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A ACULTURAÇÃO DA TELEVISÃO
Participação no Colóquio da Biblioteca de Ovar “Jornalismo Televisivo” em 97.10.30
Comunicação de Rui de Melo
Professor da Universidade Fernando Pessoa
Os programas de televisão têm vindo a ser agrupados em três grandes
categorias que correspondem às três grandes funções sociais do meio: os
programas informativos, os educativo-culturais e os de entretenimento.
Tomemos como princípio que tudo isto, em última análise, é informação que
circula como conformadora de cultura e onde, por isso, o sistema educativo já
tarda em incluir, desde o princípio da vida escolar e de uma forma metódica, o
ensino para os media. Informação, para mim, é um conceito tão lato como a vida
e não tão restrito como transmitir notícias na hora dos telejornais.
E é por aqui que vai esta conversa convosco de quem dedicou aos media 36
anos da sua vida, acha que sabe muito pouco, e por isso decidiu continuar a
aprender ensinando a alunos universitários.
Os telejornais nascem, nos E. U. como uma síntese da informação radiofónica e
dos jornais cinematográficos. Costuma citar-se como exemplo europeu o que
aconteceu com o primeiro telejornal francês que, em 1949, foi editado por Pierre
Sabag, um jornalista que tinha trabalhado em ambos os meios. Mas não é
preciso sair do país para se constatar que a figura paradigmática de Fernando
Pessa, também cuidou dos dois meios, rádio e cinema, para depois se dedicar à
televisão. Mas tanto a rádio como o cinema foram fonte de recrutamento
indispensável nos idos anos 50 do início da nossa televisão.
O que vai separar os telejornais dos jornais falados da nossa rádio é a imagem.
E porque isto acontece em directo recebe o dom da instantaneidade, impossível
ao cinema ou à imprensa convencional. Mas o facto de os telejornais serem em
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directo não quer dizer que a percepção não continue distante do acontecimento e
que não seja passível de manipulação. Estudiosos americanos, para além
daquela evidência, concluíram que todo o programa informativo é
simultaneamente persuasivo (Baggaley e Duck). Não é preciso citar Moles para
reconhecermos que a informação televisiva se transformou na mais eficaz e
habitual “referência do homem socializado”. Mas é preciso ter consciência que
estamos sempre perante um texto-produto “contaminado” por processos
selectivos (a pré-agenda, a agenda, a tematização e os silêncios ou omissões),
processos de descontextualização e recontextualização, de tratamento
quantitativo e quantitativo (comentários, interpretações, códigos e rotinas
linguísticas) e conotações semiotico-narrativas, retóricas, ideológicas e estéticas.
Um antigo director dos Serviços Informativos da CBS, Friendly, deixou claro que
“se os cidadãos do ano 2000 não tivessem outra opção informativa para além
dos noticiários da televisão para identificar o tempo actual, ficariam apenas com
uma ideia muito aproximada”. Ao que acrescentou, sabiamente, a senhora
Friendly, “com a particularidade de que o que ignoramos pode-nos matar”.
Eis-nos chegados ao ponto em que o telejornal tem um poder testemunhal e uma
referência socializadora, mas também pode apresentar uma pseudo evidência
manipulada. Foi esta dupla particularidade que deu e há-de continuar a dar
pretexto para grandes debates nas sociedades democráticas a favor de um
controle da televisão pública, sempre com a preocupação de preservar a
imparcialidade da informação televisiva.
Em televisão, tudo é informação, inclusivamente os programas de entretenimento
(e, naturalmente, a publicidade). Por outro lado, é também espectáculo e cultura
da actualidade. Foi Wood quem classificou os noticiários de televisão em
programas “ao vivo” ou “em directo”, diários de notícias ou telejornais, programas
de fundo, editoriais e outros géneros (comentários, debates, programas de
persuasão, etc.). A informação televisiva vai permanecendo à margem de
qualquer eventualidade ou das inovações tecnológicas. O “telejornal” é,
reconhecidamente, um dos rituais da televisão a que já se referia Goethals, em
1981, na sua obra “The TV Ritual”.
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Parece que nada acontece no mundo enquanto não ligamos o televisor,
transformando esses acontecimentos em notícias. O telejornal é “a celebração do
rito”, propondo-se tornar presente tudo o que representa. Os “oficiantes” são os
apresentadores. É neste “directo” televisivo que o telejornal afirma o tempo
presente no discurso, na enunciação e no rito. Por outro lado, as conotações do
mito estão lá, uma vez que os apresentadores, por o serem, passam a integrar o
“star system”, são estrelas, são vedetas.
Alguém disse que “as imagens que nos chegam de diferentes partes do mundo e
que vemos num telejornal assemelham-se a “produtos congelados” de um
supermercado onde se abastecem todas as televisões”.
E, chegados aqui, ao reflexo da mais que evidente globalização, é a altura para,
sem mais delongas, atacar o cerne da questão.
Pode dizer-se que a televisão, como meio poderoso de informação, cultura e
entretenimento, deu origem a, pelo menos, três atitudes diferentes dos
educadores.
a) Para uns foi um recurso auxiliar que não bulia com o protagonismo do
educador na aula. A televisão desempenharia a função de auxiliar didáctico que
se integra no contexto escolar tradicional. Não havia lugar à feliz expressão de
McLuhan quando se referia às possibilidades de “aulas sem muros” que a
televisão apresentava.
b) Outros educadores, mais críticos e perspicazes, entenderam que a televisão,
enquanto meio, devia integrar-se num contexto novo, mais aberto, receptivo e
moderno, rompendo com o contexto escolar tradicional. Os congressos mundiais
sobre radiotelevisão e educação, promovidos pela UER, foram neste sentido.
c) Na opinião de outros, que seguiram as ideias expostas por Georges
Friedmann numa série de artigos publicados no Le Monde, a função educativa da
televisão tem de ser vista, não a partir do sistema educativo, mas a partir do
repto alternativo que a televisão constitui em relação àquele sistema. A televisão,
no dizer de Friedmann, é uma escola paralela. Não no sentido de ser mais uma
via, alternativa, mas no sentido de que constitui um verdadeiro desafio cultural
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que está a atingir a própria raiz das crenças, das normas, dos valores e pautas
de conduta da escola tradicional.
A televisão tem-nos vindo a proporcionar a possibilidade teórica de uma “cultura
planetária”, a tal “aldeia global” que McLuhan profetizou. A cultura clássica e
humanista tem vindo a classificar a televisão como portadora de uma “cultura
mosaico” (a tal justaposição de unidades heteróclitas de que nos falava Moles na
sua “Sociodynamique de la culture”). E ao trabalho, à qualidade e ao esforço da
aquisição de conhecimentos tradicional, a televisão opõe a facilidade, o acaso e
a lei do menor esforço, patentes nos seus programas em geral e, sobretudo, nos
spots publicitários.
Ainda que nos faltem estudos de pormenor, não será difícil concluir que a
generalidade dos jovens portugueses, sobretudo as crianças, dedica muito mais
tempo a ver televisão do que a estudar. E o ver televisão faz com que a criança
entre precocemente em contacto com o mundo dos adultos sem possuir a
capacidade crítica necessária. Na América, de há muito que as contas estão
feitas: um jovem de 18 anos quando deixa os estudos, passou 12 mil horas na
escola e 15 mil a ver televisão.
As nossas crianças em idade pré escolar passam dezenas de horas por semana
diante do televisor. Os estudiosos têm vindo a provar que a televisão fomenta a
passividade e gera uma espécie de síndrome de dependência.
Para ajudar a inverter o curso dos acontecimentos, a famosa “Rua Sésamo” veio
associar a linguagem do espectáculo televisivo ao discurso educativo com o
sucesso que se lhe reconhece. Mas teve de ser uma iniciativa da Televisão
Pública Norte Americana que encontrou na respectiva autora, Joan Ganz Cooney,
a pedagoga consciente do processo televisivo e, em lugar de ver nele um
inimigo, juntou-se a ele para vencer. Sublinhe-se que o fenómeno teve o seu início
em 1969 e, ainda nesta década, curiosamente, houve, no nosso país quem
pusesse em causa um sucesso que era evidente junto das crianças e tentasse o
seu afastamento da nossa televisão pública. Nesta altura, dá os seus primeiros
passos um projecto português que responde pelo nome de “Jardim da Celeste”.
Ainda é cedo para formular juízos de valor.
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O que estes e outros projectos lançam ao desafio é uma proposta de associação
do sistema educativo à realidade cultural mediática dos nossos dias. Já vão
sendo numerosas as vozes que defendem a integração na escola de uma
educação para os meios que teria por objectivo proporcionar ao cidadão as
defesas críticas que aquela realidade exige. E isso deveria começar bem cedo,
eu diria o mais cedo possível, no curriculum escolar. Aquilo que se sabe é que
uma minoria dispõe, no final do percurso do ensino secundário, de uma disciplina
em que seria desejável que a realidade mediática fosse analisada em
profundidade. Mas sem tecer juízos de valor, estou à vontade para dizer que tal
ensino vem tarde de mais, abrangendo uma minoria da população escolar. Isto é,
o cidadão ainda não tem na escola um elemento pedagógico que lhe forneça a
utensilagem crítica indispensável para enfrentar, descodificando valorativamente,
criticamente, a sedução mediática, particularmente, a televisiva.
E desta necessidade de incluir a educação para os media no nosso sistema de
ensino, de preferência logo no pré escolar, parece-me determinante passar a
considerar o utilizador dos media como um sujeito da informação e não como um
objeto.
Uma coisa é certa, os meios de comunicação social precisam de consumidores
para poderem existir. Eis uma constatação óbvia. É legítimo considerar o recetor
como o elemento genuíno no processo de comunicação social. Esta reflexão
sobre o recetor e a sua existência tida como necessária no circuito da
comunicação social permite-nos partir para a sua consideração como expoente
básico, que nos permita determinar o grau real de participação no processo de
comunicação social. Mas os interesses económicos determinaram como
definitivamente importante o “SHARE” das audiências, em que o receptor é um
número e até lhe encontram um denominador comum de gostos e preferências.
Como se deve entender então, para além do número, a “necessidade” da
existência de facto do recetor no processo de comunicação social? Significa isto
que todos os integrantes do processo de comunicação, sobretudo o emissor,
estão conscientes da exigência da participação real do receptor neste processo?
Ou, pelo contrário, significa que a necessidade dos receptores é vista
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instrumentalmente e a sua necessária presença apenas é considerada desde
que eles se fiquem por uma atitude não participativa? Finalmente, que podem
acrescentar as novas tecnologias da informação à possibilidade de participação
no processo de comunicação social?
Podem acrescentar muito mas também pode ficar tudo na mesma para uma
imensa maioria que, nos tempos mais próximos, pode não ter poder económico
nem o poder de conhecer lidar com as novas ferramentas.
Regressando aos telejornais, e para completar o círculo, sou de opinião que o
espectador espera que o jornalista elabore um trabalho de interpretação. Espera
ainda que o jornalista ponha de parte juízos pré-concebidos porque, enquanto
receptor, o espectador não está interessado que aquele profissional represente o
papel de juiz. Que não recorra à dogmatização como um fim que, por si só,
garanta a responsabilidade da mensagem. Tudo isto para não cair na mensagem
única para chegar a consciências idênticas. O posicionamento sofista não cria
opinião, anula-a. Não há diálogo já que o discurso não sofre interrupções.
Debrucemo-nos então sobre a necessidade do espectador de contar com a
descrição e a narração. É ponto assente que o gosto pela descrição da
realidade está presente em todas as intenções da fenomenologia. O método
fenomenológico consiste em descrever o que se nos apresenta na sua
essencialidade e não no que é acidental. Para compreender o ser das coisas
precisamos de uma hermenêutica ou teoria da interpretação que descodifique a
realidade dos factos. Esperamos do jornalista que ele, eticamente, comunique
com eficácia a sua compreensão através de uma retórica informativa que
codifique os seus textos e o seu discurso. Se há alguma coisa que transcende os
factos, é a sua projeção. Parece ser uma boa proposta para que o sujeito-recetor
da informação seja recuperado para a ação e não marginalizado dela.
Isto é, o recetor do processo comunicativo, o telespectador, deve ser
considerado sujeito da informação a partir do momento em que participa no fazer
do informativo-comunicacional. Trata-se de um compromisso responsável.
Não nos esqueçamos que o receptor enquanto lê, ouve ou vê, influi no processo
geral.
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No entanto, há contextos que anulam a conceção que vai do ser ao
compreender (o fazer fenomenológico e o fazer hermenêutico) e do
compreender ao comunicar (retórica). São contextos que impedem o salto
essencial do fazer informativo ao fazer comunicativo. É aqui que cabem os
imperativos qualitativos, os vazios intelectuais, as causas extra-éticas.
Os imperativos qualitativos referem-se àquele conjunto de acções que os
media julgam que os recetores acham interessantes. Uns, emissores do discurso,
determinam aquilo que o recetor deve achar que seja interessante. Estes
“imperativos” vão deixar de fora todos os recetores que dispõem de um estatuto
não conforme com o do emissor do discurso.
Estamos perante vazios intelectuais quando nos confrontamos com
adjectivações gratuitas por parte do emissor e que exibem uma manifesta
ausência da noção do rigor e do essencial. Normalmente aparecem ligados a
propósitos de manipulação, com apreciações parcelares e parceladoras da
realidade.
Causas extra-éticas são identificadas com uma completa ausência de serviço à
comunidade. Quando perguntamos a quem interessa determinado tema ou,
sequer, se guarda em si qualquer interesse. As notícias políticas surgem com
frequência como “ao serviço do governo”, de um partido ou de uma facção
partidária ( e, no entanto, “disfarçam” muito bem).
O fazer informativo espera-se que se conclua em acto comunicativo. Comunicar o
facto implica fazer participar o receptor, transformando-o em sujeito da
informação. É o processo bidireccional da informação. O desejável é que o
próprio discurso informativo seja o ponto de reunião e de influência de emissor e
recetor. Sobre esta mensagem interatuam dois atores, ambos sujeitos da
informação, e não um sujeito da informação, o emissor, em relação com um
objeto da informação, o receptor.
Várias são as perspetivas, as explicações e vários os sentidos do acontecer.
Esta mensagem-discurso-facto é assim tratada numa perspetiva de que informar
é interpretar. O acontecer surge num plano subjetivo, já que o emissor nos
aparece comprometido e responsável, mas também com o propósito de ser
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verdadeiro. É este propósito de buscar a verdade dos factos que promove o
recetor como sujeito do processo de informação, já que o motiva para o que lhe é
posto em comum, selando um compromisso responsável da informação na
comunicação, ato essencialmente participativo.
Quanto à tão apregoada objetividade na informação, ela nunca o é. E quando o
pretende ser apresenta-se num discurso fechado, monossémico, como se a
verdade fosse detida exclusivamente pelo emissor e uma única (a sua) a
interpretação. É a negação do processo comunicativo porque se coloca o recetor
na posição de não poder ter juízos próprios nem raciocínios autónomos, enquanto
o emissor assume a verdade absoluta que incute paternalisticamente no “pobre
ignorante” recetor. Por outro lado, a objetividade surge qual ente mitológico,
insinuando-se como dogma-padrão de julgamento (e não informação).
Finalmente, porque reduz a informação a um processo unidirecional uma vez que
o que move o emissor é uma mensagem para o recetor (objeto da informação). É
nestes pressupostos que têm êxito as frivolidades, a intoxicação, a
desinformação, a omissão intencional, a manipulação da informação. A resposta
só não existe porque, simplesmente, não se deseja.
Pelo que ficou dito, deduz-se então que cumpre ao meio uma conformação ética
que dê sentido à informação. Informação que não se limita a dizer mas a um dizer
com; que não se entrincheira na exposição mas se projeta na proposta; que não
se fica no falar mas sim num comunicar.
A informação que transmite o acontecer é uma transmissão retórica. A
consonância entre emissor e recetor pressupõe uma conivência, sem lugar a
dissonâncias. Este implícito possibilita o uso estruturante da informação (a
editorialização) sempre que o recetor esteja desestruturado e requeira um
suporte para a sua reorganização.
Concluamos com uma reflexão que tem a ver com a frase “o que não se diz,
embora sendo, não é”. É o pretensiosismo desmesurado dos que julgam poder
manobrar o ser do acontecer que só o pode ser desde que dele se dê
conhecimento às audiências, caso contrário, não é. A história do Portugal recente
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está repleta desses equívocos, mas ainda há (e haverá sempre) quem insista e,
pelo menos temporariamente, tire disso proveito.

ACULTURAÇÃO DA TELEVISÃO

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    1 A ACULTURAÇÃO DATELEVISÃO Participação no Colóquio da Biblioteca de Ovar “Jornalismo Televisivo” em 97.10.30 Comunicação de Rui de Melo Professor da Universidade Fernando Pessoa Os programas de televisão têm vindo a ser agrupados em três grandes categorias que correspondem às três grandes funções sociais do meio: os programas informativos, os educativo-culturais e os de entretenimento. Tomemos como princípio que tudo isto, em última análise, é informação que circula como conformadora de cultura e onde, por isso, o sistema educativo já tarda em incluir, desde o princípio da vida escolar e de uma forma metódica, o ensino para os media. Informação, para mim, é um conceito tão lato como a vida e não tão restrito como transmitir notícias na hora dos telejornais. E é por aqui que vai esta conversa convosco de quem dedicou aos media 36 anos da sua vida, acha que sabe muito pouco, e por isso decidiu continuar a aprender ensinando a alunos universitários. Os telejornais nascem, nos E. U. como uma síntese da informação radiofónica e dos jornais cinematográficos. Costuma citar-se como exemplo europeu o que aconteceu com o primeiro telejornal francês que, em 1949, foi editado por Pierre Sabag, um jornalista que tinha trabalhado em ambos os meios. Mas não é preciso sair do país para se constatar que a figura paradigmática de Fernando Pessa, também cuidou dos dois meios, rádio e cinema, para depois se dedicar à televisão. Mas tanto a rádio como o cinema foram fonte de recrutamento indispensável nos idos anos 50 do início da nossa televisão. O que vai separar os telejornais dos jornais falados da nossa rádio é a imagem. E porque isto acontece em directo recebe o dom da instantaneidade, impossível ao cinema ou à imprensa convencional. Mas o facto de os telejornais serem em
  • 2.
    2 directo não querdizer que a percepção não continue distante do acontecimento e que não seja passível de manipulação. Estudiosos americanos, para além daquela evidência, concluíram que todo o programa informativo é simultaneamente persuasivo (Baggaley e Duck). Não é preciso citar Moles para reconhecermos que a informação televisiva se transformou na mais eficaz e habitual “referência do homem socializado”. Mas é preciso ter consciência que estamos sempre perante um texto-produto “contaminado” por processos selectivos (a pré-agenda, a agenda, a tematização e os silêncios ou omissões), processos de descontextualização e recontextualização, de tratamento quantitativo e quantitativo (comentários, interpretações, códigos e rotinas linguísticas) e conotações semiotico-narrativas, retóricas, ideológicas e estéticas. Um antigo director dos Serviços Informativos da CBS, Friendly, deixou claro que “se os cidadãos do ano 2000 não tivessem outra opção informativa para além dos noticiários da televisão para identificar o tempo actual, ficariam apenas com uma ideia muito aproximada”. Ao que acrescentou, sabiamente, a senhora Friendly, “com a particularidade de que o que ignoramos pode-nos matar”. Eis-nos chegados ao ponto em que o telejornal tem um poder testemunhal e uma referência socializadora, mas também pode apresentar uma pseudo evidência manipulada. Foi esta dupla particularidade que deu e há-de continuar a dar pretexto para grandes debates nas sociedades democráticas a favor de um controle da televisão pública, sempre com a preocupação de preservar a imparcialidade da informação televisiva. Em televisão, tudo é informação, inclusivamente os programas de entretenimento (e, naturalmente, a publicidade). Por outro lado, é também espectáculo e cultura da actualidade. Foi Wood quem classificou os noticiários de televisão em programas “ao vivo” ou “em directo”, diários de notícias ou telejornais, programas de fundo, editoriais e outros géneros (comentários, debates, programas de persuasão, etc.). A informação televisiva vai permanecendo à margem de qualquer eventualidade ou das inovações tecnológicas. O “telejornal” é, reconhecidamente, um dos rituais da televisão a que já se referia Goethals, em 1981, na sua obra “The TV Ritual”.
  • 3.
    3 Parece que nadaacontece no mundo enquanto não ligamos o televisor, transformando esses acontecimentos em notícias. O telejornal é “a celebração do rito”, propondo-se tornar presente tudo o que representa. Os “oficiantes” são os apresentadores. É neste “directo” televisivo que o telejornal afirma o tempo presente no discurso, na enunciação e no rito. Por outro lado, as conotações do mito estão lá, uma vez que os apresentadores, por o serem, passam a integrar o “star system”, são estrelas, são vedetas. Alguém disse que “as imagens que nos chegam de diferentes partes do mundo e que vemos num telejornal assemelham-se a “produtos congelados” de um supermercado onde se abastecem todas as televisões”. E, chegados aqui, ao reflexo da mais que evidente globalização, é a altura para, sem mais delongas, atacar o cerne da questão. Pode dizer-se que a televisão, como meio poderoso de informação, cultura e entretenimento, deu origem a, pelo menos, três atitudes diferentes dos educadores. a) Para uns foi um recurso auxiliar que não bulia com o protagonismo do educador na aula. A televisão desempenharia a função de auxiliar didáctico que se integra no contexto escolar tradicional. Não havia lugar à feliz expressão de McLuhan quando se referia às possibilidades de “aulas sem muros” que a televisão apresentava. b) Outros educadores, mais críticos e perspicazes, entenderam que a televisão, enquanto meio, devia integrar-se num contexto novo, mais aberto, receptivo e moderno, rompendo com o contexto escolar tradicional. Os congressos mundiais sobre radiotelevisão e educação, promovidos pela UER, foram neste sentido. c) Na opinião de outros, que seguiram as ideias expostas por Georges Friedmann numa série de artigos publicados no Le Monde, a função educativa da televisão tem de ser vista, não a partir do sistema educativo, mas a partir do repto alternativo que a televisão constitui em relação àquele sistema. A televisão, no dizer de Friedmann, é uma escola paralela. Não no sentido de ser mais uma via, alternativa, mas no sentido de que constitui um verdadeiro desafio cultural
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    4 que está aatingir a própria raiz das crenças, das normas, dos valores e pautas de conduta da escola tradicional. A televisão tem-nos vindo a proporcionar a possibilidade teórica de uma “cultura planetária”, a tal “aldeia global” que McLuhan profetizou. A cultura clássica e humanista tem vindo a classificar a televisão como portadora de uma “cultura mosaico” (a tal justaposição de unidades heteróclitas de que nos falava Moles na sua “Sociodynamique de la culture”). E ao trabalho, à qualidade e ao esforço da aquisição de conhecimentos tradicional, a televisão opõe a facilidade, o acaso e a lei do menor esforço, patentes nos seus programas em geral e, sobretudo, nos spots publicitários. Ainda que nos faltem estudos de pormenor, não será difícil concluir que a generalidade dos jovens portugueses, sobretudo as crianças, dedica muito mais tempo a ver televisão do que a estudar. E o ver televisão faz com que a criança entre precocemente em contacto com o mundo dos adultos sem possuir a capacidade crítica necessária. Na América, de há muito que as contas estão feitas: um jovem de 18 anos quando deixa os estudos, passou 12 mil horas na escola e 15 mil a ver televisão. As nossas crianças em idade pré escolar passam dezenas de horas por semana diante do televisor. Os estudiosos têm vindo a provar que a televisão fomenta a passividade e gera uma espécie de síndrome de dependência. Para ajudar a inverter o curso dos acontecimentos, a famosa “Rua Sésamo” veio associar a linguagem do espectáculo televisivo ao discurso educativo com o sucesso que se lhe reconhece. Mas teve de ser uma iniciativa da Televisão Pública Norte Americana que encontrou na respectiva autora, Joan Ganz Cooney, a pedagoga consciente do processo televisivo e, em lugar de ver nele um inimigo, juntou-se a ele para vencer. Sublinhe-se que o fenómeno teve o seu início em 1969 e, ainda nesta década, curiosamente, houve, no nosso país quem pusesse em causa um sucesso que era evidente junto das crianças e tentasse o seu afastamento da nossa televisão pública. Nesta altura, dá os seus primeiros passos um projecto português que responde pelo nome de “Jardim da Celeste”. Ainda é cedo para formular juízos de valor.
  • 5.
    5 O que estese outros projectos lançam ao desafio é uma proposta de associação do sistema educativo à realidade cultural mediática dos nossos dias. Já vão sendo numerosas as vozes que defendem a integração na escola de uma educação para os meios que teria por objectivo proporcionar ao cidadão as defesas críticas que aquela realidade exige. E isso deveria começar bem cedo, eu diria o mais cedo possível, no curriculum escolar. Aquilo que se sabe é que uma minoria dispõe, no final do percurso do ensino secundário, de uma disciplina em que seria desejável que a realidade mediática fosse analisada em profundidade. Mas sem tecer juízos de valor, estou à vontade para dizer que tal ensino vem tarde de mais, abrangendo uma minoria da população escolar. Isto é, o cidadão ainda não tem na escola um elemento pedagógico que lhe forneça a utensilagem crítica indispensável para enfrentar, descodificando valorativamente, criticamente, a sedução mediática, particularmente, a televisiva. E desta necessidade de incluir a educação para os media no nosso sistema de ensino, de preferência logo no pré escolar, parece-me determinante passar a considerar o utilizador dos media como um sujeito da informação e não como um objeto. Uma coisa é certa, os meios de comunicação social precisam de consumidores para poderem existir. Eis uma constatação óbvia. É legítimo considerar o recetor como o elemento genuíno no processo de comunicação social. Esta reflexão sobre o recetor e a sua existência tida como necessária no circuito da comunicação social permite-nos partir para a sua consideração como expoente básico, que nos permita determinar o grau real de participação no processo de comunicação social. Mas os interesses económicos determinaram como definitivamente importante o “SHARE” das audiências, em que o receptor é um número e até lhe encontram um denominador comum de gostos e preferências. Como se deve entender então, para além do número, a “necessidade” da existência de facto do recetor no processo de comunicação social? Significa isto que todos os integrantes do processo de comunicação, sobretudo o emissor, estão conscientes da exigência da participação real do receptor neste processo? Ou, pelo contrário, significa que a necessidade dos receptores é vista
  • 6.
    6 instrumentalmente e asua necessária presença apenas é considerada desde que eles se fiquem por uma atitude não participativa? Finalmente, que podem acrescentar as novas tecnologias da informação à possibilidade de participação no processo de comunicação social? Podem acrescentar muito mas também pode ficar tudo na mesma para uma imensa maioria que, nos tempos mais próximos, pode não ter poder económico nem o poder de conhecer lidar com as novas ferramentas. Regressando aos telejornais, e para completar o círculo, sou de opinião que o espectador espera que o jornalista elabore um trabalho de interpretação. Espera ainda que o jornalista ponha de parte juízos pré-concebidos porque, enquanto receptor, o espectador não está interessado que aquele profissional represente o papel de juiz. Que não recorra à dogmatização como um fim que, por si só, garanta a responsabilidade da mensagem. Tudo isto para não cair na mensagem única para chegar a consciências idênticas. O posicionamento sofista não cria opinião, anula-a. Não há diálogo já que o discurso não sofre interrupções. Debrucemo-nos então sobre a necessidade do espectador de contar com a descrição e a narração. É ponto assente que o gosto pela descrição da realidade está presente em todas as intenções da fenomenologia. O método fenomenológico consiste em descrever o que se nos apresenta na sua essencialidade e não no que é acidental. Para compreender o ser das coisas precisamos de uma hermenêutica ou teoria da interpretação que descodifique a realidade dos factos. Esperamos do jornalista que ele, eticamente, comunique com eficácia a sua compreensão através de uma retórica informativa que codifique os seus textos e o seu discurso. Se há alguma coisa que transcende os factos, é a sua projeção. Parece ser uma boa proposta para que o sujeito-recetor da informação seja recuperado para a ação e não marginalizado dela. Isto é, o recetor do processo comunicativo, o telespectador, deve ser considerado sujeito da informação a partir do momento em que participa no fazer do informativo-comunicacional. Trata-se de um compromisso responsável. Não nos esqueçamos que o receptor enquanto lê, ouve ou vê, influi no processo geral.
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    7 No entanto, hácontextos que anulam a conceção que vai do ser ao compreender (o fazer fenomenológico e o fazer hermenêutico) e do compreender ao comunicar (retórica). São contextos que impedem o salto essencial do fazer informativo ao fazer comunicativo. É aqui que cabem os imperativos qualitativos, os vazios intelectuais, as causas extra-éticas. Os imperativos qualitativos referem-se àquele conjunto de acções que os media julgam que os recetores acham interessantes. Uns, emissores do discurso, determinam aquilo que o recetor deve achar que seja interessante. Estes “imperativos” vão deixar de fora todos os recetores que dispõem de um estatuto não conforme com o do emissor do discurso. Estamos perante vazios intelectuais quando nos confrontamos com adjectivações gratuitas por parte do emissor e que exibem uma manifesta ausência da noção do rigor e do essencial. Normalmente aparecem ligados a propósitos de manipulação, com apreciações parcelares e parceladoras da realidade. Causas extra-éticas são identificadas com uma completa ausência de serviço à comunidade. Quando perguntamos a quem interessa determinado tema ou, sequer, se guarda em si qualquer interesse. As notícias políticas surgem com frequência como “ao serviço do governo”, de um partido ou de uma facção partidária ( e, no entanto, “disfarçam” muito bem). O fazer informativo espera-se que se conclua em acto comunicativo. Comunicar o facto implica fazer participar o receptor, transformando-o em sujeito da informação. É o processo bidireccional da informação. O desejável é que o próprio discurso informativo seja o ponto de reunião e de influência de emissor e recetor. Sobre esta mensagem interatuam dois atores, ambos sujeitos da informação, e não um sujeito da informação, o emissor, em relação com um objeto da informação, o receptor. Várias são as perspetivas, as explicações e vários os sentidos do acontecer. Esta mensagem-discurso-facto é assim tratada numa perspetiva de que informar é interpretar. O acontecer surge num plano subjetivo, já que o emissor nos aparece comprometido e responsável, mas também com o propósito de ser
  • 8.
    8 verdadeiro. É estepropósito de buscar a verdade dos factos que promove o recetor como sujeito do processo de informação, já que o motiva para o que lhe é posto em comum, selando um compromisso responsável da informação na comunicação, ato essencialmente participativo. Quanto à tão apregoada objetividade na informação, ela nunca o é. E quando o pretende ser apresenta-se num discurso fechado, monossémico, como se a verdade fosse detida exclusivamente pelo emissor e uma única (a sua) a interpretação. É a negação do processo comunicativo porque se coloca o recetor na posição de não poder ter juízos próprios nem raciocínios autónomos, enquanto o emissor assume a verdade absoluta que incute paternalisticamente no “pobre ignorante” recetor. Por outro lado, a objetividade surge qual ente mitológico, insinuando-se como dogma-padrão de julgamento (e não informação). Finalmente, porque reduz a informação a um processo unidirecional uma vez que o que move o emissor é uma mensagem para o recetor (objeto da informação). É nestes pressupostos que têm êxito as frivolidades, a intoxicação, a desinformação, a omissão intencional, a manipulação da informação. A resposta só não existe porque, simplesmente, não se deseja. Pelo que ficou dito, deduz-se então que cumpre ao meio uma conformação ética que dê sentido à informação. Informação que não se limita a dizer mas a um dizer com; que não se entrincheira na exposição mas se projeta na proposta; que não se fica no falar mas sim num comunicar. A informação que transmite o acontecer é uma transmissão retórica. A consonância entre emissor e recetor pressupõe uma conivência, sem lugar a dissonâncias. Este implícito possibilita o uso estruturante da informação (a editorialização) sempre que o recetor esteja desestruturado e requeira um suporte para a sua reorganização. Concluamos com uma reflexão que tem a ver com a frase “o que não se diz, embora sendo, não é”. É o pretensiosismo desmesurado dos que julgam poder manobrar o ser do acontecer que só o pode ser desde que dele se dê conhecimento às audiências, caso contrário, não é. A história do Portugal recente
  • 9.
    9 está repleta dessesequívocos, mas ainda há (e haverá sempre) quem insista e, pelo menos temporariamente, tire disso proveito.