02.10 de arzila a tangêr

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02.10 de arzila a tangêr

  1. 1. DE ARZILA A TÂNGER Houve um tempo em que os reis de Portugal detinham,entre outros territórios ao seu mando, umas tantas cidadesfortificadas do Norte de África. Uma delas Tânger. Outra,Arzila. Ora aí pelos começos de 1503, o governador portuguêsde Arzila soube que os mouros de Fez preparavam, àsescondidas, uma expedição para cercar Tânger. Pretendiamuns tantos infiltrar-se na cidade, sob o disfarce demercadores, para ajudarem à conquista, quando o exércitomouro, a coberto da noite, tentasse escalar as muralhas dacidade. Era um bom plano, mas… Mas se fosse possível avisar a tempo o governadormilitar de Tânger, ia o plano por água abaixo. Avisarcomo? Nessa época não havia correios nem telégrafos nemfaxes nem telefones. 1
  2. 2. Podiam enviar um emissário, pois podiam. O pior era seo cavaleiro era interceptado pelas hostes inimigas, que iamjá a caminho. Estava o governador de Arzila a congeminar, sem sedecidir, quando ouviu uns latidos, vindos da cerca doquartel. – É a cadela do Pedro de Castro, com saudades do dono,que pertence à guarnição de Tânger – esclareceu umoficial. – E porque não foi a cadela com ele? – quis saber ogovernador. – A cadela estava à espera de cachorrinhos. Eles jánasceram, já os amamentou e agora, se a gente adesprendesse, era capaz de saltar tudo para ir ter com odono. – E há-de ir – disse o governador, tomado de umasúbita ideia. Trouxeram a cadela, muito esperta e meiga, ataram-lheaos pescoço um saco pequeno, que continha uma cartaenrolada, e levaram-na para as portas da cidade de Arzila. – Vai avisar o teu dono – disseram à cadela, dando-lheuma palmada no lombo. Foi o que ela quis ouvir. Fareja aqui, fareja ali, a cadelacorreu pelo deserto, ultrapassou caravanas, ladeou oásis,venceu dunas e passou, sem se dar a conhecer peloexército mouro, acampado num desfiladeiro, à espera danoite do ataque. Muito cansada e dorida, entrou em Tânger, orientou-sepor ruas e ruelas e foi descobrir Pedro de Castro, a almoçarcom o governador. Que grande alegria para o bicho e parao dono! 2
  3. 3. – Ela traz um saquitel pendurado ao pescoço –chamaram à atenção alguns dos presentes. Foram ver. Era a carta com o aviso. Logo o governador de Tânger mandou tomarprovidências. Fecharam as portas da cidade. Dobraram as atalaias,redobraram as defesas e, assim, a cilada que os mourosqueriam armar não surtiu efeito. A cadelinha salvara muitas vidas e uma fortaleza doreino. Era uma heroína, com direito a título de registo, naHistória de Portugal. Mas se nem sequer lhe sabemos onome… FIM 3

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