ELEMENTOS DE SANTIDADE E
ESPIRITUALIDADES PRESENTES NAS PRÁTICAS
INTEGRATICAS
Alecsandra Pina de Oliveira
Cristina Galdino Alencar
APRESENTAÇÃO
A vivência religiosa em nossa sociedade tem passado por várias mudanças. De um lado
é possível identificar a evidência de uma religião mais ortodoxa, voltada às origens
fundacionais, com características doutrinais e morais bem demarcadas, e por outro lado,
uma vivência religiosa com um aspecto mais aberto e flexível, onde é possível perceber
em seus rituais celebrativos a presença de práticas de outras tradições religiosas, como
as orientais através das práticas de acender incenso, meditação, dança e a cura de
doenças com ervas e/ou ritos de purificação.
Levando em conta esses movimentos, acreditamos ser relevante compreender
como essas aproximações e apropriações de práticas vão acontecendo no
âmbito religioso e também social, uma vez que vai se tornando comum escolas
de formação em meditação, yoga, óleos e essências, diferentes práticas de
imposição das mãos, entre outras práticas terapêuticas.
Ao percebermos essa realidade, surgem algumas perguntas: O que as
pessoas buscam com estas práticas, fora do contexto religioso? Alimentar mais
a fé, elevação espiritual, busca de santidade, bem-estar ou qualidade de
vida?
OBJETIVO
Identificar as práticas das tradições religiosas orientais que
perpassam o cotidiano da vida das pessoas, inclusive a
vivência religiosa, as quais são reproduzidas, em algumas
realidades, sem que necessariamente haja um nível de
consciência da parte de quem as realiza.
METODOLOGIA
A metodologia empregada para a elaboração deste trabalho
baseou-se em pesquisa bibliográfica e documental, na busca de
referência teórica e maior aprofundamento em relação ao tema
abordado.
Nossa hipótese é que determinadas práticas orientais, ao serem
oferecidas, não estão diretamente vinculados ao tema da fé, mas
que as pessoas associam a uma busca de bem-estar.
Etimologicamente a palavra santidade teria se originado a
partir do termo em hebraico kadosh. Sendo utilizada com o
significado de santo ou santificado para designar algo
sagrado ou para se referir a um indivíduo que foi
consagrado perante outras pessoas.
A palavra santa deriva de raízes com o sentido geral de cortar,
significa separado, colocado à parte, e designa tudo aquilo que
se relaciona com a divindade, e foge ao uso profano (DE FRAINE,
1971, col. 1389). Indo ao encontro ao pensamento de Schlesinger
e Porto (1995), sendo um atributo exclusivo de Deus, portanto,
apenas Deus é santo (SCHLESINGER; PORTO, 1995, p. 2294-5).
Para Rudolf Otto (1985), santidade passa a ser
atributo de pessoas, ou até mesmo de objetos. É
nesse sentido que as diversas religiões e igrejas
aplicam o conceito de santo de maneira
diferenciada e, por vezes, polêmica.
As religiões ou igrejas possuem vários conceitos
de santidade, porém predomina, em todas elas,
um aspecto mais institucional e outro mais
popular, de acordo com o olhar de quem a
reconhece. A devoção popular, com frequência, é
paralela e, não raro, conflitante com a proposta
da religião oficial.
O conceito de santidade que é
usado nas tradições cristãs, não se
aplicam a tradições orientais.
Diferente do cristianismo católico,
em que a santidade é uma virtude
a ser alcançada, nas tradições
orientais está relacionada à
prática da caridade, a uma forma
de viver de cada pessoa. Vale
lembrar que na tradição oriental
a santidade não é um atributo que
se dá ou se recebe.
ESPIRITUALIDADE
A espiritualidade, diferentemente do significado de
religião, pode ser definida como um sistema de
crenças que engloba elementos subjetivos, que
transmitem vitalidade e significado a eventos da vida
e está inserida na humanidade desde antes da sua
criação e, pode mobilizar energias e iniciativas
extremamente positivas e potenciais na busca de um
sentido, influenciando na qualidade de vida.
A espiritualidade não é monopólio das religiões.
Elas (as religiões) nasceram de uma espiritualidade
e podem reforçar a espiritualidade. Mas não
necessariamente. A espiritualidade é uma dimensão
de cada ser humano, mesmo de quem não possui
nenhuma expressão religiosa, mas busca viver no
amor, na solidariedade e na compaixão,
especialmente com aqueles que mais sofrem. [...].
Quanto mais espiritual, mais irradia bondade e
todos se sentirão bem-estando junto dele (BOFF,
2017, p.79).
A espiritualidade, não é exclusividade ou fruto da religião, ao contrário, são as religiões que surgem
delas. Segundo Arrieira (2017), a espiritualidade é um dos fatores que determinam as opiniões e
atitudes do indivíduo, influenciando seu modo de cuidar ou cuidar-se. Para Boff, “A espiritualidade é
a atividade pela qual o ser humano sente-se ligado ao todo e percebe o fio condutor que liga e
religa todas as coisas para formarem um cosmos” (BOFF, 1999, p. 129).
O BEM VIVER
O Bem Viver, nas suas diversas
traduções também compreendido
como “Buen Vivir, Vivir Bien, saber
viver, saber conviver, viver em
equilíbrio e harmonia, respeitar a
vida, vida em plenitude, vida plena”
(ACOSTA, 2016, p 78), vem como
uma proposta que questiona essa
prática do tudo em nome, em prol do
desenvolvimento.
O Bem Viver – ou melhor, os bons conviveres – é uma
oportunidade para construir um mundo diferente, que
não será alcançado apenas com discursos estridentes,
incoerentes com a prática. Outro mundo será possível
se for pensado e erguido democraticamente, com os
pés fincados nos Direitos Humanos e nos Direitos da
Natureza (ACOSTA, 2016, p 21).
É um convite a mudar a forma como se
estabelece e compreende as relações
com o semelhante, com a natureza e
consigo mesmo. A prática do Bem Viver
é identificada na forma como os povos
originários tradicionais estabelecem suas
relações com a natureza. Como destaca
Boaventura de Sousa Santos, é “um
conceito de comunidade onde ninguém
pode ganhar se seu vizinho não ganha”
(2010 apud ACOSTA, 2016), ajudando
assim a desconstruir o modelo
capitalista, no qual para que alguém
ganhe, outros devem perder. Na ciranda
no Bem Viver, todos ganham.
PRÁTICAS INTEGRATIVAS E
COMPLEMENTARES
No Brasil, o Ministério da Saúde optou
pela terminologia práticas integrativas e
complementares que englobam diferentes
terapêuticas e saberes como parte
integrante do processo saúde e doença e
não como tratamentos concorrentes entre si
(GOMES, 2020, apud. LENHARDT, 2020).
As práticas foram institucionalizadas por
meio da Política Nacional de Práticas
Integrativas e Complementares no SUS
(PNPIC).
Esse campo de saberes e a atenção à saúde esboçam um conjunto
múltiplas identidades e olhares sincréticos, proferindo um número
crescente de filosofias orientais, práticas religiosas, procedimentos de
conhecimento e de autoconhecimento, proporcionando reflexões por
parte de vários autores, principalmente no que se refere a compreensão
sobre terapêutica na religião e a terapêutica da religião
Essa interligação entre a espiritualidade/religiosidade (E/R) e a saúde remonta aos
primórdios da evolução do homem, onde os poderes da cura estavam nas mãos dos
que lidavam com o espírito (sacerdotes, xamãs, etc.), a quem eram reconhecidos o
poder para tratar dos males do corpo (PINTO; PAIS-RIBEIRO, 2007).
Além das já tradicionais homeopatias, acupuntura e
fitoterapia, há um aumento gradual na presença de
diferentes práticas de abordagem corporal ou psico-
corporal, tais como tai chi chuan, lian gong, lian kun, Qi
gong, do-in, tui-na, ioga, terapias como florais de Bach,
cristais, reiki, meditação, terapia comunitária, biodança,
osteopatia, termalismo/crenoterapia (AZEVEDO et al,
2012; SIMONI, ET AL 2008).
Assim a medicina religiosa ou espiritualidade terapêutica,
constitui um campo extremamente importante no contexto
da medicina popular, produzindo uma cosmologia que
inclui noções bem definidas de causa e efeito de doenças
produzidas pelo desequilíbrio do meio social mais
imediato ao indivíduo e acrescentando as particularidades
de cada religião (QUEIROZ, et al, 1997).
CONSIDERAÇÕES
Muitas vezes, a fé, a religião e/ou algum aspecto espiritual completam e suavizam esse
anseio interior. A espiritualidade permite estudos além do aspecto biomédico, amplia-se
para questões e entraves políticos, sociais, culturais, geográficos, históricos, que
humanizam e modificam o status quo. A cura tem a mesma lógica, só é possível obtê-la
se ela for significada, vivida, percebida e, até mesmo merecida, apresentando-se por
formas e conjecturas diversas: religiosidade, espiritualidade, ritos, símbolos,
transcendências, etc.
Apesar da falta de definição no conceito, vários estudos apontam para um possível
benefício da E/R, melhores índices de qualidade de vida, pois são componentes que
trazem sentido e propósito, auxiliando na interpretação que as pessoas fazem sobre
suas vidas e experiências pessoais. Assim, através das PICS, identificamos elementos da
espiritualidade e santidade, como a conexão interior e a busca de ser melhor a cada
dia.

Elementos de Santidade e espiritualidades.pptx

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    ELEMENTOS DE SANTIDADEE ESPIRITUALIDADES PRESENTES NAS PRÁTICAS INTEGRATICAS Alecsandra Pina de Oliveira Cristina Galdino Alencar
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    APRESENTAÇÃO A vivência religiosaem nossa sociedade tem passado por várias mudanças. De um lado é possível identificar a evidência de uma religião mais ortodoxa, voltada às origens fundacionais, com características doutrinais e morais bem demarcadas, e por outro lado, uma vivência religiosa com um aspecto mais aberto e flexível, onde é possível perceber em seus rituais celebrativos a presença de práticas de outras tradições religiosas, como as orientais através das práticas de acender incenso, meditação, dança e a cura de doenças com ervas e/ou ritos de purificação.
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    Levando em contaesses movimentos, acreditamos ser relevante compreender como essas aproximações e apropriações de práticas vão acontecendo no âmbito religioso e também social, uma vez que vai se tornando comum escolas de formação em meditação, yoga, óleos e essências, diferentes práticas de imposição das mãos, entre outras práticas terapêuticas. Ao percebermos essa realidade, surgem algumas perguntas: O que as pessoas buscam com estas práticas, fora do contexto religioso? Alimentar mais a fé, elevação espiritual, busca de santidade, bem-estar ou qualidade de vida?
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    OBJETIVO Identificar as práticasdas tradições religiosas orientais que perpassam o cotidiano da vida das pessoas, inclusive a vivência religiosa, as quais são reproduzidas, em algumas realidades, sem que necessariamente haja um nível de consciência da parte de quem as realiza.
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    METODOLOGIA A metodologia empregadapara a elaboração deste trabalho baseou-se em pesquisa bibliográfica e documental, na busca de referência teórica e maior aprofundamento em relação ao tema abordado. Nossa hipótese é que determinadas práticas orientais, ao serem oferecidas, não estão diretamente vinculados ao tema da fé, mas que as pessoas associam a uma busca de bem-estar.
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    Etimologicamente a palavrasantidade teria se originado a partir do termo em hebraico kadosh. Sendo utilizada com o significado de santo ou santificado para designar algo sagrado ou para se referir a um indivíduo que foi consagrado perante outras pessoas. A palavra santa deriva de raízes com o sentido geral de cortar, significa separado, colocado à parte, e designa tudo aquilo que se relaciona com a divindade, e foge ao uso profano (DE FRAINE, 1971, col. 1389). Indo ao encontro ao pensamento de Schlesinger e Porto (1995), sendo um atributo exclusivo de Deus, portanto, apenas Deus é santo (SCHLESINGER; PORTO, 1995, p. 2294-5).
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    Para Rudolf Otto(1985), santidade passa a ser atributo de pessoas, ou até mesmo de objetos. É nesse sentido que as diversas religiões e igrejas aplicam o conceito de santo de maneira diferenciada e, por vezes, polêmica. As religiões ou igrejas possuem vários conceitos de santidade, porém predomina, em todas elas, um aspecto mais institucional e outro mais popular, de acordo com o olhar de quem a reconhece. A devoção popular, com frequência, é paralela e, não raro, conflitante com a proposta da religião oficial.
  • 8.
    O conceito desantidade que é usado nas tradições cristãs, não se aplicam a tradições orientais. Diferente do cristianismo católico, em que a santidade é uma virtude a ser alcançada, nas tradições orientais está relacionada à prática da caridade, a uma forma de viver de cada pessoa. Vale lembrar que na tradição oriental a santidade não é um atributo que se dá ou se recebe.
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    ESPIRITUALIDADE A espiritualidade, diferentementedo significado de religião, pode ser definida como um sistema de crenças que engloba elementos subjetivos, que transmitem vitalidade e significado a eventos da vida e está inserida na humanidade desde antes da sua criação e, pode mobilizar energias e iniciativas extremamente positivas e potenciais na busca de um sentido, influenciando na qualidade de vida.
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    A espiritualidade nãoé monopólio das religiões. Elas (as religiões) nasceram de uma espiritualidade e podem reforçar a espiritualidade. Mas não necessariamente. A espiritualidade é uma dimensão de cada ser humano, mesmo de quem não possui nenhuma expressão religiosa, mas busca viver no amor, na solidariedade e na compaixão, especialmente com aqueles que mais sofrem. [...]. Quanto mais espiritual, mais irradia bondade e todos se sentirão bem-estando junto dele (BOFF, 2017, p.79).
  • 11.
    A espiritualidade, nãoé exclusividade ou fruto da religião, ao contrário, são as religiões que surgem delas. Segundo Arrieira (2017), a espiritualidade é um dos fatores que determinam as opiniões e atitudes do indivíduo, influenciando seu modo de cuidar ou cuidar-se. Para Boff, “A espiritualidade é a atividade pela qual o ser humano sente-se ligado ao todo e percebe o fio condutor que liga e religa todas as coisas para formarem um cosmos” (BOFF, 1999, p. 129).
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    O BEM VIVER OBem Viver, nas suas diversas traduções também compreendido como “Buen Vivir, Vivir Bien, saber viver, saber conviver, viver em equilíbrio e harmonia, respeitar a vida, vida em plenitude, vida plena” (ACOSTA, 2016, p 78), vem como uma proposta que questiona essa prática do tudo em nome, em prol do desenvolvimento.
  • 13.
    O Bem Viver– ou melhor, os bons conviveres – é uma oportunidade para construir um mundo diferente, que não será alcançado apenas com discursos estridentes, incoerentes com a prática. Outro mundo será possível se for pensado e erguido democraticamente, com os pés fincados nos Direitos Humanos e nos Direitos da Natureza (ACOSTA, 2016, p 21).
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    É um convitea mudar a forma como se estabelece e compreende as relações com o semelhante, com a natureza e consigo mesmo. A prática do Bem Viver é identificada na forma como os povos originários tradicionais estabelecem suas relações com a natureza. Como destaca Boaventura de Sousa Santos, é “um conceito de comunidade onde ninguém pode ganhar se seu vizinho não ganha” (2010 apud ACOSTA, 2016), ajudando assim a desconstruir o modelo capitalista, no qual para que alguém ganhe, outros devem perder. Na ciranda no Bem Viver, todos ganham.
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    PRÁTICAS INTEGRATIVAS E COMPLEMENTARES NoBrasil, o Ministério da Saúde optou pela terminologia práticas integrativas e complementares que englobam diferentes terapêuticas e saberes como parte integrante do processo saúde e doença e não como tratamentos concorrentes entre si (GOMES, 2020, apud. LENHARDT, 2020). As práticas foram institucionalizadas por meio da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS (PNPIC).
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    Esse campo desaberes e a atenção à saúde esboçam um conjunto múltiplas identidades e olhares sincréticos, proferindo um número crescente de filosofias orientais, práticas religiosas, procedimentos de conhecimento e de autoconhecimento, proporcionando reflexões por parte de vários autores, principalmente no que se refere a compreensão sobre terapêutica na religião e a terapêutica da religião
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    Essa interligação entrea espiritualidade/religiosidade (E/R) e a saúde remonta aos primórdios da evolução do homem, onde os poderes da cura estavam nas mãos dos que lidavam com o espírito (sacerdotes, xamãs, etc.), a quem eram reconhecidos o poder para tratar dos males do corpo (PINTO; PAIS-RIBEIRO, 2007).
  • 18.
    Além das játradicionais homeopatias, acupuntura e fitoterapia, há um aumento gradual na presença de diferentes práticas de abordagem corporal ou psico- corporal, tais como tai chi chuan, lian gong, lian kun, Qi gong, do-in, tui-na, ioga, terapias como florais de Bach, cristais, reiki, meditação, terapia comunitária, biodança, osteopatia, termalismo/crenoterapia (AZEVEDO et al, 2012; SIMONI, ET AL 2008). Assim a medicina religiosa ou espiritualidade terapêutica, constitui um campo extremamente importante no contexto da medicina popular, produzindo uma cosmologia que inclui noções bem definidas de causa e efeito de doenças produzidas pelo desequilíbrio do meio social mais imediato ao indivíduo e acrescentando as particularidades de cada religião (QUEIROZ, et al, 1997).
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    CONSIDERAÇÕES Muitas vezes, afé, a religião e/ou algum aspecto espiritual completam e suavizam esse anseio interior. A espiritualidade permite estudos além do aspecto biomédico, amplia-se para questões e entraves políticos, sociais, culturais, geográficos, históricos, que humanizam e modificam o status quo. A cura tem a mesma lógica, só é possível obtê-la se ela for significada, vivida, percebida e, até mesmo merecida, apresentando-se por formas e conjecturas diversas: religiosidade, espiritualidade, ritos, símbolos, transcendências, etc. Apesar da falta de definição no conceito, vários estudos apontam para um possível benefício da E/R, melhores índices de qualidade de vida, pois são componentes que trazem sentido e propósito, auxiliando na interpretação que as pessoas fazem sobre suas vidas e experiências pessoais. Assim, através das PICS, identificamos elementos da espiritualidade e santidade, como a conexão interior e a busca de ser melhor a cada dia.