UNIVERSIDADE CATÓLICA DO SALVADOR
MESTRADO EM FAMÍLIA NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA
MÁRCIA MARIA PIMENTA MATTOS
FUNÇÕES PARENTAIS:
A PROBLEMATIZAÇÃO FREUDIANA SOBRE DESEJO E DEVER
Salvador
2005
MÁRCIA MARIA PIMENTA MATTOS
FUNÇÕES PARENTAIS:
A PROBLEMATIZAÇÃO FREUDIANA SOBRE DESEJO E DEVER
Dissertação apresentada à Universidade Católica
do Salvador como requisito parcial para
obtenção do título de Mestre em Família
Contemporânea.
Orientador: Prof. Dr. José Euclimar Xavier de
Menezes.
Salvador
2005
Elaborado por: Valdete Silva Andrade
CRB-Ba.-05/941
M444 Mattos, Márcia Maria Pimenta
Funções parentais: a problematização freudiana sobre desejo e
dever / Márcia Maria Pimenta Mattos.– Salvador, 2005.
154f.
Dissertação (Mestrado em Família na Sociedade Contemporânea)
– Universidade Católica do Salvador, 2005.
Orientador: Prof. Dr. José Euclimar Xavier Menezes
1. Psicanálise. 2. Função paterna. 3. Revisão epistemológica. I.
Menezes, José Euclimar. II.Universidade Católica do Salvador. III.
Título.
CDU: 159.964.2
UNIVERSIDADE CATÓLICA DO SALVADOR
MESTRADO EM FAMÍLIA NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA
MÁRCIA MARIA PIMENTA MATTOS
FUNÇÕES PARENTAIS:
A PROBLEMATIZAÇÃO FREUDIANA SOBRE DESEJO E DEVER
Dissertação para obtenção do grau de Mestre em Família na Sociedade Contemporânea
Salvador, 17 de outubro de 2005.
Banca Examinadora:
______________________________________________________________________
Profa. DENISE MARIA BARRETO COUTINHO
Doutora pela Universidade Federal da Bahia
______________________________________________________________________
Profa. ANAMÉLIA LINS E SILVA
Doutora pela Universidade Federal da Bahia
______________________________________________________________________
Prof. JOSÉ EUCLIMAR DE MENEZES
Orientador
Doutor pela UNICAMP
A meus pais, pela chance desta existência.
Às minhas três filhas, pela oportunidade
de experimentar o sabor e o saber da
maternidade.
AGRADECIMENTOS
Ao Instituto João Paulo II e à Universidade Católica de Salvador por viabilizarem o mestrado.
Ao Bispo João Carlos Petrinni pela crença e determinação em transformar seu sonho, num
sonho coletivo e realizável.
Aos mestres e colegas pela transmissão do saber, pelo exercício da troca e da convivência
amistosa.
Ao amigo e confidente, fiel incentivador, crítico contumaz , porto seguro para as travessias
turbulentas e para todos os ensaios de desistência. Sujeito de suposto e de verdadeiro saber.
Interlocutor compulsivo e instigador. Meu orientador Prof. José Euclimar de Menezes.
À doce Virgínia pelo seu acolhimento, pelo colo, ombro e por me fazer acreditar, mesmo nos
momentos mais críticos, que era possível me tornar uma mulher e um ser humano melhor.
Aos ex-companheiros que possibilitaram a constituição da minha família: a gratidão pela
experiência de me fazer mãe e o despertar para o reconhecimento do lugar paterno.
Muitos foram os que me permitiram chegar até aqui: família, amigos, colegas de trabalho,
alunos, superiores hierárquicos.
A todos aqueles que, de alguma forma, sempre conseguiram entender, respeitar e tornar-se
cúmplice dos momentos de ausência, da minha reclusão, das oscilações de humor, fica a
minha profunda gratidão.
És para mim como alimento para a vida,
como os aguaceiros de maio para a terra, e pelo
teu amor me atormento tanto, como o avarento
pena pelo ouro seu, que de possuí-lo ora exulta,
mas logo teme que seus tesouros desapareçam
com o tempo: e ora deseja estar unicamente junto
de ti, ora que o mundo admire o meu prazer,
saciado às vezes somente por ver-te, e logo
esfomeado de seu olhar; e não existe alegria que
eu tenha ou persiga, se de ti não espero ou não
me sobra. Assim devoro e desfaleço, voraz, tudo
aferrando e morrendo de fome.
Shakespeare
RESUMO
Esta dissertação tem como objetivo analisar o conceito de paternidade ou de função paterna,
definido por Freud através do pensamento psicanalítico, com propósito de compreender o que
sobrevive do entendimento desta função nos novos arranjos familiares identificados na
sociedade contemporânea. O presente estudo pretende aprofundar-se, com o recurso
metodológico da pesquisa epistemológica do texto freudiano, na formação da imago paterna e
no seu papel ordenador da subjetividade e da humanização de cada sujeito, a partir da
perspectiva das relações familiares. O interesse se amplia para além da identificação da
diversidade de formas de participação do pai nas estruturas familiares. O que se quer
compreender é o que subjaz da função paterna, modelada por Freud na estrutura familiar
contemporânea. A família, presente nos mais diversos períodos históricos, constituída de
diferentes formas, procura adequar-se às necessidades humanas de cada época. Diante deste
conjunto de relações e de intersubjetividade demarcam-se obrigações para cada um de seus
membros. As imagens e os modelos de comportamento masculino e feminino, fruto de
elaborações culturais historicamente determinadas, devem ser reconhecidos como a base para
as relações entre os sexos e entre as gerações no contexto familiar, definindo os papéis, a
divisão de trabalho e as relações de poder e autoridade, e configurando, ainda, o conjunto de
valores morais, crenças e normas de comportamento para o sujeito e para suas relações
sociais. Estudar o pai ou o lugar que ele ocupa; é compreender a sua função no mundo
contemporâneo. Esse empreendimento tem Freud como um referente poderoso e provocador,
capaz de contribuir na compreensão dessa função ordenadora e fundamental, para a
constituição de cada subjetividade.
Palavras-Chave: Pai; função paterna; família; função da cultura; psicanálise; Freud.
ABSTRACT
The purpose of this dissertation is to analyse the concept of paternity or the concept of the
fatherly function, defined by Freud, with the goal of understanding what survives form the
knowledge of this function in the nem family arrangements found in contemporary society. It
is intended to show an in-depth study using the methodology of epistemologic research of the
freudian text, of the formation of the “father figure” and its ordely part in the subectivity and
humanity of each person, under the perspective of family relationships. The interest goes
beyong the identification of the diversity of ways of participation from the father in family
structures, comprinsing Freud’s theorie. Present in the most diverse historical periods, shaped
in different ways, society looks into adapting to the human needs of each era. In the face of
this group of relations and intersubjectivity, the task for each member are set. The templates
and models of masculine and feminime behaviour, a result of historically determined cultural
elaborations, are recognized as the base for relationships between the genders and generations
in the family context, defining their parts, the share of work, power and authority relations,
and also laying the moral values, faith and norms of behaviour to the person and his/her social
relations. To study the “father” or the place he occupies is the same as investigating the
peculiar nature that describes his function in contemporary society. This entrepreneurship, has
Freud as its provocator reference, being able to contribute in the understanding of this ordely
and fundamental function to the formation of each subjectivity.
Keywords: Father; paternity function; family; cultural function; psycoanalysis; Freud.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO 10
FREUD E A PATERNIDADE 13
A CONTEMPORANEIDADE E A FUNÇÃO PATERNA 18
1 A ORDENAÇÃO PSÍQUICA EM FREUD 21
1.1 A PRÉ-HISTÓRIA DA PSICANÁLISE: UM PAI AUSENTE 26
1.2 A SEXUALIDADE: CENTRALIDADE NA ORDENAÇÃO PSÍQUICA 38
1.3 OS CASOS CLÍNICOS: O APARECIMENTO DO PAI 51
2 O PRÓXIMO PASSO: FREUD E A NOÇÃO DE FANTASIA 67
2.1 FANTASIAS, TRAUMAS – O REAL E O IMAGINÁRIO SE
CONFUNDEM E SE FUNDEM PARA COMPOR O SUJEITO
73
2.2 FANTASIA E DESEJO – O PAI NÃO MAIS AUSENTE 78
3 A TRIÂNGULAÇÃO DO DESEJO 90
3.1 A SEXUALIDADE INFANTIL: DA POLIMORFIA AO MUNDO DO
OBJETO
98
3.2 ÉDIPO: O MITO DO HERÓI; O RECONHECIMENTO E O SÍMBOLO DA
FUNÇÃO PATERNA
108
3.3 A METÁFORA E O TRIÂNGULO DESIDERATIVO 111
4 A FUNÇÃO ORDENADORA DO PAI 116
4.1 O TOTEM, A HORDA E A ORDENAÇÃO SOCIAL 119
4.2 DO TOTEM AO PAI 124
4.3 O PAI, O SUJEITO DE DESEJO E A ORGANIZAÇÃO FAMILIAR 133
CONCLUSÃO 146
REFERÊNCIAS 152
10
INTRODUÇÃO
As mudanças que vêm ocorrendo no contexto social desde o final do século XX e que
iniciam este novo século não constituem fenômenos isolados; formam-se como um conjunto
de transformações socioeconômicas, políticas e tecnológicas complexas que se realizam em
ritmo acelerado, nas últimas décadas, cujos resultados demoraremos de conhecer e mensurar.
(GIDDENS, 2000).1
O estudo das diversas formas familiares constitui uma passagem importante para a
compreensão do modo como a sociedade ou um grupo social organiza sua vida cotidiana,
organiza-se sob o ponto de vista material, e como atribuem significados à sua existência no
mundo, à sua colocação no tempo, no espaço e nas relações sociais, afetivas e sexuais.
Particularmente inquietantes são as transformações que atingem as relações afetivas, a
sexualidade, o parentesco, a filiação, a maternidade e a paternidade, não somente porque nos
afetam mais diretamente, como também porque reordenam a identidade social, construção
necessária para dar consistência à subjetividade. Fala-se em polimorfismos das instituições
sociais, dos sistemas de crenças e valores, do trabalho, dos relacionamentos e do modo como
nos representamos. No entanto, uma maior atenção deve estar direcionada às mudanças nas
relações familiares, segundo Lowenkron (2001).
Para Ariès (1981), esse momento cultural tão propício à valorização da
individualidade humana favorece também o desenvolvimento do sentimento de família e do
sentimento de infância. Segundo o autor, esse é um momento de reconhecimento das
particularidades da infância, da importância do afeto e do interesse psicológico pela criança.
1
Giddens afirma que estamos sendo impelidos rumo a uma nova ordem global que ninguém
compreende plenamente e cujos efeitos se fazem sentir sobre todos.
11
Donati (2003) afirma que nunca a convivência entre gênero e gerações foi simples. A
história é a representação de tensões entre gerações, ainda que a família moderna seja palco
de conflitos ainda mais significativos. Na superfície, o problema manifesta-se num
agravamento das dificuldades de comunicação e de identidade de papéis de genitores e de
filhos, de identidade de gêneros e de questões de convivência com outras gerações.
Entretanto, mais do que essa análise empírica, o mal-estar da família, segundo o autor,
remete-se ao fato privado – psicológico – e ao fato público – cultural e social, enquanto é
produzido pela falta ou de limites, ou de falhas na fronteira que definam distâncias, passagens
e solidariedade entre as gerações. Talvez o que deseja pontuar trate do sério esvaziamento de
funções e de identidade entre os atores que constituem a trama familiar.
Eis aqui o eixo que nos permite interrogar sobre a interseção entre o fato privado e o
público. Não seria exatamente a queda de fronteiras, o esvaziamento de sentidos entre o
sujeito e suas relações, entre a dimensão pessoal e a ordenação social que nos remeteria à
moda de justificação, ao pensamento freudiano, para nele reencontrar esse entrelaçamento?
É sobre essa formação de imagos, em especial sobre a imago paterna, que o presente
estudo pretende aprofundar-se, a partir do recurso metodológico da pesquisa epistemológica
do pensamento freudiano.
A escolha feita em relação ao pensamento freudiano pode ser justificada em razão das
contribuições trazidas pela psicanálise e, em especial, pelo reconhecimento, por parte de
Freud, desde os últimos anos do século XIX, de que os produtos da psique humana, ou
melhor, produtos da imaginação típicos das crianças de tenra idade são frutos da tensão de
impulsos inatos e experiências infantis vividas no ambiente da família, na relação inicial da
criança com a dupla parental.
É fato óbvio que os cuidados maternos e a convivência com adultos sempre foram
tomados como referência sobre o comportamento infantil e reconhecidos como verdades
12
antigas, ainda que, até a contemporaneidade, poucos tenham investido no tema com o
propósito da investigação científica.
O trabalho freudiano, em sua particular forma de produção de conhecimento, é,
todavia, abundante em oferecer pistas e referências sobre a importância das experiências
infantis oriundas do enredo familiar, decorrentes da relação da criança com seus pais, como
determinantes do comportamento do sujeito adulto, seja na vida privada ou social.
Talvez nenhum outro campo do pensamento contemporâneo denote a
influência de Freud com mais clareza que o da assistência à infância. [...]
Freud não somente insistiu sobre o fato óbvio de que as raízes de nossa vida
emocional residem na primeira infância e na infância propriamente dita,
como também procurou explorar de maneira sistemática a ligação existente
entre os acontecimentos dos primeiros anos e a estrutura e a função da
personalidade posterior (BOWLBY apud SUTHERLAND,1973, p.35).
13
FREUD E A PATERNIDADE
O foco de interesse deste trabalho reside na reavaliação da função paterna, definido
por Freud através do pensamento psicanalítico, com o propósito de compreender o que
sobrevive do entendimento desta função nos novos arranjos familiares identificados na
sociedade contemporânea. O interesse estende-se para além da identificação da diversidade de
formas de participação do pai nas estruturas familiares. O que se quer compreender mais
amiúde é o que permanece da função paterna dentro do arranjo familiar, típico da sociedade
dos nossos dias. A intenção é resgatar, por meio da contribuição freudiana, conceitos que
ajudem compreender a função paterna e o destino atribuído ao pai.
Ler a obra freudiana com vistas ao entendimento da família e sua ordenação e, em
particular, recortar no seu bojo o papel da função paterna, considerada a originalidade
oferecida pela Psicanálise, no que diz respeito ao enredo edipiano, mostra-se uma tarefa
desafiadora, pela sua abrangência e complexidade, já que o tema tem caráter de centralidade e
perpassa toda a sua produção.
O desafio maior e mais relevante é, antes de tudo, o de penetrar na própria obra de
Freud, seguir o caminho privilegiado de um saber, com suas regras de funcionamento e
referentes específicos, que operam na constituição e na produção desse saber singular – o
saber psicanalítico sobre o sujeito e suas relações de desejo.2
O viés do olhar sobre o enredo familiar e sobre a função paterna no conjunto da obra
freudiana não se mostra uma tarefa fácil. A ordenação epistemológica em Freud tem por
2
Ao se referir à obra de Freud Paul-Laurent Assoun, 1983, destaca o ineditismo freudiano de
constituição do saber, considerando o quanto este modelo transborda, consideravelmente, os modelos
vigentes para o pensamento científico. Reconhece, entretanto, a psicanálise como um modelo de saber
e a epistemologia freudiana como a forma de investigação sobre as condições desse saber
psicanalítico. A originalidade da obra freudiana está na forma como subverte a linguagem do seu
tempo, preservando sua episteme tanto na forma quanto no conteúdo.
14
objetivo permitir um caminho mais seguro no resgate de categorias importantes relacionadas
ao nosso atual interesse.
Assim, delimitaremos este trabalho à análise de textos que permitam objetivar a
construção do nosso propósito: o contorno simbólico auferido ao pai, na base da organização
social, da cultura e da família.
No primeiro capítulo recortamos as contribuições dos textos pré-psicanalíticos, no
intuito de proceder a uma arqueologia do pensamento de Freud na passagem do modelo
fisiológico ao modelo metapsicológico, em que surgem conceitos teóricos importantes sobre a
clínica e terapêutica dos pacientes histéricos, base para a formulação da estrutura desejante do
sujeito, território no qual garimpamos a presença da função paterna.
Iniciar nossa investigação pela influência do pensamento freudiano do final do século
XIX pode-se justificar pela efervescência da atmosfera cultural européia, o movimento
intelectual que acometia artistas, filósofos e pesquisadores de todas as áreas. No que tange à
saúde ou às doenças mentais e emocionais e do interesse sobre o comportamento sexual, os
valores e as inquietações intelectuais, vários foram os nomes de expressão com os quais Freud
conviveu: Charcot, Kafft-Ebing, Meynert, Breuer e Fraser são apenas algumas dessas muitas
referências.
A Viena de Freud, o ambiente do qual herdou influência cultural mais direta, foi palco
de inspiração para o afloramento de muitas idéias originais sobre a vida pública e privada do
homem comum desse período.
Viena no fin-de-siècle, sentindo profundamente os abalos da desintegração
social e política, revelou-se um dos terrenos mais férteis para a cultura a-
histórica do nosso século. Seus grandes inovadores intelectuais – na música
e na filosofia, na economia e arquitetura e, evidentemente, na psicanálise –
romperam, todos eles, e de modo mais ou menos deliberado, seus laços com
a perspectiva histórica essencial para a cultura liberal novecentista em que
foram gerados. (SCHORSKE, 1990, p. 14.)
15
O interesse particular pela observação clínica de pacientes neuróticos aliado à mescla
das influências culturais e científicas que envolveram a formação do jovem médico judeu
contribuíram para a precoce construção de sua peculiar abordagem, tanto no que tange aos
métodos, quanto na compreensão dos fenômenos psíquicos dos sujeitos normais ou
neuróticos. O traço de originalidade do pensamento freudiano pode ser identificado desde os
seus primeiros ensaios.
Nos textos tomados como referência, tanto Projeto para Uma Psicologia Científica
(1895), quanto Estudos sobre Histeria (1893-95), Freud demarca as bases para a compreensão
do funcionamento psíquico dos sujeitos normais e dos neuróticos. Noções sobre o Princípio
da Inércia, o Princípio de Constância, quantum de energia circulante, bem como as funções
da memória, da alucinação, do pensamento e um esboço original de comunicação do bebê
com o adulto, são elementos essenciais para o entendimento do processo de individuação do
sujeito.
O segundo capítulo trata da passagem conceitual da Teoria da Sedução, base de
sustentação da noção freudiana, construída a partir das primeiras observações clínicas sobre o
trauma histérico, para a teoria das fantasias originárias, como referência freudiana quanto à
participação da sexualidade infantil na etiologia das doenças psíquicas, em especial a histeria.
O trabalho com a clínica da histeria permitiu a Freud um embate com as experiências
primordiais do relacionamento entre a criança e os adultos que dela cuidam – seus pais.
A idéia inicial de a histeria ser fruto de uma experiência traumática de sedução
encaminha uma pesquisa cuidadosa sobre a realidade factual e a realidade psíquica dessas
pacientes. Entre uma vivência real de sedução e, na essência, uma cena imaginária de sedução
(o desejo de seduzir), a histérica circula oferecendo um material inconsciente fundamental
para a compreensão do mecanismo de construção de seus sintomas.
16
O percurso freudiano junto a essas pacientes delineou o papel das primeiras
experiências do sujeito com as figuras parentais, definindo, para a psicanálise, uma linha
divisória para uma nova compreensão da psique humana. Tais experiências primevas, suas
marcas e desdobramentos futuros na vida adulta configuram, na visão psicanalítica, a base da
formação do sujeito de desejo.
No capítulo terceiro nossa proposta é demonstrar a triangulação do desejo, constituída
pelo pensamento freudiano, a partir da noção de sexualidade infantil e do Complexo de Édipo,
tendo como obra de referência Três Ensaios sobre a Sexualidade, de 1905. Esta se mostra
fundamental para a pesquisa do complexo familiar e relacional dos sujeitos, elemento que
converge para a função paterna, fulcro de nosso interesse.
O complexo edipiano salientado na singularidade da letra freudiana é a base para a
diferenciação do sujeito, enquanto um ser de desejo, capaz de se relacionar com outro sujeito,
com um outro, objeto de seu desejo. O sujeito tencionado entre dois objetos de amor e ódio: o
pai e a mãe estrutura-se nesse emaranhado complexo de relações e compõe sua formação
psíquico-familiar. Édipo representa, portanto, o jogo de relações que ocorre no interior da
família, que move cada um dos seus componentes.
Desse modo, falar de Édipo é falar de sua mãe, da relação que os caracteriza,
dos desejos nutridos, das tensões que neste entrelaçamento vivem os
humanos. Igualmente é falar do pai, do envolvimento necessário com esta
figura, representante de uma função tão importante no Ocidente: proibição e
prescrição, papel atribuído no ápice da civilização à lei. Logo, qualquer que
seja a porta de entrada para a análise deste Mito transformado em Complexo
mergulhamos, de chofre, no drama familiar que nos caracteriza
enquantosujeitos que representamos e afetados por emoções. Em outros
termos, a estrutura psíquica tem o molde da estrutura familiar no pensamento
freudiano. (MENEZES, 2002, p.166).
Freud procurou demarcar o eixo que vincula a experiência da vida real ou imaginada
(fantasmática) com a constituição psíquica de cada ser em especial, relacionando
17
acontecimentos e relacionamentos travados muito cedo, mas significativos para a constituição
da sua estrutura psíquica. Seja em seus primeiros escritos sobre as observações clínicas de
pacientes, seja ao postular o inconsciente ou, mais adiante, ao formular sua metáfora sobre o
Complexo de Édipo, Freud sempre ressaltou na relação mãe-filho-pai a matriz básica para
pensar a constituição da subjetividade, como demonstrar-se-á na leitura das obras indicadas.
O quarto e último capítulo aponta um novo momento de transição e de diferenciação
do pensamento freudiano. Já em 1913, Freud sustenta, a partir de diversas fontes de pesquisas
antropológicas e evolucionistas, a idéia de que a espécie humana arrasta informações
filogenéticas, permeadas pelo contexto cultural. Nessa perspectiva, portanto, tais informações
estão carregadas de significados, referidos a certas imagos, especialmente paterna, materna e
fraterna. A obra Totem e Tabu, datada desse período, parte para a defesa do mito da horda
primitiva – como mito ordenador na família –, da ordem social e da cultura. O nome do pai,
fonte de toda legalidade, foi transmitido ao longo dos tempos, com as variáveis históricas, de
acordo com a constituição de sujeito fomentada por cada sociedade.
O material apresentado em Totem e Tabu inscreve de forma definitiva o passo que a
psicanálise propõe no entendimento da relação natureza e cultura, inscrita na estruturação
desiderativa que define o homem como um sujeito de desejo, distanciando-o definitivamente
da perspectiva biológica que caracteriza o instinto animal.
É neste último capítulo que a figura do pai ganha sua efetiva posição simbólica na
constituição de limite e ordenação do desejo do sujeito e de sua inserção no mundo das
relações sociais. A função paterna, na perspectiva psicanalítica, constitui-se como terceiro
elemento a atuar na trama familiar para possibilitar, pela interdição da díade mãe-filho, uma
nova direção do desejo do filho, além de oferecer as condições necessárias para interesses e
investimentos em outros elementos da cultura.
18
A CONTEMPORANEIDADE E A FUNÇÃO PATERNA
Quaisquer que sejam as contestações a Freud, e elas são muitas, psicanalistas,
psiquiatras e psicólogos nunca abandonaram algumas de suas proposições, aceitas como
evidentes. Dentre elas está aquela que sustenta que nos primeiros meses e anos de vida o
comportamento do adulto em relação à criança é fundamental para definir um futuro saudável
ou não para ela. Muitos foram os teóricos contemporâneos que reconheceram a contribuição
psicanalítica sobre o tema (BOWLBY; WINNICOTT; MONEY-KYRLE apud
SUTHERLAND, 1973; FOUCAULT, 2001).
Claude Lévi-Strauss salienta, em 1956, que a vida familiar apresenta-se em
praticamente todas as sociedades humanas, mesmo naquelas cujos hábitos sexuais e
educativos são muito distintos dos nossos. Sua contribuição reafirma o fenômeno da
universalidade da família, como foi postulado desde sempre pela teoria psicanalítica.
Nessa perspectiva, a constatação da universalidade aponta para duas outras condições
importantes para o processo de humanização: a) a família é o lugar que humaniza e socializa o
sujeito – lugar de limite e borda para o indivíduo –, além de ser também o lugar de inserção
social; b) cada família provém do que Roudinesco (2002) chamou de “estilhaçamento” de
outras duas famílias. Para a autora, a família é o lugar de alianças e parentescos (trocas), como
postulado pelo mito constituído por Freud em Totem e Tabu.
Salienta a autora que a proibição do incesto é tão necessária à criação de uma família
quanto a união de um macho com uma fêmea. Tal proibição é um fato da cultura, sob a
perspectiva freudiana, e, como tal, oferece à instituição família um papel duplamente
universal – relaciona um fato da cultura, construído pela sociedade, a um fato da natureza,
inscrito nas leis de reprodução biológica. Assim, a existência dessas duas ordens no bojo da
família permite aos seus elementos uma fonte inesgotável de experiências humanas.
19
Nenhum outro campo do pensamento contemporâneo sofreu tanta influência da obra
freudiana quanto os temas que envolvem família e infância. O interesse pela psique humana o
fez enveredar de forma arqueológica, como muitas vezes ele mesmo descreveu, pelo cerne da
trama familiar e pelas experiências muito tenras da primeira infância.
Psicanalistas de escolas dissidentes concordam com a importância vital de uma relação
estável e permanente do desejo de uma mãe para com seu filho durante os primeiros anos de
sua infância. Avançando para além do desejo e cuidados amorosos de uma mãe protetora, a
criança precisa estar submetida também à presença e à interdição desejante de um terceiro
elemento, entre ela e sua mãe, elemento este importante na ordem da família: o pai, ou o seu
substituto, constituído, assim, a tríade familiar. Essa relação triangular básica terá a força de
definir o destino psicológico saudável ou não de qualquer criança.
Todavia, em relação a outras questões da parentalidade, observam-se opiniões e visões
distintas, talvez em decorrência da relativa novidade e complexidade que o assunto impõe.
Seria de surpreender se assim não o fosse.
Dentre os opositores freudianos encontramos a proposta fenomenológica do alemão
Hellinger (1998), que, ao se contrapor ao pensamento psicanalítico, defende a necessidade de
se visualizar o fenômeno da família não pelos processos inconscientes que subjazem aos seus
representantes – pais, filhos e outras gerações –, mas examinando o fenômeno relacional per
si, os sentimentos e comportamentos reais e as associações sistêmicas de uns com outros na
cena familiar. Ademais, não postula causalidade, muito menos uma inscrição psíquica
primeva, contudo postula uma associação sistêmica relacional, considerando que esta forma
de compreensão da trama familiar requer uma outra forma de abstração diferente da teoria
psicanalítica.
O trabalho de Freud, entretanto, ao voltar-se para a vida afetiva e emocional das
crianças, adianta uma hipótese ousada: a que nos primeiros anos é a regra e não a exceção que
20
determina relações significativas entre pais e filhos, relações estas que definem o destino da
vida afetiva do sujeito adulto (WINNICOTT apud SUTHERLAND,1973). É sobre sua
contribuição que dedicaremos toda atenção.
A proposta psicanalítica, ao tratar as necessidades da criança em tenra idade, no que
tange ao amor, à segurança e aos cuidados higiênicos básicos, entende que tais necessidades
ou exigências clamam por uma urgência de atendimento e de envolvimento com o outro que
escapa ao limite das demandas fisiológicas. Negá-las corresponderia a gerar poderosas forças
provocadoras de distanciamento e estranhamento entre os pais e seus filhos.
No texto freudiano, através do parricídio original e do mito de Édipo, elementos
centrais do conceito da função paterna e de todo o jogo psíquico que estrutura a triangulação
familiar na perspectiva psicanalítica, buscar-se-á compreender como Freud entendeu o
complexo representacional como o mais expoente do psiquismo humano, seja na posição de
pai simbólico (lugar da lei), seja na de pai biológico (pai da reprodução) ou na de pai
imaginário (pai da autoridade).
A família é contexto para que ocorram todas as experiências primordiais que
constituirão o sujeito de desejo; também é no seu cerne que a descoberta infantil da diferença
sexual se configura. Nela forma-se o princípio organizativo social, e, mais ainda, a estrutura
de rede simbólica que organiza não somente as relações sociais, mas, principalmente, os
destinos individuais. É na família que o fato de se pertencer a um determinado sexo se
transforma em destino pessoal e social, implícita ou explicitamente, regulamentado e
hierarquizado por valores, poder e responsabilidades.
É curioso constatar que justamente no momento em que a sociedade se defronta com
questões relativas a identidade de papéis, limites, conflitos de gêneros e gerações e
transformações das funções parentais sejamos remetidos a pensar, ou melhor, a repensar nas
figuras parentais e na sua importância sobre o cenário das relações atuais.
21
1 A ORDENAÇÃO PSÍQUICA EM FREUD
Por onde vens, passado, pelo vivido ou pelo
sonhado?
Que parte de ti me pertence, a que se lembra
ou a que se esquece?
Manuel Antônio Pina, 1943
Qualquer que seja o objeto de pesquisa a partir das idéias de Freud, merecerá sempre
uma análise criteriosa por parte do pesquisador, para que contemple, no pensamento
freudiano, a inclusão de categorias relevantes que vão se estruturando ao longo da construção
de sua obra. A questão da ordenação psíquica do sujeito e nosso particular interesse sobre a
função paterna como elemento ordenador da psique e das relações afetivas exigiu uma leitura
cuidadosa da obra freudiana.
O objetivo desta dissertação é compreender o papel da função paterna na organização
do psiquismo humano, função simbólica considerada por Dor como “epicentro crucial na
estruturação psíquica” (1991, p. 9). Para tanto, ressalta o caráter de operador simbólico do pai
em Freud, destacando o que na Psicanálise existe de mais significativo em relação ao pai, ou à
função paterna; seu caráter bem mais transcendente que de um pai real ou biológico. Assim, a
Psicanálise, e originalmente Freud, como veremos neste trabalho, tem o desafio de nos
apresentar, ainda no final do século XIX e início do XX, as novas funções e relações entre
paternidade e filiação.
Nesse sentido, por pouco que tenhamos, entretanto, que considerá-lo como
um ser, trata-se menos de um ser encarnado, do que de uma entidade
essencialmente simbólica que ordena uma função. Devido à premência desse
modo de existência simbólica, tal é então o seu caráter fundamentalmente
operante e estruturante para cada um, isto é, qualquer que seja o sexo
daquele que a ele se acha referido. Em outras palavras, é porque esse pai
simbólico é universal – daí a essência de sua necessidade – que nós não
podemos deixar de ser tocados pela incidência de sua função, que estrutura
nosso ordenamento na qualidade de sujeitos. (DOR, 1991, p.14).
22
Com Dor identificamos a qualidade simbólica do pai, de valor diferenciado, nascido
originalmente na letra freudiana. Ao pai atribui-se mais do que uma participação biológica,
uma outra função de caráter simbólico, significativamente mais operante, que é o seu papel de
agente ordenador do desejo. O sujeito de desejo é aquele que, transcendendo as tarefas e
exigências de sobrevivência, é capaz de constituir-se reconhecendo outras interpelações que
lhe são exigidas, além dos cuidados naturais de sua espécie, organizando-se como pessoa
através das relações familiares e sociais.
Dessa forma, entender o lugar de referência da função do pai é, sem complacência,
uma tarefa necessária e oportuna para a compreensão da inserção do sujeito na vida social, na
vida de relações e na cultura.
No entanto, reconstruir os caminhos que organizaram os alicerces freudianos para o
reconhecimento da função paterna é tarefa que exige a atenção de um arqueólogo ou um
garimpeiro, já que o tema do pai e os fundamentos teóricos para o entendimento da ordenação
da psique perpassam todo o seu trabalho de construção da própria Psicanálise.
A ênfase deste capítulo limitar-se-á aos escritos pré-psicanalíticos, considerando os
aspectos relevantes para o nosso objetivo. O primeiro deles é aquele que diz respeito à
importância que possui na construção das condições básicas para a gênese da estrutura
triangular edipiana.
Ao ler Projeto para uma Psicologia Científica,3
de 1895, e Estudos sobre Histeria de
18964
, encontramos Freud diante de uma tensão para compreender o funcionamento psíquico,
não apenas daqueles pacientes com distúrbios psicológicos, mas também quando busca
entender o funcionamento da psique do sujeito dito normal. Acreditava, desde então, na
3
Citado doravante como Projeto...
4
Citado doravante como Estudos...
23
existência de fenômenos universais presentes na estrutura dos sujeitos tanto normais quanto
daqueles com distúrbios psíquicos.
Um dos fatos mais importantes é o de que os processos primários ,
semelhantes aos que foram gradativamente suprimidos pela pressão
biológica no curso da evolução de , se apresentam diariamente a nós
durante o sono. Um segundo fato de idêntica importância é o de que os
mecanismos patológicos, revelados pela análise mais cuidadosa nas
psiconeuroses, guardam a maior analogia com os processos oníricos.
(FREUD, 1977, p.443).
Tomado de interesse pelos fenômenos da histeria, Freud transita, nesta fase, na
fronteira entre o físico e o psíquico, inscrevendo um hiato entre a forma científica vigente de
concepção dos fenômenos psíquicos e a sua observação clínica dos sintomas. Noções como
processos primários, processos secundários e repressão já se encontram presentes no
discurso freudiano.
A noção de uma estrutura psíquica, com diferentes instâncias ou formas distintas de
registros psíquicos, tanto dos estímulos internos quanto dos externos, também já constitui a
visão freudiana deste período. Uma estrutura metapsicológica para ancorar o desejo encontra
sua defesa desde esse momento do pensamento freudiano:
Se ao lembrar um sonho interrogamos a consciência quanto ao seu conteúdo,
verificamos que o significado dos sonhos como realizações de desejo se acha
encoberto por uma série de processos , todos os quais voltaremos a
encontrar nas neuroses, sendo ali característicos da índole patológica desses
transtornos. (FREUD, 1977, p.449).
Estudiosos e comentadores da Psicanálise sustentam que Freud, ao escrever Projeto...,
já teria formulado vários dos elementos básicos da teoria psicanalítica. Alguns autores
chegam a postular que muitas das teses que escreveu numa de suas obras de maior relevância,
24
A Interpretação dos Sonhos, já estariam sinalizadas em Projeto.... Esta obra é um sofisticado
modelo de neuropsicologia, no qual estão assentados os fundamentos da sua metapsicologia.
Em segundo lugar o fato de o Projeto... ser um escrito ostensivamente
neurológico levou muitos autores a articularem duas idéias importantes que,
se comprovadas, fariam com que a apreciação da teoria psicanalítica fosse
drasticamente reavaliada:1.º) que a metapsicologia freudiana posterior, a
partir de 1900, estava assentada nessa neurofisiologia do Projeto... Embora
isso fosse por Freud de maneira implícita, o que teria originado um bom
número de confusões; 2.º) com base no Projeto... poder-se-ia também
abandonar a idéia de que a Psicanálise não era uma disciplina sujeita a
verificação experimental, já que esses modelos neurofisiológicos poderiam
ser testados. (MONZANNI, 1989. p. 75-76).
Segundo Monzanni (1989), Projeto... foi o ápice para Freud fundamentar, através da
neuroanatomia e da neurofisiologia, a disciplina que estava alicerçando já há algum tempo.
Ele considera esse um momento privilegiado do pensamento freudiano, inaugurando a
perspectiva do surgimento de sua metapsicologia.
Os trabalhos de pesquisa e todo o esforço de resgatar uma visão científica de
fenômenos clínicos fizeram de Projeto... um complexo tratado de neuropsicologia, e, mais
que isso, as teorias vigentes até hoje nesse terreno sinalizam o delicado dualismo entre o
físico e o psíquico, posição que jamais foi abandonada nem por ele.
É na letra de Gay (1995) que encontramos a confirmação do movimento de descoberta
freudiana. Para este autor, a pesquisa freudiana desse período leva ao encontro não de uma
psicologia para neurologistas, mas sim, de um tratado psicológico para psicólogos. Muito
mais do que explorar os substratos fisiológicos e biológicos da mente, Freud explorava os
domínios do inconsciente e suas manifestações no pensamento e na ação, debatendo-se diante
de uma psicologia científica que tente explicar a vida mental complexa, que inclua processos
como memória, percepção, alucinação, pensamento e satisfação pelo relaxamento após a
descarga de estímulos desestabilizadores.
25
O modelo freudiano dessa época, sob muitos pontos de vista, resiste ao tempo e às
novas descobertas. Contudo, o mais relevante é que, neste período de investigação, o interesse
de Freud pela clínica, em especial o interesse pela origem dos sintomas de seus pacientes,
tornou-se a força propulsora para seguir mais adiante na descrição neurológica dos fenômenos
psíquicos.
Para Gabbi Jr.(1985), em Projeto...Freud tem como objetivo explícito representar
processos psíquicos como estados quantitativamente determinados de partículas materiais.
Tais processos são fundamentados nos conceitos de quantidade e neurônios, e têm duas
funções a realizar: a de descarga de quantidades e a de conservar os caminhos da descarga.
O conceito de quantidade é definido como uma diferença entre atividade e
repouso e o de neurônio como uma partícula material capaz de conter uma
certa quantidade. A quantidade é governada por um princípio, o da inércia
neuronal, segundo o qual os neurônios tendem a descarregar a quantidade. O
aparelho psíquico assim concebido é insatisfatório para dar conta de sistemas
que, além de sofrerem estimulação externa, estão sujeitos às exigências da
vida: respiração, fome e sexo. Os estímulos endógenos, diferentemente dos
externos, que atuam por impacto, vão se acrescentando, e só quando o
organismo produz uma ação específica sobre o mundo externo há uma
interrupção provisória no processo de acréscimo. Para realizar a ação
específica, é preciso que o parelho suporte uma certa quantidade no seu
interior. (GABBI JR, 1985, p.5).
O reconhecimento da necessidade de um aparato psíquico mais complexo, organizado
não apenas sobre o princípio da inércia (descarga pelo acúmulo de quantidade), mais agora
também regido pelo princípio da constância, segundo o qual o organismo tende a manter no
seu interior a quantidade constante, conduz a teoria freudiana do aparelho psíquico a uma
compreensão muito mais psicológica do que neuronal, demarcando, a partir deste momento,
uma linha divisória com a neuropatologia vigente nas sociedades de língua alemã de sua
época.
A contribuição mais completa das descobertas de um aparelho psíquico, capaz de
incluir funções mentais mais elaboradas, de dar conta da relação com os estímulos endógenos
26
e os estímulos externos - estímulos que remetem o sujeito a sua relação com um outro no
acolhimento de sua ação específica, se tornaram a base para a construção que aqui desejamos
focar: as relações parentais.
1.1 A PRÉ-HISTÓRIA DA PSICANÁLISE: UM PAI AUSENTE
O retorno a Projeto..., ainda que considerado uma obra inacabada pelo seu próprio
autor, justifica-se pela grande contribuição do texto para a construção de conceitos
psicanalíticos posteriores. Para Strachey (1977), Projeto..., ou melhor, seu espírito invisível,
paira sobre toda a série de obras teóricas de Freud, do início ao fim.
O trabalho exaustivo de observação sobre as neuroses e o rastreamento
neuropsicológico de o Projeto... renderam frutos muito produtivos para a teoria psicanalítica,
embora o próprio Freud não tivesse desfrutado com entusiasmo de suas recentes descobertas.
As noções de inconsciente e de recalque, desejo e sexualidade infantil só ganhariam
futuramente lugar de significação na estrutura do pensamento freudiano a partir dos achados
dessa obra.
Em carta a Fliess, de maio de 1895 (carta 24), Freud expressa exaustivamente seu
processo de trabalho com o texto:
[...] Há algum tempo me sentia atraído, de longe, por ela. Só agora,depois
que me deparei com as neuroses, se tornou mais próxima. Vivo atormentado
por duas idéias: descobrir que forma terá a teoria do funcionamento psíquico
se nela se aplicar um método de abordagem quantitativo, uma espécie de
economia da força nervosa, e, segundo lugar, extrair da psicopatologia tudo
que puder ser útil à psicologia normal. Seria, de fato, impossível conceber
uma noção geral satisfatória dos distúrbios neuropsicológicos, a não ser que
se pudesse relacioná-los a pressupostos bem definidos sobre os processos
psíquicos normais. Venho dedicando todos os meus minutos livres dessas
últimas semanas a esse trabalho; passo as noites, das onze até as duas horas
da madrugada, a imaginar, comparar e adivinhar coisas desse gênero; e só
desisto quando chego a uma conclusão absurda ou fico tão
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irremediavelmente exausto que perco o interesse pela minha atividade
médica cotidiana. Mas é cedo demais para apresentar quaisquer resultados.
(FREUD, 1977, p. 390).
Esse documento neurológico complexo contém em si os prenúncios de elementos que
contribuirão significativamente para as teorias psicológicas desenvolvidas pelo próprio Freud
com relação ao núcleo familiar básico: o complexo de Édipo.
Ainda muito influenciado pelo pensamento positivista e pelas exigências da época, de
se fazer uma psicologia nos moldes das ciências naturais, Freud apóia-se em um modelo
biofísico, aparentemente pouco flexível para suas considerações futuras sobre o psiquismo.
A tarefa de determinar quantitativamente o funcionamento da economia psíquica, a
partir dos estímulos oriundos do meio e dos instintos, torna a abordagem uma quase versão
neurológica acerca do funcionamento do sistema nervoso. No entanto, sua descrição dos
fenômenos mentais transcendeu, de forma evidente, as explicações neurofisiológicas. Desta
maneira, pode-se dizer que Projeto... rompe com o reducionismo fisiológico dos fenômenos
clínicos e com a forma de fazer ciência da época.
Para Monzanni (1989), deve-se a Freud a primeira somatomorfologia intrínseca da
experiência vivida que repousa na observação e construção naturista. Da arquitetura teórica
exibida por esse período, surge o aparelho psíquico edificado sobre o corpo.
Noções sobre a consciência, a descrição sobre fenômenos psíquicos inconscientes, o
interesse pelo mecanismo psíquico de defesa, de deslocamento, o interesse sobre a presença e
a participação da sexualidade na relação com as neuroses são extratos significativos,
recolhidos no âmago desse trabalho, de 1895.
Todos esses conceitos serão devidamente resgatados ao longo da teoria freudiana,
fazendo deste conjunto, e de tantos outros conceitos, a constelação de idéias sobre a
ordenação psíquica do sujeito, na perspectiva psicanalítica.
28
Os casos clínicos analisados nessa época apontam para a presença de relações
carregadas de catexia, em geral, com as figuras masculinas, o que levanta, em Freud, a
suspeita futura de que o pai, ainda que travestido por um tio, cunhado ou outra figura
representativa no complexo dos sintomas histéricos, poderia estar na essência do desejo
dessas pacientes.
Para o nosso objetivo, esse núcleo de idéias freudianas será fundamental, já que é nele
que encontramos o esboço, as primeiras observações sobre temas importantes; a saber: a) a
gênese do triângulo, instigada inicialmente pelo vértice filho-mãe, ou melhor, criança
faminta/desejante – mãe/objeto de satisfação (alucinado ou real, de saciação do desejo); b) a
clínica como espaço de compreensão de um enredo que se desenvolverá em todos os humanos
– a construção da definição do sujeito desejante; c) o conteúdo sexual na centralidade do
funcionamento do psíquico, tanto dos normais quanto dos neuróticos; d) a não referência à
figura paterna na origem do desejo e do ego, melhor dizendo, uma presença ainda não
revelada.
É nesse momento de sua produção teórica, que Freud descreve o funcionamento da
estrutura psíquica, e o faz a partir de dois pressupostos fundamentais: o da existência de uma
arquitetura psíquica e o da idéia de uma quantidade de excitação que estabelece, nesta
estrutura, os estados de movimento e repouso. Destaca, ainda, a tendência do funcionamento
psíquico sendo regida por processos primários e processos secundários. Tais processos,
segundo ele, são complementares e de finalidades distintas para o funcionamento psíquico.
Mas o que seriam, de fato, esses processos?
Partindo do pressuposto de uma quantidade em fluxo no aparelho psíquico primitivo,
que responderia inicialmente ao que chamou de Princípio de Inércia, cujo destino será a
descarga sempre que a quantidade deste fluxo se torne perturbadora do estado de repouso,
Freud tem o intuito de descrever a função primária do aparato anímico. O funcionamento do
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processo é iniciado na célula nervosa, o neurônio, por onde chegam os estímulos, e segue seu
fluxo, para escoar com uma ação motora. O funcionamento primário do psiquismo tem,
portanto, a direção da energia psíquica partindo do sistema sensorial para o sistema motor.
Esse funcionamento básico, elementar e simples, no entanto, não garante a vida do
sujeito, uma vez que não responde às exigências vitais; quais sejam: fome, sede, desconforto
físico, dentre outros. À proporção que aumenta a complexidade da estimulação exógena ou
endógena, a necessidade de descarga também se amplia. Em outros termos, Freud sabe que
existem outras demandas a serem atendidas, as quais este princípio não resolve. Salienta como
exemplos de exigências vitais, a fome, a sede, sexo, dentre outras. Estas, por sua vez, supõem
uma outra forma de funcionamento psíquico que transcendem circulação da quantidade de
fluxo para efetivar a ação.
Dessa forma, Freud amplia a complexidade do funcionamento psíquico propondo a
existência de um outro princípio complementar ao da Inércia: o Princípio da Constância. Este
novo princípio deve responder não apenas a um funcionamento que lide com maior resistência
a certo nível quantitativo, como também se comprometer na distribuição da quantidade no
complexo neuronal que, uma vez modificado permanentemente pela excitação, jamais retorna
ao seu estado anterior. Os processos, um tanto mais elaborados, deixam registros tanto do
percurso quantitativo quanto do caminho facilitado para novas catexias.
A estrutura psíquica ordenada de forma mais complexa torna a distribuição
quantitativa mais econômica, além de apontar para a diferenciação neuronal. Trata-se de
circunscrever os limites até onde se garante uma boa funcionalidade e a direção preferencial
por onde a quantidade escoa: da parte receptora do aparelho até a extremidade da descarga.
Secundariamente, precisa ser resolvido o problema de lidar com o sentido inverso da direção,
ou seja, num estágio posterior de desenvolvimento do aparelho psíquico, encontraremos a
30
inversão do estímulo, tendo a imaginação, a memória e posteriormente a fantasia como fatores
estimuladores internos, como veremos no capítulo seguinte.
Freud observa que esse funcionamento econômico na direção da descarga somente se
subverte no caso do contato com a dor. Devido à magnitude da quantidade, a resposta da dor
pode ser considerada como antieconômica pelo fato de não respeitar o caminho natural do
escoamento da quantidade. No entanto, quando é recordada, ou melhor, representada, produz
o desprazer, e não mais a dor. Até esse instante Freud circula num movimento teórico que
mescla postulações anatomofisiológicas com observações genuinamente psicológicas.
Esse parece ser um momento especial para o pensamento freudiano. Como salienta
Monzanni: esse é um ponto crucial de Projeto..., pois nele Freud teria, de um lado,
abandonado de vez seus projetos neurologizantes e constituído a idéia de inconsciente
psíquico, e, de outro, teria guiado sua atenção para o que constituiu, de fato, a teoria
psicanalítica. Trata-se de um processo muito mais complexo do que a descrição de
mecanismos de descarga e de caminho de um quantum de energia circulante no aparelho
psíquico, oriundo de estímulos internos e externos.
A partir desses dois postulados (quantidade e neurônio), o leitor assiste à tentativa de
Freud de construir, baseando-se em princípios puramente mecânicos, toda a imensa variedade
das funções psíquicas: percepção, memória, consciência, associações, experiências cruciais
(dor e satisfação), pensamento, juízo, etc.
A passagem de um postulado eminentemente quantitativo para um processo
qualitativo de ações. que exigem mais esforço tanto do aparato motor quanto do psíquico,
torna a explicação do princípio de constância incompleta para justificar o surgimento de
outros mecanismos psíquicos, como os já citados.
Numa formulação muito semelhante à visão do comentador anterior, Gabby Jr.
salienta que Freud está diante de duas vivências fundamentais para serem ordenadas no
31
aparelho psíquico: a vivência da dor e a vivência de satisfação, formulações essenciais ao
avanço da sua teoria sobre a ordenação da psique e do desejo.
Na vivência da dor, ... existe uma irrupção de uma quantidade de origem
externa. Quando é recordada, ou seja, representada, produz desprazer e não
dor. ... O organismo para sobreviver, deve aprender a evitar a cathexis da
representação de objetos que causaram a dor. Caso contrário, ocorrerá uma
defesa primária. Na segunda vivência, a de satisfação, trata-se de uma
quantidade de origem endógena que só pode ser interrompida a partir do
preenchimento de certas condições do organismo. Como é incapaz de
realizá-las, torna-se necessária a presença de um outro que realize, pelo
sujeito, as condições externas... Logo, em ambos os casos, há uma tendência
de repetir certas vias de descarga: as de satisfação (originadas a partir de um
processo interno de acréscimo) e as de dor (originadas a partir de um
impacto por estímulos externos). (GABBI JR., 1985, p.6).
A tentativa de explicar o mecanismo da dor e o da busca de satisfação fazem com que
a pesquisa freudiana avance para uma forma de funcionamento psíquico mais elaborada do
que previa em seu aparelho primitivo. Para o nosso interesse mais imediato manteremos a
atenção sobre a segunda situação – a busca de satisfação. A razão desta escolha se mostrará
mais evidente a seguir.
Entender como o psiquismo age na direção de eliminar a tensão que o acomete é algo
muito importante. Os movimentos motores iniciais, as vias biológicas do automatismo, não
são suficientes para eliminar o desconforto causado pela carência, a exemplo da fome, sendo,
então, necessária a ocorrência de uma ação específica externa. Nestes casos, Freud observa
que os processos secundários implicam o adiamento, a tentativa de solução da tensão e a
busca de uma forma específica de reação para a redução da descarga, uma ação específica que
garanta a descarga ou a redução do desconforto.
Essa ação específica não é de competência do sujeito, dado que não possui a
capacidade de promover a condição de alívio de sua tensão. Tais movimentos motores,
traduzidos no choro, disparados na direção desta ação, têm um caráter importante para este
32
sujeito: denunciam seu desamparo. Diante desta constatação, de que o sujeito não é capaz
sozinho de encontrar o caminho da descarga, o atendimento dessa carência pode ser realizado
pelo auxílio de um outro, despertado provavelmente pela denúncia do desamparo. Freud
segue explicando:
O enchimento dos neurônios nucleares em terá como resultado uma
propensão à descarga, uma urgência que se libera pela via motora. A
experiência demonstra que aqui a primeira via a ser seguida é a que conduz à
alteração interna (expressão das emoções, grito, inervação vascular). Mas
como já explicamos no início, nenhuma descarga desta espécie pode
produzir resultado de alívio, uma vez que o estímulo endógeno continua a
ser recebido e se restabelece a tensão . Nesse caso, a estimulação só é
capaz de ser abolida por meio de uma intervenção que suspenda
provisoriamente a descarga de Q´n no interior do corpo; e uma intervenção
dessa ordem requer uma alteração no mundo externo (fornecimento de
víveres, aproximação do objeto sexual), que, como ação específica, só pode
ser conseguida através de determinadas maneiras. (FREUD, 1977, p. 421-
422).
Essa bela imagem a que chega Freud inaugura as bases de uma constelação de relação
fundamental entre a criança faminta, insatisfeita, e um outro sujeito, provavelmente a mãe ou
o adulto, objeto de realização desta ação específica anunciada. Nesta experiência da saciação
da fome, experiência do aleitamento, a mãe é convocada a criar o primeiro e significativo
vínculo.
Para Freud, essa experiência ultrapassa o automatismo biológico que rege a satisfação
para inaugurar um processo de vinculação do sujeito com o meio bem mais complexo. Para
ele, essa via de descarga adquire a importantíssima função secundária da comunicação, e o
desamparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial de todos os motivos morais. Este
parece ser o exato instante da cisão da Psicanálise com as demais teorias sobre o
funcionamento mental de sua época.
Ao responder ao apelo do bebê faminto, nas suas iniciais manifestações de
desconforto, a mãe que o satisfaz, inaugura marcas mnêmicas importantes, instaurando no
33
bebê a possibilidade de guardar a vivência para um momento de busca de satisfação futura,
como também a percepção da possibilidade de novo contato com este objeto prestativo,
realizador da satisfação. Esta percepção de satisfação, proporcionada pelo objeto que
alimenta, imprime no psiquismo do bebê o registro da vivência de satisfação, que futuramente
poderá ser resgatada sempre que ele se perceba diante de uma nova sensação de desconforto.
Esse circuito fica, doravante, como diria o próprio Freud, privilegiadamente facilitado.
A mãe (re)significa o estado de abandono e a carência, bem como a possibilidade de solução
da tensão geradora de tal estado.
Essa percepção de satisfação, resultado da ação específica da mãe com o sujeito, traz
no seu contexto conseqüências significativas para o desenvolvimento do psiquismo primitivo.
Freud ressalta que a totalidade desse processo representa a experiência de satisfação
que tem as conseqüências mais decisivas para o desenvolvimento das funções individuais; a
saber: 1) efetua-se uma descarga permanente e, assim, elimina-se a urgência que causou o
desprazer; 2) produz-se a catexização de um ou vários neurônios que corresponda à percepção
do objeto; 3) em outros pontos chegam informações sobre a descarga conseguida mediante a
liberação do movimento reflexo que se segue à ação específica.
Na ocorrência posterior de uma nova situação de carência, todo o circuito será ativado
simultaneamente. Carência (tensão), abandono (reações motoras de denúncia) e objeto de
interrupção de tensão (ação específica) fazem parte de uma mesma vivência. Vale ressaltar
que Freud chama atenção para o fato de que a ordenação psíquica realizada não segue uma
ordem sucessória, e sim simultânea, significando que, para o sujeito, todo o conjunto de
registro faz parte de uma situação única.
Assim, diante de uma nova exigência de satisfação, independentemente da existência
ou não do objeto do mundo externo (mãe), o funcionamento psíquico ativa sua representação,
operando como se estivesse presente. A experiência de satisfação, uma vez registrada, deixa
34
sua inscrição através de via facilitada pelos registros mnêmicos, impressos quando da
primeira experiência, sendo estes registros evocados toda vez que o organismo se depara com
uma nova experiência de tensão. A esse recurso de pensamento Freud constrói toda uma
explicação para justificar o funcionamento da memória e da alucinação. É para esta lembrança
que o sujeito recorre sempre que se encontra vivenciando uma situação de tensão semelhante
à vivenciada no passado e, mais ainda, buscando uma solução imediata para o alívio da
tensão; na ausência do objeto de satisfação (mãe), alucina sua presença.
O mecanismo de alucinação tem um objetivo próprio e imediato; trata-se de uma saída
provisória, buscada pelo aparelho psíquico, com a função de promover uma redução de
tensão, ainda que temporária. É uma resposta do sujeito, utilizando-se de seus próprios meios.
Para Freud, uma defesa primária diante de um estado de desejo. Incapaz de diferenciar a
realidade da idéia imaginária, o sujeito recatexiza a lembrança do objeto e, então, põe em ação
o processo de descarga; nesse caso, não pode haver satisfação, já que o objeto não é real. Esta
solução mostra-se, portanto, pouco eficiente em curto intervalo de tempo, levando o sujeito,
mais uma vez, a buscar nova saída. A imagem alucinada não corresponde ao alívio da tensão,
sendo ele obrigado a comunicar mais efetivamente ao meio o seu abandono, a sua
impossibilidade de sobreviver sem o apoio de um outro, que deve vir em sua direção.
O que nos importa na presente situação é o registro do que aqui se inaugura: o
nascimento de uma díade (filho/mãe), forjada pela premência de uma tensão de satisfação.
O lugar da mãe é, por assim dizer, o de objeto de reconhecimento de desejo de um
sujeito que o demanda; mais que isso, o de objeto que oferece uma resposta efetiva a um
apelo de sobrevivência. Mãe e filho formam uma imagem única e, ao mesmo tempo, dual:
única na perspectiva da experiência de simultaneidade expressa pela tensão e satisfação, e
dual porque escapa de uma saída da tensão sem o auxílio do outro (adulto).
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É pelo grito primordial ou pelo esforço de anunciar seu desconforto e abandono que o
sujeito inscreve essa nova capacidade de funcionar com o meio: o bebê clama pelo
reconhecimento de sua falta, de sua necessidade de nutrição e, portanto, de sua necessidade de
ser cuidado, de ser visto, compreendido e atendido pelo outro. A possibilidade de evocar seu
desejo de satisfação e, mais do que comunicar, e fazer-se entender por este outro é um
mecanismo bastante complexo e fundamental para a organização de suas futuras formas de
comunicação com o meio externo.
No texto freudiano reencontramos a demarcação da primeira forma de comunicação,
de relação de satisfação:
O organismo humano é, a princípio, incapaz levar a cabo essa ação
específica. Ela se efetua por meio de assistência alheia, quando a atenção de
uma pessoa experiente é atraída para o estado em que se encontra a criança,
mediante a condução da descarga pela via de alteração interna. Essa via de
descarga adquire, assim, a importantíssima função secundária da
comunicação, e o desamparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial
de todos os motivos morais. (FREUD, 1977, p. 422).
Somos levados a acreditar que o reconhecimento de um objeto que atende a uma
necessidade vital do sujeito inscreve uma referência de eu e de não-eu, de algo que se passa
entre o bebê e um outro sujeito que não é ele, alguém que está para além dele. Tais
experiências do aparelho psíquico deste sujeito mostram-se estruturantes na organização
egóica. Embora estas noções de eu e não-eu ainda não sejam largamente desenvolvidas por
Freud nesse momento da teoria, ficam como alicerce do desenvolvimento da teoria
psicanalítica.
Nessa etapa de conquistas do sujeito, no esforço ordenador do seu aparelho psíquico
primitivo, a mãe ganha um papel definitivo. Comumente costuma-se atribuir este papel à
figura materna, já que a função nutridora suporta ou está na base de toda essa configuração
relacional primária. O que lastreia o relacionamento inicial do sujeito com o meio é o
36
atendimento de suas necessidades vitais, ficando tal fato evidenciado na necessidade de um
outro adulto que atenda a esta função. É a função de nutrição que vai definir o papel, a
presença de outro que responda à ação específica de satisfazer o bebê e, por conseqüência, à
noção de realidade externa; é à mãe a quem se está clamando.
Dessa forma, pode-se dizer que, na díade inicial, é formatado o primeiro vínculo entre
o bebê e o mundo externo – um vínculo carregado de significação, de energia, provindo de
uma demanda que lhe é anterior e que tem exatamente como propósito garantir a descarga de
tensão e da necessidade de satisfação, levando Freud a inscrever com isso a presença da
função materna na organização psíquica do sujeito. Memória, alucinação e comunicação são
funções que surgem da premência da relação bebê/mundo, chancelada pela presença da mãe
que acolhe, reconhece e denuncia as necessidades de sobrevivência do sujeito.
Na leitura ora realizada, de pontos selecionados de Projeto..., conclui-se o momento
em que Freud registra o lugar da maternidade, embora talvez não tenha sido este o seu
propósito com a obra. No entanto, seu trabalho para compreender a organização do
funcionamento do aparelho psíquico levou-o ao encontro de algumas constelações de idéias
sobre o sujeito e suas relações com o mundo que se tornaram base para todo o trabalho de
construção da estrutura psíquica de um sujeito ordenado pelo desejo, formulado
posteriormente, quando a teoria psicanalítica adquire contornos mais rigorosos.
Um recorte mais sutil do processo da relação do sujeito com o outro encontramos na
letra de Mezan (1988): o processo de humanização do pequeno ser nascido de um homem e
uma mulher equivale a um processo de culturalização, de transformação da mente em um
órgão capaz de representar não somente os fantasmas engendrados por ela mesma, mas
também objetos e entidades que não pode criar por seus próprios meios; a saber: seu próprio
corpo, os outros seres humanos e o mundo exterior. Precisa, portanto, receber do ambiente, de
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início, de sua própria mãe as informações necessárias e os meios para metabolizar essas
informações.
Para esse autor, “a transformação da psique em psique humana equivale à sua
transformação numa psique marcada pela cultura” (MEZAN, 1988, p.62). Resulta que a
cultura não é algo imposto à psique humana, mas, antes, ela lhe é simultaneamente interna e
externamente determinada – pelo interior por se tratar daquilo pelo qual o indivíduo se
constitui e, ao mesmo tempo, pelo exterior por não depender apenas dele para se constituir, e
sim de adultos que cuidam e vão dando significado às suas representações.
Essa forma de compreender a inserção da cultura na organização psíquica do ser
humano tem um desdobramento mais significativo no percurso do pensamento freudiano,
principalmente alguns anos depois de Projeto..., quando seu interesse se desvela sobre a
questão da função do pai na organização social e psíquica.
Nesse momento do texto freudiano o que importa é a relação diádica, cujo pai ainda
não tem um lugar de inscrição tão delimitado quanto à mãe. Na pré-história da ordenação
psíquica, na fundação da ordem desejante descrita pela díade sujeito-objeto de satisfação, o
pai não é enunciado, quando considerado um terceiro com lugar de reconhecimento
diferenciado na constelação psíquica. A construção desta díade traz algumas conseqüências
importantes para a relação do sujeito com o mundo externo.
E o que se pode dizer até então sobre o pai, foco desta dissertação? O fato de
evidenciar a dualidade entre filho-mãe denota uma etapa ainda inicial na constituição egóica e
de ordenação psíquica da criança. O modelo das relações de objeto marcadamente conhecido
pela tríade filho-mãe-pai ainda não havia sido estruturado nesse instante da observação
freudiana. Até Projeto... Freud não estabelece claramente um lugar de destaque da figura
paterna, pelo menos não de forma explícita e definitiva.
38
Entretanto, é de maneira indireta, através de questionamentos e incertezas, que até
então, encontraremos uma indicação de que esta imagem masculina, na verdade a imagem
paterna, parece deixar suas marcas e impressões desde muito cedo na constituição psíquica,
quer dos normais, quer dos neuróticos.
A clínica e os processos psíquicos dos histéricos terão um papel importante a sinalizar
sobre a presença paterna desde a pré-história da Psicanálise. Como veremos a seguir, em
Estudos sobre a Histeria de 1895, Freud vai inscrever, ainda que de maneira bastante discreta
e muitas vezes camuflada em figuras da vida adulta, os efeitos das relações e dos vínculos
com as figuras parentais na constituição psíquica do sujeito.
1.2 A SEXUALIDADE: CENTRALIDADE NA ORDENAÇÃO PSÍQUICA
Como demonstramos anteriormente, tanto Projeto...quanto Estudos... trazem em si o
germe da constituição triangular da família e do sujeito de desejo, a partir de uma demarcação
muito clara acerca do vértice mãe-filho. A presença do terceiro – o pai – é ainda uma suspeita,
um estranhamento, em que Freud questiona sua participação no trauma ou nos sintomas de
suas pacientes. Na busca de entender a clínica e encontrar um método de trabalho para
abordar seus pacientes, Freud encontra indícios destes efeitos e deixa plantado o que se
tornará, muito em breve, as bases da teoria da sexualidade infantil defendida por ele como o
alicerce constitutivo do complexo de Édipo, estrutura fundante do funcionamento psíquico e
conseqüentemente das relações de cada sujeito com o mundo, com a vida; relações estas que
serão mais ou menos saudáveis conforme a qualidade dos vínculos que a constituíram.
A observação da clínica foi, desde sempre, um espaço privilegiado ao
desenvolvimento do pensamento freudiano. Sua preocupação com o material oferecido pelos
39
pacientes fundamenta suas principais descobertas, quer no campo metodológico, quer na
técnica psicanalítica, ou, ainda, na formulação da teoria, a famosa metapsicologia. Em
Estudos..., portanto, o conjunto de textos ligeiramente anterior a Projeto..., Freud objetiva
discutir questões relacionadas ao tratamento oferecido às pacientes histéricas. A partir do
trabalho de Breuer, com a abordagem hipnótica, Freud pretende delinear uma nova forma de
compreensão da histeria como um fenômeno para além da abordagem somática, oferecida
pelos seus colegas da época.
Estudos ... constitui o ponto de partida de Freud para o desenvolvimento do que mais
tarde se traduziu como o método psicanalítico de investigação, ou o seu instrumento de
investigação da mente humana. Gay chega a afirmar que “a julgar pelos casos que Freud
apresentou em ‘Estudos sobre a Histeria’, ele fez do aprendizado com seus pacientes uma
espécie de programa” (1995, p.80), ressaltando que a importância desses analisandos para a
história da Psicanálise reside na oportunidade de terem demonstrado a Freud um significativo
material inconsciente, que o auxiliou tanto no contexto da produção teórica quanto do método
de tratamento.
Embora não estivesse totalmente convencido a superar o elemento da hereditariedade,
da herança neuropática do diagnóstico de seus pacientes, suas observações e sua prática
curiosa em relação ao comportamento e discurso das pacientes levam Freud a suspeitar da
existência de outros fatores intervenientes na causação de suas neuroses. A noção de trauma,
o conceito correspondente a uma instância psíquica não consciente, o inconsciente, e a
categoria de recalque têm suas bases traçadas nas observações de seu trabalho clínico junto a
essas histéricas. Para Laplanche (1992), o conjunto de textos freudianos, até 1887, tem sua
força na trama que liga a teoria à experiência clínica. É o que demonstra em seu comentário:
40
Reside em pôr em jogo, já de forma rigorosamente e doravante insuperável,
três fatores da racionalidade analítica: a temporalidade do a posteriori, a
tópica do sujeito e os laços tradutivos ou interpretativos entre os roteiros ou
as cenas. Reside na capacidade explicativa do modelo, amplamente
transponível e extensível, pelo menos no campo da psicopatologia. Reside na
capacidade evolutiva do modelo, aquilo que designamos acima como
‘pontilhados’ para futuros desenvolvimentos: pontilhados do ego,
pontilhados da teoria tradutiva. (LAPLANCHE, p. 122).
A escuta e a observação do conjunto de sintomas ricos em representações no corpo
físico favoreceram a pesquisa na direção não mais de uma explicação química ou orgânica
destes fenômenos, mas de buscar uma correspondência num processo psíquico, numa ação
mental que justificasse a elaboração e o aparecimento desses sintomas. Freud estava
realmente empenhado em encontrar uma estrutura complexa capaz de explicar a descrição
desses fatos mentais.
Os achados clínicos de Breuer no tratamento da paciente Anna O., compartilhado
muitas vezes com o colega Freud, vêm corroborar a compreensão e a investigação desses
processos mentais conscientes e inconscientes, exigindo, portanto, uma maior atenção por
parte dos dois pesquisadores. O trabalho conjunto, nesta obra, ajuda a sinalizar, por um lado,
o interesse pela etiologia e, por outro, as diferentes percepções de abordagem e de interesse
diagnóstico, bem como de modelos terapêuticos.
Anna O. oferece aos médicos um rico material que lhes possibilita sistematizar
reflexões acerca da produção fantasmática, imaginária, fazendo levantar a atenção sobre o
papel da fantasia, sua relação com a origem da doença e naturalmente com o tema de suas
dores psíquicas. O lugar da fantasia e a sua constituição enquanto realidade psíquica
inconsciente são elementos teóricos dos quais Freud não mais se afastará para a compreensão
dos sintomas destas pacientes. No entanto, só posteriormente a noção de fantasia será
retomada de forma mais sistemática, ao resgatar o tema da sexualidade infantil como fator
etiológico da histeria.
41
Pensar na existência de uma mente capaz de conter material que não pertença ou
mesmo nunca tenha passado pela consciência, eis um fato novo e desafiante a ser considerado
por ambos.5
Tornou-se evidente, desde o início, que o problema a ser perseguido não era o da
investigação dos conteúdos conscientes, mas sim destes outros processos mentais, até aqui
reconhecidos, porém desconhecidos em sua origem. Freud está convencido de que para
processos que são até o momento inconscientes deve existir uma forma de investigação que
permita atingi-los, torná-los conscientes e inclusos na vida dos pacientes.
Quanto mais nos ocupamos dessas manifestações, mais nos tornamos
convencidos de que a divisão da consciência, que é tão marcante nos
clássicos conhecidos sob a forma de ‘double conscience’, se acha presente
num grau rudimentar em toda a histeria, e que a tendência para tal
dissociação, e com ela o surgimento de estados anormais de consciência
(que reuniremos sob a designação de ‘hipnóides’), constitui a manifestação
básica desta neurose. (FREUD, 1977, p. 52-53, grifo do autor).
Ambos os médicos concordam que o que está em questão na etiologia da histeria é
uma experiência traumática remota, da qual a paciente nada desconfia, nem faz conexão
causal com seus sintomas atuais. Questionam a relação do trauma com os sintomas e afirmam,
já nessa etapa, que, com grande freqüência, o trauma está relacionado a algum fato na infância
dos pacientes, mais ou menos grave e que persiste por muitos anos na sua vida psíquica.
Entendem que esta conexão entre sintoma e sua causa não se dá por um mecanismo direto ou
de substituição de um elemento causal por outro.
Esta noção de trauma será adiante abandonada por Freud, ao se defrontar com as
questões relacionadas à sexualidade infantil e aos sintomas histéricos. No entanto, é o trauma,
5
“A verdade é que, em 1985, Freud encontrava-se a meio caminho no processo de passar de
explicações fisiológicas de estados psicopatológicos para psicológicos” STRACHEY apud FREUD,
1977. v. II. p.32).
42
ou a cena, que enreda o discurso e o sintoma da histérica; que permite o avanço de que
necessitamos para compreender como os fatos e as experiências infantis repercutem na
história pessoal e familiar de cada sujeito.
Corroborado tanto por Projeto... quanto por Estudos..., Freud constata que a
experiência clínica evidenciou-lhe dois fatos importantes: a) o ego afasta ou reprime da
consciência as idéias que lhe provocam algum tipo de afeto desagradável ou penoso e que
naturalmente geram desprazer; e b) essas idéias fazem parte da vida sexual da pessoa em
questão.
Tais constatações abrem caminho para tudo que adiante vai sustentar o pensamento
freudiano sobre a centralidade do conteúdo sexual na etiologia das neuroses, mais
explicitamente abordado na neurose histérica. Diante do quadro de Katharina, uma de suas
pacientes, Freud comenta:
Neste sentido, o caso de Katharina é típico. Em toda análise de um caso de
histeria baseado em traumas sexuais, verificamos que as impressões do
período pré-sexual que não produziram nenhum efeito na criança atingem
um poder traumático numa data posterior como lembranças, quando a moça
ou a mulher casada adquirir uma compreensão da vida sexual. Pode-se dizer
que a separação de grupos psíquicos em um processo normal no
desenvolvimento do adolescente, sendo fácil ver que sua recepção posterior
pelo ego proporciona oportunidades freqüentes para perturbações psíquicas.
(FREUD, 1977, p.182).
A relação que agora começa a se estabelecer entre conteúdos inconscientes (alijados
da consciência), idéia de trauma e formação de sintoma como defesa demarca o distinto
interesse de Freud sobre a etiologia da histeria e das neuroses, além de subsidiar a sua
construção da teoria psicanalítica dos processos psíquicos ditos normais.
O interesse pelo mecanismo do ego em evitar o desprazer constitui, a partir de então, a
base da pesquisa sobre o sintoma histérico, e é a esse mecanismo que Freud, agora sem o
apoio de Breuer, vai devotar o trabalho de rastreamento. Para Freud, o processo de formação
43
simbólica do sintoma deflagra o trabalho de defesa do ego: a idéia rechaçada é desviada da
consciência e uma outra surge como alternativa para simbolizar ou representar a que foi
reprimida pelo desprazer causado, embora esta última esteja diretamente entrelaçada com a
primeira. Num comentário ao tratamento da paciente – Fräulein Elisabeth Von R. – , Freud diz
textualmente:
Os conceitos do ‘desvio’ de uma idéia incompatível, da gênese dos sintomas
histéricos através da conversão de excitações psíquicas em algo físico e a
formação de um grupo psíquico separado, através do ato de vontade que
conduziu ao desvio – todas essas coisas, naquele momento, apareceram
diante de meus olhos de forma concreta (FREUD, 1977, p.206).
Nessa perspectiva, o sintoma ganha um caráter simbólico: aparece no lugar da situação
ou idéia que causou desprazer e sendo, portanto, alijada da consciência. Freud é naturalmente
levado a suspeitar, nesse período, que tais idéias, uma vez afastadas da consciência, têm em
comum um elemento sexual em seus conteúdos, o que justificaria a necessidade de mantê-lo
reprimido e afastado do ego. E é ainda na reflexão do caso Elisabeth que Freud conclui:
Essa moça sentiu pelo cunhado uma ternura cuja aceitação consciente
encontrou a resistência de todo o seu ser moral. Ela conseguiu poupar-se da
dolorosa convicção de que amava o marido de sua irmã, induzindo dores
físicas em si mesma. E foi nos momentos em que essa convicção procurou
extravasar-se (no seu passeio com ele, durante o seu devaneio da manhã, no
banho, ao lado do leito da irmã) que suas dores surgiram, graças à conversão
bem sucedida. Quando comecei o trabalho dela, o grupo de idéias relativas
ao seu amor já havia sido separado do seu conhecimento (FREUD, 1977, p.
206).
Vale salientar que a questão da sexualidade e sua relação com a histeria foram
formuladas de maneira efetiva desde as primeiras reflexões metapsicológicas do final dos
anos 90, especialmente trabalhos que se seguiram aos Estudos... Segundo Laplanche (1985),
o Projeto... é uma tentativa freudiana de ligar organicamente, do interior, o recalque e a
44
sexualidade numa mesma teoria, tornando-se o substrato de tudo que Freud escreveu sobre a
histeria até 1900. Para este autor, é a sexualidade que resume o essencial da contribuição
psicanalítica ao pensamento contemporâneo, sob o ponto de vista não apenas da histeria, mas
de toda a pesquisa metapsicológica.
Essa hipótese do componente sexual na etiologia das neuroses, em especial da histeria,
para cujo ponto todo o seu trabalho foi voltado nessa época, norteou a pesquisa freudiana
desde então. Freud retorna a este tema em artigo sobre As neuropsicoses de defesa de 1894.
Dois anos mais tarde, entretanto, descobre que não é a sexualidade, mas sim a sexualidade
infantil e o reconhecimento da persistência dos impulsos inconscientes que constituem a base
da formação das neuroses.
Para o nosso trabalho de análise da organização psíquica do sujeito de desejo, cabe
aqui uma discussão um pouco mais cautelosa sobre a descoberta do trauma, levantada tanto
por Freud quanto pelo colega Breuer, na análise dos casos oferecidos em Estudos... O
conteúdo dos processos ditos traumáticos, bem como os personagens neles envolvidos, são
substratos importantes para a construção da nossa atual pesquisa.
Segundo Gay, os histéricos tratados por Freud e Breuer nos anos de 1890
apresentavam muitos sintomas de conversão, estados depressivos e alucinações intermitentes.
Para ele, Freud, ainda relutante em abandonar o elemento da hereditariedade, preferia agora
procurar experiências traumáticas, como pista para a compreensão dos estranhos sintomas.
Estavam convencidos, ele e Breuer, que os segredos dos neuróticos eram os conflitos sexuais
ocultos pelos e dos próprios sujeitos.
Tomando como base as observações clínicas derivadas do tratamento das histéricas,
Freud está convencido de que a repressão, entendida aqui como recurso defensivo, se
manifesta a partir de uma experiência traumática, de conteúdo sexual, reconhecido somente
por uma ação retardada do ego. A relação entre os conteúdos do trauma e as queixas atuais
45
não é reconhecida pelos pacientes. As histéricas não podem, ou melhor, não querem acessar o
conflito. Existe um hiato entre esses dois momentos, e isso move Freud a investigar o
processo de recalque. O que agora se demonstra é a suspeita de Freud acerca da relação entre
a conversão e a conexão associativa com o desejo (que foi recalcado). O que é necessário
recusar é o desejo que a paciente nutre inconscientemente e, pela não aceitação, sofre,
transformando sua dor psíquica em dores físicas. Freud demonstra suas suspeitas através de
suas observações sobre os sintomas de Elisabeth:
Mas o que deve ter tido influência positivamente decisiva sobre o rumo
tomado pela conversão foi outra linha de conexão associativa: o fato de que
durante vários dias seguidos uma de suas pernas doloridas entrou em contato
com a perna intumescida do pai, enquanto as ataduras estavam sendo
trocadas. A região da sua perna direita que foi marcada por esse contato
permaneceu, a partir daí, o foco de suas dores e o ponto de onde se
irradiavam. Formou uma zona histerogênica artificial, cuja origem poderia
no presente caso ser claramente observada. (FREUD, 1977, p. 224).
Se há algo que recisa escapar à consciência porque causa desprazer, é preciso saber
sobre este algo que foi rejeitado pela consciência e, portanto, recalcado. O ego se defende
exatamente de quê? O que lhe parece intolerável? O que aqui se desvenda definitivamente é o
caráter sexual do conflito. Desde então Freud devota sua atenção sobre a suspeita dessa
defesa, como pudemos reconhecer no recorte acima.
Esse parece ser o ponto relevante para a construção do desejo. O trabalho de
decomposição ou de rastreamento do sintoma histérico remete Freud ao encontro que, até
então, não havia se configurado de forma direta: o encontro com o desejo pelo pai. O sintoma,
forma travestida de falar da sedução do adulto para com a criança retrata, na verdade, uma
cena estrutural que inaugura o contato com o infantil desejo original: o desejo sexual.
Falta, entretanto, relacionar, desvendar o mecanismo que converte o desejo de ser
seduzido no desejo de seduzir. Este é o próximo caminho a ser percorrido. Na conversão, o
46
afeto, não vivido na ocasião do trauma pelo não-reconhecimento do conteúdo, reaparece
diante de uma nova situação de desprazer na vida atual da histérica. Como salienta Freud:
“Enunciado em termos de teoria da conversão, esse fato indiscutível da somação dos traumas
e da latência preliminar dos sintomas nos ensina que a conversão pode resultar tanto de novos
quanto de sintomas relembrado”. (FREUD, 1977, p. 222).
O trauma, ou melhor, a lembrança do trauma atua como um corpo estranho que
continua apresentando seus efeitos por muito tempo. A emoção vinculada ao trauma foi
reprimida, permanecendo, no entanto, ligada à lembrança. Para Freud, os histéricos sofrem de
reminiscências. A esta constatação somos remetidos a uma outra formulação freudiana da
organização psíquica: os pequenos seres se organizam para garantir um estado de prazer e
registram na memória essas experiências. Os humanos funcionam fixados em caminhos que
remontam às experiências prazerosas. Por outro lado, eles também funcionam pelo
afastamento ou defesa daquelas experiências ou registros de memória que oferecem o seu
oposto.
A histérica alucina e afasta da consciência determinados complexos representacionais
relacionados ao desprazer. Vive aprisionada em seu trauma, num processo que a aliena e
produz sintomas, pela impossibilidade de ab-reagir adequadamente. Incapaz de realizar uma
saída para o desprazer causado pelo trauma, engendra um processo de exclusão de
determinadas representações, mas, em contrapartida, o investimento psíquico assume uma
representação substituta, aceita pela consciência.
Isso acontece porque os traumas não foram suficientemente ab-reagidos, em razão de
dois grupos de condições: a) situações nas quais não cabia uma reação e a emoção foi
intencionalmente reprimida; e b) situações em que as emoções se tornaram gravemente
paralisantes. É a natureza do estado que torna impossível uma reação de fato. Na maioria dos
casos, ambas as condições estão presentes e são determinantes naquilo que originou o trauma.
47
O entendimento do mecanismo de defesa – afastar o desprazer foi, desde o início,
reconhecido por Freud como um mecanismo natural e primitivo do aparato psíquico. No
entanto, o que aparece aqui como esquisito ou constrangedor é que Freud está diante de uma
histérica que, ao converter o desejo em sintoma, reprime, na verdade, um prazer sexual
adiado, não realizado.
Essa substituição, que constitui o processo de simbolização do sintoma, presente na
histeria, aturde e surpreende o próprio Freud. Este mecanismo do sintoma seria uma inversão
do processo natural de defesa: afastar o desprazer. Então, como entender o mecanismo de
recalque e de simbolização do sintoma histérico?
Por simbolização entende-se a substituição da coisa por algo que venha no seu lugar,
de forma disfarçada. Esse processo se constitui em uma saída, diferente da ab-reação, mas
evoca, como conseqüência, a alienação. O sintoma não faz sentido para o sujeito e o não-
saber do paciente histérico era de fato um não querer saber.
O trauma histérico leva ao afastamento do estado psíquico normal. Neste novo estado
psíquico cindido isola-se da consciência tudo aquilo que pode trazer ou gerar desprazer. Por
um mecanismo invertido, o funcionamento dos processos psíquicos dessas pacientes vai
ocorrer da memória para a percepção, e não o contrário do que acontece em situações
normais. Assim, essas pacientes vivem das lembranças e registros de memória, que, não tendo
a liberação de emergir em sua forma original, se transforma em dores físicas ou transtornos de
comportamento.
O que não é possível ou não aceito na consciência é algo que a própria paciente não
quer lembrar de forma direta: o prazer originário de experiências que deixaram traços ou
registros de uma sexualidade ainda não compreendida pelo aparato psíquico da criança.
Esse retardamento na compreensão do que foi vivido antes é uma característica geral
da organização psíquica. Freud está diante de uma conclusão importante para a organização
48
do sujeito. Os registros dessas experiências ficam marcados no inconsciente, apesar de só
posteriormente ganharem uma significação para o seu portador. Como referenda o texto de
Laplanche:
Deixada em suspenso, a lembrança não é em si mesma patógena, nem
traumatizante. Só se torna traumática pela sua revivescência, por ocasião de
uma segunda cena que entra em ressonância associativa com a primeira.
Mas, devido às novas possibilidades de reação do sujeito, é a própria
lembrança, e não a nova cena, que vai funcionar como fonte de energia
traumatizante, como fonte autotraumatizante. (LAPLANCHE, 1992, p.120).
O efeito retardado do ego deve-se ao fato do retardamento da sexualidade até a
puberdade, quando, então, o sujeito pode compreender e nomear o que lhe aconteceu ou o que
constelou a situação traumática vivida por ele em alguma fase de sua infância. Os pacientes
histéricos movem-se a partir de suas lembranças ou da recordação do que lhe causou
desprazer, buscando afastar-se agora de tudo que lhe faça nova menção à situação original.
Tal qual no sonho, a alucinação da histérica faz criar realidades psíquicas sem que estejam
presentes os referentes no mundo externo. O mecanismo interno de defesa sobre esse núcleo
de idéias censuradas é assim descrito na letra freudiana:
[...] reconheci uma característica universal de tais idéias: eram todas de
natureza aflitiva, capazes de despertar emoções de vergonha, da autocensura
e de dor psíquica e o sentimento de estar sendo prejudicado, eram todas de
uma espécie que a pessoa preferiria não ter experimentado, que antes
preferia esquecer.
[...] A idéia em questão foi forçada para fora da consciência e da memória. O
seu vestígio psíquico aparentemente se perdeu de vista. Não obstante, deve
estar lá . (FREUD, 1977, p. 325).
A suspeita de o trauma abrigar uma experiência de desprazer, de caráter sexual e
ocorrida numa fase remota da vida do paciente, geralmente relacionada a sua infância, faz
supor exatamente o material de que tanto precisávamos em nossa reconstrução teórica. Seus
49
escritos da clínica estão cheios de exemplos sobre essas experiências sexuais prematuras. O
que Freud constata no discurso das pacientes é a presença de uma situação de relação entre o
adulto e a criança, marcada pela irrupção de sensações de prazer sexual que não são
elaboradas como sexual pela criança devido à sua imaturidade psíquica. As primeiras relações
da criança com os pais estão marcadas por impressões carregadas de sexualidade. A mãe que
cuida e responde ao apelo do pequeno sujeito também imprime, no seu contato com o filho,
experiências de prazer que ficam inscritas até que o sujeito tenha recursos para decodificar o
conteúdo sexual de tais impressões. Como descreve Laplanche o “pré-sexual” em questão é
um “pré” um “antes” tanto absoluto quanto relativo: o que vem “antes” de um certo tipo de
compreensão possível; e há vários “pré-sexuais” possíveis, correspondendo às diferentes
etapas da evolução infantil.
Freud está construindo sua teoria para dar conta dos conteúdos inconscientes, a partir
dos quais encontraria futuramente sérios argumentos para identificar o componente da
sexualidade infantil, ao tempo em que questiona a presença comum e constante de um adulto
perverso na história de todos os pacientes. A cena de sedução das histéricas aponta para a
suspeita da participação do pai, e diante disso Freud encontra-se perplexo ou incrédulo, como
comenta com o colega Fliess em carta 69, de 1897:
Confiar-lhe-ei imediatamente o grande segredo que lentamente comecei a
compreender nos últimos meses. Não acredito mais em minha neurótica.
Provavelmente isto não é compreensível sem uma explicação; [...] Depois,
veio a surpresa diante do fato de que, em todos os casos, o pai, não
excluindo o meu, tinha de ser apontado como pervertido – a constatação da
inesperada freqüência da histeria, na qual o mesmo fator determinante está
invariavelmente estabelecido, embora tão difundida dimensão da perversão
em relação às crianças, afinal, não seja muito provável. (FREUD, 1977, p.
350).
O desconforto com tais observações remete Freud não ao abandono da sedução, como
poderia parecer, mas o faz seguir na direção de delimitar a participação das figuras parentais,
50
denunciadas em cada sintoma: através de um amor oculto pelo cunhado; da devoção e desvelo
ao pai no leito; de fantasias em relação à sedução de um tio; estes são alguns dos exemplos
que devotam sua atenção sobre os fatos.
A demonstração sobre a forma de funcionamento psíquico nos casos de histeria, tão
cuidadosamente discutido por Freud na ânsia de encontrar o seu método de trabalho e
pesquisa, nos servirá de material ou fonte de reflexão sobre nosso propósito. No entanto,
nesse período encontramos um Freud vacilante ou, no mínimo, questionador da real
participação dos pais na cena. O trabalho quase que arqueológico, como ele mesmo
metaforiza em seu texto, para chegar ao núcleo patogênico do sintoma, conduziu Freud ao
encontro de experiências primárias, registros de experiências emotivas que datam de um
passado remoto dessas pacientes e que naturalmente remetem às figuras parentais.
O material psíquico em tais casos de histeria apresenta-se como uma
estrutura em várias dimensões, que é estratificada em pelo menos três formas
diferentes. (Espero logo poder justificar esta modalidade pictórica de
expressão). Inicialmente, há um núcleo que consiste de lembranças de fatos,
ou seqüências de pensamento, nos quais o fator traumático culminou, ou a
idéia patogênica encontrou sua manifestação mais pura. Em torno desse
núcleo encontramos o que é freqüentemente uma quantidade incrivelmente
grande de um outro material mnêmico que tem de ser elaborado na análise e
que é, como dissemos, arranjado numa ordem tríplice. (FREUD, 1977, p.
345).
Pois bem, é o próprio Freud quem destaca como quantidade incrivelmente grande de
outro material mnêmico que tem de ser elaborado no processo da análise. Esta referência
remete naturalmente às primeiras relações objetais do sujeito, embora só alguns anos depois
Freud venha a confirmar esta observação, a respeito deste material mnêmico e de sua relação
de objeto com as figuras parentais. Mais uma vez, o que aqui se desvenda é o conteúdo
edipiano nascente na teoria psicanalítica.
51
No entanto, em que momento, ou de que forma poderemos reconhecer nesse material
as funções parentais? Como a função paterna pode ser desenhada no bojo de todo esse
conteúdo clínico? Está posto que é na clínica que se fundamenta a teoria psicanalítica, e é dela
que o autor extrai sua matéria-prima. Neste caso, é lá que devemos encontrar, portanto, o
nosso material de pesquisa e a nossa questão de trabalho: o lugar que ocupam as figuras
materna e paterna na constituição da psique humana.
Será mais prudente retornar ao texto freudiano e verificar a partir de que ponto se pode
traçar um lugar do pai em seu discurso. Na análise dos casos clínicos oferecidos por ele, há
uma série de insuspeitas observações que nos fazem constatar que Freud pensava além do que
ouvia ou percebia da interpretação direta e inequívoca do relato de suas pacientes. É verdade
que não encontraremos a figura paterna, objeto de nosso estudo, explicitado ou envolvido de
forma direta ou indireta nos relatos clínicos. Porém, parece possível demonstrar na leitura de
cada caso clínico, na possibilidade de perceber o processo da simbolização do sintoma, uma
perspectiva de encontrarmos ora um pai, ora uma mãe travestida de outros objetos de desejo
ou representantes do desejo do sujeito.
1.3 OS CASOS CLÍNICOS: O APARECIMENTO DO PAI
A análise dos casos apresentada por Freud serve-nos de apoio ao nosso objetivo: o de
elaborar uma genealogia das idéias de pai no bojo do pensamento freudiano. Tomemos,
portanto, como ponto de partida, o exemplo da paciente tratada por Breuer, mote de
observações de Freud. Anna O. é uma jovem amável, inteligente e prestativa, mas com uma
sintomatologia rica e diversificada. É curioso atentar para o destaque oferecido aos seus
diversos atributos e às observações que lhes foram conferidas. Assim diz Breuer: “[...] o
52
elemento de sexualidade estava surpreendentemente não desenvolvido nela”, e mais adiante:
“[...] nunca se apaixonara” ( apud FREUD, 1977, p. 64). Por que esse tipo de observação
poderia ser relevante, considerando que neste aspecto Breuer e Freud divergiam? Muitas de
suas indagações sobre o material fizeram com que ambos redobrassem o interesse pela clínica
da histeria e por sua relação com a sexualidade dos pacientes.
Reconhecer o que de fato se passa nos sintomas histéricos e, mais ainda, compreender
o mecanismo de sua produção passaram a ser o principal foco de interesse dessa clínica. A
obstinação nos relatos e na reconstrução ou recordação de cenas traumáticas, associada aos
momentos de surgimento dos sintomas, ocupou um espaço significativo na sua pesquisa, já
que acreditava estar diante de um mecanismo comum na organização histérica.
Em Estudos... encontra-se formulada a Teoria da Sedução6 6
, que, como fulcro,
sustentará que o conteúdo dos relatos dos sofrimentos psíquicos das pacientes, de ordem
sexual, originava-se nas recordações alucinadas das histéricas. Em alguns casos essas
recordações são relatadas como foram descobertas; em outros, no entanto, elas aparecem
parcialmente distorcidas ou alteradas, censuradas em função da dificuldade de aceitar ou
enfrentar o conteúdo que emergia das fantasias inconscientes dessas pacientes.
No tratamento de Fraülen Elisabeth Von R., Freud estabelece uma analogia ao
processo arqueológico com a pesquisa do material inconsciente, comparando o processo de
análise à técnica de desenterrar uma cidade soterrada, em que se precisa retirar as camadas do
material psíquico para penetrar gradativamente nas camadas mais profundas da lembrança da
cena primitiva. Reconhecê-la é atingir o seu âmago, para poder ab-reagir.
O material oferecido por essas pacientes serve não apenas para a pesquisa etiológica
da histeria. O relato cuidadoso das queixas e a atenção devotada pelas pacientes às fantasias e
às vias que as relacionam com os sintomas favoreceram uma nova abordagem técnica ou
6
A teoria da sedução será tratada mais detidamente no segundo capítulo desta dissertação.
53
método de observação. Freud abandona a hipnose, experimentando um método para seguir
com esses relatos e acompanhar os caminhos oferecidos pela consciência, acreditando acessar,
assim, o conteúdo mais remoto – o material inconsciente. Desta forma descreve o seu
tratamento:
Esse processo foi o de desembaraçar o material psíquico patogênico camada
por camada, e gostamos de compará-lo à técnica de escavar uma cidade
soterrada. Começava fazendo com que a paciente me contasse o que sabia e
[eu] cuidadosamente anotava os pontos em que alguma sucessão de
pensamentos permanecia obscura, ou algum elo da cadeia causal parecia
estar faltando. E depois penetraria em camadas mais profundas de suas
lembranças nesses pontos, realizando uma pesquisa sob hipnose ou pelo uso
de alguma técnica semelhante.(FREUD, 1977, p. 188).
Freud está convencido do papel do trauma e principalmente da existência de conteúdos
inconscientes que retornam à consciência travestidos de outros significados. Acompanhando
suas pacientes numa pesquisa arquelógica de decifração dos sintomas, insistindo nas
associações feitas pelas pacientes, Freud tem a intenção de, escavando as idéias e associações
conscientes, atingir o trauma ou o momento originário em que a experiência prematura se
instala. O esforço do método é resgatar a marca ou o traço psíquico original, que retorna a
posteriori numa cena da vida adulta, cujo conteúdo sexual se atualiza e gera o desprazer.
Sendo o nosso objetivo demonstrar o funcionamento do aparelho psíquico a partir da
organização do desejo, estamos diante de um material significativamente importante da teoria
psicanalítica. Como se explica que um traço psíquico residual depositado em uma vivência
pretérita possa assumir a condução do comportamento atual do sujeito? Como entender que o
sintoma remete a experiências tão originárias? O retorno à clinica faz-se necessário para a
compreensão dessas questões.
Elisabeth sofria de muitas dores nas pernas, mas Freud acredita que ela tinha
consciência de que suas dores, na verdade, falavam de um segredo guardado e não
compreendido. Seus sintomas estavam quase sempre relacionados aos cuidados que
54
dispensara ao pai enfermo ou posteriormente às suas experiências com as doenças da mãe e de
sua irmã mais nova. Uma história marcada por muitos momentos de sofrimento e perdas. Suas
dores nada mais eram do que foi por Freud denominado de conversão histérica. As dores
psíquicas transformaram-se, às custas da divisão da consciência, em uma doença desenvolvida
no corpo.
A conversão poderia então ser entendida como um desvio. O termo conversão
utilizado por Freud descreve a transposição de um conflito de ordem psíquica num sintoma
físico ou sensitivo. Para Freud conversão é um fenômeno psíquico entendido a partir de uma
concepção econômica; a libido desligada da representação recalcada é transformada em
energia de inervação; os sintomas exprimem, pelo corpo, representações recalcadas.
Diagnosticada como histérica, Freud sempre acreditou que os sintomas de sua paciente
Elisabeth revelavam uma forma de defesa, uma recusa por parte de seu ego em se relacionar
com um grupo ideacional que provavelmente lhe provocava desprazer. Como foi constatado
no acompanhamento do caso, seu grande segredo dizia respeito ao afeto nutrido (e proibido de
ser aceito pela consciência) pelo cunhado, marido da irmã que viera posteriormente a falecer,
encontrando, dessa forma, uma vantagem em se livrar de uma condição mental intolerável,
em função de todos os seus valores morais. Todo o grupo físico de sensações que
ordinariamente poderia ser determinado por causas orgânicas era, no seu caso, de origem
psíquica ou possuía um significado psíquico. É bem verdade, como bem salienta Freud, que a
conversão não criou o sintoma ou a sua dor somática, mas as circunstâncias indicam que a
dor, já existente, foi meramente utilizada, aumentada ou mantida.
A teoria da sedução e a simbolização do sintoma histérico trazem à luz diversas
questões a serem mais bem compreendidas pelo próprio Freud no desenvolvimento de sua
teoria da sexualidade infantil, o que só ocorrerá em momento posterior.
55
Um outro exemplo do que isto significa pode ser encontrado no caso clínico de
Katharina, jovem de aproximadamente dezoito anos, que costumava ver em suas crises
histéricas um rosto masculino ameaçador. Este rosto lhe era absolutamente desconhecido e
incapaz de se associar a quem quer que fosse; um rosto sem maior significação, embora lhe
causasse forte angústia, até o encontro com Freud ou a sua breve análise.
Depois de submetida a um processo de investigação analítica, Katharina mostrou-se
capaz de realizar um trabalho psíquico sobre a cena e, com isso, resgatou a significação do
rosto, associando-o a uma cena traumática inconsciente, que, por sua vez, estava ligada à
figura de um tio, na verdade seu pai. O rosto visto na consciência guardava uma representação
de outra imagem, desta vez recalcada e, como tal, inconsciente.
Quando vislumbrou o casal no ato sexual, de imediato estabeleceu uma
ligação entre a nova impressão e esses dois grupos de lembranças e começou
a compreendê-los e, ao mesmo tempo, rechaçá-los. Seguiu-se então um curto
período de elaboração, de ‘incubação’, após o qual os sintomas de conversão
se fixaram, os vômitos substituindo a repulsa moral e física. Isto solucionou
o enigma. Ela não sentira repulsa pela visão das duas pessoas mas pela
lembrança que aquela visão despertara nela. E, levando tudo em conta, isso
só poderia ser a lembrança da investida contra ela na noite em que ‘sentira o
corpo do tio’. (FREUD, 1977, p. 180).
Em uma nota de rodapé, é o próprio Freud quem esclarece que, no referido caso, se
tratava não do tio, mas do pai da paciente. “A moça adoeceu, portanto, como resultado de
investidas sexuais por parte do próprio pai”7
.
A cena de sedução, capturada através do relato clínico e manifestada pelas recordações
das pacientes histéricas, é muitas vezes questionada por Freud quanto à sua autenticidade e
veracidade. A constatação – qualquer que seja o valor de realidade que lhe é atribuída –
demonstra que existe sempre um adulto que faz insinuações sexuais à criança, quer de forma
7
Nota de rodapé acrescentada em 1924. p.183.
56
direta, com palavras quer com gestos mais ou menos explícitos, atos sexuais esboçados ou
realizados.
Laplanche (1985) salienta que, nessas histéricas, tratadas pelo método catártico, a
sedução era um cenário comum, localizado muitas vezes numa sucessão de cenas cuja série
Freud remontava com entusiasmo para procurar, incansavelmente, chegar à cena primária ou,
como mencionava, à cena traumática. À medida que se defrontava com a incidência das
cenas, Freud tornava-se contraditoriamente mais incrédulo. Era preciso acreditar que, pela
freqüência de suas observações, ou havia se enganado quanto à veracidade das recordações,
ou era de supor que a incidência de pais que seduziam seus filhos era muito maior do que
jamais se imaginou.
Novamente na mesma Carta 69, endereçada à Fliess, Freud reafirma sua desilusão com
os achados dos discursos das histéricas:
(A perversão teria que ser incomensuravelmente mais freqüente do que a
histeria, de vez que a doença somente aparece onde houve uma acumulação
de eventos e de onde incide um fator que enfraquece a defesa). Depois, em
terceiro lugar, a descoberta comprovada de que, no inconsciente, não há
indicações da realidade, de modo que não se consegue distinguir entre a
verdade e a imaginação que está catexizada com afeto (FREUD, 1977.
p.351).
Decepcionado e deveras inquieto com o material oriundo da sua prática, nesta carta
está a sua objeção quanto à freqüência com que teria que tratar da perversão sexual dos pais,
já que, pelos relatos clínicos, todos estariam envolvidos com suas filhas. E havia de pensar
que seriam muito mais casos de sedução do que os que levaram à patologia histérica, por
circunstâncias particularmente determinadas. Segue ainda em suas objeções quanto à questão
da sedução, acrescentando que não existiria no inconsciente nenhum indício de realidade da
cena, tornando difícil fazer a distinção entre o que era verdade ou o que era ficção investida
de afeto (fantasia).
57
Para muitos historiadores da Psicanálise, trata-se de um outro momento crucial, em
que Freud, encurralado pelas observações da clínica, vê-se forçado a abandonar sua teoria das
neuroses. A passagem da teoria da sedução, entretanto, para muitos comentadores nunca
chegou a concretizar-se. Freud retornou muitas vezes a ela, ainda que seu conteúdo tenha
sofrido diversas transformações durante a produção de toda sua obra. Contudo, os argumentos
sobre o material colhido nesse período, como salienta Monzani(1989), permitirão a Freud
adquirir três noções-chave, através das quais articulará o discurso psicanalítico propriamente
dito: a sexualidade infantil, o complexo de Édipo e o papel preponderante da fantasia como
fatores etiológicos na formação das neuroses.
Para Laplanche (1985), Freud apresenta contra sua própria teoria objeções de fato: a
impossibilidade tanto de remontar à cena quanto de admitir a freqüência da perversão dos
pais, além da incapacidade de decidir se uma cena reencontrada remete ao real ou à fantasia.
Faltava a Freud, nesse período, a noção de realidade psíquica – alguma coisa que tivesse toda
a consistência do real sem, contudo, ser verificável pela experiência externa.
Na Parte II de Projeto..., quando descreve suas hipóteses acerca dos processos
patológicos da histeria, Freud defronta-se com a noção de fantasia e a suspeita da teoria da
sexualidade infantil como elemento presente no material recalcado. “A análise levou a esta
surpreendente conclusão: para cada compulsão existe uma repressão correspondente, e para
cada intrusão excessiva na consciência existe uma amnésia correspondente”. (FREUD, 1977,
p. 460).
Mostra-se convencido de que o processo de defesa histérico decorre de uma defesa
primária do ego diante do conteúdo de desprazer, além de implicar um deslocamento de uma
situação de desprazer para uma outra situação aparentemente neutra ou sem ligação direta
com a primeira. Se por um lado o ego expulsa a idéia desprazerosa da consciência, por que
esta insiste em reaparecer através de uma outra forma de pensamento ou de situação? O que
58
está para além da defesa natural do ego? O enigma parece relacionar-se mais com o conteúdo
(sexual) do recalque do que com a defesa.
Através da teoria da sedução, é a mentira da histérica que ganha revelo para Freud
nesse período. É a mentira inscrita nos fatos, como observa Laplanche:
As histéricas mentem – nós sabemos mesmo antes de Freud. Acabamos de
constatá-lo, e concordamos com ele, uma vez que elas propõem como uma
cena, supostamente pertencente à sua infância, algo que muitas vezes nos
leva a pensar que se trata de pura e simples imaginação. Elas tomaram sua
imaginação por uma realidade, e, mais profundamente, traduziram – de
acordo com certas regras de transposição – seu desejo numa realidade: aqui,
naquilo que chamamos de ‘fantasia originária’ de sedução, é seu próprio
desejo de seduzir o pai que elas traduziram, de modo invertido, numa cena
real de sedução pelo pai. Pelo termo ‘proton pseudo’, entretanto, não é uma
mentira subjetiva que nos é apresentada, mas uma espécie de passagem do
subjetivo à ‘realidade’ fundadora, ou mesmo, poder-se-ia dizer, ao
transcendental; de qualquer modo, uma mentira objetiva inscrita nos fatos. A
psicanálise, de imediato e definitivamente, ultrapassa a pobreza da ‘clínica’
oficial, que nunca deixou de referir-se à má fé e à simulação para explicar o
que chama de ‘pitiatismo’. Se as histéricas mentem, são elas, especialmente,
as primeiras vítimas de uma espécie de mentira ou engano. (LAPLANCHE,
1985, p. 41.)
Com essa compreensão sobre a histeria e o sintoma histérico, a Psicanálise inaugura
uma nova compreensão da psicopatologia. O papel da etiologia sexual na causação das
neuroses defendido na obra freudiana sempre foi alvo e objeto de muita polêmica. As idéias
propostas nas suas teses ultrapassaram largamente e de forma inédita o que sempre se
constatou e pensou sobre as histéricas. O foco na sexualidade e no recalque fez com que seu
autor fosse reconhecido pela originalidade de sua teoria, mas, muito mais ainda, criticado
ferreamente, por colegas e outros pesquisadores contemporâneos.
Para Freud, o engano é fruto de uma defesa impedida de seguir um caminho normal,
tornando-se, assim, uma defesa ou saída patológica. Na defesa histérica, a recordação de uma
cena de desprazer, portanto carregada de tensão, está marcada pelo impedimento desta cena
59
de seguir um caminho de descarga normal, da possibilidade de ser elaborada. De um lado
inconsciente encontra-se a cena recalcada, a recordação desagradável; de outro, uma
recordação constante, aparentemente acessória, contingente do acontecimento traumático, que
permaneceu na memória como sintoma ou símbolo da primeira cena, já que esta não pode ser
trazida em sua forma original para a consciência. A ligação entre ambas as cenas não pode ser
aceita na consciência, permanecendo, dessa maneira, desconhecida.
O processo primário foi descrito por Freud inicialmente nos fenômenos de realização
de desejo. Por essa razão, é no sonho que suas leis básicas se manifestam mais claramente; o
deslocamento está a serviço do desejo. No entanto, no sintoma histérico, ainda que haja
deslocamento, o recalque não fala do desejo, e sim de um mecanismo de defesa diferente do
sonho.
O ego, recorrendo a este mecanismo, busca moderar a circulação e uma melhor
distribuição do afeto. Na verdade, é o conteúdo de ordem sexual que faz com que tal defesa,
uma defesa patológica, produza esse deslocamento de afeto de uma cena traumática e
recalcada para uma cena atual, consciente e aparentemente desprovida de sentido.
O que caracteriza o recalque e a necessidade de defesa da cena traumática é seu
conteúdo sexual. Para Freud, é preciso que a cena originária pertença ao domínio da
sexualidade, e, portanto, seja geradora de desconforto, para que seja alijada da consciência. A
outra cena, posterior e inócua de desprazer, ganha nesta forma de defesa o afeto deslocado da
primeira tornando-se o centro do desconforto e, por conseguinte, o sintoma catexizado de
desprazer. O deslocamento do afeto é o que caracteriza e compõe a relação entre as duas
cenas tratadas pela histérica. Vejamos o comentário sobre a proton pseudos:
Precisamos de uma explicação para o fato de que um processo-do-ego possa
acarretar conseqüências que estamos acostumados a encontrar somente nos
processos primários. Devemos esperar aqui a intervenção de condições
psíquicas muito especiais. A observação clínica mostra que tudo isso apenas
acontece na esfera sexual; de modo que essas condições psíquicas especiais
60
talvez possam ser explicadas derivando-as das características naturais da
sexualidade. (FREUD, 1977, p. 463-4).
Freud relaciona as características naturais da sexualidade com a noção da natureza
bifásica de sexualidade infantil e sua decorrência nas etapas de desenvolvimento dessa
sexualidade. A identificação de uma fase inicial não genital, interrompida em seu processo de
desenvolvimento por um período da latência, pode ser o que Freud já tivesse sob suspeita.
Isso parece relacionar ou justificar a razão da amnésia histérica e a não-simbolização da
primeira, mas sim da segunda cena de sedução.
O conteúdo sexual não compreendido ou elaborado pela pequena criança retorna numa
fase em que a sexualidade pode e deve ser significada. Na relação estabelecida entre a
primeira cena (a mais antiga e de caráter sexual) e uma segunda, mais atual e ingênua, é que
se estabelece o que ele chamou de mentira ou engano histérico.
A fantasia de sedução, ou sedução originária, traduz na essência um desejo, assim
como o sonho também o faz. No entanto, o desejo de seduzir o pai, apontado na histeria, é
traduzido, por regras de transposição, de forma inversa, numa cena referida como real, onde o
adulto - o pai atua sobre a criança indefesa.
Essas questões relacionadas à sedução como fantasia infantil (cena fantasmática de
sedução) e às fases da sexualidade infantil retornarão, posteriormente, de forma mais
estruturada em sua obra de 1905 intitulada Três ensaios sobre a teoria da sexualidade,
quando a sexualidade infantil ganha seu lugar de centralidade na etiologia das neuroses e da
vida sexual dos normais.
O processo patológico do sintoma histérico é, na verdade, um processo de
deslocamento, semelhante ao que acontece nos sonhos. Trata-se do deslocamento de
quantidade e de afeto entre o recalcado e uma cena atual, recente e desprovida de sentido
direto com o que ficou recalcado. Assim como o histérico, o sujeito que sonha também é
61
capaz de experimentar angústia, desejo ou dor frente a uma representação que lhe seja
aparentemente inofensiva. O símbolo é portador do afeto. A esse fato psíquico chamou Freud
de processo primário. Tal processo trataria, portanto, de um deslocamento do afeto para uma
nova representação, destituindo da cena original o afeto e o interesse psíquico.
O caso de Emma, citado em Projeto..., serve de subsídio a esta conclusão. Desde
jovem sofria de uma fobia – medo de entrar sozinha numa loja. Para melhor compreender
suas queixas de ansiedade, Freud pediu-lhe que tentasse identificar quando surgira seu
sintoma. A partir dos relatos da paciente Freud chega a uma cena consciente, acontecida entre
os 12/13 anos de idade, em plena adolescência, e a uma outra cena anterior, provavelmente
ocorrida quando a paciente contava com apenas oito anos.
A primeira cena, ocorrida na ordem cronológica, recalcada e só descoberta com
auxílio da análise, era protagonizada por um comerciante que assedia a pequena Emma, então
aos oito anos de idade, tentando tocar nos genitais através de suas roupas. Mesmo sendo
vítima desta situação, a paciente ainda retorna mais uma vez à loja. Esse retorno é motivo de
muita censura por parte da paciente em sua vida atual.
Não é preciso ressaltar aqui o caráter eminentemente sexual que caracteriza a cena e
que justifica o seu recalque. Na cena posterior, a mais atual cronologicamente e sem nenhum
componente sexual aparente, Emma relata o seu desconforto quando, aos 13 anos, ao entrar
numa loja para comprar alguma coisa depara-se com dois balconistas que riem muito.
Tomada de forte afeto desprazeroso, sai correndo acreditando que os homens riem de suas
vestes.
Ao tentar relacionar esses conteúdos apresentados pela paciente em seus dois relatos,
Freud depara-se com o complexo processo de repressão, acompanhado de simbolização. No
entanto, as conexões entre as cenas não concentram o desconforto no atentado, mas num
62
elemento aparentemente desprovido de qualidade – as vestes. O hiato, ou essa aparente falta
de sentido, é o que interessa a Freud:
No nosso exemplo, porém, o que chama atenção justamente é que o
elemento que penetra na consciência não é o que desperta interesse (o
atentado), mas outro, na qualidade de símbolo (as roupas). Se nos
perguntarmos qual seria a causa desse processo patológico interpolado, só
podemos indicar uma - a liberação sexual, da qual também há provas na
consciência. Isto está vinculado à lembrança do atentado; mas é de chamar a
atenção o fato de que ela [a liberação sexual] não se vinculasse ao atentado
quando esse foi cometido. Aqui deparamos com um caso em que a
lembrança desperta um afeto que não pode suscitar quando ocorreu na
qualidade de experiência, porque nesse entretempo as mudanças [trazidas]
pela puberdade tornaram possível uma interpretação diferente do que era
lembrado (FREUD, 1977, p. 467-8).
Na ocasião da primeira cena, Emma, ainda uma criança, não fora capaz de relacionar o
que aconteceu com qualquer coisa que tenha a ver com a sexualidade. Na segunda, na
puberdade, ela pode compreender muito bem o seu caráter sexual. Deslocar a quantidade e o
afeto de uma cena para outra foi o trabalho da defesa.
A partir desse relato, chega à seguinte constatação: a criança, impedida de significar a
cena de sedução, o faz apenas num momento posterior, mediante outra situação
aparentemente desprovida desse caráter sexual. É, pois, numa segunda cena, geralmente em
circunstâncias banais, e não sendo em si um atentado sexual, que a psique realiza, através do
deslocamento, uma substituição de cena, mantendo o caráter sexual como elemento comum a
ambas.
A última cena reativa a primeira através da recordação, desencadeando nesta uma
reação em dois sentidos: uma explicação fisiológica, de um lado, e de outro, um conjunto de
representações que caracterizam a sua ligação com a sexualidade. As mudanças ocorridas com
a puberdade permitem agora, num tempo posterior, tornar compreensíveis alguns fatos
vividos prematuramente.
63
Embora em geral não aconteça na vida psíquica que uma lembrança desperte
um afeto que não existiu por ocasião da experiência, tal é, no entanto, o que
acontece com mais freqüência no caso das idéias sexuais, precisamente
porque o retardamento da puberdade constitui uma característica geral da
organização. Toda pessoa adolescente porta traços de memória que podem
ser compreendidos com a manifestação de suas próprias sensações sexuais;
todo adolescente, portanto, traz dentro de si o germe da histeria. (FREUD,
1977, p. 468-9).
Através desse caso, pode-se identificar o mecanismo do recalque histérico: uma
recordação é recalcada e não se transforma em traumatismo senão posteriormente. Para Freud,
a razão disto residia no fato do retardamento da puberdade, sob o ponto de vista comparativo
da evolução do indivíduo.
Essa distinção entre a representação/cena e o afeto é, além de uma das mais
significativas conclusões de Freud, um dos eixos centrais nos quais a Psicanálise, como teoria,
se estrutura. Todo ato psíquico é formado por dois componentes: um representativo (uma
idéia) e um afetivo (um sentimento). Eles podem variar em clareza, de um lado, e em
intensidade, de outro, embora estejam sempre presentes numa mesma situação. A descoberta
psicanalítica importante foi perceber que não há uma relação intrínseca entre os dois
componentes, mas, ao contrário, eles podem dissociar-se e tomar rumos bem distintos,
principalmente frente a uma circunstância traumática.
A prática clínica mostrou que, nos casos patológicos, o fator quantitativo do afeto
emerge com toda clareza e torna-se passível de sofrer deslocamento, conversão, condensação,
sugerindo, assim, a idéia de que um quantum circula entre representações e que,
eventualmente, pode vincular-se numa representação ou mesmo manifestar-se de forma direta
e pura, como no caso da angústia. Essa constatação sobre as vicissitudes independentes entre
o afeto e a representação jamais fora abandonada.
As conquistas freudianas advindas desses trabalhos pré-psicanalíticos estão marcadas
por uma nova idéia ou movimento de ordenação do aparelho psíquico: a passagem e os
64
registros entre experiências do externo para o interno e vice-versa. O sujeito, na sua interação
ou no contato com o mundo e com os pais, organiza-se também nas funções, podendo
destinar, na sua estruturação egóica, defesas normais ou patológicas frente a essas
experiências.
Apesar das oscilações com temas como realidade, imaginação e reconstrução
retrospectiva, Freud reafirmará sempre, e cada vez mais, a sedução como um fato. As
descobertas desse período jamais foram totalmente abandonadas por ele, a despeito de seus
desdobramentos teóricos posteriores. Esse contexto, construído ainda que de forma preliminar
e carente de uma base mais promissora quanto à participação da sedução no contorno da
estrutura psíquica, pode ser, mesmo que prematuramente considerado, o alicerce sobre o qual
Freud assentará no futuro a teoria edipiana.
Para tanto, continuará reafirmando a sedução como um fato, a ponto de apresentá-la,
em obra de 19138
, como um dado universal: a sedução da qual nenhum ser humano escapa – a
sedução dos cuidados maternos. Segundo esse autor, a teoria psicanalítica vai salientar que os
primeiros gestos da mãe na sua relação com a criança são necessariamente impregnados de
sexualidade, constatação que coincidirá com a formulação freudiana a respeito da polarização
da sexualidade infantil nas zonas erógenas.
Vale ressaltar que o mais significativo de todo esse material clínico, bastante rico nos
exemplos, é o substrato sobre as relações de objeto que aqui são discretamente assinaladas.
Laplanche salienta em suas observações sobre a teoria freudiana da sedução:
Habituemo-nos à idéia de que as significações implícitas no menor gesto dos
pais são portadoras das fantasias dos mesmos; na verdade esquece-se, muitas
vezes, quando se fala da relação mãe-filho ou da relação pais-filhos, que os
pais, por sua vez tiveram seus próprios pais; eles têm também seus
‘complexos’, seus desejos marcados de historicidade, de modo que,
reconstruir o complexo de Édipo da criança como uma situação triangular,
esquecendo-se que nos dois ângulos do triângulo cada protagonista adulto é,
8
FREUD,1977, Totem e Tabu. v.XII.
65
ele próprio, poder-se-ia dizer, portador de seu pequeno triângulo e mesmo de
toda uma série de triângulos encaixados uns nos outros, é negligenciar um
aspecto essencial da situação. Finalmente, a estrutura edipiana completa é de
imediato presente, ao mesmo tempo ‘em si’ (na objetividade da configuração
familiar), mas, sobretudo ‘no outro’, fora da criança. A via de apropriação
desse ‘em si’ passa primeiro por uma apreensão – confusa e de certa maneira
monstruosa – do complexo no outro primordial (em princípio a mãe).
(LAPLANCHE, 1985, p. 51).
Tais constatações sinalizam para os efeitos das relações objetais, travadas desde muito
cedo por todos os seres humanos, neuróticos ou normais. O estudo das neuroses, e em
especial da histeria, como vimos até aqui, proporcionou à pesquisa psicanalítica achados que
reafirmam a importante presença desse outro, como elemento fundamental na relação do
sujeito com o mundo, bem como na própria relação estrutural de sujeito.
Tentar compreender a instância paterna ou, melhor dizendo, tentar reconhecer até aqui
a presença do pai é reconhecer a presença, mesmo que indiretamente nomeada, de um novo
elemento naquela que era a relação de referência inicial, portanto, a díade original mãe-filho.
A partir dos sintomas das pacientes histéricas, Freud pôde descobrir um novo elemento,
funcionando até então como um corpo estranho ameaçador dessa relação fusional. O pai,
ainda sem um aparato teórico adequado, aparece como elemento de desejos, presente nas
fantasias infantis. Sua existência parece demarcar novos limites relacionais, porém
insuficientes para esclarecer o seu papel na composição triangular.
As relações de objeto (os pais), desde muito cedo na teoria psicanalítica, fazem alusão
direta ao caráter sexual de tais relações, embora somente alguns anos depois Freud
compreenderia seu significado e construiria o que seria de todas as suas teorias a mais
importante para a estrutura do sujeito: o Complexo de Édipo.
Para chegar à formulação desse complexo estruturante, Freud retornou muitas vezes à
teoria da sedução e às fantasias originárias. Esse material recortado da realidade psíquica de
suas pacientes histéricas constituiu o embasamento não apenas de toda a segunda parte do
66
Projeto..., mas também da grande maioria dos escritos teóricos da clínica psicanalítica, aos
quais nos deteremos no próximo capítulo.
67
2 O PRÓXIMO PASSO: FREUD E A NOÇÃO DE FANTASIA
As falsificações não são feitas de ouro,
mas estiveram bem perto de algo
realmente feito de ouro.
Dito popular
As psiconeuroses constituem-se, sem dúvida, na principal fonte de observação e
pesquisa de Freud, no que tange ao seu intento de construir um aparelho que respondesse a
elaboração de processos psíquicos mais complexos, ou melhor, das demandas desiderativas
que encontrou tanto nos neuróticos quanto nos sujeitos normais. No intuito de transpor os
limites biológicos como constatamos no capítulo anterior, Freud segue seu percurso
descrevendo esses processos cada vez mais complexos do aparelho desejante, salientando a
diferença de suas tarefas, tais como: consciência, memória, alucinação, dentre outros.
O que aqui importa demonstrar é que as tarefas deste aparelho vão, desde o seu início,
para além da excitação quantitativa ou meramente fisiológica. A relação de sujeição ao outro
que cuida e responde à suas demandas de sobrevivência (bebê/adulto), instaura com suas
repetições e registros novos outros processos de excitação neuronal de intensidade e percursos
diversos. Processos como memória e alucinação não podem mais ser descritos pelos mesmos
caminhos.
Na busca epistemológica da função paterna, razão do nosso interesse sobre esse
material psicanalítico, seguiremos o pensamento e as descobertas freudianas sobre tal modelo
psíquico que dê conta destas outras funções e não somente daquelas que expliquem as tarefas
biológicas ou de caráter de sobrevivência do filhote de homem. O processo de humanização
ou de socialização que marca a personificação de um sujeito, perpassa o processo de
68
sobrevivência animal e instaura-se a partir da instituição de novas formas psíquicas que
delineiam a presença do sujeito de desejo.
Enquanto no Projeto... Freud depara-se com a primazia da quantidade como unidade
justificadora de todos os processos, surpreende-se, ainda nesta obra, com os efeitos de
qualidade e origem interna da excitação. Os casos clínicos e a determinação em desenhar os
caminhos da excitação e seus efeitos e conseqüências na vida psíquica de seus pacientes,
levaram Freud a uma incansável pesquisa sobre tais processos.
Em carta a Fliess de 1897, Freud revela sua inquietação diante do esforço de explicar a
totalidade dos fenômenos psíquicos apenas pela perspectiva da quantidade, sua clínica o leva
a redefinir as neuroses a partir deste novo material. Refere Freud:
Pois bem, vejo que a defesa contra as lembranças não impede que estas
dêem origem a estruturas psíquicas superiores, que persistem por algum
tempo e, depois, são elas mesmas sujeitas à defesa. Esta, porém, é do tipo
específico mais elevado – precisamente como nos sonhos, que contêm in
nuce [numa casca de noz] a psicologia das neuroses, muito genericamente.
Deparamo-nos é com as falsificações da memória e com as fantasias – estas
referindo-se ao passado ou ao futuro. Conheço mais ou menos as leis
segundo as quais se agrupam essas estruturas e os motivos pelos quais são
mais fortes do que as lembranças verdadeiras; assim, aprendi coisas novas
que ajudam a caracterizar os processos no Inc. (FREUD, 1977, p 348-9).
Freud encontra nos sintomas histéricos fenômenos psíquicos cuja forma econômica
contraria seus achados nos fenômenos ditos normais. O estado psíquico destes pacientes
cindiu-se de tal forma que o funcionamento dos processos psíquicos se limita a determinados
complexos representacionais que desencadeiam, a partir da recordação, o surgimento de
imagens sem correspondências atuais no mundo real dos sentidos.
A histérica alucina e, portanto, vive de suas reminiscências, como repetia Freud em
seus comentários a Fliess. Esse mundo imaginário em que se afunda o psiquismo da histérica,
legitimado pelo mecanismo da alucinação, inverte o caminho preferencial do processo
69
psíquico (da percepção à memória), oferecendo à memória um novo atributo – ela passa a ser
a estimuladora dos fenômenos psíquicos. Uma mudança de sentido se instala.
A mudança não se restringe apenas ao caráter econômico da energia que circula no
aparelho psíquico. É assim que, no delineamento dos sintomas histéricos Freud chega a novos
fenômenos da psique destas pacientes: as fantasias e a recorrência a uma cena traumática. No
texto A Etiologia da Histeria de 18969
, Freud, auxiliado pelas contribuições de Breuer sobre
os sintomas e o tratamento das histéricas, debate-se diante desta inversão, destacando o papel
ocupado pela experiência vivida em fase precoce do desenvolvimento psíquico dessas
pacientes e que passou a ser reproduzida em sua vida psíquica posterior, na idade adulta.
Ao tentarmos, de maneira aproximadamente semelhante, induzir os sintomas
da histeria a se fazerem ouvir como testemunhas da história da origem da
doença, devemos partir da portentosa descoberta de Josef Breuer: os
sintomas das histéricas (à parte os estigmas) são determinados por certas
experiências do paciente que atuaram de modo traumático e que são
reproduzidas em sua vida psíquica sob a forma de símbolos mnêmicos. O
que temos a fazer é aplicar o método de Breuer – ou algum que lhe seja
essencialmente idêntico – de modo a fazer a atenção do paciente retroagir
desde seu sintoma até a cena na qual e pela qual o sintoma surgiu; e, tendo
assim localizado a cena, eliminamos o sintoma ao promover, durante a
reprodução da cena traumática, uma correção subseqüente do curso psíquico
dos acontecimentos que então ocorreram. (FREUD, 1977, p.190-1).
O que aqui se resgata neste material teórico é a constatação de que por trás deste
conteúdo, encontramos o processo da imaginação organizando forças psíquicas, o que serve
de substrato para a formação do desejo na teoria freudiana. A base desse material está no
valor dado ao conteúdo da cena. A suspeita freudiana sobre o conteúdo sexual da mesma já
está implantada neste momento.
9
FREUD, 1977, v. III.
70
Se a lembrança que descobrimos não atende a nossa expectativa, talvez
devamos prosseguir um pouco mais no mesmo caminho; é possível que, por
trás da primeira cena traumática, oculte-se a lembrança de uma segunda cena
que satisfaça melhor a nossos requisitos e cuja reprodução tenha maior efeito
terapêutico; de modo que a cena descoberta em primeiro lugar tem apenas a
importância de um elo de ligação na cadeia de associações. [...]
E talvez esta situação se repita; cenas inoperantes poderão ser interpoladas
mais uma vez, como transições necessárias no processo de reprodução, até
que encontremos finalmente nosso caminho desde o sintoma histérico [...]
(FREUD, 1977, p.193).
Reconstruir a cena, atuar sobre o trauma é atingir o ponto da reconstituição de relações
infantis com as figuras parentais em sua essência mais primária. Freud está convicto de que as
imagens ou fantasias que retornam à consciência dos histéricos são, na verdade, cenas
primevas de relações de desejo. A gênese da imaginação é o desejo, que está por se revelar a
estes sujeitos, como veremos concluir o próprio Freud:
Mas a descoberta mais importante a que chegamos, quando uma análise é
sistematicamente conduzida, é a seguinte: qualquer que seja o caso e
qualquer que seja o sintoma que tomemos como ponto de partida, no fim
chegamos infalivelmente ao campo da experiência sexual.10
Aqui, portanto,
pela primeira vez parece que descobrimos uma precondição etiológica dos
sintomas histéricos. (FREUD, 1977, p.196).
Para Freud, neste período de sua produção teórica, tais experiências infantis a que se
refere são de conteúdo sexual e afetam o sujeito num sentido muito mais amplo que não o
sentido da sexualidade genital, porque o atingem numa tenra idade, onde seu aparelho
psíquico não permite a compreensão ou a elaboração da experiência e, portanto, precisa ser
alijado da consciência, reprimido porque não foi possível de ser elaborado. O recalque se dá
em função do estranhamento em relação ao conteúdo de tal experiência pela criança ainda
muito pequena. O trabalho psicanalítico, segundo ele, tem como objetivo resgatar tais
10
Grifo do autor
71
experiências para que sejam elaboradas pelo adulto, a partir de um outro estágio do aparelho
psíquico, agora capaz de reagir.
Laplanche (1992) observa que todos os escritos de Freud desta época estão cheios de
exemplos desses acontecimentos em que uma criança é exposta a uma experiência sexual
imatura. Para ele a criança em questão está num estado de imaturidade, incapacidade, de
insuficiência em relação ao que lhe acontece. Salienta, nestes casos, o que para Freud é
material de pesquisa - o que está em questão nessas experiências é a defasagem, a vivência e a
capacidade de elaboração. Nas palavras de Laplanche: “É esta defasagem que é o terreno do
trauma” (LAPLANCHE, 1992, p.114.). O trauma decorre do caráter fortuito, do fato de que o
sujeito não está preparado para entender o que experimentou.
A prática clínica e os relatos pouco conclusivos das pacientes que tratou à época, no
entanto, fazem emergir em Freud muitas incertezas quanto à veracidade desses conteúdos. A
grande freqüência de adultos sedutores na historia dos sintomas, em geral estes adultos eram
direta ou indiretamente associados à figura paterna, fizeram Freud suspeitar de seus achados.
A inconsistência do discurso provocou em Freud um certo estado de decepção e de
desencanto com o que intitulara até então de teoria da sedução.
Em 1897, na conhecida Carta 69 a Fliess, Freud anuncia inúmeras razões para não
confiar em sua pacientes e assim abandonar esse alicerce a que se apegou para lastrear a teoria
das neuroses. “Já não creio mais na minha neurótica”. (FREUD, 1977, p.350), afirma
desconcertado, sinalizando mais uma vez um novo desvio na direção de outras descobertas.
Entre ou desencanto e a curiosa determinação, a psicanálise avança na sua compreensão sobre
o sujeito de desejo.
Entretanto até o processo de auto-análise lhe oferece material para suspeitar da
importância das fantasias na formação do material inconsciente. Numa nova carta de 1899
(FREUD, 1977, Carta 101.) a Fliess, Freud retoma à relação entre a sexualidade, as fantasias
72
infantis e a repressão. O processo de defesa, segundo ele, está relacionado não à percepção
(fidelidade ao real), mas sim à memória e à fantasia11
(realidade psíquica).
Em primeiro lugar: uma pequena parte de minha auto-análise progrediu e
confirmou que as fantasias são produtos de períodos posteriores e são
projetadas para o passado, desde o presente até os tempos mais iniciais da
infância;
[...] Além disso, encontrei um outro elemento psíquico que considero ter
significado geral e ser uma fase preliminar dos sintomas (anterior, mesmo à
fantasia). (FREUD, 1977, p.372).
Subvertendo parcialmente ao que encontrou no Projeto... Freud reconhece que não é
imprescindível a atenção no sistema perceptual para que a atividade representativa seja
desencadeada. A atividade imaginária tem uma autonomia ativadora. Freud inquietava-se
desde então com o papel das fantasias, suas origens e a suspeita de estarem diretamente
relacionadas à sexualidade infantil, ou como mencionou nesta mesma carta o embrião de um
impulso sexual. Tema de que se ocupou nos anos seguintes.
Desde o Projeto... Freud está convencido da existência da representação sexual na
formação dos sintomas, e até então havia seguido o discurso de suas pacientes na busca de
identificar a origem dessas representações e sua relação com a histeria. O caminho, entretanto,
levou-o a idéia do trauma, a que teve que abandonar pelas evidências comentadas
anteriormente. No entanto, o propósito de compreender o papel da fantasia, ou ainda, o tema
da sedução parece deslocar sua atenção para outros fenômenos, a saber, a origem da
sexualidade na infância.
Para Monzanni (1989), este episódio vai constituir um dos capítulos mais complicados
e espinhosos da história da psicanálise na medida em que vai implicar uma série de hesitações
de Freud no decorrer de sua obra. O abandono da sedução aliado ao novo estatuto cunhado às
fantasias – o valor de realidade psíquica, torna-se material de significativo interesse de nossa
11
Grifo do autor
73
pesquisa sobre a função paterna. Esse abandono da teoria de sedução é apontado pelos
estudiosos de Freud como uma das condições para o estabelecimento da Psicanálise como
uma disciplina autônoma. O reconhecimento não mais de uma cena, mas de conteúdos
fantasmáticos infantis demarca um salto teórico fundamental para a constituição da teoria
psicanalítica do sujeito de desejo.
Inscrito não mais e tão somente num corpo biológico o sujeito aparece agora como
representante de instâncias psíquicas que transitam numa conjugação de forças que, de um
lado, lutam para a realização de um desejo e de outro atendem à repressão ou aos limites
impostos pela consciência ou instância egóica que reconhece suas fronteiras. No cerne de todo
esse processo psíquico transita o desejo sexual infantil em relação aos pais, como veremos.
2.1 FANTASIAS, TRAUMAS – O REAL E O IMAGINÁRIO SE CONFUNDEM E SE
FUNDEM PARA COMPOR O SUJEITO
Os textos produzidos por Freud entre 1896-97 tratam de compreender como o
fenômeno da fantasia e o das lembranças infantis aparentemente ingênuas e irrelevantes
servem de substrato para o desvendamento das neuroses dos adultos. Nesta nova perspectiva
oferecida pela fantasia, o sintoma deixa de ser visto como algo que destoa do universo do
paciente para ser visto como um representante indireto do desejo e, como tal, é parte
integrante da estrutura psíquica.
Freud não perderia de vista que a sedução, ou pelo menos, uma fantasia de sedução,
muito mais imaginária do que real, é uma constatação de sua experiência clínica até então. Ela
é resultado de muita observação junto às histéricas e por esta razão não deve ser de todo
ignorada. Do que tratam então as reminiscências que provocam sofrimento em suas pacientes?
74
Em Lembranças Encobridoras de 189912
, Freud reconhece que o tema central dessas
lembranças encobridoras, utilizado como tema para encobrir um evento desprazeroso e,
portanto, rechaçado da vida consciente, desaparece porque as recordações fragmentadas dos
primeiros anos de vida põem em relevo o funcionamento psíquico entre crianças e adultos e
parece conter uma chave importante para entender a formação dos sintomas sob uma nova
perspectiva.
No curso de meu tratamento psicanalítico de casos de histeria, neurose
obsessiva etc., tenho freqüentemente lidado com recordações fragmentárias
dos primeiros anos da infância, que permaneceram na memória dos
pacientes. Como mostrei em outros textos, deve-se atribuir grande
importância patogênica às impressões dessa época da vida. Mas o tema das
lembranças da infância está, de qualquer modo, destinado a ser de interesse
psicológico, pois elas põem em notável relevo a diferença fundamental entre
o funcionamento psíquico das crianças e dos adultos. (FREUD, 1977, p.287).
O reconhecimento de que o conteúdo das lembranças infantis traz em seu bojo
elementos que representam o desejo e favorece o aproveitamento de nova abordagem da
perspectiva da terapêutica psicanalítica.
Esta nova perspectiva e concepção freudiana do sintoma histérico delimitam um
significativo hiato criado pelo nosso autor e seus colegas. Para Breuer, Anna O não passa de
uma pessoa com forte tendência ao devaneio e a criação imaginativa, Para Freud a histérica, a
partir deste ponto, é alguém com grande dificuldade para abreagir adequadamente a um
trauma (real ou imaginário).
A realidade psíquica é uma forma especial de existência, a qual não deve ser
confundida e nem relegada por ser distinta da realidade material. O que importa, desde ponto,
é reconhecer que a cena de sedução não é um evento real, mas uma elaboração psíquica – uma
fantasia – manifestação espontânea da atividade sexual infantil.
12
FREUD, 1977, v.III.
75
Do trauma de sedução à teoria da sedução, Freud ultrapassa o real para valorar o papel
do imaginário, mas ainda não esgota ou não desvenda a intrincada relação entre fantasia,
sexualidade e sintoma neurótico. Os textos desta época evidenciam esse percurso claudicante,
muito embora suas suspeitas sobre o complexo edipiano na origem deste entrelaçamento
tenha sido referenciado algumas vezes, ainda que em passagem sobre outros temas.
A existência das fantasias infantis e a amnésia (função da memória) que acomete os
sujeitos nos primeiros anos de vida se justificam para Freud pela existência de conteúdos da
sexualidade infantil que permanecem subjacentes na psique de todos os sujeitos normais ou
neuróticos.
As fantasias, diferentemente da sedução com vivência traumática (real), passam a ser
consideradas como significativas, dado o seu caráter de universalidade. Tais fantasias estão
relacionadas, não ao pai, num primeiro momento. Relacionam-se com o adulto que cuida, em
geral, a mãe. Os primeiros gestos de cuidado e de carinhos da mãe para com a criança estão
carregados de afeto e também impregnados de sexualidade.
Essa vivência, muito inicial na vida da criança, demarcará a inscrição dos primeiros
sinais da pulsão sexual e naturalmente comporão o início do desenvolvimento da vida sexual
da criança, como discutiremos mais adiante. No entanto, vale ressaltar, que tal vivência tem
um caráter sexual ou nas palavras de Freud, uma experiência sexual-pré-sexual.
Embora essas experiências com a mãe sejam definidoras dos desdobramentos
psíquicos que o infante tratará de experimentar daí para frente, pelas impressões de prazer que
se inscrevem desde muito cedo, não são significadas como de ordem sexual, a não ser num
momento posterior.
Até então, não existem condições psíquicas, nem amadurecimento biológico da
criança para fazer o devido processamento destes conteúdos. Assim, a criança parcialmente
76
identifica prazer no contato de uma parte de seu corpo com esse outro objeto, o que não se
configura necessariamente uma relação de prazer objetal, como ocorre com o adulto.
O reconhecimento desse processo infantil, marcado pela erotização da relação
mãe/filho Freud só irá reconhecer e demonstrar de forma mais estruturada nos textos de 1905,
quando retoma a sexualidade infantil como tema central de seus estudos. No presente,
restringe-se a entender o movimento do aparato psíquico frente à fantasia que daí decorre.
A impossibilidade de lidar com o conteúdo da vivência sexual-pré-sexual, como
vimos, leva o aparato psíquico infantil deslocar este conteúdo para uma recordação posterior
ou ainda sem grande significado sob o ponto de vista da excitação, e é o próprio Freud que
demonstra:
Verificamos então que há duas forças psíquicas envolvidas na promoção
desse tipo de lembranças. Uma dessas forças encara a importância da
experiência como motivo para lembrá-la, enquanto que outra – uma
resistência – tenta impedir que se manifeste qualquer referência desta ordem.
Essas duas forças opostas não se anulam mutuamente, nem qualquer delas
predomina (com ou sem perda para si própria) sobre a outra. Em vez disso,
efetua-se uma conciliação, numa analogia aproximada com a resultante de
um paralelogramo de forças (FREUD, 1977, p. 290).
Na verdade, Freud está diante de um processo aparentemente antagônico ao princípio
da inércia que ele havia descrito como primário ao aparato psíquico do ser humano. Como
explicar que o aparelho psíquico tenha que deslocar uma recordação de prazer e não de
desprazer? O que é afastado da consciência não é desprazeroso em sua natureza. A
constatação da necessidade de um mecanismo ou uma ação psíquica que possa dar conta da
recordação (uma recordação de prazer) e que ao mesmo tempo tenha que afastar pela
impossibilidade de dar conta dessa cota de excitação, leva-o a formulação de um processo
conciliatório, mediador, que opera na formação do sintoma e se alia a outros conteúdos
77
posteriores. Freud está diante da compreensão do mecanismo de conflito, recalcamento,
deslocamento que caracteriza o sintoma.
E a conciliação é a seguinte: o que é registrado como imagem mnêmica não
é a experiência relevante em si – nesse aspecto, prevalece a resistência; o
que se registra um elemento psíquico intimamente associado ao elemento
passível de objeção – e, nesse aspecto, o primeiro princípio mostra sua força;
o princípio que se esforça por fixar as impressões importantes, estabelecendo
imagens mnêmicas reprodutíveis. O resultado do conflito, portanto, é que,
em vez da imagem mnêmica que seria justificada pelo evento original,
produz-se uma outra, que foi até certo ponto associativamente deslocada da
primeira (FREUD, 1977, p.290).
Para melhor elucidação do sintoma neurótico, os novos passos freudianos transcendem
o trauma e enunciam um modus operandi para a formação deste (sintoma), a saber: a memória
não se faz de uma única experiência, mas de uma sucessão de registros; tais registros podem
sofrer alterações ou novas ordenações temporais (fases psíquicas distintas quanto ao estágio
de desenvolvimento); os arranjos temporais são realizados a partir de circunstâncias ou das
aquisições realizadas em cada fase do desenvolvimento psíquico.
Desta forma, fantasia e realidade se fundem ou se misturam no universo psíquico do
sujeito, apenas para justificar a necessidade de atender ao desejo inconsciente que insiste em
ganhar forma na consciência.
Mas como se estrutura o desejo e qual a sua relação com a fantasia? O que Freud
suspeita em relação a esse material fantasmático de tão importante para o futuro das relações
deste sujeito?
O trabalho de pesquisa deste período permitiu a Freud reconhecer a relação entre o
desejo e os conteúdos da sexualidade infantil que é o contexto no qual se teceu o sintoma ou a
fantasia. Entretanto, a atenção sobre os conteúdos oníricos aliados a essas descobertas, como
ele mesmo adverte, é que na Interpretação dos Sonhos, obra de 1900, pode afinal estabelecer
os laços que faltavam para o entendimento do sintoma histérico. Ao entrelaçar os conteúdos
78
imaginários e as lembranças infantis com o desejo sexual infantil inconsciente, Freud demarca
uma distância definitiva e irreconciliável com toda a teoria somática das psiconeuroses.
O retorno ao tema da fantasia, dentro desta perspectiva que agora se evidenciava, faz
remeter a uma nova compreensão sobre a estrutura do desejo. Assim, desejo se traveste numa
cena da infância, de conteúdo aparentemente inocente, para tornar-se acessível à consciência,
burlando desta forma a resistência e a censura para encontrar uma forma indireta de
expressão. Trata-se da conciliação descrita na letra freudiana, já citada anteriormente.
A cena originária do desejo, entretanto, carregada de excitação, permaneceu no
inconsciente, gerando tensão de desconforto. O enfrentamento destas descobertas significou,
mais uma vez, um novo avanço na compreensão da arquitetura do aparelho psíquico. Os
registros inconscientes agora deflagram as relações fundamentais: a tríade mãe-filho-pai. A
base do modelo psíquico freudiano vai se estruturando, pelo desejo, na formulação do
triângulo edipiano.
2.2 FANTASIA E DESEJO: O PAI NÃO MAIS AUSENTE
Como já demonstrado no primeiro capítulo, o desejo se apóia inicialmente na função
biológica, destinada a dar conta da sobrevivência do sujeito. Este último numa condição de
dependência, ainda não se reconhece dissociado de seu objeto (o adulto provedor). Na busca
da satisfação de suas necessidades básicas, a criança se dirige ao objeto que o atende, mas
ainda não se pode dizer que existe uma relação de objeto com o adulto; não existe relação de
desejo, pelo menos não existe estrutura psíquica capaz de relacionar uma condição de desejo
no sentido de desejo de objeto.
Ricouer (1977) salienta que este processo com o qual Freud se defronta sinaliza para
um fato importante: o desenvolvimento do sistema do aparelho psíquico se altera
definitivamente porque coloca em jogo a relação com o mundo externo e conseqüentemente o
79
reconhecimento do outro com o qual se relaciona. A descarga da criança, no grito de apelo ao
adulto, adquire uma função secundária de suma importância: a compreensão mútua.
A criança não deseja sua mãe e sim seus cuidados, deseja alguém capaz de interferir
no seu desconforto, alguém que ao mesmo tempo responda à demanda de sobrevivência – lhe
restaure o conforto físico, ao tempo em que também imprime conforto de afeto (contato) que
será desde então guardado na memória. A repetição de inúmeras experiências de satisfação
com o objeto provedor privilegia a ocorrência ou a constituição de registros que formatam a
atividade da memória e posteriormente da alucinação frente à ausência do objeto.
Acompanhando o percurso freudiano, há que se perguntar sobre a origem das pulsões
sexuais do ser humano. Seriam elas biologicamente determinadas? Como o processo de
sobrevivência do humano se distingue de meras necessidades biológicas?
Freud está convencido de que as lembranças relacionadas às experiências de prazer,
deste período, permanecem resguardadas no inconsciente. Trata-se de entender o papel destas
marcas inconscientes e sua relação com o desejo. As lembranças remetem a desejos adiados e
portanto reprimidos. Nas palavras de Gay: “os desejos inconscientes sempre permanecem
ativos”. (GAY, 1991, p. 133).
Para Laplanche (1970) o período de 1895-97 no trabalho freudiano se caracterizou por
duas direções diferentes, mas em verdade paralelas: de um lado a investigação clínica das
neuroses que desemboca na no descobrimento da sexualidade e adiante da sexualidade infantil
e, por outro a teoria, a pesquisa – que (segundo ele) Freud reúne num só conceito – a teoria da
sedução. Aqui Freud reúne uma teoria baseada na sedução, na teoria da defesa e da repressão.
Teoricamente, o que Freud está empenhado em entender ou desvendar é a relação
entre as lembranças encobridoras das fantasias, estas sim, importantes quanto ao conteúdo e
sua relação com os sintomas histéricos. Uma observação da clínica freudiana, com direito a
depoimentos autobiográficos inclusive, salienta que cenas absolutamente insignificantes,
80
inócuas sob qualquer um destes aspectos citados, estão carregadas de significações que
precisam ser reconhecidas em seus significados inconscientes. Esta constatação remeterá
Freud ao âmago da formação de desejo:
Não é nada fácil. Ser completamente honesto comigo mesmo é uma boa
norma. Um único pensamento de valor genérico revelou-se a mim.
Verifiquei, também no meu caso, o apaixonamento pela mãe e ciúmes do
pai, e agora considero isso como um evento universal do início da infância,
mesmo que não tão precoce como nas crianças que se tornaram histéricas
(FREUD, 1977, p.358).
Chegar até a origem ou instalação do desejo é assunto fundamental para o
desenvolvimento do pensamento psicanalítico em relação à subjetividade, posto que é nesta
reconstituição que Freud se depara com a presença e a importância das figuras parentais, em
especial da figura paterna como elemento que amalgama a instituição de um sujeito
invariavelmente marcado pela ausência e pela presença de seus objetos relacionais.
Embora sua produção tenha apresentado muito conteúdo sobre o sintoma neurótico,
Freud vem se deparando com o tema da sexualidade infantil e o seu processo de auto-análise
muito contribuiu para as suas suspeitas de que a vida sexual do sujeito se inicia numa relação
muito primeva envolvendo a criança e seus pais.
Na sedução, um tipo de acontecimento com uma índole claramente sexual é esboçado
- um sujeito desempenha uma atitude ativa e o outro sofre os efeitos desta ação; um sujeito
que impõe sua sexualidade sobre o outro. O sedutor é, em geral, um adulto e o seduzido uma
criança. As cenas das pacientes histéricas apontam sempre para um tipo de acontecimento
similar.
Se for verdade que a sexualidade se instala na vida de uma criança mediante a
interação com o outro (mãe), poder-se-ia pensar mais uma vez num adulto que viola a
inocência infantil (ausência de referência sexual). Algo que respondesse a uma sexualidade
81
que irrompe de fora para dentro, e assim justifica-se que a cena originária, agora convertida
como interna (da criança), funciona como um corpo estranho, uma reminiscência, um registro
de memória a que se pode resiginifcar quando futuramente esta pessoa experimenta uma
situação de desprazer de cunho também sexual.
A teoria da sedução desenhada neste período parece atender, ainda que
temporariamente, a uma tentativa de explicar não só o surgimento dos conteúdos sexuais na
etiologia das neuroses, mas assinala o princípio que vincula a repressão e a sexualidade.
Digamos que são duas coisas separadas, descobertas por Freud como uma
casualidade, ou melhor ainda, uma não é o conteúdo fortuito da outra, a
sexualidade não é o conteúdo fortuito do inconsciente. Freud procura
demonstrar porque, por natureza, é a sexualidade o que deve ser reprimido, o
que deve ser inconsciente (LAPLANCHE, 1970, p. 74-5).
Falar na presença de conteúdos inconscientes e de repressão é falar de outro tipo de
funcionamento diferente daquele em que a catexia circula livremente, ou seja, o processo
primário. O novo modelo de funcionamento aponta oposição ao fluxo do afeto ou da
quantidade e a descarga; Freud apresenta, agora, um funcionamento inibido por defesas; um
funcionamento em que intervém o ego. Esse funcionamento denominado de secundário fala
da energia ligada, não livre e rechaçada para longe da consciência.
Cabe, aqui, um novo questionamento: a relação entre o funcionamento secundário, a
defesa e os achados clínicos (as reminiscências das histéricas). Freud é tentado a dar mais um
passo no avanço do tema da fantasia.
A idéia dos próton-pseudos ou da mentira da histérica assinala que Freud, depois de
questionar a veracidade da sedução apresentada por suas pacientes e de atribuir valor à
fantasia de sedução, encontra nesta primeira mentira algo mais originário, capaz de conter a
essência do desejo reprimido e, portanto inconsciente.
82
Na teoria freudiana deste período, a sedução é compreendida como uma fantasia, um
registro psíquico sem um significado definido, até que possa ganhar um destino normal ou
patológico, a depender do tipo e da intensidade de outras experiências sexuais vividas pela
criança e pelo jovem ao longo do desenvolvimento de sua própria sexualidade.
Está, então, estabelecida a relação entre próton-pseudos e o verdadeiro fundamento
das neuroses. É Laplanche quem explica esse achado freudiano:
Freud descobriu que a neurose, o sintoma neurótico, se reveste de uma
significação defensiva. E toda defesa implica um motivo que é sempre um
desprazer, um desprazer ligado a uma representação.A representação
reprimida, contra a qual se instaura a defesa – a repressão é um mecanismo
principal de defesa, sobretudo na histeria -, é uma representação que ameaça
evocar ou fazer surgir o desprazer. (LAPLANCHE,1970, p. 76).
Esse mesmo mecanismo de defesa também é encontrado nas pessoas normais, como
salienta Freud. Na vida cotidiana, os sujeitos normais também utilizam naturalmente os
mesmo mecanismos de defesa aqui descritos para os sintomas histéricos, sempre que expostos
a conteúdos ou situações de desprazer. Assim, onde estaria o caráter diferenciado para a
formação do sintoma neurótico?
Freud acredita que o processo de formação do sintoma ou da fantasia histérica sofre
um trabalho de elaboração mental que vai além da defesa. A elaboração inclui uma dissolução
de conteúdo; o pensamento desconfortável está vinculado com muitas outras experiências,
pode vir fracionado, deslocado, associado a outros contextos, tudo isso a serviço da defesa e
da repressão, visto anteriormente quando tratamos da formação de conciliação do sintoma.
Qual a razão para tanto trabalho de elaboração mental? Poupar o contato com o
desprazer apenas? Estamos convencidos que não. O conteúdo rechaçado pelo ego, tendo no
seu bojo um caráter sexual, não permite que o sujeito possa lidar com naturalidade. Ao
remeterem a conteúdos de cunho sexual deflagram uma proteção (defesa) do ego, que a esta
83
altura a criança já tem internalizados os limites da moral e da educação, limites que aprendeu
com o adulto durante seus anos de infância.
Não é por acaso que Freud, já em Projeto... salienta que as primeiras formas de
comunicação do bebê com o adulto no seu anseio de satisfação também são a fonte primordial
para moldar os limites; na letra freudiana encontramos: “a função secundária da comunicação
e o desamparo inicial dos seres humanos são a fonte primordial de todos os motivos morais”.
(FREUD, 1977, p.422).
O contexto assinalado pelo sintoma tem registros primários de relações de desejo do
sujeito com objetos de seu convívio, pessoas com as quais trava relações mais significativas, o
que não é difícil pensar que se trata das figuras parentais. Quase todas as pacientes histéricas
apontaram este caminho, como vimos.
A determinação em descrever desde o mais primário e fisiológico aos mais complexos
processos mentais trouxe como legado psicanalítico um modelo de funcionamento psíquico
com características metapsicológicas, nem sempre passível de observação nos moldes
cientificistas da clínica psiquiátrica e da sociedade médica daquele período.
No entanto, o encontro com a consciência, o ego e o inconsciente, os processos
primários e secundários, a fantasia, o sonho e o desejo, o reprimido e o sintoma, enfim as
conquistas freudianas até aqui perseguidas parecem justificar o hiato que se instaura entre a
Psicanálise e outras teorias sobre o funcionamento da mente humana. Embora tudo isso seja
fundamental para a ciência, até então não vimos razão para uma grande revolução no pensar o
homem e sua forma de agir no mundo, especialmente no que tange à sua subjetividade e sua
forma de estar no mundo das relações.
Adiante desse material é possível perguntar: que ponte Freud está prestes a atravessar?
Toda essa concepção teórica construiu, amiúde, a passagem para o entendimento freudiano do
complexo parental a que denominou complexo de Édipo. Este sim, parece determinar a
84
fronteira decisiva da psicanálise enquanto teoria. O desvendamento do sintoma e o contato
com conteúdos relacionados com a sexualidade, a saber, a sexualidade infantil a que Freud
está preste a apresentar em seus próximos trabalhos científicos, faz de sua pesquisa a grande
diferença na compreensão do sujeito e de suas formas de se relacionar com mundo e com as
pessoas.
Todo o processo de desvendamento da cena traumática à cena primária, passando pela
construção e desconstrução do trauma e da fantasia das pacientes histéricas, fonte da qual
extraiu todo esse aprendizado, permitiu que Freud fosse gradativamente chegando ao
epicentro do furacão, metaforicamente dizendo, ao centro do funcionamento desejante do
sujeito. Entretanto, alguns de seus pressupostos em relação às pacientes começam a ser
desconsiderados ou abandonados.
Freud distanciou-se da teoria da sedução por uma série de constatações que se
interpuseram à sua observação clínica e desabafa suas razões na carta a Fliess.
Os contínuos desapontamentos em minhas tentativas de fazer minha análise
chegar a uma conclusão real, a debandada das pessoas que, durante algum
tempo, eu parecia estar compreendendo com muita segurança. Depois, veio à
surpresa diante do fato de que, em todos os casos, o pai, não excluindo o
meu, tinha de ser apontado como pervertido [...]
[...] (a perversão teria de ser incomensuravelmente mais freqüente do que a
histeria, de vez que a doença somente aparece onde houve uma acumulação
de eventos e onde incide um fator que enfraquece a defesa). Depois, em
terceiro lugar, a descoberta comprovada de que, no inconsciente, não há
indicações da realidade, de modo que não se consegue distinguir entre a
verdade e a imaginação que está catexizada de afeto. Em quarto lugar, a
reflexão de que, na psicose mais profunda, a lembrança inconsciente não
vem à tona, não sendo, pois o segredo das experiências da infância revelado
sequer no delírio mais confuso. (FREUD, 1977, p. 350-1).
De forma conclusiva seguem suas reflexões: “Em tal medida fui influenciado por isso,
que me preparei para abandonar duas coisas: a resolução completa de uma neurose e o
conhecimento certo de sua etiologia na infância”. (FREUD, 1977, p. 351.)
85
A partir desse desabafo, Freud mergulha num dos momentos mais férteis de sua
descoberta com relação ao funcionamento do psiquismo, apesar de sua aparente descrença em
tudo que colheu junto às pacientes. Não só está convencido de que os pais – sempre citados
então como principais responsáveis pela experiência de abuso junto à filha – não sejam todos,
pervertidos em sua vida sexual, como também acredita que esses pais estão, de alguma outra
forma, implicados na origem da fantasia, sem que isso derive um desvio ou uma aberração
desta relação com os filhos.
Resta-lhes, ainda, a convicção de que a fantasia, embora não se distinga do fato real
para o inconsciente, permanece presente, e tem mesmo valor para a vida psíquica; vale
lembrar que, em seu conteúdo, a fantasia remete, invariavelmente, à questão da sexualidade
entre a criança e seus pais. Resta-lhe, também, a idéia de que para a fantasia cabe a não
sujeição ao real e, portanto, cabe a modificação, a recriação, a ampliação dos elementos
vividos, experimentados e captados pela memória.
Freud está diante de fundamentos importantes no seu arcabouço teórico, fundamentos
a que chamou de originários; o que está presente desde o princípio, nas origens do ser
humano. Originário e inevitável para a sua constituição como um ser de subjetividade.
Laplanche (1992) acrescenta uma observação particularmente importante sobre os
protagonistas da situação originária: mãe-filho, tomando como base a díade freudiana. O autor
acredita que ocorre neste momento, não só um movimento de abertura da criança para incluir
o mundo e o outro (a mãe), mas também um outro movimento, tão importante quanto o
primeiro. Descreve ele:
Meu segundo ponto, já o explorei amplamente na primeira parte: para o
pequeno humano o problema de abrir-se ao mundo é um falso problema; a
única problemática será, isto sim, a de se fechar um si mesmo, ou um ego,
qualquer que seja, aliás, a periferia, a circunferência desse ego.
(LAPLANCHE, 1992, p.100).
86
Freud veio respondendo a esta problemática desde o Projeto... Defendeu a origem do
ego a partir da necessidade de uma organização que se pudesse reconhecer ou diferenciar o
mundo objetivo das experiências subjetivas e para que isso pudesse acontecer, acreditava ser
necessário que o mecanismo da inibição entrasse em ação. É pela inibição de certos tipos de
processos internos do sistema psíquico ou pela diminuição da intensidade de catexia de
algumas experiências que o ego começa a se constituir. Nasce pela necessidade de proteger e
ser protegido. Protege a qualidade da experiência que é preservada agora no inconsciente e é
protegido pelo mecanismo que barra o desprazer da repetição ou da lembrança desta
experiência. Até aqui é como se ele descrevesse uma consciência perceptiva primária, um
tanto diferente do que constituirá a consciência secundária, proposta pela sua teoria alguns
anos mais tarde.
Quando adulto, o sujeito desfrutará conseqüentemente de todos esses arranjos e
rearranjos de memória e de elaboração psíquica imaginária e simbólica fruto do trabalho do
inconsciente de armazenar suas experiências originárias quer sejam de prazer ou desprazer; o
adulto reedita em sua vida tudo que acumulou ao longo de toda a sua existência e, mais
especialmente, reedita as experiências que marcaram seus primeiros ensaios de relações
amorosas com os pais.
O passo seguinte para a compreensão da construção do sujeito de desejo é entender o
papel não só dos conteúdos fantasmáticos do inconsciente, mas também do papel central do
complexo edipiano na historia dos sujeitos normais e dos neuróticos, insinuado, referido ou
citado muitas vezes pelo próprio Freud desde os escritos pré-psicanalítcos, até esse momento,
território da nossa análise.
No complexo de relações já esboçado desde a remota relação sujeito/mãe que alimenta
e atende ao apelo de conforto, nos primeiros estágios de elaboração mental até a formulação
87
do sintoma como representante simbólico, vamos encontrar não mais um único objeto de
desejo, e sim, dois.
Freud estava disposto a entender a etiologia dos processos neuróticos quando se
depara, no mergulho sobre a fantasia de sua pacientes, com a universalidade de uma função
que estrutura não o sintoma, mas a organização psíquica de todo e qualquer ser humano. Ao
investigar a fantasia sob a perspectiva de sua relação com a sexualidade, defronta-se com a
formação do desejo – o complexo edipiano, universal a todos os seres humanos, independente
de sua organização social ou familiar.
A inclusão do triângulo afetivo envolvendo a criança e seus referenciais adultos- os
pais, define para Freud a arquitetura do edifício mnemônico no qual se alicerça toda historia
pulsional do sujeito. Assim, devemos devotar atenção à construção desta categoria freudiana,
acompanhar a demonstração desta estrutura, sobre a qual nosso objeto de pesquisa se assenta.
A função paterna na história e na ordenação do psiquismo humano está fundamentada no
modelo do mito de Édipo. Freud defenderá, com afinco, a universalidade de ordenação afetiva
advinda do modelo triangular, ao qual chamou em diferentes momentos, de complexo
edipiano.
Olhar sobre o sujeito na sua relação de ser cuidado pelo adulto, relação permeada pela
dependência deste outro na saciação de carências essenciais do sujeito bebê, torna-se também
o olhar que investiga a superposição de novas relações que aqui também se inauguram. A
mãe, não o pai, traz a este infante os primeiros contatos de prazer, possibilitando a construção
de um vínculo que se transforma num protótipo para tantos outros vínculos futuros.
Essa mudança de rumo em relação ao lugar e função do pai será fundamental para que
ele definitivamente se inscreva como personagem fundamental e universal de uma moldura de
relação que humaniza, dignifica e dá sentido ao sujeito.
88
Nesta perspectiva, o pai entra não pelo comportamento desviante, pervertido, daquele
que abusou, causou o trauma, mas antes, daquele que presente, como terceiro da cena
familiar, permite que o sujeito se perceba como tal, independente, passível de buscar suas
próprias formas de prazer.
O que faz, ou qual o papel do novo elemento, melhor dizendo, o terceiro elemento da
equação desejante? O triângulo edipiano no qual Freud dedicará especial atenção ao longo de
todo o seu trabalho posterior começa a aparecer, ainda que travestido pela fantasia ou pela
imaginação.
Num estágio mais primitivo do sujeito e de seu aparato psicológico, o espaço para um
terceiro elemento não era sequer cogitado; no entanto, bastou que alguns processos mentais se
constituíssem no aparelho psíquico - agora um pouco mais sofisticado pela capacidade de
alucinar, lembrar, sonhar, imaginar, fantasiar, fazer associações e deslocamento, combinações
– para que esse novo elemento ganhasse forma e lugar.
O papel do pai e as conseqüências desse lugar, operante de desejo irá oferecer ao
sujeito fenômenos relacionados com a moral, a cultura e a religião que serão melhor
analisados nos próximos capítulos. Continuamos a investigar o pai, seu lugar imaginário e
simbólico na vida desiderativa do sujeito.
A estruturação do aparelho mental mediante processos mais elaborados e relacionados
com a sua presença das figuras parentais é o que Freud não mais duvida. Entretanto não
encontraremos nos textos freudianos a que nos referimos até aqui a devida explicação ou
ordenação teórica consistente. Cabe-nos seguir adiante com o foco nesta procura.
De todo modo, podemos avaliar que o percurso feito, até esse ponto, na teoria
psicanalítica nos leva ao vetor que relaciona a presença do pai na organização psíquica da
vida infantil.
89
Observamos que a realidade psíquica infantil utiliza-se de sua capacidade de imaginar,
criar, transformar, fantasiar ou somatizar o desejo, como forma de conviver e dar sentido às
suas primeiras relações afetivas. Tais mecanismos psíquicos mostram-se a serviço da
condição do sujeito ainda imaturo para lidar com a presença do desejo em relação ao objeto
(pai). As questões postas pela teoria freudiana dão conta de que o desejo e a figura paterna
parecem intrinsecamente relacionados constituindo-se num fato passível de constatação a
partir dos relatos clínicos de Freud.
Vale questionar não a qualidade, mas a estrutura em que o desejo se configura nessa
relação. De que desejo fala a histérica? Todos os sujeitos ditos normais estariam dotados
dessa estrutura desiderativa?
Essas são questões que teremos que processar daqui para frente. Acreditamos que
muitas outras indagações mantiveram Freud em estado de constante atenção e curiosidade
durante toda sua obra, em especial seu interesse sobre a organização do desejo no ser humano.
90
3 A TRIANGULAÇÃO DO DESEJO
Você influiu sobre mim como tinha de influir,
só que precisa deixar de considerar como uma maldade especial
de minha parte o fato de eu ter sucumbido a essa influência.
KAFKA, 1919.
O encontro de Freud com o fenômeno da fantasia, assunto de que tratamos no capítulo
anterior, encaminhou a pesquisa psicanalítica para um outro fenômeno significativo: a
existência de uma realidade psíquica; uma forma especial de existência, a qual não pode e não
deve ser confundida com a realidade material, mas tem para o sujeito o mesmo valor
patogênico que Freud outrora atribuíra às reminiscências da histérica.
O descrédito em relação ao discurso de sedução histérico desabafado com o amigo
Fliees (FREUD, 1977) e tão fartamente explorado por comentadores da psicanálise parece ter,
como contrapartida, direcionado o interesse de Freud para outras direções, embora a fantasia e
o inconsciente descobertos nesse período tenham lhe servido sempre como base para o
entendimento do funcionamento do aparelho psíquico e balizado seu interesse entre a
fronteira do normal e do patológico na história do sujeito.
O trabalho da clínica freudiana vai demonstrar que a sedução traumática de que fala a
histérica, cena a que Freud durante um tempo tratou como um trauma psíquico, em geral
causado pelo adulto, ou ainda, pelo pai, não se configura como fato real, mas, antes, remete a
uma fantasia, fruto de uma manifestação espontânea relacionada à vida sexual infantil.13
13
Em nota do editor inglês, foi somente no verão de 1897 que Freud se viu forçado a abandonar sua
teoria da sedução. Anunciou o acontecimento em carta a Fliess de 21 de setembro (carta 69), e sua
descoberta, quase simultânea, do complexo de Édipo, ao fazer sua auto-análise (cartas 70 e 71, de 3 e
15 de outubro), levou inevitavelmente à compreensão de que os impulsos sexuais atuavam nas
crianças de tenra idade sem qualquer necessidade de estímulo de fora. (STRACHEY apud
FREUD,1977, p.126).
91
O reconhecimento da natureza psíquica da fantasia, bem como da sexualidade na
criança foram fatores suficientemente carregados de complexidade para a pesquisa freudiana
nos anos seguintes à publicação de Estudos sobre a Histeria (1893-95). Freud inaugura o
século XX mergulhado no desconforto de traçar uma investigação consistente, na qual o
resultado respondesse à sua inquietação frente ao tão polêmico tema para a sociedade
científica da época: a sexualidade infantil.
Transitar entre a confirmação da ocorrência prematura de uma sexualidade e, ao
mesmo tempo, o reconhecimento do sexual como substância ou tema fundante do processo de
humanização e de aculturação do homem, como veremos adiante, permitiu a Freud, já em
1905, uma nova direção para a psicanálise e para sua clínica.
O desafio deste capítulo será o de traçar a relação entre esses implicados conceitos –
fantasia, inconsciente, sexualidade e o triângulo edipiano do desejo. Para tanto, cabe
estabelecer o nexo teórico entre fantasia, sexualidade e função paterna; deixar definitivamente
marcado o lugar ocupado pelo pai na história da constituição do sujeito e na humanização da
espécie.
A saída da teoria da sedução para a teoria da fantasia, com destaque não mais para a
identificação da cena traumática, na idéia de que a sexualidade do ser humano irrompe de fora
para dentro, do adulto para com a criança, e sim para o reconhecimento de uma experiência
primária de desejo, só muito posteriormente re-significada em seu conteúdo pré-sexual no
momento em que foi originada, permite a Freud entender e diferenciar um nível estrutural
primário da sexualidade infantil.
Monzanni (1989) afirma que o abandono da teoria da sedução seria o momento em
que Freud adquire três noções-chave através das quais vai poder articular o discurso
psicanalítico: 1) a sexualidade infantil; 2) o complexo de Édipo; 3) o papel preponderante da
fantasia como fator etiológico na formação das neuroses.
92
Em carta a Fliess, de 1897, é o próprio Freud quem se apresenta como elemento novo
à pesquisa da sexualidade infantil:
Um único pensamento de valor genérico revelou-se a mim. Verifiquei,
também no meu caso, o apaixonamento pela mãe e ciúme do pai, e agora
considero isso como um evento universal do início da infância, mesmo que
não tão precoce como nas crianças que se tornaram histéricas. [...] Sendo
assim, podemos entender a força avassaladora de Oedipus Rex, apesar de
todas as objeções levantadas pela razão contra a sua pressuposição do
destino; e podemos entender por que os ulteriores dramas de destino’ não
tinham senão como fracassar lamentavelmente (FREUD, 1977, p.358).
O germe da constituição do desejo que aqui é posto de maneira direta e
incomensuravelmente humana retrata e envolve os personagens essenciais do drama familiar.
Essa referência direta a Édipo, entretanto, não evolui exatamente como o interesse de Freud
pareceu evidenciar. A ligação da fantasia com a sexualidade não é tratada por Freud tão
explicitamente nos anos seguintes. A fantasia como elemento ativador de uma história de
sexualidade desde os primeiros anos de vida não ocupou o lugar privilegiado do texto
freudiano, possivelmente pelo impacto do próprio conteúdo não somente para Freud, como
também para a comunidade científica da época.
Segundo Laplanche e Pontalis (1988) é entre 1897 e 1906 que Freud produz grandes
obras a respeito do inconsciente e da realidade psíquica; a saber: Interpretação dos sonhos, A
psicopatologia da vida cotidiana, Os chistes e sua relação com o inconsciente. Só em 1905
aparece a obra Três ensaios sobre a teoria da sexualidade14
. Para esses autores, esta obra é,
por natureza, um texto importante no percurso da construção do conhecimento psicanalítico
sobre o funcionamento do desejo. Suas sucessivas revisões (1910,1915,1920) preservam o
plano inicial e acrescentam descobertas importantes à teoria psicanalítica sobre a sexualidade
infantil.
14
Doravante citada apenas como Três ensaios...
93
Para dar consistência, estatuto de centralidade à noção de complexo de Édipo, Freud
investiu esforços num caminho de volta à sedução. A fantasia, como formação psíquica
complexa, passa a ser observada como cerne que carrega tanto o desejo quanto a realidade,
evidenciando, por parte de Freud, uma forma de entendimento bem distinta da sua primeira
teoria de cena primária (cena traumática).
Na questão da teoria da fantasia infantil, o que está em jogo é entender como a criança
– através da fantasia – deseja ser seduzida, e como, ao mesmo tempo, ela é a personagem ou
sujeito de um cenário de sedução (relação com a mãe). Assim, Freud busca estabelecer a
conexão que lhe falta entre os dois conceitos – fantasia e complexo edipiano.
Uma dessas tentativas aparece na referência ao mito no texto Interpretação dos
Sonhos, de 1900. Preocupado com o material que constitui o material onírico, comenta o
autor:
Minhas experiências no analisar sonhos me têm chamado a atenção para o
fato de que as séries de pensamento que remontam à primeira infância
partem até mesmo de sonhos que parecem, à primeira vista, ter sido
inteiramente interpretados, visto que suas fontes e desejo instigador foram
descobertas sem dificuldade. Tenho sido, portanto, obrigado a formular a
mim mesmo a pergunta de se essa característica talvez não seja outra
precondição essencial do sonhar. (FREUD, 1977, p. 232).
Adiante, já mais convencido do quanto os sonhos remontam representações psíquicas
inconscientes que apontam para a realização de desejo que data de fase remota da história de
cada sujeito, conclui Freud:
Em minha experiência, que já é extensa, o papel principal nas vidas mentais
de todas as crianças que, posteriormente, se tornam psiconeuróticas, é
desempenhado por seus pais. Estar apaixonado por um dos progenitores e
odiar o outro é um dos constituintes essenciais do acervo de impulsos
psíquicos que se forma naquela época e que é de tal importância no
determinar os sintomas da neurose posterior. Não acredito, todavia, que os
psiconeuróticos difiram acentuadamente nesse sentido de outros seres
humanos que permanecem normais. (FREUD, 1977, p.276).
94
Desde esse material produzido na investigação sobre a estrutura dos sonhos, Freud
passa a configurar a triangulação desiderativa como estrutura mais relevante na história do
sujeito e da sua relação com a vida numa perspectiva mais ampla, e não somente com relação
à sua sexualidade. Ainda nesse mesmo texto comenta:
Essa descoberta é confirmada por uma lenda da Antiguidade Clássica que
chegou até nós: uma lenda cujo poder profundo e universal de comover
somente pode ser compreendido se a hipótese que apresentei no tocante à
psicologia das crianças tiver validade igualmente universal. [...] É o destino
de todos nós, talvez, dirigir nosso primeiro impulso sexual no sentido de
nossa mãe e o nosso primeiro ódio e o nosso primeiro desejo assassino
contra nosso pai. Nossos sonhos nos convencem que é isso que se verifica.
(FREUD, 1977, p. 277-78).
Embora tenha explicitado o lugar de referência na história pessoal do sujeito, o
complexo edipiano citado em 1900 não ocupa a centralidade da prática clínica e o trabalho
teórico dos anos seguintes. Posteriormente, apoiado na teoria da sedução, Freud refaz o
caminho de volta à tragédia de Édipo na teoria da sexualidade. “ Foi a descoberta do fantasma
que conduziu Freud a descobrir, no curso do mesmo ano, a sexualidade e o complexo de
Édipo”. (MONZANNI, 1989, p.42).
A sedução vista agora como material fantasmático, portanto não real, é o disfarce para
o encontro com o complexo de Édipo. Descobrir a sedução como fantasia possibilitou um
novo percurso para o pensamento psicanalítico. Freud retoma a discussão a respeito da
preponderância dos fatores internos e/ou externos sobre a destinação da vida sexual não
somente dos normais, como também de seus pacientes histéricos. Escapa tanto da
predestinação biológica quanto da determinação externa, advinda da perversão dos adultos.
Embora já dispusesse de vários elementos da teoria da sexualidade infantil desde
1896, Freud apenas os irá ordenar e oferecer uma melhor compreensão deste material na obra
de 1905. A erotização dos cuidados maternos, recebidos e internalizados desde uma tenra
95
idade, parece, como já descrita anteriormente, fadada a causar uma significação psíquica,
necessária ao reconhecimento da sexualidade e da relação objetal que somente se concretiza
mais tardiamente. Isso difere sobremaneira da teoria do trauma psíquico que determina a
existência de uma cena real de abuso, principalmente por parte dos pais sobre as filhas.
A sexualidade presente desde os primeiros momentos da vida veicula uma experiência
que só mais tarde é compreendida. A sedução, até então entendida como uma ação externa do
adulto em relação à criança, sob forma de abuso, materializa-se muito cedo, travestida de
gestos de cuidado e amor da mãe para com seu filho. Esta última forma de sedução é mais
ampla e de caráter universal, divergindo da primeira.
É a partir de Três ensaios... que Freud mergulha no propósito de entender a relação
entre a vida sexual dos sujeitos normais, dos ditos pervertidos e dos neuróticos, e assim
compreender a essência dos sintomas neuróticos e, naturalmente, a correlação necessária entre
sintoma e instinto sexual.
Desta maneira, emerge o fato de que os sintomas representam um substituto
para os impulsos de uma fonte cuja força se origina do instinto sexual [...] A
natureza dos histéricos mostra um grau de repressão sexual superior à
quantidade normal, uma intensificação da resistência contra o instinto sexual
(que já encontramos sob a forma de vergonha, repugnância e moralidade), e
o que parece ser uma aversão instintiva de sua parte a qualquer consideração
intelectual sobre os problemas sexuais [...]
[...] Entre a pressão do instinto e seu antagonismo à sexualidade, a doença
lhe oferece um caminho de fuga. Ela não resolve seu conflito, mas busca
evadi-lo, transformando os impulsos libidinosos em sintomas. (FREUD,
1977, p 167).
A distinção no uso de termos como sexual e genital, pulsão e instinto, coisas que
aparentemente poderiam indicar apenas excesso de rigor lingüístico, ou ainda uma má
interpretação tendenciosa de cunho erotizante, como foi muitas vezes atribuído ao trabalho de
Freud, serviu para criar o ambiente teórico necessário para a nova perspectiva sobre o que de
96
fato se constitui como sexualidade infantil e o entendimento dos diferentes destinos da pulsão
sexual na espécie humana.
Além desse propósito, entretanto, são inúmeras as contribuições deste trabalho para a
consolidação e a referência psicanalítica em relação à teoria da sexualidade. Seguindo a letra
de Freud, encontramos adiante:
Apresenta-nos agora a conclusão de que há, na verdade, algo inato atrás das
perversões, mas que é algo inato em todas as pessoas, embora, como uma
disposição, possa variar de intensidade e ser aumentada pelas influências da
vida real. O que está em dúvida são as raízes constitucionais inatas do
instinto sexual.
[...] Assim, nosso interesse se volta para a vida sexual das crianças e iremos
agora investigar o jogo de influências que governa a evolução da
sexualidade infantil até que ela se converta em perversão, neurose ou vida
sexual normal. (FREUD, 1977, p.174-75).
Neste texto, Freud apura seu interesse sobre os diversos tipos de perversões com o
propósito de discutindo estes comportamentos desviados, buscar entender ainda mais a
sexualidade humana, seja ela nos sujeitos ditos normais, seja nos pervertidos. Seu intuito,
como salienta Laplanche (1989) com o 1o
Ensaio é mostrar como o campo da sexualidade
humana é amplo quando se trata de identificar destinos e objetos.
Apesar da atenção dedicada ao diversificado universo das perversões sexuais de
sujeitos adultos, o intuito de Freud ao escrever o referido artigo estava direcionado ao
entendimento sobre a existência da sexualidade, desde os primórdios da existência do sujeito.
É da sexualidade infantil que ele se propõe a tratar.
Para Freud, a sexualidade que irrompe na criança ainda muito pequena tem um caráter
não genital e essencialmente distinto de uma função vital de sobrevivência. Ele está convicto
de que o que caracteriza o sexual no homem não é da ordem de uma tendência ou inclinação
natural, e sua pesquisa se volta para esta comprovação.
97
Freud buscou fundamento de suas idéias sobre a vida sexual infantil na força da
universalidade do impulso na busca pela satisfação. No entanto, foi além da visão do instinto
de sobrevivência (fome/saciação), introduzindo a noção da pulsão (distinta de outros
instintos) e de seus destinos para provar o caráter estruturante da sexualidade no ser humano.
Compor uma argumentação sólida para consolidar a teoria da sexualidade infantil passou a ser
o seu propósito nos escritos e nos trabalhos produzidos nesse período.
Dado o caráter tão polêmico desse conteúdo, Freud resistiu muitas vezes ao
enfrentamento de suas próprias constatações com relação à vida sexual das crianças, mas seus
avanços garantiram a sustentação de argumentos que definiram de uma vez por todas os
caminhos particulares da Psicanálise. “Por outro lado, a sexualidade – tomando-se sempre
esse termo na sua acepção mais ‘generalizada’ – aparece como que implantada na criança a
partir do universo parental, de suas estruturas, de suas significações e de suas fantasias”.
(LAPLANCHE, 1985, p 54).
Embora na época ainda existissem muitas lacunas em observar o fenômeno da
sexualidade nas crianças, severas críticas foram dirigidas a Freud, alegando que a psicanálise
tratara de reduzir os enigmas da humanidade à sexualidade e muitas acusações de
pansexualismo foram dirigidas ao seu autor.
Ao que sei, nem um só autor reconheceu claramente a existência regular de
um instinto sexual na infância; e, nos escritos que se tornaram tão
numerosos sobre o desenvolvimento das crianças, o capítulo
‘Desenvolvimento Sexual’ é, via de regra, omitido. (FREUD, 1977, p.
178).15
15
Freud afirmara de forma assertiva e havia mergulhado nos trabalhos de Preyer (1882), Baldwun
(1898), Pérez (1886), Strumpell (1899), Heller (1904), dentre outros, na tentativa de encontrar
referências sobre o comportamento sexual das crianças.
98
3.1 A SEXUALIDADE INFANTIL: DA POLIMORFIA AO MUNDO DO OBJETO
O percurso de Freud em Três Ensaios... definiu, sobre o viés psicanalítico, os
parâmetros para uma nova forma de compreender o que é sexual no ser humano, e mais
especificamente, como na criança a sexualidade parcial, fragmentada e diversificada,
desvinculada da genitalidade, vai transformando-se evolutivamente numa sexualidade
canalizada em seus objetivos e dirigida a um único objeto, transformando-se, no futuro, na
sexualidade do adulto.
Laplanche (1989), ao referir-se a Três Ensaios..., ressalta-o como um texto inovador,
pela força com que Freud retoma o biológico para reforçar o caráter transcendente da pulsão
sexual, diferenciando-a dos instintos de preservação ou de urgência da vida, assim
considerados pelo mesmo Freud em Projeto para uma Psicologia Científica, de 1895.
É na construção e nas diversas revisões do texto Três ensaios... que Freud tece
mudanças no entendimento da sexualidade humana; a saber: a) propõe efetivamente uma
sexualidade que se origina no sujeito em sua tenra existência; b) desenha uma estrutura para
tratar das fases da sexualidade durante a infância até a vida adulta; c) inaugura o conceito
transcendente da pulsão sexual.
No 1o
. Ensaio o que se observa é um esforço de Freud em romper com toda a
concepção montada pela biologia e pela psiquiatria do século XX. O conceito de instinto
natural, teleologicamente orientado para a reprodução, essência da sexualidade para o século
XIX, é dramaticamente desmontado na observação do comportamento dos desviados
estudados por Freud. O que não estava orientado para a reprodução, ou não atendia a esta
finalidade, fora até então tratado como sexualidade imatura, senil ou desviada. Esse material
agora é tomado de interesse e pesquisa para explicar o destino da pulsão sexual no homem. Os
99
desvios ajudaram a entender o destino natural do que para Freud era a sexualidade humana,
distinta da sexualidade instintual dos animais.
Essa desmontagem do conceito marca uma ruptura com a idéia de sexualidade
instintiva, primitiva ou preexistente, que nivela o homem aos animais na preservação da
espécie. Para Freud é relevante perceber que a sexualidade não é algo dado, pronto e acabado
que o sujeito traz consigo desde o início de sua existência e que aguarda por um momento
propício para manifestar-se.
Freud defende que a criança possui seus impulsos e atividades sexuais desde o seu
nascimento e deles emergem a sexualidade dos adultos, sejam eles normais ou neuróticos.
“Não é verdade, de maneira alguma, que o impulso sexual penetra na criança em sua
puberdade, como os demônios do evangelho entram nos porcos.” [...] (FREUD apud
MULLAHY, 1978, p 45).
Trata-se, então, de entendê-la como uma composição de diferentes pulsões, diversas
zonas erógenas, como ele mesmo vai demonstrando no desenvolvimento infantil, que serão
gradativamente alteradas para integrar-se adiante na forma final que encontramos no adulto.
Assim conclui o primeiro ensaio: “nosso interesse se volta para a vida sexual das crianças e
iremos agora investigar o jogo de influências que governa a evolução da sexualidade infantil
até que ela se converta em perversão, neurose ou vida sexual normal”. (FREUD, 1977, p.
174).
No 2o
Ensaio, demonstra o convencimento de que as primeiras experiências ou
impressões que marcaram a história de vida do sujeito em sua tenra idade deixaram traços
profundos e terão um efeito determinante no desenvolvimento das relações estabelecidas ao
longo de sua vida futura. No entanto, tais impressões, não abolidas da memória, passam por
um processo de esquecimento, a que chamou de amnésia infantil. Ficaram abolidas da
100
consciência do sujeito, de forma semelhante à amnésia dos neuróticos, cujo objetivo é afastar
impressões da consciência, em geral, impressões relacionadas ao desprazer.
Preocupado em estabelecer os vínculos que governam a sexualidade infantil e a
relação entre instintos (instinkt em alemão) e a pulsão sexual ou Trieb, Freud concentra sua
atenção em demarcar tais diferenças na vida dos humanos. Seu esforço está dirigido para
contrapor os instintos primitivos, relacionados às necessidades, como por exemplo, a fome,
com o que nomeou de pulsão sexual por excelência.
Ao distinguir a pulsão do impulso da ordem biológica (elemento motor, medida de
exigência de trabalho para a redução de tensão ligada à conservação da vida), destinou à
pulsão um caráter distinto, para além do atendimento da satisfação das necessidades de
autoconservação. Freud descreve que no processo de satisfação da necessidade de nutrição –
necessidade, cuja finalidade é a autopreservação, instaura-se, ao mesmo tempo, uma outra
forma de satisfação, que se estabelece no atrito da boca da criança com o peito materno.
Distingue, pois, do ato de sugar, a satisfação do ato de chupar o peito. A esta outra forma de
satisfação atribuiu o caráter da pulsão e o da satisfação sexual.
O prazer encontrado nas primeiras experiências de sugar o peito da mãe, quando da
primeira e mais vital atividade realizada pela criança, tende a ser renovado ou repetido. A
necessidade de repetir esse prazer, de cunho sexual, do ponto de vista freudiano, desliga-se na
necessidade de nutrir-se, tornando-se uma necessidade de satisfação de ordem psíquica e não
biológica.
Os lábios da criança, ao nosso ver, comportam-se como uma zona erógena, e
sem dúvida o estímulo do morno fluxo do leite é a causa da sensação de
prazer. A satisfação da zona erógena se associa, no primeiro caso, à
satisfação da necessidade de nutrição. De início, a atividade sexual se liga a
funções que atendem à finalidade de autopreservação e não se torna
independente delas senão mais tarde16
. (FREUD, 1977, p.186).
16
Esta frase foi acrescentada em 1915.
101
O conceito freudiano de pulsão tem como característica o limiar de satisfação que
circula entre a ordem do corpo e a ordem da psique. Este empréstimo, quase que numa
licenciosidade poética, permite entender a primeira das metáforas ou o processo de
representação que acontece no sujeito e que define os caminhos de sua vida pulsional. O
fenômeno da pulsão, demonstrado por Freud ao relacionar o fato da sexualidade nascente ao
processo de nutrição, ao mesmo tempo similar e bem diferente, configura-se nesta metáfora.
Nosso estudo do ato de sugar o dedo ou sugar sensual já nos deu as três
características essenciais de uma manifestação sexual infantil. Em sua
origem ela se liga a uma das funções somáticas vitais, ainda não se tem
objeto sexual e é, assim, auto-erótica; e seu objetivo sexual é dominado por
uma zona erógena. Deve-se prever que estas características se aplicam
igualmente à maioria das outras atividades dos instintos sexuais infantis
(FREUD, 1977, p.187).
Na função vital de comer inaugura-se o registro psíquico de ação de conversação,
instinto de autopreservação – comportamento instintual biológico –, e inscreve-se também o
registro sexual, da pulsão sexual (metafísico). A ligação que a função sexual ainda incipiente
encontra num funcionamento relacionado à vida configura-se num modelo que se repetirá
posteriormente em outras fases do desenvolvimento sexual infantil.
É nesse contexto que Freud enuncia os três elementos básicos que configuram o seu
conceito psicanalítico de sexualidade infantil: a noção de ligação (funções vitais e função
sexual), o auto-erotismo e o conceito de zona erógena. É a ação instintiva do ato de sugar e
encontrar o leite que a criança opera algumas funções psíquicas: a) internaliza o prazer entre
seu corpo (boca) e o do adulto (peito da mãe), registrando a presença de zonas erógenas em
seu corpo; b) transforma o registro de saciação numa experiência de prazer sexual auto-
erótico – com a perda do objeto externo aprende a chupar outras partes de seu próprio corpo;
c) transforma essa experiência com o adulto (mãe) no protótipo de toda relação de amor. “O
encontro de um objeto é, na realidade, um reencontro dele” (FREUD, 1977, p. 229).
102
Laplanche, ao referir-se a essas experiências iniciais de satisfação da criança, intitulou
tal conceito de teoria do apoio: a pulsão sexual apóia-se numa função não sexual, vital,
função corporal essencial à vida. O prazer sexual do chupar somente se torna possível porque
a criança suga o leite para alimentar-se, ambos intrinsecamente inscritos na psique da criança.
Ora, a sexualidade está integralmente presente no pequeno ser humano, num
movimento que desvia o instinto, que metaforiza seu alvo, que desloca e
interioriza seu objeto, que concentra, enfim, sua fonte numa zona
eventualmente mínima, a zona erógena (LAPLANCHE, 1985, p. 30).
No 3o
Ensaio...Freud retoma a força, a marca desta experiência do encontro com a
mãe, e explora os caminhos que levam ao (re)encontro com o objeto para evidenciar como
esta configuração elementar de relação criança/objeto parcial vai tornar-se peça relevante para
o nosso interesse na constituição do triângulo edipiano, como o próprio texto freudiano nos
sugere:
Numa época em que os inícios da satisfação sexual ainda estão vinculados à
ingestão de alimentos, o instinto sexual tem um objeto sexual fora do corpo
do próprio infante, sob forma do seio da mãe. Somente mais tarde é que o
instinto perde esse objeto, bem na época, talvez, em que a criança pode
formar uma idéia total da pessoa a quem pertence o órgão que lhe dá
satisfação total. Via de regra, o instinto sexual torna-se então auto-erótico17
,
e não é senão depois de atravessado o período de latência que a relação
original é restaurada. ( FREUD,1977, p. 228-229).
17
Segundo Laplanche e Pontalis, (2001), o termo auto-erotismo é tomado por Freud de Havellock
Ellis, que o emprega num sentido mais amplo: característica de um comportamento sexual em que o
sujeito obtém a satisfação recorrendo unicamente ao seu próprio corpo, sem objeto exterior. Em Três
Ensaios... Freud o retoma e dá a ele uma nova dimensão, bem particular e distinta do ponto de vista
original. O encontro de prazer em certas partes do próprio corpo vem para Freud, do ato de sugar ou
chupar, inaugurado na relação da criança com a mãe.
103
O aspecto relevante desse momento inaugural da teoria da sexualidade descrita por
Freud refere-se à ausência de objeto na fase auto-erótica, embora seja o próprio Freud quem
reconheça na mãe a função de objeto parcial. Na verdade não é a mãe, mas o peito que
alimenta, que transporta o leite, que se torna o elemento que, pelo atrito, erotiza o corpo do
sujeito (boca). É pelo encontro da boca do bebê com o peito da mãe que se faz surgir a
primeira experiência e demarcar a primeira zona auto-erótica.
Todo esse substrato teórico construído por Freud, até o momento, permite chegar a
uma constatação importante: as primeiras experiências sexuais da criança são vividas
inicialmente na relação com a mãe e transformadas em prazer auto-erótico; a mãe, até então, é
objeto que inscreve o prazer na vida sexual da pequena criança. Diante desta constatação,
decorre o questionamento que, na verdade, é o centro de interesse de nossa atual pesquisa.
Quando e como aparece o terceiro elemento na relação mãe-filho? Como se constitui o
triângulo familiar, reordenando a díade inicial?
No texto freudiano, faz-se imperativo entender a construção e o surgimento da
estrutura triangular que marca a formação do sujeito e de sua história. Freud, ao postular que
o caminho do sujeito adulto para encontrar o objeto de desejo é, na verdade, uma tentativa de
reencontrar um objeto perdido em sua história primeva, tem a função de alertar os
interessados à (re)significar o processo desse encontro.
O objeto a ser reencontrado não é o objeto perdido (leite) da função, e sim, por
deslocamento, o objeto da pulsão (peito). Esse dado parece que configura na vida do sujeito
um engodo essencial na sua procura pelo objeto perdido.
Uma outra forma de entender o postulado é perceber que nesta afirmação freudiana
encontramos uma grande alusão ao estado fusional de prazer que se institui num primeiro
momento da díade mãe-filho, e que jamais será reencontrado, por assim dizer, nas relações
posteriores que o sujeito buscará durante a vida.
104
Laplanche, em seu texto, salienta que a abordagem do ponto de vista de uma
sexualidade mais ampla do pensamento freudiano implica entender a passagem do sexual
como instinto vital para o sexual como verdadeira perversão universal do instinto, a perversão
ou desvio universal da função nutritiva. E uma vez instaurado o desvio, todo o processo
posterior é caminhar para o reencontro numa fase mais elaborada – do ponto de vista da
direção. Diferentemente da visão freudiana, esse autor considera o auto-erotismo, na
realidade, um segundo momento, o que sucede a presença de um objeto. O auto-erotismo é
um tempo de perda do objeto, ainda que objeto parcial (peito).
É, pois, a partir da excitação provocada pelos cuidados maternos que
podemos imaginar o que é originariamente a sedução. Aqui, porém, é
necessário ir mais longe e não nos atermos à pura materialidade dos gestos
excitantes, se é que podemos conceber essa ‘materialidade’.
[...] Toda relação intersubjetiva primitiva, a relação mãe-criança, é portadora
dessas significações. É esse, cremos, o sentido mais profundo da teoria da
sedução e, sobretudo, é o sentido que Freud finalmente atribui à própria
noção de sedução: ‘As relações da criança com as pessoas que cuidam dela
são uma fonte contínua de excitação e de satisfação partindo das zonas
erógenas. E isso é tanto mais verdadeiro se considerarmos que a pessoa
encarregada da criança – geralmente a mãe – trata-a com sentimentos que
derivam de sua própria vida sexual, acaricia-a, beija-a, embala-a e carrega-a,
tomando-a como um substituto, é evidente, de um objeto sexual de pleno
direito’. (LAPLANCHE, 1985, p 50-51).
Freud também adverte que a possibilidade de ter a mãe como objeto total que satisfaz
a criança é uma situação temporária e que deve ou precisa ser abandonada, em nome de seu
desenvolvimento. A criança submete-se a um período de afastamento do interesse sexual,
dedicando-se a outras conquistas, período este que chamou de fase de latência.
105
Sem dúvida, o meio mais simples para a criança seria escolher como objetos
sexuais as mesmas pessoas, que desde a infância, tem amado com o que
pode ser descrito como libido atenuada. Mas, com o adiamento da maturação
sexual, ganhou-se tempo para que a criança construa, entre outras restrições
à sexualidade, a barreira contra o incesto e possa assim incorporar em si os
preceitos morais que expressamente incluem de sua escolha de objeto, como
parentes consangüíneos, as pessoas que amou na infância. O respeito por
esta barreira é essencialmente uma exigência cultural feita pela sociedade
(FREUD, 1977, p. 232).
Laplanche, numa releitura de Três Ensaios..., deflagra a desejada correlação anterior,
reafirmando a posição da psicanálise, ao defender que o menor gesto dos pais em relação ao
filho está carregado de fantasias oriundas de sua própria história. Toda relação da criança com
o adulto é marcada não apenas pela historicidade deste relacionamento, mas, antes, pela
historicidade de fantasias e desejos próprios do universo desses adultos – mãe e pai. A
criança, na relação triangular com seus pais, é também portadora da sua história edipiana e da
história familiar de seus pais com seus avós, e assim por diante.
O trabalho empreendido por Freud até aqui parece servir de base para a entrada efetiva
do complexo de Édipo na teoria da sexualidade infantil. Em Três ensaios ..., Freud afirma que
a pulsão sexual na criança é bifásica, e como tal está organizada em duas etapas distintas. A
primeira – polimorfa, diversificada, auto-erótica –, desvinculada da genitalidade; não há
predeterminação de objeto nem de objetivos. A segunda, marcada por um período de latência
cuja função é reorganizar as forças polimorfas; o excesso de prazer, que num dado momento é
vivido como desprazer, dispara a necessidade de fornecer limites à própria pulsão.
A pulsão sexual infantil, em seu funcionamento inicial, é polimorfa, perversa, diz
Freud. Por polimorfia entende-se a diversidade pulsional, a ausência de objetos predefinidos.
No entanto, vale dizer que polimorfia não é sinônimo de desorientação; o que se nota não é
um desenvolvimento desordenado das pulsões infantis.
A criança, ao sugar o leite e chupar o dedo, evidencia uma ordenação e uma
estruturação da pulsão mediante a presença de uma função vital; além disso, já se fez
106
referência à presença de diferentes zonas erógenas das quais a mesma se vale na busca de
encontrar o prazer em seu próprio corpo.
Freud identifica em Três ensaios... um processo universal, evolutivo, da sexualidade
infantil, caracterizado pela presença de pulsões parciais independentes, pré-genitais e auto-
eróticas. A fase inicial nomeada de polimorfa é descrita em seus três momentos distintos; a
saber: a fase oral – surgida do apoio na função da nutrição –, seguida pela fase anal – apoio na
função de excreção e uma terceira fase – fálica apoiada na primazia da genitália como
representante da constituição dos sexos, na qual se delineia o enredo de amor do complexo
edipiano, que não se configura na forma direta de relação de objeto, a não ser alguns anos
depois. Em seguida a esta organização polimorfa, a criança ingressa num período de
organização ou reordenação interna destas pulsões, a que a psicanálise tratou por período de
latência.
A latência é marcada pela tentativa de evitar o desprazer. A criança vai aos poucos
tomando conhecimento, internalizando limites para as suas experiências auto-eróticas e para a
descoberta de não-completude em relação aos seus pais; aliada à educação, ao convívio com o
decoro dos adultos em relação à sexualidade, à descoberta da diferença entre os sexos, tudo
conspira para que ela direcione atenção para assuntos de ordem não sexual; esse esforço de
desvincular-se da dependência e do interesse do mundo do adulto é feito, segundo Freud, de
forma solitária e silenciosa durante esta fase. Ao mesmo tempo, os limites serviram como
diques para dar o direcionamento da pulsão numa etapa posterior: a etapa da sexualidade
adulta (objetal).
Na teoria freudiana sobre a sexualidade infantil, o conceito de período de latência é
descrito como um período de arranjos das fases constitutivas da pré-genitalidade. A pulsão
sexual infantil, que até agora tinha um caráter parcial dá lugar a um processo de subordinação
à organização pulsional, fase preparatória para a sexualidade adulta, cujo primado passa a ser
107
o da sexualidade genital. Falta-nos, então, entender a passagem do auto-erotismo para a fase
da escolha de objeto, portanto, a passagem da sexualidade infantil, polimorfa para a
sexualidade adulta e dirigida a um objeto.
Ao chegar no ponto do desvio como traço essencial da sexualidade infantil, Freud
pensa sobre a maturidade da pulsão sexual. Aqui, define um tempo psíquico, compatível com
o tempo de maturação biológica dos instintos sexuais do humano. Para que finalmente ocorra
a escolha de objeto é preciso que o sujeito esteja na condição, de fato, de sujeito desejante.
Assim, neste ponto, Freud aponta ainda outros conceitos significativos.
Do desvio da pulsão emerge o processo de interdição, que funciona como fator
socializante e culturalmente exigido no processo de individuação e de subjetividade. A moral
e os limites educativos reúnem-se como elementos que dão contornos mais restritos ao
sujeito, que o delimita em suas ações e impulsos. A presença de um terceiro elemento no
enredo amoroso mãe/filho, despertando sentimentos ambivalentes, ora afetuosos, ora hostis,
também orienta e delimita possibilidades para a pulsão.
Se na relação com a mãe o sujeito ganha a noção de corporalidade, o limite físico de si
mesmo, advinda da erotização de partes de seu próprio corpo em contato com o corpo do
outro, pode-se pensar que a interdição introduz o limite psíquico de suas relações com o
mundo. E como o sujeito, agora diferenciado do outro, poderá direcionar seus impulsos mais
íntimos, seus desejos no mundo onde está inscrito?
O princípio ordenador dessa passagem, seguindo o texto freudiano, deriva para o
entendimento da introdução do complexo edipiano na arquitetura da sexualidade do sujeito.
108
3.2 ÉDIPO: O MITO DO HERÓI; O RECONHECIMENTO E O SÍMBOLO DA
FUNÇÃO PATERNA
O interesse de Freud pelo mito grego, aliás, a suspeita do papel de destaque para a
psicologia do sujeito, data de uma fase de seus primeiros escritos. Já no início de sua auto-
análise foi capaz de perceber que essa suspeita guarda um núcleo de verdade a ser pesquisado
e investigado quanto à possibilidade de se reconhecer como universal.
“Descobri, também em meu próprio caso, o fenômeno de me apaixonar por mamãe e
ter ciúmes de papai, e agora o considero um fenômeno universal do início da infância, mesmo
que não ocorra tão cedo quanto nas crianças que se tornam histéricas” (FREUD, 1977, p 271).
Seu depoimento aponta para uma atenção e uma convicção só verdadeiramente assumida anos
depois.
Os trabalhos de Freud nesse período evidenciam a dificuldade com a qual lidou na
tentativa de explicar o princípio ordenador da pulsão quando da expressão da sexualidade
adulta.
O Complexo de Édipo reaparece muitas vezes, mas é do 3o
Ensaio que Freud se
utiliza, indiretamente, para explicar a passagem do auto-erotismo para escolha de objeto. Ao
tentar justificar as barreiras que se instalam sobre as pulsões infantis na fase que antecede a
latência, Freud esbarra na necessidade de explicar o processo de interdição que aí se mostra
presente; trata-se de explicar as restrições que dirigem e orientam a excitação sexual dessa
fase (elas transformam o impulso em repugnância, vergonha ou pudor) e que finalmente
tendem a acalmar-se ou deixar-se submergir num período de latência que se sucede. Apesar
de postos em funcionamento os diques de orientação para a pulsão, o processo de
transformação da pulsão não parece esgotado.
Como destaca Monzanni (1989, p. 45-6), foi possível para Freud fazer com que a
teoria se adequasse à prática clínica, e assim Édipo encontra seu verdadeiro estatuto teórico.
109
Tudo que daí decorre está diretamente relacionado a uma solução, um desenlace, natural ou
não, do triângulo que começa por se estruturar a partir da relação de sedução que se inicia
entre a criança e a mãe, e que posteriormente inclui o pai.
Aos poucos, de forma dispersa em muitos artigos diferentes, coincidindo quase que
com toda a história da própria Psicanálise, Freud segue definindo e redefinindo o complexo ao
longo da sua produção teórica. Na primeira edição de Três Ensaios... (1905), Freud faz
referência à escolha de objeto como algo que somente se inicia na puberdade.
No entanto, data da época da segunda revisão de Três Ensaios..., de 1910, a noção que
define o complexo como sendo vivido em seu apogeu dos três e dos cinco anos de idade, que
chamou de fase fálica. Atribui ainda um momento de revivescência na puberdade, sendo
superado com maior ou menor êxito numa escolha adulta de objeto.
Além de desempenhar um papel fundante na configuração individual do desejo, da
formação da psique, é conseqüentemente um eixo de referência para os estudos psicanalíticos
sobre as psicopatologias.
É de Laplanche o comentário sobre o triângulo familiar instalado desde muito cedo na
vida da criança. Diz ele:
É justamente o fato de que, desde as primeiras relações – sejam elas relações
‘duais’, apenas com a mãe –, o pai estando ausente – e, na realidade, ele o é
quase totalmente, como personagem real, para o bebê –, uma certa presença
de um terceiro elemento começa a representar um papel. Nesse sentido, o pai
está, de imediato, presente, mesmo que a mãe seja viúva: está presente
porque a própria mãe teve um pai, porque ela mesma visa um pênis; e,
também sabemos, porque a mãe visa no seu próprio filho e para além dele ao
pênis que ela deseja (LAPLANCHE, p.52).
A terapêutica proposta por Freud junto aos seus pacientes propõe resgatar, quase que
como uma busca arqueológica, retirando do fundo de suas memórias, essas imagens primevas,
carregadas de subjetividade – os primeiros registros dessas relações de objeto com os pais.
110
Um misto entre cuidado, ternura e prazer constitui a primeira vivência sexual da pequena
criança. Prazer, realidade e fantasia confundem-se e instalam-se como uma fonte de referência
para o mundo pulsional deste pequeno sujeito.
A fantasia envolvendo mãe/filho e de forma indireta o pai, como assinala o trecho em
evidência, torna-se, na realidade, um acontecimento difuso, estrutural, necessário à introdução
do filho no universo desejante do enredo da família. Este enredo não parece limitar-se apenas
às figuras parentais, mas também aos objetos de desejos e à história de cada um desses
personagens familiares.
A criança, em suas necessidades e carências essenciais, necessita do outro para
satisfazê-la. Nesse jogo de dependência e atendimento encontra a criança com a dupla
parental. Esta dupla constitui-se em seus pilares, sobre os quais se constrói seus registros de
memória, de linguagem, de fantasias, de desejos.
Busquemos, então, a letra freudiana, ao descrever cuidadosamente este momento
estruturante da vida infantil. No texto de 1909 – Cinco Lições de Psicanálise, texto posterior a
Três ensaios... –, Freud retorna com detalhes ao que chamou de primeira escolha de objeto:
A primitiva escolha de objeto feita pela criança e dependente de sua
necessidade de amparo exige-nos ainda toda a atenção. Essa escolha dirige-
se primeiro a todas as pessoas que lidam com a criança e logo depois
especialmente aos genitores. A relação entre criança e pais não é, como a
observação direta do menino e posteriormente o exame psicanalítico do
adulto concordemente demonstram, absolutamente livre de elementos de
excitação sexual. A criança toma ambos os genitores, e particularmente um
deles, como objeto de seus desejos eróticos. Em geral o incitamento vem dos
próprios pais, cuja ternura possui o mais nítido caráter de atividade sexual,
embora inibido em suas finalidades (FREUD, 1977, p. 43-44).
Uma descrição do complexo edipiano, citada ou despretensiosamente tratada em
textos anteriores, é aqui explicitada para dar sustentação ao pensamento freudiano sobre a
estrutura psicológica pela qual todo ser humano está submetido. Para além do mito, o Édipo
111
freudiano serve de metáfora, de amálgama para o alinhamento na ordem do desejo que se
inicia numa tensão de escolha entre dois objetos – mãe e pai.
A mãe, que inicialmente se coloca na relação imediata, direta, referendada pelos
cuidados do filho, recebe, com natural retribuição de seus afagos, uma resposta de ternura.
Falar de desejo é falar de uma relação de desejo que antecede qualquer outro sentimento que
lhe sobrepõe à escolha de objeto.
Falar de Édipo é falar de pai, elemento terceiro que se interpõe ao modelo de
amor/ternura ou ainda amor/desejo que inaugura o romance familiar. O pai, quase que ao
mesmo tempo e ainda num tempo posterior, ganha um status de objeto para a criança, um
lugar de destaque pelo reconhecimento como objeto do adulto (mãe) e, portanto, objeto de
interdito, de proibição.
3.3 A METÁFORA E O TRIÂNGULO DESIDERATIVO
A importância de resgatar o complexo de Édipo na centralidade da história do sujeito
desejante para o pensamento freudiano foi sempre o nosso intuito. Não é possível chegar ao
sentido simbólico e determinante da função paterna sem percorrer o significado psicanalítico
atribuído à tragédia edipiana.
Falar de Édipo é falar de desejo e de subjetividade. O apoio buscado no mito justifica-
se pelo percurso efetivado por Édipo em sua saga de individuação. O esforço feito no paralelo
com a metáfora edipiana tem por finalidade explicitar o fenômeno essencial da constituição
dos seres humanos, sua ordenação psíquica a partir dos modelos de organização parental.
Para uma melhor compreensão dos postulados freudianos de que o humano se
estrutura a partir deste modelo de organização, voltemos ao mito, seguindo o próprio
movimento de pensar de Freud.
112
A tragédia grega de Sófocles, escrita em 441 a.C., apresenta Édipo como filho de Laio
e Jocasta, marcado desde seu nascimento pela maldição que seu pai recebeu do rei Pélope.
Laio foi condenado por ter sido a ele imputada a culpa pelo suicídio de Crísipo, o filho de
Pélope. Laio e Crísipo eram amantes e Pélope se interpôs ao idílio entre Laio e Crísipo. Como
vingança à morte do filho, Pélope destina a Laio, ou melhor, ao filho de Laio a maldição de
matar o pai e desposar sua própria mãe. Embora cuidasse para não procriar, Laio casa-se com
Jocasta, e desta união nasce Édipo.
Preocupado com seu próprio destino, Laio trata de livrar-se do filho, mas Édipo é
poupado pelo pastor, a quem é confiado para a morte. Criado por pais adotivos, somente
adulto descobre sua adoção e parte em busca da verdade de sua origem. No caminho em busca
de sua história, consulta o Oráculo, que lhe apresenta seu destino: parricídio e incesto.
Para escapar ao destino, Édipo foge para Tebas. No caminho envolve-se numa briga
que culmina com a morte de um homem. Segue para Tebas e descobre que é o assassino de
Laio. Tebas vive sobre a sombra do medo imposto pela Esfinge – monstro meio mulher, meio
leão –, que propõe libertar Tebas caso alguém consiga decifrar seu enigma. Édipo enfrenta a
Esfinge, soluciona o enigma e, ao retornar a Tebas, recebe como prêmio do Rei Creonte a
viúva Jocasta, sua mãe. Sem saber de quem se tratava, desposa Jocasta e com ela tem quatro
filhos.
Tebas, depois de um tempo de florescimento, volta a ser assolada por uma peste.
Novamente consultado o Oráculo, Édipo descobre ser o responsável pela desgraça que se
abate sobre Tebas. Ao saber da realização de seu destino, Édipo vasa seus olhos e foge de
Tebas; Jocasta suicida-se. Édipo, na busca incessante pela sua verdade, realiza a profecia a ele
imposta através da história de seu pai.
Na principal missão de enfrentar a si mesmo, Édipo enfrenta seu destino. Para
reencontrar quem verdadeiramente é, mata seu pai, desposa sua mãe e pune-se pela culpa. Por
113
outro lado, como contraponto de tanta desventura, consagra-se rei, cumpre sua palavra,
resgata sua identidade.
Por trás de todas as representações simbólicas de que trata o mito, podemos resgatar o
caminho espinhoso de individuação do qual o herói não escapa. Não escapa ao enlace com a
mãe, assim como não escapa ao ódio e à disputa com o pai. Engendra uma história de desejo,
amor, ódio e culpa nos moldes universais da história do indivíduo.
Freud, capturado em seu próprio complexo, mas atento ao que do mito reverbera na
história de todos os homens, comenta:
Se Édipo Rei comove aos homens modernos com igual intensidade que fazia
aos gregos contemporâneos de Sófocles, a única explicação é que o efeito da
tragédia grega não reside na oposição entre o destino e a vontade dos
homens, senão na peculiaridade do material em que essa oposição é
mostrada. [...]
[...]Seu destino nos comove unicamente porque poderia ser o nosso, porque
antes de nascermos o Oráculo lançou sobre nós a mesma maldição. Quem
sabe a todos nós não tenha sido imputado dirigir a primeira pulsão sexual
para a mãe e o primeiro ódio e desejo violento para o pai. (FREUD, 1977, p.
270).
Esta última frase nos soa como um desabafo, um momento em que o homem Freud se
desvenda pelo analista, mais ainda, o homem se desvenda pelo encontro com o destino a que
está fadado. A busca pela verdade, assim como em Édipo, transforma-se na aceitação da
condição que humaniza; submete-se ao enredo de cada um, porque é desta submissão que
advém a possibilidade de encontrar a individualidade, a identidade para seguir desejando.
O desejo de Édipo por Jocasta é um desejo imperativo; o desejo incestuoso está na
base da constituição da relação mãe-filho. Jocasta, como sua mãe, está num dos pólos da
constituição da individualidade de Édipo. O destino leva Édipo a cumprir seu desejo (incesto).
Entretanto, esse mesmo destino o faz pagar por este desejo. Laio, o pai, por seu turno, encarna
a interdição, a lei e a ordem social. Na sua interposição triangular, destina ao filho o castigo
114
pela realização do desejo. Como pai, inaugura o conflito entre desejar e dever. Adiar o desejo
desvinculando-se da mãe, é criar a possibilidade de (re)encontrar esse desejo em um outro
objeto.
Freud, desde cedo, salientou a idéia do re-encontro com o objeto primeiro (mãe),
momento de plena satisfação e prazer; estado de fusão, mas de não-individuação. Se a mãe,
no corpo da teoria freudiana, fez significar a presença do prazer e do desejo, é o pai quem
dará ao sujeito a direção na busca do objeto que atenderá à satisfação do desejo.
O pai dará a direção de objeto. Se a sua presença interdita a relação dual com a mãe,
por outro, permite, autoriza, direciona para outras possibilidades de satisfação. O que permite
a presença do pai, da interdição, é a possibilidade de orientar o desejo de forma independente.
O sujeito, agora diferenciado do próprio objeto de desejo, é capaz de buscá-lo.
O homem, como ser de desejo, tem como imperativo de seu destino humano a busca
da satisfação de seus desejos. A psicanálise encarregou-se de evidenciar que toda a existência
está marcada pela construção da individualidade e da subjetividade na realização de todas as
sua demandas, inclusive as mais egoístas. No entanto, o homem, o ser humano, como
demonstra a psicanálise, não está tão livre para desejar. É o inexorável destino de cada um
que emerge na leitura de Freud do mito de Édipo.
A constituição desiderativa que estrutura o sujeito nasce de um enredo familiar que o
antecipa. A predestinação não está na ordem do biológico, da destinação da espécie, como tão
bem argumentou Freud, mas talvez do enredo criado pelos personagens familiares que
antecipam a existência do ser. São os objetos de amor, antes mesmo que se tenha
corporificado a existência, que destinam parte da história de cada sujeito.
Para Mezan (1988), Freud viu no relato de Sófocles a realização direta dos desejos
inconscientes a que todos nós humanos estamos submetidos; a realização dos desejos
fundamentais de todo ser humano, e por essa razão privilegiou o mito como referência a esta
115
entrada no mundo da psique, no mundo da cultura que diferencia nossa espécie da dos outros
animais.
O mito de Édipo, segundo ele, presta-se a uma figuração aproximativa dos conflitos
básicos da psique, dos seus desejos, da definição do sujeito por sua relação com os pais, na
medida em que vincula a busca da verdade, da sua verdade à pesquisa das origens e ainda
incorpora a dimensão do desconhecimento que naturalmente condiciona esta pesquisa e
aquela busca.
É pelo mito que se chega à função do saber, da busca do conhecimento, simbolizado
pela Esfinge; trata-se de um símbolo tipicamente paterno porque é pelo pai que Édipo chega à
mãe. Como vimos um pouco antes, é pela interdição ou pela presença de um outro, um
terceiro, que a criança retorna à mãe e (re)significa o que ficou, em tempos primevos,
registrado como uma iniciação da sexualidade.
Como no mito, Édipo já estava destinado pela história de seu pai, ou melhor, pelos
atos de seu pai. Assim, além das interdições e limites que adquirimos pela educação e pela
imposição da vida social – aprendidos concomitantemente com o desenvolvimento da pulsão
durante a infância –, estamos submetidos, se assim for possível reconhecer, a uma interdição
que já está posta antes mesmo que o desejo se instale. Daí fica claro afirmar que o desejo já
nasce interditado, a exemplo do drama de Édipo.
O esforço posterior feito para escapar a esse destino trouxe, como compensação, a
conquista em outras esferas: o saber, o apreço pelo conhecimento, o direcionamento da pulsão
para assuntos de interesse social, coletivo. A metáfora da Esfinge parece encarregar-se de
apontar para estas saídas mais positivas da tragicidade que nos enreda, de acordo com a letra
freudiana.
116
4 A FUNÇÃO ORDENADORA DO PAI
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue.
Gilberto Gil e Chico Buarque, 1973.
O encontro com o mito de Édipo, de que tratamos no capítulo anterior, a metáfora
edipiana na estrutura do complexo familiar, foi, desde muito cedo, uma suspeita levantada por
Freud na busca de entender o destino do desejo que organiza e diferencia o sujeito. Na
perspectiva freudiana do desejo, permanece o dualismo pulsional, em que Freud transita
muitas vezes entre a primazia da função psíquica e a ordem biológica dos instintos,
inaugurando uma forma particular de compreender o destino da sexualidade humana.
O entendimento e a diferenciação entre a natureza (biologia) e a cultura, ou mais
especificamente, as determinações do sujeito sempre foram fontes de interesse da pesquisa
freudiana. Em textos de 1897, encontram-se citações ou inquietações que relacionam seu
interesse pelo tema. Em Rascunho N, produzido em maio desse ano, Freud já faz referência à
breve relação entre o desenvolvimento da civilização e a repressão dos instintos,
correlacionando-os à expressão horror ao incesto:
O horror ao incesto (uma coisa ímpia) baseia-se no fato de que, em
conseqüência da universalidade da vida sexual (mesmo na infância), os
membros de uma família se mantêm unidos permanentemente e se tornam
incapazes de contatos com estranhos. Assim, o incesto é anti-social – a
civilização consiste nessa renúncia progressiva (FREUD, 1977, p. 348).
Em Interpretação dos sonhos (1900), numa de suas próprias interpretações pessoais,
ao se referir ao pai no contexto do material onírico, Freud, uma vez mais, alude à questão da
117
origem da civilização, da cultura como material psíquico e inconsciente que permeia a história
pessoal de cada sujeito. Diz ele:
E realmente todo o conteúdo rebelde do sonho, com sua lèse majesté e seu
desprezo às autoridades mais altas, remontava à rebelião contra meu pai. Um
Príncipe é conhecido como o pai de seu país; o pai é o mais velho, o
primeiro, e, para os filhos, a única autoridade, e do seu poder autocrático as
outras autoridades sociais se têm desenvolvido no curso da história da
civilização humana – salvo até o ponto em que o ‘matriarcado’ exige uma
restrição dessa assertiva (FREUD, 1977, p. 231).
Da suspeita da existência de mitos endopsíquicos e do horror ao incesto à idéia de um
pai primevo dotado de poder diferenciado, lugar de ordem na estrutura dos relacionamentos,
Freud constrói cuidadosamente sua pesquisa através do que considera como indícios da
formação social da espécie humana. Para ele, é na investigação da origem do processo
civilizatório que poderá encontrar o traço psíquico que demarca a singularidade da
experiência humana, que supera as demandas de sobrevivência da espécie. Desde sempre
esteve em busca desse traço, da marca dessa presença, dessa experiência original que inaugura
a passagem da natureza para a cultura.
Kauffman (1977) argumenta que essa questão do mito endopsíquico, salientado, desde
então, por Freud, faz aparecer na projeção da estrutura subjetiva a fonte das grandes
categorias nas quais se moldam os fantasmas constitutivos da trama dos mitos, apontando a
psicanálise como uma teoria que se vincula a alguma forma de restituição arqueológica das
experiências primitivas.
No entanto, é a partir de Totem e Tabu, sua obra de 1913, que emergem suas maiores
contribuições: a) para a antropologia social; b) para a própria psicanálise, na efetiva
construção de conceitos como moral, religião e função paterna.
O texto de 1913 é bem mais relevante no percurso de analisar a ordenação social, o
nascimento da cultura e a religião no interior da teoria psicanalítica, uma vez que sinaliza todo
118
o enredo de questionamentos de Freud sobre o papel que a religião cumpriu na instalação da
cultura − as funções que cumpre, as necessidades que atende, as metas que alcança. Ainda que
Freud se aprofunde na pesquisa sobre a origem da religião e da moral, é neste cenário que ele
mais postula sobre a função paterna e o seu preponderante papel na ordenação psíquica do
sujeito, desde o início da organização familiar − a horda.
Freud se aprofunda criteriosamente no tema, não para ocupar-se da história das
religiões, interesse a que atribuiu à obra de seu discípulo e colega Jung. Seu maior interesse
não era apreender uma arqueologia da moral e dos valores religiosos, e sim, na arqueologia da
moral, compreender: 1) a origem da religião, como o aporte da origem da cultura; 2) a origem
dos valores da cultura, como aporte de aspectos e valores da vida social, dos limites que esta
impõe e da necessidade de estabelecer a noção da sacralidade entre os homens; 3) o lugar de
preponderância da figura paterna e, portanto, do elemento masculino, em toda a obra
freudiana, e, naturalmente, a prevalência do pai na definição da interdição e da orientação do
desejo.
A obra, desenvolvida em quatro ensaios, é considerada por seu próprio autor como um
de seus textos prediletos. Ao tratar de temas como religião, cultura e função paterna, Freud
reafirmou uma perspectiva particular sobre estes, consolidando as bases metapsicológicas que
veio construindo sobre a organização psíquica do sujeito e de sua inserção no ambiente social.
Apesar de fazer várias referências aos trabalhos de outros pesquisadores e colegas
contemporâneos, dentre eles Frazer, Jung e Wundt, o caminho freudiano desvincula-se do
compromisso de assentar-se em bases meramente antropológicas, históricas ou da psicologia
dos povos.
Para entender a estrutura do sujeito desejante, Freud considerou insuficiente descrever
os fenômenos psíquicos individuais ou restringir a concepção do complexo edipiano no
119
âmbito privado, buscando compreender como se instauraram ou se perpetuaram os primeiros
traços constitutivos da psique humana desde a origem dos primeiros homens.
Há homens vivendo em nossa época que, acreditamos, estão muito próximos
do homem primitivo, muito mais do que nós, e a quem, portanto,
consideramos como seus herdeiros e representantes diretos. Esse é o nosso
ponto de vista a respeito daqueles que descrevemos como selvagens ou semi-
selvagens; e a sua vida mental deve representar um interesse peculiar para
nós, se estamos certos quando vemos nela um retrato bem conservado de um
primitivo estágio de nosso próprio desenvolvimento (FREUD, 1977, p.20).
Freud salientou, em diferentes momentos de sua obra, uma grande semelhança entre a
vida psíquica das crianças e a dos homens primitivos. Nesse momento, entretanto, almejava,
através da pesquisa, não desvendar fatos sociais ou históricos, e sim identificar um elemento
invariante, no processo de humanização, que justificasse a presença de uma estrutura
desejante universal.
Numa revisão histórica, Freud retoma conteúdos emprestados da antropo-etnologia
como forma de relacionar alguns elementos estruturantes desse material, visando encontrar,
sob a perspectiva metapsicológica, pontes que consolidem o que já vinha estruturando em seu
trabalho sobre a origem do desejo humano, a sexualidade infantil e as relações afetivas do
sujeito.
4.1 O TOTEM, A HORDA E A ORDENAÇÃO SOCIAL
Ao mergulhar criticamente numa vasta literatura de contemporâneos sobre o processo
de civilização, Freud resgata dois conceitos considerados relevantes; são eles: totem e tabu.
Salienta ainda que, desses dois conceitos que serviram, inclusive, para intitular sua obra, o
tabu foi o que sofreu maior investigação por parte dos pesquisadores. Como instituição
120
religiosa e social, o totemismo, estranho à realidade atual, desgastado pelo progresso,
substituído por formas novas, foi preservado muito mais do que o conceito de tabu.
O trabalho de tratar dos dois conceitos distintamente − totem e tabu − permite o
avanço do pensamento freudiano, inaugurando mais uma nova fase de construção e
descobertas da psicanálise na direção da compreensão do funcionamento psíquico. É nesse
material que Freud alicerça toda a sua atenção para desenvolver argumentos sobre a sua teoria
psíquica do desejo, além de temas como religião e cultura.
Partindo inicialmente do tabu, Freud o conceitua como uma espécie invariante na
história humana; uma presença necessária para ordenar a própria vida humana, que se mantém
constante em diversas formas de cultura. O tabu é o primeiro esforço moralizador da
humanidade, e, como tal, será sempre preservado, dado à sua função ordenadora. Para Freud,
os tabus não diferem, em sua natureza, do imperativo categórico de Kant, que opera de
maneira compulsiva para definir alguns comportamentos e que, por sua vez, rejeita motivos
ou explicações conscientes.
O totemismo, entretanto, será investigado e explorado pela psicanálise naquilo que,
como instituição, guarda uma função necessária e imprescindível para o processo de
humanização e de socialização, como veremos a seguir. No entanto, foi tratado muitas vezes
como um elemento menos significativo, substituível e vulnerável à descaracterização, fato
este confirmado através do discurso freudiano: “O totemismo, pelo contrário, é algo estranho
aos nossos sentimentos contemporâneos – uma instituição social-religiosa que foi há muito
tempo relegada como realidade e substituída por formas mais novas” (FREUD, 1977, p. 18).
Ao estudar civilizações primitivas, Freud surpreende-se ao encontrar regras éticas que
impõem alto grau de restrição das pulsões sexuais, levando-o a perceber a existência de um
código sofisticado de valores que regula o convívio entre seus membros e que são
121
aparentemente muito mais complexos que outros aspectos da própria ordem social dessas
sociedades primitivas.
A psicanálise vem pôr em relevo uma visão diferenciada a respeito do totemismo, uma
vez que estabelece, através do conceito, estreitas relações com o funcionamento da
organização psíquica do desejo infantil. É de Freud a letra que releva esse propósito:
[...]faz-se neste livro uma tentativa de deduzir o significado original do
totemismo dos seus vestígios remanescentes na infância – das insinuações
dele que emergem no decorrer do desenvolvimento de nossos próprios
filhos. (FREUD, 1977, p.18).
Ora, se para a psicanálise é pelo totemismo que se pode caminhar para o entendimento
da ordenação psíquica do desejo infantil, parece plausível questionar se seria esse o único e
principal interesse freudiano pelo tema. O texto de que tratamos evidencia contornos muito
interessantes sobre o totemismo, apontando elementos que norteiam sua influência não
somente sobre a ordenação do desejo infantil, mas igualmente relevante sobre a contribuição
atribuída à ordenação social, advinda da presença do totem, desde os períodos primordiais.
O totemismo é um sistema social, ordenado tribalmente, no qual cada clã é definido a
partir de seu totem. Em diferentes tribos ou clãs, seus membros mantêm-se implicados numa
relação em que devem guardar distância, o que naturalmente gera, em contrapartida, acúmulo
de tensão nessas relações. Freud centra-se na pesquisa da possível relação entre o totemismo e
a exogamia, e é deste ponto que segue seu interesse.
A exogamia tem sido sempre uma referência da sociedade totêmica, embora muitos
daqueles que a tenham pesquisado não lhe tivessem atribuído uma relação de
interdependência com o totemismo. No entanto, esse fator que instiga a pesquisa freudiana: a
relação entre a exogamia e o tabu do incesto. Para ele, esta relação que sempre esteve presente
nas sociedades totêmicas, ainda que relegada em importância, deve ser considerada. Nessas
sociedades, a exogamia aparece como a expressão do tabu sobre o incesto, evidenciando a
122
estreita relação entre a presença do totem e a existência de um tabu relacionado à vida sexual
de seus integrantes.
Em todos os lugares onde o totem está presente, está também a norma que impede seus
membros de estabelecerem vínculos sexuais recíprocos; não é permitido o casamento entre
eles. É sobre essa representação que Freud constrói seu conjunto de argumentos para entender
a organização social, não pela consangüinidade, mas pelo parentesco totêmico. Essas normas
determinavam ou regulavam as relações mútuas dos grupos, principalmente as normas
matrimoniais, que tinham maior relevância sobre as demais, já que preservavam a sociedade
do risco do incesto e das tensões sobre uma possível disputa sobre o objeto de desejo comum.
No totemismo, Freud destaca dois aspectos relevantes: a) a proibição de relações
incestuosas; b) o motivo da proibição − um desejo igualmente intenso. Portanto, a exogamia,
traço característico das sociedades totêmicas, tem por objetivo proibir o incesto e dar limites
ao destino do desejo sexual. A presença do totem torna impossível ao homem relações sexuais
com um certo número de mulheres do seu clã.
A organização exogâmica presente nessas organizações direciona o interesse e a
análise freudiana, já que esse tipo de material trata de pôr em relevo a organização do desejo.
Surpreendido com o sistema de regras e o sofisticado modo de estabelecer as relações sociais
nessas organizações, Freud suspeita do significado intrínseco desse código de valores que
regula o convívio. “À primeira vista, é difícil perceber a justificativa psicológica desta
restrição tão ampla, que vai muito além de qualquer comparação com os povos civilizados”
(FREUD, 1977, p.25).
Ao relacionar o totemismo com a exogamia, Freud tencionava encontrar uma
determinante que justificasse a explicação metapsicológica sobre o fenômeno do horror ao
incesto.
123
E chegamos agora, por fim, à característica que atraiu o interesse dos
psicanalistas. Em quase todos os lugares em que encontramos totens,
encontramos também uma lei contra as relações sexuais entre pessoas do
mesmo totem e, conseqüentemente, contra o seu casamento. Trata-se então
da exogamia, uma instituição relacionada com o totemismo (FREUD, 1977,
p. 23).
A proibição do incesto, para Freud, somente se justificaria, em circunstâncias tão
primitivas, para justificar a presença de algo que ameaçasse a estabilidade do convívio social.
Sua suspeita recai, portanto, sobre a relação entre o totem e a ordem na convivência. A
questão da lei, destacada aqui como uma categoria relevante para a garantia da ordem social,
privilegia o sentido da relação do totem com o incesto. Se há necessidade da lei é porque há o
que se instaurar como obrigatoriedade, limite ou proibição em razão de alguma ameaça
pessoal ou social.
Somos levados a acreditar que essa rejeição é, antes de tudo, um produto da
aversão que os seres humanos sentem pelos seus primitivos desejos
incestuosos, hoje dominados pela repressão. Por conseguinte, não é de pouca
importância que possamos mostrar que esses mesmos desejos incestuosos,
que estão destinados mais tarde a se tornarem inconscientes, sejam ainda
encarados pelos povos selvagens como perigos imediatos, contra os quais as
mais severas medidas de defesa devem ser aplicadas. (FREUD, 1977, p.37).
O esforço freudiano em justificar a universalização do desejo humano, ou melhor, o
esforço de descobrir o elemento comum e organizador da estrutura desiderativa do sujeito
encontrou seu alicerce no material atribuído ao tabu do incesto, visto que o que mais se proíbe
é o que é mais desejado por todo ser humano, desde sua origem mais primitiva. Dessa forma,
o desejo que se constitui como a base da subjetividade, da individuação do sujeito, advém de
uma lei, uma proibição instaurada através do convívio social com outros sujeitos de desejo. O
homem civilizado, para Freud, carrega predisposições de uma estrutura primitiva a ser
desenvolvida nos itinerários da vida pessoal e coletiva.
124
Assim, o desejo humano deve ser compreendido sob duas perspectivas: a da natureza
biológica e a do social – a sexualidade marcada pela experiência direta com outros sujeitos de
desejo, experiência configurada pelo caráter ordenador do convívio e do destino do desejo.
Trata-se da lei expressa pela exogamia, a proibição do incesto − a interdição do objeto, que
direciona o desejo do sujeito. Freud consolida, na presente obra, a visão de que o desejo que
nasce excessivo em sua origem natural (instinto) necessita passar por alguma forma de
interdição, como já postulava desde a configuração do Complexo de Édipo.
4.2 DO TOTEM AO PAI
Desde Totem e Tabu, o foco de interesse de Freud passou a ser o traço comum entre o
selvagem − homem de comunidades primitivas −, a criança e o neurótico. Freud acreditava
que a base desse traço estava na presença de um fato ou experiência que estruturou, desde
sempre, a humanidade: a organização do desejo.
Se essa suposição for correta, uma comparação entre a psicologia dos povos
primitivos, como é vista pela antropologia social, e a psicologia dos
neuróticos, como foi revelada pela psicanálise, está destinada a mostrar
numerosos pontos de concordância e lançará nova luz sobre os fatos
familiares às duas ciências (FREUD, 1977, p.20).
O entendimento das relações de tabu e incesto, travadas nessas sociedades primitivas a
partir da presença do totem, ganha, na versão psicanalítica, uma posição de destaque. A
grande questão freudiana passava pela compreensão de como ocorreu entre os homens
primitivos o relevo das pulsões egóicas e a atenuação das pulsões sexuais tão imperativas. É
fato que, para a psicanálise, o tabu é uma produção psíquica, um primeiro esforço
moralizador, sem o qual a civilização não se consumaria. No entanto, cabe questionar: Em
125
que condições psíquicas esses povos, constituídos de sujeitos cujos desejos careciam de
ordem, de fato, se estruturaram?
Freud, num processo de síntese particular, ainda que considerando as contribuições de
Darwin e Smith, pesquisadores que muito produziram sobre a origem e a organização social
dessas civilizações, elabora sua visão acerca do processo de ordenação social a partir da
presença do que considera como condições psicológicas, para a constituição da ordem e das
relações sociais. Seu ponto de partida é a associação dos homens primitivos, descrita por
Darwin, que os compreende vivendo em hordas chefiadas por um membro mais forte e mais
velho, que detinha o poder sobre as mulheres.
Esse tipo de agrupamento fazia gerar o ciúme dos mais jovens, que, não tendo a
mesma força, não tinham acesso às mulheres. Naturalmente, Freud supõe que eles reagissem e
fossem, por essa razão, expulsos da horda. A exogamia demarcava ainda, de forma mais
evidente, o poder sobre os objetos de desejo – as mulheres da horda.
O direito de acesso às mulheres e o lugar privilegiado de poder fizeram com que os
mais jovens, insatisfeitos com as restrições impostas pela organização social, desejassem
eliminar o membro mais forte. Para eles, restava-lhes apenas a atitude de defesa e de alívio da
tensão estabelecida entre o grupo e os limites impostos pela presença do seu ancestral.
Segundo Freud, parece plausível explicar a complicada e contraditória postura dos homens
primitivos para com seus governantes.
Mesclam-se superstições, sentimentos de admiração e respeito, com profundos
sentimentos hostis e de destruição. A corrente de hostilidade, para Freud, fazia parte,
inicialmente, do conteúdo inconsciente desses jovens, até ser expresso no ritual de assassinato
do mais velho, com os sentimentos de ambivalência marcando a qualidade dessas relações e
se perpetuando mesmo após a morte do mais velho.
126
Aliado aos sentimentos ambivalentes de amor e ódio dirigidos ao ancestral, surge a
culpa, advinda da morte através do assassinato. Os membros arrependidos pelo ato reagiam
alimentados pela censura e pela culpa. Para Freud, essa atitude emocional ambivalente
caracterizará a base das relações mais significativas do sujeito, e tem sua origem nessas
experiências primevas.
Resta entender como, por analogia, o membro ancestral ou o governante do clã, num
momento posterior da ordenação social, transformou-se no totem; como o pai da horda,
elemento catalisador desses sentimentos ambivalentes, passa a ser representado por um
elemento que carrega e desloca toda a carga de libido e de sentimentos a ele originalmente
dirigidos; como, enfim, são agora deslocados para o animal ou totem, nas sociedades
totêmicas, os amores, o ódio, a culpa, o respeito.
É pelo traço comum e simbólico da ancestralidade que os elementos qualitativos
atribuídos ao pai se transformam ou se deslocam para o totem. Falta ainda analisar, sob a ótica
freudiana, a relação do parricídio original, a figura do totem, a presença do tabu e o banquete
totêmico; como e de que forma o totem guarda uma relação com o pai primevo. Diz o próprio
Freud: “O que é um totem? Via de regra é um animal [...] “É um antepassado comum do clã;
ao mesmo tempo, é o seu espírito guardião e auxiliar, que lhe envia oráculos e, embora
perigoso para os outros, reconhece e poupa os seus próprios filhos” (FREUD, 1977. p.21).
O totem é o ancestral comum, eleito e referendado por seus descendentes, que, em
razão da origem comum, se organizam e se relacionam num mesmo sistema de valores
morais. Não matar e não comer o totem − sua carne (animal totêmico) − são as expressões
legais mais intensas que convergem para esse sistema de valores e regras morais. Essas
proibições remetem ao tabu do incesto, à exogamia e à interdição do desejo, elementos
imprescindíveis, supõe Freud, para tornar os indivíduos, fechados em si mesmos, num
grupamento solidário.
127
Matar e comer o totem são tabus, assim como tocá-lo ou olhá-lo. “É suposição geral
que o tabu é mais antigo que os deuses e remonta a um período anterior à existência de
qualquer espécie de religião” (FREUD, 1977, p.38). A exigência da lei é a condição necessária
à constituição do clã.
Além de instaurar os limites advindos do tabu, a presença do totem possui influência
decisiva na divisão e na organização das sociedades tribais, as quais se submetem a um
conjunto de normas e passam a venerar seu representante ancestral, através do animal
totêmico.
Organizados e submetidos a esse conjunto de leis, os primitivos atuam como se esses
limites fossem naturais. Estão convencidos de que quaisquer violações dessas proibições
sofrerão automaticamente severa punição. Para Freud, tais proibições dirigem-se
principalmente contra a liberdade de prazer, de movimento e comunicação, sendo muitas
vezes ininteligíveis em suas origens; quer dizer: os membros do clã obedecem
compulsivamente a elas; estão intrinsecamente relacionados à presença do totem. Nessas
circunstâncias, resta-nos, somente, entender a estreita relação entre o pai primevo, o totem e
os tabus.
Para Freud, falta ainda um elemento mediador que justifique a razão do deslocamento
simbólico dos elementos afetivos destinados ao pai e ao totem, que faz coincidir com a
passagem do modelo de sociedade primitiva para a civilização. Sua hipótese está baseada na
presença de um fato decisivo, configurado por um ato vivenciado pelo clã; um trauma
violentíssimo, que se tornou referência de um complexo mnemônico ordenador das fases
civilizatórias. O parricídio é, para Freud, a razão e a motivação necessária para essa passagem
do ato ao símbolo.
O assassinato do macho mais velho, cometido pelos filhos ou descendentes
masculinos, é conhecido como parricídio. Déspota invejado dentro do clã, o pai é confrontado
128
com a agressividade dos filhos, que, uma vez unidos, atuam para eliminá-lo, como a única
forma de realizar o desejo de posse das mulheres que lhe pertenciam sexualmente. Mais do
que pano de fundo, o parricídio assume algumas funções na ordenação social e psíquica do
sujeito: a) realiza o desejo de assassinato do pai; b) promove um júbilo festivo: com o pai
morto, tudo pode acontecer. Tornou-se possível submeter tudo e todos ao império dos desejos
individuais; c) cada um dos filhos toma para si os privilégios do pai.
A morte do pai, entretanto, trouxe como conseqüências sociais para a horda
competição, violência, guerra de todos contra todos; ameaça à integridade da comunidade;
desejo primitivo conduzindo à autofagia; manifestação do sentimento de ambivalência em
relação ao pai: odiado e temido, passou a ser também, pela premência da culpa e do
arrependimento, admirado e amado. Com a sua ausência e o risco da instalação do caos nas
relações fraternais, emergem a culpa e o remorso – fatores estes responsáveis pelo estado de
tristeza que se abate sobre o clã. Em contrapartida, é pela presença desses sentimentos que
floresce a necessidade da sociabilidade. Os filhos, arrependidos, precisam restabelecer novas
formas de convívio e de relações afetivas e sexuais.
O parricídio passou a ser ritualizado, tanto como forma de expiação e atenuação do
arrependimento, quanto como modo de expressão da necessidade de identificar-se com o
próprio totem e assim reinvidicar seu o lugar de poder.
O ritual totêmico, conhecido também como banquete totêmico, segundo a perspectiva
freudiana, serve ao objetivo de ritualizar o parricídio. No sacrifício totêmico, revoga-se o ato
parricida no nível representacional: trata-se de uma tentativa de re-elaboração psíquica do ato
traumático do assassinato do pai e da elaboração psíquica da representação paterna, uma
forma de introjetar o papel desempenhado pelo pai ou seu representante (totem).
A cerimônia da purificação, para expurgar a culpa pelo assassinato do pai, não se
consuma através das homenagens ou das oferendas de sacrifícios ao totem. A consciência do
129
fracasso de tal propósito deriva para uma reação moral de compromisso pessoal e social: não
matar o animal totêmico, não comê-lo nem cometer o incesto; garantir que as funções
simbólicas e ordenadoras atribuídas ao totem sejam preservadas.
O rito é realizado com envolvimento emocional, subjazendo, na perspectiva freudiana,
o arrependimento pelo assassinato do pai. Repetir é a única providência para atenuar o
excesso de afetos ambivalentes (hostis e fraternos). É um momento religioso necessário para
diminuir o volume emocional circulante e garantir a não-violência, a vida do indivíduo e da
coletividade no seio da nova rede fraternal. Para Smith (1894)18
, a refeição totêmica salienta
que, nessas sociedades primitivas, o ritual de comer e beber juntos reafirma o grau de
compromisso e obrigações sociais mútuas, e, ainda, qual seria a forma de renovar o ritual do
banquete totêmico.
Se para Freud o animal totêmico é o pai, então as restrições de não matar e não ter
relações sexuais com pessoas do mesmo clã remetem a uma forma de proibição semelhante à
encontrada na base do complexo edipiano. Os dois crimes, matar e comer, estão relacionados
ao mito de Édipo, que matou seu pai e casou-se com sua mãe. A representação psíquica
ordenada pelo Complexo de Édipo repete-se: o pai é rival e, portanto, odiado; ao mesmo
tempo, é protetor e, por isso, amado. No entanto, a representação paterna através do
totemismo, desenvolvida a partir da obra Totem e Tabu, configura-se, no pensamento
freudiano, não somente como uma representação simbólica, mas também como uma função
paterna muito mais complexa, tanto sobre o indivíduo quanto sobre a família e, ainda, a
comunidade, inaugurando definitivamente, para a psicanálise, o papel privilegiado da função
do pai como elemento da cultura, da ordem social e da direção das relações de objeto.
18
SMITH apud FREUD, 1977, v. XIII.
130
É exatamente pela apropriação desses conteúdos simbólicos, nem sempre passíveis de
observação e comprovação, que os críticos de Freud se aferram em desqualificar suas
contribuições.
Para Jones (1995), a proposta freudiana para sustentar as argumentações sobre o
totemismo e o incesto estava com seus dias contados, salientando que a visão freudiana sobre
as sociedades primitivas mostra-se demasiadamente fantástica, por exigir uma sustentação
teórica desacreditada e incompatível com a biologia moderna. Muitos antropólogos da época
já demonstravam que, embora muitas tribos totêmicas praticassem o ritual do sacrifício do
totem, outras já não o faziam, desarticulando a idéia de sua universalidade. No entanto, é o
próprio Jones quem argumenta:
Ironicamente, a realidade histórica do crime primordial não era
absolutamente essencial ao argumento de Freud. Os sentimentos de culpa
podem ser transmitidos por mecanismos menos fantasiosos e cientificamente
mais aceitáveis. Os neuróticos, como o próprio Freud ressaltou em Totem e
Tabu, fantasiam sobre homicídios edipianos, mas nunca os executam
(JONES, 1995, p.309).
As críticas, justificáveis pela fragilidade dos argumentos históricos, antropológicos e
evolutivos atribuídos ao trabalho de Freud, não são suficientes para desmontar o argumento
metapsicológico, construído dentro do seu modo peculiar de pensar, de fazer pesquisa e da
observação da clínica psicanalítica.
Vale, nesse ponto, acompanhar os conceitos implicados nesta concepção da
representação paterna, postulada na pesquisa freudiana desse período. Aqui parece despontar
uma sutil construção da função e do lugar ocupado pelo pai, tema que enfatizamos neste
trabalho. Trata-se de considerar dois aspectos dessa representação: o pai vivo e o pai morto.
O pai vivo e presente desde a constituição da horda, em torno do qual se movem seus
descendentes; o pai que provoca a rivalidade, posto que aguça a emergência do desejo através
131
da posse ou do controle do objeto sexual (as mulheres da comunidade). Na perspectiva
oferecida pela teoria freudiana, é a presença do pai que provoca a interdição de objetos de
desejo, que promove o destino desiderativo dos seus descendentes e, ainda, define a pertença
desses últimos em um grupo social.
Em outra representação, a do pai morto – autêntico objeto psíquico da pulsão
recalcada pela culpa –, que se origina e se avoluma transformando-se no protótipo das
divindades, diante do qual os indivíduos se curvam, se submetem, o homenageiam. Eis aqui o
representante do pai, detentor do poder ordenador do mundo humano; eis aqui o pai,
divindade suprema, sobre o qual recaem muitos tabus e do qual provêm tantos ditames.
O pai morto realiza no nível psíquico interno o que o pai vivo tentou impor pela força
externa, enquanto presente fisicamente. A sua morte possibilita um salto qualitativo através da
substituição da força, da sublimação ou do deslocamento do desejo do objeto. O tabu de não
tocar o totem reafirma esse temor, originalmente dirigido ao pai.
A análise do tabu nos referencia que o pai morto é uma forte ameaça, contra a qual
nenhuma força contrária, mesmo coletiva, anula ou vence. Graças à representação simbólica
do pai morto, o estado de guerra ou o estado de violência primitivo é modificado. O pai
morto, como símbolo, torna-se mais forte que o pai vivo: é qualificado como a autoridade que
tutela, define limites e organiza as relações. O não-matar, instituído pelo pai, reafirma: o
desejo interditado na origem desiderativa: não matar o totem, é o mesmo que não matar o
irmão e, por sua vez, o sistema exogâmico se ordena.
A metáfora desse símbolo, a função desse pai ordenador e os limites trazidos com sua
morte trazem conseqüências fundamentais na vida e no desenvolvimento social. A religião e a
moral têm, nesse processo, o seu nascedouro. Além de elas serem trançadas nas sociedades
primitivas, são a forma de escoamento dos volumes mínimos das emoções circulantes
132
advindas da morte do pai. É no sacrifício totêmico, tomado como rito, que Freud identifica a
passagem da horda para a civilização.
Kaufmann (1982)19
, ao se referir a esse construto psicanalítico sobre a morte do pai,
salienta que Freud nos apresenta uma hipótese norteadora para a compreensão da cultura
como socialização do movimento de gênese; em outras palavras, o impulso agressivo
canalizado para o pai traz, como conseqüência, um processo de tensão da atividade psíquica
primitiva para a racionalidade (posterior ao ato) e de sanções necessárias para a vida em
sociedade. Esse estado de coisas de que é tomado o aparelho psíquico é a condição base para
o surgimento da cultura e o que leva ao desligamento da esfera da natureza. O medo e a culpa
servem para apaziguar, atenuar e até conduzir emoções mais intensas do homem primitivo.
Para Freud, o momento posterior ao ato implementa a contenção da agressividade,
fomenta a culpa e reforça a exigência de renúncia às mulheres da horda. O sistema exogâmico
se ordena a partir desse ponto. A figura paterna, deslocada mais adiante para o totem (no
totemismo), passa à condição de divindade, reaparecendo carregada de predicados:
obediência, saber, veneração, arrependimento. A cultura, a religião e a arte são formas
atenuantes de expiação da culpa por essa morte.
A sociedade estava agora baseada na cumplicidade do crime comum; a
religião baseava-se no sentimento de culpa e no remorso a ele ligado;
enquanto que a moralidade fundamentava-se parte nas exigências dessa
sociedade e parte na penitência exigida pelo sentimento de culpa (FREUD,
1977, p.175).
19
KAUFMANN apud CHATELET, 1982.
133
4.3 O PAI, O SUJEITO DE DESEJO E A ORGANIZAÇÃO FAMILIAR
Afinal de contas, de quem estamos falando? Quem é o pai na constelação triangular
que constitui a história familiar de um sujeito? Pelo viés do pensamento freudiano, lastro que
adotamos como referência neste trabalho, a figura paterna atravessou toda a obra psicanalítica
sendo construída, pelo seu autor, como elemento que organiza e define a subjetividade, ou
seja, que organiza a estrutura desiderativa do sujeito.
A atenção oferecida ao pai, como fio condutor de leitura da obra freudiana foi, desde
sempre, o foco deste trabalho. Objetivamos encontrar fios de conexão aparentemente
dispersos durante os diversos períodos de sua produção, com o intuito de encontrar um lugar
que lhe conferisse função e significação psíquicas para além do fato biológico.
Até aqui, dados os fios reflexivos adotados nesta pesquisa, podemos concluir que,
muito embora Freud tenha dedicado atenção aos cuidados iniciais do primeiro objeto de
contato da criança com o mundo externo (a mãe), é ao pai ou, ainda, é a prevalência da função
paterna que a psicanálise se empenha em demarcar como o elemento privilegiado na
constituição da individuação e da ordenação do desejo. Portanto, na psicanálise de Freud vale
ressaltar: é pela relação com o pai que o sujeito se constitui em sua subjetividade e, mais
ainda, é pelo pai que ele se torna autônomo para direcionar suas relações com o mundo. O pai
que, pela presença, pelo lugar de autoridade, delimita a pulsão e direciona o desejo do sujeito
para outros objetos de amor.
Originalmente referido ou suposto em sua presença e ausência, numa relação dual em
que criança e mãe se fundem para garantir a existência e a origem de algumas funções
psíquicas, o pai parece ter crescido, aos poucos, em evidência e importância, ao longo do
desenvolvimento da própria psicanálise. Desde o processo de auto-análise às investigações
134
dos relatos clínicos de suas pacientes, o pai sempre esteve presente na relação do sujeito com
seu destino desiderativo.
Instigado pelas mais distintas emoções ligadas ao seu próprio pai, trabalhadas através
de material inconsciente oriundo de sonhos e devaneios (amor, desprezo, desejo de morte), às
curiosas histórias de sedução relatadas durante os atendimentos na clínica, o pai foi visto sob
diversas perspectivas, partindo do bizarro dado de ser o agente sedutor de crianças. Da
presença imaginária à fantasia de sedução, o pai sempre aparece vinculado às questões do
desejo e da sexualidade do sujeito, seja este normal ou neurótico, adulto ou criança. “Em vez
de sustentar que as crianças eram seduzidas para a sexualidade, Freud descobriu que elas eram
por si mesmas seres sexuados” (ROAZEN, 1973, p.58).
As conquistas da teoria freudiana em relação à sexualidade infantil e à estrutura
desiderativa descrita e organizada principalmente a partir das obras do início do século XX,
como Interpretação dos sonhos e Três ensaios..., contribuíram para a melhor formulação da
problemática evidenciada pelo complexo edipiano como referência para relações básicas do
triângulo mãe-filho-pai. O pai do complexo não é mais um suposto, um agressor sexual, mas,
antes, um elemento que, com sua presença, inscreve psiquicamente uma interdição,
individualiza, subjetiva e direciona o desejo do filho. Em outros termos, oferece os contornos
da identidade.
Na obra de 1913, Freud evoca maior relevo sobre a perspectiva da função paterna. O
relevo dado por Freud ao pai confirma e extrapola o papel ocupado na base das relações
edipianas e avança no sentido de constituir-se no elemento catalizador que inaugura, fora da
família, o vínculo da vida social. O pai apresentado em Totem e Tabu foi, originalmente, em
sua essência, o representante da força e da posse das mulheres de seu grupo, e, como tal,
ocupava um lugar de destaque diante dos objetos de desejo de seus pares ou descendentes.
135
Levando em conta as teorias evolucionistas de Darwin (1871), Freud busca na letra
deste uma descrição sobre a forma de convivência dos primitivos:
Dessa maneira, se olharmos bastante para trás na corrente do tempo [...] a
julgar pelos hábitos sociais do homem, tal como ele hoje existe [...] a visão
mais provável é que o homem primevo vivia originalmente em pequenas
comunidades, cada um com tantas esposas quantas podia sustentar e obter, as
quais zelosamente guardava contra todos os homens (DARWIN apud
FREUD, 1977, p.152).
Como senhor absoluto das mulheres que lhe pertenciam, tornara-se, primordialmente,
o centro de uma trama que evocava instintos primitivos mais intensos e sentimentos
ambivalentes de admiração e respeito, por um lado, e, por outro, inveja, agressividade e
vingança.
O pai da horda ou o pai primevo, fora alvo e pretexto de um processo de disputa que
impôs limites e renúncias aos impulsos primitivos de seus descendentes e, como
conseqüência, garantiu, sob a perspectiva psicanalítica, a sobrevivência e a ordenação das
relações sociais, permitindo o aparecimento de regras de convívio e valores próprios da
cultura.
A presença do pai serviu para instaurar a ordenação e o domínio das forças psíquicas;
sua presença e, finalmente, a sua morte, precipitada pelos outros homens, permitiram, por um
lado, a realização do ato parricida e, por outro, a posterior renúncia de desejos primordiais
originários em nome da civilidade, da convivência e da organização, pautados pelo
sentimento de identidade e pertença. Eis aqui a origem comum dos vínculos sociais ancorados
em um mesmo ancestral.
O lugar do pai, secundariamente representado pelo animal ou símbolo totêmico, nas
civilizações que adotaram o totemismo, trouxe, para a ordem social, para a coletividade, a
noção de origem e ancestralidade que irmana e iguala direitos e deveres, definindo limites e
136
interdições sexuais, caracterizados pela exogamia e pelo horror ao incesto, já tratado neste
capítulo. De toda a experiência resulta o seguinte ditame: “Nenhuma relação sexual entre os
que partilham de um lar comum. Após o estabelecimento do totemismo, a regra assumiria
outra forma e diria: Nenhuma relação sexual dentro do totem” (DARWIN apud FREUD, 1977,
p.153).
Decorre dessa perspectiva, psicanalítica por excelência, uma explicação da presença
paterna como um elemento desencadeador de um novo estado de coisas; um momento
necessário para a promoção da vida humana, já que foi pelo trabalho realizado sobre os
impulsos e pela manifestação da ambivalência pulsional que todo o arcabouço dos limites
psíquicos desiderativos individuais e da vida social se constituíram. A morte e seus
desdobramentos posteriores remetem à figura do pai o lugar da lei, da ordem e da cultura.
O sistema totêmico foi, por assim dizer, um pacto com o pai, no qual este
prometia-lhes tudo o que uma imaginação infantil pode esperar de um pai –
proteção, cuidado e indulgência – enquanto que, por outro lado,
comprometiam-se a respeitar –lhe a vida, isto é, não repetir o ato que causara
a destruição do pai real (FREUD, 1977, p. 173).
A culpa e o remorso, sendo ainda resultantes do desdobramento do ato dirigido ao pai,
retornam à consciência do grupo filial através de uma nova instituição social: a religião. A
letra freudiana define claramente essa origem: “A religião totêmica surgiu do sentimento filial
de culpa, num esforço para mitigar esse sentimento e apaziguar o pai por uma obediência a ele
que fora adiada. Todas as religiões posteriores são vistas como tentativas de solucionar o
mesmo problema”( FREUD, 1977, p. 173).
Um ponto determinante comum ao totemismo e à religião é a tensão gerada nos filhos
pela ambivalência frente ao complexo-pai. Desde o início o pai é objeto de sentimentos
afetivos contraditórios. O respeito e o medo, o amor e o ódio, a culpa e o remorso permeiam a
137
relação com o pai. Vale salientar, entretanto, que essa ambivalência sempre foi tratada e
identificada, ainda que com relevância distinta, em diversos momentos da escritura freudiana.
Contudo, é a partir da configuração do Complexo de Édipo que tal fato se torna referência e
imprime força na relação com o pai. O medo da castração, a fantasia da expiação, tão comum
entre os neuróticos, reafirma essa evidência.
Ao concluir, então, esta investigação excepcionalmente condensada, gostaria
de insistir em que o resultado dela mostra que os começos da religião, da
moral, da sociedade e da arte convergem para o complexo de Édipo. Isso
entra em completo acordo com a descoberta psicanalítica de que o mesmo
complexo constitui o núcleo de todas as neuroses, pelo menos até onde vai
nosso conhecimento atual. Parece-me ser uma descoberta muito
surpreendente que também os problemas da psicologia social se mostrem
solúveis com base num único ponto concreto: - a relação do homem com o
pai (FREUD, 1977, p.185-6).
Apoiado no propósito de entender as origens da organização social, Freud estende o
caráter da ambivalência emocional para com o pai como uma invariante decisiva na
constituição não somente do sujeito, mas de toda a civilização. “Uma das pressuposições
possíveis é que ela seja um fenômeno fundamental de nossa vida emocional” (FREUD, 1977,
p.186).
A leitura aqui formulada encontra o epicentro do propósito deste empreendimento:
delimitar o papel, a força da função paterna. Agora, apoiados pelo texto e fluxo do
pensamento freudiano, chegamos ao significado atribuído ao complexo-pai: a relação do
sujeito com o pai e suas vicissitudes emocionais ambivalentes são a base para a sua
constituição emocional e a sua vida de relações. A constatação freudiana sobre o lugar da
herança psíquica relacionada ao complexo-pai é seguida de uma reflexão que reafirma o nosso
propósito quanto ao desenho dessa herança nas diversas gerações:
138
A menos que os processos psíquicos sejam continuados de uma geração para
outra, ou seja, se cada geração fosse obrigada a adquirir novamente sua
atitude para com a vida, não existiria progresso neste campo e quase
nenhuma evolução. Isso dá origem a duas outras questões: quanto podemos
atribuir à continuidade psíquica na seqüência das gerações? Quais são as
maneiras e meios empregados por determinada geração para transmitir seus
estados mentais à geração seguinte? (FREUD, 1977, p.187).
A idéia de Freud não é encaminhar a questão da ambivalência emocional para uma
discussão filogenética apoiando-se numa base ontogenética. Não parece ser este o seu
propósito, e sim o entendimento da base emocional que constitui as relações travadas pelo
sujeito com o mundo social à sua volta.
Já salientamos, como característica da última etapa do pensamento
freudiano, a distinção do registro energético dos impulsos, que forma o
‘objeto’ específico da investigação psicanalítica, e das configurações
historicamente determinadas, família, sociedade ampliada, em que esses
impulsos imprimem respectivamente o traço do conflito edipiano e da
culpabilidade. Eis um primeiro exemplo da emergência, no nível da cultura,
das condições de sua própria gênese (KAUFMANN, 1982, p.67).
A questão com a autoridade e a percepção do forte conteúdo energético de forças
antitéticas e de impulsos que constituem as relações, tais como: deuses e seus devotos,
governantes e súditos, homem e sociedade, estão pautadas como substitutos simbólicos da
relação do homem com seu pai. As bases inconscientes e o deslocamento para outros objetos
e instituições somente reafirmam a presença do complexo-pai, sugerido pela psicanálise.
São marcas de todo o pensamento social de Freud o dinamismo da vida, as
compulsões, os caminhos ocultos que nos levam numa ou noutra direção.
Freud tinha um forte sentido dos elementos apaixonantes da vida, das
correntes subterrâneas de sentimentos das quais fugimos para perigo nosso
(ROAZEN, 1973, p.104).
Kaufmann ressalta que Jung, diferentemente de Freud, apostou no valor do pai vivo
ou, ainda, em representantes deslocados para a figura de Cristo ou de outros representantes do
139
Deus-Pai como capazes de perpetuar a idéia do papel paterno na cultura e na espiritualidade.
Segundo o autor, Freud inova na medida em que, distanciado da explicação espiritual, aposta
na força do pai morto e na capacidade de, estando ausente, de exercer no clã um poder
classificatório.
Freud salienta o aspecto simbólico da função paterna como centro de referência para
entender a base do sentimento de ambivalência que caracteriza a relação do sujeito com as
figuras parentais, no triângulo familiar, epicentro da estrutura desejante do sujeito normal ou
neurótico. Os sentimentos ambivalentes, em Freud, estão na base do conflito edipiano, e é o
que orienta a teoria da sexualidade infantil, apresentada de forma mais estruturada em Três
Ensaios...
Na concepção freudiana, esse assassínio é um caráter histórico, e como tal pode ter
feito parte da experiência na horda. No entanto, sendo universal ou não, sua validade, para a
psicanálise, deve ser considerada como um momento primordial da história da humanidade. A
experiência do parricídio servirá a Freud como realidade psíquica, factual ou não. Isso implica
dizer que o que mais lhe importa é a presença que este fato realiza no sujeito.
Promover a perda do chefe da horda é uma forma de conter os impulsos primitivos
humanos. “A relação da essência impulsional com a morte emerge, assim, no cerne do
problema da cultura, e o movimento de pensamento desenvolvido por Totem e Tabu
encontrará seu coroamento em 1920, na segunda tópica” (KAUFMANN, 1982, p.45).
O sentimento de culpa, oriundo do conflito impulsional primitivo, tornou patente a
partir do momento em que se impôs aos homens a tarefa da vida em comunidade. Na estrutura
familiar, entretanto, na ordem social mais restrita, ele também se manifesta necessariamente
no complexo de Édipo. Melhor dizendo, tanto na estrutura social ampliada quanto na família
o conflito entre o desejo de morte e a culpa estará sempre permeando os limites e as relações
entre os sujeitos. “Encontra-se, assim, fixado, em sua formulação propriamente psicanalítica,
140
o problema levantado por Freud desde 1897, concernente às origens da repressão do incesto,
em relação com a transição da sociedade familiar para a sociedade ampliada” (KAUFMANN,
p.59).
Portanto, Freud sintetiza nessa tensão da atividade psíquica primitiva ambivalente a
condição básica para a passagem ao mundo da racionalidade e, portanto, à condição da
neurose – adiamento do desejo −, descrevendo esse movimento psíquico como necessário à
promoção da vida humana acima de suas condições animais. A socialização surge como
perspectiva de encaminhamento de carências e adiamento de conflitos e os riscos de excessos
dos impulsos agressivos de destruição, tornando-se a saída para o desligamento da esfera da
natureza instintual.
As relações acerca da cultura tornam-se produto dessa passagem, desse momento de
transformação das relações entre os homens e entre o homem e seu desejo. A solidariedade ou
o investimento nas necessidades da coletividade não é uma conseqüência natural, mas, antes,
uma imposição à continuidade e à ordenação da vida social, além da garantia de sobrevivência
individual.
Para o ponto de vista psicanalítico, não sociológico, a necessidade imposta pela lei da
vida em sociedade favoreceu, por um lado, a ampliação das relações entre os indivíduos e a
delimitação da expressão dos impulsos sexuais; por outro, foi responsável pelo processo de
subjetivação e de individuação do sujeito, tão fundamental ou mais que o primeiro.
Assim, retomemos o foco sobre o elemento que desde sempre nos interessou
investigar: a presença do pai na experiência da ordenação pessoal e social. A experiência
histórica da sua morte – essa experiência universal ou psiquicamente inscrita − é a base para o
surgimento de alguns processos de elaboração psíquica mais elevados, e este parece ser o
aspecto relevante trazido pela psicanálise e reconstituído nos textos que elencamos até aqui.
141
A originalidade da proposta do pensamento psicanalítico sobre a figura paterna, apesar
de inúmeras críticas advindas de diferentes frentes do pensamento contemporâneo e até de
outros psicanalistas, ancora-se, segundo Kaufmann, numa epistemologia que restitui todo o
itinerário do destino pulsional, apresentando, dessa forma, a própria estrutura de alteridade. É
pelo caminho da constituição do sujeito e da organização de seu desejo que a função paterna,
no pensamento freudiano, assume lugar privilegiado. É através do pai, ou da sua presença
enquanto função de ordem, de lei que dele decorre, que um sujeito se organiza como uma
unidade diferenciada, capaz de dar conta de seu destino pulsional e das relações angustiantes
do mundo que não está ali para satisfazer os seus desejos.
Na instância do enredo familiar, os capítulos iniciais estabeleceram o primeiro vínculo
da criança com o mundo externo, evidenciando a necessidade de atendimento da urgência das
demandas infantis mais primárias. A relação da criança com a mãe ou com o adulto que
acolhe seus apelos de sobrevivência e contato, instaura a base para as primeiras funções que
constituirão as condições para dar contorno não somente à dimensão corporal, mas também às
primeiras funções psíquicas que organizarão o funcionamento do aparelho psíquico desse
infante. É dessa relação dual com a mãe que as primeiras experiências sexuais derivam, como
já nos referimos no capítulo terceiro deste trabalho.
Jones (1970) salienta que esta relação diádica, explorada por Freud, aponta não apenas
para os cuidados maternos da mãe com a criança, mas para a emergência da função de
comunicação que surge neste encontro, bem como a inscrição dos mais ternos sentimentos
aprendidos pelo sujeito na mais tenra idade.
Porém, com a mesma força que a teoria freudiana configura a importância dessa
relação mãe-filho, é a psicanálise que também instiga afirmar que, nesse estágio primário de
relacionamento, a submissão à mãe precisa ser sacrificada em nome do desenvolvimento
142
sexual e psíquico da criança. Uma intervenção, ou seja, uma nova ordem nessa relação urge
acontecer para o bem do sujeito e da relação familiar.
É através da letra de Mezan (1987), entretanto, que resgatamos uma vez mais, pelo
viés psicanalítico, a entrada do pai. Ao retomar o mito na perspectiva freudiana, o pai é
chamado a dar a direção ao destino desiderativo do filho:
O reino do intelecto e da paternidade vem fundar-se, assim, sobre os
escombros de uma imediatez representada pela mãe e pelos sentidos,
imediatez solidária de um feitiço e de uma sedução, de uma regressão ao
amorfo, que só pode ser evocada com indizível terror (MEZAN,1997 p.148).
O poético funde-se muitas vezes com o real e irmanam-se através de um elemento
comum: a dor. Seja pelo argumento da morte primordial do pai primevo ou, como no mito
edipiano, o assassinato do pai aliado ao suicídio da mãe, é pela dor, pelo remorso e pela culpa
que o sujeito se encontra com o limite da pulsão, se encontra com a lei e é obrigado a desistir
da tensão em torno da satisfação imediata de seus impulsos mais intensos dirigidos em
especial a um único objeto.
O caminho de encontro com a função paterna é, para Freud, o caminho do sacrifício e
da renúncia, dado que esse encontro somente se concretiza caso o sujeito realize
psiquicamente o desejo de morte em relação ao pai. O caminho aqui descrito não se restringe
aos filhos homens, porque o que se impõe, na verdade, é o caminho de renúncia ao primeiro
objeto de amor de toda e qualquer criança, que é a mãe. O estado fusional (mãe-filho)
instaurado e alimentado pelo prazer das primeiras vivências auto-eróticas precisa e deve ser
abandonado, em nome de um importante passo na constituição da subjetividade e da
alteridade do sujeito.
É apenas quando ele ou ela (sujeito de desejo) é capaz de desvincular-se desse estágio,
experiência marcada pelos fortes sentimentos de ambivalência em relação a ambos os pais,
que o sujeito ingressa definitivamente no seu caminho singular, tornando-se capaz de seguir
143
com suas próprias escolhas de objeto. “A contribuição de Freud é ter ligado à gênese do
objeto à do amor e do ódio” (RICOEUR, 1977, p. 347).
O corte, a separação da mãe somente se realiza pela presença de um outro que
imponha ao conjunto dual o limite, ou o desvio do investimento pulsional. A contrapartida
desse abandono residirá, no caso dos sujeitos ditos normais, na conquista de representações
ou deslocamentos da expressão direta do desejo por outras formas substitutivas de satisfação:
o interesse pelas conquistas da vida social, as produções culturais, o desenvolvimento da vida
intelectual e artística, e a devoção às religiões.
Numa de suas comunicações com seu colega Rank, Freud textualmente afirma:
O desligamento do indivíduo da autoridade dos pais é uma das mais
necessárias, mas também uma das mais penosas realizações do
desenvolvimento. É inteiramente necessário que se realize e devemos supor
que todo ser humano normal conseguiu, em certa medida, consumar essa
separação. Com efeito, o progresso da sociedade depende, em geral, da
oposição das duas gerações (FREUD apud JONES, 1970, p.76).
A outra possibilidade de resolução do conflito edipiano, para Freud, a mais comum
nos neuróticos analisados através da clínica psicanalítica, relaciona o sintoma neurótico como
uma saída conciliatória, uma alternativa aceita pela consciência de um desejo inconsciente
não realizado, que data dessas experiências infantis ligadas às figuras parentais. Os impulsos
desiderativos não realizados ressurgem travestidos nos sintomas, embora continuem clamando
pela sua emergência.
Seja pela inserção na cultura, ou pelo exercício da racionalidade como saída, ou,
ainda, pelo deslocamento simbólico do sintoma neurótico, a passagem pela experiência com o
pai é condição que humaniza. O pai é, portanto, personagem ativo na novela familiar. Sua
presença deve garantir a direção das relações afetivas (saudáveis ou não), travadas entre os
demais atores da constelação na família. Seu lugar não se restringe ao lugar biológico
144
necessário à procriação, mas ao lugar da inscrição simbólica que demarca uma passagem para
um novo estágio de desenvolvimento individual e coletivo.
Roudinesco, na atualidade, circunscreve sobre a função paterna um lugar simbólico
bem demarcado, assentado em tudo que vimos no pensamento freudiano. Diz a autora:
O pai não é, portanto um pai procriador senão na medida em que é um pai
pela fala. E esse lugar atribuído ao verbo tem como efeito ao mesmo tempo
reunir e cindir as duas funções da paternidade (pater e genitor), a da
nomeação e da transmissão do sangue e da raça. De um lado o
engendramento biológico designa o genitor; de outro a vocação discursiva
delega ao pai um ideal de dominação que lhe permite afastar sua progenitura
da besta, da animalidade, do adultério e do mundo dos instintos, encarnados
pela mãe. A palavra do pai, ao delinear a lei abstrata do logos e da verdade,
não prolonga a alimentação materna senão ao preço de separar o filho do
laço carnal que o une, desde seu nascimento, ao corpo da mãe
(ROUDINESCO, 2002, p.23).
Tomando como referência esse lugar simbólico de corte e de civilidade atribuído ao
pai, vale, então, questionar o impacto de sua presença nos dois níveis da existência: na
subjetividade de cada ser e na intersubjetividade das diversas formas alternativas de relações
afetivas que se estabelecem na vida social.
Como sujeito que instaura a lei e a docilização dos desejos, circunscreve a
subjetividade e permite a individuação, dissolvendo o risco de indiferenciação causada pela
presença materna, permitindo, com isso, a inserção do sujeito no mundo da neurose e não da
psicose (estado de indiferenciação com o objeto), segundo o pensamento freudiano.
No outro nível, o da intersubjetividade, o mundo das relações sociais, é pelo pai que as
relações de autoridade, de poder e de ordenação de papéis se estabelecem. É pela passagem do
estado de natureza ao estado de autoridade, uma atribuição do pai, que se configura a
organização social sobre a força do desejo individual.
Diante dessa presença ordenadora, não parece ser casual as inúmeras representações
externas criadas para ocupar ou representar a função do pai na vida civilizada. Freud
145
sustentou o argumento dessa simbolização desde a passagem do pai primevo ao totem, do
totem ao animal totêmico, da relação substituta do pai na imagem do Deus-pai; do pai ao
monarca e tantos diversos modelos de representantes das divindades masculinas que
atravessam a história da humanidade.
Pensar numa subjetividade que não tenha sofrido a intervenção paterna parece ser uma
situação tão comprometedora quanto pensar numa sociedade sem lei, sem seus códigos morais
de conduta e de limites de convivência. O caos instaurado pela ausência ou indiferenciação do
desejo no indivíduo sugere uma condição tão doentia quanto à convivência numa sociedade
onde os limites, o respeito às individualidades e o relacionamento entre alteridades foram
dramaticamente abolidos ou esvaziados de sentido.
Essa inquietação foi, desde sempre, a inquietação que fez mover a nossa pesquisa e o
desejo de resgatar o lugar devido do pai no pensamento contemporâneo e na vida psíquica do
homem atual. Na bela imagem poética lusitana, isso se traduz em Passagem das horas:
[...]
Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito.
Só humanitariamente é que se pode viver.
Só amando os homens, as ações, a banalidade dos trabalhos,
Só assim - ai de mim! -, só assim se pode viver.
Só assim, ó noite, e eu nunca poderei ser assim!
Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.
[...]
(PESSOA, 2002. )
146
CONCLUSÃO
Pai meu, pai meu, por que me abandonaste?
Matheus, XXVII: 46
Assim nos aproximamos do século XXI.
Muitas revoluções sociais, políticas, econômicas e sexuais demarcam a vida da
sociedade contemporânea, especialmente na virada do século XX, cujos processos ainda se
conhece pouco. Descortinam-se vertiginosas transformações da vida, fazendo emergir um
vasto polimorfismo de instituições sociais, de sistema de crenças e valores, do trabalho, dos
relacionamentos e do modo pelo qual homens e mulheres se portam nos novos e antigos
papéis. Segundo Foucault (2001), nem sempre é possível determinar o que causou a mudança
específica numa crença ou numa cultura. Tanto uma quanto a outra, embora sejam processos
sociais, avançam sobre a vida privada.
O modelo da família patriarcal, que alicerçou a sociedade durante séculos, foi
diretamente atingido dentro desse cenário de transformações, já que tais mudanças afetaram
diretamente a sexualidade, as formas de parentesco, de filiação, a maternidade e a
paternidade, se quisermos restringir as influências ao âmbito da instituição social da família.
Nesse aspecto, o público e o privado nas relações refletem uma desordem ou, pelo menos,
uma nova ordem de valores e comportamentos.
Para Araújo (1998), houve uma descaracterização do sexo, uma vez que na sociedade
atual existem papéis sociais masculinos e femininos, desempenhados indistintamente por
homens e/ou mulheres. É fenômeno e conseqüência dessas transformações a re-divisão sexual
do trabalho, a valorização da mulher e a conseqüente queda do patriarcalismo. Com o declínio
da ideologia patriarcal, os lugares estruturantes e fundantes dos sujeitos ficaram alterados,
147
gerando sérias conseqüências à formação das famílias atuais. Padrões de organização familiar
– ampliada, monoparental, homoparental −, bem como conceitos de masculino e feminino,
maternidade e paternidade estão sendo drástica e continuamente alterados na cultura atual.
A família, ou, ainda, as uniões entre casais, não está baseada no interesse ou na função
da procriação. E talvez nunca tenha estado. No entanto, na sociedade de hoje, ter filhos é, para
muitos, um ato de coragem, haja vista as inúmeras demandas profissionais e sociais de cada
um dos pares que compõe o casal.
Uma das mais relevantes conseqüências da queda desse modelo patriarcal é o
redimensionamento do masculino e da função paterna no novo contexto do pós-
patriarcalismo. Certamente, bastante diferentes das famílias vienenses do tempo de Freud são
as atuais configurações relacionais, ao tratarmos do tema família e das funções materna e
paterna.
Nosso intuito, entretanto, com este trabalho sempre foi o de buscar compreender
permanências e transformações, especialmente no que tange à função paterna, sob a
perspectiva psicanalítica, tão marcadamente diferenciada em seu construto teórico sobre o
tema. O interesse que norteou nosso investimento passa por reconhecer nessa nova
organização social o que persiste sobre os atributos paternos no funcionamento psíquico dos
sujeitos na sociedade atual.
Se for possível falar hoje de uma crise na paternidade, diante das novas representações
sociais da família, frente ao rompimento dos modelos e padrões tradicionais, como fica a
função básica, estruturadora e estruturante do filho como sujeito?
O corpo teórico freudiano, que institui as regras da discursividade analítica,
fornece método, dá régua e compasso, mas não poderia traçar todas as
figuras possíveis da atualidade. O pensamento de Freud constrói proposições
que visam explicar o funcionamento psíquico do homem em termos de
atributos universais, mas também abriga concepções valorativas, orientadas
pela realidade de seu mundo e de seu tempo (LOWENKRON, 2001, p.825).
148
Como depurar a idéia inicial de Freud, início do século XX, e a sua aplicação nesta
realidade social, imposta pelo avanço da engenharia genética, principalmente com a
descoberta do ADN ou DNA (ácido desoxirribonucléico), pelas mudanças do papel feminino,
decorrentes da inserção profissional da mulher, pelas novas formas tecnológicas a serviço da
procriação e, naturalmente, pelas diferentes formas de estabelecimento dos vínculos
parentais?
A família, como lugar social e simbólico, em que a diferença, principalmente a
diferença sexual, é assumida como base e, ao mesmo tempo, construída como tal, tem algo a
conservar como elemento estruturante, e talvez nesse aspecto tenhamos o que re-encontrar em
Freud.
Mesmo nos dias atuais, função materna e paterna continuam complementares e
estruturantes, indispensáveis ao desenvolvimento do ser humano, garantindo a condição de
constituir-se como ser em si e de relacionar-se com o outro e com o mundo. Ao tratarmos de
desenvolvimento humano, referimo-nos ao que lhe é mais específico – o funcionamento do
aparelho psíquico, a vida relacional, a sociabilidade e a cultura.
É preciso tomar em consideração que os estilos diferentes de viver e as novas
possibilidades de relacionamento do ser humano resultam de conquistas não somente
tecnológicas, mas de costumes e desejos que emergem de novas demandas pessoais e/ou
sociais. Tais demandas também impõem dilemas éticos, dilemas psíquicos decorrentes das
novas formas de o sujeito se colocar no mundo.
Numa reflexão pautada no viés psicanalítico sobre as novas figuras parentais e suas
perspectivas atuais, há que se levar em conta as formas de experienciar a maternidade e a
paternidade através da subjetividade do homem e da mulher de hoje. Por outro lado, cabe
também refletir sobre o impacto dessas novas formas na constituição psíquica dos filhos da
sociedade contemporânea.
149
A função paterna parece estar, assim como a maternidade, para além do vínculo
biológico de consangüinidade. A condição de pai ainda é um ato criador prototípico para um
homem, e, assim sendo, encerra uma forte vinculação com o divino e com o poder. Vale aqui
relembrar o que vastamente foi tratado no último capítulo: a autoridade deriva da função
paterna.
Em Totem e Tabu, todo o esforço freudiano aponta para o pai como responsável pela
interdição do incesto e ordenador da cultura e da moral na estrutura social. Essa autoridade
pode ser deslocada, simbolizada ou metaforizada através de diferentes representantes, embora
tenha a sua origem na experiência edipiana da relação com o pai.
Ao tornar-se pai, o homem faz contato com o seu potencial de criar e dar forma a uma
nova vida; reafirma o ato da criação; resgata, na experiência pessoal, algo que encerra uma
herança ontogenética; resgata algo de simbólico que, inconscientemente, reconhece e do qual
se apodera narcisicamente. No entanto, em razão das demandas assumidas pelas exigências de
seus novos papéis, o significado simbólico parece ter escapado para um lugar secundário.
Mesmo com o reconhecimento da importância do resgate do arquétipo do pai, ao
longo da história da humanidade assistimos, paradoxalmente, ao impulso criador masculino
afastar-se cada vez mais do contexto da família e da experiência da paternidade. Caso
desejemos ir um pouco adiante, perceberemos até mesmo um certo grau de afastamento ou
estranhamento do relacionamento mais profundo com a mulher.
O papel de pai torna-se, atualmente, uma metáfora de sua capacidade de criar e
concretizar coisas, construir engenhocas tecnológicas e continuar ocupando espaço nas
estruturas formais de poder. Todavia, seu papel na criação dos filhos parece esvaziado de
significação.
Segundo Colman e Colman (1988), é difícil transferir a rarefeita identificação com o
Criador abstrato para o aspecto corriqueiro de ser pai de um filho nos dias atuais. O papel de
150
pai pode ser muitas vezes entendido como um empecilho aos momentos da criação do homem
fora do espaço familiar.
A ausência da função paterna, ou, ainda, a ausência de sua autoridade, já se faz sentir
hoje, inclusive, como um fenômeno social alarmante. Psicólogos, sociólogos, enfim,
estudiosos do comportamento humano relacionam esse esvaziamento de autoridade ao
aumento da delinqüência infantil e juvenil, intensificada nas últimas décadas.
“Freud jamais ignorou o papel desempenhado pela tradição judaico-cristã na longa
história das perseguições físicas e morais infligidas durante séculos àqueles acusados de
transgredir as leis da família” (ROUDINESCO, 2002, p.183). Assim, como reconhecer e re-
significar as contribuições freudianas nesses novos arranjos, já que a transgressão passa pela
possibilidade de se ter transformado em comportamento social aceitável ou até banal?
Vários são os fenômenos atuais que remetem à investigação do significado simbólico
da paternidade e da função paterna na sociedade atual. Os casamentos homossexuais; os
novos arranjos familiares decorrentes dos re-casamentos, das novas alianças afetivas; a
paternidade assistida e as configurações da família ampliada exigem uma revisão e uma
investigação no espaço da psique humana.
Para Malpique (1998), caminhamos ao encontro de uma profunda crise de valores na
sociedade moderna, que é o mesmo que dizer: enfraquecimento da autoridade na família, da
desvalorização e da ausência do pai.
Há que se entender, nesta sociedade, permeada de novos comportamentos e símbolos,
para onde está se deslocando o significado simbólico do pai; que lugar o pai vem ocupar nesse
enredo alterado tanto no aspecto da natureza quanto no da cultura; como o homem e a mulher
de hoje representam e se afetam com a instituição necessária, imprescindível de autoridade
nas suas constituições subjetivas; como e para quem se submetem estando sujeitados pela lei
151
paterna. Por fim, como constituem e formulam suas relações de objeto, derivando os mais
autênticos sentimentos de ambivalência.
O que urge questionar é se o raciocínio freudiano da pulsão e seus destinos se mantém,
o que muda nos relacionamentos atuais. Arriscamos afirmar que, apesar de os destinos
poderem ser modificados, os efeitos reverberados no convívio social, a função de dar direção
ao desejo e delimitar seus espaços e objetos ainda continua sendo uma função do pai na
história do sujeito. Essa parece ser a permanência mais significativa cujo pensamento
freudiano pode oferecer à psicologia ou, quem sabe, à história do homem.
152
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MARCIA MARIA PIMENTA MATTOS

  • 1.
    UNIVERSIDADE CATÓLICA DOSALVADOR MESTRADO EM FAMÍLIA NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA MÁRCIA MARIA PIMENTA MATTOS FUNÇÕES PARENTAIS: A PROBLEMATIZAÇÃO FREUDIANA SOBRE DESEJO E DEVER Salvador 2005
  • 2.
    MÁRCIA MARIA PIMENTAMATTOS FUNÇÕES PARENTAIS: A PROBLEMATIZAÇÃO FREUDIANA SOBRE DESEJO E DEVER Dissertação apresentada à Universidade Católica do Salvador como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Família Contemporânea. Orientador: Prof. Dr. José Euclimar Xavier de Menezes. Salvador 2005
  • 3.
    Elaborado por: ValdeteSilva Andrade CRB-Ba.-05/941 M444 Mattos, Márcia Maria Pimenta Funções parentais: a problematização freudiana sobre desejo e dever / Márcia Maria Pimenta Mattos.– Salvador, 2005. 154f. Dissertação (Mestrado em Família na Sociedade Contemporânea) – Universidade Católica do Salvador, 2005. Orientador: Prof. Dr. José Euclimar Xavier Menezes 1. Psicanálise. 2. Função paterna. 3. Revisão epistemológica. I. Menezes, José Euclimar. II.Universidade Católica do Salvador. III. Título. CDU: 159.964.2
  • 4.
    UNIVERSIDADE CATÓLICA DOSALVADOR MESTRADO EM FAMÍLIA NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA MÁRCIA MARIA PIMENTA MATTOS FUNÇÕES PARENTAIS: A PROBLEMATIZAÇÃO FREUDIANA SOBRE DESEJO E DEVER Dissertação para obtenção do grau de Mestre em Família na Sociedade Contemporânea Salvador, 17 de outubro de 2005. Banca Examinadora: ______________________________________________________________________ Profa. DENISE MARIA BARRETO COUTINHO Doutora pela Universidade Federal da Bahia ______________________________________________________________________ Profa. ANAMÉLIA LINS E SILVA Doutora pela Universidade Federal da Bahia ______________________________________________________________________ Prof. JOSÉ EUCLIMAR DE MENEZES Orientador Doutor pela UNICAMP
  • 5.
    A meus pais,pela chance desta existência. Às minhas três filhas, pela oportunidade de experimentar o sabor e o saber da maternidade.
  • 6.
    AGRADECIMENTOS Ao Instituto JoãoPaulo II e à Universidade Católica de Salvador por viabilizarem o mestrado. Ao Bispo João Carlos Petrinni pela crença e determinação em transformar seu sonho, num sonho coletivo e realizável. Aos mestres e colegas pela transmissão do saber, pelo exercício da troca e da convivência amistosa. Ao amigo e confidente, fiel incentivador, crítico contumaz , porto seguro para as travessias turbulentas e para todos os ensaios de desistência. Sujeito de suposto e de verdadeiro saber. Interlocutor compulsivo e instigador. Meu orientador Prof. José Euclimar de Menezes. À doce Virgínia pelo seu acolhimento, pelo colo, ombro e por me fazer acreditar, mesmo nos momentos mais críticos, que era possível me tornar uma mulher e um ser humano melhor. Aos ex-companheiros que possibilitaram a constituição da minha família: a gratidão pela experiência de me fazer mãe e o despertar para o reconhecimento do lugar paterno. Muitos foram os que me permitiram chegar até aqui: família, amigos, colegas de trabalho, alunos, superiores hierárquicos. A todos aqueles que, de alguma forma, sempre conseguiram entender, respeitar e tornar-se cúmplice dos momentos de ausência, da minha reclusão, das oscilações de humor, fica a minha profunda gratidão.
  • 7.
    És para mimcomo alimento para a vida, como os aguaceiros de maio para a terra, e pelo teu amor me atormento tanto, como o avarento pena pelo ouro seu, que de possuí-lo ora exulta, mas logo teme que seus tesouros desapareçam com o tempo: e ora deseja estar unicamente junto de ti, ora que o mundo admire o meu prazer, saciado às vezes somente por ver-te, e logo esfomeado de seu olhar; e não existe alegria que eu tenha ou persiga, se de ti não espero ou não me sobra. Assim devoro e desfaleço, voraz, tudo aferrando e morrendo de fome. Shakespeare
  • 8.
    RESUMO Esta dissertação temcomo objetivo analisar o conceito de paternidade ou de função paterna, definido por Freud através do pensamento psicanalítico, com propósito de compreender o que sobrevive do entendimento desta função nos novos arranjos familiares identificados na sociedade contemporânea. O presente estudo pretende aprofundar-se, com o recurso metodológico da pesquisa epistemológica do texto freudiano, na formação da imago paterna e no seu papel ordenador da subjetividade e da humanização de cada sujeito, a partir da perspectiva das relações familiares. O interesse se amplia para além da identificação da diversidade de formas de participação do pai nas estruturas familiares. O que se quer compreender é o que subjaz da função paterna, modelada por Freud na estrutura familiar contemporânea. A família, presente nos mais diversos períodos históricos, constituída de diferentes formas, procura adequar-se às necessidades humanas de cada época. Diante deste conjunto de relações e de intersubjetividade demarcam-se obrigações para cada um de seus membros. As imagens e os modelos de comportamento masculino e feminino, fruto de elaborações culturais historicamente determinadas, devem ser reconhecidos como a base para as relações entre os sexos e entre as gerações no contexto familiar, definindo os papéis, a divisão de trabalho e as relações de poder e autoridade, e configurando, ainda, o conjunto de valores morais, crenças e normas de comportamento para o sujeito e para suas relações sociais. Estudar o pai ou o lugar que ele ocupa; é compreender a sua função no mundo contemporâneo. Esse empreendimento tem Freud como um referente poderoso e provocador, capaz de contribuir na compreensão dessa função ordenadora e fundamental, para a constituição de cada subjetividade. Palavras-Chave: Pai; função paterna; família; função da cultura; psicanálise; Freud.
  • 9.
    ABSTRACT The purpose ofthis dissertation is to analyse the concept of paternity or the concept of the fatherly function, defined by Freud, with the goal of understanding what survives form the knowledge of this function in the nem family arrangements found in contemporary society. It is intended to show an in-depth study using the methodology of epistemologic research of the freudian text, of the formation of the “father figure” and its ordely part in the subectivity and humanity of each person, under the perspective of family relationships. The interest goes beyong the identification of the diversity of ways of participation from the father in family structures, comprinsing Freud’s theorie. Present in the most diverse historical periods, shaped in different ways, society looks into adapting to the human needs of each era. In the face of this group of relations and intersubjectivity, the task for each member are set. The templates and models of masculine and feminime behaviour, a result of historically determined cultural elaborations, are recognized as the base for relationships between the genders and generations in the family context, defining their parts, the share of work, power and authority relations, and also laying the moral values, faith and norms of behaviour to the person and his/her social relations. To study the “father” or the place he occupies is the same as investigating the peculiar nature that describes his function in contemporary society. This entrepreneurship, has Freud as its provocator reference, being able to contribute in the understanding of this ordely and fundamental function to the formation of each subjectivity. Keywords: Father; paternity function; family; cultural function; psycoanalysis; Freud.
  • 10.
    SUMÁRIO INTRODUÇÃO 10 FREUD EA PATERNIDADE 13 A CONTEMPORANEIDADE E A FUNÇÃO PATERNA 18 1 A ORDENAÇÃO PSÍQUICA EM FREUD 21 1.1 A PRÉ-HISTÓRIA DA PSICANÁLISE: UM PAI AUSENTE 26 1.2 A SEXUALIDADE: CENTRALIDADE NA ORDENAÇÃO PSÍQUICA 38 1.3 OS CASOS CLÍNICOS: O APARECIMENTO DO PAI 51 2 O PRÓXIMO PASSO: FREUD E A NOÇÃO DE FANTASIA 67 2.1 FANTASIAS, TRAUMAS – O REAL E O IMAGINÁRIO SE CONFUNDEM E SE FUNDEM PARA COMPOR O SUJEITO 73 2.2 FANTASIA E DESEJO – O PAI NÃO MAIS AUSENTE 78 3 A TRIÂNGULAÇÃO DO DESEJO 90 3.1 A SEXUALIDADE INFANTIL: DA POLIMORFIA AO MUNDO DO OBJETO 98 3.2 ÉDIPO: O MITO DO HERÓI; O RECONHECIMENTO E O SÍMBOLO DA FUNÇÃO PATERNA 108 3.3 A METÁFORA E O TRIÂNGULO DESIDERATIVO 111 4 A FUNÇÃO ORDENADORA DO PAI 116 4.1 O TOTEM, A HORDA E A ORDENAÇÃO SOCIAL 119 4.2 DO TOTEM AO PAI 124 4.3 O PAI, O SUJEITO DE DESEJO E A ORGANIZAÇÃO FAMILIAR 133 CONCLUSÃO 146 REFERÊNCIAS 152
  • 11.
    10 INTRODUÇÃO As mudanças quevêm ocorrendo no contexto social desde o final do século XX e que iniciam este novo século não constituem fenômenos isolados; formam-se como um conjunto de transformações socioeconômicas, políticas e tecnológicas complexas que se realizam em ritmo acelerado, nas últimas décadas, cujos resultados demoraremos de conhecer e mensurar. (GIDDENS, 2000).1 O estudo das diversas formas familiares constitui uma passagem importante para a compreensão do modo como a sociedade ou um grupo social organiza sua vida cotidiana, organiza-se sob o ponto de vista material, e como atribuem significados à sua existência no mundo, à sua colocação no tempo, no espaço e nas relações sociais, afetivas e sexuais. Particularmente inquietantes são as transformações que atingem as relações afetivas, a sexualidade, o parentesco, a filiação, a maternidade e a paternidade, não somente porque nos afetam mais diretamente, como também porque reordenam a identidade social, construção necessária para dar consistência à subjetividade. Fala-se em polimorfismos das instituições sociais, dos sistemas de crenças e valores, do trabalho, dos relacionamentos e do modo como nos representamos. No entanto, uma maior atenção deve estar direcionada às mudanças nas relações familiares, segundo Lowenkron (2001). Para Ariès (1981), esse momento cultural tão propício à valorização da individualidade humana favorece também o desenvolvimento do sentimento de família e do sentimento de infância. Segundo o autor, esse é um momento de reconhecimento das particularidades da infância, da importância do afeto e do interesse psicológico pela criança. 1 Giddens afirma que estamos sendo impelidos rumo a uma nova ordem global que ninguém compreende plenamente e cujos efeitos se fazem sentir sobre todos.
  • 12.
    11 Donati (2003) afirmaque nunca a convivência entre gênero e gerações foi simples. A história é a representação de tensões entre gerações, ainda que a família moderna seja palco de conflitos ainda mais significativos. Na superfície, o problema manifesta-se num agravamento das dificuldades de comunicação e de identidade de papéis de genitores e de filhos, de identidade de gêneros e de questões de convivência com outras gerações. Entretanto, mais do que essa análise empírica, o mal-estar da família, segundo o autor, remete-se ao fato privado – psicológico – e ao fato público – cultural e social, enquanto é produzido pela falta ou de limites, ou de falhas na fronteira que definam distâncias, passagens e solidariedade entre as gerações. Talvez o que deseja pontuar trate do sério esvaziamento de funções e de identidade entre os atores que constituem a trama familiar. Eis aqui o eixo que nos permite interrogar sobre a interseção entre o fato privado e o público. Não seria exatamente a queda de fronteiras, o esvaziamento de sentidos entre o sujeito e suas relações, entre a dimensão pessoal e a ordenação social que nos remeteria à moda de justificação, ao pensamento freudiano, para nele reencontrar esse entrelaçamento? É sobre essa formação de imagos, em especial sobre a imago paterna, que o presente estudo pretende aprofundar-se, a partir do recurso metodológico da pesquisa epistemológica do pensamento freudiano. A escolha feita em relação ao pensamento freudiano pode ser justificada em razão das contribuições trazidas pela psicanálise e, em especial, pelo reconhecimento, por parte de Freud, desde os últimos anos do século XIX, de que os produtos da psique humana, ou melhor, produtos da imaginação típicos das crianças de tenra idade são frutos da tensão de impulsos inatos e experiências infantis vividas no ambiente da família, na relação inicial da criança com a dupla parental. É fato óbvio que os cuidados maternos e a convivência com adultos sempre foram tomados como referência sobre o comportamento infantil e reconhecidos como verdades
  • 13.
    12 antigas, ainda que,até a contemporaneidade, poucos tenham investido no tema com o propósito da investigação científica. O trabalho freudiano, em sua particular forma de produção de conhecimento, é, todavia, abundante em oferecer pistas e referências sobre a importância das experiências infantis oriundas do enredo familiar, decorrentes da relação da criança com seus pais, como determinantes do comportamento do sujeito adulto, seja na vida privada ou social. Talvez nenhum outro campo do pensamento contemporâneo denote a influência de Freud com mais clareza que o da assistência à infância. [...] Freud não somente insistiu sobre o fato óbvio de que as raízes de nossa vida emocional residem na primeira infância e na infância propriamente dita, como também procurou explorar de maneira sistemática a ligação existente entre os acontecimentos dos primeiros anos e a estrutura e a função da personalidade posterior (BOWLBY apud SUTHERLAND,1973, p.35).
  • 14.
    13 FREUD E APATERNIDADE O foco de interesse deste trabalho reside na reavaliação da função paterna, definido por Freud através do pensamento psicanalítico, com o propósito de compreender o que sobrevive do entendimento desta função nos novos arranjos familiares identificados na sociedade contemporânea. O interesse estende-se para além da identificação da diversidade de formas de participação do pai nas estruturas familiares. O que se quer compreender mais amiúde é o que permanece da função paterna dentro do arranjo familiar, típico da sociedade dos nossos dias. A intenção é resgatar, por meio da contribuição freudiana, conceitos que ajudem compreender a função paterna e o destino atribuído ao pai. Ler a obra freudiana com vistas ao entendimento da família e sua ordenação e, em particular, recortar no seu bojo o papel da função paterna, considerada a originalidade oferecida pela Psicanálise, no que diz respeito ao enredo edipiano, mostra-se uma tarefa desafiadora, pela sua abrangência e complexidade, já que o tema tem caráter de centralidade e perpassa toda a sua produção. O desafio maior e mais relevante é, antes de tudo, o de penetrar na própria obra de Freud, seguir o caminho privilegiado de um saber, com suas regras de funcionamento e referentes específicos, que operam na constituição e na produção desse saber singular – o saber psicanalítico sobre o sujeito e suas relações de desejo.2 O viés do olhar sobre o enredo familiar e sobre a função paterna no conjunto da obra freudiana não se mostra uma tarefa fácil. A ordenação epistemológica em Freud tem por 2 Ao se referir à obra de Freud Paul-Laurent Assoun, 1983, destaca o ineditismo freudiano de constituição do saber, considerando o quanto este modelo transborda, consideravelmente, os modelos vigentes para o pensamento científico. Reconhece, entretanto, a psicanálise como um modelo de saber e a epistemologia freudiana como a forma de investigação sobre as condições desse saber psicanalítico. A originalidade da obra freudiana está na forma como subverte a linguagem do seu tempo, preservando sua episteme tanto na forma quanto no conteúdo.
  • 15.
    14 objetivo permitir umcaminho mais seguro no resgate de categorias importantes relacionadas ao nosso atual interesse. Assim, delimitaremos este trabalho à análise de textos que permitam objetivar a construção do nosso propósito: o contorno simbólico auferido ao pai, na base da organização social, da cultura e da família. No primeiro capítulo recortamos as contribuições dos textos pré-psicanalíticos, no intuito de proceder a uma arqueologia do pensamento de Freud na passagem do modelo fisiológico ao modelo metapsicológico, em que surgem conceitos teóricos importantes sobre a clínica e terapêutica dos pacientes histéricos, base para a formulação da estrutura desejante do sujeito, território no qual garimpamos a presença da função paterna. Iniciar nossa investigação pela influência do pensamento freudiano do final do século XIX pode-se justificar pela efervescência da atmosfera cultural européia, o movimento intelectual que acometia artistas, filósofos e pesquisadores de todas as áreas. No que tange à saúde ou às doenças mentais e emocionais e do interesse sobre o comportamento sexual, os valores e as inquietações intelectuais, vários foram os nomes de expressão com os quais Freud conviveu: Charcot, Kafft-Ebing, Meynert, Breuer e Fraser são apenas algumas dessas muitas referências. A Viena de Freud, o ambiente do qual herdou influência cultural mais direta, foi palco de inspiração para o afloramento de muitas idéias originais sobre a vida pública e privada do homem comum desse período. Viena no fin-de-siècle, sentindo profundamente os abalos da desintegração social e política, revelou-se um dos terrenos mais férteis para a cultura a- histórica do nosso século. Seus grandes inovadores intelectuais – na música e na filosofia, na economia e arquitetura e, evidentemente, na psicanálise – romperam, todos eles, e de modo mais ou menos deliberado, seus laços com a perspectiva histórica essencial para a cultura liberal novecentista em que foram gerados. (SCHORSKE, 1990, p. 14.)
  • 16.
    15 O interesse particularpela observação clínica de pacientes neuróticos aliado à mescla das influências culturais e científicas que envolveram a formação do jovem médico judeu contribuíram para a precoce construção de sua peculiar abordagem, tanto no que tange aos métodos, quanto na compreensão dos fenômenos psíquicos dos sujeitos normais ou neuróticos. O traço de originalidade do pensamento freudiano pode ser identificado desde os seus primeiros ensaios. Nos textos tomados como referência, tanto Projeto para Uma Psicologia Científica (1895), quanto Estudos sobre Histeria (1893-95), Freud demarca as bases para a compreensão do funcionamento psíquico dos sujeitos normais e dos neuróticos. Noções sobre o Princípio da Inércia, o Princípio de Constância, quantum de energia circulante, bem como as funções da memória, da alucinação, do pensamento e um esboço original de comunicação do bebê com o adulto, são elementos essenciais para o entendimento do processo de individuação do sujeito. O segundo capítulo trata da passagem conceitual da Teoria da Sedução, base de sustentação da noção freudiana, construída a partir das primeiras observações clínicas sobre o trauma histérico, para a teoria das fantasias originárias, como referência freudiana quanto à participação da sexualidade infantil na etiologia das doenças psíquicas, em especial a histeria. O trabalho com a clínica da histeria permitiu a Freud um embate com as experiências primordiais do relacionamento entre a criança e os adultos que dela cuidam – seus pais. A idéia inicial de a histeria ser fruto de uma experiência traumática de sedução encaminha uma pesquisa cuidadosa sobre a realidade factual e a realidade psíquica dessas pacientes. Entre uma vivência real de sedução e, na essência, uma cena imaginária de sedução (o desejo de seduzir), a histérica circula oferecendo um material inconsciente fundamental para a compreensão do mecanismo de construção de seus sintomas.
  • 17.
    16 O percurso freudianojunto a essas pacientes delineou o papel das primeiras experiências do sujeito com as figuras parentais, definindo, para a psicanálise, uma linha divisória para uma nova compreensão da psique humana. Tais experiências primevas, suas marcas e desdobramentos futuros na vida adulta configuram, na visão psicanalítica, a base da formação do sujeito de desejo. No capítulo terceiro nossa proposta é demonstrar a triangulação do desejo, constituída pelo pensamento freudiano, a partir da noção de sexualidade infantil e do Complexo de Édipo, tendo como obra de referência Três Ensaios sobre a Sexualidade, de 1905. Esta se mostra fundamental para a pesquisa do complexo familiar e relacional dos sujeitos, elemento que converge para a função paterna, fulcro de nosso interesse. O complexo edipiano salientado na singularidade da letra freudiana é a base para a diferenciação do sujeito, enquanto um ser de desejo, capaz de se relacionar com outro sujeito, com um outro, objeto de seu desejo. O sujeito tencionado entre dois objetos de amor e ódio: o pai e a mãe estrutura-se nesse emaranhado complexo de relações e compõe sua formação psíquico-familiar. Édipo representa, portanto, o jogo de relações que ocorre no interior da família, que move cada um dos seus componentes. Desse modo, falar de Édipo é falar de sua mãe, da relação que os caracteriza, dos desejos nutridos, das tensões que neste entrelaçamento vivem os humanos. Igualmente é falar do pai, do envolvimento necessário com esta figura, representante de uma função tão importante no Ocidente: proibição e prescrição, papel atribuído no ápice da civilização à lei. Logo, qualquer que seja a porta de entrada para a análise deste Mito transformado em Complexo mergulhamos, de chofre, no drama familiar que nos caracteriza enquantosujeitos que representamos e afetados por emoções. Em outros termos, a estrutura psíquica tem o molde da estrutura familiar no pensamento freudiano. (MENEZES, 2002, p.166). Freud procurou demarcar o eixo que vincula a experiência da vida real ou imaginada (fantasmática) com a constituição psíquica de cada ser em especial, relacionando
  • 18.
    17 acontecimentos e relacionamentostravados muito cedo, mas significativos para a constituição da sua estrutura psíquica. Seja em seus primeiros escritos sobre as observações clínicas de pacientes, seja ao postular o inconsciente ou, mais adiante, ao formular sua metáfora sobre o Complexo de Édipo, Freud sempre ressaltou na relação mãe-filho-pai a matriz básica para pensar a constituição da subjetividade, como demonstrar-se-á na leitura das obras indicadas. O quarto e último capítulo aponta um novo momento de transição e de diferenciação do pensamento freudiano. Já em 1913, Freud sustenta, a partir de diversas fontes de pesquisas antropológicas e evolucionistas, a idéia de que a espécie humana arrasta informações filogenéticas, permeadas pelo contexto cultural. Nessa perspectiva, portanto, tais informações estão carregadas de significados, referidos a certas imagos, especialmente paterna, materna e fraterna. A obra Totem e Tabu, datada desse período, parte para a defesa do mito da horda primitiva – como mito ordenador na família –, da ordem social e da cultura. O nome do pai, fonte de toda legalidade, foi transmitido ao longo dos tempos, com as variáveis históricas, de acordo com a constituição de sujeito fomentada por cada sociedade. O material apresentado em Totem e Tabu inscreve de forma definitiva o passo que a psicanálise propõe no entendimento da relação natureza e cultura, inscrita na estruturação desiderativa que define o homem como um sujeito de desejo, distanciando-o definitivamente da perspectiva biológica que caracteriza o instinto animal. É neste último capítulo que a figura do pai ganha sua efetiva posição simbólica na constituição de limite e ordenação do desejo do sujeito e de sua inserção no mundo das relações sociais. A função paterna, na perspectiva psicanalítica, constitui-se como terceiro elemento a atuar na trama familiar para possibilitar, pela interdição da díade mãe-filho, uma nova direção do desejo do filho, além de oferecer as condições necessárias para interesses e investimentos em outros elementos da cultura.
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    18 A CONTEMPORANEIDADE EA FUNÇÃO PATERNA Quaisquer que sejam as contestações a Freud, e elas são muitas, psicanalistas, psiquiatras e psicólogos nunca abandonaram algumas de suas proposições, aceitas como evidentes. Dentre elas está aquela que sustenta que nos primeiros meses e anos de vida o comportamento do adulto em relação à criança é fundamental para definir um futuro saudável ou não para ela. Muitos foram os teóricos contemporâneos que reconheceram a contribuição psicanalítica sobre o tema (BOWLBY; WINNICOTT; MONEY-KYRLE apud SUTHERLAND, 1973; FOUCAULT, 2001). Claude Lévi-Strauss salienta, em 1956, que a vida familiar apresenta-se em praticamente todas as sociedades humanas, mesmo naquelas cujos hábitos sexuais e educativos são muito distintos dos nossos. Sua contribuição reafirma o fenômeno da universalidade da família, como foi postulado desde sempre pela teoria psicanalítica. Nessa perspectiva, a constatação da universalidade aponta para duas outras condições importantes para o processo de humanização: a) a família é o lugar que humaniza e socializa o sujeito – lugar de limite e borda para o indivíduo –, além de ser também o lugar de inserção social; b) cada família provém do que Roudinesco (2002) chamou de “estilhaçamento” de outras duas famílias. Para a autora, a família é o lugar de alianças e parentescos (trocas), como postulado pelo mito constituído por Freud em Totem e Tabu. Salienta a autora que a proibição do incesto é tão necessária à criação de uma família quanto a união de um macho com uma fêmea. Tal proibição é um fato da cultura, sob a perspectiva freudiana, e, como tal, oferece à instituição família um papel duplamente universal – relaciona um fato da cultura, construído pela sociedade, a um fato da natureza, inscrito nas leis de reprodução biológica. Assim, a existência dessas duas ordens no bojo da família permite aos seus elementos uma fonte inesgotável de experiências humanas.
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    19 Nenhum outro campodo pensamento contemporâneo sofreu tanta influência da obra freudiana quanto os temas que envolvem família e infância. O interesse pela psique humana o fez enveredar de forma arqueológica, como muitas vezes ele mesmo descreveu, pelo cerne da trama familiar e pelas experiências muito tenras da primeira infância. Psicanalistas de escolas dissidentes concordam com a importância vital de uma relação estável e permanente do desejo de uma mãe para com seu filho durante os primeiros anos de sua infância. Avançando para além do desejo e cuidados amorosos de uma mãe protetora, a criança precisa estar submetida também à presença e à interdição desejante de um terceiro elemento, entre ela e sua mãe, elemento este importante na ordem da família: o pai, ou o seu substituto, constituído, assim, a tríade familiar. Essa relação triangular básica terá a força de definir o destino psicológico saudável ou não de qualquer criança. Todavia, em relação a outras questões da parentalidade, observam-se opiniões e visões distintas, talvez em decorrência da relativa novidade e complexidade que o assunto impõe. Seria de surpreender se assim não o fosse. Dentre os opositores freudianos encontramos a proposta fenomenológica do alemão Hellinger (1998), que, ao se contrapor ao pensamento psicanalítico, defende a necessidade de se visualizar o fenômeno da família não pelos processos inconscientes que subjazem aos seus representantes – pais, filhos e outras gerações –, mas examinando o fenômeno relacional per si, os sentimentos e comportamentos reais e as associações sistêmicas de uns com outros na cena familiar. Ademais, não postula causalidade, muito menos uma inscrição psíquica primeva, contudo postula uma associação sistêmica relacional, considerando que esta forma de compreensão da trama familiar requer uma outra forma de abstração diferente da teoria psicanalítica. O trabalho de Freud, entretanto, ao voltar-se para a vida afetiva e emocional das crianças, adianta uma hipótese ousada: a que nos primeiros anos é a regra e não a exceção que
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    20 determina relações significativasentre pais e filhos, relações estas que definem o destino da vida afetiva do sujeito adulto (WINNICOTT apud SUTHERLAND,1973). É sobre sua contribuição que dedicaremos toda atenção. A proposta psicanalítica, ao tratar as necessidades da criança em tenra idade, no que tange ao amor, à segurança e aos cuidados higiênicos básicos, entende que tais necessidades ou exigências clamam por uma urgência de atendimento e de envolvimento com o outro que escapa ao limite das demandas fisiológicas. Negá-las corresponderia a gerar poderosas forças provocadoras de distanciamento e estranhamento entre os pais e seus filhos. No texto freudiano, através do parricídio original e do mito de Édipo, elementos centrais do conceito da função paterna e de todo o jogo psíquico que estrutura a triangulação familiar na perspectiva psicanalítica, buscar-se-á compreender como Freud entendeu o complexo representacional como o mais expoente do psiquismo humano, seja na posição de pai simbólico (lugar da lei), seja na de pai biológico (pai da reprodução) ou na de pai imaginário (pai da autoridade). A família é contexto para que ocorram todas as experiências primordiais que constituirão o sujeito de desejo; também é no seu cerne que a descoberta infantil da diferença sexual se configura. Nela forma-se o princípio organizativo social, e, mais ainda, a estrutura de rede simbólica que organiza não somente as relações sociais, mas, principalmente, os destinos individuais. É na família que o fato de se pertencer a um determinado sexo se transforma em destino pessoal e social, implícita ou explicitamente, regulamentado e hierarquizado por valores, poder e responsabilidades. É curioso constatar que justamente no momento em que a sociedade se defronta com questões relativas a identidade de papéis, limites, conflitos de gêneros e gerações e transformações das funções parentais sejamos remetidos a pensar, ou melhor, a repensar nas figuras parentais e na sua importância sobre o cenário das relações atuais.
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    21 1 A ORDENAÇÃOPSÍQUICA EM FREUD Por onde vens, passado, pelo vivido ou pelo sonhado? Que parte de ti me pertence, a que se lembra ou a que se esquece? Manuel Antônio Pina, 1943 Qualquer que seja o objeto de pesquisa a partir das idéias de Freud, merecerá sempre uma análise criteriosa por parte do pesquisador, para que contemple, no pensamento freudiano, a inclusão de categorias relevantes que vão se estruturando ao longo da construção de sua obra. A questão da ordenação psíquica do sujeito e nosso particular interesse sobre a função paterna como elemento ordenador da psique e das relações afetivas exigiu uma leitura cuidadosa da obra freudiana. O objetivo desta dissertação é compreender o papel da função paterna na organização do psiquismo humano, função simbólica considerada por Dor como “epicentro crucial na estruturação psíquica” (1991, p. 9). Para tanto, ressalta o caráter de operador simbólico do pai em Freud, destacando o que na Psicanálise existe de mais significativo em relação ao pai, ou à função paterna; seu caráter bem mais transcendente que de um pai real ou biológico. Assim, a Psicanálise, e originalmente Freud, como veremos neste trabalho, tem o desafio de nos apresentar, ainda no final do século XIX e início do XX, as novas funções e relações entre paternidade e filiação. Nesse sentido, por pouco que tenhamos, entretanto, que considerá-lo como um ser, trata-se menos de um ser encarnado, do que de uma entidade essencialmente simbólica que ordena uma função. Devido à premência desse modo de existência simbólica, tal é então o seu caráter fundamentalmente operante e estruturante para cada um, isto é, qualquer que seja o sexo daquele que a ele se acha referido. Em outras palavras, é porque esse pai simbólico é universal – daí a essência de sua necessidade – que nós não podemos deixar de ser tocados pela incidência de sua função, que estrutura nosso ordenamento na qualidade de sujeitos. (DOR, 1991, p.14).
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    22 Com Dor identificamosa qualidade simbólica do pai, de valor diferenciado, nascido originalmente na letra freudiana. Ao pai atribui-se mais do que uma participação biológica, uma outra função de caráter simbólico, significativamente mais operante, que é o seu papel de agente ordenador do desejo. O sujeito de desejo é aquele que, transcendendo as tarefas e exigências de sobrevivência, é capaz de constituir-se reconhecendo outras interpelações que lhe são exigidas, além dos cuidados naturais de sua espécie, organizando-se como pessoa através das relações familiares e sociais. Dessa forma, entender o lugar de referência da função do pai é, sem complacência, uma tarefa necessária e oportuna para a compreensão da inserção do sujeito na vida social, na vida de relações e na cultura. No entanto, reconstruir os caminhos que organizaram os alicerces freudianos para o reconhecimento da função paterna é tarefa que exige a atenção de um arqueólogo ou um garimpeiro, já que o tema do pai e os fundamentos teóricos para o entendimento da ordenação da psique perpassam todo o seu trabalho de construção da própria Psicanálise. A ênfase deste capítulo limitar-se-á aos escritos pré-psicanalíticos, considerando os aspectos relevantes para o nosso objetivo. O primeiro deles é aquele que diz respeito à importância que possui na construção das condições básicas para a gênese da estrutura triangular edipiana. Ao ler Projeto para uma Psicologia Científica,3 de 1895, e Estudos sobre Histeria de 18964 , encontramos Freud diante de uma tensão para compreender o funcionamento psíquico, não apenas daqueles pacientes com distúrbios psicológicos, mas também quando busca entender o funcionamento da psique do sujeito dito normal. Acreditava, desde então, na 3 Citado doravante como Projeto... 4 Citado doravante como Estudos...
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    23 existência de fenômenosuniversais presentes na estrutura dos sujeitos tanto normais quanto daqueles com distúrbios psíquicos. Um dos fatos mais importantes é o de que os processos primários , semelhantes aos que foram gradativamente suprimidos pela pressão biológica no curso da evolução de , se apresentam diariamente a nós durante o sono. Um segundo fato de idêntica importância é o de que os mecanismos patológicos, revelados pela análise mais cuidadosa nas psiconeuroses, guardam a maior analogia com os processos oníricos. (FREUD, 1977, p.443). Tomado de interesse pelos fenômenos da histeria, Freud transita, nesta fase, na fronteira entre o físico e o psíquico, inscrevendo um hiato entre a forma científica vigente de concepção dos fenômenos psíquicos e a sua observação clínica dos sintomas. Noções como processos primários, processos secundários e repressão já se encontram presentes no discurso freudiano. A noção de uma estrutura psíquica, com diferentes instâncias ou formas distintas de registros psíquicos, tanto dos estímulos internos quanto dos externos, também já constitui a visão freudiana deste período. Uma estrutura metapsicológica para ancorar o desejo encontra sua defesa desde esse momento do pensamento freudiano: Se ao lembrar um sonho interrogamos a consciência quanto ao seu conteúdo, verificamos que o significado dos sonhos como realizações de desejo se acha encoberto por uma série de processos , todos os quais voltaremos a encontrar nas neuroses, sendo ali característicos da índole patológica desses transtornos. (FREUD, 1977, p.449). Estudiosos e comentadores da Psicanálise sustentam que Freud, ao escrever Projeto..., já teria formulado vários dos elementos básicos da teoria psicanalítica. Alguns autores chegam a postular que muitas das teses que escreveu numa de suas obras de maior relevância,
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    24 A Interpretação dosSonhos, já estariam sinalizadas em Projeto.... Esta obra é um sofisticado modelo de neuropsicologia, no qual estão assentados os fundamentos da sua metapsicologia. Em segundo lugar o fato de o Projeto... ser um escrito ostensivamente neurológico levou muitos autores a articularem duas idéias importantes que, se comprovadas, fariam com que a apreciação da teoria psicanalítica fosse drasticamente reavaliada:1.º) que a metapsicologia freudiana posterior, a partir de 1900, estava assentada nessa neurofisiologia do Projeto... Embora isso fosse por Freud de maneira implícita, o que teria originado um bom número de confusões; 2.º) com base no Projeto... poder-se-ia também abandonar a idéia de que a Psicanálise não era uma disciplina sujeita a verificação experimental, já que esses modelos neurofisiológicos poderiam ser testados. (MONZANNI, 1989. p. 75-76). Segundo Monzanni (1989), Projeto... foi o ápice para Freud fundamentar, através da neuroanatomia e da neurofisiologia, a disciplina que estava alicerçando já há algum tempo. Ele considera esse um momento privilegiado do pensamento freudiano, inaugurando a perspectiva do surgimento de sua metapsicologia. Os trabalhos de pesquisa e todo o esforço de resgatar uma visão científica de fenômenos clínicos fizeram de Projeto... um complexo tratado de neuropsicologia, e, mais que isso, as teorias vigentes até hoje nesse terreno sinalizam o delicado dualismo entre o físico e o psíquico, posição que jamais foi abandonada nem por ele. É na letra de Gay (1995) que encontramos a confirmação do movimento de descoberta freudiana. Para este autor, a pesquisa freudiana desse período leva ao encontro não de uma psicologia para neurologistas, mas sim, de um tratado psicológico para psicólogos. Muito mais do que explorar os substratos fisiológicos e biológicos da mente, Freud explorava os domínios do inconsciente e suas manifestações no pensamento e na ação, debatendo-se diante de uma psicologia científica que tente explicar a vida mental complexa, que inclua processos como memória, percepção, alucinação, pensamento e satisfação pelo relaxamento após a descarga de estímulos desestabilizadores.
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    25 O modelo freudianodessa época, sob muitos pontos de vista, resiste ao tempo e às novas descobertas. Contudo, o mais relevante é que, neste período de investigação, o interesse de Freud pela clínica, em especial o interesse pela origem dos sintomas de seus pacientes, tornou-se a força propulsora para seguir mais adiante na descrição neurológica dos fenômenos psíquicos. Para Gabbi Jr.(1985), em Projeto...Freud tem como objetivo explícito representar processos psíquicos como estados quantitativamente determinados de partículas materiais. Tais processos são fundamentados nos conceitos de quantidade e neurônios, e têm duas funções a realizar: a de descarga de quantidades e a de conservar os caminhos da descarga. O conceito de quantidade é definido como uma diferença entre atividade e repouso e o de neurônio como uma partícula material capaz de conter uma certa quantidade. A quantidade é governada por um princípio, o da inércia neuronal, segundo o qual os neurônios tendem a descarregar a quantidade. O aparelho psíquico assim concebido é insatisfatório para dar conta de sistemas que, além de sofrerem estimulação externa, estão sujeitos às exigências da vida: respiração, fome e sexo. Os estímulos endógenos, diferentemente dos externos, que atuam por impacto, vão se acrescentando, e só quando o organismo produz uma ação específica sobre o mundo externo há uma interrupção provisória no processo de acréscimo. Para realizar a ação específica, é preciso que o parelho suporte uma certa quantidade no seu interior. (GABBI JR, 1985, p.5). O reconhecimento da necessidade de um aparato psíquico mais complexo, organizado não apenas sobre o princípio da inércia (descarga pelo acúmulo de quantidade), mais agora também regido pelo princípio da constância, segundo o qual o organismo tende a manter no seu interior a quantidade constante, conduz a teoria freudiana do aparelho psíquico a uma compreensão muito mais psicológica do que neuronal, demarcando, a partir deste momento, uma linha divisória com a neuropatologia vigente nas sociedades de língua alemã de sua época. A contribuição mais completa das descobertas de um aparelho psíquico, capaz de incluir funções mentais mais elaboradas, de dar conta da relação com os estímulos endógenos
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    26 e os estímulosexternos - estímulos que remetem o sujeito a sua relação com um outro no acolhimento de sua ação específica, se tornaram a base para a construção que aqui desejamos focar: as relações parentais. 1.1 A PRÉ-HISTÓRIA DA PSICANÁLISE: UM PAI AUSENTE O retorno a Projeto..., ainda que considerado uma obra inacabada pelo seu próprio autor, justifica-se pela grande contribuição do texto para a construção de conceitos psicanalíticos posteriores. Para Strachey (1977), Projeto..., ou melhor, seu espírito invisível, paira sobre toda a série de obras teóricas de Freud, do início ao fim. O trabalho exaustivo de observação sobre as neuroses e o rastreamento neuropsicológico de o Projeto... renderam frutos muito produtivos para a teoria psicanalítica, embora o próprio Freud não tivesse desfrutado com entusiasmo de suas recentes descobertas. As noções de inconsciente e de recalque, desejo e sexualidade infantil só ganhariam futuramente lugar de significação na estrutura do pensamento freudiano a partir dos achados dessa obra. Em carta a Fliess, de maio de 1895 (carta 24), Freud expressa exaustivamente seu processo de trabalho com o texto: [...] Há algum tempo me sentia atraído, de longe, por ela. Só agora,depois que me deparei com as neuroses, se tornou mais próxima. Vivo atormentado por duas idéias: descobrir que forma terá a teoria do funcionamento psíquico se nela se aplicar um método de abordagem quantitativo, uma espécie de economia da força nervosa, e, segundo lugar, extrair da psicopatologia tudo que puder ser útil à psicologia normal. Seria, de fato, impossível conceber uma noção geral satisfatória dos distúrbios neuropsicológicos, a não ser que se pudesse relacioná-los a pressupostos bem definidos sobre os processos psíquicos normais. Venho dedicando todos os meus minutos livres dessas últimas semanas a esse trabalho; passo as noites, das onze até as duas horas da madrugada, a imaginar, comparar e adivinhar coisas desse gênero; e só desisto quando chego a uma conclusão absurda ou fico tão
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    27 irremediavelmente exausto queperco o interesse pela minha atividade médica cotidiana. Mas é cedo demais para apresentar quaisquer resultados. (FREUD, 1977, p. 390). Esse documento neurológico complexo contém em si os prenúncios de elementos que contribuirão significativamente para as teorias psicológicas desenvolvidas pelo próprio Freud com relação ao núcleo familiar básico: o complexo de Édipo. Ainda muito influenciado pelo pensamento positivista e pelas exigências da época, de se fazer uma psicologia nos moldes das ciências naturais, Freud apóia-se em um modelo biofísico, aparentemente pouco flexível para suas considerações futuras sobre o psiquismo. A tarefa de determinar quantitativamente o funcionamento da economia psíquica, a partir dos estímulos oriundos do meio e dos instintos, torna a abordagem uma quase versão neurológica acerca do funcionamento do sistema nervoso. No entanto, sua descrição dos fenômenos mentais transcendeu, de forma evidente, as explicações neurofisiológicas. Desta maneira, pode-se dizer que Projeto... rompe com o reducionismo fisiológico dos fenômenos clínicos e com a forma de fazer ciência da época. Para Monzanni (1989), deve-se a Freud a primeira somatomorfologia intrínseca da experiência vivida que repousa na observação e construção naturista. Da arquitetura teórica exibida por esse período, surge o aparelho psíquico edificado sobre o corpo. Noções sobre a consciência, a descrição sobre fenômenos psíquicos inconscientes, o interesse pelo mecanismo psíquico de defesa, de deslocamento, o interesse sobre a presença e a participação da sexualidade na relação com as neuroses são extratos significativos, recolhidos no âmago desse trabalho, de 1895. Todos esses conceitos serão devidamente resgatados ao longo da teoria freudiana, fazendo deste conjunto, e de tantos outros conceitos, a constelação de idéias sobre a ordenação psíquica do sujeito, na perspectiva psicanalítica.
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    28 Os casos clínicosanalisados nessa época apontam para a presença de relações carregadas de catexia, em geral, com as figuras masculinas, o que levanta, em Freud, a suspeita futura de que o pai, ainda que travestido por um tio, cunhado ou outra figura representativa no complexo dos sintomas histéricos, poderia estar na essência do desejo dessas pacientes. Para o nosso objetivo, esse núcleo de idéias freudianas será fundamental, já que é nele que encontramos o esboço, as primeiras observações sobre temas importantes; a saber: a) a gênese do triângulo, instigada inicialmente pelo vértice filho-mãe, ou melhor, criança faminta/desejante – mãe/objeto de satisfação (alucinado ou real, de saciação do desejo); b) a clínica como espaço de compreensão de um enredo que se desenvolverá em todos os humanos – a construção da definição do sujeito desejante; c) o conteúdo sexual na centralidade do funcionamento do psíquico, tanto dos normais quanto dos neuróticos; d) a não referência à figura paterna na origem do desejo e do ego, melhor dizendo, uma presença ainda não revelada. É nesse momento de sua produção teórica, que Freud descreve o funcionamento da estrutura psíquica, e o faz a partir de dois pressupostos fundamentais: o da existência de uma arquitetura psíquica e o da idéia de uma quantidade de excitação que estabelece, nesta estrutura, os estados de movimento e repouso. Destaca, ainda, a tendência do funcionamento psíquico sendo regida por processos primários e processos secundários. Tais processos, segundo ele, são complementares e de finalidades distintas para o funcionamento psíquico. Mas o que seriam, de fato, esses processos? Partindo do pressuposto de uma quantidade em fluxo no aparelho psíquico primitivo, que responderia inicialmente ao que chamou de Princípio de Inércia, cujo destino será a descarga sempre que a quantidade deste fluxo se torne perturbadora do estado de repouso, Freud tem o intuito de descrever a função primária do aparato anímico. O funcionamento do
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    29 processo é iniciadona célula nervosa, o neurônio, por onde chegam os estímulos, e segue seu fluxo, para escoar com uma ação motora. O funcionamento primário do psiquismo tem, portanto, a direção da energia psíquica partindo do sistema sensorial para o sistema motor. Esse funcionamento básico, elementar e simples, no entanto, não garante a vida do sujeito, uma vez que não responde às exigências vitais; quais sejam: fome, sede, desconforto físico, dentre outros. À proporção que aumenta a complexidade da estimulação exógena ou endógena, a necessidade de descarga também se amplia. Em outros termos, Freud sabe que existem outras demandas a serem atendidas, as quais este princípio não resolve. Salienta como exemplos de exigências vitais, a fome, a sede, sexo, dentre outras. Estas, por sua vez, supõem uma outra forma de funcionamento psíquico que transcendem circulação da quantidade de fluxo para efetivar a ação. Dessa forma, Freud amplia a complexidade do funcionamento psíquico propondo a existência de um outro princípio complementar ao da Inércia: o Princípio da Constância. Este novo princípio deve responder não apenas a um funcionamento que lide com maior resistência a certo nível quantitativo, como também se comprometer na distribuição da quantidade no complexo neuronal que, uma vez modificado permanentemente pela excitação, jamais retorna ao seu estado anterior. Os processos, um tanto mais elaborados, deixam registros tanto do percurso quantitativo quanto do caminho facilitado para novas catexias. A estrutura psíquica ordenada de forma mais complexa torna a distribuição quantitativa mais econômica, além de apontar para a diferenciação neuronal. Trata-se de circunscrever os limites até onde se garante uma boa funcionalidade e a direção preferencial por onde a quantidade escoa: da parte receptora do aparelho até a extremidade da descarga. Secundariamente, precisa ser resolvido o problema de lidar com o sentido inverso da direção, ou seja, num estágio posterior de desenvolvimento do aparelho psíquico, encontraremos a
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    30 inversão do estímulo,tendo a imaginação, a memória e posteriormente a fantasia como fatores estimuladores internos, como veremos no capítulo seguinte. Freud observa que esse funcionamento econômico na direção da descarga somente se subverte no caso do contato com a dor. Devido à magnitude da quantidade, a resposta da dor pode ser considerada como antieconômica pelo fato de não respeitar o caminho natural do escoamento da quantidade. No entanto, quando é recordada, ou melhor, representada, produz o desprazer, e não mais a dor. Até esse instante Freud circula num movimento teórico que mescla postulações anatomofisiológicas com observações genuinamente psicológicas. Esse parece ser um momento especial para o pensamento freudiano. Como salienta Monzanni: esse é um ponto crucial de Projeto..., pois nele Freud teria, de um lado, abandonado de vez seus projetos neurologizantes e constituído a idéia de inconsciente psíquico, e, de outro, teria guiado sua atenção para o que constituiu, de fato, a teoria psicanalítica. Trata-se de um processo muito mais complexo do que a descrição de mecanismos de descarga e de caminho de um quantum de energia circulante no aparelho psíquico, oriundo de estímulos internos e externos. A partir desses dois postulados (quantidade e neurônio), o leitor assiste à tentativa de Freud de construir, baseando-se em princípios puramente mecânicos, toda a imensa variedade das funções psíquicas: percepção, memória, consciência, associações, experiências cruciais (dor e satisfação), pensamento, juízo, etc. A passagem de um postulado eminentemente quantitativo para um processo qualitativo de ações. que exigem mais esforço tanto do aparato motor quanto do psíquico, torna a explicação do princípio de constância incompleta para justificar o surgimento de outros mecanismos psíquicos, como os já citados. Numa formulação muito semelhante à visão do comentador anterior, Gabby Jr. salienta que Freud está diante de duas vivências fundamentais para serem ordenadas no
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    31 aparelho psíquico: avivência da dor e a vivência de satisfação, formulações essenciais ao avanço da sua teoria sobre a ordenação da psique e do desejo. Na vivência da dor, ... existe uma irrupção de uma quantidade de origem externa. Quando é recordada, ou seja, representada, produz desprazer e não dor. ... O organismo para sobreviver, deve aprender a evitar a cathexis da representação de objetos que causaram a dor. Caso contrário, ocorrerá uma defesa primária. Na segunda vivência, a de satisfação, trata-se de uma quantidade de origem endógena que só pode ser interrompida a partir do preenchimento de certas condições do organismo. Como é incapaz de realizá-las, torna-se necessária a presença de um outro que realize, pelo sujeito, as condições externas... Logo, em ambos os casos, há uma tendência de repetir certas vias de descarga: as de satisfação (originadas a partir de um processo interno de acréscimo) e as de dor (originadas a partir de um impacto por estímulos externos). (GABBI JR., 1985, p.6). A tentativa de explicar o mecanismo da dor e o da busca de satisfação fazem com que a pesquisa freudiana avance para uma forma de funcionamento psíquico mais elaborada do que previa em seu aparelho primitivo. Para o nosso interesse mais imediato manteremos a atenção sobre a segunda situação – a busca de satisfação. A razão desta escolha se mostrará mais evidente a seguir. Entender como o psiquismo age na direção de eliminar a tensão que o acomete é algo muito importante. Os movimentos motores iniciais, as vias biológicas do automatismo, não são suficientes para eliminar o desconforto causado pela carência, a exemplo da fome, sendo, então, necessária a ocorrência de uma ação específica externa. Nestes casos, Freud observa que os processos secundários implicam o adiamento, a tentativa de solução da tensão e a busca de uma forma específica de reação para a redução da descarga, uma ação específica que garanta a descarga ou a redução do desconforto. Essa ação específica não é de competência do sujeito, dado que não possui a capacidade de promover a condição de alívio de sua tensão. Tais movimentos motores, traduzidos no choro, disparados na direção desta ação, têm um caráter importante para este
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    32 sujeito: denunciam seudesamparo. Diante desta constatação, de que o sujeito não é capaz sozinho de encontrar o caminho da descarga, o atendimento dessa carência pode ser realizado pelo auxílio de um outro, despertado provavelmente pela denúncia do desamparo. Freud segue explicando: O enchimento dos neurônios nucleares em terá como resultado uma propensão à descarga, uma urgência que se libera pela via motora. A experiência demonstra que aqui a primeira via a ser seguida é a que conduz à alteração interna (expressão das emoções, grito, inervação vascular). Mas como já explicamos no início, nenhuma descarga desta espécie pode produzir resultado de alívio, uma vez que o estímulo endógeno continua a ser recebido e se restabelece a tensão . Nesse caso, a estimulação só é capaz de ser abolida por meio de uma intervenção que suspenda provisoriamente a descarga de Q´n no interior do corpo; e uma intervenção dessa ordem requer uma alteração no mundo externo (fornecimento de víveres, aproximação do objeto sexual), que, como ação específica, só pode ser conseguida através de determinadas maneiras. (FREUD, 1977, p. 421- 422). Essa bela imagem a que chega Freud inaugura as bases de uma constelação de relação fundamental entre a criança faminta, insatisfeita, e um outro sujeito, provavelmente a mãe ou o adulto, objeto de realização desta ação específica anunciada. Nesta experiência da saciação da fome, experiência do aleitamento, a mãe é convocada a criar o primeiro e significativo vínculo. Para Freud, essa experiência ultrapassa o automatismo biológico que rege a satisfação para inaugurar um processo de vinculação do sujeito com o meio bem mais complexo. Para ele, essa via de descarga adquire a importantíssima função secundária da comunicação, e o desamparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial de todos os motivos morais. Este parece ser o exato instante da cisão da Psicanálise com as demais teorias sobre o funcionamento mental de sua época. Ao responder ao apelo do bebê faminto, nas suas iniciais manifestações de desconforto, a mãe que o satisfaz, inaugura marcas mnêmicas importantes, instaurando no
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    33 bebê a possibilidadede guardar a vivência para um momento de busca de satisfação futura, como também a percepção da possibilidade de novo contato com este objeto prestativo, realizador da satisfação. Esta percepção de satisfação, proporcionada pelo objeto que alimenta, imprime no psiquismo do bebê o registro da vivência de satisfação, que futuramente poderá ser resgatada sempre que ele se perceba diante de uma nova sensação de desconforto. Esse circuito fica, doravante, como diria o próprio Freud, privilegiadamente facilitado. A mãe (re)significa o estado de abandono e a carência, bem como a possibilidade de solução da tensão geradora de tal estado. Essa percepção de satisfação, resultado da ação específica da mãe com o sujeito, traz no seu contexto conseqüências significativas para o desenvolvimento do psiquismo primitivo. Freud ressalta que a totalidade desse processo representa a experiência de satisfação que tem as conseqüências mais decisivas para o desenvolvimento das funções individuais; a saber: 1) efetua-se uma descarga permanente e, assim, elimina-se a urgência que causou o desprazer; 2) produz-se a catexização de um ou vários neurônios que corresponda à percepção do objeto; 3) em outros pontos chegam informações sobre a descarga conseguida mediante a liberação do movimento reflexo que se segue à ação específica. Na ocorrência posterior de uma nova situação de carência, todo o circuito será ativado simultaneamente. Carência (tensão), abandono (reações motoras de denúncia) e objeto de interrupção de tensão (ação específica) fazem parte de uma mesma vivência. Vale ressaltar que Freud chama atenção para o fato de que a ordenação psíquica realizada não segue uma ordem sucessória, e sim simultânea, significando que, para o sujeito, todo o conjunto de registro faz parte de uma situação única. Assim, diante de uma nova exigência de satisfação, independentemente da existência ou não do objeto do mundo externo (mãe), o funcionamento psíquico ativa sua representação, operando como se estivesse presente. A experiência de satisfação, uma vez registrada, deixa
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    34 sua inscrição atravésde via facilitada pelos registros mnêmicos, impressos quando da primeira experiência, sendo estes registros evocados toda vez que o organismo se depara com uma nova experiência de tensão. A esse recurso de pensamento Freud constrói toda uma explicação para justificar o funcionamento da memória e da alucinação. É para esta lembrança que o sujeito recorre sempre que se encontra vivenciando uma situação de tensão semelhante à vivenciada no passado e, mais ainda, buscando uma solução imediata para o alívio da tensão; na ausência do objeto de satisfação (mãe), alucina sua presença. O mecanismo de alucinação tem um objetivo próprio e imediato; trata-se de uma saída provisória, buscada pelo aparelho psíquico, com a função de promover uma redução de tensão, ainda que temporária. É uma resposta do sujeito, utilizando-se de seus próprios meios. Para Freud, uma defesa primária diante de um estado de desejo. Incapaz de diferenciar a realidade da idéia imaginária, o sujeito recatexiza a lembrança do objeto e, então, põe em ação o processo de descarga; nesse caso, não pode haver satisfação, já que o objeto não é real. Esta solução mostra-se, portanto, pouco eficiente em curto intervalo de tempo, levando o sujeito, mais uma vez, a buscar nova saída. A imagem alucinada não corresponde ao alívio da tensão, sendo ele obrigado a comunicar mais efetivamente ao meio o seu abandono, a sua impossibilidade de sobreviver sem o apoio de um outro, que deve vir em sua direção. O que nos importa na presente situação é o registro do que aqui se inaugura: o nascimento de uma díade (filho/mãe), forjada pela premência de uma tensão de satisfação. O lugar da mãe é, por assim dizer, o de objeto de reconhecimento de desejo de um sujeito que o demanda; mais que isso, o de objeto que oferece uma resposta efetiva a um apelo de sobrevivência. Mãe e filho formam uma imagem única e, ao mesmo tempo, dual: única na perspectiva da experiência de simultaneidade expressa pela tensão e satisfação, e dual porque escapa de uma saída da tensão sem o auxílio do outro (adulto).
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    35 É pelo gritoprimordial ou pelo esforço de anunciar seu desconforto e abandono que o sujeito inscreve essa nova capacidade de funcionar com o meio: o bebê clama pelo reconhecimento de sua falta, de sua necessidade de nutrição e, portanto, de sua necessidade de ser cuidado, de ser visto, compreendido e atendido pelo outro. A possibilidade de evocar seu desejo de satisfação e, mais do que comunicar, e fazer-se entender por este outro é um mecanismo bastante complexo e fundamental para a organização de suas futuras formas de comunicação com o meio externo. No texto freudiano reencontramos a demarcação da primeira forma de comunicação, de relação de satisfação: O organismo humano é, a princípio, incapaz levar a cabo essa ação específica. Ela se efetua por meio de assistência alheia, quando a atenção de uma pessoa experiente é atraída para o estado em que se encontra a criança, mediante a condução da descarga pela via de alteração interna. Essa via de descarga adquire, assim, a importantíssima função secundária da comunicação, e o desamparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial de todos os motivos morais. (FREUD, 1977, p. 422). Somos levados a acreditar que o reconhecimento de um objeto que atende a uma necessidade vital do sujeito inscreve uma referência de eu e de não-eu, de algo que se passa entre o bebê e um outro sujeito que não é ele, alguém que está para além dele. Tais experiências do aparelho psíquico deste sujeito mostram-se estruturantes na organização egóica. Embora estas noções de eu e não-eu ainda não sejam largamente desenvolvidas por Freud nesse momento da teoria, ficam como alicerce do desenvolvimento da teoria psicanalítica. Nessa etapa de conquistas do sujeito, no esforço ordenador do seu aparelho psíquico primitivo, a mãe ganha um papel definitivo. Comumente costuma-se atribuir este papel à figura materna, já que a função nutridora suporta ou está na base de toda essa configuração relacional primária. O que lastreia o relacionamento inicial do sujeito com o meio é o
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    36 atendimento de suasnecessidades vitais, ficando tal fato evidenciado na necessidade de um outro adulto que atenda a esta função. É a função de nutrição que vai definir o papel, a presença de outro que responda à ação específica de satisfazer o bebê e, por conseqüência, à noção de realidade externa; é à mãe a quem se está clamando. Dessa forma, pode-se dizer que, na díade inicial, é formatado o primeiro vínculo entre o bebê e o mundo externo – um vínculo carregado de significação, de energia, provindo de uma demanda que lhe é anterior e que tem exatamente como propósito garantir a descarga de tensão e da necessidade de satisfação, levando Freud a inscrever com isso a presença da função materna na organização psíquica do sujeito. Memória, alucinação e comunicação são funções que surgem da premência da relação bebê/mundo, chancelada pela presença da mãe que acolhe, reconhece e denuncia as necessidades de sobrevivência do sujeito. Na leitura ora realizada, de pontos selecionados de Projeto..., conclui-se o momento em que Freud registra o lugar da maternidade, embora talvez não tenha sido este o seu propósito com a obra. No entanto, seu trabalho para compreender a organização do funcionamento do aparelho psíquico levou-o ao encontro de algumas constelações de idéias sobre o sujeito e suas relações com o mundo que se tornaram base para todo o trabalho de construção da estrutura psíquica de um sujeito ordenado pelo desejo, formulado posteriormente, quando a teoria psicanalítica adquire contornos mais rigorosos. Um recorte mais sutil do processo da relação do sujeito com o outro encontramos na letra de Mezan (1988): o processo de humanização do pequeno ser nascido de um homem e uma mulher equivale a um processo de culturalização, de transformação da mente em um órgão capaz de representar não somente os fantasmas engendrados por ela mesma, mas também objetos e entidades que não pode criar por seus próprios meios; a saber: seu próprio corpo, os outros seres humanos e o mundo exterior. Precisa, portanto, receber do ambiente, de
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    37 início, de suaprópria mãe as informações necessárias e os meios para metabolizar essas informações. Para esse autor, “a transformação da psique em psique humana equivale à sua transformação numa psique marcada pela cultura” (MEZAN, 1988, p.62). Resulta que a cultura não é algo imposto à psique humana, mas, antes, ela lhe é simultaneamente interna e externamente determinada – pelo interior por se tratar daquilo pelo qual o indivíduo se constitui e, ao mesmo tempo, pelo exterior por não depender apenas dele para se constituir, e sim de adultos que cuidam e vão dando significado às suas representações. Essa forma de compreender a inserção da cultura na organização psíquica do ser humano tem um desdobramento mais significativo no percurso do pensamento freudiano, principalmente alguns anos depois de Projeto..., quando seu interesse se desvela sobre a questão da função do pai na organização social e psíquica. Nesse momento do texto freudiano o que importa é a relação diádica, cujo pai ainda não tem um lugar de inscrição tão delimitado quanto à mãe. Na pré-história da ordenação psíquica, na fundação da ordem desejante descrita pela díade sujeito-objeto de satisfação, o pai não é enunciado, quando considerado um terceiro com lugar de reconhecimento diferenciado na constelação psíquica. A construção desta díade traz algumas conseqüências importantes para a relação do sujeito com o mundo externo. E o que se pode dizer até então sobre o pai, foco desta dissertação? O fato de evidenciar a dualidade entre filho-mãe denota uma etapa ainda inicial na constituição egóica e de ordenação psíquica da criança. O modelo das relações de objeto marcadamente conhecido pela tríade filho-mãe-pai ainda não havia sido estruturado nesse instante da observação freudiana. Até Projeto... Freud não estabelece claramente um lugar de destaque da figura paterna, pelo menos não de forma explícita e definitiva.
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    38 Entretanto, é demaneira indireta, através de questionamentos e incertezas, que até então, encontraremos uma indicação de que esta imagem masculina, na verdade a imagem paterna, parece deixar suas marcas e impressões desde muito cedo na constituição psíquica, quer dos normais, quer dos neuróticos. A clínica e os processos psíquicos dos histéricos terão um papel importante a sinalizar sobre a presença paterna desde a pré-história da Psicanálise. Como veremos a seguir, em Estudos sobre a Histeria de 1895, Freud vai inscrever, ainda que de maneira bastante discreta e muitas vezes camuflada em figuras da vida adulta, os efeitos das relações e dos vínculos com as figuras parentais na constituição psíquica do sujeito. 1.2 A SEXUALIDADE: CENTRALIDADE NA ORDENAÇÃO PSÍQUICA Como demonstramos anteriormente, tanto Projeto...quanto Estudos... trazem em si o germe da constituição triangular da família e do sujeito de desejo, a partir de uma demarcação muito clara acerca do vértice mãe-filho. A presença do terceiro – o pai – é ainda uma suspeita, um estranhamento, em que Freud questiona sua participação no trauma ou nos sintomas de suas pacientes. Na busca de entender a clínica e encontrar um método de trabalho para abordar seus pacientes, Freud encontra indícios destes efeitos e deixa plantado o que se tornará, muito em breve, as bases da teoria da sexualidade infantil defendida por ele como o alicerce constitutivo do complexo de Édipo, estrutura fundante do funcionamento psíquico e conseqüentemente das relações de cada sujeito com o mundo, com a vida; relações estas que serão mais ou menos saudáveis conforme a qualidade dos vínculos que a constituíram. A observação da clínica foi, desde sempre, um espaço privilegiado ao desenvolvimento do pensamento freudiano. Sua preocupação com o material oferecido pelos
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    39 pacientes fundamenta suasprincipais descobertas, quer no campo metodológico, quer na técnica psicanalítica, ou, ainda, na formulação da teoria, a famosa metapsicologia. Em Estudos..., portanto, o conjunto de textos ligeiramente anterior a Projeto..., Freud objetiva discutir questões relacionadas ao tratamento oferecido às pacientes histéricas. A partir do trabalho de Breuer, com a abordagem hipnótica, Freud pretende delinear uma nova forma de compreensão da histeria como um fenômeno para além da abordagem somática, oferecida pelos seus colegas da época. Estudos ... constitui o ponto de partida de Freud para o desenvolvimento do que mais tarde se traduziu como o método psicanalítico de investigação, ou o seu instrumento de investigação da mente humana. Gay chega a afirmar que “a julgar pelos casos que Freud apresentou em ‘Estudos sobre a Histeria’, ele fez do aprendizado com seus pacientes uma espécie de programa” (1995, p.80), ressaltando que a importância desses analisandos para a história da Psicanálise reside na oportunidade de terem demonstrado a Freud um significativo material inconsciente, que o auxiliou tanto no contexto da produção teórica quanto do método de tratamento. Embora não estivesse totalmente convencido a superar o elemento da hereditariedade, da herança neuropática do diagnóstico de seus pacientes, suas observações e sua prática curiosa em relação ao comportamento e discurso das pacientes levam Freud a suspeitar da existência de outros fatores intervenientes na causação de suas neuroses. A noção de trauma, o conceito correspondente a uma instância psíquica não consciente, o inconsciente, e a categoria de recalque têm suas bases traçadas nas observações de seu trabalho clínico junto a essas histéricas. Para Laplanche (1992), o conjunto de textos freudianos, até 1887, tem sua força na trama que liga a teoria à experiência clínica. É o que demonstra em seu comentário:
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    40 Reside em pôrem jogo, já de forma rigorosamente e doravante insuperável, três fatores da racionalidade analítica: a temporalidade do a posteriori, a tópica do sujeito e os laços tradutivos ou interpretativos entre os roteiros ou as cenas. Reside na capacidade explicativa do modelo, amplamente transponível e extensível, pelo menos no campo da psicopatologia. Reside na capacidade evolutiva do modelo, aquilo que designamos acima como ‘pontilhados’ para futuros desenvolvimentos: pontilhados do ego, pontilhados da teoria tradutiva. (LAPLANCHE, p. 122). A escuta e a observação do conjunto de sintomas ricos em representações no corpo físico favoreceram a pesquisa na direção não mais de uma explicação química ou orgânica destes fenômenos, mas de buscar uma correspondência num processo psíquico, numa ação mental que justificasse a elaboração e o aparecimento desses sintomas. Freud estava realmente empenhado em encontrar uma estrutura complexa capaz de explicar a descrição desses fatos mentais. Os achados clínicos de Breuer no tratamento da paciente Anna O., compartilhado muitas vezes com o colega Freud, vêm corroborar a compreensão e a investigação desses processos mentais conscientes e inconscientes, exigindo, portanto, uma maior atenção por parte dos dois pesquisadores. O trabalho conjunto, nesta obra, ajuda a sinalizar, por um lado, o interesse pela etiologia e, por outro, as diferentes percepções de abordagem e de interesse diagnóstico, bem como de modelos terapêuticos. Anna O. oferece aos médicos um rico material que lhes possibilita sistematizar reflexões acerca da produção fantasmática, imaginária, fazendo levantar a atenção sobre o papel da fantasia, sua relação com a origem da doença e naturalmente com o tema de suas dores psíquicas. O lugar da fantasia e a sua constituição enquanto realidade psíquica inconsciente são elementos teóricos dos quais Freud não mais se afastará para a compreensão dos sintomas destas pacientes. No entanto, só posteriormente a noção de fantasia será retomada de forma mais sistemática, ao resgatar o tema da sexualidade infantil como fator etiológico da histeria.
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    41 Pensar na existênciade uma mente capaz de conter material que não pertença ou mesmo nunca tenha passado pela consciência, eis um fato novo e desafiante a ser considerado por ambos.5 Tornou-se evidente, desde o início, que o problema a ser perseguido não era o da investigação dos conteúdos conscientes, mas sim destes outros processos mentais, até aqui reconhecidos, porém desconhecidos em sua origem. Freud está convencido de que para processos que são até o momento inconscientes deve existir uma forma de investigação que permita atingi-los, torná-los conscientes e inclusos na vida dos pacientes. Quanto mais nos ocupamos dessas manifestações, mais nos tornamos convencidos de que a divisão da consciência, que é tão marcante nos clássicos conhecidos sob a forma de ‘double conscience’, se acha presente num grau rudimentar em toda a histeria, e que a tendência para tal dissociação, e com ela o surgimento de estados anormais de consciência (que reuniremos sob a designação de ‘hipnóides’), constitui a manifestação básica desta neurose. (FREUD, 1977, p. 52-53, grifo do autor). Ambos os médicos concordam que o que está em questão na etiologia da histeria é uma experiência traumática remota, da qual a paciente nada desconfia, nem faz conexão causal com seus sintomas atuais. Questionam a relação do trauma com os sintomas e afirmam, já nessa etapa, que, com grande freqüência, o trauma está relacionado a algum fato na infância dos pacientes, mais ou menos grave e que persiste por muitos anos na sua vida psíquica. Entendem que esta conexão entre sintoma e sua causa não se dá por um mecanismo direto ou de substituição de um elemento causal por outro. Esta noção de trauma será adiante abandonada por Freud, ao se defrontar com as questões relacionadas à sexualidade infantil e aos sintomas histéricos. No entanto, é o trauma, 5 “A verdade é que, em 1985, Freud encontrava-se a meio caminho no processo de passar de explicações fisiológicas de estados psicopatológicos para psicológicos” STRACHEY apud FREUD, 1977. v. II. p.32).
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    42 ou a cena,que enreda o discurso e o sintoma da histérica; que permite o avanço de que necessitamos para compreender como os fatos e as experiências infantis repercutem na história pessoal e familiar de cada sujeito. Corroborado tanto por Projeto... quanto por Estudos..., Freud constata que a experiência clínica evidenciou-lhe dois fatos importantes: a) o ego afasta ou reprime da consciência as idéias que lhe provocam algum tipo de afeto desagradável ou penoso e que naturalmente geram desprazer; e b) essas idéias fazem parte da vida sexual da pessoa em questão. Tais constatações abrem caminho para tudo que adiante vai sustentar o pensamento freudiano sobre a centralidade do conteúdo sexual na etiologia das neuroses, mais explicitamente abordado na neurose histérica. Diante do quadro de Katharina, uma de suas pacientes, Freud comenta: Neste sentido, o caso de Katharina é típico. Em toda análise de um caso de histeria baseado em traumas sexuais, verificamos que as impressões do período pré-sexual que não produziram nenhum efeito na criança atingem um poder traumático numa data posterior como lembranças, quando a moça ou a mulher casada adquirir uma compreensão da vida sexual. Pode-se dizer que a separação de grupos psíquicos em um processo normal no desenvolvimento do adolescente, sendo fácil ver que sua recepção posterior pelo ego proporciona oportunidades freqüentes para perturbações psíquicas. (FREUD, 1977, p.182). A relação que agora começa a se estabelecer entre conteúdos inconscientes (alijados da consciência), idéia de trauma e formação de sintoma como defesa demarca o distinto interesse de Freud sobre a etiologia da histeria e das neuroses, além de subsidiar a sua construção da teoria psicanalítica dos processos psíquicos ditos normais. O interesse pelo mecanismo do ego em evitar o desprazer constitui, a partir de então, a base da pesquisa sobre o sintoma histérico, e é a esse mecanismo que Freud, agora sem o apoio de Breuer, vai devotar o trabalho de rastreamento. Para Freud, o processo de formação
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    43 simbólica do sintomadeflagra o trabalho de defesa do ego: a idéia rechaçada é desviada da consciência e uma outra surge como alternativa para simbolizar ou representar a que foi reprimida pelo desprazer causado, embora esta última esteja diretamente entrelaçada com a primeira. Num comentário ao tratamento da paciente – Fräulein Elisabeth Von R. – , Freud diz textualmente: Os conceitos do ‘desvio’ de uma idéia incompatível, da gênese dos sintomas histéricos através da conversão de excitações psíquicas em algo físico e a formação de um grupo psíquico separado, através do ato de vontade que conduziu ao desvio – todas essas coisas, naquele momento, apareceram diante de meus olhos de forma concreta (FREUD, 1977, p.206). Nessa perspectiva, o sintoma ganha um caráter simbólico: aparece no lugar da situação ou idéia que causou desprazer e sendo, portanto, alijada da consciência. Freud é naturalmente levado a suspeitar, nesse período, que tais idéias, uma vez afastadas da consciência, têm em comum um elemento sexual em seus conteúdos, o que justificaria a necessidade de mantê-lo reprimido e afastado do ego. E é ainda na reflexão do caso Elisabeth que Freud conclui: Essa moça sentiu pelo cunhado uma ternura cuja aceitação consciente encontrou a resistência de todo o seu ser moral. Ela conseguiu poupar-se da dolorosa convicção de que amava o marido de sua irmã, induzindo dores físicas em si mesma. E foi nos momentos em que essa convicção procurou extravasar-se (no seu passeio com ele, durante o seu devaneio da manhã, no banho, ao lado do leito da irmã) que suas dores surgiram, graças à conversão bem sucedida. Quando comecei o trabalho dela, o grupo de idéias relativas ao seu amor já havia sido separado do seu conhecimento (FREUD, 1977, p. 206). Vale salientar que a questão da sexualidade e sua relação com a histeria foram formuladas de maneira efetiva desde as primeiras reflexões metapsicológicas do final dos anos 90, especialmente trabalhos que se seguiram aos Estudos... Segundo Laplanche (1985), o Projeto... é uma tentativa freudiana de ligar organicamente, do interior, o recalque e a
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    44 sexualidade numa mesmateoria, tornando-se o substrato de tudo que Freud escreveu sobre a histeria até 1900. Para este autor, é a sexualidade que resume o essencial da contribuição psicanalítica ao pensamento contemporâneo, sob o ponto de vista não apenas da histeria, mas de toda a pesquisa metapsicológica. Essa hipótese do componente sexual na etiologia das neuroses, em especial da histeria, para cujo ponto todo o seu trabalho foi voltado nessa época, norteou a pesquisa freudiana desde então. Freud retorna a este tema em artigo sobre As neuropsicoses de defesa de 1894. Dois anos mais tarde, entretanto, descobre que não é a sexualidade, mas sim a sexualidade infantil e o reconhecimento da persistência dos impulsos inconscientes que constituem a base da formação das neuroses. Para o nosso trabalho de análise da organização psíquica do sujeito de desejo, cabe aqui uma discussão um pouco mais cautelosa sobre a descoberta do trauma, levantada tanto por Freud quanto pelo colega Breuer, na análise dos casos oferecidos em Estudos... O conteúdo dos processos ditos traumáticos, bem como os personagens neles envolvidos, são substratos importantes para a construção da nossa atual pesquisa. Segundo Gay, os histéricos tratados por Freud e Breuer nos anos de 1890 apresentavam muitos sintomas de conversão, estados depressivos e alucinações intermitentes. Para ele, Freud, ainda relutante em abandonar o elemento da hereditariedade, preferia agora procurar experiências traumáticas, como pista para a compreensão dos estranhos sintomas. Estavam convencidos, ele e Breuer, que os segredos dos neuróticos eram os conflitos sexuais ocultos pelos e dos próprios sujeitos. Tomando como base as observações clínicas derivadas do tratamento das histéricas, Freud está convencido de que a repressão, entendida aqui como recurso defensivo, se manifesta a partir de uma experiência traumática, de conteúdo sexual, reconhecido somente por uma ação retardada do ego. A relação entre os conteúdos do trauma e as queixas atuais
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    45 não é reconhecidapelos pacientes. As histéricas não podem, ou melhor, não querem acessar o conflito. Existe um hiato entre esses dois momentos, e isso move Freud a investigar o processo de recalque. O que agora se demonstra é a suspeita de Freud acerca da relação entre a conversão e a conexão associativa com o desejo (que foi recalcado). O que é necessário recusar é o desejo que a paciente nutre inconscientemente e, pela não aceitação, sofre, transformando sua dor psíquica em dores físicas. Freud demonstra suas suspeitas através de suas observações sobre os sintomas de Elisabeth: Mas o que deve ter tido influência positivamente decisiva sobre o rumo tomado pela conversão foi outra linha de conexão associativa: o fato de que durante vários dias seguidos uma de suas pernas doloridas entrou em contato com a perna intumescida do pai, enquanto as ataduras estavam sendo trocadas. A região da sua perna direita que foi marcada por esse contato permaneceu, a partir daí, o foco de suas dores e o ponto de onde se irradiavam. Formou uma zona histerogênica artificial, cuja origem poderia no presente caso ser claramente observada. (FREUD, 1977, p. 224). Se há algo que recisa escapar à consciência porque causa desprazer, é preciso saber sobre este algo que foi rejeitado pela consciência e, portanto, recalcado. O ego se defende exatamente de quê? O que lhe parece intolerável? O que aqui se desvenda definitivamente é o caráter sexual do conflito. Desde então Freud devota sua atenção sobre a suspeita dessa defesa, como pudemos reconhecer no recorte acima. Esse parece ser o ponto relevante para a construção do desejo. O trabalho de decomposição ou de rastreamento do sintoma histérico remete Freud ao encontro que, até então, não havia se configurado de forma direta: o encontro com o desejo pelo pai. O sintoma, forma travestida de falar da sedução do adulto para com a criança retrata, na verdade, uma cena estrutural que inaugura o contato com o infantil desejo original: o desejo sexual. Falta, entretanto, relacionar, desvendar o mecanismo que converte o desejo de ser seduzido no desejo de seduzir. Este é o próximo caminho a ser percorrido. Na conversão, o
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    46 afeto, não vividona ocasião do trauma pelo não-reconhecimento do conteúdo, reaparece diante de uma nova situação de desprazer na vida atual da histérica. Como salienta Freud: “Enunciado em termos de teoria da conversão, esse fato indiscutível da somação dos traumas e da latência preliminar dos sintomas nos ensina que a conversão pode resultar tanto de novos quanto de sintomas relembrado”. (FREUD, 1977, p. 222). O trauma, ou melhor, a lembrança do trauma atua como um corpo estranho que continua apresentando seus efeitos por muito tempo. A emoção vinculada ao trauma foi reprimida, permanecendo, no entanto, ligada à lembrança. Para Freud, os histéricos sofrem de reminiscências. A esta constatação somos remetidos a uma outra formulação freudiana da organização psíquica: os pequenos seres se organizam para garantir um estado de prazer e registram na memória essas experiências. Os humanos funcionam fixados em caminhos que remontam às experiências prazerosas. Por outro lado, eles também funcionam pelo afastamento ou defesa daquelas experiências ou registros de memória que oferecem o seu oposto. A histérica alucina e afasta da consciência determinados complexos representacionais relacionados ao desprazer. Vive aprisionada em seu trauma, num processo que a aliena e produz sintomas, pela impossibilidade de ab-reagir adequadamente. Incapaz de realizar uma saída para o desprazer causado pelo trauma, engendra um processo de exclusão de determinadas representações, mas, em contrapartida, o investimento psíquico assume uma representação substituta, aceita pela consciência. Isso acontece porque os traumas não foram suficientemente ab-reagidos, em razão de dois grupos de condições: a) situações nas quais não cabia uma reação e a emoção foi intencionalmente reprimida; e b) situações em que as emoções se tornaram gravemente paralisantes. É a natureza do estado que torna impossível uma reação de fato. Na maioria dos casos, ambas as condições estão presentes e são determinantes naquilo que originou o trauma.
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    47 O entendimento domecanismo de defesa – afastar o desprazer foi, desde o início, reconhecido por Freud como um mecanismo natural e primitivo do aparato psíquico. No entanto, o que aparece aqui como esquisito ou constrangedor é que Freud está diante de uma histérica que, ao converter o desejo em sintoma, reprime, na verdade, um prazer sexual adiado, não realizado. Essa substituição, que constitui o processo de simbolização do sintoma, presente na histeria, aturde e surpreende o próprio Freud. Este mecanismo do sintoma seria uma inversão do processo natural de defesa: afastar o desprazer. Então, como entender o mecanismo de recalque e de simbolização do sintoma histérico? Por simbolização entende-se a substituição da coisa por algo que venha no seu lugar, de forma disfarçada. Esse processo se constitui em uma saída, diferente da ab-reação, mas evoca, como conseqüência, a alienação. O sintoma não faz sentido para o sujeito e o não- saber do paciente histérico era de fato um não querer saber. O trauma histérico leva ao afastamento do estado psíquico normal. Neste novo estado psíquico cindido isola-se da consciência tudo aquilo que pode trazer ou gerar desprazer. Por um mecanismo invertido, o funcionamento dos processos psíquicos dessas pacientes vai ocorrer da memória para a percepção, e não o contrário do que acontece em situações normais. Assim, essas pacientes vivem das lembranças e registros de memória, que, não tendo a liberação de emergir em sua forma original, se transforma em dores físicas ou transtornos de comportamento. O que não é possível ou não aceito na consciência é algo que a própria paciente não quer lembrar de forma direta: o prazer originário de experiências que deixaram traços ou registros de uma sexualidade ainda não compreendida pelo aparato psíquico da criança. Esse retardamento na compreensão do que foi vivido antes é uma característica geral da organização psíquica. Freud está diante de uma conclusão importante para a organização
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    48 do sujeito. Osregistros dessas experiências ficam marcados no inconsciente, apesar de só posteriormente ganharem uma significação para o seu portador. Como referenda o texto de Laplanche: Deixada em suspenso, a lembrança não é em si mesma patógena, nem traumatizante. Só se torna traumática pela sua revivescência, por ocasião de uma segunda cena que entra em ressonância associativa com a primeira. Mas, devido às novas possibilidades de reação do sujeito, é a própria lembrança, e não a nova cena, que vai funcionar como fonte de energia traumatizante, como fonte autotraumatizante. (LAPLANCHE, 1992, p.120). O efeito retardado do ego deve-se ao fato do retardamento da sexualidade até a puberdade, quando, então, o sujeito pode compreender e nomear o que lhe aconteceu ou o que constelou a situação traumática vivida por ele em alguma fase de sua infância. Os pacientes histéricos movem-se a partir de suas lembranças ou da recordação do que lhe causou desprazer, buscando afastar-se agora de tudo que lhe faça nova menção à situação original. Tal qual no sonho, a alucinação da histérica faz criar realidades psíquicas sem que estejam presentes os referentes no mundo externo. O mecanismo interno de defesa sobre esse núcleo de idéias censuradas é assim descrito na letra freudiana: [...] reconheci uma característica universal de tais idéias: eram todas de natureza aflitiva, capazes de despertar emoções de vergonha, da autocensura e de dor psíquica e o sentimento de estar sendo prejudicado, eram todas de uma espécie que a pessoa preferiria não ter experimentado, que antes preferia esquecer. [...] A idéia em questão foi forçada para fora da consciência e da memória. O seu vestígio psíquico aparentemente se perdeu de vista. Não obstante, deve estar lá . (FREUD, 1977, p. 325). A suspeita de o trauma abrigar uma experiência de desprazer, de caráter sexual e ocorrida numa fase remota da vida do paciente, geralmente relacionada a sua infância, faz supor exatamente o material de que tanto precisávamos em nossa reconstrução teórica. Seus
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    49 escritos da clínicaestão cheios de exemplos sobre essas experiências sexuais prematuras. O que Freud constata no discurso das pacientes é a presença de uma situação de relação entre o adulto e a criança, marcada pela irrupção de sensações de prazer sexual que não são elaboradas como sexual pela criança devido à sua imaturidade psíquica. As primeiras relações da criança com os pais estão marcadas por impressões carregadas de sexualidade. A mãe que cuida e responde ao apelo do pequeno sujeito também imprime, no seu contato com o filho, experiências de prazer que ficam inscritas até que o sujeito tenha recursos para decodificar o conteúdo sexual de tais impressões. Como descreve Laplanche o “pré-sexual” em questão é um “pré” um “antes” tanto absoluto quanto relativo: o que vem “antes” de um certo tipo de compreensão possível; e há vários “pré-sexuais” possíveis, correspondendo às diferentes etapas da evolução infantil. Freud está construindo sua teoria para dar conta dos conteúdos inconscientes, a partir dos quais encontraria futuramente sérios argumentos para identificar o componente da sexualidade infantil, ao tempo em que questiona a presença comum e constante de um adulto perverso na história de todos os pacientes. A cena de sedução das histéricas aponta para a suspeita da participação do pai, e diante disso Freud encontra-se perplexo ou incrédulo, como comenta com o colega Fliess em carta 69, de 1897: Confiar-lhe-ei imediatamente o grande segredo que lentamente comecei a compreender nos últimos meses. Não acredito mais em minha neurótica. Provavelmente isto não é compreensível sem uma explicação; [...] Depois, veio a surpresa diante do fato de que, em todos os casos, o pai, não excluindo o meu, tinha de ser apontado como pervertido – a constatação da inesperada freqüência da histeria, na qual o mesmo fator determinante está invariavelmente estabelecido, embora tão difundida dimensão da perversão em relação às crianças, afinal, não seja muito provável. (FREUD, 1977, p. 350). O desconforto com tais observações remete Freud não ao abandono da sedução, como poderia parecer, mas o faz seguir na direção de delimitar a participação das figuras parentais,
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    50 denunciadas em cadasintoma: através de um amor oculto pelo cunhado; da devoção e desvelo ao pai no leito; de fantasias em relação à sedução de um tio; estes são alguns dos exemplos que devotam sua atenção sobre os fatos. A demonstração sobre a forma de funcionamento psíquico nos casos de histeria, tão cuidadosamente discutido por Freud na ânsia de encontrar o seu método de trabalho e pesquisa, nos servirá de material ou fonte de reflexão sobre nosso propósito. No entanto, nesse período encontramos um Freud vacilante ou, no mínimo, questionador da real participação dos pais na cena. O trabalho quase que arqueológico, como ele mesmo metaforiza em seu texto, para chegar ao núcleo patogênico do sintoma, conduziu Freud ao encontro de experiências primárias, registros de experiências emotivas que datam de um passado remoto dessas pacientes e que naturalmente remetem às figuras parentais. O material psíquico em tais casos de histeria apresenta-se como uma estrutura em várias dimensões, que é estratificada em pelo menos três formas diferentes. (Espero logo poder justificar esta modalidade pictórica de expressão). Inicialmente, há um núcleo que consiste de lembranças de fatos, ou seqüências de pensamento, nos quais o fator traumático culminou, ou a idéia patogênica encontrou sua manifestação mais pura. Em torno desse núcleo encontramos o que é freqüentemente uma quantidade incrivelmente grande de um outro material mnêmico que tem de ser elaborado na análise e que é, como dissemos, arranjado numa ordem tríplice. (FREUD, 1977, p. 345). Pois bem, é o próprio Freud quem destaca como quantidade incrivelmente grande de outro material mnêmico que tem de ser elaborado no processo da análise. Esta referência remete naturalmente às primeiras relações objetais do sujeito, embora só alguns anos depois Freud venha a confirmar esta observação, a respeito deste material mnêmico e de sua relação de objeto com as figuras parentais. Mais uma vez, o que aqui se desvenda é o conteúdo edipiano nascente na teoria psicanalítica.
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    51 No entanto, emque momento, ou de que forma poderemos reconhecer nesse material as funções parentais? Como a função paterna pode ser desenhada no bojo de todo esse conteúdo clínico? Está posto que é na clínica que se fundamenta a teoria psicanalítica, e é dela que o autor extrai sua matéria-prima. Neste caso, é lá que devemos encontrar, portanto, o nosso material de pesquisa e a nossa questão de trabalho: o lugar que ocupam as figuras materna e paterna na constituição da psique humana. Será mais prudente retornar ao texto freudiano e verificar a partir de que ponto se pode traçar um lugar do pai em seu discurso. Na análise dos casos clínicos oferecidos por ele, há uma série de insuspeitas observações que nos fazem constatar que Freud pensava além do que ouvia ou percebia da interpretação direta e inequívoca do relato de suas pacientes. É verdade que não encontraremos a figura paterna, objeto de nosso estudo, explicitado ou envolvido de forma direta ou indireta nos relatos clínicos. Porém, parece possível demonstrar na leitura de cada caso clínico, na possibilidade de perceber o processo da simbolização do sintoma, uma perspectiva de encontrarmos ora um pai, ora uma mãe travestida de outros objetos de desejo ou representantes do desejo do sujeito. 1.3 OS CASOS CLÍNICOS: O APARECIMENTO DO PAI A análise dos casos apresentada por Freud serve-nos de apoio ao nosso objetivo: o de elaborar uma genealogia das idéias de pai no bojo do pensamento freudiano. Tomemos, portanto, como ponto de partida, o exemplo da paciente tratada por Breuer, mote de observações de Freud. Anna O. é uma jovem amável, inteligente e prestativa, mas com uma sintomatologia rica e diversificada. É curioso atentar para o destaque oferecido aos seus diversos atributos e às observações que lhes foram conferidas. Assim diz Breuer: “[...] o
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    52 elemento de sexualidadeestava surpreendentemente não desenvolvido nela”, e mais adiante: “[...] nunca se apaixonara” ( apud FREUD, 1977, p. 64). Por que esse tipo de observação poderia ser relevante, considerando que neste aspecto Breuer e Freud divergiam? Muitas de suas indagações sobre o material fizeram com que ambos redobrassem o interesse pela clínica da histeria e por sua relação com a sexualidade dos pacientes. Reconhecer o que de fato se passa nos sintomas histéricos e, mais ainda, compreender o mecanismo de sua produção passaram a ser o principal foco de interesse dessa clínica. A obstinação nos relatos e na reconstrução ou recordação de cenas traumáticas, associada aos momentos de surgimento dos sintomas, ocupou um espaço significativo na sua pesquisa, já que acreditava estar diante de um mecanismo comum na organização histérica. Em Estudos... encontra-se formulada a Teoria da Sedução6 6 , que, como fulcro, sustentará que o conteúdo dos relatos dos sofrimentos psíquicos das pacientes, de ordem sexual, originava-se nas recordações alucinadas das histéricas. Em alguns casos essas recordações são relatadas como foram descobertas; em outros, no entanto, elas aparecem parcialmente distorcidas ou alteradas, censuradas em função da dificuldade de aceitar ou enfrentar o conteúdo que emergia das fantasias inconscientes dessas pacientes. No tratamento de Fraülen Elisabeth Von R., Freud estabelece uma analogia ao processo arqueológico com a pesquisa do material inconsciente, comparando o processo de análise à técnica de desenterrar uma cidade soterrada, em que se precisa retirar as camadas do material psíquico para penetrar gradativamente nas camadas mais profundas da lembrança da cena primitiva. Reconhecê-la é atingir o seu âmago, para poder ab-reagir. O material oferecido por essas pacientes serve não apenas para a pesquisa etiológica da histeria. O relato cuidadoso das queixas e a atenção devotada pelas pacientes às fantasias e às vias que as relacionam com os sintomas favoreceram uma nova abordagem técnica ou 6 A teoria da sedução será tratada mais detidamente no segundo capítulo desta dissertação.
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    53 método de observação.Freud abandona a hipnose, experimentando um método para seguir com esses relatos e acompanhar os caminhos oferecidos pela consciência, acreditando acessar, assim, o conteúdo mais remoto – o material inconsciente. Desta forma descreve o seu tratamento: Esse processo foi o de desembaraçar o material psíquico patogênico camada por camada, e gostamos de compará-lo à técnica de escavar uma cidade soterrada. Começava fazendo com que a paciente me contasse o que sabia e [eu] cuidadosamente anotava os pontos em que alguma sucessão de pensamentos permanecia obscura, ou algum elo da cadeia causal parecia estar faltando. E depois penetraria em camadas mais profundas de suas lembranças nesses pontos, realizando uma pesquisa sob hipnose ou pelo uso de alguma técnica semelhante.(FREUD, 1977, p. 188). Freud está convencido do papel do trauma e principalmente da existência de conteúdos inconscientes que retornam à consciência travestidos de outros significados. Acompanhando suas pacientes numa pesquisa arquelógica de decifração dos sintomas, insistindo nas associações feitas pelas pacientes, Freud tem a intenção de, escavando as idéias e associações conscientes, atingir o trauma ou o momento originário em que a experiência prematura se instala. O esforço do método é resgatar a marca ou o traço psíquico original, que retorna a posteriori numa cena da vida adulta, cujo conteúdo sexual se atualiza e gera o desprazer. Sendo o nosso objetivo demonstrar o funcionamento do aparelho psíquico a partir da organização do desejo, estamos diante de um material significativamente importante da teoria psicanalítica. Como se explica que um traço psíquico residual depositado em uma vivência pretérita possa assumir a condução do comportamento atual do sujeito? Como entender que o sintoma remete a experiências tão originárias? O retorno à clinica faz-se necessário para a compreensão dessas questões. Elisabeth sofria de muitas dores nas pernas, mas Freud acredita que ela tinha consciência de que suas dores, na verdade, falavam de um segredo guardado e não compreendido. Seus sintomas estavam quase sempre relacionados aos cuidados que
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    54 dispensara ao paienfermo ou posteriormente às suas experiências com as doenças da mãe e de sua irmã mais nova. Uma história marcada por muitos momentos de sofrimento e perdas. Suas dores nada mais eram do que foi por Freud denominado de conversão histérica. As dores psíquicas transformaram-se, às custas da divisão da consciência, em uma doença desenvolvida no corpo. A conversão poderia então ser entendida como um desvio. O termo conversão utilizado por Freud descreve a transposição de um conflito de ordem psíquica num sintoma físico ou sensitivo. Para Freud conversão é um fenômeno psíquico entendido a partir de uma concepção econômica; a libido desligada da representação recalcada é transformada em energia de inervação; os sintomas exprimem, pelo corpo, representações recalcadas. Diagnosticada como histérica, Freud sempre acreditou que os sintomas de sua paciente Elisabeth revelavam uma forma de defesa, uma recusa por parte de seu ego em se relacionar com um grupo ideacional que provavelmente lhe provocava desprazer. Como foi constatado no acompanhamento do caso, seu grande segredo dizia respeito ao afeto nutrido (e proibido de ser aceito pela consciência) pelo cunhado, marido da irmã que viera posteriormente a falecer, encontrando, dessa forma, uma vantagem em se livrar de uma condição mental intolerável, em função de todos os seus valores morais. Todo o grupo físico de sensações que ordinariamente poderia ser determinado por causas orgânicas era, no seu caso, de origem psíquica ou possuía um significado psíquico. É bem verdade, como bem salienta Freud, que a conversão não criou o sintoma ou a sua dor somática, mas as circunstâncias indicam que a dor, já existente, foi meramente utilizada, aumentada ou mantida. A teoria da sedução e a simbolização do sintoma histérico trazem à luz diversas questões a serem mais bem compreendidas pelo próprio Freud no desenvolvimento de sua teoria da sexualidade infantil, o que só ocorrerá em momento posterior.
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    55 Um outro exemplodo que isto significa pode ser encontrado no caso clínico de Katharina, jovem de aproximadamente dezoito anos, que costumava ver em suas crises histéricas um rosto masculino ameaçador. Este rosto lhe era absolutamente desconhecido e incapaz de se associar a quem quer que fosse; um rosto sem maior significação, embora lhe causasse forte angústia, até o encontro com Freud ou a sua breve análise. Depois de submetida a um processo de investigação analítica, Katharina mostrou-se capaz de realizar um trabalho psíquico sobre a cena e, com isso, resgatou a significação do rosto, associando-o a uma cena traumática inconsciente, que, por sua vez, estava ligada à figura de um tio, na verdade seu pai. O rosto visto na consciência guardava uma representação de outra imagem, desta vez recalcada e, como tal, inconsciente. Quando vislumbrou o casal no ato sexual, de imediato estabeleceu uma ligação entre a nova impressão e esses dois grupos de lembranças e começou a compreendê-los e, ao mesmo tempo, rechaçá-los. Seguiu-se então um curto período de elaboração, de ‘incubação’, após o qual os sintomas de conversão se fixaram, os vômitos substituindo a repulsa moral e física. Isto solucionou o enigma. Ela não sentira repulsa pela visão das duas pessoas mas pela lembrança que aquela visão despertara nela. E, levando tudo em conta, isso só poderia ser a lembrança da investida contra ela na noite em que ‘sentira o corpo do tio’. (FREUD, 1977, p. 180). Em uma nota de rodapé, é o próprio Freud quem esclarece que, no referido caso, se tratava não do tio, mas do pai da paciente. “A moça adoeceu, portanto, como resultado de investidas sexuais por parte do próprio pai”7 . A cena de sedução, capturada através do relato clínico e manifestada pelas recordações das pacientes histéricas, é muitas vezes questionada por Freud quanto à sua autenticidade e veracidade. A constatação – qualquer que seja o valor de realidade que lhe é atribuída – demonstra que existe sempre um adulto que faz insinuações sexuais à criança, quer de forma 7 Nota de rodapé acrescentada em 1924. p.183.
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    56 direta, com palavrasquer com gestos mais ou menos explícitos, atos sexuais esboçados ou realizados. Laplanche (1985) salienta que, nessas histéricas, tratadas pelo método catártico, a sedução era um cenário comum, localizado muitas vezes numa sucessão de cenas cuja série Freud remontava com entusiasmo para procurar, incansavelmente, chegar à cena primária ou, como mencionava, à cena traumática. À medida que se defrontava com a incidência das cenas, Freud tornava-se contraditoriamente mais incrédulo. Era preciso acreditar que, pela freqüência de suas observações, ou havia se enganado quanto à veracidade das recordações, ou era de supor que a incidência de pais que seduziam seus filhos era muito maior do que jamais se imaginou. Novamente na mesma Carta 69, endereçada à Fliess, Freud reafirma sua desilusão com os achados dos discursos das histéricas: (A perversão teria que ser incomensuravelmente mais freqüente do que a histeria, de vez que a doença somente aparece onde houve uma acumulação de eventos e de onde incide um fator que enfraquece a defesa). Depois, em terceiro lugar, a descoberta comprovada de que, no inconsciente, não há indicações da realidade, de modo que não se consegue distinguir entre a verdade e a imaginação que está catexizada com afeto (FREUD, 1977. p.351). Decepcionado e deveras inquieto com o material oriundo da sua prática, nesta carta está a sua objeção quanto à freqüência com que teria que tratar da perversão sexual dos pais, já que, pelos relatos clínicos, todos estariam envolvidos com suas filhas. E havia de pensar que seriam muito mais casos de sedução do que os que levaram à patologia histérica, por circunstâncias particularmente determinadas. Segue ainda em suas objeções quanto à questão da sedução, acrescentando que não existiria no inconsciente nenhum indício de realidade da cena, tornando difícil fazer a distinção entre o que era verdade ou o que era ficção investida de afeto (fantasia).
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    57 Para muitos historiadoresda Psicanálise, trata-se de um outro momento crucial, em que Freud, encurralado pelas observações da clínica, vê-se forçado a abandonar sua teoria das neuroses. A passagem da teoria da sedução, entretanto, para muitos comentadores nunca chegou a concretizar-se. Freud retornou muitas vezes a ela, ainda que seu conteúdo tenha sofrido diversas transformações durante a produção de toda sua obra. Contudo, os argumentos sobre o material colhido nesse período, como salienta Monzani(1989), permitirão a Freud adquirir três noções-chave, através das quais articulará o discurso psicanalítico propriamente dito: a sexualidade infantil, o complexo de Édipo e o papel preponderante da fantasia como fatores etiológicos na formação das neuroses. Para Laplanche (1985), Freud apresenta contra sua própria teoria objeções de fato: a impossibilidade tanto de remontar à cena quanto de admitir a freqüência da perversão dos pais, além da incapacidade de decidir se uma cena reencontrada remete ao real ou à fantasia. Faltava a Freud, nesse período, a noção de realidade psíquica – alguma coisa que tivesse toda a consistência do real sem, contudo, ser verificável pela experiência externa. Na Parte II de Projeto..., quando descreve suas hipóteses acerca dos processos patológicos da histeria, Freud defronta-se com a noção de fantasia e a suspeita da teoria da sexualidade infantil como elemento presente no material recalcado. “A análise levou a esta surpreendente conclusão: para cada compulsão existe uma repressão correspondente, e para cada intrusão excessiva na consciência existe uma amnésia correspondente”. (FREUD, 1977, p. 460). Mostra-se convencido de que o processo de defesa histérico decorre de uma defesa primária do ego diante do conteúdo de desprazer, além de implicar um deslocamento de uma situação de desprazer para uma outra situação aparentemente neutra ou sem ligação direta com a primeira. Se por um lado o ego expulsa a idéia desprazerosa da consciência, por que esta insiste em reaparecer através de uma outra forma de pensamento ou de situação? O que
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    58 está para alémda defesa natural do ego? O enigma parece relacionar-se mais com o conteúdo (sexual) do recalque do que com a defesa. Através da teoria da sedução, é a mentira da histérica que ganha revelo para Freud nesse período. É a mentira inscrita nos fatos, como observa Laplanche: As histéricas mentem – nós sabemos mesmo antes de Freud. Acabamos de constatá-lo, e concordamos com ele, uma vez que elas propõem como uma cena, supostamente pertencente à sua infância, algo que muitas vezes nos leva a pensar que se trata de pura e simples imaginação. Elas tomaram sua imaginação por uma realidade, e, mais profundamente, traduziram – de acordo com certas regras de transposição – seu desejo numa realidade: aqui, naquilo que chamamos de ‘fantasia originária’ de sedução, é seu próprio desejo de seduzir o pai que elas traduziram, de modo invertido, numa cena real de sedução pelo pai. Pelo termo ‘proton pseudo’, entretanto, não é uma mentira subjetiva que nos é apresentada, mas uma espécie de passagem do subjetivo à ‘realidade’ fundadora, ou mesmo, poder-se-ia dizer, ao transcendental; de qualquer modo, uma mentira objetiva inscrita nos fatos. A psicanálise, de imediato e definitivamente, ultrapassa a pobreza da ‘clínica’ oficial, que nunca deixou de referir-se à má fé e à simulação para explicar o que chama de ‘pitiatismo’. Se as histéricas mentem, são elas, especialmente, as primeiras vítimas de uma espécie de mentira ou engano. (LAPLANCHE, 1985, p. 41.) Com essa compreensão sobre a histeria e o sintoma histérico, a Psicanálise inaugura uma nova compreensão da psicopatologia. O papel da etiologia sexual na causação das neuroses defendido na obra freudiana sempre foi alvo e objeto de muita polêmica. As idéias propostas nas suas teses ultrapassaram largamente e de forma inédita o que sempre se constatou e pensou sobre as histéricas. O foco na sexualidade e no recalque fez com que seu autor fosse reconhecido pela originalidade de sua teoria, mas, muito mais ainda, criticado ferreamente, por colegas e outros pesquisadores contemporâneos. Para Freud, o engano é fruto de uma defesa impedida de seguir um caminho normal, tornando-se, assim, uma defesa ou saída patológica. Na defesa histérica, a recordação de uma cena de desprazer, portanto carregada de tensão, está marcada pelo impedimento desta cena
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    59 de seguir umcaminho de descarga normal, da possibilidade de ser elaborada. De um lado inconsciente encontra-se a cena recalcada, a recordação desagradável; de outro, uma recordação constante, aparentemente acessória, contingente do acontecimento traumático, que permaneceu na memória como sintoma ou símbolo da primeira cena, já que esta não pode ser trazida em sua forma original para a consciência. A ligação entre ambas as cenas não pode ser aceita na consciência, permanecendo, dessa maneira, desconhecida. O processo primário foi descrito por Freud inicialmente nos fenômenos de realização de desejo. Por essa razão, é no sonho que suas leis básicas se manifestam mais claramente; o deslocamento está a serviço do desejo. No entanto, no sintoma histérico, ainda que haja deslocamento, o recalque não fala do desejo, e sim de um mecanismo de defesa diferente do sonho. O ego, recorrendo a este mecanismo, busca moderar a circulação e uma melhor distribuição do afeto. Na verdade, é o conteúdo de ordem sexual que faz com que tal defesa, uma defesa patológica, produza esse deslocamento de afeto de uma cena traumática e recalcada para uma cena atual, consciente e aparentemente desprovida de sentido. O que caracteriza o recalque e a necessidade de defesa da cena traumática é seu conteúdo sexual. Para Freud, é preciso que a cena originária pertença ao domínio da sexualidade, e, portanto, seja geradora de desconforto, para que seja alijada da consciência. A outra cena, posterior e inócua de desprazer, ganha nesta forma de defesa o afeto deslocado da primeira tornando-se o centro do desconforto e, por conseguinte, o sintoma catexizado de desprazer. O deslocamento do afeto é o que caracteriza e compõe a relação entre as duas cenas tratadas pela histérica. Vejamos o comentário sobre a proton pseudos: Precisamos de uma explicação para o fato de que um processo-do-ego possa acarretar conseqüências que estamos acostumados a encontrar somente nos processos primários. Devemos esperar aqui a intervenção de condições psíquicas muito especiais. A observação clínica mostra que tudo isso apenas acontece na esfera sexual; de modo que essas condições psíquicas especiais
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    60 talvez possam serexplicadas derivando-as das características naturais da sexualidade. (FREUD, 1977, p. 463-4). Freud relaciona as características naturais da sexualidade com a noção da natureza bifásica de sexualidade infantil e sua decorrência nas etapas de desenvolvimento dessa sexualidade. A identificação de uma fase inicial não genital, interrompida em seu processo de desenvolvimento por um período da latência, pode ser o que Freud já tivesse sob suspeita. Isso parece relacionar ou justificar a razão da amnésia histérica e a não-simbolização da primeira, mas sim da segunda cena de sedução. O conteúdo sexual não compreendido ou elaborado pela pequena criança retorna numa fase em que a sexualidade pode e deve ser significada. Na relação estabelecida entre a primeira cena (a mais antiga e de caráter sexual) e uma segunda, mais atual e ingênua, é que se estabelece o que ele chamou de mentira ou engano histérico. A fantasia de sedução, ou sedução originária, traduz na essência um desejo, assim como o sonho também o faz. No entanto, o desejo de seduzir o pai, apontado na histeria, é traduzido, por regras de transposição, de forma inversa, numa cena referida como real, onde o adulto - o pai atua sobre a criança indefesa. Essas questões relacionadas à sedução como fantasia infantil (cena fantasmática de sedução) e às fases da sexualidade infantil retornarão, posteriormente, de forma mais estruturada em sua obra de 1905 intitulada Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, quando a sexualidade infantil ganha seu lugar de centralidade na etiologia das neuroses e da vida sexual dos normais. O processo patológico do sintoma histérico é, na verdade, um processo de deslocamento, semelhante ao que acontece nos sonhos. Trata-se do deslocamento de quantidade e de afeto entre o recalcado e uma cena atual, recente e desprovida de sentido direto com o que ficou recalcado. Assim como o histérico, o sujeito que sonha também é
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    61 capaz de experimentarangústia, desejo ou dor frente a uma representação que lhe seja aparentemente inofensiva. O símbolo é portador do afeto. A esse fato psíquico chamou Freud de processo primário. Tal processo trataria, portanto, de um deslocamento do afeto para uma nova representação, destituindo da cena original o afeto e o interesse psíquico. O caso de Emma, citado em Projeto..., serve de subsídio a esta conclusão. Desde jovem sofria de uma fobia – medo de entrar sozinha numa loja. Para melhor compreender suas queixas de ansiedade, Freud pediu-lhe que tentasse identificar quando surgira seu sintoma. A partir dos relatos da paciente Freud chega a uma cena consciente, acontecida entre os 12/13 anos de idade, em plena adolescência, e a uma outra cena anterior, provavelmente ocorrida quando a paciente contava com apenas oito anos. A primeira cena, ocorrida na ordem cronológica, recalcada e só descoberta com auxílio da análise, era protagonizada por um comerciante que assedia a pequena Emma, então aos oito anos de idade, tentando tocar nos genitais através de suas roupas. Mesmo sendo vítima desta situação, a paciente ainda retorna mais uma vez à loja. Esse retorno é motivo de muita censura por parte da paciente em sua vida atual. Não é preciso ressaltar aqui o caráter eminentemente sexual que caracteriza a cena e que justifica o seu recalque. Na cena posterior, a mais atual cronologicamente e sem nenhum componente sexual aparente, Emma relata o seu desconforto quando, aos 13 anos, ao entrar numa loja para comprar alguma coisa depara-se com dois balconistas que riem muito. Tomada de forte afeto desprazeroso, sai correndo acreditando que os homens riem de suas vestes. Ao tentar relacionar esses conteúdos apresentados pela paciente em seus dois relatos, Freud depara-se com o complexo processo de repressão, acompanhado de simbolização. No entanto, as conexões entre as cenas não concentram o desconforto no atentado, mas num
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    62 elemento aparentemente desprovidode qualidade – as vestes. O hiato, ou essa aparente falta de sentido, é o que interessa a Freud: No nosso exemplo, porém, o que chama atenção justamente é que o elemento que penetra na consciência não é o que desperta interesse (o atentado), mas outro, na qualidade de símbolo (as roupas). Se nos perguntarmos qual seria a causa desse processo patológico interpolado, só podemos indicar uma - a liberação sexual, da qual também há provas na consciência. Isto está vinculado à lembrança do atentado; mas é de chamar a atenção o fato de que ela [a liberação sexual] não se vinculasse ao atentado quando esse foi cometido. Aqui deparamos com um caso em que a lembrança desperta um afeto que não pode suscitar quando ocorreu na qualidade de experiência, porque nesse entretempo as mudanças [trazidas] pela puberdade tornaram possível uma interpretação diferente do que era lembrado (FREUD, 1977, p. 467-8). Na ocasião da primeira cena, Emma, ainda uma criança, não fora capaz de relacionar o que aconteceu com qualquer coisa que tenha a ver com a sexualidade. Na segunda, na puberdade, ela pode compreender muito bem o seu caráter sexual. Deslocar a quantidade e o afeto de uma cena para outra foi o trabalho da defesa. A partir desse relato, chega à seguinte constatação: a criança, impedida de significar a cena de sedução, o faz apenas num momento posterior, mediante outra situação aparentemente desprovida desse caráter sexual. É, pois, numa segunda cena, geralmente em circunstâncias banais, e não sendo em si um atentado sexual, que a psique realiza, através do deslocamento, uma substituição de cena, mantendo o caráter sexual como elemento comum a ambas. A última cena reativa a primeira através da recordação, desencadeando nesta uma reação em dois sentidos: uma explicação fisiológica, de um lado, e de outro, um conjunto de representações que caracterizam a sua ligação com a sexualidade. As mudanças ocorridas com a puberdade permitem agora, num tempo posterior, tornar compreensíveis alguns fatos vividos prematuramente.
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    63 Embora em geralnão aconteça na vida psíquica que uma lembrança desperte um afeto que não existiu por ocasião da experiência, tal é, no entanto, o que acontece com mais freqüência no caso das idéias sexuais, precisamente porque o retardamento da puberdade constitui uma característica geral da organização. Toda pessoa adolescente porta traços de memória que podem ser compreendidos com a manifestação de suas próprias sensações sexuais; todo adolescente, portanto, traz dentro de si o germe da histeria. (FREUD, 1977, p. 468-9). Através desse caso, pode-se identificar o mecanismo do recalque histérico: uma recordação é recalcada e não se transforma em traumatismo senão posteriormente. Para Freud, a razão disto residia no fato do retardamento da puberdade, sob o ponto de vista comparativo da evolução do indivíduo. Essa distinção entre a representação/cena e o afeto é, além de uma das mais significativas conclusões de Freud, um dos eixos centrais nos quais a Psicanálise, como teoria, se estrutura. Todo ato psíquico é formado por dois componentes: um representativo (uma idéia) e um afetivo (um sentimento). Eles podem variar em clareza, de um lado, e em intensidade, de outro, embora estejam sempre presentes numa mesma situação. A descoberta psicanalítica importante foi perceber que não há uma relação intrínseca entre os dois componentes, mas, ao contrário, eles podem dissociar-se e tomar rumos bem distintos, principalmente frente a uma circunstância traumática. A prática clínica mostrou que, nos casos patológicos, o fator quantitativo do afeto emerge com toda clareza e torna-se passível de sofrer deslocamento, conversão, condensação, sugerindo, assim, a idéia de que um quantum circula entre representações e que, eventualmente, pode vincular-se numa representação ou mesmo manifestar-se de forma direta e pura, como no caso da angústia. Essa constatação sobre as vicissitudes independentes entre o afeto e a representação jamais fora abandonada. As conquistas freudianas advindas desses trabalhos pré-psicanalíticos estão marcadas por uma nova idéia ou movimento de ordenação do aparelho psíquico: a passagem e os
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    64 registros entre experiênciasdo externo para o interno e vice-versa. O sujeito, na sua interação ou no contato com o mundo e com os pais, organiza-se também nas funções, podendo destinar, na sua estruturação egóica, defesas normais ou patológicas frente a essas experiências. Apesar das oscilações com temas como realidade, imaginação e reconstrução retrospectiva, Freud reafirmará sempre, e cada vez mais, a sedução como um fato. As descobertas desse período jamais foram totalmente abandonadas por ele, a despeito de seus desdobramentos teóricos posteriores. Esse contexto, construído ainda que de forma preliminar e carente de uma base mais promissora quanto à participação da sedução no contorno da estrutura psíquica, pode ser, mesmo que prematuramente considerado, o alicerce sobre o qual Freud assentará no futuro a teoria edipiana. Para tanto, continuará reafirmando a sedução como um fato, a ponto de apresentá-la, em obra de 19138 , como um dado universal: a sedução da qual nenhum ser humano escapa – a sedução dos cuidados maternos. Segundo esse autor, a teoria psicanalítica vai salientar que os primeiros gestos da mãe na sua relação com a criança são necessariamente impregnados de sexualidade, constatação que coincidirá com a formulação freudiana a respeito da polarização da sexualidade infantil nas zonas erógenas. Vale ressaltar que o mais significativo de todo esse material clínico, bastante rico nos exemplos, é o substrato sobre as relações de objeto que aqui são discretamente assinaladas. Laplanche salienta em suas observações sobre a teoria freudiana da sedução: Habituemo-nos à idéia de que as significações implícitas no menor gesto dos pais são portadoras das fantasias dos mesmos; na verdade esquece-se, muitas vezes, quando se fala da relação mãe-filho ou da relação pais-filhos, que os pais, por sua vez tiveram seus próprios pais; eles têm também seus ‘complexos’, seus desejos marcados de historicidade, de modo que, reconstruir o complexo de Édipo da criança como uma situação triangular, esquecendo-se que nos dois ângulos do triângulo cada protagonista adulto é, 8 FREUD,1977, Totem e Tabu. v.XII.
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    65 ele próprio, poder-se-iadizer, portador de seu pequeno triângulo e mesmo de toda uma série de triângulos encaixados uns nos outros, é negligenciar um aspecto essencial da situação. Finalmente, a estrutura edipiana completa é de imediato presente, ao mesmo tempo ‘em si’ (na objetividade da configuração familiar), mas, sobretudo ‘no outro’, fora da criança. A via de apropriação desse ‘em si’ passa primeiro por uma apreensão – confusa e de certa maneira monstruosa – do complexo no outro primordial (em princípio a mãe). (LAPLANCHE, 1985, p. 51). Tais constatações sinalizam para os efeitos das relações objetais, travadas desde muito cedo por todos os seres humanos, neuróticos ou normais. O estudo das neuroses, e em especial da histeria, como vimos até aqui, proporcionou à pesquisa psicanalítica achados que reafirmam a importante presença desse outro, como elemento fundamental na relação do sujeito com o mundo, bem como na própria relação estrutural de sujeito. Tentar compreender a instância paterna ou, melhor dizendo, tentar reconhecer até aqui a presença do pai é reconhecer a presença, mesmo que indiretamente nomeada, de um novo elemento naquela que era a relação de referência inicial, portanto, a díade original mãe-filho. A partir dos sintomas das pacientes histéricas, Freud pôde descobrir um novo elemento, funcionando até então como um corpo estranho ameaçador dessa relação fusional. O pai, ainda sem um aparato teórico adequado, aparece como elemento de desejos, presente nas fantasias infantis. Sua existência parece demarcar novos limites relacionais, porém insuficientes para esclarecer o seu papel na composição triangular. As relações de objeto (os pais), desde muito cedo na teoria psicanalítica, fazem alusão direta ao caráter sexual de tais relações, embora somente alguns anos depois Freud compreenderia seu significado e construiria o que seria de todas as suas teorias a mais importante para a estrutura do sujeito: o Complexo de Édipo. Para chegar à formulação desse complexo estruturante, Freud retornou muitas vezes à teoria da sedução e às fantasias originárias. Esse material recortado da realidade psíquica de suas pacientes histéricas constituiu o embasamento não apenas de toda a segunda parte do
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    66 Projeto..., mas tambémda grande maioria dos escritos teóricos da clínica psicanalítica, aos quais nos deteremos no próximo capítulo.
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    67 2 O PRÓXIMOPASSO: FREUD E A NOÇÃO DE FANTASIA As falsificações não são feitas de ouro, mas estiveram bem perto de algo realmente feito de ouro. Dito popular As psiconeuroses constituem-se, sem dúvida, na principal fonte de observação e pesquisa de Freud, no que tange ao seu intento de construir um aparelho que respondesse a elaboração de processos psíquicos mais complexos, ou melhor, das demandas desiderativas que encontrou tanto nos neuróticos quanto nos sujeitos normais. No intuito de transpor os limites biológicos como constatamos no capítulo anterior, Freud segue seu percurso descrevendo esses processos cada vez mais complexos do aparelho desejante, salientando a diferença de suas tarefas, tais como: consciência, memória, alucinação, dentre outros. O que aqui importa demonstrar é que as tarefas deste aparelho vão, desde o seu início, para além da excitação quantitativa ou meramente fisiológica. A relação de sujeição ao outro que cuida e responde à suas demandas de sobrevivência (bebê/adulto), instaura com suas repetições e registros novos outros processos de excitação neuronal de intensidade e percursos diversos. Processos como memória e alucinação não podem mais ser descritos pelos mesmos caminhos. Na busca epistemológica da função paterna, razão do nosso interesse sobre esse material psicanalítico, seguiremos o pensamento e as descobertas freudianas sobre tal modelo psíquico que dê conta destas outras funções e não somente daquelas que expliquem as tarefas biológicas ou de caráter de sobrevivência do filhote de homem. O processo de humanização ou de socialização que marca a personificação de um sujeito, perpassa o processo de
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    68 sobrevivência animal einstaura-se a partir da instituição de novas formas psíquicas que delineiam a presença do sujeito de desejo. Enquanto no Projeto... Freud depara-se com a primazia da quantidade como unidade justificadora de todos os processos, surpreende-se, ainda nesta obra, com os efeitos de qualidade e origem interna da excitação. Os casos clínicos e a determinação em desenhar os caminhos da excitação e seus efeitos e conseqüências na vida psíquica de seus pacientes, levaram Freud a uma incansável pesquisa sobre tais processos. Em carta a Fliess de 1897, Freud revela sua inquietação diante do esforço de explicar a totalidade dos fenômenos psíquicos apenas pela perspectiva da quantidade, sua clínica o leva a redefinir as neuroses a partir deste novo material. Refere Freud: Pois bem, vejo que a defesa contra as lembranças não impede que estas dêem origem a estruturas psíquicas superiores, que persistem por algum tempo e, depois, são elas mesmas sujeitas à defesa. Esta, porém, é do tipo específico mais elevado – precisamente como nos sonhos, que contêm in nuce [numa casca de noz] a psicologia das neuroses, muito genericamente. Deparamo-nos é com as falsificações da memória e com as fantasias – estas referindo-se ao passado ou ao futuro. Conheço mais ou menos as leis segundo as quais se agrupam essas estruturas e os motivos pelos quais são mais fortes do que as lembranças verdadeiras; assim, aprendi coisas novas que ajudam a caracterizar os processos no Inc. (FREUD, 1977, p 348-9). Freud encontra nos sintomas histéricos fenômenos psíquicos cuja forma econômica contraria seus achados nos fenômenos ditos normais. O estado psíquico destes pacientes cindiu-se de tal forma que o funcionamento dos processos psíquicos se limita a determinados complexos representacionais que desencadeiam, a partir da recordação, o surgimento de imagens sem correspondências atuais no mundo real dos sentidos. A histérica alucina e, portanto, vive de suas reminiscências, como repetia Freud em seus comentários a Fliess. Esse mundo imaginário em que se afunda o psiquismo da histérica, legitimado pelo mecanismo da alucinação, inverte o caminho preferencial do processo
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    69 psíquico (da percepçãoà memória), oferecendo à memória um novo atributo – ela passa a ser a estimuladora dos fenômenos psíquicos. Uma mudança de sentido se instala. A mudança não se restringe apenas ao caráter econômico da energia que circula no aparelho psíquico. É assim que, no delineamento dos sintomas histéricos Freud chega a novos fenômenos da psique destas pacientes: as fantasias e a recorrência a uma cena traumática. No texto A Etiologia da Histeria de 18969 , Freud, auxiliado pelas contribuições de Breuer sobre os sintomas e o tratamento das histéricas, debate-se diante desta inversão, destacando o papel ocupado pela experiência vivida em fase precoce do desenvolvimento psíquico dessas pacientes e que passou a ser reproduzida em sua vida psíquica posterior, na idade adulta. Ao tentarmos, de maneira aproximadamente semelhante, induzir os sintomas da histeria a se fazerem ouvir como testemunhas da história da origem da doença, devemos partir da portentosa descoberta de Josef Breuer: os sintomas das histéricas (à parte os estigmas) são determinados por certas experiências do paciente que atuaram de modo traumático e que são reproduzidas em sua vida psíquica sob a forma de símbolos mnêmicos. O que temos a fazer é aplicar o método de Breuer – ou algum que lhe seja essencialmente idêntico – de modo a fazer a atenção do paciente retroagir desde seu sintoma até a cena na qual e pela qual o sintoma surgiu; e, tendo assim localizado a cena, eliminamos o sintoma ao promover, durante a reprodução da cena traumática, uma correção subseqüente do curso psíquico dos acontecimentos que então ocorreram. (FREUD, 1977, p.190-1). O que aqui se resgata neste material teórico é a constatação de que por trás deste conteúdo, encontramos o processo da imaginação organizando forças psíquicas, o que serve de substrato para a formação do desejo na teoria freudiana. A base desse material está no valor dado ao conteúdo da cena. A suspeita freudiana sobre o conteúdo sexual da mesma já está implantada neste momento. 9 FREUD, 1977, v. III.
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    70 Se a lembrançaque descobrimos não atende a nossa expectativa, talvez devamos prosseguir um pouco mais no mesmo caminho; é possível que, por trás da primeira cena traumática, oculte-se a lembrança de uma segunda cena que satisfaça melhor a nossos requisitos e cuja reprodução tenha maior efeito terapêutico; de modo que a cena descoberta em primeiro lugar tem apenas a importância de um elo de ligação na cadeia de associações. [...] E talvez esta situação se repita; cenas inoperantes poderão ser interpoladas mais uma vez, como transições necessárias no processo de reprodução, até que encontremos finalmente nosso caminho desde o sintoma histérico [...] (FREUD, 1977, p.193). Reconstruir a cena, atuar sobre o trauma é atingir o ponto da reconstituição de relações infantis com as figuras parentais em sua essência mais primária. Freud está convicto de que as imagens ou fantasias que retornam à consciência dos histéricos são, na verdade, cenas primevas de relações de desejo. A gênese da imaginação é o desejo, que está por se revelar a estes sujeitos, como veremos concluir o próprio Freud: Mas a descoberta mais importante a que chegamos, quando uma análise é sistematicamente conduzida, é a seguinte: qualquer que seja o caso e qualquer que seja o sintoma que tomemos como ponto de partida, no fim chegamos infalivelmente ao campo da experiência sexual.10 Aqui, portanto, pela primeira vez parece que descobrimos uma precondição etiológica dos sintomas histéricos. (FREUD, 1977, p.196). Para Freud, neste período de sua produção teórica, tais experiências infantis a que se refere são de conteúdo sexual e afetam o sujeito num sentido muito mais amplo que não o sentido da sexualidade genital, porque o atingem numa tenra idade, onde seu aparelho psíquico não permite a compreensão ou a elaboração da experiência e, portanto, precisa ser alijado da consciência, reprimido porque não foi possível de ser elaborado. O recalque se dá em função do estranhamento em relação ao conteúdo de tal experiência pela criança ainda muito pequena. O trabalho psicanalítico, segundo ele, tem como objetivo resgatar tais 10 Grifo do autor
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    71 experiências para quesejam elaboradas pelo adulto, a partir de um outro estágio do aparelho psíquico, agora capaz de reagir. Laplanche (1992) observa que todos os escritos de Freud desta época estão cheios de exemplos desses acontecimentos em que uma criança é exposta a uma experiência sexual imatura. Para ele a criança em questão está num estado de imaturidade, incapacidade, de insuficiência em relação ao que lhe acontece. Salienta, nestes casos, o que para Freud é material de pesquisa - o que está em questão nessas experiências é a defasagem, a vivência e a capacidade de elaboração. Nas palavras de Laplanche: “É esta defasagem que é o terreno do trauma” (LAPLANCHE, 1992, p.114.). O trauma decorre do caráter fortuito, do fato de que o sujeito não está preparado para entender o que experimentou. A prática clínica e os relatos pouco conclusivos das pacientes que tratou à época, no entanto, fazem emergir em Freud muitas incertezas quanto à veracidade desses conteúdos. A grande freqüência de adultos sedutores na historia dos sintomas, em geral estes adultos eram direta ou indiretamente associados à figura paterna, fizeram Freud suspeitar de seus achados. A inconsistência do discurso provocou em Freud um certo estado de decepção e de desencanto com o que intitulara até então de teoria da sedução. Em 1897, na conhecida Carta 69 a Fliess, Freud anuncia inúmeras razões para não confiar em sua pacientes e assim abandonar esse alicerce a que se apegou para lastrear a teoria das neuroses. “Já não creio mais na minha neurótica”. (FREUD, 1977, p.350), afirma desconcertado, sinalizando mais uma vez um novo desvio na direção de outras descobertas. Entre ou desencanto e a curiosa determinação, a psicanálise avança na sua compreensão sobre o sujeito de desejo. Entretanto até o processo de auto-análise lhe oferece material para suspeitar da importância das fantasias na formação do material inconsciente. Numa nova carta de 1899 (FREUD, 1977, Carta 101.) a Fliess, Freud retoma à relação entre a sexualidade, as fantasias
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    72 infantis e arepressão. O processo de defesa, segundo ele, está relacionado não à percepção (fidelidade ao real), mas sim à memória e à fantasia11 (realidade psíquica). Em primeiro lugar: uma pequena parte de minha auto-análise progrediu e confirmou que as fantasias são produtos de períodos posteriores e são projetadas para o passado, desde o presente até os tempos mais iniciais da infância; [...] Além disso, encontrei um outro elemento psíquico que considero ter significado geral e ser uma fase preliminar dos sintomas (anterior, mesmo à fantasia). (FREUD, 1977, p.372). Subvertendo parcialmente ao que encontrou no Projeto... Freud reconhece que não é imprescindível a atenção no sistema perceptual para que a atividade representativa seja desencadeada. A atividade imaginária tem uma autonomia ativadora. Freud inquietava-se desde então com o papel das fantasias, suas origens e a suspeita de estarem diretamente relacionadas à sexualidade infantil, ou como mencionou nesta mesma carta o embrião de um impulso sexual. Tema de que se ocupou nos anos seguintes. Desde o Projeto... Freud está convencido da existência da representação sexual na formação dos sintomas, e até então havia seguido o discurso de suas pacientes na busca de identificar a origem dessas representações e sua relação com a histeria. O caminho, entretanto, levou-o a idéia do trauma, a que teve que abandonar pelas evidências comentadas anteriormente. No entanto, o propósito de compreender o papel da fantasia, ou ainda, o tema da sedução parece deslocar sua atenção para outros fenômenos, a saber, a origem da sexualidade na infância. Para Monzanni (1989), este episódio vai constituir um dos capítulos mais complicados e espinhosos da história da psicanálise na medida em que vai implicar uma série de hesitações de Freud no decorrer de sua obra. O abandono da sedução aliado ao novo estatuto cunhado às fantasias – o valor de realidade psíquica, torna-se material de significativo interesse de nossa 11 Grifo do autor
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    73 pesquisa sobre afunção paterna. Esse abandono da teoria de sedução é apontado pelos estudiosos de Freud como uma das condições para o estabelecimento da Psicanálise como uma disciplina autônoma. O reconhecimento não mais de uma cena, mas de conteúdos fantasmáticos infantis demarca um salto teórico fundamental para a constituição da teoria psicanalítica do sujeito de desejo. Inscrito não mais e tão somente num corpo biológico o sujeito aparece agora como representante de instâncias psíquicas que transitam numa conjugação de forças que, de um lado, lutam para a realização de um desejo e de outro atendem à repressão ou aos limites impostos pela consciência ou instância egóica que reconhece suas fronteiras. No cerne de todo esse processo psíquico transita o desejo sexual infantil em relação aos pais, como veremos. 2.1 FANTASIAS, TRAUMAS – O REAL E O IMAGINÁRIO SE CONFUNDEM E SE FUNDEM PARA COMPOR O SUJEITO Os textos produzidos por Freud entre 1896-97 tratam de compreender como o fenômeno da fantasia e o das lembranças infantis aparentemente ingênuas e irrelevantes servem de substrato para o desvendamento das neuroses dos adultos. Nesta nova perspectiva oferecida pela fantasia, o sintoma deixa de ser visto como algo que destoa do universo do paciente para ser visto como um representante indireto do desejo e, como tal, é parte integrante da estrutura psíquica. Freud não perderia de vista que a sedução, ou pelo menos, uma fantasia de sedução, muito mais imaginária do que real, é uma constatação de sua experiência clínica até então. Ela é resultado de muita observação junto às histéricas e por esta razão não deve ser de todo ignorada. Do que tratam então as reminiscências que provocam sofrimento em suas pacientes?
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    74 Em Lembranças Encobridorasde 189912 , Freud reconhece que o tema central dessas lembranças encobridoras, utilizado como tema para encobrir um evento desprazeroso e, portanto, rechaçado da vida consciente, desaparece porque as recordações fragmentadas dos primeiros anos de vida põem em relevo o funcionamento psíquico entre crianças e adultos e parece conter uma chave importante para entender a formação dos sintomas sob uma nova perspectiva. No curso de meu tratamento psicanalítico de casos de histeria, neurose obsessiva etc., tenho freqüentemente lidado com recordações fragmentárias dos primeiros anos da infância, que permaneceram na memória dos pacientes. Como mostrei em outros textos, deve-se atribuir grande importância patogênica às impressões dessa época da vida. Mas o tema das lembranças da infância está, de qualquer modo, destinado a ser de interesse psicológico, pois elas põem em notável relevo a diferença fundamental entre o funcionamento psíquico das crianças e dos adultos. (FREUD, 1977, p.287). O reconhecimento de que o conteúdo das lembranças infantis traz em seu bojo elementos que representam o desejo e favorece o aproveitamento de nova abordagem da perspectiva da terapêutica psicanalítica. Esta nova perspectiva e concepção freudiana do sintoma histérico delimitam um significativo hiato criado pelo nosso autor e seus colegas. Para Breuer, Anna O não passa de uma pessoa com forte tendência ao devaneio e a criação imaginativa, Para Freud a histérica, a partir deste ponto, é alguém com grande dificuldade para abreagir adequadamente a um trauma (real ou imaginário). A realidade psíquica é uma forma especial de existência, a qual não deve ser confundida e nem relegada por ser distinta da realidade material. O que importa, desde ponto, é reconhecer que a cena de sedução não é um evento real, mas uma elaboração psíquica – uma fantasia – manifestação espontânea da atividade sexual infantil. 12 FREUD, 1977, v.III.
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    75 Do trauma desedução à teoria da sedução, Freud ultrapassa o real para valorar o papel do imaginário, mas ainda não esgota ou não desvenda a intrincada relação entre fantasia, sexualidade e sintoma neurótico. Os textos desta época evidenciam esse percurso claudicante, muito embora suas suspeitas sobre o complexo edipiano na origem deste entrelaçamento tenha sido referenciado algumas vezes, ainda que em passagem sobre outros temas. A existência das fantasias infantis e a amnésia (função da memória) que acomete os sujeitos nos primeiros anos de vida se justificam para Freud pela existência de conteúdos da sexualidade infantil que permanecem subjacentes na psique de todos os sujeitos normais ou neuróticos. As fantasias, diferentemente da sedução com vivência traumática (real), passam a ser consideradas como significativas, dado o seu caráter de universalidade. Tais fantasias estão relacionadas, não ao pai, num primeiro momento. Relacionam-se com o adulto que cuida, em geral, a mãe. Os primeiros gestos de cuidado e de carinhos da mãe para com a criança estão carregados de afeto e também impregnados de sexualidade. Essa vivência, muito inicial na vida da criança, demarcará a inscrição dos primeiros sinais da pulsão sexual e naturalmente comporão o início do desenvolvimento da vida sexual da criança, como discutiremos mais adiante. No entanto, vale ressaltar, que tal vivência tem um caráter sexual ou nas palavras de Freud, uma experiência sexual-pré-sexual. Embora essas experiências com a mãe sejam definidoras dos desdobramentos psíquicos que o infante tratará de experimentar daí para frente, pelas impressões de prazer que se inscrevem desde muito cedo, não são significadas como de ordem sexual, a não ser num momento posterior. Até então, não existem condições psíquicas, nem amadurecimento biológico da criança para fazer o devido processamento destes conteúdos. Assim, a criança parcialmente
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    76 identifica prazer nocontato de uma parte de seu corpo com esse outro objeto, o que não se configura necessariamente uma relação de prazer objetal, como ocorre com o adulto. O reconhecimento desse processo infantil, marcado pela erotização da relação mãe/filho Freud só irá reconhecer e demonstrar de forma mais estruturada nos textos de 1905, quando retoma a sexualidade infantil como tema central de seus estudos. No presente, restringe-se a entender o movimento do aparato psíquico frente à fantasia que daí decorre. A impossibilidade de lidar com o conteúdo da vivência sexual-pré-sexual, como vimos, leva o aparato psíquico infantil deslocar este conteúdo para uma recordação posterior ou ainda sem grande significado sob o ponto de vista da excitação, e é o próprio Freud que demonstra: Verificamos então que há duas forças psíquicas envolvidas na promoção desse tipo de lembranças. Uma dessas forças encara a importância da experiência como motivo para lembrá-la, enquanto que outra – uma resistência – tenta impedir que se manifeste qualquer referência desta ordem. Essas duas forças opostas não se anulam mutuamente, nem qualquer delas predomina (com ou sem perda para si própria) sobre a outra. Em vez disso, efetua-se uma conciliação, numa analogia aproximada com a resultante de um paralelogramo de forças (FREUD, 1977, p. 290). Na verdade, Freud está diante de um processo aparentemente antagônico ao princípio da inércia que ele havia descrito como primário ao aparato psíquico do ser humano. Como explicar que o aparelho psíquico tenha que deslocar uma recordação de prazer e não de desprazer? O que é afastado da consciência não é desprazeroso em sua natureza. A constatação da necessidade de um mecanismo ou uma ação psíquica que possa dar conta da recordação (uma recordação de prazer) e que ao mesmo tempo tenha que afastar pela impossibilidade de dar conta dessa cota de excitação, leva-o a formulação de um processo conciliatório, mediador, que opera na formação do sintoma e se alia a outros conteúdos
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    77 posteriores. Freud estádiante da compreensão do mecanismo de conflito, recalcamento, deslocamento que caracteriza o sintoma. E a conciliação é a seguinte: o que é registrado como imagem mnêmica não é a experiência relevante em si – nesse aspecto, prevalece a resistência; o que se registra um elemento psíquico intimamente associado ao elemento passível de objeção – e, nesse aspecto, o primeiro princípio mostra sua força; o princípio que se esforça por fixar as impressões importantes, estabelecendo imagens mnêmicas reprodutíveis. O resultado do conflito, portanto, é que, em vez da imagem mnêmica que seria justificada pelo evento original, produz-se uma outra, que foi até certo ponto associativamente deslocada da primeira (FREUD, 1977, p.290). Para melhor elucidação do sintoma neurótico, os novos passos freudianos transcendem o trauma e enunciam um modus operandi para a formação deste (sintoma), a saber: a memória não se faz de uma única experiência, mas de uma sucessão de registros; tais registros podem sofrer alterações ou novas ordenações temporais (fases psíquicas distintas quanto ao estágio de desenvolvimento); os arranjos temporais são realizados a partir de circunstâncias ou das aquisições realizadas em cada fase do desenvolvimento psíquico. Desta forma, fantasia e realidade se fundem ou se misturam no universo psíquico do sujeito, apenas para justificar a necessidade de atender ao desejo inconsciente que insiste em ganhar forma na consciência. Mas como se estrutura o desejo e qual a sua relação com a fantasia? O que Freud suspeita em relação a esse material fantasmático de tão importante para o futuro das relações deste sujeito? O trabalho de pesquisa deste período permitiu a Freud reconhecer a relação entre o desejo e os conteúdos da sexualidade infantil que é o contexto no qual se teceu o sintoma ou a fantasia. Entretanto, a atenção sobre os conteúdos oníricos aliados a essas descobertas, como ele mesmo adverte, é que na Interpretação dos Sonhos, obra de 1900, pode afinal estabelecer os laços que faltavam para o entendimento do sintoma histérico. Ao entrelaçar os conteúdos
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    78 imaginários e aslembranças infantis com o desejo sexual infantil inconsciente, Freud demarca uma distância definitiva e irreconciliável com toda a teoria somática das psiconeuroses. O retorno ao tema da fantasia, dentro desta perspectiva que agora se evidenciava, faz remeter a uma nova compreensão sobre a estrutura do desejo. Assim, desejo se traveste numa cena da infância, de conteúdo aparentemente inocente, para tornar-se acessível à consciência, burlando desta forma a resistência e a censura para encontrar uma forma indireta de expressão. Trata-se da conciliação descrita na letra freudiana, já citada anteriormente. A cena originária do desejo, entretanto, carregada de excitação, permaneceu no inconsciente, gerando tensão de desconforto. O enfrentamento destas descobertas significou, mais uma vez, um novo avanço na compreensão da arquitetura do aparelho psíquico. Os registros inconscientes agora deflagram as relações fundamentais: a tríade mãe-filho-pai. A base do modelo psíquico freudiano vai se estruturando, pelo desejo, na formulação do triângulo edipiano. 2.2 FANTASIA E DESEJO: O PAI NÃO MAIS AUSENTE Como já demonstrado no primeiro capítulo, o desejo se apóia inicialmente na função biológica, destinada a dar conta da sobrevivência do sujeito. Este último numa condição de dependência, ainda não se reconhece dissociado de seu objeto (o adulto provedor). Na busca da satisfação de suas necessidades básicas, a criança se dirige ao objeto que o atende, mas ainda não se pode dizer que existe uma relação de objeto com o adulto; não existe relação de desejo, pelo menos não existe estrutura psíquica capaz de relacionar uma condição de desejo no sentido de desejo de objeto. Ricouer (1977) salienta que este processo com o qual Freud se defronta sinaliza para um fato importante: o desenvolvimento do sistema do aparelho psíquico se altera definitivamente porque coloca em jogo a relação com o mundo externo e conseqüentemente o
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    79 reconhecimento do outrocom o qual se relaciona. A descarga da criança, no grito de apelo ao adulto, adquire uma função secundária de suma importância: a compreensão mútua. A criança não deseja sua mãe e sim seus cuidados, deseja alguém capaz de interferir no seu desconforto, alguém que ao mesmo tempo responda à demanda de sobrevivência – lhe restaure o conforto físico, ao tempo em que também imprime conforto de afeto (contato) que será desde então guardado na memória. A repetição de inúmeras experiências de satisfação com o objeto provedor privilegia a ocorrência ou a constituição de registros que formatam a atividade da memória e posteriormente da alucinação frente à ausência do objeto. Acompanhando o percurso freudiano, há que se perguntar sobre a origem das pulsões sexuais do ser humano. Seriam elas biologicamente determinadas? Como o processo de sobrevivência do humano se distingue de meras necessidades biológicas? Freud está convencido de que as lembranças relacionadas às experiências de prazer, deste período, permanecem resguardadas no inconsciente. Trata-se de entender o papel destas marcas inconscientes e sua relação com o desejo. As lembranças remetem a desejos adiados e portanto reprimidos. Nas palavras de Gay: “os desejos inconscientes sempre permanecem ativos”. (GAY, 1991, p. 133). Para Laplanche (1970) o período de 1895-97 no trabalho freudiano se caracterizou por duas direções diferentes, mas em verdade paralelas: de um lado a investigação clínica das neuroses que desemboca na no descobrimento da sexualidade e adiante da sexualidade infantil e, por outro a teoria, a pesquisa – que (segundo ele) Freud reúne num só conceito – a teoria da sedução. Aqui Freud reúne uma teoria baseada na sedução, na teoria da defesa e da repressão. Teoricamente, o que Freud está empenhado em entender ou desvendar é a relação entre as lembranças encobridoras das fantasias, estas sim, importantes quanto ao conteúdo e sua relação com os sintomas histéricos. Uma observação da clínica freudiana, com direito a depoimentos autobiográficos inclusive, salienta que cenas absolutamente insignificantes,
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    80 inócuas sob qualquerum destes aspectos citados, estão carregadas de significações que precisam ser reconhecidas em seus significados inconscientes. Esta constatação remeterá Freud ao âmago da formação de desejo: Não é nada fácil. Ser completamente honesto comigo mesmo é uma boa norma. Um único pensamento de valor genérico revelou-se a mim. Verifiquei, também no meu caso, o apaixonamento pela mãe e ciúmes do pai, e agora considero isso como um evento universal do início da infância, mesmo que não tão precoce como nas crianças que se tornaram histéricas (FREUD, 1977, p.358). Chegar até a origem ou instalação do desejo é assunto fundamental para o desenvolvimento do pensamento psicanalítico em relação à subjetividade, posto que é nesta reconstituição que Freud se depara com a presença e a importância das figuras parentais, em especial da figura paterna como elemento que amalgama a instituição de um sujeito invariavelmente marcado pela ausência e pela presença de seus objetos relacionais. Embora sua produção tenha apresentado muito conteúdo sobre o sintoma neurótico, Freud vem se deparando com o tema da sexualidade infantil e o seu processo de auto-análise muito contribuiu para as suas suspeitas de que a vida sexual do sujeito se inicia numa relação muito primeva envolvendo a criança e seus pais. Na sedução, um tipo de acontecimento com uma índole claramente sexual é esboçado - um sujeito desempenha uma atitude ativa e o outro sofre os efeitos desta ação; um sujeito que impõe sua sexualidade sobre o outro. O sedutor é, em geral, um adulto e o seduzido uma criança. As cenas das pacientes histéricas apontam sempre para um tipo de acontecimento similar. Se for verdade que a sexualidade se instala na vida de uma criança mediante a interação com o outro (mãe), poder-se-ia pensar mais uma vez num adulto que viola a inocência infantil (ausência de referência sexual). Algo que respondesse a uma sexualidade
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    81 que irrompe defora para dentro, e assim justifica-se que a cena originária, agora convertida como interna (da criança), funciona como um corpo estranho, uma reminiscência, um registro de memória a que se pode resiginifcar quando futuramente esta pessoa experimenta uma situação de desprazer de cunho também sexual. A teoria da sedução desenhada neste período parece atender, ainda que temporariamente, a uma tentativa de explicar não só o surgimento dos conteúdos sexuais na etiologia das neuroses, mas assinala o princípio que vincula a repressão e a sexualidade. Digamos que são duas coisas separadas, descobertas por Freud como uma casualidade, ou melhor ainda, uma não é o conteúdo fortuito da outra, a sexualidade não é o conteúdo fortuito do inconsciente. Freud procura demonstrar porque, por natureza, é a sexualidade o que deve ser reprimido, o que deve ser inconsciente (LAPLANCHE, 1970, p. 74-5). Falar na presença de conteúdos inconscientes e de repressão é falar de outro tipo de funcionamento diferente daquele em que a catexia circula livremente, ou seja, o processo primário. O novo modelo de funcionamento aponta oposição ao fluxo do afeto ou da quantidade e a descarga; Freud apresenta, agora, um funcionamento inibido por defesas; um funcionamento em que intervém o ego. Esse funcionamento denominado de secundário fala da energia ligada, não livre e rechaçada para longe da consciência. Cabe, aqui, um novo questionamento: a relação entre o funcionamento secundário, a defesa e os achados clínicos (as reminiscências das histéricas). Freud é tentado a dar mais um passo no avanço do tema da fantasia. A idéia dos próton-pseudos ou da mentira da histérica assinala que Freud, depois de questionar a veracidade da sedução apresentada por suas pacientes e de atribuir valor à fantasia de sedução, encontra nesta primeira mentira algo mais originário, capaz de conter a essência do desejo reprimido e, portanto inconsciente.
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    82 Na teoria freudianadeste período, a sedução é compreendida como uma fantasia, um registro psíquico sem um significado definido, até que possa ganhar um destino normal ou patológico, a depender do tipo e da intensidade de outras experiências sexuais vividas pela criança e pelo jovem ao longo do desenvolvimento de sua própria sexualidade. Está, então, estabelecida a relação entre próton-pseudos e o verdadeiro fundamento das neuroses. É Laplanche quem explica esse achado freudiano: Freud descobriu que a neurose, o sintoma neurótico, se reveste de uma significação defensiva. E toda defesa implica um motivo que é sempre um desprazer, um desprazer ligado a uma representação.A representação reprimida, contra a qual se instaura a defesa – a repressão é um mecanismo principal de defesa, sobretudo na histeria -, é uma representação que ameaça evocar ou fazer surgir o desprazer. (LAPLANCHE,1970, p. 76). Esse mesmo mecanismo de defesa também é encontrado nas pessoas normais, como salienta Freud. Na vida cotidiana, os sujeitos normais também utilizam naturalmente os mesmo mecanismos de defesa aqui descritos para os sintomas histéricos, sempre que expostos a conteúdos ou situações de desprazer. Assim, onde estaria o caráter diferenciado para a formação do sintoma neurótico? Freud acredita que o processo de formação do sintoma ou da fantasia histérica sofre um trabalho de elaboração mental que vai além da defesa. A elaboração inclui uma dissolução de conteúdo; o pensamento desconfortável está vinculado com muitas outras experiências, pode vir fracionado, deslocado, associado a outros contextos, tudo isso a serviço da defesa e da repressão, visto anteriormente quando tratamos da formação de conciliação do sintoma. Qual a razão para tanto trabalho de elaboração mental? Poupar o contato com o desprazer apenas? Estamos convencidos que não. O conteúdo rechaçado pelo ego, tendo no seu bojo um caráter sexual, não permite que o sujeito possa lidar com naturalidade. Ao remeterem a conteúdos de cunho sexual deflagram uma proteção (defesa) do ego, que a esta
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    83 altura a criançajá tem internalizados os limites da moral e da educação, limites que aprendeu com o adulto durante seus anos de infância. Não é por acaso que Freud, já em Projeto... salienta que as primeiras formas de comunicação do bebê com o adulto no seu anseio de satisfação também são a fonte primordial para moldar os limites; na letra freudiana encontramos: “a função secundária da comunicação e o desamparo inicial dos seres humanos são a fonte primordial de todos os motivos morais”. (FREUD, 1977, p.422). O contexto assinalado pelo sintoma tem registros primários de relações de desejo do sujeito com objetos de seu convívio, pessoas com as quais trava relações mais significativas, o que não é difícil pensar que se trata das figuras parentais. Quase todas as pacientes histéricas apontaram este caminho, como vimos. A determinação em descrever desde o mais primário e fisiológico aos mais complexos processos mentais trouxe como legado psicanalítico um modelo de funcionamento psíquico com características metapsicológicas, nem sempre passível de observação nos moldes cientificistas da clínica psiquiátrica e da sociedade médica daquele período. No entanto, o encontro com a consciência, o ego e o inconsciente, os processos primários e secundários, a fantasia, o sonho e o desejo, o reprimido e o sintoma, enfim as conquistas freudianas até aqui perseguidas parecem justificar o hiato que se instaura entre a Psicanálise e outras teorias sobre o funcionamento da mente humana. Embora tudo isso seja fundamental para a ciência, até então não vimos razão para uma grande revolução no pensar o homem e sua forma de agir no mundo, especialmente no que tange à sua subjetividade e sua forma de estar no mundo das relações. Adiante desse material é possível perguntar: que ponte Freud está prestes a atravessar? Toda essa concepção teórica construiu, amiúde, a passagem para o entendimento freudiano do complexo parental a que denominou complexo de Édipo. Este sim, parece determinar a
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    84 fronteira decisiva dapsicanálise enquanto teoria. O desvendamento do sintoma e o contato com conteúdos relacionados com a sexualidade, a saber, a sexualidade infantil a que Freud está preste a apresentar em seus próximos trabalhos científicos, faz de sua pesquisa a grande diferença na compreensão do sujeito e de suas formas de se relacionar com mundo e com as pessoas. Todo o processo de desvendamento da cena traumática à cena primária, passando pela construção e desconstrução do trauma e da fantasia das pacientes histéricas, fonte da qual extraiu todo esse aprendizado, permitiu que Freud fosse gradativamente chegando ao epicentro do furacão, metaforicamente dizendo, ao centro do funcionamento desejante do sujeito. Entretanto, alguns de seus pressupostos em relação às pacientes começam a ser desconsiderados ou abandonados. Freud distanciou-se da teoria da sedução por uma série de constatações que se interpuseram à sua observação clínica e desabafa suas razões na carta a Fliess. Os contínuos desapontamentos em minhas tentativas de fazer minha análise chegar a uma conclusão real, a debandada das pessoas que, durante algum tempo, eu parecia estar compreendendo com muita segurança. Depois, veio à surpresa diante do fato de que, em todos os casos, o pai, não excluindo o meu, tinha de ser apontado como pervertido [...] [...] (a perversão teria de ser incomensuravelmente mais freqüente do que a histeria, de vez que a doença somente aparece onde houve uma acumulação de eventos e onde incide um fator que enfraquece a defesa). Depois, em terceiro lugar, a descoberta comprovada de que, no inconsciente, não há indicações da realidade, de modo que não se consegue distinguir entre a verdade e a imaginação que está catexizada de afeto. Em quarto lugar, a reflexão de que, na psicose mais profunda, a lembrança inconsciente não vem à tona, não sendo, pois o segredo das experiências da infância revelado sequer no delírio mais confuso. (FREUD, 1977, p. 350-1). De forma conclusiva seguem suas reflexões: “Em tal medida fui influenciado por isso, que me preparei para abandonar duas coisas: a resolução completa de uma neurose e o conhecimento certo de sua etiologia na infância”. (FREUD, 1977, p. 351.)
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    85 A partir dessedesabafo, Freud mergulha num dos momentos mais férteis de sua descoberta com relação ao funcionamento do psiquismo, apesar de sua aparente descrença em tudo que colheu junto às pacientes. Não só está convencido de que os pais – sempre citados então como principais responsáveis pela experiência de abuso junto à filha – não sejam todos, pervertidos em sua vida sexual, como também acredita que esses pais estão, de alguma outra forma, implicados na origem da fantasia, sem que isso derive um desvio ou uma aberração desta relação com os filhos. Resta-lhes, ainda, a convicção de que a fantasia, embora não se distinga do fato real para o inconsciente, permanece presente, e tem mesmo valor para a vida psíquica; vale lembrar que, em seu conteúdo, a fantasia remete, invariavelmente, à questão da sexualidade entre a criança e seus pais. Resta-lhe, também, a idéia de que para a fantasia cabe a não sujeição ao real e, portanto, cabe a modificação, a recriação, a ampliação dos elementos vividos, experimentados e captados pela memória. Freud está diante de fundamentos importantes no seu arcabouço teórico, fundamentos a que chamou de originários; o que está presente desde o princípio, nas origens do ser humano. Originário e inevitável para a sua constituição como um ser de subjetividade. Laplanche (1992) acrescenta uma observação particularmente importante sobre os protagonistas da situação originária: mãe-filho, tomando como base a díade freudiana. O autor acredita que ocorre neste momento, não só um movimento de abertura da criança para incluir o mundo e o outro (a mãe), mas também um outro movimento, tão importante quanto o primeiro. Descreve ele: Meu segundo ponto, já o explorei amplamente na primeira parte: para o pequeno humano o problema de abrir-se ao mundo é um falso problema; a única problemática será, isto sim, a de se fechar um si mesmo, ou um ego, qualquer que seja, aliás, a periferia, a circunferência desse ego. (LAPLANCHE, 1992, p.100).
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    86 Freud veio respondendoa esta problemática desde o Projeto... Defendeu a origem do ego a partir da necessidade de uma organização que se pudesse reconhecer ou diferenciar o mundo objetivo das experiências subjetivas e para que isso pudesse acontecer, acreditava ser necessário que o mecanismo da inibição entrasse em ação. É pela inibição de certos tipos de processos internos do sistema psíquico ou pela diminuição da intensidade de catexia de algumas experiências que o ego começa a se constituir. Nasce pela necessidade de proteger e ser protegido. Protege a qualidade da experiência que é preservada agora no inconsciente e é protegido pelo mecanismo que barra o desprazer da repetição ou da lembrança desta experiência. Até aqui é como se ele descrevesse uma consciência perceptiva primária, um tanto diferente do que constituirá a consciência secundária, proposta pela sua teoria alguns anos mais tarde. Quando adulto, o sujeito desfrutará conseqüentemente de todos esses arranjos e rearranjos de memória e de elaboração psíquica imaginária e simbólica fruto do trabalho do inconsciente de armazenar suas experiências originárias quer sejam de prazer ou desprazer; o adulto reedita em sua vida tudo que acumulou ao longo de toda a sua existência e, mais especialmente, reedita as experiências que marcaram seus primeiros ensaios de relações amorosas com os pais. O passo seguinte para a compreensão da construção do sujeito de desejo é entender o papel não só dos conteúdos fantasmáticos do inconsciente, mas também do papel central do complexo edipiano na historia dos sujeitos normais e dos neuróticos, insinuado, referido ou citado muitas vezes pelo próprio Freud desde os escritos pré-psicanalítcos, até esse momento, território da nossa análise. No complexo de relações já esboçado desde a remota relação sujeito/mãe que alimenta e atende ao apelo de conforto, nos primeiros estágios de elaboração mental até a formulação
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    87 do sintoma comorepresentante simbólico, vamos encontrar não mais um único objeto de desejo, e sim, dois. Freud estava disposto a entender a etiologia dos processos neuróticos quando se depara, no mergulho sobre a fantasia de sua pacientes, com a universalidade de uma função que estrutura não o sintoma, mas a organização psíquica de todo e qualquer ser humano. Ao investigar a fantasia sob a perspectiva de sua relação com a sexualidade, defronta-se com a formação do desejo – o complexo edipiano, universal a todos os seres humanos, independente de sua organização social ou familiar. A inclusão do triângulo afetivo envolvendo a criança e seus referenciais adultos- os pais, define para Freud a arquitetura do edifício mnemônico no qual se alicerça toda historia pulsional do sujeito. Assim, devemos devotar atenção à construção desta categoria freudiana, acompanhar a demonstração desta estrutura, sobre a qual nosso objeto de pesquisa se assenta. A função paterna na história e na ordenação do psiquismo humano está fundamentada no modelo do mito de Édipo. Freud defenderá, com afinco, a universalidade de ordenação afetiva advinda do modelo triangular, ao qual chamou em diferentes momentos, de complexo edipiano. Olhar sobre o sujeito na sua relação de ser cuidado pelo adulto, relação permeada pela dependência deste outro na saciação de carências essenciais do sujeito bebê, torna-se também o olhar que investiga a superposição de novas relações que aqui também se inauguram. A mãe, não o pai, traz a este infante os primeiros contatos de prazer, possibilitando a construção de um vínculo que se transforma num protótipo para tantos outros vínculos futuros. Essa mudança de rumo em relação ao lugar e função do pai será fundamental para que ele definitivamente se inscreva como personagem fundamental e universal de uma moldura de relação que humaniza, dignifica e dá sentido ao sujeito.
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    88 Nesta perspectiva, opai entra não pelo comportamento desviante, pervertido, daquele que abusou, causou o trauma, mas antes, daquele que presente, como terceiro da cena familiar, permite que o sujeito se perceba como tal, independente, passível de buscar suas próprias formas de prazer. O que faz, ou qual o papel do novo elemento, melhor dizendo, o terceiro elemento da equação desejante? O triângulo edipiano no qual Freud dedicará especial atenção ao longo de todo o seu trabalho posterior começa a aparecer, ainda que travestido pela fantasia ou pela imaginação. Num estágio mais primitivo do sujeito e de seu aparato psicológico, o espaço para um terceiro elemento não era sequer cogitado; no entanto, bastou que alguns processos mentais se constituíssem no aparelho psíquico - agora um pouco mais sofisticado pela capacidade de alucinar, lembrar, sonhar, imaginar, fantasiar, fazer associações e deslocamento, combinações – para que esse novo elemento ganhasse forma e lugar. O papel do pai e as conseqüências desse lugar, operante de desejo irá oferecer ao sujeito fenômenos relacionados com a moral, a cultura e a religião que serão melhor analisados nos próximos capítulos. Continuamos a investigar o pai, seu lugar imaginário e simbólico na vida desiderativa do sujeito. A estruturação do aparelho mental mediante processos mais elaborados e relacionados com a sua presença das figuras parentais é o que Freud não mais duvida. Entretanto não encontraremos nos textos freudianos a que nos referimos até aqui a devida explicação ou ordenação teórica consistente. Cabe-nos seguir adiante com o foco nesta procura. De todo modo, podemos avaliar que o percurso feito, até esse ponto, na teoria psicanalítica nos leva ao vetor que relaciona a presença do pai na organização psíquica da vida infantil.
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    89 Observamos que arealidade psíquica infantil utiliza-se de sua capacidade de imaginar, criar, transformar, fantasiar ou somatizar o desejo, como forma de conviver e dar sentido às suas primeiras relações afetivas. Tais mecanismos psíquicos mostram-se a serviço da condição do sujeito ainda imaturo para lidar com a presença do desejo em relação ao objeto (pai). As questões postas pela teoria freudiana dão conta de que o desejo e a figura paterna parecem intrinsecamente relacionados constituindo-se num fato passível de constatação a partir dos relatos clínicos de Freud. Vale questionar não a qualidade, mas a estrutura em que o desejo se configura nessa relação. De que desejo fala a histérica? Todos os sujeitos ditos normais estariam dotados dessa estrutura desiderativa? Essas são questões que teremos que processar daqui para frente. Acreditamos que muitas outras indagações mantiveram Freud em estado de constante atenção e curiosidade durante toda sua obra, em especial seu interesse sobre a organização do desejo no ser humano.
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    90 3 A TRIANGULAÇÃODO DESEJO Você influiu sobre mim como tinha de influir, só que precisa deixar de considerar como uma maldade especial de minha parte o fato de eu ter sucumbido a essa influência. KAFKA, 1919. O encontro de Freud com o fenômeno da fantasia, assunto de que tratamos no capítulo anterior, encaminhou a pesquisa psicanalítica para um outro fenômeno significativo: a existência de uma realidade psíquica; uma forma especial de existência, a qual não pode e não deve ser confundida com a realidade material, mas tem para o sujeito o mesmo valor patogênico que Freud outrora atribuíra às reminiscências da histérica. O descrédito em relação ao discurso de sedução histérico desabafado com o amigo Fliees (FREUD, 1977) e tão fartamente explorado por comentadores da psicanálise parece ter, como contrapartida, direcionado o interesse de Freud para outras direções, embora a fantasia e o inconsciente descobertos nesse período tenham lhe servido sempre como base para o entendimento do funcionamento do aparelho psíquico e balizado seu interesse entre a fronteira do normal e do patológico na história do sujeito. O trabalho da clínica freudiana vai demonstrar que a sedução traumática de que fala a histérica, cena a que Freud durante um tempo tratou como um trauma psíquico, em geral causado pelo adulto, ou ainda, pelo pai, não se configura como fato real, mas, antes, remete a uma fantasia, fruto de uma manifestação espontânea relacionada à vida sexual infantil.13 13 Em nota do editor inglês, foi somente no verão de 1897 que Freud se viu forçado a abandonar sua teoria da sedução. Anunciou o acontecimento em carta a Fliess de 21 de setembro (carta 69), e sua descoberta, quase simultânea, do complexo de Édipo, ao fazer sua auto-análise (cartas 70 e 71, de 3 e 15 de outubro), levou inevitavelmente à compreensão de que os impulsos sexuais atuavam nas crianças de tenra idade sem qualquer necessidade de estímulo de fora. (STRACHEY apud FREUD,1977, p.126).
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    91 O reconhecimento danatureza psíquica da fantasia, bem como da sexualidade na criança foram fatores suficientemente carregados de complexidade para a pesquisa freudiana nos anos seguintes à publicação de Estudos sobre a Histeria (1893-95). Freud inaugura o século XX mergulhado no desconforto de traçar uma investigação consistente, na qual o resultado respondesse à sua inquietação frente ao tão polêmico tema para a sociedade científica da época: a sexualidade infantil. Transitar entre a confirmação da ocorrência prematura de uma sexualidade e, ao mesmo tempo, o reconhecimento do sexual como substância ou tema fundante do processo de humanização e de aculturação do homem, como veremos adiante, permitiu a Freud, já em 1905, uma nova direção para a psicanálise e para sua clínica. O desafio deste capítulo será o de traçar a relação entre esses implicados conceitos – fantasia, inconsciente, sexualidade e o triângulo edipiano do desejo. Para tanto, cabe estabelecer o nexo teórico entre fantasia, sexualidade e função paterna; deixar definitivamente marcado o lugar ocupado pelo pai na história da constituição do sujeito e na humanização da espécie. A saída da teoria da sedução para a teoria da fantasia, com destaque não mais para a identificação da cena traumática, na idéia de que a sexualidade do ser humano irrompe de fora para dentro, do adulto para com a criança, e sim para o reconhecimento de uma experiência primária de desejo, só muito posteriormente re-significada em seu conteúdo pré-sexual no momento em que foi originada, permite a Freud entender e diferenciar um nível estrutural primário da sexualidade infantil. Monzanni (1989) afirma que o abandono da teoria da sedução seria o momento em que Freud adquire três noções-chave através das quais vai poder articular o discurso psicanalítico: 1) a sexualidade infantil; 2) o complexo de Édipo; 3) o papel preponderante da fantasia como fator etiológico na formação das neuroses.
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    92 Em carta aFliess, de 1897, é o próprio Freud quem se apresenta como elemento novo à pesquisa da sexualidade infantil: Um único pensamento de valor genérico revelou-se a mim. Verifiquei, também no meu caso, o apaixonamento pela mãe e ciúme do pai, e agora considero isso como um evento universal do início da infância, mesmo que não tão precoce como nas crianças que se tornaram histéricas. [...] Sendo assim, podemos entender a força avassaladora de Oedipus Rex, apesar de todas as objeções levantadas pela razão contra a sua pressuposição do destino; e podemos entender por que os ulteriores dramas de destino’ não tinham senão como fracassar lamentavelmente (FREUD, 1977, p.358). O germe da constituição do desejo que aqui é posto de maneira direta e incomensuravelmente humana retrata e envolve os personagens essenciais do drama familiar. Essa referência direta a Édipo, entretanto, não evolui exatamente como o interesse de Freud pareceu evidenciar. A ligação da fantasia com a sexualidade não é tratada por Freud tão explicitamente nos anos seguintes. A fantasia como elemento ativador de uma história de sexualidade desde os primeiros anos de vida não ocupou o lugar privilegiado do texto freudiano, possivelmente pelo impacto do próprio conteúdo não somente para Freud, como também para a comunidade científica da época. Segundo Laplanche e Pontalis (1988) é entre 1897 e 1906 que Freud produz grandes obras a respeito do inconsciente e da realidade psíquica; a saber: Interpretação dos sonhos, A psicopatologia da vida cotidiana, Os chistes e sua relação com o inconsciente. Só em 1905 aparece a obra Três ensaios sobre a teoria da sexualidade14 . Para esses autores, esta obra é, por natureza, um texto importante no percurso da construção do conhecimento psicanalítico sobre o funcionamento do desejo. Suas sucessivas revisões (1910,1915,1920) preservam o plano inicial e acrescentam descobertas importantes à teoria psicanalítica sobre a sexualidade infantil. 14 Doravante citada apenas como Três ensaios...
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    93 Para dar consistência,estatuto de centralidade à noção de complexo de Édipo, Freud investiu esforços num caminho de volta à sedução. A fantasia, como formação psíquica complexa, passa a ser observada como cerne que carrega tanto o desejo quanto a realidade, evidenciando, por parte de Freud, uma forma de entendimento bem distinta da sua primeira teoria de cena primária (cena traumática). Na questão da teoria da fantasia infantil, o que está em jogo é entender como a criança – através da fantasia – deseja ser seduzida, e como, ao mesmo tempo, ela é a personagem ou sujeito de um cenário de sedução (relação com a mãe). Assim, Freud busca estabelecer a conexão que lhe falta entre os dois conceitos – fantasia e complexo edipiano. Uma dessas tentativas aparece na referência ao mito no texto Interpretação dos Sonhos, de 1900. Preocupado com o material que constitui o material onírico, comenta o autor: Minhas experiências no analisar sonhos me têm chamado a atenção para o fato de que as séries de pensamento que remontam à primeira infância partem até mesmo de sonhos que parecem, à primeira vista, ter sido inteiramente interpretados, visto que suas fontes e desejo instigador foram descobertas sem dificuldade. Tenho sido, portanto, obrigado a formular a mim mesmo a pergunta de se essa característica talvez não seja outra precondição essencial do sonhar. (FREUD, 1977, p. 232). Adiante, já mais convencido do quanto os sonhos remontam representações psíquicas inconscientes que apontam para a realização de desejo que data de fase remota da história de cada sujeito, conclui Freud: Em minha experiência, que já é extensa, o papel principal nas vidas mentais de todas as crianças que, posteriormente, se tornam psiconeuróticas, é desempenhado por seus pais. Estar apaixonado por um dos progenitores e odiar o outro é um dos constituintes essenciais do acervo de impulsos psíquicos que se forma naquela época e que é de tal importância no determinar os sintomas da neurose posterior. Não acredito, todavia, que os psiconeuróticos difiram acentuadamente nesse sentido de outros seres humanos que permanecem normais. (FREUD, 1977, p.276).
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    94 Desde esse materialproduzido na investigação sobre a estrutura dos sonhos, Freud passa a configurar a triangulação desiderativa como estrutura mais relevante na história do sujeito e da sua relação com a vida numa perspectiva mais ampla, e não somente com relação à sua sexualidade. Ainda nesse mesmo texto comenta: Essa descoberta é confirmada por uma lenda da Antiguidade Clássica que chegou até nós: uma lenda cujo poder profundo e universal de comover somente pode ser compreendido se a hipótese que apresentei no tocante à psicologia das crianças tiver validade igualmente universal. [...] É o destino de todos nós, talvez, dirigir nosso primeiro impulso sexual no sentido de nossa mãe e o nosso primeiro ódio e o nosso primeiro desejo assassino contra nosso pai. Nossos sonhos nos convencem que é isso que se verifica. (FREUD, 1977, p. 277-78). Embora tenha explicitado o lugar de referência na história pessoal do sujeito, o complexo edipiano citado em 1900 não ocupa a centralidade da prática clínica e o trabalho teórico dos anos seguintes. Posteriormente, apoiado na teoria da sedução, Freud refaz o caminho de volta à tragédia de Édipo na teoria da sexualidade. “ Foi a descoberta do fantasma que conduziu Freud a descobrir, no curso do mesmo ano, a sexualidade e o complexo de Édipo”. (MONZANNI, 1989, p.42). A sedução vista agora como material fantasmático, portanto não real, é o disfarce para o encontro com o complexo de Édipo. Descobrir a sedução como fantasia possibilitou um novo percurso para o pensamento psicanalítico. Freud retoma a discussão a respeito da preponderância dos fatores internos e/ou externos sobre a destinação da vida sexual não somente dos normais, como também de seus pacientes histéricos. Escapa tanto da predestinação biológica quanto da determinação externa, advinda da perversão dos adultos. Embora já dispusesse de vários elementos da teoria da sexualidade infantil desde 1896, Freud apenas os irá ordenar e oferecer uma melhor compreensão deste material na obra de 1905. A erotização dos cuidados maternos, recebidos e internalizados desde uma tenra
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    95 idade, parece, comojá descrita anteriormente, fadada a causar uma significação psíquica, necessária ao reconhecimento da sexualidade e da relação objetal que somente se concretiza mais tardiamente. Isso difere sobremaneira da teoria do trauma psíquico que determina a existência de uma cena real de abuso, principalmente por parte dos pais sobre as filhas. A sexualidade presente desde os primeiros momentos da vida veicula uma experiência que só mais tarde é compreendida. A sedução, até então entendida como uma ação externa do adulto em relação à criança, sob forma de abuso, materializa-se muito cedo, travestida de gestos de cuidado e amor da mãe para com seu filho. Esta última forma de sedução é mais ampla e de caráter universal, divergindo da primeira. É a partir de Três ensaios... que Freud mergulha no propósito de entender a relação entre a vida sexual dos sujeitos normais, dos ditos pervertidos e dos neuróticos, e assim compreender a essência dos sintomas neuróticos e, naturalmente, a correlação necessária entre sintoma e instinto sexual. Desta maneira, emerge o fato de que os sintomas representam um substituto para os impulsos de uma fonte cuja força se origina do instinto sexual [...] A natureza dos histéricos mostra um grau de repressão sexual superior à quantidade normal, uma intensificação da resistência contra o instinto sexual (que já encontramos sob a forma de vergonha, repugnância e moralidade), e o que parece ser uma aversão instintiva de sua parte a qualquer consideração intelectual sobre os problemas sexuais [...] [...] Entre a pressão do instinto e seu antagonismo à sexualidade, a doença lhe oferece um caminho de fuga. Ela não resolve seu conflito, mas busca evadi-lo, transformando os impulsos libidinosos em sintomas. (FREUD, 1977, p 167). A distinção no uso de termos como sexual e genital, pulsão e instinto, coisas que aparentemente poderiam indicar apenas excesso de rigor lingüístico, ou ainda uma má interpretação tendenciosa de cunho erotizante, como foi muitas vezes atribuído ao trabalho de Freud, serviu para criar o ambiente teórico necessário para a nova perspectiva sobre o que de
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    96 fato se constituicomo sexualidade infantil e o entendimento dos diferentes destinos da pulsão sexual na espécie humana. Além desse propósito, entretanto, são inúmeras as contribuições deste trabalho para a consolidação e a referência psicanalítica em relação à teoria da sexualidade. Seguindo a letra de Freud, encontramos adiante: Apresenta-nos agora a conclusão de que há, na verdade, algo inato atrás das perversões, mas que é algo inato em todas as pessoas, embora, como uma disposição, possa variar de intensidade e ser aumentada pelas influências da vida real. O que está em dúvida são as raízes constitucionais inatas do instinto sexual. [...] Assim, nosso interesse se volta para a vida sexual das crianças e iremos agora investigar o jogo de influências que governa a evolução da sexualidade infantil até que ela se converta em perversão, neurose ou vida sexual normal. (FREUD, 1977, p.174-75). Neste texto, Freud apura seu interesse sobre os diversos tipos de perversões com o propósito de discutindo estes comportamentos desviados, buscar entender ainda mais a sexualidade humana, seja ela nos sujeitos ditos normais, seja nos pervertidos. Seu intuito, como salienta Laplanche (1989) com o 1o Ensaio é mostrar como o campo da sexualidade humana é amplo quando se trata de identificar destinos e objetos. Apesar da atenção dedicada ao diversificado universo das perversões sexuais de sujeitos adultos, o intuito de Freud ao escrever o referido artigo estava direcionado ao entendimento sobre a existência da sexualidade, desde os primórdios da existência do sujeito. É da sexualidade infantil que ele se propõe a tratar. Para Freud, a sexualidade que irrompe na criança ainda muito pequena tem um caráter não genital e essencialmente distinto de uma função vital de sobrevivência. Ele está convicto de que o que caracteriza o sexual no homem não é da ordem de uma tendência ou inclinação natural, e sua pesquisa se volta para esta comprovação.
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    97 Freud buscou fundamentode suas idéias sobre a vida sexual infantil na força da universalidade do impulso na busca pela satisfação. No entanto, foi além da visão do instinto de sobrevivência (fome/saciação), introduzindo a noção da pulsão (distinta de outros instintos) e de seus destinos para provar o caráter estruturante da sexualidade no ser humano. Compor uma argumentação sólida para consolidar a teoria da sexualidade infantil passou a ser o seu propósito nos escritos e nos trabalhos produzidos nesse período. Dado o caráter tão polêmico desse conteúdo, Freud resistiu muitas vezes ao enfrentamento de suas próprias constatações com relação à vida sexual das crianças, mas seus avanços garantiram a sustentação de argumentos que definiram de uma vez por todas os caminhos particulares da Psicanálise. “Por outro lado, a sexualidade – tomando-se sempre esse termo na sua acepção mais ‘generalizada’ – aparece como que implantada na criança a partir do universo parental, de suas estruturas, de suas significações e de suas fantasias”. (LAPLANCHE, 1985, p 54). Embora na época ainda existissem muitas lacunas em observar o fenômeno da sexualidade nas crianças, severas críticas foram dirigidas a Freud, alegando que a psicanálise tratara de reduzir os enigmas da humanidade à sexualidade e muitas acusações de pansexualismo foram dirigidas ao seu autor. Ao que sei, nem um só autor reconheceu claramente a existência regular de um instinto sexual na infância; e, nos escritos que se tornaram tão numerosos sobre o desenvolvimento das crianças, o capítulo ‘Desenvolvimento Sexual’ é, via de regra, omitido. (FREUD, 1977, p. 178).15 15 Freud afirmara de forma assertiva e havia mergulhado nos trabalhos de Preyer (1882), Baldwun (1898), Pérez (1886), Strumpell (1899), Heller (1904), dentre outros, na tentativa de encontrar referências sobre o comportamento sexual das crianças.
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    98 3.1 A SEXUALIDADEINFANTIL: DA POLIMORFIA AO MUNDO DO OBJETO O percurso de Freud em Três Ensaios... definiu, sobre o viés psicanalítico, os parâmetros para uma nova forma de compreender o que é sexual no ser humano, e mais especificamente, como na criança a sexualidade parcial, fragmentada e diversificada, desvinculada da genitalidade, vai transformando-se evolutivamente numa sexualidade canalizada em seus objetivos e dirigida a um único objeto, transformando-se, no futuro, na sexualidade do adulto. Laplanche (1989), ao referir-se a Três Ensaios..., ressalta-o como um texto inovador, pela força com que Freud retoma o biológico para reforçar o caráter transcendente da pulsão sexual, diferenciando-a dos instintos de preservação ou de urgência da vida, assim considerados pelo mesmo Freud em Projeto para uma Psicologia Científica, de 1895. É na construção e nas diversas revisões do texto Três ensaios... que Freud tece mudanças no entendimento da sexualidade humana; a saber: a) propõe efetivamente uma sexualidade que se origina no sujeito em sua tenra existência; b) desenha uma estrutura para tratar das fases da sexualidade durante a infância até a vida adulta; c) inaugura o conceito transcendente da pulsão sexual. No 1o . Ensaio o que se observa é um esforço de Freud em romper com toda a concepção montada pela biologia e pela psiquiatria do século XX. O conceito de instinto natural, teleologicamente orientado para a reprodução, essência da sexualidade para o século XIX, é dramaticamente desmontado na observação do comportamento dos desviados estudados por Freud. O que não estava orientado para a reprodução, ou não atendia a esta finalidade, fora até então tratado como sexualidade imatura, senil ou desviada. Esse material agora é tomado de interesse e pesquisa para explicar o destino da pulsão sexual no homem. Os
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    99 desvios ajudaram aentender o destino natural do que para Freud era a sexualidade humana, distinta da sexualidade instintual dos animais. Essa desmontagem do conceito marca uma ruptura com a idéia de sexualidade instintiva, primitiva ou preexistente, que nivela o homem aos animais na preservação da espécie. Para Freud é relevante perceber que a sexualidade não é algo dado, pronto e acabado que o sujeito traz consigo desde o início de sua existência e que aguarda por um momento propício para manifestar-se. Freud defende que a criança possui seus impulsos e atividades sexuais desde o seu nascimento e deles emergem a sexualidade dos adultos, sejam eles normais ou neuróticos. “Não é verdade, de maneira alguma, que o impulso sexual penetra na criança em sua puberdade, como os demônios do evangelho entram nos porcos.” [...] (FREUD apud MULLAHY, 1978, p 45). Trata-se, então, de entendê-la como uma composição de diferentes pulsões, diversas zonas erógenas, como ele mesmo vai demonstrando no desenvolvimento infantil, que serão gradativamente alteradas para integrar-se adiante na forma final que encontramos no adulto. Assim conclui o primeiro ensaio: “nosso interesse se volta para a vida sexual das crianças e iremos agora investigar o jogo de influências que governa a evolução da sexualidade infantil até que ela se converta em perversão, neurose ou vida sexual normal”. (FREUD, 1977, p. 174). No 2o Ensaio, demonstra o convencimento de que as primeiras experiências ou impressões que marcaram a história de vida do sujeito em sua tenra idade deixaram traços profundos e terão um efeito determinante no desenvolvimento das relações estabelecidas ao longo de sua vida futura. No entanto, tais impressões, não abolidas da memória, passam por um processo de esquecimento, a que chamou de amnésia infantil. Ficaram abolidas da
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    100 consciência do sujeito,de forma semelhante à amnésia dos neuróticos, cujo objetivo é afastar impressões da consciência, em geral, impressões relacionadas ao desprazer. Preocupado em estabelecer os vínculos que governam a sexualidade infantil e a relação entre instintos (instinkt em alemão) e a pulsão sexual ou Trieb, Freud concentra sua atenção em demarcar tais diferenças na vida dos humanos. Seu esforço está dirigido para contrapor os instintos primitivos, relacionados às necessidades, como por exemplo, a fome, com o que nomeou de pulsão sexual por excelência. Ao distinguir a pulsão do impulso da ordem biológica (elemento motor, medida de exigência de trabalho para a redução de tensão ligada à conservação da vida), destinou à pulsão um caráter distinto, para além do atendimento da satisfação das necessidades de autoconservação. Freud descreve que no processo de satisfação da necessidade de nutrição – necessidade, cuja finalidade é a autopreservação, instaura-se, ao mesmo tempo, uma outra forma de satisfação, que se estabelece no atrito da boca da criança com o peito materno. Distingue, pois, do ato de sugar, a satisfação do ato de chupar o peito. A esta outra forma de satisfação atribuiu o caráter da pulsão e o da satisfação sexual. O prazer encontrado nas primeiras experiências de sugar o peito da mãe, quando da primeira e mais vital atividade realizada pela criança, tende a ser renovado ou repetido. A necessidade de repetir esse prazer, de cunho sexual, do ponto de vista freudiano, desliga-se na necessidade de nutrir-se, tornando-se uma necessidade de satisfação de ordem psíquica e não biológica. Os lábios da criança, ao nosso ver, comportam-se como uma zona erógena, e sem dúvida o estímulo do morno fluxo do leite é a causa da sensação de prazer. A satisfação da zona erógena se associa, no primeiro caso, à satisfação da necessidade de nutrição. De início, a atividade sexual se liga a funções que atendem à finalidade de autopreservação e não se torna independente delas senão mais tarde16 . (FREUD, 1977, p.186). 16 Esta frase foi acrescentada em 1915.
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    101 O conceito freudianode pulsão tem como característica o limiar de satisfação que circula entre a ordem do corpo e a ordem da psique. Este empréstimo, quase que numa licenciosidade poética, permite entender a primeira das metáforas ou o processo de representação que acontece no sujeito e que define os caminhos de sua vida pulsional. O fenômeno da pulsão, demonstrado por Freud ao relacionar o fato da sexualidade nascente ao processo de nutrição, ao mesmo tempo similar e bem diferente, configura-se nesta metáfora. Nosso estudo do ato de sugar o dedo ou sugar sensual já nos deu as três características essenciais de uma manifestação sexual infantil. Em sua origem ela se liga a uma das funções somáticas vitais, ainda não se tem objeto sexual e é, assim, auto-erótica; e seu objetivo sexual é dominado por uma zona erógena. Deve-se prever que estas características se aplicam igualmente à maioria das outras atividades dos instintos sexuais infantis (FREUD, 1977, p.187). Na função vital de comer inaugura-se o registro psíquico de ação de conversação, instinto de autopreservação – comportamento instintual biológico –, e inscreve-se também o registro sexual, da pulsão sexual (metafísico). A ligação que a função sexual ainda incipiente encontra num funcionamento relacionado à vida configura-se num modelo que se repetirá posteriormente em outras fases do desenvolvimento sexual infantil. É nesse contexto que Freud enuncia os três elementos básicos que configuram o seu conceito psicanalítico de sexualidade infantil: a noção de ligação (funções vitais e função sexual), o auto-erotismo e o conceito de zona erógena. É a ação instintiva do ato de sugar e encontrar o leite que a criança opera algumas funções psíquicas: a) internaliza o prazer entre seu corpo (boca) e o do adulto (peito da mãe), registrando a presença de zonas erógenas em seu corpo; b) transforma o registro de saciação numa experiência de prazer sexual auto- erótico – com a perda do objeto externo aprende a chupar outras partes de seu próprio corpo; c) transforma essa experiência com o adulto (mãe) no protótipo de toda relação de amor. “O encontro de um objeto é, na realidade, um reencontro dele” (FREUD, 1977, p. 229).
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    102 Laplanche, ao referir-sea essas experiências iniciais de satisfação da criança, intitulou tal conceito de teoria do apoio: a pulsão sexual apóia-se numa função não sexual, vital, função corporal essencial à vida. O prazer sexual do chupar somente se torna possível porque a criança suga o leite para alimentar-se, ambos intrinsecamente inscritos na psique da criança. Ora, a sexualidade está integralmente presente no pequeno ser humano, num movimento que desvia o instinto, que metaforiza seu alvo, que desloca e interioriza seu objeto, que concentra, enfim, sua fonte numa zona eventualmente mínima, a zona erógena (LAPLANCHE, 1985, p. 30). No 3o Ensaio...Freud retoma a força, a marca desta experiência do encontro com a mãe, e explora os caminhos que levam ao (re)encontro com o objeto para evidenciar como esta configuração elementar de relação criança/objeto parcial vai tornar-se peça relevante para o nosso interesse na constituição do triângulo edipiano, como o próprio texto freudiano nos sugere: Numa época em que os inícios da satisfação sexual ainda estão vinculados à ingestão de alimentos, o instinto sexual tem um objeto sexual fora do corpo do próprio infante, sob forma do seio da mãe. Somente mais tarde é que o instinto perde esse objeto, bem na época, talvez, em que a criança pode formar uma idéia total da pessoa a quem pertence o órgão que lhe dá satisfação total. Via de regra, o instinto sexual torna-se então auto-erótico17 , e não é senão depois de atravessado o período de latência que a relação original é restaurada. ( FREUD,1977, p. 228-229). 17 Segundo Laplanche e Pontalis, (2001), o termo auto-erotismo é tomado por Freud de Havellock Ellis, que o emprega num sentido mais amplo: característica de um comportamento sexual em que o sujeito obtém a satisfação recorrendo unicamente ao seu próprio corpo, sem objeto exterior. Em Três Ensaios... Freud o retoma e dá a ele uma nova dimensão, bem particular e distinta do ponto de vista original. O encontro de prazer em certas partes do próprio corpo vem para Freud, do ato de sugar ou chupar, inaugurado na relação da criança com a mãe.
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    103 O aspecto relevantedesse momento inaugural da teoria da sexualidade descrita por Freud refere-se à ausência de objeto na fase auto-erótica, embora seja o próprio Freud quem reconheça na mãe a função de objeto parcial. Na verdade não é a mãe, mas o peito que alimenta, que transporta o leite, que se torna o elemento que, pelo atrito, erotiza o corpo do sujeito (boca). É pelo encontro da boca do bebê com o peito da mãe que se faz surgir a primeira experiência e demarcar a primeira zona auto-erótica. Todo esse substrato teórico construído por Freud, até o momento, permite chegar a uma constatação importante: as primeiras experiências sexuais da criança são vividas inicialmente na relação com a mãe e transformadas em prazer auto-erótico; a mãe, até então, é objeto que inscreve o prazer na vida sexual da pequena criança. Diante desta constatação, decorre o questionamento que, na verdade, é o centro de interesse de nossa atual pesquisa. Quando e como aparece o terceiro elemento na relação mãe-filho? Como se constitui o triângulo familiar, reordenando a díade inicial? No texto freudiano, faz-se imperativo entender a construção e o surgimento da estrutura triangular que marca a formação do sujeito e de sua história. Freud, ao postular que o caminho do sujeito adulto para encontrar o objeto de desejo é, na verdade, uma tentativa de reencontrar um objeto perdido em sua história primeva, tem a função de alertar os interessados à (re)significar o processo desse encontro. O objeto a ser reencontrado não é o objeto perdido (leite) da função, e sim, por deslocamento, o objeto da pulsão (peito). Esse dado parece que configura na vida do sujeito um engodo essencial na sua procura pelo objeto perdido. Uma outra forma de entender o postulado é perceber que nesta afirmação freudiana encontramos uma grande alusão ao estado fusional de prazer que se institui num primeiro momento da díade mãe-filho, e que jamais será reencontrado, por assim dizer, nas relações posteriores que o sujeito buscará durante a vida.
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    104 Laplanche, em seutexto, salienta que a abordagem do ponto de vista de uma sexualidade mais ampla do pensamento freudiano implica entender a passagem do sexual como instinto vital para o sexual como verdadeira perversão universal do instinto, a perversão ou desvio universal da função nutritiva. E uma vez instaurado o desvio, todo o processo posterior é caminhar para o reencontro numa fase mais elaborada – do ponto de vista da direção. Diferentemente da visão freudiana, esse autor considera o auto-erotismo, na realidade, um segundo momento, o que sucede a presença de um objeto. O auto-erotismo é um tempo de perda do objeto, ainda que objeto parcial (peito). É, pois, a partir da excitação provocada pelos cuidados maternos que podemos imaginar o que é originariamente a sedução. Aqui, porém, é necessário ir mais longe e não nos atermos à pura materialidade dos gestos excitantes, se é que podemos conceber essa ‘materialidade’. [...] Toda relação intersubjetiva primitiva, a relação mãe-criança, é portadora dessas significações. É esse, cremos, o sentido mais profundo da teoria da sedução e, sobretudo, é o sentido que Freud finalmente atribui à própria noção de sedução: ‘As relações da criança com as pessoas que cuidam dela são uma fonte contínua de excitação e de satisfação partindo das zonas erógenas. E isso é tanto mais verdadeiro se considerarmos que a pessoa encarregada da criança – geralmente a mãe – trata-a com sentimentos que derivam de sua própria vida sexual, acaricia-a, beija-a, embala-a e carrega-a, tomando-a como um substituto, é evidente, de um objeto sexual de pleno direito’. (LAPLANCHE, 1985, p 50-51). Freud também adverte que a possibilidade de ter a mãe como objeto total que satisfaz a criança é uma situação temporária e que deve ou precisa ser abandonada, em nome de seu desenvolvimento. A criança submete-se a um período de afastamento do interesse sexual, dedicando-se a outras conquistas, período este que chamou de fase de latência.
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    105 Sem dúvida, omeio mais simples para a criança seria escolher como objetos sexuais as mesmas pessoas, que desde a infância, tem amado com o que pode ser descrito como libido atenuada. Mas, com o adiamento da maturação sexual, ganhou-se tempo para que a criança construa, entre outras restrições à sexualidade, a barreira contra o incesto e possa assim incorporar em si os preceitos morais que expressamente incluem de sua escolha de objeto, como parentes consangüíneos, as pessoas que amou na infância. O respeito por esta barreira é essencialmente uma exigência cultural feita pela sociedade (FREUD, 1977, p. 232). Laplanche, numa releitura de Três Ensaios..., deflagra a desejada correlação anterior, reafirmando a posição da psicanálise, ao defender que o menor gesto dos pais em relação ao filho está carregado de fantasias oriundas de sua própria história. Toda relação da criança com o adulto é marcada não apenas pela historicidade deste relacionamento, mas, antes, pela historicidade de fantasias e desejos próprios do universo desses adultos – mãe e pai. A criança, na relação triangular com seus pais, é também portadora da sua história edipiana e da história familiar de seus pais com seus avós, e assim por diante. O trabalho empreendido por Freud até aqui parece servir de base para a entrada efetiva do complexo de Édipo na teoria da sexualidade infantil. Em Três ensaios ..., Freud afirma que a pulsão sexual na criança é bifásica, e como tal está organizada em duas etapas distintas. A primeira – polimorfa, diversificada, auto-erótica –, desvinculada da genitalidade; não há predeterminação de objeto nem de objetivos. A segunda, marcada por um período de latência cuja função é reorganizar as forças polimorfas; o excesso de prazer, que num dado momento é vivido como desprazer, dispara a necessidade de fornecer limites à própria pulsão. A pulsão sexual infantil, em seu funcionamento inicial, é polimorfa, perversa, diz Freud. Por polimorfia entende-se a diversidade pulsional, a ausência de objetos predefinidos. No entanto, vale dizer que polimorfia não é sinônimo de desorientação; o que se nota não é um desenvolvimento desordenado das pulsões infantis. A criança, ao sugar o leite e chupar o dedo, evidencia uma ordenação e uma estruturação da pulsão mediante a presença de uma função vital; além disso, já se fez
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    106 referência à presençade diferentes zonas erógenas das quais a mesma se vale na busca de encontrar o prazer em seu próprio corpo. Freud identifica em Três ensaios... um processo universal, evolutivo, da sexualidade infantil, caracterizado pela presença de pulsões parciais independentes, pré-genitais e auto- eróticas. A fase inicial nomeada de polimorfa é descrita em seus três momentos distintos; a saber: a fase oral – surgida do apoio na função da nutrição –, seguida pela fase anal – apoio na função de excreção e uma terceira fase – fálica apoiada na primazia da genitália como representante da constituição dos sexos, na qual se delineia o enredo de amor do complexo edipiano, que não se configura na forma direta de relação de objeto, a não ser alguns anos depois. Em seguida a esta organização polimorfa, a criança ingressa num período de organização ou reordenação interna destas pulsões, a que a psicanálise tratou por período de latência. A latência é marcada pela tentativa de evitar o desprazer. A criança vai aos poucos tomando conhecimento, internalizando limites para as suas experiências auto-eróticas e para a descoberta de não-completude em relação aos seus pais; aliada à educação, ao convívio com o decoro dos adultos em relação à sexualidade, à descoberta da diferença entre os sexos, tudo conspira para que ela direcione atenção para assuntos de ordem não sexual; esse esforço de desvincular-se da dependência e do interesse do mundo do adulto é feito, segundo Freud, de forma solitária e silenciosa durante esta fase. Ao mesmo tempo, os limites serviram como diques para dar o direcionamento da pulsão numa etapa posterior: a etapa da sexualidade adulta (objetal). Na teoria freudiana sobre a sexualidade infantil, o conceito de período de latência é descrito como um período de arranjos das fases constitutivas da pré-genitalidade. A pulsão sexual infantil, que até agora tinha um caráter parcial dá lugar a um processo de subordinação à organização pulsional, fase preparatória para a sexualidade adulta, cujo primado passa a ser
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    107 o da sexualidadegenital. Falta-nos, então, entender a passagem do auto-erotismo para a fase da escolha de objeto, portanto, a passagem da sexualidade infantil, polimorfa para a sexualidade adulta e dirigida a um objeto. Ao chegar no ponto do desvio como traço essencial da sexualidade infantil, Freud pensa sobre a maturidade da pulsão sexual. Aqui, define um tempo psíquico, compatível com o tempo de maturação biológica dos instintos sexuais do humano. Para que finalmente ocorra a escolha de objeto é preciso que o sujeito esteja na condição, de fato, de sujeito desejante. Assim, neste ponto, Freud aponta ainda outros conceitos significativos. Do desvio da pulsão emerge o processo de interdição, que funciona como fator socializante e culturalmente exigido no processo de individuação e de subjetividade. A moral e os limites educativos reúnem-se como elementos que dão contornos mais restritos ao sujeito, que o delimita em suas ações e impulsos. A presença de um terceiro elemento no enredo amoroso mãe/filho, despertando sentimentos ambivalentes, ora afetuosos, ora hostis, também orienta e delimita possibilidades para a pulsão. Se na relação com a mãe o sujeito ganha a noção de corporalidade, o limite físico de si mesmo, advinda da erotização de partes de seu próprio corpo em contato com o corpo do outro, pode-se pensar que a interdição introduz o limite psíquico de suas relações com o mundo. E como o sujeito, agora diferenciado do outro, poderá direcionar seus impulsos mais íntimos, seus desejos no mundo onde está inscrito? O princípio ordenador dessa passagem, seguindo o texto freudiano, deriva para o entendimento da introdução do complexo edipiano na arquitetura da sexualidade do sujeito.
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    108 3.2 ÉDIPO: OMITO DO HERÓI; O RECONHECIMENTO E O SÍMBOLO DA FUNÇÃO PATERNA O interesse de Freud pelo mito grego, aliás, a suspeita do papel de destaque para a psicologia do sujeito, data de uma fase de seus primeiros escritos. Já no início de sua auto- análise foi capaz de perceber que essa suspeita guarda um núcleo de verdade a ser pesquisado e investigado quanto à possibilidade de se reconhecer como universal. “Descobri, também em meu próprio caso, o fenômeno de me apaixonar por mamãe e ter ciúmes de papai, e agora o considero um fenômeno universal do início da infância, mesmo que não ocorra tão cedo quanto nas crianças que se tornam histéricas” (FREUD, 1977, p 271). Seu depoimento aponta para uma atenção e uma convicção só verdadeiramente assumida anos depois. Os trabalhos de Freud nesse período evidenciam a dificuldade com a qual lidou na tentativa de explicar o princípio ordenador da pulsão quando da expressão da sexualidade adulta. O Complexo de Édipo reaparece muitas vezes, mas é do 3o Ensaio que Freud se utiliza, indiretamente, para explicar a passagem do auto-erotismo para escolha de objeto. Ao tentar justificar as barreiras que se instalam sobre as pulsões infantis na fase que antecede a latência, Freud esbarra na necessidade de explicar o processo de interdição que aí se mostra presente; trata-se de explicar as restrições que dirigem e orientam a excitação sexual dessa fase (elas transformam o impulso em repugnância, vergonha ou pudor) e que finalmente tendem a acalmar-se ou deixar-se submergir num período de latência que se sucede. Apesar de postos em funcionamento os diques de orientação para a pulsão, o processo de transformação da pulsão não parece esgotado. Como destaca Monzanni (1989, p. 45-6), foi possível para Freud fazer com que a teoria se adequasse à prática clínica, e assim Édipo encontra seu verdadeiro estatuto teórico.
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    109 Tudo que daídecorre está diretamente relacionado a uma solução, um desenlace, natural ou não, do triângulo que começa por se estruturar a partir da relação de sedução que se inicia entre a criança e a mãe, e que posteriormente inclui o pai. Aos poucos, de forma dispersa em muitos artigos diferentes, coincidindo quase que com toda a história da própria Psicanálise, Freud segue definindo e redefinindo o complexo ao longo da sua produção teórica. Na primeira edição de Três Ensaios... (1905), Freud faz referência à escolha de objeto como algo que somente se inicia na puberdade. No entanto, data da época da segunda revisão de Três Ensaios..., de 1910, a noção que define o complexo como sendo vivido em seu apogeu dos três e dos cinco anos de idade, que chamou de fase fálica. Atribui ainda um momento de revivescência na puberdade, sendo superado com maior ou menor êxito numa escolha adulta de objeto. Além de desempenhar um papel fundante na configuração individual do desejo, da formação da psique, é conseqüentemente um eixo de referência para os estudos psicanalíticos sobre as psicopatologias. É de Laplanche o comentário sobre o triângulo familiar instalado desde muito cedo na vida da criança. Diz ele: É justamente o fato de que, desde as primeiras relações – sejam elas relações ‘duais’, apenas com a mãe –, o pai estando ausente – e, na realidade, ele o é quase totalmente, como personagem real, para o bebê –, uma certa presença de um terceiro elemento começa a representar um papel. Nesse sentido, o pai está, de imediato, presente, mesmo que a mãe seja viúva: está presente porque a própria mãe teve um pai, porque ela mesma visa um pênis; e, também sabemos, porque a mãe visa no seu próprio filho e para além dele ao pênis que ela deseja (LAPLANCHE, p.52). A terapêutica proposta por Freud junto aos seus pacientes propõe resgatar, quase que como uma busca arqueológica, retirando do fundo de suas memórias, essas imagens primevas, carregadas de subjetividade – os primeiros registros dessas relações de objeto com os pais.
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    110 Um misto entrecuidado, ternura e prazer constitui a primeira vivência sexual da pequena criança. Prazer, realidade e fantasia confundem-se e instalam-se como uma fonte de referência para o mundo pulsional deste pequeno sujeito. A fantasia envolvendo mãe/filho e de forma indireta o pai, como assinala o trecho em evidência, torna-se, na realidade, um acontecimento difuso, estrutural, necessário à introdução do filho no universo desejante do enredo da família. Este enredo não parece limitar-se apenas às figuras parentais, mas também aos objetos de desejos e à história de cada um desses personagens familiares. A criança, em suas necessidades e carências essenciais, necessita do outro para satisfazê-la. Nesse jogo de dependência e atendimento encontra a criança com a dupla parental. Esta dupla constitui-se em seus pilares, sobre os quais se constrói seus registros de memória, de linguagem, de fantasias, de desejos. Busquemos, então, a letra freudiana, ao descrever cuidadosamente este momento estruturante da vida infantil. No texto de 1909 – Cinco Lições de Psicanálise, texto posterior a Três ensaios... –, Freud retorna com detalhes ao que chamou de primeira escolha de objeto: A primitiva escolha de objeto feita pela criança e dependente de sua necessidade de amparo exige-nos ainda toda a atenção. Essa escolha dirige- se primeiro a todas as pessoas que lidam com a criança e logo depois especialmente aos genitores. A relação entre criança e pais não é, como a observação direta do menino e posteriormente o exame psicanalítico do adulto concordemente demonstram, absolutamente livre de elementos de excitação sexual. A criança toma ambos os genitores, e particularmente um deles, como objeto de seus desejos eróticos. Em geral o incitamento vem dos próprios pais, cuja ternura possui o mais nítido caráter de atividade sexual, embora inibido em suas finalidades (FREUD, 1977, p. 43-44). Uma descrição do complexo edipiano, citada ou despretensiosamente tratada em textos anteriores, é aqui explicitada para dar sustentação ao pensamento freudiano sobre a estrutura psicológica pela qual todo ser humano está submetido. Para além do mito, o Édipo
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    111 freudiano serve demetáfora, de amálgama para o alinhamento na ordem do desejo que se inicia numa tensão de escolha entre dois objetos – mãe e pai. A mãe, que inicialmente se coloca na relação imediata, direta, referendada pelos cuidados do filho, recebe, com natural retribuição de seus afagos, uma resposta de ternura. Falar de desejo é falar de uma relação de desejo que antecede qualquer outro sentimento que lhe sobrepõe à escolha de objeto. Falar de Édipo é falar de pai, elemento terceiro que se interpõe ao modelo de amor/ternura ou ainda amor/desejo que inaugura o romance familiar. O pai, quase que ao mesmo tempo e ainda num tempo posterior, ganha um status de objeto para a criança, um lugar de destaque pelo reconhecimento como objeto do adulto (mãe) e, portanto, objeto de interdito, de proibição. 3.3 A METÁFORA E O TRIÂNGULO DESIDERATIVO A importância de resgatar o complexo de Édipo na centralidade da história do sujeito desejante para o pensamento freudiano foi sempre o nosso intuito. Não é possível chegar ao sentido simbólico e determinante da função paterna sem percorrer o significado psicanalítico atribuído à tragédia edipiana. Falar de Édipo é falar de desejo e de subjetividade. O apoio buscado no mito justifica- se pelo percurso efetivado por Édipo em sua saga de individuação. O esforço feito no paralelo com a metáfora edipiana tem por finalidade explicitar o fenômeno essencial da constituição dos seres humanos, sua ordenação psíquica a partir dos modelos de organização parental. Para uma melhor compreensão dos postulados freudianos de que o humano se estrutura a partir deste modelo de organização, voltemos ao mito, seguindo o próprio movimento de pensar de Freud.
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    112 A tragédia gregade Sófocles, escrita em 441 a.C., apresenta Édipo como filho de Laio e Jocasta, marcado desde seu nascimento pela maldição que seu pai recebeu do rei Pélope. Laio foi condenado por ter sido a ele imputada a culpa pelo suicídio de Crísipo, o filho de Pélope. Laio e Crísipo eram amantes e Pélope se interpôs ao idílio entre Laio e Crísipo. Como vingança à morte do filho, Pélope destina a Laio, ou melhor, ao filho de Laio a maldição de matar o pai e desposar sua própria mãe. Embora cuidasse para não procriar, Laio casa-se com Jocasta, e desta união nasce Édipo. Preocupado com seu próprio destino, Laio trata de livrar-se do filho, mas Édipo é poupado pelo pastor, a quem é confiado para a morte. Criado por pais adotivos, somente adulto descobre sua adoção e parte em busca da verdade de sua origem. No caminho em busca de sua história, consulta o Oráculo, que lhe apresenta seu destino: parricídio e incesto. Para escapar ao destino, Édipo foge para Tebas. No caminho envolve-se numa briga que culmina com a morte de um homem. Segue para Tebas e descobre que é o assassino de Laio. Tebas vive sobre a sombra do medo imposto pela Esfinge – monstro meio mulher, meio leão –, que propõe libertar Tebas caso alguém consiga decifrar seu enigma. Édipo enfrenta a Esfinge, soluciona o enigma e, ao retornar a Tebas, recebe como prêmio do Rei Creonte a viúva Jocasta, sua mãe. Sem saber de quem se tratava, desposa Jocasta e com ela tem quatro filhos. Tebas, depois de um tempo de florescimento, volta a ser assolada por uma peste. Novamente consultado o Oráculo, Édipo descobre ser o responsável pela desgraça que se abate sobre Tebas. Ao saber da realização de seu destino, Édipo vasa seus olhos e foge de Tebas; Jocasta suicida-se. Édipo, na busca incessante pela sua verdade, realiza a profecia a ele imposta através da história de seu pai. Na principal missão de enfrentar a si mesmo, Édipo enfrenta seu destino. Para reencontrar quem verdadeiramente é, mata seu pai, desposa sua mãe e pune-se pela culpa. Por
  • 114.
    113 outro lado, comocontraponto de tanta desventura, consagra-se rei, cumpre sua palavra, resgata sua identidade. Por trás de todas as representações simbólicas de que trata o mito, podemos resgatar o caminho espinhoso de individuação do qual o herói não escapa. Não escapa ao enlace com a mãe, assim como não escapa ao ódio e à disputa com o pai. Engendra uma história de desejo, amor, ódio e culpa nos moldes universais da história do indivíduo. Freud, capturado em seu próprio complexo, mas atento ao que do mito reverbera na história de todos os homens, comenta: Se Édipo Rei comove aos homens modernos com igual intensidade que fazia aos gregos contemporâneos de Sófocles, a única explicação é que o efeito da tragédia grega não reside na oposição entre o destino e a vontade dos homens, senão na peculiaridade do material em que essa oposição é mostrada. [...] [...]Seu destino nos comove unicamente porque poderia ser o nosso, porque antes de nascermos o Oráculo lançou sobre nós a mesma maldição. Quem sabe a todos nós não tenha sido imputado dirigir a primeira pulsão sexual para a mãe e o primeiro ódio e desejo violento para o pai. (FREUD, 1977, p. 270). Esta última frase nos soa como um desabafo, um momento em que o homem Freud se desvenda pelo analista, mais ainda, o homem se desvenda pelo encontro com o destino a que está fadado. A busca pela verdade, assim como em Édipo, transforma-se na aceitação da condição que humaniza; submete-se ao enredo de cada um, porque é desta submissão que advém a possibilidade de encontrar a individualidade, a identidade para seguir desejando. O desejo de Édipo por Jocasta é um desejo imperativo; o desejo incestuoso está na base da constituição da relação mãe-filho. Jocasta, como sua mãe, está num dos pólos da constituição da individualidade de Édipo. O destino leva Édipo a cumprir seu desejo (incesto). Entretanto, esse mesmo destino o faz pagar por este desejo. Laio, o pai, por seu turno, encarna a interdição, a lei e a ordem social. Na sua interposição triangular, destina ao filho o castigo
  • 115.
    114 pela realização dodesejo. Como pai, inaugura o conflito entre desejar e dever. Adiar o desejo desvinculando-se da mãe, é criar a possibilidade de (re)encontrar esse desejo em um outro objeto. Freud, desde cedo, salientou a idéia do re-encontro com o objeto primeiro (mãe), momento de plena satisfação e prazer; estado de fusão, mas de não-individuação. Se a mãe, no corpo da teoria freudiana, fez significar a presença do prazer e do desejo, é o pai quem dará ao sujeito a direção na busca do objeto que atenderá à satisfação do desejo. O pai dará a direção de objeto. Se a sua presença interdita a relação dual com a mãe, por outro, permite, autoriza, direciona para outras possibilidades de satisfação. O que permite a presença do pai, da interdição, é a possibilidade de orientar o desejo de forma independente. O sujeito, agora diferenciado do próprio objeto de desejo, é capaz de buscá-lo. O homem, como ser de desejo, tem como imperativo de seu destino humano a busca da satisfação de seus desejos. A psicanálise encarregou-se de evidenciar que toda a existência está marcada pela construção da individualidade e da subjetividade na realização de todas as sua demandas, inclusive as mais egoístas. No entanto, o homem, o ser humano, como demonstra a psicanálise, não está tão livre para desejar. É o inexorável destino de cada um que emerge na leitura de Freud do mito de Édipo. A constituição desiderativa que estrutura o sujeito nasce de um enredo familiar que o antecipa. A predestinação não está na ordem do biológico, da destinação da espécie, como tão bem argumentou Freud, mas talvez do enredo criado pelos personagens familiares que antecipam a existência do ser. São os objetos de amor, antes mesmo que se tenha corporificado a existência, que destinam parte da história de cada sujeito. Para Mezan (1988), Freud viu no relato de Sófocles a realização direta dos desejos inconscientes a que todos nós humanos estamos submetidos; a realização dos desejos fundamentais de todo ser humano, e por essa razão privilegiou o mito como referência a esta
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    115 entrada no mundoda psique, no mundo da cultura que diferencia nossa espécie da dos outros animais. O mito de Édipo, segundo ele, presta-se a uma figuração aproximativa dos conflitos básicos da psique, dos seus desejos, da definição do sujeito por sua relação com os pais, na medida em que vincula a busca da verdade, da sua verdade à pesquisa das origens e ainda incorpora a dimensão do desconhecimento que naturalmente condiciona esta pesquisa e aquela busca. É pelo mito que se chega à função do saber, da busca do conhecimento, simbolizado pela Esfinge; trata-se de um símbolo tipicamente paterno porque é pelo pai que Édipo chega à mãe. Como vimos um pouco antes, é pela interdição ou pela presença de um outro, um terceiro, que a criança retorna à mãe e (re)significa o que ficou, em tempos primevos, registrado como uma iniciação da sexualidade. Como no mito, Édipo já estava destinado pela história de seu pai, ou melhor, pelos atos de seu pai. Assim, além das interdições e limites que adquirimos pela educação e pela imposição da vida social – aprendidos concomitantemente com o desenvolvimento da pulsão durante a infância –, estamos submetidos, se assim for possível reconhecer, a uma interdição que já está posta antes mesmo que o desejo se instale. Daí fica claro afirmar que o desejo já nasce interditado, a exemplo do drama de Édipo. O esforço posterior feito para escapar a esse destino trouxe, como compensação, a conquista em outras esferas: o saber, o apreço pelo conhecimento, o direcionamento da pulsão para assuntos de interesse social, coletivo. A metáfora da Esfinge parece encarregar-se de apontar para estas saídas mais positivas da tragicidade que nos enreda, de acordo com a letra freudiana.
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    116 4 A FUNÇÃOORDENADORA DO PAI Pai, afasta de mim esse cálice De vinho tinto de sangue. Gilberto Gil e Chico Buarque, 1973. O encontro com o mito de Édipo, de que tratamos no capítulo anterior, a metáfora edipiana na estrutura do complexo familiar, foi, desde muito cedo, uma suspeita levantada por Freud na busca de entender o destino do desejo que organiza e diferencia o sujeito. Na perspectiva freudiana do desejo, permanece o dualismo pulsional, em que Freud transita muitas vezes entre a primazia da função psíquica e a ordem biológica dos instintos, inaugurando uma forma particular de compreender o destino da sexualidade humana. O entendimento e a diferenciação entre a natureza (biologia) e a cultura, ou mais especificamente, as determinações do sujeito sempre foram fontes de interesse da pesquisa freudiana. Em textos de 1897, encontram-se citações ou inquietações que relacionam seu interesse pelo tema. Em Rascunho N, produzido em maio desse ano, Freud já faz referência à breve relação entre o desenvolvimento da civilização e a repressão dos instintos, correlacionando-os à expressão horror ao incesto: O horror ao incesto (uma coisa ímpia) baseia-se no fato de que, em conseqüência da universalidade da vida sexual (mesmo na infância), os membros de uma família se mantêm unidos permanentemente e se tornam incapazes de contatos com estranhos. Assim, o incesto é anti-social – a civilização consiste nessa renúncia progressiva (FREUD, 1977, p. 348). Em Interpretação dos sonhos (1900), numa de suas próprias interpretações pessoais, ao se referir ao pai no contexto do material onírico, Freud, uma vez mais, alude à questão da
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    117 origem da civilização,da cultura como material psíquico e inconsciente que permeia a história pessoal de cada sujeito. Diz ele: E realmente todo o conteúdo rebelde do sonho, com sua lèse majesté e seu desprezo às autoridades mais altas, remontava à rebelião contra meu pai. Um Príncipe é conhecido como o pai de seu país; o pai é o mais velho, o primeiro, e, para os filhos, a única autoridade, e do seu poder autocrático as outras autoridades sociais se têm desenvolvido no curso da história da civilização humana – salvo até o ponto em que o ‘matriarcado’ exige uma restrição dessa assertiva (FREUD, 1977, p. 231). Da suspeita da existência de mitos endopsíquicos e do horror ao incesto à idéia de um pai primevo dotado de poder diferenciado, lugar de ordem na estrutura dos relacionamentos, Freud constrói cuidadosamente sua pesquisa através do que considera como indícios da formação social da espécie humana. Para ele, é na investigação da origem do processo civilizatório que poderá encontrar o traço psíquico que demarca a singularidade da experiência humana, que supera as demandas de sobrevivência da espécie. Desde sempre esteve em busca desse traço, da marca dessa presença, dessa experiência original que inaugura a passagem da natureza para a cultura. Kauffman (1977) argumenta que essa questão do mito endopsíquico, salientado, desde então, por Freud, faz aparecer na projeção da estrutura subjetiva a fonte das grandes categorias nas quais se moldam os fantasmas constitutivos da trama dos mitos, apontando a psicanálise como uma teoria que se vincula a alguma forma de restituição arqueológica das experiências primitivas. No entanto, é a partir de Totem e Tabu, sua obra de 1913, que emergem suas maiores contribuições: a) para a antropologia social; b) para a própria psicanálise, na efetiva construção de conceitos como moral, religião e função paterna. O texto de 1913 é bem mais relevante no percurso de analisar a ordenação social, o nascimento da cultura e a religião no interior da teoria psicanalítica, uma vez que sinaliza todo
  • 119.
    118 o enredo dequestionamentos de Freud sobre o papel que a religião cumpriu na instalação da cultura − as funções que cumpre, as necessidades que atende, as metas que alcança. Ainda que Freud se aprofunde na pesquisa sobre a origem da religião e da moral, é neste cenário que ele mais postula sobre a função paterna e o seu preponderante papel na ordenação psíquica do sujeito, desde o início da organização familiar − a horda. Freud se aprofunda criteriosamente no tema, não para ocupar-se da história das religiões, interesse a que atribuiu à obra de seu discípulo e colega Jung. Seu maior interesse não era apreender uma arqueologia da moral e dos valores religiosos, e sim, na arqueologia da moral, compreender: 1) a origem da religião, como o aporte da origem da cultura; 2) a origem dos valores da cultura, como aporte de aspectos e valores da vida social, dos limites que esta impõe e da necessidade de estabelecer a noção da sacralidade entre os homens; 3) o lugar de preponderância da figura paterna e, portanto, do elemento masculino, em toda a obra freudiana, e, naturalmente, a prevalência do pai na definição da interdição e da orientação do desejo. A obra, desenvolvida em quatro ensaios, é considerada por seu próprio autor como um de seus textos prediletos. Ao tratar de temas como religião, cultura e função paterna, Freud reafirmou uma perspectiva particular sobre estes, consolidando as bases metapsicológicas que veio construindo sobre a organização psíquica do sujeito e de sua inserção no ambiente social. Apesar de fazer várias referências aos trabalhos de outros pesquisadores e colegas contemporâneos, dentre eles Frazer, Jung e Wundt, o caminho freudiano desvincula-se do compromisso de assentar-se em bases meramente antropológicas, históricas ou da psicologia dos povos. Para entender a estrutura do sujeito desejante, Freud considerou insuficiente descrever os fenômenos psíquicos individuais ou restringir a concepção do complexo edipiano no
  • 120.
    119 âmbito privado, buscandocompreender como se instauraram ou se perpetuaram os primeiros traços constitutivos da psique humana desde a origem dos primeiros homens. Há homens vivendo em nossa época que, acreditamos, estão muito próximos do homem primitivo, muito mais do que nós, e a quem, portanto, consideramos como seus herdeiros e representantes diretos. Esse é o nosso ponto de vista a respeito daqueles que descrevemos como selvagens ou semi- selvagens; e a sua vida mental deve representar um interesse peculiar para nós, se estamos certos quando vemos nela um retrato bem conservado de um primitivo estágio de nosso próprio desenvolvimento (FREUD, 1977, p.20). Freud salientou, em diferentes momentos de sua obra, uma grande semelhança entre a vida psíquica das crianças e a dos homens primitivos. Nesse momento, entretanto, almejava, através da pesquisa, não desvendar fatos sociais ou históricos, e sim identificar um elemento invariante, no processo de humanização, que justificasse a presença de uma estrutura desejante universal. Numa revisão histórica, Freud retoma conteúdos emprestados da antropo-etnologia como forma de relacionar alguns elementos estruturantes desse material, visando encontrar, sob a perspectiva metapsicológica, pontes que consolidem o que já vinha estruturando em seu trabalho sobre a origem do desejo humano, a sexualidade infantil e as relações afetivas do sujeito. 4.1 O TOTEM, A HORDA E A ORDENAÇÃO SOCIAL Ao mergulhar criticamente numa vasta literatura de contemporâneos sobre o processo de civilização, Freud resgata dois conceitos considerados relevantes; são eles: totem e tabu. Salienta ainda que, desses dois conceitos que serviram, inclusive, para intitular sua obra, o tabu foi o que sofreu maior investigação por parte dos pesquisadores. Como instituição
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    120 religiosa e social,o totemismo, estranho à realidade atual, desgastado pelo progresso, substituído por formas novas, foi preservado muito mais do que o conceito de tabu. O trabalho de tratar dos dois conceitos distintamente − totem e tabu − permite o avanço do pensamento freudiano, inaugurando mais uma nova fase de construção e descobertas da psicanálise na direção da compreensão do funcionamento psíquico. É nesse material que Freud alicerça toda a sua atenção para desenvolver argumentos sobre a sua teoria psíquica do desejo, além de temas como religião e cultura. Partindo inicialmente do tabu, Freud o conceitua como uma espécie invariante na história humana; uma presença necessária para ordenar a própria vida humana, que se mantém constante em diversas formas de cultura. O tabu é o primeiro esforço moralizador da humanidade, e, como tal, será sempre preservado, dado à sua função ordenadora. Para Freud, os tabus não diferem, em sua natureza, do imperativo categórico de Kant, que opera de maneira compulsiva para definir alguns comportamentos e que, por sua vez, rejeita motivos ou explicações conscientes. O totemismo, entretanto, será investigado e explorado pela psicanálise naquilo que, como instituição, guarda uma função necessária e imprescindível para o processo de humanização e de socialização, como veremos a seguir. No entanto, foi tratado muitas vezes como um elemento menos significativo, substituível e vulnerável à descaracterização, fato este confirmado através do discurso freudiano: “O totemismo, pelo contrário, é algo estranho aos nossos sentimentos contemporâneos – uma instituição social-religiosa que foi há muito tempo relegada como realidade e substituída por formas mais novas” (FREUD, 1977, p. 18). Ao estudar civilizações primitivas, Freud surpreende-se ao encontrar regras éticas que impõem alto grau de restrição das pulsões sexuais, levando-o a perceber a existência de um código sofisticado de valores que regula o convívio entre seus membros e que são
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    121 aparentemente muito maiscomplexos que outros aspectos da própria ordem social dessas sociedades primitivas. A psicanálise vem pôr em relevo uma visão diferenciada a respeito do totemismo, uma vez que estabelece, através do conceito, estreitas relações com o funcionamento da organização psíquica do desejo infantil. É de Freud a letra que releva esse propósito: [...]faz-se neste livro uma tentativa de deduzir o significado original do totemismo dos seus vestígios remanescentes na infância – das insinuações dele que emergem no decorrer do desenvolvimento de nossos próprios filhos. (FREUD, 1977, p.18). Ora, se para a psicanálise é pelo totemismo que se pode caminhar para o entendimento da ordenação psíquica do desejo infantil, parece plausível questionar se seria esse o único e principal interesse freudiano pelo tema. O texto de que tratamos evidencia contornos muito interessantes sobre o totemismo, apontando elementos que norteiam sua influência não somente sobre a ordenação do desejo infantil, mas igualmente relevante sobre a contribuição atribuída à ordenação social, advinda da presença do totem, desde os períodos primordiais. O totemismo é um sistema social, ordenado tribalmente, no qual cada clã é definido a partir de seu totem. Em diferentes tribos ou clãs, seus membros mantêm-se implicados numa relação em que devem guardar distância, o que naturalmente gera, em contrapartida, acúmulo de tensão nessas relações. Freud centra-se na pesquisa da possível relação entre o totemismo e a exogamia, e é deste ponto que segue seu interesse. A exogamia tem sido sempre uma referência da sociedade totêmica, embora muitos daqueles que a tenham pesquisado não lhe tivessem atribuído uma relação de interdependência com o totemismo. No entanto, esse fator que instiga a pesquisa freudiana: a relação entre a exogamia e o tabu do incesto. Para ele, esta relação que sempre esteve presente nas sociedades totêmicas, ainda que relegada em importância, deve ser considerada. Nessas sociedades, a exogamia aparece como a expressão do tabu sobre o incesto, evidenciando a
  • 123.
    122 estreita relação entrea presença do totem e a existência de um tabu relacionado à vida sexual de seus integrantes. Em todos os lugares onde o totem está presente, está também a norma que impede seus membros de estabelecerem vínculos sexuais recíprocos; não é permitido o casamento entre eles. É sobre essa representação que Freud constrói seu conjunto de argumentos para entender a organização social, não pela consangüinidade, mas pelo parentesco totêmico. Essas normas determinavam ou regulavam as relações mútuas dos grupos, principalmente as normas matrimoniais, que tinham maior relevância sobre as demais, já que preservavam a sociedade do risco do incesto e das tensões sobre uma possível disputa sobre o objeto de desejo comum. No totemismo, Freud destaca dois aspectos relevantes: a) a proibição de relações incestuosas; b) o motivo da proibição − um desejo igualmente intenso. Portanto, a exogamia, traço característico das sociedades totêmicas, tem por objetivo proibir o incesto e dar limites ao destino do desejo sexual. A presença do totem torna impossível ao homem relações sexuais com um certo número de mulheres do seu clã. A organização exogâmica presente nessas organizações direciona o interesse e a análise freudiana, já que esse tipo de material trata de pôr em relevo a organização do desejo. Surpreendido com o sistema de regras e o sofisticado modo de estabelecer as relações sociais nessas organizações, Freud suspeita do significado intrínseco desse código de valores que regula o convívio. “À primeira vista, é difícil perceber a justificativa psicológica desta restrição tão ampla, que vai muito além de qualquer comparação com os povos civilizados” (FREUD, 1977, p.25). Ao relacionar o totemismo com a exogamia, Freud tencionava encontrar uma determinante que justificasse a explicação metapsicológica sobre o fenômeno do horror ao incesto.
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    123 E chegamos agora,por fim, à característica que atraiu o interesse dos psicanalistas. Em quase todos os lugares em que encontramos totens, encontramos também uma lei contra as relações sexuais entre pessoas do mesmo totem e, conseqüentemente, contra o seu casamento. Trata-se então da exogamia, uma instituição relacionada com o totemismo (FREUD, 1977, p. 23). A proibição do incesto, para Freud, somente se justificaria, em circunstâncias tão primitivas, para justificar a presença de algo que ameaçasse a estabilidade do convívio social. Sua suspeita recai, portanto, sobre a relação entre o totem e a ordem na convivência. A questão da lei, destacada aqui como uma categoria relevante para a garantia da ordem social, privilegia o sentido da relação do totem com o incesto. Se há necessidade da lei é porque há o que se instaurar como obrigatoriedade, limite ou proibição em razão de alguma ameaça pessoal ou social. Somos levados a acreditar que essa rejeição é, antes de tudo, um produto da aversão que os seres humanos sentem pelos seus primitivos desejos incestuosos, hoje dominados pela repressão. Por conseguinte, não é de pouca importância que possamos mostrar que esses mesmos desejos incestuosos, que estão destinados mais tarde a se tornarem inconscientes, sejam ainda encarados pelos povos selvagens como perigos imediatos, contra os quais as mais severas medidas de defesa devem ser aplicadas. (FREUD, 1977, p.37). O esforço freudiano em justificar a universalização do desejo humano, ou melhor, o esforço de descobrir o elemento comum e organizador da estrutura desiderativa do sujeito encontrou seu alicerce no material atribuído ao tabu do incesto, visto que o que mais se proíbe é o que é mais desejado por todo ser humano, desde sua origem mais primitiva. Dessa forma, o desejo que se constitui como a base da subjetividade, da individuação do sujeito, advém de uma lei, uma proibição instaurada através do convívio social com outros sujeitos de desejo. O homem civilizado, para Freud, carrega predisposições de uma estrutura primitiva a ser desenvolvida nos itinerários da vida pessoal e coletiva.
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    124 Assim, o desejohumano deve ser compreendido sob duas perspectivas: a da natureza biológica e a do social – a sexualidade marcada pela experiência direta com outros sujeitos de desejo, experiência configurada pelo caráter ordenador do convívio e do destino do desejo. Trata-se da lei expressa pela exogamia, a proibição do incesto − a interdição do objeto, que direciona o desejo do sujeito. Freud consolida, na presente obra, a visão de que o desejo que nasce excessivo em sua origem natural (instinto) necessita passar por alguma forma de interdição, como já postulava desde a configuração do Complexo de Édipo. 4.2 DO TOTEM AO PAI Desde Totem e Tabu, o foco de interesse de Freud passou a ser o traço comum entre o selvagem − homem de comunidades primitivas −, a criança e o neurótico. Freud acreditava que a base desse traço estava na presença de um fato ou experiência que estruturou, desde sempre, a humanidade: a organização do desejo. Se essa suposição for correta, uma comparação entre a psicologia dos povos primitivos, como é vista pela antropologia social, e a psicologia dos neuróticos, como foi revelada pela psicanálise, está destinada a mostrar numerosos pontos de concordância e lançará nova luz sobre os fatos familiares às duas ciências (FREUD, 1977, p.20). O entendimento das relações de tabu e incesto, travadas nessas sociedades primitivas a partir da presença do totem, ganha, na versão psicanalítica, uma posição de destaque. A grande questão freudiana passava pela compreensão de como ocorreu entre os homens primitivos o relevo das pulsões egóicas e a atenuação das pulsões sexuais tão imperativas. É fato que, para a psicanálise, o tabu é uma produção psíquica, um primeiro esforço moralizador, sem o qual a civilização não se consumaria. No entanto, cabe questionar: Em
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    125 que condições psíquicasesses povos, constituídos de sujeitos cujos desejos careciam de ordem, de fato, se estruturaram? Freud, num processo de síntese particular, ainda que considerando as contribuições de Darwin e Smith, pesquisadores que muito produziram sobre a origem e a organização social dessas civilizações, elabora sua visão acerca do processo de ordenação social a partir da presença do que considera como condições psicológicas, para a constituição da ordem e das relações sociais. Seu ponto de partida é a associação dos homens primitivos, descrita por Darwin, que os compreende vivendo em hordas chefiadas por um membro mais forte e mais velho, que detinha o poder sobre as mulheres. Esse tipo de agrupamento fazia gerar o ciúme dos mais jovens, que, não tendo a mesma força, não tinham acesso às mulheres. Naturalmente, Freud supõe que eles reagissem e fossem, por essa razão, expulsos da horda. A exogamia demarcava ainda, de forma mais evidente, o poder sobre os objetos de desejo – as mulheres da horda. O direito de acesso às mulheres e o lugar privilegiado de poder fizeram com que os mais jovens, insatisfeitos com as restrições impostas pela organização social, desejassem eliminar o membro mais forte. Para eles, restava-lhes apenas a atitude de defesa e de alívio da tensão estabelecida entre o grupo e os limites impostos pela presença do seu ancestral. Segundo Freud, parece plausível explicar a complicada e contraditória postura dos homens primitivos para com seus governantes. Mesclam-se superstições, sentimentos de admiração e respeito, com profundos sentimentos hostis e de destruição. A corrente de hostilidade, para Freud, fazia parte, inicialmente, do conteúdo inconsciente desses jovens, até ser expresso no ritual de assassinato do mais velho, com os sentimentos de ambivalência marcando a qualidade dessas relações e se perpetuando mesmo após a morte do mais velho.
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    126 Aliado aos sentimentosambivalentes de amor e ódio dirigidos ao ancestral, surge a culpa, advinda da morte através do assassinato. Os membros arrependidos pelo ato reagiam alimentados pela censura e pela culpa. Para Freud, essa atitude emocional ambivalente caracterizará a base das relações mais significativas do sujeito, e tem sua origem nessas experiências primevas. Resta entender como, por analogia, o membro ancestral ou o governante do clã, num momento posterior da ordenação social, transformou-se no totem; como o pai da horda, elemento catalisador desses sentimentos ambivalentes, passa a ser representado por um elemento que carrega e desloca toda a carga de libido e de sentimentos a ele originalmente dirigidos; como, enfim, são agora deslocados para o animal ou totem, nas sociedades totêmicas, os amores, o ódio, a culpa, o respeito. É pelo traço comum e simbólico da ancestralidade que os elementos qualitativos atribuídos ao pai se transformam ou se deslocam para o totem. Falta ainda analisar, sob a ótica freudiana, a relação do parricídio original, a figura do totem, a presença do tabu e o banquete totêmico; como e de que forma o totem guarda uma relação com o pai primevo. Diz o próprio Freud: “O que é um totem? Via de regra é um animal [...] “É um antepassado comum do clã; ao mesmo tempo, é o seu espírito guardião e auxiliar, que lhe envia oráculos e, embora perigoso para os outros, reconhece e poupa os seus próprios filhos” (FREUD, 1977. p.21). O totem é o ancestral comum, eleito e referendado por seus descendentes, que, em razão da origem comum, se organizam e se relacionam num mesmo sistema de valores morais. Não matar e não comer o totem − sua carne (animal totêmico) − são as expressões legais mais intensas que convergem para esse sistema de valores e regras morais. Essas proibições remetem ao tabu do incesto, à exogamia e à interdição do desejo, elementos imprescindíveis, supõe Freud, para tornar os indivíduos, fechados em si mesmos, num grupamento solidário.
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    127 Matar e comero totem são tabus, assim como tocá-lo ou olhá-lo. “É suposição geral que o tabu é mais antigo que os deuses e remonta a um período anterior à existência de qualquer espécie de religião” (FREUD, 1977, p.38). A exigência da lei é a condição necessária à constituição do clã. Além de instaurar os limites advindos do tabu, a presença do totem possui influência decisiva na divisão e na organização das sociedades tribais, as quais se submetem a um conjunto de normas e passam a venerar seu representante ancestral, através do animal totêmico. Organizados e submetidos a esse conjunto de leis, os primitivos atuam como se esses limites fossem naturais. Estão convencidos de que quaisquer violações dessas proibições sofrerão automaticamente severa punição. Para Freud, tais proibições dirigem-se principalmente contra a liberdade de prazer, de movimento e comunicação, sendo muitas vezes ininteligíveis em suas origens; quer dizer: os membros do clã obedecem compulsivamente a elas; estão intrinsecamente relacionados à presença do totem. Nessas circunstâncias, resta-nos, somente, entender a estreita relação entre o pai primevo, o totem e os tabus. Para Freud, falta ainda um elemento mediador que justifique a razão do deslocamento simbólico dos elementos afetivos destinados ao pai e ao totem, que faz coincidir com a passagem do modelo de sociedade primitiva para a civilização. Sua hipótese está baseada na presença de um fato decisivo, configurado por um ato vivenciado pelo clã; um trauma violentíssimo, que se tornou referência de um complexo mnemônico ordenador das fases civilizatórias. O parricídio é, para Freud, a razão e a motivação necessária para essa passagem do ato ao símbolo. O assassinato do macho mais velho, cometido pelos filhos ou descendentes masculinos, é conhecido como parricídio. Déspota invejado dentro do clã, o pai é confrontado
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    128 com a agressividadedos filhos, que, uma vez unidos, atuam para eliminá-lo, como a única forma de realizar o desejo de posse das mulheres que lhe pertenciam sexualmente. Mais do que pano de fundo, o parricídio assume algumas funções na ordenação social e psíquica do sujeito: a) realiza o desejo de assassinato do pai; b) promove um júbilo festivo: com o pai morto, tudo pode acontecer. Tornou-se possível submeter tudo e todos ao império dos desejos individuais; c) cada um dos filhos toma para si os privilégios do pai. A morte do pai, entretanto, trouxe como conseqüências sociais para a horda competição, violência, guerra de todos contra todos; ameaça à integridade da comunidade; desejo primitivo conduzindo à autofagia; manifestação do sentimento de ambivalência em relação ao pai: odiado e temido, passou a ser também, pela premência da culpa e do arrependimento, admirado e amado. Com a sua ausência e o risco da instalação do caos nas relações fraternais, emergem a culpa e o remorso – fatores estes responsáveis pelo estado de tristeza que se abate sobre o clã. Em contrapartida, é pela presença desses sentimentos que floresce a necessidade da sociabilidade. Os filhos, arrependidos, precisam restabelecer novas formas de convívio e de relações afetivas e sexuais. O parricídio passou a ser ritualizado, tanto como forma de expiação e atenuação do arrependimento, quanto como modo de expressão da necessidade de identificar-se com o próprio totem e assim reinvidicar seu o lugar de poder. O ritual totêmico, conhecido também como banquete totêmico, segundo a perspectiva freudiana, serve ao objetivo de ritualizar o parricídio. No sacrifício totêmico, revoga-se o ato parricida no nível representacional: trata-se de uma tentativa de re-elaboração psíquica do ato traumático do assassinato do pai e da elaboração psíquica da representação paterna, uma forma de introjetar o papel desempenhado pelo pai ou seu representante (totem). A cerimônia da purificação, para expurgar a culpa pelo assassinato do pai, não se consuma através das homenagens ou das oferendas de sacrifícios ao totem. A consciência do
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    129 fracasso de talpropósito deriva para uma reação moral de compromisso pessoal e social: não matar o animal totêmico, não comê-lo nem cometer o incesto; garantir que as funções simbólicas e ordenadoras atribuídas ao totem sejam preservadas. O rito é realizado com envolvimento emocional, subjazendo, na perspectiva freudiana, o arrependimento pelo assassinato do pai. Repetir é a única providência para atenuar o excesso de afetos ambivalentes (hostis e fraternos). É um momento religioso necessário para diminuir o volume emocional circulante e garantir a não-violência, a vida do indivíduo e da coletividade no seio da nova rede fraternal. Para Smith (1894)18 , a refeição totêmica salienta que, nessas sociedades primitivas, o ritual de comer e beber juntos reafirma o grau de compromisso e obrigações sociais mútuas, e, ainda, qual seria a forma de renovar o ritual do banquete totêmico. Se para Freud o animal totêmico é o pai, então as restrições de não matar e não ter relações sexuais com pessoas do mesmo clã remetem a uma forma de proibição semelhante à encontrada na base do complexo edipiano. Os dois crimes, matar e comer, estão relacionados ao mito de Édipo, que matou seu pai e casou-se com sua mãe. A representação psíquica ordenada pelo Complexo de Édipo repete-se: o pai é rival e, portanto, odiado; ao mesmo tempo, é protetor e, por isso, amado. No entanto, a representação paterna através do totemismo, desenvolvida a partir da obra Totem e Tabu, configura-se, no pensamento freudiano, não somente como uma representação simbólica, mas também como uma função paterna muito mais complexa, tanto sobre o indivíduo quanto sobre a família e, ainda, a comunidade, inaugurando definitivamente, para a psicanálise, o papel privilegiado da função do pai como elemento da cultura, da ordem social e da direção das relações de objeto. 18 SMITH apud FREUD, 1977, v. XIII.
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    130 É exatamente pelaapropriação desses conteúdos simbólicos, nem sempre passíveis de observação e comprovação, que os críticos de Freud se aferram em desqualificar suas contribuições. Para Jones (1995), a proposta freudiana para sustentar as argumentações sobre o totemismo e o incesto estava com seus dias contados, salientando que a visão freudiana sobre as sociedades primitivas mostra-se demasiadamente fantástica, por exigir uma sustentação teórica desacreditada e incompatível com a biologia moderna. Muitos antropólogos da época já demonstravam que, embora muitas tribos totêmicas praticassem o ritual do sacrifício do totem, outras já não o faziam, desarticulando a idéia de sua universalidade. No entanto, é o próprio Jones quem argumenta: Ironicamente, a realidade histórica do crime primordial não era absolutamente essencial ao argumento de Freud. Os sentimentos de culpa podem ser transmitidos por mecanismos menos fantasiosos e cientificamente mais aceitáveis. Os neuróticos, como o próprio Freud ressaltou em Totem e Tabu, fantasiam sobre homicídios edipianos, mas nunca os executam (JONES, 1995, p.309). As críticas, justificáveis pela fragilidade dos argumentos históricos, antropológicos e evolutivos atribuídos ao trabalho de Freud, não são suficientes para desmontar o argumento metapsicológico, construído dentro do seu modo peculiar de pensar, de fazer pesquisa e da observação da clínica psicanalítica. Vale, nesse ponto, acompanhar os conceitos implicados nesta concepção da representação paterna, postulada na pesquisa freudiana desse período. Aqui parece despontar uma sutil construção da função e do lugar ocupado pelo pai, tema que enfatizamos neste trabalho. Trata-se de considerar dois aspectos dessa representação: o pai vivo e o pai morto. O pai vivo e presente desde a constituição da horda, em torno do qual se movem seus descendentes; o pai que provoca a rivalidade, posto que aguça a emergência do desejo através
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    131 da posse oudo controle do objeto sexual (as mulheres da comunidade). Na perspectiva oferecida pela teoria freudiana, é a presença do pai que provoca a interdição de objetos de desejo, que promove o destino desiderativo dos seus descendentes e, ainda, define a pertença desses últimos em um grupo social. Em outra representação, a do pai morto – autêntico objeto psíquico da pulsão recalcada pela culpa –, que se origina e se avoluma transformando-se no protótipo das divindades, diante do qual os indivíduos se curvam, se submetem, o homenageiam. Eis aqui o representante do pai, detentor do poder ordenador do mundo humano; eis aqui o pai, divindade suprema, sobre o qual recaem muitos tabus e do qual provêm tantos ditames. O pai morto realiza no nível psíquico interno o que o pai vivo tentou impor pela força externa, enquanto presente fisicamente. A sua morte possibilita um salto qualitativo através da substituição da força, da sublimação ou do deslocamento do desejo do objeto. O tabu de não tocar o totem reafirma esse temor, originalmente dirigido ao pai. A análise do tabu nos referencia que o pai morto é uma forte ameaça, contra a qual nenhuma força contrária, mesmo coletiva, anula ou vence. Graças à representação simbólica do pai morto, o estado de guerra ou o estado de violência primitivo é modificado. O pai morto, como símbolo, torna-se mais forte que o pai vivo: é qualificado como a autoridade que tutela, define limites e organiza as relações. O não-matar, instituído pelo pai, reafirma: o desejo interditado na origem desiderativa: não matar o totem, é o mesmo que não matar o irmão e, por sua vez, o sistema exogâmico se ordena. A metáfora desse símbolo, a função desse pai ordenador e os limites trazidos com sua morte trazem conseqüências fundamentais na vida e no desenvolvimento social. A religião e a moral têm, nesse processo, o seu nascedouro. Além de elas serem trançadas nas sociedades primitivas, são a forma de escoamento dos volumes mínimos das emoções circulantes
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    132 advindas da mortedo pai. É no sacrifício totêmico, tomado como rito, que Freud identifica a passagem da horda para a civilização. Kaufmann (1982)19 , ao se referir a esse construto psicanalítico sobre a morte do pai, salienta que Freud nos apresenta uma hipótese norteadora para a compreensão da cultura como socialização do movimento de gênese; em outras palavras, o impulso agressivo canalizado para o pai traz, como conseqüência, um processo de tensão da atividade psíquica primitiva para a racionalidade (posterior ao ato) e de sanções necessárias para a vida em sociedade. Esse estado de coisas de que é tomado o aparelho psíquico é a condição base para o surgimento da cultura e o que leva ao desligamento da esfera da natureza. O medo e a culpa servem para apaziguar, atenuar e até conduzir emoções mais intensas do homem primitivo. Para Freud, o momento posterior ao ato implementa a contenção da agressividade, fomenta a culpa e reforça a exigência de renúncia às mulheres da horda. O sistema exogâmico se ordena a partir desse ponto. A figura paterna, deslocada mais adiante para o totem (no totemismo), passa à condição de divindade, reaparecendo carregada de predicados: obediência, saber, veneração, arrependimento. A cultura, a religião e a arte são formas atenuantes de expiação da culpa por essa morte. A sociedade estava agora baseada na cumplicidade do crime comum; a religião baseava-se no sentimento de culpa e no remorso a ele ligado; enquanto que a moralidade fundamentava-se parte nas exigências dessa sociedade e parte na penitência exigida pelo sentimento de culpa (FREUD, 1977, p.175). 19 KAUFMANN apud CHATELET, 1982.
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    133 4.3 O PAI,O SUJEITO DE DESEJO E A ORGANIZAÇÃO FAMILIAR Afinal de contas, de quem estamos falando? Quem é o pai na constelação triangular que constitui a história familiar de um sujeito? Pelo viés do pensamento freudiano, lastro que adotamos como referência neste trabalho, a figura paterna atravessou toda a obra psicanalítica sendo construída, pelo seu autor, como elemento que organiza e define a subjetividade, ou seja, que organiza a estrutura desiderativa do sujeito. A atenção oferecida ao pai, como fio condutor de leitura da obra freudiana foi, desde sempre, o foco deste trabalho. Objetivamos encontrar fios de conexão aparentemente dispersos durante os diversos períodos de sua produção, com o intuito de encontrar um lugar que lhe conferisse função e significação psíquicas para além do fato biológico. Até aqui, dados os fios reflexivos adotados nesta pesquisa, podemos concluir que, muito embora Freud tenha dedicado atenção aos cuidados iniciais do primeiro objeto de contato da criança com o mundo externo (a mãe), é ao pai ou, ainda, é a prevalência da função paterna que a psicanálise se empenha em demarcar como o elemento privilegiado na constituição da individuação e da ordenação do desejo. Portanto, na psicanálise de Freud vale ressaltar: é pela relação com o pai que o sujeito se constitui em sua subjetividade e, mais ainda, é pelo pai que ele se torna autônomo para direcionar suas relações com o mundo. O pai que, pela presença, pelo lugar de autoridade, delimita a pulsão e direciona o desejo do sujeito para outros objetos de amor. Originalmente referido ou suposto em sua presença e ausência, numa relação dual em que criança e mãe se fundem para garantir a existência e a origem de algumas funções psíquicas, o pai parece ter crescido, aos poucos, em evidência e importância, ao longo do desenvolvimento da própria psicanálise. Desde o processo de auto-análise às investigações
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    134 dos relatos clínicosde suas pacientes, o pai sempre esteve presente na relação do sujeito com seu destino desiderativo. Instigado pelas mais distintas emoções ligadas ao seu próprio pai, trabalhadas através de material inconsciente oriundo de sonhos e devaneios (amor, desprezo, desejo de morte), às curiosas histórias de sedução relatadas durante os atendimentos na clínica, o pai foi visto sob diversas perspectivas, partindo do bizarro dado de ser o agente sedutor de crianças. Da presença imaginária à fantasia de sedução, o pai sempre aparece vinculado às questões do desejo e da sexualidade do sujeito, seja este normal ou neurótico, adulto ou criança. “Em vez de sustentar que as crianças eram seduzidas para a sexualidade, Freud descobriu que elas eram por si mesmas seres sexuados” (ROAZEN, 1973, p.58). As conquistas da teoria freudiana em relação à sexualidade infantil e à estrutura desiderativa descrita e organizada principalmente a partir das obras do início do século XX, como Interpretação dos sonhos e Três ensaios..., contribuíram para a melhor formulação da problemática evidenciada pelo complexo edipiano como referência para relações básicas do triângulo mãe-filho-pai. O pai do complexo não é mais um suposto, um agressor sexual, mas, antes, um elemento que, com sua presença, inscreve psiquicamente uma interdição, individualiza, subjetiva e direciona o desejo do filho. Em outros termos, oferece os contornos da identidade. Na obra de 1913, Freud evoca maior relevo sobre a perspectiva da função paterna. O relevo dado por Freud ao pai confirma e extrapola o papel ocupado na base das relações edipianas e avança no sentido de constituir-se no elemento catalizador que inaugura, fora da família, o vínculo da vida social. O pai apresentado em Totem e Tabu foi, originalmente, em sua essência, o representante da força e da posse das mulheres de seu grupo, e, como tal, ocupava um lugar de destaque diante dos objetos de desejo de seus pares ou descendentes.
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    135 Levando em contaas teorias evolucionistas de Darwin (1871), Freud busca na letra deste uma descrição sobre a forma de convivência dos primitivos: Dessa maneira, se olharmos bastante para trás na corrente do tempo [...] a julgar pelos hábitos sociais do homem, tal como ele hoje existe [...] a visão mais provável é que o homem primevo vivia originalmente em pequenas comunidades, cada um com tantas esposas quantas podia sustentar e obter, as quais zelosamente guardava contra todos os homens (DARWIN apud FREUD, 1977, p.152). Como senhor absoluto das mulheres que lhe pertenciam, tornara-se, primordialmente, o centro de uma trama que evocava instintos primitivos mais intensos e sentimentos ambivalentes de admiração e respeito, por um lado, e, por outro, inveja, agressividade e vingança. O pai da horda ou o pai primevo, fora alvo e pretexto de um processo de disputa que impôs limites e renúncias aos impulsos primitivos de seus descendentes e, como conseqüência, garantiu, sob a perspectiva psicanalítica, a sobrevivência e a ordenação das relações sociais, permitindo o aparecimento de regras de convívio e valores próprios da cultura. A presença do pai serviu para instaurar a ordenação e o domínio das forças psíquicas; sua presença e, finalmente, a sua morte, precipitada pelos outros homens, permitiram, por um lado, a realização do ato parricida e, por outro, a posterior renúncia de desejos primordiais originários em nome da civilidade, da convivência e da organização, pautados pelo sentimento de identidade e pertença. Eis aqui a origem comum dos vínculos sociais ancorados em um mesmo ancestral. O lugar do pai, secundariamente representado pelo animal ou símbolo totêmico, nas civilizações que adotaram o totemismo, trouxe, para a ordem social, para a coletividade, a noção de origem e ancestralidade que irmana e iguala direitos e deveres, definindo limites e
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    136 interdições sexuais, caracterizadospela exogamia e pelo horror ao incesto, já tratado neste capítulo. De toda a experiência resulta o seguinte ditame: “Nenhuma relação sexual entre os que partilham de um lar comum. Após o estabelecimento do totemismo, a regra assumiria outra forma e diria: Nenhuma relação sexual dentro do totem” (DARWIN apud FREUD, 1977, p.153). Decorre dessa perspectiva, psicanalítica por excelência, uma explicação da presença paterna como um elemento desencadeador de um novo estado de coisas; um momento necessário para a promoção da vida humana, já que foi pelo trabalho realizado sobre os impulsos e pela manifestação da ambivalência pulsional que todo o arcabouço dos limites psíquicos desiderativos individuais e da vida social se constituíram. A morte e seus desdobramentos posteriores remetem à figura do pai o lugar da lei, da ordem e da cultura. O sistema totêmico foi, por assim dizer, um pacto com o pai, no qual este prometia-lhes tudo o que uma imaginação infantil pode esperar de um pai – proteção, cuidado e indulgência – enquanto que, por outro lado, comprometiam-se a respeitar –lhe a vida, isto é, não repetir o ato que causara a destruição do pai real (FREUD, 1977, p. 173). A culpa e o remorso, sendo ainda resultantes do desdobramento do ato dirigido ao pai, retornam à consciência do grupo filial através de uma nova instituição social: a religião. A letra freudiana define claramente essa origem: “A religião totêmica surgiu do sentimento filial de culpa, num esforço para mitigar esse sentimento e apaziguar o pai por uma obediência a ele que fora adiada. Todas as religiões posteriores são vistas como tentativas de solucionar o mesmo problema”( FREUD, 1977, p. 173). Um ponto determinante comum ao totemismo e à religião é a tensão gerada nos filhos pela ambivalência frente ao complexo-pai. Desde o início o pai é objeto de sentimentos afetivos contraditórios. O respeito e o medo, o amor e o ódio, a culpa e o remorso permeiam a
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    137 relação com opai. Vale salientar, entretanto, que essa ambivalência sempre foi tratada e identificada, ainda que com relevância distinta, em diversos momentos da escritura freudiana. Contudo, é a partir da configuração do Complexo de Édipo que tal fato se torna referência e imprime força na relação com o pai. O medo da castração, a fantasia da expiação, tão comum entre os neuróticos, reafirma essa evidência. Ao concluir, então, esta investigação excepcionalmente condensada, gostaria de insistir em que o resultado dela mostra que os começos da religião, da moral, da sociedade e da arte convergem para o complexo de Édipo. Isso entra em completo acordo com a descoberta psicanalítica de que o mesmo complexo constitui o núcleo de todas as neuroses, pelo menos até onde vai nosso conhecimento atual. Parece-me ser uma descoberta muito surpreendente que também os problemas da psicologia social se mostrem solúveis com base num único ponto concreto: - a relação do homem com o pai (FREUD, 1977, p.185-6). Apoiado no propósito de entender as origens da organização social, Freud estende o caráter da ambivalência emocional para com o pai como uma invariante decisiva na constituição não somente do sujeito, mas de toda a civilização. “Uma das pressuposições possíveis é que ela seja um fenômeno fundamental de nossa vida emocional” (FREUD, 1977, p.186). A leitura aqui formulada encontra o epicentro do propósito deste empreendimento: delimitar o papel, a força da função paterna. Agora, apoiados pelo texto e fluxo do pensamento freudiano, chegamos ao significado atribuído ao complexo-pai: a relação do sujeito com o pai e suas vicissitudes emocionais ambivalentes são a base para a sua constituição emocional e a sua vida de relações. A constatação freudiana sobre o lugar da herança psíquica relacionada ao complexo-pai é seguida de uma reflexão que reafirma o nosso propósito quanto ao desenho dessa herança nas diversas gerações:
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    138 A menos queos processos psíquicos sejam continuados de uma geração para outra, ou seja, se cada geração fosse obrigada a adquirir novamente sua atitude para com a vida, não existiria progresso neste campo e quase nenhuma evolução. Isso dá origem a duas outras questões: quanto podemos atribuir à continuidade psíquica na seqüência das gerações? Quais são as maneiras e meios empregados por determinada geração para transmitir seus estados mentais à geração seguinte? (FREUD, 1977, p.187). A idéia de Freud não é encaminhar a questão da ambivalência emocional para uma discussão filogenética apoiando-se numa base ontogenética. Não parece ser este o seu propósito, e sim o entendimento da base emocional que constitui as relações travadas pelo sujeito com o mundo social à sua volta. Já salientamos, como característica da última etapa do pensamento freudiano, a distinção do registro energético dos impulsos, que forma o ‘objeto’ específico da investigação psicanalítica, e das configurações historicamente determinadas, família, sociedade ampliada, em que esses impulsos imprimem respectivamente o traço do conflito edipiano e da culpabilidade. Eis um primeiro exemplo da emergência, no nível da cultura, das condições de sua própria gênese (KAUFMANN, 1982, p.67). A questão com a autoridade e a percepção do forte conteúdo energético de forças antitéticas e de impulsos que constituem as relações, tais como: deuses e seus devotos, governantes e súditos, homem e sociedade, estão pautadas como substitutos simbólicos da relação do homem com seu pai. As bases inconscientes e o deslocamento para outros objetos e instituições somente reafirmam a presença do complexo-pai, sugerido pela psicanálise. São marcas de todo o pensamento social de Freud o dinamismo da vida, as compulsões, os caminhos ocultos que nos levam numa ou noutra direção. Freud tinha um forte sentido dos elementos apaixonantes da vida, das correntes subterrâneas de sentimentos das quais fugimos para perigo nosso (ROAZEN, 1973, p.104). Kaufmann ressalta que Jung, diferentemente de Freud, apostou no valor do pai vivo ou, ainda, em representantes deslocados para a figura de Cristo ou de outros representantes do
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    139 Deus-Pai como capazesde perpetuar a idéia do papel paterno na cultura e na espiritualidade. Segundo o autor, Freud inova na medida em que, distanciado da explicação espiritual, aposta na força do pai morto e na capacidade de, estando ausente, de exercer no clã um poder classificatório. Freud salienta o aspecto simbólico da função paterna como centro de referência para entender a base do sentimento de ambivalência que caracteriza a relação do sujeito com as figuras parentais, no triângulo familiar, epicentro da estrutura desejante do sujeito normal ou neurótico. Os sentimentos ambivalentes, em Freud, estão na base do conflito edipiano, e é o que orienta a teoria da sexualidade infantil, apresentada de forma mais estruturada em Três Ensaios... Na concepção freudiana, esse assassínio é um caráter histórico, e como tal pode ter feito parte da experiência na horda. No entanto, sendo universal ou não, sua validade, para a psicanálise, deve ser considerada como um momento primordial da história da humanidade. A experiência do parricídio servirá a Freud como realidade psíquica, factual ou não. Isso implica dizer que o que mais lhe importa é a presença que este fato realiza no sujeito. Promover a perda do chefe da horda é uma forma de conter os impulsos primitivos humanos. “A relação da essência impulsional com a morte emerge, assim, no cerne do problema da cultura, e o movimento de pensamento desenvolvido por Totem e Tabu encontrará seu coroamento em 1920, na segunda tópica” (KAUFMANN, 1982, p.45). O sentimento de culpa, oriundo do conflito impulsional primitivo, tornou patente a partir do momento em que se impôs aos homens a tarefa da vida em comunidade. Na estrutura familiar, entretanto, na ordem social mais restrita, ele também se manifesta necessariamente no complexo de Édipo. Melhor dizendo, tanto na estrutura social ampliada quanto na família o conflito entre o desejo de morte e a culpa estará sempre permeando os limites e as relações entre os sujeitos. “Encontra-se, assim, fixado, em sua formulação propriamente psicanalítica,
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    140 o problema levantadopor Freud desde 1897, concernente às origens da repressão do incesto, em relação com a transição da sociedade familiar para a sociedade ampliada” (KAUFMANN, p.59). Portanto, Freud sintetiza nessa tensão da atividade psíquica primitiva ambivalente a condição básica para a passagem ao mundo da racionalidade e, portanto, à condição da neurose – adiamento do desejo −, descrevendo esse movimento psíquico como necessário à promoção da vida humana acima de suas condições animais. A socialização surge como perspectiva de encaminhamento de carências e adiamento de conflitos e os riscos de excessos dos impulsos agressivos de destruição, tornando-se a saída para o desligamento da esfera da natureza instintual. As relações acerca da cultura tornam-se produto dessa passagem, desse momento de transformação das relações entre os homens e entre o homem e seu desejo. A solidariedade ou o investimento nas necessidades da coletividade não é uma conseqüência natural, mas, antes, uma imposição à continuidade e à ordenação da vida social, além da garantia de sobrevivência individual. Para o ponto de vista psicanalítico, não sociológico, a necessidade imposta pela lei da vida em sociedade favoreceu, por um lado, a ampliação das relações entre os indivíduos e a delimitação da expressão dos impulsos sexuais; por outro, foi responsável pelo processo de subjetivação e de individuação do sujeito, tão fundamental ou mais que o primeiro. Assim, retomemos o foco sobre o elemento que desde sempre nos interessou investigar: a presença do pai na experiência da ordenação pessoal e social. A experiência histórica da sua morte – essa experiência universal ou psiquicamente inscrita − é a base para o surgimento de alguns processos de elaboração psíquica mais elevados, e este parece ser o aspecto relevante trazido pela psicanálise e reconstituído nos textos que elencamos até aqui.
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    141 A originalidade daproposta do pensamento psicanalítico sobre a figura paterna, apesar de inúmeras críticas advindas de diferentes frentes do pensamento contemporâneo e até de outros psicanalistas, ancora-se, segundo Kaufmann, numa epistemologia que restitui todo o itinerário do destino pulsional, apresentando, dessa forma, a própria estrutura de alteridade. É pelo caminho da constituição do sujeito e da organização de seu desejo que a função paterna, no pensamento freudiano, assume lugar privilegiado. É através do pai, ou da sua presença enquanto função de ordem, de lei que dele decorre, que um sujeito se organiza como uma unidade diferenciada, capaz de dar conta de seu destino pulsional e das relações angustiantes do mundo que não está ali para satisfazer os seus desejos. Na instância do enredo familiar, os capítulos iniciais estabeleceram o primeiro vínculo da criança com o mundo externo, evidenciando a necessidade de atendimento da urgência das demandas infantis mais primárias. A relação da criança com a mãe ou com o adulto que acolhe seus apelos de sobrevivência e contato, instaura a base para as primeiras funções que constituirão as condições para dar contorno não somente à dimensão corporal, mas também às primeiras funções psíquicas que organizarão o funcionamento do aparelho psíquico desse infante. É dessa relação dual com a mãe que as primeiras experiências sexuais derivam, como já nos referimos no capítulo terceiro deste trabalho. Jones (1970) salienta que esta relação diádica, explorada por Freud, aponta não apenas para os cuidados maternos da mãe com a criança, mas para a emergência da função de comunicação que surge neste encontro, bem como a inscrição dos mais ternos sentimentos aprendidos pelo sujeito na mais tenra idade. Porém, com a mesma força que a teoria freudiana configura a importância dessa relação mãe-filho, é a psicanálise que também instiga afirmar que, nesse estágio primário de relacionamento, a submissão à mãe precisa ser sacrificada em nome do desenvolvimento
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    142 sexual e psíquicoda criança. Uma intervenção, ou seja, uma nova ordem nessa relação urge acontecer para o bem do sujeito e da relação familiar. É através da letra de Mezan (1987), entretanto, que resgatamos uma vez mais, pelo viés psicanalítico, a entrada do pai. Ao retomar o mito na perspectiva freudiana, o pai é chamado a dar a direção ao destino desiderativo do filho: O reino do intelecto e da paternidade vem fundar-se, assim, sobre os escombros de uma imediatez representada pela mãe e pelos sentidos, imediatez solidária de um feitiço e de uma sedução, de uma regressão ao amorfo, que só pode ser evocada com indizível terror (MEZAN,1997 p.148). O poético funde-se muitas vezes com o real e irmanam-se através de um elemento comum: a dor. Seja pelo argumento da morte primordial do pai primevo ou, como no mito edipiano, o assassinato do pai aliado ao suicídio da mãe, é pela dor, pelo remorso e pela culpa que o sujeito se encontra com o limite da pulsão, se encontra com a lei e é obrigado a desistir da tensão em torno da satisfação imediata de seus impulsos mais intensos dirigidos em especial a um único objeto. O caminho de encontro com a função paterna é, para Freud, o caminho do sacrifício e da renúncia, dado que esse encontro somente se concretiza caso o sujeito realize psiquicamente o desejo de morte em relação ao pai. O caminho aqui descrito não se restringe aos filhos homens, porque o que se impõe, na verdade, é o caminho de renúncia ao primeiro objeto de amor de toda e qualquer criança, que é a mãe. O estado fusional (mãe-filho) instaurado e alimentado pelo prazer das primeiras vivências auto-eróticas precisa e deve ser abandonado, em nome de um importante passo na constituição da subjetividade e da alteridade do sujeito. É apenas quando ele ou ela (sujeito de desejo) é capaz de desvincular-se desse estágio, experiência marcada pelos fortes sentimentos de ambivalência em relação a ambos os pais, que o sujeito ingressa definitivamente no seu caminho singular, tornando-se capaz de seguir
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    143 com suas própriasescolhas de objeto. “A contribuição de Freud é ter ligado à gênese do objeto à do amor e do ódio” (RICOEUR, 1977, p. 347). O corte, a separação da mãe somente se realiza pela presença de um outro que imponha ao conjunto dual o limite, ou o desvio do investimento pulsional. A contrapartida desse abandono residirá, no caso dos sujeitos ditos normais, na conquista de representações ou deslocamentos da expressão direta do desejo por outras formas substitutivas de satisfação: o interesse pelas conquistas da vida social, as produções culturais, o desenvolvimento da vida intelectual e artística, e a devoção às religiões. Numa de suas comunicações com seu colega Rank, Freud textualmente afirma: O desligamento do indivíduo da autoridade dos pais é uma das mais necessárias, mas também uma das mais penosas realizações do desenvolvimento. É inteiramente necessário que se realize e devemos supor que todo ser humano normal conseguiu, em certa medida, consumar essa separação. Com efeito, o progresso da sociedade depende, em geral, da oposição das duas gerações (FREUD apud JONES, 1970, p.76). A outra possibilidade de resolução do conflito edipiano, para Freud, a mais comum nos neuróticos analisados através da clínica psicanalítica, relaciona o sintoma neurótico como uma saída conciliatória, uma alternativa aceita pela consciência de um desejo inconsciente não realizado, que data dessas experiências infantis ligadas às figuras parentais. Os impulsos desiderativos não realizados ressurgem travestidos nos sintomas, embora continuem clamando pela sua emergência. Seja pela inserção na cultura, ou pelo exercício da racionalidade como saída, ou, ainda, pelo deslocamento simbólico do sintoma neurótico, a passagem pela experiência com o pai é condição que humaniza. O pai é, portanto, personagem ativo na novela familiar. Sua presença deve garantir a direção das relações afetivas (saudáveis ou não), travadas entre os demais atores da constelação na família. Seu lugar não se restringe ao lugar biológico
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    144 necessário à procriação,mas ao lugar da inscrição simbólica que demarca uma passagem para um novo estágio de desenvolvimento individual e coletivo. Roudinesco, na atualidade, circunscreve sobre a função paterna um lugar simbólico bem demarcado, assentado em tudo que vimos no pensamento freudiano. Diz a autora: O pai não é, portanto um pai procriador senão na medida em que é um pai pela fala. E esse lugar atribuído ao verbo tem como efeito ao mesmo tempo reunir e cindir as duas funções da paternidade (pater e genitor), a da nomeação e da transmissão do sangue e da raça. De um lado o engendramento biológico designa o genitor; de outro a vocação discursiva delega ao pai um ideal de dominação que lhe permite afastar sua progenitura da besta, da animalidade, do adultério e do mundo dos instintos, encarnados pela mãe. A palavra do pai, ao delinear a lei abstrata do logos e da verdade, não prolonga a alimentação materna senão ao preço de separar o filho do laço carnal que o une, desde seu nascimento, ao corpo da mãe (ROUDINESCO, 2002, p.23). Tomando como referência esse lugar simbólico de corte e de civilidade atribuído ao pai, vale, então, questionar o impacto de sua presença nos dois níveis da existência: na subjetividade de cada ser e na intersubjetividade das diversas formas alternativas de relações afetivas que se estabelecem na vida social. Como sujeito que instaura a lei e a docilização dos desejos, circunscreve a subjetividade e permite a individuação, dissolvendo o risco de indiferenciação causada pela presença materna, permitindo, com isso, a inserção do sujeito no mundo da neurose e não da psicose (estado de indiferenciação com o objeto), segundo o pensamento freudiano. No outro nível, o da intersubjetividade, o mundo das relações sociais, é pelo pai que as relações de autoridade, de poder e de ordenação de papéis se estabelecem. É pela passagem do estado de natureza ao estado de autoridade, uma atribuição do pai, que se configura a organização social sobre a força do desejo individual. Diante dessa presença ordenadora, não parece ser casual as inúmeras representações externas criadas para ocupar ou representar a função do pai na vida civilizada. Freud
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    145 sustentou o argumentodessa simbolização desde a passagem do pai primevo ao totem, do totem ao animal totêmico, da relação substituta do pai na imagem do Deus-pai; do pai ao monarca e tantos diversos modelos de representantes das divindades masculinas que atravessam a história da humanidade. Pensar numa subjetividade que não tenha sofrido a intervenção paterna parece ser uma situação tão comprometedora quanto pensar numa sociedade sem lei, sem seus códigos morais de conduta e de limites de convivência. O caos instaurado pela ausência ou indiferenciação do desejo no indivíduo sugere uma condição tão doentia quanto à convivência numa sociedade onde os limites, o respeito às individualidades e o relacionamento entre alteridades foram dramaticamente abolidos ou esvaziados de sentido. Essa inquietação foi, desde sempre, a inquietação que fez mover a nossa pesquisa e o desejo de resgatar o lugar devido do pai no pensamento contemporâneo e na vida psíquica do homem atual. Na bela imagem poética lusitana, isso se traduz em Passagem das horas: [...] Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito. Só humanitariamente é que se pode viver. Só amando os homens, as ações, a banalidade dos trabalhos, Só assim - ai de mim! -, só assim se pode viver. Só assim, ó noite, e eu nunca poderei ser assim! Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo, Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri. Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos, E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse. Amei e odiei como toda gente, Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo, E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo. [...] (PESSOA, 2002. )
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    146 CONCLUSÃO Pai meu, paimeu, por que me abandonaste? Matheus, XXVII: 46 Assim nos aproximamos do século XXI. Muitas revoluções sociais, políticas, econômicas e sexuais demarcam a vida da sociedade contemporânea, especialmente na virada do século XX, cujos processos ainda se conhece pouco. Descortinam-se vertiginosas transformações da vida, fazendo emergir um vasto polimorfismo de instituições sociais, de sistema de crenças e valores, do trabalho, dos relacionamentos e do modo pelo qual homens e mulheres se portam nos novos e antigos papéis. Segundo Foucault (2001), nem sempre é possível determinar o que causou a mudança específica numa crença ou numa cultura. Tanto uma quanto a outra, embora sejam processos sociais, avançam sobre a vida privada. O modelo da família patriarcal, que alicerçou a sociedade durante séculos, foi diretamente atingido dentro desse cenário de transformações, já que tais mudanças afetaram diretamente a sexualidade, as formas de parentesco, de filiação, a maternidade e a paternidade, se quisermos restringir as influências ao âmbito da instituição social da família. Nesse aspecto, o público e o privado nas relações refletem uma desordem ou, pelo menos, uma nova ordem de valores e comportamentos. Para Araújo (1998), houve uma descaracterização do sexo, uma vez que na sociedade atual existem papéis sociais masculinos e femininos, desempenhados indistintamente por homens e/ou mulheres. É fenômeno e conseqüência dessas transformações a re-divisão sexual do trabalho, a valorização da mulher e a conseqüente queda do patriarcalismo. Com o declínio da ideologia patriarcal, os lugares estruturantes e fundantes dos sujeitos ficaram alterados,
  • 148.
    147 gerando sérias conseqüênciasà formação das famílias atuais. Padrões de organização familiar – ampliada, monoparental, homoparental −, bem como conceitos de masculino e feminino, maternidade e paternidade estão sendo drástica e continuamente alterados na cultura atual. A família, ou, ainda, as uniões entre casais, não está baseada no interesse ou na função da procriação. E talvez nunca tenha estado. No entanto, na sociedade de hoje, ter filhos é, para muitos, um ato de coragem, haja vista as inúmeras demandas profissionais e sociais de cada um dos pares que compõe o casal. Uma das mais relevantes conseqüências da queda desse modelo patriarcal é o redimensionamento do masculino e da função paterna no novo contexto do pós- patriarcalismo. Certamente, bastante diferentes das famílias vienenses do tempo de Freud são as atuais configurações relacionais, ao tratarmos do tema família e das funções materna e paterna. Nosso intuito, entretanto, com este trabalho sempre foi o de buscar compreender permanências e transformações, especialmente no que tange à função paterna, sob a perspectiva psicanalítica, tão marcadamente diferenciada em seu construto teórico sobre o tema. O interesse que norteou nosso investimento passa por reconhecer nessa nova organização social o que persiste sobre os atributos paternos no funcionamento psíquico dos sujeitos na sociedade atual. Se for possível falar hoje de uma crise na paternidade, diante das novas representações sociais da família, frente ao rompimento dos modelos e padrões tradicionais, como fica a função básica, estruturadora e estruturante do filho como sujeito? O corpo teórico freudiano, que institui as regras da discursividade analítica, fornece método, dá régua e compasso, mas não poderia traçar todas as figuras possíveis da atualidade. O pensamento de Freud constrói proposições que visam explicar o funcionamento psíquico do homem em termos de atributos universais, mas também abriga concepções valorativas, orientadas pela realidade de seu mundo e de seu tempo (LOWENKRON, 2001, p.825).
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    148 Como depurar aidéia inicial de Freud, início do século XX, e a sua aplicação nesta realidade social, imposta pelo avanço da engenharia genética, principalmente com a descoberta do ADN ou DNA (ácido desoxirribonucléico), pelas mudanças do papel feminino, decorrentes da inserção profissional da mulher, pelas novas formas tecnológicas a serviço da procriação e, naturalmente, pelas diferentes formas de estabelecimento dos vínculos parentais? A família, como lugar social e simbólico, em que a diferença, principalmente a diferença sexual, é assumida como base e, ao mesmo tempo, construída como tal, tem algo a conservar como elemento estruturante, e talvez nesse aspecto tenhamos o que re-encontrar em Freud. Mesmo nos dias atuais, função materna e paterna continuam complementares e estruturantes, indispensáveis ao desenvolvimento do ser humano, garantindo a condição de constituir-se como ser em si e de relacionar-se com o outro e com o mundo. Ao tratarmos de desenvolvimento humano, referimo-nos ao que lhe é mais específico – o funcionamento do aparelho psíquico, a vida relacional, a sociabilidade e a cultura. É preciso tomar em consideração que os estilos diferentes de viver e as novas possibilidades de relacionamento do ser humano resultam de conquistas não somente tecnológicas, mas de costumes e desejos que emergem de novas demandas pessoais e/ou sociais. Tais demandas também impõem dilemas éticos, dilemas psíquicos decorrentes das novas formas de o sujeito se colocar no mundo. Numa reflexão pautada no viés psicanalítico sobre as novas figuras parentais e suas perspectivas atuais, há que se levar em conta as formas de experienciar a maternidade e a paternidade através da subjetividade do homem e da mulher de hoje. Por outro lado, cabe também refletir sobre o impacto dessas novas formas na constituição psíquica dos filhos da sociedade contemporânea.
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    149 A função paternaparece estar, assim como a maternidade, para além do vínculo biológico de consangüinidade. A condição de pai ainda é um ato criador prototípico para um homem, e, assim sendo, encerra uma forte vinculação com o divino e com o poder. Vale aqui relembrar o que vastamente foi tratado no último capítulo: a autoridade deriva da função paterna. Em Totem e Tabu, todo o esforço freudiano aponta para o pai como responsável pela interdição do incesto e ordenador da cultura e da moral na estrutura social. Essa autoridade pode ser deslocada, simbolizada ou metaforizada através de diferentes representantes, embora tenha a sua origem na experiência edipiana da relação com o pai. Ao tornar-se pai, o homem faz contato com o seu potencial de criar e dar forma a uma nova vida; reafirma o ato da criação; resgata, na experiência pessoal, algo que encerra uma herança ontogenética; resgata algo de simbólico que, inconscientemente, reconhece e do qual se apodera narcisicamente. No entanto, em razão das demandas assumidas pelas exigências de seus novos papéis, o significado simbólico parece ter escapado para um lugar secundário. Mesmo com o reconhecimento da importância do resgate do arquétipo do pai, ao longo da história da humanidade assistimos, paradoxalmente, ao impulso criador masculino afastar-se cada vez mais do contexto da família e da experiência da paternidade. Caso desejemos ir um pouco adiante, perceberemos até mesmo um certo grau de afastamento ou estranhamento do relacionamento mais profundo com a mulher. O papel de pai torna-se, atualmente, uma metáfora de sua capacidade de criar e concretizar coisas, construir engenhocas tecnológicas e continuar ocupando espaço nas estruturas formais de poder. Todavia, seu papel na criação dos filhos parece esvaziado de significação. Segundo Colman e Colman (1988), é difícil transferir a rarefeita identificação com o Criador abstrato para o aspecto corriqueiro de ser pai de um filho nos dias atuais. O papel de
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    150 pai pode sermuitas vezes entendido como um empecilho aos momentos da criação do homem fora do espaço familiar. A ausência da função paterna, ou, ainda, a ausência de sua autoridade, já se faz sentir hoje, inclusive, como um fenômeno social alarmante. Psicólogos, sociólogos, enfim, estudiosos do comportamento humano relacionam esse esvaziamento de autoridade ao aumento da delinqüência infantil e juvenil, intensificada nas últimas décadas. “Freud jamais ignorou o papel desempenhado pela tradição judaico-cristã na longa história das perseguições físicas e morais infligidas durante séculos àqueles acusados de transgredir as leis da família” (ROUDINESCO, 2002, p.183). Assim, como reconhecer e re- significar as contribuições freudianas nesses novos arranjos, já que a transgressão passa pela possibilidade de se ter transformado em comportamento social aceitável ou até banal? Vários são os fenômenos atuais que remetem à investigação do significado simbólico da paternidade e da função paterna na sociedade atual. Os casamentos homossexuais; os novos arranjos familiares decorrentes dos re-casamentos, das novas alianças afetivas; a paternidade assistida e as configurações da família ampliada exigem uma revisão e uma investigação no espaço da psique humana. Para Malpique (1998), caminhamos ao encontro de uma profunda crise de valores na sociedade moderna, que é o mesmo que dizer: enfraquecimento da autoridade na família, da desvalorização e da ausência do pai. Há que se entender, nesta sociedade, permeada de novos comportamentos e símbolos, para onde está se deslocando o significado simbólico do pai; que lugar o pai vem ocupar nesse enredo alterado tanto no aspecto da natureza quanto no da cultura; como o homem e a mulher de hoje representam e se afetam com a instituição necessária, imprescindível de autoridade nas suas constituições subjetivas; como e para quem se submetem estando sujeitados pela lei
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    151 paterna. Por fim,como constituem e formulam suas relações de objeto, derivando os mais autênticos sentimentos de ambivalência. O que urge questionar é se o raciocínio freudiano da pulsão e seus destinos se mantém, o que muda nos relacionamentos atuais. Arriscamos afirmar que, apesar de os destinos poderem ser modificados, os efeitos reverberados no convívio social, a função de dar direção ao desejo e delimitar seus espaços e objetos ainda continua sendo uma função do pai na história do sujeito. Essa parece ser a permanência mais significativa cujo pensamento freudiano pode oferecer à psicologia ou, quem sabe, à história do homem.
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