Um mundo de medidas

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Um mundo de medidas

  1. 1. Um mundo de medidasOs bastidores de uma acirrada disputa de poderDa Pré-História aos dias de hoje, asmedidas de espaço, volume e massa foram de talforma incorporadas às nossas vidas que éimpossível imaginar a civilização sem elas.Conheça os bastidores dessa história de erros,acertos e acirradas disputas de poder.Elas fazem parte da vida cotidiana. Estão nareforma da casa, nas compras do supermercado, naida ao posto de gasolina. Têm presença garantidanos laboratórios de pesquisa e nas indústrias, e sãousadas nas transações comerciais entre os países.Você já não consegue mais conceber o mundo semconsiderá-las; basta pensar nos metros, quilos elitros que permeiam as suas atividades maiscorriqueiras. Essas personagens tão prestigiosassão as medidas, grandezas de espaço, massa evolume que acompanham a evolução intelectual etecnológica da humanidade desde a Antigüidade.As medidas surgiram da necessidade deestabelecer comparações que permitissem oescambo entre as pessoas, quando as primeirascomunidades começaram a dispor de excedenteagrícola, alguns milhares de anos antes de Cristo.Era preciso criar um sistema de equivalência entreo produto e um padrão previamente determinadoque fosse aceito por todos os membros do grupo.As unidades primitivas tomaram como referência ocorpo humano. Palmos, braços e pés ajudavam adimensionar comprimento e área. Depois, vieramas balanças, as réguas, as ânforas e outras tantasmedidas até a criação, em 1960, do sistemainternacional de unidades, que estabelecegrandezas universais para serem empregadasmundialmente.Por viver num mundo já metrificado, vocêtalvez ache muito natural – e até óbvio – que asdistâncias sejam medidas em quilômetros e o arrozem quilos, por exemplo. Mas poderia ter sidodiferente. Se o Brasil e boa parte do mundo nãotivessem adotado o metro e as outras unidadesexportadas pelo império napoleônico, talvez aindausássemos o sistema imperial britânico, com suasjardas, onças e galões. E veríamos o mundo deoutra maneira.Conceber grandezas resultou da lenta egradual sofisticação do pensamento humano, cujosprimórdios remetem à Pré-História. "Medir foi umamaneira intuitiva de garantir a sobrevivência", dizo físico Giorgio Moscati, da Universidade de SãoPaulo (USP) e vice-presidente do ComitêInternacional de Pesos e Medidas, órgão gestor dosistema internacional de unidades. Há cerca de 30mil anos, enquanto lascava pedras e manuseavaossos para fabricar instrumentos de caça e dedefesa, o homem começou a avaliar dimensões.Comparava as lascas entre si e analisava se eramadequadas para o uso que esperava delas.As primeiras medidas egípcias, como as deoutros povos da época, eram inspiradas no corpohumano. A unidade mais usada era o côvado, adistância do cotovelo até a ponta do dedo médio. Opadrão real correspondia a 7 palmos ou 28 dedos, oque equivaleria hoje a 52,3 centímetros. Para mediráreas de plantações, os egípcios utilizavam cordascom nós – o que acabou originando uma atividadecuriosa: a dos esticadores de corda. Paracomparações de massa, eram usados pesinhos comformatos de animais, como leões e touros. Muitosdeles foram encontrados em tumbas e pirâmides.Os egípcios viam os instrumentos de medida comoartefatos muito valiosos. "Réguas e balanças eramsepultadas junto com seus proprietários", dizAntonio. "Existiramcasos em que as réguas eramfolheadas a ouro e dadas de presente pelo faraó aodignitário."A primeira tentativa de unificação dasmedidas veio com o imperador francês CarlosMagno (768-814), no século 8. Ele criou, porexemplo, um conjunto de pesos chamado de "pilhade Carlos Magno" e instituiu a libra esterlina(equivalente hoje a 350 gramas). Mas essasunidades não perduraram. Durante a Idade Média,cada senhor feudal manteve, dentro das terras quelhe pertenciam, os seus próprios padrões demedida. Era uma forma de dominação. "Quemcontrolava as medidas detinha o poder", dizGiorgio Moscati. As medições se tornaramarbitrárias e, não raro, a população era explorada
  2. 2. pelos abusos fraudulentos de mercadores esenhores feudais, que usavam padrões pequenospara a venda de mercadorias e grandes para acompra dos produtos agrícolas.O uso de diferentes padrões de medidasentre as nações e mesmo dentro de um único paísvigorou durante toda a Idade Moderna. Oabsolutismo político reinante na Europa não davaespaço para a revolucionária idéia de padronizar asmedições. Para você ter uma idéia, uma dasunidades de comprimento mais comuns na Françadaquela época era o pied-de-roi ("pé-de-rei"), quehoje equivaleria a 32,5 centímetros. O pied-de-roioficial de Paris valia 1,1 da medida usada emBordeaux e 0,9 daquela que se utilizava na regiãode Lorraine. Isso significa que a mesma medida –uma corda de 5 pés-de-rei, por exemplo – tinhacomprimentos distintos de acordo com a região dopaís. Tomando o pied-de-roi de Paris comoreferência, em Bordeaux a corda teria 4,54 pés-de-rei. Em Lorraine, chegaria a 5,55.Sob os preceitos do Iluminismo, movimentoideológico que considerava a razão como o pilar dodesenvolvimento humano, a Academia Francesa deCiências assumiu a incumbência de criar mediçõespadronizadas (foi também um modo de oscientistas salvarem a pele diante dosrevolucionários, que os viam como partidários dorei). O plano era elaborar um sistema de unidadesbaseado num padrão da natureza, imutável eindiscutível. Como a natureza não pertence aninguém, tal padrão poderia ser aceito por todas asnações, inclusive a rival Inglaterra, e se tornaria umsistema universal.A Academia convencionou que a unidade-padrão de comprimento seria a décima milionésimaparte da distância entre o Pólo Norte e o Equador.Para obtê-la, era necessário medir um arco – ouseja, um segmento – de um meridiano terrestre.Assim, por extrapolações astronômicas, erapossível calcular o comprimento total domeridiano.Uma equipe de cientistas, liderada pelosastrônomos Jean-Baptiste Delambre (1749-1822) ePierre Méchain (1744-1804), se dedicou, durantesete anos, à missão, iniciada em 1792. O resultadoda aventura foi a definição do metro – um padrãoconstante e universal, com múltiplos esubmúltiplos, cujo primeiro protótipo foi uma barrade platina regular."O sistema métrico é um modelo muitointeligente porque se baseia na linguagem decimal– uma linguagem prática e lógica", afirma UbiratanD’Ambrosio.Os padrões de massa e volume foramcalculados a partir do metro, seguindo o mesmoprincípio. O grama foi definido como a massa de 1decímetro cúbico de água pura a 4ºC, temperaturaem que atinge a maior densidade.O litro passou a equivaler ao volume de umcubo com 10 centímetros de lado (ou seja, 1decímetro cúbico). Foi uma mudança e tanto. Ogoverno francês investiu em campanhas educativaspara divulgar as novas medidas. Gravurasensinavam a conversão das unidades e o uso decada uma delas: em vez da pinta, o litro; no lugarda libra, o grama; para substituir a alna, o metro; eassim por diante.Hoje, o sistema internacional de unidadesestabelece que o metro é a medida oficialmenteusada nas atividades científicas, econômicas eindustriais. A definição dessa grandeza foireformulada ao longo das diversas ConferênciasGerais de Pesos e Medidas, reuniões periódicasentre representantes de vários países para deliberara respeito dos padrões e seu uso corrente. Segundoa definição atual, "o metro equivale a 299 792 458avos da distância percorrida pela luz no vácuodurante um segundo".
  3. 3. Inglaterra, Estados Unidos e outros adeptosdo sistema britânico reconheceram a importânciade adotar o sistema métrico decimal. No entanto,nesses países ainda há resistência em usar asunidades internacionais de comprimento, massa evolume. "Trata-se de uma transição lenta, pois édifícil convencer as pessoas, acostumadas com umdeterminado sistema de medida, a mudaremtotalmente seus hábitos", diz Giorgio Moscati. Noano passado, um quitandeiro inglês da cidade deSunderland, no extremo norte da Inglaterra, foimultado por continuar vendendo frutas usando alibra, como medida de peso, em vez do quilo. Elecontrariou as regras da União Européia, segundo asquais todos os países membros devem utilizar osistema métrico nas transações comerciais.A coexistência de dois sistemas de medidatambém causou confusão, dessa vez nos EstadosUnidos. Em 1999, a Nasa perdeu a sondaMarsClimateOrbiter por causa de informaçõesconflitantes dos controladores de vôo. A nave foiabastecida com dados do sistema métrico decimal etambém do sistema imperial britânico e oscomputadores não foram capazes de identificar asdiferenças entre os valores transmitidos.Texto adaptado a partir de:super.abril.com.br/superarquivo/2003/conteudo_275074.shtml

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