Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR 
UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 
Anais Eletrônicos - N⁰ 01-2014. 
ISSN: 
São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 1
Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR 
UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 
Anais Eletrônicos – 2014 
Título: 
Anais Eletrônicos – IV Colóquio do GPCIR: “Outros – Biografia e sujeitos 
históricos” 
ISSN: 
Organizadores: 
Antonio Lindvaldo Sousa (Coordenação Geral) 
Claudefranklin Monteiro Santos (Coordenação Adjunto) 
Ane Luíse Silva Mecenas (UNISINOS/ UNIT/ membro do GPCIR) 
Magno Francisco de Jesus Santos (UFF/ Faculdade Pio X/ membro do GPCIR) 
Vladimir José Dantas (Faculdade Pio X/membro do GPCIR) 
Thiago Fragata (Museu Histórico de Sergipe/ membro do GPCIR) 
Aquilino José de Brito Neto (UFS/ membro do GPCIR) 
Andreza Silva Mattos (UFS/ membro do GPCIR) 
Leonardo Matos Feitoza (UFS/ membro do GPCIR) 
Priscilla Araujo Guarino Silveira (UFS/ membro do GPCIR) 
André Sá (membro do GPCIR) 
Eduardo Augusto Santos Silva (UFS/ membro do GPCIR) 
Josineide Luciano Almeida Santos (membro do GPCIR) 
Rosana Oliveira Silva (membro do GPCIR) 
Tamires dos Anjos Oliveira (membro do GPCIR) 
Raquel de Fátima Parmegiani (UFAL) 
Monica Liz Miranda (UFVJM) 
Severino Vicente da Silva (UFPE) 
Edição: 1 
Ano da Edição: 2014 
Local de Edição: São Cristóvão-SE 
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Tipo de Suporte: Internet 
Editora: UFS 
Organização dos Anais Eletrônicos: 
Antônio Lindvaldo Sousa 
Andreza Silva Mattos 
Claudefranklin Monteiro Santos 
Priscilla Araujo Guarino Silveira 
Revisão: 
Andreza Silva Mattos 
Leonardo Matos Feitoza 
Diagramação: 
Andreza Silva Mattos 
Eduardo Augusto Santos Silva 
Capa: 
Eduardo Augusto Santos Silva 
Arte-finalização: 
Andreza Silva Mattos 
Priscilla Araujo Guarino Silveira 
Monitores 
Jandison Moura da Silva 
Jessica Messias dos Santos 
Denilza Viana de Almeida 
Victor Menezes Galdino Silva 
Mislene Batista Santos 
Barbara Barbosa dos Santos 
Nerita Carvalho Figueredo 
Ernânia Santana Santos 
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REALIZAÇÃO 
Grupo de Pesquisa Culturas, Identidades e Religiosidades 
(GPCIR/DHI/Cnpq/UFS) 
APOIO 
Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários 
(PROEX/UFS) 
Programa de Pós-Graduação em História 
(PROHIS/UFS) 
Departamento de História 
(DHI/UFS) 
Museu Palácio Olímpio Campos 
Museu Histórico de Sergipe 
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FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA CENTRAL 
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE 
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE 
C719a 
Colóquio do Grupo de Pesquisa Culturas, Identidade e 
Religiosidades (4 : 2014, : São Cristóvão, SE) 
Anais eletrônicos [recurso eletrônico] / IV Colóquio do 
GPCIR : outros – biografias e sujeitos históricos : 09 a 12 de 
abril de 2014, São Cristóvão, SE ; organizadores: Antonio 
Lindvaldo Sousa ... [et al.]. – São Cristóvão : Universidade 
Federal de Sergipe, Grupo de Pesquisa Culturas, 
Identidades e Religiosidades : Editora UFS, 2014. 
123 p. il. 
Disponível em: 
<http://coloquiogpcir2014.blogspot.com.br/> 
ISSN 
1. História – Fontes. 2. Sergipe – História. 3. Sergipe – 
Historiografia. 4. Biografia. Universidade Federal de Sergipe. 
II. Sousa, Antonio Lindvaldo. II. Título. 
CDU 93/94 
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SUMÁRIO 
I - APRESENTAÇÃO 08 
II - PROGRAMAÇÃO 09 
III – SIMPÓSIOS TEMÁTICOS LIVRES: RESUMOS E TEXTOS 
12 
COMPLETOS 
01. Teias de “falsos enganos”: artifícios de soldados mamelucos pela mão de obra 
indígena no sertão da Bahia colonial (1584-1592) 
Andreza Silva Mattos 
13 
02. A Disputa de Limites entre Sergipe e Bahia pela Região de Paripiranga/BA 
(1904-1914) 
Antunes Santana Reis 
14 
03. O Indivíduo na Historiografia: Antônio Alves no desenvolvimento da Atalaia 
Velha através da memória 
Aquilino José de Brito Neto 
23 
04. "Os engenhos, a dama e o Perfume”: Um Cabaré na sociedade açucareira (1950- 
1970) 
Barbara Barbosa dos Santos 
25 
05. “História Cruzada” – Orlando Dantas entre a Usina e a Imprensa 
Carla Darlem Silva dos Reis 
26 
06. Nos Trilhos de Deus: Aconselhar os Fiéis e Corrigir Práticas Oficiosas - As 
Representações do Missionário Frei Damião de Bozzano em Bomquim/SE (1972- 
1974) 
Degenal de Jesus Da Silva e Maria Edeilde de Jesus Santos 
27 
07. “Uma capital em processo de secularização”: Aracaju às vésperas do Concílio 
Vaticano II 
Eduardo Augusto Santos Silva 
41 
08. A Oposição dos Cristãos Novos na Sociedade Açucareira na Primeira Visitação 
do Santo Ofício à América Portuguesa 
Ernania Santana Santos 
42 
09. Simão Dias: De um vaqueiro a uma cidade. O ciclo do couro e as origens do 
município de Simão Dias no século XVI e XVII 
Jessica Messias dos Santos 
51 
10. Compreensão do Desenvolver da Pesquisa Sobre os Escravos em São Cristóvão 
José Daniel Rito dos Santos e Ane Luise Silva Mecenas 
57 
11. Flagrando a Vida: trajetória da vida intelectual e profissional da Professora Lígia 
Pina 
José Genivaldo Martires 
58 
12. O “tempo da fábrica” em São Cristóvão: apontamentos da pesquisa 
José Thiago da Silva Filho 
67 
13. “História e Memória: Casa da Fazenda Iolanda, um Patrimônio em Agonia” 
Josineide Luciano Almeida Santos 
77 
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14. “Pós Abolição da Escravatura em Sergipe e as Memórias de Rosalvo Vieira dos 
Santos” 
Kéfus Ibrahim Santana Cardoso 
78 
15. Um Pássaro fora do Ninho: Tentativa de debate historiográfico em torno da 
passagem de Inglês de Sousa pela Província de Sergipe 
Leonardo Matos Feitoza 
79 
16. História Comparada: A escravidão no Nordeste Colonial brasileiro segundo o 
livro didático de História do Ensino Fundamental 
Liliane Vieira Nunes 
80 
17. O elo Genético: Análise das Anomalias de Desenvolvimento e dos pontos 
epigenéticos em esqueletos Humanos Pré-históricos e a Possível Relação de 
Parentesco 
Madson de Souza Fontes e Olívia Alexandre de Carvalho 
81 
18. Representação do Negro na Ótica do Clero Colonizador 
Manoel Ribeiro Andrade 
89 
19. “Peregrinação ao derredor de mim mesmo”: A construção de uma memória 
pessoal por Luís da Câmara Cascudo 
Raquel Silva Maciel 
97 
20. Epifânio Dória e a República das Letras em Sergipe 
Ronaldo José Ferreira Alves Santos 
106 
21. A trajetória do missionário Capuchinho João Evangelista Monte Marciano (1843- 
1921) 
Tatiane Oliveira da Cunha 
116 
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APRESENTAÇÃO 
Este evento é realizado pelo Grupo de Pesquisa Culturas, Identidades e 
Religiosidades, lotado no departamento de História da UFS, sendo realizado de 
dois em dois anos. 
A temática de 2014 é “sujeitos e história” e terá como título “OUTROS: 
Biografia e sujeitos na História”. 
Sua programação está totalmente voltada para debater as atitudes dos 
sujeitos na história de Sergipe e em outras localidades do Brasil. Estarão 
presentes pesquisadores de várias localidades do nosso imenso país. 
Realizamos o mesmo como parte das discussões teóricas vinculadas ao 
projeto de extensão: “MASSAPÊ: memórias, engenhos e comunidades da 
microrregião da Cotinguiba em Sergipe” e do projeto Imprensa Cristã, 
denominado “Escrevendo em nome da fé e diante das vicissitudes históricas...”: 
Imprensa cristã e artigos de cristãos nos jornais laicos sergipanos. 
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Programação 
Dia 21/05 - (Quarta) 
Manhã 
- Minicursos (8h às 12h) 
Tarde 
- Credenciamento (a partir das 17 horas). 
- Local: Museu Palácio Olímpio Campos (Centro - Aracaju-SE). 
Noite 
- 18 horas - Conferência de Abertura – Sujeitos e biografia: notas teórico-metodológicas 
- Conferencista: Prof. Dr. Angelo Adriano Faria de Assis (Universidade de Viçosa) 
- Relançamento do livro “O Pulso de Clio” (Org.: Antônio Lindvaldo Sousa). 
- Atividade Cultural. 
- Local: Museu Palácio Olímpio Campos (Centro - Aracaju-SE). 
Dia 22/05 - (Quinta) 
Manhã 
- Minicursos (8h às 12h) 
Tarde 
- Sessão de Comunicações (14h às 18h) 
Noite 
- 19 horas - Mesa Redonda 1: Os Outros e as Releituras dos Outros. 
- Prof. Dr. Jérri Roberto Marin (UFMS). 
- Prof. Dr. José Paulino da Silva (UFS). 
- Prof ª. Msc.Tatiane de Oliveira Cunha (GPCIR). 
- Prof ª. Msc. Ane Luíse Silva Mecenas (UNIT) – Coordenação. 
- Lançamento do livro “100 Poemas para uma Pessoa Só” (Diego Vinícius). 
- Atividade Cultural. 
Local: Auditório da Didática V 
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Dia 23/05 - (Sexta) 
Manhã 
- Minicursos (8h às 12h) 
Tarde 
- 14 horas - Mesa Redonda 2: Os sujeitos e a pesquisa na pós-graduação (Mestrandos 
PROHIS-UFS) 
1º CICLO – Sujeitos, memórias e história oral. 
- Aquilino José de Brito Neto 
- Carla Darlem Reis 
- Priscilla Araújo Guarino Silveira 
2º CICLO – Sujeitos, outros e conflitos. 
- Andreza Silva Mattos 
- Josevânia Souza de Jesus Fonseca 
- Leonardo Matos Feitoza 
Local: Auditório da Didática VI 
- Atividade Cultural. 
Noite 
19 horas - Mesa Redonda 3: A Igreja e os Outros. 
- Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (UFS). 
- Prof. Msc. Magno Francisco de Jesus Santos (PIO X) 
- Prof. Msc. Robson Dias de Assis (UFS) 
- Prof. Esp. Thiago Fragata (MHS) – Coordenação. 
- Lançamento de livro “Temas de História e Educação Católica em Sergipe” (Org.: 
Raylane Navarro e Claudefranklin Monteiro). 
- Atividade Cultural. 
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Local: Auditório da Didática V 
Dia 24/05 - (Sábado) 
- 9 horas - Mesa Redonda 4: A Imprensa Cristã e os Outros. 
- Prof. Dr. Antonio Lindvaldo Sousa (UFS). 
- Profª. Msc. Verônica Maria Menezes Nunes (UFS). 
- Prof. Dr. Uziel (UFS). 
- Prof. Eduardo Augusto Santos Silva (GPCIR/UFS). 
- Profª. Priscilla Araujo Guarino Silveira (GPCIR/UFS). 
- Coordenação: Profª. Maria Sônia Santos Carvalho. 
- Atividade Cultural. 
- Local: Museu Histórico de Sergipe (São Cristóvão-SE) 
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01. TEIAS DE “FALSOS ENGANOS”: ARTIFÍCIOS DE SOLDADOS MAMELUCOS 
PELA MÃO DE OBRA INDÍGENA NO SERTÃO DA BAHIA COLONIAL (1584-1592) 
Andreza Silva Mattos 
Resumo: Com o crescimento da produção açucareira no Recôncavo baiano, na década de 
1580, os engenhos passaram a intensificar o uso da mão de obra indígena. E para tal, 
expedições foram enviadas ao sertão da Bahia colonial com o objetivo de “descer os gentios” 
para os engenhos. Entre essas expedições, destacamos a liderada por Gonçalo Álvares – 
homem experiente que também lutou com o Governador Luíz de Brito, em 1575, contra as 
aldeias de Aperipê e Surubi, no sertão do rio Real. Na expedição de Gonçalo Álvares, estava 
Simão Roiz – sujeito que guiará as nuances dessa pesquisa, apresentando-nos a outros 
soldados com os quais compartilhou relações sócioculturais. Nossas ponderações serão 
norteadas por Nobert Elias por meio do qual iremos compreender a rede de sociabilidades de 
Simão Roiz a fim de que possamos refletir acerca dos artifícios utilizados pelos soldados 
mamelucos para denegrir a imagem dos jesuítas e, com isso, obterem a confiança dos gentios 
nos sertões por onde andaram. Serão as fontes inquisitoriais, oriundas da Primeira Visitação 
do Santo Ofício à Bahia, em 1591, que nos permitirão alcançar a inteligibilidade desse espaço 
múltiplo que foi o sertão colonial. 
Palavras-chave: Soldados mamelucos. Gentios. Sertão Colonial. Jesuítas. 
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02. A DISPUTA DE LIMITES ENTRE SERGIPE E BAHIA PELA REGIÃO DE 
PARIPIRANGA/BA (1904-1914) 
Antunes Santana Reis 
Resumo: 
O presente trabalho aborda a discussão de limites entre os Estados de Sergipe e Bahia em 
relação à Cidade de Patrocínio do Coité (atual Paripiranga/BA). Por isso, tem como objetivo 
analisar os conflitos e confrontos entre sergipanos e baianos criados em torno da Obra Sergipe 
e Bahia (Questão de Limites) escrita pelo sergipano Padre João de Mattos Freire de Carvalho 
(1826-1946). Esse defendeu que a Cidade baiana de Patrocínio do Coité, onde atuava como 
pároco, deveria ser anexado a Sergipe. Apoiamo-nos nas reflexões Edward Thompson na 
defesa que os sujeitos históricos devem ser entendidos a partir de suas experiências culturais, 
onde os conflitos e confrontos em que se envolvem corroboram na formação de uma 
identidade que levam os sujeitos a defenderem seu grupo e tomar consciência de seu papel no 
mesmo. 
Palavras-chave: João de Mattos. Sergipe; Bahia; Limites. 
A discussão de limites entre os Estados de Sergipe e Bahia foi levantada por 
Felisbelo Freire, no último capítulo de sua obra História de Sergipe, e levada a Câmara 
Federal dos Deputados em 1891. Mas foi a partir de 1904 que essa temática ganhou maior 
importância entre os intelectuais sergipanos. Foi nesse ano que o Governador desse Estado, 
Josino Menezes, com o discurso pronunciado a Assembleia Legislativa, convocou toda a elite 
política e intelectual sergipana a defender os limites históricos do Estado com a Bahia, 
sobretudo na região Ocidental, com o objetivo de tornar novamente sergipana a região de 
Patrocínio do Coité (Atual Paripiranga-BA). 
Essa temática perpassou vários setores da sociedade sergipana, com o engajamento 
de intelectuais como professores, advogados e jornalistas. Brandão (1973) em a “Introdução 
ao estudo da Historiografia Sergipana” coloca que o Governo do Estado entregou a defesa dos 
seus limites a intelectuais que levantaram documentação e produziram várias obras 
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historiográficas. Dentre essas, está a Obra Sergipe e Bahia (Questão de Limites) escrita por 
João de Mattos Freire de Carvalho. Esse Padre e intelectual sergipano nasceu em Simão Dias 
– SE, e pertencia a uma das famílias mais ricas dessa região, por isso pode desenvolver seus 
estudos no Colégio Pio Latino Americano e na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, 
tornando-se Padre e doutor em direito canônico. Sua vida foi marcada pela atuação como 
pároco por 47 anos na Cidade de Patrocínio do Coité, atual Paripiranga-Ba. 
Sua ObraSergipe e Bahia (Questão de Limites) desencadeou conflitos e confrontos 
em relação a temática de limites entre Sergipe e Bahia devido sua proposta de anexar ao 
Estado de Sergipe a região de Patrocínio do Coité. Por isso limitamos nossa pesquisa ao 
recorte temporal que vai de 1904, quando ele já espalhava por Patrocínio do Coité sua defesa, 
até 1915 quando comissões dos dois Estados firmaram acordo de limites ao visitarem a região 
em litígio. 
O presente artigo vem analisar a discussão de limites entre os Estados de Sergipe e 
Bahia proposta por Mattos, no qual observamos o apoio que este recebeu por parte dos 
sergipanos para entendermos os conflitos e confrontos travados entre sergipanos e baianos. É 
importante ressaltar que não pretendemos abranger a discussão entre todos os estudiosos 
envolvidos nessa temática de limites geográficos, mas, sim,nos limitaremos ao período em 
que Mattosparticipou da discussão e das negociações políticas pela região de Patrocínio do 
Coité. 
Para entendermos os conflitos e confrontos gerados em torno dessa discussão, 
recorremos a Edward Thompson, o qual nos mostra que os sujeitos históricos devem ser 
entendidos a partir de suas “experiências culturais”, o seu fazer social. Os conflitos 
corroboram na formação de uma identidade cultural, que levam os sujeitos a defenderem seu 
grupo e tomar consciência de seu papel no mesmo. 
No apêndice da Obra de Mattos podemos perceber o repúdio e a reação baiana em 
relação a sua defesa de transferir o termo de Patrocínio do Coité para Sergipe. Antes mesmo 
de publicar seu trabalho, Mattos distribuiu entre seus paroquianos, um folheto intitulado: 
“Limites- Aos habitantes de Patrocínio do Coité”. Vejamos algumas considerações: 
É tempo já de nos levantarmos do atrazo e da decadência em que jazemos. O 
ukasebahiano de 1871, deu-nos uma existência civil, que longe de augmentar, vai 
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cada vez mais se enlanguecendo com pronunciada rapidez. Em logar de termos na 
Bahia uma mãe pátria desvellada, que nos ampare no nosso crescimento, 
prodigalisando-nos elementos e meios de desenvolvimento e vigor ao nosso 
organismo social, que encaminhe os nossos primeiros passos na trilha do progresso e 
da civilisação, e nos alente e nos proteja com seus recursos e cuidados, a nossa sorte 
tem-nos arrastado ao desamor a Bahia. (MATTOS, 1905, p. 61-62) 
Percebemos que Mattos tenta convencer os seus paroquianos a se voltarem contra a 
Bahia. Para isso, ele relata o abandono do governo baiano em relação a essa região, e comenta 
como o Coité se desenvolveria bem mais rápido se pertencesse a Sergipe. Embora ele 
encontrasse alguns adeptos entre os coiteenses, o repúdio as suas idéias foi imediato, partindo 
principalmente da elite política. Liderados pelo intendente do Coité, Joaquim de Mattos 
Carregosa, escreveram ao Governador do Estado da Bahia expressando o desacordo as idéias 
de Mattos e pedindo que sua posição se tornasse pública. Vejamos um trecho do artigo 
publicado no Jornal Diário da Bahia em 20 de novembro de 1904: 
O povo desta Villa legitimamente representado pelo seu intendente e camara 
municipal vem perante v. ex. protestar contra a publicação de um folheto que junto 
envia a v. ex., sob o título Limites – Aos habitantes do Coité – no qual algum 
sergipano abusando de nossa confiança, emitiu conceitos e opiniões favoráveis a 
antiga idéia da passagem ou anexação deste município à Sergipe como pretendem os 
habitantes daquele Estado. (Diário da Bahia, 1904) 
Vemos que as autoridades do Coité não pouparam críticas à posição de Mattos, 
colocando este como um sergipano que abusava da confiança recebida nas terras baianas. 
Porém, Mattos revidou tais opiniões e ao final de seu livroe critica os coiteenses 
argumentando quais motivos existentes para se orgulharem de serem baianos, e que a justiça 
se encarregaria de devolver a Sergipe o que era seu de direito e, por fim, escreve: 
E si somos todos amigos e irmãos debaixo do mesmo teto – a bellaPatria Brasileira, 
continuando o Coité a occuparo mesmo recanto dessacaza pátria em que está nem eu 
nem Sergipe nos enojaremos por isso; assim como sendo mudado para Sergipe, 
então é que terá a honra e os cômodos do filho pródigo ao reentrar no lar paterno e 
seus habitantes terão satisfação de encontrar aquella paz e felicidade, aquele 
desvello e adeantamento que nunca lhes há de chegar da madrasta e longiqua Bahia. 
(MATTOS, 1905, p. 68). 
Mesmo com todo seu esforço na elaboração de seu livro no intuito de 
conseguir a mudança do termo de Patrocínio do Coité para o Estado de Sergipe, Mattos não 
conseguiu o apoio necessário entre os baianos para que isso pudesse acontecer. Porém, a 
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partir de 1912, com a fundação do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, do qual Mattos 
foi sócio- correspondente, novas obras e conflitos surgiram em torno dos limites de Sergipe 
com a Bahia envolvendo a disputa pela região do Coité. Sergipe ganhava força pela união de 
seus intelectuais junto ao Governador do Estado José Siqueira de Menezes pela defesa de seus 
limites, e parecia que finalmente resolveria essa questão centenária. 
O Governo baiano, em resposta as movimentações sergipanas, e preocupado com a 
conservação de seu território, convocou, em 1912, o historiador e geógrafo Dr. Braz do 
Amaral para pesquisar em arquivos portugueses e nacionais documentos que pudessem 
esclarecer seus limites em relação aos Estados vizinhos. Essa pesquisa auxiliou os baianos na 
negociação de seus limites com os sergipanos. 
Em 1913 a discussão de limites entre os Estados de Sergipe e Bahia chegou 
pelasegunda vez a Câmara de deputados da República. O Deputado Federal Moreira 
Guimarães apresentou um Projeto de Lei em 13 de novembro de 1913, no qual pedia a revisão 
dos limites do Estado em relação à Bahia. Firmou-se então um acordo entre os governos dos 
dois Estados em que ambos criariam comissões para definição desses limites. Enquanto nada 
era resolvido se estendia pela região de Patrocínio do Coité, boatos e temores de invasão 
sergipana a mão-armada nessas áreas, como relata o trecho do telegrama enviado pelo 
governador da Bahia ao Presidente de Sergipe em 21 de outubro de 1913: 
Exmo. General Presidente Sergipe – Aracajú – Auctoridades jurídicas e policiaes, 
assim como agentes do Thesouro em Patrocínio do Coité, comunicam-me 
alarmantes notícias da próxima invasão do território deste Estado por forças de 
polícia de Sergipe. Compreende V. Ex. a gravidade de taes boatos para a população 
tão distantes de sua capital. (SEABRA Apud AMARAL, 1916, p. 72). 
O medo de confrontos armados era diário nessa região em litígio. Em resposta 
ao telegrama enviado pelo governador da Bahia, o Governador José de Siqueira Menezes 
garantiu que os sergipanos iriam conquistar a sua área de direito por meio da diplomacia e 
decisão do Governo Federal. Essa promessa, porém, não foi cumprida pelos sergipanos. Esses 
ocuparam áreas baianas no município de Patrocínio do Coité, nomeando professores e 
autoridade policial. 
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Diante desses conflitos Mattos continuou ao lado de seu Sergipe, como relata o 
Agente Fiscal do Norte da Bahia, Julio de Lima Valverde em 4 de novembro de 1913, em um 
telegrama ao Governador do Estado: 
[...] Ainda tenho a informar-vos que diversas pessoas conceituadas do Coité me 
comunicaram ter o Vigário da Freguezia, João de Mattos, em uma de suas domingas 
do mez de outubro p. findo, na ocasião da missa conventual, feito uma prática ao 
povo aconselhando que não temessem uma grande força vindo de Sergipe, pois esta 
não vinha fazer barulho e sim tomar Coité que pertencia a Sergipe [...] 
(VALVERDE Apud AMARAL, 1916, p. 79-80) 
Mesmo sofrendo críticas em sua Paróquia por concordar que o Coité deveria 
pertencer a Sergipe, Mattos se envolveu novamente nessa questão. Porém, percebemos em 
nossa pesquisa a ausência de outros documentos que demonstrem o seu envolvimento nessa 
fase de conflitos. 
As discussões sobre os limites de Sergipe com a Bahia em relação a Patrocínio do 
Coité ganharam ainda mais força após a Conferência realizada pelo baiano Dr. Braz do 
Amaral no IHGSE. Amaral apresentou documentos defendendo a posse da Bahia sobre o 
Coité e outras áreas em litígio. A reação contrária aos seus argumentos foi imediata por parte 
dos intelectuais e políticos sergipanos como escreveu Prado Sampaio: 
Ao nosso ver, não obstante, falta de documentos remotos, o direito de Sergipe 
continua incontestável sobre a zona litigiosa mesmo em face do uti possidetis que 
milita em nosso favor há mais de trinta anos em relação á antiga Malhada Vermelha. 
(SAMPAIO, 1914, p. 78) 
Para os sergipanos os documentos apresentados por Braz do Amaral não 
garantiam a posse de Patrocínio do Coité a Bahia. Os documentos reunidos pelos sergipanos 
tinham datas mais antigas, mas foi ignorado por Braz. Este ao voltar a Salvador divulgava na 
imprensa que a questão estava resolvida, pois os sergipanos não possuíam documentos ao seu 
favor. Em resposta a essas afirmações de Braz escreveu o prefeito de Anápolis (Simão Dias), 
Raphael Montalvão: 
Também não andou bem avisado o Sr. Braz do Amaral dizendo que não possuímos 
documentos que firmem os nossos direitos; sendo que, como refutação basta 
recomendar a leitura da História de Sergipe de Felisbelo Freire e a obra do Doutor 
Padre João de Mattos intitulada Sergipe e Bahia (Questão de Limites). 
(MONTALVÃO, 1914, p 126.) 
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Como podemos ver, embora Mattos não esteja atuando diretamente nesses 
conflitos, sua obra é referência na argumentação sergipana na defesa de seus limites. De 
ambos os lados não se aceitavam o que o outro pesquisava. Esses conflitos eram sustentados 
pela defesa da identidade de cada Estado. Tantos os intelectuais baianos como os sergipanos 
mergulhados na identidade de cadaEstado emitiam opiniões a seu próprio favor. 
As negociações continuaram até o ano de 1915 quando o Governador do Estado da 
Bahia enviou o Dr. Braz do Amaral novamente a Sergipe para que junto com as autoridades 
baianas visitassem as áreas em litígio e assim entrassem em um acordo para resolver a 
questão. E assim visitaram a região de Anápolis (Simão Dias) e Patrocínio do Coité 
(Paripiranga) percorrendo suas áreas limítrofes, juntamente com os intendentes das duas 
Cidades. Porém, os avanços não foram significativos para Sergipe, pois, as áreas visitadas já 
estavam a um bom tempo sob o domínio da Bahia. Amaral tinha na defesa de seus 
argumentos, documentos como da solicitação de uma escola por parte dos coiteenses ao 
Governo da Bahia em 1869, além de comprovantes de pagamentos de impostos dessa 
população a Bahia. 
Os sergipanos defenderam os seus limites históricos em favor deumaidentidade. Do 
ponto de vista de Amaral os coiteenses estiveram a favor dos interesses baianos por que 
também já tinham constituído sua identidade baiana e demonstrava sua opção de alinhamento 
a Bahia. Uma das fontes dessa argumentação é o telegrama enviado ao Governador J. J. 
Seabra em 1º de fevereiro de 1915 após passar pelo Coité: 
Visitei o Coité no dia 26 e recebi naquellebello e ridente torrão bahiano 
demonstrações de consideração e respeito tão grandes como se fosse V. Ex. mesmo 
que lá tivesse ido abraçar os nossos patrícios. Aos habitantes do Coité e aos seus 
magistrados prometi, em nome de V, Ex; toda a segurança de que serão respeitados 
as leias que garantem o nosso direito. (AMARAL, 1916, p. 133) 
Assim como negaram apoio ao desejo de Mattos em mudar o termo de 
Patrocínio do Coité para o Estado de Sergipe, os Coiteenses possivelmente continuaram 
firmes nesse desejo durante a negociação entre os dois Estados. A experiência dessa 
população vivendo como baianos, mesmo que muitas vezes desamparados em suas 
necessidades pelo governo, fizeram com que continuassem firmes no propósito de 
pertencerem ao solo baiano, conforme se ler na discussão da intelectualidade baiana. 
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A imprensa baiana aponta que a população do Coité criou grande admiração por Braz 
do Amaral, por esse ter defendido os seus interesses, como demonstra, por exemplo, o Jornal 
O Paladino muitos anos após a discussão de limites, ao defendê-lo de críticas políticas 
noticiadas em um jornal de Salvador: 
O nome do dr. Braz do Amaral não é um parvenu, de um adventício nesta zona. Para 
que alguns dos municípios desta região permanecessem bahianos e outros não 
sofressem mutilação, bem sabemos ao que se expoz o eminente homem público, as 
agruras Moraes que curtiu. Felizmente, não só este município como em muitos 
outros, as populações sabem que juízo formular tangente à actualmente campanha. 
(Jornal o Paladino, 28 de maio de 1922) 
O Jornal Paripiranguense demonstra a sua gratidão e admiração pelo Deputado 
Braz do Amaral em razão da defesa desse na conservação do município como parte do Estado 
da Bahia. Com isso percebemos mais uma vez o quanto a população coiteense esteve sempre 
firme ao desejo de continuar pertencendo a esse Estado. 
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
Através dos documentos analisados conhecemos os conflitos e confrontos travados 
entre sergipanos e baianos pela região de Patrocínio do Coité, sobretudo, compreendemos que 
esses foram sustentados em defesa das experiências culturais dos que estavam envolvidos. 
Percebemos o quanto a obra de João de Mattos desencadeou essa discussão, esse 
escreveuem apoio ao grupo político e intelectualde Sergipe a qual fazia parte. E assim,entre os 
sergipanos Mattos ganhou forte apoio na sua defesa de transferir Patrocínio do Coité para o 
Estado de Sergipe. Porém o mesmo não aconteceu entre os baianos. Através dos documentos 
analisados percebemos o quanto a elite intelectual e política baiana criticaram essa idéia e 
lutaram pela conservação de seu território. 
Portanto, foram tão comuns os conflitos e confrontos entre sergipanos e baianos nas 
áreas de litígio, como em Patrocínio do Coité, onde se temia invasões violentas. Com base na 
análise de documentos baianos presentes na Obra Limites da Bahia de Braz do Amaral, 
percebemos o quanto a Bahia se mobilizou nas negociações com Sergipe para não perder a 
região de Patrocínio do Coité. Além disso, podemos observar como os jornais dessa região 
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expressavam o desejo da população em pertencer a esse Estado, mesmo estando tão distantes 
da capital e muitas vezes desamparados pelo Governo. 
Os intelectuais e políticos se mobilizaram na defesa de seus próprios Estados, seja 
diretamente nas negociações, na pesquisa de documentos históricos e na produção de livros 
sobre o tema em discussão. Ambos, imersos em sua experiência cultural, estavam em torno de 
sua identidade, defendendo os interesses de seu Estado, é nessa condição de identidade que se 
pode explicar a persistência nessa discussão, pois foi em torno de suas experiências culturais e 
vicissitudes históricas que ambos, defenderam os seus interesses. 
REFERÊNCIAS 
FONTES 
ABREU, Francisco de Paula; AMARAL, Braz do. Jornal O Paladino. Patrocínio do Coité, 
28 de maio de 1922, Ano IV. N. 26. p. 2. 
AMARAL, Braz do. Limites do Estado da Bahia. Salvador: Imprensa oficial do Estado, 
1916. 
CARVALHO, João de Mattos Freire de. Sergipe e Bahia (Questão de Limites). Aracaju, 
Empresa D` “O Estado de Sergipe”. 1905. 
FREIRE, Felisbelo de Oliveira. História de Sergipe. Aracaju: Editora Voz, 1977. 2. edição. 
GUIMARÃES, Moreira. Discurso pronunciado sobre os limites de Sergipe, na sessão de 13 
de novembro de 1913, na câmara federal. In__ Revista do IHGSE nº 2,vol. I, Ano 1913. p. 
95-105. 
MENEZES, Josino. Limites entre os Estados de Sergipe e Bahia (discurso apresentado a 
Assembléia Legislativa do Estado de Sergipe). Aracaju: Empresa D` “O Estado de 
Sergipe”, 1904. 
MONTALVÃO, Raphael. Bahia – Sergipe: A questão de limites. In__ Revista do IHGSE nº 
4,Fascículo II - vol. II, Ano 1914. p. 116-127. 
SAMPAIO, Prado. Questão de Limites: Bahia – Sergipe. In__ Revista do IHGSE nº 3, 
Fascículo I -vol. II, Ano 1914 116. p. 77-78. 
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PRADO, Ivo do. A Capitania de Sergipe e suas Ouvidorias. Rio de Janeiro: Papelaria 
Brasil, 1919. 
BIBLIOGRAFIA 
BRANDÃO, José Calasans da Silva. Introdução ao estudo da Historiografia Sergipana. 
Trabalho apresentado ao V Simpósio de História do nordeste, Aracaju: agosto de 1973. 
SOUSA, Antônio Lindvaldo. Temas Para História de Sergipe II. São Cristóvão, CESAD, 
2010. 
THOMPSON, Edward P. A Formação da Classe Operária. Vol. 1. Rio de Janeiro: Editora 
Paz e Terra, 1987. p. 9-14. 
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03. O INDIVÍDUO NA HISTORIOGRAFIA: ANTÔNIO ALVES NO 
DESENVOLVIMENTO DA ATALAIA VELHA ATRAVÉS DA MEMÓRIA 
Aquilino José de Brito Neto 
Resumo: 
A Atalaia-velha é um bairro de Aracaju, Estado de Sergipe, conhecido principalmente 
pela sua praia. Era uma antiga colônia de pescadores e já pertenceu como povoado ao 
município de São Cristovão, tendo um acesso por terra para Aracaju bastante difícil, 
principalmente pela falta de pontes e estradas que ligassem um ao outro. 
O tempo seguia num ritmo lento, comparado ao atual, num ambiente pacato e ao som 
das marulhas. A pesca e o roçado eram as principais formas de subsistência dos moradores da 
Atalaia. Entre os meses de dezembro a fevereiro, tornava-se o local preferido de muitas 
famílias sergipanas, que iam desfrutar do verão no banho de mar mais agradável da cidade. 
Um pouco das lembranças que ainda se mantêm frescas em algumas pessoas que viveram em 
tal época neste lugar e que nunca perderam seus laços de afetividade com o mesmo, embora 
diversas transformações urbanas tenham descaracterizado o “cenário” compreendido entre as 
cinco primeiras décadas do século 20. 
Diante disso, propomos estudar as memórias de cinco indivíduos acerca do bairro 
Atalaia-velha em Aracaju, percebendo o significado que o mesmo possuiu na formação da 
identidade dessas pessoas. Para Pollack (1992), “a memória é um elemento constituinte do 
sentimento de identidade”. Dessa forma, nos comprometemos a analisar o desenvolvimento 
do bairro através desses habitantes, percebendo como um pequeno lugarejo foi se ampliando, 
e ao mesmo tempo, como muitas das tradições culturais ali desenvolvidas foram 
paulatinamente reduzidas e atualmente, lembradas por poucos. 
Podemos observar também, nesta localidade através das memórias daqueles que 
viveram e conviveram num passado diferente do atual momento, seu cotidiano, seus costumes 
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e sua cultura. Para Lefebvre (1991), “é na vida cotidiana que acontecem as verdadeiras 
criações, as ideias, os valores, os costumes”. 
Como “fio condutor” da nossa narrativa, inserimos um indivíduo da historiografia 
sergipana muito pouco conhecido, mas fundamental para compreendermos a localidade, já 
que ele foi um dos precursores e fundadores do antigo povoado Barreta, atualmente Atalaia 
Velha. Seu nome era Antônio Alves dos Santos, um homem que ainda vive nas memórias dos 
antigos moradores da região. Portanto, a História Oral será a constituição metodológica para o 
desenvolvimento desse trabalho. 
Palavras-chave: Memória, Atalaia-velha, Antônio Alves dos Santos, cotidiano. 
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04. "OS ENGENHOS, A DAMA E O PERFUME”: UM CABARÉ NA SOCIEDADE 
AÇUCAREIRA (1950-1970) 
Barbara Barbosa dos Santos 
Resumo: 
Este trabalho esta sendo desenvolvido a partir de pesquisas do Projeto Massapê (PIBIX/UFS 
2014) que tem como objetivo o resgate de memórias de trabalhadores dos engenhos 
localizados na microrregião da cotinguiba, através de pesquisas em arquivos e jornais, como 
também entrevistas de história oral com pessoas que trabalharam ou são filhos e netos de 
trabalhadores de engenhos portanto herdeiras desse passado. Entre várias entrevistas 
realizadas por membros do projeto se destaca a de Maria Hora, uma senhora de 80 anos que 
para além da vida de trabalhadora braçal dos engenhos Caraíbas, Pedras e Vassouras, ela nos 
revela a sua dupla jornada. Quando solta o facão do corte da cana, Maria lança mão de seus 
perfumes e arranjos e segue para o seu segundo emprego no cabaré da cidade. A partir dessa 
dupla jornada de dona Maria Hora podemos identificar a vida noturna da sociedade açucareira 
na cidade supracitada como também os vários meios que uma mulher negra, órfã vai 
encontrar para sobreviver num sociedade pos- abolição da escravatura. 
Palavras-chaves: Engenhos, Mulher, Cabaré , Rosário do Catete. 
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05. “HISTÓRIA CRUZADA” – ORLANDO DANTAS ENTRE A USINA E A 
IMPRENSA 
Carla Darlem Silva dos Reis 
Resumo: 
Filho de um usineiro e político, Manoel Côrrea Dantas, Orlando Dantas nasceu na cidade de 
Capela, em Sergipe, no ano de 1900. Durante a adolescência desgarrou-se dos latifúndios de 
seu pai para buscar o conhecimento na Universidade de Pernambuco. Inicialmente optou por 
Engenharia, mas logo desistiu, pois o seu instinto em conhecer e compreender a sociedade o 
fez trilhar o caminho da Sociologia. Ao retornar para Sergipe funda o jornal Gazeta 
Socialista, que ia de encontro com as suas origens, pois no reduto jornalístico pregava a 
reforma agrária e as mudanças sociais para as classes mais baixas. Essa comunicação pretende 
discutir a contraditória trajetória de Orlando Dantas, para isso, foram utilizados depoimentos 
de parentes, como Paulo Brandão e de ex-jornalistas que conviveram com ele, a exemplo de 
Luiz Antonio Barreto. Além disso, os editoriais assinados por “Seu Orlando”, do Jornal 
Gazeta Socialista que em 1953 passou a ser chamado de Gazeta de Sergipe, também nos 
fornecem vasto material para analisar quem foi Orlando Dantas. 
Palavras-chave: Imprensa – Biografia – Sergipe – Política. 
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06. NOS TRILHOS DE DEUS: ACONSELHAR OS FIÉIS E CORRIGIR PRÁTICAS 
OFICIOSAS - AS REPRESENTAÇÕES DO MISSIONÁRIO FREI DAMIÃO DE 
BOZZANO EM BOQUIM/SE (1972-1974) 
Degenal de Jesus da Silva1 
Maria Edeilde de Jesus Santos2 
Resumo 
A memória, mecanismo seletivo, lugar em que fica guardadas os acontecimentos que mais 
importam ou que marcam a vida das pessoas. celeiro em que se misturam o que queremos 
guardar com as lembranças que queremos esquecer. O artigo descreve à vida e representações 
de um missionário - Frei Damião de Bozzano - que passou por Boquim no Estado de Sergipe 
nos idos do segundo semestre entre os anos de 1972 e 1974. "Padim Ciço Romão", como 
alguns o chamavam, empreendeu a divulgar às Santas Missões pelo nordeste. Lugar propício, 
afinal, berço de um povo sofredor que enxergar na religiosidade à ajuda que tanto almejavam. 
Através de fontes orais construímos um pedaço daquele cosmo, imperfeito admitamos, mas as 
vozes estão aí, desejosas por mostrar o seu lado da história. 
Palavras-chave: Catolicismo, Religiosidade, Representações, Santas Missões. 
Indivíduos que destacam-se no cenário religioso brasileiro já não é novidade. O 
nordestino ante as dificuldades ambientais, de assistência médica, de locomoção entre tantas 
outras coisas, vê no campo religioso um meio por excelência, algo em que possam se segurar; 
tirar das manifestações religiosas o que eles esperam que não terão neste século, ou pelo 
menos, a solução de tais problemas não estariam aqui, mas, no porvir, que minguariam, por 
compaixão, as graças vindouras. 
Neste contexto, surgem diversas crendices e manifestações religiosas tendo como 
inspiração a matriz - o catolicismo romano. A história desde o Brasil colônia3 ao século XX é 
banhada por um fé que foge ao emanado pelas autoridades de Roma. 
1 Graduado em História pela Faculdade José Augusto Vieira - FJAV; fez pós-graduação em História do Brasil 
pela Faculdade Pio Décimo - Pio X; e, mestrando em História pela Universidade Federal de Sergipe - UFS. 
2 Graduada em História pela Faculdade José Augusto Vieira - FJAV; fez pós-graduação em História do Brasil 
pela Faculdade Pio Décimo - Pio X; e, aluna especial do mestrado em História da Universidade Federal de 
Sergipe - UFS. 
3 Cf. SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil 
Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 2009; VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos Pecados: moral, 
sexualidade e inquisição no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. 
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Para que o catolicismo romano ganhasse autonomia frente aos obstáculos do 
protestantismo e das intempéries dos fiéis e desvios de condutas dos clérigos, a marcha da 
igreja fez-se acompanhar por um processo de sistematização e de moralização das práticas e 
das representações religiosas.4 Para Pierre Bourdieu, no campo religioso: 
o corpo de sacerdotes diretamente com a racionalização da religião e deriva 
o principio de sua legitimidade de uma teologia erigida em dogma cuja 
validade e perpetuação ele garante. o trabalho de exegese que lhe é imposto 
pelo confronto ou pelo conflito de tradições mítico-rituais diferentes, 
justaposta no mesmo espaço urbano, ou pela necessidade de conferir os ritos 
ou mitos tornados obscuros um sentido mais ajustados a normas éticas e à 
visão do mundo dos destinatários de sua prédica, bem como a seus valores e 
a seus interesses próprios de grupo letrado, tende a substituir a 
sistematicidade objetiva das mitologias pela coerência intencional das 
teologias, e até por filosofias.5 
Este é um dos objetivos das Santas Missões compreendidos por Frei Damião: 
moralizar o povo e esclarecer, a um séquito católico, a diferença entre a "verdadeira igreja" e 
as demais. O Frei, veio de terras longínquas, para trazer uma mensagem de civilidade ("as 
boas novas"). Sua pretensão era colocar o povo nordestino nos trilhos de Deus: aconselhar os 
fiéis e corrigir práticas oficiosas. O seu maior obstáculo seria a grande dimensão territorial do 
nordeste; e em muitos casos, lugarejos cujas casas estariam bem distantes umas das outras 
com um forte numero de analfabetos. 
A nossa personagem, o missionário, Frei Damião de Bozzano, filho dos camponeses 
Félix Giannotti e Maria Giannotti, nasceu no dia 5 de novembro de 1898, em Bolzano na 
região do Ádige no norte da Itália. O seu nome de batismo era Pio Giannotti. Demonstrou, na 
adolescência, gosto pelos estudos religiosos. Aos 12 anos ingressou na escola Seráfica de 
Camigliano. Aos 19 anos, seus estudos seriam interrompidos para servir a um propósito 
diferente da "missão religiosa": a guerra. Com o surgimento da Primeira Guerra Mundial, 
4 BOURDIEU, Pierre."Os Progressos da Divisão do Trabalho Religioso e o Progresso de Moralização e de 
Sistematização das Prática e Crenças Religiosas". In:______. Gênese e Estrutura do Campo Religioso. 5 ed. 
São Paulo: Ed. Perspectiva, 2004. p.37. 
5 Idem, p.38. 
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Giannotti foi convocado para lutar nas trincheiras contra a Iugoslávia - momentos esses, que 
deixaram lembranças fortes na mente da nossa personagem. 
Com o fim dos acirramentos provocados pela primeira grande guerra, Giannotti largou 
o exercito e reiniciou os estudos religiosos - o seminário. Nos idos de 1921 à 1925 frequentou 
as aulas da Universidade Gregoriana de Roma. Lá teve lições de teologia, direito, 
eclesiologia, patrologia. Diplomou-se em direito canônico, filosofia e teologia dogmática. Em 
25 de agosto de 1923, é ordenado sacerdote na Igreja São João de Latrão. Não demoraria 
muito até que o frade pisasse em solo brasileiro. Quase oito anos depois de ser ordenado (17 
de maio de 1931), veio para o Brasil, fixando residência no convento de São Felix - da ordem 
dos capuchinhos - em Recife. Os nordestinos não demorariam muito em reconhecer aquele 
que seria aclamado como Frei Damião ( por muitos, considerado como santo). 
Suas primeiras pregações foram em Recife no convento da Penha. mal dominava a 
língua portuguesa, por isso, tinha que decorar os seus sermões. Mas os fiéis despreocupados 
com a estética da língua mátria, iam assistir aos sermões do frei em busca dos milagres. 
Milagres cuja manifestação e resultado, Frei Damião, não creditava a sí, mas a Deus. 
No Convento de São Felix chegavam muitas cartas relatando curas, milagres e 
bênçãos recebidas. Obra de Deus respondia Damião, mas o fato é que sua vida era 
considerada um instrumento para que os milagres acontecessem - isso ficou implícito em suas 
falas e, ele não negava. Os fiéis ansiava por ver a manifestação do sagrado.6 Por mais que 
quisesse se afastar das representações (a margem de suas intenções) construídas em torno de 
si, entretanto, difícil de não usufrui os benefícios que isso lhe traziam e de se desprender de tal 
imagem, pois, "cada povo representa seus heróis históricos ou lendários de determinada 
maneira variável segundo os tempos", construímos sujeitos colocando-lhe representações ao 
sabor das possibilidades e necessidades do momento, "os quais está em contato, do seu 
caráter, da sua fisionomia, dos traços distintivos do seu temperamento físico e moral".7 
O Frade acabou sendo incorporado ao panteão de seres admirados - pelo menos por 
alguns - do nordeste. Sua imagem ficou tão próxima de outro individuo daquela região - 
6 Cf. ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1992. 
7 DURKEIM, Émile. " A Noção de Espíritos e de Deuses". In.:_________. As Formas Elementares de Vida 
Religiosa: o sistema totêmico na Austrália.Tradução. Pereira Neto; revisão José Joaquim. – São Paulo; Ed.. 
Paulinas, 1989. p.300. 
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Padim Ciço - que o frade foi assimilado em alguns casos à imagem de seu antecessor, sendo 
chamado por "Meu Padim Ciço Romão"; e em outros, em momentos de aflição de habitantes 
do nordeste, sua figura foi eleita como sucessor de "Padim Ciço" ou, em pé de igualdade, 
como demonstra esta frase: “Valhei-me, Frei Damião! Valhei-me, meu Padim Ciço!”.8 
Frei Damião não nutria amores com os afazeres da parte administrativa, ou, rotineira 
da igreja, " [...] Frei Damião nunca foi um vigário de paróquia, daí que sempre esteve isento 
do peso administrativo de uma Paróquia. Nunca fez uma pastoral como se faz hoje. Era um 
frade caminhante, nômade, andante ". Era um homem de ação, embora versado em letras, 
preferiu ir para o meio do povo, alcançar almas de forma simples que os fiéis entendessem. 
Ele ajudou a disseminar as santas missões pelo nordeste. Para o Frei, elas eram de 
extrema necessidade para o livramento das almas: “livrá-los do Demônio, que queria afastá-los 
da Igreja e fazê-los abraçar outro credo”.9 Assim, as missões tinha o objetivo de limpar as 
impurezas existentes na "comunidade dos fiéis"; a igreja tinha que direcionar as ovelhas 
desgarradas, além de proteger-se do avanço do protestantismo e outros credos.10 
As Santas missões realizadas pelo nordeste, tinha a duração de alguns dias. Por onde 
passava o frade atrai multidões: casais de namorados, amigos, vizinhos, crianças, solteiros e 
toda sorte de pessoas chegavam para vê-lo. A cidade transformava-se, as pessoas afluíam até 
onde ele estivesse para os mais diversos intentos: toca-lhe, assistir aos sermões, a espera de 
um milagre ou simplesmente por curiosidade. O comercio local lucrava com sua chegada. Sua 
estadia numa região era seguida por aumento nas vendas de comida e de objetos religiosos - 
ou considerados como tal. 
O auge das santas missões era a conversão da população à vida sacramental. Nelas 
aconselhava-se e corrigia-se a falta cometida pelos fiéis: os casamentos religiosos aconteciam, 
os batizados eram realizados, as confissões ministradas etc. Seu sucesso era medido pela 
quantidade de sujeitos que aceitavam às práticas que conduziam até o céu. Aqueles que se 
8 DA CRUZ,João Everton. "Caminhando com Frei Damião no Sertão Nordestino: uma experiência 
Missionária".In:_________.http://meuartigo.brasilescola.com/religiao/caminhando-com-frei-damiao-no-sertao- 
nordestino.htm. Acessado em 26/11/2010. 
9 Idem. 
10 Cf. ANDRADE, Péricles. Sob o Olhar Diligente do Pastor: a Igreja Católica em Sergipe. São Cristóvão: 
Editora da UFS/Fundação Oviêdo Teixeira, 2010. 
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deixasse ser conduzido nos trilhos de Deus encontrariam as bênçãos e graças no mundo 
vindouro, se fossem favorecido pela divindade, naquele momento mesmo, eram atendidas as 
preces. 
Memórias Sobre Frei Damião em Boquim/Se - as Santas Missões na terra da laranja 
Durante os anos de 1972 e 1974, geralmente, no mês de novembro, a cidade de 
Boquim viveu momentos de satisfação com a vinda de Frei Damião para Boquim. Durante o 
ano, a população se organizava para os movimentos da igreja, onde as comunidades se 
juntavam para demonstrar sua fé, respeito e entusiasmo diante das manifestações religiosas 
realizadas na cidade. Anualmente acontece a Festa da Padroeira da cidade, onde os fiéis 
prestam lhe homenagem, que constituem em novenas, missas e procissão, onde todos 
participam com grande devoção. 
Para os fiéis essas manifestações religiosas, “eram o momento alto da religiosidade 
popular, onde existia o espírito receptivo nas pessoas que procuravam interiorizar a palavra de 
Deus na sua essência”. As demonstrações de fé durante a procissão eram vistas pela 
população nas ruas, onde tomava grande parte da massa dos fiéis, várias pessoas vinham dos 
arredores da cidade para participar da procissão, conduzindo a imagem da padroeira, pelas 
ruas, onde os devotos acompanhavam fervorosamente, culminando com missa festiva. 
Contudo, a ansiedade dos fiéis era grande pelas ruas da cidade, para ver o cortejo 
passar com o andor da santa, muitos devotos acompanhavam a procissão, outros ficava em 
frente das casas olhando a procissão que passava. Portanto, grande parte da população 
costumava participar dessa manifestação religiosa que acontecia todo ano na cidade. Mas o 
povo também tem o costume de participarem de outras festas, como Festas Juninas, Natal e 
Ano Novo. Mas a festa de destaque na cidade era a tradicional “Festa da Laranja”, onde por 
vários anos se destacou devido o cultivo dela na cidade. 
Durante toda essa época a cidade se organizava para a festividade, recebendo vários 
visitantes para mostrar o produto da casa. A laranja na segunda metade do século XX, se 
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caracterizar como uma fase muito importante tanto para a cidade quanto para o município, em 
função da citricultura, que era bastante comercializada pela população e os visitantes. 
Devido a divulgação da festa da laranja, muitas pessoas só vinham para prestigiar os 
shows que ocorria durante a festa, a cidade mantinham a tradição de realizada os festejos a 42 
anos em datas móveis durante quatro dias. Conhecida nacionalmente, a festa faz parte do 
calendário cultural da cidade. Com base econômica forte, Boquim, chegou a ser um dos 
maiores produtores de laranjas do país. 
Mediante ao desenvolvimento na agricultura, o comércio local foi um dos mais 
importantes dos municípios. A cidade mantinha duas grandes pensões nessas épocas de 
festividades. A sede do município chegou a ter o maior cinema da região, que passava filmes 
de 35 mm e tinha capacidade para 300 espectadores, onde a população participava de várias 
sessões aos finais de semana. Mas hoje a população não desfruta mais dessa cultural local, por 
motivo pessoal o proprietário desativou o cinema e hoje no local está uma igreja evangélica. 
Também a Associação Cultural passou a ser uma espécie de academia e escola de capoeira, a 
tão famosa lavandeira da fonte da mata foi desativada e hoje a estrutura foi mudada para 
melhor locomoção da população. 
Nesse período o povo de Boquim contava com variável área de lazer, como a 
Associação Cultural e Recreativa Boquinense, onde a população tinha o hábito de fazer baile 
e se divertirem muito, também tem na cidade a famosa Fonte da Mata, onde inspirou o nosso 
poeta maior da cidade, o famoso Hermes Fontes. Lá na fonte da Mata também existia uma 
grande lavandeira, onde muitas vezes os moradores iam lavar suas roupas, vislumbrando a 
visão daquela riqueza que temos em nosso município. Durante muito tempo, a população 
carente da cidade saia de suas casas para lavar suas roupas, lavavam por encomendadas. 
Na segunda metade do século XIX, surgem as missões populares pelo sertão 
nordestino, onde os freis saíram de cidade em cidade pregando os seus sermões e ministrando 
a palavra de Deus para os fiéis. Diante da notícia dessas missões pelo sertão, o pároco da 
cidade trouxe frei Damião para pregar a Santa Missão em Boquim. A população da cidade 
ficou eufórica, quando o padre anunciou, numa missa, sobre a presença do frei na cidade. A 
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chegada dele, foi motivo de festa, satisfação e fé, os fiéis receberam o frei com alegria e 
cantos. 
Com a notícia da chegada do frei, os fiéis ficaram aglomerados nas ruas da cidade 
aguardando os missionários chegar. Eles por várias horas ficaram em frente ao colégio Santa 
Teresinha, em frente à matriz da igreja para aguardar o frei sair do colégio e em seguida 
acompanhá-lo até a matriz. 
A partir de várias entrevistas realizadas é possível perceber a devoção dos fiéis com 
frei Damião. No momento da chegada do frei na cidade os devotos reuniam-se na frente da 
igreja aguardando os missionários aparecerem com devoção e em total demonstração de fé. 
Durante sua permanência na cidade, muitos acreditavam que o mesmo operava milagres. 
Devido essa notícia, várias pessoas ficavam na espera dos missionários para poderem receber 
às bênçãos. 
Vale ressaltar que a Santas Missões foram ministradas pelo frei Damião, apesar de, 
mesmo falando baixinho, os devotos demonstravam bastante satisfação nas missas - por ser ” 
um frade respeitado e amado pelo povo, pregador do evangelho e zeloso pela doutrina”. 
Segundo Maria Almeida: “as vezes, em nome desse zelo, até feria as pessoas por causa de 
algo que não aceitava , era 'Santo e rígido'.Quando o frei chegou na cidade, as pessoas 
rezavam, assistiam as palestras, mas cada palestra tinha o horário detalhando pelo o 
missionário.” Tinha horário específico paras as crianças, para os jovens, outro para as 
senhoras e outro horário para os homens, após a celebração dos sermões, os fiéis faziam suas 
confissões, comungavam da ceia eucarística, participavam das procissões matinais de 
penitência, rezava para Nossa Senhora e ouviam a pregação do evangelho. "Era momento de 
muita paz durante as pregações do frei".11 
Os enfermos iam ao encontro de Damião para obterem a restauração da saúde. havia 
aqueles que não conseguiam se aproximar do missionário na igreja, em um gesto de 
compaixão e imitação do exemplo de Jesus, o clérigo saia de onde estava para acudir os 
despossuídos de saúde. 
11 ALMEIDA, Maria. Entrevista concedida no dia 07 de novembro de 2010. 
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Durante a permanência dele na cidade, muitas pessoas viam frei Damião como um 
santo, a exemplo de Dona Aliete Menezes que comentou: “Quando vi o frei pela primeira 
vez", ela pensou, "será que ele vai aguentar caminhar, mas quando ele botava o pé na estrada, 
eram os anjos que levavam ele. Porque menino novo, ele xotava viu, não conseguia 
acompanhar ele”12. Quando o frei estava na cidade, a população se aglomerava em frente à 
igreja para participar das novenas, vinham vários fiéis das comunidades, a praça ficava 
pequena diante de tanta demonstração de fé. 
Sua presença na cidade trouxe vários fiéis a conversão, muitos aproveitaram o 
momento da manifestação religiosa, para expressar sua devoção e fé diante do frei. A santa 
missão teve a função de converter o pecador a religiosidade cristã, aqueles devotos que 
estavam afastados da igreja, começaram a participar da missa e ouvir as pregações. No 
decorrer das Santa Missões, os devotos aproveitavam o momento pra confessar os seus 
pecados e “receber Jesus na Eucaristia”13. Para Dona Josefa Meneses a cidade naqueles dias 
passava por uma atmosfera mística. Ela alega ter visto a Santas Missões como momentos de 
graças, onde o povo “participava com fé e amor, pois sabia que era uma verdadeira catequese 
e evangelização de todos”14. 
Em outro momento, Dona Maria Antônia salienta, naquela época as santas Missões 
“eram consideradas como momento de conversão, de perdão, arrependimento dos pecados e 
preparação para a viagem definitiva até Deus”15. Portanto, quando o frei chegou à cidade, os 
próprios fiéis eram que organizavam tudo, arrumavam o palanque diante da igreja, para às 
novenas e as missas. Nessas santas missões muitas vezes faziam novenas nas casas dos fiéis, 
como cita Dona Maria Antônia Dias. A mesma comenta que as novenas que existiam naquela 
época eram “a novena de Santo Antônio com dona Eulina e a Novena de São João Batista 
com dona Argemina”16. Durante as novenas, as festas sempre foram animadas e com muita 
12 Ibidem. 
13 MENEZES, Josefa Miguel de. Entrevista concedida no dia 17 de outubro de 2010. 
14 Idem. 
15 ANDRADE, Maria Antônia Dias. Entrevista concedida no dia 23 de novembro de 2010. 
16 Idem 
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gente, a população mantinha um espírito de oração e penitência esperando os missionários. 
Cada missa feita pelo frei à igreja lotava de fiéis para ouvir seus sermões. 
A veneração chegou a tal nível que muitos devotos o viam como santo operador de 
milagres. Dona Antônia, vai além, pois considera o frei como “representante de Cristo que 
chegava a Boquim para ensinar as verdades esquecidas pelo povo”17. Devido a Frei Damião 
ser comparado a um santo, houve alguns milagres que foram atribuídos a ele, os próprios fiéis 
comentam que foi ele quem concebeu, diante da palavra de Deus, um desses milagres. Uma 
das entrevistadas, dona Caetana da Silva, comentou: 
Recebi uma benção do frei Damião: o filho tinha um problema de saúde 
muito sério, muito sério mesmo. O menino ficava batendo com a cabeça 
direto, e com isso começava a sangrar. Nesse tempo tudo era muito 18difícil, 
foi quando teve uma santa Missão na cidade, mesmo morando em povoado, 
eu consegui trazer ele até o frei Damião. Quando cheguei com ele na casa do 
padre João Batista, o frei estava recebendo umas pessoas e conversando com 
elas, foi quando eu entrei com ele no braço e sentei. Ai, o frei perguntou: 'o 
que eu queria', eu respondia a ele:' queria que ele rezasse na cabeça do meu 
filho', e fui explicando a ele a situação né, foi quando ele colocou a mão na 
cabeça dele e rezou lá uma oração né, só ele sabe o que rezou né, ele botou a 
mão na cabeça ai depois fez o sinal da cruz na testa dele, ficou passando a 
mão na cabeça dele, depois deu um tapinha na costa e disse que nunca mais 
você vai bater sua cabecinha, foi a última vez, nunca mas vai acontecer isso, 
ele tem uma memória excelente, ele não tinha condição de estudar, depois 
disso, ele estudou, hoje está formado, e problema na cabeça dele graças a 
Deus não tem, eu recebi essa graças através da minha fé. 
Houve outros relatos de milagres atribuídos à santa missão de frei Damião, como 
podemos constatar: 
Segundo dona Josefa Durval, frei Damião salvou ela e uma criança que esperava: 
Quando estava esperando Raimunda, passei muito mal, quando tive ela andei 
morrendo, ela atravessou na barriga e ainda tinha que ter em casa, depois foi 
que mandaram a ambulância para me buscar, porque morava na fazenda dos 
pilões, ai mandaram a ambulância para me buscar e na hora que a 
ambulância chegou, ai a menina nasceu atravessada, mas quase que morria, 
ai quando fiquei eu sair de gravidez de Teresinha ,já fiquei com medo, pelas 
17 ANDRADE,Maria Antônia Dias. Entrevista concedida no dia 23 de novembro de 2010. 
18 SILVA, Maria Caetana da. Entrevista concedida no dia 24 de agosto de 2010. 
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minhas contas ,já tinha mas de 9 meses e eu fiquei doida, doida e doida, ai 
minha madrinha Lurdes troxe eu para frei Damião benzer, ai tinha uma santa 
missão, ai madrinha Lurdes troxe eu para frei Damião benzer, ai eu fui ele 
ficou hospedado na casa de Padre João. Ai madrinha Lurdes morava 
pertinho, ainda mora né, ai agora mora perto do convento das freiras, mas a 
casa de Padre João era pegada com a de madrinha Lurdes. Ai troxe eu levou 
lá aonde tava frei Damião, ai ele rezou na minha cabeça, na minha barriga, ai 
disse, olhe não tenha medo quando você dê 3 dores, a menina nasce, ai eu 
fiquei mangando até do padre, ai eu disse oxé ele deve está broco, quando eu 
dê 3 dor a menina nasce, ai eu disse a madrinha Lurdes, o missionário disse 
quando eu 3 dor a menina ia nascer, ela disse, vai ser assim mesmo. Oxé de 
Raimunda quase morro e de Teresinha é que vou ter assim ligeiro, mas foi 
dito certo, a mesma coisa que ele disse oxé quando interou um 1 mês eu tive 
ela, ai deu uma dor 5 hora da manhã, deu 1 depois deu 2, nas 3 a menina 
nasceu.A mesma coisa que ele disse, ai se a gente já tinha fé nele ,ficamos 
com mais fé. Portanto devido a fé que a fiel teve, diante das palavras de 
Deus, fez com que salvasse sua vida e de sua filha, ao mesmo tempo que sua 
devoção cresceu mais diante do frei Damião19. 
Diante desse fato muitos fiéis acreditavam no poder que frei Damião tinha, por onde 
passava pregava sempre a palavra de Deus e deixavam todos bastante satisfeitos com o seu 
sermão. Como ele era considerado servo de Deus, Dona Maria Senhora de Menezes via o frei 
como: "Apóstolo de Deus" , como qualquer sacerdote, "porque o sacerdote tem a missão de 
permanecer sempre na paróquia, evangelizando, celebrando a santa missa e o frei Damião era 
um frei missionário, pregando missão de cidade em cidade aonde o espírito santo lhe manda-se". 
20 
Ao retornar à igreja várias mulheres devotas se abraçavam diante de todos, e pediam 
perdão a Deus pelos seus pecados. No tocante ao sermão de frei Damião, as pessoas vinham 
de longe só para se confessar com ele. Outros nem entendiam “o que ele falava, mas vinham 
só para ficar perto dele, na expectativa da escuta da palavra de Deus”21. 
Nessa época, muitos fiéis que moravam juntos aproveitaram a presença do frei na 
cidade para se casarem - houve vários casamentos, batizados, crismas e comunhões. A 
quantidade de quantos pessoas regularizou-se, perante a igreja, não consta no livro de tombo 
19 DURVAL, Josefa Santos. Entrevista concedida no dia 24 de outubro de 2010. 
20 MENEZES, Maria Senhora Miguel de Menezes. Entrevista concedida no dia 15 de outubro de 2010. 
21 Idem. 
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da paróquia, só existe o registro afirmando que a população esperava o momento da chegada 
do frei para se casarem. 
sua imagem como apostolo de cristo se torna mais evidente quando os fiéis começam a 
comentar dos poderes miraculosos do frei Damião em expulsar os Demônios. Lembrando que, 
os discípulos (como está no evangelhos) tinham o poder de curar (feito que já era-lhe 
atribuído), e expulsar os demônios. Esta entidade, assim como ventos maléficos, lobisomens e 
outros mais, fazem parte do arsenal cultural dos nordestinos. 22 
Sobre esse fato Dona Maria Antônia comenta: ”Claro. Não só frei Damião como 
qualquer padre de 'boa vida' pode expulsar demônios".23 Seguindo nessa linha de pensamento, 
dona Maria Senhora acrescenta: “eu acredito, porque o senhor Jesus deu poder a todo o 
sacerdote e ao discípulo de expulsar os demônios”24. 
Contudo, boa parte da população acreditava que Damião expulsava demônios, por 
devoção, fé e oração. Diante dos fatos, alguns fiéis comentam sobre isso, uma dessas fiéis é a 
senhora Josefa Miguel de Menezes, que fala: ”Não só frei Damião como tantos outros 
sacerdotes, pelo poder que ele recebeu de Deus, quando o padre é ordenado; ele recebe um 
poder diferente dos católicos fiéis como nós, ele tem uma coisa diferente da gente”25. 
Mas uma coisa era certa: frei Damião jamais gostava que alguém lhe faltasse com 
respeito. Na maioria das vezes que isso acontecia, as pessoas sofriam as consequências dos 
atos no mesmo instante, era fração de minutos. Narra-nos Dona Maria Elder sobre um 
episódio: 
Houve um episódio que aconteceu na feira, uma manhã uma menina passou 
por ele, e chamou de corcunda, ele só virou o rosto por cima do ombro e 
disse Deus te abençoe ai a menina caiu. A menina caiu mesmo durinha lá, só 
22 Isso aparece nos depoimentos de dona Maria Antônia Dias Andrade, Maria Oliveira de Almeida, Aliete 
Miguel de Menezes e Josefa Miguel de Menezes. 
23 ANDRADE, Maria Antônia Dias. Entrevista concedida no dia 23 de novembro de 2010. 
24 MENEZES, Maria Senhora Miguel de. Entrevista concedida no dia 15 de outubro de 2010. 
25 MENEZES, Josefa Miguel de. Entrevista concedida no dia 15 de outubro de 2010. 
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levantou quando ele foi lá e botou a mão na menina, agora o porquê também 
não sei, se ele também possuía além da religiosidade , se ele possui alguma 
coisa nós não ficamos sabendo26. 
Diante disso, a população sempre comentava sobre o episódio ocorrido na cidade, mas 
mesmo assim ninguém nunca descobriu sobre essa proteção que o frei tinha que na maioria 
das vezes as pessoas eram castigadas sem ao menos ele tocá-las. Tiveram outros fatos que as 
pessoas presenciaram, mas não quiseram comentá-los. 
Considerações Finais 
As práticas devocionais estão estritamente ligadas ao campo religioso brasileiro. Mais 
do que isso. A fé é condição inerente aos seres humanos, pois as expressões de religiosidade 
revelam as diferentes visões de mundo, os sonhos, desejos da sociedade. A fé também 
vivenciada sobre a sociedade constrói grupos e separam tantos outros e carrega os sonhos e as 
perspectivas para dias melhores. 
Essa artigo discutiu a preparação e repercussão das duas santas missões que o 
capuchinho mais popular realizou na Terra da Laranja. Tudo foi acompanhado pelo olhar 
atento das beatas que o acompanharam nos dias impetuosos. Tudo foi visto e guardado nas 
memórias individuais de mulheres e homens que viviam na cidade no alvorecer daquela 
década. 
Essas memórias se tornaram em bem coletivo. As crenças supersticiosas e o mistério 
alimentaram as lembranças e construíram um imaginário rico e diversificado. Na crença 
popular do povo de Boquim, santos e demônios conviviam na naqueles dias de Santas 
Missões. 
Para além desta devoção comum, a padroeira e a frei Damião, denotamos que cada 
indivíduo possui sua particularidade de entender a presença do frade em Boquim. Cada trama 
apresentada pelos entrevistados exibiu um modo de ser, viver e perceber o missionário 
Damião. 
26 SANTO, Maria Elder do Espírito. Entrevista concedida no dia 30 de outubro de 2010. 
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MEIHER, José Carlos Sebe Bom. História oral: como fazer, como pensar. São Paulo: 
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SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade 
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VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos Pecados: moral, sexualidade e inquisição no Brasil. Rio de 
Janeiro: Nova Fronteira, 1997. 
Fontes Orais Consultadas 
ALMEIDA, Maria. Entrevista concedida no dia 07 de novembro de 2010 
ANDRADE, Maria Antônia Dias. Entrevista concedida no dia 23 de novembro de 2010. 
MENEZES, Josefa Miguel de. Entrevista concedida no dia 17 de outubro de 2010 
MENEZES, Aliete Miguel de. Entrevista concedida no dia 15 de outubro de 2010 
SANTO, Maria Elder do Espírito. Entrevista concedida no dia 30 de outubro de 2010. 
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SANTOS, Josefa Durval. Entrevista concedida no dia 24 de outubro de 2010. 
SILVA, Maria Caetana Da. Entrevista concedida no dia 24 de agosto de 2010. 
Livro de tombo da Igreja Matriz Senhora Santana, 1972.p.58 
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07. “UMA CAPITAL EM PROCESSO DE SECULARIZAÇÃO”: ARACAJU ÀS 
VÉSPERAS DO CONCÍLIO VATICANO II 
Eduardo Augusto Santos Silva 
Resumo: 
O presente artigo traz uma reflexão acerca de como os impactos da “modernidade” durante a 
primeira metade do século XX contribuíram para uma secularização da moral cristão-judaica 
na sociedade ocidental, especificamente, em Aracaju. Observamos através de leituras de Eric 
Hobsbawm como o surgimento e as crescentes inovações tecnológicas, principalmente, nos 
meios comunicação de massa contribuíram para a mudança nos hábitos cotidianos tradicionais 
do mundo ocidental. Vimos como o desenvolvimento dessa orientação secular motivou a 
Igreja Católica a iniciar o Concílio Ecumênico Vaticano II em 1962 a fim de dialogar com a 
modernidade. Em seguida, verificando a realidade brasileira a partir de Riolando Azzi, 
notamos que durante os anos 1950 novos costumes se desenvolveram, progressivamente, no 
Brasil e favoreceram a secularização dos costumes religiosos de tradição católica, como a 
importação de ritmos musicais estrangeiros e a expansão das opções de lazer noturno, que 
incentivou a sexualidade a ganhar uma dimensão diferente da cristã. Por fim, somamos as 
discussões mencionadas com uma análise da sociedade aracajuana baseada nas contribuições 
de Ibarê Dantas e de pesquisas no periódico oficial da Arquidiocese de Aracaju “A Cruzada”. 
Palavras-chave (quatro): Igreja Católica; Concílio Vaticano II; Aracaju; Secularização. 
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08. A POSIÇÃO DOS CRISTÃOS NOVOS NA SOCIEDADE AÇUCAREIRA NA 
PRIMEIRA VISITAÇÃO DO SANTO OFÍCIO À AMÉRICA PORTUGUESA 
Ernania Santana Santos 27 
Resumo: 
Durante o século XVI, os cristãos-novos desempenharam papel importante na composição da 
sociedade açucareira, sendo significativa o seu desempenho no setor econômico, onde viviam 
com uma relativa liberdade para praticar sua antiga fé judaica. Mas, não demorou muito e 
logo passaram a conviver com a sombra que teimava em atormentá-los e persegui-los, era o 
braço secular do santo ofício. Aos nove dias do mês de junho de 1591, aportou na Bahia em 
companhia do governador geral, D. Francisco de Souza, o licenciado Heitor Furtado de 
Mendonça, dando início à primeira visitação do santo ofício à América portuguesa. 
Palavras-chave: Inquisição, Sociedade, Perseguição, Cristãos-novos. 
INTRODUÇÃO 
Na primeira visitação do Santo Ofício à América portuguesa, quando a incipiente colônia 
ainda findava o primeiro século de sua colonização, já se percebia a presença de um grande 
número de cristãos-novos que aqui habitavam e desempenhavam algumas funções na 
administração, bem como na economia colonial local, tendo como principal atividade 
econômica a produção do açúcar. Essa primeira visitação, através da documentação produzida 
nos permitiu conhecer diversos aspectos do cotidiano colonial, principalmente no que diz 
respeito às práticas religiosas de seus habitantes. 
Aos vinte e nove dias do mês de julho de 1591 deram início as confissões da capitania 
da Bahia e recôncavo baiano, tendo suas atividades finalizadas em setembro de 1993. Entre 
setembro de 1593 e fevereiro de 1595 foi à vez da capitania de Pernambuco, Itamaracá e 
Paraíba. Como sabemos, não obstante, o tribunal da inquisição fora criado em Portugal no ano 
de 1536, tendo, portanto, cinquenta anos de sua existência até sua chegada ao Brasil, onde 
nunca houve a fixação do mesmo. 
As razões dessa primeira visitação são divergentes por parte da historiografia que 
estuda o tema, enquanto alguns estudiosos atribuem somente ao aspecto econômico, na 
27 Graduada em história pela Universidade Federal de Sergipe – UFS, integrante do Grupo de pesquisa 
Diáspora Atlântica Sefardita. 
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medida em que aqui, já se encontravam desde a colonização um grande número de Cristãos 
novos bem estruturados no que diz respeito as suas atividades econômicas, outros preferem 
apostar na necessidade de homogeneização e manutenção do catolicismo, por parte da igreja 
católica, caracterizando assim o aspecto religioso, enquanto que outros especialistas 
consideraram todos os aspectos citados acima como preponderantes para a realização da 
mesma. 
Nesse momento da primeira visitação do braço secular, o nordeste açucareiro 
apresentava uma realidade diversa, plural, e heterogênea, composta por elementos católicos, 
negros, indígenas e judaicos que mesclaram na colônia criando uma religião sincrética e 
intrinsecamente colonial. 
“Cabia a ação do Santo Ofício, somar esforço no sentido de 
homogeneizar a humanidade inviável, trazer a fé católica os idólatras e 
infiéis da colônia a fim de se povoar e aproveitar a dita terra, punindo 
os transgressores, blasfemos, hereges, sodomitas, falsários, dando-se a 
sentença e executando. (SOUZA, 1986: 71). 
A análise da documentação nos permite a partir das confissões e denunciações dos 
inquiridos e confidentes traçar um quadro rico em informações e nós permitimos ter um 
retrato do Brasil naquele primeiro século de colonização, haja vista que traz a luz um rico 
quadro das ideias, sentimentos, fantasias, aspirações, atividades econômicas, bem como da 
sociedade da época, na medida em que terça um panorama das variadas condições sociais dos 
colonos, dos modos de viver e de falar, da alimentação, das diferentes culturas, das relações 
de convivência entre cristãos velhos e novos, entre senhores e escravos etc. 
Contudo a ênfase do nosso estudo aqui, busca priorizar a posição social dos cristãos 
novos na colônia, bem como, de compreender como eles foram perseguidos e considerados 
tão subversivos, naquela conjuntura, a ponto de serem acusados de difundir no meio cristão 
suas crenças em detrimento da ordem eclesiástica estabelecida. Para Novinsky, "os cristãos 
novos, como antes deles os judeus, foram acusados de ser diferentes na conduta e no caráter, 
devido a discrepâncias inatas”. De nada adiantará a conversão, o cristão-novo continuava 
marcado pelas características associadas aos judeus . (NOVINSKY, 1992: 33). 
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A religião exercia sobre os homens do século XVI, uma influência, ao mesmo tempo 
profunda e opressora, da qual era impossível escapar. Desde o primeiro século da colonização 
a colônia apresentava duas faces uma detratora e uma edenizadora. Esses antagonismos foram 
apresentados por alguns padres jesuítas, bem como pelos primeiros viajantes. A autora Laura 
de Mello cita a carta do padre Azpilcueta Navarro enviada à metrópole relatando a situação na 
colônia. Essas fontes davam conta de registrar a vida pecaminosa e desregrada da gente que 
vivia no nordeste brasileiro, nesses relatos muitas vezes os padres se mostraram descrentes 
com o queriam, e consequentemente na regeneração da fé, diziam ainda que a colônia era por 
excelência o lugar do pecado, que paulatinamente se generalizava. (SOUZA, 1986: 61). 
UM PROBLEMA DA HISTORIOGRAFIA 
Para Anita Novinsky, a visitação se deve ao aspecto econômico, na medida em que 
afirma, “o mundo novo, o desconhecido, o lugar de degredo do século XVI que já começa a 
tornar-se uma terra de promissão”. Naturalmente ela se refere ao processo de diáspora dos 
cristãos-novos para a colônia, que se deu de maneira gradativa no princípio desse mesmo 
século, e se intensificou na sua segunda metade, período em que compreende nosso estudo. E 
completa ainda a autora, “as razões que trouxeram para a Bahia os visitadores e comissários 
do santo ofício da inquisição, que causaram a perda de algumas vidas e dispersão de muitas, 
foram as mesmas que impulsionaram a perseguição em Portugal: desequilíbrio econômico 
profundo, e que à tona se revestia de caráter religioso. (NOVINSKY, 1992: 65). 
Considerando a concepção de Anita Novinsky destacada na exposição, a partir da 
documentação relativa à visitação do santo ofício, a autora acredita ter se concentrado a ação 
inquisitorial no nordeste açucareiro, por registrar uma forte presença de cristãos-novos nessa 
localização, atribuindo como o único objetivo da empreitada do santo ofício a perseguição aos 
conversos. Como bem nota Luiz Roberto Lopez,5 “muitos colonizadores eram cristãos-novos, 
sujeitos aos já conhecidos preconceitos raciais e religiosos e foragidos da intolerância 
inquisitorial da metrópole.” Esta exerceu, lá rigorosa perseguição, até porque confiscava os 
bens dos convertidos e, por isto não raro forjava acusações. (LOPEZ, 1993: 132). 
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Ainda de acordo com Anita Novinsky, desde do final do século XVI, que já apareciam 
nos registros da documentação analisada, a presença de cristãos novos que viviam na colônia 
e enviavam açúcar brasileiro entre outros produtos para Hamburgo, comprovando dessa forma 
uma posição de destaque no comércio, (NOVINSKY, 1992: 88). 
Essa concepção não é uníssona, haja vista, que no diálogo com Ronaldo Vainfas, não 
obstante, ele considere o aspecto econômico proposto por Anita Novinsky, atribuí outros 
motivos para a visitação, como por exemplo, a um programa de estratégia do tribunal da 
inquisição, que até aquele momento tinha se concentrado na metrópole, e de agora em diante 
se lançaria ao ultramar, sobre essa proposição, coloca Vainfas, “não se pense que a visitação 
ao Brasil possuía o objetivo fundamental ou exclusivo de perseguir os cristãos-novos 
abrigados no trópico”. (VAINFAS, 1997: 8). 
Para José Antônio Gonçalves de Mello, não são conhecidas as razões que motivaram a 
vinda da inquisição ao Brasil, entretanto, como ela ocorreu nos dois principais núcleos 
açucareiro, pode sugerir que tivesse alguma relação com o fato de existir nas duas capitanias, 
uma grande parcela de cristãos-novos, e consequentemente de possíveis judaizantes. 
(MELLO, 1970: 2). Essa concepção de Mello, que apesar de não apontar com precisão quais 
foram as razões, faz um diálogo com Anita Novinsky, e diverge com a visão de Vainfas, que 
não descarta esse ponto, más, prefere acrescentar outros motivos. 
De acordo com Lopez, “a inquisição foi um instrumento de uniformização religiosa e 
de hegemonia política, entretanto, no Brasil, chocou-se com certas situações intransponíveis 
como, a flexibilidade dos jesuítas, motivadas pelas necessidades da catequese; a mestiçagem, 
o sincretismo religioso, provocando inesperadas fusões entre o catolicismo e os ritos 
primitivos.” Em suma as resistências implícitas da colônia não deixaram de ser as marcas 
históricas de sua originalidade inicial. 
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OS CRISTÃOS-NOVOS E SUAS FUNÇÕES NA COLÔNIA 
A partir das denúncias relatadas também foi possível perceber um retrato do Brasil 
colonial, no que diz respeito a mais importante atividade econômica no período dessa 
visitação, que compreende também os cristãos-novos como partícipes desse processo. A 
colônia portuguesa permitia, aos que dispunham de recursos em moeda corrente, vultosos 
lucros. Desse modo, atraiu os cristãos-novos perseguidos pela inquisição, que 
impossibilitados de desenvolverem seus negócios na metrópole, inicialmente empenharam-se 
no comércio, mas rapidamente tornaram-se agentes financeiros, fornecendo capital para a 
realização de safras e para a compra de escravos, adquirindo açúcar e vendendo na Europa 
com grandes lucros. (NOVINSKY, 1992: 40). 
A despeito da funções desempenhadas pelos cristãos-novos na colônia, a 
documentação pesquisada mostra uma diversidade de ofícios, como: mercadores que em 
alguns casos ascenderam à condição de proprietário de engenho; mestre de açúcar – era o 
mais especializado dos trabalhadores, espécie de engenheiro de produção – rendeiro de 
engenho, e etc. Contudo, observou-se uma predominância para os cristãos-novos que se 
denominavam lavradores. 
Que a produção canavieira fora de suma importância no cotidiano desses 
colonizadores, em que algumas vezes o açúcar foi comparado a um “Deus” pelos 
blasfemadores, não se pode negar, contudo, convém analisar melhor essa afirmação nos casos 
de denúncias de blasfêmia que se seguem. “A fé mostrava por isso mesmo, contornos 
tradicionais, arcaicos, onde a demanda de bens materiais e de vantagens concretas assumia 
grande importância, como se fosse uma espécie de contrato do tipo “toma lá-da-cá". (SOUZA, 
1986: 109). 
Pero Nunes, cristão-novo, rendeiro do engenho Del Rei, aparece em duas denúncias de 
blasfêmias por comparar o açúcar a “Deus.” Na primeira é denunciado por Maria Roiz, cristã 
velha, que ouviu dizer do dito seu marido que Pero Nunes, indo ao engenho da cidade buscar 
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o açúcar ou dízimo de Deus, disse vendo estar de baixo da pilheira, “olhai onde está Jesus 
Cristo.”Contraditoriamente, na segunda denuncia feita por Fernão Ribeiro de Souza, cristão 
velho, e que se refere ao mesmo engenho da cidade, a denúncia aparece da seguinte maneira: 
indo uma vez ao engenho da cidade e vendo o açúcar que estava apartado para o dízimo de 
Deus, estar no chão mascabado e preto, disse pois, “este é o vosso Deus, assim o tratais,” 
chamando Deus ao açúcar. 
Não é fácil entender pelos autos do processo, qual dos dois casos apontados é o 
verdadeiro, se o primeiro em que a blasfêmia é dirigida a Jesus, ou no segundo quando 
dirigida a Deus, ou ainda, se os dois são verdadeiros, bem como, não dá para atestar em que 
momento foram ocorrido, se no mesmo dia, se em dias diferentes, mas, o fato é que esse tipo 
de blasfêmia semelhante aparece também dirigida como desacato à N. Senhora, cometida por 
um mestre de açúcar, também cristão-novo não identificado, que fora denunciado por Antônio 
Dias, padre da companhia de Jesus, que ouviu dizer segundo sua lembrança ao dito padre Brás 
Lourenço em São Vicente, costa deste Brasil, que estando um mestre de açúcar enformando o 
açúcar nas formas, disse que se ali estivesse N. Senhora também a encorparia naquela forma. 
Como podemos perceber, as denúncias se caracterizavam principalmente pela 
imprecisão dos fatos para quem as fazia, chegando ao ponto de uma mesma denúncia, 
aparecer de forma diferente na boca de outros acusadores. A maior parte dos denunciantes 
repetia acusações “por ouvir dizer” e não por eles próprios testemunhado, nesse sentido 
predominavam as informações provenientes de diz-que-diz e murmurações, e são raros os 
depoimentos baseados em fatos objetivos. 
Quanto à periodicidade em que os fatos mencionados pelas testemunhas ocorreram, 
tanto nas denunciações, quanto nas confissões, não se percebe um predomínio ou maior 
incidência de um período em detrimento de outro, o que se observa é que os fatos remontam a 
períodos variados como: um dia, alguns meses, poucos anos, ou ainda, muitos anos atrás. Até 
mesmo em alguns casos, as denúncias são dirigidas a indivíduos já falecidos há alguns anos, 
como por exemplo, podemos citar os casos de Branca de Leão, a mais citada em toda a 
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documentação, mestre Afonso, pai de Branca de Leão e Pero Nunes, todos cristãos-novos 
defuntos. 
Outro dado importante do ponto de vista do aspecto social, a ser considerado refletido 
a partir da observação feita na documentação no período dessa visitação, é que na maioria dos 
casos de denúncias, como era de praxe ao final de cada testemunho, o denunciante era 
convidado a assinar sua confissão ou sua denúncia, e como muitas vezes não sabia assinar, 
assinava pela testemunha o notário do santo ofício Manuel Francisco. Com certeza a maioria 
não frequentou escola alguma e para os poucos que sabiam ler e escrever, percebe-se a 
dificuldade com que faziam, pelo tipo de caligrafia deixada no papel. 
CONCLUSÃO 
O judeu converso, isto é, convertido em católico, preservou da herança tradicional os 
preceitos e sentimentos básicos que serviriam de fundamentação para as suas respostas e 
mesmo estando fora do alcance da ortodoxia de la halajá judaica preservou inconscientemente 
a aversão hereditária ao culto das imagens, à comunhão, e a confissão , também negava a 
divindade de cristo e descria da imaculada conceição, da santíssima trindade e esperavam a 
vinda do Messias verdadeiro. (NOVINSKY, 1992: 37- 40). 
Desde o ano de fundação da inquisição portuguesa, em 1536, quando publicou seu 
monitório, documento em que constava a lista dos delitos a serem confessados ou 
denunciados ao Tribunal, a principal ferramenta da investigação foi o interrogatório, que 
causou temor e trauma à maior parte dos inquiridos. Outros crimes foram encontrados nos 
autos, como a sodomia, a feitiçaria, a bigamia, mas foram as blasfêmias heréticas que se 
constituíram no foco principal da ação do Tribunal lusitano, fato que possibilitou a 
preferência em punir os convertidos ao cristianismo que eram acusados de judaizar, os 
chamados cristãos-novos. 
O que a inquisição exigia dos seus confitentes era que trouxessem todas as suas culpas 
na memória para fazer delas uma inteira e verdadeira confissão, dizendo a verdade pura para 
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que sua alma pudesse ser salva. A cada confissão repetiam como era de praxe aquele tribunal 
que deveria examinar melhor sua consciência, esquadrinhá-la mesmo, desvendando assim as 
intenções mais ocultas. Os testemunhos se seguiam, e o mais aconselhado era se apresentar ao 
inquisidor e admitir sua culpa, mas, ao mesmo tempo declarar, que nunca acreditara em suas 
próprias afirmações heréticas. 
Quantos às denuncias atribuídas aos cristãos-novos, na sua totalidade foram 
classificadas como anti-cristãs, com maior incidência de três tipos específicos: a negação da 
divindade de Cristo, tendo como principal blasfemador Pero Nunes; os desacatos ao crucifixo, 
repetido frequentemente por Branca Leão; e a negação da virgindade de Maria tanto difundida 
por Manuel de Paredes. Para esses não era preciso venerar suas relíquias ou imagens: “Quanto 
às relíquias dos santos, são como qualquer braço, cabeça, mão ou perna, acho que são iguais 
aos nossos braços, cabeças, pernas e não devem ser adoradas ou reverenciadas, não se deve 
adorar as imagens, e sim Deus." 
Por fim, consequentemente fruto das suas inquirições e investigações impelindo as 
pessoas a fazerem delações que jogavam as pessoas umas contras as outras, essa primeira 
visitação tenha provocado desentendimentos entre os amigos, parentes, vizinhos, chegando a 
provocar ruptura nas relações entre cristãos-novos e cristãos velhos, criando preconceitos 
nunca antes ocorridos. 
BIBLIOGRAFIA: 
FERLINI, Vera Lúcia Amaral. A civilização do açúcar: séculos XVI a XVIII. 11a ed. São 
Paulo:Brasiliense,1994. 
GUINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido 
pela inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 
LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário temático do ocidente 
medieval.Bauru, São Paulo: Edusc, 2006. 
LOPEZ, Luiz Roberto. História da Inquisição. Porto Alegre: Mercado aberto,1993. 
MOTT, Luiz Roberto de Barros. A inquisição em Sergipe: do século XVI ao XIX. Aracaju: 
Sercore Artes Gráficas, 1989. 
MOTT, L. Bahia: inquisição e sociedade [online]. Salvador: EDUFBA, 2010. 294p. ISBN 
978-85-232-0580-5. Available from SciELO Books <http://books.scielo.org>. 
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NOVINSKY, Anita. Cristãos novos na Bahia: a Inquisição no Brasil. 2a ed. São Paulo: 
Perspectiva, 1992. 
OLIVEIRA, Marques. A Sociedade Medieval Portuguesa, 4a. Ed., Lisboa, Livraria Sá da 
Costa, 1981, p. 172. 
PIERONI, Geraldo, Banidos: A inquisição e a lista dos cristãos novos condenados a viver no 
Brasil. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. 
SIQUEIRA, Sonia. A Inquisição Portuguesa e a Sociedade colonial. São Paulo: Ática, 1978. 
SOUZA, Laura de Mello e. O diabo e a terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular 
no Brasil colonial. 9a reimpressão, São Paulo: Companhia das Letras, 1986. 
VAINFAS, Ronaldo. Confissões da Bahia: santo ofício da inquisição de Lisboa. Org. 
Ronaldo Vainfas, São Paulo: Companhia das Letras, 1997. 
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Mendonça: Confissões da Bahia 1591-1592. Prefácio de Capistrano de Abreu, Rio, F. 
Briguiet, 1993. 
Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil: Confissões de Pernambuco 1593- 
1595, ed. J. A. Gonsalves de Mello, Recife, Universidade Federal de Pernambuco, 1970. 
Livro 5 das ordenações Filipinas. Disponível em: http://www1.ci.uc.pt/ihti/proj/filipinas 
l5p.Acesso em: 24 de dezembro de 2012. 
1o. Livro das denunciações do santo ofício ao Brasil por Heitor Furtado de Mendonça. 
Disponível em: http://digitarq.dgarq.gov.pt/ViewerForm.aspx?id=2318685. Acesso em: 10 de 
dezembro de 2012. 
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09. SIMÃO DIAS: DE UM VAQUEIRO A UMA CIDADE. O CICLO DO COURO E 
AS ORIGENS DO MUNICÍPIO DE SIMÃO DIAS NO SÉCULO XVI E XVII 
Jessica Messias dos Santos28 
Resumo: 
Várias versões de um personagem que marcou a origem do município de Simão Dias, Neste 
artigo irá conhecer o contexto histórico antes e no decorrer do surgimento desse personagem 
emblemático que mesmo sendo vaqueiro ou o proprietário de terras e gado sua origem está 
vinculada com a sociedade do Couro, primeira atividade econômica das terras de Sergipe Del 
Rey. Sua existência chegou a ser questionada devido a discordâncias de versões e Simão Dias 
passou a se chamar Anápolis, entretanto sua participação histórica na contribuição para 
formação desse município é tão relevante que o município voltou a levar seu nome. 
Palavras-chave: Sesmaria – Invasão holandesa – Simão Dias – Identificação 
Para entender melhor as versões que circundam sobre a figura do emblemático 
Simão Dias, é preciso se situar no contexto histórico anterior ao seu surgimento. 
Na época da colonização de Sergipe, Portugal estava dominado pela Espanha 
através da união Ibérica. Estes dois reinos formavam a coroa luso-espanhola, com isso os 
Filipes tiveram participação direta nas decisões sobre a conquista de Sergipe Del Rey. As 
terras entre o rio Real e o São Francisco pertencia ao governo luso-espanhol, entretanto 
estavam vulneráveis a invasores, pois não contavam de fato com o domínio real. Após a 
tentativa frustrada de catequizar os indígenas que habitavam as terras de Sergipe Del Rey e 
como havia interesse em dominar esse espaço, principalmente por parte de Luiz de Brito 
governador da capitania da Bahia, o governo luso-espanhol juntamente com o governo baiano 
organizou a “guerra justa” para conquistar de forma violenta esse território. 
28 Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe. Orientada pelo Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro 
Dos Santos. 
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Era considerada justa, pois já tinha sido tentado dominar o território de forma pacífica 
através da catequização com o jesuíta Gaspar Lourenço, mas a maioria dos índios revoltosos e 
não se renderam. 
Os primeiros habitantes das terras que mais tarde seria o município de Simão Dias 
foram índios remanescentes da tribo dos Tapuia, integrante da missão do jesuíta 
Gaspar Lourenço, que para fugir à perseguição da expedição de Luis de Brito, 
governador da Bahia, na sua tentativa de conquista do território sergipano, ali se 
refugiaram em fins do século XVI, estabelecendo-se nas florestas do Caiçá. (Fonte: 
http://www.ibge.gov.br/cidadesat/painel/painel.php?codmun=280710) 
Após a guerra justa, é fundado o primeiro esteio de dominação do governo São 
Cristovão, e a partir daí, a capitania da Bahia estava responsável pela capitania de Sergipe Del 
Rey com isso também foram distribuídas Sesmarias para os que lutaram na guerra contra os 
índios. O maior interesse desses sesmeiros era para a criação do gado, mas também para 
pequenas lavouras. O principal criador de gado era o baiano Garcia D’Àvila que estimulou o 
governador Luiz de Brito na luta armada contra os tupinambá. 
Antes da união Ibéria, Portugal tinha um lanço econômico muito forte com a Holanda 
que era responsável pela comercialização de todo açúcar produzido por Portugal. Entretanto 
Espanha e Holanda não se davam muito bem. E com isso durante o Governo luso-espanhol 
Portugal estava proibido de comercializar com a Holanda. Gerando um prejuízo tanto para 
Portugal quanto para os países baixos, como podemos observar nessa citação abaixo: 
Portugal e Países Baixos, antes da união daquele à coroa espanhola, mantinham 
largo comércio, no qual os navios neerlandeses traziam para os portos portugueses 
não só mercadorias do norte da Europa – trigos, madeira, metais e manufaturas 
diversas – como produtos da sua própria indústria, sobretudo peixe, manteiga e 
queijo; de torna-viagem carregavam o sal grosso de Setúbal, vinhos, especiarias e 
drogas do oriente e da África, açúcar e madeiras do Brasil. Ao ser aquele país 
envolvido na luta entre a Espanha e os “rebeldes” holandeses em 1580, esta 
negociação era-lhe de vital importância. Por mais de uma vez (1585, 1596,1599) 
navios neerlandeses sofreram por ordem dos Filipes, embargos mais ou menos 
prolongados em portos de Portugal, ocasionando interrupções temporárias do 
comércio e consequente escassez dos gêneros que ali iam buscar, sobretudo do sal, 
ingrediente essencial às indústrias do pescado e dos laticínios. Tal ato forçou os 
holandeses a procurar o abastecimento de sal nas ilhas de Cabo Verde, com o que 
iniciaram a sua navegação rumo às colônias ultramarinas ibéricas. Entretanto, 
tonara-se de tal modo indispensável para a economia portuguesa a navegação dos 
holandeses, que os Reis da Espanha cederam aos protestos dos mercadores e à 
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ameaça de fome que se esboçava no país, com a assinatura da Trégua dos doze anos 
(1609-21) entre a Espanha e os Países Baixos, o comércio luso-holandês reiniciou-se 
sem empecilhos, e foi durante esse período que se intensificou o interesse da 
Holanda pelos gêneros levados do Brasil. (MELLO, 1989: p.237-238) 
Quando acabou a trégua de doze anos reiniciou-se a guerra entre Espanha e Holanda, e 
novamente o comercio luso-holandês fora proibido. Os comerciantes holandeses que 
dependiam do açúcar brasileiro ameaçaram tomar o Brasil. Isso veio acontecer poucos anos 
após a criação da companhia das índias ocidentais, empresa holandesa responsável pelo 
comercio do açúcar, Começaram pela Bahia (1624) onde ficaram apenas um ano, pois foram 
expulsos e seguiram para Pernambuco (1630) “Mas em 1937, os holandeses resolveram invadir 
Sergipe interessados em se apoderar dos criatórios de gado e das povoações.” (Fonte: 
http://www.marcelodomingos.com.br/sergipe3.html) 
É no período da invasão holandesa em Sergipe que surge a versão mais divulgada 
sobre Simão Dias. O conde de Bagnoli, oficial napolitano comandante da tropa hispano-luso-brasileira, 
contra os holandeses. Determinou a tática da “terra arrasada”, que consistia em 
conduzir os rebanhos para as margens do Rio Real, matar o gado que não conseguisse ser 
transportado e destruir a cidade para não deixar nenhum beneficio para os holandeses. No 
entanto o português Brás Rebelo, proprietário de gado das terras da atual Itabaiana, não quis 
adotar essa tática e ordena ao seu vaqueiro Simão Dias, a missão de Esconder seu rebanho das 
tropas holandesas nas matas à margem do Rio Caiçá. Onde formaria uma povoação com 
juntamente com os outros vaqueiros e suas famílias e mais tarde essa mata se tornaria uma 
vila. 
Em meados do século XVII, quando as forças invasoras de Maurício de Nassau 
transpuseram o rio São Francisco, ameaçando Itabaiana, o português Brás Rebelo 
achou conveniente retirar seus rebanhos daquela zona. Ordenou então que seu 
vaqueiro Simão Dias construísse currais nas florestas do Caicá. Não sendo 
hostilizado pelos indígenas, que ainda conservavam a herança da catequese de 
Gaspar Lourenço, Simão Dias pode estabelecer-se no Caicá, dando assim início ao 
povoado, para onde pouco a pouco foram afluindo novos colonizadores. 
(Fonte:http://www.ibge.gov.br/cidadesat/painel/painel.php?codmun=280710) 
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Entretanto, o nome Simão Dias, já tinha aparecido antes desse ocorrido pedindo 
sesmarias por ter lutado com a tropa de Cristovão de Barros na guerra justa contra os índios 
fato que se encontra nos registros do códice do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, 
entretanto não se sabe se é o mesmo Simão Dias ou se apenas são homens diferentes embora 
tenham o mesmo nome e sobrenome. 
Como confirma o historiador sergipano Felisbelo Freire em seu livro A História de 
Sergipe, Confirmando que “os terrenos onde está edificada hoje (1891) a vila de Simão Dias foram 
doados a Simão Dias fontes, Cristovão Dias e Agostinho da Costa” (FREIRE, 1977: p.322). 
O nome de Simão Dias, como colono dos primeiros tempos da ocupação do 
território de Sergipe aparece três vezes, em distintas sesmarias, requeridas em 16 de 
agosto de 1599, junto ao Caipe, próximo ao rio Vaza-barris em sua foz, em 2 de 
janeiro de 1602, junto ao rio Pitanga, nas proximidades de São Cristovão, e 
finalmente em 27 de fevereiro de 1607, juntamente com Cristovão Dias e Agostinho 
da Costa, na Tabanhananam. Na primeira sesmaria requerida Simão Dias diz ser 
casado, morador da capitania, o que indica a sua presença na tropa de Cristovão de 
Barros. No segundo requerimento, ele se diz morador há dois anos, e queria fazer 
roças para seus mantimentos. Na terceira e ultima, segundo o códice existente no 
Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, Simão Dias Fontes, o requerimento de 
“três léguas de terra em quadro”, nas terras devolutas da Itabaiana, dá a destinação 
de criatório de gado. Gado do qual cede 105 cabeças, a Bagnoulo, mandando-as para 
o rio Real. 
Em 15 de março de 1850 a freguesia de Sant’Ana de Simão Dias foi elevada a categoria de 
município pela resolução provincial nº264. Com o território desmembrado do município de Lagarto. O 
decreto nº 43 de 8 de maio de 1890, criou a comarca de Simão Dias. A sede do município recebeu 
foros de cidade pelo decreto nº51 de 12 de junho de 1890 (Fonte: IBGE) assinado pelo então 
presidente de estado Felisbelo Freire sob argumentos de que a vila possuía uma grande 
população, um comércio forte e a estrada de ferro que ligava a vila a Aracaju (estrada que 
nunca foi concluída) 
Mas além desses “Simões Dias” retratados até agora, há ainda um Simão Dias Francês 
relatado pelo professor Marcelo Domingos de Souza em texto publicado no site da prefeitura 
municipal de Simão Dias, mas parece ser o mesmo Simão Dias fontes citado por Freire, 
entretanto com sobrenomes diferentes. 
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E foi por existirem algumas confusões entre tantos Simões que o padre João de Matos 
Carvalho publicou uma obra intitulada “Matas de Simão Dias” com o interesse de enfraquecer 
a tese de Felisbelo Freire de que as terras do município teriam sido provenientes de sesmarias 
doadas a Simão Dias, afirmando que as essas terras tinha sido doação da senhora Ana 
Francisca Menezes sua ancestral e esposa do Comendador Sebastião da Fonseca Andrade, o 
Barão de Santa Rosa, Por isso queria que o município se passasse a se chamar Anápolis em 
homenagem a Ana Francisca de Menezes, que havia doado apenas as terras para a construção 
de uma capela em homenagem a Senhora Sant’Ana. Conseguindo o seu feito com a lei nº 621 
de 25 de outubro de 1912 mudou o nome de Simão Dias para Anápolis desvalorizando assim 
a figura do vaqueiro e enaltecendo a sua ancestral. 
Após muitas controvérsias e reações o nome Simão Dias foi reestabelecido pelo 
decreto lei nº 533 de 7 de dezembro de 1944, favorecido pela determinação do governo 
federal, do presidente Getulio Vargas que aprovou o plano do IBGE, coibindo a existência de 
dois municípios com o mesma denominação. E como existia um município goiano com o 
mesmo nome, e mais antigo, a Anápolis sergipana teve que modificar o nome. 
Apesar de a versão histórica ser comprovada documentalmente, afirmando que Simão 
Dias Fontes recebeu essas terras como sesmaria, a existência da figura de Simão Dias como 
um vaqueiro vindo de Itabaiana é a que é divulgada e aceita pelos simãodienses que se 
identificam com a figura do vaqueiro. Sendo que até hoje a população preserva algumas 
características da “sociedade do couro” como nas festas do Carreiro no povoado Barnabé ou 
mesmo na festa do Vaqueiro que acontece em alguns povoados e também na sede do 
município. Também é preservada a fé por Senhora Santana que no mês de Julho no dia 27, a 
procissão movimenta todo o município é o momento em que todos os povoados e bairros se 
reúnem em frente à matriz de Sant’Ana para agradecer por ela sempre abençoar essa terra e 
mesmo quem não é católico se encanta ao ver uma tradição ser mantida por várias gerações. 
REFERÊNCIAS 
BARRETO, Luis Antonio. Simão Dias: Tradição e história: centenário de sua 
emancipação política. Aracaju: Pesquise, Montalvão Publicidade [1990] 
São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 55
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DÉDA, José de Carvalho. Simão Dias - Fragmentos de sua história. Aracaju: gráfica J. 
Andrade, 2008. 2ª Ed. 
FREIRE, Felisbelo. História de Sergipe. 2ed, Petrópolis: Vozes/Aracaju: Governo do 
Estado de Sergipe, 1997. 
IBGE. Enciclopédia dos Municípios Brasileiros. Rio de Janeiro: IBGE, 1959, v. 19 
(Alagoas e Sergipe). 
MELLO, J. A. Gonçalves de, O domínio holandês na Bahia e no Nordeste, Tomo I Época 
Colonial do descobrimento à expansão territorial. Recife. 1989. 
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SOUSA, Antônio Lindvaldo. Temas de História de Sergipe II. São Cristovão: Universidade 
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<http://www.marcelodomingos.com.br/indicecolonial.html> Acesso em 24 Mar. 2013. 
IBGE. Disponível em 
<http://www.ibge.gov.br/cidadesat/historicos_cidades/historico_conteudo.php?codmun=2 
80710 >Acesso em 20 mar. 2013. 
São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 56
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10. COMPREENSÃO DO DESENVOLVER DA PESQUISA SOBRE OS ESCRAVOS 
EM SÃO CRISTÓVÃO 
José Daniel Rito dos Santos 
Ane Luise Silva Mecenas 
Resumo: 
O Presente trabalho tem como objetivo discutir as práticas de compadrios e de sociabilidades 
na freguesia de São Cristóvão num período longo em que se estende de 1850 a 1910. O 
levantamento de dados será realizado na Igreja Nossa Senhora da Vitória, matriz da primeira 
capital sergipana e tem como um dos requisitos a preservação das fontes documentais, através 
da digitalização das mesmas. Entre os estudos executados acerca da escravidão 
(principalmente no sul do Brasil) e que servirão de embasamento para a realização deste, 
nota-se uma busca pela compreensão na relação entre os cativos já que eles eram bruscamente 
afastados de suas famílias e levados a uma convivência sobre condições truculentas com um 
aglomerado de indivíduos de costumes e tradições exóticas vindos das mais diversas regiões 
da África. Esses encontram nos compadrios e casamentos formas de constituir famílias e de 
convivências que possibilitou a sociabilização com os que estavam na mesma situação e que 
posteriormente implicou na construção de atitudes que possibilitaram reivindicações frente às 
condições de trabalho e inferioridade social e gerou uma hostilidade na convivência entre 
senhor e escravo. Como em determinado período da história sergipana a economia se deu à 
base do trabalho escravo nos engenhos de açúcar e demais atividades propícias, há ainda uma 
grande carência de pesquisas sobre o tema que tratem de preencher as lacunas que ainda se 
fazem presentes, e assim se justifica esse trabalho que traz na íntegra a produção da 
historiografia escravista sergipana na transição que vai da segunda metade do século XIX até 
os primeiros anos do XX. 
Palavras-chave: São Cristóvão; Cativos; Compadrios; sociabilidade. 
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11. FLAGRANDO A VIDA: TRAJETÓRIA DA VIDA INTELECTUAL E 
PROFISSIONAL DA PROFESSORA LÍGIA PINA 
José Genivaldo Martires (*) 
Resumo: 
O presente estudo tem o objetivo de estudar a trajetória da vida intelectual e profissional da 
Profª Lígia Pina. Utilizamos a técnica de história de vida realizada por meio de depoimentos 
da biografada. Lígia Pina nasceu em 1928, na cidade de Aracaju, estudou nos colégios: Frei 
Santa Cecilia, Escola Nossa Senhora de Lourdes e Escola Normal. Fez o curso superior em 
História e Geografia na FaculdadeCatólica de Filosofia de Sergipe. Em relação a sua vida 
profissional lecionou em diversos colégios de Aracaju, dentre eles: Escola Normal, Atheneu e 
no Colégio de Aplicação da UFS. Nesta instituição de ensino desenvolveu uma série de 
atividades e materiais didáticos com o propósito de dinamizar as aulas de história. Em 1991 
encerrou as suas atividades pedagógicas, passando a se dedicar as suas obras literárias e nas 
atividades da Academia Sergipana de Letras. 
Palavras Chaves: Escola Normal, História Cultural, Colégio de Aplicação, Magistério. 
INTRODUÇÃO 
O presente trabalho tem o objetivo de estudar a trajetória de vida intelectual e 
profissional da Professora e Literata, Maria Lígia Madureira Pina, que exerceu o magistério 
duranteas décadas de 50 a 90 do século XX. 
Esse trabalho está em consonância com os pressupostos teóricos – metodológicos da 
nova História Cultural. Pois, “(...) o que antes era fixo, imutável, agora é uma construção 
cultural, que sofre constantes transformações no tempo. Calçada no relativismo defende a 
ideia de que toda realidade social é culturalmente construída.” (SANTOS, 2009:75) 
O estudo de trajetória de vidas de professoras no inicio do século XX é um objeto de 
estudo relativamente novo nos grupos de pesquisas da História de Educação, tais 
(*) Prof. do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Sergipe 
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pesquisasconcentram suas atençõesna história da escolarização, nas culturas escolares, 
profissionalização e a própria luta feminina no Brasil. A esse respeito: 
A escolarização feminina possui historicamente, um sentido mais ampliado do que a 
mera transmissão de conteúdos, em geral ela significa, principalmente nas primeiras 
décadas do século XX, um passa a mais na emancipação e na conquista da 
autonomia, de do exercício da cidadania. Não é por acaso que o acesso ao ensino 
superior no Brasil pelas mulheres foi uma luta de várias gerações, eram diversos 
preconceitos e as justificativas para a restrição da possibilidade de ampliaçãode 
estudos após o ensino secundário (FREITAS, 2009:08.) 
Para a elaboração deste trabalho utilizamos como fontes: os depoimentos, através de 
uma série de entrevistas realizadas com a Professora Lígia Pina; jornais e a produção 
bibliográfica da biografada. Utilizamos a técnica denominada História de vida que: “Se 
definecomo o relato de um narrador sobre sua experiência através do tempo, tentando 
reconstruir os acontecimentos que vivenciou e transmitir as experiências que adquiriu”. 
(QUEIROZ, 1991:07) 
FLAGRANDO A VIDA29 
Maria Lígia Madureira Pina nasceu em Aracaju, no dia 30 de setembro de 1928, no 
bairro industrial. Foi a terceira filha do casal Affonso Pina e Alexandrina Madureira Pina. 
Estes, provenientes da região do Vale do Cotinguiba, da cidade de Santo Amaro das Brotas, 
migraram para a Aracajuna primeira década do século XX, em busca de uma melhor 
oportunidade de vida. Dona Alexandrina trabalhava na fábrica de tecidos Confiança e o Sr. 
Affonso Pina em uma fábrica de calçados. De acordo com a biografada: 
Eu nasci em Aracaju, sou filha de Affonso Pinna e Alexandrina Maria Pina, lá de 
Santo Amara das Brotas. Toda a família, meus bisavós e meus avós eram todos de 
láde Santo Amaro das Brotas, [...]. Os meus pais vieram morar aqui (Aracaju), o 
meu pai com 13anos e minha mãe com 9 anos de idade, no bairro industrial. Aqui se 
conheceram, namoraram 10 anos. Ela menina tinha 14 anos e ele era 11 anos mais 
velho. Casaram-se e tiveram 03 filhos, os dois mais velhos morreram crianças e 
então eu era a mais nova. (MariaLígia Madureira Pina, entrevista em 06/01/2004). 
29 Título do primeiro livro de poesias da Prof.ª. Lígia Pina 
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A sua infância transcorreu normalmente, como todas as crianças da sua época, porém 
com uma grande preocupação dos seus pais em relação a sua “fragilidade”no tocante a sua 
saúde. Entretanto, esse zelo e preocupação demonstravam o receio de perdê-la, haja vista as 
mortes prematuras dos outros dois irmãos. Com cinco anos de idade, em 1933, nasceu o 
desejo de frequentar a escola do bairro e, segunda a mesma, o interesse para o magistério 
tem as suas origens nesse período em que estudou no Colégio Frei Santa Cecília, 
administrado e ministrado pela Professora Carlota: 
A escola na época não era pra se distrair, não era jardim de infância. Havia 
aquelas lições chatas, difíceis de apreender. O ABC que era de letras grandes que eu 
sabia todo de cor, mas não conhecia uma letra. A prof.ª marcava daqui até aqui. 
Quais são as letrinhas? Já sei A, B, C, D, E... Ela dizia mais que letra é essa? Eu não 
sabia. Então ela falou para o meu pai comprar uma cartilha, eu fui aprender a ler 
com o método, que depois de muito tempo é considerado moderno. Nessa 
cartilha eu aprendi através de palavras e de frases. D. Carlota ensinou na Bahia, no 
Recife, era a cartilha Ler Brincando.(MariaLígia Madureira Pina, entrevista em 
06/01/2004.). 
Além do método aplicado por D. Carlota para a alfabetização, também merecem 
destaque as dramatizações, os recitais de poesiasque realizava com os seus alunos, 
incentivando-os a redigir e,segundo a Professora Lígia Pina, nesse momento estava iniciando 
o seu processo de literata e escritora. 
Em virtude de problemas de saúde de D. Alexandrina, a família mudou-se para a Av. 
Pedra Calazans, vizinho ao Grupo Escolar Manoel Luiz. Mudança de endereço e, também 
mudança no ambiente escolar. Com 11 anos de idade o seu pai, funcionário público, fez a 
matricula no Colégio Nossa Senhora de Lourdes, administrado pelas Irmãs da Congregação 
Sacramentinas "Fundado em 1903 em Aracaju pelas religiosas Irmãs Sacramentinas com 
sede em Valence (França), aceitava alunas internas, semi-internas e externas” (NUNES, 
2008:364). O colégio feminino era considerado de Elite, onde as filhas dos senhores de 
engenhos e/ou senhores de gados do interior, eram confiadas para a educação. Formar, 
com base numa educação disciplinar, as “verdadeiras” esposas, mães e donas de Casa. O 
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Colégio Nossa Senhora de Lourdes funcionou até 1973. 
A professora Lígia Pina recordando esse período escolar no Colégio Nossa Senhora de 
Lourdes nos afirma: 
Entrei lá no Nossa Senhora de Lourdes no 3° ano primário com a irmã Dolores que 
era uma Freira paulista da cidade de Araraquara e era uma professora extraordinária, 
ela nos ensinou de tudo, inclusive o Francês. As primeiras noções de Francês com a 
irmã Dolores, como ela nos ensinava a recitar as poesias em Português e em 
Francês, desenvolvi ali também o gosto pela História e a Geografia. A Irmã 
Maria Dolores era muito nacionalista (paulista não é),ela fazia teatro daslições de 
História Independência, Inconfidência Mineira, ela nos transmitia muita noção de 
patriotismo e nacionalidade. Com esse 3º ano com ela passei muito bem e depois 
fui ao 4a ano com a Irmã Maria Carmelita, já não era uma pessoa assim... Não tinha 
a mesma didática da Irmã Maria Dolores. Muitoexigente, era diferente: cada pessoa 
é uma pessoa, éum jeito, mas fiz o 4° ano com boas notas. (Maria Lígia Madureira 
Pina, entrevista em 06/01/2004). 
Aos 13 anos de idade Lígia Pina ingressou no Instituto de Educação Rui Barbosa, 
antiga Escola Normal. Os anos em que Lígia Pina passou na Escola Normal ainda estão 
presentes na sua memória, segundo a mesma, era uma vivência democrática, na escola 
estavam reunidas as maiores "cabeças pensantes do Estado”, e cita como exemplo as aulas da 
Profª Júlia Teles que a incentivara nas suas poesias e nos seus contos. 
Na Escola Normal era a escola onde predominava a democracia entre as alunas que 
frequentavam os dois colégios. O Colégio Nª. Sª. de Lourdes era de elite, 
internato e externato. No internato as filhas dos senhores de engenhos, 
fazendeiros que moravam no interior einternavam as meninas e as externas, 
geralmente de classe média pra cima, era muito raro umamenina pobre estudar noNª 
Sª de Lourdes, porque nãopodia pagar. A Escola Normal era diferente eram todas as 
classes sociais e na maior parte as meninas de poderaquisitivo inferior, meninas que 
naquela época moravam no que era o 18 do forte (50 anos atrás), bairro América e 
eu tive muitas colegas que moravam no Siqueira Campos, Bairro América, 
Industrial, Bugio, era salinas naquela época, a praia 13 de julho eram casebres de 
pescadores. (Maria Lígia Madureira Pina, entrevista em 06/01/2004). 
Lígia Pina estudou neste período com osprofessores (as): Cecinha Melo, Padre 
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Domingos Fonseca, Júlia Teles, dentre outros. Outro fato marcante das lembranças do 
cotidiano escolar de Lígia Pina no Instituto Rui Barbosa foi o desejo de ascensão social e 
econômico por meio da profissionalização do magistério, corroborando assim com o estudo 
realizado por Freitas (2003) sobre as representações de ex-normalista de 1920 a 1950, os 
motivos que levavam as moças a ingressar e concluir o curso normal estavam associados a 
processos de ascensão social, à pressão da família e à oportunidade de, por parte da mulher, 
obter uma independência financeira. Nocaso de Lígia Pina, a busca de uma independência 
financeira era algo bem presente e incentivado pelo seu pai, pois: 
Ele exigia que eu estudasse e dizia sempre assim: você estuda pra se formar ter o seu 
emprego, porque o melhor marido do mundo é o emprego; ser independente, não 
pode precisar de ninguém e quando eu morrer como é que vai ser? Vai ficar na 
dependência dos outros? Não, você tem que estudar. Ele era um homem muito 
esclarecido para a sua época. E então ele dizia tem que estudar e, se formar, ter o seu 
emprego. (MariaLígia Madureira Pina, entrevista em06/01/2004). 
Em 1948, Lígia Pina concluiu o seu curso Normal, mas não assumiu de imediato o 
magistério. Primeiramente, fez alguns cursos como: Puericultura, patrocinado pela Secretaria 
de Estado da Saúde e o de Treinamento de Serviço Social. Após esses cursos foi trabalhar no 
comércio na condição de secretária da firma Cabral Machado e Companhia, onde permaneceu 
por três anos. A atividade do magistério foi surgindo aos poucos, no inicio dos anos 50 do 
século XX, através das aulas particulares ministradas aos filhos de pessoas que detinham 
poder econômicona cidade de Aracaju. Em seguida começou a ensinar em colégios 
particulares e, em 1954, prestou vestibular para o curso História e Geografia na 
FaculdadeCatólicade Filosofia de Sergipe. 
A Faculdade Católica de Filosofia, criada em 1951, funcionava ànoite no prédio do 
Colégio Nossa Senhora de Lourdes. Em 1958 foi transferida para a sua sede própria, 
localizada na Rua Campos 177, onde hoje funciona o IPES (Instituto de Previdência do 
Estado de Sergipe); em 1968 foi incorporada à Universidade Federal de Sergipe. 
Em relação à sua formação acadêmica e pedagógica na Faculdade Católica de Filosofia 
de SergipeLígia Pina destacou as contribuições dos seguintes professores: Gonçalo 
Rollemberg; Fe1tre Bezerra; José Silvério Leite Fontes; D. Luciano Cabral Duarte; Severino 
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Uchoa; Josefina Leite; Cabral Machado, dentre outros. O curso teve a duração de 1955 a 
1958 e a solenidade de colação de grau só ocorreu em 1959 em razãoda ausência de D. 
Luciano por motivos de viagem. De acordo com Lígia Pina foi uma solenidade muito simples 
ocorrida na própria Faculdade. 
Antes mesmo de concluir o curso superior Lígia Pina fora convidada por Severino 
Uchoa, Diretor na época da Escola Normal, para lecionar algumas disciplinas. A professora 
Lígia Pina exerceu o magistério em diversos Colégios em Aracaju, públicos e privados. Entre 
eles: Colégio Nossa Senhora de Lourdes de 1958 a 1971; Colégio Tiradentes de 1961 a 1963; 
Colégio Simeão Sobral de 1960 a 1962; Colégio Dom José Thomas de 1963 a 1965; Colégio 
Arquidiocesano Sagrado Coração de Jesus de 1968 a 1970; Colégio Atheneu Sergipense de 
1958 a 1983; Por último, o Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Sergipe de 1967 
a 1991. Nesses colégios a Professora Lígia Pina lecionou as disciplinas de Geografia e 
História e disciplinas pedagógicas no curso Normal no Colégio Nossa Senhora de Lourdes e 
Instituto Rui Barbosa. Dentre os colégios citados, iremos nos deter na análise do período em 
que a ProfessoraLígia Pina exerceu o magistério no Colégio da Universidade Federal de 
Sergipe. 
O antigo Ginásio de Aplicação, hoje denominado de Colégio de Aplicação - CODAPfoi 
criado pela Sociedade Sergipana de Cultura, presidida por D. Luciano Cabral Duarte, em 30 
de junho de 1959. Seu objetivo principal era de servir como campo de estágio das 
licenciaturas da Faculdade Católicade Filosofia.Em 1968 o Colégio de Aplicação foi 
incorporado àrecém-criadaUniversidade Federal de Sergipe. Vinculado inicialmente ao 
Departamento de Educação e, posteriormente, ao gabinete do Reitor como órgão 
suplementar. 
No dia primeiro de março de 1967 a professora Lígia Pina iniciou suas atividades 
pedagógicas no Colégio de Aplicação contribuindo para o seu desenvolvimento pedagógico e 
literário. A Professora Lígia Pina destacou com elementos diferenciais do Colégio de 
Aplicação em relação aos demais Colégios que lecionou as seguintes características: 
O diferencial no início era justamente o nível dos alunos que nós recebíamos, eram 
de alta classe social e econômica que tinham o nível de conhecimento muito maior. 
Porque na época se fazia exame de seleção. Outro diferencial era o número de 
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alunos, nós podíamos trabalhar bem melhor no Codap, porque cada série tinha 30 
alunos e no máximo 35, enquanto nos outros (...). Fazia-se reunião para avaliar o 
desempenho do aluno, então, todo mundo já sabia qual o aluno que estava fraco, e 
em quantas disciplinas, quais as disciplinas, se era uma disciplina só, então o 
professor tinha que se auto-avaliar (...). O Codap agente tinha a possibilidade de 
aplicar técnicas, fazer teatro, júri simulados, jona1 falado, essas coisas que hoje - 
como falei na vez passada - estão como estudos integrados das disciplinas, são 
hoje coisas muito novas, mas que eu fazia há trinta anos atrás.(MariaLígia 
Madureira Pina, entrevista em 04/02/2004). 
No decorrer da sua trajetória pedagógica no Colégio de Aplicação, foram várias peças 
de teatro escritas entre elas: “As Grandes Navegações”, “Patrícios e Plebeus”, “Os Caminhos 
da Filosofia”, “O Ponto Ômega”, “O 1º e o 2º Recital de Poesias Sergipanas”. 
Esses textos eram elaborados pela Professora Lígia Pina que ensaiava com os seus 
alunos para as apresentações. Alémdos textos para teatro escreveu e aplicou em sala de aula 
um livro didático: "Tudo isto é o Brasil" que, até a presente data não obteve apoio e/ou 
recursos financeiros para sua edição. 
A corrente de pensamento que norteou a prática pedagógica da Professora LígiaPina 
foidefinida por ela como: 
Eu sou uma humanista por excelência e uma liberal por excelência. Eu acho que a 
situação do mundo atual é assim por que a homem esqueceu o próprio homem. O 
desenvolvimento tecnológico e cientifico que devia ser importante entre os homens, 
mas não foi, acabou com o humanismo.(MariaLígia Madureira Pina, entrevista em 
04/02/2004) 
Esse humanismo foi marcante na formação acadêmica ena sua prática escolar. De 
acordo a Prof.ª Lígia Pina esse humanismo foi fruto da educação que recebeu dos seus pais; 
da influência do seu tio Lourival Pinaque a incentivava nas leituras e de alguns professores 
que lecionaram naFaculdade de Filosofia de Sergipe, a exemplo de D. Luciano. 
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CONSIDERAÇÕES FINAIS 
Diferentemente de um estudo biográfico de uma pessoa "post-mortem”, estruturado em 
começo, meio e fim, o nosso estudo não se encerra por aqui. O estudo biográfico das pessoas 
em vida tem esse caráter de não ser conclusivo e de possibilitar novas trajetórias e novos 
olhares. 
Ao objetivarmos o estudo sob a ótica da trajetória intelectual e do exercício do 
magistério da Professora Lígia Pina foi notóriaas contribuições: dos seus pais; a formação 
moral e religiosa do Colégio Nossa Senhora de Lourdes; a formação democrática e humanista 
da Escola Normal e, por último, as contribuições acadêmicas da Faculdade Católica de 
Filosofia de Sergipe. 
Foi no exercício do magistério, especificamente, no cotidiano da sala de aula que 
percebemos o encontro entre a Professora e a Literata Pina. Esse encontro foi decorrente da 
necessidade de elaborar textos, resumos, crônicas e peças teatrais com objetivo de: despertar 
ao interesse e a atenção dos alunos pela disciplina de História; bem como favorecer um 
intercâmbio entre os conteúdos históricos com as ciências afins a exemplo da Geografia e da 
literatura. Desta forma, observamos o desenvolvimento da sua veia literária e, a sua 
preocupação com o mundo que nos cerca, acreditando no potencial humano para a resolução 
dos problemas. 
Com a pretensão de não concluirmos e, consciente das nossas limitações, guardaremos 
com muito carinho o semblante sorridente da Professora Pina; o seu vigor em continuar 
participando da Academia Sergipana de Letras; Conselho Estadual de Cultura; da Academia 
Literária da Vida; realizando as suas pesquisas, estudos, poesias, crônicas, livros e exaltando a 
vida. 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 
FREITAS, Anamaria Gonçalves Bueno. Vestidas de Azul e Branco: um estudo sobre as 
representações de ex-norrnalistas (1920-1950). São Cristóvão: Grupo de Estudos e 
Pesquisas em Educação/NPGED. (Coleção: Educação é História),2003. 
_________Para que(m) contar a História das Mulheres professoras/literatas 
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UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 
paraibanas? In: Educação e Educadores na Paraíba do século XX. João Pessoa: Editora 
Universitária da UFPB, 2009, p.7-14. 
NUNES, Maria Thetis. História da Educação em Sergipe. 2ª ed. São Cristóvão: Editora 
UFS, 2008. 
PINA, Maria Madureira. A Mulher na História. Aracaju: SEGRASE, (s/d) 
______Flagrando a Vida. Aracaju: SEGRASE, 1983. 
______.O Satélite Espião. Aracaju: Gráfica Popular, 1998. 
QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Variações sobre a técnica de gravador no registro da 
informação viva. São Paulo: T. A. Queiroz Editor,1991. 
SANTOS, Erinalda Lopes dos e NUNES, Maria Vera da Silva. Julita Ribeiro: reflexões 
sobre as lições das coisas (1921-1022) in:Educação e Educadores na Paraíba do século XX. 
João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 2009, p. 75-90. 
Fontes orais: 
Maria Lígia Madureira Pina – depoimentos concedidos ao entrevistador José Genivaldo 
Martires nos dias 06/01/2004 e 04/02/2004. 
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12. O “TEMPO DA FÁBRICA” EM SÃO CRISTÓVÃO: APONTAMENTOS DA 
PESQUISA 
José Thiago da Silva Filho30 
Resumo: 
A pesquisa trata da experiência de cidade têxtil que São Cristóvão vivenciou por quase 70 
anos no século XX e que marcou profundamente o patrimônio cultural do seu povo e a 
configuração política, econômica e social. Sua metodologia pautou-se: a) na análise da 
monografia que José Lúcio Batista Silva defendeu em 2002 sobre o tema, com o titulo “O 
surgimento da indústria e do operário em São Cristóvão”; b) na acareação do estudo 
acadêmico com as informações coletadas em livros e nos jornais da hemeroteca do Instituto 
Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE). Como resultado, temos um quadro ampliado, 
ainda parcial, do que foi a experiência cidade fabril em contraposição a cidade turística que o 
discurso político, vinculado a programas, obras e eventos consolidou na segunda metade do 
século XX. 
PALAVRAS-CHAVES: São Cristóvão - fábrica – biografia - Pedro Amado 
APRESENTAÇÃO 
“1968 - O progresso chegou há muitos anos com duas fabricas de tecidos que 
se acomodaram na baixada, a beira rio plantadas, dando trabalho honesto e 
remunerado a milhares de braços”. (A Tarde, 5/6/1968) 
São Cristóvão possui um belo conjunto arquitetônico colonial. Em razão disso foi 
declarada Monumento Histórico em 1938, teve o centro histórico reconhecido em 1967 como 
bem de valor e preservação, por último sua praça São Francisco recebeu o título de 
Patrimônio da Humanidade concedido pela UNESCO em 1º de agosto de 2010. Apesar de 
tantos méritos acumulados a “quarta cidade mais antiga do Brasil” se acha num processo lento 
de vir-a-ser pólo de turismo. O que muita gente desconhece é que no decorrer do século XX 
30 Especialista em História Cultural pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), sócio do Instituto 
Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE), Diretor do Museu Histórico de Sergipe (MHS/SECULT). 
Orientador: Prof. Dr. Antonio Lindvaldo Souza, Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe 
(UFS). 
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nem sempre falar de progresso aqui significava o turismo e as diversas possibilidades de 
aproveitamento do antigo e belo conjunto arquitetônico localizado no centro histórico, ou 
seja, na cidade alta. Durante muito tempo falar de progresso era olhar para cidade baixa. A 
propósito, transcrevo uma matéria do jornal A Tarde, de Salvador, edição de 5 de junho de 
1968, onde o jornalista Junot Silveira comenta sobre a cidade onde passou parte de sua 
infância: “o progresso chegou há muitos anos com duas fabricas de tecidos que se 
acomodaram na baixada, a beira rio plantadas, dando trabalho honesto e remunerado a 
milhares de braços”. 
A fase fabril de São Cristóvão foi representada pelas fábricas, sinônimo de 
progresso, a gerar centenas de empregos e uma posição de destaque na economia sergipana. 
São elas: Fabrica Sam Christovam S. A. (1914/1980) e Companhia Industrial São Gonçalo 
(1941/1969). Ambas tiveram uma grande influencia na vida social, política, econômica e 
cultural da ex-capital. Apesar de toda sua importância não existe uma herança da fábrica ou 
esta é imperceptível a nova geração. De qualquer sorte faltava uma incursão na memória da 
fase fabril, é basicamente disso que trata a monografia “O surgimento da indústria e do 
operário em São Cristovão”, de José Lúcio Batista Silva. 
José Lúcio mostra que a implantação da empresa têxtil Sam Christovam, em 1914, 
junto com recém instalada linha férrea, retomou o crescimento econômico, político e social da 
cidade em decadência desde a Mudança da Capital em 1855. Aliás, ele defende que a falência 
da então capital começou em 1845 com desmembramento da freguesia de Itaporanga, 10 anos 
antes, portanto. 
Na sua narrativa acerca da implantação da fábrica Sam Christovam S. A., autor 
nomina os principais sócios e trata do desempenho fabril nos primeiros 20 anos de atividades. 
Ele fornece dados biográficos sobre os fundadores, especialmente sobre Felix Pereira de 
Azevedo e Othoniel Amado. Além de identificar origem dos operários, o pesquisador 
entrevistou ex-operários (Antonio Lucrécio Santos, João Batista da Rocha, Pedro Arcanjo de 
Santana, Maria Eurizina de Oliveira da Silva) para saber do processo de produção e moradia; 
Assim como coloca a implantação da unidade fabril sergipana, localizada em São 
Cristovão, dentro do contexto nacional, ele mostra que a vila operária seguia os mesmos 
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princípios de controle observados em outras indústrias. Desvela ainda que a primeira greve 
deflagrada pelos operários em 1935 não reivindicava melhores condições de trabalho e 
salários mas protestar por conta da contaminação da água empreendida pelo encarregado Penn 
Collidgs Menhinick. 
Por último, esclarece que dentro do processo de negociação com grevistas e pleito 
de apoio junto do Governo do Estado, o deputado Pedro Amado, opositor, assumiu bancada 
situacionista. Tal expediente garantiu apoio de força militar que garantiu sua propriedade e 
impôs o fim do ato grevista. 
IRMÃOS AMADO: CONSTRUINDO BIOGRÁFIAS 
Othoniel Amado, assim como Felix Pereira de Azevedo, faleceu nos primeiros anos de 
funcionamento da fabrica. O fato marca a chegada do seu irmão, Pedro Amado, no corpo de 
sócios. 
Até a breve participação nos quadros da empresa, Othoniel atuou como representante 
comercial de produtos diversos. Em 30 de maio de 1908, era guarda livros quando foi 
nomeado agente da Companhia Pernambucana de Navegação, em Sergipe, com escritório na 
rua Laranjeiras n. 31. (Correio de Aracaju, 11/06/1908) Avisa que mudou escritório de 
Comissões e Consignações para rua da Aurora, n. 65. (Correio de Aracaju, 8/11/1908) 
Figura como 1º. Secretario do Club Esperanto, em 30 de agosto, convocando sócios 
para eleger novo Conselho Fiscal e Mesa Diretora. (Folha de Sergipe, 27/8/1908) 
Em 1913, aparece como agente da Companhia de Navegação do Baixo São Francisco, numa 
cobrança endereçada a Secretaria do Tesouro sobre pagamento de passagens de praças. 
(Diário da Manhã, 12/07/1913) 
Era único agente-depositário do Lumbricida Vegetal Antunes fabricado na Capital 
Federal. Seu nome figura na folha de produtos e serviços da praça aracajuana para contato de 
venda de zonophones, com loja na rua D’Aurora, n. 43. Em 1913 ainda negocia produtos 
musicais. (Diário da Manhã, 30/11/1911) 
São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 69
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No ano de 1911, Pedro Amado ‘‘terminou brilhantemente curso de odontologia na 
academia de Medicina do Rio de Janeiro, - obtendo plenamente com distincção’’. (Diário da 
Manhã, 28/11/1911, 2) 
O cirurgião dentista instalou Clínica Odontológica na capital sergipana, rua Itabaiana, 
n. 15. Independente das suas atividades clínicas de 1914, mantinha sob a razão social Amado 
e Cia um armazém de moveis na rua Japaratuba, n. 5. (Diário da Manhã, 5/2/1914) 
Os irmãos amado tinham firmas abertas na Junta Comercial, granjeavam 
representações de produtos e serviços de outros Estados e pelo menos uma vez contrariaram a 
Recebedoria Estadual. Os negociantes Othoniel Amado e Pedro Montalvão Amado tiveram 
“proihibida, a entrada, nesta repartição” em atividade no momento Rastreando informações 
nos jornais foi possível juntar dados biográficos que respaldam conclusões de José Lúcio a 
respeito da origem do capital empregado na fundação da Fábrica Sam Christovam S. A. (O 
Estado de Sergipe, 13/10/1910) 
ISENÇÃO & BENFEITORIAS 
Segue dados sobre primeiras notícias da empresa que motivou José Lúcio Batista 
Silva a elaborar seu estudo. Dos tantos empecilhos encontrados pelos empresários para 
Inaugurar o empreendimento responsável pelo renascimento econômico da ex-capital, um foi 
pauta da sessão do Conselho Municipal, de 15 de janeiro de 1914, revogando lei N. 85, de 17 
de dezembro de 1911 que concedia isenção de impostos as fabricas ou empresas fundadas no 
município. Independente das intrigas geradas pela iniciativa, o Conselho justificou que lei não 
cumpriu tramite legal e desconsiderou prescrições da lei orgânica do município, o fato é que a 
isenção e/ou sonegação de impostos pelo que pudemos constatar foi uma constante a 
prejudicar a saúde financeira do município. No entanto, a influência dos astutos empresários, 
de seus agentes, enfim, a inserção da fábrica na vida política sancristovense é que 
determinava a intensidade do ônus. Se a benfeitoria do coreto parece um favor, imagine a luta 
travada entre os agrupamentos das 2 fabricas para contar com o apoio ou coptar a gestão 
municipal nas décadas de 1940, 1950 e 1960. Detalhe: ao gestor aliado cabia por um lado 
minimizar/colaborar com sonegação da fábrica e, por outro lado, taxar e expor na imprensa as 
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dívidas da empresa concorrente. No geral, esta relação licenciosa entre setor privado e poder 
público agravou-se. Citemos um exemplo para ilustrar, transcrito do Sergipe-Jornal, de 5 de 
maio de 1951, ano em que o médico das fabricas galgou posto de prefeito: 
As coisas em São Cristovão não andam lá muito boas. O novel prefeito, Dr. Lourival 
Baptista, apezar de médico das duas fabricas ali existentes, conta com a oposição 
dos operários que formam a maioria na Camara de Vereadores. E esses vereadores, 
ao que se informa, estão dispostos a vigiar e fiscalizar seriamente os negócios do 
município, não permitindo químicas de verbas nem transações outras que venham a 
onerar os cofres públicos... (Sergipe-Jornal, 5/5/1951) 
Vê-se pelo exposto que força dos operários sindicalizados, como poder político 
representado na Camara de Vereadores, conflitava com o representante patronal escudado no 
Executivo. A “química” das verbas condenada em 1951 era praticada nos primeiros anos da 
implantação da empresa; para decorar prédio da prefeitura comprado em 1916, o ex-intendente 
Antonio Gonsalves Barroso, contraiu na “Amado & Cia da praça de Aracaju o 
débito da quantia de 436$000”. (Carta de Antonio Gonsalves Barroso ao intendente Messias 
do Prado Alvares Pereira, dezembro de 1916. Correspondência Recebida e Expedida 
(1915/1920). Acervo da Prefeitura Municipal de São Cristovão) 
Diante do caso, reiteramos: questão fiscal ou sonegação promovida pela fábrica 
indistintamente espera um outro estudo. Se dados oficiais não batem, caso do número de 
teares da empresa, por exemplo, é preciso considerar que o valor do imposto sobre tear era 
calculado de acordo com a quantidade declarada pelo proprietário. 
AUTO-ESTIMA & O VALOR DA FÁBRICA 
O discurso do aumento da auto-estima do povo sancristovense consoante a 
experiência fabril é um espécie de ópio consumido e patrocinado por 3 porta-vozes: bairristas 
como Serafim Santiago; empresários como Pedro Amado; candidatos do universo fabril como 
Deoclécio Vieira e Lourival Baptista. 
SANTIAGO apresenta mais datas inaugurais: inicio da escavação do alicerce 
(14/8/1912), solenidade com benção das maquinas (4/2/1914). Curioso é o valor do capital 
que informa: superior a mil contos de réis. José Lúcio é mais exato: oito mil contos de réis. 
José Lúcio Batista Silva questiona a necessidade de investigar a origem do capital, (não 
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satisfeito com explicação encontrada em “História Econômica de Sergipe” (PASSUS 
SUBRINHO, 1987:87) e/ou o enriquecimento meteórico dos sócios. Junte-se a tudo isto a 
comentada questão fiscal e o vasto território da cidade que virou área de produção de lenha e 
coco, que décadas depois foi incorporado ao patrimônio dos Amado. 
PROCEDÊNCIA DO MAQUINÁRIO 
Respaldado no caso da fabrica Sergipe-Industrial fundada em 1884, José Lúcio 
afirma que maquinário da Sam Christovam anunciado como moderno e abençoado na manhã 
do dia 14 de fevereiro de 1914, era obsoleto. Pasme, tinha um século de “atraso tecnológico”. 
Vejamos o que diz o Diário da Manhã, de 28 de setembro de 1912: 
Empreza Industrial Sam Christovam - Acabam de embarcar no vapor inglez 
Matador da Harrison Line, sahido de Liverpool a 21 do corrente 2.266 volumes de 
ferragens e maquinismos para a Empreza Industrial Sam Christovam, de activos 
capitalistas da nossa praça. É o primeiro carregamento de material que a empreza 
vai receber, e que chegará por todo o mez de outubro. Dentro de poucos mezes a 
tradicional cidade de Sam Christovam verá funcionar a nova fábrica, cujo edifício já 
está em construcção, e o nosso Estado contará mais esse elemento de progresso. 
(Diário da Manhã, 28/9/1912) 
VILA OPERÁRIA & LITERATURA 
José Lúcio recorre ao depoimento de Pedro Arcanjo de Santana, 94 anos, para tratar 
da origem da vila operária e da vigilância sofrida pelos moradores por parte dos agentes 
patronais. As vilas operárias e os núcleos fabris eram comuns nas industriais desde o século 
XVIII, mas no Brasil desde o século XIX. Em sua obra “Pedra: plano e cotidiano operário no 
sertão”, Telma de Barros Correia distingue vila operária de núcleo fabril, constituindo este 
uma tentativa de cidade fabril enquanto aquela uma fórmula patronal de controlar a vida 
privada dos operários, anexando moradia ao complexo fabril. (CORREIA, 1998:20) Assim 
foram as duas vilas operárias de São Cristóvão. A seguir destaque villa operaria christovense, 
publicado num jornal aracajuano: 
Os activos industriaes que compõem a firma Andrade, Chaves e C., para exploração 
de uma fábrica de tecidos em S. Christovam, pretendem mandar construir, junto ao 
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local do grande estabelecimento industrial, uma villa operária, já tendo para isso se 
entendido com competente engenheiro Dr. Heraclito Lima, que começou o trabalho 
com actividade na confecção da planta. Serão construídas cerca de 300 casas para 
operários, um armazém para venda de mercadorias, um salão para sessões 
cinematographicas, dança e diversões outras e um chalé para a administração. 
Louvamos a idéa dos illustres capitalistas que com tal procedimento procuram 
melhorar a situação do nosso operariado, tão mal remunerado quasi sempre. (Diário da 
Manhã, 4/10/1913) 
Conforme detalha José Lúcio, foram construídas a avenida da frente e uma outra 
por trás deixando os minúsculos quintais como ponto de intersecção. A terceira vila e quarta 
possuíam quintais maiores. É possível desenhar hoje o complexo desenhado pelo engenheiro 
Heráclito Lima, ainda que não mais existam o formato original, com armazém, cine fabril, 
chalés, etc. 
Dois romances de cunho social lançam dados sobre as idiossincrasias de residir 
numa vila operária em São Cristóvão. A partir deles é possível perceber regras, vida privada, 
lazer, punições e mesmo uma linha divisória entre cidade e fábrica. São eles: Cacau, que 
Jorge Amado publicou em 1933; O Encontro com o outro, que José do Sacramento publicou 
em 1980. Antes de considerar a obra amadiana, pertinente lançar um fato silenciado nas suas 
biografias, seu parentesco com o proprietário da Fábrica Sam Cristovam, Pedro Amado, fato 
que gerava constrangimento a ambos, razão pela qual evitavam comparecer as mesmas 
solenidades e/ou semeavam tabu sobre o assunto. (A Tarde, 11/7/1993) 
Cacau narra a aventura de Sergipano, filho do proprietário da fábrica de São 
Cristóvão, morador de um sobrado antigo do centro histórico localizado na Praça São 
Francisco. Com a morte repentina do genitor, é obrigado a trabalhar na empresa sob a vontade 
de um tio herdeiro dos negócios da família. Por defender uma jovem do assédio do tio-patrão, 
jovem foi demitido e deserdado, indo ganhar a vida no sul da Bahia, zona cacaueira. Sobre as 
impressões da vila, descreve Jorge Amado: 
Acho que meu pai montara a fábrica em São Cristóvão devido à decadência da 
cidade, à sua paz e ao seu sossego, triste cidade parada que devia apaixonar os seus 
olhos e o seu espírito cansado de paisagens e de aventuras (...) A fábrica era um 
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caixão branco cheio de ruídos e de vida. Setecentos operários, dos quais quinhentas 
e tantas mulheres. Os homens emigravam, dizendo que “trabalhar em fiação só pra 
mulher”. Os mais fracos não iam e casavam e tinham legiões de filhas, que 
substituíam as avós e as mães quando já incapazes abandonavam o serviço. (…) 
Saindo da fábrica atravessava-se uma pinguela sobre um ribeiro e chegava-se à vila 
Cu com Bunda, moradia de quase todos os operários. Um grande retângulo, no qual 
os fundos das casas se encontravam. Daí o nome pitoresco que lhe haviam posto. 
(AMADO, 1996: 7-10) 
Do pitoresco, temos casos a destacar. Se José Lúcio revela a definição da expressão 
“ossado” aplicada ao operário punido com não remuneração pela sua atividade laboral, Jorge 
Amado nos apresenta a expressão “Cu com bunda” como se apelidava 2 fileiras de casas da 
vila. Acerca dos apelidos impingidos nos estrangeiros que atuavam nas chefias como agentes 
patronais, dois casos merecem destaque. O nome do sabotador que ocasionou greve atípica 
deflagrada em 1935 após colocar grande quantidade de cloro na água qual se serviam os 
operários era Penn Collidgs Menhinick a retaliação do operário e inimigos o batizam de 
“penis”; igualmente um outro (Otto) foi cantado em versos e escárnio: “São Cristovão, onde o 
alemão Otto tornou-se Ota/ E esbravejou contra Hitler, aquele filho da puta idiota/ E se tornou 
irmão de Manoel Ferreira,/ Operário negro, em eterna construção”. (MELO, 1989:56) 
Quanto à obra de José Sacramento que mescla ficção e autobiografia, ela revela 
detalhes da vida operaria a partir da experiência de Roberto, personagem principal, na fábrica 
nova, como era denominada fábrica São Gonçalo, antes de mudar para o Rio de Janeiro para 
cuidar da saúde. Um detalhe que chama atenção é a linha do trem imposta pelos patrões da 
Fabrica São Gonçalo como fronteira separando fabrica e cidade, inclusive de questões 
judiciais: 
Dois soldados passavam pela frente do campo, pelo lado da linha férrea, pois, a 
polícia não tinha ordens para poder ultrapassar a linha do trem. Nem mesmo no caso 
de crime. Houvesse o que houvesse, se o culpado ultrapassasse a linha do trem, 
podia até zombar da polícia, o que não era raro. (SACRAMENTO, 1983:19) 
O TEMPO DA FÁBRICA: CONSIDERAÇÃO FINAL 
“Tempo da fábrica”, é assim que boa parte da comunidade sancristovense trata o 
período findo em 1980, na ex-capital lembrada apenas pelo seu potencial turístico 
inquestionável, que somente ganharia força com o processo irreversível da falência da fábrica. 
O ocaso do tempo da fábrica dá-se no início da década de 1970, daí por diante ocorrências 
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adversas irão alarmar sindicatos, proprietários, imprensa, sociedade. No entanto, assim como 
é difícil datarmos o fim do tempo da fábrica: quando as máquinas pararam ou foi decretada 
falência ou trabalhadores receberam indenização? Também é difícil pontuar sua inauguração - 
quando foi iniciado/concluído prédio, chegaram máquinas ou iniciou produção? – Para José 
Lúcio o que inaugura a empresa é a formalidade do registro na Junta Comercial no ano de 
1914. Independente disso, a fábrica e seu tempo permanecem na memória, hábitos, 
lembranças de pelo menos 7 em cada 10 adultos. Ou seja, o tempo da fábrica permanece... 
FONTES DE PESQUISA 
BIBLIOGRAFIA 
AMADO, Jorge. Cacau: romance. 50ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1996. p. 7-15. 
CORREIA,Telma de Barros. Pedra: plano e cotidiano operário no sertão. São Paulo: Papirus 
Editora, 1998, p. 20. 
MELO, Luiz. Recordando São Cristovão. In: __. A Porta da Frente. Curitiba, 1989, p. 56. 
PASSUS SUBRINHO, Josué Modesto. História Econômica de Sergipe (1850-1930). 
Aracaju: UFS, 1987, p. 87. 
SACRAMENTO, José. O Encontro com o outro. Aracaju: Segrase, 1983. p. 19. 
SILVA, José Lúcio Batista. O Surgimento da Indústria e do Operário Têxtil em São 
Cristóvão: (1912-1935). Monografia (Graduação em História - Universidade Federal de 
Sergipe), São Cristóvão, 2002. 
SILVA FILHO, José Thiago da. De cidade operária a polo turístico?. Cinform Municípios. 
Aracaju, jun. 2002, p. 237-238. 
JORNAIS 
A Tarde. Salvador, 11/7/1993. 
A Tarde. Salvador, 5/6/1968 
Correio de Aracaju. Aracaju, ano III, n. 164, 11/06/1908, p. 2. 
Correio de Aracaju. Aracaju, ano III, n. 206, 8/11/1908, p. 1. 
Diário da Manhã. Aracaju, ano I, N 230, 28/11/1911, p. 2. 
Diário da Manhã. Aracaju, ano I, n. 256, 30/11/1911, p. 3. 
Diário da Manhã. Aracaju, 28/9/1912, p. 2. 
Diário da Manhã. Aracaju, ano III, n. 547, 12/1/1913, p. 1. 
Diário da Manha. Ano III, n. 688, 12/7/1913, p. 2. 
Diário da Manhã. Aracaju. Ano III, n. 757, 4/10/1913, p. 1. 
Diário da Manhã. Aracaju, ano IV, N. 850, 5/2/1914, p. 3. 
Folha de Sergipe. Aracaju, ano XVIII, n. 108, 31/5/1908, p. 2. 
Folha de Sergipe. Aracaju, ano XVIII, n. 132, 27/8/1908, p. 30. 
O Estado de Sergipe. Aracaju, ano XII, n. 3347, 13/10/1910, p. 1. 
São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 75
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O Estado de Sergipe. Aracaju, ano XII, n. 3425, 3/11/1910, p. 3. 
Sergipe-Jornal. Aracaju, n. 12.668, 5/5/1951, p. 4. 
MANUSCRITO 
Carta de Antonio Gonsalves Barroso ao intendente Messias do Prado Alvares Pereira, 
dezembro de 1916. Correspondência Recebida e Expedida (1915/1920). Acervo da 
Prefeitura Municipal de São Cristovão. 
São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 76
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13. "HISTÓRIA E MEMÓRIA: CASA DA FAZENDA IOLANDA, UM PATRIMÔNIO 
EM AGONIA" 
Josineide Luciano Almeida Santos 
Resumo: O presente trabalho intitulado Casa da Fazenda Iolanda um Patrimônio em Agonia 
faz um breve panorama da história e memória e o uso da história oral e sua evolução no 
Brasil, e no mundo, a partir dos anos 50, da influência e utilização dos historiadores, 
cientistas, entre outros profissionais. O mesmo buscou verificar e analisar a fazenda Tejupeba 
ou Iolanda como modelo de construção jesuíta, salientando seu valor histórico e patrimonial 
bem como trazendo a memória às lembranças de pessoas que viveram em tempos em que 
havia funcionalidade no casarão e igreja. Observamos que esta pesquisa está divida em três 
capítulos, o primeiro faremos um apanhado histórico do lugar, a luz de uma discussão teórica 
sobre patrimônio material e uma discussão historiográfica. Após isso abordaremos e 
conceituaremos o termo tombamento e descreveremos as implicações referentes aos bens 
públicos e os de propriedade privada, as leis, legislações que salvaguarda os bens patrimoniais 
tombados. Por fim de procuramos entender a relação das memórias da senhora Ruth 
Rollemberg Fonseca Mandarino, através de cartas encaminhas a pessoas importantes no 
contexto abordado e ao IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), com 
base nessas cartas escritas pela proprietária da fazenda, discutir, a luz da legislação e da 
história, a relevância de restauração e preservação do bem, e ao mesmo tempo, deixar um 
registro de uma personagem histórica em questão que estava no anonimato. Em entrevista 
concedida em Aracaju no dia 60 de abril de 2011, 28 de março de 2012 a senhora supracitada 
revelou quais foram as condições que encontrou o casarão e a igreja quando chegou na 
localidade para ali residir, como funcionavam as festividades e comemorações que 
aconteciamnos lugares da memória nas lembranças da mesma a emoção como relata cada 
recordação e descreve sua constante, interrupta, insistência para solicitar auxilio para restaurar 
o “ lugar de memória chamado de Fazenda Iolanda”. Outros entrevistados também relatam as 
reais condições do conjunto de valor histórico e arquitetônico datado do século XIX, que é 
formado pela capela e Residência Jesuítica e como ao longo dos anos foram sendo 
danificados pela erosão e falta de manutenção, restauração mais específica. 
Palavras chaves: Memórias, Preservação, Patrimonial, Restauração. 
São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 77
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14. “PÓS ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA EM SERGIPE E AS MEMÓRIAS DE 
ROSALVO VIEIRA DOS SANTOS” 
Kéfus Ibrahim Santana Cardoso 
Resumo: 
Rolsalvo Vieira dos Santos, setenta e nove anos de idade, morador da cidade de Rosário do 
Catete – SE, declarou ser neto de escravos. Em entrevista concedida ao Projeto Massapê: 
Memórias, Engenhos e Comunidades da Microrregião do Contiguiba, do GPCIR, da 
Universidade Federal de Sergipe, realizada em vinte e nove de março de dois mim e quatorze, 
revelou quais foram condições de sobrevivência de sua avó materna, D. Maria Madalena, ex 
escrava, no período de pós abolição da escravatura em Sergipe. As condições de 
sobrevivência dos ex escravos, aproximadamente os anos de 1890, segundo D. Maria 
Madalena, nas memórias do entrevistado, eram muito difíceis. O “salário” pago ao 
trabalhador, não dava para suprir as necessidades básicas, como comer e beber. Entretanto, a 
mesma enxergava a forma de sobrevivência deste período escravocrático numa forma mais 
positiva, onde a estadia e a alimentação eram oferecidas sem tantas dificuldades. Os 
problemas de sobrevivência desta época, somadas a algumas atitudes individualizadas de D. 
Maria Madalena e de outros trabalhadores que viviam em mesma situação, suscitavam 
algumas ações inusitadas. Uma delas foi abater um dos animais de seus patrões, às escondidas 
e fingir tal feito como morte natural, para poderem usufruir do fato, ganhando o animal que 
havia “morrido”, para servir de alimentação. Ex escravos, homens e mulhres, tornavam 
sujeitos em suas vicissitudes históricas no seu mundo e para o seu mundo. Como sobreviver? 
Como educar seus filhos? 
Palavras-chaves: Memórias, pós escravidão, engenho e reação. 
São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 78
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15. UM PÁSSARO FORA DO NINHO: TENTATIVA DE DEBATE 
HISTORIOGRÁFICO EM TORNO DA PASSAGEM DE INGLÊS DE SOUSA PELA 
PROVÍNCIA DE SERGIPE 
Leonardo Matos Feitoza31 
Resumo: 
O presente trabalho é a tentativa de promover um debate historiográfico em torno das 
principais produções brasileiras e sergipanas que desvelam o mundo de pertencimento de 
Herculano Marcos Inglês de Sousa, comumente nominado Inglês de Sousa, e sua passagem 
pela Província de Sergipe entre 1881 e 1882, quando esteve à frente da administração 
provincial. Reconhecido pelos críticos literários e biógrafos como intelectual de primeira 
ordem, poeta, romancista, bacharel, jurista e político afeito as inovações de seu tempo, um 
porta-voz de uma cultura liberal, esclarecida e ilustrada, que tinha o positivismo como lente 
para compreender o mundo. A historiografia sergipana nos possibilita ainda analisar as 
minucias dos conflitos ideológicos, políticos e partidários que Inglês de Sousa envolve-se nas 
terras sergipanas, principalmente contra o padre de Aracaju, Olímpio de Sousa Campos. 
Como todo trabalho é um recorte, a pesquisa foi realizada a partir do filtro da produção 
nacional e local – historiadores, biógrafos, críticos literários, filósofos e uma ampla 
bibliografia relacionada. 
Palavras-chave: História; Historiografia; Brasil; Sergipe; Inglês de Souza. 
31 Mestrando em História pela Universidade Federal de Sergipe. Membro do Grupo de Pesquisa “Culturas, 
Identidade e Religiosidades”. 
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16. HISTÓRIA COMPARADA: A ESCRAVIDÃO NO NORDESTE COLONIAL 
BRASILEIRO SEGUNDO O LIVRO DIDÁTICO DE HISTÓRIA DO ENSINO 
FUNDAMENTAL 
Liliane Vieira Nunes 
Resumo: 
Este artigo faz uma breve analise comparativa do livro didático de história do 7° ano, em sua 
primeira e terceira edição, ambos manuais integrantes de uma mesma coleção da Editora 
Moderna denominada Projeto Araribá História, elaborados pós Lei 10.639/03. O capitulo 
escolhido para ser explanado em ambos refere-se ao Nordeste Colonial precisamente ao 
conteúdo destinado ao funcionamento da vida nos engenhos, enfatizando os castigos físicos 
aplicados aos escravos negros, no intuito de averiguar a existência de uma nova abordagem 
histórica dentro das perspectivas de ações afirmativas, no que concerne a escravidão como um 
dos traços mais marcantes da vida colonial na América Portuguesa. 
Palavras-chave: Ensino de História. Escravidão. Nordeste Colonial. Livros didáticos 
São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 80
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17. O ELO GENÉTICO: ANÁLISE DAS ANOMALIAS DE DESENVOLVIMENTO E 
DOS PONTOS EPIGENÉTICOS EM ESQUELETOS HUMANOS PRÉ-HISTÓRICOS 
E A POSSÍVEL RELAÇÃO DE PARENTESCO 
Madson De Souza Fontes32 
Olívia Alexandre de Carvalho33 
RESUMO 
Neste trabalho serão apresentados resultados das análises realizadas sobre sepulturas de 
indivíduos adultos e não adultos do sítio São José II, situado no município de Delmiro 
Gouveia, Alagoas. O enfoque principal deste estudo está na análise dos caracteres discretos e 
a identificação do grau de parentesco entre os indivíduos. Também foram aplicados métodos 
bioantropológicos para descrever e interpretar os eventos fúnebres que ocorreram antes, 
durante e depois do sepultamento. Com base na descrição e interpretação do posicionamento 
do indivíduo dentro da sepultura, seu acompanhamento funerário, seu grupo etário entre 
outros, foi possível sustentar a hipótese inicial deste trabalho. E, fomentar que estudos sejam 
realizados embasados na ideia de que o contexto funerário pré-histórico é portador de 
identidades que estão representadas na materialidade das estruturas funerárias, seja por meio 
de objetos e formas comuns, seja do próprio indivíduo. 
Palavras Chave: Caracteres Discretos - Bioarqueologia – Paleogenética - Paleoantropologia 
INTRODUÇÃO 
A Arqueologia, enquanto associada ao pensamento antropológico, tem-se debruçado, 
sobretudo nas últimas décadas à reconstituição das sociedades pretéritas, enfatizando os 
aspectos da estrutura e organização social, subsistência e estilo de vida (BINFORD e 
32 Mestrando PROARQ/UFS. 
33Doutora em Bioantropologia pela Universidade de Genebra. Professora Adjunta do Departamento de 
Arqueologia da UFS. 
São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 81
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BINFORD, 1968; LEROI-GOURHAN e BREZILLON, 1972; JOCHIM, 1976, CLARKE, 
1977; YELLEN 1977; NEVES, 1980). 
A utilização das técnicas analíticas das ciências naturais tem fornecido à Arqueologia um 
arcabouço relevante para uma interpretação contextual cada vez mais consistente e 
estruturalmente fundamentada. A análise dos caracteres bióticos e abióticos constitui a base 
elementar de uma ramificação da Arqueologia, denominada Bioarqueologia. 
Em suma, os estudos bioarqueológicos têm permitido cada vez mais inferir tanto no 
comportamento social como em fatores bioculturais, por meio de análises realizadas em 
vestígios arqueológicos de caráter orgânico e inorgânico. 
A Antropologia Biológica pré-histórica, por sua vez, só recentemente começou a contribuir de 
forma sistêmica para a recuperação de padrões de comportamento nas sociedades humanas. 
Tradicionalmente a Antropologia Biológica ateve-se à tipologia e classificação do aspecto 
físico do homem (NEVES, 1984). 
Este estudo possibilitará a identificação de possíveis elos de consanguinidade entre os 
indivíduos do sítio arqueológico São José II. O estudo será embasado na análise dos 
caracteres discretos e das anomalias de desenvolvimento, ambos relacionados diretamente a 
questões genéticas. 
O conceito de genética está interligado ao estudo da hereditariedade e de tudo o que esteja 
correlacionado com a mesma (SILVA, 2002). O conceito também faz referência àquilo que 
pertence ou que é relativo à gênese ou origem das coisas. Como tal, a genética analisa a forma 
como a hereditariedade biológica é transmitida de uma geração para a seguinte, e como é 
efetuado o desenvolvimento das características que controlam os respectivos processos. 
A aplicação dos estudos genéticos em contexto arqueológico possibilitou a criação de um 
novo seguimento neste tipo de pesquisa, a Paleogenética. E, tem sido de interesse dos 
pesquisadores deste ramo, desde o início do século XIX o estudo de caracteres fenotípicos 
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para aferir as relações biológicas entre populações, bem como a sua movimentação e mistura 
com outros grupos (SILVA, 2002). 
Com Kerkring, em 1670, iniciaram-se os estudos de variabilidade anatomo-morfológica no 
crânio, sendo então os caracteres discretos tidos como anomalias (SILVA, 2002). Tal 
manteve-se até meados do século XX, quando estes caracteres foram estudados em ratos por 
Grüneberg, originando a sua utilização em estudos genéticos e a noção da quasi-continuidade 
destes traços morfológicos (SILVA, 2002). Após este estudo, seguiu-se a aplicação à 
avaliação de distância biológica em populações humanas. Ainda assim, este conhecimento foi 
questionado pela investigação, que põe em causa o determinismo genético de algumas 
características (SILVA, 2002). 
Os caracteres não-métricos são uma solução que apresenta vantagens, nomeadamente a 
aplicação em fragmentos ósseos, a menor correlação entre os diversos caracteres, a pouca 
relevância de fatores exógenos ou biológicos, como o sexo ou a idade (SILVA, 2002). 
Por fim, a Arqueologia com sua essência interdisciplinar, tem buscado fontes de informação e 
metodologias em outras ramificações das ciências para complementar com dados a 
interpretação sobre o comportamento das sociedades por meio da materialidade. 
METODOLOGIA 
Esta pesquisa possui caráter quantitativo e qualitativo. Neste sentido, ambas foram utilizadas 
para definir ou aferir respostas e conclusões para os objetivos estabelecidos neste estudo. O 
material selecionadoconsistu em 31 esqueletos humanos, entre indivíduos adultos e não 
adultos, pertencentes ao sítio arqueológico São José II, localizado no município de Delmiro 
Gouveia, no Estado de Alagoas. O mesmo sítio possui datações entre 3500±110 BP (BETA- 
86739) a 4140±90 BP (BETA-86740) (CARVALHO, 2007). 
Parte do material encontra-se exumado e acondicionado no Laboratório de Bioarqueologia da 
Universidade Federal de Sergipe, já uma outra parte ainda está articulada e acondicionada em 
envoltórios de gesso, na reserva técnica do Museu de Arqueologia de Xingó. 
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A COLETA DE DADOS 
A coleta de dados deu-se por meio de análises osteológicas macroscópicas realizada tanto no 
Laboratório de Bioarqueologia da Universidade Federal de Sergipe, quanto na reserva técnica 
do Museu de Arqueologia de Xingó, da mesma instituição de ensino. 
Para tal, foram utilizadas fichas específicas elaboradas pelo autor deste projeto embasado em 
Saunders (1978) e Hauser e Destefano (1989), buscando adaptar-se ao estado de conservação 
do material osteológico e obter o máximo de informações possíveis. Também utilizou-se o 
recurso de captação de imagem fotográfica das peças osteológicas. Permitindo que uma 
análiseposteriori das imagens em laboratório. 
A análise dos caracteres discretos nos indivíduos que não foram exumados daram-se pela 
observação dos mesmos sem a necessidade de exumação dos restos ósseos, apenas a 
evidenciação do esqueleto. Para os que já foram exumados uma análise macroscópica sobre 
os fragmentos osteológicos foi executada em laboratório. 
Para a construção de um perfil bioarqueológicoutilizou-se os dados já existentes em trabalhos 
publicados sobre o sítio São José II como Carvalho (2007) e Castro (2009), contendo 
informações sobre as variáveis sexo, idade à morte, estatura e número mínimo de indivíduos 
(NMI) por sepultura. 
Quanto à documentação de possíveis enxovais funerários associados aos sepultamentos foram 
realizadas a partir de fichas apropriadas para catalogar este tipo de cultura material. Fora 
também verificado o posicionamento do corpo dentro da sepultura, possibilitando comparar se 
de acordo com o grau de consanguinidade entre os indivíduos há alguma representatividade 
na forma de posicionamento do corpo dentro do espaço sepulcral. 
A análise do posicionamento do corpo pode ser averiguado através de registro fotográfico 
para os indivíduos já exumados e análise in loco para os indivíduos que ainda possuem seu 
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posicionamento preservado em envoltórios de gesso, utilizado como parte da metodologia de 
salvamento pela equipe do PAX (Projeto de Arqueologia de Xingó). 
A ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS 
Esta etapa consistiu na tabulação dos dados coletados, permitindo assim, a realização de uma 
análise comparativa dos dados epigenéticos entre os indivíduos da mesma população, e 
correlacionar à possibilidade de existência ou não de laços consanguíneos entre eles. 
De forma análoga foi investigada a presença ou ausência de cultura material ou restos 
faunísticos associados aos sepultamentos, comportando a este trabalho uma interpretação 
tanto a partir da ótica biológica, quanto da ótica cultural representada na materialidade 
(BINFORD e BINFORD, 1968, BINFORD, 1971). 
PUBLICAÇÃO DOS RESULTADOS 
Serão publicados por meio de artigos científicos em revistas especializadas e apresentados 
tanto oralmente, quanto em forma de banner em eventos acadêmicos os resultados obtidos e a 
interpretações sobre os dados coletados nesta investigação, visando contribuir com a 
promulgação do conhecimento científico no âmbito da Paleogenética. 
RESULTADOS E DICUSSÃO 
No sítio São José II foram analisadas as tipologias de 28 estruturas funerárias, presente apenas 
1 enterramento triplo (com 3 indivíduos em uma mesma estrutura funerária), 1 duplo (com 2 
indivíduos em uma mesma estrutura funerária) e 26 inumações simples (com apenas 1 
individuo em um sepultamento). Totalizando 28 enterramentos e 31 indivíduos, entre adultos 
e não adultos. 
As peças ósseas apresentaram fraturas, fissuras e esfoliações, resultantes de fatores 
mecânicos, umidade, acidez, bioerosões e bioturbações. De um modo geral, os enterramentos 
não apresentaram uma boa conservação do material osteológico, estando todos os restos 
esqueléticos incompletos. 
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Foram identificadas no sítio São José II inumações de indivíduos pertencentes a todos os 
grupos etários: crianças, adolescentes, adultos e idosos. Porém, o fato de haver uma 
predominância no número de enterramentos de não adultos neste sítio, já o diferencia dos 
demais sítios por não ser algo recorrente em escavações arqueológicas. 
Quanto à variável sexo, não houve a possibilidade de identificar em crianças, trata-se de uma 
variável só possível de análise em indivíduos adultos (UBELAKER, 1989; SCHEUER & 
BLACK, 2000), pois está relacionada à morfologia, ou desenvolvimento morfológico que 
ainda não é definido nos ossos de uma criança. Entretanto, existem métodos métricos 
possíveis para diagnose sexual em indivíduos não adultos, porém não são confiáveis. Para 
este tipo de determinação o mais indicado seria a análise de DNA, pelo seu grau de eficiência 
e acurácia. 
Os resultados da análise do enxoval funerário mostraram apenas em alguns casos a pouca 
recorrência de restos faunísticos e conchas bivalves associados aos sepultamentos (figura 11). 
Este tipo de material compondo o enxoval funerário já pôde ser evidenciado em contextos 
funerários pré-históricos envolvendo tanto indivíduos adultos, como não adultos, segundo 
Silva (2002). 
As frequências identificadas nos caracteres morfológicos mandibulares da presente amostra, 
particularmente no que toca a foraminamentales, não são esclarecedoras. Ainda assim, 
identifica-se um padrão claro de proximidade com amostras de origem europeia, sublinhado 
por ponte mielohióidee torus mandibular. A única fonte de comparação para os tubérculos 
genii(cuja relevância no ponto de vista biológico é manifestamente incerta) aproxima-se do 
padrão encontrado na presente amostra, o que poderá estar relacionado com o facto de se 
aproximarem geneticamente, mas deve ser interpretado cautelosamente, por falta de 
informação e outras amostras comparativas. 
Apesar de hoje se considerar a origem genética do toruscomo a mais provável, há indícios que 
stress oclusal possa ser a causa na maioria dos casos. Há muitas outras explicações etiológicas 
que foram sendo dadas para o surgimento de torusmandibular, tais como a alimentação, a 
associação com forte desgaste dentário, ou insuficiência vitamínica. A presença de toda a 
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dentição mandibular, bem como o surgimento relativamente precoce dos caninos, foi já 
associada à presença de torusmandibular. 
CONCLUSÃO 
Quanto aos restantes caracteres observados, impõe-se caracterizar as populações mundiais no 
que respeita ao MMPT, de forma a contribuir para a caracterização biológica das populações, 
mas também a diluir as oportunidades para a confusão deste carácter odontológico com o 
protostylid, ou ainda a desconsideração deste último, por aparente incorreção na 
caracterização no sistema ASUDAS. A cúspide 7trouxe ainda ao presente autor uma 
conclusão acidental. A inicial consideração do grau ASUDAS “1a” da cúspide 7na análise 
estatística (entretanto corrigida por não ser, habitualmente considerada presente a C7, quando 
se verifica o grau “1a”), permitiu encontrar uma significância estatística muito inferior na 
distinção entre sexos e lados. Tal permite questionar se a expressão “1a” deste carácter 
anatómico dos molares não deverá ser considerada positiva, dado trazer congruência às 
amostras (se tal, de fato, se vier a confirmar) e demonstrar o real fenótipo a considerar nas 
avaliações de distâncias biológicas. 
Os trabalhos futuros devem privilegiar as análises radiológicas, com objetivo de procurar a a 
gênese dentária e contribuir para o diagnóstico de alterações morfológicas/patológicas nas 
mandíbulas. 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
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Paraná: uma abordagem osteobiográfica. Clio (SérieArqueológica), 6:47-62. 1984. 
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18. REPRESENTAÇÕES DO NEGRO NA ÓTICA DO CLERO COLONIZADOR 
Manoel Ribeiro Andrade34 
Resumo: 
Este texto analisa as menções sobre os negros de Guiné nos escritos de Padre Manoel da 
Nóbrega e Padre Fernão Cardim, em fins do século XVI, no cenário da América Portuguesa. 
Busca identificar o lugar destes personagens nos primeiros escritos coloniais, através do 
estudo de cartas e textos dos inacianos e da produção teórica sobre o assunto. Reflete sobre as 
representações do escravo negro na literatura historiográfica e na sociedade colonial, 
evidenciando que apesar de o ter colocado em segundo plano, o homem africano, pode ser 
localizado no tecido social das tramas da América Portuguesa e suas citações podem ser 
agrupadas de acordo com suas especificidades de aparição. 
Palavras-chave: América Portuguesa. Padre Manoel da Nóbrega. Negros de Guiné. Padre 
Fernão Cardim. 
1. INTRODUÇÃO 
Este trabalho pretende analisar os discursos do clero colonizador, identificando o lugar 
do homem africano - os negros de Guiné - nos primeiros escritos coloniais, em fins do século 
XVI, na América Portuguesa. Buscar-se-á aqui perscrutar sobre as representações do negro na 
ótica de religiosos jesuítas como Padre Manoel da Nóbrega (1517-1570)35 e Padre Fernão 
Cardim (1550-1625)36, procurando identificá-lo no cenário e nas tramas da América 
34 Graduado em História (FJAV), especialista em História do Brasil (Pio Décimo) e em Gestão de Políticas 
Públicas com Foco em Gênero e Raça (UFS). Aluno especial do Programa de Pós-Graduação em História 
(PROHIST/UFS) e integrante do Grupo de Pesquisa Culturas, Identidades e Religiosidades 
(GPCIR/CNPq/UFS). 
35 Jesuíta, nascido em 1517. Foi um dos primeiros inacianos a desembarcar no Brasil, chegou no grupo dos 
primeiros religiosos que aqui aportaram em companhia do governador-geral Tomé de Sousa, em 1549. Viveu no 
Brasil por 21 anos, falecendo em 1570 no Rio de Janeiro (PESSOA, 2010: 22). 
36 Inaciano, nascido em 1550. Desembarcou no Brasil em 1583 e por aqui viveu 42 anos, vindo a faleceu em 
1625, na Bahia. Ocupou vários cargos importantes na Companhia de Jesus, com destaque para o de Reitor do 
Colégio Baiano, Reitor do Colégio do Rio de Janeiro e Provincial, cargo mais alto existente na Companhia na 
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Portuguesa. O estudo discute sobre os textos dos personagens citados sem, contudo, se 
prender a um estudo exaustivo de cada autor. Detém-se, apenas, as menções encontradas num 
grupo seletivo de textos e não necessariamente nos informantes ou em toda a sua produção. 
Perguntas como qual o lugar do homem africano na literatura dos religiosos 
colonizadores? Quais papéis eles desempenharam nas tramas da América Portuguesa? E quais 
representações estes assumiam na visão destes religiosos? Fomentaram esta pesquisa e nos 
conduziram a formação de um entendimento sobre a temática. 
Aqui, fez-se um diálogo com as categorias de Pessoa (2010) tentando enquadrar as 
menções referentes aos negros de Guiné em uma realidade mais próxima à dos ideais da 
colonização religiosa. Para tanto, adotamos o seu primeiro eixo de referência: negros de 
Guiné como auxílio régio lusitano à causa evangélica e encontramos dentro dos demais eixos 
apresentados um novo: negros de Guiné como paciente das ações missionárias da América 
Portuguesa. Assim, analisamos as aparições do homem africano nos textos selecionados, 
vendo-os como realidades necessárias para a catequização e também como finalidade desta. 
2. NEGROS DE GUINÉ NA ÓTICA DO CLERO COLONIZADOR 
Antes mesmo de discutir sobre o objeto se faz necessário defini-lo para melhor 
compreendê-lo, quem eram os negros de Guiné no início da colonização? Ao interpretar a 
bibliografia que discute os ciclos do tráfico37, Oliveira (1997: 72-73) empreendeu uma nova 
perspectiva para análise das procedências e dos etnônimos atribuídos aos escravos africanos 
trazidos para o Brasil. A grande contribuição dela reside na compreensão de que as fontes 
sobre as procedências dos africanos estiveram sujeitas às variações das terminologias 
utilizadas na rede do tráfico português, composta por administradores, escrivães das feitorias 
e encarregados desta função, mas também por populações africanas e mestiças que se 
dedicavam às diferentes tarefas de captura, manutenção, vigilância e transporte dos cativos. 
América Portuguesa. Escreveu Do clima e terra do Brasil, Do princípio e origem dos índios e Informação da 
missão do P. Cristóvão de Gouvêa às partes do Brasil, ano de 83 [1583] ou Narrativa epistolar de uma viagem e 
missão jesuítica. As três obras foram produzidas isoladamente e somente em 1925 foram reunidas em uma única 
edição, como o título de Tratados da terra e gente do Brasil (PESSOA, 2010: 23). 
37 Sobre esta perspectiva indico a leitura de Vianna Filho (2008). 
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Concluindo que os termos Guiné, Angola e Minas foram expressões extremamente genéricas 
de composições específicas 
No dizer dela, negro de Guiné e gentio da Guiné foram às primeiras designações 
utilizadas para marcar a origem dos escravos chegados à Bahia no século XVI, mais “do que 
um registro de procedência, estas expressões queriam significar a condição de escravo na 
linguagem corrente da época”. E na Colônia Brasil, “seu uso se firmara para designar toda a 
costa da África, de onde vinham os escravos”. Aqui, o termo teria um sentido semelhante a 
um imenso porto onde eram embarcados milhares de cativos para se tornarem escravos no 
outro lado do Atlântico (OLIVEIRA, 1997: 39-40). 
Sabe-se que durante o século XVI os escritos coloniais pouco se referiram ao negro 
como tema principal, colocando-o sempre em segundo plano para se evidenciar os 
protagonistas do cenário escravocrata da América Meridional, as consideradas verdadeiras 
grandezas do Brasil: a terra e o índio. Neste sentido, nos discursos de clérigos e letrados do 
período, o homem africano fora apresentado comumentemente com certa precisão valorizado 
por um aspecto exótico, quantitativo - quanto mão de obra escrava - e como parte dos 
cabedais necessários para os desbravadores brancos que se aventuravam na empreitada 
colonizadora da América (PESSOA, 2010: 21-22). Havia inclusive uma certa preferência do 
Negro de Guiné ao Negro da Terra, valendo-se do discurso de que o africano estaria mais 
familiarizado com as tarefas da colonização que o indígena. 
Segundo os estudos de Pessoa (2005: 27) fica evidente a presença do homem africano 
nos primeiros escritos coloniais. Todavia, as menções dirigidas a ele nunca se apresentaram 
como núcleo do tema discutido, figuravam sempre em segundo plano na realidade colonial da 
América Portuguesa. Mesmo assim, partindo-se das referências ao elemento negro africano 
nos textos referidos, afirma o historiador, é perfeitamente possível demarcar e mapear sua 
presença, tomando como ponto de partida as regularidades de suas aparições e as 
circunstâncias das menções específicas apresentadas. Para tanto, faz-se necessário isolar as 
circunstâncias em que o negro aparece, em cortes temáticos, os quais, como quaisquer outros 
desse tipo, são arbitrários e somente se sustentam na ideia de que esses escritos, mesmo 
pertencendo a religiosos distintos, são passíveis de ser agrupados numa série em virtude de 
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certas regularidades enunciativas: mesma maneira de abordar o objeto, de definir os 
conceitos, de escolher os temas. 
Estabelecida às circunstâncias, percorreremos os mesmos caminhos que o historiador 
para analisar o lugar dos negros de Guiné nos primeiros escritos coloniais, porém fazendo 
novos recortes e associações. Estudaremos as representações do negro na ótica do clero 
colonizador como auxílio régio lusitano à causa evangélica e como paciente das ações 
missionárias da América Portuguesa, realidades estas intimamente relacionadas a colonização 
religiosa. 
Guiados por tal sistemática, partiremos para a análise dos eixos de menções ao homem 
africano. O primeiro deles é enfatizado como auxílio régio lusitano à causa evangélica na 
América Portuguesa, suas primeiras referências remontam aos escritos de Padre Manoel da 
Nóbrega dirigida a El-Rei D. João III, rei de Portugal, datada de 14 de setembro de 1551 
(Olinda-PE). Nesta carta Nóbrega requisita escravos de Guiné aconselhando o monarca 
português a investir na infraestrutura das acomodações dos religiosos para garantir um melhor 
desempenho da causa missionária: 
mande ao Governador que faça casas para os meninos, porque as que têm são feitas 
por nossas mãos e são de pouca duração e mande dar alguns escravos de Guiné á 
casa para fazerem mantimentos, porque a terra é tão fértil que facilmente se 
manterão e vestirão muitos meninos, si tiverem alguns escravos que façam roças de 
mantimentos e algodoaes, e para nós não é necessário nada, porque a terra é tal que 
um só morador é poderoso a manter a um de nós (NOBREGA, 1931: 126, grifo 
nosso). 
No ano seguinte, em 5 de julho de 1552, escrevendo da Bahia, o referido religioso 
informa ao Padre Provincial de Portugal, Simão Rodrigues, das conveniências de El-Rei 
favorecer a Companhia de Jesus com certos benefícios, dentre estes cita a carência de 
escravos de Guiné. A carta faz menção à necessidade de se enviar padres, meninos e mais 
escravos de Guiné a Bahia. 
Si El-rei favorecer a este e lhe fizer egreja e casas, e mandar dar os escravos, (que 
digo); me dizem que mandam mais escravos a esta terra, de Guiné, si assim fôr, 
podia vir logo provisão para mais três ou quatro, além dos que a casa tem 
(NOBREGA, 1931: 130, grifo nosso). 
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Ainda em 1552, numa outra carta destinada ao Padre Mestre Simão Rodrigues, 
Nóbrega informa como se daria a logística de utilização da mão de obra dos negros de Guiné 
pelos padres da Companhia de Jesus: “Depois que vieram os escravos d'El-Rei, de Guiné a 
esta terra, tomaram os Padres fiados por dous annos três escravos, dando fiadores a isso, e 
acaba-se o tempo agora cedo”(NOBREGA, 1931: 138). 
Padre Manoel da Nóbrega menciona-os ainda em outras citações, embora estejam fora 
do eixo trabalhado, faz-se pertinente apresentá-las. Em carta datada de 5 de julho de 1559, 
dirigindo-se ao Governador Geral do Brasil Tomé de Sousa, o religioso descreve sobre as 
revoltas indígenas, apresentando-nos dados sobre hábitos e costumes dos indígenas da 
América Portuguesa. 
Os de Tapariqua obedeceram, mas os do Pera açú muitos delles não quizeram 
paz nem dar os escravos, antes tomaram um barco de Pero Gonçalves, de S. 
Thomé, com ferramenta que levava, e os negros de Guiné fugiram e 
esconderam-se pelos matos e por isso escaparam. Depois sendo requeridos 
com paz e com restituirem o barco e os escravos (NOBREGA, 1931: 211, 
grifo nosso). 
Na mesma carta, numa outra passagem, Nóbrega narra a respeito dos acordos entre os 
colonizadores e os índios pacificados, no qual estes ofereciam ajuda à captura de um grupo de 
índios bravos, acusados de assaltarem a roça de um certo André Gavião: “onde estavam oito 
negros de Guiné, doentes e Tristes” (NOBREGA, 1931, p. 215). Os índios pacificados se 
prontificaram a auxiliar na emboscada ao gentio na roça de André Galvão e dessa empreitada 
resultou algumas dezenas de mortos, entre eles os oito negros de Guiné. 
O segundo eixo de menções ao negro nos primeiros escritos coloniais, adotado aqui, 
diz respeito ao homem africano quanto paciente das ações missionárias na América 
Portuguesa. O primeiro registro deste fato encontra-se nas narrativas epistolar de uma viagem 
e missão jesuítica, nos relatos do Padre Fernão Cardim, no Tratado Descritivo da Terra e 
Gente do Brasil de 1583, mais especificamente na terceira parte. Neste o jesuíta ao descrever 
as diligências do padre Rodrigo de Freitas em visita a Companhia de Jesus na Bahia, 
apresenta-nos uma pré-noção do lugar do homem africano nas narrativas religiosas dos 
primeiros escritos coloniais: 
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O padre visitador tratou por vezes com alguns prelados e letrados casos de 
muita importância sobre os captiveiros, baptismos e casamentos dos indios 
e escravos de Guiné, de cujas resoluções se seguiu grande fructo e augmento 
da christandade depois que chegamos ao Brasil (CARDIM, 1925: 300, grifo 
nosso). 
As menções de Cardim vão mais além, descrevendo o sucesso de suas atividades 
missionárias e dos seus irmãos de ordem na província da Bahia. Nesta mesma, denuncia os 
prenúncios da pedagogia de catequização. Referindo-se ao negro da seguinte forma: 
fez fazer um compêndio das principaes duvidas que por cá occorrem, 
principalmente nos casamentos e baptismos dos indios e escravos de Guiné, 
de que se seguiu grande frueto; e os padres ficaram com maior luz para se 
poderem haver em semelhantes casos (CARDIM, 1925: 300, grifo nosso). 
Confessávamos os portuguezes, ouvindo confissões geraes, e outras de muito 
serviço de Nosso Senhor. Os dias de pregação e festas de ordinário havia 
muitas confissões e communhões, e por todas chegariam a duzentas, afora as 
que fazia um padre, lingua de escravos de Guiné, e de indios da terra, 
prégando-lhes e ensinando-lhes a doutrina, casando-os, baptisando-os, e 
em' tudo se colheu copioso frueto, com grande edificação de todos 
(CARDIM, 1925: 319, grifo nosso). 
Ainda sobre as bem sucedidas missões da Companhia de Jesus, Cardim cita o 
figurante negro nas narrativas da evangelização jesuítica na Província de Pernambuco de 
forma semelhante, ali “dia havia em que commungavam, algumas trinta pessoas, afóra o 
grande frueto que um padre lingua fazia com os indios e escravos de Guiné.” Diz que nas 
missões “fez-se grande frueto, baptisaram-se muitos indios e escravos de Guiné, e muitos se 
casaram em lei de graça, e ouviram grande cópia de confissões, de que se seguiu grande 
edificação para toda a terra”(CARDIM, 1925, p. 330). No colégio, o informante afirmou que 
ensinam a ler e escrever, pregam e confessam “e com os índios, e negros de Guiné se faz 
muito frueto: dos portuguezes são mui amados e todos lhes têm grande respeito. Nesta terra 
estão bem empregados, e por seu meio faz Nosso Senhor muito” (CARDIM, 1925, p. 335). 
O inaciano Fernão Cardim também faz outras menções referindo aos negros de Guiné, 
que não se enquadram neste eixo de menção, mas que são importantes. Discorrendo sobre as 
qualidades de se viver no Brasil relata que “não se dão nella persobejos, nem piolhos, e pulgas 
há poucas, porem, entre os índios, e negros da Guiné achão piolhos; porém, não faltão baratas, 
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traças, vésperas, moscas, e mosquitos de tantas castas, e tão cruéis, e peçonhentos” 
(CARDIM, 1925: 108). 
Em outras duas menções, na Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica, o 
religioso fez referencia ao escravo africano quanto contingente populacional, na descrição da 
Bahia ao rei: “terá a cidade com seu termo passante de tres 4 mil vizinhos portuguezes, oito 
mil índios christãos; e três ou quatro mil escravos de Guiné; tem seuí; cabido de conegos, 
vigário geral provisor, etc.” (CARDIM, 1925: 288) e especificamente do recôncavo: 
Em cada um delles, de ordinário ha seis, oito e mais fogos de brancos, e ao menos 
sessenta escravos, que se requerem para o serviço ordinário; mas os mais delles têm 
cento, e duzentos escravos de Guiné e da terra (CARDIM, 1925: 320). 
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS 
Diante do caminho percorrido fica evidente as negligências cometidas ao homem 
africano na literatura colonial. Todavia, mesmo lhe identificando quase sempre como 
personagem secundário e figurante nas menções dos clérigos e letrados do Brasil, no tecido 
social correspondente aos fins do séculos XVI, é possível localizá-lo quanto integrante dos 
cabedais necessário para o empreendimento religioso e como paciente destas ações religiosas, 
participando de ações religiosas como batismos e casamentos. Os negros de Guiné eram 
solicitados como bens imprescindíveis para o desempenho da causa evangélica e por muitas 
das vezes tornava-se finalidade deste empreendimento, respectivamente, estas realidades estão 
implícitas nos textos dos inacianos Padre Manoel da Nóbrega e Padre Fernão Cardim. 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
CARDIM, Fernão. Tratados da terra e gente do Brasil. Rio de Janeiro : J. Leite & Cia: 
1925. Disponível em: <http://www.brasiliana.usp.br/bbd/handle/1918/02119000> Acesso em: 
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NOBREGA, Padre Manuel da.Cartas do Brasil : 1549-1560.Rio de Janeiro: Officina 
Industrial Graphica: 1931. Disponível em: 
<http://www.brasiliana.usp.br/bbd/handle/1918/00381610#page/2/mode/1up> Acesso em: 26 
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<http://www.afroasia.ufba.br/pdf/afroasia_n19_20_p37.pdf> Acesso em: 26 out. 2010. 
PESSOA, Raimundo Agnelo Soares. O escravo negro nos primeiros escritos coloniais (1551 – 
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<http://www.cchla.ufpb.br/saeculum/saeculum13_art02_pessoa.pdf> Acesso em: 17 jun. 
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19. "PEREGRINAÇÃO AO DERREDOR DE MIM MESMO": A CONSTRUÇÃO DE 
UMA MEMÓRIA PESSOAL POR LUÍS DA CÂMARA CASCUDO 
Raquel Silva Maciel* 
Resumo: 
O artigo se refere a um estudo em torno da trajetória pessoal e intelectual de Luís da Câmara 
Cascudo. Em um trabalho anterior buscamos investigar a imagem que algumas obras 
biográficas produziram para esse escritor e de que forma o seu percurso pelo campo das letras 
foi em diversos momentos influenciado por sua vida pessoal. Nessa segunda etapa buscamos 
analisar os seguintes escritos autobiográficos: “O tempo e eu” (1968), “Pequeno Manual do 
doente aprendiz”(1969),“Na ronda do Tempo”(1970) e “Ontem: imaginações e notas de um 
professor provinciano”.(1972). Os textos escolhidos foram produzidos ao final de sua vida e 
têm como objetivos evocar recordações pessoais e sintetizar suas ideias acerca de seu objeto 
de estudo, a cultura popular. Acreditando que uma análise biográfica pode ser realizada tanto 
a partir das obras produzidas sobre um indivíduo quanto se originando de uma investigação de 
seus escritos autobiográficos buscamos tecer considerações acerca do processo de criação de 
uma memória pessoal empreendido por Cascudo, problematizara concepção de memória que 
o intelectual apresenta nesses escritos memorialísticos e de que modo essa se relaciona com 
seu projeto de escrita de si. Para isso se faz necessária a relação dessa problemática com 
ensaios já realizados acerca do conceito de memória como o de Durval Muniz de 
Albuquerque Jr. (2007) e de trabalhos sobre os escritos autobiográficos desse pesquisador 
potiguar como os de Margarida de Souza Neves (2002-04). 
Palavras-chave: Câmara Cascudo. Memória. Autobiografia. História. 
*Graduanda da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e Bolsista do Programa de Educação Tutorial 
do curso de História (PET/História-UFCG). E-mail: quequelpb@hotmail.com Orientadora: Profa. Dra. Regina 
Coelli Gomes Nascimento. E-mail: reginacgn@gmail.com. 
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Em 1968, Luís da Câmara Cascudo ao classificar uma de suas obras autobiográficas 
intitulada“O tempo e eu”, afirma que se trata de uma “[...]peregrinação ao derredor de mim 
mesmo [...] (CASCUDO,1968:15). Caminho esse que é percorrido em todos os escritos 
memorialísticos desse escritor potiguar, que através das recordações pessoais e de terceiros, 
constrói a sua trajetória pessoal e intelectual. Nesse artigo problematizaremos a relação de 
Cascudo com o campo da memória, partindo de uma análise da concepção que ele possuía 
desse conceito e comoele acabou por, no final de sua vida, construindo uma memória pessoal, 
utilizando-a como “[...] um instrumento da divindade para preservar da morte definitiva o que 
pode permanecer vivo pelas artes da memória” (BETI,2004:11). 
Inicialmente,se faz necessário apresentaro sujeito de nosso ensaio.Luís da Câmara 
Cascudonasceue desenvolveu sua carreira na cidade de Natal no Rio Grande do Norte, fato 
relevante se considerarmos que naquele períododificilmente um intelectual produzia fora do 
eixo Rio-São Paulo38. É proveniente de uma família da aristocracia norte-rio-grandense, 
composta por fazendeiros e integrantes do Partido Conservador.A construção de redes de 
influências com autoridades locais permitiu que a família de Cascudo,39assim como a de 
tantos outros indivíduos desse contexto, mesmo após a crise do modelo de família 
patriarcal,pudessem usufruir de benefícios como a manutenção de bens e a concessão de 
empregos públicos. 
O pai desse intelectual, Francisco Cascudo, foi um dos que se beneficiou desse 
prestígio social, conquistando o cargo de chefe de polícia no interior do Rio Grande do Norte, 
sendo posteriormente transferido para Natal, cidade onde Câmara Cascudo nasceu em 30 de 
dezembro de 1898. Em 1900 é exonerado da Guarda Nacional, tornando-se um comerciante 
na capital norte-rio-grandense (GOMES, 2009). 
O poder aquisitivo que sua família possuía possibilitou que desde cedo Cascudo 
enveredasse pelo mundo das letras, tendo contato ainda criança com obras raras e importadas 
38Câmara Cascudo, como os escritos biográficos apontam, se considerava um provinciano por excelência. 
Aspecto interessante se considerarmos a importância que ele adquiriu nacionalmente e internacionalmente 
através de seus escritos. Ele estaria “(...) arraigado nas dunas de sua cidade Natal, que jamais cedeu ao canto de 
sereias que o instavam a trocar as margens do Potengi pelos grandes centros (...)” (NEVES:2002:65). 
39 O “sobrenome” Cascudo refere-se a devoção ao Partido Conservador que o avô paterno de Luís da Câmara, 
Antônio Justino de Oliveira, possuía.. Cf CASCUDO. (1968) 
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que eram adquiridas pelo seu pai. Assim, sua ambientação com a leitura e escrita é 
apresentada como indissociável de sua infância. Tanto por essa influência paterna quanto por 
ter sido desde pequeno privado do convívio com outras crianças e das brincadeiras ao ar-livre, 
devido às “(...) limitações de seu corpo pela doença – não correr, saltar, pisar na areia, andar 
descalço, subir em árvores – levaram-no a uma vida reclusa” (GOMES,2009:194).Esse 
período, marcado pelo contato com o ambiente sertanejo, aonde conviveu de 1910 a 1913 
com os sujeitos, falas, gestos e práticas culturais desse espaço, influenciou a escolha de seu 
objeto de pesquisa, a cultura popular, e a elaboração de inúmeras obras, entre elas“Vaqueiros 
e Cantadores”(1922) e “Viajando o Sertão”(1939) que evidenciam o período de vivência 
desse pesquisador no Sertão de estados como a Paraíba e o Rio Grande do Norte. 
A partir disso, verificamos que a imagem desse sujeito é construída “(...) a partir da 
figura de erudito, do homem voltado para os livros e as letras desde a infância, quando ao 
invés de brincar como as outras crianças, voltava-se para a leitura de revistas, de álbuns de 
gravuras e de viagens (...)” (COSTA, 2011: 10). A sua produção foi voltada para a confecção 
de artigos, crônicas, contos e obras que no total ultrapassam cento e cinquenta. Entre essas 
produções temos as de cunho folclorista, histórico e memorialístico, sendo essas últimas o 
objeto de estudo desse trabalho. Essas possibilitaram a formação de uma carreira intelectual 
extensa que o levaram a um reconhecimento no plano nacional e internacional. 
A influência do seu pai determinou também o início de sua carreira intelectual em 
1918, já que a partir desse ano ele começou a publicação de crônicas no jornal A Imprensa, 
periódico que foi fundado pelo Coronel Francisco Cascudo em oposição aos oficiais Diário 
de Natal e A República. O texto fazia parte de um coluna intitulada Bric-à-Brac, na qual 
Câmara Cascudo tecia críticas literárias a autores nacionais e internacionais. 
Suas publicações iriam se referir também à produção de biografias e crônicas 
relacionadas a velhas figuras daquela região, como homens da elite letrada, políticos e 
fazendeiros. Além desses sujeitos, temos aquelas obras dedicadas a personagens da monarquia 
portuguesa, como os intitulados Conde d’Eu e OMarquês de Olinda e seu tempo. 
A escrita de obras destinadas a exaltação de grandes líderes e acontecimentos 
históricos, reflete a concepção tradicional de história que Cascudo em determinado momento 
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possuía40. Esse acreditava que os documentos forneceriam aos historiadores o suficiente para 
conhecer o passado e revivê-lo. Porém, mesmo concebendo essas fontes como espaços 
neutros e puros, por volta da década de 1970, ele operou uma “[...] escrita da história 
interessada e endereçada ao futuro” (COSTA, 2011:11) de modo que futuros historiadores 
encontrassem nos escritos de Cascudo o seu ponto de partida. Nas décadas de 1960 e 1970 
“(...) Cascudo publica, como sempre, muito e sobre os mais variados temas. Um 
exame mais detido de algumas de suas numerosas publicações desse período parece 
apontar para a possibilidade de vê-lo, nesse momento, às voltas com algo muito 
próximo a um balanço de vida”(NEVES, 2004:09). 
Assim, Cascudo já com 70 anos opera a construção de seus escritos memorialísticos41 
através de omissões, silenciamentos42 e seleções de materiais, personagens e acontecimentos. 
Memória essa que é 
“[...] a vida, sempre carregada por grupos vivos, e, nesse sentido, ela está em 
permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do esquecimento, 
inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a todos os usos e 
manipulações, susceptível a longas latências e de repentinas revitalizações” (NORA, 
1993:09). 
Se a História para esse erudito era um meio de rememorar fatos dignos de serem 
lembrados, suas autobiografias também apresentam uma seleção do que deve ser esquecido e 
o que deve ser evocado. Fato que evidencia a construção pelo próprio Câmara Cascudo de seu 
lugar de memória43, respaldado na autoridadeintelectual que já possuía no Brasil e em outros 
países. Esse escrevia 
40 Não se pode afirmar que Cascudo possuía apenas uma visão histórica tradicionalista, já que não há só uma 
escola teórica que ele siga. Em suas obras históricas temos abordagens de diferentes perspectivas, ele “[...] 
mesclou concepções de história que vão desde a Antiguidade Clássica, como as concepções de Heródoto, 
até a moderna” (COSTA: 2011:02). 
41 São escritos de memórias de Cascudo: “O tempo e eu”, “Pequeno Manual do doente aprendiz: notas e 
imaginações”, “Na ronda do Tempo” e “Ontem: imaginações e notas de um professor provinciano”. 
42Entre os silenciamentos nas autobiografias produzidas por Câmara Cascudo podemos citar seu apoio ao 
movimento Integralista, a simpatia que possuía pelos ideais fascistas e a não oposição ao Golpe Militar de 
64. O sentimento anticomunista é apontado como o principal motivo para a não objeção de Cascudo a ditadura, 
porém ele é apontado como um dos que abrigou em sua residência sujeitos perseguidos pelos militares. 
43Para Pierre Nora, os lugares de memórianão são produtos espontâneos, mas sim construções sociais. Esse 
historiador francês elenca três tipos de lugares de memória, os materiais, funcionais e simbólicos. CfNEVES 
(2007). 
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[...] suas memórias para que estas tivessem sua assinatura e o peso de sua autoridade 
intelectual, como se assim fosse possível preservar sua imagem do atrito do tempo, 
garantir sua própria marca autoral na fixação de sua trajetória como homem e 
intelectual e revestir com sua própria autoridade de etnógrafo nesses anos já 
respeitado nacional e internacionalmente na versão que dá de si mesmo (BETI: 
2001:05-06). 
O momento que Cascudo escreve suas memórias é um período no qual ele já tinha 
grande reconhecimento por sua trajetória intelectual, portanto os constrói a partir de como 
gostaria de ser visto e lembrado. Esse movimento poderia suscitar um desejo em Cascudo de 
não ser esquecido, de permanecer vivo, de ser digno de evocação pela posteridade, de ser 
como os “grandes homens” de seus escritos históricos. 
Considerando que a memória coletiva se refere para além de uma simples junção de 
memórias individuais, sendo a que nos ajuda “[...] a fixar o conteúdo e a forma de nossas 
recordações, que acreditam nelas e nos responsabilizam por minúcias de que não nos 
recordávamos” (ALBUQUERQUE JR., 2007:204). Verificamos como o movimento que 
Cascudo inicia a partir da década de 1960 de recordar sua vida pessoal, é acompanhado 
também de uma tentativa de rememorar o seu percurso intelectual, através da confecção de 
obras que sintetizam o seu pensamento acerca da cultura popular. Sendo essa produção uma 
evidênciada tentativa de construção de uma memória coletiva para o Brasil, já que na medida 
em que busca criar através de suas obras uma identidade para o povo brasileiro ele acaba por 
desenhar uma memória coletiva para esse país. 
Memória coletiva que também está presente em suas obras autobiográficas, já que para 
Durval Muniz (2007) essa é construída a partir de outros indivíduos, fato que encontramos em 
obras como “O tempo e eu”(1968) aonde cria “[...] um “Eu” espelhado nos outros, na 
influência e participação ativa que estes tiveram com o narrador Cascudo. Uma vida cercada 
de muitas outras vidas” (ALVES,2011:41). 
Temos em seus escritos autobiográficos o cruzamento dessa memória coletiva com 
uma dimensão mais particular da memória, ou seja, a sua variante individual que se refere a 
recordações individuais que só são pessoais “[...] à medida que ele se localizou num ponto em 
que foi possível ser atravessado por correntes de pensamento coletivo que formou uma 
configuração de maior complexidade para desvendar suas origens para a maioria das pessoas” 
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(ALBUQUERQUE JR.,2007:204). Neste sentido, podemos afirmar que a memória individual 
é singular a um indivíduo, devido ao espaço ocupado por esse em determinado momento de 
sua trajetória. É individual porque os sujeitos são impactados de diferentes formas pelos 
elementos que compõem a memória coletiva. 
Portanto, Câmara Cascudo constrói nesses escritos uma memória que é “(...) 
consolidada entre episódios pessoais e pela narrativa sobre os outros, agora tornada a de 
Cascudo” (ALVES,2011:42).Desse modo, ao elaborar uma narrativa de si ele acaba 
evocando outros personagens que reafirmam a representação que Cascudo deseja criar de si. 
Desta maneira ele “(...) constrói sua própria subjetividade articulando-se, simultaneamente, 
enquanto sujeito e objeto da reflexão que ele tece em torno de sua própria vida”(OLIVEIRA, 
2012: 02). 
Para ele, a memória “(...) funciona como um traço do passado, um arquivo concebido 
como um registro mesmo que um tanto limitado de um acontecimento, ao invés de, por 
exemplo, uma construção dele” (OLIVEIRA, 2012: 05).Desse modo, Cascudo assim como 
não vislumbra que uma fonte histórica seja construída, forjada e inventada,não reconhece na 
memóriaum processo seletivo e intencionado, apesar de evidenciar sua limitação. Pelo 
contrário, para ele a memória mesmo com suas limitações é uma cópia de determinado 
acontecimento, permitindo que os sujeitos reconheçam as origens, raízes de determinados 
fenômenos. A memória funcionaria como uma espécie de arquivo, que é fundamentalmente 
um registro preservado eternamente já que “(...) as informações sobre o passado nunca 
desaparecem, pois, para ele, mesmo aquela parcela não percebida pelo sujeito é conservada na 
biologia de seu próprio ser.” (OLIVEIRA, 2012:08). 
Câmara Cascudo acredita que as recordações de determinados fenômenos guardados 
na memória seriam evocados através da chamada “reminiscência”, sendo essa para Durval 
Muniz (2007) o 
[...] nível em que a “memória individual” é violentada por choques provenientes de 
signos sensíveis. Estes signos provocam a evocação, fazem chegar à consciência 
sensações ou imagens já vividas que aparecem como rasgões num tecido negro. (...) 
O passado ressoa no presente, o passado surge no presente com força viva e 
violenta, de uma violência tão grande que só suportamos por momentos (...) 
(ALBUQUERQUE JR., 2007:201) . 
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A reminiscência, essa evocação de sensações e imagens passadas que invadem 
violentamente o nosso presente,seria para o nosso intelectual potiguar a única forma fiel de 
acesso a essa memória arquivista, já que todas as demais seriam frutos da “imaginação”, 
estando essa ligada a ideia de falsidade que colocaria em risco a autenticidade de nossas 
lembranças. 
A concepção de que as memórias correspondem a uma “história oficial”, a verdade 
integral tal como Cascudo pensou, incorre no erro de considerá-las como “[...] unidades e 
totalidades homogêneas e não como a multiplicidade, sujeitas a constantes deslocamentos” 
(ALBUQUERQUE JR., 2007:200). Talvez, o pensamento de Cascudo acerca da autenticidade 
das memórias se referisse a sua concepção positivista dos documentos históricos, mas pode 
ser que se devia também a uma tentativa de envolver os seus escritos memorialísticos com o 
“manto da verdade”, respaldando as suas evocações de um valor de autoridade. 
A partir do exposto podemos verificar como as recordações presentes nos escritos aqui 
analisados buscam, assim como outras memórias, “[...] preservar a ideia de uma essência que 
atravessa os tempos.” (ALBUQUERQUE JR., 2007: 207). Essência que no caso de Cascudo 
sugere um desejo de evidenciar para a posteridade o que há de mais fundamental em seu 
espírito, já que ao evocar e escrever suas memórias,ele a faz de maneira seletiva e almejando 
determinado fim. 
A“[...] memória é seletiva e todo escrito memorialístico é expressivo pelo que formula 
e pelo que silencia” (NEVES, 2004: 11) e não um arquivo humano com capacidade infinita 
como acreditava Cascudo, além disso, também não é um processo isento de intencionalidades, 
tal como o oficio do historiador não o é. 
É possível perceber através da análise dos escritos memorialísticos desse escritor 
potiguar a intencionalidade de evocar em tais obras autobiográficas acontecimentos, relações 
e sujeitos que para ele são dignos de evocação, bem como de silenciar momentos obscuros de 
sua trajetória. É por isso, que Câmara Cascudo traz nesses escritos elementos de sua vida que 
realçam traços da personalidade que criou para si em vida e que continuou sendo 
monumentalizada após a sua morte bem como evoca sujeitos que auxiliam em tal processo, 
confirmando a imagem que constrói de si. Nesses escritos deve-se escavar 
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“(...) a memória já petrificada, dementando e desmentindo as verdades estabelecidas 
sobre os fatos e feitos, desinventando e desinvestindo memórias grandiosas e 
heroicas (...)” deve-se não só “(...) definir e se apropriar do objeto, mas fazê-lo 
perder-se, desdefini-lo; não é só identificar o sujeito, mas desidentificá-lo, 
desacontecê-lo. É preciso desformar o mundo, desnaturalizá-lo” (ALBUQUERQUE 
JR.,2007:92). 
É necessário que o historiador perceba em tais escritos não simples recordações de um 
sujeito próximo ao fim da vida, mas sim as intencionalidades com que esse mesmo indivíduo 
produziu tal memória. A memória presente nesses escritos apesar de já estar incrustada deve 
ser utilizada pelos historiadores como uma forma de desestabilizar o que é posto ali, deve-se 
problematizar desde a seleção dos fatos ali evocados, à escolha pela confecção de tais obras 
naquele momento, os sujeitos com quem mantém diálogo e que respaldam a sua produção e a 
finalidade que tais escritos possuíam endereçados a posteridade que “(...) fará sua casa com o 
material que juntamos do presente” (NEVES apud CASCUDO,2002:79). 
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20. EPIFÂNIO DÓRIA E A REPÚBLICA DAS LETRAS EM SERGIP 
Ronaldo Alves44 
Resumo: 
O objetivo deste trabalho é apresentar através da biografia de Epifânio Dória, alguns aspectos da sua 
trajetória de vida no campo intelectual sergipano durante a República das Letras. Para tal análise, 
utilizamos o método biográfico que conduziu a construção escrita, concomitante à pesquisa nas fontes 
documentais e bibliográficas que permitiu apresentar o panorama da atuação do biografado nas mais 
diversas instituições culturais de Sergipe e compreender a sua trajetória inserida no contexto histórico, 
social e intelectual de sua época, e assim perceber que era possível através do exercício da atividade 
intelectual e das práticas de legitimação vigentes na República das Letras, um indivíduo autodidata, 
apenas alfabetizado ser reconhecido e legitimado na intelligentsia sergipana. 
PALAVRAS-CHAVE: Biografia; Epifânio Dória; República das Letras; Intelligentsia Sergipana. 
INTRODUÇÃO 
A trajetória de Epifânio Dória na vida intelectual tem início no período denominado República 
das Letras em Sergipe, que compreendeu o período de 1889 a 1930. Esse período foi o marco das 
mudanças que ocorreram no campo intelectual e institucional sergipano, nessa época ocorreu o 
surgimento de inúmeras instituições culturais que agremiou vários intelectuais e os legitimavam. 
O objetivo geral deste trabalho é mostrar a atuação de Epifânio Dória nas mais diversas 
instituições de Sergipe, reconhecendo a importância do seu trabalho e do seu papel enquanto 
intelectual, que o legitimou como membro da Intelligentsia Sergipana. 
Durante a República das Letras havia práticas de legitimação que condicionava a ascensão 
social e intelectual dos indivíduos, e a contribuição de Epifânio Dóriana difusão cultural, na 
historiografia sergipana,na pesquisa histórica e em outros âmbitos da sociedade possibilitou alcançar 
44 Historiador e Arqueólogo, membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Memória e Patrimônio Sergipano – 
GEMPS/CNPq/UFS. E-mail: ronaldo.jfas@hotmail.com 
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este reconhecimento no meio intelectual sergipano.Atualmente muitos intelectuais sergipanos são 
esquecidos no tempo, juntamente com as suas obras e o seu legado, assim a biografia de Epifânio 
Dória nós faz refletir sobre a sua contribuição intelectual e cultural para Sergipe. 
TRAÇOS BIOGRÁFICOS 
A trajetória da biografia no mundo ocidental tem origem no mundo grego antigo, o sentido 
etimológico da palavra biografia atesta de fato a sua origem no mundo grego, bios, significa vida, e 
graphein, significa escrever, inscrever. Do mundo grego em diante o uso das biografias em várias 
épocas contribuiu para aprimorar os paradigmas biográficos, o que possibilitou uma melhor 
compreensão e utilização da biografia no mundo contemporâneo. Dessa forma, a biografia através dos 
séculos esteve sempre ligada às práticas humanas. 
No século XIX sob a influência do positivismo, a preocupação com os fatos sociais relegou a 
importância do indivíduo na História, e sob a vigência da História Nacional favoreceu a produção de 
inúmeras biografias de heróis, políticos e militares, produzidas por aportes literários, todavia, “[...] o 
debate sobre o papel do indivíduo e da biografia, realizado nesse século, ainda se prolonga no debate 
atual; nos dias de hoje”(BORGES, 2006, p. 206). 
Epifânio da Fonseca Dória e Menezes45 nasceu no município de Campos, atual cidade de 
Tobias Barreto, na Fazenda Barro Caído em 07 de Abril de 1884. Filho de José Narciso Chaves de 
Menezes46 e de Josefa da Fonseca Dória e Menezes teve a vida marcada por momentos que delinearam 
a sua formação intelectual e profissional, transformando-lhe em autodidata47, sem que para isso 
obtivesse a formação secundária e a superior. O contexto histórico do Brasil e de Sergipe tramitava em 
torno do processo de Abolição consumado em 13.05.1888, e da Proclamação da República efetivada 
em 15.11.1889, este último acontecimento estampou como contexto histórico na sua vida. 
45 Cf. GUARANÁ, Armindo. DiccionárioBio-Bibliográphico Sergipano. – Rio de Janeiro: Pongetti, 1925, p. 72. 
46 Foi Capitão da Guarda Nacional e próspero fazendeiro e criador de gado da região de Campos. Cf. FONTES, 
Arivaldo Silveira. Figuras e Fatos de Sergipe. – Porto Alegre: Ed. CFP SENAI de Artes Gráficas Henrique d’Ávila 
Bertaso, 1992, p.23 
47 Autodidata: Que ou quem aprendeu ou aprende por si, sem auxílio de professores. Cf. FERREIRA, Aurélio 
Buarque de Holanda. Miniaurélio: O Minidicionário da Língua Portuguesa. 6ª. Ed. – Curitiba: Positivo, 2004, p. 
155. 
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Sua trajetória de vida48teve início no povoado Poço Verde, o qual se mudou com os seus pais 
ainda criança, e obteve as primeiras letras. A boa condição financeira de seus pais proporcionou-lhe 
estudar na escola particular do professor Irênio Vital de Souza. Em 1898 prosseguiu o ensino primário 
na Vila de Campos, mas para isso precisou trabalhar muitocedo no comércio de um parente, sem 
receber provento algum a fim de completar os estudos. Teve aulas com o professor Josué do Rosário 
Montalvão, em seguida com o professor José Rodrigues da Silva. Em virtude da grande seca ocorrida 
em 1898 sua vida tomou outros rumos. No ano de 1899abandonou os estudos e foi trabalhar no 
comércio da Vila de Boquim e permaneceu até o ano de 1906, no ano de 1905 fundou o Clube 
Literário Progressista em Boquim, e demonstrou o seu interesse pelas letras, assim: 
A sede da leitura, a vontade de aprender e os primeiros cantos de amor 
fizeram com que fundasse naquela vila o Clube Literário Progressista, o qual 
mantinha uma pequena biblioteca. E ainda sobrava tempo para organizar 
uma banda musical [...] Labutava todo dia no armazém fedorento a fumo-de-rolo 
e cachaça e á noite discorria sobre os romances que lia (FONTES, 1992, 
p.24). 
Seu autodidatismo delineou a sua formação, o contato com os livros o despertou, quando ao 
deixar o comércio em 1905, abriu um internato para o ensino primário,não obteve êxito essa tentativa. 
Estabeleceu-se no comércio da Bahia e sem sucesso retornou em 1907 eassumiu na Vila de Boquim o 
cargo de 2º suplente do juiz municipal,em seguida foi secretário da Intendência Municipal na 
administração do Major Leonides de Carvalho Fontes (1901-1905), que foi seu patrão no comércio de 
Boquim. O Major Leonides figurou como um mecenas ao lhe oferecer oportunidade de crescimento e 
confiar no seu potencial. Na busca pelo funcionalismo público foi nomeado em 1907adjunto do 
promotor da comarca de Maruim49. Em sua passagem por esse município organizou o arquivo e a 
biblioteca do Gabinete de Leitura de Maruim, logo, foi nomeado amanuense50 da Biblioteca Pública. 
Após se destacar pela organização do arquivo da Secretaria de Governo ocupou o cargo de 
48 Cf. APES. Coleção Epifânio Dória. Livro para Impressão de Visitas. Cx 05. p.1-2. s.d. 
49 Nomeado Adjunto de Promotor Público da Comarca de Maruim. APES. Atos do Governo. Acto nº 210 de 26 
de Junho de 1907. Fundo: G1 V. 337. 1907 
50Nomeado Amanuense da 2ª Seção da Secretaria de Governo. APES. Atos do Governo. Acto nº 66 de 20 de 
Maio de 1908. Fundo G1V.330, 1908. 
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bibliotecário51 até chegar ao cargo de diretor pela Lei nº 639 de 7 de Outubro de 1913 que dava nova 
organização a biblioteca, inclusive criava o cargo de diretor. 
Foi a partir da biblioteca e do seu contato com os livros que Epifânio Dória se projetou 
intelectualmente, participou de diversas instituições culturais e movimentos da sociedade.Atuou no 
Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE)52 o qualdesenvolveu valoroso trabalho até os 
últimos dias de sua vida. Na Academia Sergipana de Letras (ASL) participou da fundação e ocupou a 
cadeira de número 40 que pertenceu a Baltazar Góes53. Teve presença marcante na Liga Sergipense 
Contra o Analfabetismo (1916) e na Loja Maçônica Cotinguiba (1920), além de outras instituições, ao 
qual prestou grandes serviços. Na política ocupou os cargos de Secretário da Justiça e Negócios do 
Interior, daFazenda, da Agricultura e Indústria, Viação e Obras Públicas (1935-1941). Foi Deputado 
Classista (1935) e em movimentos sociais participou da Cruzada do Mil Réis Ouro (1930), da 
Campanha do Livro Combatente e da Sociedade Beneficente dos Funcionários Públicos do Estado de 
Sergipe (1940) entre outros. 
Na vida privada, desposou Nair Garcez54e constituiu família, dessa união nasceram três filhos: 
Iracema Garcez Dória, José Garcez Dória e Maria Lúcia Garcez Dória. Em 08 de Junho de 1976 em 
Aracaju, aos 92 anos faleceu deixando um grande legado e contribuição intelectual e cultural para o 
Brasil e para Sergipe, como o exemplo de um pequeno homem que se fez grande. 
INSTITUIÇÕES CULTURAIS DE SERGIPE 
A República das Letras preconizou o progresso intelectual no Estado de Sergipe, 
principalmente nas primeiras décadas do século XX em que a atenção de alguns governantes se dirigia 
para o âmbito cultural. Nesse contexto a Biblioteca Pública exerceu forte influência no processo 
cultural, intelectual e educacional de Sergipe, pois exercia o papel de difusora cultural e alcançava 
avários segmentos da sociedade. 
51 Nomeado Bibliotecário da Biblioteca Pública do Estado de Sergipe. APES. Atos do Governo. Acto nº 117 de 
21 de Outubro de 1908. Fundo G1V.330, 1908. 
52 Sua entrada no IHGSE é confirmada pela Ata de Reunião do dia 08/10/1912 citando-o como sócio. Ver Actas 
das Sessões do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de 
Sergipe, Aracaju, v. 1, n. 1, 1912/1913, p. 61. 
53Cf. GUARANÁ. Op. cit. p. 45 
54“Consorcia-se com senhorita Nair Garcez aos 24 de Abril de 1914, em ato religioso celebrado na Catedral de 
Aracaju, pelo Pe. João Florêncio da Silva e o civil pelo Juiz da 2ª Vara, Dr. João Antônio de Oliveira” GARCEZ, 
José Augusto. Quase um Século: Epifânio Dória – Tributo ao Mérito.Jornal da Cidade,Aracaju,7 e 8 Abr. 1974, 
p.8 
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No início da Repúblicadurante o governo de Guilherme de Souza Campos55,a preocupação 
com a cultura do Estado permitiu reorganizar a Biblioteca Pública que funcionava no Palácio do 
Governo56 e “que estava um tanto relegada” (DANTAS, 2004, p. 32). Para zelar e cuidar da biblioteca 
nomeou Epifânio Dória para o cargo de amanuense, o trabalho desenvolvido na organização desse 
órgão e a sua competência, possibilitou sua ascensão ao cargo de bibliotecário, e mais tarde ao de 
diretor. A biblioteca sob a direção de Epifânio Dória passou por uma total organização, além de se 
transformar em um grande espaço de sociabilidade, frequentada por inúmeros intelectuais que se 
estabeleciam na República elevando a biblioteca ao status de localde saber e ideias. 
Ainda no campo dos serviços prestado a biblioteca, Epifânio Dória contribuiu para as 
bibliotecas públicas do Brasil ao idealizar o projeto de gratuidade da franquia postal destinado às 
bibliotecas públicas do país57, o que possibilitaria a difusão da cultura para a sociedade por meio das 
bibliotecasatravés da troca de informação e através do contato com os livros formaria uma sociedade 
banhada pela luz do saber. 
Fundado em 06 de Agosto de 191258 por iniciativa de Florentino Menezes, o Instituto 
Histórico e Geográfico de Sergipe59 surgia em meio ao movimento de automação científica e 
intelectual durante a República das Letras. De forma tardia em relação ao Instituto Histórico e 
Geográfico Brasileiro (1838) e a outros institutos do Brasil, a sua fundação personificou as ideias 
preconizadas pela produção da ciência que no início do século XX floresciam no Brasil através das 
instituições científicas. Em Sergipe a fundação do IHGS60 representou uma nova fase não só no campo 
55 Foi Desembargador e governou Sergipe no período de 24/10/1905 a 10/08/1906 e 28/08/1906 a 
24/10/1908. Cf.DANTAS, Ibarê. História de Sergipe: República (1889-200). – Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 
2004. 
56Mensagem apresentada á Assembléia Legislativa do Estado de Sergipe, em 7 de Setembro de 1909, na 2ª 
Sessão Ordinária da 9ª Legislatura, pelo Vice-Presidente do Estado Dr. Manoel Baptista Itajahy. Aracaju: 
TypographiaCommercial, 1909. 
57 Cf. BARRETO, Luiz Antônio. Memórias de Sergipe: Personalidades Sergipanas. Correio de Sergipe, Aracaju, 4 
Jun. 2006, p. 5-7. 
58 Cf. Actas das Sessões do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. In: Revista do Instituto Histórico e 
Geográfico de Sergipe.Aracaju, v. 1, n. 1, 1912/1913, p. 13-15. 
59 Reconhecido como utilidade pública pela lei Estadual nº 694, de 9 de novembro de 1915, considerado de 
utilidade continental pela Resolução nº 58, do Congresso Americano de Bibliografia e História, de Buenos 
Aires,em 1916, e reconhecido de utilidade pública pelo Decreto federal nº 14.074, de 19 de fevereiro de 1920. 
Cf. SANTOS, Pedrinho. Instituições Culturais de Sergipe.Aracaju. 1984, p. 10. (Mimeografado). 
60 Retificando, asigla utilizada pelo Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe desde a sua fundação foi “IHGS”, 
que coincidia com o Instituto Histórico de Santos, em virtude dessa duplicidade foi alterada para “IHGSE” a 
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da ciência e da intelectualidade como também para a historiografia sergipana61tornando-se conhecido 
entre a intelectualidade como a Casa de Sergipe62. 
No sodalício de 1927 a1935 sob a presidência de Francisco Carneiro Nobre de Lacerda o 
instituto passou por uma fase de árduo trabalho para a construção da sede própria.Nessa gestãocomo 
tesoureiro, Epifânio Dória empreendeu todos seus esforços para que nesse sodalício a pedra 
fundamental fosse lançada, e assim marcar a administração de Nobre de Lacerda com efetivação deste 
grande empreendimento que foi a inauguração da sede. 
Na inauguração da nova sede em 02 de abril de 1939, Epifânio Dória discursou como 
presidente do sodalício (l937–1939) e o seu empenho o levara a presidência e a muitos outros cargos, 
sua vida no Instituto foi bastante representativa na história da Casa de Sergipe. 
Segundo os Estatutos do IHGSE63 foi facultada a criação de uma revista de circulação 
trimensal que informaria as atas aprovadas nas sessões, bem como os discursos pronunciados durante 
as reuniões, o quadro social, trabalhos históricos, literários e científicos produzidos pelos membros. A 
primeira marca deixada por Epifânio Dória na Revista do IHGSE64 ilustrou o seu perfil intelectual, 
enveredado pelo caminho da biografia trazia em seus escritos informações importantes sobre 
personalidades que serviam de exemplos para formação da identidade cultural sergipana, através dos 
exemplos de vida dos biografados. No mais o hábito de fazer biografias estava no auge durante a 
formação do IHGSE65uma herança do IHGB que permeou por muitos anos a escrita da história na 
Casa de Sergipe. 
Fundada em 01 de Abril de 191966a Hora Literária se inseria no rol de instituições que surgiu 
em Sergipe na República da Letras, a sua evolução no campo literário permitiu a organização e 
partir do ano de 2007. Cf. DANTAS, José Ibarê Costa. Relatório Anual de 2007. In: Revista do Instituto Histórico 
e Geográfico de Sergipe. Aracaju: n. 37, 2008, p. 282. 
61 SILVA, José Calazans Brandão da.Aracaju e outros temas sergipanos. Aracaju: Governo de Sergipe – 
FUNDESC, 1992, p. 31. 
62 Cf. FREITAS, Itamar. A Escrita da História na Casa de Sergipe – 1913/1999. – Aracaju: Coleção Nordestina: 
Editora UFS, 2002. 
63 Cf. Estatutos do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de 
Sergipe. Aracaju. v.1, n. 1, 1912/1913, p. 17. 
64 DÓRIA, Epifânio. Dr. Pelino Nobre, subsídios para a sua biographia. In: Revista do Instituto Histórico e 
Geográfico de Sergipe. Aracaju: V. 3, n.6, 1915, p. 183-205 . 
65 Cf. FREITAS, 2002. Op. cit, p. 41-42. 
66 Sobre a fundação da Hora Literária e da Academia Sergipana de Letras. Cf. CARNEIRO, Magalhães. Panorama 
Intelectual de Sergipe. Aracaju: Imprensa Oficial, 1940, p. 1-5. 
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fundação da Academia Sergipana de Letras em 01 de Junho de 1929. O convite do presidente José 
Augusto da Rocha Lima em 08 de Maio de 1929 a Epifânio Dória por seu mérito e benefício em prol 
das letras em Sergipe o levou a condição de sócio fundador e Secretário Geral no biênio de 1931 
a1933, além de fundar a Cadeira de nº 40 que tem como Patrono Baltazar de Góes. 
Presidiu ainda, a Liga Sergipense Contra o Analfabetismo67 idealizada no Instituto Histórico e 
Geográfico de Sergipe68 no dia 24 de Setembro de 1916, atendendo as mudanças na área educacional 
preconizada pela República69 nas primeiras décadas do século XX com o objetivo de erradicar o 
analfabetismo no Estado. 
Participou da fundação do Rotary Clube de Sergipe, da LBA (Legião Brasileira de 
Assistência) na Comissão Executiva de Sergipe; durante a Campanha do Livro do Combatente na 
década de 40, da Comissão do Folclore em Sergipe entre outras participações. 
Colaborou em diversos jornais como: “A Razão” em Estância; “O Imparcial” em Maruim; “A 
Idéia” de Pão de Açúcar, nas Alagoas; “O Estado de Sergipe”; “Folha de Sergipe”; “O Democrata”; 
“Gazeta da Tarde”; “Diário da Manhã”, no “Jornal do Povo” e no “Sergipe Jornal” onde publicava as 
Efemérides Sergipanas70. 
Iniciado na maçonaria em 08 de Maio de 192071seguiu o juramento baseado na tríade 
Maçônica: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Assim, Epifânio Dória deixaria sua marca na Loja 
Maçônica Cotinguiba ao organizar todo o arquivo e a biblioteca da maçonaria, bem como outros 
serviços prestados enquanto maçom. Foi elevado ao Grau de Mestre72em 21 de Junho de 1920; ao 
Grau de Cavaleiro da Rosa Cruz73em 15 de Abril de 1921 e ao Grau de Cavaleiro Kadosch da Águia 
67 Cf. SOUSA, Clotildes Farias de. Por uma Pátria de Luz, Espírito e Energia: a Campanha da Liga Sergipense 
contra o Analfabetismo (1916-1950). São Cristóvão, 2004. Dissertação (Mestrado em educação). Universidade 
Federal de Sergipe. 
68 Relatório de 1916 a 1917. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. V. 4, n. 8, 1919, p. 294-296 
69 Cf. NUNES, Maria Thétis, História da Educação em Sergipe. – Rio de Janeiro: Paz e Terra; Aracaju: Secretaria 
de Educação e Cultura do Estado de Sergipe: Universidade Federal de Sergipe, 1984. 
70 Cf. MEDINA, Ana Maria Fonseca. Epifânio Dória: Efemérides Sergipanas. V. 1, V. 2,Aracaju: Ed. J. Andrade, 
2009. 
71 APES. Coleção Epifânio Dória. Pedido de eliminação do quadro da Loja Maçônica Cotinguiba por Epifânio 
Dória. Doc 11 V. 18, 1945 
72 APES. Coleção EpifânioDória. Diploma do Grau de Mestre. Doc4, V. 18. 1920. 
73 APES. Coleção Epifânio Dória. Diploma do Grau de Cavaleiro da Rosa Cruz 7. Doc7. V. 18, 1921. 
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Branca e Negra74em 02 de Abril de 1937. Sua atuação na Maçonaria originou a biografia de todos os 
Veneráveis da Loja Maçônica Cotinguiba75desde sua fundação no século XIX ao início do século 
XXtornando-se uma valorosa fonte para os estudos sobre a Maçonaria em Sergipe. 
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
A repercussão do seu trabalho foi também reconhecida em outros Estados e no decorrer da sua 
vida participou de inúmeras instituições como sócio fundador, efetivo e correspondente pelo Brasil e 
exterior.No IHGSE e nas várias instituições em que participou Epifânio Dória deixou sua contribuição 
intelectual e no exercício dessa atividade adquiriu o capital intelectual e cultural, prática comum na 
República das Letrasque legitimava e reconhecia o indivíduo entre seus pares. A formação do IHGSE 
foi amplamente composta por membros da elite e da intelligentsia sergipanacomposta por bacharéis 
coronéis e acadêmicos, bem como nas diversas instituições culturais de Sergipe. Assim, pensar num 
autodidata, alfabetizado, com pouco volume do capital social e econômico em uma sociedade regida 
por uma elite intelectual, é algo contraditório. Mas Epifânio Dória a partir de suas relações sociais 
adquiridas pelo seu trabalho na biblioteca soube tecer as redes que lhe conduziram ao prestígio 
intelectual. 
Assim, as biografias representam muito mais do que contar ou narrar uma história e 
trajetória de vida, representam a construção da vida de indivíduos a partir da sua relação e contexto o 
qual ele está ou esteve inserido. Pois,a história é a “Ciência dos homens [...] dos homens no tempo” 
(BLOCH, 2001, p. 55). 
É através das marcas deixadas pelo homem ao longo de sua existência que podemos 
reconstruir sua história no tempo e no espaço, e conhecer não apenas parte da sua vida, mas a história 
de uma época, por meio de sua atuação na sociedade. 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
BARRETO, Luiz Antônio. Memórias de Sergipe: Personalidades Sergipanas. Correio de 
Sergipe, Aracaju, 4 Jun. 2006. 
74 APES. Coleção Epifânio Dória. Diploma do Grau de Cavaleiro Kadosch da Águia Branca e Negra 30. Doc 08, V. 
18, 1937. 
75 DÓRIA, Epifânio. Veneráveis da Loja Cotinguiba. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. 
V. 21, n. 26, 1961, p. 127-165. 
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21. A TRAJETÓRIA DO MISSIONÁRIO CAPUCHINHO JOÃO EVANGELISTA 
MONTE MARCIANO (1843-1921) 
Tatiane Oliveira da Cunha* 
RESUMO 
Foram muitos os missionários da Ordem Capuchinha que vieram para o Brasil na segunda metade do 
século XIX, com a missão de levar a mensagem da Igreja de Roma aos povos distantes. Frei João 
Evangelista Giuliani de Monte Marciano foi um desses sujeitos históricos que saiu da Itália com esse 
objetivo. Apresentar sua trajetória, principalmente, em terras brasileiras é o objetivo desse trabalho. 
Mostra ainda que sua mensagem, embora rica de estratégias persuasivas, na prática cotidiana era 
compreendida e adaptada pelos participantes das missões itinerantes de acordo com a sua realidade. 
Palavras-chave: Capuchinho, João Evangelista, missões itinerantes, Sergipe. 
Frei João Evangelista Giuliani de Monte Marciano nasceu na cidade de Monte Marciano, 
Província de Ancona, na Itália, em 20 de outubro de 1843. Em 23 de junho de 1860, entrou para o 
noviciado em Cíngoli. Seis anos depois, interrompeu os estudos e atrasou sua ordenação sacerdotal 
para alistar-se obrigatoriamente no exército. Em 1866 participou da guerra pela unificação da Itália. 
Fugindo da guerra, mudou-se para Viterbo (no Estado Pontifício) onde prosseguiu com seus estudos. 
Mas, com a aproximação das tropas a Roma mudou-se novamente, dessa vez para Malta, onde 
terminou seus estudos, sendo ordenado Sacerdote em 1870, aos 27 anos de idade (REGNI, 1991:84). 
Frei João Evangelista, missionário da Ordem Capuchinha, tinha como missão levar a 
mensagem da Igreja de Roma a povos distantes. Passados apenas dois anos da sua ordenação, foi 
designado pelo Ministro Geral da Ordem, Frei Nicolau de San Giovanni, para desenvolver seus 
trabalhos na Bahia. Saiu de Malta em 26 de agosto de 1872 e chegou à Bahia em 12 de outubro 
daquele ano. Por cerca de um ano trabalhou no hospício da Piedade, em Salvador, se preparando e 
conhecendo melhor a realidade brasileira, para enfim iniciar a pregação nas missões. Nos seus 37 anos 
* Mestre em História Social (UFBA), especialista em Ciências da Religião e graduada em História (UFS) e 
integrante do GPCIR. Este artigo é parte dos resultados apresentados na dissertação “Práticas e prédicas em 
nome de Cristo...”: Capuchinhos na “cruzada civilizatória” em Sergipe (1874-1901). 
tatianehistoria@yahoo.com. 
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de trabalho itinerante realizou cerca de 197 missões e 48 retiros. A partir de 1910, com 67 anos de 
idade e com a saúde bastante abalada, recolhe-se ao hospício da Piedade, onde continuou trabalhando 
até a sua morte, em 12 de abril de 1921. 76 
Embora poucos trabalhos tratem da atuação capuchinha em Sergipe, verificamos 
no Arquivo Histórico Nossa Senhora da Piedade – Frades Menores Capuchinhos da BA/SE 
(AHNSP) vasto acervo documental, notadamente, dos séculos XIX e XX. Essa documentação 
nos permitiu identificar a vinda de muitos deles a Sergipe, principalmente, a partir de 1874, 
com frei João Evangelista, que nos serviu de “guia”. Nossa escolha se deu, primeiramente, 
por ele ter deixado um caderno de memórias com 105 páginas, em que registrou sua trajetória 
de 1873 a 1910, destacando aspectos relevantes das missões. 
Conforme Carlo Ginzburg o historiador deve assemelhar-se ao caçador, que se 
utiliza das pistas deixadas pelo animal, a exemplo de rastros, para chegar a sua presa. O nome, 
que distingue um indivíduo de outros numa mesma sociedade, é utilizado metodologicamente, 
por Ginsburg como guia para compreender as relações sociais (GINZBURG, 1989:174-175). 
Jacques Revel também identificou o nome como “uma bússola preciosa”, visto que, a escolha 
pelo individual não deve ser contraditória ao social. Trata-se de uma abordagem diferente, 
pois, “ao acompanhar o fio de um destino particular – de um homem, de um grupo de homens 
– e, com ele, a multiplicidade dos espaços e dos tempos, a meada das relações nas quais ele se 
inscreve” (REVEL, 1998:21). O relato que segue trata da atividade missionária de frei João 
Evangelista tomando por base o Caderno de Memórias deixado pelo próprio missionário. 
Em novembro de 1873, em companhia do Prefeito da Ordem na Bahia, Frei Paulo de 
Casanova realizou sua primeira missão na Freguesia de Nossa Senhora d’Abadia, na Bahia. Em 1874 
iniciou com um retiro espiritual no Convento das religiosas do Desterro, em Salvador. No mês de abril 
realizou sua segunda missão na Freguesia da Barra do Rio das Contas. Ainda em 1874, no mês de 
novembro, realizou sua primeira missão na Província de Sergipe, na Freguesia do Lagarto, em 
companhia do missionário frei Paulo de Casanova. Realizaram 210 casamentos, 2.000 comunhões e 
2.500 crismas. Houve ainda a limpeza de um tanque. Em dezembro partiram para Freguesia do 
Geru/Se. A população construiu um tanque. Em janeiro de 1875 estavam na Freguesia da Vila de 
Nossa Senhora dos Campos onde obtiveram como resultado 140 casamentos, 1.400 confissões, 1.800 
76 AHNSP – Caderno de Memórias de Frei João Evangelista de Monte Marciano, Caixa Ca – 17. 
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comunhões e 1.700 crismas. O frei adjetivou o povo de “duro, sambista e cachaceiro” 
(MARCIANO:1-3). 
Após suas primeiras missões em Sergipe retornou a Bahia, tendo realizado missões em 
Feira de Santana, São José de Tapororoca, Coité, Freguesia do Passo. Em novembro de 1875, volta a 
Sergipe, novamente com o Frei Paulo de Casanova. A primeira missão dessa temporada foi realizada 
na Vila de Riachuelo. Mais uma vez reuniu grande número de participantes das quais 98 se uniram em 
matrimônio, 1.800 pessoas comungaram e 1.775 foram crismadas. Em dezembro estavam eles na Vila 
de Itabaiana/Se. Ali foram realizados 180 casamentos, 2.850 confissões, 3.127 crismas, dentre outras 
atividades. É importante destacar ainda a construção de um tanque pelos participantes. Em janeiro de 
1876 estavam em Capela/Se onde obtiveram como resultado: 156 uniram-se em matrimônio, 2.400 
receberam a comunhão e 2.321 receberam o sacramento da confirmação (MARCIANO:3-5). 
De volta a Salvador realizou dois retiros espirituais. Em outubro seguiu para a freguesia 
de Bom Jardim no litoral da Bahia onde coordenou as obras da reedificação da igreja matriz. 
Continuou sua labuta evangelizadora na cidade de Santo Amaro, pregando mais um retiro espiritual no 
Recolhimento dos Humildes, em meados de 1877. Realizou missões na freguesia da Giboia e em 
Itaparica. Em 1878, realizou missão no povoado de São Bento de Tubatá, na freguesia do Tanquinho e 
em 1879, em Santo Amaro. Em setembro do mesmo ano realizou missão nas freguesias de Bom 
Jardim, de Serra Preta e em Santo Antonio de Argum. Em 1880, missionou em Capela de Santa Luzia, 
filial da freguesia de Gameleira, freguesias do Bomfim, de Oliveira e São Vicente. Em 1881 realizou 
missões em Sipó, freguesia da Igreja Nova, na Serraria e na Divina Pastora, ambas capelas filiais de 
Entre Rios, na Casa de Prisão com Trabalho da Bahia e pregou um retiro em Santo Amaro 
(MARCIANO:5-13). 
Em 1882 realizou missões nas freguesias do Bom Jardim e de Bom Jesus das Meiras, na 
cidade de Caetité, em Caçulé, freguesia de Umburanos, Vila de Urubú e em Brejinho Grande, capela 
filial de Urubú, na cidade de Jacobina e na freguesia de Gavião. Pregou ainda o retiro espiritual no 
Convento das Freiras do Desterro. Frei João Evangelista começou o ano de 1883 pregando em 
Camição. Em seguida, pregou sete retiros espirituais. Missionou nas freguesias de Monte Alegre, 
Baixa Grande, Mundo Novo, Riachão da Jacobina e Saúde. Em 1884 realizou missões no povoado São 
José, freguesia do Riachão da Jacobina, na Vila de Bom Conselho, na freguesia de Santo Antonio das 
Queimadas e na cidade de Vila Nova. Em 1885 pregou missões em: Jaguarary, freguesia do Campo 
Formosa, freguesia de São João Amaro, Mamonas, Monte do Fogo, povoado da Lagoa Clara, nas 
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freguesias de Macahubas e São Sebastião do Caetité, povoado Curralinho, povoado da Casa de Telha, 
na cidade de Condenba e no povoado Lage (MARCIANO:13-25). 
No início de 1886 frei João Evangelista veio para Sergipe, com a missão de dirigir o 
Hospício de São Cristóvão77 e realizar missões na Província. Durante a quaresma fez diversas 
pregações aos fiéis de São Cristóvão. No dia três de maio partiu para a cidade de Lagarto onde pregou 
durante todo esse mês, que é dedicado a Maria. Além disso, pregou na festa do Corpo de Deus, na 
festa de São João e na festa do Ilustríssimo Coração de Jesus. No dia três de julho, frei João 
Evangelista estava em Samba, capela da freguesia do Riachão. Nessa localidade pregou durante vinte 
e quatro dias e organizou a construção de um tanque que foi batizado com o nome do frei. Preparou a 
festa de Nossa Senhora da Assunção, na freguesia do Coité, tendo retornado a São Cristóvão em 17 de 
agosto. Em setembro retornou a Lagarto para pregar na novena de Nossa Senhora da Piedade. Viajou 
em seguida para o povoado Samba, onde realizou uma missão itinerante, entre os dias 17 a 29 do 
mesmo mês. Sob a coordenação do missionário foi construído um cemitério e levantou-se um Cruzeiro 
na praça. Frei João Evangelista continuou a pregar na freguesia do Riachão durante todo o mês de 
outubro. Em dezembro o missionário realizou missão na freguesia de Nossa Senhora das Dores com a 
construção de um tanque (MARCIANO:25-27). 
Frei João Evangelista iniciou o ano de 1887 na cidade de Capela e em mutirão foram 
abertas duas fontes. O frei mencionou que nesta missão conseguiu derrotar o protestantismo.78 Em 
fevereiro do mesmo ano realizou nova missão na Vila de Itabaiana. Trabalharam diversas pessoas na 
limpeza e no aumento do tanque da Santa Cruz. Encerrada a missão o frei permaneceu em Itabaiana 
até quinze de agosto, tendo nesse período ajudado a levantar um Cruzeiro na Serra de Itabaiana e 
reparos na capela e na igreja matriz. Pregou durante toda a quaresma. Em 15 de agosto frei João 
Evangelista deixou Itabaiana com destino a Pernambuco, por determinação do Comissário frei Fideles 
de Avoba, sob o protesto do povo de Sergipe.79 Sua chegada a Pernambuco coincidiu com a festa de 
77 O trabalho do frei Cândido de Taggia nas missões em Sergipe levou as autoridades a convidarem os 
capuchinhos a se fixarem em seu território. Em 1841, o Governo promulgou a Lei nº 67 que tratava da 
construção de um hospício em São Cristóvão concluído em 1850 (REGNI, 1988: 419-421). 
78 Os capuchinhos combatiam os protestantes nas missões. Conforme Seixas os protestantes também 
discordavam dos métodos capuchinhos de evangelização criticando-os no jornal evangélico (SEIXAS, 2010:344). 
79 A saída de frei João Evangelista de Sergipe provocou a reação do clero e da população que fizeram abaixo-assinados 
pedindo sua volta, devido ao seu trabalho missionário no combate aos protestantes (REGNI, 
1991:80). 
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Nossa Senhora da Penha, realizada no dia cinco de setembro. Realizou missão nas seguintes 
localidades pernambucanas: Catuama, freguesias de São Vicente e da Fuga (MARCIANO:28-31). 
No dia 13 de abril de 1888, frei João Evangelista deixou Pernambuco com destino a sua 
terra natal. Chegou a Monte Marciano em 29 de maio daquele ano. Seu objetivo era visitar sua mãe, 
que não estava bem de saúde. Passou quase quatro meses com sua família, retornando a Pernambuco 
no dia 10 de setembro, tendo chegado ao destino em 16 de outubro. Em seguida, foi ao Ceará para 
trabalhar junto aos flagelados da seca, entretanto, por não ter obtido recursos do Presidente daquela 
Província resolveu voltar a Pernambuco. Em 1889 e 1890 realizou missões nas seguintes localidades 
pernambucanas: freguesia de Maranguape, cidades de Bezerros e de Itambé, freguesias de São Vicente 
e Bonito. Em Alagoas realizou uma missão em Muricy, em maio de 1890. De volta a Pernambuco 
realizou retiros e pregou na Colônia Isabel por 15 dias. Em 7 de abril de 1891 retornou a Salvador e 
pregou missão na Prisão com Trabalho da Bahia, em julho de 1891 (MARCIANO:31-38). 
Em 1892 realizou missão na Cepa Forte. Em seguida veio para Sergipe e realizou uma 
missão no Geru, capela filial de Itabaianinha, acompanhado do frei Venâncio de Ferrara, de 14 a 22 de 
fevereiro onde se limpou um tanque e foi construído um cruzeiro. De volta ao território baiano, 
realizou novas missões na Vila do Barracão, na freguesia de Conceição d’Almeida e na Prisão com 
trabalho da Bahia. Novamente em Sergipe, missionou em Campo do Brito, no período de 26 de 
setembro a 25 de outubro. Os fiéis carregaram pedras e areia para o conserto da igreja. Em seguida 
missionou em Coité, na Vila de Jeremoabo e na Vila de Bom Conselho, na Bahia. Em dezembro, de 
volta a Sergipe, missionou em Laranjeiras. Realizou-se 174 casamentos, 1.900 confissões, 76 
batizados e 949 crismas. “Derrotou-se o protestantismo, e calculou-se o povo em 12.000 pessoas,”. 
Em janeiro de 1893, frei João estava em Lagarto/Se onde celebrou 155 casamentos, 1.900 confissões, 
1.600 crismas e 79 batizados. Na ocasião foi aberto um tanque, carregaram-se pedras e arrecadaram 
Rs. 465$000 para auxiliar na construção de um hospital (MARCIANO:38-45). 
Ainda em 1893 realizou missão nas seguintes localidades da Bahia: Tartaruga, Giboia, 
Vila de Juciape, na Vila de Brotas de Macahubas, em Fundão e Barra do Mendes, Vila de Nossa 
Senhora Oliveira do Brejinho, no povoado de Assunção e na Vila de Macahubas, na freguesia de 
Cannabrava e no povoado Bonito, na freguesia de Tanquinho, no povoado das Mercês, na Fortaleza. 
Em 1894 missionou em: freguesia de Santa Anna de Lustoça, São João de Alípio e no povoado de 
Santa Rosa, Condenba, no povoado do Caculé, na cidade de Caetité, no povoado Beija-Flor, Freguesia 
do Riacho de Santa Anna. Em 14 de novembro de 1894 estava mais uma vez em Sergipe na freguesia 
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de Boquim. Nessa missão foram realizados 158 casamentos, 1.300 confissões, 52 batizados e 1.080 
crismas. Em Dezembro, dia onze começou a pregar no povoado do Geru, capela filial da freguesia de 
Itabaianinha que durou até dia vinte. “Avançou-se o velho hospício por ameaçar ruínas, agenciou-se 
Rs. 661$000 para o restauro da mesma Igreja”. Em janeiro de 1895, no povoado Samba, capela filial 
da freguesia do Riachão/Se o frei João pregou nova missão. Ao final do evento foi aberto um tanque e 
arrecadou-se Rs. 300$000 para o concerto da capela. No dia quatro de fevereiro o frei iniciou uma 
missão em Itaporanga (MARCIANO:45-56). 
No dia 13 de maio daquele ano frei João Evangelista e frei Caetano de San Leo 
começaram uma missão no povoado de Canudos com o objetivo de dissolver o povoado que tinha 
como líder o beato conhecido como Antônio Conselheiro. Com o fracasso da missão foram pregar na 
freguesia do Cumbe. Em 1895 pregou ainda: na Prisão com trabalho da Bahia, na Vargem Grande, 
capela filial da freguesia de Santo Antonio de Jesus e na cidade d’Aveia. Em novembro voltou a 
Sergipe, começando pela cidade de Riachuelo. Durante doze dias de missão realizou-se 127 
casamentos, 51 batismos, 1.200 confissões e 1.572 crismas. Como em outras missões, nesta também 
houve desavenças com protestantes. A próxima missão se deu na Vila de Nossa Senhora das Dores/Se, 
de 20 a 30 de novembro. Foram arrecadados Rs. 905$000 para dar continuidade aos trabalhos da nova 
matriz. No dia nove de dezembro iniciou-se uma missão na freguesia de Japaratuba onde “aplaniou-se 
o terreno em redor da Igreja, e agenciou-se Rs. 1:266$200 para a obra da capella” (MARCIANO:56- 
61). 
Na sequência, mas já em janeiro de 1896, frei João Evangelista parte para outra missão, 
agora na cidade de Propriá/Se onde “agenciou-se Rs. 8000$000 para o concerto do cemitério”. Ainda 
em janeiro missionou no povoado Malhador, capela filial da freguesia de Riachuelo. De acordo com o 
missionário o “povo era bom, mas uns cachaceiros vieram da Itabaiana”. Em 1896 realizou missões 
nas seguintes localidades baianas: Barra da Estiva, freguesias do Bom Jesus dos Meiras, de São 
Sebastião do Caetité, povoado de Santa Luzia, Condenba, povoado Bom Jesus, freguesias do Sauve e 
do Barracão (MARCIANO:61-67). 
Em janeiro de 1897 voltou a Sergipe, na Vila Christina. Frei João Evangelista escreveu o 
seguinte comentário sobre o povo: “ignorante, prosumptuoso, indiferente, egoísta, desordeiro, 
beberrão [...]”. Seguiram-se as missões de Bom Jardim, e nas freguesias do Rio Fundo, da Saúde da 
Jacobina, do Gavião, na cidade de Monte Alegre, e do Riachão de Utinga. Retornou a Sergipe, em 
novembro, para a missão na freguesia de Pacatuba, onde foram realizados 51 casamentos, 41 
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batizados, 987 confissões e 1.387 crismas. No final do mês no povoado de Jaboatão construíram uma 
fonte de água potável, denominada bica da missão e um cemitério. Em dezembro partiu para Campo 
do Brito/Se. Em missão carregaram pedra para a construção da nova capela. O povo foi denominado 
como “indiferente, egoísta, de coração mesquinho”. Em missão na Vila de São Paulo/Se, em janeiro 
de 1898 o povo trabalhou na construção do novo cemitério. Nessa missão “o povo comportou-se mal, 
a policia cometerrão desatinos no ultimo dia da missão, no acto mesmo do sermão do encerramento”. 
De 15 a 24 de janeiro, no povoado de Pedra Molle o frei João denominou o povo de “jogador, 
cachaceiro, ocioso, e ladrão”. No ano de 1898 missionou nas seguintes localidades baianas: Vila Velha 
do Rio das Contas, freguesia de São Sebastião do Caetité, Vila d’ Umburanas, povoado Caculé, capela 
de São Roque e Coqueiro (MARCIANO:67-78). 
Em janeiro de 1900 retornou a Sergipe, com a missão da freguesia de Divina Pastora, 
onde foi construído um tanque. Ainda em Sergipe realizou missão na freguesia do Siriry onde cerca de 
oito mil pessoas participaram da missão. Em fevereiro foi a vez de Itabaiana/Se. Essa missão teve uma 
participação estimada de doze mil pessoas. Muitas pessoas carregaram pedras para construção de um 
cemitério. Em seguida realizou nova missão na cidade de Laranjeiras/Se. Segundo frei João 
Evangelista “derrotou-se o protestantismo, e calculou-se o povo em 9.000. Tudo correo bem”. Em 
julho de 1900 missionou na freguesia do Riachão de Casanova/Ba (MARCIANO:79-80). 
Em janeiro de 1901 após missionar na Vila do Patrocínio do Coité partiu para a cidade de 
Lagarto, em Sergipe, onde foram evangelizados cerca de quatorze mil pessoas. O povo carregou muita 
pedra para construção dos corredores da Capela de Nossa Senhora do Rosário. De acordo com frei 
João Evangelista ocorreram perturbações da ordem. Em fevereiro partiu para nova missão na Vila de 
Campos/Se. Durante dez dias foram realizados 87 casamentos, 60 batizados, 1.400 confissões e 1.637 
crismas. “Abriu-se um magnífico açude, o povo comportou-se bem e calculou-se em 13.000 pessoas”. 
Essa foi a última missão realizada pelo frei João Evangelista em território sergipano 
(MARCIANO:82-83). 
A partir de maio de 1901 voltou para a Bahia e continuou missionando. Foram 39 
missões e sete retiros espirituais em localidades baianas até 1907. Com a saúde cada vez mais 
debilitada, foi diminuindo seus trabalhos externos, sendo que depois de 1907 realizou apenas um retiro 
em 1910 e se fechou no hospício da Piedade, realizando trabalhos que exigiam menos esforços, como 
as confissões, até 1921, ano de sua morte (MARCIANO:86-103). 
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O trabalho apostólico de frei João Evangelista foi amplo e na companhia de Paulo de 
Casanova, Gabriel de Cagli, Caetano de San Leo e outros, montados a cavalo ou a jumento, ou até 
mesmo a pé, percorreram diversas localidades do Nordeste Brasileiro, principalmente, na Bahia e 
Sergipe. Suas memórias revelaram a vida cansativa que levavam ao percorrerem durante o século XIX 
muitas localidades distantes da sede oficial dos capuchinhos que ficava em Salvador, o Hospício da 
Piedade e em Sergipe o Hospício de São Cristóvão. Frei João, assim como outros missionários dessa 
época, enfrentou as péssimas condições das estradas e outras dificuldades de transporte e de 
comunicação, a precariedade da maioria das localidades que ofereciam péssimas condições de vida aos 
seus habitantes. 
Frei João Evangelista foi descrito por seus contemporâneos como um missionário 
autoritário, responsável e com muita disposição para evangelizar em meio às adversidades da época. 
Em certo sentido, seu caderno reflete o seu trabalho com as muitas missões e retiros. A maneira como 
se referia ao povo denominando-o de: “ocioso”, “cachaceiro”, “desordeiro”, “jogador”, “ignorante”, 
“egoísta”, “ladrão” também reflete o caráter sincero daquilo que ele enquanto missionário acreditava 
que deveria combater. Em determinadas localidades além de criticar os vícios da bebedeira e da 
jogatina, também combateu o protestantismo. Os comentários sobre a população é uma evidência de 
que a maioria das pessoas visitadas não estavam seguindo os ensinamentos da Igreja Católica como o 
missionário desejava. 
Nesse sentido, as práticas e as prédicas serviam de “estratégias” utilizadas pelos 
missionários para evangelizar as localidades mais distantes da Igreja Católica, principalmente, no 
combate ao protestantismo. Mas, nessa tessitura em que se cruzavam os sujeitos, havia, como afirmou 
Roger Chartier, um espaço entre a norma e o vivido, por isso, esses homens, em contato com a 
população, viviam na prática diversas experiências que ultrapassavam essas “estratégias”. Nas suas 
andanças o missionário participava cotidianamente do universo cultural da população visitada; em 
contrapartida, as pessoas também aprendiam com os capuchinhos. Embora os capuchinhos desejassem 
que as pessoas seguissem todos os seus ensinamentos, na prática, os sujeitos, assim como afirmou 
Michel de Certeau, não são meros consumidores passivos e agem selecionando e fazendo novas 
combinações. Partindo do princípio atribuído por Chartier de que toda recepção também inventa e 
distorce, compreendemos que os participantes das missões usaram da adaptação e da invenção no seu 
dia-a-dia de necessidades “apropriando-se” das missões itinerantes de “mil outras maneiras”. 
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São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 124

Anais Eletrônicos do IV Colóquio do GPCIR-UFS 2014

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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Anais Eletrônicos - N⁰ 01-2014. ISSN: São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 1
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Anais Eletrônicos – 2014 Título: Anais Eletrônicos – IV Colóquio do GPCIR: “Outros – Biografia e sujeitos históricos” ISSN: Organizadores: Antonio Lindvaldo Sousa (Coordenação Geral) Claudefranklin Monteiro Santos (Coordenação Adjunto) Ane Luíse Silva Mecenas (UNISINOS/ UNIT/ membro do GPCIR) Magno Francisco de Jesus Santos (UFF/ Faculdade Pio X/ membro do GPCIR) Vladimir José Dantas (Faculdade Pio X/membro do GPCIR) Thiago Fragata (Museu Histórico de Sergipe/ membro do GPCIR) Aquilino José de Brito Neto (UFS/ membro do GPCIR) Andreza Silva Mattos (UFS/ membro do GPCIR) Leonardo Matos Feitoza (UFS/ membro do GPCIR) Priscilla Araujo Guarino Silveira (UFS/ membro do GPCIR) André Sá (membro do GPCIR) Eduardo Augusto Santos Silva (UFS/ membro do GPCIR) Josineide Luciano Almeida Santos (membro do GPCIR) Rosana Oliveira Silva (membro do GPCIR) Tamires dos Anjos Oliveira (membro do GPCIR) Raquel de Fátima Parmegiani (UFAL) Monica Liz Miranda (UFVJM) Severino Vicente da Silva (UFPE) Edição: 1 Ano da Edição: 2014 Local de Edição: São Cristóvão-SE São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 2
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Tipo de Suporte: Internet Editora: UFS Organização dos Anais Eletrônicos: Antônio Lindvaldo Sousa Andreza Silva Mattos Claudefranklin Monteiro Santos Priscilla Araujo Guarino Silveira Revisão: Andreza Silva Mattos Leonardo Matos Feitoza Diagramação: Andreza Silva Mattos Eduardo Augusto Santos Silva Capa: Eduardo Augusto Santos Silva Arte-finalização: Andreza Silva Mattos Priscilla Araujo Guarino Silveira Monitores Jandison Moura da Silva Jessica Messias dos Santos Denilza Viana de Almeida Victor Menezes Galdino Silva Mislene Batista Santos Barbara Barbosa dos Santos Nerita Carvalho Figueredo Ernânia Santana Santos São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 3
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS REALIZAÇÃO Grupo de Pesquisa Culturas, Identidades e Religiosidades (GPCIR/DHI/Cnpq/UFS) APOIO Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários (PROEX/UFS) Programa de Pós-Graduação em História (PROHIS/UFS) Departamento de História (DHI/UFS) Museu Palácio Olímpio Campos Museu Histórico de Sergipe São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 4
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA CENTRAL UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA CENTRAL UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE C719a Colóquio do Grupo de Pesquisa Culturas, Identidade e Religiosidades (4 : 2014, : São Cristóvão, SE) Anais eletrônicos [recurso eletrônico] / IV Colóquio do GPCIR : outros – biografias e sujeitos históricos : 09 a 12 de abril de 2014, São Cristóvão, SE ; organizadores: Antonio Lindvaldo Sousa ... [et al.]. – São Cristóvão : Universidade Federal de Sergipe, Grupo de Pesquisa Culturas, Identidades e Religiosidades : Editora UFS, 2014. 123 p. il. Disponível em: <http://coloquiogpcir2014.blogspot.com.br/> ISSN 1. História – Fontes. 2. Sergipe – História. 3. Sergipe – Historiografia. 4. Biografia. Universidade Federal de Sergipe. II. Sousa, Antonio Lindvaldo. II. Título. CDU 93/94 São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 5
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS SUMÁRIO I - APRESENTAÇÃO 08 II - PROGRAMAÇÃO 09 III – SIMPÓSIOS TEMÁTICOS LIVRES: RESUMOS E TEXTOS 12 COMPLETOS 01. Teias de “falsos enganos”: artifícios de soldados mamelucos pela mão de obra indígena no sertão da Bahia colonial (1584-1592) Andreza Silva Mattos 13 02. A Disputa de Limites entre Sergipe e Bahia pela Região de Paripiranga/BA (1904-1914) Antunes Santana Reis 14 03. O Indivíduo na Historiografia: Antônio Alves no desenvolvimento da Atalaia Velha através da memória Aquilino José de Brito Neto 23 04. "Os engenhos, a dama e o Perfume”: Um Cabaré na sociedade açucareira (1950- 1970) Barbara Barbosa dos Santos 25 05. “História Cruzada” – Orlando Dantas entre a Usina e a Imprensa Carla Darlem Silva dos Reis 26 06. Nos Trilhos de Deus: Aconselhar os Fiéis e Corrigir Práticas Oficiosas - As Representações do Missionário Frei Damião de Bozzano em Bomquim/SE (1972- 1974) Degenal de Jesus Da Silva e Maria Edeilde de Jesus Santos 27 07. “Uma capital em processo de secularização”: Aracaju às vésperas do Concílio Vaticano II Eduardo Augusto Santos Silva 41 08. A Oposição dos Cristãos Novos na Sociedade Açucareira na Primeira Visitação do Santo Ofício à América Portuguesa Ernania Santana Santos 42 09. Simão Dias: De um vaqueiro a uma cidade. O ciclo do couro e as origens do município de Simão Dias no século XVI e XVII Jessica Messias dos Santos 51 10. Compreensão do Desenvolver da Pesquisa Sobre os Escravos em São Cristóvão José Daniel Rito dos Santos e Ane Luise Silva Mecenas 57 11. Flagrando a Vida: trajetória da vida intelectual e profissional da Professora Lígia Pina José Genivaldo Martires 58 12. O “tempo da fábrica” em São Cristóvão: apontamentos da pesquisa José Thiago da Silva Filho 67 13. “História e Memória: Casa da Fazenda Iolanda, um Patrimônio em Agonia” Josineide Luciano Almeida Santos 77 São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 6
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 14. “Pós Abolição da Escravatura em Sergipe e as Memórias de Rosalvo Vieira dos Santos” Kéfus Ibrahim Santana Cardoso 78 15. Um Pássaro fora do Ninho: Tentativa de debate historiográfico em torno da passagem de Inglês de Sousa pela Província de Sergipe Leonardo Matos Feitoza 79 16. História Comparada: A escravidão no Nordeste Colonial brasileiro segundo o livro didático de História do Ensino Fundamental Liliane Vieira Nunes 80 17. O elo Genético: Análise das Anomalias de Desenvolvimento e dos pontos epigenéticos em esqueletos Humanos Pré-históricos e a Possível Relação de Parentesco Madson de Souza Fontes e Olívia Alexandre de Carvalho 81 18. Representação do Negro na Ótica do Clero Colonizador Manoel Ribeiro Andrade 89 19. “Peregrinação ao derredor de mim mesmo”: A construção de uma memória pessoal por Luís da Câmara Cascudo Raquel Silva Maciel 97 20. Epifânio Dória e a República das Letras em Sergipe Ronaldo José Ferreira Alves Santos 106 21. A trajetória do missionário Capuchinho João Evangelista Monte Marciano (1843- 1921) Tatiane Oliveira da Cunha 116 São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 7
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS APRESENTAÇÃO Este evento é realizado pelo Grupo de Pesquisa Culturas, Identidades e Religiosidades, lotado no departamento de História da UFS, sendo realizado de dois em dois anos. A temática de 2014 é “sujeitos e história” e terá como título “OUTROS: Biografia e sujeitos na História”. Sua programação está totalmente voltada para debater as atitudes dos sujeitos na história de Sergipe e em outras localidades do Brasil. Estarão presentes pesquisadores de várias localidades do nosso imenso país. Realizamos o mesmo como parte das discussões teóricas vinculadas ao projeto de extensão: “MASSAPÊ: memórias, engenhos e comunidades da microrregião da Cotinguiba em Sergipe” e do projeto Imprensa Cristã, denominado “Escrevendo em nome da fé e diante das vicissitudes históricas...”: Imprensa cristã e artigos de cristãos nos jornais laicos sergipanos. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 8
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Programação Dia 21/05 - (Quarta) Manhã - Minicursos (8h às 12h) Tarde - Credenciamento (a partir das 17 horas). - Local: Museu Palácio Olímpio Campos (Centro - Aracaju-SE). Noite - 18 horas - Conferência de Abertura – Sujeitos e biografia: notas teórico-metodológicas - Conferencista: Prof. Dr. Angelo Adriano Faria de Assis (Universidade de Viçosa) - Relançamento do livro “O Pulso de Clio” (Org.: Antônio Lindvaldo Sousa). - Atividade Cultural. - Local: Museu Palácio Olímpio Campos (Centro - Aracaju-SE). Dia 22/05 - (Quinta) Manhã - Minicursos (8h às 12h) Tarde - Sessão de Comunicações (14h às 18h) Noite - 19 horas - Mesa Redonda 1: Os Outros e as Releituras dos Outros. - Prof. Dr. Jérri Roberto Marin (UFMS). - Prof. Dr. José Paulino da Silva (UFS). - Prof ª. Msc.Tatiane de Oliveira Cunha (GPCIR). - Prof ª. Msc. Ane Luíse Silva Mecenas (UNIT) – Coordenação. - Lançamento do livro “100 Poemas para uma Pessoa Só” (Diego Vinícius). - Atividade Cultural. Local: Auditório da Didática V São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 9
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Dia 23/05 - (Sexta) Manhã - Minicursos (8h às 12h) Tarde - 14 horas - Mesa Redonda 2: Os sujeitos e a pesquisa na pós-graduação (Mestrandos PROHIS-UFS) 1º CICLO – Sujeitos, memórias e história oral. - Aquilino José de Brito Neto - Carla Darlem Reis - Priscilla Araújo Guarino Silveira 2º CICLO – Sujeitos, outros e conflitos. - Andreza Silva Mattos - Josevânia Souza de Jesus Fonseca - Leonardo Matos Feitoza Local: Auditório da Didática VI - Atividade Cultural. Noite 19 horas - Mesa Redonda 3: A Igreja e os Outros. - Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (UFS). - Prof. Msc. Magno Francisco de Jesus Santos (PIO X) - Prof. Msc. Robson Dias de Assis (UFS) - Prof. Esp. Thiago Fragata (MHS) – Coordenação. - Lançamento de livro “Temas de História e Educação Católica em Sergipe” (Org.: Raylane Navarro e Claudefranklin Monteiro). - Atividade Cultural. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 10
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Local: Auditório da Didática V Dia 24/05 - (Sábado) - 9 horas - Mesa Redonda 4: A Imprensa Cristã e os Outros. - Prof. Dr. Antonio Lindvaldo Sousa (UFS). - Profª. Msc. Verônica Maria Menezes Nunes (UFS). - Prof. Dr. Uziel (UFS). - Prof. Eduardo Augusto Santos Silva (GPCIR/UFS). - Profª. Priscilla Araujo Guarino Silveira (GPCIR/UFS). - Coordenação: Profª. Maria Sônia Santos Carvalho. - Atividade Cultural. - Local: Museu Histórico de Sergipe (São Cristóvão-SE) São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 11
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 01. TEIAS DE “FALSOS ENGANOS”: ARTIFÍCIOS DE SOLDADOS MAMELUCOS PELA MÃO DE OBRA INDÍGENA NO SERTÃO DA BAHIA COLONIAL (1584-1592) Andreza Silva Mattos Resumo: Com o crescimento da produção açucareira no Recôncavo baiano, na década de 1580, os engenhos passaram a intensificar o uso da mão de obra indígena. E para tal, expedições foram enviadas ao sertão da Bahia colonial com o objetivo de “descer os gentios” para os engenhos. Entre essas expedições, destacamos a liderada por Gonçalo Álvares – homem experiente que também lutou com o Governador Luíz de Brito, em 1575, contra as aldeias de Aperipê e Surubi, no sertão do rio Real. Na expedição de Gonçalo Álvares, estava Simão Roiz – sujeito que guiará as nuances dessa pesquisa, apresentando-nos a outros soldados com os quais compartilhou relações sócioculturais. Nossas ponderações serão norteadas por Nobert Elias por meio do qual iremos compreender a rede de sociabilidades de Simão Roiz a fim de que possamos refletir acerca dos artifícios utilizados pelos soldados mamelucos para denegrir a imagem dos jesuítas e, com isso, obterem a confiança dos gentios nos sertões por onde andaram. Serão as fontes inquisitoriais, oriundas da Primeira Visitação do Santo Ofício à Bahia, em 1591, que nos permitirão alcançar a inteligibilidade desse espaço múltiplo que foi o sertão colonial. Palavras-chave: Soldados mamelucos. Gentios. Sertão Colonial. Jesuítas. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 13
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 02. A DISPUTA DE LIMITES ENTRE SERGIPE E BAHIA PELA REGIÃO DE PARIPIRANGA/BA (1904-1914) Antunes Santana Reis Resumo: O presente trabalho aborda a discussão de limites entre os Estados de Sergipe e Bahia em relação à Cidade de Patrocínio do Coité (atual Paripiranga/BA). Por isso, tem como objetivo analisar os conflitos e confrontos entre sergipanos e baianos criados em torno da Obra Sergipe e Bahia (Questão de Limites) escrita pelo sergipano Padre João de Mattos Freire de Carvalho (1826-1946). Esse defendeu que a Cidade baiana de Patrocínio do Coité, onde atuava como pároco, deveria ser anexado a Sergipe. Apoiamo-nos nas reflexões Edward Thompson na defesa que os sujeitos históricos devem ser entendidos a partir de suas experiências culturais, onde os conflitos e confrontos em que se envolvem corroboram na formação de uma identidade que levam os sujeitos a defenderem seu grupo e tomar consciência de seu papel no mesmo. Palavras-chave: João de Mattos. Sergipe; Bahia; Limites. A discussão de limites entre os Estados de Sergipe e Bahia foi levantada por Felisbelo Freire, no último capítulo de sua obra História de Sergipe, e levada a Câmara Federal dos Deputados em 1891. Mas foi a partir de 1904 que essa temática ganhou maior importância entre os intelectuais sergipanos. Foi nesse ano que o Governador desse Estado, Josino Menezes, com o discurso pronunciado a Assembleia Legislativa, convocou toda a elite política e intelectual sergipana a defender os limites históricos do Estado com a Bahia, sobretudo na região Ocidental, com o objetivo de tornar novamente sergipana a região de Patrocínio do Coité (Atual Paripiranga-BA). Essa temática perpassou vários setores da sociedade sergipana, com o engajamento de intelectuais como professores, advogados e jornalistas. Brandão (1973) em a “Introdução ao estudo da Historiografia Sergipana” coloca que o Governo do Estado entregou a defesa dos seus limites a intelectuais que levantaram documentação e produziram várias obras São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 14
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS historiográficas. Dentre essas, está a Obra Sergipe e Bahia (Questão de Limites) escrita por João de Mattos Freire de Carvalho. Esse Padre e intelectual sergipano nasceu em Simão Dias – SE, e pertencia a uma das famílias mais ricas dessa região, por isso pode desenvolver seus estudos no Colégio Pio Latino Americano e na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, tornando-se Padre e doutor em direito canônico. Sua vida foi marcada pela atuação como pároco por 47 anos na Cidade de Patrocínio do Coité, atual Paripiranga-Ba. Sua ObraSergipe e Bahia (Questão de Limites) desencadeou conflitos e confrontos em relação a temática de limites entre Sergipe e Bahia devido sua proposta de anexar ao Estado de Sergipe a região de Patrocínio do Coité. Por isso limitamos nossa pesquisa ao recorte temporal que vai de 1904, quando ele já espalhava por Patrocínio do Coité sua defesa, até 1915 quando comissões dos dois Estados firmaram acordo de limites ao visitarem a região em litígio. O presente artigo vem analisar a discussão de limites entre os Estados de Sergipe e Bahia proposta por Mattos, no qual observamos o apoio que este recebeu por parte dos sergipanos para entendermos os conflitos e confrontos travados entre sergipanos e baianos. É importante ressaltar que não pretendemos abranger a discussão entre todos os estudiosos envolvidos nessa temática de limites geográficos, mas, sim,nos limitaremos ao período em que Mattosparticipou da discussão e das negociações políticas pela região de Patrocínio do Coité. Para entendermos os conflitos e confrontos gerados em torno dessa discussão, recorremos a Edward Thompson, o qual nos mostra que os sujeitos históricos devem ser entendidos a partir de suas “experiências culturais”, o seu fazer social. Os conflitos corroboram na formação de uma identidade cultural, que levam os sujeitos a defenderem seu grupo e tomar consciência de seu papel no mesmo. No apêndice da Obra de Mattos podemos perceber o repúdio e a reação baiana em relação a sua defesa de transferir o termo de Patrocínio do Coité para Sergipe. Antes mesmo de publicar seu trabalho, Mattos distribuiu entre seus paroquianos, um folheto intitulado: “Limites- Aos habitantes de Patrocínio do Coité”. Vejamos algumas considerações: É tempo já de nos levantarmos do atrazo e da decadência em que jazemos. O ukasebahiano de 1871, deu-nos uma existência civil, que longe de augmentar, vai São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 15
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS cada vez mais se enlanguecendo com pronunciada rapidez. Em logar de termos na Bahia uma mãe pátria desvellada, que nos ampare no nosso crescimento, prodigalisando-nos elementos e meios de desenvolvimento e vigor ao nosso organismo social, que encaminhe os nossos primeiros passos na trilha do progresso e da civilisação, e nos alente e nos proteja com seus recursos e cuidados, a nossa sorte tem-nos arrastado ao desamor a Bahia. (MATTOS, 1905, p. 61-62) Percebemos que Mattos tenta convencer os seus paroquianos a se voltarem contra a Bahia. Para isso, ele relata o abandono do governo baiano em relação a essa região, e comenta como o Coité se desenvolveria bem mais rápido se pertencesse a Sergipe. Embora ele encontrasse alguns adeptos entre os coiteenses, o repúdio as suas idéias foi imediato, partindo principalmente da elite política. Liderados pelo intendente do Coité, Joaquim de Mattos Carregosa, escreveram ao Governador do Estado da Bahia expressando o desacordo as idéias de Mattos e pedindo que sua posição se tornasse pública. Vejamos um trecho do artigo publicado no Jornal Diário da Bahia em 20 de novembro de 1904: O povo desta Villa legitimamente representado pelo seu intendente e camara municipal vem perante v. ex. protestar contra a publicação de um folheto que junto envia a v. ex., sob o título Limites – Aos habitantes do Coité – no qual algum sergipano abusando de nossa confiança, emitiu conceitos e opiniões favoráveis a antiga idéia da passagem ou anexação deste município à Sergipe como pretendem os habitantes daquele Estado. (Diário da Bahia, 1904) Vemos que as autoridades do Coité não pouparam críticas à posição de Mattos, colocando este como um sergipano que abusava da confiança recebida nas terras baianas. Porém, Mattos revidou tais opiniões e ao final de seu livroe critica os coiteenses argumentando quais motivos existentes para se orgulharem de serem baianos, e que a justiça se encarregaria de devolver a Sergipe o que era seu de direito e, por fim, escreve: E si somos todos amigos e irmãos debaixo do mesmo teto – a bellaPatria Brasileira, continuando o Coité a occuparo mesmo recanto dessacaza pátria em que está nem eu nem Sergipe nos enojaremos por isso; assim como sendo mudado para Sergipe, então é que terá a honra e os cômodos do filho pródigo ao reentrar no lar paterno e seus habitantes terão satisfação de encontrar aquella paz e felicidade, aquele desvello e adeantamento que nunca lhes há de chegar da madrasta e longiqua Bahia. (MATTOS, 1905, p. 68). Mesmo com todo seu esforço na elaboração de seu livro no intuito de conseguir a mudança do termo de Patrocínio do Coité para o Estado de Sergipe, Mattos não conseguiu o apoio necessário entre os baianos para que isso pudesse acontecer. Porém, a São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 16
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS partir de 1912, com a fundação do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, do qual Mattos foi sócio- correspondente, novas obras e conflitos surgiram em torno dos limites de Sergipe com a Bahia envolvendo a disputa pela região do Coité. Sergipe ganhava força pela união de seus intelectuais junto ao Governador do Estado José Siqueira de Menezes pela defesa de seus limites, e parecia que finalmente resolveria essa questão centenária. O Governo baiano, em resposta as movimentações sergipanas, e preocupado com a conservação de seu território, convocou, em 1912, o historiador e geógrafo Dr. Braz do Amaral para pesquisar em arquivos portugueses e nacionais documentos que pudessem esclarecer seus limites em relação aos Estados vizinhos. Essa pesquisa auxiliou os baianos na negociação de seus limites com os sergipanos. Em 1913 a discussão de limites entre os Estados de Sergipe e Bahia chegou pelasegunda vez a Câmara de deputados da República. O Deputado Federal Moreira Guimarães apresentou um Projeto de Lei em 13 de novembro de 1913, no qual pedia a revisão dos limites do Estado em relação à Bahia. Firmou-se então um acordo entre os governos dos dois Estados em que ambos criariam comissões para definição desses limites. Enquanto nada era resolvido se estendia pela região de Patrocínio do Coité, boatos e temores de invasão sergipana a mão-armada nessas áreas, como relata o trecho do telegrama enviado pelo governador da Bahia ao Presidente de Sergipe em 21 de outubro de 1913: Exmo. General Presidente Sergipe – Aracajú – Auctoridades jurídicas e policiaes, assim como agentes do Thesouro em Patrocínio do Coité, comunicam-me alarmantes notícias da próxima invasão do território deste Estado por forças de polícia de Sergipe. Compreende V. Ex. a gravidade de taes boatos para a população tão distantes de sua capital. (SEABRA Apud AMARAL, 1916, p. 72). O medo de confrontos armados era diário nessa região em litígio. Em resposta ao telegrama enviado pelo governador da Bahia, o Governador José de Siqueira Menezes garantiu que os sergipanos iriam conquistar a sua área de direito por meio da diplomacia e decisão do Governo Federal. Essa promessa, porém, não foi cumprida pelos sergipanos. Esses ocuparam áreas baianas no município de Patrocínio do Coité, nomeando professores e autoridade policial. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 17
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Diante desses conflitos Mattos continuou ao lado de seu Sergipe, como relata o Agente Fiscal do Norte da Bahia, Julio de Lima Valverde em 4 de novembro de 1913, em um telegrama ao Governador do Estado: [...] Ainda tenho a informar-vos que diversas pessoas conceituadas do Coité me comunicaram ter o Vigário da Freguezia, João de Mattos, em uma de suas domingas do mez de outubro p. findo, na ocasião da missa conventual, feito uma prática ao povo aconselhando que não temessem uma grande força vindo de Sergipe, pois esta não vinha fazer barulho e sim tomar Coité que pertencia a Sergipe [...] (VALVERDE Apud AMARAL, 1916, p. 79-80) Mesmo sofrendo críticas em sua Paróquia por concordar que o Coité deveria pertencer a Sergipe, Mattos se envolveu novamente nessa questão. Porém, percebemos em nossa pesquisa a ausência de outros documentos que demonstrem o seu envolvimento nessa fase de conflitos. As discussões sobre os limites de Sergipe com a Bahia em relação a Patrocínio do Coité ganharam ainda mais força após a Conferência realizada pelo baiano Dr. Braz do Amaral no IHGSE. Amaral apresentou documentos defendendo a posse da Bahia sobre o Coité e outras áreas em litígio. A reação contrária aos seus argumentos foi imediata por parte dos intelectuais e políticos sergipanos como escreveu Prado Sampaio: Ao nosso ver, não obstante, falta de documentos remotos, o direito de Sergipe continua incontestável sobre a zona litigiosa mesmo em face do uti possidetis que milita em nosso favor há mais de trinta anos em relação á antiga Malhada Vermelha. (SAMPAIO, 1914, p. 78) Para os sergipanos os documentos apresentados por Braz do Amaral não garantiam a posse de Patrocínio do Coité a Bahia. Os documentos reunidos pelos sergipanos tinham datas mais antigas, mas foi ignorado por Braz. Este ao voltar a Salvador divulgava na imprensa que a questão estava resolvida, pois os sergipanos não possuíam documentos ao seu favor. Em resposta a essas afirmações de Braz escreveu o prefeito de Anápolis (Simão Dias), Raphael Montalvão: Também não andou bem avisado o Sr. Braz do Amaral dizendo que não possuímos documentos que firmem os nossos direitos; sendo que, como refutação basta recomendar a leitura da História de Sergipe de Felisbelo Freire e a obra do Doutor Padre João de Mattos intitulada Sergipe e Bahia (Questão de Limites). (MONTALVÃO, 1914, p 126.) São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 18
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Como podemos ver, embora Mattos não esteja atuando diretamente nesses conflitos, sua obra é referência na argumentação sergipana na defesa de seus limites. De ambos os lados não se aceitavam o que o outro pesquisava. Esses conflitos eram sustentados pela defesa da identidade de cada Estado. Tantos os intelectuais baianos como os sergipanos mergulhados na identidade de cadaEstado emitiam opiniões a seu próprio favor. As negociações continuaram até o ano de 1915 quando o Governador do Estado da Bahia enviou o Dr. Braz do Amaral novamente a Sergipe para que junto com as autoridades baianas visitassem as áreas em litígio e assim entrassem em um acordo para resolver a questão. E assim visitaram a região de Anápolis (Simão Dias) e Patrocínio do Coité (Paripiranga) percorrendo suas áreas limítrofes, juntamente com os intendentes das duas Cidades. Porém, os avanços não foram significativos para Sergipe, pois, as áreas visitadas já estavam a um bom tempo sob o domínio da Bahia. Amaral tinha na defesa de seus argumentos, documentos como da solicitação de uma escola por parte dos coiteenses ao Governo da Bahia em 1869, além de comprovantes de pagamentos de impostos dessa população a Bahia. Os sergipanos defenderam os seus limites históricos em favor deumaidentidade. Do ponto de vista de Amaral os coiteenses estiveram a favor dos interesses baianos por que também já tinham constituído sua identidade baiana e demonstrava sua opção de alinhamento a Bahia. Uma das fontes dessa argumentação é o telegrama enviado ao Governador J. J. Seabra em 1º de fevereiro de 1915 após passar pelo Coité: Visitei o Coité no dia 26 e recebi naquellebello e ridente torrão bahiano demonstrações de consideração e respeito tão grandes como se fosse V. Ex. mesmo que lá tivesse ido abraçar os nossos patrícios. Aos habitantes do Coité e aos seus magistrados prometi, em nome de V, Ex; toda a segurança de que serão respeitados as leias que garantem o nosso direito. (AMARAL, 1916, p. 133) Assim como negaram apoio ao desejo de Mattos em mudar o termo de Patrocínio do Coité para o Estado de Sergipe, os Coiteenses possivelmente continuaram firmes nesse desejo durante a negociação entre os dois Estados. A experiência dessa população vivendo como baianos, mesmo que muitas vezes desamparados em suas necessidades pelo governo, fizeram com que continuassem firmes no propósito de pertencerem ao solo baiano, conforme se ler na discussão da intelectualidade baiana. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 19
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS A imprensa baiana aponta que a população do Coité criou grande admiração por Braz do Amaral, por esse ter defendido os seus interesses, como demonstra, por exemplo, o Jornal O Paladino muitos anos após a discussão de limites, ao defendê-lo de críticas políticas noticiadas em um jornal de Salvador: O nome do dr. Braz do Amaral não é um parvenu, de um adventício nesta zona. Para que alguns dos municípios desta região permanecessem bahianos e outros não sofressem mutilação, bem sabemos ao que se expoz o eminente homem público, as agruras Moraes que curtiu. Felizmente, não só este município como em muitos outros, as populações sabem que juízo formular tangente à actualmente campanha. (Jornal o Paladino, 28 de maio de 1922) O Jornal Paripiranguense demonstra a sua gratidão e admiração pelo Deputado Braz do Amaral em razão da defesa desse na conservação do município como parte do Estado da Bahia. Com isso percebemos mais uma vez o quanto a população coiteense esteve sempre firme ao desejo de continuar pertencendo a esse Estado. CONSIDERAÇÕES FINAIS Através dos documentos analisados conhecemos os conflitos e confrontos travados entre sergipanos e baianos pela região de Patrocínio do Coité, sobretudo, compreendemos que esses foram sustentados em defesa das experiências culturais dos que estavam envolvidos. Percebemos o quanto a obra de João de Mattos desencadeou essa discussão, esse escreveuem apoio ao grupo político e intelectualde Sergipe a qual fazia parte. E assim,entre os sergipanos Mattos ganhou forte apoio na sua defesa de transferir Patrocínio do Coité para o Estado de Sergipe. Porém o mesmo não aconteceu entre os baianos. Através dos documentos analisados percebemos o quanto a elite intelectual e política baiana criticaram essa idéia e lutaram pela conservação de seu território. Portanto, foram tão comuns os conflitos e confrontos entre sergipanos e baianos nas áreas de litígio, como em Patrocínio do Coité, onde se temia invasões violentas. Com base na análise de documentos baianos presentes na Obra Limites da Bahia de Braz do Amaral, percebemos o quanto a Bahia se mobilizou nas negociações com Sergipe para não perder a região de Patrocínio do Coité. Além disso, podemos observar como os jornais dessa região São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 20
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS expressavam o desejo da população em pertencer a esse Estado, mesmo estando tão distantes da capital e muitas vezes desamparados pelo Governo. Os intelectuais e políticos se mobilizaram na defesa de seus próprios Estados, seja diretamente nas negociações, na pesquisa de documentos históricos e na produção de livros sobre o tema em discussão. Ambos, imersos em sua experiência cultural, estavam em torno de sua identidade, defendendo os interesses de seu Estado, é nessa condição de identidade que se pode explicar a persistência nessa discussão, pois foi em torno de suas experiências culturais e vicissitudes históricas que ambos, defenderam os seus interesses. REFERÊNCIAS FONTES ABREU, Francisco de Paula; AMARAL, Braz do. Jornal O Paladino. Patrocínio do Coité, 28 de maio de 1922, Ano IV. N. 26. p. 2. AMARAL, Braz do. Limites do Estado da Bahia. Salvador: Imprensa oficial do Estado, 1916. CARVALHO, João de Mattos Freire de. Sergipe e Bahia (Questão de Limites). Aracaju, Empresa D` “O Estado de Sergipe”. 1905. FREIRE, Felisbelo de Oliveira. História de Sergipe. Aracaju: Editora Voz, 1977. 2. edição. GUIMARÃES, Moreira. Discurso pronunciado sobre os limites de Sergipe, na sessão de 13 de novembro de 1913, na câmara federal. In__ Revista do IHGSE nº 2,vol. I, Ano 1913. p. 95-105. MENEZES, Josino. Limites entre os Estados de Sergipe e Bahia (discurso apresentado a Assembléia Legislativa do Estado de Sergipe). Aracaju: Empresa D` “O Estado de Sergipe”, 1904. MONTALVÃO, Raphael. Bahia – Sergipe: A questão de limites. In__ Revista do IHGSE nº 4,Fascículo II - vol. II, Ano 1914. p. 116-127. SAMPAIO, Prado. Questão de Limites: Bahia – Sergipe. In__ Revista do IHGSE nº 3, Fascículo I -vol. II, Ano 1914 116. p. 77-78. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 21
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS PRADO, Ivo do. A Capitania de Sergipe e suas Ouvidorias. Rio de Janeiro: Papelaria Brasil, 1919. BIBLIOGRAFIA BRANDÃO, José Calasans da Silva. Introdução ao estudo da Historiografia Sergipana. Trabalho apresentado ao V Simpósio de História do nordeste, Aracaju: agosto de 1973. SOUSA, Antônio Lindvaldo. Temas Para História de Sergipe II. São Cristóvão, CESAD, 2010. THOMPSON, Edward P. A Formação da Classe Operária. Vol. 1. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1987. p. 9-14. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 22
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 03. O INDIVÍDUO NA HISTORIOGRAFIA: ANTÔNIO ALVES NO DESENVOLVIMENTO DA ATALAIA VELHA ATRAVÉS DA MEMÓRIA Aquilino José de Brito Neto Resumo: A Atalaia-velha é um bairro de Aracaju, Estado de Sergipe, conhecido principalmente pela sua praia. Era uma antiga colônia de pescadores e já pertenceu como povoado ao município de São Cristovão, tendo um acesso por terra para Aracaju bastante difícil, principalmente pela falta de pontes e estradas que ligassem um ao outro. O tempo seguia num ritmo lento, comparado ao atual, num ambiente pacato e ao som das marulhas. A pesca e o roçado eram as principais formas de subsistência dos moradores da Atalaia. Entre os meses de dezembro a fevereiro, tornava-se o local preferido de muitas famílias sergipanas, que iam desfrutar do verão no banho de mar mais agradável da cidade. Um pouco das lembranças que ainda se mantêm frescas em algumas pessoas que viveram em tal época neste lugar e que nunca perderam seus laços de afetividade com o mesmo, embora diversas transformações urbanas tenham descaracterizado o “cenário” compreendido entre as cinco primeiras décadas do século 20. Diante disso, propomos estudar as memórias de cinco indivíduos acerca do bairro Atalaia-velha em Aracaju, percebendo o significado que o mesmo possuiu na formação da identidade dessas pessoas. Para Pollack (1992), “a memória é um elemento constituinte do sentimento de identidade”. Dessa forma, nos comprometemos a analisar o desenvolvimento do bairro através desses habitantes, percebendo como um pequeno lugarejo foi se ampliando, e ao mesmo tempo, como muitas das tradições culturais ali desenvolvidas foram paulatinamente reduzidas e atualmente, lembradas por poucos. Podemos observar também, nesta localidade através das memórias daqueles que viveram e conviveram num passado diferente do atual momento, seu cotidiano, seus costumes São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 23
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS e sua cultura. Para Lefebvre (1991), “é na vida cotidiana que acontecem as verdadeiras criações, as ideias, os valores, os costumes”. Como “fio condutor” da nossa narrativa, inserimos um indivíduo da historiografia sergipana muito pouco conhecido, mas fundamental para compreendermos a localidade, já que ele foi um dos precursores e fundadores do antigo povoado Barreta, atualmente Atalaia Velha. Seu nome era Antônio Alves dos Santos, um homem que ainda vive nas memórias dos antigos moradores da região. Portanto, a História Oral será a constituição metodológica para o desenvolvimento desse trabalho. Palavras-chave: Memória, Atalaia-velha, Antônio Alves dos Santos, cotidiano. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 24
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 04. "OS ENGENHOS, A DAMA E O PERFUME”: UM CABARÉ NA SOCIEDADE AÇUCAREIRA (1950-1970) Barbara Barbosa dos Santos Resumo: Este trabalho esta sendo desenvolvido a partir de pesquisas do Projeto Massapê (PIBIX/UFS 2014) que tem como objetivo o resgate de memórias de trabalhadores dos engenhos localizados na microrregião da cotinguiba, através de pesquisas em arquivos e jornais, como também entrevistas de história oral com pessoas que trabalharam ou são filhos e netos de trabalhadores de engenhos portanto herdeiras desse passado. Entre várias entrevistas realizadas por membros do projeto se destaca a de Maria Hora, uma senhora de 80 anos que para além da vida de trabalhadora braçal dos engenhos Caraíbas, Pedras e Vassouras, ela nos revela a sua dupla jornada. Quando solta o facão do corte da cana, Maria lança mão de seus perfumes e arranjos e segue para o seu segundo emprego no cabaré da cidade. A partir dessa dupla jornada de dona Maria Hora podemos identificar a vida noturna da sociedade açucareira na cidade supracitada como também os vários meios que uma mulher negra, órfã vai encontrar para sobreviver num sociedade pos- abolição da escravatura. Palavras-chaves: Engenhos, Mulher, Cabaré , Rosário do Catete. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 25
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 05. “HISTÓRIA CRUZADA” – ORLANDO DANTAS ENTRE A USINA E A IMPRENSA Carla Darlem Silva dos Reis Resumo: Filho de um usineiro e político, Manoel Côrrea Dantas, Orlando Dantas nasceu na cidade de Capela, em Sergipe, no ano de 1900. Durante a adolescência desgarrou-se dos latifúndios de seu pai para buscar o conhecimento na Universidade de Pernambuco. Inicialmente optou por Engenharia, mas logo desistiu, pois o seu instinto em conhecer e compreender a sociedade o fez trilhar o caminho da Sociologia. Ao retornar para Sergipe funda o jornal Gazeta Socialista, que ia de encontro com as suas origens, pois no reduto jornalístico pregava a reforma agrária e as mudanças sociais para as classes mais baixas. Essa comunicação pretende discutir a contraditória trajetória de Orlando Dantas, para isso, foram utilizados depoimentos de parentes, como Paulo Brandão e de ex-jornalistas que conviveram com ele, a exemplo de Luiz Antonio Barreto. Além disso, os editoriais assinados por “Seu Orlando”, do Jornal Gazeta Socialista que em 1953 passou a ser chamado de Gazeta de Sergipe, também nos fornecem vasto material para analisar quem foi Orlando Dantas. Palavras-chave: Imprensa – Biografia – Sergipe – Política. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 26
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 06. NOS TRILHOS DE DEUS: ACONSELHAR OS FIÉIS E CORRIGIR PRÁTICAS OFICIOSAS - AS REPRESENTAÇÕES DO MISSIONÁRIO FREI DAMIÃO DE BOZZANO EM BOQUIM/SE (1972-1974) Degenal de Jesus da Silva1 Maria Edeilde de Jesus Santos2 Resumo A memória, mecanismo seletivo, lugar em que fica guardadas os acontecimentos que mais importam ou que marcam a vida das pessoas. celeiro em que se misturam o que queremos guardar com as lembranças que queremos esquecer. O artigo descreve à vida e representações de um missionário - Frei Damião de Bozzano - que passou por Boquim no Estado de Sergipe nos idos do segundo semestre entre os anos de 1972 e 1974. "Padim Ciço Romão", como alguns o chamavam, empreendeu a divulgar às Santas Missões pelo nordeste. Lugar propício, afinal, berço de um povo sofredor que enxergar na religiosidade à ajuda que tanto almejavam. Através de fontes orais construímos um pedaço daquele cosmo, imperfeito admitamos, mas as vozes estão aí, desejosas por mostrar o seu lado da história. Palavras-chave: Catolicismo, Religiosidade, Representações, Santas Missões. Indivíduos que destacam-se no cenário religioso brasileiro já não é novidade. O nordestino ante as dificuldades ambientais, de assistência médica, de locomoção entre tantas outras coisas, vê no campo religioso um meio por excelência, algo em que possam se segurar; tirar das manifestações religiosas o que eles esperam que não terão neste século, ou pelo menos, a solução de tais problemas não estariam aqui, mas, no porvir, que minguariam, por compaixão, as graças vindouras. Neste contexto, surgem diversas crendices e manifestações religiosas tendo como inspiração a matriz - o catolicismo romano. A história desde o Brasil colônia3 ao século XX é banhada por um fé que foge ao emanado pelas autoridades de Roma. 1 Graduado em História pela Faculdade José Augusto Vieira - FJAV; fez pós-graduação em História do Brasil pela Faculdade Pio Décimo - Pio X; e, mestrando em História pela Universidade Federal de Sergipe - UFS. 2 Graduada em História pela Faculdade José Augusto Vieira - FJAV; fez pós-graduação em História do Brasil pela Faculdade Pio Décimo - Pio X; e, aluna especial do mestrado em História da Universidade Federal de Sergipe - UFS. 3 Cf. SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 2009; VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos Pecados: moral, sexualidade e inquisição no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 27
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Para que o catolicismo romano ganhasse autonomia frente aos obstáculos do protestantismo e das intempéries dos fiéis e desvios de condutas dos clérigos, a marcha da igreja fez-se acompanhar por um processo de sistematização e de moralização das práticas e das representações religiosas.4 Para Pierre Bourdieu, no campo religioso: o corpo de sacerdotes diretamente com a racionalização da religião e deriva o principio de sua legitimidade de uma teologia erigida em dogma cuja validade e perpetuação ele garante. o trabalho de exegese que lhe é imposto pelo confronto ou pelo conflito de tradições mítico-rituais diferentes, justaposta no mesmo espaço urbano, ou pela necessidade de conferir os ritos ou mitos tornados obscuros um sentido mais ajustados a normas éticas e à visão do mundo dos destinatários de sua prédica, bem como a seus valores e a seus interesses próprios de grupo letrado, tende a substituir a sistematicidade objetiva das mitologias pela coerência intencional das teologias, e até por filosofias.5 Este é um dos objetivos das Santas Missões compreendidos por Frei Damião: moralizar o povo e esclarecer, a um séquito católico, a diferença entre a "verdadeira igreja" e as demais. O Frei, veio de terras longínquas, para trazer uma mensagem de civilidade ("as boas novas"). Sua pretensão era colocar o povo nordestino nos trilhos de Deus: aconselhar os fiéis e corrigir práticas oficiosas. O seu maior obstáculo seria a grande dimensão territorial do nordeste; e em muitos casos, lugarejos cujas casas estariam bem distantes umas das outras com um forte numero de analfabetos. A nossa personagem, o missionário, Frei Damião de Bozzano, filho dos camponeses Félix Giannotti e Maria Giannotti, nasceu no dia 5 de novembro de 1898, em Bolzano na região do Ádige no norte da Itália. O seu nome de batismo era Pio Giannotti. Demonstrou, na adolescência, gosto pelos estudos religiosos. Aos 12 anos ingressou na escola Seráfica de Camigliano. Aos 19 anos, seus estudos seriam interrompidos para servir a um propósito diferente da "missão religiosa": a guerra. Com o surgimento da Primeira Guerra Mundial, 4 BOURDIEU, Pierre."Os Progressos da Divisão do Trabalho Religioso e o Progresso de Moralização e de Sistematização das Prática e Crenças Religiosas". In:______. Gênese e Estrutura do Campo Religioso. 5 ed. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2004. p.37. 5 Idem, p.38. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 28
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Giannotti foi convocado para lutar nas trincheiras contra a Iugoslávia - momentos esses, que deixaram lembranças fortes na mente da nossa personagem. Com o fim dos acirramentos provocados pela primeira grande guerra, Giannotti largou o exercito e reiniciou os estudos religiosos - o seminário. Nos idos de 1921 à 1925 frequentou as aulas da Universidade Gregoriana de Roma. Lá teve lições de teologia, direito, eclesiologia, patrologia. Diplomou-se em direito canônico, filosofia e teologia dogmática. Em 25 de agosto de 1923, é ordenado sacerdote na Igreja São João de Latrão. Não demoraria muito até que o frade pisasse em solo brasileiro. Quase oito anos depois de ser ordenado (17 de maio de 1931), veio para o Brasil, fixando residência no convento de São Felix - da ordem dos capuchinhos - em Recife. Os nordestinos não demorariam muito em reconhecer aquele que seria aclamado como Frei Damião ( por muitos, considerado como santo). Suas primeiras pregações foram em Recife no convento da Penha. mal dominava a língua portuguesa, por isso, tinha que decorar os seus sermões. Mas os fiéis despreocupados com a estética da língua mátria, iam assistir aos sermões do frei em busca dos milagres. Milagres cuja manifestação e resultado, Frei Damião, não creditava a sí, mas a Deus. No Convento de São Felix chegavam muitas cartas relatando curas, milagres e bênçãos recebidas. Obra de Deus respondia Damião, mas o fato é que sua vida era considerada um instrumento para que os milagres acontecessem - isso ficou implícito em suas falas e, ele não negava. Os fiéis ansiava por ver a manifestação do sagrado.6 Por mais que quisesse se afastar das representações (a margem de suas intenções) construídas em torno de si, entretanto, difícil de não usufrui os benefícios que isso lhe traziam e de se desprender de tal imagem, pois, "cada povo representa seus heróis históricos ou lendários de determinada maneira variável segundo os tempos", construímos sujeitos colocando-lhe representações ao sabor das possibilidades e necessidades do momento, "os quais está em contato, do seu caráter, da sua fisionomia, dos traços distintivos do seu temperamento físico e moral".7 O Frade acabou sendo incorporado ao panteão de seres admirados - pelo menos por alguns - do nordeste. Sua imagem ficou tão próxima de outro individuo daquela região - 6 Cf. ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1992. 7 DURKEIM, Émile. " A Noção de Espíritos e de Deuses". In.:_________. As Formas Elementares de Vida Religiosa: o sistema totêmico na Austrália.Tradução. Pereira Neto; revisão José Joaquim. – São Paulo; Ed.. Paulinas, 1989. p.300. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 29
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Padim Ciço - que o frade foi assimilado em alguns casos à imagem de seu antecessor, sendo chamado por "Meu Padim Ciço Romão"; e em outros, em momentos de aflição de habitantes do nordeste, sua figura foi eleita como sucessor de "Padim Ciço" ou, em pé de igualdade, como demonstra esta frase: “Valhei-me, Frei Damião! Valhei-me, meu Padim Ciço!”.8 Frei Damião não nutria amores com os afazeres da parte administrativa, ou, rotineira da igreja, " [...] Frei Damião nunca foi um vigário de paróquia, daí que sempre esteve isento do peso administrativo de uma Paróquia. Nunca fez uma pastoral como se faz hoje. Era um frade caminhante, nômade, andante ". Era um homem de ação, embora versado em letras, preferiu ir para o meio do povo, alcançar almas de forma simples que os fiéis entendessem. Ele ajudou a disseminar as santas missões pelo nordeste. Para o Frei, elas eram de extrema necessidade para o livramento das almas: “livrá-los do Demônio, que queria afastá-los da Igreja e fazê-los abraçar outro credo”.9 Assim, as missões tinha o objetivo de limpar as impurezas existentes na "comunidade dos fiéis"; a igreja tinha que direcionar as ovelhas desgarradas, além de proteger-se do avanço do protestantismo e outros credos.10 As Santas missões realizadas pelo nordeste, tinha a duração de alguns dias. Por onde passava o frade atrai multidões: casais de namorados, amigos, vizinhos, crianças, solteiros e toda sorte de pessoas chegavam para vê-lo. A cidade transformava-se, as pessoas afluíam até onde ele estivesse para os mais diversos intentos: toca-lhe, assistir aos sermões, a espera de um milagre ou simplesmente por curiosidade. O comercio local lucrava com sua chegada. Sua estadia numa região era seguida por aumento nas vendas de comida e de objetos religiosos - ou considerados como tal. O auge das santas missões era a conversão da população à vida sacramental. Nelas aconselhava-se e corrigia-se a falta cometida pelos fiéis: os casamentos religiosos aconteciam, os batizados eram realizados, as confissões ministradas etc. Seu sucesso era medido pela quantidade de sujeitos que aceitavam às práticas que conduziam até o céu. Aqueles que se 8 DA CRUZ,João Everton. "Caminhando com Frei Damião no Sertão Nordestino: uma experiência Missionária".In:_________.http://meuartigo.brasilescola.com/religiao/caminhando-com-frei-damiao-no-sertao- nordestino.htm. Acessado em 26/11/2010. 9 Idem. 10 Cf. ANDRADE, Péricles. Sob o Olhar Diligente do Pastor: a Igreja Católica em Sergipe. São Cristóvão: Editora da UFS/Fundação Oviêdo Teixeira, 2010. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 30
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS deixasse ser conduzido nos trilhos de Deus encontrariam as bênçãos e graças no mundo vindouro, se fossem favorecido pela divindade, naquele momento mesmo, eram atendidas as preces. Memórias Sobre Frei Damião em Boquim/Se - as Santas Missões na terra da laranja Durante os anos de 1972 e 1974, geralmente, no mês de novembro, a cidade de Boquim viveu momentos de satisfação com a vinda de Frei Damião para Boquim. Durante o ano, a população se organizava para os movimentos da igreja, onde as comunidades se juntavam para demonstrar sua fé, respeito e entusiasmo diante das manifestações religiosas realizadas na cidade. Anualmente acontece a Festa da Padroeira da cidade, onde os fiéis prestam lhe homenagem, que constituem em novenas, missas e procissão, onde todos participam com grande devoção. Para os fiéis essas manifestações religiosas, “eram o momento alto da religiosidade popular, onde existia o espírito receptivo nas pessoas que procuravam interiorizar a palavra de Deus na sua essência”. As demonstrações de fé durante a procissão eram vistas pela população nas ruas, onde tomava grande parte da massa dos fiéis, várias pessoas vinham dos arredores da cidade para participar da procissão, conduzindo a imagem da padroeira, pelas ruas, onde os devotos acompanhavam fervorosamente, culminando com missa festiva. Contudo, a ansiedade dos fiéis era grande pelas ruas da cidade, para ver o cortejo passar com o andor da santa, muitos devotos acompanhavam a procissão, outros ficava em frente das casas olhando a procissão que passava. Portanto, grande parte da população costumava participar dessa manifestação religiosa que acontecia todo ano na cidade. Mas o povo também tem o costume de participarem de outras festas, como Festas Juninas, Natal e Ano Novo. Mas a festa de destaque na cidade era a tradicional “Festa da Laranja”, onde por vários anos se destacou devido o cultivo dela na cidade. Durante toda essa época a cidade se organizava para a festividade, recebendo vários visitantes para mostrar o produto da casa. A laranja na segunda metade do século XX, se São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 31
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS caracterizar como uma fase muito importante tanto para a cidade quanto para o município, em função da citricultura, que era bastante comercializada pela população e os visitantes. Devido a divulgação da festa da laranja, muitas pessoas só vinham para prestigiar os shows que ocorria durante a festa, a cidade mantinham a tradição de realizada os festejos a 42 anos em datas móveis durante quatro dias. Conhecida nacionalmente, a festa faz parte do calendário cultural da cidade. Com base econômica forte, Boquim, chegou a ser um dos maiores produtores de laranjas do país. Mediante ao desenvolvimento na agricultura, o comércio local foi um dos mais importantes dos municípios. A cidade mantinha duas grandes pensões nessas épocas de festividades. A sede do município chegou a ter o maior cinema da região, que passava filmes de 35 mm e tinha capacidade para 300 espectadores, onde a população participava de várias sessões aos finais de semana. Mas hoje a população não desfruta mais dessa cultural local, por motivo pessoal o proprietário desativou o cinema e hoje no local está uma igreja evangélica. Também a Associação Cultural passou a ser uma espécie de academia e escola de capoeira, a tão famosa lavandeira da fonte da mata foi desativada e hoje a estrutura foi mudada para melhor locomoção da população. Nesse período o povo de Boquim contava com variável área de lazer, como a Associação Cultural e Recreativa Boquinense, onde a população tinha o hábito de fazer baile e se divertirem muito, também tem na cidade a famosa Fonte da Mata, onde inspirou o nosso poeta maior da cidade, o famoso Hermes Fontes. Lá na fonte da Mata também existia uma grande lavandeira, onde muitas vezes os moradores iam lavar suas roupas, vislumbrando a visão daquela riqueza que temos em nosso município. Durante muito tempo, a população carente da cidade saia de suas casas para lavar suas roupas, lavavam por encomendadas. Na segunda metade do século XIX, surgem as missões populares pelo sertão nordestino, onde os freis saíram de cidade em cidade pregando os seus sermões e ministrando a palavra de Deus para os fiéis. Diante da notícia dessas missões pelo sertão, o pároco da cidade trouxe frei Damião para pregar a Santa Missão em Boquim. A população da cidade ficou eufórica, quando o padre anunciou, numa missa, sobre a presença do frei na cidade. A São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 32
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS chegada dele, foi motivo de festa, satisfação e fé, os fiéis receberam o frei com alegria e cantos. Com a notícia da chegada do frei, os fiéis ficaram aglomerados nas ruas da cidade aguardando os missionários chegar. Eles por várias horas ficaram em frente ao colégio Santa Teresinha, em frente à matriz da igreja para aguardar o frei sair do colégio e em seguida acompanhá-lo até a matriz. A partir de várias entrevistas realizadas é possível perceber a devoção dos fiéis com frei Damião. No momento da chegada do frei na cidade os devotos reuniam-se na frente da igreja aguardando os missionários aparecerem com devoção e em total demonstração de fé. Durante sua permanência na cidade, muitos acreditavam que o mesmo operava milagres. Devido essa notícia, várias pessoas ficavam na espera dos missionários para poderem receber às bênçãos. Vale ressaltar que a Santas Missões foram ministradas pelo frei Damião, apesar de, mesmo falando baixinho, os devotos demonstravam bastante satisfação nas missas - por ser ” um frade respeitado e amado pelo povo, pregador do evangelho e zeloso pela doutrina”. Segundo Maria Almeida: “as vezes, em nome desse zelo, até feria as pessoas por causa de algo que não aceitava , era 'Santo e rígido'.Quando o frei chegou na cidade, as pessoas rezavam, assistiam as palestras, mas cada palestra tinha o horário detalhando pelo o missionário.” Tinha horário específico paras as crianças, para os jovens, outro para as senhoras e outro horário para os homens, após a celebração dos sermões, os fiéis faziam suas confissões, comungavam da ceia eucarística, participavam das procissões matinais de penitência, rezava para Nossa Senhora e ouviam a pregação do evangelho. "Era momento de muita paz durante as pregações do frei".11 Os enfermos iam ao encontro de Damião para obterem a restauração da saúde. havia aqueles que não conseguiam se aproximar do missionário na igreja, em um gesto de compaixão e imitação do exemplo de Jesus, o clérigo saia de onde estava para acudir os despossuídos de saúde. 11 ALMEIDA, Maria. Entrevista concedida no dia 07 de novembro de 2010. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 33
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Durante a permanência dele na cidade, muitas pessoas viam frei Damião como um santo, a exemplo de Dona Aliete Menezes que comentou: “Quando vi o frei pela primeira vez", ela pensou, "será que ele vai aguentar caminhar, mas quando ele botava o pé na estrada, eram os anjos que levavam ele. Porque menino novo, ele xotava viu, não conseguia acompanhar ele”12. Quando o frei estava na cidade, a população se aglomerava em frente à igreja para participar das novenas, vinham vários fiéis das comunidades, a praça ficava pequena diante de tanta demonstração de fé. Sua presença na cidade trouxe vários fiéis a conversão, muitos aproveitaram o momento da manifestação religiosa, para expressar sua devoção e fé diante do frei. A santa missão teve a função de converter o pecador a religiosidade cristã, aqueles devotos que estavam afastados da igreja, começaram a participar da missa e ouvir as pregações. No decorrer das Santa Missões, os devotos aproveitavam o momento pra confessar os seus pecados e “receber Jesus na Eucaristia”13. Para Dona Josefa Meneses a cidade naqueles dias passava por uma atmosfera mística. Ela alega ter visto a Santas Missões como momentos de graças, onde o povo “participava com fé e amor, pois sabia que era uma verdadeira catequese e evangelização de todos”14. Em outro momento, Dona Maria Antônia salienta, naquela época as santas Missões “eram consideradas como momento de conversão, de perdão, arrependimento dos pecados e preparação para a viagem definitiva até Deus”15. Portanto, quando o frei chegou à cidade, os próprios fiéis eram que organizavam tudo, arrumavam o palanque diante da igreja, para às novenas e as missas. Nessas santas missões muitas vezes faziam novenas nas casas dos fiéis, como cita Dona Maria Antônia Dias. A mesma comenta que as novenas que existiam naquela época eram “a novena de Santo Antônio com dona Eulina e a Novena de São João Batista com dona Argemina”16. Durante as novenas, as festas sempre foram animadas e com muita 12 Ibidem. 13 MENEZES, Josefa Miguel de. Entrevista concedida no dia 17 de outubro de 2010. 14 Idem. 15 ANDRADE, Maria Antônia Dias. Entrevista concedida no dia 23 de novembro de 2010. 16 Idem São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 34
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS gente, a população mantinha um espírito de oração e penitência esperando os missionários. Cada missa feita pelo frei à igreja lotava de fiéis para ouvir seus sermões. A veneração chegou a tal nível que muitos devotos o viam como santo operador de milagres. Dona Antônia, vai além, pois considera o frei como “representante de Cristo que chegava a Boquim para ensinar as verdades esquecidas pelo povo”17. Devido a Frei Damião ser comparado a um santo, houve alguns milagres que foram atribuídos a ele, os próprios fiéis comentam que foi ele quem concebeu, diante da palavra de Deus, um desses milagres. Uma das entrevistadas, dona Caetana da Silva, comentou: Recebi uma benção do frei Damião: o filho tinha um problema de saúde muito sério, muito sério mesmo. O menino ficava batendo com a cabeça direto, e com isso começava a sangrar. Nesse tempo tudo era muito 18difícil, foi quando teve uma santa Missão na cidade, mesmo morando em povoado, eu consegui trazer ele até o frei Damião. Quando cheguei com ele na casa do padre João Batista, o frei estava recebendo umas pessoas e conversando com elas, foi quando eu entrei com ele no braço e sentei. Ai, o frei perguntou: 'o que eu queria', eu respondia a ele:' queria que ele rezasse na cabeça do meu filho', e fui explicando a ele a situação né, foi quando ele colocou a mão na cabeça dele e rezou lá uma oração né, só ele sabe o que rezou né, ele botou a mão na cabeça ai depois fez o sinal da cruz na testa dele, ficou passando a mão na cabeça dele, depois deu um tapinha na costa e disse que nunca mais você vai bater sua cabecinha, foi a última vez, nunca mas vai acontecer isso, ele tem uma memória excelente, ele não tinha condição de estudar, depois disso, ele estudou, hoje está formado, e problema na cabeça dele graças a Deus não tem, eu recebi essa graças através da minha fé. Houve outros relatos de milagres atribuídos à santa missão de frei Damião, como podemos constatar: Segundo dona Josefa Durval, frei Damião salvou ela e uma criança que esperava: Quando estava esperando Raimunda, passei muito mal, quando tive ela andei morrendo, ela atravessou na barriga e ainda tinha que ter em casa, depois foi que mandaram a ambulância para me buscar, porque morava na fazenda dos pilões, ai mandaram a ambulância para me buscar e na hora que a ambulância chegou, ai a menina nasceu atravessada, mas quase que morria, ai quando fiquei eu sair de gravidez de Teresinha ,já fiquei com medo, pelas 17 ANDRADE,Maria Antônia Dias. Entrevista concedida no dia 23 de novembro de 2010. 18 SILVA, Maria Caetana da. Entrevista concedida no dia 24 de agosto de 2010. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 35
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS minhas contas ,já tinha mas de 9 meses e eu fiquei doida, doida e doida, ai minha madrinha Lurdes troxe eu para frei Damião benzer, ai tinha uma santa missão, ai madrinha Lurdes troxe eu para frei Damião benzer, ai eu fui ele ficou hospedado na casa de Padre João. Ai madrinha Lurdes morava pertinho, ainda mora né, ai agora mora perto do convento das freiras, mas a casa de Padre João era pegada com a de madrinha Lurdes. Ai troxe eu levou lá aonde tava frei Damião, ai ele rezou na minha cabeça, na minha barriga, ai disse, olhe não tenha medo quando você dê 3 dores, a menina nasce, ai eu fiquei mangando até do padre, ai eu disse oxé ele deve está broco, quando eu dê 3 dor a menina nasce, ai eu disse a madrinha Lurdes, o missionário disse quando eu 3 dor a menina ia nascer, ela disse, vai ser assim mesmo. Oxé de Raimunda quase morro e de Teresinha é que vou ter assim ligeiro, mas foi dito certo, a mesma coisa que ele disse oxé quando interou um 1 mês eu tive ela, ai deu uma dor 5 hora da manhã, deu 1 depois deu 2, nas 3 a menina nasceu.A mesma coisa que ele disse, ai se a gente já tinha fé nele ,ficamos com mais fé. Portanto devido a fé que a fiel teve, diante das palavras de Deus, fez com que salvasse sua vida e de sua filha, ao mesmo tempo que sua devoção cresceu mais diante do frei Damião19. Diante desse fato muitos fiéis acreditavam no poder que frei Damião tinha, por onde passava pregava sempre a palavra de Deus e deixavam todos bastante satisfeitos com o seu sermão. Como ele era considerado servo de Deus, Dona Maria Senhora de Menezes via o frei como: "Apóstolo de Deus" , como qualquer sacerdote, "porque o sacerdote tem a missão de permanecer sempre na paróquia, evangelizando, celebrando a santa missa e o frei Damião era um frei missionário, pregando missão de cidade em cidade aonde o espírito santo lhe manda-se". 20 Ao retornar à igreja várias mulheres devotas se abraçavam diante de todos, e pediam perdão a Deus pelos seus pecados. No tocante ao sermão de frei Damião, as pessoas vinham de longe só para se confessar com ele. Outros nem entendiam “o que ele falava, mas vinham só para ficar perto dele, na expectativa da escuta da palavra de Deus”21. Nessa época, muitos fiéis que moravam juntos aproveitaram a presença do frei na cidade para se casarem - houve vários casamentos, batizados, crismas e comunhões. A quantidade de quantos pessoas regularizou-se, perante a igreja, não consta no livro de tombo 19 DURVAL, Josefa Santos. Entrevista concedida no dia 24 de outubro de 2010. 20 MENEZES, Maria Senhora Miguel de Menezes. Entrevista concedida no dia 15 de outubro de 2010. 21 Idem. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 36
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS da paróquia, só existe o registro afirmando que a população esperava o momento da chegada do frei para se casarem. sua imagem como apostolo de cristo se torna mais evidente quando os fiéis começam a comentar dos poderes miraculosos do frei Damião em expulsar os Demônios. Lembrando que, os discípulos (como está no evangelhos) tinham o poder de curar (feito que já era-lhe atribuído), e expulsar os demônios. Esta entidade, assim como ventos maléficos, lobisomens e outros mais, fazem parte do arsenal cultural dos nordestinos. 22 Sobre esse fato Dona Maria Antônia comenta: ”Claro. Não só frei Damião como qualquer padre de 'boa vida' pode expulsar demônios".23 Seguindo nessa linha de pensamento, dona Maria Senhora acrescenta: “eu acredito, porque o senhor Jesus deu poder a todo o sacerdote e ao discípulo de expulsar os demônios”24. Contudo, boa parte da população acreditava que Damião expulsava demônios, por devoção, fé e oração. Diante dos fatos, alguns fiéis comentam sobre isso, uma dessas fiéis é a senhora Josefa Miguel de Menezes, que fala: ”Não só frei Damião como tantos outros sacerdotes, pelo poder que ele recebeu de Deus, quando o padre é ordenado; ele recebe um poder diferente dos católicos fiéis como nós, ele tem uma coisa diferente da gente”25. Mas uma coisa era certa: frei Damião jamais gostava que alguém lhe faltasse com respeito. Na maioria das vezes que isso acontecia, as pessoas sofriam as consequências dos atos no mesmo instante, era fração de minutos. Narra-nos Dona Maria Elder sobre um episódio: Houve um episódio que aconteceu na feira, uma manhã uma menina passou por ele, e chamou de corcunda, ele só virou o rosto por cima do ombro e disse Deus te abençoe ai a menina caiu. A menina caiu mesmo durinha lá, só 22 Isso aparece nos depoimentos de dona Maria Antônia Dias Andrade, Maria Oliveira de Almeida, Aliete Miguel de Menezes e Josefa Miguel de Menezes. 23 ANDRADE, Maria Antônia Dias. Entrevista concedida no dia 23 de novembro de 2010. 24 MENEZES, Maria Senhora Miguel de. Entrevista concedida no dia 15 de outubro de 2010. 25 MENEZES, Josefa Miguel de. Entrevista concedida no dia 15 de outubro de 2010. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 37
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS levantou quando ele foi lá e botou a mão na menina, agora o porquê também não sei, se ele também possuía além da religiosidade , se ele possui alguma coisa nós não ficamos sabendo26. Diante disso, a população sempre comentava sobre o episódio ocorrido na cidade, mas mesmo assim ninguém nunca descobriu sobre essa proteção que o frei tinha que na maioria das vezes as pessoas eram castigadas sem ao menos ele tocá-las. Tiveram outros fatos que as pessoas presenciaram, mas não quiseram comentá-los. Considerações Finais As práticas devocionais estão estritamente ligadas ao campo religioso brasileiro. Mais do que isso. A fé é condição inerente aos seres humanos, pois as expressões de religiosidade revelam as diferentes visões de mundo, os sonhos, desejos da sociedade. A fé também vivenciada sobre a sociedade constrói grupos e separam tantos outros e carrega os sonhos e as perspectivas para dias melhores. Essa artigo discutiu a preparação e repercussão das duas santas missões que o capuchinho mais popular realizou na Terra da Laranja. Tudo foi acompanhado pelo olhar atento das beatas que o acompanharam nos dias impetuosos. Tudo foi visto e guardado nas memórias individuais de mulheres e homens que viviam na cidade no alvorecer daquela década. Essas memórias se tornaram em bem coletivo. As crenças supersticiosas e o mistério alimentaram as lembranças e construíram um imaginário rico e diversificado. Na crença popular do povo de Boquim, santos e demônios conviviam na naqueles dias de Santas Missões. Para além desta devoção comum, a padroeira e a frei Damião, denotamos que cada indivíduo possui sua particularidade de entender a presença do frade em Boquim. Cada trama apresentada pelos entrevistados exibiu um modo de ser, viver e perceber o missionário Damião. 26 SANTO, Maria Elder do Espírito. Entrevista concedida no dia 30 de outubro de 2010. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 38
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Bibliografia ANDRADE, Péricles. Sob o Olhar Diligente do Pastor: a Igreja Católica em Sergipe. São Cristóvão: Editora da UFS/Fundação Oviêdo Teixeira, 2010. BOURDIEU, Pierre. A Economia das Trocas Simbólicas. 5 ed. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2004. CRUZ, João Everton da . "Caminhando com Frei Damião no Sertão Nordestino: uma experiênciaMissionária".In:_________.http://meuartigo.brasilescola.com/religiao/caminha ndo-com-frei-damiao-no-sertao-nordestino.htm. Acessado em 26/11/2010. DURKEIM, Émile. " A Noção de Espíritos e de Deuses". In.:_________. As Formas Elementares de Vida Religiosa: o sistema totêmico na Austrália.Tradução. Pereira Neto; revisão José Joaquim. – São Paulo; Ed.. Paulinas, 1989. p.300. ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano: a essência das Religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2001. FRESSATO, Soleni Biscouto. Cultura popular: reflexões sobre um conceito complexo. In: O profano é sagrado na Bahia: imagens e representações da cultura popular. Disponível em: http://oolhodahistoria.org/culturapopular/artigos/culturapopular.pdf. Acessado em 18-08- 2010. MEIHER, José Carlos Sebe Bom. História oral: como fazer, como pensar. São Paulo: Contexto, 2007. SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos Pecados: moral, sexualidade e inquisição no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. Fontes Orais Consultadas ALMEIDA, Maria. Entrevista concedida no dia 07 de novembro de 2010 ANDRADE, Maria Antônia Dias. Entrevista concedida no dia 23 de novembro de 2010. MENEZES, Josefa Miguel de. Entrevista concedida no dia 17 de outubro de 2010 MENEZES, Aliete Miguel de. Entrevista concedida no dia 15 de outubro de 2010 SANTO, Maria Elder do Espírito. Entrevista concedida no dia 30 de outubro de 2010. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 39
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS SANTOS, Josefa Durval. Entrevista concedida no dia 24 de outubro de 2010. SILVA, Maria Caetana Da. Entrevista concedida no dia 24 de agosto de 2010. Livro de tombo da Igreja Matriz Senhora Santana, 1972.p.58 São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 40
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 07. “UMA CAPITAL EM PROCESSO DE SECULARIZAÇÃO”: ARACAJU ÀS VÉSPERAS DO CONCÍLIO VATICANO II Eduardo Augusto Santos Silva Resumo: O presente artigo traz uma reflexão acerca de como os impactos da “modernidade” durante a primeira metade do século XX contribuíram para uma secularização da moral cristão-judaica na sociedade ocidental, especificamente, em Aracaju. Observamos através de leituras de Eric Hobsbawm como o surgimento e as crescentes inovações tecnológicas, principalmente, nos meios comunicação de massa contribuíram para a mudança nos hábitos cotidianos tradicionais do mundo ocidental. Vimos como o desenvolvimento dessa orientação secular motivou a Igreja Católica a iniciar o Concílio Ecumênico Vaticano II em 1962 a fim de dialogar com a modernidade. Em seguida, verificando a realidade brasileira a partir de Riolando Azzi, notamos que durante os anos 1950 novos costumes se desenvolveram, progressivamente, no Brasil e favoreceram a secularização dos costumes religiosos de tradição católica, como a importação de ritmos musicais estrangeiros e a expansão das opções de lazer noturno, que incentivou a sexualidade a ganhar uma dimensão diferente da cristã. Por fim, somamos as discussões mencionadas com uma análise da sociedade aracajuana baseada nas contribuições de Ibarê Dantas e de pesquisas no periódico oficial da Arquidiocese de Aracaju “A Cruzada”. Palavras-chave (quatro): Igreja Católica; Concílio Vaticano II; Aracaju; Secularização. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 41
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 08. A POSIÇÃO DOS CRISTÃOS NOVOS NA SOCIEDADE AÇUCAREIRA NA PRIMEIRA VISITAÇÃO DO SANTO OFÍCIO À AMÉRICA PORTUGUESA Ernania Santana Santos 27 Resumo: Durante o século XVI, os cristãos-novos desempenharam papel importante na composição da sociedade açucareira, sendo significativa o seu desempenho no setor econômico, onde viviam com uma relativa liberdade para praticar sua antiga fé judaica. Mas, não demorou muito e logo passaram a conviver com a sombra que teimava em atormentá-los e persegui-los, era o braço secular do santo ofício. Aos nove dias do mês de junho de 1591, aportou na Bahia em companhia do governador geral, D. Francisco de Souza, o licenciado Heitor Furtado de Mendonça, dando início à primeira visitação do santo ofício à América portuguesa. Palavras-chave: Inquisição, Sociedade, Perseguição, Cristãos-novos. INTRODUÇÃO Na primeira visitação do Santo Ofício à América portuguesa, quando a incipiente colônia ainda findava o primeiro século de sua colonização, já se percebia a presença de um grande número de cristãos-novos que aqui habitavam e desempenhavam algumas funções na administração, bem como na economia colonial local, tendo como principal atividade econômica a produção do açúcar. Essa primeira visitação, através da documentação produzida nos permitiu conhecer diversos aspectos do cotidiano colonial, principalmente no que diz respeito às práticas religiosas de seus habitantes. Aos vinte e nove dias do mês de julho de 1591 deram início as confissões da capitania da Bahia e recôncavo baiano, tendo suas atividades finalizadas em setembro de 1993. Entre setembro de 1593 e fevereiro de 1595 foi à vez da capitania de Pernambuco, Itamaracá e Paraíba. Como sabemos, não obstante, o tribunal da inquisição fora criado em Portugal no ano de 1536, tendo, portanto, cinquenta anos de sua existência até sua chegada ao Brasil, onde nunca houve a fixação do mesmo. As razões dessa primeira visitação são divergentes por parte da historiografia que estuda o tema, enquanto alguns estudiosos atribuem somente ao aspecto econômico, na 27 Graduada em história pela Universidade Federal de Sergipe – UFS, integrante do Grupo de pesquisa Diáspora Atlântica Sefardita. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 42
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS medida em que aqui, já se encontravam desde a colonização um grande número de Cristãos novos bem estruturados no que diz respeito as suas atividades econômicas, outros preferem apostar na necessidade de homogeneização e manutenção do catolicismo, por parte da igreja católica, caracterizando assim o aspecto religioso, enquanto que outros especialistas consideraram todos os aspectos citados acima como preponderantes para a realização da mesma. Nesse momento da primeira visitação do braço secular, o nordeste açucareiro apresentava uma realidade diversa, plural, e heterogênea, composta por elementos católicos, negros, indígenas e judaicos que mesclaram na colônia criando uma religião sincrética e intrinsecamente colonial. “Cabia a ação do Santo Ofício, somar esforço no sentido de homogeneizar a humanidade inviável, trazer a fé católica os idólatras e infiéis da colônia a fim de se povoar e aproveitar a dita terra, punindo os transgressores, blasfemos, hereges, sodomitas, falsários, dando-se a sentença e executando. (SOUZA, 1986: 71). A análise da documentação nos permite a partir das confissões e denunciações dos inquiridos e confidentes traçar um quadro rico em informações e nós permitimos ter um retrato do Brasil naquele primeiro século de colonização, haja vista que traz a luz um rico quadro das ideias, sentimentos, fantasias, aspirações, atividades econômicas, bem como da sociedade da época, na medida em que terça um panorama das variadas condições sociais dos colonos, dos modos de viver e de falar, da alimentação, das diferentes culturas, das relações de convivência entre cristãos velhos e novos, entre senhores e escravos etc. Contudo a ênfase do nosso estudo aqui, busca priorizar a posição social dos cristãos novos na colônia, bem como, de compreender como eles foram perseguidos e considerados tão subversivos, naquela conjuntura, a ponto de serem acusados de difundir no meio cristão suas crenças em detrimento da ordem eclesiástica estabelecida. Para Novinsky, "os cristãos novos, como antes deles os judeus, foram acusados de ser diferentes na conduta e no caráter, devido a discrepâncias inatas”. De nada adiantará a conversão, o cristão-novo continuava marcado pelas características associadas aos judeus . (NOVINSKY, 1992: 33). São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 43
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS A religião exercia sobre os homens do século XVI, uma influência, ao mesmo tempo profunda e opressora, da qual era impossível escapar. Desde o primeiro século da colonização a colônia apresentava duas faces uma detratora e uma edenizadora. Esses antagonismos foram apresentados por alguns padres jesuítas, bem como pelos primeiros viajantes. A autora Laura de Mello cita a carta do padre Azpilcueta Navarro enviada à metrópole relatando a situação na colônia. Essas fontes davam conta de registrar a vida pecaminosa e desregrada da gente que vivia no nordeste brasileiro, nesses relatos muitas vezes os padres se mostraram descrentes com o queriam, e consequentemente na regeneração da fé, diziam ainda que a colônia era por excelência o lugar do pecado, que paulatinamente se generalizava. (SOUZA, 1986: 61). UM PROBLEMA DA HISTORIOGRAFIA Para Anita Novinsky, a visitação se deve ao aspecto econômico, na medida em que afirma, “o mundo novo, o desconhecido, o lugar de degredo do século XVI que já começa a tornar-se uma terra de promissão”. Naturalmente ela se refere ao processo de diáspora dos cristãos-novos para a colônia, que se deu de maneira gradativa no princípio desse mesmo século, e se intensificou na sua segunda metade, período em que compreende nosso estudo. E completa ainda a autora, “as razões que trouxeram para a Bahia os visitadores e comissários do santo ofício da inquisição, que causaram a perda de algumas vidas e dispersão de muitas, foram as mesmas que impulsionaram a perseguição em Portugal: desequilíbrio econômico profundo, e que à tona se revestia de caráter religioso. (NOVINSKY, 1992: 65). Considerando a concepção de Anita Novinsky destacada na exposição, a partir da documentação relativa à visitação do santo ofício, a autora acredita ter se concentrado a ação inquisitorial no nordeste açucareiro, por registrar uma forte presença de cristãos-novos nessa localização, atribuindo como o único objetivo da empreitada do santo ofício a perseguição aos conversos. Como bem nota Luiz Roberto Lopez,5 “muitos colonizadores eram cristãos-novos, sujeitos aos já conhecidos preconceitos raciais e religiosos e foragidos da intolerância inquisitorial da metrópole.” Esta exerceu, lá rigorosa perseguição, até porque confiscava os bens dos convertidos e, por isto não raro forjava acusações. (LOPEZ, 1993: 132). São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 44
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Ainda de acordo com Anita Novinsky, desde do final do século XVI, que já apareciam nos registros da documentação analisada, a presença de cristãos novos que viviam na colônia e enviavam açúcar brasileiro entre outros produtos para Hamburgo, comprovando dessa forma uma posição de destaque no comércio, (NOVINSKY, 1992: 88). Essa concepção não é uníssona, haja vista, que no diálogo com Ronaldo Vainfas, não obstante, ele considere o aspecto econômico proposto por Anita Novinsky, atribuí outros motivos para a visitação, como por exemplo, a um programa de estratégia do tribunal da inquisição, que até aquele momento tinha se concentrado na metrópole, e de agora em diante se lançaria ao ultramar, sobre essa proposição, coloca Vainfas, “não se pense que a visitação ao Brasil possuía o objetivo fundamental ou exclusivo de perseguir os cristãos-novos abrigados no trópico”. (VAINFAS, 1997: 8). Para José Antônio Gonçalves de Mello, não são conhecidas as razões que motivaram a vinda da inquisição ao Brasil, entretanto, como ela ocorreu nos dois principais núcleos açucareiro, pode sugerir que tivesse alguma relação com o fato de existir nas duas capitanias, uma grande parcela de cristãos-novos, e consequentemente de possíveis judaizantes. (MELLO, 1970: 2). Essa concepção de Mello, que apesar de não apontar com precisão quais foram as razões, faz um diálogo com Anita Novinsky, e diverge com a visão de Vainfas, que não descarta esse ponto, más, prefere acrescentar outros motivos. De acordo com Lopez, “a inquisição foi um instrumento de uniformização religiosa e de hegemonia política, entretanto, no Brasil, chocou-se com certas situações intransponíveis como, a flexibilidade dos jesuítas, motivadas pelas necessidades da catequese; a mestiçagem, o sincretismo religioso, provocando inesperadas fusões entre o catolicismo e os ritos primitivos.” Em suma as resistências implícitas da colônia não deixaram de ser as marcas históricas de sua originalidade inicial. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 45
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS OS CRISTÃOS-NOVOS E SUAS FUNÇÕES NA COLÔNIA A partir das denúncias relatadas também foi possível perceber um retrato do Brasil colonial, no que diz respeito a mais importante atividade econômica no período dessa visitação, que compreende também os cristãos-novos como partícipes desse processo. A colônia portuguesa permitia, aos que dispunham de recursos em moeda corrente, vultosos lucros. Desse modo, atraiu os cristãos-novos perseguidos pela inquisição, que impossibilitados de desenvolverem seus negócios na metrópole, inicialmente empenharam-se no comércio, mas rapidamente tornaram-se agentes financeiros, fornecendo capital para a realização de safras e para a compra de escravos, adquirindo açúcar e vendendo na Europa com grandes lucros. (NOVINSKY, 1992: 40). A despeito da funções desempenhadas pelos cristãos-novos na colônia, a documentação pesquisada mostra uma diversidade de ofícios, como: mercadores que em alguns casos ascenderam à condição de proprietário de engenho; mestre de açúcar – era o mais especializado dos trabalhadores, espécie de engenheiro de produção – rendeiro de engenho, e etc. Contudo, observou-se uma predominância para os cristãos-novos que se denominavam lavradores. Que a produção canavieira fora de suma importância no cotidiano desses colonizadores, em que algumas vezes o açúcar foi comparado a um “Deus” pelos blasfemadores, não se pode negar, contudo, convém analisar melhor essa afirmação nos casos de denúncias de blasfêmia que se seguem. “A fé mostrava por isso mesmo, contornos tradicionais, arcaicos, onde a demanda de bens materiais e de vantagens concretas assumia grande importância, como se fosse uma espécie de contrato do tipo “toma lá-da-cá". (SOUZA, 1986: 109). Pero Nunes, cristão-novo, rendeiro do engenho Del Rei, aparece em duas denúncias de blasfêmias por comparar o açúcar a “Deus.” Na primeira é denunciado por Maria Roiz, cristã velha, que ouviu dizer do dito seu marido que Pero Nunes, indo ao engenho da cidade buscar São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 46
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS o açúcar ou dízimo de Deus, disse vendo estar de baixo da pilheira, “olhai onde está Jesus Cristo.”Contraditoriamente, na segunda denuncia feita por Fernão Ribeiro de Souza, cristão velho, e que se refere ao mesmo engenho da cidade, a denúncia aparece da seguinte maneira: indo uma vez ao engenho da cidade e vendo o açúcar que estava apartado para o dízimo de Deus, estar no chão mascabado e preto, disse pois, “este é o vosso Deus, assim o tratais,” chamando Deus ao açúcar. Não é fácil entender pelos autos do processo, qual dos dois casos apontados é o verdadeiro, se o primeiro em que a blasfêmia é dirigida a Jesus, ou no segundo quando dirigida a Deus, ou ainda, se os dois são verdadeiros, bem como, não dá para atestar em que momento foram ocorrido, se no mesmo dia, se em dias diferentes, mas, o fato é que esse tipo de blasfêmia semelhante aparece também dirigida como desacato à N. Senhora, cometida por um mestre de açúcar, também cristão-novo não identificado, que fora denunciado por Antônio Dias, padre da companhia de Jesus, que ouviu dizer segundo sua lembrança ao dito padre Brás Lourenço em São Vicente, costa deste Brasil, que estando um mestre de açúcar enformando o açúcar nas formas, disse que se ali estivesse N. Senhora também a encorparia naquela forma. Como podemos perceber, as denúncias se caracterizavam principalmente pela imprecisão dos fatos para quem as fazia, chegando ao ponto de uma mesma denúncia, aparecer de forma diferente na boca de outros acusadores. A maior parte dos denunciantes repetia acusações “por ouvir dizer” e não por eles próprios testemunhado, nesse sentido predominavam as informações provenientes de diz-que-diz e murmurações, e são raros os depoimentos baseados em fatos objetivos. Quanto à periodicidade em que os fatos mencionados pelas testemunhas ocorreram, tanto nas denunciações, quanto nas confissões, não se percebe um predomínio ou maior incidência de um período em detrimento de outro, o que se observa é que os fatos remontam a períodos variados como: um dia, alguns meses, poucos anos, ou ainda, muitos anos atrás. Até mesmo em alguns casos, as denúncias são dirigidas a indivíduos já falecidos há alguns anos, como por exemplo, podemos citar os casos de Branca de Leão, a mais citada em toda a São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 47
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS documentação, mestre Afonso, pai de Branca de Leão e Pero Nunes, todos cristãos-novos defuntos. Outro dado importante do ponto de vista do aspecto social, a ser considerado refletido a partir da observação feita na documentação no período dessa visitação, é que na maioria dos casos de denúncias, como era de praxe ao final de cada testemunho, o denunciante era convidado a assinar sua confissão ou sua denúncia, e como muitas vezes não sabia assinar, assinava pela testemunha o notário do santo ofício Manuel Francisco. Com certeza a maioria não frequentou escola alguma e para os poucos que sabiam ler e escrever, percebe-se a dificuldade com que faziam, pelo tipo de caligrafia deixada no papel. CONCLUSÃO O judeu converso, isto é, convertido em católico, preservou da herança tradicional os preceitos e sentimentos básicos que serviriam de fundamentação para as suas respostas e mesmo estando fora do alcance da ortodoxia de la halajá judaica preservou inconscientemente a aversão hereditária ao culto das imagens, à comunhão, e a confissão , também negava a divindade de cristo e descria da imaculada conceição, da santíssima trindade e esperavam a vinda do Messias verdadeiro. (NOVINSKY, 1992: 37- 40). Desde o ano de fundação da inquisição portuguesa, em 1536, quando publicou seu monitório, documento em que constava a lista dos delitos a serem confessados ou denunciados ao Tribunal, a principal ferramenta da investigação foi o interrogatório, que causou temor e trauma à maior parte dos inquiridos. Outros crimes foram encontrados nos autos, como a sodomia, a feitiçaria, a bigamia, mas foram as blasfêmias heréticas que se constituíram no foco principal da ação do Tribunal lusitano, fato que possibilitou a preferência em punir os convertidos ao cristianismo que eram acusados de judaizar, os chamados cristãos-novos. O que a inquisição exigia dos seus confitentes era que trouxessem todas as suas culpas na memória para fazer delas uma inteira e verdadeira confissão, dizendo a verdade pura para São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 48
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS que sua alma pudesse ser salva. A cada confissão repetiam como era de praxe aquele tribunal que deveria examinar melhor sua consciência, esquadrinhá-la mesmo, desvendando assim as intenções mais ocultas. Os testemunhos se seguiam, e o mais aconselhado era se apresentar ao inquisidor e admitir sua culpa, mas, ao mesmo tempo declarar, que nunca acreditara em suas próprias afirmações heréticas. Quantos às denuncias atribuídas aos cristãos-novos, na sua totalidade foram classificadas como anti-cristãs, com maior incidência de três tipos específicos: a negação da divindade de Cristo, tendo como principal blasfemador Pero Nunes; os desacatos ao crucifixo, repetido frequentemente por Branca Leão; e a negação da virgindade de Maria tanto difundida por Manuel de Paredes. Para esses não era preciso venerar suas relíquias ou imagens: “Quanto às relíquias dos santos, são como qualquer braço, cabeça, mão ou perna, acho que são iguais aos nossos braços, cabeças, pernas e não devem ser adoradas ou reverenciadas, não se deve adorar as imagens, e sim Deus." Por fim, consequentemente fruto das suas inquirições e investigações impelindo as pessoas a fazerem delações que jogavam as pessoas umas contras as outras, essa primeira visitação tenha provocado desentendimentos entre os amigos, parentes, vizinhos, chegando a provocar ruptura nas relações entre cristãos-novos e cristãos velhos, criando preconceitos nunca antes ocorridos. BIBLIOGRAFIA: FERLINI, Vera Lúcia Amaral. A civilização do açúcar: séculos XVI a XVIII. 11a ed. São Paulo:Brasiliense,1994. GUINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário temático do ocidente medieval.Bauru, São Paulo: Edusc, 2006. LOPEZ, Luiz Roberto. História da Inquisição. Porto Alegre: Mercado aberto,1993. MOTT, Luiz Roberto de Barros. A inquisição em Sergipe: do século XVI ao XIX. Aracaju: Sercore Artes Gráficas, 1989. MOTT, L. Bahia: inquisição e sociedade [online]. Salvador: EDUFBA, 2010. 294p. ISBN 978-85-232-0580-5. Available from SciELO Books <http://books.scielo.org>. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 49
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS NOVINSKY, Anita. Cristãos novos na Bahia: a Inquisição no Brasil. 2a ed. São Paulo: Perspectiva, 1992. OLIVEIRA, Marques. A Sociedade Medieval Portuguesa, 4a. Ed., Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1981, p. 172. PIERONI, Geraldo, Banidos: A inquisição e a lista dos cristãos novos condenados a viver no Brasil. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. SIQUEIRA, Sonia. A Inquisição Portuguesa e a Sociedade colonial. São Paulo: Ática, 1978. SOUZA, Laura de Mello e. O diabo e a terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial. 9a reimpressão, São Paulo: Companhia das Letras, 1986. VAINFAS, Ronaldo. Confissões da Bahia: santo ofício da inquisição de Lisboa. Org. Ronaldo Vainfas, São Paulo: Companhia das Letras, 1997. FONTES IMPRESSAS: Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil pelo Licenciado Heitor Furtado de Mendonça: Confissões da Bahia 1591-1592. Prefácio de Capistrano de Abreu, Rio, F. Briguiet, 1993. Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil: Confissões de Pernambuco 1593- 1595, ed. J. A. Gonsalves de Mello, Recife, Universidade Federal de Pernambuco, 1970. Livro 5 das ordenações Filipinas. Disponível em: http://www1.ci.uc.pt/ihti/proj/filipinas l5p.Acesso em: 24 de dezembro de 2012. 1o. Livro das denunciações do santo ofício ao Brasil por Heitor Furtado de Mendonça. Disponível em: http://digitarq.dgarq.gov.pt/ViewerForm.aspx?id=2318685. Acesso em: 10 de dezembro de 2012. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 50
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 09. SIMÃO DIAS: DE UM VAQUEIRO A UMA CIDADE. O CICLO DO COURO E AS ORIGENS DO MUNICÍPIO DE SIMÃO DIAS NO SÉCULO XVI E XVII Jessica Messias dos Santos28 Resumo: Várias versões de um personagem que marcou a origem do município de Simão Dias, Neste artigo irá conhecer o contexto histórico antes e no decorrer do surgimento desse personagem emblemático que mesmo sendo vaqueiro ou o proprietário de terras e gado sua origem está vinculada com a sociedade do Couro, primeira atividade econômica das terras de Sergipe Del Rey. Sua existência chegou a ser questionada devido a discordâncias de versões e Simão Dias passou a se chamar Anápolis, entretanto sua participação histórica na contribuição para formação desse município é tão relevante que o município voltou a levar seu nome. Palavras-chave: Sesmaria – Invasão holandesa – Simão Dias – Identificação Para entender melhor as versões que circundam sobre a figura do emblemático Simão Dias, é preciso se situar no contexto histórico anterior ao seu surgimento. Na época da colonização de Sergipe, Portugal estava dominado pela Espanha através da união Ibérica. Estes dois reinos formavam a coroa luso-espanhola, com isso os Filipes tiveram participação direta nas decisões sobre a conquista de Sergipe Del Rey. As terras entre o rio Real e o São Francisco pertencia ao governo luso-espanhol, entretanto estavam vulneráveis a invasores, pois não contavam de fato com o domínio real. Após a tentativa frustrada de catequizar os indígenas que habitavam as terras de Sergipe Del Rey e como havia interesse em dominar esse espaço, principalmente por parte de Luiz de Brito governador da capitania da Bahia, o governo luso-espanhol juntamente com o governo baiano organizou a “guerra justa” para conquistar de forma violenta esse território. 28 Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe. Orientada pelo Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Dos Santos. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 51
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Era considerada justa, pois já tinha sido tentado dominar o território de forma pacífica através da catequização com o jesuíta Gaspar Lourenço, mas a maioria dos índios revoltosos e não se renderam. Os primeiros habitantes das terras que mais tarde seria o município de Simão Dias foram índios remanescentes da tribo dos Tapuia, integrante da missão do jesuíta Gaspar Lourenço, que para fugir à perseguição da expedição de Luis de Brito, governador da Bahia, na sua tentativa de conquista do território sergipano, ali se refugiaram em fins do século XVI, estabelecendo-se nas florestas do Caiçá. (Fonte: http://www.ibge.gov.br/cidadesat/painel/painel.php?codmun=280710) Após a guerra justa, é fundado o primeiro esteio de dominação do governo São Cristovão, e a partir daí, a capitania da Bahia estava responsável pela capitania de Sergipe Del Rey com isso também foram distribuídas Sesmarias para os que lutaram na guerra contra os índios. O maior interesse desses sesmeiros era para a criação do gado, mas também para pequenas lavouras. O principal criador de gado era o baiano Garcia D’Àvila que estimulou o governador Luiz de Brito na luta armada contra os tupinambá. Antes da união Ibéria, Portugal tinha um lanço econômico muito forte com a Holanda que era responsável pela comercialização de todo açúcar produzido por Portugal. Entretanto Espanha e Holanda não se davam muito bem. E com isso durante o Governo luso-espanhol Portugal estava proibido de comercializar com a Holanda. Gerando um prejuízo tanto para Portugal quanto para os países baixos, como podemos observar nessa citação abaixo: Portugal e Países Baixos, antes da união daquele à coroa espanhola, mantinham largo comércio, no qual os navios neerlandeses traziam para os portos portugueses não só mercadorias do norte da Europa – trigos, madeira, metais e manufaturas diversas – como produtos da sua própria indústria, sobretudo peixe, manteiga e queijo; de torna-viagem carregavam o sal grosso de Setúbal, vinhos, especiarias e drogas do oriente e da África, açúcar e madeiras do Brasil. Ao ser aquele país envolvido na luta entre a Espanha e os “rebeldes” holandeses em 1580, esta negociação era-lhe de vital importância. Por mais de uma vez (1585, 1596,1599) navios neerlandeses sofreram por ordem dos Filipes, embargos mais ou menos prolongados em portos de Portugal, ocasionando interrupções temporárias do comércio e consequente escassez dos gêneros que ali iam buscar, sobretudo do sal, ingrediente essencial às indústrias do pescado e dos laticínios. Tal ato forçou os holandeses a procurar o abastecimento de sal nas ilhas de Cabo Verde, com o que iniciaram a sua navegação rumo às colônias ultramarinas ibéricas. Entretanto, tonara-se de tal modo indispensável para a economia portuguesa a navegação dos holandeses, que os Reis da Espanha cederam aos protestos dos mercadores e à São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 52
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS ameaça de fome que se esboçava no país, com a assinatura da Trégua dos doze anos (1609-21) entre a Espanha e os Países Baixos, o comércio luso-holandês reiniciou-se sem empecilhos, e foi durante esse período que se intensificou o interesse da Holanda pelos gêneros levados do Brasil. (MELLO, 1989: p.237-238) Quando acabou a trégua de doze anos reiniciou-se a guerra entre Espanha e Holanda, e novamente o comercio luso-holandês fora proibido. Os comerciantes holandeses que dependiam do açúcar brasileiro ameaçaram tomar o Brasil. Isso veio acontecer poucos anos após a criação da companhia das índias ocidentais, empresa holandesa responsável pelo comercio do açúcar, Começaram pela Bahia (1624) onde ficaram apenas um ano, pois foram expulsos e seguiram para Pernambuco (1630) “Mas em 1937, os holandeses resolveram invadir Sergipe interessados em se apoderar dos criatórios de gado e das povoações.” (Fonte: http://www.marcelodomingos.com.br/sergipe3.html) É no período da invasão holandesa em Sergipe que surge a versão mais divulgada sobre Simão Dias. O conde de Bagnoli, oficial napolitano comandante da tropa hispano-luso-brasileira, contra os holandeses. Determinou a tática da “terra arrasada”, que consistia em conduzir os rebanhos para as margens do Rio Real, matar o gado que não conseguisse ser transportado e destruir a cidade para não deixar nenhum beneficio para os holandeses. No entanto o português Brás Rebelo, proprietário de gado das terras da atual Itabaiana, não quis adotar essa tática e ordena ao seu vaqueiro Simão Dias, a missão de Esconder seu rebanho das tropas holandesas nas matas à margem do Rio Caiçá. Onde formaria uma povoação com juntamente com os outros vaqueiros e suas famílias e mais tarde essa mata se tornaria uma vila. Em meados do século XVII, quando as forças invasoras de Maurício de Nassau transpuseram o rio São Francisco, ameaçando Itabaiana, o português Brás Rebelo achou conveniente retirar seus rebanhos daquela zona. Ordenou então que seu vaqueiro Simão Dias construísse currais nas florestas do Caicá. Não sendo hostilizado pelos indígenas, que ainda conservavam a herança da catequese de Gaspar Lourenço, Simão Dias pode estabelecer-se no Caicá, dando assim início ao povoado, para onde pouco a pouco foram afluindo novos colonizadores. (Fonte:http://www.ibge.gov.br/cidadesat/painel/painel.php?codmun=280710) São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 53
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Entretanto, o nome Simão Dias, já tinha aparecido antes desse ocorrido pedindo sesmarias por ter lutado com a tropa de Cristovão de Barros na guerra justa contra os índios fato que se encontra nos registros do códice do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, entretanto não se sabe se é o mesmo Simão Dias ou se apenas são homens diferentes embora tenham o mesmo nome e sobrenome. Como confirma o historiador sergipano Felisbelo Freire em seu livro A História de Sergipe, Confirmando que “os terrenos onde está edificada hoje (1891) a vila de Simão Dias foram doados a Simão Dias fontes, Cristovão Dias e Agostinho da Costa” (FREIRE, 1977: p.322). O nome de Simão Dias, como colono dos primeiros tempos da ocupação do território de Sergipe aparece três vezes, em distintas sesmarias, requeridas em 16 de agosto de 1599, junto ao Caipe, próximo ao rio Vaza-barris em sua foz, em 2 de janeiro de 1602, junto ao rio Pitanga, nas proximidades de São Cristovão, e finalmente em 27 de fevereiro de 1607, juntamente com Cristovão Dias e Agostinho da Costa, na Tabanhananam. Na primeira sesmaria requerida Simão Dias diz ser casado, morador da capitania, o que indica a sua presença na tropa de Cristovão de Barros. No segundo requerimento, ele se diz morador há dois anos, e queria fazer roças para seus mantimentos. Na terceira e ultima, segundo o códice existente no Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, Simão Dias Fontes, o requerimento de “três léguas de terra em quadro”, nas terras devolutas da Itabaiana, dá a destinação de criatório de gado. Gado do qual cede 105 cabeças, a Bagnoulo, mandando-as para o rio Real. Em 15 de março de 1850 a freguesia de Sant’Ana de Simão Dias foi elevada a categoria de município pela resolução provincial nº264. Com o território desmembrado do município de Lagarto. O decreto nº 43 de 8 de maio de 1890, criou a comarca de Simão Dias. A sede do município recebeu foros de cidade pelo decreto nº51 de 12 de junho de 1890 (Fonte: IBGE) assinado pelo então presidente de estado Felisbelo Freire sob argumentos de que a vila possuía uma grande população, um comércio forte e a estrada de ferro que ligava a vila a Aracaju (estrada que nunca foi concluída) Mas além desses “Simões Dias” retratados até agora, há ainda um Simão Dias Francês relatado pelo professor Marcelo Domingos de Souza em texto publicado no site da prefeitura municipal de Simão Dias, mas parece ser o mesmo Simão Dias fontes citado por Freire, entretanto com sobrenomes diferentes. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 54
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS E foi por existirem algumas confusões entre tantos Simões que o padre João de Matos Carvalho publicou uma obra intitulada “Matas de Simão Dias” com o interesse de enfraquecer a tese de Felisbelo Freire de que as terras do município teriam sido provenientes de sesmarias doadas a Simão Dias, afirmando que as essas terras tinha sido doação da senhora Ana Francisca Menezes sua ancestral e esposa do Comendador Sebastião da Fonseca Andrade, o Barão de Santa Rosa, Por isso queria que o município se passasse a se chamar Anápolis em homenagem a Ana Francisca de Menezes, que havia doado apenas as terras para a construção de uma capela em homenagem a Senhora Sant’Ana. Conseguindo o seu feito com a lei nº 621 de 25 de outubro de 1912 mudou o nome de Simão Dias para Anápolis desvalorizando assim a figura do vaqueiro e enaltecendo a sua ancestral. Após muitas controvérsias e reações o nome Simão Dias foi reestabelecido pelo decreto lei nº 533 de 7 de dezembro de 1944, favorecido pela determinação do governo federal, do presidente Getulio Vargas que aprovou o plano do IBGE, coibindo a existência de dois municípios com o mesma denominação. E como existia um município goiano com o mesmo nome, e mais antigo, a Anápolis sergipana teve que modificar o nome. Apesar de a versão histórica ser comprovada documentalmente, afirmando que Simão Dias Fontes recebeu essas terras como sesmaria, a existência da figura de Simão Dias como um vaqueiro vindo de Itabaiana é a que é divulgada e aceita pelos simãodienses que se identificam com a figura do vaqueiro. Sendo que até hoje a população preserva algumas características da “sociedade do couro” como nas festas do Carreiro no povoado Barnabé ou mesmo na festa do Vaqueiro que acontece em alguns povoados e também na sede do município. Também é preservada a fé por Senhora Santana que no mês de Julho no dia 27, a procissão movimenta todo o município é o momento em que todos os povoados e bairros se reúnem em frente à matriz de Sant’Ana para agradecer por ela sempre abençoar essa terra e mesmo quem não é católico se encanta ao ver uma tradição ser mantida por várias gerações. REFERÊNCIAS BARRETO, Luis Antonio. Simão Dias: Tradição e história: centenário de sua emancipação política. Aracaju: Pesquise, Montalvão Publicidade [1990] São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 55
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS DÉDA, José de Carvalho. Simão Dias - Fragmentos de sua história. Aracaju: gráfica J. Andrade, 2008. 2ª Ed. FREIRE, Felisbelo. História de Sergipe. 2ed, Petrópolis: Vozes/Aracaju: Governo do Estado de Sergipe, 1997. IBGE. Enciclopédia dos Municípios Brasileiros. Rio de Janeiro: IBGE, 1959, v. 19 (Alagoas e Sergipe). MELLO, J. A. Gonçalves de, O domínio holandês na Bahia e no Nordeste, Tomo I Época Colonial do descobrimento à expansão territorial. Recife. 1989. SILVA, Clodomir. Álbum de Sergipe. Aracaju. 1920. SOUSA, Antônio Lindvaldo. Temas de História de Sergipe II. São Cristovão: Universidade Federal de Sergipe, CESAD, 2010. DOMINGOS, Marcelo. Sergipe colonial Disponível em: <http://www.marcelodomingos.com.br/indicecolonial.html> Acesso em 24 Mar. 2013. IBGE. Disponível em <http://www.ibge.gov.br/cidadesat/historicos_cidades/historico_conteudo.php?codmun=2 80710 >Acesso em 20 mar. 2013. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 56
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 10. COMPREENSÃO DO DESENVOLVER DA PESQUISA SOBRE OS ESCRAVOS EM SÃO CRISTÓVÃO José Daniel Rito dos Santos Ane Luise Silva Mecenas Resumo: O Presente trabalho tem como objetivo discutir as práticas de compadrios e de sociabilidades na freguesia de São Cristóvão num período longo em que se estende de 1850 a 1910. O levantamento de dados será realizado na Igreja Nossa Senhora da Vitória, matriz da primeira capital sergipana e tem como um dos requisitos a preservação das fontes documentais, através da digitalização das mesmas. Entre os estudos executados acerca da escravidão (principalmente no sul do Brasil) e que servirão de embasamento para a realização deste, nota-se uma busca pela compreensão na relação entre os cativos já que eles eram bruscamente afastados de suas famílias e levados a uma convivência sobre condições truculentas com um aglomerado de indivíduos de costumes e tradições exóticas vindos das mais diversas regiões da África. Esses encontram nos compadrios e casamentos formas de constituir famílias e de convivências que possibilitou a sociabilização com os que estavam na mesma situação e que posteriormente implicou na construção de atitudes que possibilitaram reivindicações frente às condições de trabalho e inferioridade social e gerou uma hostilidade na convivência entre senhor e escravo. Como em determinado período da história sergipana a economia se deu à base do trabalho escravo nos engenhos de açúcar e demais atividades propícias, há ainda uma grande carência de pesquisas sobre o tema que tratem de preencher as lacunas que ainda se fazem presentes, e assim se justifica esse trabalho que traz na íntegra a produção da historiografia escravista sergipana na transição que vai da segunda metade do século XIX até os primeiros anos do XX. Palavras-chave: São Cristóvão; Cativos; Compadrios; sociabilidade. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 57
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 11. FLAGRANDO A VIDA: TRAJETÓRIA DA VIDA INTELECTUAL E PROFISSIONAL DA PROFESSORA LÍGIA PINA José Genivaldo Martires (*) Resumo: O presente estudo tem o objetivo de estudar a trajetória da vida intelectual e profissional da Profª Lígia Pina. Utilizamos a técnica de história de vida realizada por meio de depoimentos da biografada. Lígia Pina nasceu em 1928, na cidade de Aracaju, estudou nos colégios: Frei Santa Cecilia, Escola Nossa Senhora de Lourdes e Escola Normal. Fez o curso superior em História e Geografia na FaculdadeCatólica de Filosofia de Sergipe. Em relação a sua vida profissional lecionou em diversos colégios de Aracaju, dentre eles: Escola Normal, Atheneu e no Colégio de Aplicação da UFS. Nesta instituição de ensino desenvolveu uma série de atividades e materiais didáticos com o propósito de dinamizar as aulas de história. Em 1991 encerrou as suas atividades pedagógicas, passando a se dedicar as suas obras literárias e nas atividades da Academia Sergipana de Letras. Palavras Chaves: Escola Normal, História Cultural, Colégio de Aplicação, Magistério. INTRODUÇÃO O presente trabalho tem o objetivo de estudar a trajetória de vida intelectual e profissional da Professora e Literata, Maria Lígia Madureira Pina, que exerceu o magistério duranteas décadas de 50 a 90 do século XX. Esse trabalho está em consonância com os pressupostos teóricos – metodológicos da nova História Cultural. Pois, “(...) o que antes era fixo, imutável, agora é uma construção cultural, que sofre constantes transformações no tempo. Calçada no relativismo defende a ideia de que toda realidade social é culturalmente construída.” (SANTOS, 2009:75) O estudo de trajetória de vidas de professoras no inicio do século XX é um objeto de estudo relativamente novo nos grupos de pesquisas da História de Educação, tais (*) Prof. do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Sergipe São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 58
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS pesquisasconcentram suas atençõesna história da escolarização, nas culturas escolares, profissionalização e a própria luta feminina no Brasil. A esse respeito: A escolarização feminina possui historicamente, um sentido mais ampliado do que a mera transmissão de conteúdos, em geral ela significa, principalmente nas primeiras décadas do século XX, um passa a mais na emancipação e na conquista da autonomia, de do exercício da cidadania. Não é por acaso que o acesso ao ensino superior no Brasil pelas mulheres foi uma luta de várias gerações, eram diversos preconceitos e as justificativas para a restrição da possibilidade de ampliaçãode estudos após o ensino secundário (FREITAS, 2009:08.) Para a elaboração deste trabalho utilizamos como fontes: os depoimentos, através de uma série de entrevistas realizadas com a Professora Lígia Pina; jornais e a produção bibliográfica da biografada. Utilizamos a técnica denominada História de vida que: “Se definecomo o relato de um narrador sobre sua experiência através do tempo, tentando reconstruir os acontecimentos que vivenciou e transmitir as experiências que adquiriu”. (QUEIROZ, 1991:07) FLAGRANDO A VIDA29 Maria Lígia Madureira Pina nasceu em Aracaju, no dia 30 de setembro de 1928, no bairro industrial. Foi a terceira filha do casal Affonso Pina e Alexandrina Madureira Pina. Estes, provenientes da região do Vale do Cotinguiba, da cidade de Santo Amaro das Brotas, migraram para a Aracajuna primeira década do século XX, em busca de uma melhor oportunidade de vida. Dona Alexandrina trabalhava na fábrica de tecidos Confiança e o Sr. Affonso Pina em uma fábrica de calçados. De acordo com a biografada: Eu nasci em Aracaju, sou filha de Affonso Pinna e Alexandrina Maria Pina, lá de Santo Amara das Brotas. Toda a família, meus bisavós e meus avós eram todos de láde Santo Amaro das Brotas, [...]. Os meus pais vieram morar aqui (Aracaju), o meu pai com 13anos e minha mãe com 9 anos de idade, no bairro industrial. Aqui se conheceram, namoraram 10 anos. Ela menina tinha 14 anos e ele era 11 anos mais velho. Casaram-se e tiveram 03 filhos, os dois mais velhos morreram crianças e então eu era a mais nova. (MariaLígia Madureira Pina, entrevista em 06/01/2004). 29 Título do primeiro livro de poesias da Prof.ª. Lígia Pina São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 59
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS A sua infância transcorreu normalmente, como todas as crianças da sua época, porém com uma grande preocupação dos seus pais em relação a sua “fragilidade”no tocante a sua saúde. Entretanto, esse zelo e preocupação demonstravam o receio de perdê-la, haja vista as mortes prematuras dos outros dois irmãos. Com cinco anos de idade, em 1933, nasceu o desejo de frequentar a escola do bairro e, segunda a mesma, o interesse para o magistério tem as suas origens nesse período em que estudou no Colégio Frei Santa Cecília, administrado e ministrado pela Professora Carlota: A escola na época não era pra se distrair, não era jardim de infância. Havia aquelas lições chatas, difíceis de apreender. O ABC que era de letras grandes que eu sabia todo de cor, mas não conhecia uma letra. A prof.ª marcava daqui até aqui. Quais são as letrinhas? Já sei A, B, C, D, E... Ela dizia mais que letra é essa? Eu não sabia. Então ela falou para o meu pai comprar uma cartilha, eu fui aprender a ler com o método, que depois de muito tempo é considerado moderno. Nessa cartilha eu aprendi através de palavras e de frases. D. Carlota ensinou na Bahia, no Recife, era a cartilha Ler Brincando.(MariaLígia Madureira Pina, entrevista em 06/01/2004.). Além do método aplicado por D. Carlota para a alfabetização, também merecem destaque as dramatizações, os recitais de poesiasque realizava com os seus alunos, incentivando-os a redigir e,segundo a Professora Lígia Pina, nesse momento estava iniciando o seu processo de literata e escritora. Em virtude de problemas de saúde de D. Alexandrina, a família mudou-se para a Av. Pedra Calazans, vizinho ao Grupo Escolar Manoel Luiz. Mudança de endereço e, também mudança no ambiente escolar. Com 11 anos de idade o seu pai, funcionário público, fez a matricula no Colégio Nossa Senhora de Lourdes, administrado pelas Irmãs da Congregação Sacramentinas "Fundado em 1903 em Aracaju pelas religiosas Irmãs Sacramentinas com sede em Valence (França), aceitava alunas internas, semi-internas e externas” (NUNES, 2008:364). O colégio feminino era considerado de Elite, onde as filhas dos senhores de engenhos e/ou senhores de gados do interior, eram confiadas para a educação. Formar, com base numa educação disciplinar, as “verdadeiras” esposas, mães e donas de Casa. O São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 60
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Colégio Nossa Senhora de Lourdes funcionou até 1973. A professora Lígia Pina recordando esse período escolar no Colégio Nossa Senhora de Lourdes nos afirma: Entrei lá no Nossa Senhora de Lourdes no 3° ano primário com a irmã Dolores que era uma Freira paulista da cidade de Araraquara e era uma professora extraordinária, ela nos ensinou de tudo, inclusive o Francês. As primeiras noções de Francês com a irmã Dolores, como ela nos ensinava a recitar as poesias em Português e em Francês, desenvolvi ali também o gosto pela História e a Geografia. A Irmã Maria Dolores era muito nacionalista (paulista não é),ela fazia teatro daslições de História Independência, Inconfidência Mineira, ela nos transmitia muita noção de patriotismo e nacionalidade. Com esse 3º ano com ela passei muito bem e depois fui ao 4a ano com a Irmã Maria Carmelita, já não era uma pessoa assim... Não tinha a mesma didática da Irmã Maria Dolores. Muitoexigente, era diferente: cada pessoa é uma pessoa, éum jeito, mas fiz o 4° ano com boas notas. (Maria Lígia Madureira Pina, entrevista em 06/01/2004). Aos 13 anos de idade Lígia Pina ingressou no Instituto de Educação Rui Barbosa, antiga Escola Normal. Os anos em que Lígia Pina passou na Escola Normal ainda estão presentes na sua memória, segundo a mesma, era uma vivência democrática, na escola estavam reunidas as maiores "cabeças pensantes do Estado”, e cita como exemplo as aulas da Profª Júlia Teles que a incentivara nas suas poesias e nos seus contos. Na Escola Normal era a escola onde predominava a democracia entre as alunas que frequentavam os dois colégios. O Colégio Nª. Sª. de Lourdes era de elite, internato e externato. No internato as filhas dos senhores de engenhos, fazendeiros que moravam no interior einternavam as meninas e as externas, geralmente de classe média pra cima, era muito raro umamenina pobre estudar noNª Sª de Lourdes, porque nãopodia pagar. A Escola Normal era diferente eram todas as classes sociais e na maior parte as meninas de poderaquisitivo inferior, meninas que naquela época moravam no que era o 18 do forte (50 anos atrás), bairro América e eu tive muitas colegas que moravam no Siqueira Campos, Bairro América, Industrial, Bugio, era salinas naquela época, a praia 13 de julho eram casebres de pescadores. (Maria Lígia Madureira Pina, entrevista em 06/01/2004). Lígia Pina estudou neste período com osprofessores (as): Cecinha Melo, Padre São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 61
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Domingos Fonseca, Júlia Teles, dentre outros. Outro fato marcante das lembranças do cotidiano escolar de Lígia Pina no Instituto Rui Barbosa foi o desejo de ascensão social e econômico por meio da profissionalização do magistério, corroborando assim com o estudo realizado por Freitas (2003) sobre as representações de ex-normalista de 1920 a 1950, os motivos que levavam as moças a ingressar e concluir o curso normal estavam associados a processos de ascensão social, à pressão da família e à oportunidade de, por parte da mulher, obter uma independência financeira. Nocaso de Lígia Pina, a busca de uma independência financeira era algo bem presente e incentivado pelo seu pai, pois: Ele exigia que eu estudasse e dizia sempre assim: você estuda pra se formar ter o seu emprego, porque o melhor marido do mundo é o emprego; ser independente, não pode precisar de ninguém e quando eu morrer como é que vai ser? Vai ficar na dependência dos outros? Não, você tem que estudar. Ele era um homem muito esclarecido para a sua época. E então ele dizia tem que estudar e, se formar, ter o seu emprego. (MariaLígia Madureira Pina, entrevista em06/01/2004). Em 1948, Lígia Pina concluiu o seu curso Normal, mas não assumiu de imediato o magistério. Primeiramente, fez alguns cursos como: Puericultura, patrocinado pela Secretaria de Estado da Saúde e o de Treinamento de Serviço Social. Após esses cursos foi trabalhar no comércio na condição de secretária da firma Cabral Machado e Companhia, onde permaneceu por três anos. A atividade do magistério foi surgindo aos poucos, no inicio dos anos 50 do século XX, através das aulas particulares ministradas aos filhos de pessoas que detinham poder econômicona cidade de Aracaju. Em seguida começou a ensinar em colégios particulares e, em 1954, prestou vestibular para o curso História e Geografia na FaculdadeCatólicade Filosofia de Sergipe. A Faculdade Católica de Filosofia, criada em 1951, funcionava ànoite no prédio do Colégio Nossa Senhora de Lourdes. Em 1958 foi transferida para a sua sede própria, localizada na Rua Campos 177, onde hoje funciona o IPES (Instituto de Previdência do Estado de Sergipe); em 1968 foi incorporada à Universidade Federal de Sergipe. Em relação à sua formação acadêmica e pedagógica na Faculdade Católica de Filosofia de SergipeLígia Pina destacou as contribuições dos seguintes professores: Gonçalo Rollemberg; Fe1tre Bezerra; José Silvério Leite Fontes; D. Luciano Cabral Duarte; Severino São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 62
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Uchoa; Josefina Leite; Cabral Machado, dentre outros. O curso teve a duração de 1955 a 1958 e a solenidade de colação de grau só ocorreu em 1959 em razãoda ausência de D. Luciano por motivos de viagem. De acordo com Lígia Pina foi uma solenidade muito simples ocorrida na própria Faculdade. Antes mesmo de concluir o curso superior Lígia Pina fora convidada por Severino Uchoa, Diretor na época da Escola Normal, para lecionar algumas disciplinas. A professora Lígia Pina exerceu o magistério em diversos Colégios em Aracaju, públicos e privados. Entre eles: Colégio Nossa Senhora de Lourdes de 1958 a 1971; Colégio Tiradentes de 1961 a 1963; Colégio Simeão Sobral de 1960 a 1962; Colégio Dom José Thomas de 1963 a 1965; Colégio Arquidiocesano Sagrado Coração de Jesus de 1968 a 1970; Colégio Atheneu Sergipense de 1958 a 1983; Por último, o Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Sergipe de 1967 a 1991. Nesses colégios a Professora Lígia Pina lecionou as disciplinas de Geografia e História e disciplinas pedagógicas no curso Normal no Colégio Nossa Senhora de Lourdes e Instituto Rui Barbosa. Dentre os colégios citados, iremos nos deter na análise do período em que a ProfessoraLígia Pina exerceu o magistério no Colégio da Universidade Federal de Sergipe. O antigo Ginásio de Aplicação, hoje denominado de Colégio de Aplicação - CODAPfoi criado pela Sociedade Sergipana de Cultura, presidida por D. Luciano Cabral Duarte, em 30 de junho de 1959. Seu objetivo principal era de servir como campo de estágio das licenciaturas da Faculdade Católicade Filosofia.Em 1968 o Colégio de Aplicação foi incorporado àrecém-criadaUniversidade Federal de Sergipe. Vinculado inicialmente ao Departamento de Educação e, posteriormente, ao gabinete do Reitor como órgão suplementar. No dia primeiro de março de 1967 a professora Lígia Pina iniciou suas atividades pedagógicas no Colégio de Aplicação contribuindo para o seu desenvolvimento pedagógico e literário. A Professora Lígia Pina destacou com elementos diferenciais do Colégio de Aplicação em relação aos demais Colégios que lecionou as seguintes características: O diferencial no início era justamente o nível dos alunos que nós recebíamos, eram de alta classe social e econômica que tinham o nível de conhecimento muito maior. Porque na época se fazia exame de seleção. Outro diferencial era o número de São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 63
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS alunos, nós podíamos trabalhar bem melhor no Codap, porque cada série tinha 30 alunos e no máximo 35, enquanto nos outros (...). Fazia-se reunião para avaliar o desempenho do aluno, então, todo mundo já sabia qual o aluno que estava fraco, e em quantas disciplinas, quais as disciplinas, se era uma disciplina só, então o professor tinha que se auto-avaliar (...). O Codap agente tinha a possibilidade de aplicar técnicas, fazer teatro, júri simulados, jona1 falado, essas coisas que hoje - como falei na vez passada - estão como estudos integrados das disciplinas, são hoje coisas muito novas, mas que eu fazia há trinta anos atrás.(MariaLígia Madureira Pina, entrevista em 04/02/2004). No decorrer da sua trajetória pedagógica no Colégio de Aplicação, foram várias peças de teatro escritas entre elas: “As Grandes Navegações”, “Patrícios e Plebeus”, “Os Caminhos da Filosofia”, “O Ponto Ômega”, “O 1º e o 2º Recital de Poesias Sergipanas”. Esses textos eram elaborados pela Professora Lígia Pina que ensaiava com os seus alunos para as apresentações. Alémdos textos para teatro escreveu e aplicou em sala de aula um livro didático: "Tudo isto é o Brasil" que, até a presente data não obteve apoio e/ou recursos financeiros para sua edição. A corrente de pensamento que norteou a prática pedagógica da Professora LígiaPina foidefinida por ela como: Eu sou uma humanista por excelência e uma liberal por excelência. Eu acho que a situação do mundo atual é assim por que a homem esqueceu o próprio homem. O desenvolvimento tecnológico e cientifico que devia ser importante entre os homens, mas não foi, acabou com o humanismo.(MariaLígia Madureira Pina, entrevista em 04/02/2004) Esse humanismo foi marcante na formação acadêmica ena sua prática escolar. De acordo a Prof.ª Lígia Pina esse humanismo foi fruto da educação que recebeu dos seus pais; da influência do seu tio Lourival Pinaque a incentivava nas leituras e de alguns professores que lecionaram naFaculdade de Filosofia de Sergipe, a exemplo de D. Luciano. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 64
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS CONSIDERAÇÕES FINAIS Diferentemente de um estudo biográfico de uma pessoa "post-mortem”, estruturado em começo, meio e fim, o nosso estudo não se encerra por aqui. O estudo biográfico das pessoas em vida tem esse caráter de não ser conclusivo e de possibilitar novas trajetórias e novos olhares. Ao objetivarmos o estudo sob a ótica da trajetória intelectual e do exercício do magistério da Professora Lígia Pina foi notóriaas contribuições: dos seus pais; a formação moral e religiosa do Colégio Nossa Senhora de Lourdes; a formação democrática e humanista da Escola Normal e, por último, as contribuições acadêmicas da Faculdade Católica de Filosofia de Sergipe. Foi no exercício do magistério, especificamente, no cotidiano da sala de aula que percebemos o encontro entre a Professora e a Literata Pina. Esse encontro foi decorrente da necessidade de elaborar textos, resumos, crônicas e peças teatrais com objetivo de: despertar ao interesse e a atenção dos alunos pela disciplina de História; bem como favorecer um intercâmbio entre os conteúdos históricos com as ciências afins a exemplo da Geografia e da literatura. Desta forma, observamos o desenvolvimento da sua veia literária e, a sua preocupação com o mundo que nos cerca, acreditando no potencial humano para a resolução dos problemas. Com a pretensão de não concluirmos e, consciente das nossas limitações, guardaremos com muito carinho o semblante sorridente da Professora Pina; o seu vigor em continuar participando da Academia Sergipana de Letras; Conselho Estadual de Cultura; da Academia Literária da Vida; realizando as suas pesquisas, estudos, poesias, crônicas, livros e exaltando a vida. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: FREITAS, Anamaria Gonçalves Bueno. Vestidas de Azul e Branco: um estudo sobre as representações de ex-norrnalistas (1920-1950). São Cristóvão: Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação/NPGED. (Coleção: Educação é História),2003. _________Para que(m) contar a História das Mulheres professoras/literatas São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 65
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS paraibanas? In: Educação e Educadores na Paraíba do século XX. João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 2009, p.7-14. NUNES, Maria Thetis. História da Educação em Sergipe. 2ª ed. São Cristóvão: Editora UFS, 2008. PINA, Maria Madureira. A Mulher na História. Aracaju: SEGRASE, (s/d) ______Flagrando a Vida. Aracaju: SEGRASE, 1983. ______.O Satélite Espião. Aracaju: Gráfica Popular, 1998. QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Variações sobre a técnica de gravador no registro da informação viva. São Paulo: T. A. Queiroz Editor,1991. SANTOS, Erinalda Lopes dos e NUNES, Maria Vera da Silva. Julita Ribeiro: reflexões sobre as lições das coisas (1921-1022) in:Educação e Educadores na Paraíba do século XX. João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 2009, p. 75-90. Fontes orais: Maria Lígia Madureira Pina – depoimentos concedidos ao entrevistador José Genivaldo Martires nos dias 06/01/2004 e 04/02/2004. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 66
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 12. O “TEMPO DA FÁBRICA” EM SÃO CRISTÓVÃO: APONTAMENTOS DA PESQUISA José Thiago da Silva Filho30 Resumo: A pesquisa trata da experiência de cidade têxtil que São Cristóvão vivenciou por quase 70 anos no século XX e que marcou profundamente o patrimônio cultural do seu povo e a configuração política, econômica e social. Sua metodologia pautou-se: a) na análise da monografia que José Lúcio Batista Silva defendeu em 2002 sobre o tema, com o titulo “O surgimento da indústria e do operário em São Cristóvão”; b) na acareação do estudo acadêmico com as informações coletadas em livros e nos jornais da hemeroteca do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE). Como resultado, temos um quadro ampliado, ainda parcial, do que foi a experiência cidade fabril em contraposição a cidade turística que o discurso político, vinculado a programas, obras e eventos consolidou na segunda metade do século XX. PALAVRAS-CHAVES: São Cristóvão - fábrica – biografia - Pedro Amado APRESENTAÇÃO “1968 - O progresso chegou há muitos anos com duas fabricas de tecidos que se acomodaram na baixada, a beira rio plantadas, dando trabalho honesto e remunerado a milhares de braços”. (A Tarde, 5/6/1968) São Cristóvão possui um belo conjunto arquitetônico colonial. Em razão disso foi declarada Monumento Histórico em 1938, teve o centro histórico reconhecido em 1967 como bem de valor e preservação, por último sua praça São Francisco recebeu o título de Patrimônio da Humanidade concedido pela UNESCO em 1º de agosto de 2010. Apesar de tantos méritos acumulados a “quarta cidade mais antiga do Brasil” se acha num processo lento de vir-a-ser pólo de turismo. O que muita gente desconhece é que no decorrer do século XX 30 Especialista em História Cultural pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE), Diretor do Museu Histórico de Sergipe (MHS/SECULT). Orientador: Prof. Dr. Antonio Lindvaldo Souza, Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe (UFS). São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 67
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS nem sempre falar de progresso aqui significava o turismo e as diversas possibilidades de aproveitamento do antigo e belo conjunto arquitetônico localizado no centro histórico, ou seja, na cidade alta. Durante muito tempo falar de progresso era olhar para cidade baixa. A propósito, transcrevo uma matéria do jornal A Tarde, de Salvador, edição de 5 de junho de 1968, onde o jornalista Junot Silveira comenta sobre a cidade onde passou parte de sua infância: “o progresso chegou há muitos anos com duas fabricas de tecidos que se acomodaram na baixada, a beira rio plantadas, dando trabalho honesto e remunerado a milhares de braços”. A fase fabril de São Cristóvão foi representada pelas fábricas, sinônimo de progresso, a gerar centenas de empregos e uma posição de destaque na economia sergipana. São elas: Fabrica Sam Christovam S. A. (1914/1980) e Companhia Industrial São Gonçalo (1941/1969). Ambas tiveram uma grande influencia na vida social, política, econômica e cultural da ex-capital. Apesar de toda sua importância não existe uma herança da fábrica ou esta é imperceptível a nova geração. De qualquer sorte faltava uma incursão na memória da fase fabril, é basicamente disso que trata a monografia “O surgimento da indústria e do operário em São Cristovão”, de José Lúcio Batista Silva. José Lúcio mostra que a implantação da empresa têxtil Sam Christovam, em 1914, junto com recém instalada linha férrea, retomou o crescimento econômico, político e social da cidade em decadência desde a Mudança da Capital em 1855. Aliás, ele defende que a falência da então capital começou em 1845 com desmembramento da freguesia de Itaporanga, 10 anos antes, portanto. Na sua narrativa acerca da implantação da fábrica Sam Christovam S. A., autor nomina os principais sócios e trata do desempenho fabril nos primeiros 20 anos de atividades. Ele fornece dados biográficos sobre os fundadores, especialmente sobre Felix Pereira de Azevedo e Othoniel Amado. Além de identificar origem dos operários, o pesquisador entrevistou ex-operários (Antonio Lucrécio Santos, João Batista da Rocha, Pedro Arcanjo de Santana, Maria Eurizina de Oliveira da Silva) para saber do processo de produção e moradia; Assim como coloca a implantação da unidade fabril sergipana, localizada em São Cristovão, dentro do contexto nacional, ele mostra que a vila operária seguia os mesmos São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 68
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS princípios de controle observados em outras indústrias. Desvela ainda que a primeira greve deflagrada pelos operários em 1935 não reivindicava melhores condições de trabalho e salários mas protestar por conta da contaminação da água empreendida pelo encarregado Penn Collidgs Menhinick. Por último, esclarece que dentro do processo de negociação com grevistas e pleito de apoio junto do Governo do Estado, o deputado Pedro Amado, opositor, assumiu bancada situacionista. Tal expediente garantiu apoio de força militar que garantiu sua propriedade e impôs o fim do ato grevista. IRMÃOS AMADO: CONSTRUINDO BIOGRÁFIAS Othoniel Amado, assim como Felix Pereira de Azevedo, faleceu nos primeiros anos de funcionamento da fabrica. O fato marca a chegada do seu irmão, Pedro Amado, no corpo de sócios. Até a breve participação nos quadros da empresa, Othoniel atuou como representante comercial de produtos diversos. Em 30 de maio de 1908, era guarda livros quando foi nomeado agente da Companhia Pernambucana de Navegação, em Sergipe, com escritório na rua Laranjeiras n. 31. (Correio de Aracaju, 11/06/1908) Avisa que mudou escritório de Comissões e Consignações para rua da Aurora, n. 65. (Correio de Aracaju, 8/11/1908) Figura como 1º. Secretario do Club Esperanto, em 30 de agosto, convocando sócios para eleger novo Conselho Fiscal e Mesa Diretora. (Folha de Sergipe, 27/8/1908) Em 1913, aparece como agente da Companhia de Navegação do Baixo São Francisco, numa cobrança endereçada a Secretaria do Tesouro sobre pagamento de passagens de praças. (Diário da Manhã, 12/07/1913) Era único agente-depositário do Lumbricida Vegetal Antunes fabricado na Capital Federal. Seu nome figura na folha de produtos e serviços da praça aracajuana para contato de venda de zonophones, com loja na rua D’Aurora, n. 43. Em 1913 ainda negocia produtos musicais. (Diário da Manhã, 30/11/1911) São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 69
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS No ano de 1911, Pedro Amado ‘‘terminou brilhantemente curso de odontologia na academia de Medicina do Rio de Janeiro, - obtendo plenamente com distincção’’. (Diário da Manhã, 28/11/1911, 2) O cirurgião dentista instalou Clínica Odontológica na capital sergipana, rua Itabaiana, n. 15. Independente das suas atividades clínicas de 1914, mantinha sob a razão social Amado e Cia um armazém de moveis na rua Japaratuba, n. 5. (Diário da Manhã, 5/2/1914) Os irmãos amado tinham firmas abertas na Junta Comercial, granjeavam representações de produtos e serviços de outros Estados e pelo menos uma vez contrariaram a Recebedoria Estadual. Os negociantes Othoniel Amado e Pedro Montalvão Amado tiveram “proihibida, a entrada, nesta repartição” em atividade no momento Rastreando informações nos jornais foi possível juntar dados biográficos que respaldam conclusões de José Lúcio a respeito da origem do capital empregado na fundação da Fábrica Sam Christovam S. A. (O Estado de Sergipe, 13/10/1910) ISENÇÃO & BENFEITORIAS Segue dados sobre primeiras notícias da empresa que motivou José Lúcio Batista Silva a elaborar seu estudo. Dos tantos empecilhos encontrados pelos empresários para Inaugurar o empreendimento responsável pelo renascimento econômico da ex-capital, um foi pauta da sessão do Conselho Municipal, de 15 de janeiro de 1914, revogando lei N. 85, de 17 de dezembro de 1911 que concedia isenção de impostos as fabricas ou empresas fundadas no município. Independente das intrigas geradas pela iniciativa, o Conselho justificou que lei não cumpriu tramite legal e desconsiderou prescrições da lei orgânica do município, o fato é que a isenção e/ou sonegação de impostos pelo que pudemos constatar foi uma constante a prejudicar a saúde financeira do município. No entanto, a influência dos astutos empresários, de seus agentes, enfim, a inserção da fábrica na vida política sancristovense é que determinava a intensidade do ônus. Se a benfeitoria do coreto parece um favor, imagine a luta travada entre os agrupamentos das 2 fabricas para contar com o apoio ou coptar a gestão municipal nas décadas de 1940, 1950 e 1960. Detalhe: ao gestor aliado cabia por um lado minimizar/colaborar com sonegação da fábrica e, por outro lado, taxar e expor na imprensa as São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 70
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS dívidas da empresa concorrente. No geral, esta relação licenciosa entre setor privado e poder público agravou-se. Citemos um exemplo para ilustrar, transcrito do Sergipe-Jornal, de 5 de maio de 1951, ano em que o médico das fabricas galgou posto de prefeito: As coisas em São Cristovão não andam lá muito boas. O novel prefeito, Dr. Lourival Baptista, apezar de médico das duas fabricas ali existentes, conta com a oposição dos operários que formam a maioria na Camara de Vereadores. E esses vereadores, ao que se informa, estão dispostos a vigiar e fiscalizar seriamente os negócios do município, não permitindo químicas de verbas nem transações outras que venham a onerar os cofres públicos... (Sergipe-Jornal, 5/5/1951) Vê-se pelo exposto que força dos operários sindicalizados, como poder político representado na Camara de Vereadores, conflitava com o representante patronal escudado no Executivo. A “química” das verbas condenada em 1951 era praticada nos primeiros anos da implantação da empresa; para decorar prédio da prefeitura comprado em 1916, o ex-intendente Antonio Gonsalves Barroso, contraiu na “Amado & Cia da praça de Aracaju o débito da quantia de 436$000”. (Carta de Antonio Gonsalves Barroso ao intendente Messias do Prado Alvares Pereira, dezembro de 1916. Correspondência Recebida e Expedida (1915/1920). Acervo da Prefeitura Municipal de São Cristovão) Diante do caso, reiteramos: questão fiscal ou sonegação promovida pela fábrica indistintamente espera um outro estudo. Se dados oficiais não batem, caso do número de teares da empresa, por exemplo, é preciso considerar que o valor do imposto sobre tear era calculado de acordo com a quantidade declarada pelo proprietário. AUTO-ESTIMA & O VALOR DA FÁBRICA O discurso do aumento da auto-estima do povo sancristovense consoante a experiência fabril é um espécie de ópio consumido e patrocinado por 3 porta-vozes: bairristas como Serafim Santiago; empresários como Pedro Amado; candidatos do universo fabril como Deoclécio Vieira e Lourival Baptista. SANTIAGO apresenta mais datas inaugurais: inicio da escavação do alicerce (14/8/1912), solenidade com benção das maquinas (4/2/1914). Curioso é o valor do capital que informa: superior a mil contos de réis. José Lúcio é mais exato: oito mil contos de réis. José Lúcio Batista Silva questiona a necessidade de investigar a origem do capital, (não São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 71
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS satisfeito com explicação encontrada em “História Econômica de Sergipe” (PASSUS SUBRINHO, 1987:87) e/ou o enriquecimento meteórico dos sócios. Junte-se a tudo isto a comentada questão fiscal e o vasto território da cidade que virou área de produção de lenha e coco, que décadas depois foi incorporado ao patrimônio dos Amado. PROCEDÊNCIA DO MAQUINÁRIO Respaldado no caso da fabrica Sergipe-Industrial fundada em 1884, José Lúcio afirma que maquinário da Sam Christovam anunciado como moderno e abençoado na manhã do dia 14 de fevereiro de 1914, era obsoleto. Pasme, tinha um século de “atraso tecnológico”. Vejamos o que diz o Diário da Manhã, de 28 de setembro de 1912: Empreza Industrial Sam Christovam - Acabam de embarcar no vapor inglez Matador da Harrison Line, sahido de Liverpool a 21 do corrente 2.266 volumes de ferragens e maquinismos para a Empreza Industrial Sam Christovam, de activos capitalistas da nossa praça. É o primeiro carregamento de material que a empreza vai receber, e que chegará por todo o mez de outubro. Dentro de poucos mezes a tradicional cidade de Sam Christovam verá funcionar a nova fábrica, cujo edifício já está em construcção, e o nosso Estado contará mais esse elemento de progresso. (Diário da Manhã, 28/9/1912) VILA OPERÁRIA & LITERATURA José Lúcio recorre ao depoimento de Pedro Arcanjo de Santana, 94 anos, para tratar da origem da vila operária e da vigilância sofrida pelos moradores por parte dos agentes patronais. As vilas operárias e os núcleos fabris eram comuns nas industriais desde o século XVIII, mas no Brasil desde o século XIX. Em sua obra “Pedra: plano e cotidiano operário no sertão”, Telma de Barros Correia distingue vila operária de núcleo fabril, constituindo este uma tentativa de cidade fabril enquanto aquela uma fórmula patronal de controlar a vida privada dos operários, anexando moradia ao complexo fabril. (CORREIA, 1998:20) Assim foram as duas vilas operárias de São Cristóvão. A seguir destaque villa operaria christovense, publicado num jornal aracajuano: Os activos industriaes que compõem a firma Andrade, Chaves e C., para exploração de uma fábrica de tecidos em S. Christovam, pretendem mandar construir, junto ao São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 72
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS local do grande estabelecimento industrial, uma villa operária, já tendo para isso se entendido com competente engenheiro Dr. Heraclito Lima, que começou o trabalho com actividade na confecção da planta. Serão construídas cerca de 300 casas para operários, um armazém para venda de mercadorias, um salão para sessões cinematographicas, dança e diversões outras e um chalé para a administração. Louvamos a idéa dos illustres capitalistas que com tal procedimento procuram melhorar a situação do nosso operariado, tão mal remunerado quasi sempre. (Diário da Manhã, 4/10/1913) Conforme detalha José Lúcio, foram construídas a avenida da frente e uma outra por trás deixando os minúsculos quintais como ponto de intersecção. A terceira vila e quarta possuíam quintais maiores. É possível desenhar hoje o complexo desenhado pelo engenheiro Heráclito Lima, ainda que não mais existam o formato original, com armazém, cine fabril, chalés, etc. Dois romances de cunho social lançam dados sobre as idiossincrasias de residir numa vila operária em São Cristóvão. A partir deles é possível perceber regras, vida privada, lazer, punições e mesmo uma linha divisória entre cidade e fábrica. São eles: Cacau, que Jorge Amado publicou em 1933; O Encontro com o outro, que José do Sacramento publicou em 1980. Antes de considerar a obra amadiana, pertinente lançar um fato silenciado nas suas biografias, seu parentesco com o proprietário da Fábrica Sam Cristovam, Pedro Amado, fato que gerava constrangimento a ambos, razão pela qual evitavam comparecer as mesmas solenidades e/ou semeavam tabu sobre o assunto. (A Tarde, 11/7/1993) Cacau narra a aventura de Sergipano, filho do proprietário da fábrica de São Cristóvão, morador de um sobrado antigo do centro histórico localizado na Praça São Francisco. Com a morte repentina do genitor, é obrigado a trabalhar na empresa sob a vontade de um tio herdeiro dos negócios da família. Por defender uma jovem do assédio do tio-patrão, jovem foi demitido e deserdado, indo ganhar a vida no sul da Bahia, zona cacaueira. Sobre as impressões da vila, descreve Jorge Amado: Acho que meu pai montara a fábrica em São Cristóvão devido à decadência da cidade, à sua paz e ao seu sossego, triste cidade parada que devia apaixonar os seus olhos e o seu espírito cansado de paisagens e de aventuras (...) A fábrica era um São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 73
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS caixão branco cheio de ruídos e de vida. Setecentos operários, dos quais quinhentas e tantas mulheres. Os homens emigravam, dizendo que “trabalhar em fiação só pra mulher”. Os mais fracos não iam e casavam e tinham legiões de filhas, que substituíam as avós e as mães quando já incapazes abandonavam o serviço. (…) Saindo da fábrica atravessava-se uma pinguela sobre um ribeiro e chegava-se à vila Cu com Bunda, moradia de quase todos os operários. Um grande retângulo, no qual os fundos das casas se encontravam. Daí o nome pitoresco que lhe haviam posto. (AMADO, 1996: 7-10) Do pitoresco, temos casos a destacar. Se José Lúcio revela a definição da expressão “ossado” aplicada ao operário punido com não remuneração pela sua atividade laboral, Jorge Amado nos apresenta a expressão “Cu com bunda” como se apelidava 2 fileiras de casas da vila. Acerca dos apelidos impingidos nos estrangeiros que atuavam nas chefias como agentes patronais, dois casos merecem destaque. O nome do sabotador que ocasionou greve atípica deflagrada em 1935 após colocar grande quantidade de cloro na água qual se serviam os operários era Penn Collidgs Menhinick a retaliação do operário e inimigos o batizam de “penis”; igualmente um outro (Otto) foi cantado em versos e escárnio: “São Cristovão, onde o alemão Otto tornou-se Ota/ E esbravejou contra Hitler, aquele filho da puta idiota/ E se tornou irmão de Manoel Ferreira,/ Operário negro, em eterna construção”. (MELO, 1989:56) Quanto à obra de José Sacramento que mescla ficção e autobiografia, ela revela detalhes da vida operaria a partir da experiência de Roberto, personagem principal, na fábrica nova, como era denominada fábrica São Gonçalo, antes de mudar para o Rio de Janeiro para cuidar da saúde. Um detalhe que chama atenção é a linha do trem imposta pelos patrões da Fabrica São Gonçalo como fronteira separando fabrica e cidade, inclusive de questões judiciais: Dois soldados passavam pela frente do campo, pelo lado da linha férrea, pois, a polícia não tinha ordens para poder ultrapassar a linha do trem. Nem mesmo no caso de crime. Houvesse o que houvesse, se o culpado ultrapassasse a linha do trem, podia até zombar da polícia, o que não era raro. (SACRAMENTO, 1983:19) O TEMPO DA FÁBRICA: CONSIDERAÇÃO FINAL “Tempo da fábrica”, é assim que boa parte da comunidade sancristovense trata o período findo em 1980, na ex-capital lembrada apenas pelo seu potencial turístico inquestionável, que somente ganharia força com o processo irreversível da falência da fábrica. O ocaso do tempo da fábrica dá-se no início da década de 1970, daí por diante ocorrências São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 74
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS adversas irão alarmar sindicatos, proprietários, imprensa, sociedade. No entanto, assim como é difícil datarmos o fim do tempo da fábrica: quando as máquinas pararam ou foi decretada falência ou trabalhadores receberam indenização? Também é difícil pontuar sua inauguração - quando foi iniciado/concluído prédio, chegaram máquinas ou iniciou produção? – Para José Lúcio o que inaugura a empresa é a formalidade do registro na Junta Comercial no ano de 1914. Independente disso, a fábrica e seu tempo permanecem na memória, hábitos, lembranças de pelo menos 7 em cada 10 adultos. Ou seja, o tempo da fábrica permanece... FONTES DE PESQUISA BIBLIOGRAFIA AMADO, Jorge. Cacau: romance. 50ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1996. p. 7-15. CORREIA,Telma de Barros. Pedra: plano e cotidiano operário no sertão. São Paulo: Papirus Editora, 1998, p. 20. MELO, Luiz. Recordando São Cristovão. In: __. A Porta da Frente. Curitiba, 1989, p. 56. PASSUS SUBRINHO, Josué Modesto. História Econômica de Sergipe (1850-1930). Aracaju: UFS, 1987, p. 87. SACRAMENTO, José. O Encontro com o outro. Aracaju: Segrase, 1983. p. 19. SILVA, José Lúcio Batista. O Surgimento da Indústria e do Operário Têxtil em São Cristóvão: (1912-1935). Monografia (Graduação em História - Universidade Federal de Sergipe), São Cristóvão, 2002. SILVA FILHO, José Thiago da. De cidade operária a polo turístico?. Cinform Municípios. Aracaju, jun. 2002, p. 237-238. JORNAIS A Tarde. Salvador, 11/7/1993. A Tarde. Salvador, 5/6/1968 Correio de Aracaju. Aracaju, ano III, n. 164, 11/06/1908, p. 2. Correio de Aracaju. Aracaju, ano III, n. 206, 8/11/1908, p. 1. Diário da Manhã. Aracaju, ano I, N 230, 28/11/1911, p. 2. Diário da Manhã. Aracaju, ano I, n. 256, 30/11/1911, p. 3. Diário da Manhã. Aracaju, 28/9/1912, p. 2. Diário da Manhã. Aracaju, ano III, n. 547, 12/1/1913, p. 1. Diário da Manha. Ano III, n. 688, 12/7/1913, p. 2. Diário da Manhã. Aracaju. Ano III, n. 757, 4/10/1913, p. 1. Diário da Manhã. Aracaju, ano IV, N. 850, 5/2/1914, p. 3. Folha de Sergipe. Aracaju, ano XVIII, n. 108, 31/5/1908, p. 2. Folha de Sergipe. Aracaju, ano XVIII, n. 132, 27/8/1908, p. 30. O Estado de Sergipe. Aracaju, ano XII, n. 3347, 13/10/1910, p. 1. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 75
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS O Estado de Sergipe. Aracaju, ano XII, n. 3425, 3/11/1910, p. 3. Sergipe-Jornal. Aracaju, n. 12.668, 5/5/1951, p. 4. MANUSCRITO Carta de Antonio Gonsalves Barroso ao intendente Messias do Prado Alvares Pereira, dezembro de 1916. Correspondência Recebida e Expedida (1915/1920). Acervo da Prefeitura Municipal de São Cristovão. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 76
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 13. "HISTÓRIA E MEMÓRIA: CASA DA FAZENDA IOLANDA, UM PATRIMÔNIO EM AGONIA" Josineide Luciano Almeida Santos Resumo: O presente trabalho intitulado Casa da Fazenda Iolanda um Patrimônio em Agonia faz um breve panorama da história e memória e o uso da história oral e sua evolução no Brasil, e no mundo, a partir dos anos 50, da influência e utilização dos historiadores, cientistas, entre outros profissionais. O mesmo buscou verificar e analisar a fazenda Tejupeba ou Iolanda como modelo de construção jesuíta, salientando seu valor histórico e patrimonial bem como trazendo a memória às lembranças de pessoas que viveram em tempos em que havia funcionalidade no casarão e igreja. Observamos que esta pesquisa está divida em três capítulos, o primeiro faremos um apanhado histórico do lugar, a luz de uma discussão teórica sobre patrimônio material e uma discussão historiográfica. Após isso abordaremos e conceituaremos o termo tombamento e descreveremos as implicações referentes aos bens públicos e os de propriedade privada, as leis, legislações que salvaguarda os bens patrimoniais tombados. Por fim de procuramos entender a relação das memórias da senhora Ruth Rollemberg Fonseca Mandarino, através de cartas encaminhas a pessoas importantes no contexto abordado e ao IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), com base nessas cartas escritas pela proprietária da fazenda, discutir, a luz da legislação e da história, a relevância de restauração e preservação do bem, e ao mesmo tempo, deixar um registro de uma personagem histórica em questão que estava no anonimato. Em entrevista concedida em Aracaju no dia 60 de abril de 2011, 28 de março de 2012 a senhora supracitada revelou quais foram as condições que encontrou o casarão e a igreja quando chegou na localidade para ali residir, como funcionavam as festividades e comemorações que aconteciamnos lugares da memória nas lembranças da mesma a emoção como relata cada recordação e descreve sua constante, interrupta, insistência para solicitar auxilio para restaurar o “ lugar de memória chamado de Fazenda Iolanda”. Outros entrevistados também relatam as reais condições do conjunto de valor histórico e arquitetônico datado do século XIX, que é formado pela capela e Residência Jesuítica e como ao longo dos anos foram sendo danificados pela erosão e falta de manutenção, restauração mais específica. Palavras chaves: Memórias, Preservação, Patrimonial, Restauração. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 77
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 14. “PÓS ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA EM SERGIPE E AS MEMÓRIAS DE ROSALVO VIEIRA DOS SANTOS” Kéfus Ibrahim Santana Cardoso Resumo: Rolsalvo Vieira dos Santos, setenta e nove anos de idade, morador da cidade de Rosário do Catete – SE, declarou ser neto de escravos. Em entrevista concedida ao Projeto Massapê: Memórias, Engenhos e Comunidades da Microrregião do Contiguiba, do GPCIR, da Universidade Federal de Sergipe, realizada em vinte e nove de março de dois mim e quatorze, revelou quais foram condições de sobrevivência de sua avó materna, D. Maria Madalena, ex escrava, no período de pós abolição da escravatura em Sergipe. As condições de sobrevivência dos ex escravos, aproximadamente os anos de 1890, segundo D. Maria Madalena, nas memórias do entrevistado, eram muito difíceis. O “salário” pago ao trabalhador, não dava para suprir as necessidades básicas, como comer e beber. Entretanto, a mesma enxergava a forma de sobrevivência deste período escravocrático numa forma mais positiva, onde a estadia e a alimentação eram oferecidas sem tantas dificuldades. Os problemas de sobrevivência desta época, somadas a algumas atitudes individualizadas de D. Maria Madalena e de outros trabalhadores que viviam em mesma situação, suscitavam algumas ações inusitadas. Uma delas foi abater um dos animais de seus patrões, às escondidas e fingir tal feito como morte natural, para poderem usufruir do fato, ganhando o animal que havia “morrido”, para servir de alimentação. Ex escravos, homens e mulhres, tornavam sujeitos em suas vicissitudes históricas no seu mundo e para o seu mundo. Como sobreviver? Como educar seus filhos? Palavras-chaves: Memórias, pós escravidão, engenho e reação. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 78
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 15. UM PÁSSARO FORA DO NINHO: TENTATIVA DE DEBATE HISTORIOGRÁFICO EM TORNO DA PASSAGEM DE INGLÊS DE SOUSA PELA PROVÍNCIA DE SERGIPE Leonardo Matos Feitoza31 Resumo: O presente trabalho é a tentativa de promover um debate historiográfico em torno das principais produções brasileiras e sergipanas que desvelam o mundo de pertencimento de Herculano Marcos Inglês de Sousa, comumente nominado Inglês de Sousa, e sua passagem pela Província de Sergipe entre 1881 e 1882, quando esteve à frente da administração provincial. Reconhecido pelos críticos literários e biógrafos como intelectual de primeira ordem, poeta, romancista, bacharel, jurista e político afeito as inovações de seu tempo, um porta-voz de uma cultura liberal, esclarecida e ilustrada, que tinha o positivismo como lente para compreender o mundo. A historiografia sergipana nos possibilita ainda analisar as minucias dos conflitos ideológicos, políticos e partidários que Inglês de Sousa envolve-se nas terras sergipanas, principalmente contra o padre de Aracaju, Olímpio de Sousa Campos. Como todo trabalho é um recorte, a pesquisa foi realizada a partir do filtro da produção nacional e local – historiadores, biógrafos, críticos literários, filósofos e uma ampla bibliografia relacionada. Palavras-chave: História; Historiografia; Brasil; Sergipe; Inglês de Souza. 31 Mestrando em História pela Universidade Federal de Sergipe. Membro do Grupo de Pesquisa “Culturas, Identidade e Religiosidades”. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 79
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 16. HISTÓRIA COMPARADA: A ESCRAVIDÃO NO NORDESTE COLONIAL BRASILEIRO SEGUNDO O LIVRO DIDÁTICO DE HISTÓRIA DO ENSINO FUNDAMENTAL Liliane Vieira Nunes Resumo: Este artigo faz uma breve analise comparativa do livro didático de história do 7° ano, em sua primeira e terceira edição, ambos manuais integrantes de uma mesma coleção da Editora Moderna denominada Projeto Araribá História, elaborados pós Lei 10.639/03. O capitulo escolhido para ser explanado em ambos refere-se ao Nordeste Colonial precisamente ao conteúdo destinado ao funcionamento da vida nos engenhos, enfatizando os castigos físicos aplicados aos escravos negros, no intuito de averiguar a existência de uma nova abordagem histórica dentro das perspectivas de ações afirmativas, no que concerne a escravidão como um dos traços mais marcantes da vida colonial na América Portuguesa. Palavras-chave: Ensino de História. Escravidão. Nordeste Colonial. Livros didáticos São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 80
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 17. O ELO GENÉTICO: ANÁLISE DAS ANOMALIAS DE DESENVOLVIMENTO E DOS PONTOS EPIGENÉTICOS EM ESQUELETOS HUMANOS PRÉ-HISTÓRICOS E A POSSÍVEL RELAÇÃO DE PARENTESCO Madson De Souza Fontes32 Olívia Alexandre de Carvalho33 RESUMO Neste trabalho serão apresentados resultados das análises realizadas sobre sepulturas de indivíduos adultos e não adultos do sítio São José II, situado no município de Delmiro Gouveia, Alagoas. O enfoque principal deste estudo está na análise dos caracteres discretos e a identificação do grau de parentesco entre os indivíduos. Também foram aplicados métodos bioantropológicos para descrever e interpretar os eventos fúnebres que ocorreram antes, durante e depois do sepultamento. Com base na descrição e interpretação do posicionamento do indivíduo dentro da sepultura, seu acompanhamento funerário, seu grupo etário entre outros, foi possível sustentar a hipótese inicial deste trabalho. E, fomentar que estudos sejam realizados embasados na ideia de que o contexto funerário pré-histórico é portador de identidades que estão representadas na materialidade das estruturas funerárias, seja por meio de objetos e formas comuns, seja do próprio indivíduo. Palavras Chave: Caracteres Discretos - Bioarqueologia – Paleogenética - Paleoantropologia INTRODUÇÃO A Arqueologia, enquanto associada ao pensamento antropológico, tem-se debruçado, sobretudo nas últimas décadas à reconstituição das sociedades pretéritas, enfatizando os aspectos da estrutura e organização social, subsistência e estilo de vida (BINFORD e 32 Mestrando PROARQ/UFS. 33Doutora em Bioantropologia pela Universidade de Genebra. Professora Adjunta do Departamento de Arqueologia da UFS. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 81
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS BINFORD, 1968; LEROI-GOURHAN e BREZILLON, 1972; JOCHIM, 1976, CLARKE, 1977; YELLEN 1977; NEVES, 1980). A utilização das técnicas analíticas das ciências naturais tem fornecido à Arqueologia um arcabouço relevante para uma interpretação contextual cada vez mais consistente e estruturalmente fundamentada. A análise dos caracteres bióticos e abióticos constitui a base elementar de uma ramificação da Arqueologia, denominada Bioarqueologia. Em suma, os estudos bioarqueológicos têm permitido cada vez mais inferir tanto no comportamento social como em fatores bioculturais, por meio de análises realizadas em vestígios arqueológicos de caráter orgânico e inorgânico. A Antropologia Biológica pré-histórica, por sua vez, só recentemente começou a contribuir de forma sistêmica para a recuperação de padrões de comportamento nas sociedades humanas. Tradicionalmente a Antropologia Biológica ateve-se à tipologia e classificação do aspecto físico do homem (NEVES, 1984). Este estudo possibilitará a identificação de possíveis elos de consanguinidade entre os indivíduos do sítio arqueológico São José II. O estudo será embasado na análise dos caracteres discretos e das anomalias de desenvolvimento, ambos relacionados diretamente a questões genéticas. O conceito de genética está interligado ao estudo da hereditariedade e de tudo o que esteja correlacionado com a mesma (SILVA, 2002). O conceito também faz referência àquilo que pertence ou que é relativo à gênese ou origem das coisas. Como tal, a genética analisa a forma como a hereditariedade biológica é transmitida de uma geração para a seguinte, e como é efetuado o desenvolvimento das características que controlam os respectivos processos. A aplicação dos estudos genéticos em contexto arqueológico possibilitou a criação de um novo seguimento neste tipo de pesquisa, a Paleogenética. E, tem sido de interesse dos pesquisadores deste ramo, desde o início do século XIX o estudo de caracteres fenotípicos São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 82
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS para aferir as relações biológicas entre populações, bem como a sua movimentação e mistura com outros grupos (SILVA, 2002). Com Kerkring, em 1670, iniciaram-se os estudos de variabilidade anatomo-morfológica no crânio, sendo então os caracteres discretos tidos como anomalias (SILVA, 2002). Tal manteve-se até meados do século XX, quando estes caracteres foram estudados em ratos por Grüneberg, originando a sua utilização em estudos genéticos e a noção da quasi-continuidade destes traços morfológicos (SILVA, 2002). Após este estudo, seguiu-se a aplicação à avaliação de distância biológica em populações humanas. Ainda assim, este conhecimento foi questionado pela investigação, que põe em causa o determinismo genético de algumas características (SILVA, 2002). Os caracteres não-métricos são uma solução que apresenta vantagens, nomeadamente a aplicação em fragmentos ósseos, a menor correlação entre os diversos caracteres, a pouca relevância de fatores exógenos ou biológicos, como o sexo ou a idade (SILVA, 2002). Por fim, a Arqueologia com sua essência interdisciplinar, tem buscado fontes de informação e metodologias em outras ramificações das ciências para complementar com dados a interpretação sobre o comportamento das sociedades por meio da materialidade. METODOLOGIA Esta pesquisa possui caráter quantitativo e qualitativo. Neste sentido, ambas foram utilizadas para definir ou aferir respostas e conclusões para os objetivos estabelecidos neste estudo. O material selecionadoconsistu em 31 esqueletos humanos, entre indivíduos adultos e não adultos, pertencentes ao sítio arqueológico São José II, localizado no município de Delmiro Gouveia, no Estado de Alagoas. O mesmo sítio possui datações entre 3500±110 BP (BETA- 86739) a 4140±90 BP (BETA-86740) (CARVALHO, 2007). Parte do material encontra-se exumado e acondicionado no Laboratório de Bioarqueologia da Universidade Federal de Sergipe, já uma outra parte ainda está articulada e acondicionada em envoltórios de gesso, na reserva técnica do Museu de Arqueologia de Xingó. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 83
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS A COLETA DE DADOS A coleta de dados deu-se por meio de análises osteológicas macroscópicas realizada tanto no Laboratório de Bioarqueologia da Universidade Federal de Sergipe, quanto na reserva técnica do Museu de Arqueologia de Xingó, da mesma instituição de ensino. Para tal, foram utilizadas fichas específicas elaboradas pelo autor deste projeto embasado em Saunders (1978) e Hauser e Destefano (1989), buscando adaptar-se ao estado de conservação do material osteológico e obter o máximo de informações possíveis. Também utilizou-se o recurso de captação de imagem fotográfica das peças osteológicas. Permitindo que uma análiseposteriori das imagens em laboratório. A análise dos caracteres discretos nos indivíduos que não foram exumados daram-se pela observação dos mesmos sem a necessidade de exumação dos restos ósseos, apenas a evidenciação do esqueleto. Para os que já foram exumados uma análise macroscópica sobre os fragmentos osteológicos foi executada em laboratório. Para a construção de um perfil bioarqueológicoutilizou-se os dados já existentes em trabalhos publicados sobre o sítio São José II como Carvalho (2007) e Castro (2009), contendo informações sobre as variáveis sexo, idade à morte, estatura e número mínimo de indivíduos (NMI) por sepultura. Quanto à documentação de possíveis enxovais funerários associados aos sepultamentos foram realizadas a partir de fichas apropriadas para catalogar este tipo de cultura material. Fora também verificado o posicionamento do corpo dentro da sepultura, possibilitando comparar se de acordo com o grau de consanguinidade entre os indivíduos há alguma representatividade na forma de posicionamento do corpo dentro do espaço sepulcral. A análise do posicionamento do corpo pode ser averiguado através de registro fotográfico para os indivíduos já exumados e análise in loco para os indivíduos que ainda possuem seu São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 84
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS posicionamento preservado em envoltórios de gesso, utilizado como parte da metodologia de salvamento pela equipe do PAX (Projeto de Arqueologia de Xingó). A ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS Esta etapa consistiu na tabulação dos dados coletados, permitindo assim, a realização de uma análise comparativa dos dados epigenéticos entre os indivíduos da mesma população, e correlacionar à possibilidade de existência ou não de laços consanguíneos entre eles. De forma análoga foi investigada a presença ou ausência de cultura material ou restos faunísticos associados aos sepultamentos, comportando a este trabalho uma interpretação tanto a partir da ótica biológica, quanto da ótica cultural representada na materialidade (BINFORD e BINFORD, 1968, BINFORD, 1971). PUBLICAÇÃO DOS RESULTADOS Serão publicados por meio de artigos científicos em revistas especializadas e apresentados tanto oralmente, quanto em forma de banner em eventos acadêmicos os resultados obtidos e a interpretações sobre os dados coletados nesta investigação, visando contribuir com a promulgação do conhecimento científico no âmbito da Paleogenética. RESULTADOS E DICUSSÃO No sítio São José II foram analisadas as tipologias de 28 estruturas funerárias, presente apenas 1 enterramento triplo (com 3 indivíduos em uma mesma estrutura funerária), 1 duplo (com 2 indivíduos em uma mesma estrutura funerária) e 26 inumações simples (com apenas 1 individuo em um sepultamento). Totalizando 28 enterramentos e 31 indivíduos, entre adultos e não adultos. As peças ósseas apresentaram fraturas, fissuras e esfoliações, resultantes de fatores mecânicos, umidade, acidez, bioerosões e bioturbações. De um modo geral, os enterramentos não apresentaram uma boa conservação do material osteológico, estando todos os restos esqueléticos incompletos. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 85
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Foram identificadas no sítio São José II inumações de indivíduos pertencentes a todos os grupos etários: crianças, adolescentes, adultos e idosos. Porém, o fato de haver uma predominância no número de enterramentos de não adultos neste sítio, já o diferencia dos demais sítios por não ser algo recorrente em escavações arqueológicas. Quanto à variável sexo, não houve a possibilidade de identificar em crianças, trata-se de uma variável só possível de análise em indivíduos adultos (UBELAKER, 1989; SCHEUER & BLACK, 2000), pois está relacionada à morfologia, ou desenvolvimento morfológico que ainda não é definido nos ossos de uma criança. Entretanto, existem métodos métricos possíveis para diagnose sexual em indivíduos não adultos, porém não são confiáveis. Para este tipo de determinação o mais indicado seria a análise de DNA, pelo seu grau de eficiência e acurácia. Os resultados da análise do enxoval funerário mostraram apenas em alguns casos a pouca recorrência de restos faunísticos e conchas bivalves associados aos sepultamentos (figura 11). Este tipo de material compondo o enxoval funerário já pôde ser evidenciado em contextos funerários pré-históricos envolvendo tanto indivíduos adultos, como não adultos, segundo Silva (2002). As frequências identificadas nos caracteres morfológicos mandibulares da presente amostra, particularmente no que toca a foraminamentales, não são esclarecedoras. Ainda assim, identifica-se um padrão claro de proximidade com amostras de origem europeia, sublinhado por ponte mielohióidee torus mandibular. A única fonte de comparação para os tubérculos genii(cuja relevância no ponto de vista biológico é manifestamente incerta) aproxima-se do padrão encontrado na presente amostra, o que poderá estar relacionado com o facto de se aproximarem geneticamente, mas deve ser interpretado cautelosamente, por falta de informação e outras amostras comparativas. Apesar de hoje se considerar a origem genética do toruscomo a mais provável, há indícios que stress oclusal possa ser a causa na maioria dos casos. Há muitas outras explicações etiológicas que foram sendo dadas para o surgimento de torusmandibular, tais como a alimentação, a associação com forte desgaste dentário, ou insuficiência vitamínica. A presença de toda a São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 86
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS dentição mandibular, bem como o surgimento relativamente precoce dos caninos, foi já associada à presença de torusmandibular. CONCLUSÃO Quanto aos restantes caracteres observados, impõe-se caracterizar as populações mundiais no que respeita ao MMPT, de forma a contribuir para a caracterização biológica das populações, mas também a diluir as oportunidades para a confusão deste carácter odontológico com o protostylid, ou ainda a desconsideração deste último, por aparente incorreção na caracterização no sistema ASUDAS. A cúspide 7trouxe ainda ao presente autor uma conclusão acidental. A inicial consideração do grau ASUDAS “1a” da cúspide 7na análise estatística (entretanto corrigida por não ser, habitualmente considerada presente a C7, quando se verifica o grau “1a”), permitiu encontrar uma significância estatística muito inferior na distinção entre sexos e lados. Tal permite questionar se a expressão “1a” deste carácter anatómico dos molares não deverá ser considerada positiva, dado trazer congruência às amostras (se tal, de fato, se vier a confirmar) e demonstrar o real fenótipo a considerar nas avaliações de distâncias biológicas. Os trabalhos futuros devem privilegiar as análises radiológicas, com objetivo de procurar a a gênese dentária e contribuir para o diagnóstico de alterações morfológicas/patológicas nas mandíbulas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BINFORD, L. R. Mortuary Practices Their Study and Their Potential. In. BROWN, J. A (ed) Approaches to ten Social Dimensions of Mortuary Practices. Memoir of the Society for American Archaeology 25: 6-29, 1971. BINFORD, S. R.; BINFORD, L. R.New Perspectives in Archeology.Aldine Press, Chicago, 1968. CASTRO, V. M. C. Marcadores de identidades coletivas no contexto funerário pré-histórico no Nordeste do Brasil. Tese de Doutorado, Pernambuco: Universidade Federal de Pernambuco, CFCH, 2009. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 87
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS CLARKE, D. SpatialArcheology. Academic Press, London, 1977. HAUSER, G.; DE STEFANO, G. F. 1989.Epigenetic Variants of the Human Skull. Stuttgart, E. Schweizerbart‟scheVerlagsbuchhandlung. JOCHIM, M. A. Hunter-Gatherer subsistence and settlement: pre dictive model. Academic Press, New York, 1976. LEROI-GOURHAN, A.; BREZILLON, M. Fouilles de Pinceventessaid’interpretation d’un habitat megdalénien.CNRS, Paris, 1972. NEVE, W. A. Análise dos Moluscos do Sambaqui do Buracão. Ciência e Cultura, 32, 1980. NEVES, W. A. Incidência e distribuição das osteoartrites em grupos coletores do litoral do Paraná: uma abordagem osteobiográfica. Clio (SérieArqueológica), 6:47-62. 1984. SAUNDERS, S.The development and distribution of discontinous morphological variation of human infracranial skeleton. Dossier 81: National Museum of Man, Mercury Series. 1978. SCHEUER, L.; BLACK, S. Developmental Juvenile Osteology. New York: Academic Press, 2000. SILVA, A. M. Antropologia funerária e paleobiologia das populações portuguesas (litorais) do Neolítico final-Calcolítico. Dissertação para a obtenção do grau de Doutor em Antropologia apresentada à Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. [Nãopublicado], 2002. UBELAKER, D. H. Human skeleton remains, excavation, analysis and interpretation. 2 ed. Washington D. C.: Taraxacum Press, 1989. YELLEN, J. Archeological Approaches to the Present. Academic Press, London, 1977. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 88
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 18. REPRESENTAÇÕES DO NEGRO NA ÓTICA DO CLERO COLONIZADOR Manoel Ribeiro Andrade34 Resumo: Este texto analisa as menções sobre os negros de Guiné nos escritos de Padre Manoel da Nóbrega e Padre Fernão Cardim, em fins do século XVI, no cenário da América Portuguesa. Busca identificar o lugar destes personagens nos primeiros escritos coloniais, através do estudo de cartas e textos dos inacianos e da produção teórica sobre o assunto. Reflete sobre as representações do escravo negro na literatura historiográfica e na sociedade colonial, evidenciando que apesar de o ter colocado em segundo plano, o homem africano, pode ser localizado no tecido social das tramas da América Portuguesa e suas citações podem ser agrupadas de acordo com suas especificidades de aparição. Palavras-chave: América Portuguesa. Padre Manoel da Nóbrega. Negros de Guiné. Padre Fernão Cardim. 1. INTRODUÇÃO Este trabalho pretende analisar os discursos do clero colonizador, identificando o lugar do homem africano - os negros de Guiné - nos primeiros escritos coloniais, em fins do século XVI, na América Portuguesa. Buscar-se-á aqui perscrutar sobre as representações do negro na ótica de religiosos jesuítas como Padre Manoel da Nóbrega (1517-1570)35 e Padre Fernão Cardim (1550-1625)36, procurando identificá-lo no cenário e nas tramas da América 34 Graduado em História (FJAV), especialista em História do Brasil (Pio Décimo) e em Gestão de Políticas Públicas com Foco em Gênero e Raça (UFS). Aluno especial do Programa de Pós-Graduação em História (PROHIST/UFS) e integrante do Grupo de Pesquisa Culturas, Identidades e Religiosidades (GPCIR/CNPq/UFS). 35 Jesuíta, nascido em 1517. Foi um dos primeiros inacianos a desembarcar no Brasil, chegou no grupo dos primeiros religiosos que aqui aportaram em companhia do governador-geral Tomé de Sousa, em 1549. Viveu no Brasil por 21 anos, falecendo em 1570 no Rio de Janeiro (PESSOA, 2010: 22). 36 Inaciano, nascido em 1550. Desembarcou no Brasil em 1583 e por aqui viveu 42 anos, vindo a faleceu em 1625, na Bahia. Ocupou vários cargos importantes na Companhia de Jesus, com destaque para o de Reitor do Colégio Baiano, Reitor do Colégio do Rio de Janeiro e Provincial, cargo mais alto existente na Companhia na São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 89
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Portuguesa. O estudo discute sobre os textos dos personagens citados sem, contudo, se prender a um estudo exaustivo de cada autor. Detém-se, apenas, as menções encontradas num grupo seletivo de textos e não necessariamente nos informantes ou em toda a sua produção. Perguntas como qual o lugar do homem africano na literatura dos religiosos colonizadores? Quais papéis eles desempenharam nas tramas da América Portuguesa? E quais representações estes assumiam na visão destes religiosos? Fomentaram esta pesquisa e nos conduziram a formação de um entendimento sobre a temática. Aqui, fez-se um diálogo com as categorias de Pessoa (2010) tentando enquadrar as menções referentes aos negros de Guiné em uma realidade mais próxima à dos ideais da colonização religiosa. Para tanto, adotamos o seu primeiro eixo de referência: negros de Guiné como auxílio régio lusitano à causa evangélica e encontramos dentro dos demais eixos apresentados um novo: negros de Guiné como paciente das ações missionárias da América Portuguesa. Assim, analisamos as aparições do homem africano nos textos selecionados, vendo-os como realidades necessárias para a catequização e também como finalidade desta. 2. NEGROS DE GUINÉ NA ÓTICA DO CLERO COLONIZADOR Antes mesmo de discutir sobre o objeto se faz necessário defini-lo para melhor compreendê-lo, quem eram os negros de Guiné no início da colonização? Ao interpretar a bibliografia que discute os ciclos do tráfico37, Oliveira (1997: 72-73) empreendeu uma nova perspectiva para análise das procedências e dos etnônimos atribuídos aos escravos africanos trazidos para o Brasil. A grande contribuição dela reside na compreensão de que as fontes sobre as procedências dos africanos estiveram sujeitas às variações das terminologias utilizadas na rede do tráfico português, composta por administradores, escrivães das feitorias e encarregados desta função, mas também por populações africanas e mestiças que se dedicavam às diferentes tarefas de captura, manutenção, vigilância e transporte dos cativos. América Portuguesa. Escreveu Do clima e terra do Brasil, Do princípio e origem dos índios e Informação da missão do P. Cristóvão de Gouvêa às partes do Brasil, ano de 83 [1583] ou Narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuítica. As três obras foram produzidas isoladamente e somente em 1925 foram reunidas em uma única edição, como o título de Tratados da terra e gente do Brasil (PESSOA, 2010: 23). 37 Sobre esta perspectiva indico a leitura de Vianna Filho (2008). São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 90
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Concluindo que os termos Guiné, Angola e Minas foram expressões extremamente genéricas de composições específicas No dizer dela, negro de Guiné e gentio da Guiné foram às primeiras designações utilizadas para marcar a origem dos escravos chegados à Bahia no século XVI, mais “do que um registro de procedência, estas expressões queriam significar a condição de escravo na linguagem corrente da época”. E na Colônia Brasil, “seu uso se firmara para designar toda a costa da África, de onde vinham os escravos”. Aqui, o termo teria um sentido semelhante a um imenso porto onde eram embarcados milhares de cativos para se tornarem escravos no outro lado do Atlântico (OLIVEIRA, 1997: 39-40). Sabe-se que durante o século XVI os escritos coloniais pouco se referiram ao negro como tema principal, colocando-o sempre em segundo plano para se evidenciar os protagonistas do cenário escravocrata da América Meridional, as consideradas verdadeiras grandezas do Brasil: a terra e o índio. Neste sentido, nos discursos de clérigos e letrados do período, o homem africano fora apresentado comumentemente com certa precisão valorizado por um aspecto exótico, quantitativo - quanto mão de obra escrava - e como parte dos cabedais necessários para os desbravadores brancos que se aventuravam na empreitada colonizadora da América (PESSOA, 2010: 21-22). Havia inclusive uma certa preferência do Negro de Guiné ao Negro da Terra, valendo-se do discurso de que o africano estaria mais familiarizado com as tarefas da colonização que o indígena. Segundo os estudos de Pessoa (2005: 27) fica evidente a presença do homem africano nos primeiros escritos coloniais. Todavia, as menções dirigidas a ele nunca se apresentaram como núcleo do tema discutido, figuravam sempre em segundo plano na realidade colonial da América Portuguesa. Mesmo assim, partindo-se das referências ao elemento negro africano nos textos referidos, afirma o historiador, é perfeitamente possível demarcar e mapear sua presença, tomando como ponto de partida as regularidades de suas aparições e as circunstâncias das menções específicas apresentadas. Para tanto, faz-se necessário isolar as circunstâncias em que o negro aparece, em cortes temáticos, os quais, como quaisquer outros desse tipo, são arbitrários e somente se sustentam na ideia de que esses escritos, mesmo pertencendo a religiosos distintos, são passíveis de ser agrupados numa série em virtude de São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 91
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS certas regularidades enunciativas: mesma maneira de abordar o objeto, de definir os conceitos, de escolher os temas. Estabelecida às circunstâncias, percorreremos os mesmos caminhos que o historiador para analisar o lugar dos negros de Guiné nos primeiros escritos coloniais, porém fazendo novos recortes e associações. Estudaremos as representações do negro na ótica do clero colonizador como auxílio régio lusitano à causa evangélica e como paciente das ações missionárias da América Portuguesa, realidades estas intimamente relacionadas a colonização religiosa. Guiados por tal sistemática, partiremos para a análise dos eixos de menções ao homem africano. O primeiro deles é enfatizado como auxílio régio lusitano à causa evangélica na América Portuguesa, suas primeiras referências remontam aos escritos de Padre Manoel da Nóbrega dirigida a El-Rei D. João III, rei de Portugal, datada de 14 de setembro de 1551 (Olinda-PE). Nesta carta Nóbrega requisita escravos de Guiné aconselhando o monarca português a investir na infraestrutura das acomodações dos religiosos para garantir um melhor desempenho da causa missionária: mande ao Governador que faça casas para os meninos, porque as que têm são feitas por nossas mãos e são de pouca duração e mande dar alguns escravos de Guiné á casa para fazerem mantimentos, porque a terra é tão fértil que facilmente se manterão e vestirão muitos meninos, si tiverem alguns escravos que façam roças de mantimentos e algodoaes, e para nós não é necessário nada, porque a terra é tal que um só morador é poderoso a manter a um de nós (NOBREGA, 1931: 126, grifo nosso). No ano seguinte, em 5 de julho de 1552, escrevendo da Bahia, o referido religioso informa ao Padre Provincial de Portugal, Simão Rodrigues, das conveniências de El-Rei favorecer a Companhia de Jesus com certos benefícios, dentre estes cita a carência de escravos de Guiné. A carta faz menção à necessidade de se enviar padres, meninos e mais escravos de Guiné a Bahia. Si El-rei favorecer a este e lhe fizer egreja e casas, e mandar dar os escravos, (que digo); me dizem que mandam mais escravos a esta terra, de Guiné, si assim fôr, podia vir logo provisão para mais três ou quatro, além dos que a casa tem (NOBREGA, 1931: 130, grifo nosso). São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 92
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Ainda em 1552, numa outra carta destinada ao Padre Mestre Simão Rodrigues, Nóbrega informa como se daria a logística de utilização da mão de obra dos negros de Guiné pelos padres da Companhia de Jesus: “Depois que vieram os escravos d'El-Rei, de Guiné a esta terra, tomaram os Padres fiados por dous annos três escravos, dando fiadores a isso, e acaba-se o tempo agora cedo”(NOBREGA, 1931: 138). Padre Manoel da Nóbrega menciona-os ainda em outras citações, embora estejam fora do eixo trabalhado, faz-se pertinente apresentá-las. Em carta datada de 5 de julho de 1559, dirigindo-se ao Governador Geral do Brasil Tomé de Sousa, o religioso descreve sobre as revoltas indígenas, apresentando-nos dados sobre hábitos e costumes dos indígenas da América Portuguesa. Os de Tapariqua obedeceram, mas os do Pera açú muitos delles não quizeram paz nem dar os escravos, antes tomaram um barco de Pero Gonçalves, de S. Thomé, com ferramenta que levava, e os negros de Guiné fugiram e esconderam-se pelos matos e por isso escaparam. Depois sendo requeridos com paz e com restituirem o barco e os escravos (NOBREGA, 1931: 211, grifo nosso). Na mesma carta, numa outra passagem, Nóbrega narra a respeito dos acordos entre os colonizadores e os índios pacificados, no qual estes ofereciam ajuda à captura de um grupo de índios bravos, acusados de assaltarem a roça de um certo André Gavião: “onde estavam oito negros de Guiné, doentes e Tristes” (NOBREGA, 1931, p. 215). Os índios pacificados se prontificaram a auxiliar na emboscada ao gentio na roça de André Galvão e dessa empreitada resultou algumas dezenas de mortos, entre eles os oito negros de Guiné. O segundo eixo de menções ao negro nos primeiros escritos coloniais, adotado aqui, diz respeito ao homem africano quanto paciente das ações missionárias na América Portuguesa. O primeiro registro deste fato encontra-se nas narrativas epistolar de uma viagem e missão jesuítica, nos relatos do Padre Fernão Cardim, no Tratado Descritivo da Terra e Gente do Brasil de 1583, mais especificamente na terceira parte. Neste o jesuíta ao descrever as diligências do padre Rodrigo de Freitas em visita a Companhia de Jesus na Bahia, apresenta-nos uma pré-noção do lugar do homem africano nas narrativas religiosas dos primeiros escritos coloniais: São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 93
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS O padre visitador tratou por vezes com alguns prelados e letrados casos de muita importância sobre os captiveiros, baptismos e casamentos dos indios e escravos de Guiné, de cujas resoluções se seguiu grande fructo e augmento da christandade depois que chegamos ao Brasil (CARDIM, 1925: 300, grifo nosso). As menções de Cardim vão mais além, descrevendo o sucesso de suas atividades missionárias e dos seus irmãos de ordem na província da Bahia. Nesta mesma, denuncia os prenúncios da pedagogia de catequização. Referindo-se ao negro da seguinte forma: fez fazer um compêndio das principaes duvidas que por cá occorrem, principalmente nos casamentos e baptismos dos indios e escravos de Guiné, de que se seguiu grande frueto; e os padres ficaram com maior luz para se poderem haver em semelhantes casos (CARDIM, 1925: 300, grifo nosso). Confessávamos os portuguezes, ouvindo confissões geraes, e outras de muito serviço de Nosso Senhor. Os dias de pregação e festas de ordinário havia muitas confissões e communhões, e por todas chegariam a duzentas, afora as que fazia um padre, lingua de escravos de Guiné, e de indios da terra, prégando-lhes e ensinando-lhes a doutrina, casando-os, baptisando-os, e em' tudo se colheu copioso frueto, com grande edificação de todos (CARDIM, 1925: 319, grifo nosso). Ainda sobre as bem sucedidas missões da Companhia de Jesus, Cardim cita o figurante negro nas narrativas da evangelização jesuítica na Província de Pernambuco de forma semelhante, ali “dia havia em que commungavam, algumas trinta pessoas, afóra o grande frueto que um padre lingua fazia com os indios e escravos de Guiné.” Diz que nas missões “fez-se grande frueto, baptisaram-se muitos indios e escravos de Guiné, e muitos se casaram em lei de graça, e ouviram grande cópia de confissões, de que se seguiu grande edificação para toda a terra”(CARDIM, 1925, p. 330). No colégio, o informante afirmou que ensinam a ler e escrever, pregam e confessam “e com os índios, e negros de Guiné se faz muito frueto: dos portuguezes são mui amados e todos lhes têm grande respeito. Nesta terra estão bem empregados, e por seu meio faz Nosso Senhor muito” (CARDIM, 1925, p. 335). O inaciano Fernão Cardim também faz outras menções referindo aos negros de Guiné, que não se enquadram neste eixo de menção, mas que são importantes. Discorrendo sobre as qualidades de se viver no Brasil relata que “não se dão nella persobejos, nem piolhos, e pulgas há poucas, porem, entre os índios, e negros da Guiné achão piolhos; porém, não faltão baratas, São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 94
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS traças, vésperas, moscas, e mosquitos de tantas castas, e tão cruéis, e peçonhentos” (CARDIM, 1925: 108). Em outras duas menções, na Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica, o religioso fez referencia ao escravo africano quanto contingente populacional, na descrição da Bahia ao rei: “terá a cidade com seu termo passante de tres 4 mil vizinhos portuguezes, oito mil índios christãos; e três ou quatro mil escravos de Guiné; tem seuí; cabido de conegos, vigário geral provisor, etc.” (CARDIM, 1925: 288) e especificamente do recôncavo: Em cada um delles, de ordinário ha seis, oito e mais fogos de brancos, e ao menos sessenta escravos, que se requerem para o serviço ordinário; mas os mais delles têm cento, e duzentos escravos de Guiné e da terra (CARDIM, 1925: 320). 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante do caminho percorrido fica evidente as negligências cometidas ao homem africano na literatura colonial. Todavia, mesmo lhe identificando quase sempre como personagem secundário e figurante nas menções dos clérigos e letrados do Brasil, no tecido social correspondente aos fins do séculos XVI, é possível localizá-lo quanto integrante dos cabedais necessário para o empreendimento religioso e como paciente destas ações religiosas, participando de ações religiosas como batismos e casamentos. Os negros de Guiné eram solicitados como bens imprescindíveis para o desempenho da causa evangélica e por muitas das vezes tornava-se finalidade deste empreendimento, respectivamente, estas realidades estão implícitas nos textos dos inacianos Padre Manoel da Nóbrega e Padre Fernão Cardim. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CARDIM, Fernão. Tratados da terra e gente do Brasil. Rio de Janeiro : J. Leite & Cia: 1925. Disponível em: <http://www.brasiliana.usp.br/bbd/handle/1918/02119000> Acesso em: 26 out. 2010. NOBREGA, Padre Manuel da.Cartas do Brasil : 1549-1560.Rio de Janeiro: Officina Industrial Graphica: 1931. Disponível em: <http://www.brasiliana.usp.br/bbd/handle/1918/00381610#page/2/mode/1up> Acesso em: 26 out. 2010. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 95
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS OLIVEIRA, Maria Inês de. Quem eram os “Negros da Guiné”? A origem os africanos na Bahia. Afro-Ásia, 19/20. 1997. Disponível em: <http://www.afroasia.ufba.br/pdf/afroasia_n19_20_p37.pdf> Acesso em: 26 out. 2010. PESSOA, Raimundo Agnelo Soares. O escravo negro nos primeiros escritos coloniais (1551 – 1627). Saeculum - Revista de História [13], João Pessoa. jul./dez. 2005. Disponível em: <http://www.cchla.ufpb.br/saeculum/saeculum13_art02_pessoa.pdf> Acesso em: 17 jun. 2010. VIANNA FILHO, Luis. O negro na Bahia: (um ensaio clássico sobre a escravidão). 4ª. ed. Salvador: EDUFBA: Fundação Gregório de Matos, 2008. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 96
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 19. "PEREGRINAÇÃO AO DERREDOR DE MIM MESMO": A CONSTRUÇÃO DE UMA MEMÓRIA PESSOAL POR LUÍS DA CÂMARA CASCUDO Raquel Silva Maciel* Resumo: O artigo se refere a um estudo em torno da trajetória pessoal e intelectual de Luís da Câmara Cascudo. Em um trabalho anterior buscamos investigar a imagem que algumas obras biográficas produziram para esse escritor e de que forma o seu percurso pelo campo das letras foi em diversos momentos influenciado por sua vida pessoal. Nessa segunda etapa buscamos analisar os seguintes escritos autobiográficos: “O tempo e eu” (1968), “Pequeno Manual do doente aprendiz”(1969),“Na ronda do Tempo”(1970) e “Ontem: imaginações e notas de um professor provinciano”.(1972). Os textos escolhidos foram produzidos ao final de sua vida e têm como objetivos evocar recordações pessoais e sintetizar suas ideias acerca de seu objeto de estudo, a cultura popular. Acreditando que uma análise biográfica pode ser realizada tanto a partir das obras produzidas sobre um indivíduo quanto se originando de uma investigação de seus escritos autobiográficos buscamos tecer considerações acerca do processo de criação de uma memória pessoal empreendido por Cascudo, problematizara concepção de memória que o intelectual apresenta nesses escritos memorialísticos e de que modo essa se relaciona com seu projeto de escrita de si. Para isso se faz necessária a relação dessa problemática com ensaios já realizados acerca do conceito de memória como o de Durval Muniz de Albuquerque Jr. (2007) e de trabalhos sobre os escritos autobiográficos desse pesquisador potiguar como os de Margarida de Souza Neves (2002-04). Palavras-chave: Câmara Cascudo. Memória. Autobiografia. História. *Graduanda da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e Bolsista do Programa de Educação Tutorial do curso de História (PET/História-UFCG). E-mail: quequelpb@hotmail.com Orientadora: Profa. Dra. Regina Coelli Gomes Nascimento. E-mail: reginacgn@gmail.com. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 97
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Em 1968, Luís da Câmara Cascudo ao classificar uma de suas obras autobiográficas intitulada“O tempo e eu”, afirma que se trata de uma “[...]peregrinação ao derredor de mim mesmo [...] (CASCUDO,1968:15). Caminho esse que é percorrido em todos os escritos memorialísticos desse escritor potiguar, que através das recordações pessoais e de terceiros, constrói a sua trajetória pessoal e intelectual. Nesse artigo problematizaremos a relação de Cascudo com o campo da memória, partindo de uma análise da concepção que ele possuía desse conceito e comoele acabou por, no final de sua vida, construindo uma memória pessoal, utilizando-a como “[...] um instrumento da divindade para preservar da morte definitiva o que pode permanecer vivo pelas artes da memória” (BETI,2004:11). Inicialmente,se faz necessário apresentaro sujeito de nosso ensaio.Luís da Câmara Cascudonasceue desenvolveu sua carreira na cidade de Natal no Rio Grande do Norte, fato relevante se considerarmos que naquele períododificilmente um intelectual produzia fora do eixo Rio-São Paulo38. É proveniente de uma família da aristocracia norte-rio-grandense, composta por fazendeiros e integrantes do Partido Conservador.A construção de redes de influências com autoridades locais permitiu que a família de Cascudo,39assim como a de tantos outros indivíduos desse contexto, mesmo após a crise do modelo de família patriarcal,pudessem usufruir de benefícios como a manutenção de bens e a concessão de empregos públicos. O pai desse intelectual, Francisco Cascudo, foi um dos que se beneficiou desse prestígio social, conquistando o cargo de chefe de polícia no interior do Rio Grande do Norte, sendo posteriormente transferido para Natal, cidade onde Câmara Cascudo nasceu em 30 de dezembro de 1898. Em 1900 é exonerado da Guarda Nacional, tornando-se um comerciante na capital norte-rio-grandense (GOMES, 2009). O poder aquisitivo que sua família possuía possibilitou que desde cedo Cascudo enveredasse pelo mundo das letras, tendo contato ainda criança com obras raras e importadas 38Câmara Cascudo, como os escritos biográficos apontam, se considerava um provinciano por excelência. Aspecto interessante se considerarmos a importância que ele adquiriu nacionalmente e internacionalmente através de seus escritos. Ele estaria “(...) arraigado nas dunas de sua cidade Natal, que jamais cedeu ao canto de sereias que o instavam a trocar as margens do Potengi pelos grandes centros (...)” (NEVES:2002:65). 39 O “sobrenome” Cascudo refere-se a devoção ao Partido Conservador que o avô paterno de Luís da Câmara, Antônio Justino de Oliveira, possuía.. Cf CASCUDO. (1968) São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 98
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS que eram adquiridas pelo seu pai. Assim, sua ambientação com a leitura e escrita é apresentada como indissociável de sua infância. Tanto por essa influência paterna quanto por ter sido desde pequeno privado do convívio com outras crianças e das brincadeiras ao ar-livre, devido às “(...) limitações de seu corpo pela doença – não correr, saltar, pisar na areia, andar descalço, subir em árvores – levaram-no a uma vida reclusa” (GOMES,2009:194).Esse período, marcado pelo contato com o ambiente sertanejo, aonde conviveu de 1910 a 1913 com os sujeitos, falas, gestos e práticas culturais desse espaço, influenciou a escolha de seu objeto de pesquisa, a cultura popular, e a elaboração de inúmeras obras, entre elas“Vaqueiros e Cantadores”(1922) e “Viajando o Sertão”(1939) que evidenciam o período de vivência desse pesquisador no Sertão de estados como a Paraíba e o Rio Grande do Norte. A partir disso, verificamos que a imagem desse sujeito é construída “(...) a partir da figura de erudito, do homem voltado para os livros e as letras desde a infância, quando ao invés de brincar como as outras crianças, voltava-se para a leitura de revistas, de álbuns de gravuras e de viagens (...)” (COSTA, 2011: 10). A sua produção foi voltada para a confecção de artigos, crônicas, contos e obras que no total ultrapassam cento e cinquenta. Entre essas produções temos as de cunho folclorista, histórico e memorialístico, sendo essas últimas o objeto de estudo desse trabalho. Essas possibilitaram a formação de uma carreira intelectual extensa que o levaram a um reconhecimento no plano nacional e internacional. A influência do seu pai determinou também o início de sua carreira intelectual em 1918, já que a partir desse ano ele começou a publicação de crônicas no jornal A Imprensa, periódico que foi fundado pelo Coronel Francisco Cascudo em oposição aos oficiais Diário de Natal e A República. O texto fazia parte de um coluna intitulada Bric-à-Brac, na qual Câmara Cascudo tecia críticas literárias a autores nacionais e internacionais. Suas publicações iriam se referir também à produção de biografias e crônicas relacionadas a velhas figuras daquela região, como homens da elite letrada, políticos e fazendeiros. Além desses sujeitos, temos aquelas obras dedicadas a personagens da monarquia portuguesa, como os intitulados Conde d’Eu e OMarquês de Olinda e seu tempo. A escrita de obras destinadas a exaltação de grandes líderes e acontecimentos históricos, reflete a concepção tradicional de história que Cascudo em determinado momento São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 99
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS possuía40. Esse acreditava que os documentos forneceriam aos historiadores o suficiente para conhecer o passado e revivê-lo. Porém, mesmo concebendo essas fontes como espaços neutros e puros, por volta da década de 1970, ele operou uma “[...] escrita da história interessada e endereçada ao futuro” (COSTA, 2011:11) de modo que futuros historiadores encontrassem nos escritos de Cascudo o seu ponto de partida. Nas décadas de 1960 e 1970 “(...) Cascudo publica, como sempre, muito e sobre os mais variados temas. Um exame mais detido de algumas de suas numerosas publicações desse período parece apontar para a possibilidade de vê-lo, nesse momento, às voltas com algo muito próximo a um balanço de vida”(NEVES, 2004:09). Assim, Cascudo já com 70 anos opera a construção de seus escritos memorialísticos41 através de omissões, silenciamentos42 e seleções de materiais, personagens e acontecimentos. Memória essa que é “[...] a vida, sempre carregada por grupos vivos, e, nesse sentido, ela está em permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a todos os usos e manipulações, susceptível a longas latências e de repentinas revitalizações” (NORA, 1993:09). Se a História para esse erudito era um meio de rememorar fatos dignos de serem lembrados, suas autobiografias também apresentam uma seleção do que deve ser esquecido e o que deve ser evocado. Fato que evidencia a construção pelo próprio Câmara Cascudo de seu lugar de memória43, respaldado na autoridadeintelectual que já possuía no Brasil e em outros países. Esse escrevia 40 Não se pode afirmar que Cascudo possuía apenas uma visão histórica tradicionalista, já que não há só uma escola teórica que ele siga. Em suas obras históricas temos abordagens de diferentes perspectivas, ele “[...] mesclou concepções de história que vão desde a Antiguidade Clássica, como as concepções de Heródoto, até a moderna” (COSTA: 2011:02). 41 São escritos de memórias de Cascudo: “O tempo e eu”, “Pequeno Manual do doente aprendiz: notas e imaginações”, “Na ronda do Tempo” e “Ontem: imaginações e notas de um professor provinciano”. 42Entre os silenciamentos nas autobiografias produzidas por Câmara Cascudo podemos citar seu apoio ao movimento Integralista, a simpatia que possuía pelos ideais fascistas e a não oposição ao Golpe Militar de 64. O sentimento anticomunista é apontado como o principal motivo para a não objeção de Cascudo a ditadura, porém ele é apontado como um dos que abrigou em sua residência sujeitos perseguidos pelos militares. 43Para Pierre Nora, os lugares de memórianão são produtos espontâneos, mas sim construções sociais. Esse historiador francês elenca três tipos de lugares de memória, os materiais, funcionais e simbólicos. CfNEVES (2007). São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 100
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS [...] suas memórias para que estas tivessem sua assinatura e o peso de sua autoridade intelectual, como se assim fosse possível preservar sua imagem do atrito do tempo, garantir sua própria marca autoral na fixação de sua trajetória como homem e intelectual e revestir com sua própria autoridade de etnógrafo nesses anos já respeitado nacional e internacionalmente na versão que dá de si mesmo (BETI: 2001:05-06). O momento que Cascudo escreve suas memórias é um período no qual ele já tinha grande reconhecimento por sua trajetória intelectual, portanto os constrói a partir de como gostaria de ser visto e lembrado. Esse movimento poderia suscitar um desejo em Cascudo de não ser esquecido, de permanecer vivo, de ser digno de evocação pela posteridade, de ser como os “grandes homens” de seus escritos históricos. Considerando que a memória coletiva se refere para além de uma simples junção de memórias individuais, sendo a que nos ajuda “[...] a fixar o conteúdo e a forma de nossas recordações, que acreditam nelas e nos responsabilizam por minúcias de que não nos recordávamos” (ALBUQUERQUE JR., 2007:204). Verificamos como o movimento que Cascudo inicia a partir da década de 1960 de recordar sua vida pessoal, é acompanhado também de uma tentativa de rememorar o seu percurso intelectual, através da confecção de obras que sintetizam o seu pensamento acerca da cultura popular. Sendo essa produção uma evidênciada tentativa de construção de uma memória coletiva para o Brasil, já que na medida em que busca criar através de suas obras uma identidade para o povo brasileiro ele acaba por desenhar uma memória coletiva para esse país. Memória coletiva que também está presente em suas obras autobiográficas, já que para Durval Muniz (2007) essa é construída a partir de outros indivíduos, fato que encontramos em obras como “O tempo e eu”(1968) aonde cria “[...] um “Eu” espelhado nos outros, na influência e participação ativa que estes tiveram com o narrador Cascudo. Uma vida cercada de muitas outras vidas” (ALVES,2011:41). Temos em seus escritos autobiográficos o cruzamento dessa memória coletiva com uma dimensão mais particular da memória, ou seja, a sua variante individual que se refere a recordações individuais que só são pessoais “[...] à medida que ele se localizou num ponto em que foi possível ser atravessado por correntes de pensamento coletivo que formou uma configuração de maior complexidade para desvendar suas origens para a maioria das pessoas” São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 101
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS (ALBUQUERQUE JR.,2007:204). Neste sentido, podemos afirmar que a memória individual é singular a um indivíduo, devido ao espaço ocupado por esse em determinado momento de sua trajetória. É individual porque os sujeitos são impactados de diferentes formas pelos elementos que compõem a memória coletiva. Portanto, Câmara Cascudo constrói nesses escritos uma memória que é “(...) consolidada entre episódios pessoais e pela narrativa sobre os outros, agora tornada a de Cascudo” (ALVES,2011:42).Desse modo, ao elaborar uma narrativa de si ele acaba evocando outros personagens que reafirmam a representação que Cascudo deseja criar de si. Desta maneira ele “(...) constrói sua própria subjetividade articulando-se, simultaneamente, enquanto sujeito e objeto da reflexão que ele tece em torno de sua própria vida”(OLIVEIRA, 2012: 02). Para ele, a memória “(...) funciona como um traço do passado, um arquivo concebido como um registro mesmo que um tanto limitado de um acontecimento, ao invés de, por exemplo, uma construção dele” (OLIVEIRA, 2012: 05).Desse modo, Cascudo assim como não vislumbra que uma fonte histórica seja construída, forjada e inventada,não reconhece na memóriaum processo seletivo e intencionado, apesar de evidenciar sua limitação. Pelo contrário, para ele a memória mesmo com suas limitações é uma cópia de determinado acontecimento, permitindo que os sujeitos reconheçam as origens, raízes de determinados fenômenos. A memória funcionaria como uma espécie de arquivo, que é fundamentalmente um registro preservado eternamente já que “(...) as informações sobre o passado nunca desaparecem, pois, para ele, mesmo aquela parcela não percebida pelo sujeito é conservada na biologia de seu próprio ser.” (OLIVEIRA, 2012:08). Câmara Cascudo acredita que as recordações de determinados fenômenos guardados na memória seriam evocados através da chamada “reminiscência”, sendo essa para Durval Muniz (2007) o [...] nível em que a “memória individual” é violentada por choques provenientes de signos sensíveis. Estes signos provocam a evocação, fazem chegar à consciência sensações ou imagens já vividas que aparecem como rasgões num tecido negro. (...) O passado ressoa no presente, o passado surge no presente com força viva e violenta, de uma violência tão grande que só suportamos por momentos (...) (ALBUQUERQUE JR., 2007:201) . São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 102
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS A reminiscência, essa evocação de sensações e imagens passadas que invadem violentamente o nosso presente,seria para o nosso intelectual potiguar a única forma fiel de acesso a essa memória arquivista, já que todas as demais seriam frutos da “imaginação”, estando essa ligada a ideia de falsidade que colocaria em risco a autenticidade de nossas lembranças. A concepção de que as memórias correspondem a uma “história oficial”, a verdade integral tal como Cascudo pensou, incorre no erro de considerá-las como “[...] unidades e totalidades homogêneas e não como a multiplicidade, sujeitas a constantes deslocamentos” (ALBUQUERQUE JR., 2007:200). Talvez, o pensamento de Cascudo acerca da autenticidade das memórias se referisse a sua concepção positivista dos documentos históricos, mas pode ser que se devia também a uma tentativa de envolver os seus escritos memorialísticos com o “manto da verdade”, respaldando as suas evocações de um valor de autoridade. A partir do exposto podemos verificar como as recordações presentes nos escritos aqui analisados buscam, assim como outras memórias, “[...] preservar a ideia de uma essência que atravessa os tempos.” (ALBUQUERQUE JR., 2007: 207). Essência que no caso de Cascudo sugere um desejo de evidenciar para a posteridade o que há de mais fundamental em seu espírito, já que ao evocar e escrever suas memórias,ele a faz de maneira seletiva e almejando determinado fim. A“[...] memória é seletiva e todo escrito memorialístico é expressivo pelo que formula e pelo que silencia” (NEVES, 2004: 11) e não um arquivo humano com capacidade infinita como acreditava Cascudo, além disso, também não é um processo isento de intencionalidades, tal como o oficio do historiador não o é. É possível perceber através da análise dos escritos memorialísticos desse escritor potiguar a intencionalidade de evocar em tais obras autobiográficas acontecimentos, relações e sujeitos que para ele são dignos de evocação, bem como de silenciar momentos obscuros de sua trajetória. É por isso, que Câmara Cascudo traz nesses escritos elementos de sua vida que realçam traços da personalidade que criou para si em vida e que continuou sendo monumentalizada após a sua morte bem como evoca sujeitos que auxiliam em tal processo, confirmando a imagem que constrói de si. Nesses escritos deve-se escavar São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 103
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS “(...) a memória já petrificada, dementando e desmentindo as verdades estabelecidas sobre os fatos e feitos, desinventando e desinvestindo memórias grandiosas e heroicas (...)” deve-se não só “(...) definir e se apropriar do objeto, mas fazê-lo perder-se, desdefini-lo; não é só identificar o sujeito, mas desidentificá-lo, desacontecê-lo. É preciso desformar o mundo, desnaturalizá-lo” (ALBUQUERQUE JR.,2007:92). É necessário que o historiador perceba em tais escritos não simples recordações de um sujeito próximo ao fim da vida, mas sim as intencionalidades com que esse mesmo indivíduo produziu tal memória. A memória presente nesses escritos apesar de já estar incrustada deve ser utilizada pelos historiadores como uma forma de desestabilizar o que é posto ali, deve-se problematizar desde a seleção dos fatos ali evocados, à escolha pela confecção de tais obras naquele momento, os sujeitos com quem mantém diálogo e que respaldam a sua produção e a finalidade que tais escritos possuíam endereçados a posteridade que “(...) fará sua casa com o material que juntamos do presente” (NEVES apud CASCUDO,2002:79). Referências: ALBUQUERQUE JR., Durval Muniz de. História: a arte de inventar o passado. Ensaios de teoria da história. Bauru: Edusc, 2007. ALVES, Alexandre. O Tempo e os outros: Cascudo entre labirintos da memória. Revista Imburana – revista do Núcleo Câmara Cascudo de Estudos Norte-Rio-Grandenses/UFRN.n. 3, fev./jun. 2011. BETI, Mariana Giardini. Câmara Cascudo no solo sagrado da memória. Disponível em: http://www.historiaecultura.pro.br/modernosdescobrimentos/desc/cascudo/icascudoroteiros.ht m acesso em 10 de mar. de 2014. CASCUDO, Luís da Câmara. O tempo e eu (confidências e preposições). Natal: Imprensa Universitária, 1968. __________. Na Ronda do Tempo.Natal, Imprensa Universitária, 1970. __________. Pequeno Manual do Doente Aprendiz. Natal, Imprensa Universitária, 1969. __________. Ontem: imaginações e notas de um professor provinciano.Natal, Imprensa Universitária, 1972. COSTA, Bruno Balbino Aires da.Luís da Câmara Cascudo, historiador. Disponível em: http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1299272352_ARQUIVO_ArtigoANPUH. pdf acesso em 10 de mar. de 2014. GOMES, Ramonildes Alves. GOMES, Valdeci Feliciano. Laços matrimoniais, amarras tradicionais: a família como autoconstituição em Câmara Cascudo. Disponível em:http://www.cadernocrh.ufba.br/viewarticle.php?id=629 acessado em 25 de fev. de 2014. NEVES, Margarida de Souza. Artes e Ofícios de um “Provinciano Incurável”.Revista Projeto História. Revista do Programa de Estudos Pós Graduados em História e do São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 104
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Departamento de História da PUC-SP. No. 24 Artes da História & outras linguagens. São Paulo: PUC-SP, Junho de 2002. pp. 65 a 86. NEVES, Margarida de Souza. Literatura: Prelúdio e fuga do real.Disponível em: http://www.historiaecultura.pro.br/modernosdescobrimentos/desc/cascudo/preludioefuga.pdf acesso em 27 de abr. de 2014. NEVES, Margarida de Souza. Lugares de Memória na PUC-Rio. Disponível em: http://nucleodememoria.vrac.puc-rio.br/site/lugaresmargarida.htm acesso em 27 de abr. de 2014. NORA, Pierre. Entre a memória e a História. Disponível em: http://www.pucsp.br/projetohistoria/downloads/revista/PHistoria10.pdf acesso em 27 de abr. de 2014. OLIVEIRA, Felipe Souza Leão de. “As profundas camadas da memória”: Memória e subjetividade no livro O tempo e eu de Luís da Câmara Cascudo. Disponível em: http://gthistoriacultural.com.br/VIsimposio/anais/Felipe%20Souza%20Leao%20de%20Olivei ra.pdf acesso em 27 de abr. de 2014. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 105
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 20. EPIFÂNIO DÓRIA E A REPÚBLICA DAS LETRAS EM SERGIP Ronaldo Alves44 Resumo: O objetivo deste trabalho é apresentar através da biografia de Epifânio Dória, alguns aspectos da sua trajetória de vida no campo intelectual sergipano durante a República das Letras. Para tal análise, utilizamos o método biográfico que conduziu a construção escrita, concomitante à pesquisa nas fontes documentais e bibliográficas que permitiu apresentar o panorama da atuação do biografado nas mais diversas instituições culturais de Sergipe e compreender a sua trajetória inserida no contexto histórico, social e intelectual de sua época, e assim perceber que era possível através do exercício da atividade intelectual e das práticas de legitimação vigentes na República das Letras, um indivíduo autodidata, apenas alfabetizado ser reconhecido e legitimado na intelligentsia sergipana. PALAVRAS-CHAVE: Biografia; Epifânio Dória; República das Letras; Intelligentsia Sergipana. INTRODUÇÃO A trajetória de Epifânio Dória na vida intelectual tem início no período denominado República das Letras em Sergipe, que compreendeu o período de 1889 a 1930. Esse período foi o marco das mudanças que ocorreram no campo intelectual e institucional sergipano, nessa época ocorreu o surgimento de inúmeras instituições culturais que agremiou vários intelectuais e os legitimavam. O objetivo geral deste trabalho é mostrar a atuação de Epifânio Dória nas mais diversas instituições de Sergipe, reconhecendo a importância do seu trabalho e do seu papel enquanto intelectual, que o legitimou como membro da Intelligentsia Sergipana. Durante a República das Letras havia práticas de legitimação que condicionava a ascensão social e intelectual dos indivíduos, e a contribuição de Epifânio Dóriana difusão cultural, na historiografia sergipana,na pesquisa histórica e em outros âmbitos da sociedade possibilitou alcançar 44 Historiador e Arqueólogo, membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Memória e Patrimônio Sergipano – GEMPS/CNPq/UFS. E-mail: ronaldo.jfas@hotmail.com São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 106
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS este reconhecimento no meio intelectual sergipano.Atualmente muitos intelectuais sergipanos são esquecidos no tempo, juntamente com as suas obras e o seu legado, assim a biografia de Epifânio Dória nós faz refletir sobre a sua contribuição intelectual e cultural para Sergipe. TRAÇOS BIOGRÁFICOS A trajetória da biografia no mundo ocidental tem origem no mundo grego antigo, o sentido etimológico da palavra biografia atesta de fato a sua origem no mundo grego, bios, significa vida, e graphein, significa escrever, inscrever. Do mundo grego em diante o uso das biografias em várias épocas contribuiu para aprimorar os paradigmas biográficos, o que possibilitou uma melhor compreensão e utilização da biografia no mundo contemporâneo. Dessa forma, a biografia através dos séculos esteve sempre ligada às práticas humanas. No século XIX sob a influência do positivismo, a preocupação com os fatos sociais relegou a importância do indivíduo na História, e sob a vigência da História Nacional favoreceu a produção de inúmeras biografias de heróis, políticos e militares, produzidas por aportes literários, todavia, “[...] o debate sobre o papel do indivíduo e da biografia, realizado nesse século, ainda se prolonga no debate atual; nos dias de hoje”(BORGES, 2006, p. 206). Epifânio da Fonseca Dória e Menezes45 nasceu no município de Campos, atual cidade de Tobias Barreto, na Fazenda Barro Caído em 07 de Abril de 1884. Filho de José Narciso Chaves de Menezes46 e de Josefa da Fonseca Dória e Menezes teve a vida marcada por momentos que delinearam a sua formação intelectual e profissional, transformando-lhe em autodidata47, sem que para isso obtivesse a formação secundária e a superior. O contexto histórico do Brasil e de Sergipe tramitava em torno do processo de Abolição consumado em 13.05.1888, e da Proclamação da República efetivada em 15.11.1889, este último acontecimento estampou como contexto histórico na sua vida. 45 Cf. GUARANÁ, Armindo. DiccionárioBio-Bibliográphico Sergipano. – Rio de Janeiro: Pongetti, 1925, p. 72. 46 Foi Capitão da Guarda Nacional e próspero fazendeiro e criador de gado da região de Campos. Cf. FONTES, Arivaldo Silveira. Figuras e Fatos de Sergipe. – Porto Alegre: Ed. CFP SENAI de Artes Gráficas Henrique d’Ávila Bertaso, 1992, p.23 47 Autodidata: Que ou quem aprendeu ou aprende por si, sem auxílio de professores. Cf. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio: O Minidicionário da Língua Portuguesa. 6ª. Ed. – Curitiba: Positivo, 2004, p. 155. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 107
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Sua trajetória de vida48teve início no povoado Poço Verde, o qual se mudou com os seus pais ainda criança, e obteve as primeiras letras. A boa condição financeira de seus pais proporcionou-lhe estudar na escola particular do professor Irênio Vital de Souza. Em 1898 prosseguiu o ensino primário na Vila de Campos, mas para isso precisou trabalhar muitocedo no comércio de um parente, sem receber provento algum a fim de completar os estudos. Teve aulas com o professor Josué do Rosário Montalvão, em seguida com o professor José Rodrigues da Silva. Em virtude da grande seca ocorrida em 1898 sua vida tomou outros rumos. No ano de 1899abandonou os estudos e foi trabalhar no comércio da Vila de Boquim e permaneceu até o ano de 1906, no ano de 1905 fundou o Clube Literário Progressista em Boquim, e demonstrou o seu interesse pelas letras, assim: A sede da leitura, a vontade de aprender e os primeiros cantos de amor fizeram com que fundasse naquela vila o Clube Literário Progressista, o qual mantinha uma pequena biblioteca. E ainda sobrava tempo para organizar uma banda musical [...] Labutava todo dia no armazém fedorento a fumo-de-rolo e cachaça e á noite discorria sobre os romances que lia (FONTES, 1992, p.24). Seu autodidatismo delineou a sua formação, o contato com os livros o despertou, quando ao deixar o comércio em 1905, abriu um internato para o ensino primário,não obteve êxito essa tentativa. Estabeleceu-se no comércio da Bahia e sem sucesso retornou em 1907 eassumiu na Vila de Boquim o cargo de 2º suplente do juiz municipal,em seguida foi secretário da Intendência Municipal na administração do Major Leonides de Carvalho Fontes (1901-1905), que foi seu patrão no comércio de Boquim. O Major Leonides figurou como um mecenas ao lhe oferecer oportunidade de crescimento e confiar no seu potencial. Na busca pelo funcionalismo público foi nomeado em 1907adjunto do promotor da comarca de Maruim49. Em sua passagem por esse município organizou o arquivo e a biblioteca do Gabinete de Leitura de Maruim, logo, foi nomeado amanuense50 da Biblioteca Pública. Após se destacar pela organização do arquivo da Secretaria de Governo ocupou o cargo de 48 Cf. APES. Coleção Epifânio Dória. Livro para Impressão de Visitas. Cx 05. p.1-2. s.d. 49 Nomeado Adjunto de Promotor Público da Comarca de Maruim. APES. Atos do Governo. Acto nº 210 de 26 de Junho de 1907. Fundo: G1 V. 337. 1907 50Nomeado Amanuense da 2ª Seção da Secretaria de Governo. APES. Atos do Governo. Acto nº 66 de 20 de Maio de 1908. Fundo G1V.330, 1908. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 108
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS bibliotecário51 até chegar ao cargo de diretor pela Lei nº 639 de 7 de Outubro de 1913 que dava nova organização a biblioteca, inclusive criava o cargo de diretor. Foi a partir da biblioteca e do seu contato com os livros que Epifânio Dória se projetou intelectualmente, participou de diversas instituições culturais e movimentos da sociedade.Atuou no Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE)52 o qualdesenvolveu valoroso trabalho até os últimos dias de sua vida. Na Academia Sergipana de Letras (ASL) participou da fundação e ocupou a cadeira de número 40 que pertenceu a Baltazar Góes53. Teve presença marcante na Liga Sergipense Contra o Analfabetismo (1916) e na Loja Maçônica Cotinguiba (1920), além de outras instituições, ao qual prestou grandes serviços. Na política ocupou os cargos de Secretário da Justiça e Negócios do Interior, daFazenda, da Agricultura e Indústria, Viação e Obras Públicas (1935-1941). Foi Deputado Classista (1935) e em movimentos sociais participou da Cruzada do Mil Réis Ouro (1930), da Campanha do Livro Combatente e da Sociedade Beneficente dos Funcionários Públicos do Estado de Sergipe (1940) entre outros. Na vida privada, desposou Nair Garcez54e constituiu família, dessa união nasceram três filhos: Iracema Garcez Dória, José Garcez Dória e Maria Lúcia Garcez Dória. Em 08 de Junho de 1976 em Aracaju, aos 92 anos faleceu deixando um grande legado e contribuição intelectual e cultural para o Brasil e para Sergipe, como o exemplo de um pequeno homem que se fez grande. INSTITUIÇÕES CULTURAIS DE SERGIPE A República das Letras preconizou o progresso intelectual no Estado de Sergipe, principalmente nas primeiras décadas do século XX em que a atenção de alguns governantes se dirigia para o âmbito cultural. Nesse contexto a Biblioteca Pública exerceu forte influência no processo cultural, intelectual e educacional de Sergipe, pois exercia o papel de difusora cultural e alcançava avários segmentos da sociedade. 51 Nomeado Bibliotecário da Biblioteca Pública do Estado de Sergipe. APES. Atos do Governo. Acto nº 117 de 21 de Outubro de 1908. Fundo G1V.330, 1908. 52 Sua entrada no IHGSE é confirmada pela Ata de Reunião do dia 08/10/1912 citando-o como sócio. Ver Actas das Sessões do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, Aracaju, v. 1, n. 1, 1912/1913, p. 61. 53Cf. GUARANÁ. Op. cit. p. 45 54“Consorcia-se com senhorita Nair Garcez aos 24 de Abril de 1914, em ato religioso celebrado na Catedral de Aracaju, pelo Pe. João Florêncio da Silva e o civil pelo Juiz da 2ª Vara, Dr. João Antônio de Oliveira” GARCEZ, José Augusto. Quase um Século: Epifânio Dória – Tributo ao Mérito.Jornal da Cidade,Aracaju,7 e 8 Abr. 1974, p.8 São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 109
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS No início da Repúblicadurante o governo de Guilherme de Souza Campos55,a preocupação com a cultura do Estado permitiu reorganizar a Biblioteca Pública que funcionava no Palácio do Governo56 e “que estava um tanto relegada” (DANTAS, 2004, p. 32). Para zelar e cuidar da biblioteca nomeou Epifânio Dória para o cargo de amanuense, o trabalho desenvolvido na organização desse órgão e a sua competência, possibilitou sua ascensão ao cargo de bibliotecário, e mais tarde ao de diretor. A biblioteca sob a direção de Epifânio Dória passou por uma total organização, além de se transformar em um grande espaço de sociabilidade, frequentada por inúmeros intelectuais que se estabeleciam na República elevando a biblioteca ao status de localde saber e ideias. Ainda no campo dos serviços prestado a biblioteca, Epifânio Dória contribuiu para as bibliotecas públicas do Brasil ao idealizar o projeto de gratuidade da franquia postal destinado às bibliotecas públicas do país57, o que possibilitaria a difusão da cultura para a sociedade por meio das bibliotecasatravés da troca de informação e através do contato com os livros formaria uma sociedade banhada pela luz do saber. Fundado em 06 de Agosto de 191258 por iniciativa de Florentino Menezes, o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe59 surgia em meio ao movimento de automação científica e intelectual durante a República das Letras. De forma tardia em relação ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1838) e a outros institutos do Brasil, a sua fundação personificou as ideias preconizadas pela produção da ciência que no início do século XX floresciam no Brasil através das instituições científicas. Em Sergipe a fundação do IHGS60 representou uma nova fase não só no campo 55 Foi Desembargador e governou Sergipe no período de 24/10/1905 a 10/08/1906 e 28/08/1906 a 24/10/1908. Cf.DANTAS, Ibarê. História de Sergipe: República (1889-200). – Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2004. 56Mensagem apresentada á Assembléia Legislativa do Estado de Sergipe, em 7 de Setembro de 1909, na 2ª Sessão Ordinária da 9ª Legislatura, pelo Vice-Presidente do Estado Dr. Manoel Baptista Itajahy. Aracaju: TypographiaCommercial, 1909. 57 Cf. BARRETO, Luiz Antônio. Memórias de Sergipe: Personalidades Sergipanas. Correio de Sergipe, Aracaju, 4 Jun. 2006, p. 5-7. 58 Cf. Actas das Sessões do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe.Aracaju, v. 1, n. 1, 1912/1913, p. 13-15. 59 Reconhecido como utilidade pública pela lei Estadual nº 694, de 9 de novembro de 1915, considerado de utilidade continental pela Resolução nº 58, do Congresso Americano de Bibliografia e História, de Buenos Aires,em 1916, e reconhecido de utilidade pública pelo Decreto federal nº 14.074, de 19 de fevereiro de 1920. Cf. SANTOS, Pedrinho. Instituições Culturais de Sergipe.Aracaju. 1984, p. 10. (Mimeografado). 60 Retificando, asigla utilizada pelo Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe desde a sua fundação foi “IHGS”, que coincidia com o Instituto Histórico de Santos, em virtude dessa duplicidade foi alterada para “IHGSE” a São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 110
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS da ciência e da intelectualidade como também para a historiografia sergipana61tornando-se conhecido entre a intelectualidade como a Casa de Sergipe62. No sodalício de 1927 a1935 sob a presidência de Francisco Carneiro Nobre de Lacerda o instituto passou por uma fase de árduo trabalho para a construção da sede própria.Nessa gestãocomo tesoureiro, Epifânio Dória empreendeu todos seus esforços para que nesse sodalício a pedra fundamental fosse lançada, e assim marcar a administração de Nobre de Lacerda com efetivação deste grande empreendimento que foi a inauguração da sede. Na inauguração da nova sede em 02 de abril de 1939, Epifânio Dória discursou como presidente do sodalício (l937–1939) e o seu empenho o levara a presidência e a muitos outros cargos, sua vida no Instituto foi bastante representativa na história da Casa de Sergipe. Segundo os Estatutos do IHGSE63 foi facultada a criação de uma revista de circulação trimensal que informaria as atas aprovadas nas sessões, bem como os discursos pronunciados durante as reuniões, o quadro social, trabalhos históricos, literários e científicos produzidos pelos membros. A primeira marca deixada por Epifânio Dória na Revista do IHGSE64 ilustrou o seu perfil intelectual, enveredado pelo caminho da biografia trazia em seus escritos informações importantes sobre personalidades que serviam de exemplos para formação da identidade cultural sergipana, através dos exemplos de vida dos biografados. No mais o hábito de fazer biografias estava no auge durante a formação do IHGSE65uma herança do IHGB que permeou por muitos anos a escrita da história na Casa de Sergipe. Fundada em 01 de Abril de 191966a Hora Literária se inseria no rol de instituições que surgiu em Sergipe na República da Letras, a sua evolução no campo literário permitiu a organização e partir do ano de 2007. Cf. DANTAS, José Ibarê Costa. Relatório Anual de 2007. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Aracaju: n. 37, 2008, p. 282. 61 SILVA, José Calazans Brandão da.Aracaju e outros temas sergipanos. Aracaju: Governo de Sergipe – FUNDESC, 1992, p. 31. 62 Cf. FREITAS, Itamar. A Escrita da História na Casa de Sergipe – 1913/1999. – Aracaju: Coleção Nordestina: Editora UFS, 2002. 63 Cf. Estatutos do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Aracaju. v.1, n. 1, 1912/1913, p. 17. 64 DÓRIA, Epifânio. Dr. Pelino Nobre, subsídios para a sua biographia. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Aracaju: V. 3, n.6, 1915, p. 183-205 . 65 Cf. FREITAS, 2002. Op. cit, p. 41-42. 66 Sobre a fundação da Hora Literária e da Academia Sergipana de Letras. Cf. CARNEIRO, Magalhães. Panorama Intelectual de Sergipe. Aracaju: Imprensa Oficial, 1940, p. 1-5. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 111
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS fundação da Academia Sergipana de Letras em 01 de Junho de 1929. O convite do presidente José Augusto da Rocha Lima em 08 de Maio de 1929 a Epifânio Dória por seu mérito e benefício em prol das letras em Sergipe o levou a condição de sócio fundador e Secretário Geral no biênio de 1931 a1933, além de fundar a Cadeira de nº 40 que tem como Patrono Baltazar de Góes. Presidiu ainda, a Liga Sergipense Contra o Analfabetismo67 idealizada no Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe68 no dia 24 de Setembro de 1916, atendendo as mudanças na área educacional preconizada pela República69 nas primeiras décadas do século XX com o objetivo de erradicar o analfabetismo no Estado. Participou da fundação do Rotary Clube de Sergipe, da LBA (Legião Brasileira de Assistência) na Comissão Executiva de Sergipe; durante a Campanha do Livro do Combatente na década de 40, da Comissão do Folclore em Sergipe entre outras participações. Colaborou em diversos jornais como: “A Razão” em Estância; “O Imparcial” em Maruim; “A Idéia” de Pão de Açúcar, nas Alagoas; “O Estado de Sergipe”; “Folha de Sergipe”; “O Democrata”; “Gazeta da Tarde”; “Diário da Manhã”, no “Jornal do Povo” e no “Sergipe Jornal” onde publicava as Efemérides Sergipanas70. Iniciado na maçonaria em 08 de Maio de 192071seguiu o juramento baseado na tríade Maçônica: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Assim, Epifânio Dória deixaria sua marca na Loja Maçônica Cotinguiba ao organizar todo o arquivo e a biblioteca da maçonaria, bem como outros serviços prestados enquanto maçom. Foi elevado ao Grau de Mestre72em 21 de Junho de 1920; ao Grau de Cavaleiro da Rosa Cruz73em 15 de Abril de 1921 e ao Grau de Cavaleiro Kadosch da Águia 67 Cf. SOUSA, Clotildes Farias de. Por uma Pátria de Luz, Espírito e Energia: a Campanha da Liga Sergipense contra o Analfabetismo (1916-1950). São Cristóvão, 2004. Dissertação (Mestrado em educação). Universidade Federal de Sergipe. 68 Relatório de 1916 a 1917. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. V. 4, n. 8, 1919, p. 294-296 69 Cf. NUNES, Maria Thétis, História da Educação em Sergipe. – Rio de Janeiro: Paz e Terra; Aracaju: Secretaria de Educação e Cultura do Estado de Sergipe: Universidade Federal de Sergipe, 1984. 70 Cf. MEDINA, Ana Maria Fonseca. Epifânio Dória: Efemérides Sergipanas. V. 1, V. 2,Aracaju: Ed. J. Andrade, 2009. 71 APES. Coleção Epifânio Dória. Pedido de eliminação do quadro da Loja Maçônica Cotinguiba por Epifânio Dória. Doc 11 V. 18, 1945 72 APES. Coleção EpifânioDória. Diploma do Grau de Mestre. Doc4, V. 18. 1920. 73 APES. Coleção Epifânio Dória. Diploma do Grau de Cavaleiro da Rosa Cruz 7. Doc7. V. 18, 1921. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 112
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Branca e Negra74em 02 de Abril de 1937. Sua atuação na Maçonaria originou a biografia de todos os Veneráveis da Loja Maçônica Cotinguiba75desde sua fundação no século XIX ao início do século XXtornando-se uma valorosa fonte para os estudos sobre a Maçonaria em Sergipe. CONSIDERAÇÕES FINAIS A repercussão do seu trabalho foi também reconhecida em outros Estados e no decorrer da sua vida participou de inúmeras instituições como sócio fundador, efetivo e correspondente pelo Brasil e exterior.No IHGSE e nas várias instituições em que participou Epifânio Dória deixou sua contribuição intelectual e no exercício dessa atividade adquiriu o capital intelectual e cultural, prática comum na República das Letrasque legitimava e reconhecia o indivíduo entre seus pares. A formação do IHGSE foi amplamente composta por membros da elite e da intelligentsia sergipanacomposta por bacharéis coronéis e acadêmicos, bem como nas diversas instituições culturais de Sergipe. Assim, pensar num autodidata, alfabetizado, com pouco volume do capital social e econômico em uma sociedade regida por uma elite intelectual, é algo contraditório. Mas Epifânio Dória a partir de suas relações sociais adquiridas pelo seu trabalho na biblioteca soube tecer as redes que lhe conduziram ao prestígio intelectual. Assim, as biografias representam muito mais do que contar ou narrar uma história e trajetória de vida, representam a construção da vida de indivíduos a partir da sua relação e contexto o qual ele está ou esteve inserido. Pois,a história é a “Ciência dos homens [...] dos homens no tempo” (BLOCH, 2001, p. 55). É através das marcas deixadas pelo homem ao longo de sua existência que podemos reconstruir sua história no tempo e no espaço, e conhecer não apenas parte da sua vida, mas a história de uma época, por meio de sua atuação na sociedade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARRETO, Luiz Antônio. Memórias de Sergipe: Personalidades Sergipanas. Correio de Sergipe, Aracaju, 4 Jun. 2006. 74 APES. Coleção Epifânio Dória. Diploma do Grau de Cavaleiro Kadosch da Águia Branca e Negra 30. Doc 08, V. 18, 1937. 75 DÓRIA, Epifânio. Veneráveis da Loja Cotinguiba. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. V. 21, n. 26, 1961, p. 127-165. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 113
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS BLOCH, Marc. Apologias da história, ou, O ofício do historiador. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. BORGES, Vavy Pacheco. Fontes Biográficas: grandezas e misérias da biografia In: PINSKY, Carla Bassanezi (Org.). Fontes Históricas. 2ª. ed. – São Paulo: Contexto, 2006, p.203-33. BOURDIEU, Pierre. A Ilusão Biográfica. In: FERREIRA, Marieta M.; AMADO, Janaína. Usos e Abusos da História Oral. 5ª. ed. – Rio de Janeiro: Editora FGV, 2002, p. 183-191. BURKE, Peter. A Invenção da Biografia e o Individualismo Renascentista. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n. 19, 1997. ____________. Variedades de História Cultural. Tradução de Alda Porto. 2ª. ed. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. CARNEIRO, Magalhães. Panorama Intelectual de Sergipe. Aracaju: Imprensa Oficial, 1940. DANTAS, Ibarê. História de Sergipe: República (1889-200). – Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2004. DANTAS, José Ibarê Costa. O Tenentismo em Sergipe: Da Revolta de 1924 à Revolução de 1930. 2ª ed. – Aracaju: Gráfica Editora J. Andrade Ltda, 1999. ____________. Relatório Anual de 2007. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Aracaju: n. 37, 2008. p. 282. DÓRIA, Epifânio. Dr. Pelino Nobre, subsídios para a sua biographia. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. V. 3, n.6, 1915, p. 183-205 . ____________. Discurso pronunciado pelo Sr. Epifânio Dória, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, na solenidade inaugural do novo prédio daquele sodalício. In: Discursosna Solenidade da Inauguração do Edifício Próprio a 2 de abril de 1939. Aracaju: Imprensa Oficial, 1939. ____________. Veneráveis da Loja Cotinguiba. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. V. 21, n. 26, 1961. p. 127-165. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio: O Minidicionário da Língua Portuguesa. 6ª. Ed. – Curitiba: Positivo, 2004. FREITAS, Itamar. A Escrita da História na Casa de Sergipe– 1913/1999. – Aracaju: Coleção Nordestina: Editora UFS, 2002. FONTES, Arivaldo Silveira. Figuras e Fatos de Sergipe. – Porto Alegre: Ed. CFP SENAI de Artes Gráficas Henrique d’Ávila Bertaso, 1992, p.23. GARCEZ, José Augusto. Quase um Século: Epifânio Dória – Tributo ao Mérito.Jornal da Cidade, Aracaju, 7 e 8 Abr. 1974. GOMES, Ângela de castro. (org.). Escrita de Si, Escrita da História. – Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004, p. 7-22. GUARANÁ, Armindo. DiccionárioBio-Bibliográphico Sergipano. – Rio de Janeiro: Pongetti, 1925. LEVI, Giovanni. Usos da biografia. In: FERREIRA, Marieta M.; AMADO, Janaína. Usos e Abusos da História Oral. 5ª. ed. – Rio de Janeiro: Editora FGV, 2002, p. 167-182. MAYNARD, Dilton Cândido Santos. O Beneditino Pesquisador: A Contribuição de Epifânio Dória à Historiografia Sergipana. São Cristóvão: Tomo, n. 1, 1998, p. 131-142. MEDINA, Ana Maria Fonseca. Epifânio Dória: Efemérides Sergipanas. V. 1, V. 2,Aracaju: Ed. J. Andrade, 2009. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 114
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS MENEZES, José Francisco. Epifânio Dória. Gazeta de Sergipe, Aracaju, 07 Abr. 1974, Revista de Domingo. NUNES, Maria Thétis, História da educação em Sergipe. – Rio de Janeiro: Paz e Terra; Aracaju: Secretaria de Educação e Cultura do Estado de Sergipe: Universidade Federal de Sergipe, 1984. RODRIGUES, Auro de Jesus. Metodologia Científica. – São Paulo: Avercamp, 2006. SAMPAIO, Prado. Sergipe Artístico, Litterario e Scientifico. Aracaju: Imprensa Oficial, 1928. SANTOS, Pedrinho. Instituições Culturais de Sergipe. – Aracaju, 1984. (Mimeografado). SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do Trabalho Científico. 21ª. ed. – São Paulo: Cortez, 2000. SILVA, Eugênia Andrade Vieira da.A Formação Intelectual da Elite Sergipana (1822- 1889). São Cristóvão. 2004. Dissertação (Mestrado em Educação). Universidade Federal de Sergipe. SILVA, José Calazans Brandão da.Aracaju e Outros Temas Sergipanos. Aracaju: Governo de Sergipe – FUNDESC, 1992. SOUSA, Clotildes Farias de. Por uma Pátria de Luz, Espírito e Energia: a Campanha da Liga Sergipense contra o Analfabetismo (1916-1950). São Cristóvão, 2004. Dissertação (Mestrado em educação). Universidade Federal de Sergipe. SOUZA, Cristiane Vitório de. A “República das Letras” em Sergipe (1889-1930). São Cristóvão, 2001. Monografia (Licenciatura em História). Departamento de História – Universidade Federal de Sergipe. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 115
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS 21. A TRAJETÓRIA DO MISSIONÁRIO CAPUCHINHO JOÃO EVANGELISTA MONTE MARCIANO (1843-1921) Tatiane Oliveira da Cunha* RESUMO Foram muitos os missionários da Ordem Capuchinha que vieram para o Brasil na segunda metade do século XIX, com a missão de levar a mensagem da Igreja de Roma aos povos distantes. Frei João Evangelista Giuliani de Monte Marciano foi um desses sujeitos históricos que saiu da Itália com esse objetivo. Apresentar sua trajetória, principalmente, em terras brasileiras é o objetivo desse trabalho. Mostra ainda que sua mensagem, embora rica de estratégias persuasivas, na prática cotidiana era compreendida e adaptada pelos participantes das missões itinerantes de acordo com a sua realidade. Palavras-chave: Capuchinho, João Evangelista, missões itinerantes, Sergipe. Frei João Evangelista Giuliani de Monte Marciano nasceu na cidade de Monte Marciano, Província de Ancona, na Itália, em 20 de outubro de 1843. Em 23 de junho de 1860, entrou para o noviciado em Cíngoli. Seis anos depois, interrompeu os estudos e atrasou sua ordenação sacerdotal para alistar-se obrigatoriamente no exército. Em 1866 participou da guerra pela unificação da Itália. Fugindo da guerra, mudou-se para Viterbo (no Estado Pontifício) onde prosseguiu com seus estudos. Mas, com a aproximação das tropas a Roma mudou-se novamente, dessa vez para Malta, onde terminou seus estudos, sendo ordenado Sacerdote em 1870, aos 27 anos de idade (REGNI, 1991:84). Frei João Evangelista, missionário da Ordem Capuchinha, tinha como missão levar a mensagem da Igreja de Roma a povos distantes. Passados apenas dois anos da sua ordenação, foi designado pelo Ministro Geral da Ordem, Frei Nicolau de San Giovanni, para desenvolver seus trabalhos na Bahia. Saiu de Malta em 26 de agosto de 1872 e chegou à Bahia em 12 de outubro daquele ano. Por cerca de um ano trabalhou no hospício da Piedade, em Salvador, se preparando e conhecendo melhor a realidade brasileira, para enfim iniciar a pregação nas missões. Nos seus 37 anos * Mestre em História Social (UFBA), especialista em Ciências da Religião e graduada em História (UFS) e integrante do GPCIR. Este artigo é parte dos resultados apresentados na dissertação “Práticas e prédicas em nome de Cristo...”: Capuchinhos na “cruzada civilizatória” em Sergipe (1874-1901). tatianehistoria@yahoo.com. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 116
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS de trabalho itinerante realizou cerca de 197 missões e 48 retiros. A partir de 1910, com 67 anos de idade e com a saúde bastante abalada, recolhe-se ao hospício da Piedade, onde continuou trabalhando até a sua morte, em 12 de abril de 1921. 76 Embora poucos trabalhos tratem da atuação capuchinha em Sergipe, verificamos no Arquivo Histórico Nossa Senhora da Piedade – Frades Menores Capuchinhos da BA/SE (AHNSP) vasto acervo documental, notadamente, dos séculos XIX e XX. Essa documentação nos permitiu identificar a vinda de muitos deles a Sergipe, principalmente, a partir de 1874, com frei João Evangelista, que nos serviu de “guia”. Nossa escolha se deu, primeiramente, por ele ter deixado um caderno de memórias com 105 páginas, em que registrou sua trajetória de 1873 a 1910, destacando aspectos relevantes das missões. Conforme Carlo Ginzburg o historiador deve assemelhar-se ao caçador, que se utiliza das pistas deixadas pelo animal, a exemplo de rastros, para chegar a sua presa. O nome, que distingue um indivíduo de outros numa mesma sociedade, é utilizado metodologicamente, por Ginsburg como guia para compreender as relações sociais (GINZBURG, 1989:174-175). Jacques Revel também identificou o nome como “uma bússola preciosa”, visto que, a escolha pelo individual não deve ser contraditória ao social. Trata-se de uma abordagem diferente, pois, “ao acompanhar o fio de um destino particular – de um homem, de um grupo de homens – e, com ele, a multiplicidade dos espaços e dos tempos, a meada das relações nas quais ele se inscreve” (REVEL, 1998:21). O relato que segue trata da atividade missionária de frei João Evangelista tomando por base o Caderno de Memórias deixado pelo próprio missionário. Em novembro de 1873, em companhia do Prefeito da Ordem na Bahia, Frei Paulo de Casanova realizou sua primeira missão na Freguesia de Nossa Senhora d’Abadia, na Bahia. Em 1874 iniciou com um retiro espiritual no Convento das religiosas do Desterro, em Salvador. No mês de abril realizou sua segunda missão na Freguesia da Barra do Rio das Contas. Ainda em 1874, no mês de novembro, realizou sua primeira missão na Província de Sergipe, na Freguesia do Lagarto, em companhia do missionário frei Paulo de Casanova. Realizaram 210 casamentos, 2.000 comunhões e 2.500 crismas. Houve ainda a limpeza de um tanque. Em dezembro partiram para Freguesia do Geru/Se. A população construiu um tanque. Em janeiro de 1875 estavam na Freguesia da Vila de Nossa Senhora dos Campos onde obtiveram como resultado 140 casamentos, 1.400 confissões, 1.800 76 AHNSP – Caderno de Memórias de Frei João Evangelista de Monte Marciano, Caixa Ca – 17. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 117
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS comunhões e 1.700 crismas. O frei adjetivou o povo de “duro, sambista e cachaceiro” (MARCIANO:1-3). Após suas primeiras missões em Sergipe retornou a Bahia, tendo realizado missões em Feira de Santana, São José de Tapororoca, Coité, Freguesia do Passo. Em novembro de 1875, volta a Sergipe, novamente com o Frei Paulo de Casanova. A primeira missão dessa temporada foi realizada na Vila de Riachuelo. Mais uma vez reuniu grande número de participantes das quais 98 se uniram em matrimônio, 1.800 pessoas comungaram e 1.775 foram crismadas. Em dezembro estavam eles na Vila de Itabaiana/Se. Ali foram realizados 180 casamentos, 2.850 confissões, 3.127 crismas, dentre outras atividades. É importante destacar ainda a construção de um tanque pelos participantes. Em janeiro de 1876 estavam em Capela/Se onde obtiveram como resultado: 156 uniram-se em matrimônio, 2.400 receberam a comunhão e 2.321 receberam o sacramento da confirmação (MARCIANO:3-5). De volta a Salvador realizou dois retiros espirituais. Em outubro seguiu para a freguesia de Bom Jardim no litoral da Bahia onde coordenou as obras da reedificação da igreja matriz. Continuou sua labuta evangelizadora na cidade de Santo Amaro, pregando mais um retiro espiritual no Recolhimento dos Humildes, em meados de 1877. Realizou missões na freguesia da Giboia e em Itaparica. Em 1878, realizou missão no povoado de São Bento de Tubatá, na freguesia do Tanquinho e em 1879, em Santo Amaro. Em setembro do mesmo ano realizou missão nas freguesias de Bom Jardim, de Serra Preta e em Santo Antonio de Argum. Em 1880, missionou em Capela de Santa Luzia, filial da freguesia de Gameleira, freguesias do Bomfim, de Oliveira e São Vicente. Em 1881 realizou missões em Sipó, freguesia da Igreja Nova, na Serraria e na Divina Pastora, ambas capelas filiais de Entre Rios, na Casa de Prisão com Trabalho da Bahia e pregou um retiro em Santo Amaro (MARCIANO:5-13). Em 1882 realizou missões nas freguesias do Bom Jardim e de Bom Jesus das Meiras, na cidade de Caetité, em Caçulé, freguesia de Umburanos, Vila de Urubú e em Brejinho Grande, capela filial de Urubú, na cidade de Jacobina e na freguesia de Gavião. Pregou ainda o retiro espiritual no Convento das Freiras do Desterro. Frei João Evangelista começou o ano de 1883 pregando em Camição. Em seguida, pregou sete retiros espirituais. Missionou nas freguesias de Monte Alegre, Baixa Grande, Mundo Novo, Riachão da Jacobina e Saúde. Em 1884 realizou missões no povoado São José, freguesia do Riachão da Jacobina, na Vila de Bom Conselho, na freguesia de Santo Antonio das Queimadas e na cidade de Vila Nova. Em 1885 pregou missões em: Jaguarary, freguesia do Campo Formosa, freguesia de São João Amaro, Mamonas, Monte do Fogo, povoado da Lagoa Clara, nas São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 118
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS freguesias de Macahubas e São Sebastião do Caetité, povoado Curralinho, povoado da Casa de Telha, na cidade de Condenba e no povoado Lage (MARCIANO:13-25). No início de 1886 frei João Evangelista veio para Sergipe, com a missão de dirigir o Hospício de São Cristóvão77 e realizar missões na Província. Durante a quaresma fez diversas pregações aos fiéis de São Cristóvão. No dia três de maio partiu para a cidade de Lagarto onde pregou durante todo esse mês, que é dedicado a Maria. Além disso, pregou na festa do Corpo de Deus, na festa de São João e na festa do Ilustríssimo Coração de Jesus. No dia três de julho, frei João Evangelista estava em Samba, capela da freguesia do Riachão. Nessa localidade pregou durante vinte e quatro dias e organizou a construção de um tanque que foi batizado com o nome do frei. Preparou a festa de Nossa Senhora da Assunção, na freguesia do Coité, tendo retornado a São Cristóvão em 17 de agosto. Em setembro retornou a Lagarto para pregar na novena de Nossa Senhora da Piedade. Viajou em seguida para o povoado Samba, onde realizou uma missão itinerante, entre os dias 17 a 29 do mesmo mês. Sob a coordenação do missionário foi construído um cemitério e levantou-se um Cruzeiro na praça. Frei João Evangelista continuou a pregar na freguesia do Riachão durante todo o mês de outubro. Em dezembro o missionário realizou missão na freguesia de Nossa Senhora das Dores com a construção de um tanque (MARCIANO:25-27). Frei João Evangelista iniciou o ano de 1887 na cidade de Capela e em mutirão foram abertas duas fontes. O frei mencionou que nesta missão conseguiu derrotar o protestantismo.78 Em fevereiro do mesmo ano realizou nova missão na Vila de Itabaiana. Trabalharam diversas pessoas na limpeza e no aumento do tanque da Santa Cruz. Encerrada a missão o frei permaneceu em Itabaiana até quinze de agosto, tendo nesse período ajudado a levantar um Cruzeiro na Serra de Itabaiana e reparos na capela e na igreja matriz. Pregou durante toda a quaresma. Em 15 de agosto frei João Evangelista deixou Itabaiana com destino a Pernambuco, por determinação do Comissário frei Fideles de Avoba, sob o protesto do povo de Sergipe.79 Sua chegada a Pernambuco coincidiu com a festa de 77 O trabalho do frei Cândido de Taggia nas missões em Sergipe levou as autoridades a convidarem os capuchinhos a se fixarem em seu território. Em 1841, o Governo promulgou a Lei nº 67 que tratava da construção de um hospício em São Cristóvão concluído em 1850 (REGNI, 1988: 419-421). 78 Os capuchinhos combatiam os protestantes nas missões. Conforme Seixas os protestantes também discordavam dos métodos capuchinhos de evangelização criticando-os no jornal evangélico (SEIXAS, 2010:344). 79 A saída de frei João Evangelista de Sergipe provocou a reação do clero e da população que fizeram abaixo-assinados pedindo sua volta, devido ao seu trabalho missionário no combate aos protestantes (REGNI, 1991:80). São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 119
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS Nossa Senhora da Penha, realizada no dia cinco de setembro. Realizou missão nas seguintes localidades pernambucanas: Catuama, freguesias de São Vicente e da Fuga (MARCIANO:28-31). No dia 13 de abril de 1888, frei João Evangelista deixou Pernambuco com destino a sua terra natal. Chegou a Monte Marciano em 29 de maio daquele ano. Seu objetivo era visitar sua mãe, que não estava bem de saúde. Passou quase quatro meses com sua família, retornando a Pernambuco no dia 10 de setembro, tendo chegado ao destino em 16 de outubro. Em seguida, foi ao Ceará para trabalhar junto aos flagelados da seca, entretanto, por não ter obtido recursos do Presidente daquela Província resolveu voltar a Pernambuco. Em 1889 e 1890 realizou missões nas seguintes localidades pernambucanas: freguesia de Maranguape, cidades de Bezerros e de Itambé, freguesias de São Vicente e Bonito. Em Alagoas realizou uma missão em Muricy, em maio de 1890. De volta a Pernambuco realizou retiros e pregou na Colônia Isabel por 15 dias. Em 7 de abril de 1891 retornou a Salvador e pregou missão na Prisão com Trabalho da Bahia, em julho de 1891 (MARCIANO:31-38). Em 1892 realizou missão na Cepa Forte. Em seguida veio para Sergipe e realizou uma missão no Geru, capela filial de Itabaianinha, acompanhado do frei Venâncio de Ferrara, de 14 a 22 de fevereiro onde se limpou um tanque e foi construído um cruzeiro. De volta ao território baiano, realizou novas missões na Vila do Barracão, na freguesia de Conceição d’Almeida e na Prisão com trabalho da Bahia. Novamente em Sergipe, missionou em Campo do Brito, no período de 26 de setembro a 25 de outubro. Os fiéis carregaram pedras e areia para o conserto da igreja. Em seguida missionou em Coité, na Vila de Jeremoabo e na Vila de Bom Conselho, na Bahia. Em dezembro, de volta a Sergipe, missionou em Laranjeiras. Realizou-se 174 casamentos, 1.900 confissões, 76 batizados e 949 crismas. “Derrotou-se o protestantismo, e calculou-se o povo em 12.000 pessoas,”. Em janeiro de 1893, frei João estava em Lagarto/Se onde celebrou 155 casamentos, 1.900 confissões, 1.600 crismas e 79 batizados. Na ocasião foi aberto um tanque, carregaram-se pedras e arrecadaram Rs. 465$000 para auxiliar na construção de um hospital (MARCIANO:38-45). Ainda em 1893 realizou missão nas seguintes localidades da Bahia: Tartaruga, Giboia, Vila de Juciape, na Vila de Brotas de Macahubas, em Fundão e Barra do Mendes, Vila de Nossa Senhora Oliveira do Brejinho, no povoado de Assunção e na Vila de Macahubas, na freguesia de Cannabrava e no povoado Bonito, na freguesia de Tanquinho, no povoado das Mercês, na Fortaleza. Em 1894 missionou em: freguesia de Santa Anna de Lustoça, São João de Alípio e no povoado de Santa Rosa, Condenba, no povoado do Caculé, na cidade de Caetité, no povoado Beija-Flor, Freguesia do Riacho de Santa Anna. Em 14 de novembro de 1894 estava mais uma vez em Sergipe na freguesia São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 120
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS de Boquim. Nessa missão foram realizados 158 casamentos, 1.300 confissões, 52 batizados e 1.080 crismas. Em Dezembro, dia onze começou a pregar no povoado do Geru, capela filial da freguesia de Itabaianinha que durou até dia vinte. “Avançou-se o velho hospício por ameaçar ruínas, agenciou-se Rs. 661$000 para o restauro da mesma Igreja”. Em janeiro de 1895, no povoado Samba, capela filial da freguesia do Riachão/Se o frei João pregou nova missão. Ao final do evento foi aberto um tanque e arrecadou-se Rs. 300$000 para o concerto da capela. No dia quatro de fevereiro o frei iniciou uma missão em Itaporanga (MARCIANO:45-56). No dia 13 de maio daquele ano frei João Evangelista e frei Caetano de San Leo começaram uma missão no povoado de Canudos com o objetivo de dissolver o povoado que tinha como líder o beato conhecido como Antônio Conselheiro. Com o fracasso da missão foram pregar na freguesia do Cumbe. Em 1895 pregou ainda: na Prisão com trabalho da Bahia, na Vargem Grande, capela filial da freguesia de Santo Antonio de Jesus e na cidade d’Aveia. Em novembro voltou a Sergipe, começando pela cidade de Riachuelo. Durante doze dias de missão realizou-se 127 casamentos, 51 batismos, 1.200 confissões e 1.572 crismas. Como em outras missões, nesta também houve desavenças com protestantes. A próxima missão se deu na Vila de Nossa Senhora das Dores/Se, de 20 a 30 de novembro. Foram arrecadados Rs. 905$000 para dar continuidade aos trabalhos da nova matriz. No dia nove de dezembro iniciou-se uma missão na freguesia de Japaratuba onde “aplaniou-se o terreno em redor da Igreja, e agenciou-se Rs. 1:266$200 para a obra da capella” (MARCIANO:56- 61). Na sequência, mas já em janeiro de 1896, frei João Evangelista parte para outra missão, agora na cidade de Propriá/Se onde “agenciou-se Rs. 8000$000 para o concerto do cemitério”. Ainda em janeiro missionou no povoado Malhador, capela filial da freguesia de Riachuelo. De acordo com o missionário o “povo era bom, mas uns cachaceiros vieram da Itabaiana”. Em 1896 realizou missões nas seguintes localidades baianas: Barra da Estiva, freguesias do Bom Jesus dos Meiras, de São Sebastião do Caetité, povoado de Santa Luzia, Condenba, povoado Bom Jesus, freguesias do Sauve e do Barracão (MARCIANO:61-67). Em janeiro de 1897 voltou a Sergipe, na Vila Christina. Frei João Evangelista escreveu o seguinte comentário sobre o povo: “ignorante, prosumptuoso, indiferente, egoísta, desordeiro, beberrão [...]”. Seguiram-se as missões de Bom Jardim, e nas freguesias do Rio Fundo, da Saúde da Jacobina, do Gavião, na cidade de Monte Alegre, e do Riachão de Utinga. Retornou a Sergipe, em novembro, para a missão na freguesia de Pacatuba, onde foram realizados 51 casamentos, 41 São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 121
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS batizados, 987 confissões e 1.387 crismas. No final do mês no povoado de Jaboatão construíram uma fonte de água potável, denominada bica da missão e um cemitério. Em dezembro partiu para Campo do Brito/Se. Em missão carregaram pedra para a construção da nova capela. O povo foi denominado como “indiferente, egoísta, de coração mesquinho”. Em missão na Vila de São Paulo/Se, em janeiro de 1898 o povo trabalhou na construção do novo cemitério. Nessa missão “o povo comportou-se mal, a policia cometerrão desatinos no ultimo dia da missão, no acto mesmo do sermão do encerramento”. De 15 a 24 de janeiro, no povoado de Pedra Molle o frei João denominou o povo de “jogador, cachaceiro, ocioso, e ladrão”. No ano de 1898 missionou nas seguintes localidades baianas: Vila Velha do Rio das Contas, freguesia de São Sebastião do Caetité, Vila d’ Umburanas, povoado Caculé, capela de São Roque e Coqueiro (MARCIANO:67-78). Em janeiro de 1900 retornou a Sergipe, com a missão da freguesia de Divina Pastora, onde foi construído um tanque. Ainda em Sergipe realizou missão na freguesia do Siriry onde cerca de oito mil pessoas participaram da missão. Em fevereiro foi a vez de Itabaiana/Se. Essa missão teve uma participação estimada de doze mil pessoas. Muitas pessoas carregaram pedras para construção de um cemitério. Em seguida realizou nova missão na cidade de Laranjeiras/Se. Segundo frei João Evangelista “derrotou-se o protestantismo, e calculou-se o povo em 9.000. Tudo correo bem”. Em julho de 1900 missionou na freguesia do Riachão de Casanova/Ba (MARCIANO:79-80). Em janeiro de 1901 após missionar na Vila do Patrocínio do Coité partiu para a cidade de Lagarto, em Sergipe, onde foram evangelizados cerca de quatorze mil pessoas. O povo carregou muita pedra para construção dos corredores da Capela de Nossa Senhora do Rosário. De acordo com frei João Evangelista ocorreram perturbações da ordem. Em fevereiro partiu para nova missão na Vila de Campos/Se. Durante dez dias foram realizados 87 casamentos, 60 batizados, 1.400 confissões e 1.637 crismas. “Abriu-se um magnífico açude, o povo comportou-se bem e calculou-se em 13.000 pessoas”. Essa foi a última missão realizada pelo frei João Evangelista em território sergipano (MARCIANO:82-83). A partir de maio de 1901 voltou para a Bahia e continuou missionando. Foram 39 missões e sete retiros espirituais em localidades baianas até 1907. Com a saúde cada vez mais debilitada, foi diminuindo seus trabalhos externos, sendo que depois de 1907 realizou apenas um retiro em 1910 e se fechou no hospício da Piedade, realizando trabalhos que exigiam menos esforços, como as confissões, até 1921, ano de sua morte (MARCIANO:86-103). São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 122
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS O trabalho apostólico de frei João Evangelista foi amplo e na companhia de Paulo de Casanova, Gabriel de Cagli, Caetano de San Leo e outros, montados a cavalo ou a jumento, ou até mesmo a pé, percorreram diversas localidades do Nordeste Brasileiro, principalmente, na Bahia e Sergipe. Suas memórias revelaram a vida cansativa que levavam ao percorrerem durante o século XIX muitas localidades distantes da sede oficial dos capuchinhos que ficava em Salvador, o Hospício da Piedade e em Sergipe o Hospício de São Cristóvão. Frei João, assim como outros missionários dessa época, enfrentou as péssimas condições das estradas e outras dificuldades de transporte e de comunicação, a precariedade da maioria das localidades que ofereciam péssimas condições de vida aos seus habitantes. Frei João Evangelista foi descrito por seus contemporâneos como um missionário autoritário, responsável e com muita disposição para evangelizar em meio às adversidades da época. Em certo sentido, seu caderno reflete o seu trabalho com as muitas missões e retiros. A maneira como se referia ao povo denominando-o de: “ocioso”, “cachaceiro”, “desordeiro”, “jogador”, “ignorante”, “egoísta”, “ladrão” também reflete o caráter sincero daquilo que ele enquanto missionário acreditava que deveria combater. Em determinadas localidades além de criticar os vícios da bebedeira e da jogatina, também combateu o protestantismo. Os comentários sobre a população é uma evidência de que a maioria das pessoas visitadas não estavam seguindo os ensinamentos da Igreja Católica como o missionário desejava. Nesse sentido, as práticas e as prédicas serviam de “estratégias” utilizadas pelos missionários para evangelizar as localidades mais distantes da Igreja Católica, principalmente, no combate ao protestantismo. Mas, nessa tessitura em que se cruzavam os sujeitos, havia, como afirmou Roger Chartier, um espaço entre a norma e o vivido, por isso, esses homens, em contato com a população, viviam na prática diversas experiências que ultrapassavam essas “estratégias”. Nas suas andanças o missionário participava cotidianamente do universo cultural da população visitada; em contrapartida, as pessoas também aprendiam com os capuchinhos. Embora os capuchinhos desejassem que as pessoas seguissem todos os seus ensinamentos, na prática, os sujeitos, assim como afirmou Michel de Certeau, não são meros consumidores passivos e agem selecionando e fazendo novas combinações. Partindo do princípio atribuído por Chartier de que toda recepção também inventa e distorce, compreendemos que os participantes das missões usaram da adaptação e da invenção no seu dia-a-dia de necessidades “apropriando-se” das missões itinerantes de “mil outras maneiras”. São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 123
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    Anais Eletrônicos doIV Colóquio do GPCIR UFS/GPCIR/CNPq/PROHIS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano: artes de fazer. Tradução de Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994. CHARTIER, Roger. À beira da falésia: a história entre incertezas e inquietudes. Tradução Patrícia Chittoni Ramos. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 2002. CUNHA, Tatiane Oliveira da. “Práticas e prédicas em nome de Cristo...”: Capuchinhos na “cruzada civilizatória” em Sergipe (1874-1901). Dissertação de Mestrado em História. Universidade Federal da Bahia, 2011. GINZBURG, Carlo. Sinais: raízes de um paradigma indiciário. In: Mitos, Emblemas e Sinais: morfologia e história. Trad. Frederico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. REGNI, Pietro Vittorino. Os Capuchinhos na Bahia. Os capuchinhos das Marcas e a Fundação da Província de Nª. Sª. da Piedade – I da Prefeitura à Custódia (1892 a 1937). Volume III. Trad. Agatângelo de Crato (Frei), Salvador: Impressão Gráfica Editora, 1991. ___ Os Capuchinhos na Bahia: uma contribuição para História da Igreja no Brasil. Volumes I e II. Trad. Agatângelo de Crato (Frei), Salvador: Impressão Gráfica Editora, 1988. REVEL, Jacques. “Microanálise e construção do social”. In Jacques REVEL (org.). Jogos de escalas: a experiência da microanálise. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1998. SEIXAS, Mariana E. Santos. Protestantismo, política e educação no Brasil: a propaganda do progresso e da modernização. In: Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, Ano III, n.7, Mai.2010. http://www.dhi.uem.br/gtreligiao-comunicações. p.333-358 São Cristóvão, de 09 a 12 de abril de 2014. Página 124