdio à atual si- (Aty Guasu) e Articulação dos Povos como os grandes empreendimentos do e os recursos naturais, hídricos, da tuação de desassistência e violência em Indígenas do Sudeste (ARPINSUDESTE). Veja principais reivindicações 1) Aprovação do Novo Estatuto dos Povos Indígenas, engavetado há mais rodovias, ferrovias, portos, hidrovias, torres e linhas de transmissão e de 15 anos no Congresso Nacional; outros empreendimentos do Programa de Aceleração do Crescimento 2) Aprovação do Projeto de Lei e efetivação do Conselho Nacional de Política (PAC II); Indigenista; 6) Fim da criminalização e prisão arbitrária de lideranças indígenas que 3) Implementação da Secretaria Especial de Saúde Indígena e efetivação da lutam pelos direitos de seus povos e comunidades; autonomia política, financeira e administrativa dos Distritos Sanitários 7) Criação e implementação da Política Nacional de Gestão Territorial e Especiais Indígenas (DSEI`s), com a participação plena e controle social Ambiental das Terras; efetivo dos nossos povos e organizações nos distintos âmbitos, local e 8) Adequação da Fundação Nacional do Índio (Funai) a um novo patamar nacional; da política indigenista, que não seja paternalista, assistencialista, tutelar 4) Demarcação, proteção e desintrusão de todas as terras indígenas priori- e autoritário, em respeito ao reconhecimento da autonomia dos povos zando com urgência o caso crítico dos povos indígenas de Mato Grosso indígenas e conforme suas reais necessidades e aspirações; do Sul, principalmente os Guarani Kaiowá; 9) Garantia de acesso de todos os indígenas à educação de qualidade, de 5) Não construção de empreendimentos que impactam direta ou indi- forma continuada e permanente, nas aldeias, na terra indígena ou próxima retamente as terras indígenas, tais como: a Transposição do Rio São da mesma, conforme a necessidade de cada povo; Francisco, o Complexo Hidrelétrico de Belo Monte e as Pequenas Cen- 10) Participação dos povos indígenas na discussão e estabelecimento de trais Hidrelétricas (PCH`s) no Xingu e na região Sul do país, bem como quaisquer medidas ou políticas públicas que os afete. n Ouça o Potyrõ Também estamos on line pelo portal www.a12.com Todos os sábados e domingos, às 12h35, dentro do Programa Caminhos da Fé, na rádio Aparecida. Outubro–2010 14 A transmissão é para todo o Brasil. 820 kHz
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    Resenha Estrangeiros na Própriaterra Presença Guarani e Estados Nacionais Leda Bosi tulo que apresenta a importância das na esfera transcendental, a busca da Sedoc reduções no universo Guarani (século terra sem mal, espaços preservados 18), em que a redução implicava aos que possibilitem viver a passagem para O autor é membro do Conselho indígenas abandonar seus costumes o sagrado. Nesse sentido, são vários Indigenista Missionário (Cimi), e se submeter às regras dos religiosos os depoimentos colhidos pelo autor, atuando há mais de 20 anos e ao trabalho disciplinado, vê-se que sobre a quantidade de deslocamentos com populações indígenas, a redução não foi uma tarefa fácil. O efetuados pelos Guarani, durante a vida, trabalhando diretamente nas aldeias e texto mostra alguns aspectos dos con- tendo como ponto de partida alguma por meio de pesquisas científicas sobre frontos guarani com o sistema colonial aldeia situada em território paraguaio, esses povos. O texto ajuda a compreen- e as estratégias de resistência por eles argentino ou brasileiro. O que se infere der o processo da ocupação territorial adotadas. Destaca-se aqui, o fato de se desses depoimentos, idas e vindas de e a situação fundiária do povo Guarani. ver o Guarani não apenas como vítima e para muitas direções, são em geral O povo indígena Guarani é atual- ou figurante relacionado a um siste- a determinação de não aceitar a domi- mente um dos maiores povos do Cone ma, mas como agente dinamizador de nação, a busca de espaços adequados Sul da América. Ele se faz presente em sua história, que resistiu, enfrentou e às necessidades de viver as relações pelo menos cinco países: Brasil, Argen- participou de projetos com colonos e sociais próprias , seja na esfera reli- tina, Uruguai, Paraguai e Bolívia, amplo missionários. giosa mítica, seja na esfera econômica território de ocupação e mobilidade Percorrendo as páginas do livro, e social. tradicional guarani, onde esse povo se acompanhamos a ori- Clóvis Antonio Brighenti Florianópolis : UFSC; Chapecó : Argos, 2010 movimenta e vive num território não gem e a dispersão dos 282 p. exclusivo, que vai além das fronteiras Guarani, sua organiza- Eu sou nascido no Passo Feio (RS). Morei dos Estados-Nação. ção linguística, cultura uns tempos na Limeira (Xapecozinho), no O livro é resultado de pesquisa e e organização social, Ressalte-se aqui a importância da Paraná, e depois vim pra Argentina. Mas análise junto a aldeias guarani no esta- a sua economia e, em bibliografia consultada, histórica, ar- do de Santa Catarina (Brasil) e na provín- especial, um aspecto pra lá não dava (referindo-se às aldeias onde queológica, antropológica e da ciência cia de Misiones (Argentina). Apresenta fundamental do modo morou, em Misiones). Daí vim aqui (Peperi política, legislação indigenista nacional um estudo comparado do tratamento de ser Guarani, a rela- Guaçu), aqui ninguém incomoda(...). e internacional. Estudos esses, acres- sociojurídico entre esses dois países no ção que estabelecem cidos de observação direta em campo Liderança Guarani M.S que tange à especificidade Guarani. Em com a terra. Além de e acompanhamento das conjunturas Santa Catarina há, no momento, mais ser um espaço de re- locais. A esse conjunto destaca-se a de 20 aldeias, localizadas sobretudo sidência e cultivo, é, principalmente, Fruto dos constantes deslocamen- apresentação de mapas, gráficos, qua- no litoral, e em Misiones esse número o lugar de vivência cultural e religiosa. tos, muitas vezes nas discussões, deba- dros, figuras e fotografias. Esse rico ultrapassa 50 A terra se identifica com o tekoa – a tes, na etnografia, é comum ouvir ou ver material oferece subsídios e desafios a O estudo abrange a história do povo terra perfeita, a terra sem mal, o ideal as expressões “são índios paraguaios”, pesquisadores, técnicos de instituições Guarani do passado ao presente, antes de terra para os Guarani, lugar onde se são “estrangeiros”, “vieram da Argen- governamentais e ONGs, além de políti- da invasão européia, durante o período dão as condições de possibilidade do tina”. Nesse sentido, segundo o autor, cos, juristas, entre outros profissionais colonial e o que ocorre atualmente. modo de ser Guarani. pode-se fazer uma análise político/ e interessados. Dentro da história do Brasil colônia, Na busca dessa terra, o povo Gua- ideológico, especialmente por parte do As informações e reflexões apre- vemos como os mecanismos culturais rani se distingue pelos constantes Estado, que destaca esta questão para sentadas pelo autor são de grande dos Guarani possibilitaram a resistência deslocamentos. Há várias análises de negar-lhes ou reduzir-lhes os direitos, valia para que se encontrem formas depois de cinco séculos de contatos e historiadores, antropólogos, para expli- argumentando que, sendo estrangeiros, de avançar em definições e resultados conflitos com os não-indígenas, e tei- car esse constante ir e vir. Mas o aspecto os direitos não serão os mesmos que centrados na temática fundiária – eixo mosamente continuam insistindo em comum nessas análises é a busca, pelos dos brasileiros, especialmente quanto norteador do trabalho, e que possam manter a identidade e em lutar para Guarani, de espaço, de terra, tanto na ao reconhecimento e à demarcação das ser avaliados como positivos pelos preservar sua rica cultura. No capí- esfera física - espaço concreto, quanto terras que tradicionalmente ocupam. próprios Guarani. n Assine o Formas de Pagamento: Solicite Sua aSSinatura pela internet: adm.porantim@cimi.org.br banCo bradesCo se preferir pode enviar CHeQue por carta registrada nominal ao ConselHo indigenisTa missionÁrio, para o endereço: agência: 0606-8 – Conta Corrente: 144.473-5 sds – ed. venâncio iii, salas 309/314 – CeP: 70393-902 – brasília-dF ConselHo indigenisTa missionÁrio – Para a sua segurança, se for enviar cheque, mande-o por carta registrada! envie cópia do depósito por e-mail, fax (61-2106-1651) ou – Comunique sempre a finalidade do depósito ou cheque que enviar. correio e especifique a finalidade do mesmo. – Inclua seus dados: nome, endereço, telefone e e-mail. P r e ç O s Ass. anual: R$ 40,00 *Ass. de apoio: R$ 60,00 América Latina: US$ 40,00 Outros países: US$ 60,00 * Com a assinaTura de aPoio voCê ConTribui Para o envio do jornal a diversas Comunidades indígenas do País. 15 Outubro–2010
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    Os Payayá massacrampaulistas Benedito Prezia Apresentavam alguns traços culturais dos povos este português continuava se envolvendo no Historiador de língua jê, como a corrida de tora, além de um tráfico de escravos. Assim em 1657 foi chamado S endocanibalismo realizado no ritual funerário. É para reprimir os ataques do Payayá, no interior e o século 16 significou a conquista do possível que, como os Tupi, praticassem também baiano, a pedido do governador-geral. Embora litoral do Brasil pelos portugueses, no a antropofagia, como afirmam relatos da época. sexagenário, Calheiros aceitou este desafio, do século seguinte ocorreu a conquista Incapaz de deter os ataques deste belicoso qual se arrependeria mais tarde. do interior, onde viviam povos, na sua povo, o governador-geral Francisco Barreto, em Em fevereiro do ano seguinte o batalhão maioria de língua jê. Não sem razão fo- 1657, fez um apelo aos paulistas, já que tinham paulista, comandado por Domingos Calheiros e ram chamados de muralhas do sertão, pois muito fama de serem os únicos a controlar as rebeliões por seus dois adjuntos, Fernando de Camargo, o dificultaram a expansão lusitana. indígenas. O que mais os animavam nestas ações moço, e Bernardo Sanches de Aguiar, passaram Entre os vários episódios ocorridos nesse sé- é que parte do pagamento era feito com escravos a recrutar na Bahia pessoas para a expedição, culo, destaca-se a resistência do povo Payayá, que capturados. pois haviam trazido um número bem menor de vivia nas regiões de Utinga e Jacobina, na parte Os paulistas foram os grandes exterminado- portugueses e guerreiros indígenas do que o central da Bahia. Periodicamente desciam ao lito- res dos indígenas do Vale do Paraíba e das mis- prometido. Isso fez com que partissem somente ral, atacando e destruindo fazendas e engenhos. sões jesuíticas do Sul. Sem poder ter armas de em outubro. Entre os membros da expedição Os Payayá fazem parte da grande nação Kariri, fogo, os Guarani aldeados e os padres viam suas estavam vários paulistas conhecidos, como os sendo muito apegados às suas tradições reli- reduções serem destruídas e seus moradores se- irmãos Francisco e João Jorge Leite e o capelão, giosas, como se lê em alguns relatos jesuíticos. rem levados como escravos para São Paulo. Com Pe. Mateus Nunes de Siqueira, conhecido fazen- a autorização do rei da Espanha, os indígenas deiro paulista, dono de terras e escravos. missioneiros começaram a se defender com A bandeira sertanista, à medida que ia aden- armas de fogo, impondo muitas derrotas trando o sertão, recrutava mais portugueses e, aos paulistas, como foi o caso de Domingos sobretudo indígenas aliados, como os das aldeias Barbosa Calheiros e de seus comandados, de Jaguaripe e Tocos. Nas terras de Francisco Dias que foram derrotados pelos Guarani da d’Ávila, grande latifundiário baiano, receberam redução de Santa Teresa, na região um reforço importante de alguns de Corrientes, atual Argentina. indígenas Payayá dissidentes, que Voltando para São Paulo, sob o comando de Jaquarique, iriam servir de guias. A bandeira projetava exterminar não somente os Payayá, como também atacar as aldeias dos Marakaguaçu e dos Tupini, na região de Orobó, pois eram indígenas bastante apreciados, pelo fato de falarem tupi, a mesma língua dos pau- listas. A expedição que muito prometia, começou a ver seus projetos frustrados à medida que pene- trava naquele escaldante sertão. Na verdade os Payayá que se ofereceram como guias não eram dissidentes, mas guerreiros, disfarçados de amigos para levar os paulistas ao massacre. Na região de Tapuricé, próximo à Jaco- bina, o batalhão de quase 200 portugueses começou a ser atacado. A documentação da época não dá muitos detalhes, mas afirma que Domingos Calheiros conse- guiu escapar com vida, juntamente com alguns outros, que com muita dificul- dade chegaram até Salvador, depois de enfrentar fome e sede. Em 1660 já esta- vam em São Paulo, tendo este sertanista falecido logo depois, certamente devido às agruras desta jornada. O Pe. Mateus de Siqueira, que estava entre os sobreviventes, morrerá mais tarde, pois fará seu testamen- to em 1682, deixando para sua irmã fazenda e APOIADORES os escravos que possuía na região do Tatuapé, onde até hoje existe uma casa bandeirista. Infelizmente a história de resistên- cia dos Payayá ainda não foi escrita, precisando ser recuperados seus feitos e seus heróis. n Outubro–2010 16