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APRESENTAÇÃO
O site do Instituto Durango Duarte foi totalmente reformulado e, por isso,
todos os textos já publicados por Otoni Mesquita em nossa plataforma foram
reunidos numa coletânea, em formato de e-book, para que você possa acessar
e ler os artigos em um único lugar, além de poder fazer o download gratuito do
material.
Na “Série Artigos”, você também poderá encontrar as compilações de outros
articulistas, tais como Lúcio Menezes, José Carlos Sardinha, Cláudio Barboza, Oto-
ni Mesquita, Hélio Dantas, Jeferson Garrafa Brasil, Amaury Veiga, Roberto Cami-
nha Filho, Henrique Pecinatto, Jorge Alvaro, Júlio Silva e Kátia Couto.
Essas coletâneas serão atualizadas semestralmente com os novos artigos
que forem produzidos.
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Otoni
Mesquita
Amazonense, artista visual e historiador da cidade. Gosta
de literatura, música, cinema e fotografia. Não dirige, mora
no centro da cidade. Nada no Nacional e anda pela cidade
olhando e fotografando pequenas coisas.
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MEMÓRIA AFETIVA DA CIDADE
Publicado em 12 de abril de 2016.
Gostaria de iniciar essa nossa conversa com uma questão que nos instigue
a pensar em nossa relação com a cidade e as direções preferencias que toma o
nosso olhar quando tentamos captá-la. Talvez nossas escolhas revelem mais de
nós mesmo do que sobre a cidade, mas que seja um exercício que nos faça refle-
tir sobre nossas práticas cotidianas e qual é a identidade urbana que buscamos.
Que cidade queremos para viver.
Se vocês tivessem que descrever a cidade de Manaus, hoje, qual seria a ima-
gem escolhida? Será a cidade da tradição ressaltada pela imagem dos prédios
históricos, destacando o Teatro Amazonas como seu símbolo máximo, com sua
crista colorida sobre a paisagem? Ou será a metrópole moderna, das torres que
se alongam em verticais cada vez mais altas, ou será das grandes vias iluminadas
que invadem os espaços verdes e traçam novas direções. Quem terá a franqueza
de mesclar becos e vielas tortas, sem os serviços básicos, traçando novos espaços,
passando dos limites da periferia?
Será que a lenda se fez verdade e agora é a cobra grande a comer a cidade.
Faminta essa serpente vai se espichando, abarcando condomínios fechados, es-
paços inabitáveis completamente ocupados, viadutos congestionados, trânsito
caótico, shoppings lotados e uma legião de desempregados?
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Qual será a Manaus para quem sempre morou na Sete de Setembro, ou para
quem jamais saiu de um dos extremos da Zona Leste? Para quem nunca se afas-
tou do porto ou jamais chegou em outro aeroporto?
Há prédios bem arrumados e com belas vistas, na Vila, Vieiralves e Ponta Ne-
gra, grandes feiras e aglomerados de barracos sem eira nem beira, com vista para
o nada. Belas casas no Tarumã e conjunto de casebres, muitas vezes, lado a lado a
contrastar; enquanto uns bem tratados e outros completamente desamparados.
Seremos capazes de escolher somente uma dessas partes como represen-
tativa da cidade? Ainda que levado pelos laços de afeto, tento algo priorizar, mas
logo vejo que não é possível eleger uma só das faces, ignorando que a cidade é
tudo isso e muito mais. São muitas imagens, nem sempre agradáveis, como a
personalidade de qualquer um de nós, há coisas boas e outras complicadas, mas
é somente a totalidade que nos faz a pessoa que somos.
Mesmo que a maioria escolha um mesmo ângulo, e tivéssemos um dispo-
sitivo capaz de reproduzir cada imagem, logo nos surpreenderíamos com uma
coleção infinita, difícil de sintetizar numa só forma. A escolha do ângulo é uma
opção pessoal, depende de muitos elementos, havendo uma boa dose do racio-
nal, mas quanto a escolha das imagens, não parece que se possa optar. É como
o sentir e o saber, não são apenas palavras. Ainda que apreendidas de forma na-
tural, parece resultado de um processo complexo: inconsciente e sem grandes
reflexões. Mas o carinho com que se guarda certas imagens, parece resultado de
experiências afetivas e de significados que nos foram passados. Por outro lado,
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parece ser a imagem que nos escolhe, não sendo possível traçar projetos de cap-
tação, elas surgem, nos capturam e se instalam independentes de nossa vonta-
de, não há como premeditar. Imagino uma relação interior/exterior, na qual os
sentidos, como uma câmera atenta captam formas, cheiros e ruídos de instante,
e uma película que existe dentro da gente, tal qual um filme fotográfico sensibi-
liza e grava as imagens.
Isso nos força a reconhecer a multiplicidade de imagens da cidade, não so-
mente nos aspectos evidentes da paisagem urbana, dos diferentes lugares so-
ciais, da diversidade de matérias, mas sobretudo, das coisas imateriais com que
se grava as suas imagens. Que matérias são essas, aparentemente tão tênues e
tão resistentes, preservando formas que não há reforma que a dissolva?
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CIDADE DA MEMÓRIA
Publicado em 26 de abril de 2016.
Ao buscar recuperar a cidade através das imagens guardadas na memória,
podemos ser censurados e acusados de infantil assumindo atitude das crianças
mimadas e descuidadas que choram e esperneiam querendo de volta o brinque-
do perdido. Ainda que para os pragmáticos possa parecer piegas, acredito ser
algo mais forte como buscar a sensação de alguém que pensou ter tudo perdido,
mas recupera a calma ao reencontrar a própria alma guardada com as imagens
da cidade.
Certamente haverá entre nós, muitos saudosistas como eu, lamentando, o
tal “progresso” e lembrando-se de como era graciosa e pacata a outra Manaus.
Naquela época, ir ao “Roadway” era um passeio raro, quando descia o rio, a pas-
sarela inclinava-se em ladeira. Vejo vagos flashes dos passeios sob os flamboyants
alaranjados no sobe e desce dos domingos à tarde no “boulevard”. O centro da
cidade era muito tranquilo, taxis eram raros, os trilhos prateados brotavam en-
tre os paralelepípedos, ruas bucólicas, sobravam sobrados com grandes bandei-
ras, cadeiras que balançavam longas conversas nas calçadas, nas janelas floriam
“Onze horas” e “Santas Terezinhas” sem grades ou sentinelas. As mangueiras e
mariranas arborizavam toda a João Coelho. Enquanto nas ruas do centro, os oiti-
zeiros e os benjaminzeiros, eram podados em forma circular. Sem esquecer que
em determinada época, se evitava a passagem sob esta arborização por conta da
lacerdinha. Inseto muito pequeno e bem pretinho que quando caia no olho dos
transeuntes, fazia chorar mocinhas e marmanjos.
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Nos bairros, eram fartas as fruteiras. Pupunha, abiu, biribá, pitomba, abacate
maracujá e muitas outras que complementavam de forma saudável a dieta local.
O Mercadão era praticamente o único lugar para aquisição dos comestíveis natu-
rais. Além dele, com sua praia amplamente ocupada, havia alguns mercadinhos,
em poucos bairros e várias pequenas feiras. Dentre elas marco a do Seringal Mi-
rim, que funcionava de segunda a domingo, muito antes da abertura da Djalma
Batista. A feira da Aparecida, já tradicional, sempre na terça feira, dia das novenas.
Do Curre, no São Raimundo vinha a carne verde para a população. Naquele tem-
po, o supermercado de importados da Boothline, ainda não havia funcionava,
nem a Casa dos Óleos havia sido instalada.
Quando todos tinham que fazer suas compras no Mercadão, (ai que cesta
chata!!). Mas francamente, não me lembro dessa moda de pirarucu à casaca, mas
quase sinto o gosto do sarapatel de tartaruga, da farofa no casco e de suas cabe-
ças ainda vivas jogadas no quintal. Nos aniversários serviam sempre vatapá com
arroz, maionese feita em casa e salgadinhos com guaraná. E não era educado
limpar o prato. Naquele tempo, típico era traje de miss e o restaurante “Chapéu
de Palha”, projeto do premiado arquiteto Severiano Porto. Cheiros de chicória,
peixe assado de brasa, no quintal ou aroma do café sendo torrado pelo “Moinho
D’ouro” ou do pão quente da “Pátria” ou “Mimi” eram mais forte que o aroma do
“Kikão”da praça de São Sebastião, ou do Piraruburgue com mate com limão, que
passaram a servir no “Ziza’s” nos anos setenta. Quando o “Chang” tinha um bom
pastel e um caldo de cana, assim como a “Campos” da Eduardo Ribeiro, entre o
Jornal e o Cidade de Manaus.
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No céu de toda a cidade flechavam e trançavam papagaios de todas as co-
res, linhas amoladas, meninos correndo com varas e as perseguições da “man-
duquinha”. Na Eduardo Ribeiro, montavam-se os presépios do Branco e Silva; os
desfiles de setembro e os carnavais com suas batalhas de confetes e serpentinas,
com as candidatas a rainha, dando beijinhos do alto dos caminhões. Na Praça da
Saudade além do “araticum” sem recheio e do Tenreiro Aranha no alto da coluna,
instalaram uma fonte “moderninha”, toda revestida com pastilhas coloridas, bem
ao centro de uma grande piscina entre duas esculturas alegórica, passado e fu-
turo enfrentavam sobre as águas e logo viraram piada.
Quem lembrar da época em que o IAPETEC era o edifício mais alto da cida-
de, motivando piada de paraense? Quando o Palácio Rodoviário deixou de ser o
prédio mais moderno da cidade? O “Hotel Amazonas” ainda seria chique, quando
os aviões deixaram de chegar no aeroporto da Ponta Pelada? Ou seria Ajuricaba?
Como foi que a Ponta Negra, deixou de ser uma lonjura sem fim? As notícias mais
quentes vinham pelas ondas do rádio, mas em geral esfriavam na composição
das linotipos de “o Jornal”, do ”O Jornal do Comércio”, da “A Crítica”, do Diário da
Tarde enquanto que “A Notícia”, somente depois de 1969. Mas ao final, tudo ia ser
discutido, deformado e digerido mesmo, era no Canto do Fuxico, sobretudo, no
sábado pela manhã, quando a concentração e a animação do centro eram maio-
res. Discutiam da política a escalação do clássico Rio-Nal. Além das fofocas puras
e das mais perversas. As moças ocupavam um grande espaço. Quanto mais cobi-
çadas, a menina, mais afiada a mira das línguas afiadas e o mais grave era quan-
do se espalhava o boato que uma jovem “não era mais moça”. Em geral, estava
perdida, a coitada. A pílula e a liberdade sexual estavam sendo disseminadas nos
grandes centros.
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NO TEMPO EM QUE SER FELIZ
BASTAVA UM RALA-RALA
Publicado em 10 de maio de 2016.
Como era longo o trajeto do ônibus Ana Cássia “Circular Joaquim Nabuco” e
havia uma parada próximo ao “Canto do Quintela”. O “Tabuleiro da Baiana” ficava
na “Estação”, próximo do “Aviaquário”. O ferro de engomar na Joaquim Nabuco.
Era muito engraçado ir para “Baixa da Égua” ou se enfiar lá para as bandas do
“Buraco do Pinto”, quando “Ferro de Engomar” servia de referência para chegar
ao “Cine Popular”, bem ali perto do Alto de Nazaré, quando o “Morro do Tucumã”
perdeu a vegetação e virou parte da “Ayrão,”. Como era longe o “Caiçara”, ficava
completamente isolado, depois da “Maromba”, praticamente no meio do mato. O
batuque da “mãe Joana” ainda ficava na entrada do São Jorge.
O Teatro Amazonas, no seu vestido cor-de-rosa, ainda se abria em porta de
saloom, deixando entrar tanto para ingênuos vesperais do “Titio Barbosa” e “Vovô
Branco”, como para o ousado teatro rebolado do “Tem xique-xique no pixoxó”.
Mas onde é mesmo que tocavam as orquestras do Glenn Miller, Ray Connifer, os
boleros e o Waldick Soriano? Não era somente para os rostos colados nas “ma-
nhãs de sol” do Parque Dez”.
Havia as “brincadeiras”, festas para dançar “ que quase sempre aconteciam
nos sábados; e a moçada inventou o verbo “paquerar”, para definir o processo de
aproximação com segundas intenções. Depois vieram outros ritmos mais agi-
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tando, as “papinhas” e os “minguais” dos “Bancreveas”, dos “Ideais”, “Olympicos”
e “Rio Negros” se propagaram. Roupas brancas, tecidos com diferentes cortados,
fosforescentes estampados para abafar na “luz negra”. Antes, eram as dublagens
nas festas dos “Barés” ou do “Rio Negro Club”, quando se destacavam as perfor-
mances de Litlle Box, Ednelza Shado e tantos outros que não alcancei.
A tradicional coluna social do Nogar, com seus clichês das mimosas debu-
tantes e dos mais variados eventos. Das garotas de roupa de banho e das misses
no sereno do Rio Negro. A “festa da Camélia”, da Cuba-Livre e das rumbas que
imaginei esconder na fachada do “Acapulco”.
O ritual de abertura das cortinas dos cinemas, a sala de espera no “Cine Ode-
on”, o “Festival Norte de Cinema”, Helena Inês com sua blusa transparente provo-
cou um frisson ao passar em plena sete de setembro. A boca vermelha da Dona
Yayá, montada na portaria do Cine Avenida. Dos “Kungs-Fus” e as pornochancha-
das do Guarani. Os salgados do Mocambo, o ti-ti-ti do Bar Avenida, os sanduíches
do Agô-gô. O Sundae da Lobrás, quando o café do “Pina” ficava quase na esqui-
na da Guilherme Moreira e ainda não era ilha. Que ano foi aquele que o Jander
ganhou o festival com “Domingo na Vila de São José da Barra”? Letra do poeta
Anibal Bessa. Já era setenta e uns, quando “A Selva” foi à Paris, mas isso foi antes
da chegada do “Galvez” e outras “Folias” do Márcio.
Quando falo “naquele tempo”, vocês podem imaginar infinitos momentos,
mas em geral tendemos a buscar boas imagens, quando tudo parecia menos
complicado e nos recolhemos numa cidade que mistura infância, puberdade e
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tempos recentes. Quando ser feliz, bastava um rala-rala encarnado ou uma vaga
na arquibancada do General Osório. Ai que saudade da tribo dos Andirás, dos
pássaros e quadrilhas do festival, tão longe ficaram as mariranas que caiam nas
calçadas altas da João Coelho; do susto que o diabo dava, saltando em estron-
do do alçapão da pastorinha do Luso. Da sereia que parecia nadar num mar de
gelatina, meio verde, meio azul. Dos grandes Vidros de água colorida pendentes
na Drogaria Fink. Depois da fase do candeeiro e das brincadeiras de sombras na
parede, chegou à eletricidade e a noite virou um dia de animação, depois do tu-
-tu-ru-bim-te-tê brincava-se de manja, trinta e um alerta; alguns ainda iam para
berlinda, outros para os sopapos do garrafão. Ainda não havia a “TV Ajuricaba”,
mas aquela musiquinha da “Crônica do Dia” torturava lembrando a hora de ir
para aula. Das peles queimadas dos “banhos” aos domingos, que depois ganha-
ram o bronzeado do “Ton-a-Ton”, no tempo que a praia da Ponta Negra era um
barato tanto no sábado quanto no domingo.
Naquele tempo, pobre na cidade parecia viver com dignidade. Ainda que
pequena, a população era bem dividida. Aparentemente serena, uma parte vivia
à margem, recolhida numa outra cidade. Por ela passava-se quando se ia ao mer-
cado ou pegar “motor” para o interior. Hoje, sua imagem é uma lembrança co-
lorizada, misturada à velhas fotos de matérias de “O Cruzeiro” e à cartões postais
de “A Favorita”. Mas é ela que emerge, pintada e traçada, com seus caminhos em
desalinho, inteiramente erguida em madeira, sobre troncos de árvores diversas,
exóticas formas de uma cidade coberta de palha que flutuava, e ainda navega
em minha memória.
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Catraias eram transportes usuais, no ritmo da cidade iam e viam cruzando
igarapés, passavam remando do “Educandos” para o centro, levando uns do “São
Raimundo” para “Aparecida”, transportando outros do “São Jorge” para o “Pico
das Águas”, mas havia muitas outras travessias, mas grande parte foi esquecida
sob pontes ou sob os aterros. Havia as catraias que deslizavam em torno do Mer-
cado, “merendeiras ambulante”; vendiam pão-doce, broa, refresco além de gara-
pa e outros troços, perseguidas por abelhas e varejeiras. Circulavam por aquele
pedaço do litoral, ora em torno da cidade flutuante, ora em volta do porto ou do
mercado. Corajosas passaram, sem medo aparente, sobre as águas escuras do
Roadway, sobre aquela profundidade estúpida que nos colocaram na imagina-
ção, justamente onde se escondia um mostro de forma tão sombria e pavorosa,
era como uma negra aranha gigante, cuja visão terrível teria deixado louco o úni-
co escafandrista que ali mergulhara. Mas naquele tempo não se podia mentir,
pois a própria natureza denunciava e vingava. Lembram do jacaré que pegou,
mostrou e devorou a Neca? Pois é.
Naquela época, o bairro de pobre era o São Raimundo ou Educandos, para lá
seguiam muitas trouxas, levadas e lavadas. As Alvoradas e Compensas não eram
nem sonhadas, mas o ônibus da “Chapada” ia somente até onde hoje é a rodovi-
ária. Ali acabava a cidade. Era um mundo por começar, além dos balneários, do
“Verônica”, “do Shangrilah” e do Hospício não tinha quase nada por lá. Naquele
tempo, poucos eram os loucos, havia o Milton e a Carmem soltos pela cidade, e
por trás da janela o Bombalá ficava guardado. Hoje são tantos, que não é possível
nominar.
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Alguém já disse que o passado parece sempre mais atraente e organizado
que o presente, ora pois é evidente, ainda que nem sempre sequenciado, é como
um filme acabado, devidamente editado.
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CIDADE DA HISTÓRIA
Publicado em 24 de maio de 2016.
Ainda que aparentemente mergulhado em devaneio nostálgico, justifico
esse meu passeio afetivo por uma cidade que mistura o vivido ao imaginado, e
ainda que estejamos em outra época acredito ser possível compartilhar, mesmo
com aqueles de memória mais recente. Não é preciso ter vivido aquele momento
para encantar-se com seus elementos. Senão que validade teria de fazer história
e como explicaríamos o despertar das paixões pelas antigas civilizações; interesse
pelas outras culturas, de que valeriam as reflexões que tentam, mas nem sempre
evitam a repetição das mesmas ações equivocadas.
Mas o que me interessa nesse momento, é discutir que elementos desper-
tam o interesse e encantam a imaginação, mantendo em nós a história uma coisa
viva. Certamente não são as repetições de datas e nomes dos pontos decorados
no grupo escolar. Penso que deve existir um momento ou um ato capaz de atiçar
a fantasia e a memória, algo presente no ato de contar a história. Seria a narrativa
em si, “o como”, apenas uma questão de talento que pode ser aperfeiçoado, ou
algo natural e especial na postura, no timbre da voz, na sensualidade ou afeto
contidos gesto, não importando “o que” se conte – mentira ou verdade soam
com a mesma intensidade. O certo é que há qualquer coisa que vibra e contagia,
reverberando e gravado em nossa película interna. Por outro lado, penso que a
imaginação é algo em nós guardado, como asas que ao receber um sopro qual-
quer ganham impulso e podem fazer voar.
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NOVAS HISTÓRIAS
Publicado em 7 de junho de 2016.
Hoje, mesmo a academia, tende a escapar daquela história de narrativa insí-
pida e fria, insossa para digerir, estimulando outras abordagens. A Nova História
abre-se num grande leque de possibilidades: são as macros e micros histórias, as
questões regionais e fatos que se restringiram a pequenos grupos locais e nem
por isso deixaram de refletir o todo de uma realidade. A história oral com seus
sons e tons, e as imagens trazendo momentos e personagens que já se foram.
As ideias, as técnicas, a política. Indo ao tempo remoto ou vindo ao momento
recente, tudo pode ser relevante. E como são tantas as lacunas, penso ser urgen-
te recuperar tudo que nos for possível, os mais diversos aspectos da história da
nossa cidade, mesmo que recente ou pessoal não importa. Ainda que pequena
e aparentemente banal poderá ser algo vibrante e original. O tempo é como um
grande incêndio, passa devorando tudo que não fica protegido, não basta reter
em nossas memórias, é preciso compartilhar, deixando para o futuro.
Penso assim por lembrar de significativos momentos passados no 4º ano
primário, quando a professora Aurelina, uma gaúcha de longa trança negra nos
fazia cantar: o “terra dos Barés, dos igarapés”, falava dos rios colossais, contava do
ciclo áureo da borracha, mostrando diferentes aspectos da cidade, lembrando da
riqueza marcada na fachada dos prédios antigos; da instalação da eletricidade e
dos bondes como uma novidade que chegou à poucas cidades.
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Aqueles momentos não desbotaram, ficaram em mim gravado, e penso que
modelaram uma espécie de arquétipo da cidade que fui construindo, misturan-
do ao vivido e ao imaginado. Desde então, carrego e monto uma cidade cuja
matéria, pode não corresponder precisamente à verdade que temos na razão.
Nesse espaço abstrato, que é bem a cara da gente, guarda-se de tudo, coleções
de pequeninos fatos, assim como fragmentos e traços do material. Arquivos que
retém o cheiro da chuva no barro, o gosto das suculentas pitangas do cemitério,
o canto triste das cigarras nas pitombeiras do fim do dia. Não é um cenário que
pode ser desmontado, ou somente uma montagem de diferentes temporalida-
des, nem esquema, nem réplica da cidade, são apenas representações, e mesmo
que apontem para diferentes direções, funcionam como bússola a nos guiar.
Penso que a lembrança desse fato pode remeter diretamente ao papel as-
sumido pelas narrativas na construção e permanência de mitos e heróis. Ciclica-
mente eles necessitam ser rememorados, remontados, ganham corpo e vontade,
dando sentido à existência, sustentando e fortalecendo a cultura que os gerou.
Caso contrário serão apagados e esquecidos como qualquer mortal. Parece-me
que somente na circularidade do sistema adotado são capazes de existir essas
entidades. Como aplicar isso à cidade? Será que apenas nossas imagens colecio-
nadas e meia dúzia de significados são suficientes para dar sentido e manter viva
a alma da cidade?
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O ESCULTOR DA CIDADE
Publicado em 21 de junho de 2016.
Hoje, quase todos reconhecem ser a cidade mais que um aglomerado de
matéria, que possui múltiplas faces, algumas mais transitórias que outras. Um
constante modificar, tal qual as águas do rio que passaram pelo pensamento de
Heráclito. Nova a cada instante, mas carregando sua origem, ela vai sendo trans-
formada. Além do tempo e do meio ambiente, são os usuários os seus verdadeiros
escultores. Começando pela escolha da localidade e o uso que se pretende fazer
de sua paisagem. Traçam um perfil que reflete suas vontades e verdades. Ainda
que, em geral, as pessoas se eximam dessa responsabilidade, acusando a atua-
ção dos grupos de interesse, os especuladores e o pulso forte do Estado. Mesmo
assim, a história das cidades que sofreram radicais e autoritárias transformações,
atribui um relevante papel à resistência popular: manifesta de forma alternativa,
apropriando-se dos projetos impostos e preservando aspectos da tradição.
Ainda no século XIX, Marx mostrou que a sociedade da mercadoria tudo
dilui, numa fome insaciável, num eterno substituir. Inspirado nessa observação
Marshal Berman escreveu ”Tudo que é sólido desmancha no ar”, mostrando e cri-
ticando as transformações urbanas do XIX. Hoje, os fatos apontados por Marx são
mais contundentes, e as cidades, ainda que maiores e estão cada vez mais frá-
geis, reduzindo ainda mais a proporção de seus habitantes. Parece insano, mas é
esse o sistema eleito, o processo escolhido. Caso não seja ingenuidade da ganân-
cia, deve ser a mais pura perversidade da sociedade.
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De novo o nosso tempo tenta vestir a cidade com nova roupagem. O proces-
so pode soar natural, se lembrarmos que já não se usa calças de tergal, camisas
“Volta ao Mundo” ou brilhantina “Glostora”, nem usar calça justa é coisa de “fi-fi”.
Ainda que eu morra de saudade daquele macacão e a sandália de pneu. Quem
entre vocês continua a fazer suas compras no Mercadão? Quem arrisca passear
nas praças do centro no sábado à tarde? Me digam quem há dez anos, se aventu-
rava a fazer Cooper à noite na Ponta Negra? Quem mora em casa e tem biribá no
quintal? Tudo transforma em outra coisa, forja-se novas relações, estabelecendo
comodidades e outras necessidades, retirando de nossas vidas, hábitos e vincula-
ções que pareciam essenciais. Somos nós com nossas pequenas vontades dirigi-
das, nem sempre brotadas de verdadeiras necessidades. Repetimos velhos mo-
delos de época remotas. São pragas plantadas em outras plagas a nos perturbar.
É previsível que com o crescimento da cidade mudem os hábitos de seus
habitantes, justificando-se pela segurança, economia, privacidade, consumo e
tantas outras necessidades que o tempo cobra e o homem se dobra. Vive-se uma
nova era, seguindo-se novos padrões, mas não parece assim tão complicado, até
nos acostumamos falar com máquinas, namorar pela internet, não precisar ir ao
banco ou a pizzaria, mas qual é a graça desse raio de sistema. Já pensaram quan-
do todos agirem assim. Que papel terá a cidade, certamente terá evaporado da
memória, assim como os aglomerados urbanos se chamarão outra coisa.
Certas mudanças parecem inevitáveis e até necessárias, são fáceis de con-
ciliar. Outras, disfarçadas em comodidades e beleza, enganam, pois na realidade
são frias e vazias como flores de plástico das ofertas. Perdendo-se a essência de
coisas, que não era possível comprar. É preciso refletir e contestar, pensando nos-
sas necessidades e fazendo valer a nossa parcela no modelar da cidade. Vejamos
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com calma os paradigmas da pós-modernidade: que a pretexto é esse que tudo
mistura, dizendo atender às diferentes tendências e vontades, mas como resulta-
do uma uniformidade banal. Conservador como sou, vejo nisso a fraude de uma
grande embalagem vazia, mostrando claramente a diferença entre o gostar e o
gastar.
Mas isso não depende, somente, de bons urbanistas, arquitetos, paisagistas
e belos projetos, ainda que esses devam resistir, mantendo o senso e a sensibili-
dade, criando maneiras de burlar o sistema e a própria escola que tenta modelar
esses atores como meros executores das tendências de um grande projeto. São
grandes as pressões econômicas e maiores as tentações consumistas, gordos in-
vestimentos, pesadas articulações para montar grandes fachadas aparentemen-
te arrojadas. Contemporaneidade de Shopping de Miami, espetaculares fachadas
de circo para um show que não acontece. Receita de bolo com os mesmos ingre-
dientes, havendo até mesmo referências à história. Para isso recortam uma vaga
noção de frontão, colam falsas colunas repletas de caneluras, mas sem qualquer
compromisso com as ordens estabelecidas.
Particularmente, penso que estamos integrando uma crise mundial, man-
tendo a história que vem da época colonial, é algo que jamais terminou. O que
parece ameaçador nesse momento é a intensidade do processo, insinuando múl-
tiplas possibilidades, mas na realidade, revelando uma só direção – a uniformida-
de. Cenários impessoais e banais como um resultado globalizado que apaga as
diferenças culturais.
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Por que essa sede de novidade constante, como se na vida só fossemos con-
sumidores? São muitas as justificativas para as mudanças de hábitos. Coisas que
vão da aparência à maneira de pensar. Parece impossível para nós que alguém
mantenha a aparência e o comportamento de vinte anos atrás. Há uma exigên-
cia de mudanças, sobretudo da aparência. Mas será essa cobrança aplicada a um
senhor de sessenta ou setenta? Retirando exceções como Mick Jagger, me pare-
ce que não. Aos mais velhos deixa-se em paz, que vivam tranquilos, sem a tirania
da atualização.
Parece que assim também funciona com as nossas cidades, quando com-
paradas à outras cidades de história mais recuada, evidencia-se a nossa condição
de eterna puberdade, impondo constantes processos de renovação em busca da
atualidade, ainda que em algum lugar tenhamos que esconder quadros medo-
nhos. Esse modelo não estaria fadado ao mesmo final trágico de Dorian Gray?
Desculpo-me pela nostalgia e fantasia do caminho tomado, mas minha in-
tenção era fazer um grande passeio pela minha cidade, recuperando velhas ima-
gens, que ela não é somente essa realidade aparente e recente. Não falo somen-
te daquela história tradicional, às vezes seca, metódica e impessoal. Na verdade,
queria escapar por outras histórias, aquelas narradas por quem as viveu ou ouviu
contar. São tantas as fontes, vivas a circular, tantos ângulos para olhar e tantos os
modos de narrar. Algumas trazem cheiros, sofisticados temperos exóticos, outras
são cores e sentimentos, muitas guardam bem claro as caras e acontecimento.
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Mas podem ter certeza, cada um carrega sua cidade, com cenários, diálogos
e personagem. O homem não passa em branco por uma cidade, ela o acompa-
nha independente de seu gosto ou vontade.
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ARGUMENTAÇÃO DOS DISCURSOS
NA CONSTRUÇÃO DA CIDADE
Publicado em 5 de julho de 2016.
Ao entrar no século XX, a cidade de Manaus já era descrita como uma cidade
graciosa, moderna e saudável, pois as obras públicas haviam transformado seu
aspecto, vestindo-a com avenidas calçadas, dotando-a com sistemas de ilumi-
nação elétrica, distribuição de água potável, instalação do serviço de transporte
coletivo feito através de bondes, além do moderno porto flutuante que se encon-
trava em construção e tendo como destaque um teatro grandioso e ornamenta-
do que se destacava sobre as demais construções recentes e modernas.
Naquele ano de 1900, ao despedir-se da administração pública, o governa-
dor José Ramalho Junior, em sua Mensagem de despedida, justificava que dotar
a capital de melhoramentos era “trabalhar pela causa pública”, e afirmava que as
despesas “consagradas ao embelezamento de Manáos não haviam sido impro-
dutivas”, e complementava seu argumento, dizendo o seguinte: “o estrangeiro
julga sempre um país pela sua capital”: se está o attrahe, sempre disposto ou a
consagrar-lhe à sua pátria, fazer-lhe referências que determinem que compatrio-
tas seus a emigrarem para o país assim enaltecidos. Tudo que se faça pelo embe-
lezamento da capital do Amazonas, à primeira vista parecendo obra supérflua, é
de resultado praticamente imediato.” (Ramalho Jr. 1900. p. 7).
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Otoni Mesquita
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Outro dos muitos discursos que explicitam as verdadeiras intenções das re-
formas e melhoramentos implementados pelos administradores em Manaus, foi
emitido pelo governador Silvério Nery em sua Mensagem de 10 de julho de 1902
ao tratar dos assuntos “Hygiene e Migração”.
“Não se pode pensar em atrair para nós os braços e o espírito empreendedor
e bem intencionados, enquanto não lhe podermos oferecer com absoluta segu-
rança um habitat conveniente e liberto de todas as suspeitas que um espírito de
prevenções, nem sempre injustificada, gera.”
Reforçando a concepção da administração pública e a tendência ufanista
que caracterizou a historiografia do período pode-se destacar a descrição da ci-
dade de Manaus feita em 1904, pelo senador Lopes Gonçalves: “o aspecto é no-
bre, de uma cidade moderna, na qual as casas são altas, as ruas bem traçadas e
largas, excetuando na parte mais antiga que vae sofrendo modificações e desa-
parecendo pela substituição dos seus novos prédios, sem beleza, nem higiene,
por outros elegantes e confortáveis”.
No mesmo ano de 1904, quando esteve no Amazonas o escritor Euclides da
Cunha, com sua visão crítica, ressaltou o mesmo aspecto contrastante que Avé
Lallemant notara em 1859 e apontou uma incômoda artificialidade que o levou
a descrever Manaus, como uma “cidade meio caipira, meio europeia”, na qual o
tejupar se achatava ao lado dos palácios e o “cosmopolitismo exagerado” punha
ao lado do “Yankee espigado” o seringueiro “achamboado” deixando a impressão
que era uma maloca transformada em Gand”.
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Otoni Mesquita
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As imagens de uma cidade embelezada e moderna talvez não fossem as-
sim tão convincentes, pois outro autor a observar estes aspectos é o antropólogo
Gilberto Freyre, na página 408 de Ordem e Progresso, uma de suas obras de re-
ferência, publicada em 1959. Freyre destacou o artificialismo do lugar ao apontar
alguns aspectos que considerou em “desproporção com a paisagem agreste-
mente tropical que rodeava a um tanto postiça capital do Amazonas”, segundo
ele, continuando sua crítica alegava que resultado de um “ambiente de econo-
mia de aventura e de uma ‘civilização’ antes cenográfica do que autêntica”.
Percebe-se que parte dos projetos de embelezamento realizados naquela
época, muitas vezes não passavam de “obras de fachadas” para impressionar os
visitantes e iludir a população local. As inovações adotadas nem sempre eram
assimiladas pela população, sendo, portanto, interpretadas como recursos artifi-
ciais, uma vez que seus resultados, muitas vezes, pareciam simplesmente buscar
efeitos cenográficos.
As fachadas atualizadas e decoradas, as praças ajardinadas, as avenidas cal-
çadas e com grande movimento comercial, plenamente utilizadas para o lazer
da população, conseguiam imprimir uma imagem de progresso compatível com
as aspirações da época, e concentravam grandes esforços no sentido de reforçar
esta imagem, como se o principal objetivo das obras de melhoramentos fosse a
confecção de uma vitrine.
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Projetos para a execução das obras públicas eram aprovados a partir de lon-
gos discursos e relatórios que justificavam a necessidade dessas obras apoiados
nas ideias de pensadores consagrados com Leibniz ou referências a obras reali-
zadas na Europa ou na Capital Federal. Sob a ótica de “preconceitos europeus”
os serviços eram apontados e recomendados como essenciais na busca da me-
lhoria do nível de civilização e garantir a segurança dos cidadãos, mas também
se constituíam numa pressão, nem sempre velada, para a aquisição de materiais
produzidos pelas indústrias europeias.
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MANAUS, UMA CIDADE PARA SER AMADA
Publicado em 19 de julho de 2016.
Chegar a Manaus é sempre um impacto. Depois de horas de vôo ou dias
navegando por densas áreas verdes, recortadas por curvas ocres e negras, depa-
ra-se com uma grande clareira que ruge animadamente. Surge clara e nua, ba-
nhada pelas águas escuras de um belo rio que lhe embeleza. De noite ou de dia,
é sempre um espetáculo, mesmo para aqueles que estão sempre a retornar. Mas
parte do encanto se desfaz, ao constatar que a ânsia de modernizar se desfaz de
suas belezas naturais.
Quarenta e nove anos após a implantação da Zona Franca de Manaus não
há como duvidar do crescimento manifesto em vários setores da sociedade. A
arrojada expansão da cidade é sem dúvida consequência de suas atividades eco-
nômicas que vem atraindo grande contingente de trabalhadores de outros es-
tados. O crescimento populacional, assim como o nível de desigualdade social
pode ser medido pela ampliação exagerada das periferias suburbanas e dos ar-
rojados empreendimento verticais que se multiplicam, em algumas áreas da ci-
dade. Contudo, a falta de infraestrutura necessária, não somente material, mas,
sobretudo, sociocultural, faz deste crescimento uma coisa ameaçadora para to-
dos os segmentos sociais.
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Tal como ocorreu no final do século XIX, um novo surto de prosperidade
econômica direciona mudanças radicais na cidade, visando atender as novas ne-
cessidades de circulação, segurança e garantir as demandas de crescimento, so-
bretudo dos setores industriais e comerciais. Contudo, populações sem qualquer
qualificação sobrevivem com grande dificuldade nas áreas urbanas e sem con-
dições de penetrarem no mercado de trabalho, portanto, sem instrumentos que
permitam exercitar pleno direito de cidadania, permanecem excluídos. O desafio
é estabelecer políticas públicas capazes de promover a integração, valorização e
a inclusão deste contingente no viver social da cidade.
Compreende-se que uma sociedade democrática, deva ser regida por inte-
resses dos mais variados segmentos, não somente pelas políticas econômicas.
Certamente as decisões seriam representativas, contemplando múltipla partici-
pação e promovendo diferentes necessidades e interesses. Gerando, assim, uma
sociedade mais humana, justa e sensível.
Quanto aos aspectos ambientais, históricos e patrimoniais, nota-se que, mes-
mo parcialmente protegido pela Lei Orgânica do Município e ensaiadas algumas
tentativas no sentido de recuperar, sobretudo, alguns exemplares do patrimônio
arquitetônico, grande parte das belas edificações do centro histórico de Manaus
se encontram completamente abandonadas, outras sem qualquer conservação
e muitas definitivamente agredidas: descaracterizadas ou demolidas. Patrimô-
nio arquitetônico e o natural permanecem em risco, agredidos e degradados em
uma velocidade acelerada. Igarapés continuam poluídos, mesmo que parte de
suas margens tenham sido embelezadas. Para o cidadão não há caminhos com
sombra, transporte digno ou calçadas contínuas e regulares.
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Infelizmente, o patrimônio material e imaterial não está amparado por uma
política pública autônoma e contundente, capaz de se confrontar com interesses
econômicos. Com amplos poderes de atuação, não somente em sua extensão
geográfica, mas, sobretudo, no âmbito cultural. Para tanto, suas ações devem en-
contrar respaldo nos currículos escolares, cujos conteúdos e metodologias incul-
quem ideias e valores que fortaleçam as noções de cidadania e pertencimento
da cidade.
Grandes empreendimentos na área da construção civil e das obras públicas
vêm produzindo construções arrojadas, denotando uma clara situação de pros-
peridade. No entanto, esta aparência não parece de acordo com as condições en-
frentadas pela maior parte da população. Ou seja, a convivência com deficiências
de serviços públicos básicos, como educação, saúde e transporte. Além de uma
rotina marcada por outros setores que necessitam ser continuamente acompa-
nhados, ou seja: melhoria e ampliação do serviço de distribuição de água, ilu-
minação pública, pavimentação de ruas, calçamento para pedestres, ciclovias,
instalação de rede de esgotos, engenharia e sociologia do trânsito. Que pensem
no homem como usuário da cidade.
A sociedade tem pressa em demasia, violência em excesso e solidariedade
e fraternidade de menos. Por este ângulo, a cidade humanizada, embelezada e
tranquila, só faz sentido e só será economicamente rentável, para usuários sen-
sibilizados com estes aspectos. Não se deve esperar uma mudança radical no
modelo de cidade, se não houver mudanças nas relações sociais, econômicas e,
sobretudo, culturais, que se processam em seu interior.
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Novas práticas exigem o apoio de uma população sensibilizada e predispos-
ta a adotá-la. Assim, a aceitação e a eficácia de sua implantação, em geral, exi-
gem um trabalho de médio e longo prazo, vinculado a uma mudança substan-
cial no processo educativo. Não há como preservar a mais bela das cidades, ou
as práticas mais tradicionais se não tiverem sentido para os seus usuários. Não se
trata de decorar um discurso ou obedecer a leis, mas de uma relação afetiva que
envolve sensibilidade e pertencimento.
Não é suficiente recuperar, conservar, limpar e embelezar espaços públicos,
nem estabelecer leis de conservação e fiscalizar sua aplicação. É necessário in-
culcar ideias que sensibilizem aqueles que usufruem desses espaços; planejar
estratégias para as gerações futuras. Que as manifestações culturais não sejam
transformadas apenas em espetáculos, nem que os espaços públicos sejam em-
belezados somente para o lazer de alguns. Mesmo que os espaços ganhem no-
vos significados, que se busque preservar as referências e a memória, que pos-
sam proporcionar um relacionamento afetuoso com a cidade.
Acreditamos que recuperando monumentos e seus entornos, é possível pro-
piciar uma valorização da autoestima da população, fazendo com que esta se
reconheça, não somente como usuária, mas como a protetora que ama, preserva
e se orgulha de sua cidade. De fora para dentro, a recuperação destes espaços
poderá auxiliar na construção e difusão de uma imagem da cidade mais bela e
humana.
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Sem dúvida é necessário que as ideias circulem na esfera da administração
pública, dos empresários e da população, mas as ideias não são suficientes, se faz
necessário animá-las a partir do pronunciamento de nossos representantes.
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A ÁGUA E O VERDE NA CIDADE DE MANAUS:
UMA BREVE HISTÓRIA
Publicado em 9 de agosto de 2016.
Manaus é uma cidade cercada por elementos da natureza por todos os la-
dos, portanto é surpreendente descobri-la como uma clareira árida situada no
meio da exuberante floresta amazônica. A região é caracterizada pelo grande
manto verde, recortado pela sinuosidade dos muitos rios e habitada por uma rica
diversidade de etnias indígenas.
A beleza e a originalidade destes elementos são evidências incontestáveis
e bastante valorizadas pela sensibilidade humana. Entretanto, o ritmo de cres-
cimento da cidade parece fazer questão de apagar estas referências belas e na-
turais, próprias de uma situação privilegiada e a cidade cresce insistindo em se
distinguir e se afastar destes elementos naturais. Assim, se constrói uma imagem
bastante distanciada da realidade circundante, como se a aparência desta ima-
gem, por si só, se constituísse garantias de civilidade.
Grande parte das transformações processadas na cidade foi justificada como
exigências naturais do crescimento populacional e das novas necessidades de-
correntes da vida urbana atualizada. Assim, as intervenções priorizaram, sobretu-
do, aspectos da circulação, segurança e o comércio para atender a ampliação da
malha urbana, assim como a intensificação do tráfego de veículos e transporte
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de pessoas, bem como a ampliação das atividades comerciais e do consumo di-
ário. Sem dúvida, estas atividades de subsistência são significativas para o bom
uso dos espaços urbanos. Entretanto, o processo de atualização não atentou aos
aspectos comprometidos com o meio ambiente, que são igualmente importan-
tes para a manutenção da qualidade de vida da população que usufrui da cidade.
As necessidades de ampliação dos espaços habitacionais e da expansão do
comércio e da indústria levaram a reduzir as áreas verdes, não somente nas áreas
centrais, mas também nas periféricas. Em virtude da ausência de uma política
pública aplicada na preservação do patrimônio histórico e natural, permitiu que
os espaços públicos localizados no centro da cidade ficassem praticamente des-
pido de verdes, com exceção de poucos espécimes, ainda mantidos, em algumas
praças centrais, quintais e vias públicas, cujo processo de manutenção é inefi-
ciente.
A intensidade com que ocorreram ocupações irregulares e em áreas de ris-
co foi proporcionalmente semelhante a ampliação das áreas urbanas como um
todo. Infelizmente, a primeira característica destes espaços é a retirada da ca-
mada vegetal, que funciona como um marco de garantia de posse da terra e a
demarcação de vias para a circulação de pessoas e veículos motorizados. Inicial-
mente estas áreas não apresentam os serviços de infraestrutura necessários, mas
a primeira reivindicação a ser feita é o asfaltamento das vias principais, delimitan-
do assim a ocupação. Em torno destas pistas negras e quentes emergem, rapida-
mente, construções em concreto. Em formatos de gostos estético duvidosos, se
multiplicam com seus telhados de amianto e quintais cimentados.
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O processo de atualização produziu necessidades e fez muitas exigências
como o uso intenso de veículos motorizados para quase todos os deslocamentos,
assim como a instalação de aparelhos de refrigeração em grande parte dos espa-
ços de trabalho e habitação. Além disso, podemos observar que nos últimos anos,
as cheias dos rios se tornaram mais provocativas, como se as águas insistissem na
tentativa de recuperar os espaços que lhe foram subtraídos.
A legislação da província, sobretudo do conteúdo veiculado nos códigos de
posturas, demonstravam grande atenção em manter as condições ambientais
da povoação. A partir de uma regulamentação que procurava impedir a degra-
dação dos igarapés pelo uso indevido, assim como a retirada de materiais como
areia, pedras e a vegetação das matas ciliares.
Contudo, podemos constatar que tais objetivos se perderam perante a pres-
são de outras exigências e com a ausência de profissionais especialistas nas re-
partições que deveriam regular e fiscalizar tais políticas. Sob a pressão do cresci-
mento repentino e a falta de resistência não foi possível preservar as três bacias
de igarapés que recortam área urbana de Manaus. Ainda que grandes financia-
mentos tenham almejado a recuperação de suas fontes, isto não ocorreu. Foram
todos degradados com dejetos domésticos e industriais, apresentando atual-
mente suas águas totalmente poluídas.
Além da falta de manutenção destes cursos d’agua, pela ausência de uma
política de preservação ambiental, pode-se constatar que a aplicação do projeto
em curso, contraria as tendências mundiais de empreender esforços para recu-
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perar a paisagem natural. Partes destes igarapés estão desaparecendo, ao serem
aterradas ou modificadas por intervenções embelezadoras para a criação de no-
vos espaços de lazer, e mesmo canalizados para dar espaço para construção de
conjuntos habitacionais populares.
Sem dúvida ainda são bastante discutíveis as razões que levam ao aqueci-
mento global do planeta, portanto, não temos como afirmar taxativamente as
razões que tornaram a cidade de Manaus um lugar tão quente e inóspito para os
transeuntes que circulam por suas ruas. O calor registrado nas últimas décadas,
certamente não se deve somente ao seu acelerado crescimento desencadeado
pela implantação da Zona Franca de Manaus no final dos anos de 1960. Poste-
riormente o processo se intensificou com a consolidação do Distrito Industrial de
Manaus, cujos ganhos pretendiam se propagar além do setor econômico, aten-
dendo a segmentos sociais.
A tentativa de compreender estes problemas contemporâneos nos remete
a buscar fundamentação na própria história da cidade, na tentativa de identi-
ficar e evidenciar indícios significativos ocorridos em seu processo de transfor-
mação urbana. Além disso, pretendemos desenvolver uma reflexão do ponto de
vista memorialista deste processo relativamente recente, acreditando que assim
possamos contribuir para com a discussão do problema e elucidação de alguns
pontos.
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FAZENDO FITA
Publicado em 14 de dezembro de 2016.
Tom Moreno
Foi numa cidade trópico-equatoriana que tudo começou, no meio de uma
ensolarada manhã de Sábado. Havia vitrines coloridas e as pessoas se produziam
como que para lá se expor, em seguida jogavam-se na rua, ávidas de caras e con-
sumo. Naquela hora os letreiros luminosos permaneciam apagados, mas não foi
difícil localizá-la. Encontrei-a entre tantas outras de igual qualidade e nada mais
além do tempo que oferecia me convenceu; mentiria se dissesse que foi amor à
primeira vista, pois assim como foi ela poderia ser outra e se não fosse eu, outro
qualquer a levaria, mas era inevitável que eu a levasse comigo naquela manhã.
Era pura necessidade.
Não tinha sotaques e sobre sua origem nada perguntei, mesmo suspeitan-
do que fosse nativa, apesar de tão parecida com outras de diversas procedências.
Levei-a para casa iniciando-a naquilo que deveria me dizer, lhe apresentei alguns
amigos e logo seu repertório foi sendo ampliado. Ela se submetia a minha von-
tade, aparentemente de bom grado. Depois de algum tempo de convivência, eu
já revelava um encantamento e até certo nível de fidelidade. Eu podia escolher,
mas me punha a ouvi-la horas e fio, sentido nisso um grande prazer em enten-
der o que dizia. Fiquei encantado com seu canto, mas confesso que para que isso
acontecesse não foi somente o conteúdo o tom das coisas que me dizia. Havia
naquelas falas o reconhecimento de diferentes vozes e momentos agradáveis.
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Ela era capaz de reproduzir sensações bastante familiares. Havia uma gran-
de carga de afetividade já com sotaque, conhecia-lhes frases e entonações, mas
sempre me escapava alguma coisa. Comigo seguiu para alguns lugares; peque-
nas e longas viagens. Às vezes, eu a exibia como representante de uma nova ge-
ração daquela cidade tropical, em outras ocasiões, eu a mantinha trancada em
seu mutismo, guardada em casa como joia rara, sem qualquer possibilidade de
expressão.
Muitas vezes, eu saia com os amigos e até esquecia dela, mas sempre ela
atendia aos meus pedidos. Houve época em nossas vidas que não a deixava es-
friar. Era como se me desse algum alimento que eu não encontrava com os ou-
tros ou em outros lugares. Era quase uma dependência. Solicitando sua presença
a todo o momento, mormente na hora de ninar. Era como uma gueixa dócil e
submissa, pronta a atender nas mais diversas horas. Mesmo que eu não tivesse
banhado ou perfumado. Para ela, não havia diferença.
Conhecia-lhe os dois lados como a palma de minha mão e sabia seu discur-
so de trás para frente. Já sabia muito bem o que iria me dizer em seguida. Mas
não era uma relação previsível. De vez em quando eu a trocava por outras. Mas
isso não era segredo, ela sabia muito bem qual era a sua condição e não fazía-
mos qualquer mistério disso. Assim eram tratadas os de sua espécie, portanto,
não sentia qualquer remorso em colocar outras vozes sob o mesmo teto que nos
abrigava. Entravam e saiam, sem dramas, pois ela nada dizia. Não éramos caso
consumado, mas consumíamos um caso vulgar até que sumisse por inteiro.
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Um dia chegamos a um lugar de sal e sol, mas às vezes tínhamos que nos
guardar em casa até que as nuvens passassem nos devolvendo o azul. Foi numa
dessas recolhidas que aconteceu o nosso primeiro desentendimento. Já estava
cheio de chuva e pedi-lhe que me cantasse algumas canções que NOS aproxima-
vam. A princípio ela não demonstrou nenhuma contrariedade em atender aos
meus pedidos. Tudo parecia dentro da normalidade. Ela atendeu como sempre
fizera até que no meio de uma frase engoliu algumas palavras que dariam sen-
tido e continuidade a frase. Foi como um engasgo inesperado e confesso que eu
me assustei, mas logo voltei a insistir, sem sucesso. Deixei para lá e procurando
evitar tumultuar o ritmo das férias, eu a dispensei da tarefa.
Passados alguns dias, ela voltou a ocupar o centro de minhas atenções; sen-
tia saudades das vozes e das lembranças que ela guardava em si, insisti e a per-
turbei de muitas maneiras. A princípio com carinho e delicadeza; mas aos poucos
fui perdendo a paciência e comecei a sacudi-la, espetei-a, mas não obtive qual-
quer resultado positivo. Ela parecia cada vez mais enroscava mais em si mesma,
completamente travada. Não reagia, permanecia enrolada sobre si, emburrada,
embolando a fala de maneira indecifrável. Um antropólogo talvez descobrisse ali
o comportamento típico de um autêntico índio mura emburrado no cativeiro.
Tive vontade de jogá-la pela janela do oitavo andar, mas me contive, não
pela possibilidade de cometer um crime ou sofrer punição, mas pela esperança
de voltar a ouvi-la outras vezes. Depois de algum tempo e esgotando o meu re-
pertório de alternativas, conclui que a metodologia aplicada não estava surtindo
efeito almejado, talvez fosse à rudeza do tratamento ou alguma outra razão por
mim desconhecidas.
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Parti para um novo procedimento, demasiado avançado para minha forma-
ção. Sem qualquer resistência a transportei para sala, e a coloquei sobre o sofá,
esperando que emitisse algum sinal capaz de explicar a razão de seu estado de
mutismo. Queria diagnosticar algum indício do mal que lhe afligia. Mas foi tudo
em vão, do traumatismo nada consegui saber e depois de algum tempo, perdi o
resto de paciência que tinha.
Enfurecido, decidi invadir lhe o interior e desordenei a sequência lógica, mis-
turei alhos com bugalhos; deixei-a tonta e pensei tê-la na palma da minha mão.
Parecia bastante radical e alternativo o tratamento que eu adotei. Nos espalha-
mos sobre o tapete da sala, a recostei sobre os móveis. Depois, arrastei-a pela
casa, parecia o fim de tudo. Só temia que, a qualquer momento, as crianças che-
gassem da escola.
Tinha que ser ágil e versátil, agir antes que as crianças retornassem. Não po-
deria deixar vestígios. Perdi completamente o controle, armei-me de ferramentas
cortantes e avancei sobre ela. Primeiro intervi em algumas falas na tentativa de
desembaraçá-la do mal que eu não sabia bem qual era. Encarei aquela situação
como se fosse um exorcismo, ainda que pudesse parecer uma seção de tortura.
Por mais de uma vez estive com uma faca na mão prestes a abri-la ao meio. Pen-
sei em desmembrá-la.
Ela se mantinha muda, completamente submissa perante o carrasco, pa-
recia desafiar todas as tentativas. Era desesperador recordar cada um dos mo-
mentos que somente ela guardava. Ela sabia muito bem que só ela era capaz de
nos contar. Isso me enfurecia, ainda que lhe fizesse alguns curativos, esperando
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sensibilizá-la de alguma forma, mas qual “umbuá” se mantinha enrolada sobre si
mesma ou se enrugava feito pele envelhecida.
Tanto fiz que depois de algum tempo consegui que ela voltasse a falar co-
migo e até cantasse um pouco das nossas recordações mais felizes, mas desde
este dia ela jamais foi a mesma. Continua comigo, talvez por conveniência minha
ou por solidão dela, nem sei por que, pode ser por puro saudosismo ou talvez
aguarde sua prometida substituta que ainda não chegou. Como uma gueixa, se
mantém submissa e fiel ao seu destino. Mas permanece intocável, não há casse-
te que a faça girar para cantar. É apenas uma fita cassete inutilizada, mas antes
tocava músicas do grupo Tariri.
A Natasha ficou me devendo uma cópia melhorada desta dramática criatu-
ra, mesmo assim eu a mantive até o dia que me deixou. Emprestei-a para Jane
Jatobá que não me devolveu mais. Talvez ainda cante alguma coisa, pois eu havia
remendado cada pedaço da fita, ainda que aqui e ali ela ainda continuasse en-
gatando.
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GRAVURA ERÓTICA
Publicado em 31 de janeiro de 2017.
Muitas pessoas passam pela vida sem nunca ter ouvido falar dela. Outras
ouviram falar, mas não têm uma ideia precisa de como funciona ou se apresenta.
Às vezes têm ideias deturpadas e confundem com pornografia. Proíbem os filhos
de manter qualquer contacto com esta coisa que não sabem o que é, mas que
acham que é perigosa, pois mexe com a libido e com a criação.
Poucos foram iniciados neste universo raro e sem retorno. Alguns ficaram
completamente dependentes e não conseguiram mais retomar o ritmo da vida
que vinham levando. Alguns penetraram sem muita profundidade, levados por
um texto superficial, imagens curiosas ou alguma conversa nem sempre tão es-
pecializada.
Muitos chegam a ela quase que obrigados. Como um dever, uma disciplina
a ser cumprida. Sendo perigoso assumir uma forma burocrática, de cumprimen-
to de atividades burocráticas que atende números, portanto, corre o risco de ser
frio e calculista, não promovendo qualquer prazer a seus usuários. São aquelas
relações gordas, ociosas, com cheiro de cigarro e café frio. Carimba assina e cha-
ma o próximo.
Só há salvação para aqueles que descobrem que fazer uma gravura é quase
o mesmo namoro que tiveram quando começaram a desenhar e descobriram o
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que podiam fazer com o lápis. O universo que surgia e a formas que brotavam
sem predeterminação. Uma troca de carícias, uma relação afetiva, um namoro
que deve ser eterno enquanto dura a relação.
Alguns podem descobrir grandes prazeres e literalmente mudar de vida. Es-
tes deverão encontrar prazer no simples roçar de seus instrumentos contra su-
perfícies lisas e sólidas. Vibrarão com os primeiros arranhados e com as primeiras
penetrações. Sentirão necessidade de buscar novas posições e composições. Não
se contentarão apenas com o café com leite feito pelo contraste simples de pre-
tos e brancos ou as variantes meio quentes, meio fria tal qual a mistura de feijão
com arroz que servem na bandejão.
Devem se desligar das outras ocupações. Na hora deste amor só deve existir
ele. Esqueça o mundo!!!
É desses amantes que necessitamos para que estas relações tenham sen-
tido e façam diferença. São eles que mergulham de cabeça em cada coisa e que
podem estimular os outros na arte com prazer e com intensidade. Vão inteiros.
Como em uma relação amorosa, existem muitas maneiras de se materializar
uma gravura erótica. Deve-se partir de um contacto simples e essencial com seu
toque íntimo e pessoal. Sem este contato não há fantasias ou sexy shop, nem a di-
versidade de relações, nem poligamia ou outras relações erotizadas, nem mesmo
grandes bacanais são capazes de produzir a matéria essencial. Talvez temendo
cair em tentações das muitas possibilidades é que alguns, mais tímidos, fiquem
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travados e prefiram imaginar cada detalhe. Planeja cada gesto, como seria cada
traço, cada claro e se teria escuros a compor a imagem do ser amado.
Sonham com as maneiras de conduzir o seu instrumento, prevendo o sur-
gimento de destacados volumes e sombras gerados por incisões feitas por cer-
teiros cortes e golpes afiados. Pensam por onde começar e como tudo seria belo
e sofisticado se realizado. Acovardados ficam escondidos nas formas idealizadas
das relações platônicas, próprias das relações que não acontecem, não concreti-
zam. Preferem imaginar como seriam se tivessem feito isso ou aquilo. Mas nem
um ensaio para mostrar que podem superar o medo. Ficam paralisados e fogem
para o idealismo, não realizam. Podem até sentir prazer, mas a frustração de não
realizar é ainda maior, pois não acreditam que são capazes de tocar e trocar com
o objeto de seu desejo. Sem contato não há reprodução.
A relação deve surgir de uma vontade e implica em uma relação que, em
geral, envolve mais de três personagens, mas não deve ser promíscua. Pode ser
uma relação de amor, mas nada impede que se desenvolva apenas uma relação
profissional, visando a sobrevivência ou outras necessidades. Mas não deve ser
tratada apenas como uma relação comercial. Ainda que possa parecer contradi-
tório, em geral, são as relações mais dedicadas e profissionais, que apresentam
maior possibilidade de gerar reproduções.
Não há como escapar. Em geral é uma relação moldada em padrões tradi-
cionais. Alguém domina e a outra parte se submete ao instrumento que lhe pe-
netra e se dirigido pode abrir veios e grotas que podem fazer sentido o seu corpo
plano e tratado com lixa fina.
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Da origem mais vulgar e pobre, aos berços mais raros e caros. Do papelão
desprezado e abandonado no lixo das cidades, às madeiras mais nobres e per-
fumadas sequestradas das mais belas florestas. Parodiando o grande cineasta
brasileiro, podemos afirmar que só há uma atitude a ser tomada nesta relação:
uma ideia na cabeça e uma goiva na mão. Mas isto não é tudo para começar o
romance.
É preciso saber manusear o seu instrumento de prazer e de trabalho. Ainda
que levado por um amor animal, a madeira, tal qual uma amante calorosa, não
deve se manter apática, nem brincar de morta. Ela deve reagir ao toque daquele
que lhe penetra. Além de chegar com o instrumento amolado, conhecer o sen-
tido dos veios da criatura. Saber em que direção quer seguir e não correr o risco
de quebrar o instrumento, romper a madeira e sair ferido. Ter em mente o filho
imaginado.
Não importa onde foi feita a iniciação; se na bananeira ou no açacuzeiro, ce-
rejeira, maracatiara, cedro ou marupá. O que vale é retirar a experiência de qual-
quer relação, não importa se tenha sido com um compensado torto, um duratex
mofado ou linóleo molenga. Não importa o suporte em que tenhas deitado o seu
instrumento, mas que você retire algo desta vivência e que se deleite com as no-
vas experiências de cravar e gravar.
Instrumento afiado é sinal de prática constante, mas não basta ser amolado,
de ouro e com diamantes cravejados. É preciso saber manusear o instrumento.
Saber em que direção cortar, prevendo o que será descoberto e o que ficará es-
condido. O que deve ficar intocável e aquilo que deve ser sutilmente mostrado.
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Para marcar definitivamente é preciso vigor e decisão, não necessita de vio-
lência no gesto nem mergulhar tão profundo no corte, senão poderá machucar o
instrumento ou abrir lascas irreparáveis em sua matriz. Lembrando que deve ser
uma relação de parceria. O toque do instrumento deve ser feito com precisão e
direção. Todo ponto pode ser G, quando se está presente. Pode ser fino o instru-
mento e pouco profundo o corte. Só depende do que você queira como resulta-
do. Com as mãos leves e com a carícia de instrumento amolado, a madeira cede
mais facilmente que a fúria de um corte que ignora que ela existe. Assim como
uma mulher tocada, a madeira recebe com prazer os cortes finos feitos com de-
senvoltura de quem sabe o que quer e para onde vai.
Assim como em algumas relações, na gravação é necessário que alguém
mantenha as rédeas da direção. Mas nada autoritário. Uma atitude bastante sau-
dável para a relação quando os dois conseguem se entender.
Para estabelecer uma relação de compreensão na relação deve-se manter
um estado de concentração e atenção. Não esqueça que você pode irremedia-
velmente agredir o suporte, cortes irreparáveis. Reparações são como plásticas,
nem sempre parecem naturais. Você pode perder o afiado de seu instrumento e
sair ferido. Portanto, muito cuidado. Concentre. Pode até falar, mas não entre em
uma discussão sobre religião, política nem sexo. Grave!
Concentração no corte. Grave com o prazer como se só houvesse isto para
fazer na vida, pelo menos naquele momento. Lembrar que as mãos devem ser
mantidas fora do alcance das lâminas. Uma pode auxiliar a outra, na direção e no
controle da ferramenta. O que não pode é ficar ociosa, pois assim como as pes-
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soas que nada têm a fazer acabam se atrapalhando. Você pode utilizar diferentes
suportes para chegar a posição mais cômoda e prazerosa. Não importa o que
você quer reproduzir. O tema pode ser um pretexto para penetrar na relação. É
como uma conversa, um flerte inicial, mas que pode ser superado pelo ritmo da
própria conversa, ou seja, pelo como se faz. Esta é a verdadeira diferença. Apro-
veite e se descubra no ato.
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DECLARAÇÃO DE RELACIONAMENTO
Publicado em 28 de fevereiro de 2017.
Certamente não foi amor à primeira vista. Nem sei onde se deu o nosso pri-
meiro contato. Quando percebi, já estava comigo, como se fizesse parte do meu
ser. Não deu alternativa, nem tempo de substituir o status de meu perfil. Mas
mudou o meu estado de animação e sem muita cerimônia me levou logo para
a cama. Insaciável, não queria me deixar sair mais de lá, por mais que eu relutas-
se. Sem muita resistência e sem força, muitas vezes me entreguei, como se não
tivesse mais nada a fazer. Ainda que suas carícias não fossem tão delicadas e me
maltratassem a cabeça, faziam doer a nuca, a fronte e as juntas. As noites ficaram
longas e demoradas, com sensações de frios e calores a me dominar. Tremores
e delírios eram rotinas, como os sonhos que não se completavam. Fragmentos
insistentes a se repetir até se tornarem pesadelos. Enquanto ela saciava suas von-
tades, esgotava aos poucos a minha libido. Me fez de gato e sapato, amoleceu
meu corpo como uma massa de modelar, brinquedo destrambelhado que pode
a qualquer momento desabar em qualquer lugar. Mudou meu ritmo de vida ao
tenta me reter em casa, me fazendo querer a sombra e me esconder da luz do
sol. O corpo esquentava, os olhos relaxavam e os ouvidos se incomodavam com
tudo. Só mesmo um casulo, mas ficar abraçado com ela. Muito difícil resistir. Re-
conheço que fui tomado, possuído por essa coisa invisível que transforma nossas
vontades numa coisa que não é bem nossa. Parece mesmo que queria me levar
com ela. Essa coisa invisível, mas que arrasa e que chamam de VIROSE.
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Não há como escolher ou se esconder. Ela pode te pegar no trabalho, no bar,
em casa ou na igreja. Ela não se apresenta, nem manda convite. Assim, te indico
maiores cuidados tentando caracterizar a maldita. Sendo invisível, não é possível
dizer que seja feia ou bonita. Nisso também ela é desleal, pois não deixa escolha,
mesmo sem apresentar qualquer personalidade, mesmo sem solicitar ou avisar,
ela se apossa da gente ao seu bel prazer. Ainda que não apresente qualquer atra-
tivo, nem mesmo atributos físicos ou vantagens, como seios consistentes, glúte-
os delineados ou boca boa para beijar. O pior é que não nos reserva nem mesmo
um lugar para gente se guardar.
Fica na gente como hospedeiro para garantir sua passagem, se expandir e a
outros abraçar. O pior de tudo é que exige fidelidade total.
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GALOPANTE
Publicado em 31 de março de 2017.
Uma coisa escatológica, ainda que básica e vulgar, não há como evitar. Deve
ser uma oportunidade para quebrar a rotina ou redirecionar o ritmo de vida, tal-
vez para lembrar que nem tudo é glamour e pode se planejar. Ocorre no âmbito
de sua intimidade e muitos preferem esconder, não confessam com temores de
ridicularizar. Não perderão tempo tentando entender a causa ou razão. A prati-
cidade da vida moderna com seus medicamentos cuidará para que tudo volte à
normalidade. Não é uma coisa que possa ser evitada, pois assim que o sujeito sen-
tir os primeiros sintomas, não terá mais o que fazer. Às vezes, chega suave, pode
ser uma dorzinha, mas aos poucos, outras se manifestam abruptamente, logo,
uma emergência. Não tem escolhas, nem espera. Pode te pegar no meio da rua,
num passeio fluvial ou no meio de um show movimentado, cercado por amigos
e desconhecidos. Não avisa que vai se manifestar no meio de uma solenidade ou
no casamento que você é o padrinho. Que não sejas o noivo nem a noiva. Pode
escolher a bela Miss prestes a receber a faixa, como pode derrotar o atleta, aque-
le que treinou tanto e se mantinha concentrado na disputa da medalha. Ela se
manifesta a qualquer hora e pode derrubar até os mais ágeis lutadores de MMA.
Para ela não há fortes, quanto maior o sujeito, maior a queda, pois quanto mais
energia, maior a reação. Pode ter escapado da justiça e ter uma rede de proteção.
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Para muitos se manifesta inicialmente com uma série de arrepios e calafrios.
Logo vão se tornando mais constantes, com ondas de calor e sensações inexpli-
cáveis que tomam toda a atenção, tomam o corpo e espetam todos os pelos, não
há como esconder. Intestino se revira, tripa grossa parece que morde a fina. As
pernas ensaiam um twist, mas você não vai querer saber de qualquer ritmo para
se movimentar. Nunca sua vida terá um objetivo tão claro e na mira. Perde a nor-
ma e a etiqueta. O que fazer? Não há uma alternativa.
Não importa se limpo, sujo ou escangalhado, que tenha tampo ou tenha
descarga. O problema é se estiver ocupado. Você só vai querer uma coisa em
sua vida: o vaso. Somente depois disso você vai pensar na reforma política, na
distribuição de renda ou se terá papel. Mas aí, nada mais importa, você já estará
aliviado e nada mais importa. Estará mais leve e paciente, para falar e ouvir. Qual-
quer história e mesmo opiniões disparatadas. Rirá de qualquer coisa, mas é o
seu alívio que comemora. Ela não escolhe a hora e pode te pegar, ninguém está
imune, mesmo que coma somente pão seco e legumes, ou vá na China jantar, a
caganeira galopante pode te pegar.
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CONFISSÃO DE UM RELACIONAMENTO MODERNO
Publicado 30 de abril de 2017.
Há algum tempo nossa relação parecia abalada ou estremecida. Razões
variadas nessas atitudes contemporâneas. Muitas coisas sem respostas e mu-
danças de hábitos. No meio de nossas conversas deu para me ignorar. Não se
importava com o que eu tentasse ou insistisse, como o relacionamento tivesse
somente uma via. Não era coisa para sofrer, considerando as tendências e forma-
tações atuais. Mas era muito chato ficar sem resposta no meio de uma conversa
que parecia ir muito bem. Se distanciava completamente, numa atitude altista
me ignorava.
Me acostumei com a situação e deixei para lá. As coisas voltavam a funcionar
como se nada tivesse acontecido. Mas eu sabia que havia algo de errado e temia
perder grande parte do que tinha investido nesta relação. Insistia, mas não sabia
exatamente o que fazer. Não queria pressionar, pois não gosto de ser pressiona-
do. Além disso a nossa relação não é daquelas que se discute. Ficamos frios por
um tempo. Eu com outros afazeres e contatos e ele guardado em seu mutismo
temperamental. Viajei, mas quando retornei fui em busca, senti necessidade. Fez
menção de falar e se abrir para mim. Mas que nada. Calou mais uma vez. Não
foram suficientes minhas tentativas e já não sabia mais o que fazer. Disposto a
terminar com tudo, mas lembrava sempre de tantas coisas que dividimos, tantas
memórias e declarações, tantas coisas que jamais foram reveladas a outros. Tive
temores que se calasse para sempre.
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Ontem à noite, parecia calado definitivamente. Nenhuma resposta, por mais
que eu insistisse e até pensasse em violência, por mais que eu permanecesse à
sua frente e até me debruçasse fraternalmente sobre sua silhueta. Depois de
tudo isso fui dormir, pensando que um novo dia talvez revelasse um fato novo.
Mas que nada, pela manhã voltei a insistir, mas nada consegui. Foi então que
decidi buscar ajuda externa. Resoluto abracei-o quase como uma despedida e o
enfiei em minha mochila azul. Fui em busca do amigo Max que mexeu daqui e
dali uma peça mais daquilo, um pouco mais disso e ele voltou a si depois de um
tratamento de choque. Literalmente foi uma lobotomia. Eu não sabia, mas se faz
com os PCs quando sofrem determinado problema. Enfim, voltamos para casa e
estamos de novo na boa.
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CIDADE ABANDONADA
Publicado 15 de maio de 2017.
A cidade até pode ser a mesma, mas caminhamos em diferentes planos. A
minha, aquela por onde trânsito todos os dias. Ela se encontra quase vazia, depois
das sete da noite. Pouquíssimas pessoas no meu caminho, amigos, muito raro.
Quase uma cidade abandonada. Não posso afirmar que se encontra completa-
mente esquecida, por causa do movimento de automóveis que não cessa, nesse
horário. Ônibus lotados, abafados, comprimindo pessoas aflitas, como se fosse
aquela, a última condução para escapar do lugar.
Sigo sozinho e no meu trajeto, não se vê ninguém nas varandas, nem nas
portas da casa. Em volta do meu velho cinema Poeira, nada de movimento, nem
na rua da minha amiga, a minha Ayrão, que foi tão animada e vibrante, parece
completamente esquecida, quase um cenário. Decididamente, seus moradores
migraram para outro plano ou outra parte da cidade. Raro, é um pequeno e per-
sistente grupo que se reúne, todos os dias, sob uma mangueira não muito forte,
nem bela, em frente no borracheiro da curva, logo depois do alto de Nazaré. Mais
embaixo, na pracinha, o silêncio é quase total. Para muitos é inacreditável, mas
caminho em outro plano da cidade.
Não foi uma coisa abrupta, como alguns querem sugerir. Há muito vi acon-
tecer, não muito claro, mas sabia que tinha algo de errado. Era um processo de
migração contínua, dentro da própria cidade. Às vezes, num ritmo mais eviden-
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tes e intenso que em outros momentos, mas em um processo contínuo. Não era
apenas espacial a mudança, mas sobretudo, para outro plano das ideias, abraça-
vam outros valores e abandonavam aquela cidade que não mais sorrir. Não posso
lhes acusar de traidores. Foram iludidos pelas promessas, assim como os serin-
gueiros. Pobres humanos, sempre a sonhar sonhos impossíveis. Abandonaram a
cidade dos seus sonhos.
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DECLARAÇÃO DE RELACIONAMENTO AFETIVO
Publicado em 30 de maio de 2017.
Já fiz outros tipos de declaração, por aqui, mas não sei, se alguma nesse
gênero. Não é fácil externá-la. Não é um relacionamento recente, portanto, não
se trata de um deslumbramento inicial de um relacionamento, que seria mais
fácil não enxergar ou ignorar os defeitos um do outro. Para alguns, pode não ser
novidade, atentos aos meus inúmeros elogios que lhe destacam alguns de seus
atributos, nem sempre evidentes. Ainda que, com uma certa frequência, lhe faça
críticas ao comportamento e condene suas mazelas, por ter se relacionado com
alguns homens que atravessaram e atravessam o seu caminho sem o menor res-
peito por ela.
Não é ciúmes, sei muito bem que não fui o seu primeiro amor, nem ela, a mi-
nha primeira escolha. Para alguns, ela contínua a trair, se entregando a sujeitos
que fazem demasiadas promessas, sem qualquer compromisso. Nunca me im-
portei que tivesse tido outros relacionamentos, mesmo que, com sujeitos tortos,
com seus discursos prolixos, suas falas sedutoras, corruptores, com suas juras de
amor e apelos estampados em outdoor. Vejo as vezes evidências muito clara-
mente e compreendo que se trata de algum desajuste. Não há outra explicação
para a sua constante submissão e apatia, perante enganos tolos e humilhações
diárias, mesmo sabendo que eles sempre voltam para lhe tirar mais proveito.
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Nos relacionamos há muito tempo, por isso construímos uma longa história
com encontros e desencontros de tudo que tivemos. Momentos de mais amor
e menos dor, contrastados com situações em que nada perdoei. Resistimos por-
que não podemos ser diferentes daquilo que rege a nossa natureza. Por querê-la
tanto é que tive de reconhecer que ela não pode ser regulada pela minha vonta-
de. Contudo, não acredito em sua autonomia. Luta para ser o que quer, mas mui-
tas vezes se submete completamente as convenções e padrões importados. Se
revela apenas uma consumista banal que tenta nos enganar com maquiagens
reparadoras, suas intervenções cirúrgicas em clínicas clandestinas.
Ainda que ela já tenha perdido grande parte de sua juventude e beleza, que
tenha ganho outros atributos, vale dizer que não são estes atrativos que nos apro-
ximaram e nos vincularam. Mas uma relação afetiva, construída de muitas expe-
riências e afinidades, algumas coisas, nem sempre sabemos explicar. Reconheço
que ela, já não é mais a mesma e passo os olhos, estendo as pernas para lhe
alcançar, passo as mãos em partes acessíveis de seu corpo. Tateio, buscando re-
conhecer o que resta daquilo que já se encontra mudado. Penetro em áreas mais
guardadas e conhecidas, na esperança de recuperar algumas das sensações de
nossos antigos encontros.
Ainda temos muitos momentos de compreensão e até amor, sobretudo
quando estamos a sós. Mas quando a animação é grande e tumulto promovido,
temos dificuldade de nos relacionar. Quando tens que obedecer a programações
oficiais, não há como me incluir e mesmo te conhecendo muito bem, sabemos
que é possível surgir o conflito, mesmo que por coisas, aparentemente pequenas,
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mas que podem se tornar graves. Muitas vezes, pensei em romper, mas definiti-
vamente não consegui te deixar. Por isso, tenho que reconhecer sempre e decla-
rar o meu comprometimento neste relacionamento afetivo com você, cidade de
Manaus.
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POR QUEM DOURA A PRAIA?
Publicado em 15 de junho de 2017.
Inicialmente me perguntaram por que Dourada? Expliquei que quase dia-
riamente, o lugar é iluminado pela luz do pôr-do-sol, com seus tons amarelos e
dourados. Vimos o belo sol deitar-se sobre a mata, revelando inúmeras silhuetas
que se divertiam sob sua luz.
Depois, comigo mesmo, refiz a pergunta, parodiando antigo clássico do ci-
nema e perguntei: Por quem doura a praia? Como resposta, eu mesmo recorro a
outro clássico que diz: O sol é para todos. Ainda que eu não queira concordar com
esta resposta, é preciso lembrar que realmente a luz do sol é regida por um prin-
cípio natural, indiferente de quem o recebe. Independentemente de ser amado,
ele se entrega completamente, ainda mais tarde, possa vir cobrar com juros e
correção. Veremos, talvez.
Quase diariamente, ele surge altivo, é visto e sentido pela maioria, mesmo
por aqueles que se aproveitem dele apenas para exibir o brilho de suas moedas,
seus barcos ostentosos, seus corpos dourados artificialmente, ou simplesmente
usufruem de sua claridade para impressionar ou caçar um par, ainda que por
tempo reduzido. Ele se apresenta, mesmo para aqueles, que não são capazes
de ouvir e sentir a maior parte das coisas, pois se encontram adormecidos ou
nocauteados por condicionamento massivo, perante os aparelhos de TV ou pela
sonorização vulgar e ruidosa, muitas vezes, estimulados pelo excesso de álcool e
outros estímulos consumistas.
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Apesar de se entregar, o sol não é para todos. Ainda que muitos possam dele
usufruir. Devo dizer que o sol é daqueles que o amam, daqueles que o sentem e o
veem. Ele não se vende para aqueles poderosos, os privilegiados com seus gran-
des ganhos financeiros, nem se submete ao poder das dinastias, ainda que muito
remotas. Ele pertence aos que o amam, aos que a ele se entregam sem esperar
nada em troca. É das crianças, sobretudo daquelas que temem o escuro da noite.
Aquelas que brincam ao sol como se fizessem parte deles, fazendo de sua luz um
alimento de alegria que as conduz pela vida. É do trabalhador, que mesmo não
sendo o dono da terra, e muitas vezes, sofrendo sob o calor causticante, é ele que
aduba a terra com o seu próprio suor, cuida, planta, rega e colhe, fazendo com
que outros enriqueçam com as gotas do seu suor.
Apesar do autoritarismo da engenharia, com seus cortes retos e profundos,
mudando a paisagem com seus planos geométricos e contrastante com a na-
tureza. Apesar das ações mercantilistas do comércio e da economia, ignorarem
completamente as práticas e a naturalidade do lugar, não conseguem fazer dele,
mais um de seus escravos. Tão compenetrados em seu pragmatismo ganancio-
so, não são capazes de tirar deles a energia necessária e preferem erguem impé-
rio de produtos nocivos coisas envenenadas.
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ALFORRIA A FERRO E FOGO
Publicado em 30 de junho de 2017.
Ao iniciar esse texto, relutei em dizer a palavra ganhei, para expressar a ob-
tenção da alforria como uma conquista, algo que não foi de graça. Na realidade,
um longo trajeto de lutas e conquistas, nem sempre felizes ou suaves, mas o peso
e o suor também produziram fibras e alentos agradáveis. Nestas travessias, tam-
bém encontrei muitas pessoas que apoiaram meus passos, assim como muitas
boas coisas aconteceram para me animar. Até os tropeços e as quedas, muitas
vezes me ajudaram e de alguma forma moldaram quem sou. Muitas vezes, assu-
mi compromissos a ferro e fogo, uma atitude que não admitia outra alternativa.
Me abraçava fortemente aos compromissos assumidos. Por conta disso, muitas
vezes me indispus com muitas pessoas.
Certamente devo ter feito cobranças muito rígidas para quem tinha outros
interesses ou maneiras de tratar o trabalho, de acordo com seus entendimentos
de vida. Já não posso afirmar que estava correto, mas assumo estar satisfeito com
as práticas e atitudes assumidas na vida. Uma ou outra, certamente reprovável,
mas no geral, não há o que lamentar. Passou. Algumas ainda merecem críticas e
maiores reflexões. Não havia receita, fui aprendendo a ser, sendo, sem uma orien-
tação ou racionalização. Talvez tenha feito exigências em demasia, que em dife-
rentes tempos pareciam essenciais.
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Agora, me sinto alforriado, coisa que não era capaz de imaginar antes. Mes-
mo que continue compromissado com muitas de minhas práticas e ideias, não
me transformei em outra pessoa. O sofá ainda vai terá que me esperar mais al-
gum tempo. Assim espero. Agora, disponho de uma certa liberdade e opções
para comigo mesmo. Mesmo minha saúde ficava para depois. Agora sim, estou
em primeiro plano de minhas ações. Ainda que não possa esquecer completa-
mente os outros, ainda que sinta alguma pressão. Que a vontade de escrever seja
maior do que a vontade de aquarelar. Como se por uma limitação própria, da
minha forma troiana de levar a vida a ferro e fogo, não tivesse como conciliar as
coisas, e somente agora, depois de cumprido as exigências, finalmente eu tivesse
direito usufruir delas.
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THÉMIS OU DICE?
Publicado em 15 de julho de 2017.
Filha de Urano e Gaia. Ela é Thémis, que migrou da mitologia grega e foi
apropriada pelos romanos e rebatizada como Dice. Por seus efeitos e atributos
lhe atribuíram o status de deusa, a Deusa da Justiça. Por aqui, não é a mais bela
das musas, nem a mais clássica, apenas uma alegoria remota. Respaldada pela
iconologia, sobretudo pelos elementos que carrega consigo, ou seja, a espada,
venda e balança. Respeitada por sua posição privilegiada, não apenas pela alti-
tude alcançada no patamar arquitetônico, mas pela relevância do significado da
alegoria.
A nossa, está lá, na parte mais alta do Palácio de Justiça, acima dos balaús-
tres. Por mais de um século reina a tal deusa, sentada em um trono, ainda que
com ar patético e cabelos de Górgona. Grande e pesada, permanece sentada
decidida, no alto da construção. Na mão de direta, mais elevada segura o cabo de
uma grande espada com a lâmina voltada para baixo. Sua mão esquerda pousa
displicentemente sobre a coxa, segurando a balança que apoia no joelho esquer-
do, comprometendo o equilíbrio do fiel. Como resultado de sua postura, os pra-
tos ficam desequilibrados, ficando o prato da direita em uma altura mais elevada,
enquanto o da esquerda, rés ao chão.
Será acaso ou a ausência da venda e o desequilíbrio da balança sejam in-
dicativos propositais, uma crítica evidente do artista, dizendo que a justiça não
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é cega e tende para a direita. Será? Será o autor, o mesmo que realizou as seis
Cariátides de sorriso enigmáticos, que parecem ironizar suas próprias presenças
naquele lugar, com os seios expostos, instaladas nas bases dos arcos na entrada
do salão do segundo piso da construção?
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COLETÂNEAS
Publicado em 30 de julho de 2017.
O leão está solto na rua
Não, não se trata de uma velha canção de Roberto Carlos, como pode sugerir
aos mais velhos, nem estamos falando de um único leão. Na verdade, são vários
e estão distribuídos em algumas poucas ruas da cidade. Mas não se espantem,
não estão livres, portanto, não oferecem perigos aos humanos. Como chegaram
até nós estas figuras requer uma investigação profunda e uma história de longa
duração. Por hora, apenas algumas informações mais gerais. Pode ser que um
dia volte a eles com outro olhar.
Senhores e guardiões cativos
A simbologia do leão vem de uma longa tradição, legada pela antiguidade
e ganhou novos significados com o Cristianismo. Na simbologia universal, sua fi-
gura assume diferentes significados, sendo frequentemente interpretada como
o guardião do mundo subterrâneo, e contraditoriamente, também é lido como
a representação do sol e a realeza. Talvez, por esta última interpretação é que
algumas se suas representações se encontram relacionadas com um globo. Ora
sustentando a pequena esfera sobre uma das patas, ora apoiando uma das patas
sobre ele.
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Os leões se apresentam de corpo inteiro, quase sempre com as patas dian-
teiras elevadas e são mantidos sobre pedestais, em geral, ladeando os portões
de entrada de construções residenciais. O mais frequente, no entanto, são as ca-
beças, sempre no alto das construções, integradas a diferentes elementos deco-
rativos. Podem ser localizadas em frisos e cachorros de fachadas ou até mesmo
luminárias. Em geral, quando de corpo inteiro se apresentam em par sobre um
pedestal, na entrada de edificação, mas podem ser vistos também isoladamente
ou em trio. Quando em dupla, podem ser interpretados como um casal, sendo o
macho localizado a direita, é a fêmea a esquerda.
Reinado de Longa Duração
Desde as antigas civilizações urbanas da Mesopotâmia, eles já estavam pre-
sentes no repertório simbólico de suas das populações e muitas vezes, são inter-
pretados como simbologia protetora de reinos e palácios, templos e outros recin-
tos sagrados. Se materializavam em esculturas e relevos, se integrando a grandes
construções, em cujas entradas eram colocados para afastar a visita de espíritos
malignos. Um dos mais belos exemplos são os exemplares que decoram a belís-
sima porta de Ishtar, da Babilônia, cuja fachada se encontra no Museu de Berlim.
É sem dúvida, uma das obras mais elaboradas daquele período, que sobreviveu a
ação do tempo e dos homens, relevos realizados em cerâmica vitrificadas (faian-
ça) que ainda conservam grande parte de suas formas e coloridos, com muitos
detalhes.
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Leões da Joaquim Nabuco
Eles não são muitos, em Manaus, mas com certeza é na avenida Joaquim
Nabuco, que se concentra em maior número, no trecho entre a Sete de Setembro
e a Leonardo Malcher. São quinze exemplares, ainda que um ou outro possam
ter escapado a minha investigação e contagem. Deste número, somente cinco
se apresentam de corpo inteiro, os demais, apresentam apenas cabeças. Estas,
mesmo que com expressões mais elaboradas, se perdem entre outros ornamen-
tos e as vezes passam despercebidas aos transeuntes menos atentos.
Sustentadores do frontão
Seguindo no sentido do fluxo do trânsito da Joaquim Nabuco, podemos ver
o primeiro par de cabeças de leões, no quarteirão entre a Sete de Setembro e a
Lauro Cavalcanti, ao lado direito, em uma construção que hora se encontra pin-
tada em lilás. Estão inseridos no cachorro, elemento decorativo que sustenta a
arquitrave que sustenta o frontão curvo e profusamente decorado. Os leões com
as testas franzidas, parecem rugir furiosos, talvez pela tarefa de manter aberta a
bocas, servindo de cabide para um arranjo constituído por um aro que prende
entre as presas afiadas, do qual pende um archote decorado com flores. Contras-
ta a fúria da fera à delicadeza das flores.
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Policromado Guardião da Casa Bolo de Noiva
No quarteirão entre a Lauro Cavalcanti e a Huascar de Figueiredo, logo de-
pois do edifício do Nóvoa, na entrada da vila que fica à esquerda para quem se-
gue o fluxo, poderá encontrar um leão solitário que guardar a casa do Bolo Con-
feitado, aquela construção com uma fachada quase toda coberta com pequenas
pedras, com muitas curvas e detalhes orgânicos, que parece ter saído de um con-
to infantil. O seu guardião solitário, na verdade está na pilastra cor de rosa, do
portão da casa vizinha. É policromado, ainda que seu revestimento pictórico se
encontre em grande parte descascado, deixando ver parte do concreto que se
esconde por baixo. Uma de suas patas segura um escudo ou estandarte. Talvez
uma referência a Marcos, um dos Evangelistas.
Brancos são os Leões do Barão
No quarteirão entre a Huascar de Figueiredo e a Ipixuna, do lado direito,
bem de frente para a 24 de maio, um par de leões, pintado em branco pode ser
visto no alto de seus pedestais que sustentam o portão de entrada do Grupo Es-
colar Barão do Rio Branco. Eretos e impassíveis, com suas bocas entreabertas e
sem maiores expressões, encontram-se apoiados sobre suas patas dianteiras e
guardam a entrada da construção, aparentemente indiferentes a todas as gera-
ções que por ali viram passar.
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As Oito cabeças da Beneficente Portuguesa
O quarteirão entre a 24 de maio e a Dez de julho, a esquerda é totalmente
ocupado pela Beneficente Portuguesa, com sua fachada imponente, mas é nas
duas colunas que sustentam as luminárias na entrada da edificação que pode-
mos localizar oito cabeças de leões. Cada uma das colunas se encontra em uma
das laterais da escadaria principal e cada uma delas ostenta quatro cabeças de
leões, douradas. Cada uma das cabeças se encontra com a boca entreaberta, de
onde pende uma argola e deixa ver suas presas afiadas.
Leões da Vila Nair
No quarteirão entre a rua Ramos Ferreira e a rua Leonardo Malcher, ao lado
esquerdo, destaca-se um par de leões, de corpo inteiro, pintados em dourado
fosforescente. Cada um dos animais, sustenta um globo sobre uma das patas,
posados sobre os pedestais nas laterais do portão de entrada da Villa Nair, um
dos imóveis que integra o conjunto de edificações, que se encontra pintado em
branco, atualmente ocupado pela Samel.
Ruge, a Carranca da Barca
A maior parte dos leões de Manaus se concentra na Joaquim Nabuco, mas
é possível localizar alguns outros exemplares espalhados pelo Centro Histórico
da Cidade. Começamos com um dos mais significativos, que muitas vezes segue
com os registros fotográficos e com as lembranças da cidade, mesmo que mui-
ta gente não se dê conta de sua presença. Está lá na praça de São Sebastião, no
centro dela, exatamente no monumento da Abertura dos Portos, é a carranca de
uma das quatro barcas, que se encontram na base do monumento. Cada uma
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delas traz consigo, características do continente que representa. Por alguma ra-
zão, o italiano Quatrini deixou de fora a Oceania. Nosso leão vem na proa, como
uma carranca da barca que representa a Ásia.
Ainda que somente uma cabeça, é como uma Vitória grega, rugindo e avan-
çando sobre os sete mares. Suspeito que esteja voltada para o Norte, na direção
da igreja de São Sebastião, mas parece ignorar completamente o teatro Amazo-
nas, que fica ao seu lado esquerdo e já estava lá, quando ele foi trazido da Itália e
instalado na praça, em 1901. No mesmo ano, em que toda extensão da praça foi
revestida com pedras portuguesas. Um desenho de ondulações sequenciadas,
em preto e branco, que surpreende turistas, ao saber que já estavam aqui, vinte
anos do calçamento de Copacabana.
Nada disso é capaz de lhe roubam a atenção. Impassível, a bela cabeça, se
destaca com seus traços bem marcados por um desenho bastante esquemati-
zado, que define suas expressões a partir do uso de incisões de linhas profundas
que acentuam a expressão marcante de ferocidade. A boca aberta, deixa ver qua-
tro presas afiadas e parece rugir ameaçadoramente, para aqueles que dela se
aproximam.
Contudo, mostrando que não é apenas uma fera maniqueísta, o leão carrega
um gracioso putti, sobre a cabeça. O menino, despido, parece se divertir com um
grande manto que tremular ao vento, graças a habilidade de um finado escultor.
A pequena criança se vira para a direita e com as duas mãos, parece proteger do
vento, um vaso, talvez contendo fogo ou serpentes. Será ele o Prometeu, carrega-
do com os conhecimentos que herdamos do Oriente?
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Abaixo da grande juba do leão, na altura de seu peito, avança a quilha que de-
cora a proa da bela embarcação, sobre ela, desce algumas com inscrições cunei-
formes. Breves referências de eras ancestrais de um Oriente Próximo, e mesmo
sem bilhetes ou passaporte nos remete a uma viagem para antigas civilizações
da Mesopotâmia.
Leões da Sete
São nove cabeças de leão, todas elas colocadas bem no alto, oito delas ca-
chorros do Palace Hotel e uma outra, solitária e tristonha no frontão da Casa Lis-
trada, que fica ao lado do Paço, antiga sede da Prefeitura Municipal, que desde a
década de 1880, passou a funcionar como o Palácio dos Presidentes das Provín-
cias, se mantendo como sede do governo do Estado até 1917, quando o governa-
dor Pedro Barcelar adquiriu o palacete Shoz para abrigar a sede do governo do
estado.
As cabeças do Palace Hotel, se encontram incrustadas em nos cachorros do
terceiro piso, quatro voltadas para a rua Sete de Setembro e quatro, voltadas para
a rua da Instalação. Todas, muito semelhantes aquelas duas que se encontram
próximas ao Canto do Quintela, provavelmente procedentes da mesma matriz.
Datam provavelmente da primeira década do século XX, quando foi instalada a
platibanda da edificação, que já apareceu na iconografia local, desde o final da
década de 1880, juntamente com a 22 Paulista, que também não apresentava
platibanda. O acréscimo deve ter ocorrido pelas exigências do Código de Postu-
ras da República, que passava a fazer várias exigências na formatação dos imó-
veis, incluindo altura e o uso de porão alto, bandeiras nas portas e platibandas nas
construções.
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Dupla da Saldanha
Tenho a vaga impressão que na sede do nacional, ali na rua Saldanha Mari-
nho, acho que o lugar atualmente ocupado pelo SENAC, ou seria mais embaixo?
Havia leões na entrada da sede do glorioso Nacional futebol Clube. Será fanta-
sia, ou eles ficavam mesmo na lateral da entrada. Já não tenho certeza do final
dos sessenta. Hoje, os únicos exemplares do felino estão no número 633, quase
em frente ao Senac, atualmente funciona o Conselho Regional de Química, e no
portão de entrada, uma dupla de leões, de corpo inteiro, se ergue sobre as patas
dianteiras e cada um deles, apoia uma das patas sobre um globo. A base que os
sustenta é um pouco maior que o suporte oferecido pelas pilastras que susten-
tam o portão, sugerindo que foram trazidos de outra construção. São revestidos
com uma película de porcelana, num amarelo, quase ocre, ainda que apresen-
tem algumas falhas em seu revestimento, parecem bem conservados. Há algum
tempo já tiveram as jubas tingidas em tom terra. Recentemente, sofreram uma
intervenção restauradora, que lhes devolveu parte das características originais,
ao retirarem a pintura indevida de suas jubas e a restauração de uma das patas
do leão que se encontra na direita.
Leões Tristonhos entre um Marechal e um Marques
Quatro belas cabeças de leões tristonhos, talvez pela sugestão das sobran-
celhas esquematizadas na diagonal, se misturam aos arranjos florais e decoram a
fachada do edifício verde água, que se encontra bastante desbotado, talvez fora
de uso, na esquina da rua Marechal Deodoro com a rua Marques de Santa Cruz.
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Otoni Mesquita
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São três cabeças na Marechal, duas sobre as janelas do segundo pavimento
e uma outra, entre as duas janelas do terceiro pavimento. Os leões olham triste-
mente para o grande edifício moderno erguido bem em frente, ainda nos anos
setenta. Talvez sejam um olhar de reprovação sobre a grande construção que por
algumas décadas abrigou a sede da Receita Federal e lhes tirou a vista da praça.
O arranha céu todo envidraçado e de construção tão mais recente já se encontra
interditado, há alguns anos, por não oferecer condições de segurança para aten-
der a função ao qual se destinava.
Para o lado da Marques de Santa Cruz, somente mais uma cabeça, triste e
solitária, ainda assim, olha a paisagem e vem acompanhando as mudanças pro-
cessadas na beira do rio Negro, quase em frente a construção de origem inglesa,
que por décadas abrigou a Alfandega, mas que se encontra fechada há algum
tempo.
Quatro cabeças banguelas, pendem na Casa Amarela
Na casa da esquina da Ramos Ferreira com a Ferreira Pena. São quatro pe-
quenas cabeças de leões, duas voltadas para cada uma das ruas. São pequenas
cabeças com jubas amarelas, presas ao archote que escorre do cachorro, que fica
na fachada do terceiro piso da Casa Amarela.
Na minha infância, o prédio abrigava a Casa da Criança, creio que era um or-
fanato, e em 1979, abrigava a Secretaria Municipal de Educação. Posteriormente
abrigou também a Secretária municipal de Cultura, creio que sob a direção de
Aldísio Filgueiras. Posteriormente foi recuperado e se mantém conservado, ain-
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da que permaneça fechado e sem uso há alguns anos. As cabeças estão lá em
cima, quase perdidas olhando para baixo com expressão nada ameaçadora, pois
se trata de uma espécie totalmente adestrada pelos homens, se trata de leões
banguelas.
Trio Amarelo é a sensação do Beco da Indústria
O Beco da Indústria, no bairro da Aparecida é estreito e torto, quase todo
composto por sequências de casinhas baixas, entre elas algumas ainda guardam
sua forma original: uma porta central e uma janela de cada lado. Mas o grande
destaque fica mesmo no número 127, onde se exibem os três leões amarelados,
quase dourados, de corpo inteiro sobre o pedestal no alto das pilastras do portão
de um sobrado. Cada um dos dois que ladeiam o portão, apoiam uma das patas
sobre um globo, o terceiro, na extrema direita é semelhante aos leões do Barão
do Rio Branco, com as duas patas dianteiras apoiadas no chão.
Quatro leões alados e nômades. Transitam pela cidade desde o início do sé-
culo XX. Estiveram em frente ao Bar dos Terríveis, na boca da rua Barão de Mauá,
depois foram deslocados para a praça Santos Dumont, em frente ao Armazém
10, do porto de Manaus. Nos anos sessenta, se tornaram a maior atração da fonte
luminosa, da praça da Bola, no encontro da João Coelho com o Boulevard Ama-
zonas. Era perto de minha casa e foi onde eu estraguei a minha primeira sandália
japonesa, como chamávamos a tal havaiana. Por lá, a fonte permaneceu, com a
musa, mas sem os leões, até o final dos anos noventa, enquanto eles, estavam
guardados no Horto Municipal. De onde saíram já neste século, e foram instala-
dos na Bola do Eldorado. Por fim foi transferido para o Parque Jéferson Perez, na
primeira década do XXI, onde permanecem, por enquanto, tendo a sua frente, o
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mesmo bebedouro de ferro que ficava em frente à capela do Cemitério São João
Batista.
Nesta caçada consegui localizar vinte e nove leões espalhados pelo Centro
Antigo da Cidade, mas acredito que haja muitos outros guardados, alguns escon-
didos, outros esquecidos e muitos ignorados. Mas não vale incluir bibelô gigante
que são vendidos pela Dinâmica.
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O DESAPARECIMENTO DA LEITEIRA DOS ANDRADAS
Publicado em 15 de agosto de 2017.
Levaram a leiteira dos Andradas. Não estou falando de um artefato utilitário,
que serve para armazenar leite, mas daquela profissional, que outrora saia pela
rua, vendendo leite de porta em porta. Mas é quase certo que elas não circularam
por Manaus. Mas havia um exemplar delas na rua dos Andradas e desapareceu
há pouco tempo.
Certamente não era uma peça rara. Pode ser que fosse apenas uma referên-
cia a vida campestre que pretendia remeter a uma tradição familiar de seus pro-
prietários. Não devia alcançar um metro de altura, mas sua delicadeza atribuía
um diferencial a residência. Confeccionada em louça ou faiança, permaneceu ali
por várias gerações, mas não era uma cabocla nativa, provavelmente tenha sido
trazida de Portugal ou algum outro país europeu. Permanecia em seu pedestal,
em uma das pilastras de sustentação do portão do imóvel de número 440, da rua
Miranda Leão 440. Portava um avental sobre a saia e carregava um balde, em sua
mão direita, talvez não encontrasse maiores prazeres naquela função.
Não creio que tenha sido um sequestro relâmpago, tão comuns em nossa
era, nem que tenham pedido qualquer resgate ou que tenha ganhado algum
espaço na página policial, ultimamente tão encardida de vermelho. Sem uma
investigação mais profunda, sou levado a acusar o nosso tempo como o princi-
pal suspeito. Ele mesmo, um sujeito invisível, mas apoiado por muitos cumplices,
que invadem tudo, arrasam, mas também constroem e trazem inovações. Ainda
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Otoni Mesquita
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que redundante, insisto em acusá-lo a cada momento, como o culpado pela ex-
clusão de práticas e pensamentos que já não servem aos novos interesses. Tenho
certeza de que o desaparecimento da leiteira se deve única e exclusivamente a
ele, completamente embriagado pelas aparentes vantagens de um discurso tão
sedutor quanto falacioso de uma tal de modernidade. Ela, sempre carregada de
propostas comodistas e consumista, num processo de substituição que degrada
a paisagem natural e os próprios valores humanos.
Não tenho qualquer referência históricas sobre a existência de leiteiras, entre
as trabalhadoras, nas ruas de Manaus. Na década de 1860, a cronista, norte ame-
ricana Elizabeth Agassiz, chama atenção para os aguadeiros de Manaus. Ven-
dedores de ambulantes que carregavam água em potes avermelhados. Águas
que coletavam dos límpidos igarapés que recortavam a cidade para vender a
população. No entanto, a autora não faz menção a atuação de mulheres, nesta
função. Contudo, posso falar alguma coisa de outros vendedores que circulavam
na cidade da minha infância. Cem anos depois das observações de Elizabeth, Ma-
naus havia se transformado completamente, mas voltava a ser vista como uma
pequena cidade insignificante, perante as mudanças que haviam se processado
no mundo.
Para uma criança, naquela época, a cidade era muito grande, ainda que
pudéssemos caminhar por quase toda ela, sem correr grandes riscos. Costumo
dizer que Flores e Chapada eram nossas periferias, pois eram pouco habitadas.
O traçado urbano avançou muito pouco além dos traços do mapa de 1893, por
isso era uma cidade razoavelmente harmônica, ainda que muito conservadora e
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provinciana. Grande parte de suas ruas centrais calçadas com paralelepípedos,
enquanto outras eram forradas com a pedra jacaré, aquele granito rosa, que se
encontra na beira do rio Negro, que alguns chamam de granito Manaus.
Por estas ruas circulavam muitos vendedores ambulantes, lembro ainda da
persistência dos peixeiros, bucheiros, vendedor de frutas, cascalheiros com seus
triângulos, que de longe atraiam as crianças. Incluíam-se entre estes profissio-
nais ambulantes, os leiteiros, que eram muito comuns, assim como os carroceiros
com suas carroças de madeira, transportando mudanças e carregando materiais
de construção, além de uma diversidade de vendedores de produtos naturais,
incluindo aquelas guloseimas açucaradas, como a broa e o rala-rala.
Pequenas embarcações, carregadas com baldes de leite chegavam no Ro-
adway, de onde era distribuído o produto, que vinha principalmente do Careiro.
De vez em quando havia reclamações de consumidores sobre o leite adulterado
com as águas do rio Negro.
Naquela área, que ia do Roadway, se estendendo pela praia do mercado e
que ia até a escadaria dos Remédios, também circulavam muitos catraieiros, com
seus remos duplos e protegidos por uma cobertura de lona, se deslocavam pelo
rio vendendo pão doce com garapa, para os usuários das embarcações que fa-
ziam linha pro interior e tinham uma clientela grande entre os trabalhadores da
área. Se era bonito ou tradicional já não importa mais. Foram apagados, um a
um. Aos poucos, foram desaparecendo, num processo quase imperceptível para
a maior parte da população, tão preocupada em se inserir nas novas exigências
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que o ritmo da cidade estabelecia. Talvez ainda haja alguns que preservem par-
cialmente alguns hábitos daquela época. Mas muito em breve estarão todos ex-
terminados, assim como os homens da caverna o foram.
Nos anos setenta, o mercado grande perdia espaço e movimento para os
supermercados que pipocavam pela cidade, com suas prateleiras sortidas de no-
vidades, sobretudo as do Mercado Boths Line, com sua variação de produtos im-
portados. Neste processo, o leite in natural também perdia sua importância para
inúmeras marcas de enlatados estrangeiros. Marcas como a Sandem e o Campo
Verde, ganhavam maior espaço no gosto e no novo ritmo que a população co-
meçava a adotar. Além disso, os novos produtos contavam com fortes aliados, ou
seja, a aparente segurança do produto, as facilitações na conservação e preparo
além do preço, razoavelmente acessível. Contava ainda, com uma publicidade
intensa na recém instalada TV Ajuricaba, cuja novidade já se constitui por si só
uma mídia sedutora, mesmo que veiculasse anúncios pouco sofisticados e mui-
tas vezes, ao vivo.
Apesar de todas as mudanças processadas nos costumes e na paisagem da
cidade, ela se mantinha lá naquela área bem tradicional, quase despercebida,
sobre o seu pedestal. Ela ficava em frente ao portão de fundos do Palacete Nery.
Nesta posição pode testemunhar muitas mudanças processadas, não somente
no imóvel, que preciso assumir variadas funções para sobreviver, até sua recupe-
ração e reforma recente. Ela ainda estava lá quando a obra foi concluída, mas não
esboçou qualquer reação ou crítica.
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Naquela área, era possível ver um pouco das mudanças que se processavam
na cidade, assim foi possível perceber, épocas com alguma animação comercial e
o crescimento da especulação imobiliária. A cidade passava por diferentes surtos
ditos de progresso, acelerando um crescimento desordenado que só aumentava
a sensação de insegurança, em seus moradores. Há três décadas, muitos deles,
começaram a se retirar, preferindo se recolher em condomínios fechados, em
geral, em áreas mais afastadas.
Em virtude desta debandada em busca de segurança e espaços mais so-
fisticados, o centro histórico ficou parcialmente esvaziado de suas famílias mais
tradicionais, e por outras diferentes razões, muitas residências ficaram abando-
nadas. Foi um lento processo de desqualificação da área central, que passou a ser
ocupada por novas populações, com seus pequenos comércios, hotéis rotativos,
bares improvisados e espeluncas que se multiplicam com seus puxadinhos. Sem
qualquer cerimônia descaracterizam e degradam construções históricas, ainda
que na área persista alguma animação comercial.
Cadê nossa leiteira? Nessa confusão, você está se perguntando. Pois é, ela
sumiu, mas não foi um processo abrupto como possa parecer. Primeiramente,
atendo aos temores da época, ela, juntamente com a residência, ficou enjaulada,
para impedir que gatunos e outros marginais perturbassem a paz de seus mora-
dores. Enjaulada, como se estivesse num zoológico, era vista por trás de grades e
grandes espinhos pontiagudos, ainda que pouco cuidassem dela. Estava coberta
com musgo verde, que começava a se constituir um manto natural. Nesta situa-
ção de semiabandono, ela permaneceu por muitos anos. Triste, mas impassível
como se espera de qualquer ser inanimado.
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Um dia qualquer, talvez tenham saído todos, tenham ido embora, pode ser
que tenham se mudado, com toda mobília, ou morrido sem deixar herdeiros. Mas
ela, ficou lá, esquecida sobre o pedestal, mas não por muito tempo. Pois em uma
cidade onde há muitos pobres e miseráveis, onde tudo se vende e se compra, não
demorou muito, ela também desapareceu. Como se suas pernas pudessem lhe
conduzir para outro lugar.
Não me informei sobre os autores do rapto ou da condução coercitiva. Quem
a levou? Não sei, mas não se encontra lá. No lugar, a pilastra vazia continua pro-
tegida por suas grandes, mas ela pode estar em algum jardim ou na sala de estar
de um destes apartamentos modernosos que se espalham em diferentes áreas
da cidade.
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O HOMEM PRESO NO TEMPO
Publicado em 31 de agosto de 2017.
Não é um tempo passado, como pode sugerir o título. Ele tenta está em to-
dos os tempos. Corre enlouquecido, de uma década para outra, volta no século e
corre pelas redes virtuais. Guiado por textos, imagens, folhetos e outros materiais
carregados de informações. São como lembretes para os compromissos que o
retém. Textos que jamais foram totalmente decifrados, outras palavras para rever
e compreender. Contudo, não dispensa coleções de muitas coisas que preten-
de levar pela vida. Imagens para revisitar ou simplesmente para escapar. Muitos
lembretes para serem acordados e esquecidos. Talvez o homem não esteja preso
no tempo, mas perdido entre tantas informações que são modificadas, substitu-
ídas ou que perderam as referências.
Cartas tão amistosas e íntimas, mas que já não se sabe de que mãos vie-
ram. Segue o homem, carregado com suas coleções para lembrar. Cai num mun-
do extremamente cheio de dados. Mais imagens, muito mais informações e um
tempo menor para digerir e assimilar. Tantos acontecimentos surpreendentes
que já não surpreendem por serem comuns e tão menores que os impactos de
amanhã.
O homem se debate num tempo em que tudo se mistura, sem querer des-
vencilhar-se de seus diferentes tempos. Não é um homem de um só tempo. Mes-
mo porque jamais conseguiu se enquadrar em qualquer um deles. O homem se
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busca no tempo, tentando encontrar referências que o retenha. Perdido entre
muitos tempos. Não há como escolher um só tempo. Na verdade, todos eles já
passaram e agora se reformula. Como num rito de passagem. Tenta recolher ve-
lhos e novos materiais para descartar. É como esvaziar o balão para fazê-lo subir.
Voa homem!
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LIBERDADE, AINDA QUE TARDA. SERÁ?
Publicado em 15 de setembro de 2017.
Por anos fiquei retido, contido num espaço restrito. Parado na beira do ca-
minho como dizia a canção que me seguiu pela adolescência. Me segurava nela
como na construção de uma muralha invisível, sem janelas aparentes. Persegui-
do pela vontade constante de fugir, seguir, escapar e para um lugar que não
sabia, nem sei onde fica. Mas um outro lado, que também é meu, me conteve,
fiquei, acostumei-me, condicionei, ainda que muitas vezes ensaiasse alguma re-
ação e tentasse escapadas. Contestava e clamava por uma liberdade que não
sabia onde estava. Não havia fórmulas, nem receitas. Parecia mais uma ideia do
que alguma coisa real. Uma utopia talvez. Tempo passado, sentimentos amassa-
dos e amansados. Suavemente com o tempo é possível ver a muralha se desfa-
zendo lentamente. Novos caminhos se apresentam e acenam chamando para
outras animações. Já não sei se me interessam os convites e muitos encontros.
Levou muito tempo. Talvez por uma incoerência humana mesmo, já não sei se
quero ir. Terei me acostumado com a prisão? Com os espaços restritos e o cons-
tante exercício de descobrir o mundo nas pequenas coisas. Terei me acomodado.
Me entreguei. Verei somente as sombras da caverna de Platão. Será mesmo rea-
lidade ou verdade o que vejo o que sinto. Observo, talvez mais atento, mas agora
tenho muitos limites que independem de minha vontade. Há décadas preguei
que a liberdade dependia de certas vontades ou necessidades do corpo. Talvez
ainda acredite nisso, em parte. Antes era demasiada a vontade e animação de
seguir e mudar. Agora é como se me tornasse impassível aos encantos ilusórios
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Otoni Mesquita
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do mundo. Não que seja tarde, mas já não me interessa tantos outros lugares. É
como se todos fossem o mesmo lugar. Ainda que constantemente me veja dife-
rentemente na mesma rotina. Fico feliz com pequenas coisas na própria rotina.
Lembro que o mar, com todas as suas possibilidades é para quem quer nele na-
vegar. Segui pelo seco e não tenho grandes certezas daquilo que penso ter des-
coberto. Se real ou banal. Terei realmente conseguido minha liberdade? Ou ainda
sou um escravo da minha vontade espartana que tudo entende como se fosse
tudo feito a ferro e fogo.
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Otoni Mesquita
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SERÁ MESMO O TEMPO?
Publicado em 29 de setembro de 2017.
É verdade, o tempo pode ser visto como o nosso maior vândalo, visigodo e
ostrogodo. É sempre constante e vem sempre como uma maré bárbara. Arrasa
tudo que encontra. Gasta e desgasta. Ainda assim, é um artista muito sensível e
decidido. Mas, é ele também que traz as inovações, as soluções para muitos pro-
blemas, inclusive o esquecimento. Cria camadas e passagens, num ritmo que é
somente seu e que só pode ser observada por alguns, não que seja totalmente
abstrato, mas se apresenta com outro tipo de sensibilidades que não é óbvia,
nem vulgar.
Arrasa não somente as coisas materiais, mas também apaga as ideias de
cada tempo. Enterra tudo sob outras histórias. Apaga o que está posto e aprova-
do. Mas não se trata de ação de combustão. Nada instantâneo. Age no seu tem-
po. E como toda onda é também e passará, será apagada e esquecida.
Este vândalo que invade todos os tempos e espaços, tem muitos cumplices,
que também invadem e ocupam todos os espaços. Não há como escapar dele.
Segue com os homens, talvez seja o mais doloroso deles, ou seja, a guerra impie-
dosa e devastadora. Não discrimina ninguém, arrasa.
Outro cumplice cruel que o vandalismo do tempo, que tudo acelera e en-
gana são os sistemas econômicos comprometidos prioritariamente com o lucro.
São devastadores, como o capital, com sua ganância insaciável pelo lucro.
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Eu, pretendia destacar o aspecto artístico da parede, com sua prospecção
revelada pelo tempo. Não era apenas uma parede desgasta, mas uma forte refe-
rência a obra do espanhol Antoni Tapies. Tive que engolir minha observação e in-
terpretação das camadas superposta. Das cores suaves e das texturas evidentes.
Além disso, lembrava do aspecto de processo: construção e desconstrução. Nada
figurativo ou obvio como ícone vulgar. Pensava ver algo artístico, nessas paredes
descascas pelo tempo. Ainda que o artista seja mesmo ele, um vândalo e cruel
com a juventude e a beleza.
De qualquer forma, recomendo que olhem com atenção a obra deste vân-
dalo e artista. Ele não assina com caligrafias aprendidas, nem com nomes vul-
gares. Ele não se preocupa com o reconhecimento da massa. Certo que para a
maioria as suas ações passam despercebidos. Oh! Tempo cruel, quanto grande
artista. Me poupou de morrer moço, mas não me deu maturidade para não reagir
as crianças.
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MINHA CIDADE SOTERRADA
Publicado em 16 de novembro de 2017.
Há muito minha cidade já não é a mesma. Foi invadida e degradada.
Cheia de criaturas e vazia de espírito. Patinam sobre a terra molhada e fazem
de tudo uma lama.
No final do dia embalam e amarram suas bancas. Abandonam os escritórios,
as lojas e os subempregos – Vão em manadas. Se retiram para as muitas perife-
rias.
A cidade vazia. Muitas cidades se foram. De algumas ficaram fachadas, de
outras nem isso. De algumas a imaginação, de outras a tristeza. Muitas cidades
se aglutinaram a minha. Os limites já não são tão claros. Em tudo se misturam,
tempos, estilos, pobres, ricos, belos e horrorosos. Cidade calada e aos gritos. Cida-
de do riso e da tristeza.
Apartamentos de luxo e dos casebres de sobrevivência. Dos perfumes e fe-
dores, das cores e da sujeira. Do trabalho e do desemprego. Da saúde e das dores.
Cidade dos santos e dos mundanos. Das lembranças e do futuro. Dos jardins e do
concreto. Dos amores e da solidão. Dos prazeres e do rancor. Das comunicações
e dos isolados. Da memória e do consumo. Da noite e do dia.
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Otoni Mesquita
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RENATINHA, DEU O QUE FALAR
Publicado 11 de dezembro de 2017.
Ontem, tarde de domingo, voltava para casa sob um chuvisco dezembrino,
vinha pelo caminho usual quando notei uma pichação vermelha sobre a parede
azul da casa do J.G Araújo. No quarteirão anterior havia registrado a bela cena do
tapete magenta estendido pelo jambeiro. Um pouco indignado com os diferen-
tes usos do vermelho, quase a contragosto resolvi registrar e postar no Face bock
a tal imagem. Rapidamente escrevi uma tirada qualquer. Três minutos depois
retornei ao post para excluir e fazer uma outra legenda, mas qual foi minha sur-
presa; três ou quatro pessoas já haviam se manifestado indignadas com o fato.
Então deixei rolar. Não queria provocar uma polêmica, nem esperava que gerasse
tanto. Depois de muitos comentários decidi me deter um pouco mais sobre a tal
assinatura. Creio que nem se trata de um picho, pois é apenas uma assinatura
precedida por uma estrela de David, sem qualquer elaboração.
Especialmente depois de alguns comentários que criticavam as críticas ao
gesto. Tive intenção de fazer um texto irônico e elogiar o gesto da Renatinha, ou
de seu namorado ou namorada. Pensei que gostariam que elogiasse a sua rara
expressividade e ressaltasse a sua coragem rara ao se manifestar de maneira in-
contestável, sobretudo se se tratasse mesmo de uma garota, querendo de colo-
car, disputando com os garotos, que em geral são apontados como pichadores
ou simplesmente emporcar. Mesmo que não se tratasse de um protesto, poderia
ressaltaria a força da juventude, a originalidade do gesto e a espontaneidade da
manifestação. Poderia buscar uma reverência na arte polvera e aplaudir a sua
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Otoni Mesquita
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rusticidade. Poderia falsear e apontar o discernimento da criatura ao se localizar
no mundo, demarcando o seu pedaço e contestado com os poderes instituído.
Ai que lindo! (Lembrando que ainda estou sendo irônico). Ao abordar o caráter
artístico desta obra, apontaria como algo muito raro, original e extremamente
corajosa. OH! Convidaria aos jovens reproduzi-las por todos os cantos da cida-
de, sobretudo em suas próprias salas. Poderia complementar com as expressões:
Que original! Que belo! Estão refletindo e protestando, poderia complementar.
Não, não há como abdicar da minha franqueza de esteta e usuário da ci-
dade, que é muito mais forte que qualquer convicção teórica que eu possa ter
abraçado. A cidade para mim e muitos outros é mais que um cenário teórico,
é espaço vivido e cheio de histórias, é parte de nossas vivências e afetividades.
São espaços e caminhos por onde transitamos e mantemos parte da identidade
e da memória. Sem dúvida, somos capazes de ver o lixo espalhado nas ruas e
mercados, a degradação evidente de muitas edificações, quase esquecidas por
uma sociedade que corre em busca do lucro incessante, transformando tudo em
material descartável.
Contudo, Renatinha, a sua assinatura ou clamor de sua pessoa amada, su-
gere que o autor não entendeu ou percebeu que a cidade é nossa, mas temos li-
mites. Onde você está nesse momento? Resguardada no seu quarto cor de rosa?
Aquela parede azul fazia alguma diferença para sua ação? Ou o muro do estádio
daria no mesmo? Talvez sim, mas pode ter sido um ímpeto ou quem sabe ape-
nas uma aposta entre colegas adolescente. Vai lá saber o que se passou em sua
cabeça. Será que tinhas alguma razão precisa?
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Como veja com certa frequência algumas garotas fardadas e arrumadinhas,
dividindo o cigarro, naquele pedaço, fui levado a deduzir que seria uma delas.
Vai lá saber. Me lembrou uma história antiga, que envolvia a vizinha adolescente,
sufocada pela avó autoritária. A garota rasgava todos os avisos fixados no mural
hall do edifício como um protesto contra a autoridade doméstica. Podemos de-
duzir muitas Renatinhas e variadas razões. Se ela o fez e não explicou, podemos
atribuir a ela muitas outras coisas he he he. A primeira dela é o desconhecimento
do bem privado, mas cuja face se encontra no espaço público. Não se trata de um
Pasquim: Jornalzinhos, de formato nanicos e muitas vezes manuscritos que tive-
ram uma longa tradição nas cortes opressivas. Em geral denunciavam e protes-
tavam. Não é o caso. Talvez esteja ensaiando a assinatura. Quem sabe? Talvez um
protesto pelo aspecto conservador do prédio. Será? Não são tantos assim. Basta
se afastar um pouco do centro e terá uma diversidade maior de improvisação
e muitas coisas feias. Mesmo sobre estas construções modernosas encontrará
muitas pichações que as tornam mais feias ainda. Tudo bem que não querem o
belo e isto seria uma maneira de desfazer uma estética dominante. Então me sin-
to no dever de perguntar; por que não começam a materializar esta proposta em
suas próprias casas? Depois nos apresentem. Vá lá, deve estar cada coisa em seu
lugar. Que outra razão plausível terias? Já sei provar o seu amor, considerando o
risco de ser flagrado e talvez advertido ou advertida, sabe-se lá. O mais provável é
que não tenhas nenhuma razão plausível. Quem sabe uma vontade de acontecer
para o seu grupo, pode ser. Para falar a verdade, Renatinha, já não me importo
com o porquê, mas muito me incomoda o como. O seu gesto ficou marcado em
nossos caminhos e muitos de nós não gosto dessa sua expressão. Por um lado,
remete mesmo a uma cidade abandonada, vandalizada e em parte por uma ten-
dência a libertinagem. Onde tudo pode.
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Pessoas opinaram, xingaram e te defenderam, quase te transformaste numa
Joana D’Arc, mesmo que sem visões e sem uma bandeira lambuzada de verme-
lho, sem uma causa aparente, ganhastes seguidores, defensores e muita desa-
provação. Desaprovada fostes por uma grande fatia, diria que a maioria. As pesso-
as mais comprometidas com a cidade de Manaus, de outros tempos talvez, mas
que carregam consigo a noção de pertencimento. Coisa que para ti, talvez ainda
não tenha batido, nem faça qualquer sentido. Provavelmente nem sabes que rua
é essa, que prédio é esse. O que é que estou fazendo aqui. Poderás perguntar.
Apenas registrei a imagem e postei, mas pensei que a florada do jambeiro
seria algo muito mais inspirador e belo, e realmente é, mas infelizmente Rena-
tinha, o seu gesto feriu o amor de muitas pessoas pela cidade. Apesar de tudo,
achei positiva a reação de muitas delas. Se expressaram espontaneamente, com
suas emoções de ofendidos. Algumas se sentiram impelidas a xingar e o fizeram
de forma contundente. Interpretei isso como uma reação natural, uma expressão
do quanto elas se sentiram agredidas pelo teu impensado gesto. Os teus defen-
sores podem até taxá-los de caretas, conservadores e autoritários. Não importa.
Do meu ponto de vista eles tem tanto direito quanto você. Escrevestes, agora
leias.
É bom lembrar que o teu gesto Renatinha é que foi imposto, uma manifes-
tação de caráter egocêntrico e autoritário, típico daqueles que priorizam a ex-
pressão pessoal em detrimento da vontade daqueles que usam os espaços da
cidade e tentam manter nela alguns aspectos harmônicos e humanos, que pos-
sa nos acolher. Poderemos sempre contestar, protestando contra obras públicas
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e monumentos que não nos atende. São muitos e grandes os gastos. Mas não
se trata disso. Não atendem nossas necessidades, nem desejos. Certamente nos
encontramos num estado de insegurança, quase geral e caiba resgatar a noção
de uma cidade para todos, com o senso democrático. Nessas horas a discussão
de gabinete não faz muito sentido, sobretudo quando os teóricos citados jamais
experimentaram nossa realidade. Somos cidadãos e usuários da cidade e quere-
mos ter direitos sobre ela, mas que seja democrática. Se for para cada um fazer o
que der na veneta é melhor aprovar o senado, que já faz isso, sem nos ouvir.
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CONSELHO PARA A CIDADE
Publicado em 09 de janeiro de 2018.
Sonho de um Conselho para a Cidade deve ser representativo dos diferentes
segmentos da sociedade. Devemos pensar nas melhorias para a cidade – Aten-
der aos desejos e necessidades sem apagar a memória a toda herança huma-
nista. Atender as necessidades da nova era sem deixar que a globalização retire
nosso gosto e sotaque. Que a cidade volte a respirar a partir da limpeza visual e
das fachadas, dos melhoramentos de seus espaços públicos. Da arborização e
que amenize o calor que anos e em muitos meses do ano.
No (fazer artístico) estímulo à criação e a produção nos mais variados, assim
na Música, nas artes cênicas, plásticas, na música e em outras manifestações po-
pulares. Não desprezando o folclore e os saberes populares, reconhece que tudo
se transforma, mas atento à originalidade, a essência. Que o desejo da comercia-
lização não se sobreponha ao da qualidade. Que o exibir não seja o único objetivo,
mas que valorize o processo e todos o conhecimento que guarda cada processo.
Assim como a sociedade que se abre para as mais diferentes manifestações
e tendências. É necessário prever a existência de uma cidade com múltiplos es-
paços, que não seja necessário uns se sobreporem aos outros, fazendo desapare-
cer espaços tradicionais, de respiração e beleza. Recuperação e criação de novas
praças na cidade. Grandes parques que se pense numa cidade feita não somente
para os automóveis, mas, sobretudo para aqueles que preservem o hábito de
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caminhar. Que os trajetos não sejam tão áridos. Que possam seguir sob a boa
sombra dos vegetais.
Uma cidade bela é uma cidade amada. Amar uma cidade não é apenas fazer
declarações de amor, mas preserva-lhe a face, não provocando feridas e cicatri-
zes. É manter noções de cidadania.
Pensar no espaço como coletivo e para todos. Deve ter qualidade e ser man-
tido. A cidade deve ser usufruída por aqueles que a amam e demonstram isto
pelos cuidados com cada gesto, cada pedaço de papel que não se joga em suas
ruas, pelo lixo endereçado, pela poluição controlada, pela preservação de sua
identidade e de suas características.
É uma cidade de sonhos que pode ser desejada e atende as necessidades
reais da população que pensa no amanhã. Infelizmente, pode parecer autoritá-
rios, mas precisam clamar por autoridade para assumir o seu papel fiscalizador e
evitar que destruam os mananciais, as possibilidades do futuro.
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Otoni Mesquita
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O FILÓSOFO JORNALEIRO E SUA BANCA INTOCÁVEL
Publicado em 15 de fevereiro de 2018.
O filósofo jornaleiro e sua banca intocável- Quase nada se sabe sobre sua
pessoa, somente sobras ou sombras de uma personalidade marcante. Não posso
afirmar que o conhecido. Tivemos apenas um breve encontro, ou desencontro,
que para mim pode ter ocorrido prematuramente, enquanto para ele, talvez já
fosse muito tarde para o pouco de tempo e paciência que ainda lhe restava.
Poderia ter sido um filósofo, ou simples contestador com alguma leitura,
ou um intelectual que por seu posicionamento crítico tenha perdido postos sig-
nificativos e possibilidades relevantes. Possivelmente fora vetado pelas artima-
nhas próprias da rede de controle montada e exercida pela ditadura, que ainda
se mantinha em vigor no país, naquele momento.
Poderia ser também um capitão do exército, recém reformado por não se
adequar aos novos ares assumidos pelo regime militar, que começava a esgarçar
por uma série de acontecimentos e sob pressão prometia algumas aberturas.
Mas como controle ou punição, o pobre homem passava os dias ouvindo a re-
petição de uns poucos e mal elaborados comentários sobre a política nacional.
Além de enfrentar cotidianamente as contínuas denúncias e o crescente clamor
exposto pela mídia, exigindo mudanças democráticas no país.
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Enfim, não saberemos com precisão de onde veio e para onde se foi o velho
homem. Pela idade aparente, podemos deduzir que já deve ter partido há pelo
menos duas décadas. Neurastênico com certeza, mas certamente tinha suas ra-
zões. Todos os dias ele chegava bem cedo à banca e se esmerava na disposição
das publicações, destacando algumas em detrimento a outras. Aquilo parecia ser
a sua principal tarefa.
Pode ter sido apenas um leitor e pensador desajustado que por sonho ou fal-
ta de alternativa se submetera aquela função quase humilhante perante toda a
experiência e conhecimento que carregava. Retido, literalmente aprisionado em
uma banca de jornal, sem a possibilidade de prever encontros enriquecedores.
A banca ficava localizada em frente a uma entrada de um supermercado na
Rua do Catete, quase esquina com o Largo do Machado. Creio que as obras do
metrô ainda não estavam completamente concluídas naquela área da cidade,
nem eu me sentia ainda completamente seguro na cidade maravilhosa.
A cena se passa bem no começo dos anos oitenta, quando as bancas de re-
vistas ainda eram muito simples, provavelmente de placas metálicas, sem qual-
quer atrativo, que não, as coloridas capas das revistas e o estardalhaço das man-
chetes dos jornais.
Agora já não tenho dúvidas que a disposição das revistas, na verdade era a
elaboração de um discurso cifrado, atualizado diariamente, na tentativa de man-
ter determinados contatos, ou protesto a ser compreendido e interpretado.
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Ainda que pelo nível de sofisticação impregnado em suas articulações se restrin-
gisse a um público restrito. Era destinado somente aos iniciados. Entretanto, com
certa razão ele previa que a massa de transeuntes ignorantes, que ali circulava
não seria capaz de fazer qualquer relação entre uma capa com uma imagem
elucidativa e uma instigante manchete na primeira página de um jornal disposto
ao lado.
Ai dos mortais que arriscasse se aproximar do seu púlpito ou templo ima-
ginário, ou que ousassem tentar deslocar algum dos elementos que integravam
a ordem estabelecida de seu discurso. Quanto aos infratores, ele era completa-
mente imparcial, não distinguindo jovens estudantes, de senhoras aposentadas;
profissionais liberais de funcionários públicos; bancários de banqueiros. Repreen-
dia bravamente, franzindo o cenho franzido e elevando sua áspera voz.
Desavisados se retiravam embaraçados, no mínimo constrangidos. Mas,
mesmo pegos de surpresa, alguns ainda esboçavam alguma contestação, que
não ecoava. A maioria dos repreendidos não conseguia entender sua atitude, so-
bretudo, quando elucubravam sobre as reais funções de uma banca de revistas,
mas por respeito aos seus cabelos brancos, se calavam.
As revistas e livros ficavam dispostos no balcão da banca, seguindo uma or-
denação bastante conservadora, enquanto algumas outras publicações ganha-
vam destaque, pendendo do alto e nas laterais, em torno da abertura. Ficavam
firmemente presas com uma espécie de pregadores de roupa, como que pro-
positadamente para dificultar qualquer manipulação. Contudo, nem sempre os
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preços dos produtos se encontravam evidentes, obrigando muitas vezes, que os
interessados tentassem manipular uma ou outra publicação em busca do escla-
recimento. Pobres daqueles mais afoitos que ensaiassem retirar a publicação
para melhor investigar algum detalhe ou sugerissem a intenção de folhe-los.
O jornaleiro esbravejava e não havia qualquer argumentação capaz de con-
ter sua ira. Ao ser surpreendido em uma desta situação, tentei argumentar afir-
mando que estava tentando descobrir o preço da revista e eis que ele vira para
mim, como um velho mestre da academia grega que fora desagrado em plena
aula de filosofia em algum longínquo anfiteatro me disse __ Não venha com so-
fismas!!
Em seguida esbravejo alguns outros impropérios que o meu restrito nível
de erudição não me permitia decifrar, nem mesmo registrar. Surpreso, contestei
esbravejando alguns xingamentos desarticulados e me retirei indo em direção a
minha tia que a esta altura já saia do supermercado. Ao reclamar para ela da ati-
tude do vendedor que recusava clientes, retrucou que o velho era meio doido e já
fora grosseiro com ela, tanto que nem se aproximava de sua banca.
Ficou lá, perdido num tempo que já passou, mas gravado em minha memó-
ria. Não sei se por maldição ou assimilação de personalidade, agora sua bizarrice
se manifesta em mim mesmo.
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POSTAL PASSADO E FUTURO INCERTO
Publicado 28 de março de 2018.
Oi, amiga querida, estou te enviando um cartão postal de minha passagem
pelo mundo. Na verdade, já nem sei que cidade é essa ou quanto a conheço.
Escolhi esta imagem porque me fez sentir feliz. Pode ser apenas mais uma
vitrine ilusória montada para consumo, em um momento em que o mundo já
sofria a duras penas. Mas algumas pessoas estavam animadas em viver e usufruir
da vida. Alguns haviam ouvido falar das privações e sofrimentos. Outros queriam
apenas usufruir do moderno e civilizado. Não tinham ideia precisa do que se
aproximava.
Acreditava no progresso e nos avanços da ciência. Pensavam ter escapado
de uma era de trevas, mas estavam enganados.
O tranway ou o bond, o automóvel e a eletricidade já faziam uma diferença
considerável na vida das pessoas. Os lugares embelezados sugeriam a existência
de um paraíso totalmente controlado pelo homem. Livre dos caprichos da natu-
reza.
A vista era bela e estava sendo servida a quase todos os olhos. As crianças
experimentavam uma liberdade nunca dantes permitida. Corriam e gritavam,
soltas, ainda que muitas completamente reprimidas e vigiadas por babás de uni-
formes.
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O vento salgado e as tendas listadas de azul, o ruído das ondas do mar, o sol
brilhante e o azul intenso do céu. A natureza contrastava com as construções em
cores claras. Pareciam uma exposição de bolos de casamento, sem a presença
dos noivos.
Colunas brancas e paredes em pasteis abriam passagem para os carros
alongados que passavam sob a música animada que se espalhava animando os
transeuntes bem vestidos no passeio.
O mundo parecia regido por uma única vontade, pronta para usufruto dos
homens. Mas onde estavam aqueles que haviam trabalhado e serviam essa po-
pulação de usufruidores? Onde se escondiam os pobres. Certos de que muitos
estavam ali, misturados em seus uniformes que bem os distinguia como um ser-
viçal. Mas não havia lugar para aqueles que não foram escolhidos pelas vibrações
da cornucópia de ouro. Isso não é eterno, mas parece que não se apagará jamais.
Pode durar apenas a temporada de férias. Belas e felizes criaturas devem ter
bons sonhos, ou será que tudo isso é apenas a casca e nos seus sonos se encon-
tram em pesadelos. Talvez não tenhamos como saber. Mesmo que tivéssemos
como interrogar cada um deles e obtivéssemos respostas sinceras. Não sabiam o
que viria. Não tinham como prever o futuro.
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BELA CIRCE
Publicado 25 de abril de 2018.
Não sei como conseguiu escapar da caixa de Pandora, ou simplesmente é
uma natureza daninha que persiste entre os outros vegetais. Deixou as páginas
das narrativas míticas e invade nosso cotidiano com uma bela figuração. Carne
e osso, temperada com muita sedução e cinismo. É Circe, mas já não transforma
homens em porcos, mas em bobos.
Veio para academia, mas não abandonou parte de suas práticas estranhas.
Encanta homens e mulheres e tira proveito de todas as situações, inclusive da ad-
versidade que afeta aos outros. Bela Circe, desde criança sabe iludir e dissimular.
Não age apenas nas sombras, mas também em plena claridade e com toda
tranquilidade perante diferentes pessoas. Dissimulada, engana a todos e mesmo
num auditório, lotado com uma plateia, ela é capaz de se colocar de maneira
completamente convincente. Aparentemente, ela acredita em suas afirmações
ou acredita que é aquilo que queremos ouvir.
A velocidade de suas práticas difere daquelas das longas histórias. Agora, ela
tem pressa, precisa aproveitar as oportunidades e é bastante objetiva em suas
ações. Precisa avançar, ganhar espaços e títulos. Há palcos e vitrines, mas ela já
não se inibe, até mesmo os refletores favorecem seus objetivos. Precisa ser vista,
em destaque. Quanto maior a plateia, mais uniforme e pouco reflexiva. Presas
fáceis para ela. Deleita-se com os olhares encantados.
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Mas haverá sempre alguém que discorde e a desmascare. Mas ela terá sem-
pre muitos cúmplices que a livrarão e a pouparão de ser desmascarada. Eles se
sentem protegidos prestando fidelidade a feiticeira.
Não necessita aplicar muitas palavras, sua bela face já é um argumento con-
sistente. Mas ela não se contenta com isso. Procura demonstrar conhecimento e
facilmente convence aqueles mais ingênuos. Um pouco de inteligência num mar
de mediocridade faz muita diferença. Tem um charme especial para seduzir os
homens e talvez algumas mulheres. Mesmo que, com um pouco de inteligência
eles percebam que ela estar mentindo.
Lacrimeja e contesta, deixando que paire no ar a dúvida sobre qualquer ver-
dade. Perante sua atuação, quase tudo perde a validade. Bela Circe, circula em
outras esferas e sempre consegue o que quer. Avança.
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Sina ou maldição? Ela não questiona e segue pela vida escapando de contos
e dramas com desencontros. Mas as armadilhas são ela que monta, portanto,
muito cuidado com ela. Fico atento, paro, reflito e solicito com argumentos. Mas
não adianta nada. Ela se faz de criança ou cabeça tonta, não me ouve e segue,
sem responder ao questionamento.
Mesmo que vestida com simplicidade consegue encantar com sua elegân-
cia. Bela Circe, deve ter muitos pretendentes. Todo a se enganar. Ao seu redor
mantém um circo de homens encantados. Difícil de escapar do encanto que lan-
ça no ar. Bela Circe, não precisa fazer qualquer esforço, todos querem lhe ajudar
e assim ela segue.
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BONITOS E PERIGOSOS
Publicado em 30 de maio de 2018.
Cuidado com eles! Estão nas ruas, nas praças e podem habitar no seu prédio
ou condomínio. Nos bairros elegantes, remediados e nas favelas. São graciosos
e sedutores circulam aonde querem. Com um olhar doce e assustado demons-
tram carência e sem dizer uma palavra podem se aproximar como um menino
abandonado que pedisse alimento. Fique atento.
Ele próprio não sabe que é uma arma mortífera. Caminha pela pista com
calma, banha-se onde pode, num ritmo que é quase só seu. Ainda que sempre
tenha um lugar para se abrigar. Muitas vezes olha a cidade de cima, com a mes-
ma facilidade que circula no meio da sujeira. Volúvel em suas relações põe em
risco, sobretudo, as criancinhas que encantadas com o seu charme não descon-
fiam de sua nocividade.
Mas, não se inibe mesmo em frente aos pais se exibe com olhares carentes
sem perder o seu porte e sua graça. Muitos chegam mesmo a alimentá-los e
dão carinho. Por isso se espalham pelo mundo e circulam com frequência nos
grandes espaços, mesmo nos mais turísticos, onde facilmente encontram muitas
vítimas em potencial. Apesar do grande mal que carrega nem ele mesmo tem
consciência que está colocando outros em risco. Alguns deles são muito valoriza-
dos e mesmo estudados, conseguindo funções importantes na sociedade.
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Em período de guerra sua relevância aumenta, são solicitados e se fazem se-
rem infiltrados para cumprir importantes missões. Tornam-se eficientes agentes
de informação, sem desvios ou tentações. Cumprem a rota preestabelecida. Sua
imagem é muitas vezes utilizada para propagar ideias e mesmo difundir a fé. Não
há leis ou investigações que o impeçam de agir. Ele não tem regras, é uma ques-
tão de sobrevivência e permanecem entre nós. São apenas os dóceis pombinhos
que nos rondam como portadores de uma infinidade de doenças.
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O CANTO DAS CIGARRAS SOBRE O DESERTO
Publicado em 27 de junho de 2018.
Para nós não era nada espetacular, poderia se comparar a alguma coisa tão
natural quanto à cigarra se desprendendo de sua casca, após se guardar nela por
dezessete anos, maturando no interior da terra.
Fora um tempo demasiado longo e obscuro. Por isso, aguardávamos ansio-
samente pelo momento de aflorar e saudar a primavera com o nosso canto.
Com a terra amolecida pelas chuvas foi possível abrir passagem e subir. Sim-
plesmente seguimos o instinto que nos puxava em direção ao sol. Ao chegar a
superfície estamos cobertos de barro. Buscamos uma torre que com segurança
nos garantisse a retirada das cascas.
Enfim, retiramo-las como cavaleiros medievais se desfazem de suas arma-
duras após um período de longas e cansativas batalhas. Ficamos nus e saímos
em busca de um local onde pudéssemos secar.
Soltamos o nosso canto a reverberar nos dias longos e quentes de verão.
Contentávamos-vos com este mundo por desconhecer a existência de qualquer
outro. Mas não escondíamos a decepção de não encontrar aquilo previsto por
nossos instintos. Sabíamos de variados verdes e suaves azuis a animar os mais
belos dias. Mas estas ausências não nos retiraram a sensação de renascer para
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um novo mundo, ainda que só nos restasse longos desertos.
Ruídos que perturbava nossos ancestrais já não soam mais, cessaram com-
pletamente. Agora apenas o zunir constante do vento que passa sem qualquer
impedimento. Ainda que não encontremos qualquer impedimento para o nosso
cantar, não podemos afirmar o mesmo quanto aos suportes para nos sustentar.
Um universo despido de elementos verticais.
As disciplinadas operárias que passavam o seu tempo todo a trabalhar cor-
tando e transportando folhas desapareceram, assim como os vegetais. Mas ainda
encontramos as ruínas de suas torres de terra, sendo continuamente arrastadas
pelo vento, que as deslocam ao seu bel prazer.
O sol vermelho e intenso mantém o intenso calor de todos os dias, sendo
substituído por frias noites prateadas. Não sabemos como daremos continuida-
de, mas é evidente que nossa passagem por aqui é muito breve.
Restos de cidades ainda guardam monumentos e cenas de atrocidade. Per-
manecem iluminados os letreiros coloridos com suas múltiplas imagens. Luzes
coloridas se deslocam sobre os outdoors e sugerem movimentos e profundida-
des inexistentes. Brinquedos articulados se deslocam pelas calçadas vazias, fa-
zendo ruídos repetitivos. Há máquinas espalhadas por todos os lugares, com ruí-
dos e palavras de ordem.
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Dos homens ficaram imagens e vozes a se repetir constantemente. São
mensagens para vender produtos e propagar ideias. Talvez haja entre elas, algu-
ma verdade. Mas quase tudo produto artificial para apagar o homem e a natura-
lidade das coisas. Vendem pensamentos e sensações de bem-estar, complemen-
tos amplamente aceitos como o avanço do conhecimento. A criação do homem
artificial.
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ESCRAVA MUDA
Publicado em 25 de julho de 2018.
Um dia, te trouxeram para casa em que eu morava. Eu ainda era menino.
Não sei como te encarei, nem que sentido te dei. Mas devia ter um significado,
assim como as outras coisas que chegavam. Acho que vi como uma novidade
trazida por uma prosperidade carregada pelos novos tempos. Chegastes com ou-
tros, e permanecias inerte, na sala, como tímida visita. Já sabiam de tua função,
mas provavelmente, foi a matriarca que estabeleceu onde deverias permanecer.
Não tinhas maiores funções, naquela casa, quase uma peça decorativa. A casa de
madeira, também era muito simples, ainda que amada, mas depois de um tem-
po, foi demolida. Uma nova história se processava na vida daquela família.
Depois, quando mudaram, te levaram junto, como uma peça qualquer da
mobília, como devias servir. Quase uma escrava, sem qualquer vontade, tinhas
que seguir, sem reclamar. Eles mudaram suas roupas, seus discos e hábitos, mas
de ti, parece que nada tinham para cuidar. Permanecias firme, ainda que gasta,
as vezes num canto e outras, lembrada. Frequentemente, eras deslocada para
diferentes lugares. Mudaram os quadros da parede. Crianças chegaram e cres-
ciam animadas, correndo pela casa, passando por ti. Às vezes, até te inseriam
na brincadeira, mas, não tinham qualquer respeito. Quase sempre te ignoravam,
tropeçavam em suas pernas e até te arrastavam. Não ligavam tanto para ti. Te
davam muito menor atenção, do que aos programas que passavam na Televisão.
Permanecias singela, limitada em sua simplicidade, claramente externada e fora
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de moda. Quase sempre, parada na sala, talvez só a observar. Uma verdadeira es-
crava, sem qualquer trato ou deferência. Um ser, quase invisível.
Finalmente, depois de outros tempos, novas mudanças. Eu saí de casa, e
ela seguiu comigo, mas não foi uma escolha afetiva consciente. Talvez mais uma
atitude da minha pouca praticidade, mas que pretendia tirá-la daquele eterno
abandono. Por mais alguns anos, praticamente bolou em minhas descuidadas
moradas, mas, muito me apoio nas atividades artísticas, não como modelo, mas
assistente de apoio.
Não sei por que, quase um milagre, em dias recentes, se fez evidente, adqui-
rindo um novo sentido. Creio que foram as velhas fotos consultadas. Te encontre
entre outros personagens, quase esquecidos, alguns completamente perdidos.
Mas tu, apesar do maltrato, resististes bravamente. Te vi, integravas o conjunto,
assim como as poses e cenários, os interiores das casas, detalhes da rua e da pra-
ça. Eras o exemplo vivo de um tempo passado e lembrado. Quase uma coisa en-
cantada, que foi praticamente apagada. Não reivindicastes maior atenção, mas
finalmente, foste notada e lembrada, ganhaste algum trato, ainda que sem um
projeto de te recuperar a matéria. Eras a mesa de centro da casa de minha mãe.
Série
Otoni Mesquita
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Série
Otoni Mesquita

Série Artigos: Otoni Mesquita

  • 1.
  • 2.
    Série Otoni Mesquita 2 Série APRESENTAÇÃO O sitedo Instituto Durango Duarte foi totalmente reformulado e, por isso, todos os textos já publicados por Otoni Mesquita em nossa plataforma foram reunidos numa coletânea, em formato de e-book, para que você possa acessar e ler os artigos em um único lugar, além de poder fazer o download gratuito do material. Na “Série Artigos”, você também poderá encontrar as compilações de outros articulistas, tais como Lúcio Menezes, José Carlos Sardinha, Cláudio Barboza, Oto- ni Mesquita, Hélio Dantas, Jeferson Garrafa Brasil, Amaury Veiga, Roberto Cami- nha Filho, Henrique Pecinatto, Jorge Alvaro, Júlio Silva e Kátia Couto. Essas coletâneas serão atualizadas semestralmente com os novos artigos que forem produzidos. Otoni Mesquita
  • 3.
    Série Otoni Mesquita 3 Série Otoni Mesquita Amazonense, artistavisual e historiador da cidade. Gosta de literatura, música, cinema e fotografia. Não dirige, mora no centro da cidade. Nada no Nacional e anda pela cidade olhando e fotografando pequenas coisas.
  • 4.
    Série Otoni Mesquita 4 MEMÓRIA AFETIVADA CIDADE Publicado em 12 de abril de 2016. Gostaria de iniciar essa nossa conversa com uma questão que nos instigue a pensar em nossa relação com a cidade e as direções preferencias que toma o nosso olhar quando tentamos captá-la. Talvez nossas escolhas revelem mais de nós mesmo do que sobre a cidade, mas que seja um exercício que nos faça refle- tir sobre nossas práticas cotidianas e qual é a identidade urbana que buscamos. Que cidade queremos para viver. Se vocês tivessem que descrever a cidade de Manaus, hoje, qual seria a ima- gem escolhida? Será a cidade da tradição ressaltada pela imagem dos prédios históricos, destacando o Teatro Amazonas como seu símbolo máximo, com sua crista colorida sobre a paisagem? Ou será a metrópole moderna, das torres que se alongam em verticais cada vez mais altas, ou será das grandes vias iluminadas que invadem os espaços verdes e traçam novas direções. Quem terá a franqueza de mesclar becos e vielas tortas, sem os serviços básicos, traçando novos espaços, passando dos limites da periferia? Será que a lenda se fez verdade e agora é a cobra grande a comer a cidade. Faminta essa serpente vai se espichando, abarcando condomínios fechados, es- paços inabitáveis completamente ocupados, viadutos congestionados, trânsito caótico, shoppings lotados e uma legião de desempregados?
  • 5.
    Série Otoni Mesquita 5 Qual seráa Manaus para quem sempre morou na Sete de Setembro, ou para quem jamais saiu de um dos extremos da Zona Leste? Para quem nunca se afas- tou do porto ou jamais chegou em outro aeroporto? Há prédios bem arrumados e com belas vistas, na Vila, Vieiralves e Ponta Ne- gra, grandes feiras e aglomerados de barracos sem eira nem beira, com vista para o nada. Belas casas no Tarumã e conjunto de casebres, muitas vezes, lado a lado a contrastar; enquanto uns bem tratados e outros completamente desamparados. Seremos capazes de escolher somente uma dessas partes como represen- tativa da cidade? Ainda que levado pelos laços de afeto, tento algo priorizar, mas logo vejo que não é possível eleger uma só das faces, ignorando que a cidade é tudo isso e muito mais. São muitas imagens, nem sempre agradáveis, como a personalidade de qualquer um de nós, há coisas boas e outras complicadas, mas é somente a totalidade que nos faz a pessoa que somos. Mesmo que a maioria escolha um mesmo ângulo, e tivéssemos um dispo- sitivo capaz de reproduzir cada imagem, logo nos surpreenderíamos com uma coleção infinita, difícil de sintetizar numa só forma. A escolha do ângulo é uma opção pessoal, depende de muitos elementos, havendo uma boa dose do racio- nal, mas quanto a escolha das imagens, não parece que se possa optar. É como o sentir e o saber, não são apenas palavras. Ainda que apreendidas de forma na- tural, parece resultado de um processo complexo: inconsciente e sem grandes reflexões. Mas o carinho com que se guarda certas imagens, parece resultado de experiências afetivas e de significados que nos foram passados. Por outro lado,
  • 6.
    Série Otoni Mesquita 6 parece sera imagem que nos escolhe, não sendo possível traçar projetos de cap- tação, elas surgem, nos capturam e se instalam independentes de nossa vonta- de, não há como premeditar. Imagino uma relação interior/exterior, na qual os sentidos, como uma câmera atenta captam formas, cheiros e ruídos de instante, e uma película que existe dentro da gente, tal qual um filme fotográfico sensibi- liza e grava as imagens. Isso nos força a reconhecer a multiplicidade de imagens da cidade, não so- mente nos aspectos evidentes da paisagem urbana, dos diferentes lugares so- ciais, da diversidade de matérias, mas sobretudo, das coisas imateriais com que se grava as suas imagens. Que matérias são essas, aparentemente tão tênues e tão resistentes, preservando formas que não há reforma que a dissolva?
  • 7.
    Série Otoni Mesquita 7 CIDADE DAMEMÓRIA Publicado em 26 de abril de 2016. Ao buscar recuperar a cidade através das imagens guardadas na memória, podemos ser censurados e acusados de infantil assumindo atitude das crianças mimadas e descuidadas que choram e esperneiam querendo de volta o brinque- do perdido. Ainda que para os pragmáticos possa parecer piegas, acredito ser algo mais forte como buscar a sensação de alguém que pensou ter tudo perdido, mas recupera a calma ao reencontrar a própria alma guardada com as imagens da cidade. Certamente haverá entre nós, muitos saudosistas como eu, lamentando, o tal “progresso” e lembrando-se de como era graciosa e pacata a outra Manaus. Naquela época, ir ao “Roadway” era um passeio raro, quando descia o rio, a pas- sarela inclinava-se em ladeira. Vejo vagos flashes dos passeios sob os flamboyants alaranjados no sobe e desce dos domingos à tarde no “boulevard”. O centro da cidade era muito tranquilo, taxis eram raros, os trilhos prateados brotavam en- tre os paralelepípedos, ruas bucólicas, sobravam sobrados com grandes bandei- ras, cadeiras que balançavam longas conversas nas calçadas, nas janelas floriam “Onze horas” e “Santas Terezinhas” sem grades ou sentinelas. As mangueiras e mariranas arborizavam toda a João Coelho. Enquanto nas ruas do centro, os oiti- zeiros e os benjaminzeiros, eram podados em forma circular. Sem esquecer que em determinada época, se evitava a passagem sob esta arborização por conta da lacerdinha. Inseto muito pequeno e bem pretinho que quando caia no olho dos transeuntes, fazia chorar mocinhas e marmanjos.
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    Série Otoni Mesquita 8 Nos bairros,eram fartas as fruteiras. Pupunha, abiu, biribá, pitomba, abacate maracujá e muitas outras que complementavam de forma saudável a dieta local. O Mercadão era praticamente o único lugar para aquisição dos comestíveis natu- rais. Além dele, com sua praia amplamente ocupada, havia alguns mercadinhos, em poucos bairros e várias pequenas feiras. Dentre elas marco a do Seringal Mi- rim, que funcionava de segunda a domingo, muito antes da abertura da Djalma Batista. A feira da Aparecida, já tradicional, sempre na terça feira, dia das novenas. Do Curre, no São Raimundo vinha a carne verde para a população. Naquele tem- po, o supermercado de importados da Boothline, ainda não havia funcionava, nem a Casa dos Óleos havia sido instalada. Quando todos tinham que fazer suas compras no Mercadão, (ai que cesta chata!!). Mas francamente, não me lembro dessa moda de pirarucu à casaca, mas quase sinto o gosto do sarapatel de tartaruga, da farofa no casco e de suas cabe- ças ainda vivas jogadas no quintal. Nos aniversários serviam sempre vatapá com arroz, maionese feita em casa e salgadinhos com guaraná. E não era educado limpar o prato. Naquele tempo, típico era traje de miss e o restaurante “Chapéu de Palha”, projeto do premiado arquiteto Severiano Porto. Cheiros de chicória, peixe assado de brasa, no quintal ou aroma do café sendo torrado pelo “Moinho D’ouro” ou do pão quente da “Pátria” ou “Mimi” eram mais forte que o aroma do “Kikão”da praça de São Sebastião, ou do Piraruburgue com mate com limão, que passaram a servir no “Ziza’s” nos anos setenta. Quando o “Chang” tinha um bom pastel e um caldo de cana, assim como a “Campos” da Eduardo Ribeiro, entre o Jornal e o Cidade de Manaus.
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    Série Otoni Mesquita 9 No céude toda a cidade flechavam e trançavam papagaios de todas as co- res, linhas amoladas, meninos correndo com varas e as perseguições da “man- duquinha”. Na Eduardo Ribeiro, montavam-se os presépios do Branco e Silva; os desfiles de setembro e os carnavais com suas batalhas de confetes e serpentinas, com as candidatas a rainha, dando beijinhos do alto dos caminhões. Na Praça da Saudade além do “araticum” sem recheio e do Tenreiro Aranha no alto da coluna, instalaram uma fonte “moderninha”, toda revestida com pastilhas coloridas, bem ao centro de uma grande piscina entre duas esculturas alegórica, passado e fu- turo enfrentavam sobre as águas e logo viraram piada. Quem lembrar da época em que o IAPETEC era o edifício mais alto da cida- de, motivando piada de paraense? Quando o Palácio Rodoviário deixou de ser o prédio mais moderno da cidade? O “Hotel Amazonas” ainda seria chique, quando os aviões deixaram de chegar no aeroporto da Ponta Pelada? Ou seria Ajuricaba? Como foi que a Ponta Negra, deixou de ser uma lonjura sem fim? As notícias mais quentes vinham pelas ondas do rádio, mas em geral esfriavam na composição das linotipos de “o Jornal”, do ”O Jornal do Comércio”, da “A Crítica”, do Diário da Tarde enquanto que “A Notícia”, somente depois de 1969. Mas ao final, tudo ia ser discutido, deformado e digerido mesmo, era no Canto do Fuxico, sobretudo, no sábado pela manhã, quando a concentração e a animação do centro eram maio- res. Discutiam da política a escalação do clássico Rio-Nal. Além das fofocas puras e das mais perversas. As moças ocupavam um grande espaço. Quanto mais cobi- çadas, a menina, mais afiada a mira das línguas afiadas e o mais grave era quan- do se espalhava o boato que uma jovem “não era mais moça”. Em geral, estava perdida, a coitada. A pílula e a liberdade sexual estavam sendo disseminadas nos grandes centros.
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    Série Otoni Mesquita 10 NO TEMPOEM QUE SER FELIZ BASTAVA UM RALA-RALA Publicado em 10 de maio de 2016. Como era longo o trajeto do ônibus Ana Cássia “Circular Joaquim Nabuco” e havia uma parada próximo ao “Canto do Quintela”. O “Tabuleiro da Baiana” ficava na “Estação”, próximo do “Aviaquário”. O ferro de engomar na Joaquim Nabuco. Era muito engraçado ir para “Baixa da Égua” ou se enfiar lá para as bandas do “Buraco do Pinto”, quando “Ferro de Engomar” servia de referência para chegar ao “Cine Popular”, bem ali perto do Alto de Nazaré, quando o “Morro do Tucumã” perdeu a vegetação e virou parte da “Ayrão,”. Como era longe o “Caiçara”, ficava completamente isolado, depois da “Maromba”, praticamente no meio do mato. O batuque da “mãe Joana” ainda ficava na entrada do São Jorge. O Teatro Amazonas, no seu vestido cor-de-rosa, ainda se abria em porta de saloom, deixando entrar tanto para ingênuos vesperais do “Titio Barbosa” e “Vovô Branco”, como para o ousado teatro rebolado do “Tem xique-xique no pixoxó”. Mas onde é mesmo que tocavam as orquestras do Glenn Miller, Ray Connifer, os boleros e o Waldick Soriano? Não era somente para os rostos colados nas “ma- nhãs de sol” do Parque Dez”. Havia as “brincadeiras”, festas para dançar “ que quase sempre aconteciam nos sábados; e a moçada inventou o verbo “paquerar”, para definir o processo de aproximação com segundas intenções. Depois vieram outros ritmos mais agi-
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    Série Otoni Mesquita 11 tando, as“papinhas” e os “minguais” dos “Bancreveas”, dos “Ideais”, “Olympicos” e “Rio Negros” se propagaram. Roupas brancas, tecidos com diferentes cortados, fosforescentes estampados para abafar na “luz negra”. Antes, eram as dublagens nas festas dos “Barés” ou do “Rio Negro Club”, quando se destacavam as perfor- mances de Litlle Box, Ednelza Shado e tantos outros que não alcancei. A tradicional coluna social do Nogar, com seus clichês das mimosas debu- tantes e dos mais variados eventos. Das garotas de roupa de banho e das misses no sereno do Rio Negro. A “festa da Camélia”, da Cuba-Livre e das rumbas que imaginei esconder na fachada do “Acapulco”. O ritual de abertura das cortinas dos cinemas, a sala de espera no “Cine Ode- on”, o “Festival Norte de Cinema”, Helena Inês com sua blusa transparente provo- cou um frisson ao passar em plena sete de setembro. A boca vermelha da Dona Yayá, montada na portaria do Cine Avenida. Dos “Kungs-Fus” e as pornochancha- das do Guarani. Os salgados do Mocambo, o ti-ti-ti do Bar Avenida, os sanduíches do Agô-gô. O Sundae da Lobrás, quando o café do “Pina” ficava quase na esqui- na da Guilherme Moreira e ainda não era ilha. Que ano foi aquele que o Jander ganhou o festival com “Domingo na Vila de São José da Barra”? Letra do poeta Anibal Bessa. Já era setenta e uns, quando “A Selva” foi à Paris, mas isso foi antes da chegada do “Galvez” e outras “Folias” do Márcio. Quando falo “naquele tempo”, vocês podem imaginar infinitos momentos, mas em geral tendemos a buscar boas imagens, quando tudo parecia menos complicado e nos recolhemos numa cidade que mistura infância, puberdade e
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    Série Otoni Mesquita 12 tempos recentes.Quando ser feliz, bastava um rala-rala encarnado ou uma vaga na arquibancada do General Osório. Ai que saudade da tribo dos Andirás, dos pássaros e quadrilhas do festival, tão longe ficaram as mariranas que caiam nas calçadas altas da João Coelho; do susto que o diabo dava, saltando em estron- do do alçapão da pastorinha do Luso. Da sereia que parecia nadar num mar de gelatina, meio verde, meio azul. Dos grandes Vidros de água colorida pendentes na Drogaria Fink. Depois da fase do candeeiro e das brincadeiras de sombras na parede, chegou à eletricidade e a noite virou um dia de animação, depois do tu- -tu-ru-bim-te-tê brincava-se de manja, trinta e um alerta; alguns ainda iam para berlinda, outros para os sopapos do garrafão. Ainda não havia a “TV Ajuricaba”, mas aquela musiquinha da “Crônica do Dia” torturava lembrando a hora de ir para aula. Das peles queimadas dos “banhos” aos domingos, que depois ganha- ram o bronzeado do “Ton-a-Ton”, no tempo que a praia da Ponta Negra era um barato tanto no sábado quanto no domingo. Naquele tempo, pobre na cidade parecia viver com dignidade. Ainda que pequena, a população era bem dividida. Aparentemente serena, uma parte vivia à margem, recolhida numa outra cidade. Por ela passava-se quando se ia ao mer- cado ou pegar “motor” para o interior. Hoje, sua imagem é uma lembrança co- lorizada, misturada à velhas fotos de matérias de “O Cruzeiro” e à cartões postais de “A Favorita”. Mas é ela que emerge, pintada e traçada, com seus caminhos em desalinho, inteiramente erguida em madeira, sobre troncos de árvores diversas, exóticas formas de uma cidade coberta de palha que flutuava, e ainda navega em minha memória.
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    Série Otoni Mesquita 13 Catraias eramtransportes usuais, no ritmo da cidade iam e viam cruzando igarapés, passavam remando do “Educandos” para o centro, levando uns do “São Raimundo” para “Aparecida”, transportando outros do “São Jorge” para o “Pico das Águas”, mas havia muitas outras travessias, mas grande parte foi esquecida sob pontes ou sob os aterros. Havia as catraias que deslizavam em torno do Mer- cado, “merendeiras ambulante”; vendiam pão-doce, broa, refresco além de gara- pa e outros troços, perseguidas por abelhas e varejeiras. Circulavam por aquele pedaço do litoral, ora em torno da cidade flutuante, ora em volta do porto ou do mercado. Corajosas passaram, sem medo aparente, sobre as águas escuras do Roadway, sobre aquela profundidade estúpida que nos colocaram na imagina- ção, justamente onde se escondia um mostro de forma tão sombria e pavorosa, era como uma negra aranha gigante, cuja visão terrível teria deixado louco o úni- co escafandrista que ali mergulhara. Mas naquele tempo não se podia mentir, pois a própria natureza denunciava e vingava. Lembram do jacaré que pegou, mostrou e devorou a Neca? Pois é. Naquela época, o bairro de pobre era o São Raimundo ou Educandos, para lá seguiam muitas trouxas, levadas e lavadas. As Alvoradas e Compensas não eram nem sonhadas, mas o ônibus da “Chapada” ia somente até onde hoje é a rodovi- ária. Ali acabava a cidade. Era um mundo por começar, além dos balneários, do “Verônica”, “do Shangrilah” e do Hospício não tinha quase nada por lá. Naquele tempo, poucos eram os loucos, havia o Milton e a Carmem soltos pela cidade, e por trás da janela o Bombalá ficava guardado. Hoje são tantos, que não é possível nominar.
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    Série Otoni Mesquita 14 Alguém jádisse que o passado parece sempre mais atraente e organizado que o presente, ora pois é evidente, ainda que nem sempre sequenciado, é como um filme acabado, devidamente editado.
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    Série Otoni Mesquita 15 CIDADE DAHISTÓRIA Publicado em 24 de maio de 2016. Ainda que aparentemente mergulhado em devaneio nostálgico, justifico esse meu passeio afetivo por uma cidade que mistura o vivido ao imaginado, e ainda que estejamos em outra época acredito ser possível compartilhar, mesmo com aqueles de memória mais recente. Não é preciso ter vivido aquele momento para encantar-se com seus elementos. Senão que validade teria de fazer história e como explicaríamos o despertar das paixões pelas antigas civilizações; interesse pelas outras culturas, de que valeriam as reflexões que tentam, mas nem sempre evitam a repetição das mesmas ações equivocadas. Mas o que me interessa nesse momento, é discutir que elementos desper- tam o interesse e encantam a imaginação, mantendo em nós a história uma coisa viva. Certamente não são as repetições de datas e nomes dos pontos decorados no grupo escolar. Penso que deve existir um momento ou um ato capaz de atiçar a fantasia e a memória, algo presente no ato de contar a história. Seria a narrativa em si, “o como”, apenas uma questão de talento que pode ser aperfeiçoado, ou algo natural e especial na postura, no timbre da voz, na sensualidade ou afeto contidos gesto, não importando “o que” se conte – mentira ou verdade soam com a mesma intensidade. O certo é que há qualquer coisa que vibra e contagia, reverberando e gravado em nossa película interna. Por outro lado, penso que a imaginação é algo em nós guardado, como asas que ao receber um sopro qual- quer ganham impulso e podem fazer voar.
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    Série Otoni Mesquita 16 NOVAS HISTÓRIAS Publicadoem 7 de junho de 2016. Hoje, mesmo a academia, tende a escapar daquela história de narrativa insí- pida e fria, insossa para digerir, estimulando outras abordagens. A Nova História abre-se num grande leque de possibilidades: são as macros e micros histórias, as questões regionais e fatos que se restringiram a pequenos grupos locais e nem por isso deixaram de refletir o todo de uma realidade. A história oral com seus sons e tons, e as imagens trazendo momentos e personagens que já se foram. As ideias, as técnicas, a política. Indo ao tempo remoto ou vindo ao momento recente, tudo pode ser relevante. E como são tantas as lacunas, penso ser urgen- te recuperar tudo que nos for possível, os mais diversos aspectos da história da nossa cidade, mesmo que recente ou pessoal não importa. Ainda que pequena e aparentemente banal poderá ser algo vibrante e original. O tempo é como um grande incêndio, passa devorando tudo que não fica protegido, não basta reter em nossas memórias, é preciso compartilhar, deixando para o futuro. Penso assim por lembrar de significativos momentos passados no 4º ano primário, quando a professora Aurelina, uma gaúcha de longa trança negra nos fazia cantar: o “terra dos Barés, dos igarapés”, falava dos rios colossais, contava do ciclo áureo da borracha, mostrando diferentes aspectos da cidade, lembrando da riqueza marcada na fachada dos prédios antigos; da instalação da eletricidade e dos bondes como uma novidade que chegou à poucas cidades.
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    Série Otoni Mesquita 17 Aqueles momentosnão desbotaram, ficaram em mim gravado, e penso que modelaram uma espécie de arquétipo da cidade que fui construindo, misturan- do ao vivido e ao imaginado. Desde então, carrego e monto uma cidade cuja matéria, pode não corresponder precisamente à verdade que temos na razão. Nesse espaço abstrato, que é bem a cara da gente, guarda-se de tudo, coleções de pequeninos fatos, assim como fragmentos e traços do material. Arquivos que retém o cheiro da chuva no barro, o gosto das suculentas pitangas do cemitério, o canto triste das cigarras nas pitombeiras do fim do dia. Não é um cenário que pode ser desmontado, ou somente uma montagem de diferentes temporalida- des, nem esquema, nem réplica da cidade, são apenas representações, e mesmo que apontem para diferentes direções, funcionam como bússola a nos guiar. Penso que a lembrança desse fato pode remeter diretamente ao papel as- sumido pelas narrativas na construção e permanência de mitos e heróis. Ciclica- mente eles necessitam ser rememorados, remontados, ganham corpo e vontade, dando sentido à existência, sustentando e fortalecendo a cultura que os gerou. Caso contrário serão apagados e esquecidos como qualquer mortal. Parece-me que somente na circularidade do sistema adotado são capazes de existir essas entidades. Como aplicar isso à cidade? Será que apenas nossas imagens colecio- nadas e meia dúzia de significados são suficientes para dar sentido e manter viva a alma da cidade?
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    Série Otoni Mesquita 18 O ESCULTORDA CIDADE Publicado em 21 de junho de 2016. Hoje, quase todos reconhecem ser a cidade mais que um aglomerado de matéria, que possui múltiplas faces, algumas mais transitórias que outras. Um constante modificar, tal qual as águas do rio que passaram pelo pensamento de Heráclito. Nova a cada instante, mas carregando sua origem, ela vai sendo trans- formada. Além do tempo e do meio ambiente, são os usuários os seus verdadeiros escultores. Começando pela escolha da localidade e o uso que se pretende fazer de sua paisagem. Traçam um perfil que reflete suas vontades e verdades. Ainda que, em geral, as pessoas se eximam dessa responsabilidade, acusando a atua- ção dos grupos de interesse, os especuladores e o pulso forte do Estado. Mesmo assim, a história das cidades que sofreram radicais e autoritárias transformações, atribui um relevante papel à resistência popular: manifesta de forma alternativa, apropriando-se dos projetos impostos e preservando aspectos da tradição. Ainda no século XIX, Marx mostrou que a sociedade da mercadoria tudo dilui, numa fome insaciável, num eterno substituir. Inspirado nessa observação Marshal Berman escreveu ”Tudo que é sólido desmancha no ar”, mostrando e cri- ticando as transformações urbanas do XIX. Hoje, os fatos apontados por Marx são mais contundentes, e as cidades, ainda que maiores e estão cada vez mais frá- geis, reduzindo ainda mais a proporção de seus habitantes. Parece insano, mas é esse o sistema eleito, o processo escolhido. Caso não seja ingenuidade da ganân- cia, deve ser a mais pura perversidade da sociedade.
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    Série Otoni Mesquita 19 De novoo nosso tempo tenta vestir a cidade com nova roupagem. O proces- so pode soar natural, se lembrarmos que já não se usa calças de tergal, camisas “Volta ao Mundo” ou brilhantina “Glostora”, nem usar calça justa é coisa de “fi-fi”. Ainda que eu morra de saudade daquele macacão e a sandália de pneu. Quem entre vocês continua a fazer suas compras no Mercadão? Quem arrisca passear nas praças do centro no sábado à tarde? Me digam quem há dez anos, se aventu- rava a fazer Cooper à noite na Ponta Negra? Quem mora em casa e tem biribá no quintal? Tudo transforma em outra coisa, forja-se novas relações, estabelecendo comodidades e outras necessidades, retirando de nossas vidas, hábitos e vincula- ções que pareciam essenciais. Somos nós com nossas pequenas vontades dirigi- das, nem sempre brotadas de verdadeiras necessidades. Repetimos velhos mo- delos de época remotas. São pragas plantadas em outras plagas a nos perturbar. É previsível que com o crescimento da cidade mudem os hábitos de seus habitantes, justificando-se pela segurança, economia, privacidade, consumo e tantas outras necessidades que o tempo cobra e o homem se dobra. Vive-se uma nova era, seguindo-se novos padrões, mas não parece assim tão complicado, até nos acostumamos falar com máquinas, namorar pela internet, não precisar ir ao banco ou a pizzaria, mas qual é a graça desse raio de sistema. Já pensaram quan- do todos agirem assim. Que papel terá a cidade, certamente terá evaporado da memória, assim como os aglomerados urbanos se chamarão outra coisa. Certas mudanças parecem inevitáveis e até necessárias, são fáceis de con- ciliar. Outras, disfarçadas em comodidades e beleza, enganam, pois na realidade são frias e vazias como flores de plástico das ofertas. Perdendo-se a essência de coisas, que não era possível comprar. É preciso refletir e contestar, pensando nos- sas necessidades e fazendo valer a nossa parcela no modelar da cidade. Vejamos
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    Série Otoni Mesquita 20 com calmaos paradigmas da pós-modernidade: que a pretexto é esse que tudo mistura, dizendo atender às diferentes tendências e vontades, mas como resulta- do uma uniformidade banal. Conservador como sou, vejo nisso a fraude de uma grande embalagem vazia, mostrando claramente a diferença entre o gostar e o gastar. Mas isso não depende, somente, de bons urbanistas, arquitetos, paisagistas e belos projetos, ainda que esses devam resistir, mantendo o senso e a sensibili- dade, criando maneiras de burlar o sistema e a própria escola que tenta modelar esses atores como meros executores das tendências de um grande projeto. São grandes as pressões econômicas e maiores as tentações consumistas, gordos in- vestimentos, pesadas articulações para montar grandes fachadas aparentemen- te arrojadas. Contemporaneidade de Shopping de Miami, espetaculares fachadas de circo para um show que não acontece. Receita de bolo com os mesmos ingre- dientes, havendo até mesmo referências à história. Para isso recortam uma vaga noção de frontão, colam falsas colunas repletas de caneluras, mas sem qualquer compromisso com as ordens estabelecidas. Particularmente, penso que estamos integrando uma crise mundial, man- tendo a história que vem da época colonial, é algo que jamais terminou. O que parece ameaçador nesse momento é a intensidade do processo, insinuando múl- tiplas possibilidades, mas na realidade, revelando uma só direção – a uniformida- de. Cenários impessoais e banais como um resultado globalizado que apaga as diferenças culturais.
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    Série Otoni Mesquita 21 Por queessa sede de novidade constante, como se na vida só fossemos con- sumidores? São muitas as justificativas para as mudanças de hábitos. Coisas que vão da aparência à maneira de pensar. Parece impossível para nós que alguém mantenha a aparência e o comportamento de vinte anos atrás. Há uma exigên- cia de mudanças, sobretudo da aparência. Mas será essa cobrança aplicada a um senhor de sessenta ou setenta? Retirando exceções como Mick Jagger, me pare- ce que não. Aos mais velhos deixa-se em paz, que vivam tranquilos, sem a tirania da atualização. Parece que assim também funciona com as nossas cidades, quando com- paradas à outras cidades de história mais recuada, evidencia-se a nossa condição de eterna puberdade, impondo constantes processos de renovação em busca da atualidade, ainda que em algum lugar tenhamos que esconder quadros medo- nhos. Esse modelo não estaria fadado ao mesmo final trágico de Dorian Gray? Desculpo-me pela nostalgia e fantasia do caminho tomado, mas minha in- tenção era fazer um grande passeio pela minha cidade, recuperando velhas ima- gens, que ela não é somente essa realidade aparente e recente. Não falo somen- te daquela história tradicional, às vezes seca, metódica e impessoal. Na verdade, queria escapar por outras histórias, aquelas narradas por quem as viveu ou ouviu contar. São tantas as fontes, vivas a circular, tantos ângulos para olhar e tantos os modos de narrar. Algumas trazem cheiros, sofisticados temperos exóticos, outras são cores e sentimentos, muitas guardam bem claro as caras e acontecimento.
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    Série Otoni Mesquita 22 Mas podemter certeza, cada um carrega sua cidade, com cenários, diálogos e personagem. O homem não passa em branco por uma cidade, ela o acompa- nha independente de seu gosto ou vontade.
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    Série Otoni Mesquita 23 ARGUMENTAÇÃO DOSDISCURSOS NA CONSTRUÇÃO DA CIDADE Publicado em 5 de julho de 2016. Ao entrar no século XX, a cidade de Manaus já era descrita como uma cidade graciosa, moderna e saudável, pois as obras públicas haviam transformado seu aspecto, vestindo-a com avenidas calçadas, dotando-a com sistemas de ilumi- nação elétrica, distribuição de água potável, instalação do serviço de transporte coletivo feito através de bondes, além do moderno porto flutuante que se encon- trava em construção e tendo como destaque um teatro grandioso e ornamenta- do que se destacava sobre as demais construções recentes e modernas. Naquele ano de 1900, ao despedir-se da administração pública, o governa- dor José Ramalho Junior, em sua Mensagem de despedida, justificava que dotar a capital de melhoramentos era “trabalhar pela causa pública”, e afirmava que as despesas “consagradas ao embelezamento de Manáos não haviam sido impro- dutivas”, e complementava seu argumento, dizendo o seguinte: “o estrangeiro julga sempre um país pela sua capital”: se está o attrahe, sempre disposto ou a consagrar-lhe à sua pátria, fazer-lhe referências que determinem que compatrio- tas seus a emigrarem para o país assim enaltecidos. Tudo que se faça pelo embe- lezamento da capital do Amazonas, à primeira vista parecendo obra supérflua, é de resultado praticamente imediato.” (Ramalho Jr. 1900. p. 7).
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    Série Otoni Mesquita 24 Outro dosmuitos discursos que explicitam as verdadeiras intenções das re- formas e melhoramentos implementados pelos administradores em Manaus, foi emitido pelo governador Silvério Nery em sua Mensagem de 10 de julho de 1902 ao tratar dos assuntos “Hygiene e Migração”. “Não se pode pensar em atrair para nós os braços e o espírito empreendedor e bem intencionados, enquanto não lhe podermos oferecer com absoluta segu- rança um habitat conveniente e liberto de todas as suspeitas que um espírito de prevenções, nem sempre injustificada, gera.” Reforçando a concepção da administração pública e a tendência ufanista que caracterizou a historiografia do período pode-se destacar a descrição da ci- dade de Manaus feita em 1904, pelo senador Lopes Gonçalves: “o aspecto é no- bre, de uma cidade moderna, na qual as casas são altas, as ruas bem traçadas e largas, excetuando na parte mais antiga que vae sofrendo modificações e desa- parecendo pela substituição dos seus novos prédios, sem beleza, nem higiene, por outros elegantes e confortáveis”. No mesmo ano de 1904, quando esteve no Amazonas o escritor Euclides da Cunha, com sua visão crítica, ressaltou o mesmo aspecto contrastante que Avé Lallemant notara em 1859 e apontou uma incômoda artificialidade que o levou a descrever Manaus, como uma “cidade meio caipira, meio europeia”, na qual o tejupar se achatava ao lado dos palácios e o “cosmopolitismo exagerado” punha ao lado do “Yankee espigado” o seringueiro “achamboado” deixando a impressão que era uma maloca transformada em Gand”.
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    Série Otoni Mesquita 25 As imagensde uma cidade embelezada e moderna talvez não fossem as- sim tão convincentes, pois outro autor a observar estes aspectos é o antropólogo Gilberto Freyre, na página 408 de Ordem e Progresso, uma de suas obras de re- ferência, publicada em 1959. Freyre destacou o artificialismo do lugar ao apontar alguns aspectos que considerou em “desproporção com a paisagem agreste- mente tropical que rodeava a um tanto postiça capital do Amazonas”, segundo ele, continuando sua crítica alegava que resultado de um “ambiente de econo- mia de aventura e de uma ‘civilização’ antes cenográfica do que autêntica”. Percebe-se que parte dos projetos de embelezamento realizados naquela época, muitas vezes não passavam de “obras de fachadas” para impressionar os visitantes e iludir a população local. As inovações adotadas nem sempre eram assimiladas pela população, sendo, portanto, interpretadas como recursos artifi- ciais, uma vez que seus resultados, muitas vezes, pareciam simplesmente buscar efeitos cenográficos. As fachadas atualizadas e decoradas, as praças ajardinadas, as avenidas cal- çadas e com grande movimento comercial, plenamente utilizadas para o lazer da população, conseguiam imprimir uma imagem de progresso compatível com as aspirações da época, e concentravam grandes esforços no sentido de reforçar esta imagem, como se o principal objetivo das obras de melhoramentos fosse a confecção de uma vitrine.
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    Série Otoni Mesquita 26 Projetos paraa execução das obras públicas eram aprovados a partir de lon- gos discursos e relatórios que justificavam a necessidade dessas obras apoiados nas ideias de pensadores consagrados com Leibniz ou referências a obras reali- zadas na Europa ou na Capital Federal. Sob a ótica de “preconceitos europeus” os serviços eram apontados e recomendados como essenciais na busca da me- lhoria do nível de civilização e garantir a segurança dos cidadãos, mas também se constituíam numa pressão, nem sempre velada, para a aquisição de materiais produzidos pelas indústrias europeias.
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    Série Otoni Mesquita 27 MANAUS, UMACIDADE PARA SER AMADA Publicado em 19 de julho de 2016. Chegar a Manaus é sempre um impacto. Depois de horas de vôo ou dias navegando por densas áreas verdes, recortadas por curvas ocres e negras, depa- ra-se com uma grande clareira que ruge animadamente. Surge clara e nua, ba- nhada pelas águas escuras de um belo rio que lhe embeleza. De noite ou de dia, é sempre um espetáculo, mesmo para aqueles que estão sempre a retornar. Mas parte do encanto se desfaz, ao constatar que a ânsia de modernizar se desfaz de suas belezas naturais. Quarenta e nove anos após a implantação da Zona Franca de Manaus não há como duvidar do crescimento manifesto em vários setores da sociedade. A arrojada expansão da cidade é sem dúvida consequência de suas atividades eco- nômicas que vem atraindo grande contingente de trabalhadores de outros es- tados. O crescimento populacional, assim como o nível de desigualdade social pode ser medido pela ampliação exagerada das periferias suburbanas e dos ar- rojados empreendimento verticais que se multiplicam, em algumas áreas da ci- dade. Contudo, a falta de infraestrutura necessária, não somente material, mas, sobretudo, sociocultural, faz deste crescimento uma coisa ameaçadora para to- dos os segmentos sociais.
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    Série Otoni Mesquita 28 Tal comoocorreu no final do século XIX, um novo surto de prosperidade econômica direciona mudanças radicais na cidade, visando atender as novas ne- cessidades de circulação, segurança e garantir as demandas de crescimento, so- bretudo dos setores industriais e comerciais. Contudo, populações sem qualquer qualificação sobrevivem com grande dificuldade nas áreas urbanas e sem con- dições de penetrarem no mercado de trabalho, portanto, sem instrumentos que permitam exercitar pleno direito de cidadania, permanecem excluídos. O desafio é estabelecer políticas públicas capazes de promover a integração, valorização e a inclusão deste contingente no viver social da cidade. Compreende-se que uma sociedade democrática, deva ser regida por inte- resses dos mais variados segmentos, não somente pelas políticas econômicas. Certamente as decisões seriam representativas, contemplando múltipla partici- pação e promovendo diferentes necessidades e interesses. Gerando, assim, uma sociedade mais humana, justa e sensível. Quanto aos aspectos ambientais, históricos e patrimoniais, nota-se que, mes- mo parcialmente protegido pela Lei Orgânica do Município e ensaiadas algumas tentativas no sentido de recuperar, sobretudo, alguns exemplares do patrimônio arquitetônico, grande parte das belas edificações do centro histórico de Manaus se encontram completamente abandonadas, outras sem qualquer conservação e muitas definitivamente agredidas: descaracterizadas ou demolidas. Patrimô- nio arquitetônico e o natural permanecem em risco, agredidos e degradados em uma velocidade acelerada. Igarapés continuam poluídos, mesmo que parte de suas margens tenham sido embelezadas. Para o cidadão não há caminhos com sombra, transporte digno ou calçadas contínuas e regulares.
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    Série Otoni Mesquita 29 Infelizmente, opatrimônio material e imaterial não está amparado por uma política pública autônoma e contundente, capaz de se confrontar com interesses econômicos. Com amplos poderes de atuação, não somente em sua extensão geográfica, mas, sobretudo, no âmbito cultural. Para tanto, suas ações devem en- contrar respaldo nos currículos escolares, cujos conteúdos e metodologias incul- quem ideias e valores que fortaleçam as noções de cidadania e pertencimento da cidade. Grandes empreendimentos na área da construção civil e das obras públicas vêm produzindo construções arrojadas, denotando uma clara situação de pros- peridade. No entanto, esta aparência não parece de acordo com as condições en- frentadas pela maior parte da população. Ou seja, a convivência com deficiências de serviços públicos básicos, como educação, saúde e transporte. Além de uma rotina marcada por outros setores que necessitam ser continuamente acompa- nhados, ou seja: melhoria e ampliação do serviço de distribuição de água, ilu- minação pública, pavimentação de ruas, calçamento para pedestres, ciclovias, instalação de rede de esgotos, engenharia e sociologia do trânsito. Que pensem no homem como usuário da cidade. A sociedade tem pressa em demasia, violência em excesso e solidariedade e fraternidade de menos. Por este ângulo, a cidade humanizada, embelezada e tranquila, só faz sentido e só será economicamente rentável, para usuários sen- sibilizados com estes aspectos. Não se deve esperar uma mudança radical no modelo de cidade, se não houver mudanças nas relações sociais, econômicas e, sobretudo, culturais, que se processam em seu interior.
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    Série Otoni Mesquita 30 Novas práticasexigem o apoio de uma população sensibilizada e predispos- ta a adotá-la. Assim, a aceitação e a eficácia de sua implantação, em geral, exi- gem um trabalho de médio e longo prazo, vinculado a uma mudança substan- cial no processo educativo. Não há como preservar a mais bela das cidades, ou as práticas mais tradicionais se não tiverem sentido para os seus usuários. Não se trata de decorar um discurso ou obedecer a leis, mas de uma relação afetiva que envolve sensibilidade e pertencimento. Não é suficiente recuperar, conservar, limpar e embelezar espaços públicos, nem estabelecer leis de conservação e fiscalizar sua aplicação. É necessário in- culcar ideias que sensibilizem aqueles que usufruem desses espaços; planejar estratégias para as gerações futuras. Que as manifestações culturais não sejam transformadas apenas em espetáculos, nem que os espaços públicos sejam em- belezados somente para o lazer de alguns. Mesmo que os espaços ganhem no- vos significados, que se busque preservar as referências e a memória, que pos- sam proporcionar um relacionamento afetuoso com a cidade. Acreditamos que recuperando monumentos e seus entornos, é possível pro- piciar uma valorização da autoestima da população, fazendo com que esta se reconheça, não somente como usuária, mas como a protetora que ama, preserva e se orgulha de sua cidade. De fora para dentro, a recuperação destes espaços poderá auxiliar na construção e difusão de uma imagem da cidade mais bela e humana.
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    Série Otoni Mesquita 31 Sem dúvidaé necessário que as ideias circulem na esfera da administração pública, dos empresários e da população, mas as ideias não são suficientes, se faz necessário animá-las a partir do pronunciamento de nossos representantes.
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    Série Otoni Mesquita 32 A ÁGUAE O VERDE NA CIDADE DE MANAUS: UMA BREVE HISTÓRIA Publicado em 9 de agosto de 2016. Manaus é uma cidade cercada por elementos da natureza por todos os la- dos, portanto é surpreendente descobri-la como uma clareira árida situada no meio da exuberante floresta amazônica. A região é caracterizada pelo grande manto verde, recortado pela sinuosidade dos muitos rios e habitada por uma rica diversidade de etnias indígenas. A beleza e a originalidade destes elementos são evidências incontestáveis e bastante valorizadas pela sensibilidade humana. Entretanto, o ritmo de cres- cimento da cidade parece fazer questão de apagar estas referências belas e na- turais, próprias de uma situação privilegiada e a cidade cresce insistindo em se distinguir e se afastar destes elementos naturais. Assim, se constrói uma imagem bastante distanciada da realidade circundante, como se a aparência desta ima- gem, por si só, se constituísse garantias de civilidade. Grande parte das transformações processadas na cidade foi justificada como exigências naturais do crescimento populacional e das novas necessidades de- correntes da vida urbana atualizada. Assim, as intervenções priorizaram, sobretu- do, aspectos da circulação, segurança e o comércio para atender a ampliação da malha urbana, assim como a intensificação do tráfego de veículos e transporte
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    Série Otoni Mesquita 33 de pessoas,bem como a ampliação das atividades comerciais e do consumo di- ário. Sem dúvida, estas atividades de subsistência são significativas para o bom uso dos espaços urbanos. Entretanto, o processo de atualização não atentou aos aspectos comprometidos com o meio ambiente, que são igualmente importan- tes para a manutenção da qualidade de vida da população que usufrui da cidade. As necessidades de ampliação dos espaços habitacionais e da expansão do comércio e da indústria levaram a reduzir as áreas verdes, não somente nas áreas centrais, mas também nas periféricas. Em virtude da ausência de uma política pública aplicada na preservação do patrimônio histórico e natural, permitiu que os espaços públicos localizados no centro da cidade ficassem praticamente des- pido de verdes, com exceção de poucos espécimes, ainda mantidos, em algumas praças centrais, quintais e vias públicas, cujo processo de manutenção é inefi- ciente. A intensidade com que ocorreram ocupações irregulares e em áreas de ris- co foi proporcionalmente semelhante a ampliação das áreas urbanas como um todo. Infelizmente, a primeira característica destes espaços é a retirada da ca- mada vegetal, que funciona como um marco de garantia de posse da terra e a demarcação de vias para a circulação de pessoas e veículos motorizados. Inicial- mente estas áreas não apresentam os serviços de infraestrutura necessários, mas a primeira reivindicação a ser feita é o asfaltamento das vias principais, delimitan- do assim a ocupação. Em torno destas pistas negras e quentes emergem, rapida- mente, construções em concreto. Em formatos de gostos estético duvidosos, se multiplicam com seus telhados de amianto e quintais cimentados.
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    Série Otoni Mesquita 34 O processode atualização produziu necessidades e fez muitas exigências como o uso intenso de veículos motorizados para quase todos os deslocamentos, assim como a instalação de aparelhos de refrigeração em grande parte dos espa- ços de trabalho e habitação. Além disso, podemos observar que nos últimos anos, as cheias dos rios se tornaram mais provocativas, como se as águas insistissem na tentativa de recuperar os espaços que lhe foram subtraídos. A legislação da província, sobretudo do conteúdo veiculado nos códigos de posturas, demonstravam grande atenção em manter as condições ambientais da povoação. A partir de uma regulamentação que procurava impedir a degra- dação dos igarapés pelo uso indevido, assim como a retirada de materiais como areia, pedras e a vegetação das matas ciliares. Contudo, podemos constatar que tais objetivos se perderam perante a pres- são de outras exigências e com a ausência de profissionais especialistas nas re- partições que deveriam regular e fiscalizar tais políticas. Sob a pressão do cresci- mento repentino e a falta de resistência não foi possível preservar as três bacias de igarapés que recortam área urbana de Manaus. Ainda que grandes financia- mentos tenham almejado a recuperação de suas fontes, isto não ocorreu. Foram todos degradados com dejetos domésticos e industriais, apresentando atual- mente suas águas totalmente poluídas. Além da falta de manutenção destes cursos d’agua, pela ausência de uma política de preservação ambiental, pode-se constatar que a aplicação do projeto em curso, contraria as tendências mundiais de empreender esforços para recu-
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    Série Otoni Mesquita 35 perar apaisagem natural. Partes destes igarapés estão desaparecendo, ao serem aterradas ou modificadas por intervenções embelezadoras para a criação de no- vos espaços de lazer, e mesmo canalizados para dar espaço para construção de conjuntos habitacionais populares. Sem dúvida ainda são bastante discutíveis as razões que levam ao aqueci- mento global do planeta, portanto, não temos como afirmar taxativamente as razões que tornaram a cidade de Manaus um lugar tão quente e inóspito para os transeuntes que circulam por suas ruas. O calor registrado nas últimas décadas, certamente não se deve somente ao seu acelerado crescimento desencadeado pela implantação da Zona Franca de Manaus no final dos anos de 1960. Poste- riormente o processo se intensificou com a consolidação do Distrito Industrial de Manaus, cujos ganhos pretendiam se propagar além do setor econômico, aten- dendo a segmentos sociais. A tentativa de compreender estes problemas contemporâneos nos remete a buscar fundamentação na própria história da cidade, na tentativa de identi- ficar e evidenciar indícios significativos ocorridos em seu processo de transfor- mação urbana. Além disso, pretendemos desenvolver uma reflexão do ponto de vista memorialista deste processo relativamente recente, acreditando que assim possamos contribuir para com a discussão do problema e elucidação de alguns pontos.
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    Série Otoni Mesquita 36 FAZENDO FITA Publicadoem 14 de dezembro de 2016. Tom Moreno Foi numa cidade trópico-equatoriana que tudo começou, no meio de uma ensolarada manhã de Sábado. Havia vitrines coloridas e as pessoas se produziam como que para lá se expor, em seguida jogavam-se na rua, ávidas de caras e con- sumo. Naquela hora os letreiros luminosos permaneciam apagados, mas não foi difícil localizá-la. Encontrei-a entre tantas outras de igual qualidade e nada mais além do tempo que oferecia me convenceu; mentiria se dissesse que foi amor à primeira vista, pois assim como foi ela poderia ser outra e se não fosse eu, outro qualquer a levaria, mas era inevitável que eu a levasse comigo naquela manhã. Era pura necessidade. Não tinha sotaques e sobre sua origem nada perguntei, mesmo suspeitan- do que fosse nativa, apesar de tão parecida com outras de diversas procedências. Levei-a para casa iniciando-a naquilo que deveria me dizer, lhe apresentei alguns amigos e logo seu repertório foi sendo ampliado. Ela se submetia a minha von- tade, aparentemente de bom grado. Depois de algum tempo de convivência, eu já revelava um encantamento e até certo nível de fidelidade. Eu podia escolher, mas me punha a ouvi-la horas e fio, sentido nisso um grande prazer em enten- der o que dizia. Fiquei encantado com seu canto, mas confesso que para que isso acontecesse não foi somente o conteúdo o tom das coisas que me dizia. Havia naquelas falas o reconhecimento de diferentes vozes e momentos agradáveis.
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    Série Otoni Mesquita 37 Ela eracapaz de reproduzir sensações bastante familiares. Havia uma gran- de carga de afetividade já com sotaque, conhecia-lhes frases e entonações, mas sempre me escapava alguma coisa. Comigo seguiu para alguns lugares; peque- nas e longas viagens. Às vezes, eu a exibia como representante de uma nova ge- ração daquela cidade tropical, em outras ocasiões, eu a mantinha trancada em seu mutismo, guardada em casa como joia rara, sem qualquer possibilidade de expressão. Muitas vezes, eu saia com os amigos e até esquecia dela, mas sempre ela atendia aos meus pedidos. Houve época em nossas vidas que não a deixava es- friar. Era como se me desse algum alimento que eu não encontrava com os ou- tros ou em outros lugares. Era quase uma dependência. Solicitando sua presença a todo o momento, mormente na hora de ninar. Era como uma gueixa dócil e submissa, pronta a atender nas mais diversas horas. Mesmo que eu não tivesse banhado ou perfumado. Para ela, não havia diferença. Conhecia-lhe os dois lados como a palma de minha mão e sabia seu discur- so de trás para frente. Já sabia muito bem o que iria me dizer em seguida. Mas não era uma relação previsível. De vez em quando eu a trocava por outras. Mas isso não era segredo, ela sabia muito bem qual era a sua condição e não fazía- mos qualquer mistério disso. Assim eram tratadas os de sua espécie, portanto, não sentia qualquer remorso em colocar outras vozes sob o mesmo teto que nos abrigava. Entravam e saiam, sem dramas, pois ela nada dizia. Não éramos caso consumado, mas consumíamos um caso vulgar até que sumisse por inteiro.
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    Série Otoni Mesquita 38 Um diachegamos a um lugar de sal e sol, mas às vezes tínhamos que nos guardar em casa até que as nuvens passassem nos devolvendo o azul. Foi numa dessas recolhidas que aconteceu o nosso primeiro desentendimento. Já estava cheio de chuva e pedi-lhe que me cantasse algumas canções que NOS aproxima- vam. A princípio ela não demonstrou nenhuma contrariedade em atender aos meus pedidos. Tudo parecia dentro da normalidade. Ela atendeu como sempre fizera até que no meio de uma frase engoliu algumas palavras que dariam sen- tido e continuidade a frase. Foi como um engasgo inesperado e confesso que eu me assustei, mas logo voltei a insistir, sem sucesso. Deixei para lá e procurando evitar tumultuar o ritmo das férias, eu a dispensei da tarefa. Passados alguns dias, ela voltou a ocupar o centro de minhas atenções; sen- tia saudades das vozes e das lembranças que ela guardava em si, insisti e a per- turbei de muitas maneiras. A princípio com carinho e delicadeza; mas aos poucos fui perdendo a paciência e comecei a sacudi-la, espetei-a, mas não obtive qual- quer resultado positivo. Ela parecia cada vez mais enroscava mais em si mesma, completamente travada. Não reagia, permanecia enrolada sobre si, emburrada, embolando a fala de maneira indecifrável. Um antropólogo talvez descobrisse ali o comportamento típico de um autêntico índio mura emburrado no cativeiro. Tive vontade de jogá-la pela janela do oitavo andar, mas me contive, não pela possibilidade de cometer um crime ou sofrer punição, mas pela esperança de voltar a ouvi-la outras vezes. Depois de algum tempo e esgotando o meu re- pertório de alternativas, conclui que a metodologia aplicada não estava surtindo efeito almejado, talvez fosse à rudeza do tratamento ou alguma outra razão por mim desconhecidas.
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    Série Otoni Mesquita 39 Parti paraum novo procedimento, demasiado avançado para minha forma- ção. Sem qualquer resistência a transportei para sala, e a coloquei sobre o sofá, esperando que emitisse algum sinal capaz de explicar a razão de seu estado de mutismo. Queria diagnosticar algum indício do mal que lhe afligia. Mas foi tudo em vão, do traumatismo nada consegui saber e depois de algum tempo, perdi o resto de paciência que tinha. Enfurecido, decidi invadir lhe o interior e desordenei a sequência lógica, mis- turei alhos com bugalhos; deixei-a tonta e pensei tê-la na palma da minha mão. Parecia bastante radical e alternativo o tratamento que eu adotei. Nos espalha- mos sobre o tapete da sala, a recostei sobre os móveis. Depois, arrastei-a pela casa, parecia o fim de tudo. Só temia que, a qualquer momento, as crianças che- gassem da escola. Tinha que ser ágil e versátil, agir antes que as crianças retornassem. Não po- deria deixar vestígios. Perdi completamente o controle, armei-me de ferramentas cortantes e avancei sobre ela. Primeiro intervi em algumas falas na tentativa de desembaraçá-la do mal que eu não sabia bem qual era. Encarei aquela situação como se fosse um exorcismo, ainda que pudesse parecer uma seção de tortura. Por mais de uma vez estive com uma faca na mão prestes a abri-la ao meio. Pen- sei em desmembrá-la. Ela se mantinha muda, completamente submissa perante o carrasco, pa- recia desafiar todas as tentativas. Era desesperador recordar cada um dos mo- mentos que somente ela guardava. Ela sabia muito bem que só ela era capaz de nos contar. Isso me enfurecia, ainda que lhe fizesse alguns curativos, esperando
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    Série Otoni Mesquita 40 sensibilizá-la dealguma forma, mas qual “umbuá” se mantinha enrolada sobre si mesma ou se enrugava feito pele envelhecida. Tanto fiz que depois de algum tempo consegui que ela voltasse a falar co- migo e até cantasse um pouco das nossas recordações mais felizes, mas desde este dia ela jamais foi a mesma. Continua comigo, talvez por conveniência minha ou por solidão dela, nem sei por que, pode ser por puro saudosismo ou talvez aguarde sua prometida substituta que ainda não chegou. Como uma gueixa, se mantém submissa e fiel ao seu destino. Mas permanece intocável, não há casse- te que a faça girar para cantar. É apenas uma fita cassete inutilizada, mas antes tocava músicas do grupo Tariri. A Natasha ficou me devendo uma cópia melhorada desta dramática criatu- ra, mesmo assim eu a mantive até o dia que me deixou. Emprestei-a para Jane Jatobá que não me devolveu mais. Talvez ainda cante alguma coisa, pois eu havia remendado cada pedaço da fita, ainda que aqui e ali ela ainda continuasse en- gatando.
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    Série Otoni Mesquita 41 GRAVURA ERÓTICA Publicadoem 31 de janeiro de 2017. Muitas pessoas passam pela vida sem nunca ter ouvido falar dela. Outras ouviram falar, mas não têm uma ideia precisa de como funciona ou se apresenta. Às vezes têm ideias deturpadas e confundem com pornografia. Proíbem os filhos de manter qualquer contacto com esta coisa que não sabem o que é, mas que acham que é perigosa, pois mexe com a libido e com a criação. Poucos foram iniciados neste universo raro e sem retorno. Alguns ficaram completamente dependentes e não conseguiram mais retomar o ritmo da vida que vinham levando. Alguns penetraram sem muita profundidade, levados por um texto superficial, imagens curiosas ou alguma conversa nem sempre tão es- pecializada. Muitos chegam a ela quase que obrigados. Como um dever, uma disciplina a ser cumprida. Sendo perigoso assumir uma forma burocrática, de cumprimen- to de atividades burocráticas que atende números, portanto, corre o risco de ser frio e calculista, não promovendo qualquer prazer a seus usuários. São aquelas relações gordas, ociosas, com cheiro de cigarro e café frio. Carimba assina e cha- ma o próximo. Só há salvação para aqueles que descobrem que fazer uma gravura é quase o mesmo namoro que tiveram quando começaram a desenhar e descobriram o
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    Série Otoni Mesquita 42 que podiamfazer com o lápis. O universo que surgia e a formas que brotavam sem predeterminação. Uma troca de carícias, uma relação afetiva, um namoro que deve ser eterno enquanto dura a relação. Alguns podem descobrir grandes prazeres e literalmente mudar de vida. Es- tes deverão encontrar prazer no simples roçar de seus instrumentos contra su- perfícies lisas e sólidas. Vibrarão com os primeiros arranhados e com as primeiras penetrações. Sentirão necessidade de buscar novas posições e composições. Não se contentarão apenas com o café com leite feito pelo contraste simples de pre- tos e brancos ou as variantes meio quentes, meio fria tal qual a mistura de feijão com arroz que servem na bandejão. Devem se desligar das outras ocupações. Na hora deste amor só deve existir ele. Esqueça o mundo!!! É desses amantes que necessitamos para que estas relações tenham sen- tido e façam diferença. São eles que mergulham de cabeça em cada coisa e que podem estimular os outros na arte com prazer e com intensidade. Vão inteiros. Como em uma relação amorosa, existem muitas maneiras de se materializar uma gravura erótica. Deve-se partir de um contacto simples e essencial com seu toque íntimo e pessoal. Sem este contato não há fantasias ou sexy shop, nem a di- versidade de relações, nem poligamia ou outras relações erotizadas, nem mesmo grandes bacanais são capazes de produzir a matéria essencial. Talvez temendo cair em tentações das muitas possibilidades é que alguns, mais tímidos, fiquem
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    Série Otoni Mesquita 43 travados eprefiram imaginar cada detalhe. Planeja cada gesto, como seria cada traço, cada claro e se teria escuros a compor a imagem do ser amado. Sonham com as maneiras de conduzir o seu instrumento, prevendo o sur- gimento de destacados volumes e sombras gerados por incisões feitas por cer- teiros cortes e golpes afiados. Pensam por onde começar e como tudo seria belo e sofisticado se realizado. Acovardados ficam escondidos nas formas idealizadas das relações platônicas, próprias das relações que não acontecem, não concreti- zam. Preferem imaginar como seriam se tivessem feito isso ou aquilo. Mas nem um ensaio para mostrar que podem superar o medo. Ficam paralisados e fogem para o idealismo, não realizam. Podem até sentir prazer, mas a frustração de não realizar é ainda maior, pois não acreditam que são capazes de tocar e trocar com o objeto de seu desejo. Sem contato não há reprodução. A relação deve surgir de uma vontade e implica em uma relação que, em geral, envolve mais de três personagens, mas não deve ser promíscua. Pode ser uma relação de amor, mas nada impede que se desenvolva apenas uma relação profissional, visando a sobrevivência ou outras necessidades. Mas não deve ser tratada apenas como uma relação comercial. Ainda que possa parecer contradi- tório, em geral, são as relações mais dedicadas e profissionais, que apresentam maior possibilidade de gerar reproduções. Não há como escapar. Em geral é uma relação moldada em padrões tradi- cionais. Alguém domina e a outra parte se submete ao instrumento que lhe pe- netra e se dirigido pode abrir veios e grotas que podem fazer sentido o seu corpo plano e tratado com lixa fina.
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    Série Otoni Mesquita 44 Da origemmais vulgar e pobre, aos berços mais raros e caros. Do papelão desprezado e abandonado no lixo das cidades, às madeiras mais nobres e per- fumadas sequestradas das mais belas florestas. Parodiando o grande cineasta brasileiro, podemos afirmar que só há uma atitude a ser tomada nesta relação: uma ideia na cabeça e uma goiva na mão. Mas isto não é tudo para começar o romance. É preciso saber manusear o seu instrumento de prazer e de trabalho. Ainda que levado por um amor animal, a madeira, tal qual uma amante calorosa, não deve se manter apática, nem brincar de morta. Ela deve reagir ao toque daquele que lhe penetra. Além de chegar com o instrumento amolado, conhecer o sen- tido dos veios da criatura. Saber em que direção quer seguir e não correr o risco de quebrar o instrumento, romper a madeira e sair ferido. Ter em mente o filho imaginado. Não importa onde foi feita a iniciação; se na bananeira ou no açacuzeiro, ce- rejeira, maracatiara, cedro ou marupá. O que vale é retirar a experiência de qual- quer relação, não importa se tenha sido com um compensado torto, um duratex mofado ou linóleo molenga. Não importa o suporte em que tenhas deitado o seu instrumento, mas que você retire algo desta vivência e que se deleite com as no- vas experiências de cravar e gravar. Instrumento afiado é sinal de prática constante, mas não basta ser amolado, de ouro e com diamantes cravejados. É preciso saber manusear o instrumento. Saber em que direção cortar, prevendo o que será descoberto e o que ficará es- condido. O que deve ficar intocável e aquilo que deve ser sutilmente mostrado.
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    Série Otoni Mesquita 45 Para marcardefinitivamente é preciso vigor e decisão, não necessita de vio- lência no gesto nem mergulhar tão profundo no corte, senão poderá machucar o instrumento ou abrir lascas irreparáveis em sua matriz. Lembrando que deve ser uma relação de parceria. O toque do instrumento deve ser feito com precisão e direção. Todo ponto pode ser G, quando se está presente. Pode ser fino o instru- mento e pouco profundo o corte. Só depende do que você queira como resulta- do. Com as mãos leves e com a carícia de instrumento amolado, a madeira cede mais facilmente que a fúria de um corte que ignora que ela existe. Assim como uma mulher tocada, a madeira recebe com prazer os cortes finos feitos com de- senvoltura de quem sabe o que quer e para onde vai. Assim como em algumas relações, na gravação é necessário que alguém mantenha as rédeas da direção. Mas nada autoritário. Uma atitude bastante sau- dável para a relação quando os dois conseguem se entender. Para estabelecer uma relação de compreensão na relação deve-se manter um estado de concentração e atenção. Não esqueça que você pode irremedia- velmente agredir o suporte, cortes irreparáveis. Reparações são como plásticas, nem sempre parecem naturais. Você pode perder o afiado de seu instrumento e sair ferido. Portanto, muito cuidado. Concentre. Pode até falar, mas não entre em uma discussão sobre religião, política nem sexo. Grave! Concentração no corte. Grave com o prazer como se só houvesse isto para fazer na vida, pelo menos naquele momento. Lembrar que as mãos devem ser mantidas fora do alcance das lâminas. Uma pode auxiliar a outra, na direção e no controle da ferramenta. O que não pode é ficar ociosa, pois assim como as pes-
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    Série Otoni Mesquita 46 soas quenada têm a fazer acabam se atrapalhando. Você pode utilizar diferentes suportes para chegar a posição mais cômoda e prazerosa. Não importa o que você quer reproduzir. O tema pode ser um pretexto para penetrar na relação. É como uma conversa, um flerte inicial, mas que pode ser superado pelo ritmo da própria conversa, ou seja, pelo como se faz. Esta é a verdadeira diferença. Apro- veite e se descubra no ato.
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    Série Otoni Mesquita 47 DECLARAÇÃO DERELACIONAMENTO Publicado em 28 de fevereiro de 2017. Certamente não foi amor à primeira vista. Nem sei onde se deu o nosso pri- meiro contato. Quando percebi, já estava comigo, como se fizesse parte do meu ser. Não deu alternativa, nem tempo de substituir o status de meu perfil. Mas mudou o meu estado de animação e sem muita cerimônia me levou logo para a cama. Insaciável, não queria me deixar sair mais de lá, por mais que eu relutas- se. Sem muita resistência e sem força, muitas vezes me entreguei, como se não tivesse mais nada a fazer. Ainda que suas carícias não fossem tão delicadas e me maltratassem a cabeça, faziam doer a nuca, a fronte e as juntas. As noites ficaram longas e demoradas, com sensações de frios e calores a me dominar. Tremores e delírios eram rotinas, como os sonhos que não se completavam. Fragmentos insistentes a se repetir até se tornarem pesadelos. Enquanto ela saciava suas von- tades, esgotava aos poucos a minha libido. Me fez de gato e sapato, amoleceu meu corpo como uma massa de modelar, brinquedo destrambelhado que pode a qualquer momento desabar em qualquer lugar. Mudou meu ritmo de vida ao tenta me reter em casa, me fazendo querer a sombra e me esconder da luz do sol. O corpo esquentava, os olhos relaxavam e os ouvidos se incomodavam com tudo. Só mesmo um casulo, mas ficar abraçado com ela. Muito difícil resistir. Re- conheço que fui tomado, possuído por essa coisa invisível que transforma nossas vontades numa coisa que não é bem nossa. Parece mesmo que queria me levar com ela. Essa coisa invisível, mas que arrasa e que chamam de VIROSE.
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    Série Otoni Mesquita 48 Não hácomo escolher ou se esconder. Ela pode te pegar no trabalho, no bar, em casa ou na igreja. Ela não se apresenta, nem manda convite. Assim, te indico maiores cuidados tentando caracterizar a maldita. Sendo invisível, não é possível dizer que seja feia ou bonita. Nisso também ela é desleal, pois não deixa escolha, mesmo sem apresentar qualquer personalidade, mesmo sem solicitar ou avisar, ela se apossa da gente ao seu bel prazer. Ainda que não apresente qualquer atra- tivo, nem mesmo atributos físicos ou vantagens, como seios consistentes, glúte- os delineados ou boca boa para beijar. O pior é que não nos reserva nem mesmo um lugar para gente se guardar. Fica na gente como hospedeiro para garantir sua passagem, se expandir e a outros abraçar. O pior de tudo é que exige fidelidade total.
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    Série Otoni Mesquita 49 GALOPANTE Publicado em31 de março de 2017. Uma coisa escatológica, ainda que básica e vulgar, não há como evitar. Deve ser uma oportunidade para quebrar a rotina ou redirecionar o ritmo de vida, tal- vez para lembrar que nem tudo é glamour e pode se planejar. Ocorre no âmbito de sua intimidade e muitos preferem esconder, não confessam com temores de ridicularizar. Não perderão tempo tentando entender a causa ou razão. A prati- cidade da vida moderna com seus medicamentos cuidará para que tudo volte à normalidade. Não é uma coisa que possa ser evitada, pois assim que o sujeito sen- tir os primeiros sintomas, não terá mais o que fazer. Às vezes, chega suave, pode ser uma dorzinha, mas aos poucos, outras se manifestam abruptamente, logo, uma emergência. Não tem escolhas, nem espera. Pode te pegar no meio da rua, num passeio fluvial ou no meio de um show movimentado, cercado por amigos e desconhecidos. Não avisa que vai se manifestar no meio de uma solenidade ou no casamento que você é o padrinho. Que não sejas o noivo nem a noiva. Pode escolher a bela Miss prestes a receber a faixa, como pode derrotar o atleta, aque- le que treinou tanto e se mantinha concentrado na disputa da medalha. Ela se manifesta a qualquer hora e pode derrubar até os mais ágeis lutadores de MMA. Para ela não há fortes, quanto maior o sujeito, maior a queda, pois quanto mais energia, maior a reação. Pode ter escapado da justiça e ter uma rede de proteção.
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    Série Otoni Mesquita 50 Para muitosse manifesta inicialmente com uma série de arrepios e calafrios. Logo vão se tornando mais constantes, com ondas de calor e sensações inexpli- cáveis que tomam toda a atenção, tomam o corpo e espetam todos os pelos, não há como esconder. Intestino se revira, tripa grossa parece que morde a fina. As pernas ensaiam um twist, mas você não vai querer saber de qualquer ritmo para se movimentar. Nunca sua vida terá um objetivo tão claro e na mira. Perde a nor- ma e a etiqueta. O que fazer? Não há uma alternativa. Não importa se limpo, sujo ou escangalhado, que tenha tampo ou tenha descarga. O problema é se estiver ocupado. Você só vai querer uma coisa em sua vida: o vaso. Somente depois disso você vai pensar na reforma política, na distribuição de renda ou se terá papel. Mas aí, nada mais importa, você já estará aliviado e nada mais importa. Estará mais leve e paciente, para falar e ouvir. Qual- quer história e mesmo opiniões disparatadas. Rirá de qualquer coisa, mas é o seu alívio que comemora. Ela não escolhe a hora e pode te pegar, ninguém está imune, mesmo que coma somente pão seco e legumes, ou vá na China jantar, a caganeira galopante pode te pegar.
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    Série Otoni Mesquita 51 CONFISSÃO DEUM RELACIONAMENTO MODERNO Publicado 30 de abril de 2017. Há algum tempo nossa relação parecia abalada ou estremecida. Razões variadas nessas atitudes contemporâneas. Muitas coisas sem respostas e mu- danças de hábitos. No meio de nossas conversas deu para me ignorar. Não se importava com o que eu tentasse ou insistisse, como o relacionamento tivesse somente uma via. Não era coisa para sofrer, considerando as tendências e forma- tações atuais. Mas era muito chato ficar sem resposta no meio de uma conversa que parecia ir muito bem. Se distanciava completamente, numa atitude altista me ignorava. Me acostumei com a situação e deixei para lá. As coisas voltavam a funcionar como se nada tivesse acontecido. Mas eu sabia que havia algo de errado e temia perder grande parte do que tinha investido nesta relação. Insistia, mas não sabia exatamente o que fazer. Não queria pressionar, pois não gosto de ser pressiona- do. Além disso a nossa relação não é daquelas que se discute. Ficamos frios por um tempo. Eu com outros afazeres e contatos e ele guardado em seu mutismo temperamental. Viajei, mas quando retornei fui em busca, senti necessidade. Fez menção de falar e se abrir para mim. Mas que nada. Calou mais uma vez. Não foram suficientes minhas tentativas e já não sabia mais o que fazer. Disposto a terminar com tudo, mas lembrava sempre de tantas coisas que dividimos, tantas memórias e declarações, tantas coisas que jamais foram reveladas a outros. Tive temores que se calasse para sempre.
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    Série Otoni Mesquita 52 Ontem ànoite, parecia calado definitivamente. Nenhuma resposta, por mais que eu insistisse e até pensasse em violência, por mais que eu permanecesse à sua frente e até me debruçasse fraternalmente sobre sua silhueta. Depois de tudo isso fui dormir, pensando que um novo dia talvez revelasse um fato novo. Mas que nada, pela manhã voltei a insistir, mas nada consegui. Foi então que decidi buscar ajuda externa. Resoluto abracei-o quase como uma despedida e o enfiei em minha mochila azul. Fui em busca do amigo Max que mexeu daqui e dali uma peça mais daquilo, um pouco mais disso e ele voltou a si depois de um tratamento de choque. Literalmente foi uma lobotomia. Eu não sabia, mas se faz com os PCs quando sofrem determinado problema. Enfim, voltamos para casa e estamos de novo na boa.
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    Série Otoni Mesquita 53 CIDADE ABANDONADA Publicado15 de maio de 2017. A cidade até pode ser a mesma, mas caminhamos em diferentes planos. A minha, aquela por onde trânsito todos os dias. Ela se encontra quase vazia, depois das sete da noite. Pouquíssimas pessoas no meu caminho, amigos, muito raro. Quase uma cidade abandonada. Não posso afirmar que se encontra completa- mente esquecida, por causa do movimento de automóveis que não cessa, nesse horário. Ônibus lotados, abafados, comprimindo pessoas aflitas, como se fosse aquela, a última condução para escapar do lugar. Sigo sozinho e no meu trajeto, não se vê ninguém nas varandas, nem nas portas da casa. Em volta do meu velho cinema Poeira, nada de movimento, nem na rua da minha amiga, a minha Ayrão, que foi tão animada e vibrante, parece completamente esquecida, quase um cenário. Decididamente, seus moradores migraram para outro plano ou outra parte da cidade. Raro, é um pequeno e per- sistente grupo que se reúne, todos os dias, sob uma mangueira não muito forte, nem bela, em frente no borracheiro da curva, logo depois do alto de Nazaré. Mais embaixo, na pracinha, o silêncio é quase total. Para muitos é inacreditável, mas caminho em outro plano da cidade. Não foi uma coisa abrupta, como alguns querem sugerir. Há muito vi acon- tecer, não muito claro, mas sabia que tinha algo de errado. Era um processo de migração contínua, dentro da própria cidade. Às vezes, num ritmo mais eviden-
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    Série Otoni Mesquita 54 tes eintenso que em outros momentos, mas em um processo contínuo. Não era apenas espacial a mudança, mas sobretudo, para outro plano das ideias, abraça- vam outros valores e abandonavam aquela cidade que não mais sorrir. Não posso lhes acusar de traidores. Foram iludidos pelas promessas, assim como os serin- gueiros. Pobres humanos, sempre a sonhar sonhos impossíveis. Abandonaram a cidade dos seus sonhos.
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    Série Otoni Mesquita 55 DECLARAÇÃO DERELACIONAMENTO AFETIVO Publicado em 30 de maio de 2017. Já fiz outros tipos de declaração, por aqui, mas não sei, se alguma nesse gênero. Não é fácil externá-la. Não é um relacionamento recente, portanto, não se trata de um deslumbramento inicial de um relacionamento, que seria mais fácil não enxergar ou ignorar os defeitos um do outro. Para alguns, pode não ser novidade, atentos aos meus inúmeros elogios que lhe destacam alguns de seus atributos, nem sempre evidentes. Ainda que, com uma certa frequência, lhe faça críticas ao comportamento e condene suas mazelas, por ter se relacionado com alguns homens que atravessaram e atravessam o seu caminho sem o menor res- peito por ela. Não é ciúmes, sei muito bem que não fui o seu primeiro amor, nem ela, a mi- nha primeira escolha. Para alguns, ela contínua a trair, se entregando a sujeitos que fazem demasiadas promessas, sem qualquer compromisso. Nunca me im- portei que tivesse tido outros relacionamentos, mesmo que, com sujeitos tortos, com seus discursos prolixos, suas falas sedutoras, corruptores, com suas juras de amor e apelos estampados em outdoor. Vejo as vezes evidências muito clara- mente e compreendo que se trata de algum desajuste. Não há outra explicação para a sua constante submissão e apatia, perante enganos tolos e humilhações diárias, mesmo sabendo que eles sempre voltam para lhe tirar mais proveito.
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    Série Otoni Mesquita 56 Nos relacionamoshá muito tempo, por isso construímos uma longa história com encontros e desencontros de tudo que tivemos. Momentos de mais amor e menos dor, contrastados com situações em que nada perdoei. Resistimos por- que não podemos ser diferentes daquilo que rege a nossa natureza. Por querê-la tanto é que tive de reconhecer que ela não pode ser regulada pela minha vonta- de. Contudo, não acredito em sua autonomia. Luta para ser o que quer, mas mui- tas vezes se submete completamente as convenções e padrões importados. Se revela apenas uma consumista banal que tenta nos enganar com maquiagens reparadoras, suas intervenções cirúrgicas em clínicas clandestinas. Ainda que ela já tenha perdido grande parte de sua juventude e beleza, que tenha ganho outros atributos, vale dizer que não são estes atrativos que nos apro- ximaram e nos vincularam. Mas uma relação afetiva, construída de muitas expe- riências e afinidades, algumas coisas, nem sempre sabemos explicar. Reconheço que ela, já não é mais a mesma e passo os olhos, estendo as pernas para lhe alcançar, passo as mãos em partes acessíveis de seu corpo. Tateio, buscando re- conhecer o que resta daquilo que já se encontra mudado. Penetro em áreas mais guardadas e conhecidas, na esperança de recuperar algumas das sensações de nossos antigos encontros. Ainda temos muitos momentos de compreensão e até amor, sobretudo quando estamos a sós. Mas quando a animação é grande e tumulto promovido, temos dificuldade de nos relacionar. Quando tens que obedecer a programações oficiais, não há como me incluir e mesmo te conhecendo muito bem, sabemos que é possível surgir o conflito, mesmo que por coisas, aparentemente pequenas,
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    Série Otoni Mesquita 57 mas quepodem se tornar graves. Muitas vezes, pensei em romper, mas definiti- vamente não consegui te deixar. Por isso, tenho que reconhecer sempre e decla- rar o meu comprometimento neste relacionamento afetivo com você, cidade de Manaus.
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    Série Otoni Mesquita 58 POR QUEMDOURA A PRAIA? Publicado em 15 de junho de 2017. Inicialmente me perguntaram por que Dourada? Expliquei que quase dia- riamente, o lugar é iluminado pela luz do pôr-do-sol, com seus tons amarelos e dourados. Vimos o belo sol deitar-se sobre a mata, revelando inúmeras silhuetas que se divertiam sob sua luz. Depois, comigo mesmo, refiz a pergunta, parodiando antigo clássico do ci- nema e perguntei: Por quem doura a praia? Como resposta, eu mesmo recorro a outro clássico que diz: O sol é para todos. Ainda que eu não queira concordar com esta resposta, é preciso lembrar que realmente a luz do sol é regida por um prin- cípio natural, indiferente de quem o recebe. Independentemente de ser amado, ele se entrega completamente, ainda mais tarde, possa vir cobrar com juros e correção. Veremos, talvez. Quase diariamente, ele surge altivo, é visto e sentido pela maioria, mesmo por aqueles que se aproveitem dele apenas para exibir o brilho de suas moedas, seus barcos ostentosos, seus corpos dourados artificialmente, ou simplesmente usufruem de sua claridade para impressionar ou caçar um par, ainda que por tempo reduzido. Ele se apresenta, mesmo para aqueles, que não são capazes de ouvir e sentir a maior parte das coisas, pois se encontram adormecidos ou nocauteados por condicionamento massivo, perante os aparelhos de TV ou pela sonorização vulgar e ruidosa, muitas vezes, estimulados pelo excesso de álcool e outros estímulos consumistas.
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    Série Otoni Mesquita 59 Apesar dese entregar, o sol não é para todos. Ainda que muitos possam dele usufruir. Devo dizer que o sol é daqueles que o amam, daqueles que o sentem e o veem. Ele não se vende para aqueles poderosos, os privilegiados com seus gran- des ganhos financeiros, nem se submete ao poder das dinastias, ainda que muito remotas. Ele pertence aos que o amam, aos que a ele se entregam sem esperar nada em troca. É das crianças, sobretudo daquelas que temem o escuro da noite. Aquelas que brincam ao sol como se fizessem parte deles, fazendo de sua luz um alimento de alegria que as conduz pela vida. É do trabalhador, que mesmo não sendo o dono da terra, e muitas vezes, sofrendo sob o calor causticante, é ele que aduba a terra com o seu próprio suor, cuida, planta, rega e colhe, fazendo com que outros enriqueçam com as gotas do seu suor. Apesar do autoritarismo da engenharia, com seus cortes retos e profundos, mudando a paisagem com seus planos geométricos e contrastante com a na- tureza. Apesar das ações mercantilistas do comércio e da economia, ignorarem completamente as práticas e a naturalidade do lugar, não conseguem fazer dele, mais um de seus escravos. Tão compenetrados em seu pragmatismo ganancio- so, não são capazes de tirar deles a energia necessária e preferem erguem impé- rio de produtos nocivos coisas envenenadas.
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    Série Otoni Mesquita 60 ALFORRIA AFERRO E FOGO Publicado em 30 de junho de 2017. Ao iniciar esse texto, relutei em dizer a palavra ganhei, para expressar a ob- tenção da alforria como uma conquista, algo que não foi de graça. Na realidade, um longo trajeto de lutas e conquistas, nem sempre felizes ou suaves, mas o peso e o suor também produziram fibras e alentos agradáveis. Nestas travessias, tam- bém encontrei muitas pessoas que apoiaram meus passos, assim como muitas boas coisas aconteceram para me animar. Até os tropeços e as quedas, muitas vezes me ajudaram e de alguma forma moldaram quem sou. Muitas vezes, assu- mi compromissos a ferro e fogo, uma atitude que não admitia outra alternativa. Me abraçava fortemente aos compromissos assumidos. Por conta disso, muitas vezes me indispus com muitas pessoas. Certamente devo ter feito cobranças muito rígidas para quem tinha outros interesses ou maneiras de tratar o trabalho, de acordo com seus entendimentos de vida. Já não posso afirmar que estava correto, mas assumo estar satisfeito com as práticas e atitudes assumidas na vida. Uma ou outra, certamente reprovável, mas no geral, não há o que lamentar. Passou. Algumas ainda merecem críticas e maiores reflexões. Não havia receita, fui aprendendo a ser, sendo, sem uma orien- tação ou racionalização. Talvez tenha feito exigências em demasia, que em dife- rentes tempos pareciam essenciais.
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    Série Otoni Mesquita 61 Agora, mesinto alforriado, coisa que não era capaz de imaginar antes. Mes- mo que continue compromissado com muitas de minhas práticas e ideias, não me transformei em outra pessoa. O sofá ainda vai terá que me esperar mais al- gum tempo. Assim espero. Agora, disponho de uma certa liberdade e opções para comigo mesmo. Mesmo minha saúde ficava para depois. Agora sim, estou em primeiro plano de minhas ações. Ainda que não possa esquecer completa- mente os outros, ainda que sinta alguma pressão. Que a vontade de escrever seja maior do que a vontade de aquarelar. Como se por uma limitação própria, da minha forma troiana de levar a vida a ferro e fogo, não tivesse como conciliar as coisas, e somente agora, depois de cumprido as exigências, finalmente eu tivesse direito usufruir delas.
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    Série Otoni Mesquita 62 THÉMIS OUDICE? Publicado em 15 de julho de 2017. Filha de Urano e Gaia. Ela é Thémis, que migrou da mitologia grega e foi apropriada pelos romanos e rebatizada como Dice. Por seus efeitos e atributos lhe atribuíram o status de deusa, a Deusa da Justiça. Por aqui, não é a mais bela das musas, nem a mais clássica, apenas uma alegoria remota. Respaldada pela iconologia, sobretudo pelos elementos que carrega consigo, ou seja, a espada, venda e balança. Respeitada por sua posição privilegiada, não apenas pela alti- tude alcançada no patamar arquitetônico, mas pela relevância do significado da alegoria. A nossa, está lá, na parte mais alta do Palácio de Justiça, acima dos balaús- tres. Por mais de um século reina a tal deusa, sentada em um trono, ainda que com ar patético e cabelos de Górgona. Grande e pesada, permanece sentada decidida, no alto da construção. Na mão de direta, mais elevada segura o cabo de uma grande espada com a lâmina voltada para baixo. Sua mão esquerda pousa displicentemente sobre a coxa, segurando a balança que apoia no joelho esquer- do, comprometendo o equilíbrio do fiel. Como resultado de sua postura, os pra- tos ficam desequilibrados, ficando o prato da direita em uma altura mais elevada, enquanto o da esquerda, rés ao chão. Será acaso ou a ausência da venda e o desequilíbrio da balança sejam in- dicativos propositais, uma crítica evidente do artista, dizendo que a justiça não
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    Série Otoni Mesquita 63 é cegae tende para a direita. Será? Será o autor, o mesmo que realizou as seis Cariátides de sorriso enigmáticos, que parecem ironizar suas próprias presenças naquele lugar, com os seios expostos, instaladas nas bases dos arcos na entrada do salão do segundo piso da construção?
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    Série Otoni Mesquita 64 COLETÂNEAS Publicado em30 de julho de 2017. O leão está solto na rua Não, não se trata de uma velha canção de Roberto Carlos, como pode sugerir aos mais velhos, nem estamos falando de um único leão. Na verdade, são vários e estão distribuídos em algumas poucas ruas da cidade. Mas não se espantem, não estão livres, portanto, não oferecem perigos aos humanos. Como chegaram até nós estas figuras requer uma investigação profunda e uma história de longa duração. Por hora, apenas algumas informações mais gerais. Pode ser que um dia volte a eles com outro olhar. Senhores e guardiões cativos A simbologia do leão vem de uma longa tradição, legada pela antiguidade e ganhou novos significados com o Cristianismo. Na simbologia universal, sua fi- gura assume diferentes significados, sendo frequentemente interpretada como o guardião do mundo subterrâneo, e contraditoriamente, também é lido como a representação do sol e a realeza. Talvez, por esta última interpretação é que algumas se suas representações se encontram relacionadas com um globo. Ora sustentando a pequena esfera sobre uma das patas, ora apoiando uma das patas sobre ele.
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    Série Otoni Mesquita 65 Os leõesse apresentam de corpo inteiro, quase sempre com as patas dian- teiras elevadas e são mantidos sobre pedestais, em geral, ladeando os portões de entrada de construções residenciais. O mais frequente, no entanto, são as ca- beças, sempre no alto das construções, integradas a diferentes elementos deco- rativos. Podem ser localizadas em frisos e cachorros de fachadas ou até mesmo luminárias. Em geral, quando de corpo inteiro se apresentam em par sobre um pedestal, na entrada de edificação, mas podem ser vistos também isoladamente ou em trio. Quando em dupla, podem ser interpretados como um casal, sendo o macho localizado a direita, é a fêmea a esquerda. Reinado de Longa Duração Desde as antigas civilizações urbanas da Mesopotâmia, eles já estavam pre- sentes no repertório simbólico de suas das populações e muitas vezes, são inter- pretados como simbologia protetora de reinos e palácios, templos e outros recin- tos sagrados. Se materializavam em esculturas e relevos, se integrando a grandes construções, em cujas entradas eram colocados para afastar a visita de espíritos malignos. Um dos mais belos exemplos são os exemplares que decoram a belís- sima porta de Ishtar, da Babilônia, cuja fachada se encontra no Museu de Berlim. É sem dúvida, uma das obras mais elaboradas daquele período, que sobreviveu a ação do tempo e dos homens, relevos realizados em cerâmica vitrificadas (faian- ça) que ainda conservam grande parte de suas formas e coloridos, com muitos detalhes.
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    Série Otoni Mesquita 66 Leões daJoaquim Nabuco Eles não são muitos, em Manaus, mas com certeza é na avenida Joaquim Nabuco, que se concentra em maior número, no trecho entre a Sete de Setembro e a Leonardo Malcher. São quinze exemplares, ainda que um ou outro possam ter escapado a minha investigação e contagem. Deste número, somente cinco se apresentam de corpo inteiro, os demais, apresentam apenas cabeças. Estas, mesmo que com expressões mais elaboradas, se perdem entre outros ornamen- tos e as vezes passam despercebidas aos transeuntes menos atentos. Sustentadores do frontão Seguindo no sentido do fluxo do trânsito da Joaquim Nabuco, podemos ver o primeiro par de cabeças de leões, no quarteirão entre a Sete de Setembro e a Lauro Cavalcanti, ao lado direito, em uma construção que hora se encontra pin- tada em lilás. Estão inseridos no cachorro, elemento decorativo que sustenta a arquitrave que sustenta o frontão curvo e profusamente decorado. Os leões com as testas franzidas, parecem rugir furiosos, talvez pela tarefa de manter aberta a bocas, servindo de cabide para um arranjo constituído por um aro que prende entre as presas afiadas, do qual pende um archote decorado com flores. Contras- ta a fúria da fera à delicadeza das flores.
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    Série Otoni Mesquita 67 Policromado Guardiãoda Casa Bolo de Noiva No quarteirão entre a Lauro Cavalcanti e a Huascar de Figueiredo, logo de- pois do edifício do Nóvoa, na entrada da vila que fica à esquerda para quem se- gue o fluxo, poderá encontrar um leão solitário que guardar a casa do Bolo Con- feitado, aquela construção com uma fachada quase toda coberta com pequenas pedras, com muitas curvas e detalhes orgânicos, que parece ter saído de um con- to infantil. O seu guardião solitário, na verdade está na pilastra cor de rosa, do portão da casa vizinha. É policromado, ainda que seu revestimento pictórico se encontre em grande parte descascado, deixando ver parte do concreto que se esconde por baixo. Uma de suas patas segura um escudo ou estandarte. Talvez uma referência a Marcos, um dos Evangelistas. Brancos são os Leões do Barão No quarteirão entre a Huascar de Figueiredo e a Ipixuna, do lado direito, bem de frente para a 24 de maio, um par de leões, pintado em branco pode ser visto no alto de seus pedestais que sustentam o portão de entrada do Grupo Es- colar Barão do Rio Branco. Eretos e impassíveis, com suas bocas entreabertas e sem maiores expressões, encontram-se apoiados sobre suas patas dianteiras e guardam a entrada da construção, aparentemente indiferentes a todas as gera- ções que por ali viram passar.
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    Série Otoni Mesquita 68 As Oitocabeças da Beneficente Portuguesa O quarteirão entre a 24 de maio e a Dez de julho, a esquerda é totalmente ocupado pela Beneficente Portuguesa, com sua fachada imponente, mas é nas duas colunas que sustentam as luminárias na entrada da edificação que pode- mos localizar oito cabeças de leões. Cada uma das colunas se encontra em uma das laterais da escadaria principal e cada uma delas ostenta quatro cabeças de leões, douradas. Cada uma das cabeças se encontra com a boca entreaberta, de onde pende uma argola e deixa ver suas presas afiadas. Leões da Vila Nair No quarteirão entre a rua Ramos Ferreira e a rua Leonardo Malcher, ao lado esquerdo, destaca-se um par de leões, de corpo inteiro, pintados em dourado fosforescente. Cada um dos animais, sustenta um globo sobre uma das patas, posados sobre os pedestais nas laterais do portão de entrada da Villa Nair, um dos imóveis que integra o conjunto de edificações, que se encontra pintado em branco, atualmente ocupado pela Samel. Ruge, a Carranca da Barca A maior parte dos leões de Manaus se concentra na Joaquim Nabuco, mas é possível localizar alguns outros exemplares espalhados pelo Centro Histórico da Cidade. Começamos com um dos mais significativos, que muitas vezes segue com os registros fotográficos e com as lembranças da cidade, mesmo que mui- ta gente não se dê conta de sua presença. Está lá na praça de São Sebastião, no centro dela, exatamente no monumento da Abertura dos Portos, é a carranca de uma das quatro barcas, que se encontram na base do monumento. Cada uma
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    Série Otoni Mesquita 69 delas trazconsigo, características do continente que representa. Por alguma ra- zão, o italiano Quatrini deixou de fora a Oceania. Nosso leão vem na proa, como uma carranca da barca que representa a Ásia. Ainda que somente uma cabeça, é como uma Vitória grega, rugindo e avan- çando sobre os sete mares. Suspeito que esteja voltada para o Norte, na direção da igreja de São Sebastião, mas parece ignorar completamente o teatro Amazo- nas, que fica ao seu lado esquerdo e já estava lá, quando ele foi trazido da Itália e instalado na praça, em 1901. No mesmo ano, em que toda extensão da praça foi revestida com pedras portuguesas. Um desenho de ondulações sequenciadas, em preto e branco, que surpreende turistas, ao saber que já estavam aqui, vinte anos do calçamento de Copacabana. Nada disso é capaz de lhe roubam a atenção. Impassível, a bela cabeça, se destaca com seus traços bem marcados por um desenho bastante esquemati- zado, que define suas expressões a partir do uso de incisões de linhas profundas que acentuam a expressão marcante de ferocidade. A boca aberta, deixa ver qua- tro presas afiadas e parece rugir ameaçadoramente, para aqueles que dela se aproximam. Contudo, mostrando que não é apenas uma fera maniqueísta, o leão carrega um gracioso putti, sobre a cabeça. O menino, despido, parece se divertir com um grande manto que tremular ao vento, graças a habilidade de um finado escultor. A pequena criança se vira para a direita e com as duas mãos, parece proteger do vento, um vaso, talvez contendo fogo ou serpentes. Será ele o Prometeu, carrega- do com os conhecimentos que herdamos do Oriente?
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    Série Otoni Mesquita 70 Abaixo dagrande juba do leão, na altura de seu peito, avança a quilha que de- cora a proa da bela embarcação, sobre ela, desce algumas com inscrições cunei- formes. Breves referências de eras ancestrais de um Oriente Próximo, e mesmo sem bilhetes ou passaporte nos remete a uma viagem para antigas civilizações da Mesopotâmia. Leões da Sete São nove cabeças de leão, todas elas colocadas bem no alto, oito delas ca- chorros do Palace Hotel e uma outra, solitária e tristonha no frontão da Casa Lis- trada, que fica ao lado do Paço, antiga sede da Prefeitura Municipal, que desde a década de 1880, passou a funcionar como o Palácio dos Presidentes das Provín- cias, se mantendo como sede do governo do Estado até 1917, quando o governa- dor Pedro Barcelar adquiriu o palacete Shoz para abrigar a sede do governo do estado. As cabeças do Palace Hotel, se encontram incrustadas em nos cachorros do terceiro piso, quatro voltadas para a rua Sete de Setembro e quatro, voltadas para a rua da Instalação. Todas, muito semelhantes aquelas duas que se encontram próximas ao Canto do Quintela, provavelmente procedentes da mesma matriz. Datam provavelmente da primeira década do século XX, quando foi instalada a platibanda da edificação, que já apareceu na iconografia local, desde o final da década de 1880, juntamente com a 22 Paulista, que também não apresentava platibanda. O acréscimo deve ter ocorrido pelas exigências do Código de Postu- ras da República, que passava a fazer várias exigências na formatação dos imó- veis, incluindo altura e o uso de porão alto, bandeiras nas portas e platibandas nas construções.
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    Série Otoni Mesquita 71 Dupla daSaldanha Tenho a vaga impressão que na sede do nacional, ali na rua Saldanha Mari- nho, acho que o lugar atualmente ocupado pelo SENAC, ou seria mais embaixo? Havia leões na entrada da sede do glorioso Nacional futebol Clube. Será fanta- sia, ou eles ficavam mesmo na lateral da entrada. Já não tenho certeza do final dos sessenta. Hoje, os únicos exemplares do felino estão no número 633, quase em frente ao Senac, atualmente funciona o Conselho Regional de Química, e no portão de entrada, uma dupla de leões, de corpo inteiro, se ergue sobre as patas dianteiras e cada um deles, apoia uma das patas sobre um globo. A base que os sustenta é um pouco maior que o suporte oferecido pelas pilastras que susten- tam o portão, sugerindo que foram trazidos de outra construção. São revestidos com uma película de porcelana, num amarelo, quase ocre, ainda que apresen- tem algumas falhas em seu revestimento, parecem bem conservados. Há algum tempo já tiveram as jubas tingidas em tom terra. Recentemente, sofreram uma intervenção restauradora, que lhes devolveu parte das características originais, ao retirarem a pintura indevida de suas jubas e a restauração de uma das patas do leão que se encontra na direita. Leões Tristonhos entre um Marechal e um Marques Quatro belas cabeças de leões tristonhos, talvez pela sugestão das sobran- celhas esquematizadas na diagonal, se misturam aos arranjos florais e decoram a fachada do edifício verde água, que se encontra bastante desbotado, talvez fora de uso, na esquina da rua Marechal Deodoro com a rua Marques de Santa Cruz.
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    Série Otoni Mesquita 72 São trêscabeças na Marechal, duas sobre as janelas do segundo pavimento e uma outra, entre as duas janelas do terceiro pavimento. Os leões olham triste- mente para o grande edifício moderno erguido bem em frente, ainda nos anos setenta. Talvez sejam um olhar de reprovação sobre a grande construção que por algumas décadas abrigou a sede da Receita Federal e lhes tirou a vista da praça. O arranha céu todo envidraçado e de construção tão mais recente já se encontra interditado, há alguns anos, por não oferecer condições de segurança para aten- der a função ao qual se destinava. Para o lado da Marques de Santa Cruz, somente mais uma cabeça, triste e solitária, ainda assim, olha a paisagem e vem acompanhando as mudanças pro- cessadas na beira do rio Negro, quase em frente a construção de origem inglesa, que por décadas abrigou a Alfandega, mas que se encontra fechada há algum tempo. Quatro cabeças banguelas, pendem na Casa Amarela Na casa da esquina da Ramos Ferreira com a Ferreira Pena. São quatro pe- quenas cabeças de leões, duas voltadas para cada uma das ruas. São pequenas cabeças com jubas amarelas, presas ao archote que escorre do cachorro, que fica na fachada do terceiro piso da Casa Amarela. Na minha infância, o prédio abrigava a Casa da Criança, creio que era um or- fanato, e em 1979, abrigava a Secretaria Municipal de Educação. Posteriormente abrigou também a Secretária municipal de Cultura, creio que sob a direção de Aldísio Filgueiras. Posteriormente foi recuperado e se mantém conservado, ain-
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    Série Otoni Mesquita 73 da quepermaneça fechado e sem uso há alguns anos. As cabeças estão lá em cima, quase perdidas olhando para baixo com expressão nada ameaçadora, pois se trata de uma espécie totalmente adestrada pelos homens, se trata de leões banguelas. Trio Amarelo é a sensação do Beco da Indústria O Beco da Indústria, no bairro da Aparecida é estreito e torto, quase todo composto por sequências de casinhas baixas, entre elas algumas ainda guardam sua forma original: uma porta central e uma janela de cada lado. Mas o grande destaque fica mesmo no número 127, onde se exibem os três leões amarelados, quase dourados, de corpo inteiro sobre o pedestal no alto das pilastras do portão de um sobrado. Cada um dos dois que ladeiam o portão, apoiam uma das patas sobre um globo, o terceiro, na extrema direita é semelhante aos leões do Barão do Rio Branco, com as duas patas dianteiras apoiadas no chão. Quatro leões alados e nômades. Transitam pela cidade desde o início do sé- culo XX. Estiveram em frente ao Bar dos Terríveis, na boca da rua Barão de Mauá, depois foram deslocados para a praça Santos Dumont, em frente ao Armazém 10, do porto de Manaus. Nos anos sessenta, se tornaram a maior atração da fonte luminosa, da praça da Bola, no encontro da João Coelho com o Boulevard Ama- zonas. Era perto de minha casa e foi onde eu estraguei a minha primeira sandália japonesa, como chamávamos a tal havaiana. Por lá, a fonte permaneceu, com a musa, mas sem os leões, até o final dos anos noventa, enquanto eles, estavam guardados no Horto Municipal. De onde saíram já neste século, e foram instala- dos na Bola do Eldorado. Por fim foi transferido para o Parque Jéferson Perez, na primeira década do XXI, onde permanecem, por enquanto, tendo a sua frente, o
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    Série Otoni Mesquita 74 mesmo bebedourode ferro que ficava em frente à capela do Cemitério São João Batista. Nesta caçada consegui localizar vinte e nove leões espalhados pelo Centro Antigo da Cidade, mas acredito que haja muitos outros guardados, alguns escon- didos, outros esquecidos e muitos ignorados. Mas não vale incluir bibelô gigante que são vendidos pela Dinâmica.
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    Série Otoni Mesquita 75 O DESAPARECIMENTODA LEITEIRA DOS ANDRADAS Publicado em 15 de agosto de 2017. Levaram a leiteira dos Andradas. Não estou falando de um artefato utilitário, que serve para armazenar leite, mas daquela profissional, que outrora saia pela rua, vendendo leite de porta em porta. Mas é quase certo que elas não circularam por Manaus. Mas havia um exemplar delas na rua dos Andradas e desapareceu há pouco tempo. Certamente não era uma peça rara. Pode ser que fosse apenas uma referên- cia a vida campestre que pretendia remeter a uma tradição familiar de seus pro- prietários. Não devia alcançar um metro de altura, mas sua delicadeza atribuía um diferencial a residência. Confeccionada em louça ou faiança, permaneceu ali por várias gerações, mas não era uma cabocla nativa, provavelmente tenha sido trazida de Portugal ou algum outro país europeu. Permanecia em seu pedestal, em uma das pilastras de sustentação do portão do imóvel de número 440, da rua Miranda Leão 440. Portava um avental sobre a saia e carregava um balde, em sua mão direita, talvez não encontrasse maiores prazeres naquela função. Não creio que tenha sido um sequestro relâmpago, tão comuns em nossa era, nem que tenham pedido qualquer resgate ou que tenha ganhado algum espaço na página policial, ultimamente tão encardida de vermelho. Sem uma investigação mais profunda, sou levado a acusar o nosso tempo como o princi- pal suspeito. Ele mesmo, um sujeito invisível, mas apoiado por muitos cumplices, que invadem tudo, arrasam, mas também constroem e trazem inovações. Ainda
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    Série Otoni Mesquita 76 que redundante,insisto em acusá-lo a cada momento, como o culpado pela ex- clusão de práticas e pensamentos que já não servem aos novos interesses. Tenho certeza de que o desaparecimento da leiteira se deve única e exclusivamente a ele, completamente embriagado pelas aparentes vantagens de um discurso tão sedutor quanto falacioso de uma tal de modernidade. Ela, sempre carregada de propostas comodistas e consumista, num processo de substituição que degrada a paisagem natural e os próprios valores humanos. Não tenho qualquer referência históricas sobre a existência de leiteiras, entre as trabalhadoras, nas ruas de Manaus. Na década de 1860, a cronista, norte ame- ricana Elizabeth Agassiz, chama atenção para os aguadeiros de Manaus. Ven- dedores de ambulantes que carregavam água em potes avermelhados. Águas que coletavam dos límpidos igarapés que recortavam a cidade para vender a população. No entanto, a autora não faz menção a atuação de mulheres, nesta função. Contudo, posso falar alguma coisa de outros vendedores que circulavam na cidade da minha infância. Cem anos depois das observações de Elizabeth, Ma- naus havia se transformado completamente, mas voltava a ser vista como uma pequena cidade insignificante, perante as mudanças que haviam se processado no mundo. Para uma criança, naquela época, a cidade era muito grande, ainda que pudéssemos caminhar por quase toda ela, sem correr grandes riscos. Costumo dizer que Flores e Chapada eram nossas periferias, pois eram pouco habitadas. O traçado urbano avançou muito pouco além dos traços do mapa de 1893, por isso era uma cidade razoavelmente harmônica, ainda que muito conservadora e
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    Série Otoni Mesquita 77 provinciana. Grandeparte de suas ruas centrais calçadas com paralelepípedos, enquanto outras eram forradas com a pedra jacaré, aquele granito rosa, que se encontra na beira do rio Negro, que alguns chamam de granito Manaus. Por estas ruas circulavam muitos vendedores ambulantes, lembro ainda da persistência dos peixeiros, bucheiros, vendedor de frutas, cascalheiros com seus triângulos, que de longe atraiam as crianças. Incluíam-se entre estes profissio- nais ambulantes, os leiteiros, que eram muito comuns, assim como os carroceiros com suas carroças de madeira, transportando mudanças e carregando materiais de construção, além de uma diversidade de vendedores de produtos naturais, incluindo aquelas guloseimas açucaradas, como a broa e o rala-rala. Pequenas embarcações, carregadas com baldes de leite chegavam no Ro- adway, de onde era distribuído o produto, que vinha principalmente do Careiro. De vez em quando havia reclamações de consumidores sobre o leite adulterado com as águas do rio Negro. Naquela área, que ia do Roadway, se estendendo pela praia do mercado e que ia até a escadaria dos Remédios, também circulavam muitos catraieiros, com seus remos duplos e protegidos por uma cobertura de lona, se deslocavam pelo rio vendendo pão doce com garapa, para os usuários das embarcações que fa- ziam linha pro interior e tinham uma clientela grande entre os trabalhadores da área. Se era bonito ou tradicional já não importa mais. Foram apagados, um a um. Aos poucos, foram desaparecendo, num processo quase imperceptível para a maior parte da população, tão preocupada em se inserir nas novas exigências
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    Série Otoni Mesquita 78 que oritmo da cidade estabelecia. Talvez ainda haja alguns que preservem par- cialmente alguns hábitos daquela época. Mas muito em breve estarão todos ex- terminados, assim como os homens da caverna o foram. Nos anos setenta, o mercado grande perdia espaço e movimento para os supermercados que pipocavam pela cidade, com suas prateleiras sortidas de no- vidades, sobretudo as do Mercado Boths Line, com sua variação de produtos im- portados. Neste processo, o leite in natural também perdia sua importância para inúmeras marcas de enlatados estrangeiros. Marcas como a Sandem e o Campo Verde, ganhavam maior espaço no gosto e no novo ritmo que a população co- meçava a adotar. Além disso, os novos produtos contavam com fortes aliados, ou seja, a aparente segurança do produto, as facilitações na conservação e preparo além do preço, razoavelmente acessível. Contava ainda, com uma publicidade intensa na recém instalada TV Ajuricaba, cuja novidade já se constitui por si só uma mídia sedutora, mesmo que veiculasse anúncios pouco sofisticados e mui- tas vezes, ao vivo. Apesar de todas as mudanças processadas nos costumes e na paisagem da cidade, ela se mantinha lá naquela área bem tradicional, quase despercebida, sobre o seu pedestal. Ela ficava em frente ao portão de fundos do Palacete Nery. Nesta posição pode testemunhar muitas mudanças processadas, não somente no imóvel, que preciso assumir variadas funções para sobreviver, até sua recupe- ração e reforma recente. Ela ainda estava lá quando a obra foi concluída, mas não esboçou qualquer reação ou crítica.
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    Série Otoni Mesquita 79 Naquela área,era possível ver um pouco das mudanças que se processavam na cidade, assim foi possível perceber, épocas com alguma animação comercial e o crescimento da especulação imobiliária. A cidade passava por diferentes surtos ditos de progresso, acelerando um crescimento desordenado que só aumentava a sensação de insegurança, em seus moradores. Há três décadas, muitos deles, começaram a se retirar, preferindo se recolher em condomínios fechados, em geral, em áreas mais afastadas. Em virtude desta debandada em busca de segurança e espaços mais so- fisticados, o centro histórico ficou parcialmente esvaziado de suas famílias mais tradicionais, e por outras diferentes razões, muitas residências ficaram abando- nadas. Foi um lento processo de desqualificação da área central, que passou a ser ocupada por novas populações, com seus pequenos comércios, hotéis rotativos, bares improvisados e espeluncas que se multiplicam com seus puxadinhos. Sem qualquer cerimônia descaracterizam e degradam construções históricas, ainda que na área persista alguma animação comercial. Cadê nossa leiteira? Nessa confusão, você está se perguntando. Pois é, ela sumiu, mas não foi um processo abrupto como possa parecer. Primeiramente, atendo aos temores da época, ela, juntamente com a residência, ficou enjaulada, para impedir que gatunos e outros marginais perturbassem a paz de seus mora- dores. Enjaulada, como se estivesse num zoológico, era vista por trás de grades e grandes espinhos pontiagudos, ainda que pouco cuidassem dela. Estava coberta com musgo verde, que começava a se constituir um manto natural. Nesta situa- ção de semiabandono, ela permaneceu por muitos anos. Triste, mas impassível como se espera de qualquer ser inanimado.
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    Série Otoni Mesquita 80 Um diaqualquer, talvez tenham saído todos, tenham ido embora, pode ser que tenham se mudado, com toda mobília, ou morrido sem deixar herdeiros. Mas ela, ficou lá, esquecida sobre o pedestal, mas não por muito tempo. Pois em uma cidade onde há muitos pobres e miseráveis, onde tudo se vende e se compra, não demorou muito, ela também desapareceu. Como se suas pernas pudessem lhe conduzir para outro lugar. Não me informei sobre os autores do rapto ou da condução coercitiva. Quem a levou? Não sei, mas não se encontra lá. No lugar, a pilastra vazia continua pro- tegida por suas grandes, mas ela pode estar em algum jardim ou na sala de estar de um destes apartamentos modernosos que se espalham em diferentes áreas da cidade.
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    Série Otoni Mesquita 81 O HOMEMPRESO NO TEMPO Publicado em 31 de agosto de 2017. Não é um tempo passado, como pode sugerir o título. Ele tenta está em to- dos os tempos. Corre enlouquecido, de uma década para outra, volta no século e corre pelas redes virtuais. Guiado por textos, imagens, folhetos e outros materiais carregados de informações. São como lembretes para os compromissos que o retém. Textos que jamais foram totalmente decifrados, outras palavras para rever e compreender. Contudo, não dispensa coleções de muitas coisas que preten- de levar pela vida. Imagens para revisitar ou simplesmente para escapar. Muitos lembretes para serem acordados e esquecidos. Talvez o homem não esteja preso no tempo, mas perdido entre tantas informações que são modificadas, substitu- ídas ou que perderam as referências. Cartas tão amistosas e íntimas, mas que já não se sabe de que mãos vie- ram. Segue o homem, carregado com suas coleções para lembrar. Cai num mun- do extremamente cheio de dados. Mais imagens, muito mais informações e um tempo menor para digerir e assimilar. Tantos acontecimentos surpreendentes que já não surpreendem por serem comuns e tão menores que os impactos de amanhã. O homem se debate num tempo em que tudo se mistura, sem querer des- vencilhar-se de seus diferentes tempos. Não é um homem de um só tempo. Mes- mo porque jamais conseguiu se enquadrar em qualquer um deles. O homem se
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    Série Otoni Mesquita 82 busca notempo, tentando encontrar referências que o retenha. Perdido entre muitos tempos. Não há como escolher um só tempo. Na verdade, todos eles já passaram e agora se reformula. Como num rito de passagem. Tenta recolher ve- lhos e novos materiais para descartar. É como esvaziar o balão para fazê-lo subir. Voa homem!
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    Série Otoni Mesquita 83 LIBERDADE, AINDAQUE TARDA. SERÁ? Publicado em 15 de setembro de 2017. Por anos fiquei retido, contido num espaço restrito. Parado na beira do ca- minho como dizia a canção que me seguiu pela adolescência. Me segurava nela como na construção de uma muralha invisível, sem janelas aparentes. Persegui- do pela vontade constante de fugir, seguir, escapar e para um lugar que não sabia, nem sei onde fica. Mas um outro lado, que também é meu, me conteve, fiquei, acostumei-me, condicionei, ainda que muitas vezes ensaiasse alguma re- ação e tentasse escapadas. Contestava e clamava por uma liberdade que não sabia onde estava. Não havia fórmulas, nem receitas. Parecia mais uma ideia do que alguma coisa real. Uma utopia talvez. Tempo passado, sentimentos amassa- dos e amansados. Suavemente com o tempo é possível ver a muralha se desfa- zendo lentamente. Novos caminhos se apresentam e acenam chamando para outras animações. Já não sei se me interessam os convites e muitos encontros. Levou muito tempo. Talvez por uma incoerência humana mesmo, já não sei se quero ir. Terei me acostumado com a prisão? Com os espaços restritos e o cons- tante exercício de descobrir o mundo nas pequenas coisas. Terei me acomodado. Me entreguei. Verei somente as sombras da caverna de Platão. Será mesmo rea- lidade ou verdade o que vejo o que sinto. Observo, talvez mais atento, mas agora tenho muitos limites que independem de minha vontade. Há décadas preguei que a liberdade dependia de certas vontades ou necessidades do corpo. Talvez ainda acredite nisso, em parte. Antes era demasiada a vontade e animação de seguir e mudar. Agora é como se me tornasse impassível aos encantos ilusórios
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    Série Otoni Mesquita 84 do mundo.Não que seja tarde, mas já não me interessa tantos outros lugares. É como se todos fossem o mesmo lugar. Ainda que constantemente me veja dife- rentemente na mesma rotina. Fico feliz com pequenas coisas na própria rotina. Lembro que o mar, com todas as suas possibilidades é para quem quer nele na- vegar. Segui pelo seco e não tenho grandes certezas daquilo que penso ter des- coberto. Se real ou banal. Terei realmente conseguido minha liberdade? Ou ainda sou um escravo da minha vontade espartana que tudo entende como se fosse tudo feito a ferro e fogo.
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    Série Otoni Mesquita 85 SERÁ MESMOO TEMPO? Publicado em 29 de setembro de 2017. É verdade, o tempo pode ser visto como o nosso maior vândalo, visigodo e ostrogodo. É sempre constante e vem sempre como uma maré bárbara. Arrasa tudo que encontra. Gasta e desgasta. Ainda assim, é um artista muito sensível e decidido. Mas, é ele também que traz as inovações, as soluções para muitos pro- blemas, inclusive o esquecimento. Cria camadas e passagens, num ritmo que é somente seu e que só pode ser observada por alguns, não que seja totalmente abstrato, mas se apresenta com outro tipo de sensibilidades que não é óbvia, nem vulgar. Arrasa não somente as coisas materiais, mas também apaga as ideias de cada tempo. Enterra tudo sob outras histórias. Apaga o que está posto e aprova- do. Mas não se trata de ação de combustão. Nada instantâneo. Age no seu tem- po. E como toda onda é também e passará, será apagada e esquecida. Este vândalo que invade todos os tempos e espaços, tem muitos cumplices, que também invadem e ocupam todos os espaços. Não há como escapar dele. Segue com os homens, talvez seja o mais doloroso deles, ou seja, a guerra impie- dosa e devastadora. Não discrimina ninguém, arrasa. Outro cumplice cruel que o vandalismo do tempo, que tudo acelera e en- gana são os sistemas econômicos comprometidos prioritariamente com o lucro. São devastadores, como o capital, com sua ganância insaciável pelo lucro.
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    Série Otoni Mesquita 86 Eu, pretendiadestacar o aspecto artístico da parede, com sua prospecção revelada pelo tempo. Não era apenas uma parede desgasta, mas uma forte refe- rência a obra do espanhol Antoni Tapies. Tive que engolir minha observação e in- terpretação das camadas superposta. Das cores suaves e das texturas evidentes. Além disso, lembrava do aspecto de processo: construção e desconstrução. Nada figurativo ou obvio como ícone vulgar. Pensava ver algo artístico, nessas paredes descascas pelo tempo. Ainda que o artista seja mesmo ele, um vândalo e cruel com a juventude e a beleza. De qualquer forma, recomendo que olhem com atenção a obra deste vân- dalo e artista. Ele não assina com caligrafias aprendidas, nem com nomes vul- gares. Ele não se preocupa com o reconhecimento da massa. Certo que para a maioria as suas ações passam despercebidos. Oh! Tempo cruel, quanto grande artista. Me poupou de morrer moço, mas não me deu maturidade para não reagir as crianças.
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    Série Otoni Mesquita 87 MINHA CIDADESOTERRADA Publicado em 16 de novembro de 2017. Há muito minha cidade já não é a mesma. Foi invadida e degradada. Cheia de criaturas e vazia de espírito. Patinam sobre a terra molhada e fazem de tudo uma lama. No final do dia embalam e amarram suas bancas. Abandonam os escritórios, as lojas e os subempregos – Vão em manadas. Se retiram para as muitas perife- rias. A cidade vazia. Muitas cidades se foram. De algumas ficaram fachadas, de outras nem isso. De algumas a imaginação, de outras a tristeza. Muitas cidades se aglutinaram a minha. Os limites já não são tão claros. Em tudo se misturam, tempos, estilos, pobres, ricos, belos e horrorosos. Cidade calada e aos gritos. Cida- de do riso e da tristeza. Apartamentos de luxo e dos casebres de sobrevivência. Dos perfumes e fe- dores, das cores e da sujeira. Do trabalho e do desemprego. Da saúde e das dores. Cidade dos santos e dos mundanos. Das lembranças e do futuro. Dos jardins e do concreto. Dos amores e da solidão. Dos prazeres e do rancor. Das comunicações e dos isolados. Da memória e do consumo. Da noite e do dia.
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    Série Otoni Mesquita 88 RENATINHA, DEUO QUE FALAR Publicado 11 de dezembro de 2017. Ontem, tarde de domingo, voltava para casa sob um chuvisco dezembrino, vinha pelo caminho usual quando notei uma pichação vermelha sobre a parede azul da casa do J.G Araújo. No quarteirão anterior havia registrado a bela cena do tapete magenta estendido pelo jambeiro. Um pouco indignado com os diferen- tes usos do vermelho, quase a contragosto resolvi registrar e postar no Face bock a tal imagem. Rapidamente escrevi uma tirada qualquer. Três minutos depois retornei ao post para excluir e fazer uma outra legenda, mas qual foi minha sur- presa; três ou quatro pessoas já haviam se manifestado indignadas com o fato. Então deixei rolar. Não queria provocar uma polêmica, nem esperava que gerasse tanto. Depois de muitos comentários decidi me deter um pouco mais sobre a tal assinatura. Creio que nem se trata de um picho, pois é apenas uma assinatura precedida por uma estrela de David, sem qualquer elaboração. Especialmente depois de alguns comentários que criticavam as críticas ao gesto. Tive intenção de fazer um texto irônico e elogiar o gesto da Renatinha, ou de seu namorado ou namorada. Pensei que gostariam que elogiasse a sua rara expressividade e ressaltasse a sua coragem rara ao se manifestar de maneira in- contestável, sobretudo se se tratasse mesmo de uma garota, querendo de colo- car, disputando com os garotos, que em geral são apontados como pichadores ou simplesmente emporcar. Mesmo que não se tratasse de um protesto, poderia ressaltaria a força da juventude, a originalidade do gesto e a espontaneidade da manifestação. Poderia buscar uma reverência na arte polvera e aplaudir a sua
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    Série Otoni Mesquita 89 rusticidade. Poderiafalsear e apontar o discernimento da criatura ao se localizar no mundo, demarcando o seu pedaço e contestado com os poderes instituído. Ai que lindo! (Lembrando que ainda estou sendo irônico). Ao abordar o caráter artístico desta obra, apontaria como algo muito raro, original e extremamente corajosa. OH! Convidaria aos jovens reproduzi-las por todos os cantos da cida- de, sobretudo em suas próprias salas. Poderia complementar com as expressões: Que original! Que belo! Estão refletindo e protestando, poderia complementar. Não, não há como abdicar da minha franqueza de esteta e usuário da ci- dade, que é muito mais forte que qualquer convicção teórica que eu possa ter abraçado. A cidade para mim e muitos outros é mais que um cenário teórico, é espaço vivido e cheio de histórias, é parte de nossas vivências e afetividades. São espaços e caminhos por onde transitamos e mantemos parte da identidade e da memória. Sem dúvida, somos capazes de ver o lixo espalhado nas ruas e mercados, a degradação evidente de muitas edificações, quase esquecidas por uma sociedade que corre em busca do lucro incessante, transformando tudo em material descartável. Contudo, Renatinha, a sua assinatura ou clamor de sua pessoa amada, su- gere que o autor não entendeu ou percebeu que a cidade é nossa, mas temos li- mites. Onde você está nesse momento? Resguardada no seu quarto cor de rosa? Aquela parede azul fazia alguma diferença para sua ação? Ou o muro do estádio daria no mesmo? Talvez sim, mas pode ter sido um ímpeto ou quem sabe ape- nas uma aposta entre colegas adolescente. Vai lá saber o que se passou em sua cabeça. Será que tinhas alguma razão precisa?
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    Série Otoni Mesquita 90 Como vejacom certa frequência algumas garotas fardadas e arrumadinhas, dividindo o cigarro, naquele pedaço, fui levado a deduzir que seria uma delas. Vai lá saber. Me lembrou uma história antiga, que envolvia a vizinha adolescente, sufocada pela avó autoritária. A garota rasgava todos os avisos fixados no mural hall do edifício como um protesto contra a autoridade doméstica. Podemos de- duzir muitas Renatinhas e variadas razões. Se ela o fez e não explicou, podemos atribuir a ela muitas outras coisas he he he. A primeira dela é o desconhecimento do bem privado, mas cuja face se encontra no espaço público. Não se trata de um Pasquim: Jornalzinhos, de formato nanicos e muitas vezes manuscritos que tive- ram uma longa tradição nas cortes opressivas. Em geral denunciavam e protes- tavam. Não é o caso. Talvez esteja ensaiando a assinatura. Quem sabe? Talvez um protesto pelo aspecto conservador do prédio. Será? Não são tantos assim. Basta se afastar um pouco do centro e terá uma diversidade maior de improvisação e muitas coisas feias. Mesmo sobre estas construções modernosas encontrará muitas pichações que as tornam mais feias ainda. Tudo bem que não querem o belo e isto seria uma maneira de desfazer uma estética dominante. Então me sin- to no dever de perguntar; por que não começam a materializar esta proposta em suas próprias casas? Depois nos apresentem. Vá lá, deve estar cada coisa em seu lugar. Que outra razão plausível terias? Já sei provar o seu amor, considerando o risco de ser flagrado e talvez advertido ou advertida, sabe-se lá. O mais provável é que não tenhas nenhuma razão plausível. Quem sabe uma vontade de acontecer para o seu grupo, pode ser. Para falar a verdade, Renatinha, já não me importo com o porquê, mas muito me incomoda o como. O seu gesto ficou marcado em nossos caminhos e muitos de nós não gosto dessa sua expressão. Por um lado, remete mesmo a uma cidade abandonada, vandalizada e em parte por uma ten- dência a libertinagem. Onde tudo pode.
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    Série Otoni Mesquita 91 Pessoas opinaram,xingaram e te defenderam, quase te transformaste numa Joana D’Arc, mesmo que sem visões e sem uma bandeira lambuzada de verme- lho, sem uma causa aparente, ganhastes seguidores, defensores e muita desa- provação. Desaprovada fostes por uma grande fatia, diria que a maioria. As pesso- as mais comprometidas com a cidade de Manaus, de outros tempos talvez, mas que carregam consigo a noção de pertencimento. Coisa que para ti, talvez ainda não tenha batido, nem faça qualquer sentido. Provavelmente nem sabes que rua é essa, que prédio é esse. O que é que estou fazendo aqui. Poderás perguntar. Apenas registrei a imagem e postei, mas pensei que a florada do jambeiro seria algo muito mais inspirador e belo, e realmente é, mas infelizmente Rena- tinha, o seu gesto feriu o amor de muitas pessoas pela cidade. Apesar de tudo, achei positiva a reação de muitas delas. Se expressaram espontaneamente, com suas emoções de ofendidos. Algumas se sentiram impelidas a xingar e o fizeram de forma contundente. Interpretei isso como uma reação natural, uma expressão do quanto elas se sentiram agredidas pelo teu impensado gesto. Os teus defen- sores podem até taxá-los de caretas, conservadores e autoritários. Não importa. Do meu ponto de vista eles tem tanto direito quanto você. Escrevestes, agora leias. É bom lembrar que o teu gesto Renatinha é que foi imposto, uma manifes- tação de caráter egocêntrico e autoritário, típico daqueles que priorizam a ex- pressão pessoal em detrimento da vontade daqueles que usam os espaços da cidade e tentam manter nela alguns aspectos harmônicos e humanos, que pos- sa nos acolher. Poderemos sempre contestar, protestando contra obras públicas
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    Série Otoni Mesquita 92 e monumentosque não nos atende. São muitos e grandes os gastos. Mas não se trata disso. Não atendem nossas necessidades, nem desejos. Certamente nos encontramos num estado de insegurança, quase geral e caiba resgatar a noção de uma cidade para todos, com o senso democrático. Nessas horas a discussão de gabinete não faz muito sentido, sobretudo quando os teóricos citados jamais experimentaram nossa realidade. Somos cidadãos e usuários da cidade e quere- mos ter direitos sobre ela, mas que seja democrática. Se for para cada um fazer o que der na veneta é melhor aprovar o senado, que já faz isso, sem nos ouvir.
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    Série Otoni Mesquita 93 CONSELHO PARAA CIDADE Publicado em 09 de janeiro de 2018. Sonho de um Conselho para a Cidade deve ser representativo dos diferentes segmentos da sociedade. Devemos pensar nas melhorias para a cidade – Aten- der aos desejos e necessidades sem apagar a memória a toda herança huma- nista. Atender as necessidades da nova era sem deixar que a globalização retire nosso gosto e sotaque. Que a cidade volte a respirar a partir da limpeza visual e das fachadas, dos melhoramentos de seus espaços públicos. Da arborização e que amenize o calor que anos e em muitos meses do ano. No (fazer artístico) estímulo à criação e a produção nos mais variados, assim na Música, nas artes cênicas, plásticas, na música e em outras manifestações po- pulares. Não desprezando o folclore e os saberes populares, reconhece que tudo se transforma, mas atento à originalidade, a essência. Que o desejo da comercia- lização não se sobreponha ao da qualidade. Que o exibir não seja o único objetivo, mas que valorize o processo e todos o conhecimento que guarda cada processo. Assim como a sociedade que se abre para as mais diferentes manifestações e tendências. É necessário prever a existência de uma cidade com múltiplos es- paços, que não seja necessário uns se sobreporem aos outros, fazendo desapare- cer espaços tradicionais, de respiração e beleza. Recuperação e criação de novas praças na cidade. Grandes parques que se pense numa cidade feita não somente para os automóveis, mas, sobretudo para aqueles que preservem o hábito de
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    Série Otoni Mesquita 94 caminhar. Queos trajetos não sejam tão áridos. Que possam seguir sob a boa sombra dos vegetais. Uma cidade bela é uma cidade amada. Amar uma cidade não é apenas fazer declarações de amor, mas preserva-lhe a face, não provocando feridas e cicatri- zes. É manter noções de cidadania. Pensar no espaço como coletivo e para todos. Deve ter qualidade e ser man- tido. A cidade deve ser usufruída por aqueles que a amam e demonstram isto pelos cuidados com cada gesto, cada pedaço de papel que não se joga em suas ruas, pelo lixo endereçado, pela poluição controlada, pela preservação de sua identidade e de suas características. É uma cidade de sonhos que pode ser desejada e atende as necessidades reais da população que pensa no amanhã. Infelizmente, pode parecer autoritá- rios, mas precisam clamar por autoridade para assumir o seu papel fiscalizador e evitar que destruam os mananciais, as possibilidades do futuro.
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    Série Otoni Mesquita 95 O FILÓSOFOJORNALEIRO E SUA BANCA INTOCÁVEL Publicado em 15 de fevereiro de 2018. O filósofo jornaleiro e sua banca intocável- Quase nada se sabe sobre sua pessoa, somente sobras ou sombras de uma personalidade marcante. Não posso afirmar que o conhecido. Tivemos apenas um breve encontro, ou desencontro, que para mim pode ter ocorrido prematuramente, enquanto para ele, talvez já fosse muito tarde para o pouco de tempo e paciência que ainda lhe restava. Poderia ter sido um filósofo, ou simples contestador com alguma leitura, ou um intelectual que por seu posicionamento crítico tenha perdido postos sig- nificativos e possibilidades relevantes. Possivelmente fora vetado pelas artima- nhas próprias da rede de controle montada e exercida pela ditadura, que ainda se mantinha em vigor no país, naquele momento. Poderia ser também um capitão do exército, recém reformado por não se adequar aos novos ares assumidos pelo regime militar, que começava a esgarçar por uma série de acontecimentos e sob pressão prometia algumas aberturas. Mas como controle ou punição, o pobre homem passava os dias ouvindo a re- petição de uns poucos e mal elaborados comentários sobre a política nacional. Além de enfrentar cotidianamente as contínuas denúncias e o crescente clamor exposto pela mídia, exigindo mudanças democráticas no país.
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    Série Otoni Mesquita 96 Enfim, nãosaberemos com precisão de onde veio e para onde se foi o velho homem. Pela idade aparente, podemos deduzir que já deve ter partido há pelo menos duas décadas. Neurastênico com certeza, mas certamente tinha suas ra- zões. Todos os dias ele chegava bem cedo à banca e se esmerava na disposição das publicações, destacando algumas em detrimento a outras. Aquilo parecia ser a sua principal tarefa. Pode ter sido apenas um leitor e pensador desajustado que por sonho ou fal- ta de alternativa se submetera aquela função quase humilhante perante toda a experiência e conhecimento que carregava. Retido, literalmente aprisionado em uma banca de jornal, sem a possibilidade de prever encontros enriquecedores. A banca ficava localizada em frente a uma entrada de um supermercado na Rua do Catete, quase esquina com o Largo do Machado. Creio que as obras do metrô ainda não estavam completamente concluídas naquela área da cidade, nem eu me sentia ainda completamente seguro na cidade maravilhosa. A cena se passa bem no começo dos anos oitenta, quando as bancas de re- vistas ainda eram muito simples, provavelmente de placas metálicas, sem qual- quer atrativo, que não, as coloridas capas das revistas e o estardalhaço das man- chetes dos jornais. Agora já não tenho dúvidas que a disposição das revistas, na verdade era a elaboração de um discurso cifrado, atualizado diariamente, na tentativa de man- ter determinados contatos, ou protesto a ser compreendido e interpretado.
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    Série Otoni Mesquita 97 Ainda quepelo nível de sofisticação impregnado em suas articulações se restrin- gisse a um público restrito. Era destinado somente aos iniciados. Entretanto, com certa razão ele previa que a massa de transeuntes ignorantes, que ali circulava não seria capaz de fazer qualquer relação entre uma capa com uma imagem elucidativa e uma instigante manchete na primeira página de um jornal disposto ao lado. Ai dos mortais que arriscasse se aproximar do seu púlpito ou templo ima- ginário, ou que ousassem tentar deslocar algum dos elementos que integravam a ordem estabelecida de seu discurso. Quanto aos infratores, ele era completa- mente imparcial, não distinguindo jovens estudantes, de senhoras aposentadas; profissionais liberais de funcionários públicos; bancários de banqueiros. Repreen- dia bravamente, franzindo o cenho franzido e elevando sua áspera voz. Desavisados se retiravam embaraçados, no mínimo constrangidos. Mas, mesmo pegos de surpresa, alguns ainda esboçavam alguma contestação, que não ecoava. A maioria dos repreendidos não conseguia entender sua atitude, so- bretudo, quando elucubravam sobre as reais funções de uma banca de revistas, mas por respeito aos seus cabelos brancos, se calavam. As revistas e livros ficavam dispostos no balcão da banca, seguindo uma or- denação bastante conservadora, enquanto algumas outras publicações ganha- vam destaque, pendendo do alto e nas laterais, em torno da abertura. Ficavam firmemente presas com uma espécie de pregadores de roupa, como que pro- positadamente para dificultar qualquer manipulação. Contudo, nem sempre os
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    Série Otoni Mesquita 98 preços dosprodutos se encontravam evidentes, obrigando muitas vezes, que os interessados tentassem manipular uma ou outra publicação em busca do escla- recimento. Pobres daqueles mais afoitos que ensaiassem retirar a publicação para melhor investigar algum detalhe ou sugerissem a intenção de folhe-los. O jornaleiro esbravejava e não havia qualquer argumentação capaz de con- ter sua ira. Ao ser surpreendido em uma desta situação, tentei argumentar afir- mando que estava tentando descobrir o preço da revista e eis que ele vira para mim, como um velho mestre da academia grega que fora desagrado em plena aula de filosofia em algum longínquo anfiteatro me disse __ Não venha com so- fismas!! Em seguida esbravejo alguns outros impropérios que o meu restrito nível de erudição não me permitia decifrar, nem mesmo registrar. Surpreso, contestei esbravejando alguns xingamentos desarticulados e me retirei indo em direção a minha tia que a esta altura já saia do supermercado. Ao reclamar para ela da ati- tude do vendedor que recusava clientes, retrucou que o velho era meio doido e já fora grosseiro com ela, tanto que nem se aproximava de sua banca. Ficou lá, perdido num tempo que já passou, mas gravado em minha memó- ria. Não sei se por maldição ou assimilação de personalidade, agora sua bizarrice se manifesta em mim mesmo.
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    Série Otoni Mesquita 99 POSTAL PASSADOE FUTURO INCERTO Publicado 28 de março de 2018. Oi, amiga querida, estou te enviando um cartão postal de minha passagem pelo mundo. Na verdade, já nem sei que cidade é essa ou quanto a conheço. Escolhi esta imagem porque me fez sentir feliz. Pode ser apenas mais uma vitrine ilusória montada para consumo, em um momento em que o mundo já sofria a duras penas. Mas algumas pessoas estavam animadas em viver e usufruir da vida. Alguns haviam ouvido falar das privações e sofrimentos. Outros queriam apenas usufruir do moderno e civilizado. Não tinham ideia precisa do que se aproximava. Acreditava no progresso e nos avanços da ciência. Pensavam ter escapado de uma era de trevas, mas estavam enganados. O tranway ou o bond, o automóvel e a eletricidade já faziam uma diferença considerável na vida das pessoas. Os lugares embelezados sugeriam a existência de um paraíso totalmente controlado pelo homem. Livre dos caprichos da natu- reza. A vista era bela e estava sendo servida a quase todos os olhos. As crianças experimentavam uma liberdade nunca dantes permitida. Corriam e gritavam, soltas, ainda que muitas completamente reprimidas e vigiadas por babás de uni- formes.
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    Série Otoni Mesquita 100 O ventosalgado e as tendas listadas de azul, o ruído das ondas do mar, o sol brilhante e o azul intenso do céu. A natureza contrastava com as construções em cores claras. Pareciam uma exposição de bolos de casamento, sem a presença dos noivos. Colunas brancas e paredes em pasteis abriam passagem para os carros alongados que passavam sob a música animada que se espalhava animando os transeuntes bem vestidos no passeio. O mundo parecia regido por uma única vontade, pronta para usufruto dos homens. Mas onde estavam aqueles que haviam trabalhado e serviam essa po- pulação de usufruidores? Onde se escondiam os pobres. Certos de que muitos estavam ali, misturados em seus uniformes que bem os distinguia como um ser- viçal. Mas não havia lugar para aqueles que não foram escolhidos pelas vibrações da cornucópia de ouro. Isso não é eterno, mas parece que não se apagará jamais. Pode durar apenas a temporada de férias. Belas e felizes criaturas devem ter bons sonhos, ou será que tudo isso é apenas a casca e nos seus sonos se encon- tram em pesadelos. Talvez não tenhamos como saber. Mesmo que tivéssemos como interrogar cada um deles e obtivéssemos respostas sinceras. Não sabiam o que viria. Não tinham como prever o futuro.
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    Série Otoni Mesquita 101 BELA CIRCE Publicado25 de abril de 2018. Não sei como conseguiu escapar da caixa de Pandora, ou simplesmente é uma natureza daninha que persiste entre os outros vegetais. Deixou as páginas das narrativas míticas e invade nosso cotidiano com uma bela figuração. Carne e osso, temperada com muita sedução e cinismo. É Circe, mas já não transforma homens em porcos, mas em bobos. Veio para academia, mas não abandonou parte de suas práticas estranhas. Encanta homens e mulheres e tira proveito de todas as situações, inclusive da ad- versidade que afeta aos outros. Bela Circe, desde criança sabe iludir e dissimular. Não age apenas nas sombras, mas também em plena claridade e com toda tranquilidade perante diferentes pessoas. Dissimulada, engana a todos e mesmo num auditório, lotado com uma plateia, ela é capaz de se colocar de maneira completamente convincente. Aparentemente, ela acredita em suas afirmações ou acredita que é aquilo que queremos ouvir. A velocidade de suas práticas difere daquelas das longas histórias. Agora, ela tem pressa, precisa aproveitar as oportunidades e é bastante objetiva em suas ações. Precisa avançar, ganhar espaços e títulos. Há palcos e vitrines, mas ela já não se inibe, até mesmo os refletores favorecem seus objetivos. Precisa ser vista, em destaque. Quanto maior a plateia, mais uniforme e pouco reflexiva. Presas fáceis para ela. Deleita-se com os olhares encantados.
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    Série Otoni Mesquita 102 Mas haverásempre alguém que discorde e a desmascare. Mas ela terá sem- pre muitos cúmplices que a livrarão e a pouparão de ser desmascarada. Eles se sentem protegidos prestando fidelidade a feiticeira. Não necessita aplicar muitas palavras, sua bela face já é um argumento con- sistente. Mas ela não se contenta com isso. Procura demonstrar conhecimento e facilmente convence aqueles mais ingênuos. Um pouco de inteligência num mar de mediocridade faz muita diferença. Tem um charme especial para seduzir os homens e talvez algumas mulheres. Mesmo que, com um pouco de inteligência eles percebam que ela estar mentindo. Lacrimeja e contesta, deixando que paire no ar a dúvida sobre qualquer ver- dade. Perante sua atuação, quase tudo perde a validade. Bela Circe, circula em outras esferas e sempre consegue o que quer. Avança.
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    Série Otoni Mesquita 103 Sina oumaldição? Ela não questiona e segue pela vida escapando de contos e dramas com desencontros. Mas as armadilhas são ela que monta, portanto, muito cuidado com ela. Fico atento, paro, reflito e solicito com argumentos. Mas não adianta nada. Ela se faz de criança ou cabeça tonta, não me ouve e segue, sem responder ao questionamento. Mesmo que vestida com simplicidade consegue encantar com sua elegân- cia. Bela Circe, deve ter muitos pretendentes. Todo a se enganar. Ao seu redor mantém um circo de homens encantados. Difícil de escapar do encanto que lan- ça no ar. Bela Circe, não precisa fazer qualquer esforço, todos querem lhe ajudar e assim ela segue.
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    Série Otoni Mesquita 104 BONITOS EPERIGOSOS Publicado em 30 de maio de 2018. Cuidado com eles! Estão nas ruas, nas praças e podem habitar no seu prédio ou condomínio. Nos bairros elegantes, remediados e nas favelas. São graciosos e sedutores circulam aonde querem. Com um olhar doce e assustado demons- tram carência e sem dizer uma palavra podem se aproximar como um menino abandonado que pedisse alimento. Fique atento. Ele próprio não sabe que é uma arma mortífera. Caminha pela pista com calma, banha-se onde pode, num ritmo que é quase só seu. Ainda que sempre tenha um lugar para se abrigar. Muitas vezes olha a cidade de cima, com a mes- ma facilidade que circula no meio da sujeira. Volúvel em suas relações põe em risco, sobretudo, as criancinhas que encantadas com o seu charme não descon- fiam de sua nocividade. Mas, não se inibe mesmo em frente aos pais se exibe com olhares carentes sem perder o seu porte e sua graça. Muitos chegam mesmo a alimentá-los e dão carinho. Por isso se espalham pelo mundo e circulam com frequência nos grandes espaços, mesmo nos mais turísticos, onde facilmente encontram muitas vítimas em potencial. Apesar do grande mal que carrega nem ele mesmo tem consciência que está colocando outros em risco. Alguns deles são muito valoriza- dos e mesmo estudados, conseguindo funções importantes na sociedade.
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    Série Otoni Mesquita 105 Em períodode guerra sua relevância aumenta, são solicitados e se fazem se- rem infiltrados para cumprir importantes missões. Tornam-se eficientes agentes de informação, sem desvios ou tentações. Cumprem a rota preestabelecida. Sua imagem é muitas vezes utilizada para propagar ideias e mesmo difundir a fé. Não há leis ou investigações que o impeçam de agir. Ele não tem regras, é uma ques- tão de sobrevivência e permanecem entre nós. São apenas os dóceis pombinhos que nos rondam como portadores de uma infinidade de doenças.
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    Série Otoni Mesquita 106 O CANTODAS CIGARRAS SOBRE O DESERTO Publicado em 27 de junho de 2018. Para nós não era nada espetacular, poderia se comparar a alguma coisa tão natural quanto à cigarra se desprendendo de sua casca, após se guardar nela por dezessete anos, maturando no interior da terra. Fora um tempo demasiado longo e obscuro. Por isso, aguardávamos ansio- samente pelo momento de aflorar e saudar a primavera com o nosso canto. Com a terra amolecida pelas chuvas foi possível abrir passagem e subir. Sim- plesmente seguimos o instinto que nos puxava em direção ao sol. Ao chegar a superfície estamos cobertos de barro. Buscamos uma torre que com segurança nos garantisse a retirada das cascas. Enfim, retiramo-las como cavaleiros medievais se desfazem de suas arma- duras após um período de longas e cansativas batalhas. Ficamos nus e saímos em busca de um local onde pudéssemos secar. Soltamos o nosso canto a reverberar nos dias longos e quentes de verão. Contentávamos-vos com este mundo por desconhecer a existência de qualquer outro. Mas não escondíamos a decepção de não encontrar aquilo previsto por nossos instintos. Sabíamos de variados verdes e suaves azuis a animar os mais belos dias. Mas estas ausências não nos retiraram a sensação de renascer para
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    Série Otoni Mesquita 107 um novomundo, ainda que só nos restasse longos desertos. Ruídos que perturbava nossos ancestrais já não soam mais, cessaram com- pletamente. Agora apenas o zunir constante do vento que passa sem qualquer impedimento. Ainda que não encontremos qualquer impedimento para o nosso cantar, não podemos afirmar o mesmo quanto aos suportes para nos sustentar. Um universo despido de elementos verticais. As disciplinadas operárias que passavam o seu tempo todo a trabalhar cor- tando e transportando folhas desapareceram, assim como os vegetais. Mas ainda encontramos as ruínas de suas torres de terra, sendo continuamente arrastadas pelo vento, que as deslocam ao seu bel prazer. O sol vermelho e intenso mantém o intenso calor de todos os dias, sendo substituído por frias noites prateadas. Não sabemos como daremos continuida- de, mas é evidente que nossa passagem por aqui é muito breve. Restos de cidades ainda guardam monumentos e cenas de atrocidade. Per- manecem iluminados os letreiros coloridos com suas múltiplas imagens. Luzes coloridas se deslocam sobre os outdoors e sugerem movimentos e profundida- des inexistentes. Brinquedos articulados se deslocam pelas calçadas vazias, fa- zendo ruídos repetitivos. Há máquinas espalhadas por todos os lugares, com ruí- dos e palavras de ordem.
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    Série Otoni Mesquita 108 Dos homensficaram imagens e vozes a se repetir constantemente. São mensagens para vender produtos e propagar ideias. Talvez haja entre elas, algu- ma verdade. Mas quase tudo produto artificial para apagar o homem e a natura- lidade das coisas. Vendem pensamentos e sensações de bem-estar, complemen- tos amplamente aceitos como o avanço do conhecimento. A criação do homem artificial.
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    Série Otoni Mesquita 109 ESCRAVA MUDA Publicadoem 25 de julho de 2018. Um dia, te trouxeram para casa em que eu morava. Eu ainda era menino. Não sei como te encarei, nem que sentido te dei. Mas devia ter um significado, assim como as outras coisas que chegavam. Acho que vi como uma novidade trazida por uma prosperidade carregada pelos novos tempos. Chegastes com ou- tros, e permanecias inerte, na sala, como tímida visita. Já sabiam de tua função, mas provavelmente, foi a matriarca que estabeleceu onde deverias permanecer. Não tinhas maiores funções, naquela casa, quase uma peça decorativa. A casa de madeira, também era muito simples, ainda que amada, mas depois de um tem- po, foi demolida. Uma nova história se processava na vida daquela família. Depois, quando mudaram, te levaram junto, como uma peça qualquer da mobília, como devias servir. Quase uma escrava, sem qualquer vontade, tinhas que seguir, sem reclamar. Eles mudaram suas roupas, seus discos e hábitos, mas de ti, parece que nada tinham para cuidar. Permanecias firme, ainda que gasta, as vezes num canto e outras, lembrada. Frequentemente, eras deslocada para diferentes lugares. Mudaram os quadros da parede. Crianças chegaram e cres- ciam animadas, correndo pela casa, passando por ti. Às vezes, até te inseriam na brincadeira, mas, não tinham qualquer respeito. Quase sempre te ignoravam, tropeçavam em suas pernas e até te arrastavam. Não ligavam tanto para ti. Te davam muito menor atenção, do que aos programas que passavam na Televisão. Permanecias singela, limitada em sua simplicidade, claramente externada e fora
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    Série Otoni Mesquita 110 de moda.Quase sempre, parada na sala, talvez só a observar. Uma verdadeira es- crava, sem qualquer trato ou deferência. Um ser, quase invisível. Finalmente, depois de outros tempos, novas mudanças. Eu saí de casa, e ela seguiu comigo, mas não foi uma escolha afetiva consciente. Talvez mais uma atitude da minha pouca praticidade, mas que pretendia tirá-la daquele eterno abandono. Por mais alguns anos, praticamente bolou em minhas descuidadas moradas, mas, muito me apoio nas atividades artísticas, não como modelo, mas assistente de apoio. Não sei por que, quase um milagre, em dias recentes, se fez evidente, adqui- rindo um novo sentido. Creio que foram as velhas fotos consultadas. Te encontre entre outros personagens, quase esquecidos, alguns completamente perdidos. Mas tu, apesar do maltrato, resististes bravamente. Te vi, integravas o conjunto, assim como as poses e cenários, os interiores das casas, detalhes da rua e da pra- ça. Eras o exemplo vivo de um tempo passado e lembrado. Quase uma coisa en- cantada, que foi praticamente apagada. Não reivindicastes maior atenção, mas finalmente, foste notada e lembrada, ganhaste algum trato, ainda que sem um projeto de te recuperar a matéria. Eras a mesa de centro da casa de minha mãe.
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