A ÚLTIMA FLOR DO LÁCIO [MAIS] INCULTA E [MENOS]   estudantes que não são brilhantes, mas,
                     BELA                         esforçam-se e conseguem atingir certo nível
                                                  de erudição, cuja tendência é o progresso em
        É uma pena que, no momento, o MEC         direção à plenitude de seu patrimônio
se responsabilize por distribuir livros de        intelectivo. Infelizmente, não podemos
língua portuguesa, ferindo a preciosidade de      “infunicar” a deficiência de anos a fio na
sua natureza gramatical, conforme a               superficialidade do “empurrar com a barriga”,
estudamos com tanto empenho e afinco. É           de modo a favorecer a incompetência e a
uma pena que os cultores de uma civilização,      inabilidade linguística dos profissionais do
que se transmite pela perfeição da linguagem,     porvir, considerando que a maturidade será
pensem-na como uma forma de discriminação         produzida no chão sáfaro da burrice da
e vilipêndio, quando, ao ser pronunciada de       acomodação à conveniência da lei do caminho
modo contrário às suas regras, não seja digna     mais fácil, que, em síntese, é a lei da preguiça.
de correção. A prosódia sofre o malogro dos       Ninguém aprende nada sem muito estudo e
dementes. Claro que há uma diferença entre        fadiga. Assim, a graça de estado do estudante
quem foi à escola e teve a oportunidade de        deve      proporcionar       a      busca     do
estudar e se aprofundar na arte da pronúncia      aperfeiçoamento de suas qualidades, diante do
correta e a de quem nunca teve chance de          que lhe é exigido nos meandros de sua
descobrir a lógica dos enredos dramáticos da      formação.
costura solene da disposição das palavras no              É difícil de entender ou aceitar, mas a
conteúdo de um texto, mesmo se coloquial.         sociedade brasileira, contaminada pelas
        Conversando com pessoas simples e         circunstâncias mundiais de prevaricação e
humildes – o que fazemos todos os dias –          miopia, quanto ao sentido do bem moral e
também detentoras da cultura que lhe foi          metafísico da leveza da verdade das coisas,
proporcionada, dentro dos limites do acesso à     tem institucionalizado a política anárquica do
escolaridade ou não, evidentemente, não           “é proibido proibir”, em todas as dimensões
vamos exigir um português polido e                humanas dos valores sagrados de sua alta
transparente, erudito, ou, até mesmo              dignidade e prerrogativas de “homo sapiens”.
conforme as regras estabelecidas pelos            Longe da insinuação coerente dos atributos
gramáticos para favorecer o alcance               mais inerentes à nossa humanidade, estamos
harmônico do discurso. Mas, daí a patrocinar      criando o “homo conveniens”, contanto que
a burrice estudantil ao nível da baixeza          cada um dê vazão às quebras de sua falta de
minimalista da mediocridade, é outra coisa.       brio, senso de decência e decoro na
Ainda bem que há setores universitários que       legitimação da autobestificação. E muitos vão
não se deixarão levar pela fossilização           por esse caminho, porque mais cômodo,
imposta do conceito digno do bom português,       menos sofrido e mais politicamente correto.
pelo menos, a fim de que seu corpo discente       No entanto, esquecemo-nos de que “cada
não se prejudique no futuro, por confundir a      homem tem o seu preço”, como, tantas vezes,
elegância plástica do “bem falado” com o          lembrou-me um amigo que, também, já pagou
prognóstico da “boa falácia”. Na verdade, se a    o seu preço com as arbitrariedades, nem
situação do português desprendido da boca e       sempre conscientes, de suas escolhas. O
do lápis dos estudantes já não é tão boa assim    problema é que, com frequência, caminhamos
– mesmo em conjunturas universitárias, e,         tanto nos trilhos errados de nossa falsa
portanto, no âmbito do Ensino Superior – o        liberdade que, quando nos damos conta, não
que poderíamos dizer, ou esperar, se a cancela    temos mais tempo de voltar atrás. De fato, o
da “bestificação social”, como afirmou            arrependimento é insuficiente para refazer o
Alexandre Garcia, for escancarada à               percurso torto de nossas decisões insistentes e
“preguicite” aguda de nossos acadêmicos?          teimosas. Há estragos vitais de nossa
Será que o conhecimento chega à inteligência      existência que não podem ser, jamais,
por “infusão”? Sim, porque há alguns              reparados. A estrada curta da negligência

                                                                                                 1
intelectual alarga-se nos tropeços incautos do    de quem deveria aperfeiçoar, sempre mais, a
comodismo          que       nos     precipita,   “língua que sua boca tem a honra [e o mérito]
paulatinamente, na perdição sinuosa dos           de falar”. Já perdemos tanto com a estúpida
conceitos. O que vale para formação bem           iniciativa de, por longos anos, tirar o latim do
estruturada de uma personalidade forte, que       ensino das escolas, que também querem
não se sedimenta do dia para a noite, vale        sacrificar o português, fomentando a sede de
também para a aquisição dos benefícios do         domínio que o Estado possui em não permitir
saber.                                            que as comportas da inteligência de seus
        Há pessoas que passaram a vida inteira    patriotas sejam abertas o suficiente, a ponto
na esterilidade de sua própria apreciação,        de contradizê-lo no azedume irrefreável de
conformadas com a mesmice burra de sua            sua tirania. Se o latinista e primoroso
presunção, e não deram um passo adiante na        romancista francês, Charles Péguy, disse tão
solidificação de sua personalidade nem da         poeticamente bem: “O professor que, pela
construção adequada de suas pretensões.           primeira vez, abre a gramática na declinação
Viveram como folhas secas levadas pelo            de rosa, rosae, não sabe sobre que canteiro de
vento instantâneo do “tanto faz como tanto        flores abre a alma do jovem”, o que diríamos
fez”. Daqui a pouco, vão considerar que tanto     da pobre e maltratada língua portuguesa? Se o
faz dizer “masculação” quanto “musculação”;       professor não incentiva o aluno na conquista
“olhos      embaçados”,       quanto    “olhos    permanente do encanto pelo “canteiro de
embalsamados;          “colesterol”     quanto    flores” da própria língua mater, que tipo de
“cloresterol”, e assim vai descendo, ladeira      perfume será exalado de seus conhecimentos?
abaixo, a verborréia delinquente da                       O investimento deve ser a longo prazo,
desintegração do saber. Mentalidades assim,       mas, como diz um adágio russo, por mais
estagnadas na infantilidade tímida do             longa que seja a caminhada, sempre se inicia
conhecimento, tanto assustam quanto               pelos primeiros passos. Ninguém vai aprender
preocupam. Então, como poderia uma nação          a gramática num piscar de olhos. Então,
melhorar seu coeficiente de educação              coragem aos estudantes, aos professores e aos
aceitando o errado como se fosse o certo? A       curiosos da linguística, e... Mãos à obra. Com
mentira como se fosse a verdade? O falso          certeza, terá maior êxito quem não se deixar
como se fosse o verdadeiro? As trevas como        levar pela minoria que julga o saber apenas
se fossem a luz? Enfim, a demência como se        uma questão de estilo, do estilo da
fosse a lucidez? A ignorância não se nivela       mediocridade que não leva ninguém a lugar
por baixo nem pela máxima expressão do            nenhum. Somente o saber qualificado,
minimalismo. Como diria Cantù, um escritor        segundo as exigências da pesquisa e do labor
italiano do século XIX, o ignorante não é         intelectual, poderá abrir as portas do
apenas um lastro, mas um perigo na                profissionalismo à superação da parvoíce
embarcação social, ou, para citar Goethe,         insana dos dementes.
nada é mais terrível do que uma ignorância
ativa. Pior ainda, a ignorância ativada e                 Pe. Gilvan Rodrigues, Pós-graduado
homologada pelo Estado, que deveria tutelar e     em Didática e Metodologia do Ensino
salvaguardar a riqueza hereditária mais           Superior pela FSLF, Mestre em Teologia
preciosa de um povo, que é a sua língua.          Bíblica    pela     Pontifícia Universidade
        Pobre poema de Olavo Bilac, que           Gregoriana de Roma, Professor de Sagrada
eleva, com estilo, elegância e garbosidade, a     Escritura, Chanceler do Arcebispado de
riqueza imperiosa da “última flor do Lácio,       Aracaju e Escritor.
inculta e bela”, isto é, a língua portuguesa,
esse derradeiro rebento da árvore neolatina,
com que temos a honra solene de nos
comunicar!. Agora, sim, “os cascalhos da
bruta mina” serão velados pelo desinteresse

                                                                                                2

A última flor do lácio

  • 1.
    A ÚLTIMA FLORDO LÁCIO [MAIS] INCULTA E [MENOS] estudantes que não são brilhantes, mas, BELA esforçam-se e conseguem atingir certo nível de erudição, cuja tendência é o progresso em É uma pena que, no momento, o MEC direção à plenitude de seu patrimônio se responsabilize por distribuir livros de intelectivo. Infelizmente, não podemos língua portuguesa, ferindo a preciosidade de “infunicar” a deficiência de anos a fio na sua natureza gramatical, conforme a superficialidade do “empurrar com a barriga”, estudamos com tanto empenho e afinco. É de modo a favorecer a incompetência e a uma pena que os cultores de uma civilização, inabilidade linguística dos profissionais do que se transmite pela perfeição da linguagem, porvir, considerando que a maturidade será pensem-na como uma forma de discriminação produzida no chão sáfaro da burrice da e vilipêndio, quando, ao ser pronunciada de acomodação à conveniência da lei do caminho modo contrário às suas regras, não seja digna mais fácil, que, em síntese, é a lei da preguiça. de correção. A prosódia sofre o malogro dos Ninguém aprende nada sem muito estudo e dementes. Claro que há uma diferença entre fadiga. Assim, a graça de estado do estudante quem foi à escola e teve a oportunidade de deve proporcionar a busca do estudar e se aprofundar na arte da pronúncia aperfeiçoamento de suas qualidades, diante do correta e a de quem nunca teve chance de que lhe é exigido nos meandros de sua descobrir a lógica dos enredos dramáticos da formação. costura solene da disposição das palavras no É difícil de entender ou aceitar, mas a conteúdo de um texto, mesmo se coloquial. sociedade brasileira, contaminada pelas Conversando com pessoas simples e circunstâncias mundiais de prevaricação e humildes – o que fazemos todos os dias – miopia, quanto ao sentido do bem moral e também detentoras da cultura que lhe foi metafísico da leveza da verdade das coisas, proporcionada, dentro dos limites do acesso à tem institucionalizado a política anárquica do escolaridade ou não, evidentemente, não “é proibido proibir”, em todas as dimensões vamos exigir um português polido e humanas dos valores sagrados de sua alta transparente, erudito, ou, até mesmo dignidade e prerrogativas de “homo sapiens”. conforme as regras estabelecidas pelos Longe da insinuação coerente dos atributos gramáticos para favorecer o alcance mais inerentes à nossa humanidade, estamos harmônico do discurso. Mas, daí a patrocinar criando o “homo conveniens”, contanto que a burrice estudantil ao nível da baixeza cada um dê vazão às quebras de sua falta de minimalista da mediocridade, é outra coisa. brio, senso de decência e decoro na Ainda bem que há setores universitários que legitimação da autobestificação. E muitos vão não se deixarão levar pela fossilização por esse caminho, porque mais cômodo, imposta do conceito digno do bom português, menos sofrido e mais politicamente correto. pelo menos, a fim de que seu corpo discente No entanto, esquecemo-nos de que “cada não se prejudique no futuro, por confundir a homem tem o seu preço”, como, tantas vezes, elegância plástica do “bem falado” com o lembrou-me um amigo que, também, já pagou prognóstico da “boa falácia”. Na verdade, se a o seu preço com as arbitrariedades, nem situação do português desprendido da boca e sempre conscientes, de suas escolhas. O do lápis dos estudantes já não é tão boa assim problema é que, com frequência, caminhamos – mesmo em conjunturas universitárias, e, tanto nos trilhos errados de nossa falsa portanto, no âmbito do Ensino Superior – o liberdade que, quando nos damos conta, não que poderíamos dizer, ou esperar, se a cancela temos mais tempo de voltar atrás. De fato, o da “bestificação social”, como afirmou arrependimento é insuficiente para refazer o Alexandre Garcia, for escancarada à percurso torto de nossas decisões insistentes e “preguicite” aguda de nossos acadêmicos? teimosas. Há estragos vitais de nossa Será que o conhecimento chega à inteligência existência que não podem ser, jamais, por “infusão”? Sim, porque há alguns reparados. A estrada curta da negligência 1
  • 2.
    intelectual alarga-se nostropeços incautos do de quem deveria aperfeiçoar, sempre mais, a comodismo que nos precipita, “língua que sua boca tem a honra [e o mérito] paulatinamente, na perdição sinuosa dos de falar”. Já perdemos tanto com a estúpida conceitos. O que vale para formação bem iniciativa de, por longos anos, tirar o latim do estruturada de uma personalidade forte, que ensino das escolas, que também querem não se sedimenta do dia para a noite, vale sacrificar o português, fomentando a sede de também para a aquisição dos benefícios do domínio que o Estado possui em não permitir saber. que as comportas da inteligência de seus Há pessoas que passaram a vida inteira patriotas sejam abertas o suficiente, a ponto na esterilidade de sua própria apreciação, de contradizê-lo no azedume irrefreável de conformadas com a mesmice burra de sua sua tirania. Se o latinista e primoroso presunção, e não deram um passo adiante na romancista francês, Charles Péguy, disse tão solidificação de sua personalidade nem da poeticamente bem: “O professor que, pela construção adequada de suas pretensões. primeira vez, abre a gramática na declinação Viveram como folhas secas levadas pelo de rosa, rosae, não sabe sobre que canteiro de vento instantâneo do “tanto faz como tanto flores abre a alma do jovem”, o que diríamos fez”. Daqui a pouco, vão considerar que tanto da pobre e maltratada língua portuguesa? Se o faz dizer “masculação” quanto “musculação”; professor não incentiva o aluno na conquista “olhos embaçados”, quanto “olhos permanente do encanto pelo “canteiro de embalsamados; “colesterol” quanto flores” da própria língua mater, que tipo de “cloresterol”, e assim vai descendo, ladeira perfume será exalado de seus conhecimentos? abaixo, a verborréia delinquente da O investimento deve ser a longo prazo, desintegração do saber. Mentalidades assim, mas, como diz um adágio russo, por mais estagnadas na infantilidade tímida do longa que seja a caminhada, sempre se inicia conhecimento, tanto assustam quanto pelos primeiros passos. Ninguém vai aprender preocupam. Então, como poderia uma nação a gramática num piscar de olhos. Então, melhorar seu coeficiente de educação coragem aos estudantes, aos professores e aos aceitando o errado como se fosse o certo? A curiosos da linguística, e... Mãos à obra. Com mentira como se fosse a verdade? O falso certeza, terá maior êxito quem não se deixar como se fosse o verdadeiro? As trevas como levar pela minoria que julga o saber apenas se fossem a luz? Enfim, a demência como se uma questão de estilo, do estilo da fosse a lucidez? A ignorância não se nivela mediocridade que não leva ninguém a lugar por baixo nem pela máxima expressão do nenhum. Somente o saber qualificado, minimalismo. Como diria Cantù, um escritor segundo as exigências da pesquisa e do labor italiano do século XIX, o ignorante não é intelectual, poderá abrir as portas do apenas um lastro, mas um perigo na profissionalismo à superação da parvoíce embarcação social, ou, para citar Goethe, insana dos dementes. nada é mais terrível do que uma ignorância ativa. Pior ainda, a ignorância ativada e Pe. Gilvan Rodrigues, Pós-graduado homologada pelo Estado, que deveria tutelar e em Didática e Metodologia do Ensino salvaguardar a riqueza hereditária mais Superior pela FSLF, Mestre em Teologia preciosa de um povo, que é a sua língua. Bíblica pela Pontifícia Universidade Pobre poema de Olavo Bilac, que Gregoriana de Roma, Professor de Sagrada eleva, com estilo, elegância e garbosidade, a Escritura, Chanceler do Arcebispado de riqueza imperiosa da “última flor do Lácio, Aracaju e Escritor. inculta e bela”, isto é, a língua portuguesa, esse derradeiro rebento da árvore neolatina, com que temos a honra solene de nos comunicar!. Agora, sim, “os cascalhos da bruta mina” serão velados pelo desinteresse 2