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O fim das insuflações?

  1. 1. Fim das insuflações - 16/05/2014 - Página 1 de 3 - © ANSB - Associação Nacional dos Sapadores-Bombeiros ANSB SAPADORES-­‐BOMBEIROS DO BRASIL O fim das insuflações? Recentemente foram publicados dados estatísticos da AHA - Associação Americana do Coração - sobre doenças cardíacas e derrame (The American Heart Association - Heart Disease and Stroke Statistics - 2014 Update) [2] ajudando a ter uma ideia do estado da arte em matéria de massagem cardíaca. Além do fato de que os casos de parada cardíaca continuam frequentes nos Estados Unidos, em razão do modo de vida, alguns elementos relativos à demora e às ações feitas pelos socorristas também são importantes para analisar-se. Entre esses dados, um chama a atenção dos socorristas e mais especialmente dos formadores: a diferença de sobrevivência entre as vítimas nas quais foram feitas compressões e insuflações e as vítimas que só receberam compressões. De fato, os dados mostram uma melhor taxa de sobrevivência das vítimas nas quais os "socorristas cidadãos" só fizeram compressões torácicas (10,2%) em comparação com vítimas que receberam compressões e insuflações (8,5%). Esse resultado pode parecer surpreendente. Seria mais lógico que alguém recebendo compressões E insuflações tivesse maiores chances de sobrevivência. Mas as estatísticas demonstram o contrário. Ao mesmo tempo, aqueles que se interessam pela evolução dos procedimentos de socorrismo cidadão sabem que as mudanças vão no sentido de abandonar totalmente as insuflações, e manter as compressões apenas. Atenção: aqui estamos falando de formação de primeiros socorros para grande público, ou seja, para gestos praticados "sozinho e sem equipamento". Por quê? Com um manequim de treinamento bem evoluído, é possível medir tanto a eficácia das compressões quanto das insuflações. Neste caso, é fácil constatar que as 4, 5 e até 6 primeiras compressões de cada ciclo têm um resultado medíocre: mau posicionamento das mãos, força insuficiente aplicada sobre a caixa torácica... Ora, esse defeito nas primeiras compressões acontece a cada vez que o ciclo se repete: cada série de compressões começa por várias compressões ineficazes, e depois o socorrista "pega o ritmo". Infelizmente, a cada série de insuflações, nós paramos as compressões e, ao voltar, essas compressões ineficazes acontecem de novo. Quando se constata que mesmo formadores experientes fazem essas compressões ineficazes, dá para imaginar que os socorristas fazem um pouquinho pior, pelo menos. Os ritmos Antigamente, o ciclo de RCP era 15/2: 15 compressões para 2 insuflações (Guia Nacional de Referência em Primeiros Socorros da França, 2001 ou Manual de Primeiros Socorros do Ministério da Saúde, Brasil, 2003, por exemplo) Nesse contexto, as 4, 5 ou 6 compressões ineficazes levavam a um resultado globalmente regular: 5 compressões ineficazes, 10 compressões eficazes, interrupção para duas insuflações, geralmente de qualidade regular. Na duração total, somando-se o tempo das compressões ineficazes com o tempo das insuflações (elas também frequentemente ineficazes), chegamos, no ciclo de 15/2, a cerca de 50% do tempo desperdiçado. Medindo a taxa de sucesso nas compressões: 5 compressões ineficazes num total de 15, dá uma taxa de sucesso de somente 65%. Nós constatamos inclusive que no documento "Manual de Primeiros Socorros do Ministério da Saúde-2003", Brasileiro, é dito que quando houver 2 socorristas o ritmo será de 5 compressões por duas insuflações. Mas como o ciclo de compressão é geralmente interrompido a cada ciclo de insuflação, isso leva de certo modo a fazer somente
  2. 2. compressões ineficazes. Verdadeira armadilha: acreditando fazer bem favorecendo as insuflações (num ritmo de 2 para 5 compressões, ao invés de 2 por 15), chega-se na verdade ao resultado pior. Somava-se a isso (e continua assim) a hesitação da maioria das pessoas em fazer insuflações numa vítima babando ou com ferimentos no rosto. A tentativa de distribuir pequenas máscaras para fazer insuflações leva, paradoxalmente, a um resultado inverso do esperado: na cabeça do socorrista, a máscara "prova" que há realmente um perigo em insuflar sem ela. Isso leva quem não tem a máscara... a não fazer nada! Observação: nós constatamos a mesma coisa no caso de hemorragias. Aumentando o medo de possível transmissão de doenças no contato com sangue, leva-se o socorrista potencial a não fazer nada se não tiver luvas. Ou seja, vamos deixar morrer a vítima de hemorragia. É bom lembrar que a transmissão de doenças pelo sangue exige que a pessoa tenha essa doença e que o socorrista tenha ferimentos nas mãos ou receba sangue nos olhos ou mucosas! Ou seja, as "chances" de ser infectado são quase nulas, enquanto que a falta do gesto de socorro face a uma hemorragia leva inevitavelmente à morte da vítima. No início dos anos 2010 (quando foram mudadas as recomendações mundiais em matéria de socorrismo, seguindo o ciclo de 5 anos estabelecido entre as agências internacionais) uma mudança importante foi feita: passagem do ciclo 15/2 ao 30/2 e tendência geral, em nível pedagógico, de obrigar menos os alunos a insuflar. Passamos assim de "você tem de insuflar!" para "se você não puder insuflar, não é um grande problema". E passando a um ciclo de 30/2, as 4, 5 ou 6 compressões ineficazes continuam lá, evidentemente. Mas agora no ciclo de 30 nós podemos esperar ter 25 boas. Ou seja, 80% de compressões boas, contra 65% num ciclo de 15/2. Não insuflar mais? Os resultados da AHA continuam sempre no sentido de diminuir as insuflações e fazem pensar que haverá mudanças em breve. De fato, é possível levar a conclusão mais longe: como a cada ciclo nós temos cerca de 5 compressões ineficazes e que na maior parte dos casos as pessoas não vão insuflar, então o melhor seria não insuflar de jeito nenhum. Então, nós teríamos um só grande ciclo de compressões começando na descoberta da vítima e parando somente no momento do choque de um eventual desfibrilador, para recomeçar em seguida. Sabendo que o ciclo contém aproximadamente 100 compressões por minuto e que o desfibrilador entra em ação a cada 2 minutos, isso significa que num ciclo completo haverá aproximadamente 200 compressões. Teremos sempre as 5 compressões ineficazes no início, mas em seguida 195 compressões potencialmente boas, ou seja, uma taxa de eficácia da ordem de 97%! No caso do socorro bem sucedido do Sr. Tunes, em Piratini-RS, no meio de 2013, notamos que o Sapador- Bombeiro que fez a massagem não insuflou nenhuma vez, pois a vítima babava (resultado de convulsões que tivera imediatamente antes). O socorrista então realizou 3 séries de 30 compressões, sem parar, até que a vítima recomeçou a respirar. Nesse caso, estamos diante de 5 compressões ineficazes num total de 90, ou seja, uma taxa de sucesso de cerca de 95%. Atualmente Na situação atual, sabendo que as recomendações internacionais são divulgadas a cada 5 anos, é somente no final de 2015 que as coisas vão mudar. Na ANSB, nossas diretivas nacionais seguem as diretivas internacionais, então é bem provável que a reciclagem de 2016 dos formadores de Socorrismo da associação trate desta modificação de atitude diante da parada cardíaca. Por enquanto, continuamos formando no ritmo 30/2, mas não vamos nos espantar com a mudança que está por vir. Ainda assim, as grandes associações já tomaram a dianteira: A AHA divulga no seu site [3] informações sobre a Hands Only CPR (massagem cardíaca unicamente com as mãos), as rádios americanas divulgam neste momento mensagens sobre o assunto, e a Fundação Britânica do Coração fez clipes [4] e divulgou inclusive um aplicativo para Android e iPhone que permite medir a profundidade das compressões, utilizando o acelerômetro do aparelho.[5] Teoricamente, o ciclo de publicação das recomendações é de 5 anos. A última divulgação oficial data de 2010[6], a próxima então está prevista para 2015. Assim, por enquanto a situação é um pouco ambígua, de dúvida. De fato, a Fim das insuflações - 16/05/2014 - Página 2 de 3 - © ANSB - Associação Nacional dos Sapadores-Bombeiros
  3. 3. AHA já preconiza a massagem cardíaca sem insuflações, enquanto as recomendações ainda válidas tratam de compressões + insuflações. O ciclo de atualização da ANSB també é de 5 anos, então atualmente os membros da Direção Nacional da Formação estão desde já refletindo nas mudanças que essas mudanças trarão em termos de pedagogia, conteúdo e explicações. Pois, como em toda mudança, os formadores serão confrontados a várias perguntas às quais eles devem ter as respostas corretas. Digamos que os únicos a esbravejar serão sem dúvida os vendedores de pulmões para manequins de RCP... 1 - http://www.emsworld.com/news/11315770/aha-releases-latest-statistics-on-out-of-hospital-cardiac-arrest? utm_source=EMS+World+News+Recap&utm_medium=email&utm_campaign=CPS140215005 2 - http://circ.ahajournals.org/content/129/3/e28 3 - http://www.heart.org/HEARTORG/CPRAndECC/HandsOnlyCPR/Hands-Only- CPR_UCM_440559_SubHomePage.jsp 4 - http://www.bhf.org.uk/heart-health/life-saving-skills/hands-only-cpr.aspx#&panel1-4 5 - http://www.bhf.org.uk/heart-health/life-saving-skills/hands-only-cpr/app-enquiry-form.aspx 6- http://www.heart.org/HEARTORG/CPRAndECC/Science/Guidelines/2010-AHA-Guidelines-for-CPR-ECC_ Fim das insuflações - 16/05/2014 - Página 3 de 3 - © ANSB - Associação Nacional dos Sapadores-Bombeiros UCM_317311_SubHomePage.jsp

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