Vinicius Massuchetto          ¸˜Representacoes da Teoria Marxista no Software Livre                      Curitiba         ...
Vinicius Massuchetto          ¸˜Representacoes da Teoria Marxista no Software Livre                                       ...
¸˜                                                ¸˜        Trabalho de Graduacao do curso de Bacharelado em Ciˆ ncia da C...
Resumo                                                   ¸˜        MASSUCHETTO, Vinicius. Representacoes da Teoria Marxist...
Abstract         MASSUCHETTO, Vinicius. Representations of Marxist Theory in Free Software.2012. 74 p. Undergraduate paper...
Lista de FigurasFigura 2.1 Mapa hist´ rico-generativo de termos e ideias do software livre                    o           ...
Lista de TabelasTabela 4.1 Porquˆ os membros da comunidade contribuem com o Fedora Linux                e                 ...
Sum´ rio                                                                       a1            ¸˜      Introducao . . . . . ...
11             ¸˜       Introducao                                                                       ¸˜         Introd...
2             `                                                ¸˜n˜ o obedece as regras tradicionais do mercado. A comerci...
32     Conceitos2.1     Software livre                                                                                   ´...
4para executar o programa, mas n˜ o podemos ver seu c´ digo fonte e muito menos modificar e                               a...
5          Figura 2.1: Mapa hist´ rico-generativo de termos e ideias do software livre                               o    ...
6sobre atores diferentes, cada qual com seu exerc´cios sobre direitos formalmente adquiridos.                             ...
7                               ¸˜                                   ¸˜                         revolucao industrial [. . ...
8   • Conhecimento pode ser definido como informacao organizada, transformada e                                            ...
9                                                                                            ´                        gran...
10                                 ¸˜                          ¸˜                        A revolucao da tecnologia da info...
112.3     Marxismo         Variantes do termo marxismo tˆ m aparecido com frequˆ ncia para designar as diferentes         ...
12solidificadas no marxismo ortodoxo, introduzindo conceitos do existencialismo e gerando novasmetodologias como o marxismo...
133     Marxismo como modelo te´ rico                             o3.1     Uma alternativa de an´ lise                    ...
14                                                                                   ¸˜         O amadurecimento das ideia...
15                                                                                          `diferentes raz˜ es – assim co...
16                       [. . . ] Marx foi capaz de apreender as tendˆ ncias estruturais da ordem burguesa                ...
17                        A categoria de totalidade significa (...), de um lado, que a realidade objetiva                  ...
18comunicadores encarregaram-se de formar esta imagem, encontrando na hist´ ria os elementos                              ...
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Representações da Teoria Marxista no Software Livre
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

Representações da Teoria Marxista no Software Livre

1.178 visualizações

Publicada em

Discute a inserção tecnológica e econômica do software livre através de uma ótica marxista na sociedade da informação. A partir da definição dos conceitos utilizados, faz um resgate teórico que justifica a utilização da teoria marxista para uma análise da atual sociedade com foco nas dinâmicas informacionais, e procura identificar os conceitos de propriedade, trabalho, produção e valor segundo os paradigmas colocados pelo modelo aberto de desenvolvimento de software. O estudo busca fazer uma análise das contradições presentes no modelo de mercado da propriedade intelectual, e como ele tem aos poucos utilizado a flexibilidade e capacidade inovativa do software livre para atingir suas demandas capitalistas.

Publicada em: Tecnologia
  • Seja o primeiro a comentar

Representações da Teoria Marxista no Software Livre

  1. 1. Vinicius Massuchetto ¸˜Representacoes da Teoria Marxista no Software Livre Curitiba 2012
  2. 2. Vinicius Massuchetto ¸˜Representacoes da Teoria Marxista no Software Livre ¸˜ Trabalho de Graduacao apresentado no curso ¸˜ de Bacharelado em Ciˆ ncia da Computacao da e Universidade Federal do Paran´ como requisito a ¸˜ parcial para obtencao do t´tulo de Bacharel em ı ¸˜ Ciˆ ncia da Computacao. e Orientador: Luis Allan K¨ nzle u Curitiba 2012
  3. 3. ¸˜ ¸˜ Trabalho de Graduacao do curso de Bacharelado em Ciˆ ncia da Computacao da eUniversidade Federal do Paran´ sob o t´tulo de Representacoes da Teoria Marxista no Software a ı ¸˜Livre, defendido por Vinicius Massuchetto e aprovada pela banca examinadora constitu´da por: ı Prof. Dr. Luis Allan Kunzle Orientador Universidade Federal do Paran´ a Prof. Dr. Alexandre Ibrahim Direne Universidade Federal do Paran´ a Prof. Dr. Andr´ Luiz Pires Guedes e Universidade Federal do Paran´a
  4. 4. Resumo ¸˜ MASSUCHETTO, Vinicius. Representacoes da Teoria Marxista no Software Livre. ¸˜ ¸˜2012. 74 f. Trabalho de Graduacao (Bacharelado em Ciˆ ncia da Computacao) – Departamento ede Inform´ tica, Universidade Federal do Paran´ . Curitiba, 2012. a a ¸˜ o o e ´ Discute a insercao tecnol´ gica e econˆ mica do software livre atrav´ s de uma otica ¸˜ ¸˜marxista na sociedade da informacao. A partir da definicao dos conceitos utilizados, faz o ¸˜um resgate te´ rico que justifica a utilizacao da teoria marxista para uma an´ lise da atual asociedade com foco nas dinˆ micas informacionais, e procura identificar os conceitos de a ¸˜propriedade, trabalho, producao e valor segundo os paradigmas colocados pelo modelo aberto ¸˜de desenvolvimento de software. O estudo busca fazer uma an´ lise das contradicoes presentes ano modelo de mercado da propriedade intelectual, e como ele tem aos poucos utilizado aflexibilidade e capacidade inovativa do software livre para atingir suas demandas capitalistas. ¸˜ Palavras-chave: software livre, marxismo, sociedade da informacao
  5. 5. Abstract MASSUCHETTO, Vinicius. Representations of Marxist Theory in Free Software.2012. 74 p. Undergraduate paper (BSc. Computer Science) – Information Department, FederalUniversity of Paran´ . Curitiba, Brazil, 2012. a Discuss the technological and economical appliances of free software through theMarxist perspective in information society. Starting from some basic concepts, aims to justifythe use of the Marxism critique to analyse our current society, and tries to identify the conceptsof property, labour, production and value in the free software paradigm. The study aims to bean analysis of intellectual property contradictions, and how this model uses the flexibility andinnovation capacity of free software to reach capitalist goals. Keywords: free software, marxism, information society
  6. 6. Lista de FigurasFigura 2.1 Mapa hist´ rico-generativo de termos e ideias do software livre o ............ 5Figura 3.1 Marx na Internet: “Eu avisei que estava certo sobre o capitalismo” . . . . . . . . . 21Figura 4.1 As profecias de Marx se concretizam . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26 ¸˜Figura 4.2 As quatro restricoes do capital sobre o indiv´duo ı . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28 ¸˜Figura 4.3 A regulacao exercida pela GPL . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31 ´Figura 4.4 Programar software livre e uma pr´ tica comunista a . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 58Figura 4.5 Propaganda anti-Linux da Microsoft . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60 ¸˜Figura 4.6 O paradigma de inovacao segundo o modelo aberto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 64
  7. 7. Lista de TabelasTabela 4.1 Porquˆ os membros da comunidade contribuem com o Fedora Linux e . . . . . . 55Tabela 4.2 Crit´ rios de escolha de software livre pelas empresas e . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59
  8. 8. Sum´ rio a1 ¸˜ Introducao . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . p. 12 Conceitos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . p. 32.1 Software livre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . p. 32.2 ¸˜ Sociedade da informacao . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . p. 62.3 Marxismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . p. 103 Marxismo como modelo te´ rico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . o p. 133.1 Uma alternativa de an´ lise . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . p. 13 a3.2 ¸˜ O marxismo na era da informacao . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . p. 174 ¸˜ Relacoes dos conceitos marxistas com o software livre. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . p. 234.1 Propriedade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . p. 234.2 ¸˜ Producao . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . p. 324.3 Trabalho . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . p. 394.4 Valor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . p. 515 Conclus˜ o . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . a p. 66Referˆ ncias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . e p. 70
  9. 9. 11 ¸˜ Introducao ¸˜ Introduzir um tema cruzado que envolve o marxismo e a sustentacao de seus conceitos ¸˜ a ´ e u o a ´no mundo da computacao n˜ o e uma tarefa f´ cil. Al´ m do ac´ mulo te´ rico necess´ rio, e preciso a ¸˜lidar com os estigmas e interpretacoes antagˆ nicas que inevitavelmente surgem no decorrer das odiscuss˜ es. o a a a e ¸˜ An´ lises sociais n˜ o s˜ o o foco dos cursos de Ciˆ ncia da Computacao, e embora nestecontexto existam algumas dificuldades no desenvolvimento te´ rico de um trabalho cient´fico o ıcom um foco social, entende-se que um olhar diferenciado nas particularidades do mercado dainform´ tica sejam de grande relevˆ ncia para a compreens˜ o de nosso momento hist´ rico. a a a o e ¸˜ Os conceitos e m´ todos utilizados para as interpretacoes aqui presentes n˜ o s˜ o a aunˆ nimes, e introduzem vis˜ es que tamb´ m podem n˜ o ser as mais adequadas para outras a o e a ¸˜ ´ ¸˜construcoes te´ ricas. Entende-se que este e um processo intr´nseco da producao acadˆ mica, o ı ee acaba sendo, no final das contas, o grande impulsor do seu desenvolvimento. ¸˜ O trabalho tamb´ m deve ser compreendido dentro de suas limitacoes como um trabalho e ¸˜de graduacao, e que se prop˜ e a ser um estudo mais breve e pontual. As an´ lises aqui presentes o a a ¸˜s˜ o adaptacoes para uma nova realidade hist´ rica, e constituem uma recente vertente de estudos osocialistas que tˆ m como foco toda a sociedade atual. A cobertura abrangente do tema e o e u ˆdevido tratamento de suas min´ cias requer outros ambitos acadˆ micos. e a ´ O Marxismo n˜ o e uma religi˜ o e n˜ o pode explicar tudo, mas pode, no entanto, a a ` ¸˜oferecer uma diretriz de an´ lise razo´ vel e que leve a investigacoes que afastam o determinismo a atecnol´ gico t˜ o presente no trabalho fortemente t´ cnico do desenvolvimento de software. Antes o a ede mais nada, este trabalho trata-se de uma tentativa de desmembramento das quest˜ es de nossa o o eˆ `sociedade segundo um ferramental te´ rico que dˆ enfase as dinˆ micas econˆ micas colocadas a opelo software livre. ´ O software da maneira como o conhecemos e um bem bastante peculiar na sociedadeatual, pois ao contr´ rio de outros produtos que s˜ o comercializados h´ centenas de anos a a a ¸˜seguindo a mesma metodologia de troca, o conjunto de informacoes contidas em um programa
  10. 10. 2 ` ¸˜n˜ o obedece as regras tradicionais do mercado. A comercializacao do software – ou da a ¸˜ ` ¸˜informacao, quando tratamos o software de uma maneira mais ampla – levou a criacao de novos ¸˜mecanismos regulat´ rios respaldados pelo estado e suas instituicoes. o Neste contexto surge o software livre de uma maneira mais informal para atenderdemandas acadˆ micas, e foi aos poucos integrando-se ao mercado e hoje mostra-se como e ` ¸˜uma alternativa vi´ vel as mais diversas aplicacoes. Possui como aspecto central a garantia de a ¸˜ ¸˜distribuicao das informacoes que o comp˜ em atrav´ s de uma licenca livre, ou licenca copyleft, o e ¸ ¸ ¸˜e que impede que pessoas ou organizacoes possam apropriar-se dele de maneira exclusiva. ¸˜ Se para garantir que o software fosse inserido nas condicoes tradicionais de mercado ¸˜se fez necess´ ria a criacao de mecanismos legais, o que pode-se fazer quando estes mesmos a ` ¸˜mecanismos s˜ o utilizados para proteger o livre acesso a informacao? a ´ Neste contexto, o aspecto central que torna o software livre especial e exatamente a sua ¸˜capacidade de modificar e redistribuir as relacoes econˆ micas at´ ent˜ o existentes em outros o e a ¸˜mercados. O paradigma de comercializacao de software deixa de ser somente fundamentadopor premissas que se aplicavam at´ ent˜ o a produtos materiais. e a Com base nisso, o trabalho busca em um primeiro momento, conceituar sua tem´ tica, ae logo depois subsidiar a escolha dos parˆ metros marxistas utilizados para an´ lise, introduzindo a atamb´ m autores que ocupam-se da mesma perspectiva para com o que chamaremos de e ¸˜‘sociedade da informacao’. ¸˜ Embora a apropriacao do m´ todo em quest˜ o seja dif´cil atrav´ s da divis˜ o modular e a ı e a ¸˜de seus conceitos, uma separacao foi feita para fins metodol´ gicos do que se entende por o ¸˜ ¸˜ ¸˜propriedade, producao, trabalho e valor. A construcao das relacoes sobre estes conceitos ¸˜ ¸˜tem por finalidade uma familiarizacao das dinˆ micas de producao de software com o sistema a ˆ ¸˜capitalista, e busca discutir suas enfases e impactos na sociedade atrav´ s da exposicao de suas e ¸˜contradicoes.
  11. 11. 32 Conceitos2.1 Software livre ´ Dentre as subdivis˜ es dos componentes de um computador, o termo software e oconstantemente dissociado em conceitos menores e que s˜ o usados pelos autores para atender a ¸˜ ´seus respectivos contextos. Para este trabalho, no entanto, uma definicao convencional e: [. . . ] todos os componentes funcionais n˜ o f´sicos de um computador, e a ı portanto, n˜ o somente os programas em si, mas tamb´ m os dados a serem a e ¸˜ processados por eles. (ENGELHARDT, 2008, p. 1, traducao e grifo nosso). ¸˜ ´ ´ ¸˜ Esta definicao e especialmente util para fazer a diferenciacao entre software livre e ¸˜propriet´ rio. A Fundacao do Software Livre – uma das principais entidade em defesa da aliberdade digital, definiu as quatro liberdades do software livre (STALLMAN, 2007). • Liberdade 0: A liberdade de executar um programa para qualquer que seja a finalidade e ¸˜ em qualquer condicao; • Liberdade 1: A liberdade de estudar um programa e de modific´ -lo como for desejado – a ´ ¸˜ ter acesso ao c´ digo-fonte e uma condicao para esta liberdade; o • Liberdade 2: A liberdade de redistribuir c´ pias de um programa, e assim ajudar outras o pessoas a ter acesso a este programa; • Liberdade 3: A liberdade de melhorar um programa e de distribuir novas vers˜ es para o o p´ blico, e assim beneficiar toda a comunidade. u e ´ ¸˜ Tamb´ m e necess´ rio fazer a distincao entre software livre e gratuito, j´ que a a a ¸˜ ´traducao em inglˆ s para ambas as palavras e free, e isso acaba gerando bastante confus˜ o no e aentendimento do conceito. Embora a maior parte dos softwares livres sejam gratuitos, temosque boa parte dos softwares gratuitos n˜ o s˜ o livres segundo as quatro liberdades enunciadas a aacima. Nestes softwares – os chamados freewares, existe uma liberdade muitas vezes restrita
  12. 12. 4para executar o programa, mas n˜ o podemos ver seu c´ digo fonte e muito menos modificar e a oredistribuir c´ pias personalizadas dele. o ¸˜ Muitas pessoas n˜ o familiarizadas com o conceito e suas interacoes de mercado aperguntam-se qual a vantagem de se desenvolver produtos em software livre j´ que n˜ o se pode a a e a a ` ´ o ¸˜vendˆ -los. Esta vis˜ o – que ser´ detalhada mais a frente – e a pr´ pria interpretacao do sistemaem que vivemos sobre os conjuntos de conhecimento gerados pela humanidade. Emborao produto de software possa ser distribu´do gratuitamente, o que est´ sendo comprado na ı a ´maioria das vezes e o conhecimento t´ cnico atrav´ s do trabalho humano em instalar, modificar, e emelhorar, configurar e promover treinamento sobre um determinado produto. ´ Neste sentido, como o trabalho e colaborativo e transparente para os desenvolvedores, ´o custo e distribu´do entre as empresas interessadas em utilizar estes softwares. ı Novas a `funcionalidades s˜ o introduzidas a medida que demandas s˜ o criadas e escolhidas para a ¸˜implementacao, e vers˜ es personalizadas de um produto principal podem ser criadas para oatender requisitos espec´ficos. ı e a o ´ Por´ m, n˜ o somente por estas quest˜ es e que existe a preferˆ ncia pelo software elivre. Para o mercado de software de uma maneira mais espec´fica, vemos a express˜ o destas ı a ´vantagens sendo frequentemente enunciadas pelos autores da area. Kaminsky (2009) lista umas´ rie delas, sendo as principais: e • uma maior participacao de desenvolvedores pelo mundo todo, o que resulta em um ¸˜ software mais revisado e seguro, j´ que mais pessoas tˆ m acesso ao c´ digo-fonte e s˜ o a e o a capazes de identificar suas vulnerabilidades; • o aumento da dificuldade para formacao de monop´ lios de prestacao de servicos, pois as ¸˜ o ¸˜ ¸ ¸˜ solucoes est˜ o dispon´veis tamb´ m para outras empresas que podem a qualquer momento a ı e o a ¸ ¸˜ obter uma c´ pia do produto em quest˜ o e prestar os mesmos servicos em relacao a ele; • e poss´vel que os recrutadores tenham um melhor conhecimento das habilidades dos ´ ı a a´ desenvolvedores ao selecion´ -los para um determinado cargo, j´ e poss´vel tamb´ m ter ı e ` ¸˜ acesso as contribuicoes dadas por eles aos projetos de software livre. A fim de facilitar a compreens˜ o das dinˆ micas da cultura livre, Shaver (2008) prop˜ e a a o ¸˜um diagrama de termos e ideias que, a partir do software livre deriva outras definicoes presentes ˆno mercado, resultando na enfase de algumas de suas qualidades.
  13. 13. 5 Figura 2.1: Mapa hist´ rico-generativo de termos e ideias do software livre o Fonte: Shaver (2008) Para este trabalho, no entanto, o valor fornecido pelo software livre a ser mais utilizado´e elementar, e tem a ver com a ideia de liberdade t˜ o presente na atividade de desenvolvimento ade software. Trata-se da propriedade intelectual, ou ainda de forma mais detalhada, dos direitos ¸˜sobre os diferentes tipos de usufruto das invencoes em todos os dom´nios da atividade humana. ı ´ ¸˜ Um modo interessante de definir estes usufrutos e pela an´ lise da definicao das pr´ prias a o ¸˜liberdades do software livre. Para qualquer invencao ou conhecimento que exista, podemosidentificar quem legalmente pode utiliz´ -la, redistribu´-la – com e sem objetivos comerciais – ou a ımodific´ -la. No modelo propriet´ rio do uso de bens, estas responsabilidades geralmente caem a a
  14. 14. 6sobre atores diferentes, cada qual com seu exerc´cios sobre direitos formalmente adquiridos. ı ´ ¸˜ Para entender este conceito de liberdade, e preciso expandir a aplicacao do significado ´e n˜ o focar somente nos meios de acesso a bens materiais. E justamente este aprisionamento aque tem levado o conceito de software livre a ser ainda muito ligado a justificativas que no finaldas contas sempre levam a argumentos de cunho financeiro. ´ ` ¸˜ O termo “software livre” e suscet´vel a muitas interpretacoes errˆ neas: a ı o um argumento n˜ o intencional como “software que pode ser adquirido sem a custo” se encaixa t˜ o bem quanto “software que d´ certas liberdades ao a a ¸˜ usu´ rio”. Resolvemos este problema publicando a definicao de software a livre, e por dizer “pense em ‘liberdade de express˜ o’, n˜ o em ‘cerveja a a a ´ ¸˜ gr´ tis”’. Esta n˜ o e a solucao perfeita e n˜ o vai eliminar o problema. Uma a a termo correto e sem ambiguidade seria melhor, se tamb´ m n˜ o tivesse outros e a ¸˜ problemas... Toda substituicao proposta para o termo “software livre” tem algum tipo de problema semˆ ntico – e isso inclui o “software de c´ digo a o ¸˜ aberto”. (STALLMAN, 2007, traducao nossa). a o ¸˜ Sem deslegitimar a importˆ ncia da viabilidade econˆ mica da implantacao de software ¸˜ ¸˜livre nas organizacoes, as secoes seguintes procuram discutir os programas de computador ı ¸˜em outros n´veis de abstracao, e consequentemente requerem o abandono de impress˜ es o ¸˜ ¸˜exclusivamente estigmatizadas n˜ o s´ em relacao ao software livre, mas tamb´ m em relacao a o eaos modelos te´ ricos a serem tratados. o2.2 ¸˜ Sociedade da informacao ´ ¸˜ E evidente que nossa sociedade passa por uma profunda transformacao ditada pelodesenvolvimento tecnol´ gico, e que isto traz um impacto substancial no modo de vida que o a ´temos. Embora n˜ o seja consensual entre os estudiosos da area de que j´ ultrapassamos um a ¸˜ ´marco que torna poss´vel a definicao de um novo modelo de sociedade, e necess´ rio para os ı a ` ¸˜objetivos deste trabalho adotar um termo de tratamento a permeacao da tecnologia na sociedade. ¸˜ Segundo Castells (1999), as diversas revolucoes tecnol´ gicas ocorridas ao longo da ohist´ ria s˜ o marcadas, basicamente, por sua penetrabilidade em todos os dom´nios da atividade o a ı ¸˜humana. Em outras palavras, define-se uma nova era quando as inovacoes tecnol´ gicas induzem o ¸˜ ¸˜ ¸˜uma profunda modificacao nas relacoes entre as pessoas, o que envolve inclusive as relacoes de ¸˜poder e producao em uma sistem´ tica econˆ mica. Para Masuda (1980), a magnitude destas a o ¸˜ ´ `transformacoes e equipar´ vel a outros marcos singulares da hist´ ria. a o Na hist´ ria documentada, existem trˆ s impulsos de mudanca fortes o suficiente o e ¸ ¸˜ para alterar o homem em sua essˆ ncia. A introducao da agricultura [. . . ] a e
  15. 15. 7 ¸˜ ¸˜ revolucao industrial [. . . ] [e] a revolucao tecnol´ gica de processamento da o ¸˜ ¸˜ ¸˜ informacao [ou revolucao da informacao]. (MASUDA, 1980, grifo nosso). ¸˜ ¸˜ Ao longo deste trabalho, os termos sociedade da informacao ou era da informacaos˜ o frequentemente usados, e por tratar-se de um termo bastante recente – alvo dos estudos aantropol´ gicos que tomam por base o impacto da tecnologia na sociedade, n˜ o existe uma o a ¸˜definicao universalmente aceita e muito menos um per´odo consensualmente estabelecido ı ¸˜para apontar marcos e eventos determinantes em termos de contextualizacao hist´ rica o(KARVALICS, 2007). ´ Assim, o uso do termo e colocado de modo a remeter ao novo paradigma de sociedade ` ¸˜em que atualmente nos encontramos, no qual a dinˆ mica dada a informacao e seus sistemas n˜ o a a ¸˜define somente o modo de funcionamento dos mercados, mas tamb´ m orienta transformacoes esociais, econˆ micas e culturais. o H´ ainda, dentre os estudos sobre o impacto da tecnologia na sociedade, o surgimento ade outro termo e conceito chamado de sociedade do conhecimento. ¸˜ As interpretacoesapresentadas s˜ o vari´ veis, tais como: a a • uma forma mais progressista de se referir a sociedade da informacao; ` ¸˜ • uma forma mais abrangente de se referir a sociedade da informacao, sendo esta um dos ` ¸˜ componentes da sociedade do conhecimento; • Uma forma mais atual e que ser´ vez cada mais utilizada, com a gradativa substituicao de a ¸˜ ¸˜ sociedade da informacao por sociedade do conhecimento. ¸˜ ¸˜ A partir desta confus˜ o de atribuicoes, Karvalics (2007) defende uma separacao aartificial a fim de facilitar o estudo, evitar ambiguidades e favorecer os aprofundamentos das ¸˜ ´ ´pesquisas em tecnologia e sociedade. Esta separacao nos e especialmente util, visto que ambas ¸˜as terminologias – informacao e conhecimento – s˜ o frequentemente usadas no estudo do adesenvolvimento livre de software, e que podem ser apropriadamente distinguidas. Para isso,nos pautamos em trˆ s principais t´ picos. e o • Os processos de producao da informacao se d˜ o na mente dos indiv´duos, n˜ o em ¸˜ ¸˜ a ı a ambientes naturais ou artificialmente controlados, por mais que sua express˜ o possa a ocorrer em meio material. • Os sistemas de tecnologia da informacao operam com a informacao convertida em ¸˜ ¸˜ s´mbolos, pois computadores processam nada mais do que s´mbolos. Mentes e intelectos, ı ı ¸˜ por sua vez, processam informacao.
  16. 16. 8 • Conhecimento pode ser definido como informacao organizada, transformada e ¸˜ ¸˜ contextualizada. Desse modo, ao falar sobre conhecimento e informacao, falamos de ´ dois componentes indivis´veis de um unico universo cognitivo. ı ¸˜ Dentre as diversas definicoes nos campos social, econˆ mico, cultural, filos´ fico, o ot´ cnico e educacional, existe aquela impress˜ o popular com um tom predominantemente liberal e a ¸˜ ` ¸˜e progressista em relacao a aplicacao da tecnologia na sociedade, apresentando basicamenteum instrumento de melhoria da qualidade de vida, e que est´ dispon´vel principalmente a ı ¸˜ ¸˜para oferecer agilidade, comodidade, melhores condicoes de trabalho e mais opcoes deentretenimento. a ´ ¸˜ Esta vis˜ o e, de fato, como a maior parte da populacao brasileira tem enxergado a ¸˜evolucao tecnol´ gica. Em 2010, cerca de 95% das pessoas acreditava que o impacto que a otecnologia causa na sociedade possui benef´cios consideravelmente maiores do que os poss´veis ı ımalef´cios, ou ao menos o mesmo grau entre benef´cio e malef´cio (TECNOLOGIA, 2010). ı ı ı Uma crescente esperanca de que estas mudancas ir˜ o cada vez mais trazer melhorias ¸ ¸ apara o nosso modo de vida podem ser notadas atrav´ s dos mesmos dados obtidos em 2006, equando 28% das pessoas acreditava que a tecnologia trazia somente benef´cios. Em 2010, ıtemos que 38,9% das pessoas possu´am esta mesma opini˜ o (TECNOLOGIA, 2010). ı a Por outro lado, uma vis˜ o cient´fica um tanto menos romˆ ntica – para n˜ o dizer a ı a a ¸˜pessimista, apresenta a sociedade do conhecimento como uma reestruturacao do sistema ¸˜capitalista que teve por finalidade principal a ampliacao do poderio econˆ mico dos propriet´ rios o a ¸˜dos meios de producao, e que muito pouco tem a ver com os interesses das massas populacionais `no que se refere a melhoria da qualidade de vida (SODERBERG, 2002). ¸˜ Charles Babbage, contemporˆ neo de Marx e considerado o pai da computacao – a a ı a ¸˜inventor da m´ quina anal´tica, um sistema mecˆ nico que mais tarde viria a basear a construcaodos primeiros computadores – produz trabalhos em economia pol´tica sobre o ‘gerenciamento ı ¸˜cient´fico’ dos processos industriais – ou a busca da producao por meios exclusivamente ı a a ¸˜mecˆ nicos (DYER-WITHEFORD, 1999). Marx (1939) identifica v´ rias de suas constatacoesnestes trabalhos, pois n˜ o enxerga ali somente o pr´ prio car´ ter tecnocr´ tico do capitalismo, a o a amas tamb´ m um estudo estrat´ gico para a lutas de classes. Uma cr´tica a respeito dos discursos e e ı ´ ¸˜vangloriantes da tecnologia e colocada nas anotacoes finais de O Capital – os Grundrisse,mostrando de maneira bem clara a sua vis˜ o sobre o progresso da humanidade nos diferentes acampos do conhecimento: ‘O progresso cont´nuo de sabedoria e experiˆ ncia’, diz Babbage, ‘´ o nosso ı e e
  17. 17. 9 ´ grande poder’. Esta progress˜ o, este progresso social pertence e e explorado a pelo capital. Todas as formas anteriores de propriedade condenam grande parte da humanidade, os escravos, a serem puros instrumentos de trabalho. O desenvolvimento hist´ rico, pol´tico, art´stico, cient´fico, etc. acontece em o ı ı ı privilegiados c´rculos sobre suas cabecas. Mas somente o capital subjugou ı ¸ o progresso hist´ rico em detrimento do seu enriquecimento. (MARX, 1939, o ¸˜ traducao nossa). ´ A vis˜ o popular, logicamente, e bastante diferente. Ela reflete, antes de mais nada, a a ¸˜ ¸˜ ` ¸˜falta de formacao e questionamento em relacao a promocao das mudancas tecnol´ gicas, e sequer ¸ o ¸˜coloca os interesses dos seus principais promotores sob suspeita. Parece existir uma aceitacaof´ cil, generalizada e sem resistˆ ncias do discurso daqueles que propagandeiam a tecnologia a e ¸˜ ¸˜como fornecedora de solucoes presentes e amplamente dispon´veis, como se a configuracao ıdo desenvolvimento cient´fico atual n˜ o estivesse longe de ser voltado ao desenvolvimento ı aeconˆ mico das minorias sociais. o ¸˜ Buscando descrever as peculiaridades da sociedade da informacao, alguns autores e ¸ ¸˜introduziram desde a d´ cada de 90 o conceito de ciberespaco na teoria da comunicacao. Este ¸˜conceito possui origem na ficcao cient´fica das fant´ sticas novelas que se passam em mundos ı ae circunstˆ ncias futur´sticas – literatura que ficou famosa a partir da d´ cada de 30 e que mais a ı e `tarde deu origem a cultura cyberpunk (STALLABRAS, 1996), cujo tom l´rico e po´ tico s˜ o ı e amarcantes na pr´ pria literatura acadˆ mica. o e ´ Assim como se diz “tem areia”, “tem agua” se diz “tem textos”, “tem mensagens” pois eles se tornam mat´ rias como se fossem fluxos e a ´ justamente porque o suporte deles n˜ o e fixo, porque no seio do espaco ¸ ¸˜ cibern´ tico qualquer elemento tem a possibilidade de interacao com qualquer e a ´ outro elemento presente. Ent˜ o, isso n˜ o e uma utopia daqueles que a ´ experimentaram, conhecem e participam da Internet. E como se todos os textos o ´ fizessem parte de um texto, s´ que e o hipertexto, um autor coletivo e que est´a ¸˜ em transformacao permanente. E ´ como se todas as m´ sicas passassem a fazer u parte de uma mesma polifonia virtual e potencial, como se todas as m´ sicas u fizessem parte de uma s´ m´ sica, tamb´ m ela virtual e potencial. (LEVY, o u e 1994, p. 3). Levy (1998) define ainda de forma bastante conveniente – assim como outros autores, ociberespaco em um n´vel computacional como o “espaco de interconex˜ o entre os computadores ¸ ı ¸ a ¸˜e as mem´ rias dos computadores”, uma rede vasta, complexa e estruturada de comunicacao. o ¸˜ ` ¸˜ ¸˜ Em relacao a contextualizacao hist´ rica do conceito de sociedade da informacao, oembora alguns autores utilizem-se dos acontecimentos ao redor das pol´ticas de propriedade ı ¸˜intelectual a partir da d´ cada de 1950, Castells (1999) atribui esta reestruturacao da sociedade ea um momento um pouco mais tardio, e introduz o assunto da seguinte maneira:
  18. 18. 10 ¸˜ ¸˜ A revolucao da tecnologia da informacao foi essencial para a implementacao¸˜ ¸˜ de um importante processo de reestruturacao do sistema capitalista a partir da d´ cada de 1980. No processo, o desenvolvimento e as manifestacoes e ¸˜ ¸˜ dessa revolucao tecnol´ gica foram moldados pelas l´ gicas e interesses do o o ¸ ` capitalismo avancado, sem se limitarem as express˜ es desses interesses. o ¸˜ Masuda (1980) esquematiza ainda, uma tabela comparativa entre a revolucao industrial ¸˜ ¸˜ ¸˜e a revolucao da informacao, e que demonstra como se deu a transformacao dos padr˜ es de o ¸˜desenvolvimento de uma revolucao para a outra. Os itens a seguir apresentam as principais ı o ¸˜caracter´sticas destes padr˜ es para a sociedade industrial e da informacao, respectivamente. • Inovacoes tecnol´ gicas: Motor a vapor, amplificacao do trabalho manual; Computadores, ¸˜ o ¸˜ ¸˜ amplificacao do trabalho mental (conhecimento); • Estrutura s´ cio-econˆ mica: Produtos e servicos, ind´ stria da manufatura, f´ brica como o o ¸ u a ¸˜ ¸˜ ¸˜ o centro da producao; Informacao, tecnologia, ind´ stria intelectual, distribuicao da u ¸˜ informacao; • Estrutura econˆ mica: Divis˜ o do trabalho, divis˜ o da producao; Sinergia, processos de o a a ¸˜ ¸˜ producao integrados; • Valores sociais: Materiais, direitos humanos e libertacao; Eficiˆ ncia, contribuicao social ¸˜ e ¸˜ e globalismo. ` Os estudos sobre tecnologia e sociedade estendem-se a uma diversidade de campos a a ¸˜cujos acompanhamentos n˜ o nos cabem aprofundar neste momento, j´ que esta secao visa ` ¸˜ ´atender somente a uma necessidade de introducao da complexidade que e a discuss˜ o sobre a ¸˜ ¸˜o termo sociedade da informacao, e esclarecer como se deu o processo hist´ rico de formacao o ¸˜ ´do contexto tecnol´ gico atual. Em todo este contexto, uma definicao bastante razo´ vel e dada o a ´por Matos (2002), e que e o suficiente para a tomarmos por base e evitar anacronismos quandoo termo for encontrado ao longo deste trabalho. ¸˜ ´ A sociedade da informacao e uma express˜ o comumente usada para designar a ¸˜ uma forma de organizacao social, econˆ mica e cultural que tem como base, o ¸˜ tanto material como simb´ lica, a informacao. Esta sociedade assim organizada o seria aquela em que vivemos. [. . . ] (MATOS, 2002, p. 12, grifo nosso).
  19. 19. 112.3 Marxismo Variantes do termo marxismo tˆ m aparecido com frequˆ ncia para designar as diferentes e evertentes ideol´ gicas que surgiram em torno dos conceitos centrais deixados pelos estudos de oKarl Marx, e acabam por causar divergˆ ncias entre os diferentes grupos que se dizem socialistas. e Por marxismo entende-se o conjunto de teorias filos´ ficas, econˆ micas, o o ¸˜ sociol´ gicas e politicas, elaboradas por Karl Marx com a colaboracao de o Friedrich Engels e desenvolvidas por seus adeptos, em parte ortodoxos e em partes dissidentes. Como as trˆ s fontes principais do marxismo indicam-se: e a filosofia idealista alem˜ (Hegel), o materialismo filos´ fico francˆ s do a o e s´ culo XVIII, e na economia politica inglesa do comeco do s´ culo XIX e ¸ e (INTERNACIONAL, 1993). O m´ todo Marxista foi concebido atrav´ s da necessidade de an´ lise de uma sociedade e e aque difere substancialmente daquela em que vivemos. Aplicar este mesmo m´ todo novamente e ¸˜requer uma aproximacao cautelosa e pragm´ tica dos conceitos j´ estabelecidos, e que tenha a a ` ¸˜como objetivo preservar as linhas cient´ficas que levaram a sua renomada consolidacao. A ı ¸˜ ´definicao pelo que se conhece por marxismo ortodoxo e dada por Lukacs (1919) – um dosprecursores do conceito – em um artigo cl´ ssico sobre o assunto. a a ¸˜ Marxismo ortodoxo, no entanto, n˜ o implica na aceitacao est´ tica e sem a ¸˜ a ´ cr´ticas das investigacoes de Marx. N˜ o e a ‘crenca’ nesta ou naquela ı ¸ tese, nem a exegese de um ‘livro sagrado’. Ao contr´ rio, ortodoxia a ´ ¸˜ se refere exclusivamente a m´ todo. E a conviccao cient´fica de que o e ı e ´ materialismo dial´ tico e a estrada para a verdade e que seus m´ todos podem ser e desenvolvidos, expandidos e aprofundados somente atrav´ s das linhas tracadas e ¸ ´ ¸˜ por seus fundadores. E a conviccao, ainda, de que todas as tentativas de ultrapassar ou ‘melhorar’ estas metodologias levaram e devem levar sempre a ` uma maior simplicidade, trivialidade e ecleticismo. (LUKACS, 1919, traducao ¸˜ nossa). Desta forma, uma an´ lise que se proponha a um m´ todo ortodoxo sobre qualquer a eestrutura social deve ter como alicerce o conceito central de materialismo dial´ tico, observando e ¸˜ ¸˜sempre as transformacoes dos modos de producao com o entendimento de que elas acarretam ¸ e ¸˜novas mudancas tamb´ m nas relacoes sociais. ¸˜ Em uma tentativa de entender melhor as crescentes e intensas transformacoes sociais ´ ¸˜vivenciadas pela humanidade desde a epoca de Marx, e como forma de adaptacao e suprimento e `de deficiˆ ncias da teoria inicial a novas an´ lises, diversas vertentes marxistas foram iniciadas, a ¸˜cada qual atendendo sua demanda e concepcao. Uma destas vertentes resulta de estudos realizados no s´ culo XX denominado de eneo-marxismo, e que buscam combinar elementos de outras linhagens intelectuais com aquelas
  20. 20. 12solidificadas no marxismo ortodoxo, introduzindo conceitos do existencialismo e gerando novasmetodologias como o marxismo anal´tico e o marxismo estrutural, e tamb´ m influenciando ı enovos movimentos sociais, como a nova esquerda, o movimento hippie e o estudantil. ` O neo-marxismo pode ser considerado como uma resposta dos estudiosos as estrat´ gias e ¸˜de globalizacao do capitalismo, j´ que muitos deles descrevem teorias de economia global e a ¸˜ ¸˜buscam explicar os processos de monopolizacao dos mercados e concentracao das riquezas,frequentemente inserindo novos termos e conceitos. e o ¸˜ Por´ m, existem pertinentes discuss˜ es acerca da preservacao do marxismoconvencional nestes estudos, e o qu˜ o eles estariam empregando os m´ todos ortodoxos a e a ı ¸˜adequadamente. Neste sentido, sua efic´ cia no subs´dio das revolucoes tamb´ m acabam sendo equestionadas. A tem´ tica marxista para o tratamento do software livre – ou em outras palavras, o a o ¸˜prop´ sito de aplicacao deste modelo te´ rico em um processo mais espec´fico da sociedade da o ı ¸˜ ´ ¸˜informacao – e tratado a seguir por uma s´ rie de secoes que buscam justificar a escolha deste emodelo.
  21. 21. 133 Marxismo como modelo te´ rico o3.1 Uma alternativa de an´ lise a J´ antes dos primeiros computadores, com a vertente iluminista da filosofia da a e ¸˜liberdade no s´ culo 18, este tema em concepcoes mais modernas j´ era centro de debates em abusca da compreens˜ o da complexidade humana (BRISTOW, 2010). a Em tempos em que as monarquias possu´am alto sigilo sobre o progresso tecnol´ gico, ı o ı ¸˜suas pol´ticas e informacoes (DORIGO, 2005), o in´cio do pensamento sobre o quˆ de fato seria ı ea liberdade do homem toma grande importˆ ncia no questionamento das l´ gicas protecionistas. a o ¸˜Friedrich Schiller, por exemplo, cita entre sua colecao de cartas a seguinte passagem: A cultura, longe de nos dar liberdade, somente desenvolve novas necessidades ao longo do tempo. As correntes do mundo f´sico nos apertam cada vez ı mais de modo que o medo da perda extingue at´ o mais ardente impulso em e ¸˜ ` ¸˜ ´ direcao a inovacao, enquanto a obediˆ ncia passiva e mantida como a maior das e ¸˜ sabedorias da vida. (SCHILLER, 1909, traducao nossa). In´ meros fil´ sofos, matem´ ticos e outros cientistas – dentre eles os precursores da u o a ¸˜revolucao francesa – viriam a trabalhar sobre as primeiras perspectivas do que se conhece sobre ¸˜direitos humanos. Os trabalhos feitos por eles foram importantes para a insercao do uso da a a `raz˜ o em tem´ ticas relacionadas a livre religi˜ o, anti-escravismo, anti-colonialismo e liberdade a a ¸˜de express˜ o. Formava-se uma nova concepcao do que se entendia pelo papel de cada indiv´duo ına sociedade, e quebrava-se a l´ gica medieval do pensar (VERHOEVEN, 2011). o ´ ¸˜ E evidente que dentre essa movimentacao ideol´ gica estava presente uma intensa o ¸˜preocupacao intelectual com o que se entende pela liberdade do homem, e como ela se expressa ´e e tratada pela sociedade juntamente com os demais aspectos culturais (BRISTOW, 2010). ¸˜ ¸˜ Estas concepcoes diferenciadas culminaram em mobilizacoes populares bastanteexpressivas politicamente e que vieram a moldar todo o pensar ocidental at´ os dias de hoje. e ´Tem-se que o trabalho destas pessoas e atualmente o ponto de partida implicitamente presenteem qualquer an´ lise da sociedade que se queira realizar (BRISTOW, 2010). a
  22. 22. 14 ¸˜ O amadurecimento das ideias iluministas possibilitou a expans˜ o da aplicacao de a ` ´ ¸˜conceitos filos´ ficos liberais a praticamente todas as areas de interacao social existentes na o´epoca. Dentre os estudos resultantes est´ a importante obra de Georg Hegel, e embora sua a ¸˜ ` ´integracao formal a vertente iluminista n˜ o seja um consenso entre os estudiosos da area, a ¸˜existem fortes relacoes entre os conceitos por ele colocados e a heranca dos pensadores ¸iluministas (LESSA, 2007). Apesar das cr´ticas posteriores ao seu trabalho por outros fil´ sofos que ganharam ı onotoriedade por suas ideias, um aspecto a ser relevado da obra de Hegel s˜ o as suas a ¸˜ ¸˜relacoes entre indiv´duo e mundo, at´ porque mais tarde surgiriam interpretacoes de sentido ı e ¸˜ `revolucion´ rio destas relacoes, e que levariam a questionamentos fundamentais no campo a ` ¸˜ ¸˜pol´tico quanto a percepcao do estado, do trabalho e da producao de bens (LESSA, 2007). ı ` a Independentemente, o que ocorreu foi que, com justificativas humanistas a m˜ o, o ¸˜modelo vigente de exploracao dos trabalhadores viria a ser questionado pelos pensadores, e que ¸˜ ¸˜estes acabariam por iniciar a formulacao de toda uma nova gama de interpretacoes voltadas ` ¸˜especificadamente as relacoes de mercado e de trabalho. Neste contexto hist´ rico, Karl Marx elaborou trabalhos a partir de uma abordagem o o e ¸˜metodol´ gica que, quando tem seus conceitos colocados pela dial´ tica, possuem boa aceitacao ¸˜em relacao ao esclarecimento das l´ gicas de mercado do sistema capitalista e acabam por n˜ o s´ o a o ¸˜subsidiar ideologicamente as organizacoes sociais segundo um m´ todo cient´fico, mas tamb´ m e ı e ¸˜por sugerir uma agenda pol´tica para a implantacao de sistemas de poder diferenciados que ıvenham a dividir de maneira justa os bens produzidos por uma sociedade (GIANNOTTI, 1996). ´ a ´ o Dada a linha cronol´ gica, e especialmente importante afirmar que Marx n˜ o e s´ oherdeiro da filosofia de Hegel e dos socialistas ut´ picos que o antecederam, mas sim de toda a o ¸˜tradicao humanista e racionalista do s´ culo XVIII (NETTO, 2002). e Em vida, Marx foi muito mais conhecido como militante do que como fil´ sofo. Sua oobra foi citada por estudiosos e influenciou movimentos oper´ rios de maneira substancial a ¸˜somente a partir de sua morte. Embora existam argumentacoes que afirmam n˜ o ser mais a ı ¸˜poss´vel fazer interpretacoes de fatos atuais atrav´ s dos conceitos de sua obra – j´ que e a ´ a ´a sociedade passou por numerosas e intensas mudancas desde sua epoca, n˜ o e dif´cil ¸ ıidentificar as correspondˆ ncias do mundo de hoje com os conceitos centrais deixados por Marx e(MEKSENAS, 2008). Muito discute-se sobre a crise da teoria marxista. Diversos governos que atribu´ram ı `os nomes “marxismo” e “comunismo” as suas pol´ticas mostraram de diferentes formas e por ı
  23. 23. 15 `diferentes raz˜ es – assim como os governos capitalistas – uma profunda incompatibilidade a o ¸˜manutencao de uma ordem social pr´ spera. Encaixam-se a´ a falˆ ncia da Uni˜ o Sovi´ tica, a o ı e a e ´ ´abertura econˆ mica de forma liberal pela China, os governos comunistas da Asia e da Africa o e o ´(GIANNOTTI, 2011), e at´ Cuba – cujo embargo econˆ mico projetado pelos Estados Unidos e ı `sistematicamente ignorado ao direcionar cr´ticas as suas fragilidades econˆ micas. o Giannotti (2011) justifica ainda, como situar a validade deste tipo de estudo emcontextos atuais, apresentando a ideia de que uma teoria n˜ o se invalida a partir dos fracassos ahist´ ricos daqueles que se utilizaram de seu nome ou de seus conceitos – muito embora por ovezes possa ter sido somente o nome. O colapso [dos pa´ses socialistas] evidenciaram que a luta contra as mis´ rias, ı e instaladas pelo sistema capitalista, n˜ o implica qualquer compromisso com a partidos comunistas de cunho leninista. Esse colapso reduz a p´ a vulgata o marxista, mas n˜ o impede que se continue a estudar as representacoes e a ¸˜ ¸˜ ´ as relacoes sociais da otica do metabolismo que o homem mant´ m com a e ¸˜ ¸˜ natureza, em suma, daquela que vˆ as relacoes sociais de producao imbricadas e com o desenvolvimento das forcas produtivas. [. . . ] a obra escrita ilumina-se a ¸ partir de certas perspectivas hist´ ricas, de certos vieses que alimentam modos o de pensar e de ver, inscritos em nosso cotidiano. (GIANNOTTI, 2011, p. 17, grifo nosso). Meszaros (2010) tamb´ m discorre sobre a adaptabilidade da teoria base para com enovos conceitos: ¸˜ [. . . ] a transformacao social prevista pela vis˜ o marxista deve ser capaz a ` o de avaliar as dificuldades inerentes a pr´ pria magnitude das tarefas a serem realizadas, como tamb´ m enfrentar as contingˆ ncias s´ cio-hist´ ricas mut´ veis e e o o a a ¸˜ e inevit´ veis, reexaminando as proposicoes b´ sicas da teoria original e, se a a ` necess´ rio, adaptando as novas circunstˆ ncias. (MESZAROS, 2010, grifo a nosso). a o ¸˜ N˜ o s´ pela validade da elucidacao te´ rica se justifica uma an´ lise marxista. Embora o ao sistema capitalista tenha se reformulado, se globalizado e adquirido novas dinˆ micas de a ı ¸ o ` ¸˜exerc´cio de poder devido ao avanco tecnol´ gico e a sociedade da informacao, temos osmesmos elementos conceituais mantendo os mesmos padr˜ es: o trabalhador explorado, a forte o ¸˜ ` ¸˜orientacao a propriedade, a centralizacao do lucro privado, a mais-valia e a grande desigualdade ¸˜ ¸˜nas relacoes de producao (MEKSENAS, 2008). ¸˜ O grande valor de Marx, no entanto, vem com seu m´ todo. As constatacoes por e ¸˜ ´ele deixadas podem vir a mostrar interpretacoes uteis no entendimento das mudancas sociais ¸ ¸˜ ¸˜promovidas pela era da informacao a partir do momento que a manutencao do sistema capitalista ¸˜encontra-se ainda sobre as mesmas relacoes de poder que ele identificou.
  24. 24. 16 [. . . ] Marx foi capaz de apreender as tendˆ ncias estruturais da ordem burguesa e [. . . ] porque encontrou a perspectiva te´ rico-metodol´ gica capaz de lhe o o permitir a apreens˜ o do movimento deste objeto [. . . ] (NETTO, 2002, grifo a nosso) A principal suspeita a respeito da aplicabilidade de seu m´ todo na atualidade d´ -se pela e a ¸˜ ¸˜percepcao do imagin´ rio coletivo de que os sistemas de informacao aos poucos substituir˜ o a a a a ¸˜os trabalhadores, e que t˜ o logo n˜ o haver´ campo para aplicacao de uma an´ lise marxista. a a ¸˜Uma interpretacao desta natureza peca em essˆ ncia por deixar de analisar um pouco mais e ´ ¸˜ ¸˜profundamente sobre o que e de fato a informacao, e quais suas demandas de poder, producao ¸˜ `e consumo em relacao a sociedade (SODERBERG, 2002). ´ ¸˜ ` Uma cr´tica irˆ nica e feita por Dyer-Witheford (1999) em relacao a este tipo de ı oposicionamento. O autor dedica todo um cap´tulo para responder argumentos que negam a ıcompatibilidade da teoria marxista com a sociedade contemporˆ nea: a ´ [. . . ] se o marxismo e tido como obsoleto pela era da informacao, e ¸˜ ´ ¸˜ somente pela luz de um certo desenvolvimento ‘informacional’ – globalizacao, e e ı ´ pr´ eminˆ ncia da m´dia, tele-trabalho – e que podemos ver a completa importˆ ncia de alguns temas presentes nos textos de Marx – por exemplo, a ˆ a enfase [dos que pregam o fim do marxismo] na internacionalizacao e ¸˜ ¸˜ ¸˜ automacao da producao. [. . . ] o marxismo sempre manifestar´ uma a ¸˜ cont´nua “espectrabilidade”, uma estranha negacao em morrer e ser enterrado, ı ` e que est´ profundamente conectada a natureza “espectral” e “imaterial” a do tecnocapitalismo contemporˆ neo. (DYER-WITHEFORD, 1999, p. 8, a ¸˜ traducao e grifo nosso). ´ Soderberg (2002), por sua vez, e ainda mais incisivo na tem´ tica do software livre, a ¸˜sendo um dos primeiros autores a produzir conte´ do dedicado e significativo na relacao da uliberdade de software com o marxismo: O marxismo oferece um bom modelo te´ rico para an´ lise das contradicoes o a ¸˜ inerentes do regime de propriedade intelectual. O sucesso do software livre ´ em trabalhar fora do sistema comercial de software e uma amostra do que a ¸˜ foi descrito por Marx h´ mais de 150 anos sob as formalizacoes de forca ¸ produtiva e de intelecto geral. [. . . ] a hist´ ria n˜ o se resume ao levante das o a forcas produtivas que foram convenientemente mapeadas pelos exemplos do ¸ materialismo hist´ rico, mas s˜ o conflitos protagonizados por atores sociais, o a dentre eles o movimento do software livre e sua caracter´stica especial ı ¸˜ de desafiar a dominacao do capital sobre o desenvolvimento tecnol´ gico. o ¸˜ (SODERBERG, 2002, traducao e grifo nosso). ´ ¸˜ Para Marx, a realidade nada mais e do que um sistema de relacoes de modo que asinstˆ ncias que comp˜ em a sociedade s˜ o sempre complexas e constituem uma totalidade de a o a ¸˜totalidades articuladas, estas por sua vez formadas de categorias e relacoes simples que devem ¸˜ser descortinadas para uma reconstituicao abstrata do todo (CARVALHO, 2007).
  25. 25. 17 A categoria de totalidade significa (...), de um lado, que a realidade objetiva ´ e um todo coerente em que cada elemento est´ , de uma maneira ou de outra, a ¸˜ ¸˜ em relacao com cada elemento e, de outro lado, que essas relacoes formam, na ¸˜ pr´ pria realidade objetiva, correlacoes concretas, conjuntos, unidades, ligados o entre si de maneiras completamente diversas, mas sempre determinadas (LUK´ CS, 1967, p. 240). a ¸˜ ´ O estudo da sociedade da informacao atrav´ s da otica marxista busca, acima de tudo, a e ¸˜ ¸˜ a ¸˜ a ´identificacao, especificacao e an´ lise destas articulacoes. Obviamente, n˜ o e poss´vel para este ıestudo abranger toda uma an´ lise desta natureza, j´ que o momento de nossa sociedade abrange a a ¸˜relacoes suficientemente complexas de totalidades, e que n˜ o s˜ o pass´veis de um estudo breve. a a ı ¸˜Se quer, somente, identificar algumas particularidades das articulacoes destas totalidades sem ¸˜desconsiderar uma implicacao completa e mais abrangente. a a ´ Isto quer dizer – em car´ ter essencial para a an´ lise marxista – que e importanteconsiderar que a totalidade em que o software livre est´ inserido n˜ o pode ser tomado com a a ¸˜o mesmo peso das outras totalidades que comp˜ em as relacoes da sociedade. o Assim, entende-se que as perspectivas marxistas s˜ o de razo´ vel utilidade para a a a a o ¸˜an´ lise da estrutura econˆ mica e social proposta pelo software livre, e que a correlacaodesta teoria com a pr´ tica podem vir a mostrar vis˜ es esclarecedoras sobre o que se entende a opela liberdade de conhecimento, e quais as mudancas poss´veis na sociedade a partir da ¸ ı ¸˜ ` ¸˜implementacao de pol´ticas que valorizem iniciativas relacionadas a cultura da livre informacao. ı3.2 ¸˜ O marxismo na era da informacao ´ Quando adentramos em discuss˜ es sobre tecnologia e sociedade, e comum odepararmo-nos com discuss˜ es que decretam a decadˆ ncia do valor te´ rico deixado por Karl o e oMarx perante a vit´ ria do capitalismo com sua nova estrutura tecnol´ gica. Nos dizem que a alta o otecnologia est´ levando o planeta a um novo est´ gio civilizat´ rio caracterizado pela onipresenca a a o ¸ ¸˜de computadores e sistemas de comunicacao em uma economia baseada em conhecimento e ¸˜suportada pela crescente inovacao cient´fica. Em meio a tudo isso, os socialistas s˜ o tidos ı a e ´como ultrapassados, ingˆ nuos e utopistas, e esta e de fato a impress˜ o geral que se constr´ i no a o ` aimagin´ rio coletivo quando tenta-se introduzir conceitos como mais-valia em meio a m´ quinas a ´inteligentes, superestrutura quando boa parte do que se e constru´do e trabalhado encontra-se ısomente em estado simb´ lico, ou mesmo em uma ditadura do proletariado sobre todo o mercado ode m´dia eletrˆ nica que nunca cessa seu crescimento (DYER-WITHEFORD, 2004). ı o ¸˜ Estas caracter´sticas em relacao aos socialistas n˜ o s˜ o casuais. ı a a Os devidos
  26. 26. 18comunicadores encarregaram-se de formar esta imagem, encontrando na hist´ ria os elementos oapropriados que demonstrassem a falˆ ncia socialista e o sucesso capitalista. Assistimos os eEstados Unidos da Am´ rica, Jap˜ o e Europa tornarem-se grandes potˆ ncias mundiais enquanto e a edefendiam seu sistema econˆ mico aberto e ‘democr´ tico’. Por outro lado, ‘ditaduras’ socialistas o acomo R´ ssia e Cuba, ao mesmo tempo que bradavam o marxismo como o modelo te´ rico u o e ` e o `de governo, tamb´ m sucumbiam a falˆ ncia econˆ mica e a mis´ ria. Esta ideia por si s´ j´ e o aestabelece o ‘preconceito social’ sobre a ideia do comunismo, socialismo e marxismo, muitasvezes rechacado sistematicamente e de forma organizada por governos neoliberais. O que se ¸ ´ ¸˜acaba tendo, de uma maneira geral, e o impedimento da popularizacao de conceitos econˆ micos o o a ¸˜antagˆ nicos aos que est˜ o impostos em favor da alienacao e do consumo (GIANNOTTI, 2011),distanciando cada vez mais um horizonte que quer afastar esta esp´ cie de realidade o m´ ximo e aposs´vel. ı ´ [. . . ] e preciso continuar ressaltando que [as teses de Marx] n˜ o foram a divulgados pelos canais que nossa Ciˆ ncia ou nossa Filosofia empregam e normalmente: de um lado, as universidades, os institutos de pesquisa e as ¸˜ publicacoes especializadas, de outro, a m´dia e a moda. (GIANNOTTI, 2011, ı p. 15, grifo nosso). O p´ s-guerra sem grandes crises econˆ micas dos anos 60 e 70 apresentaram os o oprimeiros estudiosos de maneira espec´fica da tecnologia na sociedade, e que acabaram por ıprever um progresso pac´fico e sem precedentes de uma nova tendˆ ncia do mundo em ser ı e ´cada vez mais baseado em conhecimento. A linhagem destes autores e tida basicamente ¸˜como autonomista, e por vezes expressa uma oposicao expl´cita ao marxismo, ignorando ıcompletamente a tese de insustentabilidade do sistema capitalista – por tantas vezes comprovadanas crises financeiras (DYER-WITHEFORD, 2004). O “espectro que paira sobre o capitalismo” foi poeticamente descrito por Marx como apropriedade autodestrutiva e conflituosa deste sistema econˆ mico que paradoxalmente passa o o ¸˜a comprometer sua pr´ pria estrutura de distribuicao de produtos e servicos, tendo no livre ¸mercado os ingredientes motivadores para que n˜ o exista retrocedˆ ncia de endividamento a e(MARX, 1887), seja ele econˆ mico, ambiental ou social. o ¸˜ A configuracao neoliberal de um sistema socioeconˆ mico facilita os processos de o ¸˜ ¸˜apropriacao das instituicoes reguladoras do estado pela iniciativa privada, caracterizando uma ¸˜sistem´ tica de apropriacao de recursos que poderiam ser utilizados de maneira mais ampla a ` ¸˜frente a sociedade. Tem-se um cont´nuo processo de externalizacao de financiamentos e custeios ı ¸˜ ¸˜que, invariavelmente, contribuem para a fragilizacao do estado e geracao de crises econˆ micas oquando as possibilidade de socorro aos diferentes setores produtivos est˜ o esgotadas, resultando a

×