Josué de castro 4

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Josué de castro 4

  1. 1. RESENHAS REVIEWS 213FOME: UMA (RE)LEITURA DE JOSUÉ DE CAS- cassados. Exilou-se em Paris, onde morreu em 1973,TRO. Rosana Magalhães. Rio de Janeiro: Editora aos 65 anos de idade.Fiocruz, 1997. 92 pp. Em sua trajetória de vida, dos mangues escuros do Capibaribe às margens luminosas do Sena, JosuéEm 1929, após concluir o curso de Medicina da Uni- de Castro nos ensina que não existem fronteiras paraversidade do Brasil (atual Universidade Federal do a circulação dos homens e de suas idéias, que o mun-Rio de Janeiro), o jovem pernambucano Josué de Cas- do é apenas uma ‘aldeia global’. A sua vastíssima pro-tro retornou à cidade do Recife para dar início a uma dução intelectual, construída ao longo de 1930-1973,consagrada trajetória político-intelectual, dedicada, de abrangência internacional, é composta por mais departicularmente, à complexa e paradoxal problemáti- duzentos títulos, entre estes, destacamos a edição dosca da gênese e reprodução da fome e suas formas de livros: O Problema da Alimentação no Brasil (1934);enfrentamento. Alimentação e Raça (1936); Documentário do Nordes- Entre 1930 a 1935, dividiu-se entre o exercício da te (1937); Alimentação Brasileira à Luz da GeografiaMedicina (Endocrinologia e doenças da nutrição), a Humana (1937); Fisiologia dos Tabus (1938); Geogra-docência de Fisiologia na Faculdade de Medicina de fia Humana (1939); Geografia da Fome (1946); Geopo-Recife e a publicação dos seus primeiros escritos. As- lítica da Fome (1951); Ensaios de Biologia Social (1957);sim, em 1932, sob a influência do médico-nutrólogo O Livro Negro da Fome (1957); Sete Palmos de Terra eargentino Pedro Escudero, considerado o pai-funda- um Caixão (1965) e Homens e Caranguejos (1967).dor do campo da Nutrição na América Latina, reali- Como interpretar a fome no pensamento de Jo-zou a pesquisa: As condições de vida das classes ope- sué de Castro? Como proceder à periodização e re-rárias no Recife, uma investigação baseada na meto- corte da sua obra? Foram estas as principais questõesdologia de orçamento e padrão de consumo alimen- explícitas do dilema metodológico que a nutricionis-tar entre quinhentas famílias de bairros operários ta Rosana Magalhães enfrentou no delineamento dadesta cidade. Os resultados deste estudo, considera- investigação que lhe valeu o título de mestre em Saú-do o primeiro inquérito dietético-nutricional do País, de Pública pela Ensp/Fiocruz. Seguindo as trilhastiveram ampla divulgação nacional, provocando a deixadas por interpretações anteriores, a autora derealização de estudos similares, inclusive daquele Fome: Uma Re(leitura) de Josué de Castro avança porque serviu de base para a regulamentação da lei do um novo caminho de análise, focalizando seu olharsalário mínimo e da formulação da chamada “ração contemporâneo sobre os textos que marcaram o pro-essencial mínima”, estabelecida por intermédio do cesso de construção-reconstrução do conceito de fo-Decreto-Lei 399, de 30 de abril de 1938. me na obra deste autor. Para garantir inteligibilidade Em 1935, transferiu-se para o Rio de Janeiro, on- a sua reflexão, o que também lhe confere originalida-de sua atuação localizou-se ora nos espaços acadê- de, ela estabelece dois recortes na análise da trajetó-mico-científicos, ora nos da tecnoburocracia estatal ria intelectual do autor, o primeiro correspondentee/ou no âmbito de distintas organizações e entidades aos anos 30/40 e o segundo ao final dos anos 40 atécivis, destacando-se: a idealização do Serviço de Ali- início dos anos 70, tendo como divisor de águas (me-mentação da Previdência Social (Saps) em 1940; a lhor dizendo, de idéias) o clássico Geografia da Fome,criação e direção do Serviço Técnico de Alimentação publicado em 1946. Ao longo deste percurso, a autora(Stan) no período de 1942 a 1944; a criação da Comis- quebra a obra de Josué de Castro em pedaços e a re-são Nacional de Alimentação (CNA), em 1945; a cria- constrói a sua maneira, reforçando a idéia das “váriasção e direção do Instituto de Nutrição da Universida- alternativas possíveis” ou de que há mais de uma for-de do Brasil no período de 1946 a 1954; a criação e di- ma de se interpretar uma obra.reção do periódico científico Arquivos Brasileiros de Na análise dos primeiros escritos de Josué deNutrição no período de 1944 a 1954; a fundação da Castro (anos 30/40), a autora destaca a formulaçãoSociedade Brasileira de Nutrição (SBN) em 1942; a da tese do “mal de fome e não de raça” – forma de in-presidência do conselho da Organização para a Ali- terlocução do autor com os cientistas de outros cam-mentação e Agricultura das Nações Unidas (Fao) en- pos disciplinares que, à época, procuravam desfocartre 1952 a 1955; a fundação, em 1957, da Associação da questão genética para a questão cultural o precon-Internacional de Luta contra a Fome (Ascofam); a ceito de ‘meio’ e de ‘raça’ que se tinha sobre o povopresidência do I Congresso Camponês de Pernambu- brasileiro. Assim, para o autor, por meio do valor eu-co, realizado em setembro de 1955, no Recife, onde gênico da alimentação racional seria possível cons-foi criada a estrutura orgânica e eleita a primeira di- truir o homem brasileiro e forjar a nação, tese estaretoria do movimento das Ligas Camponesas; o cargo que, a meu ver, tornou-se a principal base para a legi-de deputado federal pelo Partido Trabalhista Brasilei- timidade do processo de constituição do campo daro (PTB) pelo Estado de Pernambuco, no período de Nutrição no Brasil, seja enquanto disciplina, como1955 a 1963, e o cargo de embaixador brasileiro junto política social e/ou enquanto profissão.às Nações Unidas, no período de 1963 a março de Na análise dos escritos da segunda fase (anos1964. Em abril de 1964 teve seus direitos políticos 50/60), a autora identifica no diálogo entre Josué de Cad. Saúde Públ., Rio de Janeiro, 14(1):213-217, jan-mar, 1998
  2. 2. 214 RESENHAS REVIEWS Castro e os teóricos do subdesenvolvimento-desen- A MIRAGEM DA PÓS-MODERNIDADE: DEMO- volvimento a tese da “fome como expressão do subde- CRACIA E POLÍTICA SOCIAIS NO CONTEXTO senvolvimento” ou da “fome como obstáculo ao desen- DA GLOBALIZAÇÃO. Organizadores: Sílvia Gers- volvimento nacional”. Ao longo de sua re(leitura), a chman & Maria Lúcia Werneck Vianna. Rio de Ja- autora vai mapeando as influências teóricas que fo- neiro: Editora Fiocruz, 1997. 226 pp. ram marcando os escritos de Josué de Castro em sua trajetória político-intelectual, particularmente o po- A Escola Nacional de Saúde Pública, da Fundação Os- sitivismo de Comte, a teoria do círculo vicioso da po- waldo Cruz, realizou no mês de julho de 1995 o semi- breza, a nutrologia de Pedro Escudero, a Geografia nário Globalização, Democracia e Reforma do Esta- Lablachiana, as teorias do subdesenvolvimento, a do: Dilemas e Perspectivas das Políticas Públicas de ideologia do nacional-desenvolvimentismo e alguns Saúde, objetivando aprofundar discussões e análises conceitos do marxismo e do chamado catolicismo do processo de globalização e produzir reflexões social. Diante deste quadro de pluralidade de orien- quanto às conseqüências das transformações nas po- tações teóricas, a autora também alerta para a dialé- líticas públicas sociais, tanto no âmbito internacio- tica de continuidades e de rupturas que foi delinean- nal, como no nacional. Esse evento teve a participa- do o pensamento do autor em sua trajetória de vida. ção ativa de professores e pesquisadores de diferen- Por outro lado, observamos que o livro quase que tes universidades e instituições de pesquisa. O pro- atropela certas questões contraditórias inerentes à vi- duto desse seminário se transformou no livro A Mi- da do autor enquanto homem público; à distância ragem da Pós-Modernidade, objeto dessa resenha, entre a obra intelectual e a sua prática político-pro- coordenado e organizado por Sílvia Gerschman & fissional e, portanto, ao processo de construção/des- Maria Lúcia Werneck Vianna. O livro compõe-se de construção do mito Josué de Castro. Por exemplo, po- apresentação, introdução e um conjunto de 12 textos demos apontar a questão da organicidade intelectual apresentados, discutidos e analisados no decorrer do do autor com a ditadura do Estado Novo e com o po- evento. Enquanto a apresentação expõe o objetivo da pulismo do segundo Governo Vargas (dois momentos publicação, a introdução é um texto amplo que con- de ‘auge’ de sua trajetória). Outro exemplo é a ques- textualiza e tematiza as profundas mudanças em cur- tão do “deslocamento para a esquerda” ou da “tonali- so no planeta terra, resgatando e buscando reconcei- dade vermelha” que a prática política do autor assu- tuações de democracia, em face do processo de glo- me ao final dos anos 50 (sua aproximação com o mo- balização, costuradas em reflexões sobre incertezas, vimento camponês e com as propostas nacional-re- contingências e consenso. O conteúdo é ainda enri- formistas), o que gerou a cassação dos seus direitos quecido pelas discussões engendradas na “natureza políticos e exílio do País. Estas são algumas das ques- desse novo sistema internacional ...”, resgatando aná- tões ‘obscuras’ da trajetória do autor que o texto de lises sobre a situação da Europa Oriental, assim co- Rosana Magalhães apenas tangencia e que, a meu mo a dimensão política da atuação das organizações ver, possibilitam outras abordagens da obra. não governamentais. É ainda sinalizado, como rele- Nesta re(leitura) bastante sucinta e não menos vante, o papel “da revolução tecnológica dos meios de profunda que a autora faz da obra de Josué de Castro, comunicação e, principalmente a informática”, consi- identificamos, ainda, o seu esforço em procurar fugir derando os cenários da centralização e massificação do tratamento frio que quase sempre a academia re- das redes interativas (infovias) e televisivas. serva aos temas polêmicos como fome, miséria e sub- Os 12 artigos que seguem depois da introdução desenvolvimento. Apesar da linguagem clara e direta, estão agregados em três partes: o texto acaba tropeçando em outras das armadilhas acadêmicas. Neste sentido, apontamos a falta de uma revisão mais apurada em algumas passagens, parti- Parte I – Globalização, democracia e questão cularmente, em relação às referências bibliográficas. social Enfim, nesta (re)leitura apaixonada (e apaixo- nante), criador e criaturas se (re)encontram neste fi- Compõem a primeira parte quatro artigos cujos con- nal do século, quando foi constituído o campo da teúdos procuramos sintetizar abaixo. Nutrição no Brasil, ou, como diz Rosana Magalhães, quando foi instituído o saber sobre fome no País. E 1) Perspectivas da Democracia no Mundo Contem- em vez de geografia da fome, Josué de Castro falaria porâneo: Mais Liberal, Pré-Liberal ou Pós-Liberal? de globalização da fome, este processo de uniformi- Philippe Schmitter (Departamento de Ciências Políti- zação planetária dos hábitos e práticas alimentares, cas/Universidade de Stanford – Califórnia, USA). em que a produção e a circulação da mercadoria ali- mento permanece atrelada às necessidades de acu- Neste artigo, Schmitter centraliza o debate na discus- mulação do capital e não às necessidades nutricio- são de diferentes concepções e práticas de democra- nais humanas. cia no mundo. O autor sinaliza que nas próximas dé- cadas “a democracia terá que enfrentar desafios im- Francisco de Assis Guedes de Vasconcelos precedentes ...” e que seu futuro “será incrivelmente Departamento de Nutrição, Centro de Ciências da Saúde tumultuado, incerto e muito acidentado”. Explica tam- Universidade Federal de Santa Catarina Florianópolis, Santa Catarina bém que a maioria desses desafios virá das democra- cias liberais consolidadas (DLCs) e não das democra- cias recentes (NDRs), ressaltando que estas “enfren- tarão uma boa parcela de desencanto ...” diante das realizações não correspondidas. Conclui que todas “as alternativas à democracia liberal são atormenta- das por um sério problema de agência (...) não impor- Cad. Saúde Públ., Rio de Janeiro, 14(1):213-217, jan-mar, 1998
  3. 3. RESENHAS REVIEWS 215tando o quão intelectualmente atraentes sejam ...”. O ção à natureza da realidade social, das forças sociopo-autor destaca ainda que “a transição nas DLCs é mui- líticas transnacionais, e a erosão da democracia comoto mais difícil do que nas NDR’s”, pois existem inimi- ideário do sistema nacional em face das perspectivasgos não declarados “que atualmente sabotam o de- de governabilidade global. Conclui o trabalho elabo-sempenho e eventualmente a viabilidade”, e ainda im- rando quatro cenários alternativos dessa governabili-puta aos extremistas de direita e de esquerda os im- dade com probabilidades de médio e longo prazos.perramentos das tarefas da reformas necessárias nomundo contemporâneo. Parte II – Ajuste e reforma do Estado2) O Nacional e o Social em Tempos Globais. FábioWanderley Reis (Departamento de Ciências Políti- Os artigos que compõem a segunda parte e que tra-cas/Universidade Federal de Minas Gerais). tam de reformas e ajustamentos do Estado têm como objetivo maior a questão de políticas públicas, sendoSucintamente, Reis descreve seu artigo sob uma pers- novamente a democracia o fio condutor das discus-pectiva pessimista e fatalista, destacando a pressão sões.para a redução do Estado Nacional, norteada pelaideologia neoliberal, por meio de forças tendenciosas 5) Ajuste Estrutural, Governabilidade e Democracia.do processo de globalização do mundo. O autor põe Maria Alícia Dominguez Ugá (Ensp/Fiocruz).em pauta a questão da governabilidade e ingoverna-bilidade, estado e projeto nacional, nacionalismo e A autora inicia seu texto elaborando fundamentosantinacionalismo, resgatando criticamente o ideário teóricos sobre políticas de ajuste em face das refor-do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb). mas, alicerçados em teses que dão base ao pensa-Articulando a questão de desenvolvimento nacional mento neoliberal, provenientes das escolas da Áus-e projeto social, pontua também a problemática da tria, de Chicago, e da Public Choice. Ao analisar as po-tensão “entre eficiência e democracia”, quando esta se líticas do ajuste neoliberal, retoma os anos 80 comotorna a força maior que dá sentido ao projeto nacio- ponto de partida da “disseminação do paradigmanal como sinônimo de projeto social. neoliberal ...”, pontuando as rupturas ocorridas em relação ao modo de produção, organização e divisão3) Democracia, Políticas Sociais e Globalização: Rela- do trabalho, cujos resultados refletem na redistribui-ções em Revisão. Sílvia Gerschman (Departamento ção de renda e do emprego e nas relações de classe.de Administração e Planejamento em Saúde/Escola Nesse plano, analisa criticamente o modelo do Bem-Nacional de Saúde Pública – Fiocruz-RJ). Estar Social, diante do saneamento de finanças pú- blicas, e as contradições e descompassos. A questãoGerschman retoma a discussão sobre democracia e da governabilidade vista no contexto de ajuste estru-globalização, inserindo-a no contexto de países da tural do neoliberalismo é analisada pela autora to-Europa Ocidental conduzidos pela social democra- mando como base de apoio principalmente o artigocia, no Japão, nos Estados Unidos, assim como na de Acuña & Smith (Latin American Political EconomyAmérica Latina, principalmente no Brasil, na Argen- in the Age of Neoliberal Reform: Theoretical and Com-tina e no México. As suas análises mostram que “para parative Perpectives for the 1990’s. New Bruswick:tentar repensar e recriar a democracia” é “necessário Transation Publishers, 1994).despojar-nos da ideologia global” e ressaltam que jávivemos em um mundo globalizado que retira a so- 6) Notas sobre Estado, Políticas Públicas e Saúde.berania e a identidade dos Estados, reforçando a ex- Amélia Cohn (Centro de Estudos Contemporâneos eclusão social e dicotomizando-a entre duas catego- Departamento de Medicina Preventiva/Universidaderias: aqueles que são consumidores e os que não são de São Paulo).consumidores. A autora destaca também que os de-safios à democracia diante do processo de globaliza- Cohn, ao puxar o debate sobre o Estado e finançasção são de grande complexidade, tanto para os países públicas, procura dar “uma dimensão mais imediata”de democracia recente, como para aqueles de longa no que “diz respeito à pluralidade e abrangência dasexistência, os quais podem se transformar em demo- ações do Estado e padrões de bem-estar social” e à ar-cracias formais de caráter meramente eletivo. Por ou- ticulação por ele geridas na atual conjuntura históri-tro lado, destaca ainda o fato de que os movimentos ca. Com esse objetivo, analisa diversos autores, cujassociais, no seu conjunto, não têm cooperado de for- teses estão principalmente centradas no contexto la-ma significativa e impactante no tensionamento das tino-americano e fazem seu percurso discursivo ali-crises em curso. nhavando democracia, reformas e os ajustes neces- sários às novas regulamentações do Estado. Finaliza4) Reflexões sobre as Dimensões da Globalização, as explicitando textualmente que “se a busca da moder-Novas Forças Sócio-Políticas Transnacionais e a Re- nidade não exclui, ao contrário pressupõe a presençadefinição do Horizonte da Democracia. Eduardo Vio- ativa do Estado, de um estado democrático que incor-la (Departamento de Relações Internacionais/Uni- pore os cidadãos, ela pressupõe também uma políticaversidade de Brasília). científica e tecnológica na área de saúde que se assente simultaneamente no pilar da regulação e no pilar daO artigo de Viola é complexo, porém bastante provo- emancipação, pilares fundamentais do projeto socio-cativo e estimulante ao debate, pela abordagem ana- cultural da modernidade”.lítica multifacetada e multidimensional no processode globalização. Ele descreve e analisa as principaiscaracterísticas e dimensões deste processo, em rela- Cad. Saúde Públ., Rio de Janeiro, 14(1):213-217, jan-mar, 1998
  4. 4. 216 RESENHAS REVIEWS 7) Crise, Governabilidade e Reforma do Estado: Em ses de políticas sociais e o Estado de Bem-Estar, con- Busca de um Novo Paradigma. Eli Diniz (Instituto siderando tanto os elementos político-econômicos e Universitário de Pesquisas/Rio de Janeiro). suas performances impactantes, quanto o papel dos atores sociais e das instituições públicas. Defende O texto de Diniz, escrito de forma bem didática, de- que emergência, expansão e crise das políticas de bate a crise internacional de 80 e seu impacto sobre a Bem-Estar, são mais bem espelhadas e explicitadas, América Latina, centralizando, no entanto, como es- por intermédio de fatores políticos, embora estes de- tudo de caso o Brasil. Crise, reforma, governabilidade vam ser cruzados obviamente, com fatores econômi- e nova ordem mundial são tratados em razão de fato- cos. A autora chama atenção para o fato de que “os da- res determinantes externos e internos. A autora dos fornecidos por organismos internacionais abali- aponta o descompasso de Estado e sociedade civil, zados não autorizam os vaticínios alarmantes...”, do imputando-o, em parte, ao crescimento da organiza- desmonte do Bem-Estar. Finalizando o artigo com ção social, que expõe as mazelas da ineficácia, assim breve comentário sobre o Brasil e seu incipiente e como outras adjetivações, do poder público em crise. imaturo contexto do sistema de proteção social, Vian- Ao concluir, sugere que “... estratégias de enfrenta- na conclui que, embora na constituição brasileira es- mentos de crises desta natureza, ... não podem perder tejam contidos princípios para as políticas sociais, de de vista a meta da consolidação democrática”. Por ou- concepção semelhante à dos países de Bem-Estar, o tro lado, salienta que a necessidade de reforma do Es- modelo que vem sendo assumido, no entanto, é mais tado é patente e deve ser caracterizada na sua dimen- de concepção americana. são política e técnica, e também conduzida mediante “acordos e alianças, articulando arenas de negocia- 10) Crise Econômica, Crise Welfare State e Reforma ção ...”. O artigo é concluído com a proposta de um Sanitária. Célia Almeida (Departamento de Adminis- novo paradigma, “com enfoques tecnocrático e neoli- tração/Ensp/Fiocruz). beral, ... como também do modelo de gestão pública associado àquele conceito”. Almeida introduz seu artigo resgatando, à exemplo de Vianna, a discussão da crise geral e o Estado de 8) O Mito de Descentralização como Indutor de Bem-Estar a partir da década de 80. Centraliza sua Maior Democratização e Eficiência das Políticas Pú- análise na reforma sanitária, abordando cinco di- blicas. Martha Arretche (Núcleo de Estudos e Políti- mensões: a hegemonia americana e a expansão dos cas Públicas/Universidade de Campinas). sistemas de assistência médica; a natureza e dimen- são da crise sanitária dos anos 60-70; o diagnóstico Arretche também retoma no seu artigo a década de neoliberal da problemática setorial com as propostas 80, para o ponto de partida de seu objetivo maior de de reformas nos anos 80; os principais resultados estudo – descentralização da reforma do Estado, con- dessas reformas e o movimento das tendências das siderando-a como “instrumento necessário de demo- reformas sanitárias nos países centrais. Conclui que, cratização das relações políticas ...” e explicitando que em todos os processos das reformas sanitárias, houve essa “nova forma de gestão dos assuntos do Estado, é a introdução de “mudanças gerenciais e de mecanis- defendida tanto por aqueles que acreditam nos velhos mos de mercado, dirigidas especificamente à busca de preceitos liberais, como também por aqueles que acre- maior eficiência na produção de serviços através da ditam ainda no ideário libertário”. A autora faz uma recomposição do setor, seja a nível público ou priva- análise geral, aprofundando e problematizando o as- do”. Chama atenção para o paradoxo da presença de sunto, descentralização e democracia, em relação à um estado regulador e a intervenção nas políticas so- situação da França, Espanha e principalmente do ciais neoliberais, destacando a grande distância “en- Brasil, por meio de três argumentos básicos: descen- tre o discurso reformista (teórico e ideológico) e as po- tralização como condição necessária à democratiza- líticas implementadas”, embora os desmontes “que ção do processo decisório; expectativa de esvazia- vêm sendo realizados” estejam colaborando para dis- mento das funções do governo central e a redução do seminar a idéia da ineficiência do setor público “fa- clientelismo, mediante formas de controle que impli- bricando a insatisfação do usuário e fortalecendo as quem a redução do emprego de recursos públicos. propostas privatizadoras”. A posição da autora, prin- cipalmente no último parágrafo do artigo, expõe aná- lises otimistas em relação ao setor saúde e o paradig- Parte III – O Estado de Bem-Estar no contexto ma neoliberal, destacando que é preciso levar em atual consideração o fato de que há especificidades pró- prias e distintas neste setor, que são peculiares a ca- Esta última parte é composta por quatro artigos, que da sociedade. procuraram analisar o sistema do Bem-Estar Social e suas reformas e transformações, sob o impacto do 11) As Políticas Sociais e as Políticas de Saúde no neoliberalismo em curso. Contexto do Processo de Globalização. Ana Luíza Via- na (Instituto de Medicina Social/Universidade Esta- 9) Política versus Economia: Notas (Menos Pessi- dual do Rio de Janeiro). mistas) sobre Globalização e Estado de Bem-Estar. Maria Lucia Werneck Vianna (Instituto de Economia Viana faz seu caminho discursivo e analítico, na linha da Universidade Federal do Rio de Janeiro). do trabalho das duas autoras anteriores, isto é, resga- tando a história dinâmica do Estado de Bem-Estar, Vianna analisa e discute várias referências bibliográ- até o início dos anos 90. Especificamente, no que diz ficas, principalmente sobre a Grã-Bretanha, França, respeito ao setor saúde e suas políticas, a autora tri- Alemanha, Suécia e Dinamarca, voltadas para análi- lha por discussões sobre os Estados Unidos da Amé- Cad. Saúde Públ., Rio de Janeiro, 14(1):213-217, jan-mar, 1998
  5. 5. RESENHAS REVIEWS 217rica e a Inglaterra, países que considerou como “sím-bolos da aplicação das políticas neoliberais...”. Enfati-za, ao finalizar, que: “Qualquer movimento que desa-güe em propostas exclusivamente locais para a saúde,é passível de imensas distorções, irracionalidades edesperdícios de recursos, como bem demonstram tra-balhos recentes de análises do processo de descentrali-zação das políticas de saúde na América Latina (casoschileno, argentino e brasileiro)”.12) A Proteção Social e as Transformações do Mundodo Trabalho: Garantia de Mínimos ou Direito de Ci-dadania. Rosa Maria Marques (Departamento deEconomia da Pontifícia Universidade Católica de SãoPaulo).Marques direciona seu texto “sobre a incompatibili-dade crescente entre o modelo de proteção social cons-truído particularmente após a Segunda Guerra Mun-dial e o atual projeto de acumulação...”, procurandoanalisar quatro aspectos básicos: sistemas de prote-ção aos trabalhadores do mercado formal; processosde universalização e integração à gestão do trabalho(anos 50-60); crise do Welfare State e os impactos so-bre a proteção social; e as alterações ocorridas nomundo do trabalho e as possibilidades de transfor-mações dos atuais modelos de proteção social. Nodecorrer das análises sobre os caminhos da constru-ção do Welfare State, Marques discute a relevância dopapel de atuação que tiveram os sindicatos e parti-dos da classe trabalhadora, reconhecidos estes, querpelo Estado, quer pelos representantes do capital, co-mo os canais de competência e legitimação, nos pro-cessos de negociações. Problematiza, por outro lado,a questão de custo financeiro da proteção social uni-versalizada, levando em consideração fatores diver-sos a exemplo de: ampliação de cobertura e crescen-te demanda; a aposentadoria e envelhecimento dapopulação; gastos com o setor saúde e seguro-de-semprego e a diminuição das contribuições financei-ras de empregados e empregadores. A esse conjuntode fatores é imputada a fragilização do sistema doWelfare State no que se refere ao financiamento daproteção e políticas sociais. A questão do desempre-go é inserida no artigo, tendo como pano de fundo aadoção de novas tecnologias pelo sistema produtivo,que desenham uma nova facie de modernização ereorganização racionalizada no campo gerencial e deprodução, promovendo a segmentação da classe tra-balhadora entre aqueles “...que têm emprego ...” e osdesempregados que vicejam “...totalmente à parte dasociedade”.Dalva A. MelloNúcleo de Estudos de Saúde PúblicaCEAM, Universidade de BrasíliaBrasília Cad. Saúde Públ., Rio de Janeiro, 14(1):213-217, jan-mar, 1998

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