O povo se uniu contra o rei cego que só enxergava e ouvia pessoas grandes. Eles construíram pernas de pau para ficarem altos e fizeram um grande barulho para serem notados. O rei ficou com medo e abdicou do trono.
O que osolhos não vêem
De uma cegueira terrível,
Havia uma vez um rei que até parecia incrível
num reino muito distante, de um vivente acreditar,
que vivia em seu palácio que os mesmos olhos que viam
com toda a corte reinante. pessoas grandes e fortes,
Reinar pra ele era fácil, as pessoas pequeninas
ele gostava bastante. não podiam enxergar.
Mas um dia, coisa estranha! E se, no meio do povo,
Como foi que aconteceu? nascia algum grandalhão,
Com tristeza do seu povo era logo convidado
nosso rei adoeceu. para ser o assistente
De uma doença esquisita, de algum grande figurão.
toda gente, muito aflita, Ou senão, pra ter patente
de repente percebeu... de tenente ou capitão.
E logo que ele chegava,
Pessoas grandes e fortes no palácio se instalava;
o rei enxergava bem. e a doença, bem depressa,
Mas se fossem pequeninas, no tal grandalhão pegava.
e se falassem baixinho,
o rei não via ninguém. Todas aquelas pessoas,
com quem ele convivia,
Por isso, seus funcionários que ele tão bem enxergava,
tinham de ser escolhidos cuja voz tão bem ouvia,
entre os grandes e falantes, como num encantamento,
sempre muito bem nutridos. ele agora não tomava
Que tivessem muita força, o menor conhecimento...
e que fossem bem nascidos.
E assim, quem fosse pequeno, Seria até engraçado
da voz fraca, mal vestido, se não fosse muito triste;
não conseguia ser visto. como tanta coisa estranha
E nunca, nunca era ouvido. que por esse mundo existe.
O rei não fazia nada E o povo foi desprezado,
contra tal situação; pouco a pouco, lentamente.
pois nem mesmo acreditava Enquanto que próprio rei
nessa modificação. vivia muito contente;
E se não via os pequenos pois o que os olhos não vêem,
e sua voz não escutava, nosso coração não sente.
por mais que eles reclamassem
o rei nem mesmo notava. E o povo foi percebendo
que estava sendo esquecido;
E o pior é que a doença que trabalhava bastante,
num instante se espalhou. mas que nunca era atendido;
Quem vivia junto ao rei que por mais que se esforçasse
logo a doença pegou. não era reconhecido.
E os ministros e os soldados,
funcionários e agregados, Cada pessoa do povo
toda essa gente cegou. foi chegando á convicção,
2.
que eles mesmosé que tinham E os grandões, antes tão fortes,
que encontrar a solução que pareciam suportes
pra terminar a tragédia. da própria casa real;
Pois quem monta na garupa agora tinham xiliques
não pega nunca na rédea! e cheios de tremeliques
fugiam da capital.
Eles então se juntaram,
Discutiram, pelejaram, O povo estava espantado
E chegaram à conclusão pois nunca tinha pensado
Que, se a voz de um era fraca, em causar tal confusão,
Juntando as vozes de todos só queriam ser ouvidos,
Mais parecia um trovão. ser vistos e recebidos
sem maior complicação.
E se todos, tão pequenos,
Fizessem pernas de pau, E agora os nobres fugiam,
Então ficariam grandes, apavorados corriam
E no palácio real de medo daquela gente.
Seriam logo avistados, E o rei corria na frente,
Ouviriam os seus brados, dizendo que desistia
Seria como um sinal. de seus poderes reais.
Se governar era aquilo
E todos juntos, unidos, ele não queria mais!
fazendo muito alarido
seguiram pra capital. Eu vou parar por aqui
Agora, todos bem altos a história a que estou contando.
nas suas pernas de pau. O que se seguiu depois
Enquanto isso, nosso rei cada um vá inventando.
continuava contente. Se apareceu novo rei
Pois o que os olhos não vêem ou se o povo está mandando,
nosso coração não sente... na verdade não faz mal.
Que todos naquele reino
Mas de repente, que coisa! guardam muito bem guardadas
Que ruído tão possante! as suas pernas de pau.
Uma voz tão alta assim
só pode ser um gigante! Pois temem que seu governo
- Vamos olhar na muralha. possa cegar de repente.
- Ai, São Sinfrônio, me valha E eles sabem muito bem
neste momento terrível! que quando os olhos não vêem
Que coisa tão grande é esta nosso coração não sente.
que parece uma floresta?
Mas que multidão incrível!
Ruth Rocha
E os barões e os cavaleiros,
ministros e camareiros,
damas, valetes e o rei
tremiam como geléia,
daquela grande assembléia,
como eu nunca imaginei!