04.14 as mazonas da gata borralheira

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04.14 as mazonas da gata borralheira

  1. 1. AS MAZONAS DA GATABORRALHEIRA Não sei se foram convidados para o casamento da GataBorralheira com o Príncipe, o tal que andou com umsapatinho na mão, à procura de pé que lhe servisse. Esta história já conhecem bem. Eu, que até estive nocasamento, não vou, agora, contá-la, porque não adiantavanada ao que já sabem. Em contrapartida, posso contar o que aconteceu às duasmazonas, de cabeleiras desgrenhadas, que faziam a vidanegra à pobre da Gata Borralheira. Também as vi no casamento, mais compostas,aperaltadas, embora não conseguissem disfarçar a feiura ea inveja que sentiam por não ocuparem, elas, o lugar aolado do Príncipe. Umas safadas incorrigíveis. No banquete, vingaram-se e comeram que nem umasdesalmadas. 1
  2. 2. Claro que, no dia seguinte, estavam doentes, com doresno estômago e outros problemas que não merece a penapormenorizar. Saiba-se que, além do resto, lhes tinhaaparecido uma borbulhagem nos cotovelos ossudos epontiagudos. Quanto mais os coçavam, mais comichãotinham. – Dor de cotovelo – diagnosticava o médico, chamado avê-las. – É uma maleita rebelde, que custa muito a curar.Talvez com o tempo... Pomadas e banhos nos cotovelos pouco alívio traziam. Adoença delas não era da pele, mas abaixo da pele e da cargade ossos... Nascia no sítio onde o coração palpita, maisdepressa ou mais devagar, conforme o peso e a velocidadedos sentimentos. Sentimentos? Onde é que elas os tinham? Nem coração. Quando o médico, auscultando-as, deu por que as duasmanas não tinham coração, percebeu tudo. – Elas são feitas de matéria maldosa e retorcida. Semcoração que as aqueça, a tendência é para piorarem –sentenciou o médico. Mas onde é que se arranja um coração? E logo dois, doiscorações disponíveis, tenros, ternos... Não é fácil. O médico veio ter comigo: – O senhor que escreve e inventa coisas e, ainda paramais, conhece bem o caso, é que podia ajudá-las. De facto, se bem que eu não seja especialista do coração,tenho umas luzes. Não é para me gabar, mas passaram-mepelas mãos casos complicados, que, melhor ou pior,consegui resolver. Heróis com coração demasiado outros com o coração aopé da boca... 2
  3. 3. Do que me sobrou daqui e dali, amoldei dois pequenoscorações vivazes, a transpirar meiguice. Preciososmaquinismos de relojoaria, batem certinhos, quando selhes dá corda. Colocá-los no peito das duas megeras foi o que menoscustou. Elas melhoraram a olhos vistos. A comichão noscotovelos passou-lhes logo. Já sorriem, já perguntam pelosoutros com verdadeiro interesse, já se enternecem, já secomovem. A Gata Borralheira, muito boazinha, foi vê-las, um diadestes, mal regressou da viagem da lua-de-mel. Elaslacrimejaram umas desculpas sentidas e ambas seofereceram para madrinhas do primeiro filho que nascer daGata Borralheira. A sério. E estão mais felizes, mais luminosas. Até conseguemestar bonitas. Não podemos é esquecer-nos de, todos os dias, dar-lhescorda ao coração. FIM 3

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