1


         Pontifícia Universidade Católica
            Faculdade de Psicologia




             E      TU,         AT?
       Análise das alterações emocionais descritas
por acompanhantes terapêuticos no trabalho com psicóticos


       Claudia Valentina de Arruda Campos




                            Orientadora: Camila Sampaio




                                Trabalho de conclusão de curso
                                como exigência para graduação
                                        no curso de Psicologia.




                  São Paulo

                     1996
2




Agradeço aos que amo
aos que me acompanham
e aos que acompanho
na loucura nossa de cada dia.
Agradeço ao tempo
que por rexistir
me obriga a parar num ponto
fazer história
deste ciclo tortuoso
que é escrever/viver.
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AGRADECIMENTOS




Aos ATs entrevistados pela disponibilidade e pelo trabalho emocionante
que fazem.
À Camila por me ajudar a olhar para o outro.
Ao Welson por me ajudar a olhar para mim.
À Vilma pela delicadeza.
Ao Hemir pelas aulas e histórias.
À Lucinha pela atenção e paciência.
À Bia Almeida por me ajudar em meus descabelamentos sorrindo.
Ao pessoal d’A Casa:
Nelson e Leonel, pelos olhos (super-visões),
e à Lúcia, Bia Portella, Bia Almeida, Cristina, Renata, Júlio, Rodrigo,
Maurício Hermann, Eliane, Maurício Porto, Iso, Kléber, Luciana, João,
Claudia e Débora, por acompanharem de perto meu acompanhar.
Ao pessoal da Oficina de Inventos:
Eliana, Paula, Bia, Kátia e Saulo,
pelas discussões regada a vinho e macarronada.
À minha família querida.
Aos meus amigos e amores que foram, são e serão.
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Sumário


RESUMO ..........................................................................................................................5
APRESENTAÇÃO ............................................................................................................6
INTRODUÇÃO .................................................................................................................9
  I. O ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO ............................................................... 11
  II. ASPECTOS TEÓRICOS ......................................................................................... 19
      1 A Transferência ................................................................................................... 19
      2 A Psicose............................................................................................................. 21
      3 A Transferência Psicótica .................................................................................... 24
      4 A Contratransferência .......................................................................................... 27
      5 A Contratransferência na Psicose........................................................................ 29
      6 A Identificação Projetiva ...................................................................................... 34
      7 As sensações provocadas pela identificação projetiva ......................................... 40
      8 O sinistro na contratransferência vivido a partir da identificação projetiva ........... 42
      9 A Interpretação .................................................................................................... 45
METODOLOGIA ............................................................................................................. 48
  I Sujeitos de pesquisa ................................................................................................ 48
  II Entrevista ................................................................................................................ 49
  III Metodologia de análise e discussão da entrevista.................................................. 49
ANÁLISE E DISCUSSÃO DA ENTREVISTA DE H ......................................................... 51
  I O Trabalho do AT..................................................................................................... 51
  II O que sente o AT? .................................................................................................. 59
  III Hipóteses sobre o sentir: particularidades do acompanhamento terapêutico ......... 79
      1. A intimidade: o espaço e o corpo ........................................................................ 80
      2. A relação da dupla com o social ......................................................................... 82
      3. Duração: tempo e temporalidade ........................................................................ 84
      4. O lugar do AT ..................................................................................................... 85
      5. A dificuldade em nomear .................................................................................... 87
  IV O que fazer com “isso”? ........................................................................................ 88
CONCLUSÃO ................................................................................................................. 93
BIBLIOGRAFIA ............................................................................................................... 96
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RESUMO


   Este trabalho visa correlacionar três objetos de estudo: a psicanálise, o
acompanhamento terapêutico e a psicose.


   Tudo começou quando, ao acompanhar uma moça psicótica, comecei a
perceber “coisas estranhas” em mim. Do que se tratava? O que era aquilo?
Comecei a investigar e observei que diversos acompanhantes descreviam
sensações, vivências particulares, semelhantes em sua estranheza. Passei a
buscar referências nos livros, e na falta de material sobre acompanhamento, me
dirigi à psicanálise: o que existia a respeito das sensações que sentia? Quais as
descrições de análises de pacientes psicóticos? Ao constatar uma proximidade
entre o que era descrito na psicanálise ao que era descrito pelos
acompanhantes, decidi investigar as reações emocionais do acompanhante
através de um estudo de caso. A entrevista me permitiu descrever o
acompanhamento terapêutico e correlacioná-lo à teoria psicanalítica.


   A pesquisa encontra-se dividida em duas partes: a primeira teórica, onde
são discutidos em especial os conceitos de transferência na psicose,
contratransferência e identificação projetiva; e uma segunda, dedicada à análise
de entrevista realizada com um acompanhante terapêutico, articulando a
experiência do acompanhamento terapêutico à teoria psicanalítica.


   Como conclusão, a análise da entrevista possibilitou verificar aproximações
entre essas duas clínicas da psicose _ o acompanhamento terapêutico e a
psicanálise _ além de destacar quais são as características particulares do
acompanhamento terapêutico. A pesquisa também permitiu levantar questões
para investigações futuras.
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APRESENTAÇÃO


      No decorrer desta pesquisa me dei conta de que ela vinha ocupar um lugar
incômodo em minha vida: não me deixar esquecer, não deixar aquietar,
naturalizar, os estranhamentos que eu sentia em meu trabalho como
acompanhante terapêutica. Isto certamente me trouxe desgaste e cansaço a
cada vez que eu olhava para meu próprio tema. O trabalho de reflexão e
produção teórica foi uma experiência onde senti ser possível retornar à angústia
vivida nas situações sobre as quais eu pensava e, a partir do processo reflexivo,
ultrapassá-la. Em diversos momentos, mergulhei em minha própria experiência,
sendo difícil observar a experiência alheia, mas essa era a tarefa a que me havia
proposto: olhar para fora, para além de minha vivência particular, e produzir um
texto sobre o acompanhamento terapêutico.


   Ao iniciar o trabalho eu tinha uma questão clara: correlacionar o
acompanhamento terapêutico e as reações emocionais descritas pelos
acompanhantes de pacientes psicóticos, com a teoria da psicanálise. A partir daí,
iniciou-se uma viagem teórica. A princípio, pensei em utilizar a teoria da
contratransferência, e não um autor em particular, porque queria enfocar o
fenômeno, as “sensações” descritas por analistas que atendem pacientes
psicóticos em seus consultórios. Assim, busquei autores que falassem da reação
emocional do analista frente a pacientes psicóticos, e terminei por utilizar um
grande número de autores, sem me aprofundar na construção teórica de cada
um em particular.


    Nesta busca, novas questões foram surgindo: ao falar de contratransferência
na psicose precisei escrever sobre que referência de psicose estava utilizando,
assim como de transferência. As questões pareciam intermináveis: Como se dá a
transferência na psicose e qual sua relação com a contratransferência? O que é
a identificação projetiva, conceito a que cheguei através da leitura sobre a
7


contratransferência? Quais as manifestações observáveis da identificação
projetiva? Qual a relação entre identificação projetiva, transferência e
contratransferência? Pode-se interpretar a partir da percepção da identificação
projetiva? E tudo isso poderia servir para o acompanhamento terapêutico?


   Ao mesmo tempo em que este caminho foi percorrido, havia outro paralelo: a
experiência como acompanhante terapêutica (AT) me levou a correlacioná-la à
experiência descrita por Freud (1924) do sinistro. O encontro destes dois
caminhos derivou em uma nova questão: Como correlacionar a experiência do
sinistro com a contratransferência na psicose? E pude entrever que esta questão
me levaria a outras que indicavam para o corpo. O que é o corpo e onde está
inserido o corpo do analista e do acompanhante terapêutico na relação com um
indivíduo psicótico? O tempo se foi antes de poder chegar ao corpo. Se você
está confuso, imagine eu que a esta altura já nem me lembrava de qual havia
sido a questão inicial.


   Tive que me voltar para as entrevistas e aí redescobrir minha questão. A
partir da análise da entrevista, a discussão busca correlacionar os aspectos
teóricos da psicanálise com o acompanhamento terapêutico.


   Pensando sobre o que perseguia ao construir uma “colcha de retalhos”
teórica, me deparei com uma grande ansiedade, e com o desejo de encontrar
uma resposta, buscar compreender o que havia vivenciado na experiência
enquanto acompanhante terapêutica. A necessidade de entender o que havia
vivido, em momentos, foi maior que qualquer tentativa de organização
metodológica que desse um contorno melhor a isto que eu buscava descrever,
ao mesmo tempo em que descobria.


   Certamente ficaram muitas falhas, contradições e buracos. Um trabalho
“louco”, como disse uma amiga. Um trabalho que vagueia, mas que ao final
8


encontra, se não respostas, talvez hipóteses e, com certeza, muitas novas
questões.


   Se ele provocar, instigar a pensar, está cumprido. Um pequeno paralelo com
o trabalho do AT: apresentar um mundo novo, interno e externo, e deixar que o
outro se ligue, viva.
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INTRODUÇÃO


“Eu sou Ofélia. A mulher na forca. A mulher com seios cortados. A mulher com
excesso de dose SOBRE OS LÁBIOS NEVE a mulher com a cabeça no fogão a
gás. Ontem deixei de me matar. Estou só com meus seios, minhas coxas, meu
ventre. Rebento os instrumentos do meu cativeiro - a cadeira, a mesa, a cama.
Destruo o campo de batalha que foi o meu lar. Escancaro as portas para que o
vento possa entrar e o grito do mundo. Despedaço a janela. Com as mãos
sangrando rasgo as fotografias dos homens que amei e que se serviram de mim
na cama, mesa, na cadeira, no chão. Toco fogo na minha prisão. Atiro minhas
roupas no fogo. Exumo do meu peito o relógio que era o meu coração. Vou para
a rua, vestida em meu sangue.”
                                                                       Ofélia
                                                                Heiner Müler
                                                             Hamlet Máquina


“Arrombo a minha carne lacrada. Quero habitar nas minhas veias, na medida dos
meus ossos, no labirinto do meu crânio. Retiro-me para as minhas vísceras.
Sento-me na minha merda, no meu sangue. N’algum lugar são rompidos ventres
para que eu possa morar na minha merda. N’algum lugar ventres são abertos
para que eu possa estar sozinho com o meu sangue. Meus pensamentos são
chagas em meu cérebro. O meu cérebro é uma cicatriz. Quero ser uma máquina.
Braços para agarrar pernas andar nenhuma dor nenhum pensamento.”


                                                                      Hamlet
                                                                Heiner Müller
                                                             Hamlet Máquina
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   Estes são trechos da peça de Heiner Müller, Hamlet Máquina. Textos literários
que nos comovem pela crueza, primariedade do que é dito. É a descrição de
sentimentos de pessoas que vivem algo da radicalidade da experiência humana,
radicalidade que podemos encontrar na loucura como uma vivência trágica,
particular e tantas vezes inexplicável. Se um texto literário é capaz de nos fazer
sentir, nos angustiar a partir da possibilidade de vivermos uma parcela do que
nos é descrito, o que poderia provocar em alguém a proximidade e o contato
com quem vive uma experiência de tamanha ruptura de seus mundos interno e
externo como a loucura?


   Este trabalho é uma tentativa de organização de sentimentos de alguém que
pôde sentir esta proximidade, relato de uma procura pessoal, da busca de pares,
da busca teórica de possíveis explicações para o que foi observado e vivido na
relação com uma pessoa “louca”. “Louco” porque: o que é ser louco? O que nos
distancia desta vivência? O que nos garante do lado de cá e eles do lado de lá,
além de um muro? Estas sendo questões que me rodeavam permanentemente
ao acompanhar uma dessas pessoas estranhas. Estranhas estrangeiras em sua
terra natal. Esquisitas desconcertantes, desviantes das regras da razão, onde o
porquê positivista não encontra uma resposta. Críticas não intencionais à custa
de suas próprias subjetividades, sem espaço para a existência, fadadas a viver
em um tempo, que por ser outro que o tempo da produção, não tem lugar. E
então, o que é possível? É possível acompanhar, acompanhar a história e o que
a mudança dos tempos nos permite.
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I. O ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO



   Anteriormente à realização de um trabalho como acompanhante terapêutica,
a loucura era para mim pura teoria, filmes, textos literários. Depois de iniciar o
trabalho como acompanhante terapêutica de psicóticos, deixaram a teoria de ser
pura, os filmes ficção e a literatura texto. A teoria, em especial, pude entendê-la
como experiência sistematizada, flexível, mutável. A partir do acompanhamento
continuei sem saber o que é ser louco, e este desconforto me levou a falar (as
intermináveis conversas dos acompanhantes terapêuticos), escrever e entrevistar
pessoas a fim de encontrar outros pensamentos, destes que também vivem esta
experiência.   Uma   aproximação     da   loucura   através   do   trabalho   como
acompanhante terapêutico (AT).


   O que faz um acompanhante terapêutico? De uma forma geral saímos com
pessoas que tem tido dificuldades em sua relação com o mundo. Muitas vezes
são pacientes psiquiátricos e com eles vamos ao cinema, ao teatro, a um bar,
viajar, etc. Em suma, atividades que as pessoas comumente realizam com
amigos (o antigo nome do acompanhante terapêutico era amigo qualificado).
Acompanhante e acompanhado buscam no mundo possibilidades de novos
caminhos de circulação, novos contatos deste indivíduo com o social, para que o
acompanhado um dia não precise mais de acompanhamento.


   O acompanhamento terapêutico é uma das formas contemporâneas de
tratamento da psicose. Existe pouco material publicado sobre esta prática, sendo
este um dos motivos que me levaram a refletir sobre ela. Há apenas dois livros
sobre o tema editados em português: Acompanhantes Terapêuticos e
Pacientes Psicóticos, de Mauer e Resnizky (1987), e A Rua como Espaço
Clínico, da Equipe de Acompanhantes Terapêuticos do Hospital Dia A Casa
(1991).   Além desses, é possível encontrar artigos dispersos, muitas vezes
publicados por grupos independentes de acompanhantes terapêuticos. A
12


transmissão do que é o trabalho até hoje se dá basicamente por via oral:
palestras, cursos, grupos de estudo e discussões entre acompanhantes.


     Esta é uma questão intrigante sobre esta prática: como, apesar de possuir
mais de 20 anos de existência na Argentina, e pelo menos 13 anos no Brasil, ela
continue ainda sendo transmitida oralmente? Qual seria a dificuldade de teorizar
sobre o acompanhamento terapêutico, dificuldade esta a que os acompanhantes
terapêuticos tanto se referem? Sem tentar responder a estas questões, penso
em    alguns   elementos    que   poderiam    direcionar   novas   pesquisas.    O
acompanhamento é uma prática que se dá no quotidiano.            Acompanhante e
acompanhado percorrem a cidade juntos, buscando realizar atividades que para
muitos seriam básicas em suas vidas, como ir à padaria, ao supermercado,
assistir um filme ou passear de carro. Patto (1990) refere-se à dificuldade que
encontram os teóricos ao tentar elaborar uma teoria do quotidiano. Além disso, o
acompanhamento é um trabalho que possui muitas variáveis, como a questão do
vínculo, da interpretação, a ação, a relação do AT com a família do
acompanhado, o que torna o tratamento algo difícil de ser configurado,
circunscrito. Afinal, disso tudo, o que trata no trabalho como acompanhante?
Quais os fatores terapêuticos? Qual o campo específico desta forma de
trabalho? Como não se perder frente às inúmeras possibilidades existentes?


  Estas questões, ainda sem respostas, permitem pensar que é apenas dentro
da relação existente entre acompanhante e acompanhado que se pode saber o
que é terapêutico, ou analítico, para aquele indivíduo em particular. É a partir de
sua situação de vida atual que se elabora um projeto terapêutico, sendo possível
pensar que as generalizações do que fazer ao se acompanhar alguém,
generalizações estas que poderiam surgir na forma de regras, limites pré-
estabelecidos do que é correto ou incorreto dentro de um acompanhamento
terapêutico, correm o risco de funcionar mais como defesa do terapeuta frente à
angústia do não saber, do desconhecido em que a relação com a psicose nos
coloca, do que como “regras fundamentais” do acompanhamento terapêutico.
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   Existem propostas divergentes sobre o papel do AT no tratamento da psicose
que podem ser observadas nos dois livros existentes sobre acompanhamento
terapêutico. Resnizky e Mauer (1987) definem as funções do acompanhante
terapêutico como sendo as seguintes: contenção do paciente, oferecimento do
acompanhante como modelo de identificação, funcionar como “ego auxiliar” do
paciente, perceber, reforçar e desenvolver a capacidade criativa do paciente,
informar sobre o mundo objetivo do paciente, representar o terapeuta, atuar
como agente ressocializador e, finalmente, servir como catalizador das relações
familiares.


   Já a proposta do grupo do hospital dia A Casa (1991) está mais voltada para
uma concepção analítica da relação, não sendo possível criar itens tão
determinados como os citados acima. É importante, nesta forma de pensar o
acompanhamento,       a   formação    de   um     vínculo      entre    acompanhante     e
acompanhado, vínculo compreendido no terreno dos fenômenos transferenciais
que permitiria ao acompanhado arriscar-se de uma forma particular no mundo,
tendo a sustentação de um companheiro, de um anteparo afetivo entre ele e o
mundo.


   A   rua    é   considerada   o    espaço     privilegiado     para    o   trabalho   do
acompanhamento. Neste espaço de múltiplas possibilidades, o acompanhante
terapêutico busca estar atento às necessidades e capacidades de seu
acompanhado. Busca construir com ele um novo roteiro da cidade, acreditando
que quando um indivíduo psicótico consegue fazer demandas, ali existe a
possibilidade de este construir novas relações afetivas com o mundo, com a vida.
É acreditar, de alguma forma, que a subjetividade se constrói durante toda a
vida, que a possibilidade de transformação e mudança é algo inerente ao
humano, que o social e o quotidiano podem ser terapêuticos. Isto,
paradoxalmente, associado à ideia de que este indivíduo não precisa deixar de
ser um psicótico para habitar este mundo, esta cidade. O acompanhante
14


terapêutico busca construir juntamente com o acompanhado, em um trabalho
microscópico, uma pequena abertura no macro social.


   Esta pequena abertura pode se dar em uma ida à farmácia, onde a boa
acolhida de um farmacêutico a uma pessoa que delira transformações em seu
corpo, respondendo muitas vezes e muitos dias às mesmas perguntas com bom
humor, talvez revele algo _ o fragmento de uma mudança social possível na
forma de se relacionar com a loucura. Seria possível considerar estes pequenos
acontecimentos uma forma de transformação social? Segundo Baremblitt (1991):


      “O paciente não é uma forma de ser no mundo, mas sim, uma forma de
      produzir o mundo, o mundo próprio, único, irrepetível. O desafio do
      acompanhante terapêutico, ou de quem seja, consiste então, em participar
      na construção deste mundo, fazendo de maneira com que ele seja
      compatível com o mundo que é produzido, consagrado e implantado por
      certas maneiras de ser triunfantes. Maneiras de ser que têm conseguido
      produzir um mundo no qual o mundo do chamado paciente não tem lugar.”
      (pág. 81)

   Quem melhor do que Althusser (1992) para descrever este não lugar no
mundo. Sociólogo francês, diagnosticado maníaco depressivo, em novembro de
1980 estrangulou a esposa em seu apartamento e não foi a julgamento por ter
sido “beneficiado” pela impronúncia, ou seja, foi considerado incapaz de
responder em juízo. Posteriormente, Althusser escreveu o livro “O futuro dura
muito tempo”, publicado após sua morte, em 1990. Nele descreve o limbo que
cabe ao louco em nossa sociedade. O relato é uma resposta à impronúncia que
lhe foi imputada. Uma forma de sobrevivência e de existência:


      “É provável que se julgue chocante que eu não me resigne ao silêncio
      depois do ato que cometi, e também a impronúncia que o sancionou e da
      qual, segundo a expressão espontânea, eu me beneficiei.

      Mas, não tivesse eu esse benefício, e deveria ter sido julgado. E, se
      tivesse de ser julgado, teria de responder.
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      Este livro é essa resposta à qual, de outra forma, eu teria sido submetido.
      E tudo que eu peço é que isso me seja concedido; que me concedam
      agora o que então poderia ter sido uma obrigação.” (pág. 21)

   Sobre a impronúncia, o não direito à palavra, ele escreve: “O destino da
impronúncia é na realidade a pedra sepulcral do silêncio.” (pág. 25)


   Escreve também sobre a condição do louco:

      “Se falo dessa estranha condição, é porque a vivi e, de certa forma, vivo-a
      ainda hoje. Mesmo libertado após dois anos de internação psiquiátrica,
      sou, para uma opinião que conhece meu nome, um desaparecido. Nem
      morto nem vivo, não ainda enterrado mas ‘sem obra’ - a magnífica
      expressão de Foucault para designar a loucura: desaparecido.” (pág. 29)

  O livro que escreve é um retorno ao mundo deste ser “desaparecido”. Mundos
exteriores e interiores, mundos familiares, mundo relacional. O AT junto a seu
acompanhado busca ligar, criar uma trança entre estes mundos. A partir de uma
afetividade lançada sobre ele, é possível buscar relançá-la sobre outros objetos,
reconectando quem se desligou da vida, dar voz a quem perdeu o direito à fala.
Trabalho de tentativa e erro constantes, desejos frustrados e alegrias enormes.


   O que é ser um acompanhante terapêutico? Há algo nesta atividade de
acompanhar que vai muito além do fazer. Ao acompanhante cabe a capacidade
de se co-mover, seguir junto, suportar que alguém sem caminhos claros o guie,
ao mesmo tempo em que busca sustentar os afetos que o invadem, comovem. A
possibilidade de suporte sendo um dos atos terapêutico. Assim, se por um lado
há uma grande importância da própria rua enquanto espaço possibilitador para
este trabalho, o fator que viabilizaria a saída às ruas é o vínculo criado entre
acompanhante e acompanhado. Se, por um lado, a rua pode ser pensada
enquanto exterioridade viabilizadora de relações com o fora, o acompanhante
também é o fora, o terceiro, que entra na casa não apenas de seu
acompanhado,      mas    muitas    vezes    de    uma    família   desorganizada
emocionalmente.
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  O “fora” é pensado no acompanhamento terapêutico, para além da rua, a
partir da perspectiva de Rolnik (1995). Segundo ela, o fora não seria um lugar,
mas uma dimensão da realidade em constante movimento de forças, turbilhão de
transformações. Em suas palavras:


           “(...)Se o fora não é um lugar, como ficaria então o dentro? Onde se
          dão estas sensações e este estranhamento? Como fica a
          subjetividade? Pois bem, para sua surpresa ele (AT) constata que o
          dentro nada mais é do que o interior de uma dobra do fora,
          estratificação temporária de certas reações de força - exatamente
          aquelas relações cuja diferença incompatível tivera por efeito
          desestabilizar os contornos que lhe eram familiares e lhe exigir um
          processo de subjetivação de um novo tipo. A subjetividade portanto é
          feita das próprias partículas do fora; ela é o dentro do fora. Um dentro
          que como um cristal do fora que teria sedimentado em determinada
          forma, continua a ser trabalhado pelas forças até que a dobra que o
          constitui se desfaça e outras dobras se façam num só e mesmo
          movimento. Nesse processo que nunca para, somos levados para fora
          de nós mesmos e nos tornamos “um sempre outro”. A subjetividade é
          então este dentro-e-fora indissociáveis, mas também, inconciliáveis:
          ‘um si e não-si` concomitantemente.” (pág. 8)

   É no fora de quem se encerrou em uma forma de vida petrificada, exatamente
por ser absolutamente vulnerável, aberto ao avassalamento do mundo, e no fora
de quem se constituiu dentro quase protegido e semi-lacrado, que ambos,
acompanhante e acompanhado, vão caminhar. O acompanhante sendo, em si, o
“fora” que adentra o espaço da casa e da família.


  Neste espaço sem formas definidas é que se dá este passeio pelo
estranhamento. Estranhamento vivido muitas vezes pelo AT que busca dar um
nome ao “isso”, sensação de difícil nomeação, sensações vividas na convivência
com um psicótico. Este inominável pode encontrar-se, talvez, um pouco mais
próximo da fala do que da escrita. Seria possível que isto levasse o AT a referir-
se à sua prática basicamente através de casos? Pois este é outro
questionamento    constante,   o   fato   de   ser   tão   difícil   falar   sobre   o
acompanhamento sem se referir a uma vivência.
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   Também eu não escaparei à descrição da vivência, pois esta foi fundamental
para o surgimento da necessidade de reflexão: Saía com minha primeira
acompanhada, Renata, há cerca de quatro meses quando ela me propôs que
viajássemos por três dias para o sítio. Passado este período eu retornaria a São
Paulo e outra acompanhante que também a atendia ficaria com ela no sítio por
mais três dias. Aceitei entusiasmada e fomos para o sítio. No terceiro dia da
viagem tive uma intoxicação alimentar. Passei mal e voltei para São Paulo
sentindo fortes dores abdominais. Na volta, eu estava dirigindo sozinha, e
comecei a fantasiar sobre o que se passava comigo. Somente depois de chegar
a São Paulo pude notar que o teor de minhas fantasias havia sido o mesmo das
fantasias   de   Renata.   O   medo    da   morte   desproporcional às    causas,
persecutoriedade, imaginar as possíveis doenças que poderiam ter me
acometido, todos esses sintomas de Renata que nesse momento me encontrei
reproduzindo.


   A partir deste momento, minha relação com ela se tornou mais distante e
difícil. Passei a ficar irritada nos acompanhamentos, não via a hora passar. Este
movimento não foi unilateral. Na volta da viagem, as duas, acompanhante e a
acompanhada, estavam perturbadas. Enquanto eu estava na estrada dirigindo,
tinha a sensação de estar intoxicada, e depois de semanas eu continuava me
sentindo assim. Associado a isto, sentia culpa, pois meu papel seria o de tratá-la
e não estava conseguindo. Eu havia mudado e me tornado supersensível à sua
aproximação, irritada com ela e comigo mesma por haver escolhido estar ali.
Passadas duas semanas, em supervisão, foi decidido que eu tiraria duas
semanas de férias e a frase importante que marcou esta supervisão foi: “Diga
que vai sair de férias, mas diga feliz. Deixe as coisas dela com ela.”


   A separação restauradora me permitiu pensar sobre estas questões e voltar,
com menos horas semanais, e sem viagens por um período. Ao mesmo tempo,
esta ebulição me levantou perguntas sobre o que havia acontecido. O que eu
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havia “carregado”? Aquilo era algo meu despertado pela minha relação com ela
ou ela teria “colocado” aqueles sentimentos em mim? Como era possível que eu
considerasse delírio suas considerações sobre meus poderes sobre seu corpo e
ao mesmo tempo acreditasse em seus poderes sobre minha mente? Onde
estaria esta “abertura” em mim que havia permitido essa invasão? A partir destas
questões fui buscar bibliografia que se referisse a este tipo de experiência que eu
havia vivenciado.


   Encontrei descrições semelhantes na psicanálise. A investigação sobre o que
me acontecia provocou uma ressignificação do conhecimento teórico que
possuía até então. O sentido teórico já não bastava, caso não encontrasse uma
equivalência prática na relação. Isto, tomadas as precauções de não ser a
relação de acompanhamento o equivalente a uma relação psicanalítica na rua,
não permitindo, assim, uma transposição literal dos conceitos psicanalíticos. No
entanto, estes mesmos conceitos poderiam me ajudar a pensar as semelhanças
e diferenças entre os dois trabalhos. Pude observar fenômenos muito
semelhantes aos descritos como transferência psicótica, contratransferência e
identificação projetiva durante o trabalho de acompanhamento.
19


II. ASPECTOS TEÓRICOS

      A parte teórica da pesquisa era, a princípio, uma investigação cujo objetivo
era o de embasar a análise da entrevista. No decorrer do processo, esta parte foi
adquirindo uma dimensão maior que a prevista. Além de interminável, pois não a
considero terminada, ao terminar a primeira versão do trabalho achava esta parte
confusa, incômoda, indigesta. Havia muito a ser retirado e transformado. Na
segunda versão do trabalho tal era minha irritação e insatisfação com esta parte
que a transformei em anexo. Não a queria dentro, “sujando”, o trabalho. Para
realizar a terceira versão, pensei muito no porquê desta parte haver sido
excluída: ela estava louca em demasia, um tanto árida, esquizoide. E pensei que
um trabalho sobre a loucura que exclui de si próprio sua desorganização se
afasta de seu objeto. Em função disto, readmiti os aspectos teóricos como parte
integrante do trabalho. Enfim, na quarta versão, aqui presente, reduzi a
dimensão deste capítulo.


      Os conceitos investigados são: a partir do conceito de transferência me
encaminho para os conceitos de psicose, da transferência na psicose, da
contratransferência, da contratransferência na psicose e da identificação
projetiva. Paralelamente, há também uma investigação a respeito do sinistro em
Freud, o sinistro na contratransferência e uma questão final a respeito da
possibilidade de interpretação a partir da contratransferência.



1 A Transferência

   O conceito de transferência é apresentado e retomado em diversos momento
na obra de Freud. Em 1905, define da seguinte forma a transferência, ao analisar
o Caso Dora:


          “O que são as transferências? Reedições ou produtos facsímiles dos
          impulsos e fantasias que serão despertados e feitos conscientes
20


             durante o desenvolvimento da análise e que possuem como
             singularidade característica de sua espécie a substituição de uma
             pessoa anterior pela pessoa do médico. Ou para dizer de outro modo:
             toda uma série de acontecimentos psíquicos anteriores voltam à vida,
             mas não já como passado, se não como relação atual com a pessoa
             do médico.” (p. 998 trad. livre)

   Segundo Freud (1905), a transferência existe em todas as relações humanas,
sendo especifico da psicanálise a utilização deste recurso para propiciar a
análise. O tratamento psicanalítico não cria a transferência, mas se limita a
“descobri-la”. Posteriormente Freud considerará a transferência como sendo,
além de uma forma de resistência, também a mola que impulsionaria o
tratamento psicanalítico.


   Freud publicou, em 1910, o texto “Observações psicanalíticas sobre um caso
de paranóia” também conhecido como o caso Schreber. Nesse texto, afirma não
ser possível a realização de um trabalho analítico com pacientes psicóticos, pois
estes não poderiam estabelecer uma relação transferencial. Haveria, nestes
pacientes, um afastamento de todo interesse pela realidade, pelo mundo exterior.
Na psicose, naquele momento chamado por Freud de parafrenia, haveria uma
retração da libido objetal para o eu, processo que descreve o fenômeno do
narcisismo, que impossibilitaria a relação tranferencial.


   Posteriormente, diversos autores vieram a contestar esta hipótese freudiana,
constatando a ocorrência de uma transferência bastante peculiar na relação
analítica com psicóticos, bastante diferente das características da transferência
neurótica.


   Os autores selecionados para descrever a transferência na psicose o foram a
partir de seu trabalho sobre a contratransferência e a identificação projetiva, ou
seja, foi a partir do estudo sobre a contratransferência e a identificação projetiva
que cheguei a Klein, Winnicott, Bion e Rosenfeld, entre outros. Há ainda autores
dentro da psicanálise que, a partir de Lacan, produziram uma teoria bastante
21


diversa sobre a psicose. No entanto, tendo sido o enfoque inicial deste trabalho a
contratransferência, e não sendo este um conceito utilizado pela escola
lacaniana, não foi possível um aprofundamento sobre a definição de psicose e
das forma de transferência na psicose, desde a perspectiva lacaniana.



2 A Psicose

  Freud (1924) em seu artigo Neurose e psicose afirma que o que caracterizaria
a psicose seria o afastamento do ego da realidade. “A neurose seria o resultado
de um conflito entre o ego e o id, enquanto que na psicose o ego, a serviço do id,
retira-se do mundo exterior.” (pág. 2.742 trad. livre) Freud considerava que
indivíduos psicóticos eram inanalisáveis.


   Klein, por sua vez, desenvolveu uma teoria sobre a vida emocional dos bebês.
É possível pensar, a partir de suas teorias, que ela realiza com a psicose o que
Freud realizou com a neurose, no sentido da “despatologização”. Por que a
psicose pode deixar de ser pensada como doença? Em 1946, em “Notas sobre
alguns mecanismos esquizoides”, ela escreve:


          ‘Não será preciso entrar em pormenores quanto ao fato de que
          algumas outras características das relações objetais esquizoides, por
          mim anteriormente descritas, podem ser encontradas, em menor grau
          e de uma forma menos impressionante, em pessoas normais(...). De
          modo semelhante, as perturbações normais nos processos de
          pensamento estão ligadas ao desenvolvimento da posição
          esquizoparanóide. Pois todos nós somos susceptíveis, por vezes, de
          um enfraquecimento momentâneo do pensamento lógico (...) de fato o
          ego está temporariamente cindido.” (pág. 329)

   Neste mesmo artigo Klein (1946) escreve:


          “Nos primeiros anos da infância, manifestam-se ansiedades
          características da psicose que obrigam o ego a desenvolver
          mecanismos específicos de defesa. Nesse período se encontram os
          pontos de fixação para todos os distúrbios psicóticos.” (pág. 314)
22




    Assim, segundo Klein, todos vivenciamos, nos primeiros anos da infância,
não a psicose, mas ansiedades psicóticas, e o que diferenciaria um indivíduo
psicótico de um neurótico são os pontos de fixação em uma fase primitiva do
desenvolvimento. Nessa medida, os neuróticos não se isentariam destas
ansiedades, que estariam incorporadas ao processo psíquico de formação da
personalidade de qualquer indivíduo. A psicose, deste ponto de vista, pode ser
pensada não como uma doença, mas como uma possibilidade para qualquer ser
humano.


   A partir de Klein, outros autores se aventuraram pela questão da psicose.
Winnicott (1954-5) pouco utiliza as categorias neurótico ou psicótico, mas sim
refere-se a pacientes mais ou menos regredidos, o que determina a gravidade de
cada caso. Winnicott correlaciona o nível de regressão de um indivíduo a fatores
ambientais os quais poderiam haver provocado essa forma de defesa. Segundo
ele, “A doença psicótica se relaciona a um fracasso ambiental em um estádio
primitivo do desenvolvimento emocional de um indivíduo.” (pág. 470)


   Ao falar em “fracasso ambiental”, Winnicott se refere à relação mãe-bebê. O
que caracteriza este fracasso é a impossibilidade de a mãe dar suporte
emocional para as experiências afetivas do bebê. Um indivíduo que vive esta
experiência   emocional   tem,   segundo   ele,   seu   desenvolvimento   afetivo
comprometido.


   Bion, por sua vez, dá maior ênfase a aspectos constitutivos do indivíduo. Em
relação à personalidade psicótica, em 1957, ele considera a coexistência de uma
parte neurótica e de uma parte psicótica na personalidade de um só indivíduo. A
partir da distinção feita por Freud (1924) entre neurose e psicose, Bion (1957)
propõe que na psicose o ego não perderia completamente o contato com a
realidade, pois haveria a permanência de uma parte não psicótica da
personalidade existindo paralelamente a parte psicótica. Outra distinção da
23


posição de Bion em relação à Freud é que o afastamento da realidade seria
ilusório, e se daria através do uso da identificação projetiva contra o aparelho
mental. Segundo Bion, a diferenciação entre as partes psicóticas e não
psicóticas da personalidade dependeria de uma cisão e de uma fragmentação da
parte da personalidade relacionada à percepção da realidade interna e externa
em fragmentos muito pequenos, que seriam expulsos através do mecanismo de
identificação projetiva. O significado deste conceito será discutido adiante.


   Em 1957 ele caracteriza a personalidade psicótica como tendo quatro
características fundamentais:


           “(...) uma preponderância tão grande de impulsos destrutivos, que
          mesmo o impulso de amor é inundado por eles e transformado em
          sadismo; um ódio da realidade, interna e externa, que se estende a
          tudo que contribui para a percepção dela; um terror de aniquilação
          iminente (Klein 1946) e, finalmente, uma formação prematura e
          precipitada de relações de objeto (...), cuja fragilidade contrasta
          acentuadamente com a tenacidade com que são mantidas.” (pág. 70)

   É possível pensar que a proposta analítica desses autores se relaciona com a
forma como é pensada a etiologia da psicose. Enquanto Winnicott considera a
psicose como uma defesa que se originaria de uma falha ambiental, Bion
enfatiza os fatores constitucionais do indivíduo. Enquanto técnica, Winnicott
preconiza um retorno a este momento em que se deu a falha inicial, através da
regressão, para que possa haver uma recomposição do indivíduo, enfatizando o
ambiente na situação analítica. Bion, por sua vez, dá uma maior ênfase à
interpretação verbal, pois esta seria capaz de “devolver” ao paciente aspectos
seus que estariam fragmentados e expelidos fora, buscando reconstituir esta
psiquê estilhaçada.


   A partir desta breve aproximação entre estes autores é possível pensar que
cada corpo teórico mereceria um aprofundamento particular. O recorte da teoria
em um ponto poderia esconder pressupostos que não estão sendo discutidos
naquele momento.
24




3 A Transferência Psicótica

   Diversos   autores,   após   Freud,   puderam     constatar   a   existência   de
transferência no tratamento analítico de psicóticos. Ainda que haja diferentes
denominações e caracterizações deste tipo de transferência, uma coisa tem em
comum: ela é diferente da transferência neurótica.


   Winnicott (1947) afirma que uma das diferenças existentes entre análise de
neuróticos e de psicóticos é que os primeiros podem perceber “símbolos”
enquanto os segundos são concretos. Isto levaria a uma transferência bastante
diferenciada, pois enquanto na neurose haveria o “como se”, na psicose as
coisas “são”. Este caráter de concretude estaria presente na relação
transferencial:


           “Para o neurótico, o divã, o calor e o conforto podem ser o símbolo do
           amor materno; para o psicótico, seria mais certo dizer que estas coisas
           são a expressão física do amor do analista. O divã é o colo ou o útero
           do analista, e o calor é o calor vivo do corpo do analista.” (pág. 347)

   O outro lado desta formulação de Winnicott é dado por Margareth Little,
psicanalista que foi analisada por ele e considerada “borderline”. Little (1992)
escreve: “Para mim D.W. não representava a minha mãe. Em minha ilusão de
transferência, ele realmente era a minha mãe.” (pág. 95)


   Winnicott (1963) fala em psicose de transferência. Esta ocorreria em
pacientes muito regredidos e esta relação analítica seria de grande risco tanto
para o analista quanto para o paciente. O risco seria de o analista não se dar
conta da aproximação de conteúdos muito regredidos e interpretar em uma
situação onde o que seria necessário seria apenas dar sustentação para que o
paciente pudesse encontrar um caminho próprio. Haveria também riscos para o
analista em função de sua aproximação com as partes psicóticas do paciente e
25


das consequências disto, questão que será retomada ao analisarmos a
contratransferência.


   Bion (1957) descreve a transferência na psicose como tendo as seguintes
características: maciça, adesiva, rápida e tênue, tendo uma intensidade bastante
diferente da intensidade da transferência neurótica. Em suas palavras:


        “A relação com o analista é prematura, precipitada e intensamente
       dependente; quando o paciente, sob pressão das pulsões de vida e de
       morte, amplia o contato, manifestam-se duas correntes simultâneas de
       fenômenos. Primeiro, a cisão de sua personalidade e a projeção dos
       fragmentos para dentro do analista (isto é, identificação projetiva) tornam-
       se hiperativas, com os conseqüentes estados confusionais tais como
       descritos por Rosenfeld (1952). Segundo, as atividades mentais e as
       demais atividades através das quais o impulso dominante, seja este de
       pulsão de vida ou de morte, busca expressar-se, são imediatamente
       submetidas à mutilação por parte do impulso temporariamente
       subordinado. Atormentado pelas mutilações e lutando por escapar dos
       estados confusionais, o paciente retorna à relação restrita. A oscilação
       entre a tentativa de ampliar o contato e a tentativa de restringi-lo
       prossegue durante toda a análise.” (pg 70)

   Rosenfeld (1987), que em muitos aspectos concorda com Bion, discute o
porquê desta forma de transferência:


        “Uma parte importante de minha teoria é que os pacientes psicóticos
       projetam seus sentimentos porque se sentem assustados demais para
       lidar com eles ou para refletir a respeito deles sozinhos. O analista, porém,
       como os pais no desenvolvimento mais normal, tem o potencial de
       enfrentar os sentimentos e de refletir sobre eles, e é essa capacidade que
       ele dá aos poucos ao paciente para desenvolver para si mesmo. A
       natureza de transferência psicótica é que ela proporciona a oportunidade
       de demonstrar que os sentimentos insuportáveis podem ser contidos e
       considerados de modo criativo.” (pág. 55/56)

   Ainda sobre a transferência na psicose, ele descreve duas de suas
características:
26


       “A transferência psicótica típica observada nos esquizofrênicos tratados
      por mim e alguns colegas que supervisionei pode ser entendida
      teoricamente como uma relação em que a identificação projetiva
      predomina de maneira muito forte.” (pág. 256)

      “Uma segunda característica da transferência psicótica no tratamento de
      pacientes esquizofrênicos é que eles tendem a apresentar uma forte
      transferência erótica desde o início do tratamento.” (pág. 264)

   Dentro de uma outra vertente do pensamento psicanalítico, McDougall (1978),
que dá uma importância maior à questão da linguagem que os autores
anteriormente citados, propõe uma outra denominação para a transferência na
psicose. Esta é chamada por ela de “transferência fundamental”. A forma como
ela caracteriza esta a transferência de um psicótico com seu analista é a
seguinte:


        “Num certo sentido ele (psicótico) permanece fusionado com o outro.
      Recusando-se o estatuto de sujeito distinto e autônomo, ele não pode
      tampouco conceder ao Outro este direito fundamental de ser. Na
      impossibilidade de se comunicar com partes importantes de si mesmo, ele
      trata o Outro como uma parte de si próprio: na análise, essa forma de se
      relacionar será repetida com o analista.

        Nestes casos, constatamos movimentos de transferência que não têm
      muita coisa em comum com a relação transferencial que se estabelece
      entre o sujeito neurótico-normal (para quem a psicanálise foi inventada) e
      a representação que este faz do analista. O analista vê-se confrontado ao
      que poderíamos chamar de transferência fundamental, transferência
      original que procura anular a diferença entre o ser e o Outro, ao mesmo
      tempo em que se teme uma fusão mortífera. Para mobilizar este elo
      arcaico, seria necessário que a separação, vivida como morte psíquica, se
      transformasse num sinal de desejo, de identidade, de vida.” (pág. 112)

   McDougall (1978) correlaciona a “transferência fundamental” com a forma de
comunicação que se estabelece na relação entre o paciente e o analista:


       “Essa língua privativa procura de uma certa maneira restaurar a unidade
      mãe-criança, o que torna a comunicação simbólica supérflua. Nesse
      sentido, a capacidade do analisando de se fazer compreender através de
27


      meias palavras, e a do analista de ouvi-lo, não diferem da comunicação
      entre a mãe e seu bebê.” (pág. 112)

   A forma com ela entende o que Winnicott (1947) caracterizou como a
impossibilidade de o psicótico de perceber símbolos, ou seja, que o analista se
torne “a mãe” do paciente para este, seria a não realização de uma separação
inicial entre a mãe e o bebê. Não tendo havido este luto inicial, o indivíduo estaria
impossibilitado de distinguir entre o analista real e o imaginário, fruto de sua
transferência:


       “(...) em outros pacientes, aqueles para quem a necessidade de existir
      invade inteiramente o território do desejo, nenhum espaço entre o analista
      real e o analista imaginário pode ser preservado. Não se pode elaborar o
      luto de um objeto cuja perda jamais foi reconhecida.” (pg114)

   A relação analítica pode ser pensada como não possuindo uma relação de
causalidade: em função de uma transferência ocorre uma contratransferência,
mas dialética, onde a transferência e a contratransferência se determinam
mutuamente em um processo de constante transformação. Que processos essa
modalidade de transferência provoca no analista? Aqui adentramos à questão da
contratransferência.



4 A Contratransferência

   Será apresentado um breve histórico do conceito de contratransferência na
psicanálise. Freud, em toda sua obra, utiliza poucas vezes o termo. O conceito
foi introduzido em 1910 no texto “O futuro da terapia psicanalítica”, onde ele
escreve:


       “Outras inovações da técnica se referem à própria pessoa do médico. Se
      nos fez visível a ‘contra-transferência’ que surge no médico, sob a
      influência do doente, sobre seu sentir inconsciente, e nos achamos muito
      inclinados a exigir, como norma geral, o reconhecimento desta ‘contra-
      transferência’ pelo médico e seu vencimento. Desde que a prática
28


          psicanalítica vem sendo exercida por um número considerável de
          pessoas, as quais trocam entre si suas impressões, temos observado que
          nenhum psicanalista chega além de onde lhe permitem seus próprios
          complexos e resistências, razão pela qual exigimos que todo principiante
          inicie sua atividade com uma auto-análise e se aprofunde cada vez mais,
          conforme vá ampliando sua experiência no tratamento dos doentes.” (pág.
          1.566, trad. livre)

   Para Freud, neste momento, os sentimentos surgidos no analista a partir dos
sentimentos        transferenciais   de    seu    paciente,    seus    sentimentos
contratransferenciais, deveriam ser sobrepujados em sua própria análise.
Posteriormente, Freud afirma em seu artigo “O inconsciente”, de 1915:


          “É muito singular e digno de atenção o feito de que o sistema Inc. de um
          indivíduo possa relacionar-se ao de outro, eludindo absolutamente o
          sistema Cc. Este feito merece ser objeto de uma penetrante investigação,
          encaminhada precisamente a comprovar se a atividade pré-consciente fica
          excluída em tal processo; mas de qualquer forma, descritivamente o feito é
          irrebatível.” (pág. 2.077, trad. livre)

   Assim, se por um lado Freud considera a existência da contratransferência
um empecilho a ser vencido na relação analítica, ele também dá margem, a partir
das considerações sobre as formas de comunicação inconsciente, a toda a teoria
da contratransferência que se desenvolveu posteriormente.


   Ferenczi, ainda nesta década (1919), defende que tudo o que se passa do
lado do analista pode ser considerado contratransferência, e não apenas seus
pontos cegos. Ele chegou a desenvolver a técnica de análise mútua (1932), onde
o analista trocaria de papel com o paciente. Depois de realizar algumas
experiências, abandonou a técnica.


   Klein usa o termo raríssimas vezes e, como Freud, considera que a
contratransferência indica aspectos não analisados do analista. Por sua vez,
Klein (1946) introduziu o conceito de identificação projetiva, a ser discutido à
frente.
29


  Em 1950 Paula Heiman publicou um artigo que se tornou um marco na história
da psicanálise, e o motivo de seu rompimento com Melanie Klein. Este se chama
“Sobre a contratransferência”, onde afirma:


      “Minha tese é de que a resposta emocional do analista ao paciente na
      situação analítica representa uma das ferramentas mais importantes para
      seu trabalho. A contratransferência do analista constitui um instrumento de
      pesquisa do inconsciente do paciente.” (pág. 105)

   O que justifica esta afirmação é a premissa básica de que o inconsciente do
analista entenderia o inconsciente do paciente. Para ela, todos os sentimentos
do analista na relação analítica devem ser considerados para sua interpretações.
Este artigo se tornou um clássico na teoria da contratransferência. Na época foi
muito polêmico, e mesmo hoje levanta questões sobre o uso dos sentimentos
contratransferenciais na análise.



5 A Contratransferência na Psicose

   É possível pensar que as características peculiares da transferência psicótica
estabeleçam uma relação peculiar, um tipo de contratransferência específica no
trabalho com psicóticos. A “concretude” da transferência psicótica poderia exigir
uma resposta contratransferencial da mesma natureza? E que não apenas o
analista, mas também outras pessoas que tivessem um contato próximo com
psicóticos, poderiam viver este tipo de experiência?


   Meltzer (apud Fédida, 1988) descreve a transferência psicótica como sendo
adesiva e a relaciona à contratransferência. Segundo ele:


      “A transferência ‘colante’ na qual é o analista, mais do que o processo e os
      objetos internos, que é sentido como sendo único, manifesta-se através de
      uma enorme pressão sobre a contratransferência do analista.”(pág. 77)
30


   Assim, a transferência psicótica possui, segundo Meltzer, uma relação muito
próxima à contratransferência.


   Winnicott (1947), sobre este fenômeno, escreve: “Pacientes insanos
representam sempre um pesado fardo emocional para os que cuidam deles.”
(pág. 341). Esse “fardo emocional” a que se refere Winnicott poderia ser
observado a partir das manifestações contratransferenciais em uma relação
analítica. Em suas palavras:


      “Na análise (análise de pesquisa) ou no manejo comum do tipo mais
      psicótico de paciente, uma grande pressão é exercida sobre o analista
      (psiquiatra, enfermeira) e é importante que estudemos as maneiras
      através das quais a ansiedade de qualidade psicótica, assim como o ódio,
      são produzidos naqueles que trabalham com pacientes psiquiátricos
      seriamente doentes. Somente desta maneira pode haver qualquer
      esperança de se evitar a terapia que se adapta às necessidades do
      terapeuta em vez de se adaptar às necessidades do paciente.” (pág. 353)

      Também Winnicott considera a existência de uma forma de “pressão”
sentida pelo analista a partir da transferência, mas ele abre a possibilidade de
este tipo de transferência ocorrer em outras relações _ ”psiquiatras, enfermeiras”
_ o que poderia ser pensado para o acompanhante terapêutico.


   Neste artigo de 1947, “O ódio na contratransferência”, Winnicott distingue
três diferentes possibilidades de aspectos presentes na relação analítica que
podem estar sendo chamados de contratransferência: 1. as identificações
reprimidas do analista que se atualizam na relação com um paciente, o que
indicaria falta de análise do analista; 2. as identificações do analista que fazem
parte de sua experiência pessoal e possibilitariam a relação analítica e 3. a
“verdadeira e objetiva contratransferência”, ou seja, a partir da personalidade e
dos comportamentos “reais” do paciente, a reação de amor e ódio do analista
baseado em sua observação “objetiva”.
31


   Haveria, segundo Winnicott, a possibilidade de uma contratransferência
“objetiva”. No entanto, ele restringe o uso da contratransferência na relação
analítica apenas para o caso da análise de psicóticos e antissociais (1947, 1960).
Segundo ele, a contratransferência em uma relação analítica com um paciente
neurótico perturbaria a objetividade do analista. Em 1960 ele escreve: “(...) o
significado da palavra contratransferência só pode ser o de aspectos neuróticos
que estragam a atitude profissional e perturbam o curso do processo analítico
determinado pelo paciente.” ( pág. 148)


   Em 1947 ele já escrevia o seguinte a respeito da importância da
contratransferência na análise de pacientes psicóticos:


      “Sugiro que se um analista quer analisar psicóticos ou antissociais, ele
      deve conseguir ter uma consciência tão completa da contratransferência
      que seja capaz de isolar e estudar suas reações objetivas ao paciente.
      Estes incluindo ódio. Os fenômenos da contratransferência, às vezes,
      serão as coisas mais importantes da análise.” (pág. 342)

   Assim, o entendimento da contratransferência é fundamental quando se
refere a este tipo específico de relação analítica. Inclusive porque, segundo
Winnicott (1947), é preciso estar consciente das reações contratransferenciais
para que elas permaneçam latentes e não sejam atuadas.


   Winnicott (1960) escreve que pacientes psicóticos ou borderline precisam de
um movimento de regressão muito intenso e que seria este movimento na
direção da fusão que provocaria a contratransferência da forma em que ela se dá
neste tipo de relação analítica. Segundo ele:


      “O psicótico borderline atravessa gradativamente as barreiras que
      denominei de técnica do analista e atitude profissional e força um
      relacionamento direto de tipo primitivo, chegando até o limite da fusão.”
      (pág. 150)
32


   Esta possibilidade de uma resposta total exige uma grande disponibilidade do
analista na relação analítica. Winnicott descreve a possibilidade de um “uso”
primitivo do analista pelo paciente em seu artigo “O uso de um objeto” (1971).
Neste artigo, ele afirma que este uso só é possível quando o analista consegue
tolerar que o paciente se relacione com ele de maneira que pertencem a estágios
muito iniciais da vida. Nessa experiência, a busca inconsciente do paciente é a
de encontrar um objeto que possa sobreviver a ser ‘destruído’, e nesta relação é
fundamental que o analista/objeto sobreviva à destruição. Esta vivência pode
exercer grande pressão sobre o analista e ele só deveria entrar neste tipo de
relação na medida em que se sentisse “seguro” de poder suportar as pressões
contratransferenciais existentes em consequência desta relação primitiva.
Winnicott propõe que haveria no analista um ego observador que escaparia à
contratransferência, e que permaneceria “sadio”.


   Sobre a regressão do analista, Money-Kyrle (1956) também descreve uma
identificação temporária do analista com seu paciente. Segundo ele, esta
identificação só seria possível em função do analista reconhecer no seu paciente
partes de seu self arcaico já analisado.


  Segundo Rocha (1994), Bion mudou de posição com relação ao uso da
contratransferência. Em 1955, no artigo “A linguagem e o esquizofrênico”, Bion
possui uma posição favorável ao uso da contratransferência. Segundo ele:


       “O analista que ensaia, em nosso atual estado de ignorância, o
      tratamento de tais pacientes, deve estar preparado para descobrir que, em
      uma considerável extensão do tempo analítico, a única evidência em que
      uma interpretação pode basear-se é a que se propicia através da
      contratransferência.” (Bion apud Rocha 1994, pág. 121)


   Em 1962 Bion não se utiliza mais da contratransferência, apesar de estar
atento às sensações e sentimentos do analista a fim de interpretar a identificação
projetiva, conceito que será retomado adiante. Segundo Bion (1962):
33


      “A teoria das contratransferências apenas oferece explicação satisfatória
      pela metade, por voltar-se para a manifestação como sintoma das
      motivações inconscientes do analista, deixando pois por explicar a
      psicopatologia do paciente.” (pág. 46)


   Na revisão de uma série de artigos que foram publicados com o nome
“Estudos psicanalíticos revisados”, Bion, segundo Rocha (1994), haveria
suprimido diversas referências à contratransferência. Ele teria passado a utilizar
o termo, assim como Freud e Klein, referindo-se aos sentimentos patológicos
inconscientes do analista, o que indicaria necessidade de mais análise por parte
do analista.


   Rosenfeld, autor que possui muitos pontos de concordância com Bion,
diverge quanto à questão da contratransferência. Ele utiliza o conceito de
contratransferência em sua teoria. Em 1952, Rosenfeld defende o uso da
contratransferência como “aparelho receptor sensível” do analista.


   Em trabalho bastante posterior, Rosenfeld (1987) escreve sobre a existência
e o uso da contratransferência:


      “Concordo, naturalmente, com muitos outros analistas em que nossa
      contratransferência é um aspecto muito importante do nosso trabalho.
      Ajuda-nos consideravelmente a entender a diferença entre o que o
      paciente nos diz e o que nos vem à mente. Usamos nossa
      contratransferência para captar o significado mais oculto do que está
      sendo expresso pelo paciente e para ter consciência daquilo que diz. Esse
      é um aspecto muito importante de nossa tentativa de descobrir a verdade
      psíquica.” (pág. 308)



   Rosenfeld, além de escrever sobre a importância da contratransferência,
também defende que em um processo analítico o analista deve ter consciência
de seus sentimentos para que não corra o risco de aceitar o lugar na
transferência atuando contratransferencialmente. Segundo Rosenfeld (1987),
caberia ao analista sustentar o papel atribuído a ele pelo paciente, aceitar seu
34


lugar na transferência do outro sem, no entanto, atuar (acting out) este papel.
Caso isto ocorra, a relação analítica seria levada a um impasse. Segundo
Rosenfeld (1987):

      “Às vezes é muito difícil conter as projeções do paciente, principalmente se
      o analista ou o paciente ficar muito perturbado com o processo (...). Para
      lidar com a situação é fundamental que o analista esclareça para si
      mesmo o que sente a respeito do paciente. Então pode elaborar os
      problemas por si mesmo.” (pág. 253)

   Rosenfeld destaca os momentos em que as projeções do paciente podem ser
difíceis de serem contidas pelo analista, o qual deve estar atento para sua
contratransferência.


   Em algumas situações Rosenfeld (1987) considera que a contratransferência
pode ser a melhor forma de se entender a transferência existente. Segundo ele:


      “(...) o analista precisará observar muito atentamente seus próprios
      sentimentos e reações, porque em situações de forte identificação
      projetiva essa pode ser a principal pista que ele tem a respeito da relação
      transferencial psicótica.” (pág. 204)

   Já citada por Bion e Rosenfeld, a identificação projetiva é um conceito que
possibilita um novo pensamento sobre o que se passa na relação analítica com
um indivíduo psicótico. Afinal, o que é identificação projetiva e quais suas
características?



6 A Identificação Projetiva

   Klein em seu artigo “Notas sobre alguns mecanismos esquizoides”, de 1946,
define pela primeira vez identificação projetiva. Segundo ela:


        “A investida fantasiada contra a mãe segue duas linhas principais: uma
      é o impulso predominantemente oral para sugar, morder, esvaziar de todo
      conteúdo bom. (...) A outra linha de ataque se deriva dos impulsos anais e
35


      uretrais e implica a evacuação de substâncias venenosas (excrementos),
      que são expelidos do eu e introduzidos na mãe. Em conjunto com esses
      excrementos nocivos, expelidos com ódio, as partes destacadas do ego
      também são projetadas ou, como prefiro dizer, para dentro da mãe. Esses
      excrementos e partes más do eu têm o intuito não só de causar dano, mas
      também de controlar e tomar posse do objeto. Na medida em que a mãe
      passa a conter as partes más do eu, ela não é sentida como um indivíduo
      separado, mas como o eu mau.

         Muito do ódio contra algumas partes do eu é agora dirigido para a mãe.
      Isso conduz a uma forma particular de identificação que estabelece o
      protótipo de uma relação objetal agressiva. Sugiro para esses processos a
      expressão ‘identificação projetiva’.” (pág. 322)

   Ou seja, a identificação projetiva é uma fantasia na qual as partes
consideradas más do ego do bebê seriam destacadas e projetadas para “dentro”
da mãe, a qual passaria a conter as partes más do eu, não sendo mais sentida
como um indivíduo separado do bebê, mas como perseguidora, como o eu mau.
Também as partes boas podem ser projetadas, o que levaria a um fortalecimento
do ego e a boas relações de objeto.


   Segundo Klein, a identificação projetiva não é um problema em si. O que
caracteriza a patologia é o grau em que este mecanismo de defesa é utilizado.
Na psicose há um uso excessivo da identificação projetiva, onde as partes más
do eu são projetadas criando uma forma de relação objetal agressiva.


   A partir de Klein, diversos autores passaram a utilizar este conceito. Bion
(1952, 1957, 1959) escreve sobre a identificação projetiva e descreve sua
capacidade de despertar emoções no analista, o que caracterizaria tanto
aspectos defensivos quanto comunicativos da identificação projetiva. Ele enfatiza
a identificação projetiva como uma forma de comunicação. Segundo Bion (1959),
a projeção na identificação projetiva se dá de tal forma que leva o analista a
vivenciar os sentimentos projetados, e este se sente pressionado a atuar estes
sentimentos. Seria uma característica da parte psicótica da personalidade e
atuaria muitas vezes como um ataque aos elos de ligação.
36


   A definição dada por Bion (1957) para identificação projetiva é que se trata de
um mecanismo onde “(...) o paciente excinde uma parte da sua personalidade e
projeta para dentro de um objeto onde se instala, por vezes como um
perseguidor, deixando correspondentemente empobrecida a psique da qual foi
excindida.” (pág. 70)


   Sobre a função da identificação projetiva, Bion (1959) escreve: “A
identificação projetiva lhe possibilita (ao paciente) investigar seus próprios
sentimentos dentro de uma personalidade forte o suficiente para contê-los.” (pág.
106)


   O analista tem a função de ser o continente destes sentimentos projetados
pelo paciente. Estes são projetados por serem insuportáveis e podem ser
considerados, por serem muitas vezes violentos, como um ataque “(...) à paz de
espírito do analista e, originalmente, da mãe.” (Bion 1959, pág. 105)


   Ele considera este um conceito fundamental na clínica da psicose. Sobre a
importância clínica deste conceito, Bion (1956) escreve:


       “A experiência clínica com essas teorias convenceu-me, na prática, de que
       o tratamento da personalidade psicótica não terá êxito a menos que se
       elaborem não só os ataques destrutivos do paciente contra seu ego, mas
       também o fato de ele substituir a repressão e a introjeção pela
       identificação projetiva. E mais, admito que mesmo em se tratando de
       neuróticos graves existe uma personalidade psicótica que tem de ser
       trabalhada, de modo análogo, para que se obtenha êxito.” (pág. 54)

   Assim, este é um mecanismo pertencente à parte psicótica da personalidade
e pode estar presente em neuróticos graves.


   Bion correlaciona o uso da identificação projetiva com a incapacidade de
vivenciar a frustração por parte do paciente. Segundo ele (1962), “O impulso do
paciente a subtrair a fantasia onipotente de identificação projetiva à realidade,
diretamente se vincula à sua incapacidade para tolerar a frustração.” (pág. 55)
37




   Posteriormente, ele questiona a identificação projetiva como uma fantasia
onipotente, no sentido em que ela efetivamente provocaria sentimentos no
analista e, portanto, deixaria de ser somente uma fantasia. Segundo Bion (1973):


      “A teoria de Melanie Klein é que os pacientes têm uma fantasia onipotente,
      e o modo de verbalizar essa fantasia é que o paciente se sente capaz de
      expelir certos sentimentos desagradáveis e indesejáveis e colocá-los no
      analista. Não tenho certeza, pela prática da análise, que se trate apenas
      de uma fantasia onipotente; ou seja, de algo que o paciente, de fato, não
      pode fazer. Tenho certeza e que é assim como a teoria deveria ser usada -
      o modo correto de usar a teoria correta. Mas acho que a teoria correta e a
      formulação correta não acontecem no consultório. Tenho sentido, e
      também assim alguns dos meus colegas, que quando o paciente parece
      estar vivenciando uma identificação projetiva ele pode me fazer sentir
      perseguido, como se pudesse, na verdade, expelir certos sentimentos
      maus e empurrá-los para dentro de mim, de modo que, na realidade, eu
      experimento sentimentos de perseguição e ansiedade. Se isto está
      correto, ainda é possível sustentar a teoria de uma fantasia onipotente,
      mas, ao mesmo tempo poderíamos pensar na possibilidade de alguma
      outra teoria que explicasse aquilo que o paciente faz ao analista, que o
      leva a sentir-se assim, ou qual o problema do analista, que assim se
      sente.” (pág. 133/134)

   Assim, Bion considera a possibilidade de se pensar outra teoria que pudesse
explicar o fato do analista sentir o que é projetado pelo paciente, o que tornaria
esta fantasia onipotente do paciente algo mais que fantasia.


   Rosenfeld (1971) também considera fundamental o entendimento da
identificação projetiva ao tratar a parte psicótica da personalidade do paciente, e
escreve sobre as várias formas de uso da identificação projetiva. Segundo ele,
esta pode ser utilizada como forma de comunicação, como foi descrito por Bion.
A continência destas experiências pelo analista altera a qualidade assustadora e
insuportável dessas experiências. Rosenfeld considera fundamental que o
analista seja capaz de colocar em palavras estas experiências através das
interpretações, o que possibilitaria ao paciente tolerar e pensar sobre estas
experiências que antes eram assustadoras e sem sentido
38




  Além de ser uma forma de comunicação, a identificação projetiva também
pode ser usada como uma forma de “evacuação”, quando o paciente procura
negar sua realidade psíquica, e como forma de controle do analista, onde a partir
de uma crença onipotente, o paciente acredita ter se forçado para dentro do
analista, o qual neste momento é percebido como tendo enlouquecido. Neste
momento é frequente o perigo de desintegração do paciente. Sobre esta situação
Rosenfeld (1971) observa:


       “É a excessiva identificação projetiva no processo psicótico que oblitera a
      diferença entre self e objetos, que causa confusão entre realidade e
      fantasia e uma regressão ao pensamento concreto devido à perda da
      capacidade de simbolização e de pensamento simbólico.” (pág. 130)

   Segundo Rosenfeld (1971, 1987), estes três tipos de identificação projetiva
podem existir de forma simultânea ou alternada no mesmo paciente.


  Para o autor, a identificação projetiva não é idêntica à simbiose. Isto porque,
para que haja identificação projetiva é necessário que tenha havido alguma
diferenciação entre “eu” e “não eu”, o que não ocorre na simbiose.


   Rosenfeld (1987) correlaciona a contratransferência à identificação projetiva.
Sentimentos muito fortes do paciente podem ser transmitidos ao analista através
da identificação projetiva, e isto pode causar dificuldades na contratransferência,
tornando difícil o trabalho do analista e um impasse na relação analítica.


   O primeiro ponto descrito é o risco do rompimento da comunicação verbal
entre paciente e analista. Segundo Rosenfeld (1987):


      “Ao investigar tais situações, observei que a identificação projetiva
      onipotente interfere na capacidade de pensamento verbal e abstrato para
      produzir uma concretude dos processos mentais, o que acarreta confusão
      entre realidade e fantasia.“ (pág. 195)
39



   Ainda segundo Rosenfeld (1987):


      “O analista nessa situação pode ter a nítida experiência, em sua
      contratransferência, de que não é bom e não tem nada de valor a dar para
      o paciente. Até mesmo sintomas físicos podem ser experimentados pelo
      analista com tais pacientes, porque as expulsões do paciente podem ser
      concretas; ele pode sentir náuseas, assim como o paciente pode
      realmente vomitar.“ (pág. 196)

   Sobre a situação em que a identificação projetiva é utilizada como forma de
defesa contra a realidade psíquica, escreve Rosenfeld (1987):


      “O fato de a identificação projetiva poder ser usada para evacuar e negar
      a realidade psíquica tem de ser reconhecido juntamente com o fato de
      que, quando o paciente está tentando lançar o conteúdo mental
      insuportável para dentro do analista, ele também está forçando a
      compartilhar as experiências desagradáveis.(...) Tal comportamento por
      parte do paciente é frequentemente entendido de forma equivocada e
      interpretado por alguns terapeutas como totalmente agressivo.” (pág. 199)

   Rosenfeld (1987) alerta que em uma situação de identificação projetiva muito
intensa, o analista pode não se dar conta dos problemas do paciente até o
momento em que se sente “esmagado“ por eles. Ele sugere que a projeção
recebida pelo analista “espelha” com exatidão os sentimentos do paciente, e
portanto, que o entendimento da reação contratransferencial do analista é um
meio “fundamental” de compreensão das comunicações de pacientes psicóticos
via identificação projetiva. Segundo Rosenfeld (1987):


      “Emoções muito violentas de amor e ódio, sentimentos confusionais
      agudos e estados mentais gravemente desintegrados podem ser
      transmitidos por meio de formas primitivas de identificação projetiva, que
      às vezes não são registradas de modo facilmente compreensível pelo
      analista. Quando as emoções são particularmente violentas, o analista
      pode sentir-se esmagado e ser incapaz de funcionar como continente. Em
      tais momentos, o paciente comunica-se não-verbalmente por uma força
      hipnótica primitiva. O analista pode, então, apresentar reações
      contratransferenciais defensivas, talvez se sentindo irritado. É possível
40


       que somente mais tarde ele perceba que o que está sentindo é desespero
       e depressão ligados a uma sensação de fracasso.“ (pág. 277)

   É essencial que as ansiedades expressas pelo paciente na forma de
identificação projetiva sejam “reconciliadas” na mente do analista, inicialmente
sentindo o que foi projetado e identificando para si o que foi projetado.



7 As sensações provocadas pela identificação projetiva

   As descrições existentes sobre as sensações vividas pelo analista na situação
analítica de psicóticos são muitas.


   Rosenfeld (1987) descreve alguns dos efeitos do processo de identificação
projetiva no analista:


       “A experiência frequentemente produz um forte efeito físico no analista e
       provoca sonolência ou mal-estar físico. Pode causar grandes dificuldades
       para a capacidade de pensar ou se concentrar. É como se algo tivesse
       sido projetado para dentro do analista de modo real e concreto.” (pág. 193)

       E continua: “A identificação projetiva pode abranger a transformação do
       self e do objeto, acarretando confusão, despersonalização, vazio, fraqueza
       e vulnerabilidade à influência, a qual pode chegar a ponto de o indivíduo
       ser hipnotizado ou até mesmo levado a dormir.(...) Contudo, quando o
       analista adquire experiência na compreensão da maneira como o paciente
       psicótico se comunica, está claro que a esmagadora influência da
       identificação projetiva diminui.” (pág. 204)

   Rosenfeld (1987) ainda cita os riscos para a personalidade do analista, pois a
relação   com    a   parte   psicótica   da   personalidade   do    outro   estimula
“inevitavelmente” os sentimentos de impotência e de onipotência no analista.
Além disso, ele se refere ao medo mais frequente ao se tratar de psicóticos, que
seria o medo de enlouquecer. Segundo ele:


       “O paciente psicótico projeta, com frequência, seus sentimentos e
       problemas de modo bastante violento, e qualquer analista que tenha medo
41


       desse contato com seu paciente pode ficar também seriamente
       perturbado, ao tentar tratar de psicóticos. O medo mais frequente, embora
       muitas vezes inconsciente, é o de ser levado à loucura pelo paciente.”
       (pág. 51)

   É bastante curioso como as referências são frequentemente ligadas ao corpo
do analista. Não é uma experiência apenas mental, mas também corporal.
Rosenfeld (1987) descreve o relato de uma supervisionanda sua sobre sua
reação à identificação projetiva da paciente: “Decidi durante a sessão que a
deixaria ir, já que ela não conseguia ouvir o que eu estava dizendo. Depois que
ela se foi, senti uma dor atroz e tive a impressão de que não conseguiria suportá-
la.” (pág. 237)


   Neste caso, é difícil a distinção entre a realidade e a fantasia tanto para o
analista quanto para o paciente, porque envolve o corpo. A analista sente em seu
corpo a dor que “seria” da paciente, sem que esta estivesse presente no
momento.


   A análise que Rosenfeld (1987) faz da situação: “(...) creio que, quando esta
(a crise da paciente) ocorreu de fato, de início esmagou-a completamente (a
analista), deixando-a com a incrível dor que Claire (paciente) havia projetado
para dentro dela.” (pág. 238)


   Esta experiência é bastante confusa, na medida em que parece que há uma
mistura entre as projeções do paciente e os sentimentos e o corpo do analista.


   Há autores que se referem especialmente à influência do paciente sobre o
corpo do analista. Fédida (1988) descreve esta influência da seguinte forma: “(...)
somos extremamente sensíveis ao poder das palavras e dos gestos: nosso
próprio corpo se torna uma cena importante sobre a qual se representam as
fantasias mais violentas do inconsciente do paciente.” (pág. 31)
42


   Para Fédida, permanecer no corpo seria engano. É necessário que isto seja
transformado em palavra, para assim ser passível de representação, tanto para o
analista quanto para o paciente.


   Ainda sobre o aspecto do corpo, Melanie Klein, em 1946, descreve a
concretude física das fantasias inconscientes e que as projeções se dariam
direcionadas a uma parte específica do corpo do receptor, do analista.


   É possível pensar que é esta concretude corporal, esta sensação de envolver
o corpo do analista, que caracteriza a transferência “concreta” existente na
psicose, sendo este o “pesado fardo emocional” a que se refere Winnicott em
1947.


   Estas descrições das sensações vividas por analistas serão úteis ao serem
comparadas às sensações dos acompanhantes terapêuticos de psicóticos.



8 O sinistro na contratransferência vivido a partir da identificação
projetiva

   Haver encontrado estas referências sobre a identificação projetiva me
trouxeram a sensação de haver achado meus pares. Ali estava a resposta que
buscava. Reencontrei minha experiência teorizada. No entanto, a imagem de
dois corpos fechados onde um possuía a capacidade, ainda que não intencional,
de “colocar” coisas no outro me trazia certa estranheza. E esta sensação
associada às descrições de indescritibilidade, de estranhamento das sensações,
me fez levantar a hipótese de ser este fenômeno um fenômeno que poderia ter
sido descrito por Freud em seu artigo “Unheimlich”, traduzido como “O estranho”,
“O sinistro”, ou “Inquietante estranheza”.


   Freud (1924) escreve o seguinte sobre o fenômeno do sinistro:
43


      “(...) o sinistro não seria realmente nada novo, porém algo que sempre foi
      familiar à vida psíquica e que só se tornou estranho mediante o processo
      de repressão. E este vínculo com a repressão nos ilumina agora a
      definição de Schelling, segundo a qual o sinistro seria algo que, devendo
      haver ficado oculto, se há manifestado.” (pág. 2.498, trad. livre)

   Segundo Freud, o sinistro não é a experiência do novo, mas do familiar.
Aquilo que é vivido com a sensação de estranhamento estava já presente mas
reprimido. Sobre a relação do sinistro com a psicose ele afirma:


       “O caráter sinistro da epilepsia e da demência tem origem idêntica. O
      profano vê nelas a manifestação de forças que não suspeitava no próximo,
      mas cuja existência chega a pressentir obscuramente nos cantos
      recônditos de sua própria personalidade.” (pág. 2.499, trad. livre)

   Freud parece apontar para uma familiaridade do “profano” com o louco.
Haveria algo já vivido, mas reprimido, que remeteria qualquer ser humano à
loucura. Ainda sobre o sinistro, ele escreve:


      “O sinistro nas vivências se dá quando complexos infantis reprimidos são
      reanimados por uma impressão exterior, ou quando comunicações
      primitivas superadas parecem achar uma nova confirmação.” (pág. 2.503,
      trad. livre)

   É possível realizar um paralelo entre a afirmação de Freud e a de Melanie
Klein sobre as ansiedades psicóticas dos bebês. A vivência do sinistro seria
marcada pelo retorno de algo primitivo que foi reprimido.


   É possível pensar que, exatamente por se encontrar reprimido, algo de um
estágio muito inicial da pessoa do analista é “despertado” pelo psicótico. Algo
que remeta às relações objetais primárias, e que quando o psicótico nos
aproxima disso através de sua transferência concreta e corporal, tenhamos
manifestações contratransferenciais. A sensação de estranhamento descrita por
alguns analistas, algo que ele sente, mas sente que não lhe pertence, pode estar
relacionada à proximidade do reprimido.
44


   Fédida (1988) escreve sobre a experiência do sinistro na contratransferência.
Segundo ele, as teorizações sobre a contratransferência são tentativas de tornar
pensável a experiência subjetiva do sinistro decorrente da transferência.


   Sobre o sinistro na relação com transferências “delirantes” ele escreve:


           “O sinistro - particularmente perceptível nos casos de transferências
      delirantes - faz o analista viver não apenas a sensação de ser
      despossuído de seu próprio eu, não apenas de se ver no seu paciente
      numa imagem que explicita formações recalcadas, mas o torna prisioneiro
      de seus pensamentos de onipotência dos quais não pode mais sair.” (pág.
      82)

   Fédida fala aqui sobre os riscos de o analista manter-se na situação, tornar-se
prisioneiro da imagem que o outro lhe fornece. Daí a característica de o sinistro
destruir temporariamente a capacidade analítica da contratransferência.


   Fédida (1988) afirma que uma das características ameaçadoras desta
vivência na contratransferência é a perda da capacidade do analista de sua
mobilidade mental, em especial a perda da linguagem é sentida como uma
ameaça. Segundo ele:


       “A perda da linguagem é certamente o que é vivido como a mais terrível
      ameaça. Se o analista chega a se ver vendo-se incapaz de mobilidades
      cinestésicas que lhe são habituais, (...) a angústia contratransferencial é
      vivida como uma sideração mortífera antes de permitir entender a
      necessidade do paciente de criar um duplo simbiótico exatamente igual a
      si.” (pág. 76)

   A necessidade do paciente é de criar um duplo simbiótico e a do analista de
não se deixar aprisionar neste lugar. Fédida (1988) escreve sobre a dificuldade
do analista em compreender o que acontece nestes momentos e que a prática
clínica deveria ajudar, a descrever melhor o fenômeno do sinistro vivenciado pelo
analista no tratamento.
45




9 A Interpretação

  A partir de uma experiência na contratransferência proveniente de uma
identificação   projetiva,   o   analista   poderia   utilizar   isto   para   interpretar
verbalmente? Seria a interpretação uma possibilidade de tornar o fenômeno
consciente e assim evitar a situação de impasse de que fala Rosenfeld (1987),
onde o analista perderia sua capacidade analítica?


   Segundo Winnicott (1947), a contratransferência deve ser observada e
“guardada”, podendo ser utilizada para uma interpretação em um momento
adequado.


   Posteriormente, Winnicott parece considerar mais importante a questão
ambiental da análise do que a interpretação verbal. Em 1971, em seu livro “O
brincar e a realidade”, ele propõe a situação de “uso do objeto” onde, a partir da
possibilidade de “uso” do analista, o paciente se ligaria ao princípio de realidade.
Winnicott formula o seguinte neste artigo: o uso de um objeto é diferente de uma
relação de objeto. O analista deveria permitir seu “uso” por pacientes
“fronteiriços”, e isto consistiria em “O analista (...) precisa relacionar-se à
capacidade do paciente de colocar o analista fora da área dos fenômenos
subjetivos.” (pág. 122) Ou seja, permitir ser usado é poder ser “destruído” pelo
paciente. Destruição nesta teoria está intimamente ligada à possibilidade de
criação. É fundamental para o paciente que o objeto seja destruído e possa
sobreviver, pois isto permite que o paciente se dê conta de sua não onipotência,
que seu desejo de destruição não possui este poder sobre o mundo. Este é um
dado de realidade capaz de transformar a realidade psíquica porque existe a
transferência sobre o objeto, o analista, o qual inicialmente se confunde com as
projeções do paciente. O princípio de realidade pode ser alcançado a partir da
destruição das projeções para que o analista se torne externo à própria
transferência e adquira vida própria. Poder sustentar este lugar na transferência,
46


e não sucumbir atuando contratransferencialmente, por exemplo, é ser analista.
É a sobrevivência do analista aos ataques que está em jogo, e é fundamental
que isto ocorra para que se dê alguma melhora para o paciente. A destruição
“real” do analista, quer por uma ausência concreta ou por uma não
permeabilidade deste a esta transferência, apenas confirmaria o trauma inicial.
Neste momento da teoria a capacidade do objeto de sobreviver, representado
pela figura do analista, é muito mais importante do que a interpretação.


   A partir do texto de Winnicott (1971) sobre o uso do objeto é possível pensar
que     se   encontramos     no   acompanhante      terapêutico   um       tipo   de
ataque/comunicação semelhante ao descrito na psicanálise, o que, segundo
Bion, seriam ataques à percepção e ao pensar através do processo de
identificação projetiva, é analítica a sobrevivência do AT aos ataques que sofre.
É possível pensar que o trabalho conduzido a partir do princípio da sobrevivência
do objeto permite uma conexão do acompanhado com o princípio de realidade.


   Bion possui uma posição diversa da apresentada por Winnicott. Segundo ele
(1957) o analista em uma interpretação devolve para o paciente o que foi
projetado e nisto se constitui o trabalho analítico: proporcionar o retorno destas
partículas de ego expelidas e que está agregado a elas de volta à personalidade.
Segundo Bion (1957): “A identificação projetiva é, assim revertida, e esses
objetos são trazidos de volta pela mesma via pela qual foram expelidos.” (pág.
83). O processo de reintrojeção do que foi projetado provocaria, muitas vezes,
uma intensa reação por parte do paciente, que sente a entrada do objeto como
um “assalto”.


      Bion também considera, como Winnicott, a necessidade de contensão, por
parte do analista, das projeções do paciente, mas a interpretação seria um passo
fundamental no tratamento.
47


  Rosenfeld (1952) possui uma posição bastante semelhante à de Bion. Ele
também considera a interpretação um aspecto fundamental na relação analítica
com psicóticos. Segundo ele (1971):


       “(a) interpretação verbal dos processos de identificação projetiva quando
      estes aparecem na transferência, o que considero como sendo de
      importância central na elaboração dos processos psicóticos na situação
      transferencial.” (pág. 127)

   Para Rosenfeld (1987), as “experiências inquietantes” que são criadas pelo
paciente no analista, desaparecem na medida em que o analista consiga
compreender o que se passa. As projeções devem ser verbalizadas pelo
analista, para si mesmo, o mais rápido possível, ou ele não entenderá o que se
passa com o paciente e não poderá interpretar.


   Rosenfeld (1987) também afirma que há pacientes que vivenciam a
interpretação verbal como uma separação do analista, o que pode ser vivido
como uma rejeição ao desejo de unidade não verbal. Nesses casos, a
interpretação verbal poderia ser prejudicial. No entanto, quando o analista
consegue transmitir o que o paciente sente e precisa, este pode receber a
interpretação como uma forma de acolhimento e contenção. Para isto, é
importante que o analista tenha a capacidade de usar seus próprios sentimentos
para compreender a comunicação não verbal de seus pacientes.


   O caminho apresentado por Rosenfeld é, a partir da identificação projetiva,
perceber como esta se manifesta na contratransferência, nomeá-la para si, e
então elaborar uma interpretação que devolva ao paciente o que ele havia
colocado fora.
48


METODOLOGIA


  Para a realização deste trabalho, a metodologia utilizada foi entrevista semi
dirigida. Os sujeitos entrevistados são acompanhantes terapêuticos, M e H, que
realizam trabalhos com psicóticos. A partir destas duas entrevistas, uma foi
escolhida, a de H, para que fosse realizado um estudo de caso aprofundado.



I Sujeitos de pesquisa

   Para que o sujeito entrevistado pudesse servir como sujeito de pesquisa,
considerei ser necessário que o AT desse importância à questão do vínculo no
tratamento. Isto porque há correntes teóricas que valorizam o distanciamento e a
aplicação de procedimentos comportamentais na relação com os pacientes.
Como eu buscava investigar, não apenas as reações emocionais do
acompanhante à relação de acompanhamento, pois talvez isto independa da
linha teórica seguida, mas também, como estas mesmas reações poderiam ser
convertidas em tratamento, achei que seria importante que o AT entrevistado
estivesse atento às mobilizações afetivas que pudessem haver ocorrido durante
seus acompanhamentos.


   Foram realizadas duas entrevistas onde a questão inicial foi relativa ao que
este sujeito acreditava ser o que tratava no seu trabalho como acompanhante.
Isto, para investigar a importância dada à questão do vínculo. Ambos os sujeitos
entrevistados deram grande importância ao fator relacional no tratamento. A
entrevista escolhida para ser analisada, o foi em decorrência de H possuir
experiência como acompanhante terapêutico de psicóticos e como analista de
pacientes psicóticos em seu consultório. Isto possibilitou que ele relatasse sua
percepção das diferenças e semelhanças entre os dois trabalhos. Na medida em
que este é um dos aspectos que esta pesquisa busca enfocar, o fato de H
também ser analista se tornou um fator determinante na escolha da entrevista.
49




   H é acompanhante terapêutico há seis anos e trabalha tanto com pacientes
psicóticos quanto com deficientes mentais.



II Entrevista

   Não havia questões elaboradas antes da entrevista, mas tópicos a serem
abordados. No decorrer da entrevista as questões foram formuladas a fim de
investigar os tópicos considerados relevantes. A entrevista foi gravada e
posteriormente transcrita.


   Os pontos investigados podem ser divididos da seguinte forma:


    1. O que caracteriza o trabalho do acompanhante terapêutico de psicóticos?
    2. O acompanhante já notou alterações do pensamento, do sentimento ou
        teve   sensações     corporais   incomuns       no   decorrer   de   algum
        acompanhamento realizado com um psicótico?
    3. Caso tenha havido alguma percepção particular, como isto foi entendido?
    4. O que pôde ser feito a partir desta percepção?


   Esta pesquisa visa descrever e analisar a partir de um ponto de vista
psicanalítico as alterações emocionais de acompanhantes terapêuticos, que
trabalham com pacientes psicóticos.



III Metodologia de análise e discussão da entrevista

  A análise e a discussão da entrevista foram realizadas simultaneamente. Isto
porque não havia sentido em separar os dados fornecidos por H, da tentativa de
correlacioná-los com a teoria da psicanálise, apresentada no item “Aspectos
teóricos”.
50




   A análise e discussão da entrevista está dividida em quatro partes. Cada
parte visa enfocar um diferente aspecto do acompanhamento terapêutico,
abordado por H.


   A primeira parte, “O trabalho do AT”, se refere à forma como H pensa este
trabalho. O que o faz pensar que esta forma de tratamento seja eficaz no
tratamento da psicose.


   A segunda parte, “O que sente o AT?”, se refere às sensações “estranhas”
vividas no trabalho como AT por H: Elas existem? Como são descritas estas
vivências?


   A    terceira   parte,   “Hipóteses   sobre   o   sentir:   particularidades   do
acompanhamento terapêutico”, é a formulação de hipóteses sobre fatores que
poderiam favorecer o surgimento das sensações de “estranhamento” descritas
por H. As hipóteses foram divididas em cinco grupos: a intimidade: o espaço e o
corpo; a relação da dupla com o social; duração: tempo e temporalidade; o lugar
do AT e a dificuldade em nomear.


   A quarta parte, “O que fazer com ‘isso’?”, descreve e discute o que é possível
ser feito a partir destes sentimentos, descritos por H, no acompanhamento
terapêutico.


   Ao final do trabalho, na conclusão, busca-se correlacionar os dados
encontrados na análise com a questão que originou a pesquisa. Na conclusão
também são levantadas questões para novas possíveis investigações dentro do
campo do acompanhamento terapêutico.
51


ANÁLISE E DISCUSSÃO DA ENTREVISTA DE H



I O Trabalho do AT

   H trabalha como acompanhante terapêutico há seis anos. É formado em
psicologia e em seu consultório exerce a psicanálise. Possui experiência em
acompanhamento terapêutico, tanto de pacientes psicóticos quanto de pacientes
portadores de deficiência mental.


   Dentro do trabalho como AT, H se utiliza do referencial teórico da psicanálise
e da esquizoanálise. H faz parte de um grupo de acompanhantes há pouco mais
de dois anos, o qual faz supervisão com uma psicanalista que também trabalha
como acompanhante terapêutica. Ele participa de um grupo de estudos,
independente de seu grupo de referência, que busca teorizar o trabalho do AT.


   No início da entrevista, H foi perguntado sobre quais os aspectos do
acompanhamento que considerava eficaz no trabalho com psicóticos. H
responde enfocando a questão da clínica. Ele diz que acompanha um rapaz, L,
há seis anos, e que ele é deficiente mental. Em diversos momentos da
entrevista, H se refere às experiências vividas com este paciente, e afirma que
haver realizado este trabalho lhe permite pensar o acompanhamento não tendo
como referência apenas o atendimento de pacientes psicóticos, mas também o
de deficientes, e que o enfoque do AT, a indicação para um trabalho de
acompanhamento, não se dá a partir de um diagnóstico psiquiátrico, mas a partir
do isolamento de um indivíduo, tema que será desenvolvido adiante.


   Segundo H, o AT está ligado ao quotidiano. Seu trabalho é o de “possibilitar
recursos” a quem acompanha, independentemente de seu diagnóstico. Recursos
estes que, de uma maneira geral, visam restituir ao acompanhado um lugar
social, muitas vezes perdido.
52




   O trabalho se dirige a indivíduos que se isolaram, e esta é a indicação básica
para acompanhamento terapêutico. O trabalho do AT é importante quando há
um quadro caracterizado pelo retraimento. Segundo ele:


      “Hoje é muito difícil pra mim pensar em saúde mental sem AT.(...) É uma
      figura fundamental. Acho que é ainda muito pouco aproveitado na área da
      psiquiatria, muito menos na área da neurologia e, muito menos ainda,
      acho que até desconhecido, em muitas outras áreas que eu acho que
      poderia ser muito importante. (...) Eu acho que qualquer quadro que
      provoque um retraimento cabe AT.”


    H afirma que uma das metas do AT é a busca de uma maior independência
de um indivíduo que se isolou. Esta maior independência é possibilitada por um
retorno deste indivíduo a um convívio social, sendo o AT o propiciador desta
nova ligação com o mundo.


   O AT, portanto, possui uma relação com o social que não existe na
psicanálise. A indicação se dá a partir de uma situação de retraimento, e o
acompanhante frequentemente vai à casa de quem acompanha, enquanto na
situação analítica é o analisando quem busca sua análise.


   Segundo H, o acompanhamento possui um recurso próprio que é o recurso
da saída.


      “(...) acho que o AT traz uma coisa bárbara que é o recurso de sair. Acho
      que isso como recurso terapêutico é bárbaro porque abre para o mundo,
      aí é legal, porque você pode circular com pessoas que não circulam, ou
      porque não conseguem, ou porque não podem (...).”
53


   Esta possibilidade de sair é o recurso técnico específico desta modalidade de
tratamento. É este recurso que demarca uma fronteira, uma diferenciação, com
relação ao trabalho de outros profissionais da área de saúde mental. Ao mesmo
tempo, segundo H, só a saída não basta. Não basta sair para a rua para que
algo aconteça. A ideia de espaço relacionado à ideia de fora que H utiliza, não
está necessariamente ligada a um fora concreto. H se utiliza de conceitos da
esquizoanálise para pensar a dimensão do fora. Segundo ele, há algo que ocorre
na relação entre acompanhante e acompanhado, que não só a saída concreta,
que permite a saída deste indivíduo da reclusão. Ele fala:


      “(...) eu venho tentando pensar o AT de uma forma que não é exatamente
      isso de sair para a rua. A ideia é muito mais sair de algum espaço
      aprisionante. Isso pode ser um espaço interno, e isso você pode fazer
      encontrando o cara na casa dele e ficando lá.”


   H fala portanto, da saída de uma reclusão interna. Não é a rua, de uma forma
concreta, que permite uma saída deste indivíduo de uma situação de reclusão.
Sobre a imagem de a rua ser pensada como o fora ele diz:


      “A rua era muito concreto e por mais que eu conseguisse pensar que
      quando se falava da rua como espaço clínico estava se falando dos foras,
      todos os foras que não só o concreto, mas o concreto estava sempre
      muito presente e muito... justificando uma ideia de que o AT é terapêutico
      por isso. Por essa concretude do fora, da rua mesmo, dos lugares mesmos
      aonde se vai. Eu acho que tem mesmo um peso muito importante, mas a
      impressão que eu tinha, é que ia além do que é de fato o valor disso. Isso
      não dá conta, isso não dá conta. Você estar com o cara saindo por aí não
      abre nada.”


   H diz que este pensamento sobre o trabalho surgiu a partir de uma
experiência com um paciente que, em três anos de acompanhamento, conseguiu
54


sair quatro ou cinco vezes de casa. Segundo H, ele não sai com ninguém, e H
descreve, na entrevista, uma fala deste paciente para a outra AT que o
acompanha:


      “(...) ele dizia para ela que incomodava ele na hora em que eu ia atender
      porque, a sensação que ele tinha, era de que a rua estava entrando dentro
      da casa dele. Enfim, eu acho que é exatamente isso, a gente carrega isso
      porque a gente vai.”


   Desta fala é possível pensar que o AT não apenas sai para rua com o
paciente, mas que ele é “em si” portador desta rua. Ele é o próprio social que
“entra” na casa de quem é acompanhado. Segundo H, o que é terapêutico no
acompanhamento é o encontro. Em suas palavras:


      “O que é terapêutico no AT é o encontro. Acho que é o encontro. É a
      relação que pode se desenvolver a partir daqueles encontros e a partir
      daqueles encontros no tempo.”


   A proposta de H é que o trabalho se dá a partir do encontro, estando este
encontro associado ao recurso de sair. A potência e a especificidade do trabalho
do AT se dão na união destes dois fatores, apesar de em alguns momentos a
saída, de uma forma concreta, não acontecer.


   Nestes momentos, como pode ser pensado o acompanhamento? Se o
acompanhado não sai de casa, qual a função do AT? Acredito que quando o
trabalho do acompanhante fica vinculado a uma ação concreta, como auxiliar o
acompanhado a encontrar um curso ou ir a um cinema, neste trabalho de
religamento do acompanhado ao convívio social, é possível se observar
mudanças. A “melhora” é algo visível, observável, há um resultado obtido a partir
do trabalho, pois quem não saía passa a sair. É uma função dada, que o
acompanhante trabalhe no sentido de que o outro saia, função existente
55


anteriormente à própria relação. Esta necessidade de que o acompanhado
“melhore”, a partir do ponto de vista do acompanhante, e não do próprio
acompanhado, pode ser um entrave na relação. Se nos voltarmos para a
psicanálise e nos perguntarmos qual a função do trabalho analítico, deparamo-
nos com a inexistência de uma resposta a priori. A função da análise só pode ser
definida pelo próprio analisando, na medida em que está em análise, ou seja, a
melhora só pode ser definida por ele, e a posteriori. Como no trabalho analítico é
o analisando quem decide fazer ou não sua análise, a questão da função desta
se dilui, já que é o próprio indivíduo quem se responsabiliza pelo seu
“tratamento”. No caso da psicose, e mais especificamente no caso do
acompanhamento terapêutico, em que o acompanhante vai à casa de quem
acompanha, além de muitas vezes ser contratado por outros que não o próprio
acompanhado, esta questão se acentua. A necessidade de uma “melhora” do
acompanhado, o que pode estar representado nas saídas, pode se tornar uma
medida de “produtividade” do trabalho. Muitas vezes, sair é a “prova” de que o
trabalho está “funcionando” (cumpre com sua função) e, frequentemente, é o que
“garante” que o acompanhamento tenha continuidade. É preciso estar atento
para que o trabalho não seja realizado no sentido do desejo da família (quando o
contrato é feito com esta) ou de um ideal social, mas no sentido do desejo de
quem é acompanhado.


   H também trabalha como analista atendendo psicóticos. Ele tem se
perguntado sobre as semelhanças e diferenças entre os dois trabalhos, o que
aproxima e o que distancia as duas experiências. Ao falar sobre a questão do
encontro como um aspecto terapêutico existente no acompanhamento, H
correlaciona seu trabalho como acompanhante ao seu trabalho como analista.
Segundo ele:


      “Acho muito parecido com a questão da análise. Tenho estado muito
      confuso, muito incomodado com esta questão. Porque eu fico com essa
      impressão... a intenção é de chegar ao mesmo lugar, então não sei...”
56




   A posição de H é que, tanto o trabalho do acompanhante, quanto o do
analista visam uma maior independência do indivíduo, sua autonomia.


   Quando foi perguntado sobre quais as diferenças que ele percebe quando
compara o “lugar” do AT ao “lugar” do analista, ele responde:


      “Eu achava que quando fosse conhecendo mais, tendo mais experiência
      isso fosse ficar mais fácil, fosse ficar mais claro, qual é o lugar de cada
      um, mas a impressão que eu vou tendo é que vai ficando cada vez mais
      perto e mais parecido. Com a diferença, claro, dos recursos. Mas aí é uma
      questão de recurso, não é uma questão de lugar. É uma questão que, no
      consultório, você tem alguns recursos que têm a ver com a técnica da
      análise, por exemplo. E, no acompanhamento terapêutico, você tem outros
      recursos que têm a ver com a técnica do AT. Agora, não sei quando se
      trata de uma diferença de lugar. Principalmente em se falando de psicose.
      Um psicótico em análise é... você também fica exposto a ... a tudo, eu
      acho, quase, que você fica exposto no AT.”


  Para H, o lugar de analista está cada vez mais próximo do lugar de AT. O que
distingue um trabalho do outro são os recursos utilizados. Segundo ele, o “lugar”
em que se sente colocado pelo paciente, tanto como analista quanto como AT, é
muito parecido. H parece se referir à semelhança entre as posições ocupadas na
transferência tanto em um trabalho quanto em outro. Mas é possível perceber
também que, tanto como analista, quanto como acompanhante, o “lugar” que os
pacientes ocupam, para H, é muito parecido. Isto porque, ao falar deste “lugar”,
H se remete à sua experiência, à experiência de exposição que vive quando
atende pacientes psicóticos. Ele se sente exposto tanto no consultório, quanto no
acompanhamento, o que apresenta uma similaridade entre as situações
contratransferenciais. Ao ser perguntado sobre a sensação de exposição no
trabalho com psicóticos, ele responde:
57




      “(...) é um contato muito mais pessoal no sentido da exposição. Não tem
      como não ser.(...) Eu acho que tem a ver com o quanto você tem que estar
      usando das suas próprias coisas, tudo, enfim, dos teus próprios
      sentimentos, das coisas que você sente naquela relação com aquele
      cara.”


   H sente que tanto como analista quanto como acompanhante precisa usar de
seus próprios sentimentos, se expor, quando atende psicóticos. É possível
correlacionar esta afirmação com a teoria da contratransferência na relação
analítica de psicóticos. Segundo Joseph (1985), frequentemente o analista só
consegue compreender a transferência realizada pelo psicótico a partir de sua
contratransferência. Rosenfeld (1987) concorda com esta posição de Joseph
quando afirma sobre a utilização, pelo analista, de seus próprios sentimentos.


   Ambos os autores correlacionam a contratransferência à transferência
psicótica. No acompanhamento é possível falar em transferência psicótica no
sentido analítico? Talvez isso também seja observável a partir dos sentimentos
“contratransferenciais” descritos por acompanhantes.


   H afirma que a utilização de seus sentimentos, tanto no acompanhamento
como na análise de psicóticos, lhe provoca uma sensação de “desproteção”.
Segundo ele:


      “Acho que me sinto muito desprotegido (como AT), mas me sinto muito
      desprotegido também no lugar do consultório. Também me sinto muito... e
      cada vez me sinto mais... mais em carne viva.”


   Não é de qualquer exposição que H fala. Sentir-se em “carne viva” é uma
expressão extremamente forte, que fala de uma vivência onde a sensibilidade
58


está aflorada, onde o corpo está exposto, onde não há proteção, intermediação
de uma “pele” para o contato.


   Sobre que tipo de contato H fala? Que proximidade é esta que sente
estabelecer com a psicose? Podemos falar em uma relação fusional que se
estabelece entre acompanhante e acompanhado? Winnicott (1960) descreve um
movimento neste sentido ao falar do tipo de relação que o paciente psicótico
borderline estabelece com o analista. Segundo ele:


“O psicótico borderline atravessa gradativamente as barreiras que denominei de
técnica do analista e atitude profissional e força um relacionamento direto de tipo
primitivo, chegando até o limite da fusão.” (pág. 150)


   Assim, segundo Winnicott, é possível a existência de uma relação fusional
entre paciente e analista.


   Casement (1990) também afirma que haveria um período de relação fusional
entre analista e paciente. Segundo ele, a análise seria outra oportunidade do
paciente elaborar aspectos do desenvolvimento muito primitivos. Isto só é
possível quando, a partir de um uso regredido do analista, onde este pode ser
vivido como uma extensão do paciente, o analista possa se separar
gradativamente.


   É deste relacionamento “direto” que H fala? É possível fazer um paralelo
entre esta descrições de Winnicott e Casement e o que H vive no trabalho como
acompanhante terapêutico? Aparentemente sim.


   É possível pensar que, talvez, um dos trabalhos do AT seja, depois de um
momento inicial de proximidade intensa com quem acompanha, possibilitar a
“criação” de uma pele, juntamente com seu acompanhado. A criação de um
contorno através de uma “separação gradativa”.
59




   A desproteção, descrita por H, e seus sentimentos, pensamentos e fantasias,
que ele reconhece como tendo surgido a partir da relação de acompanhamento
terapêutico, tanto com a psicose, quanto com a deficiência, é o que será
discutido agora.




II O que sente o AT?

   Ao ser perguntado se ele já havia vivenciado situações de estranhamento
durante o trabalho de acompanhamento, H responde que lhe vem à cabeça a
relação com seu paciente deficiente:


      “É que está me vindo muito mais esse cara que é deficiente, e quando
      você fala nisso me lembro de situações muito, muito angustiantes, muito...
      bom, isso dá para falar com psicótico também.”


   Disse a ele que também me interessava pelo que ele pudesse falar a respeito
desta relação, já que há poucos relatos de acompanhamento terapêutico fora da
psicose.


   A fala de H levanta uma questão importante: o que está sendo discutido para
a psicose pode se aplicar também ao trabalho com deficientes mentais?
Winnicott (1954-5) diz evitar utilizar as categorias “psicótico” e “neurótico”,
preferindo pensar em termos de regressão. A gravidade de um caso estaria
correlacionada ao grau de regressão do indivíduo. É possível pensar o deficiente
como um indivíduo regredido? Mas quem regride, regride a algo que já foi, é a
volta a um momento anterior. O deficiente, talvez, nunca tenha chegado a
“progredir” para que haja uma regressão.
60


   Esta questão se torna relevante no presente trabalho, em função de H referir-
se, em diversos momentos, a seu trabalho como acompanhante de um rapaz
deficiente. Como H não faz uma diferenciação significativa entre o trabalho com
a deficiência e com a psicose, pois seu enfoque é sobre o isolamento, e como ao
falar das sensações vividas contratransferencialmente aproxima os casos, na
medida em que tem sensações “estranhas” tanto em um acompanhamento como
em outro, na discussão serão utilizados conceitos, como a identificação projetiva
e a contratransferência decorrente desta, que foram desenvolvidos a partir da
análise de pacientes psicóticos para se referir também a este caso apresentado.


   Há o risco de se colocar mais uma variável, a diferença entre a deficiência e a
psicose, além da diferença entre o acompanhamento terapêutico e a psicanálise.
No entanto, os dados trazidos por H, e o paralelo que traça entre os dois
atendimentos, levantaram questões, por demais interessantes, para que fossem
abandonados.


   Ao falar de suas sensações com seu acompanhado deficiente, H se refere à
sensação de angústia. Esta sensação é lembrada a partir de uma cena que ele
descreve:


      “Me lembrei de uma cena, especificamente, que se repetiu algumas vezes
      que era justamente nessa história do banheiro. Ele tá lá, e ele entrava
      numa coisa de despersonalização tão absurda, ele começava a fazer
      caretas e gestos que me apavoravam muito. De ter vontade de sair
      correndo, de me perguntar que que eu tava fazendo lá, que trabalho era
      esse, que história era essa. Muito, muito louco mesmo. Eu tinha umas
      sensações muito estranhas.”


   Sem que fosse interrompido, H continua falando das vivências que teve com
pacientes psicóticos:
61


       “Com psicóticos, se for pensar no G, por exemplo, o G me causa
       sensações assim indescritíveis. De uma angústia, de uma vontade de
       chorar, engraçado é uma vontade de chorar que não é comum. Tanto com
       pacientes, quanto na minha vida, não é uma coisa que eu vira e mexe
       estou com vontade de chorar. Com ele é um nó que sobe que eu tenho
       que segurar para não começar a chorar do nada. Não é que esteja
       acontecendo alguma coisa, é justamente por não estar acontecendo nada.
       É um cara que você fica com ele duas horas e se ele fala três frases é
       muito. Que não fala, que não me olha, é uma sensação de não existir
       absoluta. Muitas vezes é isso que acontece com ele. Fico em lugar
       nenhum, viro nada, coisa nenhuma, acho que tem situações que você
       passa como AT que são muito ruins, quando você se sente motorista,
       quando você se sente babá, quando você se sente, sabe? Sei lá eu,
       pajem. Tem um monte de demandas que eu acho que a figura do AT
       propicia às pessoas acharem que... já vivi muitas situações assim, de ouvir
       isso, né, de ouvir: ‘Bom, então é melhor você atender ele nessa hora
       porque ele precisa ir para a análise, e então, se ele vai com você sai mais
       barato do que se ele for de táxi.’ Sabe, ter que ouvir isso não é muito
       agradável. Você vira um motorista de táxi mais barato. É muito ruim uma
       situação desse tipo. Para além disso eu acho que falando desses lugares
       do encontro... (acabou a fita e H me pergunta se vou viajar no feriado).”

   Esta é uma fala que merece ser retomada em partes e discutida, mas é
interessante termos uma visão completa na medida em que é possível ver como
H se aproxima fortemente da sensação de angústia e depois vai se distanciando.


   No início da fala sobre seu acompanhamento com um paciente deficiente H
diz:


       “Me lembrei de uma cena especificamente que se repetiu algumas vezes
       que era justamente nessa história do banheiro, né, ele tá lá, e ele entrava
62


       numa coisa de despersonalização tão absurda, ele começava a fazer
       caretas e gestos que me apavoravam muito.”


   Logo no início da fala, H se remete a esta experiência no presente “ele tá lá”.
A partir desta fala é possível pensar que relembrar, retomar estes afetos, é algo
que os traz para o presente. Ao descrever os sentimentos é como se os
revivesse. A descrição é de muita intensidade e angústia. Lembra descrições, na
psicanálise, do que experiência o analista em situações de forte identificação
projetiva por parte do paciente.


       “De ter vontade de sair correndo, de me perguntar que que eu tava
       fazendo lá, que trabalho era esse, que história era essa. Muito, muito
       louco mesmo. Eu tinha umas sensações muito estranhas.”


   H, ao falar da situação de despersonalização de L, a pessoa que acompanha,
fala do desejo de sair correndo, distanciar-se daquela relação. A sensação
parece ser provocada pela relação com o outro e, portanto, afastar-se é uma
saída, assim como H se afasta do sentimento em sua fala. O sentimento que aí
aparece é de pavor e H, neste momento, se questiona sobre seu trabalho, qual a
função deste e se pergunta sobre o que seria esta “história”, isto que vive.


   Ao falar da loucura, H diz: “Muito, muito louco mesmo”. É difícil saber, neste
momento, a que se refere: o outro é muito louco, as sensações estranhas que
sente são muito loucas, o trabalho é muito louco. Talvez a junção destes três
elementos, o que configura a relação, seja aquilo a que ele se refere como sendo
muito louco. Há uma sensação de estranhamento com relação aos sentimentos
vividos.


   H, depois da descrição destas sensações com seu paciente deficiente, se
volta para o acompanhamento de um rapaz psicótico:
63


      “Com psicóticos, se for pensar no G, por exemplo, o G me causa
      sensações assim indescritíveis.”


   Há dificuldade em descrever, em nomear estas sensações vividas. H parece
falar de algo inominável. À dificuldade de nomeação segue uma descrição de
sentimentos, uma angústia que H associa a uma vontade de chorar quando
acompanha este rapaz. Segundo ele:


      “De uma angústia, de uma vontade de chorar, engraçado é uma vontade
      de chorar que não é comum. Tanto com pacientes quanto na minha vida,
      não é uma coisa que eu vira e mexe estou com vontade de chorar. Com
      ele é um nó que sobe que eu tenho que segurar para não começar a
      chorar do nada. Não é que esteja acontecendo alguma coisa, é
      justamente por não estar acontecendo nada.”


   H percebe esta vontade de chorar como algo incomum em sua vida. A partir
desta situação específica, ou seja, é junto de G que H tem vontade de chorar, é
possível pensar que esta vontade de chorar pode não ser         “só dele”, H. A
vontade de chorar pode ser relacionada à sua relação com G.


   H, ao falar da vontade de chorar que sente quando está com G, não descreve
uma tristeza ou um pensamento a partir do qual sente esta vontade. Ao contrário,
é a partir da vontade de chorar que busca entender o que se passa. Inicialmente,
ele parece identificar uma sensação corporal, “nó que sobe” e, a partir da
sensação, H busca uma tradução, uma razão para estar sentindo isto. A
explicação que H encontra é a percepção do “nada”, de que a relação com G é
marcada pelo vazio, pelo não acontecimento. Aqui retorna a ideia do inominável,
de uma sensação sem nome. H segue:


      “É um cara que você fica com ele duas horas e se ele fala três frases é
      muito. Que não fala, que não me olha, é uma sensação de não existir
64


      absoluta. Muitas vezes é isso que acontece com ele. Fico em lugar
      nenhum, viro nada, coisa nenhuma, (...)”


   Para falar da sensação do “nada”, H se refere ao silêncio de G, ao número de
frases que ele fala durante um encontro, mas há algo além do silêncio: o não
olhar e a sensação de inexistir, de ficar sem lugar. H se refere a esta situação
como não acontecendo “nada”, quando, na realidade, ele se sente invadido por
sentimentos intensos. Sentimentos estes, que parecem remetê-lo a um lugar de
morte: “uma sensação de inexistir absoluta”. Logo depois desta fala, H diz que “é
isso o que acontece com ele”. Neste momento, é difícil perceber de quem ele
fala: Acontece com quem? Não é possível identificar se isto ocorre com H junto
de G, ou se é isto o que G vive, a sensação de inexistir. É possível pensar que
neste momento, H se identifica à vivência de G, o que poderia ser traduzido da
seguinte forma: isto que acontece com G é o mesmo que acontece com H
quando está junto de G. Quando se identifica com G, H toma o lugar de
inexistente para si. H se refere à sensação de ser “coisa nenhuma”, ou seja, nem
mesmo no lugar de coisa, de objeto, é possível existir junto de G. Talvez, a
sensação de inexistência de G, seja captada por H, aparecendo neste sob a
forma da vontade de chorar.


   Esta descrição de H, do que sente ao acompanhar G, é uma das mais ricas
da entrevista. A partir desta descrição é possível fazer uma correlação entre os
conceitos de identificação projetiva, de contratransferência, e de transferência
psicótica com o acompanhamento terapêutico.


   Ao formular a teoria da identificação projetiva, Klein (1946) afirma que este é
um mecanismo de defesa presente na posição esquizoparanóide, onde o bebê
tem a fantasia de destacar partes más do seu ego e projetá-las para dentro da
mãe, a qual, contendo agora as partes ruins do ego do bebê, se torna
perseguidora. Posteriormente, Bion (1957,1959) caracteriza a identificação
projetiva não apenas como um mecanismo de defesa, mas também como uma
65


forma de comunicação da parte psicótica da personalidade. Segundo Bion
(1962), o paciente, incapaz de tolerar a frustração decorrente da existência deste
sentimentos, os projetaria no analista. Ao analista, caberia suportar e conter
estes sentimentos. Rosenfeld (1987), assim como Bion (1959), considera
fundamental que o analista contenha os sentimentos caóticos e insuportáveis
projetados pelo paciente. A identificação projetiva como uma forma de
comunicação é, segundo Bion (1973), percebida através das sensações do
analista. É a partir de seus sentimentos, da contratransferência ou da contra
identificação projetiva, que o analista pode compreender o que lhe é
comunicado.


   A descrição de H dos sentimentos que tem na relação com G, se assemelha
muito a uma descrição feita por Casement (1985), onde este relata uma situação
de identificação projetiva por parte de uma paciente. Segundo Casement, a
impressão do analista, ao vivenciar a comunicação feita através do mecanismo
de identificação projetiva, é de viver algo que não pertence totalmente ao
analista.


   H identifica uma vontade de chorar incomum em sua vida, vontade de chorar
que sente como tendo sido causada pela falta de sentimentos do paciente, pela
sensação de vazio que experiência na relação com G. O exemplo de Casement é
muito semelhante. A proximidade dos exemplos pode sugerir que o que H sente,
ao acompanhar G, seja resultado da utilização, por parte de G, do mecanismo de
identificação projetiva.


   O relato de H levanta uma questão com relação à contratransferência na
psicose a partir da identificação projetiva. Como a identificação projetiva é capaz
de provocar sentimentos no analista, ou no acompanhante? As descrições do
mecanismo da identificação projetiva falam de uma projeção que ocorre para
“dentro” do objeto, analista ou acompanhante. Ao se falar em uma projeção
“dentro” se fala de uma relação de intersubjetividade.
66




   Para pensar sobre esta questão é necessário retomar as descrições
existentes sobre a identificação projetiva. Constantemente se encontra a palavra
“estranho”, e mesmo na entrevista realizada, o termo usado para investigar a
existência de fenômenos que apontassem para a existência da identificação
projetiva foi “estranho”. Se ele, H, se recordava de sensações de estranhamento
ao acompanhar. Tanto a sensação de estranhamento descrita, quanto a
repetição da própria palavra ao descrever o que sente, remete ao artigo de Freud
(1924) traduzido como “O sinistro”, ou “A inquietante estranheza”.


   Se pensarmos na vivência da contratransferência na identificação projetiva
como uma percepção do sinistro, nos deparamos com a hipótese de que não são
as projeções do paciente que são percebidas pelo analista ou acompanhante,
mas que a partir desta projeção, emergem conteúdos pertencentes ao próprio
analista que se encontravam reprimidos.


   Dentro desta hipótese, não considerando a contra identificação projetiva como
algo que ocorre em decorrência de sentimentos pertencentes ao paciente vividos
pelo analista, mas sentimentos pertencentes ao analista que são mobilizados a
partir das projeções do paciente.          A contra identificação projetiva não se
distingue, portanto, da contratransferência, na medida em que também é
proveniente de aspectos não analisados do analista. A força das sensações
provenientes de uma identificação projetiva talvez se deva ao fato de serem
conteúdos muito primitivos reprimidos do analista que são mobilizados. Daí,
talvez, o risco para a personalidade do analista ao tratar de psicóticos a que se
refere Rosenfeld (1987). Segundo Segal (1977), a capacidade do analista de
perceber e conter a parte infantil do paciente depende da capacidade do analista
de conter suas próprias partes infantis.
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   Talvez seja em função do mecanismo referente à experiência do “estranho”,
conforme Freud a descreve, que se deva a estranheza das sensações descritas
por H, estas sensações “indescritíveis”.


   Fédida    (1988)    escreve     sobre    a   experiência     do    estranho    na
contratransferência. Segundo ele, a teorização da contratransferência é uma
tentativa de tornar “pensável” a experiência subjetiva que vive o analista ao viver
uma situação de sinistro na relação analítica, que ocorre particularmente em
transferências delirantes.


   H, depois de falar sobre a sensação de inexistir junto de G, o que parece
haver sido uma experiência do sinistro no acompanhamento, afasta-se do que
descreve/revive, e passa a falar do desconforto que é ser tomado por motorista,
ou pajem, quando está acompanhando. Mas, por mais desagradável que seja, o
motorista tem um lugar de existência, diferentemente de como H se sentia
momentos antes, inexistente. Neste momento, é possível pensar que, ao
considerar-se motorista, H já pôde distanciar-se, refletir e, inclusive, sentir raiva
deste lugar em que é colocado. H segue:


      “(...) acho que tem situações que você passa como AT que são muito
      ruins, quando você se sente motorista, quando você se sente babá,
      quando você se sente, sabe? Sei lá eu, pajem. Tem um monte de
      demanda que eu acho que a figura do AT propicia às pessoas acharem
      que... já vivi muitas situações assim, de ouvir isso, né, de ouvir: ‘Bom,
      então é melhor você atender ele nessa hora porque ele precisa ir para a
      análise e então se ele vai com você sai mais barato do que se ele for de
      táxi.’ Sabe, ter que ouvir isso não é muito agradável. Você vira um
      motorista de táxi mais barato. Então é muito ruim uma situação desse tipo.
      Para além disso eu acho que falando desses lugares do encontro...
      (acabou a fita e H me pergunta se vou viajar no feriado).”
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   De uma percepção angustiante, H passa para uma cena ruim vivida no
trabalho como acompanhante. Mas esta é uma situação ruim concreta, há “algo”,
como “se sentir” babá, pajem, ou “virar” um motorista de táxi mais barato. A
irritação parece vir não apenas de ser colocado pelo outro neste lugar (“de ouvir
isso”), mas de se ver neste lugar, quando “se sente” ou “vira” um motorista.


   Além de descrever um incômodo ligado a um fato concreto, H também insere
outras pessoas ao falar deste incômodo: “Tem um monte de demanda que eu
acho que a figura do AT propicia às pessoas acharem que...”. Este momento
talvez possa exemplificar uma das formas encontradas por H para lidar com a
angústia surgida na relação com G: Da angústia do lugar de inexistência, passa
para uma irritação com o lugar ocupado (concreto), e daí sai, se remete a outras
pessoas, um terceiro que entra neste momento para separá-lo do contato intenso
com G. A fala vai num crescente de intensidade que, ao se aproximar de
questões muito difíceis, precisa ser interrompida.


   No decorrer da entrevista, ao ser perguntado a respeito de sensações
corporais, H volta a se referir ao que sente quando acompanha G:


      “Com o G mesmo, essa coisa do corpo mesmo, a coisa do nó na garganta
      literalmente. De sentir um nó, sentir uma coisa travada de não conseguir
      ver nenhuma brecha de contato. Nenhuma brecha de... não te vir
      nenhuma ideia de uma coisa de uma palavra que você possa dizer e que
      você saiba que vai tocar em algum lugar mais significativo. Tudo vai ao
      vento, seja lá uma atividade ou uma palavra.”


   H correlaciona a concretude das sensações corporais, “o nó na garganta”,
com a impossibilidade de contato através da palavra. Mas, é possível pensar que
o nó, que aparece frente à falta de brecha para contato é, em si, uma forma de
contato. Um contato não simbolizado, não transformado, a sensação no lugar da
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palavra. A sensação de H, de não tocar o outro com ações ou palavras existe,
mas talvez, porque exista aí, um toque muito anterior à palavra.


   Com relação aos sentimentos que são despertados por G, H também diz:


      “O G, por exemplo, essas sensações, você está exposto a isso seja lá em
      que lugar você estiver. Se você estiver próximo mesmo daquele cara você
      vai estar contaminado por esses sentimentos que nem sempre são
      agradáveis e que... precisa estar a fim de ficar com ele mesmo, ou de
      lembrar que eles existem.”


   Nesta fala, H se refere às semelhanças existentes entre o lugar de analista e
o de acompanhante. Para ele, as sensações que sente com G independem da
posição que    ocupa, seja como AT, seja como analista. A questão é “estar
próximo mesmo”, sendo percebida a proximidade como o fator que o leva a ser
“contaminado” por esses sentimentos. Segundo Aurélio (1986), a ideia de
contaminação está relacionada à de contágio, a “transmissão de doença de um
indivíduo ao outro por contato imediato ou mediato.” (pág. 462). Falar em
contaminação é falar de algo que vem de fora, algo que nos é “transmitido” por
alguma via. Assim, podemos pensar que os sentimentos que contagiam H, são
percebidos como vindos de G.


  Quando H fala da situação de estar próximo mesmo da pessoa que
acompanha, parece estar se referindo à “abertura”, à continência aos
sentimentos confusionais (Bion 1962, Rosenfeld 1987) necessária na relação
com o psicótico. Talvez seja esta possibilidade de contenção, efetuada tanto pelo
analista quanto pelo acompanhante, que permita que as projeções do paciente
sejam recebidas e reordenadas. Estes sentimentos, que nem sempre são
agradáveis, podem se referir a uma necessidade do paciente de tentar destruir o
objeto (Winnicott 1971). É a partir da possibilidade de continência destes
sentimentos, a sobrevivência do objeto, o analista permitir ser “usado” pelo
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paciente, que o paciente pode perceber estes sentimentos como não sendo tão
destrutivos quanto supunha. Segundo Winnicott (1971), a percepção do paciente
de sua não onipotência, pois o objeto sobrevive à tentativa de destruição, pode
ser a forma de o paciente reencontrar-se com o princípio de realidade,
reconectar-se ao mundo. Esta vivência pode exercer uma grande pressão sobre
o analista. Esta pressão pode ser percebida através da observação dos
sentimentos contratransferenciais do analista. No nosso caso, esta pressão é
percebida pelo acompanhante. São as “sensações nem sempre agradáveis”,
como diz H.


   H afirma ser necessário “estar a fim de ficar com ele mesmo” (G?), “ou de
lembrar que eles existem” (os sentimentos?) para suportar os sentimentos.
Segundo H, não é possível aproximar-se de G e não entrar em contato com
estes sentimentos, que remetem a uma sensação de não existência.


   H se lembra, neste momento, de outro acompanhamento que fez, em que a
pessoa que acompanhava delirava todo o tempo. H descreve à situação da
seguinte forma:


      “Tinha um cara (J) que eu atendia, um cara engraçadíssimo, um cara
      bárbaro, um japonês (risos). Ele pintava a casa dele inteira, a casa dele
      era grande, todas as paredes eram pintadas com as cores mais... ele tinha
      muito uma linguagem própria, ele tinha altos símbolos que ele... muito
      ligados ao exército, e ele era um cara que não é que de vez em quando
      ele delirava. Ele delirava todo o tempo. Todo o tempo, não existia um
      tempo em que ele pudesse entender que pão era pão. Pão não era pão,
      pão era concreto, concreto que é feito de batata. Então, eu ia embora e
      ele me dizia: ‘Mas você vai pra onde?’ Ele sabia que eu morava aqui perto
      do centro. ‘Eu vou pra minha casa, eu vou pro consultório.’ ‘Você vai pro
      centro? Mas lá não tem ar.’ ‘Como não tem ar? Tem ar, eu vim de lá, eu
      vim respirando.’ ‘Não, lá não tem ar, você não pode ir pra lá. Então pelo
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      menos se fortifica’. Ele morava no fim da Vila Carrão, um lugar bem bairro,
      apesar da casa dele ser uma casa muito grande ficava em uma rua super
      simples e tinha um boteco, botecão daqueles de sinuca, de bêbado, sujo,
      e que ele ia pra comer aquelas batatinhas em conserva (risos), naqueles
      vidros imundos ou tomar guaraná com groselha, por exemplo, ou qualquer
      mistura que ele inventasse que pudesse ser um fortificante. E quase que
      me obrigava a comer aquilo e a tomar aquelas coisas pra eu me fortificar
      para conseguir chegar. Isso porque ele duvidava muito que eu fosse
      conseguir, não só porque não tinha ar, mas porque o carro era de bambu,
      os eixos do carro eram todos de bambu. E aí tinha umas coisas, não era
      muito frequente isso, mas tinha umas sensações no corpo de fraqueza, de
      medo, de entrar numas de que ia acontecer alguma coisa mesmo, apesar
      de que não era o mais comum. O mais comum era ficar... me divertia
      muito, né, ele era um cara muito engraçado. Muito especial, um cara que
      eu gostei muito de conhecer, uma figuraça, muito engraçado. Com altas,
      altas pirações assim. Muito pirado. Conseguia ser mais pirado que o F,
      que é difícil, né. Não é fácil ser mais pirado que o F. Inclusive o F tem
      umas coisas, né, uns flashes assim, que você fala: ’Gente é o F que está
      falando isso’. É bárbaro, o F tem umas tiradas muito geniais. E esse cara
      também tinha mas era numa língua completamente outra. Todo o tempo,
      todo o tempo. Fui visitar, ele foi internado em Itapira, e aí isso foi mais
      para o fim do AT que a família ficou sem grana, tal. A última vez que eu o
      vi foi na época da internação, eu fui ver ele lá no hospital. E ele dizia que
      aquilo era um palácio. ‘Hoje você veio conhecer o palácio?’ ‘Que palácio?’
      ‘Aqui é um palácio.’ E era. É mágico isso. Acho que é muito... ele tinha
      uma descrição dele próprio para cada coisa do mundo. Uma coisa muito
      legal.”


   J é descrito por H de uma forma muito viva, muito rica. Logo no início, H fala
de como J tem uma linguagem própria, uma linguagem delirante, onde “pão não
era pão”, onde a fala existe, diferentemente de G, mas possui outro sentido, um
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sentido próprio. Esta fala envolvente, leva H a tomar os fortificantes oferecidos
por J, e junto com os fortificantes, também vem o medo:


       “E aí tinha umas coisas, não era muito frequente isso, mas tinha umas
      sensações no corpo de fraqueza, de medo, de entrar numas de que ia
      acontecer alguma coisa mesmo”


   A sensação de medo é descrita, juntamente com a de fraqueza, como sendo
uma sensação corporal. Apesar de saber que seu carro não era feito de bambu,
a força desta imagem criada por J, é capaz de produzir sensações em H. Nesta
fala, H descreve outras sensações que ocorrem no acompanhamento: a
sensação de magia, onde o mundo pode ser redescoberto através de uma nova
linguagem, de uma forma lúdica. Sobre as boas sensações existentes no
acompanhamento H fala:


      “Sensações no corpo... era um cara (J) que disparava um pouco isso. Mas
      acho que é... isso vai e volta, né, nos dois sentidos. Acho que muitas
      vezes as sensações são muito boas também. As sensações são... sei lá,
      você ir mal atender, você está mal, está com dor no estômago, está com
      dor de cabeça e dali meia hora de atendimento não ter mais nada. É uma
      coisa que também te trata. Não é só que te faz mal. A gente percebe mais
      quando faz mal.”


   As sensações possíveis são também boas, sendo interessante a ideia de que
acompanhar também trata o acompanhante. Novamente, assim como quando
fala das más sensações, H relaciona as boas sensações com “deixar de ter uma
dor de estômago”, por exemplo, que o estava incomodando. A sensação de que
algo bom se passa, também parece passar através de um registro corporal. A
percepção parece se dar, novamente, a partir do corpo para depois ser
transformada em palavra. H parece falar de um “ganho”, em termos de saúde, a
partir da experiência como AT pois, “também te trata”. Podemos pensar que
73


quando as “perdas” se tornam maiores que os “ganhos”, o trabalho se torna
insuportável. H fala de um trabalho que teve como acompanhante e que deixou:
Ele trabalhou na República, sendo esta uma instituição, uma casa, em que mora
cerca de cinco indivíduos psicóticos e, permanentemente, um acompanhante
terapêutico que também é um “morador” da casa. A equipe de acompanhantes
conta com oito pessoas que trabalham em forma de rodízio. Sobre esta
experiência, a de ter sido um “morador” da República, H fala:


      “É um trabalho do AT mais específico. Que é essa coisa de morar juntos,
      isso é... acho que aí dá pra falar de coisas muito, muito estranhas que
      você sente ali, numa convivência daquela, com um nível de proximidade
      daquele, é estranho mesmo você conviver com psicótico. É estranho...”


   Ao ser perguntado em que consistiria este estranhamento, H responde:


      “Porque o cheiro é diferente, porque a circulação é diferente. E isso que
      eu... sei lá, não sou muito, eu também não sou muito adequado num certo
      sentido, em relação a algumas coisa que tem a ver com isso. Por exemplo,
      convivência, horário de dormir, eu durmo muito tarde, a maioria deles
      também, ou dorme muito tarde, ou nem dorme, então... mas é diferente, é
      diferente, você estar num lugar assim, né. A noite é de um peso, à noite...
      eu saí de lá porque não suportei a noite. A noite é de um peso
      indescritível, de muito medo, de tudo, né, do que pode acontecer, da
      responsabilidade que você assume ali, mesmo que... sabe? Dizendo que
      não está assumindo, dizendo que não é função mesmo, se o cara quer
      sair... Tem essa ideia, se o cara quer sair ele sai, mas não dá para você
      ver o cara sair, F, às duas e meia da manhã, sem sapato, dizendo que vai
      para o hospital. ‘F, você não pode ir para o hospital, são duas e meia da
      manhã’. ‘Não, mas eu vou lá, eu pego o ônibus, eu não sei o que.’ ‘Não F
      não dá’, e o F já está lá na esquina e eu tentando ir atrás falando com ele.
      Às vezes dá, às vezes não dá. Às vezes você acorda no dia seguinte com
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      alguém te ligando do hospital te dizendo: ‘O F passou a noite aqui, o que
      aconteceu?’ Aconteceu foi que ele foi embora. É muito estranho, né.”


   Esta fala também será desdobrada:


   H inicia descrevendo o estranhamento como um “cheiro diferente”, o que
pode ser entendido tanto literalmente, os cheiros existentes na casa, uma
percepção corporal, quanto metaforicamente, ao se pensar na existência de
“algo no ar”. De que há algo que “emana” na relação com um indivíduo psicótico.


   Ao cheiro, é associada “uma circulação diferente”. A circulação é outro termo
que tanto pode estar associado à ideia de movimento quanto, novamente, a uma
ideia corporal. É possível pensar que, junto a esses psicóticos, H percebe um
corpo e uma forma de movimento diferentes. Logo depois de falar destas
diferenças que percebe no psicótico, diferenças marcadas pela sensorialidade, H
fala de sua inadequação:


      “(...) eu também não sou muito adequado num certo sentido, em relação a
      algumas coisa que tem a ver com isso. Por exemplo, convivência, horário
      de dormir, eu durmo muito tarde, a maioria deles também, ou dorme muito
      tarde, ou nem dorme, então...”


   H parece falar da necessidade de certa “inadequação” por parte do AT, o que
tornaria possível a convivência deste com a psicose, e com as diferenças
decorrentes dela. H faz uma aproximação entre sua forma ser e a dos outros
moradores da República, quando fala do horário em que dorme, mas logo depois
retoma:


      “... mas é diferente, é diferente, você estar num lugar assim, né.”
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   A partir da aproximação de sua própria experiência com a experiência do
psicótico, H retoma a questão da diferença, a diferença existente entre ele e as
pessoas que acompanha. H descreve neste momento o que se tornou muito
“pesado” neste trabalho:


      “A noite é de um peso, à noite... eu saí de lá porque não suportei a noite.
      A noite é de um peso indescritível, de muito medo, de tudo, né, do que
      pode acontecer (...)”


   Aqui, aparece a ideia de um sentimento, ou de uma sensação, que não possui
possibilidade de nomeação: o peso da noite é “indescritível”. Junto a isto, a
referência a um “peso” também fala de uma experiência física, corporal. A esta
experiência está ligada a ideia de medo, um medo “de tudo”, como se a
convivência com a psicose provocasse uma sensibilidade muito grande, onde as
fantasias parecem poder se concretizar a qualquer momento. A partir desta
sensação de medo, H se remete a uma situação vivida. Descreve a cena em que
F, um dos moradores da República, resolve ir para o hospital às duas e meia da
manhã. Uma situação concreta que parece afastar, na fala, a descrição de um
medo inominável. Quando volto a perguntar sobre o medo, H responde:


      “Eu acho que medo, bom... se for falar de fantasia rola tudo, né. Medo de
      morte mesmo, de tragédias, medo de suicídios, medo de coisas assim.”


   Além das sensações, H descreve fantasias que tinha à noite quando
acompanhava na República. Descreve medos ligados à morte, sem um objeto
definido: não parece ser o medo de que uma pessoa específica, F por exemplo,
se suicide. É como um medo que envolve ao próprio H, como se a vivência de
proximidade com a psicose, e mais especificamente, a proximidade à noite, o
levasse a vivenciar aspectos seus, talvez ligados à questão da morte.


   H correlaciona estas fantasia a um lugar de “impotência”. Segundo ele:
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      “E acho que você fica perto de um lugar de muita impotência. Eu acho que
      é um... a República é um lugar que te joga na cara isso, teu limite, o que
      você pode fazer por aquelas pessoas e que não dá conta daqueles
      buracos todos. Isso é difícil.”


   A impotência é um termo que pode nos remeter tanto a “um lugar”, como diz
H, como a algo que se opera no corpo. É um termo que remete tanto à
sexualidade, quanto ao tipo de sentimento que H experimenta na relação que
estabelece com os moradores da República. Parece haver frustração em não
poder dar conta “daqueles buracos todos”, estando marcada esta relação pela
forma acentuada com que aparecem os limites do próprio acompanhante. H
marca a dificuldade em saber o que ele pode fazer por estas pessoas que
acompanha.


   Sobre a sensação de impotência na relação com a psicose e o cansaço que
isto provoca H fala:


      “Acho que o trabalho com psicose é um trabalho muito ingrato em muitos
      sentidos. No sentido do desenvolvimento mesmo, da solução desses
      casos, de que é muito... sempre fica muito abaixo do seu desejo em
      relação àquela pessoa, ou do que você deseja que aquela pessoa possa
      conquistar. Então isso cansa, cansa você ter que ficar... meio que se
      contentando com pouco, aí nesse sentido, e meio que estar se deparando
      com esse lugar de impotência, sempre, muitas vezes, acho que isso é o
      que cansa.”


   H fala da sensação de impotência que tem quando se depara com a diferença
existente entre seu desejo, com relação a quem acompanha, e o quanto este
pode corresponder ao seu desejo. Quando H se dá conta do seu desejo e da
falta de desejo do outro, percebe o trabalho como um trabalho “ingrato”. É como
77


se a energia despendida por ele, H, não correspondesse à melhora de quem
acompanha. Este grande dispêndio de energia, com um pequeno retorno, é um
dos fatores que levam H a se sentir cansado no trabalho como AT.


   Rosenfeld (1987) alerta para os riscos existentes para a personalidade do
analista que trata de psicóticos. Estes riscos existem em função da relação do
analista com as partes psicóticas da personalidade do outro, o que estimula
“inevitavelmente” os sentimentos de impotência e de onipotência, ligados às
partes psicóticas da personalidade do próprio analista.


   Segundo o relato de H, os riscos a que Rosenfeld se refere no trabalho
analítico também estão presentes no trabalho do acompanhante terapêutico.


   Sobre a República e a noite, H se refere à dificuldade que alguns
acompanhantes tinham em dormir. Este não era seu caso, ele dormia, mas H se
refere a um “incômodo” ligado à noite. Segundo ele:


      “Olha, na verdade não era nem que eu dormia mal, eu não dormia mal
      nesse sentido de não conseguir dormir, como aconteceu com algumas
      pessoas durante algum tempo. Não conseguir dormir, ficar fritando na
      cama, não era nem muito isso, dormia, mas eu acho que era muita
      frequência, o incômodo de pensar, aí o incomodo do tempo, o incômodo...”


   H fala de um desconforto relacionado ao tempo. Segundo ele, é difícil sair de
casa um dia para trabalhar e só voltar no outro dia à noite. Isso, com o passar do
tempo, começou a se tornar insuportável, e foi a razão pela qual ele afirma ter
deixado o trabalho na República.


   H acrescenta que as experiências que vivencia no acompanhamento, não são
decorrentes do acompanhamento em si, mas da proximidade estabelecida com
78


um indivíduo psicótico, ou seja, sentir isto que sente não é uma exclusividade do
acompanhante. Segundo ele:


          “Acho que isso (a percepção de sua impotência) é difícil no trabalho com
          psicóticos sempre, desde qualquer lugar.”


   Segundo H, não é o fato de ser acompanhante ou analista que provoca as
sensações que descreve, mas a proximidade. Assim, qualquer indivíduo que se
aproxime de um indivíduo psicótico também está sujeito a sentir o que H diz
sentir.


   Em resumo, H descreve as seguintes sensações surgidas a partir da relação
com indivíduos psicóticos e deficientes: Pavor, angústia, estranhamento, loucura,
vontade de chorar, vazio, sensação de inexistir absoluta, nó na garganta,
contaminação, fraqueza, medo, fantasia de morte, fantasia de tragédia, medo de
suicídios, impotência, incômodo. H marca que, não só de sensações
desagradáveis, se faz o acompanhamento. Ele sente que o trabalho também o
trata, e diz que há situações em que ele se sentindo mal vai acompanhar, com
dor de estômago, por exemplo, e acompanhando fica bem.


   É interessante fazermos um paralelo com a descrição das possíveis
manifestações da contratransferência e da contra identificação projetiva feita por
alguns autores.


    Segal (1977) descreve as sensações de desconforto, dor, ansiedade,
confusão, culpa, raiva, irritação e desamparo, sentidas a partir de uma relação
com uma paciente, a qual, segundo Segal, se utilizava do mecanismo de
identificação projetiva.


    Rosenfeld (1987) também faz descrições sobre o tipo de reação provocada
no analista pela identificação projetiva. Segundo ele, é possível sentir mal estar
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físico, sono, incapacidade de se concentrar, confusão, despersonalização, vazio,
fraqueza e medo de enlouquecer.


   Podemos, a partir destes dados, falar de uma aproximação da experiência
vivida pelo analista de pacientes psicóticos, da experiência vivida por H no
acompanhamento terapêutico. Isto permite pensar na possibilidade da utilização,
por parte do acompanhado, do mecanismo de identificação projetiva no
acompanhamento terapêutico, e da percepção da mesma, pelo acompanhante,
através da constatação de seus sentimentos contratransferenciais.


   Há, no entanto, características que diferenciam os dois trabalhos. O que
poderia ser caracterizado como próprio ao acompanhamento que poderia
funcionar como um facilitador para a utilização da identificação projetiva pelo
paciente? E quais as características do trabalho que permitem a percepção
desta, através dos sentimentos contratransferenciais, pelo acompanhante
terapêutico?




III Hipóteses sobre o sentir: particularidades do acompanhamento
terapêutico

   A partir das diversas situações descritas por H, é possível perceber uma série
de características próprias desta forma de intervenção, o acompanhamento
terapêutico, que podem propiciar as sensações de “estranhamento” vividas pelo
acompanhante. Dentre estas características estão:
   • A intimidade: o espaço e o corpo;
   • A relação da dupla com o social;
   • A duração: tempo ou temporalidade?;
   • O “lugar” do AT e
   • A falta de nomeação.
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1. A intimidade: o espaço e o corpo

   Um aspecto importante deste trabalho é intimidade muitas vezes existente
entre acompanhante e acompanhado. Este é um aspecto fundamental no
trabalho como AT: a exposição em uma vivência de intimidade. Logo no início da
entrevista, H descreve uma cena vivida em um de seus acompanhamentos:


      “(...) o primeiro atendimento do C foi numa sauna, com uma sunga, um
      cara que eu nunca tinha visto, o cara dentro de uma puta de uma piscina,
      ou uma banheira de hidro, não sei o que era aquilo, mais para uma piscina
      mesmo, com um cara que eu estava acabando de conhecer, tinha
      conhecido há uma hora atrás e a gente ali sem roupa falando (risos). Foi
      muito marcante pra mim essa cena.”


   Esta é uma cena de muita intimidade que acontece em um acompanhamento
no primeiro encontro. Uma relação que se estabelece quase que imediatamente.


   Há erotismo presente nesta cena. Penso que um dos aspectos mais difíceis
de serem trabalhados no acompanhamento terapêutico é a transferência erótica.
Rosenfeld (1987) caracteriza a transferência na psicose como uma relação em
que há a predominância da identificação projetiva e uma tendência a apresentar,
desde o início do tratamento, uma forte transferência erótica, e tanto o analista
quanto o acompanhante precisam lidar com este aspecto da transferência.


   Assim como na análise, a questão da sexualidade é uma questão recorrente
dentro do trabalho do AT. E, como na análise, a abstinência por parte do
acompanhante é um fator fundamental no tratamento.


   É possível pensar que a situação analítica é uma situação mais “protegida”
para o analista, em função da existência de um setting definido. O
acompanhante, por sua vez, possui como setting apenas o pagamento e o tempo
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de duração do atendimento. O espaço em que ocorre o trabalho e a exposição
do acompanhante são muito diferentes do que ocorre em um processo analítico.
Um acompanhante pode acompanhar no quarto de um acompanhado, ou em
uma piscina, como no caso de H, sem que isto deixe de ser acompanhamento,
mas para isso, é preciso que os limites do que é pertinente ao trabalho estejam
internalizados em quem acompanha. Esta é uma questão bastante delicada e é
um dos fatores que torna fundamental o trabalho de supervisão e de análise por
parte de quem acompanha.


   Pouco depois, na entrevista, H descreve outra cena, agora vivida com seu
paciente deficiente:


      “Por exemplo, esse cara, eu ia para o banheiro com ele. Tomar banho era
      uma coisa que ele não fazia sozinho. A mãe tinha que ficar lá escovando,
      ou a empregada, ou alguma coisa assim. E era um cara que podia entrar
      embaixo de um chuveiro e tinha que ficar falando: lava a orelha, lava o
      braço, lava não sei o que, mas enfim, ficava lá com ele. De algum jeito
      ajudando ele a fazer isso de um jeito mais independente.”


  Nestes dois exemplos, H fala de situações que ocorrem no banho, uma
situação sem roupas, onde não se “fala” da intimidade, mas se “vive” a
intimidade. São situações marcadas pela exposição. Não é uma intimidade
“simbólica”, na palavra, mas se dá no concreto, na aproximação, na ação.


   Apesar de estes dois exemplos descreverem situações similares, é possível
observar uma grande diferença em relação ao lugar ocupado na transferência
por H. Enquanto o acompanhamento na piscina é marcado pelo erotismo, o
acompanhamento no banho é marcado pela maternagem. Diferentemente do
que ocorre na situação analítica, o acompanhante pode ocupar um lugar
“concreto” de maternagem, ensinando o acompanhado a tomar banho, por
exemplo. É possível pensar que pacientes que fazem este tipo de transferência
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possuem pouca possibilidade de verbalização, em função do estado regressivo
(Winnicott 1954-5) em que se encontram.


  H parece agir a partir da contratransferência, pois as transferências erótica e
materna aparece a partir da forma como ele, H, se coloca nas relações. Segundo
H, é necessário “se expor” na relação com a psicose, mas isto na medida em que
há sentido para o acompanhado, e não para o acompanhante.


   Sobre as características de intimidade e proximidade existentes no
acompanhamento, H fala:


      “Estou aqui falando e lembrei de dois exemplos justamente de tomar
      banho, de ficar sem roupas, porque acho que é isso mesmo. Acho que é
      ficar meio nu de muitas coisas. Você tem que estar se enfrentando com
      essa gente, você é olhado, porque eles são olhados, e você é olhado
      junto, o que que você está fazendo com um cara daquele. E isso é muito
      frequente.”


   H relaciona o trabalho do acompanhante a uma situação de desnudamento.
“Ficar meio nu”, fala de uma exposição do corpo e de si. Quando H relaciona
este desnudamento ao desnudamento do olhar social, fica identificado com o
acompanhado, ocupa uma posição muito próxima. O olhar do outro o coloca no
mesmo lugar do considerado louco. O AT também se torna um “estranho” por
acompanhar um indivíduo “estranho”. Isto remete à relação do AT e da dupla,
acompanhante e acompanhado, com o social.



2. A relação da dupla com o social

   H descreve uma situação que ocorre na rua quando está acompanhando o
indivíduo que é deficiente:
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        “ Eu vou lá com ele. Então é um cara que, quando fica feliz, me beija onde
        estiver, agarra. Ele fala muito pouco, tem uma coisa muito infantil mesmo,
        muito por conta da própria deficiência, então é estranho, né. É estranho.
        Tem cenas que pros outros devem ser muito estranhas. Às vezes
        incomodam, mas, a maioria das vezes, acho que já não incomodam mais.
        Mas é uma coisa que você também fica muito exposto nesse sentido, né,
        no sentido do social mesmo, né. Você entra com o cara no Mcdonalds
        todo mundo olha. Não tem como isso não acontecer. Então você fica meio
        exposto mesmo, o que eu acho que é legal. A maioria das vezes eu acho
        que isso é legal. Acho que dá uma sensação de que você está fazendo
        uma coisa importante. Poder estar tentando fazer com que isto fique cada
        vez menos estranho.”


   Assim, no trabalho como AT, H não enfrenta apenas a sensação de
exposição na relação dual, como ocorre na relação analítica, mas também se
depara com uma exposição frente ao social. H encara esta exposição, que se dá
nas relações sociais que o AT vive quando acompanha, como um trabalho com o
social também. Acompanhar é uma forma de inserção do louco no social, o que
pode fazer com que a sociedade se aproprie de seus loucos. Mas isto não se dá
sem que haja um “custo”, para quem acompanha. Segundo H:

        “De todo jeito, às vezes dá vergonha e mando ele parar com aquilo, ou
        então eu acho engraçado, ou se não... acho que depende mesmo da
        situação. Muitas vezes você fica ali como... como depositário daquela
        esquisitice, daquele estranhamento.(...) É, você também fica meio
        esquisito, né. “


   “Ser depositário da esquisitice” e “se tornar meio estranho”, indica que o AT é
identificado com o acompanhado. Sobre a dificuldade de estar neste lugar, H
fala:
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      “Às vezes é insuportável ocupar este lugar, o AT se dá conta do olhar de
      fora, da inadequação, de sua identificação enquanto estranho.”


   Por que o olhar de fora se torna tão “insuportável”? É possível pensar que não
só o AT é identificado com o louco, como ele próprio acaba se identificando com
quem acompanha, o que torna a loucura, em determinados momentos,
insuportável. É possível pensar também que neste momento, o AT pode estar
identificado com este que está fora, portar o olhar de quem se dá conta da
inadequação, o olhar do social, para aquele que acompanha. Outra hipótese
sobre a insuportabilidade da ocupação de um lugar junto ao louco é que o AT
sendo tratado da mesma forma como é tratado aquele que acompanha, sente
“na pele” o lugar da loucura, muitas vezes um lugar de exclusão, o que pode ser
insuportável.


   A relação com o social é uma característica particular do acompanhamento
terapêutico. Aqui se encontra um dos pontos de maior distanciamento desta
forma de trabalho com o trabalho analítico.



3. Duração: tempo e temporalidade

  H se refere à sensação de cansaço na República e sua relação com o tempo:


      “Para mim, pelo menos, o que batia como um cansaço na República era o
      tempo concreto. Você entrar num lugar que é um lugar de trabalho e que
      por mais que você esteja querendo chegar perto de estar ali de um jeito
      que seja estar ali de um jeito o mais pessoal possível (...) a ideia do tempo
      ali é muito complicada, muito complicada. Você chega às cinco horas da
      tarde, se a história está quente e você ter que saber que você vai ter que
      lidar com aquilo e com você mesmo durante vinte e quatro horas, por
      exemplo, é muito difícil, parece uma eternidade(...). Acho que tem uma
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      coisa concreta do tempo mesmo, e tem a coisa do tipo mesmo de coisa, a
      relação, que na verdade acho que é o que cansa muito mais...”


   Esta é uma característica do trabalho como AT que inexiste na relação
analítica. Eventualmente, um acompanhamento pode durar vinte e quatro horas,
às vezes dias, quando se viaja com um acompanhado. Este fator é importante,
considerando a intimidade e proximidade existente na relação. O AT fica exposto
durante um tempo, às vezes bastante longo, a esta relação com um indivíduo
psicótico, ou deficiente, no caso de H.


   H descreve uma mistura entre tempo concreto e tempo “eternidade”, sem
tempo. O longo tempo concreto parece remeter a um tempo infinito, de um
desgaste excessivo por parte do AT. No final da fala transcrita H acrescenta “(...)
a relação, que na verdade acho que é o que cansa muito mais...”. Assim, não é
de um tempo qualquer que ele fala, mas de uma associação entre conviver com
uma temporalidade particular existente na psicose, associada a um longo
período de tempo. Talvez por isso a relação se torne particularmente “cansativa”,
desgastante.



4. O lugar do AT

   Considero ser este um fator importante para se pensar as intensas reações
emocionais do AT.


   Ao falar de um “lugar do AT”, me refiro ao “lugar” ocupado pelo
acompanhante junto ao acompanhado, ou seja, que trabalho é este que se
encontra em um lugar intermediário entre “amigo” e terapeuta?


   Sobre esta dificuldade, H fala sobre sua relação com o paciente deficiente:
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      “Nossa, eu conheço esse cara há mais de dez anos. Então é uma coisa
      muito... já nem sei mais que que eu sou dele e o que ele é meu, porque é
      uma coisa muito, muito próxima.”


   H correlaciona a dificuldade de pensar a relação com L, como sendo uma
relação terapêutica, com a proximidade existente. Sobre a questão da
proximidade, da intimidade, H cita o acompanhamento existente na República, e
o tipo de convívio que existe entre os ATs e os outros moradores, já que a
proposta da República é que o AT seja também um morador. Segundo H, este
lugar de terapeuta/morador é muito difícil em função da:


      “(...) responsabilidade que você assume ali (na República) dizendo que
      não está assumindo, dizendo que não é função.”


   A proposta parece ser a de uma alteração na relação assimétrica existente
entre terapeuta e paciente. Ao mesmo tempo, parece não ser possível que esta
simetria se dê na prática, já que há uma responsabilidade assumida pelo AT,
ainda que negada, ao estar ali. Segundo H:


      “Cansa, né, cansa, porque é isso, você por mais que queira se resguardar,
      se proteger e estar lá no coiso, lá no... não sei como chama aquilo, as
      normas da casa que o AT se recolhe às dez da noite, ou que ele pode se
      recolher às dez da noite. Mas você não vai conseguir fazer isso, porque
      você sabe que você está lá e você sabe que uma parte tua tem que estar
      disponível pra o que possa acontecer ali. Então isso é estressante de um
      jeito que... acho que é o que cansa no AT, em qualquer lugar, para além
      da questão de São Paulo e do trânsito. Você saber que tem que estar
      disponível, esse lugar das dificuldades...”


   É possível verificar uma mistura entre a situação de trabalho e “estar no
trabalho da forma mais pessoal possível”. Isto coloca o AT num lugar sem lugar,
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em uma posição indefinida de morador/terapeuta. Este pode ser um fator
estressante, em função da falta de uma definição mais clara a respeito de qual o
lugar ocupado: afinal é morador ou trabalha? Enquanto morador tem o direito de
ficar só em seu quarto, mas enquanto terapeuta tem de estar “disponível” para o
que possa acontecer. Um lugar marcado pela ambiguidade, aspecto muito
acentuado no trabalho específico da República, mas que parece estar presente
em todo trabalho de acompanhamento. Não é por acaso que o antigo nome do
AT era “amigo qualificado”, e também não é por acaso que foi mudado para
“acompanhante terapêutico”. O campo, a delimitação do que é o trabalho do AT,
parece ficar mais claro, com o passar do tempo, para os próprios ATs.


   Neste sentido, o trabalho do AT é muito diferente do trabalho analítico. A
psicanálise possui uma forma mais definida de trabalho e o “lugar” do analista é
mais claro, em função do enquadre estabelecido, que o do AT.



5. A dificuldade em nomear

   O que está sendo chamado como “dificuldade em nomear” pode ser
observado quando H descreve as sensações que tem quando acompanha:


      “Com o G mesmo, essa coisa do corpo mesmo, a coisa do nó na garganta
      literalmente. De sentir um nó, sentir uma coisa travada de não conseguir
      ver nenhuma brecha de contato. Nenhuma brecha de... não te vir
      nenhuma ideia de uma coisa de uma palavra que você possa dizer e que
      você saiba que vai tocar em algum lugar mais significativo. Tudo vai ao
      vento, seja lá uma atividade ou uma palavra.”


   Nem a palavra nem a ação parecem ser capazes de falar, de dizer o que se
vive no corpo. A dificuldade de nomeação do que vive pode ser um dos fatores
que levam à sensação de estranhamento descrita por H. Na medida em que se
dá conta da falta de ideias e de palavras, e que isto provoca angústia, H passa a
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buscar ideias e palavras para nomear o que sente, o que se passa ali. Para H, a
busca do AT de compreender o que sente, que surge muitas vezes a princípio no
corpo, retorna invariavelmente para a relação. Segundo ele:


      “Eu acho que não tem como não fazer alguma coisa com isso (as
      sensações do AT). Em primeiro lugar porque isso não é seu, isso é dali do
      encontro, dos dois.(...) Não tem como pensar isso a não ser na própria
      relação. Não tem como não ser trabalhado ali. É ali que isso tem mesmo
      que circular e se metabolizar. Acho que aí é o tratamento, na hora que
      você consegue, até junto com o cara, metabolizar as coisas que te afetam
      (...). Eu acho que aí é tratamento, acho que aí é o que importa.”


   Para H, “tratar” se relaciona ao AT se permitir sentir, e a partir do que sente
poder trabalhar isto dentro da própria relação de acompanhamento. O que é
marcante, no entanto, é que isto frequentemente não se dá pelas vias da
palavra, mas da ação.


   É preciso investigar o que torna uma ação um ato terapêutico. Assim como na
psicanálise não é qualquer palavra que faz uma interpretação, nem toda ação no
acompanhamento produz subjetividade. Isto levanta uma série de questões
sobre o acompanhamento terapêutico: Como distinguir um movimento de
repetição, “fazeção”, onde a ação se alia ao sintoma, de uma ação criativa?
Como manter seu potencial criativo? Como se produz significados a partir da
ação? Qual o caminho da ação até a palavra? É necessário chegar à palavra?




IV O que fazer com “isso”?

   Neste momento, após a descrição das vivências de H e dos fatores
característicos do acompanhamento que pode haver favorecido a mobilização
dos afetos descritos por ele na relação com um indivíduo psicótico, a análise da
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entrevista busca investigar o que pode ser feito a partir destas sensações. Ou
seja, como estes estranhamentos podem ser utilizados pelo acompanhante na
própria relação terapêutica? É possível, ou não, o acompanhante realizar uma
interpretação a partir do que é vivido? O que H faz com “isso”?


  Perguntei a H, no trecho da entrevista em que descreve a força das emoções
que vive com G, o “nó na garganta” e a vontade de chorar, o seguinte:


       “Quando você fala do G, dessa vontade de chorar, você sente que pode
      fazer alguma coisa com isso? Como isso volta?”


  H responde:


      “Pois é, tem dias que tem como, tem dias que tem como você tirar isso de
      você e botar isso no meio de você e dele e tentar dizer o que está
      acontecendo...”


   Ao perguntar se H, ao dizer isto, se referia a colocar o que sentia, em
palavras, ele responde:

      “(Pode ser) Falando, ou entrando no carro e colocando uma música: ‘Você
      conhece essa música? É super legal esse cara’, ou indo ver uma comédia,
      por exemplo. Agora, muitas vezes não tem, não tem o que dê conta, não
      tem jeito. É ficar com aquilo, ir embora com aquilo e com um desejo muito
      grande de não ter nunca mais que voltar lá. Muitas vezes é isso. Muitas
      vezes não, de você ficar muito a fim de voltar e de ficar muito ansioso pelo
      próximo dia, mas tem vez que não dá mesmo, tem vez que é voltar pra
      casa com aquilo e ficar mal.”


  A questão à qual eu buscava uma resposta era: interpreta-se ou não se
interpreta no acompanhamento terapêutico? Pensando que interpretação, aqui,
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seria verbalizar, colocar em palavras algo que é vivido de uma forma sensorial
entre acompanhante e acompanhado.


   Segundo H, às vezes ele coloca em palavras, mas não exatamente
interpretando a partir do que sente. Ele parece buscar uma intermediação, uma
separação entre ele e G, o que poderia se dar através da palavra. H coloca algo
“no meio”, entre os dois. É como se buscasse um terceiro para se separar de
uma ligação, às vezes insuportável. Este terceiro pode ser um filme, uma música,
ou mesmo uma fala que chame para o mundo, para fora.


   Há momentos, no entanto, em que H parece não ver esta possibilidade. Não
há entrada para algo de fora da relação, não há saída, e o jeito “É ficar com
aquilo, ir embora com aquilo, e com um desejo muito grande de não ter nunca
mais que voltar lá.” “Aquilo”, talvez uma referência ao inominável, remete H a um
lugar de angústia, e sua vontade é de não mais viver isto, de ir embora. H liga
esta fala com a fala sobre os dias em que o encontro é bom, em que dá vontade
de reencontrar, o que talvez permita continuar o trabalho, apesar dos dias
angustiantes. Mas, voltando à questão da angústia, H fala: “tem vezes que não
dá mesmo, tem vezes que é voltar pra casa com aquilo, e ficar mal.” Assim, H
aponta para a possibilidade de permanecer com as sensações, mesmo depois
de haver se afastado de G. As sensações não podem mais ser descritas como
sendo provocadas por G, pois depois de provocadas, elas pertencem também a
H. Ao mesmo tempo, H se          percebe levando algo que não lhe pertence
inteiramente, que há algo de G que ele carrega.


  H fala das dificuldades existentes em realizar um trabalho como AT sozinho. É
preciso haver um terceiro fora, concreto, outras pessoas envolvidas que possam
acompanhá-lo neste trabalho. Segundo ele:
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       “(...) eu acho que é uma questão no AT também fundamental, sempre que
       possível, estar trabalhando em dupla ou em equipe. Pra todos os casos eu
       acho fundamental você ter um grupo. Não dá pra ser AT free não.”


   Cabe a estes que estão fora, estarem atentos às saídas e entradas do AT na
relação de acompanhamento. O grupo é o lugar de referência onde se pode
falar, “metabolizar” os sentimentos que surgem a partir do acompanhamento.
Este processo de “metabolização” não se daria apenas fora da relação com o
acompanhado. Segundo H:


       “(...) não tem como pensar isso a não ser na própria relação. Não tem
       como não ser trabalhado ali. É ali que isso tem mesmo que circular e se
       metabolizar. Acho que aí é o tratamento, na hora que você consegue, até
       junto com o cara, metabolizar as coisas que te afetam, desse fora. Eu
       acho que aí é tratamento, né, eu acho que aí é o que importa. É poder
       acreditar que as relações tem potência para isso, que as relações tem
       potência pra dar conta dos estranhamentos que surgem a partir dela
       mesma e das impotências que surgem a partir dela mesma.”


   H se utiliza do conceito de “fora” de Rolnik (1995), onde o que provoca as
alterações no acompanhante é sua “abertura” para o fora, abertura a que é
levado em sua aproximação com este indivíduo aberto para o fora, que é o
psicótico.


   Esta fala de H mostra que ele está consciente de que é afetado, que a relação
o afeta, mas que isto potencializa o tratamento. É a partir da metabolização
conjunta do que se deu na relação, que algo pode ser construído pela dupla. H
não fala de uma resolução individual, por parte do AT, de suas questões, mas de
um processo que, tendo vindo da relação, se resolve dentro da própria relação. E
que ali tanto cabe a potência quanto a impotência, tanto cabe o desejo quanto a
frustração.
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   A imagem da “carne viva” retorna, não como excesso de sensibilidade ou
sofrimento, mas como recurso para o tratamento. Ao brincar, dizendo a H que ele
havia acabado com minhas esperanças de que com o tempo “isso” melhorasse,
ele responde:


      “Melhora, até no sentido de você conseguir se divertir mais e se tratar
      mais e talvez, nesse sentido, de você conseguir se permitir ficar cada vez
      mais exposto a esses foras. Se deixar afetar. Acho que isso melhora, isso
      te melhora e aí você melhorando vai conseguindo fazer mais isso.”


   O tempo, para H, parece aumentar sua sensibilidade, a possibilidade de ser
tocado, de se expor. A “carne viva”, não apenas para se afetado, mas para ser
guiado.
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CONCLUSÃO


   A partir dos dados obtidos na entrevista realizada com um acompanhante
terapêutico que trabalha com psicóticos, o que foi possível concluir?


   Há basicamente três aspectos a serem discutidos: a possibilidade do uso da
teoria psicanalítica para se pensar o acompanhamento terapêutico, os limites da
utilização   desta,   em   função   das   particularidades   do    acompanhamento
terapêutico como forma de intervenção no tratamento da psicose, e as novas
questões surgidas a partir da análise e discussão da entrevista.


   Ao falarmos de acompanhamento terapêutico, nos remetemos a um trabalho
composto por diversas dimensões. Ao pensarmos uma dimensão isolada das
outras corremos o risco de generalizar aspectos que não poderiam ser
generalizados, ou seja, ao mesmo tempo em que no acompanhamento existe um
relação dual, onde a teoria da psicanálise pode nos ajudar a pensar o que se
passa, há também a relação da dupla acompanhante/acompanhado com a
cidade, com outras relações sociais. Essas atividades provocam efeitos na
própria dupla que escapam à teorização psicanalítica, onde o ideal é um trabalho
realizado em uma situação de “isolamento” de outras possíveis influências,
inclusive de aspectos do próprio analista. Isto não ocorre no trabalho do AT, o
que não permite uma transposição linear dos conceitos, mas uma aproximação
entre estes dois trabalhos, já que se trata de outro método.


   É possível concluir que no acompanhamento terapêutico se verificam
fenômenos semelhantes aos descritos na psicanálise por analistas que
trabalham com indivíduos psicóticos. Há similaridade entre os fenômenos
descritos na psicanálise como identificação projetiva e contratransferência, e os
fenômenos descritos por um acompanhante terapêuticos na relação com seus
acompanhados. Isto nos permite afirmar que é possível se utilizar destes
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conceitos    no    acompanhamento       terapêutico,   pois   há   percepções
contratransferenciais do acompanhante que parecem ser provocadas pela
utilização do mecanismo da identificação projetiva pelo acompanhado.


   A intensidade das emoções vividas pelo analista/acompanhante percebidas a
partir de sua reações contratransferenciais, podem ser comparadas à vivência do
sinistro.


   Podemos pensar, não que as projeções ocorridas no processo da
identificação projetiva sejam recebidas e percebidas pelo analista em um
processo de intersubjetividade, mas que estas projeções provoquem uma
mobilização de aspectos reprimidos do analista. Este percebe o que é projetado,
a partir do que é mobilizado em si, pois pode receber do paciente o que possui
ressonância interna. Esta formulação aproxima o fenômeno do sinistro ao
fenômeno da contratransferência surgida a partir da identificação projetiva.
Talvez daí a sensação de estranhamento presente nas descrições feitas por
acompanhantes e analistas deste tipo de vivência. As descrições se referem à
sensação de que os sentimentos não pertencem inteiramente ao analista ou
acompanhante, o que caracteriza a experiência do sinistro.


   As diferenças encontradas entre o acompanhamento terapêutico e a
psicanálise se referem a diversas questões: o corpo, pois há neste trabalho a
possibilidade de uma proximidade corporal que inexiste na situação analítica; o
espaço, pois o espaço ocupado pelo acompanhante e acompanhado é o espaço
quotidiano; o tempo de duração dos acompanhamentos; a relação com outros
indivíduos e com a cidade durante o trabalho e o uso da ação em lugar da
interpretação verbal.


   Trabalhar com a ação implica em uma presença “concreta” do corpo do AT,
em uma relação que nem sempre se vê intermediada pela palavra. Isto talvez
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favoreça que o AT sinta, participe de processos muito regredidos com o
acompanhado.


   Podemos destacar algumas questões que puderam ser observadas e que
poderiam ser futuramente investigadas.


   No acompanhamento terapêutico, sair não significa necessariamente realizar
uma ação construtiva. É possível se pensar em um sair “fazeção” , como em um
falar “falação”, a fala encobridora, que não diz nada, que visa perpetuar o
sintoma. Há que se cuidar para que a saída para o mundo não se transforme em
uma mera repetição que não produz transformação, apenas reproduzindo uma
forma de ser cristalizada. O que caracterizaria um sair criativo?


   Uma segunda questão levantada a partir da entrevista é a necessidade de se
investigar particularidades do acompanhamento terapêutico na clínica das
psicoses e em outras clínicas, como a da deficiência mental.


   Enfim, cabe ao AT, como Ulisses, ouvir o canto das sereias e permanecer
atado ao mastro. A difícil tarefa de quem trabalha com a loucura: escutar o canto,
acompanhar sereias em sua transformação, sem afogar-se.




                                   FIM
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BIBLIOGRAFIA


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Letras, 1993.


BION, W. R. (1952) - Experiências com grupos: os fundamentos da psicoterapia
de grupo - Rio de Janeiro: Imago Ed., 1970.


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personalidade não-psicótica - In: Spillius, E. B. (org.) - Melanie Klein Hoje, vol. I -
Rio de Janeiro: Imago Ed., 1991, p. 69-88.


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Estudos psicanalíticos revisados - Rio de Janeiro: Imago Editora, 1994, p.47-54.


            (1959) - Ataque ao elo de ligação - In: Spillius, E. B. (org.) - Melanie
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  Editora, 1991.


            (1973) - Conferências Brasileiras - São Paulo/1973 - Rio de Janeiro:
  Imago Ed.,1975.


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1987.


CASEMENT, P.(1990) - Aprendendo ainda mais com o paciente - Rio de Janeiro:
Imago Ed., 1992.
97




Equipe de Acompanhantes terapêuticos do hospital dia A Casa (org.) - A Rua
  Como Espaço Clínico - Coletânea dos trabalhos apresentados no 1- Encontro
 Paulista de Acompanhantes Terapêuticos - São Paulo: Ed. Escuta, 1991.


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98




            (1915) - Observaciones sobre el “amor de transferencia” - In: Obras
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             (1915a) - Lo Inconsciente - In: Obras completas de Sigmund Freud,
Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 1981, p. 2.061-2.082.


            (1919) - Lo siniestro - In: Obras completas de Sigmund Freud,
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            (1924) - Neurosis e psicosis - In: Obras completas de Sigmund
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101


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             (1971) - O uso de um objeto e relacionamento através de
identificações - In: O brincar e a realidade - Rio de Janeiro: Imago Ed., 1975,
p.121-132.

E tu at

  • 1.
    1 Pontifícia Universidade Católica Faculdade de Psicologia E TU, AT? Análise das alterações emocionais descritas por acompanhantes terapêuticos no trabalho com psicóticos Claudia Valentina de Arruda Campos Orientadora: Camila Sampaio Trabalho de conclusão de curso como exigência para graduação no curso de Psicologia. São Paulo 1996
  • 2.
    2 Agradeço aos queamo aos que me acompanham e aos que acompanho na loucura nossa de cada dia. Agradeço ao tempo que por rexistir me obriga a parar num ponto fazer história deste ciclo tortuoso que é escrever/viver.
  • 3.
    3 AGRADECIMENTOS Aos ATs entrevistadospela disponibilidade e pelo trabalho emocionante que fazem. À Camila por me ajudar a olhar para o outro. Ao Welson por me ajudar a olhar para mim. À Vilma pela delicadeza. Ao Hemir pelas aulas e histórias. À Lucinha pela atenção e paciência. À Bia Almeida por me ajudar em meus descabelamentos sorrindo. Ao pessoal d’A Casa: Nelson e Leonel, pelos olhos (super-visões), e à Lúcia, Bia Portella, Bia Almeida, Cristina, Renata, Júlio, Rodrigo, Maurício Hermann, Eliane, Maurício Porto, Iso, Kléber, Luciana, João, Claudia e Débora, por acompanharem de perto meu acompanhar. Ao pessoal da Oficina de Inventos: Eliana, Paula, Bia, Kátia e Saulo, pelas discussões regada a vinho e macarronada. À minha família querida. Aos meus amigos e amores que foram, são e serão.
  • 4.
    4 Sumário RESUMO ..........................................................................................................................5 APRESENTAÇÃO ............................................................................................................6 INTRODUÇÃO.................................................................................................................9 I. O ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO ............................................................... 11 II. ASPECTOS TEÓRICOS ......................................................................................... 19 1 A Transferência ................................................................................................... 19 2 A Psicose............................................................................................................. 21 3 A Transferência Psicótica .................................................................................... 24 4 A Contratransferência .......................................................................................... 27 5 A Contratransferência na Psicose........................................................................ 29 6 A Identificação Projetiva ...................................................................................... 34 7 As sensações provocadas pela identificação projetiva ......................................... 40 8 O sinistro na contratransferência vivido a partir da identificação projetiva ........... 42 9 A Interpretação .................................................................................................... 45 METODOLOGIA ............................................................................................................. 48 I Sujeitos de pesquisa ................................................................................................ 48 II Entrevista ................................................................................................................ 49 III Metodologia de análise e discussão da entrevista.................................................. 49 ANÁLISE E DISCUSSÃO DA ENTREVISTA DE H ......................................................... 51 I O Trabalho do AT..................................................................................................... 51 II O que sente o AT? .................................................................................................. 59 III Hipóteses sobre o sentir: particularidades do acompanhamento terapêutico ......... 79 1. A intimidade: o espaço e o corpo ........................................................................ 80 2. A relação da dupla com o social ......................................................................... 82 3. Duração: tempo e temporalidade ........................................................................ 84 4. O lugar do AT ..................................................................................................... 85 5. A dificuldade em nomear .................................................................................... 87 IV O que fazer com “isso”? ........................................................................................ 88 CONCLUSÃO ................................................................................................................. 93 BIBLIOGRAFIA ............................................................................................................... 96
  • 5.
    5 RESUMO Este trabalho visa correlacionar três objetos de estudo: a psicanálise, o acompanhamento terapêutico e a psicose. Tudo começou quando, ao acompanhar uma moça psicótica, comecei a perceber “coisas estranhas” em mim. Do que se tratava? O que era aquilo? Comecei a investigar e observei que diversos acompanhantes descreviam sensações, vivências particulares, semelhantes em sua estranheza. Passei a buscar referências nos livros, e na falta de material sobre acompanhamento, me dirigi à psicanálise: o que existia a respeito das sensações que sentia? Quais as descrições de análises de pacientes psicóticos? Ao constatar uma proximidade entre o que era descrito na psicanálise ao que era descrito pelos acompanhantes, decidi investigar as reações emocionais do acompanhante através de um estudo de caso. A entrevista me permitiu descrever o acompanhamento terapêutico e correlacioná-lo à teoria psicanalítica. A pesquisa encontra-se dividida em duas partes: a primeira teórica, onde são discutidos em especial os conceitos de transferência na psicose, contratransferência e identificação projetiva; e uma segunda, dedicada à análise de entrevista realizada com um acompanhante terapêutico, articulando a experiência do acompanhamento terapêutico à teoria psicanalítica. Como conclusão, a análise da entrevista possibilitou verificar aproximações entre essas duas clínicas da psicose _ o acompanhamento terapêutico e a psicanálise _ além de destacar quais são as características particulares do acompanhamento terapêutico. A pesquisa também permitiu levantar questões para investigações futuras.
  • 6.
    6 APRESENTAÇÃO No decorrer desta pesquisa me dei conta de que ela vinha ocupar um lugar incômodo em minha vida: não me deixar esquecer, não deixar aquietar, naturalizar, os estranhamentos que eu sentia em meu trabalho como acompanhante terapêutica. Isto certamente me trouxe desgaste e cansaço a cada vez que eu olhava para meu próprio tema. O trabalho de reflexão e produção teórica foi uma experiência onde senti ser possível retornar à angústia vivida nas situações sobre as quais eu pensava e, a partir do processo reflexivo, ultrapassá-la. Em diversos momentos, mergulhei em minha própria experiência, sendo difícil observar a experiência alheia, mas essa era a tarefa a que me havia proposto: olhar para fora, para além de minha vivência particular, e produzir um texto sobre o acompanhamento terapêutico. Ao iniciar o trabalho eu tinha uma questão clara: correlacionar o acompanhamento terapêutico e as reações emocionais descritas pelos acompanhantes de pacientes psicóticos, com a teoria da psicanálise. A partir daí, iniciou-se uma viagem teórica. A princípio, pensei em utilizar a teoria da contratransferência, e não um autor em particular, porque queria enfocar o fenômeno, as “sensações” descritas por analistas que atendem pacientes psicóticos em seus consultórios. Assim, busquei autores que falassem da reação emocional do analista frente a pacientes psicóticos, e terminei por utilizar um grande número de autores, sem me aprofundar na construção teórica de cada um em particular. Nesta busca, novas questões foram surgindo: ao falar de contratransferência na psicose precisei escrever sobre que referência de psicose estava utilizando, assim como de transferência. As questões pareciam intermináveis: Como se dá a transferência na psicose e qual sua relação com a contratransferência? O que é a identificação projetiva, conceito a que cheguei através da leitura sobre a
  • 7.
    7 contratransferência? Quais asmanifestações observáveis da identificação projetiva? Qual a relação entre identificação projetiva, transferência e contratransferência? Pode-se interpretar a partir da percepção da identificação projetiva? E tudo isso poderia servir para o acompanhamento terapêutico? Ao mesmo tempo em que este caminho foi percorrido, havia outro paralelo: a experiência como acompanhante terapêutica (AT) me levou a correlacioná-la à experiência descrita por Freud (1924) do sinistro. O encontro destes dois caminhos derivou em uma nova questão: Como correlacionar a experiência do sinistro com a contratransferência na psicose? E pude entrever que esta questão me levaria a outras que indicavam para o corpo. O que é o corpo e onde está inserido o corpo do analista e do acompanhante terapêutico na relação com um indivíduo psicótico? O tempo se foi antes de poder chegar ao corpo. Se você está confuso, imagine eu que a esta altura já nem me lembrava de qual havia sido a questão inicial. Tive que me voltar para as entrevistas e aí redescobrir minha questão. A partir da análise da entrevista, a discussão busca correlacionar os aspectos teóricos da psicanálise com o acompanhamento terapêutico. Pensando sobre o que perseguia ao construir uma “colcha de retalhos” teórica, me deparei com uma grande ansiedade, e com o desejo de encontrar uma resposta, buscar compreender o que havia vivenciado na experiência enquanto acompanhante terapêutica. A necessidade de entender o que havia vivido, em momentos, foi maior que qualquer tentativa de organização metodológica que desse um contorno melhor a isto que eu buscava descrever, ao mesmo tempo em que descobria. Certamente ficaram muitas falhas, contradições e buracos. Um trabalho “louco”, como disse uma amiga. Um trabalho que vagueia, mas que ao final
  • 8.
    8 encontra, se nãorespostas, talvez hipóteses e, com certeza, muitas novas questões. Se ele provocar, instigar a pensar, está cumprido. Um pequeno paralelo com o trabalho do AT: apresentar um mundo novo, interno e externo, e deixar que o outro se ligue, viva.
  • 9.
    9 INTRODUÇÃO “Eu sou Ofélia.A mulher na forca. A mulher com seios cortados. A mulher com excesso de dose SOBRE OS LÁBIOS NEVE a mulher com a cabeça no fogão a gás. Ontem deixei de me matar. Estou só com meus seios, minhas coxas, meu ventre. Rebento os instrumentos do meu cativeiro - a cadeira, a mesa, a cama. Destruo o campo de batalha que foi o meu lar. Escancaro as portas para que o vento possa entrar e o grito do mundo. Despedaço a janela. Com as mãos sangrando rasgo as fotografias dos homens que amei e que se serviram de mim na cama, mesa, na cadeira, no chão. Toco fogo na minha prisão. Atiro minhas roupas no fogo. Exumo do meu peito o relógio que era o meu coração. Vou para a rua, vestida em meu sangue.” Ofélia Heiner Müler Hamlet Máquina “Arrombo a minha carne lacrada. Quero habitar nas minhas veias, na medida dos meus ossos, no labirinto do meu crânio. Retiro-me para as minhas vísceras. Sento-me na minha merda, no meu sangue. N’algum lugar são rompidos ventres para que eu possa morar na minha merda. N’algum lugar ventres são abertos para que eu possa estar sozinho com o meu sangue. Meus pensamentos são chagas em meu cérebro. O meu cérebro é uma cicatriz. Quero ser uma máquina. Braços para agarrar pernas andar nenhuma dor nenhum pensamento.” Hamlet Heiner Müller Hamlet Máquina
  • 10.
    10 Estes são trechos da peça de Heiner Müller, Hamlet Máquina. Textos literários que nos comovem pela crueza, primariedade do que é dito. É a descrição de sentimentos de pessoas que vivem algo da radicalidade da experiência humana, radicalidade que podemos encontrar na loucura como uma vivência trágica, particular e tantas vezes inexplicável. Se um texto literário é capaz de nos fazer sentir, nos angustiar a partir da possibilidade de vivermos uma parcela do que nos é descrito, o que poderia provocar em alguém a proximidade e o contato com quem vive uma experiência de tamanha ruptura de seus mundos interno e externo como a loucura? Este trabalho é uma tentativa de organização de sentimentos de alguém que pôde sentir esta proximidade, relato de uma procura pessoal, da busca de pares, da busca teórica de possíveis explicações para o que foi observado e vivido na relação com uma pessoa “louca”. “Louco” porque: o que é ser louco? O que nos distancia desta vivência? O que nos garante do lado de cá e eles do lado de lá, além de um muro? Estas sendo questões que me rodeavam permanentemente ao acompanhar uma dessas pessoas estranhas. Estranhas estrangeiras em sua terra natal. Esquisitas desconcertantes, desviantes das regras da razão, onde o porquê positivista não encontra uma resposta. Críticas não intencionais à custa de suas próprias subjetividades, sem espaço para a existência, fadadas a viver em um tempo, que por ser outro que o tempo da produção, não tem lugar. E então, o que é possível? É possível acompanhar, acompanhar a história e o que a mudança dos tempos nos permite.
  • 11.
    11 I. O ACOMPANHAMENTOTERAPÊUTICO Anteriormente à realização de um trabalho como acompanhante terapêutica, a loucura era para mim pura teoria, filmes, textos literários. Depois de iniciar o trabalho como acompanhante terapêutica de psicóticos, deixaram a teoria de ser pura, os filmes ficção e a literatura texto. A teoria, em especial, pude entendê-la como experiência sistematizada, flexível, mutável. A partir do acompanhamento continuei sem saber o que é ser louco, e este desconforto me levou a falar (as intermináveis conversas dos acompanhantes terapêuticos), escrever e entrevistar pessoas a fim de encontrar outros pensamentos, destes que também vivem esta experiência. Uma aproximação da loucura através do trabalho como acompanhante terapêutico (AT). O que faz um acompanhante terapêutico? De uma forma geral saímos com pessoas que tem tido dificuldades em sua relação com o mundo. Muitas vezes são pacientes psiquiátricos e com eles vamos ao cinema, ao teatro, a um bar, viajar, etc. Em suma, atividades que as pessoas comumente realizam com amigos (o antigo nome do acompanhante terapêutico era amigo qualificado). Acompanhante e acompanhado buscam no mundo possibilidades de novos caminhos de circulação, novos contatos deste indivíduo com o social, para que o acompanhado um dia não precise mais de acompanhamento. O acompanhamento terapêutico é uma das formas contemporâneas de tratamento da psicose. Existe pouco material publicado sobre esta prática, sendo este um dos motivos que me levaram a refletir sobre ela. Há apenas dois livros sobre o tema editados em português: Acompanhantes Terapêuticos e Pacientes Psicóticos, de Mauer e Resnizky (1987), e A Rua como Espaço Clínico, da Equipe de Acompanhantes Terapêuticos do Hospital Dia A Casa (1991). Além desses, é possível encontrar artigos dispersos, muitas vezes publicados por grupos independentes de acompanhantes terapêuticos. A
  • 12.
    12 transmissão do queé o trabalho até hoje se dá basicamente por via oral: palestras, cursos, grupos de estudo e discussões entre acompanhantes. Esta é uma questão intrigante sobre esta prática: como, apesar de possuir mais de 20 anos de existência na Argentina, e pelo menos 13 anos no Brasil, ela continue ainda sendo transmitida oralmente? Qual seria a dificuldade de teorizar sobre o acompanhamento terapêutico, dificuldade esta a que os acompanhantes terapêuticos tanto se referem? Sem tentar responder a estas questões, penso em alguns elementos que poderiam direcionar novas pesquisas. O acompanhamento é uma prática que se dá no quotidiano. Acompanhante e acompanhado percorrem a cidade juntos, buscando realizar atividades que para muitos seriam básicas em suas vidas, como ir à padaria, ao supermercado, assistir um filme ou passear de carro. Patto (1990) refere-se à dificuldade que encontram os teóricos ao tentar elaborar uma teoria do quotidiano. Além disso, o acompanhamento é um trabalho que possui muitas variáveis, como a questão do vínculo, da interpretação, a ação, a relação do AT com a família do acompanhado, o que torna o tratamento algo difícil de ser configurado, circunscrito. Afinal, disso tudo, o que trata no trabalho como acompanhante? Quais os fatores terapêuticos? Qual o campo específico desta forma de trabalho? Como não se perder frente às inúmeras possibilidades existentes? Estas questões, ainda sem respostas, permitem pensar que é apenas dentro da relação existente entre acompanhante e acompanhado que se pode saber o que é terapêutico, ou analítico, para aquele indivíduo em particular. É a partir de sua situação de vida atual que se elabora um projeto terapêutico, sendo possível pensar que as generalizações do que fazer ao se acompanhar alguém, generalizações estas que poderiam surgir na forma de regras, limites pré- estabelecidos do que é correto ou incorreto dentro de um acompanhamento terapêutico, correm o risco de funcionar mais como defesa do terapeuta frente à angústia do não saber, do desconhecido em que a relação com a psicose nos coloca, do que como “regras fundamentais” do acompanhamento terapêutico.
  • 13.
    13 Existem propostas divergentes sobre o papel do AT no tratamento da psicose que podem ser observadas nos dois livros existentes sobre acompanhamento terapêutico. Resnizky e Mauer (1987) definem as funções do acompanhante terapêutico como sendo as seguintes: contenção do paciente, oferecimento do acompanhante como modelo de identificação, funcionar como “ego auxiliar” do paciente, perceber, reforçar e desenvolver a capacidade criativa do paciente, informar sobre o mundo objetivo do paciente, representar o terapeuta, atuar como agente ressocializador e, finalmente, servir como catalizador das relações familiares. Já a proposta do grupo do hospital dia A Casa (1991) está mais voltada para uma concepção analítica da relação, não sendo possível criar itens tão determinados como os citados acima. É importante, nesta forma de pensar o acompanhamento, a formação de um vínculo entre acompanhante e acompanhado, vínculo compreendido no terreno dos fenômenos transferenciais que permitiria ao acompanhado arriscar-se de uma forma particular no mundo, tendo a sustentação de um companheiro, de um anteparo afetivo entre ele e o mundo. A rua é considerada o espaço privilegiado para o trabalho do acompanhamento. Neste espaço de múltiplas possibilidades, o acompanhante terapêutico busca estar atento às necessidades e capacidades de seu acompanhado. Busca construir com ele um novo roteiro da cidade, acreditando que quando um indivíduo psicótico consegue fazer demandas, ali existe a possibilidade de este construir novas relações afetivas com o mundo, com a vida. É acreditar, de alguma forma, que a subjetividade se constrói durante toda a vida, que a possibilidade de transformação e mudança é algo inerente ao humano, que o social e o quotidiano podem ser terapêuticos. Isto, paradoxalmente, associado à ideia de que este indivíduo não precisa deixar de ser um psicótico para habitar este mundo, esta cidade. O acompanhante
  • 14.
    14 terapêutico busca construirjuntamente com o acompanhado, em um trabalho microscópico, uma pequena abertura no macro social. Esta pequena abertura pode se dar em uma ida à farmácia, onde a boa acolhida de um farmacêutico a uma pessoa que delira transformações em seu corpo, respondendo muitas vezes e muitos dias às mesmas perguntas com bom humor, talvez revele algo _ o fragmento de uma mudança social possível na forma de se relacionar com a loucura. Seria possível considerar estes pequenos acontecimentos uma forma de transformação social? Segundo Baremblitt (1991): “O paciente não é uma forma de ser no mundo, mas sim, uma forma de produzir o mundo, o mundo próprio, único, irrepetível. O desafio do acompanhante terapêutico, ou de quem seja, consiste então, em participar na construção deste mundo, fazendo de maneira com que ele seja compatível com o mundo que é produzido, consagrado e implantado por certas maneiras de ser triunfantes. Maneiras de ser que têm conseguido produzir um mundo no qual o mundo do chamado paciente não tem lugar.” (pág. 81) Quem melhor do que Althusser (1992) para descrever este não lugar no mundo. Sociólogo francês, diagnosticado maníaco depressivo, em novembro de 1980 estrangulou a esposa em seu apartamento e não foi a julgamento por ter sido “beneficiado” pela impronúncia, ou seja, foi considerado incapaz de responder em juízo. Posteriormente, Althusser escreveu o livro “O futuro dura muito tempo”, publicado após sua morte, em 1990. Nele descreve o limbo que cabe ao louco em nossa sociedade. O relato é uma resposta à impronúncia que lhe foi imputada. Uma forma de sobrevivência e de existência: “É provável que se julgue chocante que eu não me resigne ao silêncio depois do ato que cometi, e também a impronúncia que o sancionou e da qual, segundo a expressão espontânea, eu me beneficiei. Mas, não tivesse eu esse benefício, e deveria ter sido julgado. E, se tivesse de ser julgado, teria de responder.
  • 15.
    15 Este livro é essa resposta à qual, de outra forma, eu teria sido submetido. E tudo que eu peço é que isso me seja concedido; que me concedam agora o que então poderia ter sido uma obrigação.” (pág. 21) Sobre a impronúncia, o não direito à palavra, ele escreve: “O destino da impronúncia é na realidade a pedra sepulcral do silêncio.” (pág. 25) Escreve também sobre a condição do louco: “Se falo dessa estranha condição, é porque a vivi e, de certa forma, vivo-a ainda hoje. Mesmo libertado após dois anos de internação psiquiátrica, sou, para uma opinião que conhece meu nome, um desaparecido. Nem morto nem vivo, não ainda enterrado mas ‘sem obra’ - a magnífica expressão de Foucault para designar a loucura: desaparecido.” (pág. 29) O livro que escreve é um retorno ao mundo deste ser “desaparecido”. Mundos exteriores e interiores, mundos familiares, mundo relacional. O AT junto a seu acompanhado busca ligar, criar uma trança entre estes mundos. A partir de uma afetividade lançada sobre ele, é possível buscar relançá-la sobre outros objetos, reconectando quem se desligou da vida, dar voz a quem perdeu o direito à fala. Trabalho de tentativa e erro constantes, desejos frustrados e alegrias enormes. O que é ser um acompanhante terapêutico? Há algo nesta atividade de acompanhar que vai muito além do fazer. Ao acompanhante cabe a capacidade de se co-mover, seguir junto, suportar que alguém sem caminhos claros o guie, ao mesmo tempo em que busca sustentar os afetos que o invadem, comovem. A possibilidade de suporte sendo um dos atos terapêutico. Assim, se por um lado há uma grande importância da própria rua enquanto espaço possibilitador para este trabalho, o fator que viabilizaria a saída às ruas é o vínculo criado entre acompanhante e acompanhado. Se, por um lado, a rua pode ser pensada enquanto exterioridade viabilizadora de relações com o fora, o acompanhante também é o fora, o terceiro, que entra na casa não apenas de seu acompanhado, mas muitas vezes de uma família desorganizada emocionalmente.
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    16 O“fora” é pensado no acompanhamento terapêutico, para além da rua, a partir da perspectiva de Rolnik (1995). Segundo ela, o fora não seria um lugar, mas uma dimensão da realidade em constante movimento de forças, turbilhão de transformações. Em suas palavras: “(...)Se o fora não é um lugar, como ficaria então o dentro? Onde se dão estas sensações e este estranhamento? Como fica a subjetividade? Pois bem, para sua surpresa ele (AT) constata que o dentro nada mais é do que o interior de uma dobra do fora, estratificação temporária de certas reações de força - exatamente aquelas relações cuja diferença incompatível tivera por efeito desestabilizar os contornos que lhe eram familiares e lhe exigir um processo de subjetivação de um novo tipo. A subjetividade portanto é feita das próprias partículas do fora; ela é o dentro do fora. Um dentro que como um cristal do fora que teria sedimentado em determinada forma, continua a ser trabalhado pelas forças até que a dobra que o constitui se desfaça e outras dobras se façam num só e mesmo movimento. Nesse processo que nunca para, somos levados para fora de nós mesmos e nos tornamos “um sempre outro”. A subjetividade é então este dentro-e-fora indissociáveis, mas também, inconciliáveis: ‘um si e não-si` concomitantemente.” (pág. 8) É no fora de quem se encerrou em uma forma de vida petrificada, exatamente por ser absolutamente vulnerável, aberto ao avassalamento do mundo, e no fora de quem se constituiu dentro quase protegido e semi-lacrado, que ambos, acompanhante e acompanhado, vão caminhar. O acompanhante sendo, em si, o “fora” que adentra o espaço da casa e da família. Neste espaço sem formas definidas é que se dá este passeio pelo estranhamento. Estranhamento vivido muitas vezes pelo AT que busca dar um nome ao “isso”, sensação de difícil nomeação, sensações vividas na convivência com um psicótico. Este inominável pode encontrar-se, talvez, um pouco mais próximo da fala do que da escrita. Seria possível que isto levasse o AT a referir- se à sua prática basicamente através de casos? Pois este é outro questionamento constante, o fato de ser tão difícil falar sobre o acompanhamento sem se referir a uma vivência.
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    17 Também eu não escaparei à descrição da vivência, pois esta foi fundamental para o surgimento da necessidade de reflexão: Saía com minha primeira acompanhada, Renata, há cerca de quatro meses quando ela me propôs que viajássemos por três dias para o sítio. Passado este período eu retornaria a São Paulo e outra acompanhante que também a atendia ficaria com ela no sítio por mais três dias. Aceitei entusiasmada e fomos para o sítio. No terceiro dia da viagem tive uma intoxicação alimentar. Passei mal e voltei para São Paulo sentindo fortes dores abdominais. Na volta, eu estava dirigindo sozinha, e comecei a fantasiar sobre o que se passava comigo. Somente depois de chegar a São Paulo pude notar que o teor de minhas fantasias havia sido o mesmo das fantasias de Renata. O medo da morte desproporcional às causas, persecutoriedade, imaginar as possíveis doenças que poderiam ter me acometido, todos esses sintomas de Renata que nesse momento me encontrei reproduzindo. A partir deste momento, minha relação com ela se tornou mais distante e difícil. Passei a ficar irritada nos acompanhamentos, não via a hora passar. Este movimento não foi unilateral. Na volta da viagem, as duas, acompanhante e a acompanhada, estavam perturbadas. Enquanto eu estava na estrada dirigindo, tinha a sensação de estar intoxicada, e depois de semanas eu continuava me sentindo assim. Associado a isto, sentia culpa, pois meu papel seria o de tratá-la e não estava conseguindo. Eu havia mudado e me tornado supersensível à sua aproximação, irritada com ela e comigo mesma por haver escolhido estar ali. Passadas duas semanas, em supervisão, foi decidido que eu tiraria duas semanas de férias e a frase importante que marcou esta supervisão foi: “Diga que vai sair de férias, mas diga feliz. Deixe as coisas dela com ela.” A separação restauradora me permitiu pensar sobre estas questões e voltar, com menos horas semanais, e sem viagens por um período. Ao mesmo tempo, esta ebulição me levantou perguntas sobre o que havia acontecido. O que eu
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    18 havia “carregado”? Aquiloera algo meu despertado pela minha relação com ela ou ela teria “colocado” aqueles sentimentos em mim? Como era possível que eu considerasse delírio suas considerações sobre meus poderes sobre seu corpo e ao mesmo tempo acreditasse em seus poderes sobre minha mente? Onde estaria esta “abertura” em mim que havia permitido essa invasão? A partir destas questões fui buscar bibliografia que se referisse a este tipo de experiência que eu havia vivenciado. Encontrei descrições semelhantes na psicanálise. A investigação sobre o que me acontecia provocou uma ressignificação do conhecimento teórico que possuía até então. O sentido teórico já não bastava, caso não encontrasse uma equivalência prática na relação. Isto, tomadas as precauções de não ser a relação de acompanhamento o equivalente a uma relação psicanalítica na rua, não permitindo, assim, uma transposição literal dos conceitos psicanalíticos. No entanto, estes mesmos conceitos poderiam me ajudar a pensar as semelhanças e diferenças entre os dois trabalhos. Pude observar fenômenos muito semelhantes aos descritos como transferência psicótica, contratransferência e identificação projetiva durante o trabalho de acompanhamento.
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    19 II. ASPECTOS TEÓRICOS A parte teórica da pesquisa era, a princípio, uma investigação cujo objetivo era o de embasar a análise da entrevista. No decorrer do processo, esta parte foi adquirindo uma dimensão maior que a prevista. Além de interminável, pois não a considero terminada, ao terminar a primeira versão do trabalho achava esta parte confusa, incômoda, indigesta. Havia muito a ser retirado e transformado. Na segunda versão do trabalho tal era minha irritação e insatisfação com esta parte que a transformei em anexo. Não a queria dentro, “sujando”, o trabalho. Para realizar a terceira versão, pensei muito no porquê desta parte haver sido excluída: ela estava louca em demasia, um tanto árida, esquizoide. E pensei que um trabalho sobre a loucura que exclui de si próprio sua desorganização se afasta de seu objeto. Em função disto, readmiti os aspectos teóricos como parte integrante do trabalho. Enfim, na quarta versão, aqui presente, reduzi a dimensão deste capítulo. Os conceitos investigados são: a partir do conceito de transferência me encaminho para os conceitos de psicose, da transferência na psicose, da contratransferência, da contratransferência na psicose e da identificação projetiva. Paralelamente, há também uma investigação a respeito do sinistro em Freud, o sinistro na contratransferência e uma questão final a respeito da possibilidade de interpretação a partir da contratransferência. 1 A Transferência O conceito de transferência é apresentado e retomado em diversos momento na obra de Freud. Em 1905, define da seguinte forma a transferência, ao analisar o Caso Dora: “O que são as transferências? Reedições ou produtos facsímiles dos impulsos e fantasias que serão despertados e feitos conscientes
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    20 durante o desenvolvimento da análise e que possuem como singularidade característica de sua espécie a substituição de uma pessoa anterior pela pessoa do médico. Ou para dizer de outro modo: toda uma série de acontecimentos psíquicos anteriores voltam à vida, mas não já como passado, se não como relação atual com a pessoa do médico.” (p. 998 trad. livre) Segundo Freud (1905), a transferência existe em todas as relações humanas, sendo especifico da psicanálise a utilização deste recurso para propiciar a análise. O tratamento psicanalítico não cria a transferência, mas se limita a “descobri-la”. Posteriormente Freud considerará a transferência como sendo, além de uma forma de resistência, também a mola que impulsionaria o tratamento psicanalítico. Freud publicou, em 1910, o texto “Observações psicanalíticas sobre um caso de paranóia” também conhecido como o caso Schreber. Nesse texto, afirma não ser possível a realização de um trabalho analítico com pacientes psicóticos, pois estes não poderiam estabelecer uma relação transferencial. Haveria, nestes pacientes, um afastamento de todo interesse pela realidade, pelo mundo exterior. Na psicose, naquele momento chamado por Freud de parafrenia, haveria uma retração da libido objetal para o eu, processo que descreve o fenômeno do narcisismo, que impossibilitaria a relação tranferencial. Posteriormente, diversos autores vieram a contestar esta hipótese freudiana, constatando a ocorrência de uma transferência bastante peculiar na relação analítica com psicóticos, bastante diferente das características da transferência neurótica. Os autores selecionados para descrever a transferência na psicose o foram a partir de seu trabalho sobre a contratransferência e a identificação projetiva, ou seja, foi a partir do estudo sobre a contratransferência e a identificação projetiva que cheguei a Klein, Winnicott, Bion e Rosenfeld, entre outros. Há ainda autores dentro da psicanálise que, a partir de Lacan, produziram uma teoria bastante
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    21 diversa sobre apsicose. No entanto, tendo sido o enfoque inicial deste trabalho a contratransferência, e não sendo este um conceito utilizado pela escola lacaniana, não foi possível um aprofundamento sobre a definição de psicose e das forma de transferência na psicose, desde a perspectiva lacaniana. 2 A Psicose Freud (1924) em seu artigo Neurose e psicose afirma que o que caracterizaria a psicose seria o afastamento do ego da realidade. “A neurose seria o resultado de um conflito entre o ego e o id, enquanto que na psicose o ego, a serviço do id, retira-se do mundo exterior.” (pág. 2.742 trad. livre) Freud considerava que indivíduos psicóticos eram inanalisáveis. Klein, por sua vez, desenvolveu uma teoria sobre a vida emocional dos bebês. É possível pensar, a partir de suas teorias, que ela realiza com a psicose o que Freud realizou com a neurose, no sentido da “despatologização”. Por que a psicose pode deixar de ser pensada como doença? Em 1946, em “Notas sobre alguns mecanismos esquizoides”, ela escreve: ‘Não será preciso entrar em pormenores quanto ao fato de que algumas outras características das relações objetais esquizoides, por mim anteriormente descritas, podem ser encontradas, em menor grau e de uma forma menos impressionante, em pessoas normais(...). De modo semelhante, as perturbações normais nos processos de pensamento estão ligadas ao desenvolvimento da posição esquizoparanóide. Pois todos nós somos susceptíveis, por vezes, de um enfraquecimento momentâneo do pensamento lógico (...) de fato o ego está temporariamente cindido.” (pág. 329) Neste mesmo artigo Klein (1946) escreve: “Nos primeiros anos da infância, manifestam-se ansiedades características da psicose que obrigam o ego a desenvolver mecanismos específicos de defesa. Nesse período se encontram os pontos de fixação para todos os distúrbios psicóticos.” (pág. 314)
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    22 Assim, segundo Klein, todos vivenciamos, nos primeiros anos da infância, não a psicose, mas ansiedades psicóticas, e o que diferenciaria um indivíduo psicótico de um neurótico são os pontos de fixação em uma fase primitiva do desenvolvimento. Nessa medida, os neuróticos não se isentariam destas ansiedades, que estariam incorporadas ao processo psíquico de formação da personalidade de qualquer indivíduo. A psicose, deste ponto de vista, pode ser pensada não como uma doença, mas como uma possibilidade para qualquer ser humano. A partir de Klein, outros autores se aventuraram pela questão da psicose. Winnicott (1954-5) pouco utiliza as categorias neurótico ou psicótico, mas sim refere-se a pacientes mais ou menos regredidos, o que determina a gravidade de cada caso. Winnicott correlaciona o nível de regressão de um indivíduo a fatores ambientais os quais poderiam haver provocado essa forma de defesa. Segundo ele, “A doença psicótica se relaciona a um fracasso ambiental em um estádio primitivo do desenvolvimento emocional de um indivíduo.” (pág. 470) Ao falar em “fracasso ambiental”, Winnicott se refere à relação mãe-bebê. O que caracteriza este fracasso é a impossibilidade de a mãe dar suporte emocional para as experiências afetivas do bebê. Um indivíduo que vive esta experiência emocional tem, segundo ele, seu desenvolvimento afetivo comprometido. Bion, por sua vez, dá maior ênfase a aspectos constitutivos do indivíduo. Em relação à personalidade psicótica, em 1957, ele considera a coexistência de uma parte neurótica e de uma parte psicótica na personalidade de um só indivíduo. A partir da distinção feita por Freud (1924) entre neurose e psicose, Bion (1957) propõe que na psicose o ego não perderia completamente o contato com a realidade, pois haveria a permanência de uma parte não psicótica da personalidade existindo paralelamente a parte psicótica. Outra distinção da
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    23 posição de Bionem relação à Freud é que o afastamento da realidade seria ilusório, e se daria através do uso da identificação projetiva contra o aparelho mental. Segundo Bion, a diferenciação entre as partes psicóticas e não psicóticas da personalidade dependeria de uma cisão e de uma fragmentação da parte da personalidade relacionada à percepção da realidade interna e externa em fragmentos muito pequenos, que seriam expulsos através do mecanismo de identificação projetiva. O significado deste conceito será discutido adiante. Em 1957 ele caracteriza a personalidade psicótica como tendo quatro características fundamentais: “(...) uma preponderância tão grande de impulsos destrutivos, que mesmo o impulso de amor é inundado por eles e transformado em sadismo; um ódio da realidade, interna e externa, que se estende a tudo que contribui para a percepção dela; um terror de aniquilação iminente (Klein 1946) e, finalmente, uma formação prematura e precipitada de relações de objeto (...), cuja fragilidade contrasta acentuadamente com a tenacidade com que são mantidas.” (pág. 70) É possível pensar que a proposta analítica desses autores se relaciona com a forma como é pensada a etiologia da psicose. Enquanto Winnicott considera a psicose como uma defesa que se originaria de uma falha ambiental, Bion enfatiza os fatores constitucionais do indivíduo. Enquanto técnica, Winnicott preconiza um retorno a este momento em que se deu a falha inicial, através da regressão, para que possa haver uma recomposição do indivíduo, enfatizando o ambiente na situação analítica. Bion, por sua vez, dá uma maior ênfase à interpretação verbal, pois esta seria capaz de “devolver” ao paciente aspectos seus que estariam fragmentados e expelidos fora, buscando reconstituir esta psiquê estilhaçada. A partir desta breve aproximação entre estes autores é possível pensar que cada corpo teórico mereceria um aprofundamento particular. O recorte da teoria em um ponto poderia esconder pressupostos que não estão sendo discutidos naquele momento.
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    24 3 A TransferênciaPsicótica Diversos autores, após Freud, puderam constatar a existência de transferência no tratamento analítico de psicóticos. Ainda que haja diferentes denominações e caracterizações deste tipo de transferência, uma coisa tem em comum: ela é diferente da transferência neurótica. Winnicott (1947) afirma que uma das diferenças existentes entre análise de neuróticos e de psicóticos é que os primeiros podem perceber “símbolos” enquanto os segundos são concretos. Isto levaria a uma transferência bastante diferenciada, pois enquanto na neurose haveria o “como se”, na psicose as coisas “são”. Este caráter de concretude estaria presente na relação transferencial: “Para o neurótico, o divã, o calor e o conforto podem ser o símbolo do amor materno; para o psicótico, seria mais certo dizer que estas coisas são a expressão física do amor do analista. O divã é o colo ou o útero do analista, e o calor é o calor vivo do corpo do analista.” (pág. 347) O outro lado desta formulação de Winnicott é dado por Margareth Little, psicanalista que foi analisada por ele e considerada “borderline”. Little (1992) escreve: “Para mim D.W. não representava a minha mãe. Em minha ilusão de transferência, ele realmente era a minha mãe.” (pág. 95) Winnicott (1963) fala em psicose de transferência. Esta ocorreria em pacientes muito regredidos e esta relação analítica seria de grande risco tanto para o analista quanto para o paciente. O risco seria de o analista não se dar conta da aproximação de conteúdos muito regredidos e interpretar em uma situação onde o que seria necessário seria apenas dar sustentação para que o paciente pudesse encontrar um caminho próprio. Haveria também riscos para o analista em função de sua aproximação com as partes psicóticas do paciente e
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    25 das consequências disto,questão que será retomada ao analisarmos a contratransferência. Bion (1957) descreve a transferência na psicose como tendo as seguintes características: maciça, adesiva, rápida e tênue, tendo uma intensidade bastante diferente da intensidade da transferência neurótica. Em suas palavras: “A relação com o analista é prematura, precipitada e intensamente dependente; quando o paciente, sob pressão das pulsões de vida e de morte, amplia o contato, manifestam-se duas correntes simultâneas de fenômenos. Primeiro, a cisão de sua personalidade e a projeção dos fragmentos para dentro do analista (isto é, identificação projetiva) tornam- se hiperativas, com os conseqüentes estados confusionais tais como descritos por Rosenfeld (1952). Segundo, as atividades mentais e as demais atividades através das quais o impulso dominante, seja este de pulsão de vida ou de morte, busca expressar-se, são imediatamente submetidas à mutilação por parte do impulso temporariamente subordinado. Atormentado pelas mutilações e lutando por escapar dos estados confusionais, o paciente retorna à relação restrita. A oscilação entre a tentativa de ampliar o contato e a tentativa de restringi-lo prossegue durante toda a análise.” (pg 70) Rosenfeld (1987), que em muitos aspectos concorda com Bion, discute o porquê desta forma de transferência: “Uma parte importante de minha teoria é que os pacientes psicóticos projetam seus sentimentos porque se sentem assustados demais para lidar com eles ou para refletir a respeito deles sozinhos. O analista, porém, como os pais no desenvolvimento mais normal, tem o potencial de enfrentar os sentimentos e de refletir sobre eles, e é essa capacidade que ele dá aos poucos ao paciente para desenvolver para si mesmo. A natureza de transferência psicótica é que ela proporciona a oportunidade de demonstrar que os sentimentos insuportáveis podem ser contidos e considerados de modo criativo.” (pág. 55/56) Ainda sobre a transferência na psicose, ele descreve duas de suas características:
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    26 “A transferência psicótica típica observada nos esquizofrênicos tratados por mim e alguns colegas que supervisionei pode ser entendida teoricamente como uma relação em que a identificação projetiva predomina de maneira muito forte.” (pág. 256) “Uma segunda característica da transferência psicótica no tratamento de pacientes esquizofrênicos é que eles tendem a apresentar uma forte transferência erótica desde o início do tratamento.” (pág. 264) Dentro de uma outra vertente do pensamento psicanalítico, McDougall (1978), que dá uma importância maior à questão da linguagem que os autores anteriormente citados, propõe uma outra denominação para a transferência na psicose. Esta é chamada por ela de “transferência fundamental”. A forma como ela caracteriza esta a transferência de um psicótico com seu analista é a seguinte: “Num certo sentido ele (psicótico) permanece fusionado com o outro. Recusando-se o estatuto de sujeito distinto e autônomo, ele não pode tampouco conceder ao Outro este direito fundamental de ser. Na impossibilidade de se comunicar com partes importantes de si mesmo, ele trata o Outro como uma parte de si próprio: na análise, essa forma de se relacionar será repetida com o analista. Nestes casos, constatamos movimentos de transferência que não têm muita coisa em comum com a relação transferencial que se estabelece entre o sujeito neurótico-normal (para quem a psicanálise foi inventada) e a representação que este faz do analista. O analista vê-se confrontado ao que poderíamos chamar de transferência fundamental, transferência original que procura anular a diferença entre o ser e o Outro, ao mesmo tempo em que se teme uma fusão mortífera. Para mobilizar este elo arcaico, seria necessário que a separação, vivida como morte psíquica, se transformasse num sinal de desejo, de identidade, de vida.” (pág. 112) McDougall (1978) correlaciona a “transferência fundamental” com a forma de comunicação que se estabelece na relação entre o paciente e o analista: “Essa língua privativa procura de uma certa maneira restaurar a unidade mãe-criança, o que torna a comunicação simbólica supérflua. Nesse sentido, a capacidade do analisando de se fazer compreender através de
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    27 meias palavras, e a do analista de ouvi-lo, não diferem da comunicação entre a mãe e seu bebê.” (pág. 112) A forma com ela entende o que Winnicott (1947) caracterizou como a impossibilidade de o psicótico de perceber símbolos, ou seja, que o analista se torne “a mãe” do paciente para este, seria a não realização de uma separação inicial entre a mãe e o bebê. Não tendo havido este luto inicial, o indivíduo estaria impossibilitado de distinguir entre o analista real e o imaginário, fruto de sua transferência: “(...) em outros pacientes, aqueles para quem a necessidade de existir invade inteiramente o território do desejo, nenhum espaço entre o analista real e o analista imaginário pode ser preservado. Não se pode elaborar o luto de um objeto cuja perda jamais foi reconhecida.” (pg114) A relação analítica pode ser pensada como não possuindo uma relação de causalidade: em função de uma transferência ocorre uma contratransferência, mas dialética, onde a transferência e a contratransferência se determinam mutuamente em um processo de constante transformação. Que processos essa modalidade de transferência provoca no analista? Aqui adentramos à questão da contratransferência. 4 A Contratransferência Será apresentado um breve histórico do conceito de contratransferência na psicanálise. Freud, em toda sua obra, utiliza poucas vezes o termo. O conceito foi introduzido em 1910 no texto “O futuro da terapia psicanalítica”, onde ele escreve: “Outras inovações da técnica se referem à própria pessoa do médico. Se nos fez visível a ‘contra-transferência’ que surge no médico, sob a influência do doente, sobre seu sentir inconsciente, e nos achamos muito inclinados a exigir, como norma geral, o reconhecimento desta ‘contra- transferência’ pelo médico e seu vencimento. Desde que a prática
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    28 psicanalítica vem sendo exercida por um número considerável de pessoas, as quais trocam entre si suas impressões, temos observado que nenhum psicanalista chega além de onde lhe permitem seus próprios complexos e resistências, razão pela qual exigimos que todo principiante inicie sua atividade com uma auto-análise e se aprofunde cada vez mais, conforme vá ampliando sua experiência no tratamento dos doentes.” (pág. 1.566, trad. livre) Para Freud, neste momento, os sentimentos surgidos no analista a partir dos sentimentos transferenciais de seu paciente, seus sentimentos contratransferenciais, deveriam ser sobrepujados em sua própria análise. Posteriormente, Freud afirma em seu artigo “O inconsciente”, de 1915: “É muito singular e digno de atenção o feito de que o sistema Inc. de um indivíduo possa relacionar-se ao de outro, eludindo absolutamente o sistema Cc. Este feito merece ser objeto de uma penetrante investigação, encaminhada precisamente a comprovar se a atividade pré-consciente fica excluída em tal processo; mas de qualquer forma, descritivamente o feito é irrebatível.” (pág. 2.077, trad. livre) Assim, se por um lado Freud considera a existência da contratransferência um empecilho a ser vencido na relação analítica, ele também dá margem, a partir das considerações sobre as formas de comunicação inconsciente, a toda a teoria da contratransferência que se desenvolveu posteriormente. Ferenczi, ainda nesta década (1919), defende que tudo o que se passa do lado do analista pode ser considerado contratransferência, e não apenas seus pontos cegos. Ele chegou a desenvolver a técnica de análise mútua (1932), onde o analista trocaria de papel com o paciente. Depois de realizar algumas experiências, abandonou a técnica. Klein usa o termo raríssimas vezes e, como Freud, considera que a contratransferência indica aspectos não analisados do analista. Por sua vez, Klein (1946) introduziu o conceito de identificação projetiva, a ser discutido à frente.
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    29 Em1950 Paula Heiman publicou um artigo que se tornou um marco na história da psicanálise, e o motivo de seu rompimento com Melanie Klein. Este se chama “Sobre a contratransferência”, onde afirma: “Minha tese é de que a resposta emocional do analista ao paciente na situação analítica representa uma das ferramentas mais importantes para seu trabalho. A contratransferência do analista constitui um instrumento de pesquisa do inconsciente do paciente.” (pág. 105) O que justifica esta afirmação é a premissa básica de que o inconsciente do analista entenderia o inconsciente do paciente. Para ela, todos os sentimentos do analista na relação analítica devem ser considerados para sua interpretações. Este artigo se tornou um clássico na teoria da contratransferência. Na época foi muito polêmico, e mesmo hoje levanta questões sobre o uso dos sentimentos contratransferenciais na análise. 5 A Contratransferência na Psicose É possível pensar que as características peculiares da transferência psicótica estabeleçam uma relação peculiar, um tipo de contratransferência específica no trabalho com psicóticos. A “concretude” da transferência psicótica poderia exigir uma resposta contratransferencial da mesma natureza? E que não apenas o analista, mas também outras pessoas que tivessem um contato próximo com psicóticos, poderiam viver este tipo de experiência? Meltzer (apud Fédida, 1988) descreve a transferência psicótica como sendo adesiva e a relaciona à contratransferência. Segundo ele: “A transferência ‘colante’ na qual é o analista, mais do que o processo e os objetos internos, que é sentido como sendo único, manifesta-se através de uma enorme pressão sobre a contratransferência do analista.”(pág. 77)
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    30 Assim, a transferência psicótica possui, segundo Meltzer, uma relação muito próxima à contratransferência. Winnicott (1947), sobre este fenômeno, escreve: “Pacientes insanos representam sempre um pesado fardo emocional para os que cuidam deles.” (pág. 341). Esse “fardo emocional” a que se refere Winnicott poderia ser observado a partir das manifestações contratransferenciais em uma relação analítica. Em suas palavras: “Na análise (análise de pesquisa) ou no manejo comum do tipo mais psicótico de paciente, uma grande pressão é exercida sobre o analista (psiquiatra, enfermeira) e é importante que estudemos as maneiras através das quais a ansiedade de qualidade psicótica, assim como o ódio, são produzidos naqueles que trabalham com pacientes psiquiátricos seriamente doentes. Somente desta maneira pode haver qualquer esperança de se evitar a terapia que se adapta às necessidades do terapeuta em vez de se adaptar às necessidades do paciente.” (pág. 353) Também Winnicott considera a existência de uma forma de “pressão” sentida pelo analista a partir da transferência, mas ele abre a possibilidade de este tipo de transferência ocorrer em outras relações _ ”psiquiatras, enfermeiras” _ o que poderia ser pensado para o acompanhante terapêutico. Neste artigo de 1947, “O ódio na contratransferência”, Winnicott distingue três diferentes possibilidades de aspectos presentes na relação analítica que podem estar sendo chamados de contratransferência: 1. as identificações reprimidas do analista que se atualizam na relação com um paciente, o que indicaria falta de análise do analista; 2. as identificações do analista que fazem parte de sua experiência pessoal e possibilitariam a relação analítica e 3. a “verdadeira e objetiva contratransferência”, ou seja, a partir da personalidade e dos comportamentos “reais” do paciente, a reação de amor e ódio do analista baseado em sua observação “objetiva”.
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    31 Haveria, segundo Winnicott, a possibilidade de uma contratransferência “objetiva”. No entanto, ele restringe o uso da contratransferência na relação analítica apenas para o caso da análise de psicóticos e antissociais (1947, 1960). Segundo ele, a contratransferência em uma relação analítica com um paciente neurótico perturbaria a objetividade do analista. Em 1960 ele escreve: “(...) o significado da palavra contratransferência só pode ser o de aspectos neuróticos que estragam a atitude profissional e perturbam o curso do processo analítico determinado pelo paciente.” ( pág. 148) Em 1947 ele já escrevia o seguinte a respeito da importância da contratransferência na análise de pacientes psicóticos: “Sugiro que se um analista quer analisar psicóticos ou antissociais, ele deve conseguir ter uma consciência tão completa da contratransferência que seja capaz de isolar e estudar suas reações objetivas ao paciente. Estes incluindo ódio. Os fenômenos da contratransferência, às vezes, serão as coisas mais importantes da análise.” (pág. 342) Assim, o entendimento da contratransferência é fundamental quando se refere a este tipo específico de relação analítica. Inclusive porque, segundo Winnicott (1947), é preciso estar consciente das reações contratransferenciais para que elas permaneçam latentes e não sejam atuadas. Winnicott (1960) escreve que pacientes psicóticos ou borderline precisam de um movimento de regressão muito intenso e que seria este movimento na direção da fusão que provocaria a contratransferência da forma em que ela se dá neste tipo de relação analítica. Segundo ele: “O psicótico borderline atravessa gradativamente as barreiras que denominei de técnica do analista e atitude profissional e força um relacionamento direto de tipo primitivo, chegando até o limite da fusão.” (pág. 150)
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    32 Esta possibilidade de uma resposta total exige uma grande disponibilidade do analista na relação analítica. Winnicott descreve a possibilidade de um “uso” primitivo do analista pelo paciente em seu artigo “O uso de um objeto” (1971). Neste artigo, ele afirma que este uso só é possível quando o analista consegue tolerar que o paciente se relacione com ele de maneira que pertencem a estágios muito iniciais da vida. Nessa experiência, a busca inconsciente do paciente é a de encontrar um objeto que possa sobreviver a ser ‘destruído’, e nesta relação é fundamental que o analista/objeto sobreviva à destruição. Esta vivência pode exercer grande pressão sobre o analista e ele só deveria entrar neste tipo de relação na medida em que se sentisse “seguro” de poder suportar as pressões contratransferenciais existentes em consequência desta relação primitiva. Winnicott propõe que haveria no analista um ego observador que escaparia à contratransferência, e que permaneceria “sadio”. Sobre a regressão do analista, Money-Kyrle (1956) também descreve uma identificação temporária do analista com seu paciente. Segundo ele, esta identificação só seria possível em função do analista reconhecer no seu paciente partes de seu self arcaico já analisado. Segundo Rocha (1994), Bion mudou de posição com relação ao uso da contratransferência. Em 1955, no artigo “A linguagem e o esquizofrênico”, Bion possui uma posição favorável ao uso da contratransferência. Segundo ele: “O analista que ensaia, em nosso atual estado de ignorância, o tratamento de tais pacientes, deve estar preparado para descobrir que, em uma considerável extensão do tempo analítico, a única evidência em que uma interpretação pode basear-se é a que se propicia através da contratransferência.” (Bion apud Rocha 1994, pág. 121) Em 1962 Bion não se utiliza mais da contratransferência, apesar de estar atento às sensações e sentimentos do analista a fim de interpretar a identificação projetiva, conceito que será retomado adiante. Segundo Bion (1962):
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    33 “A teoria das contratransferências apenas oferece explicação satisfatória pela metade, por voltar-se para a manifestação como sintoma das motivações inconscientes do analista, deixando pois por explicar a psicopatologia do paciente.” (pág. 46) Na revisão de uma série de artigos que foram publicados com o nome “Estudos psicanalíticos revisados”, Bion, segundo Rocha (1994), haveria suprimido diversas referências à contratransferência. Ele teria passado a utilizar o termo, assim como Freud e Klein, referindo-se aos sentimentos patológicos inconscientes do analista, o que indicaria necessidade de mais análise por parte do analista. Rosenfeld, autor que possui muitos pontos de concordância com Bion, diverge quanto à questão da contratransferência. Ele utiliza o conceito de contratransferência em sua teoria. Em 1952, Rosenfeld defende o uso da contratransferência como “aparelho receptor sensível” do analista. Em trabalho bastante posterior, Rosenfeld (1987) escreve sobre a existência e o uso da contratransferência: “Concordo, naturalmente, com muitos outros analistas em que nossa contratransferência é um aspecto muito importante do nosso trabalho. Ajuda-nos consideravelmente a entender a diferença entre o que o paciente nos diz e o que nos vem à mente. Usamos nossa contratransferência para captar o significado mais oculto do que está sendo expresso pelo paciente e para ter consciência daquilo que diz. Esse é um aspecto muito importante de nossa tentativa de descobrir a verdade psíquica.” (pág. 308) Rosenfeld, além de escrever sobre a importância da contratransferência, também defende que em um processo analítico o analista deve ter consciência de seus sentimentos para que não corra o risco de aceitar o lugar na transferência atuando contratransferencialmente. Segundo Rosenfeld (1987), caberia ao analista sustentar o papel atribuído a ele pelo paciente, aceitar seu
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    34 lugar na transferênciado outro sem, no entanto, atuar (acting out) este papel. Caso isto ocorra, a relação analítica seria levada a um impasse. Segundo Rosenfeld (1987): “Às vezes é muito difícil conter as projeções do paciente, principalmente se o analista ou o paciente ficar muito perturbado com o processo (...). Para lidar com a situação é fundamental que o analista esclareça para si mesmo o que sente a respeito do paciente. Então pode elaborar os problemas por si mesmo.” (pág. 253) Rosenfeld destaca os momentos em que as projeções do paciente podem ser difíceis de serem contidas pelo analista, o qual deve estar atento para sua contratransferência. Em algumas situações Rosenfeld (1987) considera que a contratransferência pode ser a melhor forma de se entender a transferência existente. Segundo ele: “(...) o analista precisará observar muito atentamente seus próprios sentimentos e reações, porque em situações de forte identificação projetiva essa pode ser a principal pista que ele tem a respeito da relação transferencial psicótica.” (pág. 204) Já citada por Bion e Rosenfeld, a identificação projetiva é um conceito que possibilita um novo pensamento sobre o que se passa na relação analítica com um indivíduo psicótico. Afinal, o que é identificação projetiva e quais suas características? 6 A Identificação Projetiva Klein em seu artigo “Notas sobre alguns mecanismos esquizoides”, de 1946, define pela primeira vez identificação projetiva. Segundo ela: “A investida fantasiada contra a mãe segue duas linhas principais: uma é o impulso predominantemente oral para sugar, morder, esvaziar de todo conteúdo bom. (...) A outra linha de ataque se deriva dos impulsos anais e
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    35 uretrais e implica a evacuação de substâncias venenosas (excrementos), que são expelidos do eu e introduzidos na mãe. Em conjunto com esses excrementos nocivos, expelidos com ódio, as partes destacadas do ego também são projetadas ou, como prefiro dizer, para dentro da mãe. Esses excrementos e partes más do eu têm o intuito não só de causar dano, mas também de controlar e tomar posse do objeto. Na medida em que a mãe passa a conter as partes más do eu, ela não é sentida como um indivíduo separado, mas como o eu mau. Muito do ódio contra algumas partes do eu é agora dirigido para a mãe. Isso conduz a uma forma particular de identificação que estabelece o protótipo de uma relação objetal agressiva. Sugiro para esses processos a expressão ‘identificação projetiva’.” (pág. 322) Ou seja, a identificação projetiva é uma fantasia na qual as partes consideradas más do ego do bebê seriam destacadas e projetadas para “dentro” da mãe, a qual passaria a conter as partes más do eu, não sendo mais sentida como um indivíduo separado do bebê, mas como perseguidora, como o eu mau. Também as partes boas podem ser projetadas, o que levaria a um fortalecimento do ego e a boas relações de objeto. Segundo Klein, a identificação projetiva não é um problema em si. O que caracteriza a patologia é o grau em que este mecanismo de defesa é utilizado. Na psicose há um uso excessivo da identificação projetiva, onde as partes más do eu são projetadas criando uma forma de relação objetal agressiva. A partir de Klein, diversos autores passaram a utilizar este conceito. Bion (1952, 1957, 1959) escreve sobre a identificação projetiva e descreve sua capacidade de despertar emoções no analista, o que caracterizaria tanto aspectos defensivos quanto comunicativos da identificação projetiva. Ele enfatiza a identificação projetiva como uma forma de comunicação. Segundo Bion (1959), a projeção na identificação projetiva se dá de tal forma que leva o analista a vivenciar os sentimentos projetados, e este se sente pressionado a atuar estes sentimentos. Seria uma característica da parte psicótica da personalidade e atuaria muitas vezes como um ataque aos elos de ligação.
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    36 A definição dada por Bion (1957) para identificação projetiva é que se trata de um mecanismo onde “(...) o paciente excinde uma parte da sua personalidade e projeta para dentro de um objeto onde se instala, por vezes como um perseguidor, deixando correspondentemente empobrecida a psique da qual foi excindida.” (pág. 70) Sobre a função da identificação projetiva, Bion (1959) escreve: “A identificação projetiva lhe possibilita (ao paciente) investigar seus próprios sentimentos dentro de uma personalidade forte o suficiente para contê-los.” (pág. 106) O analista tem a função de ser o continente destes sentimentos projetados pelo paciente. Estes são projetados por serem insuportáveis e podem ser considerados, por serem muitas vezes violentos, como um ataque “(...) à paz de espírito do analista e, originalmente, da mãe.” (Bion 1959, pág. 105) Ele considera este um conceito fundamental na clínica da psicose. Sobre a importância clínica deste conceito, Bion (1956) escreve: “A experiência clínica com essas teorias convenceu-me, na prática, de que o tratamento da personalidade psicótica não terá êxito a menos que se elaborem não só os ataques destrutivos do paciente contra seu ego, mas também o fato de ele substituir a repressão e a introjeção pela identificação projetiva. E mais, admito que mesmo em se tratando de neuróticos graves existe uma personalidade psicótica que tem de ser trabalhada, de modo análogo, para que se obtenha êxito.” (pág. 54) Assim, este é um mecanismo pertencente à parte psicótica da personalidade e pode estar presente em neuróticos graves. Bion correlaciona o uso da identificação projetiva com a incapacidade de vivenciar a frustração por parte do paciente. Segundo ele (1962), “O impulso do paciente a subtrair a fantasia onipotente de identificação projetiva à realidade, diretamente se vincula à sua incapacidade para tolerar a frustração.” (pág. 55)
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    37 Posteriormente, ele questiona a identificação projetiva como uma fantasia onipotente, no sentido em que ela efetivamente provocaria sentimentos no analista e, portanto, deixaria de ser somente uma fantasia. Segundo Bion (1973): “A teoria de Melanie Klein é que os pacientes têm uma fantasia onipotente, e o modo de verbalizar essa fantasia é que o paciente se sente capaz de expelir certos sentimentos desagradáveis e indesejáveis e colocá-los no analista. Não tenho certeza, pela prática da análise, que se trate apenas de uma fantasia onipotente; ou seja, de algo que o paciente, de fato, não pode fazer. Tenho certeza e que é assim como a teoria deveria ser usada - o modo correto de usar a teoria correta. Mas acho que a teoria correta e a formulação correta não acontecem no consultório. Tenho sentido, e também assim alguns dos meus colegas, que quando o paciente parece estar vivenciando uma identificação projetiva ele pode me fazer sentir perseguido, como se pudesse, na verdade, expelir certos sentimentos maus e empurrá-los para dentro de mim, de modo que, na realidade, eu experimento sentimentos de perseguição e ansiedade. Se isto está correto, ainda é possível sustentar a teoria de uma fantasia onipotente, mas, ao mesmo tempo poderíamos pensar na possibilidade de alguma outra teoria que explicasse aquilo que o paciente faz ao analista, que o leva a sentir-se assim, ou qual o problema do analista, que assim se sente.” (pág. 133/134) Assim, Bion considera a possibilidade de se pensar outra teoria que pudesse explicar o fato do analista sentir o que é projetado pelo paciente, o que tornaria esta fantasia onipotente do paciente algo mais que fantasia. Rosenfeld (1971) também considera fundamental o entendimento da identificação projetiva ao tratar a parte psicótica da personalidade do paciente, e escreve sobre as várias formas de uso da identificação projetiva. Segundo ele, esta pode ser utilizada como forma de comunicação, como foi descrito por Bion. A continência destas experiências pelo analista altera a qualidade assustadora e insuportável dessas experiências. Rosenfeld considera fundamental que o analista seja capaz de colocar em palavras estas experiências através das interpretações, o que possibilitaria ao paciente tolerar e pensar sobre estas experiências que antes eram assustadoras e sem sentido
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    38 Alémde ser uma forma de comunicação, a identificação projetiva também pode ser usada como uma forma de “evacuação”, quando o paciente procura negar sua realidade psíquica, e como forma de controle do analista, onde a partir de uma crença onipotente, o paciente acredita ter se forçado para dentro do analista, o qual neste momento é percebido como tendo enlouquecido. Neste momento é frequente o perigo de desintegração do paciente. Sobre esta situação Rosenfeld (1971) observa: “É a excessiva identificação projetiva no processo psicótico que oblitera a diferença entre self e objetos, que causa confusão entre realidade e fantasia e uma regressão ao pensamento concreto devido à perda da capacidade de simbolização e de pensamento simbólico.” (pág. 130) Segundo Rosenfeld (1971, 1987), estes três tipos de identificação projetiva podem existir de forma simultânea ou alternada no mesmo paciente. Para o autor, a identificação projetiva não é idêntica à simbiose. Isto porque, para que haja identificação projetiva é necessário que tenha havido alguma diferenciação entre “eu” e “não eu”, o que não ocorre na simbiose. Rosenfeld (1987) correlaciona a contratransferência à identificação projetiva. Sentimentos muito fortes do paciente podem ser transmitidos ao analista através da identificação projetiva, e isto pode causar dificuldades na contratransferência, tornando difícil o trabalho do analista e um impasse na relação analítica. O primeiro ponto descrito é o risco do rompimento da comunicação verbal entre paciente e analista. Segundo Rosenfeld (1987): “Ao investigar tais situações, observei que a identificação projetiva onipotente interfere na capacidade de pensamento verbal e abstrato para produzir uma concretude dos processos mentais, o que acarreta confusão entre realidade e fantasia.“ (pág. 195)
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    39 Ainda segundo Rosenfeld (1987): “O analista nessa situação pode ter a nítida experiência, em sua contratransferência, de que não é bom e não tem nada de valor a dar para o paciente. Até mesmo sintomas físicos podem ser experimentados pelo analista com tais pacientes, porque as expulsões do paciente podem ser concretas; ele pode sentir náuseas, assim como o paciente pode realmente vomitar.“ (pág. 196) Sobre a situação em que a identificação projetiva é utilizada como forma de defesa contra a realidade psíquica, escreve Rosenfeld (1987): “O fato de a identificação projetiva poder ser usada para evacuar e negar a realidade psíquica tem de ser reconhecido juntamente com o fato de que, quando o paciente está tentando lançar o conteúdo mental insuportável para dentro do analista, ele também está forçando a compartilhar as experiências desagradáveis.(...) Tal comportamento por parte do paciente é frequentemente entendido de forma equivocada e interpretado por alguns terapeutas como totalmente agressivo.” (pág. 199) Rosenfeld (1987) alerta que em uma situação de identificação projetiva muito intensa, o analista pode não se dar conta dos problemas do paciente até o momento em que se sente “esmagado“ por eles. Ele sugere que a projeção recebida pelo analista “espelha” com exatidão os sentimentos do paciente, e portanto, que o entendimento da reação contratransferencial do analista é um meio “fundamental” de compreensão das comunicações de pacientes psicóticos via identificação projetiva. Segundo Rosenfeld (1987): “Emoções muito violentas de amor e ódio, sentimentos confusionais agudos e estados mentais gravemente desintegrados podem ser transmitidos por meio de formas primitivas de identificação projetiva, que às vezes não são registradas de modo facilmente compreensível pelo analista. Quando as emoções são particularmente violentas, o analista pode sentir-se esmagado e ser incapaz de funcionar como continente. Em tais momentos, o paciente comunica-se não-verbalmente por uma força hipnótica primitiva. O analista pode, então, apresentar reações contratransferenciais defensivas, talvez se sentindo irritado. É possível
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    40 que somente mais tarde ele perceba que o que está sentindo é desespero e depressão ligados a uma sensação de fracasso.“ (pág. 277) É essencial que as ansiedades expressas pelo paciente na forma de identificação projetiva sejam “reconciliadas” na mente do analista, inicialmente sentindo o que foi projetado e identificando para si o que foi projetado. 7 As sensações provocadas pela identificação projetiva As descrições existentes sobre as sensações vividas pelo analista na situação analítica de psicóticos são muitas. Rosenfeld (1987) descreve alguns dos efeitos do processo de identificação projetiva no analista: “A experiência frequentemente produz um forte efeito físico no analista e provoca sonolência ou mal-estar físico. Pode causar grandes dificuldades para a capacidade de pensar ou se concentrar. É como se algo tivesse sido projetado para dentro do analista de modo real e concreto.” (pág. 193) E continua: “A identificação projetiva pode abranger a transformação do self e do objeto, acarretando confusão, despersonalização, vazio, fraqueza e vulnerabilidade à influência, a qual pode chegar a ponto de o indivíduo ser hipnotizado ou até mesmo levado a dormir.(...) Contudo, quando o analista adquire experiência na compreensão da maneira como o paciente psicótico se comunica, está claro que a esmagadora influência da identificação projetiva diminui.” (pág. 204) Rosenfeld (1987) ainda cita os riscos para a personalidade do analista, pois a relação com a parte psicótica da personalidade do outro estimula “inevitavelmente” os sentimentos de impotência e de onipotência no analista. Além disso, ele se refere ao medo mais frequente ao se tratar de psicóticos, que seria o medo de enlouquecer. Segundo ele: “O paciente psicótico projeta, com frequência, seus sentimentos e problemas de modo bastante violento, e qualquer analista que tenha medo
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    41 desse contato com seu paciente pode ficar também seriamente perturbado, ao tentar tratar de psicóticos. O medo mais frequente, embora muitas vezes inconsciente, é o de ser levado à loucura pelo paciente.” (pág. 51) É bastante curioso como as referências são frequentemente ligadas ao corpo do analista. Não é uma experiência apenas mental, mas também corporal. Rosenfeld (1987) descreve o relato de uma supervisionanda sua sobre sua reação à identificação projetiva da paciente: “Decidi durante a sessão que a deixaria ir, já que ela não conseguia ouvir o que eu estava dizendo. Depois que ela se foi, senti uma dor atroz e tive a impressão de que não conseguiria suportá- la.” (pág. 237) Neste caso, é difícil a distinção entre a realidade e a fantasia tanto para o analista quanto para o paciente, porque envolve o corpo. A analista sente em seu corpo a dor que “seria” da paciente, sem que esta estivesse presente no momento. A análise que Rosenfeld (1987) faz da situação: “(...) creio que, quando esta (a crise da paciente) ocorreu de fato, de início esmagou-a completamente (a analista), deixando-a com a incrível dor que Claire (paciente) havia projetado para dentro dela.” (pág. 238) Esta experiência é bastante confusa, na medida em que parece que há uma mistura entre as projeções do paciente e os sentimentos e o corpo do analista. Há autores que se referem especialmente à influência do paciente sobre o corpo do analista. Fédida (1988) descreve esta influência da seguinte forma: “(...) somos extremamente sensíveis ao poder das palavras e dos gestos: nosso próprio corpo se torna uma cena importante sobre a qual se representam as fantasias mais violentas do inconsciente do paciente.” (pág. 31)
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    42 Para Fédida, permanecer no corpo seria engano. É necessário que isto seja transformado em palavra, para assim ser passível de representação, tanto para o analista quanto para o paciente. Ainda sobre o aspecto do corpo, Melanie Klein, em 1946, descreve a concretude física das fantasias inconscientes e que as projeções se dariam direcionadas a uma parte específica do corpo do receptor, do analista. É possível pensar que é esta concretude corporal, esta sensação de envolver o corpo do analista, que caracteriza a transferência “concreta” existente na psicose, sendo este o “pesado fardo emocional” a que se refere Winnicott em 1947. Estas descrições das sensações vividas por analistas serão úteis ao serem comparadas às sensações dos acompanhantes terapêuticos de psicóticos. 8 O sinistro na contratransferência vivido a partir da identificação projetiva Haver encontrado estas referências sobre a identificação projetiva me trouxeram a sensação de haver achado meus pares. Ali estava a resposta que buscava. Reencontrei minha experiência teorizada. No entanto, a imagem de dois corpos fechados onde um possuía a capacidade, ainda que não intencional, de “colocar” coisas no outro me trazia certa estranheza. E esta sensação associada às descrições de indescritibilidade, de estranhamento das sensações, me fez levantar a hipótese de ser este fenômeno um fenômeno que poderia ter sido descrito por Freud em seu artigo “Unheimlich”, traduzido como “O estranho”, “O sinistro”, ou “Inquietante estranheza”. Freud (1924) escreve o seguinte sobre o fenômeno do sinistro:
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    43 “(...) o sinistro não seria realmente nada novo, porém algo que sempre foi familiar à vida psíquica e que só se tornou estranho mediante o processo de repressão. E este vínculo com a repressão nos ilumina agora a definição de Schelling, segundo a qual o sinistro seria algo que, devendo haver ficado oculto, se há manifestado.” (pág. 2.498, trad. livre) Segundo Freud, o sinistro não é a experiência do novo, mas do familiar. Aquilo que é vivido com a sensação de estranhamento estava já presente mas reprimido. Sobre a relação do sinistro com a psicose ele afirma: “O caráter sinistro da epilepsia e da demência tem origem idêntica. O profano vê nelas a manifestação de forças que não suspeitava no próximo, mas cuja existência chega a pressentir obscuramente nos cantos recônditos de sua própria personalidade.” (pág. 2.499, trad. livre) Freud parece apontar para uma familiaridade do “profano” com o louco. Haveria algo já vivido, mas reprimido, que remeteria qualquer ser humano à loucura. Ainda sobre o sinistro, ele escreve: “O sinistro nas vivências se dá quando complexos infantis reprimidos são reanimados por uma impressão exterior, ou quando comunicações primitivas superadas parecem achar uma nova confirmação.” (pág. 2.503, trad. livre) É possível realizar um paralelo entre a afirmação de Freud e a de Melanie Klein sobre as ansiedades psicóticas dos bebês. A vivência do sinistro seria marcada pelo retorno de algo primitivo que foi reprimido. É possível pensar que, exatamente por se encontrar reprimido, algo de um estágio muito inicial da pessoa do analista é “despertado” pelo psicótico. Algo que remeta às relações objetais primárias, e que quando o psicótico nos aproxima disso através de sua transferência concreta e corporal, tenhamos manifestações contratransferenciais. A sensação de estranhamento descrita por alguns analistas, algo que ele sente, mas sente que não lhe pertence, pode estar relacionada à proximidade do reprimido.
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    44 Fédida (1988) escreve sobre a experiência do sinistro na contratransferência. Segundo ele, as teorizações sobre a contratransferência são tentativas de tornar pensável a experiência subjetiva do sinistro decorrente da transferência. Sobre o sinistro na relação com transferências “delirantes” ele escreve: “O sinistro - particularmente perceptível nos casos de transferências delirantes - faz o analista viver não apenas a sensação de ser despossuído de seu próprio eu, não apenas de se ver no seu paciente numa imagem que explicita formações recalcadas, mas o torna prisioneiro de seus pensamentos de onipotência dos quais não pode mais sair.” (pág. 82) Fédida fala aqui sobre os riscos de o analista manter-se na situação, tornar-se prisioneiro da imagem que o outro lhe fornece. Daí a característica de o sinistro destruir temporariamente a capacidade analítica da contratransferência. Fédida (1988) afirma que uma das características ameaçadoras desta vivência na contratransferência é a perda da capacidade do analista de sua mobilidade mental, em especial a perda da linguagem é sentida como uma ameaça. Segundo ele: “A perda da linguagem é certamente o que é vivido como a mais terrível ameaça. Se o analista chega a se ver vendo-se incapaz de mobilidades cinestésicas que lhe são habituais, (...) a angústia contratransferencial é vivida como uma sideração mortífera antes de permitir entender a necessidade do paciente de criar um duplo simbiótico exatamente igual a si.” (pág. 76) A necessidade do paciente é de criar um duplo simbiótico e a do analista de não se deixar aprisionar neste lugar. Fédida (1988) escreve sobre a dificuldade do analista em compreender o que acontece nestes momentos e que a prática clínica deveria ajudar, a descrever melhor o fenômeno do sinistro vivenciado pelo analista no tratamento.
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    45 9 A Interpretação A partir de uma experiência na contratransferência proveniente de uma identificação projetiva, o analista poderia utilizar isto para interpretar verbalmente? Seria a interpretação uma possibilidade de tornar o fenômeno consciente e assim evitar a situação de impasse de que fala Rosenfeld (1987), onde o analista perderia sua capacidade analítica? Segundo Winnicott (1947), a contratransferência deve ser observada e “guardada”, podendo ser utilizada para uma interpretação em um momento adequado. Posteriormente, Winnicott parece considerar mais importante a questão ambiental da análise do que a interpretação verbal. Em 1971, em seu livro “O brincar e a realidade”, ele propõe a situação de “uso do objeto” onde, a partir da possibilidade de “uso” do analista, o paciente se ligaria ao princípio de realidade. Winnicott formula o seguinte neste artigo: o uso de um objeto é diferente de uma relação de objeto. O analista deveria permitir seu “uso” por pacientes “fronteiriços”, e isto consistiria em “O analista (...) precisa relacionar-se à capacidade do paciente de colocar o analista fora da área dos fenômenos subjetivos.” (pág. 122) Ou seja, permitir ser usado é poder ser “destruído” pelo paciente. Destruição nesta teoria está intimamente ligada à possibilidade de criação. É fundamental para o paciente que o objeto seja destruído e possa sobreviver, pois isto permite que o paciente se dê conta de sua não onipotência, que seu desejo de destruição não possui este poder sobre o mundo. Este é um dado de realidade capaz de transformar a realidade psíquica porque existe a transferência sobre o objeto, o analista, o qual inicialmente se confunde com as projeções do paciente. O princípio de realidade pode ser alcançado a partir da destruição das projeções para que o analista se torne externo à própria transferência e adquira vida própria. Poder sustentar este lugar na transferência,
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    46 e não sucumbiratuando contratransferencialmente, por exemplo, é ser analista. É a sobrevivência do analista aos ataques que está em jogo, e é fundamental que isto ocorra para que se dê alguma melhora para o paciente. A destruição “real” do analista, quer por uma ausência concreta ou por uma não permeabilidade deste a esta transferência, apenas confirmaria o trauma inicial. Neste momento da teoria a capacidade do objeto de sobreviver, representado pela figura do analista, é muito mais importante do que a interpretação. A partir do texto de Winnicott (1971) sobre o uso do objeto é possível pensar que se encontramos no acompanhante terapêutico um tipo de ataque/comunicação semelhante ao descrito na psicanálise, o que, segundo Bion, seriam ataques à percepção e ao pensar através do processo de identificação projetiva, é analítica a sobrevivência do AT aos ataques que sofre. É possível pensar que o trabalho conduzido a partir do princípio da sobrevivência do objeto permite uma conexão do acompanhado com o princípio de realidade. Bion possui uma posição diversa da apresentada por Winnicott. Segundo ele (1957) o analista em uma interpretação devolve para o paciente o que foi projetado e nisto se constitui o trabalho analítico: proporcionar o retorno destas partículas de ego expelidas e que está agregado a elas de volta à personalidade. Segundo Bion (1957): “A identificação projetiva é, assim revertida, e esses objetos são trazidos de volta pela mesma via pela qual foram expelidos.” (pág. 83). O processo de reintrojeção do que foi projetado provocaria, muitas vezes, uma intensa reação por parte do paciente, que sente a entrada do objeto como um “assalto”. Bion também considera, como Winnicott, a necessidade de contensão, por parte do analista, das projeções do paciente, mas a interpretação seria um passo fundamental no tratamento.
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    47 Rosenfeld(1952) possui uma posição bastante semelhante à de Bion. Ele também considera a interpretação um aspecto fundamental na relação analítica com psicóticos. Segundo ele (1971): “(a) interpretação verbal dos processos de identificação projetiva quando estes aparecem na transferência, o que considero como sendo de importância central na elaboração dos processos psicóticos na situação transferencial.” (pág. 127) Para Rosenfeld (1987), as “experiências inquietantes” que são criadas pelo paciente no analista, desaparecem na medida em que o analista consiga compreender o que se passa. As projeções devem ser verbalizadas pelo analista, para si mesmo, o mais rápido possível, ou ele não entenderá o que se passa com o paciente e não poderá interpretar. Rosenfeld (1987) também afirma que há pacientes que vivenciam a interpretação verbal como uma separação do analista, o que pode ser vivido como uma rejeição ao desejo de unidade não verbal. Nesses casos, a interpretação verbal poderia ser prejudicial. No entanto, quando o analista consegue transmitir o que o paciente sente e precisa, este pode receber a interpretação como uma forma de acolhimento e contenção. Para isto, é importante que o analista tenha a capacidade de usar seus próprios sentimentos para compreender a comunicação não verbal de seus pacientes. O caminho apresentado por Rosenfeld é, a partir da identificação projetiva, perceber como esta se manifesta na contratransferência, nomeá-la para si, e então elaborar uma interpretação que devolva ao paciente o que ele havia colocado fora.
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    48 METODOLOGIA Paraa realização deste trabalho, a metodologia utilizada foi entrevista semi dirigida. Os sujeitos entrevistados são acompanhantes terapêuticos, M e H, que realizam trabalhos com psicóticos. A partir destas duas entrevistas, uma foi escolhida, a de H, para que fosse realizado um estudo de caso aprofundado. I Sujeitos de pesquisa Para que o sujeito entrevistado pudesse servir como sujeito de pesquisa, considerei ser necessário que o AT desse importância à questão do vínculo no tratamento. Isto porque há correntes teóricas que valorizam o distanciamento e a aplicação de procedimentos comportamentais na relação com os pacientes. Como eu buscava investigar, não apenas as reações emocionais do acompanhante à relação de acompanhamento, pois talvez isto independa da linha teórica seguida, mas também, como estas mesmas reações poderiam ser convertidas em tratamento, achei que seria importante que o AT entrevistado estivesse atento às mobilizações afetivas que pudessem haver ocorrido durante seus acompanhamentos. Foram realizadas duas entrevistas onde a questão inicial foi relativa ao que este sujeito acreditava ser o que tratava no seu trabalho como acompanhante. Isto, para investigar a importância dada à questão do vínculo. Ambos os sujeitos entrevistados deram grande importância ao fator relacional no tratamento. A entrevista escolhida para ser analisada, o foi em decorrência de H possuir experiência como acompanhante terapêutico de psicóticos e como analista de pacientes psicóticos em seu consultório. Isto possibilitou que ele relatasse sua percepção das diferenças e semelhanças entre os dois trabalhos. Na medida em que este é um dos aspectos que esta pesquisa busca enfocar, o fato de H também ser analista se tornou um fator determinante na escolha da entrevista.
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    49 H é acompanhante terapêutico há seis anos e trabalha tanto com pacientes psicóticos quanto com deficientes mentais. II Entrevista Não havia questões elaboradas antes da entrevista, mas tópicos a serem abordados. No decorrer da entrevista as questões foram formuladas a fim de investigar os tópicos considerados relevantes. A entrevista foi gravada e posteriormente transcrita. Os pontos investigados podem ser divididos da seguinte forma: 1. O que caracteriza o trabalho do acompanhante terapêutico de psicóticos? 2. O acompanhante já notou alterações do pensamento, do sentimento ou teve sensações corporais incomuns no decorrer de algum acompanhamento realizado com um psicótico? 3. Caso tenha havido alguma percepção particular, como isto foi entendido? 4. O que pôde ser feito a partir desta percepção? Esta pesquisa visa descrever e analisar a partir de um ponto de vista psicanalítico as alterações emocionais de acompanhantes terapêuticos, que trabalham com pacientes psicóticos. III Metodologia de análise e discussão da entrevista A análise e a discussão da entrevista foram realizadas simultaneamente. Isto porque não havia sentido em separar os dados fornecidos por H, da tentativa de correlacioná-los com a teoria da psicanálise, apresentada no item “Aspectos teóricos”.
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    50 A análise e discussão da entrevista está dividida em quatro partes. Cada parte visa enfocar um diferente aspecto do acompanhamento terapêutico, abordado por H. A primeira parte, “O trabalho do AT”, se refere à forma como H pensa este trabalho. O que o faz pensar que esta forma de tratamento seja eficaz no tratamento da psicose. A segunda parte, “O que sente o AT?”, se refere às sensações “estranhas” vividas no trabalho como AT por H: Elas existem? Como são descritas estas vivências? A terceira parte, “Hipóteses sobre o sentir: particularidades do acompanhamento terapêutico”, é a formulação de hipóteses sobre fatores que poderiam favorecer o surgimento das sensações de “estranhamento” descritas por H. As hipóteses foram divididas em cinco grupos: a intimidade: o espaço e o corpo; a relação da dupla com o social; duração: tempo e temporalidade; o lugar do AT e a dificuldade em nomear. A quarta parte, “O que fazer com ‘isso’?”, descreve e discute o que é possível ser feito a partir destes sentimentos, descritos por H, no acompanhamento terapêutico. Ao final do trabalho, na conclusão, busca-se correlacionar os dados encontrados na análise com a questão que originou a pesquisa. Na conclusão também são levantadas questões para novas possíveis investigações dentro do campo do acompanhamento terapêutico.
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    51 ANÁLISE E DISCUSSÃODA ENTREVISTA DE H I O Trabalho do AT H trabalha como acompanhante terapêutico há seis anos. É formado em psicologia e em seu consultório exerce a psicanálise. Possui experiência em acompanhamento terapêutico, tanto de pacientes psicóticos quanto de pacientes portadores de deficiência mental. Dentro do trabalho como AT, H se utiliza do referencial teórico da psicanálise e da esquizoanálise. H faz parte de um grupo de acompanhantes há pouco mais de dois anos, o qual faz supervisão com uma psicanalista que também trabalha como acompanhante terapêutica. Ele participa de um grupo de estudos, independente de seu grupo de referência, que busca teorizar o trabalho do AT. No início da entrevista, H foi perguntado sobre quais os aspectos do acompanhamento que considerava eficaz no trabalho com psicóticos. H responde enfocando a questão da clínica. Ele diz que acompanha um rapaz, L, há seis anos, e que ele é deficiente mental. Em diversos momentos da entrevista, H se refere às experiências vividas com este paciente, e afirma que haver realizado este trabalho lhe permite pensar o acompanhamento não tendo como referência apenas o atendimento de pacientes psicóticos, mas também o de deficientes, e que o enfoque do AT, a indicação para um trabalho de acompanhamento, não se dá a partir de um diagnóstico psiquiátrico, mas a partir do isolamento de um indivíduo, tema que será desenvolvido adiante. Segundo H, o AT está ligado ao quotidiano. Seu trabalho é o de “possibilitar recursos” a quem acompanha, independentemente de seu diagnóstico. Recursos estes que, de uma maneira geral, visam restituir ao acompanhado um lugar social, muitas vezes perdido.
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    52 O trabalho se dirige a indivíduos que se isolaram, e esta é a indicação básica para acompanhamento terapêutico. O trabalho do AT é importante quando há um quadro caracterizado pelo retraimento. Segundo ele: “Hoje é muito difícil pra mim pensar em saúde mental sem AT.(...) É uma figura fundamental. Acho que é ainda muito pouco aproveitado na área da psiquiatria, muito menos na área da neurologia e, muito menos ainda, acho que até desconhecido, em muitas outras áreas que eu acho que poderia ser muito importante. (...) Eu acho que qualquer quadro que provoque um retraimento cabe AT.” H afirma que uma das metas do AT é a busca de uma maior independência de um indivíduo que se isolou. Esta maior independência é possibilitada por um retorno deste indivíduo a um convívio social, sendo o AT o propiciador desta nova ligação com o mundo. O AT, portanto, possui uma relação com o social que não existe na psicanálise. A indicação se dá a partir de uma situação de retraimento, e o acompanhante frequentemente vai à casa de quem acompanha, enquanto na situação analítica é o analisando quem busca sua análise. Segundo H, o acompanhamento possui um recurso próprio que é o recurso da saída. “(...) acho que o AT traz uma coisa bárbara que é o recurso de sair. Acho que isso como recurso terapêutico é bárbaro porque abre para o mundo, aí é legal, porque você pode circular com pessoas que não circulam, ou porque não conseguem, ou porque não podem (...).”
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    53 Esta possibilidade de sair é o recurso técnico específico desta modalidade de tratamento. É este recurso que demarca uma fronteira, uma diferenciação, com relação ao trabalho de outros profissionais da área de saúde mental. Ao mesmo tempo, segundo H, só a saída não basta. Não basta sair para a rua para que algo aconteça. A ideia de espaço relacionado à ideia de fora que H utiliza, não está necessariamente ligada a um fora concreto. H se utiliza de conceitos da esquizoanálise para pensar a dimensão do fora. Segundo ele, há algo que ocorre na relação entre acompanhante e acompanhado, que não só a saída concreta, que permite a saída deste indivíduo da reclusão. Ele fala: “(...) eu venho tentando pensar o AT de uma forma que não é exatamente isso de sair para a rua. A ideia é muito mais sair de algum espaço aprisionante. Isso pode ser um espaço interno, e isso você pode fazer encontrando o cara na casa dele e ficando lá.” H fala portanto, da saída de uma reclusão interna. Não é a rua, de uma forma concreta, que permite uma saída deste indivíduo de uma situação de reclusão. Sobre a imagem de a rua ser pensada como o fora ele diz: “A rua era muito concreto e por mais que eu conseguisse pensar que quando se falava da rua como espaço clínico estava se falando dos foras, todos os foras que não só o concreto, mas o concreto estava sempre muito presente e muito... justificando uma ideia de que o AT é terapêutico por isso. Por essa concretude do fora, da rua mesmo, dos lugares mesmos aonde se vai. Eu acho que tem mesmo um peso muito importante, mas a impressão que eu tinha, é que ia além do que é de fato o valor disso. Isso não dá conta, isso não dá conta. Você estar com o cara saindo por aí não abre nada.” H diz que este pensamento sobre o trabalho surgiu a partir de uma experiência com um paciente que, em três anos de acompanhamento, conseguiu
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    54 sair quatro oucinco vezes de casa. Segundo H, ele não sai com ninguém, e H descreve, na entrevista, uma fala deste paciente para a outra AT que o acompanha: “(...) ele dizia para ela que incomodava ele na hora em que eu ia atender porque, a sensação que ele tinha, era de que a rua estava entrando dentro da casa dele. Enfim, eu acho que é exatamente isso, a gente carrega isso porque a gente vai.” Desta fala é possível pensar que o AT não apenas sai para rua com o paciente, mas que ele é “em si” portador desta rua. Ele é o próprio social que “entra” na casa de quem é acompanhado. Segundo H, o que é terapêutico no acompanhamento é o encontro. Em suas palavras: “O que é terapêutico no AT é o encontro. Acho que é o encontro. É a relação que pode se desenvolver a partir daqueles encontros e a partir daqueles encontros no tempo.” A proposta de H é que o trabalho se dá a partir do encontro, estando este encontro associado ao recurso de sair. A potência e a especificidade do trabalho do AT se dão na união destes dois fatores, apesar de em alguns momentos a saída, de uma forma concreta, não acontecer. Nestes momentos, como pode ser pensado o acompanhamento? Se o acompanhado não sai de casa, qual a função do AT? Acredito que quando o trabalho do acompanhante fica vinculado a uma ação concreta, como auxiliar o acompanhado a encontrar um curso ou ir a um cinema, neste trabalho de religamento do acompanhado ao convívio social, é possível se observar mudanças. A “melhora” é algo visível, observável, há um resultado obtido a partir do trabalho, pois quem não saía passa a sair. É uma função dada, que o acompanhante trabalhe no sentido de que o outro saia, função existente
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    55 anteriormente à própriarelação. Esta necessidade de que o acompanhado “melhore”, a partir do ponto de vista do acompanhante, e não do próprio acompanhado, pode ser um entrave na relação. Se nos voltarmos para a psicanálise e nos perguntarmos qual a função do trabalho analítico, deparamo- nos com a inexistência de uma resposta a priori. A função da análise só pode ser definida pelo próprio analisando, na medida em que está em análise, ou seja, a melhora só pode ser definida por ele, e a posteriori. Como no trabalho analítico é o analisando quem decide fazer ou não sua análise, a questão da função desta se dilui, já que é o próprio indivíduo quem se responsabiliza pelo seu “tratamento”. No caso da psicose, e mais especificamente no caso do acompanhamento terapêutico, em que o acompanhante vai à casa de quem acompanha, além de muitas vezes ser contratado por outros que não o próprio acompanhado, esta questão se acentua. A necessidade de uma “melhora” do acompanhado, o que pode estar representado nas saídas, pode se tornar uma medida de “produtividade” do trabalho. Muitas vezes, sair é a “prova” de que o trabalho está “funcionando” (cumpre com sua função) e, frequentemente, é o que “garante” que o acompanhamento tenha continuidade. É preciso estar atento para que o trabalho não seja realizado no sentido do desejo da família (quando o contrato é feito com esta) ou de um ideal social, mas no sentido do desejo de quem é acompanhado. H também trabalha como analista atendendo psicóticos. Ele tem se perguntado sobre as semelhanças e diferenças entre os dois trabalhos, o que aproxima e o que distancia as duas experiências. Ao falar sobre a questão do encontro como um aspecto terapêutico existente no acompanhamento, H correlaciona seu trabalho como acompanhante ao seu trabalho como analista. Segundo ele: “Acho muito parecido com a questão da análise. Tenho estado muito confuso, muito incomodado com esta questão. Porque eu fico com essa impressão... a intenção é de chegar ao mesmo lugar, então não sei...”
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    56 A posição de H é que, tanto o trabalho do acompanhante, quanto o do analista visam uma maior independência do indivíduo, sua autonomia. Quando foi perguntado sobre quais as diferenças que ele percebe quando compara o “lugar” do AT ao “lugar” do analista, ele responde: “Eu achava que quando fosse conhecendo mais, tendo mais experiência isso fosse ficar mais fácil, fosse ficar mais claro, qual é o lugar de cada um, mas a impressão que eu vou tendo é que vai ficando cada vez mais perto e mais parecido. Com a diferença, claro, dos recursos. Mas aí é uma questão de recurso, não é uma questão de lugar. É uma questão que, no consultório, você tem alguns recursos que têm a ver com a técnica da análise, por exemplo. E, no acompanhamento terapêutico, você tem outros recursos que têm a ver com a técnica do AT. Agora, não sei quando se trata de uma diferença de lugar. Principalmente em se falando de psicose. Um psicótico em análise é... você também fica exposto a ... a tudo, eu acho, quase, que você fica exposto no AT.” Para H, o lugar de analista está cada vez mais próximo do lugar de AT. O que distingue um trabalho do outro são os recursos utilizados. Segundo ele, o “lugar” em que se sente colocado pelo paciente, tanto como analista quanto como AT, é muito parecido. H parece se referir à semelhança entre as posições ocupadas na transferência tanto em um trabalho quanto em outro. Mas é possível perceber também que, tanto como analista, quanto como acompanhante, o “lugar” que os pacientes ocupam, para H, é muito parecido. Isto porque, ao falar deste “lugar”, H se remete à sua experiência, à experiência de exposição que vive quando atende pacientes psicóticos. Ele se sente exposto tanto no consultório, quanto no acompanhamento, o que apresenta uma similaridade entre as situações contratransferenciais. Ao ser perguntado sobre a sensação de exposição no trabalho com psicóticos, ele responde:
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    57 “(...) é um contato muito mais pessoal no sentido da exposição. Não tem como não ser.(...) Eu acho que tem a ver com o quanto você tem que estar usando das suas próprias coisas, tudo, enfim, dos teus próprios sentimentos, das coisas que você sente naquela relação com aquele cara.” H sente que tanto como analista quanto como acompanhante precisa usar de seus próprios sentimentos, se expor, quando atende psicóticos. É possível correlacionar esta afirmação com a teoria da contratransferência na relação analítica de psicóticos. Segundo Joseph (1985), frequentemente o analista só consegue compreender a transferência realizada pelo psicótico a partir de sua contratransferência. Rosenfeld (1987) concorda com esta posição de Joseph quando afirma sobre a utilização, pelo analista, de seus próprios sentimentos. Ambos os autores correlacionam a contratransferência à transferência psicótica. No acompanhamento é possível falar em transferência psicótica no sentido analítico? Talvez isso também seja observável a partir dos sentimentos “contratransferenciais” descritos por acompanhantes. H afirma que a utilização de seus sentimentos, tanto no acompanhamento como na análise de psicóticos, lhe provoca uma sensação de “desproteção”. Segundo ele: “Acho que me sinto muito desprotegido (como AT), mas me sinto muito desprotegido também no lugar do consultório. Também me sinto muito... e cada vez me sinto mais... mais em carne viva.” Não é de qualquer exposição que H fala. Sentir-se em “carne viva” é uma expressão extremamente forte, que fala de uma vivência onde a sensibilidade
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    58 está aflorada, ondeo corpo está exposto, onde não há proteção, intermediação de uma “pele” para o contato. Sobre que tipo de contato H fala? Que proximidade é esta que sente estabelecer com a psicose? Podemos falar em uma relação fusional que se estabelece entre acompanhante e acompanhado? Winnicott (1960) descreve um movimento neste sentido ao falar do tipo de relação que o paciente psicótico borderline estabelece com o analista. Segundo ele: “O psicótico borderline atravessa gradativamente as barreiras que denominei de técnica do analista e atitude profissional e força um relacionamento direto de tipo primitivo, chegando até o limite da fusão.” (pág. 150) Assim, segundo Winnicott, é possível a existência de uma relação fusional entre paciente e analista. Casement (1990) também afirma que haveria um período de relação fusional entre analista e paciente. Segundo ele, a análise seria outra oportunidade do paciente elaborar aspectos do desenvolvimento muito primitivos. Isto só é possível quando, a partir de um uso regredido do analista, onde este pode ser vivido como uma extensão do paciente, o analista possa se separar gradativamente. É deste relacionamento “direto” que H fala? É possível fazer um paralelo entre esta descrições de Winnicott e Casement e o que H vive no trabalho como acompanhante terapêutico? Aparentemente sim. É possível pensar que, talvez, um dos trabalhos do AT seja, depois de um momento inicial de proximidade intensa com quem acompanha, possibilitar a “criação” de uma pele, juntamente com seu acompanhado. A criação de um contorno através de uma “separação gradativa”.
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    59 A desproteção, descrita por H, e seus sentimentos, pensamentos e fantasias, que ele reconhece como tendo surgido a partir da relação de acompanhamento terapêutico, tanto com a psicose, quanto com a deficiência, é o que será discutido agora. II O que sente o AT? Ao ser perguntado se ele já havia vivenciado situações de estranhamento durante o trabalho de acompanhamento, H responde que lhe vem à cabeça a relação com seu paciente deficiente: “É que está me vindo muito mais esse cara que é deficiente, e quando você fala nisso me lembro de situações muito, muito angustiantes, muito... bom, isso dá para falar com psicótico também.” Disse a ele que também me interessava pelo que ele pudesse falar a respeito desta relação, já que há poucos relatos de acompanhamento terapêutico fora da psicose. A fala de H levanta uma questão importante: o que está sendo discutido para a psicose pode se aplicar também ao trabalho com deficientes mentais? Winnicott (1954-5) diz evitar utilizar as categorias “psicótico” e “neurótico”, preferindo pensar em termos de regressão. A gravidade de um caso estaria correlacionada ao grau de regressão do indivíduo. É possível pensar o deficiente como um indivíduo regredido? Mas quem regride, regride a algo que já foi, é a volta a um momento anterior. O deficiente, talvez, nunca tenha chegado a “progredir” para que haja uma regressão.
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    60 Esta questão se torna relevante no presente trabalho, em função de H referir- se, em diversos momentos, a seu trabalho como acompanhante de um rapaz deficiente. Como H não faz uma diferenciação significativa entre o trabalho com a deficiência e com a psicose, pois seu enfoque é sobre o isolamento, e como ao falar das sensações vividas contratransferencialmente aproxima os casos, na medida em que tem sensações “estranhas” tanto em um acompanhamento como em outro, na discussão serão utilizados conceitos, como a identificação projetiva e a contratransferência decorrente desta, que foram desenvolvidos a partir da análise de pacientes psicóticos para se referir também a este caso apresentado. Há o risco de se colocar mais uma variável, a diferença entre a deficiência e a psicose, além da diferença entre o acompanhamento terapêutico e a psicanálise. No entanto, os dados trazidos por H, e o paralelo que traça entre os dois atendimentos, levantaram questões, por demais interessantes, para que fossem abandonados. Ao falar de suas sensações com seu acompanhado deficiente, H se refere à sensação de angústia. Esta sensação é lembrada a partir de uma cena que ele descreve: “Me lembrei de uma cena, especificamente, que se repetiu algumas vezes que era justamente nessa história do banheiro. Ele tá lá, e ele entrava numa coisa de despersonalização tão absurda, ele começava a fazer caretas e gestos que me apavoravam muito. De ter vontade de sair correndo, de me perguntar que que eu tava fazendo lá, que trabalho era esse, que história era essa. Muito, muito louco mesmo. Eu tinha umas sensações muito estranhas.” Sem que fosse interrompido, H continua falando das vivências que teve com pacientes psicóticos:
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    61 “Com psicóticos, se for pensar no G, por exemplo, o G me causa sensações assim indescritíveis. De uma angústia, de uma vontade de chorar, engraçado é uma vontade de chorar que não é comum. Tanto com pacientes, quanto na minha vida, não é uma coisa que eu vira e mexe estou com vontade de chorar. Com ele é um nó que sobe que eu tenho que segurar para não começar a chorar do nada. Não é que esteja acontecendo alguma coisa, é justamente por não estar acontecendo nada. É um cara que você fica com ele duas horas e se ele fala três frases é muito. Que não fala, que não me olha, é uma sensação de não existir absoluta. Muitas vezes é isso que acontece com ele. Fico em lugar nenhum, viro nada, coisa nenhuma, acho que tem situações que você passa como AT que são muito ruins, quando você se sente motorista, quando você se sente babá, quando você se sente, sabe? Sei lá eu, pajem. Tem um monte de demandas que eu acho que a figura do AT propicia às pessoas acharem que... já vivi muitas situações assim, de ouvir isso, né, de ouvir: ‘Bom, então é melhor você atender ele nessa hora porque ele precisa ir para a análise, e então, se ele vai com você sai mais barato do que se ele for de táxi.’ Sabe, ter que ouvir isso não é muito agradável. Você vira um motorista de táxi mais barato. É muito ruim uma situação desse tipo. Para além disso eu acho que falando desses lugares do encontro... (acabou a fita e H me pergunta se vou viajar no feriado).” Esta é uma fala que merece ser retomada em partes e discutida, mas é interessante termos uma visão completa na medida em que é possível ver como H se aproxima fortemente da sensação de angústia e depois vai se distanciando. No início da fala sobre seu acompanhamento com um paciente deficiente H diz: “Me lembrei de uma cena especificamente que se repetiu algumas vezes que era justamente nessa história do banheiro, né, ele tá lá, e ele entrava
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    62 numa coisa de despersonalização tão absurda, ele começava a fazer caretas e gestos que me apavoravam muito.” Logo no início da fala, H se remete a esta experiência no presente “ele tá lá”. A partir desta fala é possível pensar que relembrar, retomar estes afetos, é algo que os traz para o presente. Ao descrever os sentimentos é como se os revivesse. A descrição é de muita intensidade e angústia. Lembra descrições, na psicanálise, do que experiência o analista em situações de forte identificação projetiva por parte do paciente. “De ter vontade de sair correndo, de me perguntar que que eu tava fazendo lá, que trabalho era esse, que história era essa. Muito, muito louco mesmo. Eu tinha umas sensações muito estranhas.” H, ao falar da situação de despersonalização de L, a pessoa que acompanha, fala do desejo de sair correndo, distanciar-se daquela relação. A sensação parece ser provocada pela relação com o outro e, portanto, afastar-se é uma saída, assim como H se afasta do sentimento em sua fala. O sentimento que aí aparece é de pavor e H, neste momento, se questiona sobre seu trabalho, qual a função deste e se pergunta sobre o que seria esta “história”, isto que vive. Ao falar da loucura, H diz: “Muito, muito louco mesmo”. É difícil saber, neste momento, a que se refere: o outro é muito louco, as sensações estranhas que sente são muito loucas, o trabalho é muito louco. Talvez a junção destes três elementos, o que configura a relação, seja aquilo a que ele se refere como sendo muito louco. Há uma sensação de estranhamento com relação aos sentimentos vividos. H, depois da descrição destas sensações com seu paciente deficiente, se volta para o acompanhamento de um rapaz psicótico:
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    63 “Com psicóticos, se for pensar no G, por exemplo, o G me causa sensações assim indescritíveis.” Há dificuldade em descrever, em nomear estas sensações vividas. H parece falar de algo inominável. À dificuldade de nomeação segue uma descrição de sentimentos, uma angústia que H associa a uma vontade de chorar quando acompanha este rapaz. Segundo ele: “De uma angústia, de uma vontade de chorar, engraçado é uma vontade de chorar que não é comum. Tanto com pacientes quanto na minha vida, não é uma coisa que eu vira e mexe estou com vontade de chorar. Com ele é um nó que sobe que eu tenho que segurar para não começar a chorar do nada. Não é que esteja acontecendo alguma coisa, é justamente por não estar acontecendo nada.” H percebe esta vontade de chorar como algo incomum em sua vida. A partir desta situação específica, ou seja, é junto de G que H tem vontade de chorar, é possível pensar que esta vontade de chorar pode não ser “só dele”, H. A vontade de chorar pode ser relacionada à sua relação com G. H, ao falar da vontade de chorar que sente quando está com G, não descreve uma tristeza ou um pensamento a partir do qual sente esta vontade. Ao contrário, é a partir da vontade de chorar que busca entender o que se passa. Inicialmente, ele parece identificar uma sensação corporal, “nó que sobe” e, a partir da sensação, H busca uma tradução, uma razão para estar sentindo isto. A explicação que H encontra é a percepção do “nada”, de que a relação com G é marcada pelo vazio, pelo não acontecimento. Aqui retorna a ideia do inominável, de uma sensação sem nome. H segue: “É um cara que você fica com ele duas horas e se ele fala três frases é muito. Que não fala, que não me olha, é uma sensação de não existir
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    64 absoluta. Muitas vezes é isso que acontece com ele. Fico em lugar nenhum, viro nada, coisa nenhuma, (...)” Para falar da sensação do “nada”, H se refere ao silêncio de G, ao número de frases que ele fala durante um encontro, mas há algo além do silêncio: o não olhar e a sensação de inexistir, de ficar sem lugar. H se refere a esta situação como não acontecendo “nada”, quando, na realidade, ele se sente invadido por sentimentos intensos. Sentimentos estes, que parecem remetê-lo a um lugar de morte: “uma sensação de inexistir absoluta”. Logo depois desta fala, H diz que “é isso o que acontece com ele”. Neste momento, é difícil perceber de quem ele fala: Acontece com quem? Não é possível identificar se isto ocorre com H junto de G, ou se é isto o que G vive, a sensação de inexistir. É possível pensar que neste momento, H se identifica à vivência de G, o que poderia ser traduzido da seguinte forma: isto que acontece com G é o mesmo que acontece com H quando está junto de G. Quando se identifica com G, H toma o lugar de inexistente para si. H se refere à sensação de ser “coisa nenhuma”, ou seja, nem mesmo no lugar de coisa, de objeto, é possível existir junto de G. Talvez, a sensação de inexistência de G, seja captada por H, aparecendo neste sob a forma da vontade de chorar. Esta descrição de H, do que sente ao acompanhar G, é uma das mais ricas da entrevista. A partir desta descrição é possível fazer uma correlação entre os conceitos de identificação projetiva, de contratransferência, e de transferência psicótica com o acompanhamento terapêutico. Ao formular a teoria da identificação projetiva, Klein (1946) afirma que este é um mecanismo de defesa presente na posição esquizoparanóide, onde o bebê tem a fantasia de destacar partes más do seu ego e projetá-las para dentro da mãe, a qual, contendo agora as partes ruins do ego do bebê, se torna perseguidora. Posteriormente, Bion (1957,1959) caracteriza a identificação projetiva não apenas como um mecanismo de defesa, mas também como uma
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    65 forma de comunicaçãoda parte psicótica da personalidade. Segundo Bion (1962), o paciente, incapaz de tolerar a frustração decorrente da existência deste sentimentos, os projetaria no analista. Ao analista, caberia suportar e conter estes sentimentos. Rosenfeld (1987), assim como Bion (1959), considera fundamental que o analista contenha os sentimentos caóticos e insuportáveis projetados pelo paciente. A identificação projetiva como uma forma de comunicação é, segundo Bion (1973), percebida através das sensações do analista. É a partir de seus sentimentos, da contratransferência ou da contra identificação projetiva, que o analista pode compreender o que lhe é comunicado. A descrição de H dos sentimentos que tem na relação com G, se assemelha muito a uma descrição feita por Casement (1985), onde este relata uma situação de identificação projetiva por parte de uma paciente. Segundo Casement, a impressão do analista, ao vivenciar a comunicação feita através do mecanismo de identificação projetiva, é de viver algo que não pertence totalmente ao analista. H identifica uma vontade de chorar incomum em sua vida, vontade de chorar que sente como tendo sido causada pela falta de sentimentos do paciente, pela sensação de vazio que experiência na relação com G. O exemplo de Casement é muito semelhante. A proximidade dos exemplos pode sugerir que o que H sente, ao acompanhar G, seja resultado da utilização, por parte de G, do mecanismo de identificação projetiva. O relato de H levanta uma questão com relação à contratransferência na psicose a partir da identificação projetiva. Como a identificação projetiva é capaz de provocar sentimentos no analista, ou no acompanhante? As descrições do mecanismo da identificação projetiva falam de uma projeção que ocorre para “dentro” do objeto, analista ou acompanhante. Ao se falar em uma projeção “dentro” se fala de uma relação de intersubjetividade.
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    66 Para pensar sobre esta questão é necessário retomar as descrições existentes sobre a identificação projetiva. Constantemente se encontra a palavra “estranho”, e mesmo na entrevista realizada, o termo usado para investigar a existência de fenômenos que apontassem para a existência da identificação projetiva foi “estranho”. Se ele, H, se recordava de sensações de estranhamento ao acompanhar. Tanto a sensação de estranhamento descrita, quanto a repetição da própria palavra ao descrever o que sente, remete ao artigo de Freud (1924) traduzido como “O sinistro”, ou “A inquietante estranheza”. Se pensarmos na vivência da contratransferência na identificação projetiva como uma percepção do sinistro, nos deparamos com a hipótese de que não são as projeções do paciente que são percebidas pelo analista ou acompanhante, mas que a partir desta projeção, emergem conteúdos pertencentes ao próprio analista que se encontravam reprimidos. Dentro desta hipótese, não considerando a contra identificação projetiva como algo que ocorre em decorrência de sentimentos pertencentes ao paciente vividos pelo analista, mas sentimentos pertencentes ao analista que são mobilizados a partir das projeções do paciente. A contra identificação projetiva não se distingue, portanto, da contratransferência, na medida em que também é proveniente de aspectos não analisados do analista. A força das sensações provenientes de uma identificação projetiva talvez se deva ao fato de serem conteúdos muito primitivos reprimidos do analista que são mobilizados. Daí, talvez, o risco para a personalidade do analista ao tratar de psicóticos a que se refere Rosenfeld (1987). Segundo Segal (1977), a capacidade do analista de perceber e conter a parte infantil do paciente depende da capacidade do analista de conter suas próprias partes infantis.
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    67 Talvez seja em função do mecanismo referente à experiência do “estranho”, conforme Freud a descreve, que se deva a estranheza das sensações descritas por H, estas sensações “indescritíveis”. Fédida (1988) escreve sobre a experiência do estranho na contratransferência. Segundo ele, a teorização da contratransferência é uma tentativa de tornar “pensável” a experiência subjetiva que vive o analista ao viver uma situação de sinistro na relação analítica, que ocorre particularmente em transferências delirantes. H, depois de falar sobre a sensação de inexistir junto de G, o que parece haver sido uma experiência do sinistro no acompanhamento, afasta-se do que descreve/revive, e passa a falar do desconforto que é ser tomado por motorista, ou pajem, quando está acompanhando. Mas, por mais desagradável que seja, o motorista tem um lugar de existência, diferentemente de como H se sentia momentos antes, inexistente. Neste momento, é possível pensar que, ao considerar-se motorista, H já pôde distanciar-se, refletir e, inclusive, sentir raiva deste lugar em que é colocado. H segue: “(...) acho que tem situações que você passa como AT que são muito ruins, quando você se sente motorista, quando você se sente babá, quando você se sente, sabe? Sei lá eu, pajem. Tem um monte de demanda que eu acho que a figura do AT propicia às pessoas acharem que... já vivi muitas situações assim, de ouvir isso, né, de ouvir: ‘Bom, então é melhor você atender ele nessa hora porque ele precisa ir para a análise e então se ele vai com você sai mais barato do que se ele for de táxi.’ Sabe, ter que ouvir isso não é muito agradável. Você vira um motorista de táxi mais barato. Então é muito ruim uma situação desse tipo. Para além disso eu acho que falando desses lugares do encontro... (acabou a fita e H me pergunta se vou viajar no feriado).”
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    68 De uma percepção angustiante, H passa para uma cena ruim vivida no trabalho como acompanhante. Mas esta é uma situação ruim concreta, há “algo”, como “se sentir” babá, pajem, ou “virar” um motorista de táxi mais barato. A irritação parece vir não apenas de ser colocado pelo outro neste lugar (“de ouvir isso”), mas de se ver neste lugar, quando “se sente” ou “vira” um motorista. Além de descrever um incômodo ligado a um fato concreto, H também insere outras pessoas ao falar deste incômodo: “Tem um monte de demanda que eu acho que a figura do AT propicia às pessoas acharem que...”. Este momento talvez possa exemplificar uma das formas encontradas por H para lidar com a angústia surgida na relação com G: Da angústia do lugar de inexistência, passa para uma irritação com o lugar ocupado (concreto), e daí sai, se remete a outras pessoas, um terceiro que entra neste momento para separá-lo do contato intenso com G. A fala vai num crescente de intensidade que, ao se aproximar de questões muito difíceis, precisa ser interrompida. No decorrer da entrevista, ao ser perguntado a respeito de sensações corporais, H volta a se referir ao que sente quando acompanha G: “Com o G mesmo, essa coisa do corpo mesmo, a coisa do nó na garganta literalmente. De sentir um nó, sentir uma coisa travada de não conseguir ver nenhuma brecha de contato. Nenhuma brecha de... não te vir nenhuma ideia de uma coisa de uma palavra que você possa dizer e que você saiba que vai tocar em algum lugar mais significativo. Tudo vai ao vento, seja lá uma atividade ou uma palavra.” H correlaciona a concretude das sensações corporais, “o nó na garganta”, com a impossibilidade de contato através da palavra. Mas, é possível pensar que o nó, que aparece frente à falta de brecha para contato é, em si, uma forma de contato. Um contato não simbolizado, não transformado, a sensação no lugar da
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    69 palavra. A sensaçãode H, de não tocar o outro com ações ou palavras existe, mas talvez, porque exista aí, um toque muito anterior à palavra. Com relação aos sentimentos que são despertados por G, H também diz: “O G, por exemplo, essas sensações, você está exposto a isso seja lá em que lugar você estiver. Se você estiver próximo mesmo daquele cara você vai estar contaminado por esses sentimentos que nem sempre são agradáveis e que... precisa estar a fim de ficar com ele mesmo, ou de lembrar que eles existem.” Nesta fala, H se refere às semelhanças existentes entre o lugar de analista e o de acompanhante. Para ele, as sensações que sente com G independem da posição que ocupa, seja como AT, seja como analista. A questão é “estar próximo mesmo”, sendo percebida a proximidade como o fator que o leva a ser “contaminado” por esses sentimentos. Segundo Aurélio (1986), a ideia de contaminação está relacionada à de contágio, a “transmissão de doença de um indivíduo ao outro por contato imediato ou mediato.” (pág. 462). Falar em contaminação é falar de algo que vem de fora, algo que nos é “transmitido” por alguma via. Assim, podemos pensar que os sentimentos que contagiam H, são percebidos como vindos de G. Quando H fala da situação de estar próximo mesmo da pessoa que acompanha, parece estar se referindo à “abertura”, à continência aos sentimentos confusionais (Bion 1962, Rosenfeld 1987) necessária na relação com o psicótico. Talvez seja esta possibilidade de contenção, efetuada tanto pelo analista quanto pelo acompanhante, que permita que as projeções do paciente sejam recebidas e reordenadas. Estes sentimentos, que nem sempre são agradáveis, podem se referir a uma necessidade do paciente de tentar destruir o objeto (Winnicott 1971). É a partir da possibilidade de continência destes sentimentos, a sobrevivência do objeto, o analista permitir ser “usado” pelo
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    70 paciente, que opaciente pode perceber estes sentimentos como não sendo tão destrutivos quanto supunha. Segundo Winnicott (1971), a percepção do paciente de sua não onipotência, pois o objeto sobrevive à tentativa de destruição, pode ser a forma de o paciente reencontrar-se com o princípio de realidade, reconectar-se ao mundo. Esta vivência pode exercer uma grande pressão sobre o analista. Esta pressão pode ser percebida através da observação dos sentimentos contratransferenciais do analista. No nosso caso, esta pressão é percebida pelo acompanhante. São as “sensações nem sempre agradáveis”, como diz H. H afirma ser necessário “estar a fim de ficar com ele mesmo” (G?), “ou de lembrar que eles existem” (os sentimentos?) para suportar os sentimentos. Segundo H, não é possível aproximar-se de G e não entrar em contato com estes sentimentos, que remetem a uma sensação de não existência. H se lembra, neste momento, de outro acompanhamento que fez, em que a pessoa que acompanhava delirava todo o tempo. H descreve à situação da seguinte forma: “Tinha um cara (J) que eu atendia, um cara engraçadíssimo, um cara bárbaro, um japonês (risos). Ele pintava a casa dele inteira, a casa dele era grande, todas as paredes eram pintadas com as cores mais... ele tinha muito uma linguagem própria, ele tinha altos símbolos que ele... muito ligados ao exército, e ele era um cara que não é que de vez em quando ele delirava. Ele delirava todo o tempo. Todo o tempo, não existia um tempo em que ele pudesse entender que pão era pão. Pão não era pão, pão era concreto, concreto que é feito de batata. Então, eu ia embora e ele me dizia: ‘Mas você vai pra onde?’ Ele sabia que eu morava aqui perto do centro. ‘Eu vou pra minha casa, eu vou pro consultório.’ ‘Você vai pro centro? Mas lá não tem ar.’ ‘Como não tem ar? Tem ar, eu vim de lá, eu vim respirando.’ ‘Não, lá não tem ar, você não pode ir pra lá. Então pelo
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    71 menos se fortifica’. Ele morava no fim da Vila Carrão, um lugar bem bairro, apesar da casa dele ser uma casa muito grande ficava em uma rua super simples e tinha um boteco, botecão daqueles de sinuca, de bêbado, sujo, e que ele ia pra comer aquelas batatinhas em conserva (risos), naqueles vidros imundos ou tomar guaraná com groselha, por exemplo, ou qualquer mistura que ele inventasse que pudesse ser um fortificante. E quase que me obrigava a comer aquilo e a tomar aquelas coisas pra eu me fortificar para conseguir chegar. Isso porque ele duvidava muito que eu fosse conseguir, não só porque não tinha ar, mas porque o carro era de bambu, os eixos do carro eram todos de bambu. E aí tinha umas coisas, não era muito frequente isso, mas tinha umas sensações no corpo de fraqueza, de medo, de entrar numas de que ia acontecer alguma coisa mesmo, apesar de que não era o mais comum. O mais comum era ficar... me divertia muito, né, ele era um cara muito engraçado. Muito especial, um cara que eu gostei muito de conhecer, uma figuraça, muito engraçado. Com altas, altas pirações assim. Muito pirado. Conseguia ser mais pirado que o F, que é difícil, né. Não é fácil ser mais pirado que o F. Inclusive o F tem umas coisas, né, uns flashes assim, que você fala: ’Gente é o F que está falando isso’. É bárbaro, o F tem umas tiradas muito geniais. E esse cara também tinha mas era numa língua completamente outra. Todo o tempo, todo o tempo. Fui visitar, ele foi internado em Itapira, e aí isso foi mais para o fim do AT que a família ficou sem grana, tal. A última vez que eu o vi foi na época da internação, eu fui ver ele lá no hospital. E ele dizia que aquilo era um palácio. ‘Hoje você veio conhecer o palácio?’ ‘Que palácio?’ ‘Aqui é um palácio.’ E era. É mágico isso. Acho que é muito... ele tinha uma descrição dele próprio para cada coisa do mundo. Uma coisa muito legal.” J é descrito por H de uma forma muito viva, muito rica. Logo no início, H fala de como J tem uma linguagem própria, uma linguagem delirante, onde “pão não era pão”, onde a fala existe, diferentemente de G, mas possui outro sentido, um
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    72 sentido próprio. Estafala envolvente, leva H a tomar os fortificantes oferecidos por J, e junto com os fortificantes, também vem o medo: “E aí tinha umas coisas, não era muito frequente isso, mas tinha umas sensações no corpo de fraqueza, de medo, de entrar numas de que ia acontecer alguma coisa mesmo” A sensação de medo é descrita, juntamente com a de fraqueza, como sendo uma sensação corporal. Apesar de saber que seu carro não era feito de bambu, a força desta imagem criada por J, é capaz de produzir sensações em H. Nesta fala, H descreve outras sensações que ocorrem no acompanhamento: a sensação de magia, onde o mundo pode ser redescoberto através de uma nova linguagem, de uma forma lúdica. Sobre as boas sensações existentes no acompanhamento H fala: “Sensações no corpo... era um cara (J) que disparava um pouco isso. Mas acho que é... isso vai e volta, né, nos dois sentidos. Acho que muitas vezes as sensações são muito boas também. As sensações são... sei lá, você ir mal atender, você está mal, está com dor no estômago, está com dor de cabeça e dali meia hora de atendimento não ter mais nada. É uma coisa que também te trata. Não é só que te faz mal. A gente percebe mais quando faz mal.” As sensações possíveis são também boas, sendo interessante a ideia de que acompanhar também trata o acompanhante. Novamente, assim como quando fala das más sensações, H relaciona as boas sensações com “deixar de ter uma dor de estômago”, por exemplo, que o estava incomodando. A sensação de que algo bom se passa, também parece passar através de um registro corporal. A percepção parece se dar, novamente, a partir do corpo para depois ser transformada em palavra. H parece falar de um “ganho”, em termos de saúde, a partir da experiência como AT pois, “também te trata”. Podemos pensar que
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    73 quando as “perdas”se tornam maiores que os “ganhos”, o trabalho se torna insuportável. H fala de um trabalho que teve como acompanhante e que deixou: Ele trabalhou na República, sendo esta uma instituição, uma casa, em que mora cerca de cinco indivíduos psicóticos e, permanentemente, um acompanhante terapêutico que também é um “morador” da casa. A equipe de acompanhantes conta com oito pessoas que trabalham em forma de rodízio. Sobre esta experiência, a de ter sido um “morador” da República, H fala: “É um trabalho do AT mais específico. Que é essa coisa de morar juntos, isso é... acho que aí dá pra falar de coisas muito, muito estranhas que você sente ali, numa convivência daquela, com um nível de proximidade daquele, é estranho mesmo você conviver com psicótico. É estranho...” Ao ser perguntado em que consistiria este estranhamento, H responde: “Porque o cheiro é diferente, porque a circulação é diferente. E isso que eu... sei lá, não sou muito, eu também não sou muito adequado num certo sentido, em relação a algumas coisa que tem a ver com isso. Por exemplo, convivência, horário de dormir, eu durmo muito tarde, a maioria deles também, ou dorme muito tarde, ou nem dorme, então... mas é diferente, é diferente, você estar num lugar assim, né. A noite é de um peso, à noite... eu saí de lá porque não suportei a noite. A noite é de um peso indescritível, de muito medo, de tudo, né, do que pode acontecer, da responsabilidade que você assume ali, mesmo que... sabe? Dizendo que não está assumindo, dizendo que não é função mesmo, se o cara quer sair... Tem essa ideia, se o cara quer sair ele sai, mas não dá para você ver o cara sair, F, às duas e meia da manhã, sem sapato, dizendo que vai para o hospital. ‘F, você não pode ir para o hospital, são duas e meia da manhã’. ‘Não, mas eu vou lá, eu pego o ônibus, eu não sei o que.’ ‘Não F não dá’, e o F já está lá na esquina e eu tentando ir atrás falando com ele. Às vezes dá, às vezes não dá. Às vezes você acorda no dia seguinte com
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    74 alguém te ligando do hospital te dizendo: ‘O F passou a noite aqui, o que aconteceu?’ Aconteceu foi que ele foi embora. É muito estranho, né.” Esta fala também será desdobrada: H inicia descrevendo o estranhamento como um “cheiro diferente”, o que pode ser entendido tanto literalmente, os cheiros existentes na casa, uma percepção corporal, quanto metaforicamente, ao se pensar na existência de “algo no ar”. De que há algo que “emana” na relação com um indivíduo psicótico. Ao cheiro, é associada “uma circulação diferente”. A circulação é outro termo que tanto pode estar associado à ideia de movimento quanto, novamente, a uma ideia corporal. É possível pensar que, junto a esses psicóticos, H percebe um corpo e uma forma de movimento diferentes. Logo depois de falar destas diferenças que percebe no psicótico, diferenças marcadas pela sensorialidade, H fala de sua inadequação: “(...) eu também não sou muito adequado num certo sentido, em relação a algumas coisa que tem a ver com isso. Por exemplo, convivência, horário de dormir, eu durmo muito tarde, a maioria deles também, ou dorme muito tarde, ou nem dorme, então...” H parece falar da necessidade de certa “inadequação” por parte do AT, o que tornaria possível a convivência deste com a psicose, e com as diferenças decorrentes dela. H faz uma aproximação entre sua forma ser e a dos outros moradores da República, quando fala do horário em que dorme, mas logo depois retoma: “... mas é diferente, é diferente, você estar num lugar assim, né.”
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    75 A partir da aproximação de sua própria experiência com a experiência do psicótico, H retoma a questão da diferença, a diferença existente entre ele e as pessoas que acompanha. H descreve neste momento o que se tornou muito “pesado” neste trabalho: “A noite é de um peso, à noite... eu saí de lá porque não suportei a noite. A noite é de um peso indescritível, de muito medo, de tudo, né, do que pode acontecer (...)” Aqui, aparece a ideia de um sentimento, ou de uma sensação, que não possui possibilidade de nomeação: o peso da noite é “indescritível”. Junto a isto, a referência a um “peso” também fala de uma experiência física, corporal. A esta experiência está ligada a ideia de medo, um medo “de tudo”, como se a convivência com a psicose provocasse uma sensibilidade muito grande, onde as fantasias parecem poder se concretizar a qualquer momento. A partir desta sensação de medo, H se remete a uma situação vivida. Descreve a cena em que F, um dos moradores da República, resolve ir para o hospital às duas e meia da manhã. Uma situação concreta que parece afastar, na fala, a descrição de um medo inominável. Quando volto a perguntar sobre o medo, H responde: “Eu acho que medo, bom... se for falar de fantasia rola tudo, né. Medo de morte mesmo, de tragédias, medo de suicídios, medo de coisas assim.” Além das sensações, H descreve fantasias que tinha à noite quando acompanhava na República. Descreve medos ligados à morte, sem um objeto definido: não parece ser o medo de que uma pessoa específica, F por exemplo, se suicide. É como um medo que envolve ao próprio H, como se a vivência de proximidade com a psicose, e mais especificamente, a proximidade à noite, o levasse a vivenciar aspectos seus, talvez ligados à questão da morte. H correlaciona estas fantasia a um lugar de “impotência”. Segundo ele:
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    76 “E acho que você fica perto de um lugar de muita impotência. Eu acho que é um... a República é um lugar que te joga na cara isso, teu limite, o que você pode fazer por aquelas pessoas e que não dá conta daqueles buracos todos. Isso é difícil.” A impotência é um termo que pode nos remeter tanto a “um lugar”, como diz H, como a algo que se opera no corpo. É um termo que remete tanto à sexualidade, quanto ao tipo de sentimento que H experimenta na relação que estabelece com os moradores da República. Parece haver frustração em não poder dar conta “daqueles buracos todos”, estando marcada esta relação pela forma acentuada com que aparecem os limites do próprio acompanhante. H marca a dificuldade em saber o que ele pode fazer por estas pessoas que acompanha. Sobre a sensação de impotência na relação com a psicose e o cansaço que isto provoca H fala: “Acho que o trabalho com psicose é um trabalho muito ingrato em muitos sentidos. No sentido do desenvolvimento mesmo, da solução desses casos, de que é muito... sempre fica muito abaixo do seu desejo em relação àquela pessoa, ou do que você deseja que aquela pessoa possa conquistar. Então isso cansa, cansa você ter que ficar... meio que se contentando com pouco, aí nesse sentido, e meio que estar se deparando com esse lugar de impotência, sempre, muitas vezes, acho que isso é o que cansa.” H fala da sensação de impotência que tem quando se depara com a diferença existente entre seu desejo, com relação a quem acompanha, e o quanto este pode corresponder ao seu desejo. Quando H se dá conta do seu desejo e da falta de desejo do outro, percebe o trabalho como um trabalho “ingrato”. É como
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    77 se a energiadespendida por ele, H, não correspondesse à melhora de quem acompanha. Este grande dispêndio de energia, com um pequeno retorno, é um dos fatores que levam H a se sentir cansado no trabalho como AT. Rosenfeld (1987) alerta para os riscos existentes para a personalidade do analista que trata de psicóticos. Estes riscos existem em função da relação do analista com as partes psicóticas da personalidade do outro, o que estimula “inevitavelmente” os sentimentos de impotência e de onipotência, ligados às partes psicóticas da personalidade do próprio analista. Segundo o relato de H, os riscos a que Rosenfeld se refere no trabalho analítico também estão presentes no trabalho do acompanhante terapêutico. Sobre a República e a noite, H se refere à dificuldade que alguns acompanhantes tinham em dormir. Este não era seu caso, ele dormia, mas H se refere a um “incômodo” ligado à noite. Segundo ele: “Olha, na verdade não era nem que eu dormia mal, eu não dormia mal nesse sentido de não conseguir dormir, como aconteceu com algumas pessoas durante algum tempo. Não conseguir dormir, ficar fritando na cama, não era nem muito isso, dormia, mas eu acho que era muita frequência, o incômodo de pensar, aí o incomodo do tempo, o incômodo...” H fala de um desconforto relacionado ao tempo. Segundo ele, é difícil sair de casa um dia para trabalhar e só voltar no outro dia à noite. Isso, com o passar do tempo, começou a se tornar insuportável, e foi a razão pela qual ele afirma ter deixado o trabalho na República. H acrescenta que as experiências que vivencia no acompanhamento, não são decorrentes do acompanhamento em si, mas da proximidade estabelecida com
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    78 um indivíduo psicótico,ou seja, sentir isto que sente não é uma exclusividade do acompanhante. Segundo ele: “Acho que isso (a percepção de sua impotência) é difícil no trabalho com psicóticos sempre, desde qualquer lugar.” Segundo H, não é o fato de ser acompanhante ou analista que provoca as sensações que descreve, mas a proximidade. Assim, qualquer indivíduo que se aproxime de um indivíduo psicótico também está sujeito a sentir o que H diz sentir. Em resumo, H descreve as seguintes sensações surgidas a partir da relação com indivíduos psicóticos e deficientes: Pavor, angústia, estranhamento, loucura, vontade de chorar, vazio, sensação de inexistir absoluta, nó na garganta, contaminação, fraqueza, medo, fantasia de morte, fantasia de tragédia, medo de suicídios, impotência, incômodo. H marca que, não só de sensações desagradáveis, se faz o acompanhamento. Ele sente que o trabalho também o trata, e diz que há situações em que ele se sentindo mal vai acompanhar, com dor de estômago, por exemplo, e acompanhando fica bem. É interessante fazermos um paralelo com a descrição das possíveis manifestações da contratransferência e da contra identificação projetiva feita por alguns autores. Segal (1977) descreve as sensações de desconforto, dor, ansiedade, confusão, culpa, raiva, irritação e desamparo, sentidas a partir de uma relação com uma paciente, a qual, segundo Segal, se utilizava do mecanismo de identificação projetiva. Rosenfeld (1987) também faz descrições sobre o tipo de reação provocada no analista pela identificação projetiva. Segundo ele, é possível sentir mal estar
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    79 físico, sono, incapacidadede se concentrar, confusão, despersonalização, vazio, fraqueza e medo de enlouquecer. Podemos, a partir destes dados, falar de uma aproximação da experiência vivida pelo analista de pacientes psicóticos, da experiência vivida por H no acompanhamento terapêutico. Isto permite pensar na possibilidade da utilização, por parte do acompanhado, do mecanismo de identificação projetiva no acompanhamento terapêutico, e da percepção da mesma, pelo acompanhante, através da constatação de seus sentimentos contratransferenciais. Há, no entanto, características que diferenciam os dois trabalhos. O que poderia ser caracterizado como próprio ao acompanhamento que poderia funcionar como um facilitador para a utilização da identificação projetiva pelo paciente? E quais as características do trabalho que permitem a percepção desta, através dos sentimentos contratransferenciais, pelo acompanhante terapêutico? III Hipóteses sobre o sentir: particularidades do acompanhamento terapêutico A partir das diversas situações descritas por H, é possível perceber uma série de características próprias desta forma de intervenção, o acompanhamento terapêutico, que podem propiciar as sensações de “estranhamento” vividas pelo acompanhante. Dentre estas características estão: • A intimidade: o espaço e o corpo; • A relação da dupla com o social; • A duração: tempo ou temporalidade?; • O “lugar” do AT e • A falta de nomeação.
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    80 1. A intimidade:o espaço e o corpo Um aspecto importante deste trabalho é intimidade muitas vezes existente entre acompanhante e acompanhado. Este é um aspecto fundamental no trabalho como AT: a exposição em uma vivência de intimidade. Logo no início da entrevista, H descreve uma cena vivida em um de seus acompanhamentos: “(...) o primeiro atendimento do C foi numa sauna, com uma sunga, um cara que eu nunca tinha visto, o cara dentro de uma puta de uma piscina, ou uma banheira de hidro, não sei o que era aquilo, mais para uma piscina mesmo, com um cara que eu estava acabando de conhecer, tinha conhecido há uma hora atrás e a gente ali sem roupa falando (risos). Foi muito marcante pra mim essa cena.” Esta é uma cena de muita intimidade que acontece em um acompanhamento no primeiro encontro. Uma relação que se estabelece quase que imediatamente. Há erotismo presente nesta cena. Penso que um dos aspectos mais difíceis de serem trabalhados no acompanhamento terapêutico é a transferência erótica. Rosenfeld (1987) caracteriza a transferência na psicose como uma relação em que há a predominância da identificação projetiva e uma tendência a apresentar, desde o início do tratamento, uma forte transferência erótica, e tanto o analista quanto o acompanhante precisam lidar com este aspecto da transferência. Assim como na análise, a questão da sexualidade é uma questão recorrente dentro do trabalho do AT. E, como na análise, a abstinência por parte do acompanhante é um fator fundamental no tratamento. É possível pensar que a situação analítica é uma situação mais “protegida” para o analista, em função da existência de um setting definido. O acompanhante, por sua vez, possui como setting apenas o pagamento e o tempo
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    81 de duração doatendimento. O espaço em que ocorre o trabalho e a exposição do acompanhante são muito diferentes do que ocorre em um processo analítico. Um acompanhante pode acompanhar no quarto de um acompanhado, ou em uma piscina, como no caso de H, sem que isto deixe de ser acompanhamento, mas para isso, é preciso que os limites do que é pertinente ao trabalho estejam internalizados em quem acompanha. Esta é uma questão bastante delicada e é um dos fatores que torna fundamental o trabalho de supervisão e de análise por parte de quem acompanha. Pouco depois, na entrevista, H descreve outra cena, agora vivida com seu paciente deficiente: “Por exemplo, esse cara, eu ia para o banheiro com ele. Tomar banho era uma coisa que ele não fazia sozinho. A mãe tinha que ficar lá escovando, ou a empregada, ou alguma coisa assim. E era um cara que podia entrar embaixo de um chuveiro e tinha que ficar falando: lava a orelha, lava o braço, lava não sei o que, mas enfim, ficava lá com ele. De algum jeito ajudando ele a fazer isso de um jeito mais independente.” Nestes dois exemplos, H fala de situações que ocorrem no banho, uma situação sem roupas, onde não se “fala” da intimidade, mas se “vive” a intimidade. São situações marcadas pela exposição. Não é uma intimidade “simbólica”, na palavra, mas se dá no concreto, na aproximação, na ação. Apesar de estes dois exemplos descreverem situações similares, é possível observar uma grande diferença em relação ao lugar ocupado na transferência por H. Enquanto o acompanhamento na piscina é marcado pelo erotismo, o acompanhamento no banho é marcado pela maternagem. Diferentemente do que ocorre na situação analítica, o acompanhante pode ocupar um lugar “concreto” de maternagem, ensinando o acompanhado a tomar banho, por exemplo. É possível pensar que pacientes que fazem este tipo de transferência
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    82 possuem pouca possibilidadede verbalização, em função do estado regressivo (Winnicott 1954-5) em que se encontram. H parece agir a partir da contratransferência, pois as transferências erótica e materna aparece a partir da forma como ele, H, se coloca nas relações. Segundo H, é necessário “se expor” na relação com a psicose, mas isto na medida em que há sentido para o acompanhado, e não para o acompanhante. Sobre as características de intimidade e proximidade existentes no acompanhamento, H fala: “Estou aqui falando e lembrei de dois exemplos justamente de tomar banho, de ficar sem roupas, porque acho que é isso mesmo. Acho que é ficar meio nu de muitas coisas. Você tem que estar se enfrentando com essa gente, você é olhado, porque eles são olhados, e você é olhado junto, o que que você está fazendo com um cara daquele. E isso é muito frequente.” H relaciona o trabalho do acompanhante a uma situação de desnudamento. “Ficar meio nu”, fala de uma exposição do corpo e de si. Quando H relaciona este desnudamento ao desnudamento do olhar social, fica identificado com o acompanhado, ocupa uma posição muito próxima. O olhar do outro o coloca no mesmo lugar do considerado louco. O AT também se torna um “estranho” por acompanhar um indivíduo “estranho”. Isto remete à relação do AT e da dupla, acompanhante e acompanhado, com o social. 2. A relação da dupla com o social H descreve uma situação que ocorre na rua quando está acompanhando o indivíduo que é deficiente:
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    83 “ Eu vou lá com ele. Então é um cara que, quando fica feliz, me beija onde estiver, agarra. Ele fala muito pouco, tem uma coisa muito infantil mesmo, muito por conta da própria deficiência, então é estranho, né. É estranho. Tem cenas que pros outros devem ser muito estranhas. Às vezes incomodam, mas, a maioria das vezes, acho que já não incomodam mais. Mas é uma coisa que você também fica muito exposto nesse sentido, né, no sentido do social mesmo, né. Você entra com o cara no Mcdonalds todo mundo olha. Não tem como isso não acontecer. Então você fica meio exposto mesmo, o que eu acho que é legal. A maioria das vezes eu acho que isso é legal. Acho que dá uma sensação de que você está fazendo uma coisa importante. Poder estar tentando fazer com que isto fique cada vez menos estranho.” Assim, no trabalho como AT, H não enfrenta apenas a sensação de exposição na relação dual, como ocorre na relação analítica, mas também se depara com uma exposição frente ao social. H encara esta exposição, que se dá nas relações sociais que o AT vive quando acompanha, como um trabalho com o social também. Acompanhar é uma forma de inserção do louco no social, o que pode fazer com que a sociedade se aproprie de seus loucos. Mas isto não se dá sem que haja um “custo”, para quem acompanha. Segundo H: “De todo jeito, às vezes dá vergonha e mando ele parar com aquilo, ou então eu acho engraçado, ou se não... acho que depende mesmo da situação. Muitas vezes você fica ali como... como depositário daquela esquisitice, daquele estranhamento.(...) É, você também fica meio esquisito, né. “ “Ser depositário da esquisitice” e “se tornar meio estranho”, indica que o AT é identificado com o acompanhado. Sobre a dificuldade de estar neste lugar, H fala:
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    84 “Às vezes é insuportável ocupar este lugar, o AT se dá conta do olhar de fora, da inadequação, de sua identificação enquanto estranho.” Por que o olhar de fora se torna tão “insuportável”? É possível pensar que não só o AT é identificado com o louco, como ele próprio acaba se identificando com quem acompanha, o que torna a loucura, em determinados momentos, insuportável. É possível pensar também que neste momento, o AT pode estar identificado com este que está fora, portar o olhar de quem se dá conta da inadequação, o olhar do social, para aquele que acompanha. Outra hipótese sobre a insuportabilidade da ocupação de um lugar junto ao louco é que o AT sendo tratado da mesma forma como é tratado aquele que acompanha, sente “na pele” o lugar da loucura, muitas vezes um lugar de exclusão, o que pode ser insuportável. A relação com o social é uma característica particular do acompanhamento terapêutico. Aqui se encontra um dos pontos de maior distanciamento desta forma de trabalho com o trabalho analítico. 3. Duração: tempo e temporalidade H se refere à sensação de cansaço na República e sua relação com o tempo: “Para mim, pelo menos, o que batia como um cansaço na República era o tempo concreto. Você entrar num lugar que é um lugar de trabalho e que por mais que você esteja querendo chegar perto de estar ali de um jeito que seja estar ali de um jeito o mais pessoal possível (...) a ideia do tempo ali é muito complicada, muito complicada. Você chega às cinco horas da tarde, se a história está quente e você ter que saber que você vai ter que lidar com aquilo e com você mesmo durante vinte e quatro horas, por exemplo, é muito difícil, parece uma eternidade(...). Acho que tem uma
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    85 coisa concreta do tempo mesmo, e tem a coisa do tipo mesmo de coisa, a relação, que na verdade acho que é o que cansa muito mais...” Esta é uma característica do trabalho como AT que inexiste na relação analítica. Eventualmente, um acompanhamento pode durar vinte e quatro horas, às vezes dias, quando se viaja com um acompanhado. Este fator é importante, considerando a intimidade e proximidade existente na relação. O AT fica exposto durante um tempo, às vezes bastante longo, a esta relação com um indivíduo psicótico, ou deficiente, no caso de H. H descreve uma mistura entre tempo concreto e tempo “eternidade”, sem tempo. O longo tempo concreto parece remeter a um tempo infinito, de um desgaste excessivo por parte do AT. No final da fala transcrita H acrescenta “(...) a relação, que na verdade acho que é o que cansa muito mais...”. Assim, não é de um tempo qualquer que ele fala, mas de uma associação entre conviver com uma temporalidade particular existente na psicose, associada a um longo período de tempo. Talvez por isso a relação se torne particularmente “cansativa”, desgastante. 4. O lugar do AT Considero ser este um fator importante para se pensar as intensas reações emocionais do AT. Ao falar de um “lugar do AT”, me refiro ao “lugar” ocupado pelo acompanhante junto ao acompanhado, ou seja, que trabalho é este que se encontra em um lugar intermediário entre “amigo” e terapeuta? Sobre esta dificuldade, H fala sobre sua relação com o paciente deficiente:
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    86 “Nossa, eu conheço esse cara há mais de dez anos. Então é uma coisa muito... já nem sei mais que que eu sou dele e o que ele é meu, porque é uma coisa muito, muito próxima.” H correlaciona a dificuldade de pensar a relação com L, como sendo uma relação terapêutica, com a proximidade existente. Sobre a questão da proximidade, da intimidade, H cita o acompanhamento existente na República, e o tipo de convívio que existe entre os ATs e os outros moradores, já que a proposta da República é que o AT seja também um morador. Segundo H, este lugar de terapeuta/morador é muito difícil em função da: “(...) responsabilidade que você assume ali (na República) dizendo que não está assumindo, dizendo que não é função.” A proposta parece ser a de uma alteração na relação assimétrica existente entre terapeuta e paciente. Ao mesmo tempo, parece não ser possível que esta simetria se dê na prática, já que há uma responsabilidade assumida pelo AT, ainda que negada, ao estar ali. Segundo H: “Cansa, né, cansa, porque é isso, você por mais que queira se resguardar, se proteger e estar lá no coiso, lá no... não sei como chama aquilo, as normas da casa que o AT se recolhe às dez da noite, ou que ele pode se recolher às dez da noite. Mas você não vai conseguir fazer isso, porque você sabe que você está lá e você sabe que uma parte tua tem que estar disponível pra o que possa acontecer ali. Então isso é estressante de um jeito que... acho que é o que cansa no AT, em qualquer lugar, para além da questão de São Paulo e do trânsito. Você saber que tem que estar disponível, esse lugar das dificuldades...” É possível verificar uma mistura entre a situação de trabalho e “estar no trabalho da forma mais pessoal possível”. Isto coloca o AT num lugar sem lugar,
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    87 em uma posiçãoindefinida de morador/terapeuta. Este pode ser um fator estressante, em função da falta de uma definição mais clara a respeito de qual o lugar ocupado: afinal é morador ou trabalha? Enquanto morador tem o direito de ficar só em seu quarto, mas enquanto terapeuta tem de estar “disponível” para o que possa acontecer. Um lugar marcado pela ambiguidade, aspecto muito acentuado no trabalho específico da República, mas que parece estar presente em todo trabalho de acompanhamento. Não é por acaso que o antigo nome do AT era “amigo qualificado”, e também não é por acaso que foi mudado para “acompanhante terapêutico”. O campo, a delimitação do que é o trabalho do AT, parece ficar mais claro, com o passar do tempo, para os próprios ATs. Neste sentido, o trabalho do AT é muito diferente do trabalho analítico. A psicanálise possui uma forma mais definida de trabalho e o “lugar” do analista é mais claro, em função do enquadre estabelecido, que o do AT. 5. A dificuldade em nomear O que está sendo chamado como “dificuldade em nomear” pode ser observado quando H descreve as sensações que tem quando acompanha: “Com o G mesmo, essa coisa do corpo mesmo, a coisa do nó na garganta literalmente. De sentir um nó, sentir uma coisa travada de não conseguir ver nenhuma brecha de contato. Nenhuma brecha de... não te vir nenhuma ideia de uma coisa de uma palavra que você possa dizer e que você saiba que vai tocar em algum lugar mais significativo. Tudo vai ao vento, seja lá uma atividade ou uma palavra.” Nem a palavra nem a ação parecem ser capazes de falar, de dizer o que se vive no corpo. A dificuldade de nomeação do que vive pode ser um dos fatores que levam à sensação de estranhamento descrita por H. Na medida em que se dá conta da falta de ideias e de palavras, e que isto provoca angústia, H passa a
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    88 buscar ideias epalavras para nomear o que sente, o que se passa ali. Para H, a busca do AT de compreender o que sente, que surge muitas vezes a princípio no corpo, retorna invariavelmente para a relação. Segundo ele: “Eu acho que não tem como não fazer alguma coisa com isso (as sensações do AT). Em primeiro lugar porque isso não é seu, isso é dali do encontro, dos dois.(...) Não tem como pensar isso a não ser na própria relação. Não tem como não ser trabalhado ali. É ali que isso tem mesmo que circular e se metabolizar. Acho que aí é o tratamento, na hora que você consegue, até junto com o cara, metabolizar as coisas que te afetam (...). Eu acho que aí é tratamento, acho que aí é o que importa.” Para H, “tratar” se relaciona ao AT se permitir sentir, e a partir do que sente poder trabalhar isto dentro da própria relação de acompanhamento. O que é marcante, no entanto, é que isto frequentemente não se dá pelas vias da palavra, mas da ação. É preciso investigar o que torna uma ação um ato terapêutico. Assim como na psicanálise não é qualquer palavra que faz uma interpretação, nem toda ação no acompanhamento produz subjetividade. Isto levanta uma série de questões sobre o acompanhamento terapêutico: Como distinguir um movimento de repetição, “fazeção”, onde a ação se alia ao sintoma, de uma ação criativa? Como manter seu potencial criativo? Como se produz significados a partir da ação? Qual o caminho da ação até a palavra? É necessário chegar à palavra? IV O que fazer com “isso”? Neste momento, após a descrição das vivências de H e dos fatores característicos do acompanhamento que pode haver favorecido a mobilização dos afetos descritos por ele na relação com um indivíduo psicótico, a análise da
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    89 entrevista busca investigaro que pode ser feito a partir destas sensações. Ou seja, como estes estranhamentos podem ser utilizados pelo acompanhante na própria relação terapêutica? É possível, ou não, o acompanhante realizar uma interpretação a partir do que é vivido? O que H faz com “isso”? Perguntei a H, no trecho da entrevista em que descreve a força das emoções que vive com G, o “nó na garganta” e a vontade de chorar, o seguinte: “Quando você fala do G, dessa vontade de chorar, você sente que pode fazer alguma coisa com isso? Como isso volta?” H responde: “Pois é, tem dias que tem como, tem dias que tem como você tirar isso de você e botar isso no meio de você e dele e tentar dizer o que está acontecendo...” Ao perguntar se H, ao dizer isto, se referia a colocar o que sentia, em palavras, ele responde: “(Pode ser) Falando, ou entrando no carro e colocando uma música: ‘Você conhece essa música? É super legal esse cara’, ou indo ver uma comédia, por exemplo. Agora, muitas vezes não tem, não tem o que dê conta, não tem jeito. É ficar com aquilo, ir embora com aquilo e com um desejo muito grande de não ter nunca mais que voltar lá. Muitas vezes é isso. Muitas vezes não, de você ficar muito a fim de voltar e de ficar muito ansioso pelo próximo dia, mas tem vez que não dá mesmo, tem vez que é voltar pra casa com aquilo e ficar mal.” A questão à qual eu buscava uma resposta era: interpreta-se ou não se interpreta no acompanhamento terapêutico? Pensando que interpretação, aqui,
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    90 seria verbalizar, colocarem palavras algo que é vivido de uma forma sensorial entre acompanhante e acompanhado. Segundo H, às vezes ele coloca em palavras, mas não exatamente interpretando a partir do que sente. Ele parece buscar uma intermediação, uma separação entre ele e G, o que poderia se dar através da palavra. H coloca algo “no meio”, entre os dois. É como se buscasse um terceiro para se separar de uma ligação, às vezes insuportável. Este terceiro pode ser um filme, uma música, ou mesmo uma fala que chame para o mundo, para fora. Há momentos, no entanto, em que H parece não ver esta possibilidade. Não há entrada para algo de fora da relação, não há saída, e o jeito “É ficar com aquilo, ir embora com aquilo, e com um desejo muito grande de não ter nunca mais que voltar lá.” “Aquilo”, talvez uma referência ao inominável, remete H a um lugar de angústia, e sua vontade é de não mais viver isto, de ir embora. H liga esta fala com a fala sobre os dias em que o encontro é bom, em que dá vontade de reencontrar, o que talvez permita continuar o trabalho, apesar dos dias angustiantes. Mas, voltando à questão da angústia, H fala: “tem vezes que não dá mesmo, tem vezes que é voltar pra casa com aquilo, e ficar mal.” Assim, H aponta para a possibilidade de permanecer com as sensações, mesmo depois de haver se afastado de G. As sensações não podem mais ser descritas como sendo provocadas por G, pois depois de provocadas, elas pertencem também a H. Ao mesmo tempo, H se percebe levando algo que não lhe pertence inteiramente, que há algo de G que ele carrega. H fala das dificuldades existentes em realizar um trabalho como AT sozinho. É preciso haver um terceiro fora, concreto, outras pessoas envolvidas que possam acompanhá-lo neste trabalho. Segundo ele:
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    91 “(...) eu acho que é uma questão no AT também fundamental, sempre que possível, estar trabalhando em dupla ou em equipe. Pra todos os casos eu acho fundamental você ter um grupo. Não dá pra ser AT free não.” Cabe a estes que estão fora, estarem atentos às saídas e entradas do AT na relação de acompanhamento. O grupo é o lugar de referência onde se pode falar, “metabolizar” os sentimentos que surgem a partir do acompanhamento. Este processo de “metabolização” não se daria apenas fora da relação com o acompanhado. Segundo H: “(...) não tem como pensar isso a não ser na própria relação. Não tem como não ser trabalhado ali. É ali que isso tem mesmo que circular e se metabolizar. Acho que aí é o tratamento, na hora que você consegue, até junto com o cara, metabolizar as coisas que te afetam, desse fora. Eu acho que aí é tratamento, né, eu acho que aí é o que importa. É poder acreditar que as relações tem potência para isso, que as relações tem potência pra dar conta dos estranhamentos que surgem a partir dela mesma e das impotências que surgem a partir dela mesma.” H se utiliza do conceito de “fora” de Rolnik (1995), onde o que provoca as alterações no acompanhante é sua “abertura” para o fora, abertura a que é levado em sua aproximação com este indivíduo aberto para o fora, que é o psicótico. Esta fala de H mostra que ele está consciente de que é afetado, que a relação o afeta, mas que isto potencializa o tratamento. É a partir da metabolização conjunta do que se deu na relação, que algo pode ser construído pela dupla. H não fala de uma resolução individual, por parte do AT, de suas questões, mas de um processo que, tendo vindo da relação, se resolve dentro da própria relação. E que ali tanto cabe a potência quanto a impotência, tanto cabe o desejo quanto a frustração.
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    92 A imagem da “carne viva” retorna, não como excesso de sensibilidade ou sofrimento, mas como recurso para o tratamento. Ao brincar, dizendo a H que ele havia acabado com minhas esperanças de que com o tempo “isso” melhorasse, ele responde: “Melhora, até no sentido de você conseguir se divertir mais e se tratar mais e talvez, nesse sentido, de você conseguir se permitir ficar cada vez mais exposto a esses foras. Se deixar afetar. Acho que isso melhora, isso te melhora e aí você melhorando vai conseguindo fazer mais isso.” O tempo, para H, parece aumentar sua sensibilidade, a possibilidade de ser tocado, de se expor. A “carne viva”, não apenas para se afetado, mas para ser guiado.
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    93 CONCLUSÃO A partir dos dados obtidos na entrevista realizada com um acompanhante terapêutico que trabalha com psicóticos, o que foi possível concluir? Há basicamente três aspectos a serem discutidos: a possibilidade do uso da teoria psicanalítica para se pensar o acompanhamento terapêutico, os limites da utilização desta, em função das particularidades do acompanhamento terapêutico como forma de intervenção no tratamento da psicose, e as novas questões surgidas a partir da análise e discussão da entrevista. Ao falarmos de acompanhamento terapêutico, nos remetemos a um trabalho composto por diversas dimensões. Ao pensarmos uma dimensão isolada das outras corremos o risco de generalizar aspectos que não poderiam ser generalizados, ou seja, ao mesmo tempo em que no acompanhamento existe um relação dual, onde a teoria da psicanálise pode nos ajudar a pensar o que se passa, há também a relação da dupla acompanhante/acompanhado com a cidade, com outras relações sociais. Essas atividades provocam efeitos na própria dupla que escapam à teorização psicanalítica, onde o ideal é um trabalho realizado em uma situação de “isolamento” de outras possíveis influências, inclusive de aspectos do próprio analista. Isto não ocorre no trabalho do AT, o que não permite uma transposição linear dos conceitos, mas uma aproximação entre estes dois trabalhos, já que se trata de outro método. É possível concluir que no acompanhamento terapêutico se verificam fenômenos semelhantes aos descritos na psicanálise por analistas que trabalham com indivíduos psicóticos. Há similaridade entre os fenômenos descritos na psicanálise como identificação projetiva e contratransferência, e os fenômenos descritos por um acompanhante terapêuticos na relação com seus acompanhados. Isto nos permite afirmar que é possível se utilizar destes
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    94 conceitos no acompanhamento terapêutico, pois há percepções contratransferenciais do acompanhante que parecem ser provocadas pela utilização do mecanismo da identificação projetiva pelo acompanhado. A intensidade das emoções vividas pelo analista/acompanhante percebidas a partir de sua reações contratransferenciais, podem ser comparadas à vivência do sinistro. Podemos pensar, não que as projeções ocorridas no processo da identificação projetiva sejam recebidas e percebidas pelo analista em um processo de intersubjetividade, mas que estas projeções provoquem uma mobilização de aspectos reprimidos do analista. Este percebe o que é projetado, a partir do que é mobilizado em si, pois pode receber do paciente o que possui ressonância interna. Esta formulação aproxima o fenômeno do sinistro ao fenômeno da contratransferência surgida a partir da identificação projetiva. Talvez daí a sensação de estranhamento presente nas descrições feitas por acompanhantes e analistas deste tipo de vivência. As descrições se referem à sensação de que os sentimentos não pertencem inteiramente ao analista ou acompanhante, o que caracteriza a experiência do sinistro. As diferenças encontradas entre o acompanhamento terapêutico e a psicanálise se referem a diversas questões: o corpo, pois há neste trabalho a possibilidade de uma proximidade corporal que inexiste na situação analítica; o espaço, pois o espaço ocupado pelo acompanhante e acompanhado é o espaço quotidiano; o tempo de duração dos acompanhamentos; a relação com outros indivíduos e com a cidade durante o trabalho e o uso da ação em lugar da interpretação verbal. Trabalhar com a ação implica em uma presença “concreta” do corpo do AT, em uma relação que nem sempre se vê intermediada pela palavra. Isto talvez
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    95 favoreça que oAT sinta, participe de processos muito regredidos com o acompanhado. Podemos destacar algumas questões que puderam ser observadas e que poderiam ser futuramente investigadas. No acompanhamento terapêutico, sair não significa necessariamente realizar uma ação construtiva. É possível se pensar em um sair “fazeção” , como em um falar “falação”, a fala encobridora, que não diz nada, que visa perpetuar o sintoma. Há que se cuidar para que a saída para o mundo não se transforme em uma mera repetição que não produz transformação, apenas reproduzindo uma forma de ser cristalizada. O que caracterizaria um sair criativo? Uma segunda questão levantada a partir da entrevista é a necessidade de se investigar particularidades do acompanhamento terapêutico na clínica das psicoses e em outras clínicas, como a da deficiência mental. Enfim, cabe ao AT, como Ulisses, ouvir o canto das sereias e permanecer atado ao mastro. A difícil tarefa de quem trabalha com a loucura: escutar o canto, acompanhar sereias em sua transformação, sem afogar-se. FIM
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    96 BIBLIOGRAFIA ALTHUSSER, L. (1992)- O futuro dura muito tempo - São Paulo: Companhia das Letras, 1993. BION, W. R. (1952) - Experiências com grupos: os fundamentos da psicoterapia de grupo - Rio de Janeiro: Imago Ed., 1970. (1957) - Diferenciação entre a personalidade psicótica e a personalidade não-psicótica - In: Spillius, E. B. (org.) - Melanie Klein Hoje, vol. I - Rio de Janeiro: Imago Ed., 1991, p. 69-88. (1956) - Desenvolvimento do pensamento esquizofrênico - In: Estudos psicanalíticos revisados - Rio de Janeiro: Imago Editora, 1994, p.47-54. (1959) - Ataque ao elo de ligação - In: Spillius, E. B. (org.) - Melanie Klein Hoje, vol. I - Rio de Janeiro: Imago Ed., 1991, p. 95-109. (1962) - O aprender com a experiência - Rio de Janeiro: Imago Editora, 1991. (1973) - Conferências Brasileiras - São Paulo/1973 - Rio de Janeiro: Imago Ed.,1975. CASEMENT, P.(1985) - Aprendendo com o paciente - Rio de Janeiro: Imago Ed., 1987. CASEMENT, P.(1990) - Aprendendo ainda mais com o paciente - Rio de Janeiro: Imago Ed., 1992.
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    97 Equipe de Acompanhantesterapêuticos do hospital dia A Casa (org.) - A Rua Como Espaço Clínico - Coletânea dos trabalhos apresentados no 1- Encontro Paulista de Acompanhantes Terapêuticos - São Paulo: Ed. Escuta, 1991. FERENCZI, S. (1932) - Diário Clínico - São Paulo: Ed. Martins Fontes, 1990. FREUD, S; (1901 [1905]) - Analisis fragmentario de una histeria (Caso Dora) - In: Obras completas de Sigmund Freud - Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 1981, p.933-1.001. (1910) - Observaciones psicoanaliticas sobre un caso de paranoia (Caso Schreber) -In: Obras completas de Sigmund Freud - Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 1981, p. 1.487-1.528. (1910a) - El porvenir de la terapia psicoanalítica -In: Obras completas de Sigmund Freud - Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 1981, p.1.564-1.570. (1912) - Consejos al médico en el tratamiento psicoanalítico - In: Obras completas de Sigmund Freud - Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 1981, p.1654-1660. (1912a) - La dinámica de la transferencia (inverti com o de cima) - In: Obras completas de Sigmund Freud - Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 1981, p.1.648-1655. (1914) - Recuerdo, repetición y elaboración - In: Obras completas de Sigmund Freud - Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 1981, p.1.683-1688. (1914a) - Introduccion al narcisismo - In: Obras completas de Sigmund Freud - Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 1981, p.2.017-2.033.
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    98 (1915) - Observaciones sobre el “amor de transferencia” - In: Obras completas de Sigmund Freud, Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 1981, p.1.089-1.096. (1915a) - Lo Inconsciente - In: Obras completas de Sigmund Freud, Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 1981, p. 2.061-2.082. (1919) - Lo siniestro - In: Obras completas de Sigmund Freud, Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 1981, p. 2.483-2.506. (1924) - Neurosis e psicosis - In: Obras completas de Sigmund Freud, Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 1981, p. 2.072-2.043. GROTSTEIN, J. S. (1981) - A divisão e a identificação projetiva - Rio de Janeiro: Imago Editora, 1985. HEIMAN, P. (1950) - Sobre a contratransferência - Institute Journal of Psicho- Analisis, Londres - Tradução Boletim científico, SBPRJ, 1 (4) : 104-109, 1987. JOSEPH, B. (1987) - Identificação projetiva - alguns aspectos clínicos - In: Spillius, E. B.(org.) - Melanie Klein Hoje,vol I - Rio de Janeiro: Imago Ed., 1991, p.146-160 KLEIN, M. (1946) - Notas sobre alguns mecanismos esquizoides - In: Os progressos da psicanálise - Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1982. LAPLANCHE & PONTALIS - Vocabulário da Psicanálise - São Paulo: Livraria Martins Fontes Ed., 1991. LITTLE, M. - (1992) - Ansiedades psicóticas - Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1992.
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