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Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR 
UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 
Anais Eletrônicos - N⁰ 01-2014. 
ISSN: 
São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 1
Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR 
UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 
Anais Eletrônicos – 2014 
Título: 
Anais Eletrônicos – IV Colóquio do GPCIR: “Outros – Biografia e sujeitos 
históricos” 
ISSN: 
Organizadores: 
Antonio Lindvaldo Sousa (Coordenação Geral) 
Claudefranklin Monteiro Santos (Coordenação Adjunto) 
Ane Luíse Silva Mecenas (UNISINOS/ UNIT/ membro do GPCIR) 
Magno Francisco de Jesus Santos (UFF/ Faculdade Pio X/ membro do GPCIR) 
Vladimir José Dantas (Faculdade Pio X/membro do GPCIR) 
Thiago Fragata (Museu Histórico de Sergipe/ membro do GPCIR) 
Aquilino José de Brito Neto (UFS/ membro do GPCIR) 
Andreza Silva Mattos (UFS/ membro do GPCIR) 
Leonardo Matos Feitoza (UFS/ membro do GPCIR) 
Priscilla Araujo Guarino Silveira (UFS/ membro do GPCIR) 
André Sá (membro do GPCIR) 
Eduardo Augusto Santos Silva (UFS/ membro do GPCIR) 
Josineide Luciano Almeida Santos (membro do GPCIR) 
Rosana Oliveira Silva (membro do GPCIR) 
Tamires dos Anjos Oliveira (membro do GPCIR) 
Raquel de Fátima Parmegiani (UFAL) 
Monica Liz Miranda (UFVJM) 
Severino Vicente da Silva (UFPE) 
Edição: 1 
Ano da Edição: 2014 
Local de Edição: São Cristóvão-SE 
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Tipo de Suporte: Internet 
Editora: UFS 
Organização dos Anais Eletrônicos: 
Antônio Lindvaldo Sousa 
Andreza Silva Mattos 
Claudefranklin Monteiro Santos 
Priscilla Araujo Guarino Silveira 
Revisão: 
Andreza Silva Mattos 
Leonardo Matos Feitoza 
Diagramação: 
Andreza Silva Mattos 
Eduardo Augusto Santos Silva 
Capa: 
Eduardo Augusto Santos Silva 
Arte-finalização: 
Andreza Silva Mattos 
Priscilla Araujo Guarino Silveira 
Monitores 
Jandison Moura da Silva 
Jessica Messias dos Santos 
Denilza Viana de Almeida 
Victor Menezes Galdino Silva 
Mislene Batista Santos 
Barbara Barbosa dos Santos 
Nerita Carvalho Figueredo 
Ernânia Santana Santos 
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REALIZAÇÃO 
Grupo de Pesquisa Culturas, Identidades e Religiosidades 
(GPCIR/DHI/Cnpq/UFS) 
APOIO 
Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários 
(PROEX/UFS) 
Programa de Pós-Graduação em História 
(PROHIS/UFS) 
Departamento de História 
(DHI/UFS) 
Museu Palácio Olímpio Campos 
Museu Histórico de Sergipe 
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FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA CENTRAL 
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE 
FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA CENTRAL 
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE 
C719a 
Colóquio do Grupo de Pesquisa Culturas, Identidade e 
Religiosidades (4 : 2014, : São Cristóvão, SE) 
Anais eletrônicos [recurso eletrônico] / IV Colóquio do 
GPCIR : outros – biografias e sujeitos históricos : 09 a 12 de 
abril de 2014, São Cristóvão, SE ; organizadores: Antonio 
Lindvaldo Sousa ... [et al.]. – São Cristóvão : Universidade 
Federal de Sergipe, Grupo de Pesquisa Culturas, 
Identidades e Religiosidades : Editora UFS, 2014. 
123 p. il. 
Disponível em: 
<http://coloquiogpcir2014.blogspot.com.br/> 
ISSN 
1. História – Fontes. 2. Sergipe – História. 3. Sergipe – 
Historiografia. 4. Biografia. Universidade Federal de Sergipe. 
II. Sousa, Antonio Lindvaldo. II. Título. 
CDU 93/94 
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SUMÁRIO 
I - APRESENTAÇÃO 08 
II - PROGRAMAÇÃO 09 
III – SIMPÓSIOS TEMÁTICOS LIVRES: RESUMOS E TEXTOS 
12 
COMPLETOS 
01. Teias de “falsos enganos”: artifícios de soldados mamelucos pela mão de obra 
indígena no sertão da Bahia colonial (1584-1592) 
Andreza Silva Mattos 
13 
02. A Disputa de Limites entre Sergipe e Bahia pela Região de Paripiranga/BA 
(1904-1914) 
Antunes Santana Reis 
14 
03. O Indivíduo na Historiografia: Antônio Alves no desenvolvimento da Atalaia 
Velha através da memória 
Aquilino José de Brito Neto 
23 
04. "Os engenhos, a dama e o Perfume”: Um Cabaré na sociedade açucareira (1950- 
1970) 
Barbara Barbosa dos Santos 
25 
05. “História Cruzada” – Orlando Dantas entre a Usina e a Imprensa 
Carla Darlem Silva dos Reis 
26 
06. Nos Trilhos de Deus: Aconselhar os Fiéis e Corrigir Práticas Oficiosas - As 
Representações do Missionário Frei Damião de Bozzano em Bomquim/SE (1972- 
1974) 
Degenal de Jesus Da Silva e Maria Edeilde de Jesus Santos 
27 
07. “Uma capital em processo de secularização”: Aracaju às vésperas do Concílio 
Vaticano II 
Eduardo Augusto Santos Silva 
41 
08. A Oposição dos Cristãos Novos na Sociedade Açucareira na Primeira Visitação 
do Santo Ofício à América Portuguesa 
Ernania Santana Santos 
42 
09. Simão Dias: De um vaqueiro a uma cidade. O ciclo do couro e as origens do 
município de Simão Dias no século XVI e XVII 
Jessica Messias dos Santos 
51 
10. Compreensão do Desenvolver da Pesquisa Sobre os Escravos em São Cristóvão 
José Daniel Rito dos Santos e Ane Luise Silva Mecenas 
57 
11. Flagrando a Vida: trajetória da vida intelectual e profissional da Professora Lígia 
Pina 
José Genivaldo Martires 
58 
12. O “tempo da fábrica” em São Cristóvão: apontamentos da pesquisa 
José Thiago da Silva Filho 
67 
13. “História e Memória: Casa da Fazenda Iolanda, um Patrimônio em Agonia” 
Josineide Luciano Almeida Santos 
77 
São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 6
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14. “Pós Abolição da Escravatura em Sergipe e as Memórias de Rosalvo Vieira dos 
Santos” 
Kéfus Ibrahim Santana Cardoso 
78 
15. Um Pássaro fora do Ninho: Tentativa de debate historiográfico em torno da 
passagem de Inglês de Sousa pela Província de Sergipe 
Leonardo Matos Feitoza 
79 
16. História Comparada: A escravidão no Nordeste Colonial brasileiro segundo o 
livro didático de História do Ensino Fundamental 
Liliane Vieira Nunes 
80 
17. O elo Genético: Análise das Anomalias de Desenvolvimento e dos pontos 
epigenéticos em esqueletos Humanos Pré-históricos e a Possível Relação de 
Parentesco 
Madson de Souza Fontes e Olívia Alexandre de Carvalho 
81 
18. Representação do Negro na Ótica do Clero Colonizador 
Manoel Ribeiro Andrade 
89 
19. “Peregrinação ao derredor de mim mesmo”: A construção de uma memória 
pessoal por Luís da Câmara Cascudo 
Raquel Silva Maciel 
97 
20. Epifânio Dória e a República das Letras em Sergipe 
Ronaldo José Ferreira Alves Santos 
106 
21. A trajetória do missionário Capuchinho João Evangelista Monte Marciano (1843- 
1921) 
Tatiane Oliveira da Cunha 
116 
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APRESENTAÇÃO 
Este evento é realizado pelo Grupo de Pesquisa Culturas, Identidades e 
Religiosidades, lotado no departamento de História da UFS, sendo realizado de 
dois em dois anos. 
A temática de 2014 é “sujeitos e história” e terá como título “OUTROS: 
Biografia e sujeitos na História”. 
Sua programação está totalmente voltada para debater as atitudes dos 
sujeitos na história de Sergipe e em outras localidades do Brasil. Estarão 
presentes pesquisadores de várias localidades do nosso imenso país. 
Realizamos o mesmo como parte das discussões teóricas vinculadas ao 
projeto de extensão: “MASSAPÊ: memórias, engenhos e comunidades da 
microrregião da Cotinguiba em Sergipe” e do projeto Imprensa Cristã, 
denominado “Escrevendo em nome da fé e diante das vicissitudes históricas...”: 
Imprensa cristã e artigos de cristãos nos jornais laicos sergipanos. 
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Programação 
Dia 21/05 - (Quarta) 
Manhã 
- Minicursos (8h às 12h) 
Tarde 
- Credenciamento (a partir das 17 horas). 
- Local: Museu Palácio Olímpio Campos (Centro - Aracaju-SE). 
Noite 
- 18 horas - Conferência de Abertura – Sujeitos e biografia: notas teórico-metodológicas 
- Conferencista: Prof. Dr. Angelo Adriano Faria de Assis (Universidade de Viçosa) 
- Relançamento do livro “O Pulso de Clio” (Org.: Antônio Lindvaldo Sousa). 
- Atividade Cultural. 
- Local: Museu Palácio Olímpio Campos (Centro - Aracaju-SE). 
Dia 22/05 - (Quinta) 
Manhã 
- Minicursos (8h às 12h) 
Tarde 
- Sessão de Comunicações (14h às 18h) 
Noite 
- 19 horas - Mesa Redonda 1: Os Outros e as Releituras dos Outros. 
- Prof. Dr. Jérri Roberto Marin (UFMS). 
- Prof. Dr. José Paulino da Silva (UFS). 
- Prof ª. Msc.Tatiane de Oliveira Cunha (GPCIR). 
- Prof ª. Msc. Ane Luíse Silva Mecenas (UNIT) – Coordenação. 
- Lançamento do livro “100 Poemas para uma Pessoa Só” (Diego Vinícius). 
- Atividade Cultural. 
Local: Auditório da Didática V 
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Dia 23/05 - (Sexta) 
Manhã 
- Minicursos (8h às 12h) 
Tarde 
- 14 horas - Mesa Redonda 2: Os sujeitos e a pesquisa na pós-graduação (Mestrandos 
PROHIS-UFS) 
1º CICLO – Sujeitos, memórias e história oral. 
- Aquilino José de Brito Neto 
- Carla Darlem Reis 
- Priscilla Araújo Guarino Silveira 
2º CICLO – Sujeitos, outros e conflitos. 
- Andreza Silva Mattos 
- Josevânia Souza de Jesus Fonseca 
- Leonardo Matos Feitoza 
Local: Auditório da Didática VI 
- Atividade Cultural. 
Noite 
19 horas - Mesa Redonda 3: A Igreja e os Outros. 
- Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (UFS). 
- Prof. Msc. Magno Francisco de Jesus Santos (PIO X) 
- Prof. Msc. Robson Dias de Assis (UFS) 
- Prof. Esp. Thiago Fragata (MHS) – Coordenação. 
- Lançamento de livro “Temas de História e Educação Católica em Sergipe” (Org.: 
Raylane Navarro e Claudefranklin Monteiro). 
- Atividade Cultural. 
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Local: Auditório da Didática V 
Dia 24/05 - (Sábado) 
- 9 horas - Mesa Redonda 4: A Imprensa Cristã e os Outros. 
- Prof. Dr. Antonio Lindvaldo Sousa (UFS). 
- Profª. Msc. Verônica Maria Menezes Nunes (UFS). 
- Prof. Dr. Uziel (UFS). 
- Prof. Eduardo Augusto Santos Silva (GPCIR/UFS). 
- Profª. Priscilla Araujo Guarino Silveira (GPCIR/UFS). 
- Coordenação: Profª. Maria Sônia Santos Carvalho. 
- Atividade Cultural. 
- Local: Museu Histórico de Sergipe (São Cristóvão-SE) 
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01. TEIAS DE “FALSOS ENGANOS”: ARTIFÍCIOS DE SOLDADOS MAMELUCOS 
PELA MÃO DE OBRA INDÍGENA NO SERTÃO DA BAHIA COLONIAL (1584-1592) 
Andreza Silva Mattos 
Resumo: Com o crescimento da produção açucareira no Recôncavo baiano, na década de 
1580, os engenhos passaram a intensificar o uso da mão de obra indígena. E para tal, 
expedições foram enviadas ao sertão da Bahia colonial com o objetivo de “descer os gentios” 
para os engenhos. Entre essas expedições, destacamos a liderada por Gonçalo Álvares – 
homem experiente que também lutou com o Governador Luíz de Brito, em 1575, contra as 
aldeias de Aperipê e Surubi, no sertão do rio Real. Na expedição de Gonçalo Álvares, estava 
Simão Roiz – sujeito que guiará as nuances dessa pesquisa, apresentando-nos a outros 
soldados com os quais compartilhou relações sócioculturais. Nossas ponderações serão 
norteadas por Nobert Elias por meio do qual iremos compreender a rede de sociabilidades de 
Simão Roiz a fim de que possamos refletir acerca dos artifícios utilizados pelos soldados 
mamelucos para denegrir a imagem dos jesuítas e, com isso, obterem a confiança dos gentios 
nos sertões por onde andaram. Serão as fontes inquisitoriais, oriundas da Primeira Visitação 
do Santo Ofício à Bahia, em 1591, que nos permitirão alcançar a inteligibilidade desse espaço 
múltiplo que foi o sertão colonial. 
Palavras-chave: Soldados mamelucos. Gentios. Sertão Colonial. Jesuítas. 
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02. A DISPUTA DE LIMITES ENTRE SERGIPE E BAHIA PELA REGIÃO DE 
PARIPIRANGA/BA (1904-1914) 
Antunes Santana Reis 
Resumo: 
O presente trabalho aborda a discussão de limites entre os Estados de Sergipe e Bahia em 
relação à Cidade de Patrocínio do Coité (atual Paripiranga/BA). Por isso, tem como objetivo 
analisar os conflitos e confrontos entre sergipanos e baianos criados em torno da Obra Sergipe 
e Bahia (Questão de Limites) escrita pelo sergipano Padre João de Mattos Freire de Carvalho 
(1826-1946). Esse defendeu que a Cidade baiana de Patrocínio do Coité, onde atuava como 
pároco, deveria ser anexado a Sergipe. Apoiamo-nos nas reflexões Edward Thompson na 
defesa que os sujeitos históricos devem ser entendidos a partir de suas experiências culturais, 
onde os conflitos e confrontos em que se envolvem corroboram na formação de uma 
identidade que levam os sujeitos a defenderem seu grupo e tomar consciência de seu papel no 
mesmo. 
Palavras-chave: João de Mattos. Sergipe; Bahia; Limites. 
A discussão de limites entre os Estados de Sergipe e Bahia foi levantada por 
Felisbelo Freire, no último capítulo de sua obra História de Sergipe, e levada a Câmara 
Federal dos Deputados em 1891. Mas foi a partir de 1904 que essa temática ganhou maior 
importância entre os intelectuais sergipanos. Foi nesse ano que o Governador desse Estado, 
Josino Menezes, com o discurso pronunciado a Assembleia Legislativa, convocou toda a elite 
política e intelectual sergipana a defender os limites históricos do Estado com a Bahia, 
sobretudo na região Ocidental, com o objetivo de tornar novamente sergipana a região de 
Patrocínio do Coité (Atual Paripiranga-BA). 
Essa temática perpassou vários setores da sociedade sergipana, com o engajamento 
de intelectuais como professores, advogados e jornalistas. Brandão (1973) em a “Introdução 
ao estudo da Historiografia Sergipana” coloca que o Governo do Estado entregou a defesa dos 
seus limites a intelectuais que levantaram documentação e produziram várias obras 
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historiográficas. Dentre essas, está a Obra Sergipe e Bahia (Questão de Limites) escrita por 
João de Mattos Freire de Carvalho. Esse Padre e intelectual sergipano nasceu em Simão Dias 
– SE, e pertencia a uma das famílias mais ricas dessa região, por isso pode desenvolver seus 
estudos no Colégio Pio Latino Americano e na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, 
tornando-se Padre e doutor em direito canônico. Sua vida foi marcada pela atuação como 
pároco por 47 anos na Cidade de Patrocínio do Coité, atual Paripiranga-Ba. 
Sua ObraSergipe e Bahia (Questão de Limites) desencadeou conflitos e confrontos 
em relação a temática de limites entre Sergipe e Bahia devido sua proposta de anexar ao 
Estado de Sergipe a região de Patrocínio do Coité. Por isso limitamos nossa pesquisa ao 
recorte temporal que vai de 1904, quando ele já espalhava por Patrocínio do Coité sua defesa, 
até 1915 quando comissões dos dois Estados firmaram acordo de limites ao visitarem a região 
em litígio. 
O presente artigo vem analisar a discussão de limites entre os Estados de Sergipe e 
Bahia proposta por Mattos, no qual observamos o apoio que este recebeu por parte dos 
sergipanos para entendermos os conflitos e confrontos travados entre sergipanos e baianos. É 
importante ressaltar que não pretendemos abranger a discussão entre todos os estudiosos 
envolvidos nessa temática de limites geográficos, mas, sim,nos limitaremos ao período em 
que Mattosparticipou da discussão e das negociações políticas pela região de Patrocínio do 
Coité. 
Para entendermos os conflitos e confrontos gerados em torno dessa discussão, 
recorremos a Edward Thompson, o qual nos mostra que os sujeitos históricos devem ser 
entendidos a partir de suas “experiências culturais”, o seu fazer social. Os conflitos 
corroboram na formação de uma identidade cultural, que levam os sujeitos a defenderem seu 
grupo e tomar consciência de seu papel no mesmo. 
No apêndice da Obra de Mattos podemos perceber o repúdio e a reação baiana em 
relação a sua defesa de transferir o termo de Patrocínio do Coité para Sergipe. Antes mesmo 
de publicar seu trabalho, Mattos distribuiu entre seus paroquianos, um folheto intitulado: 
“Limites- Aos habitantes de Patrocínio do Coité”. Vejamos algumas considerações: 
É tempo já de nos levantarmos do atrazo e da decadência em que jazemos. O 
ukasebahiano de 1871, deu-nos uma existência civil, que longe de augmentar, vai 
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cada vez mais se enlanguecendo com pronunciada rapidez. Em logar de termos na 
Bahia uma mãe pátria desvellada, que nos ampare no nosso crescimento, 
prodigalisando-nos elementos e meios de desenvolvimento e vigor ao nosso 
organismo social, que encaminhe os nossos primeiros passos na trilha do progresso e 
da civilisação, e nos alente e nos proteja com seus recursos e cuidados, a nossa sorte 
tem-nos arrastado ao desamor a Bahia. (MATTOS, 1905, p. 61-62) 
Percebemos que Mattos tenta convencer os seus paroquianos a se voltarem contra a 
Bahia. Para isso, ele relata o abandono do governo baiano em relação a essa região, e comenta 
como o Coité se desenvolveria bem mais rápido se pertencesse a Sergipe. Embora ele 
encontrasse alguns adeptos entre os coiteenses, o repúdio as suas idéias foi imediato, partindo 
principalmente da elite política. Liderados pelo intendente do Coité, Joaquim de Mattos 
Carregosa, escreveram ao Governador do Estado da Bahia expressando o desacordo as idéias 
de Mattos e pedindo que sua posição se tornasse pública. Vejamos um trecho do artigo 
publicado no Jornal Diário da Bahia em 20 de novembro de 1904: 
O povo desta Villa legitimamente representado pelo seu intendente e camara 
municipal vem perante v. ex. protestar contra a publicação de um folheto que junto 
envia a v. ex., sob o título Limites – Aos habitantes do Coité – no qual algum 
sergipano abusando de nossa confiança, emitiu conceitos e opiniões favoráveis a 
antiga idéia da passagem ou anexação deste município à Sergipe como pretendem os 
habitantes daquele Estado. (Diário da Bahia, 1904) 
Vemos que as autoridades do Coité não pouparam críticas à posição de Mattos, 
colocando este como um sergipano que abusava da confiança recebida nas terras baianas. 
Porém, Mattos revidou tais opiniões e ao final de seu livroe critica os coiteenses 
argumentando quais motivos existentes para se orgulharem de serem baianos, e que a justiça 
se encarregaria de devolver a Sergipe o que era seu de direito e, por fim, escreve: 
E si somos todos amigos e irmãos debaixo do mesmo teto – a bellaPatria Brasileira, 
continuando o Coité a occuparo mesmo recanto dessacaza pátria em que está nem eu 
nem Sergipe nos enojaremos por isso; assim como sendo mudado para Sergipe, 
então é que terá a honra e os cômodos do filho pródigo ao reentrar no lar paterno e 
seus habitantes terão satisfação de encontrar aquella paz e felicidade, aquele 
desvello e adeantamento que nunca lhes há de chegar da madrasta e longiqua Bahia. 
(MATTOS, 1905, p. 68). 
Mesmo com todo seu esforço na elaboração de seu livro no intuito de 
conseguir a mudança do termo de Patrocínio do Coité para o Estado de Sergipe, Mattos não 
conseguiu o apoio necessário entre os baianos para que isso pudesse acontecer. Porém, a 
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partir de 1912, com a fundação do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, do qual Mattos 
foi sócio- correspondente, novas obras e conflitos surgiram em torno dos limites de Sergipe 
com a Bahia envolvendo a disputa pela região do Coité. Sergipe ganhava força pela união de 
seus intelectuais junto ao Governador do Estado José Siqueira de Menezes pela defesa de seus 
limites, e parecia que finalmente resolveria essa questão centenária. 
O Governo baiano, em resposta as movimentações sergipanas, e preocupado com a 
conservação de seu território, convocou, em 1912, o historiador e geógrafo Dr. Braz do 
Amaral para pesquisar em arquivos portugueses e nacionais documentos que pudessem 
esclarecer seus limites em relação aos Estados vizinhos. Essa pesquisa auxiliou os baianos na 
negociação de seus limites com os sergipanos. 
Em 1913 a discussão de limites entre os Estados de Sergipe e Bahia chegou 
pelasegunda vez a Câmara de deputados da República. O Deputado Federal Moreira 
Guimarães apresentou um Projeto de Lei em 13 de novembro de 1913, no qual pedia a revisão 
dos limites do Estado em relação à Bahia. Firmou-se então um acordo entre os governos dos 
dois Estados em que ambos criariam comissões para definição desses limites. Enquanto nada 
era resolvido se estendia pela região de Patrocínio do Coité, boatos e temores de invasão 
sergipana a mão-armada nessas áreas, como relata o trecho do telegrama enviado pelo 
governador da Bahia ao Presidente de Sergipe em 21 de outubro de 1913: 
Exmo. General Presidente Sergipe – Aracajú – Auctoridades jurídicas e policiaes, 
assim como agentes do Thesouro em Patrocínio do Coité, comunicam-me 
alarmantes notícias da próxima invasão do território deste Estado por forças de 
polícia de Sergipe. Compreende V. Ex. a gravidade de taes boatos para a população 
tão distantes de sua capital. (SEABRA Apud AMARAL, 1916, p. 72). 
O medo de confrontos armados era diário nessa região em litígio. Em resposta 
ao telegrama enviado pelo governador da Bahia, o Governador José de Siqueira Menezes 
garantiu que os sergipanos iriam conquistar a sua área de direito por meio da diplomacia e 
decisão do Governo Federal. Essa promessa, porém, não foi cumprida pelos sergipanos. Esses 
ocuparam áreas baianas no município de Patrocínio do Coité, nomeando professores e 
autoridade policial. 
São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 17
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Diante desses conflitos Mattos continuou ao lado de seu Sergipe, como relata o 
Agente Fiscal do Norte da Bahia, Julio de Lima Valverde em 4 de novembro de 1913, em um 
telegrama ao Governador do Estado: 
[...] Ainda tenho a informar-vos que diversas pessoas conceituadas do Coité me 
comunicaram ter o Vigário da Freguezia, João de Mattos, em uma de suas domingas 
do mez de outubro p. findo, na ocasião da missa conventual, feito uma prática ao 
povo aconselhando que não temessem uma grande força vindo de Sergipe, pois esta 
não vinha fazer barulho e sim tomar Coité que pertencia a Sergipe [...] 
(VALVERDE Apud AMARAL, 1916, p. 79-80) 
Mesmo sofrendo críticas em sua Paróquia por concordar que o Coité deveria 
pertencer a Sergipe, Mattos se envolveu novamente nessa questão. Porém, percebemos em 
nossa pesquisa a ausência de outros documentos que demonstrem o seu envolvimento nessa 
fase de conflitos. 
As discussões sobre os limites de Sergipe com a Bahia em relação a Patrocínio do 
Coité ganharam ainda mais força após a Conferência realizada pelo baiano Dr. Braz do 
Amaral no IHGSE. Amaral apresentou documentos defendendo a posse da Bahia sobre o 
Coité e outras áreas em litígio. A reação contrária aos seus argumentos foi imediata por parte 
dos intelectuais e políticos sergipanos como escreveu Prado Sampaio: 
Ao nosso ver, não obstante, falta de documentos remotos, o direito de Sergipe 
continua incontestável sobre a zona litigiosa mesmo em face do uti possidetis que 
milita em nosso favor há mais de trinta anos em relação á antiga Malhada Vermelha. 
(SAMPAIO, 1914, p. 78) 
Para os sergipanos os documentos apresentados por Braz do Amaral não 
garantiam a posse de Patrocínio do Coité a Bahia. Os documentos reunidos pelos sergipanos 
tinham datas mais antigas, mas foi ignorado por Braz. Este ao voltar a Salvador divulgava na 
imprensa que a questão estava resolvida, pois os sergipanos não possuíam documentos ao seu 
favor. Em resposta a essas afirmações de Braz escreveu o prefeito de Anápolis (Simão Dias), 
Raphael Montalvão: 
Também não andou bem avisado o Sr. Braz do Amaral dizendo que não possuímos 
documentos que firmem os nossos direitos; sendo que, como refutação basta 
recomendar a leitura da História de Sergipe de Felisbelo Freire e a obra do Doutor 
Padre João de Mattos intitulada Sergipe e Bahia (Questão de Limites). 
(MONTALVÃO, 1914, p 126.) 
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Como podemos ver, embora Mattos não esteja atuando diretamente nesses 
conflitos, sua obra é referência na argumentação sergipana na defesa de seus limites. De 
ambos os lados não se aceitavam o que o outro pesquisava. Esses conflitos eram sustentados 
pela defesa da identidade de cada Estado. Tantos os intelectuais baianos como os sergipanos 
mergulhados na identidade de cadaEstado emitiam opiniões a seu próprio favor. 
As negociações continuaram até o ano de 1915 quando o Governador do Estado da 
Bahia enviou o Dr. Braz do Amaral novamente a Sergipe para que junto com as autoridades 
baianas visitassem as áreas em litígio e assim entrassem em um acordo para resolver a 
questão. E assim visitaram a região de Anápolis (Simão Dias) e Patrocínio do Coité 
(Paripiranga) percorrendo suas áreas limítrofes, juntamente com os intendentes das duas 
Cidades. Porém, os avanços não foram significativos para Sergipe, pois, as áreas visitadas já 
estavam a um bom tempo sob o domínio da Bahia. Amaral tinha na defesa de seus 
argumentos, documentos como da solicitação de uma escola por parte dos coiteenses ao 
Governo da Bahia em 1869, além de comprovantes de pagamentos de impostos dessa 
população a Bahia. 
Os sergipanos defenderam os seus limites históricos em favor deumaidentidade. Do 
ponto de vista de Amaral os coiteenses estiveram a favor dos interesses baianos por que 
também já tinham constituído sua identidade baiana e demonstrava sua opção de alinhamento 
a Bahia. Uma das fontes dessa argumentação é o telegrama enviado ao Governador J. J. 
Seabra em 1º de fevereiro de 1915 após passar pelo Coité: 
Visitei o Coité no dia 26 e recebi naquellebello e ridente torrão bahiano 
demonstrações de consideração e respeito tão grandes como se fosse V. Ex. mesmo 
que lá tivesse ido abraçar os nossos patrícios. Aos habitantes do Coité e aos seus 
magistrados prometi, em nome de V, Ex; toda a segurança de que serão respeitados 
as leias que garantem o nosso direito. (AMARAL, 1916, p. 133) 
Assim como negaram apoio ao desejo de Mattos em mudar o termo de 
Patrocínio do Coité para o Estado de Sergipe, os Coiteenses possivelmente continuaram 
firmes nesse desejo durante a negociação entre os dois Estados. A experiência dessa 
população vivendo como baianos, mesmo que muitas vezes desamparados em suas 
necessidades pelo governo, fizeram com que continuassem firmes no propósito de 
pertencerem ao solo baiano, conforme se ler na discussão da intelectualidade baiana. 
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A imprensa baiana aponta que a população do Coité criou grande admiração por Braz 
do Amaral, por esse ter defendido os seus interesses, como demonstra, por exemplo, o Jornal 
O Paladino muitos anos após a discussão de limites, ao defendê-lo de críticas políticas 
noticiadas em um jornal de Salvador: 
O nome do dr. Braz do Amaral não é um parvenu, de um adventício nesta zona. Para 
que alguns dos municípios desta região permanecessem bahianos e outros não 
sofressem mutilação, bem sabemos ao que se expoz o eminente homem público, as 
agruras Moraes que curtiu. Felizmente, não só este município como em muitos 
outros, as populações sabem que juízo formular tangente à actualmente campanha. 
(Jornal o Paladino, 28 de maio de 1922) 
O Jornal Paripiranguense demonstra a sua gratidão e admiração pelo Deputado 
Braz do Amaral em razão da defesa desse na conservação do município como parte do Estado 
da Bahia. Com isso percebemos mais uma vez o quanto a população coiteense esteve sempre 
firme ao desejo de continuar pertencendo a esse Estado. 
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
Através dos documentos analisados conhecemos os conflitos e confrontos travados 
entre sergipanos e baianos pela região de Patrocínio do Coité, sobretudo, compreendemos que 
esses foram sustentados em defesa das experiências culturais dos que estavam envolvidos. 
Percebemos o quanto a obra de João de Mattos desencadeou essa discussão, esse 
escreveuem apoio ao grupo político e intelectualde Sergipe a qual fazia parte. E assim,entre os 
sergipanos Mattos ganhou forte apoio na sua defesa de transferir Patrocínio do Coité para o 
Estado de Sergipe. Porém o mesmo não aconteceu entre os baianos. Através dos documentos 
analisados percebemos o quanto a elite intelectual e política baiana criticaram essa idéia e 
lutaram pela conservação de seu território. 
Portanto, foram tão comuns os conflitos e confrontos entre sergipanos e baianos nas 
áreas de litígio, como em Patrocínio do Coité, onde se temia invasões violentas. Com base na 
análise de documentos baianos presentes na Obra Limites da Bahia de Braz do Amaral, 
percebemos o quanto a Bahia se mobilizou nas negociações com Sergipe para não perder a 
região de Patrocínio do Coité. Além disso, podemos observar como os jornais dessa região 
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expressavam o desejo da população em pertencer a esse Estado, mesmo estando tão distantes 
da capital e muitas vezes desamparados pelo Governo. 
Os intelectuais e políticos se mobilizaram na defesa de seus próprios Estados, seja 
diretamente nas negociações, na pesquisa de documentos históricos e na produção de livros 
sobre o tema em discussão. Ambos, imersos em sua experiência cultural, estavam em torno de 
sua identidade, defendendo os interesses de seu Estado, é nessa condição de identidade que se 
pode explicar a persistência nessa discussão, pois foi em torno de suas experiências culturais e 
vicissitudes históricas que ambos, defenderam os seus interesses. 
REFERÊNCIAS 
FONTES 
ABREU, Francisco de Paula; AMARAL, Braz do. Jornal O Paladino. Patrocínio do Coité, 
28 de maio de 1922, Ano IV. N. 26. p. 2. 
AMARAL, Braz do. Limites do Estado da Bahia. Salvador: Imprensa oficial do Estado, 
1916. 
CARVALHO, João de Mattos Freire de. Sergipe e Bahia (Questão de Limites). Aracaju, 
Empresa D` “O Estado de Sergipe”. 1905. 
FREIRE, Felisbelo de Oliveira. História de Sergipe. Aracaju: Editora Voz, 1977. 2. edição. 
GUIMARÃES, Moreira. Discurso pronunciado sobre os limites de Sergipe, na sessão de 13 
de novembro de 1913, na câmara federal. In__ Revista do IHGSE nº 2,vol. I, Ano 1913. p. 
95-105. 
MENEZES, Josino. Limites entre os Estados de Sergipe e Bahia (discurso apresentado a 
Assembléia Legislativa do Estado de Sergipe). Aracaju: Empresa D` “O Estado de 
Sergipe”, 1904. 
MONTALVÃO, Raphael. Bahia – Sergipe: A questão de limites. In__ Revista do IHGSE nº 
4,Fascículo II - vol. II, Ano 1914. p. 116-127. 
SAMPAIO, Prado. Questão de Limites: Bahia – Sergipe. In__ Revista do IHGSE nº 3, 
Fascículo I -vol. II, Ano 1914 116. p. 77-78. 
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PRADO, Ivo do. A Capitania de Sergipe e suas Ouvidorias. Rio de Janeiro: Papelaria 
Brasil, 1919. 
BIBLIOGRAFIA 
BRANDÃO, José Calasans da Silva. Introdução ao estudo da Historiografia Sergipana. 
Trabalho apresentado ao V Simpósio de História do nordeste, Aracaju: agosto de 1973. 
SOUSA, Antônio Lindvaldo. Temas Para História de Sergipe II. São Cristóvão, CESAD, 
2010. 
THOMPSON, Edward P. A Formação da Classe Operária. Vol. 1. Rio de Janeiro: Editora 
Paz e Terra, 1987. p. 9-14. 
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03. O INDIVÍDUO NA HISTORIOGRAFIA: ANTÔNIO ALVES NO 
DESENVOLVIMENTO DA ATALAIA VELHA ATRAVÉS DA MEMÓRIA 
Aquilino José de Brito Neto 
Resumo: 
A Atalaia-velha é um bairro de Aracaju, Estado de Sergipe, conhecido principalmente 
pela sua praia. Era uma antiga colônia de pescadores e já pertenceu como povoado ao 
município de São Cristovão, tendo um acesso por terra para Aracaju bastante difícil, 
principalmente pela falta de pontes e estradas que ligassem um ao outro. 
O tempo seguia num ritmo lento, comparado ao atual, num ambiente pacato e ao som 
das marulhas. A pesca e o roçado eram as principais formas de subsistência dos moradores da 
Atalaia. Entre os meses de dezembro a fevereiro, tornava-se o local preferido de muitas 
famílias sergipanas, que iam desfrutar do verão no banho de mar mais agradável da cidade. 
Um pouco das lembranças que ainda se mantêm frescas em algumas pessoas que viveram em 
tal época neste lugar e que nunca perderam seus laços de afetividade com o mesmo, embora 
diversas transformações urbanas tenham descaracterizado o “cenário” compreendido entre as 
cinco primeiras décadas do século 20. 
Diante disso, propomos estudar as memórias de cinco indivíduos acerca do bairro 
Atalaia-velha em Aracaju, percebendo o significado que o mesmo possuiu na formação da 
identidade dessas pessoas. Para Pollack (1992), “a memória é um elemento constituinte do 
sentimento de identidade”. Dessa forma, nos comprometemos a analisar o desenvolvimento 
do bairro através desses habitantes, percebendo como um pequeno lugarejo foi se ampliando, 
e ao mesmo tempo, como muitas das tradições culturais ali desenvolvidas foram 
paulatinamente reduzidas e atualmente, lembradas por poucos. 
Podemos observar também, nesta localidade através das memórias daqueles que 
viveram e conviveram num passado diferente do atual momento, seu cotidiano, seus costumes 
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e sua cultura. Para Lefebvre (1991), “é na vida cotidiana que acontecem as verdadeiras 
criações, as ideias, os valores, os costumes”. 
Como “fio condutor” da nossa narrativa, inserimos um indivíduo da historiografia 
sergipana muito pouco conhecido, mas fundamental para compreendermos a localidade, já 
que ele foi um dos precursores e fundadores do antigo povoado Barreta, atualmente Atalaia 
Velha. Seu nome era Antônio Alves dos Santos, um homem que ainda vive nas memórias dos 
antigos moradores da região. Portanto, a História Oral será a constituição metodológica para o 
desenvolvimento desse trabalho. 
Palavras-chave: Memória, Atalaia-velha, Antônio Alves dos Santos, cotidiano. 
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04. "OS ENGENHOS, A DAMA E O PERFUME”: UM CABARÉ NA SOCIEDADE 
AÇUCAREIRA (1950-1970) 
Barbara Barbosa dos Santos 
Resumo: 
Este trabalho esta sendo desenvolvido a partir de pesquisas do Projeto Massapê (PIBIX/UFS 
2014) que tem como objetivo o resgate de memórias de trabalhadores dos engenhos 
localizados na microrregião da cotinguiba, através de pesquisas em arquivos e jornais, como 
também entrevistas de história oral com pessoas que trabalharam ou são filhos e netos de 
trabalhadores de engenhos portanto herdeiras desse passado. Entre várias entrevistas 
realizadas por membros do projeto se destaca a de Maria Hora, uma senhora de 80 anos que 
para além da vida de trabalhadora braçal dos engenhos Caraíbas, Pedras e Vassouras, ela nos 
revela a sua dupla jornada. Quando solta o facão do corte da cana, Maria lança mão de seus 
perfumes e arranjos e segue para o seu segundo emprego no cabaré da cidade. A partir dessa 
dupla jornada de dona Maria Hora podemos identificar a vida noturna da sociedade açucareira 
na cidade supracitada como também os vários meios que uma mulher negra, órfã vai 
encontrar para sobreviver num sociedade pos- abolição da escravatura. 
Palavras-chaves: Engenhos, Mulher, Cabaré , Rosário do Catete. 
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05. “HISTÓRIA CRUZADA” – ORLANDO DANTAS ENTRE A USINA E A 
IMPRENSA 
Carla Darlem Silva dos Reis 
Resumo: 
Filho de um usineiro e político, Manoel Côrrea Dantas, Orlando Dantas nasceu na cidade de 
Capela, em Sergipe, no ano de 1900. Durante a adolescência desgarrou-se dos latifúndios de 
seu pai para buscar o conhecimento na Universidade de Pernambuco. Inicialmente optou por 
Engenharia, mas logo desistiu, pois o seu instinto em conhecer e compreender a sociedade o 
fez trilhar o caminho da Sociologia. Ao retornar para Sergipe funda o jornal Gazeta 
Socialista, que ia de encontro com as suas origens, pois no reduto jornalístico pregava a 
reforma agrária e as mudanças sociais para as classes mais baixas. Essa comunicação pretende 
discutir a contraditória trajetória de Orlando Dantas, para isso, foram utilizados depoimentos 
de parentes, como Paulo Brandão e de ex-jornalistas que conviveram com ele, a exemplo de 
Luiz Antonio Barreto. Além disso, os editoriais assinados por “Seu Orlando”, do Jornal 
Gazeta Socialista que em 1953 passou a ser chamado de Gazeta de Sergipe, também nos 
fornecem vasto material para analisar quem foi Orlando Dantas. 
Palavras-chave: Imprensa – Biografia – Sergipe – Política. 
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06. NOS TRILHOS DE DEUS: ACONSELHAR OS FIÉIS E CORRIGIR PRÁTICAS 
OFICIOSAS - AS REPRESENTAÇÕES DO MISSIONÁRIO FREI DAMIÃO DE 
BOZZANO EM BOQUIM/SE (1972-1974) 
Degenal de Jesus da Silva1 
Maria Edeilde de Jesus Santos2 
Resumo 
A memória, mecanismo seletivo, lugar em que fica guardadas os acontecimentos que mais 
importam ou que marcam a vida das pessoas. celeiro em que se misturam o que queremos 
guardar com as lembranças que queremos esquecer. O artigo descreve à vida e representações 
de um missionário - Frei Damião de Bozzano - que passou por Boquim no Estado de Sergipe 
nos idos do segundo semestre entre os anos de 1972 e 1974. "Padim Ciço Romão", como 
alguns o chamavam, empreendeu a divulgar às Santas Missões pelo nordeste. Lugar propício, 
afinal, berço de um povo sofredor que enxergar na religiosidade à ajuda que tanto almejavam. 
Através de fontes orais construímos um pedaço daquele cosmo, imperfeito admitamos, mas as 
vozes estão aí, desejosas por mostrar o seu lado da história. 
Palavras-chave: Catolicismo, Religiosidade, Representações, Santas Missões. 
Indivíduos que destacam-se no cenário religioso brasileiro já não é novidade. O 
nordestino ante as dificuldades ambientais, de assistência médica, de locomoção entre tantas 
outras coisas, vê no campo religioso um meio por excelência, algo em que possam se segurar; 
tirar das manifestações religiosas o que eles esperam que não terão neste século, ou pelo 
menos, a solução de tais problemas não estariam aqui, mas, no porvir, que minguariam, por 
compaixão, as graças vindouras. 
Neste contexto, surgem diversas crendices e manifestações religiosas tendo como 
inspiração a matriz - o catolicismo romano. A história desde o Brasil colônia3 ao século XX é 
banhada por um fé que foge ao emanado pelas autoridades de Roma. 
1 Graduado em História pela Faculdade José Augusto Vieira - FJAV; fez pós-graduação em História do Brasil 
pela Faculdade Pio Décimo - Pio X; e, mestrando em História pela Universidade Federal de Sergipe - UFS. 
2 Graduada em História pela Faculdade José Augusto Vieira - FJAV; fez pós-graduação em História do Brasil 
pela Faculdade Pio Décimo - Pio X; e, aluna especial do mestrado em História da Universidade Federal de 
Sergipe - UFS. 
3 Cf. SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil 
Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 2009; VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos Pecados: moral, 
sexualidade e inquisição no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. 
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Para que o catolicismo romano ganhasse autonomia frente aos obstáculos do 
protestantismo e das intempéries dos fiéis e desvios de condutas dos clérigos, a marcha da 
igreja fez-se acompanhar por um processo de sistematização e de moralização das práticas e 
das representações religiosas.4 Para Pierre Bourdieu, no campo religioso: 
o corpo de sacerdotes diretamente com a racionalização da religião e deriva 
o principio de sua legitimidade de uma teologia erigida em dogma cuja 
validade e perpetuação ele garante. o trabalho de exegese que lhe é imposto 
pelo confronto ou pelo conflito de tradições mítico-rituais diferentes, 
justaposta no mesmo espaço urbano, ou pela necessidade de conferir os ritos 
ou mitos tornados obscuros um sentido mais ajustados a normas éticas e à 
visão do mundo dos destinatários de sua prédica, bem como a seus valores e 
a seus interesses próprios de grupo letrado, tende a substituir a 
sistematicidade objetiva das mitologias pela coerência intencional das 
teologias, e até por filosofias.5 
Este é um dos objetivos das Santas Missões compreendidos por Frei Damião: 
moralizar o povo e esclarecer, a um séquito católico, a diferença entre a "verdadeira igreja" e 
as demais. O Frei, veio de terras longínquas, para trazer uma mensagem de civilidade ("as 
boas novas"). Sua pretensão era colocar o povo nordestino nos trilhos de Deus: aconselhar os 
fiéis e corrigir práticas oficiosas. O seu maior obstáculo seria a grande dimensão territorial do 
nordeste; e em muitos casos, lugarejos cujas casas estariam bem distantes umas das outras 
com um forte numero de analfabetos. 
A nossa personagem, o missionário, Frei Damião de Bozzano, filho dos camponeses 
Félix Giannotti e Maria Giannotti, nasceu no dia 5 de novembro de 1898, em Bolzano na 
região do Ádige no norte da Itália. O seu nome de batismo era Pio Giannotti. Demonstrou, na 
adolescência, gosto pelos estudos religiosos. Aos 12 anos ingressou na escola Seráfica de 
Camigliano. Aos 19 anos, seus estudos seriam interrompidos para servir a um propósito 
diferente da "missão religiosa": a guerra. Com o surgimento da Primeira Guerra Mundial, 
4 BOURDIEU, Pierre."Os Progressos da Divisão do Trabalho Religioso e o Progresso de Moralização e de 
Sistematização das Prática e Crenças Religiosas". In:______. Gênese e Estrutura do Campo Religioso. 5 ed. 
São Paulo: Ed. Perspectiva, 2004. p.37. 
5 Idem, p.38. 
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Giannotti foi convocado para lutar nas trincheiras contra a Iugoslávia - momentos esses, que 
deixaram lembranças fortes na mente da nossa personagem. 
Com o fim dos acirramentos provocados pela primeira grande guerra, Giannotti largou 
o exercito e reiniciou os estudos religiosos - o seminário. Nos idos de 1921 à 1925 frequentou 
as aulas da Universidade Gregoriana de Roma. Lá teve lições de teologia, direito, 
eclesiologia, patrologia. Diplomou-se em direito canônico, filosofia e teologia dogmática. Em 
25 de agosto de 1923, é ordenado sacerdote na Igreja São João de Latrão. Não demoraria 
muito até que o frade pisasse em solo brasileiro. Quase oito anos depois de ser ordenado (17 
de maio de 1931), veio para o Brasil, fixando residência no convento de São Felix - da ordem 
dos capuchinhos - em Recife. Os nordestinos não demorariam muito em reconhecer aquele 
que seria aclamado como Frei Damião ( por muitos, considerado como santo). 
Suas primeiras pregações foram em Recife no convento da Penha. mal dominava a 
língua portuguesa, por isso, tinha que decorar os seus sermões. Mas os fiéis despreocupados 
com a estética da língua mátria, iam assistir aos sermões do frei em busca dos milagres. 
Milagres cuja manifestação e resultado, Frei Damião, não creditava a sí, mas a Deus. 
No Convento de São Felix chegavam muitas cartas relatando curas, milagres e 
bênçãos recebidas. Obra de Deus respondia Damião, mas o fato é que sua vida era 
considerada um instrumento para que os milagres acontecessem - isso ficou implícito em suas 
falas e, ele não negava. Os fiéis ansiava por ver a manifestação do sagrado.6 Por mais que 
quisesse se afastar das representações (a margem de suas intenções) construídas em torno de 
si, entretanto, difícil de não usufrui os benefícios que isso lhe traziam e de se desprender de tal 
imagem, pois, "cada povo representa seus heróis históricos ou lendários de determinada 
maneira variável segundo os tempos", construímos sujeitos colocando-lhe representações ao 
sabor das possibilidades e necessidades do momento, "os quais está em contato, do seu 
caráter, da sua fisionomia, dos traços distintivos do seu temperamento físico e moral".7 
O Frade acabou sendo incorporado ao panteão de seres admirados - pelo menos por 
alguns - do nordeste. Sua imagem ficou tão próxima de outro individuo daquela região - 
6 Cf. ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1992. 
7 DURKEIM, Émile. " A Noção de Espíritos e de Deuses". In.:_________. As Formas Elementares de Vida 
Religiosa: o sistema totêmico na Austrália.Tradução. Pereira Neto; revisão José Joaquim. – São Paulo; Ed.. 
Paulinas, 1989. p.300. 
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Padim Ciço - que o frade foi assimilado em alguns casos à imagem de seu antecessor, sendo 
chamado por "Meu Padim Ciço Romão"; e em outros, em momentos de aflição de habitantes 
do nordeste, sua figura foi eleita como sucessor de "Padim Ciço" ou, em pé de igualdade, 
como demonstra esta frase: “Valhei-me, Frei Damião! Valhei-me, meu Padim Ciço!”.8 
Frei Damião não nutria amores com os afazeres da parte administrativa, ou, rotineira 
da igreja, " [...] Frei Damião nunca foi um vigário de paróquia, daí que sempre esteve isento 
do peso administrativo de uma Paróquia. Nunca fez uma pastoral como se faz hoje. Era um 
frade caminhante, nômade, andante ". Era um homem de ação, embora versado em letras, 
preferiu ir para o meio do povo, alcançar almas de forma simples que os fiéis entendessem. 
Ele ajudou a disseminar as santas missões pelo nordeste. Para o Frei, elas eram de 
extrema necessidade para o livramento das almas: “livrá-los do Demônio, que queria afastá-los 
da Igreja e fazê-los abraçar outro credo”.9 Assim, as missões tinha o objetivo de limpar as 
impurezas existentes na "comunidade dos fiéis"; a igreja tinha que direcionar as ovelhas 
desgarradas, além de proteger-se do avanço do protestantismo e outros credos.10 
As Santas missões realizadas pelo nordeste, tinha a duração de alguns dias. Por onde 
passava o frade atrai multidões: casais de namorados, amigos, vizinhos, crianças, solteiros e 
toda sorte de pessoas chegavam para vê-lo. A cidade transformava-se, as pessoas afluíam até 
onde ele estivesse para os mais diversos intentos: toca-lhe, assistir aos sermões, a espera de 
um milagre ou simplesmente por curiosidade. O comercio local lucrava com sua chegada. Sua 
estadia numa região era seguida por aumento nas vendas de comida e de objetos religiosos - 
ou considerados como tal. 
O auge das santas missões era a conversão da população à vida sacramental. Nelas 
aconselhava-se e corrigia-se a falta cometida pelos fiéis: os casamentos religiosos aconteciam, 
os batizados eram realizados, as confissões ministradas etc. Seu sucesso era medido pela 
quantidade de sujeitos que aceitavam às práticas que conduziam até o céu. Aqueles que se 
8 DA CRUZ,João Everton. "Caminhando com Frei Damião no Sertão Nordestino: uma experiência 
Missionária".In:_________.http://meuartigo.brasilescola.com/religiao/caminhando-com-frei-damiao-no-sertao- 
nordestino.htm. Acessado em 26/11/2010. 
9 Idem. 
10 Cf. ANDRADE, Péricles. Sob o Olhar Diligente do Pastor: a Igreja Católica em Sergipe. São Cristóvão: 
Editora da UFS/Fundação Oviêdo Teixeira, 2010. 
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deixasse ser conduzido nos trilhos de Deus encontrariam as bênçãos e graças no mundo 
vindouro, se fossem favorecido pela divindade, naquele momento mesmo, eram atendidas as 
preces. 
Memórias Sobre Frei Damião em Boquim/Se - as Santas Missões na terra da laranja 
Durante os anos de 1972 e 1974, geralmente, no mês de novembro, a cidade de 
Boquim viveu momentos de satisfação com a vinda de Frei Damião para Boquim. Durante o 
ano, a população se organizava para os movimentos da igreja, onde as comunidades se 
juntavam para demonstrar sua fé, respeito e entusiasmo diante das manifestações religiosas 
realizadas na cidade. Anualmente acontece a Festa da Padroeira da cidade, onde os fiéis 
prestam lhe homenagem, que constituem em novenas, missas e procissão, onde todos 
participam com grande devoção. 
Para os fiéis essas manifestações religiosas, “eram o momento alto da religiosidade 
popular, onde existia o espírito receptivo nas pessoas que procuravam interiorizar a palavra de 
Deus na sua essência”. As demonstrações de fé durante a procissão eram vistas pela 
população nas ruas, onde tomava grande parte da massa dos fiéis, várias pessoas vinham dos 
arredores da cidade para participar da procissão, conduzindo a imagem da padroeira, pelas 
ruas, onde os devotos acompanhavam fervorosamente, culminando com missa festiva. 
Contudo, a ansiedade dos fiéis era grande pelas ruas da cidade, para ver o cortejo 
passar com o andor da santa, muitos devotos acompanhavam a procissão, outros ficava em 
frente das casas olhando a procissão que passava. Portanto, grande parte da população 
costumava participar dessa manifestação religiosa que acontecia todo ano na cidade. Mas o 
povo também tem o costume de participarem de outras festas, como Festas Juninas, Natal e 
Ano Novo. Mas a festa de destaque na cidade era a tradicional “Festa da Laranja”, onde por 
vários anos se destacou devido o cultivo dela na cidade. 
Durante toda essa época a cidade se organizava para a festividade, recebendo vários 
visitantes para mostrar o produto da casa. A laranja na segunda metade do século XX, se 
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caracterizar como uma fase muito importante tanto para a cidade quanto para o município, em 
função da citricultura, que era bastante comercializada pela população e os visitantes. 
Devido a divulgação da festa da laranja, muitas pessoas só vinham para prestigiar os 
shows que ocorria durante a festa, a cidade mantinham a tradição de realizada os festejos a 42 
anos em datas móveis durante quatro dias. Conhecida nacionalmente, a festa faz parte do 
calendário cultural da cidade. Com base econômica forte, Boquim, chegou a ser um dos 
maiores produtores de laranjas do país. 
Mediante ao desenvolvimento na agricultura, o comércio local foi um dos mais 
importantes dos municípios. A cidade mantinha duas grandes pensões nessas épocas de 
festividades. A sede do município chegou a ter o maior cinema da região, que passava filmes 
de 35 mm e tinha capacidade para 300 espectadores, onde a população participava de várias 
sessões aos finais de semana. Mas hoje a população não desfruta mais dessa cultural local, por 
motivo pessoal o proprietário desativou o cinema e hoje no local está uma igreja evangélica. 
Também a Associação Cultural passou a ser uma espécie de academia e escola de capoeira, a 
tão famosa lavandeira da fonte da mata foi desativada e hoje a estrutura foi mudada para 
melhor locomoção da população. 
Nesse período o povo de Boquim contava com variável área de lazer, como a 
Associação Cultural e Recreativa Boquinense, onde a população tinha o hábito de fazer baile 
e se divertirem muito, também tem na cidade a famosa Fonte da Mata, onde inspirou o nosso 
poeta maior da cidade, o famoso Hermes Fontes. Lá na fonte da Mata também existia uma 
grande lavandeira, onde muitas vezes os moradores iam lavar suas roupas, vislumbrando a 
visão daquela riqueza que temos em nosso município. Durante muito tempo, a população 
carente da cidade saia de suas casas para lavar suas roupas, lavavam por encomendadas. 
Na segunda metade do século XIX, surgem as missões populares pelo sertão 
nordestino, onde os freis saíram de cidade em cidade pregando os seus sermões e ministrando 
a palavra de Deus para os fiéis. Diante da notícia dessas missões pelo sertão, o pároco da 
cidade trouxe frei Damião para pregar a Santa Missão em Boquim. A população da cidade 
ficou eufórica, quando o padre anunciou, numa missa, sobre a presença do frei na cidade. A 
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chegada dele, foi motivo de festa, satisfação e fé, os fiéis receberam o frei com alegria e 
cantos. 
Com a notícia da chegada do frei, os fiéis ficaram aglomerados nas ruas da cidade 
aguardando os missionários chegar. Eles por várias horas ficaram em frente ao colégio Santa 
Teresinha, em frente à matriz da igreja para aguardar o frei sair do colégio e em seguida 
acompanhá-lo até a matriz. 
A partir de várias entrevistas realizadas é possível perceber a devoção dos fiéis com 
frei Damião. No momento da chegada do frei na cidade os devotos reuniam-se na frente da 
igreja aguardando os missionários aparecerem com devoção e em total demonstração de fé. 
Durante sua permanência na cidade, muitos acreditavam que o mesmo operava milagres. 
Devido essa notícia, várias pessoas ficavam na espera dos missionários para poderem receber 
às bênçãos. 
Vale ressaltar que a Santas Missões foram ministradas pelo frei Damião, apesar de, 
mesmo falando baixinho, os devotos demonstravam bastante satisfação nas missas - por ser ” 
um frade respeitado e amado pelo povo, pregador do evangelho e zeloso pela doutrina”. 
Segundo Maria Almeida: “as vezes, em nome desse zelo, até feria as pessoas por causa de 
algo que não aceitava , era 'Santo e rígido'.Quando o frei chegou na cidade, as pessoas 
rezavam, assistiam as palestras, mas cada palestra tinha o horário detalhando pelo o 
missionário.” Tinha horário específico paras as crianças, para os jovens, outro para as 
senhoras e outro horário para os homens, após a celebração dos sermões, os fiéis faziam suas 
confissões, comungavam da ceia eucarística, participavam das procissões matinais de 
penitência, rezava para Nossa Senhora e ouviam a pregação do evangelho. "Era momento de 
muita paz durante as pregações do frei".11 
Os enfermos iam ao encontro de Damião para obterem a restauração da saúde. havia 
aqueles que não conseguiam se aproximar do missionário na igreja, em um gesto de 
compaixão e imitação do exemplo de Jesus, o clérigo saia de onde estava para acudir os 
despossuídos de saúde. 
11 ALMEIDA, Maria. Entrevista concedida no dia 07 de novembro de 2010. 
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Durante a permanência dele na cidade, muitas pessoas viam frei Damião como um 
santo, a exemplo de Dona Aliete Menezes que comentou: “Quando vi o frei pela primeira 
vez", ela pensou, "será que ele vai aguentar caminhar, mas quando ele botava o pé na estrada, 
eram os anjos que levavam ele. Porque menino novo, ele xotava viu, não conseguia 
acompanhar ele”12. Quando o frei estava na cidade, a população se aglomerava em frente à 
igreja para participar das novenas, vinham vários fiéis das comunidades, a praça ficava 
pequena diante de tanta demonstração de fé. 
Sua presença na cidade trouxe vários fiéis a conversão, muitos aproveitaram o 
momento da manifestação religiosa, para expressar sua devoção e fé diante do frei. A santa 
missão teve a função de converter o pecador a religiosidade cristã, aqueles devotos que 
estavam afastados da igreja, começaram a participar da missa e ouvir as pregações. No 
decorrer das Santa Missões, os devotos aproveitavam o momento pra confessar os seus 
pecados e “receber Jesus na Eucaristia”13. Para Dona Josefa Meneses a cidade naqueles dias 
passava por uma atmosfera mística. Ela alega ter visto a Santas Missões como momentos de 
graças, onde o povo “participava com fé e amor, pois sabia que era uma verdadeira catequese 
e evangelização de todos”14. 
Em outro momento, Dona Maria Antônia salienta, naquela época as santas Missões 
“eram consideradas como momento de conversão, de perdão, arrependimento dos pecados e 
preparação para a viagem definitiva até Deus”15. Portanto, quando o frei chegou à cidade, os 
próprios fiéis eram que organizavam tudo, arrumavam o palanque diante da igreja, para às 
novenas e as missas. Nessas santas missões muitas vezes faziam novenas nas casas dos fiéis, 
como cita Dona Maria Antônia Dias. A mesma comenta que as novenas que existiam naquela 
época eram “a novena de Santo Antônio com dona Eulina e a Novena de São João Batista 
com dona Argemina”16. Durante as novenas, as festas sempre foram animadas e com muita 
12 Ibidem. 
13 MENEZES, Josefa Miguel de. Entrevista concedida no dia 17 de outubro de 2010. 
14 Idem. 
15 ANDRADE, Maria Antônia Dias. Entrevista concedida no dia 23 de novembro de 2010. 
16 Idem 
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gente, a população mantinha um espírito de oração e penitência esperando os missionários. 
Cada missa feita pelo frei à igreja lotava de fiéis para ouvir seus sermões. 
A veneração chegou a tal nível que muitos devotos o viam como santo operador de 
milagres. Dona Antônia, vai além, pois considera o frei como “representante de Cristo que 
chegava a Boquim para ensinar as verdades esquecidas pelo povo”17. Devido a Frei Damião 
ser comparado a um santo, houve alguns milagres que foram atribuídos a ele, os próprios fiéis 
comentam que foi ele quem concebeu, diante da palavra de Deus, um desses milagres. Uma 
das entrevistadas, dona Caetana da Silva, comentou: 
Recebi uma benção do frei Damião: o filho tinha um problema de saúde 
muito sério, muito sério mesmo. O menino ficava batendo com a cabeça 
direto, e com isso começava a sangrar. Nesse tempo tudo era muito 18difícil, 
foi quando teve uma santa Missão na cidade, mesmo morando em povoado, 
eu consegui trazer ele até o frei Damião. Quando cheguei com ele na casa do 
padre João Batista, o frei estava recebendo umas pessoas e conversando com 
elas, foi quando eu entrei com ele no braço e sentei. Ai, o frei perguntou: 'o 
que eu queria', eu respondia a ele:' queria que ele rezasse na cabeça do meu 
filho', e fui explicando a ele a situação né, foi quando ele colocou a mão na 
cabeça dele e rezou lá uma oração né, só ele sabe o que rezou né, ele botou a 
mão na cabeça ai depois fez o sinal da cruz na testa dele, ficou passando a 
mão na cabeça dele, depois deu um tapinha na costa e disse que nunca mais 
você vai bater sua cabecinha, foi a última vez, nunca mas vai acontecer isso, 
ele tem uma memória excelente, ele não tinha condição de estudar, depois 
disso, ele estudou, hoje está formado, e problema na cabeça dele graças a 
Deus não tem, eu recebi essa graças através da minha fé. 
Houve outros relatos de milagres atribuídos à santa missão de frei Damião, como 
podemos constatar: 
Segundo dona Josefa Durval, frei Damião salvou ela e uma criança que esperava: 
Quando estava esperando Raimunda, passei muito mal, quando tive ela andei 
morrendo, ela atravessou na barriga e ainda tinha que ter em casa, depois foi 
que mandaram a ambulância para me buscar, porque morava na fazenda dos 
pilões, ai mandaram a ambulância para me buscar e na hora que a 
ambulância chegou, ai a menina nasceu atravessada, mas quase que morria, 
ai quando fiquei eu sair de gravidez de Teresinha ,já fiquei com medo, pelas 
17 ANDRADE,Maria Antônia Dias. Entrevista concedida no dia 23 de novembro de 2010. 
18 SILVA, Maria Caetana da. Entrevista concedida no dia 24 de agosto de 2010. 
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minhas contas ,já tinha mas de 9 meses e eu fiquei doida, doida e doida, ai 
minha madrinha Lurdes troxe eu para frei Damião benzer, ai tinha uma santa 
missão, ai madrinha Lurdes troxe eu para frei Damião benzer, ai eu fui ele 
ficou hospedado na casa de Padre João. Ai madrinha Lurdes morava 
pertinho, ainda mora né, ai agora mora perto do convento das freiras, mas a 
casa de Padre João era pegada com a de madrinha Lurdes. Ai troxe eu levou 
lá aonde tava frei Damião, ai ele rezou na minha cabeça, na minha barriga, ai 
disse, olhe não tenha medo quando você dê 3 dores, a menina nasce, ai eu 
fiquei mangando até do padre, ai eu disse oxé ele deve está broco, quando eu 
dê 3 dor a menina nasce, ai eu disse a madrinha Lurdes, o missionário disse 
quando eu 3 dor a menina ia nascer, ela disse, vai ser assim mesmo. Oxé de 
Raimunda quase morro e de Teresinha é que vou ter assim ligeiro, mas foi 
dito certo, a mesma coisa que ele disse oxé quando interou um 1 mês eu tive 
ela, ai deu uma dor 5 hora da manhã, deu 1 depois deu 2, nas 3 a menina 
nasceu.A mesma coisa que ele disse, ai se a gente já tinha fé nele ,ficamos 
com mais fé. Portanto devido a fé que a fiel teve, diante das palavras de 
Deus, fez com que salvasse sua vida e de sua filha, ao mesmo tempo que sua 
devoção cresceu mais diante do frei Damião19. 
Diante desse fato muitos fiéis acreditavam no poder que frei Damião tinha, por onde 
passava pregava sempre a palavra de Deus e deixavam todos bastante satisfeitos com o seu 
sermão. Como ele era considerado servo de Deus, Dona Maria Senhora de Menezes via o frei 
como: "Apóstolo de Deus" , como qualquer sacerdote, "porque o sacerdote tem a missão de 
permanecer sempre na paróquia, evangelizando, celebrando a santa missa e o frei Damião era 
um frei missionário, pregando missão de cidade em cidade aonde o espírito santo lhe manda-se". 
20 
Ao retornar à igreja várias mulheres devotas se abraçavam diante de todos, e pediam 
perdão a Deus pelos seus pecados. No tocante ao sermão de frei Damião, as pessoas vinham 
de longe só para se confessar com ele. Outros nem entendiam “o que ele falava, mas vinham 
só para ficar perto dele, na expectativa da escuta da palavra de Deus”21. 
Nessa época, muitos fiéis que moravam juntos aproveitaram a presença do frei na 
cidade para se casarem - houve vários casamentos, batizados, crismas e comunhões. A 
quantidade de quantos pessoas regularizou-se, perante a igreja, não consta no livro de tombo 
19 DURVAL, Josefa Santos. Entrevista concedida no dia 24 de outubro de 2010. 
20 MENEZES, Maria Senhora Miguel de Menezes. Entrevista concedida no dia 15 de outubro de 2010. 
21 Idem. 
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da paróquia, só existe o registro afirmando que a população esperava o momento da chegada 
do frei para se casarem. 
sua imagem como apostolo de cristo se torna mais evidente quando os fiéis começam a 
comentar dos poderes miraculosos do frei Damião em expulsar os Demônios. Lembrando que, 
os discípulos (como está no evangelhos) tinham o poder de curar (feito que já era-lhe 
atribuído), e expulsar os demônios. Esta entidade, assim como ventos maléficos, lobisomens e 
outros mais, fazem parte do arsenal cultural dos nordestinos. 22 
Sobre esse fato Dona Maria Antônia comenta: ”Claro. Não só frei Damião como 
qualquer padre de 'boa vida' pode expulsar demônios".23 Seguindo nessa linha de pensamento, 
dona Maria Senhora acrescenta: “eu acredito, porque o senhor Jesus deu poder a todo o 
sacerdote e ao discípulo de expulsar os demônios”24. 
Contudo, boa parte da população acreditava que Damião expulsava demônios, por 
devoção, fé e oração. Diante dos fatos, alguns fiéis comentam sobre isso, uma dessas fiéis é a 
senhora Josefa Miguel de Menezes, que fala: ”Não só frei Damião como tantos outros 
sacerdotes, pelo poder que ele recebeu de Deus, quando o padre é ordenado; ele recebe um 
poder diferente dos católicos fiéis como nós, ele tem uma coisa diferente da gente”25. 
Mas uma coisa era certa: frei Damião jamais gostava que alguém lhe faltasse com 
respeito. Na maioria das vezes que isso acontecia, as pessoas sofriam as consequências dos 
atos no mesmo instante, era fração de minutos. Narra-nos Dona Maria Elder sobre um 
episódio: 
Houve um episódio que aconteceu na feira, uma manhã uma menina passou 
por ele, e chamou de corcunda, ele só virou o rosto por cima do ombro e 
disse Deus te abençoe ai a menina caiu. A menina caiu mesmo durinha lá, só 
22 Isso aparece nos depoimentos de dona Maria Antônia Dias Andrade, Maria Oliveira de Almeida, Aliete 
Miguel de Menezes e Josefa Miguel de Menezes. 
23 ANDRADE, Maria Antônia Dias. Entrevista concedida no dia 23 de novembro de 2010. 
24 MENEZES, Maria Senhora Miguel de. Entrevista concedida no dia 15 de outubro de 2010. 
25 MENEZES, Josefa Miguel de. Entrevista concedida no dia 15 de outubro de 2010. 
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levantou quando ele foi lá e botou a mão na menina, agora o porquê também 
não sei, se ele também possuía além da religiosidade , se ele possui alguma 
coisa nós não ficamos sabendo26. 
Diante disso, a população sempre comentava sobre o episódio ocorrido na cidade, mas 
mesmo assim ninguém nunca descobriu sobre essa proteção que o frei tinha que na maioria 
das vezes as pessoas eram castigadas sem ao menos ele tocá-las. Tiveram outros fatos que as 
pessoas presenciaram, mas não quiseram comentá-los. 
Considerações Finais 
As práticas devocionais estão estritamente ligadas ao campo religioso brasileiro. Mais 
do que isso. A fé é condição inerente aos seres humanos, pois as expressões de religiosidade 
revelam as diferentes visões de mundo, os sonhos, desejos da sociedade. A fé também 
vivenciada sobre a sociedade constrói grupos e separam tantos outros e carrega os sonhos e as 
perspectivas para dias melhores. 
Essa artigo discutiu a preparação e repercussão das duas santas missões que o 
capuchinho mais popular realizou na Terra da Laranja. Tudo foi acompanhado pelo olhar 
atento das beatas que o acompanharam nos dias impetuosos. Tudo foi visto e guardado nas 
memórias individuais de mulheres e homens que viviam na cidade no alvorecer daquela 
década. 
Essas memórias se tornaram em bem coletivo. As crenças supersticiosas e o mistério 
alimentaram as lembranças e construíram um imaginário rico e diversificado. Na crença 
popular do povo de Boquim, santos e demônios conviviam na naqueles dias de Santas 
Missões. 
Para além desta devoção comum, a padroeira e a frei Damião, denotamos que cada 
indivíduo possui sua particularidade de entender a presença do frade em Boquim. Cada trama 
apresentada pelos entrevistados exibiu um modo de ser, viver e perceber o missionário 
Damião. 
26 SANTO, Maria Elder do Espírito. Entrevista concedida no dia 30 de outubro de 2010. 
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MEIHER, José Carlos Sebe Bom. História oral: como fazer, como pensar. São Paulo: 
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SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade 
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VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos Pecados: moral, sexualidade e inquisição no Brasil. Rio de 
Janeiro: Nova Fronteira, 1997. 
Fontes Orais Consultadas 
ALMEIDA, Maria. Entrevista concedida no dia 07 de novembro de 2010 
ANDRADE, Maria Antônia Dias. Entrevista concedida no dia 23 de novembro de 2010. 
MENEZES, Josefa Miguel de. Entrevista concedida no dia 17 de outubro de 2010 
MENEZES, Aliete Miguel de. Entrevista concedida no dia 15 de outubro de 2010 
SANTO, Maria Elder do Espírito. Entrevista concedida no dia 30 de outubro de 2010. 
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SANTOS, Josefa Durval. Entrevista concedida no dia 24 de outubro de 2010. 
SILVA, Maria Caetana Da. Entrevista concedida no dia 24 de agosto de 2010. 
Livro de tombo da Igreja Matriz Senhora Santana, 1972.p.58 
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07. “UMA CAPITAL EM PROCESSO DE SECULARIZAÇÃO”: ARACAJU ÀS 
VÉSPERAS DO CONCÍLIO VATICANO II 
Eduardo Augusto Santos Silva 
Resumo: 
O presente artigo traz uma reflexão acerca de como os impactos da “modernidade” durante a 
primeira metade do século XX contribuíram para uma secularização da moral cristão-judaica 
na sociedade ocidental, especificamente, em Aracaju. Observamos através de leituras de Eric 
Hobsbawm como o surgimento e as crescentes inovações tecnológicas, principalmente, nos 
meios comunicação de massa contribuíram para a mudança nos hábitos cotidianos tradicionais 
do mundo ocidental. Vimos como o desenvolvimento dessa orientação secular motivou a 
Igreja Católica a iniciar o Concílio Ecumênico Vaticano II em 1962 a fim de dialogar com a 
modernidade. Em seguida, verificando a realidade brasileira a partir de Riolando Azzi, 
notamos que durante os anos 1950 novos costumes se desenvolveram, progressivamente, no 
Brasil e favoreceram a secularização dos costumes religiosos de tradição católica, como a 
importação de ritmos musicais estrangeiros e a expansão das opções de lazer noturno, que 
incentivou a sexualidade a ganhar uma dimensão diferente da cristã. Por fim, somamos as 
discussões mencionadas com uma análise da sociedade aracajuana baseada nas contribuições 
de Ibarê Dantas e de pesquisas no periódico oficial da Arquidiocese de Aracaju “A Cruzada”. 
Palavras-chave (quatro): Igreja Católica; Concílio Vaticano II; Aracaju; Secularização. 
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08. A POSIÇÃO DOS CRISTÃOS NOVOS NA SOCIEDADE AÇUCAREIRA NA 
PRIMEIRA VISITAÇÃO DO SANTO OFÍCIO À AMÉRICA PORTUGUESA 
Ernania Santana Santos 27 
Resumo: 
Durante o século XVI, os cristãos-novos desempenharam papel importante na composição da 
sociedade açucareira, sendo significativa o seu desempenho no setor econômico, onde viviam 
com uma relativa liberdade para praticar sua antiga fé judaica. Mas, não demorou muito e 
logo passaram a conviver com a sombra que teimava em atormentá-los e persegui-los, era o 
braço secular do santo ofício. Aos nove dias do mês de junho de 1591, aportou na Bahia em 
companhia do governador geral, D. Francisco de Souza, o licenciado Heitor Furtado de 
Mendonça, dando início à primeira visitação do santo ofício à América portuguesa. 
Palavras-chave: Inquisição, Sociedade, Perseguição, Cristãos-novos. 
INTRODUÇÃO 
Na primeira visitação do Santo Ofício à América portuguesa, quando a incipiente colônia 
ainda findava o primeiro século de sua colonização, já se percebia a presença de um grande 
número de cristãos-novos que aqui habitavam e desempenhavam algumas funções na 
administração, bem como na economia colonial local, tendo como principal atividade 
econômica a produção do açúcar. Essa primeira visitação, através da documentação produzida 
nos permitiu conhecer diversos aspectos do cotidiano colonial, principalmente no que diz 
respeito às práticas religiosas de seus habitantes. 
Aos vinte e nove dias do mês de julho de 1591 deram início as confissões da capitania 
da Bahia e recôncavo baiano, tendo suas atividades finalizadas em setembro de 1993. Entre 
setembro de 1593 e fevereiro de 1595 foi à vez da capitania de Pernambuco, Itamaracá e 
Paraíba. Como sabemos, não obstante, o tribunal da inquisição fora criado em Portugal no ano 
de 1536, tendo, portanto, cinquenta anos de sua existência até sua chegada ao Brasil, onde 
nunca houve a fixação do mesmo. 
As razões dessa primeira visitação são divergentes por parte da historiografia que 
estuda o tema, enquanto alguns estudiosos atribuem somente ao aspecto econômico, na 
27 Graduada em história pela Universidade Federal de Sergipe – UFS, integrante do Grupo de pesquisa 
Diáspora Atlântica Sefardita. 
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medida em que aqui, já se encontravam desde a colonização um grande número de Cristãos 
novos bem estruturados no que diz respeito as suas atividades econômicas, outros preferem 
apostar na necessidade de homogeneização e manutenção do catolicismo, por parte da igreja 
católica, caracterizando assim o aspecto religioso, enquanto que outros especialistas 
consideraram todos os aspectos citados acima como preponderantes para a realização da 
mesma. 
Nesse momento da primeira visitação do braço secular, o nordeste açucareiro 
apresentava uma realidade diversa, plural, e heterogênea, composta por elementos católicos, 
negros, indígenas e judaicos que mesclaram na colônia criando uma religião sincrética e 
intrinsecamente colonial. 
“Cabia a ação do Santo Ofício, somar esforço no sentido de 
homogeneizar a humanidade inviável, trazer a fé católica os idólatras e 
infiéis da colônia a fim de se povoar e aproveitar a dita terra, punindo 
os transgressores, blasfemos, hereges, sodomitas, falsários, dando-se a 
sentença e executando. (SOUZA, 1986: 71). 
A análise da documentação nos permite a partir das confissões e denunciações dos 
inquiridos e confidentes traçar um quadro rico em informações e nós permitimos ter um 
retrato do Brasil naquele primeiro século de colonização, haja vista que traz a luz um rico 
quadro das ideias, sentimentos, fantasias, aspirações, atividades econômicas, bem como da 
sociedade da época, na medida em que terça um panorama das variadas condições sociais dos 
colonos, dos modos de viver e de falar, da alimentação, das diferentes culturas, das relações 
de convivência entre cristãos velhos e novos, entre senhores e escravos etc. 
Contudo a ênfase do nosso estudo aqui, busca priorizar a posição social dos cristãos 
novos na colônia, bem como, de compreender como eles foram perseguidos e considerados 
tão subversivos, naquela conjuntura, a ponto de serem acusados de difundir no meio cristão 
suas crenças em detrimento da ordem eclesiástica estabelecida. Para Novinsky, "os cristãos 
novos, como antes deles os judeus, foram acusados de ser diferentes na conduta e no caráter, 
devido a discrepâncias inatas”. De nada adiantará a conversão, o cristão-novo continuava 
marcado pelas características associadas aos judeus . (NOVINSKY, 1992: 33). 
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A religião exercia sobre os homens do século XVI, uma influência, ao mesmo tempo 
profunda e opressora, da qual era impossível escapar. Desde o primeiro século da colonização 
a colônia apresentava duas faces uma detratora e uma edenizadora. Esses antagonismos foram 
apresentados por alguns padres jesuítas, bem como pelos primeiros viajantes. A autora Laura 
de Mello cita a carta do padre Azpilcueta Navarro enviada à metrópole relatando a situação na 
colônia. Essas fontes davam conta de registrar a vida pecaminosa e desregrada da gente que 
vivia no nordeste brasileiro, nesses relatos muitas vezes os padres se mostraram descrentes 
com o queriam, e consequentemente na regeneração da fé, diziam ainda que a colônia era por 
excelência o lugar do pecado, que paulatinamente se generalizava. (SOUZA, 1986: 61). 
UM PROBLEMA DA HISTORIOGRAFIA 
Para Anita Novinsky, a visitação se deve ao aspecto econômico, na medida em que 
afirma, “o mundo novo, o desconhecido, o lugar de degredo do século XVI que já começa a 
tornar-se uma terra de promissão”. Naturalmente ela se refere ao processo de diáspora dos 
cristãos-novos para a colônia, que se deu de maneira gradativa no princípio desse mesmo 
século, e se intensificou na sua segunda metade, período em que compreende nosso estudo. E 
completa ainda a autora, “as razões que trouxeram para a Bahia os visitadores e comissários 
do santo ofício da inquisição, que causaram a perda de algumas vidas e dispersão de muitas, 
foram as mesmas que impulsionaram a perseguição em Portugal: desequilíbrio econômico 
profundo, e que à tona se revestia de caráter religioso. (NOVINSKY, 1992: 65). 
Considerando a concepção de Anita Novinsky destacada na exposição, a partir da 
documentação relativa à visitação do santo ofício, a autora acredita ter se concentrado a ação 
inquisitorial no nordeste açucareiro, por registrar uma forte presença de cristãos-novos nessa 
localização, atribuindo como o único objetivo da empreitada do santo ofício a perseguição aos 
conversos. Como bem nota Luiz Roberto Lopez,5 “muitos colonizadores eram cristãos-novos, 
sujeitos aos já conhecidos preconceitos raciais e religiosos e foragidos da intolerância 
inquisitorial da metrópole.” Esta exerceu, lá rigorosa perseguição, até porque confiscava os 
bens dos convertidos e, por isto não raro forjava acusações. (LOPEZ, 1993: 132). 
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Ainda de acordo com Anita Novinsky, desde do final do século XVI, que já apareciam 
nos registros da documentação analisada, a presença de cristãos novos que viviam na colônia 
e enviavam açúcar brasileiro entre outros produtos para Hamburgo, comprovando dessa forma 
uma posição de destaque no comércio, (NOVINSKY, 1992: 88). 
Essa concepção não é uníssona, haja vista, que no diálogo com Ronaldo Vainfas, não 
obstante, ele considere o aspecto econômico proposto por Anita Novinsky, atribuí outros 
motivos para a visitação, como por exemplo, a um programa de estratégia do tribunal da 
inquisição, que até aquele momento tinha se concentrado na metrópole, e de agora em diante 
se lançaria ao ultramar, sobre essa proposição, coloca Vainfas, “não se pense que a visitação 
ao Brasil possuía o objetivo fundamental ou exclusivo de perseguir os cristãos-novos 
abrigados no trópico”. (VAINFAS, 1997: 8). 
Para José Antônio Gonçalves de Mello, não são conhecidas as razões que motivaram a 
vinda da inquisição ao Brasil, entretanto, como ela ocorreu nos dois principais núcleos 
açucareiro, pode sugerir que tivesse alguma relação com o fato de existir nas duas capitanias, 
uma grande parcela de cristãos-novos, e consequentemente de possíveis judaizantes. 
(MELLO, 1970: 2). Essa concepção de Mello, que apesar de não apontar com precisão quais 
foram as razões, faz um diálogo com Anita Novinsky, e diverge com a visão de Vainfas, que 
não descarta esse ponto, más, prefere acrescentar outros motivos. 
De acordo com Lopez, “a inquisição foi um instrumento de uniformização religiosa e 
de hegemonia política, entretanto, no Brasil, chocou-se com certas situações intransponíveis 
como, a flexibilidade dos jesuítas, motivadas pelas necessidades da catequese; a mestiçagem, 
o sincretismo religioso, provocando inesperadas fusões entre o catolicismo e os ritos 
primitivos.” Em suma as resistências implícitas da colônia não deixaram de ser as marcas 
históricas de sua originalidade inicial. 
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OS CRISTÃOS-NOVOS E SUAS FUNÇÕES NA COLÔNIA 
A partir das denúncias relatadas também foi possível perceber um retrato do Brasil 
colonial, no que diz respeito a mais importante atividade econômica no período dessa 
visitação, que compreende também os cristãos-novos como partícipes desse processo. A 
colônia portuguesa permitia, aos que dispunham de recursos em moeda corrente, vultosos 
lucros. Desse modo, atraiu os cristãos-novos perseguidos pela inquisição, que 
impossibilitados de desenvolverem seus negócios na metrópole, inicialmente empenharam-se 
no comércio, mas rapidamente tornaram-se agentes financeiros, fornecendo capital para a 
realização de safras e para a compra de escravos, adquirindo açúcar e vendendo na Europa 
com grandes lucros. (NOVINSKY, 1992: 40). 
A despeito da funções desempenhadas pelos cristãos-novos na colônia, a 
documentação pesquisada mostra uma diversidade de ofícios, como: mercadores que em 
alguns casos ascenderam à condição de proprietário de engenho; mestre de açúcar – era o 
mais especializado dos trabalhadores, espécie de engenheiro de produção – rendeiro de 
engenho, e etc. Contudo, observou-se uma predominância para os cristãos-novos que se 
denominavam lavradores. 
Que a produção canavieira fora de suma importância no cotidiano desses 
colonizadores, em que algumas vezes o açúcar foi comparado a um “Deus” pelos 
blasfemadores, não se pode negar, contudo, convém analisar melhor essa afirmação nos casos 
de denúncias de blasfêmia que se seguem. “A fé mostrava por isso mesmo, contornos 
tradicionais, arcaicos, onde a demanda de bens materiais e de vantagens concretas assumia 
grande importância, como se fosse uma espécie de contrato do tipo “toma lá-da-cá". (SOUZA, 
1986: 109). 
Pero Nunes, cristão-novo, rendeiro do engenho Del Rei, aparece em duas denúncias de 
blasfêmias por comparar o açúcar a “Deus.” Na primeira é denunciado por Maria Roiz, cristã 
velha, que ouviu dizer do dito seu marido que Pero Nunes, indo ao engenho da cidade buscar 
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o açúcar ou dízimo de Deus, disse vendo estar de baixo da pilheira, “olhai onde está Jesus 
Cristo.”Contraditoriamente, na segunda denuncia feita por Fernão Ribeiro de Souza, cristão 
velho, e que se refere ao mesmo engenho da cidade, a denúncia aparece da seguinte maneira: 
indo uma vez ao engenho da cidade e vendo o açúcar que estava apartado para o dízimo de 
Deus, estar no chão mascabado e preto, disse pois, “este é o vosso Deus, assim o tratais,” 
chamando Deus ao açúcar. 
Não é fácil entender pelos autos do processo, qual dos dois casos apontados é o 
verdadeiro, se o primeiro em que a blasfêmia é dirigida a Jesus, ou no segundo quando 
dirigida a Deus, ou ainda, se os dois são verdadeiros, bem como, não dá para atestar em que 
momento foram ocorrido, se no mesmo dia, se em dias diferentes, mas, o fato é que esse tipo 
de blasfêmia semelhante aparece também dirigida como desacato à N. Senhora, cometida por 
um mestre de açúcar, também cristão-novo não identificado, que fora denunciado por Antônio 
Dias, padre da companhia de Jesus, que ouviu dizer segundo sua lembrança ao dito padre Brás 
Lourenço em São Vicente, costa deste Brasil, que estando um mestre de açúcar enformando o 
açúcar nas formas, disse que se ali estivesse N. Senhora também a encorparia naquela forma. 
Como podemos perceber, as denúncias se caracterizavam principalmente pela 
imprecisão dos fatos para quem as fazia, chegando ao ponto de uma mesma denúncia, 
aparecer de forma diferente na boca de outros acusadores. A maior parte dos denunciantes 
repetia acusações “por ouvir dizer” e não por eles próprios testemunhado, nesse sentido 
predominavam as informações provenientes de diz-que-diz e murmurações, e são raros os 
depoimentos baseados em fatos objetivos. 
Quanto à periodicidade em que os fatos mencionados pelas testemunhas ocorreram, 
tanto nas denunciações, quanto nas confissões, não se percebe um predomínio ou maior 
incidência de um período em detrimento de outro, o que se observa é que os fatos remontam a 
períodos variados como: um dia, alguns meses, poucos anos, ou ainda, muitos anos atrás. Até 
mesmo em alguns casos, as denúncias são dirigidas a indivíduos já falecidos há alguns anos, 
como por exemplo, podemos citar os casos de Branca de Leão, a mais citada em toda a 
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documentação, mestre Afonso, pai de Branca de Leão e Pero Nunes, todos cristãos-novos 
defuntos. 
Outro dado importante do ponto de vista do aspecto social, a ser considerado refletido 
a partir da observação feita na documentação no período dessa visitação, é que na maioria dos 
casos de denúncias, como era de praxe ao final de cada testemunho, o denunciante era 
convidado a assinar sua confissão ou sua denúncia, e como muitas vezes não sabia assinar, 
assinava pela testemunha o notário do santo ofício Manuel Francisco. Com certeza a maioria 
não frequentou escola alguma e para os poucos que sabiam ler e escrever, percebe-se a 
dificuldade com que faziam, pelo tipo de caligrafia deixada no papel. 
CONCLUSÃO 
O judeu converso, isto é, convertido em católico, preservou da herança tradicional os 
preceitos e sentimentos básicos que serviriam de fundamentação para as suas respostas e 
mesmo estando fora do alcance da ortodoxia de la halajá judaica preservou inconscientemente 
a aversão hereditária ao culto das imagens, à comunhão, e a confissão , também negava a 
divindade de cristo e descria da imaculada conceição, da santíssima trindade e esperavam a 
vinda do Messias verdadeiro. (NOVINSKY, 1992: 37- 40). 
Desde o ano de fundação da inquisição portuguesa, em 1536, quando publicou seu 
monitório, documento em que constava a lista dos delitos a serem confessados ou 
denunciados ao Tribunal, a principal ferramenta da investigação foi o interrogatório, que 
causou temor e trauma à maior parte dos inquiridos. Outros crimes foram encontrados nos 
autos, como a sodomia, a feitiçaria, a bigamia, mas foram as blasfêmias heréticas que se 
constituíram no foco principal da ação do Tribunal lusitano, fato que possibilitou a 
preferência em punir os convertidos ao cristianismo que eram acusados de judaizar, os 
chamados cristãos-novos. 
O que a inquisição exigia dos seus confitentes era que trouxessem todas as suas culpas 
na memória para fazer delas uma inteira e verdadeira confissão, dizendo a verdade pura para 
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que sua alma pudesse ser salva. A cada confissão repetiam como era de praxe aquele tribunal 
que deveria examinar melhor sua consciência, esquadrinhá-la mesmo, desvendando assim as 
intenções mais ocultas. Os testemunhos se seguiam, e o mais aconselhado era se apresentar ao 
inquisidor e admitir sua culpa, mas, ao mesmo tempo declarar, que nunca acreditara em suas 
próprias afirmações heréticas. 
Quantos às denuncias atribuídas aos cristãos-novos, na sua totalidade foram 
classificadas como anti-cristãs, com maior incidência de três tipos específicos: a negação da 
divindade de Cristo, tendo como principal blasfemador Pero Nunes; os desacatos ao crucifixo, 
repetido frequentemente por Branca Leão; e a negação da virgindade de Maria tanto difundida 
por Manuel de Paredes. Para esses não era preciso venerar suas relíquias ou imagens: “Quanto 
às relíquias dos santos, são como qualquer braço, cabeça, mão ou perna, acho que são iguais 
aos nossos braços, cabeças, pernas e não devem ser adoradas ou reverenciadas, não se deve 
adorar as imagens, e sim Deus." 
Por fim, consequentemente fruto das suas inquirições e investigações impelindo as 
pessoas a fazerem delações que jogavam as pessoas umas contras as outras, essa primeira 
visitação tenha provocado desentendimentos entre os amigos, parentes, vizinhos, chegando a 
provocar ruptura nas relações entre cristãos-novos e cristãos velhos, criando preconceitos 
nunca antes ocorridos. 
BIBLIOGRAFIA: 
FERLINI, Vera Lúcia Amaral. A civilização do açúcar: séculos XVI a XVIII. 11a ed. São 
Paulo:Brasiliense,1994. 
GUINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido 
pela inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 
LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário temático do ocidente 
medieval.Bauru, São Paulo: Edusc, 2006. 
LOPEZ, Luiz Roberto. História da Inquisição. Porto Alegre: Mercado aberto,1993. 
MOTT, Luiz Roberto de Barros. A inquisição em Sergipe: do século XVI ao XIX. Aracaju: 
Sercore Artes Gráficas, 1989. 
MOTT, L. Bahia: inquisição e sociedade [online]. Salvador: EDUFBA, 2010. 294p. ISBN 
978-85-232-0580-5. Available from SciELO Books <http://books.scielo.org>. 
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NOVINSKY, Anita. Cristãos novos na Bahia: a Inquisição no Brasil. 2a ed. São Paulo: 
Perspectiva, 1992. 
OLIVEIRA, Marques. A Sociedade Medieval Portuguesa, 4a. Ed., Lisboa, Livraria Sá da 
Costa, 1981, p. 172. 
PIERONI, Geraldo, Banidos: A inquisição e a lista dos cristãos novos condenados a viver no 
Brasil. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. 
SIQUEIRA, Sonia. A Inquisição Portuguesa e a Sociedade colonial. São Paulo: Ática, 1978. 
SOUZA, Laura de Mello e. O diabo e a terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular 
no Brasil colonial. 9a reimpressão, São Paulo: Companhia das Letras, 1986. 
VAINFAS, Ronaldo. Confissões da Bahia: santo ofício da inquisição de Lisboa. Org. 
Ronaldo Vainfas, São Paulo: Companhia das Letras, 1997. 
FONTES IMPRESSAS: 
Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil pelo Licenciado Heitor Furtado de 
Mendonça: Confissões da Bahia 1591-1592. Prefácio de Capistrano de Abreu, Rio, F. 
Briguiet, 1993. 
Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil: Confissões de Pernambuco 1593- 
1595, ed. J. A. Gonsalves de Mello, Recife, Universidade Federal de Pernambuco, 1970. 
Livro 5 das ordenações Filipinas. Disponível em: http://www1.ci.uc.pt/ihti/proj/filipinas 
l5p.Acesso em: 24 de dezembro de 2012. 
1o. Livro das denunciações do santo ofício ao Brasil por Heitor Furtado de Mendonça. 
Disponível em: http://digitarq.dgarq.gov.pt/ViewerForm.aspx?id=2318685. Acesso em: 10 de 
dezembro de 2012. 
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09. SIMÃO DIAS: DE UM VAQUEIRO A UMA CIDADE. O CICLO DO COURO E 
AS ORIGENS DO MUNICÍPIO DE SIMÃO DIAS NO SÉCULO XVI E XVII 
Jessica Messias dos Santos28 
Resumo: 
Várias versões de um personagem que marcou a origem do município de Simão Dias, Neste 
artigo irá conhecer o contexto histórico antes e no decorrer do surgimento desse personagem 
emblemático que mesmo sendo vaqueiro ou o proprietário de terras e gado sua origem está 
vinculada com a sociedade do Couro, primeira atividade econômica das terras de Sergipe Del 
Rey. Sua existência chegou a ser questionada devido a discordâncias de versões e Simão Dias 
passou a se chamar Anápolis, entretanto sua participação histórica na contribuição para 
formação desse município é tão relevante que o município voltou a levar seu nome. 
Palavras-chave: Sesmaria – Invasão holandesa – Simão Dias – Identificação 
Para entender melhor as versões que circundam sobre a figura do emblemático 
Simão Dias, é preciso se situar no contexto histórico anterior ao seu surgimento. 
Na época da colonização de Sergipe, Portugal estava dominado pela Espanha 
através da união Ibérica. Estes dois reinos formavam a coroa luso-espanhola, com isso os 
Filipes tiveram participação direta nas decisões sobre a conquista de Sergipe Del Rey. As 
terras entre o rio Real e o São Francisco pertencia ao governo luso-espanhol, entretanto 
estavam vulneráveis a invasores, pois não contavam de fato com o domínio real. Após a 
tentativa frustrada de catequizar os indígenas que habitavam as terras de Sergipe Del Rey e 
como havia interesse em dominar esse espaço, principalmente por parte de Luiz de Brito 
governador da capitania da Bahia, o governo luso-espanhol juntamente com o governo baiano 
organizou a “guerra justa” para conquistar de forma violenta esse território. 
28 Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe. Orientada pelo Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro 
Dos Santos. 
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Era considerada justa, pois já tinha sido tentado dominar o território de forma pacífica 
através da catequização com o jesuíta Gaspar Lourenço, mas a maioria dos índios revoltosos e 
não se renderam. 
Os primeiros habitantes das terras que mais tarde seria o município de Simão Dias 
foram índios remanescentes da tribo dos Tapuia, integrante da missão do jesuíta 
Gaspar Lourenço, que para fugir à perseguição da expedição de Luis de Brito, 
governador da Bahia, na sua tentativa de conquista do território sergipano, ali se 
refugiaram em fins do século XVI, estabelecendo-se nas florestas do Caiçá. (Fonte: 
http://www.ibge.gov.br/cidadesat/painel/painel.php?codmun=280710) 
Após a guerra justa, é fundado o primeiro esteio de dominação do governo São 
Cristovão, e a partir daí, a capitania da Bahia estava responsável pela capitania de Sergipe Del 
Rey com isso também foram distribuídas Sesmarias para os que lutaram na guerra contra os 
índios. O maior interesse desses sesmeiros era para a criação do gado, mas também para 
pequenas lavouras. O principal criador de gado era o baiano Garcia D’Àvila que estimulou o 
governador Luiz de Brito na luta armada contra os tupinambá. 
Antes da união Ibéria, Portugal tinha um lanço econômico muito forte com a Holanda 
que era responsável pela comercialização de todo açúcar produzido por Portugal. Entretanto 
Espanha e Holanda não se davam muito bem. E com isso durante o Governo luso-espanhol 
Portugal estava proibido de comercializar com a Holanda. Gerando um prejuízo tanto para 
Portugal quanto para os países baixos, como podemos observar nessa citação abaixo: 
Portugal e Países Baixos, antes da união daquele à coroa espanhola, mantinham 
largo comércio, no qual os navios neerlandeses traziam para os portos portugueses 
não só mercadorias do norte da Europa – trigos, madeira, metais e manufaturas 
diversas – como produtos da sua própria indústria, sobretudo peixe, manteiga e 
queijo; de torna-viagem carregavam o sal grosso de Setúbal, vinhos, especiarias e 
drogas do oriente e da África, açúcar e madeiras do Brasil. Ao ser aquele país 
envolvido na luta entre a Espanha e os “rebeldes” holandeses em 1580, esta 
negociação era-lhe de vital importância. Por mais de uma vez (1585, 1596,1599) 
navios neerlandeses sofreram por ordem dos Filipes, embargos mais ou menos 
prolongados em portos de Portugal, ocasionando interrupções temporárias do 
comércio e consequente escassez dos gêneros que ali iam buscar, sobretudo do sal, 
ingrediente essencial às indústrias do pescado e dos laticínios. Tal ato forçou os 
holandeses a procurar o abastecimento de sal nas ilhas de Cabo Verde, com o que 
iniciaram a sua navegação rumo às colônias ultramarinas ibéricas. Entretanto, 
tonara-se de tal modo indispensável para a economia portuguesa a navegação dos 
holandeses, que os Reis da Espanha cederam aos protestos dos mercadores e à 
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  • 1. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Anais Eletrônicos - N⁰ 01-2014. ISSN: São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 1
  • 2. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Anais Eletrônicos – 2014 Título: Anais Eletrônicos – IV Colóquio do GPCIR: “Outros – Biografia e sujeitos históricos” ISSN: Organizadores: Antonio Lindvaldo Sousa (Coordenação Geral) Claudefranklin Monteiro Santos (Coordenação Adjunto) Ane Luíse Silva Mecenas (UNISINOS/ UNIT/ membro do GPCIR) Magno Francisco de Jesus Santos (UFF/ Faculdade Pio X/ membro do GPCIR) Vladimir José Dantas (Faculdade Pio X/membro do GPCIR) Thiago Fragata (Museu Histórico de Sergipe/ membro do GPCIR) Aquilino José de Brito Neto (UFS/ membro do GPCIR) Andreza Silva Mattos (UFS/ membro do GPCIR) Leonardo Matos Feitoza (UFS/ membro do GPCIR) Priscilla Araujo Guarino Silveira (UFS/ membro do GPCIR) André Sá (membro do GPCIR) Eduardo Augusto Santos Silva (UFS/ membro do GPCIR) Josineide Luciano Almeida Santos (membro do GPCIR) Rosana Oliveira Silva (membro do GPCIR) Tamires dos Anjos Oliveira (membro do GPCIR) Raquel de Fátima Parmegiani (UFAL) Monica Liz Miranda (UFVJM) Severino Vicente da Silva (UFPE) Edição: 1 Ano da Edição: 2014 Local de Edição: São Cristóvão-SE São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 2
  • 3. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Tipo de Suporte: Internet Editora: UFS Organização dos Anais Eletrônicos: Antônio Lindvaldo Sousa Andreza Silva Mattos Claudefranklin Monteiro Santos Priscilla Araujo Guarino Silveira Revisão: Andreza Silva Mattos Leonardo Matos Feitoza Diagramação: Andreza Silva Mattos Eduardo Augusto Santos Silva Capa: Eduardo Augusto Santos Silva Arte-finalização: Andreza Silva Mattos Priscilla Araujo Guarino Silveira Monitores Jandison Moura da Silva Jessica Messias dos Santos Denilza Viana de Almeida Victor Menezes Galdino Silva Mislene Batista Santos Barbara Barbosa dos Santos Nerita Carvalho Figueredo Ernânia Santana Santos São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 3
  • 4. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS REALIZAÇÃO Grupo de Pesquisa Culturas, Identidades e Religiosidades (GPCIR/DHI/Cnpq/UFS) APOIO Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários (PROEX/UFS) Programa de Pós-Graduação em História (PROHIS/UFS) Departamento de História (DHI/UFS) Museu Palácio Olímpio Campos Museu Histórico de Sergipe São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 4
  • 5. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA CENTRAL UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA CENTRAL UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE C719a Colóquio do Grupo de Pesquisa Culturas, Identidade e Religiosidades (4 : 2014, : São Cristóvão, SE) Anais eletrônicos [recurso eletrônico] / IV Colóquio do GPCIR : outros – biografias e sujeitos históricos : 09 a 12 de abril de 2014, São Cristóvão, SE ; organizadores: Antonio Lindvaldo Sousa ... [et al.]. – São Cristóvão : Universidade Federal de Sergipe, Grupo de Pesquisa Culturas, Identidades e Religiosidades : Editora UFS, 2014. 123 p. il. Disponível em: <http://coloquiogpcir2014.blogspot.com.br/> ISSN 1. História – Fontes. 2. Sergipe – História. 3. Sergipe – Historiografia. 4. Biografia. Universidade Federal de Sergipe. II. Sousa, Antonio Lindvaldo. II. Título. CDU 93/94 São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 5
  • 6. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS SUMÁRIO I - APRESENTAÇÃO 08 II - PROGRAMAÇÃO 09 III – SIMPÓSIOS TEMÁTICOS LIVRES: RESUMOS E TEXTOS 12 COMPLETOS 01. Teias de “falsos enganos”: artifícios de soldados mamelucos pela mão de obra indígena no sertão da Bahia colonial (1584-1592) Andreza Silva Mattos 13 02. A Disputa de Limites entre Sergipe e Bahia pela Região de Paripiranga/BA (1904-1914) Antunes Santana Reis 14 03. O Indivíduo na Historiografia: Antônio Alves no desenvolvimento da Atalaia Velha através da memória Aquilino José de Brito Neto 23 04. "Os engenhos, a dama e o Perfume”: Um Cabaré na sociedade açucareira (1950- 1970) Barbara Barbosa dos Santos 25 05. “História Cruzada” – Orlando Dantas entre a Usina e a Imprensa Carla Darlem Silva dos Reis 26 06. Nos Trilhos de Deus: Aconselhar os Fiéis e Corrigir Práticas Oficiosas - As Representações do Missionário Frei Damião de Bozzano em Bomquim/SE (1972- 1974) Degenal de Jesus Da Silva e Maria Edeilde de Jesus Santos 27 07. “Uma capital em processo de secularização”: Aracaju às vésperas do Concílio Vaticano II Eduardo Augusto Santos Silva 41 08. A Oposição dos Cristãos Novos na Sociedade Açucareira na Primeira Visitação do Santo Ofício à América Portuguesa Ernania Santana Santos 42 09. Simão Dias: De um vaqueiro a uma cidade. O ciclo do couro e as origens do município de Simão Dias no século XVI e XVII Jessica Messias dos Santos 51 10. Compreensão do Desenvolver da Pesquisa Sobre os Escravos em São Cristóvão José Daniel Rito dos Santos e Ane Luise Silva Mecenas 57 11. Flagrando a Vida: trajetória da vida intelectual e profissional da Professora Lígia Pina José Genivaldo Martires 58 12. O “tempo da fábrica” em São Cristóvão: apontamentos da pesquisa José Thiago da Silva Filho 67 13. “História e Memória: Casa da Fazenda Iolanda, um Patrimônio em Agonia” Josineide Luciano Almeida Santos 77 São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 6
  • 7. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 14. “Pós Abolição da Escravatura em Sergipe e as Memórias de Rosalvo Vieira dos Santos” Kéfus Ibrahim Santana Cardoso 78 15. Um Pássaro fora do Ninho: Tentativa de debate historiográfico em torno da passagem de Inglês de Sousa pela Província de Sergipe Leonardo Matos Feitoza 79 16. História Comparada: A escravidão no Nordeste Colonial brasileiro segundo o livro didático de História do Ensino Fundamental Liliane Vieira Nunes 80 17. O elo Genético: Análise das Anomalias de Desenvolvimento e dos pontos epigenéticos em esqueletos Humanos Pré-históricos e a Possível Relação de Parentesco Madson de Souza Fontes e Olívia Alexandre de Carvalho 81 18. Representação do Negro na Ótica do Clero Colonizador Manoel Ribeiro Andrade 89 19. “Peregrinação ao derredor de mim mesmo”: A construção de uma memória pessoal por Luís da Câmara Cascudo Raquel Silva Maciel 97 20. Epifânio Dória e a República das Letras em Sergipe Ronaldo José Ferreira Alves Santos 106 21. A trajetória do missionário Capuchinho João Evangelista Monte Marciano (1843- 1921) Tatiane Oliveira da Cunha 116 São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 7
  • 8. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS APRESENTAÇÃO Este evento é realizado pelo Grupo de Pesquisa Culturas, Identidades e Religiosidades, lotado no departamento de História da UFS, sendo realizado de dois em dois anos. A temática de 2014 é “sujeitos e história” e terá como título “OUTROS: Biografia e sujeitos na História”. Sua programação está totalmente voltada para debater as atitudes dos sujeitos na história de Sergipe e em outras localidades do Brasil. Estarão presentes pesquisadores de várias localidades do nosso imenso país. Realizamos o mesmo como parte das discussões teóricas vinculadas ao projeto de extensão: “MASSAPÊ: memórias, engenhos e comunidades da microrregião da Cotinguiba em Sergipe” e do projeto Imprensa Cristã, denominado “Escrevendo em nome da fé e diante das vicissitudes históricas...”: Imprensa cristã e artigos de cristãos nos jornais laicos sergipanos. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 8
  • 9. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Programação Dia 21/05 - (Quarta) Manhã - Minicursos (8h às 12h) Tarde - Credenciamento (a partir das 17 horas). - Local: Museu Palácio Olímpio Campos (Centro - Aracaju-SE). Noite - 18 horas - Conferência de Abertura – Sujeitos e biografia: notas teórico-metodológicas - Conferencista: Prof. Dr. Angelo Adriano Faria de Assis (Universidade de Viçosa) - Relançamento do livro “O Pulso de Clio” (Org.: Antônio Lindvaldo Sousa). - Atividade Cultural. - Local: Museu Palácio Olímpio Campos (Centro - Aracaju-SE). Dia 22/05 - (Quinta) Manhã - Minicursos (8h às 12h) Tarde - Sessão de Comunicações (14h às 18h) Noite - 19 horas - Mesa Redonda 1: Os Outros e as Releituras dos Outros. - Prof. Dr. Jérri Roberto Marin (UFMS). - Prof. Dr. José Paulino da Silva (UFS). - Prof ª. Msc.Tatiane de Oliveira Cunha (GPCIR). - Prof ª. Msc. Ane Luíse Silva Mecenas (UNIT) – Coordenação. - Lançamento do livro “100 Poemas para uma Pessoa Só” (Diego Vinícius). - Atividade Cultural. Local: Auditório da Didática V São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 9
  • 10. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Dia 23/05 - (Sexta) Manhã - Minicursos (8h às 12h) Tarde - 14 horas - Mesa Redonda 2: Os sujeitos e a pesquisa na pós-graduação (Mestrandos PROHIS-UFS) 1º CICLO – Sujeitos, memórias e história oral. - Aquilino José de Brito Neto - Carla Darlem Reis - Priscilla Araújo Guarino Silveira 2º CICLO – Sujeitos, outros e conflitos. - Andreza Silva Mattos - Josevânia Souza de Jesus Fonseca - Leonardo Matos Feitoza Local: Auditório da Didática VI - Atividade Cultural. Noite 19 horas - Mesa Redonda 3: A Igreja e os Outros. - Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (UFS). - Prof. Msc. Magno Francisco de Jesus Santos (PIO X) - Prof. Msc. Robson Dias de Assis (UFS) - Prof. Esp. Thiago Fragata (MHS) – Coordenação. - Lançamento de livro “Temas de História e Educação Católica em Sergipe” (Org.: Raylane Navarro e Claudefranklin Monteiro). - Atividade Cultural. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 10
  • 11. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Local: Auditório da Didática V Dia 24/05 - (Sábado) - 9 horas - Mesa Redonda 4: A Imprensa Cristã e os Outros. - Prof. Dr. Antonio Lindvaldo Sousa (UFS). - Profª. Msc. Verônica Maria Menezes Nunes (UFS). - Prof. Dr. Uziel (UFS). - Prof. Eduardo Augusto Santos Silva (GPCIR/UFS). - Profª. Priscilla Araujo Guarino Silveira (GPCIR/UFS). - Coordenação: Profª. Maria Sônia Santos Carvalho. - Atividade Cultural. - Local: Museu Histórico de Sergipe (São Cristóvão-SE) São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 11
  • 12. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 12
  • 13. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 01. TEIAS DE “FALSOS ENGANOS”: ARTIFÍCIOS DE SOLDADOS MAMELUCOS PELA MÃO DE OBRA INDÍGENA NO SERTÃO DA BAHIA COLONIAL (1584-1592) Andreza Silva Mattos Resumo: Com o crescimento da produção açucareira no Recôncavo baiano, na década de 1580, os engenhos passaram a intensificar o uso da mão de obra indígena. E para tal, expedições foram enviadas ao sertão da Bahia colonial com o objetivo de “descer os gentios” para os engenhos. Entre essas expedições, destacamos a liderada por Gonçalo Álvares – homem experiente que também lutou com o Governador Luíz de Brito, em 1575, contra as aldeias de Aperipê e Surubi, no sertão do rio Real. Na expedição de Gonçalo Álvares, estava Simão Roiz – sujeito que guiará as nuances dessa pesquisa, apresentando-nos a outros soldados com os quais compartilhou relações sócioculturais. Nossas ponderações serão norteadas por Nobert Elias por meio do qual iremos compreender a rede de sociabilidades de Simão Roiz a fim de que possamos refletir acerca dos artifícios utilizados pelos soldados mamelucos para denegrir a imagem dos jesuítas e, com isso, obterem a confiança dos gentios nos sertões por onde andaram. Serão as fontes inquisitoriais, oriundas da Primeira Visitação do Santo Ofício à Bahia, em 1591, que nos permitirão alcançar a inteligibilidade desse espaço múltiplo que foi o sertão colonial. Palavras-chave: Soldados mamelucos. Gentios. Sertão Colonial. Jesuítas. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 13
  • 14. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 02. A DISPUTA DE LIMITES ENTRE SERGIPE E BAHIA PELA REGIÃO DE PARIPIRANGA/BA (1904-1914) Antunes Santana Reis Resumo: O presente trabalho aborda a discussão de limites entre os Estados de Sergipe e Bahia em relação à Cidade de Patrocínio do Coité (atual Paripiranga/BA). Por isso, tem como objetivo analisar os conflitos e confrontos entre sergipanos e baianos criados em torno da Obra Sergipe e Bahia (Questão de Limites) escrita pelo sergipano Padre João de Mattos Freire de Carvalho (1826-1946). Esse defendeu que a Cidade baiana de Patrocínio do Coité, onde atuava como pároco, deveria ser anexado a Sergipe. Apoiamo-nos nas reflexões Edward Thompson na defesa que os sujeitos históricos devem ser entendidos a partir de suas experiências culturais, onde os conflitos e confrontos em que se envolvem corroboram na formação de uma identidade que levam os sujeitos a defenderem seu grupo e tomar consciência de seu papel no mesmo. Palavras-chave: João de Mattos. Sergipe; Bahia; Limites. A discussão de limites entre os Estados de Sergipe e Bahia foi levantada por Felisbelo Freire, no último capítulo de sua obra História de Sergipe, e levada a Câmara Federal dos Deputados em 1891. Mas foi a partir de 1904 que essa temática ganhou maior importância entre os intelectuais sergipanos. Foi nesse ano que o Governador desse Estado, Josino Menezes, com o discurso pronunciado a Assembleia Legislativa, convocou toda a elite política e intelectual sergipana a defender os limites históricos do Estado com a Bahia, sobretudo na região Ocidental, com o objetivo de tornar novamente sergipana a região de Patrocínio do Coité (Atual Paripiranga-BA). Essa temática perpassou vários setores da sociedade sergipana, com o engajamento de intelectuais como professores, advogados e jornalistas. Brandão (1973) em a “Introdução ao estudo da Historiografia Sergipana” coloca que o Governo do Estado entregou a defesa dos seus limites a intelectuais que levantaram documentação e produziram várias obras São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 14
  • 15. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS historiográficas. Dentre essas, está a Obra Sergipe e Bahia (Questão de Limites) escrita por João de Mattos Freire de Carvalho. Esse Padre e intelectual sergipano nasceu em Simão Dias – SE, e pertencia a uma das famílias mais ricas dessa região, por isso pode desenvolver seus estudos no Colégio Pio Latino Americano e na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, tornando-se Padre e doutor em direito canônico. Sua vida foi marcada pela atuação como pároco por 47 anos na Cidade de Patrocínio do Coité, atual Paripiranga-Ba. Sua ObraSergipe e Bahia (Questão de Limites) desencadeou conflitos e confrontos em relação a temática de limites entre Sergipe e Bahia devido sua proposta de anexar ao Estado de Sergipe a região de Patrocínio do Coité. Por isso limitamos nossa pesquisa ao recorte temporal que vai de 1904, quando ele já espalhava por Patrocínio do Coité sua defesa, até 1915 quando comissões dos dois Estados firmaram acordo de limites ao visitarem a região em litígio. O presente artigo vem analisar a discussão de limites entre os Estados de Sergipe e Bahia proposta por Mattos, no qual observamos o apoio que este recebeu por parte dos sergipanos para entendermos os conflitos e confrontos travados entre sergipanos e baianos. É importante ressaltar que não pretendemos abranger a discussão entre todos os estudiosos envolvidos nessa temática de limites geográficos, mas, sim,nos limitaremos ao período em que Mattosparticipou da discussão e das negociações políticas pela região de Patrocínio do Coité. Para entendermos os conflitos e confrontos gerados em torno dessa discussão, recorremos a Edward Thompson, o qual nos mostra que os sujeitos históricos devem ser entendidos a partir de suas “experiências culturais”, o seu fazer social. Os conflitos corroboram na formação de uma identidade cultural, que levam os sujeitos a defenderem seu grupo e tomar consciência de seu papel no mesmo. No apêndice da Obra de Mattos podemos perceber o repúdio e a reação baiana em relação a sua defesa de transferir o termo de Patrocínio do Coité para Sergipe. Antes mesmo de publicar seu trabalho, Mattos distribuiu entre seus paroquianos, um folheto intitulado: “Limites- Aos habitantes de Patrocínio do Coité”. Vejamos algumas considerações: É tempo já de nos levantarmos do atrazo e da decadência em que jazemos. O ukasebahiano de 1871, deu-nos uma existência civil, que longe de augmentar, vai São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 15
  • 16. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS cada vez mais se enlanguecendo com pronunciada rapidez. Em logar de termos na Bahia uma mãe pátria desvellada, que nos ampare no nosso crescimento, prodigalisando-nos elementos e meios de desenvolvimento e vigor ao nosso organismo social, que encaminhe os nossos primeiros passos na trilha do progresso e da civilisação, e nos alente e nos proteja com seus recursos e cuidados, a nossa sorte tem-nos arrastado ao desamor a Bahia. (MATTOS, 1905, p. 61-62) Percebemos que Mattos tenta convencer os seus paroquianos a se voltarem contra a Bahia. Para isso, ele relata o abandono do governo baiano em relação a essa região, e comenta como o Coité se desenvolveria bem mais rápido se pertencesse a Sergipe. Embora ele encontrasse alguns adeptos entre os coiteenses, o repúdio as suas idéias foi imediato, partindo principalmente da elite política. Liderados pelo intendente do Coité, Joaquim de Mattos Carregosa, escreveram ao Governador do Estado da Bahia expressando o desacordo as idéias de Mattos e pedindo que sua posição se tornasse pública. Vejamos um trecho do artigo publicado no Jornal Diário da Bahia em 20 de novembro de 1904: O povo desta Villa legitimamente representado pelo seu intendente e camara municipal vem perante v. ex. protestar contra a publicação de um folheto que junto envia a v. ex., sob o título Limites – Aos habitantes do Coité – no qual algum sergipano abusando de nossa confiança, emitiu conceitos e opiniões favoráveis a antiga idéia da passagem ou anexação deste município à Sergipe como pretendem os habitantes daquele Estado. (Diário da Bahia, 1904) Vemos que as autoridades do Coité não pouparam críticas à posição de Mattos, colocando este como um sergipano que abusava da confiança recebida nas terras baianas. Porém, Mattos revidou tais opiniões e ao final de seu livroe critica os coiteenses argumentando quais motivos existentes para se orgulharem de serem baianos, e que a justiça se encarregaria de devolver a Sergipe o que era seu de direito e, por fim, escreve: E si somos todos amigos e irmãos debaixo do mesmo teto – a bellaPatria Brasileira, continuando o Coité a occuparo mesmo recanto dessacaza pátria em que está nem eu nem Sergipe nos enojaremos por isso; assim como sendo mudado para Sergipe, então é que terá a honra e os cômodos do filho pródigo ao reentrar no lar paterno e seus habitantes terão satisfação de encontrar aquella paz e felicidade, aquele desvello e adeantamento que nunca lhes há de chegar da madrasta e longiqua Bahia. (MATTOS, 1905, p. 68). Mesmo com todo seu esforço na elaboração de seu livro no intuito de conseguir a mudança do termo de Patrocínio do Coité para o Estado de Sergipe, Mattos não conseguiu o apoio necessário entre os baianos para que isso pudesse acontecer. Porém, a São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 16
  • 17. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS partir de 1912, com a fundação do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, do qual Mattos foi sócio- correspondente, novas obras e conflitos surgiram em torno dos limites de Sergipe com a Bahia envolvendo a disputa pela região do Coité. Sergipe ganhava força pela união de seus intelectuais junto ao Governador do Estado José Siqueira de Menezes pela defesa de seus limites, e parecia que finalmente resolveria essa questão centenária. O Governo baiano, em resposta as movimentações sergipanas, e preocupado com a conservação de seu território, convocou, em 1912, o historiador e geógrafo Dr. Braz do Amaral para pesquisar em arquivos portugueses e nacionais documentos que pudessem esclarecer seus limites em relação aos Estados vizinhos. Essa pesquisa auxiliou os baianos na negociação de seus limites com os sergipanos. Em 1913 a discussão de limites entre os Estados de Sergipe e Bahia chegou pelasegunda vez a Câmara de deputados da República. O Deputado Federal Moreira Guimarães apresentou um Projeto de Lei em 13 de novembro de 1913, no qual pedia a revisão dos limites do Estado em relação à Bahia. Firmou-se então um acordo entre os governos dos dois Estados em que ambos criariam comissões para definição desses limites. Enquanto nada era resolvido se estendia pela região de Patrocínio do Coité, boatos e temores de invasão sergipana a mão-armada nessas áreas, como relata o trecho do telegrama enviado pelo governador da Bahia ao Presidente de Sergipe em 21 de outubro de 1913: Exmo. General Presidente Sergipe – Aracajú – Auctoridades jurídicas e policiaes, assim como agentes do Thesouro em Patrocínio do Coité, comunicam-me alarmantes notícias da próxima invasão do território deste Estado por forças de polícia de Sergipe. Compreende V. Ex. a gravidade de taes boatos para a população tão distantes de sua capital. (SEABRA Apud AMARAL, 1916, p. 72). O medo de confrontos armados era diário nessa região em litígio. Em resposta ao telegrama enviado pelo governador da Bahia, o Governador José de Siqueira Menezes garantiu que os sergipanos iriam conquistar a sua área de direito por meio da diplomacia e decisão do Governo Federal. Essa promessa, porém, não foi cumprida pelos sergipanos. Esses ocuparam áreas baianas no município de Patrocínio do Coité, nomeando professores e autoridade policial. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 17
  • 18. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Diante desses conflitos Mattos continuou ao lado de seu Sergipe, como relata o Agente Fiscal do Norte da Bahia, Julio de Lima Valverde em 4 de novembro de 1913, em um telegrama ao Governador do Estado: [...] Ainda tenho a informar-vos que diversas pessoas conceituadas do Coité me comunicaram ter o Vigário da Freguezia, João de Mattos, em uma de suas domingas do mez de outubro p. findo, na ocasião da missa conventual, feito uma prática ao povo aconselhando que não temessem uma grande força vindo de Sergipe, pois esta não vinha fazer barulho e sim tomar Coité que pertencia a Sergipe [...] (VALVERDE Apud AMARAL, 1916, p. 79-80) Mesmo sofrendo críticas em sua Paróquia por concordar que o Coité deveria pertencer a Sergipe, Mattos se envolveu novamente nessa questão. Porém, percebemos em nossa pesquisa a ausência de outros documentos que demonstrem o seu envolvimento nessa fase de conflitos. As discussões sobre os limites de Sergipe com a Bahia em relação a Patrocínio do Coité ganharam ainda mais força após a Conferência realizada pelo baiano Dr. Braz do Amaral no IHGSE. Amaral apresentou documentos defendendo a posse da Bahia sobre o Coité e outras áreas em litígio. A reação contrária aos seus argumentos foi imediata por parte dos intelectuais e políticos sergipanos como escreveu Prado Sampaio: Ao nosso ver, não obstante, falta de documentos remotos, o direito de Sergipe continua incontestável sobre a zona litigiosa mesmo em face do uti possidetis que milita em nosso favor há mais de trinta anos em relação á antiga Malhada Vermelha. (SAMPAIO, 1914, p. 78) Para os sergipanos os documentos apresentados por Braz do Amaral não garantiam a posse de Patrocínio do Coité a Bahia. Os documentos reunidos pelos sergipanos tinham datas mais antigas, mas foi ignorado por Braz. Este ao voltar a Salvador divulgava na imprensa que a questão estava resolvida, pois os sergipanos não possuíam documentos ao seu favor. Em resposta a essas afirmações de Braz escreveu o prefeito de Anápolis (Simão Dias), Raphael Montalvão: Também não andou bem avisado o Sr. Braz do Amaral dizendo que não possuímos documentos que firmem os nossos direitos; sendo que, como refutação basta recomendar a leitura da História de Sergipe de Felisbelo Freire e a obra do Doutor Padre João de Mattos intitulada Sergipe e Bahia (Questão de Limites). (MONTALVÃO, 1914, p 126.) São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 18
  • 19. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Como podemos ver, embora Mattos não esteja atuando diretamente nesses conflitos, sua obra é referência na argumentação sergipana na defesa de seus limites. De ambos os lados não se aceitavam o que o outro pesquisava. Esses conflitos eram sustentados pela defesa da identidade de cada Estado. Tantos os intelectuais baianos como os sergipanos mergulhados na identidade de cadaEstado emitiam opiniões a seu próprio favor. As negociações continuaram até o ano de 1915 quando o Governador do Estado da Bahia enviou o Dr. Braz do Amaral novamente a Sergipe para que junto com as autoridades baianas visitassem as áreas em litígio e assim entrassem em um acordo para resolver a questão. E assim visitaram a região de Anápolis (Simão Dias) e Patrocínio do Coité (Paripiranga) percorrendo suas áreas limítrofes, juntamente com os intendentes das duas Cidades. Porém, os avanços não foram significativos para Sergipe, pois, as áreas visitadas já estavam a um bom tempo sob o domínio da Bahia. Amaral tinha na defesa de seus argumentos, documentos como da solicitação de uma escola por parte dos coiteenses ao Governo da Bahia em 1869, além de comprovantes de pagamentos de impostos dessa população a Bahia. Os sergipanos defenderam os seus limites históricos em favor deumaidentidade. Do ponto de vista de Amaral os coiteenses estiveram a favor dos interesses baianos por que também já tinham constituído sua identidade baiana e demonstrava sua opção de alinhamento a Bahia. Uma das fontes dessa argumentação é o telegrama enviado ao Governador J. J. Seabra em 1º de fevereiro de 1915 após passar pelo Coité: Visitei o Coité no dia 26 e recebi naquellebello e ridente torrão bahiano demonstrações de consideração e respeito tão grandes como se fosse V. Ex. mesmo que lá tivesse ido abraçar os nossos patrícios. Aos habitantes do Coité e aos seus magistrados prometi, em nome de V, Ex; toda a segurança de que serão respeitados as leias que garantem o nosso direito. (AMARAL, 1916, p. 133) Assim como negaram apoio ao desejo de Mattos em mudar o termo de Patrocínio do Coité para o Estado de Sergipe, os Coiteenses possivelmente continuaram firmes nesse desejo durante a negociação entre os dois Estados. A experiência dessa população vivendo como baianos, mesmo que muitas vezes desamparados em suas necessidades pelo governo, fizeram com que continuassem firmes no propósito de pertencerem ao solo baiano, conforme se ler na discussão da intelectualidade baiana. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 19
  • 20. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS A imprensa baiana aponta que a população do Coité criou grande admiração por Braz do Amaral, por esse ter defendido os seus interesses, como demonstra, por exemplo, o Jornal O Paladino muitos anos após a discussão de limites, ao defendê-lo de críticas políticas noticiadas em um jornal de Salvador: O nome do dr. Braz do Amaral não é um parvenu, de um adventício nesta zona. Para que alguns dos municípios desta região permanecessem bahianos e outros não sofressem mutilação, bem sabemos ao que se expoz o eminente homem público, as agruras Moraes que curtiu. Felizmente, não só este município como em muitos outros, as populações sabem que juízo formular tangente à actualmente campanha. (Jornal o Paladino, 28 de maio de 1922) O Jornal Paripiranguense demonstra a sua gratidão e admiração pelo Deputado Braz do Amaral em razão da defesa desse na conservação do município como parte do Estado da Bahia. Com isso percebemos mais uma vez o quanto a população coiteense esteve sempre firme ao desejo de continuar pertencendo a esse Estado. CONSIDERAÇÕES FINAIS Através dos documentos analisados conhecemos os conflitos e confrontos travados entre sergipanos e baianos pela região de Patrocínio do Coité, sobretudo, compreendemos que esses foram sustentados em defesa das experiências culturais dos que estavam envolvidos. Percebemos o quanto a obra de João de Mattos desencadeou essa discussão, esse escreveuem apoio ao grupo político e intelectualde Sergipe a qual fazia parte. E assim,entre os sergipanos Mattos ganhou forte apoio na sua defesa de transferir Patrocínio do Coité para o Estado de Sergipe. Porém o mesmo não aconteceu entre os baianos. Através dos documentos analisados percebemos o quanto a elite intelectual e política baiana criticaram essa idéia e lutaram pela conservação de seu território. Portanto, foram tão comuns os conflitos e confrontos entre sergipanos e baianos nas áreas de litígio, como em Patrocínio do Coité, onde se temia invasões violentas. Com base na análise de documentos baianos presentes na Obra Limites da Bahia de Braz do Amaral, percebemos o quanto a Bahia se mobilizou nas negociações com Sergipe para não perder a região de Patrocínio do Coité. Além disso, podemos observar como os jornais dessa região São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 20
  • 21. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS expressavam o desejo da população em pertencer a esse Estado, mesmo estando tão distantes da capital e muitas vezes desamparados pelo Governo. Os intelectuais e políticos se mobilizaram na defesa de seus próprios Estados, seja diretamente nas negociações, na pesquisa de documentos históricos e na produção de livros sobre o tema em discussão. Ambos, imersos em sua experiência cultural, estavam em torno de sua identidade, defendendo os interesses de seu Estado, é nessa condição de identidade que se pode explicar a persistência nessa discussão, pois foi em torno de suas experiências culturais e vicissitudes históricas que ambos, defenderam os seus interesses. REFERÊNCIAS FONTES ABREU, Francisco de Paula; AMARAL, Braz do. Jornal O Paladino. Patrocínio do Coité, 28 de maio de 1922, Ano IV. N. 26. p. 2. AMARAL, Braz do. Limites do Estado da Bahia. Salvador: Imprensa oficial do Estado, 1916. CARVALHO, João de Mattos Freire de. Sergipe e Bahia (Questão de Limites). Aracaju, Empresa D` “O Estado de Sergipe”. 1905. FREIRE, Felisbelo de Oliveira. História de Sergipe. Aracaju: Editora Voz, 1977. 2. edição. GUIMARÃES, Moreira. Discurso pronunciado sobre os limites de Sergipe, na sessão de 13 de novembro de 1913, na câmara federal. In__ Revista do IHGSE nº 2,vol. I, Ano 1913. p. 95-105. MENEZES, Josino. Limites entre os Estados de Sergipe e Bahia (discurso apresentado a Assembléia Legislativa do Estado de Sergipe). Aracaju: Empresa D` “O Estado de Sergipe”, 1904. MONTALVÃO, Raphael. Bahia – Sergipe: A questão de limites. In__ Revista do IHGSE nº 4,Fascículo II - vol. II, Ano 1914. p. 116-127. SAMPAIO, Prado. Questão de Limites: Bahia – Sergipe. In__ Revista do IHGSE nº 3, Fascículo I -vol. II, Ano 1914 116. p. 77-78. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 21
  • 22. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS PRADO, Ivo do. A Capitania de Sergipe e suas Ouvidorias. Rio de Janeiro: Papelaria Brasil, 1919. BIBLIOGRAFIA BRANDÃO, José Calasans da Silva. Introdução ao estudo da Historiografia Sergipana. Trabalho apresentado ao V Simpósio de História do nordeste, Aracaju: agosto de 1973. SOUSA, Antônio Lindvaldo. Temas Para História de Sergipe II. São Cristóvão, CESAD, 2010. THOMPSON, Edward P. A Formação da Classe Operária. Vol. 1. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1987. p. 9-14. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 22
  • 23. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 03. O INDIVÍDUO NA HISTORIOGRAFIA: ANTÔNIO ALVES NO DESENVOLVIMENTO DA ATALAIA VELHA ATRAVÉS DA MEMÓRIA Aquilino José de Brito Neto Resumo: A Atalaia-velha é um bairro de Aracaju, Estado de Sergipe, conhecido principalmente pela sua praia. Era uma antiga colônia de pescadores e já pertenceu como povoado ao município de São Cristovão, tendo um acesso por terra para Aracaju bastante difícil, principalmente pela falta de pontes e estradas que ligassem um ao outro. O tempo seguia num ritmo lento, comparado ao atual, num ambiente pacato e ao som das marulhas. A pesca e o roçado eram as principais formas de subsistência dos moradores da Atalaia. Entre os meses de dezembro a fevereiro, tornava-se o local preferido de muitas famílias sergipanas, que iam desfrutar do verão no banho de mar mais agradável da cidade. Um pouco das lembranças que ainda se mantêm frescas em algumas pessoas que viveram em tal época neste lugar e que nunca perderam seus laços de afetividade com o mesmo, embora diversas transformações urbanas tenham descaracterizado o “cenário” compreendido entre as cinco primeiras décadas do século 20. Diante disso, propomos estudar as memórias de cinco indivíduos acerca do bairro Atalaia-velha em Aracaju, percebendo o significado que o mesmo possuiu na formação da identidade dessas pessoas. Para Pollack (1992), “a memória é um elemento constituinte do sentimento de identidade”. Dessa forma, nos comprometemos a analisar o desenvolvimento do bairro através desses habitantes, percebendo como um pequeno lugarejo foi se ampliando, e ao mesmo tempo, como muitas das tradições culturais ali desenvolvidas foram paulatinamente reduzidas e atualmente, lembradas por poucos. Podemos observar também, nesta localidade através das memórias daqueles que viveram e conviveram num passado diferente do atual momento, seu cotidiano, seus costumes São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 23
  • 24. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS e sua cultura. Para Lefebvre (1991), “é na vida cotidiana que acontecem as verdadeiras criações, as ideias, os valores, os costumes”. Como “fio condutor” da nossa narrativa, inserimos um indivíduo da historiografia sergipana muito pouco conhecido, mas fundamental para compreendermos a localidade, já que ele foi um dos precursores e fundadores do antigo povoado Barreta, atualmente Atalaia Velha. Seu nome era Antônio Alves dos Santos, um homem que ainda vive nas memórias dos antigos moradores da região. Portanto, a História Oral será a constituição metodológica para o desenvolvimento desse trabalho. Palavras-chave: Memória, Atalaia-velha, Antônio Alves dos Santos, cotidiano. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 24
  • 25. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 04. "OS ENGENHOS, A DAMA E O PERFUME”: UM CABARÉ NA SOCIEDADE AÇUCAREIRA (1950-1970) Barbara Barbosa dos Santos Resumo: Este trabalho esta sendo desenvolvido a partir de pesquisas do Projeto Massapê (PIBIX/UFS 2014) que tem como objetivo o resgate de memórias de trabalhadores dos engenhos localizados na microrregião da cotinguiba, através de pesquisas em arquivos e jornais, como também entrevistas de história oral com pessoas que trabalharam ou são filhos e netos de trabalhadores de engenhos portanto herdeiras desse passado. Entre várias entrevistas realizadas por membros do projeto se destaca a de Maria Hora, uma senhora de 80 anos que para além da vida de trabalhadora braçal dos engenhos Caraíbas, Pedras e Vassouras, ela nos revela a sua dupla jornada. Quando solta o facão do corte da cana, Maria lança mão de seus perfumes e arranjos e segue para o seu segundo emprego no cabaré da cidade. A partir dessa dupla jornada de dona Maria Hora podemos identificar a vida noturna da sociedade açucareira na cidade supracitada como também os vários meios que uma mulher negra, órfã vai encontrar para sobreviver num sociedade pos- abolição da escravatura. Palavras-chaves: Engenhos, Mulher, Cabaré , Rosário do Catete. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 25
  • 26. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 05. “HISTÓRIA CRUZADA” – ORLANDO DANTAS ENTRE A USINA E A IMPRENSA Carla Darlem Silva dos Reis Resumo: Filho de um usineiro e político, Manoel Côrrea Dantas, Orlando Dantas nasceu na cidade de Capela, em Sergipe, no ano de 1900. Durante a adolescência desgarrou-se dos latifúndios de seu pai para buscar o conhecimento na Universidade de Pernambuco. Inicialmente optou por Engenharia, mas logo desistiu, pois o seu instinto em conhecer e compreender a sociedade o fez trilhar o caminho da Sociologia. Ao retornar para Sergipe funda o jornal Gazeta Socialista, que ia de encontro com as suas origens, pois no reduto jornalístico pregava a reforma agrária e as mudanças sociais para as classes mais baixas. Essa comunicação pretende discutir a contraditória trajetória de Orlando Dantas, para isso, foram utilizados depoimentos de parentes, como Paulo Brandão e de ex-jornalistas que conviveram com ele, a exemplo de Luiz Antonio Barreto. Além disso, os editoriais assinados por “Seu Orlando”, do Jornal Gazeta Socialista que em 1953 passou a ser chamado de Gazeta de Sergipe, também nos fornecem vasto material para analisar quem foi Orlando Dantas. Palavras-chave: Imprensa – Biografia – Sergipe – Política. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 26
  • 27. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 06. NOS TRILHOS DE DEUS: ACONSELHAR OS FIÉIS E CORRIGIR PRÁTICAS OFICIOSAS - AS REPRESENTAÇÕES DO MISSIONÁRIO FREI DAMIÃO DE BOZZANO EM BOQUIM/SE (1972-1974) Degenal de Jesus da Silva1 Maria Edeilde de Jesus Santos2 Resumo A memória, mecanismo seletivo, lugar em que fica guardadas os acontecimentos que mais importam ou que marcam a vida das pessoas. celeiro em que se misturam o que queremos guardar com as lembranças que queremos esquecer. O artigo descreve à vida e representações de um missionário - Frei Damião de Bozzano - que passou por Boquim no Estado de Sergipe nos idos do segundo semestre entre os anos de 1972 e 1974. "Padim Ciço Romão", como alguns o chamavam, empreendeu a divulgar às Santas Missões pelo nordeste. Lugar propício, afinal, berço de um povo sofredor que enxergar na religiosidade à ajuda que tanto almejavam. Através de fontes orais construímos um pedaço daquele cosmo, imperfeito admitamos, mas as vozes estão aí, desejosas por mostrar o seu lado da história. Palavras-chave: Catolicismo, Religiosidade, Representações, Santas Missões. Indivíduos que destacam-se no cenário religioso brasileiro já não é novidade. O nordestino ante as dificuldades ambientais, de assistência médica, de locomoção entre tantas outras coisas, vê no campo religioso um meio por excelência, algo em que possam se segurar; tirar das manifestações religiosas o que eles esperam que não terão neste século, ou pelo menos, a solução de tais problemas não estariam aqui, mas, no porvir, que minguariam, por compaixão, as graças vindouras. Neste contexto, surgem diversas crendices e manifestações religiosas tendo como inspiração a matriz - o catolicismo romano. A história desde o Brasil colônia3 ao século XX é banhada por um fé que foge ao emanado pelas autoridades de Roma. 1 Graduado em História pela Faculdade José Augusto Vieira - FJAV; fez pós-graduação em História do Brasil pela Faculdade Pio Décimo - Pio X; e, mestrando em História pela Universidade Federal de Sergipe - UFS. 2 Graduada em História pela Faculdade José Augusto Vieira - FJAV; fez pós-graduação em História do Brasil pela Faculdade Pio Décimo - Pio X; e, aluna especial do mestrado em História da Universidade Federal de Sergipe - UFS. 3 Cf. SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 2009; VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos Pecados: moral, sexualidade e inquisição no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 27
  • 28. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Para que o catolicismo romano ganhasse autonomia frente aos obstáculos do protestantismo e das intempéries dos fiéis e desvios de condutas dos clérigos, a marcha da igreja fez-se acompanhar por um processo de sistematização e de moralização das práticas e das representações religiosas.4 Para Pierre Bourdieu, no campo religioso: o corpo de sacerdotes diretamente com a racionalização da religião e deriva o principio de sua legitimidade de uma teologia erigida em dogma cuja validade e perpetuação ele garante. o trabalho de exegese que lhe é imposto pelo confronto ou pelo conflito de tradições mítico-rituais diferentes, justaposta no mesmo espaço urbano, ou pela necessidade de conferir os ritos ou mitos tornados obscuros um sentido mais ajustados a normas éticas e à visão do mundo dos destinatários de sua prédica, bem como a seus valores e a seus interesses próprios de grupo letrado, tende a substituir a sistematicidade objetiva das mitologias pela coerência intencional das teologias, e até por filosofias.5 Este é um dos objetivos das Santas Missões compreendidos por Frei Damião: moralizar o povo e esclarecer, a um séquito católico, a diferença entre a "verdadeira igreja" e as demais. O Frei, veio de terras longínquas, para trazer uma mensagem de civilidade ("as boas novas"). Sua pretensão era colocar o povo nordestino nos trilhos de Deus: aconselhar os fiéis e corrigir práticas oficiosas. O seu maior obstáculo seria a grande dimensão territorial do nordeste; e em muitos casos, lugarejos cujas casas estariam bem distantes umas das outras com um forte numero de analfabetos. A nossa personagem, o missionário, Frei Damião de Bozzano, filho dos camponeses Félix Giannotti e Maria Giannotti, nasceu no dia 5 de novembro de 1898, em Bolzano na região do Ádige no norte da Itália. O seu nome de batismo era Pio Giannotti. Demonstrou, na adolescência, gosto pelos estudos religiosos. Aos 12 anos ingressou na escola Seráfica de Camigliano. Aos 19 anos, seus estudos seriam interrompidos para servir a um propósito diferente da "missão religiosa": a guerra. Com o surgimento da Primeira Guerra Mundial, 4 BOURDIEU, Pierre."Os Progressos da Divisão do Trabalho Religioso e o Progresso de Moralização e de Sistematização das Prática e Crenças Religiosas". In:______. Gênese e Estrutura do Campo Religioso. 5 ed. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2004. p.37. 5 Idem, p.38. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 28
  • 29. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Giannotti foi convocado para lutar nas trincheiras contra a Iugoslávia - momentos esses, que deixaram lembranças fortes na mente da nossa personagem. Com o fim dos acirramentos provocados pela primeira grande guerra, Giannotti largou o exercito e reiniciou os estudos religiosos - o seminário. Nos idos de 1921 à 1925 frequentou as aulas da Universidade Gregoriana de Roma. Lá teve lições de teologia, direito, eclesiologia, patrologia. Diplomou-se em direito canônico, filosofia e teologia dogmática. Em 25 de agosto de 1923, é ordenado sacerdote na Igreja São João de Latrão. Não demoraria muito até que o frade pisasse em solo brasileiro. Quase oito anos depois de ser ordenado (17 de maio de 1931), veio para o Brasil, fixando residência no convento de São Felix - da ordem dos capuchinhos - em Recife. Os nordestinos não demorariam muito em reconhecer aquele que seria aclamado como Frei Damião ( por muitos, considerado como santo). Suas primeiras pregações foram em Recife no convento da Penha. mal dominava a língua portuguesa, por isso, tinha que decorar os seus sermões. Mas os fiéis despreocupados com a estética da língua mátria, iam assistir aos sermões do frei em busca dos milagres. Milagres cuja manifestação e resultado, Frei Damião, não creditava a sí, mas a Deus. No Convento de São Felix chegavam muitas cartas relatando curas, milagres e bênçãos recebidas. Obra de Deus respondia Damião, mas o fato é que sua vida era considerada um instrumento para que os milagres acontecessem - isso ficou implícito em suas falas e, ele não negava. Os fiéis ansiava por ver a manifestação do sagrado.6 Por mais que quisesse se afastar das representações (a margem de suas intenções) construídas em torno de si, entretanto, difícil de não usufrui os benefícios que isso lhe traziam e de se desprender de tal imagem, pois, "cada povo representa seus heróis históricos ou lendários de determinada maneira variável segundo os tempos", construímos sujeitos colocando-lhe representações ao sabor das possibilidades e necessidades do momento, "os quais está em contato, do seu caráter, da sua fisionomia, dos traços distintivos do seu temperamento físico e moral".7 O Frade acabou sendo incorporado ao panteão de seres admirados - pelo menos por alguns - do nordeste. Sua imagem ficou tão próxima de outro individuo daquela região - 6 Cf. ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1992. 7 DURKEIM, Émile. " A Noção de Espíritos e de Deuses". In.:_________. As Formas Elementares de Vida Religiosa: o sistema totêmico na Austrália.Tradução. Pereira Neto; revisão José Joaquim. – São Paulo; Ed.. Paulinas, 1989. p.300. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 29
  • 30. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Padim Ciço - que o frade foi assimilado em alguns casos à imagem de seu antecessor, sendo chamado por "Meu Padim Ciço Romão"; e em outros, em momentos de aflição de habitantes do nordeste, sua figura foi eleita como sucessor de "Padim Ciço" ou, em pé de igualdade, como demonstra esta frase: “Valhei-me, Frei Damião! Valhei-me, meu Padim Ciço!”.8 Frei Damião não nutria amores com os afazeres da parte administrativa, ou, rotineira da igreja, " [...] Frei Damião nunca foi um vigário de paróquia, daí que sempre esteve isento do peso administrativo de uma Paróquia. Nunca fez uma pastoral como se faz hoje. Era um frade caminhante, nômade, andante ". Era um homem de ação, embora versado em letras, preferiu ir para o meio do povo, alcançar almas de forma simples que os fiéis entendessem. Ele ajudou a disseminar as santas missões pelo nordeste. Para o Frei, elas eram de extrema necessidade para o livramento das almas: “livrá-los do Demônio, que queria afastá-los da Igreja e fazê-los abraçar outro credo”.9 Assim, as missões tinha o objetivo de limpar as impurezas existentes na "comunidade dos fiéis"; a igreja tinha que direcionar as ovelhas desgarradas, além de proteger-se do avanço do protestantismo e outros credos.10 As Santas missões realizadas pelo nordeste, tinha a duração de alguns dias. Por onde passava o frade atrai multidões: casais de namorados, amigos, vizinhos, crianças, solteiros e toda sorte de pessoas chegavam para vê-lo. A cidade transformava-se, as pessoas afluíam até onde ele estivesse para os mais diversos intentos: toca-lhe, assistir aos sermões, a espera de um milagre ou simplesmente por curiosidade. O comercio local lucrava com sua chegada. Sua estadia numa região era seguida por aumento nas vendas de comida e de objetos religiosos - ou considerados como tal. O auge das santas missões era a conversão da população à vida sacramental. Nelas aconselhava-se e corrigia-se a falta cometida pelos fiéis: os casamentos religiosos aconteciam, os batizados eram realizados, as confissões ministradas etc. Seu sucesso era medido pela quantidade de sujeitos que aceitavam às práticas que conduziam até o céu. Aqueles que se 8 DA CRUZ,João Everton. "Caminhando com Frei Damião no Sertão Nordestino: uma experiência Missionária".In:_________.http://meuartigo.brasilescola.com/religiao/caminhando-com-frei-damiao-no-sertao- nordestino.htm. Acessado em 26/11/2010. 9 Idem. 10 Cf. ANDRADE, Péricles. Sob o Olhar Diligente do Pastor: a Igreja Católica em Sergipe. São Cristóvão: Editora da UFS/Fundação Oviêdo Teixeira, 2010. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 30
  • 31. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS deixasse ser conduzido nos trilhos de Deus encontrariam as bênçãos e graças no mundo vindouro, se fossem favorecido pela divindade, naquele momento mesmo, eram atendidas as preces. Memórias Sobre Frei Damião em Boquim/Se - as Santas Missões na terra da laranja Durante os anos de 1972 e 1974, geralmente, no mês de novembro, a cidade de Boquim viveu momentos de satisfação com a vinda de Frei Damião para Boquim. Durante o ano, a população se organizava para os movimentos da igreja, onde as comunidades se juntavam para demonstrar sua fé, respeito e entusiasmo diante das manifestações religiosas realizadas na cidade. Anualmente acontece a Festa da Padroeira da cidade, onde os fiéis prestam lhe homenagem, que constituem em novenas, missas e procissão, onde todos participam com grande devoção. Para os fiéis essas manifestações religiosas, “eram o momento alto da religiosidade popular, onde existia o espírito receptivo nas pessoas que procuravam interiorizar a palavra de Deus na sua essência”. As demonstrações de fé durante a procissão eram vistas pela população nas ruas, onde tomava grande parte da massa dos fiéis, várias pessoas vinham dos arredores da cidade para participar da procissão, conduzindo a imagem da padroeira, pelas ruas, onde os devotos acompanhavam fervorosamente, culminando com missa festiva. Contudo, a ansiedade dos fiéis era grande pelas ruas da cidade, para ver o cortejo passar com o andor da santa, muitos devotos acompanhavam a procissão, outros ficava em frente das casas olhando a procissão que passava. Portanto, grande parte da população costumava participar dessa manifestação religiosa que acontecia todo ano na cidade. Mas o povo também tem o costume de participarem de outras festas, como Festas Juninas, Natal e Ano Novo. Mas a festa de destaque na cidade era a tradicional “Festa da Laranja”, onde por vários anos se destacou devido o cultivo dela na cidade. Durante toda essa época a cidade se organizava para a festividade, recebendo vários visitantes para mostrar o produto da casa. A laranja na segunda metade do século XX, se São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 31
  • 32. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS caracterizar como uma fase muito importante tanto para a cidade quanto para o município, em função da citricultura, que era bastante comercializada pela população e os visitantes. Devido a divulgação da festa da laranja, muitas pessoas só vinham para prestigiar os shows que ocorria durante a festa, a cidade mantinham a tradição de realizada os festejos a 42 anos em datas móveis durante quatro dias. Conhecida nacionalmente, a festa faz parte do calendário cultural da cidade. Com base econômica forte, Boquim, chegou a ser um dos maiores produtores de laranjas do país. Mediante ao desenvolvimento na agricultura, o comércio local foi um dos mais importantes dos municípios. A cidade mantinha duas grandes pensões nessas épocas de festividades. A sede do município chegou a ter o maior cinema da região, que passava filmes de 35 mm e tinha capacidade para 300 espectadores, onde a população participava de várias sessões aos finais de semana. Mas hoje a população não desfruta mais dessa cultural local, por motivo pessoal o proprietário desativou o cinema e hoje no local está uma igreja evangélica. Também a Associação Cultural passou a ser uma espécie de academia e escola de capoeira, a tão famosa lavandeira da fonte da mata foi desativada e hoje a estrutura foi mudada para melhor locomoção da população. Nesse período o povo de Boquim contava com variável área de lazer, como a Associação Cultural e Recreativa Boquinense, onde a população tinha o hábito de fazer baile e se divertirem muito, também tem na cidade a famosa Fonte da Mata, onde inspirou o nosso poeta maior da cidade, o famoso Hermes Fontes. Lá na fonte da Mata também existia uma grande lavandeira, onde muitas vezes os moradores iam lavar suas roupas, vislumbrando a visão daquela riqueza que temos em nosso município. Durante muito tempo, a população carente da cidade saia de suas casas para lavar suas roupas, lavavam por encomendadas. Na segunda metade do século XIX, surgem as missões populares pelo sertão nordestino, onde os freis saíram de cidade em cidade pregando os seus sermões e ministrando a palavra de Deus para os fiéis. Diante da notícia dessas missões pelo sertão, o pároco da cidade trouxe frei Damião para pregar a Santa Missão em Boquim. A população da cidade ficou eufórica, quando o padre anunciou, numa missa, sobre a presença do frei na cidade. A São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 32
  • 33. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS chegada dele, foi motivo de festa, satisfação e fé, os fiéis receberam o frei com alegria e cantos. Com a notícia da chegada do frei, os fiéis ficaram aglomerados nas ruas da cidade aguardando os missionários chegar. Eles por várias horas ficaram em frente ao colégio Santa Teresinha, em frente à matriz da igreja para aguardar o frei sair do colégio e em seguida acompanhá-lo até a matriz. A partir de várias entrevistas realizadas é possível perceber a devoção dos fiéis com frei Damião. No momento da chegada do frei na cidade os devotos reuniam-se na frente da igreja aguardando os missionários aparecerem com devoção e em total demonstração de fé. Durante sua permanência na cidade, muitos acreditavam que o mesmo operava milagres. Devido essa notícia, várias pessoas ficavam na espera dos missionários para poderem receber às bênçãos. Vale ressaltar que a Santas Missões foram ministradas pelo frei Damião, apesar de, mesmo falando baixinho, os devotos demonstravam bastante satisfação nas missas - por ser ” um frade respeitado e amado pelo povo, pregador do evangelho e zeloso pela doutrina”. Segundo Maria Almeida: “as vezes, em nome desse zelo, até feria as pessoas por causa de algo que não aceitava , era 'Santo e rígido'.Quando o frei chegou na cidade, as pessoas rezavam, assistiam as palestras, mas cada palestra tinha o horário detalhando pelo o missionário.” Tinha horário específico paras as crianças, para os jovens, outro para as senhoras e outro horário para os homens, após a celebração dos sermões, os fiéis faziam suas confissões, comungavam da ceia eucarística, participavam das procissões matinais de penitência, rezava para Nossa Senhora e ouviam a pregação do evangelho. "Era momento de muita paz durante as pregações do frei".11 Os enfermos iam ao encontro de Damião para obterem a restauração da saúde. havia aqueles que não conseguiam se aproximar do missionário na igreja, em um gesto de compaixão e imitação do exemplo de Jesus, o clérigo saia de onde estava para acudir os despossuídos de saúde. 11 ALMEIDA, Maria. Entrevista concedida no dia 07 de novembro de 2010. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 33
  • 34. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Durante a permanência dele na cidade, muitas pessoas viam frei Damião como um santo, a exemplo de Dona Aliete Menezes que comentou: “Quando vi o frei pela primeira vez", ela pensou, "será que ele vai aguentar caminhar, mas quando ele botava o pé na estrada, eram os anjos que levavam ele. Porque menino novo, ele xotava viu, não conseguia acompanhar ele”12. Quando o frei estava na cidade, a população se aglomerava em frente à igreja para participar das novenas, vinham vários fiéis das comunidades, a praça ficava pequena diante de tanta demonstração de fé. Sua presença na cidade trouxe vários fiéis a conversão, muitos aproveitaram o momento da manifestação religiosa, para expressar sua devoção e fé diante do frei. A santa missão teve a função de converter o pecador a religiosidade cristã, aqueles devotos que estavam afastados da igreja, começaram a participar da missa e ouvir as pregações. No decorrer das Santa Missões, os devotos aproveitavam o momento pra confessar os seus pecados e “receber Jesus na Eucaristia”13. Para Dona Josefa Meneses a cidade naqueles dias passava por uma atmosfera mística. Ela alega ter visto a Santas Missões como momentos de graças, onde o povo “participava com fé e amor, pois sabia que era uma verdadeira catequese e evangelização de todos”14. Em outro momento, Dona Maria Antônia salienta, naquela época as santas Missões “eram consideradas como momento de conversão, de perdão, arrependimento dos pecados e preparação para a viagem definitiva até Deus”15. Portanto, quando o frei chegou à cidade, os próprios fiéis eram que organizavam tudo, arrumavam o palanque diante da igreja, para às novenas e as missas. Nessas santas missões muitas vezes faziam novenas nas casas dos fiéis, como cita Dona Maria Antônia Dias. A mesma comenta que as novenas que existiam naquela época eram “a novena de Santo Antônio com dona Eulina e a Novena de São João Batista com dona Argemina”16. Durante as novenas, as festas sempre foram animadas e com muita 12 Ibidem. 13 MENEZES, Josefa Miguel de. Entrevista concedida no dia 17 de outubro de 2010. 14 Idem. 15 ANDRADE, Maria Antônia Dias. Entrevista concedida no dia 23 de novembro de 2010. 16 Idem São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 34
  • 35. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS gente, a população mantinha um espírito de oração e penitência esperando os missionários. Cada missa feita pelo frei à igreja lotava de fiéis para ouvir seus sermões. A veneração chegou a tal nível que muitos devotos o viam como santo operador de milagres. Dona Antônia, vai além, pois considera o frei como “representante de Cristo que chegava a Boquim para ensinar as verdades esquecidas pelo povo”17. Devido a Frei Damião ser comparado a um santo, houve alguns milagres que foram atribuídos a ele, os próprios fiéis comentam que foi ele quem concebeu, diante da palavra de Deus, um desses milagres. Uma das entrevistadas, dona Caetana da Silva, comentou: Recebi uma benção do frei Damião: o filho tinha um problema de saúde muito sério, muito sério mesmo. O menino ficava batendo com a cabeça direto, e com isso começava a sangrar. Nesse tempo tudo era muito 18difícil, foi quando teve uma santa Missão na cidade, mesmo morando em povoado, eu consegui trazer ele até o frei Damião. Quando cheguei com ele na casa do padre João Batista, o frei estava recebendo umas pessoas e conversando com elas, foi quando eu entrei com ele no braço e sentei. Ai, o frei perguntou: 'o que eu queria', eu respondia a ele:' queria que ele rezasse na cabeça do meu filho', e fui explicando a ele a situação né, foi quando ele colocou a mão na cabeça dele e rezou lá uma oração né, só ele sabe o que rezou né, ele botou a mão na cabeça ai depois fez o sinal da cruz na testa dele, ficou passando a mão na cabeça dele, depois deu um tapinha na costa e disse que nunca mais você vai bater sua cabecinha, foi a última vez, nunca mas vai acontecer isso, ele tem uma memória excelente, ele não tinha condição de estudar, depois disso, ele estudou, hoje está formado, e problema na cabeça dele graças a Deus não tem, eu recebi essa graças através da minha fé. Houve outros relatos de milagres atribuídos à santa missão de frei Damião, como podemos constatar: Segundo dona Josefa Durval, frei Damião salvou ela e uma criança que esperava: Quando estava esperando Raimunda, passei muito mal, quando tive ela andei morrendo, ela atravessou na barriga e ainda tinha que ter em casa, depois foi que mandaram a ambulância para me buscar, porque morava na fazenda dos pilões, ai mandaram a ambulância para me buscar e na hora que a ambulância chegou, ai a menina nasceu atravessada, mas quase que morria, ai quando fiquei eu sair de gravidez de Teresinha ,já fiquei com medo, pelas 17 ANDRADE,Maria Antônia Dias. Entrevista concedida no dia 23 de novembro de 2010. 18 SILVA, Maria Caetana da. Entrevista concedida no dia 24 de agosto de 2010. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 35
  • 36. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS minhas contas ,já tinha mas de 9 meses e eu fiquei doida, doida e doida, ai minha madrinha Lurdes troxe eu para frei Damião benzer, ai tinha uma santa missão, ai madrinha Lurdes troxe eu para frei Damião benzer, ai eu fui ele ficou hospedado na casa de Padre João. Ai madrinha Lurdes morava pertinho, ainda mora né, ai agora mora perto do convento das freiras, mas a casa de Padre João era pegada com a de madrinha Lurdes. Ai troxe eu levou lá aonde tava frei Damião, ai ele rezou na minha cabeça, na minha barriga, ai disse, olhe não tenha medo quando você dê 3 dores, a menina nasce, ai eu fiquei mangando até do padre, ai eu disse oxé ele deve está broco, quando eu dê 3 dor a menina nasce, ai eu disse a madrinha Lurdes, o missionário disse quando eu 3 dor a menina ia nascer, ela disse, vai ser assim mesmo. Oxé de Raimunda quase morro e de Teresinha é que vou ter assim ligeiro, mas foi dito certo, a mesma coisa que ele disse oxé quando interou um 1 mês eu tive ela, ai deu uma dor 5 hora da manhã, deu 1 depois deu 2, nas 3 a menina nasceu.A mesma coisa que ele disse, ai se a gente já tinha fé nele ,ficamos com mais fé. Portanto devido a fé que a fiel teve, diante das palavras de Deus, fez com que salvasse sua vida e de sua filha, ao mesmo tempo que sua devoção cresceu mais diante do frei Damião19. Diante desse fato muitos fiéis acreditavam no poder que frei Damião tinha, por onde passava pregava sempre a palavra de Deus e deixavam todos bastante satisfeitos com o seu sermão. Como ele era considerado servo de Deus, Dona Maria Senhora de Menezes via o frei como: "Apóstolo de Deus" , como qualquer sacerdote, "porque o sacerdote tem a missão de permanecer sempre na paróquia, evangelizando, celebrando a santa missa e o frei Damião era um frei missionário, pregando missão de cidade em cidade aonde o espírito santo lhe manda-se". 20 Ao retornar à igreja várias mulheres devotas se abraçavam diante de todos, e pediam perdão a Deus pelos seus pecados. No tocante ao sermão de frei Damião, as pessoas vinham de longe só para se confessar com ele. Outros nem entendiam “o que ele falava, mas vinham só para ficar perto dele, na expectativa da escuta da palavra de Deus”21. Nessa época, muitos fiéis que moravam juntos aproveitaram a presença do frei na cidade para se casarem - houve vários casamentos, batizados, crismas e comunhões. A quantidade de quantos pessoas regularizou-se, perante a igreja, não consta no livro de tombo 19 DURVAL, Josefa Santos. Entrevista concedida no dia 24 de outubro de 2010. 20 MENEZES, Maria Senhora Miguel de Menezes. Entrevista concedida no dia 15 de outubro de 2010. 21 Idem. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 36
  • 37. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS da paróquia, só existe o registro afirmando que a população esperava o momento da chegada do frei para se casarem. sua imagem como apostolo de cristo se torna mais evidente quando os fiéis começam a comentar dos poderes miraculosos do frei Damião em expulsar os Demônios. Lembrando que, os discípulos (como está no evangelhos) tinham o poder de curar (feito que já era-lhe atribuído), e expulsar os demônios. Esta entidade, assim como ventos maléficos, lobisomens e outros mais, fazem parte do arsenal cultural dos nordestinos. 22 Sobre esse fato Dona Maria Antônia comenta: ”Claro. Não só frei Damião como qualquer padre de 'boa vida' pode expulsar demônios".23 Seguindo nessa linha de pensamento, dona Maria Senhora acrescenta: “eu acredito, porque o senhor Jesus deu poder a todo o sacerdote e ao discípulo de expulsar os demônios”24. Contudo, boa parte da população acreditava que Damião expulsava demônios, por devoção, fé e oração. Diante dos fatos, alguns fiéis comentam sobre isso, uma dessas fiéis é a senhora Josefa Miguel de Menezes, que fala: ”Não só frei Damião como tantos outros sacerdotes, pelo poder que ele recebeu de Deus, quando o padre é ordenado; ele recebe um poder diferente dos católicos fiéis como nós, ele tem uma coisa diferente da gente”25. Mas uma coisa era certa: frei Damião jamais gostava que alguém lhe faltasse com respeito. Na maioria das vezes que isso acontecia, as pessoas sofriam as consequências dos atos no mesmo instante, era fração de minutos. Narra-nos Dona Maria Elder sobre um episódio: Houve um episódio que aconteceu na feira, uma manhã uma menina passou por ele, e chamou de corcunda, ele só virou o rosto por cima do ombro e disse Deus te abençoe ai a menina caiu. A menina caiu mesmo durinha lá, só 22 Isso aparece nos depoimentos de dona Maria Antônia Dias Andrade, Maria Oliveira de Almeida, Aliete Miguel de Menezes e Josefa Miguel de Menezes. 23 ANDRADE, Maria Antônia Dias. Entrevista concedida no dia 23 de novembro de 2010. 24 MENEZES, Maria Senhora Miguel de. Entrevista concedida no dia 15 de outubro de 2010. 25 MENEZES, Josefa Miguel de. Entrevista concedida no dia 15 de outubro de 2010. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 37
  • 38. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS levantou quando ele foi lá e botou a mão na menina, agora o porquê também não sei, se ele também possuía além da religiosidade , se ele possui alguma coisa nós não ficamos sabendo26. Diante disso, a população sempre comentava sobre o episódio ocorrido na cidade, mas mesmo assim ninguém nunca descobriu sobre essa proteção que o frei tinha que na maioria das vezes as pessoas eram castigadas sem ao menos ele tocá-las. Tiveram outros fatos que as pessoas presenciaram, mas não quiseram comentá-los. Considerações Finais As práticas devocionais estão estritamente ligadas ao campo religioso brasileiro. Mais do que isso. A fé é condição inerente aos seres humanos, pois as expressões de religiosidade revelam as diferentes visões de mundo, os sonhos, desejos da sociedade. A fé também vivenciada sobre a sociedade constrói grupos e separam tantos outros e carrega os sonhos e as perspectivas para dias melhores. Essa artigo discutiu a preparação e repercussão das duas santas missões que o capuchinho mais popular realizou na Terra da Laranja. Tudo foi acompanhado pelo olhar atento das beatas que o acompanharam nos dias impetuosos. Tudo foi visto e guardado nas memórias individuais de mulheres e homens que viviam na cidade no alvorecer daquela década. Essas memórias se tornaram em bem coletivo. As crenças supersticiosas e o mistério alimentaram as lembranças e construíram um imaginário rico e diversificado. Na crença popular do povo de Boquim, santos e demônios conviviam na naqueles dias de Santas Missões. Para além desta devoção comum, a padroeira e a frei Damião, denotamos que cada indivíduo possui sua particularidade de entender a presença do frade em Boquim. Cada trama apresentada pelos entrevistados exibiu um modo de ser, viver e perceber o missionário Damião. 26 SANTO, Maria Elder do Espírito. Entrevista concedida no dia 30 de outubro de 2010. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 38
  • 39. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Bibliografia ANDRADE, Péricles. Sob o Olhar Diligente do Pastor: a Igreja Católica em Sergipe. São Cristóvão: Editora da UFS/Fundação Oviêdo Teixeira, 2010. BOURDIEU, Pierre. A Economia das Trocas Simbólicas. 5 ed. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2004. CRUZ, João Everton da . "Caminhando com Frei Damião no Sertão Nordestino: uma experiênciaMissionária".In:_________.http://meuartigo.brasilescola.com/religiao/caminha ndo-com-frei-damiao-no-sertao-nordestino.htm. Acessado em 26/11/2010. DURKEIM, Émile. " A Noção de Espíritos e de Deuses". In.:_________. As Formas Elementares de Vida Religiosa: o sistema totêmico na Austrália.Tradução. Pereira Neto; revisão José Joaquim. – São Paulo; Ed.. Paulinas, 1989. p.300. ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano: a essência das Religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2001. FRESSATO, Soleni Biscouto. Cultura popular: reflexões sobre um conceito complexo. In: O profano é sagrado na Bahia: imagens e representações da cultura popular. Disponível em: http://oolhodahistoria.org/culturapopular/artigos/culturapopular.pdf. Acessado em 18-08- 2010. MEIHER, José Carlos Sebe Bom. História oral: como fazer, como pensar. São Paulo: Contexto, 2007. SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos Pecados: moral, sexualidade e inquisição no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. Fontes Orais Consultadas ALMEIDA, Maria. Entrevista concedida no dia 07 de novembro de 2010 ANDRADE, Maria Antônia Dias. Entrevista concedida no dia 23 de novembro de 2010. MENEZES, Josefa Miguel de. Entrevista concedida no dia 17 de outubro de 2010 MENEZES, Aliete Miguel de. Entrevista concedida no dia 15 de outubro de 2010 SANTO, Maria Elder do Espírito. Entrevista concedida no dia 30 de outubro de 2010. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 39
  • 40. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS SANTOS, Josefa Durval. Entrevista concedida no dia 24 de outubro de 2010. SILVA, Maria Caetana Da. Entrevista concedida no dia 24 de agosto de 2010. Livro de tombo da Igreja Matriz Senhora Santana, 1972.p.58 São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 40
  • 41. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 07. “UMA CAPITAL EM PROCESSO DE SECULARIZAÇÃO”: ARACAJU ÀS VÉSPERAS DO CONCÍLIO VATICANO II Eduardo Augusto Santos Silva Resumo: O presente artigo traz uma reflexão acerca de como os impactos da “modernidade” durante a primeira metade do século XX contribuíram para uma secularização da moral cristão-judaica na sociedade ocidental, especificamente, em Aracaju. Observamos através de leituras de Eric Hobsbawm como o surgimento e as crescentes inovações tecnológicas, principalmente, nos meios comunicação de massa contribuíram para a mudança nos hábitos cotidianos tradicionais do mundo ocidental. Vimos como o desenvolvimento dessa orientação secular motivou a Igreja Católica a iniciar o Concílio Ecumênico Vaticano II em 1962 a fim de dialogar com a modernidade. Em seguida, verificando a realidade brasileira a partir de Riolando Azzi, notamos que durante os anos 1950 novos costumes se desenvolveram, progressivamente, no Brasil e favoreceram a secularização dos costumes religiosos de tradição católica, como a importação de ritmos musicais estrangeiros e a expansão das opções de lazer noturno, que incentivou a sexualidade a ganhar uma dimensão diferente da cristã. Por fim, somamos as discussões mencionadas com uma análise da sociedade aracajuana baseada nas contribuições de Ibarê Dantas e de pesquisas no periódico oficial da Arquidiocese de Aracaju “A Cruzada”. Palavras-chave (quatro): Igreja Católica; Concílio Vaticano II; Aracaju; Secularização. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 41
  • 42. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 08. A POSIÇÃO DOS CRISTÃOS NOVOS NA SOCIEDADE AÇUCAREIRA NA PRIMEIRA VISITAÇÃO DO SANTO OFÍCIO À AMÉRICA PORTUGUESA Ernania Santana Santos 27 Resumo: Durante o século XVI, os cristãos-novos desempenharam papel importante na composição da sociedade açucareira, sendo significativa o seu desempenho no setor econômico, onde viviam com uma relativa liberdade para praticar sua antiga fé judaica. Mas, não demorou muito e logo passaram a conviver com a sombra que teimava em atormentá-los e persegui-los, era o braço secular do santo ofício. Aos nove dias do mês de junho de 1591, aportou na Bahia em companhia do governador geral, D. Francisco de Souza, o licenciado Heitor Furtado de Mendonça, dando início à primeira visitação do santo ofício à América portuguesa. Palavras-chave: Inquisição, Sociedade, Perseguição, Cristãos-novos. INTRODUÇÃO Na primeira visitação do Santo Ofício à América portuguesa, quando a incipiente colônia ainda findava o primeiro século de sua colonização, já se percebia a presença de um grande número de cristãos-novos que aqui habitavam e desempenhavam algumas funções na administração, bem como na economia colonial local, tendo como principal atividade econômica a produção do açúcar. Essa primeira visitação, através da documentação produzida nos permitiu conhecer diversos aspectos do cotidiano colonial, principalmente no que diz respeito às práticas religiosas de seus habitantes. Aos vinte e nove dias do mês de julho de 1591 deram início as confissões da capitania da Bahia e recôncavo baiano, tendo suas atividades finalizadas em setembro de 1993. Entre setembro de 1593 e fevereiro de 1595 foi à vez da capitania de Pernambuco, Itamaracá e Paraíba. Como sabemos, não obstante, o tribunal da inquisição fora criado em Portugal no ano de 1536, tendo, portanto, cinquenta anos de sua existência até sua chegada ao Brasil, onde nunca houve a fixação do mesmo. As razões dessa primeira visitação são divergentes por parte da historiografia que estuda o tema, enquanto alguns estudiosos atribuem somente ao aspecto econômico, na 27 Graduada em história pela Universidade Federal de Sergipe – UFS, integrante do Grupo de pesquisa Diáspora Atlântica Sefardita. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 42
  • 43. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS medida em que aqui, já se encontravam desde a colonização um grande número de Cristãos novos bem estruturados no que diz respeito as suas atividades econômicas, outros preferem apostar na necessidade de homogeneização e manutenção do catolicismo, por parte da igreja católica, caracterizando assim o aspecto religioso, enquanto que outros especialistas consideraram todos os aspectos citados acima como preponderantes para a realização da mesma. Nesse momento da primeira visitação do braço secular, o nordeste açucareiro apresentava uma realidade diversa, plural, e heterogênea, composta por elementos católicos, negros, indígenas e judaicos que mesclaram na colônia criando uma religião sincrética e intrinsecamente colonial. “Cabia a ação do Santo Ofício, somar esforço no sentido de homogeneizar a humanidade inviável, trazer a fé católica os idólatras e infiéis da colônia a fim de se povoar e aproveitar a dita terra, punindo os transgressores, blasfemos, hereges, sodomitas, falsários, dando-se a sentença e executando. (SOUZA, 1986: 71). A análise da documentação nos permite a partir das confissões e denunciações dos inquiridos e confidentes traçar um quadro rico em informações e nós permitimos ter um retrato do Brasil naquele primeiro século de colonização, haja vista que traz a luz um rico quadro das ideias, sentimentos, fantasias, aspirações, atividades econômicas, bem como da sociedade da época, na medida em que terça um panorama das variadas condições sociais dos colonos, dos modos de viver e de falar, da alimentação, das diferentes culturas, das relações de convivência entre cristãos velhos e novos, entre senhores e escravos etc. Contudo a ênfase do nosso estudo aqui, busca priorizar a posição social dos cristãos novos na colônia, bem como, de compreender como eles foram perseguidos e considerados tão subversivos, naquela conjuntura, a ponto de serem acusados de difundir no meio cristão suas crenças em detrimento da ordem eclesiástica estabelecida. Para Novinsky, "os cristãos novos, como antes deles os judeus, foram acusados de ser diferentes na conduta e no caráter, devido a discrepâncias inatas”. De nada adiantará a conversão, o cristão-novo continuava marcado pelas características associadas aos judeus . (NOVINSKY, 1992: 33). São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 43
  • 44. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS A religião exercia sobre os homens do século XVI, uma influência, ao mesmo tempo profunda e opressora, da qual era impossível escapar. Desde o primeiro século da colonização a colônia apresentava duas faces uma detratora e uma edenizadora. Esses antagonismos foram apresentados por alguns padres jesuítas, bem como pelos primeiros viajantes. A autora Laura de Mello cita a carta do padre Azpilcueta Navarro enviada à metrópole relatando a situação na colônia. Essas fontes davam conta de registrar a vida pecaminosa e desregrada da gente que vivia no nordeste brasileiro, nesses relatos muitas vezes os padres se mostraram descrentes com o queriam, e consequentemente na regeneração da fé, diziam ainda que a colônia era por excelência o lugar do pecado, que paulatinamente se generalizava. (SOUZA, 1986: 61). UM PROBLEMA DA HISTORIOGRAFIA Para Anita Novinsky, a visitação se deve ao aspecto econômico, na medida em que afirma, “o mundo novo, o desconhecido, o lugar de degredo do século XVI que já começa a tornar-se uma terra de promissão”. Naturalmente ela se refere ao processo de diáspora dos cristãos-novos para a colônia, que se deu de maneira gradativa no princípio desse mesmo século, e se intensificou na sua segunda metade, período em que compreende nosso estudo. E completa ainda a autora, “as razões que trouxeram para a Bahia os visitadores e comissários do santo ofício da inquisição, que causaram a perda de algumas vidas e dispersão de muitas, foram as mesmas que impulsionaram a perseguição em Portugal: desequilíbrio econômico profundo, e que à tona se revestia de caráter religioso. (NOVINSKY, 1992: 65). Considerando a concepção de Anita Novinsky destacada na exposição, a partir da documentação relativa à visitação do santo ofício, a autora acredita ter se concentrado a ação inquisitorial no nordeste açucareiro, por registrar uma forte presença de cristãos-novos nessa localização, atribuindo como o único objetivo da empreitada do santo ofício a perseguição aos conversos. Como bem nota Luiz Roberto Lopez,5 “muitos colonizadores eram cristãos-novos, sujeitos aos já conhecidos preconceitos raciais e religiosos e foragidos da intolerância inquisitorial da metrópole.” Esta exerceu, lá rigorosa perseguição, até porque confiscava os bens dos convertidos e, por isto não raro forjava acusações. (LOPEZ, 1993: 132). São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 44
  • 45. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Ainda de acordo com Anita Novinsky, desde do final do século XVI, que já apareciam nos registros da documentação analisada, a presença de cristãos novos que viviam na colônia e enviavam açúcar brasileiro entre outros produtos para Hamburgo, comprovando dessa forma uma posição de destaque no comércio, (NOVINSKY, 1992: 88). Essa concepção não é uníssona, haja vista, que no diálogo com Ronaldo Vainfas, não obstante, ele considere o aspecto econômico proposto por Anita Novinsky, atribuí outros motivos para a visitação, como por exemplo, a um programa de estratégia do tribunal da inquisição, que até aquele momento tinha se concentrado na metrópole, e de agora em diante se lançaria ao ultramar, sobre essa proposição, coloca Vainfas, “não se pense que a visitação ao Brasil possuía o objetivo fundamental ou exclusivo de perseguir os cristãos-novos abrigados no trópico”. (VAINFAS, 1997: 8). Para José Antônio Gonçalves de Mello, não são conhecidas as razões que motivaram a vinda da inquisição ao Brasil, entretanto, como ela ocorreu nos dois principais núcleos açucareiro, pode sugerir que tivesse alguma relação com o fato de existir nas duas capitanias, uma grande parcela de cristãos-novos, e consequentemente de possíveis judaizantes. (MELLO, 1970: 2). Essa concepção de Mello, que apesar de não apontar com precisão quais foram as razões, faz um diálogo com Anita Novinsky, e diverge com a visão de Vainfas, que não descarta esse ponto, más, prefere acrescentar outros motivos. De acordo com Lopez, “a inquisição foi um instrumento de uniformização religiosa e de hegemonia política, entretanto, no Brasil, chocou-se com certas situações intransponíveis como, a flexibilidade dos jesuítas, motivadas pelas necessidades da catequese; a mestiçagem, o sincretismo religioso, provocando inesperadas fusões entre o catolicismo e os ritos primitivos.” Em suma as resistências implícitas da colônia não deixaram de ser as marcas históricas de sua originalidade inicial. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 45
  • 46. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS OS CRISTÃOS-NOVOS E SUAS FUNÇÕES NA COLÔNIA A partir das denúncias relatadas também foi possível perceber um retrato do Brasil colonial, no que diz respeito a mais importante atividade econômica no período dessa visitação, que compreende também os cristãos-novos como partícipes desse processo. A colônia portuguesa permitia, aos que dispunham de recursos em moeda corrente, vultosos lucros. Desse modo, atraiu os cristãos-novos perseguidos pela inquisição, que impossibilitados de desenvolverem seus negócios na metrópole, inicialmente empenharam-se no comércio, mas rapidamente tornaram-se agentes financeiros, fornecendo capital para a realização de safras e para a compra de escravos, adquirindo açúcar e vendendo na Europa com grandes lucros. (NOVINSKY, 1992: 40). A despeito da funções desempenhadas pelos cristãos-novos na colônia, a documentação pesquisada mostra uma diversidade de ofícios, como: mercadores que em alguns casos ascenderam à condição de proprietário de engenho; mestre de açúcar – era o mais especializado dos trabalhadores, espécie de engenheiro de produção – rendeiro de engenho, e etc. Contudo, observou-se uma predominância para os cristãos-novos que se denominavam lavradores. Que a produção canavieira fora de suma importância no cotidiano desses colonizadores, em que algumas vezes o açúcar foi comparado a um “Deus” pelos blasfemadores, não se pode negar, contudo, convém analisar melhor essa afirmação nos casos de denúncias de blasfêmia que se seguem. “A fé mostrava por isso mesmo, contornos tradicionais, arcaicos, onde a demanda de bens materiais e de vantagens concretas assumia grande importância, como se fosse uma espécie de contrato do tipo “toma lá-da-cá". (SOUZA, 1986: 109). Pero Nunes, cristão-novo, rendeiro do engenho Del Rei, aparece em duas denúncias de blasfêmias por comparar o açúcar a “Deus.” Na primeira é denunciado por Maria Roiz, cristã velha, que ouviu dizer do dito seu marido que Pero Nunes, indo ao engenho da cidade buscar São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 46
  • 47. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS o açúcar ou dízimo de Deus, disse vendo estar de baixo da pilheira, “olhai onde está Jesus Cristo.”Contraditoriamente, na segunda denuncia feita por Fernão Ribeiro de Souza, cristão velho, e que se refere ao mesmo engenho da cidade, a denúncia aparece da seguinte maneira: indo uma vez ao engenho da cidade e vendo o açúcar que estava apartado para o dízimo de Deus, estar no chão mascabado e preto, disse pois, “este é o vosso Deus, assim o tratais,” chamando Deus ao açúcar. Não é fácil entender pelos autos do processo, qual dos dois casos apontados é o verdadeiro, se o primeiro em que a blasfêmia é dirigida a Jesus, ou no segundo quando dirigida a Deus, ou ainda, se os dois são verdadeiros, bem como, não dá para atestar em que momento foram ocorrido, se no mesmo dia, se em dias diferentes, mas, o fato é que esse tipo de blasfêmia semelhante aparece também dirigida como desacato à N. Senhora, cometida por um mestre de açúcar, também cristão-novo não identificado, que fora denunciado por Antônio Dias, padre da companhia de Jesus, que ouviu dizer segundo sua lembrança ao dito padre Brás Lourenço em São Vicente, costa deste Brasil, que estando um mestre de açúcar enformando o açúcar nas formas, disse que se ali estivesse N. Senhora também a encorparia naquela forma. Como podemos perceber, as denúncias se caracterizavam principalmente pela imprecisão dos fatos para quem as fazia, chegando ao ponto de uma mesma denúncia, aparecer de forma diferente na boca de outros acusadores. A maior parte dos denunciantes repetia acusações “por ouvir dizer” e não por eles próprios testemunhado, nesse sentido predominavam as informações provenientes de diz-que-diz e murmurações, e são raros os depoimentos baseados em fatos objetivos. Quanto à periodicidade em que os fatos mencionados pelas testemunhas ocorreram, tanto nas denunciações, quanto nas confissões, não se percebe um predomínio ou maior incidência de um período em detrimento de outro, o que se observa é que os fatos remontam a períodos variados como: um dia, alguns meses, poucos anos, ou ainda, muitos anos atrás. Até mesmo em alguns casos, as denúncias são dirigidas a indivíduos já falecidos há alguns anos, como por exemplo, podemos citar os casos de Branca de Leão, a mais citada em toda a São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 47
  • 48. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS documentação, mestre Afonso, pai de Branca de Leão e Pero Nunes, todos cristãos-novos defuntos. Outro dado importante do ponto de vista do aspecto social, a ser considerado refletido a partir da observação feita na documentação no período dessa visitação, é que na maioria dos casos de denúncias, como era de praxe ao final de cada testemunho, o denunciante era convidado a assinar sua confissão ou sua denúncia, e como muitas vezes não sabia assinar, assinava pela testemunha o notário do santo ofício Manuel Francisco. Com certeza a maioria não frequentou escola alguma e para os poucos que sabiam ler e escrever, percebe-se a dificuldade com que faziam, pelo tipo de caligrafia deixada no papel. CONCLUSÃO O judeu converso, isto é, convertido em católico, preservou da herança tradicional os preceitos e sentimentos básicos que serviriam de fundamentação para as suas respostas e mesmo estando fora do alcance da ortodoxia de la halajá judaica preservou inconscientemente a aversão hereditária ao culto das imagens, à comunhão, e a confissão , também negava a divindade de cristo e descria da imaculada conceição, da santíssima trindade e esperavam a vinda do Messias verdadeiro. (NOVINSKY, 1992: 37- 40). Desde o ano de fundação da inquisição portuguesa, em 1536, quando publicou seu monitório, documento em que constava a lista dos delitos a serem confessados ou denunciados ao Tribunal, a principal ferramenta da investigação foi o interrogatório, que causou temor e trauma à maior parte dos inquiridos. Outros crimes foram encontrados nos autos, como a sodomia, a feitiçaria, a bigamia, mas foram as blasfêmias heréticas que se constituíram no foco principal da ação do Tribunal lusitano, fato que possibilitou a preferência em punir os convertidos ao cristianismo que eram acusados de judaizar, os chamados cristãos-novos. O que a inquisição exigia dos seus confitentes era que trouxessem todas as suas culpas na memória para fazer delas uma inteira e verdadeira confissão, dizendo a verdade pura para São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 48
  • 49. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS que sua alma pudesse ser salva. A cada confissão repetiam como era de praxe aquele tribunal que deveria examinar melhor sua consciência, esquadrinhá-la mesmo, desvendando assim as intenções mais ocultas. Os testemunhos se seguiam, e o mais aconselhado era se apresentar ao inquisidor e admitir sua culpa, mas, ao mesmo tempo declarar, que nunca acreditara em suas próprias afirmações heréticas. Quantos às denuncias atribuídas aos cristãos-novos, na sua totalidade foram classificadas como anti-cristãs, com maior incidência de três tipos específicos: a negação da divindade de Cristo, tendo como principal blasfemador Pero Nunes; os desacatos ao crucifixo, repetido frequentemente por Branca Leão; e a negação da virgindade de Maria tanto difundida por Manuel de Paredes. Para esses não era preciso venerar suas relíquias ou imagens: “Quanto às relíquias dos santos, são como qualquer braço, cabeça, mão ou perna, acho que são iguais aos nossos braços, cabeças, pernas e não devem ser adoradas ou reverenciadas, não se deve adorar as imagens, e sim Deus." Por fim, consequentemente fruto das suas inquirições e investigações impelindo as pessoas a fazerem delações que jogavam as pessoas umas contras as outras, essa primeira visitação tenha provocado desentendimentos entre os amigos, parentes, vizinhos, chegando a provocar ruptura nas relações entre cristãos-novos e cristãos velhos, criando preconceitos nunca antes ocorridos. BIBLIOGRAFIA: FERLINI, Vera Lúcia Amaral. A civilização do açúcar: séculos XVI a XVIII. 11a ed. São Paulo:Brasiliense,1994. GUINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário temático do ocidente medieval.Bauru, São Paulo: Edusc, 2006. LOPEZ, Luiz Roberto. História da Inquisição. Porto Alegre: Mercado aberto,1993. MOTT, Luiz Roberto de Barros. A inquisição em Sergipe: do século XVI ao XIX. Aracaju: Sercore Artes Gráficas, 1989. MOTT, L. Bahia: inquisição e sociedade [online]. Salvador: EDUFBA, 2010. 294p. ISBN 978-85-232-0580-5. Available from SciELO Books <http://books.scielo.org>. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 49
  • 50. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS NOVINSKY, Anita. Cristãos novos na Bahia: a Inquisição no Brasil. 2a ed. São Paulo: Perspectiva, 1992. OLIVEIRA, Marques. A Sociedade Medieval Portuguesa, 4a. Ed., Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1981, p. 172. PIERONI, Geraldo, Banidos: A inquisição e a lista dos cristãos novos condenados a viver no Brasil. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. SIQUEIRA, Sonia. A Inquisição Portuguesa e a Sociedade colonial. São Paulo: Ática, 1978. SOUZA, Laura de Mello e. O diabo e a terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial. 9a reimpressão, São Paulo: Companhia das Letras, 1986. VAINFAS, Ronaldo. Confissões da Bahia: santo ofício da inquisição de Lisboa. Org. Ronaldo Vainfas, São Paulo: Companhia das Letras, 1997. FONTES IMPRESSAS: Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil pelo Licenciado Heitor Furtado de Mendonça: Confissões da Bahia 1591-1592. Prefácio de Capistrano de Abreu, Rio, F. Briguiet, 1993. Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil: Confissões de Pernambuco 1593- 1595, ed. J. A. Gonsalves de Mello, Recife, Universidade Federal de Pernambuco, 1970. Livro 5 das ordenações Filipinas. Disponível em: http://www1.ci.uc.pt/ihti/proj/filipinas l5p.Acesso em: 24 de dezembro de 2012. 1o. Livro das denunciações do santo ofício ao Brasil por Heitor Furtado de Mendonça. Disponível em: http://digitarq.dgarq.gov.pt/ViewerForm.aspx?id=2318685. Acesso em: 10 de dezembro de 2012. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 50
  • 51. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 09. SIMÃO DIAS: DE UM VAQUEIRO A UMA CIDADE. O CICLO DO COURO E AS ORIGENS DO MUNICÍPIO DE SIMÃO DIAS NO SÉCULO XVI E XVII Jessica Messias dos Santos28 Resumo: Várias versões de um personagem que marcou a origem do município de Simão Dias, Neste artigo irá conhecer o contexto histórico antes e no decorrer do surgimento desse personagem emblemático que mesmo sendo vaqueiro ou o proprietário de terras e gado sua origem está vinculada com a sociedade do Couro, primeira atividade econômica das terras de Sergipe Del Rey. Sua existência chegou a ser questionada devido a discordâncias de versões e Simão Dias passou a se chamar Anápolis, entretanto sua participação histórica na contribuição para formação desse município é tão relevante que o município voltou a levar seu nome. Palavras-chave: Sesmaria – Invasão holandesa – Simão Dias – Identificação Para entender melhor as versões que circundam sobre a figura do emblemático Simão Dias, é preciso se situar no contexto histórico anterior ao seu surgimento. Na época da colonização de Sergipe, Portugal estava dominado pela Espanha através da união Ibérica. Estes dois reinos formavam a coroa luso-espanhola, com isso os Filipes tiveram participação direta nas decisões sobre a conquista de Sergipe Del Rey. As terras entre o rio Real e o São Francisco pertencia ao governo luso-espanhol, entretanto estavam vulneráveis a invasores, pois não contavam de fato com o domínio real. Após a tentativa frustrada de catequizar os indígenas que habitavam as terras de Sergipe Del Rey e como havia interesse em dominar esse espaço, principalmente por parte de Luiz de Brito governador da capitania da Bahia, o governo luso-espanhol juntamente com o governo baiano organizou a “guerra justa” para conquistar de forma violenta esse território. 28 Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe. Orientada pelo Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Dos Santos. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 51
  • 52. Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Era considerada justa, pois já tinha sido tentado dominar o território de forma pacífica através da catequização com o jesuíta Gaspar Lourenço, mas a maioria dos índios revoltosos e não se renderam. Os primeiros habitantes das terras que mais tarde seria o município de Simão Dias foram índios remanescentes da tribo dos Tapuia, integrante da missão do jesuíta Gaspar Lourenço, que para fugir à perseguição da expedição de Luis de Brito, governador da Bahia, na sua tentativa de conquista do território sergipano, ali se refugiaram em fins do século XVI, estabelecendo-se nas florestas do Caiçá. (Fonte: http://www.ibge.gov.br/cidadesat/painel/painel.php?codmun=280710) Após a guerra justa, é fundado o primeiro esteio de dominação do governo São Cristovão, e a partir daí, a capitania da Bahia estava responsável pela capitania de Sergipe Del Rey com isso também foram distribuídas Sesmarias para os que lutaram na guerra contra os índios. O maior interesse desses sesmeiros era para a criação do gado, mas também para pequenas lavouras. O principal criador de gado era o baiano Garcia D’Àvila que estimulou o governador Luiz de Brito na luta armada contra os tupinambá. Antes da união Ibéria, Portugal tinha um lanço econômico muito forte com a Holanda que era responsável pela comercialização de todo açúcar produzido por Portugal. Entretanto Espanha e Holanda não se davam muito bem. E com isso durante o Governo luso-espanhol Portugal estava proibido de comercializar com a Holanda. Gerando um prejuízo tanto para Portugal quanto para os países baixos, como podemos observar nessa citação abaixo: Portugal e Países Baixos, antes da união daquele à coroa espanhola, mantinham largo comércio, no qual os navios neerlandeses traziam para os portos portugueses não só mercadorias do norte da Europa – trigos, madeira, metais e manufaturas diversas – como produtos da sua própria indústria, sobretudo peixe, manteiga e queijo; de torna-viagem carregavam o sal grosso de Setúbal, vinhos, especiarias e drogas do oriente e da África, açúcar e madeiras do Brasil. Ao ser aquele país envolvido na luta entre a Espanha e os “rebeldes” holandeses em 1580, esta negociação era-lhe de vital importância. Por mais de uma vez (1585, 1596,1599) navios neerlandeses sofreram por ordem dos Filipes, embargos mais ou menos prolongados em portos de Portugal, ocasionando interrupções temporárias do comércio e consequente escassez dos gêneros que ali iam buscar, sobretudo do sal, ingrediente essencial às indústrias do pescado e dos laticínios. Tal ato forçou os holandeses a procurar o abastecimento de sal nas ilhas de Cabo Verde, com o que iniciaram a sua navegação rumo às colônias ultramarinas ibéricas. Entretanto, tonara-se de tal modo indispensável para a economia portuguesa a navegação dos holandeses, que os Reis da Espanha cederam aos protestos dos mercadores e à São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 52