#OiOiOi: Os usos sociais das tecnologias digitais em um mundo colaborativo

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Este trabalho expõe a evolução da sociedade permeada pela comunicação digital e pelo desenrolar das relações sociais em rede. Estuda o comportamento dos usuários, agora compreendidos como consumidores e produtores de conteúdo nas redes sociais. Analisa as novas linguagens utilizadas no ambiente digital, com ênfase na produção e reprodução dos memes. Estuda a habilidade do público e da mídia em acessar, compreender e criar comunicações em uma variedade de contextos e múltiplas telas. São ilustradas as análises e considerações teóricas acerca dos conceitos de TV Social e segunda tela com o caso da telenovela brasileira de maior audiência em 2012, Avenida Brasil, exibida pela Rede Globo.

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#OiOiOi: Os usos sociais das tecnologias digitais em um mundo colaborativo

  1. 1. 0UNIVERSIDADE DE SÃO PAULOEscola de Comunicações e ArtesDepartamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo#OiOiOiOs usos sociais das tecnologias digitais em um mundo colaborativoBÁRBARA DE BRITO E CAPARROZSão Paulo2013
  2. 2. 1UNIVERSIDADE DE SÃO PAULOEscola de Comunicações e ArtesDepartamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo#OiOiOiOs usos sociais das tecnologias digitais em um mundo colaborativoTrabalho de Conclusão de Curso apresentado aoDepartamento de Relações Públicas, Propaganda eTurismo da Escola de Comunicações e Artes daUniversidade de São Paulo, como requisito parcial paraa obtenção de título de Bacharel em ComunicaçãoSocial – Habilitação em Relações Públicas, soborientação da Profa. Maria Aparecida Ferrari ecoorientação da Profa. Maria Cristina Palma Mungioli.BÁRBARA DE BRITO E CAPARROZSão Paulo2013
  3. 3. 2FICHA CATALOGRÁFICACAPARROZ, Bárbara de Brito e. #OiOiOi: Os usos sociais das tecnologias digitais em ummundo colaborativo – São Paulo, 2013. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação emComunicação Social – Habilitação em Relações Públicas. Escola de Comunicações e Artes,USP, 2013).
  4. 4. 3BANCA EXAMINADORA_______________________________________________Profa. Dra. Maria Aparecida Ferrari_______________________________________________Profa. Dra. Maria Cristina Palma Mungioli_______________________________________________Pedro WaengertnerNOTA__________
  5. 5. 4AGRADECIMENTOSAgradeço aos meus pais, Maria Aparecida e Amadeu, pelo amor, carinho e apoio detodos os dias. Sem cada colo, cada surpresinha, cada bronca e cada abraço eu não seria quemsou hoje. Nós conseguimos.Agradeço ao Arthur por cada segundo que dividimos de nossas vidas. Pelas risadas,vergonhas, dores, amores e delícias que compartilhamos.Às orientadoras desse trabalho, que foram muitas vezes mais mães do que professoras‒ e a quem eu devo quase toda a minha vontade de fazer parte da Universidade.Aos familiares e amigos que me apoiaram e acreditaram em mim.A você que está lendo esse trabalho.A todos, o meu mais sincero obrigada!
  6. 6. 5
  7. 7. 6RESUMOEste trabalho expõe a evolução da sociedade permeada pela comunicação digital e pelodesenrolar das relações sociais em rede. Estuda o comportamento dos usuários, agoracompreendidos como consumidores e produtores de conteúdo nas redes sociais. Analisa asnovas linguagens utilizadas no ambiente digital, com ênfase na produção e reprodução dosmemes. Estuda a habilidade do público e da mídia em acessar, compreender e criarcomunicações em uma variedade de contextos e múltiplas telas. São ilustradas as análises econsiderações teóricas acerca dos conceitos de TV Social e segunda tela com o caso datelenovela brasileira de maior audiência em 2012, Avenida Brasil, exibida pela Rede Globo.Palavras-chave: Comunicação digital; Cibercultura; Memes; Avenida Brasil; Recepção; TVSocial.
  8. 8. 7ABSTRACTThe current work presents the evolution of society permeated by digital communications andby the unwind of social networks. It studies the behavior of users, now seen as consumers andproducers of content in social media. New languages used on the digital environment areanalyzed, emphasizing the production and reproduction of memes. It is also studied the usersand medias ability of accessing, comprehending and creating communications in a variety ofcontexts and multiple screens. The theoretical considerations on the concepts of Social TVand second screen are illustrated by the Brazilian television fiction with highest audience in2012, Avenida Brasil, exhibited on Rede Globo.Keywords: Digital communications; Ciberculture; Memes; Avenida Brasil; Reception; SocialTV.
  9. 9. 8LISTA DE FIGURASFigura 1 O Memex de Vannevar Bush ............................................................................. 15Figura 2 Aplicação do conceito de rizoma nas conexões em rede ................................... 18Figura 3 Social Media Landscape 2013 por Fred Cavazza .............................................. 31Figura 4 Distribuição demográfica dos brasileiros no Facebook ..................................... 32Figura 5 Realização de outras tarefas durante o uso de smartphones .............................. 40Figura 6 Uso paralelo de computador e TV: frequência, idade e gênero ......................... 40Figura 7 Uso paralelo de computador e TV: atenção e gênero......................................... 42Figura 8 Exemplo do meme “Para nossa alegria”, produzido após a viralização dovídeo................................................................................................................... 56Figura 9 Menções para o termo “para nossa alegria” no Twitter entre meados de abril einício de maio de 2013 ....................................................................................... 57Figura 10 Curva dos memes, desenvolvida pela agência trespontos.arta ........................... 58Figura 11 Exemplo de produção do meme lolcat................................................................ 60Figura 12 O meme do pichador que luta por uma causa social em uma cidade maispichada ............................................................................................................... 62Figura 13 Exemplos do meme “culpa da Rita” criados por fãs da novela.......................... 70Figura 14 Exemplo de uso da expressão por usuário do Twitter........................................ 71Figura 15 Representação da cena exibida pela Rede Globo que circulou na internet emformato animado ................................................................................................ 71Figura 16 Exemplo de uso da expressão por usuário do Twitter........................................ 72Figura 17 Exemplo de apropriação do meme “Me serve, vadia, me serve” em outro memeconhecido na rede............................................................................................... 72Figura 18 Exemplo de cena final da novela com o “congelamento” da personagemCarminha ............................................................................................................ 73Figura 19 Avatar publicado por William Bonner no tuitaço organizado para o centésimocapítulo da novela............................................................................................... 73
  10. 10. 9LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURASABERJE Associação Brasileira de Comunicação EmpresarialARPA Advanced Research Project AgencyCGU Conteúdo Gerado pelo UsuárioCTAM Cable & Telecommunications Association for MarketingHTML HyperText Markup Language
  11. 11. 10SUMÁRIO1 INTRODUÇÃO .............................................................................................................. 112 UMA BREVE HISTÓRIA DA INTERNET ......................................................... 143 CIBERCULTURA................................................................................................. 223.1 INTELIGÊNCIA COLETIVA................................................................................. 233.2 COMUNIDADES VIRTUAIS E REDES SOCIAIS ................................................ 243.3 A CULTURA DA PARTICIPAÇÃO....................................................................... 334 TV SOCIAL E O FENÔMENO DA SEGUNDA TELA........................................ 375 CONVERSANDO COM TODAS AS MÍDIAS ..................................................... 436 OS REPLICADORES DE IDEIAS ....................................................................... 507 AVENIDA BRASIL E OS MEMES........................................................................ 637.1 FICÇÃO TELEVISIVA EM MÚLTIPLAS PLATAFORMAS ................................ 647.2 AVENIDA BRASIL: UM FENÔMENO DE AUDIÊNCIA E PARTICIPAÇÃO ....... 667.3 OS MEMES E A APROPRIAÇÃO DO UNIVERSO DE AVENIDA BRASIL .......... 698 CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................. 74REFERÊNCIAS .................................................................................................................... 76
  12. 12. 111 INTRODUÇÃOTecnologias comunicativas são responsáveis por introduzir na sociedade não apenasnovas formas de se comunicar, mas também novas maneiras de sentir o mundo e de definir arealidade tanto por meio da internet, televisão e rádio quanto pelo teatro, desde as primeirastragédias e comédias gregas. Paulatinamente, as revoluções comunicativas fizeram com queas informações atingissem um público maior, em menos tempo e com menor custo – e foramresponsáveis por alterações no processo e no significado do ato de comunicar. O processocomunicativo tornou-se interativo, os territórios informativos assumiram formas esignificados diferentes, adaptando-se a cada usuário (FELICE, 2008).Com os computadores e, posteriormente, com a abertura da tecnologia de redes paratoda a população, iniciou-se a revolução digital, objetivo principal deste estudo. Com ela,pode-se alcançar uma sociedade não mais formada por uma minoria detentora doconhecimento, mas sim uma sociedade formada por cidadãos que aprendam e ensinem atravésde interações colaborativas, técnicas e espontâneas. Por isso, pretende-se com este trabalhocompreender que nós não apenas construímos conteúdo, mas também nos apropriamos domundo por meio das tecnologias.O surgimento das comunidades virtuais propiciou a abertura dos caminhos para aapropriação da internet por redes sociais e elas se mostraram capazes de construir um mundoainda mais complexo, em que a troca de informação, a comunicação e os relacionamentosassumem papel fundamental, alterando a configuração social de toda uma geração. Seusamigos são aqueles do Facebook, seu conhecimento é aquele do Twitter, sua interação com ogrupo é aquela através de jogos on-line, como CandyCrush e SongPop.É na sociedade organizada em meio a múltiplas relações, formando uma grande rede,que se encontram mudanças em níveis mais profundos do que é identificado na evoluçãotecnológica por si só. O modo como as pessoas passaram a se relacionar e a interagir umascom as outras possibilitou a criação de uma espécie de “nova realidade social”. Nesse novomundo, surge a necessidade de compreender uma comunicação realizada em tempo real, sembarreiras ou fronteiras geográficas.
  13. 13. 12Assim, com a evolução das tecnologias sociais de comunicação e a popularização doscomputadores e da internet em banda larga, desenvolveu-se na sociedade um antigo desejo devoz, de poder, de liberdade de expressão. Essa conquista fez surgir uma nova vontade de secomunicar e de aprender de forma coletiva.Nesse sentido, propõe-se também que a internet tenha se desenvolvido graças àprópria colaboração que proporciona. Os conteúdos das novas e velhas mídias tornaram-sehíbridos, reconfigurando a relação entre as tecnologias, indústrias, mercados, gêneros epúblicos, permitindo um cruzamento entre mídias sociais digitais e mídias tradicionais demassa, que caminham por diversas plataformas eletrônicas, caracterizando o que HenryJenkins define como a “era da convergência midiática”. Sua ideia da convergência midiática éum importante caminho que traduz as mudanças nas formas de relacionamento do públicocom os meios de comunicação e que será explorado no decorrer da apresentação deste quadrode teorias.O fenômeno da convergência dos meios de comunicação torna possível também umaconvergência entre as vontades das pessoas, que passam a construir o conhecimento de formacoletiva. São as produções de conteúdo que ocorrem nas comunidades virtuais, por exemplo.Uma das formas de produção de conteúdo espontânea pelos usuários das redes sociais é ochamado meme, objeto de análise utilizado nesta produção para compreensão da atividadecolaborativa dos usuários da internet. Um meme é uma ideia, comportamento ou estilo queapresenta a capacidade de se multiplicar, sendo transmitido de pessoa para pessoa dentro deuma cultura (TEIXEIRA, 2003).Para que um meme cumpra o seu destino, ele precisa ser frequentementecompartilhado, repetido – e é nas tecnologias de comunicação digitais que esse fenômenoganha força. Por meio da internet é possível transcender barreiras e entrar em contato comdiferentes culturas; é possível adquirir conhecimento por meio das experiências vividas pelosoutros – e compartilhadas na rede. Na rede, o conhecimento coletivo também passa por todosos estágios do desenvolvimento cognitivo, sendo estimulado pelo compartilhamento dasideias, pela repetição.Com o potencial da internet, procura-se afirmar que as diversas mensagens e seusmeios estejam de fato interligados e capazes de gerar um conteúdo múltiplo que percorre umcaminho extenso, vencendo as fronteiras antes impostas pela insuficiência tecnológica. Osestudos de Marshall McLuhan e sua Aldeia Global podem ser agora facilmentecompreendidos devido à popularização da ideia de convergência das mídias.
  14. 14. 13Este trabalho também compreende a evolução do pensamento aqui apresentado e que,por sua vez, amenizou rumores sobre a morte do rádio e da televisão. Uma narrativa, porexemplo, já transcende seu espaço inicial – seja este o livro, as histórias em quadrinhos, atelevisão – e avança para as demais mídias, criando um conteúdo que não pode mais serchamado apenas de extra, e que passa a ser fundamental para a total compreensão da história.Desta maneira, os consumidores de produtos culturais precisam estar conectados adiversas mídias para conseguir, de fato, acompanhar o completo desenvolvimento de umanarrativa que, agora, apresenta informações distribuídas entre os meios para estimular ainteração e oferecer uma experiência completa para o seu fã. Com as mídias em rede épossível cada vez mais ampliar os limites de uma história.Procura-se demonstrar que esse novo cenário exacerba algo anteriormente conhecido:que em cada meio a leitura do conteúdo por parte de seu público, ou seja, a recepção, édiferente. Cada meio permite uma exploração diferente da mesma informação e, à luz daconvergência, percebemos o quanto esse fenômeno enriquece a informação e a comunicação.Além disso, avalia-se o engajamento dos fãs como potenciais criadores de suas própriasversões para determinados fatos, continuando cenas e desenvolvendo finais diversos para asnarrativas, o que atribui a eles um sentimento de participação muito importante no contexto dasociedade em rede.Como exemplo prático, utiliza-se o fenômeno ocorrido com a telenovela AvenidaBrasil, produzida e exibida pela Rede Globo em 2012 e que se destacou durante o ano comosucesso de crítica e de público. A telenovela foi um dos assuntos mais abordados nas redessociais, sobretudo no Twitter, em que a expressão #OiOiOi esteve presente nos trendingtopics durante quase todos os capítulos.Durante o desenrolar da trama, os telespectadores, que podem ser chamados de fãs,desenvolveram diversos memes, como o congelamento do momento final de cada capítulo, emque personagens eram paralisados em cenas de suspense com as luzes da avenida, o bordão “étudo culpa da Rita” da protagonista Carminha e o escandaloso “me serve, vadia, me serve”, dareviravolta da personagem Nina.Telespectadores dividiam-se entre televisão e redes sociais para acompanhar nãoapenas o que estava sendo transmitido, mas também a opinião de colegas, celebridades eformadores de opinião, além de participarem dos memes em tempo real. Este caso visademonstrar que o fenômeno da segunda tela, também conhecido por nomes como“experiência em duas telas” ou “navegação multitela” e “Social TV”, é crescente.
  15. 15. 142 UMA BREVE HISTÓRIA DA INTERNET“A história da criação e do desenvolvimento da Interneté a história de uma aventura humana extraordinária”.(CASTELLS, 2003, p. 13)Os meios de comunicação sempre foram muito influentes em todos os aspectos queenvolvem a sociedade, desde como formadores de opinião pública até como organizadores daestrutura de pensamento das pessoas. Não seria diferente com a internet que, como todos osoutros meios, foi inicialmente desenvolvida para servir a um grupo minoritário, as elitesgovernamentais e intelectuais, mas, ao contrário dos demais meios, inovou por se basear emuma nova forma de sociedade: a sociedade em rede.Em períodos de guerra, vivencia-se distinta evolução nas ciências, que contam com acooperação e o compartilhamento de conhecimento entre os cientistas. No entanto, para que aevolução humana seja preservada, é necessário que todo conhecimento adquirido seja mantidointacto. Essa preocupação fez parte dos estudos de Vannevar Bush, engenheiro, inventor epolítico estadunidense, conhecido por sua participação no planejamento da bomba atômica.Para ele, era preciso encontrar um meio de aperfeiçoar a utilização do volume deinformações que estava sendo gerado durante a Segunda Guerra Mundial. Bush procuravaencontrar “uma forma de armazenar e recuperar o conhecimento que desenvolvemos emnossas pesquisas e investigações (...) e sugere um mecanismo para automatizar as ações deguardar, indexar e recuperar conhecimento” (REIS, 2000), modelo que chamou de Memex.Bush defendia que a mente opera por associação, o que torna as indexações deconteúdo mais tradicionais como as ordens alfabéticas e numéricas, ineficientes. Para ele, “opensamento é mantido em uma teia de conhecimento no cérebro” e caberia ao Memexarmazenar textos e imagens, atuando como um complemento à memória. Reis descreve omodelo de Bush:O aparelho seria uma mesa de trabalho, com telas para projeção, teclado e botões ealavancas: o conteúdo armazenado seria armazenado em microfilme em um canto damesa. Este conteúdo poderia ser rapidamente recuperado, sendo indexado por meiode códigos e mnemônicos para acesso fácil (REIS, 2000).Dessa forma, quem utilizasse o aparelho conseguiria ter acesso a todos os assuntosreferentes a temas que lhe fossem de interesse, acessando conteúdo produzido pelos demaisusuários e definindo uma abordagem única para um assunto mais abrangente, de acordo como viés de seu interesse. Com isso, os usuários seriam capazes de criar uma complexa rede dearmazenamento baseada em palavras-chave.
  16. 16. 15Figura 1 ‒ O Memex de Vannevar Bush1Fonte: Disponível em:<http://teaching.hylos.org/staticHTML/HypermediaHistory1/section/HyLOs/content/Data/Hypermedia_History/Memex/Memex.xhtml>.O trabalho de Bush foi considerado o precursor da ideia de hipertexto2e demonstrapontos importantes da experiência digital vivenciada na atualidade. Entretanto, a concepçãoda comunicação em rede se deu somente na década de 1960, em meio à tensão criada pelaGuerra Fria e o conflito ideológico entre Estados Unidos e União Soviética, quando as duassuperpotências disputavam poder de influência política, econômica e ideológica em todo omundo.Nesse contexto, o governo dos Estados Unidos temia um ataque soviético às suasbases militares, o que ocasionaria tanto a perda de informações sigilosas do país quantoextinguiria anos de pesquisas e avanços tecnológicos, deixando o governo vulnerável. Coubeentão à ARPA – Advanced Research Project Agency, órgão científico e militar responsávelpelos avanços tecnológicos americanos, o papel de desenvolver a ideia de uma “rede1O Memex é descrito por Bush como uma espécie de mesa com dois monitores touch screen e uma superfície descanner. Seu maquinário seria composto por tecnologias de armazenamento, o que o deixaria repleto deinformações textuais e gráficas indexadas associativamente. O aparelho é apenas um conceito, nunca foiconstruído.2O termo “hipertexto” foi criado por Ted Nelson em 1965 e é considerado um dos conceitos-chave de toda arede; ele só pode ser tecnologicamente desenvolvido em 1968, com a ajuda de Douglas Engelbar.
  17. 17. 16galáctica3”. O conceito, então abstrato, propunha um sistema que concentraria todos oscomputadores do governo em uma única rede, por meio de um sistema de transmissão demensagens ponto a ponto (VAZ, [19--]).Esse modelo de troca e compartilhamento de informações que permitia adescentralização dos dados, a Arpanet, já contemplava ideias como redundância,compartilhamento de recursos e roteamento de sinais, bem como o uso e a padronização depacotes de informação4. O sistema conectou universidades e centros de pesquisa, como aUniversidade da Califórnia, em Los Angeles e Santa Bárbara; o Instituto de Pesquisa deStanford e a Universidade de Utah, de modo que, caso houvesse um bombardeio soviético, acentral de informações não estaria em um único lugar, mas distribuída em diversos pontosfísicos, conectados pela rede, ou seja, cada nó da rede funcionaria como uma nova central(VAZ, [19--]).Com tal tecnologia, as informações ficariam armazenadas virtualmente, sem correr orisco de sofrer danos materiais. Além disso, outra vantagem trazida pela comunicação em redefoi a redução do tempo demandado na troca dos dados, crucial em tempos de guerra.A tecnologia de comunicação em rede manteve seu uso restrito às áreas militar eacadêmica durante as décadas de 1970 e 1980, sendo liberada para fins comerciais em 1989,quando a Arpanet começou a se tornar o que conhecemos hoje por internet. O fim da gestãomilitar sobre a internet também pode ser relacionado ao barateamento das tecnologias queenvolvem a produção do microcomputador pessoal e da comunicação em rede, fato queinstigou dúvidas do governo quanto a possíveis problemas adicionais de segurança. Somenteno início dos anos 90 o comércio passou a estar presente oficialmente na rede, com a criaçãodo domínio “.com” (VAZ, [19--]).No início, pregava-se que as atitudes em torno desta grande novidade eramexageradas. Construíram-se mitologias, falava-se em alienação do público por antecipação,sem dados e pesquisas que mostrassem resultados efetivos acerca da nova realidade que a webcomeçava a criar. Seu surgimento, com financiamento militar, destinava seu uso à pesquisa eàs universidades, sem relações com o mercado financeiro. Empresas como AT&T e IBM nãoacreditavam no futuro de uma tecnologia tão inusitada, assim como no desenvolvimento doscomputadores pessoais, dispensando envolvimento logo de início (CASTELLS, 2003).3Termo cunhado por John Licklider, cientista do MIT, em 1962, que representava “um grande número decomputadores ligados entre si e que poderiam ser acessados por qualquer pessoa, mas sem atrapalhar quemestivesse operando o computador do outro lado da linha” (VAZ, [19--]).4Paul Baran, engenheiro polonês-americano, foi um dos inventores da rede de comutação de pacotes, juntamentecom Donald Davies e Leonard Kleinrock.
  18. 18. 17O correio eletrônico, entretanto, foi capaz de reverter todas as previsões e sobreviveainda hoje como principal uso da rede. De evolução dos serviços postais a “necessidadebásica” da comunicação atual, a troca de mensagens desenvolveu-se tecnologicamente esocialmente. Neste sentido, Castells afirma que “hoje os usuários modificam constantemente atecnologia e as aplicações da Internet” (CASTELLS, 2003, p. 259).Esse uso da internet só foi possível devido à criação de uma linguagem chamadaHTML. Desenvolvida por Tim Berners-Lee em 1991, a HyperText Markup Language podeser definida como um conjunto de instruções capaz de permitir de fato a utilização prática dohipertexto. Sobre esse formato, Tim Berners-Lee declara que “existe um enorme benefíciopotencial na integração de uma variedade de sistemas que permita ao usuário seguir links queconduzam de uma informação a outra” (1990, apud VAZ, [19--]). Ainda, pode-se relacionaresse conceito com o trabalho de Deleuze e Guattari, que também serviu de base teórica paradiversas análises da comunicação e da sociedade em rede, além, é claro, do hipertexto.Com a obra Mil Platôs, os autores Deleuze e Guattari criticam a sociedade, apsicanálise, a linguística e as questões de hierarquia e de poder por meio de uma metáfora quepropõe o pensar na forma de um rizoma, ideia que se opõe à lógica binária, da árvore-raiz.Um rizoma é um caule ou raiz que se diferencia dos demais por ser descentralizado, podendocriar ramificações em qualquer ponto. Deleuze transforma este conceito em uma visãodiferenciada, que propõe uma reorganização da estrutura vivenciada pela sociedade, suasdivisões e significados. Para isso, o autor define alguns princípios necessários para construirsua ideia (DELEUZE; GUATTARI, 1995).Os princípios de conexão e de heterogeneidade demonstram a característica deconexão entre os pontos do rizoma. O princípio da multiplicidade fala da inexistência de umaunidade que sirva de pivô. Outro princípio explorado pelos autores é o de rupturaassignificante, que relaciona as características de ruptura e regeneração de um rizoma. Ele semovimenta, seus pontos se deslocam, suas redes se cruzam. Por fim, o princípio de cartografiae decalcomania demonstra a posição do rizoma como mapa, ou seja, aberto, suscetível areceber modificações. O mapa se opõe ao decalque, pois se volta para uma experimentaçãovoltada para o real (DELEUZE; GUATTARI, 1995).A multiplicidade é uma propriedade muito destacada pelos autores, pois mostra o ladodesmontável, conectável, reversível do rizoma. Ele não é único, não possui início e fim; elecresce através do meio. Diversas linhas se cruzam, criam dimensões. Tais princípios ecaracterísticas atribuídos por Deleuze e Guattari ao conceito biológico de rizoma podem ser
  19. 19. 18diretamente relacionados à estrutura e ao funcionamento da internet (DELEUZE;GUATTARI, 1995).Figura 2 ‒ Aplicação do conceito de rizoma nas conexões em redeFonte: Disponível em: <http://www.visualcomplexity.com/vc/index.cfm?year=2003>.Compreende-se que a tecnologia que interliga computadores de todo o mundo em umarede possui uma estrutura muito similar à estrutura do rizoma, a partir do momento em que elaconecta um ponto qualquer com outro ponto qualquer, de maneira descontínua, podendo seromper e se regenerar a qualquer momento. E, devido à linguagem de Tim Berners-Lee,páginas da web se cruzam, podendo ser linkadas umas às outras mesmo que sem relaçõesdiretas, ou ser adicionadas ou excluídas em qualquer local ou situação, exatamente como aestrutura do rizoma define suas linhas.Os links são reconhecidos por sua função de extrema importância e utilidade no dia adia da internet, estando diretamente relacionados ao rizoma por sua capacidade de gerar asalianças, a base do hipertexto e, consequentemente, de toda a rede. Se o rizoma é unicamentea aliança, a internet é o conjunto de todos os links. Qualquer ponto que entra na rederapidamente se torna uma linha, que é rapidamente linkada a outras linhas (DELEUZE;GUATTARI, 1995).Na atualidade, tudo é dinâmico, múltiplo. As informações trafegam em alta velocidadee as noções de tempo e espaço foram alteradas. O raciocínio deve ser ágil, a fim deacompanhar o andamento das publicações, que podem ser inseridas por múltiplas entradas. O
  20. 20. 19mundo digital não é hierarquizado, ele não possui um começo ou um fim: ele é um rizoma.Esse novo olhar foi capaz de alterar toda a estrutura social, iniciando um processo demudança nas relações de poder, da mesma maneira que a internet foi capaz de alterar aestrutura das relações sociais, do tempo e do espaço, reorganizando o conhecimento e a vidado homem.Com isso, o uso da palavra rede passa a ser relacionado à transgressão de fronteiras,abertura de conexões, multiplicidade e acesso de todos à informação, opondo-se a ideias maistradicionais como centralização, ordem e unidade. O conceito de rede conquista novossignificados, como fragmentação, caos e multiplicidade. Em uma palavra: liberdade.Entende-se então que o grande mérito da web é ser o maior “território livre”, um lugarem que todos têm direito à voz, podem ouvir e responder, receber e criar conteúdo. Nesteambiente, o governo pode tanto tornar-se fragilizado como conquistar ainda mais força,dependendo de como irá conduzir seu discurso e suas atitudes. Por isso, o que mais preocupaos usuários da rede é uma intervenção oficial de órgãos e representantes governamentais.A história de luta pela liberdade na rede não é nova. Ela surgiu da necessidade departilhar o poder de processamento dos computadores, seguindo os ideais da ética hacker,que, por sua vez, defende que os resultados acerca da programação devem ser livrementedistribuídos entre todos. Os membros dessa cultura são conhecidos por defender bandeirascomo: “o acesso a computadores e a qualquer coisa que possa ensinar sobre como o mundofunciona deve ser ilimitado e total”, “toda informação quer ser livre”, “promovadescentralização” (VAZ, [19--]), entre outras. O sentido original do termo “hacker” é,portanto, o de programadores que compartilham o desejo de uma internet formada por seustrabalhos e pela colaboração de outros (CASTELLS, 2003).Os hackers são responsáveis pela difusão da cooperação no ambiente eletrônico-digital, da programação criativa e da comunicação livre. Lutam pela fonte aberta e pelosoftware gratuito – e sabe-se que o desenvolvimento da internet só foi possível devido àcultura do software gratuito, uma vez que “a distribuição aberta do código fonte permite aqualquer pessoa modificar o código e desenvolver novos programas e aplicações, numaespiral ascendente de inovação tecnológica, baseada na cooperação” (CASTELLS, 2003,p. 35).Além da cooperação dos programadores e entusiastas, a cultura do computador pessoale outros marcos como o lançamento do navegador Netscape e dos mecanismos de buscaforam responsáveis por tornar a internet mais acessível aos consumidores e, também, portornar o tráfego de informações mais confiável. Com essas “novidades” não era mais
  21. 21. 20necessário ao usuário saber de antemão qual informação deveria ser procurada e onde eladeveria ser procurada, ou seja, “pode-se começar a busca por informação de um ponto centrale então ramificar” (VAZ, [19--]). No ano de 1994, o Brasil registrava a existência de 20jornais on-line e 1.248 servidores web em uso (VAZ, [19--]).“Embora a Internet tivesse começado na mente dos cientistas da computação no inícioda década de 1960 (...), para a maioria das pessoas, para os empresários e para a sociedade emgeral, foi em 1995 que ela nasceu” (CASTELLS, 2003, p. 19) e cresceu rápido. O aumento donúmero de páginas publicadas na internet passou a ser exponencial, tento como um dosfatores o surgimento dos blogues, os então chamados “diários online”, em meados da décadade 1990. Em 1999, foram disponibilizados os primeiros serviços comerciais de blogues, emplataformas como Blogger e LiveJournal e, a partir desta data, rapidamente aumentaram suapopularidade no meio digital, potencializados pelas ferramentas simplificadas de publicação(BAREFOOT; SZABO, 2010).Passou-se de uma época em que a baixa velocidade de transmissão e a poucainteratividade das ferramentas dificultavam o acesso à internet para momentos de melhorinterface entre o homem e a máquina, que se tornou cada vez mais amigável e intuitiva,principalmente após os desenvolvimentos dos projetos Mosaic e Netscape. O boom de 1995,com a alta das ações da Netscape Corp. em Wall Street, também foi responsável por chamar aatenção do mercado para a rede.Em cinco anos, os números mudaram: nos anos 2000, mais de 300 milhões decomputadores já estavam conectados à rede em todo o mundo. Estima-se que a internetcontava com mais de 20 milhões de sites (FERNANDEZ, [19--]). A explosão dos blogues e ocrescimento da internet contaram com a combinação de alguns fenômenos técnicos que sópôde acontecer depois dos anos 2000. Segundo os especialistas em marketing Barefoot eSzabo:A adoção em massa de acesso doméstico à internet de banda larga a custosacessíveis tornou a criação e manutenção de websites mais fácil do que nunca.Incrivelmente, a adoção de banda larga em residências aumentou em 40% de marçode 2005 a março de 2006, duas vezes a taxa de crescimento do ano anterior. Aomesmo tempo, os produtos eletrônicos de consumo, incluindo PCs e laptops, tiveramseus preços reduzidos, transformando a computação residencial em uma realidade(BAREFOOT e SZABO, 2010, p. 26).Ainda assim, entende-se que “embora a tecnologia tenha dado a partida na revoluçãodos blogs, ela nunca foi a força matriz por trás das interações sociais online (...) a naturezahumana está no coração da criação e da construção de comunidades online” (BAREFOOT;
  22. 22. 21SZABO, 2010, p. 27). Ou seja, por mais inovadora que a comunicação digital seja, ela temcomo base outras tecnologias que incentivam a comunicação, o compartilhamento e acolaboração já presentes na natureza humana. Inseridas na rede, essas tecnologias tornam acomunicação acessível a todos que tenham conexão com a internet.Para esses autores, a questão é ainda mais significativa, uma vez que elas “adicionamum elemento de participação às comunicações online. Blogs e redes sociais convidam àparticipação. Com o clique de um botão, transformam plateias em autores e estranhos emamigos” (BAREFOOT; SZABO, 2010, p. 27). O baixo custo e o compartilhamento quaseinstantâneo de ideias, conhecimento e habilidades estimularam o trabalho colaborativo, e asociedade, ao aprender a lidar com a lógica do hipertexto, se descobriu capaz de aproveitartodo seu potencial cognitivo, interativo e multimodal (DIAS, 1999).
  23. 23. 223 CIBERCULTURA“Longe de ser uma subcultura dos fanáticos pela rede, acibercultura expressa uma mutação fundamental daprópria essência da cultura”.(LÉVY, 1999, p. 247)O suporte dos computadores e das redes que os interligam redimensionaram asfronteiras do mundo, criando um mapa virtual de fluxos de informação conhecido comociberespaço. O termo foi utilizado pela primeira vez em 1984, ainda antes das inovaçõestecnológicas e da popularização da internet, por Willian Gibson em seu livro Neuromancer.Para o autor, o ciberespaço é um novo mundo virtual, uma alucinação.Uma alucinação consensual, vivida diariamente por bilhões de operadores legítimos,em todas as nações, por crianças a quem estão ensinando conceitos matemáticos...Uma representação gráfica de dados abstraídos dos bancos de todos oscomputadores do sistema humano. Uma complexidade impensável. Linhas de luzalinhadas que abrangem o universo não-espaço da mente; nebulosas e constelaçõesinfindáveis de dados. Como luzes de cidade, retrocedendo (GIBSON, 2003, p. 80).O ciberespaço é, sobretudo, um lugar que existe e sobrevive pela informação e, comodefine Lévy, é também o espaço em que hoje funciona a humanidade. Na visão do autor, ociberespaço “é o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial doscomputadores e das memórias dos computadores” (LÉVY, 1999, p. 17). Ou seja, o termo nãose limita à infraestrutura da comunicação digital, mas considera também todo o universo deinformações que abriga, seus usuários e os conteúdos que alimentam esse universo.Tal espaço cibernético é responsável por diversas alterações no que conhecemos porcomunicação tradicional de massa, começando pelo texto, que pode ser visto como um únicohipertexto, que se dobra de forma diferente para cada leitor, o qual, por sua vez, torna-se umautor coletivo, configurando uma transformação permanente. É também no ciberespaço que sevivencia a chamada “desterritorialização” das mensagens, ou seja, a transformação dotangível em algo simbólico. Sobretudo, “no seio do espaço cibernético qualquer elemento tema possibilidade de interação com qualquer outro elemento presente” (LÉVY, 2000, p. 14).Ao contrário das mídias convencionais, em que um sistema hierárquico de produção edistribuição da informação se mostra pouco flexível, principalmente por sua base de modelocomunicacional de um para todos, em que poucos indivíduos são responsáveis por emitirinformações para uma elevada quantidade de pessoas, no ciberespaço a relação entre osindivíduos segue o formato de todos para todos, de modo que todos podem emitir e receber
  24. 24. 23informações de qualquer lugar onde estiverem. Tal característica influenciou diretamente nacriação de um momento singular na história cultural da humanidade: a cibercultura.Lévy, um dos primeiros estudiosos a explorar as ideias que envolvem o conceito decibercultura, entende que o “neologismo cibercultura especifica aqui o conjunto de técnicas(materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores quese desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço” (LÉVY, 1999, p. 17).Na visão do professor André Lemos, a cibercultura nasceu ainda nos anos 1950, com osurgimento da informática e da cibernética, mas tornou-se popular por meio dosmicrocomputadores na década de 1970, iniciando seu processo de consolidação nos anos 1980com o apoio da informática de massa, e ganhando destaque na década de 1990, com osurgimento de tecnologias digitais mais modernas e a consequente popularização da internet(LEMOS, 2002). Com a internet transformada em plataforma de comunicação cotidiana, asociedade começou a se moldar em torno de uma nova cultura. Para o professor,O termo está recheado de sentidos, mas podemos compreender a cibercultura como aforma sociocultural que emerge da relação simbiótica entre a sociedade, a cultura eas novas tecnologias de base micro-eletrônica que surgiram com a convergência dastelecomunicações com a informática na década de 70 (LEMOS, 2002, p. 11).O que se conhece hoje por cibercultura é, portanto, uma expressão que designa oconjunto de fenômenos cotidianos promovidos pelo progresso das comunicações digitais,podendo ser compreendida como uma formação histórica, prática e simbólica dodesenvolvimento da sociedade digital; ela não deve ser entendida simplesmente como umacultura guiada pela tecnologia, ainda que seja indissociável da internet. Por isso, acolaboração torna-se um dos pontos principais da cibercultura, e pode ser explorada por meiodo compartilhamento de textos, imagens, músicas e vídeos, principalmente por meio dascomunidades virtuais.3.1 INTELIGÊNCIA COLETIVAPercebe-se então que “as redes digitais instauraram uma forma comunicativa feita defluxos de troca de informações ‘de todos para todos’” (FELICI, 2008, p. 53), propiciando osurgimento da produção e da disseminação de conhecimento de maneira colaborativa,constituindo, assim, o que Lévy chama de “inteligência coletiva”, ou seja, “uma inteligênciadistribuída por toda parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resultauma mobilização efetiva das competências” (LÉVY, 1998, p. 28).
  25. 25. 24Essa nova forma de pensar que emerge na comunicação em rede favorece umpensamento inferencial construído por meio das mais variadas conexões e, principalmente,desapegado da tradicional preocupação hierárquica, ou seja, seguindo uma lógica rizomática;nesse novo formato, o conhecimento flui como o hipertexto de modo que, a cada novacontribuição, o conhecimento passa a seguir novos caminhos. Associações passam a acontecercom base no desejo dos participantes da rede, que buscam informações e conhecimentos deforma a intensificar ou alterar seus significados e construindo uma nova cartografia doprocesso de construção do conhecimento.Lévy reforça que a inteligência coletiva não se resume ao conceito cognitivo, mas“deve ser compreendida aqui como na expressão ‘trabalhar em comum acordo’, ou no sentidode ‘entendimento com o inimigo’. Trata-se de uma abordagem de caráter bem geral da vidaem sociedade e de seu possível futuro” (LÉVY, 1998, p. 26).Esta inteligência existe, entre outros fatores, devido à existência de outros grandespilares da comunicação digital: as comunidades virtuais, que, por sua vez, estão apoiadas nainterconexão; e existe principalmente por uma necessidade dos seres humanos deintercambiar seus saberes, trocando e construindo conhecimento. Os novos meios decomunicação permitem aos grupos humanos pôr em comum seu saber e seu imaginário, pormeio de uma nova forma de organização social.3.2 COMUNIDADES VIRTUAIS E REDES SOCIAISAo perceber a dimensão da importância das redes sociais digitais, ainda em 1993,Howard Rheingold cria a expressão “comunidade virtual” e a define como “agregados sociaissurgidos na Rede, quando os participantes de um debate o levam por diante em número e emsentimento suficientes para formarem teias de relações pessoais no ciberespaço”(RHEINGOLD, 1996, p. 18). O ciberespaço a que ele se refere é aquele sugerido por WilliamGibson em seu romance Neuromancer (2003).O entusiasta escreveu o livro A Comunidade Virtual baseado em sua própriaexperiência. Explicando, analisando e fazendo previsões acerca das mídias digitais, Rheingoldcria uma teoria própria de um usuário extremamente interessado na tecnologia.Para ele, a rede é vista como o meio de ágar-ágar, enquanto as comunidades virtuaissão pequenas colônias de microrganismos. A metáfora é possível pois a organização emcolônias se constrói inevitavelmente, da mesma maneira que a organização das pessoas emcomunidades. Rheingold ainda reafirma a importância da união das vozes e acrescenta a
  26. 26. 25necessidade do debate sobre “a maneira de administrar” a rede para que seu futuro não seja“determinado pelos detentores do grande poder”, como os meios de comunicação de massa,ainda que a capacidade da rede de contornar a censura seja inquestionável.Apesar de afirmar que “tudo na Rede cresceu como uma colônia bacteriana”(RHEINGOLD, 1996, p. 21), Rheingold se aproxima das características do rizoma de Deleuzee Guattari. A tecnologia que interliga computadores de todo o mundo em uma rede possuiuma estrutura muito similar à estrutura do rizoma a partir do momento em que ela conecta umponto a outro (RHEINGOLD, 1996), de maneira descontínua, podendo se romper e seregenerar a qualquer momento.Rheingold, no entanto, a descreve como raízes, quebrando em partes o raciocínio deDeleuze e Guattari, tendo em vista que as raízes são nitidamente bifurcadas. Ainda, como queconfundindo as teorias, ele mostra compreender as ligações entre estas diversas raízes comoum “intrincado complexo” (RHEINGOLD, 1996, p. 21), sem um centro determinado, ou seja,rizomático e não radicular.Este autor atribui à internet o surgimento da comunicação multilateral, ou seja, demuitos para muitos, e do conceito de bens coletivos, que ele traz com referências a MarcSmith. “Determinar os bens coletivos de um grupo é um modo de procurar os elementos quetransformam elementos isolados em uma comunidade” (SMITH, 1992 apud RHEINGOLD,1996, p. 26). Percebe-se, então, que a rede possibilita a formação de comunidades até entãopotenciais, que não teriam como existir devido a motivos como, por exemplo, a distânciaentre os indivíduos.Além disso, a formação de comunidades na internet, no ponto de vista de Rheingold,possibilita um debate geral entre os cidadãos, livre do viés dos meios de comunicação demassa tradicionais, o que favorece a democracia. A eleição democrática se apoia na discussãoentre os eleitores e somente por meio da rede é que se pode realizar um debate de fato. Emsuas palavras: “A relevância política das comunicações mediadas por computadores resulta desua capacidade para desafiar o monopólio dos poderosos meios de comunicação detidos pelahierarquia política e talvez assim revitalizar a democracia dos cidadãos” (RHEINGOLD,1996, p. 28).Tanto a união das pessoas em grupos quanto o debate livre entre os cidadãos sãoinstâncias que a internet proporciona, pois características pessoais como raça, etnia, sexo eidade perdem a importância dada na “vida real”, no contato físico pessoal. Na rede, o usuárioé tratado como um “ser racional, transmissor de ideias e sentimentos, e não como um
  27. 27. 26recipiente carnal com determinada aparência” (RHEINGOLD, 1996, p. 43); esta só é reveladase o próprio usuário assim decidir.A união das pessoas na rede prevê o fim das divisões e das dicotomias e, destamaneira, as pessoas aproximam-se por interesses comuns, conversam com pessoasdesconhecidas, de toda e qualquer parte do mundo, que se encontram por ter gostossemelhantes. Neste ambiente, pode-se aproveitar a situação de ser anônimo para tanto exporintimidades quanto para aplicar golpes e fraudes de identidade.As relações criadas no âmbito da internet podem ser ricas, resultando na construção deuma inteligência coletiva, ou perigosas, criando “novas formas de enganar o próximo”(RHEINGOLD, 1996, p. 44). Mas, segundo o mesmo autor, “ninguém confunde a vida virtualcom a real” (p. 55). Ao narrar um caso de suicídio de um colega de sua comunidade virtual, oautor alega que já havia indícios de comportamento suicida antes do acontecimento on-lineque o levou à ação de fato.Para complementar sua tese de que a vida virtual não se confunde com a real, elesegue afirmando que “os actos impulsivos podem ter na vida real conseqüências maispermanentes do que as desencadeadas pelos actos mais drásticos no ciberespaço”(RHEINGOLD, 1996, p. 55) e que as palavras ditas na internet podem atingir as pessoas commaior profundidade pois têm “o alcance e a perenidade de uma publicação” (p. 56).Aprofundando os estudos, ele também aborda o fato de as comunidades virtuaispassarem a funcionar não apenas como um ponto de encontro de usuários online, mas tambémcomo uma enciclopédia viva para quem busca informações específicas. Os usuários servem deagentes difusores da informação, apontando sites de interesse para colegas de sua comunidadeou mesmo para outras comunidades.Ainda em relação às comunidades, Rheingold segue o pensamento de Anderson sobreas comunidades imaginadas, “uma dada nação existe em virtude de uma aceitação geral desua existência na mente da população” (ANDERSON, 1983 apud RHEINGOLD, 1996, p.85), e o transporta para a rede, onde as pessoas precisam imaginar a ideia de comunidade emsi, para então compreender as comunidades virtuais.A liberdade de expressão torna a comunidade virtual frágil e com tendências adesagregação, sendo necessário desenvolver normas, costumes a atitudes aceitáveis a fim demanter a harmonia que, em tese, permite a manutenção e continuidade da comunidade. Épreciso “dar os cidadãos do ciberespaço uma ideia clara do que podem e não podem fazercom este meio” (RHEINGOLD, 1996, p. 86).
  28. 28. 27Uma de suas maiores preocupações quanto aos problemas decorrentes da liberdade deexpressão pode ser percebida quando o autor afirma que “a existência de newsgroup quecontêm material sexual explícito (...) é algo bastante difícil de justificar perante oscontribuintes conservadores” (RHEINGOLD, 1996, p. 331). Desta maneira, ele se posicionadefinitivamente como usuário e não como pensador e estudioso da rede digital.O ambiente digital é responsável por libertar estas facetas latentes na sociedade, comênfase na sexualidade por ser mais polêmica, uma vez que dissolve as barreiras da identidade.Os meios de comunicação tradicionais foram capazes de vencer as barreiras sociaisrelacionadas ao espaço-tempo, enquanto a internet possibilita a adoção de novos perfis sociais(RHEINGOLD, 1996) e transforma a sociedade por recuperar ou redescobrir o poder decooperação, tornando-se uma forma populista de organização social.Por fim, ele registra seu medo de que a rede seja dominada pelas grandes corporaçõese, assim, tenha sua natureza alterada. Diversas associações entre grandes empresas comoMicrosoft e Intel, Time-Warner e Graphics Company, entre outras, ameaçaram transformartoda a internet através de uma evolução tecnológica que permitiria o uso de som e vídeos – oque conhecemos hoje por “web 2.0” – ao mesmo tempo em que passaria a ser vista comosimples fornecedora de entretenimento. Assim, ele afirma que “quem está habituado a pensarnas comunicações mediadas por computador como fórum altamente anárquico, grosseiro, semcensura, dominado por amadores e entusiastas, terá, provavelmente, de aprender a pensar deoutra forma” (RHEINGOLD, 1996, p. 333).De maneira a negar outras teorias, Rheingold discorre sobre a rede digital comoferramenta, instrumento ou técnica de passar informações. As relações que ele descreve sãoapenas entre as pessoas, excluindo a importância da interação entre o humano e a técnica.Para ele, “a tecnologia não tem que estipular o jeito que as nossas relações sociais mudam,mas só podemos influenciar essa mudança se entendermos como as pessoas usam astecnologias” (RHEINGOLD, 1996, p. 30).Tais pontos abordados por Rheingold são cruciais para o pensamento sociológico darede, mas algumas conclusões ou mesmo certos argumentos que ele utiliza no decorrer de seutexto são criticados por diversos estudiosos. Em uma primeira leitura, já é possível analisarsua posição antropocêntrica – muito questionada em tempos de crise do sujeito – bem comouma forte visão instrumental da rede.O sujeito moderno, cartesiano, que mostrara sua identidade unificada e estável,começa a se fragmentar, descentralizando-se. Assim, as vozes que antes discriminadas, asminorias reprimidas agora emergem (HALL, 2000). Por mais que Howard caminhe entre as
  29. 29. 28ideias lançadas na WELL e os momentos teóricos acerca da comunidade, sua visão épraticamente imposta ao leitor. Ele narra sua experiência sem conversar com outrasexperiências, sem estudar as implicações da rede na visão das demais pessoas com quemconvive virtualmente. O conhecimento não é construído de maneira colaborativa, mas selimita a um diário pessoal.Com essa mesma autoridade contestável, Rheingold afirma que ninguém confunde ovirtual com o real. Sua separação entre real e virtual, aparentemente sem explicações teóricas,é mais um indício de sua posição antropocêntrica. Sem definir cada conceito para argumentarcom precisão, o autor se mostra enfraquecido.Sobre esta questão, Lévy escreve acompanhando a acepção filosófica de que o virtualé “aquilo que existe apenas em potência e não em ato” (LÉVY, 1999, p. 47), sendo umadimensão muito importante da realidade. Desta maneira, ele defende que o virtual não se opõeao real, mas ao atual – são momentos, dimensões diferentes e importantes da realidade. Ovirtual é real, ele existe sem estar presente.Além da definição, confirmando que o virtual é real, Lévy (1996) ainda coloca outraquestão referente à virtualização, separando-a da visão simplista de que o virtual é digital.Para ele, a virtualização proporciona grandes alterações na inteligência das pessoas, poisfacilita e aprimora a troca de experiências, permitindo uma interação maior entre indivíduos,inclusive de diversas regiões, rompendo as barreiras espaciais.Estas alterações na inteligência, chamadas de cognitivas, não são consequência dodigital, mas sim das formas de virtualização que a humanidade conheceu em seudesenvolvimento. A primeira delas foi o surgimento da escrita, em que houve a virtualizaçãoda linguagem oral. Posteriormente, o virtual se fez presente na concepção do alfabeto e, então,da imprensa. Por fim, com as mídias digitais, o virtual tornou-se novamente fundamental paraas tecnologias da comunicação.Em última instância, acontece o que Lévy (1996) chama de “inteligência coletiva”,também potencializada pelas novas tecnologias de comunicação. Esta expressão se refere àexistência de uma interatividade maior entre as pessoas, uma constante troca deconhecimentos que gera um conhecimento coletivo, aperfeiçoado, dinâmico – umconhecimento que está acessível a todos.Rheingold concorda com Lévy quanto às definições mais fundamentais, para não dizerque estas são, de fato, inquestionáveis. O papel do público na rede e aquilo que o leva a seencontrar e criar relações são os mesmos para ambos autores. Nas palavras de Lévy,
  30. 30. 29Cada um é potencialmente emissor e receptor num espaço qualitativamentediferenciado, não fixo, disposto pelos participantes, explorável. Aqui, não éprincipalmente por seu nome, sua posição geográfica ou social que as pessoas seencontram, mas segundo centros de interesses, numa paisagem comum do sentidoou do saber (LÉVY, 1996, p. 113).Mas, para Rheingold (1993), todo o desenvolvimento do digital e suas implicações nasociedade não são muito mais do que uma parafernália tecnológica, ou seja, ferramentas einstrumentos para conversar, ler, informar-se e se conectar com o mundo, quase como em umtelefone. Esta visão instrumentalista é desconstruída pelos estudos da comunicação digital,que mostram a importância de não se ver a internet apenas como um simples meio paratransmissão de conhecimento, o que a tornaria uma forma inovadora de continuar fazendo amesma coisa. Em 2013, vinte anos depois da definição de Rheingold, as comunidades virtuaiscedem espaço para as redes sociais, que permitem principalmente que as pessoas se conectemde diferentes formas, trocando pequenas ideias que dão forma a ideias inovadoras.Desde o início, as comunidades virtuais foram criticadas pela ausência do contatofísico entre seus participantes. Os primeiros a utilizar esse meio de comunicação cobravamdas comunidades virtuais aquilo que se entendia romanticamente por “comunidade”. Noentanto, o que não foi questionado foi o conceito de comunidade em si. Para Lévy (1999), ascomunidades virtuais são uma nova forma de se fazer sociedade; uma forma rizomática,transitória, desprendida de tempo e espaço, baseada na cooperação e nas trocas objetivas edesprendida dos laços fortes entre as pessoas.Com a consolidação de tais características na sociedade, passou-se a questionar oconceito de “comunidade”, que atualmente vê seu sentido desgastado. Muitos acreditam quetal conceito mudou de sentido no mundo digital. O sociólogo Baumann tenta analisar asmudanças ocorridas com a noção de comunidade. Para ele, a mudança envolveconceitos-chave da cibercultura, como individualismo, liberdade, transitoriedade, estética esegurança e, principalmente, Baumann elabora a hipótese de uma oposição entre liberdade ecomunidade (BAUMANN, 2003).O sociólogo compreende que o termo “comunidade” tem forte relação com uma“obrigação fraterna de partilhar as vantagens entre seus membros, independentemente dotalento ou importância deles” (BAUMANN, 2003, p. 59), ou seja, é formada por indivíduosegoístas – ou cosmopolitas – que percebem um mundo seguido pela ótica do mérito, e quenada teriam a “ganhar com a bem-tecida rede de obrigações comunitárias, e muito que perderse forem capturados por ela” (BAUMANN, 2003, p. 59). Atualmente, comunidade e liberdade
  31. 31. 30são conceitos em conflito. Viver sem comunidade significa não ter proteção, ao mesmo tempoem que alcançar a comunidade pode significar perder a liberdade individual.O conflito gerado pela nova visão do conceito de comunidade é então substituído pelanoção das redes sociais. Nesse novo momento, não se trata de definir relações de comunidadeem termos de laços próximos, mas de avançar em direção às redes pessoais. Cada indivíduopassa então a construir sua própria rede de relações, sem que essa rede seja definidanecessariamente como uma comunidade. A expressão “redes sociais”5passou então a serutilizada como principal definição de sites que oferecem serviços de comunicação, interação eparticipação centrados no relacionamento.O Brasil ocupa hoje a terceira posição em quantidade de usuários ativos na internet,com 52,5 milhões de pessoas conectadas. Em primeiro e segundo lugares estão EstadosUnidos, com 198 milhões, e Japão, com 60 milhões de usuários. O Brasil ainda se colocou emprimeiro lugar no quesito “tempo de acesso de cada internauta”: em dezembro de 2012, osbrasileiros gastaram em média 43 horas e 57 minutos navegando na internet (IBOPE, 2013).As redes sociais acompanham esse crescimento com um número significativo deusuários, pois a cada cinco internautas quatro se relacionam em sites pela internet. Seja comocomunidades virtuais, seja como redes sociais, tais ambientes do ciberespaço seguem atuandona função de estimuladores da participação e da inteligência coletiva propostas por Lévy(1999) como bases da cibercultura, e nas quais os indivíduos se apoiam para manter ativa atroca de informações e conhecimento nos meios digitais.O Facebook, o Twitter e o Google Plus ocupam hoje um espaço central no ecossistemade mídia social, principalmente pelas funcionalidades que oferecem como suporte aorelacionamento pessoal, mas muitas outras redes ainda podem ser encontradas pelo mundo,oferecendo os mais diversos tipos de serviços, como: redes para publicação de conteúdo com plataformas de blogues, como WordPress eBlogger, e wikis, como a Wikipédia; serviços de compartilhamento de fotos, links, vídeos, música e produtos, como Delicious,Tumblr, Instagram, Pinterest, YouTube, Vimeo, Vine, Spotify, SoundCloud e Slideshare; plataformas para discussão, troca e difusão de conhecimento, como Reddit; aplicativos para conversação, como Skype, Kik e WhatsApp; redes para networking como Badoo e LinkedIn.5Confunde-se muito redes sociais com mídias sociais, que, apesar de estarem no mesmo universo, são coisasdistintas. Mídia social é o meio que determinada rede social utiliza para se comunicar.
  32. 32. 31O mundo das mídias sociais é um ecossistema complexo que vive em constantemudança. Com frequência cada vez mais elevada novos serviços são criados, outrosdesaparecem, e segue-se uma tendência de evolução constante. Em uma visão mais objetiva,mas ainda impossível de contemplar toda a gama de redes sociais do mundo, considera-separa o ano de 2013 o seguinte panorama:Figura 3 ‒ Social Media Landscape 2013 por Fred CavazzaFonte: Disponível em: <http://www.fredcavazza.net/2013/04/17/social-media-landscape-2013/>.Dentre as principais redes sociais da atualidade que serão destacadas neste trabalhoestão Facebook, Twitter, YouTube, GetGlue, Instagram e Tumblr, ou seja, redes que estãodiretamente relacionadas ao conceito de “segunda tela”, ou Social TV, e ao consumo deficção televisiva no Brasil, temas que serão abordados posteriormente. Com funçõesdiferentes, o Facebook – que já ultrapassa 70 milhões de usuários (OLHAR DIGITAL, 2013)no Brasil – e o Twitter, que declara ter 200 milhões de usuários ativos mensais e 400 milhõesde postagens diárias em todo o mundo, serão os destaques do estudo de caso apresentadoneste documento (IDGNOW, 2013).Lançado em 2004 com o propósito de aproximar estudantes universitários nos EstadosUnidos, o Facebook tornou-se uma das principais redes sociais utilizadas no Brasil e nomundo, impulsionado principalmente pela maior facilidade de compartilhamento de conteúdo,aproximação de pessoas – seja por meio profissional ou pessoal – e alto investimento trazido
  33. 33. 32tanto por investidores quanto pelo canal de mídia, denominado Facebook Ads. Além disto, apossibilidade de integração com as outras redes permitiu ao Facebook se transformar em umhub de mídias sociais, empresas, aplicativos e jogos. Atualmente, os usuários passam emmédia 6 horas e 44 minutos de seus dias nessa rede social (PROXXIMA, 2013).Figura 4 ‒ Distribuição demográfica dos brasileiros no FacebookFonte: SOCIALBAKERS, 2013.O Twitter, lançado em 2006 com o conceito de microblogue, permite que seususuários realizem comentários rápidos e também possibilita a criação de personas que deemcontinuidade à discussão dos assuntos que estão sendo falados na novela, por exemplo. Aolongo dos anos, o Twitter cresceu e tornou-se mais uma plataforma de compartilhamento denotícias e opinião do que propriamente uma plataforma de microblogue. Para a rede, 2012 foium ano único no Brasil. Segundo dados divulgados em dezembro pela organização, dentre os60 picos repentinos de interesse do público no ano, as publicações relacionadas aentretenimento ficaram em primeiro lugar, com 28% do total de interação; outros assuntoscomo esportes e política também foram destaques, com 13% e 9% do total, respectivamente.Dentro da categoria entretenimento, as novelas e os reality shows conquistaramenorme presença no Twitter. De 1º de março a 31 de outubro, o termo Avenida Brasil foirecordista com milhões de aparições, sendo que apenas em seu último capítulo a rede socialcoletou mais de três mil tweets por minuto sobre o tema.Já o YouTube, rede que permite a seus usuários – sejam estes pessoas ou empresas – ainclusão gratuita de vídeos para divulgação tanto a seus amigos quando aos demais
  34. 34. 33interessados no tema, vive atualmente um momento glorioso, com uma hora de vídeo sendoincluída no site a cada segundo. Sua facilidade de acesso, impulsionada pelo crescimento dosdispositivos móveis, faz com que os vídeos do YouTube acumulem aproximadamente quatrobilhões de visualizações por dia (TUDO SOBRE MARKETING DIGITAL, 2012).O GetGlue, por sua vez, é uma rede social produzida especialmente para fãs detelevisão e entretenimento. Por meio dela, os usuários dizem o que estão assistindo – shows,filmes, novelas ou programas esportivos, de forma que toda sua rede de relacionamento possasaber o que o usuário está fazendo e qual sua opinião sobre o programa. Não menosimportantes para o tema aqui discutido, o Instagram e o Tumblr oferecem a função decompartilhamento de fotos, imagens e textos curtos.O uso do celular, em especial dos smartphones, vem crescendo de forma rápida nopaís e impulsionando o uso das redes sociais no dia a dia. Estudo realizado pelo IBOPEMedia em fevereiro de 2013 mostra que quase 80% dos usuários de smartphones os utilizampara acessar redes sociais e comunicadores instantâneos. Ainda, 23% dos entrevistadosafirmam que usam os celulares enquanto assistem à televisão (IBOPE, 2013)Essas redes sociais são exemplos de como os jovens – e jovens adultos – usam erevolucionam a tecnologia atualmente (TAPSCOTT, 2010). Conhecida por nomes como“geração da internet”, “geração digital” ou “millennials”, essa é uma geração que gosta decompartilhar informações, está sempre conectada e não fica satisfeita apenas com a televisão,como a de seus pais.Tanto a tecnologia está influenciando o modo como a nova geração cresce e secomporta, como esse grupo influencia e molda diretamente a internet. “Essa geração estátransformando a internet de um lugar no qual você encontra informações em um lugar no qualvocê compartilha informações” (TAPSCOTT, 2010, p. 54).3.3 A CULTURA DA PARTICIPAÇÃOPercebe-se, portanto, que a sociedade vivencia uma transformação profunda na formacomo as pessoas obtêm informação; sensação de mudança que não é inédita na história dahumanidade. Desde a industrialização, que “criou não apenas novas formas de trabalho, mastambém novos modos de vida, porque a redistribuição da população destruiu antigos hábitoscomuns à vida rural” (SHIRKY, 2011, p. 8), a sociedade vem evoluindo para uma formapós-industrial, que apresenta não apenas a sequência do crescimento urbano, mas também de
  35. 35. 34um crescente nível educacional, marcando “um forte aumento no número das pessoas pagaspara pensar ou falar, mais do que para produzir ou transportar objetos” (SHIRKY, 2011, p. 9).Tais mudanças foram responsáveis por introduzir no cotidiano social um pontoconsiderado por Clay Shirky como inédito: o tempo livre, que foi rapidamente preenchidopela televisão. “Assistir a novelas, sitcoms, seriados e à enorme gama de outrosentretenimentos oferecidos pela televisão absorveu a maior parte do tempo livre dos cidadãosdo mundo desenvolvido” (SHIRKY, 2011, p. 10). Com esse fenômeno, e apesar da condiçãode seres sociais, as pessoas passaram a reduzir gradualmente seu capital social e orelacionamento com os grupos aos quais pertenciam. A seu ver, a televisão foi responsávelpela redução da quantidade de contato humano.Essa condição vem sendo modificada com a presença da internet e de dispositivosmóveis no dia a dia dos novos telespectadores, e “populações jovens com acesso à mídiarápida e interativa afastam-se da mídia que pressupõe puro consumo” (SHIRKY, 2011, p. 15).Os novos consumidores de conteúdo realizam diversas atividades ao mesmo tempo, utilizamseus celulares de maneira diferente do que inicialmente conhecemos e demonstramfamiliaridade quase natural com as novas tecnologias. Por mais envolvido com a tecnologiaque alguém seja, a diferença para essa nova geração é que eles criam e modificamconstantemente o conteúdo que consomem (TAPSCOTT, 2010).Observando as gerações anteriores, pode-se compreender melhor o desenvolvimentonos meios de comunicação e o significado da evolução tecnológica para a sociedade.Brevemente, com os baby boomers, percebe-se a importância da televisão como o maisinfluente meio de comunicação disponível na época. Com a geração X, têm-se os primeiroscontatos com uma experiência que se aproxima do digital, propostas por um grupo comcomportamentos centrados na mídia. A geração da internet, geração Y ou millennials, por suavez, é a primeira geração que já nasceu “imersa em bits” (TAPSCOTT, 2010, p. 28) evivenciou a ascensão da banda larga e das tecnologias móveis.Essa geração é formada pelas pessoas nascidas entre os anos 1980 e 2000, mas, maisdo que isso, é a geração de pessoas que “nunca precisou fazer um monte de matemática comsuas próprias cabeças, graças aos computadores” (STEIN, 2013). Somando mais de 80milhões de pessoas, esse é o maior grupo etário na história e, devido à internet, à globalizaçãoe às mídias sociais, seus componentes são mais semelhantes entre si do que as gerações maisvelhas eram, mesmo dentro de suas próprias nações (STEIN, 2013).Millennials são conhecidos por interagirem por meio de telas durante todo o dia, emtodos os lugares. Vivem em uma ansiedade constante e estão sempre preocupados com a falta
  36. 36. 35de algo melhor. De acordo com a pesquisa de Stein, 70% desses jovens conferem seuscelulares a cada hora, e vivem uma síndrome conhecida como “experiência da vibraçãofantasma” – quando pensam que seus telefones estão vibrando mesmo quando não estão(STEIN, 2013).É uma geração que se caracteriza, entre diversas outras coisas, por ser maiscomunicativa e estar mais presente nas redes sociais, formando grandes grupos capazes deatravessar fronteiras e idiomas. Por meio de tais movimentos, esses grupos conseguem forçade opinião e podem, com suas vozes unidas, alterar os modelos tradicionais da comunicação –nota-se o aumento anual do número de blogues e sites pessoais, espaços para que os usuáriosdas redes exponham suas as ideias, intimidades e vontades. Além do poder de voz, elestambém buscam a aprovação constante de seus amigos e familiares. Fazem parte da geraçãodas “blogueiras de moda”, por exemplo, que postam fotos de seus guarda-roupas enquantoexperimentam as novas coleções e aguardam comentários e divulgação espontânea doconteúdo que produzem (STEIN, 2013).Para eles, viver com tanta tecnologia faz parte de seu ambiente e de seu cotidiano,assim como as novas formas de relacionamento e, principalmente, a lógica do hipertexto é tãológica quanto qualquer outra atividade. Isso não significa que só eles sejam capazes de utilizara internet. O ponto diferencial é que esse grupo assimilou a tecnologia porque cresceu comela, enquanto os demais adultos tiveram que se adaptar por meio de um tipo diferente e maiscomplexo de aprendizado. Para a geração X, intermediária entre os baby boomers e osmillennials, a experiência com o digital também é outra, a internet que eles conhecerammudou. “A velha rede era algo em que você navegava em busca de conteúdo. A nova rede éum meio de comunicação que permite que as pessoas criem seu próprio conteúdo, colaborementre si e construam comunidades” (TAPSCOTT, 2010, p. 29).Além disso, diferentemente da televisão e dos outros meios comunicação tradicionais,na nova rede as pessoas precisam procurar pelas informações que desejam, em vez desimplesmente ligar o aparelho e receber as informações no sofá. E as mudanças nos hábitosvão além: a geração da internet assiste à televisão menos que seus pais, e o faz de maneiradiferente. O que se espera de um jovem hoje é que ele “ligue o computador e interajasimultaneamente com várias janelas diferentes, fale ao telefone, ouça música, faça o dever decasa, leia uma revista e assista à televisão” tudo, claro, ao mesmo tempo. “A tevê se tornouuma espécie de música de fundo para eles” (STEIN, 2013).Dessa forma, compreende-se que “mesmo quando ocupados em ver TV, muitosmembros da população internauta estão ocupados uns com os outros, e esse entrosamento se
  37. 37. 36correlaciona com comportamentos que não são os do consumo passivo” (SHIRKY, 2011, p.16) e, por isso, a expressão “conteúdo gerado por usuários” é a nova marca de atos criativosfeitos pelos amadores. Recupera-se o desejo de entrosamento que a televisão havia reduzido.Com as mídias sociais, subentende-se uma mensagem maior, de que o usuário tambémpode participar. E os participantes são diferentes dos telespectadores, porque “participar é agircomo se sua presença importasse, como se, quando você vê ou ouve algo, sua resposta fizesseparte do evento” (SHIRKY, 2011, p. 25). Além disso, mais do que o poder de voz, o poder decompartilhamento torna a produção nas redes sociais uma atividade especial.Os seres humanos sempre apreciaram as atividades de consumo, produção ecompartilhamento, mas a mídia do século XX voltava-se apenas para o primeiro enfoque.Para Clay, “nossa capacidade de equilibrar consumo, produção e compartilhamento, nossahabilidade de nos conectarmos uns aos outros, está transformando o conceito de mídia”(SHIRKY, 2011, p. 29).Por isso, torna-se claro que a cultura da participação – e por cultura da participaçãoentende-se o ambiente em que a maioria das pessoas tem capacidade de produzir comunicaçãomediática por conta própria e iniciar a circulação de suas ideias – é inerente à cultura digital,principalmente pelo fato de as novas tecnologias permitirem que, com baixos custo e risco, aspessoas finalmente apliquem seu tempo livre em algo que sempre tiveram vontade: usar seustalentos para criar e compartilhar, juntos, novas ideias. Como se sabe, o que os internautasquerem é “estar conectados uns aos outros, um desejo que a televisão, enquanto substitutosocial, elimina, mas que o uso da mídia social, na verdade, ativa” (SHIRKY, 2011, p. 18)
  38. 38. 374 TV SOCIAL E O FENÔMENO DA SEGUNDA TELA“O teatro não foi superado pelo cinema, como o cinema nãofoi ultrapassado pela televisão, da mesma forma como a TVtambém não vai ser banida pelo digital. Todos ainda estão lá”.(JENKINS, 2009)O conceito de segunda tela conquistou espaço entre os estudiosos da mídia em 20116ebaseia-se no consumo simultâneo de conteúdo em diversos dispositivos. Os usuários e seusnovos meios de aquisição de conteúdo têm mudado o modo de consumir informação,colaborando cada vez mais para a inovação e a evolução dos equipamentos eletrônicos, emum processo cíclico. Enquanto assiste à televisão, o telespectador também acompanha nocelular, tablet ou computadores portáteis diversas informações adicionais sobre o programaque está passando na televisão. Tal hábito de consumir televisão de maneira social,compartilhando sua experiência e pontos de vista com uma nova audiência nas redes sociais éum fenômeno característico da cibercultura, potencializada pela conexão através das redessociais (DORIA, 2011b).Fãs que assistem aos programas por vias online são mais engajados do que os fãs queassistem apenas pela televisão. Para a colunista americana Benny Evangelista, assistir àtelevisão sempre foi uma experiência coletiva. Desde a década de 1950, as pessoas se reuniamem locais do convívio social, como o escritório de trabalho, para conversar sobre o episódiode I Love Lucy7da noite anterior, por exemplo. A diferença está no fato dessa então conversade corredor ter atingido uma dimensão além do colega de trabalho, vizinho ou parente(NEVES, 2011). Os debates acerca das personagens e narrativas refletem formas decomportamento e é por meio deles que a sociedade constrói consensos sobre ética e moral.Com a formação das comunidades virtuais, um debate geral emergiu entre os cidadãos.Livres do viés dos meios de comunicação de massa tradicionais e permeados pelo que Lévydenominou inteligência coletiva, ou seja, a existência de uma interatividade maior entre aspessoas e uma constante troca de conhecimentos, os debates se ampliaram e se tornaramacessíveis a todos. Dessa forma, encontra-se na prática o que Lévy demonstrou ao afirmar quenas comunidades virtuais todos podem ser emissores e receptores de conteúdo (LÉVY, 1998).6A TV Social foi apontada no fim de 2010 pelo MIT Technology Review como uma das principais novastendências a serem obervadas em 2011.7I Love Lucy foi uma das mais aclamadas e populares séries de televisão, exibida de 15 de outubro de 1951 a 1ºde abril de 1960 na rede americana CBS. Durante sua exibição, liderou a audiência da televisão americana emquatro de suas seis temporadas.
  39. 39. 38Cria-se, portanto, um fluxo que depende da participação ativa dos telespectadores, quepartem da inteligência coletiva como fonte de interação e ambiente de engajamento nacolaboração. Por meio dessa ótica, entende-se que os conteúdos das novas e velhas mídiasatuam de forma híbrida, propiciando não apenas o cruzamento entre as mídias alternativas ede massa, mas também pelos múltiplos suportes, o que caracteriza, por sua vez, a era daconvergência midiática (LEMOS, 2009).Ideias acerca da multiplicidade das telas vêm se desenvolvendo ao longo dos últimosanos, sendo analisadas em profundidade por cientistas da comunicação desde 2006, com apublicação dos estudos de Henry Jenkins sobre convergência, em que o autor “analisa o fluxode conteúdo que perpassa múltiplos suportes e mercados midiáticos, considerando ocomportamento migratório percebido no público, que oscila entre diversos canais em busca denovas experiências de entretenimento” (LEMOS, 2009).Com os estudos do americano Mike Proulx, coautor do livro Social TV: HowMarketers Can Reach and Engage Audiences by Connecting Television to the Web, publicadoem 2012, as primeiras ideias foram complementadas e seguiram um caminho próprio. Oconceito da TV Social pôde ser desenvolvido devido ao aperfeiçoamento tecnológico, quepossibilitou desde o surgimento da internet e suas redes sociais até o avanço da convergênciamidiática, responsável pela mudança no comportamento da sociedade quanto ao consumo deinformações.Na visão de Proulx, a televisão não morrerá, ela está mais viva do que nunca, já quevem se tornando onipresente com a conquista de novas telas, como celulares, tablets ecomputadores pessoais.Enquanto grande parte ainda revoa em torno do tema de que a “internet matará aTV”, como se ainda estivéssemos em 1998, Social TV é escrito num cenário atualem que a internet e suas tecnologias complementares já estão afetando a TV e foramintegradas ao modus operandi da indústria (DORIA, 2012).Para os autores Proulx e Shepatin (2012), o problema da televisão não é a falta de umconteúdo bom, que agrade a seu público, mas a dificuldade que o telespectador experimentaao tentar encontrá-lo. Essa fraqueza pode ser contornada ao unir forças com a internet,ambiente em que a experiência do usuário pode ser transformada, principalmente pelopotencial da linguagem do hipertexto em ampliar a cultura participativa.A expressão cultura participativa, por sua vez, serve para caracterizar ocomportamento do consumidor midiático contemporâneo, cada vez mais distante dacondição receptor passivo. São pessoas que interagem com um sistema complexo deregras, criado para ser dominado de forma coletiva (LEMOS, 2009).
  40. 40. 39Com base no crescente número de adeptos à cultura participativa, novos aplicativospara smartphones e tablets estão sendo desenvolvidos, com vistas a possibilitar cada vez maisa interação e a participação do espectador pelos meios virtuais. Tais aplicativos estimulam areunião de grupos de indivíduos interessados em um mesmo assunto, formando comunidadesde conhecimento e incentivando os espectadores a consumir informações de formadiferenciada. Cada espectador passa a ter acesso a conteúdos capazes de alterar sua percepçãosobre o programa assistido, reforçando ou alterando completamente pontos de vista; essesconteúdos são, geralmente, produzidos por mais usuários dos aplicativos, e são transmitidospor meio de comentários nessas redes sociais (LING; RICKLI, 2012).O resultado para o público envolve experiências cada vez mais positivas, tendo emvista que, de acordo com um estudo da CTAM8(2011), as pessoas assistem mais à TV e,ainda, sentem-se cada vez mais envolvidas com o conteúdo do programa exibido quando osassistem ao mesmo tempo em que utilizam seus dispositivos de segunda tela.Segundo os resultados da pesquisa, “os aplicativos de segunda tela fazem com que otelespectador se envolva e preste mais atenção ainda ao conteúdo exibido na TV” (DORIA,2011a). Os números mostram que 85% dos pesquisados estão assistindo a mesma quantidadeou mais de televisão depois que passaram a utilizar seus dispositivos móveis enquantoconsomem o conteúdo televisivo. Além disso, 46% acreditam que, com o uso de aplicativossociais digitais, ficaram ainda mais envolvidos com os programas que assistem na TV. Ouseja, “antes os olhares que estavam apenas voltados para os aparelhos de TV, agora tambémse voltam para outras telas” (DORIA, 2011a).No Brasil, os números ainda não são tão animadores, mas mostram evolução. Deacordo com uma pesquisa desenvolvida pela organização Google Inc. para obter informaçõessobre como seu público utiliza a internet em dispositivos móveis, entende-se que 88% dosacessos aos smartphones são realizados em conjunto com outras atividades (GOOGLE,2012). Desses usuários, 46% dividem a atenção de seus celulares com os conteúdostransmitidos pela televisão. Por outro lado, segundo relatório do IAB Brasil9, 61% dosbrasileiros usuários da internet utilizam o computador pelo menos frequentemente enquantoassistem à televisão (IAB BRASIL, 2013).8Cable & Telecommunications Association for Marketing (http://www.ctam.com/) é uma associação profissionalsem fins lucrativos, dedicada a ajudar o desenvolvimento dos negócios de vídeos e mídia.9O IAB Brasil atua desde 1998 no desenvolvimento do mercado de mídia interativa no Brasil.
  41. 41. 40Figura 5 ‒ Realização de outras tarefas durante o uso de smartphonesFonte: GOOGLE, 2012, p. 20.Figura 6 ‒ Uso paralelo de computador e TV: frequência, idade e gêneroFonte: IAB Brasil, 2013, p. 15.O século XXI introduz um receptor que administra um volume e uma diversidade deinformação cada vez maiores e que, muitas vezes, é colocado em situações de exposição einteração com as mensagens que lhe são oferecidas. Segundo Ling e Rickli (2012, p. 4), “ocomportamento do telespectador que assiste à televisão enquanto interage nas redes sociais éo reflexo de uma sociedade intensamente bombardeada por informações, em que a suaatenção é dividida em duas telas”. Entende-se, portanto, que o espectador deixa de assistir a
  42. 42. 41seus programas simplesmente enquanto hábito individual para fazer parte de uma experiênciacoletiva.Cannito, apoiado por uma pesquisa realizada pelo Instituto Datanexus em 2003,mostra que “o espectador nunca assistiu à televisão de forma passiva e alienada” (CANNITO,2010, p. 64). Dos 10 mil entrevistados pelo Instituto, a maioria mostrou preferência porassistir TV acompanhado [62%], destacando os seguintes fatores como decisivos na resposta:troca de ideias [66%], vibração [20%] e estar com a família [14%]. Para o autor,(...) uma das principais funções da televisão é criar um espaço público de identidadee debate, e o processo de recepção pode ser relacionado com um tipo difuso departicipação coletiva. Por um lado, o público recebe uma novela de modo passivo,ou seja, apenas assistindo. Ao mesmo tempo, a opinião dos telespectadores começaa construir um jogo entre o público e o autor (CANNITO, 2010, p. 65).Com a experiência digital em múltiplas telas, ninguém precisa assistir à televisãosozinho, ainda que o espaço físico esteja vazio. Por meio das redes de relacionamento on-lineo debate é amplificado e acontece em tempo real. Esse fenômeno contribui também para ocrescimento orgânico das narrativas, por exemplo, uma vez que o autor consegue identificarnas vozes de seu público os temas mais relevantes e fomentar os debates sobre sua obra.Enquanto o livro é lido em silêncio, com “uma aproximação pessoal e subjetiva” deseu leitor (CANNITO, 2010, p. 69), a televisão não exige momentos de tamanha concentraçãoe silêncio, permitindo que os telespectadores conversem e até transitem pela casa semdiminuir sua experiência. Essa característica pode ser facilitadora do hábito das duas telas epromotora da cultura da TV Social. No entanto, dados do IAB Brasil demonstram que apenas6% dos telespectadores que acompanham a TV com outros dispositivos prestam mais atençãono conteúdo da televisão, em detrimento do que está consumindo na internet.
  43. 43. 42Figura 7 ‒ Uso paralelo de computador e TV: atenção e gêneroFonte: IAB Brasil, 2013, p. 15.Dessa forma, compreende-se que a teoria da segunda tela é maleável e deve seradaptada a situações em que os dispositivos móveis atuem como a primeira tela enquanto aTV assume o papel da segunda tela – e não ao contrário, como é normalmente entendido.Por isso, para cumprir seu papel na teoria do agendamento10, a televisão precisaaprimorar suas técnicas de aproximação com o público. Quanto mais atrativo o conteúdoexibido e quanto maior participação conquistar de seu público, mais a televisão seráresponsável por fomentar os debates sociais, agora amplificados pelas redes sociais epulverizados pelos dispositivos móveis. Além disso, essa nova televisão, conhecida por suainteratividade, demanda uma nova linguagem televisiva, seja do próprio modelo audiovisualou das aplicações e serviços adicionais que são oferecidos.10Formulada por McCombs e Shaw, a teoria do agendamento, ou agenda setting, entende que a mídia éresponsável por determinar e pautar os assuntos da esfera pública, destacando determinados temas emdetrimento de outros, de acordo com questões particulares à mídia e seus patrocinadores.
  44. 44. 435 CONVERSANDO COM TODAS AS MÍDIAS“A alfabetização dá às pessoas o poder de focalizar umpouco à frente da imagem de modo a poder captá-la, porinteiro, num golpe de vista”.(MCLUHAN, 1972)Ainda que o curso da revolução digital tenha encontrado aqueles que acreditavam queas novas mídias superariam e substituiriam as mídias tradicionais de massa, procurou-sedemonstrar no decorrer deste trabalho que o cenário dos meios de comunicação caminha emoutro sentido. Defende-se, portanto, um processo de convergência no qual os novos e antigosmodelos de comunicação influenciam profundamente uns aos outros, mas coexistem demaneira produtiva. Houve mudanças nas condições de produção, distribuição e consumo dacultura que deram espaço ao engajamento, à colaboração e à participação da audiência.Tais mudanças influenciaram o modo como os meios de comunicação produzem ereproduzem significados, ainda que sempre através da linguagem. Por definição, o termolinguagem refere-se tanto à capacidade humana para aquisição e utilização de sistemascomplexos de comunicação quanto ao próprio sistema de comunicação, que permite aos sereshumanos o compartilhamento de sentidos; ou seja, a linguagem oferece ao homem umacomplexa função social, utilizada na expressão e manipulação de objetos em seu ambiente deconvívio social.Ao contrário de outros tipos de aprendizagem, a aquisição da primeira linguagem nãoexige dos homens ensino direto ou estudo especializado, uma vez que todos os seres humanosjá nascem com propensão para a comunicação, seja por meio da fala ou dos gestos. Nósadquirimos as línguas por meio do relacionamento com as pessoas com que convivemos aindaenquanto crianças (SCHNEIDER, [19--]).Com a evolução do homem, o uso da linguagem enraizou-se na cultura e passou a serempregado na comunicação e em todas as formas de troca de informação, assumindo funçõessociais ao permitir a expressão de pensamentos, ideias, opiniões e sentimentos, ou seja,disseminando a identidade de cada indivíduo e de seus grupos.Observa-se ainda que a linguagem está diretamente relacionada a textos e linguagensverbais no inconsciente das pessoas, ou seja, relaciona-se linguagem à capacidade humanaligada ao pensamento, que se concretiza na figura de uma língua e se manifesta por meio daspalavras. Estudiosos como McLuhan e Ong abordam o impacto da tipografia na percepçãodos seres humanos. McLuhan propõe, em A galáxia de Gutenberg, uma cultura do “homem
  45. 45. 44tipográfico”, centrada na linguagem escrita e que se mostrou capaz de alterar de algumamaneira o relacionamento do homem com seus sentidos, uma vez que a visão conquistouespaço privilegiado com a expansão da leitura. Ong, por sua vez, analisa as capacidades deatenção e concentração do homem que viveu a hegemonia da escrita e da leitura (MARTINO;MENEZES, 2012). Os sentidos responsáveis pela aquisição de conhecimento foram, aospoucos, sofrendo influência das novas formas de comunicação desenvolvidas pelo homem.No entanto, além da escrita, existem outras formas de linguagem como pintura,mímica, dança e música. Por meio dessas atividades, o homem também representa o mundo,exprime seu pensamento, comunica-se e influencia os outros. Ambas as linguagens verbal enão verbal expressam sentidos e, para isso, se utilizam de signos. O signo linguístico écompreendido como um elemento representativo constituído de dois aspectos básicos, osignificante e o significado, os quais formam um todo indissolúvel capaz de cumprir a funçãosocial da linguagem no processo de comunicação, fornecendo às palavras um significado, ouseja, permitindo que cada palavra represente de fato um conceito. Essa combinação deconceito e palavra é chamada de signo. O signo linguístico, por sua vez, une um elementoconcreto, material, perceptível – seja este um som ou letras impressas – chamado significante,a um elemento inteligível, o conceito, chamado então de significado (SANTAELLA, 2003).Koch (2003:7) sintetiza as três concepções por meio das quais a linguagem humanatem sido estudada ao longo da História: “(a) como representação (“espelho”) do mundo e dopensamento; (b) como instrumento (“ferramenta”) de comunicação; (c) como forma (“lugar”)de ação ou interação.”A terceira concepção pode ser resumida como aquela que considera “a linguagemcomo atividade, como forma de ação, ação interindividual finalisticamente orientada; comolugar de interação que possibilita aos membros de uma sociedade a prática dos mais diversostipos de atos, que vão exigir dos semelhantes que reações e/ou comportamentos, levando aoestabelecimento de vínculos e compromissos anteriormente inexistentes.” (KOCH 2003:7-8)(grifos da autora)Neste trabalho, compreende-se a linguagem como descrito na terceira concepção.Retoma-se então a premissa de que os meios de comunicação produzem sentidos por meio dainteração proporcionada pela linguagem.Assim, analisando as mídias tradicionais como livros, revistas, rádio e televisão,percebe-se a apropriação de uma linguagem linear. Ou seja, os signos e sons utilizados nacomunicação não se superpõem, mas se sucedem um depois do outro no tempo da fala ou noespaço da linha escrita. Tomando como base a televisão, identifica-se a presença tanto de
  46. 46. 45linguagem verbal quanto de não verbal, de modo que tal mídia passa a explorar umaarticulação especial entre sons e ângulos de câmeras, por exemplo, com vistas a estimular asemoções de seu público. Ainda assim, cada signo e cada som são utilizados em momentosdistintos uns dos outros, sempre apresentados de forma sequencial (ALVES, 2000). Pode-seentão considerar que o processo de alfabetização das crianças torna-se uma forma prática depreparo para que esse indivíduo consiga se articular com as mídias no futuro.Com a revolução causada pela telemática, as tecnologias digitais passaram a serresponsáveis por mudanças não mais limitadas à relação sensorial entre homem e seus meiosde aquisição do conhecimento, mas modifica também noções de fronteiras, distâncias epresença. É dentro desse contexto que a linguagem verbal passa a conviver com outro tipo delinguagem, a hipertextual. Com a interação entre as tantas inovações técnicas, com destaquepara a internet, a sociedade vivencia um rompimento com a linearidade do discurso e daleitura sequencial. Para acompanhar os novos meios de comunicação, os usuários precisamdominar uma nova linguagem, agora hipertextual.Segundo Lévy (1996), um texto digitalizado permite novos tipos de leitura uma vezque se conecta a outros por meio das ligações hipertextuais, permitindo um acesso não lineare seletivo do conteúdo, com múltiplas conexões, que propõe uma experiência diferente daproposta pela leitura em papel impresso, por exemplo. Lévy define essa experiência comocontinuum variado:(...) o suporte digital permite novos tipos de leituras (e de escritas) coletivas. Umcontinuum variado se estende assim entre a leitura individual de um texto preciso e anavegação em vastas redes digitais no interior das quais um grande número depessoas anota, aumenta, conecta os textos uns com os outros por meio de ligaçõeshipertextuais (LÉVY, 1996, p. 43).A principal característica do hipertexto é, portanto, a interatividade, que possibilita atroca com o outro virtualmente. Dessa forma, o leitor pode se fazer autor no momento em quedeixa de percorrer uma rede de raciocínio pré-estabelecida e passa a criar novas ligações,organizando sua própria rede de conhecimento. Assim, leitura e escrita trocam seus papéis, demodo que o processo de estruturação do hipertexto torna a leitura um momento também deescrita (ALVES, 2000).Em um sentido mais amplo, considerando o ambiente de convergência de mídias,percebe-se que o leitor na internet se comporta como um zapeador de televisão. Ele se conectaa um ambiente para se encontrar com diversas referências ao mesmo tempo, zapeando pelos
  47. 47. 46mais variados conteúdos, de modo a construir uma leitura nem sempre articulada, masmoldada exclusivamente por seus interesses e intenções com a rede.Nessa nova forma de interação com o texto percebe-se que, ainda que a leitura na telanão seja uma leitura de fato coletiva, seus significados o são, ao passo em que sãocompartilhados socialmente. Tal questão pode ser comparada com a apropriação que aspessoas fazem da televisão, meio de comunicação que sempre possuiu sua característicacoletiva ao propiciar uma cultura para ser assistida em grupo, especialmente no ambientefamiliar, mas que por muito tempo foi compreendido como responsável por uma apropriaçãoindividual de seu público. Segundo Hoffman,(...) entendia-se que ela [a televisão] provocava o mesmo “efeito” em qualquerreceptor estando ele sozinho ou em grupo. A imagem/mensagem da TV tambémpassa hoje por essa desterritorialização. Ela não tem mais fronteiras rígidas e circulapor vários lugares, é modificada pelos diferentes canais/fontes de emissão, temdiferentes apropriações de acordo com o contexto e o local de sua veiculação. Aimagem da TV é também texto em movimento (FERNANDES, 2010).Para uma pessoa alfabetizada com a linguagem dos meios, no entanto, a experiência édiferente. O conhecimento faz com que ela conquiste certo controle sob suas experiênciascom a mídia, tornando-se capaz de compreender o impacto da música e dos efeitos especiaisenquanto potencializadores das emoções em um programa de televisão, por exemplo. Estereconhecimento não diminui o prazer de sua atenção aos programas, apenas ameniza osimpactos da experiência, tornando o espectador mais cauteloso quanto às informações queconsome.Essa alfabetização é apresentada à ciência da comunicação como media literacy erepresenta um entendimento crítico dos meios de comunicação por parte de seusconsumidores. O estudo, iniciado na década de 1970, concentra-se em estimular a capacidadede compreensão do trabalho das mídias enquanto produtoras de significados, explorando omodo como são organizadas e ensinando ao público como utilizá-las com sabedoria. Aeducação para a mídia tem paralelos com as tradicionais leituras e habilidades desenvolvidaspara ler e escrever. Dessa forma, pode-se entender o conceito de media literacy como umanova habilidade das pessoas que as tornam capazes de ler e escrever informações audiovisuaise textos, de forma a permitir o uso de todas as mídias, compreendendo as informaçõesrecebidas por todos os meios.Ainda, essa educação para a mídia envolve, além dessa nova habilidade de leitura, oreconhecimento e a compreensão para as habilidades do pensamento crítico, estimulando queos consumidores da mídia questionem, analisem e avaliem a informação consumida, ou seja,
  48. 48. 47permitindo uma análise crítica por parte do público. O principal objetivo da media literacy é,portanto, alfabetizar as pessoas na linguagem da mídia de modo que elas possam descreverconscientemente o papel que os meios de comunicação desempenham em sua vida. Prepararas competências midiáticas é buscar estabelecer conexões entre o indivíduo e uma realidadesimbolicamente mediada, uma sociabilidade permeada pela presença das mídias no cotidiano.O processo não é de educação específica para os meios, mas de educação dialógicados sentidos, das percepções e das práticas para uma sociedade que inclui os meioscompreendidos, entre outras dimensões, como aparatos técnicos, comoprodutores/reprodutores de discursos e como mediadores da experiência relacionalhumana. (...) Isso significa buscar a formação de um repertório que permita adecodificação, apreensão, reconstrução e uso não apenas de mensagensdirecionadas, oriundas desta ou daquela mídia, mas de todo um modus operandi doespaço social no qual as mediações simbólicas acontecem na e a partir dacomunicação, pensada como processo articulado ao conjunto das práticas relacionais(MARTINO; MENEZES, 2012, p. 14).Em cada meio a leitura e a recepção ainda são diferentes. Um importante conceito deMcLuhan oferece relação direta com essa questão. O meio é a mensagem passa também a serainda mais perceptível e importante, já que pode ser explorado em profundidade. Cada meiopermite uma exploração diferente da mesma informação e, deste modo, a convergênciaenriquece a informação e a comunicação. Em termos práticos, essas pessoas letradas em mídiadesenvolvem habilidades para, por exemplo, manusear uma revista eletrônica em um tablet,interagindo com as funcionalidades de vídeos e hipertexto, além de adquirir conhecimento pormeio do texto escrito. Mais do que isso, estão aptas a concordar ou não com o ponto de vistado produtor do conteúdo e emitir sua opinião por meio de comentários ou produçõesindependentes em blogues, por exemplo – e não guardar para si uma informação vazia de“gostei” ou “não gostei” do material.No universo digital, texto, imagem e som não são mais o que costumavam ser. Aconvergência faz com que as mídias deixem de ser meros instrumentos técnicos e passem aser componentes de todas as instâncias e fases do processo, não só como instrumentos, mastambém como modelos estruturais, como geradores de novos conceitos, como caminhos entreinformações e pessoas. A convergência e as mídias digitais atuarão principalmente naconstrução de um conhecimento coletivo que cada vez mais estará presente tanto naspesquisas quanto no modo de pensar dos seres humanos.Nesse sentido, entende-se que “as competências midiáticas estão ligadas à capacidadede articulação com vários ambientes simbólicos, inclusive os mediados por tecnologiaspresentes em redes e sociabilidades diversas” (MARTINO; MENEZES, 2012, p. 16). Cadavez menos a comunicação está confinada a lugares fixos e os novos modelos de

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