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NÃO SOU
CAPAZ
Aáguia de penugem branca ainda não tinha saído do
ninho. Via o pai e a mãe, num voo alto, rente às nuvens, e
pensava: "Nunca vou ser capaz".
O pai e a mãe traziam-lhe comida no bico. A aguiazinha
devorava os petiscos, gulosa.
– Não engulas tudo de uma vez, que ainda te engasgas –
recomendava-lhe a mãe.
Mas a aguiazinha não queria saber. Tinha fome, muita
fome, uma fome insaciável, que ela não sabia controlar.
Algumas penas de brancas passavam a cinzentas. O corpo
ganhava elegância. As asas cresciam.
Os pais iam e vinham, num voo planado, que era a
admiração da filha. "Nunca vou ser capaz de fazer o
mesmo", pensava.
1
– Amanhã começas a aprender a voar – disse-lhe o pai.
Mas, nesse dia, choveu e a lição foi adiada. Os pais é que
não desistiram de caçar. Deixaram-na só, no quente do
ninho.
Estava ela aconchegada e contente pelo adiamento da
lição, quando sentiu um roçar de perigo, nos ramos perto.
Era uma serpente, que se desenroscava por um tronco, em
direcção a ela.
A aguiazinha piou, aterrorizada. Eriçaram-se-lhe as
penas. Bateu as asas, para afugentar a intrusa de língua
silvante. A serpente continuava a deslizar para ela, segura
da presa. Ia armar o último salto. Ia destroçá-la. Ia
comê-la.
Bateu a águia as asas com mais força e suspendeu-se no
ar. Num impulso de pânico, largou o ninho. Ia cair. Não
caiu.
Soltou-se no ar, a curta distância da árvore que abrigara
o ninho. Sentiu uma tontura. Agarrou as patas a um ramo,
mas o ramo cedeu. Agitou as asas com mais força e
elevou-se nos ares. Tudo aquilo lhe parecia impossível. Ela
voava.
Quando os pais regressaram, a aguiazinha, de asas
distendidas, como se quisesse abarcar o céu num grande
abraço, voou, feliz, ao seu encontro.
FIM
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  • 1. NÃO SOU CAPAZ Aáguia de penugem branca ainda não tinha saído do ninho. Via o pai e a mãe, num voo alto, rente às nuvens, e pensava: "Nunca vou ser capaz". O pai e a mãe traziam-lhe comida no bico. A aguiazinha devorava os petiscos, gulosa. – Não engulas tudo de uma vez, que ainda te engasgas – recomendava-lhe a mãe. Mas a aguiazinha não queria saber. Tinha fome, muita fome, uma fome insaciável, que ela não sabia controlar. Algumas penas de brancas passavam a cinzentas. O corpo ganhava elegância. As asas cresciam. Os pais iam e vinham, num voo planado, que era a admiração da filha. "Nunca vou ser capaz de fazer o mesmo", pensava. 1
  • 2. – Amanhã começas a aprender a voar – disse-lhe o pai. Mas, nesse dia, choveu e a lição foi adiada. Os pais é que não desistiram de caçar. Deixaram-na só, no quente do ninho. Estava ela aconchegada e contente pelo adiamento da lição, quando sentiu um roçar de perigo, nos ramos perto. Era uma serpente, que se desenroscava por um tronco, em direcção a ela. A aguiazinha piou, aterrorizada. Eriçaram-se-lhe as penas. Bateu as asas, para afugentar a intrusa de língua silvante. A serpente continuava a deslizar para ela, segura da presa. Ia armar o último salto. Ia destroçá-la. Ia comê-la. Bateu a águia as asas com mais força e suspendeu-se no ar. Num impulso de pânico, largou o ninho. Ia cair. Não caiu. Soltou-se no ar, a curta distância da árvore que abrigara o ninho. Sentiu uma tontura. Agarrou as patas a um ramo, mas o ramo cedeu. Agitou as asas com mais força e elevou-se nos ares. Tudo aquilo lhe parecia impossível. Ela voava. Quando os pais regressaram, a aguiazinha, de asas distendidas, como se quisesse abarcar o céu num grande abraço, voou, feliz, ao seu encontro. FIM 2