UMA VISÃO
DO FUTURO
A Editora Nobel tem como objetivo publicar obras com qualidade
editorial e gráfica, consistência de informações, confiabil...
Rubens Rodrigues dos Santos

UMA VISÃO
DO FUTURO
FUTURO
Avaliação do que é relevante
na passagem do milênio
©1999 de Rubens Rodrigues dos Santos
Direitos desta edição reservados à

Livraria Nobel S.A.
Rua da Balsa, 559 - 02910-000...
Para minha esposa
Ana Maria
Para meus filhos
Cecilia, Regina, Lia e Gabriel
PREFÁCIO
Este livro é a história e o roteiro intelectual de um profissional esclarecido,
Rubens Rodrigues dos Santos. Mais...
APRESENTAÇÃO
As profecias sempre fascinaram o homem. No passado mais distante os
estímulos eram as crenças e as superstiçõ...
o País e o mundo, os recursos naturais, as ações positivas e negativas das
sociedades que deles usufruem. Esta é, antes de...
Sobrevivemos durante os dois séculos de luzes e sombras correspondentes à Era Industrial, talvez consigamos sobreviver no ...
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Breve apreciação, feita no final do século XX, do ínfimo segmento por nós conhecido do Cosmo infinito, q...
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O possível e o provável no século XXI, apresentados em ordem
alfabética para que se localizem com mais facilidade a...
CAPÍTULO 1
Breve apreciação, feita no final do século XX, do ínfimo
segmento por nós conhecido do Cosmo infinito,
que não ...
gesto, ponto de partida da longa série de ações manuais que levariam à fabricação de um tosco machado de pedra lascada (Ho...
Há controvérsias entre os antropólogos quanto à denominação dos grupos do Homo sapiens que se espalharam por diferentes ec...
Há 2 mil anos, início da Era Cristã, muitas regiões, nos cinco continentes,
estavam ocupadas e algumas civilizações sobres...
Posto isso, desejamos finalizar este primeiro capítulo com uma proposição
ousada. Não há de nossa parte racismo, discrimin...
No transcorrer dos próximos 100 anos, talvez venhamos a assistir com
mais nitidez a definição do contingente privilegiado ...
CAPÍTULO 2
Avaliação de um segmento do passado próximo,
a Era Industrial, para que seja possível chegar mais perto
daquilo...
primeira estrada de ferro entre Londres e Liverpool. Logo depois, os primeiros barcos movidos a vapor e a vela atravessara...
A verticalização das grandes cidades foi possível graças a um invento
que recebeu o nome de elevador. Em 1854, o norte-ame...
Em 1864, Louis Pasteur (1822-1895), cientista francês, observou a
existência de microrganismos em todos os lugares, inclus...
O seguro social contra a doença e velhice foi instituído pela primeira vez
em 1880, na Alemanha, por Otto Bismarck (1815-1...
O automóvel a gasolina e a extração do petróleo constituem um
marco que divide ao meio a Era Industrial. Na primeira metad...
CAPÍTULO 3
Pausa na passagem da primeira para a segunda metade
da Era Industrial, no entorno do ano 1900.
Recuamos no temp...
difundiu-se a partir da década de 50, a Internet surgiu na década de 90. Portanto, a chegada de um ano emocionalmente marc...
1995-1999: Rompimento da aliança União Soviética-Estados Unidos. A
aliança entre as duas superpotências não dura muito e p...
O ESTADO DE S. PAULO
UM SECULO
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nem obriga a quarentenas os navios que procuram os seus portos. Um homem, que esteja
a par da sciencia do seu tempo, póde ...
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Fraternidade. Tombou, ou transigiu, o absolutismo, que se lhes oppunha de frente ; mentiu-lhes a monarchia constitucional,...
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Não o denominaremos, por certo, o seculo de Victor Hugo, como, em pleno
enthusiasmo do romantismo, se requereu em França e...
CAPÍTULO 4
Início da segunda metade da Era Industrial em 1900,
quando o homem deixou de se valer somente do carvão
para qu...
alimentos produzidos no mundo, 80% da água potável usada pela população mundial, segundo estimativa da Organização Mundial...
A Teoria da Relatividade, fundamental para a compreensão do Cosmo e
para relacionar massa e energia, foi formulada em 1905...
autora, a bióloga Rachel Carson, denunciou o perigo dos pesticidas usados
indiscriminadamente. Hoje, a engenharia genética...
das universidades dos Estados Unidos, da Europa e da União Soviética. A
espécie humana desvendava os segredos que lhe perm...
constelação de Pégaso parece não ser o único, segundo os astrônomos,
em condições de ter vida fora do Sistema Solar. Astro...
formação de artérias suplementares necessárias para atender à grande quantidade de oxigênio e nutrientes exigida pelas for...
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00010 uma visão do futuro

  1. 1. UMA VISÃO DO FUTURO
  2. 2. A Editora Nobel tem como objetivo publicar obras com qualidade editorial e gráfica, consistência de informações, confiabilidade de tradução, clareza de texto, impressão, acabamento e papel adequados. Para que você, nosso leitor, possa expressar suas sugestões, dúvidas, críticas e eventuais reclamações, a Nobel mantém aberto um canal de comunicação. Entre em contato com: CENTRAL NOBEL DE ATENDIMENTO AO CONSUMIDOR Fone: (11) 3933 2800 – Fax: (11) 3931 3988 End.: Rua da Balsa, 559 – São Paulo – CEP 02910-000 Internet: www.livrarianobel.com.nobel
  3. 3. Rubens Rodrigues dos Santos UMA VISÃO DO FUTURO FUTURO Avaliação do que é relevante na passagem do milênio
  4. 4. ©1999 de Rubens Rodrigues dos Santos Direitos desta edição reservados à Livraria Nobel S.A. Rua da Balsa, 559 - 02910-000 –São Paulo, SP. Fone: (11) 3933-2800 – Fax: (11) 3931-3988 e-mail: ednobel@livrarianobel.com.br Coordenação editorial: Mirna Gleich Assistência editorial: M. Elisa Bifano Revisão: Dinorah Ereno Produção gráfica: Mirian Cunha Capa: Ricardo Falcão Ilustrações: André Pessoa Composição: Jorge Luiz Ricci Impressão: Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Santos, Rubens Rodrigues dos Uma visão do futuro : avaliação do que é relevante na passagem do milênio/Rubens Rodrigues dos Santos. – São Paulo : Nobel, 1999. ISBN 85-213-1114-1 1. Ciência - História 2. Civilização - História 3. Homem - Influência na natureza 4. Século 20 5. Século 21 6. Tecnologia - História I. Título. 99-3823 CDD-909.83 Índice para catálogo sistemático 1. Século 21 : Hipóteses e suposições : Civilização : História 909.83 É PROIBIDA A REPRODUÇÃO Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida, copiada, transcrita ou mesmo transmitida por meios eletrônicos ou gravações, sem a permissão, por escrito, do editor. Os infratores serão punidos pela lei nº 9.610/98 Impresso no Brasil / Printed in Brazil
  5. 5. Para minha esposa Ana Maria Para meus filhos Cecilia, Regina, Lia e Gabriel
  6. 6. PREFÁCIO Este livro é a história e o roteiro intelectual de um profissional esclarecido, Rubens Rodrigues dos Santos. Mais conhecido como jornalista, o autor é um homem polivalente. Tendo sua formação básica em engenharia, muito cedo transladou-se para o jornalismo convencional e o cinema documentário, dedicando a essas atividades grande parte de sua vida. A partir dos meados da década de 70, ele encontrou um novo caminho para as suas atividades de cidadão, percorrendo o elástico espaço das questões ambientais, sem deixar de abranger em todos os seus trabalhos a realidade socioeconômica do Brasil. Num país de fortes desigualdades regionais, sociais e culturais, é possível entender as diferentes faces do mundo real quando se aprende a viajar pelos mais diferentes recantos do território. Quem passa de hotel para hotel de luxo, ou de praia a praia simbólica, certamente não tem tempo nem oportunidade de conhecer o Brasil em sua inteireza. Rubens Rodrigues dos Santos, porém, fugindo de uma visão pontualizada, conseguiu ampliar seu acervo de observações das nossas subculturas regionais, culminando com uma excelente visão sobre a multiplicidade de nossas questões relacionadas com o meio ambiente, essência da vida na Terra. Entretanto, enganam-se os que consideram o autor deste livro apenas um jornalista versátil. Ao escrever sobre a evolução científica, social e tecnológica do século XX, emergem de sua personalidade todos os seus atributos intelectuais, ou seja, a sua formação de engenheiro, a sua experiência de documentarista, o seu espírito de jornalista polivalente, a sua imensa curiosidade humana. Sua visão do século e do milênio que entram em saudoso crepúsculo é das mais seletivas e amplas até agora escritas. E, sobretudo, redigida com uma linguagem suave e agradabilíssima, do interesse de uma imensa gama de leitores. É provável que surjam outros estudos recuperativos do século que chega ao fim, mas é certo que, pelo seu caráter quase didático, bem como pelo seu esforço de síntese e polivalência, este livro de Rubens Rodrigues dos Santos ocupe sempre o destaque que merecem os depoimentos legados para a posteridade. Aziz Nacib Ab’Saber Universidade de São Paulo
  7. 7. APRESENTAÇÃO As profecias sempre fascinaram o homem. No passado mais distante os estímulos eram as crenças e as superstições, os truques e os malabarismos de linguagem, os dogmas e a ignorância. Mas os avanços do conhecimento acabaram por privilegiar a astrologia, a alquimia, a numerologia e a escrita. As religiões e o misticismo desempenharam papel muito importante nesses anseios pela descoberta do que está por acontecer. Sacerdotes, adivinhos, profetas, mágicos, videntes e embusteiros sempre tiveram, e ainda têm, o seu lugar assegurado entre os que perscrutam o amanhã, olhos postos em símbolos religiosos, bolas de cristal, sinais cabalísticos, contas, búzios, baralhos, configurações bizarras. Hoje, ciência e tecnologia permitem que se acendam muitas luzes, algumas próximas, outras distantes, embora seja ainda determinante a ocorrência do imponderável e do imprevisto na trajetória da Terra e das espécies animais e vegetais que um acaso físico-químico-biológico, ou uma Decisão Superior, permitiu que aqui elas surgissem. O saber e a consciência talvez se incluam nessa singularidade excepcional, como fundamentos para buscar o possível e o provável, com base em hipóteses e suposições. É somente isso que procuramos alcançar neste livro. Não pretendemos prever o futuro, mas tão-somente avaliar o que talvez venha a ocorrer, considerando a realidade científica e tecnológica deste final do século XX, que coincide com o final de mais um milênio da Era Cristã. Muitos outros finais de séculos e de milênios já se passaram, sem que mudanças excepcionais tenham ocorrido. Para a espécie humana, muito mais significativos do que essa passagem do século XX para o século XXI, do segundo para o terceiro milênio, foram outros marcos temporais socioeconômicos, como aqueles representados pela Primeira e pela Segunda Guerras Mundiais, como também o trepidante período de 25 anos que se interpôs entre uma e outra conflagração. Mencionamos os marcos passados sem a pretensão de avaliá-los como condicionadores da História. O motivo principal que nos levou a escrever este livro foi o desejo de prestar um depoimento sobre o que presenciamos no decorrer de uma longa e densa carreira de engenheiro e jornalista, durante a qual pudemos observar
  8. 8. o País e o mundo, os recursos naturais, as ações positivas e negativas das sociedades que deles usufruem. Esta é, antes de tudo, uma reportagem sobre o nosso tempo. Aprendemos que o essencial é a relação entre a espécie que domina todas as outras, o homem, e o meio ambiente que ela transforma, pelo bem (Cristo pregou há 2.000 anos) ou pelo mal (a bomba atômica foi detonada há 50 anos). É evidente que um livro tão complexo não poderia ser escrito sem que se aproveitassem as idéias e as sugestões de outras pessoas. Para projetá-lo e redigi-lo entrevistamos cientistas, professores universitários, mestres e doutores de várias especialidades, ao longo de muitos anos. Valemo-nos de informações colhidas em revistas científicas conceituadas e fornecidas por agências de notícias nacionais e internacionais. Resultou desse trabalho um acervo imenso de idéias e informações, em parte condensadas nestas páginas. Aos que leram os originais e apresentaram sugestões, os nossos agradecimentos. É evidente que os cientistas e técnicos que entrevistamos não são responsáveis pelas conjecturas do possível e do provável aqui expostas, resultantes da leitura pessoal que o autor faz de um insignificante segmento da vida na Terra. O essencial nessa busca é a interação entre a espécie humana e o meio ambiente em que ela surgiu e evoluiu, até alcançar o estágio atual. Por isso iniciamos este livro com um esboço das nossas origens, apresentado no capítulo 1, sem a pretensão de discorrer sobre antropologia. Em seguida, arrolamos acontecimentos importantes do nosso passado mais próximo, não tanto para avaliar a perspectiva histórica, pois não nos cabe fazer tais incursões, mas para melhor situar o minúsculo segmento correspondente à nossa condição atual (a Era Industrial tem 200 anos) em face do segmento da nossa espécie (o Homo sapiens teria surgido há 100 mil anos), o qual por sua vez também é insignificante comparado com os segmentos maiores da Vida (que teria surgido há 3 bilhões de anos), do Sistema Solar (que teria se formado há 5 bilhões de anos) e do Cosmo (o Big Bang teria ocorrido há 15 bilhões de anos). É o que procuramos oferecer nos capítulos 2, 3 e 4. Entramos depois no tema principal deste trabalho, relacionado com hipóteses e suposições cabíveis, sem enveredar pelo terreno inconsistente das previsões do futuro. Avaliamos a ação do homem, relacionada principalmente com a reversão para a atmosfera do imenso volume de carbono que há milênios, graças à clorofila e à fotossíntese, se acumulou em jazidas fósseis (carvão, petróleo e gás natural) no subsolo da Terra.
  9. 9. Sobrevivemos durante os dois séculos de luzes e sombras correspondentes à Era Industrial, talvez consigamos sobreviver no século XXI, mas há uma probabilidade dúbia de alcançarmos séculos subseqüentes. É importante insistir sobre a nossa insignificância e transitoriedade, considerando o passado, o presente e o futuro daquilo que é essencial – matéria e energia – num Universo infinito, sujeito a infinitas transformações. Não nos é possível abranger o significado do infinito porque somos finitos, como indivíduo e como espécie. Somos finitos e nos baseamos em parâmetros finitos, num contexto de espaço infinito, tempo infinito, matéria infinita, energia infinita. Tudo acontecendo de acordo com seus amálgamas e suas dissociações, que também ocorrem em número infinito. Trata-se de uma visão muito pessoal do autor. Entre concentrações absolutas e expansões incomensuráveis, aqui e ali, talvez se acendam e se apaguem centelhas de vida (não necessariamente semelhantes à nossa) na Terra como também em infinitos pontos do Cosmo. Durante que parcela do tempo infinito brilhará a nossa centelha finita? Mantê-la acesa por toda a eternidade será impossível, mas cabe-nos contribuir para que ela se apague honrosa e serenamente. Para facilitar a identificação dos assuntos que mais possam interessar ao leitor, eles foram apresentados em ordem alfabética, ao longo do capítulo 5. Talvez alguns temas relevantes nos tenham escapado, mas o essencial é provável que esteja neste trabalho, no qual procuramos avaliar a ação do homem na Terra, por enquanto o nosso único lar. No capítulo 6 ousamos sugerir que o nosso tempo assinala um ponto mediano entre o princípio e o fim do Sistema Solar. O Capítulo 7 devolve-nos ao cotidiano das nossas interrogações maiores: afinal, ciência e tecnologia abrangem ou não a moral e a ética? O autor
  10. 10. SUMÁRIO 1 2 3 4 Breve apreciação, feita no final do século XX, do ínfimo segmento por nós conhecido do Cosmo infinito, que não conseguimos entender como tal porque somos finitos e nossa mente domina unicamente parâmetros finitos. Um convite à admissão da nossa insignificância e da nossa transitoriedade, antes de ousar uma incursão no século XXI....................................15 Avaliação de um segmento do passado próximo, a Era Industrial, para que seja possível chegar mais perto daquilo que somos considerada a ordem infinita das coisas. A primeira metade desse período começou em 1800, com a invenção da máquina a vapor, e praticamente terminou em 1900, pouco antes de se inventar o motor a explosão e se iniciar a construção em série do automóvel........................................................21 Pausa na passagem da primeira para a segunda metade da Era Industrial, no entorno do ano 1900. Recuamos no tempo para saber o que Nostradamus previu há 400 anos. Transcrevemos a única saudação ao novo século, publicada no Brasil dia 1º de janeiro de 1901, ilustrando-a com reclames reveladores da tecnologia na época...................................................................27 Início da segunda metade da Era Industrial em 1900, quando o homem deixou de se valer somente do carvão para produzir vapor e mover máquinas, passando a utilizar também o petróleo e seus derivados para fazer funcionar os motores a explosão dos automóveis. A Era Industrial contabiliza 200 anos de grandes avanços da ciência e da tecnologia.............................................43
  11. 11. 5 6 7 O possível e o provável no século XXI, apresentados em ordem alfabética para que se localizem com mais facilidade as hipóteses e as suposições que interessam ao leitor, tendo sempre em vista que as mudanças na natureza são geralmente muito lentas, incompatíveis com a condição inerente ao ser humano de passar abruptamente da vida para a morte........................50 Incursão ao longo do possível e do provável no século XXI, advertindo que não está assegurada a sobrevivência da espécie humana nos séculos subseqüentes. Uma especulação cósmica: estaríamos vivendo no ponto mediano de um segmento temporal de 10 bilhões de anos, entre o princípio e o fim do nosso Sistema Solar?.............................................................................179 Conclusão da reportagem, assinalando que procuramos resumir a trajetória humana para perguntar: por que o homem busca avidamente uma rota de fuga para o Cosmo, sem antes procurar resolver os graves problemas que ele próprio criou neste planeta generoso, que lhe oferece tudo quanto a sua constituição átomo-molecular precisa?................................181
  12. 12. CAPÍTULO 1 Breve apreciação, feita no final do século XX, do ínfimo segmento por nós conhecido do Cosmo infinito, que não conseguimos entender como tal porque somos finitos e nossa mente domina unicamente parâmetros finitos. Um convite à admissão da nossa insignificância e da nossa transitoriedade, antes de ousar uma incursão no século XXI. O primeiro bípede ancestral do homem teria vivido no nordeste da África há cerca de 5 milhões de anos. Seria quase um macaco, embora pudesse se erguer nas patas traseiras e caminhar em busca das folhas e raízes que lhe serviam de alimento e escapar mais rapidamente dos seus predadores (Australopithecus ramidus, cérebro com 410 centímetros cúbicos). Ele seria originário de uma entre várias espécies de símios, resultado da permanente evolução a que todos os seres vivos estão submetidos, acompanhando as modificações no meio ambiente, as ofertas alimentares e a pouco lembrada, mas permanente e essencial, ação dos raios ultravioleta do Sol na configuração genética dos organismos. Tudo leva a crer que há 3 milhões de anos já vagava pela África um bípede nosso precursor hominídeo, ainda muito próximo de um macaco, que percorria as savanas, mas subia agilmente nas árvores para colher frutos e brotos, escapar de predadores e descansar (Australopithecus africanus, cérebro com 450 centímetros cúbicos). Há cerca de 2,5 milhões de anos um hominídeo perambulava por todo o continente africano, mas dava preferência às regiões mais quentes do nordeste, menos áridas e com melhores ofertas de folhas, raízes e pequenos animais que garantiam a sua alimentação. Ele tinha mandíbulas fortes, talvez porque partisse ossos para aproveitar o tutano (Australopithecus robustus, cérebro com 500 centímetros cúbicos). Para comer o saboroso e nutritivo tutano era preciso quebrar os ossos, bater neles com pedras ou com outros ossos: talvez tenha sido esse o primeiro 15
  13. 13. gesto, ponto de partida da longa série de ações manuais que levariam à fabricação de um tosco machado de pedra lascada (Homo habilis, cérebro com 660 centímetros cúbicos). Há aproximadamente 1,7 milhão de anos o nosso ancestral usava clavas, machados de pedra e lanças com pontas de ossos aguçados. Alimentava-se de frutos, raízes e carne. Dominava o fogo e protegia-se do frio cobrindo-se com as peles dos animais que abatia. Fogo, carne e agasalho (Homo erectus, cérebro com 950 centímetros cúbicos). Graças ao domínio do fogo, hábitos onívoros e abrigo de peles, esse nosso ancestral teria, há cerca de 1,5 milhão de anos, ousado atravessar o estreito de Gibraltar e se disseminar pela Europa. A geografia da época talvez tivesse facilitado essa migração, num dos períodos glaciais que ocorreram na Terra, o qual teria reduzido a largura dessa passagem marítima porque o nível dos mares seria bem mais baixo, com as águas acumuladas nos continentes sob a forma de calotas de gelo. Esse Homo erectus já conseguia enfrentar o frio e por isso espalhou-se pela Europa. Partiu para a ocupação do mundo no decorrer do milênio seguinte, alcançando a Ásia Menor e a Índia, a China e as grandes ilhas do Pacífico, Austrália e Nova Zelândia. Como erectus e habilis esse nosso ancestral teria feito uso intensivo da madeira para fabricar armas, abrigos e embarcações. Com elas talvez tenha realizado longas travessias, chegando a ilhas do Pacífico, percorrendo as bordas do Mediterrâneo, empreendendo uma aventura então audaciosa: acompanhar o litoral oeste do continente americano, desde o estreito de Bering até o extremo sul do Chile, aportando em diferentes latitudes e penetrando o continente para leste. Há 100 mil anos, esse nosso ancestral peregrino já se reunia em grupos maiores nos locais propícios, onde a caça e o peixe abundavam e havia cavernas para assegurar abrigo. Fabricava armas e utensílios melhores, aproveitando pedra, madeira e cerâmica. Sepultava seus mortos. Tinha rudimentos de organização social, verificando-se no grupo a hegemonia do mais hábil e forte (Homo sapiens, cérebro com 1.330 centímetros cúbicos). Grupos esparsos na África, Europa, Ásia e Oceania certamente se diferenciavam à mercê de condições diferentes do meio ambiente, de regimes alimentares próprios, de fatores peculiares a cada grupo e a cada região, submetidos sempre à ação dos raios ultravioleta do Sol e de outros fatores que provocam mutações genéticas. Alguns grupos diferenciados do Homo sapiens se extinguiram, outros conseguiram subsistir e se fortalecer, multiplicando-se, embora com pequenas alterações: cor branca, amarela ou negra, cabelos pretos ou loiros, lisos ou crespos, olhos escuros ou claros, com forma arredondada ou oblíqua. Eles já se consolidavam assim há cerca de 50 mil anos. Como subespécies ou variedades do Homo sapiens? Ou apenas como contingentes diferenciados do Homo sapiens? 16
  14. 14. Há controvérsias entre os antropólogos quanto à denominação dos grupos do Homo sapiens que se espalharam por diferentes ecossistemas de todos os continentes e neles, isolados, adquiriram características próprias. Alguns admitem considerar esses contingentes migrantes como subespécies do Homo sapiens, outros negam o acerto dessa denominação e preferem considerá-los somente como contingentes diferenciados, variedades do Homo sapiens. Será preciso, antes de tudo, levar em conta a definição de espécie: conjunto de indivíduos muito semelhantes entre si e aos ancestrais, que se cruzam e produzem descendentes férteis. Não nos cabe refazer a trajetória de todos os contingentes de nossos antepassados, mas somente assinalar que um deles dominou todos os outros e acabou se transformando no Homo sapiens sapiens, que se espalhou ainda mais pela Terra. Não é nosso propósito discorrer sobre antropologia, mas apenas oferecer termos de comparação para avaliar segmentos do espaço e do tempo relativos à espécie que acabou chegando à atualidade, com peculiaridades que hoje caracterizam o chamado homem moderno, com suas múltiplas variedades e cruzamentos raciais. Os cientistas supõem que uma agricultura rudimentar já seria praticada entre 15 e 10 mil anos atrás, quando o homem enterrava grãos e raízes, via as plantas crescerem e depois de alguns meses colhia muito mais do que havia plantado. Entre 15 e 10 mil anos atrás teriam surgido estruturas socioeconômicas rudimentares na ilha de Creta, nas costas gregas e nas margens orientais do Mediterrâneo. Também na Índia e na China os seres humanos cederam à tendência de se reunirem e se organizarem. Na América e na Oceania, os antropólogos assinalam a presença do homem há cerca de 12 mil anos. É preciso levar em conta não somente os vestígios de passagens e as ocupações ocasionais, mas antes de tudo as fixações permanentes de grupos mais numerosos, com hierarquias bem definidas, além de atividades econômicas e culturais próprias. Há cerca de 6 mil anos, entre os rios Tigre e Eufrates, bem como no vale do Rio Nilo, graças à água e ao calor essenciais, formaram-se algumas dessas primeiras sociedades. Depois de 3 mil anos essas antigas concentrações humanas já tinham mudado muito. A civilização egípcia estava decadente e os faraós da vigésima dinastia não conseguiam governar o país. Na Mesopotâmia e regiões limítrofes os povos disputavam a supremacia e ambicionavam o domínio do centro comercial e cultural mais importante de então, a cidade da Babilônia, dominada finalmente pelos assírios. Os hebreus estabeleceram o regime monárquico e o rei Saul passou a governá-los. Os chineses expandiram-se pela Ásia sob a dinastia Tchen, tribos arianas ocuparam a foz e as margens do Rio Ganges. Há evidências de que os maias dominavam a península de Iucatán. 17
  15. 15. Há 2 mil anos, início da Era Cristã, muitas regiões, nos cinco continentes, estavam ocupadas e algumas civilizações sobressaíam, tendo como pontos de referência cidades que até hoje existem, como Roma, Jerusalém, Atenas, Alexandria, Constantinopla (atual Istambul), e outras. Como ocorreu com a maioria dos contingentes do Homo sapiens, no transcorrer dos últimos 100 mil anos, essas civilizações, em todos os continentes, surgiram, evoluíram, algumas decaíram e desapareceram, outras fortaleceram-se e subsistiram. Como ficou claro desde o início deste capítulo, não ousamos discorrer sobre antropologia e história. Este não é um compêndio científico, apenas uma tentativa de ordenar os acontecimentos e de oferecer uma interpretação pessoal. Buscamos a dimensão real do tempo para nele inserir a irrisória Era Industrial de 200 anos (1800 a 2000), que insistimos em chamar também de era do carbono, durante a qual o homem passou a restituir para a atmosfera esse elemento essencial que à custa da fotossíntese acumulou-se no subsolo da Terra sob a forma de carvão, petróleo e gás natural. Desde que o homem começou a cultivar regularmente o solo, há cerca de 10 mil anos, ele se preocupou 10 mil vezes com a alternância anual de períodos secos e chuvosos que condicionaram suas colheitas, ano após ano. Nada menos de 100 vezes ele foi dormir num século para acordar no século seguinte, passando uma noite como outra qualquer. Virou de um milênio a outro 10 vezes e tudo transcorreu normalmente. Apresentamos comparativamente os números para que a realidade temporal fique ao nosso alcance, compartimentando as parcelas que tentamos destacar. Em número de anos: Big Bang............................................................................15 bilhões Formação do Sistema Solar...............................................5 bilhões Aparecimento da vida na Terra.........................................3 bilhões Aparecimento do nosso primeiro ancestral....................5 milhões Aparecimento do Homo sapiens ...........................................100 mil Início da atividade agrícola....................................................10 mil Primeiras civilizações, Egito e Mesopotâmia...........................6 mil Era Cristã..................................................................................2 mil Era Industrial.............................................................................200 Fica evidente que o período de tempo correspondente à nossa espécie não passa de um segmento infinitamente pequeno na ordem das coisas. 18
  16. 16. Posto isso, desejamos finalizar este primeiro capítulo com uma proposição ousada. Não há de nossa parte racismo, discriminação religiosa, prevenções contra etnias e suas culturas. Desde que os nossos ancestrais deixaram o berço africano e se espalharam pelo mundo, foram se diferenciando, aqui e ali, em subespécies (ou contingentes diferenciados, ou variedades), sempre com as modificações sedimentadas no decorrer de milênios. Alguns desses grupos se fortaleceram e se tornaram numerosos, graças às condições favoráveis encontradas nos ecossistemas onde se estabeleceram: raízes e folhas comestíveis em abundância, caça e pesca mais fáceis, ausência de predadores, melhores abrigos, facilidade para acender e conservar o fogo. Os grupos mais fortes que o acaso privilegiou subsistiram, enquanto os mais fracos desapareceram. Grupos mais fortes exterminaram grupos mais fracos, pois ainda predominava o impulso instintivo da hegemonia grupal. Saltemos os milênios até a época de hoje. Os ecossistemas sofreram profundas modificações. O essencial para a sobrevivência do homem moderno passou a incluir alimento, abrigo, organização política e administrativa, capacidade de defesa, bem como outros elementos essenciais à vida, como disponibilidade de energia, acesso à cultura, embasamento científico e tecnológico, desenvolvimento industrial e agrícola para gerar empregos. Talvez haja no mundo atual privilégios e desprivilégios que, em um passado longínquo, determinaram o fortalecimento de alguns contingentes humanos e a desvitalização de outros. Faltam-nos séculos para que isso se faça nítido na sociedade humana e multiplicam-se hoje complicadores que não existiam antes, como a moral e a ética inscritas nos nossos códigos de direito, nacionais e internacionais, bem como poderosos preceitos religiosos, determinismos culturais, domínios econômicos. Mas é possível distinguir tênues esboços de contingentes mais fortes que estão sobressaindo para, no futuro, dominarem e reduzirem os contingentes mais fracos. Seria algo assim como a seleção natural da qual o homem não pode inexoravelmente escapar, feita não à custa de benefícios alimentares, da ausência de predadores, da disponibilidade de um machado de pedra melhor, mas sim à custa dos avanços da ciência e da tecnologia, da eficiência das armas guiadas por satélites e raios laser, da imposição econômica feita pelos que dispõem de capitais para investir e de instituições bancárias internacionais capazes de ditar regras de submissão. A eliminação de alguns grupos, que chamaremos por analogia de contingentes desprivilegiados do século XXI, não se dará pela eliminação biológica dos seus integrantes, mas sim pelo aniquilamento socioeconômico dos mais fracos. 19
  17. 17. No transcorrer dos próximos 100 anos, talvez venhamos a assistir com mais nitidez a definição do contingente privilegiado que sobressairá e dos contingentes desprivilegiados que se marginalizarão, em parte atrasandose irremediavelmente, em parte aniquilando-se pela subnutrição e pela disseminação de moléstias. Desde já é preciso acentuar que o número dos desprivilegiados (cerca de 70% de 6 bilhões) aumenta 2,5% ao ano, ao passo que o número dos privilegiados (cerca de 30% de 6 bilhões) aumenta quando muito 1,5% ao ano. Alguns contingentes privilegiados até diminuem. Haverá no século XXI aumento da pressão demográfica, que degenerará em invasões dos países desenvolvidos (privilegiados) pelos povos dos países subdesenvolvidos (desprivilegiados). Mas deve-se considerar a existência dos mencionados complicadores que poderão provocar algo assim como uma singularidade na trajetória da espécie humana e da vida na Terra. O homem moderno, soma de um contingente privilegiado dominante com vários contingentes desprivilegiados condenados à submissão, pode desaparecer completamente se um único detentor de poder (e é aí que se evidencia a singularidade) ordenar o início de um conflito nuclear ou de uma guerra bacteriológica que apague a centelha de vida aqui surgida há cerca de 3 bilhões de anos. 20
  18. 18. CAPÍTULO 2 Avaliação de um segmento do passado próximo, a Era Industrial, para que seja possível chegar mais perto daquilo que somos, considerada a ordem infinita das coisas. A primeira metade desse período começou em 1800, com a invenção da máquina a vapor, e praticamente terminou em 1900, pouco antes de se inventar o motor a explosão e se iniciar a construção em série do automóvel. Há cerca de 500 anos, duas nações representativas da sociedade dos homens, Portugal e Espanha, deliberaram que a elas convinha enfrentar o desconhecido e estabelecer novas rotas comerciais para o Oriente. Acabaram por conhecer as verdadeiras dimensões da Terra. Cristóvão Colombo descobriu a América, Vasco da Gama contornou a África e chegou à Índia, Pedro Álvares Cabral desembarcou em terras do Brasil, Fernão de Magalhães revelou que era possível dar a volta ao mundo. A energia dos ventos enfunou as velas dos barcos destes audaciosos descobridores. Apenas 269 anos depois, a pressão do vapor d’água gerava na Inglaterra a energia mecânica necessária para mover teares e acionar bombas que esgotavam água acumulada no fundo das minas de carvão. Iniciava-se a Era Industrial, o período mais significativo para a espécie humana e certamente o mais prejudicial à Terra. Os seus dois séculos (de 1800 a 2000) foram intrigantemente decisivos, para o bem ou para o mal. Neles o homem construiu toda a sua estrutura socioeconômica, preponderantemente com base na produção e no uso da energia obtida pela extração e queima de combustíveis fósseis – carvão, petróleo e gás natural – e de seus derivados obtidos por destilação fracionada: gasolina, querosene, óleo diesel e óleo combustível. Em 1769, o inventor inglês James Watt (1736-1819) havia concebido o aproveitamento da pressão do vapor d’água para movimentar bombas e teares. Foi à custa dessa descoberta que, em 1800, trafegou a primeira carruagem movida a vapor entre Londres e Plymouth, na Inglaterra. Alguns anos depois, em 1807, o norte-americano Robert Fulton (1765-1815) estabeleceu a primeira linha de barcos fluviais a vapor entre Nova York e Albany, nos Estados Unidos. George Stephenson (1781-1848) inaugurou em 1830 a 21
  19. 19. primeira estrada de ferro entre Londres e Liverpool. Logo depois, os primeiros barcos movidos a vapor e a vela atravessaram o Atlântico, ligando Liverpool a Nova York. No Brasil, em 1834, Irineu Evangelista de Souza (1813-1889) inaugurou a primeira linha férrea, ligando o Rio de Janeiro a Petrópolis. Durante todo o século XIX aperfeiçoaram-se as máquinas a vapor, que impulsionaram os transportes e a industrialização. Ciência e tecnologia evoluíram rapidamente também em outros campos, aproveitando alguns importantes avanços do passado: o alemão Johann Gutenberg (1398-1468) havia aperfeiçoado as composições com tipos móveis feitos usando uma liga de chumbo, estanho e antimônio, além de aprimorar a prensa e a tinta de impressão, de tal forma a difundir os livros e os folhetos. Em 1656, o astrônomo holandês Christian Huygens (1629-1695) havia inventado o relógio de pêndulo. Em 1674, Antoine van Leenwenhoek esmerilhou vidro claro, obteve uma superfície curva e percebeu que com ela podia ver as coisas aumentadas. Foi o início dos microscópios e telescópios. Em 1795, o cervejeiro francês Nicolas Appert descobriu que poderia conservar por mais tempo os alimentos fechando-os hermeticamente em potes de barro e depois fervendo-os. Em 1796, o médico inglês Edward Jenner (1749-1823) já tinha iniciado a vacinação contra a varíola, depois de observar que os ordenhadores de vacas atacadas por essa doença adquiriam imunidade contra ela. Feito esse rescaldo científico e tecnológico do passado é possível voltar ao início do século XIX, quando começou a Era Industrial (1800 a 2000). Em 1831, o cientista inglês Michael Faraday (1791-1867) descobriu que o movimento de um ímã no interior de uma bobina gerava nos fios desta uma corrente elétrica, na verdade um fluxo ordenado de elétrons. O homem conseguiu assim transformar energia mecânica em energia elétrica. Nos anos seguintes, a descoberta foi aperfeiçoada na Europa e nos Estados Unidos. Construíram-se equipamentos de grande porte que reproduziam em proporção maior e mais sofisticada a descoberta de Faraday. Surgiram os geradores (dínamo, turbina de hidrelétrica, turbina de termelétrica), descobriu-se a transmissão da eletricidade por cabos e fios, bem como a reconversão desta energia elétrica em energia mecânica nos motores. Este foi um dos maiores avanços da ciência e da tecnologia ocorridos entre 1840 e 1890, responsável pelo grande desenvolvimento socioeconômico da sociedade humana e pela ocorrência de muitas outras descobertas importantes. Em 1833, foram lançados à venda para o público, nos Estados Unidos, os primeiros jornais diários, impressos em máquinas planas. No final do século XIX, as tiragens foram muito aumentadas, pois foi possível imprimir usando máquinas rotativas. Em 1844, o norte-americano Samuel Morse (1791-1872) acionou o primeiro aparelho para transmitir mensagens usando seqüências organizadas de pontos e traços: estava inventado o telégrafo sem fio. A primeira transmissão foi feita entre Washington e Baltimore, nos Estados Unidos. 22
  20. 20. A verticalização das grandes cidades foi possível graças a um invento que recebeu o nome de elevador. Em 1854, o norte-americano Elisha Graves Otis (1811-1861) fez uma demonstração pública do seu gabinete que subia e descia movido a eletricidade. Essas e outras máquinas somente puderam ser construídas porque estava disponível no mercado um material de grande resistência, o aço, obtido em 1854 pelo inglês Henry Bessemer (1813-1898). Para fabricá-lo, ele injetou oxigênio em ferro derretido para eliminar o excesso de carbono. Na mesma época, nos Estados Unidos, William Kelly já produzia e comercializava o metal assim obtido, oferecendo no mercado trilhos, rodas e vigas de aço. Havia grande procura de querosene para iluminação em 1859, razão pela qual o norte-americano Edwin Drake empenhou-se no aperfeiçoamento de uma bomba para tirar petróleo de jazidas existentes no subsolo na Pensilvânia, Estados Unidos. Um empreendedor chamado John D. Rockefeller (1839-1937) tinha o mesmo objetivo e maior capacidade empresarial. Entrou no negócio, ampliou-o e fundou a Standard Oil Trust, que passou a explorar a extração, o refino e a venda de petróleo. No final do século XIX foi inventado o motor a explosão para automóveis, movido a gasolina, outro subproduto do petróleo. A demanda foi às nuvens e com ela a fortuna de Rockefeller e de todos os que exploravam petróleo. A conservação de alimentos pelo frio começou a ser feita em 1834, quando Jacob Perkins, radicado em Londres, inventou um compressor e o utilizou de maneira engenhosa: um fluido (no início éter) evaporava e para isso absorvia calor de um recipiente fechado. Era depois levado por um duto para fora desse recipiente, onde um compressor o comprimia fazendo com que o fluido dissipasse o calor trazido de dentro do recipiente. Foi assim inventada a geladeira e a câmara frigorífica. Em 1902, com base no mesmo princípio termodinâmico, o norte-americano Willis Carrier produziu o primeiro aparelho de ar refrigerado. Em 1851, o imigrante alemão radicado nos Estados Unidos Isaac Merritt Singer (1811-1875) mudou os hábitos tradicionais de costurar manualmente e deu um grande impulso às indústrias de roupas. Ele aperfeiçoou e colocou à venda, em prestações suaves, uma máquina de costura que anos antes tinha sido inventada pelo alfaiate parisiense Barthélemy Timonnier. A máquina Singer chegava a dar 200 pontos por minuto, quando a melhor costureira manual não passava dos 30. As ciências humanas deram um grande passo à frente quando Charles Darwin (1809-1882) publicou, em 1859, a sua obra A origem das espécies, na qual demonstrava que os organismos vivos sofrem mutações que permitem adaptações ao meio ambiente e às condições de vida. Essas adaptações tornam-se hereditárias. Assim evoluíram todas as espécies, as que se adaptaram sobreviveram, as que não se adaptaram se extinguiram. 23
  21. 21. Em 1864, Louis Pasteur (1822-1895), cientista francês, observou a existência de microrganismos em todos os lugares, inclusive no ar. Identificou micróbios que provocam a fermentação e as doenças. Inventou a pasteurização, que consiste na eliminação desses microrganismos pela fervura em ambiente fechado ou pela brusca alternância da temperatura do produto. O cientista alemão Robert Kock (1843-1910) mostrou, em 1876, que microrganismos específicos provocam moléstias determinadas. O bacilo de Kock, por exemplo, é o causador da tuberculose. Pasteur e Kock foram os pioneiros da microbiologia, da assepsia e da cura de muitas moléstias infecciosas. O monge austríaco Gregor Mendel (1822-1884) divulgou em 1866 seus estudos sobre a possibilidade de reproduzir as características de uma espécie pelo cruzamento daquelas que as tivessem. Estabeleceu assim as leis básicas da hereditariedade. Sua obra, redescoberta em 1900, serviu de base para que a moderna agricultura selecionasse espécies mais produtivas. Em 1960, o agrônomo Norman Borlang criou uma espécie de arroz de alta produtividade que salvou da morte pela fome milhões de pessoas na Ásia. Foi a chamada Revolução Verde. Hoje, essa seleção pode ser substituída pelas modificações genéticas nas células das plantas, aceitas por uns, abominadas por outros. A ciência dará a última palavra neste final de século XX. Grandes obras, que exigiram a remoção de grandes volumes de terra e pedra, puderam ser realizadas porque Alfred Nobel (1833-1896), químico e industrial sueco, inventou a dinamite, em 1867. Ele atenuou a volatilidade e risco de explosão da nitroglicerina embebendo com ela areia absorvente, que recebeu o nome de dinamite e explode com o deflagrar de uma espoleta. Ao custo de milhares de vidas e de fabulosa soma de dinheiro, foi inaugurado em 1869 o canal de Suez, com 160 quilômetros, que encurtou em 10 mil quilômetros a viagem da Europa para o Oriente. O inventor escocês Alexandre Graham Bell (1847-1922) completou a primeira ligação telefônica em 1876. Ele havia descoberto que vibrações do som numa membrana se transformavam em ondas eletromagnéticas que podiam ser transmitidas por um fio até uma outra membrana que reproduzia os impulsos recebidos. Em 1877, o inventor norte-americano Thomas Alva Edison (1847-1931) ofereceu à venda uma das suas primeiras criações, o fonógrafo, produto da extraordinária fábrica de invenções que esse cientista e técnico instalou, com uma equipe de notáveis colaboradores. Esse aparelho reproduzia vibrações gravadas num cilindro sensível a elas. Em 1879, esses precursores testaram um filamento que no vácuo e pela ação da eletricidade ficava incandescente: estava inventada a lâmpada elétrica. 24
  22. 22. O seguro social contra a doença e velhice foi instituído pela primeira vez em 1880, na Alemanha, por Otto Bismarck (1815-1898). Na década seguinte, a Inglaterra aprovou uma política de habitação para amparar os pobres. A lei de seguridade social, aprovada nos Estados Unidos em 1935, inspirou políticas semelhantes em vários países do mundo. O primeiro sinal de rádio emitido por ondas eletromagnéticas foi transmitido por Guglielmo Marconi (1874-1937), em 1895, na Itália, entre um transmissor e um receptor separados por apenas 2,5 quilômetros. Em 1901, suas transmissões de rádio já atravessavam o Atlântico, da Inglaterra para os Estados Unidos, vencendo uma distância de 3.500 quilômetros. Mais uma invenção conseguida à custa da eletricidade descoberta por Faraday. Os raios X, de grande importância para a medicina, foram descobertos em 1895 pelo físico alemão Wilhelm Röentgen (1845-1923). Usando uma emissão radioativa ele conseguiu sensibilizar uma chapa fotográfica colocada atrás do corpo humano que pretendia radiografar. Os tecidos apresentam diferentes permeabilidades às emissões radioativas, por isso é possível observá-los. No final do século XX, algumas inovações tecnológicas reduziram os riscos às exposições aos raios X, entre elas a ressonância magnética e a tomografia computadorizada, abrindo novas perspectivas para observar o interior do corpo humano. O primeiro automóvel, surgido em meados do século XIX, era triciclo e movido a vapor, mas em 1893 o norte-americano Henry Ford (1863-1947) construiu esse veículo com quatro rodas e impulsionado por motor a explosão que consumia gasolina. Mais ainda. Esse pioneiro inaugurou, logo no início do século XX, uma linha de montagem que disciplinava as tarefas e permitia que se construíssem automóveis com maior rapidez e a um custo menor. Outras indústrias automotivas surgiram nos Estados Unidos e na Europa, as carruagens puxadas a cavalos rapidamente cederam lugar aos veículos movidos a motor de gasolina. Surgiram também os motores simples e econômicos que utilizavam óleo diesel, graças ao que o uso de caminhões e de coletivos se generalizou. Fortaleceram-se as empresas que extraíam petróleo, destilavam-no e comercializavam seus subprodutos, principalmente gasolina e óleo diesel. O residual óleo combustível passou a ser queimado em caldeiras para produzir vapor, movimentar geradores e produzir eletricidade. O petróleo passou a ser, então, um dos mais importantes componentes comerciais, industriais e políticos do mundo. A espécie humana, que no século XIX já cavava freneticamente o solo para extrair carvão e dele aproveitar a energia remanescente do Sol, a partir do início do século XX passou a perfurar o solo para ir buscar nas suas profundezas também o petróleo, igualmente depositário de energia solar fixada à custa da clorofila e da fotossíntese, no decorrer de milênios, em passado remoto. 25
  23. 23. O automóvel a gasolina e a extração do petróleo constituem um marco que divide ao meio a Era Industrial. Na primeira metade, em apenas 100 anos (1800 a 1900), duas ou três gerações da espécie humana desencadearam um guloso processo de extração e queima de carvão, que acarretou a restituição para a atmosfera da Terra de muitos bilhões de toneladas de carbono acumulados no subsolo durante o longo período carbonífero de 50 milhões de anos, que transcorreu 250 milhões de anos atrás. Encerrando a trajetória científica e tecnológica do homem moderno nos primeiros 100 anos da Era Industrial, cabe acentuar que todos os avanços foram alcançados graças à livre iniciativa de indivíduos privilegiados intelectualmente, dotados de espírito de luta, de amor ao trabalho e de invulgar determinação. Aos poderes governamentais coube somente a tarefa de preservar a liberdade de criar e comercializar o fruto do engenho humano. 26
  24. 24. CAPÍTULO 3 Pausa na passagem da primeira para a segunda metade da Era Industrial, no entorno do ano 1900. Recuamos no tempo para saber o que Nostradamus previu há 400 anos. Transcrevemos a única saudação ao novo século publicada no Brasil no dia 1º de janeiro de 1901, ilustrando-a com os reclames da época. A chegada do ano 2000 (o último do século XX) e o início do século XXI e do terceiro milênio (em 1 de janeiro de 2001) excitarão a mente dos mais de 6 bilhões de seres humanos que habitam a Terra (a população chegou a 6 bilhões em outubro de 1999), embora somente cerca de um terço dessa população aceite o calendário da Era Cristã. Haverá muita emoção na noite de 31 de dezembro de 1999, como também na noite de 31 de dezembro do ano 2000. A mídia acompanhará essas passagens e delas se beneficiará. Ocorrerão transtornos decorrentes de extremismos dúbios provocados por excitações de natureza religiosa e mística. Alguns praticarão atos tresloucados acreditando nas profecias que prevêem o fim do mundo provocado por uma tragédia apocalíptica, outros estarão propensos a admitir que novos tempos, com novas posturas morais e éticas, se iniciarão, outros ainda talvez esperem a ressurreição dos mortos e a chegada de um messias. Poucos se conformarão com a nossa pequenez, com a dimensão pobre do marco temporal por nós erigido entre os séculos XX e XXI, diferente daquele outro distante apenas 100 anos que separou o século XIX do século XX. Não nos será possível recuar muito no tempo para saber como foram as dezenove passagens de século já ocorridas nos 2.000 anos da Era Cristã. Johann Gutenberg concebeu o uso de tipos móveis de metal para facilitar a impressão de livros e panfletos somente por volta de 1438. O advento da imprensa com grandes tiragens, usando máquinas rotativas, começou nos Estados Unidos e na Europa no final do século XIX (o jornal O Estado de S. Paulo de 1 d e janeiro de 1901 foi impresso em uma máquina rotativa Marinoni, como se verá adiante). A popularização do rádio ocorreu na década de 30, a televisão 27
  25. 25. difundiu-se a partir da década de 50, a Internet surgiu na década de 90. Portanto, a chegada de um ano emocionalmente marcado, a passagem de um século para outro, de um para outro milênio da Era Cristã, somente serão consideradas como acontecimentos invulgares no final do século XX. É preciso desmistificá-las. Antes do advento da comunicação de massa, ocorrido nas últimas décadas deste século, a passagem de um ano para outro, o fim de um século e o começo do seguinte, a virada do milênio não chegavam a despertar expectativas e as elocubrações de hoje. Os dias e as noites transcorreram como outros quaisquer. Mas desde longínquo passado astrólogos, religiosos, videntes, cartomantes e adivinhos fizeram previsões do futuro. O mais conhecido, entre todos, é o médico francês Michel de Nostradame (1503-1566), conhecido como Nostradamus, cujas profecias são até hoje lembradas por ter encontrado apoio entre os editores da época, que obtiveram bons lucros imprimindo e vendendo muitos trabalhos de suas diferentes especialidades: ele foi médico, profeta, astrólogo, herbanário, fabricante de cosméticos e de conservas de frutas. Sua obra, muito vasta, talvez tenha sido ampliada pelos editores seus contemporâneos e pelos que passaram a ganhar dinheiro reeditando-a e comentando-a como bem entenderam depois de sua morte, no decorrer dos séculos XVII, XVIII, XIX e XX. Sobrevida de quatro séculos, portanto uma confirmação de que a mente humana busca avidamente antever o futuro. Edições recentes das previsões atribuídas a Nostradamus, com interpretações tão livres quanto menos confiáveis, percorrem o longo período que se estende de 1544 até este final do século XX. Transcrevemos os acontecimentos previstos por Nostradamus, segundo interpretação feita pelo autor John Hogue dos seus versos, propositadamente dúbios (Nostradamus e o milênio, Editora Nova Fronteira, edição de 1980): 1989: “Aliança Rússia-Estados Unidos. Apesar de não fornecer data precisa, Nostradamus diz claramente que este acordo acontecerá. Um método um tanto quanto nebuloso, o número de versos indica que a aliança acontecerá em 1989”. Setembro de 1993: “A grande peste. O profeta traz alguns detalhes sobre uma grande praga que atingirá o homem e se refere a isso como sendo praga de sangue e sêmen. É difícil contestar estas referências, as quais se aplicam com propriedade à relativamente nova Síndrome de Imunodeficiência Adquirida. Segundo Nostradamus, esta praga, a aids, infectará metade do mundo até a metade da década de 90”. Meados dos anos 90: “Grandes terremotos atingem a Terra. Nostradamus nos alerta sobre vários tremores que atingem a Terra de forma determinada. Parte deles começa na metade dos anos 90, a partir da costa oeste da Índia, e cresce na direção oeste dos Estados Unidos. A África Oriental se dividirá em três partes e Nova York e a Flórida serão inundadas”. 28
  26. 26. 1995-1999: Rompimento da aliança União Soviética-Estados Unidos. A aliança entre as duas superpotências não dura muito e provavelmente acaba durante os últimos anos da terceira guerra mundial”. 1997: “Nova York sofre um ataque nuclear”. Julho de 1999: “Última conflagração. Nostradamus localiza o holocausto no último mês de 1999. Isto será o ápice da guerra de 27 anos que levará à destruição final do mundo civilizado”. Páscoa do ano 2000: “Inundação da Inglaterra. Na Páscoa do ano 2000, a Inglaterra, ou pelo menos a região sul desse país, afundará no mar”. 2026-4000: “Era de Aquário. Mil anos de paz. O profeta prediz mil anos de paz, quando o homem passa a fazer parte da comunidade galáctica e atinge uma consciência mais elevada, fundindo ciência e religião. Ele nos adverte, porém, para a possibilidade de acumularmos muito conhecimento e de, no final desse período, passarmos a manipular os outros, egoisticamente”. 4000-6000: “Era de Capricórnio. Fase final da Terra. Em suas predições, Nostradamus vê o homem de duas maneiras: destruindo tudo ou transcendendo o plano material. No 27 século depois de Cristo, este tema influenciará o declínio da Era de Aquário. No ano de 3755, haverá grandes chuvas de meteoros. E, no prefácio a seu filho Caesar, Nostradamus diz que, no ano de 3797, a Terra finalmente terá fim”. 6000-8000: “Era de Sagitário. A Era da Verdade. Nostradamus diz que, em última análise, a raça humana sobreviverá à conflagração do Planeta Terra. Ele afirma que colonizaremos o espaço e nos espalharemos pelo universo”. Não nos será possível conhecer o comportamento dos seres humanos nas passagens de século ocorridas quando os meios de comunicação eram precários. Tampouco poderemos saber como transcorreu a virada do primeiro para o segundo milênio, na noite de 31 de dezembro do ano 1001. A possibilidade de comunicação instantânea para todos os quadrantes do mundo, via jornais, rádios, televisões e Internet, permite prever que a mídia fabricará chegadas retumbantes do ano 2000, em 31 de dezembro de 1999, e do século XXI, na noite de 31 de dezembro de 2000. Nada semelhante ocorreu no passado, como nos mostra a escassa documentação disponível. Não houve um cabalístico ano 1900, como é possível verificar folheando edições do jornal O Estado de S. Paulo próximas a essa data. Na edição de 31 de dezembro de 1900, último dia do século XIX, não há referência alguma ao evento. Somente na edição de 1 de janeiro de 1901, passagem do século XIX para o século XX, o jornal se manifestou sobre o assunto, publicando na primeira página extensa matéria intitulada “Um seculo” (sic), que transcrevemos na íntegra, respeitando a ortografia da época e pequenos senões de natureza gráfica. Reproduzimos também, dessa mesma edição, alguns reclames e informações que nos ajudam a avaliar a sociedade dos homens há 100 anos. 29
  27. 27. O ESTADO DE S. PAULO UM SECULO Hontem, ao dobre da meia-noite, morreu o seculo XIX. São do seculo XX as primeiras claridades e os primeiros rumores do dia de hoje. Um dia perfeitamente como os outros. No mundo exterior, todas as coisas se nos apresentam com o mesmo aspecto, que hontem tinham, e na mesma ordem, em que hontem as deixámos : o mesmo sol no mesmo céo, sob o mesmo céo o mesmo espaço, sob o mesmo espaço a mesma terra. Tambem não há mudança alguma no mundo interior : erguemo-nos com as mesmas idéas, os mesmos sentimentos, os mesmos cuidados e as mesmas esperanças com que nos deitámos . . . Entretanto, não ha ninguem que, por momentos ao menos, não se deixe illudir e não julgue que é real a imaginaria divisão do tempo imposta pelo calendario que nos rege : “ deve haver um abysmo entre a noite de hontem e a manhan de hoje ! ” E, ao abrir os olhos do corpo e os do espirito, neste 1.º de janeiro, que só de cem em cem annos se repete, quem se libertará desse instinctivo movimento de amargo espanto que nos assalta quando nos falta, quando não vemos o que esperavamos ? . . . Entra nisso muito da immensa e inexgottavel vaidade humana, que por qualquer ninharia se enfeita, se alvoroça e incha. Poucas gerações assistem á passagem de um seculo para outro seculo... E’ espectaculo de predestinados... E aqui estamos nós, impando, quasi a estoirar de soberba, revestindo a nudez diaphana de uma ficção com as roupagens mais vistosas, que a nossa phantasia inflammada póde sonhar, e assistindo, no auge do orgulho e do desvanecimento, a um facto para o qual não concorreu a minima quantidade do nosso esforço e que, se existe, existe tanto para nós quanto para o infimo vérme da creação ! *** Façamos, todavia, como toda a gente. O dia de hoje é da maxima solennidade. A terra como que suspende, por um instante, o seu giro surdo e invisivel, mas real e eterno, entre as myriades sem conta dos astros flammejantes. A’ parada do planeta corresponde a dos que o habitam : a humanidade como que suspende tambem a sua marcha através das edades. Ashavero tem emfim mais um minuto de repouso. Aproveitemol-o, e, como é de praxe até quando um misero anno expira e outro nasce, tentemos dar um grande balanço na nossa vida. Qual é o legado do seculo que morreu ao dobre da meia-noite de hontem ? Que nos annunciam as primeiras claridades e os 30
  28. 28. Uma farta e bella cabelleira é a corôa digna da belleza - A barba e os cabellos dão ao homem aspecto de belleza, de força e de intelligencia A AGUA QUININA - MIGONE, preparada com systema especcial e com materias de primeira qualidade, possue as melhores virtudes therapeuticas, as quaes são um possante e tenaz regenerador do systema capillar. É um liquido refrigerante, limpido e inteiramente composto de substancias vegetaes. Não transforma a côr dos cabellos, e impede a sua quéda prematura. Tem dado resultados immediatos e satisfactorios, mesmo quando a quéda dos cabellos é diaria e abundante. E vós, mães de familia, Usae a Agua Quinina-Migone durante a adolescencia dos vossos filhos, fazei uso continuo e lhes garantireis, assim, uma abundante cabelleira. PREPARADO ESPECIAL DE MIGONE & COMPANHIA Rua Turim n. 12 - MILÃO Deposito na casa A. MORELLI - Largo de S. Bento, 3. - S. PAULO - EMPORIO UNIVERSAL primeiros rumores desta madrugada ? O seculo XIX concluiu alguma tarefa ? Como poderemos definil-a ? O seculo XX começa com algum programma ? Se começa, como o havemos de lêr ? A humanidade progride ? Não ? . . . Perguntas formidaveis. Tão altas e tão profundas que não ahi sabio tão sabio que as possa resolver satisfactoriamente, seja qual fôr a sua força de synthetisar. Tão complexas que um erudito bem erudito precisaria de todos os ponderosos volumes de uma encyclopédia só para destrinçal-as e classifical-as. Não commetteremos a insania de nos medirmos peito a peito com ellas nesta pagina leve e ephemera de jornal. A penna de um jornalista é alavanca ridiculamente fragil para remover montanhas desta estatura e foice demasiadamente céga para desbastar florestas tão cerradas e exuberantes. Contentes ficaremos se conseguirmos despertar no espirito de quem nos lê a vontade de saber mais do que sabemos. *** E a primeira difficuldade com que tropeçamos está no calendario que nos rege. A bem dizer, o seculo XIX não começou em 1 de janeiro de 1801. Quem tiver de fixar a sua origem mais proxima tem de recuar, queira ou não queira, até 1789. Bem sabemos que já caiu em desuso a paixão romantica por aquella data, grande, luminosa, inextinguivel. 31
  29. 29. FARINHA LACTEA NESTLÉ PARIS 16, Rue du Parc-Royal Acha-se ALIMENTO COMPLETO PARA AS CRIANÇAS LONDON no Brazil PRESTANDO OS SERVIÇOS MAIORES NOS PAIZES QUENTES 48, Cannon Street. E, C. em todas as POR ATACADO Pharmacias Hoje, a moda, espalhada no mundo pelo forte egoismo dos inglezes e dos allemães, e pelo snobismo elegante e morbido dos francezes, manda odiar 93 e desdenhar 89. Porém, nós não nos curvamos á moda, ainda que não desconheçamos quanto a Allemanha e a Inglaterra contribuiram para aquelle acontecimento culminante dos tempos modernos. E’ certo que a nativa e indomavel independencia do pensamento allemão, e que a energia do bom senso e da dignidade ingleza, já se tinham revoltado efficazmente contra o claro despotismo material e moral em que se havia resolvido e concretisado o sombrio e esparso feudalismo da Edade Média. Mas as liberdades politicas da Inglaterra ainda não tinham atravessado o canal da Mancha, senão para se reproduzirem, transformadas e ainda vacillantes, na America do Norte, e o pensamento da Allemanha ainda não irradiara, com a sua altivez, nem mesmo para os paizes que lhe ficavam mais proximos. Foi á quéda da Bastilha (deixem passar sem protestos mais esta superstição) que o odioso mundo de outr’ora tremeu e cambaleou nos seus alicerces seculares. (E realmente é bom não protestar, porque se fôrmos andando para traz, de protesto em protesto, nem na Roma antiga nos deteremos. A civilisação grega é anterior á romana e está demonstrado que a historia é uma cadêa de factos, cujos fusis de bronze imperecivel se prendem logicamente uns aos outros). Detenhamonos, pois, em 1789, e saudemos nesse anno para sempre memoravel a fonte mais evidente e mais abundante dos males e dos bens, que os seculo XIX nos trouxe e nos deixou. Mais bens do que males ? Mais males do que bens ? *** Em 1801, a America iniciava apenas a sua existencia de continente livre com a recente victoria dos bravos soldados de Washington. O resto vivia sob o jugo dos hespanhóes e dos portuguezes. A Asia era um vasto e longinquo deposito de mercadorias preciosas, e pouco mais. Sabia-se vagamente que, ao norte, havia monotonas solidões de gêlo e que, no centro e ao sul, por traz de enormes muralhas, formigavam cidades de gente feia e immunda, sob pavilhões e minaretes de perfil bizarro. Da Africa conhecia-se o Egypto, e a Oceania perpassava, raras vezes, pela imaginação dos estudiosos como um enxame de ilhas sem valor, quasi inaccessiveis. Em 1801, o universo era a Europa – e a Europa, cujo céo de fogo e fumo repercutia em todos os horisontes o grito dos soldados francezes fascinados pela estrella de Bonaparte, a Europa era – a guerra. Apenas a Inglaterra, isolada e agachada em sua ilha, protegida pelo seu mar e superiormente dirigida pelo genio dos seus estadistas, apenas a Inglaterra ia pouco a pouco se enchendo de dinheiro, que as mil sanguesugas do seu commercio paciente e habilmente extraiam dos mais distantes reconcavos dos mares sem termo. 32
  30. 30. La Ligure-Brasiliana SOCIETA ANONYMA DI NAVIGAZIONE O paquete Esperado em Santos até o dia 22 de janeiro, saira depois da indispensavel demora, para Rio de Janeiro, Genova e Napoles acceitando passageiros para Marselha e Barcelona, com trasbordo em Genova. Este paquete possúe esplendidas accommodações para passageiros da classe distincta e 3ª classe. Viagem rapidissima Para passagens e mais informações tracta-se com os agentes EM S. PAULO - BRICCOLA & COMP., rua Quinze de Novembro, 30 EM SANTOS - A. FIORITA & COMP., rua Visconde do Rio Branco, 10 33
  31. 31. Em 1900, que esplendida e indescriptivel transformação ! Hoje, póde-se dizer, não há terra americana presa como escrava á exploração insaciavel de metropole européa. As colonias hespanholas e a portugueza seguiram logo o exemplo dos seus irmãos do norte e constituiram-se tambem em nações autonomas e soberanas. Os desertos povoaram-se, as mattas abateram-se, as terras incultas cultivaram-se. Os Estados-Unidos tomaram, como que por encanto, proporções colossaes e irromperam, fortes entre os fortes, em meio das potencias do velho mundo assombrado. Mais para cá, olhando para o Pacifico, apertado numa nesga de terra ingrata entre os Andes e a praia, o Chile cresce e prospéra. Nas margens do Prata, flôr pomposa de civilisação apurada, surge a deslumbrante BuenosAires. A’ beira do Atlantico, crescemos e prosperamos nós, que seremos amanhan cem milhões de boccas a falar uma lingua, na Europa por tão pouca gente falada que já nem quasi se contava entre as linguas vivas. E governa-nos, sem excepção, a Republica, que é de todas as fórmas de governo até hoje adoptadas certamente a menos imperfeita. Na Asia, a India tenta emancipar-se da Inglaterra ; o Japão educa-se, instrue-se, constitucionalisa-se, arma-se até os dentes, adquire de assalto um logar de honra entre os povos directores ; a gente innumeravel da China, até ha pouco inoffensiva e desprezivel, converte-se num sério perigo para a civilisação occidental, e a infatigavel engenharia russa vae apressadamente riscando, a parallelas de aço, as mudas e desoladas planicies brancas da Siberia. Cem exploradores heroicos, noutras tantas expedições felizes, desvendam afinal o mysterio impenetravel dos sertões africanos. Os leões, os elephantes, os hypopotamos descuidados batem em retirada. As tribus de negros boçaes resistem, mas os brancos esmagam-nas e anniquilam-nas. Partilha-se o continente abandonado. Injecta-lhe o commercio um novo sangue, são e vigoroso. Ao norte, os abyssinios rejeitam para o Mediterraneo uma invasão armada da Italia, e, ao sul, as mãos herculeas da Inglaterra ainda não puderam asphixiar as republicas dos boers. Na Oceania desenvolve-se tanto a Australia que os titulos da sua divida são por muito tempo os mais bem cotados na bolsa de Londres, e a lucta desesperada dos filippinos, primeiro contra os hespanhoes e agóra contra os americanos, vem encher-nos a todos de surpreza, porque ninguem imaginava que aquillo fôsse possivel em paragens tão distantes e tão fóra do circulo do nosso estudo e da nossa observação de todos os dias. E a Europa ? Em 1815, os francezes são definitivamente vencidos. A aguia, que os conduzia, ferida de morte em Waterloo, vae poisar para sempre no rochedo escalvado e solitario de Santa Helena. Desopprimidas as nações corrigem as suas fronteiras – como numa cidade, que um tufão varreu e assolou, os proprietarios restauram as suas casas, quando o céo se faz claro e o vento cessa de rugir. Depois, o germem liberal e egualitario, que veiu da França na violencia do enxurro das invasões, recomeça a sua incessante evolução. Ao mesmo tempo todo o continente se contamina do espirito pratico dos inglezes. Povos abatidos e subjugados levantam a cerviz e libertam-se, outros succumbem no esforço da reacção suprema, mas ha melhora geral na condição do povo, porque os privilegios se debilitam e os despotismos ou se amenisam ou desapparecem, excepto na Turquia, cujo sultão ainda não quiz abrir as janellas do seu imperio entorpecido pelo opio e pelo Alcorão aos ares do christianismo. Até na Russia semi-barbara dos czares valentes, mas grosseiros, e das czarinas com favoritos, até na Russia desponta a liberdade para os servos e as 34
  32. 32. communas conquistam a sua autonomia. Robustece-se o sentimento de patria. Caminham uns para os outros, aconchegam-se, unem-se, juram por uma só bandeira, marcham ao som de um só hymno, todos os que falam uma só lingua ou sentem nas veias o calor da mesma seiva. Reconstrue-se a Germania, enfeixam-se os estados italianos e a Russia attráe os slavos para a orbita da sua influencia e da sua protecção. E, através destas mutações politicas, conseguidas ás vezes á custa de conflictos terriveis, mas rapidos, a lição ingleza não deixa de fructificar. O commercio expande-se e multiplica-se, nasce a industria fabril, que logo se alastra por todo o mundo, e o continente não é, desde as lobregas entranhas do seu solo, senão uma ampla officina de trabalho constante e productivo. Transbordam os cofres dos ricos. Renovam-se os campos e as cidades, inventam-se confortos para as agruras da vida, pede-se ao luxo que consuma e esperdice á vontade. E os cofres opulentos ainda continuam a transbordar. Desloca-se o dinheiro, que sobra, para a America, para a Asia, para a Africa e para a Oceania. E o operario, que já dá signaes de protesto contra a palpavel injustiça da sorte que lhe coube nesta completa renovação, a quem 1789 ensinou, lettra por lettra, os artigos da Declaração dos Direitos do Homem, e a Revolução communicou um irrepremivel sentimento de dignidade e Grageas de Gibert AFFECÇÕES SYPHILITICAS VICIOS DO SANGUE Verdadeiros productos facilmente tolerados pelo estomago e os intestinos. Exigir as Firmas do D ’ G I B E R T e d e B O U T I G N Y, Pharmaceutico Receitados pelas celebridades medicaes DESCONFIAR-SE DAS IMITAÇÕES. AUGENDRE , MAISONS - L AFFITTE , P ARIS . 35
  33. 33. pessoal e de protesto contra a miseria tradicional, o operario desprende-se do solo ingrato em que nasceu, acompanha o dinheiro e emigra tambem para a America, para a Asia, para a Africa, para a Oceania. O mundo é largo. . . Ha espaço e destino para todos os infelizes sob os olhares misericordiosos das infinitas estrellas de Deus ! E os governos, que temem os operarios com fome, e desejam engrandecer as suas nações, se os indigenas das regiões em que elles desembarcam, não os agasalham com carinho e não se submettem á concorrencia que elles vêm estabelecer, os governos não hesitam e abrem-lhes espaço a tiro de canhão e a coice de carabina. *** Nenhum homem se parece menos com Robinson Crusoë do que o do seculo XIX. Nenhum veiu ao mundo mais apercebido de armas e recursos para ferir com vantagem a lucta pela existencia. Outr’ora, gastavam-se sessenta e setenta dias numa viagem de Lisbôa ao Rio de Janeiro. Hoje, transpõe-se essa distancia em onze dias. Outr’ora, era uma temeridade projectar sómente uma viagem de Madrid a S. Petersburgo, por terra. Hoje, concebe-se num dia esse projecto temerario e, tres ou quatro dias depois, está elle realisado. Outr’ora, uma pessôa, que estivesse no Japão, só se podia comunicar com outra, que se achasse na França, pelo correio, tão lento como o deslise de um navio de véla, tão tropego como o chouto de uma mula cançada. Hoje, as communicações fazem-se pelo telegrapho. Tão promptas como clarões de relampagos. Outr’ora, o som da voz humana extinguia-se a alguns metros do homem que a emittia. Hoje, a electricidade transmitte-a, clara, distincta, a leguas e leguas de distancia. Outr’ora, as cidades, á noite, eram como que deshabitadas. A tréva aterrava os homens honestos e pacificos e protegia os ladrões e os assassinos. Hoje, é exactamente á noite que as cidades, salpicadas de luzes, offerecem mais seducções. Outr’ora, mal se escondia o sol no poente, retraia-se logo a actividade do homem. Hoje, o homem póde exercel-a, sem interrupção de um minuto, desde o primeiro até o ultimo dia do anno. Outr’ora, receiava-se que o dispendio sempre crescente do carvão viesse afinal a paralizar, numa crise sem remedio, o desenvolvimento das industrias. Hoje, já esses receios se vão apagando. A agua fria tambem produz força motora, como o fogo. Não nos referimos a um sem numero de melhoramentos, não tão importantes como estes, mas relativamente tão uteis como elles, e dos quaes destacaremos, como mais tocante e sympathico, a machina de costurar . . . Quanta casa sem chefe se refugia, pela maquina de costurar, das torturas da fome ou das miserias e vergonhas da prostituição ! O seculo XIX levou a este ponto o empenho de desembaraçar de todas as peias a energia humana : ideou rectificar a conformação viciosa do planeta, cortando-lhe os aleijões que se oppunham á prompta circulação de pessôas e mercadorias. E realisou, por metade, essa empreza de Titans, cortando o isthmo de Suez, misturando aguas que Deus separára . . . * * * 36
  34. 34. EM AUTOMATOS DEPOSITOS RUA BOA VISTA, 14 RUA DA ESTAÇÃO, 11 -A Investigou-se sem descanço a zona das sciencias. Classificaram-se as já existentes, crearamse outras, applicaram-se as positivas ao augmento e ao aperfeiçoamento do patrimonio popular. Centenas e centenas de officinas abrigam e alimentam milhares e milhares de operarios, porque, em certo dia, um estudioso, no silencio do seu gabinete, descobriu uma nova propriedade, ou um novo valor, num objecto apparentemente destitutido de todo o prestimo. A physica e a chimica – duas fadas – reverdecem com as suas varinhas magicas o campo mais esteril e exgottado. Foi no seculo XIX que Pasteur nasceu e morreu. A sciencia de curar já não anda ás tontas, ou amparada na muleta rude do empyrismo. O seu caminho está illuminado, os seus passos são firmes e autonomos. Os homens ainda morrem, mas morrem em muito menor quantidade do que morriam. Ha doenças, que antigamente não poupavam o doente, e das quaes o medico hoje ri e zomba. Hoje, rasgam-se figados, descobrem-se pulmões e supprimem-se estomagos, tudo impunemente. A ousadia chegou a este extremo : o cirurgião vae tranquillamente com o seu bisturi até o orgam por excellencia, o orgam sagrado – o coração. E o coração não pára, o coração continúa a bater. A hygiene, filha querida da medicina, dominou e venceu os flagellos das epidemias, e deu ao homem, com os seus conselhos, uma segurança que elle não tinha. Ha epidemias frequentes e regulares em alguns pontos da terra ? E’ que a gente, que ahi habita, é ignorante ou são desidiosos os governos que a dirigem. A Inglaterra não tem lazaretos, 37
  35. 35. nem obriga a quarentenas os navios que procuram os seus portos. Um homem, que esteja a par da sciencia do seu tempo, póde dormir á beira do mais pestifero paúl do centro da Africa sem contrair o impaludismo. E o direito perdeu a sua antiga aspereza. Os codigos já não veem réprobros conscientes e incorrigiveis em todos os delinquentes. Abrandaram-se as penas, vão-se eliminando os calabouços, saneiam-se as prisões. * * * Vulgarisaram-se as artes. Em litteratura, o seculo não produziu um Shakspeare, em esculptura um Miguel Angelo, em pintura um Raphael, um Leonardo de Vinci, ou um Rembrandt. Mas, em litteratura, um Byron, um Dickens e um Carlyle, um Victor Hugo, um Lamartine, um Musset, um Balzac e um Zola, um Heine e um Uhland, um Leopardi e um Manzoni, um Ibsen e um Tolstoi, um Espronceda e um Garrett compensam bem a ausencia daquelle assombro, não só porque, todos junctos, são maiores do que elle, como tambem, e principalmente, porque o seculo lhes abriu sulcos por onde pudésse jorrar livremente a luz dos seus espiritos privilegiados, o que o seculo de Shakspeare não fez, e os cingiu de uma auréola de gloria universal, que Shakspeare desconheceu. Os seculos anteriores não tinham ao seu dispôr as mil trombetas retumbantes do livro e dos jornaes de largas edições. Assim com os esculptores, que nos compensam da falta de um Miguel Angelo, assim com os pintores, que nos consolam de não ter nascido no nosso tempo um mestre como Raphael, como Vinci, como Rembrandt. E o seculo XIX foi o seculo da musica. Beethoven só por nós foi comprehendido. Wagner é de hontem . . . * * * E’ consideravel, pois, o legado do seculo extincto, e, ou a isto se chama progresso, ou não sabemos o que seja progredir. Daqui se conclue naturalmente que, se puzermos na concha de uma balança os bens deste cyclo, que se encerra, e noutra os males, a dos bens forçosamente ha de pesar mais, seja qual fôr o peso dos males, que a torrente benefica arrastou consigo como calháos entre o limo fertilisante. Mas, o seculo XIX concluiu alguma tarefa ? Não a iniciou, não a concluiu. E aqui está o motivo pelo qual tantos espiritos esclarecidos se deixam invadir e enervar pelas sombras tristes do pessimismo e tanta gente suspira desanimada por uma época mais risonha, que ninguem sabe bem se já passou ou se ainda está por vir. Alguns suppõem que ella não foi, nem será deste mundo condemnado e, partindo ás vezes da mais raza descrença, batem contrictos no peito e dobram os joelhos ante o Deus que desconheciam. Os doirados sonhos dos candidos revolucionarios de 1789 ainda não se realisaram. Que mundo de coisas puras, mansas e remotas não nos suggerem estes tres sublimes verbos, que os revolucionarios ligavam um ao outro, indissoluvelmente: Liberdade, Egualdade e 38
  36. 36. ARENS IRMÃOS S.PAULO JNIH U DA Y Rua Direita n. 9 Fundição e Officinas ESCRIPTORIO PARA E CONSTRUÇÃO EXPOSIÇÃO DE Machinas DE Machinas Acceitamquaesquerencommendasparamachinasdelavouraeindustrias Quaesquer concertos são feitos com brevidade e a preços modicos Unicosrepresentantesdaafamadafabricadevapores MARSHALL SONS & CO. (Inglaterra) Motores OTTO, a gaz e a kerozene OLEOS LEGITIMOS da “Vacuum Oil Company” Conhecidoscomoosmelhoresemaiseconomicosparalubrificação RODAS DE AGUA E TURBINAS HYDRAULICAS MACHINASPARASERRARIAS,typoRobinson TRILHOS, VAGONETES, LOCOMOTIVAS e todo material para estradas de ferro ESPECIALIDADES MACHINISMOSCOMPLETOSPARABENEFICIARCAFÉ Seccador Arens – Despolpadores MOENDAS DE CANNA ENGENHOS COMPLETOS PARA ASSUCAR E ARROZ Fazem installação de luz electrica para particulares e cidades inteiras MOINHOS PARA FUBÁ, CAFÉ E SAL TRITURADORES para espigas de milho, casca de cortume e ossos 39
  37. 37. Fraternidade. Tombou, ou transigiu, o absolutismo, que se lhes oppunha de frente ; mentiu-lhes a monarchia constitucional, e, por fim, a Republica, que os acolheu para fundil-os, de palavras vãs, que eram, em instituições de existencia real, terminou por trail-os tambem. Fallida a Republica, cravaram-se as esperanças dos sonhadores em systemas que ainda não sairam da região vaga das abstracções. E lá vão elles, socialistas aqui, anarchistas alli, caminho da Terra da Promissão, guiados pela columna de fogo das suas ardentes illusões e alimentando-se – muito contentes – do maná das suas translucidas utopias. Se o seculo que reponta tem programma, o seu programma é impedir, com tolerancia e habeis e opportunas concesões, que esta caravana de visionarios se converta de repente, como ameaça, em legião de demonios destruidores... O que é preciso é achar a formula politica que, de uma vez para sempre, torne impossive o tremendo conflicto social cuja possibilidade é o tormento de todos os que pensam e o pavoroso fantasma das vigilias dos estadistas. Poderá o seculo XX com o encargo que o seculo XVIII transmitiu ao seculo XIX e que este lhe transmitte desempenhado apenas em parte ? Quem o sabe ? Atraz dissemos que a historia é uma cadeia de factos cujos fusis de bronze se prendem logicamente uns aos outros. E é o que os melhores livros nos ensinam, e é o que por alguns tão á lettra é comprehendido que se convencem de que não ha grande difficuldade em adivinhar o que o amanhan nos occulta. A nós parece-nos sómente que é facil explicar por um antecedente o facto que constitue objecto do nosso estudo. Ha logica até hoje. Haverá logica amanhan, sem duvida. Mas, o que se nos affigura empreza sobrehumana é apanhar num só relance de olhos todas as veredas do labyrintho, que é o futuro, e apontar precisamente aquella que a logica tomará para cumprir a sua missão de soldar uns aos outros os élos da corrente de que acima falámos. Póde muito a previsão dos sabios, mas a zona do imprevisivel é incomparavelmente mais dilatada do que a que se extende sob os raios dos seus olhares. Zarpa um navio de um porto com rumo a outro porto. Singra já longe de terra, mar banzeiro, ventos de feição. Deve deitar ancora em tal dia. Mas, de subito, brame uma tempestade, que o piloto cauto não previu, quebra-se o leme, e lá vae o barco, á tôa, desgovernado, de maroiço em maroiço, até que se abata a cólera dos ventos e das aguas. E o tempo, que se despende depois em retomar a róta perdida, dava para duas ou tres viagens. A humanidade sáe hoje de um porto para outro porto . . . * * * E, agóra, a um seculo, que, apezar de tudo, tantos prodigios operou, que denominação havemos de dar ? Nenhuma. O seculo XIX é e será sempre indenominavel. E não se póde imaginar signal mais eloquente da sua verdadeira grandeza, da sua funda e vasta agitação, da sua espantosa fecundidade, da complexidade desvairante e, até certo ponto, da cruel incoherencia do seu labor. 40
  38. 38. JOCKEY-CLUB Projecto de inscripção para a 1 . ª corrida de 1901,a realisar-se em 13 de janeiro no HippoHippodromo Paulistano. PAREO - Criterium - Animaes nacionaes de 3 annos, nacionaes de 1/2 sangue até 4 annos que tenham corrido em S. Paulo sem victoria em 1900 e nacionaes de 1/ 2 sangue de qualquer edade que tenham corrido em S. Paulo sem victoria. Premios : 600$000 ao 1º e 120$000 ao 2º - 1.000 metros. PAREO - Progredior (Handicap de 48 a 57 kilos) - Animaes nacionaes - Premios : 800$000 ao 1º e 160$000 ao 2º - 1.700 metros. PAREO - Jockey-Club - (Handicap) - Animaes de qualquer paiz - Premios : 1:000$000 ao 1º e 200$000 ao 2º - 1.700 metros. PAREO - Imprensa - Animaes extrangeiros que não tenham ganho grande premio no Brasil nem collocação no Grande Premio Jockey Club de S. Paulo e nacionaes - Premio: 700$000 ao 1º e 140$000 ao 2º - 1.700 metros. PAREO - Combinação - (Handicap para os seguintes animaes: Annizette 54 kilos, Floresta 54 kilos, Jaguaribe 54 kilos, Hélio 53 kilos, Cusco 51 kilos, Mirandella 49 kilos e America 49 kilos) - Premios : 600$000 ao 1º e 120$000 ao 2º - 1.500 metros. As inscripções encerram-se terça-feira, 8 de janeiro, ao 1/2 dia em ponto, na secretaria da sociedade, á travessa do Commercio, 6-A, (sobrado), e os forfaits meia hora depois. Aviso:-- De conformidade com o paragrapho unico do art. 18º do regulamento, não serão acceitas as propostas que não vierem acompanhadas da respectiva importancia. O director de corridas, Augusto de Siqueira Cardoso 41
  39. 39. Não o denominaremos, por certo, o seculo de Victor Hugo, como, em pleno enthusiasmo do romantismo, se requereu em França e nos paizes que a França leva pelas mãos, como infantes inconscientes. Hoje, até na França, e até do circulo dos homens de lettras francezes, se ergueriam protestos vehementes contra tal pretenção. O seculo de Bismarck ? Tal designação tambem é mesquinha. Bismarck é a unificação da Germania que, por sua vez, é só um facto politico capital dos dez ou quinze que nestes cem annos se completaram. Seculo dos Estados-Unidos, se assim o qualificassemos, apanhariamos apenas um dos seus grandes aspectos, que é a formação das novas nacionalidades. Seculo das constituições, seculo do transbordamento europeu e do povoamento dos continentes, seculo do socialismo, seculo do anarchismo, tudo, tudo, seria pallido e deficiente, por mais expressivo que pareça. O seculo, que expirou ao dobre da meia-noite de hontem, será o seculo XIX, e nada mais. * * * Tal foi o único comentário sobre o século que terminou e o novo século, publicado por um jornal fundado em 1875 e que subsiste até hoje. Alguns jornais atravessaram de um século para outro, mas acabaram fechando, outros foram fundados depois de 1 de janeiro de 1901. 42
  40. 40. CAPÍTULO 4 Início da segunda metade da Era Industrial em 1900, quando o homem deixou de se valer somente do carvão para queimar, produzir vapor e mover máquinas, passando a utilizar também o petróleo e seus derivados nos motores a explosão. A Era Industrial contabiliza 200 anos de grandes avanços da ciência e da tecnologia. A poderosa mídia de hoje fará da chegada do ano 2000, da passagem do século XX para o século XXI e do segundo para o terceiro milênio da Era Cristã acontecimentos retumbantes, muito diferentes da modesta saudação intitulada “Um seculo” publicada no jornal O Estado de S. Paulo de 1 de janeiro de 1901. A população de todo o mundo se empolgará. Não só os cristãos, que estarão comemorando o marco temporal inscrito no seu calendário, mas também os povos de toda a Terra, que totalizam mais de 6 bilhões de pessoas entre islâmicos, judeus, budistas, xintoístas e adeptos de outras religiões. Cerca de 4 bilhões desses crentes serão influenciados pelos poderosos meios de comunicação hoje concentrados, na proporção de 80%, nas mãos de integrantes de um contingente de 2 bilhões de cristãos. Os países considerados ricos, desenvolvidos e industrializados, têm as respectivas populações (sem contar o Japão) incluídas nesse contingente cristão de 2 bilhões de pessoas. Os países pobres, subdesenvolvidos, eufemisticamente denominados países em desenvolvimento, são habitados pelos demais 4 bilhões de seres humanos. Tal repartição, reconhece o autor, é aproximada. Esses 2 bilhões de cristãos (norte-americanos, canadenses, membros da Comunidade Européia, australianos, neozelandeses, alguns sul-americanos) usufruem a maior parcela dos recursos naturais, mas poluem a atmosfera, as águas e o solo da Terra mais do que os 4 bilhões de não cristãos que habitam nações não industrializadas (árabes, asiáticos, africanos, alguns sul-americanos). Portanto, os grandes usufrutuários do Planeta estão inseridos no grupo minoritário cristão: eles consomem 90% dos combustíveis fósseis (carvão e petróleo), 75% das matérias-primas extraídas das jazidas minerais, 70% dos 43
  41. 41. alimentos produzidos no mundo, 80% da água potável usada pela população mundial, segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde. Estados Unidos, Comunidade Européia e Japão consomem 75% da energia produzida no mundo. O contingente cristão é assim um segmento privilegiado da espécie humana, uma razão a mais pela qual a chegada do ano 2000, a passagem do século XX para o século XXI e do segundo para o terceiro milênio da Era Cristã assumirão importância maior no âmbito da contagem do tempo que o homem faz há cerca de 10 mil anos, desde que o Sol e a Lua, com suas influências sobre os dias e as noites, os invernos e os verões, as chuvas e as secas, as marés altas e baixas, passaram a definir parâmetros para sua medida. Nessa contagem, nada foi mais significativo para a espécie humana e para a Terra do que a Era Industrial, iniciada em 1800, transcorrida nos séculos XIX e XX, e que se estenderá durante e depois do século XXI. No decorrer dos 200 anos até hoje passados a espécie humana apropriou-se de muito combustível fóssil e dele fez uso desabusado para enriquecer algumas nações, algumas empresas e alguns homens, bem como para assegurar trabalho, calor e comida para bilhões de pessoas. Mas é preciso compreender a verdadeira dimensão desse saque. Duzentos anos de intenso consumo das reservas fósseis da Terra representam apenas 0,0004% do tempo que elas levaram para se formar, ao longo dos 50 milhões de anos do período carbonífero. A Era Industrial foi dividida neste livro em duas metades, 1800 a 1900 e 1900 a 2000. Separando-as, a pouco comemorada chegada do século XX, no qual o ser humano prosseguiu na sua busca incessante e sôfrega dos aperfeiçoamentos científicos e tecnológicos que lhe proporcionassem prazer, segurança, orgulho, honrarias, aplausos e sobretudo riqueza. Entre 1890 e 1900 transcorreu o período mais fecundo de um dos maiores inventores de todos os tempos, o norte-americano Thomas Alva Edison, que soube como ninguém tirar partido da eletricidade e da mecânica de precisão. Ele concebeu a lâmpada elétrica de filamento incandescente, aperfeiçoou a telegrafia, fabricou o gramofone e a máquina de escrever com a sua marca original Remington. Em 1901, o italiano Guglielmo Marconi realizou a primeira transmissão por rádio, da Europa para os Estados Unidos. A primeira projeção de cinema ocorreu em 1895, o primeiro filme sonoro foi exibido em 1927, as películas coloridas surgiram em 1952. Em 1897, o alemão Felix Hoffman conseguiu sintetizar o ácido acetilsalicílico, que depois seria comercializado pela Bayer com o nome de aspirina. O relógio é uma invenção muito antiga, mas em 1904 o brasileiro Santos Dumont (1873-1933) desenvolveu um modelo apropriado para usar no pulso. 44
  42. 42. A Teoria da Relatividade, fundamental para a compreensão do Cosmo e para relacionar massa e energia, foi formulada em 1905 pelo físico alemão Albert Einstein (1879-1955). Ele instituiu e provou que nada no Universo pode mover-se a uma velocidade maior do que a velocidade da luz no vácuo, 300 mil quilômetros por segundo, e que energia e massa se transformam uma na outra de acordo com a equação E = M x V², energia é igual à massa multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz. Embora dedicado à ciência pura, Einstein já identificava o essencial: “O grande problema da humanidade não está no domínio da ciência, mas no domínio dos corações e das mentes humanas”. Em 1908, o brasileiro Santos Dumont realizou em Paris o primeiro vôo com um aparelho mais pesado do que o ar e com propulsão própria, que dispensava o uso de uma catapulta para lançá-lo. Em 1920, já havia nos Estados Unidos e na Europa linhas aéreas regulares para transportar malas de correio. A primeira linha aérea brasileira para transportar passageiros foi inaugurada pela Varig em 1927, ligando Porto Alegre a Pelotas, usando o hidroavião Atlântico, que sobrevoava a baixa altura a Lagoa dos Patos. Em 1909, o norte-americano Leo Backeland produziu a baquelite, primeiro plástico usado largamente para produzir objetos e peças. Surgiram nas décadas seguintes outras combinações químicas com qualidades superiores e para múltiplos usos derivadas do petróleo, como o poliéster, o polivinil, o poliestireno e outras. Uma equipe do laboratório de pesquisas aplicadas da General Electric, dos Estados Unidos, realizou em 1928 a primeira transmissão experimental de televisão, inaugurando a tão almejada apresentação simultânea de som e imagens em movimento. Em 1937, um sistema eletrônico mais aperfeiçoado, que introduziu o uso do tubo de raios catódicos, foi proposto pela BBC de Londres. A partir da década de 50 a televisão popularizou-se em todo o mundo. O médico escocês Alexander Fleming (1881-1955) descobriu o primeiro antibiótico, a penicilina, em 1928. Ele observou por acaso que uma cultura da bactéria estafilococos não se desenvolvia numa lâmina coberta de mofo. A produção em larga escala ocorreu a partir de 1940, mas cinco anos antes, em 1935, o químico alemão Gerhart Darmagt já havia descoberto as propriedades bactericidas do composto químico sulfanilamida. As máquinas elétricas de lavar roupa foram construídas como protótipos no final da década de 20, mas somente em 1930 elas passaram a ser produzidas e comercializadas em larga escala nos Estados Unidos. Em 1941, surgiram os primeiros inseticidas da família do DDT, que permitiram combater eficazmente os insetos transmissores da malária e outros que reduziam a produtividade das lavouras. Mas verificou-se posteriormente que esse produto químico causava grandes danos ambientais, pois provocava a morte também de peixes e pássaros, além de prejudicar a saúde das pessoas. Seu uso foi proibido nos Estados Unidos em 1972, em grande parte devido à repercussão do corajoso livro Primavera silenciosa, no qual sua 45
  43. 43. autora, a bióloga Rachel Carson, denunciou o perigo dos pesticidas usados indiscriminadamente. Hoje, a engenharia genética já criou plantas transgênicas que resistem ao ataque de insetos nocivos e outras pragas. A ciência está a poucos passos de descobrir uma vacina contra a malária. Em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, os ingleses inventaram um rústico computador, com o objetivo de decifrar os códigos secretos dos alemães. Na mesma época, os mesmos ingleses descobriram que podiam emitir microondas, que se chocavam com um obstáculo e retornavam ao ponto de emissão, de tal forma a ser possível não só detectar a existência de um objeto, mas conhecer também a distância em que ele se encontrava e o seu formato. Estava inventado o radar. Em 1945, os norte-americanos desenvolveram e utilizaram a bomba atômica, destruindo as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, provocando a morte de 120 mil pessoas. Eles justificaram esse genocídio alegando que a continuação da Segunda Guerra Mundial acarretaria mortandade maior, com grande sacrifício de vidas de norte-americanos e japoneses. Em 1950, os mesmos norte-americanos aperfeiçoaram a bomba de hidrogênio, muito mais devastadora. Logo depois, a União Soviética também desenvolveu artefatos nucleares, restabelecendo-se o equilíbrio de forças entre as nações não comunistas e a potência comunista. Anos depois, outras nações passaram a dominar a fabricação e o lançamento de bombas atômicas, entre elas Inglaterra, França, China, Índia e Paquistão. Não declaradamente possuem artefatos nucleares Israel, Japão, Alemanha e Itália. Até o final do século XX, ostensivamente ou não, os países árabes dominarão a tecnologia para fabricar e lançar bombas atômicas. Há o grande risco de escaparem do controle de governos constituídos a fabricação e a detonação desses artefatos nucleares, que poderão ficar de posse de grupos capazes de provocar até mesmo uma guerra atômica e o extermínio das espécies vivas na Terra, com o objetivo de obter dinheiro, defender crenças religiosas, impor posições políticas ou até mesmo confirmar loucas profecias da passagem do milênio. Pesquisadores dos laboratórios Bell, dos Estados Unidos, produziram em 1947 um transistor primitivo. Os circuitos integrados, com placas de silício gravadas com transistores microscópicos, surgiriam no final dos anos 50. Hoje, eles são o elemento básico dos computadores. Em 1953, foi colocado à venda nos Estados Unidos um forno de microondas, cujo uso se generalizaria nas décadas seguintes. O primeiro reator nuclear para produzir eletricidade a partir do calor gerado pela fissão de átomos de urânio foi inaugurado em 1956 nos Estados Unidos. Em 1956, foi inventada a primeira câmara profissional de vídeo para registrar imagens em fitas magnéticas, com possibilidade de posteriormente reproduzi-las. O sistema VHS (Very High Frequency) surgiria em 1970. Durante toda a década de 50, vários pesquisadores tentaram modificar a configuração cromossômica das células. A genética ganhou espaço nos laboratórios 46
  44. 44. das universidades dos Estados Unidos, da Europa e da União Soviética. A espécie humana desvendava os segredos que lhe permitiriam, nos anos 80 e 90, conhecer melhor o extremamente grande e o extremamente pequeno. A física e a medicina avançaram muito. Cientistas norte-americanos conseguiram construir o primeiro equipamento emissor de raios laser, baseado num feixe de luz coerente. Conseguiu-se sintetizar a insulina, o hormônio produzido pelo pâncreas e cuja falta no organismo acarreta a diabete, que tem conseqüências desastrosas sobre todos os tecidos, submetidos a uma irrigação sanguínea com elevada taxa de glicose. A descoberta da pílula anticoncepcional ocorreu em 1966, pelo médico norte-americano Gregory Pincus (1902-1967). Ele dedicou sua descoberta a Margareth Sanger, que ousou desafiar a moral dos anos 20 contrária ao controle da natalidade e ao direito da mulher de decidir a respeito de quantos filhos desejava ter. A era espacial teve início no dia 4 de outubro de 1957, quando a então União Soviética lançou ao espaço o Sputnik, primeiro satélite artificial da Terra. No ano seguinte, em 1958, os Estados Unidos colocaram em órbita ao redor da Terra o satélite artificial Explorer I. Desde a década de 50, alguns países do mundo, tendo à frente os Estados Unidos e a União Soviética, lançaram-se à conquista do espaço, numa disputa que levou a descobertas surpreendentes. No dia 20 de julho de 1969 o homem chegou à Lua, a bordo de uma nave projetada e construída nos Estados Unidos pela NASA (National Aeronautics and Space Administration), dando continuidade ao programa Apollo. O astronauta Neil Armstrong saltou de um frágil módulo lunar que se desconectara do módulo principal em órbita do satélite, seguido de Edwin Aldrin Jr. Fizeram observações científicas, recolheram amostras do solo lunar e retornaram ao módulo principal em órbita da Lua, no qual permanecera o astronauta Michael Collins. Em seguida, a nave da missão Apollo 11 empreendeu com êxito sua volta à Terra. As naves Discovery, Endeavour e Galileu foram lançadas pelos Estados Unidos a partir dos anos 80 para explorar o Sistema Solar. A União Soviética lançou no final da década de 80 a estação orbital Mir, que será desativada depois de 1999, mas substituída por uma outra estação orbital de pesquisas, que já está sendo montada, em módulos, entre o ano de 1999 e 2004, a Estação Orbital Internacional (ISS). Trata-se de um projeto resultante da cooperação científica e tecnológica internacional, com os Estados Unidos e a Rússia finalmente unidos para conquistar o espaço, juntamente com mais alguns países do mundo. No transcorrer da década de 90, muitas descobertas importantes no espaço têm ocorrido, feitas à custa do telescópio espacial Hubble, lançado pelos Estados Unidos em 1990, e de outros telescópios de grande potência instalados em pontos elevados de algumas montanhas, principalmente nos Estados Unidos e no Chile. Um planeta descoberto na 47
  45. 45. constelação de Pégaso parece não ser o único, segundo os astrônomos, em condições de ter vida fora do Sistema Solar. Astrofísicos norte-americanos anunciaram a descoberta de dois outros planetas, nas constelações de Virgem e Ursa Maior, com características que permitem supor a existência de água, atmosfera densa, superfície talvez sólida onde predominariam temperaturas na faixa dos 50 a 100 graus centígrados. (Ver Vida extraterrestre, capítulo 5, letra V.) Na última década do século XX, ciência e tecnologia têm progredido muito, antecipando as extraordinárias conquistas que serão feitas no século XXI. Cientistas norte-americanos conseguiram, em 1990, fabricar uma fibra óptica, um microcanículo de vidro forrado com um material que barra a saída do raio luminoso e o dirige sempre em frente. A rigor, é um fluxo de elétrons deslocando-se como se fosse um líquido correndo dentro de uma canalização. Trata-se de surpreendente avanço para as comunicações. Já se realizara, nos anos 70, a primeira inseminação artificial: um óvulo fecundado por um espermatozóide fora do corpo humano fora implantado com êxito no útero de uma mulher, nascendo daí uma menina chamada Louise Brown, que completou 20 anos no dia 24 de julho de 1998. A inseminação artificial é hoje prática corriqueira em todo o mundo. Em 1995, os seres humanos que dispunham de computador e de linha telefônica puderam estabelecer contato, via satélite, com outros seres humanos detentores dessa tecnologia avançada de comunicação denominada Internet. O cientista escocês Ian Wilnmut anunciou, em 1997, o nascimento do primeiro ser vivo obtido por clonagem, uma ovelha que recebeu o nome de Dolly. Ela é uma cópia fiel de outra ovelha. O processo, em princípio, foi o seguinte: obteve-se um óvulo, célula sexual feminina de uma ovelha. Retirou-se o núcleo dessa célula e no seu lugar implantou-se o núcleo de uma célula de outra ovelha, a que deveria ser clonada, na qual estava a configuração genética que se pretendia reproduzir. O óvulo foi reimplantado no útero da ovelha da qual ele havia sido retirado, que não passou no processo de uma hospedeira do embrião recebido da outra ovelha que se desejava clonar. Dolly nasceu igualzinha à sua mãe genética e diferente da mãe que a levou no ventre e deu à luz. Em 1998, o cientista inglês Richard Sees afirmou que estava disposto a clonar seres humanos, o que levantou grande celeuma. Discutiram-se, ardorosamente, temas que se estenderam desde a ética do procedimento até suas possíveis conseqüências no relacionamento entre uma pessoa e o seu clone. Prosseguem as discussões sobre o ser vivo obtido por clonagem: ele é idêntico fisicamente ao seu par genético, mas qual seria o seu psiquismo? Penetrando em terreno da metafísica: corpo igual, mas alma igual ou diferente? Em 1998, foi anunciada pelo pesquisador norte-americano Judah Folkman a remissão de tumores cancerosos graças ao uso de enzimas que bloqueiam a 48
  46. 46. formação de artérias suplementares necessárias para atender à grande quantidade de oxigênio e nutrientes exigida pelas formações cancerosas. O tumor foi assim eliminado por carência de nutrição e oxigenação. Em 1999, várias combinações de drogas antivirais têm assegurado a estabilização do estado de saúde dos portadores do vírus HIV, que caracteriza a Síndrome de Imunodeficiência Adquirida, aids. Em alguns centros científicos do mundo estão adiantadas pesquisas feitas com o objetivo de produzir uma vacina para evitar o contágio, ou encontrar um medicamento letal ao vírus, ou ativar de maneira diferenciada e forte o sistema imunológico do indivíduo infectado. Em 1999, todos os sinais apontam para o mesmo rumo científico: a genética e a informática. Certamente uma associação de ambas. Com extensões para avanços surpreendentes nas comunicações, nas descobertas no Cosmo e na exploração do Sistema Solar. Ciência e tecnologia permitem antever, neste final do século XX, conquistas significativas nas buscas empreendidas pelo ser humano para produzir mais e melhor, debelar moléstias, perscrutar o espaço. Mas falta ao homem compreender como é grande a interação das espécies vivas, inclusive a sua, com a Terra, também ela um organismo vivo que reage às agressões e recompensa sempre quem a preserva. Falta ao homem a consciência de que há limites, de que os frutos precisam ser mais bem repartidos, de que o livre arbítrio lhe foi concedido não para destruir mas para edificar. 49

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