ELEMENTOS DE SANTIDADEE
ESPIRITUALIDADES PRESENTES NAS PRÁTICAS
INTEGRATICAS
Alecsandra Pina de Oliveira
Cristina Galdino Alencar
2.
APRESENTAÇÃO
A vivência religiosaem nossa sociedade tem passado por várias mudanças. De um lado
é possível identificar a evidência de uma religião mais ortodoxa, voltada às origens
fundacionais, com características doutrinais e morais bem demarcadas, e por outro lado,
uma vivência religiosa com um aspecto mais aberto e flexível, onde é possível perceber
em seus rituais celebrativos a presença de práticas de outras tradições religiosas, como
as orientais através das práticas de acender incenso, meditação, dança e a cura de
doenças com ervas e/ou ritos de purificação.
3.
Levando em contaesses movimentos, acreditamos ser relevante compreender
como essas aproximações e apropriações de práticas vão acontecendo no
âmbito religioso e também social, uma vez que vai se tornando comum escolas
de formação em meditação, yoga, óleos e essências, diferentes práticas de
imposição das mãos, entre outras práticas terapêuticas.
Ao percebermos essa realidade, surgem algumas perguntas: O que as
pessoas buscam com estas práticas, fora do contexto religioso? Alimentar mais
a fé, elevação espiritual, busca de santidade, bem-estar ou qualidade de
vida?
4.
OBJETIVO
Identificar as práticasdas tradições religiosas orientais que
perpassam o cotidiano da vida das pessoas, inclusive a
vivência religiosa, as quais são reproduzidas, em algumas
realidades, sem que necessariamente haja um nível de
consciência da parte de quem as realiza.
5.
METODOLOGIA
A metodologia empregadapara a elaboração deste trabalho
baseou-se em pesquisa bibliográfica e documental, na busca de
referência teórica e maior aprofundamento em relação ao tema
abordado.
Nossa hipótese é que determinadas práticas orientais, ao serem
oferecidas, não estão diretamente vinculados ao tema da fé, mas
que as pessoas associam a uma busca de bem-estar.
6.
Etimologicamente a palavrasantidade teria se originado a
partir do termo em hebraico kadosh. Sendo utilizada com o
significado de santo ou santificado para designar algo
sagrado ou para se referir a um indivíduo que foi
consagrado perante outras pessoas.
A palavra santa deriva de raízes com o sentido geral de cortar,
significa separado, colocado à parte, e designa tudo aquilo que
se relaciona com a divindade, e foge ao uso profano (DE FRAINE,
1971, col. 1389). Indo ao encontro ao pensamento de Schlesinger
e Porto (1995), sendo um atributo exclusivo de Deus, portanto,
apenas Deus é santo (SCHLESINGER; PORTO, 1995, p. 2294-5).
7.
Para Rudolf Otto(1985), santidade passa a ser
atributo de pessoas, ou até mesmo de objetos. É
nesse sentido que as diversas religiões e igrejas
aplicam o conceito de santo de maneira
diferenciada e, por vezes, polêmica.
As religiões ou igrejas possuem vários conceitos
de santidade, porém predomina, em todas elas,
um aspecto mais institucional e outro mais
popular, de acordo com o olhar de quem a
reconhece. A devoção popular, com frequência, é
paralela e, não raro, conflitante com a proposta
da religião oficial.
8.
O conceito desantidade que é
usado nas tradições cristãs, não se
aplicam a tradições orientais.
Diferente do cristianismo católico,
em que a santidade é uma virtude
a ser alcançada, nas tradições
orientais está relacionada à
prática da caridade, a uma forma
de viver de cada pessoa. Vale
lembrar que na tradição oriental
a santidade não é um atributo que
se dá ou se recebe.
9.
ESPIRITUALIDADE
A espiritualidade, diferentementedo significado de
religião, pode ser definida como um sistema de
crenças que engloba elementos subjetivos, que
transmitem vitalidade e significado a eventos da vida
e está inserida na humanidade desde antes da sua
criação e, pode mobilizar energias e iniciativas
extremamente positivas e potenciais na busca de um
sentido, influenciando na qualidade de vida.
10.
A espiritualidade nãoé monopólio das religiões.
Elas (as religiões) nasceram de uma espiritualidade
e podem reforçar a espiritualidade. Mas não
necessariamente. A espiritualidade é uma dimensão
de cada ser humano, mesmo de quem não possui
nenhuma expressão religiosa, mas busca viver no
amor, na solidariedade e na compaixão,
especialmente com aqueles que mais sofrem. [...].
Quanto mais espiritual, mais irradia bondade e
todos se sentirão bem-estando junto dele (BOFF,
2017, p.79).
11.
A espiritualidade, nãoé exclusividade ou fruto da religião, ao contrário, são as religiões que surgem
delas. Segundo Arrieira (2017), a espiritualidade é um dos fatores que determinam as opiniões e
atitudes do indivíduo, influenciando seu modo de cuidar ou cuidar-se. Para Boff, “A espiritualidade é
a atividade pela qual o ser humano sente-se ligado ao todo e percebe o fio condutor que liga e
religa todas as coisas para formarem um cosmos” (BOFF, 1999, p. 129).
12.
O BEM VIVER
OBem Viver, nas suas diversas
traduções também compreendido
como “Buen Vivir, Vivir Bien, saber
viver, saber conviver, viver em
equilíbrio e harmonia, respeitar a
vida, vida em plenitude, vida plena”
(ACOSTA, 2016, p 78), vem como
uma proposta que questiona essa
prática do tudo em nome, em prol do
desenvolvimento.
13.
O Bem Viver– ou melhor, os bons conviveres – é uma
oportunidade para construir um mundo diferente, que
não será alcançado apenas com discursos estridentes,
incoerentes com a prática. Outro mundo será possível
se for pensado e erguido democraticamente, com os
pés fincados nos Direitos Humanos e nos Direitos da
Natureza (ACOSTA, 2016, p 21).
14.
É um convitea mudar a forma como se
estabelece e compreende as relações
com o semelhante, com a natureza e
consigo mesmo. A prática do Bem Viver
é identificada na forma como os povos
originários tradicionais estabelecem suas
relações com a natureza. Como destaca
Boaventura de Sousa Santos, é “um
conceito de comunidade onde ninguém
pode ganhar se seu vizinho não ganha”
(2010 apud ACOSTA, 2016), ajudando
assim a desconstruir o modelo
capitalista, no qual para que alguém
ganhe, outros devem perder. Na ciranda
no Bem Viver, todos ganham.
15.
PRÁTICAS INTEGRATIVAS E
COMPLEMENTARES
NoBrasil, o Ministério da Saúde optou
pela terminologia práticas integrativas e
complementares que englobam diferentes
terapêuticas e saberes como parte
integrante do processo saúde e doença e
não como tratamentos concorrentes entre si
(GOMES, 2020, apud. LENHARDT, 2020).
As práticas foram institucionalizadas por
meio da Política Nacional de Práticas
Integrativas e Complementares no SUS
(PNPIC).
16.
Esse campo desaberes e a atenção à saúde esboçam um conjunto
múltiplas identidades e olhares sincréticos, proferindo um número
crescente de filosofias orientais, práticas religiosas, procedimentos de
conhecimento e de autoconhecimento, proporcionando reflexões por
parte de vários autores, principalmente no que se refere a compreensão
sobre terapêutica na religião e a terapêutica da religião
17.
Essa interligação entrea espiritualidade/religiosidade (E/R) e a saúde remonta aos
primórdios da evolução do homem, onde os poderes da cura estavam nas mãos dos
que lidavam com o espírito (sacerdotes, xamãs, etc.), a quem eram reconhecidos o
poder para tratar dos males do corpo (PINTO; PAIS-RIBEIRO, 2007).
18.
Além das játradicionais homeopatias, acupuntura e
fitoterapia, há um aumento gradual na presença de
diferentes práticas de abordagem corporal ou psico-
corporal, tais como tai chi chuan, lian gong, lian kun, Qi
gong, do-in, tui-na, ioga, terapias como florais de Bach,
cristais, reiki, meditação, terapia comunitária, biodança,
osteopatia, termalismo/crenoterapia (AZEVEDO et al,
2012; SIMONI, ET AL 2008).
Assim a medicina religiosa ou espiritualidade terapêutica,
constitui um campo extremamente importante no contexto
da medicina popular, produzindo uma cosmologia que
inclui noções bem definidas de causa e efeito de doenças
produzidas pelo desequilíbrio do meio social mais
imediato ao indivíduo e acrescentando as particularidades
de cada religião (QUEIROZ, et al, 1997).
19.
CONSIDERAÇÕES
Muitas vezes, afé, a religião e/ou algum aspecto espiritual completam e suavizam esse
anseio interior. A espiritualidade permite estudos além do aspecto biomédico, amplia-se
para questões e entraves políticos, sociais, culturais, geográficos, históricos, que
humanizam e modificam o status quo. A cura tem a mesma lógica, só é possível obtê-la
se ela for significada, vivida, percebida e, até mesmo merecida, apresentando-se por
formas e conjecturas diversas: religiosidade, espiritualidade, ritos, símbolos,
transcendências, etc.
Apesar da falta de definição no conceito, vários estudos apontam para um possível
benefício da E/R, melhores índices de qualidade de vida, pois são componentes que
trazem sentido e propósito, auxiliando na interpretação que as pessoas fazem sobre
suas vidas e experiências pessoais. Assim, através das PICS, identificamos elementos da
espiritualidade e santidade, como a conexão interior e a busca de ser melhor a cada
dia.