FORMALISMO RUSSO
Por Dino Cavalcante
Histórico
• O Formalismo Russo foi uma influente
escola de crítica literária da Rússia de
1910 até 1930. Dela fazem parte as obras
de um grande número de acadêmicos
russos de grande influência como (Viktor
Chklovsky, Yury Tynyanov, Boris
Eichenbaum, Roman Jakobson e Grigory
Vinokur) que revolucionaram a crítica
literária entre 1914 e a década de 30,
estabelecendo a especificidade e a
autonomia da linguagem poética e
literatura.
• O Formalismo Russo exerceu maior
influência em pensadores como Mikhail
Bakhtin e Yuri Lotman, e no estruturalismo
por inteiro. Os membros do movimento
são amplamente considerados os
fundadores da crítica literária moderna.
• Sob o domínio de Stalin o formalismo
tornou-se termo pejorativo para arte
elitista.
• O Círculo Linguístico de Moscou foi
fundado por alguns estudantes da
Universidade de Moscou, no inverno de
1914-1915, com o propósito de promover
estudos de poética e de linguística,
afastando-se assim da linguística
tradicional e aproveitando a renovação da
poesia russa que os poetas da época
haviam iniciado. Este Círculo veio a
receber oportuna colaboração da
Sociedade de Estudos da Linguagem
Poética a partir de 1917.
• Em termos internacionais, os trabalhos
dos formalistas russos só ganhou
projecção quando Victor Erlich publica o
livro Russian Formalism (1955). Esta
divulgação no mundo ocidental foi
decisiva, porque permitiu o
desenvolvimento de inúmeros estudos e
traduções de textos fundamentais.
• Se no ocidente os trabalhos dos formalistas
russos não chega a ser totalmente conhecido e
bem recebido até à década de 1950, na então
Checoslováquia e Polónia teve grande
repercussão. Formou-se o Círculo Linguístico
de Praga, que se desenvolve a partir da década
de 1920 e teve entre os seus principais
participantes os russos Jakobson, Trubetzkoi e
Bogatiriev e o checo Mukarovski.
• Este Círculo só será desfeito no fim da
Segunda Guerra Mundial, em função da
situação política da Checoslováquia.
Jakobson emigra para os Estados Unidos,
onde conhece o antropólogo francês
Claude Lévi-Strauss, de cujo
relacionamento intelectual se
desenvolveria, em grande parte, o
estruturalismo.
• Esta escola de Praga representou uma
espécie de transição do formalismo para o
estruturalismo. Estes teóricos
desenvolveram as ideias dos formalistas,
mas sistematizaram-nas dentro do quadro
da linguística saussureana. Há quem
defenda que os formalistas de Praga
foram uma versão científica do New
Criticism anglo-americano.
Método de Análise
• Os formalistas russos são responsáveis por uma
renovação da metalinguagem crítica,
fornecendo novos termos de análise do texto
literário, discutíveis individualmente, sem
dúvida, mas que constituem ainda hoje objeto
de reflexão e discussão, o que prova a sua
importância. Muitos dos temas teóricos
escolhidos para investigação nunca antes
haviam sido discutidos: as funções da
linguagem, em particular a relação entre a
função emotiva e a função poética (Roman
Jakobson)
Roman Jakobson
Função referencial
Função emotiva Função conativa
Função poética
Função metalinguística
Função fática
• A entoação como princípio constitutivo do
verso (B. Eikhenbaum), a influência do
metro, da norma métrica, do ritmo quer na
poesia quer na prosa (B. Tomachevski), a
estrutura do conto fantástico (V. Propp), a
metodologia dos estudos literários (J.
Tynianov), etc.
Vladimir Propp
• De entre os conceitos e discussões
técnicas sobre terminologia literária são
de realçar a noção de literariedade (o
que faz com que um texto literário seja
considerado literário; de notar que os
formalistas ignoraram as formas não
literárias, servindo-se apenas delas para
mostrar precisamente que o que distingue
um texto literário de um não literário é a
literariedade);
• o estranhamento ou ostranienie, que
Shklovsky define como a forma que a arte
tem de tornar “estranho” aquilo que tem
uma existência comum nascido de um
processo de automatização (processo que
se confunde com a banalização do objeto
de arte, que só por um outro processo de
renovação poderá proceder a um
renascimento da arte);
• o predomínio da forma sobre o conteúdo do
texto literário, porque é a forma que determina
verdadeiramente a literariedade; e as noções de
fabula, como princípios constitutivos o texto em
prosa (a fabula é o material primitivo de onde
nascerá a narrativa, organizada em torno de
uma trama, elemento puramente literário, que
não se confunde com a narração cronológica
dos acontecimentos).
• Não só a poesia interessou os formalistas. A
prosa foi sistematicamente trabalhada,
sobretudo por teóricos como Shklovsky (Sobre a
Teoria da Prosa) e Tomachevski, autor da
primeira obra monográfica sobre Teoria da
Literatura. V. Propp, com a célebre Morfologia
do Conto (1928), formulou uma teoria das
funções narrativas nos contos populares, que se
revelou fecunda nos estudos da narrativa em
geral.
• Interessaram também aos formalistas russos os
princípios linguísticos de organização da obra
como produto estético. O estudo do romance,
como grande narrativa, conheceu um importante
contributo de Boris Eikhenbaum (Teoria da
Literatura, ed. por Eikenbaum et alii, Porto
Alegre, 1971), que propõe uma teoria da prosa
e traça uma retrospectiva histórica sobre a
evolução do romance em relação ao relato oral,
• concorrendo, significativamente, para a
diferenciação entre o romance e a novela,
baseada no princípio de que a novela
seria uma equação com uma incógnita e o
romance, um problema com regras
diversas, um sistema de equações com
muitas incógnitas, sendo as construções
intermediárias tão importantes ou mais
que a resposta final.
Roman Jakobson
O DOMINANTE
• Os três primeiros estágios da pesquisa
formalista foram sumariamente
caracterizados do seguinte modo:
• 1 – Análise do aspectos fônicos do
trabalho literário;
• 2 – Os problemas de significado no inteiro
da trama poética;
• 3 – Integração de som e sentido num
modo inseparável.
• Neste último estágio, a ideia de
dominante revelou-se muito útil.
• Pode-se definir o dominante como
sendo o centro de enfoque de um trabalho
artístico: ele regulamenta, determina os
seus outros componentes.
• Por exemplo: o verso na poesia tcheca do
século XIV. A sua característica maior não
era o métrica , mas a rima.
• O esquema métrico se mostrava
dispensável, ao passo que a rima era
obrigatório na composição dos versos.
• Na atualidade, nem a métrica nem a rima
são mais componentes obrigatórios. Há
um outro dominante: a entonação.
• O dominante pode ser estudado não
apenas no trabalho poético de um
determinado artista isolado, de um dado
cânone poético ou entre normas de uma
dada escola poética, mas também na arte
de uma época, então encarada como um
todo particular.
• Antes a escola formalista concentrava-se
basicamente no texto poético. Mas hoje
essa é uma tendência equivocada.
• O trabalho poético não deve se confinar
exclusivamente na função poética; ele
contém muitas outras funções além desta.
Mantém uma relação com a filosofia, a
didática social, etc.
• Assim como um trabalho poético não se encerra
em uma função estética, as funções estéticas
não se limitam ao trabalho poético; o discurso
de um orador, a conversação corriqueira, os
artigos de jornal, os anúncios, um livro científico
- todos podem conter considerações estéticas,
expressar uma função estética e
frequentemente lidam com as palavras
valorizando-as em si, para além de sua função
referencial.
• A definição da função estética como
sendo a dominante num trabalho poético
nos permite determinar a hierarquia das
diversas funções linguísticas que ocorrem
no trabalho poético. Na função referencial
o signo tem uma conexão interna mínima
com o objeto designado;
• por seu turno a função emotiva exige uma
relação mais íntima e direta entre o signo
e o objeto e, portanto, requer maior
atenção para com a estrutura interna do
signo. A linguagem emotiva está mais
próxima da função poética.
• Um leitor de um poema ou quem contempla um
quadro tem vividamente me seu espírito a
presença de duas ordens: o cânone tradicional
e a novidade artística que é um desvio em
relação a ele. É contra a base de tal tradição
que se concebe a renovação. Os estudos
formalistas trouxeram à luz o fato de que este
simultâneo manter a tradição e fugir dela
compõem a essência de todo novo trabalho
artístico.
ANÁLISE FORMALISTA
DE POEMAS
Via Láctea – Olavo Bilac
"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".
Vaso Chinês – Alberto de Oliveira
Estranho mimo aquele vaso! Vi-o,
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.
Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente, de um calor sombrio.
Mas, talvez por contraste à desventura,
Quem o sabe?... de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura.
Que arte em pintá-la! A gente acaso vendo-a,
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.
O eco – Cecília Meirelles
O menino pergunta ao eco
onde é que ele se esconde.
Mas o eco só responde: "Onde? Onde?"
O menino também lhe pede:
"Eco, vem passear comigo!"
Mas não sabe se o eco é amigo
ou inimigo.
Pois só lhe ouve dizer:
"Migo!"
AMOR É FOGO QUE ARDE
CAMÕES
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se não contrário a si é o mesmo Amor?
Camões
Os Lusíadas – Camões
• As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis, que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando;
E aqueles, que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando;
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

formalismo russo, este trabalho é um traabljo que fala sobre a nova critica.

  • 1.
  • 2.
    Histórico • O FormalismoRusso foi uma influente escola de crítica literária da Rússia de 1910 até 1930. Dela fazem parte as obras de um grande número de acadêmicos russos de grande influência como (Viktor Chklovsky, Yury Tynyanov, Boris Eichenbaum, Roman Jakobson e Grigory Vinokur) que revolucionaram a crítica literária entre 1914 e a década de 30, estabelecendo a especificidade e a autonomia da linguagem poética e literatura.
  • 3.
    • O FormalismoRusso exerceu maior influência em pensadores como Mikhail Bakhtin e Yuri Lotman, e no estruturalismo por inteiro. Os membros do movimento são amplamente considerados os fundadores da crítica literária moderna. • Sob o domínio de Stalin o formalismo tornou-se termo pejorativo para arte elitista.
  • 4.
    • O CírculoLinguístico de Moscou foi fundado por alguns estudantes da Universidade de Moscou, no inverno de 1914-1915, com o propósito de promover estudos de poética e de linguística, afastando-se assim da linguística tradicional e aproveitando a renovação da poesia russa que os poetas da época haviam iniciado. Este Círculo veio a receber oportuna colaboração da Sociedade de Estudos da Linguagem Poética a partir de 1917.
  • 5.
    • Em termosinternacionais, os trabalhos dos formalistas russos só ganhou projecção quando Victor Erlich publica o livro Russian Formalism (1955). Esta divulgação no mundo ocidental foi decisiva, porque permitiu o desenvolvimento de inúmeros estudos e traduções de textos fundamentais.
  • 6.
    • Se noocidente os trabalhos dos formalistas russos não chega a ser totalmente conhecido e bem recebido até à década de 1950, na então Checoslováquia e Polónia teve grande repercussão. Formou-se o Círculo Linguístico de Praga, que se desenvolve a partir da década de 1920 e teve entre os seus principais participantes os russos Jakobson, Trubetzkoi e Bogatiriev e o checo Mukarovski.
  • 7.
    • Este Círculosó será desfeito no fim da Segunda Guerra Mundial, em função da situação política da Checoslováquia. Jakobson emigra para os Estados Unidos, onde conhece o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, de cujo relacionamento intelectual se desenvolveria, em grande parte, o estruturalismo.
  • 8.
    • Esta escolade Praga representou uma espécie de transição do formalismo para o estruturalismo. Estes teóricos desenvolveram as ideias dos formalistas, mas sistematizaram-nas dentro do quadro da linguística saussureana. Há quem defenda que os formalistas de Praga foram uma versão científica do New Criticism anglo-americano.
  • 9.
    Método de Análise •Os formalistas russos são responsáveis por uma renovação da metalinguagem crítica, fornecendo novos termos de análise do texto literário, discutíveis individualmente, sem dúvida, mas que constituem ainda hoje objeto de reflexão e discussão, o que prova a sua importância. Muitos dos temas teóricos escolhidos para investigação nunca antes haviam sido discutidos: as funções da linguagem, em particular a relação entre a função emotiva e a função poética (Roman Jakobson)
  • 10.
  • 11.
    Função referencial Função emotivaFunção conativa Função poética Função metalinguística Função fática
  • 12.
    • A entoaçãocomo princípio constitutivo do verso (B. Eikhenbaum), a influência do metro, da norma métrica, do ritmo quer na poesia quer na prosa (B. Tomachevski), a estrutura do conto fantástico (V. Propp), a metodologia dos estudos literários (J. Tynianov), etc.
  • 13.
  • 14.
    • De entreos conceitos e discussões técnicas sobre terminologia literária são de realçar a noção de literariedade (o que faz com que um texto literário seja considerado literário; de notar que os formalistas ignoraram as formas não literárias, servindo-se apenas delas para mostrar precisamente que o que distingue um texto literário de um não literário é a literariedade);
  • 15.
    • o estranhamentoou ostranienie, que Shklovsky define como a forma que a arte tem de tornar “estranho” aquilo que tem uma existência comum nascido de um processo de automatização (processo que se confunde com a banalização do objeto de arte, que só por um outro processo de renovação poderá proceder a um renascimento da arte);
  • 16.
    • o predomínioda forma sobre o conteúdo do texto literário, porque é a forma que determina verdadeiramente a literariedade; e as noções de fabula, como princípios constitutivos o texto em prosa (a fabula é o material primitivo de onde nascerá a narrativa, organizada em torno de uma trama, elemento puramente literário, que não se confunde com a narração cronológica dos acontecimentos).
  • 17.
    • Não sóa poesia interessou os formalistas. A prosa foi sistematicamente trabalhada, sobretudo por teóricos como Shklovsky (Sobre a Teoria da Prosa) e Tomachevski, autor da primeira obra monográfica sobre Teoria da Literatura. V. Propp, com a célebre Morfologia do Conto (1928), formulou uma teoria das funções narrativas nos contos populares, que se revelou fecunda nos estudos da narrativa em geral.
  • 18.
    • Interessaram tambémaos formalistas russos os princípios linguísticos de organização da obra como produto estético. O estudo do romance, como grande narrativa, conheceu um importante contributo de Boris Eikhenbaum (Teoria da Literatura, ed. por Eikenbaum et alii, Porto Alegre, 1971), que propõe uma teoria da prosa e traça uma retrospectiva histórica sobre a evolução do romance em relação ao relato oral,
  • 19.
    • concorrendo, significativamente,para a diferenciação entre o romance e a novela, baseada no princípio de que a novela seria uma equação com uma incógnita e o romance, um problema com regras diversas, um sistema de equações com muitas incógnitas, sendo as construções intermediárias tão importantes ou mais que a resposta final.
  • 20.
  • 21.
    O DOMINANTE • Ostrês primeiros estágios da pesquisa formalista foram sumariamente caracterizados do seguinte modo: • 1 – Análise do aspectos fônicos do trabalho literário; • 2 – Os problemas de significado no inteiro da trama poética; • 3 – Integração de som e sentido num modo inseparável.
  • 22.
    • Neste últimoestágio, a ideia de dominante revelou-se muito útil. • Pode-se definir o dominante como sendo o centro de enfoque de um trabalho artístico: ele regulamenta, determina os seus outros componentes.
  • 23.
    • Por exemplo:o verso na poesia tcheca do século XIV. A sua característica maior não era o métrica , mas a rima. • O esquema métrico se mostrava dispensável, ao passo que a rima era obrigatório na composição dos versos.
  • 24.
    • Na atualidade,nem a métrica nem a rima são mais componentes obrigatórios. Há um outro dominante: a entonação.
  • 25.
    • O dominantepode ser estudado não apenas no trabalho poético de um determinado artista isolado, de um dado cânone poético ou entre normas de uma dada escola poética, mas também na arte de uma época, então encarada como um todo particular.
  • 26.
    • Antes aescola formalista concentrava-se basicamente no texto poético. Mas hoje essa é uma tendência equivocada. • O trabalho poético não deve se confinar exclusivamente na função poética; ele contém muitas outras funções além desta. Mantém uma relação com a filosofia, a didática social, etc.
  • 27.
    • Assim comoum trabalho poético não se encerra em uma função estética, as funções estéticas não se limitam ao trabalho poético; o discurso de um orador, a conversação corriqueira, os artigos de jornal, os anúncios, um livro científico - todos podem conter considerações estéticas, expressar uma função estética e frequentemente lidam com as palavras valorizando-as em si, para além de sua função referencial.
  • 29.
    • A definiçãoda função estética como sendo a dominante num trabalho poético nos permite determinar a hierarquia das diversas funções linguísticas que ocorrem no trabalho poético. Na função referencial o signo tem uma conexão interna mínima com o objeto designado;
  • 30.
    • por seuturno a função emotiva exige uma relação mais íntima e direta entre o signo e o objeto e, portanto, requer maior atenção para com a estrutura interna do signo. A linguagem emotiva está mais próxima da função poética.
  • 31.
    • Um leitorde um poema ou quem contempla um quadro tem vividamente me seu espírito a presença de duas ordens: o cânone tradicional e a novidade artística que é um desvio em relação a ele. É contra a base de tal tradição que se concebe a renovação. Os estudos formalistas trouxeram à luz o fato de que este simultâneo manter a tradição e fugir dela compõem a essência de todo novo trabalho artístico.
  • 32.
  • 33.
    Via Láctea –Olavo Bilac "Ora (direis) ouvir estrelas! Certo Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto, Que, para ouvi-las, muita vez desperto E abro as janelas, pálido de espanto... E conversamos toda a noite, enquanto A via-láctea, como um pálio aberto, Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, Inda as procuro pelo céu deserto.
  • 34.
    Direis agora: "Tresloucadoamigo! Que conversas com elas? Que sentido Tem o que dizem, quando estão contigo?" E eu vos direi: "Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode ter ouvido Capaz de ouvir e de entender estrelas".
  • 35.
    Vaso Chinês –Alberto de Oliveira Estranho mimo aquele vaso! Vi-o, Casualmente, uma vez, de um perfumado Contador sobre o mármor luzidio, Entre um leque e o começo de um bordado. Fino artista chinês, enamorado, Nele pusera o coração doentio Em rubras flores de um sutil lavrado, Na tinta ardente, de um calor sombrio.
  • 36.
    Mas, talvez porcontraste à desventura, Quem o sabe?... de um velho mandarim Também lá estava a singular figura. Que arte em pintá-la! A gente acaso vendo-a, Sentia um não sei quê com aquele chim De olhos cortados à feição de amêndoa.
  • 37.
    O eco –Cecília Meirelles O menino pergunta ao eco onde é que ele se esconde. Mas o eco só responde: "Onde? Onde?" O menino também lhe pede: "Eco, vem passear comigo!" Mas não sabe se o eco é amigo ou inimigo. Pois só lhe ouve dizer: "Migo!"
  • 38.
    AMOR É FOGOQUE ARDE CAMÕES Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer; É um não querer mais que bem querer; É solitário andar por entre a gente; É nunca contentar-se de contente; É cuidar que se ganha em se perder;
  • 39.
    É querer estarpreso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata lealdade. Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade, Se não contrário a si é o mesmo Amor? Camões
  • 40.
    Os Lusíadas –Camões • As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram;
  • 41.
    E também asmemórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte.