“ Biografia”   Miguel Torga
Sonho, mas não parece.
Nem quero que apareça.
É por dentro que eu gosto que aconteça
A minha vida.
Íntima, funda, como um sentimento
De que se tem pudor
Vulcão de exterior.
Tão apagado.
Que um pastor
Possa sobre apascentar o gado.
Mas os versos, depois,
Frutos do sonho e dessa mesma vida.
É quase à queima-roupa que os atiro
Contra a serenidade de quem passa.
Então, já não sou eu que testemunho
A graça
Da poesia:  
É ela, prisioneira,
Que, vendo a porta da prisão aberta,
Como chispa que salta da fogueira,
Numa agressiva fúria se liberta.

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