A ENTREVISTA À VEJA




    A ENTREVISTA
       À veja
Entrevista    concedida    pelo  Senador JARBAS
VASCONCELOS à revista VEJA, edição 2.100, ano 42,
Nº 7, de 18 de fevereiro de 2009


Discurso "A verdade inconveniente", pronunciado
pelo Senador JARBAS VASCONCELOS, no dia 3 de
março de 2009


Repercussão da entrevista na Imprensa (com textos
de Dora Kramer, Sebastião Nery, Augusto Nunes,
Ricardo Noblat, Elio Gaspari, Rosângela Bittar,
Arnaldo Jabor, Roberto Magalhães, Marisa Gibson,
Gustavo Krause, Cristovam Buarque, entre outros)




                      BRASÍLIA - 2011


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A ENTREVISTA À VEJA



                      SENADO FEDERAL
         SENADOR JARBAS VASCONCELOS




    A ENTREVISTA
       À veja
Entrevista    concedida    pelo  Senador JARBAS
VASCONCELOS à revista VEJA, edição 2.100, ano 42,
Nº 7, de 18 de fevereiro de 2009


Discurso "A verdade inconveniente", pronunciado
pelo Senador JARBAS VASCONCELOS, no dia 3 de
março de 2009


Repercussão da entrevista na Imprensa (com textos
de Dora Kramer, Sebastião Nery, Augusto Nunes,
Ricardo Noblat, Elio Gaspari, Rosângela Bittar,
Arnaldo Jabor, Roberto Magalhães, Marisa Gibson,
Gustavo Krause, Cristovam Buarque, entre outros)



                       BRASÍLIA – DF

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A ENTREVISTA À VEJA




SUMÁRIO



APRESENTAÇÃO                    7


A ENTREVISTA                   10


O DISCURSO                     19


O QUE DISERRAM SOBRE JARBAS    95


JARBAS CONTA TUDO              96
Editorial da VEJA


GRANDE JARBAS                  99
Lucia Hippolito


É PRECISO TER COERÊNCIA       101
Jorge Bastos Moreno


JARBAS FAZ SEU LANCE          104
Ricardo Noblat


VERDADE INCONVENIENTE         108
Dora Kramer


CONFISSÃO E CORRUPÇÃO         113
Sérgio Costa Ramos



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A ENTREVISTA À VEJA




O PMDB, A CORRUPÇÃO E A
GELEIA GERAL BRASILEIRA                    116
Editorial do Valor Econômico


EM BUSCA DO PRESTÍGIO PERDIDO              120
Merval Pereira


UMA ENTREVISTA DEVASTADORA                 125
Sebastião Nery


O BRASIL VIROU UM GRANDE PMDB              130
Arnaldo Jabor


A CORRUPÇÃO VISTA DE DENTRO                135
Editorial d’O Estado de S.Paulo


UMA AGENDA                                 139
Editorial d’O Globo


PASSO DEFINITIVO                           142
Marisa Gibson


A ESPLÊNDIDA SOLIDÃO DE UM INCORRUPTÍVEL   145
Augusto Nunes


ALTO LÁ, JARBAS NÃO É ROBERTO JEFFERSON    149
Elio Gaspari




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A ENTREVISTA À VEJA




O SILÊNCIO DOS INCRIMINADOS        153
Rosângela Bittar


EU SOU, MAS QUEM NÃO É?            157
Editorial d’O Estado de S.Paulo


A BRAVURA DO INCORRUPTÍVEL         161
Augusto Nunes


ENCARCERADO NO PMDB                165
Maria Cristina Fernandes


É PRECISO PUNIR                    169
Editorial da VEJA


ASSINAREI EMBAIXO                  172
Cristovam Buarque



O QUADRO ATERRADOR DA CORRUPÇÃO    176
Editorial do O Estado de S.Paulo


UM GRANDE MARANHÃO                 180
Demétrio Magnoli



A LUTA DE JARBAS                   185
Roberto Magalhães




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A ENTREVISTA À VEJA




JARBAS E BRUZUNDANGA                    189
Gustavo Krause


CRUZADA DE JARBAS PAUTA 2010            194
Ruy Fabiano


O PMDB É UMA BELA FLOR EM NOSSA TERRA   199
Arnaldo Jabor




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A ENTREVISTA À VEJA




                      APRESENTAÇÃO




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A ENTREVISTA À VEJA




APRESENTAÇÃO
Jarbas Vasconcelos



Passados pouco mais de dois anos da entrevista que concedi
à revista “VEJA”, o cenário político brasileiro em quase nada
melhorou. Na realidade, devo afirmar que muita coisa
piorou, se degradou. Definitivamente, os escândalos
passaram a fazer parte da paisagem nacional. A capacidade
de indignação já não é mais a mesma. No início, esses casos
até que recebem certa atenção, mas depois caem no
esquecimento.
       São raros os episódios políticos nos quais os acusados
terminam punidos. Qual dos vários casos ocorridos durante
os últimos anos teve um desfecho? Quem realmente foi
punido? O mais grave é que muitos desses envolvidos
terminaram recebendo o aval do próprio eleitor –
conquistando       votações    expressivas      na    primeira
oportunidade surgida.
       Iniciativas como a Lei da Ficha Limpa – que foi
apresentada como solução para todos os males da política –
enfrentam dificuldades para “pegar” num País onde leis
moralizadoras correm o sério risco de virar letra morta.
       Meu objetivo em publicar a entrevista à revista
“VEJA” é fazer um registro histórico de um episódio que foi
bastante discutido no Brasil em 2009 – de Norte a Sul do
País. Fui elogiado e fui agredido. Felizmente, angariei mais
aliados do que adversários.
       Sou um otimista. Acredito que – apesar das
dificuldades dos últimos anos na seara política – o Brasil
tem plenas condições de melhorar o sistema que aí está.
Essa mudança não passa apenas pela aprovação de uma


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A ENTREVISTA À VEJA


Reforma Política séria por parte do Congresso Nacional.
Passa também pela consciência do eleitor-cidadão de que
quem não gosta de política está condenado a ser governado
por quem gosta. Daí a necessidade de não encerrar o
envolvimento com a política após digitar alguns números na
urna eletrônica. É fundamental criar uma cultura de
participação ativa em todos os espaços existentes na vida
social do País.
       Tomei a iniciativa de anexar também a repercussão
da entrevista na Imprensa, bem como o discurso que fiz
posteriormente na tribuna do Senado Federal.
       Ao disponibilizar todo esse material, acredito estar
cumprindo o meu papel como Senador da República,
representante de Pernambuco no Congresso Nacional e,
principalmente, como um cidadão brasileiro que enxerga na
política um grande instrumento de transformação e defesa
das liberdades e da justiça social.



                                      Recife, Maio de 2011.




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A ENTREVISTA À VEJA




                      A ENTREVISTA




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A ENTREVISTA À VEJA




A ENTREVISTA

“O PMDB é corrupto”

Senador peemedebista diz que a maioria dos integrantes
do seu partido só pensa em corrupção e que a eleição de
José Sarney à presidência do Congresso é um retrocesso



Otávio Cabral

       A ideia de que parlamentares usem seu mandato
preferencialmente para obter vantagens pessoais já causou
mais revolta. Nos dias que correm, essa noção parece ter
sido de tal forma diluída em escândalos a ponto de não mais
tocar a corda da indignação. Mesmo em um ambiente
político assim anestesiado, as afirmações feitas pelo senador
Jarbas Vasconcelos, de 66 anos, 43 dos quais dedicados à
política e ao PMDB, nesta entrevista a VEJA soam como um
libelo de alta octanagem. Jarbas se revela decepcionado com
a política e, principalmente, com os políticos. Ele diz que o
Senado virou um teatro de mediocridades e que seus colegas
de partido, com raríssimas exceções, só pensam em ocupar
cargos no governo para fazer negócios e ganhar comissões.
Acusa o ex-governador de Pernambuco: "Boa parte do PMDB
quer mesmo é corrupção".

PERGUNTA – O que representa para a política brasileira
a eleição de José Sarney para a presidência do
Senado?
RESPOSTA – É um completo retrocesso. A eleição de Sarney
foi um processo tortuoso e constrangedor. Havia um

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A ENTREVISTA À VEJA


candidato, Tião Viana, que, embora petista, estava
comprometido em recuperar a imagem do Senado. De
repente, Sarney apareceu como candidato, sem nenhum
compromisso ético, sem nenhuma preocupação com o
Senado, e se elegeu. A moralização e a renovação são
incompatíveis com a figura do senador.

PERGUNTA – Mas ele foi eleito pela maioria dos
senadores.
RESPOSTA – Claro, e isso reflete o que pensa a maioria dos
colegas de Parlamento. Para mim, não tem nenhum valor se
Sarney vai melhorar a gráfica, se vai melhorar os gabinetes,
se vai dar aumento aos funcionários. O que importa é que
ele não vai mudar a estrutura política nem contribuir para
reconstruir uma imagem positiva da Casa. Sarney vai
transformar o Senado em um grande Maranhão.

PERGUNTA – Como o senhor avalia sua atuação no
Senado?
RESPOSTA – Às vezes eu me pergunto o que vim fazer aqui.
Cheguei em 2007 pensando em dar uma contribuição
modesta, mas positiva – e imediatamente me frustrei. Logo
no início do mandato, já estourou o escândalo do Renan
(Calheiros, ex-presidente do Congresso que usou um lobista
para pagar pensão a uma filha). Eu me coloquei na linha de
frente pelo seu afastamento porque não concordava com a
maneira como ele utilizava o cargo de presidente para se
defender das acusações. Desde então, não posso fazer nada,
porque sou um dissidente no meu partido. O nível dos
debates aqui é inversamente proporcional à preocupação
com benesses. É frustrante.

PERGUNTA – O senador Renan Calheiros acaba de
assumir a liderança do PMDB...

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A ENTREVISTA À VEJA


RESPOSTA – Ele não tem nenhuma condição moral ou
política para ser senador, quanto mais para liderar qualquer
partido. Renan é o maior beneficiário desse quadro político
de mediocridade em que os escândalos não incomodam mais
e acabam se incorporando à paisagem.

PERGUNTA – O senhor é um dos fundadores do PMDB.
Em que o atual partido se parece com aquele criado na
oposição ao regime militar?
RESPOSTA – Em nada. Eu entrei no MDB para combater a
ditadura, o partido era o conduto de todo o inconformismo
nacional. Quando surgiu o pluripartidarismo, o MDB foi
perdendo sua grandeza. Hoje, o PMDB é um partido sem
bandeiras, sem propostas, sem um norte. É uma
confederação de líderes regionais, cada um com seu
interesse, sendo que mais de 90% deles praticam o
clientelismo, de olho principalmente nos cargos.

PERGUNTA – Para que o PMDB quer cargos?
RESPOSTA – Para fazer negócios, ganhar comissões. Alguns
ainda buscam o prestígio político. Mas a maioria dos
peemedebistas se especializou nessas coisas pelas quais os
governos são denunciados: manipulação de licitações,
contratações dirigidas, corrupção em geral. A corrupção está
impregnada em todos os partidos. Boa parte do PMDB quer
mesmo é corrupção.

PERGUNTA – Quando o partido se transformou nessa
máquina clientelista?
RESPOSTA – De 1994 para cá, o partido resolveu adotar a
estratégia pragmática de usufruir dos governos sem vencer
eleição. Daqui a dois anos o PMDB será ocupante do Palácio
do Planalto, com José Serra ou com Dilma Rousseff. Não



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A ENTREVISTA À VEJA


terá aquele gabinete presidencial pomposo no 3º andar, mas
terá vários gabinetes ao lado.

PERGUNTA – Por que o senhor continua no PMDB?
RESPOSTA – Se eu sair daqui irei para onde? É melhor ficar
como dissidente, lutando por uma reforma política para
fazer um partido novo, ao lado das poucas pessoas sérias
que ainda existem hoje na política.

PERGUNTA – Lula ajudou a fortalecer o PMDB. É de
esperar uma retribuição do partido, apoiando a
candidatura de Dilma?
RESPOSTA – Não há condições para isso. O PMDB vai se
dividir. A parte majoritária ficará com o governo, já que está
mamando e não é possível agora uma traição total. E uma
parte minoritária, mas significativa, irá para a candidatura
de Serra. O partido se tornará livre para ser governo ao lado
do candidato vencedor.

PERGUNTA – O senhor sempre foi elogiado por Lula. Foi
o primeiro político a visitá-lo quando deixou a prisão,
chegou a ser cotado para vice em sua chapa. O que o
levou a se tornar um dos maiores opositores a seu
governo no Congresso?
RESPOSTA – Quando Lula foi eleito em 2002, eu vim a
Brasília para defender que o PMDB apoiasse o governo, mas
sem cargos nem benesses. Era essencial o apoio a Lula, pois
ele havia se comprometido com a sociedade a promover
reformas e governar com ética. Com o desenrolar do primeiro
mandato, diante dos sucessivos escândalos, percebi que
Lula não tinha nenhum compromisso com reformas ou com
ética. Também não fez reforma tributária, não completou a
reforma da Previdência nem a reforma trabalhista. Então eu
acho que já foram seis anos perdidos. O mundo passou por

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A ENTREVISTA À VEJA


uma fase áurea, de bonança, de desenvolvimento, e Lula não
conseguiu tirar proveito disso.

PERGUNTA – A favor do governo Lula há o fato de o país
ter voltado a crescer e os indicadores sociais terem
melhorado.
RESPOSTA – O grande mérito de Lula foi não ter mexido na
economia. Mas foi só. O país não tem infraestrutura, as
estradas são ruins, os aeroportos acanhados, os portos estão
estrangulados, o setor elétrico vem se arrastando. A política
externa do governo é outra piada de mau gosto. Um governo
que deixou a ética de lado, que não fez as reformas nem fez
nada pela infraestrutura agora tem como bandeira o PAC,
que é um amontoado de projetos velhos reunidos em um
pacote eleitoreiro. É um governo medíocre. E o mais grave é
que essa mediocridade contamina vários setores do país.
Não é à toa que o Senado e a Câmara estão piores. Lula não
é o único responsável, mas é óbvio que a mediocridade do
governo dele leva a isso.

PERGUNTA – Mas esse presidente que o senhor aponta
como medíocre é recordista de popularidade. Em seu
estado, Pernambuco, o presidente beira os 100% de
aprovação.
RESPOSTA – O marketing e o assistencialismo de Lula
conseguem mexer com o país inteiro. Imagine isso no
Nordeste, que é a região mais pobre. Imagine em
Pernambuco, que é a terra dele. Ele fez essa opção clara pelo
assistencialismo para milhões de famílias, o que é uma
chave para a popularidade em um país pobre. O Bolsa
Família é o maior programa oficial de compra de votos do
mundo.




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A ENTREVISTA À VEJA


PERGUNTA – O senhor não acha que o Bolsa Família
tem virtudes?
RESPOSTA – Há um benefício imediato e uma consequência
futura nefasta, pois o programa não tem compromisso com a
educação, com a qualificação, com a formação de quadros
para o trabalho. Em algumas regiões de Pernambuco, como
a Zona da Mata e o agreste, já há uma grande carência de
mão-de-obra. Famílias com dois ou três beneficiados pelo
programa deixam o trabalho de lado, preferem viver de
assistencialismo. Há um restaurante que eu frequento há
mais de trinta anos no bairro de Brasília Teimosa, no Recife.
Na semana passada cheguei lá e não encontrei o garçom que
sempre me atendeu. Perguntei ao gerente e descobri que ele
conseguiu uma bolsa para ele e outra para o filho e desistiu
de trabalhar. Esse é um retrato do Bolsa Família. A situação
imediata do nordestino melhorou, mas a miséria social
permanece.

PERGUNTA – A oposição está acuada pela popularidade
de Lula?
RESPOSTA – Eu fui oposição ao governo militar como
deputado e me lembro de que o general Médici também era
endeusado no Nordeste. Se Lula criou o Bolsa Família,
naquela época havia o Funrural, que tinha o mesmo efeito.
Mas ninguém desistiu de combater a ditadura por isso. A
popularidade de Lula não deveria ser motivo para a extinção
da oposição. Temos aqui trinta senadores contrários ao
governo. Sempre defendi que cada um de nós fiscalizasse
um setor importante do governo. Olhasse com lupa o Banco
do Brasil, o PAC, a Petrobras, as licitações, o Bolsa Família,
as pajelanças e bondades do governo. Mas ninguém faz
nada. Na única vez em que nos organizamos, derrotamos a
CPMF. Não é uma batalha perdida, mas a oposição precisa
ser mais efetiva. Há um diagnóstico claro de que o governo é

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A ENTREVISTA À VEJA


medíocre e está comprometendo nosso futuro. A oposição
tem de mostrar isso à população.

PERGUNTA – Para o senhor, o governo é medíocre e a
oposição é medíocre. Então há uma mediocrização
geral de toda a classe política?
RESPOSTA – Isso mesmo. A classe política hoje é totalmente
medíocre. E não é só em Brasília. Prefeitos, vereadores,
deputados estaduais também fazem o mais fácil, apelam
para o clientelismo. Na política brasileira de hoje, em vez de
se construir uma estrada, apela-se para o atalho. É mais
fácil.

PERGUNTA – Por que há essa banalização dos
escândalos?
RESPOSTA – O escândalo chocava até cinco ou seis anos
atrás. A corrupção sempre existiu, ninguém pode dizer que
foi inventada por Lula ou pelo PT. Mas é fato que o
comportamento do governo Lula contribui para essa
banalização. Ele só afasta as pessoas depois de condenadas,
todo mundo é inocente até prova em contrário. Está aí o
Obama dando o exemplo do que deve ser feito. Aqui,
esperava-se que um operário ajudasse a mudar a política,
com seu partido que era o guardião da ética. O PT
denunciava todos os desvios, prometia ser diferente ao
chegar ao poder. Quando deixou cair a máscara, abriu a
porta para a corrupção. O pensamento típico do servidor
desonesto é: "Se o PT, que é o PT, mete a mão, por que eu
não vou roubar?". Sofri isso na pele quando governava
Pernambuco.

PERGUNTA – É possível mudar essa situação?
RESPOSTA – É possível, mas será um processo longo, não é
para esta geração. Não é só mudar nomes, é mudar práticas.

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A ENTREVISTA À VEJA


A corrupção é um câncer que se impregnou no corpo da
política e precisa ser extirpado. Não dá para extirpar tudo de
uma vez, mas é preciso começar a encarar o problema.

PERGUNTA – Como o senhor avalia a candidatura da
ministra Dilma Rousseff?
RESPOSTA – A eleição municipal mostrou que a
transferência de votos não é automática. Mesmo assim, é
um erro a oposição subestimar a força de Lula e a
capacidade de Dilma como candidata. Ela é prepotente e
autoritária, mas está se moldando. Eu não subestimo o
poder de um marqueteiro, da máquina do governo, da
política assistencialista, da linguagem de palanque. Tudo
isso estará a favor de Dilma.

PERGUNTA – O senhor parece estar completamente
desiludido com a política.
RESPOSTA – Não tenho mais nenhuma vontade de disputar
cargos. Acredito muito em Serra e me empenharei em sua
candidatura à Presidência. Se ele ganhar, vou me dedicar a
reformas essenciais, principalmente a política, que é a mãe
de todas as reformas. Mas não tenho mais projeto político
pessoal. Já fui prefeito duas vezes, já fui governador duas
vezes, não quero mais. Sei que vou ser muito pressionado a
disputar o governo em 2010, mas não vou ceder. Seria uma
incoerência voltar ao governo e me submeter a tudo isso que
critico.




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A ENTREVISTA À VEJA




                      O DISCURSO




                               19
A ENTREVISTA À VEJA




O DISCURSO
Senado Federal, 3 de Março de 2009



      Senhor Presidente, Senhoras Senadoras e Senhores
Senadores, antes de iniciar meu pronunciamento, quero dar
conhecimento a Vossa Excelência do teor da comunicação
que ora apresento e encaminho à Mesa:

Comunicação.
       Comunico a Vossa Excelência que declino das
indicações feitas por parte da Liderança do PMDB para
compor a Comissão de Relações Exteriores, Comissão de
Educação e Comissão de Direitos Humanos e Legislação
Participativa, como membro titular, e para a Comissão de
Desenvolvimento Regional e Turismo, CDR, como membro
suplente.
       Ao chegar a esta Casa, iniciando o exercício de meu
mandato procurei a Liderança do PMDB com uma única
solicitação: Indicar-me para compor a Comissão de
Constituição e Justiça como representante do Partido – O
Líder Raupp pode testemunhar o que afirmo.
       Com todo o respeito aos demais colegiados desta Casa,
a CCJ é, sem dúvida, o foro mais importante do Senado
Federal, onde procurei representar com dignidade o povo de
Pernambuco e o meu Partido. Foi um trabalho profícuo e
gratificante onde pude apresentar várias proposições que
tratam da reforma política, da interceptação telefônica e que
alteram a Lei de Execução Penal. Fui designado a relatar
mais de 50 proposições, entre as quais a reforma política, o
Marco Regulatório do Gás e a Lei de Licitações.



                                                           20
A ENTREVISTA À VEJA


      Destaco ainda a relatoria do Projeto de Resolução nº
40/2007, que previa o afastamento preventivo dos membros
da Mesa em caso de oferecimento de representação que
sujeitasse o Senador à perda de mandato. Proferi parecer
favorável à matéria, que foi aprovada pela Comissão e por
este Plenário.
      Ao defender este instituto que não permitia o uso do
cargo para inviabilizar as investigações, angariei a
insatisfação – para dizer o mínimo – do então Presidente da
Casa, Senador Renan Calheiros.
      Para minha surpresa, após essa relatoria, fui, em
companhia do Senador Pedro Simon, sumariamente
afastado daquele colegiado pelo Líder Raupp, que, após
pressão de vários companheiros do Partido, da Oposição e
da população em geral, que congestionou a caixa postal dos
Senadores, resolveu reconduzir-nos a mim e a Pedro.
      Não foi, portanto, com surpresa que no dia de hoje fui
informado que o atual Líder afastou-me, mais uma vez, da
Comissão de Constituição e Justiça sem sequer me
comunicar oficialmente.
      Tendo em vista essa atitude de retaliação mesquinha,
comunico à Mesa que não aceito qualquer outra indicação
dessa Liderança do PMDB para colegiados nesta Casa. Nem
mesmo na ditadura tive meus direitos políticos cerceados,
apesar de combatê-la diuturnamente. Agora, em pleno
regime democrático, que tive a honra de ajudar a construir,
sou impedido de exercer o meu mandato em sua plenitude,
frustrando os milhares de pernambucanos que me
confiaram a sua representação.
      Esse é o primeiro preâmbulo, Senhor Presidente.
      O segundo preâmbulo, antes do meu discurso, é que
eu fui procurado pela revista Veja para uma entrevista às
páginas amarelas da edição do dia 10 de fevereiro. Fui
instado a falar sobre três assuntos: sobre PMDB, sobre o

                                                          21
A ENTREVISTA À VEJA


Senado e sobre o Governo Lula. Respondi a tudo que me foi
perguntado: PMDB, Senado e Governo Lula. Voltei ao
Senado no dia 16, uma segunda-feira, quando a imprensa
procurou-me em meu Gabinete, não convoquei a imprensa,
fui procurado no meu Gabinete, onde afirmei que não tirava
uma vírgula do que a Veja havia publicado.
       Hoje volto à tribuna, com uma grande expectativa e
perspectiva, e quero acrescentar que não tenho uma vírgula
a acrescentar ao que já foi colocado na entrevista da revista
Veja. Não sou mesquinho, não sou pequeno. O que eu tinha
de dizer sobre o Presidente da Casa já disse; o que eu tinha
de dizer sobre o Líder do meu Partido já disse. Serei
mesquinho e pequeno se acrescentar mais detalhes e mais
adjetivos.
       Permita Vossa Excelência que passe a ler o meu
discurso.
       Volto a esta tribuna duas semanas depois da
entrevista que concedi à Veja, na qual analisei o quadro
político do Brasil. Nesse período, vi, li e ouvi as mais
diversas análises sobre as minhas palavras. Levantaram
teorias conspiratórias, tentaram me descredenciar.
       Neste exato momento em que falo para os senhores e
senhoras, sei que estão vasculhando a minha vida,
investigando as minhas prestações de contas à Justiça
Eleitoral e à Receita Federal. Não tenho o que esconder, pois
disputei em Pernambuco algumas das eleições mais
acirradas da história do Estado.
       Não temo esses investigadores, apesar de considerá-
los credenciados para tal função, pois de crimes eles
entendem. Essas iniciativas, que têm por objetivo me
intimidar, não me surpreendem nem me assustam. Tenho
40 anos de vida pública. Fui Deputado Estadual, Deputado
Federal, Prefeito do Recife e Governador de Pernambuco,
sempre com votações expressivas e com reconhecimento da

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A ENTREVISTA À VEJA


maioria do povo de meu Estado. A esses arapongas digo
apenas que enfrentei coisas piores quando, na década de
1970, denunciei torturas e violências praticadas pela
ditadura militar.
       Vocês não me amedrontam!
       Estou nesta Casa há dois anos e um mês, e nada do
que afirmei ao repórter Otávio Cabral, da revista Veja, difere
muito do que eu disse a alguns dos senhores e das
senhoras. Nesta mesma tribuna, já critiquei a degradação
pública à qual está submetido o sistema político brasileiro,
alertando para a desqualificação moral dos partidos
políticos.
       A verdade é sempre inconveniente para quem vive da
mentira, da farsa e é beneficiário dessa realidade perversa.
Eu constatei, Senhor Presidente, é preciso que se diga isso
com clareza desta tribuna, eu constatei o óbvio. Apenas isso.
Essa realidade exige ações corretivas – correção de rumos e
de práticas.
       Eu não vim aqui para citar nomes, reiterar acusações
pessoais. Para isso existem a Polícia Federal, o Ministério
Público, os tribunais, o Tribunal de Contas da União, que
devem exercer – e vêm exercendo, alguns deles – com
eficiência essa prática.
       Nunca tive, não tenho e nem desejo ter vocação para
ser paladino da ética. E mais: desconfio daqueles que
querem sempre pairar acima dos demais. A verdade é que
fui eleito Senador da República para exercer uma função
política e não policial ou investigatória.
       Mas quero aqui me colocar à disposição de todos
aqueles que, dentro e fora do Congresso Nacional, defendem
pensamento semelhante: aqueles que querem partir para a
ação e dar um basta aos desvios no exercício da função
pública. Alguns Parlamentares já me procuraram com esse



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A ENTREVISTA À VEJA


objetivo, alguns deles inclusive presentes neste plenário. A
eles assegurei o meu apoio e o meu engajamento.
       O meu objetivo, Senhor Presidente senador Augusto
Botelho – e para mim é uma honra tê-lo como Presidente
nesta hora, o meu objetivo primordial foi atingido com a
entrevista, ao fazer com que uma parte expressiva da
sociedade brasileira prestasse mais atenção ao que ocorre
em nosso País. Um quadro aterrador que até agora vinha
sendo encoberto pelos bons resultados da economia.
       A sociedade descobriu que vale a pena se indignar,
mostrar que nem tudo está perdido, que compactuar com a
corrupção não é pré-requisito para a carreira política. É
extremamente necessário que algo seja feito, antes que essa
degradação comprometa a nossa democracia, levando as
novas gerações a um quadro de desalento para com o
exercício da política.
       Mais importante ainda é que essa mobilização não
fique restrita à Câmara e ao Senado Federal, mas que reflita
prioritariamente o desejo de toda a sociedade brasileira,
desejo de quem hoje se expressa apenas por meio de cartas,
de e-mails e de telefonemas. O exercício da política não
comporta, Senhor Presidente, espectadores. Quem não faz
política verá outros fazê-la em seu lugar, para o bem ou para
o mal.
       Senhor Presidente, cobraram-me nomes, uma lista de
políticos que não honram o mandato popular conquistado. A
meu ver, essa cobrança em si já é uma distorção do papel de
um Parlamentar, que deve ser o de lutar pela ética e por
políticas públicas que façam o País avançar.
       Instituições como os tribunais de contas, o Ministério
Público, a Polícia Federal e a própria imprensa têm dado
uma contribuição inquestionável e valiosa nessa área.
       Não sou afeito aos holofotes e à palavra fácil. Os
jornalistas que cobrem os trabalhos do Senado Federal

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A ENTREVISTA À VEJA


sabem do que estou falando. Mas uma coisa eu posso
assegurar a Vossa Excelência: sempre tive posições claras,
mesmo nos momentos mais obscuros da história do Brasil.
Tenho ojeriza à passividade e à omissão.
       Os recentes acontecimentos na Fundação Real
Grandeza, o fundo de pensão dos funcionários de Furnas e
da Eletronuclear, são uma prova clara, transparente e
inequívoca do que explicitei na minha entrevista. Repito: não
preciso citar nomes, pois eles vêm à tona, infelizmente,
quase que diariamente.
       A população, Senhor Presidente, que paga seus
impostos não compreende o porquê da disputa ferrenha
entre grupos partidários, sempre envolvendo empresas de
orçamentos bilionários.
       Quando ocorrem casos como o de Furnas, não dá para
esquecer o que aconteceu e o que foi dito. É papel do Chefe
do Executivo – no caso, o Presidente da República – instalar
uma auditoria independente que coloque tudo em pratos
limpos. Essa deveria ser a atitude a ser tomada, e não a de
deixar a poeira baixar, esperando que a história seja
esquecida, abafada por um novo escândalo
       Celina   Vargas    do    Amaral    Peixoto,   socióloga
reconhecida internacionalmente, neta do Presidente Getúlio
Vargas, em carta publicada pela revista Veja, edição nº
2.101, manifesta-se tão horrorizada quanto eu com a
degradação do quadro político nacional:
      “Os políticos lutavam por projetos. Brigavam dentro e
fora dos partidos, por idéias e pelo poder legitimamente
constituído ou não. Entendia-se que o homem público tinha
uma missão a cumprir.”
      Ou resgatamos, Senhor Presidente, essa lógica para o
exercício da política ou vamos continuar estampando capas
de revistas e jornais da pior forma possível. Não pensem que



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A ENTREVISTA À VEJA


me agradou dizer o que eu disse, mas estou absolutamente
convicto de que tinha que fazê-lo.
       Aproveito esta oportunidade para agradecer as
milhares de correspondências que recebi do País inteiro em
apoio a minha entrevista. Foram e-mails, cartas, telegramas,
telefonemas. Expresso minha gratidão também pelas cartas
enviadas aos jornais e à Veja, as quais tive oportunidade e
ler nos últimos 15 dias.
       Senhor Presidente, o exercício da política não pode ser
transformado em um balcão de negócios. O que se vê hoje
no nosso País é um sentimento de descrença, com a
impunidade corroendo as bases da democracia.
       O poder pelo poder leva ao quadro político degenerado
que hoje vivemos no nosso País, no qual a esperteza é mais
valorizada do que a inteligência e a correção ética.
       A conclusão de tudo isso é óbvia, Senhor Presidente,
Senhoras e Senhores Senadores. O caminho para resolver as
pendências da nossa democracia está em pauta há anos.
Refiro-me à Reforma Política – não a esse arremedo de
reforma que chegou recentemente ao Congresso Nacional,
que, segundo afirmam, será “fatiada”. Também não me refiro
à fidelidade partidária com “prazo de validade”, aprovada
pela Câmara dos Deputados.
       Uma reforma política séria deve, em minha opinião,
incluir e aprovar pelo menos quatro pontos:
1 - financiamento público de campanha;
2 - fidelidade partidária;
3 - fim das coligações nas eleições proporcionais e
4 - Implantação da cláusula de desempenho.
       O financiamento público de campanha é indispensável
para evitar a interferência cada vez maior do poder
econômico, que corrompe o processo eleitoral.
       A proposta de reforma política debatida há algum
tempo pela Câmara dos Deputados previa o financiamento

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A ENTREVISTA À VEJA


público com um custo para a campanha eleitoral de R$7,00
por eleitor. Hoje, isso representaria um custo de
aproximadamente R$914 milhões para uma eleição
nacional, tomando como referência um eleitorado de 130
milhões de pessoas.
       De acordo com números do Tribunal Superior
Eleitoral, a campanha do ano passado custou cerca de
R$2,43 bilhões. A imprensa, por sua vez, calcula que a
despesa real representou cerca de cinco vezes esse valor,
chegando à cifra de R$12,15 bilhões – mais de doze vezes o
valor estabelecido no projeto da reforma política.
       Não sou ingênuo de acreditar que o financiamento
público sozinho vá resolver o problema da corrupção e do
desvio de recursos públicos para campanhas eleitorais.
Isoladamente, nenhuma dessas propostas que eu citei dará
resultados amplos.
       Por essa razão, questiono a chamada “reforma
fatiada”.
       A fidelidade partidária, Senhor Presidente, por sua
vez, é um instrumento para impedir o degradante festival de
adesões fisiológicas. Não condeno quem esteja insatisfeito
em um lugar e queira ir para outro. Mas, no caso dos
partidos políticos, isso deve ser a exceção e não a regra,
como tem prevalecido há alguns anos.
       De todas as medidas de uma reforma política séria e
objetiva, talvez a única que obteria um resultado
extraordinário isoladamente é a proibição das coligações nas
eleições    proporcionais.   Essas    coligações   são  uma
deformidade e uma imoralidade existentes apenas no Brasil,
onde se vota em José e se elege João.
       Senhor Presidente, se o Congresso Nacional fala de
reforma da Previdência, todos se interessam. Recebemos
milhares de e-mails, milhares de ligações telefônicas. O
mesmo se aplica às reformas trabalhista e tributária. Mas a

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A ENTREVISTA À VEJA


reforma política é vista pela opinião pública como algo de
interesse exclusivo dos políticos.
       O cidadão talvez não compreenda que a reforma
política é a “mãe” de todas as reformas, justamente por
assegurar o aprimoramento das instituições responsáveis
pelo encaminhamento de todas elas.
       Outro espaço para a degradação do exercício da
política reside no Orçamento Geral da União. Sua
elaboração, aprovação e execução precisam passar por uma
profunda e séria reformulação, que estabeleça obrigações
severas para o Poder Executivo.
       O Parlamento não pode continuar sendo um mero
atravessador de verbas públicas, com emendas liberadas às
vésperas das votações que interessam ao Governo.
       As distorções começam na elaboração do Orçamento,
permanecem na sua aprovação e atingem o auge na hora da
liberação dos recursos e quando o dinheiro, que deveria ir
para obras prioritárias nos municípios, escorre pelos esgotos
da corrupção e dos desvios, muitas vezes com a participação
dos ordenadores de despesas do Poder Executivo, indicados
pelos partidos políticos.
       Senhoras Senadoras e Senhores Senadores, eu
gostaria de aproveitar esta oportunidade para informar que
apresentei um projeto de lei que proíbe que as diretorias
financeiras de empresas estatais possam ser ocupadas por
indicações partidárias. Minha proposta reservará esta
posição com exclusividade para funcionários de carreira
dessas empresas e autarquias.
       Além disso, esses diretores terão que ter seus nomes
aprovados pelo Senado Federal, seguindo o exemplo do que
já ocorre hoje com os dirigentes das agências reguladoras.
       A classe política – se tivesse bom senso – deveria ficar
a quilômetros de distância de qualquer diretoria financeira.



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A ENTREVISTA À VEJA


      Senhoras Senadoras e Senhores Senadores, deixei
para a parte final deste meu pronunciamento a questão da
impunidade, que considero a consequência mais nefasta do
quadro de degradação da política e dos nossos
compromissos políticos, sociais e éticos.
      Não sei se Vossa Excelência vai permitir apartes... Eu
desde já, começaria pelo Senador Tasso Jereissati.
      O Senhor Tasso Jereissati (PSDB – CE) – Senador
Jarbas Vasconcelos eu gostaria de dizer a V.Exª, com toda a
humildade, que Vossa Excelência fez o discurso que eu
gostaria de ter feito. Acrescento alguns pontos ao que Vossa
Excelência colocou com tanta propriedade e que fez chamar
a atenção do País todo para o verdadeiro festival de
corrupção que o está acometendo, de maneira que se tornou
uma coisa banal e praticamente cotidiana na vida pública
brasileira. Infelizmente, isso veio acontecer sob o beneplácito
de todos os Poderes, praticamente, uma vez que, desde o
período do mensalão, quando em nenhum momento se
desmentiu o que aconteceu, mas apenas se justificou
dizendo: “Fizemos; mas quem não fez?” Ou seja, dando um
sinal de que todo mundo fazendo, tudo era permitido. Então,
chegamos à banalização dessa corrupção que vimos,
inclusive – Vossa Excelência deu um exemplo muito feliz, e
eu vou a outro – o Ministro da Saúde, Senador Jarbas
Vasconcelos, dizer em um discurso que a Funasa, órgão
subordinado a ele, estava corrupta e cheia de corrupção. E
isso não foi desmentido. A diretoria da Funasa lá continuou,
o Presidente da República não fez nada...
      O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Ao contrário, pediram a cabeça do Ministro.
      O Senhor Tasso Jereissati (PSDB – CE) – Pediram a
cabeça do Ministro e as coisas continuam na mesma. Ou o
Ministro era um mentiroso e deveria ser afastado
imediatamente, mentiroso e calunioso, ou estava dizendo a

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A ENTREVISTA À VEJA


verdade. Em qualquer país civilizado, isso não teria
acontecido. Logo após, vemos aqui essa questão da Real
Grandeza, em que o próprio Ministro fala de um órgão
indiretamente subordinado a ele, dizendo que existe ali um
antro de bandidagem. E as coisas ficam como estão:
ninguém investiga, ninguém se espanta e ninguém se
escandaliza. Quando Vossa Excelência deu à revista Veja
aquela entrevista publicada nas páginas amarelas, com a
credibilidade que Vossa Excelência tem, acredito que tenha
sido um verdadeiro grito de basta. Estamos falando neste
País agora de valores. Nós não estamos falando de política
econômica, nós não estamos falando de Bolsa-Família nem
de política social, nós estamos falando de valores. Um país,
uma nação só sobreexiste se tiver seus valores básicos
respeitados, admirados pela sua população e principalmente
pelos seus dirigentes. O reparo que faria aqui – não seria
propriamente um reparo – seria um adendo ao discurso de
Vossa Excelência: de que precisamos, acima de tudo, de
uma reforma moral neste País. Nós nos acostumamos à
imoralidade, nós nos acostumamos à total falta de ética no
dia-a-dia, na vida de todos nós, fazendo com que isso seja
absolutamente banal e desimportante, e este País está se
desintegrando moralmente, aos poucos, deixando as futuras
gerações sem perspectivas. Nada se constrói sem a sólida
base de valores morais a construir uma nação, a construir
um povo. E isso está sendo destruído neste País. Ele vai
muito mal. Dentro do que Vossa Excelência colocou
também, eu daria mais ênfase a que duas reformas são
“reformas-mães”: a reforma política e a reforma do
Orçamento. O Orçamento, hoje, é o grande fator, um dos
grandes ou o principal fator de corrupção do Executivo, do
Legislativo e dos Executivos estaduais e municipais.
Formou-se uma verdadeira cadeia de corrupção em que o
Parlamentar, como Vossa Excelência disse, “se tornou um

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A ENTREVISTA À VEJA


atravessador de verbas públicas”. Não. Pior: tornou-se um
corretor de verbas públicas, um corretor com direito, na
maioria das vezes, em boa parte das vezes, à sua comissão
de corretagem. Isso é absolutamente inadmissível em um
país que se pretende um país civilizado e que pretende
atingir níveis de desenvolvimento aceitáveis no mundo de
hoje. Portanto, eu queria dizer a Vossa Excelência que sou
totalmente solidário ao que Vossa Excelência disse e, acima
de tudo, parabenizá-lo por ter tido a coragem e a iniciativa
de, agora, neste momento, fazer, com tanta precisão, o
diagnóstico deste País.
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Senador Tasso, não é a primeira vez que ouço Vossa
Excelência colocar, com tanta clareza, com tanta
objetividade essa questão da ética, da moral e da
necessidade de postura correta das instituições. Subscrevo
todo o aparte de Vossa Excelência. Ele é enriquecedor e
reitera, mais uma vez, a sua preocupação, que não é de hoje,
com relação à boa prática política dentro e fora do Congresso
Nacional.
       Ouço, com prazer, o Senador Sérgio Guerra.
       O Senhor Sérgio Guerra (PSDB – PE) – Senador
Jarbas Vasconcelos, Vossa Excelência se referiu à reforma
política na sua frase como “a mãe de todas as reformas”. Eu
queria começar por aí, com muito cuidado, porque é preciso
não perder a precisão para não resvalar para acusação sem
prova ou para comentário que não produz resultados. No
início desse período do Presidente Lula, era indispensável
uma ampla reforma política. Essa chamada reforma não se
deu. O que se deu foi o mensalão. E o mensalão se
desenvolveu nesses últimos seis anos. Quais são as formas
do mensalão que foram se sofisticando com o tempo? O
coração desse processo de desestruturação do poder – e não
falo apenas do poder do Congresso; falo do poder no sentido

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A ENTREVISTA À VEJA


mais amplo –, o coração principal, no que se refere às
relações do Legislativo com o Executivo, é o chamado
Orçamento. O Orçamento virou muito mais do que uma
simples intermediação de candidatos, de Parlamentares;
virou um sistema de dominação do Congresso. Os jornais
não acompanham nem conseguem acompanhar esse
assunto. Eles ficam prisioneiros da observação sobre a
liberação de emendas individuais. Por quê? Porque as
emendas individuais têm cara, dono, autor. As dotações dos
Ministros não têm; as verbas gerais dos Ministérios não têm;
muitas das emendas de bancada também não, daquelas
poucas que são efetivadas. O fato real é que esse sistema
produziu desequilíbrios enormes do ponto de vista ético e da
corrupção. Uma parcela muito grande dos Parlamentares
passou a ter privilégios exorbitantes. Já ouvi falar de
Parlamentares que liberam 100 milhões por ano, e não foi
ninguém da Oposição que me disse isso, nenhum
companheiro do PSDB ou de qualquer partido da Oposição.
Líderes que liberam 100, 50, 80, 120 milhões enquanto que
os outros Parlamentares liberam 10, 8, 7, 6 milhões.
Ninguém sabe, nem há como, proceder a fiscalização disso,
porque essa é a decisão que tomam os Ministros lá em cima,
as autoridades dos Ministros com ele. E esse sistema é
usado para manter uma maioria parlamentar de maneira
absolutamente clara, transparente, sem vergonha! Isso se
banalizou. Muitas pessoas assumem isso até como se isso
não fosse errado, assumem isso como fato normal. O
pressuposto de um bom Orçamento é um bom
planejamento. Tem de haver planejamento para que se
possa orçamentar no ano e, na perspectiva plurianual, o que
se deseja fazer no tempo para o País. Como não há
planejamento nenhum, o PAC é apenas - alguém me disse
uma frase ontem, e não estou me lembrando agora – uma
sacola, um embrulho de projetos... Foi a frase do Senador

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A ENTREVISTA À VEJA


Tasso. Não há planejamento, não há noção de prioridade, de
estruturação econômica. Nada disso! Todo esse jogo está
contaminado. Essa contaminação é do Legislativo, é do
Executivo e é das empresas. Não tem ninguém ingênuo aí e
não tem ninguém que não tenha um pedaço da
responsabilidade desse amplo sistema de corrupção.
Privilégios para todo lado, desequilíbrios para todo lado; o
Orçamento transformado, rigorosamente, em tudo que não
deve ser, num País que não tem planejamento, num País
que não tem prioridade, num País que domina o Congresso
pelo dinheiro público, através das verbas do Orçamento. O
segundo padrão dessa grande rede de controle do Congresso
e desestruturação da política é a utilização do Executivo, da
Administração Direta e de empresas estatais para a
nomeação, por indicação de grupos de Parlamentares, de
gente que vai para essas indicações evidentemente para não
cumprir funções republicanas. O que tem um partido
qualquer a ver com o diretor financeiro de Furnas? Em que o
programa desse partido está representado na ação do diretor
financeiro de Furnas, ou na nomeação daquele diretor que
vai furar poço na Petrobras, ou na nomeação de dezenas e
dezenas de cargos de poder? Quando alguém ocupa um
cargo desses hoje, sabe o que é que se diz? “Conquistamos
um grande cargo. Ele tem um grande orçamento”. Para que
é o grande orçamento? É para o País? É para quê? É para
sanear o sistema político? É para limpar a vida pública?
Nada disso. É para contaminar ainda mais a vida pública,
para estabelecer uma rede de cumplicidade que vai da
empresa ao Poder Legislativo, e passa, de maneira central,
no Poder Executivo. Essa é uma operação do Poder
Executivo. O Congresso é cúmplice dessa operação, mas o
comando dessa operação está no Poder Executivo. Nós
pagamos a conta pública. O Presidente da República faz
seus discursos com cara de paisagem, como se não tivesse

                                                           33
A ENTREVISTA À VEJA


nada a ver com isso. Ninguém é punido, e não acontece
coisa alguma. A utilização do emprego público, das funções
públicas com a nomeação de pessoas sem mérito
generalizou-se, banalizou-se. Três Deputados indicam o
diretor financeiro de uma instituição qualquer, para quê? Às
vezes, eles nem conhecem o diretor que indicaram. Ele vai
ali para cumprir uma tabela, e essa tabela não é
republicana. Esse é um capítulo que se banalizou aí de
maneira total. Entrou por dentro das instituições mais
importantes do País, que ninguém antes teve coragem de
fazê-las    vulneráveis,   porque     eram    estruturantes,
fundamentais para o País, e que estão sendo degradadas
agora. Um partido tem um pedaço. Um pedaço para quê?
Qual é o tamanho que ele conquistou? Essa é a discussão.
Será que isso é democracia? Será que o interesse público
está prevalecendo, está submetido a uma regra, a algum tipo
de controle, a algum tipo de orientação? O Tribunal de
Contas, ao contrário do que nós desejamos, não pode ser
eficiente. O sistema de fiscalização não funciona. As
comissões de acompanhamento e fiscalização do Congresso
estão mortas. A Comissão de Orçamento já devia ter deixado
desaparecer há muito tempo. Não importa a forma ou o que
está lá nesta semana, neste mês, ou no ano que vem: ela é o
coração desse sistema, ela é o núcleo desse sistema,
absolutamente delegado pelo Governo, pelo Poder Federal.
Essa invasão assume outro campo: vai às agências
reguladoras, objeto de indicação de Parlamentares, de
utilização desse sistema por partidos ou grupos de
interesses. Vai aos fundos de pensão; fundos de pensão que
dão um belo exemplo de tudo que não poderia acontecer,
como agora, no Fundo Real Grandeza, que devia ser objeto
de uma intervenção imediata. Imediata porque há interesse
público ali, ele não está respeitado por uma diretoria
comprometidíssima, como é comprometida também a

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A ENTREVISTA À VEJA


diretoria da própria instituição, toda viciada. Quero saber o
que vai fazer, nesse ambiente, o brasileiro que quer melhorar
o País. Com certeza, vai ouvir o seu discurso, porque você
tem autoridade para fazê-lo. Hoje, eu ouvi um discurso
ridículo de um Deputado pernambucano. Tanto mais eu o
ouvi, mais eu me convenci de como a sua luta tem mérito, e
a dele, não.
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Obrigado.
       O Senhor Sérgio Guerra (PSDB – PE) – Então, esse
processo não pode continuar, tem que acabar. Essa
cumplicidade vai nos levar, rigorosamente, ao fundo do
poço. As práticas políticas estão se degenerando, e a
convicção e a consciência do povo sobre nós é cada dia pior.
E está certo o povo, e estamos errados nós. É claro que há
pessoas que não merecem críticas e pessoas que têm
qualidade.
       O SENHOR PRESIDENTE (Marconi Perillo. PSDB –
GO) – Senador Sérgio Guerra, dada a relevância do
pronunciamento       do    Senador     Jarbas    Vasconcelos,
especialmente pelo conteúdo dele, vou prorrogar, mais uma
vez, o tempo para a conclusão do pronunciamento.
       O Senhor Sérgio Guerra (PSDB – PE) – É claro que
nem todos estão envolvidos nisso. Tem gente séria nisso,
tem gente direita nisso, em todos os Partidos. É claro que há
político de qualidade em todo lugar, mas é evidente que esse
é o sistema que está prevalecendo, e que vozes como a sua
têm que se levantar. Ainda bem que se levantou a sua, no
momento oportuno, com a firmeza e a clareza de sempre. E é
importante que todos nós entendamos aqui que o nosso
objetivo é construir uma democracia melhor, não afetar
uma, duas ou três pessoas físicas ou políticas. Não é essa a
nossa tarefa. Eu não gosto de comissões parlamentares de
inquérito, de acusação a ninguém. Não é da minha natureza.

                                                           35
A ENTREVISTA À VEJA


Mas dizer que esse sistema serve, que pode continuar?! Não
pode. Vai-nos levar a um grave impasse institucional. Então,
Senador, quero lhe dizer que não faz mal que o senhor não
tenha uma Comissão de Justiça, porque terá todas as
comissões do Senado, pela sua presença, pelo seu valor, pelo
respeito que os brasileiros têm no senhor.
      O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PDMB – PE) –
Muito obrigado, Senador Sérgio Guerra.
      Só uma pessoa com a sua competência e seu
conhecimento pode dar um aparte sobre Orçamento, sobre
ocupação de cargos públicos, porque Vossa Excelência,
desde que aqui cheguei, tem tratado isso através de
entrevistas, de apartes e de discursos nesta tribuna.
      O meu desejo é ouvir todos, Senhor Presidente. Se
Vossa Excelência permitir, eu ouviria agora, pela ordem, o
Senador Tião Viana e, logo em seguida, o Senador
Demóstenes Torres.
      O SENHOR PRESIDENTE (Marconi Perillo. PSDB –
GO) – Haverá tempo, Senador Jarbas Vasconcelos, porque
eu prorroguei, por mais 30 minutos, o pronunciamento de
Vossa Excelência.
      O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Senador Tião Viana, com muita honra.
      O Senhor Tião Viana (Bloco/PT – AC) – Caro Senador
Jarbas Vasconcelos, serei muito objetivo no aparte que faço
a Vossa Excelência, também muito honrado estou em
aparteá-lo. Temos uma convivência presencial, vamos dizer,
de dois anos e pouco nesta Casa. Eu acompanhava Vossa
Excelência como membro da resistência democrática
brasileira do chamado MDB autêntico – eu, no movimento
estudantil, e Vossa Excelência, já na militância da vida
pública e partidária. E eu entendo que Vossa Excelência dá
um grito a favor de um sentimento de “acorda, vamos
despertar para a confiança que devemos ter em nós mesmos

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A ENTREVISTA À VEJA


e na nossa capacidade de fazer as coisas corretas neste
País”. Não acho que seja um ataque ao Governo, não acho
que seja um ataque ao seu partido, mas é uma indignação
com a crise partidária que nós estamos vivendo e com a
capilaridade de atitudes incorretas que estão se apropriando
dos espaços de poder no nosso País. Entendi muito mais
assim. Vossa Excelência não quantificou corrupção neste
País. Disse Vossa Excelência que o problema existe, e existe
em todas as esferas da vida institucional, e precisa ser
veementemente combatido. Eu acho que esse é um ato de
um grande brasileiro, de um grande homem público que
Vossa Excelência toma. Eu acho que o caminho correto da
política seria o reconhecimento das verdades expressas por
Vossa Excelência e a busca de soluções, e não o rebate falso,
como se fosse um ato virtuoso contestar Vossa Excelência.
Problemas no Governo: tem? Tem. No Judiciário: tem; na
instituição partido político, tem; na vida nacional,
infelizmente, rompe-se com o idealismo daqueles que
trouxeram a volta da democracia ao Brasil e que lutaram por
uma sociedade e por uma vida institucional efetivamente
corretas. Vivemos uma fase de crise. Olho para a política
brasileira hoje, sou de uma geração mais nova que a de
Vossa Excelência, e me pergunto, Senador Jarbas - já dividi
isso com Vossa Excelência: o que tem sido feito pela
política? Temos um Parlamento melhor ou pior que o
Parlamento de 10, 16 anos atrás? Está pior; ele está
enfraquecido em conteúdo, está enfraquecido em suas
diretrizes; está enfraquecido em suas responsabilidades. É
por isso que Vossa Excelência aponta a reforma política, a
crise orçamentária, a crise do financiamento da vida
institucional e as necessidades da população. Então, as
virtudes da sua fala são muito maiores que as nossas
pequenas divergências. Eu me reporto ao Presidente da
República como um homem honrado, correto e que defende

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A ENTREVISTA À VEJA


o Brasil, mas os problemas estão aí, Vossa Excelência os
aponta com muita grandeza, e é preciso que tenhamos
coragem de enfrentá-los. A dívida que fica deste momento da
vida nacional é um Parlamento mais enfraquecido, a
qualidade da política pior, e a contaminação da corrupção
afetando mesmo a vida institucional do País. A resposta
seria atitude; atitude individual e atitude coletiva. Vou
compartimentar um pouco o debate que Vossa Excelência
faz. A reforma política: nós não podíamos responsabilizar o
Governo por ela; é responsabilidade individual e coletiva do
Congresso Nacional. Os dirigentes do Congresso têm de fazer
a reforma política com os Líderes partidários. Não podem
transferir a responsabilidade, mas não sei se, ano que vem,
vamos dizer que ela já foi feita. Talvez Vossa Excelência
esteja a lamentar. Talvez muitos de nós estejamos a
lamentar. O Governo influencia, mas não pode tirar minha
responsabilidade de votar, não pode tirar a da instituição
partido político. Vossa Excelência presta um grande serviço,
como um grande brasileiro que é, e fala para as gerações
todas. Se tivermos responsabilidade, sinceridade e coragem,
acolheremos o pronunciamento de Vossa Excelência como
uma grande contribuição à democracia que temos de edificar
neste País.
      O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Obrigado, Senador Tião Viana. O aparte de Vossa Excelência
enriquece nosso pronunciamento e nos honra por sua
atitude de coerência e dignidade neste plenário.
Senador Demóstenes Torres.
      O Senhor Demóstenes Torres (DEM – GO) – Senador
Jarbas     Vasconcelos,     Vossa    Excelência    faz   um
pronunciamento que agrada à Nação e ao Senado – acredito
eu. O que disse Vossa Excelência não tem absolutamente
nada de errado: há uma degradação da vida política no
Brasil. E o Senado faz parte dessa degradação. Mas a culpa

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A ENTREVISTA À VEJA


é nossa mesmo. Temos como mudar a Constituição. O
Presidente da República não tem. Quanto às medidas
provisórias, será que tudo isso que foi discutido aqui, de um
momento para outro, vai ser implementado? Teremos
condição de votar? Nós mesmos trancamos a pauta das
votações. É óbvio que precisamos de uma reforma política.
Estamos em afronta total à sociedade. Quem quer ficha suja
na política? Há mais de um ano, foi constituída uma
comissão, da qual eu tive a honra de fazer parte, o Senador
Pedro Simon, outros Senadores, Vossa Excelência também
fez parte. Aprovamos lá uma mudança na Lei de
Inelegibilidade, na Constituição Federal, para evitar o
trânsito em julgado, porque nós sabemos muito bem que
uma pessoa que é condenada em primeiro grau já teve
inquérito na Polícia, já foi denunciada por um promotor, já
enfrentou o devido processo legal com o seu advogado e foi
condenada por um juiz. Quer dizer, ela pode continuar em
liberdade, ela pode continuar usando os seus recursos, mas
não pode estar na vida pública. Essa é uma situação
absurdamente equivocada. No mundo inteiro, qual é a
discussão principal que tem o Parlamento? O Orçamento.
Uma vez cheguei a uma banquinha em Paris; estavam lá os
velhinhos todos discutindo o que ia haver de reajuste para
eles: 2,3%. “O Congresso está discutindo justamente isso”.
Aqui nós discutimos o que, em termos de Orçamento? O
Governo pode fazer o que bem entender! O nosso Orçamento
é só indicativo, é uma formalidade, nada além disso! O
Governo, se quiser, pode modificá-lo completamente durante
o ano da execução, com todos os mecanismos à sua
disposição. Então, somos um Parlamento assombrado pela
superioridade do Executivo e agora pela superioridade do
Poder Judiciário. Como nós não legislamos, o Judiciário vem
aí. Eu mesmo já fui à tribuna para reclamar que o Poder
Judiciário usurpou função nossa de mexer com algema, de

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A ENTREVISTA À VEJA


como é que isso deve ser feito. O Poder Judiciário já entrou
em diversas outras situações. Aliás, o Presidente do
Supremo virou uma referência política positiva, porque é um
homem que tem coragem de falar.
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Perfeito.
       O Senhor Demóstenes Torres (DEM – GO) – Tem
coragem de reclamar contra uma série de situações, e nós
estamos perdendo o nosso espaço. Hoje dei uma entrevista,
o repórter começou me perguntando o seguinte: “Os
senhores estão há um mês parados. O senhor acha que essa
paralisia do Senado fez falta ao País?” O que tenho a dizer é
o seguinte: claro que faz falta, nós somos uma democracia.
Fechar o Parlamento é muito pior do que qualquer outra
coisa. Mas temos que tomar as providências necessárias
para fazer com que esta Casa ande e, mais do que isso, fazer
com que as gerações futuras votem em políticos melhores do
que nós. Isso não é hipocrisia nem é crítica direta a quem
quer que seja, mas temos que tomar essa atitude. E Vossa
Excelência teve a coragem de abrir um debate positivo, um
debate que não considero oportunista; muito pelo contrário.
Vossa Excelência tem uma história consolidada de vida,
uma história consolidada no mundo político e pode abrir,
com certeza, esse debate. Temos aí inúmeros temas. Vossa
Excelência ou alguém aqui mencionou - não sei se Vossa
Excelência, o Senador Tasso Jereissati, ou os dois - o tema
fidelidade partidária. Abriram a janela de um mês. É uma
fidelidade partidária, permitam-me a expressão, prostituída.
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Completamente prostituída.
       O Senhor Demóstenes Torres (DEM – GO) – Como é
que vamos tomar uma providência dessas, ou seja, estamos
esculhambando ainda mais a vida pública. Então, gosto do
que Vossa Excelência estava falando, respeito a sua posição

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A ENTREVISTA À VEJA


e acho que nós temos como fazer. Se nós quisermos, não
tem Presidente da República que tranque a nossa pauta.
Quem tem capacidade de modificar a Constituição somos
nós. Não tem Poder Judiciário que vá julgar e criar uma
nova legislação por omissão do Congresso. Nós estamos nos
omitindo. E tem aí, acredito, umas três centenas de projetos
paralisados na Mesa há uns três anos. Não é por
incompetência da Mesa, não. É porque, com a nossa
legislação, a pauta fica trancada, não damos conta de votar.
E tudo isto que estamos falando aqui vai ser uma inverdade
se não tomarmos a coragem de enfrentar, no bom sentido, o
Executivo e começarmos a exercer nossas atribuições, que
são dignas e altaneiras. E para que o povo, quando
pararmos um mês, possa dizer amanhã: “Vocês fizeram
falta”.
        O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Vossa Excelência tem toda razão, Senador Demóstenes.
Primeiro porque é uma autoridade nesses assuntos, nessas
denúncias que tem reiterado aqui dentro da Casa. Suas
palavras se juntam à palavra do Senador Tião Viana de que
a reforma política depende de nós. O Governo pode, quando
muito, atrapalhar. Se o Governo não quer a reforma política,
ele atrapalha. Mas a iniciativa tem que ser do Congresso,
tem que ser da Câmara, do Senado. É estranho chegar ao
Congresso uma mensagem com reforma política, usurpando
as funções do Senado Federal e da Câmara dos Deputados.
        Ouço, pela ordem, só para poder ouvir todos, o
Senador Marco Maciel, o Senador Cristovam Buarque e o
Senador Pedro Simon, que foram os que pediram primeiro a
palavra.
        Senador Marco Maciel.
        O Senhor Marco Maciel (DEM – PE. Com revisão do
orador.) – Senador Jarbas Vasconcelos, desejo, de plano,
cumprimentar Vossa Excelência pelo discurso que profere e

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A ENTREVISTA À VEJA


é um desdobramento de manifestação que Vossa Excelência
fez à revista Veja. Vossa Excelência, de forma lúcida, situa a
necessidade de repensarmos o País, ou seja, como
revigorarmos as instituições republicanas, extremamente
erodidas. O Senador Tasso Jereissati falou aqui de valores.
Os valores republicanos estão extremamente erodidos
comprometendo nossas instituições. Como não poderia
deixar de acontecer, traz isso desdobramento no Congresso
Nacional. A sociedade deseja, de forma consequente,
melhorar a qualidade da política que se pratica no nosso
País. Isso é possível, mas passa, obviamente, como foi
mencionado à saciedade, pela execução das chamadas
reformas políticas, que às vezes prefiro chamar de reformas
institucionais, porque ultrapassam o universo dos partidos
políticos, do processo eleitoral, para se alojarem em questões
extremamente importantes como as relativas à Federação,
cada vez mais diminuída, na medida em que há uma grande
concentração de poderes da União em detrimento de
Estados e Municípios. Enfim, de uma reforma que dê ao País
realmente o que tanto aspira, isto é, melhorar os seus níveis
de governabilidade. Esse é um debate útil ao País e ajuda
que se forme uma pedagogia cívica sobre o que deva ser
feito. Acredito que Vossa Excelência já traçou muito bem,o
itinerário dessas reformas de modo muito claro. Não há
razão para que não encetemos essa luta, e vou além: acho
que isso deve ser feito este ano, já que o próximo ano será de
eleições gerais e, como dispõe o art. 16 da Constituição, se
não estou equivocado, não se pode votar alteração do
processo político-eleitoral senão um ano antes das eleições.
Então, ou fazemos essas reformas agora ou teremos perdido
mais uma oportunidade e, certamente, adiado o
aprimoramento institucional do País para mais quatro anos.
Encerraria as minhas palavras dizendo que concordo com as
palavras de Vossa Excelência quando chama a atenção para

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A ENTREVISTA À VEJA


fazermos essas reformas e, assim, contribuirmos para dar ao
País uma sociedade desenvolvida e justa. É fundamental que
façamos essas reformas que têm desdobramentos também
em outras áreas, inclusive na tributária, na previdenciária e
outras. Enfim, fazendo isso, iniciaremos uma nova fase do
nosso País. Agora me ocorre uma frase de um líder
republicano que foi, se não estou equivocado, Ministro da
Fazenda de Campos Sales e, depois, se elegeu Senador da
República. Certo dia, no Senado, ele, num desabafo, disse:
“É necessário republicanizar a República”. Essa frase é de
Joaquim Murtinho, grande especialista em assuntos
financeiros, foi Ministro da Fazenda, parece que de dois
governos da chamada República Velha. Líder republicano,
decepcionado com o desenvolvimento das práticas
republicanas, disse esta frase, a meu ver, lapidar: “É
necessário republicanizar a República.” Acho que, mais uma
vez, Joaquim Murtinho precisa ser relembrado para servir –
quem sabe? –, de bússola a ajudar a iluminar nosso
caminho. Muito obrigado a Vossa Excelência pela
oportunidade que me deu de aparteá-lo e expender, também,
minhas opiniões.
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Eu que agradeço a Vossa Excelência, Senador Marco Maciel.
Vossa Excelência, que é uma autoridade, um expert nesse
assunto de reforma política a que Vossa Excelência chama,
adequadamente, de reformas institucionais. Sempre tem
ocupado essa tribuna cobrando e apresentando propostas e
iniciativas para que ela alcance seus objetivos.
       Quero ouvir o Senador Cristovam Buarque. Entre os
milhares de manifestações de apoio que recebi do Brasil
inteiro, a dele foi uma das primeiras a chegar.
       O Senhor Cristovam Buarque (PDT – DF) – Senador
Jarbas, eu creio que dos que estão aqui talvez eu seja o que



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A ENTREVISTA À VEJA


mais tem acompanhado o senhor nesses 40 anos – que o
senhor disse no começo – de sua vida pública.
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Vossa Excelência.
       O Senhor Cristovam Buarque (PDT – DF) – Eu sou
um deles. Desde o começo, lá em Pernambuco, quando a
gente lutava pela redemocratização...
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Nossa filiação ao MDB, na fundação do Partido, foi na
mesma página.
       O Senhor Cristovam Buarque (PDT – DF) – Na
mesma página, juntos na mesma luta.
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB - PE) – A
filiação era feita em livros.
       O Senhor Cristovam Buarque (PDT – DF) – Era feita
em livros.
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Nessa mesma página tem minha filiação, a de Vossa
Excelência, a do ex-Deputado estadual Marcos Cunha e a do
ex-Senador Roberto Freire.
       O Senhor Cristovam Buarque (PDT – DF) – E eu creio
que todos esses, os que estão vivos ainda, estão orgulhosos
de sua posição hoje e, ao mesmo tempo tristes e
preocupados, porque depois de 40 anos Vossa Excelência
está sendo vítima de um ato arbitrário e ditatorial. Refiro-me
à exclusão de Vossa Excelência de uma comissão tão
importante como a Comissão de Constituição e Justiça. E
ainda mais, que a Casa que existe para defender a
democracia hoje passa a impressão, pelo menos, de que está
sob uma administração que impõe uma ditadura. E eu digo
com toda a responsabilidade de quem afirma isso,
imaginando que quem diz o que Vossa Excelência disse e
quem diz o que eu digo têm que ser punidos se estiver
mentindo, dentro da linha do que disse o Senador Tasso

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A ENTREVISTA À VEJA


Jereissati em relação ao Ministro da Saúde. Ou Vossa
Excelência e eu e outros aqui devemos ser punidos por
estarmos, de uma maneira não compatível com a verdade,
falando mal da Casa ou outros têm que ser punidos porque
são a causa dessa situação degradante que a Casa vive – e
ela vive. O mais grave Senador Jarbas, é que o que Vossa
Excelência disse, Vossa Excelência mesmo disse, é o óbvio.
Isso é que é grave.
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
É.
       O Senhor Cristovam Buarque (PDT – DF) – O mais
grave, é que, como Vossa Excelência disse, não apenas
existe corrupção, mas ela faz parte da paisagem. Isso é que é
grave.
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – A
constatação do óbvio.
       O Senhor Cristovam Buarque (PDT – DF) – O mais
grave ainda é que o povo passa diante dessa paisagem, vê a
paisagem, sente nojo da paisagem, e nós fazemos de conta
que a paisagem não existe. E nós toleramos, aceitamos,
viramos as costas, silenciamos, como vão tentar silenciar o
seu discurso fazendo como se não tivesse acontecido; como
vão tentar silenciar a sua entrevista como se ela não tivesse
acontecido; como silenciaram o Ministro da Saúde, fazendo
de conta que ele não tinha dito que a Funasa era um órgão
de corrupção. Eu creio que o mais grave é a aceitação, que
faz com que nos transformemos em uma Casa que tolera
tudo isso, e a casa que tolera tudo isso tem um nome: casa
de tolerância com tudo isso. É para essa desmoralização que
o Senhor tanto chamou a atenção. Hoje, fico triste em dizer
que – e aqueles que convivem aqui com os jovens devem
saber – não estamos representando exemplos para a
juventude brasileira. Quantos jovens, hoje, dizem: “Quero,
em minha vida, ser Senador”? E eu falo,sobretudo, daqueles

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A ENTREVISTA À VEJA


que não se lembram da idéia de tirar proveito do fato de ser
Senador. Não estamos sendo exemplos. A sua entrevista deu
demonstração de que era preciso mudar. Com isso, Vossa
Excelência se transformou em um exemplo. Vossa
Excelência está fazendo história, com aquela entrevista, com
esse discurso e até mesmo com a sua cassação, com a sua
exclusão da Comissão de Constituição e Justiça. Gostaria
que algum partido o indicasse para uma comissão, Senador,
em vez de Vossa Excelência se retirar de todas as
Comissões. Outros partidos podem fazer isso. Fui indicado
pelo PFL quando fui retirado de uma Comissão, em algum
momento. Nada a ver como meu Partido, mas fui. Vossa
Excelência pode ser indicado por outro partido. Teria, a meu
ver, de continuar lá dando sua contribuição como brasileiro,
acima dos partidos aos quais estamos filiados. Quero dizer
que a sua demonstração de que os partidos estão hoje em
situação degradada é verdade. Felizmente, embora os
partidos tenham ficado todos iguais pelo lado negativo,
ainda existe o lado de lá e o lado de cá, e eu estou do seu
lado. Nós somos do mesmo lado, embora em siglas
diferentes. Como alguém que é do seu lado, há quarenta
anos, em partidos diferentes, quero lhe dizer que se tentam
esquecer tudo o que Vossa Excelência disse, quero dizer que
eu assino embaixo da sua entrevista, assino embaixo do seu
discurso, mesmo discordando até, talvez, de alguns pontos
da entrevista, porque não há por que ter concordância com
tudo. Mesmo assim, em momentos em que alguém é
perseguido por dizer a verdade, a coisa mais importante que
a gente faz é assinar embaixo do que aquela pessoa disse.
Eu assino embaixo do que o senhor está dizendo nesses
dias, e espero que tudo isso seja apurado. E, se não for
verdade, eu estou disposto, como subscritor do que o senhor
disse, a ser punido. Agora, eu espero que, se for verdade,
alguém seja punido. Para isso, esta Casa não pode esquecer

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A ENTREVISTA À VEJA


esta tarde, não pode esquecer as suas denúncias. Temos que
levar adiante, apurando tudo o que houve, seja alguma
falsidade no que a gente diz, seja a realidade trágica do que
a gente está afirmando. Eu fico contente de que, nesses 40
anos, estamos do mesmo lado e, nesse lado, eu assino
embaixo do que o senhor disse e do que o senhor está
falando hoje.
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
O seu aparte, Senador Cristovam Buarque, além de nos
tocar profundamente, já tinha sido publicado no Jornal do
Commercio do Recife com este mesmo título “Eu assino
embaixo”, em que Vossa Excelência reitera todos esses
conceitos que emite aqui com relação a minha fala e a
outras falas dessa mesma dimensão, com esses mesmos
objetivos. Vossa Excelência, graças a Deus, tem marcado a
presença do nosso Estado aqui, representando o Distrito
Federal, da melhor maneira possível.
       Eu ouço o nobre amigo Senador Pedro Simon.
       O Senhor Pedro Simon (PMDB – RS) – Nobre
Senador, não há dúvida de que a Nação está assistindo ao
pronunciamento de Vossa Excelência com profunda emoção.
Acredito que muitos devem estar surpresos. Seu
pronunciamento não foi aquilo que imaginavam. Na verdade,
alguns imaginavam que viessem nomes, biografias e
histórias, mas Vossa Excelência deixou claro, na primeira
entrevista, que o que tinha para dizer já tinha dito. O
pronunciamento de Vossa Excelência, hoje, é aquilo que eu
disse na primeira vez em que fui entrevistado sobre a
entrevista de Vossa Excelência: nós temos de analisar, em
cima do pronunciamento do Senador Jarbas, o que vamos
fazer. Ele está dando um grande início, um início muito
importante. Não há, eu duvido, alguém que não reconheça
que se deva fazer alguma coisa; não há, eu duvido, alguém
que não reconheça que precisa ser feito. Mas tem de iniciar.

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A ENTREVISTA À VEJA


E, com esse seu pronunciamento feliz, competente,
oportuno, correto, Vossa Excelência está iniciando. Acho que
podemos discordar ou não – e eu concordo com Vossa
Excelência –, mas o importante é que o método que Vossa
Excelência está propondo hoje nós temos de aceitar. Nós
temos de aceitar! Na verdade, nós somos os grandes
culpados. É claro que um Congresso que tem medidas
provisórias, que nos desmoraliza, que nos humilha, um
Congresso onde os Partidos se dobram ao poder e às
vontades do Poder Executivo – hoje, ontem e sempre – é
difícil, mas nós, individualmente, podemos nos somar e fazer
o que Vossa Excelência está propondo. Eu tenho dito,
Senador, que seria muito importante uma manifestação da
sociedade. Quando caiu a emenda das Diretas Já, e quando
parecia que tudo estava acabado, foram os jovens nas ruas
que fizeram com que o Tancredo transformasse o Colégio
Eleitoral, que era uma mentira, num instrumento para
derrubar a ditadura. Foram os caras-pintadas nas ruas. O
Congresso, pressionado pelo Exército, que cercou a Casa,
não teve condições de aprovar a emenda, e não faria nada. O
povo nas ruas deu legitimidade. Seu discurso de hoje é o
início e ninguém aqui, mais do que eu, pode dizer: “Pode ter
alguém no Congresso com condições idênticas a de Vossa
Excelência. Ninguém igual e, principalmente, ninguém mais,
pela sua história, pela sua biografia, pelo seu passado.” Eu
tenho dito: oito anos Prefeito de Recife, considerado o melhor
Prefeito do Brasil; oito anos Governador de Pernambuco,
considerado o melhor Governador do Brasil; a vida inteira
dentro do MDB, ou fora da política, sempre com a correção,
com a dignidade e com a seriedade. Vossa Excelência tem
autoridade para fazer isso. E nós temos vontade, Senador,
eu tenho certeza. Nós vivemos uma quadra muito triste.
Vossa Excelência chamou atenção sobre a impunidade. Eu
recebi uma carta do Presidente do Supremo, de certa forma

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A ENTREVISTA À VEJA


cobrando de mim. Eu vou respondê-la e depois vou ler a
carta dele e a minha resposta, porque eu abranjo o problema
da impunidade. Acho que o problema não é – pelo amor de
Deus! – o Supremo. Eu tenho o maior carinho, o maior
respeito pelo Supremo. Não é o Supremo, não somos nós,
mas é o conjunto de todos, porque a verdade é que, no
Brasil, ladrão de galinha – e só ladrão de galinha – vai para a
cadeia. Com o resto não acontece nada. Vossa Excelência
fala em fundo de pensão, fala em apresentar um projeto
para que político não possa ser nomeado para cargos de
situação financeira de empreiteira. Isso é hoje, é ontem, isso
é assim.      Aqui, nesta Casa, vimos um dos maiores
escândalos. Um Ministro de Estado, saindo da tribuna onde
está Vossa Excelência, respondendo a um debate, foi para o
telefone e renunciou ao Ministério, quando ficou claro que os
fundos de pensão do Banco do Brasil, que estavam fechados
para aprovar o Senhor Antonio Ermínio de Moraes e o seu
grupo para comprar a Vale do Rio Doce... Formou-se um
grupo, que foi o que ganhou, e seis dias antes criaram um
novo grupo, e o fundo de pensão, que estava comprometido
com um lado, foi para o outro lado. Foi quando o Ministro
disse: “Nós chegamos ao limite da irresponsabilidade”, e
daqui da Casa pediu a renúncia. Isso vem de longe e
continua igual. Vossa Excelência diz bem. E me perdoem os
meus irmãos do PMDB lá da Câmara dos Deputados, mas
criar uma CPI para investigar... Até porque sabemos que o
momento atual que o Congresso está vivendo, o Congresso,
que fez grandes CPIs, e era um momento histórico da sua
existência no passado, hoje, não! A CPI das ONGs, a CPI...
       O SENHOR PRESIDENTE (Marconi Perillo. PSDB –
GO) – Senador Pedro Simon, vou prorrogar o tempo do
Senador Jarbas Vasconcelos, pela terceira vez consecutiva,
com prazer, para que Vossa Excelência conclua o seu
raciocínio e para permitir também ao orador que se encontra

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A ENTREVISTA À VEJA


na tribuna e aos demais aparteantes que participem deste
debate tão importante.
      O Senhor Pedro Simon (PMDB – RS) – ...muito
subjetivo. Os fundos de pensão, as diretorias financeiras, as
reformas políticas, vamos partir do pronunciamento de hoje
de Vossa Excelência e vamos adiante. Faço um apelo ao
Líder do PMDB: vamos olhar para a frente. Se for preciso,
Senador Renan, a minha vaga está disponível. Mas vamos
retornar o Jarbas para a Comissão de Constituição e
Justiça. Eu acho que seria um gesto muito positivo porque,
independentemente do que acontecer, essa seria uma
grande realidade. Tenho certeza de que o Senador Renan vai
aceitar, e Vossa Excelência, que é muito complicado,
também vai aceitar. Muito obrigado.
      O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Senador Pedro Simon, muito bom o seu aparte, muito bom o
seu pronunciamento, Vossa Excelência, que é um pioneiro
no Senado Federal na luta contra a impunidade, contra a
corrupção. Quando cheguei aqui, já acompanhava Vossa
Excelência, não só como companheiro de Partido, mas pela
amizade que nos une, e sempre tive uma profunda
admiração pela sua conduta, pela sua ação, pelo combate
diuturno, ontem, contra o regime autoritário; hoje, contra a
impunidade e a corrupção. Eu fico muito feliz de incorporar
esse discurso de Vossa Excelência.
      Ouço o Senador Jefferson Praia, que foi um dos
primeiros a pedir, e ficou na minha frente aqui. Peço
desculpas. Com muita honra, ouço Vossa Excelência.
      O Senhor Jefferson Praia (PDT – AM) – Senador
Jarbas Vasconcelos, eu estava aqui, neste momento, fazendo
uma reflexão sobre o que estamos tratando nesta tarde. Nós,
na verdade, representamos 180 milhões de brasileiros. Este
é o Senado. Estamos discutindo e refletindo sobre talvez o
maior mal deste País, que é a questão que Vossa Excelência

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A ENTREVISTA À VEJA


ressaltou na entrevista que deu à Veja sobre a corrupção no
Brasil. Essa é a grande questão. E aí acredito que o grande
salto que temos que dar, daqui para a frente, é definir como
vamos sair. Vossa Excelência fez a sua parte, está dando
início a um processo, como alguns dos oradores já
colocaram. Como vamos fazer com que saiamos do discurso
para as ações, para as ações práticas? Vossa Excelência já
deu algum caminho também. Já falou, por exemplo, do
nosso papel, que é fundamental, aqui no Senado. O Senado
tem que fazer a sua parte. Nós temos que fazer a nossa
parte. Nós não podemos apenas falar do que queremos – ou
de algum coisa – como se não estivesse nas nossas mãos.
Muita coisa está aqui nas nossas mãos. A reforma política –
Vossa Excelência destacou, dentre outras questões
nacionais – é algo sobre o que o povo espera que nós
façamos alguma coisa. Portanto, eu aproveito esta
oportunidade para fazermos uma reflexão neste início de
noite. Sobre quantos assuntos temos que refletir? Por
exemplo, eu tenho me reportado, junto com outros ilustres
Parlamentares aqui, sobre a Amazônia. Eu gostaria de, num
momento como este, estarmos aqui discutindo também a
Amazônia. Portanto, temos que fazer a nossa parte. O
Senado começar a ver como age nas comissões, nas decisões
que tem que tomar. E, daí para a frente, nós poderemos
começar a cobrar dos outros Poderes, do Poder Executivo, do
Poder Judiciário, da sociedade como um todo, que cobra dos
políticos – e com muita razão. Nós estamos aqui
representando o povo dos nossos Estados. Eu aqui, junto
com o Senador João Pedro e o Senador Arthur Virgílio Neto,
represento o povo do Estado do Amazonas e gostaria de
estar aqui falando o que eu estou dizendo neste momento a
Vossa Excelência e aos demais Pares. Acredito que 180
milhões, com raríssimas exceções, gostariam de estar aqui.
Não caberiam neste espaço todo do Congresso Nacional,

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A ENTREVISTA À VEJA


interno e externo, é claro, mas, espiritualmente, estão
ligados a essa questão e tenho certeza de que nos
acompanham. Portanto, temos pela frente um grande
caminho. Essa é uma questão que não vamos resolver de
imediato. Mas podemos trabalhar no sentido de diminuirmos
a intensidade da corrupção do Brasil, pois não dá mais para
levarmos avante da forma como as coisas estão se dando.
Vossa Excelência falou muito bem. Apenas disse o que está
todo o mundo vendo. A imprensa vê. Os políticos vêem. O
povo vê. Todo o mundo vê. Mas e aí? Faltam agora as ações.
E eu me coloco à disposição de Vossa Excelência para ser
um daqueles que vai estar ao seu lado e ao lado de outros
companheiros para que possamos fazer este trabalho em
prol da nossa sociedade. Eu não sou aqui melhor do que
ninguém. Coloco-me nesta posição. Apenas procuro ser uma
das pessoas que veio aqui pelos destinos da vida. Represento
aqui um grande Senador, o Senador Jefferson Péres, que, se
estivesse aqui hoje – ele faz falta –, falaria melhor do que eu
10 mil vezes e estaria aqui expondo sua posição. E eu não
poderia ficar sem falar em nome do nosso povo, do povo do
Estado do Amazonas e do povo brasileiro. Portanto,
solidarizo-me com Vossa Excelência. Vamos continuar
debatendo cada vez mais. É dessa forma que o Brasil vai
avançar. Vossa Excelência coloca posições importantíssimas
e tenho certeza de que o Brasil vai avançar paulatinamente,
porque isso é um processo e não se dá de uma hora para
outra. Existe corrupção, a corrupção já está praticamente
em todos os países. Ninguém vai acabar com a corrupção no
mundo nem no Brasil, mas da forma como está... Para fazer
com que as instituições funcionem, temos que começar pela
nossa Casa, pelo nosso Senado da República. Muito
obrigado pelo aparte.
      O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – A
corrupção e a impunidade, Senhor Senador, caminham

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A ENTREVISTA À VEJA


juntas, e nada melhor nesta tarde do que o aparte de Vossa
Excelência. E Vossa Excelência chegou aqui para completar
o mandato de um grande brasileiro, Jefferson Péres, e tem
se comportado como ele, assíduo, responsável, sempre
presente ao debate, sempre dando a sua contribuição.
Nunca cheguei a este plenário para não encontrar Vossa
Excelência aqui, sempre atento e sempre responsável. De
forma que o aparte de Vossa Excelência para mim é
engrandecedor.
      Quero, Senhor Presidente, avançar um pouco para
ouvir mais duas ou três pessoas, se Vossa Excelência me
permite, e deixar registrado o meu agradecimento a sua
tolerância e a sua benevolência.
      O SENHOR PRESIDENTE (Marconi Perillo. PSDB –
GO) – Terá Vossa Excelência o tempo necessário para
concluir o seu pronunciamento.
      O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – A
impunidade estimula a corrupção, é um cancro que precisa
ser extirpado.
      Apesar das promessas reiteradas em cada discurso de
posse, a cultura da impunidade não apenas permanece
entre nós, mas se estabelece em bases sólidas em um
terreno cada vez mais fértil.
      Em outros países – e temos diversos exemplos
recentes – uma mera suspeita é suficiente para que haja
uma renúncia, a fim de que alguém rejeite uma colocação
pública. E essa iniciativa não representa uma confissão de
culpa, como alguns poderiam dizer. Significa apenas a
sensatez de separar o espaço público das pendências
privadas.
      No Brasil dos dias atuais, a certeza da impunidade dá
uma força tremenda a quem não agiu com lisura e correção.
As pessoas se agarram aos cargos como mariscos no casco
de um navio – não caem nem nas maiores tempestades.

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A ENTREVISTA À VEJA


      Senhor Presidente, a corrupção é um fator de
desagregação política e social. Ela conduz ao desgaste e
enfraquece profundamente a legitimidade do poder
constituído.
      A partir dessa constatação, gostaria de apresentar
mais duas propostas que julgo serem de grande
importância, apesar de não serem originais, pois recorri a
um documento amplamente difundido há alguns anos.
Estas sugestões vou fazer na Frente Parlamentar
Anticorrupção:
      Primeira – A criação de uma agência anticorrupção,
com participação do Executivo, do Legislativo, do Judiciário,
do Ministério Público, do Tribunal de Contas da União e de
representantes da sociedade civil, para detalhar um Plano
Nacional de Anticorrupção.
      Segunda – A retomada do Movimento de Combate à
Corrupção Eleitoral, que pretende acompanhar, junto aos
Tribunais Regionais Eleitorais e ao Tribunal Superior
Eleitoral, todos os processos relativos às denúncias de
compra de votos e uso eleitoral da máquina administrativa.
      Eu gostaria também de citar o trecho de um
documento que tive oportunidade de ler recentemente:
      “A corrupção no Brasil tem raízes históricas,
fundamentos estruturais e impregna a cultura de setores
importantes do espectro social, político e econômico. A prática
de corruptos e corruptores na esfera do poder se dissemina
pela sociedade, como exemplo negativo que vem de cima. O
compromisso em erradicá-la não pode se limitar a uma prática
de denúncias eventuais e, muito menos, servir a fins eleitorais
ou políticos imediatos. Ela exige uma intervenção enérgica
pelo fim da impunidade e requer ampla ação cultural
educativa pela afirmação dos valores republicanos e
democráticos da nossa vida política.”



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A ENTREVISTA À VEJA


       Senhores Senadores e Senhoras Senadoras, essas
duas propostas que acabei de apresentar e também o texto
citado constam do documento “Combate à corrupção –
compromisso com a ética”, parte do “Programa de Governo
de 2002 Lula Presidente”.
       Tomei a liberdade de incorporá-las ao meu discurso,
porque considero que traz abordagens atuais, corretas e,
principalmente, por nunca terem sido postas em prática pelo
atual Governo.
       Senhor Presidente, encerro o presente discurso com
um elogio à CNBB, que, entre os temas da Campanha da
Fraternidade deste ano, defende denunciar os crimes contra
a ética, a economia popular e as gestões públicas, assim
como a injustiça nos institutos da prisão especial, do foro
privilegiado e da imunidade parlamentar para crimes
comuns. É essa a postura que se espera da sociedade civil,
das igrejas, das entidades de classe e da imprensa. A
mudança de postura que se faz necessária num Congresso
Nacional só virá pela pressão de todos.
       Antes de terminar, Senhor Presidente, se Vossa
Excelência permitir um pouco mais de tolerância, eu ouvirei
os dois Líderes: o Líder do PSDB, Arthur Virgílio, e o Líder
do PSB.
       O Senhor Valter Pereira (PMDB – MS) – Só para
lembrar, Senador Jarbas, Vossa Excelência não concedeu
aparte a nenhum companheiro seu de Partido.
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Citei o melhor de todos aqui: o Senador Pedro Simon.
       O Senhor Almeida Lima (PMDB – SE) – Vossa
Excelência não concederá aparte, Senador Jarbas
Vasconcelos?
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Vossa Excelência está meio armado com relação a mim.



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A ENTREVISTA À VEJA


       O Senhor Almeida lima (PMDB – SE) – Senador
Jarbas, Vossa Excelência não concederá aparte?
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Concedi aparte ao Senador Arthur Virgílio e ao Líder do PSB.
       O Senhor Almeida Lima (PMDB – SE) – E consulto
Vossa Excelência se me concederá aparte. Senador Almeida
Lima. Consulto se me concederá aparte.
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Vou ouvi-lo.
       O Senhor Almeida Lima (PMDB – SE) – Obrigado.
       O Senhor José Nery (PSOL – PA) – Senador Jarbas
Vasconcelos, eu gostaria de falar depois, se possível, com
breves palavras, para cumprimentá-lo.
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Vou ouvi-lo. Se a Presidência permite, o Senador Aloizio
Mercadante também.
       Senador Arthur Virgílio, com muita honra.
       O Senhor Arthur Virgílio (PSDB – AM) – Considero,
Senador Jarbas, que ficaria até monótono se todos os
apartes fossem de louvação ao seu pronunciamento. Então é
bom que ouça mesmo todas as vozes e que cada uma se
manifeste de acordo com o que o espírito dita a partir do
coração para o cérebro. Mas, muito bem, eu gostaria de
registrar que Vossa Excelência salvou, com esse discurso, a
tarde modorrenta, cheia de mesmice, do Senado, hoje. Vossa
Excelência nos fez viver um belo momento de atividade
parlamentar.     Vossa    Excelência    é    um     daqueles
Parlamentares que não dependem de posição institucional
para ter a importância que têm. E já era assim há muito
tempo, desde quando fomos colegas de Câmara dos
Deputados no enfrentamento ao regime autoritário. Nunca vi
Vossa Excelência exercendo a função de líder partidário,
mas jamais vi Vossa Excelência sendo ignorado na sua
opinião pela opinião pública, pela imprensa, pelos seus

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A ENTREVISTA À VEJA


colegas, pelos seus adversários. E é respeitado pelos seus
adversários. Eu não me intrometo nos assuntos dos
partidos, então, os líderes indicam quem bem querem, é da
tradição; por outro lado, há espaço para que eu diga a Vossa
Excelência que Vossa Excelência tem toda uma vocação para
estar na Comissão de Constituição e Justiça, e Vossa
Excelência tem o meu lugar. Está à sua disposição o meu
lugar de membro da Comissão de Constituição, Justiça e
Cidadania para que continue integrando aquele colegiado
tão importante que muito perderia sem a sua presença. O
fato é que Vossa Excelência deu uma entrevista que foi o
grande momento político do Brasil neste ano de 2009, em
crise, com tantos acontecimentos intensos. Não vi nada mais
importante que tenha repercutido mais fortemente junto à
opinião pública do que a entrevista que Vossa Excelência
deu às páginas amarelas da revista Veja. Estamos todos hoje
aqui mobilizados em torno do seu discurso sereno.
       O SENHOR PRESIDENTE (Marconi Perillo. PSDB –
GO) – Prorrogo o tempo do orador que se encontra da
tribuna por mais 30 minutos.
       O Senhor Arthur Virgílio (PSDB – AM) – Em nenhum
momento, vi Vossa Excelência sair para o panfleto, sair para
a provocação. Discurso sereno, típico de quem governou o
seu Estado por mais de uma vez, a sua cidade por mais de
uma vez e que já viveu diversas experiências no Parlamento.
E tudo isso a credenciá-lo à posição de respeitabilidade que
desfruta hoje. Nós temos que trabalhar com coisas práticas e
Vossa Excelência se referiu a fatos práticos e conta desde já
com o meu endosso e sei que com o endosso do meu partido
por inteiro. Na entrevista, talvez Vossa Excelência tenha sido
até um pouco duro naquele embalo em que ia dizendo que
os partidos eram mais ou menos iguais e não teria para
onde ir. Vossa Excelência teria para onde ir, sim. O meu
partido tem pessoas decentes, de caráter, e meu partido

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A ENTREVISTA À VEJA


seria e será um abrigo para Vossa Excelência tão assim
Vossa Excelência solicite esse abrigo ou imagine que desse
espaço necessita para tocar a sua brilhante carreira pública.
Mas veja Vossa Excelência, eu... e nem a propósito, sabendo
que amanhã elegeremos o Senador Demóstenes Torres
Presidente da Comissão de Justiça da Casa, pedi ao Senador
Demóstenes, como primeiro gesto, que tocasse para frente
todos os projetos que tivessem a ver com moralidade
pública. Tenho um no meio desses todos: é um projeto de
resolução. Não tem que ir para a Câmara, não tem que
perder tempo com nada, é uma decisão do Senado para
vigorar no Senado. E acertamos que o ideal seria entregar a
relatoria para Vossa Excelência na Comissão de Justiça.
Meu projeto diz que a vida pregressa dos Senadores deve ser
passível de exame pela Comissão de Ética sim. Afinal de
contas, o decoro não é só a partir do momento em que se é
Parlamentar. Suponho que alguém, para se eleger
Parlamentar, deva ser decoroso. Suponho isso. Alguém mata
e rouba para ser Senador e, depois, não pode ser julgado
pela Comissão de Ética da Casa, apesar de ter matado e
roubado, para ser Senador. Ora, fica algo impossível de ser
entendido pela sociedade brasileira. O Senador Demóstenes
me disse que assume e, imediatamente, designa o Relator
dessa matéria. E espero mesmo, se Vossa Excelência aceita
a oferta, que o Relator seja Vossa Excelência. Estamos aqui
num quadro de paralisia. Hoje não votamos, e o PSDB não
concorda com votação enquanto não escolhermos os
presidentes das comissões. Defendemos o critério da
proporcionalidade; defendemos o respeito àquilo que o povo
ditou. Cada Partido tem o seu tamanho. O meu é o terceiro.
Não quero, portanto, as posições do primeiro, mas não
aceito as posições do quinto, de jeito nem qualidade, como
diria um bom pernambucano, como meu avô e como Vossa
Excelência. E veja a situação estranha a que está relegado o

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A ENTREVISTA À VEJA


Senado hoje. Alguém diz: as comissões estão sem
presidente? Não, elas estão com presidente. Na CAE, o
Presidente é o Senador Eliseu Resende e o Vice é o Senador
Pedro Simon; na Comissão de Assuntos Sociais, o Presidente
é o Senador Paulo Duque e o Vice é o Senador João Durval;
na Comissão de Justiça, o Presidente é o Senador Pedro
Simon e o Vice é o Senador Romeu Tuma; na Comissão de
Educação, o Presidente é o Senador Romeu Tuma e o Vice é
o Senador Francisco Dornelles; na Comissão de Meio
Ambiente, o Presidente é o Senador Eliseu Resende e o Vice
é o Senador Valter Pereira; na Comissão de Direitos
Humanos, o Presidente é o Senador Paulo Duque e o Vice é o
Senador Eliseu Resende; na Comissão de Relações
Exteriores, Senador Eduardo Azeredo, o Presidente é o
Senador Paulo Duque e o Vice o Senador Pedro Simon; na
Comissão de Infraestrutura, o Presidente é o Senador Paulo
Duque e o Vice, o Senador Eliseu Resende; na Comissão de
Desenvolvimento Regional, o Presidente é o Senador Marco
Maciel e o Vice, o Senador Antonio Carlos Valadares; na
Comissão de Agricultura e Reforma Agrária, o Presidente é o
Senador Romeu Tuma e Vice, o Senador Neuto de Conto; na
Comissão de Ciência e Tecnologia, o Presidente é o Senador
Camata e o Vice é o Senador José Agripino, com exceção de
algumas...
       O SENHOR ARTHUR VIRGÍLIO (PSDB – AM) –
(Risos.) Senador, isso não faz jus à sua jovialidade. Tenho
criticado a inação desse início do Presidente Sarney. Tenho
dito a ele: Presidente, vamos começar a agir e eu paro de
criticar, mas, se não começarmos a agir, vou ter que
continuar criticando. Não estou aqui para ficar perdendo as
minhas tardes e perdendo as minhas manhãs esperando que
as coisas aconteçam, se elas acontecerem, e a crise lá fora e
nós aqui bancando a nobreza brasileira, na Ilha Fiscal, de
ressaca, e a República sendo proclamada na madrugada por

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A ENTREVISTA À VEJA


Deodoro da Fonseca. Temos que elogiar. Com exceção de
algumas pessoas de reconhecida jovialidade, como tantos
aqui, pode-se dizer que, no primeiro momento da sua gestão,
o Senador Sarney prestigiou a sua geração como jamais
ninguém e isso não pode perdurar; isso aqui, inclusive, não
reflete a proporcionalidade; se refletisse, seria mais
equilibrado. Como não reflete, nós não poderíamos mesmo
acorrer a uma comissão dessas para votar coisa alguma.
Nomes respeitáveis, nomes queridos, nomes estimados, mas
não reflete a proporcionalidade, não reflete o jogo de forças
que está estabelecido aqui, no Senado. Entendo que nós
precisamos mesmo tomar medidas muito claras contra este
mal, este câncer que é a corrupção e com atitudes pontuais.
Vossa Excelência agora fez um discurso para mim melhor do
que faria se se dispusesse ao simples bate-boca com quem
quer que fosse aqui, nesta Casa. Vossa Excelência propôs
três ou quatro medidas que devem ser meditadas e
estudadas por nós. Eu pretendo ver o meu projeto que
estuda a vida pregressa dos Senadores votando o quanto
antes – teria muita honra se fosse Vossa Excelência o
Relator da matéria –, mas, de qualquer maneira, que os
Senadores digam: eu, fulano de tal, concordo com esse
projeto; eu, beltrano, não concordo, e explique por que, às
claras. Eu acabei de sair de uma aliança com o meu querido
amigo, Senador Tião, mas eu não tenho o mesmo talento da
CUT para pôr outdoor; eu não vou pôr outdoor com o nome
de ninguém na rua, não, dizendo... Mas é óbvio que cada um
tem que colocar a sua própria face. Por que não quer?
Então, diga: eu não quero porque o projeto é defeituoso
nisso e naquilo. Não dá para a gente embargar na gaveta,
não dá para se dizer que o projeto não foi julgado por
qualquer razão que não o não. Então tem que dizer: não, o
projeto não é útil, não é adequado, devemos deixar a
jurisprudência atual, devemos deixar que seja possível uma

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A ENTREVISTA À VEJA


pessoa matar, roubar, fraudar, se elege e, depois, não tem
nenhuma satisfação a dar a ninguém porque só se olha para
o futuro. Então é ótimo: o sujeito mata, rouba, frauda, chega
aqui, não comete mais nem assassinato, nem fraude, nem
roubo, ninguém mexe mais com a vida dele, embora a gente
conheça que, na vida pública brasileira, não são raros os
reincidentes. Eu, portanto, saúdo o discurso de Vossa
Excelência como uma peça madura – e é tautológico de
minha parte me referir à maturidade de Vossa Excelência –,
mas um discurso que, pela sua própria importância,
mobilizou tantas pessoas. Eu acharia mesmo injusto se
Vossa Excelência não concedesse aos seus colegas de
Partido o aparte por eles solicitado tão fervorosamente.
Enfim, Vossa Excelência teria mesmo de ouvi-los, como teria
de ouvir a todos. Seria injusto que Vossa Excelência não
ouvisse tantos admiradores seus que estão aqui para saudá-
lo. Portanto, eu sinto que este é um dos momentos em que a
Mesa tem de agir como está agindo o Presidente Marconi
Perillo: nada daquele tempo... Nesta hora não tem
Regimento. Qual é o Regimento? O Regimento de um Senado
que está sem votar há um mês e dois dias, um Senado que
está sem deliberar há um mês e dois dias, um Senado que
está discutindo quem tem direito e quem não tem direito de
presidir uma comissão, quando a gente sabe muito bem
quem tem e quem não tem direito de presidir uma
comissão? A gente sabe muito bem quem tem e quem não
tem pela simples matemática dos votos que as urnas nos
deram e que a proporcionalidade aqui reflete. É uma
discussão bizantina, uma discussão até apedeuta, aqui para
nós, Senador Jarbas Vasconcelos. Portanto, meus parabéns
a Vossa Excelência pelo seu pronunciamento. Eu digo a
Vossa Excelência que essa cruzada terá muitos seguidores.
Eu tenho visto a repercussão que seu pronunciamento e seu
nome têm encontrado no País. Percebo isso pela minha

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A ENTREVISTA À VEJA


terra. Tenho andado menos, hoje em dia, pela terra dos
outros e tenho andado muito pela minha terra e tenho
observado o quanto de admiração se acresceu à admiração
de base que Vossa Excelência já tinha em meu Estado, pela
atitude corajosa de ter proposto algo para o debate. Vossa
Excelência foi duro em relação a seu Partido, Vossa
Excelência foi duro em relação à inércia com que, de um
modo geral, o segmento político enfrenta esse drama da
corrupção e manifestou sua opinião. Eu não vejo, no Código
Penal, nada que capitule como crime o que Vossa Excelência
disse. Não vejo. Não sou nenhum especialista em Direito,
mas eu conheço muito bem o que é crime e o que não é.
Vossa Excelência opinou e opinou com muita autoridade e
trouxe um debate que despertou a Nação, que fez a Nação
acordar. Vossa Excelência beliscou a Nação. Fez muito bem
em beliscá-la. Portanto, não terá, de parte do PSDB,
ninguém que negue fogo nesse chamamento que Vossa
Excelência faz a nós para enfrentarmos em conjunto uma
das chagas que mais é responsável por prostituição infantil,
por menor que pratica crimes, por favelas dominadas por
tiranetes do tráfico, por soldadinhos que morrem aos 15
anos por estarem protegendo as bocas de tráfico nas favelas
das grandes metrópoles... A sua e a minha também já estão
incluídas entre essas, não são mais apenas o Rio de Janeiro
e São Paulo. A corrupção não é feia apenas porque é bonito
ser honesto, segundo uma boa avó nossa poderia ter
ensinado; a corrupção é ruim porque ela mata, porque ela
mutila, porque ela prostitui as gerações; ela é ruim porque
empobrece, ela é ruim porque concentra renda nas mãos de
gente que não merece. Ela é ruim por tudo isso. E é por isso
que eu digo que Vossa Excelência não precisa falar muito
para ser o grande Senador que é, nem precisaria estar no
Senado para ser o grande homem público que merece, já de



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A ENTREVISTA À VEJA


muito tempo, o meu respeito. Muito obrigado, Senador
Jarbas.
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Muito obrigado, Senador Arthur Virgílio, a Vossa Excelência
que tem desempenhado aqui um papel tão importante como
Senador, como Líder do PSDB, representante do Amazonas.
E agora, com esse entendimento entre Vossa Excelência e o
nobre Senador Demóstenes Torres, de agilizar esse
processos que visam à moralização dos costumes, é
fundamental, é importante a gente dar esse exemplo à
sociedade porque, sem a mobilização da sociedade, sem o
despertar da sociedade, sem a pressão da sociedade exercida
de forma legítima, a gente não vai a lugar nenhum, não
alcança nenhum objetivo.
       Ouço o nobre Líder do PSB, Senador Renato
Casagrande.
       O Senhor Renato Casagrande (Bloco/PSB – ES) –
Muito obrigado pelo aparte, Senador Jarbas. O Senador
Eliseu já chegou aqui para reivindicar suas propostas,
Senador Arthur Virgílio, de várias comissões aqui indicadas
pelo Senador Arthur Virgílio para o Senador Eliseu. Quero
dizer apenas que Vossa Excelência traz a este Senado um
debate sobre a crise institucional que estamos vivendo. Não
fez nenhuma acusação direta a nenhuma pessoa, nem
mesmo a nenhum Partido, mas levantou um tema que é
necessário para o debate neste Senado e no Congresso
Nacional. Até porque nós, de fato, nos últimos anos, nos
últimos meses – fui Deputado Federal antes de vir ao Senado
–, estamos vivenciando, desde a legislatura passada,
momentos de escândalo que se abatem sobre o Congresso.
Parte dessa responsabilidade é pela fragilidade das nossas
instituições. Temos uma jovem democracia que não tem
ainda a maturidade e o aperfeiçoamento necessário das
instituições exercendo o seu papel e suas funções. Ao

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A ENTREVISTA À VEJA


mesmo tempo, nós, que temos um Congresso hoje livre,
também nos ausentamos muitas vezes de nossas
prerrogativas. Vossa Excelência falou do tema da reforma
política. Eu, em abril de 2008, apresentei um requerimento
para que pudéssemos discutir, numa comissão mista do
Congresso Nacional,...
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Eu me lembro.
       O Senhor Renato Casagrande (Bloco/PSB – ES) – ... a
reforma política, mas nós não tivemos capacidade de colocar
uma comissão mista para funcionar, porque a Oposição,
com medo da discussão sobre o terceiro mandato, e as
outras lideranças da Base também, não se mobilizaram para
que pudéssemos começar. Não fizemos o debate da reforma
política e o Congresso apresentou proposta numa matéria
que não é prerrogativa do Executivo. O Governo apresentou
uma matéria que não é prerrogativa dele, é prerrogativa do
Congresso Nacional. Apresentou, de fato, de uma forma
equivocada, na minha avaliação, de forma fatiada. A reforma
política tem que ter um arcabouço, tem que ter um esqueleto
que se articule, que comunique um projeto com o outro,
uma decisão com a outra. Então, nós reclamamos aqui
muitas vezes, mas nós demoramos, nós não temos aqui uma
dinâmica interna que permita que tomemos as decisões
necessárias para que nós possamos dar o exemplo. Então,
nós precisamos fazer a nossa parte, mesmo sabendo que o
que estamos fazendo são reformas de instituições
ultrapassadas. Neste momento, em que estamos com
tecnologias novas, é inconcebível, por exemplo, que nós não
aprovemos na Câmara um projeto que já foi aprovado aqui
no Senado, que é o da transparência. Hoje, o ente da
Federação mais transparente é a União. Poucos governos
estaduais – o de Pernambuco, do Governador Eduardo
Campos, tem um nível de transparência até razoável...

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A ENTREVISTA À VEJA


Lembro que o Governador Eduardo Campos, como Vossa
Excelência, é pernambucano. Mas temos poucos governos
que têm o Portal Transparência, poucos Municípios têm o
Portal Transparência. A transparência ajuda a combater a
impunidade. Então, temos muitas coisas que, de fato,
precisamos fazer, não vamos fazer todas de uma vez, mas o
Congresso tem que cumprir a sua pauta. E para
cumprirmos a nossa pauta, temos de sair de fato dessa
letargia que já tomou conta de nós há algum tempo.
Obrigado, Senador.
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Obrigado, Senador Renato Casagrande, que também tem se
constituído, nesta Casa, em uma voz valorosa em favor de
reforma política e de outras reformas.
Ouço o Senador José Agripino e, em seguida, o Senador
Valter Pereira.
       O Senhor José Agripino (DEM – RN) – Senador
Jarbas Vasconcelos, não estamos aqui nem derrubando a
CPMF, nem aprovando a Lei Geral das Microempresas, nem
fazendo com que o Governo retire a MP nº 232, nem estamos
votando e aprovando a Lei de Falências, mas estamos
vivendo um bom momento no Congresso, porque estamos
sacudindo um assunto que nunca poderia estar dormindo,
que é o assunto da corrupção. Em boa hora Vossa
Excelência deu aquela entrevista à revista Veja, entrevista
que teve enorme repercussão. Repercussão pelo assunto?
Não. O assunto corrupção está nas páginas dos jornais e
nas matérias da TV todos os dias. A matéria teve
repercussão porque Vossa Excelência, cortando na própria
carne, acusou o seu Partido e, corajosamente, acusou a
corrupção endêmica a que o País assiste, com a autoridade
de quem é político, como eu, há quarenta anos e de quem
tem ficha limpa. Agora, importante é fazer o discurso, dar
entrevista, e Vossa Excelência está aqui dando sequência à

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A ENTREVISTA À VEJA


sua ação, porque importante não é o discurso, é sair do
discurso para a ação, é ver o que nós temos de fazer.
Senador Jarbas, Vossa Excelência foi Prefeito de uma grande
capital, Recife, foi Governador de um grande Estado,
Pernambuco; eu fui Prefeito da minha capital, fui
Governador duas vezes do meu Estado e sou Senador há
três mandatos. Eu não respondo a um único processo. Acho
que Vossa Excelência também não.
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Não.
       O Senhor José Agripino (DEM – RN) – Eu queria que
Vossa Excelência concordasse comigo numa coisa. Eu acho
que a gente tinha que fazer uma agenda de coisas a fazer, de
compromissos a cumprir. Há algumas matérias que devem
ser apreciadas, votadas e aprovadas, como solução tópica
para o mal da corrupção, que é um mal que não lhe aflige,
que lhe deu autoridade para fazer o discurso que está
fazendo, para dar a entrevista que deu e para receber o
respeito do País que tem. Quando Vossa Excelência foi
Prefeito de Recife, e eu me lembro fui Prefeito de Natal, ou
quando Vossa Excelência foi Governador de Pernambuco, e
eu fui do Rio Grande do Norte, Vossa Excelência foi apoiado
por um, dois ou três Partidos políticos, que o apoiaram como
me apoiaram não em troca de alguma coisa, mas por apoio
às suas idéias, ou as minhas idéias. Nós escolhemos quem
nós quisemos naqueles Partidos que nos apoiaram. O que
acontece hoje? Existe, hoje, uma praga chamada grupo.
Existe Partido que tem um, dois ou três grupos. O atual
Governo da República fatia por grupos políticos, e não por
partidos políticos, a base de sustentação, e recebe as
indicações sem fazer o devido filtro. Nomeia quem indicam
os grupos que têm compromisso não com as idéias do
Governo, mas com seus próprios interesses, e daí surge a
corrupção, que é muito mais no Poder Executivo, que é

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A ENTREVISTA À VEJA


quem nomeia ou demite, do que no próprio Poder
Legislativo. O que vai acabar com o grupo? É a reforma
política, é o fortalecimento dos partidos políticos, é o
compromisso do eleitor com as idéias dos Partidos. E os
Partidos que elejam um Presidente da República, que, eleito,
aí, sim, com o apoio de dois, três ou quatro Partidos e não
de 20 Partidos, possa escolher figuras eméritas, respeitáveis
e nomear pessoas corretas não oriundas de grupos, mas de
partido político que mereça respeito, porque fez campanhas
com idéias. Eu acho que, na essência, é isso que Vossa
Excelência defende, que é o que eu defendo, com a
autoridade de quem está há quarenta anos na vida pública e
não responde, como eu, a nenhum processo. Então, tem
autoridade para falar, para se manifestar e para propor
ações. A reforma política, Senador Jarbas Vasconcelos, com
o fortalecimento dos partidos políticos, é pedra de toque
para que comecemos uma guerra, uma guerra santa contra
a instalação da corrupção neste País, para acabar com uma
praga chamada “grupo político”, que é apelido de partido
político que não se dá ao respeito. Quero, portanto,
cumprimentando Vossa Excelência, dizer que tenho a honra
de me colocar como seu parceiro e como seu amigo. Fui
candidato a Presidente desta Casa, fui honrado com o seu
apoio e com o seu voto, voto de qualidade e voto de estímulo.
Quero dizer a Vossa Excelência que vamos estar juntos
muitos anos pela frente, trabalhando pelo nosso País.
Cumprimentos a Vossa Excelência.
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Se Deus quiser!
Para mim, é muito importante o apoio de Vossa Excelência,
que é um apoio que tem sido reiterado ao longo da minha
presença, desde fevereiro de 2007. Vossa Excelência, atento
como é, na dimensão que tem, não deixa passar nada nesta
Casa que contrarie os bons costumes, a legislação, o

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A ENTREVISTA À VEJA


Regimento, e tem-se comportado como um autêntico líder,
não apenas do seu Partido, o DEM, mas como um grande
líder do Senado. Eu tenho um grande estímulo pela nossa
amizade e pela nossa convivência.
Ouço o Senador Valter Pereira e, em seguida, o nobre Líder
do PT. Senador Aloizio Mercadante.
       O Senhor Valter Pereira (PMDB – MS) – Senador
Jarbas Vasconcelos, Vossa Excelência do respeito e da
admiração que sempre devotei à sua conduta.
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – E
a recíproca é verdadeira, Senador.
       O Senhor Valter Pereira (PMDB – MS) – Tanto
historicamente, no combate à ditadura, como na passagem
que teve na administração e no Parlamento do Estado e do
País. Mas não poderia ficar calado porque, há poucos dias,
subi a essa tribuna e fiz um reparo à entrevista que Vossa
Excelência concedeu à revista Veja – e Vossa Excelência não
estava presente. Isso me trouxe um desconforto, mas eu não
poderia deixar de falar naquele dia, para não perder a
oportunidade, já que o assunto estava efervescendo
exatamente naquela ocasião. E o reparo que fiz não foi
quanto ao núcleo da sua entrevista, porque Vossa
Excelência, no núcleo, combateu a corrupção, que é o que
faz hoje nessa tribuna. Mas fiz um reparo quanto à condição
que Vossa Excelência colocou o nosso Partido, o PMDB. E,
ali, realmente senti-me ferido. Senti-me ferido porque o
PMDB é um Partido a quem devoto uma fidelidade histórica.
Como instituição ninguém, neste parlamento e fora dele,
pode negar a trajetória de trabalhos, de serviços prestados
ao nosso País. E é exatamente em função disso que, hoje, o
PMDB tem mais de 15 milhões de simpatizantes, tem mais
de oito mil Vereadores, tem mais de 1.300 Prefeitos, tem sete
Governadores. E é um Partido que tem, indiscutivelmente, a
maior capilaridade. E, nesse extraordinário universo, nós

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A ENTREVISTA À VEJA


encontramos Prefeitos da melhor estirpe, Governadores
competentes, parlamentares da melhor qualidade. E, no
momento em que fui à tribuna, o meu desejo era desagravar
o PMDB sem, contudo, reconhecer que o núcleo do combate
de Vossa Excelência estava na corrupção. E, aí, nós somos
parceiros; no combate à corrupção, sim, nós somos
parceiros. Mas, na responsabilização do PMDB, aí eu tenho
que divergir de Vossa Excelência, embora Vossa Excelência
tenha realçado também, na sua entrevista, que, de repente,
não encontrava outro paradeiro, porque via o céu nublado
por todos os cantos. Mas o que ficou evidenciado, o que
ficou patenteado ali, o que foi explorado pela imprensa foi a
crítica que Vossa Excelência fez ao nosso Partido, ao PMDB,
e foi aí a minha contrariedade. Hoje, Vossa Excelência se
posta como algoz da corrupção, e não do PMDB. E aí eu sou
compelido a aplaudi-lo, sou compelido a estender-lhe a mão,
porque a corrupção, Senador Jarbas Vasconcelos, é o cupim
da República, segundo as palavras do nosso saudoso líder e
comandante Ulysses Guimarães. Mas é o cupim que está no
PMDB e fora dele. Basta voltar os olhos para alguns dias
atrás, quando o Tribunal Superior Eleitoral estava fazendo
julgamento de um Governador que não era do PMDB e foi
afastado por corrupção. Hoje, certamente está ocorrendo
outro julgamento e alguém que também não é do PMDB; e
há também Governadores, Prefeitos espalhados por todos os
partidos, incluindo o PMDB. Por quê? Porque está espalhada
a corrupção no tecido social; está espalhada a corrupção na
República brasileira, nos partidos e fora dos partidos. Mas o
PMDB jamais pode ser colocado como o responsável pela
corrupção ou aquele que está mergulhado nela. É claro, e
aqui vai um pergunta: qual é o partido político que não teve
algum de seus componentes enredados em problemas de
corrupção, em denúncias de corrupção? Talvez tenha um ou
dois ou três daqueles que também não têm prefeitos, que

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A ENTREVISTA À VEJA


não têm governadores, que não têm representantes no
Congresso, ou que tem um ou dois, porque ela é
proporcional também à representação de cada partido.
Portanto, Senador Jarbas Vasconcelos, Vossa Excelência
hoje faz um pronunciamento sério, responsável, sereno,
como tem pontilhado a ação de Vossa Excelência nesta Casa
e, neste particular, nós nos identificamos, nós temos de
aplaudir Vossa Excelência. Mas eu gostaria de fazer um
parênteses antes de encerrar este aparte. Eu acredito que
existe um pecado original em toda essa crise ética que tem
em nosso País, e ele está na Assembléia Nacional
Constituinte, da qual nós participamos. A convocação da
Assembléia Nacional Constituinte foi acometida de um
pecado original. Foi uma constituinte congressual, uma
constituinte que permitia ao legislador legislar em causa
própria. Aí está um defeito, sim; um defeito que,
simplesmente, deformou a representação federativa. Hoje
nós temos uma hipertrofia do Poder Executivo, uma
hipertrofia da União, a atrofiar os Municípios, os Estados e
os Poderes.
       O SENHOR PRESIDENTE (Marconi Perillo PSDB –
GO) – Senador Jarbas Vasconcellos, com muito prazer, esta
Presidência já concedeu a Vossa Excelência 1 hora e 52
minutos. Fiz isso porque considero relevantíssimo o
pronunciamento e todos os apartes. Além do aparte do
Senador Valter Pereira, existem ainda quatro Senadores que
solicitaram de Vossa Excelência aparte. Vou conceder a
Vossa Excelência mais 15 minutos, esperando que esse
tempo seja suficiente para que os demais aparteantes
possam ser bastante decisivos e concisos em seus
pronunciamentos, até porque grande parte desse tempo
também foi destinado aos apartes.
       Concederei a Vossa Excelência, portanto, mais 20
minutos.

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A ENTREVISTA À VEJA


      O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Obrigado.
      O Senhor Valter Pereira (PMDB – MS) – Vou concluir
já. Mas veja o seguinte, Senador Jarbas Vasconcelos. Acho
que Vossa Excelência traz à colação uma discussão da mais
alta importância, porque temos de rediscutir tudo. Esse
desequilíbrio que existe entre os entes federativos precisa ser
discutido, porque o prefeito, hoje, que não tiver os recursos
da União, se for administrar um Município pequeno, não dá
conta. Hoje mesmo, fiz um pronunciamento sobre isso. O
Estado que não tiver uma estrutura econômica, uma
atividade econômica robusta também não tem condições de
sobreviver sem ajuda da União Federal. Portanto, enquanto
não se eliminarem essas dependências de Estados e
Municípios da União Federal, dificilmente vamos estancar
essa hemorragia da corrupção. Meus parabéns a Vossa
Excelência. Acho que Vossa Excelência traz, sim, uma
discussão. Mas os cumprimentos que faço a Vossa
Excelência são com aquela restrição a que me referi: a de
que o PMDB não é o paladino da corrupção. O PMDB faz
parte de um sistema todo, que precisa ser reformulado. Aqui
não existe nenhum partido político que age como
seminarista, porque o partido político não é um seminário.
      O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Senador, é evidente que eu não o incluiria em nenhuma lista
de malfeitor. Entendi sua ida à tribuna e gostaria só de
relembrar, mais uma vez ,que falei em grande parte do
PMDB. É evidente que jamais poderia falar no conjunto do
PMDB.
      Senhor Presidente, este meu discurso, este debate
sobre corrupção, enriquecido pela presença inclusive de
deputados federais, que se deslocaram até aqui, só foi
possível pela compreensão, pela responsabilidade e pela
dimensão de Vossa Excelência. Uma outra pessoa aí talvez

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A ENTREVISTA À VEJA


não tivesse tido a sensibilidade que Vossa Excelência teve de
prorrogar tantas vezes esta sessão para que pudéssemos
chegar a este ponto. De forma que seria injusto da minha
parte, Senador Marconi Perillo, eu que conheço o seu
passado, o seu presente, que conheço a sua luta, não fazer
este registro, de público para ficar incorporado inclusive ao
meu discurso. De forma que agradeço muito a Vossa
Excelência.
       Não vou finalizar o discurso, vou ouvir, na ordem, os
quatro Senadores que faltam: o Senador Mercadante, a
Senadora Lúcia Vânia, o nobre Senador Almeida Lima e,
para encerrar o meu discurso, o Senador José Nery.
       O Senhor Geraldo Mesquita Júnior (PMDB – AC) –
Senador Jarbas.
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Senador Aloizio Mercadante.
       O Senhor Geraldo Mesquita Júnior (PMDB – AC) –
Senador Jarbas, é só para Vossa Excelência me incluir
também.
       O Senhor Aloizio Mercadante (Bloco/PT – SP) –
Senador Jarbas, eu queria dizer que, primeiro, Vossa
Excelência tem uma atitude na política, que eu reconheço e
valorizo, que é a coragem política de falar o que pensa. Acho
que isso é muito importante na democracia e no debate
político. E eu tenho tido tanto capacidade de negociar e
convergir sobre algumas matérias relevantes com Vossa
Excelência, no âmbito da Comissão de Constituição e
Justiça, quanto de divergir sobre alguns aspectos que eu
acho que também são muito relevantes. Sobre a questão da
corrupção, esse é um tema permanente na história política,
desde a Grécia Antiga, e um tema muito importante para a
oposição na disputa política. E, no Brasil, ele tem uma
importância estratégica, porque viemos de uma cultura de
um Estado patrimonialista, de uma lógica política fisiológica,

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A ENTREVISTA À VEJA


de uma elite que se apropria dos recursos públicos e que
criou uma sociedade profundamente desigual, marcada pela
exclusão social e por todo tipo de injustiça histórica, um dos
piores padrões de distribuição de renda que temos na
história. Isso mostra que essa história política tem de ser
enfrentada, e a questão da reforma política é o tema central
para que possamos mudar o padrão do Estado brasileiro. Na
reforma política, acho muito importante que participemos de
partidos com que tenhamos compromissos históricos. Se o
Senador Romero permitir a gente falar... Senador... Que a
gente tenha compromisso histórico para construir. Eu, por
exemplo, estou há 27 anos no meu partido, porque é um
partido que tem eleição direta de todos os dirigentes...
       O SENHOR PRESIDENTE (Marconi Perillo. PSDB –
GO) – A Presidência solicita a atenção da assistência.
       O Senhor Aloizio Mercadante (Bloco/PT – SP) – ...que
tem pluralismo democrático, porque as correntes políticas se
organizam com total legitimidade. Os dirigentes que erram e
cometeram graves erros são substituídos pela militância
política. Então, temos de construir partidos, e a reforma
política tem de fortalecer a fidelidade partidária e a
democracia partidária, como também deve enfrentar o
problema do financiamento de campanha. Se não
enfrentarmos essa questão, os corruptos continuarão se
movimentando no Estado brasileiro a pretexto da política,
mas eles não estão servindo à política. Estão destruindo a
representação política e prejudicando a representação
política. Mas temos de enfrentar com coragem o tema. E não
é fácil. Não foi resolvido, eu diria, de uma forma definitiva
nas democracias contemporâneas. É um tema ainda a ser
construído, e é o tema central da reforma política: fidelidade
e o problema do financiamento público. Mas queria tratar de
mais dois temas do pronunciamento de Vossa Excelência.
Sobre os fundos de pensão, hoje, conversando com a

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A ENTREVISTA À VEJA


importante comentarista política Cristiana Lôbo, ela me
perguntava sobre fundos de pensão. E fiz uma reflexão que
vou transformar em projeto de lei, para apresentar
imediatamente, em cima dessa discussão. Os fundos de
pensão são os únicos instrumentos que os trabalhadores
brasileiros têm para participar da riqueza da sociedade e
para melhorar a proteção social para além da previdência
social, que é insuficiente. Então, entre os fundos de pensão,
há, por exemplo, o fundo de pensão dos trabalhadores do
Banco do Brasil, que é um patrimônio de mais de R$ 100
bilhões, talvez seja hoje o capitalista mais importante
nacional. É o fundo de pensão da Previ, com o maior
patrimônio histórico construído, 140 mil servidores que
contribuem para o fundo, e o Banco do Brasil, que contribui
agora com uma parcela menor. O que seria o grande avanço
nos fundos de pensão? Primeiro, paridade na gestão;
segundo, metade da diretoria eleita pelo voto direto; terceiro,
só pode ser diretor do fundo de pensão quem é funcionário
de carreira; quarto, o mandato é com tempo definido e não
pode ser renovado. Se fizermos uma lei com essas
características, não vamos resolver o problema da
corrupção, mas vamos melhorar muito o padrão de gestão e
vamos inibir práticas que precisam ser superadas no Brasil.
Apresentarei o projeto e espero contar com a colaboração de
Vossa Excelência. Por último: onde está minha divergência
fundamental com Vossa Excelência? Está na relação com o
Presidente Lula - e acho que a história, acho Vossa
Excelência vai ter que repensar politicamente a relação com
o Presidente Lula. Não é só porque é um conterrâneo de
Vossa Excelência: é porque ele foi vítima desse Estado. Lula
construiu toda sua história de vida lutando contra esse
Estado. Vítima, porque viveu na pobreza, não teve acesso à
escola, não teve acesso às condições que essa elite criou
para os seus filhos; porque teve que construir cada passo da

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A ENTREVISTA À VEJA


vida dele organizando os trabalhadores no sindicato, lutando
contra a ditadura, expondo-se em todos os sentidos, para
construir uma sociedade diferente. E esse é o sentido maior
do seu Governo. Não que não tenha problemas de corrupção
no Governo. Tem. Mas tem o compromisso dele de lutar
contra. Não que não tenha erros nesse Governo. Tem. Mas
tem o sentido histórico que é o que dá 84% de votos ao
Presidente. Não é verdade, Senador Jarbas, que o Governo
se reduz eleitoralmente ao Bolsa Família. Bolsa Família é um
programa que não permite corrupção, é um programa que
chega diretamente aos mais pobres, sobre o qual o Ipea diz
que distribui mais renda que o salário mínimo hoje, porque
vai diretamente, de forma republicana, àqueles que mais
precisam. Tem que ter uma porta de saída, e a porta de
saída é o emprego, a inclusão social e o crescimento
econômico; mas não há como ter uma resposta rápida à
pobreza que não seja pelo menos financiar uma bolsa para
os filhos poderem estudar. Acho que é reduzir. E a eficácia
desse programa está nos indicadores de distribuição de
renda, que são os melhores dos últimos cinco anos, de 60
anos da história do IBGE. Emprego, salário mínimo, Bolsa
Família são políticas que estão diminuindo a desigualdade
neste País, que tem um sentido histórico. Segundo, por ser
conterrâneo do seu Estado, o Presidente Lula está deixando
- e o eleitor reconhece isso, Vossa Excelência tem vivência,
tem uma grande liderança no Estado - o estaleiro em
Pernambuco, a refinaria, a Transnordestina, que são
projetos estruturantes, que mudam a qualidade histórica do
Estado. Por isso, acho que realmente Vossa Excelência, pela
história, pela luta e pela tradição, deveria ter uma relação
muito mais próxima ao Presidente Lula e, se Vossa
Excelência pegar todo o esforço que faz, sei que seu coração
está muito mais próximo do que a retórica que Vossa
Excelência faz na tribuna.

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A ENTREVISTA À VEJA


       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Senador, as nossas convergências permanecem bem maiores
do que nossas divergências. Respeito muito Vossa
Excelência e evidentemente não vou ter tempo agora, porque
é abusar da benevolência da Presidência, de contestar as
colocações do Programa Bolsa Família. Não que o Brasil não
precise de políticas compensatórias. Precisa, porque há
desnível, há um desnivelamento na população, seja social,
seja econômico, mas não dá para discutir isso agora. E os
investimentos em Pernambuco não foram deste Governo.
Este Governo foi fundamental para consolidá-los, ajudou a
trazê-los, inclusive, mas isso seria tema de uma outra
conversa, de um outro debate entre mim e Vossa Excelência.
Mas ressalto que as nossas convergências são bem maiores
do que as nossas divergências.
       Senadora Lúcia Vânia, e desculpe-me, porque a
senhora há muito tempo pediu o aparte.
       A Senhora Lúcia Vânia (PSDB – GO) – Senador
Jarbas, quero dizer a Vossa Excelência neste momento que,
quando li a entrevista e hoje ouvindo o discurso de Vossa
Excelência, reacendeu em mim a esperança: a esperança
nesta Casa, a esperança neste País. Eu esperava isso de
Vossa Excelência. Eu acompanho há muito tempo a sua
trajetória política e, quando Vossa Excelência chegou aqui,
neste Parlamento, passando por toda uma trajetória que
todos nós conhecemos, vimos como era aplicado nas suas
funções, vimos a sua presença constante aqui, neste
plenário, a sua presença importantíssima na Comissão de
Justiça. Vossa Excelência foi Relator das mais polêmicas
matérias naquela Comissão e Vossa Excelência, sempre
corajoso, colocava o seu ponto de vista, porque, às vezes,
havia divergências; mas Vossa Excelência defendia aqueles
pontos de vista com muita coerência e com muita convicção.
Quero dizer a Vossa Excelência que, quando o senhor coloca

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A ENTREVISTA À VEJA


aqui que, de repente, o mundo político vive privilegiando a
esperteza, em detrimento da inteligência, da competência e
do trabalho, Vossa Excelência tem toda a razão. É preciso
que pessoas competentes, pessoas inteligentes, dedicadas,
que tenham espírito público venham assumir posições como
esta que Vossa Excelência assumiu. Portanto, deixo aqui
minha solidariedade, deixo aqui minha admiração. Se era
tão grande, confesso a Vossa Excelência que, nesses dois
anos, eu torcia para que o senhor desse o tom aqui nesta
Casa. E deu o tom. Deu o tom do jeitinho que a gente
imaginava que poderia ser. Portanto, Vossa Excelência não
me decepcionou; pelo contrário, agora minha admiração é
dobrada. E pode contar com a minha presença, com o meu
voto, com a minha expectativa, com a minha lealdade a
todos os projetos que Vossa Excelência coloca como meios
para defender este País tão necessitado de alguém que tenha
o espírito público de Vossa Excelência.
      O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Muito obrigado, Senadora Lúcia Vânia. Eu que acompanho
sua luta na Comissão de Justiça, aqui no plenário, nas
comissões, percebo que Vossa Excelência tem sempre se
destacado pela desenvoltura, pela competência com que
apresenta e defende as suas propostas. Para mim, enriquece
muito meu discurso o seu aparte. E me deixa realmente
tocado no coração o depoimento que Vossa Excelência dá
sobre a minha atuação política.
      Ouço o nobre Senador Almeida Lima.
      O Senhor Almeida Lima (PMDB – SE) – Nobre
Senador Jarbas Vasconcelos, agradeço a Vossa Excelência
pelo aparte, pela possibilidade que me dá de participar
também deste debate, embora muitos já disseram parte
daquilo que eu gostaria de dizer. E quero, inclusive, fazer
minhas as palavras de nosso companheiro de Partido,
Senador Valter Pereira. Sem dúvida, ele sintetizou o meu

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A ENTREVISTA À VEJA


pensamento quanto às declarações de Vossa Excelência em
relação ao nosso Partido, o PMDB. A princípio, vi
exatamente como uma descortesia, deselegância de Vossa
Excelência na generalização, mas, diante das palavras de
Vossa Excelência há poucos instantes, no sentido de que
não generalizou para todo o Partido... É evidente que aqueles
que tiverem defesa a fazer que o façam. Evidente que aqui
falo em meu nome pessoal. Fiquei constrangido, contrariado
nesse aspecto. Mas sinto, neste instante, que estou
contemplado com as observações feitas por Vossa
Excelência, no sentido de que a generalização não diz
respeito ao PMDB. Até porque na entrevista de Vossa
Excelência, ao lhe perguntar se deixaria o PMDB, salvo
engano, Vossa Excelência disse que não porque não tinha
para onde ir. Aliás, partido nenhum com assento nesta Casa
do Congresso Nacional, que já esteve no poder de forma
direta ou indireta, pode ou tem autoridade política e moral
diante da Nação brasileira para dizer que é diferente do
PMDB. Ou seria o PT que iria dizer isso agora, como no
passado o disse? Evidentemente que não. Portanto, essa
questão partidária quero dar por encerrada. Quero
parabenizar Vossa Excelência quanto ao tema, a questão do
combate à corrupção. Embora possa aqui dizer, até com a
experiência de seis anos nesta Casa, que, por ocasião da
apresentação das propostas – e tenho certeza absoluta,
nobre Senador Demóstenes Torres –, muitos que se
solidarizaram com Vossa Excelência, ao longo de todos esses
dias, ao longo da entrevista e na sessão de hoje, vão negar-
lhe apoio para a aprovação de todas elas. Mas quero dizer a
Vossa Excelência que conta com o meu apoio. Inclusive com
uma proposta que apresentei, que preguei no deserto, desta
tribuna onde Vossa Excelência está neste instante. É a
proposta do orçamento exclusivo da União, uma proposta
contra a corrupção e o desperdício e a favor da Federação e

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A ENTREVISTA À VEJA


do Parlamento, que está aí. A CCJ já foi administrada por
diversos partidos e sequer relatada foi. Prevê exatamente
aquilo que Vossa Excelência disse, referindo-se ao
Orçamento da União como o antro maior da corrupção deste
País. Por essa proposta, nega-se o direito ao Senador e ao
Deputado de apresentar emendas para Estados e
Municípios, pois o objetivo é a transferência, incluindo no
FPM, no FPE, aquilo que os Estados e os Municípios têm por
direito, inclusive como decorrência das emendas, para que
elas não sejam objeto de negociata, dos 10%, dos 20%, que,
nós sabemos perfeitamente, é a prática existente neste País.
Essa é uma proposta que passarei às mãos de Vossa
Excelência assim que deixar a tribuna. Gostaria de não ver
esta Casa silenciar. Mas olha, Senador, quero concluir
agradecendo Vossa Excelência, parabeninzando-o por esta
iniciativa. E espero que o pronunciamento de Vossa
Excelência não seja mais um daqueles, a exemplo do meu,
pregando, na prática, para o deserto. Pois não podemos
compreender que uma proposta se encontra nesta Casa
desde 2003, quando aqui cheguei, obrigando a Justiça
eleitoral do País a julgar os processos antes da posse
daqueles que tiveram a sua eleição impugnada. Isso é
corrupção. Tenho uma proposta que está na Comissão de
Constituição e Justiça, sem relator, que prevê a pena não
apenas privativa de liberdade para o corrupto, mas a pena
pecuniária, que é a que mais vai doer no corrupto. Não
naquilo que foi objeto da corrupção, mas no seu patrimônio,
com aplicação de pena. Ela não foi apreciada, nobre
Senador. Portanto são inúmeras,...
       O SENHOR PRESIDENTE (Marconi Perillo. PSDB –
GO) – Senador Jarbas, com prazer, vou prorrogar, por mais
dez minutos, o tempo de Vossa Excelência, aguardando que
o Senador Almeida Lima possa concluir o aparte e
solicitando ao Senador Nery, ao Senador Heráclito Fortes,

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A ENTREVISTA À VEJA


nosso querido 1º Secretário, e ao Senador Mesquita que
possam também ser bastante sucintos.
       O Senhor Almeida Lima (PMDB – SE) – Agradeço a
Vossa Excelência, nobre Senador Jarbas Vasconcelos, pelo
aparte. Congratulo-me com Vossa Excelência, mas com
aquela ressalva que fiz quanto ao PMDB. Mas estou
plenamente contemplado. Aproveito exatamente esse
finalzinho para dizer que antes tarde do nunca. Isso é
dirigido ao nobre Senado Aloizio Mercadante, do PT de São
Paulo, que deveria ter apresentado a proposta a que se
referiu no início da gestão do Presidente Lula. Mas antes
tarde do que nunca. Terá o meu apoio, com certeza. Muito
obrigado a Vossa Excelência.
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Obrigado, Senador Almeida Lima. Vamos levar em conta e
analisar a proposta de Vossa Excelência.
       O Senador Geraldo Mesquita havia pedido primeiro,
Senador Heráclito Fortes.
       Senador Mesquita.
       O Senhor Geraldo Mesquita Júnior (PMDB – AC) –
Muito obrigado, Senador Jarbas.
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Inclusive, Vossa Excelência tocou no tema de que falei hoje
exaustivamente, que é a reforma política.
       O Senhor Geraldo Mesquita Júnior (PMDB – AC) – É
verdade, é verdade. Eu estava aqui esse tempo todo,
Senador Jarbas, refletindo. E é uma necessidade imperiosa
de refletirmos permanentemente. Fui um dos três
Parlamentares do PMDB que, logo após a entrevista de
Vossa Excelência, foram à tribuna falar sobre a referida
entrevista. E mais, tomei a iniciativa de escrever uma carta a
Vossa Excelência – respeitosa, como não poderia deixar de
ser –, pedindo encarecidamente que Vossa Excelência
esclarecesse os fatos com relação ao seu colega aqui.

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A ENTREVISTA À VEJA


Naquele momento, Senador Jarbas, eu tinha a noção exata
de que estaria trafegando numa linha muito delicada, numa
linha muito tênue. A minha intervenção e a carta que
formulei a Vossa Excelência poderiam ensejar interpretações
do tipo, por exemplo: “Isso é um ato de hostilidade contra o
Senador Jarbas?” E respondo, Senador Jarbas: Não. Foi um
ato de aflição. E uma outra interpretação possível, uma
outra ilação que poderia perfeitamente surgir em
decorrência da minha fala, da carta que enviei a Vossa
Excelência: o Senador Jarbas tocou numa ferida terrível no
nosso País, a corrupção; o Senador Geraldo é contra o
combate à corrupção? Claro que não, Senador Jarbas. Eu
sou parceiro de Vossa Excelência e de todo brasileiro que
tem a coragem de lutar contra a corrupção. Eu queria
apenas relatar para Vossa Excelência qual foi o sentimento
que me tomou. Antes da sua entrevista, eu havia feito uma
viagem ao meu Estado, meu querido Acre, especialmente
para visitar os prefeitos que nós havíamos acabado de
eleger. Eram quatro Prefeitos do PMDB. Confesso a Vossa
Excelência, Senador, que eu fiquei tocado com alguns
gestos, com algumas atitudes, de pessoas que eu já conhecia
há muito tempo, colegas e companheiros de Partido. Mas ali,
recebendo     uma     prefeitura,  as   quatro    prefeituras
endividadas, com problemas enormes. O Prefeito de Bujari,
por exemplo, o Padeirinho, levou-me onde estavam carros e
máquinas depredados, quebrados. Eu senti ali a aflição dele
em recuperar todo aquele patrimônio. O Padeirinho, Senador
Jarbas, levanta às 5 horas da manhã e vai para a linha de
frente de seus auxiliares na limpeza da sua cidade, atuando
e agindo pessoalmente em relação ao que ele entende
necessário um prefeito fazer. Fui lá para o Juruá e estive
com o Prefeito de Cruzeiro do Sul, com o Prefeito de
Marechal Taumaturgo, com o Prefeito de Mâncio Lima. Os
três também... Para Vossa Excelência ter uma idéia, Senador

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A ENTREVISTA À VEJA


Jarbas Vasconcelos, agora no Carnaval, o Prefeito Vagner
Sales, na companhia da sua esposa, que é Deputada
Estadual pelo PMDB, e do Secretário de Educação da sua
Prefeitura, passaram os quatro dias em um barco, subindo e
descendo o rio na sua região para saber a situação das
escolas rurais, para verificar o que poderia ser feito. Eu
voltei, Senador Jarbas, gratificado pelo que eu vi:
companheiros que estão em uma missão árdua de dirigir
pequenos Municípios do meu Estado, mas imbuídos do
maior espírito público que um administrador pode ter. Veja,
eu estou relatando isso para que Vossa Excelência entenda o
sentimento que me tomou naquele momento. Eu chego, abro
a revista e vejo a entrevista de Vossa Excelência. No
conteúdo, Senador Jarbas, eu já falei que Vossa Excelência
usou formas de falar sobre uma chaga no nosso País: a
corrupção. Estou com o senhor e não abro. Agora,
lembrando daqueles prefeitos, lembrando de dezenas,
centenas de companheiros lá do meu Estado, do PMDB, do
Presidente do PMDB jovem, por exemplo, o Wiliandro, um
menino dedicado, sabe, Senador Jarbas, eu me achei na
obrigação, como eu não sou dirigente partidário, como eu
não sou líder de nada, eu me achei na obrigação de, pela
minha pessoa, desagravar todos eles, cobrando de Vossa
Excelência justamente uma retificação na expressão que
Vossa Excelência usou. Eu considerei, Senador Jarbas, que
Vossa Excelência se valeu de uma generalização que eu
achei exagerada. E me senti ali, sabe, com o coração
apertado. Eu tenho um patrimônio material muito pequeno,
Senador Jarbas. Mas o patrimoniozinho que eu mais burilo –
todo o dia eu passo um paninho nele, porque é a coisa que
eu tenho mais sagrado para deixar para minha família, para
os meus filhos – é a minha honra, não é? Eu imaginei o que
deve ter passado na cabeça dos milhares de companheiros
do PMDB que prestam um grande serviço a este País, com

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A ENTREVISTA À VEJA


mandato ou não. E eu me senti na obrigação de ir para a
tribuna interpelá-lo, como disse, além da carta que enviei.
Eu estava tão determinado nessa linha de raciocínio,
Senador Jarbas, que hoje eu cheguei a ventilar a
possibilidade, tendo em vista que Vossa Excelência não me
respondia a carta, eu cheguei a mencionar, a ventilar a
possibilidade de interpelá-lo judicialmente, seja lá como
fosse. Eu queria uma resposta... Hoje, assisti a Vossa
Excelência dizer, mais uma vez, que não acrescenta nem
retira uma vírgula do que disse. Mas o seu pronunciamento
hoje foi de uma grandeza que faz tempo que a gente não vê
nesta Casa. Senador Simon é que disse que Vossa
Excelência é uma pessoa difícil. Mas, Vossa Excelência, hoje,
abriu as portas, escancarou as portas para uma grande
parceria neste País a partir da nossa Casa aqui, não é?
Senador, eu posso persistir no equívoco, se eu não tiver uma
segunda compreensão dos fatos. Hoje, eu tenho uma
segunda compreensão dos fatos. Hoje, eu tenho uma
segunda compreensão. E insistir neste equívoco para mim
seria desastroso, seria até uma burrice. Eu estou lhe
dizendo aqui de público, com toda a humildade, que
realmente cheguei a querer, assim, ansiosamente, uma fala
de Vossa Excelência com relação à minha pessoa. Mas, olhe,
o seu discurso foi claro. Eu não necessito mais dessa
resposta. Peço até que Vossa Excelência me devolva a carta.
Declaro aqui de público o meu propósito de esquecer a
intenção de interpelá-lo judicialmente porque, diante da
grandeza, diante da compreensão do que Vossa Excelência
coloca para esta Casa, eu acho e repito com toda a
honestidade: Vossa Excelência, no conteúdo, acertou. Mas,
naquele momento, eu compreendi que, na forma, Vossa
Excelência talvez tenha exorbitado aqui e acolá. Eu peço a
Vossa Excelência que me devolva a minha carta. Eu estou
contemplado e digo aqui de público que não persistirei no

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A ENTREVISTA À VEJA


propósito de interpelar esse grande companheiro que é o
nosso colega de Partido Senador Jarbas Vasconcelos.
Obrigado pela possibilidade do aparte.
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Senador Geraldo Mesquita, Vossa Excelência foi um dos
primeiros Senadores com quem eu tive contato quando aqui
cheguei. É evidente que jamais faria um julgamento, um
pensamento, uma análise de Vossa Excelência, incluindo-o
numa lista de pessoas sob suspeita, sob prática de
corrupção. Não tive pressa de procurá-lo, de telefonar-lhe,
porque achei despropositada a sua iniciativa. Brevemente eu
o procuraria para lhe dar uma satisfação, até porque fiquei
com a consciência de que falei em grande parte do PMDB e
nessa outra parte eu não poderia incluí-lo.
       De forma que farei isso. Devolverei a carta que recebi e
que está em cima do meu bureau, e manterei com Vossa
Excelência o mesmo relacionamento respeitoso e de amizade
que tenho desde que aqui cheguei.
       Ouço o Senador Heráclito Fortes.
       O Senhor Heráclito Fortes (DEM – PI) – Senador
Jarbas Vasconcelos, não sabe Vossa Excelência a minha
aflição de não poder estar presente no pronunciamento de
Vossa Excelência como um todo – eu tinha compromisso na
1ª Secretaria e tive que honrá-los. Mas acompanhei não só a
fala de Vossa Excelência, como também a maioria dos
apartes. E quero dizer que este depoimento que dou aqui
poderá não servir no elenco de aparteadores brilhantes que
fizeram uso da palavra nesta tarde, mas, pelo menos, me
deixa com a consciência livre de que cumpri um dever: o
dever de dar um depoimento sobre um Parlamentar que
conheci e que é da minha geração política, embora com
pequenas variações de idade que não vêm ao caso. Tivemos
um início de carreira na qual tive o privilégio de o
acompanhar, eu, como estudante em Pernambuco, e Vossa

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A ENTREVISTA À VEJA


Excelência, em 1970, na primeira eleição de Deputado
Estadual. A admiração por Vossa Excelência, ao longo desta
vida, ela tem sido crescente, pelo comportamento como
Prefeito de Recife duas vezes, como Governador. Aliás, Vossa
Excelência, Prefeito de Recife, eu, neófito na atividade em
Teresinha, recebi orientações de Vossa Excelência
fundamentais. Eu, inclusive, o acompanhei como Presidente
do Partido, do PMDB, na campanha de Ulysses Guimarães
quando, quase que solitariamente, nós percorremos o Brasil
inteiro, de ponta a ponta, defendendo, com muita convicção,
a candidatura daquele extraordinário brasileiro. E a
convivência aqui neste plenário, para mim, é privilegiada
porque somos vizinhos e eu vejo o dia-a-dia do
comportamento de Vossa Excelência. A sua angústia com o
estado de coisas neste País não é de agora. Uma frase
repetida na entrevista “não sei o que eu vim fazer aqui”, eu
ouvi de Vossa Excelência muitas vezes, angustiado com a
paralisia do Parlamento e, acima de tudo, com a queda da
imagem e da qualidade dos trabalhos desta Casa. De forma
que, para alguns, o pronunciamento de Vossa Excelência
pode ter sido uma novidade, pode ter sido uma surpresa,
mas para quem conhece o seu caráter e o seu
temperamento, foi uma consequência de tudo isso. Espero
que, diferentemente dos desvios impostos por alguns, ele
tenha, Senador Marco Maciel, um caráter pedagógico.
Espero que não o Partido de Vossa Excelência mas os
Partidos brasileiros tenham tirado do seu desabafo, da sua
entrevista, uma lição e que nós possamos corrigir essa rota
ladeira abaixo que a atividade pública no Brasil vem
tomando há alguns anos. Senador Jarbas Vasconcelos,
estamos aqui há dois anos, de maneira impotente, tentando
melhorar a qualidade, por exemplo, de uma atividade que é
fundamental para o País que são as ONGs, as Oscips e
derivados. E a base do Governo, poderosa, coloca qualquer

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A ENTREVISTA À VEJA


tentativa de apuração dos fatos para debaixo do tapete sem
querer apurar fatos gravíssimos que desviam recursos da
Nação, prejudicando um setor que merece de todos nós o
apoio, o estímulo e o incentivo. Os fundos de pensão são
vetores de corrupção neste País há muito tempo, e não um
fato localizado. Não é o Real Grandeza. É preciso que seja
passada a limpo essa questão, mas o ideal seria que o
Executivo, ao tomar conhecimento desses fatos, tomasse
providências e não estimulasse, por meio de escolhas muitas
vezes inadequadas, pessoas para geri-los. Senador Marco
Maciel, Vossa Excelência sabe que, se tivéssemos tido a
coragem de aprovar o orçamento impositivo, teríamos tirado
desta Casa metade dos lobistas que campeiam e são
conhecidos de todos nós, porque esse orçamento, da
maneira que está, nada mais é do que um incentivo e um
estímulo ao balcão de negócios. Louvo a iniciativa do
Senador Almeida Lima e de todos aqueles que querem fazer
com que esse orçamento seja impositivo, a favor da Nação,
do Estado, do Município, porque o que nós estamos vendo,
Senhor Senador Jarbas Vasconcelos, são os Municípios
empobrecendo pela centralização do poder, as obras
comandadas pelas grandes empreiteiras, que não se
interessam no benefício específico dos pequenos Municípios
brasileiros, porque o deslocamento de máquina e de pessoal
é nocivo aos seus interesses e ao ganho fácil. Acho que o
pronunciamento de Vossa Excelência pode ter sido um
alerta positivo a este País. Meu caro Senador Pedro Simon,
na semana passada, o Conselho Nacional de Justiça
instalou-se no meu Estado, o Piauí, e foi uma lavagem de
roupa das mais inesperadas possível. E não quero entrar no
valor das denúncias, quem tem razão ou quem não tem, mas
membros do Judiciário piauiense sendo denunciados,
advogados sendo denunciados. A figura do precatório, como
está colocada, as tutelas antecipadas são focos de corrupção

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A ENTREVISTA À VEJA


neste País, Senador Simon, que precisam urgentemente de
uma revisão. Portanto, eu espero pela força que Vossa
Excelência tem de catalizar a opinião pública – e já o fez.
Essa matéria, a entrevista de Vossa Excelência, tem quinze
ou vinte dias, tem tido uma repercussão crescente e é bom
que não arrefeça. É preciso que alerte e acorde os homens
que têm realmente vocação para o serviço público neste
país.   Seria bom que nessa hora, finalizando, Senhor
Presidente, o Executivo se mirasse, pelo menos nesse caso
recente, na ação promovida pelo Senado, de afastamento de
um diretor, no momento em que pairam dúvidas sobre uma
atitude dele, embora que em sua vida pessoal, e o Executivo
veja que não é bom ficar estimulando e protegendo os
aloprados, os aloprados que se sentem imunes e cada dia
avançam na técnica de invadir os cofres públicos brasileiros.
Parabéns a Vossa Excelência.
      O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Muito obrigado.
      O Senhor Mão Santa (PMDB – PI) – Senador Jarbas,
para encerrar, o último aqui.
      O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Senador, o Senador José Nery era quem iria.. (Pausa.).
Pois não, Senador Mão Santa.
      O Senhor Mão Santa (PMDB – PI) – Senador Jarbas
Vasconcelos, por isso que Rui Barbosa está ali. Eu li, como
todo o Brasil, a reportagem. Rui Barbosa está ali porque
disse sinteticamente isso que está ocorrendo. Vamos fazer
nossas as palavras de Rui: “De tanto ver triunfar as
nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver
crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes
nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude,
a rir-se da honra, e ter vergonha de ser honesto”. E
terminaria com o nosso partido, mostrando a grandeza
daquele que foi companheiro e que nos liderou e está

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A ENTREVISTA À VEJA


encantado no fundo do mar, que disse: ”A corrupção é o
cupim que corrói a democracia”. Então, Vossa Excelência
reviveu, a seu modo, com seu linguajar próprio de
nordestino, sofrido, o que pensou Rui e o que nos guiou o
nosso Ulysses Guimarães.
       O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Muito obrigado, Senador Mão Santa pela participação neste
meu discurso.
       Com muita honra, ouço, para encerrar, o Senador
José Nery.
       O Senhor José Nery (PSOL – PA) – Senador Jarbas
Vasconcelos, em primeiro lugar, quero expressar meu apoio
às contundentes declarações e ao pronunciamento tão
vigoroso que Vossa Excelência faz no dia de hoje, marcando,
na verdade, o início dos trabalhos legislativos. Porque, por
mais que esta Casa tenha retornado àquilo que seria sua
atividade normal há um mês e dois dias, não fizemos até
aqui nada de relevante que mereça registro como merece o
forte posicionamento de Vossa Excelência, em que traça
uma radiografia da situação política do País, da insanidade,
ou melhor, do câncer que se instaurou há muito tempo nas
instituições públicas, com o conluio das instituições e
empresas privadas, que é o câncer da corrupção. Três dias
após a entrevista que Vossa Excelência concedeu à revista
Veja, a Bancada do nosso Partido, o PSOL, composta por
mim e três Deputados federais, se dirigiu a Vossa Excelência
para, primeiramente, manifestar solidariedade por trazer à
luz do dia um tema que necessita de tratamento vigoroso,
permanente, vigilante de todos, da sociedade brasileira, mas,
especialmente, do Congresso Nacional; e em segundo lugar,
para manifestar a Vossa Excelência certo desconforto,
porque     Vossa   Excelência,   na    firmeza    dos    seus
posicionamentos, classificou todos os Partidos como sendo
de alguma forma parte desse jogo sujo que emporcalha, que

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A ENTREVISTA À VEJA


envergonha a política, por conta do envolvimento com
corrupção. Dissemos a Vossa Excelência, num diálogo muito
franco, aberto e fraterno, que nós somos um Partido muito
pequenininho, estamos renascendo e reconstruindo o sonho
da luta socialista, de um Partido comprometido com a ética,
com a verdade, com a seriedade no trato da coisa pública,
com a construção de uma verdadeira alternativa que
signifique um novo modelo de desenvolvimento para o País
que privilegie os pequenos trabalhadores e o povo, ao
contrário dos projetos que só tratam de criar cada vez mais
um fosso entre os que têm tudo, que é uma minoria, e a
grande maioria que vive às custas do trabalho no
subemprego, na miséria, vítimas da violência na cidade e no
campo. Nós colocamos o desafio de recomeçar, acreditando
que, na política, tudo pode ser diferente. Obtivemos de
Vossa     Excelência,   naquele      diálogo,   o    importante
compromisso conjunto de trabalharmos pela organização de
um movimento, de uma frente parlamentar que envolvesse
setores da sociedade civil brasileira, para fortalecer a luta e o
combate contra a corrupção neste País, movimento e
iniciativa que contam com o nosso apoio e incentivo. Mas é
fundamental realizar, conforme Vossa Excelência tão bem se
expressou, a reforma política como a mãe de todas as
reformas, dita e reconhecida por todo este Plenário, pela
Câmara dos Deputados e pelo Executivo, mas que não tem
coragem de realizá-la efetivamente, porque, se feita da forma
como precisamos, ela vai ferir interesses – e muitos daqueles
usufruem as benesses do Poder Público e da corrupção, se
atendidas as exigências de uma legislação que vá à raiz do
problema, evitando com que a corrupção eleitoral, aquela da
compra do voto, do financiamento privado de campanha, em
que os eleitos, muita vez, pagam os favores ou apoio com o
dinheiro público nas licitações fraudulentas, na corrupção
desenfreada. Então, é necessário, de tudo o que o senhor

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A ENTREVISTA À VEJA


aqui expressou nesta tarde e neste início de noite,
apontarmos claramente quais são os temas da reforma
política; definir uma agenda clara de alguns pontos
imprescindíveis sobre os quais não podemos tergiversar, no
sentido de trabalharmos para aprovar, em 2009, o
financiamento público de campanha; impedir o registro de
candidatura dos que têm ficha suja; trabalhar pelo fim do
sigilo fiscal de todos os mandatários do País, do Vereador ao
Presidente da República; trabalhar pelo fim do foro
privilegiado para autoridades, e outros temas. Creio que
temos de fazer em uma ordem de prioridade porque, se nós
formos abordar todos os aspectos da reforma política que
queremos, talvez não consigamos votar matéria nenhuma
este ano. Portanto, definir prioridades, engajar a sociedade
brasileira, os partidos e os seus Parlamentares aqui, no
Congresso Nacional, nessa agenda comum contra a
corrupção, identificando quais situações e fatos merecem a
apuração através de Comissão Parlamentar de Inquérito;
quais os fatos que devemos levar ao conhecimento do
Ministério Público Federal para a devida apuração, ao
Tribunal de Contas da União, sob pena de esse clamor da
sociedade, expresso e detonado pela entrevista, pelo
pronunciamento de Vossa Excelência, que aqui teve o
acompanhamento, a solidariedade, o questionamento, o
apoio da maioria deste Plenário, para que essa iniciativa,
que considero brilhante e relevante, produza efeitos práticos
e concretos. De modo que daqui a um ano nós possamos
celebrar, junto com o povo brasileiro, que ainda acredita que
a política pode ser tratada de forma correta e justa, algumas
vitórias, com a participação de cada um dos representantes,
os Parlamentares de cada partido, no Congresso e no
Senado Federal, a fim de que possamos iniciar esse
movimento e nos comprometermos de fato para votar as
medidas. E que fique bem claro para todos os brasileiros e

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A ENTREVISTA À VEJA


brasileiras quem, de fato, está comprometido a combater a
corrupção em toda a sua extensão e profundidade e quem
faz aqui discurso da boca para fora. Porque, infelizmente,
Vossa Excelência sabe...
       O SENHOR PRESIDENTE (Marconi Perillo. PSDB –
GO) – Senador José Nery, por favor...
       O Senhor José Nery (PSOL – PA) – Só um minuto,
Senhor Presidente, eu vou concluir em um minuto, em
respeito ao tempo, dizendo a Vossa Excelência, claramente,
que normalmente o pessoal que é pequenininho às vezes fala
por último. Mas eu creio que, sob esse aspecto, para mim é
até uma homenagem ter de ficar aqui para ouvir o Senador
Jarbas Vasconcelos e todos que o apartearam, sob a
Presidência de Vossa Excelência. Para mim é um motivo de
satisfação, e mesmo que, ao final, não tenha o tempo
concedido à maioria dos meus colegas, compreenderei. Sei
que o fundamental aqui é fazer com que este tema não seja
esquecido, que daqui a uma semana, daqui a um mês,
estejamos tratando destes aspectos, das medidas
legislativas, dos processos que devem ser abertos para
investigar todos os envolvidos em corrupção neste País. Que
o País possa voltar a orgulhar-se de seus representantes.
Hoje, infelizmente, a maioria da população não tem o
respeito que deveria ter pelos políticos. Muitas vezes, nós
não nos fazemos respeitar porque alguns acabam se
envolvendo em práticas criminosas. Às vezes o mandato
serve, inclusive, para promover, manter e garantir a
impunidade. Parabéns a Vossa Excelência. O Brasil orgulha-
se deste momento. Nós aqui, como seus companheiros,
vamos enfrentar esse tema para que, enfim, daqui a algum
tempo, comemoremos algumas vitórias. Parabéns a Vossa
Excelência e a todos que participaram desta brilhante
discussão.



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A ENTREVISTA À VEJA


      O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Muito obrigado, Senador José Nery. Foi muito importante o
seu depoimento, o depoimento do seu Partido...
      O SENHOR PRESIDENTE (Marconi Perillo. PSDB –
GO) – Senador Jarbas, antes de Vossa Excelência concluir,
eu queria também falar.
      O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
...combatendo a corrupção, cunhando uma frase que para
mim é fundamental: a gente tem que definir prioridades.
Assim como o Executivo – eu fui Prefeito e Governador, era
fundamental que fossem definidas as prioridades –, o
Congresso e o Senado também têm que definir as
prioridades. E essa prioridade hoje, a primordial,
fundamental, é a reforma política. Sem ela a gente não vai a
lugar nenhum.
      A luta contra a corrupção não pode ser só minha, de
um grupo de pessoas, não pode ser de uma entidade; ela
tem de ser do conjunto da sociedade. Quanto maior for a
pressão, mais a gente terá condições de combater a
impunidade, e, combatendo a impunidade, podemos, se não
vencer, enquadrar num espaço menor a corrupção no País.
      Presidente, obrigado pela sua grandeza, pois sem a
sua benevolência e tolerância, não só comigo, mas com meu
discurso foi possível o debate com toda a Casa. Vossa
Excelência permitiu, prorrogou várias vezes, não ficou
agarrado ao Regimento, não ficou olhando o relógio, nem
ficou maltratando os tímpanos tocando a campainha a todo
instante. Foi fundamental a presença de Vossa Excelência,
com a sua sensibilidade, para que este debate fosse
promovido e a gente pudesse fazer alguma coisa. E isso não
é de uma pessoa só, mas de um conjunto de pessoas e de
entidades na luta contra a corrupção no Brasil.
      Ouço Vossa Excelência e Vossa Excelência encerra o
meu discurso.

                                                          92
A ENTREVISTA À VEJA


      O SENHOR PRESIDENTE (Marconi Perillo. PSDB –
GO) – Senador Jarbas Vasconcelos, eu tive a sorte de
presidir esta sessão histórica, este discurso histórico de
Vossa Excelência. Já são 2 horas e 50 minutos de
pronunciamento e apartes. Fiz isso de forma propositada,
porque dei meus primeiros passos na vida pública inspirado
por homens públicos da estirpe de Vossa Excelência, de
Ulysses Guimarães, de Mário Covas, de José Serra e de
tantos outros grandes brasileiros, como Teotônio Vilela, que
sempre lutaram para honrar e dignificar a atividade pública,
a atividade política; que lutaram pela democracia, pela
redemocratização do País e, principalmente, por princípios
morais e éticos. Tive a sorte de ser alçado à Presidência
Nacional da Juventude do PMDB quando Vossa Excelência
estava no exercício da Presidência do PMDB, na ausência do
Presidente Ulysses Guimarães.
      O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Que era candidato à Presidência da República.
      O SENHOR PRESIDENTE (Marconi Perillo. PSDB –
GO) – Eu acompanho essa luta há muitos anos. Percorri
também o Brasil ao lado dele. De modo que eu gostaria de
dizer que toda essa temática trazida aqui hoje pelo
pronunciamento, de grande conteúdo, de Vossa Excelência
tem também o apoio deste Vice-Presidente, agora no
exercício da Presidência: Lutar pela reforma política, como
Vossa Excelência bem disse, que é a mãe de todas as
reformas. Eu também penso assim. Lutar pela reforma do
modelo de elaboração dos Orçamentos da União, dos
Estados e dos Municípios. Lutar contra a impunidade,
porque a certeza da impunidade é que faz com que todas
esses atos e práticas políticas prevaleçam no Brasil. Esses
temas todos têm o apoio deste 1º Vice-Presidente do Senado,
agora no exercício da Presidência. Foi por essa razão e por
muitas outras, tendo sido seu colega como Governador por

                                                          93
A ENTREVISTA À VEJA


oito anos, tendo tido a oportunidade de condecorá-lo com a
mais alta comenda do meu Estado, tendo acompanhado a
sua vida pública, a sua trajetória, republicana, limpa e
isenta, que fiz questão absoluta de ouvir e de prestigiar este
pronunciamento de quase três horas. Parabéns a Vossa
Excelência. Vamos ouvir, daqui a pouco, a palavra do Líder
do Governo, que vai fazer a resposta. Também vou ler o
comunicado de Vossa Excelência.
      O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Muito obrigado.
      O SENHOR PRESIDENTE (Marconi Perillo. PSDB –
GO) – Senador Jarbas Vasconcelos, parabéns! Foi uma
honra ter presidido esta cerimônia.
      O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) –
Muito obrigado, Senhor Presidente, Marconi Perillo.
      Com sua ajuda foi possível esse debate.




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A ENTREVISTA À VEJA




           O QUE DISSERAM SOBRE JARBAS




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A ENTREVISTA À VEJA




                      “JARBAS CONTA TUDO”




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A ENTREVISTA À VEJA




“JARBAS CONTA TUDO”
 “Veja” – Carta ao Leitor (14 Fevereiro de 2009)



       É enorme o peso que tem em um processo judicial o
depoimento de uma testemunha ocular. Esse tipo de relato,
quando dado de boa-fé e sem inconsistências, é decisivo na
formação do veredicto. Na política, os testemunhos de
personagens com intimidade com os fatos que revelam são
igualmente poderosos. O processo que culminou com o
impeachment do presidente da República Fernando Collor,
em 1992, começou com um desses depoimentos, a
espantosa entrevista que seu irmão concedeu a VEJA em
maio daquele ano e que foi estampada na capa com a
chamada "Pedro Collor conta tudo". A Carta ao Leitor
daquela edição tinha o título "Depoimento que não se pode
ignorar". Não foi. Dezenove semanas depois das revelações
do irmão a VEJA, Collor deixava a Presidência. As Páginas
Amarelas desta semana trazem um conjunto de revelações
feitas pelo senador Jarbas Vasconcelos ao repórter Otávio
Cabral, 37 anos, quatro dos quais na sucursal de Brasília.
Elas constituem um depoimento que também não se pode
ignorar.
       Com 43 anos de política dedicados primeiro ao antigo
MDB e depois ao PMDB, duas vezes governador de
Pernambuco, Jarbas Vasconcelos relata com a eloquência
das testemunhas oculares que seu partido, hoje detentor
das presidências do Senado e da Câmara, é uma
agremiação que se move apenas por "manipulação de
licitações, contratações dirigidas e corrupção em geral".
       A entrevista de Jarbas Vasconcelos a VEJA não deixa
muitas opções a seus colegas de partido e, por


                                                         97
A ENTREVISTA À VEJA


consequência, ao Congresso: processam o senador por falta
de decoro parlamentar, imolam-se em praça pública ou
vestem a carapuça e começam a mudar seu
comportamento. O Brasil precisa acompanhar muito de
perto o desenrolar do depoimento do senador a VEJA. Ele
tem tudo para ser o motor de um profundo e histórico
processo de limpeza da vida pública brasileira.




                                                        98
A ENTREVISTA À VEJA




                      “GRANDE JARBAS!”




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A ENTREVISTA À VEJA




“GRANDE JARBAS!”
Lucia Hippolito (14 de Fevereiro de 2009)



      Aqueles que acompanham este blog sabem que não
tenho por hábito reproduzir textos alheios.
      E por uma razão muito simples. Este é um blog de
opinião, não é um site de notícias.
      Mas      não     posso     desconhecer    um       dos
pronunciamentos mais importantes dos últimos tempos: a
entrevista do senador Jarbas Vasconcelos (PDMB-PE) à
revista Veja.
      Jarbas é homem sério, ético. Sua trajetória política o
credencia como um dos mais relevantes políticos
brasileiros. Jarbas é o que permanece do MDB do dr.
Ulysses (OK, abro espaço para o senador Pedro Simon e
para o prefeito José Fogaça).



Lucia Hippolito       é   cientista   política,   historiadora   e
jornalista.




                                                                 100
A ENTREVISTA À VEJA




                      “É PRECISO TER COERÊNCIA”




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A ENTREVISTA À VEJA




“É PRECISO TER COERÊNCIA”
Jorge Bastos Moreno (16 de Fevereiro de 2009)



       Jarbas Vasconcelos é herdeiro político de Ulysses
Guimarães.
       Expulsá-lo significa tirar a foto de Ulysses que
ornamenta o gabinete da presidência do PMDB.
       Aliás, aquele quadro com a foto de Ulysses me faz
lembrar o primeiro encontro que tive com ele. Disse-Me ele
sobre os traidores da legenda que votavam a favor da
ditadura:
       - O programa do partido não deve ser feito santo de
bordel.
       Tímido, estudante ainda do primeiro ano do curso de
Comunicação da Universidade de Brasília, eu estava ali
diante do maior líder da oposição à ditadura.
       - Doutor Ulysses, desculpe-me, mas não entendi.
       E ele:
       O amigo, quando jovem – aliás, você é ainda um
jovem, nunca foi na “Zona”?
       E eu, mais tímido ainda, e de cabeça baixa, sussurrei:
       - Já.
       - O amigo nunca reparou que no quarto de toda a
prostituta existe um santo na cabeceira da cama?
       Fiquei estupefato: o sisudo, austero e formal
presidente do PMDB estava ali falando de saliência comigo!
Ulysses nunca foi homem de dar intimidade para ninguém.
Este foi com certeza a única conversa mais saliente que
tivemos. Mas até nisso ele não era vulgar. Na verdade,
estava me decifrando, como um professor, o significado de
uma frase.


                                                          102
A ENTREVISTA À VEJA


       - Pois é, meu caro, elas fazem de tudo com o cliente
ali na frente do santo. Quando o cliente sai, ela vai e acende
uma vela para o santo.
       E, como se estivesse em palanque, gritou batendo na
mesa:
       - O PMDB não pode ser um santo de bordel!
       Desde esse dia, mesmo iniciando na cobertura
política, decidi que, se um dia fosse escrever um livro sobre
a minha experiência profissional, daria um título “Santo de
Bordel”!
       Ulysses Guimarães, hoje, com a foto estampada na
sede do PMDB, parece um santo de bordel.

Jorge Bastos Moreno é jornalista.




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A ENTREVISTA À VEJA




                      “JARBAS FAZ SEU LANCE”




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A ENTREVISTA À VEJA




“JARBAS FAZ SEU LANCE”
Ricardo Noblat (16 de Fevereiro de 2009)



       “Você sabe o que vai acontecer, Jarbas?” —
perguntou no último sábado, por telefone, o senador
Demóstenes Torres (DEM-GO) ao seu colega Jarbas
Vasconcelos (PMDB-PE), personagem da mais devastadora
entrevista dada por um político nos últimos dez anos. “Não
sei”, respondeu Jarbas. “Eu lhe digo: não vai acontecer
nada”, concluiu Demóstenes.
       O mínimo que Jarbas disse foi que o PMDB é
corrupto.
       Caciques do partido trocaram telefonemas no fim de
semana avaliando a conveniência de rebater a entrevista
publicada pela “Veja”.
       Descartaram de pronto a ideia de abrir um processo
para expulsar Jarbas do PMDB. Ele sairia como herói aos
olhos do distinto público, que tem os políticos na mais baixa
conta.
       Mas a quem caberia responder a Jarbas? A Michel
Temer, presidente do partido e da Câmara dos Deputados?
Jarbas não o mencionou.
       Concentrou suas críticas no PMDB do Senado. José
Sarney (AP), um dos seus alvos, está arrasado. Talvez escale
a filha Roseana para responder a Jarbas. A resposta oficial
do PMDB deve se limitar a uma sugestão para que Jarbas
pegue seu mandato e vá embora.
Fundador do antigo MDB, duas vezes prefeito de Recife e
duas governador de Pernambuco, Jarbas disse à “Veja” o
que um político jamais teve coragem de dizer sobre seu
próprio partido. “Hoje, o PMDB é um partido sem bandeiras,


                                                           105
A ENTREVISTA À VEJA


sem propostas, sem um norte. É uma confederação de
líderes regionais (...), sendo que mais de 90% deles praticam
o clientelismo, de olho principalmente nos cargos”,
espicaçou.
       E por que o PMDB quer cargos? — perguntou-lhe o
repórter Otávio Cabral. “Para fazer negócios, ganhar
comissões.
       Alguns ainda buscam o prestígio político. Mas a
maioria dos peemedebistas se especializou nessas coisas
pelas quais os governos são denunciados: manipulação de
licitações, contratações dirigidas, corrupção em geral.
       A corrupção está impregnada em todos os partidos.
Boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção”.
       A eleição de Sarney para presidente do Senado foi
definida por Jarbas como “um completo retrocesso”, fruto
de uma ação constrangedora.
       O que esperar depois disso? “Sarney vai transformar o
Senado em um grande Maranhão”, aposta Jarbas.
       Que bateu também no Senado e em outras figuras
carimbadas do PMDB, como o senador Renan Calheiros
(AL), futuro líder do partido.
Sobre o Senado: “Às vezes eu me pergunto o que vim fazer
aqui. O nível dos debates é inversamente proporcional à
preocupação com benesses.
       É frustrante”. Sobre Renan: “Ele não tem nenhuma
condição moral ou política para ser senador, quanto mais
para liderar qualquer partido. É o maior beneficiário desse
quadro político de mediocridade em que os escândalos não
incomodam mais e acabam se incorporando à paisagem”. É
claro que sobrou também para o governo e Lula. “Um
governo que deixou a ética de lado, que não fez as reformas
nem fez nada pela infraestrutura, agora tem como bandeira
o PAC, que é um amontoado de projetos velhos reunidos em
um pacote eleitoreiro”, atirou. Quanto a Lula, “ele fez a

                                                           106
A ENTREVISTA À VEJA


opção clara pelo assistencialismo. O Bolsa-Família é o maior
programa oficial de compra de votos do mundo.”
       A entrevista de Jarbas deve ser analisada à luz da
situação que ele vive no Senado e da eleição presidencial de
2010. Jarbas está isolado dentro da bancada de 20
senadores do PMDB. Ninguém o escuta. Nem mesmo Pedro
Simon (RS), que outrora foi capaz de reagir indignado diante
de imoralidades.
       Simon jogou a toalha. Acomodou-se. É apenas uma
fotografia na parede.
       Enquanto de cima do muro a maioria dos senadores
do PMDB observa a evolução dos aspirantes à vaga de Lula,
Jarbas apóia desde já um deles — José Serra (PSDB). O que
ele disse à “Veja” repete há mais de um ano dentro e fora do
Congresso. Foi um desabafo. Mas houve cálculo político por
trás dele. Serra gostaria de ter Jarbas como seu vice. Se
Jarbas puder sair do PMDB sem perder o mandato...
       Olha aí: formou.



Ricardo Noblat é jornalista.




                                                          107
A ENTREVISTA À VEJA




                 “VERDADE INCONVENIENTE”




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A ENTREVISTA À VEJA




“VERDADE INCONVENIENTE”
Dora Kramer (17 de Fevereiro de 2009)



       A entrevista do senador Jarbas Vasconcelos à revista
Veja é um registro de esgotamento. Daqueles momentos em
que o ser humano perde a paciência, por algum motivo
resolve pagar para ver sem medir de imediato as
consequências, diz verdades da mais alta inconveniência e
cria situações que podem levar a rupturas benéficas ou ao
reforço de pactos maléficos. A intenção inicial nem sempre
combina com o resultado final. Tudo depende de adesão da
sociedade e das instituições. Na história recente da política
há dois momentos assemelhados.
       Em 1992, Pedro Collor não queria derrubar o irmão
Fernando da Presidência da República quando na mesma
revista Veja deu entrevista materializando os boatos que
corriam em Brasília havia dois anos e contou quase tudo
sobre o esquema de corrupção comandado por Paulo César
Farias, o tesoureiro do presidente.
       Em 2005, o então deputado Roberto Jefferson não
pretendia muito mais que manchar o manto de vestal do PT
por causa de problemas de partilha e nem de longe pensava
em pôr seu mandato a prêmio quando deu uma entrevista
à Folha de S.Paulo assumindo o que já fora duas vezes
denunciado e desmentido: que a direção o PT comandava
um sistema de financiamento público dos partidos em troca
de apoio no Congresso.
       Nos dois casos, a primeira reação dos acusados, seus
aliados e o entorno de inocentes (in) úteis que preferem as
versões oficiais aos próprios olhos e ouvidos foi a de exigir
"provas" contundentes. Corrupção por escrito, com certidão


                                                           109
A ENTREVISTA À VEJA


passada em cartório do céu. Não fosse a ação firme de
alguns setores, pessoas e instituições, as denúncias teriam
sido atribuídas a intenções escusas dos denunciantes e
nada do que se soube a respeito de ambos os episódios
teria sido do conhecimento público.
       A entrevista de Jarbas à revista Veja estende aos
políticos de bem uma tábua de salvação.
       Agora, diante do desabafo do senador Jarbas
Vasconcelos, reproduzindo em gravador fatos notórios e
sobejamente sabidos, esboça-se uma reação parecida.
Provas, nomes, documentos, clamam o que Nelson
Rodrigues chamava de idiotas da objetividade. Isso, falando
dos só equivocados, porque a eles se juntam de carona os
mal-intencionados falando em "generalizações" cujas
particularidades conhecem em detalhes. Depois do silêncio
de 24 horas, a direção do PMDB se reuniu e decidiu
oficialmente tentar "esvaziar" as declarações do senador.
       Dar a elas um caráter pessoal, deixar que se lancem
sobre ele algumas desconfianças, quando nada de que fala
por ser ranzinza, uma voz isolada no partido, talvez por isso
em busca de alguma notoriedade, um homem a quem não
se deve dar atenção, um político na contramão da história
tal como é contada nesses dias de supremacia da fama e da
popularidade sobre o mérito e o respeito.
       O senador Jarbas Vasconcelos nada acrescentou, a
não ser sua assinatura, a tudo o que todos os dias é
repetido para o conhecimento do público. A eleição de José
Sarney para a presidência do Senado foi tachada de
retrocesso na imprensa nacional e internacional. O
fisiologismo do partido é assumido. Foi o próprio presidente
do PMDB quem disse que na próxima eleição ele ficará
parte com o governo, parte com a oposição.
       O    PMDB     é   tratado    permanentemente      com
desqualificação e não se opõe a isso. Simplesmente parou

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A ENTREVISTA À VEJA


de argumentar contra os fatos. No máximo, quando eles
ameaçam suas posições na administração federal, luta
pelas posições, nunca para corrigir os fatos. Acabou de
acontecer, em proporções reduzidas, o mesmo com o
ministro da Saúde, José Gomes Temporão, que apontou a
gestão corrupta e ineficaz de seu partido na Fundação
Nacional de Saúde.
      Foi tratado como um desgarrado, indisciplinado,
boquirroto e intolerante, quando foi apenas covarde por ter
aceitado dar o dito pelo não dito. Jarbas Vasconcelos
apenas ampliou e detalhou o quadro. Baseado na
experiência e confiante na aceitação do conceito de que a
amoralidade passou de exceção a regra geral, o PMDB deu
de ombros. Ouve que há corrupção no partido, nem sequer
estranha e não procura saber o que se passa: condena
liminarmente o denunciante e dá o caso por encerrado.
      Bem, isso é o que a Executiva do PMDB acha que
deve ser feito. Não necessariamente precisa ser o que todos
os parlamentares, governadores, prefeitos, filiados e
militantes do partido e de outras legendas devam seguir. A
entrevista de Jarbas Vasconcelos estende aos políticos de
bem uma tábua de salvação. Abre a todos a oportunidade
de escolher um lado: se o do joio ou do trigo.
      Dá à opinião pública a chance de ver quem sustenta
a verdade inconveniente dita pelo senador e quem se
esconde sob a mentira conveniente contada pela Executiva
do PMDB. Considerar condenável o ato do senador requer
necessariamente que se admita como louvável o conjunto
da obra do PMDB e se apresentem escusas pelo tratamento
desrespeitoso dado à legenda. É uma escolha que põe em
xeque a oposição a quem o senador anunciou apoio na
eleição de 2010. Uma opção entre a ruptura benéfica e a
renovação do pacto maléfico.



                                                         111
A ENTREVISTA À VEJA


Dora Kramer é jornalista, colunista política do jornal “O
Estado de S.Paulo”.




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A ENTREVISTA À VEJA




                      “CONFISSÃO E CORRUPÇÃO”




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A ENTREVISTA À VEJA




“CONFISSÃO E CORRUPÇÃO”
Sérgio Costa Ramos (17 de fevereiro de 2009)



        - Não foi apenas um desabafo.
        Foi uma confissão. Talvez tenha sido o maior
desnudamento da história do Império e da República.
        Um verdadeiro strip-tease, mas também a submissão
a um autêntico martírio: o açoite autoinfligido ao partido que
ajudou a fundar e a dar — no passado — credibilidade e
decência.
Nunca, em tempo algum, o filiado de um grande partido
político descerrou tamanho véu.
        — Para que o PMDB quer cargos? — perguntou o
repórter de Veja Otávio Cabral.
        E o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), um dos
pilares do antigo MDB, cuja vertical resistência à ditadura
conduziria o país à redemocratização, respondeu:
        — Para fazer negócios, ganhar comissões. Alguns
ainda buscam o prestígio político. Mas a maioria dos
peemedebistas se especializou nessas coisas pelas quais os
governos são denunciados: manipulação de licitações,
contratações dirigidas, corrupção em geral. A corrupção está
impregnado em todos os partidos. Boa parte do PMDB quer
mesmo é corrupção.
        Haverá, no mundo, maior libelo contra um partido
político — com a ressalva de que o desabafo estende a todos
os partidos a prática de corrupção explícita?
        Sem se valer de eufemismos, ou de luvas cirúrgicas,
sem amenizar qualquer significado, o senador Jarbas
Vasconcelos disse, simplesmente, que “boa parte” do seu
partido sobrevive através da prática de corrupção.


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A ENTREVISTA À VEJA


        Para bom entendedor: o partido abriga uma quadrilha
de ladrões.
        Quer dizer: homens de sete ofícios, gatunos, ratos,
larápios, meliantes, ladravazes, rapinantes.
        Diante de tal “carinho”, o que disse a presidência do
partido? Ou a sua Executiva nacional?
        Nada. Nem uma palavra. Pelo menos até as 48 horas
que se seguiram ao destampatório do senador.
        O que confere ao desabafo foros de verdade definitiva.
        Se o maior partido da República está transformado
nesse covil de trampolineiros, para que país os homens de
Bem (e do Bem) devem pedir asilo?
        Talvez para uma adaptada Pasárgada, o reino de
Manuel Bandeira:
        Vou me embora pra Pasárgada/ Lá é outra
civilização/ Tem um processo seguro/ De impedir a
corrupção... (No original, “concepção”).
        Enquanto isso, no PMDB reina o Silêncio dos
Inocentes...

Sérgio Costa Ramos é jornalista.




                                                           115
A ENTREVISTA À VEJA




  “O PMDB, A CORRUPÇÃO E A GELEIA
                GERAL BRASILEIRA”




                               116
A ENTREVISTA À VEJA




“O PMDB, A CORRUPÇÃO E A GELEIA
GERAL BRASILEIRA”
Editorial do Valor Econômico (17 de Fevereiro de
2009)



        O senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) assumiu
um duro discurso contra o seu partido no momento em que
a maioria dos líderes peemedebistas convergem para a
candidatura do PT à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, e declarou publicamente o seu apoio ao governador
de São Paulo, José Serra (PSDB). "Acredito muito em Serra e
me empenharei em sua candidatura à Presidência da
República", disse, em entrevista à revista "Veja".
Vasconcelos, que foi apoiado internamente apenas pelo ex-
governador de São Paulo Orestes Quércia, puxa, assim, o
cordão do PMDB que deverá rachar com o governo em 2010
e apoiar o candidato tucano - ele mesmo admitiu, na
entrevista, que esse racha é inevitável e serve ao perfil
clientelista de "90% do partido, que aderirá com conforto ao
Palácio do Planalto qualquer que seja o eleito".
        "O PMDB vai se dividir. A parte majoritária ficará com
o governo, já que está mamando e não será possível agora
uma traição total. E uma parte minoritária, mas
significativa, irá para a candidatura de Serra. O partido se
tornará livre para ser governo do lado do candidato
vencedor", afirmou. E foi muito mais duro com o seu partido
do que isso. Segundo ele, o PMDB começou a se tornar uma
"máquina clientelista" a partir de 1994, quando resolveu ser
governo sem ter o trabalho de disputar a eleição. "Daqui a
dois anos o PMDB será ocupante do Palácio do Planalto com
José Serra ou Dilma Rousseff. Não terá um gabinete

                                                           117
A ENTREVISTA À VEJA


presidencial pomposo no 3º andar, mas terá vários gabinetes
ao lado".
       Embora tenha localizado o início do processo de
adesão ao clientelismo do PMDB em 1994, ano em que
Fernando Henrique Cardoso (PSDB) disputou o seu primeiro
mandato à Presidência da República, Vasconcelos atribuiu
ao atual governo a culpa pelas mazelas da política brasileira.
"É um governo medíocre. E o mais grave é que a
mediocridade contamina vários setores do país. Não é à toa
que o Senado e a Câmara estão piores. Lula não é o único
responsável, mas é óbvio que a mediocridade do governo
dele leva a isso". Ao PMDB, dedicou acusações graves, como
usar cargos para "fazer negócios, ganhar comissões". "Boa
parte do PMDB quer mesmo é corrupção", disse. O senador
Renan Calheiros "não tem condição moral ou política para
ser senador, quanto mais para liderar qualquer partido"; a
eleição do senador José Sarney para a presidência do
Senado é um "retrocesso", porque "a moralização e a
renovação são incompatíveis com a figura do senador",
completou.
       Vasconcelos tem uma história política de 46 anos
totalmente ligada ao partido. Foi um de seus fundadores e
militou na "ala autêntica", importante grupo de resistência à
ditadura. Permaneceu no PMDB quando um racha liderado
por Mário Covas fundou o PSDB. Os políticos que deixaram
na época o partido e foram atrás de Covas já tinham severas
críticas à condução do PMDB, que se tornou uma federação
de partidos regionais, em que lideranças locais passaram a
ter grande poder sobre a estrutura nacional e enorme
necessidade de benefícios do governo federal para se
manterem nos Estados. O senador tinha uma afinidade
política muito maior com a parte que rachou, mas tomou
também uma decisão regional: o PMDB em Pernambuco
tinha um forte apelo eleitoral, era dominado por ele e não

                                                           118
A ENTREVISTA À VEJA


tinha por que abandoná-lo. Teve uma relação estreita com
os dois governos de FHC. Com ligações históricas com Serra,
deu apoio a Lula depois de eleito, em 2002, mas não queria
que o PMDB aceitasse cargos no governo.
       Eleito para o Senado em 2006, isolou-se na bancada
quando foi a favor do afastamento do presidente do Senado,
Renan Calheiros, um dos cardeais do PMDB de agora, que
era acusado de usar o dinheiro de um lobista para pagar
pensão a uma filha. Foi em meio ao isolamento que deu a
entrevista à "Veja". No meio do terremoto provocado pela
entrevista, destacou-se a reação do senador Pedro Simon
(PMDB-RS), que tem a mesma trajetória política de
Vasconcelos. "Acontecem essas mesmas coisas com os
outros partidos, PT, PSDB, DEM, PPS e PTB. Estamos numa
geleia geral. Acontece que alguns têm mais corrupção
porque são maiores que os outros". Ao que parece, em outra
ponto eles concordam: "Não tenho para onde ir", respondeu
Simon ao repórter que perguntou por que ele não sai do
PMDB. "Se eu sair daqui para onde irei?", disse Vasconcelos.




                                                         119
A ENTREVISTA À VEJA




“EM BUSCA DO PRESTÍGIO PERDIDO”




                              120
A ENTREVISTA À VEJA




“EM BUSCA DO PRESTÍGIO PERDIDO”
Merval Pereira (17 de Fevereiro 2009)



        Dois movimentos não ligados entre si, mas com
objetivos semelhantes, realizados por políticos experientes
acostumados a identificar o sentimento dos eleitores e
dispostos a abrir o debate sobre temas delicados que ficam
soterrados pelas conveniências imediatistas da pequena
política, prometem sacudir a pasmaceira de um Congresso
dominado pelo pensamento governista.
        De um lado, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-
PE) abriu seu coração para a revista “Veja”, falando em
público o que a imprensa denuncia regularmente, muitos
políticos comentam em privado e ele próprio vinha dizendo
reservadamente há bastante tempo: a angústia de ver o
partido que ajudou a fundar e que foi sinônimo de
excelência política, símbolo da resistência à ditadura,
transformar-se num agrupamento político corrupto e
fisiológico, movido a cargos e verbas públicas.
        Do outro, o deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ),
incomodado com o que chama de “partidocracia”, buscando
através de uma consulta ao Tribunal Superior Eleitoral
(TSE), que pode ser julgada já na próxima quinta-feira antes
do carnaval, uma valorização dos parlamentares dentro dos
partidos para que eles tenham um papel mais relevante no
jogo político que não o de meros espectadores dos acordos
da cúpula partidária.
        Curiosamente, os dois fazem parte de partidos da
chamada “base parlamentar” do governo Lula, uma coalizão
tão grande quanto disforme de partidos de vários e
conflitantes matizes ideológicos, que só têm o interesse


                                                          121
A ENTREVISTA À VEJA


eleitoreiro a uni-los, uma grande geléia geral onde o debate
político deu lugar ao fisiologismo e ao clientelismo, todos
dependentes do grande líder carismático, que os anula, mas
recompensa com fatias do Estado e expectativa de poder.
        A entrevista de Jarbas Vasconcelos não parece ser o
primeiro lance de uma série bem montada de ações do
senador, como muitos chegaram a pensar, e muito menos
deve ser tomada como um movimento político com vistas à
sucessão presidencial.
        Duas vezes governador de Pernambuco, um dos
políticos mais importantes do Nordeste, região hoje
amplamente dominada pelo lulismo, o senador Jarbas
Vasconcelos é adepto da candidatura do governador de São
Paulo José Serra, mas não precisaria dar uma entrevista
bombástica para tentar dividir o PMDB, levando um pedaço
dele para a candidatura tucana.
        O incômodo com a atuação de seu partido o fez
desabafar em público, na esperança, disse ontem, de que o
debate aberto leve a uma revisão de comportamento.
        Mesmo que não tenha a intenção de sair do PMDB,
como reafirmou, o senador pode ter reacendido em muitos
políticos a inquietação com a situação atual dos partidos.
Seu desabafo pode ser o estopim para uma eventual
reorganização partidária.
        A consulta do deputado Miro Teixeira abre essa
possibilidade, embora também não tenha sido feita com
essa intenção.
        O que o deputado quer é dar mais dignidade aos
políticos dentro de seus partidos, para que eles possam
aspirar a posições mais relevantes do que simplesmente
serem caudatários de acordos de cúpula que os
transformam em moeda de troca.




                                                          122
A ENTREVISTA À VEJA


       A “partidocracia” consolidou-se, na opinião de Miro
Teixeira, quando o TSE decidiu que os mandatos
pertenciam aos partidos e não aos eleitos.
       Ele fez algumas perguntas diretas ao TSE que,
espera, dará chance ao tribunal de rever aspectos da
decisão anterior que produzirá, na sua visão, um mal muito
grande à política brasileira no longo prazo, esterilizando o
debate político e dando às direções dos partidos poder de
vida e morte sobre seus parlamentares.
       Miro se utiliza do voto do ministro Joaquim Barbosa,
que perguntou: “(...) não deveria haver um mecanismo para
examinar a percepção do eleitor quanto à fidelidade do
partido político pelo qual se elegeu o candidato tido por
insurgente às diretrizes fixadas por ocasião do pleito?” e
lança uma dúvida, numa situação que ocorre com
frequência nesse Congresso emasculado: “(...) se, em tese, o
partido ‘A’ organizar Bloco Parlamentar, na Câmara dos
Deputados, com os partidos ‘B’ e ‘C’ adversários da chapa
ou coligação com que se apresentou ao povo, nas
respectivas    eleições   parlamentares    ou   na     eleição
presidencial, está configurada a hipótese de mudança
substancial ou desvio reiterado do programa partidário, que
permite ao parlamentar deixar a sigla sem perder o
mandato? E na hipótese de o partido ocupar cargos e
integrar governo de coalizão, com o adversário vitorioso?”.
       O deputado pedetista também explora a possibilidade
de criação de novos partidos e pergunta “em que momento
os deputados que decidirem participar da fundação de
partido político têm que deixar o partido pelo qual se
elegeram, com a proteção da Resolução no22.610/2007 do
TSE?”.
       Ele pergunta também se a resolução do TSE
reconhece ao novo partido fundado por deputados federais



                                                            123
A ENTREVISTA À VEJA


“os mesmos direitos aplicáveis a novo partido resultante de
fusão”, prevista na legislação eleitoral brasileira.
       E cita também o parágrafo 6odo Art. 29 da Lei 9.096,
de 1995, que proporcionou a criação do PSDB como
dissidência do PMDB, para saber se os partidos que
eventualmente nascerem com base na resolução do TSE
terão os mesmos direitos.
       Importante em termos práticos, pergunta se os
deputados que formarem um novo partido político levam
com eles os votos para definir o tempo de televisão e a
divisão do Fundo Partidário.
       A consulta de Miro Teixeira dá ainda um toque de
modernidade à formação de um novo partido, perguntando
se o TSE aceitará o preenchimento da ficha partidária “meio
eletrônico”, isto é, o uso da internet na criação de partidos,
o que daria abrangência muito maior à representação
partidária.
       Como se vê, alguma coisa se move abaixo da capa de
subserviência com que o Poder Legislativo acerta sua
convivência com o Poder Executivo.



Merval Pereira é jornalista, colunista de política do jornal “O
Globo”.




                                                             124
A ENTREVISTA À VEJA




 “UMA ENTREVISTA DEVASTADORA”




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A ENTREVISTA À VEJA




“UMA ENTREVISTA DEVASTADORA”
Sebastião Nery (17 de Fevereiro de 2009)



        Rio - No dia 1º de abril de 1964, enquanto o coronel
João Dutra de Castilho depunha e prendia o governador de
Pernambuco, Miguel Arraes, no Palácio do Campo das
Princesas, entrava na Faculdade de Direito da Universidade
Católica de Pernambuco Jarbas de Andrade Vasconcelos,
nascido em 23 de agosto de 1942, em Vicência, zona da
Mata, já no Recife desde os 7 anos.
        No dia 13 de dezembro de 1968, quando a ditadura
militar dava mais um golpe dentro do golpe, com o AI-5, e
Arraes, lá na Argélia, via seu exílio prorrogado sem data
para acabar, Jarbas Vasconcelos se formava em Direito.
Mas já estava, havia muito tempo, brigando para Arraes
voltar.
        Em 1966, o MDB nasceu em Pernambuco nas mãos
do professor Pinto Ferreira. Jarbas entrou no partido com
Oswaldo Lima Filho, Marcos Freire, Egídio Ferreira Lima,
Fernando Lyra, Sérgio Murilo, Thales Ramalho, Fernando
Coelho, Marcus Cunha.
        Na página de filiação do MDB, que Jarbas assinou,
estão Odigas Carvalho (assassinado pelos militares),
Roberto Freire (deputado, presidente do PPS), Cristovam
Buarque (senador, ex-governador de Brasília, PDT).

       Jarbas
       A partir daí, a vida de Jarbas foi a vida do MDB. Saiu
pelo Estado criando diretórios. Em novembro, o partido,
ainda fraco, lançou Armando Monteiro Filho para o Senado,
contra João Cleófas, da Arena, e perdeu. Em 1969, Jarbas


                                                           126
A ENTREVISTA À VEJA


era secretário-geral do MDB, até 1975, quando se tornou
presidente, e continuou presidente do PMDB, de 1980 a
1982.
       Em 1970, Jarbas elegeu-se deputado estadual e líder
da oposição na Assembleia. Marcos Freire foi o mais votado
do estado para a Câmara Federal: 56.967 votos. Em 1974,
Marcos Freire derrotou João Cleófas para senador e Jarbas,
principal operário da oposição em Pernambuco, com 32
anos, era o deputado federal com mais votos na história do
estado: 67.975. Marco Maciel, da Arena, 55.692. Ricardo
Fiúza, da Arena, 54.144. Fernando Lyra, do MDB, 53.238;
Carlos Wilson, da Arena, 52.318. Thales Ramalho, do MDB,
38.469. Inocêncio de Oliveira, da Arena, 31.789.
       Foram As 16 derrotas que abalaram o Brasil (título
de meu livro de 1974) e que começaram a mandar a
ditadura de volta para os quartéis.

       Arraes
       Em 1978, Jarbas foi o candidato do MDB a senador.
Teve 600 mil votos, Nilo Coelho 350 mil e Cid Sampaio 300
mil, pela Arena. O senador foi Nilo, pela soma das
sublegendas. (O pai de Jarbas morreu na apuração).
       Em 1982, Jarbas apoiou Marcos Freire para
governador pelo PMDB, que perdeu para Roberto Magalhães
do PFL. E voltou à Câmara Federal. Em 1985, elegeu-se
prefeito do Recife pelo PMDB, contra Sérgio Murilo do PDS.
Em 1986, apoiou Arraes, que se elegeu governador pelo
PMDB.
       Em 1990, Jarbas era o candidato do PMDB a
governador e Arraes a senador. Chapa imbatível. Mas
Arraes entregou o governo ao vice Carlos Wilson, saiu do
PMDB, foi para o PSB, não aceitou disputar o Senado, fez
uma chapa de candidato a federal, encabeçada por ele,



                                                        127
A ENTREVISTA À VEJA


dividiu o horário de televisão com o PMDB, teve 300 mil
votos e elegeu mais quatro.
       E assim Arraes derrotou Jarbas, que perdeu o
governo para Joaquim Francisco, do PFL. Em 1998, Jarbas
deu o troco: elegeu-se governador pelo PMDB contra Arraes
do PSB, por mais de 1 milhão de votos, logo no primeiro
turno. Uma vitória esmagadora: 64,39%.

       Sarney
       Ninguém, portanto, tem mais autoridade para falar
em PMDB do que o senador do PMDB de Pernambuco,
Jarbas Vasconcelos. Como ele, só Pedro Simon, do Rio
Grande do Sul, Orestes Quércia, de São Paulo, Paes de
Andrade, do Ceará, fundadores do MDB em 1966, que
continuam até hoje no PMDB. Daí a repercussão nacional
da devastadora entrevista do senador Jarbas Vasconcelos
nas páginas amarelas da Veja desta semana:
       1 - "A eleição do senador Sarney para a presidência
do Senado é um completo retrocesso. Foi um processo
tortuoso e constrangedor. Sarney apareceu como candidato,
sem nenhum compromisso ético. A moralização e a
renovação são incompatíveis com a figura do senador.
Sarney vai transformar o Senado em um grande Maranhão".

       PMDB
       2 - "O PMDB quer cargos para fazer negócios, ganhar
comissões. Alguns ainda buscam o prestígio político. Mas a
maioria se especializou nessas coisas pelas quais os
governos são denunciados. A corrupção está impregnada
em todos os partidos. Boa parte do PMDB quer é
corrupção".
       3 - "Daqui a dois anos o PMDB será ocupante do
Palácio do Planalto, com Dilma ou com Serra. O PMDB vai
se dividir. A parte majoritária ficará com o governo, já que

                                                          128
A ENTREVISTA À VEJA


está mamando. E uma parte minoritária, mas significativa,
irá para a candidatura de Serra".

       Lula
       4 - "Com o desenrolar do primeiro mandato de Lula,
com os sucessivos escândalos, percebi que Lula não tinha
nenhum compromisso com reformas ou com ética. Quando
o PT deixou cair a máscara, abriu a porta para a corrupção.
Deixou a ética de lado e agora tem como bandeira o PAC,
um amontoado de projetos velhos reunidos em um pacote
eleitoreiro. O Bolsa Família é o maior programa oficial de
compra de votos do mundo".
       5 - "A Dilma é prepotente e autoritária e está se
moldando. Acredito muito em Serra e me empenharei em
sua candidatura à Presidência".



Sebastião Nery é jornalista, foi Vereador por Belo Horizonte
(MG), Deputado Estadual (BA) e Deputado Federal (RJ)




                                                          129
A ENTREVISTA À VEJA




               “O BRASIL VIROU UM GRANDE
                                   PMDB”




                                       130
A ENTREVISTA À VEJA




“O BRASIL VIROU UM GRANDE PMDB”
Arnaldo Jabor (17 de Fevereiro de 2009)



        A entrevista de Jarbas Vasconcelos na revista Veja
desta semana é uma rara ilha de verdade neste mar de
mentiras em que naufragamos. Precisávamos dessas
palavras indignadas que denunciam a rede de mediocridade
política e de desagregação de poderes que assola o país, do
Congresso ao Executivo.
        De dentro de casa, Jarbas berrou: “O PMDB é
corrupto!” e mostrou como este partido nos manipula, sob o
guarda-chuva do marketing populista de Lula. O que Jarbas
Vasconcelos atacou já era voz corrente entre jornalistas,
inclusive o pobre diabo que vos fala.
        Mas sua explosão é legítima e incontestável, vinda de
um dos fundadores do MDB, depois transformado nesta
anomalia comandada pelo Sarney, que é o líder sereno e
hábil da manutenção do atraso em nossas vidas. Duvidam?
Vão a São Luís para entender o que fez esse homem com
seu jaquetão impecável há quarenta anos no poder daquele
Estado. Jarbas aponta: “a moralização e a renovação são
incompatíveis com a figura do senador Sarney, (...) que vai
transformar o País em um grande Maranhão”.
        Mais que um partido, o PMDB atual é o sintoma
alarmante de nossa doença secular. Era preciso que um
homem de estatura política abrisse a boca finalmente, neste
País com a oposição acovardada diante do ibope de Lula.
        Estamos aceitando a paralisia mental que se instalou
no País, sob a demagogia oportunista deste governo. O gesto
de Jarbas é importante justamente por ser intempestivo,
romanticamente bruto, direto, sem interesses e vaselinas. É


                                                           131
A ENTREVISTA À VEJA


mais que uma entrevista – é um manifesto do “eu-sozinho”,
um ato histórico (se é que ainda sobra algo “histórico” na
política morna de hoje). E não se trata de um artigo de
denúncia “moral” ou de clamor por “pureza”, é um retrato
de como alianças espúrias e a corrupção “revolucionária”
deformaram a própria cara da política brasileira. Com suas
alianças e negaças, o Governo do PT desmoralizou o
escândalo!
        Lula revalidou os velhos vícios do País, abrindo as
portas para corruptos e clientelistas, em nome de uma
“governabilidade” que nada governa, impedido pela
conveniência e interesses de seus “aliados”. É como ser
apoiado por uma máfia para combater o mal das máfias.
        Jarbas não tem medo de ser chamado de reacionário
pelo povão ou pelos intelectuais que ainda vivem com o
conceito de “esquerda” entranhado em seus cérebros, como
um tumor inoperável. Essa palavra “esquerda” ainda é o
ópio dos intelectuais e “santifica” qualquer discurso
oportunista. Na mitologia brasileira, Lula continua o
símbolo do “povo” que chegou ao poder. A origem quase
“cristã” desse mito de “operário salvador”, de um Getúlio do
ABC, lhe dá uma aura intocável. Poucos têm coragem de
desmentir esse dogma, como a virgindade de Nossa
Senhora.
        A última vez que vimos verdades nuas foi quando
Roberto Jefferson, legitimado por sua carteirinha de
espertalhão, botou os bolchevistas malucos para correr.
Depois disso, chegou o lulo-sindicalismo, ou o peleguismo
desconstrutivo, que empregou mais de 100 mil e aumentou
os gastos federais de custeio em 128 por cento. O lulismo
esvazia nossa indignação, nossa vontade de crítica, de
oposição. Para ser contra o quê, se ele é “a favor” de tudo,
dependendo de com quem esta falando – banqueiros ou



                                                          132
A ENTREVISTA À VEJA


desvalidos? Ele põe qualquer chapéu – é ecumênico, todas
as religiões podem adorá-lo.
        Ele ostenta uma arrogância “simpática” e carismática
que nos anestesia e que, na mídia, cria uma sensação de
“normalidade” sinistra, mas que, para quem tem olhos,
parece a calmaria de uma tempestade que virá para o
próximo governante.
        Herdeiro da sensata organização macroeconômica de
FHC que, graças a Deus, o Palocci manteve (apesar dos
ataques bolchevistas dos Dirceus da vida), Lula surfou seis
anos na bolha bendita da economia internacional, mas não
aproveitou para fazer coisa alguma nova ou reformista. Lula
tem a espantosa destreza de nos dar a impressão de que
“tudo vai bem”, de que qualquer crítica é contra ele ou o
Brasil.
        Como disse Jarbas em sua entrevista, o governo do
PT “deixou a ética de lado e não fez reformas essenciais,
nem nada para a infraestrutura e o PAC não passa de um
amontoado de projetos velhos reunidos em pacote
eleitoreiro” (...) e o Bolsa Família, que é o maior programa
oficial de compra de votos do mundo, não tem compromisso
algum com a educação ou com a formação de quadros para
o trabalho”.
        A única revolução que deveria ser feita no Brasil seria
o enxugamento de um Estado que come a nação, com
gastos crescentes, inchado de privilégios, um Estado que só
tem para investir 0,9% do PIB. A tentativa de modernização
que FHC tentou foi renegada pelo governo do PT. Lula
fortaleceu o patrimonialismo das velhas oligarquias e o PAC
é uma reforma cosmética, como a plástica da Dilma, que ele
quer eleger para voltar depois, em 2014. O único projeto do
governo é o próprio Lula. Em cima dos 84% de aprovação
popular, nada o comove. Só se comove consigo mesmo.



                                                             133
A ENTREVISTA À VEJA


       Lula se apropriou de nossa tradicional “cordialidade”
corrupta para esvaziar resistências. Assim, ele revitalizou o
PMDB – o partido que vai decidir nosso futuro! Hoje, não
temos nem governo nem oposição – apenas um teatro em
que protagonistas e figurantes são o PMDB.
       E no meio disso tudo: o Lula ,um messias sem
programa, messias de si mesmo. 84% do povo apoia um
governo que acha progressista e renovador, quando na
verdade é ultraconservador e regressista. Nem o PT ele
poupou para “conservar” a si mesmo. O PMDB é sua tropa
de choque, seu “talibã” molenga e malandro. Agora... tentem
explicar este quadro que Jarbas sintetiza com a clara luz de
sua entrevista para um pobre homem analfabeto que
descola 150 reais por mês do Bolsa Família... Vivemos um
grande auto-engano.



Arnaldo Jabor é crítico, cineasta e jornalista. Assina coluna
no jornal “O Globo”




                                                           134
A ENTREVISTA À VEJA




  “A CORRUPÇÃO VISTA DE DENTRO”




                              135
A ENTREVISTA À VEJA




“A CORRUPÇÃO VISTA DE DENTRO”
Editorial d’O Estado de S.Paulo (17 de Fevereiro de
2009)



       Desde que, em junho de 2005, o então deputado
Roberto Jefferson, do PTB do Rio de Janeiro, denunciou a
compra sistemática de parlamentares para servir ao governo
Lula - no esquema que entraria para a história com o
sugestivo nome de "mensalão" - não se via um político
apresentar um libelo tão devastador sobre o comportamento
dominante entre os seus pares como a entrevista do
senador Jarbas Vasconcelos, do PMDB de Pernambuco, à
revista Veja.
       Com uma agravante que ofusca: aos 66 anos, duas
vezes governador do seu Estado, com quatro décadas de
atividade política sem prontuário, um dos fundadores do
partido    que    viria a   liderar  a    campanha     pela
redemocratização do País, sob a sigla MDB, Jarbas
Vasconcelos não é Roberto Jefferson, nem no retrospecto
nem nas motivações por trás das iniciativas de cada qual de
falar à imprensa.
       Nem no quesito novidade. Por vingança, o petebista
abriu para o público uma armação compartilhada pelos
beneficiários, operadores e inspiradores do suborno de
deputados, para que facilitassem o controle do Planalto
sobre a Câmara e garantissem a aprovação dos projetos do
governo; mudando de partido conforme a conveniência do
lulismo e votando com a consciência da paga recebida e a
expectativa de novas remunerações. Já o que o
peemedebista acabou de fazer, por desalento, foi endossar,
com a autoridade do seu perfil e da experiência no ramo, o


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A ENTREVISTA À VEJA


que a sociedade sabe, ou pelo menos intui, sobre os
costumes políticos de parcela dos seus representantes, as
razões inconfessas que os levam à política e a sua
insensibilidade moral à toda prova.
        Embora sem citar casos concretos - salvo o escândalo
que envolveu o senador Renan Calheiros -, ele se
concentrou nas mazelas do seu partido, indo além da
obviedade de que, sem bandeiras, propostas ou rumos, o
PMDB é uma confederação de líderes regionais, todos com
os seus próprios interesses, dos quais "mais de 90%
praticam o clientelismo, de olho principalmente nos cargos".
Na passagem mais esclarecedora de sua entrevista,
Vasconcelos explica que, para alguns, os cargos servem
como instrumento de prestígio político.
        Mas a maioria "se especializou nessas coisas pelas
quais os governos são denunciados: manipulação de
licitações, contratações dirigidas, corrupção em geral". E
arremata: "Boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção."
Mal não lhe fez. O maior partido nacional elegeu 7
governadores, 20 senadores, 96 deputados federais e 1.202
prefeitos. Tem 7 ministros, acaba de conquistar o comando
do Congresso e é cortejado pelo PT e o PSDB para a
sucessão de Lula.
        Outro senador e ex-governador que ajudou a criar o
velho MDB, o gaúcho Pedro Simon, acrescenta uma dose de
desesperança às denúncias do colega. "Acontecem essas
mesmas coisas com os outros partidos. Alguns têm mais
corrupção que outros porque são maiores."
        A "geleia geral" de que fala Simon é decerto
indissociável, por exemplo, do processo "tortuoso e
constrangedor", como o descreve o pernambucano, da
eleição de Sarney para a presidência do Senado, onde "o
nível dos debates é inversamente proporcional à
preocupação com as benesses". Segundo Vasconcelos, foi

                                                          137
A ENTREVISTA À VEJA


"um completo retrocesso", pois Sarney "não vai mudar a
estrutura política nem contribuir para reconstruir uma
imagem positiva da Casa. Vai transformar o Senado em um
grande Maranhão".
       A amargura de Vasconcelos é especialmente visível
quando reflete sobre o entranhamento da corrupção na era
Lula. Em 2002, ele defendia o apoio do PMDB ao presidente
recém-eleito. Em pouco tempo, mudou de ideia ao perceber
que ele "não tinha nenhum compromisso com reformas ou
com ética" - embora ressalve que a corrupção "não foi
inventada por Lula ou pelo PT".
       De todo modo, o descompromisso não é sinônimo de
indiferença. Longe de lavar as mãos diante dos malfeitos
dos políticos, Lula os incentiva, mantendo com o sistema de
partidos uma relação essencialmente clientelística - não
fosse isso, não teria o apoio de 14 legendas. E é com essa
mesma matéria-prima invertebrada que ele pretende
construir o suporte político da candidatura Dilma Rousseff.




                                                         138
A ENTREVISTA À VEJA




                      “UMA AGENDA”




                                 139
A ENTREVISTA À VEJA




“UMA AGENDA”
Editorial d’O Globo (17 de Fevereiro de 2009)



        Há tempos o PMDB atua como uma federação de
caciques regionais, aberta a negociações fisiológicas com os
inquilinos do Planalto, em busca de vagas e verbas
públicas, conquistadas em troca de apoio parlamentar e
político. Por isso, o maior partido do país adota a estranha
postura — estranha para desavisados — de não pleitear a
sério a Presidência da República, a fim de mercadejar
apoios nos balcões da fisiologia. Não paga o ônus e ainda
capitaliza bônus inconfessáveis do poder.
        Nada disso é desconhecido. Mas, ao sair da boca de
um senador peemedebista, o pernambucano Jarbas
Vasconcelos, a verdade ganha outra dimensão política. Em
entrevista à “Veja”, Jarbas acusou o próprio partido de
corrupto, criticou de forma pesada a eleição de José Sarney
para a presidência do Senado, em cujo comboio voltou à
boca de cena Renan Calheiros, e tratou sem rodeios de sua
desilusão com Lula, pelo fato de o presidente e o partido
dele, o PT, terem frustrado todos os que confiaram na
defesa que ambos faziam da ética na política.
        A desilusão do senador também tem outro motivo:
nenhuma das reformas importantes de que o país necessita
foi feita pelo governo, que optou pelo assistencialismo
populista numa dimensão jamais vista.
        Pode ser que a entrevista de Jarbas Vasconcelos,
deputado, governador de Pernambuco, com 43 anos de vida
política, iniciada no MDB da resistência à ditadura, seja
considerada um ato da sucessão de 2010. Afinal, o senador
não escondeu à revista apoiar José Serra para sucessor de


                                                          140
A ENTREVISTA À VEJA


Lula. Diga-se, também como uma falange do seu partido,
dentro da conhecida esperteza peemedebista de colocar
fichas na situação e na oposição, para nunca perder uma
eleição presidencial.
        A entrevista, porém, transcende a conjuntura
político-eleitoral, e aborda algo mais profundo: a degradação
da vida pública, alimentada por um quadro partidário
anêmico, em que as legendas, em geral, são obrigadas a se
submeter a puxadores de votos, e não conseguem atrair
eleitores em função de projetos e programas, mas por meio
de práticas populistas.
        A degradação do PMDB é parte da metástase
deflagrada a partir da Constituição de 88, com a qual houve
uma excessiva proliferação de legendas — algumas de
aluguel. Além disso, plasmou-se uma legislação sem
qualquer rigor, responsável por permitir a entrada na
política de fichas-sujas de toda espécie e do próprio crime
organizado.
        Tudo isso e ainda a inexistência de uma regra séria
sobre a fidelidade partidária criaram um estado de coisas
na política brasileira que leva Jarbas Vasconcelos a admitir
aposentar-se. Entre as razões que motivaram o senador a
assinar embaixo das mais ácidas críticas ao PMDB e ao
governo, é provável que tenha sido determinante a
constatação de que o governo e o PT foram contaminados
pelo vírus da baixa política, do toma-lá-dá-cá, na montagem
das alianças partidárias. No mínimo, o senador contribuiu
para a agenda de uma discussão séria sobre o poder no
Brasil.




                                                           141
A ENTREVISTA À VEJA




                      “PASSO DEFINITIVO”




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A ENTREVISTA À VEJA




“PASSO DEFINITIVO”
Marisa Gibson (17 de Fevereiro de 2009)



       É evidente que a reação do PMDB à entrevista de
Jarbas Vasconcelos à revista Veja não ficará restrita à nota
da Executiva Nacional, que minimizou as declarações do
senador acusando o partido e a maioria de seus integrantes
de corruptos. Assim como Jarbas teve coragem de dizer o
que queria, os peemedebistas governistas também terão
coragem, de uma maneira ou de outra, de inviabilizá-lo mais
ainda dentro do partido. Daqui para frente, portanto, a
queda de braço será bem mais pesada. E tanto Jarbas como
os peemedebistas têm munição e instrumentos suficientes
para isso.
       O surpreendente é que no PMDB ninguém falou em
expulsão e nem mesmo Jarbas acredita que isso venha a
acontecer. Ontem, o senador reafirmou tudo o que falou na
entrevista, mas vale ressaltar que o que ele disse a respeito
do PMDB não foi surpresa para ninguém.
       O que causou impacto foi o fato de ele ter falado
publicamente sobre o lado podre do seu partido,
confirmando que, se o PMDB é o maior partido do Brasil,
também é o pior. E sobre este aspecto, Jarbas ganhou a
adesão da opinião pública porque fazia tempo que ninguém,
no país, mostrava tanta indignação pelo o que acontece nos
porões da política brasileira.
       Agora, o outro lado da entrevista, aliás, uma resposta
em que o senador dedicou poucas palavras, foi o que tirou a
oposição estadual do sério. A possibilidade de Jarbas deixar
a vida pública e de não disputar, como é sua vontade, as
eleições de 2010, é quase uma derrota antecipada para os


                                                          143
A ENTREVISTA À VEJA


oposicionistas. Mas Jarbas foi taxativo - não vai ceder às
pressões. E com 43 anos de arena política, o senador sabe
que com o que disse à Veja, ele deu um passo definitivo,
tanto no plano nacional como no estadual. Ele nem pode ser
candidato a vice de Serra, como ele mesmo diz que não quer,
nem pode, por um motivo ou por outro, concorrer ao governo
do estado. Isso porque o argumento da dinâmica política não
deve prevalecer nem sobre princípios nem sobre a palavra
dada.



Marisa Gibson é jornalista.




                                                        144
A ENTREVISTA À VEJA




          “A ESPLÊNDIDA SOLIDÃO DE UM
                      INCORRUPTÍVEL”




                                    145
A ENTREVISTA À VEJA




“A ESPLÊNDIDA SOLIDÃO DE UM
INCORRUPTÍVEL”
Augusto Nunes (18 de Fevereiro 2009)



       Parece mentira, mas existe a oposição parlamentar
que o Brasil decente merece. Chama-se Jarbas Vasconcelos,
é senador pelo PMDB de Pernambuco, pertence à espécie
em extinção dos políticos incorruptíveis e desde o começo
da semana, como convém a raridades admiráveis, está
exposto à visitação pública nas páginas amarelas da revista
Veja. Vale a pena conhecer alguém que vê as coisas como as
coisas são ("O Bolsa Família é o maior programa oficial de
compra de votos do mundo").
       Vale a pena conhecer alguém que conta o caso como
o caso foi ("A maioria dos peemedebistas se especializou em
manipulação de licitações, contratações dirigidas, corrupção
em geral. Boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção"). E
que diz sem medo o que pensa. "Um governo que deixou a
ética de lado, que não fez as reformas nem fez nada pela
infraestrutura tem como bandeira o PAC, que é um
amontoado de projetos velhos reunidos num pacote
eleitoreiro."
       Anestesiado pelo que o entrevistado chama de
"banalização do escândalo", rendido à "mediocridade que
contamina", feliz com um presidente que "não tem nenhum
compromisso com as reformas ou com a ética", o Brasil do
faz-de-conta continuou esperando os pesquisadores do
Sensus para informar que o coro dos contentes passou de
90%. Decididos a não melindrar o adversário de estimação,
os partidos de oposição se solidarizaram silenciosamente



                                                          146
A ENTREVISTA À VEJA


com os culpados. E os acusados tiveram de engolir as
verdades indesmentíveis.
       Nascido e criado na Zona da Mata, Jarbas tinha 12
anos quando ouviu do pai, um funcionário público rude e
reto, a frase que ficaria marcada a ferro na memória.
"Nunca volte para casa com marcas de briga nem dizendo
que achou dinheiro na rua." O menino assimilou a lição
pela metade: foi sempre irretocavelmente honesto, mas
jamais fugiu de briga boa. Na década de 1970, o deputado
estadual que fundara o MDB pernambucano brigava pela
ressurreição da democracia e contra a ditadura. Aos 66
anos, briga pela restauração da ética, da moralidade e de
outros valores revogados pela aliança dos fora-da-lei.
       "Os fatos! Os fatos!", resolveram cobrar jornalistas
aparentemente alcançados pela epidemia de cegueira
conveniente. "Os nomes! Os nomes!", exclamaram nas
colunas de leitores alguns idiotas da objetividade. É só
teclar as palavras "corrupção" e "partidos" nos sites de
busca na internet, poderia ter sugerido Jarbas na entrevista
coletiva em que reafirmou o que dissera à Veja.
       Dispensara-se de acusações detalhadas, informou,
por falta de espaço para tantas. Caso continuem ofendidos,
os que viram nas constatações feitas por Jarbas uma
afronta sem fundamento a legendas imaculadas estão
novamente convidados a buscar alívio na internet. Os
simpatizantes do PMDB podem digitar no Google nomes
como Valdir Raupp, Renan Calheiros, Romero Jucá - ou
apenas a sigla do partido. Para os petistas, basta uma
palavra: mensalão.
       "O PMDB não tem nada a ver com o partido que
combateu o regime militar", constatou Jarbas. Por que não
muda de sigla? "Para onde irei?", respondeu o senador com
outra pergunta. Melhor esperar a hora de fundar algo
melhor no partido obrigado a tolerar o dissidente. Sobram-

                                                          147
A ENTREVISTA À VEJA


lhe amigos no PSDB, mas falta o que chama de "formação
tucana". E está cada vez mais distante do PT e do
presidente.
        "O Partido dos Trabalhadores se apresentou como
templo da moralidade até chegar ao poder", lembrou.
"Quando deixou cair a máscara, abriu a porta para a
corrupção." No fim de 2002, animado com o triunfo de "um
ex-operário que havia se comprometido com a sociedade a
promover reformas e governar com ética", propôs que o
PMDB apoiasse Lula "sem cargos nem benesses". Não
demorou a decepcionar-se com o presidente que prefere
fazer amigos e conquistar aliados por outros meios.
        "Sempre houve corrupção, mas o governo Lula
provocou a banalização do escândalo", registrou. "O Médici
também era endeusado no Nordeste, mas ninguém desistiu
de combater a ditadura por isso", argumentou para
justificar o desembaraço com que atravessa o samba-
exaltação composto por institutos de pesquisa de opinião.
        Em três páginas, Jarbas resumiu a extensa
plataforma que deveria ser encampada pelos partidos de
oposição. Isso se ainda existissem.



Augusto Nunes é jornalista.




                                                        148
A ENTREVISTA À VEJA




  “ALTO LÁ, JARBAS NÃO É ROBERTO
                      JEFFERSON”




                               149
A ENTREVISTA À VEJA




“ALTO LÁ, JARBAS NÃO É ROBERTO
JEFFERSON”
Elio Gaspari (18 de Fevereiro de 2009)



       O PMDB OFENDEU-SE com a entrevista que o
senador Jarbas Vasconcelos deu ao repórter Otávio Cabral.
Um dos seus caciques, o deputado Eduardo Cunha (RJ)
indignou-se: "Ele generalizou e não deve se sentir
confortável no PMDB depois das críticas. Deve sair".
       A reação de Cunha ofendeu a Lei de Serpico, o
detetive americano (Al Pacino no filme) que levou um tiro na
cara    durante    uma     diligência   contra    traficantes
acumpliciados com seus colegas: "É o policial corrupto
quem deve ter medo do honesto e não o contrário".
       O que disse Jarbas?
       "O PMDB é um partido sem bandeiras, sem
propostas, sem um norte. É uma confederação de líderes
regionais, cada um com seu interesse, sendo que mais de
90% deles praticam o clientelismo, de olho principalmente
nos cargos."
       O que se pode dizer do deputado Eduardo Cunha?
       O doutor tem 40 anos, está no seu segundo mandato
federal e o PMDB é seu terceiro domicílio partidário. Cunha
começou sua carreira pública presidindo a falecida Telerj
(1991-1993), durante o governo de Fernando Collor, e a
Companhia Estadual de Habitação do Rio de Janeiro (1999-
2000), durante o mandarinato de Anthony Garotinho.
       Sua contribuição republicana para o governo Lula foi
a indicação do arquiteto Luiz Paulo Conde para a
presidência das Centrais Elétricas de Furnas. Nas suas



                                                           150
A ENTREVISTA À VEJA


cercanias fica o fundo de pensão dos funcionários, o Real
Grandeza, com ativos de R$ 5,8 bilhões ao final de 2007.
       No collorato, Cunha era respeitado pelo acesso que
tinha ao empresário-tesoureiro Paulo César Farias. Na
virada petista, era visto por Rosinha Garotinho como
intermediário fiel em algumas negociações com o PT. Em
2005, numa transação que poderia sepultar a criação da
CPI dos Correios, foi desatendido pelo Secretário de Política
Econômica do Ministério da Fazenda, Bernard Appy.
       Cunha lidera com descortínio parte da bancada de
deputados federais do PMDB. Quando necessário, atua em
sintonia com o governador Sérgio Cabral, outro crítico das
generalizações de Jarbas. Recentemente, Ronaldo Monteiro
Francisco, irmão caçula de Roberto Jefferson, foi nomeado
por Cabral para a presidência de uma empresa estatal. O
ex-deputado, nacionalmente conhecido desde que implodiu
as caixas do mensalão, lavou as mãos e atribuiu a escolha
às "qualidades intelectuais e relações políticas de meu
irmão" bem como "à amizade de Sérgio e Eduardo Cunha".
       O deputado foi inquilino do doleiro Lúcio Funaro, um
dos coadjuvantes da crise do mensalão. Explicando-se,
disse que se tratava de um aluguel inocente. Quando lhe
atribuem nomeações em diretorias de Furnas, da Caixa ou
da Petrobras, responde: "Estão exagerando. Eu só indiquei o
Luiz Paulo Conde para Furnas. Os outros foram indicados
pelas bancadas e eu apenas apoiei".
       As críticas de Jarbas Vasconcelos às práticas de uma
banda (e que banda) do PMDB diferem das denúncias de
Roberto Jefferson porque vêm de fora para dentro das
caixas amigas. Todos os seus críticos sabem do que ele está
falando e não querem saber de falar nisso.
       Michel Temer, presidente do partido e da Câmara dos
Deputados, diz que elas não têm "especificidade". Se a
generalização foi infame, Temer pegou leve. Se não se quer

                                                           151
A ENTREVISTA À VEJA


especificar, daqui a pouco começa o Carnaval e, quem sabe,
muda-se de assunto.



Elio Gaspari é jornalista, colunista dos jornais “O Globo” e
“Folha de S.Paulo”.




                                                          152
A ENTREVISTA À VEJA




      “O SILÊNCIO DOS INCRIMINADOS”




                                  153
A ENTREVISTA À VEJA




“O SILÊNCIO DOS INCRIMINADOS”
Rosângela Bittar (18 de Fevereiro de 2009)



       O ministro José Gomes Temporão (PMDB-RJ), da
Saúde, já havia se rebelado publicamente contra a
desfaçatez com que seu partido pratica a gestão dos
recursos públicos e foi mal sucedido ao tentar trocar a
direção da Funasa (Fundação Nacional de Saúde, bunker
peemedebista de cargos e verbas). Anos atrás, o atual
governador Roberto Requião (PMDB-PR) inventou, contra
um colega de partido, o "disque Quércia", expressão
autoexplicativa.
       O próprio presidente Lula já insultou o senador José
Sarney (PMDB-AP), não houve processo e hoje são amigos e
aliados. O PMDB do Rio, que domina comissões no
Parlamento como instrumento de pressão sobre o governo,
atravessa períodos de intensas críticas e suspeitas sobre
suas relações com Furnas, por exemplo, sem reagir ou se
sentir impelido a torná-las transparentes.
       Ninguém ignora, nem o eleitorado, as concepções e
métodos do PMDB e o partido sabe disso: há cerca de 10
anos encomendou uma pesquisa, divulgada em convenção
que realizou no Hotel Nacional, em Brasília, em que um
dado deixou a platéia boquiaberta. Os entrevistados
declararam ser o PMDB o partido mais corrupto da política
brasileira. A informação foi transmitida à imprensa, numa
entrevista coletiva, sem o menor sinal de constrangimento
ou preocupação. Afirmou-se, na ocasião, que a direção tudo
faria para superar esta imagem impregnada, por alguma
razão, no imaginário do eleitorado.



                                                         154
A ENTREVISTA À VEJA


        A entrevista do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB)
à revista "Veja" é mais um desses momentos em que seu
partido, e o governo Lula, a quem o senador se opõe
politicamente em dissidência , se veem diante de um perfil
desprezível, traçado por uma voz contundente, uma fala
substantiva, um discurso político, como há muito se
cobrava à oposição. Jarbas não observou conveniências e
tudo no seu discurso fez sentido.
        Não há novidade no que disse o senador e nem em
sua atitude, sempre coerente. Já no discurso inaugural de
início de mandato, em 2007, Jarbas Vasconcelos
apresentou um olhar em perspectiva não só sobre o seu
partido como sobre a política em geral. De volta ao
Congresso, depois de 21 anos de mandatos no Executivo,
explicitou um manual de atitudes sobre a prática da
democracia e o exercício da oposição. Não condenou as
alianças, mas alertou que em países com grande fragilidade
do quadro partidário, embora as alianças sejam necessárias
para governar, é preciso ter como base o respeito ao
pluralismo partidário e expressar um programa de governo
com objetivos definidos.
        Não vendo no PT esta condição, o senador defendeu
que o PMDB ficasse como "principal escoadouro das
esperanças em construir um Brasil melhor e mais justo".
        Não convenceu o PMDB, postou-se na dissidência
minoritária de oposição e a defendeu como direito. O
senador não destoa agora de seu pronunciamento mas deve
constatar que tanto antes como hoje prega ao vento. Os
peemedebistas insultados (eles devem saber com quem
Jarbas     Vasconcelos    está    falando)  fingem-se   de
desentendidos. Provavelmente pelo temor de reagir. Talvez
deduzam que, mesmo sendo um discurso político, pode
haver provas e, se as há, qualquer movimento em falso faz o
caso virar um incontrolável "mensalão".

                                                         155
A ENTREVISTA À VEJA


        O senador Renan Calheiros, de volta ao cargo de líder
do partido depois de graves acusações que sofreu no campo
da moral e da ética, faz-se de mouco. O senador José
Sarney, presidente do Senado, não repudia a constatação de
que sua eleição é retrocesso e continua, como esteve
durante a campanha, sem dizer qual projeto tem à frente da
Casa. Seus mais próximos preferem apegar-se à ideia de
que é possível explorar uma ambiguidade, de resto
inexistente, no conceito de que o presidente vai transformar
o Senado em um "grande Maranhão".
        Resolveram achar poético, romântico, como a
censura certamente achou quando liberou Chico Buarque
na ironia à ditadura, ao prever que "esta terra ainda vai
tornar-se um imenso Portugal".
        Renan e Sarney apadrinham a maior parte dos
cargos que o PMDB quer, na avaliação do senador Jarbas
Vasconcelos, para fazer negócios e ganhar comissões. A
maioria do partido se especializou, reforça o senador,
"nessas coisas pelas quais os governos são denunciados:
manipulação de licitações, contratações dirigidas, corrupção
em geral".
        Os jornais mostraram ontem que a metade dos
senadores do PMDB responde a inquéritos ou ações penais
no Supremo Tribunal Federal. Segundo levantamento do
jornal O Globo, 40% da bancada peemedebista do Senado
são investigados por crimes de corrupção, formação de
quadrilha, falsidade ideológica, compra de votos.
        Jarbas Vasconcelos não foi, como se vê, leviano nem
injusto. Fez uma manifestação política, e é pena que os
políticos recusem mais esta oportunidade de recomeçar do
zero.

Rosângela Bittar é jornalista, colunista do jornal “Valor
Econômico”

                                                           156
A ENTREVISTA À VEJA




                  “EU SOU, MAS QUEM NÃO É?”




                                         157
A ENTREVISTA À VEJA




“EU SOU, MAS QUEM NÃO É?”
Editorial d’O Estado de S.Paulo (18 de Fevereiro de
2009)



       Seria de rir, não fosse de chorar - pelo que evidencia
da miséria moral da política brasileira - a nota com que o
PMDB se manifestou sobre a entrevista do senador
pernambucano Jarbas Vasconcelos, um dos fundadores da
legenda, em que ele acusa "mais de 90%" dos seus
correligionários de praticar o clientelismo, no escambo do
apoio aos governantes de turno, em troca, principalmente,
de cargos. Em raquíticas oito linhas, a Executiva Nacional
peemedebista faz saber que não dará "maior relevo" às
denúncias, desqualificadas como mero "desabafo". Tivesse a
agremiação um átimo de pudor, chamaria o dissidente às
falas porque o seu assim denominado desabafo expõe o
cerne do comportamento fisiológico que de há muito se
tornou a razão de ser desse que é o carro-chefe do sistema
partidário nacional.
       Pois quando fala do apetite compulsivo do PMDB por
cargos, o senador observa que a ocupação de espaços na
máquina federal não se explica basicamente pela busca de
dividendos     políticos,   portanto    eleitorais,  que    o
enfeudamento rende aos ocupantes e, sobretudo, aos seus
padrinhos. Se disso se tratasse, até que não seria o pior dos
mundos, descontada, vá lá, a promiscuidade que desnatura
o    princípio   constitucional    da    impessoalidade    da
administração pública e das decisões de Estado - e a
entrevista do senador não passaria de uma dissertação
superficial sobre o toma-lá-dá-cá nas relações de poder no
País. Só que ele atingiu a veia da questão ao dizer que a


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A ENTREVISTA À VEJA


maioria dos peemedebistas interessados em cargos "se
especializou nessas coisas pelas quais os governos são
denunciados: manipulação de licitações, contratações
dirigidas, corrupção em geral". E, para o caso de alguém
ainda não ter entendido, cravou: "Boa parte do PMDB quer
mesmo é corrupção."
       Diante disso, com a sua murmurada resposta, o
baronato partidário passou o proverbial recibo ao
denunciante,     elevando   inadvertidamente      os    seus
argumentos à categoria de constatação de uma realidade
objetiva. Ao mesmo tempo, a cúpula deixou subentendido o
paradoxo que é a marca de Caim da sigla - e, diga-se desde
logo, não apenas desta. Sim, porque, tivessem esses
cavalheiros algum resquício de pudor, como se mencionou
acima, iriam com tudo contra quem não mediu palavras
para dizer a que vem "boa parte" deles. Mas, fizesse o pudor
parte de seu padrão de atuação política, não seriam o que
são, e o libelo que caiu sobre as suas cabeças teria tanta
contundência quanto um tiro de pólvora seca. Em
desespero de causa, a nota acusa Vasconcelos de lançar a
pecha de corrupção a todo o sistema político, por ter ele
afirmado que "a corrupção está impregnada em todos os
partidos". Praticamente dá para ouvir os autores repetindo,
em coro, o velho bordão do personagem de Chico Anísio:
"Sou, mas quem não é?"
       Dizem eles ainda que não darão "maior atenção" às
suas palavras "em razão da generalidade das acusações".
Efetivamente, ele "não aponta nenhum fato concreto que
fundamente suas declarações". Vasconcelos se deteve
apenas no episódio do colega Renan Calheiros, que em
dezembro de 2007 renunciou à presidência do Senado
dentro de um arranjo para não ser cassado por quebra de
decoro no affair do lobista que pagava as suas contas.
Refeito, assumiu a liderança da bancada peemedebista na

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A ENTREVISTA À VEJA


Casa e foi um dos mais notórios cabos eleitorais do bom
amigo José Sarney, cuja volta ao comando do Senado, pela
terceira vez, Vasconcelos considera "um completo
retrocesso". "Não quero citar ninguém por enquanto",
justifica-se. "Tenho de ter o mínimo de estratégia." Mas os
fatos falam - ou, melhor, clamam - por si.
        Para não ir mais longe, a própria representação do
PMDB na Câmara Alta é uma usina de indícios veementes
de impropriedades. A legenda tem 20 senadores. Basta uma
simples consulta à base de dados do Supremo Tribunal
Federal (STF) para verificar que 1 de cada 2 deles responde
a processo ou está sob investigação. Tudo somado, são 13
inquéritos, 4 ações penais e 5 investigações. Envolvem
peixes graúdos, como o líder do governo Romero Jucá, alvo
de dois inquéritos, e senadores sem voto, como Edison
Lobão Filho. O "per capita" é inigualável, o que representa
uma proeza e tanto, mesmo sendo o que é "boa parte", como
diria Vasconcelos, dos políticos brasileiros.
        A tempo: além de Pedro Simon, o único peemedebista
de 1º escalão que apoiou Vasconcelos foi Orestes Quércia...




                                                         160
A ENTREVISTA À VEJA




     “A BRAVURA DO INCORRUPTÍVEL”




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A ENTREVISTA À VEJA




“A BRAVURA DO INCORRUPTÍVEL”
Augusto Nunes (18 de fevereiro de 2009)



       Parece mentira, mas existe a oposição parlamentar
que o Brasil decente merece. Chama-se Jarbas Vasconcelos,
é senador pelo PMDB de Pernambuco, pertence à espécie em
extinção dos políticos incorruptíveis e desde o começo da
semana, como convém a raridades admiráveis, está exposto
à visitação pública nas páginas amarelas da revista Veja.
Vale a pena conhecer alguém que vê as coisas como as
coisas são ("O Bolsa Família é o maior programa oficial de
compra de votos do mundo"). Que conta o caso como o caso
foi ("A maioria dos peemedebistas se especializou em
manipulação de licitações, contratações dirigidas, corrupção
em geral. Boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção").
       E que diz sem medo o que pensa. "Um governo que
deixou a ética de lado, que não fez as reformas nem fez nada
pela infraestrutura agora tem como bandeira o PAC, que é
um amontoado de projetos velhos reunidos num pacote
eleitoreiro". Anestesiado pelo que o entrevistado chama de
"banalização do escândalo", rendido à "mediocridade que
contamina", feliz com um presidente que "não tem nenhum
compromisso com as reformas ou com a ética", o Brasil do
faz-de-conta continuou esperando os pesquisadores do
Sensus para informar que o coro dos contentes passou de
90%. Decididos a não melindrar o adversário de estimação,
os partidos de oposição se solidarizaram silenciosamente
com os culpados.
       E os acusados engoliram aplicadamente as verdades
indesmentíveis. Nascido e criado na Zona da Mata, Jarbas
tinha 12 anos quando ouviu do pai, um funcionário público


                                                         162
A ENTREVISTA À VEJA


rude e reto, a frase que ficaria marcada a ferro na memória.
"Nunca volte para casa com marcas de briga nem dizendo
que achou dinheiro na rua". O menino assimilou a lição pela
metade: foi sempre irretocavelmente honesto, mas jamais
fugiu de briga boa. Na década de 70, o deputado estadual
que fundara o MDB pernambucano brigava pela
ressurreição da democracia e contra a ditadura. Aos 66
anos, briga pela restauração da ética, da moralidade e de
outros valores revogados pela aliança dos fora-da-lei. "Os
fatos!    Os    fatos!",   resolveram   cobrar     jornalistas
aparentemente alcançados pela epidemia de cegueira
conveniente. "Os nomes! Os nomes!", exclamaram,
animaram-se nas colunas de leitores alguns idiotas da
objetividade.
       É só teclar as palavras "corrupção" e "partidos" nos
sites de busca na internet, poderia ter sugerido Jarbas na
entrevista coletiva em que reafirmou o que dissera à Veja.
Dispensara-se de acusações detalhadas, informou, por falta
de espaço para tantas. Caso continuem ofendidos, não custa
lembrar, os que viram nas constatações feitas por Jarbas
uma afronta sem fundamento a legendas imaculadas estão
novamente convidados a buscar alívio na internet. Os
simpatizantes do PMDB podem digitar no Google nomes
como Valdir Raupp, Renan Calheiros, Romero Jucá - ou
apenas a sigla do partido. Para os petistas, basta uma
palavra: mensalão. "O PMDB não tem nada a ver com o
partido que combateu o regime militar", constatou Jarbas.
       Por que não muda de sigla? "Para onde irei?",
respondeu o senador com outra pergunta. Melhor esperar a
hora de fundar algo melhor no partido obrigado a tolerar o
dissidente. Sobram-lhe amigos no PSDB, mas falta o que
chama de "formação tucana". E está cada vez mais distante
do PT e do presidente. "O Partido dos Trabalhadores se
apresentou como templo da moralidade até chegar ao

                                                           163
A ENTREVISTA À VEJA


poder", lembrou. "Quando deixou cair a máscara, abriu a
porta para a corrupção". No fim de 2002, animado com o
triunfo de "um ex-operário que havia se comprometido com a
sociedade a promover reformas e governar com ética",
propôs que o PMDB apoiasse Lula "sem cargos nem
benesses".
       Não demorou a decepcionar-se com o presidente que
prefere fazer amigos e conquistar aliados por outros meios.
"Sempre houve corrupção, mas o governo Lula provocou a
banalização do escândalo", registrou. "O Médici também era
endeusado no Nordeste, mas ninguém desistiu de combater
a ditadura por isso", argumentou para justificar o
desembaraço com que atravessa o samba-exaltação
composto por institutos de pesquisa. Em três páginas,
Jarbas resumiu a extensa plataforma que deveria ser
encampada pelos partidos de oposição. Isso se ainda
existissem.

Augusto Nunes é jornalista.




                                                        164
A ENTREVISTA À VEJA




                      “ENCARCERADO NO PMDB”




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A ENTREVISTA À VEJA




“ENCARCERADO NO PMDB”
Maria Cristina Fernandes (20 de Fevereiro de 2009)



        Só há dois tipos de políticos: aqueles que levantam
grana para fazer política e os que fazem política para
levantar grana. O senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE)
tem militado ao longo de seus 40 anos de vida pública na
primeira categoria. Nesta militância tem companheiros
egressos de quase todos os partidos. É compreensível que se
sintam minoritários face ao portentoso exército que cerra
fileiras do outro lado. Mas não é esta militância, de um lado
ou do outro, que pavimenta a chegada ao poder. É a
política. E não são visíveis hoje os rumos da oposição neste
campo. É este o resumo da entrevista do senador à 'Veja'.
        Não é a primeira vez que Jarbas se rebela contra seu
partido ou contra o poder. O que impressiona é como a
oposição à qual hoje se filia tenha sido capaz de encarcerar
um espírito como o seu nos limites das páginas de uma
revista.
        O senador pernambucano resistiu ao golpe militar
abrindo diretórios do MDB pelo interior de seu Estado;
rebelou-se contra a eleição indireta, ausentando-se do
colégio eleitoral que escolheu Tancredo Neves; e segurou,
como presidente do partido, a campanha de Ulysses
Guimarães, quando a maioria de seus correligionários
pulava para o barco de Fernando Collor de Mello.
        Fez política nadando contra a maré dentro do PMDB,
mas não se furtou a deixá-lo quando viu sua carreira ser
ameaçada pela burocracia do partido que, em 1985, montou
uma convenção municipal para derrotar suas pretensões de
se candidatar a prefeito do Recife.


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A ENTREVISTA À VEJA


        Jarbas saiu do PMDB e foi para o PSB, quando
montou a chamada "Frente Popular do Recife", reunindo PT
e PCdoB, além do então deputado federal Miguel Arraes,
com quem depois romperia. Elegeu-se prefeito do Recife
derrotando um obscuro deputado lançado por seu partido.
Passadas as eleições, Jarbas voltou para o PMDB e foi,
paulatinamente, reconquistando a legenda.
        A eleição que salvou a carreira política do então
deputado federal, tendo sido determinante para a história
do Estado naquele momento de retomada do poder pelos
civis, só foi possível graças a uma infidelidade partidária.
        Hoje a história não se repetiria face à decisão dos
tribunais superiores de que o mandato é dos partidos,
saudada como indício de moralização dos costumes
políticos. Foi uma decisão ansiosamente aguardada pelos
partidos de oposição, que nela viram a salvaguarda para a
defecção de seus correligionários rumo ao curral governista.
E teve entusiasmado apoio do próprio Jarbas.
        Ainda é cedo para se concluir que o PMDB vai
compor chapa com a ministra Dilma Rousseff, mas, para
ser substantivo, um movimento pró-Serra no partido hoje
teria que partir de posições que internamente detenham
poder, como o presidente da Câmara, Michel Temer (SP).
        Se a cacicada do PMDB, com os redobrados poderes
da fidelidade partidária, limita seus movimentos na política
nacional, o senador também enfrenta problemas no plano
regional.
        Ao contrário do senador Pedro Simon (PMDB-RS),
que atira para o céu e preserva pontes na terra face a
interesses do governo de sua aliada Yeda Crusius (PSDB),
Jarbas hoje tem mitigadas chances de ver seu grupo
retomar o poder em Pernambuco.
        O governador do Estado, Eduardo Campos (PSB),
está na faixa dos 80% de aprovação e conta com o apoio da

                                                          167
A ENTREVISTA À VEJA


quase totalidade dos 49 deputados da Assembleia
Legislativa. Na última vez que foi ao Recife, o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva avalizou publicamente sua
candidatura à reeleição.
       No início do primeiro governo Lula, quando o ex-
ministro José Dirceu (PT) tentou fechar uma aliança com o
PMDB que só viria a se concretizar anos mais tarde, o então
governador Jarbas Vasconcelos foi a ponta de lança dessa
aproximação, respaldada pela simpatia do presidente que
nunca esqueceu da visita que o então emedebista lhe fez na
prisão.
       Dirceu chegou a almoçar no Palácio do Campo das
Princesas com Jarbas. Comunicou ao então deputado
Eduardo Campos que, em 2006, o lulismo juntaria o então
governador e o prefeito do Recife à época, João Paulo (PT),
numa única chapa como candidatos, respectivamente, ao
Senado e ao governo do Estado.
       Veio o mensalão, Dirceu caiu e Jarbas acabou se
afastando da esfera petista. Eduardo Campos, que saiu do
ministério da Ciência e Tecnologia para reforçar a
retaguarda governista na Câmara no auge do mensalão, foi
ganhando espaço até que, em 2006, derrotou o candidato
jarbista à sua sucessão.
       Na entrevista, o senador diz não ter mais pretensão
de disputar cargos. Seus correligionários no Estado ficaram
em polvorosa, mas não há motivos para desacreditar dele.



Maria Cristina Fernandes é jornalista, editora de Política
do jornal “Valor Econômico”




                                                         168
A ENTREVISTA À VEJA




                      “É PRECISO PUNIR”




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A ENTREVISTA À VEJA




“É PRECISO PUNIR”
Veja - (Carta ao Leitor, 20 de Fevereiro de 2009)



        A entrevista de Jarbas Vasconcelos, publicada na
edição passada de VEJA, deixou Brasília em estado de
perplexidade. À explicitação – tão serena quanto
desencantada – do senador pernambucano de que seu
partido, o onipresente PMDB, é um ninho de corrupção e
fisiologismo, o Palácio do Planalto, que dá mundos, fundos e
latifúndios para manter a agremiação na base governista,
não se manifestou. Preferiu apostar no poder dissipador de
crises do Carnaval brasileiro.
        A oposição, por sua vez, conseguiu produzir um
silêncio ainda mais eloquente: afinal de contas, como
romper um namoro, com vistas à eleição presidencial de
2010, que pode dar em casamento? A reação mais
reveladora do grau de esgarçamento da política brasileira
partiu, no entanto, da cúpula peemedebista.
        Diante da afirmação, feita por um integrante
histórico do partido, de que "boa parte do PMDB quer
mesmo é corrupção", os caciques da agremiação divulgaram
uma nota vaga em que o acusam de lançar uma sombra de
suspeição sobre todo o sistema e deram o assunto por
encerrado. Mais nada. Não recorreram nem mesmo àquele
vício que presta elogio à virtude, o da hipocrisia. Hipocrisia
de afirmar, por exemplo, que seria aberta uma sindicância
interna ou que Jarbas seria chamado a se explicar.
        Ao comentar a repercussão da entrevista de Jarbas
junto à cúpula do PMDB, o jornal O Estado de S. Paulo, em
editorial, deu-lhe contornos definitivos: "Com sua
murmurada resposta, o baronato partidário passou o


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A ENTREVISTA À VEJA


proverbial      recibo     ao     denunciante,       elevando
inadvertidamente os seus argumentos à categoria de
constatação de uma realidade objetiva".
       As reações partidárias são um péssimo termômetro
para medir a febre de corrupção que desde sempre acomete
o tecido político do país – em seus níveis municipal,
estadual e federal. Para avançar nessa questão, a sociedade
brasileira não pode deixar cair no vazio a entrevista corajosa
do senador. VEJA espera ajudar nesse sentido, com a
reportagem que começa na página 44.
       Além de revelar detalhes do antigo caso de amor do
PMDB com o dinheiro do contribuinte, a reportagem elenca
os caminhos mais factíveis para tentar deter as
delinquências na esfera pública. A transparência nos
gastos, gestão eficiente e, principalmente, o fim da
impunidade de corruptores e corruptos, tais são as linhas
mestras.
       O Brasil é um país mais corrupto do que muitos não
porque nossa índole seja pior do que a de outros povos. O
que nos é peculiar nesse campo é a impunidade. Os
corruptos se beneficiam principalmente de um sistema
judicial convoluto, que permite recursos, manobras e
adiamentos praticamente sem fim. O resultado disso tudo é
o incentivo à prevaricação.
       Essa lógica precisa ser invertida, de modo que roubar
dinheiro público se torne complexo e a punição aos
culpados, inescapável. Só assim as coisas começarão a
mudar no Brasil.




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A ENTREVISTA À VEJA




                      “ASSINAREI EMBAIXO”




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A ENTREVISTA À VEJA




“ASSINAREI EMBAIXO”
Cristovam Buarque (20 de Fevereiro de 2009)



        Nesta semana, a revista Veja publicou uma entrevista
com o senador Jarbas Vasconcelos que ficará na história
como uma das mais fortes tomadas de posição feita por um
político brasileiro. Apesar da discordância de muitos, sua
entrevista diz o que muitos pensam e não quiseram, não
tiveram grandeza ou oportunidade para dizer. Nenhum líder
brasileiro pode ficar omisso. Todos os políticos com cargo
eletivo têm obrigação de exigir que as denúncias sejam
apuradas.
        Não se pode deixar de refletir e tomar posição quando
ele afirma que “a eleição de Sarney foi um processo tortuoso
e constrangedor. Um completo retrocesso. Tião Viana,
embora petista, estava comprometido em recuperar a
imagem do Senado.” Ele diz que esta eleição “reflete o que
pensa a maioria dos colegas parlamentares.” Foi por causa
dessa maioria que, há dois anos, o senador Jefferson Peres
teve a coragem de dizer que não pretendia candidatar-se
outra vez, com a mesma ênfase de Jarbas dizendo agora
que: “às vezes eu me pergunto o que vim fazer aqui”. Porque
“o nível dos debates é inversamente proporcional à
preocupação com as benesses”.
        As declarações relacionadas com o PMDB seriam um
assunto interno, se ele não fosse o maior partido, com o
controle das duas Casas do Congresso e poder de fazer
refém o próprio Executivo. O senador Jarbas diz com toda
força que o líder de seu partido no Senado “não tem
nenhuma condição moral ou política para ser senador”.



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A ENTREVISTA À VEJA


       Mais grave será se a entrevista do senador Jarbas
não tiver consequências. Se nada for feito, o Senado
atestará sua tolerância com as acusações. Ou o senador
Jarbas está fazendo acusações injustas e merece ser
punido, ou ele está dizendo a verdade e é preciso punir que
está desmoralizando a política brasileira. Pior será se, em
vez de abrirem processo para saber quem está com a
verdade, os acusados usarem o poder que têm para punir o
senador. Neste caso, é preciso que outros assinem embaixo
da entrevista de Jarbas Vasconcelos, para que as acusações
sejam apuradas.
       Qualquer medida contra o senador Jarbas tomada
pela direção do PMDB sem um debate transparente, um
julgamento aberto, confirmará suas acusações e será um
atestado adicional de desmoralização dos que hoje
controlam o poder legislativo brasileiro e, por meio dele,
toda a República brasileira.
       Jarbas disse na entrevista que o PMDB quer cargos
“para fazer negócios, ganhar comissões. Alguns ainda
buscam o prestígio político. Mas a maioria dos
peemedebistas se especializou nessas coisas pelas quais os
governos são denunciados: manipulação de licitações,
contratações dirigidas, corrupção em geral.” Essa acusação
toca não só ao maior e mais forte partido do País, mas
também aos governos dos quais o PMDB faz parte: Federal,
Estaduais e Municipais. E, indiretamente, a todos os
partidos brasileiros que, por isso mesmo, deveriam ter
interesse na apuração das denúncias.
       Esse tema diz respeito a todos os líderes do País, ao
governo federal, ao Senado e à Câmara de Deputados, ao
Poder Judiciário. Especialmente ao Ministério Público. Por
isso, se o assunto não for devidamente apurado, ou se o
senador Jarbas for punido por ter tido coragem de dizer o
que pensa sem ser desmentido por um processo

                                                          174
A ENTREVISTA À VEJA


transparente, é preciso que outros reforcem as acusações
que ele fez, nem que seja para que elas sejam apuradas.
       Com este artigo, estou pré-assinando embaixo do que
disse o senador Jarbas, se suas acusações não forem
apuradas ou se ele for punido pela coragem de dizer o que
pensa o povo brasileiro.



Cristovam Buarque é senador da República




                                                        175
A ENTREVISTA À VEJA




                  “O QUADRO ATERRADOR DA
                              CORRUPÇÃO”




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A ENTREVISTA À VEJA




“O QUADRO ATERRADOR DA
CORRUPÇÃO”
Editorial do O Estado de S.Paulo (5 de Março de 2009)



       A escandalosa tentativa do PMDB, na semana
passada, de assumir o controle da Fundação Real
Grandeza, responsável pelo fundo de pensão dos
funcionários de Furnas e da Eletronuclear, o sexto maior do
gênero, foi, sem tirar nem pôr, o que dela viria a dizer o
senador peemedebista Jarbas Vasconcelos: uma prova
"clara e inequívoca" da procedência de suas denúncias
sobre o que move o grosso do seu partido quando trata de
ocupar espaços estratégicos na área federal. "Boa parte do
PMDB quer mesmo é corrupção", acusou o representante
pernambucano em recente entrevista à Veja.
       Apesar da operação-abafa da cúpula partidária, as
suas declarações configuraram um fato político destinado a
permanecer em cena por mais tempo do que desejariam os
denunciados - e o governo que lhes entrega sossegadamente
as chaves da casa.
       Na terça-feira, Vasconcelos voltou à carga da tribuna
do Senado, cobrando "ações corretivas" contra "a
degradação pública do sistema político brasileiro", a
começar da armação conduzida pelo ministro de Minas e
Energia, Edison Lobão, outro peemedebista, para derrubar
os administradores do fundo de pensão Real Grandeza. Ele
os acusou de fazerem "uma bandidagem completa" e
"grande safadeza".
       O ministro levou um contravapor do presidente Lula,
mas fingiu que não era com ele. "As pessoas", comentou em
termos gerais um desacorçoado Vasconcelos, "se agarram

                                                          177
A ENTREVISTA À VEJA


aos cargos como um marisco no casco de um navio - não
caem nem nas maiores tempestades." A craca prolifera no
ambiente de impunidade. E esta, apontou o senador, "se
estabelece em bases sólidas num terreno cada vez mais
fértil".
         Eis por que ele tem razão ao exigir que o episódio do
Real Grandeza não fique por isso mesmo. Talvez a "auditoria
independente" que propôs não seja a melhor alternativa
para deixar o caso em pratos limpos. Mas o que não se
pode, mais uma vez, é "deixar a poeira baixar, esperando
que a história seja esquecida, abafada por um novo
escândalo".
         O universo dos fundos de pensão das estatais, por
sinal, é uma das arenas mais ensanguentadas onde se
entredevoram as principais legendas da opulenta base
governista. "A população", observou Vasconcelos, "não
compreende o porquê da disputa ferrenha entre grupos
partidários, sempre envolvendo empresas de orçamentos
bilionários." Os dez maiores fundos administram carteiras
de investimentos que somam mais de R$ 226 bilhões. Não é
difícil imaginar a cadeia de apetites ao redor dessa bolada.
         Isso não faz necessariamente dessas instituições
antros de corrupção. Mas é fato que os recursos do Real
Grandeza, por exemplo, abasteceram o valerioduto,
conforme apurou a CPI do Mensalão. Seis daqueles dez
fundos são controlados pelo PT, vale dizer, pelo apparat
sindical ligado ao partido - em especial, ainda hoje, por
apadrinhados dos companheiros ex-ministros José Dirceu e
Luiz Gushiken. O PMDB, entre outros, não se conforma
com isso. O resultado é uma briga suja de máfias
partidárias.
         Do ângulo do interesse público, o problema é que,
"nessa mistura de partido, governo e sindicatos, ninguém
sabe onde está o Estado, que acaba se dissolvendo em

                                                            178
A ENTREVISTA À VEJA


interesses múltiplos", como diz o presidente do PSDB,
senador Sergio Guerra, em um raciocínio que se encaixaria
à perfeição no discurso de Vasconcelos. "Foi isso que gerou
o mensalão."
        Ele não exagera ao classificar de "aterrador" o quadro
da corrupção na esfera federal, muito menos ao assinalar
que o cenário vinha sendo encoberto pelos bons resultados
da economia - para o conforto de um presidente que
prometera, na primeira campanha ao Planalto, "uma
intervenção enérgica pelo fim da impunidade e uma ampla
ação cultural educativa pela afirmação dos valores
republicanos e democráticos em nossa vida política",
lembrou o senador.
        Mas Lula dirigiu as suas energias para adquirir o
apoio, com a devida paga, da ampla banda podre da política
nacional. Amargo sinal dos tempos: por "constatar o óbvio,
apenas isso", Jarbas Vasconcelos foi afastado da Comissão
de Constituição e Justiça do Senado. A decisão foi do líder
do PMDB na Casa, ninguém menos do que Renan
Calheiros, outro dos amigos do peito do presidente. São
políticos dessa, digamos, categoria que dão as cartas no
Brasil do lulismo.




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A ENTREVISTA À VEJA




                      “UM GRANDE MARANHÃO”




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A ENTREVISTA À VEJA




“UM GRANDE MARANHÃO”
Demétrio Magnoli (5 de Março de 2009)



       "Hoje, o PMDB é um partido sem bandeiras, sem
propostas, sem um norte. É uma confederação de líderes
regionais, cada um com seu interesse, sendo que mais de
90% deles praticam o clientelismo, de olho principalmente
nos cargos." Na sua recente entrevista à Veja, o senador
Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) concluiu explicando o
motivo por que seu partido quer cargos. "Para fazer
negócios, ganhar comissões. Alguns ainda buscam o
prestígio político. Mas a maioria dos peemedebistas se
especializou nessas coisas pelas quais os governos são
denunciados: manipulação de licitações, contratações
dirigidas, corrupção em geral."
       Antes que secasse a tinta que imprimiu as
declarações de Jarbas, como se para comprová-las e
ridicularizar a nota de frouxa indignação emitida pelo
PMDB, veio à luz o episódio exemplar do Real Grandeza, o
fundo de pensão de Furnas. A operação de tomada de
assalto da direção do fundo, que administra um patrimônio
de R$ 6,3 bilhões, foi tramada dentro do Executivo, pelo
ministro Edison Lobão, que agia ostensivamente em nome
do PMDB, e brecada na última hora por intervenção de um
presidente da República acossado pela mobilização dos
funcionários e pensionistas da estatal.
       Lobão abriu sua ofensiva por meio de uma entrevista
a O Globo na qual acusou os dirigentes do Real Grandeza
de praticarem "uma bandidagem completa" e promoverem
"uma grande safadeza" com a finalidade de "não perder a
boca". Se as palavras do ministro tivessem significado, ele


                                                         181
A ENTREVISTA À VEJA


pediria demissão na hora em que foi desautorizado pelo
presidente. Na outra ponta, Lula não o desautorizaria sem o
demitir se a privatização da coisa pública não fosse moeda
corrente no negócio que mantém com o PMDB. Mas Lula e
Lobão nem sequer coraram: eles conhecem as regras do
jogo.
        Pedro Simon, um homem inocente, exigiu de Jarbas
uma lista de nomes dos corruptos. Jarbas não fez uma
denúncia de corrupção, mas um diagnóstico político, que
solicita complementos. O sistema político brasileiro,
reorganizado nos estertores da ditadura militar, articula-se
ao redor de quatro grandes partidos: PT, PSDB, DEM e
PMDB. Os três primeiros veiculam, bem ou mal, narrativas
ideológicas sobre o Brasil e o mundo. O quarto, contudo,
não é de fato um partido, mas a expressão maior do cancro
patrimonialista que envenena todo o sistema político. No
fundo, o PMDB é uma abóbada sob a qual se abrigam
comandos de captura parcelar do Estado.
        "O patrimonialismo é a vida privada incrustada na
vida pública", escreveu Octavio Paz. Na mesma passagem de
O Ogro Filantrópico, ele aponta o paradoxo crucial do
Estado mexicano, que foi "o agente principal da
modernização", mas "ele mesmo não conseguiu se
modernizar inteiramente".
        O peso do passado manifesta-se na atitude do chefe
do governo, que "considera o Estado como seu patrimônio
pessoal" e, por essa razão, o corpo de funcionários públicos,
"dos ministros aos contínuos e dos magistrados e senadores
aos porteiros, longe de constituir uma burocracia
impessoal, forma uma grande família política ligada por
vínculos      de    parentesco,      amizade,     compadrio,
conterraneidade e outros fatores de ordem pessoal".
        O Brasil não experimentou uma revolução que se
institucionalizasse como partido oficial. Mas aqui, como lá,

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A ENTREVISTA À VEJA


jamais se traçou uma fronteira nítida entre a "vida privada"
e a "vida pública". O PMDB só existe porque inexiste essa
fronteira.
        Um tema crucial na literatura de oposição à ditadura
militar brasileira era a crítica ao poder da chamada
tecnoburocracia. Os militares excluíram os políticos do
núcleo do aparelho de Estado. A Arena, partido oficial da
situação, acolheu a parcela da elite política conformada com
a subordinação imposta. No MDB, partido oficial da
oposição, abrigaram-se os políticos insatisfeitos, que
almejavam retornar ao centro do palco.
        A transição negociada de Ulysses Guimarães e
Tancredo Neves representou um triunfo do MDB. A
tecnoburocracia retrocedeu e restaurou-se o acesso da elite
política às fontes da riqueza pública. Sob a Presidência de
Sarney, o líder da Arena transferido para o PMDB, salgou-se
a terra em que germinava a oportunidade de uma reforma
modernizante do Estado.
        No México dos tempos áureos do PRI, as maiorias
parlamentares     eram    automáticas.      No   Brasil,  são
construídas pelo Executivo, por meio da privatização oculta
dos fragmentos mais cobiçados do aparelho de Estado. A
corrupção é a face complementar da degradação do
Parlamento.
        O PMDB é, por natureza, o eterno partido da
situação. De Sarney a Lula, o partido sem programa nem
ideias configurou as maiorias governistas de todos os
presidentes. Agora, no acender das luzes da campanha de
2010, os peemedebistas formam provisórias colunas
distintas, alinhadas atrás dos principais candidatos ao
Planalto. O PMDB estará na próxima base governista, com
Serra, Dilma, Aécio ou Ciro, praticando o esporte em que se
especializou: chantagear presidentes, vendendo apoio
parlamentar em troca de cargos que servem como chaves

                                                           183
A ENTREVISTA À VEJA


para "manipulação de licitações, contratações dirigidas,
corrupção em geral".
       O PMDB descrito por Jarbas, uma hidra de múltiplas
cabeças, tem em Sarney sua figura icônica. O representante
parlamentar do poder militar em crise, o presidente
improvável que distribuía freneticamente concessões de
rádio à sua vasta corriola enquanto o País naufragava no
mar da hiperinflação, o "oligarca eletrônico" do pobre
Maranhão, na síntese precisa empregada pela revista The
Economist, converteu-se anos atrás em aliado interessado
de Lula.
       Nessa condição, ele controla uma fatia do Estado, na
qual se encontram o Ministério e as estatais subordinadas a
seu afilhado político Lobão. Agora, com o patrocínio de um
Lula que só tem olhos para 2010, a personificação do
patrimonialismo retorna à presidência do Senado. Como
disse Jarbas, seu desígnio é transformá-lo "em um grande
Maranhão".



Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em Geografia
Humana pela USP




                                                         184
A ENTREVISTA À VEJA




                      “A LUTA DE JARBAS”




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A ENTREVISTA À VEJA




“A LUTA DE JARBAS”
Roberto Magalhães (12 de Março de 2009)



        Os pernambucanos acompanham a história de
Jarbas Vasconcelos desde o seu surgimento na vida política
do nosso Estado, ainda na década de 60.
        Nos anos que se seguiram e até os dias atuais, o
militante corajoso e afirmativo expandiu suas fronteiras de
atuação, exercendo mandatos em diferentes esferas
federativas. Foi deputado estadual, deputado federal,
prefeito do Recife, governador do Estado e, atualmente,
senador da República.
        Não é      surpresa     para   todos nós, amigos,
correligionários e adversários, vê-lo crescer na confiança e
no respeito da opinião pública nacional, ao denunciar o
estado de desorganização, de inversão de valores e de
decadência dos costumes políticos, de partidos e de
instituições públicas, pela ação predatória de agentes
políticos, burocratas, lobistas e congêneres.
        Vale lembrar palavras de Jarbas em seu discurso, no
Senado, em 3 de março de 2009: “O exercício da política não
pode ser transformado em um balcão de negócios. O que se
vê hoje no nosso País é um sentimento de descrença, com a
impunidade corroendo as bases da democracia. O poder pelo
poder leva ao quadro político degenerado que hoje vivemos
em nosso País, no qual a esperteza é mais valorizada que a
inteligência e a correção ética.”
        O senador identifica as distorções do modelo eleitoral
como a matriz da quebra dos valores e da contaminação dos
mandatos pela corrupção. O financiamento privado e o voto



                                                            186
A ENTREVISTA À VEJA


em lista aberta são a porta larga para a compra de votos e o
comprometimento do processo democrático.
        A reforma política é, em seu juízo e no de políticos
responsáveis, urgente e indispensável, a partir do
financiamento público de campanhas eleitorais associado à
fidelidade partidária.
        Jarbas produziu um discurso sereno, lúcido e
corajoso, ao catalogar alguns episódios como a recente luta
travada entre o PMDB e o PT pelo controle do Real
Grandeza, fundo de pensão dos funcionários da estatal
Furnas Centrais Elétricas S.A. Ele aponta, também, a
elaboração e execução do Orçamento Geral da União como
espaço para a degradação do exercício da política.
        Condena a entrega de cargos de gestão financeira por
indicação de partidos ou parlamentares, propondo lei que
exija o exercício desses cargos por servidores de carreira,
previamente aprovados pelo Senado.
        Os casos ocorridos recentemente envolvendo
representantes dos Poderes Executivo e Legislativo, como a
briga por fundos de pensões, a descoberta de mansão e
castelo ocultos e o encontro do presidente com quase quatro
mil prefeitos, em Brasília, para fazer campanha prematura
da ministra-candidata, confirmam a urgência de se colocar
freios à indevida utilização dos instrumentos de poder do
Estado.
        É preciso despertar a indignação adormecida da
sociedade se quisermos converter a incredulidade e
passividade em ações concretas contra a corrupção.
        Na edição nº 2.103 da Veja, de 11 de março, temos o
anúncio de um novo fato indecoroso: a conhecida empresa
internacional Kroll, que presta serviços de espionagem, teria
contactado detetives em Pernambuco para investigar a vida
do senador pernambucano e familiares, procedimento
intolerável.

                                                           187
A ENTREVISTA À VEJA


       Já não há lugar para a omissão.
       Mas é animador saber do apoio de brasileiros de
várias regiões à reconstrução de um regime de moralidade
administrativa e de ética política em nosso País, conforme
registra a mídia nacional.
       Jarbas Vasconcelos revela-se sintonizado com a
melhor tradição pernambucana de não faltar ao País,
quando necessário se faz levantar a voz e partir para a luta
em defesa dos elevados interesses da Nação.



Roberto Magalhães, advogado, foi Vice-Governador de
Pernambuco, Governador de Pernambuco, Prefeito do Recife e
Deputado Federal




                                                          188
A ENTREVISTA À VEJA




                      “JARBAS E BRUZUNDANGA”




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A ENTREVISTA À VEJA




“JARBAS E BRUZUNDANGA”
Gustavo Krause (13 de Março de 2009)



        Quem ficou surpreso com a entrevista do senador
Jarbas Vasconcelos, não o conhece ou, deliberadamente,
esquece sua trajetória política. Nem os mais ferrenhos
adversários podem lhe negar os atributos do destemor e
coragem cívica. Correu riscos efetivos se colocando entre os
chamados autênticos do então MDB em todo processo
político de transição do regime autoritário para o regime
democrático.
        Outro ponto relevante: franqueza e lealdade para com
os adversários e aliados, a despeito da retórica contundente.
        É o seu estilo. Seu modo de fazer política. E estilo é
como o nariz, cada um tem o seu. Não significa que seja
melhor ou pior, que garanta maior ou menor sucesso na
competição política, até porque não existe uma receita
pronta para o que se possa considerar êxito nesta complexa
empreitada. É diferente. E esta diversidade de estilos é que
dá um colorido à vida e, em especial, à vida das
democracias.
        Em certos momentos, Jarbas não hesita em usar o
martelo. No mundo das ideias e no espaço da política, há
momentos em que é preciso usar o martelo. Existiam e
existem intelectuais, jornalistas, pensadores que "filosofam
com o martelo" e investem contra ideias dominantes,
verdades cristalizadas, e dogmas irredutíveis. Existiam e
existem políticos que, vez por outra, largam de mão as
conveniências, os panos mornos, a dissimulação, para dar
um choque no faz de conta da realidade mistificada. Usa o
martelo. Ou a alta voltagem do que Dora Kramer,


                                                            190
A ENTREVISTA À VEJA


socorrendo-se de Al Gore, chamou de "verdade
inconveniente".
        É preciso, de vez em quando, dar e receber choques.
É preciso chacoalhar a letargia do conformismo, a
subserviência asquerosa, a indignação reprimida, a
venalidade descarada sem medir preços e consequências
imediatas. O futuro manifestará, mais cedo ou mais tarde,
um agradecido reconhecimento.
        E não me venham com o argumento cínico do "tem
que provar". Jarbas não usou a retórica jurídica. Não falou
como advogado, logo seu discurso não é o libelo dos
tribunais do júri. Jarbas se expressou através de um dos
direitos fundamentais do estatuto universal dos direito
políticos: o direito de opinião. No caso dele, senador,
devidamente protegido pela imunidade parlamentar cuja
serventia é, precisamente esta, e não assegurar a
impunidade dos delinquentes, travestidos de representantes
do povo.
        Para denunciar o lodo moral e a mediocridade
política, cada um usa a arma de que dispõe. Jarbas usa o
mandato de senador e a retórica política, legitimado que
está, como representante do povo pernambucano.
        Outros, um escritor, por exemplo, usa a literatura
para desvendar o Brasil real aos olhos embaçados de sua
população. Isto me remete a uma obra clássica de Lima
Barreto Os bruzundangas, postumamente publicada (1923).
        O mulato Afonso Henriques de Lima Barreto foi
grande escritor e jornalista. Encarava a literatura com uma
função       social.     Suas     assumidas       inclinações
anarcosocialistas, inspiraram a crítica mordaz da sociedade
de sua época, notadamente da República Velha e, como
escritor militante, alimentava ele a esperança de despertar
forças renovadoras de costumes sociais e práticas políticas.



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A ENTREVISTA À VEJA


        O autor de O triste fim de Policarpo Quaresma, um
mestre da sátira e da ironia, retrata, em diário de viagem,
um país imaginário cujas mazelas – os privilégios, o poder
oligárquico, as sanguessugas do erário, as desigualdades
sociais, os apaniguados, os retrógrados, as propinas, o
nepotismo – estavam entranhados nos costumes e na
cultura política.
        Bruzundanga, que era um decalque ficcional do
Brasil, estava, assim, organizado: o presidente, um
deslumbrado idiota, era o "Mandachuva", a Justiça era
denominada       "Chicana",   dez   mil     burocratas,   não
concursados (comissionados de hoje), formavam a "Guarda
do Entusiasmo", uniformizados de "povo", para dar "vivas"
ao chefe sem risco de a massa ignara errar o seu nome, o
grande nome das finanças era o deputado Felixhimino Ben
Karpatoso, situacionista e continuista, relator do orçamento
que pregava menos impostos e aumentava a taxa sobre "o
bacalhau da Noruega" e sobre todos os produtos
concorrentes com os nacionais, o sistema eleitoral era
viciado e, na falta de bolsas, os meios de convencimento do
eleitor eram os "coronéis", os "cabalistas", os "capangas", os
"fósforos" (votavam pelos mortos ou ausentes) e a ata
falsificada pelo "bico da pena".
        Bruzundanga tinha Constituição com artigos muito
bons, inclusive, um nas disposições gerais que determinava:
"Toda vez que um artigo desta Constituição ferir os
interesses de parentes da "situação" ou de membros dela,
fica subentendido que ele não tem aplicação ao caso".
Maravilha!
        Lima Barreto foi o arauto do Brasil contemporâneo,
Jarbas revisitou a Bruzundanga. É isso aí, tudo uma coisa
só, e estamos conversados.




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A ENTREVISTA À VEJA


Gustavo Krause, consultor, foi Prefeito do Recife,
Governador de Pernambuco, vereador, deputado federal e
Ministro da Fazenda e do Meio Ambiente




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A ENTREVISTA À VEJA




 “CRUZADA DE JARBAS PAUTA 2010”




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A ENTREVISTA À VEJA




“CRUZADA DE JARBAS PAUTA 2010”
Ruy Fabiano (14 de Março de 2009)



        O senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) está
programando uma série de viagens pelo Brasil, tendo como
bandeira a campanha anticorrupção. Não irá sozinho.
Diversos políticos, a maioria do PSDB, se dispõem a
acompanhá-lo.
        É improvável que sua cruzada moral resulte
concretamente em alguma coisa. É um tema recorrente na
política brasileira. Produz espasmos de indignação e, no
máximo, desemboca em CPIs, que, quando bem-sucedidas,
cassam algumas cabeças coroadas e contribuem para uma
catarse da opinião pública.
        O tema, no entanto, pautará esse início de pré-
campanha com vistas a 2010. No PT e no PMDB, os mais
incomodados com a inesperada cruzada, não se tem dúvida
de que Jarbas trabalha sua pré-candidatura a vice-
presidente da República na chapa tucana de José Serra. A
campanha eleitoral, a rigor, já começou.
        Desde que Lula decidiu colocar a ministra Dilma
Roussef a tiracolo e com ela percorrer o país, a pretexto de
lançamento das obras do PAC, a oposição decidiu ir à luta.
Sabia que a interpelação ao Tribunal Superior Eleitoral
daria em nada e que seria necessária uma ação mais
afirmativa para se contrapor à campanha de Dilma.
        Jarbas deu o mote com a entrevista a Veja.
Desdobrou-a em discurso no Senado, acrescido da denúncia
de que estaria sendo espionado por seu próprio partido.
Está criando as condições para justificar seu desligamento



                                                          195
A ENTREVISTA À VEJA


do PMDB, sem perda de mandato. Tem até outubro para
fazê-lo.
       A campanha do senador pernambucano, a certa
altura, coincidirá com os primeiros julgamentos do
Mensalão, que colocarão o governo em posição de
desconforto. É previsível que o governo reaja e se estabeleça
uma guerra de dossiês. Mas a desvantagem em tal
confronto é sempre do governo, qualquer governo, já que
tem em mãos os instrumentos coercitivos e punitivos – e,
pois, o dever de agir. A oposição, não: pode apenas falar.
       A denúncia de Veja contra o delegado Protógenes
Queiroz recoloca o descontrole do governo sobre seu
aparelho de segurança. Não é, porém, um tema de grande
impacto popular, até porque há certa tolerância na opinião
pública quanto ao uso de processos heterodoxos na caça
aos corruptos. Os fins justificariam os meios. Do ponto de
vista, do direito, um absurdo; do ponto de vista do
marketing, um tema de escasso potencial.
       A corrupção é vista como uma epidemia que macula
os três Poderes. As leis processuais favorecem os que
dispõem de dinheiro para pagar bons advogados, servindo-
se do cipoal de recursos que elas oferecem. Por isso, a
ortodoxia processual inspira ceticismo, que dá sustentação
a procedimentos ilegais, em nome de uma justiça de
resultados. Quando um delegado como Protógenes Queiroz,
o da Operação Satiagraha, é exposto como alguém que
enfrentou poderosos, é, por isso mesmo, recebido como
herói.
       Daí a pouca repercussão popular da CPI dos
Grampos, prorrogada pela Câmara. Alguém acha que dará
em algo?
       Jarbas centralizará sua cruzada contra o governo e
os partidos que lhe dão sustentação, denunciando licitações
viciadas, uso indevido de cargos, fisiologismos. E é esse

                                                           196
A ENTREVISTA À VEJA


mote que será reverberado pelos seus aliados do PSDB e do
DEM.
       O que se prevê é uma proliferação de denúncias e de
CPIs: dos fundos de pensão, das ONGs, da terra etc. Muito
barulho por nada. Não que não haja nada. Corrupção é
realidade concreta na vida pública brasileira. O que não há,
por isso mesmo, é efetiva determinação política dos partidos
de levar essa questão a um desfecho concreto. Reproduz-se
aí o episódio bíblico de Maria Madalena: ninguém está em
condições de atirar a primeira pedra.
       Quem quiser saber detalhes operacionais – o modus
faciendi da corrupção no Brasil contemporâneo - consulte o
livro “Nervos de Aço” (Editora Topbooks, 2006), de Roberto
Jefferson, o paladino do Mensalão. Continua sendo a bíblia
mais informativa do tema, fornecendo, além de nomes e
datas, CPFs e CNPJs dos infratores.
       Como contribuição efetiva ao combate à corrupção,
vale por dezenas de entrevistas de Jarbas Vasconcelos, que,
nas suas denúncias, ainda que corajosas e bem-
intencionadas, se ateve aos adjetivos, desprezando os
substantivos.
       Jefferson faz o contrário. Explica como se “captam”
recursos de órgãos públicos, quer de maneira direta, quer
por meio dos fornecedores. Ali se faz o caixa eleitoral (e
pessoal), nutrindo os partidos dos meios de financiar suas
candidaturas. Não há, quanto a isso, exceções. Um
mandato de deputado federal no Rio de Janeiro, segundo
Jefferson, não sai por menos de R$ 1 milhão.
       Quem o tem não quer gastá-lo de seu próprio bolso,
não quer comprometer patrimônio pessoal com política
(ainda que a política o tenha construído). E quem não o tem
terá que providenciá-lo de algum modo. Nas duas hipóteses,
é preciso correr atrás, e o Estado tem sido, historicamente,
o cofre preferencial.

                                                          197
A ENTREVISTA À VEJA




Ruy Fabiano é jornalista




                           198
A ENTREVISTA À VEJA




              “O PMDB É UMA BELA FLOR EM
                           NOSSA TERRA”




                                      199
A ENTREVISTA À VEJA




“O PMDB É UMA BELA FLOR EM NOSSA
TERRA”
Arnaldo Jabor (24 de março de 2009)



         O senador chegou e me botou o dedo na cara:

       "Vocês, jornalistas que infestam o País, agora só falam
do PMDB, da corrupção no Congresso. Vocês fervilham como
formigas em cima de instituições que não conhecem. O
PMDB é uma das mais belas florações de nossa história.
Vocês se esquecem de nossas tradições e atribuem
malignidade à pequenas ações inocentes, hábitos
incrustados em nossa alma como a cana, o latifúndio, como
nossos bigodes que vocês chamam de ?bregas?, nossos
jaquetões e gravatas zebradas, a tristeza conformada no
rosto de nossas esposas, as alegres tradições country, os
churrascos eufóricos, as ancas de amantes risonhas, as
joias de ouro tilintando em pescoços e pulsos, a viril
antipatia de nossos chefes políticos. Nisto tudo vocês deviam
ver que alguma coisa sólida e cultural existe neste Brasil e
que isto é belo.
       Quando eu faço uma piscina azul em minha casa no
sertão, ela brilha como um retângulo de esperança em meio
à seca. Não é arrogância, mas solidez. Não é crueldade, pois
é preciso que alguém tenha piscina na caatinga para que a
dor dos miseráveis seja suportável. A vida do pobre ganha
um sentido hierárquico: ele está embaixo, mas se consola
porque alguém vive feliz em cima.
       Eu acrescento ordem ao mundo com minhas
motocicletas no agreste, eu sei da beleza de passear de
Harley Davidson com minha mulher oxigenada e

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A ENTREVISTA À VEJA


rechonchuda (chamo-a de minha ?potrinha?), com um belo
abrigo Vuitton, para que nossa passagem cause um ?Ohhh!?
nos ?bóias-frias? das lavouras. Sei que há orgulho nisso,
mas grande é meu prazer do ?pudê? herdado, o prazer de
ver o fantasma de meu avô entre os canaviais flamejantes,
de ver as mãos magras agarrando os chapéus - homens
humildes e curvados quando eu passo.
       Esses belos instantes servem de bálsamo contra
tantos que acham que o Brasil piorou.
       Muita coisa melhorou, sim. Vejam minha lancha
ancorada no Iate Clube, vejam as parabólicas em meu teto
de fazenda, vejam os gritos alegres de meus filhos no carro
japonês rolando na poeira da fazenda, o rubro Mitsubishi
entre vacas magras, o jatinho pousando entre caveiras de
burro.
       Não pense que meu peito se confrange diante da
palavra ?corrupção? no PMDB; não há corrupção entre nós;
é apenas a continuação de um processo histórico. O
dinheiro que arrecadamos, na relação entre a coisa pública e
privada sempre nos pertenceu. Ou você acha que haveria
obras e progresso sem esta simbiose? Não há casamento
sem interesse. É belo e progressista o interesse político. A
honestidade alardeada é hipocrisia. Este Jarbas (não o
nosso Barbalho, mas o Vasconcelos) está sabotando uma
secular dinâmica política para se promover... Vaidade pura...
Ele está prejudicando a doce aliança PT-PMDB, que permite
que o País evolua, como bem disse nossa candidata em
campanha (até segunda ordem) Dilma. Reclamam dos 181
diretores, mas esquecem que eles formam um pelotão
cordial de amigos fiéis. Admire a beleza superior deste
imenso patrimônio espiritual que nós possuímos no Partido,
feito de favores, amizades, famílias amplas, burocratas
cooperativos. É legitimo que eles queiram incluir mais e
mais os bens do País como uma prótese de suas vidas

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A ENTREVISTA À VEJA


privadas, coroadas pelo êxito. Sem enriquecer, para que
fazer política?
       Nossos peitos estão felizes em nossas camisas de seda
que vieram de Miami; há um progresso enorme em nossas
famílias, mas os pessimistas só olham para as costelas dos
famintos. Querem o quê? Que fiquemos magros também,
que dividamos nossas conquistas com os que nada têm,
querem socializar a miséria? Ademais, é impossível salvá-
los. São 40 milhões de pobres, chocados em quatro séculos
de tradições. A única solução é virar os olhos para a beleza
do poder no campo e na cidade: a alegria de sermos
senhores feudais sobre cidades inteiras, a volúpia de ver os
fulgurantes escritórios, a hábil tessitura de negócios fiscais,
a grande arte dos lucros fabulosos, a sensação épica na hora
da propina, as mandíbulas salivando a cada grande negócio.
Tudo isso é belo!
       Quem disse que o mundo é para mudar? Isto é
herança protestante de frios anglo-saxões. Será que vocês
não veem, jornalistazinho petulante, que vocês, profissionais
do pessimismo, são cegos para outras formas de beleza? O
encanto dos shoppings de luxo, as paisagens urbanas vistas
através do Blindex, as velozes paixões dos cartões de crédito,
o eufórico alarido dos restaurantes, os roncos de jet skis no
mar, os gemidos das amantes nos lençóis de cetim, os jatos
prateados, a euforia dos almoços de conchavos e ?troca-
trocas?, tudo isto que doura o nosso progresso? Por que só
olhar para o fracasso dos famintos?
       Esta crise mundial da economia vai se avolumar.
Estou me lixando... pois quando o País definhar,
continuaremos a ver o que havia de natural e belo em
nossas vidas, o que era a continuidade da ordem do mundo.
       E, a cada catástrofe (como vocês chamam),
adaptaremos (com incrível habilidade) nossa felicidade para
os novos tempos. Sempre estaremos bem em qualquer

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A ENTREVISTA À VEJA


governo, progredindo, honrando nosso passado de
donatários. E quando aumentarem as invasões e convulsões
sociais, com os inevitáveis extermínios em massa, as
esterilizações obrigatórias, as fogueiras de favelas, vocês
verão que isso é natural, que isso é o ?survival for the
fittest? - (?sobrevivência do mais forte?, como bem traduziu
meu filho de Harvard...)
        E quando a argentinização, venezuelização ou mesmo
a bolivianização do Brasil se fizer, iremos naturalmente para
o Exterior, com nossas fortunas (que já estão lá) e ainda
sentiremos no peito o orgulho de ver a sobrevivência de
nossa tradição colonial portuguesa.
        Nós nos ufanamos deste Brasil que se manteve tão
sólido e parado no tempo - graças a nós, sem modéstia!"
        O orgulhoso político ajeitou o jaquetão e se
encaminhou de fronte alta para o salão azul do Senado. Era
feliz.

Arnaldo Jabor é crítico, cineasta e jornalista. Assina coluna
no jornal “O Globo”, reproduzida em diversas publicações no
País.




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A ENTREVISTA À VEJA




TRABALHOS PUBLICADOS

- Uma Análise da Economia Canavieira de Pernambuco (1972)
- Liberdade e Desenvolvimento (1973)
- O Papel da Oposição (1978)
- Constituinte Já! A Solução da Crise (1978)
- Pernambuco: Descaso e Miséria (1983)
- Denúncias Contra o Governo e o Regime (1984)
- A Oposição Exercida Como Direito (2007)
- Democracia e Estado de Direito (2007)
- O Apagão do Governo Lula (2007)
- CPMF: Um Imposto Anacrônico (2007)
- Ulysses Vive (2007)
- Orgulho de Pernambuco (2008)
- De Tributos e Abusos (2008)
- Abaixo A Mediocridade (2008)
- Por Uma Gestão Pública de Qualidade (2008)
- Josué de Castro – Um Vida Contra A Fome (2008)
- A Voz do Semiárido (2009)
- A Verdade Inconveniente (2009)
- Na Linha de Frente (2009)
- O Resgate da Política (2009)
- A Praga da Cochonilha em Pernambuco (2009)
- Por Pernambuco, pelo Brasil – Volume I (2009)
- Em defesa da Democracia e da Liberdade (2009)
- A Perda do Pudor (2009)
- Por Pernambuco, pelo Brasil – Volume 2 (2009)
- Sem oposição não há democracia (2010)
- Por Pernambuco, pelo Brasil – Volume 3 (2010)
- Por um salário mínimo maior (2011)




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A ENTREVISTA À VEJA




ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA

Senador Jarbas Vasconcelos
Senado Federal
Ala Senador Dinarte Mariz, Gab.4
70.165-900 – Brasília – DF
Telefone (81) 3303-3245
Fax: (61) 3303-1977
e-mail: jarbas.vasconcelos@senador.gov.br
Site: www.jarbasvasconcelos.com.br




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A ENTREVISTA À VEJA




BIOGRAFIA RESUMIDA

Senador da República pelo Estado de Pernambuco
(2007-2015)



Deputado Estadual
(1971-1974)



Deputado Federal
(1975-1978 e 1983-1985)



Prefeito da Cidade do Recife
(1986-1988 e 1993-1996)



Presidente da Associação dos Prefeitos de Capitais
Presidente Nacional do PMDB(1989-1990)



Governador do Estado de Pernambuco
(1999-2002 e 2003-2006)




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A ENTREVISTA À VEJA




EDIÇÂO DO LIVRO

EDIÇÃO
Ennio Benning



CAPA
Bruno Maia de A. Silva



IMPRESSÃO
Gráfica do Senado Federal
 




                            207
Livro entrevista-de-jarbas-a-veja

Livro entrevista-de-jarbas-a-veja

  • 2.
    A ENTREVISTA ÀVEJA A ENTREVISTA À veja Entrevista concedida pelo Senador JARBAS VASCONCELOS à revista VEJA, edição 2.100, ano 42, Nº 7, de 18 de fevereiro de 2009 Discurso "A verdade inconveniente", pronunciado pelo Senador JARBAS VASCONCELOS, no dia 3 de março de 2009 Repercussão da entrevista na Imprensa (com textos de Dora Kramer, Sebastião Nery, Augusto Nunes, Ricardo Noblat, Elio Gaspari, Rosângela Bittar, Arnaldo Jabor, Roberto Magalhães, Marisa Gibson, Gustavo Krause, Cristovam Buarque, entre outros) BRASÍLIA - 2011 1
  • 3.
    A ENTREVISTA ÀVEJA SENADO FEDERAL SENADOR JARBAS VASCONCELOS A ENTREVISTA À veja Entrevista concedida pelo Senador JARBAS VASCONCELOS à revista VEJA, edição 2.100, ano 42, Nº 7, de 18 de fevereiro de 2009 Discurso "A verdade inconveniente", pronunciado pelo Senador JARBAS VASCONCELOS, no dia 3 de março de 2009 Repercussão da entrevista na Imprensa (com textos de Dora Kramer, Sebastião Nery, Augusto Nunes, Ricardo Noblat, Elio Gaspari, Rosângela Bittar, Arnaldo Jabor, Roberto Magalhães, Marisa Gibson, Gustavo Krause, Cristovam Buarque, entre outros) BRASÍLIA – DF 2
  • 4.
    A ENTREVISTA ÀVEJA SUMÁRIO APRESENTAÇÃO 7 A ENTREVISTA 10 O DISCURSO 19 O QUE DISERRAM SOBRE JARBAS 95 JARBAS CONTA TUDO 96 Editorial da VEJA GRANDE JARBAS 99 Lucia Hippolito É PRECISO TER COERÊNCIA 101 Jorge Bastos Moreno JARBAS FAZ SEU LANCE 104 Ricardo Noblat VERDADE INCONVENIENTE 108 Dora Kramer CONFISSÃO E CORRUPÇÃO 113 Sérgio Costa Ramos 3
  • 5.
    A ENTREVISTA ÀVEJA O PMDB, A CORRUPÇÃO E A GELEIA GERAL BRASILEIRA 116 Editorial do Valor Econômico EM BUSCA DO PRESTÍGIO PERDIDO 120 Merval Pereira UMA ENTREVISTA DEVASTADORA 125 Sebastião Nery O BRASIL VIROU UM GRANDE PMDB 130 Arnaldo Jabor A CORRUPÇÃO VISTA DE DENTRO 135 Editorial d’O Estado de S.Paulo UMA AGENDA 139 Editorial d’O Globo PASSO DEFINITIVO 142 Marisa Gibson A ESPLÊNDIDA SOLIDÃO DE UM INCORRUPTÍVEL 145 Augusto Nunes ALTO LÁ, JARBAS NÃO É ROBERTO JEFFERSON 149 Elio Gaspari 4
  • 6.
    A ENTREVISTA ÀVEJA O SILÊNCIO DOS INCRIMINADOS 153 Rosângela Bittar EU SOU, MAS QUEM NÃO É? 157 Editorial d’O Estado de S.Paulo A BRAVURA DO INCORRUPTÍVEL 161 Augusto Nunes ENCARCERADO NO PMDB 165 Maria Cristina Fernandes É PRECISO PUNIR 169 Editorial da VEJA ASSINAREI EMBAIXO 172 Cristovam Buarque O QUADRO ATERRADOR DA CORRUPÇÃO 176 Editorial do O Estado de S.Paulo UM GRANDE MARANHÃO 180 Demétrio Magnoli A LUTA DE JARBAS 185 Roberto Magalhães 5
  • 7.
    A ENTREVISTA ÀVEJA JARBAS E BRUZUNDANGA 189 Gustavo Krause CRUZADA DE JARBAS PAUTA 2010 194 Ruy Fabiano O PMDB É UMA BELA FLOR EM NOSSA TERRA 199 Arnaldo Jabor 6
  • 8.
    A ENTREVISTA ÀVEJA APRESENTAÇÃO 7
  • 9.
    A ENTREVISTA ÀVEJA APRESENTAÇÃO Jarbas Vasconcelos Passados pouco mais de dois anos da entrevista que concedi à revista “VEJA”, o cenário político brasileiro em quase nada melhorou. Na realidade, devo afirmar que muita coisa piorou, se degradou. Definitivamente, os escândalos passaram a fazer parte da paisagem nacional. A capacidade de indignação já não é mais a mesma. No início, esses casos até que recebem certa atenção, mas depois caem no esquecimento. São raros os episódios políticos nos quais os acusados terminam punidos. Qual dos vários casos ocorridos durante os últimos anos teve um desfecho? Quem realmente foi punido? O mais grave é que muitos desses envolvidos terminaram recebendo o aval do próprio eleitor – conquistando votações expressivas na primeira oportunidade surgida. Iniciativas como a Lei da Ficha Limpa – que foi apresentada como solução para todos os males da política – enfrentam dificuldades para “pegar” num País onde leis moralizadoras correm o sério risco de virar letra morta. Meu objetivo em publicar a entrevista à revista “VEJA” é fazer um registro histórico de um episódio que foi bastante discutido no Brasil em 2009 – de Norte a Sul do País. Fui elogiado e fui agredido. Felizmente, angariei mais aliados do que adversários. Sou um otimista. Acredito que – apesar das dificuldades dos últimos anos na seara política – o Brasil tem plenas condições de melhorar o sistema que aí está. Essa mudança não passa apenas pela aprovação de uma 8
  • 10.
    A ENTREVISTA ÀVEJA Reforma Política séria por parte do Congresso Nacional. Passa também pela consciência do eleitor-cidadão de que quem não gosta de política está condenado a ser governado por quem gosta. Daí a necessidade de não encerrar o envolvimento com a política após digitar alguns números na urna eletrônica. É fundamental criar uma cultura de participação ativa em todos os espaços existentes na vida social do País. Tomei a iniciativa de anexar também a repercussão da entrevista na Imprensa, bem como o discurso que fiz posteriormente na tribuna do Senado Federal. Ao disponibilizar todo esse material, acredito estar cumprindo o meu papel como Senador da República, representante de Pernambuco no Congresso Nacional e, principalmente, como um cidadão brasileiro que enxerga na política um grande instrumento de transformação e defesa das liberdades e da justiça social. Recife, Maio de 2011. 9
  • 11.
    A ENTREVISTA ÀVEJA A ENTREVISTA 10
  • 12.
    A ENTREVISTA ÀVEJA A ENTREVISTA “O PMDB é corrupto” Senador peemedebista diz que a maioria dos integrantes do seu partido só pensa em corrupção e que a eleição de José Sarney à presidência do Congresso é um retrocesso Otávio Cabral A ideia de que parlamentares usem seu mandato preferencialmente para obter vantagens pessoais já causou mais revolta. Nos dias que correm, essa noção parece ter sido de tal forma diluída em escândalos a ponto de não mais tocar a corda da indignação. Mesmo em um ambiente político assim anestesiado, as afirmações feitas pelo senador Jarbas Vasconcelos, de 66 anos, 43 dos quais dedicados à política e ao PMDB, nesta entrevista a VEJA soam como um libelo de alta octanagem. Jarbas se revela decepcionado com a política e, principalmente, com os políticos. Ele diz que o Senado virou um teatro de mediocridades e que seus colegas de partido, com raríssimas exceções, só pensam em ocupar cargos no governo para fazer negócios e ganhar comissões. Acusa o ex-governador de Pernambuco: "Boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção". PERGUNTA – O que representa para a política brasileira a eleição de José Sarney para a presidência do Senado? RESPOSTA – É um completo retrocesso. A eleição de Sarney foi um processo tortuoso e constrangedor. Havia um 11
  • 13.
    A ENTREVISTA ÀVEJA candidato, Tião Viana, que, embora petista, estava comprometido em recuperar a imagem do Senado. De repente, Sarney apareceu como candidato, sem nenhum compromisso ético, sem nenhuma preocupação com o Senado, e se elegeu. A moralização e a renovação são incompatíveis com a figura do senador. PERGUNTA – Mas ele foi eleito pela maioria dos senadores. RESPOSTA – Claro, e isso reflete o que pensa a maioria dos colegas de Parlamento. Para mim, não tem nenhum valor se Sarney vai melhorar a gráfica, se vai melhorar os gabinetes, se vai dar aumento aos funcionários. O que importa é que ele não vai mudar a estrutura política nem contribuir para reconstruir uma imagem positiva da Casa. Sarney vai transformar o Senado em um grande Maranhão. PERGUNTA – Como o senhor avalia sua atuação no Senado? RESPOSTA – Às vezes eu me pergunto o que vim fazer aqui. Cheguei em 2007 pensando em dar uma contribuição modesta, mas positiva – e imediatamente me frustrei. Logo no início do mandato, já estourou o escândalo do Renan (Calheiros, ex-presidente do Congresso que usou um lobista para pagar pensão a uma filha). Eu me coloquei na linha de frente pelo seu afastamento porque não concordava com a maneira como ele utilizava o cargo de presidente para se defender das acusações. Desde então, não posso fazer nada, porque sou um dissidente no meu partido. O nível dos debates aqui é inversamente proporcional à preocupação com benesses. É frustrante. PERGUNTA – O senador Renan Calheiros acaba de assumir a liderança do PMDB... 12
  • 14.
    A ENTREVISTA ÀVEJA RESPOSTA – Ele não tem nenhuma condição moral ou política para ser senador, quanto mais para liderar qualquer partido. Renan é o maior beneficiário desse quadro político de mediocridade em que os escândalos não incomodam mais e acabam se incorporando à paisagem. PERGUNTA – O senhor é um dos fundadores do PMDB. Em que o atual partido se parece com aquele criado na oposição ao regime militar? RESPOSTA – Em nada. Eu entrei no MDB para combater a ditadura, o partido era o conduto de todo o inconformismo nacional. Quando surgiu o pluripartidarismo, o MDB foi perdendo sua grandeza. Hoje, o PMDB é um partido sem bandeiras, sem propostas, sem um norte. É uma confederação de líderes regionais, cada um com seu interesse, sendo que mais de 90% deles praticam o clientelismo, de olho principalmente nos cargos. PERGUNTA – Para que o PMDB quer cargos? RESPOSTA – Para fazer negócios, ganhar comissões. Alguns ainda buscam o prestígio político. Mas a maioria dos peemedebistas se especializou nessas coisas pelas quais os governos são denunciados: manipulação de licitações, contratações dirigidas, corrupção em geral. A corrupção está impregnada em todos os partidos. Boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção. PERGUNTA – Quando o partido se transformou nessa máquina clientelista? RESPOSTA – De 1994 para cá, o partido resolveu adotar a estratégia pragmática de usufruir dos governos sem vencer eleição. Daqui a dois anos o PMDB será ocupante do Palácio do Planalto, com José Serra ou com Dilma Rousseff. Não 13
  • 15.
    A ENTREVISTA ÀVEJA terá aquele gabinete presidencial pomposo no 3º andar, mas terá vários gabinetes ao lado. PERGUNTA – Por que o senhor continua no PMDB? RESPOSTA – Se eu sair daqui irei para onde? É melhor ficar como dissidente, lutando por uma reforma política para fazer um partido novo, ao lado das poucas pessoas sérias que ainda existem hoje na política. PERGUNTA – Lula ajudou a fortalecer o PMDB. É de esperar uma retribuição do partido, apoiando a candidatura de Dilma? RESPOSTA – Não há condições para isso. O PMDB vai se dividir. A parte majoritária ficará com o governo, já que está mamando e não é possível agora uma traição total. E uma parte minoritária, mas significativa, irá para a candidatura de Serra. O partido se tornará livre para ser governo ao lado do candidato vencedor. PERGUNTA – O senhor sempre foi elogiado por Lula. Foi o primeiro político a visitá-lo quando deixou a prisão, chegou a ser cotado para vice em sua chapa. O que o levou a se tornar um dos maiores opositores a seu governo no Congresso? RESPOSTA – Quando Lula foi eleito em 2002, eu vim a Brasília para defender que o PMDB apoiasse o governo, mas sem cargos nem benesses. Era essencial o apoio a Lula, pois ele havia se comprometido com a sociedade a promover reformas e governar com ética. Com o desenrolar do primeiro mandato, diante dos sucessivos escândalos, percebi que Lula não tinha nenhum compromisso com reformas ou com ética. Também não fez reforma tributária, não completou a reforma da Previdência nem a reforma trabalhista. Então eu acho que já foram seis anos perdidos. O mundo passou por 14
  • 16.
    A ENTREVISTA ÀVEJA uma fase áurea, de bonança, de desenvolvimento, e Lula não conseguiu tirar proveito disso. PERGUNTA – A favor do governo Lula há o fato de o país ter voltado a crescer e os indicadores sociais terem melhorado. RESPOSTA – O grande mérito de Lula foi não ter mexido na economia. Mas foi só. O país não tem infraestrutura, as estradas são ruins, os aeroportos acanhados, os portos estão estrangulados, o setor elétrico vem se arrastando. A política externa do governo é outra piada de mau gosto. Um governo que deixou a ética de lado, que não fez as reformas nem fez nada pela infraestrutura agora tem como bandeira o PAC, que é um amontoado de projetos velhos reunidos em um pacote eleitoreiro. É um governo medíocre. E o mais grave é que essa mediocridade contamina vários setores do país. Não é à toa que o Senado e a Câmara estão piores. Lula não é o único responsável, mas é óbvio que a mediocridade do governo dele leva a isso. PERGUNTA – Mas esse presidente que o senhor aponta como medíocre é recordista de popularidade. Em seu estado, Pernambuco, o presidente beira os 100% de aprovação. RESPOSTA – O marketing e o assistencialismo de Lula conseguem mexer com o país inteiro. Imagine isso no Nordeste, que é a região mais pobre. Imagine em Pernambuco, que é a terra dele. Ele fez essa opção clara pelo assistencialismo para milhões de famílias, o que é uma chave para a popularidade em um país pobre. O Bolsa Família é o maior programa oficial de compra de votos do mundo. 15
  • 17.
    A ENTREVISTA ÀVEJA PERGUNTA – O senhor não acha que o Bolsa Família tem virtudes? RESPOSTA – Há um benefício imediato e uma consequência futura nefasta, pois o programa não tem compromisso com a educação, com a qualificação, com a formação de quadros para o trabalho. Em algumas regiões de Pernambuco, como a Zona da Mata e o agreste, já há uma grande carência de mão-de-obra. Famílias com dois ou três beneficiados pelo programa deixam o trabalho de lado, preferem viver de assistencialismo. Há um restaurante que eu frequento há mais de trinta anos no bairro de Brasília Teimosa, no Recife. Na semana passada cheguei lá e não encontrei o garçom que sempre me atendeu. Perguntei ao gerente e descobri que ele conseguiu uma bolsa para ele e outra para o filho e desistiu de trabalhar. Esse é um retrato do Bolsa Família. A situação imediata do nordestino melhorou, mas a miséria social permanece. PERGUNTA – A oposição está acuada pela popularidade de Lula? RESPOSTA – Eu fui oposição ao governo militar como deputado e me lembro de que o general Médici também era endeusado no Nordeste. Se Lula criou o Bolsa Família, naquela época havia o Funrural, que tinha o mesmo efeito. Mas ninguém desistiu de combater a ditadura por isso. A popularidade de Lula não deveria ser motivo para a extinção da oposição. Temos aqui trinta senadores contrários ao governo. Sempre defendi que cada um de nós fiscalizasse um setor importante do governo. Olhasse com lupa o Banco do Brasil, o PAC, a Petrobras, as licitações, o Bolsa Família, as pajelanças e bondades do governo. Mas ninguém faz nada. Na única vez em que nos organizamos, derrotamos a CPMF. Não é uma batalha perdida, mas a oposição precisa ser mais efetiva. Há um diagnóstico claro de que o governo é 16
  • 18.
    A ENTREVISTA ÀVEJA medíocre e está comprometendo nosso futuro. A oposição tem de mostrar isso à população. PERGUNTA – Para o senhor, o governo é medíocre e a oposição é medíocre. Então há uma mediocrização geral de toda a classe política? RESPOSTA – Isso mesmo. A classe política hoje é totalmente medíocre. E não é só em Brasília. Prefeitos, vereadores, deputados estaduais também fazem o mais fácil, apelam para o clientelismo. Na política brasileira de hoje, em vez de se construir uma estrada, apela-se para o atalho. É mais fácil. PERGUNTA – Por que há essa banalização dos escândalos? RESPOSTA – O escândalo chocava até cinco ou seis anos atrás. A corrupção sempre existiu, ninguém pode dizer que foi inventada por Lula ou pelo PT. Mas é fato que o comportamento do governo Lula contribui para essa banalização. Ele só afasta as pessoas depois de condenadas, todo mundo é inocente até prova em contrário. Está aí o Obama dando o exemplo do que deve ser feito. Aqui, esperava-se que um operário ajudasse a mudar a política, com seu partido que era o guardião da ética. O PT denunciava todos os desvios, prometia ser diferente ao chegar ao poder. Quando deixou cair a máscara, abriu a porta para a corrupção. O pensamento típico do servidor desonesto é: "Se o PT, que é o PT, mete a mão, por que eu não vou roubar?". Sofri isso na pele quando governava Pernambuco. PERGUNTA – É possível mudar essa situação? RESPOSTA – É possível, mas será um processo longo, não é para esta geração. Não é só mudar nomes, é mudar práticas. 17
  • 19.
    A ENTREVISTA ÀVEJA A corrupção é um câncer que se impregnou no corpo da política e precisa ser extirpado. Não dá para extirpar tudo de uma vez, mas é preciso começar a encarar o problema. PERGUNTA – Como o senhor avalia a candidatura da ministra Dilma Rousseff? RESPOSTA – A eleição municipal mostrou que a transferência de votos não é automática. Mesmo assim, é um erro a oposição subestimar a força de Lula e a capacidade de Dilma como candidata. Ela é prepotente e autoritária, mas está se moldando. Eu não subestimo o poder de um marqueteiro, da máquina do governo, da política assistencialista, da linguagem de palanque. Tudo isso estará a favor de Dilma. PERGUNTA – O senhor parece estar completamente desiludido com a política. RESPOSTA – Não tenho mais nenhuma vontade de disputar cargos. Acredito muito em Serra e me empenharei em sua candidatura à Presidência. Se ele ganhar, vou me dedicar a reformas essenciais, principalmente a política, que é a mãe de todas as reformas. Mas não tenho mais projeto político pessoal. Já fui prefeito duas vezes, já fui governador duas vezes, não quero mais. Sei que vou ser muito pressionado a disputar o governo em 2010, mas não vou ceder. Seria uma incoerência voltar ao governo e me submeter a tudo isso que critico. 18
  • 20.
    A ENTREVISTA ÀVEJA O DISCURSO 19
  • 21.
    A ENTREVISTA ÀVEJA O DISCURSO Senado Federal, 3 de Março de 2009 Senhor Presidente, Senhoras Senadoras e Senhores Senadores, antes de iniciar meu pronunciamento, quero dar conhecimento a Vossa Excelência do teor da comunicação que ora apresento e encaminho à Mesa: Comunicação. Comunico a Vossa Excelência que declino das indicações feitas por parte da Liderança do PMDB para compor a Comissão de Relações Exteriores, Comissão de Educação e Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa, como membro titular, e para a Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo, CDR, como membro suplente. Ao chegar a esta Casa, iniciando o exercício de meu mandato procurei a Liderança do PMDB com uma única solicitação: Indicar-me para compor a Comissão de Constituição e Justiça como representante do Partido – O Líder Raupp pode testemunhar o que afirmo. Com todo o respeito aos demais colegiados desta Casa, a CCJ é, sem dúvida, o foro mais importante do Senado Federal, onde procurei representar com dignidade o povo de Pernambuco e o meu Partido. Foi um trabalho profícuo e gratificante onde pude apresentar várias proposições que tratam da reforma política, da interceptação telefônica e que alteram a Lei de Execução Penal. Fui designado a relatar mais de 50 proposições, entre as quais a reforma política, o Marco Regulatório do Gás e a Lei de Licitações. 20
  • 22.
    A ENTREVISTA ÀVEJA Destaco ainda a relatoria do Projeto de Resolução nº 40/2007, que previa o afastamento preventivo dos membros da Mesa em caso de oferecimento de representação que sujeitasse o Senador à perda de mandato. Proferi parecer favorável à matéria, que foi aprovada pela Comissão e por este Plenário. Ao defender este instituto que não permitia o uso do cargo para inviabilizar as investigações, angariei a insatisfação – para dizer o mínimo – do então Presidente da Casa, Senador Renan Calheiros. Para minha surpresa, após essa relatoria, fui, em companhia do Senador Pedro Simon, sumariamente afastado daquele colegiado pelo Líder Raupp, que, após pressão de vários companheiros do Partido, da Oposição e da população em geral, que congestionou a caixa postal dos Senadores, resolveu reconduzir-nos a mim e a Pedro. Não foi, portanto, com surpresa que no dia de hoje fui informado que o atual Líder afastou-me, mais uma vez, da Comissão de Constituição e Justiça sem sequer me comunicar oficialmente. Tendo em vista essa atitude de retaliação mesquinha, comunico à Mesa que não aceito qualquer outra indicação dessa Liderança do PMDB para colegiados nesta Casa. Nem mesmo na ditadura tive meus direitos políticos cerceados, apesar de combatê-la diuturnamente. Agora, em pleno regime democrático, que tive a honra de ajudar a construir, sou impedido de exercer o meu mandato em sua plenitude, frustrando os milhares de pernambucanos que me confiaram a sua representação. Esse é o primeiro preâmbulo, Senhor Presidente. O segundo preâmbulo, antes do meu discurso, é que eu fui procurado pela revista Veja para uma entrevista às páginas amarelas da edição do dia 10 de fevereiro. Fui instado a falar sobre três assuntos: sobre PMDB, sobre o 21
  • 23.
    A ENTREVISTA ÀVEJA Senado e sobre o Governo Lula. Respondi a tudo que me foi perguntado: PMDB, Senado e Governo Lula. Voltei ao Senado no dia 16, uma segunda-feira, quando a imprensa procurou-me em meu Gabinete, não convoquei a imprensa, fui procurado no meu Gabinete, onde afirmei que não tirava uma vírgula do que a Veja havia publicado. Hoje volto à tribuna, com uma grande expectativa e perspectiva, e quero acrescentar que não tenho uma vírgula a acrescentar ao que já foi colocado na entrevista da revista Veja. Não sou mesquinho, não sou pequeno. O que eu tinha de dizer sobre o Presidente da Casa já disse; o que eu tinha de dizer sobre o Líder do meu Partido já disse. Serei mesquinho e pequeno se acrescentar mais detalhes e mais adjetivos. Permita Vossa Excelência que passe a ler o meu discurso. Volto a esta tribuna duas semanas depois da entrevista que concedi à Veja, na qual analisei o quadro político do Brasil. Nesse período, vi, li e ouvi as mais diversas análises sobre as minhas palavras. Levantaram teorias conspiratórias, tentaram me descredenciar. Neste exato momento em que falo para os senhores e senhoras, sei que estão vasculhando a minha vida, investigando as minhas prestações de contas à Justiça Eleitoral e à Receita Federal. Não tenho o que esconder, pois disputei em Pernambuco algumas das eleições mais acirradas da história do Estado. Não temo esses investigadores, apesar de considerá- los credenciados para tal função, pois de crimes eles entendem. Essas iniciativas, que têm por objetivo me intimidar, não me surpreendem nem me assustam. Tenho 40 anos de vida pública. Fui Deputado Estadual, Deputado Federal, Prefeito do Recife e Governador de Pernambuco, sempre com votações expressivas e com reconhecimento da 22
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    A ENTREVISTA ÀVEJA maioria do povo de meu Estado. A esses arapongas digo apenas que enfrentei coisas piores quando, na década de 1970, denunciei torturas e violências praticadas pela ditadura militar. Vocês não me amedrontam! Estou nesta Casa há dois anos e um mês, e nada do que afirmei ao repórter Otávio Cabral, da revista Veja, difere muito do que eu disse a alguns dos senhores e das senhoras. Nesta mesma tribuna, já critiquei a degradação pública à qual está submetido o sistema político brasileiro, alertando para a desqualificação moral dos partidos políticos. A verdade é sempre inconveniente para quem vive da mentira, da farsa e é beneficiário dessa realidade perversa. Eu constatei, Senhor Presidente, é preciso que se diga isso com clareza desta tribuna, eu constatei o óbvio. Apenas isso. Essa realidade exige ações corretivas – correção de rumos e de práticas. Eu não vim aqui para citar nomes, reiterar acusações pessoais. Para isso existem a Polícia Federal, o Ministério Público, os tribunais, o Tribunal de Contas da União, que devem exercer – e vêm exercendo, alguns deles – com eficiência essa prática. Nunca tive, não tenho e nem desejo ter vocação para ser paladino da ética. E mais: desconfio daqueles que querem sempre pairar acima dos demais. A verdade é que fui eleito Senador da República para exercer uma função política e não policial ou investigatória. Mas quero aqui me colocar à disposição de todos aqueles que, dentro e fora do Congresso Nacional, defendem pensamento semelhante: aqueles que querem partir para a ação e dar um basta aos desvios no exercício da função pública. Alguns Parlamentares já me procuraram com esse 23
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    A ENTREVISTA ÀVEJA objetivo, alguns deles inclusive presentes neste plenário. A eles assegurei o meu apoio e o meu engajamento. O meu objetivo, Senhor Presidente senador Augusto Botelho – e para mim é uma honra tê-lo como Presidente nesta hora, o meu objetivo primordial foi atingido com a entrevista, ao fazer com que uma parte expressiva da sociedade brasileira prestasse mais atenção ao que ocorre em nosso País. Um quadro aterrador que até agora vinha sendo encoberto pelos bons resultados da economia. A sociedade descobriu que vale a pena se indignar, mostrar que nem tudo está perdido, que compactuar com a corrupção não é pré-requisito para a carreira política. É extremamente necessário que algo seja feito, antes que essa degradação comprometa a nossa democracia, levando as novas gerações a um quadro de desalento para com o exercício da política. Mais importante ainda é que essa mobilização não fique restrita à Câmara e ao Senado Federal, mas que reflita prioritariamente o desejo de toda a sociedade brasileira, desejo de quem hoje se expressa apenas por meio de cartas, de e-mails e de telefonemas. O exercício da política não comporta, Senhor Presidente, espectadores. Quem não faz política verá outros fazê-la em seu lugar, para o bem ou para o mal. Senhor Presidente, cobraram-me nomes, uma lista de políticos que não honram o mandato popular conquistado. A meu ver, essa cobrança em si já é uma distorção do papel de um Parlamentar, que deve ser o de lutar pela ética e por políticas públicas que façam o País avançar. Instituições como os tribunais de contas, o Ministério Público, a Polícia Federal e a própria imprensa têm dado uma contribuição inquestionável e valiosa nessa área. Não sou afeito aos holofotes e à palavra fácil. Os jornalistas que cobrem os trabalhos do Senado Federal 24
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    A ENTREVISTA ÀVEJA sabem do que estou falando. Mas uma coisa eu posso assegurar a Vossa Excelência: sempre tive posições claras, mesmo nos momentos mais obscuros da história do Brasil. Tenho ojeriza à passividade e à omissão. Os recentes acontecimentos na Fundação Real Grandeza, o fundo de pensão dos funcionários de Furnas e da Eletronuclear, são uma prova clara, transparente e inequívoca do que explicitei na minha entrevista. Repito: não preciso citar nomes, pois eles vêm à tona, infelizmente, quase que diariamente. A população, Senhor Presidente, que paga seus impostos não compreende o porquê da disputa ferrenha entre grupos partidários, sempre envolvendo empresas de orçamentos bilionários. Quando ocorrem casos como o de Furnas, não dá para esquecer o que aconteceu e o que foi dito. É papel do Chefe do Executivo – no caso, o Presidente da República – instalar uma auditoria independente que coloque tudo em pratos limpos. Essa deveria ser a atitude a ser tomada, e não a de deixar a poeira baixar, esperando que a história seja esquecida, abafada por um novo escândalo Celina Vargas do Amaral Peixoto, socióloga reconhecida internacionalmente, neta do Presidente Getúlio Vargas, em carta publicada pela revista Veja, edição nº 2.101, manifesta-se tão horrorizada quanto eu com a degradação do quadro político nacional: “Os políticos lutavam por projetos. Brigavam dentro e fora dos partidos, por idéias e pelo poder legitimamente constituído ou não. Entendia-se que o homem público tinha uma missão a cumprir.” Ou resgatamos, Senhor Presidente, essa lógica para o exercício da política ou vamos continuar estampando capas de revistas e jornais da pior forma possível. Não pensem que 25
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    A ENTREVISTA ÀVEJA me agradou dizer o que eu disse, mas estou absolutamente convicto de que tinha que fazê-lo. Aproveito esta oportunidade para agradecer as milhares de correspondências que recebi do País inteiro em apoio a minha entrevista. Foram e-mails, cartas, telegramas, telefonemas. Expresso minha gratidão também pelas cartas enviadas aos jornais e à Veja, as quais tive oportunidade e ler nos últimos 15 dias. Senhor Presidente, o exercício da política não pode ser transformado em um balcão de negócios. O que se vê hoje no nosso País é um sentimento de descrença, com a impunidade corroendo as bases da democracia. O poder pelo poder leva ao quadro político degenerado que hoje vivemos no nosso País, no qual a esperteza é mais valorizada do que a inteligência e a correção ética. A conclusão de tudo isso é óbvia, Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Senadores. O caminho para resolver as pendências da nossa democracia está em pauta há anos. Refiro-me à Reforma Política – não a esse arremedo de reforma que chegou recentemente ao Congresso Nacional, que, segundo afirmam, será “fatiada”. Também não me refiro à fidelidade partidária com “prazo de validade”, aprovada pela Câmara dos Deputados. Uma reforma política séria deve, em minha opinião, incluir e aprovar pelo menos quatro pontos: 1 - financiamento público de campanha; 2 - fidelidade partidária; 3 - fim das coligações nas eleições proporcionais e 4 - Implantação da cláusula de desempenho. O financiamento público de campanha é indispensável para evitar a interferência cada vez maior do poder econômico, que corrompe o processo eleitoral. A proposta de reforma política debatida há algum tempo pela Câmara dos Deputados previa o financiamento 26
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    A ENTREVISTA ÀVEJA público com um custo para a campanha eleitoral de R$7,00 por eleitor. Hoje, isso representaria um custo de aproximadamente R$914 milhões para uma eleição nacional, tomando como referência um eleitorado de 130 milhões de pessoas. De acordo com números do Tribunal Superior Eleitoral, a campanha do ano passado custou cerca de R$2,43 bilhões. A imprensa, por sua vez, calcula que a despesa real representou cerca de cinco vezes esse valor, chegando à cifra de R$12,15 bilhões – mais de doze vezes o valor estabelecido no projeto da reforma política. Não sou ingênuo de acreditar que o financiamento público sozinho vá resolver o problema da corrupção e do desvio de recursos públicos para campanhas eleitorais. Isoladamente, nenhuma dessas propostas que eu citei dará resultados amplos. Por essa razão, questiono a chamada “reforma fatiada”. A fidelidade partidária, Senhor Presidente, por sua vez, é um instrumento para impedir o degradante festival de adesões fisiológicas. Não condeno quem esteja insatisfeito em um lugar e queira ir para outro. Mas, no caso dos partidos políticos, isso deve ser a exceção e não a regra, como tem prevalecido há alguns anos. De todas as medidas de uma reforma política séria e objetiva, talvez a única que obteria um resultado extraordinário isoladamente é a proibição das coligações nas eleições proporcionais. Essas coligações são uma deformidade e uma imoralidade existentes apenas no Brasil, onde se vota em José e se elege João. Senhor Presidente, se o Congresso Nacional fala de reforma da Previdência, todos se interessam. Recebemos milhares de e-mails, milhares de ligações telefônicas. O mesmo se aplica às reformas trabalhista e tributária. Mas a 27
  • 29.
    A ENTREVISTA ÀVEJA reforma política é vista pela opinião pública como algo de interesse exclusivo dos políticos. O cidadão talvez não compreenda que a reforma política é a “mãe” de todas as reformas, justamente por assegurar o aprimoramento das instituições responsáveis pelo encaminhamento de todas elas. Outro espaço para a degradação do exercício da política reside no Orçamento Geral da União. Sua elaboração, aprovação e execução precisam passar por uma profunda e séria reformulação, que estabeleça obrigações severas para o Poder Executivo. O Parlamento não pode continuar sendo um mero atravessador de verbas públicas, com emendas liberadas às vésperas das votações que interessam ao Governo. As distorções começam na elaboração do Orçamento, permanecem na sua aprovação e atingem o auge na hora da liberação dos recursos e quando o dinheiro, que deveria ir para obras prioritárias nos municípios, escorre pelos esgotos da corrupção e dos desvios, muitas vezes com a participação dos ordenadores de despesas do Poder Executivo, indicados pelos partidos políticos. Senhoras Senadoras e Senhores Senadores, eu gostaria de aproveitar esta oportunidade para informar que apresentei um projeto de lei que proíbe que as diretorias financeiras de empresas estatais possam ser ocupadas por indicações partidárias. Minha proposta reservará esta posição com exclusividade para funcionários de carreira dessas empresas e autarquias. Além disso, esses diretores terão que ter seus nomes aprovados pelo Senado Federal, seguindo o exemplo do que já ocorre hoje com os dirigentes das agências reguladoras. A classe política – se tivesse bom senso – deveria ficar a quilômetros de distância de qualquer diretoria financeira. 28
  • 30.
    A ENTREVISTA ÀVEJA Senhoras Senadoras e Senhores Senadores, deixei para a parte final deste meu pronunciamento a questão da impunidade, que considero a consequência mais nefasta do quadro de degradação da política e dos nossos compromissos políticos, sociais e éticos. Não sei se Vossa Excelência vai permitir apartes... Eu desde já, começaria pelo Senador Tasso Jereissati. O Senhor Tasso Jereissati (PSDB – CE) – Senador Jarbas Vasconcelos eu gostaria de dizer a V.Exª, com toda a humildade, que Vossa Excelência fez o discurso que eu gostaria de ter feito. Acrescento alguns pontos ao que Vossa Excelência colocou com tanta propriedade e que fez chamar a atenção do País todo para o verdadeiro festival de corrupção que o está acometendo, de maneira que se tornou uma coisa banal e praticamente cotidiana na vida pública brasileira. Infelizmente, isso veio acontecer sob o beneplácito de todos os Poderes, praticamente, uma vez que, desde o período do mensalão, quando em nenhum momento se desmentiu o que aconteceu, mas apenas se justificou dizendo: “Fizemos; mas quem não fez?” Ou seja, dando um sinal de que todo mundo fazendo, tudo era permitido. Então, chegamos à banalização dessa corrupção que vimos, inclusive – Vossa Excelência deu um exemplo muito feliz, e eu vou a outro – o Ministro da Saúde, Senador Jarbas Vasconcelos, dizer em um discurso que a Funasa, órgão subordinado a ele, estava corrupta e cheia de corrupção. E isso não foi desmentido. A diretoria da Funasa lá continuou, o Presidente da República não fez nada... O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Ao contrário, pediram a cabeça do Ministro. O Senhor Tasso Jereissati (PSDB – CE) – Pediram a cabeça do Ministro e as coisas continuam na mesma. Ou o Ministro era um mentiroso e deveria ser afastado imediatamente, mentiroso e calunioso, ou estava dizendo a 29
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    A ENTREVISTA ÀVEJA verdade. Em qualquer país civilizado, isso não teria acontecido. Logo após, vemos aqui essa questão da Real Grandeza, em que o próprio Ministro fala de um órgão indiretamente subordinado a ele, dizendo que existe ali um antro de bandidagem. E as coisas ficam como estão: ninguém investiga, ninguém se espanta e ninguém se escandaliza. Quando Vossa Excelência deu à revista Veja aquela entrevista publicada nas páginas amarelas, com a credibilidade que Vossa Excelência tem, acredito que tenha sido um verdadeiro grito de basta. Estamos falando neste País agora de valores. Nós não estamos falando de política econômica, nós não estamos falando de Bolsa-Família nem de política social, nós estamos falando de valores. Um país, uma nação só sobreexiste se tiver seus valores básicos respeitados, admirados pela sua população e principalmente pelos seus dirigentes. O reparo que faria aqui – não seria propriamente um reparo – seria um adendo ao discurso de Vossa Excelência: de que precisamos, acima de tudo, de uma reforma moral neste País. Nós nos acostumamos à imoralidade, nós nos acostumamos à total falta de ética no dia-a-dia, na vida de todos nós, fazendo com que isso seja absolutamente banal e desimportante, e este País está se desintegrando moralmente, aos poucos, deixando as futuras gerações sem perspectivas. Nada se constrói sem a sólida base de valores morais a construir uma nação, a construir um povo. E isso está sendo destruído neste País. Ele vai muito mal. Dentro do que Vossa Excelência colocou também, eu daria mais ênfase a que duas reformas são “reformas-mães”: a reforma política e a reforma do Orçamento. O Orçamento, hoje, é o grande fator, um dos grandes ou o principal fator de corrupção do Executivo, do Legislativo e dos Executivos estaduais e municipais. Formou-se uma verdadeira cadeia de corrupção em que o Parlamentar, como Vossa Excelência disse, “se tornou um 30
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    A ENTREVISTA ÀVEJA atravessador de verbas públicas”. Não. Pior: tornou-se um corretor de verbas públicas, um corretor com direito, na maioria das vezes, em boa parte das vezes, à sua comissão de corretagem. Isso é absolutamente inadmissível em um país que se pretende um país civilizado e que pretende atingir níveis de desenvolvimento aceitáveis no mundo de hoje. Portanto, eu queria dizer a Vossa Excelência que sou totalmente solidário ao que Vossa Excelência disse e, acima de tudo, parabenizá-lo por ter tido a coragem e a iniciativa de, agora, neste momento, fazer, com tanta precisão, o diagnóstico deste País. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Senador Tasso, não é a primeira vez que ouço Vossa Excelência colocar, com tanta clareza, com tanta objetividade essa questão da ética, da moral e da necessidade de postura correta das instituições. Subscrevo todo o aparte de Vossa Excelência. Ele é enriquecedor e reitera, mais uma vez, a sua preocupação, que não é de hoje, com relação à boa prática política dentro e fora do Congresso Nacional. Ouço, com prazer, o Senador Sérgio Guerra. O Senhor Sérgio Guerra (PSDB – PE) – Senador Jarbas Vasconcelos, Vossa Excelência se referiu à reforma política na sua frase como “a mãe de todas as reformas”. Eu queria começar por aí, com muito cuidado, porque é preciso não perder a precisão para não resvalar para acusação sem prova ou para comentário que não produz resultados. No início desse período do Presidente Lula, era indispensável uma ampla reforma política. Essa chamada reforma não se deu. O que se deu foi o mensalão. E o mensalão se desenvolveu nesses últimos seis anos. Quais são as formas do mensalão que foram se sofisticando com o tempo? O coração desse processo de desestruturação do poder – e não falo apenas do poder do Congresso; falo do poder no sentido 31
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    A ENTREVISTA ÀVEJA mais amplo –, o coração principal, no que se refere às relações do Legislativo com o Executivo, é o chamado Orçamento. O Orçamento virou muito mais do que uma simples intermediação de candidatos, de Parlamentares; virou um sistema de dominação do Congresso. Os jornais não acompanham nem conseguem acompanhar esse assunto. Eles ficam prisioneiros da observação sobre a liberação de emendas individuais. Por quê? Porque as emendas individuais têm cara, dono, autor. As dotações dos Ministros não têm; as verbas gerais dos Ministérios não têm; muitas das emendas de bancada também não, daquelas poucas que são efetivadas. O fato real é que esse sistema produziu desequilíbrios enormes do ponto de vista ético e da corrupção. Uma parcela muito grande dos Parlamentares passou a ter privilégios exorbitantes. Já ouvi falar de Parlamentares que liberam 100 milhões por ano, e não foi ninguém da Oposição que me disse isso, nenhum companheiro do PSDB ou de qualquer partido da Oposição. Líderes que liberam 100, 50, 80, 120 milhões enquanto que os outros Parlamentares liberam 10, 8, 7, 6 milhões. Ninguém sabe, nem há como, proceder a fiscalização disso, porque essa é a decisão que tomam os Ministros lá em cima, as autoridades dos Ministros com ele. E esse sistema é usado para manter uma maioria parlamentar de maneira absolutamente clara, transparente, sem vergonha! Isso se banalizou. Muitas pessoas assumem isso até como se isso não fosse errado, assumem isso como fato normal. O pressuposto de um bom Orçamento é um bom planejamento. Tem de haver planejamento para que se possa orçamentar no ano e, na perspectiva plurianual, o que se deseja fazer no tempo para o País. Como não há planejamento nenhum, o PAC é apenas - alguém me disse uma frase ontem, e não estou me lembrando agora – uma sacola, um embrulho de projetos... Foi a frase do Senador 32
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    A ENTREVISTA ÀVEJA Tasso. Não há planejamento, não há noção de prioridade, de estruturação econômica. Nada disso! Todo esse jogo está contaminado. Essa contaminação é do Legislativo, é do Executivo e é das empresas. Não tem ninguém ingênuo aí e não tem ninguém que não tenha um pedaço da responsabilidade desse amplo sistema de corrupção. Privilégios para todo lado, desequilíbrios para todo lado; o Orçamento transformado, rigorosamente, em tudo que não deve ser, num País que não tem planejamento, num País que não tem prioridade, num País que domina o Congresso pelo dinheiro público, através das verbas do Orçamento. O segundo padrão dessa grande rede de controle do Congresso e desestruturação da política é a utilização do Executivo, da Administração Direta e de empresas estatais para a nomeação, por indicação de grupos de Parlamentares, de gente que vai para essas indicações evidentemente para não cumprir funções republicanas. O que tem um partido qualquer a ver com o diretor financeiro de Furnas? Em que o programa desse partido está representado na ação do diretor financeiro de Furnas, ou na nomeação daquele diretor que vai furar poço na Petrobras, ou na nomeação de dezenas e dezenas de cargos de poder? Quando alguém ocupa um cargo desses hoje, sabe o que é que se diz? “Conquistamos um grande cargo. Ele tem um grande orçamento”. Para que é o grande orçamento? É para o País? É para quê? É para sanear o sistema político? É para limpar a vida pública? Nada disso. É para contaminar ainda mais a vida pública, para estabelecer uma rede de cumplicidade que vai da empresa ao Poder Legislativo, e passa, de maneira central, no Poder Executivo. Essa é uma operação do Poder Executivo. O Congresso é cúmplice dessa operação, mas o comando dessa operação está no Poder Executivo. Nós pagamos a conta pública. O Presidente da República faz seus discursos com cara de paisagem, como se não tivesse 33
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    A ENTREVISTA ÀVEJA nada a ver com isso. Ninguém é punido, e não acontece coisa alguma. A utilização do emprego público, das funções públicas com a nomeação de pessoas sem mérito generalizou-se, banalizou-se. Três Deputados indicam o diretor financeiro de uma instituição qualquer, para quê? Às vezes, eles nem conhecem o diretor que indicaram. Ele vai ali para cumprir uma tabela, e essa tabela não é republicana. Esse é um capítulo que se banalizou aí de maneira total. Entrou por dentro das instituições mais importantes do País, que ninguém antes teve coragem de fazê-las vulneráveis, porque eram estruturantes, fundamentais para o País, e que estão sendo degradadas agora. Um partido tem um pedaço. Um pedaço para quê? Qual é o tamanho que ele conquistou? Essa é a discussão. Será que isso é democracia? Será que o interesse público está prevalecendo, está submetido a uma regra, a algum tipo de controle, a algum tipo de orientação? O Tribunal de Contas, ao contrário do que nós desejamos, não pode ser eficiente. O sistema de fiscalização não funciona. As comissões de acompanhamento e fiscalização do Congresso estão mortas. A Comissão de Orçamento já devia ter deixado desaparecer há muito tempo. Não importa a forma ou o que está lá nesta semana, neste mês, ou no ano que vem: ela é o coração desse sistema, ela é o núcleo desse sistema, absolutamente delegado pelo Governo, pelo Poder Federal. Essa invasão assume outro campo: vai às agências reguladoras, objeto de indicação de Parlamentares, de utilização desse sistema por partidos ou grupos de interesses. Vai aos fundos de pensão; fundos de pensão que dão um belo exemplo de tudo que não poderia acontecer, como agora, no Fundo Real Grandeza, que devia ser objeto de uma intervenção imediata. Imediata porque há interesse público ali, ele não está respeitado por uma diretoria comprometidíssima, como é comprometida também a 34
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    A ENTREVISTA ÀVEJA diretoria da própria instituição, toda viciada. Quero saber o que vai fazer, nesse ambiente, o brasileiro que quer melhorar o País. Com certeza, vai ouvir o seu discurso, porque você tem autoridade para fazê-lo. Hoje, eu ouvi um discurso ridículo de um Deputado pernambucano. Tanto mais eu o ouvi, mais eu me convenci de como a sua luta tem mérito, e a dele, não. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Obrigado. O Senhor Sérgio Guerra (PSDB – PE) – Então, esse processo não pode continuar, tem que acabar. Essa cumplicidade vai nos levar, rigorosamente, ao fundo do poço. As práticas políticas estão se degenerando, e a convicção e a consciência do povo sobre nós é cada dia pior. E está certo o povo, e estamos errados nós. É claro que há pessoas que não merecem críticas e pessoas que têm qualidade. O SENHOR PRESIDENTE (Marconi Perillo. PSDB – GO) – Senador Sérgio Guerra, dada a relevância do pronunciamento do Senador Jarbas Vasconcelos, especialmente pelo conteúdo dele, vou prorrogar, mais uma vez, o tempo para a conclusão do pronunciamento. O Senhor Sérgio Guerra (PSDB – PE) – É claro que nem todos estão envolvidos nisso. Tem gente séria nisso, tem gente direita nisso, em todos os Partidos. É claro que há político de qualidade em todo lugar, mas é evidente que esse é o sistema que está prevalecendo, e que vozes como a sua têm que se levantar. Ainda bem que se levantou a sua, no momento oportuno, com a firmeza e a clareza de sempre. E é importante que todos nós entendamos aqui que o nosso objetivo é construir uma democracia melhor, não afetar uma, duas ou três pessoas físicas ou políticas. Não é essa a nossa tarefa. Eu não gosto de comissões parlamentares de inquérito, de acusação a ninguém. Não é da minha natureza. 35
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    A ENTREVISTA ÀVEJA Mas dizer que esse sistema serve, que pode continuar?! Não pode. Vai-nos levar a um grave impasse institucional. Então, Senador, quero lhe dizer que não faz mal que o senhor não tenha uma Comissão de Justiça, porque terá todas as comissões do Senado, pela sua presença, pelo seu valor, pelo respeito que os brasileiros têm no senhor. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PDMB – PE) – Muito obrigado, Senador Sérgio Guerra. Só uma pessoa com a sua competência e seu conhecimento pode dar um aparte sobre Orçamento, sobre ocupação de cargos públicos, porque Vossa Excelência, desde que aqui cheguei, tem tratado isso através de entrevistas, de apartes e de discursos nesta tribuna. O meu desejo é ouvir todos, Senhor Presidente. Se Vossa Excelência permitir, eu ouviria agora, pela ordem, o Senador Tião Viana e, logo em seguida, o Senador Demóstenes Torres. O SENHOR PRESIDENTE (Marconi Perillo. PSDB – GO) – Haverá tempo, Senador Jarbas Vasconcelos, porque eu prorroguei, por mais 30 minutos, o pronunciamento de Vossa Excelência. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Senador Tião Viana, com muita honra. O Senhor Tião Viana (Bloco/PT – AC) – Caro Senador Jarbas Vasconcelos, serei muito objetivo no aparte que faço a Vossa Excelência, também muito honrado estou em aparteá-lo. Temos uma convivência presencial, vamos dizer, de dois anos e pouco nesta Casa. Eu acompanhava Vossa Excelência como membro da resistência democrática brasileira do chamado MDB autêntico – eu, no movimento estudantil, e Vossa Excelência, já na militância da vida pública e partidária. E eu entendo que Vossa Excelência dá um grito a favor de um sentimento de “acorda, vamos despertar para a confiança que devemos ter em nós mesmos 36
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    A ENTREVISTA ÀVEJA e na nossa capacidade de fazer as coisas corretas neste País”. Não acho que seja um ataque ao Governo, não acho que seja um ataque ao seu partido, mas é uma indignação com a crise partidária que nós estamos vivendo e com a capilaridade de atitudes incorretas que estão se apropriando dos espaços de poder no nosso País. Entendi muito mais assim. Vossa Excelência não quantificou corrupção neste País. Disse Vossa Excelência que o problema existe, e existe em todas as esferas da vida institucional, e precisa ser veementemente combatido. Eu acho que esse é um ato de um grande brasileiro, de um grande homem público que Vossa Excelência toma. Eu acho que o caminho correto da política seria o reconhecimento das verdades expressas por Vossa Excelência e a busca de soluções, e não o rebate falso, como se fosse um ato virtuoso contestar Vossa Excelência. Problemas no Governo: tem? Tem. No Judiciário: tem; na instituição partido político, tem; na vida nacional, infelizmente, rompe-se com o idealismo daqueles que trouxeram a volta da democracia ao Brasil e que lutaram por uma sociedade e por uma vida institucional efetivamente corretas. Vivemos uma fase de crise. Olho para a política brasileira hoje, sou de uma geração mais nova que a de Vossa Excelência, e me pergunto, Senador Jarbas - já dividi isso com Vossa Excelência: o que tem sido feito pela política? Temos um Parlamento melhor ou pior que o Parlamento de 10, 16 anos atrás? Está pior; ele está enfraquecido em conteúdo, está enfraquecido em suas diretrizes; está enfraquecido em suas responsabilidades. É por isso que Vossa Excelência aponta a reforma política, a crise orçamentária, a crise do financiamento da vida institucional e as necessidades da população. Então, as virtudes da sua fala são muito maiores que as nossas pequenas divergências. Eu me reporto ao Presidente da República como um homem honrado, correto e que defende 37
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    A ENTREVISTA ÀVEJA o Brasil, mas os problemas estão aí, Vossa Excelência os aponta com muita grandeza, e é preciso que tenhamos coragem de enfrentá-los. A dívida que fica deste momento da vida nacional é um Parlamento mais enfraquecido, a qualidade da política pior, e a contaminação da corrupção afetando mesmo a vida institucional do País. A resposta seria atitude; atitude individual e atitude coletiva. Vou compartimentar um pouco o debate que Vossa Excelência faz. A reforma política: nós não podíamos responsabilizar o Governo por ela; é responsabilidade individual e coletiva do Congresso Nacional. Os dirigentes do Congresso têm de fazer a reforma política com os Líderes partidários. Não podem transferir a responsabilidade, mas não sei se, ano que vem, vamos dizer que ela já foi feita. Talvez Vossa Excelência esteja a lamentar. Talvez muitos de nós estejamos a lamentar. O Governo influencia, mas não pode tirar minha responsabilidade de votar, não pode tirar a da instituição partido político. Vossa Excelência presta um grande serviço, como um grande brasileiro que é, e fala para as gerações todas. Se tivermos responsabilidade, sinceridade e coragem, acolheremos o pronunciamento de Vossa Excelência como uma grande contribuição à democracia que temos de edificar neste País. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Obrigado, Senador Tião Viana. O aparte de Vossa Excelência enriquece nosso pronunciamento e nos honra por sua atitude de coerência e dignidade neste plenário. Senador Demóstenes Torres. O Senhor Demóstenes Torres (DEM – GO) – Senador Jarbas Vasconcelos, Vossa Excelência faz um pronunciamento que agrada à Nação e ao Senado – acredito eu. O que disse Vossa Excelência não tem absolutamente nada de errado: há uma degradação da vida política no Brasil. E o Senado faz parte dessa degradação. Mas a culpa 38
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    A ENTREVISTA ÀVEJA é nossa mesmo. Temos como mudar a Constituição. O Presidente da República não tem. Quanto às medidas provisórias, será que tudo isso que foi discutido aqui, de um momento para outro, vai ser implementado? Teremos condição de votar? Nós mesmos trancamos a pauta das votações. É óbvio que precisamos de uma reforma política. Estamos em afronta total à sociedade. Quem quer ficha suja na política? Há mais de um ano, foi constituída uma comissão, da qual eu tive a honra de fazer parte, o Senador Pedro Simon, outros Senadores, Vossa Excelência também fez parte. Aprovamos lá uma mudança na Lei de Inelegibilidade, na Constituição Federal, para evitar o trânsito em julgado, porque nós sabemos muito bem que uma pessoa que é condenada em primeiro grau já teve inquérito na Polícia, já foi denunciada por um promotor, já enfrentou o devido processo legal com o seu advogado e foi condenada por um juiz. Quer dizer, ela pode continuar em liberdade, ela pode continuar usando os seus recursos, mas não pode estar na vida pública. Essa é uma situação absurdamente equivocada. No mundo inteiro, qual é a discussão principal que tem o Parlamento? O Orçamento. Uma vez cheguei a uma banquinha em Paris; estavam lá os velhinhos todos discutindo o que ia haver de reajuste para eles: 2,3%. “O Congresso está discutindo justamente isso”. Aqui nós discutimos o que, em termos de Orçamento? O Governo pode fazer o que bem entender! O nosso Orçamento é só indicativo, é uma formalidade, nada além disso! O Governo, se quiser, pode modificá-lo completamente durante o ano da execução, com todos os mecanismos à sua disposição. Então, somos um Parlamento assombrado pela superioridade do Executivo e agora pela superioridade do Poder Judiciário. Como nós não legislamos, o Judiciário vem aí. Eu mesmo já fui à tribuna para reclamar que o Poder Judiciário usurpou função nossa de mexer com algema, de 39
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    A ENTREVISTA ÀVEJA como é que isso deve ser feito. O Poder Judiciário já entrou em diversas outras situações. Aliás, o Presidente do Supremo virou uma referência política positiva, porque é um homem que tem coragem de falar. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Perfeito. O Senhor Demóstenes Torres (DEM – GO) – Tem coragem de reclamar contra uma série de situações, e nós estamos perdendo o nosso espaço. Hoje dei uma entrevista, o repórter começou me perguntando o seguinte: “Os senhores estão há um mês parados. O senhor acha que essa paralisia do Senado fez falta ao País?” O que tenho a dizer é o seguinte: claro que faz falta, nós somos uma democracia. Fechar o Parlamento é muito pior do que qualquer outra coisa. Mas temos que tomar as providências necessárias para fazer com que esta Casa ande e, mais do que isso, fazer com que as gerações futuras votem em políticos melhores do que nós. Isso não é hipocrisia nem é crítica direta a quem quer que seja, mas temos que tomar essa atitude. E Vossa Excelência teve a coragem de abrir um debate positivo, um debate que não considero oportunista; muito pelo contrário. Vossa Excelência tem uma história consolidada de vida, uma história consolidada no mundo político e pode abrir, com certeza, esse debate. Temos aí inúmeros temas. Vossa Excelência ou alguém aqui mencionou - não sei se Vossa Excelência, o Senador Tasso Jereissati, ou os dois - o tema fidelidade partidária. Abriram a janela de um mês. É uma fidelidade partidária, permitam-me a expressão, prostituída. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Completamente prostituída. O Senhor Demóstenes Torres (DEM – GO) – Como é que vamos tomar uma providência dessas, ou seja, estamos esculhambando ainda mais a vida pública. Então, gosto do que Vossa Excelência estava falando, respeito a sua posição 40
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    A ENTREVISTA ÀVEJA e acho que nós temos como fazer. Se nós quisermos, não tem Presidente da República que tranque a nossa pauta. Quem tem capacidade de modificar a Constituição somos nós. Não tem Poder Judiciário que vá julgar e criar uma nova legislação por omissão do Congresso. Nós estamos nos omitindo. E tem aí, acredito, umas três centenas de projetos paralisados na Mesa há uns três anos. Não é por incompetência da Mesa, não. É porque, com a nossa legislação, a pauta fica trancada, não damos conta de votar. E tudo isto que estamos falando aqui vai ser uma inverdade se não tomarmos a coragem de enfrentar, no bom sentido, o Executivo e começarmos a exercer nossas atribuições, que são dignas e altaneiras. E para que o povo, quando pararmos um mês, possa dizer amanhã: “Vocês fizeram falta”. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Vossa Excelência tem toda razão, Senador Demóstenes. Primeiro porque é uma autoridade nesses assuntos, nessas denúncias que tem reiterado aqui dentro da Casa. Suas palavras se juntam à palavra do Senador Tião Viana de que a reforma política depende de nós. O Governo pode, quando muito, atrapalhar. Se o Governo não quer a reforma política, ele atrapalha. Mas a iniciativa tem que ser do Congresso, tem que ser da Câmara, do Senado. É estranho chegar ao Congresso uma mensagem com reforma política, usurpando as funções do Senado Federal e da Câmara dos Deputados. Ouço, pela ordem, só para poder ouvir todos, o Senador Marco Maciel, o Senador Cristovam Buarque e o Senador Pedro Simon, que foram os que pediram primeiro a palavra. Senador Marco Maciel. O Senhor Marco Maciel (DEM – PE. Com revisão do orador.) – Senador Jarbas Vasconcelos, desejo, de plano, cumprimentar Vossa Excelência pelo discurso que profere e 41
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    A ENTREVISTA ÀVEJA é um desdobramento de manifestação que Vossa Excelência fez à revista Veja. Vossa Excelência, de forma lúcida, situa a necessidade de repensarmos o País, ou seja, como revigorarmos as instituições republicanas, extremamente erodidas. O Senador Tasso Jereissati falou aqui de valores. Os valores republicanos estão extremamente erodidos comprometendo nossas instituições. Como não poderia deixar de acontecer, traz isso desdobramento no Congresso Nacional. A sociedade deseja, de forma consequente, melhorar a qualidade da política que se pratica no nosso País. Isso é possível, mas passa, obviamente, como foi mencionado à saciedade, pela execução das chamadas reformas políticas, que às vezes prefiro chamar de reformas institucionais, porque ultrapassam o universo dos partidos políticos, do processo eleitoral, para se alojarem em questões extremamente importantes como as relativas à Federação, cada vez mais diminuída, na medida em que há uma grande concentração de poderes da União em detrimento de Estados e Municípios. Enfim, de uma reforma que dê ao País realmente o que tanto aspira, isto é, melhorar os seus níveis de governabilidade. Esse é um debate útil ao País e ajuda que se forme uma pedagogia cívica sobre o que deva ser feito. Acredito que Vossa Excelência já traçou muito bem,o itinerário dessas reformas de modo muito claro. Não há razão para que não encetemos essa luta, e vou além: acho que isso deve ser feito este ano, já que o próximo ano será de eleições gerais e, como dispõe o art. 16 da Constituição, se não estou equivocado, não se pode votar alteração do processo político-eleitoral senão um ano antes das eleições. Então, ou fazemos essas reformas agora ou teremos perdido mais uma oportunidade e, certamente, adiado o aprimoramento institucional do País para mais quatro anos. Encerraria as minhas palavras dizendo que concordo com as palavras de Vossa Excelência quando chama a atenção para 42
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    A ENTREVISTA ÀVEJA fazermos essas reformas e, assim, contribuirmos para dar ao País uma sociedade desenvolvida e justa. É fundamental que façamos essas reformas que têm desdobramentos também em outras áreas, inclusive na tributária, na previdenciária e outras. Enfim, fazendo isso, iniciaremos uma nova fase do nosso País. Agora me ocorre uma frase de um líder republicano que foi, se não estou equivocado, Ministro da Fazenda de Campos Sales e, depois, se elegeu Senador da República. Certo dia, no Senado, ele, num desabafo, disse: “É necessário republicanizar a República”. Essa frase é de Joaquim Murtinho, grande especialista em assuntos financeiros, foi Ministro da Fazenda, parece que de dois governos da chamada República Velha. Líder republicano, decepcionado com o desenvolvimento das práticas republicanas, disse esta frase, a meu ver, lapidar: “É necessário republicanizar a República.” Acho que, mais uma vez, Joaquim Murtinho precisa ser relembrado para servir – quem sabe? –, de bússola a ajudar a iluminar nosso caminho. Muito obrigado a Vossa Excelência pela oportunidade que me deu de aparteá-lo e expender, também, minhas opiniões. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Eu que agradeço a Vossa Excelência, Senador Marco Maciel. Vossa Excelência, que é uma autoridade, um expert nesse assunto de reforma política a que Vossa Excelência chama, adequadamente, de reformas institucionais. Sempre tem ocupado essa tribuna cobrando e apresentando propostas e iniciativas para que ela alcance seus objetivos. Quero ouvir o Senador Cristovam Buarque. Entre os milhares de manifestações de apoio que recebi do Brasil inteiro, a dele foi uma das primeiras a chegar. O Senhor Cristovam Buarque (PDT – DF) – Senador Jarbas, eu creio que dos que estão aqui talvez eu seja o que 43
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    A ENTREVISTA ÀVEJA mais tem acompanhado o senhor nesses 40 anos – que o senhor disse no começo – de sua vida pública. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Vossa Excelência. O Senhor Cristovam Buarque (PDT – DF) – Eu sou um deles. Desde o começo, lá em Pernambuco, quando a gente lutava pela redemocratização... O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Nossa filiação ao MDB, na fundação do Partido, foi na mesma página. O Senhor Cristovam Buarque (PDT – DF) – Na mesma página, juntos na mesma luta. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB - PE) – A filiação era feita em livros. O Senhor Cristovam Buarque (PDT – DF) – Era feita em livros. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Nessa mesma página tem minha filiação, a de Vossa Excelência, a do ex-Deputado estadual Marcos Cunha e a do ex-Senador Roberto Freire. O Senhor Cristovam Buarque (PDT – DF) – E eu creio que todos esses, os que estão vivos ainda, estão orgulhosos de sua posição hoje e, ao mesmo tempo tristes e preocupados, porque depois de 40 anos Vossa Excelência está sendo vítima de um ato arbitrário e ditatorial. Refiro-me à exclusão de Vossa Excelência de uma comissão tão importante como a Comissão de Constituição e Justiça. E ainda mais, que a Casa que existe para defender a democracia hoje passa a impressão, pelo menos, de que está sob uma administração que impõe uma ditadura. E eu digo com toda a responsabilidade de quem afirma isso, imaginando que quem diz o que Vossa Excelência disse e quem diz o que eu digo têm que ser punidos se estiver mentindo, dentro da linha do que disse o Senador Tasso 44
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    A ENTREVISTA ÀVEJA Jereissati em relação ao Ministro da Saúde. Ou Vossa Excelência e eu e outros aqui devemos ser punidos por estarmos, de uma maneira não compatível com a verdade, falando mal da Casa ou outros têm que ser punidos porque são a causa dessa situação degradante que a Casa vive – e ela vive. O mais grave Senador Jarbas, é que o que Vossa Excelência disse, Vossa Excelência mesmo disse, é o óbvio. Isso é que é grave. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – É. O Senhor Cristovam Buarque (PDT – DF) – O mais grave, é que, como Vossa Excelência disse, não apenas existe corrupção, mas ela faz parte da paisagem. Isso é que é grave. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – A constatação do óbvio. O Senhor Cristovam Buarque (PDT – DF) – O mais grave ainda é que o povo passa diante dessa paisagem, vê a paisagem, sente nojo da paisagem, e nós fazemos de conta que a paisagem não existe. E nós toleramos, aceitamos, viramos as costas, silenciamos, como vão tentar silenciar o seu discurso fazendo como se não tivesse acontecido; como vão tentar silenciar a sua entrevista como se ela não tivesse acontecido; como silenciaram o Ministro da Saúde, fazendo de conta que ele não tinha dito que a Funasa era um órgão de corrupção. Eu creio que o mais grave é a aceitação, que faz com que nos transformemos em uma Casa que tolera tudo isso, e a casa que tolera tudo isso tem um nome: casa de tolerância com tudo isso. É para essa desmoralização que o Senhor tanto chamou a atenção. Hoje, fico triste em dizer que – e aqueles que convivem aqui com os jovens devem saber – não estamos representando exemplos para a juventude brasileira. Quantos jovens, hoje, dizem: “Quero, em minha vida, ser Senador”? E eu falo,sobretudo, daqueles 45
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    A ENTREVISTA ÀVEJA que não se lembram da idéia de tirar proveito do fato de ser Senador. Não estamos sendo exemplos. A sua entrevista deu demonstração de que era preciso mudar. Com isso, Vossa Excelência se transformou em um exemplo. Vossa Excelência está fazendo história, com aquela entrevista, com esse discurso e até mesmo com a sua cassação, com a sua exclusão da Comissão de Constituição e Justiça. Gostaria que algum partido o indicasse para uma comissão, Senador, em vez de Vossa Excelência se retirar de todas as Comissões. Outros partidos podem fazer isso. Fui indicado pelo PFL quando fui retirado de uma Comissão, em algum momento. Nada a ver como meu Partido, mas fui. Vossa Excelência pode ser indicado por outro partido. Teria, a meu ver, de continuar lá dando sua contribuição como brasileiro, acima dos partidos aos quais estamos filiados. Quero dizer que a sua demonstração de que os partidos estão hoje em situação degradada é verdade. Felizmente, embora os partidos tenham ficado todos iguais pelo lado negativo, ainda existe o lado de lá e o lado de cá, e eu estou do seu lado. Nós somos do mesmo lado, embora em siglas diferentes. Como alguém que é do seu lado, há quarenta anos, em partidos diferentes, quero lhe dizer que se tentam esquecer tudo o que Vossa Excelência disse, quero dizer que eu assino embaixo da sua entrevista, assino embaixo do seu discurso, mesmo discordando até, talvez, de alguns pontos da entrevista, porque não há por que ter concordância com tudo. Mesmo assim, em momentos em que alguém é perseguido por dizer a verdade, a coisa mais importante que a gente faz é assinar embaixo do que aquela pessoa disse. Eu assino embaixo do que o senhor está dizendo nesses dias, e espero que tudo isso seja apurado. E, se não for verdade, eu estou disposto, como subscritor do que o senhor disse, a ser punido. Agora, eu espero que, se for verdade, alguém seja punido. Para isso, esta Casa não pode esquecer 46
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    A ENTREVISTA ÀVEJA esta tarde, não pode esquecer as suas denúncias. Temos que levar adiante, apurando tudo o que houve, seja alguma falsidade no que a gente diz, seja a realidade trágica do que a gente está afirmando. Eu fico contente de que, nesses 40 anos, estamos do mesmo lado e, nesse lado, eu assino embaixo do que o senhor disse e do que o senhor está falando hoje. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – O seu aparte, Senador Cristovam Buarque, além de nos tocar profundamente, já tinha sido publicado no Jornal do Commercio do Recife com este mesmo título “Eu assino embaixo”, em que Vossa Excelência reitera todos esses conceitos que emite aqui com relação a minha fala e a outras falas dessa mesma dimensão, com esses mesmos objetivos. Vossa Excelência, graças a Deus, tem marcado a presença do nosso Estado aqui, representando o Distrito Federal, da melhor maneira possível. Eu ouço o nobre amigo Senador Pedro Simon. O Senhor Pedro Simon (PMDB – RS) – Nobre Senador, não há dúvida de que a Nação está assistindo ao pronunciamento de Vossa Excelência com profunda emoção. Acredito que muitos devem estar surpresos. Seu pronunciamento não foi aquilo que imaginavam. Na verdade, alguns imaginavam que viessem nomes, biografias e histórias, mas Vossa Excelência deixou claro, na primeira entrevista, que o que tinha para dizer já tinha dito. O pronunciamento de Vossa Excelência, hoje, é aquilo que eu disse na primeira vez em que fui entrevistado sobre a entrevista de Vossa Excelência: nós temos de analisar, em cima do pronunciamento do Senador Jarbas, o que vamos fazer. Ele está dando um grande início, um início muito importante. Não há, eu duvido, alguém que não reconheça que se deva fazer alguma coisa; não há, eu duvido, alguém que não reconheça que precisa ser feito. Mas tem de iniciar. 47
  • 49.
    A ENTREVISTA ÀVEJA E, com esse seu pronunciamento feliz, competente, oportuno, correto, Vossa Excelência está iniciando. Acho que podemos discordar ou não – e eu concordo com Vossa Excelência –, mas o importante é que o método que Vossa Excelência está propondo hoje nós temos de aceitar. Nós temos de aceitar! Na verdade, nós somos os grandes culpados. É claro que um Congresso que tem medidas provisórias, que nos desmoraliza, que nos humilha, um Congresso onde os Partidos se dobram ao poder e às vontades do Poder Executivo – hoje, ontem e sempre – é difícil, mas nós, individualmente, podemos nos somar e fazer o que Vossa Excelência está propondo. Eu tenho dito, Senador, que seria muito importante uma manifestação da sociedade. Quando caiu a emenda das Diretas Já, e quando parecia que tudo estava acabado, foram os jovens nas ruas que fizeram com que o Tancredo transformasse o Colégio Eleitoral, que era uma mentira, num instrumento para derrubar a ditadura. Foram os caras-pintadas nas ruas. O Congresso, pressionado pelo Exército, que cercou a Casa, não teve condições de aprovar a emenda, e não faria nada. O povo nas ruas deu legitimidade. Seu discurso de hoje é o início e ninguém aqui, mais do que eu, pode dizer: “Pode ter alguém no Congresso com condições idênticas a de Vossa Excelência. Ninguém igual e, principalmente, ninguém mais, pela sua história, pela sua biografia, pelo seu passado.” Eu tenho dito: oito anos Prefeito de Recife, considerado o melhor Prefeito do Brasil; oito anos Governador de Pernambuco, considerado o melhor Governador do Brasil; a vida inteira dentro do MDB, ou fora da política, sempre com a correção, com a dignidade e com a seriedade. Vossa Excelência tem autoridade para fazer isso. E nós temos vontade, Senador, eu tenho certeza. Nós vivemos uma quadra muito triste. Vossa Excelência chamou atenção sobre a impunidade. Eu recebi uma carta do Presidente do Supremo, de certa forma 48
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    A ENTREVISTA ÀVEJA cobrando de mim. Eu vou respondê-la e depois vou ler a carta dele e a minha resposta, porque eu abranjo o problema da impunidade. Acho que o problema não é – pelo amor de Deus! – o Supremo. Eu tenho o maior carinho, o maior respeito pelo Supremo. Não é o Supremo, não somos nós, mas é o conjunto de todos, porque a verdade é que, no Brasil, ladrão de galinha – e só ladrão de galinha – vai para a cadeia. Com o resto não acontece nada. Vossa Excelência fala em fundo de pensão, fala em apresentar um projeto para que político não possa ser nomeado para cargos de situação financeira de empreiteira. Isso é hoje, é ontem, isso é assim. Aqui, nesta Casa, vimos um dos maiores escândalos. Um Ministro de Estado, saindo da tribuna onde está Vossa Excelência, respondendo a um debate, foi para o telefone e renunciou ao Ministério, quando ficou claro que os fundos de pensão do Banco do Brasil, que estavam fechados para aprovar o Senhor Antonio Ermínio de Moraes e o seu grupo para comprar a Vale do Rio Doce... Formou-se um grupo, que foi o que ganhou, e seis dias antes criaram um novo grupo, e o fundo de pensão, que estava comprometido com um lado, foi para o outro lado. Foi quando o Ministro disse: “Nós chegamos ao limite da irresponsabilidade”, e daqui da Casa pediu a renúncia. Isso vem de longe e continua igual. Vossa Excelência diz bem. E me perdoem os meus irmãos do PMDB lá da Câmara dos Deputados, mas criar uma CPI para investigar... Até porque sabemos que o momento atual que o Congresso está vivendo, o Congresso, que fez grandes CPIs, e era um momento histórico da sua existência no passado, hoje, não! A CPI das ONGs, a CPI... O SENHOR PRESIDENTE (Marconi Perillo. PSDB – GO) – Senador Pedro Simon, vou prorrogar o tempo do Senador Jarbas Vasconcelos, pela terceira vez consecutiva, com prazer, para que Vossa Excelência conclua o seu raciocínio e para permitir também ao orador que se encontra 49
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    A ENTREVISTA ÀVEJA na tribuna e aos demais aparteantes que participem deste debate tão importante. O Senhor Pedro Simon (PMDB – RS) – ...muito subjetivo. Os fundos de pensão, as diretorias financeiras, as reformas políticas, vamos partir do pronunciamento de hoje de Vossa Excelência e vamos adiante. Faço um apelo ao Líder do PMDB: vamos olhar para a frente. Se for preciso, Senador Renan, a minha vaga está disponível. Mas vamos retornar o Jarbas para a Comissão de Constituição e Justiça. Eu acho que seria um gesto muito positivo porque, independentemente do que acontecer, essa seria uma grande realidade. Tenho certeza de que o Senador Renan vai aceitar, e Vossa Excelência, que é muito complicado, também vai aceitar. Muito obrigado. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Senador Pedro Simon, muito bom o seu aparte, muito bom o seu pronunciamento, Vossa Excelência, que é um pioneiro no Senado Federal na luta contra a impunidade, contra a corrupção. Quando cheguei aqui, já acompanhava Vossa Excelência, não só como companheiro de Partido, mas pela amizade que nos une, e sempre tive uma profunda admiração pela sua conduta, pela sua ação, pelo combate diuturno, ontem, contra o regime autoritário; hoje, contra a impunidade e a corrupção. Eu fico muito feliz de incorporar esse discurso de Vossa Excelência. Ouço o Senador Jefferson Praia, que foi um dos primeiros a pedir, e ficou na minha frente aqui. Peço desculpas. Com muita honra, ouço Vossa Excelência. O Senhor Jefferson Praia (PDT – AM) – Senador Jarbas Vasconcelos, eu estava aqui, neste momento, fazendo uma reflexão sobre o que estamos tratando nesta tarde. Nós, na verdade, representamos 180 milhões de brasileiros. Este é o Senado. Estamos discutindo e refletindo sobre talvez o maior mal deste País, que é a questão que Vossa Excelência 50
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    A ENTREVISTA ÀVEJA ressaltou na entrevista que deu à Veja sobre a corrupção no Brasil. Essa é a grande questão. E aí acredito que o grande salto que temos que dar, daqui para a frente, é definir como vamos sair. Vossa Excelência fez a sua parte, está dando início a um processo, como alguns dos oradores já colocaram. Como vamos fazer com que saiamos do discurso para as ações, para as ações práticas? Vossa Excelência já deu algum caminho também. Já falou, por exemplo, do nosso papel, que é fundamental, aqui no Senado. O Senado tem que fazer a sua parte. Nós temos que fazer a nossa parte. Nós não podemos apenas falar do que queremos – ou de algum coisa – como se não estivesse nas nossas mãos. Muita coisa está aqui nas nossas mãos. A reforma política – Vossa Excelência destacou, dentre outras questões nacionais – é algo sobre o que o povo espera que nós façamos alguma coisa. Portanto, eu aproveito esta oportunidade para fazermos uma reflexão neste início de noite. Sobre quantos assuntos temos que refletir? Por exemplo, eu tenho me reportado, junto com outros ilustres Parlamentares aqui, sobre a Amazônia. Eu gostaria de, num momento como este, estarmos aqui discutindo também a Amazônia. Portanto, temos que fazer a nossa parte. O Senado começar a ver como age nas comissões, nas decisões que tem que tomar. E, daí para a frente, nós poderemos começar a cobrar dos outros Poderes, do Poder Executivo, do Poder Judiciário, da sociedade como um todo, que cobra dos políticos – e com muita razão. Nós estamos aqui representando o povo dos nossos Estados. Eu aqui, junto com o Senador João Pedro e o Senador Arthur Virgílio Neto, represento o povo do Estado do Amazonas e gostaria de estar aqui falando o que eu estou dizendo neste momento a Vossa Excelência e aos demais Pares. Acredito que 180 milhões, com raríssimas exceções, gostariam de estar aqui. Não caberiam neste espaço todo do Congresso Nacional, 51
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    A ENTREVISTA ÀVEJA interno e externo, é claro, mas, espiritualmente, estão ligados a essa questão e tenho certeza de que nos acompanham. Portanto, temos pela frente um grande caminho. Essa é uma questão que não vamos resolver de imediato. Mas podemos trabalhar no sentido de diminuirmos a intensidade da corrupção do Brasil, pois não dá mais para levarmos avante da forma como as coisas estão se dando. Vossa Excelência falou muito bem. Apenas disse o que está todo o mundo vendo. A imprensa vê. Os políticos vêem. O povo vê. Todo o mundo vê. Mas e aí? Faltam agora as ações. E eu me coloco à disposição de Vossa Excelência para ser um daqueles que vai estar ao seu lado e ao lado de outros companheiros para que possamos fazer este trabalho em prol da nossa sociedade. Eu não sou aqui melhor do que ninguém. Coloco-me nesta posição. Apenas procuro ser uma das pessoas que veio aqui pelos destinos da vida. Represento aqui um grande Senador, o Senador Jefferson Péres, que, se estivesse aqui hoje – ele faz falta –, falaria melhor do que eu 10 mil vezes e estaria aqui expondo sua posição. E eu não poderia ficar sem falar em nome do nosso povo, do povo do Estado do Amazonas e do povo brasileiro. Portanto, solidarizo-me com Vossa Excelência. Vamos continuar debatendo cada vez mais. É dessa forma que o Brasil vai avançar. Vossa Excelência coloca posições importantíssimas e tenho certeza de que o Brasil vai avançar paulatinamente, porque isso é um processo e não se dá de uma hora para outra. Existe corrupção, a corrupção já está praticamente em todos os países. Ninguém vai acabar com a corrupção no mundo nem no Brasil, mas da forma como está... Para fazer com que as instituições funcionem, temos que começar pela nossa Casa, pelo nosso Senado da República. Muito obrigado pelo aparte. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – A corrupção e a impunidade, Senhor Senador, caminham 52
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    A ENTREVISTA ÀVEJA juntas, e nada melhor nesta tarde do que o aparte de Vossa Excelência. E Vossa Excelência chegou aqui para completar o mandato de um grande brasileiro, Jefferson Péres, e tem se comportado como ele, assíduo, responsável, sempre presente ao debate, sempre dando a sua contribuição. Nunca cheguei a este plenário para não encontrar Vossa Excelência aqui, sempre atento e sempre responsável. De forma que o aparte de Vossa Excelência para mim é engrandecedor. Quero, Senhor Presidente, avançar um pouco para ouvir mais duas ou três pessoas, se Vossa Excelência me permite, e deixar registrado o meu agradecimento a sua tolerância e a sua benevolência. O SENHOR PRESIDENTE (Marconi Perillo. PSDB – GO) – Terá Vossa Excelência o tempo necessário para concluir o seu pronunciamento. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – A impunidade estimula a corrupção, é um cancro que precisa ser extirpado. Apesar das promessas reiteradas em cada discurso de posse, a cultura da impunidade não apenas permanece entre nós, mas se estabelece em bases sólidas em um terreno cada vez mais fértil. Em outros países – e temos diversos exemplos recentes – uma mera suspeita é suficiente para que haja uma renúncia, a fim de que alguém rejeite uma colocação pública. E essa iniciativa não representa uma confissão de culpa, como alguns poderiam dizer. Significa apenas a sensatez de separar o espaço público das pendências privadas. No Brasil dos dias atuais, a certeza da impunidade dá uma força tremenda a quem não agiu com lisura e correção. As pessoas se agarram aos cargos como mariscos no casco de um navio – não caem nem nas maiores tempestades. 53
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    A ENTREVISTA ÀVEJA Senhor Presidente, a corrupção é um fator de desagregação política e social. Ela conduz ao desgaste e enfraquece profundamente a legitimidade do poder constituído. A partir dessa constatação, gostaria de apresentar mais duas propostas que julgo serem de grande importância, apesar de não serem originais, pois recorri a um documento amplamente difundido há alguns anos. Estas sugestões vou fazer na Frente Parlamentar Anticorrupção: Primeira – A criação de uma agência anticorrupção, com participação do Executivo, do Legislativo, do Judiciário, do Ministério Público, do Tribunal de Contas da União e de representantes da sociedade civil, para detalhar um Plano Nacional de Anticorrupção. Segunda – A retomada do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, que pretende acompanhar, junto aos Tribunais Regionais Eleitorais e ao Tribunal Superior Eleitoral, todos os processos relativos às denúncias de compra de votos e uso eleitoral da máquina administrativa. Eu gostaria também de citar o trecho de um documento que tive oportunidade de ler recentemente: “A corrupção no Brasil tem raízes históricas, fundamentos estruturais e impregna a cultura de setores importantes do espectro social, político e econômico. A prática de corruptos e corruptores na esfera do poder se dissemina pela sociedade, como exemplo negativo que vem de cima. O compromisso em erradicá-la não pode se limitar a uma prática de denúncias eventuais e, muito menos, servir a fins eleitorais ou políticos imediatos. Ela exige uma intervenção enérgica pelo fim da impunidade e requer ampla ação cultural educativa pela afirmação dos valores republicanos e democráticos da nossa vida política.” 54
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    A ENTREVISTA ÀVEJA Senhores Senadores e Senhoras Senadoras, essas duas propostas que acabei de apresentar e também o texto citado constam do documento “Combate à corrupção – compromisso com a ética”, parte do “Programa de Governo de 2002 Lula Presidente”. Tomei a liberdade de incorporá-las ao meu discurso, porque considero que traz abordagens atuais, corretas e, principalmente, por nunca terem sido postas em prática pelo atual Governo. Senhor Presidente, encerro o presente discurso com um elogio à CNBB, que, entre os temas da Campanha da Fraternidade deste ano, defende denunciar os crimes contra a ética, a economia popular e as gestões públicas, assim como a injustiça nos institutos da prisão especial, do foro privilegiado e da imunidade parlamentar para crimes comuns. É essa a postura que se espera da sociedade civil, das igrejas, das entidades de classe e da imprensa. A mudança de postura que se faz necessária num Congresso Nacional só virá pela pressão de todos. Antes de terminar, Senhor Presidente, se Vossa Excelência permitir um pouco mais de tolerância, eu ouvirei os dois Líderes: o Líder do PSDB, Arthur Virgílio, e o Líder do PSB. O Senhor Valter Pereira (PMDB – MS) – Só para lembrar, Senador Jarbas, Vossa Excelência não concedeu aparte a nenhum companheiro seu de Partido. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Citei o melhor de todos aqui: o Senador Pedro Simon. O Senhor Almeida Lima (PMDB – SE) – Vossa Excelência não concederá aparte, Senador Jarbas Vasconcelos? O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Vossa Excelência está meio armado com relação a mim. 55
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    A ENTREVISTA ÀVEJA O Senhor Almeida lima (PMDB – SE) – Senador Jarbas, Vossa Excelência não concederá aparte? O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Concedi aparte ao Senador Arthur Virgílio e ao Líder do PSB. O Senhor Almeida Lima (PMDB – SE) – E consulto Vossa Excelência se me concederá aparte. Senador Almeida Lima. Consulto se me concederá aparte. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Vou ouvi-lo. O Senhor Almeida Lima (PMDB – SE) – Obrigado. O Senhor José Nery (PSOL – PA) – Senador Jarbas Vasconcelos, eu gostaria de falar depois, se possível, com breves palavras, para cumprimentá-lo. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Vou ouvi-lo. Se a Presidência permite, o Senador Aloizio Mercadante também. Senador Arthur Virgílio, com muita honra. O Senhor Arthur Virgílio (PSDB – AM) – Considero, Senador Jarbas, que ficaria até monótono se todos os apartes fossem de louvação ao seu pronunciamento. Então é bom que ouça mesmo todas as vozes e que cada uma se manifeste de acordo com o que o espírito dita a partir do coração para o cérebro. Mas, muito bem, eu gostaria de registrar que Vossa Excelência salvou, com esse discurso, a tarde modorrenta, cheia de mesmice, do Senado, hoje. Vossa Excelência nos fez viver um belo momento de atividade parlamentar. Vossa Excelência é um daqueles Parlamentares que não dependem de posição institucional para ter a importância que têm. E já era assim há muito tempo, desde quando fomos colegas de Câmara dos Deputados no enfrentamento ao regime autoritário. Nunca vi Vossa Excelência exercendo a função de líder partidário, mas jamais vi Vossa Excelência sendo ignorado na sua opinião pela opinião pública, pela imprensa, pelos seus 56
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    A ENTREVISTA ÀVEJA colegas, pelos seus adversários. E é respeitado pelos seus adversários. Eu não me intrometo nos assuntos dos partidos, então, os líderes indicam quem bem querem, é da tradição; por outro lado, há espaço para que eu diga a Vossa Excelência que Vossa Excelência tem toda uma vocação para estar na Comissão de Constituição e Justiça, e Vossa Excelência tem o meu lugar. Está à sua disposição o meu lugar de membro da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania para que continue integrando aquele colegiado tão importante que muito perderia sem a sua presença. O fato é que Vossa Excelência deu uma entrevista que foi o grande momento político do Brasil neste ano de 2009, em crise, com tantos acontecimentos intensos. Não vi nada mais importante que tenha repercutido mais fortemente junto à opinião pública do que a entrevista que Vossa Excelência deu às páginas amarelas da revista Veja. Estamos todos hoje aqui mobilizados em torno do seu discurso sereno. O SENHOR PRESIDENTE (Marconi Perillo. PSDB – GO) – Prorrogo o tempo do orador que se encontra da tribuna por mais 30 minutos. O Senhor Arthur Virgílio (PSDB – AM) – Em nenhum momento, vi Vossa Excelência sair para o panfleto, sair para a provocação. Discurso sereno, típico de quem governou o seu Estado por mais de uma vez, a sua cidade por mais de uma vez e que já viveu diversas experiências no Parlamento. E tudo isso a credenciá-lo à posição de respeitabilidade que desfruta hoje. Nós temos que trabalhar com coisas práticas e Vossa Excelência se referiu a fatos práticos e conta desde já com o meu endosso e sei que com o endosso do meu partido por inteiro. Na entrevista, talvez Vossa Excelência tenha sido até um pouco duro naquele embalo em que ia dizendo que os partidos eram mais ou menos iguais e não teria para onde ir. Vossa Excelência teria para onde ir, sim. O meu partido tem pessoas decentes, de caráter, e meu partido 57
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    A ENTREVISTA ÀVEJA seria e será um abrigo para Vossa Excelência tão assim Vossa Excelência solicite esse abrigo ou imagine que desse espaço necessita para tocar a sua brilhante carreira pública. Mas veja Vossa Excelência, eu... e nem a propósito, sabendo que amanhã elegeremos o Senador Demóstenes Torres Presidente da Comissão de Justiça da Casa, pedi ao Senador Demóstenes, como primeiro gesto, que tocasse para frente todos os projetos que tivessem a ver com moralidade pública. Tenho um no meio desses todos: é um projeto de resolução. Não tem que ir para a Câmara, não tem que perder tempo com nada, é uma decisão do Senado para vigorar no Senado. E acertamos que o ideal seria entregar a relatoria para Vossa Excelência na Comissão de Justiça. Meu projeto diz que a vida pregressa dos Senadores deve ser passível de exame pela Comissão de Ética sim. Afinal de contas, o decoro não é só a partir do momento em que se é Parlamentar. Suponho que alguém, para se eleger Parlamentar, deva ser decoroso. Suponho isso. Alguém mata e rouba para ser Senador e, depois, não pode ser julgado pela Comissão de Ética da Casa, apesar de ter matado e roubado, para ser Senador. Ora, fica algo impossível de ser entendido pela sociedade brasileira. O Senador Demóstenes me disse que assume e, imediatamente, designa o Relator dessa matéria. E espero mesmo, se Vossa Excelência aceita a oferta, que o Relator seja Vossa Excelência. Estamos aqui num quadro de paralisia. Hoje não votamos, e o PSDB não concorda com votação enquanto não escolhermos os presidentes das comissões. Defendemos o critério da proporcionalidade; defendemos o respeito àquilo que o povo ditou. Cada Partido tem o seu tamanho. O meu é o terceiro. Não quero, portanto, as posições do primeiro, mas não aceito as posições do quinto, de jeito nem qualidade, como diria um bom pernambucano, como meu avô e como Vossa Excelência. E veja a situação estranha a que está relegado o 58
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    A ENTREVISTA ÀVEJA Senado hoje. Alguém diz: as comissões estão sem presidente? Não, elas estão com presidente. Na CAE, o Presidente é o Senador Eliseu Resende e o Vice é o Senador Pedro Simon; na Comissão de Assuntos Sociais, o Presidente é o Senador Paulo Duque e o Vice é o Senador João Durval; na Comissão de Justiça, o Presidente é o Senador Pedro Simon e o Vice é o Senador Romeu Tuma; na Comissão de Educação, o Presidente é o Senador Romeu Tuma e o Vice é o Senador Francisco Dornelles; na Comissão de Meio Ambiente, o Presidente é o Senador Eliseu Resende e o Vice é o Senador Valter Pereira; na Comissão de Direitos Humanos, o Presidente é o Senador Paulo Duque e o Vice é o Senador Eliseu Resende; na Comissão de Relações Exteriores, Senador Eduardo Azeredo, o Presidente é o Senador Paulo Duque e o Vice o Senador Pedro Simon; na Comissão de Infraestrutura, o Presidente é o Senador Paulo Duque e o Vice, o Senador Eliseu Resende; na Comissão de Desenvolvimento Regional, o Presidente é o Senador Marco Maciel e o Vice, o Senador Antonio Carlos Valadares; na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária, o Presidente é o Senador Romeu Tuma e Vice, o Senador Neuto de Conto; na Comissão de Ciência e Tecnologia, o Presidente é o Senador Camata e o Vice é o Senador José Agripino, com exceção de algumas... O SENHOR ARTHUR VIRGÍLIO (PSDB – AM) – (Risos.) Senador, isso não faz jus à sua jovialidade. Tenho criticado a inação desse início do Presidente Sarney. Tenho dito a ele: Presidente, vamos começar a agir e eu paro de criticar, mas, se não começarmos a agir, vou ter que continuar criticando. Não estou aqui para ficar perdendo as minhas tardes e perdendo as minhas manhãs esperando que as coisas aconteçam, se elas acontecerem, e a crise lá fora e nós aqui bancando a nobreza brasileira, na Ilha Fiscal, de ressaca, e a República sendo proclamada na madrugada por 59
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    A ENTREVISTA ÀVEJA Deodoro da Fonseca. Temos que elogiar. Com exceção de algumas pessoas de reconhecida jovialidade, como tantos aqui, pode-se dizer que, no primeiro momento da sua gestão, o Senador Sarney prestigiou a sua geração como jamais ninguém e isso não pode perdurar; isso aqui, inclusive, não reflete a proporcionalidade; se refletisse, seria mais equilibrado. Como não reflete, nós não poderíamos mesmo acorrer a uma comissão dessas para votar coisa alguma. Nomes respeitáveis, nomes queridos, nomes estimados, mas não reflete a proporcionalidade, não reflete o jogo de forças que está estabelecido aqui, no Senado. Entendo que nós precisamos mesmo tomar medidas muito claras contra este mal, este câncer que é a corrupção e com atitudes pontuais. Vossa Excelência agora fez um discurso para mim melhor do que faria se se dispusesse ao simples bate-boca com quem quer que fosse aqui, nesta Casa. Vossa Excelência propôs três ou quatro medidas que devem ser meditadas e estudadas por nós. Eu pretendo ver o meu projeto que estuda a vida pregressa dos Senadores votando o quanto antes – teria muita honra se fosse Vossa Excelência o Relator da matéria –, mas, de qualquer maneira, que os Senadores digam: eu, fulano de tal, concordo com esse projeto; eu, beltrano, não concordo, e explique por que, às claras. Eu acabei de sair de uma aliança com o meu querido amigo, Senador Tião, mas eu não tenho o mesmo talento da CUT para pôr outdoor; eu não vou pôr outdoor com o nome de ninguém na rua, não, dizendo... Mas é óbvio que cada um tem que colocar a sua própria face. Por que não quer? Então, diga: eu não quero porque o projeto é defeituoso nisso e naquilo. Não dá para a gente embargar na gaveta, não dá para se dizer que o projeto não foi julgado por qualquer razão que não o não. Então tem que dizer: não, o projeto não é útil, não é adequado, devemos deixar a jurisprudência atual, devemos deixar que seja possível uma 60
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    A ENTREVISTA ÀVEJA pessoa matar, roubar, fraudar, se elege e, depois, não tem nenhuma satisfação a dar a ninguém porque só se olha para o futuro. Então é ótimo: o sujeito mata, rouba, frauda, chega aqui, não comete mais nem assassinato, nem fraude, nem roubo, ninguém mexe mais com a vida dele, embora a gente conheça que, na vida pública brasileira, não são raros os reincidentes. Eu, portanto, saúdo o discurso de Vossa Excelência como uma peça madura – e é tautológico de minha parte me referir à maturidade de Vossa Excelência –, mas um discurso que, pela sua própria importância, mobilizou tantas pessoas. Eu acharia mesmo injusto se Vossa Excelência não concedesse aos seus colegas de Partido o aparte por eles solicitado tão fervorosamente. Enfim, Vossa Excelência teria mesmo de ouvi-los, como teria de ouvir a todos. Seria injusto que Vossa Excelência não ouvisse tantos admiradores seus que estão aqui para saudá- lo. Portanto, eu sinto que este é um dos momentos em que a Mesa tem de agir como está agindo o Presidente Marconi Perillo: nada daquele tempo... Nesta hora não tem Regimento. Qual é o Regimento? O Regimento de um Senado que está sem votar há um mês e dois dias, um Senado que está sem deliberar há um mês e dois dias, um Senado que está discutindo quem tem direito e quem não tem direito de presidir uma comissão, quando a gente sabe muito bem quem tem e quem não tem direito de presidir uma comissão? A gente sabe muito bem quem tem e quem não tem pela simples matemática dos votos que as urnas nos deram e que a proporcionalidade aqui reflete. É uma discussão bizantina, uma discussão até apedeuta, aqui para nós, Senador Jarbas Vasconcelos. Portanto, meus parabéns a Vossa Excelência pelo seu pronunciamento. Eu digo a Vossa Excelência que essa cruzada terá muitos seguidores. Eu tenho visto a repercussão que seu pronunciamento e seu nome têm encontrado no País. Percebo isso pela minha 61
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    A ENTREVISTA ÀVEJA terra. Tenho andado menos, hoje em dia, pela terra dos outros e tenho andado muito pela minha terra e tenho observado o quanto de admiração se acresceu à admiração de base que Vossa Excelência já tinha em meu Estado, pela atitude corajosa de ter proposto algo para o debate. Vossa Excelência foi duro em relação a seu Partido, Vossa Excelência foi duro em relação à inércia com que, de um modo geral, o segmento político enfrenta esse drama da corrupção e manifestou sua opinião. Eu não vejo, no Código Penal, nada que capitule como crime o que Vossa Excelência disse. Não vejo. Não sou nenhum especialista em Direito, mas eu conheço muito bem o que é crime e o que não é. Vossa Excelência opinou e opinou com muita autoridade e trouxe um debate que despertou a Nação, que fez a Nação acordar. Vossa Excelência beliscou a Nação. Fez muito bem em beliscá-la. Portanto, não terá, de parte do PSDB, ninguém que negue fogo nesse chamamento que Vossa Excelência faz a nós para enfrentarmos em conjunto uma das chagas que mais é responsável por prostituição infantil, por menor que pratica crimes, por favelas dominadas por tiranetes do tráfico, por soldadinhos que morrem aos 15 anos por estarem protegendo as bocas de tráfico nas favelas das grandes metrópoles... A sua e a minha também já estão incluídas entre essas, não são mais apenas o Rio de Janeiro e São Paulo. A corrupção não é feia apenas porque é bonito ser honesto, segundo uma boa avó nossa poderia ter ensinado; a corrupção é ruim porque ela mata, porque ela mutila, porque ela prostitui as gerações; ela é ruim porque empobrece, ela é ruim porque concentra renda nas mãos de gente que não merece. Ela é ruim por tudo isso. E é por isso que eu digo que Vossa Excelência não precisa falar muito para ser o grande Senador que é, nem precisaria estar no Senado para ser o grande homem público que merece, já de 62
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    A ENTREVISTA ÀVEJA muito tempo, o meu respeito. Muito obrigado, Senador Jarbas. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Muito obrigado, Senador Arthur Virgílio, a Vossa Excelência que tem desempenhado aqui um papel tão importante como Senador, como Líder do PSDB, representante do Amazonas. E agora, com esse entendimento entre Vossa Excelência e o nobre Senador Demóstenes Torres, de agilizar esse processos que visam à moralização dos costumes, é fundamental, é importante a gente dar esse exemplo à sociedade porque, sem a mobilização da sociedade, sem o despertar da sociedade, sem a pressão da sociedade exercida de forma legítima, a gente não vai a lugar nenhum, não alcança nenhum objetivo. Ouço o nobre Líder do PSB, Senador Renato Casagrande. O Senhor Renato Casagrande (Bloco/PSB – ES) – Muito obrigado pelo aparte, Senador Jarbas. O Senador Eliseu já chegou aqui para reivindicar suas propostas, Senador Arthur Virgílio, de várias comissões aqui indicadas pelo Senador Arthur Virgílio para o Senador Eliseu. Quero dizer apenas que Vossa Excelência traz a este Senado um debate sobre a crise institucional que estamos vivendo. Não fez nenhuma acusação direta a nenhuma pessoa, nem mesmo a nenhum Partido, mas levantou um tema que é necessário para o debate neste Senado e no Congresso Nacional. Até porque nós, de fato, nos últimos anos, nos últimos meses – fui Deputado Federal antes de vir ao Senado –, estamos vivenciando, desde a legislatura passada, momentos de escândalo que se abatem sobre o Congresso. Parte dessa responsabilidade é pela fragilidade das nossas instituições. Temos uma jovem democracia que não tem ainda a maturidade e o aperfeiçoamento necessário das instituições exercendo o seu papel e suas funções. Ao 63
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    A ENTREVISTA ÀVEJA mesmo tempo, nós, que temos um Congresso hoje livre, também nos ausentamos muitas vezes de nossas prerrogativas. Vossa Excelência falou do tema da reforma política. Eu, em abril de 2008, apresentei um requerimento para que pudéssemos discutir, numa comissão mista do Congresso Nacional,... O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Eu me lembro. O Senhor Renato Casagrande (Bloco/PSB – ES) – ... a reforma política, mas nós não tivemos capacidade de colocar uma comissão mista para funcionar, porque a Oposição, com medo da discussão sobre o terceiro mandato, e as outras lideranças da Base também, não se mobilizaram para que pudéssemos começar. Não fizemos o debate da reforma política e o Congresso apresentou proposta numa matéria que não é prerrogativa do Executivo. O Governo apresentou uma matéria que não é prerrogativa dele, é prerrogativa do Congresso Nacional. Apresentou, de fato, de uma forma equivocada, na minha avaliação, de forma fatiada. A reforma política tem que ter um arcabouço, tem que ter um esqueleto que se articule, que comunique um projeto com o outro, uma decisão com a outra. Então, nós reclamamos aqui muitas vezes, mas nós demoramos, nós não temos aqui uma dinâmica interna que permita que tomemos as decisões necessárias para que nós possamos dar o exemplo. Então, nós precisamos fazer a nossa parte, mesmo sabendo que o que estamos fazendo são reformas de instituições ultrapassadas. Neste momento, em que estamos com tecnologias novas, é inconcebível, por exemplo, que nós não aprovemos na Câmara um projeto que já foi aprovado aqui no Senado, que é o da transparência. Hoje, o ente da Federação mais transparente é a União. Poucos governos estaduais – o de Pernambuco, do Governador Eduardo Campos, tem um nível de transparência até razoável... 64
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    A ENTREVISTA ÀVEJA Lembro que o Governador Eduardo Campos, como Vossa Excelência, é pernambucano. Mas temos poucos governos que têm o Portal Transparência, poucos Municípios têm o Portal Transparência. A transparência ajuda a combater a impunidade. Então, temos muitas coisas que, de fato, precisamos fazer, não vamos fazer todas de uma vez, mas o Congresso tem que cumprir a sua pauta. E para cumprirmos a nossa pauta, temos de sair de fato dessa letargia que já tomou conta de nós há algum tempo. Obrigado, Senador. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Obrigado, Senador Renato Casagrande, que também tem se constituído, nesta Casa, em uma voz valorosa em favor de reforma política e de outras reformas. Ouço o Senador José Agripino e, em seguida, o Senador Valter Pereira. O Senhor José Agripino (DEM – RN) – Senador Jarbas Vasconcelos, não estamos aqui nem derrubando a CPMF, nem aprovando a Lei Geral das Microempresas, nem fazendo com que o Governo retire a MP nº 232, nem estamos votando e aprovando a Lei de Falências, mas estamos vivendo um bom momento no Congresso, porque estamos sacudindo um assunto que nunca poderia estar dormindo, que é o assunto da corrupção. Em boa hora Vossa Excelência deu aquela entrevista à revista Veja, entrevista que teve enorme repercussão. Repercussão pelo assunto? Não. O assunto corrupção está nas páginas dos jornais e nas matérias da TV todos os dias. A matéria teve repercussão porque Vossa Excelência, cortando na própria carne, acusou o seu Partido e, corajosamente, acusou a corrupção endêmica a que o País assiste, com a autoridade de quem é político, como eu, há quarenta anos e de quem tem ficha limpa. Agora, importante é fazer o discurso, dar entrevista, e Vossa Excelência está aqui dando sequência à 65
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    A ENTREVISTA ÀVEJA sua ação, porque importante não é o discurso, é sair do discurso para a ação, é ver o que nós temos de fazer. Senador Jarbas, Vossa Excelência foi Prefeito de uma grande capital, Recife, foi Governador de um grande Estado, Pernambuco; eu fui Prefeito da minha capital, fui Governador duas vezes do meu Estado e sou Senador há três mandatos. Eu não respondo a um único processo. Acho que Vossa Excelência também não. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Não. O Senhor José Agripino (DEM – RN) – Eu queria que Vossa Excelência concordasse comigo numa coisa. Eu acho que a gente tinha que fazer uma agenda de coisas a fazer, de compromissos a cumprir. Há algumas matérias que devem ser apreciadas, votadas e aprovadas, como solução tópica para o mal da corrupção, que é um mal que não lhe aflige, que lhe deu autoridade para fazer o discurso que está fazendo, para dar a entrevista que deu e para receber o respeito do País que tem. Quando Vossa Excelência foi Prefeito de Recife, e eu me lembro fui Prefeito de Natal, ou quando Vossa Excelência foi Governador de Pernambuco, e eu fui do Rio Grande do Norte, Vossa Excelência foi apoiado por um, dois ou três Partidos políticos, que o apoiaram como me apoiaram não em troca de alguma coisa, mas por apoio às suas idéias, ou as minhas idéias. Nós escolhemos quem nós quisemos naqueles Partidos que nos apoiaram. O que acontece hoje? Existe, hoje, uma praga chamada grupo. Existe Partido que tem um, dois ou três grupos. O atual Governo da República fatia por grupos políticos, e não por partidos políticos, a base de sustentação, e recebe as indicações sem fazer o devido filtro. Nomeia quem indicam os grupos que têm compromisso não com as idéias do Governo, mas com seus próprios interesses, e daí surge a corrupção, que é muito mais no Poder Executivo, que é 66
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    A ENTREVISTA ÀVEJA quem nomeia ou demite, do que no próprio Poder Legislativo. O que vai acabar com o grupo? É a reforma política, é o fortalecimento dos partidos políticos, é o compromisso do eleitor com as idéias dos Partidos. E os Partidos que elejam um Presidente da República, que, eleito, aí, sim, com o apoio de dois, três ou quatro Partidos e não de 20 Partidos, possa escolher figuras eméritas, respeitáveis e nomear pessoas corretas não oriundas de grupos, mas de partido político que mereça respeito, porque fez campanhas com idéias. Eu acho que, na essência, é isso que Vossa Excelência defende, que é o que eu defendo, com a autoridade de quem está há quarenta anos na vida pública e não responde, como eu, a nenhum processo. Então, tem autoridade para falar, para se manifestar e para propor ações. A reforma política, Senador Jarbas Vasconcelos, com o fortalecimento dos partidos políticos, é pedra de toque para que comecemos uma guerra, uma guerra santa contra a instalação da corrupção neste País, para acabar com uma praga chamada “grupo político”, que é apelido de partido político que não se dá ao respeito. Quero, portanto, cumprimentando Vossa Excelência, dizer que tenho a honra de me colocar como seu parceiro e como seu amigo. Fui candidato a Presidente desta Casa, fui honrado com o seu apoio e com o seu voto, voto de qualidade e voto de estímulo. Quero dizer a Vossa Excelência que vamos estar juntos muitos anos pela frente, trabalhando pelo nosso País. Cumprimentos a Vossa Excelência. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Se Deus quiser! Para mim, é muito importante o apoio de Vossa Excelência, que é um apoio que tem sido reiterado ao longo da minha presença, desde fevereiro de 2007. Vossa Excelência, atento como é, na dimensão que tem, não deixa passar nada nesta Casa que contrarie os bons costumes, a legislação, o 67
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    A ENTREVISTA ÀVEJA Regimento, e tem-se comportado como um autêntico líder, não apenas do seu Partido, o DEM, mas como um grande líder do Senado. Eu tenho um grande estímulo pela nossa amizade e pela nossa convivência. Ouço o Senador Valter Pereira e, em seguida, o nobre Líder do PT. Senador Aloizio Mercadante. O Senhor Valter Pereira (PMDB – MS) – Senador Jarbas Vasconcelos, Vossa Excelência do respeito e da admiração que sempre devotei à sua conduta. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – E a recíproca é verdadeira, Senador. O Senhor Valter Pereira (PMDB – MS) – Tanto historicamente, no combate à ditadura, como na passagem que teve na administração e no Parlamento do Estado e do País. Mas não poderia ficar calado porque, há poucos dias, subi a essa tribuna e fiz um reparo à entrevista que Vossa Excelência concedeu à revista Veja – e Vossa Excelência não estava presente. Isso me trouxe um desconforto, mas eu não poderia deixar de falar naquele dia, para não perder a oportunidade, já que o assunto estava efervescendo exatamente naquela ocasião. E o reparo que fiz não foi quanto ao núcleo da sua entrevista, porque Vossa Excelência, no núcleo, combateu a corrupção, que é o que faz hoje nessa tribuna. Mas fiz um reparo quanto à condição que Vossa Excelência colocou o nosso Partido, o PMDB. E, ali, realmente senti-me ferido. Senti-me ferido porque o PMDB é um Partido a quem devoto uma fidelidade histórica. Como instituição ninguém, neste parlamento e fora dele, pode negar a trajetória de trabalhos, de serviços prestados ao nosso País. E é exatamente em função disso que, hoje, o PMDB tem mais de 15 milhões de simpatizantes, tem mais de oito mil Vereadores, tem mais de 1.300 Prefeitos, tem sete Governadores. E é um Partido que tem, indiscutivelmente, a maior capilaridade. E, nesse extraordinário universo, nós 68
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    A ENTREVISTA ÀVEJA encontramos Prefeitos da melhor estirpe, Governadores competentes, parlamentares da melhor qualidade. E, no momento em que fui à tribuna, o meu desejo era desagravar o PMDB sem, contudo, reconhecer que o núcleo do combate de Vossa Excelência estava na corrupção. E, aí, nós somos parceiros; no combate à corrupção, sim, nós somos parceiros. Mas, na responsabilização do PMDB, aí eu tenho que divergir de Vossa Excelência, embora Vossa Excelência tenha realçado também, na sua entrevista, que, de repente, não encontrava outro paradeiro, porque via o céu nublado por todos os cantos. Mas o que ficou evidenciado, o que ficou patenteado ali, o que foi explorado pela imprensa foi a crítica que Vossa Excelência fez ao nosso Partido, ao PMDB, e foi aí a minha contrariedade. Hoje, Vossa Excelência se posta como algoz da corrupção, e não do PMDB. E aí eu sou compelido a aplaudi-lo, sou compelido a estender-lhe a mão, porque a corrupção, Senador Jarbas Vasconcelos, é o cupim da República, segundo as palavras do nosso saudoso líder e comandante Ulysses Guimarães. Mas é o cupim que está no PMDB e fora dele. Basta voltar os olhos para alguns dias atrás, quando o Tribunal Superior Eleitoral estava fazendo julgamento de um Governador que não era do PMDB e foi afastado por corrupção. Hoje, certamente está ocorrendo outro julgamento e alguém que também não é do PMDB; e há também Governadores, Prefeitos espalhados por todos os partidos, incluindo o PMDB. Por quê? Porque está espalhada a corrupção no tecido social; está espalhada a corrupção na República brasileira, nos partidos e fora dos partidos. Mas o PMDB jamais pode ser colocado como o responsável pela corrupção ou aquele que está mergulhado nela. É claro, e aqui vai um pergunta: qual é o partido político que não teve algum de seus componentes enredados em problemas de corrupção, em denúncias de corrupção? Talvez tenha um ou dois ou três daqueles que também não têm prefeitos, que 69
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    A ENTREVISTA ÀVEJA não têm governadores, que não têm representantes no Congresso, ou que tem um ou dois, porque ela é proporcional também à representação de cada partido. Portanto, Senador Jarbas Vasconcelos, Vossa Excelência hoje faz um pronunciamento sério, responsável, sereno, como tem pontilhado a ação de Vossa Excelência nesta Casa e, neste particular, nós nos identificamos, nós temos de aplaudir Vossa Excelência. Mas eu gostaria de fazer um parênteses antes de encerrar este aparte. Eu acredito que existe um pecado original em toda essa crise ética que tem em nosso País, e ele está na Assembléia Nacional Constituinte, da qual nós participamos. A convocação da Assembléia Nacional Constituinte foi acometida de um pecado original. Foi uma constituinte congressual, uma constituinte que permitia ao legislador legislar em causa própria. Aí está um defeito, sim; um defeito que, simplesmente, deformou a representação federativa. Hoje nós temos uma hipertrofia do Poder Executivo, uma hipertrofia da União, a atrofiar os Municípios, os Estados e os Poderes. O SENHOR PRESIDENTE (Marconi Perillo PSDB – GO) – Senador Jarbas Vasconcellos, com muito prazer, esta Presidência já concedeu a Vossa Excelência 1 hora e 52 minutos. Fiz isso porque considero relevantíssimo o pronunciamento e todos os apartes. Além do aparte do Senador Valter Pereira, existem ainda quatro Senadores que solicitaram de Vossa Excelência aparte. Vou conceder a Vossa Excelência mais 15 minutos, esperando que esse tempo seja suficiente para que os demais aparteantes possam ser bastante decisivos e concisos em seus pronunciamentos, até porque grande parte desse tempo também foi destinado aos apartes. Concederei a Vossa Excelência, portanto, mais 20 minutos. 70
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    A ENTREVISTA ÀVEJA O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Obrigado. O Senhor Valter Pereira (PMDB – MS) – Vou concluir já. Mas veja o seguinte, Senador Jarbas Vasconcelos. Acho que Vossa Excelência traz à colação uma discussão da mais alta importância, porque temos de rediscutir tudo. Esse desequilíbrio que existe entre os entes federativos precisa ser discutido, porque o prefeito, hoje, que não tiver os recursos da União, se for administrar um Município pequeno, não dá conta. Hoje mesmo, fiz um pronunciamento sobre isso. O Estado que não tiver uma estrutura econômica, uma atividade econômica robusta também não tem condições de sobreviver sem ajuda da União Federal. Portanto, enquanto não se eliminarem essas dependências de Estados e Municípios da União Federal, dificilmente vamos estancar essa hemorragia da corrupção. Meus parabéns a Vossa Excelência. Acho que Vossa Excelência traz, sim, uma discussão. Mas os cumprimentos que faço a Vossa Excelência são com aquela restrição a que me referi: a de que o PMDB não é o paladino da corrupção. O PMDB faz parte de um sistema todo, que precisa ser reformulado. Aqui não existe nenhum partido político que age como seminarista, porque o partido político não é um seminário. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Senador, é evidente que eu não o incluiria em nenhuma lista de malfeitor. Entendi sua ida à tribuna e gostaria só de relembrar, mais uma vez ,que falei em grande parte do PMDB. É evidente que jamais poderia falar no conjunto do PMDB. Senhor Presidente, este meu discurso, este debate sobre corrupção, enriquecido pela presença inclusive de deputados federais, que se deslocaram até aqui, só foi possível pela compreensão, pela responsabilidade e pela dimensão de Vossa Excelência. Uma outra pessoa aí talvez 71
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    A ENTREVISTA ÀVEJA não tivesse tido a sensibilidade que Vossa Excelência teve de prorrogar tantas vezes esta sessão para que pudéssemos chegar a este ponto. De forma que seria injusto da minha parte, Senador Marconi Perillo, eu que conheço o seu passado, o seu presente, que conheço a sua luta, não fazer este registro, de público para ficar incorporado inclusive ao meu discurso. De forma que agradeço muito a Vossa Excelência. Não vou finalizar o discurso, vou ouvir, na ordem, os quatro Senadores que faltam: o Senador Mercadante, a Senadora Lúcia Vânia, o nobre Senador Almeida Lima e, para encerrar o meu discurso, o Senador José Nery. O Senhor Geraldo Mesquita Júnior (PMDB – AC) – Senador Jarbas. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Senador Aloizio Mercadante. O Senhor Geraldo Mesquita Júnior (PMDB – AC) – Senador Jarbas, é só para Vossa Excelência me incluir também. O Senhor Aloizio Mercadante (Bloco/PT – SP) – Senador Jarbas, eu queria dizer que, primeiro, Vossa Excelência tem uma atitude na política, que eu reconheço e valorizo, que é a coragem política de falar o que pensa. Acho que isso é muito importante na democracia e no debate político. E eu tenho tido tanto capacidade de negociar e convergir sobre algumas matérias relevantes com Vossa Excelência, no âmbito da Comissão de Constituição e Justiça, quanto de divergir sobre alguns aspectos que eu acho que também são muito relevantes. Sobre a questão da corrupção, esse é um tema permanente na história política, desde a Grécia Antiga, e um tema muito importante para a oposição na disputa política. E, no Brasil, ele tem uma importância estratégica, porque viemos de uma cultura de um Estado patrimonialista, de uma lógica política fisiológica, 72
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    A ENTREVISTA ÀVEJA de uma elite que se apropria dos recursos públicos e que criou uma sociedade profundamente desigual, marcada pela exclusão social e por todo tipo de injustiça histórica, um dos piores padrões de distribuição de renda que temos na história. Isso mostra que essa história política tem de ser enfrentada, e a questão da reforma política é o tema central para que possamos mudar o padrão do Estado brasileiro. Na reforma política, acho muito importante que participemos de partidos com que tenhamos compromissos históricos. Se o Senador Romero permitir a gente falar... Senador... Que a gente tenha compromisso histórico para construir. Eu, por exemplo, estou há 27 anos no meu partido, porque é um partido que tem eleição direta de todos os dirigentes... O SENHOR PRESIDENTE (Marconi Perillo. PSDB – GO) – A Presidência solicita a atenção da assistência. O Senhor Aloizio Mercadante (Bloco/PT – SP) – ...que tem pluralismo democrático, porque as correntes políticas se organizam com total legitimidade. Os dirigentes que erram e cometeram graves erros são substituídos pela militância política. Então, temos de construir partidos, e a reforma política tem de fortalecer a fidelidade partidária e a democracia partidária, como também deve enfrentar o problema do financiamento de campanha. Se não enfrentarmos essa questão, os corruptos continuarão se movimentando no Estado brasileiro a pretexto da política, mas eles não estão servindo à política. Estão destruindo a representação política e prejudicando a representação política. Mas temos de enfrentar com coragem o tema. E não é fácil. Não foi resolvido, eu diria, de uma forma definitiva nas democracias contemporâneas. É um tema ainda a ser construído, e é o tema central da reforma política: fidelidade e o problema do financiamento público. Mas queria tratar de mais dois temas do pronunciamento de Vossa Excelência. Sobre os fundos de pensão, hoje, conversando com a 73
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    A ENTREVISTA ÀVEJA importante comentarista política Cristiana Lôbo, ela me perguntava sobre fundos de pensão. E fiz uma reflexão que vou transformar em projeto de lei, para apresentar imediatamente, em cima dessa discussão. Os fundos de pensão são os únicos instrumentos que os trabalhadores brasileiros têm para participar da riqueza da sociedade e para melhorar a proteção social para além da previdência social, que é insuficiente. Então, entre os fundos de pensão, há, por exemplo, o fundo de pensão dos trabalhadores do Banco do Brasil, que é um patrimônio de mais de R$ 100 bilhões, talvez seja hoje o capitalista mais importante nacional. É o fundo de pensão da Previ, com o maior patrimônio histórico construído, 140 mil servidores que contribuem para o fundo, e o Banco do Brasil, que contribui agora com uma parcela menor. O que seria o grande avanço nos fundos de pensão? Primeiro, paridade na gestão; segundo, metade da diretoria eleita pelo voto direto; terceiro, só pode ser diretor do fundo de pensão quem é funcionário de carreira; quarto, o mandato é com tempo definido e não pode ser renovado. Se fizermos uma lei com essas características, não vamos resolver o problema da corrupção, mas vamos melhorar muito o padrão de gestão e vamos inibir práticas que precisam ser superadas no Brasil. Apresentarei o projeto e espero contar com a colaboração de Vossa Excelência. Por último: onde está minha divergência fundamental com Vossa Excelência? Está na relação com o Presidente Lula - e acho que a história, acho Vossa Excelência vai ter que repensar politicamente a relação com o Presidente Lula. Não é só porque é um conterrâneo de Vossa Excelência: é porque ele foi vítima desse Estado. Lula construiu toda sua história de vida lutando contra esse Estado. Vítima, porque viveu na pobreza, não teve acesso à escola, não teve acesso às condições que essa elite criou para os seus filhos; porque teve que construir cada passo da 74
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    A ENTREVISTA ÀVEJA vida dele organizando os trabalhadores no sindicato, lutando contra a ditadura, expondo-se em todos os sentidos, para construir uma sociedade diferente. E esse é o sentido maior do seu Governo. Não que não tenha problemas de corrupção no Governo. Tem. Mas tem o compromisso dele de lutar contra. Não que não tenha erros nesse Governo. Tem. Mas tem o sentido histórico que é o que dá 84% de votos ao Presidente. Não é verdade, Senador Jarbas, que o Governo se reduz eleitoralmente ao Bolsa Família. Bolsa Família é um programa que não permite corrupção, é um programa que chega diretamente aos mais pobres, sobre o qual o Ipea diz que distribui mais renda que o salário mínimo hoje, porque vai diretamente, de forma republicana, àqueles que mais precisam. Tem que ter uma porta de saída, e a porta de saída é o emprego, a inclusão social e o crescimento econômico; mas não há como ter uma resposta rápida à pobreza que não seja pelo menos financiar uma bolsa para os filhos poderem estudar. Acho que é reduzir. E a eficácia desse programa está nos indicadores de distribuição de renda, que são os melhores dos últimos cinco anos, de 60 anos da história do IBGE. Emprego, salário mínimo, Bolsa Família são políticas que estão diminuindo a desigualdade neste País, que tem um sentido histórico. Segundo, por ser conterrâneo do seu Estado, o Presidente Lula está deixando - e o eleitor reconhece isso, Vossa Excelência tem vivência, tem uma grande liderança no Estado - o estaleiro em Pernambuco, a refinaria, a Transnordestina, que são projetos estruturantes, que mudam a qualidade histórica do Estado. Por isso, acho que realmente Vossa Excelência, pela história, pela luta e pela tradição, deveria ter uma relação muito mais próxima ao Presidente Lula e, se Vossa Excelência pegar todo o esforço que faz, sei que seu coração está muito mais próximo do que a retórica que Vossa Excelência faz na tribuna. 75
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    A ENTREVISTA ÀVEJA O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Senador, as nossas convergências permanecem bem maiores do que nossas divergências. Respeito muito Vossa Excelência e evidentemente não vou ter tempo agora, porque é abusar da benevolência da Presidência, de contestar as colocações do Programa Bolsa Família. Não que o Brasil não precise de políticas compensatórias. Precisa, porque há desnível, há um desnivelamento na população, seja social, seja econômico, mas não dá para discutir isso agora. E os investimentos em Pernambuco não foram deste Governo. Este Governo foi fundamental para consolidá-los, ajudou a trazê-los, inclusive, mas isso seria tema de uma outra conversa, de um outro debate entre mim e Vossa Excelência. Mas ressalto que as nossas convergências são bem maiores do que as nossas divergências. Senadora Lúcia Vânia, e desculpe-me, porque a senhora há muito tempo pediu o aparte. A Senhora Lúcia Vânia (PSDB – GO) – Senador Jarbas, quero dizer a Vossa Excelência neste momento que, quando li a entrevista e hoje ouvindo o discurso de Vossa Excelência, reacendeu em mim a esperança: a esperança nesta Casa, a esperança neste País. Eu esperava isso de Vossa Excelência. Eu acompanho há muito tempo a sua trajetória política e, quando Vossa Excelência chegou aqui, neste Parlamento, passando por toda uma trajetória que todos nós conhecemos, vimos como era aplicado nas suas funções, vimos a sua presença constante aqui, neste plenário, a sua presença importantíssima na Comissão de Justiça. Vossa Excelência foi Relator das mais polêmicas matérias naquela Comissão e Vossa Excelência, sempre corajoso, colocava o seu ponto de vista, porque, às vezes, havia divergências; mas Vossa Excelência defendia aqueles pontos de vista com muita coerência e com muita convicção. Quero dizer a Vossa Excelência que, quando o senhor coloca 76
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    A ENTREVISTA ÀVEJA aqui que, de repente, o mundo político vive privilegiando a esperteza, em detrimento da inteligência, da competência e do trabalho, Vossa Excelência tem toda a razão. É preciso que pessoas competentes, pessoas inteligentes, dedicadas, que tenham espírito público venham assumir posições como esta que Vossa Excelência assumiu. Portanto, deixo aqui minha solidariedade, deixo aqui minha admiração. Se era tão grande, confesso a Vossa Excelência que, nesses dois anos, eu torcia para que o senhor desse o tom aqui nesta Casa. E deu o tom. Deu o tom do jeitinho que a gente imaginava que poderia ser. Portanto, Vossa Excelência não me decepcionou; pelo contrário, agora minha admiração é dobrada. E pode contar com a minha presença, com o meu voto, com a minha expectativa, com a minha lealdade a todos os projetos que Vossa Excelência coloca como meios para defender este País tão necessitado de alguém que tenha o espírito público de Vossa Excelência. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Muito obrigado, Senadora Lúcia Vânia. Eu que acompanho sua luta na Comissão de Justiça, aqui no plenário, nas comissões, percebo que Vossa Excelência tem sempre se destacado pela desenvoltura, pela competência com que apresenta e defende as suas propostas. Para mim, enriquece muito meu discurso o seu aparte. E me deixa realmente tocado no coração o depoimento que Vossa Excelência dá sobre a minha atuação política. Ouço o nobre Senador Almeida Lima. O Senhor Almeida Lima (PMDB – SE) – Nobre Senador Jarbas Vasconcelos, agradeço a Vossa Excelência pelo aparte, pela possibilidade que me dá de participar também deste debate, embora muitos já disseram parte daquilo que eu gostaria de dizer. E quero, inclusive, fazer minhas as palavras de nosso companheiro de Partido, Senador Valter Pereira. Sem dúvida, ele sintetizou o meu 77
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    A ENTREVISTA ÀVEJA pensamento quanto às declarações de Vossa Excelência em relação ao nosso Partido, o PMDB. A princípio, vi exatamente como uma descortesia, deselegância de Vossa Excelência na generalização, mas, diante das palavras de Vossa Excelência há poucos instantes, no sentido de que não generalizou para todo o Partido... É evidente que aqueles que tiverem defesa a fazer que o façam. Evidente que aqui falo em meu nome pessoal. Fiquei constrangido, contrariado nesse aspecto. Mas sinto, neste instante, que estou contemplado com as observações feitas por Vossa Excelência, no sentido de que a generalização não diz respeito ao PMDB. Até porque na entrevista de Vossa Excelência, ao lhe perguntar se deixaria o PMDB, salvo engano, Vossa Excelência disse que não porque não tinha para onde ir. Aliás, partido nenhum com assento nesta Casa do Congresso Nacional, que já esteve no poder de forma direta ou indireta, pode ou tem autoridade política e moral diante da Nação brasileira para dizer que é diferente do PMDB. Ou seria o PT que iria dizer isso agora, como no passado o disse? Evidentemente que não. Portanto, essa questão partidária quero dar por encerrada. Quero parabenizar Vossa Excelência quanto ao tema, a questão do combate à corrupção. Embora possa aqui dizer, até com a experiência de seis anos nesta Casa, que, por ocasião da apresentação das propostas – e tenho certeza absoluta, nobre Senador Demóstenes Torres –, muitos que se solidarizaram com Vossa Excelência, ao longo de todos esses dias, ao longo da entrevista e na sessão de hoje, vão negar- lhe apoio para a aprovação de todas elas. Mas quero dizer a Vossa Excelência que conta com o meu apoio. Inclusive com uma proposta que apresentei, que preguei no deserto, desta tribuna onde Vossa Excelência está neste instante. É a proposta do orçamento exclusivo da União, uma proposta contra a corrupção e o desperdício e a favor da Federação e 78
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    A ENTREVISTA ÀVEJA do Parlamento, que está aí. A CCJ já foi administrada por diversos partidos e sequer relatada foi. Prevê exatamente aquilo que Vossa Excelência disse, referindo-se ao Orçamento da União como o antro maior da corrupção deste País. Por essa proposta, nega-se o direito ao Senador e ao Deputado de apresentar emendas para Estados e Municípios, pois o objetivo é a transferência, incluindo no FPM, no FPE, aquilo que os Estados e os Municípios têm por direito, inclusive como decorrência das emendas, para que elas não sejam objeto de negociata, dos 10%, dos 20%, que, nós sabemos perfeitamente, é a prática existente neste País. Essa é uma proposta que passarei às mãos de Vossa Excelência assim que deixar a tribuna. Gostaria de não ver esta Casa silenciar. Mas olha, Senador, quero concluir agradecendo Vossa Excelência, parabeninzando-o por esta iniciativa. E espero que o pronunciamento de Vossa Excelência não seja mais um daqueles, a exemplo do meu, pregando, na prática, para o deserto. Pois não podemos compreender que uma proposta se encontra nesta Casa desde 2003, quando aqui cheguei, obrigando a Justiça eleitoral do País a julgar os processos antes da posse daqueles que tiveram a sua eleição impugnada. Isso é corrupção. Tenho uma proposta que está na Comissão de Constituição e Justiça, sem relator, que prevê a pena não apenas privativa de liberdade para o corrupto, mas a pena pecuniária, que é a que mais vai doer no corrupto. Não naquilo que foi objeto da corrupção, mas no seu patrimônio, com aplicação de pena. Ela não foi apreciada, nobre Senador. Portanto são inúmeras,... O SENHOR PRESIDENTE (Marconi Perillo. PSDB – GO) – Senador Jarbas, com prazer, vou prorrogar, por mais dez minutos, o tempo de Vossa Excelência, aguardando que o Senador Almeida Lima possa concluir o aparte e solicitando ao Senador Nery, ao Senador Heráclito Fortes, 79
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    A ENTREVISTA ÀVEJA nosso querido 1º Secretário, e ao Senador Mesquita que possam também ser bastante sucintos. O Senhor Almeida Lima (PMDB – SE) – Agradeço a Vossa Excelência, nobre Senador Jarbas Vasconcelos, pelo aparte. Congratulo-me com Vossa Excelência, mas com aquela ressalva que fiz quanto ao PMDB. Mas estou plenamente contemplado. Aproveito exatamente esse finalzinho para dizer que antes tarde do nunca. Isso é dirigido ao nobre Senado Aloizio Mercadante, do PT de São Paulo, que deveria ter apresentado a proposta a que se referiu no início da gestão do Presidente Lula. Mas antes tarde do que nunca. Terá o meu apoio, com certeza. Muito obrigado a Vossa Excelência. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Obrigado, Senador Almeida Lima. Vamos levar em conta e analisar a proposta de Vossa Excelência. O Senador Geraldo Mesquita havia pedido primeiro, Senador Heráclito Fortes. Senador Mesquita. O Senhor Geraldo Mesquita Júnior (PMDB – AC) – Muito obrigado, Senador Jarbas. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Inclusive, Vossa Excelência tocou no tema de que falei hoje exaustivamente, que é a reforma política. O Senhor Geraldo Mesquita Júnior (PMDB – AC) – É verdade, é verdade. Eu estava aqui esse tempo todo, Senador Jarbas, refletindo. E é uma necessidade imperiosa de refletirmos permanentemente. Fui um dos três Parlamentares do PMDB que, logo após a entrevista de Vossa Excelência, foram à tribuna falar sobre a referida entrevista. E mais, tomei a iniciativa de escrever uma carta a Vossa Excelência – respeitosa, como não poderia deixar de ser –, pedindo encarecidamente que Vossa Excelência esclarecesse os fatos com relação ao seu colega aqui. 80
  • 82.
    A ENTREVISTA ÀVEJA Naquele momento, Senador Jarbas, eu tinha a noção exata de que estaria trafegando numa linha muito delicada, numa linha muito tênue. A minha intervenção e a carta que formulei a Vossa Excelência poderiam ensejar interpretações do tipo, por exemplo: “Isso é um ato de hostilidade contra o Senador Jarbas?” E respondo, Senador Jarbas: Não. Foi um ato de aflição. E uma outra interpretação possível, uma outra ilação que poderia perfeitamente surgir em decorrência da minha fala, da carta que enviei a Vossa Excelência: o Senador Jarbas tocou numa ferida terrível no nosso País, a corrupção; o Senador Geraldo é contra o combate à corrupção? Claro que não, Senador Jarbas. Eu sou parceiro de Vossa Excelência e de todo brasileiro que tem a coragem de lutar contra a corrupção. Eu queria apenas relatar para Vossa Excelência qual foi o sentimento que me tomou. Antes da sua entrevista, eu havia feito uma viagem ao meu Estado, meu querido Acre, especialmente para visitar os prefeitos que nós havíamos acabado de eleger. Eram quatro Prefeitos do PMDB. Confesso a Vossa Excelência, Senador, que eu fiquei tocado com alguns gestos, com algumas atitudes, de pessoas que eu já conhecia há muito tempo, colegas e companheiros de Partido. Mas ali, recebendo uma prefeitura, as quatro prefeituras endividadas, com problemas enormes. O Prefeito de Bujari, por exemplo, o Padeirinho, levou-me onde estavam carros e máquinas depredados, quebrados. Eu senti ali a aflição dele em recuperar todo aquele patrimônio. O Padeirinho, Senador Jarbas, levanta às 5 horas da manhã e vai para a linha de frente de seus auxiliares na limpeza da sua cidade, atuando e agindo pessoalmente em relação ao que ele entende necessário um prefeito fazer. Fui lá para o Juruá e estive com o Prefeito de Cruzeiro do Sul, com o Prefeito de Marechal Taumaturgo, com o Prefeito de Mâncio Lima. Os três também... Para Vossa Excelência ter uma idéia, Senador 81
  • 83.
    A ENTREVISTA ÀVEJA Jarbas Vasconcelos, agora no Carnaval, o Prefeito Vagner Sales, na companhia da sua esposa, que é Deputada Estadual pelo PMDB, e do Secretário de Educação da sua Prefeitura, passaram os quatro dias em um barco, subindo e descendo o rio na sua região para saber a situação das escolas rurais, para verificar o que poderia ser feito. Eu voltei, Senador Jarbas, gratificado pelo que eu vi: companheiros que estão em uma missão árdua de dirigir pequenos Municípios do meu Estado, mas imbuídos do maior espírito público que um administrador pode ter. Veja, eu estou relatando isso para que Vossa Excelência entenda o sentimento que me tomou naquele momento. Eu chego, abro a revista e vejo a entrevista de Vossa Excelência. No conteúdo, Senador Jarbas, eu já falei que Vossa Excelência usou formas de falar sobre uma chaga no nosso País: a corrupção. Estou com o senhor e não abro. Agora, lembrando daqueles prefeitos, lembrando de dezenas, centenas de companheiros lá do meu Estado, do PMDB, do Presidente do PMDB jovem, por exemplo, o Wiliandro, um menino dedicado, sabe, Senador Jarbas, eu me achei na obrigação, como eu não sou dirigente partidário, como eu não sou líder de nada, eu me achei na obrigação de, pela minha pessoa, desagravar todos eles, cobrando de Vossa Excelência justamente uma retificação na expressão que Vossa Excelência usou. Eu considerei, Senador Jarbas, que Vossa Excelência se valeu de uma generalização que eu achei exagerada. E me senti ali, sabe, com o coração apertado. Eu tenho um patrimônio material muito pequeno, Senador Jarbas. Mas o patrimoniozinho que eu mais burilo – todo o dia eu passo um paninho nele, porque é a coisa que eu tenho mais sagrado para deixar para minha família, para os meus filhos – é a minha honra, não é? Eu imaginei o que deve ter passado na cabeça dos milhares de companheiros do PMDB que prestam um grande serviço a este País, com 82
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    A ENTREVISTA ÀVEJA mandato ou não. E eu me senti na obrigação de ir para a tribuna interpelá-lo, como disse, além da carta que enviei. Eu estava tão determinado nessa linha de raciocínio, Senador Jarbas, que hoje eu cheguei a ventilar a possibilidade, tendo em vista que Vossa Excelência não me respondia a carta, eu cheguei a mencionar, a ventilar a possibilidade de interpelá-lo judicialmente, seja lá como fosse. Eu queria uma resposta... Hoje, assisti a Vossa Excelência dizer, mais uma vez, que não acrescenta nem retira uma vírgula do que disse. Mas o seu pronunciamento hoje foi de uma grandeza que faz tempo que a gente não vê nesta Casa. Senador Simon é que disse que Vossa Excelência é uma pessoa difícil. Mas, Vossa Excelência, hoje, abriu as portas, escancarou as portas para uma grande parceria neste País a partir da nossa Casa aqui, não é? Senador, eu posso persistir no equívoco, se eu não tiver uma segunda compreensão dos fatos. Hoje, eu tenho uma segunda compreensão dos fatos. Hoje, eu tenho uma segunda compreensão. E insistir neste equívoco para mim seria desastroso, seria até uma burrice. Eu estou lhe dizendo aqui de público, com toda a humildade, que realmente cheguei a querer, assim, ansiosamente, uma fala de Vossa Excelência com relação à minha pessoa. Mas, olhe, o seu discurso foi claro. Eu não necessito mais dessa resposta. Peço até que Vossa Excelência me devolva a carta. Declaro aqui de público o meu propósito de esquecer a intenção de interpelá-lo judicialmente porque, diante da grandeza, diante da compreensão do que Vossa Excelência coloca para esta Casa, eu acho e repito com toda a honestidade: Vossa Excelência, no conteúdo, acertou. Mas, naquele momento, eu compreendi que, na forma, Vossa Excelência talvez tenha exorbitado aqui e acolá. Eu peço a Vossa Excelência que me devolva a minha carta. Eu estou contemplado e digo aqui de público que não persistirei no 83
  • 85.
    A ENTREVISTA ÀVEJA propósito de interpelar esse grande companheiro que é o nosso colega de Partido Senador Jarbas Vasconcelos. Obrigado pela possibilidade do aparte. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Senador Geraldo Mesquita, Vossa Excelência foi um dos primeiros Senadores com quem eu tive contato quando aqui cheguei. É evidente que jamais faria um julgamento, um pensamento, uma análise de Vossa Excelência, incluindo-o numa lista de pessoas sob suspeita, sob prática de corrupção. Não tive pressa de procurá-lo, de telefonar-lhe, porque achei despropositada a sua iniciativa. Brevemente eu o procuraria para lhe dar uma satisfação, até porque fiquei com a consciência de que falei em grande parte do PMDB e nessa outra parte eu não poderia incluí-lo. De forma que farei isso. Devolverei a carta que recebi e que está em cima do meu bureau, e manterei com Vossa Excelência o mesmo relacionamento respeitoso e de amizade que tenho desde que aqui cheguei. Ouço o Senador Heráclito Fortes. O Senhor Heráclito Fortes (DEM – PI) – Senador Jarbas Vasconcelos, não sabe Vossa Excelência a minha aflição de não poder estar presente no pronunciamento de Vossa Excelência como um todo – eu tinha compromisso na 1ª Secretaria e tive que honrá-los. Mas acompanhei não só a fala de Vossa Excelência, como também a maioria dos apartes. E quero dizer que este depoimento que dou aqui poderá não servir no elenco de aparteadores brilhantes que fizeram uso da palavra nesta tarde, mas, pelo menos, me deixa com a consciência livre de que cumpri um dever: o dever de dar um depoimento sobre um Parlamentar que conheci e que é da minha geração política, embora com pequenas variações de idade que não vêm ao caso. Tivemos um início de carreira na qual tive o privilégio de o acompanhar, eu, como estudante em Pernambuco, e Vossa 84
  • 86.
    A ENTREVISTA ÀVEJA Excelência, em 1970, na primeira eleição de Deputado Estadual. A admiração por Vossa Excelência, ao longo desta vida, ela tem sido crescente, pelo comportamento como Prefeito de Recife duas vezes, como Governador. Aliás, Vossa Excelência, Prefeito de Recife, eu, neófito na atividade em Teresinha, recebi orientações de Vossa Excelência fundamentais. Eu, inclusive, o acompanhei como Presidente do Partido, do PMDB, na campanha de Ulysses Guimarães quando, quase que solitariamente, nós percorremos o Brasil inteiro, de ponta a ponta, defendendo, com muita convicção, a candidatura daquele extraordinário brasileiro. E a convivência aqui neste plenário, para mim, é privilegiada porque somos vizinhos e eu vejo o dia-a-dia do comportamento de Vossa Excelência. A sua angústia com o estado de coisas neste País não é de agora. Uma frase repetida na entrevista “não sei o que eu vim fazer aqui”, eu ouvi de Vossa Excelência muitas vezes, angustiado com a paralisia do Parlamento e, acima de tudo, com a queda da imagem e da qualidade dos trabalhos desta Casa. De forma que, para alguns, o pronunciamento de Vossa Excelência pode ter sido uma novidade, pode ter sido uma surpresa, mas para quem conhece o seu caráter e o seu temperamento, foi uma consequência de tudo isso. Espero que, diferentemente dos desvios impostos por alguns, ele tenha, Senador Marco Maciel, um caráter pedagógico. Espero que não o Partido de Vossa Excelência mas os Partidos brasileiros tenham tirado do seu desabafo, da sua entrevista, uma lição e que nós possamos corrigir essa rota ladeira abaixo que a atividade pública no Brasil vem tomando há alguns anos. Senador Jarbas Vasconcelos, estamos aqui há dois anos, de maneira impotente, tentando melhorar a qualidade, por exemplo, de uma atividade que é fundamental para o País que são as ONGs, as Oscips e derivados. E a base do Governo, poderosa, coloca qualquer 85
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    A ENTREVISTA ÀVEJA tentativa de apuração dos fatos para debaixo do tapete sem querer apurar fatos gravíssimos que desviam recursos da Nação, prejudicando um setor que merece de todos nós o apoio, o estímulo e o incentivo. Os fundos de pensão são vetores de corrupção neste País há muito tempo, e não um fato localizado. Não é o Real Grandeza. É preciso que seja passada a limpo essa questão, mas o ideal seria que o Executivo, ao tomar conhecimento desses fatos, tomasse providências e não estimulasse, por meio de escolhas muitas vezes inadequadas, pessoas para geri-los. Senador Marco Maciel, Vossa Excelência sabe que, se tivéssemos tido a coragem de aprovar o orçamento impositivo, teríamos tirado desta Casa metade dos lobistas que campeiam e são conhecidos de todos nós, porque esse orçamento, da maneira que está, nada mais é do que um incentivo e um estímulo ao balcão de negócios. Louvo a iniciativa do Senador Almeida Lima e de todos aqueles que querem fazer com que esse orçamento seja impositivo, a favor da Nação, do Estado, do Município, porque o que nós estamos vendo, Senhor Senador Jarbas Vasconcelos, são os Municípios empobrecendo pela centralização do poder, as obras comandadas pelas grandes empreiteiras, que não se interessam no benefício específico dos pequenos Municípios brasileiros, porque o deslocamento de máquina e de pessoal é nocivo aos seus interesses e ao ganho fácil. Acho que o pronunciamento de Vossa Excelência pode ter sido um alerta positivo a este País. Meu caro Senador Pedro Simon, na semana passada, o Conselho Nacional de Justiça instalou-se no meu Estado, o Piauí, e foi uma lavagem de roupa das mais inesperadas possível. E não quero entrar no valor das denúncias, quem tem razão ou quem não tem, mas membros do Judiciário piauiense sendo denunciados, advogados sendo denunciados. A figura do precatório, como está colocada, as tutelas antecipadas são focos de corrupção 86
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    A ENTREVISTA ÀVEJA neste País, Senador Simon, que precisam urgentemente de uma revisão. Portanto, eu espero pela força que Vossa Excelência tem de catalizar a opinião pública – e já o fez. Essa matéria, a entrevista de Vossa Excelência, tem quinze ou vinte dias, tem tido uma repercussão crescente e é bom que não arrefeça. É preciso que alerte e acorde os homens que têm realmente vocação para o serviço público neste país. Seria bom que nessa hora, finalizando, Senhor Presidente, o Executivo se mirasse, pelo menos nesse caso recente, na ação promovida pelo Senado, de afastamento de um diretor, no momento em que pairam dúvidas sobre uma atitude dele, embora que em sua vida pessoal, e o Executivo veja que não é bom ficar estimulando e protegendo os aloprados, os aloprados que se sentem imunes e cada dia avançam na técnica de invadir os cofres públicos brasileiros. Parabéns a Vossa Excelência. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Muito obrigado. O Senhor Mão Santa (PMDB – PI) – Senador Jarbas, para encerrar, o último aqui. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Senador, o Senador José Nery era quem iria.. (Pausa.). Pois não, Senador Mão Santa. O Senhor Mão Santa (PMDB – PI) – Senador Jarbas Vasconcelos, por isso que Rui Barbosa está ali. Eu li, como todo o Brasil, a reportagem. Rui Barbosa está ali porque disse sinteticamente isso que está ocorrendo. Vamos fazer nossas as palavras de Rui: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, e ter vergonha de ser honesto”. E terminaria com o nosso partido, mostrando a grandeza daquele que foi companheiro e que nos liderou e está 87
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    A ENTREVISTA ÀVEJA encantado no fundo do mar, que disse: ”A corrupção é o cupim que corrói a democracia”. Então, Vossa Excelência reviveu, a seu modo, com seu linguajar próprio de nordestino, sofrido, o que pensou Rui e o que nos guiou o nosso Ulysses Guimarães. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Muito obrigado, Senador Mão Santa pela participação neste meu discurso. Com muita honra, ouço, para encerrar, o Senador José Nery. O Senhor José Nery (PSOL – PA) – Senador Jarbas Vasconcelos, em primeiro lugar, quero expressar meu apoio às contundentes declarações e ao pronunciamento tão vigoroso que Vossa Excelência faz no dia de hoje, marcando, na verdade, o início dos trabalhos legislativos. Porque, por mais que esta Casa tenha retornado àquilo que seria sua atividade normal há um mês e dois dias, não fizemos até aqui nada de relevante que mereça registro como merece o forte posicionamento de Vossa Excelência, em que traça uma radiografia da situação política do País, da insanidade, ou melhor, do câncer que se instaurou há muito tempo nas instituições públicas, com o conluio das instituições e empresas privadas, que é o câncer da corrupção. Três dias após a entrevista que Vossa Excelência concedeu à revista Veja, a Bancada do nosso Partido, o PSOL, composta por mim e três Deputados federais, se dirigiu a Vossa Excelência para, primeiramente, manifestar solidariedade por trazer à luz do dia um tema que necessita de tratamento vigoroso, permanente, vigilante de todos, da sociedade brasileira, mas, especialmente, do Congresso Nacional; e em segundo lugar, para manifestar a Vossa Excelência certo desconforto, porque Vossa Excelência, na firmeza dos seus posicionamentos, classificou todos os Partidos como sendo de alguma forma parte desse jogo sujo que emporcalha, que 88
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    A ENTREVISTA ÀVEJA envergonha a política, por conta do envolvimento com corrupção. Dissemos a Vossa Excelência, num diálogo muito franco, aberto e fraterno, que nós somos um Partido muito pequenininho, estamos renascendo e reconstruindo o sonho da luta socialista, de um Partido comprometido com a ética, com a verdade, com a seriedade no trato da coisa pública, com a construção de uma verdadeira alternativa que signifique um novo modelo de desenvolvimento para o País que privilegie os pequenos trabalhadores e o povo, ao contrário dos projetos que só tratam de criar cada vez mais um fosso entre os que têm tudo, que é uma minoria, e a grande maioria que vive às custas do trabalho no subemprego, na miséria, vítimas da violência na cidade e no campo. Nós colocamos o desafio de recomeçar, acreditando que, na política, tudo pode ser diferente. Obtivemos de Vossa Excelência, naquele diálogo, o importante compromisso conjunto de trabalharmos pela organização de um movimento, de uma frente parlamentar que envolvesse setores da sociedade civil brasileira, para fortalecer a luta e o combate contra a corrupção neste País, movimento e iniciativa que contam com o nosso apoio e incentivo. Mas é fundamental realizar, conforme Vossa Excelência tão bem se expressou, a reforma política como a mãe de todas as reformas, dita e reconhecida por todo este Plenário, pela Câmara dos Deputados e pelo Executivo, mas que não tem coragem de realizá-la efetivamente, porque, se feita da forma como precisamos, ela vai ferir interesses – e muitos daqueles usufruem as benesses do Poder Público e da corrupção, se atendidas as exigências de uma legislação que vá à raiz do problema, evitando com que a corrupção eleitoral, aquela da compra do voto, do financiamento privado de campanha, em que os eleitos, muita vez, pagam os favores ou apoio com o dinheiro público nas licitações fraudulentas, na corrupção desenfreada. Então, é necessário, de tudo o que o senhor 89
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    A ENTREVISTA ÀVEJA aqui expressou nesta tarde e neste início de noite, apontarmos claramente quais são os temas da reforma política; definir uma agenda clara de alguns pontos imprescindíveis sobre os quais não podemos tergiversar, no sentido de trabalharmos para aprovar, em 2009, o financiamento público de campanha; impedir o registro de candidatura dos que têm ficha suja; trabalhar pelo fim do sigilo fiscal de todos os mandatários do País, do Vereador ao Presidente da República; trabalhar pelo fim do foro privilegiado para autoridades, e outros temas. Creio que temos de fazer em uma ordem de prioridade porque, se nós formos abordar todos os aspectos da reforma política que queremos, talvez não consigamos votar matéria nenhuma este ano. Portanto, definir prioridades, engajar a sociedade brasileira, os partidos e os seus Parlamentares aqui, no Congresso Nacional, nessa agenda comum contra a corrupção, identificando quais situações e fatos merecem a apuração através de Comissão Parlamentar de Inquérito; quais os fatos que devemos levar ao conhecimento do Ministério Público Federal para a devida apuração, ao Tribunal de Contas da União, sob pena de esse clamor da sociedade, expresso e detonado pela entrevista, pelo pronunciamento de Vossa Excelência, que aqui teve o acompanhamento, a solidariedade, o questionamento, o apoio da maioria deste Plenário, para que essa iniciativa, que considero brilhante e relevante, produza efeitos práticos e concretos. De modo que daqui a um ano nós possamos celebrar, junto com o povo brasileiro, que ainda acredita que a política pode ser tratada de forma correta e justa, algumas vitórias, com a participação de cada um dos representantes, os Parlamentares de cada partido, no Congresso e no Senado Federal, a fim de que possamos iniciar esse movimento e nos comprometermos de fato para votar as medidas. E que fique bem claro para todos os brasileiros e 90
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    A ENTREVISTA ÀVEJA brasileiras quem, de fato, está comprometido a combater a corrupção em toda a sua extensão e profundidade e quem faz aqui discurso da boca para fora. Porque, infelizmente, Vossa Excelência sabe... O SENHOR PRESIDENTE (Marconi Perillo. PSDB – GO) – Senador José Nery, por favor... O Senhor José Nery (PSOL – PA) – Só um minuto, Senhor Presidente, eu vou concluir em um minuto, em respeito ao tempo, dizendo a Vossa Excelência, claramente, que normalmente o pessoal que é pequenininho às vezes fala por último. Mas eu creio que, sob esse aspecto, para mim é até uma homenagem ter de ficar aqui para ouvir o Senador Jarbas Vasconcelos e todos que o apartearam, sob a Presidência de Vossa Excelência. Para mim é um motivo de satisfação, e mesmo que, ao final, não tenha o tempo concedido à maioria dos meus colegas, compreenderei. Sei que o fundamental aqui é fazer com que este tema não seja esquecido, que daqui a uma semana, daqui a um mês, estejamos tratando destes aspectos, das medidas legislativas, dos processos que devem ser abertos para investigar todos os envolvidos em corrupção neste País. Que o País possa voltar a orgulhar-se de seus representantes. Hoje, infelizmente, a maioria da população não tem o respeito que deveria ter pelos políticos. Muitas vezes, nós não nos fazemos respeitar porque alguns acabam se envolvendo em práticas criminosas. Às vezes o mandato serve, inclusive, para promover, manter e garantir a impunidade. Parabéns a Vossa Excelência. O Brasil orgulha- se deste momento. Nós aqui, como seus companheiros, vamos enfrentar esse tema para que, enfim, daqui a algum tempo, comemoremos algumas vitórias. Parabéns a Vossa Excelência e a todos que participaram desta brilhante discussão. 91
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    A ENTREVISTA ÀVEJA O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Muito obrigado, Senador José Nery. Foi muito importante o seu depoimento, o depoimento do seu Partido... O SENHOR PRESIDENTE (Marconi Perillo. PSDB – GO) – Senador Jarbas, antes de Vossa Excelência concluir, eu queria também falar. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – ...combatendo a corrupção, cunhando uma frase que para mim é fundamental: a gente tem que definir prioridades. Assim como o Executivo – eu fui Prefeito e Governador, era fundamental que fossem definidas as prioridades –, o Congresso e o Senado também têm que definir as prioridades. E essa prioridade hoje, a primordial, fundamental, é a reforma política. Sem ela a gente não vai a lugar nenhum. A luta contra a corrupção não pode ser só minha, de um grupo de pessoas, não pode ser de uma entidade; ela tem de ser do conjunto da sociedade. Quanto maior for a pressão, mais a gente terá condições de combater a impunidade, e, combatendo a impunidade, podemos, se não vencer, enquadrar num espaço menor a corrupção no País. Presidente, obrigado pela sua grandeza, pois sem a sua benevolência e tolerância, não só comigo, mas com meu discurso foi possível o debate com toda a Casa. Vossa Excelência permitiu, prorrogou várias vezes, não ficou agarrado ao Regimento, não ficou olhando o relógio, nem ficou maltratando os tímpanos tocando a campainha a todo instante. Foi fundamental a presença de Vossa Excelência, com a sua sensibilidade, para que este debate fosse promovido e a gente pudesse fazer alguma coisa. E isso não é de uma pessoa só, mas de um conjunto de pessoas e de entidades na luta contra a corrupção no Brasil. Ouço Vossa Excelência e Vossa Excelência encerra o meu discurso. 92
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    A ENTREVISTA ÀVEJA O SENHOR PRESIDENTE (Marconi Perillo. PSDB – GO) – Senador Jarbas Vasconcelos, eu tive a sorte de presidir esta sessão histórica, este discurso histórico de Vossa Excelência. Já são 2 horas e 50 minutos de pronunciamento e apartes. Fiz isso de forma propositada, porque dei meus primeiros passos na vida pública inspirado por homens públicos da estirpe de Vossa Excelência, de Ulysses Guimarães, de Mário Covas, de José Serra e de tantos outros grandes brasileiros, como Teotônio Vilela, que sempre lutaram para honrar e dignificar a atividade pública, a atividade política; que lutaram pela democracia, pela redemocratização do País e, principalmente, por princípios morais e éticos. Tive a sorte de ser alçado à Presidência Nacional da Juventude do PMDB quando Vossa Excelência estava no exercício da Presidência do PMDB, na ausência do Presidente Ulysses Guimarães. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Que era candidato à Presidência da República. O SENHOR PRESIDENTE (Marconi Perillo. PSDB – GO) – Eu acompanho essa luta há muitos anos. Percorri também o Brasil ao lado dele. De modo que eu gostaria de dizer que toda essa temática trazida aqui hoje pelo pronunciamento, de grande conteúdo, de Vossa Excelência tem também o apoio deste Vice-Presidente, agora no exercício da Presidência: Lutar pela reforma política, como Vossa Excelência bem disse, que é a mãe de todas as reformas. Eu também penso assim. Lutar pela reforma do modelo de elaboração dos Orçamentos da União, dos Estados e dos Municípios. Lutar contra a impunidade, porque a certeza da impunidade é que faz com que todas esses atos e práticas políticas prevaleçam no Brasil. Esses temas todos têm o apoio deste 1º Vice-Presidente do Senado, agora no exercício da Presidência. Foi por essa razão e por muitas outras, tendo sido seu colega como Governador por 93
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    A ENTREVISTA ÀVEJA oito anos, tendo tido a oportunidade de condecorá-lo com a mais alta comenda do meu Estado, tendo acompanhado a sua vida pública, a sua trajetória, republicana, limpa e isenta, que fiz questão absoluta de ouvir e de prestigiar este pronunciamento de quase três horas. Parabéns a Vossa Excelência. Vamos ouvir, daqui a pouco, a palavra do Líder do Governo, que vai fazer a resposta. Também vou ler o comunicado de Vossa Excelência. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Muito obrigado. O SENHOR PRESIDENTE (Marconi Perillo. PSDB – GO) – Senador Jarbas Vasconcelos, parabéns! Foi uma honra ter presidido esta cerimônia. O SENHOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB – PE) – Muito obrigado, Senhor Presidente, Marconi Perillo. Com sua ajuda foi possível esse debate. 94
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “JARBAS CONTA TUDO” “Veja” – Carta ao Leitor (14 Fevereiro de 2009) É enorme o peso que tem em um processo judicial o depoimento de uma testemunha ocular. Esse tipo de relato, quando dado de boa-fé e sem inconsistências, é decisivo na formação do veredicto. Na política, os testemunhos de personagens com intimidade com os fatos que revelam são igualmente poderosos. O processo que culminou com o impeachment do presidente da República Fernando Collor, em 1992, começou com um desses depoimentos, a espantosa entrevista que seu irmão concedeu a VEJA em maio daquele ano e que foi estampada na capa com a chamada "Pedro Collor conta tudo". A Carta ao Leitor daquela edição tinha o título "Depoimento que não se pode ignorar". Não foi. Dezenove semanas depois das revelações do irmão a VEJA, Collor deixava a Presidência. As Páginas Amarelas desta semana trazem um conjunto de revelações feitas pelo senador Jarbas Vasconcelos ao repórter Otávio Cabral, 37 anos, quatro dos quais na sucursal de Brasília. Elas constituem um depoimento que também não se pode ignorar. Com 43 anos de política dedicados primeiro ao antigo MDB e depois ao PMDB, duas vezes governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos relata com a eloquência das testemunhas oculares que seu partido, hoje detentor das presidências do Senado e da Câmara, é uma agremiação que se move apenas por "manipulação de licitações, contratações dirigidas e corrupção em geral". A entrevista de Jarbas Vasconcelos a VEJA não deixa muitas opções a seus colegas de partido e, por 97
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    A ENTREVISTA ÀVEJA consequência, ao Congresso: processam o senador por falta de decoro parlamentar, imolam-se em praça pública ou vestem a carapuça e começam a mudar seu comportamento. O Brasil precisa acompanhar muito de perto o desenrolar do depoimento do senador a VEJA. Ele tem tudo para ser o motor de um profundo e histórico processo de limpeza da vida pública brasileira. 98
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “GRANDE JARBAS!” Lucia Hippolito (14 de Fevereiro de 2009) Aqueles que acompanham este blog sabem que não tenho por hábito reproduzir textos alheios. E por uma razão muito simples. Este é um blog de opinião, não é um site de notícias. Mas não posso desconhecer um dos pronunciamentos mais importantes dos últimos tempos: a entrevista do senador Jarbas Vasconcelos (PDMB-PE) à revista Veja. Jarbas é homem sério, ético. Sua trajetória política o credencia como um dos mais relevantes políticos brasileiros. Jarbas é o que permanece do MDB do dr. Ulysses (OK, abro espaço para o senador Pedro Simon e para o prefeito José Fogaça). Lucia Hippolito é cientista política, historiadora e jornalista. 100
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “É PRECISO TER COERÊNCIA” Jorge Bastos Moreno (16 de Fevereiro de 2009) Jarbas Vasconcelos é herdeiro político de Ulysses Guimarães. Expulsá-lo significa tirar a foto de Ulysses que ornamenta o gabinete da presidência do PMDB. Aliás, aquele quadro com a foto de Ulysses me faz lembrar o primeiro encontro que tive com ele. Disse-Me ele sobre os traidores da legenda que votavam a favor da ditadura: - O programa do partido não deve ser feito santo de bordel. Tímido, estudante ainda do primeiro ano do curso de Comunicação da Universidade de Brasília, eu estava ali diante do maior líder da oposição à ditadura. - Doutor Ulysses, desculpe-me, mas não entendi. E ele: O amigo, quando jovem – aliás, você é ainda um jovem, nunca foi na “Zona”? E eu, mais tímido ainda, e de cabeça baixa, sussurrei: - Já. - O amigo nunca reparou que no quarto de toda a prostituta existe um santo na cabeceira da cama? Fiquei estupefato: o sisudo, austero e formal presidente do PMDB estava ali falando de saliência comigo! Ulysses nunca foi homem de dar intimidade para ninguém. Este foi com certeza a única conversa mais saliente que tivemos. Mas até nisso ele não era vulgar. Na verdade, estava me decifrando, como um professor, o significado de uma frase. 102
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    A ENTREVISTA ÀVEJA - Pois é, meu caro, elas fazem de tudo com o cliente ali na frente do santo. Quando o cliente sai, ela vai e acende uma vela para o santo. E, como se estivesse em palanque, gritou batendo na mesa: - O PMDB não pode ser um santo de bordel! Desde esse dia, mesmo iniciando na cobertura política, decidi que, se um dia fosse escrever um livro sobre a minha experiência profissional, daria um título “Santo de Bordel”! Ulysses Guimarães, hoje, com a foto estampada na sede do PMDB, parece um santo de bordel. Jorge Bastos Moreno é jornalista. 103
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “JARBAS FAZ SEU LANCE” 104
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “JARBAS FAZ SEU LANCE” Ricardo Noblat (16 de Fevereiro de 2009) “Você sabe o que vai acontecer, Jarbas?” — perguntou no último sábado, por telefone, o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) ao seu colega Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), personagem da mais devastadora entrevista dada por um político nos últimos dez anos. “Não sei”, respondeu Jarbas. “Eu lhe digo: não vai acontecer nada”, concluiu Demóstenes. O mínimo que Jarbas disse foi que o PMDB é corrupto. Caciques do partido trocaram telefonemas no fim de semana avaliando a conveniência de rebater a entrevista publicada pela “Veja”. Descartaram de pronto a ideia de abrir um processo para expulsar Jarbas do PMDB. Ele sairia como herói aos olhos do distinto público, que tem os políticos na mais baixa conta. Mas a quem caberia responder a Jarbas? A Michel Temer, presidente do partido e da Câmara dos Deputados? Jarbas não o mencionou. Concentrou suas críticas no PMDB do Senado. José Sarney (AP), um dos seus alvos, está arrasado. Talvez escale a filha Roseana para responder a Jarbas. A resposta oficial do PMDB deve se limitar a uma sugestão para que Jarbas pegue seu mandato e vá embora. Fundador do antigo MDB, duas vezes prefeito de Recife e duas governador de Pernambuco, Jarbas disse à “Veja” o que um político jamais teve coragem de dizer sobre seu próprio partido. “Hoje, o PMDB é um partido sem bandeiras, 105
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    A ENTREVISTA ÀVEJA sem propostas, sem um norte. É uma confederação de líderes regionais (...), sendo que mais de 90% deles praticam o clientelismo, de olho principalmente nos cargos”, espicaçou. E por que o PMDB quer cargos? — perguntou-lhe o repórter Otávio Cabral. “Para fazer negócios, ganhar comissões. Alguns ainda buscam o prestígio político. Mas a maioria dos peemedebistas se especializou nessas coisas pelas quais os governos são denunciados: manipulação de licitações, contratações dirigidas, corrupção em geral. A corrupção está impregnada em todos os partidos. Boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção”. A eleição de Sarney para presidente do Senado foi definida por Jarbas como “um completo retrocesso”, fruto de uma ação constrangedora. O que esperar depois disso? “Sarney vai transformar o Senado em um grande Maranhão”, aposta Jarbas. Que bateu também no Senado e em outras figuras carimbadas do PMDB, como o senador Renan Calheiros (AL), futuro líder do partido. Sobre o Senado: “Às vezes eu me pergunto o que vim fazer aqui. O nível dos debates é inversamente proporcional à preocupação com benesses. É frustrante”. Sobre Renan: “Ele não tem nenhuma condição moral ou política para ser senador, quanto mais para liderar qualquer partido. É o maior beneficiário desse quadro político de mediocridade em que os escândalos não incomodam mais e acabam se incorporando à paisagem”. É claro que sobrou também para o governo e Lula. “Um governo que deixou a ética de lado, que não fez as reformas nem fez nada pela infraestrutura, agora tem como bandeira o PAC, que é um amontoado de projetos velhos reunidos em um pacote eleitoreiro”, atirou. Quanto a Lula, “ele fez a 106
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    A ENTREVISTA ÀVEJA opção clara pelo assistencialismo. O Bolsa-Família é o maior programa oficial de compra de votos do mundo.” A entrevista de Jarbas deve ser analisada à luz da situação que ele vive no Senado e da eleição presidencial de 2010. Jarbas está isolado dentro da bancada de 20 senadores do PMDB. Ninguém o escuta. Nem mesmo Pedro Simon (RS), que outrora foi capaz de reagir indignado diante de imoralidades. Simon jogou a toalha. Acomodou-se. É apenas uma fotografia na parede. Enquanto de cima do muro a maioria dos senadores do PMDB observa a evolução dos aspirantes à vaga de Lula, Jarbas apóia desde já um deles — José Serra (PSDB). O que ele disse à “Veja” repete há mais de um ano dentro e fora do Congresso. Foi um desabafo. Mas houve cálculo político por trás dele. Serra gostaria de ter Jarbas como seu vice. Se Jarbas puder sair do PMDB sem perder o mandato... Olha aí: formou. Ricardo Noblat é jornalista. 107
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “VERDADE INCONVENIENTE” Dora Kramer (17 de Fevereiro de 2009) A entrevista do senador Jarbas Vasconcelos à revista Veja é um registro de esgotamento. Daqueles momentos em que o ser humano perde a paciência, por algum motivo resolve pagar para ver sem medir de imediato as consequências, diz verdades da mais alta inconveniência e cria situações que podem levar a rupturas benéficas ou ao reforço de pactos maléficos. A intenção inicial nem sempre combina com o resultado final. Tudo depende de adesão da sociedade e das instituições. Na história recente da política há dois momentos assemelhados. Em 1992, Pedro Collor não queria derrubar o irmão Fernando da Presidência da República quando na mesma revista Veja deu entrevista materializando os boatos que corriam em Brasília havia dois anos e contou quase tudo sobre o esquema de corrupção comandado por Paulo César Farias, o tesoureiro do presidente. Em 2005, o então deputado Roberto Jefferson não pretendia muito mais que manchar o manto de vestal do PT por causa de problemas de partilha e nem de longe pensava em pôr seu mandato a prêmio quando deu uma entrevista à Folha de S.Paulo assumindo o que já fora duas vezes denunciado e desmentido: que a direção o PT comandava um sistema de financiamento público dos partidos em troca de apoio no Congresso. Nos dois casos, a primeira reação dos acusados, seus aliados e o entorno de inocentes (in) úteis que preferem as versões oficiais aos próprios olhos e ouvidos foi a de exigir "provas" contundentes. Corrupção por escrito, com certidão 109
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    A ENTREVISTA ÀVEJA passada em cartório do céu. Não fosse a ação firme de alguns setores, pessoas e instituições, as denúncias teriam sido atribuídas a intenções escusas dos denunciantes e nada do que se soube a respeito de ambos os episódios teria sido do conhecimento público. A entrevista de Jarbas à revista Veja estende aos políticos de bem uma tábua de salvação. Agora, diante do desabafo do senador Jarbas Vasconcelos, reproduzindo em gravador fatos notórios e sobejamente sabidos, esboça-se uma reação parecida. Provas, nomes, documentos, clamam o que Nelson Rodrigues chamava de idiotas da objetividade. Isso, falando dos só equivocados, porque a eles se juntam de carona os mal-intencionados falando em "generalizações" cujas particularidades conhecem em detalhes. Depois do silêncio de 24 horas, a direção do PMDB se reuniu e decidiu oficialmente tentar "esvaziar" as declarações do senador. Dar a elas um caráter pessoal, deixar que se lancem sobre ele algumas desconfianças, quando nada de que fala por ser ranzinza, uma voz isolada no partido, talvez por isso em busca de alguma notoriedade, um homem a quem não se deve dar atenção, um político na contramão da história tal como é contada nesses dias de supremacia da fama e da popularidade sobre o mérito e o respeito. O senador Jarbas Vasconcelos nada acrescentou, a não ser sua assinatura, a tudo o que todos os dias é repetido para o conhecimento do público. A eleição de José Sarney para a presidência do Senado foi tachada de retrocesso na imprensa nacional e internacional. O fisiologismo do partido é assumido. Foi o próprio presidente do PMDB quem disse que na próxima eleição ele ficará parte com o governo, parte com a oposição. O PMDB é tratado permanentemente com desqualificação e não se opõe a isso. Simplesmente parou 110
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    A ENTREVISTA ÀVEJA de argumentar contra os fatos. No máximo, quando eles ameaçam suas posições na administração federal, luta pelas posições, nunca para corrigir os fatos. Acabou de acontecer, em proporções reduzidas, o mesmo com o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, que apontou a gestão corrupta e ineficaz de seu partido na Fundação Nacional de Saúde. Foi tratado como um desgarrado, indisciplinado, boquirroto e intolerante, quando foi apenas covarde por ter aceitado dar o dito pelo não dito. Jarbas Vasconcelos apenas ampliou e detalhou o quadro. Baseado na experiência e confiante na aceitação do conceito de que a amoralidade passou de exceção a regra geral, o PMDB deu de ombros. Ouve que há corrupção no partido, nem sequer estranha e não procura saber o que se passa: condena liminarmente o denunciante e dá o caso por encerrado. Bem, isso é o que a Executiva do PMDB acha que deve ser feito. Não necessariamente precisa ser o que todos os parlamentares, governadores, prefeitos, filiados e militantes do partido e de outras legendas devam seguir. A entrevista de Jarbas Vasconcelos estende aos políticos de bem uma tábua de salvação. Abre a todos a oportunidade de escolher um lado: se o do joio ou do trigo. Dá à opinião pública a chance de ver quem sustenta a verdade inconveniente dita pelo senador e quem se esconde sob a mentira conveniente contada pela Executiva do PMDB. Considerar condenável o ato do senador requer necessariamente que se admita como louvável o conjunto da obra do PMDB e se apresentem escusas pelo tratamento desrespeitoso dado à legenda. É uma escolha que põe em xeque a oposição a quem o senador anunciou apoio na eleição de 2010. Uma opção entre a ruptura benéfica e a renovação do pacto maléfico. 111
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    A ENTREVISTA ÀVEJA Dora Kramer é jornalista, colunista política do jornal “O Estado de S.Paulo”. 112
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “CONFISSÃO E CORRUPÇÃO” Sérgio Costa Ramos (17 de fevereiro de 2009) - Não foi apenas um desabafo. Foi uma confissão. Talvez tenha sido o maior desnudamento da história do Império e da República. Um verdadeiro strip-tease, mas também a submissão a um autêntico martírio: o açoite autoinfligido ao partido que ajudou a fundar e a dar — no passado — credibilidade e decência. Nunca, em tempo algum, o filiado de um grande partido político descerrou tamanho véu. — Para que o PMDB quer cargos? — perguntou o repórter de Veja Otávio Cabral. E o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), um dos pilares do antigo MDB, cuja vertical resistência à ditadura conduziria o país à redemocratização, respondeu: — Para fazer negócios, ganhar comissões. Alguns ainda buscam o prestígio político. Mas a maioria dos peemedebistas se especializou nessas coisas pelas quais os governos são denunciados: manipulação de licitações, contratações dirigidas, corrupção em geral. A corrupção está impregnado em todos os partidos. Boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção. Haverá, no mundo, maior libelo contra um partido político — com a ressalva de que o desabafo estende a todos os partidos a prática de corrupção explícita? Sem se valer de eufemismos, ou de luvas cirúrgicas, sem amenizar qualquer significado, o senador Jarbas Vasconcelos disse, simplesmente, que “boa parte” do seu partido sobrevive através da prática de corrupção. 114
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    A ENTREVISTA ÀVEJA Para bom entendedor: o partido abriga uma quadrilha de ladrões. Quer dizer: homens de sete ofícios, gatunos, ratos, larápios, meliantes, ladravazes, rapinantes. Diante de tal “carinho”, o que disse a presidência do partido? Ou a sua Executiva nacional? Nada. Nem uma palavra. Pelo menos até as 48 horas que se seguiram ao destampatório do senador. O que confere ao desabafo foros de verdade definitiva. Se o maior partido da República está transformado nesse covil de trampolineiros, para que país os homens de Bem (e do Bem) devem pedir asilo? Talvez para uma adaptada Pasárgada, o reino de Manuel Bandeira: Vou me embora pra Pasárgada/ Lá é outra civilização/ Tem um processo seguro/ De impedir a corrupção... (No original, “concepção”). Enquanto isso, no PMDB reina o Silêncio dos Inocentes... Sérgio Costa Ramos é jornalista. 115
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “O PMDB, A CORRUPÇÃO E A GELEIA GERAL BRASILEIRA” 116
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “O PMDB, A CORRUPÇÃO E A GELEIA GERAL BRASILEIRA” Editorial do Valor Econômico (17 de Fevereiro de 2009) O senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) assumiu um duro discurso contra o seu partido no momento em que a maioria dos líderes peemedebistas convergem para a candidatura do PT à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e declarou publicamente o seu apoio ao governador de São Paulo, José Serra (PSDB). "Acredito muito em Serra e me empenharei em sua candidatura à Presidência da República", disse, em entrevista à revista "Veja". Vasconcelos, que foi apoiado internamente apenas pelo ex- governador de São Paulo Orestes Quércia, puxa, assim, o cordão do PMDB que deverá rachar com o governo em 2010 e apoiar o candidato tucano - ele mesmo admitiu, na entrevista, que esse racha é inevitável e serve ao perfil clientelista de "90% do partido, que aderirá com conforto ao Palácio do Planalto qualquer que seja o eleito". "O PMDB vai se dividir. A parte majoritária ficará com o governo, já que está mamando e não será possível agora uma traição total. E uma parte minoritária, mas significativa, irá para a candidatura de Serra. O partido se tornará livre para ser governo do lado do candidato vencedor", afirmou. E foi muito mais duro com o seu partido do que isso. Segundo ele, o PMDB começou a se tornar uma "máquina clientelista" a partir de 1994, quando resolveu ser governo sem ter o trabalho de disputar a eleição. "Daqui a dois anos o PMDB será ocupante do Palácio do Planalto com José Serra ou Dilma Rousseff. Não terá um gabinete 117
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    A ENTREVISTA ÀVEJA presidencial pomposo no 3º andar, mas terá vários gabinetes ao lado". Embora tenha localizado o início do processo de adesão ao clientelismo do PMDB em 1994, ano em que Fernando Henrique Cardoso (PSDB) disputou o seu primeiro mandato à Presidência da República, Vasconcelos atribuiu ao atual governo a culpa pelas mazelas da política brasileira. "É um governo medíocre. E o mais grave é que a mediocridade contamina vários setores do país. Não é à toa que o Senado e a Câmara estão piores. Lula não é o único responsável, mas é óbvio que a mediocridade do governo dele leva a isso". Ao PMDB, dedicou acusações graves, como usar cargos para "fazer negócios, ganhar comissões". "Boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção", disse. O senador Renan Calheiros "não tem condição moral ou política para ser senador, quanto mais para liderar qualquer partido"; a eleição do senador José Sarney para a presidência do Senado é um "retrocesso", porque "a moralização e a renovação são incompatíveis com a figura do senador", completou. Vasconcelos tem uma história política de 46 anos totalmente ligada ao partido. Foi um de seus fundadores e militou na "ala autêntica", importante grupo de resistência à ditadura. Permaneceu no PMDB quando um racha liderado por Mário Covas fundou o PSDB. Os políticos que deixaram na época o partido e foram atrás de Covas já tinham severas críticas à condução do PMDB, que se tornou uma federação de partidos regionais, em que lideranças locais passaram a ter grande poder sobre a estrutura nacional e enorme necessidade de benefícios do governo federal para se manterem nos Estados. O senador tinha uma afinidade política muito maior com a parte que rachou, mas tomou também uma decisão regional: o PMDB em Pernambuco tinha um forte apelo eleitoral, era dominado por ele e não 118
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    A ENTREVISTA ÀVEJA tinha por que abandoná-lo. Teve uma relação estreita com os dois governos de FHC. Com ligações históricas com Serra, deu apoio a Lula depois de eleito, em 2002, mas não queria que o PMDB aceitasse cargos no governo. Eleito para o Senado em 2006, isolou-se na bancada quando foi a favor do afastamento do presidente do Senado, Renan Calheiros, um dos cardeais do PMDB de agora, que era acusado de usar o dinheiro de um lobista para pagar pensão a uma filha. Foi em meio ao isolamento que deu a entrevista à "Veja". No meio do terremoto provocado pela entrevista, destacou-se a reação do senador Pedro Simon (PMDB-RS), que tem a mesma trajetória política de Vasconcelos. "Acontecem essas mesmas coisas com os outros partidos, PT, PSDB, DEM, PPS e PTB. Estamos numa geleia geral. Acontece que alguns têm mais corrupção porque são maiores que os outros". Ao que parece, em outra ponto eles concordam: "Não tenho para onde ir", respondeu Simon ao repórter que perguntou por que ele não sai do PMDB. "Se eu sair daqui para onde irei?", disse Vasconcelos. 119
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “EM BUSCA DO PRESTÍGIO PERDIDO” 120
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “EM BUSCA DO PRESTÍGIO PERDIDO” Merval Pereira (17 de Fevereiro 2009) Dois movimentos não ligados entre si, mas com objetivos semelhantes, realizados por políticos experientes acostumados a identificar o sentimento dos eleitores e dispostos a abrir o debate sobre temas delicados que ficam soterrados pelas conveniências imediatistas da pequena política, prometem sacudir a pasmaceira de um Congresso dominado pelo pensamento governista. De um lado, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB- PE) abriu seu coração para a revista “Veja”, falando em público o que a imprensa denuncia regularmente, muitos políticos comentam em privado e ele próprio vinha dizendo reservadamente há bastante tempo: a angústia de ver o partido que ajudou a fundar e que foi sinônimo de excelência política, símbolo da resistência à ditadura, transformar-se num agrupamento político corrupto e fisiológico, movido a cargos e verbas públicas. Do outro, o deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ), incomodado com o que chama de “partidocracia”, buscando através de uma consulta ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que pode ser julgada já na próxima quinta-feira antes do carnaval, uma valorização dos parlamentares dentro dos partidos para que eles tenham um papel mais relevante no jogo político que não o de meros espectadores dos acordos da cúpula partidária. Curiosamente, os dois fazem parte de partidos da chamada “base parlamentar” do governo Lula, uma coalizão tão grande quanto disforme de partidos de vários e conflitantes matizes ideológicos, que só têm o interesse 121
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    A ENTREVISTA ÀVEJA eleitoreiro a uni-los, uma grande geléia geral onde o debate político deu lugar ao fisiologismo e ao clientelismo, todos dependentes do grande líder carismático, que os anula, mas recompensa com fatias do Estado e expectativa de poder. A entrevista de Jarbas Vasconcelos não parece ser o primeiro lance de uma série bem montada de ações do senador, como muitos chegaram a pensar, e muito menos deve ser tomada como um movimento político com vistas à sucessão presidencial. Duas vezes governador de Pernambuco, um dos políticos mais importantes do Nordeste, região hoje amplamente dominada pelo lulismo, o senador Jarbas Vasconcelos é adepto da candidatura do governador de São Paulo José Serra, mas não precisaria dar uma entrevista bombástica para tentar dividir o PMDB, levando um pedaço dele para a candidatura tucana. O incômodo com a atuação de seu partido o fez desabafar em público, na esperança, disse ontem, de que o debate aberto leve a uma revisão de comportamento. Mesmo que não tenha a intenção de sair do PMDB, como reafirmou, o senador pode ter reacendido em muitos políticos a inquietação com a situação atual dos partidos. Seu desabafo pode ser o estopim para uma eventual reorganização partidária. A consulta do deputado Miro Teixeira abre essa possibilidade, embora também não tenha sido feita com essa intenção. O que o deputado quer é dar mais dignidade aos políticos dentro de seus partidos, para que eles possam aspirar a posições mais relevantes do que simplesmente serem caudatários de acordos de cúpula que os transformam em moeda de troca. 122
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    A ENTREVISTA ÀVEJA A “partidocracia” consolidou-se, na opinião de Miro Teixeira, quando o TSE decidiu que os mandatos pertenciam aos partidos e não aos eleitos. Ele fez algumas perguntas diretas ao TSE que, espera, dará chance ao tribunal de rever aspectos da decisão anterior que produzirá, na sua visão, um mal muito grande à política brasileira no longo prazo, esterilizando o debate político e dando às direções dos partidos poder de vida e morte sobre seus parlamentares. Miro se utiliza do voto do ministro Joaquim Barbosa, que perguntou: “(...) não deveria haver um mecanismo para examinar a percepção do eleitor quanto à fidelidade do partido político pelo qual se elegeu o candidato tido por insurgente às diretrizes fixadas por ocasião do pleito?” e lança uma dúvida, numa situação que ocorre com frequência nesse Congresso emasculado: “(...) se, em tese, o partido ‘A’ organizar Bloco Parlamentar, na Câmara dos Deputados, com os partidos ‘B’ e ‘C’ adversários da chapa ou coligação com que se apresentou ao povo, nas respectivas eleições parlamentares ou na eleição presidencial, está configurada a hipótese de mudança substancial ou desvio reiterado do programa partidário, que permite ao parlamentar deixar a sigla sem perder o mandato? E na hipótese de o partido ocupar cargos e integrar governo de coalizão, com o adversário vitorioso?”. O deputado pedetista também explora a possibilidade de criação de novos partidos e pergunta “em que momento os deputados que decidirem participar da fundação de partido político têm que deixar o partido pelo qual se elegeram, com a proteção da Resolução no22.610/2007 do TSE?”. Ele pergunta também se a resolução do TSE reconhece ao novo partido fundado por deputados federais 123
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “os mesmos direitos aplicáveis a novo partido resultante de fusão”, prevista na legislação eleitoral brasileira. E cita também o parágrafo 6odo Art. 29 da Lei 9.096, de 1995, que proporcionou a criação do PSDB como dissidência do PMDB, para saber se os partidos que eventualmente nascerem com base na resolução do TSE terão os mesmos direitos. Importante em termos práticos, pergunta se os deputados que formarem um novo partido político levam com eles os votos para definir o tempo de televisão e a divisão do Fundo Partidário. A consulta de Miro Teixeira dá ainda um toque de modernidade à formação de um novo partido, perguntando se o TSE aceitará o preenchimento da ficha partidária “meio eletrônico”, isto é, o uso da internet na criação de partidos, o que daria abrangência muito maior à representação partidária. Como se vê, alguma coisa se move abaixo da capa de subserviência com que o Poder Legislativo acerta sua convivência com o Poder Executivo. Merval Pereira é jornalista, colunista de política do jornal “O Globo”. 124
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “UMA ENTREVISTA DEVASTADORA” Sebastião Nery (17 de Fevereiro de 2009) Rio - No dia 1º de abril de 1964, enquanto o coronel João Dutra de Castilho depunha e prendia o governador de Pernambuco, Miguel Arraes, no Palácio do Campo das Princesas, entrava na Faculdade de Direito da Universidade Católica de Pernambuco Jarbas de Andrade Vasconcelos, nascido em 23 de agosto de 1942, em Vicência, zona da Mata, já no Recife desde os 7 anos. No dia 13 de dezembro de 1968, quando a ditadura militar dava mais um golpe dentro do golpe, com o AI-5, e Arraes, lá na Argélia, via seu exílio prorrogado sem data para acabar, Jarbas Vasconcelos se formava em Direito. Mas já estava, havia muito tempo, brigando para Arraes voltar. Em 1966, o MDB nasceu em Pernambuco nas mãos do professor Pinto Ferreira. Jarbas entrou no partido com Oswaldo Lima Filho, Marcos Freire, Egídio Ferreira Lima, Fernando Lyra, Sérgio Murilo, Thales Ramalho, Fernando Coelho, Marcus Cunha. Na página de filiação do MDB, que Jarbas assinou, estão Odigas Carvalho (assassinado pelos militares), Roberto Freire (deputado, presidente do PPS), Cristovam Buarque (senador, ex-governador de Brasília, PDT). Jarbas A partir daí, a vida de Jarbas foi a vida do MDB. Saiu pelo Estado criando diretórios. Em novembro, o partido, ainda fraco, lançou Armando Monteiro Filho para o Senado, contra João Cleófas, da Arena, e perdeu. Em 1969, Jarbas 126
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    A ENTREVISTA ÀVEJA era secretário-geral do MDB, até 1975, quando se tornou presidente, e continuou presidente do PMDB, de 1980 a 1982. Em 1970, Jarbas elegeu-se deputado estadual e líder da oposição na Assembleia. Marcos Freire foi o mais votado do estado para a Câmara Federal: 56.967 votos. Em 1974, Marcos Freire derrotou João Cleófas para senador e Jarbas, principal operário da oposição em Pernambuco, com 32 anos, era o deputado federal com mais votos na história do estado: 67.975. Marco Maciel, da Arena, 55.692. Ricardo Fiúza, da Arena, 54.144. Fernando Lyra, do MDB, 53.238; Carlos Wilson, da Arena, 52.318. Thales Ramalho, do MDB, 38.469. Inocêncio de Oliveira, da Arena, 31.789. Foram As 16 derrotas que abalaram o Brasil (título de meu livro de 1974) e que começaram a mandar a ditadura de volta para os quartéis. Arraes Em 1978, Jarbas foi o candidato do MDB a senador. Teve 600 mil votos, Nilo Coelho 350 mil e Cid Sampaio 300 mil, pela Arena. O senador foi Nilo, pela soma das sublegendas. (O pai de Jarbas morreu na apuração). Em 1982, Jarbas apoiou Marcos Freire para governador pelo PMDB, que perdeu para Roberto Magalhães do PFL. E voltou à Câmara Federal. Em 1985, elegeu-se prefeito do Recife pelo PMDB, contra Sérgio Murilo do PDS. Em 1986, apoiou Arraes, que se elegeu governador pelo PMDB. Em 1990, Jarbas era o candidato do PMDB a governador e Arraes a senador. Chapa imbatível. Mas Arraes entregou o governo ao vice Carlos Wilson, saiu do PMDB, foi para o PSB, não aceitou disputar o Senado, fez uma chapa de candidato a federal, encabeçada por ele, 127
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    A ENTREVISTA ÀVEJA dividiu o horário de televisão com o PMDB, teve 300 mil votos e elegeu mais quatro. E assim Arraes derrotou Jarbas, que perdeu o governo para Joaquim Francisco, do PFL. Em 1998, Jarbas deu o troco: elegeu-se governador pelo PMDB contra Arraes do PSB, por mais de 1 milhão de votos, logo no primeiro turno. Uma vitória esmagadora: 64,39%. Sarney Ninguém, portanto, tem mais autoridade para falar em PMDB do que o senador do PMDB de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos. Como ele, só Pedro Simon, do Rio Grande do Sul, Orestes Quércia, de São Paulo, Paes de Andrade, do Ceará, fundadores do MDB em 1966, que continuam até hoje no PMDB. Daí a repercussão nacional da devastadora entrevista do senador Jarbas Vasconcelos nas páginas amarelas da Veja desta semana: 1 - "A eleição do senador Sarney para a presidência do Senado é um completo retrocesso. Foi um processo tortuoso e constrangedor. Sarney apareceu como candidato, sem nenhum compromisso ético. A moralização e a renovação são incompatíveis com a figura do senador. Sarney vai transformar o Senado em um grande Maranhão". PMDB 2 - "O PMDB quer cargos para fazer negócios, ganhar comissões. Alguns ainda buscam o prestígio político. Mas a maioria se especializou nessas coisas pelas quais os governos são denunciados. A corrupção está impregnada em todos os partidos. Boa parte do PMDB quer é corrupção". 3 - "Daqui a dois anos o PMDB será ocupante do Palácio do Planalto, com Dilma ou com Serra. O PMDB vai se dividir. A parte majoritária ficará com o governo, já que 128
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    A ENTREVISTA ÀVEJA está mamando. E uma parte minoritária, mas significativa, irá para a candidatura de Serra". Lula 4 - "Com o desenrolar do primeiro mandato de Lula, com os sucessivos escândalos, percebi que Lula não tinha nenhum compromisso com reformas ou com ética. Quando o PT deixou cair a máscara, abriu a porta para a corrupção. Deixou a ética de lado e agora tem como bandeira o PAC, um amontoado de projetos velhos reunidos em um pacote eleitoreiro. O Bolsa Família é o maior programa oficial de compra de votos do mundo". 5 - "A Dilma é prepotente e autoritária e está se moldando. Acredito muito em Serra e me empenharei em sua candidatura à Presidência". Sebastião Nery é jornalista, foi Vereador por Belo Horizonte (MG), Deputado Estadual (BA) e Deputado Federal (RJ) 129
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “O BRASIL VIROU UM GRANDE PMDB” Arnaldo Jabor (17 de Fevereiro de 2009) A entrevista de Jarbas Vasconcelos na revista Veja desta semana é uma rara ilha de verdade neste mar de mentiras em que naufragamos. Precisávamos dessas palavras indignadas que denunciam a rede de mediocridade política e de desagregação de poderes que assola o país, do Congresso ao Executivo. De dentro de casa, Jarbas berrou: “O PMDB é corrupto!” e mostrou como este partido nos manipula, sob o guarda-chuva do marketing populista de Lula. O que Jarbas Vasconcelos atacou já era voz corrente entre jornalistas, inclusive o pobre diabo que vos fala. Mas sua explosão é legítima e incontestável, vinda de um dos fundadores do MDB, depois transformado nesta anomalia comandada pelo Sarney, que é o líder sereno e hábil da manutenção do atraso em nossas vidas. Duvidam? Vão a São Luís para entender o que fez esse homem com seu jaquetão impecável há quarenta anos no poder daquele Estado. Jarbas aponta: “a moralização e a renovação são incompatíveis com a figura do senador Sarney, (...) que vai transformar o País em um grande Maranhão”. Mais que um partido, o PMDB atual é o sintoma alarmante de nossa doença secular. Era preciso que um homem de estatura política abrisse a boca finalmente, neste País com a oposição acovardada diante do ibope de Lula. Estamos aceitando a paralisia mental que se instalou no País, sob a demagogia oportunista deste governo. O gesto de Jarbas é importante justamente por ser intempestivo, romanticamente bruto, direto, sem interesses e vaselinas. É 131
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    A ENTREVISTA ÀVEJA mais que uma entrevista – é um manifesto do “eu-sozinho”, um ato histórico (se é que ainda sobra algo “histórico” na política morna de hoje). E não se trata de um artigo de denúncia “moral” ou de clamor por “pureza”, é um retrato de como alianças espúrias e a corrupção “revolucionária” deformaram a própria cara da política brasileira. Com suas alianças e negaças, o Governo do PT desmoralizou o escândalo! Lula revalidou os velhos vícios do País, abrindo as portas para corruptos e clientelistas, em nome de uma “governabilidade” que nada governa, impedido pela conveniência e interesses de seus “aliados”. É como ser apoiado por uma máfia para combater o mal das máfias. Jarbas não tem medo de ser chamado de reacionário pelo povão ou pelos intelectuais que ainda vivem com o conceito de “esquerda” entranhado em seus cérebros, como um tumor inoperável. Essa palavra “esquerda” ainda é o ópio dos intelectuais e “santifica” qualquer discurso oportunista. Na mitologia brasileira, Lula continua o símbolo do “povo” que chegou ao poder. A origem quase “cristã” desse mito de “operário salvador”, de um Getúlio do ABC, lhe dá uma aura intocável. Poucos têm coragem de desmentir esse dogma, como a virgindade de Nossa Senhora. A última vez que vimos verdades nuas foi quando Roberto Jefferson, legitimado por sua carteirinha de espertalhão, botou os bolchevistas malucos para correr. Depois disso, chegou o lulo-sindicalismo, ou o peleguismo desconstrutivo, que empregou mais de 100 mil e aumentou os gastos federais de custeio em 128 por cento. O lulismo esvazia nossa indignação, nossa vontade de crítica, de oposição. Para ser contra o quê, se ele é “a favor” de tudo, dependendo de com quem esta falando – banqueiros ou 132
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    A ENTREVISTA ÀVEJA desvalidos? Ele põe qualquer chapéu – é ecumênico, todas as religiões podem adorá-lo. Ele ostenta uma arrogância “simpática” e carismática que nos anestesia e que, na mídia, cria uma sensação de “normalidade” sinistra, mas que, para quem tem olhos, parece a calmaria de uma tempestade que virá para o próximo governante. Herdeiro da sensata organização macroeconômica de FHC que, graças a Deus, o Palocci manteve (apesar dos ataques bolchevistas dos Dirceus da vida), Lula surfou seis anos na bolha bendita da economia internacional, mas não aproveitou para fazer coisa alguma nova ou reformista. Lula tem a espantosa destreza de nos dar a impressão de que “tudo vai bem”, de que qualquer crítica é contra ele ou o Brasil. Como disse Jarbas em sua entrevista, o governo do PT “deixou a ética de lado e não fez reformas essenciais, nem nada para a infraestrutura e o PAC não passa de um amontoado de projetos velhos reunidos em pacote eleitoreiro” (...) e o Bolsa Família, que é o maior programa oficial de compra de votos do mundo, não tem compromisso algum com a educação ou com a formação de quadros para o trabalho”. A única revolução que deveria ser feita no Brasil seria o enxugamento de um Estado que come a nação, com gastos crescentes, inchado de privilégios, um Estado que só tem para investir 0,9% do PIB. A tentativa de modernização que FHC tentou foi renegada pelo governo do PT. Lula fortaleceu o patrimonialismo das velhas oligarquias e o PAC é uma reforma cosmética, como a plástica da Dilma, que ele quer eleger para voltar depois, em 2014. O único projeto do governo é o próprio Lula. Em cima dos 84% de aprovação popular, nada o comove. Só se comove consigo mesmo. 133
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    A ENTREVISTA ÀVEJA Lula se apropriou de nossa tradicional “cordialidade” corrupta para esvaziar resistências. Assim, ele revitalizou o PMDB – o partido que vai decidir nosso futuro! Hoje, não temos nem governo nem oposição – apenas um teatro em que protagonistas e figurantes são o PMDB. E no meio disso tudo: o Lula ,um messias sem programa, messias de si mesmo. 84% do povo apoia um governo que acha progressista e renovador, quando na verdade é ultraconservador e regressista. Nem o PT ele poupou para “conservar” a si mesmo. O PMDB é sua tropa de choque, seu “talibã” molenga e malandro. Agora... tentem explicar este quadro que Jarbas sintetiza com a clara luz de sua entrevista para um pobre homem analfabeto que descola 150 reais por mês do Bolsa Família... Vivemos um grande auto-engano. Arnaldo Jabor é crítico, cineasta e jornalista. Assina coluna no jornal “O Globo” 134
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “A CORRUPÇÃO VISTA DE DENTRO” 135
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “A CORRUPÇÃO VISTA DE DENTRO” Editorial d’O Estado de S.Paulo (17 de Fevereiro de 2009) Desde que, em junho de 2005, o então deputado Roberto Jefferson, do PTB do Rio de Janeiro, denunciou a compra sistemática de parlamentares para servir ao governo Lula - no esquema que entraria para a história com o sugestivo nome de "mensalão" - não se via um político apresentar um libelo tão devastador sobre o comportamento dominante entre os seus pares como a entrevista do senador Jarbas Vasconcelos, do PMDB de Pernambuco, à revista Veja. Com uma agravante que ofusca: aos 66 anos, duas vezes governador do seu Estado, com quatro décadas de atividade política sem prontuário, um dos fundadores do partido que viria a liderar a campanha pela redemocratização do País, sob a sigla MDB, Jarbas Vasconcelos não é Roberto Jefferson, nem no retrospecto nem nas motivações por trás das iniciativas de cada qual de falar à imprensa. Nem no quesito novidade. Por vingança, o petebista abriu para o público uma armação compartilhada pelos beneficiários, operadores e inspiradores do suborno de deputados, para que facilitassem o controle do Planalto sobre a Câmara e garantissem a aprovação dos projetos do governo; mudando de partido conforme a conveniência do lulismo e votando com a consciência da paga recebida e a expectativa de novas remunerações. Já o que o peemedebista acabou de fazer, por desalento, foi endossar, com a autoridade do seu perfil e da experiência no ramo, o 136
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    A ENTREVISTA ÀVEJA que a sociedade sabe, ou pelo menos intui, sobre os costumes políticos de parcela dos seus representantes, as razões inconfessas que os levam à política e a sua insensibilidade moral à toda prova. Embora sem citar casos concretos - salvo o escândalo que envolveu o senador Renan Calheiros -, ele se concentrou nas mazelas do seu partido, indo além da obviedade de que, sem bandeiras, propostas ou rumos, o PMDB é uma confederação de líderes regionais, todos com os seus próprios interesses, dos quais "mais de 90% praticam o clientelismo, de olho principalmente nos cargos". Na passagem mais esclarecedora de sua entrevista, Vasconcelos explica que, para alguns, os cargos servem como instrumento de prestígio político. Mas a maioria "se especializou nessas coisas pelas quais os governos são denunciados: manipulação de licitações, contratações dirigidas, corrupção em geral". E arremata: "Boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção." Mal não lhe fez. O maior partido nacional elegeu 7 governadores, 20 senadores, 96 deputados federais e 1.202 prefeitos. Tem 7 ministros, acaba de conquistar o comando do Congresso e é cortejado pelo PT e o PSDB para a sucessão de Lula. Outro senador e ex-governador que ajudou a criar o velho MDB, o gaúcho Pedro Simon, acrescenta uma dose de desesperança às denúncias do colega. "Acontecem essas mesmas coisas com os outros partidos. Alguns têm mais corrupção que outros porque são maiores." A "geleia geral" de que fala Simon é decerto indissociável, por exemplo, do processo "tortuoso e constrangedor", como o descreve o pernambucano, da eleição de Sarney para a presidência do Senado, onde "o nível dos debates é inversamente proporcional à preocupação com as benesses". Segundo Vasconcelos, foi 137
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    A ENTREVISTA ÀVEJA "um completo retrocesso", pois Sarney "não vai mudar a estrutura política nem contribuir para reconstruir uma imagem positiva da Casa. Vai transformar o Senado em um grande Maranhão". A amargura de Vasconcelos é especialmente visível quando reflete sobre o entranhamento da corrupção na era Lula. Em 2002, ele defendia o apoio do PMDB ao presidente recém-eleito. Em pouco tempo, mudou de ideia ao perceber que ele "não tinha nenhum compromisso com reformas ou com ética" - embora ressalve que a corrupção "não foi inventada por Lula ou pelo PT". De todo modo, o descompromisso não é sinônimo de indiferença. Longe de lavar as mãos diante dos malfeitos dos políticos, Lula os incentiva, mantendo com o sistema de partidos uma relação essencialmente clientelística - não fosse isso, não teria o apoio de 14 legendas. E é com essa mesma matéria-prima invertebrada que ele pretende construir o suporte político da candidatura Dilma Rousseff. 138
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “UMA AGENDA” 139
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “UMA AGENDA” Editorial d’O Globo (17 de Fevereiro de 2009) Há tempos o PMDB atua como uma federação de caciques regionais, aberta a negociações fisiológicas com os inquilinos do Planalto, em busca de vagas e verbas públicas, conquistadas em troca de apoio parlamentar e político. Por isso, o maior partido do país adota a estranha postura — estranha para desavisados — de não pleitear a sério a Presidência da República, a fim de mercadejar apoios nos balcões da fisiologia. Não paga o ônus e ainda capitaliza bônus inconfessáveis do poder. Nada disso é desconhecido. Mas, ao sair da boca de um senador peemedebista, o pernambucano Jarbas Vasconcelos, a verdade ganha outra dimensão política. Em entrevista à “Veja”, Jarbas acusou o próprio partido de corrupto, criticou de forma pesada a eleição de José Sarney para a presidência do Senado, em cujo comboio voltou à boca de cena Renan Calheiros, e tratou sem rodeios de sua desilusão com Lula, pelo fato de o presidente e o partido dele, o PT, terem frustrado todos os que confiaram na defesa que ambos faziam da ética na política. A desilusão do senador também tem outro motivo: nenhuma das reformas importantes de que o país necessita foi feita pelo governo, que optou pelo assistencialismo populista numa dimensão jamais vista. Pode ser que a entrevista de Jarbas Vasconcelos, deputado, governador de Pernambuco, com 43 anos de vida política, iniciada no MDB da resistência à ditadura, seja considerada um ato da sucessão de 2010. Afinal, o senador não escondeu à revista apoiar José Serra para sucessor de 140
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    A ENTREVISTA ÀVEJA Lula. Diga-se, também como uma falange do seu partido, dentro da conhecida esperteza peemedebista de colocar fichas na situação e na oposição, para nunca perder uma eleição presidencial. A entrevista, porém, transcende a conjuntura político-eleitoral, e aborda algo mais profundo: a degradação da vida pública, alimentada por um quadro partidário anêmico, em que as legendas, em geral, são obrigadas a se submeter a puxadores de votos, e não conseguem atrair eleitores em função de projetos e programas, mas por meio de práticas populistas. A degradação do PMDB é parte da metástase deflagrada a partir da Constituição de 88, com a qual houve uma excessiva proliferação de legendas — algumas de aluguel. Além disso, plasmou-se uma legislação sem qualquer rigor, responsável por permitir a entrada na política de fichas-sujas de toda espécie e do próprio crime organizado. Tudo isso e ainda a inexistência de uma regra séria sobre a fidelidade partidária criaram um estado de coisas na política brasileira que leva Jarbas Vasconcelos a admitir aposentar-se. Entre as razões que motivaram o senador a assinar embaixo das mais ácidas críticas ao PMDB e ao governo, é provável que tenha sido determinante a constatação de que o governo e o PT foram contaminados pelo vírus da baixa política, do toma-lá-dá-cá, na montagem das alianças partidárias. No mínimo, o senador contribuiu para a agenda de uma discussão séria sobre o poder no Brasil. 141
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “PASSO DEFINITIVO” 142
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “PASSO DEFINITIVO” Marisa Gibson (17 de Fevereiro de 2009) É evidente que a reação do PMDB à entrevista de Jarbas Vasconcelos à revista Veja não ficará restrita à nota da Executiva Nacional, que minimizou as declarações do senador acusando o partido e a maioria de seus integrantes de corruptos. Assim como Jarbas teve coragem de dizer o que queria, os peemedebistas governistas também terão coragem, de uma maneira ou de outra, de inviabilizá-lo mais ainda dentro do partido. Daqui para frente, portanto, a queda de braço será bem mais pesada. E tanto Jarbas como os peemedebistas têm munição e instrumentos suficientes para isso. O surpreendente é que no PMDB ninguém falou em expulsão e nem mesmo Jarbas acredita que isso venha a acontecer. Ontem, o senador reafirmou tudo o que falou na entrevista, mas vale ressaltar que o que ele disse a respeito do PMDB não foi surpresa para ninguém. O que causou impacto foi o fato de ele ter falado publicamente sobre o lado podre do seu partido, confirmando que, se o PMDB é o maior partido do Brasil, também é o pior. E sobre este aspecto, Jarbas ganhou a adesão da opinião pública porque fazia tempo que ninguém, no país, mostrava tanta indignação pelo o que acontece nos porões da política brasileira. Agora, o outro lado da entrevista, aliás, uma resposta em que o senador dedicou poucas palavras, foi o que tirou a oposição estadual do sério. A possibilidade de Jarbas deixar a vida pública e de não disputar, como é sua vontade, as eleições de 2010, é quase uma derrota antecipada para os 143
  • 145.
    A ENTREVISTA ÀVEJA oposicionistas. Mas Jarbas foi taxativo - não vai ceder às pressões. E com 43 anos de arena política, o senador sabe que com o que disse à Veja, ele deu um passo definitivo, tanto no plano nacional como no estadual. Ele nem pode ser candidato a vice de Serra, como ele mesmo diz que não quer, nem pode, por um motivo ou por outro, concorrer ao governo do estado. Isso porque o argumento da dinâmica política não deve prevalecer nem sobre princípios nem sobre a palavra dada. Marisa Gibson é jornalista. 144
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “A ESPLÊNDIDA SOLIDÃO DE UM INCORRUPTÍVEL” 145
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “A ESPLÊNDIDA SOLIDÃO DE UM INCORRUPTÍVEL” Augusto Nunes (18 de Fevereiro 2009) Parece mentira, mas existe a oposição parlamentar que o Brasil decente merece. Chama-se Jarbas Vasconcelos, é senador pelo PMDB de Pernambuco, pertence à espécie em extinção dos políticos incorruptíveis e desde o começo da semana, como convém a raridades admiráveis, está exposto à visitação pública nas páginas amarelas da revista Veja. Vale a pena conhecer alguém que vê as coisas como as coisas são ("O Bolsa Família é o maior programa oficial de compra de votos do mundo"). Vale a pena conhecer alguém que conta o caso como o caso foi ("A maioria dos peemedebistas se especializou em manipulação de licitações, contratações dirigidas, corrupção em geral. Boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção"). E que diz sem medo o que pensa. "Um governo que deixou a ética de lado, que não fez as reformas nem fez nada pela infraestrutura tem como bandeira o PAC, que é um amontoado de projetos velhos reunidos num pacote eleitoreiro." Anestesiado pelo que o entrevistado chama de "banalização do escândalo", rendido à "mediocridade que contamina", feliz com um presidente que "não tem nenhum compromisso com as reformas ou com a ética", o Brasil do faz-de-conta continuou esperando os pesquisadores do Sensus para informar que o coro dos contentes passou de 90%. Decididos a não melindrar o adversário de estimação, os partidos de oposição se solidarizaram silenciosamente 146
  • 148.
    A ENTREVISTA ÀVEJA com os culpados. E os acusados tiveram de engolir as verdades indesmentíveis. Nascido e criado na Zona da Mata, Jarbas tinha 12 anos quando ouviu do pai, um funcionário público rude e reto, a frase que ficaria marcada a ferro na memória. "Nunca volte para casa com marcas de briga nem dizendo que achou dinheiro na rua." O menino assimilou a lição pela metade: foi sempre irretocavelmente honesto, mas jamais fugiu de briga boa. Na década de 1970, o deputado estadual que fundara o MDB pernambucano brigava pela ressurreição da democracia e contra a ditadura. Aos 66 anos, briga pela restauração da ética, da moralidade e de outros valores revogados pela aliança dos fora-da-lei. "Os fatos! Os fatos!", resolveram cobrar jornalistas aparentemente alcançados pela epidemia de cegueira conveniente. "Os nomes! Os nomes!", exclamaram nas colunas de leitores alguns idiotas da objetividade. É só teclar as palavras "corrupção" e "partidos" nos sites de busca na internet, poderia ter sugerido Jarbas na entrevista coletiva em que reafirmou o que dissera à Veja. Dispensara-se de acusações detalhadas, informou, por falta de espaço para tantas. Caso continuem ofendidos, os que viram nas constatações feitas por Jarbas uma afronta sem fundamento a legendas imaculadas estão novamente convidados a buscar alívio na internet. Os simpatizantes do PMDB podem digitar no Google nomes como Valdir Raupp, Renan Calheiros, Romero Jucá - ou apenas a sigla do partido. Para os petistas, basta uma palavra: mensalão. "O PMDB não tem nada a ver com o partido que combateu o regime militar", constatou Jarbas. Por que não muda de sigla? "Para onde irei?", respondeu o senador com outra pergunta. Melhor esperar a hora de fundar algo melhor no partido obrigado a tolerar o dissidente. Sobram- 147
  • 149.
    A ENTREVISTA ÀVEJA lhe amigos no PSDB, mas falta o que chama de "formação tucana". E está cada vez mais distante do PT e do presidente. "O Partido dos Trabalhadores se apresentou como templo da moralidade até chegar ao poder", lembrou. "Quando deixou cair a máscara, abriu a porta para a corrupção." No fim de 2002, animado com o triunfo de "um ex-operário que havia se comprometido com a sociedade a promover reformas e governar com ética", propôs que o PMDB apoiasse Lula "sem cargos nem benesses". Não demorou a decepcionar-se com o presidente que prefere fazer amigos e conquistar aliados por outros meios. "Sempre houve corrupção, mas o governo Lula provocou a banalização do escândalo", registrou. "O Médici também era endeusado no Nordeste, mas ninguém desistiu de combater a ditadura por isso", argumentou para justificar o desembaraço com que atravessa o samba- exaltação composto por institutos de pesquisa de opinião. Em três páginas, Jarbas resumiu a extensa plataforma que deveria ser encampada pelos partidos de oposição. Isso se ainda existissem. Augusto Nunes é jornalista. 148
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “ALTO LÁ, JARBAS NÃO É ROBERTO JEFFERSON” 149
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “ALTO LÁ, JARBAS NÃO É ROBERTO JEFFERSON” Elio Gaspari (18 de Fevereiro de 2009) O PMDB OFENDEU-SE com a entrevista que o senador Jarbas Vasconcelos deu ao repórter Otávio Cabral. Um dos seus caciques, o deputado Eduardo Cunha (RJ) indignou-se: "Ele generalizou e não deve se sentir confortável no PMDB depois das críticas. Deve sair". A reação de Cunha ofendeu a Lei de Serpico, o detetive americano (Al Pacino no filme) que levou um tiro na cara durante uma diligência contra traficantes acumpliciados com seus colegas: "É o policial corrupto quem deve ter medo do honesto e não o contrário". O que disse Jarbas? "O PMDB é um partido sem bandeiras, sem propostas, sem um norte. É uma confederação de líderes regionais, cada um com seu interesse, sendo que mais de 90% deles praticam o clientelismo, de olho principalmente nos cargos." O que se pode dizer do deputado Eduardo Cunha? O doutor tem 40 anos, está no seu segundo mandato federal e o PMDB é seu terceiro domicílio partidário. Cunha começou sua carreira pública presidindo a falecida Telerj (1991-1993), durante o governo de Fernando Collor, e a Companhia Estadual de Habitação do Rio de Janeiro (1999- 2000), durante o mandarinato de Anthony Garotinho. Sua contribuição republicana para o governo Lula foi a indicação do arquiteto Luiz Paulo Conde para a presidência das Centrais Elétricas de Furnas. Nas suas 150
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    A ENTREVISTA ÀVEJA cercanias fica o fundo de pensão dos funcionários, o Real Grandeza, com ativos de R$ 5,8 bilhões ao final de 2007. No collorato, Cunha era respeitado pelo acesso que tinha ao empresário-tesoureiro Paulo César Farias. Na virada petista, era visto por Rosinha Garotinho como intermediário fiel em algumas negociações com o PT. Em 2005, numa transação que poderia sepultar a criação da CPI dos Correios, foi desatendido pelo Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Bernard Appy. Cunha lidera com descortínio parte da bancada de deputados federais do PMDB. Quando necessário, atua em sintonia com o governador Sérgio Cabral, outro crítico das generalizações de Jarbas. Recentemente, Ronaldo Monteiro Francisco, irmão caçula de Roberto Jefferson, foi nomeado por Cabral para a presidência de uma empresa estatal. O ex-deputado, nacionalmente conhecido desde que implodiu as caixas do mensalão, lavou as mãos e atribuiu a escolha às "qualidades intelectuais e relações políticas de meu irmão" bem como "à amizade de Sérgio e Eduardo Cunha". O deputado foi inquilino do doleiro Lúcio Funaro, um dos coadjuvantes da crise do mensalão. Explicando-se, disse que se tratava de um aluguel inocente. Quando lhe atribuem nomeações em diretorias de Furnas, da Caixa ou da Petrobras, responde: "Estão exagerando. Eu só indiquei o Luiz Paulo Conde para Furnas. Os outros foram indicados pelas bancadas e eu apenas apoiei". As críticas de Jarbas Vasconcelos às práticas de uma banda (e que banda) do PMDB diferem das denúncias de Roberto Jefferson porque vêm de fora para dentro das caixas amigas. Todos os seus críticos sabem do que ele está falando e não querem saber de falar nisso. Michel Temer, presidente do partido e da Câmara dos Deputados, diz que elas não têm "especificidade". Se a generalização foi infame, Temer pegou leve. Se não se quer 151
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    A ENTREVISTA ÀVEJA especificar, daqui a pouco começa o Carnaval e, quem sabe, muda-se de assunto. Elio Gaspari é jornalista, colunista dos jornais “O Globo” e “Folha de S.Paulo”. 152
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “O SILÊNCIO DOS INCRIMINADOS” Rosângela Bittar (18 de Fevereiro de 2009) O ministro José Gomes Temporão (PMDB-RJ), da Saúde, já havia se rebelado publicamente contra a desfaçatez com que seu partido pratica a gestão dos recursos públicos e foi mal sucedido ao tentar trocar a direção da Funasa (Fundação Nacional de Saúde, bunker peemedebista de cargos e verbas). Anos atrás, o atual governador Roberto Requião (PMDB-PR) inventou, contra um colega de partido, o "disque Quércia", expressão autoexplicativa. O próprio presidente Lula já insultou o senador José Sarney (PMDB-AP), não houve processo e hoje são amigos e aliados. O PMDB do Rio, que domina comissões no Parlamento como instrumento de pressão sobre o governo, atravessa períodos de intensas críticas e suspeitas sobre suas relações com Furnas, por exemplo, sem reagir ou se sentir impelido a torná-las transparentes. Ninguém ignora, nem o eleitorado, as concepções e métodos do PMDB e o partido sabe disso: há cerca de 10 anos encomendou uma pesquisa, divulgada em convenção que realizou no Hotel Nacional, em Brasília, em que um dado deixou a platéia boquiaberta. Os entrevistados declararam ser o PMDB o partido mais corrupto da política brasileira. A informação foi transmitida à imprensa, numa entrevista coletiva, sem o menor sinal de constrangimento ou preocupação. Afirmou-se, na ocasião, que a direção tudo faria para superar esta imagem impregnada, por alguma razão, no imaginário do eleitorado. 154
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    A ENTREVISTA ÀVEJA A entrevista do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB) à revista "Veja" é mais um desses momentos em que seu partido, e o governo Lula, a quem o senador se opõe politicamente em dissidência , se veem diante de um perfil desprezível, traçado por uma voz contundente, uma fala substantiva, um discurso político, como há muito se cobrava à oposição. Jarbas não observou conveniências e tudo no seu discurso fez sentido. Não há novidade no que disse o senador e nem em sua atitude, sempre coerente. Já no discurso inaugural de início de mandato, em 2007, Jarbas Vasconcelos apresentou um olhar em perspectiva não só sobre o seu partido como sobre a política em geral. De volta ao Congresso, depois de 21 anos de mandatos no Executivo, explicitou um manual de atitudes sobre a prática da democracia e o exercício da oposição. Não condenou as alianças, mas alertou que em países com grande fragilidade do quadro partidário, embora as alianças sejam necessárias para governar, é preciso ter como base o respeito ao pluralismo partidário e expressar um programa de governo com objetivos definidos. Não vendo no PT esta condição, o senador defendeu que o PMDB ficasse como "principal escoadouro das esperanças em construir um Brasil melhor e mais justo". Não convenceu o PMDB, postou-se na dissidência minoritária de oposição e a defendeu como direito. O senador não destoa agora de seu pronunciamento mas deve constatar que tanto antes como hoje prega ao vento. Os peemedebistas insultados (eles devem saber com quem Jarbas Vasconcelos está falando) fingem-se de desentendidos. Provavelmente pelo temor de reagir. Talvez deduzam que, mesmo sendo um discurso político, pode haver provas e, se as há, qualquer movimento em falso faz o caso virar um incontrolável "mensalão". 155
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    A ENTREVISTA ÀVEJA O senador Renan Calheiros, de volta ao cargo de líder do partido depois de graves acusações que sofreu no campo da moral e da ética, faz-se de mouco. O senador José Sarney, presidente do Senado, não repudia a constatação de que sua eleição é retrocesso e continua, como esteve durante a campanha, sem dizer qual projeto tem à frente da Casa. Seus mais próximos preferem apegar-se à ideia de que é possível explorar uma ambiguidade, de resto inexistente, no conceito de que o presidente vai transformar o Senado em um "grande Maranhão". Resolveram achar poético, romântico, como a censura certamente achou quando liberou Chico Buarque na ironia à ditadura, ao prever que "esta terra ainda vai tornar-se um imenso Portugal". Renan e Sarney apadrinham a maior parte dos cargos que o PMDB quer, na avaliação do senador Jarbas Vasconcelos, para fazer negócios e ganhar comissões. A maioria do partido se especializou, reforça o senador, "nessas coisas pelas quais os governos são denunciados: manipulação de licitações, contratações dirigidas, corrupção em geral". Os jornais mostraram ontem que a metade dos senadores do PMDB responde a inquéritos ou ações penais no Supremo Tribunal Federal. Segundo levantamento do jornal O Globo, 40% da bancada peemedebista do Senado são investigados por crimes de corrupção, formação de quadrilha, falsidade ideológica, compra de votos. Jarbas Vasconcelos não foi, como se vê, leviano nem injusto. Fez uma manifestação política, e é pena que os políticos recusem mais esta oportunidade de recomeçar do zero. Rosângela Bittar é jornalista, colunista do jornal “Valor Econômico” 156
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “EU SOU, MAS QUEM NÃO É?” Editorial d’O Estado de S.Paulo (18 de Fevereiro de 2009) Seria de rir, não fosse de chorar - pelo que evidencia da miséria moral da política brasileira - a nota com que o PMDB se manifestou sobre a entrevista do senador pernambucano Jarbas Vasconcelos, um dos fundadores da legenda, em que ele acusa "mais de 90%" dos seus correligionários de praticar o clientelismo, no escambo do apoio aos governantes de turno, em troca, principalmente, de cargos. Em raquíticas oito linhas, a Executiva Nacional peemedebista faz saber que não dará "maior relevo" às denúncias, desqualificadas como mero "desabafo". Tivesse a agremiação um átimo de pudor, chamaria o dissidente às falas porque o seu assim denominado desabafo expõe o cerne do comportamento fisiológico que de há muito se tornou a razão de ser desse que é o carro-chefe do sistema partidário nacional. Pois quando fala do apetite compulsivo do PMDB por cargos, o senador observa que a ocupação de espaços na máquina federal não se explica basicamente pela busca de dividendos políticos, portanto eleitorais, que o enfeudamento rende aos ocupantes e, sobretudo, aos seus padrinhos. Se disso se tratasse, até que não seria o pior dos mundos, descontada, vá lá, a promiscuidade que desnatura o princípio constitucional da impessoalidade da administração pública e das decisões de Estado - e a entrevista do senador não passaria de uma dissertação superficial sobre o toma-lá-dá-cá nas relações de poder no País. Só que ele atingiu a veia da questão ao dizer que a 158
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    A ENTREVISTA ÀVEJA maioria dos peemedebistas interessados em cargos "se especializou nessas coisas pelas quais os governos são denunciados: manipulação de licitações, contratações dirigidas, corrupção em geral". E, para o caso de alguém ainda não ter entendido, cravou: "Boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção." Diante disso, com a sua murmurada resposta, o baronato partidário passou o proverbial recibo ao denunciante, elevando inadvertidamente os seus argumentos à categoria de constatação de uma realidade objetiva. Ao mesmo tempo, a cúpula deixou subentendido o paradoxo que é a marca de Caim da sigla - e, diga-se desde logo, não apenas desta. Sim, porque, tivessem esses cavalheiros algum resquício de pudor, como se mencionou acima, iriam com tudo contra quem não mediu palavras para dizer a que vem "boa parte" deles. Mas, fizesse o pudor parte de seu padrão de atuação política, não seriam o que são, e o libelo que caiu sobre as suas cabeças teria tanta contundência quanto um tiro de pólvora seca. Em desespero de causa, a nota acusa Vasconcelos de lançar a pecha de corrupção a todo o sistema político, por ter ele afirmado que "a corrupção está impregnada em todos os partidos". Praticamente dá para ouvir os autores repetindo, em coro, o velho bordão do personagem de Chico Anísio: "Sou, mas quem não é?" Dizem eles ainda que não darão "maior atenção" às suas palavras "em razão da generalidade das acusações". Efetivamente, ele "não aponta nenhum fato concreto que fundamente suas declarações". Vasconcelos se deteve apenas no episódio do colega Renan Calheiros, que em dezembro de 2007 renunciou à presidência do Senado dentro de um arranjo para não ser cassado por quebra de decoro no affair do lobista que pagava as suas contas. Refeito, assumiu a liderança da bancada peemedebista na 159
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    A ENTREVISTA ÀVEJA Casa e foi um dos mais notórios cabos eleitorais do bom amigo José Sarney, cuja volta ao comando do Senado, pela terceira vez, Vasconcelos considera "um completo retrocesso". "Não quero citar ninguém por enquanto", justifica-se. "Tenho de ter o mínimo de estratégia." Mas os fatos falam - ou, melhor, clamam - por si. Para não ir mais longe, a própria representação do PMDB na Câmara Alta é uma usina de indícios veementes de impropriedades. A legenda tem 20 senadores. Basta uma simples consulta à base de dados do Supremo Tribunal Federal (STF) para verificar que 1 de cada 2 deles responde a processo ou está sob investigação. Tudo somado, são 13 inquéritos, 4 ações penais e 5 investigações. Envolvem peixes graúdos, como o líder do governo Romero Jucá, alvo de dois inquéritos, e senadores sem voto, como Edison Lobão Filho. O "per capita" é inigualável, o que representa uma proeza e tanto, mesmo sendo o que é "boa parte", como diria Vasconcelos, dos políticos brasileiros. A tempo: além de Pedro Simon, o único peemedebista de 1º escalão que apoiou Vasconcelos foi Orestes Quércia... 160
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “A BRAVURA DO INCORRUPTÍVEL” 161
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “A BRAVURA DO INCORRUPTÍVEL” Augusto Nunes (18 de fevereiro de 2009) Parece mentira, mas existe a oposição parlamentar que o Brasil decente merece. Chama-se Jarbas Vasconcelos, é senador pelo PMDB de Pernambuco, pertence à espécie em extinção dos políticos incorruptíveis e desde o começo da semana, como convém a raridades admiráveis, está exposto à visitação pública nas páginas amarelas da revista Veja. Vale a pena conhecer alguém que vê as coisas como as coisas são ("O Bolsa Família é o maior programa oficial de compra de votos do mundo"). Que conta o caso como o caso foi ("A maioria dos peemedebistas se especializou em manipulação de licitações, contratações dirigidas, corrupção em geral. Boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção"). E que diz sem medo o que pensa. "Um governo que deixou a ética de lado, que não fez as reformas nem fez nada pela infraestrutura agora tem como bandeira o PAC, que é um amontoado de projetos velhos reunidos num pacote eleitoreiro". Anestesiado pelo que o entrevistado chama de "banalização do escândalo", rendido à "mediocridade que contamina", feliz com um presidente que "não tem nenhum compromisso com as reformas ou com a ética", o Brasil do faz-de-conta continuou esperando os pesquisadores do Sensus para informar que o coro dos contentes passou de 90%. Decididos a não melindrar o adversário de estimação, os partidos de oposição se solidarizaram silenciosamente com os culpados. E os acusados engoliram aplicadamente as verdades indesmentíveis. Nascido e criado na Zona da Mata, Jarbas tinha 12 anos quando ouviu do pai, um funcionário público 162
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    A ENTREVISTA ÀVEJA rude e reto, a frase que ficaria marcada a ferro na memória. "Nunca volte para casa com marcas de briga nem dizendo que achou dinheiro na rua". O menino assimilou a lição pela metade: foi sempre irretocavelmente honesto, mas jamais fugiu de briga boa. Na década de 70, o deputado estadual que fundara o MDB pernambucano brigava pela ressurreição da democracia e contra a ditadura. Aos 66 anos, briga pela restauração da ética, da moralidade e de outros valores revogados pela aliança dos fora-da-lei. "Os fatos! Os fatos!", resolveram cobrar jornalistas aparentemente alcançados pela epidemia de cegueira conveniente. "Os nomes! Os nomes!", exclamaram, animaram-se nas colunas de leitores alguns idiotas da objetividade. É só teclar as palavras "corrupção" e "partidos" nos sites de busca na internet, poderia ter sugerido Jarbas na entrevista coletiva em que reafirmou o que dissera à Veja. Dispensara-se de acusações detalhadas, informou, por falta de espaço para tantas. Caso continuem ofendidos, não custa lembrar, os que viram nas constatações feitas por Jarbas uma afronta sem fundamento a legendas imaculadas estão novamente convidados a buscar alívio na internet. Os simpatizantes do PMDB podem digitar no Google nomes como Valdir Raupp, Renan Calheiros, Romero Jucá - ou apenas a sigla do partido. Para os petistas, basta uma palavra: mensalão. "O PMDB não tem nada a ver com o partido que combateu o regime militar", constatou Jarbas. Por que não muda de sigla? "Para onde irei?", respondeu o senador com outra pergunta. Melhor esperar a hora de fundar algo melhor no partido obrigado a tolerar o dissidente. Sobram-lhe amigos no PSDB, mas falta o que chama de "formação tucana". E está cada vez mais distante do PT e do presidente. "O Partido dos Trabalhadores se apresentou como templo da moralidade até chegar ao 163
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    A ENTREVISTA ÀVEJA poder", lembrou. "Quando deixou cair a máscara, abriu a porta para a corrupção". No fim de 2002, animado com o triunfo de "um ex-operário que havia se comprometido com a sociedade a promover reformas e governar com ética", propôs que o PMDB apoiasse Lula "sem cargos nem benesses". Não demorou a decepcionar-se com o presidente que prefere fazer amigos e conquistar aliados por outros meios. "Sempre houve corrupção, mas o governo Lula provocou a banalização do escândalo", registrou. "O Médici também era endeusado no Nordeste, mas ninguém desistiu de combater a ditadura por isso", argumentou para justificar o desembaraço com que atravessa o samba-exaltação composto por institutos de pesquisa. Em três páginas, Jarbas resumiu a extensa plataforma que deveria ser encampada pelos partidos de oposição. Isso se ainda existissem. Augusto Nunes é jornalista. 164
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “ENCARCERADO NO PMDB” Maria Cristina Fernandes (20 de Fevereiro de 2009) Só há dois tipos de políticos: aqueles que levantam grana para fazer política e os que fazem política para levantar grana. O senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) tem militado ao longo de seus 40 anos de vida pública na primeira categoria. Nesta militância tem companheiros egressos de quase todos os partidos. É compreensível que se sintam minoritários face ao portentoso exército que cerra fileiras do outro lado. Mas não é esta militância, de um lado ou do outro, que pavimenta a chegada ao poder. É a política. E não são visíveis hoje os rumos da oposição neste campo. É este o resumo da entrevista do senador à 'Veja'. Não é a primeira vez que Jarbas se rebela contra seu partido ou contra o poder. O que impressiona é como a oposição à qual hoje se filia tenha sido capaz de encarcerar um espírito como o seu nos limites das páginas de uma revista. O senador pernambucano resistiu ao golpe militar abrindo diretórios do MDB pelo interior de seu Estado; rebelou-se contra a eleição indireta, ausentando-se do colégio eleitoral que escolheu Tancredo Neves; e segurou, como presidente do partido, a campanha de Ulysses Guimarães, quando a maioria de seus correligionários pulava para o barco de Fernando Collor de Mello. Fez política nadando contra a maré dentro do PMDB, mas não se furtou a deixá-lo quando viu sua carreira ser ameaçada pela burocracia do partido que, em 1985, montou uma convenção municipal para derrotar suas pretensões de se candidatar a prefeito do Recife. 166
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    A ENTREVISTA ÀVEJA Jarbas saiu do PMDB e foi para o PSB, quando montou a chamada "Frente Popular do Recife", reunindo PT e PCdoB, além do então deputado federal Miguel Arraes, com quem depois romperia. Elegeu-se prefeito do Recife derrotando um obscuro deputado lançado por seu partido. Passadas as eleições, Jarbas voltou para o PMDB e foi, paulatinamente, reconquistando a legenda. A eleição que salvou a carreira política do então deputado federal, tendo sido determinante para a história do Estado naquele momento de retomada do poder pelos civis, só foi possível graças a uma infidelidade partidária. Hoje a história não se repetiria face à decisão dos tribunais superiores de que o mandato é dos partidos, saudada como indício de moralização dos costumes políticos. Foi uma decisão ansiosamente aguardada pelos partidos de oposição, que nela viram a salvaguarda para a defecção de seus correligionários rumo ao curral governista. E teve entusiasmado apoio do próprio Jarbas. Ainda é cedo para se concluir que o PMDB vai compor chapa com a ministra Dilma Rousseff, mas, para ser substantivo, um movimento pró-Serra no partido hoje teria que partir de posições que internamente detenham poder, como o presidente da Câmara, Michel Temer (SP). Se a cacicada do PMDB, com os redobrados poderes da fidelidade partidária, limita seus movimentos na política nacional, o senador também enfrenta problemas no plano regional. Ao contrário do senador Pedro Simon (PMDB-RS), que atira para o céu e preserva pontes na terra face a interesses do governo de sua aliada Yeda Crusius (PSDB), Jarbas hoje tem mitigadas chances de ver seu grupo retomar o poder em Pernambuco. O governador do Estado, Eduardo Campos (PSB), está na faixa dos 80% de aprovação e conta com o apoio da 167
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    A ENTREVISTA ÀVEJA quase totalidade dos 49 deputados da Assembleia Legislativa. Na última vez que foi ao Recife, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalizou publicamente sua candidatura à reeleição. No início do primeiro governo Lula, quando o ex- ministro José Dirceu (PT) tentou fechar uma aliança com o PMDB que só viria a se concretizar anos mais tarde, o então governador Jarbas Vasconcelos foi a ponta de lança dessa aproximação, respaldada pela simpatia do presidente que nunca esqueceu da visita que o então emedebista lhe fez na prisão. Dirceu chegou a almoçar no Palácio do Campo das Princesas com Jarbas. Comunicou ao então deputado Eduardo Campos que, em 2006, o lulismo juntaria o então governador e o prefeito do Recife à época, João Paulo (PT), numa única chapa como candidatos, respectivamente, ao Senado e ao governo do Estado. Veio o mensalão, Dirceu caiu e Jarbas acabou se afastando da esfera petista. Eduardo Campos, que saiu do ministério da Ciência e Tecnologia para reforçar a retaguarda governista na Câmara no auge do mensalão, foi ganhando espaço até que, em 2006, derrotou o candidato jarbista à sua sucessão. Na entrevista, o senador diz não ter mais pretensão de disputar cargos. Seus correligionários no Estado ficaram em polvorosa, mas não há motivos para desacreditar dele. Maria Cristina Fernandes é jornalista, editora de Política do jornal “Valor Econômico” 168
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “É PRECISO PUNIR” Veja - (Carta ao Leitor, 20 de Fevereiro de 2009) A entrevista de Jarbas Vasconcelos, publicada na edição passada de VEJA, deixou Brasília em estado de perplexidade. À explicitação – tão serena quanto desencantada – do senador pernambucano de que seu partido, o onipresente PMDB, é um ninho de corrupção e fisiologismo, o Palácio do Planalto, que dá mundos, fundos e latifúndios para manter a agremiação na base governista, não se manifestou. Preferiu apostar no poder dissipador de crises do Carnaval brasileiro. A oposição, por sua vez, conseguiu produzir um silêncio ainda mais eloquente: afinal de contas, como romper um namoro, com vistas à eleição presidencial de 2010, que pode dar em casamento? A reação mais reveladora do grau de esgarçamento da política brasileira partiu, no entanto, da cúpula peemedebista. Diante da afirmação, feita por um integrante histórico do partido, de que "boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção", os caciques da agremiação divulgaram uma nota vaga em que o acusam de lançar uma sombra de suspeição sobre todo o sistema e deram o assunto por encerrado. Mais nada. Não recorreram nem mesmo àquele vício que presta elogio à virtude, o da hipocrisia. Hipocrisia de afirmar, por exemplo, que seria aberta uma sindicância interna ou que Jarbas seria chamado a se explicar. Ao comentar a repercussão da entrevista de Jarbas junto à cúpula do PMDB, o jornal O Estado de S. Paulo, em editorial, deu-lhe contornos definitivos: "Com sua murmurada resposta, o baronato partidário passou o 170
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    A ENTREVISTA ÀVEJA proverbial recibo ao denunciante, elevando inadvertidamente os seus argumentos à categoria de constatação de uma realidade objetiva". As reações partidárias são um péssimo termômetro para medir a febre de corrupção que desde sempre acomete o tecido político do país – em seus níveis municipal, estadual e federal. Para avançar nessa questão, a sociedade brasileira não pode deixar cair no vazio a entrevista corajosa do senador. VEJA espera ajudar nesse sentido, com a reportagem que começa na página 44. Além de revelar detalhes do antigo caso de amor do PMDB com o dinheiro do contribuinte, a reportagem elenca os caminhos mais factíveis para tentar deter as delinquências na esfera pública. A transparência nos gastos, gestão eficiente e, principalmente, o fim da impunidade de corruptores e corruptos, tais são as linhas mestras. O Brasil é um país mais corrupto do que muitos não porque nossa índole seja pior do que a de outros povos. O que nos é peculiar nesse campo é a impunidade. Os corruptos se beneficiam principalmente de um sistema judicial convoluto, que permite recursos, manobras e adiamentos praticamente sem fim. O resultado disso tudo é o incentivo à prevaricação. Essa lógica precisa ser invertida, de modo que roubar dinheiro público se torne complexo e a punição aos culpados, inescapável. Só assim as coisas começarão a mudar no Brasil. 171
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “ASSINAREI EMBAIXO” Cristovam Buarque (20 de Fevereiro de 2009) Nesta semana, a revista Veja publicou uma entrevista com o senador Jarbas Vasconcelos que ficará na história como uma das mais fortes tomadas de posição feita por um político brasileiro. Apesar da discordância de muitos, sua entrevista diz o que muitos pensam e não quiseram, não tiveram grandeza ou oportunidade para dizer. Nenhum líder brasileiro pode ficar omisso. Todos os políticos com cargo eletivo têm obrigação de exigir que as denúncias sejam apuradas. Não se pode deixar de refletir e tomar posição quando ele afirma que “a eleição de Sarney foi um processo tortuoso e constrangedor. Um completo retrocesso. Tião Viana, embora petista, estava comprometido em recuperar a imagem do Senado.” Ele diz que esta eleição “reflete o que pensa a maioria dos colegas parlamentares.” Foi por causa dessa maioria que, há dois anos, o senador Jefferson Peres teve a coragem de dizer que não pretendia candidatar-se outra vez, com a mesma ênfase de Jarbas dizendo agora que: “às vezes eu me pergunto o que vim fazer aqui”. Porque “o nível dos debates é inversamente proporcional à preocupação com as benesses”. As declarações relacionadas com o PMDB seriam um assunto interno, se ele não fosse o maior partido, com o controle das duas Casas do Congresso e poder de fazer refém o próprio Executivo. O senador Jarbas diz com toda força que o líder de seu partido no Senado “não tem nenhuma condição moral ou política para ser senador”. 173
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    A ENTREVISTA ÀVEJA Mais grave será se a entrevista do senador Jarbas não tiver consequências. Se nada for feito, o Senado atestará sua tolerância com as acusações. Ou o senador Jarbas está fazendo acusações injustas e merece ser punido, ou ele está dizendo a verdade e é preciso punir que está desmoralizando a política brasileira. Pior será se, em vez de abrirem processo para saber quem está com a verdade, os acusados usarem o poder que têm para punir o senador. Neste caso, é preciso que outros assinem embaixo da entrevista de Jarbas Vasconcelos, para que as acusações sejam apuradas. Qualquer medida contra o senador Jarbas tomada pela direção do PMDB sem um debate transparente, um julgamento aberto, confirmará suas acusações e será um atestado adicional de desmoralização dos que hoje controlam o poder legislativo brasileiro e, por meio dele, toda a República brasileira. Jarbas disse na entrevista que o PMDB quer cargos “para fazer negócios, ganhar comissões. Alguns ainda buscam o prestígio político. Mas a maioria dos peemedebistas se especializou nessas coisas pelas quais os governos são denunciados: manipulação de licitações, contratações dirigidas, corrupção em geral.” Essa acusação toca não só ao maior e mais forte partido do País, mas também aos governos dos quais o PMDB faz parte: Federal, Estaduais e Municipais. E, indiretamente, a todos os partidos brasileiros que, por isso mesmo, deveriam ter interesse na apuração das denúncias. Esse tema diz respeito a todos os líderes do País, ao governo federal, ao Senado e à Câmara de Deputados, ao Poder Judiciário. Especialmente ao Ministério Público. Por isso, se o assunto não for devidamente apurado, ou se o senador Jarbas for punido por ter tido coragem de dizer o que pensa sem ser desmentido por um processo 174
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    A ENTREVISTA ÀVEJA transparente, é preciso que outros reforcem as acusações que ele fez, nem que seja para que elas sejam apuradas. Com este artigo, estou pré-assinando embaixo do que disse o senador Jarbas, se suas acusações não forem apuradas ou se ele for punido pela coragem de dizer o que pensa o povo brasileiro. Cristovam Buarque é senador da República 175
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “O QUADRO ATERRADOR DA CORRUPÇÃO” 176
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “O QUADRO ATERRADOR DA CORRUPÇÃO” Editorial do O Estado de S.Paulo (5 de Março de 2009) A escandalosa tentativa do PMDB, na semana passada, de assumir o controle da Fundação Real Grandeza, responsável pelo fundo de pensão dos funcionários de Furnas e da Eletronuclear, o sexto maior do gênero, foi, sem tirar nem pôr, o que dela viria a dizer o senador peemedebista Jarbas Vasconcelos: uma prova "clara e inequívoca" da procedência de suas denúncias sobre o que move o grosso do seu partido quando trata de ocupar espaços estratégicos na área federal. "Boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção", acusou o representante pernambucano em recente entrevista à Veja. Apesar da operação-abafa da cúpula partidária, as suas declarações configuraram um fato político destinado a permanecer em cena por mais tempo do que desejariam os denunciados - e o governo que lhes entrega sossegadamente as chaves da casa. Na terça-feira, Vasconcelos voltou à carga da tribuna do Senado, cobrando "ações corretivas" contra "a degradação pública do sistema político brasileiro", a começar da armação conduzida pelo ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, outro peemedebista, para derrubar os administradores do fundo de pensão Real Grandeza. Ele os acusou de fazerem "uma bandidagem completa" e "grande safadeza". O ministro levou um contravapor do presidente Lula, mas fingiu que não era com ele. "As pessoas", comentou em termos gerais um desacorçoado Vasconcelos, "se agarram 177
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    A ENTREVISTA ÀVEJA aos cargos como um marisco no casco de um navio - não caem nem nas maiores tempestades." A craca prolifera no ambiente de impunidade. E esta, apontou o senador, "se estabelece em bases sólidas num terreno cada vez mais fértil". Eis por que ele tem razão ao exigir que o episódio do Real Grandeza não fique por isso mesmo. Talvez a "auditoria independente" que propôs não seja a melhor alternativa para deixar o caso em pratos limpos. Mas o que não se pode, mais uma vez, é "deixar a poeira baixar, esperando que a história seja esquecida, abafada por um novo escândalo". O universo dos fundos de pensão das estatais, por sinal, é uma das arenas mais ensanguentadas onde se entredevoram as principais legendas da opulenta base governista. "A população", observou Vasconcelos, "não compreende o porquê da disputa ferrenha entre grupos partidários, sempre envolvendo empresas de orçamentos bilionários." Os dez maiores fundos administram carteiras de investimentos que somam mais de R$ 226 bilhões. Não é difícil imaginar a cadeia de apetites ao redor dessa bolada. Isso não faz necessariamente dessas instituições antros de corrupção. Mas é fato que os recursos do Real Grandeza, por exemplo, abasteceram o valerioduto, conforme apurou a CPI do Mensalão. Seis daqueles dez fundos são controlados pelo PT, vale dizer, pelo apparat sindical ligado ao partido - em especial, ainda hoje, por apadrinhados dos companheiros ex-ministros José Dirceu e Luiz Gushiken. O PMDB, entre outros, não se conforma com isso. O resultado é uma briga suja de máfias partidárias. Do ângulo do interesse público, o problema é que, "nessa mistura de partido, governo e sindicatos, ninguém sabe onde está o Estado, que acaba se dissolvendo em 178
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    A ENTREVISTA ÀVEJA interesses múltiplos", como diz o presidente do PSDB, senador Sergio Guerra, em um raciocínio que se encaixaria à perfeição no discurso de Vasconcelos. "Foi isso que gerou o mensalão." Ele não exagera ao classificar de "aterrador" o quadro da corrupção na esfera federal, muito menos ao assinalar que o cenário vinha sendo encoberto pelos bons resultados da economia - para o conforto de um presidente que prometera, na primeira campanha ao Planalto, "uma intervenção enérgica pelo fim da impunidade e uma ampla ação cultural educativa pela afirmação dos valores republicanos e democráticos em nossa vida política", lembrou o senador. Mas Lula dirigiu as suas energias para adquirir o apoio, com a devida paga, da ampla banda podre da política nacional. Amargo sinal dos tempos: por "constatar o óbvio, apenas isso", Jarbas Vasconcelos foi afastado da Comissão de Constituição e Justiça do Senado. A decisão foi do líder do PMDB na Casa, ninguém menos do que Renan Calheiros, outro dos amigos do peito do presidente. São políticos dessa, digamos, categoria que dão as cartas no Brasil do lulismo. 179
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “UM GRANDE MARANHÃO” Demétrio Magnoli (5 de Março de 2009) "Hoje, o PMDB é um partido sem bandeiras, sem propostas, sem um norte. É uma confederação de líderes regionais, cada um com seu interesse, sendo que mais de 90% deles praticam o clientelismo, de olho principalmente nos cargos." Na sua recente entrevista à Veja, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) concluiu explicando o motivo por que seu partido quer cargos. "Para fazer negócios, ganhar comissões. Alguns ainda buscam o prestígio político. Mas a maioria dos peemedebistas se especializou nessas coisas pelas quais os governos são denunciados: manipulação de licitações, contratações dirigidas, corrupção em geral." Antes que secasse a tinta que imprimiu as declarações de Jarbas, como se para comprová-las e ridicularizar a nota de frouxa indignação emitida pelo PMDB, veio à luz o episódio exemplar do Real Grandeza, o fundo de pensão de Furnas. A operação de tomada de assalto da direção do fundo, que administra um patrimônio de R$ 6,3 bilhões, foi tramada dentro do Executivo, pelo ministro Edison Lobão, que agia ostensivamente em nome do PMDB, e brecada na última hora por intervenção de um presidente da República acossado pela mobilização dos funcionários e pensionistas da estatal. Lobão abriu sua ofensiva por meio de uma entrevista a O Globo na qual acusou os dirigentes do Real Grandeza de praticarem "uma bandidagem completa" e promoverem "uma grande safadeza" com a finalidade de "não perder a boca". Se as palavras do ministro tivessem significado, ele 181
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    A ENTREVISTA ÀVEJA pediria demissão na hora em que foi desautorizado pelo presidente. Na outra ponta, Lula não o desautorizaria sem o demitir se a privatização da coisa pública não fosse moeda corrente no negócio que mantém com o PMDB. Mas Lula e Lobão nem sequer coraram: eles conhecem as regras do jogo. Pedro Simon, um homem inocente, exigiu de Jarbas uma lista de nomes dos corruptos. Jarbas não fez uma denúncia de corrupção, mas um diagnóstico político, que solicita complementos. O sistema político brasileiro, reorganizado nos estertores da ditadura militar, articula-se ao redor de quatro grandes partidos: PT, PSDB, DEM e PMDB. Os três primeiros veiculam, bem ou mal, narrativas ideológicas sobre o Brasil e o mundo. O quarto, contudo, não é de fato um partido, mas a expressão maior do cancro patrimonialista que envenena todo o sistema político. No fundo, o PMDB é uma abóbada sob a qual se abrigam comandos de captura parcelar do Estado. "O patrimonialismo é a vida privada incrustada na vida pública", escreveu Octavio Paz. Na mesma passagem de O Ogro Filantrópico, ele aponta o paradoxo crucial do Estado mexicano, que foi "o agente principal da modernização", mas "ele mesmo não conseguiu se modernizar inteiramente". O peso do passado manifesta-se na atitude do chefe do governo, que "considera o Estado como seu patrimônio pessoal" e, por essa razão, o corpo de funcionários públicos, "dos ministros aos contínuos e dos magistrados e senadores aos porteiros, longe de constituir uma burocracia impessoal, forma uma grande família política ligada por vínculos de parentesco, amizade, compadrio, conterraneidade e outros fatores de ordem pessoal". O Brasil não experimentou uma revolução que se institucionalizasse como partido oficial. Mas aqui, como lá, 182
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    A ENTREVISTA ÀVEJA jamais se traçou uma fronteira nítida entre a "vida privada" e a "vida pública". O PMDB só existe porque inexiste essa fronteira. Um tema crucial na literatura de oposição à ditadura militar brasileira era a crítica ao poder da chamada tecnoburocracia. Os militares excluíram os políticos do núcleo do aparelho de Estado. A Arena, partido oficial da situação, acolheu a parcela da elite política conformada com a subordinação imposta. No MDB, partido oficial da oposição, abrigaram-se os políticos insatisfeitos, que almejavam retornar ao centro do palco. A transição negociada de Ulysses Guimarães e Tancredo Neves representou um triunfo do MDB. A tecnoburocracia retrocedeu e restaurou-se o acesso da elite política às fontes da riqueza pública. Sob a Presidência de Sarney, o líder da Arena transferido para o PMDB, salgou-se a terra em que germinava a oportunidade de uma reforma modernizante do Estado. No México dos tempos áureos do PRI, as maiorias parlamentares eram automáticas. No Brasil, são construídas pelo Executivo, por meio da privatização oculta dos fragmentos mais cobiçados do aparelho de Estado. A corrupção é a face complementar da degradação do Parlamento. O PMDB é, por natureza, o eterno partido da situação. De Sarney a Lula, o partido sem programa nem ideias configurou as maiorias governistas de todos os presidentes. Agora, no acender das luzes da campanha de 2010, os peemedebistas formam provisórias colunas distintas, alinhadas atrás dos principais candidatos ao Planalto. O PMDB estará na próxima base governista, com Serra, Dilma, Aécio ou Ciro, praticando o esporte em que se especializou: chantagear presidentes, vendendo apoio parlamentar em troca de cargos que servem como chaves 183
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    A ENTREVISTA ÀVEJA para "manipulação de licitações, contratações dirigidas, corrupção em geral". O PMDB descrito por Jarbas, uma hidra de múltiplas cabeças, tem em Sarney sua figura icônica. O representante parlamentar do poder militar em crise, o presidente improvável que distribuía freneticamente concessões de rádio à sua vasta corriola enquanto o País naufragava no mar da hiperinflação, o "oligarca eletrônico" do pobre Maranhão, na síntese precisa empregada pela revista The Economist, converteu-se anos atrás em aliado interessado de Lula. Nessa condição, ele controla uma fatia do Estado, na qual se encontram o Ministério e as estatais subordinadas a seu afilhado político Lobão. Agora, com o patrocínio de um Lula que só tem olhos para 2010, a personificação do patrimonialismo retorna à presidência do Senado. Como disse Jarbas, seu desígnio é transformá-lo "em um grande Maranhão". Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP 184
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “A LUTA DE JARBAS” Roberto Magalhães (12 de Março de 2009) Os pernambucanos acompanham a história de Jarbas Vasconcelos desde o seu surgimento na vida política do nosso Estado, ainda na década de 60. Nos anos que se seguiram e até os dias atuais, o militante corajoso e afirmativo expandiu suas fronteiras de atuação, exercendo mandatos em diferentes esferas federativas. Foi deputado estadual, deputado federal, prefeito do Recife, governador do Estado e, atualmente, senador da República. Não é surpresa para todos nós, amigos, correligionários e adversários, vê-lo crescer na confiança e no respeito da opinião pública nacional, ao denunciar o estado de desorganização, de inversão de valores e de decadência dos costumes políticos, de partidos e de instituições públicas, pela ação predatória de agentes políticos, burocratas, lobistas e congêneres. Vale lembrar palavras de Jarbas em seu discurso, no Senado, em 3 de março de 2009: “O exercício da política não pode ser transformado em um balcão de negócios. O que se vê hoje no nosso País é um sentimento de descrença, com a impunidade corroendo as bases da democracia. O poder pelo poder leva ao quadro político degenerado que hoje vivemos em nosso País, no qual a esperteza é mais valorizada que a inteligência e a correção ética.” O senador identifica as distorções do modelo eleitoral como a matriz da quebra dos valores e da contaminação dos mandatos pela corrupção. O financiamento privado e o voto 186
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    A ENTREVISTA ÀVEJA em lista aberta são a porta larga para a compra de votos e o comprometimento do processo democrático. A reforma política é, em seu juízo e no de políticos responsáveis, urgente e indispensável, a partir do financiamento público de campanhas eleitorais associado à fidelidade partidária. Jarbas produziu um discurso sereno, lúcido e corajoso, ao catalogar alguns episódios como a recente luta travada entre o PMDB e o PT pelo controle do Real Grandeza, fundo de pensão dos funcionários da estatal Furnas Centrais Elétricas S.A. Ele aponta, também, a elaboração e execução do Orçamento Geral da União como espaço para a degradação do exercício da política. Condena a entrega de cargos de gestão financeira por indicação de partidos ou parlamentares, propondo lei que exija o exercício desses cargos por servidores de carreira, previamente aprovados pelo Senado. Os casos ocorridos recentemente envolvendo representantes dos Poderes Executivo e Legislativo, como a briga por fundos de pensões, a descoberta de mansão e castelo ocultos e o encontro do presidente com quase quatro mil prefeitos, em Brasília, para fazer campanha prematura da ministra-candidata, confirmam a urgência de se colocar freios à indevida utilização dos instrumentos de poder do Estado. É preciso despertar a indignação adormecida da sociedade se quisermos converter a incredulidade e passividade em ações concretas contra a corrupção. Na edição nº 2.103 da Veja, de 11 de março, temos o anúncio de um novo fato indecoroso: a conhecida empresa internacional Kroll, que presta serviços de espionagem, teria contactado detetives em Pernambuco para investigar a vida do senador pernambucano e familiares, procedimento intolerável. 187
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    A ENTREVISTA ÀVEJA Já não há lugar para a omissão. Mas é animador saber do apoio de brasileiros de várias regiões à reconstrução de um regime de moralidade administrativa e de ética política em nosso País, conforme registra a mídia nacional. Jarbas Vasconcelos revela-se sintonizado com a melhor tradição pernambucana de não faltar ao País, quando necessário se faz levantar a voz e partir para a luta em defesa dos elevados interesses da Nação. Roberto Magalhães, advogado, foi Vice-Governador de Pernambuco, Governador de Pernambuco, Prefeito do Recife e Deputado Federal 188
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “JARBAS E BRUZUNDANGA” 189
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “JARBAS E BRUZUNDANGA” Gustavo Krause (13 de Março de 2009) Quem ficou surpreso com a entrevista do senador Jarbas Vasconcelos, não o conhece ou, deliberadamente, esquece sua trajetória política. Nem os mais ferrenhos adversários podem lhe negar os atributos do destemor e coragem cívica. Correu riscos efetivos se colocando entre os chamados autênticos do então MDB em todo processo político de transição do regime autoritário para o regime democrático. Outro ponto relevante: franqueza e lealdade para com os adversários e aliados, a despeito da retórica contundente. É o seu estilo. Seu modo de fazer política. E estilo é como o nariz, cada um tem o seu. Não significa que seja melhor ou pior, que garanta maior ou menor sucesso na competição política, até porque não existe uma receita pronta para o que se possa considerar êxito nesta complexa empreitada. É diferente. E esta diversidade de estilos é que dá um colorido à vida e, em especial, à vida das democracias. Em certos momentos, Jarbas não hesita em usar o martelo. No mundo das ideias e no espaço da política, há momentos em que é preciso usar o martelo. Existiam e existem intelectuais, jornalistas, pensadores que "filosofam com o martelo" e investem contra ideias dominantes, verdades cristalizadas, e dogmas irredutíveis. Existiam e existem políticos que, vez por outra, largam de mão as conveniências, os panos mornos, a dissimulação, para dar um choque no faz de conta da realidade mistificada. Usa o martelo. Ou a alta voltagem do que Dora Kramer, 190
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    A ENTREVISTA ÀVEJA socorrendo-se de Al Gore, chamou de "verdade inconveniente". É preciso, de vez em quando, dar e receber choques. É preciso chacoalhar a letargia do conformismo, a subserviência asquerosa, a indignação reprimida, a venalidade descarada sem medir preços e consequências imediatas. O futuro manifestará, mais cedo ou mais tarde, um agradecido reconhecimento. E não me venham com o argumento cínico do "tem que provar". Jarbas não usou a retórica jurídica. Não falou como advogado, logo seu discurso não é o libelo dos tribunais do júri. Jarbas se expressou através de um dos direitos fundamentais do estatuto universal dos direito políticos: o direito de opinião. No caso dele, senador, devidamente protegido pela imunidade parlamentar cuja serventia é, precisamente esta, e não assegurar a impunidade dos delinquentes, travestidos de representantes do povo. Para denunciar o lodo moral e a mediocridade política, cada um usa a arma de que dispõe. Jarbas usa o mandato de senador e a retórica política, legitimado que está, como representante do povo pernambucano. Outros, um escritor, por exemplo, usa a literatura para desvendar o Brasil real aos olhos embaçados de sua população. Isto me remete a uma obra clássica de Lima Barreto Os bruzundangas, postumamente publicada (1923). O mulato Afonso Henriques de Lima Barreto foi grande escritor e jornalista. Encarava a literatura com uma função social. Suas assumidas inclinações anarcosocialistas, inspiraram a crítica mordaz da sociedade de sua época, notadamente da República Velha e, como escritor militante, alimentava ele a esperança de despertar forças renovadoras de costumes sociais e práticas políticas. 191
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    A ENTREVISTA ÀVEJA O autor de O triste fim de Policarpo Quaresma, um mestre da sátira e da ironia, retrata, em diário de viagem, um país imaginário cujas mazelas – os privilégios, o poder oligárquico, as sanguessugas do erário, as desigualdades sociais, os apaniguados, os retrógrados, as propinas, o nepotismo – estavam entranhados nos costumes e na cultura política. Bruzundanga, que era um decalque ficcional do Brasil, estava, assim, organizado: o presidente, um deslumbrado idiota, era o "Mandachuva", a Justiça era denominada "Chicana", dez mil burocratas, não concursados (comissionados de hoje), formavam a "Guarda do Entusiasmo", uniformizados de "povo", para dar "vivas" ao chefe sem risco de a massa ignara errar o seu nome, o grande nome das finanças era o deputado Felixhimino Ben Karpatoso, situacionista e continuista, relator do orçamento que pregava menos impostos e aumentava a taxa sobre "o bacalhau da Noruega" e sobre todos os produtos concorrentes com os nacionais, o sistema eleitoral era viciado e, na falta de bolsas, os meios de convencimento do eleitor eram os "coronéis", os "cabalistas", os "capangas", os "fósforos" (votavam pelos mortos ou ausentes) e a ata falsificada pelo "bico da pena". Bruzundanga tinha Constituição com artigos muito bons, inclusive, um nas disposições gerais que determinava: "Toda vez que um artigo desta Constituição ferir os interesses de parentes da "situação" ou de membros dela, fica subentendido que ele não tem aplicação ao caso". Maravilha! Lima Barreto foi o arauto do Brasil contemporâneo, Jarbas revisitou a Bruzundanga. É isso aí, tudo uma coisa só, e estamos conversados. 192
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    A ENTREVISTA ÀVEJA Gustavo Krause, consultor, foi Prefeito do Recife, Governador de Pernambuco, vereador, deputado federal e Ministro da Fazenda e do Meio Ambiente 193
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “CRUZADA DE JARBAS PAUTA 2010” 194
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “CRUZADA DE JARBAS PAUTA 2010” Ruy Fabiano (14 de Março de 2009) O senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) está programando uma série de viagens pelo Brasil, tendo como bandeira a campanha anticorrupção. Não irá sozinho. Diversos políticos, a maioria do PSDB, se dispõem a acompanhá-lo. É improvável que sua cruzada moral resulte concretamente em alguma coisa. É um tema recorrente na política brasileira. Produz espasmos de indignação e, no máximo, desemboca em CPIs, que, quando bem-sucedidas, cassam algumas cabeças coroadas e contribuem para uma catarse da opinião pública. O tema, no entanto, pautará esse início de pré- campanha com vistas a 2010. No PT e no PMDB, os mais incomodados com a inesperada cruzada, não se tem dúvida de que Jarbas trabalha sua pré-candidatura a vice- presidente da República na chapa tucana de José Serra. A campanha eleitoral, a rigor, já começou. Desde que Lula decidiu colocar a ministra Dilma Roussef a tiracolo e com ela percorrer o país, a pretexto de lançamento das obras do PAC, a oposição decidiu ir à luta. Sabia que a interpelação ao Tribunal Superior Eleitoral daria em nada e que seria necessária uma ação mais afirmativa para se contrapor à campanha de Dilma. Jarbas deu o mote com a entrevista a Veja. Desdobrou-a em discurso no Senado, acrescido da denúncia de que estaria sendo espionado por seu próprio partido. Está criando as condições para justificar seu desligamento 195
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    A ENTREVISTA ÀVEJA do PMDB, sem perda de mandato. Tem até outubro para fazê-lo. A campanha do senador pernambucano, a certa altura, coincidirá com os primeiros julgamentos do Mensalão, que colocarão o governo em posição de desconforto. É previsível que o governo reaja e se estabeleça uma guerra de dossiês. Mas a desvantagem em tal confronto é sempre do governo, qualquer governo, já que tem em mãos os instrumentos coercitivos e punitivos – e, pois, o dever de agir. A oposição, não: pode apenas falar. A denúncia de Veja contra o delegado Protógenes Queiroz recoloca o descontrole do governo sobre seu aparelho de segurança. Não é, porém, um tema de grande impacto popular, até porque há certa tolerância na opinião pública quanto ao uso de processos heterodoxos na caça aos corruptos. Os fins justificariam os meios. Do ponto de vista, do direito, um absurdo; do ponto de vista do marketing, um tema de escasso potencial. A corrupção é vista como uma epidemia que macula os três Poderes. As leis processuais favorecem os que dispõem de dinheiro para pagar bons advogados, servindo- se do cipoal de recursos que elas oferecem. Por isso, a ortodoxia processual inspira ceticismo, que dá sustentação a procedimentos ilegais, em nome de uma justiça de resultados. Quando um delegado como Protógenes Queiroz, o da Operação Satiagraha, é exposto como alguém que enfrentou poderosos, é, por isso mesmo, recebido como herói. Daí a pouca repercussão popular da CPI dos Grampos, prorrogada pela Câmara. Alguém acha que dará em algo? Jarbas centralizará sua cruzada contra o governo e os partidos que lhe dão sustentação, denunciando licitações viciadas, uso indevido de cargos, fisiologismos. E é esse 196
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    A ENTREVISTA ÀVEJA mote que será reverberado pelos seus aliados do PSDB e do DEM. O que se prevê é uma proliferação de denúncias e de CPIs: dos fundos de pensão, das ONGs, da terra etc. Muito barulho por nada. Não que não haja nada. Corrupção é realidade concreta na vida pública brasileira. O que não há, por isso mesmo, é efetiva determinação política dos partidos de levar essa questão a um desfecho concreto. Reproduz-se aí o episódio bíblico de Maria Madalena: ninguém está em condições de atirar a primeira pedra. Quem quiser saber detalhes operacionais – o modus faciendi da corrupção no Brasil contemporâneo - consulte o livro “Nervos de Aço” (Editora Topbooks, 2006), de Roberto Jefferson, o paladino do Mensalão. Continua sendo a bíblia mais informativa do tema, fornecendo, além de nomes e datas, CPFs e CNPJs dos infratores. Como contribuição efetiva ao combate à corrupção, vale por dezenas de entrevistas de Jarbas Vasconcelos, que, nas suas denúncias, ainda que corajosas e bem- intencionadas, se ateve aos adjetivos, desprezando os substantivos. Jefferson faz o contrário. Explica como se “captam” recursos de órgãos públicos, quer de maneira direta, quer por meio dos fornecedores. Ali se faz o caixa eleitoral (e pessoal), nutrindo os partidos dos meios de financiar suas candidaturas. Não há, quanto a isso, exceções. Um mandato de deputado federal no Rio de Janeiro, segundo Jefferson, não sai por menos de R$ 1 milhão. Quem o tem não quer gastá-lo de seu próprio bolso, não quer comprometer patrimônio pessoal com política (ainda que a política o tenha construído). E quem não o tem terá que providenciá-lo de algum modo. Nas duas hipóteses, é preciso correr atrás, e o Estado tem sido, historicamente, o cofre preferencial. 197
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    A ENTREVISTA ÀVEJA Ruy Fabiano é jornalista 198
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “O PMDB É UMA BELA FLOR EM NOSSA TERRA” 199
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    A ENTREVISTA ÀVEJA “O PMDB É UMA BELA FLOR EM NOSSA TERRA” Arnaldo Jabor (24 de março de 2009) O senador chegou e me botou o dedo na cara: "Vocês, jornalistas que infestam o País, agora só falam do PMDB, da corrupção no Congresso. Vocês fervilham como formigas em cima de instituições que não conhecem. O PMDB é uma das mais belas florações de nossa história. Vocês se esquecem de nossas tradições e atribuem malignidade à pequenas ações inocentes, hábitos incrustados em nossa alma como a cana, o latifúndio, como nossos bigodes que vocês chamam de ?bregas?, nossos jaquetões e gravatas zebradas, a tristeza conformada no rosto de nossas esposas, as alegres tradições country, os churrascos eufóricos, as ancas de amantes risonhas, as joias de ouro tilintando em pescoços e pulsos, a viril antipatia de nossos chefes políticos. Nisto tudo vocês deviam ver que alguma coisa sólida e cultural existe neste Brasil e que isto é belo. Quando eu faço uma piscina azul em minha casa no sertão, ela brilha como um retângulo de esperança em meio à seca. Não é arrogância, mas solidez. Não é crueldade, pois é preciso que alguém tenha piscina na caatinga para que a dor dos miseráveis seja suportável. A vida do pobre ganha um sentido hierárquico: ele está embaixo, mas se consola porque alguém vive feliz em cima. Eu acrescento ordem ao mundo com minhas motocicletas no agreste, eu sei da beleza de passear de Harley Davidson com minha mulher oxigenada e 200
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    A ENTREVISTA ÀVEJA rechonchuda (chamo-a de minha ?potrinha?), com um belo abrigo Vuitton, para que nossa passagem cause um ?Ohhh!? nos ?bóias-frias? das lavouras. Sei que há orgulho nisso, mas grande é meu prazer do ?pudê? herdado, o prazer de ver o fantasma de meu avô entre os canaviais flamejantes, de ver as mãos magras agarrando os chapéus - homens humildes e curvados quando eu passo. Esses belos instantes servem de bálsamo contra tantos que acham que o Brasil piorou. Muita coisa melhorou, sim. Vejam minha lancha ancorada no Iate Clube, vejam as parabólicas em meu teto de fazenda, vejam os gritos alegres de meus filhos no carro japonês rolando na poeira da fazenda, o rubro Mitsubishi entre vacas magras, o jatinho pousando entre caveiras de burro. Não pense que meu peito se confrange diante da palavra ?corrupção? no PMDB; não há corrupção entre nós; é apenas a continuação de um processo histórico. O dinheiro que arrecadamos, na relação entre a coisa pública e privada sempre nos pertenceu. Ou você acha que haveria obras e progresso sem esta simbiose? Não há casamento sem interesse. É belo e progressista o interesse político. A honestidade alardeada é hipocrisia. Este Jarbas (não o nosso Barbalho, mas o Vasconcelos) está sabotando uma secular dinâmica política para se promover... Vaidade pura... Ele está prejudicando a doce aliança PT-PMDB, que permite que o País evolua, como bem disse nossa candidata em campanha (até segunda ordem) Dilma. Reclamam dos 181 diretores, mas esquecem que eles formam um pelotão cordial de amigos fiéis. Admire a beleza superior deste imenso patrimônio espiritual que nós possuímos no Partido, feito de favores, amizades, famílias amplas, burocratas cooperativos. É legitimo que eles queiram incluir mais e mais os bens do País como uma prótese de suas vidas 201
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    A ENTREVISTA ÀVEJA privadas, coroadas pelo êxito. Sem enriquecer, para que fazer política? Nossos peitos estão felizes em nossas camisas de seda que vieram de Miami; há um progresso enorme em nossas famílias, mas os pessimistas só olham para as costelas dos famintos. Querem o quê? Que fiquemos magros também, que dividamos nossas conquistas com os que nada têm, querem socializar a miséria? Ademais, é impossível salvá- los. São 40 milhões de pobres, chocados em quatro séculos de tradições. A única solução é virar os olhos para a beleza do poder no campo e na cidade: a alegria de sermos senhores feudais sobre cidades inteiras, a volúpia de ver os fulgurantes escritórios, a hábil tessitura de negócios fiscais, a grande arte dos lucros fabulosos, a sensação épica na hora da propina, as mandíbulas salivando a cada grande negócio. Tudo isso é belo! Quem disse que o mundo é para mudar? Isto é herança protestante de frios anglo-saxões. Será que vocês não veem, jornalistazinho petulante, que vocês, profissionais do pessimismo, são cegos para outras formas de beleza? O encanto dos shoppings de luxo, as paisagens urbanas vistas através do Blindex, as velozes paixões dos cartões de crédito, o eufórico alarido dos restaurantes, os roncos de jet skis no mar, os gemidos das amantes nos lençóis de cetim, os jatos prateados, a euforia dos almoços de conchavos e ?troca- trocas?, tudo isto que doura o nosso progresso? Por que só olhar para o fracasso dos famintos? Esta crise mundial da economia vai se avolumar. Estou me lixando... pois quando o País definhar, continuaremos a ver o que havia de natural e belo em nossas vidas, o que era a continuidade da ordem do mundo. E, a cada catástrofe (como vocês chamam), adaptaremos (com incrível habilidade) nossa felicidade para os novos tempos. Sempre estaremos bem em qualquer 202
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    A ENTREVISTA ÀVEJA governo, progredindo, honrando nosso passado de donatários. E quando aumentarem as invasões e convulsões sociais, com os inevitáveis extermínios em massa, as esterilizações obrigatórias, as fogueiras de favelas, vocês verão que isso é natural, que isso é o ?survival for the fittest? - (?sobrevivência do mais forte?, como bem traduziu meu filho de Harvard...) E quando a argentinização, venezuelização ou mesmo a bolivianização do Brasil se fizer, iremos naturalmente para o Exterior, com nossas fortunas (que já estão lá) e ainda sentiremos no peito o orgulho de ver a sobrevivência de nossa tradição colonial portuguesa. Nós nos ufanamos deste Brasil que se manteve tão sólido e parado no tempo - graças a nós, sem modéstia!" O orgulhoso político ajeitou o jaquetão e se encaminhou de fronte alta para o salão azul do Senado. Era feliz. Arnaldo Jabor é crítico, cineasta e jornalista. Assina coluna no jornal “O Globo”, reproduzida em diversas publicações no País. 203
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    A ENTREVISTA ÀVEJA TRABALHOS PUBLICADOS - Uma Análise da Economia Canavieira de Pernambuco (1972) - Liberdade e Desenvolvimento (1973) - O Papel da Oposição (1978) - Constituinte Já! A Solução da Crise (1978) - Pernambuco: Descaso e Miséria (1983) - Denúncias Contra o Governo e o Regime (1984) - A Oposição Exercida Como Direito (2007) - Democracia e Estado de Direito (2007) - O Apagão do Governo Lula (2007) - CPMF: Um Imposto Anacrônico (2007) - Ulysses Vive (2007) - Orgulho de Pernambuco (2008) - De Tributos e Abusos (2008) - Abaixo A Mediocridade (2008) - Por Uma Gestão Pública de Qualidade (2008) - Josué de Castro – Um Vida Contra A Fome (2008) - A Voz do Semiárido (2009) - A Verdade Inconveniente (2009) - Na Linha de Frente (2009) - O Resgate da Política (2009) - A Praga da Cochonilha em Pernambuco (2009) - Por Pernambuco, pelo Brasil – Volume I (2009) - Em defesa da Democracia e da Liberdade (2009) - A Perda do Pudor (2009) - Por Pernambuco, pelo Brasil – Volume 2 (2009) - Sem oposição não há democracia (2010) - Por Pernambuco, pelo Brasil – Volume 3 (2010) - Por um salário mínimo maior (2011) 204
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    A ENTREVISTA ÀVEJA ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA Senador Jarbas Vasconcelos Senado Federal Ala Senador Dinarte Mariz, Gab.4 70.165-900 – Brasília – DF Telefone (81) 3303-3245 Fax: (61) 3303-1977 e-mail: jarbas.vasconcelos@senador.gov.br Site: www.jarbasvasconcelos.com.br 205
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    A ENTREVISTA ÀVEJA BIOGRAFIA RESUMIDA Senador da República pelo Estado de Pernambuco (2007-2015) Deputado Estadual (1971-1974) Deputado Federal (1975-1978 e 1983-1985) Prefeito da Cidade do Recife (1986-1988 e 1993-1996) Presidente da Associação dos Prefeitos de Capitais Presidente Nacional do PMDB(1989-1990) Governador do Estado de Pernambuco (1999-2002 e 2003-2006) 206
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    A ENTREVISTA ÀVEJA EDIÇÂO DO LIVRO EDIÇÃO Ennio Benning CAPA Bruno Maia de A. Silva IMPRESSÃO Gráfica do Senado Federal   207