FACULDADE INTERNACIONAL DE CURITIBA – FACINTERCurso de Comunicação Social – Publicidade, Propaganda e Marketing           ...
HUMBERTO DA CUNHA ALVES DE SOUZAHOSTILIDADES EM REDE: FIREWALLS REAIS PARA O CIBERESPAÇO                            Monogr...
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AGRADECIMENTOS        Este é um momento único e especial para mim. São muitas as pessoas aagradecer, e gostaria de fazê-lo...
Em um setor em que tudo acontece muito rápido,e de maneira tão padronizada, preservar um lugarpara uma reflexão teórica e ...
RESUMOÉ notória, inegável e irreversível a dimensão que estão ganhando as novastecnologias. Estas tem se tornado, cada vez...
ABSTRACTIt is notorious, undeniable and irreversible the extent that new technologies aregaining. These have become, more ...
LISTA DE FIGURASFIGURA 1 - PRIMEIRO ESBOÇO DO TWTTR ......................................................... 39FIGURA 2 -...
SUMÁRIO1 INTRODUÇÃO .........................................................................................................
91 INTRODUÇÃO       A Internet está cada vez mais presente no cotidiano do indivíduocontemporâneo. Segundo reportagem da C...
10        Deste modo, a proposta do presente trabalho é buscar um diálogo entreautores que estudam o tema como: Zygmunt Ba...
11Recuero (2009) e Santaella e Lemos (2010) e, na pesquisa exploratória com aanálise de discursos através do Twitter.     ...
122 A SOCIEDADE DE MCLUHAN2.1 A IDEIA DE ALDEIA GLOBAL          Marshall McLuhan (2005) previu uma sociedade global, onde ...
132.2 O MEIO É A MENSAGEM         Na sociedade primitiva partia-se do diálogo face a face, por meio daslinguagens verbais ...
14teatro ou uma ópera.” (MCLUHAN, 2005, p. 33). Para o autor os efeitos dos meiossão inquestionáveis e não se constituem s...
15enquanto quentes ou frios. Diz ele que “um meio quente permite menos participaçãodo que um frio” (MCLUHAN, 2005, p. 38)....
162.3 O CORPO, O ESPAÇO E O TEMPO       A questão do corpo, do espaço e do tempo deve ser introduzida para que, apartir da...
17o corpo é, para Merleau-Ponty, e não apenas a alma ou a consciência, capaz desentir, de se fazer sentir, de sentir a si ...
18                      A sociedade atual assiste, portanto, ao surgimento de um tipo de saber                      radica...
19que deseja transferir toda a mente humana para o computador, onde,“consequentemente se poderia continuar a existir como ...
20        Esse ponto foi bem denominado por Walter Benjamim com a expressão“triunfo sobre o anonimato”. Essa obsessão cont...
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27        E com isso, autonomia, domínio e velocidade fazem compreender o sucessodas novas tecnologias. “Cada um pode agir...
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29entende ainda que, com a Internet se pode ir mais longe, em menos tempo, “até acompleta extinção do espaço e do tempo”. ...
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385 O TWITTER         Desde a notoriedade que atingiu o Twitter, por volta de 2008 quando foiutilizado na campanha do atua...
39FIGURA 1 - PRIMEIRO ESBOÇO DO TWTTRFONTE: DORSEY (2006)       Entretanto, o esboço pouco se parece à primeira versão do ...
40FIGURA 2 - SITE TWTTRFONTE: SAGOLLA (2006)         Nota-se que o antigo layout do Twitter (FIGURA 2) era mais funcional,...
41experiência simbólica dos usuários. Era possível postar o conteúdo e ver o que foipostado pelos outros, mas ainda não er...
42Twitter afim de que, na sequência, a falta dessas características não atrapalhe noentendimento dos próximos tópicos. A v...
43celebridades passaram a se juntar ao Twitter, e isso ganhou maior atenção por partedos meios de comunicação de massa faz...
HOSTILIDADES EM REDE: FIREWALLS REAIS PARA O CIBERESPAÇO
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HOSTILIDADES EM REDE: FIREWALLS REAIS PARA O CIBERESPAÇO

  1. 1. FACULDADE INTERNACIONAL DE CURITIBA – FACINTERCurso de Comunicação Social – Publicidade, Propaganda e Marketing HUMBERTO DA CUNHA ALVES DE SOUZAHOSTILIDADES EM REDE: FIREWALLS REAIS PARA O CIBERESPAÇO CURITIBA 2011
  2. 2. HUMBERTO DA CUNHA ALVES DE SOUZAHOSTILIDADES EM REDE: FIREWALLS REAIS PARA O CIBERESPAÇO Monografia apresentada como requisito para a obtenção do título de Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Publicidade, Propaganda e Marketing à Faculdade Internacional de Curitiba - FACINTER. Orientadora: Profª Ms. Diana Macedo. CURITIBA 2011
  3. 3. Aos meus pais e minha irmã,por todo o respeito e dedicação, e por todo o carinho e amor.
  4. 4. AGRADECIMENTOS Este é um momento único e especial para mim. São muitas as pessoas aagradecer, e gostaria de fazê-lo a todos aqueles que contribuíram para a realizaçãodeste trabalho. É por isso que, não posso deixar de registrar nestas linhas, em formade agradecimentos, as pessoas que sinto que fizeram parte da construção dessebelo caminho que desejo continuar trilhando. Começo agradecendo, de maneira única, ao meu pai Benedito e à minhamãe Benedita, por todo o amor, carinho, dedicação e paz que trouxeram à minhacriação e formação acadêmica. Por estarem sempre presentes, ensinando-me, peloexemplo, a ser honrado e construtivo. À minha irmã Evelin, pelo amor, carinho e respeito. Por entender meusmomentos de nervosismo, me ensinando a ser um irmão melhor a cada dia. Pelascontribuições com livros e artigos que enriqueceram este trabalho. Desejo agradecer, de maneira especial, à minha orientadora, Profa. Ms.Diana Gualberto de Macedo, pelo acompanhamento e orientação. Inspiro-me naspalavras de Dominique Wolton, para dizer, como ele, que sem a figura do mestrenão é possível saber que informação procurar e que uso fazer dela. Um aluno não énada distante do conhecimento que nasce com a participação de mestres comoesta, que se dedicam constantemente na construção e divisão do saber. Aos autores, por compartilharem e deixarem registrado o conhecimento e,principalmente, por dialogaram entre si muito antes que eu encontrasse um diálogoentre eles nas linhas deste trabalho. Ao colegiado do Curso de Graduação em Comunicação Social, pelosesforços, dedicação e pelos ensinamentos durante as aulas e até mesmo fora delas.À Mariana, colaboradora da coordenação do curso por ser sempre prestativa. Aoscolegas de graduação, pelas trocas positivas de ideias e pelos momentos divertidos.Também gostaria de agradecer a banca avaliadora, que fará parte da concretizaçãodeste trabalho. Aos meus parentes, familiares e amigos, que souberam compreender minhaausência do convívio social, que tiveram paciência e agora irão desfrutar destemomento junto comigo.
  5. 5. Em um setor em que tudo acontece muito rápido,e de maneira tão padronizada, preservar um lugarpara uma reflexão teórica e um pouco mais dedistância crítica é fundamental. Esta é a função dapesquisa que, por definição, consiste em ir alémdo que é evidente e visível, para pensar de outramaneira e produzir conhecimento. Dominique Wolton
  6. 6. RESUMOÉ notória, inegável e irreversível a dimensão que estão ganhando as novastecnologias. Estas tem se tornado, cada vez mais, não apenas extensões do homemno processo de comunicação, como também, muitas vezes, o impulso decisivo paraque o homem “comum” ganhe dimensões públicas. Redes sociais na Internet setornam populares por isso, e o Twitter é um exemplo vigorante dessa realidade.Contudo, apesar dessa grande revolução, pouco se explora o comportamento dosusuários nas redes sociais. É isto que pretende o presente trabalho, propor umareflexão a respeito do homem e da sociedade contemporânea, e como se dá acomunicação neste meio tecnológico. Em princípio foram reunidos os conceitossobre o tema e em seguida, analisados e identificados através das inserções dealguns usuários no Twitter. Com isso, foi possível perceber que essa sociedadecontemporânea impacta diretamente no modo como alguns usuários se comportam,sentindo-se livres, ou praticamente livres, para inserções de hostilidade na rede.Palavras-chave: ciberespaço; comunicação; identidade; rede social; Twitter.
  7. 7. ABSTRACTIt is notorious, undeniable and irreversible the extent that new technologies aregaining. These have become, more and more, not just extensions of man in thecommunication process, as also, often, the decisive impetus for the “common” mangain public dimensions. Social networking sites have become very popular, andTwitter is an invigorating example of this reality. However, despite this greatrevolution, little is explored from the user’s behavior on social networking sites. Thisis what this paper intends, to propose a reflection about man and the contemporarysociety, and how communication is in this technological environment. In principle theconcepts were gathered on the subject and then analyzed and identified throughsome insertions of Twitter users. Thus, it was revealed that contemporary society hasa direct impact on how some users behave, feeling free, or almost free, for insertionsof hostility on the network.Keywords: cyberspace; communication; identity; social networking; Twitter.
  8. 8. LISTA DE FIGURASFIGURA 1 - PRIMEIRO ESBOÇO DO TWTTR ......................................................... 39FIGURA 2 - SITE TWTTR ......................................................................................... 40FIGURA 3 - PRIMEIRO TWEET DA HISTÓRIA........................................................ 41FIGURA 4 - PRIMEIROS TWEETS GERADOS AUTOMATICAMENTE ................... 41FIGURA 5 - VERSÃO ATUAL DO TWITTER ............................................................ 42FIGURA 6 - PRIMEIRO TWEET DE OPRAH WINFREY .......................................... 43FIGURA 7 - TWEETS VARIADOS ............................................................................ 46FIGURA 8 - DIFERENTES TIPOS DE CONTEÚDO, MESMO USUÁRIO ................ 47FIGURA 9 - TWEET APAGADO DO PERFIL DO STF ............................................. 48FIGURA 10 - USO DE HASHTAG COMO SENTIDO................................................ 50FIGURA 11 - APLICAÇÕES DA HASHTAG.............................................................. 50FIGURA 12 - HASHTAG #CANTADACOMSERIADO ............................................... 52FIGURA 13 - TRENDS TOPICS BRASIL .................................................................. 52FIGURA 14 - TIMELINE COM RETWEET ................................................................ 53FIGURA 15 - RT USANDO REPLY COM COMENTÁRIOS ...................................... 54FIGURA 16 - RT USANDO REPLY SEM COMENTÁRIOS....................................... 54FIGURA 17 - TWEET MARCADO COMO FAVORITO ............................................. 55FIGURA 18 - TWEET DE MAYARA PETRUSO ........................................................ 61FIGURA 19 - REPERCUSSÃO INTERNACIONAL DO CASO MAYARA .................. 61FIGURA 20 - TWEET DE AMANDA REGIS .............................................................. 62FIGURA 21 - PERFIL @HOMOFOBIASIM, TWEET SOBRE GAYS ........................ 63FIGURA 22 - PERFIL @HOMOFOBIASIM, TWEET SOBRE MULHERES .............. 64FIGURA 23 - PEDIDO DE DESCULPAS DE AMANDA REGIS ................................ 65
  9. 9. SUMÁRIO1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 92 A SOCIEDADE DE MCLUHAN ............................................................................. 122.1 A IDEIA DE ALDEIA GLOBAL............................................................................. 122.2 O MEIO É A MENSAGEM ................................................................................... 132.3 O CORPO, O ESPAÇO E O TEMPO .................................................................. 162.4 A SOCIEDADE INDIVIDUALIZADA .................................................................... 202.4.1 A Condição Pós-Moderna ................................................................................ 213 O CIBERESPAÇO ................................................................................................. 283.1 O QUE É O CIBERESPAÇO ............................................................................... 283.2 REDES SOCIAIS NA INTERNET ........................................................................ 303.2.1 Atores Sociais .................................................................................................. 303.2.1.1 Identidades líquidas....................................................................................... 313.2.2 Conexões ......................................................................................................... 344 METODOLOGIA .................................................................................................... 365 O TWITTER............................................................................................................ 385.1 DO TWTTR AO TWITTER .................................................................................. 385.2 O QUE É O TWITTER? ....................................................................................... 425.3 O TWEET: UMA PÍLULA SOCIAL DE 140 CARACTERES ................................ 455.3.1 As Hashtags (#) e os Trending Topics (TTs) .................................................... 495.3.2 O Retweet (RT) e o Reply ................................................................................ 535.4 RELAÇÕES REATIVAS E LIMITADAS NO TWITTER ........................................ 555.5 RELAÇÕES MÚTUAS E CONSTRUÍDAS NO TWITTER ................................... 565.5.1 O capital social no Twitter ................................................................................ 565.5.2 Hostilidades em rede ........................................................................................ 596 CONCLUSÕES ...................................................................................................... 66REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 69
  10. 10. 91 INTRODUÇÃO A Internet está cada vez mais presente no cotidiano do indivíduocontemporâneo. Segundo reportagem da Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico,a Câmara-e.net, o Brasil já é a sétima maior audiência de Internet do mundo com 44milhões de usuários. (BRASIL, 2011a). O computador é um objeto cada vez maisdesejável pela maioria das pessoas. A venda de computadores no 1º trimestre desteano apontou um crescimento de 22% em comparação com o 1º trimestre de 2010, éo que diz o estudo da IDC. (CRESCE, 2011). Até mesmo aqueles que não possuemcomputador, utilizam regularmente a Internet, segundo pesquisa feita pela IpsosBrasil. (ACESSO, 2011). A conectividade também está nos celulares, cujo crescimento se dá a cadaano. De acordo com as estatísticas divulgadas no site da Teleco – Inteligência emTelecomunicações, o total de celulares no Brasil, ao final de Setembro de 2011,ultrapassou o total da população do país. O número apurado indica um total de 227milhões de celulares, o que corresponde a 116,51 celulares para cada 100habitantes. (ESTATÍSTICAS, 2011). Neste contexto, de conexão e mobilidade, surgem as redes sociais naInternet que se tornaram relevantes para o processo de comunicação. Segundopesquisa feita pela empresa GfK, o uso de redes sociais representam 39% do usode Internet que é feito pelos Brasileiros (BRASILEIRO, 2011). As redes sociais naInternet têm atingido cada vez mais pessoas e tornado a comunicação maisinstantânea e mais móvel. Através delas, o homem contemporâneo ganhoudimensões antes não vistas, tendo a possibilidade de ser visto e ouvido além dasfronteiras do tempo e do espaço físico. Assim, as redes sociais na Internet podemser consideradas extensões do homem. De maneira semelhante ao ocorrido com outras tecnologias, emerge umanova linguagem e, como consequência, uma nova forma do ser humano secomportar e se comunicar. Entretanto, alguns destes novos comportamentos podemultrapassar regras sociais de convívio como, por exemplo, a postagem de conteúdohostil ou preconceituoso na rede. De toda sorte, vale ressaltar que essescomportamentos também ocorrem fora da Internet, ou seja, a Internet também émais uma vitrine de comportamentos sociais.
  11. 11. 10 Deste modo, a proposta do presente trabalho é buscar um diálogo entreautores que estudam o tema como: Zygmunt Bauman, Paula Sibilia, MarshallMcLuhan, Marilena Chauí, Lucia Santaella, Pierre Lévy, Dominique Wolton, RaquelRecuero, entre outros, com o intuito de criar um rico espaço de debate nas linhasdeste trabalho. A questão que motiva a realização deste trabalho e, portanto, o problema depesquisa é: por que ocorrem inserções de conteúdo hostil ou preconceituoso noTwitter? Como refletir acerca dessas inserções, a partir de uma sociedade líquida econtemporânea? Que características da sociedade contemporânea ajudam para queesse tipo de conteúdo seja inserido na rede? Uma das hipóteses é que estes comportamentos de hostilidade se dão emrazão da percepção do usuário com relação à liberdade que lhe é dada nociberespaço. Outra hipótese é a característica evanescente dessas relações, e,ainda, características de uma sociedade globalizada e líquida. Diante desse novo tempo de constantes evoluções tecnológicas, e dessenovo homem contemporâneo, conectado, o presente trabalho mostra-se importantee relevante ao campo da comunicação, especialmente sobre o crescimento dessashostilidades e sobre a linguagem que está circulando na Internet. O objetivo geraldeste trabalho, portanto, é convidar o leitor a refletir a respeito do tema. Para tanto,como desdobramento desse objetivo geral, faz-se necessária uma contextualizaçãoda sociedade contemporânea e líquida e, do ciberespaço e das redes sociais naInternet para então chegar ao objeto do trabalho: o Twitter e as inserções dehostilidade. O trabalho está dividido em cinco capítulos além da introdução. O segundodiscorre sobre a ideia de sociedade contemporânea. Há uma introdução a respeitodos conceitos de McLuhan sobre “aldeia global” e “o meio é a mensagem”,passando pela Fenomenologia da Percepção de Merleau-Ponty, até chegar sobre asociedade individualizada e fluida. A partir das ideias do corpo, do espaço e do tempo, e a relação entre aacronia e a atopia do segundo capítulo, é que se discute no terceiro capítulo aquestão do ciberespaço e das redes sociais na Internet. O capítulo quatro aborda a metodologia utilizada neste trabalho. O trabalhose concentra na revisão bibliográfica das obras de Bauman (2005, 2008, 2011),McLuhan (2005), Wolton (2007), Santos (2006), Chauí (2010), Sibilia (2002, 2008),
  12. 12. 11Recuero (2009) e Santaella e Lemos (2010) e, na pesquisa exploratória com aanálise de discursos através do Twitter. O capítulo cinco é destinado ao estudo do objeto propriamente dito, ou seja,do Twitter. Neste capítulo são identificadas as características de origem, asferramentas disponíveis no Twitter e é feita uma revisão da teoria encontrada,mostrando na prática como ocorrem as inserções de conteúdo hostil epreconceituoso na rede social da Internet. É neste capítulo também, que é abordadoo conceito de capital social no Twitter e sobre a necessidade do indivíduo de tornar-se relevante. No sexto e último capítulo, por fim, constam as conclusões a respeitodo que se procurou estudar com esta pesquisa.
  13. 13. 122 A SOCIEDADE DE MCLUHAN2.1 A IDEIA DE ALDEIA GLOBAL Marshall McLuhan (2005) previu uma sociedade global, onde as tecnologiaspermitiriam aos indivíduos transpor o espaço e o tempo e se comunicar globalmentecom as mesmas facilidades de uma aldeia. Para ele o mundo estaria interligado porcompleto, aproximando tribos, sociedades, proporcionando trocas culturais demaneira intensa, fazendo circular informação de um ponto a outro e, ampliando acapacidade de alcance destas de tal modo que transcendessem as barreiras doespaço e do tempo. Além dessas possibilidades, para McLuhan os meios decomunicação podem ser considerados como “extensões do homem”. Assim, o rádiopode ser considerado como uma extensão da fala, a televisão como uma extensãodos olhos e, o computador como uma extensão do cérebro. Muito embora McLuhan tivesse elegido a televisão como paradigma daaldeia global, estes conceitos ganharam ainda mais legitimidade a partir do adventoda Internet, que deu à sociedade contemporânea o retrato exato conceituado porele. Raquel Recuero diz que: O advento da Internet trouxe diversas mudanças para a sociedade. [...] A mais significativa [...] é a possibilidade de expressão e sociabilização através das ferramentas de comunicação mediada por computador (CMC). (RECUERO, 2009, p. 24). E, embora se possa imaginar que essas possibilidades de expressão esociabilização já eram possíveis desde a comunicação mais primitiva, e não apenasvia Internet, o que pode tornar-se mais significativo ainda para este advento é acapacidade de dar ao indivíduo uma dimensão pública. Uma capacidade de transporas limitações de espaço e tempo de que fala Dominique Wolton (2007) e MarilenaChauí (2010), e, no processo de comunicação fortalecer as redes sociais, asconexões e as atuações nelas. Para que se entenda melhor o porquê esta é uma sociedade de McLuhan,uma aldeia global, que cede aos encantos dos meios, é fundamental entender maissobre a célebre do autor: “o meio é a mensagem”. É o que será apresentado aseguir.
  14. 14. 132.2 O MEIO É A MENSAGEM Na sociedade primitiva partia-se do diálogo face a face, por meio daslinguagens verbais ou não verbais, ainda que primitivas, para que ocorresse umevento de comunicação. Com o surgimento da imprensa, dos livros e do jornal, oindivíduo foi adquirindo uma capacidade imersiva de ler informações, sem quenecessitasse da intervenção em diálogo do outro. Isto quer dizer sem acomunicação face a face como o outro, pois, pode-se entender que por meio daleitura o autor também dialoga com o leitor. A sociedade passou, desde então, aadquirir padrões de comunicação cada vez mais “individuais”. A informação que erafalada, e encontrava legitimidade neste meio, passa então a ser encontrada tambémnos novos meios. Primeiro a imprensa, depois o rádio, em seguida a televisão e,hoje, a Internet. Assim, faz-se necessário reforçar a frase em que Marshall McLuhan diz que,cada meio influencia na comunicação humana, a tal ponto que, o meio seja, elepróprio, uma informação, uma mensagem. Nenhum exemplo mostra-se maisvigorante dessa realidade do que o advento da Televisão. A cada nova edição doJornal Nacional1, por exemplo, tem-se das informações que são transmitidas peloprograma uma verdade absoluta, em razão da legitimidade atribuída pelo indivíduo,ou pelos indivíduos, ao meio. É comum observar que alguns indivíduos atribuemtotal legitimidade ao meio quando compartilham uma informação vista no JornalNacional. É comum, portanto, ouvirmos alguém dizer: “eu ouvi isso no JornalNacional!”. Há assim uma categórica atribuição de valor, de verdade absoluta einquestionável. A mesma informação transmitida oralmente, de maneira impressa,via televisão ou Internet, teriam caráteres diferentes e seriam justificadas ecompartilhadas diferentemente também, em razão do meio em que cada qual foraveiculada. Sobre isto, ainda, McLuhan atribui essa força do meio em razão de oconteúdo ser, muito antes do que uma mensagem, outro meio, como ele mesmorevela: “O efeito de um meio se torna mais forte e intenso justamente porque o‘conteúdo’ é um outro meio. O conteúdo de um filme é um romance, uma peça de1 Jornal Nacional é um programa jornalístico, produzido e apresentado na Rede Globo de televisão há42 anos. Atualmente é apresentado pelos jornalistas Fátima Bernardes e William Bonner.
  15. 15. 14teatro ou uma ópera.” (MCLUHAN, 2005, p. 33). Para o autor os efeitos dos meiossão inquestionáveis e não se constituem sobre opiniões ou conceitos. O indivíduoestá exposto a eles e, sujeito à natureza persuasiva destes. Diz ele, assim, que: Os efeitos da tecnologia não ocorrem aos níveis das opiniões e dos conceitos: eles se manifestam nas relações entre os sentidos e nas estruturas da percepção, num passo firme e sem qualquer resistência. O artista sério é a única pessoa capaz de enfrentar, impune, a tecnologia, justamente porque ele é um perito nas mudanças da percepção. (MCLUHAN, 2005, p. 34). Como se vê, para McLuhan, os meios exercem influência sobre osindivíduos e, com isto, se envolvem sem qualquer possibilidade de resistência. Ossentidos em que se manifestam as tecnologias, de que fala McLuhan, se tornamvisíveis, pois “Cada produto que molda uma sociedade acaba por transpirar emtodos e por todos os sentidos”. (MCLUHAN, 2005, p. 37). Com esta afirmaçãoMcLuhan compara a observação que fez à de Jung que alegava que os romanoshaviam interiorizado costumes escravos, inconscientemente, em razão da constanteconvivência, e que isso era impossível de evitar. Para justificar isso, McLuhan conta sobre o mito de Narciso, que, ao ver oreflexo na água apaixonou-se pela própria imagem. No entanto, indica ele, Narcisohavia se apaixonado por “alguém” que viu no reflexo das águas e que, a reaçãoseria diferente se tivesse notado que era ele mesmo ali representado. Narciso,portanto, não havia se apaixonado por si mesmo, mas por outra pessoa. Em seguidaMcLuhan esclarece que: “O que importa nesse mito é o fato de que os homens logose tornam fascinados por qualquer extensão de si mesmos em qualquer materialque não seja o deles próprios.” (MCLUHAN, 2005, p. 59). E, como uma possível solução, observou que é somente assim, permanecendo à margem de qualquer estrutura ou meio, que os seus princípios e linhas de força podem ser percebidos. Pois os meios têm o poder de impor seus pressupostos e sua própria adoção aos incautos. A predição e o controle consistem em evitar este estado subliminar de transe narcísico. (MCLUHAN, 2005, p. 30). Para McLuhan, os meios causam um transe no indivíduo, pois ficamfascinados com qualquer extensão de si mesmos, e somente olhando à margempara que se perceba essa força. E, este “transe narcísico” também pode ocorrer emrazão da “temperatura” dos meios. O autor faz uma classificação dos meios
  16. 16. 15enquanto quentes ou frios. Diz ele que “um meio quente permite menos participaçãodo que um frio” (MCLUHAN, 2005, p. 38). Para McLuhan, aos meios frios muitacoisa precisa ser preenchida e completada, muito do meio necessita da participaçãodos indivíduos, pois fornecem pouca informação, assim como “ao ler uma estóriapolicial, o leitor participa como co-autor, simplesmente por que muita coisa é deixadafora da narrativa.” (MCLUHAN, 2005, p. 46).2 Longe de entrar nessa discussão a respeito da classificação dos meios, epara retomar o objeto desse trabalho, o que basta para refletir aqui, com basenessas colocações de McLuhan, é: diante da possibilidade que dá ao indivíduo, deatuar como co-autor, como produtor de conteúdo, seria a Internet, também um meiofrio? E, sendo um meio frio, a Internet aquece os sentidos por intermédio desseconvite à participação? É o que parece ser para McLuhan. Pois “o aquecimento de um dos sentidostende a produzir hipnose, o esfriamento de todos os sentidos redunda emalucinação.” (MCLUHAN, 2005, p. 50). Ou seja, o aquecimento dos sentidos,provocado pela “frieza” do meio, cria certo entusiasmo quando convida àparticipação, produzindo um efeito anestésico no indivíduo, em que este abreespaço para ser influenciado pelo meio. Assim, traçado um paralelo entre essas afirmações e a sociedadecontemporânea, cabe questionar se: o que se vive hoje é uma hipnose, com ossentidos aquecidos principalmente em razão do advento da Internet, e, cada vezmais, como indivíduos apaixonando pelas extensões assim como Narciso peloreflexo nas águas? Assim como Narciso, o indivíduo é induzido pelo meio antesmesmo do que pela mensagem, pois “o meio é a mensagem”? Como estáconstituído este indivíduo contemporâneo e, que indivíduo é este? Que papel eleocupa? Faz-se necessário, portanto, pensar sobre este indivíduo contemporâneo,sobre a relação entre o corpo, o espaço e o tempo e, posteriormente sobre aindividualização na sociedade.2 McLuhan (2005) classifica como meios frios: o telefone e a televisão e; como meios quentes: o rádioe o cinema. Entretanto, essa classificação de McLuhan mostra-se um pouco falha. Ao tomar, porexemplo, o cinema como um meio quente comparando-o à estória policial que citou McLuhan, como épossível dizer que no cinema não há por parte do “leitor” um preenchimento das informações queforam editadas, cortadas ou esquecidas da narrativa do filme?
  17. 17. 162.3 O CORPO, O ESPAÇO E O TEMPO A questão do corpo, do espaço e do tempo deve ser introduzida para que, apartir da compreensão desse corpo que é sensível, como será visto, seja possívelcompreender melhor o sujeito da sociedade contemporânea e virtual. Comocolocado por Ana Elisa Antunes Viviani, as concepções de corpo em Merleau-Ponty e em Serres oferecem um arcabouço conceitual que pode contribuir enormente [sic] para os estudos atuais voltados para a relação entre comunicação e tecnologias digitais, pois não dizem respeito apenas ao corpo, mas à questão da imagem, da visibilidade, da carne. (VIVIANI, 2007, p. 20). Como se vê, a questão do corpo é de suma importância para identificar asrelações entre comunicação e este novo homem que emerge numa sociedade ondepredominam as tecnologias digitais. Para tanto, será adotado aqui a concepção decorpo fundamentada na Fenomenologia da Percepção de Maurice Merleau-Ponty, apartir de interpretações atuais como as de Marilena Chauí, Terezinha Petrúcia daNóbrega e, de forma a complementar, Paula Sibilia. Marilena Chauí (2010) traça uma discussão a respeito da mudança dapercepção do espaço e do tempo a partir das mudanças tecnológicas e, para isso,toma como referência a Fenomenologia da Percepção de Merleau-Ponty. Para ela, ocorpo é “um sensível que é sensível para si mesmo. O meu corpo é o meu modofundamental de ser no mundo. [...] O meu corpo é uma reflexão reversível nelemesmo”. Essas ideias retratam o corpo não apenas como um objeto no mundo, massim, como um sensível e sensorial, associado principalmente à percepção e a umaprimeira reflexão, além da criação, da linguagem e dos sentidos. Para a tradição filosófica, apenas a alma possuía a dádiva da reflexão, dasensação e, Merleau-Ponty não aceitava essa perspectiva. Terezinha Petrúcia daNóbrega esclarece que: No pensamento de Merleau-Ponty, o corpo, o movimento, o conhecimento sensível e os processos perceptivos são trazidos para o primeiro plano da reflexão; ao invés de privilegiar a análise da consciência, enfatiza a corporeidade. (NÓBREGA, 2000, p. 100). E completa ainda dizendo que, o corpo “não é coisa, nem idéia, o corpo émovimento, sensibilidade e expressão criadora.” (NÓBREGA, 2000, p. 100). Assim,
  18. 18. 17o corpo é, para Merleau-Ponty, e não apenas a alma ou a consciência, capaz desentir, de se fazer sentir, de sentir a si mesmo e, ainda, de sentir-se sentindo. O enigma consiste em que o meu corpo é ao mesmo tempo vidente e visível. Ele, que mira todas as coisas, pode também olhar-se, e reconhecer naquilo que vê o “outro lado” do seu poder vidente. Ele vendo-se, toca-se tocando, é visível e sensível para si mesmo. (MERLEAU-PONTY, 1997, p. 20,21 apud NÓBREGA, 2000, p. 102). A Fenomenologia da Percepção utiliza como exemplo a questão da obra dearte, que para Nóbrega (2000, p. 105) atua como campo de possibilidades para oentendimento do corpo sensível e sensorial. Para Chauí (2010) a experiênciacriadora de um artista, é o momento em que o corpo se faz sensível sem deixar asensibilidade. Ele, o corpo artístico, pode ver e continua sendo visto, pode tocar econtinua sendo tocado, pode ouvir e continua sendo audível. O corpo é, e é isso que a experiência artística mostra, essa capacidade de produzir uma diferenciação, no interior de um mundo indiviso, onde eu não preciso me separar do mundo para me relacionar com ele através da obra de arte. (CHAUÍ, 2010). O pensamento de Merleau-Ponty mostra que a primeira reflexão é realizadapelo próprio corpo e que, portanto, a consciência aprende com o corpo a refletir.(CHAUÍ, 2010). E assim também, Viviani (2007, p. 6) complementa a questãoobservando que: “para Merleau-Ponty, a consciência é transferida para o corpo,instalando-se nas coisas; [...] O sentir está ligado ao corpo e traz à tona a espessuraentre o objeto percebido e o sujeito que percebe.” Para tanto, a alma não é aquiloque sente o mundo e sim o corpo, já numa primeira reflexão. Este corpo sensível e sensorial é temporal. Hoje, amanhã, depois, agora,ontem, noite, dia. O homem é um ser temporal. Ainda segundo Chauí (2010) “Otempo existe porque nós existimos”. Este corpo é, também, espacial. Aqui, lá, perto,longe, em casa, na rua, na escola, no trabalho. Este espaço tem tamanhos,qualidades, cores, tessituras, sabores, cheiros. Essa relação espaço-temporaltambém é problematizada por Paula Sibilia (2002) que toca na questão relacionandoimortalidade e tempo, virtualidade e espaço. Para ela as novas tecnologias almejam,em razão da ambição dos homens, ultrapassar as limitações desse corpo materialchegando a serem empregadas na luta contra a morte (tempo) e contra a distância(espaço). Diz ela:
  19. 19. 18 A sociedade atual assiste, portanto, ao surgimento de um tipo de saber radicalmente novo, com um anseio inédito de totalidade. Fáustico, ele pretende exercer um controle total sobre a vida, superando as suas limitações biológicas; inclusive, a mais fatal de todas elas: a mortalidade. (SIBILIA, 2002, p. 50). Não apenas exercendo total controle sobre a vida, mas tambémreconfigurando tudo o que é vivo e alterando até o sentido da morte. É o queacontece, desde os anos 90, com as constantes descobertas e conquistas damedicina e o surgimento do conceito de “reversibilidade”. Estas descobertasapresentaram-se como capazes de reverter o que, até então, era conhecido como oponto irreversível do fim da vida: a morte. Hoje se sabe que, em alguns casos amorte não é declarada por ser considerada irreversível, mas sim, porque se decidenão revertê-la. “O ato de falecer perdeu sentido absoluto e caráter sacro,submetendo-se à ‘capacidade de restauração’ provida pela tecnociência deinspiração fáustica.” (SIBILIA, 2002). Essa “imortalidade” advinda da evolução tecnocientífica é retratada narecente produção cinematográfica do estúdio 20th Century Fox, com AmandaSeyfried e Justin Timberlake, lançada em 04 de novembro de 2011: “In Time” ou “OPreço do Amanhã”. A ficção se passa no ano de 2161, onde as pessoas param deenvelhecer aos vinte e cinco anos, e morrem em até um ano após, se nãoconseguirem mais tempo, através de trabalho ou ganhando. Tempo vira moeda naficção e as pessoas também o usam para comprar necessidades diárias. Há umaespécie de relógio digital inserido no braço das pessoas que informa a quantidadede tempo de vida restante. Com mais tempo, pode-se viver eternamente, tornar-seimortal. Na ficção alguns se tornam imortais, comprando décadas de uma única vez,tudo isso possibilitado por evoluções tecnológicas. Neste contexto, diz Sibilia que: A promessa mais fabulosa da tecnociência contemporânea assim se enuncia: no processo de hibridização com a tecnologia, o corpo humano poderia se livrar de sua finitude natural. Com poderes que antes só concerniam aos deuses, os engenheiros da vida se propõem a reformular o mapa de cada homem, alterar o código genético e ajustar sua programação. (SIBILIA, 2002, p. 54). Longe da ficção, no mundo real, essa “promessa” não parece estar tão longede tornar-se real. O Projeto Genoma, como diz Sibilia (2002, p. 55), é um exemplodisso, pois almeja decifrar o código genético humano e prevenir a espécie humanacontra qualquer tipo de doença. Outro exemplo é a disciplina de inteligência artificial
  20. 20. 19que deseja transferir toda a mente humana para o computador, onde,“consequentemente se poderia continuar a existir como uma mente sem o cérebroque antes suportava a vida mental.” (SIBILIA, 2002, p. 56). Enquanto que, do lado das “tecnologias da imortalidade”, como chamaSibilia, onde a “promessa” ainda parece ser iminente, do lado das “tecnologias davirtualidade” as coisas já são bem reais. Ao contrário daquelas, estas são menospolemizadas e mais apreciadas pelos homens, pois permitem “potencializar emultiplicar as possibilidades humanas”, permitindo que os homens ultrapassem oslimites espaciais que se impõem como outra das restrições da materialidade docorpo, “inaugurando fenômenos tipicamente contemporâneos como a [...] ‘presençavirtual’.” (SIBILIA, 2002, p. 56). Entregues ao controle total sem fora, tais aparelhos [de conexão] dispensam os velhos muros das instituições de confinamento e a torre panóptica de vigilância, que se tornaram definitivamente obsoletos no novo contexto. Além “virtualizar” os corpos, espalhando pelo espaço global a sua capacidade de ação, a convergência digital de todos os dados e de todas as tecnologias amplia ao infinito as possibilidades de rastreamento e de colonização das micropráticas de todas as vidas. (SIBILIA, 2002, p. 59). Deste modo, como dito por Sibilia, além de ampliar as possibilidades deação do homem além das fronteiras espaciais, permite ainda uma constantevigilância e rastreamento destes mesmos indivíduos. Estas mesmas tecnologiasreduzem, cada vez mais, as possibilidades de permanecer ocultos ou alheios àsociedade e ao controle. E aqui, pode-se citar novamente o filme “In Time” onde“comportamentos suspeitos” são identificados por computadores de última geração epermitem ao “controle” agir e bloquear qualquer problema em meio à sociedade.Veja, muito embora isso pareça coisa do futuro ou da ficção, Naomi Klein (2008) traza visão de que isso já vem acontecendo há algum tempo e já faz parte de umarealidade. Diz ela: Nos últimos dois anos, 200 mil câmeras de vigilância foram instaladas por toda a cidade [de Shenzhen, na China]. Muitas delas estão em lugares públicos, disfarçadas de postes de luz. O circuito fechado de câmeras de TV em breve será conectado a uma única rede nacional, um sistema de vigilância total capaz de rastrear e identificar qualquer um que esteja dentro de seu alcance [...]. Nos próximos três anos, executivos de segurança da China prevêem [sic] que 2 milhões de CCTVs serão instaladas em Shenzhen, tornando-a a cidade mais vigiada do mundo (maníaca por segurança, Londres tem apenas meio milhão de câmeras de segurança). (KLEIN, 2008).
  21. 21. 20 Esse ponto foi bem denominado por Walter Benjamim com a expressão“triunfo sobre o anonimato”. Essa obsessão contemporânea por “segurança”também parece ser problematizada em outra obra de ficção, diz Sibilia (2008, p. 59),O “Inimigo do Estado”, que exibe “uma infinidade de aparelhos de rastreamento eespionagem digitais: todo um catálogo de câmeras diminutas, microfones edispositivos de localização via satélite”. Voltando à Klein (2008), percebe-se que aChina exibe as mesmas capacidades. O objetivo é usar o que há de mais moderno em tecnologia de rastreamento pessoal [...] a fim de criar uma espécie de casulo consumidor cuidadosamente selado: um lugar onde cartões Visa, tênis Adidas, celulares da China Mobile, Mc Lanches Feliz, cerveja Tsingtao possam ser aproveitados sob o sempre vigilante olho do Estado, sem a ameaça da democracia. O governo espera usar o escudo para identificar e contra- atacar dissidências antes que estas explodam em movimentos de massa como o que chamou a atenção do mundo na Praça da Paz Celestial. (KLEIN, 2008). Por fim, percebe-se que o emprego dessas tecnologias da virtualidade e daimortalidade afetam e modificam as relações espaço-temporais. De um lado, está oindivíduo, sentindo-se livre e entusiasmado com a tecnologia e as possibilidades e,exibindo-se sem preocupações, como será visto, atravessando a fronteira do privadoe chegando à esfera do público. Do outro lado, está o Estado, equipando-se paraexercer, cada vez mais, o controle, e por sua vez, atravessando a esfera do públicoe adentrando a do privado. Reduz-se, cada vez mais, a dicotomia entre o “público eo privado”. Com isso, o corpo também é modificado pela maneira como estastecnologias consagram um novo tempo e um novo espaço. Mais do que isso, opróprio tempo e espaço são também modificados, redefinindo a sociedadecontemporânea. É sobre esta sociedade que será visto na sequência.2.4 A SOCIEDADE INDIVIDUALIZADA Assim que entendidas, ainda que iniciais, as exposições sobre aldeia global,sobre “o meio ‘ser’ a mensagem” e, sobre o corpo, o espaço e o tempo, faz-senecessário conhecer a sociedade onde tudo isso acontece. Onde tudo se junta, semistura e emerge na rede virtual tornando-se uma rica vitrine do comportamentocontemporâneo. Onde tudo isso recebe o nome, pelas mãos de diversos autores,como a condição pós-moderna.
  22. 22. 21 Entretanto, cumpre-se ressaltar que, pouco interessa para este trabalho otermo empregado: “pós-moderno” ou “moderno”. Não pretende este trabalho,adentrar essa discussão, nem tampouco adotar um destes termos e defendê-lo.Existem ainda outros termos que também poderiam ser escolhidos. É o caso de“pós-orgânico” por Sibilia (2002) ou “modernidade líquida” por Zygmunt Bauman(2001). Neste trabalho, optou-se por reproduzir o termo “pós-moderno” de JairFerreira dos Santos (2006), longe de qualquer discussão a respeito do empregodeste, pois, o único o objetivo deste próximo tópico é conhecer mais sobre essasociedade contemporânea.2.4.1 A Condição Pós-Moderna Zygmunt Bauman (2011) comenta que houve, no século XX, uma mudançada sociedade de produção para a sociedade de consumo. Marilena Chauí (2010)também traça essa mesma interpretação demonstrando a evolução do fordismo paraa globalização. Segundo ela, o fordismo detinha toda a linha de produção, que ia dacoleta da matéria-prima até a entrega final ao cliente, e tinha como base umaprodução linear, de qualidade, durabilidade, e preocupada com estoques; por outrolado, a globalização trouxe uma fragmentação da sociedade com a produçãosegmentada, baseada na produção descartável. O que ambos mostram, é que asociedade que antes tinha no trabalho fordista a base para a construção dasidentidades sociais, hoje, com a globalização e com a segmentação do trabalho,também ocorre a segmentação da sociedade e, de certa forma, a individualização.“As sociedades foram individualizadas.” diz Bauman (2011). Ao invés de se pensarna felicidade da comunidade, passou-se a pensar na felicidade de cada pessoa. Para Jair Ferreira dos Santos a sociedade pós-moderna ameaça encarnar oniilismo, o vazio, “a ausência de valores e de sentido para a vida”. Para ele, emcomparação ao homem moderno, o homem pós-moderno não dá sentido à vida, nãose interessa pela arte, pela história, pelo desenvolvimento e nem tem consciênciasocial. Esse homem pós-moderno “se entrega ao presente e ao prazer, ao consumoe ao individualismo.” (SANTOS, 2006, p. 10).
  23. 23. 22 A massa pós-moderna, [...] é consumista, classe média, flexível nas idéias e nos costumes. Vive no conformismo em nações sem ideais e acha-se seduzida e atomizada (fragmentada) pelo mass media, querendo o espetáculo com bens e serviços no lugar do poder. Participa, sem envolvimento profundo, de pequenas causas inseridas no cotidiano - associações de bairro, defesa do consumidor, minorias raciais e sexuais, ecologia. (SANTOS, 2006, p. 90). A Internet e junto com ela, a globalização, trazem a sociedadecontemporânea para este cenário de relações individuais. Porque, repentinamente, na Ágora, as pessoas começaram a confessar coisas que eram a personificação da privacidade, a personificação da intimidade, que você somente contaria, se você fosse católico, ao padre, no confessionário, ou aos seus amigos realmente chegados ou realmente muito íntimos. (BAUMAN, 2011). Ou seja, o confessionário, no exemplo trazido por Bauman, é arepresentação da modernidade de que fala Santos (2006), em que o privado nãoestava em evidência. Ele era escondido, oculto e misterioso. Ele era privado. Derepente, ele interessa mais do que o bem comum, do que o conjunto. Diz Bauman(2011) que o que a sociedade contemporânea fez foi colocar “microfones nosconfessionários”. É essa mudança no comportamento da sociedade, quando ela deixa de terparticipações mais imersivas e está mais interessada na superficialidade docotidiano, no “eu”, a que Santos se refere, e diz estar sendo chamada pelossociólogos de “deserção do social” e que, por sua vez, “não é orientada nem surgeconscientemente, como também não visa à tomada do poder, mas pode abalar umasociedade, ao afrouxar os laços sociais”. Segundo o autor, existem os seguintestipos de deserção: a) Deserção da História: onde a massa pós-moderna não estáinteressada em assuntos comuns, e nem no futuro. O que vale é o agora, opresente, pouco importa a continuidade histórica; b) Deserção do político e doideológico: onde o desempenho dos mass media influencia muito mais as eleiçõesque a ideologia política dos candidatos. Ainda, essa falta de interesse caracteriza asociedade menos envolvida nas grandes causas e mais envolvida nas subculturas elutas menos prolongadas; c) Deserção do trabalho: pois por não estar interessadaem continuidade histórica, sem ideais políticos e ideologia essa massa pós-modernatambém não vê no trabalho um valor moral e um caminho para a auto realização.Por isso, há mais espaço para o lazer. As empresas reclamam, cada vez mais, da
  24. 24. 23dificuldade de mão de obra qualificada e de desinteresse pelo trabalho; d) Deserçãona família: onde a família também perde o valor moral e de instituição social. Hámais espaço para o individualismo, mais pessoas moram sozinhas e há maisliberdade sexual e; e) Deserção da religião: em que as grandes religiões, tambéminstituições sociais, perdem grande parte do valor. Abre espaço para religiões ondeo centro seja o sujeito, a meditação, o budismo, a individualidade. (SANTOS, 2006,p. 90). Essa condição da deserção do social, como se vê, põe o homemcontemporâneo longe dos papéis sociais da modernidade. Parece estar havendo, sejá não há, uma ressignificação de papéis sociais e da própria sociedade. Oindivíduo, nessa condição, está sendo alvo de uma avalanche de informações, comefeitos culturais e sociais. Essa nova condição faz da vida um show, um espetáculo,pois, desde a perspectiva renascentista até a televisão, que pega o fato ao vivo, a cultura ocidental foi uma corrida em busca do simulacro perfeito da realidade. Simular por imagens como na TV, que dá o mundo acontecendo, significa apagar a diferença entre real e imaginário, ser e aparência. Fica apenas o simulacro passando por real. Mas o simulacro, tal qual a fotografia a cores, embeleza, intensifica o real. Ele fabrica um hiper-real, espetacular, um real mais real e mais interessante que a própria realidade. (SANTOS, 2006, p.12). Talvez assim também decorresse o pensamento de McLuhan de que ohomem tem uma relação narcísica com essas extensões. Seria porque, então, asextensões do homem são nada menos que um simulacro do próprio homem, queintensifica e deixa mais espetacular e interessante o real? Santos (2006, p. 13) usa o exemplo da abertura do programa Fantástico,que reproduzia homens e mulheres vestidos de maneira futurística, dançando emcubos e cilindros fatiados e suspensos no ar, levitando. Isso não é possível no real,mas através da computação gráfica e da TV era isso o que estava acontecendo. Dizele: Aliada ao computador, a televisão simulou um espaço hiper-real, espetacular, que excita e alegra como um acrobata. [...] Daí que a levitação, em si desejável mas inviável na gravidade, parece ser possível na TV. O hiper-real simulado nos fascina porque é o real intensificado na cor, na forma, no tamanho, nas suas propriedades. É um quase sonho. (SANTOS, 2006, p. 13).
  25. 25. 24 Essa possibilidade, essa hiper-realização seduz o homem pós-moderno, quecede aos encantos do mass media, apaixona-se, como Narciso, não por si mesmo,mas pelo outro eu, transformado no espetáculo do real. Complementa Santos que: O ambiente pós-moderno significa basicamente isso: entre nós e o mundo estão os meios tecnológicos de comunicação, ou seja, de simulação. Eles não nos informam sobre o mundo; eles o refazem à sua maneira, hiper- realizam o mundo, transformando-o num espetáculo [!]. Uma reportagem a cores sobre os retirantes do Nordeste deve primeiro nos seduzir e fascinar para depois nos indignar [!]. (SANTOS, 2006, p. 13). Ainda para Santos (2006, p.86), esse encantamento com as tecnologias,essa possibilidade de hiper-realização do mundo real e do próprio homem dão àcontemporaneidade um novo estilo de vida. O indivíduo se define entre trêsdiferentes papéis na sociedade: a) o consumista que consome de tudo, bens eserviços, dos mais necessários aos mais desejáveis; b) o hedonista que não possuivalores e busca satisfação e prazer instantâneos e; c) o narcisista que preza pelaauto-imagem, a glamourização e paixão de si. Percebe-se que estas três definiçõesde papéis emergem pela constante busca da satisfação do “eu” reforçando aquestão do individualismo. E, a respeito desse individualismo, alerta Santos: O individualismo exacerbado está conduzindo à desmobilização e à despolitização das sociedades avançadas. Saturada de informação e serviços, a massa começa a dar uma banana para as coisas públicas. Nascem aqui a famosa indiferença, o discutido desencanto das massas ante a sociedade tecnificada e informatizada. É a sua colorida apatia frente aos grandes problemas sociais e humanos. (SANTOS, 2006, p. 88). Para o autor a condição pós-moderna pode estar exibindo, como numavitrine, essa ressignificação do papel social do homem. Do homem moderno, outrorapreocupado com a construção da história, dos ideais políticos, da comunidade, dasociedade como um todo, emerge um ser egoísta, preocupado apenas com sipróprio, sem ideais e sem projetos para o todo. Um homem preocupado com asatisfação do individual e do presente, um homem de “um ego sem fronteiras”.(SANTOS, 2006, p. 30, 94). Bauman atribui a esse novo momento, também, o que ele chama por “Aambivalência da vida”. O homem divide a vida, constantemente, entre segurança eliberdade. Todas as vezes que o indivíduo caminha em direção a mais liberdadeperde parte da segurança e, todas as vezes que caminha na direção oposta, para termais segurança, perde parte da liberdade. De modo que o homem não vive sem
  26. 26. 25estas duas esferas e, é preciso encontrar um equilíbrio entre elas. “Segurança semliberdade é escravidão. Liberdade sem segurança é um completo caos.” (BAUMAN,2011). Então, mais próxima de qual lado estaria a sociedade contemporânea? Paraambos os autores, mais próxima da liberdade. O homem deixou de lado tantasegurança, quis mais liberdade e se tornou individualista. (SANTOS, 2006). Mas,para Bauman (2011) isto não é desesperador. Ele comenta que sente o “pêndulo” semovendo levemente para mais próximo da segurança novamente. O que Baumanfaz questão de alertar é que, essas relações, essas conexões, são irreversíveis. Narede e, portanto, na sociedade contemporânea, pós-moderna, fluida, é fácil conectare desconectar e é isso que mantém a rede viva. Relações em comunidade sãodramáticas. É difícil romper laços. Na rede é mais fácil desconectar. ComentaBauman que, um usuário do Facebook contou a ele que tinha feito 500 amigos emum dia. Ele conta que respondeu: “eu tenho 86 anos, mas não tenho 500 amigos.[...] Então, provavelmente, quando ele diz ‘amigo’ e eu digo ‘amigo’, não queremosdizer a mesma coisa. São coisas diferentes.” Assim, novamente, figura-se essafluidez da sociedade contemporânea, onde é fácil conectar e fazer amigos e tão fácilquanto, é desconectar e romper essas “amizades de Facebook”. (BAUMAN, 2011). Entretanto, cumpre-se ainda trazer para cá a visão de Dominique Wolton(2007, p. 11) sobre essa relação entre tecnologias e comunicação que, sem dúvida,enriquecerão este capítulo. Wolton parece manter um distanciamento maior comrelação à empolgação diante das tecnologias. Para ele, seria dissimulado dizer quea sociedade deveria se adequar ao tempo das tecnologias. Ao contrário é maisfrequente que a história social e cultural dê sentido à história técnica. Sendo assim,na visão de Wolton, pode-se dizer que a tecnologia atual é resultante do papel sociale cultural desenvolvido ao longo dos tempos. Para ele: Atualmente, um número surpreendente de autores considera, por exemplo, a Internet uma verdadeira revolução que fará surgir uma “nova sociedade”, simplesmente porque supõe que a tecnologia vai mudar diretamente a sociedade e os indivíduos. [...] Passa-se assim de uma concepção materialista da comunicação a uma verdadeira ideologia – a ideologia tecnológica – da comunicação. Todavia, a história prova os limites das teses deterministas. As tecnologias de comunicação não escapam ao dever epistemológico que consiste em não confundir técnica, cultura e sociedade. Constatar que as técnicas evoluem mais rápido do que os modelos culturais e a organização social da comunicação não é o suficiente, na realidade, para definir um sentido ao “progresso” da comunicação, que iria da evolução técnica em direção à mudança de práticas culturais e depois aos projetos de sociedade. (WOLTON, 2007, p. 16).
  27. 27. 26 Na visão de Wolton, o desafio da pesquisa que ele faz é “justamente de nãoreduzir a comunicação a um acontecimento técnico”. O sentido do desenvolvimentodo trabalho de Wolton “é tentar explicar por que o essencial, em um sistema decomunicação, não é a tecnologia.” (WOLTON, 2007, p. 16). E, como conclui: Em poucas palavras, para a comunicação, as teorias são sempre mais importantes que as tecnologias. De nada serve se comunicar de um extremo a outro do mundo se uma visão do homem e da sociedade não orienta as proezas tecnológicas. (WOLTON, 2007, p. 22). O que interessa a este trabalho, diante desses argumentos de Wolton édesmistificar a sociedade pós-moderna como resultado, apenas, das evoluçõestecnológicas. Essa sociedade contemporânea, individual, emancipada, é resultadode uma longa caminhada iniciada há tempos. Assim: Desde o século XVI, ela [a comunicação] é o complemento e a condição de todas as emancipações do indivíduo. A reinvindicação da liberdade de comunicar é evidentemente fruto da longa batalha iniciada na Renascença pelas liberdades de consciência, de pensamento, de expressão, depois a partir dos séculos XVII e XVIII pela liberdade editorial e de imprensa. No século XIX, a reencontramos na luta pelas liberdades de associação, de manifestação e de participação política. No século XX ela está diretamente ligada ao surgimento da democracia de massa, com o sufrágio universal e a informação para todos. (WOLTON, 2007, p. 38). Percebe-se que, Wolton não deixa de aferir as modificações sociaiscausadas em razão da evolução da tecnologia, mas também, orienta o leitor paraapartar-se dela, olhar por outro viés e não tomar a tecnologia como ponto culminantedesse processo de pós-modernização, assim como, também orienta que astecnologias estão longe de melhorar a comunicação humana. A princípio, e nesteponto Wolton volta a dialogar com os outros autores, “o dogma atual, pois se tratarealmente de um dogma, identifica a felicidade individual e coletiva à capacidade deestar ‘plugado’ e multiconectado.” (WOLTON, 2007, p. 32). E então: Por que as tecnologias de comunicação agradam tanto? Eu já abordei este problema em Pensar a Comunicação, salientando a importância para os jovens da idéia de abertura, mas também a recusa das mídias de massa, o desejo de responder à inegável angústia antropológica, à atração pelo moderno, à procura de novas formas de solidariedade com os países mais pobres. A variedade de motivações ilustra, aliás, o fato de que estas novas tecnologias sejam investidas de muitas outras coisas que puramente a função técnica. Trata-se, do conjunto, de modificar as relações humanas e sociais, o que prova o quanto, na área de comunicação, se gera símbolos e utopias, sem grande relação com as performances dos instrumentos. O termo que convém aqui é o de transferência. (WOLTON, 2007, p. 86).
  28. 28. 27 E com isso, autonomia, domínio e velocidade fazem compreender o sucessodas novas tecnologias. “Cada um pode agir, sem intermediário, quando bem quiser,sem filtro nem hierarquia e, ainda mais, em tempo real.” É justamente em razãodisso, como observaram também os outros autores, “Isto gera um sentimento deliberdade absoluta, até mesmo de poder, de onde se justifica muito bem a expressão‘surfar na Internet’.” (WOLTON, 2007, p. 86). Assim, por fim, Wolton lança as seguintes questões: O ideal, para não dizer ideologia, do progresso toma o lugar da reflexão evitando que se coloque uma questão simples: todas estas tecnologias de comunicação, para fazer o quê? Qual a relação entre as necessidades de comunicação dos homens e das sociedades e esta explosão de técnicas? Até onde os homens necessitam deste grau de comunicação? Comunicar o que, a quem? Qual a relação entre comunicação técnica e comunicação humana? Qual o interesse em ter cem canais pagos ou poder consultar a biblioteca de Alexandria, ou a do Congresso Americano? Quais as desigualdades e relações de força que dela resultam? Que problemas as tecnologias de comunicação resolvem e que outros são criados? (WOLTON, 2007, p. 32). Percebe-se que há muito mais a discutir em relação ao tema sobresociedade pós-moderna, líquida e contemporânea. Entretanto, para não adentrar emtodas as questões, saindo, portanto, do conjunto ao qual se propôs o presentetrabalho, é que no próximo capítulo será abordado o ciberespaço, para então, nasequência, refletir sobre parte dessa última questão lançada por Wolton: queproblemas, na comunicação, as tecnologias criam?
  29. 29. 283 O CIBERESPAÇO Depois de apresentadas as características da aldeia global, aquelainterligada em todas as direções; os conceitos de espaço e tempo imprescindíveispara o entendimento da percepção do corpo e; a condição pós-moderna e oindividualismo que ajudam a compreender a satisfação do indivíduo com o “eu” nopresente, discutir-se-á sobre o ciberespaço. Entretanto, não se pretende aqui qualificá-lo tecnicamente, compreender ascaracterísticas da rede, os protocolos ou a série de evoluções que aconteceramdesde 1940 e que o tornou possível, no molde em que é conhecido nos diaspresentes. Pretende-se entender o ciberespaço enquanto campo de relações, partedo campo da comunicação capaz de influenciar ou propiciar as relações dosindivíduos mediadas por computador.3.1 O QUE É O CIBERESPAÇO Existem diversas formulações sobre o que é o ciberespaço. Muito embora oque interesse para este trabalho seja o conceito de ciberespaço a partir do adventoda Internet, é importante alertar, sobretudo, para o fato de que o ciberespaço vaimuito além da Internet. John Barlow, vice-presidente da Electronic FrontierFoundation3, por exemplo, identifica o ciberespaço como sendo, também, oambiente onde se encontram os indivíduos ao falarem ao telefone. Pierre Lévy (1999, p. 92) conta que o termo “ciberespaço” foi utilizado pelaprimeira vez por William Gibson, no livro Neuromancer, para descrever um espaçode redes digitais. Neste espaço as tecnologias estariam enraizadas na sociedademoldando a estrutura e as relações entre os indivíduos. Lévy, porém, tem umadefinição própria. Para ele o ciberespaço é “o espaço de comunicação aberto pelainterconexão mundial de computadores e das memórias dos computadores”, e, amarca distintiva é a capacidade de virtualização do espaço e do tempo. Ora, novamente surgem as questões do espaço e do tempo. Chauí (2010)diz que o ciberespaço é “um mundo novo” marcado pela acronia (ausência dereferência do tempo) e pela atopia (ausência de referência do espaço). A autora3 Cf. <https://www.eff.org/>.
  30. 30. 29entende ainda que, com a Internet se pode ir mais longe, em menos tempo, “até acompleta extinção do espaço e do tempo”. Esses apontamentos de Chauí, assimcomo os de Lévy, dialogam para um mesmo entendimento sobre uma virtualizaçãodo corpo, do espaço e do tempo, características que, para ambos, é a marcaprincipal do ciberespaço. E, para que se possa entender mais sobre o ciberespaço, Chauí (2010) dizque é importante entender também as diferenças entre dois conceitos queindevidamente são apresentados como iguais: o do possível e o do virtual. A autoraexplica que na tradição filosófica o virtual tendia a ser o possível, uma potênciadaquilo que, com a intervenção de um agente ou de uma circunstância pudesse vir aexistir. Para a tradição filosófica “a semente é a árvore virtual, ou a árvore possível”.Entretanto, com a informática, a perspectiva filosófica mostrou-se falha. “O virtual jáé real, e já existe. Ele não se opõe ao real, ele se opõe ao atual” assim diz Chauí(2010). Lévy (1996, p. 15), também neste sentido, ensina que a tradição filosóficaentendia que o “real seria da ordem do ‘tenho’, enquanto o virtual seria da ordem do‘terás’, ou da ilusão”. O autor traz a distinção feita por Gilles Deleuze entre opossível e o virtual. O possível é um real latente, já construído, mas lhe falta aexistência material. Já virtual é um acontecimento complexo que chama à umaresolução: uma atualização. “O problema da semente, por exemplo, é fazer brotaruma árvore. A semente ‘é’ esse problema, mesmo que não seja somente isso.” Oautor complementa ainda que “o real assemelha-se ao possível; em troca, o atualem nada se assemelha ao virtual: responde-lhe”. (LÉVY, 1996, p. 17). Com a distinção apontada por Chauí, pode-se dizer que o ciberespaço é ummundo real e que, como apontado por Lévy, aguarda uma atualização. Real que é, eatual que aguarda por ser a todo o momento, o ciberespaço é dotado dainterferência do homem que se reproduz nas relações e interações. Com isso, surgeentão outra das características do ciberespaço que é importante para este trabalho:a capacidade de interação aos indivíduos. André Lemos, ao defini-lo se baseia nestacaracterística dizendo que o ciberespaço é um hipertexto mundial interativo onde cada um pode adicionar, retirar e modificar partes dessa estrutura telemática, como um texto vivo, um organismo auto-organizante, um cybionte em curso de concretização. (LEMOS, 2004, p. 123).
  31. 31. 30 O conceito de Lemos mostra um lado mais interativo e mais vivo dociberespaço. A partir dessas observações de Chauí, Lévy e Lemos, tem-se que ociberespaço é, por fim, um outro mundo, um mundo novo, sem espaço e sem tempo,ou com espaço e tempo novos, onde tudo é virtualizado e onde os indivíduos podematuar moldando as estruturas através da adição, subtração ou modificação deinterações. Essa é a maneira de ser e de existir do ciberespaço. Retomando o quefoi visto no capítulo anterior sobre a relação do corpo, do espaço e do tempo e,sobre as tecnologias da imortalidade e da virtualidade, de acordo com Chauí (2010)tem-se que, “do lado do ciberespaço nós nos tornamos puras almas angélicas, semcorpo, enquanto do lado da ciência, nós nos tornamos puros corpos sem alma”. E, ao tomar o ciberespaço também como um espaço de interação (como aprimeira lei da cibercultura: o ciberespaço é um local de livre circulação dainformação), vê-se que as redes sociais na Internet são o principal fenômeno dessacaracterística. É o que será apresentado a seguir.3.2 REDES SOCIAIS NA INTERNET É importante ressaltar que, redes e redes sociais são conceitos muitoantigos e que não surgiram com a Internet, muito menos se limitam a ela. Contudo,neste trabalho este conceito será associado com a Internet, pois ela e os discursosque nela circulam, fazem parte do objetivo de estudo deste trabalho. As redes sociais na Internet, assim como as redes sociais, são descritascomo sendo o conjunto dos atores sociais e as conexões feitas por eles. Os atoressociais podem ser pessoas, grupos ou instituições e as conexões os laços ouinterações entre estes atores sociais. (Wasserman e Faust, 1994; Deggene e Forse,1999 apud Recuero, 2009, p. 24). “A abordagem de rede tem, assim, seu foco naestrutura social, onde não é possível isolar os atores sociais e nem suas conexões”.(RECUERO, 2009, p. 24). A seguir, será apresentado um pouco mais sobre osatores sociais e sobre as conexões.3.2.1 Atores Sociais Segundo Recuero (2009, p. 25) os atores sociais são o primeiro elementodas redes sociais e podem ser as pessoas, as instituições ou até os grupos
  32. 32. 31envolvidos na rede. São os indivíduos sociais que interagem dentro das redes,moldando ou sendo moldados por elas. Alerta a autora para o fato de que os atoressociais no ciberespaço não são facilmente reconhecíveis, pois, são representaçõesdestes. Aqui, novamente, é possível dialogar com a questão da virtualização docorpo, do espaço e do tempo. Sendo o ciberespaço um ambiente virtual,caracterizado pela atopia e pela acronia, os atores sociais, portanto, também nãoestão fisicamente presentes neste ambiente. São representações de um “eu” quevão de fotos, vídeos e nicknames, que podem se assemelhar mais às característicasdos atores sociais como, por exemplo, uma foto que representa exatamente o atorsocial, até as diversas imagens e links, nem sempre semelhantes, pois, por exemplo,é possível colocar na foto do perfil na Internet uma imagem de um lugar preferido, oude um cantor, de um ídolo, não se assemelhando ao ator social. Conclui Recuero (2009, p. 28) que “os atores no ciberespaço podem sercompreendidos como os indivíduos que agem através de seus fotologs, weblogs, epáginas pessoais, bem como através de seus nicknames”. Sobre estasrepresentações, tem-se que são identidades de um “eu”. É pertinente questionar seestas identidades não seriam mutáveis, tornando-se vários “eus”. Ora, na troca deuma foto do perfil, do nickname, das cores, da linguagem ou até mesmo do link quecorrespondem ao usuário, não estaria ocorrendo uma ressignificação de identidade?É importante então, uma pausa para a reflexão sobre identidades, que sem dúvidatem grande influência no modo como as conexões (laços, relações ou interações)são realizadas entre os atores sociais na Internet.3.2.1.1 Identidades líquidas Para Bauman a identidade é “o horizonte em direção ao qual eu meempenho e pelo qual eu avalio, censuro e corrijo os meus movimentos”. (BAUMAN,apud MACEDO, 2010, p. 52). Pode-se, portanto, a partir de Bauman, entender que oexercício da identidade começa sendo uma escolha. Roberto DaMatta (2009), identifica as identidades como papéis sociais,fazendo inclusive uma distinção entre como as identidades são exercidas a partirdos espaços da casa e da rua. Sobre isto ainda, e segundo Stuart Hall, “todas asidentidades estão localizadas no espaço e no tempo simbólicos”. (HALL apudMACEDO, 2010, p. 51).
  33. 33. 32 Esses autores reforçam a ideia de que as identidades são escolhas mutáveisdos indivíduos. Seja em Bauman sobre a “direção ao qual eu me empenho”, sejapara DaMatta com os espaços da casa e da rua, ou seja para Hall com os espaçossimbólicos. Se as identidades são desempenhadas basicamente de acordo com oespaço em que se insere o indivíduo, o que acontece quando este indivíduo estáinserido no ciberespaço? O que acontece quando a identidade está sendoconstruída ou exercida em um mundo virtualizado e sem os referenciais do espaço edo tempo? Hall diz que “as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram omundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando oindivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado.” (HALL, 2006, p. 7).Veja, é possível dialogar com outro capítulo do trabalho, sobre a Condição Pós-Moderna, que traz o conceito de sociedade e identidade fragmentadas que, por suavez estão fragmentando o indivíduo moderno. Completa Macedo, dizendo que daí, decorre a necessidade dos sujeitos de assumir modelos identitários diversos. Para tanto, se utilizam da cultura da mídia, que é responsável por grande parte da disseminação desses modelos, além de mercadorias que consigam sustentar as identidades escolhidas. Ora, essa relação é possível porque tanto a cultura da mídia, quanto as mercadorias presentes na sociedade do consumo estão em constante movimento, assim como as identidades. Poderíamos dizer, nos apropriando de um termo cunhado por Bauman, que as identidades são líquidas ou fluidas. (MACEDO, 2010, p. 50). Este parece ser o retrato das identidades na pós-modernidade e nasrelações que ocorrem no ciberespaço. É por isso que Bauman as chama de líquidasou fluidas. “Os ‘fluídos’ são assim chamados porque não conseguem manter a formapor muito tempo e, a menos que sejam derramados num recipiente apertado,continuam mudando de forma sob a influência até mesmo das menores forças.”(BAUMAN, 2005, p. 57). Ainda neste sentido, DaMatta (2009) sugere que os papéis sociais não sãobem definidos e assim também parece entender Recuero (2009, p. 30, sem grifo nooriginal), dizendo que “perfis do Orkut, weblogs, fotologs, etc. são pistas de um ‘eu’que poderá ser percebido pelos demais. São construções plurais de um sujeito,representando múltiplas facetas de sua identidade.” Pode-se tomar que, o sujeitopode ser único, mas as identidades podem ser múltiplas tanto na existência como naforma de representação.
  34. 34. 33 Sobre essa mutação de identidade, Bauman diz que nós, habitantes do líquido mundo moderno, somos diferentes. Buscamos, construímos e mantemos as referências comunais de nossas identidades em movimento – lutando para nos juntarmos aos grupos igualmente móveis e velozes que procuramos, construímos e tentamos manter vivos por um momento, mas não por muito tempo. (BAUMAN, 2005, p. 32). Assim, este novo tempo em que se encontra essa sociedade contemporâneaé propício aos novos estilos de identidades frágeis, líquidas e evanescentes. Asoutras caíram por terra. “No admirável mundo novo das oportunidades fugazes e dasseguranças frágeis, as identidades ao estilo antigo, rígidas e inegociáveis,simplesmente não funcionam.” (BAUMAN, 2005, p.33). Cabe aqui, para finalizar a questão das identidades, um interessantequestionamento de DaMatta (2009): “Como os papéis [papéis sociais, identidades]colam nos atores sociais?”. Para ele, essa é a grande motivação das discussõessobre identidades. As várias identidades de que fala Recuero ou a liquidez de quefala Bauman pouco tem a ver com o certo ou errado, com o caráter do indivíduo.Não são boas, nem más, mas apenas uma constante dualidade de papéis sociais.DaMatta (2009) usa como exemplo a questão do nepotismo. Diz ele que essa é umasociedade familiar e que, portanto, não deveria considerar o nepotismo umairregularidade. Nesse contexto, de acordo com o pensamento de DaMatta, para ohomem público há uma constante dualidade de papéis sociais. Ele deve optar porindicar alguém de confiança para um cargo público que não seja da família. Todavia,há alguém cujos laços e confiança sejam mais fortes do que um parente nessasociedade de bases familiares? Não seria o correto indicar para um cargo deconfiança da administração pública então um parente? “Por que isso é errado?”,questiona ele. Que papel social e, portanto, que identidade irá assumir esse atorsocial entre nomear ou não um parente? O papel de administrador público limitado àquestão do nepotismo ou o papel de membro familiar que vê no parente alguém deconfiança para assumir o cargo? Como se vê, as identidades tem papel fundamental na identificação dasrelações entre os atores sociais. É dizer que, sem essas três noções: a) o indivíduono ciberespaço não é físico é apenas uma representação (para Recuero); b) estarepresentação é mutável, é líquida e pode tomar várias facetas sem limite de tempoou espaço (para Bauman); e ainda c) essa mutação e liquidez não são boas nem
  35. 35. 34más, podem ser apenas uma dualidade entre os papéis sociais que o indivíduo temque desempenhar (para DaMatta), não será possível olhar o ciberespaço e as redessociais na Internet com olhares mais científicos do que comerciais, ou seja,procurando adotar uma postura de pesquisador e não somente se envolver na rede.Assim como, é preciso entender que essa dualidade de papéis sociais existe e queeste pode ser, também, motivo que leve à liquidez das identidades.3.2.2 Conexões Recuero (2009, p. 30) argumenta que as conexões podem ser interações,relações ou laços sociais entre os atores sociais na Internet. Para ela são asconexões que motivam aos pesquisadores, pois, é possível avaliá-las muito depoisde realmente terem acontecido. Na rede, ficam os “rastros” dessas interações, comodiz a autora. Ou seja, uma atualização no Twitter pode ser posteriormentevisualizada pelos usuários, em qualquer lugar, até que alguém a exclua. São estesrastros que permitem ao pesquisador analisar mesmo não estando presente notempo e no espaço em que ocorreu a interação. Neste mesmo sentido, Recuero (2009, p. 31) traz os seguintesquestionamentos: “[...] como compreender a interação social no ciberespaço? [...]Como pensar a interação distante do ator social que a origina?” Diz ela que essasinterações possuem diversas características. A primeira delas é que não há outrarelação imediata além da linguagem mediada por computador, ou seja, não há, porexemplo, a interação face a face. Tudo é mediado por computador. Desde o espaço,o tempo, as representações dos atores sociais, os códigos da mensagem, aspróprias mensagens, o feedback. Todo o processo da interação está mediado pelocomputador. A outra característica é que são permitidas interações mesmo quandoos atores não estão conectados no ciberespaço. É o caso dos e-mails, onde nemsempre são enviados para quem está conectado à rede no momento, e por isso, nãose espera uma resposta imediata. Assim também ocorrem com as mensagensdeixadas entre os usuários utilizando o Facebook, o MSN ou o Orkut. Recuero (2009, p. 36) alerta para o fato de que “a interação mediada porcomputador é a geradora de relações sociais, que, por sua vez, vão gerar laçossociais.” Assim, tem-se que as interações são a menor parte de todo o processo deconexão que ocorre nas redes sociais na Internet; as relações sociais são processos
  36. 36. 35causados por várias interações sociais e, por sua vez, os laços sociais sãoenvolvimentos mais complexos resultantes das relações sociais. A partir de AlexPrimo (2003), Recuero (2009, p. 33) descreve que as interações podem ser reativase limitadas, mútuas e construídas, fortes ou fracas e multiplexas. E para que seentenda melhor estes tipos de relações, faz-se necessário explorá-las rapidamente. As interações são reativas e limitadas quando, por exemplo, um usuário clicaem um link sendo levado para algum lugar. Já as interações mútuas e construídas,que interessam mais para este trabalho, são aquelas onde o usuário do Twitter, porexemplo, insere alguma atualização na página pessoal. Ao contrário da outra, estaúltima permite que outro usuário interaja com a atualização, respondendo,comentando ou replicando aos demais usuários da rede. E as interações, relaçõesou laços sociais podem ocorrer dentro ou fora do ciberespaço e podem, ainda, secombinarem. Os laços sociais fora da Internet podem ser resultantes de uma relaçãosocial mediada e iniciada por computador ou ainda o inverso. É o caso, por exemplo,de irmãos que convivem juntos e que mantem relações sociais na Internet. São oschamados laços “multiplexos”. Esses laços podem ainda, serem fracos ou fortes, eisto depende da quantidade de interações que os usuários mantem. Quanto maisinteração mais forte o laço social. (DEGENNE E FORSÉ, 1999; SCOTT, 2000 apudRECUERO, 2009, p.42). Por fim, a autora alerta que: “As relações não precisam ser compostasapenas de interações capazes de construir, ou acrescentar algo. Elas tambémpodem ser conflituosas ou compreender ações que diminuam a força do laço social”.Neste sentido, as relações e laços sociais não se confundem com o conteúdo, mastambém não podem existir sem este, pois é ele, o conteúdo, o que determina o tipode relação ou laço social, que podem ser de amizade, de carinho, de amor, deconflito, de hostilidade e, ainda assim serem de laços fortes. É importante que istofique claro para que não se tome as relações ou laços sociais sempre como algopositivo. (RECUERO, 2009, p.37).
  37. 37. 364 METODOLOGIA Como visto anteriormente, o objetivo do presente trabalho é saber e refletirsobre as inserções de hostilidade e preconceito no Twitter, diante deste contexto desociedade contemporânea, globalizada e liquida. O objetivo, portanto, dar-se-á cumprido somente através da construção deconhecimento. De acordo com Antônio Joaquim Severino (2007, p. 25) a produçãode conhecimento como construção de um objeto ocorre “mediante nossa capacidadede reconstituição simbólica dos dados de nossa experiência”. Ou seja,“apreendemos os nexos pelos quais os objetos manifestam sentido para nós,sujeitos cognoscentes”. Dessa maneira o conhecimento torna-se um “complexoprocesso de constituição e reconstituição do sentido do objeto que foi dado à nossaexperiência externa e interna”. O autor ainda alerta para o fato de que a construçãodo conhecimento no ambiente acadêmico tem um diferencial e deve ser construído“pela experiência ativa do estudante e não mais ser assimilado passivamente”. E,ainda sob este aspecto a “pesquisa torna-se elemento fundamental e imprescindívelno processo de ensino/aprendizagem. [...] o aluno precisa dela para aprender eficaze significativamente”. (SEVERINO, 2007, p. 25). Assim, o presente trabalho tem como base a pesquisa bibliográfica. Comoensinam Jorge Duarte e Antônio Barros (2009, p. 52) “A pesquisa bibliográfica, numsentido amplo, é o planejamento global inicial de qualquer trabalho de pesquisa”.Para Severino, é aquela que se realiza a partir do registro disponível, decorrente de pesquisas anteriores, em documentos impressos, como livros, artigos, teses etc. Utiliza-se de dados ou de categorias teóricas já trabalhados por outros pesquisadores e devidamente registrados. Os textos tornam-se fontes dos temas a serem pesquisados. O pesquisador trabalha a partir das contribuições dos autores dos estudos analíticos constantes dos textos. (SEVERINO, 2007, p. 122). É necessário ressaltar que hoje a pesquisa bibliográfica parte não apenasdos impressos, mas também do levantamento de documentos encontrados naInternet, filmes, programas de televisão ou rádio, aulas, palestras e conferências. Ouseja, “tudo o que foi escrito, dito ou filmado sobre determinado assunto”. (LAKATOS,2005, p. 185). Entretanto, como previne Severino:
  38. 38. 37 Não traz resultados positivos para o estudo ouvir aulas, por mais brilhantes que sejam, nem adianta ler livros clássicos e célebres. Isso só tem algum valor à medida que se traduzir em documentação pessoal, ou seja, à medida que esses elementos puderem estar à disposição do estudante, a qualquer momento de sua vida intelectual. (SEVERINO, 2007, p. 67). Por isso, além da pesquisa bibliográfica, também foi realizada adocumentação bibliográfica das obras através do método de fichamento, para que,como fim, se cumprisse o que garante Severino sobre esse processo:“Sistematicamente feito, proporciona ao estudante rica informação para seusestudos.” (SEVERINO, 2007, p. 70). Buscou-se a partir da pesquisa e da documentação bibliográfica apresentarum rico diálogo entre os autores das obras. E entre elas, destacam-se comoprincipais Bauman (2005, 2008, 2011), McLuhan (2005), Wolton (2007), Santos(2006), Chauí (2010), Sibilia (2002, 2008), Recuero (2009) e Santaella e Lemos(2010) que, de modo geral, discorrem sobre sociedade, homem e comunicação. Afim de complementar esses diálogos, as ideias e interpretações de alguns outrosautores também foram trazidas para as linhas deste trabalho. São eles: DaMatta(2009), Lévy (1996, 1999), Nóbrega (2000), Primo (2003, 2011), Viviani (2007) eZago (2008). O presente trabalho utilizou-se também de uma pesquisa exploratória que,para Severino (2007, p. 123), “busca apenas levantar informações sobre umdeterminado objeto, delimitando assim um campo de trabalho, mapeando ascondições de manifestação desse objeto.” Assim, buscando a relação com as teoriasvistas ao longo do trabalho, foram analisados alguns discursos das postagens noTwitter, os chamados “tweets”, encontrados através do uso da ferramenta de buscado próprio site e palavras-chave, como: “gays”, “mulheres”, “homofobia” e“nordestino”. Escolheu-se esse “tipo de hostilidades” em razão de sua intensidade. Cumpre-se ressaltar, ainda, que nas linhas deste trabalho ou diante dasconclusões poder-se-á parecer que houve o emprego de uma pesquisa explicativa,cuja adoção poderia ocorrer, pois “além de registrar e analisar os fenômenosestudados, busca identificar suas causas”. Entretanto, o presente trabalho não temessa pretensão. Os possíveis posicionamentos que possam aparecer, sãoresultados dessa “corrida ao conhecimento” e que se expressaram por meio de umato de filosofar, pois este, “reclama um pensar por conta própria que é atingidomediante o pensamento de outras pessoas”. (SEVERINO, 2007, p. 123, 67).
  39. 39. 385 O TWITTER Desde a notoriedade que atingiu o Twitter, por volta de 2008 quando foiutilizado na campanha do atual presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, aferramenta passou a ser alvo de pesquisadores e de constantes discussões. Aproposta desse trabalho concentra-se no estudo dessa plataforma, pois, comoafirmam diversos autores Recuero (2009) e Santaella e Lemos (2010), o Twitterserve como uma importante e relevante ferramenta no estudo de redes sociais naInternet. Neste último capítulo, portanto, além de conhecer mais sobre essaplataforma, será feita uma análise de “tweets” a partir das teorias vistas durante estetrabalho. Assim será possível compreender melhor o comportamento do usuário narede, e a importância daquilo que já foi abordado neste trabalho, como a condiçãopós-moderna e o individualismo.5.1 DO TWTTR AO TWITTER Conta Jack Dorsey (2006), um dos fundadores do Twitter, que o serviço teveos primeiros conceitos pensados no ano 2000. No perfil de Dorsey no site Flickr4, umsite onde os usuários mantém hospedadas fotos, ele comenta que ingressou em umserviço chamado LiveJournal5, que é uma comunidade virtual onde os usuáriospodem hospedar na rede um jornal ou um diário. A partir daí Dorsey pensou em criaralgo semelhante ao LiveJournal, porém, com atualizações mais instantâneas. Algoque permitisse ao usuário atualizar o status6 e, de onde estivesse, compartilhá-lo.Algo para ser usado em tempo real. Dorsey conta que chamou a ideia inicialmente de “TWTTR” e, no perfil noFlickr ele mantém uma foto do primeiro esboço que fez do layout do Twitter (FIGURA1), comentando sobre a ideia e sobre o recente sucesso após seis anos de espera.4 Cf. <http://www.flickr.com/photos/jackdorsey/182613360/>.5 Cf. <http://www.livejournal.com/>.6 Status é uma palavra latina que significa estado, posição, condição. No mesmo estado “ou situaçãode uma pessoa ou entidade”. (STATUS, 2011).
  40. 40. 39FIGURA 1 - PRIMEIRO ESBOÇO DO TWTTRFONTE: DORSEY (2006) Entretanto, o esboço pouco se parece à primeira versão do Twitter, lançadaefetivamente no ano de 2006. O site tinha uma versão de layout bem simples(FIGURA 2), e os botões amplamente conhecidos e utilizados nos dias de hoje,como “Favorite”, “Retweet” e “Reply” ainda não estavam presentes.
  41. 41. 40FIGURA 2 - SITE TWTTRFONTE: SAGOLLA (2006) Nota-se que o antigo layout do Twitter (FIGURA 2) era mais funcional, ouseja, parecia estar mais preocupado com a usabilidade7 do serviço do que com a7 Usabilidade é um termo usado para definir o quanto uma interface é facilmente utilizada pordiferentes usuários alcançando simplicidade, facilidade e eficiência no uso. (USABILIDADE, 2011).
  42. 42. 41experiência simbólica dos usuários. Era possível postar o conteúdo e ver o que foipostado pelos outros, mas ainda não era possível compartilhar o conteúdo de outrousuário como nos dias de hoje. É possível notar ainda que, a primeira versão já faziao uso da pergunta utilizada até pouco tempo e que lembra uma das principaiscaracterísticas do Twitter, a mobilidade: “what are you doing?” ou “o que você estáfazendo?”. E, parece que respondendo à pergunta, Jack Dorsey, segundoreportagem de O Globo (2011), escreveu a primeira mensagem da rede (FIGURA 3),datada de vinte e um de março do ano de dois mil e seis: “invite coworkers” ou“convidando colaboradores”.FIGURA 3 - PRIMEIRO TWEET DA HISTÓRIAFONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO AUTOR, DO PERFIL “@JACK” NO TWITTER (2011) Antes disso, o próprio sistema enviava uma mensagem automática padrão,“just setting up my twttr” ou “apenas criando meu twttr”, que também pode serencontrada nos perfis dos fundadores Jack Dorsey, Biz Stone e Evan Williams(FIGURA 4).FIGURA 4 - PRIMEIROS TWEETS GERADOS AUTOMATICAMENTEFONTE: MONTAGEM FEITA PELO AUTOR, DOS PERFIS “@EV”, “@BIZ” E “@JACK” NO TWITTER(2011) Desse ponto de partida até os dias atuais, é possível perceber que muitacoisa mudou no Twitter, desde o layout até o sucesso que a rede social conseguiu.Antes, porém, cumpre-se mostrar, ainda que de maneira rápida, a estrutura atual do
  43. 43. 42Twitter afim de que, na sequência, a falta dessas características não atrapalhe noentendimento dos próximos tópicos. A versão atual do Twitter (FIGURA 5), o layout eas funcionalidades estão, sem dúvida, mais desenvolvidas e mais interativas do quena versão inicial e continuam mantendo a usabilidade do serviço.FIGURA 5 - VERSÃO ATUAL DO TWITTERFONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO AUTOR, DA PÁGINA PRINCIPAL DO TWITTER (2011) É possível agora marcar o conteúdo que mais gostou de outro usuário,compartilhar a postagem, ou ainda, responder alguma postagem com algumcomentário e enviar mensagens particulares.5.2 O QUE É O TWITTER? Lúcia Santaella e Renata Lemos (2010, p. 64) argumentam que o Twitter é“uma plataforma de microblogging que explodiu nos últimos anos, afiliando milhõesde usuários por todo o mundo.” Esse sucesso deve-se ao fato de que rapidamente
  44. 44. 43celebridades passaram a se juntar ao Twitter, e isso ganhou maior atenção por partedos meios de comunicação de massa fazendo com que públicos distintos dasociedade também se interessassem pelo Twitter. Esse fato é bem lembrado porJuliano Spyer no guia intitulado: “Tudo o que você precisa saber sobre Twitter” 8.Neste guia ele comenta que a entrada de Oprah Winfrey9 foi considerada um marcona história do Twitter e da popularização dessa plataforma (FIGURA 6).FIGURA 6 - PRIMEIRO TWEET DE OPRAH WINFREYFONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO AUTOR, DO PERFIL “@OPRAH” NO TWITTER (2011) Assim, desde que criado, o Twitter não parou de crescer. Estudos como osda agência Sysomos apontam que em 2009 o Twitter atingiu 11 milhões de usuários.O Brasil ocupava o segundo lugar com representatividade de 8,8% dos usuários dabase total do Twitter. (LARDINOIS, 2010 apud SANTAELLA; LEMOS, 2010, p. 64). As autoras concluem que o Twitter é “Uma verdadeira ágora digital global:universidade, clube de entretenimento, ‘termômetro’ social e político, instrumento deresistência civil, palco cultural, arena de conversações contínuas” e que serve como um meio multidirecional, de captação de informações personalizadas; um veículo de difusão contínua de ideias; um espaço colaborativo no qual questões, que surgem a partir de interesses dos mais microscópicos aos mais macroscópicos, podem ser livremente debatidas e respondidas; uma zona livre – pelo menos até agora – da invasão de privacidade que domina a lógica do capitalismo corporativo neoliberal que tudo invade, até mesmo o ciberespaço. (SANTAELLA; LEMOS, 2010, p. 66). E, muito embora o Twitter faça parte do quadro das Redes 3.0, que sãoaquelas que permitem interação, são dotadas de aplicativos e estão focadas namobilidade (HORNIK, 2005 apud SANTAELLA; LEMOS, 2010, p. 58), as autorasalertam para o fato de que8 O guia está disponível para download na página da agência Talk Interactive:<http://guiadotwitter.talk2.com.br/arquivos/Manual_Twitter_6_MB.pdf>.9 Oprah Winfrey é uma empresária e apresentadora de TV americana, e, uma das personalidadesmais influentes dos Estados Unidos.

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