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Henri Wallon eo conceito de sincretismo
Fernanda Salla (novaescola@fvc.org.br)
Entenda de que maneira o pesquisador francês mostrou que as crianças pensam, mesclando realidade e imaginação
Ao conversar com crianças pequenas, é comum ouvir frases curiosas. Se você
pergunta, por exemplo, por que a Lua aparece à noite, uma responde que "ela
queria sempre estar de dia, mas brigou com o Sol", outra diz que "as estrelas
resolveram quem ficava de dia e quem ficava de noite" e assim por diante. Esse
jeito de pensar, que por vezes parece não ter lógica para os mais crescidos, é
chamado de pensamento sincrético e é natural da infância. Sincretizar significa
reunir, e é isso que os pequenos fazem - ao tentar explicar as coisas, eles misturam
realidade e fantasia sem distinção. Embaralham todas as ideias em um mesmo
plano e veem o mundo de forma global e generalizada.
O termo vem da filosofia e aparece em diversas teorias do desenvolvimento. Foi na
obra do médico, psicólogo, filósofo e educador francês Henri Wallon (1879-1962),
no entanto, que ganhou uma nova perspectiva: o pesquisador explicou que o
desenvolvimento infantil vai do sincretismo à categorização (leia um resumo do
conceito na última página). "No início, a percepção do bebê é nebulosa. Aos
poucos, à medida que tem contato com novas experiências e informações, ela vai
se refinando. Com o desenvolvimento, chega-se ao pensamento categorial, no qual
a criança já é capaz de definir e explicar elementos", diz Laurinda Ramalho de
Almeida, vice-coordenadora do Programa de Estudos Pós-Graduados em
Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
A maneira como a criança pensa é influenciada por dois fatores: sua capacidade
cognitiva e as referências que recebe do meio. Os pequenos têm acesso a
conhecimentos vindos de diferentes fontes - experiências pessoais, informações
trazidas de casa ou da escola e tradições culturais (mitos, fábulas e histórias). No
entanto, não conseguem organizá-los.
Wallon explica que o pensamento infantil tem características particulares, diferentes
das do adulto. A principal delas é o pensamento por meio de pares
complementares. A criança não consegue explicar um objeto sem relacioná-lo a
outro. Quando questionada, combina diferentes referências e apresenta uma
resposta. "Ela tenta conciliar tudo aquilo que recebe das fontes de conhecimento
usando para isso uma lógica própria", diz Laurinda. Nada impede, no entanto, que
os mesmos elementos sejam recombinados em outro momento e adquiram outro
sentido. Os pequenos podem, por exemplo, dizer que a chuva é o vento e depois,
ao ser questionados se ambos são iguais, afirmar que não e que só é chuva
quando tem trovão.
Essa aparente confusão ocorre porque a criança ainda não é capaz de colocar os
objetos em um sistema de categorias preestabelecido, no qual cada coisa tem um
único significado. Quando tenta explicar o mundo à sua volta ou responder a algum
questionamento, ela enfrenta obstáculos e procura diversos mecanismos para fugir
deles. "Esse processo envolve um ajuste entre o que já é conhecido e as respostas
que precisa dar. Para isso, todos usam os artifícios que possuem naquele estágio
de desenvolvimento", explica Lilian Pessôa, coordenadora auxiliar e professora no
curso de Pedagogia da Universidade Paulista (Unip) e doutoranda em Educação
pela PUC-SP.
CENTRO UNIVERSITARIO MAURICIO DE NASSAU – Pós Graduação em Psicologia Clínica Institucional e Hospitalar – Disciplina: Teorias da Aprendizagem e o Desenvolvimento
– Profª.: Renatha Costa – Semestre 2024.2
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Entre as principaisestratégias de resposta estão a tautologia, a elisão e a
fabulação. A primeira é a repetição de uma ideia dada: "Como é o sal? É salgado".
"Na impossibilidade de dar uma resposta a uma questão, o menos arriscado é
repetir o primeiro termo dado pela pessoa que perguntou", diz Laurinda. A elisão
significa fugir do tema e passar de um assunto a outro aparentemente diferente: "O
barco boia porque tem água e é de madeira. Às vezes, a gente faz cestos de palha
e sofás". Já a fabulação é a tentativa de preencher as lacunas do relato
imaginando, ampliando ou inventando. Por exemplo, uma criança, ao ser
questionada de onde veio, diz que saiu do repolho. Provavelmente ela recebeu
essa informação da mãe ou de outra fonte do conhecimento. Para validar sua
resposta, ela afirma que se lembra de quando estava lá e descreve o que sentia.
O aspecto lúdico das falas dos pequenos dá a elas um caráter poético, mas
também pode gerar desconfiança entre os adultos - que confundem o que é dito
com mentiras. Para evitar o problema, é importante perceber que a mistura entre
realidade e imaginação faz parte do pensamento infantil (leia o trecho de livro na
próxima página). Como diz Wallon no livro As Origens do Pensamento na Criança:
"Muitas invenções sobre as quais a criança tece fantasias recebem seu tema do
adulto. É, aliás, com frequência, com fábulas que ele responde às curiosidades
dela. A ficção não é apenas natural da criança. Ela lhe é também proposta ou
imposta".
Cheio de significados e sentidos, e repleto de conexões subjetivas, o jeito como os
pequenos explicam o mundo à sua volta não deve ser tomado como verdade, mas
tampouco pode ser reprimido. "Disciplinar inteiramente o pensamento, sejam quais
forem os termos como isso se exprima, pode corresponder a fechar os caminhos
que permitem recombinações suscetíveis de conduzir o pensamento por caminhos
inéditos. É aqui que o sincretismo, que guarda a possibilidade de tudo ligar a tudo,
de forma anárquica, pode levar ao novo", diz a pesquisadora Heloysa Dantas no
livro A Infância da Razão.
É preciso, portanto, oferecer condições para que a criança exerça seu pensamento
e sua expressão e possa evoluir. "Quanto mais repertório ela adquirir e quanto mais
puder experimentar situações diversas e confrontar o que pensa com pessoas que
têm bagagens culturais diferentes (sejam elas crianças, professores, pais ou outras
fontes com as quais tenha contato), mais chances há de caminhar para a
diferenciação", diz Laurinda (leia a questão de concurso na última página). A
professora lembra que é na solução dos confrontos que a inteligência evolui.
http://revistaescola.abril.com.br/gestao-escolar/henri-wallon-conceito-sincretismo-
643155.shtml
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