CRISE DE 1929
Gabriel Almeida Antunes Rossini
Crise econômica, também chamada crash de 1929, que pôs termo ao longo período de
desenvolvimento econômico que se iniciou em meados do século XIX e alçou os EUA à
posição de protagonista industrial do mundo. Na ocasião, partindo de um contexto de
ampla prosperidade, a economia americana sofreu o mais forte solavanco de sua
história, um acontecimento de proporções épicas e efeitos duradouros.
A CRISE NOS ESTADOS UNIDOS
Para se entender o que ocorreu em 1929, o ponto de partida é o período que antecede o
colapso da Bolsa de Nova Iorque. Ao longo dos anos compreendidos entre 1922 e 1929,
a despeito de duas recessões menores, os EUA foram beneficiados por pujante
expansão. Nesse intervalo, as despesas de investimento giravam em torno de 20% do
Produto Nacional Bruto (PNB), e o desemprego, com exceção de 1924, estava na casa
dos 2%. Entre 1923 e 1929, a produção de automóveis aumentou 33% ao ano. A
produção de petróleo, aço, borracha e a construção de estradas foi consequentemente
incrementada. No mesmo período, a geração de energia elétrica duplicou, e a produção
dos eletrônicos acompanhou a tendência. De 1925 a 1929, o número de indústrias subiu
de 183.900 para 206.700; o valor da produção dessas empresas elevou-se de 60,8 para
68 bilhões de dólares.
O faturamento do comércio americano havia disparado de 236 milhões, em 1923, para
1,25 bilhão de dólares seis anos mais tarde. Como os ganhos das empresas eram
estáveis e crescentes, havia boas razões para as cotações das ações ordinárias elevarem-
se ao longo de parte dos anos 1920. O índice das cotações passou de 100, em 1926, para
216, em setembro de 1929.
Foi esse contexto que estimulou declarações como a do presidente norteamericano
Calvin Coolidge (1925-1929), que em dezembro de 1928 afirmou que todos podiam
“olhar o presente com satisfação e o futuro com otimismo”. Por sua vez, Irving Fisher,
importante economista norte-americano, declarou em pleno outono de 1929: “Os
preços das ações atingiram um platô permanentemente elevado”. Esses
pronunciamentos corroboravam o ambiente generalizado de confiança e otimismo,
porém não poderiam ser mais equivocados.
A partir de março de 1928, o boom da Bolsa de Nova Iorque – cujas causas residiam na
política monetária expansionista, na estrutura financeira e bancária norte-americana e
nos fatores psicossociológicos que caracterizaram o comportamento do público
estadunidense – passou a ser puramente especulativo. A bolsa começou a subir, não de
forma paulatina e sustentada, mas em grandes saltos. A alta da bolsa não tinha mais
correspondência com o aumento dos lucros, mas as aplicações prosseguiam: o futuro
das cotações era desenhado com base na trajetória de crescimento precedente, e a alta
suscitava a alta.
A febre da especulação e a paixão pelos ganhos fáceis pareciam não ter limites. Porém
um boom na esfera dos valores mobiliários não poderia durar para sempre.
A euforia característica da onda especulativa de 1929, como em outros episódios, foi em
si reveladora de uma escalada efêmera, pois se fundou em ampla criação de capital
fictício. Para além de alguns sinais precursores, que, hora ou outra, evidenciavam a
baixa, a dúvida sobre o salto no escuro que os jogadores realizavam residia no tempo
em que eles iriam manter as suas apostas na alta. Quando a expectativa de curto prazo
acerca do crescimento contínuo do valor da cotação das ações ordinárias estremecesse,
os papéis passariam a ser vendidos em volumes cada vez maiores. Cotações em declínio
seriam a nova realidade.
Esse foi o desfecho do élan especulativo de 1929. O primeiro dia de pânico em Wall
Street foi a chamada Quinta-Feira Negra (24/10/1929), quando ocorreu a venda de
12.894.650 ações que quase não encontraram demanda, fazendo os preços caírem a
níveis inéditos. Os bancos intervieram e debelaram a queda. Na segunda-feira, 28 de
outubro, a trajetória de queda foi retomada, e na terça-feira cerca de 33 milhões de
títulos foram postos à venda frente a uma procura quase nula. Cerca de 15 bilhões de
dólares tinham virado fumaça.
Foi um dos dias mais dramáticos vividos pela Bolsa de Nova Iorque. A depressão que
se seguiu à crise da bolsa perpassou os três anos subsequentes. Durante esse período
empresas fecharam suas portas, e milhões de pessoas se viram sem emprego, na maioria
das vezes sem proteção social, incapazes de pagar seus aluguéis, reduzidas à espera das
distribuições gratuitas de alimentos e agasalhos, levadas ao despejo e à mendicidade.
Quando se confronta 1932 e 1929, percebe-se que a queda da atividade econômica dos
EUA foi enorme. Enquanto a produção industrial diminuiu para cerca da metade, a
produção de bens de equipamento encolheu 75%. O PNB reduziu-se em 1/3. Só em
1937 o volume físico da produção retornou aos níveis de 1929. Durante a década de
1930, com exceção de 1937, o número de desempregados nunca ficou abaixo dos oito
milhões. Em 1933, 1/4 da força de trabalho estadunidense estava desocupada. O salário
médio na indústria caiu pela metade. Grandes contingentes populacionais
perambulavam de cidade em cidade buscando qualquer tarefa em troca de salários
baixíssimos ou até mesmo de um prato de comida.
Em 1932, no auge da depressão, uma média de 40 bancos falia por dia em todo o país.
As falências bancárias contribuíram para paralisar as decisões de investimento. Entre
1929 e 1932, a incrível marca de 5.096 bancos suspendeu seus pagamentos.
A CRISE NO MUNDO
No que diz respeito aos aspectos internacionais, a depressão da década de 1930
espraiou-se pelo mundo, por um lado, pelo fato de haver uma enorme assimetria de
desenvolvimento entre os EUA e o resto do globo, por outro, em função da restrição do
comércio internacional decorrente do repatriamento maciço dos capitais norte-
americanos investidos no estrangeiro, do protecionismo ascendente a partir de 1930 e do
desmoronamento do sistema monetário internacional.
O discernimento, o regionalismo e o bilateralismo foram as características
preponderantes da política de comércio exterior dos anos 1930. Parte desses
procedimentos ficou patente, por exemplo, diante da queda dos preços agrícolas,
consequência da superprodução originada do aumento substancial da produção mundial
ao longo da Primeira Grande Guerra, que passou a pressionar o mercado na década
subsequente. Frente a tal contexto, a maioria dos países protegeu sua agricultura e
tentou exportar seu desemprego, restringindo as importações e estimulando as
exportações. Vejamos alguns dados gerais.
Em 1929, a produção industrial dos EUA correspondia a 45% da mundial (as três
potências industriais européias juntas eram responsáveis por 28%), e suas importações,
a 12,5%. No bojo do esmorecimento econômico geral, a queda da produção industrial
mundial foi de 37%, ao passo que o comércio mundial diminuiu 25%. Entre 1929 e
1933, os preços de atacado, definidos em moeda nacional, baixaram 32% na Grã-
Bretanha, 34% na Alemanha, 38% na França e 42% nos Estados Unidos. A Alemanha,
o Canadá e a Polônia, além dos EUA, foram os países que mais forte queda enfrentaram
em suas produções industriais.
A título de exemplo, na Alemanha, os investimentos industriais feitos em novas
instalações e reposições pelas grandes sociedades anônimas baixou de 1.168 milhões de
Reichmarks em 1929 para 522 milhões em 1931. Também ocorreram, como era de
esperar, quedas acentuadas nos preços das ações industriais. No Reino Unido, França e
EUA, quando se confronta 1929 e 1931, as quedas foram respectivamente de 45%,
55,7% e 59,7%.
Já na Alemanha, entre 1927 e 1931 as ações industriais sofreram queda de 61,7%. A
progressão das falências acompanhou a queda geral da atividade econômica. Enquanto o
índice de falências (1928 = 100) foi, em 1930, de 11% na França, 17% na Itália e 19%
nos EUA, na Alemanha ele chegou a 42%. O excedente da balança comercial dos EUA
desabou de 1.440 milhões de dólares, em 1928, para 357 milhões em 1933. A partir de
1934, os déficits na balança comercial foram recorrentes. O valor do comércio da
Europa (menos URSS) com o resto do mundo, por sua vez, também teve quedas
expressivas. Suas importações, que em 1928 eram de 32,38 bilhões de dólares ouro de
1934, caíram em 1935 para 11,67 bilhões de dólares ouro de 1934. Já suas exportações,
no mesmo período, tombaram de 25,7 para 9,09 bilhões de dólares ouro de 1934.
Sobretudo os países mais pobres sofreram a queda do preço das commodities que
exportavam, o que acarretou desvalorizações em série. Na América Latina, a depressão
nos EUA, principal mercado consumidor de suas matériasprimas, fez com que suas
exportações diminuíssem mais de 40%, além de interromper o fluxo de investimentos e
produtos estrangeiros.
A consequência dessa nova conjuntura foi o enfraquecimento dos grupos dominantes e
uma temporada de golpes militares em quase todos os países. Uma das características
marcantes da Grande Depressão foi a diferença na intensidade com que os países foram
atingidos, tal como se pode observar no quadro abaixo.
Resta responder à pergunta: quais foram as causas da Grande Depressão? No decorrer
da década de 1920 a produção por operário cresceu substancialmente. Na indústria
manufatureira, por exemplo, elevou-se cerca de 43%. No entanto, os preços, incluídos aí
os salários, mantiveram-se estáveis. Nesse contexto, a restrição do consumo da
população passou a conflitar com a tendência de a produção capitalista desenvolver de
forma desmesurada suas forças produtivas. Como o salário real do trabalhador médio
sofreu significativa queda ao longo do período considerado, a demanda foi pautada,
majoritariamente, pelo consumo de luxo e pelos investimentos, elementos
significativamente mais voláteis do que o consumo dos trabalhadores. Ou seja, os lucros
aumentados, em virtude da queda dos custos industriais, por um lado sustentaram o
consumo dos abastados e alimentaram o boom no mercado acionário e, por outro, foram
direcionados para investimentos de capital que, no decorrer dos anos 1920, cresceram
6,4% ao ano. Segue-se que qualquer coisa que provocasse descontinuidade nesse fluxo
de investimentos poderia gerar problemas, pois, caso a formação bruta de capital fixo
deixasse de acompanhar a ascensão dos lucros, ocorreria queda na procura total, o que
reduziria as encomendas e a produção.
Esta é uma explicação coerente e recorrente na literatura econômica. Contudo, ainda
podem ser agregados a ela outros fatores relevantes, quais sejam: a) a estrutura bancária
fragmentária norte-americana. Em 1929, existiam 24 mil pequenos bancos
independentes que atuavam em pequenos territórios e cujo sucesso ou falência
dependiam das condições da região. A fragilidade desse sistema bancário
excessivamente fragmentado foi demonstrada quando os agricultores em dificuldade,
devido à queda dos preços agrícolas que ocorreu ao longo de toda a década de 1920, não
puderam pagar seus empréstimos bancários, provocando a falência de muitas pequenas
instituições.
A falência de um banco acabava gerando várias outras, pois - a) os depositantes
retiravam seu dinheiro de outros estabelecimentos, o que estimulava o entesouramento e
comprometia a capacidade de crédito e investimento da economia; b) o aumento da taxa
de juros, que fragilizou as empresas superendividadas; c) a diminuição das despesas de
consumo – que desestimulavam a renovação dos estoques e dos investimentos –
resultante da má distribuição de renda (em 1929, 90% da riqueza nacional dos EUA
eram apropriados por apenas 13% da população), do desemprego, da baixa do poder de
compra dos especuladores arruinados, do esgotamento de uma fonte de financiamento
para as empresas, da reiterada baixa dos preços, que reduziu o poder de compra de
produtores e vendedores, e da acentuada queda dos salários dos trabalhadores que
permaneceram empregados (em 1933, o salário médio do trabalhador norte-americano
era 66,5% menor do que 1929); e) por fim, as políticas macroeconômicas liberais pró-
cíclicas, que prescreviam os mecanismos de mercado como suficientes para harmonizar
os distúrbios enfrentados.
Tal política tinha como pilares o orçamento equilibrado, o medo da expulsão do padrão
ouro e um suposto risco de inflação. Essa condução da política macroeconômica pautou
a administração do presidente republicano norte-americano Hebert Hoover à frente do
governo dos EUA entre 1929 e 1933. Somente em 1933, quando o democrata Franklin
Delano Ruosevelt assumiu o governo, houve uma reformulação das práticas de política
econômica e, com o New Deal, o Estado passou a realizar amplas intervenções
buscando superar a depressão. Contudo, somente com o advento da Segunda Guerra
Mundial os EUA e o mundo de fato superaram o cenário adverso decorrente da crise
iniciada em 1929.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CHANCELLOR, E. Salve-se; CIOCCA, P. Crisis; EICHENGREEN, B,;
HATTON, T. Interwar; FERGUSON, N. Lógica; FOREMAN-PECK, J. Historia;
FRIEDMAN, M. Episódios; FRIEDMAN, M. Monetary; GALBRAITH, J. 1929;
GALBRAITH, J. Short; HOBSBAWM, E. Era; KEYNES, J. Consecuencias;
KEYNES, J. Teoria; KINDLEBERGER, C. World; KINDLEBERGER, C. Manias;
KRUGMAN, P. Crises; LANDES, D. Prometeu; LEWIS, W. Economic;
MADDISON, A. Dos Crisis; MATTICK, P. Crisis; NIVEAU, M. História;
SCHUMPETER, J. Decade; SCHUMPETER, J. Business; WAGEMANN, E.
CRISE NO BRASIL
José Fucs – Revista Época, janeiro de 2009
Fazia quase dois anos que ocorrera o crash na Bolsa de Valores de Nova York, em
outubro de 1929. Mas os estragos provocados pela crise ainda eram sentidos em todo o
planeta – e também no Brasil. Em junho de 1931, uma nuvem de fumaça gigantesca,
que vinha de uma enorme fogueira, pairava sobre a cidade de Santos, no Litoral de São
Paulo, por onde escoava boa parte das exportações do café brasileiro. O café era
queimado a mando do governo de Getúlio Vargas para tentar reduzir o impacto negativo
da crise no Brasil, então responsável por 60% das vendas mundiais do produto.
Getulio vargas assumira o poder um ano antes, por meio de um movimento militar que
se tornou conhecido como Revolução de 1930. A economia balançava. As exportações,
que atingiram US$ 445 milhões em 1929, caíram para US$ 180 milhões em 1930.
Segundo a Bolsa de Café de Santos, a cotação da saca no mercado internacional – 200
mil-réis em agosto de 1929 – caíra quase 90%, para 21 mil-réis, em janeiro de 1930.
Nas fazendas cafeicultoras, concentradas no interior paulista e no Paraná, muitos
resolveram seguir o mesmo caminho e queimaram o café colhido.
Todos os elos envolvidos na cadeia de produção do café brasileiro –
fazendeiros,comerciantes, banqueiros e trabalhadores rurais (a maior parte imigrantes) –
foram atingidos pela crise. Muitos produtores foram à bancarrota. O desemprego no
campo se multiplicou, estimulando um movimento migratório para as cidades, em
especial para São Paulo.
Como se veria depois, o que acontecia naquele momento era apenas o início de um
profundo processo de mudanças que se prolongaria até o fim dos anos 30, às vésperas
da Segunda Guerra Mundial. Essas transformações marcariam para sempre a economia
nacional e internacional. Dos escombros da economia do café, surgiria um novo modelo
econômico, que se manteria praticamente o mesmo até quase os dias de hoje. Em 2009,
o crash de 29 completará 80 anos coincidentemente, no momento em que parece haver
uma crise global de proporções comparáveis, com desaceleração na atividade
econômica e alta no desemprego. Embora os contextos das duas crises sejam bem
diferentes, a história da crise de 29, em particular seus desdobramentos no Brasil, pode
trazer lições preciosas sobre as medidas que ainda fazem sentido – e as que não fazem –
para reduzir o impacto do encolhimento global no país.
Naquela época, o Brasil passou por um grave problema cambial. De acordo com o
historiador Caio Prado Júnior (1907-1990), autor de História econômica do Brasil,
publicado pela primeira vez em 1945, a queda nas exportações, provocada pela crise,
gerou um desequilíbrio na balança comercial brasileira. Sem uma indústria sólida, o
Brasil exportava apenas café e outros produtos agrícolas, como algodão, cacau e
borracha. Como não eram produtos essenciais para o consumidor – portanto, suas
compras poderiam ser interrompidas a qualquer hora -, dizia-se que o país tinha uma
“economia de sobremesa”. A moeda forte obtida com essas exportações servia para
pagar as importações de boa parte dos produtos industrializados consumidos pelos
brasileiros. O aprofundamento da crise, porém, provocou a redução da demanda externa
e a queda dos preços internacionais do café. Com isso, o déficit comercial do país
cresceu rapidamente.
A crise também causou a interrupção do fluxo regular de capital estrangeiro para o
Brasil. O dinheiro externo alimentava a economia brasileira desde os tempos do
Império, e seu ingresso se intensificara entre a Proclamação da República, em 1889, e a
posse de Vargas, em 1930 – período da história conhecido como República Velha. A
falta do dinheiro externo agravou ainda mais o déficit cambial brasileiro. A moeda
nacional se desvalorizava rapidamente. O valor da libra esterlina, então a moeda mais
usada no mundo, passou de 40 mil-réis, em 1929, para quase 60 mil-réis, em 1934. Com
as exportações em queda e sem financiamento externo, o governo aumentou de forma
brutal a emissão de moeda – e isso provocou alta da inflação.

Crise da bolsa de nova york 1929

  • 1.
    CRISE DE 1929 GabrielAlmeida Antunes Rossini Crise econômica, também chamada crash de 1929, que pôs termo ao longo período de desenvolvimento econômico que se iniciou em meados do século XIX e alçou os EUA à posição de protagonista industrial do mundo. Na ocasião, partindo de um contexto de ampla prosperidade, a economia americana sofreu o mais forte solavanco de sua história, um acontecimento de proporções épicas e efeitos duradouros. A CRISE NOS ESTADOS UNIDOS Para se entender o que ocorreu em 1929, o ponto de partida é o período que antecede o colapso da Bolsa de Nova Iorque. Ao longo dos anos compreendidos entre 1922 e 1929, a despeito de duas recessões menores, os EUA foram beneficiados por pujante expansão. Nesse intervalo, as despesas de investimento giravam em torno de 20% do Produto Nacional Bruto (PNB), e o desemprego, com exceção de 1924, estava na casa dos 2%. Entre 1923 e 1929, a produção de automóveis aumentou 33% ao ano. A produção de petróleo, aço, borracha e a construção de estradas foi consequentemente incrementada. No mesmo período, a geração de energia elétrica duplicou, e a produção dos eletrônicos acompanhou a tendência. De 1925 a 1929, o número de indústrias subiu de 183.900 para 206.700; o valor da produção dessas empresas elevou-se de 60,8 para 68 bilhões de dólares. O faturamento do comércio americano havia disparado de 236 milhões, em 1923, para 1,25 bilhão de dólares seis anos mais tarde. Como os ganhos das empresas eram estáveis e crescentes, havia boas razões para as cotações das ações ordinárias elevarem- se ao longo de parte dos anos 1920. O índice das cotações passou de 100, em 1926, para 216, em setembro de 1929. Foi esse contexto que estimulou declarações como a do presidente norteamericano Calvin Coolidge (1925-1929), que em dezembro de 1928 afirmou que todos podiam “olhar o presente com satisfação e o futuro com otimismo”. Por sua vez, Irving Fisher, importante economista norte-americano, declarou em pleno outono de 1929: “Os preços das ações atingiram um platô permanentemente elevado”. Esses pronunciamentos corroboravam o ambiente generalizado de confiança e otimismo, porém não poderiam ser mais equivocados. A partir de março de 1928, o boom da Bolsa de Nova Iorque – cujas causas residiam na política monetária expansionista, na estrutura financeira e bancária norte-americana e nos fatores psicossociológicos que caracterizaram o comportamento do público estadunidense – passou a ser puramente especulativo. A bolsa começou a subir, não de forma paulatina e sustentada, mas em grandes saltos. A alta da bolsa não tinha mais correspondência com o aumento dos lucros, mas as aplicações prosseguiam: o futuro das cotações era desenhado com base na trajetória de crescimento precedente, e a alta suscitava a alta. A febre da especulação e a paixão pelos ganhos fáceis pareciam não ter limites. Porém um boom na esfera dos valores mobiliários não poderia durar para sempre.
  • 2.
    A euforia característicada onda especulativa de 1929, como em outros episódios, foi em si reveladora de uma escalada efêmera, pois se fundou em ampla criação de capital fictício. Para além de alguns sinais precursores, que, hora ou outra, evidenciavam a baixa, a dúvida sobre o salto no escuro que os jogadores realizavam residia no tempo em que eles iriam manter as suas apostas na alta. Quando a expectativa de curto prazo acerca do crescimento contínuo do valor da cotação das ações ordinárias estremecesse, os papéis passariam a ser vendidos em volumes cada vez maiores. Cotações em declínio seriam a nova realidade. Esse foi o desfecho do élan especulativo de 1929. O primeiro dia de pânico em Wall Street foi a chamada Quinta-Feira Negra (24/10/1929), quando ocorreu a venda de 12.894.650 ações que quase não encontraram demanda, fazendo os preços caírem a níveis inéditos. Os bancos intervieram e debelaram a queda. Na segunda-feira, 28 de outubro, a trajetória de queda foi retomada, e na terça-feira cerca de 33 milhões de títulos foram postos à venda frente a uma procura quase nula. Cerca de 15 bilhões de dólares tinham virado fumaça. Foi um dos dias mais dramáticos vividos pela Bolsa de Nova Iorque. A depressão que se seguiu à crise da bolsa perpassou os três anos subsequentes. Durante esse período empresas fecharam suas portas, e milhões de pessoas se viram sem emprego, na maioria das vezes sem proteção social, incapazes de pagar seus aluguéis, reduzidas à espera das distribuições gratuitas de alimentos e agasalhos, levadas ao despejo e à mendicidade. Quando se confronta 1932 e 1929, percebe-se que a queda da atividade econômica dos EUA foi enorme. Enquanto a produção industrial diminuiu para cerca da metade, a produção de bens de equipamento encolheu 75%. O PNB reduziu-se em 1/3. Só em 1937 o volume físico da produção retornou aos níveis de 1929. Durante a década de 1930, com exceção de 1937, o número de desempregados nunca ficou abaixo dos oito milhões. Em 1933, 1/4 da força de trabalho estadunidense estava desocupada. O salário médio na indústria caiu pela metade. Grandes contingentes populacionais perambulavam de cidade em cidade buscando qualquer tarefa em troca de salários baixíssimos ou até mesmo de um prato de comida. Em 1932, no auge da depressão, uma média de 40 bancos falia por dia em todo o país. As falências bancárias contribuíram para paralisar as decisões de investimento. Entre 1929 e 1932, a incrível marca de 5.096 bancos suspendeu seus pagamentos. A CRISE NO MUNDO No que diz respeito aos aspectos internacionais, a depressão da década de 1930 espraiou-se pelo mundo, por um lado, pelo fato de haver uma enorme assimetria de desenvolvimento entre os EUA e o resto do globo, por outro, em função da restrição do comércio internacional decorrente do repatriamento maciço dos capitais norte- americanos investidos no estrangeiro, do protecionismo ascendente a partir de 1930 e do desmoronamento do sistema monetário internacional. O discernimento, o regionalismo e o bilateralismo foram as características preponderantes da política de comércio exterior dos anos 1930. Parte desses procedimentos ficou patente, por exemplo, diante da queda dos preços agrícolas,
  • 3.
    consequência da superproduçãooriginada do aumento substancial da produção mundial ao longo da Primeira Grande Guerra, que passou a pressionar o mercado na década subsequente. Frente a tal contexto, a maioria dos países protegeu sua agricultura e tentou exportar seu desemprego, restringindo as importações e estimulando as exportações. Vejamos alguns dados gerais. Em 1929, a produção industrial dos EUA correspondia a 45% da mundial (as três potências industriais européias juntas eram responsáveis por 28%), e suas importações, a 12,5%. No bojo do esmorecimento econômico geral, a queda da produção industrial mundial foi de 37%, ao passo que o comércio mundial diminuiu 25%. Entre 1929 e 1933, os preços de atacado, definidos em moeda nacional, baixaram 32% na Grã- Bretanha, 34% na Alemanha, 38% na França e 42% nos Estados Unidos. A Alemanha, o Canadá e a Polônia, além dos EUA, foram os países que mais forte queda enfrentaram em suas produções industriais. A título de exemplo, na Alemanha, os investimentos industriais feitos em novas instalações e reposições pelas grandes sociedades anônimas baixou de 1.168 milhões de Reichmarks em 1929 para 522 milhões em 1931. Também ocorreram, como era de esperar, quedas acentuadas nos preços das ações industriais. No Reino Unido, França e EUA, quando se confronta 1929 e 1931, as quedas foram respectivamente de 45%, 55,7% e 59,7%. Já na Alemanha, entre 1927 e 1931 as ações industriais sofreram queda de 61,7%. A progressão das falências acompanhou a queda geral da atividade econômica. Enquanto o índice de falências (1928 = 100) foi, em 1930, de 11% na França, 17% na Itália e 19% nos EUA, na Alemanha ele chegou a 42%. O excedente da balança comercial dos EUA desabou de 1.440 milhões de dólares, em 1928, para 357 milhões em 1933. A partir de 1934, os déficits na balança comercial foram recorrentes. O valor do comércio da Europa (menos URSS) com o resto do mundo, por sua vez, também teve quedas expressivas. Suas importações, que em 1928 eram de 32,38 bilhões de dólares ouro de 1934, caíram em 1935 para 11,67 bilhões de dólares ouro de 1934. Já suas exportações, no mesmo período, tombaram de 25,7 para 9,09 bilhões de dólares ouro de 1934. Sobretudo os países mais pobres sofreram a queda do preço das commodities que exportavam, o que acarretou desvalorizações em série. Na América Latina, a depressão nos EUA, principal mercado consumidor de suas matériasprimas, fez com que suas exportações diminuíssem mais de 40%, além de interromper o fluxo de investimentos e produtos estrangeiros. A consequência dessa nova conjuntura foi o enfraquecimento dos grupos dominantes e uma temporada de golpes militares em quase todos os países. Uma das características marcantes da Grande Depressão foi a diferença na intensidade com que os países foram atingidos, tal como se pode observar no quadro abaixo. Resta responder à pergunta: quais foram as causas da Grande Depressão? No decorrer da década de 1920 a produção por operário cresceu substancialmente. Na indústria manufatureira, por exemplo, elevou-se cerca de 43%. No entanto, os preços, incluídos aí os salários, mantiveram-se estáveis. Nesse contexto, a restrição do consumo da população passou a conflitar com a tendência de a produção capitalista desenvolver de forma desmesurada suas forças produtivas. Como o salário real do trabalhador médio sofreu significativa queda ao longo do período considerado, a demanda foi pautada,
  • 4.
    majoritariamente, pelo consumode luxo e pelos investimentos, elementos significativamente mais voláteis do que o consumo dos trabalhadores. Ou seja, os lucros aumentados, em virtude da queda dos custos industriais, por um lado sustentaram o consumo dos abastados e alimentaram o boom no mercado acionário e, por outro, foram direcionados para investimentos de capital que, no decorrer dos anos 1920, cresceram 6,4% ao ano. Segue-se que qualquer coisa que provocasse descontinuidade nesse fluxo de investimentos poderia gerar problemas, pois, caso a formação bruta de capital fixo deixasse de acompanhar a ascensão dos lucros, ocorreria queda na procura total, o que reduziria as encomendas e a produção. Esta é uma explicação coerente e recorrente na literatura econômica. Contudo, ainda podem ser agregados a ela outros fatores relevantes, quais sejam: a) a estrutura bancária fragmentária norte-americana. Em 1929, existiam 24 mil pequenos bancos independentes que atuavam em pequenos territórios e cujo sucesso ou falência dependiam das condições da região. A fragilidade desse sistema bancário excessivamente fragmentado foi demonstrada quando os agricultores em dificuldade, devido à queda dos preços agrícolas que ocorreu ao longo de toda a década de 1920, não puderam pagar seus empréstimos bancários, provocando a falência de muitas pequenas instituições. A falência de um banco acabava gerando várias outras, pois - a) os depositantes retiravam seu dinheiro de outros estabelecimentos, o que estimulava o entesouramento e comprometia a capacidade de crédito e investimento da economia; b) o aumento da taxa de juros, que fragilizou as empresas superendividadas; c) a diminuição das despesas de consumo – que desestimulavam a renovação dos estoques e dos investimentos – resultante da má distribuição de renda (em 1929, 90% da riqueza nacional dos EUA eram apropriados por apenas 13% da população), do desemprego, da baixa do poder de compra dos especuladores arruinados, do esgotamento de uma fonte de financiamento para as empresas, da reiterada baixa dos preços, que reduziu o poder de compra de produtores e vendedores, e da acentuada queda dos salários dos trabalhadores que permaneceram empregados (em 1933, o salário médio do trabalhador norte-americano era 66,5% menor do que 1929); e) por fim, as políticas macroeconômicas liberais pró- cíclicas, que prescreviam os mecanismos de mercado como suficientes para harmonizar os distúrbios enfrentados. Tal política tinha como pilares o orçamento equilibrado, o medo da expulsão do padrão ouro e um suposto risco de inflação. Essa condução da política macroeconômica pautou a administração do presidente republicano norte-americano Hebert Hoover à frente do governo dos EUA entre 1929 e 1933. Somente em 1933, quando o democrata Franklin Delano Ruosevelt assumiu o governo, houve uma reformulação das práticas de política econômica e, com o New Deal, o Estado passou a realizar amplas intervenções buscando superar a depressão. Contudo, somente com o advento da Segunda Guerra Mundial os EUA e o mundo de fato superaram o cenário adverso decorrente da crise iniciada em 1929. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CHANCELLOR, E. Salve-se; CIOCCA, P. Crisis; EICHENGREEN, B,;
  • 5.
    HATTON, T. Interwar;FERGUSON, N. Lógica; FOREMAN-PECK, J. Historia; FRIEDMAN, M. Episódios; FRIEDMAN, M. Monetary; GALBRAITH, J. 1929; GALBRAITH, J. Short; HOBSBAWM, E. Era; KEYNES, J. Consecuencias; KEYNES, J. Teoria; KINDLEBERGER, C. World; KINDLEBERGER, C. Manias; KRUGMAN, P. Crises; LANDES, D. Prometeu; LEWIS, W. Economic; MADDISON, A. Dos Crisis; MATTICK, P. Crisis; NIVEAU, M. História; SCHUMPETER, J. Decade; SCHUMPETER, J. Business; WAGEMANN, E. CRISE NO BRASIL José Fucs – Revista Época, janeiro de 2009 Fazia quase dois anos que ocorrera o crash na Bolsa de Valores de Nova York, em outubro de 1929. Mas os estragos provocados pela crise ainda eram sentidos em todo o planeta – e também no Brasil. Em junho de 1931, uma nuvem de fumaça gigantesca, que vinha de uma enorme fogueira, pairava sobre a cidade de Santos, no Litoral de São Paulo, por onde escoava boa parte das exportações do café brasileiro. O café era queimado a mando do governo de Getúlio Vargas para tentar reduzir o impacto negativo da crise no Brasil, então responsável por 60% das vendas mundiais do produto. Getulio vargas assumira o poder um ano antes, por meio de um movimento militar que se tornou conhecido como Revolução de 1930. A economia balançava. As exportações, que atingiram US$ 445 milhões em 1929, caíram para US$ 180 milhões em 1930. Segundo a Bolsa de Café de Santos, a cotação da saca no mercado internacional – 200 mil-réis em agosto de 1929 – caíra quase 90%, para 21 mil-réis, em janeiro de 1930. Nas fazendas cafeicultoras, concentradas no interior paulista e no Paraná, muitos resolveram seguir o mesmo caminho e queimaram o café colhido. Todos os elos envolvidos na cadeia de produção do café brasileiro – fazendeiros,comerciantes, banqueiros e trabalhadores rurais (a maior parte imigrantes) – foram atingidos pela crise. Muitos produtores foram à bancarrota. O desemprego no campo se multiplicou, estimulando um movimento migratório para as cidades, em especial para São Paulo. Como se veria depois, o que acontecia naquele momento era apenas o início de um profundo processo de mudanças que se prolongaria até o fim dos anos 30, às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Essas transformações marcariam para sempre a economia nacional e internacional. Dos escombros da economia do café, surgiria um novo modelo econômico, que se manteria praticamente o mesmo até quase os dias de hoje. Em 2009,
  • 6.
    o crash de29 completará 80 anos coincidentemente, no momento em que parece haver uma crise global de proporções comparáveis, com desaceleração na atividade econômica e alta no desemprego. Embora os contextos das duas crises sejam bem diferentes, a história da crise de 29, em particular seus desdobramentos no Brasil, pode trazer lições preciosas sobre as medidas que ainda fazem sentido – e as que não fazem – para reduzir o impacto do encolhimento global no país. Naquela época, o Brasil passou por um grave problema cambial. De acordo com o historiador Caio Prado Júnior (1907-1990), autor de História econômica do Brasil, publicado pela primeira vez em 1945, a queda nas exportações, provocada pela crise, gerou um desequilíbrio na balança comercial brasileira. Sem uma indústria sólida, o Brasil exportava apenas café e outros produtos agrícolas, como algodão, cacau e borracha. Como não eram produtos essenciais para o consumidor – portanto, suas compras poderiam ser interrompidas a qualquer hora -, dizia-se que o país tinha uma “economia de sobremesa”. A moeda forte obtida com essas exportações servia para pagar as importações de boa parte dos produtos industrializados consumidos pelos brasileiros. O aprofundamento da crise, porém, provocou a redução da demanda externa e a queda dos preços internacionais do café. Com isso, o déficit comercial do país cresceu rapidamente. A crise também causou a interrupção do fluxo regular de capital estrangeiro para o Brasil. O dinheiro externo alimentava a economia brasileira desde os tempos do Império, e seu ingresso se intensificara entre a Proclamação da República, em 1889, e a posse de Vargas, em 1930 – período da história conhecido como República Velha. A falta do dinheiro externo agravou ainda mais o déficit cambial brasileiro. A moeda nacional se desvalorizava rapidamente. O valor da libra esterlina, então a moeda mais usada no mundo, passou de 40 mil-réis, em 1929, para quase 60 mil-réis, em 1934. Com as exportações em queda e sem financiamento externo, o governo aumentou de forma brutal a emissão de moeda – e isso provocou alta da inflação.