®




Literário, sem frescuras!
                                            1664-
                                       ISSN 1664-5243




        Setembro/Outubro 2012—
Ano 3 - Setembro/Outubro de 2012—Edição no. 17
Varal do Brasil setembro/outubro 2012




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Varal do Brasil setembro/outubro 2012




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                       LITERÁRIO, SEM FRESCURAS


                          Genebra, verão/outono de 2012
                                                No. 17
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Varal do Brasil setembro/outubro 2012


                  EXPEDIENTE
Revista Literária VARAL DO BRASIL

                             1664-
NO. 16 - Genebra - CH - ISSN 1664-5243
Copyright Vários Autores
O Varal do Brasil é promovido, organizado e rea-
lizado por Jacqueline Aisenman
Site do VARAL: www.varaldobrasil.com
Blog do Varal: www.varaldobrasil.blogspot.com
Textos: Vários Autores
Colunas:
Daniel Ciarlini                                                 O CURTIDOR DE PELES
Fabiane Ribeiro                                                  Por Wilton Porto
Sheila Ferreira Kuno
Ilustrações: Vários Autores                                     Quando garoto, curtia o sol,
                                                                Que curtia as peles estendidas no
Desenhos animais: © ddraw - Fotolia com                         chão.
                                                                Curtindo as peles, também curtia os
Desenhos crianças/estações: © J-Sho - Fotolia
                                                                sonhos,
Foto capa: © Chepko Danil - Fotolia com                         De um dia nesta vida ter um lugar ao
                                                                sol.
Foto contracapa: © fotogestoeber - Fotoliacom
Muitas imagens encontramos na internet sem ter
                                                                O sol que curtia as peles
o nome do autor citado. Se for uma foto ou um                   Muito mais curtia os sonhos
desenho seu, envie um e-mail aqui para a gente                  De ser mais que um curtidor de peles
e teremos o maior prazer em divulgar o seu ta-                  Na pele em que vivia.
lento.
                                                                O sol é vida, o sol é sonho,
Revisão parcial de cada autor                                   Mas viver no sol não é a única vida;
                                                                Se Curtir as peles é oportunidade,
Revisão geral VARAL DO BRASIL
                                                                Oportunidade não é só em peles.
Composição e diagramação:
                                                                Viver ao sol – eis o verdadeiro curtir.
Jacqueline Aisenman                                             Curtiu e curte na pele que é dele.
                                                                Porém, para curtir, o que se curte
                                                                Nesta vida tão curta,
A distribuição ecológica, por e-mail, é gratuita. A             Antes, é viver no sol,
revista está gratuitamente para download em                     Pois só ganha a vida quem nada
                                                                repele.
seus site e blog.


Se você deseja participar do VARAL DO BRASIL                    (Do livro O CURTIDOR DE PELES).
NO. 18 envie seus textos até 10 de outubro de
2012 para: varaldobrasil@gmail.com
O tema da edição no. 18 será livre.
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Varal do Brasil setembro/outubro 2012




Convidamos as pessoas que gostam de escrever para falar da infância e o convite foi aceito por
muitos! Então aqui estamos, falando não só da Nossa Infância, mas da infância de todos. Desde
as infâncias felizes até a mais triste delas.
Lembrar da infância não é fácil para todo mundo, assim também é falar dela. O que para muitos
é algo gostoso e que pode se repetir escrevendo o que vem da memória, para outros pode ser
doloroso demais. Por isto agradecemos a tantos que vieram, atenderam o apelo e falaram da
infância com alegria ou com tristeza.
Quando se pensa em criança é automático: pensamos em doces! Vida doce, festa, tudo doce!
Então fomos buscar algumas receitas culinárias que visitassem nosso paladar infantil, aquele
que, como um pequeno pecado, muitas vezes ainda provamos e adoramos!
Como vocês devem ter percebido nossas férias foram alegremente interrompidas pela edição de
um especial, o Varal do Amor. Foram publicados cinquenta autores. Mas recebemos muitos,
muitos mais. E a sugestão de fazer uma sequência. Quem sabe? Quem sabe não faremos em
breve?

Atendemos com alegria, em meio a todas as histórias e poemas sobre a infância, o chamado da
seriedade de uma publicação científica e publicamos o artigo de André Valério Sales intitulado
Particularidade, Universalidade e Singularidade: definindo conceitos fundamentais para a Meto-
dologia da Pesquisa em Ciências Sociais e que por ele será apresentado na universidade que
frequenta. Talvez um sonho de criança que se realiza!

Em meio a tantas alegrias, uma notícia triste vem fazer parte do Varal. Nossa Livraria, infeliz-
mente, encerrou suas atividades. Não foi possível manter o sonho de comercializar nossa nova
literatura, nossos novos autores aqui na Europa! Constatamos que pouquíssimos brasileiros
aqui na Suíça buscam esta literatura. A grande maioria ainda se atém aos autores consagrados
ou prefere apenas adquirir os livros diretamente no Brasil quando vai em visita. Desta forma,
profundamente tristes, fechamos as portas desta livraria que tinha o sonho de ver seus autores
brilhando por aqui! Mas nem tudo foi perdido, pois depois do sucesso que foi nossa participa-
ção no 26o. Salão Internacional do Livro de Genebra, os livros, cedidos por grande parte dos
escritores presentes na livraria, estão sendo doados a várias bibliotecas suíças que demonstra-
ram imenso interesse nos exemplares. São os novos autores brasileiros cruzando fronteiras
através do Varal do Brasil!

Estamos com as inscrições abertas para a seleção de textos para o livro Varal Antológico 3.
Surpresos com a variedade e quantidade de textos a ler, nossos examinadores estão felizes de
observar a qualidade destes mesmos textos. E começamos a lamentar que as vagas sejam limi-
tadas! Você ainda tem tempo para se inscrever e pode solicitar o regulamento através do nosso
e-mail varaldobrasil@gmail.com . O livro Varal Antológico 3 terá revisão completa incluída e edi-
toração pela Design Editora, símbolo de qualidade na edição de livros no Brasil.

Amigos do Varal, nos preparamos para, em novembro, festejar nossos três anos de revista. Tra-
remos o tema livre, festejaremos juntos. Esperando você para a festa de novembro, deixamos
aqui esta revista especial sobre a infância! Uma boa leitura!

Sua equipe do Varal
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◊   AFONSO MARTINI                             ◊      HELIO SENA
◊   ANA MARIA ROSA                             ◊      HERNANDES LEÃO
◊   ANA ROSENROT                               ◊      ISABEL CRISTINA SILVA VARGAS
◊   ANDRÉ VALÉRIO SALES                        ◊      IVANE LAURETE PEROTTI
◊   ARLETE TRENTINI DOS SANTOS                 ◊      JACQUELINE AISENMAN
◊   AUDELINA MACIEIRA                          ◊      JOSANE MARY AMORIM
◊   CARLA RENATA JORGE NEVES                   ◊      JOSÉ CAMBINDA DALA
◊   CARLOS CONRADO                             ◊      JOSÉ CARLOS PAIVA BRUNO
◊   CARLOS PINA                                ◊      JOSÉ HILTON ROSA
◊   CLÉO REIS                                  ◊      JOSSELENE MARQUES
◊   CRISTINA CACOSSI                           ◊      JU PETEK
◊   DANIEL C. B. CIARLINI                      ◊      JULIA REGO
◊   DHIOGO JOSÉ CAETANO                        ◊      KARINE ALVES RIBEIRO
◊   EDNA PIDNER                                ◊      KRISIANE DE PAULA
◊   ELIANE ACCIOLY                             ◊      LARIEL FROTA
◊   EMÉRITA ANDRADE                            ◊      LENIVAL NUNES ANDRADE
◊   ELISE SCHIFFER                             ◊      LEONILDA YVONNETI SPINA
◊   EVELYN CIESZYNSKI                          ◊      LÓLA PRATA
◊   FABIANE RIBEIRO                            ◊      LÚCIA AMÉLIA BRULHARDT
◊   FANI                                       ◊      LUDMILA RODRIGUES
◊   FELIPE CATTAPAN                            ◊      LUIZ CARLOS AMORIM
◊   FRANCY WAGNER                              ◊      LUNNA FRANK
◊   GERMANO MACHADO                            ◊      MARCELO BENINI
◊   GUACIRA MACIEL                             ◊      MARCOS TOLEDO
◊   HELENA AKIKO KUNO                          ◊      MARCOS TORRES


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◊   MADAL
◊   MARIA EUGÊNIA
◊   MARIA MOREIRA
◊   MARIANE EGGERT DE FIGUEIREDO
◊   MARILU F. QUEIROZ
◊   MARINA VALENTE
◊   MARINEY K
◊   MÁRIO OSNY ROSA
◊   MYRTHES NEUSALI SPINA DE MORAIS
◊   MARIO REZENDE
◊   MORGANA GAZEL
◊   NORÁLIA DE MELLO CASTRO
◊   ODENIR FERRO
◊   RAIMUNDO CANDIDO TEIXEIRA FILHO
◊   RENATA IACOVINO
◊   RITA DE OLIVEIRA MEDEIROS
◊   RO FURKIM
◊   ROBERTO ARMORIZZI
◊   ROZELENE FURTADO DE LIMA
◊   SANDRA BERG
◊   SARAH VENTURIM LASSO
◊   SHEILA FERREIRA KUNO
◊   SILVIO PARISE
◊   SONIA NOGUEIRA
◊   SONIA RODRIGUES
◊   VALDECK ALMEIDA DE JESUS
◊   VALQUIRIA GESQUI MALAGOLI
◊   VO FIA
◊   WILTON PORTO
◊   YARA DARIN

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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

           UM PEDAÇO DO CÉU                              jamais esquecerei.

               Por Ana Maria Rosa                                Fiquei parada no último degrau do corredor,
                                                         fora do tempo, olhando aquele cenário irreal: a mesa
                                                         grande, preta de tão encardida; as cadeiras escuras,
         Eu era muito criança. Devia ter uns seis        fantasmagóricas; fuligem e pedaços de telha espa-
anos, mas ainda me lembro daquela tarde. A trovoa-       lhados por toda parte; o espelhinho do lavatório co-
da veio muito rápida: de repente, o céu se fez negro,    berto com uma toalhinha branca; a bacia de esmalte
e um vento forte começou a sacudir a copa das árvo-      cheia de água amarela; a pequena cristaleira com o
res. Logo nossa mãe mandou que entrássemos. Fe-          vidro quebrado expando os pratos de visita... A sala
chou as portas e janelas, cobriu os santos e os espe-    e os objetos, tudo, envolto numa penumbra azulada
lhos. Nós queríamos ver a chuva, porém ela nos fez       e, ao mesmo tempo, banhado de luz. Não havia can-
ficar quietos em seu quarto. Amedrontada, sentou-se      deeiro aceso nem luz do sol. As janelas e portas es-
toda encolhida na cama passando as contas do rosá-       tavam fechadas. Mas uma luminosidade suave e
rio e rezando bem baixinho. Ficamos em silêncio          acinzentada clareava tudo. Olhei e vi o teto, negro
ouvindo o ribombar dos trovões e as pancadas da          de fuligem, com um buraco enorme e azulado. Por
chuva no telhado. Parecia que o mundo estava se          aquele buraco, entrava – na sala – o céu cinza-claro,
acabando – diria minha mãe mais tarde. Nós, ao           quase prateado, lavado de chuva...
contrário dela, não tínhamos medo algum e adoráva-
                                                                 Não sei por quanto tempo quedei-me ali, re-
mos chuva forte com relâmpagos e trovões. Mas,
                                                         verente, olhando aquele pedaço de céu... e admiran-
daquela vez, fiquei um pouco amedrontada com a
                                                         do aqueles objetos pela primeira vez – em toda sua
violência da trovoada. Quando, finalmente, a chuva
                                                         pobreza – envoltos numa feiura que, naquele mo-
amainou, saímos do quarto. Era de tardinha, e a casa
                                                         mento, me parecia inexplicavelmente bela. Aproxi-
estava quase às escuras. Caminhávamos tateando as
                                                         mei-me da mesa: o céu estava perto e pairava sobre
paredes do corredor tentando enxergar através da
                                                         minha cabeça. Como era possível aquilo? O céu
penumbra. Logo, percebemos que a chuva e a venta-
                                                         sempre fora tão inatingível, tão distante... E agora
nia haviam feito muitos estragos, pois havia muita
                                                         estava tão perto, tão pequenino... meu céu. Achei
sujeira e telhas quebradas pelo chão. Ao chegarmos
                                                         que poderia tocá-lo com a mão se conseguisse uma
à sala de jantar, percebemos que algo extraordinário
                                                         escada bem alta para subir na cumeeira da casa...
havia acontecido: o vento destelhara a cumeeira.
                                                                 Olhei mais um pouco e vi que sobre a mesa,
                                                         nas cadeiras, no chão, em toda parte, havia pequeni-
                                                         nas pedrinhas transparentes – cristaizinhos de luz...
                                                         Quando eu os colocava na palma da mão (tão frios),
                                                         logo eles desapareciam. Alguém falou em chuva de
                                                         granizo. Disseram que aquelas pedrinhas eram de
                                                         gelo. Gelo!? Na boca, elas derretiam... Eram de
       Não sei o que os outros viram, mas o que vi       água!

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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

       Saí para o terreiro, e o chão estava salpicado    nenhum som, apenas o Silêncio.
por uma infinidade delas. O terreiro estava ilumina-             Voltei à sala e olhei novamente cada coisa:
do por milhares de pontos de luz, como se fossem         os móveis, os objetos, as paredes, as portas, as jane-
pedras preciosas ou pequeninos pedacinhos de estre-      las, o telhado, o chão... E, de novo, era como se os
las. Eu escolhia os maiores, punha-os na mão e fica-     visse pela primeira vez. Olhava meu pedaço de céu,
va olhando até vê-los sumirem rapidamente restan-        limitado pelas telhas, projetando-se para o infinito, e
do apenas uma porçãozinha de água... Olhava ao           meu coração se regozijava como se tocado por algo
meu redor, e o mundo inteiro estava parado. Não          sagrado. Uma vez li (Não me lembro quem disse,
existia nenhum movimento: as quixabeiras, impassí-       mas foi alguém do grupo que construiu Pampulha)
veis, sobre o tapete de frutinhas escuras; as folhas     que a Poesia às vezes passa num lugar – suave e fur-
das bananeiras, rasgadas, imóveis; os porcos quietos     tiva – quase como uma brisa. Porém, por alguns ins-
como as varas negras do chiqueiro; as galinhas e os      tantes, pode-se perceber sua presença. Acho que,
perus, extáticos, a contemplar, filosóficos, aquele      naquela tarde, a Poesia entrou pelo buraco no telha-
mundo novo; o pássaro, preso na gaiola, encolhia-se      do, iluminou os móveis toscos da sala, assoprou a
em seu terno negro sem vontade de fugir... Não ha-       água amarela da bacia, mirou-se nos cristaizinhos de
via nenhuma cor: o capim, as juremas, os mandaca-        granizo e fugiu... Foi embora antes que a escuridão,
rus, os umbuzeiros e até as flores haviam descolori-
                                                         já instalada na cozinha, invadisse a sala; antes que a
do. E o céu cinza-prata – agora imenso – continuava
                                                         menina de cabelos encaracolados, sentada no baten-
próximo, redondo, abraçando tudo ao redor. O mun-
                                                         te do corredor, pudesse compreender por que queria
do inteiro era uma fotografia em preto e branco.
                                                         guardar – como um tesouro – aquela sensação de
                                                         beleza... de mágica. Lembro-me de que fugi pela
                                                         penumbra do corredor e quedei-me na sala de visi-
                                                         tas, bem perto do lampião. Em meu coração, havia
                                                         uma imensa vontade de chorar. Teria a menina des-
                                                         coberto a efemeridade da vida?




       Houve um momento em que minhas irmãs
entraram, e fiquei sozinha lá fora. Só eu – uma cri-
ança – sozinha naquele imenso mundo ártico... E
escutei as árvores, e escutei o gado, e escutei o ven-
to, e escutei a fonte, e escutei o riacho. Não havia

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Varal do Brasil setembro/outubro 2012




                                        Minha infância
  Por Luiz Carlos Amorim


Esta noite acordei com a chuva batendo na minha janela. Não fiquei contrariado por ter acordado com o
barulho dos pingos contra o vidro, porque gosto de chuva. Sempre gostei. Gosto de dormir com o tambori-
lar dos pingos no telhado (morei a maior parte da minha vida em casas, graças a Deus!) ou na janela. Que
eu me lembre, só fico chateado quando chove muito nas épocas da florescência do ipê, do jacatirão, do
flamboaiã, da azaleia e do olho de boneca (um tipo de orquídea comum, em nossa região), pois as flores
caem mais depressa porque ficam pesadas com o excesso de água e porque apodrecem.
E quando a chuva me pega desprevenido no meio da rua, no inverno.
Mas como dizia, choveu esta noite e os pingos na janela fizeram com que me reportasse a minha infância,
já um tanto distante. O tamborilar que agora me traz uma sensação de paz e melancolia, naqueles tempos
de garoto, idos tempos, fazia com que eu e meus irmãos grudássemos nossos narizes nos vidros das janelas
e olhássemos para fora, com uma vontade enorme de sair e brincar, descalços, na água que corria ao lado
da casa e junto da calçada.
Nossa mãe, no entanto, alerta, nos detinha. Mas em ela se descuidando um segundo, lá estávamos nós, fa-
zendo festa debaixo da chuva, jogando água um no outro, estancando-a em pequenos lagos e soltando bar-
quinhos de papel na corredeira, os cabelos escorridos e a roupa encharcada, com aquele ar de felicidade
que só criança tem.
Aqueles dias se foram e eu não corro mais na chuva. Quando me molho ao apanhar chuva, fico aborrecido
por que vou chegar molhado em algum lugar. Não consigo mais ser criança como antes. E gostaria de po-
der. Porque acho que ainda sou um pouquinho criança dentro deste corpo que vai envelhecendo e ficando
cansado.
Amanhã, quem sabe, talvez eu saia descalço e de peito nu, a cantar pela chuva. Se você encontrar um ma-
luco molhado cantando e dançando na chuva, não se assuste. Pode ser que seja eu.




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  LEMBRANÇAS                                               Diferente de outras aulas,
                                                              Aguardava ansiosa,
                                                            Por saber que neste dia,
                                                            Muito mais aprenderia;
                                                             Através da geografia,
Por Carla Renata Jorge Neves
                                                             O mundo conheceria,
                                                          Numa viagem maravilhosa!
                                                            Ao final desta viagem,
  Busco agora na memória
                                                         Louvo a Deus por ter um dia,
Lembranças da minha infância:
                                                             Me levado à escola,
   Aos seis anos de idade,
                                                        Onde os meus mestres queridos,
Mesmo com toda adversidade,
                                                          Me ensinavam a toda hora,
   Posso ver muita alegria
                                                           Não somente a disciplina,
    Por ter podido um dia,
                                                             Mas amor e alegria!
   Estudar com a tia Estela
   Linda, amiga e sincera!




                                                         Hoje eu trago na bagagem,
                                                          Estas lembranças comigo,
  Chego agora aos oito anos,
                                                        Que me fazem voltar no tempo
  No romper de outra etapa,
                                                        Relembrando bons momentos,
    Tenho agora a tabuada,
                                                        Que passei com meus amigos!
 Sem conversa, sem bagunça,
   Tia Fauza com firmeza,
   Faz o aluno com certeza,
   Aprender a matemática!



                                                              Tudo isso me levou,
                                                           Quando na minha escolha,
                                                             A escolher Pedagogia,
                                                            Para poder fazer um dia,
                                                              Algo pela educação,
   Já na flor da mocidade,
                                                              Dando contribuição,
 Aos quatorze anos de idade,
                                                           À criança, jovem e adulto,
    Vejo agora a alegria
                                                          Tornando-os bons cidadãos!
    Na aula de geografia:
 Senhor Jorge com seu mapa
   Ministrando suas aulas,
   Com toda propriedade!




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BALÕES EM SÃO JOÃO



Por Yara Darin

                                                             Art de Analice Rodrigues Uchôa


Balões em São João
Balões aos ares
Balões multicores
Que outrora no céu brilhavam, me fasci-
navam.
Sentia-me em liberdade, sensação de feli-
cidade
Amores de verdade!
Lembro o céu junino todo estrelado
As fogueiras , bandeiras e rojões
Que alegravam o meu coração
Quando em dia de São João !
Tão belos balões já não existem mais
Tão-pouco tenho as alegrias de outrora
E as que ficaram , tão somente
São lembranças saudosas , gostosas
De uma época feliz de criança
Que o tempo não volta jamais...




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Oração de uma criança abandonada


             Por Carlos Conrado


            Querido Papai do Céu,
        Não sei se o senhor tem barba
        Mas sei que não é igual a eu!...
          Queria estar contigo agora
         Pois aí deve ter pão de sobra
        E um lugar coberto neste céu,
  Para eu me deitar quando estiver cansado,
   Nestas nuvens parecidas com algodão.
       Senhor por ti junto minhas mãos
      E peço sabedoria de gente grande.
            Papai do Céu eu quero
       Que eu e meus irmãos possamos
              Ir à escola e deixar
        De pedir esmola para sempre.
             Dizem que o senhor
 Ama todo mundo, que não rouba e nem mente,
             Por isto vou te amar.
        Não tenho muito a te oferecer,
    Mas mesmo que eu continue nas ruas,
         Eu vou te honrar e agradecer
       Pois tu és o meu super-herói!...
         Senhor se eu me comportar
            Talvez eu ganhe mais
          Que uma bicicleta, talvez,
               Eu ganhe um lar.
            Querido Papai do Céu
            Abençoa todo mundo.
         Dá-me uma mãe para amar,
         Um peixinho e um cachorro
         E diz a quem precisa escutar
        Que o amor não é só namorar.




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                                        Por Fabiane Ribeiro
                                                          ano seguinte, ela também não veio; nem no próxi-
                                                          mo...
                                                                  Anos se passaram sem que ele tivesse notí-
                                                          cias de sua amada. Ele já estava velho e cansado,
                                                          quando, deitou-se na areia da praia e pediu que o
                                                          mar carregasse seus olhos para que ela pudesse en-
                                                          contrá-los. Dona de tudo o que ele já havia visto de
                                                          mais belo, ela continuaria a guiá-lo por entre as
                                                          mais lindas e inexploradas maravilhas da natureza.
                                                          Assim, há um tempo que não se conta, nasceu, junto
                                                          ao mar, a saudade e também o primeiro ser humano
                                                          que não era mais dono de sua visão”.
   Conto 5 – A lenda dos olhos e da
              saudade                                            Maria Isabel, a coordenadora do grupo, fe-
                                                          chou o livro escrito em braile, dizendo:


       “Diz um velho pescador que há um tempo                     — Essa é a lenda dos olhos e da saudade.
que não se conta, por aquelas bandas, existiu um          Ela nos faz imaginar a vida do primeiro deficiente
jovem rapaz que costumava caminhar a beira-mar            visual que existiu no mundo. Claro, é só uma histó-
em todo fim de tarde. Ele levava sempre consigo           ria. Como temos observado ao longo de nossa reu-
uma gaita e a tocava, enquanto contemplava a              nião, assim como o rapaz da lenda, nós também ve-
imensidão das águas e o vazio do horizonte.               mos o mundo, apenas de forma diferente...

        O rapaz disse ao sábio que seu coração o
guiara até aquela praia. Então, ele ia para lá, todos             Verdade ou não, em certo canto do mundo,
os dias, na esperança de encontrar os motivos.            em uma praia distante de tudo, os viajantes costu-
        Até que um dia, do mar ela surgiu. Uma bela       mavam dizer que podiam ouvir o som de uma gaita
moça. Alguns dizem por aí que era uma sereia. Ou-         a tocar, sem que ninguém estivesse por lá...
tros dizem que era um anjo do mar. Mas para aque-
le rapaz era apenas a dona do seu coração. Uma vez
ao ano, ela surgia e o arrastava até as profundezas.
Então, juntos, eles contemplavam as maiores mara-
vilhas da natureza: o mundo que existe abaixo das
águas do oceano, onde nenhum ser humano jamais
estivera.
       Em todos os outros dias do ano, o rapaz sen-
tava-se junto a um rochedo e tocava sua gaita. Ele
sabia que a moça podia ouvi-lo, de onde estivesse.
Ele apenas gostava de tocar para ela... E, a cada pôr
-do-sol em que ela não vinha, ele derramava uma
lágrima no oceano, que se mesclava por entre as
águas infinitas.
      Por décadas, eles encontraram-se apenas
uma vez ao ano. Até que a moça não apareceu. No
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Varal do Brasil setembro/outubro 2012




                                     O CLUBE DOS VIRA-LATAS é uma organização não governa-
                                     mental, sem fins lucraƟvos, que mantém em seu abrigo ho-
                                     je mais de 400 animais que são cuidados e alimentados dia-
                                     riamente. Boa parte desses animais chegou ao Clube após
                                     atropelamentos, acidentes, maus tratos e abandono. Nosso
                                     objeƟvo é resgatá-los das ruas, tratá-los e conseguir um lar
                                     responsável para que eles possam ter uma vida feliz.



Por que ajudar os animais?                           doações. Todos podem ajudar, seja divulgando o
                                                     Clube, seja adotando um animal ou mesmo doando
Você sabia que no Brasil milhões de cães e gatos vi- dinheiro, ração ou medicamentos. Qualquer doação,
vem nas ruas, passando fome, frio e todos os Ɵpos    de qualquer valor por menor que seja, é bem-vinda.
de necessidades? Cerca deles 70% acabam em abri- As contas do Clube bem como o desƟno de todo o
gos e 90% nunca encontrarão um lar. Parte será víƟ- dinheiro estão abertas para quem quiser
ma ainda de atropelamentos, espancamentos e to-
dos os Ɵpo de maus tratos.                           BRADESCO (banco 237 para DOC)
Infelizmente, não é possível solucionar este proble- Agência: 0557
ma da noite para o dia. A castração dos animais de CC: 73.760-7
rua é uma solução para diminuir as futuras popula- Titular: Clube dos Vira-Latas
ções mas não resolve o problema do agora. Sendo      CNPJ: 05.299.525/0001-93 Ou
assim, algumas coisas que você pode fazer para aju-
dar um animal carente hoje:
                                                     Banco do Brasil (banco 001 para DOC)
Adotar um animal de maneira responsável              Agência: 6857-8
                                                     CC: 1624-1
Voluntariar-se em algum abrigo.                      Titular: Clube dos Vira-Latas
Doar alimento (ração) e/ou remédios para abrigos. CNPJ: 05.299.525/0001-93
Contribuir financeiramente com ONGs.
Nunca abandonar seu animal                             (Saiba mais sobre o Clube em hƩp://fr-
                                                       fr.facebook.com/ClubeDosViraLatas?ref=ts)
Como o Clube vive? Somente de doações. Todas as
nossas contas são públicas, assim como extratos
bancários e notas fiscais.
Como ajudar o Clube? Para manter esses mais de
400 peludos em nosso abrigo, contamos hoje ape-
nas o trabalho dos voluntários e com o dinheiro de

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        Meus animais de infância                          te era atendido. Vinham de onde estivessem ao ou-
                                                          vir a voz de minha avó.
                                                               Bom, com relação à dinastia canina, o primei-
                Por Renata Iacovino                       ro que me lembro é do Sheike, um pequinês. Mor-
                                                          reu velhinho. Antes dele tiveram outros. Mas não
                                                          me recordo, apenas de ouvir falar e pelas fotografi-
      Desde criança sempre ouvi que gato tem sete         as.
vidas. E uma das histórias que me fez crer nisto,
aconteceu em casa, mas eu apenas ouvi falar, por-
que era muito pequena, ou talvez, nem nascida.
      Soube que meu pai – até então, um não apre-
ciador da raça felina domesticada – atirou pela jane-
la de seu quarto, nosso gato Pelé, a uma altura de
mais ou menos 5 metros. O bichano sobreviveu, co-
mo se nada tivesse acontecido. Que bom! Pelo me-
nos não foi daquela vez.




                                                                                                        Foto de Renata Iacovino
      Mas tal antipatia durou pouco.
      Lembro-me sempre cercada de gatos, em casa.
E testemunhei muitos deles no colo de meu pai, no
sofá com a gente, enfim, verdadeiros donos e donas
do pedaço.
      Manoela veio como verdadeira rainha. Filhos
dela também conviveram conosco, como o Riveli-
no, o Bado, o Saci...
      Mas um vira-lata, em especial, era meu xodó               Depois do Sheike, veio o Snoopy, uma mistu-
(e creio, vice-versa). O Brito, que depois virou          ra de fox paulistinha com sei lá o quê. Amoroso,
Britz, que depois virou... ah, bem, deixa pra lá, eram    mas sofreu muito, e todos sofremos junto, claro. Ele
tantos os nomes e apelidos que eu dava para um            teve sinomose.
único gato, que em minha memória estas coisas até
se confundem, hoje em dia.                                      Então veio o Ringo, este sim, um fox paulisti-
                                                          nha. Muito alegre e brincalhão, mas com uma per-
      O Brito, ou Britz, ou... chegava da rua estropi-    sonalidade muito forte. Ele tinha uma característica
ado, sem um pedaço da orelha, muitas vezes, e vi-         interessante: quando ia comer, gostava que o provo-
nha correndo ao meu encontro. Era um amor só. To-         cassem, até que ficasse bem nervoso e então comia
do sujo, com resquícios da farra, parecia saber que       loucamente, latindo, rosnando e mostrando os den-
somente eu toleraria aquilo.                              tes. Gostava de tomar água na torneira do quintal.
      E quantas vezes ele desaparecia! Dois, três,        Bastava abrirmos a torneira e ele estar por perto,
quatro dias! Nós ficávamos preocupados, querendo          pronto, já vinha dar bocadas nela com uma gana
saber seu paradeiro. E de repente lá estava ele. Da-      que, a nós parecia estar se machucando, tamanha a
quele jeito amassado, sujo e cambaleante, mas, cla-       força que imprimia no gesto. Mas teve vários pro-
ro, sempre com muita energia para recomeçar a far-        blemas de saúde. O problema na coluna o fez ficar
ra gatuna. Um vira-lata branco e preto, um autêntico      curvado, até que não podia mais saltar o tanto que
corinthiano, pois nesta época o Corinthians era uma       gostava. Teve uma alergia que lhe tomou o corpo
de minhas paixões.                                        inteiro, ocasionando falhas na pelagem rala, típica
                                                          de sua raça.
       Minha avó – que morava conosco – tratava de
todos os gatos e animais de casa, com especial cari-      Outros animais habitaram nossa casa: dois grandes
nho. Preparava “altos banquetes” para os felinos.         jabotis (ou cágados) que viveram muitos anos no
Naquela época não existia essa coisa de ração. Ela        quintal e tinham, dentre suas preferências alimentí-
ia à feira, comprava sardinhas e fazia um preparo         cias, mamão e banana.
todo especial para eles. Quando estava na hora do               Neste mesmo quintal, dentro de um enorme
almoço e os bichanos não se encontravam por perto,        aquário construído no chão, em círculo, muitos pei-
ela tinha um ritual de chamá-los, ao que prontamen-       xes dividiram aquele espaço, durante muitos anos.

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Recordo-me que uma das coisas que mais me divertia era quando íamos limpar o aquário. Que farra!
      Mexer com água sempre foi algo que me atraiu, e fazer todo aquele procedimento, abrindo o batoque,
escoando a água, tirando os peixes, limpando tudo, enchendo novamente o aquário (que nada tinha a ver
com os aquários domésticos que conhecemos) e colocando os peixes de volta ao seu habitat, tudo aquilo era
bem divertido e envolvia a todos nós. Acontece que, quase sempre, após a limpeza, algum peixinho morria,
estranhando a água tão limpa.
     Este aquário cercava um grande viveiro, onde tínhamos periquitos de várias cores. Eu achava que
aquele era um espaço enorme para as pequenas aves.
     Na parte de baixo do quintal, próximo de onde os jabotis ficavam, havia um galinheiro. Não cheguei a
conhecer as galinhas. Apenas ouvi falar, também. Este espaço depois se transformou num orquidário.
     Lembro-me da goiabeira, dos limoeiros, das roseiras, da erva-cidreira, da hortelã, do manjericão e dos
inúmeros insetos que ali habitavam.
     Recordações da casa da Rangel Pestana, lugar em que vivi boa parte de minha vida.




                           INFÂNCIA


                       Por Audelina Macieira



                            Bonecas ao chão
                          Carrinhos na estante
                         meu conjunto de chá
                    na sala de visita de minha mãe.
                           Velotrol abusado
                   eu deixo sempre tudo espalhado
                     pela casa e não arrumo nada
                              sou criança.
                           Mamãe me acuda
                              Ai! Ai! Ai!
                           Quero merendar
                          biscoitos recheados
                     vou tomar banho com a Lili
                        minha boneca de pano
                  a noite vou falar com papai do céu
                        que quando eu crescer
                          quero ser bailarina.




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                                                         Ta escurecendo, a mãe levanta e diz que vai passar
Pé-de-Moleque                                            um café fresquinho. Aquele torrado no tacho, pisa-
                                                         do no pilão e coado no saco de pano de algodão. Ai
                                                         que gostoso.
                                                          Café quentinho e tapioca com coco!- também bem
                                                         cedinho... e o cheirinho da tapioca que a mãe assa e
                                                         poe no pau, pra ficar durinha, crocante igual a bis-
                                                         coito.
                                                         Assim o moleque tem forca de correr o dia todo...
Por Francy Wagner                                        vai pra escola de bicicleta e no recreio joga bola
                                                         com a molecada, tudo parente e amigo, primo, filho
                                                         do padrinho, primo do primo do pai, da mãe, ... uma
Junho. Mês das quadrilhas! Santo Antonio, São Jo-        família grande...
ao e São Pedro!                                          Pé-de-moleque, gostoso torrado no forno da casa de
Bolo de milho, canjica, pé-de-moleque,...                farinha... pelo tio Manoel, que faz os melhores da
                                                         cidade! Ele também é o melhor pra torrar a farinha,
Sabores da minha infância. Sabores do interior do        o melhor forneiro da região. O moleque ajuda o tio
Ceara, da querida terrinha, onde se pula, dança,         quando ele deixa.... torrar farinha é trabalho de res-
brinca, corre, toma banho de lagoa, de riacho, de        ponsabilidade. Tem que saber o ponto certo pra nao
rio, de mar, de chuva...                                 deixar a farinha crua nem queimada. E o moleque
Pé-de-Moleque, escurinho, dentro da palha da bana-       fica ali, aprendendo o ponto certo... quando cansa,
neira... daquela touceira que fica logo ali, no rego     corre e vai brincar de pião ou de bilha com os pri-
de agua que sai da pia da cozinha. Nunca falta água      mos. Farinhada é uma festa.
pra bananeira. E foi justo ali que nasceu aquele pe      No final de semana, quando o pai não grita pra fazer
de tomate frondoso, que a mãe vai catar um tomate        nada, o moleque escapole cedo e vai pra lagoa.
bem maduro pra temperar a panela do frango...
aquele carijó... almoço do domingo!                      Lagoa cheia.

Pé-de-Moleque, temperado com erva doce que o             Inverno bom.
moleque foi correndo comprar na venda do tio Jar-        Fartura na porta do terreiro.
bas.
                                                         Pular da tabua, nadar ate o fundo, dar tainha na
Pé-de-Moleque, enfeitado de castanha de caju, da-        agua. Depois correr e se salgar de areia só para tirar
quelas que o moleque ajudou o pai a juntar debaixo       em seguida noutra tainha.
do cajueiral, assou na palha do coqueiro, o mesmo
                                                         A mãe chega mais tarde com as meninas e coma-
coqueiro do qual a mae quebrou o coco para tempe-
                                                         dres. Ficam mais no raso.
rar a tapioca de manha bem cedo. Castanha inteira é
pra venda, quebrada ou murcha é pra boca... do mo-       A mãe nem se preocupa com o moleque. Aprendeu
leque.                                                   a nadar ainda bebe de colo, ali mesmo nas aguas da
                                                         lagoa... assim como a molequinha mais nova, que
“Ah! Se se quebrar bem muita!”- sonha o moleque
enquanto vai tirando o miolo da castanha quente e        agora mesmo aprende a andar e cair sentada na bei-
ficando com os dedos escurecidos, igualzinho ao          ra d'água, e todos acham muita graça da braveza da
seu pe, ali sentado ao lado da mãe e da irmã, debai-     menininha.
xo do cajueiro “da cozinha”, onde corre mais vento,      Compadre Pedro vai matar um porco no sábado. Já
um ventinho fresco da tarde...                           convidou todo mundo conhecido para a matança...
                                                         os homens vão logo de madrugadinha. A comadre
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só chega mais tarde, para ajudar a prima com o sarrabulho. E a molecada fica no cajueiral do terreno, brin-
cando.
Os pês vai ficar escurinhos, pretinhos... da cor do bolo: Pé-de-moleque!
Da cor nossa de cada dia, pois tira o chinelo para correr e pegar o frango do almoço do domingo. Aquele
carijó, grandão que já tá querendo pegar as galinhas e briga toda hora com o galo... mãe não quer ele de
reprodutor não.
“Vai moleque, pega o frango carijó e bota no grajau!”- grita a mãe do pé da porteira da cozinha.
E la vai o moleque, na carreira, atrás do frango ligeiro, que da cada rabiada, que deixa o moleque ali no pé
da moita. A mãe solta a “Traíra”, a cachorra da casa, pra ajudar. Sem a ajuda da Traíra o moleque não pe-
ga o frango hoje não... acaba escapulindo pro mato, aí... adeus!
Traíra segura o frango, mas não fere.
O Carijó vai ficar no grajau até domingo cedinho, pra limpar. Agora a mãe vai botar só milho pra ele co-
mer... e talvez um restinho do farelo...a sobra do balde da comida do porco... que também esta na engorda
pro batizado da pequena... vai ser na festa da santa. A mãe fez uma promessa.
Só a tardinha a mãe grita: “Vai tomar banho menino, limpar esses pês e lavar a chinela! E não vai mais
pro terreiro hoje não!”
Já faz tempo que o pai vendeu umas sacas de castanhas e comprou a televisão com a parabólica. Mas ele
só deixa assistir depois que faz o dever de casa.
O moleque so vai fazer o dever de casa, depois que toma banho a tardinha... quando a mãe grita! Nas sex-
tas ele escapole cedo, pois a mãe vai pro terço na casa da comadre e ele vai brincar de bilha com os pri-
mos.
É mais divertido do que ficar ali, sentado na frente da televisão assistindo aquelas novelas. Novelas são
para as mulheres... ele quer ser macho igual ao pai.
Mas ainda esta muito cedo pra tomar uma meiotas na bodega do Chico. Então o jeito é brincar de bilha e
apostar com quem vai dançar quadrinha esse ano. Ele esta pensando na prima, a Marli, filha da tia Janete.
Ela ta ficando danada de bonita. E ele tá deixando de ser... moleque!




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                                      Peraltices de menina

                  Por Lúcia Amélia Brüllhardt



Ela era uma menina muito sapeca que mordia todas as outras
meninas na escola, fazendo amizades somente com os meninos.
Certo dia, esteve precisando de dinheiro, e ninguém
arranjava, então a menina peralta foi à feira do troca – troca, ven-
der seu gatinho de estimação, chamado 'Foen'. Um vizinho a viu
e avisou à família dela. Graças a Deus, ninguém comprou o coi-
tado.
Certa vez, na cidade em que morava, havia chegado a época do
carnaval. Em cidades de interior, costumavam sair os papangus,
homens vestidos de urso. Só que Lúlú ( apelido da menina peral-
ta ) jamais
havia visto um mascarado, nem fantasiado de urso. Estavam andando na feira, quando aparece um cara ves-
tido de diabo e outro de urso. Lúcia estava com mais duas crianças e ambas correram. Um menino se bor-
rou todo e ela desmaiou, chegando a casa quieta, sem acordar ninguém, passando o maior sufoco, pois os
outros dois haviam se perdido na feira.
Em uma outra ocasião, ela foi a uma cidade chamada Capoeiras, em dia de feira ( no interior do Nordeste).
Lá havia uma convenção de partidos políticos. Sua mãe, na época, era escrivã eleitoral e estava presente.
Lúlú vai até ela e pede dinheiro, porém a mãe nada lhe dá. Não esperou mais.
Pegou o pandeiro de uma pessoa com necessidades especiais, (um cego), começou a cantar e tocar no meio
da feira. Pegou as rapaduras de um senhor e saiu vendendo, mas não ficou com o dinheiro, deu o dinheiro
das rapaduras vendidas ao cego.
Aí que saudade dos meus tempos de criança, onde a inocência, humildade e esperança reinavam em meu
coração.
Aí que saudade das peraltices de outrora, que com o passar dos anos ficam somente registrados no livro da
memória.
Aquela menina peralta ainda habita em meu ser, amo muito ela e sempre que tenho oportunidade deixo ela
reviver e fazer suas PERALTICES DE MENINA.
Esta menina peralta hoje se chama Lúcia Amélia Brüllhardt.




                                      VOCÊ SABIA?
A revista VARAL DO BRASIL circula no Brasil do Amazonas ao Rio Grande do Sul...
Também leva seus autores pelos cinco continentes!
     Quer divulgação melhor? Venha fazer parte do VARAL! Literário, sem frescuras!
                                    E-mail: varaldobrasil@gmail.com
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Varal do Brasil setembro/outubro 2012




VARAL ANTOLÓGICO 3

Abriram-se as inscrições para a seleção para o livro VARAL ANTOLÓGICO 3 a ser lançado em
2013.
Os interessados deverão enviar textos (no mínimo um, no máximo 5) num total de quatro pági-
nas A5, letra Times New Roman 12, espaço 1.
Todos os textos serão examinados por uma Comissão Examinadora composta de escritores e
críticos que acompanham e/ou participam do Varal do Brasil.
Os textos selecionados serão comunicados por e-mail a cada autor e farão parte do livro Varal
Antológico 3 mediante participação cooperativa.


O tema será livre e os textos podem ser: contos, crônicas ou poemas (todos os três em todas as
suas variações).
Para o regulamento completo escrever para : varaldobrasil@gmail.com



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                                       Vale à pena estudar

                                          Por Helena Akiko Kuno


Jennifer era uma garota muito estudiosa, mas nos últimos tempos estava muito distraída. Um dia sua pro-
fessora Isabel aplicou uma prova de Matemática e enquanto Jennifer respondia as questões, suas amigas
Sofia e Rute não paravam de lhe pedi as respostas.
No dia seguinte a professora entregou a prova corrigida e quando Jennifer pegou a sua, ela não quis acredi-
tar, a nota era 4,5 !!!.
Jennifer ficou tão preocupada que passou mal. Sua mãe Keila foi
correndo buscá-la na escola e a levou ao médico. Como havia
muitas crianças na clinica, Jennifer demorou a ser atendida, tem-
po suficiente para ela melhorar, o que foi constatado pelo médi-
co. No entanto, o médico alertou que poderia ser um resfriado
que estaria por vir.
À noite em casa, Jennifer contou a sua mãe que havia tirado nota
baixa na prova de Matemática. Ao receber a notícia sua mãe fi-
cou brava, mas resolveu ajudá-la entregando todos os dias 10
páginas de lições até a próxima prova.
No dia da segunda prova de Matemática, Jennifer disse para suas
amigas:
- Não me peçam respostas porque eu não vou dar, pois já foi mal
na outra prova.
Então suas amigas colaboraram e não pediram respostas.
No dia seguinte, a professora novamente entregou a prova corrigida e quando Jennifer recebeu a sua, ela
gritou:
- Jennifer, 10 !!!
Jennifer festejou dentro da sala de aula e todos ficaram felizes.
Jennifer não parava de gritar:
◊     Vale à pena estudar!!!




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                 O Riacho *                             mentia que sim.

                                                        À noite, na hora de dormir, quase não consegui
                                                        chegar até a cama, à dor era tanta, meu coração
               Por Ana Rosenrot                         dava a impressão de estar batendo no meu pé,
                                                        que estava cada vez mais inchado; eu sabia que
       Acho que eu devia ter no máximo sete anos;       precisava fazer alguma coisa, mas continuava relu-
estava passando o feriado− como sempre fazía-           tante em pedir ajuda; foi quando ouvi a porta do
mos−, no sítio de meus avós e estava fazendo o          quarto abrir-se suavemente e vi minha avó aproxi-
que mais gostava naquele tempo: andar descalça          mar-se segurando sua enorme caixa de primeiros
dentro do riacho.                                       socorros −minha velha conhecida−, sentar-se na
       Sabia que levaria a maior bronca da minha        beirada da cama, segurar meu pé delicadamente,
mãe se fosse pega, pois ela havia me proibido de        examinar o local, pegar uma pinça grande na cai-
fazer aquilo, por considerar a brincadeira boba e       xa, arrancar o caco de vidro num único puxão, lim-
perigosa. Não que eu corresse um sério risco de         par o sangue, aplicar mercúrio-cromo –o que doeu
me afogar, já que o riacho não tinha mais que um        mais− e colocar um pequeno curativo; livrando-me
palmo de profundidade, mas ela temia que eu me          finalmente daquele tormento. Fiquei ainda mais
machucasse com alguma coisa cortante ou perfu-          feliz por saber que não sofri sozinha, pois minha
rante, que eventualmente poderia haver na areia         avó e eterna cúmplice me observara o dia todo e
que lhe cobria o fundo.                                 esperou a hora certa para salvar-me, como sem-
       O problema é que eu não conseguia resistir       pre.
à sensação deliciosa de caminhar naquela areia
fria, enquanto o movimento da água −geladíssima−
massageava meus pés, as flores que nasciam na
margem, perfumavam tudo ao redor, era tanta cor
e tanta luz, que minha imaginação corria solta, cri-
ando milhões de aventuras.
       Naquele dia em especial, o lugar estava lin-
do, havia chovido à semana toda e agora o sol bri-
lhava novamente, criando reflexos coloridos no fun-
do do riacho; eu queria aproveitar cada segundo,
antes que alguém sentisse minha falta ou que mi-
nhas primas mais velhas −e muito chatas− chegas-
sem, tomando conta de tudo e querendo dar or-
dens; o que sempre acabava com as minhas brin-
cadeiras. Então andei para o lado mais afastado,
onde as árvores ocultavam a visão do riacho e
afundei os pés na areia com vontade; foi quando
senti uma dor repentina, um cutucão na sola do pé                   A autora com um ano de idade
direito e percebi imediatamente que estava ferida;
fui pulando num pé só e sentei-me na margem, pa-
ra poder ver o que tinha realmente acontecido, fi-
quei em pânico quando vi o que era: um caco de                 Depois ela levantou-se, deu-me um beijo na
vidro estava fincado dentro da carne do pé e eu         testa e me fez prometer nunca mais fazer aquilo
não conseguia puxá-lo para fora, nem podia ter          novamente; isso se tornou mais um de nossos mui-
noção do seu tamanho, pois somente uma ponti-           tos segredos. E claro, eu cumpri a promessa com
nha estava visível.                                     prazer, pelo menos até o feriado seguinte.
       Mesmo sem ter nenhum sangue saindo, fi-                 Como sinto saudades desta época especial;
quei morrendo de medo e quis gritar por ajuda,          hoje, após tantos anos, não existem mais meus
mas como queria a todo custo evitar um castigo          avós, nem o amor verdadeiro, ou aquela cumplici-
pela desobediência, fiquei quieta apesar da dor;        dade desinteressada, que deixamos de encontrar
saí do riacho, andando o melhor que pude, calcei        quando nos tornamos adultos; o riacho secou e a
minhas sandálias, fui para dentro da casa dos           realidade muitas vezes assusta; mas minha infância
meus avós e passei o restante do dia sentada, as-       viverá para sempre, escondida bem no fundo da mi-
sistindo televisão; o que fez com que todos estra-
                                                        nha alma, que jamais deixará de ser criança.
nhassem, pois quando eu ia ao sítio, não parava
quieta nem por um minuto e naquele dia até as
provocações das minhas primas – como elas eram
chatas−, eu aguentei calada; várias vezes me per-       *Para meus saudosos avós S.O. e M.I.O.
guntaram se eu estava bem e forçosamente eu

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             CARRO DE BOI                            mão, conduzia com perfeição as parelhas de
                                                     bois e sabia o nome de todos.
                                                           Quando seu tio descobriu ficou zangado
Por Vó Fia                                           e disse: vamos ver se você aprendeu mesmo,
                                                     carregou o carro com sacas de milho e man-
     Durante o ano todo Cidinha estudava no          dou que ela guiasse os bois até o pátio da fa-
Grupo Escolar Quincas Tenório, o único exis-         zenda, ela fez tudo certo e o tio achou muita
tente na cidade de São João da Serra; ela fre-       graça no final; para alegria de Cidinha ele per-
quentava as aulas do turno da manhã, voltava         mitiu que ela conduzisse o carro carregado até
para casa e depois do almoço brincava um             a cidade e foi um divertimento para a comuni-
pouco na rua com as crianças vizinhas, em se-        dade a passagem de um carro de bois, condu-
guida ia ajudar sua mãe no trabalho diário de        zido por uma menina.
fazer doces, sequilhos, roscas e bolos de en-              Cidinha estava no céu, usando a vara de
comenda para as festas do lugar, dona Isaltina       ferrão com sabedoria ela enfileirava os bois, de
era a melhor doceira da região.                      vez em quando tirava o chapéu de palha que
      Ajudando sua mãe a pequena Cidinha             usava e cumprimentava o alegre publico, seu
ajuntava o útil ao agradável, útil porque estava     tio todo orgulhoso seguia atrás do carro e se
aprendendo uma profissão e agradável porque          aproveitava do sucesso da sobrinha, distribu-
ela gostava de ajudar dona Isaltina no preparo       indo sorrisos para todos; chamando os bois
dos doces; estudando e trabalhando, a menina         pelos nomes ela os enfileirava e seguiam em
esperava ansiosa pelas férias de fim de ano,         perfeita ordem e o carro pesado cantava com
época em que ia para a Fazenda Casa Verde            os eixos untados de óleo.
de propriedade de seu tio Lucio, lá ela se di-             De repente apareceu dona Isaltina muito
vertia muito, mas o que mais gostava era do          zangada, tomou a vara de ferrão da filha, di-
carro de bois.                                       zendo: era só o que faltava, uma filha carrean-
     Aquele carro enorme puxado por três jun-        do como um moleque, mocinhas de família não
tas de bois era o sonho de Cidinha, ela passa-       trabalham como carreiro ou carreira, sei lá co-
va o ano todo esperando a hora de ser levada         mo dizer; lugar de menina é na escola estu-
por ele até a fazenda e criando coragem para         dando ou na cozinha aprendendo arte culinária
fazer um pedido inusitado ao severo tio, mas         para ganhar a vida e no futuro agradar ao ma-
os dias passavam, as férias terminavam e o           rido; virou-se para o irmão e disse: Cidinha
misterioso pedido não era feito, mas naquele         não volta mais em sua fazenda Lucio e nunca
ano ela se chegou ao tio e disse: tio Lucio me       vou te perdoar, ai terminou o sonho da menina.
deixa conduzir os bois do carro? Ele tomou um
susto e disse: onde já se viu?
Com a insistência da sobrinha ele explicou:
meninas não conduzem bois de carro, esse é
um serviço reservado aos homens, por isso se
diz que o condutor se chama carreiro e o meni-
no que vai à frente se chama candieiro, tudo
no masculino, entendeu Cidinha? Entender ela
entendeu, mas desistir não desistiu, porque ela
sempre sonhara em conduzir um carro de bois;
o carreiro era o Francelino e o candieiro era o
Tinim.
      Os dois eram amigos da menina e duran-
te a lida carreando coisas variadas, deixavam
que ela viajasse de carona em cima da carga e
varias vezes foram advertidos pelo patrão, que
não achava próprio de mocinhas aquela ma-
nia; pela amizade Francelino resolveu ensinar
os mistérios da condução dos bois a Cidinha
e em pouco tempo ela com um chucho na
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                             PARTICIPAÇÃO NO VARAL


          •     E em novembro, aniversário do Varal! A revista
                Varal do Brasil completará 3 anos e conta com
                você para festejar! O tema será livre e você po-
                de se inscrever até 10 de outubro (as inscrições
                podem ser encerradas antes, dependendo do
                número de participantes).
          •     E para janeiro de 2013 vamos falar da natureza,
                do planeta, dos animais, da vida: em janeiro
                nosso tema será o Planeta Terra, porque falar
                de nosso planeta nunca será demais! Textos
                até dez de dezembro.
          Você pode escrever na forma que desejar: verso ou
          prosa! Haicai? Trova? Poema? Crônica? Conto? Mi-
          niconto? Soneto? Que outras mais você faz? Mostre
          pra gente!
          Traga sua poesia, sua visão da vida, seus sonhos,
          para o VARAL!
          Venha conosco!
          Varal do Brasil: Literário, sem frescuras!




                                        FAÇA SUA ESTA CAUSA!


                                          ADOTAR É ANIMAL
                          AJUDANIMAL, GRUPO DE AJUDA E AMPARO
                                  AOS ANIMAIS DO ABC
                                        www.ajudanimal.org.br




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                                          Nossa infância

                                   Por Karine Alves Ribeiro



           Nossa infância é nosso começo, começamos grandes ou começamos pequenos.

  Às vezes nos ferem tantas regras, que parecem inúteis e quando crescemos, são a nossa salvação.

Nossa infância serena, alegre, intensa, livre com horário para voltar para casa, ou desligar a TV. Tudo
                                            isso é saudável...

   Nossa infância agredida, pisada, humilhada, violentada, trucidada, esquecida, esta é podridão...

                       Sim, apodrece-se o fruto antes mesmo de cair no chão...

                                Colhe-se o limo, se não há aderência
                                 entre pais e filhos, irmãos e irmãs.

                                         O Amor é criança
                                 de olhos vivos, alegres, tranquilos.

                                            Criança é luz
                                       acesa, praiana, colorida.

                                         Luz é Deus, é vida,
                                é criança que renasce cheia de amor.




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                              BRIGADEIRO

                                   Ingredientes



                        1 colher(es) (sopa) de manteiga
                          2 lata(s) de leite condensado
                    1 xícara(s) (chá) de chocolate granulado
                     4 colher(es) (sopa) de chocolate em pó


                                Modo de preparo


  Numa panela junte o leite condensado, a manteiga e o chocolate em pó. Misture
 bem até incorporar tudo. Leve ao fogo brando mexendo sempre. Utilize panela de
fundo grosso. Quando a massa começar a se desprender do fundo da panela (o tem-
po varia de acordo com a panela) passe a massa para um prato untado com mantei-
                                ga e deixe esfriar.
  Unte as mãos com manteiga e enrole os brigadeiros, passando-os no granulado.
                         Coloque em forminhas de papel.




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PÉROLAS AOS PORCOS                                     Você não aprendeu isso na escola?
                                                           -Aquele negócio doido de falar uma coisa que-
                                                       rendo dizer outra né? Mas vô você não respon-
                                                       deu minha pergunta: deu ou não pérolas pros seus
                                                       porcos?
                                                            -Você não acabou de dizer que sabe o que é um
                                                       ditado popular, uma metáfora? Então “dar pérolas
                                                       aos porcos” quer dizer que não adianta dar pra uma
                                                       pessoa, alguma coisa da qual ela não precisa, ou
  A louca percebe-se tão vivida,                       que não conhece o valor. Os porcos são bastante
                                                       gulosos, comem de tudo que encontram, por isso
  Lamenta a falta de força e reclama                   engordam tão rápido. Pérolas são joias que agra-
  Já não aguenta o peso pra empurrar na subida,        dam muito as mulheres, os porcos até podem en-
                                                       golir, mas isso não vai fazer diferença nenhuma.
  Nem segurar a carga, pra na descida                  Elas serão eliminadas junto com as fezes e vão se
  Evitar que escorregue e caia na lama!                misturar naquela lama toda.
                                                            -Eca!!! Que nojo!! .....Vô, se as pérolas são
                                                       joias que podem até entrar na barriga do porco,
                 Por Lariel Frota                      fazem uma viagem grande lá dentro e depois saem
                                                       junto com o coco inteirinhas, elas continuam sendo
                                                       valiosas, ou se transformam em coco também?
      -O dia hoje será bem divertido hein? Acho da
hora vocês se juntarem pra uma boa comilan-                -É disso que to falando. Como elas não se
ça. Igual     no nosso condomínio, não precisa de      transformam em alimento, são eliminadas exata-
muito motivo pra uma churrascada.                      mente como foram engolidas, ou seja, se eram pé-
                                                       rolas verdadeiras, continuam tendo o valor que as
     -No nosso caso o motivo principal é um tra-
                                                       pérolas verdadeira têm!
balho importante, depois a gente aproveita para
colocar a conversa em dia, e saborear as coisas bo-        -Só que muuuuuuitas sujas e fedorentas né?
as que as mulheres preparam no fogão a lenha!              -Mas o valor delas não mudou concorda? É só
     -Já sei vão    vacinar os porquinhos do tio       lavar bem direitinho e pronto.
Roberto né?                                                -Hum...entendi....mas se ninguém nunca achar
      -Oito leitoas deram cria, e ele está com uma     as pérolas que os porcos por acaso engoliram, e de-
porção de leitõezinhos pra vacinar, vamos dar uma      pois cag…ops, desculpe ai, eliminaram no meio
força. Daí a gente fica sabendo das novidades, as      daquela sujeira toda do chiqueiro….
mulheres trocam receitas e a criançada brinca, na-        -Elas continuarão sendo pérolas valiosas, escon-
quela correria danada de um lado pro outro.            didas, camufladas, enterradas, mas ainda assim se-
      -Todo mundo se dá bem no final né? Vô você       rão para sempre, pérolas valiosas.
já alimentou porcos?                                      -Vô, nossa que vento forte!.        Levantou um
      -Claro Guto, muitas vezes. Hoje já não crio      montão de folha seca, viu que legal, aquela ali pare-
porcos, mas não é pra me gabar não, a minha cria-      ce uma pipa voando bem alto, ufa!!!       Está tudo
ção era conhecida como a mais bem cuidada da re-       voando iiuuuuuuuuuuuuu!!!!
gião.                                                     -É mesmo tempo de bater essas ventanias. Fe-
    -Então você já deu pérolas pros seus porcos        cha os olhos até o vento passar. Tem muito cisco
comerem?                                               voando, se um deles entra no olho arde que é uma
                                                       barbaridade.
    -Pérolas aos porcos?
                                                         -Ainda bem que passou rápido! Olha vô fez até
     -Sim vô.. Escutei a mamãe falando pro papai
                                                       nuvem de pó bem fininho, será que essa poeira toda
que não adiantava ele falar daquele jeito com por-
                                                       pode chegar lá no meio daquelas nuvens branqui-
teiro do prédio, que é o mesmo que dar péro-
                                                       nhas???
las pros porcos.
                                                          -Isso é difícil de saber você não acha?
    -Ah, isso é um ditado popular, uma metáfora.

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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

   -Seria bem legal heim? Já pensou, um punhado de terra fininha subir, subir bem alto e che-
gar nas estrelas?
 -Mesmo chegando lá,     continuaria sendo apenas uma nuvem de pó, não virariam estrelas.
 -Igual as pérolas no meio do coco dos porcos né?
 -Como assim?
  -Ora vô preste atenção: se a pérola continua sendo pérola, não perde seu valor mesmo enterrada na su-
jeira, o pó de terra não ganha valor, nem brilho, mesmo que chegue bem alto!!! Sabe mais o que acabei
de descobrir?
 -Não, mas estou bem curioso pra saber.
  -Acho que a mamãe falou errado sobre o tal ditado popular.Se as palavras que meu pai falou pro por-
teiro eram tão valiosas como as pérolas, ficarão enterradas bem no fundão da cabeça dele, escondi-
dinhas por muito tempo. Quem sabe um dia fuçando a caixa de pensamentos ele não desenterra e final-
mente entende o valor delas né????




  RECEITA DE BALA DE GOMA (JUJUBAS)

  Ingredientes:
  1 colher (sobremesa) de essência do mesmo sabor da gelatina
  3 envelopes de gelatina sem sabor (35 gramas)
  2 copos de água
  1 caixa de gelatina com sabor (85 gramas)
  1 kg de açúcar cristal


  Modo de Fazer:
  Dissolva a gelatina sem sabor em 2 copos de água, adicione a gelatina com sabor e mexa até dis-
  solver. Leve ao fogo por 1 min., não esquecendo de sempre estar mexendo. Após, adicione o
  açúcar e mexa para dissolver bem. Coloque a essência e mexa até ferver.
  Despeje a calda em um prato untado com óleo. Deixe descansar por 24 horas fora da geladeira.
  Corte as balas em cubinhos e passe no açúcar cristal. Guarde as balas por 3 dias antes de consu-
  mir, esse período é necessário para que a bala adquira mais consistência.


  Fonte: hƩp://www.mundodasdicas.net/



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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

Minha Avó Passarinho                                     poucos foi perdendo a lucidez, variando, o que fi-
                                                         nalmente me fez entender a poesia que há nas avós.

                                                         Seu enterro foi uma ocasião de reencontros. A famí-
Por Marcelo Benini
                                                         lia reunida e os tantos conhecidos formavam uma
                                                         pequena multidão exultante na dor e na alegria. Do
O que há de mais remoto no mundo são as avós.            lado de dentro da sala onde se dava o velório, havia
Antes delas, pairam apenas sombra, bruma e esque-        contrição, choro e corações cheios de saudade. Do
cimento. Quando estiveres dirigindo à noite, em          lado de fora, abraços, casos relembrados e até al-
alguma estrada vicinal a caminho de casa, e se, por      guns risos ousados demais para a ocasião. Tenho
meio minuto, apagares completamente os faróis do         certeza que naquele dia minha avó soube compreen-
carro, entrarás em contato com teus antepassados         der as contradições humanas.
que espreitam para tomar posse de ti. Se vires um        Somente quando fecharam o caixão é que nos de-
cavalo baio atravessando a estrada, sabereis que é       mos conta de que a perderíamos para sempre. Que
uma sombra vinda do mundo que antecede as avós.          nunca mais tomaríamos café com bolo na mesa de
As avós são como um Tratado de Tordesilhas entre         sua cozinha. Que nunca mais seus filhos se reuniri-
vivos e mortos: à esquerda delas é melhor não pores      am na varanda para contar as histórias da infância.
os pés para não imolar o descanso dos esquecidos.        O cortejo subiu em silêncio as ruelas íngremes do
As avós, entretanto, tornam o mundo tangível. De-        cemitério de Cataguases. Passamos pela sepultura
pois delas é que começa a grande aventura de ser         onde meu avô descansava e, alguns metros além,
menino.                                                  paramos para o definitivo adeus. Vi o choro nos
Tinha um pouco de medo de minha avó e repugna-           olhos de alguns tios e a perplexidade nos olhos de
vam-me a pele encarquilhada, a voz rascante e a          alguns primos que, como eu, eram enfim apresenta-
tosse provocada pelo excesso de cigarros. Criança        dos à morte.
tem, entre tantas maldades, essa de não compreen-        Quando o caixão desceu, houve grande tristeza.
der e amar os velhos. Mas um dia eles se vão e aí        Eram os últimos instantes do dia e o sol já se ia por
começam os arrependimentos. Eu me senti culpado          de trás do morro. Em frente à cova havia um peque-
por desejar que ela não aparecesse nunca enquanto        no arbusto iluminado pelos raios do fim da tarde.
eu me regalava em sua cadeira de balanço. Também         Inesperadamente, um passarinho pousou no arbusto,
me arrependi de tantas vezes ter jogado futebol per-     virou o pescocinho e cantou com tanta doçura que
to dos seus vasos de gerânio. Sei que ela nunca me       comoveu a todos. Cantou breve e voou como fazem
perdoou por isso e pelas marcas de bola deixadas         sempre os passarinhos. Percebi então que minha
nos muros brancos da casa, que, confesso, me de-         avó havia partido.
ram enorme prazer.

Minha avó morreu de enfisema pulmonar. Antes,
porém, definhou vários anos sobre a cama. Aos


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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

   HISTÓRIA DE UM AMOR E UM NOME



           Por Norália de Mello Castro



Nossa Infância é o tema proposto para o Varal
do Brasil de setembro 2012. Tema difícil para
mim, que posso dividir em duas histórias distin-
tas:

1ª. Filha de um espírita convicto que brigou com
seu irmão cônego católico, o inventor do nome
Norália, por ter roubado sua filha para batizar,          (História escrita para o grupo Love Quilts, para ex-
sem autorização dos pais, o que resultou num                          plicar o significado do nome.)
romance escrito pelo pai, de uma briga ferrenha
entre os irmãos, através de inúmeras cartas es-
critas, com filosofias diferentes. Norália só vol-                 Hoje vou contar uma história de amor em

tou a ver o tio padrinho aos 8 anos de idade. Esta        tópicos, para melhor compreensão, e, também, con-

briga aguçou na menina e na jovem toda uma                trolar a emoção intensa dessa história em mim.

procura da VERDADE, que até hoje procura
mais e mais. Tornou-se a eclética que é, nem ca-
                                                          SÉCULO XX:
tólica, nem espírita.
                                                          DÉCADA DE VINTE
Do pai ficou marcado o seu conceito de Liberda-
                                                                   No final da década de 20, a família estava
de, principalmente a religiosa. Ele pregava que
                                                          encantada por conhecer a bela esposa de um de seus
religião é de fórum íntimo de cada ser humano, e
                                                          rapazes: jovem, bonita, simpática, muito comunica-
que cada um escolhe a Verdade que melhor lhe
                                                          tiva, essa jovem conquistou totalmente a família do
responder.
                                                          marido. E sua primeira viagem ao Sul de Minas foi
                                                          total sucesso.
2º. A outra história marcante de sua infância, foi
                                                                   Quando souberam que a bela jovem tinha
a de seu próprio nome, escrita para o Love Qui-
                                                          uma irmã, começaram a brincar em casar a irmã
lts, grupo de bordadeiras ao qual pertence, e que
                                                          com mais outro rapaz da família.
               hoje apresenta aqui.
                                                                   Um dos rapazes gostava de brincar com jun-
                                                          ção de nomes e fazer monogramas. Por sinal, ele
                                                          desenhava monogramas belíssimos! Um dia, entrou
                                                          cozinha adentro, eufórico, gritando:


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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

          A bela jovem Francelina era minha tia;         DÉCADA DE 50
Magnólia, minha mãe; Noraldino, meu pai. O espo-
so de minha tia era primo de meu pai.
                                                                  Norália, jovem muito ruiva e muito branca,
          Quando “fizeram” o casamento de meu pai,       meio tímida, mas alegre, tem um choque grande
lá no Sul de Minas, ele era ainda um jovem adoles-       com o nome que recebera. Este nome e a sua ima-
cente e minha mãe uma garota de seus 12 anos de          gem jovem muito ruiva, faziam-na ser vista como
idade, morando em Capela Nova, hoje Betim, parte         estrangeira, uma gringa legítima dos países do Nor-
da Região Metropolitana de Belo Horizonte.               te, com um nome diferenciado. Era comum lhe per-
          E a brincadeira parou por aí... Mas, hoje,     guntarem de que país era. Ela levava na brincadeira
pensando nesse episódio, imagino que tais nomes          e respondia:
tenham mexido na sensibilidade do adolescente en-                 - Sou uma gringa legítima!
volvido, até mesmo inspirado – e muito! – suas fan-
                                                                  Era comum        também   lhe perguntarem
tasias amorosas.
                                                         “Como?”, ao dizer ao interessado como se chama-
                                                         va.
DÉCADA DE TRINTA                                                  Ao telefone, então, era um desastre: e lá vi-
                                                         nha o “Como?”

          Noraldino, meu pai, um lindo jovem, vem                 Por isso, na maioria das vezes, ela respon-
para a Capital, para continuar seus estudos e fazer      dia:
faculdade. Vai à casa do Primo, da Francelina, e lá               - Nora, apenas Nora.
conhece a “famosa” irmã, Magnólia, uma linda jo-
                                                                  E o assunto morria por ai. Porém, Norália
vem loira de olhos azuis, no auge de seus 17 ani-
                                                         gostava muito de ter o nome Norália: de tão fácil
nhos. Meu pai, ainda estudante de Direito, traba-
                                                         grafia, mas de pronúncia que confundia.
lhando como bancário, perdidamente apaixonado,
começa a namorar Magnólia e se casam um ano                       Norália veio a ter uma grande decepção
depois.                                                  mesmo quando aquele lindo jovem moreno que na-
                                                         morava, por quem era apaixonada, chegou a ela um
          Esperando seu primeiro filho, Noraldino
                                                         dia e disse:
conta para Magnólia a invenção do nome da filha
que ele gostaria de ter e ambos sonham com a vinda                - Encontrei o seu nome no livro O Egípcio.
da Norália. Magnólia, até então, não sabia dessa         Ele está lá inteirinho.
história. Mas, quem chegou... foi um menino! Não                  - É mesmo? – respondeu ela – Vou procu-
se decepcionaram com a chegada do menino, pois           rar, vou ler o livro.
planejaram logo ter outro filho, para vir a menina.
                                                                  E o apaixonado sorriu. Ele lhe chamava de
E Norália chegou no segundo parto de Magnólia,
                                                         Lia, abreviatura de seu nome que é “nora” mais
que acabou tendo 6 filhos ao todo.
                                                         “lia”. Era Lia pra cá e pra lá, nos passeios, nos

                                          www.varaldobrasil.com                                              32
Varal do Brasil setembro/outubro 2012

nos bailes, nos cinemas... e como Norália era apai-       deixava as coisas acontecerem e pronto.
xonada! Adquiriu imediatamente o livro e – sôfrega
– devorou suas mais de 500 páginas. Entretanto, a
personagem com o seu nome não aparecia! Quase
no final do livro, de repente, Norália parou, sua res-
piração sumiu, ela ficou em estado de choque.

         - Então é isso?! Não sou personagem?! Sou                  Noraldino adorava contar essa história do
um mundo de estrume?                                      nome da filha: ele amara Magnólia antes mesmo de
         Trêmula, fria, respiração desenfreada, ela       conhecê-la; dizia que tinha de casar-se com ela para
sentiu o ódio entrando dentro dela, com uma força         que Norália existisse.
extraordinária, da raiva à mais profunda indigna-                   - Mas, gente, – dizia Noraldino, soltando
ção. Ela, pela primeira vez, não foi ao encontro do       gargalhadas – o nome da filha já existia, mas ela
jovem moreno: odiava-o ao extremo. No livro, nu-          nasceu 4 anos depois que casei com a minha Mag-
ma passagem, um personagem “ficara atolado até            nólia! – e gargalhava – Sim, 4 anos depois! A mi-
as lias”, num bom Português quer dizer: “ficara ato-      nha Magnólia era pura! – e gargalhava.
lado até as fezes”.
                                                                    Ele adorava contar sua história, seu amor
         E Norália mandou o jovem moreno à merda.         por sua esposa e o nascimento precoce de Norália.
Terminou aí essa história de amor juvenil.
                                                                    Noraldino é nome de origem árabe; e Mag-
                                                          nólia, de origem romana. O nome de origem roma-
                                                          na na família é compreensível, pois temos ascen-
                                                          dência italiana; contudo, o nome de origem árabe,
DÉCADA DE 60
                                                          nunca entendi, pois não temos nenhum ancestral
                                                          árabe. Ou será que temos e não sei? O nome de
         Desde o episódio do livro, Norália começou       meu pai veio por causa de um famoso da família,
a pesquisar e observar seu nome tão diferente. Não        que foi senador e governador interino de Minas, na
conheceu ninguém com o mesmo nome; nem em                 década de 40, mas que, acima de tudo, foi um gran-
listas do Tribunal Eleitoral, encontrou alguma No-        de educador, que fez as bases do Ensino que temos
rália.   As   pessoas   continuavam     a    perguntar    hoje. Noraldino tinha muito orgulho de seu nome
“COMO?” quando ouviam o seu nome. Amigos                  igual ao do primo famoso. Tinha orgulho mesmo.
tinham mania de pôr apelidos nela: Lia, Nora,
                                                                    Mas, ao seu nome, o mais próximo que No-
Norô, Nono, Lalaia, Nô; e assim foi que chegou a          rália encontrou, foi numa revista argentina lançada
contabilizar 21 apelidos! Porém, constatou também
                                                          nessa década em Buenos Aires: Norali, revista fe-
que os apelidos não colavam. Normalmente quem o
                                                          minina. Penso que o pai Noraldino queria que a
punha é que a chamava assim. Teve até gente que           filha ficasse famosa, assim como o primo famoso:
achou que seu nome fosse pseudônimo. Norália
                                                          que fardo ela carregava!

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Varal do Brasil setembro/outubro 2012


DÉCADA DE 90                                              tra como substantivo comum (não entendeu muito o
                                                          quê isso quer dizer e nem se interessou; (pensou:
                                                          “Talvez fosse igual às lias...”) e uma escritora na
                                                          Turquia, que parece ser cristã. Ainda irá fazer mais
                                                          pesquisa, principalmente da Norália Turca...
          Finalmente, Norália encontrou uma outra                   Fato é que este inesperado e único encontro
Norália, dentista, no interior de Minas. Ao saber         com outras Norálias fez levantar esta história: uma
dessa, identificou rapidamente a mãe dela, que co-        história de amor único de meus pais, que viveram
nhecera quando ainda criança e – por coincidência         54 anos juntos até a morte dele. Foram felizes, vivi-
– casou-se com outro Noraldino. Essa mãe conhe-           am em harmonia; nunca vi meus pais brigarem,
cia a história do nome Norália e com o esposo cha-        nunca brigavam na frente dos filhos. Meu pai foi
mado Noraldino foi fácil para ela dar este nome           um eterno apaixonado por Magnólia, totalmente
para a segunda filha. Já o nome Norália, não mais         dedicado à esposa e filhos; a família vinha sempre
pesava a ela: a vida correu, outros amores vieram e       em primeiro lugar para qualquer tomada de decisão
ela passou a achar tudo natural com o seu nome.           sua. E Magnólia foi uma companheira e tanto, total-
          Na Internet, encontrou outras Norálias, no-     mente vivendo para a família e meu pai.
me usado, embora não comum, em países latinos e
na América Central; encontrou uma menininha em
                                                                    E, eu, Norália, filha de Noraldino e Magnó-
Samoa e uma empresa na Noruega. Mas, Norália
                                                          lia, ao escrever tudo isto, percebo, mais uma vez,
continuava quase que única: em nenhum grupo so-
                                                          como fui amada por meus pais: deram-me um lindo
cial em que esteve, encontrou igual.
                                                          e diferente nome para marcarem – e muito! – sua
                                                          história de amor, que começou antes deles se co-
                                                          nhecerem.

SÉCULO XXI

Ano de 2009



          Ao fazer o FLICKR na Internet, Norália
queria que saísse o seu nome: flickr Norália e, pela
primeira vez, viu seu nome ser rejeitado, porque já
existia outro flicker Norália. Pela primeira vez, en-
controu uma barreira por existir outra Norália. Sen-
tiu alegria e curiosidade; esta última levou-a a pes-
quisar.

          Encontrou três Norálias: uma argentina, ou-

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                                                        sempre soube dividir o pouco que meu pai conse-
Confiança no meu pai                                    guia trazer para dentro de casa. E, assim, a gente
                                                        vivia, viveu e sobreviveu a todas as intempéries,
Por: Valdeck Almeida de Jesus                           mesmo as mais difíceis.
                                                        A união nos manteve um grupo coeso, marchando
                                                        junto, com o mesmo objetivo: sobreviver junto. Ho-
Meu pai era analfabeto e por isso trabalhava na ro-     je, cada um a seu modo, tenta levar adiante as lições
ça, derrubando madeira, carregando peso e servindo      daqueles tempos difíceis e quase insuportáveis. Atu-
de burro de carga para fazendeiros. A lembrança         almente eu patrocino pessoas que passam por situa-
que tenho dele era toda tarde chegando do trabalho,     ções semelhantes as que passei, e incentivo seres
cansado, com uma roupa surrada e suja de terra. Eu      humanos a se tornarem melhores, a se estabelece-
e minha irmã Valquíria ficávamos sentados na porta      rem no mundo, graças ao incentivo à leitura e à es-
esperando por ele, o Velho João, como chamáva-          crita.
mos o nosso saudoso pai.
                                                        Muitas vezes, apoio de outras formas, que não vem
De longe avistávamos e corríamos para encontrá-lo       ao caso relatar aqui. Mas a vida é isso, uma corrente
antes mesmo de ele chegar em casa. Nos bolsos ele       em que cada um tem uma importância e um valor.
sempre trazia balas, compradas na venda de "Seu         Se um fraqueja, o dever dos demais é se unir àquele
Júlio", que ficava no caminho para casa. Era uma        menos resistente para que ele prossiga e faça a cor-
festa. Eu e minha irmã ficávamos muito alegres          rente não se quebrar... Afinal, se um se perde o res-
com aquele presente de todos os dias.                   tante pode sucumbir junto. Então, não resta alterna-
Uma vez eu fiz alguma travessura da qual não me         tiva senão ser um corpo só, junto com todos os ou-
recordo e meu pai puxou o cinto para me dar uma         tros corpos... e seguir, sempre, num único objetivo,
surra. Eu estava na porta da frente, que tinha uma      qual seja o do bem comum.
escada de dois degraus para descer. De tanto medo       Em tempos de egoísmo e falta de solidariedade, pa-
de apanhar eu me joguei escada abaixo, caí e ralei      rece utópico se pensar em coletividade. Mas não
toda a barriga, que ficou sangrando. Meu pai disse      posso deixar o sonho dos meus pais se diluírem na
"vem, que eu não vou te bater mais". Confiei no que     falta de crença das pessoas, nem posso desanimar
ele disse e fui até ele, que me pegou e fez carinhos.   diante de mentiras e falsidades. Meu objetivo na
Esta foi a lição que aprendi, a confiar no meu pai.     vida é muito maior do que curtir momentos e ter
Quando ele dizia uma coisa, ele cumpria.                prazer fugaz. Penso para a eternidade e planejo mi-
Nossa vida foi muito dura, difícil, de falta de comi-   nha vida pensando num horizonte cada vez mais
da e de tudo. Mas aprendemos que a vitória não          real. O horizonte da vida eterna, do amor e da paz.
vem fácil, sem uma luta, sem um planejamento.
Meu pai era um lutador e esta garra a gente apren-
deu logo cedo. Em tempo de chuva, nossa casa alu-       MEU PAI
gada se enchia de água e éramos obrigados a correr      Meu pai, João Alexandre de Jesus, era um trabalha-
para nos abrigar na casa de vizinhos.                   dor braçal. Pouco eu sei dele, somente que nasceu
A solidariedade entre pessoas que necessitam até do     em Santo Antônio de Jesus, cidade localizada no
básico para sobreviver sempre é mais forte. Mas         recôncavo baiano. Dali ele partiu para Jequié, co-
aprendemos que não é somente nos momentos difí-         nhecida como Cidade Sol, onde conheceu minha
ceis que devemos ser companheiros e solidários. No      mãe Paula Almeida de Jesus e se casou. Antes, po-
dia a dia, até nas horas alegres, devemos estar jun-    rém, ele já tinha esposado outra mulher, com a qual
tos, somando, compartilhando, dividindo, oportuni-      teve seis filhos.
zando a cada irmão ou amigo a vencer, ser vitorio-      Um homem firme, rude, mas ao mesmo tempo hu-
so.                                                     mano e carinhoso. Muitas saudades do meu velho...
Viver em comunidade exige dedicação e planeja-          O que me consola é que as lições que ele me passou
mento, sempre. Assim, cada um somando o pouco           jamais serão esquecidas. Ele foi um exemplo de ho-
que tem, vai construindo, tecendo uma sociedade         nestidade, perseverança e persistência. Apesar de
mais justa e mais igualitária, menos preconceituosa     não ter condições de estudar, incentivou quando eu
e menos segregadora. A união eu aprendi dentro de       fui para a escola. O sonho dele e de minha mãe,
casa, quando a pouca comida era dividida por todos,     Paula Almeida de Jesus, também falecida, era que
para que nenhum ficasse com fome... Minha mãe           os filhos trilhassem um caminho menos árduo na
                                                        vida.
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E, graças ao esforço deles, todos os oito filhos conseguiram se dar bem e conquistar um lugar ao sol.


Hoje eu moro em Salvador, minha irmã Ivonete mora em Santo Amaro da Purificação, Valquíria e Vivaldo
moram em Jequié, Valdecy mora em Vitória da Conquista e Valdir, Valmir e Vitório moram em São Paulo.
Todos bem de vida, graças aos estudos. É uma vitória que poucas famílias alcançam. Mas, graças a Deus,
nossa família se orgulha de sua origem e não esquece o passado, exemplo para nosso futuro e de nossos
filhos. Assim, trilhando o caminho indicado pelos meus pais, sigo em frente e incentivo a tantos quantos eu
encontro pela vida a estudar e a lutar por seus sonhos.




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          Infância

 Por Sarah Venturim Lasso


      Infância tem cheiro
       De terra molhada
        Pé de moleque
       Pipoca quentinha
        Feita pela vovó

      Infância tem gosto
    De brigadeiro de panela
           De chuva
       Bolinho de chuva
         Em dia cinza
      Correndo frenético
       Com pé no chão

       Infância tem cor
  Que chega a pintar a língua
      Com pirulito azul
       Tem cor de fruta
  Colhida de cima da árvore
Ouvindo mamãe mandar descer!

     Infância tem tempo
          De correr
           Dormir
       E fazer o dever
    Tem tempo de acabar...
            Poxa!




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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

O PÉ DE GOIABA                                            quilamente! Achava ali mais seguro e em paz.
                                                          Mas havia um porém: papai já tinha me avisado
                                                          que o couro ia cantar se por acaso eu o desobedece e
Por Fani                                                  subisse em cima do pé de goiaba ,mesmo assim
                                                          continuava às escondidas subindo e descendo dele;
                                                          esse pé de goiaba me ajudou muito obtive tanto su-
Naquela época vivíamos muito bem, papai tinha seu         cessos nas provas da escola, eu nunca repeti de ano
emprego renumerado e bom, casado com uma es-              sempre estudei e levei a sério os estudos, com sete
posa dedicada, trabalhadeira, bastante esforçada que      anos já desenhava e pintava cada coisas incríveis e
essa pessoa que estou falando é minha senhora mãe         bordava também, até ensinava papai suas tarefas de
que sempre na lida estava ali a lavar roupas para         escola, naquela época era o Mobral que ele fazia, eu
hotéis e ainda cuidava de sua pensão que na lógica        preenchia seus fichários de trabalho nome por nome
comiam mais de vinte pessoas por almoço e no jan-         e não errava nenhum, ele levava para consultar com
tar.                                                      sua professora e ela dizia: Sr. Orozino está de para-
Minha vida era cheia de compromissos em casa que          béns sua filha tão pequena mas...inteligente muito
papai colocava afazeres aplicados diariamente, éra-       inteligente! Voltando ao assunto do pé de goiaba
mos cinco irmãos, mais cinco primos e cinco que           certo dia meu pai chegou de viagem, porque ele era
mamãe cuidava e moravam conosco, a escola do              funcionário federal e viajava muito, era trabalhador
meu pai era dura e de uma boa educação, a sua voz         da máquina de trem da REFER- a famosa ESTRA-
nos trazia respeito em casa, tudo era feito com con-      DA DE FERRO NOROESTE DO BRASIL.
sultas a ele, e nada se fazia de qualquer jeito eu ti-    Esse senhor moreno, meu pai Orozino, não parava!
nha naquela época seis anos de idade, mas enten-          Viajava, viajava... era o ganha pão dele então tinha
dia perfeitamente bem o que ele determinava para          muita responsabilidade. Nunca vi ele faltar ao traba-
todos fazerem. Ah! Ah! !Ah! Que problemas arru-           lho e em casa era fiel, sempre nos deu o melhor e
mava aquele que não cumpria as regras das obriga-         nunca deixou faltar nada absolutamente nada .Veja
ções estipuladas por papai, gente! Tem um ditado          bem, não há nada oculto que não seja revelado uma
que diz: se correr o bicho pega e se ficar o bicho ai!    frase certa, e dando continuidade naquele assunto
ai! ai!. O castigo era severo! O Sr. Orozino não ali-     sobre o pé de goiaba, foi feio... desobedeci a auto-
sava nem um pouquinho, olha! Se bem que aquela            ridade de meu pai e minha mãe subindo como sem-
época era melhor do que hoje para educar filhos,          pre no pé de goiaba. Mas... não foi fácil não. Um
somos gratos por ter pais como os nossos, todos           dia ele chegou adiantado dois dias antes e me pegou
gostam da gente pela educação que recebemos dos           bem lá no alto das galhas do famoso pé de goiaba.
nossos pais. E, por falar nisso eu tinha um costume       Chegando dentro de casa ele perguntou a minha
de me esconder em cima das galhas de um pé de             mãe onde eu estava, e ela disse: está lá nos fundos
goiaba que tinha bem lá no fundo do nosso quintal.        do quintal, a minha dedicação era tanta em estudar
Sabe o que eu ia fazer lá? Adivinha? Estudar tran-        que não o vi quando ele chegou, afinal era um local
                                                          secreto e proibido por ele. Quando ouvi a sua voz o
                                                          chão estremeceu e as galhas balançavam de tanto
                                                          que era o meu medo, não deu outra aconteceu aqui-
                                                          lo chamado agora você vai apanhar, gente foi um
                                                          couro de rebenque que a fumaça levantava, nossa
                                                          fiquei muitos dias desapontada e com vergonha,
                                                          apesar de ser tão pequena! Mas pense: ele tinha fa-
                                                          lado, tinha avisado, quem perdeu foi eu pela a deso-
                                                          bediência a ele, porque era o meu pai é quem estava

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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

me educando ,tenho certeza que se ele desse mole
hoje eu não seria quem eu sou. O meu papai já é
falecido, só que nunca vou me esquecer dele. Pos-
so garantir que tive uma infância bonita, cheia de
vida, caprichos e bem estar, roupas lindas eu tive,
calçados bons, alimentação nem se fala só de pri-
meira qualidade, meu pai era cauteloso com a gen-
te, cuidava bem mesmo, entre os cinco eu sou a
última-famosa caçula da casa. Posso dizer que a
nossa infância foi maravilhosa, tudo de bom E tem
mais, gosto muito de crianças e no que eu puder
ajudá-la na infância me esforço a conversar e a dar
atenção para elas, o diálogo trás uma convivência
bonita e gostosa. Presta atenção quando uma crian-
ça se aproxima de alguém ela sempre dá um sorri-
so, não tem malícia de nada, dá uma bala para ela,
ela pega; um doce ou um chocolate é motivo de
alegria para toda criança.
Com o Senhor meu pai, nos reuníamos os cinco
filhos e a nossa mãe para contar histórias fantásti-
cas, nossa que legal era aquele tempo, tempo que
não voltam mais! Tinha umas piadas que ele conta-
va a gente quase morria de tanto rir e assim a nossa
amizade era sadia, não havia confusão dentro de
casa graças a Deus . Creio que uma infância de-
senfreada deixa marcas na vida da criança, é bem
por isso que tratar bem, cuidar bem, principalmente
na educação em todas as áreas da vida na infância
deve ser tratada com carinho, amor e dedicação e
dar se o respeito isso é muito bom com certeza só
faz bem aos pais e aos filhos,
Deixo aqui um recadinho: quando papai e mamãe
batem ou corrigem é por bem da criança desde que
seja necessário isso, jamais ficar magoados ou tris-
tes porque apanhou, apanhou porque mereceu, pai
e mãe são direção de Deus na vida de cada criança,
seja na infância, na adolescência, na juventude se         INFORMAÇÕES SOBRE OS LIVROS
bem pode dizer para o resto da vida somos ligados
                                                           DE JACQUELINE AISENMAN:
aos nossos pais, posso dizer mais um pouquinho
hoje sou casada, mãe de três filhos, avó de quatros        No exterior: coracional@gmail.com
netos, e tenho a minha mamãe que cuido e muito
                                                           No Brasil:
bem, ainda sou criança de vez em quando brinco
com ursinhos, jogo bola com os meus cachorros, e           atendimento@designeditora.com.br
eu e meu esposo brincamos de pequi é gostoso ser
infantil quase que um pouco

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Varal do Brasil setembro/outubro 2012




MUITO CEDO

Por Marcos Torres

São seis horas da manhã.
Uma banana amassada com uma xícara de café,
enquanto mamãe dorme no silêncio do quarto.
Sair sem barulho
em meio ao silêncio de uma rua deserta.
A jornada é longa,
o ronco da fome aumenta,
o caminho para o Saber tem um preço.
Bate a campainha da escola
no mesmo compasso do ronco da fome.
O Conhecimento tem um preço, não é barato!
Os dias vão passando junto com a mesma jornada.
A peleja é dura e o sol é quente. É duro o Conhecer!
Brigas, interesses, discussão, inveja, traição, amizade...
Erudição é um valor que não tem moeda.
É muito cedo para um homem que nada sabe...
O menino vai para a escola pensando...
Em busca da solidão.
O Conhecimento é um ato solitário,
assim como acordar às seis da manhã,
em busca de um corpo sem vida e um Ser abstrato.
O intelecto é um alimento cuja fome continua.
A sabedoria é um manancial onde a sede não acaba.
Essa criança busca nas palavras
Um “amor platônico” num lugar inatingível.
Consciência traz poder, e o poder é para quem tem fome.
O menino cresceu e se tornou perigoso.
Instrução é uma arma perigosa.
As palavras se agruparam
para fazer de uma criança um Ser faminto.
Fim de aula, volta pra casa.


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NOSSA INFÂNCIA                                          ga, era mais água que fibras.

                                                                Além do povoado, as casas ficavam
Por Sonia Nogueira                                      dispersas, a maioria simples, outras poucas
                                                        de melhor estrutura. Ia com a avó para a

       Não queria se lembrar, evitava falar             casa da tia Maria, casada com marido de

de perdas, perdi a mãe antes de completar               pouca audição, grosseiro, gritava ao chamá-

dois anos. Ficou na lembrança um só ato: a              la.

mamãe está dormindo.                                            A tia Maria oferecia leite com sal.

       Dormindo...    Acomodada,      pálida,           Estranho, só tomava com açúcar! Fazia ca-

inerte naquele apertado? E foi-se sem beijo,            reta e recusava. Melhor o feijão que parecia

abraço... A dor nunca passou...                         papa de tão cozido, gostoso que só comen-
                                                        do, com rapadura ou melancia ou carne as-
       Meu pai foi mãe, amigo de todas as
                                                                       sada na brasa.
horas. Do cuidado à noite pa-
ra forrar com aponta do lençol                                         Brincadeiras de roda no meio

o bumbum frio de urina, do                                             da rua, na areia, de esconder,

leite mugido bem cedo, ainda                                           até cansar e suar. O banho na

na rede e mostrava o bigode                                            calçada, o pai jogava um bal-

de espuma, para acalmar o                                              de de água, sem sabonete, en-

choro pela insatisfação ao me                                          rolava com toalha, aquecia o

acordar, mas terminava em risos a agrados.              corpo no colo, em seguida deitava na rede.

Até voltar novamente a rede, dormir o tanto             O sono chegava de súbito sem pensar, era

que o sono persistisse.                                 só dormir.

       O rio detrás da casa correndo em                         As festas de santos: São Francisco,

constante desafio, nas enchentes, início do             em outubro; Nossa senhora da Conceição,

ano. Água barrenta, com galhos, molambos,               em dezembro, no Giqui; Nossa Senhora

madeira, destroços, quem sabe cobras ema-               Santana, em Jaguaruana, Nossa Senhora da

ranhadas, arrastados pela correnteza. Tudo              Boa Viagem, em Itaiçaba; São Sebastião

isso não causava temor, o nado pela manhã               em Aracati, com roupas e calçados novos,

ou à tardinha era sagrado, até o nariz ficar            muita gente de cidades e povoados vizi-

vermelho do assuar e olhos irritados pelo               nhos, sem esquecer as quermesses, fui rai-

excesso de banho.                                       nha certa vez e ganhei no partido verde.

       Melancia comida com as mãos, lá                          Saudade de tudo que a lembrança

no roçado, sentada no chão, com tanta li-               arquiva, mas a marca que permanece viva,

berdade e gostosura que o abdome ficava                 a mãe que o vazio nunca preencheu.

saliente de tão cheio, logo esvaziava a bexi-

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Bolinho de chuva (por Mercearia do Conde)

Fonte: hƩp://vilamulher.terra.com.br


Ingredientes:
3 xícaras (chá) de farinha de trigo
3 colheres (sopa) de açúcar
1 pitada de sal
1 colher (sopa) de fermento em pó
2 colheres (sopa) de leite
1 colher (sopa) de manteiga
3 ovos
1 colher de (sopa) de queijo parmesão ralado
Erva-doce a gosto
Óleo para fritar
Açúcar e canela em pó


Modo de preparo:
Misture a manteiga e o açúcar, acrescente os ovos um a um, ponha aos
poucos o trigo já peneirado com o fermento e misture. Acrescente o sal,
a erva-doce e o queijo ralado. Mexa mais um pouco. Frite em óleo quen-
te, pingando aos poucos com colher de chá. Abaixe o fogo, quando o
óleo estiver muito quente. Depois salpique os bolinhos já prontos com o
açúcar e canela.

Rendimento: 10 porções




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                   INFÂNCIA                             tecido, quem sabe, teve até que pagar pelo tecido,
                                                        pois manchas de sangue não saem com muita facili-
                                                        dade.
         Por Rita de Oliveira Medeiros
                                                              Esta dor, contudo, não deve ter sido tão forte
                                                        a ponto de me fazer desistir de bordar, porque eu
      De posse do meu novo brinquedinho, viajei         ainda repeti a façanha mais uma vez! Novamente, o
para um tempo distante, quando tinha algo em torno      mesmo grito! A mesma correria.
de 3 ou 4 anos de idade. Morávamos na “casa da                E ela não teve outra alternativa a não ser, me
dona Celina”, para onde fomos quando minha mãe          ensinar a bordar. Primeiro, o cordonê, depois os
morreu.                                                 bordados maiores. Durante algum tempo eu bordei.
      Minha nova mãe bordava à máquina, no mes-         Cheguei até mesmo a receber o elogio máximo de
mo quarto onde dormia com meu pai. Eu, dormia           uma virginiana perfeccionista:
no mesmo quarto com eles, porque a casa não tinha       - Olha só, Roldão! O cordonê dela é melhor do que
muitos quartos e éramos em oito pessoas. Ainda          o meu!
tenho lembrança da minha cama, pequena, ao lado
                                                              Contudo, minha alegria durou pouco. Embora
da deles, porém, transversalmente. No quarto, havia
                                                        adorasse bordar, ela quase não me permitia, seja
uma janela alta, minha mãe precisava subir na cama
                                                        porque precisava estar bordando o tempo todo,
para falar com a prima Maninha, que era sua vizi-
                                                        eram muitas encomendas, seja porque as linhas
nha, também bordadeira.
                                                        eram sempre muito caras, e mesmo que eu pedisse
      Como faziam os trabalhos juntas, numa da-         as sobras, ela nunca as dava, porque dizia que ia
quelas tardes, ela parou de bordar e foi na casa da     precisar!
prima e amiga, fazer algo que não sei o que era.
                                                              Mas, ainda acho que ela teve mesmo foi ciú-
Mais do que depressa eu pulei para a banqueta, lem-
                                                        mes! Do seu bordado, daquela arte tão preciosa, que
bro que era alta.... e comecei a bordar.
                                                        ela fazia tão bem. Como estava sempre junto com
                                                        ela, ouvia embevecida, as suas conversas com a pri-
                                                        ma, a Maninha, sobre como fazer, o que fazer,
                                                        quando fazer! Era um universo fascinante! Trans-
                                                        formar um pedaço de pano em algo tão bonito de se
                                                        ver! E os jogos de cama, em bordado Richillieu,
                                                        então? E os bichinhos, tão mimosos ficavam, nos
                                                        enxovais de bebê que elas faziam? Ninguém borda-
                                                        va como aquelas duas!
                                                        - Qués ver, Maria, fais assim, ó!
       Só que, para bordar, era necessário movimen-
tar o bastidor com as duas mãos e eu deixei o dedo
indicador no meio do bastidor, próximo demais da
agulha. Bordei alguns segundos e logo a agulha
traiçoeira entrou firme na unha do dedo indicador
direito
- Ô manhêêê.... deve ter sido um grito muito agudo!
       Engraçado, não lembro da dor no momento de
retirar a agulha do meu dedo. Pobre mãe! Chovia,
ela veio correndo. O sangue deve ter manchado o

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O tempo passando e eu, sempre curingando, per-                   Agora, semi aposentada, estou diante desta
guntando como fazer. Ficava ao seu lado, olhando           máquina de costura, tão novinha, me vendo nova-
prá ela bordar, via suas caretas, acompanhei sua vi-       mente naquela expectativa de poder fazer algo tão
são, acabando, pouco a pouco, naquele labor notur-         belo quanto os bordados que ela fazia. Talvez, seja
no, até 2 ou 3 horas da madrugada. Tudo tinha que          uma forma de reviver aqueles momentos de prazer,
ser sempre muito perfeito, nada mais ou menos.             de reencontrar-me com a mãe que tive, sem nunca
                                                           poder realmente ter!
      Havia também os serões que elas faziam.
Eram sempre antes da Festa de Santo Antônio dos
Anjos. Sim, a Opa vermelha. Tinha um emblema do
Santíssimo Sacramento, bordado em fios dourados.
Ficava lindo, o meu pai, vestido naquele traje: terno
marrom, sob a opa vermelha. E lá se ia ele, todo
faceiro e, aos meus olhos, lindo de morrer!
      Outro serão, era em 7 de setembro! Elas bor-
davam os bolsos dos uniformes do Colégio Ana
Gondin e, às vezes, do Jerônimo Coelho! Viravam
as noites bordando, na casa da Maninha. Eu ia junto
com eles. As vezes, ela e o pai voltavam para casa e
me deixavam dormindo naquela cama de casal, tão
grande! E eu, sempre tão medrosa de dormir sozi-
nha, nem ligava quando me acordava, no outro dia,
sem eles.
      Até que, passados alguns anos, quase chegan-
do ao final do Ginásio, eu devo ter falado algo co-
mo bordar com ela, ou bordar pra fora também! A
resposta foi taxativa:
-Não! Tu não vais bordar para fora coisa nenhuma,
que isto não é vida! Vais é trabalhar num escritório,
que é isto que tu vais gostar! Tu nasceste foi prá
isto!
     E assim, com esta sentença, adormecida foi,
minha vocação para bordadeira!
     Mas, no meu coração, permanecem aquelas
imagens, que soam quentinhas, de tão boas que são.
Nem a lembrança da agulha enfiada no meu indica-
dor me remete a alguma dor.... muito pelo contrário,
apenas me lembra de quão obstinada eu era, e isto
me faz bem.
      O seu exemplo de esmero, aquele primor de
bordado, o avesso mais do que perfeito que ela fazia
e ostentava com tanto orgulho, foram meu espelho,
para as coisas que fiz, para os trabalhos que realizei.
Nunca comprei bordados prontos, nenhum me agra-
dava, porque sempre ia direto ao avesso: terrível!
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Portão da garagem...                                       minha cuca! Mas eu safo fui aprendendo... Matar de
                                                           “efeito”, retrucar em pleito... Cantar a caçapa do
                                                           oeste, devolver a “sinuca” ao mestre, ouvindo “seu
Por José Carlos de Paiva Bruno                             peste”... Sem nunca apostar dinheiro, não é estilo
                                                           deste faceiro...
                                                           Tinha também o “totó”, aquele futebol de mão gi-
Hoje, de súbito, guardando meu jipe em garagem             rando, perto do armazém do seu Oto Periardi, cama-
principal de nosso lar, fui assaltado pelas quimeras       rada o velho, liberava pra mim em conta da mãe; de
da minha infância querida... “Que os anos não tra-         bolinhas de gude, pra búlicas rudes; linha 10 pra
zem mais Casimiro”...                                      pipa, até mesmo um grude... Fazia minhas pipas
Avançando meu bólido, eu miro, em frente ao ipê            extras caprichadas, aí vendia pra comprar figurinha,
gateway da lembrança...                                    torcendo pelas “carimbadas”, ganhando brindes em
                                                           completar, até no “bafo” ganhar...
Renovo d'alma esperança... Transportado do tempo
que avança e nunca se cansa...                             Mas, nem tudo são rosas, golpe do destino, vira
                                                           adulto menino... Já contei em outro conto, em
Ali, bem ali, quanta porrada de bola de capotão...
Lúdica em controle no ar... Eu, mais Pitaluga, Nié-        meus onze anos, meu pranto, em verdade mais meu
res, Tony, Fernando, Zé Alberto; às vezes Jair, Bi-        espanto... pois que olhei pro lado lado e todos cho-
ronha e Vadão... Só porradão, e o portão “gol” re-         ravam meu Pai, por outro também, então... não dá
sistiu a um time que nunca desistiu... Goleiro que         pra chorar neném, primogênito vai à luta,
defendesse, vinha pra linha artilheiro desse...            esta plena disputa... Trabalhando precoce, cresce e
Só admitia-se três toques no “ar”... Esta era a farra      coce, tosse... Lá pelos meus doze anos,
do sábado matinal...                                       talvez treze, atreve... Sortilégio breve, loira linda
Liberada por mamãe consoante o aproveitamento              leve... Eu também jogava voleibol, ela sempre lá
no colégio estadual... Onde concursado reinava, dis-       assistindo aos treinos e partidas; até que um dia
pensado do “admissão”, aquela transição de outrora,        abordou este pueril... Fim do treino, ela vem de
entre o primário e o ginásio...                            mansinho, “Oi”... “Você tem namorada?”... Ela be-
                                                           la, em debutar espera, dois dedos mais alta,
Bom, este nerd eclético, sacaneado nas festas de
família, onde meus primos ganhavam brinquedos, e           lábios que empresto de Iracema; eu peralta, em mi-
este que voz fala, em maioria das vezes livros, li-        nha virgindade convidado pra ribalta...
vros, livros... Mas eu me vingava, sendo quase sem-        Respondi “hamham”, em momento não, necessária
pre primeiro no colégio, ao que ponderava minha            mentira aflição; caminhando juntos, à saída
velha querida – em sua forma de amar – não fez
mais que sua obrigação, “queria ver se não honrasse        do colégio, perto de prédio velho... Correios em
o nome limpo de seu pai, te passo o                        abençoar, natureza em desembaraçar, ela então...
                                                           Pega minha mão, entregando seus lábios aos meus,
chicote menino...”, e assim prosseguindo, sempre           Pirineus...
inquieto e arguindo, será que a mãe tá me seguindo?
Quando eu driblava a babá, entrando no cursinho de         Subida da adrenalina, umidade que fascina... Natu-
inglês à tardinha... Esperando ela dar uma volti-          ral rosa mulher menina,
nha... Escapava matreiro para o fliperama de vidro e       fazendo homem menino, causo do destino... Como
suas mágicas cinco bolas de aço... Eu traço, na            um brinde vespertino! Tim Tim...
coincidência de final, ou na habilidade na moral...
hehehe... Botar meu nome no recorde do eletrome-
cânico prazer... Por vezes flagrado em “tilt”... aiai...   Sou sempre assim, aprendiz de mim... Preste mun-
O “coro” comia...                                          dão afora, menino sem demora...
Eu nunca desistia... Me lavava na pia, tirando o giz       Sistemático amigo leal, respirando travessuras, nun-
da sinuca, evitando inspeção de conduta...                 ca amarguras... Bem dizia Paulo Freire...
Pois que da obrigatória “aula particular” também           É caminhando que se faz o caminho! Porque feli-
fugia... Ia pro barzinho do seu Zé, ou do seu Aristi-      cidade é assim, poder olhar pra trás,
des, na ladeira... Aprendendo sinuca faceira, com
                                                           construindo a virtude em frente, porque a vida é
Waldecy do Tufick ou do BB João Faria... Mestre
                                                           chapa quente... Mas há portão que “guente”!
da covardia... Sinuca dando “sinuca”, pra complicar

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                                                        havia me levado para o desfile. Eu respondi que
Retorno à infância                                      fora o meu pai, pois minha mãe ficara em casa cui-
                                                        dando dos meus irmãos mais novos.
                                                               Enquanto isso, na concentração, as professo-
Por Josselene Marques
                                                        ras já haviam dado por minha falta e avisado ao
                                                        meu pai, que começou a me procurar pelas ruas ad-
                                                        jacentes. Devido à ajuda do meu “anjo salvador”,
                                                        não teve muita dificuldade para me encontrar. Foi a
                                                        minha sorte, pois até que ele foi muito compreensi-
       Este ano a Semana Santa foi superespecial        vo comigo (fez apenas um pequeno sermão – a fim
para mim. Depois de muitos anos, reencontrei al-        de que eu entendesse o risco que corri. Como res-
guém que me fez voltar à memória os meus seis           posta, asseverei a ele que isso jamais se repetiria.
anos de idade.                                          Por fim, a travessura foi relevada). Nosso encontro
                                                        se deu, exatamente, na lateral de um prédio onde,
        O momento exato do flashback foi um “30         atualmente, funciona o Banco do Brasil da Avenida
de Setembro”. Todos os anos, nesse dia, declarado       Alberto Maranhão.
feriado municipal em homenagem à data da liberta-
ção dos escravos mossoroenses no ano de 1883,                   Minutos depois, após ser abraçada pelos co-
acontecem os tradicionais desfiles cívicos. Como de     legas que se preocuparam comigo, desfilei com ale-
praxe, eu e mais algumas centenas de crianças fo-       gria redobrada: primeiro, por poder representar a
mos representar as nossas escolas. No local de con-     minha escola e, segundo, por não ter entrado para a
centração, enquanto esperávamos a nossa vez de          lista de crianças desaparecidas.
desfilarmos, acabei me impacientando e resolvi
                                                               Rever a querida Tia Ceição – a quem serei
passear pelas imediações – atitude da qual me arre-
                                                        eternamente grata – me fez relembrar esse episódio
pendi poucos minutos depois.
                                                        da infância e chegar a uma conclusão: Deus me
       A cidade estava bastante movimentada –           ama e protege desde sempre – não me envergonho
lotada de turistas. Centenas de pessoas se desloca-     de professar a minha fé. De mais a mais, como nada
vam em várias direções à procura de um lugar me-        acontece por acaso, com esse "susto", aprendi a
lhor para assistirem ao desfile.                        prudenciar. Desde então, na medida do possível,
        Após me distanciar apenas alguns metros,        tenho procurado evitar tudo que seja passível de
de repente, eu me vi cercada de estranhos, que ca-      erro, dor ou dano e, por isso mesmo, vivo em paz
minhavam em grupos e com relativa pressa. Eu era        comigo e com as pessoas que me cercam.
pequenota e andava com certa dificuldade em meio
àqueles adultos. Houve vezes que, por pouco, não
fui “atropelada” por eles. Justamente por tentar es-
quivar-me e sair ilesa dessa multidão, afastei-me
mais do que devia e perdi o ponto de referência. Na
verdade, não conhecia bem aquele trecho da cidade.
Conscientizei-me do tamanho da minha imprudên-
cia quando constatei que havia me perdido dos
meus pares.
        De olhos arregalados, a ponto de chorar, se-
gui em frente, mesmo sem saber qual seria o meu
destino. Nesse momento de aflição, fiz o que é pe-
culiar a toda pessoa que tem fé: pedi a ajuda de
Deus e, como por milagre, surgiu na minha frente
um rosto conhecido: o de Tia Ceição (Maria da
Conceição Silva) – a professora das minhas irmãs.
Corri ao seu encontro e pedi que me ajudasse a vol-
tar para a concentração. Sorrindo, ela me disse para
ficar calma e concordou em me conduzir ao local
de onde jamais eu deveria ter saído sozinha. En-
quanto nos dirigíamos para lá, ela perguntou quem

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Varal do Brasil setembro/outubro 2012


  Onde estão meus sapatinhos?
     Por Rozelene Furtado de Lima




            Aqueles pretos de verniz
        Que eu só usava em dia feliz ...
  Era só calçá-los e viajávamos num segundo
         Para qualquer lugar do mundo
         Enfrentei bruxas, beijei sapos,
       Transformei carruagens e trapos,
               Fui presa em grutas
             Envenenada por frutas
         Onde estão meus sapatinhos
    Com eles entrava em qualquer recinto
  Meus sapatinhos sabiam sair de labirintos.
      Visitei reinos, conheci muita gente.
    Sapatos grandes são muito exigentes!
     Eles não vão, nós é que os levamos
     Não se importam por onde andamos
      Solidão de menina... Vai passando
        Solidão de mulher... Vai ficando
    Só sapatinhos sabem fazer a diferença
  Não conhecem a dúvida nem a descrença
         Estrelinha grande amarelinha
           Deixa eu ser pequenininha
          Escolher um nome desigual
             Ir para fundo do quintal
Sentada no balanço atravessar o túnel da ilusão
    Pegar o trem numa nuvem de algodão
 E ir... ir... ir ... até encontrar a fada madrinha
       Pedir a ela outra mágica varinha
    Mas, onde estão meus sapatinhos?! ...

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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

              ANTES DA MEIA-NOITE                dos, malandros espertalhões, almas penadas...
                                                 As minhas preferidas sempre foram mesmo as
                                                 de terror – como aquela que não me deixou
                    Por Hélio Sena               dormir direito... Engraçado: eu morria de medo,
                                                 mas gostava disso! Não consigo explicar direito
                                                 essa sensação que até hoje me acompanha,
                                                 seja escrevendo uma história assombrada ou
        “À meia-noite em ponto, os espíritos dos vendo filmes de terror na calada da noite...
mortos se levantam de suas sepulturas e vão Acho que lá no fundo me agrada sentir aquele
espalhar o medo e o terror sobre o mundo dos friozinho na espinha, será isso?!?
pobres vivos... Eu vou contar, agora, uma histó-
ria terrível para vocês; uma história de assom-                             ...
bração acontecida há muito, muitíssimo tem-
                                                         Tia Bilu morreu aos 92 anos. Morreu que
po... Então, estão preparados para fazer xixi
                                                 nem um passarinho, como já disse alguém que,
nas calças de tanto medo? Olhem lá, hem!
                                                 no momento, não lembro quem. Pois esta noite
Quem não conseguir dormir hoje à noite, não
                                                 faz exatos 13 anos que ela se foi... Coinciden-
será por minha culpa! Eu já avisei que é uma
                                                 temente, estou escrevendo meu décimo tercei-
história apavorante, sem dúvida uma das mais
                                                 ro livro – que será, por motivos óbvios, dedica-
brabas que já contei para alguém... Estão pre-
                                                 do a ela. O livro chama-se “Histórias Maravilho-
parados?”
                                                 sas da Tia Bilu”, e é um apanhado das princi-
                           ...                   pais histórias contadas por minha querida Tia –
        Não, ninguém chegou a fazer xixi nas histórias que, apesar do tempo (eu era apenas
calças. Ou, pelo menos, ninguém admitiu isso – um garotinho quando as ouvi!), jamais esqueci
e quem seria louco de admitir uma coisa des- ou vou esquecer... Agora, quero compartilhá-
sas?!... Mas a história da minha Tia era real- las com meus leitores, e espero que eles gos-
mente de arrepiar! Ouvimos tudo em silêncio, o tem tanto de lê-las quanto eu gostei de ouvi-
coração tuc-tuc, tuc-tuc, tuc-tuc... Eu mesmo – las...
estou certo disso! – fui um dos que não conse-                                 ...
guiram dormir naquela noite. A toda hora eu
                                                             Hoje – graças a Deus e à minha Tia –
acordava sonhando com elementos da história
                                                     sou um autor de sucesso. São 12 obras publi-
– fosse o fantasma do enforcado, a menina de
                                                     cadas (Tia não leu nenhuma, ela não sabia ler,
cara pálida que gostava da lua cheia, as gali-
                                                     mas admirava as capas e sentia orgulho de ter
nhas azuis falantes, ou os gritos histéricos das
                                                     um sobrinho-filho escritor), e milhares de leito-
mulheres ao ouvirem passos em cima do telha-
                                                     res fiéis em todo o país que expressam seu ca-
do...
                                                     rinho através de e-mails, cartas, telefonemas...
                          ...                        Ontem mesmo, recebi um e-mail de uma garota
       Agora, sou eu quem conta histórias para       perguntando quando sairá meu novo romance,
os outros... Sou escritor – e sei que devo isso à    “Afinal” – suspirava ela – “já tem dois anos que
Tia Bilu, a melhor contadora de histórias que já     o Sr. não publica uma linhazinha sequer!” Res-
conheci! Seu repertório parecia que nunca ia         pondi o e-mail, evidentemente: “Até o fim do
ter fim – e olha que eram três ou quatro histó-      ano, Diandra. Quem sabe no Natal... Pode es-
rias toda noite! Uma vez perguntei onde ela          perar!”
aprendera tantas histórias, e ela disse                                        ...
(gesticulando mais que o normal) que as ouvira
                                                            Mas meu editor está deveras apreensivo
de sua avó, que, por sua vez, as tinha ouvido
                                                     acerca deste meu novo livro. Ele acha que, pa-
de sua própria avó – e assim por diante... Não
                                                     ra quem publicou 12 títulos bem-sucedidos no
sei, não, mas, para mim, ela inventava todas
                                                     segmento “suspense e terror”, será correr um
aquelas peripécias... Só sei que, quando a noi-
                                                     risco desnecessário lançar uma obra tão diver-
te caía, lá estávamos nós, meninos e meninas
                                                     gente... “Imagine só”, disse ele, “o choque que
– e até adultos da vizinhança! –, fazendo festa
                                                     será para o seu leitor – acostumado a ler ‘A Ca-
ao seu redor; e então ela desfiava um rosário
                                                     sa Sombria’, ‘Pacto Mortal’, ‘Terror e Êxtase’...
de histórias de todos os tipos possíveis e im-
                                                     – de repente se deparar com ‘Histórias Maravi-
possíveis: casais apaixonados, monstros ala-
                                                     lhosas da Tia Bilu’! Cara, você não percebe o

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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

perigo, não, Fontana?!” “Aderbal, meu ami-
go, eu preciso correr este risco!”, respondi
sorrindo...


                         ...


        “Tia Bilu, onde você estiver, este no-
vo livro será para você... Para você e para
mim! Se meus leitores não gostarem, fazer
o quê, né? Depois escrevo outro para
eles... Ando mesmo com umas ideias para
um novo romance, que, a princípio, se cha-
mará ‘Calafrios à Meia-Noite’. Acho que
esta história promete, de verdade!... Mas
isso, Tia, é intento para daqui a alguns me-
ses, talvez alguns anos; sei que ainda te-
nho bastante tempo pela frente, sou ape-
nas um homem a meio caminho da maturi-
dade... Por enquanto, estou vivendo as
nossas histórias maravilhosas, revivendo
as noites felizes da minha infância ao seu
lado... E tudo isso, Tia, pode acreditar –
está me fazendo um bem danado!...”




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O DOCE DOM DE SER CRIANÇA                             É viver somente exalando a bondade
                                                      Mesmo que de forma contraproducente
                                                      Mesmo que não consiga, erigir a nobreza da
Por Hernandes Leão                                    mente
                                                      E executar ações falhas pela frente...
Oh! Como é bom ser Criança...                         Vai ter valido a pena ser um petiz
Viver sem preocupações, sem tentações                 Um ser pequenino no tamanho
Viver e viver intensamente                            Mas um ser gigantesco na Alma
Ser o símbolo da esperança                            Para ser Mestre, antes tem que ser um
Ser a causa constante das motivações                  aprendiz
E ter a vida inteira pela frente...                   Na infância não existe perda, somente ga-
                                                      nho...
Quando criança, imaginava um mundo melhor             Já que o Espírito, vive só em calma
Cheio de belezas constantes
Desprovido de injustiças e podridão                   Queria só mais uma vez... ter essa confiança
Até as cores pareciam ser mais vivas, não             Sentir segurança, nas mãos dos condutores
existia o pior!                                       Olhar pra cima, e ver o desenho das nuvens
Ah! Como é boa a inocência, e suas                    Ter o poder natural, e não viver só na lem-
variantes...                                          brança
A todo momento, quando caia, alguém                   Sentir a presença do anjo da guarda; não
estendia a mão                                        sentir dores...
                                                      As crianças são a misericórdia dos homens!...
Não conseguia, enxergar a luxúria
desenfreada                                           Criança... és mesmo, a perfeição Divina!
Muito menos, a dolorosa malícia                       O desejo mais evidente da redenção
Ataúdes definitivos, da infância e juventude          O Dom exequível e sublime da oportunidade
Mas por outro lado, para o adulto é o portal de       Criança, tem a benevolência, és sua mina!
entrada                                               É a recíproca do aprendizado e evolução
Quando criança achava que o mundo... era,             Enfim, é a extrema força, aparentando
só delícia!                                           fragilidade...
Que era, só satisfação, e ausência de
maldade                                               Sem as crianças, não mais haveria o mundo
                                                      Criança é o pleno exercício da criação!
Enganara-me, sobre a visão do porvir e suas           São os salvadores do destino...
vicissitudes                                          Sem elas, o homem seria somente um
Mas a visão da criança, inspira ainda hoje, o         moribundo
que seremos...                                        Para nós, elas deveriam ser a salvação!
Impulsiona-nos à uma busca pessoal                    Basta observar, sua conduta; aí, o ser, é um
Sobre nossas fantasias, e suas magnitudes             mero peregrino!...
Sobre a reflexão do que nós colheremos...
Pois o cultivo das qualidades, é essencial            ConƟda no livro: PAPIROS D'ALMA E OS PERGAMINHOS
                                                      DO TEMPO
Mesmo se tinha uma visão equivocada da
vida
Não me arrependo; o que importa é o caminho
O trajeto e a jornada das experiências...
A oportunidade, de socorrer a ferida
Garantindo assim, a boa escrita do celeste
pergaminho
E garantir o sucesso das vivências

Ser criança, é ser a esperança da
humanidade
É carregar a chama constante da felicidade!

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                           BEIJINHO DE FESTA

                           hƩp://tudodebolo.com.br/

                                Ingredientes--

         •   duas colheres de sopa de margarina ou manteiga sem sal
                      • duas latas de leite condensado
                  • uma embalagem de coco fresco ralado
                           açúcar e cravos da índia.


                     Modo de preparar o beijinho de festa

   Se você sabe fazer brigadeiro já vai achar super fácil azer um beijinho. Em
uma panela tradicional coloque a margarina ou com o leite condensado e o coco
 ralado e misture tudo antes mesmo de levar ao fogão. Já no fogo baixo, vá me-
xendo tudo sempre até desgrudar da panela, o que pode ser visto inclinando um
pouco a panela para o lado ainda mexendo. Depois que estiver um pouco menos
quente, vá fazendo as bolinhas com a mão e depois coloque um pouco de queijo
ralado por cima e um cravo da índia por unidade. Algumas pessoas ainda enro-
      lando o beijinho e colocam açúcar por cima, mas fica ao seu critério.




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Varal do Brasil setembro/outubro 2012




Doce Infância

Por Isabel Cristina Silva Vargas


De sonhos tão imaginados e,
Encantadas ilusões de menina,
Infância de pura inocência,
De delicadas bonecas de porcelana,
Do jogo de amarelinha, do pião e bilboquê,
Das brincadeiras na garagem
Ao som de inesquecíveis músicas
De anos que se tornaram dourados
Infância de muitos aromas
-De chuva na terra seca-
E, de muitos sabores
-Dos doces de minha avó-
Do figo, das balas, de guaco e de hortelã,
Infância de mulheres guerreiras
Minha mãe, minha dinda e minha tia
Que me prepararam para o futuro
Das grandes alegrias e imensas tristezas
Que mesmo sem perceber
Ensinaram-me sobre os grandes revezes da vida
Dos quais resultei viva, apesar das mutilações .
Infância que não retorna
Mas, que recordei na infância de meus filhos
Tão diferente da minha
Porém , para eles igualmente doce
Infância, doce período de vida
Que me ensina um novo viver
Na infância de meus netos .




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Nossa Infância
                                                   Naquele belo tempo

Por Lenival de Andrade                             Sem nenhum contratempo
                                                   Aos seis anos começávamos a estudar

Venho aqui nestes versos                           Esperávamos a hora do recreio para lanchar

Sem nunca serem adversos                           Aproveitar, não perder tempo e brincar

Falar de um tempo super saudoso                    Trocávamos o lanche na hora do recreio

Gostoso, vitorioso e vistoso                       Não se fazia feio

Para nós também honroso                            No fim, começo ou no meio

Tempo maravilhoso e inesquecível                   Quem podia estudava nos melhores colégios.

E também lindo e incrível
Que não voltará jamais                             Também jogava-se futebol com bola canari-
                                                   nho
Pois o tempo não volta atrás
                                                   Às vezes no dedo entrava um espinho
Nunca em época nenhuma.
                                                   Deitávamos e o tirava em nosso ninho
                                                   Ou com bola dente de leite descalço no meio
Mas as lembranças ninguém apagará                  da rua

Sempre guardadas em nossa memória estará           Que era minha e era sua

Nos enchendo de saudades e boas recorda-           No inverno tomávamos banho na chuva
ções
                                                   Com um bom suco de uva.
Onde começavam inocentemente nossas pai-
xões
Bela passagem para a adolescência                  Os casamentos dos nossos pais

Alguns meninos já começavam a namorar as           Duravam muito mais e tínhamos muita paz
coleguinhas.                                       Obedecíamos aos nossos queridos maiorais
                                                   Pois DEUS razão maior da nossa existência e
As meninas brincavam de boneca                     obediência

Algumas delas enrolavam sabugo de milho            Nos dava sabedoria, força, vigor, paciência e
em um pano                                         competência

E os meninos jogavam time de botão                 Nesse maravilhoso tempo

Aumentando a emoção                                Que foi assim sem nenhuma ganância

Querendo sempre ser campeão                        A nossa infância.

Time de botão também era chamado de Fute-
bol de Mesa
Quem podia pagava a despesa.

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ENTRE OS MORROS DA MINHA INFÂNCIA                        Pois é, corri tanto e tão rápido que me joguei na pa-
                                                         rede com os dois braços e gritei feliz: 33 (ou era
                                                         31?)!!! E entortei os dois pulsos que ficaram enfai-
       Por Jacqueline Aisenman                           xados durante um bom momento!
                                                               Tem aquela vez que, muito danada que eu era,
                                                         joguei a sandália de uma amiga no meio da rua. Ela
Passo a passo em minha mente vou pisando as ruas.        me mandou buscar e eu não fui. Ela foi, pegou e em
Foram muitos carnavais. Muitas despedidas e mui-         seguida jogou a minha. Mandei buscar, ela não foi e
tos reencontros. Muitas festas, muitas tristezas. Mui-   minha reação foi espontânea: uma surra separada
tas chuvas caíram leves ou ruidosas e com elas lava-     apenas pela mãe dela que, a esta altura, já estava
ram os paralelepípedos e meu rosto e minhas vivên-       acostumada com meu comportamento nem sempre
cias.                                                    muito adequado às boas meninas! Naquela época
       Cresci menina-menino. Brincando de casinha        minhas respostas vinham mais rápidas pelas mãos
e de Tarzan. De casinha brincava fazendo comidi-         do que pelos lábios.
nha em loucinhas de barro ou em louças plásticas
imitando a vó tão fina. De Tarzan iniciava uma luta
feminista pois ser a Jane não me agradava muito:
queria ser herói, pular de cipó em cipó e salvar os
fracos.
       Minha infância, viajando entre estados, conhe-
ceu as hortênsias azuis e os caminhos longos no Pa-
raná. Viu as estradas e as montanhas de Santa Cata-
rina. Muitos hotéis, muitas estradas. Mas foi quando
ela estacionou entre os verdes morros da Laguna,
morros que volteiam a cidade como um colar natu-
ral, que minha infância abriu asas.
Tinha amigas para brincar de boneca de verdade:
Beijoca, Amiguinha, Gui-Gui (esta última que ria,
ria e eu adorava ouvir o seu riso que me fazia rir       Pendurada em cipós e em meus sonhos vivia brin-
também!). E tinha amigas para brincar de bonecas         cando pelas ruas: desfile de modas no Jardim da ci-
de papel, recortadas de revistas ou compradas na         dade, jogo de vôlei improvisado em terreno baldio,
banca, aquelas que já vinham com roupinha...             “roubos” de alface, peras, goiabas... E a receita que
       Uma vez vi um tio meu (se ele ler vai lem-        adorava: comer a pera com a alface e sal. Para hor-
brar...) muito bravo. Ele que nunca ficava bravo co-     ror das amigas e meu deleite.
migo. Estava viajando e encontrei sob sua cama um              Uma vez me deram uma linda pitanga.
monte de revistas. Que alegria eu fiquei!! Naquelas      “Come, é pitanga docinha”. Comi. Engoli. E foi
revistas havia algo inédito: muitas, muitas bonequi-     muito gelo para acalmar meu desespero de ter comi-
nhas sem roupa precisando urgentemente ser recor-        do uma enorme pimenta vermelha. Claro que quem
tadas para ganhar roupinhas desenhadas por mim!          me deu apanhou muito depois que os gelos que o tio
Foram dúzias de novas bonecas para minha caixinha        Paulo me deu acalmaram minha dor e minha raiva!
e depois dúzias de tapas e castigos de minha mãe         Minha primeira bicicleta não durou uma semana.
por arruinar uma coleção de revistas que, como eu        Aquele objeto especial e alaranjado que minha mãe
poderia saber, eram apenas para adultos!                 me deu com muito custo partiu em poucos dias. Al-
Uma outra vez, brincando de ré de esconder, aquela       guém simplesmente levou, nunca devolveu e me
de correr e gritar “33” quando chegava do esconde-       deixou chorando muito mais do que a semana que
rijo antes da pessoa para quem sobrasse procurar.        tinha passado.
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Gostava de ir à praia, subir o morro com as amigas,      - A contar os pecados!
os amigos e, claro, sempre alguém de mais velho          - Pecados? – respondi do alto dos meus nove anos.
que se responsabilizava (pobre de quem!) por nós.              E ele todo paciente respondeu: - Faz assim,
      Num destas vezes a responsável era minha           vou dizendo os pecados e vais me dizendo se fez ou
mãe. Lembro até hoje dos seus gritos na beira do         não!
mar: “Sai daí menina! Sai daí já! Não tá vendo o               Concordei e saí depois da “cabaninha do pa-
quanto está fundo! Volta já pra cá! Ah, mas eu te        dre” toda feliz pois minhas peras e goiabas tinham
pego!” E eu lá, testando as ondas, navegando as          me rendido algumas ave-marias e pais-nossos.
águas fundas daquele mar grosso cheio de espumas
                                                         Mas não podia ser diferente e no dia da comunhão,
brancas.
                                                         depois de espernear pois meu vestido era curto e eu
                                                         queria comprido, ainda aprontei na festa. Todos to-
                                                         mando café e comendo bolo e eu sem parar. Até que
                                                         um dos meninos, completamente sem querer, derra-
                                                         mou café na minha alva vestimenta. Foi o mote pra
                                                         agarrar o coitado e começar a bater. Festa encerrada
                                                         a irmã pediu discretamente para minha mãe me tirar
                                                         dali. Mais uma vez tinha conseguido diria minha
                                                         mãe.
                                                                Embora pelas ruas vivesse sempre correndo e
                                                         quebrando (não exatamente recordes), pulando e
                                                         brincando, em muitos momentos escolhia a reclusão
                                                         quase total. E me enfiava em meu quarto para recor-
       Mas na praia também gostava de me jogar das
                                                         tar, colar, escrever, ler. Ficava lá, ouvia o chamado
dunas, altas dunas, e chegar embaixo parecendo um
                                                         dos amigos mas não queria simplesmente responder.
filé à milanesa! Ou de brincar de se enterrar deixan-
                                                         Queria uma paz que eu nem sabia exatamente o que
do apenas a cabeça de fora! E os castelos, quantos
                                                         é que era.
castelos! Cidades inteiras para serem levadas pelas
                                                                Num destes dias, do quarto ouvi baterem na
ondas vorazes!
                                                         porta e minha mãe vir da cozinha resmungando: “-
       Amava a escola, tanto no Paraná quanto na
                                                         O que será que ela aprontou agora???”. E eu, do
Laguna. Passei por várias, lembro com carinho dos
                                                         meu cantinho: - Não fui eu não mãe, tô aqui no
professores e tenho a certa impressão de que todos
                                                         quarto! Mas ela já estava na porta respondendo que
eram anjos bons. Como dona Marta, aquela criatura
                                                         provavelmente eu não estava. Ou talvez nem tivesse
doce que me abriu os braços quando, no final já do
                                                         sido pra mim!
terceiro ano primário, cheguei tímida para uma nova
                                                                Minha mãe passou poucas e boas comigo. Ela
fase da minha vida. Tive tantos colegas! Muitos de-
                                                         e meu pai. Sob meu ar semi-meigo, havia uma pe-
les chegaram à vida adulta e, coisa fantástica, são
                                                         ralta que se dividia em períodos com a menina estu-
amigos que guardo até hoje.
                                                         diosa e calma.
       Aliás, foi nesta fase que também fui colocada
                                                         -Aviãoooooo! Traz mais um irmãozinhoooo pra
numas aulas de catequese para fazer primeira comu-
                                                         mimmmm! - Deus me livre, gritou minha mãe! se
nhão. Oh, senhor, o caos tinha chegado. Infernizei
                                                         ao menos eu soubesse que fosse como teu irmão...
tal qual um diabinho as aulas da boa irmã Analuzia
                                                         Mas só de pensar que pode vir como tu... (era a tra-
que fazia o que podia para me conter. E na véspera
                                                         quina deixando rastros!).
da primeira comunhão fui me confessar com o Pa-
dre Claudino.                                            Minha mãe na casa dá vó Marta me dando uns cu-
- Pode começar minha filha!                              tucões embaixo da mesa ou por trás da vó para eu
- Começar o que?                                         parar de comer:

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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

- Deixa a menina comer, Terezinha!
- Mas mãe, ela já comeu demais!!!
       E eu lá, agarrada no aguidal (era assim que
eu chamava o tal alguidar) de barro preenchido
com pirão daquele feijão inigualável e aquela arraia
seca e ensopada que eu amava de paixão!!
- Chachá se eu fosse tu pagava o hospital por mês,
ela vive aqui dentro esta menina – dizia o Dr. Os-
car para um pai todo chateado.
- Pois é...
       E eu deitada na mesa, o braço inteiro aberto
depois de atravessar uma porta de vidro na casa de
minha vó esperando para ser costurada. E fui. Mais
de trinta pontos.
       Aliás, o Dr. Oscar tinha razão. Na minha in-
fância fui assim, mais ou menos, uma campeã de
pequenos e médios acidentes.                               ENTRE OS MORROS DA MINHA
       A vó Yvonne que me tomava as lições, me             INFÂNCIA
ensinava, me cobrava:
- E a capital da Itália é...                               Um livro de Jacqueline Aisenman
- Roma...
                                                           Entre os Morros da Minha Infância está à ven-
       Para depois, quando estivessem entre amigos
poder dizer o quanto a netinha era inteligente: sabia      da com renda cem por cento reverƟda ao Hos-
as capitais de todos os lugares no Brasil e no mun-        pital de Caridade Senhor Bom Jesus dos Pas-
do (juro que já esqueci 90%!).                             sos de Laguna, Santa Catarina.
       Os natais na casa da tia Elisa, tão carinhosa;
os quibes da vovó Diba; o piano que eu adorava             Encontre aqui:
jurar que um dia iria aprender e ali ensaiava sem          Hospital de Caridade Senhor Bom Jesus Passos
tom.
                                                           R. Osvaldo Aranha, 280, Centro
       Os primos maternos e paternos que aprendi a
                                                           Cep: 88790-000, Laguna SC
amar a vida inteira mas que algumas vezes odiei
                                                           Fones: Central telefônica: (0xx)48 3646-0522 /
como se faz com quaisquer amigos de verdade!
                                                           DPVAT: (0xx)48 3646-1237 / Fax: (0xx)48 3644
       Descansava da atribulada vida de criança no
                                                           -0728 hƩp://www.hospitallaguna.com.br/
colo de meu avô Abelardo. Sua calma me invadia e
me dava tudo o que eu precisava para ser apenas o
peixinho doce que ele amava tanto. Perto dele eu
tinha não só a segurança, mas a certeza de que po-
dia ser criança porque ele estava lá, para o que des-
se e viesse com seu amor maior do que o mundo.


* Este texto faz parte do livro “Entre os Morros da
Minha Infância, publicado em 2010.




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Varal do Brasil setembro/outubro 2012


Nossa infância

Por José Hilton Rosa


Infâncias divididas e planejadas
Evoluindo através de séculos, alcançando o vinte e um
A primeira vigiada e exemplar
A segunda sem vigília, liberal e contemporânea
Futuro orientado com brincadeiras personalizadas
O contraste na outra infância,
acompanhada por terceiros, limites não observados.
Na infância observada, os pais com poderes na educação,
na infância liberada, punição para aqueles que educam.
O contraste na obediência familiar, secular.
Infância privilegiada, fim da obediência do lar, contemporânea
No século anterior, os pilares da formação sustentavam a honestidade
No vinte e um, infância globalizada com formação terceirizada, digitalizada,
futuro arranhado, desestruturado, poderes totais, sem deveres, cidadania incerta.
Recordando e destacando para o crescimento leal, o respeito aos direitos e deveres.
O ócio, abonação, tudo fácil, o caminho para o mundo fugaz, mundo globalizado
Com competição e esperteza, a amizade fácil se desfaz
Na infância secular, a educação vinha do lar, a informação da escola
Na infância globalizada, a educação vem dos holofotes,
o professor além de ensinar tem que educar.
A escola foi transformada em instituição de ressocialização, da incerteza e do medo
Nossa infância, adultos gerados em cada infância, espelho de cada cultura.




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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

          MEUS AVÓS ENCANTADOS!                          de um pequena área coberta, junto com as lenhas.


                Por Josane Mary Amorim


      [...] Quando terminei minha narrativa, meus
pensamentos estavam lá atrás. Voltei à rua Maraca-
já, nº 25, para minha infância. Vi o quintal da vovó,
tão seguro e gostoso, tão cheio de antigos pés de
manga, abacate, goiaba; vi de novo os muitos pés
                                                                Roupa branca a vovó fazia questão de alvejar,
de copos-de-leite, os antúrios, vi o verde festivo das
                                                         lavava tudo com muito capricho. Vi-me sentada de
samambaias, das flores-beijinhos; pude sentir o gos-
                                                         novo, ao lado do meu primo, perto daquele tacho,
to da couve-flor que vovó colhia e, depois, refogava
                                                         ambos com a tabuada na mão. Lembrei-me de que,
com bastante alho; tão gostoso!
                                                         certa vez, a vovó tinha usado aquela colher de pau
      Fui trazida de volta daquelas minhas doces
                                                         para nos futucar, nos lembrar de que aquela não era
memórias, quando ouvi o terapeuta dizer: “Vamos
                                                         hora de rir ou de brincar com o barro, “aquela era
dar início às perguntas? [..]
                                                         hora de estudar a tabuada!”. Eu adorava fazer bolo-
      Ao chegar em casa fui para o meu quarto,           tinhas com o barro! Eu e meu primo gargalhávamos
precisava de isolamento total, de recompor as mi-        o tempo todo! Minha avó era uma mulher simples,
nhas forças, meu equilíbrio. Fui buscar abrigo em        dedicada, tímida e forte igual a um touro! Lembrei-
recordações maravilhosas. Pensei no quintal da vo-       me também do feijão delicioso que ela cozinhava
vó outra vez. Lembrei-me da sombra maravilhosa           semanalmente, naquele tacho, pude sentir aquele
que o gigantesco pé de jaca fazia naquele quintal.       cheiro maravilhoso mais uma vez. Vovó sabia que
Revi as mangueiras da casa de trás, casa da educada      eu gostava de tomar o caldo do feijão, meu pratinho
Nilce. Lembrei-me de que a mamãe costumava se            estava sempre reservado! Lembrei-me dos muitos
sentar embaixo daqueles pés de manga e se deliciar       pique e esconde com meu primo e meu tio; meu es-
com elas! Mamãe adorava lambuzar a mão enquan-           conderijo era na goiabeira, plantada ao lado da casa.
to chupava mangas, e eram muitas que caíam da-           Lembrei-me do meu avô, aquele caboclo alto, boni-
quele pé. Lembrei-me dos muitos cozinhadinhos            to, com um enorme dragão tatuado em todo o braço
que fiz à sombra do abacateiro, usando como pane-        esquerdo. Lembrei-me do vovô fumando o cachim-
linhas as colherinhas medidas que vinham dentro          bo, e das várias imagens de pai de santo que possuía
das latas de leite em pó, que a vovó usava. Lembrei-     no quartinho dele. Vovó e vovô moravam na mes-
me dela, lavando roupas para a família da Leda, co-      ma casa, porém, há anos separados, não se falavam
mo fonte extra de renda. Eu a vi mexer com uma           mais. Vovô tinha um Centro de Umbanda. Lembrei-
colher de pau comprida a roupa que fervia num ta-        me de que, certa vez, ouvi a vovó insinuar que o
cho enorme, preto, assentado sobre uma pilha baixa       marido era homossexual.
de tijolos; ali era o fogão de lenha, e ficava embaixo

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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

Aquele assunto nunca foi importante para mim, eu era uma criança, adorava o meu avô do jeito que ele
era, e a mamãe também; eles conversavam muito. Meu avô era maravilhoso, risonho, personalidade forte, e
tinha a cor de jambo! Quando abria um garrafão de vinho, daqueles de cinco litros, costumava dizer que
teríamos de bebê-lo todo, e isso era sempre uma festa! Ele me adorava, chamava-me: Eninha. Também me
lembrei daquele triste dia, quando ele estava no trem indo ao Rio de Janeiro. Dia que roubaram e mataram
meu querido avô. Minha mãe e meu irmão esperavam por aquele trem, para lhe acenarem adeus da janela
da nossa casa. Naquele dia, eu estava participando de uma apresentação de dança na escola. Eu tinha 12
anos, foi um choque terrível receber aquela notícia. Apesar dessa última lembrança, como eu era feliz!...
[...]

                                                 Conto reƟrado do romance ‘Mevrouw Jane’, de autoria da autora




                              A primeira leitura ninguém esquece

                                               Por Elise Schiffer


      Há mais ou menos 48 anos atrás, no Bairro de Nova Iguaçu, uma região muito pobre bem no interior
do Rio de Janeiro, minha família (meus pais e duas filhas) seguiu numa Lotação (ônibus antigo da época)
para a casa de meus avós. Neste período de nossas vidas tínhamos o hábito de visitá-los uma vez por mês.
      Acreditem era uma viagem, o trajeto levava duas horas de Nova Iguaçu a Vicente de Carvalho, local
ainda mais mais pobre que o nosso, se que é possível imaginar.
      Neste época eu estava encantada com a leitura, juntar consoantes com vogais era algo mágico, mas
eu ainda não conseguia juntar rapidamente as silabas para ler uma palavra, lembro-me que eu lia pedaços
de tudo que encontrava a minha frente.
     Neste dia eu estava sentada a janela da lotação, posição que escolhi para poder soletrar as letras que
formam os nomes das lojas.
      Não posso precisar bem o período do ano, mais lembro-me que a lotação estava cheia e fazia muito
calor, só que no Rio de Janeiro faz calor o ano todo.
       No meio do caminho a lotação parou na estação do bairro de Nilópolis, enquanto algumas pessoas
desciam e outras subiam na lotação, foi neste pequeno espaço de tempo que eu avistei uma palavra escrita
na parede da estação com tinta (era uma pichação, como se fala hoje), a palavra tinha 3 sílabas e eu as so-
letrei e li bem alto. Só que era um palavrão. Meu pai me repreendeu enquanto todos os passageiros riam,
mais eu repetia a palavra com orgulho sem saber o significado, juntar as sílabas e ler aquela palavra foi
algo mágico.
     Hoje eu estou com 53 anos e minha mãe esta com 79 anos e apesar do tempo transcorrido ela ainda
lembra deste incidente. Desde então nunca mais parei de ler.
        Peço desculpas a todos por não citar a palavra.




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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

O Engenho de Açúcar dos meus bisavós                    via – não apenas imaginava – não eram fantasmas;
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                                                        rodopiando em vestidos de seda parecendo verda-
       Por Guacira Maciel                               deiras borboletas emergindo das vaporosas saias
                                                        sustentadas por anáguas com aspecto de asas colori-
                                                        das; os colos cintilantes com as pedrarias ostenta-
       Quando criança ia passar férias lá na fazenda
                                                        das, elas imitavam pombas arrulhantes, corando aos
e me lembro como se ainda estivesse diante dos
                                                        elogios dos seus admiradores. Bem, não sei se seria
meus olhos, da reprodução de um retrato a bico de
                                                        assim, verdadeiramente, já que entre essa época e
pena desse senhor bigodudo - Duarte Pacheco Pe-
                                                        agora, quando resolvi registrar essa história, já se
reira - que mais me amedrontava, pois não sabia o
                                                        passou muito tempo e poderei estar descrevendo
que, exatamente, fazia ali na parede daquela miste-
                                                        uma imagem acrescida de outras experiências, leitu-
riosa sala. Mas isso parecia já não ter a menor im-
                                                        ras, filmes (inclusive imagens, por exemplo, de “E o
portância...
                                                        Vento Levou...), e mais aquela impressão que a gen-
       O velho solar ancestral construído sobre uma
                                                        te tem quando olha para um passado tão puro vivido
elevação que lhe conferia certa imponência era tão
                                                        na nossa infância.
fantástico com aquela infinidade de janelas azuis
(ou verdes?), cujos peitoris assentados sobre pare-
des de 1.00m de largura, acomodavam deitado o
meu corpo de criança, onde gostava de ficar a so-
nhar. Acho que já existia em mim, de forma latente,
o gosto pela arte, pois comumente estava fora da
realidade do que ocorria à minha volta; me sentia
uma sinhazinha em seu “feudo”, instalado nos ve-
lhos salões em desuso, da parte de trás do assom-
                                                                  Um pouco abaixo, fora do casarão, ao seu
broso casarão, com o assoalho já carcomido em sua
                                                        lado direito, ficava o curral, onde, pelas quase ma-
parte central e que, ao sentir o peso dos nossos cor-
                                                        drugadas, ainda de pijamas de flanela ia beber leite
pos, correndo ao brincar de esconde-esconde, gemia
                                                        cru “pra ficar forte”, e observar, encantada, o azáfa-
pedindo sossego.
                                                        ma dos vaqueiros sob a orientação de Ernesto, neto
        Lá, brincava de esconder com irmãos e pri-      de escravos do antigo Engenho. O velho vaqueiro-
mos e às vezes, como me distraia encarnando algum       mor distribuía as ordens em lamentoso tom de voz,
personagem de outra época, que vivia nas histórias      remanescente, talvez, das lembranças retidas na sua
que ouvia das minhas tias e empregados, e também        memória, sobre o dia-a-dia da senzala, cujas casas,
no meu vivo imaginário, nunca era encontrada, fi-       já em ruínas ainda conheci, habitadas por velhíssi-
cando para trás nas brincadeiras. Quando dava por       mos descendentes de escravos que não tiveram ou-
mim estava sozinha e com medo dos fantasmas que         tro lugar para morar após se verem livres do vergo-
os supersticiosos diziam morar por ali. Os que eu       nhoso estado de escravidão em que foram jogados.
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       Mas como desconhecia todas essas mazelas na pureza da infância, achava doce adormecer na fazen-
da. As lembranças do ocaso contêm ainda hoje o som da brisa fresca nos canaviais e o cheiro doce da cana-
de-açúcar ao receber o bafejo dos ventos noturnos; dos gritos dos vaqueiros colocando o gado dentro do
curral para passar a noite; do canto dos grilos e dos sapos – a mim, me sabia a canto – além, lá pelas tantas,
dos barulhos do velho casarão, feitos por seus ativos habitantes noturnos; alguma coisa entre ratos e fantas-
mas, personagens das histórias contadas pelos empregados, sobre escravos arrastando grilhões e entoando
cânticos saudosos que falavam da sua terra natal, de onde haviam sido brutalmente arrancados pela ganân-
cia e o desrespeito, muitas vezes com a conivência do seu próprio povo.

       O amanhecer, não menos gostoso, exalava um cheiro que prenunciava as delícias que teríamos ao
fartíssimo café . Aliado àquele barulho tão característico, ouvíamos ao longe o burburinho da lida dos em-
pregados. O ranger musical do carro de boi transportando a cana recém ceifada dos pés, ao ritmo cansado
da parelha de animais, e o chiar das palhas se arrastando malemolente no chão por onde o carro passava
entre buracos e saliências do barro vermelho do massapé, a caminho da usina; dos gritos dos vaqueiros se-
parando o gado para levar aos pastos; dos bezerros gritando por se verem afastados das gordas tetas de suas
mães, que agora teriam outras bocas para alimentar. Mas da cozinha...ah!...dali vinha o melhor de todos os
barulhos e cheiros, como aquele do café que em breve agasalharia os nossos ávidos estômagos de crianças,
com banana frita, queijos caseiros, cuscuz, beiju na manteiga, coalhada e outras delícias.



         Tempos de criança
             Por Maria Moreira

          Nossa infância de ternura
          Se foi e deixou saudades
         Da turma e das travessuras
        Que nos seguiu para mocidade

         Nossos tempos de peraltice
        Levando a vida de brincadeira
         Nas poucas hora de chatice
        Abrindo a boca numa berreira

         Para escola chutado latinhas
      La vão meninos levantando poeira
       Que belo tempo e que turminha!
        Que inocência tão passageira.

      Verdes horas desfrutando a vida
        Na corrida do tempo lá se foi!
       Foi tão rápido como em descida
      Deixando Saudades que ainda dói




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Bolo de Chocolate
http://www.tocadacotia.com
Se você não tem muita prática na cozinha, mas gostaria de preparar uma receita simples e saborosa, confira nossa
sugestão de bolo de chocolate.

Ingredientes da Massa
• 1 xícara (chá) de leite
• 1 xícara (chá) de óleo
• 2 ovos
• 2 xícaras (chá) de farinha de trigo
• 1 xícara (chá) de achocolatado em pó
• 1 xícara (chá) de açúcar
1 colher (sopa) de fermento em pó


Ingredientes da Cobertura
• 2 colheres (sopa) de manteiga
• 3 colheres (sopa) de achocolatado em pó
• 3 colheres (sopa) de açúcar
5 colheres (sopa) de leite



Modo de Preparo (MASSA)
Coloque todos os ingredientes sólidos ( trigo, achocolatado, açúcar e fermento) da massa no liquidificador
e bata por alguns minutos. Assim que tudo estiver bem misturado, acrescente os ingredientes líquidos
(leite e óleo). Depois que a mistura estiver bem homogênea, unte uma forma com farinha e manteiga e
despeje a massa. A massa ficará no forno por cerca de 20 minutos, tudo depende da potência de seu forno.

Modo de Preparo (COBERTURA)
Coloque a manteiga na panela e em seguida misture o leite, açúcar e o achocolatado em pó até que a mis-
tura fique consistente. Assim que a cobertura estiver pronta, despeje-a sobre a massa que estava no forno.




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                          INSCRIÇÕES ABERTAS




1)   DA SELEÇÃO E DA PARTICIPA-                       2)       DA ACEITAÇÃO DOS TEXTOS
     ÇÃO                                              2.1. Serão aceitos textos em língua portugue-
                                                      sa, com tema livre, em formato A4, espaços de
                                                      1,5, fonte Times New Roman de tamanho 12 e
1.1. O Varal Antológico é promovido pelo VA-
                                                      que não ultrapassem quatro páginas. Os tex-
RAL DO BRASIL ®, revista literária eletrônica
                                                      tos deverão vir acompanhados dos dados de
realizada na Suíça (ISSN 1664-5243).
                                                      inscrição (ver abaixo).


1.2 Serão consideradas abertas as inscrições          2.2. Não serão aceitos textos que pertençam
a partir de 20 de julho até 20 de setembro de         ao universo de personagens já existentes cria-
2012. Caso o número de participantes ideal            dos por outro autor. Também não serão acei-
seja atingido, as inscrições poderão ser encer-       tos textos politica ou religiosamente tendencio-
radas mais cedo.                                      sos, que expressem conteúdo racista, precon-
                                                      ceituoso, que façam propaganda política ou
                                                      contenham intolerância religiosa de culto ou
1.3. Poderão participar da antologia todas as
                                                      ainda possuam caráter pornográfico. Também
pessoas físicas maiores de 18 anos, ou meno-
                                                      não serão aceitos textos que possam causar
res com permissão do responsável, de qual-
                                                      danos a terceiros ou que divulguem produtos
quer nacionalidade ou residentes em qualquer
                                                      ou serviços alheios.
país, desde que escrevam na língua portugue-
sa.
1.4. A coletânea terá tema livre e será com-          2.3 Os textos não deverão ter ilustrações ou
posta por diversos gêneros literários, o escritor     gráficos.
podendo enviar contos, poemas, trovas, hai-
                                                      2.4 Serão recusados os textos que não vierem
cais, sonetos e crônicas ou outros.
                                                      na formatação requisitada, assim como os tex-
                                                      tos que chegarem colados no corpo do e-mail.


                                       www.varaldobrasil.com                                      63
Varal do Brasil setembro/outubro 2012

2.5. Os textos recebidos serão examinados                cerradas antes, caso o número de textos rece-
por uma banca formada pela equipe do VA-                 bidos e avaliados sejam aprovados antes da
RAL DO BRASIL ® e alguns escritores e/ou                 data, no formato e padrão já descritos. O livro
                                                         será publicado em 2013. As inscrições só po-
críticos convidados. A avaliação se dará com             derão ser feitas pelo e-
base nos seguintes critérios: criatividade e ori-        mail varaldobrasil@gmail.com
ginalidade do texto, assim como a qualidade              OS NOMES DOS SELECIONADOS SERÃO
do mesmo.                                                DIVULGADOS NO DIA 30 DE SETEMBRO
2.6 Os textos deverão vir acompanhados de                POR E-MAIL.
uma pequena biografia. A biografia, escrita na           3.2. Para participar os candidatos deverão,
terceira pessoa, deverá conter no máximo cin-            além de enviar um ou mais textos de acordo
co linhas (A5, letra Times New Roman 12, es-             com as regras estabelecidas neste regulamen-
paço 1.5). Lembre-se sempre que numa bio-                to, fornecer o formulário anexo preenchido.
grafia, como em muito na vida, menos é mais.
                                                         3.3. Só serão aceitas inscrições através dos
                                                         procedimentos previstos neste regulamento.
2.7. Os textos devidamente formatados deve-              Os dados fornecidos pelos participantes, no
rão ser enviados para o e-                               momento das inscrições, deverão estar corre-
mail: varaldobrasil@gmail.com, juntamente
com os dados de inscrição e demais documen-              tos, claros e precisos. É de total responsabili-
tos de autorização.                                      dade dos participantes a veracidade dos da-
2.8. Ao se inscrever na Antologia o autor auto-          dos fornecidos à organização da Antologia.
riza automaticamente a veiculação de seu tex-            3.4. Todo autor é proprietário dos direitos auto-
to, sem ônus para a revista VARAL DO BRA-                rais dos textos por ele enviados para publica-
SIL ® nos meios de comunicação existentes                ção no livro e cuja autoria seja comprovada
ou que possam existir com a intenção de divul-           pela declaração enviada;
gar a antologia.
                                                         3.5. Em caso de fraude comprovada, o texto
                                                         será excluído automaticamente da antolo-
                                                         gia. Cada autor responderá perante a lei por
                                                         plágio, cópia indevida ou outro crime relacio-
                                                         nado ao direito autoral.
                                                         3.6 Todo autor é livre para divulgar, preparar
                                                         lançamentos, noites de autógrafos, individuais
                                                         ou em conjunto, do livro VARAL ANTOLÓGI-
                                                         CO 3, desde que se responsabilize por todas
                                                         as despesas - preparativos para lançamento,
                                                         custos administrativos e convites, compra de
                                                         exemplares a mais do que os recebidos pela
                                                         participação – pertencendo também ao partici-
                                                         pante o valor das vendas dos livros em ques-
                                                         tão. Para tanto, o participante apenas deverá
      Lançamento Varal 2 em Brumadinho                   entrar em contato com a revista através do e-
                                                         mail varaldobrasil@gmail.com para que o nú-
                                                         mero de exemplares lhe seja enviado median-
3) SOBRE AS INSCRIÇÕES PARA A                            te pagamento (preço da editora / remessa),
                                                         notando-se aqui a antecedência requerida. O
SELEÇÃO:                                                 VARAL DO BRASIL® reserva-se o direito de
3.1. As inscrições para a Antologia serão aber-          estar ou não presente nos lançamentos orga-
tas no dia 20 de julho 2012 e encerradas no              nizados pelo autor.
dia 20 de setembro de 2012, podendo ser en-

                                          www.varaldobrasil.com                                       64
Varal do Brasil setembro/outubro 2012

                                                             4.3. O recebimento do pagamento total dá ao
                                                             autor a garantia de sua participação na coletâ-
                                                             nea. O não recebimento de nenhuma parcela
                                                             até o dia 10 de novembro de 2012 anula a par-
                                                             ticipação do autor.



                                                             4.4. O pagamento parcial do valor cooperativo
                                                             não dá direito à participação no livro. Caso o
                                                             autor não termine o pagamento acordado, será
                                                             substituído por outro participante e comunica-
                                                             do através de e-mail.
      Lançamento do Varal 1 em Florianópolis                 4.5. No dia 20 de dezembro considerar-se-á o
                                                             livro fechado.

3.7. Os participantes concordam em autorizar,
pelo tempo que durar a antologia com a edito-                4.6. O (s) depósito (s) deverá (ão) ser feito (s)
ra, que a organização faça uso do seu texto,                 em nome de:
suas imagens, som da voz e nomes em mídias
impressas ou eletrônicas para divulgação da
Antologia, sem nenhum ônus para os organi-                   *Estas coordenadas serão fornecidas por e-
zadores, e para benefício da maior visibilidade              mail
da obra e seu alcance junto ao leitor.
                                                             *É imperativo que o comprovante de depósito
                                                             seja enviado para nosso e-mail para confirma-
                                                             ção do pagamento.
4) DO PAGAMENTO PELO SISTEMA
DE COTAS
                                                             4.7. Não haverá prorrogação dos prazos de
                                                             depósito em respeito a todos os participantes
4.1. A participação se dará no sistema de co-                selecionados. Pequenos atrasos podem ser
tas, sendo que cada autor deverá proceder ao                 considerados desde que avisados através do e
                                                             -mail varaldobrasil@gmail.com e em acordo
pagamento da seguinte forma:
                                                             com a equipe organizadora.
(a) Cada autor pagará o valor de R$ 550,00
(quinhentos e cinquenta reais) que podem ser
                                                             4.8. Os participantes receberão um total de 10
pagos à vista ou
                                                             exemplares da Antologia por participação.
(b) em duas parcelas de R$ 290,00, sendo o
                                                             O livro terá aproximadamente 250 páginas no
primeiro pagamento até 31 de outubro de 2012
                                                             formato padrão (14 x 21 cm)
e o segundo e último pagamento até 30 de no-
vembro de 2012.                                              Capa nas medidas 14 x 21 cm fechado; Lami-
                                                             nação BOPP Fosca (Frente);
(c) O pagamento deverá ser feito no caso do
autor receber comunicação comprovando a                      Capa em Supremo 250g/m² com 4 x 0 cores;
aprovação do (s) seu (s) texto (s)                           Miolo
4.2. A cada depósito o comprovante deve ser                  Fechado em Pólen Soft 80g/m² com 1 x 1 co-
enviado para o e-                                            res
mail varaldobrasil@gmail.com

                                               www.varaldobrasil.com                                       65
Varal do Brasil setembro/outubro 2012

Os serviços prestados serão de editoração                   são composta pela equipe organizadora e sua
completa:                                                   decisão será irrecorrível.

Leitura e seleção
                                                            5.3. Para todos os efeitos legais, o participante
Revisão                                                     da presente Antologia, declara ser o legítimo
Projeto gráfico                                             autor dos textos por ele inscritos, isentando os
                                                            organizadora a editora de qualquer reclama-
criação de capa
                                                            ção ou demanda que porventura venha a ser
ISBN e ficha cartográfica                                   apresentada em juízo ou fora dele.
impressão                                                   5.4. O VARAL DO BRASIL ® reserva-se o di-
                                                            reito de alterar qualquer item desta Antologia,
4.9. A presente antologia será editada pela                 bem como interrompê-la, se necessário for,
Design Editora com o selo editorial Varal do                fazendo a comunicação expressa aos partici-
Brasil, será registrada e receberá ISBN , mas               pantes.
cada autor é responsável por registrar suas                 5.5. A participação nesta Antologia implica na
obras.                                                      aceitação total e irrestrita de todos os itens
4.10. A remessa dos exemplares para o ende-                 deste regulamento.
reço do autor que não se encontrar presente                 5.6. A data prevista para a entrega dos exem-
quando do lançamento do livro será paga pelo                plares do livro VARAL ANTOLÓGICO 3 é du-
mesmo, independente do valor pago pela par-                 rante o lançamento do mesmo em 2013 (data
ticipação. A remessa acontecerá após o lança-               a ser agendada) e pelos correios em média
mento do livro e o autor deverá solicitar o valor
                                                            vinte a trinta dias após o lançamento (O autor
do frete pelo e-mail
                                                            se responsabilizará por pagar o frete caso de-
atendimento@designeditora.com.br                            seje receber seus livros pelos correios). Será
                                                            oportunamente discutida uma noite de autó-
                                                            grafos organizada pela revista VARAL DO
                                                            BRASIL ®
                                                            5.7 Em caso de, por motivos de força maior,
                                                            não puder ser realizado um lançamento físico
                                                            do livro VARAL ANTOLÓGICO 3, os livros po-
                                                            derão ser requisitados pelos autores através
                                                            do e-
                                                            mail atendimento@designeditora.com.br após
                                                            aviso por parte do VARAL DO BRASIL ® e
                                                            um ou mais lançamentos virtuais poderão ser
                                                            realizados.
                                                            5.8. Os livros ficarão à disposição na editora
                                                            para serem solicitados por TRÊS meses após
    Lançamento do Varal 2 em Salvador
                                                            o lançamento e/ou aviso aos autores por parte
                                                            do VARAL DO BRASIL ®. Após esta data con-
     5) OUTRAS INFORMAÇÕES                                  siderar-se-á que o autor não deseja receber
                                                            os livros e os mesmos poderão ser doados a
5.1. Dúvidas relacionadas a esta antologia e
seu regulamento poderão ser enviados para o                 alguma escola, biblioteca ou outros.
e-mail varaldobrasil@gmail.com                              5.9. O fórum para qualquer recurso é situado
                                                            em Genebra, Suíça.
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Varal do Brasil setembro/outubro 2012




            Pipagaio

Por Valquíria Gesqui Malagoli

      Meus irmãos, no quintal,
       pegavam linha, bambu,
         cola e papel vegetal
      branco, vermelho, azul...


     Faziam papagaios de papel,
    enquanto o de verdade os via.
  Mas, os de mentira iam ao céu...
  enquanto o verdadeiro os assistia.


 Eu falava: “voa, Loro! Voa alto!”.
  Só que ele, ah, nem me escutava.
 Apenas, no poleiro, dava um salto,
      e, rodopiando, assoviava.


 – “Mãe, por que o Loro não voa?”,
 eu tagarelava igual a um papagaio.                  Foto de Valquiria Gesqui Malagoli
   E a mamãe: “isso não é à toa...
     o loro tem medo de raio!”.


      Daí, meu pai me distraía:
   – “É papagaio ou pipa, filha?”.
Mas, antes de eu responder, ele já ria:
  – “É pipagaio. E não usa pilha!”.




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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

Piloto, o cão amigo

Por Arlete Trentini dos Santos

Pilotinho chegou na casa família Giotti ainda um bebê cão, um filhotinho.
Cheio de graça conquistou a família.
Era brincalhão e também bagunceiro. Gostava de dormir na lareira.
Ela nem era usada mesmo, e para ele era um cantinho bem aconchegante.
Pilotinho e Daniel se divertiam juntos. Rolavam na grama ,brincavam de bola, corriam atrás de
borboletas até ficarem de língua de fora. Os dois é claro...
Um dia na volta da escola Daniel viu que tinham construído uma casinha no jardim para Piloti-
nho.
Daniel não gostou desta ideia ,e quis saber o porque.
O pai e a mãe explicaram que Piloto já era grandinho, e que estava estragando as coisas da ca-
sa.
Daniel choramingou e disse:- quando eu faço alguma coisa errada vocês me explicam que não
é certo, mas vocês não me colocam na rua.
Ele não sabe que esta fazendo bobagem, ele pensa que tudo é brincadeira.
E vocês dizem que o cão é o melhor amigo do homem.
Quando vem um amigo aqui em casa , ele não fica no jardim, ele vem para sala.
O Piloto é ,ou não é, nosso amigo?
-Muito bem, Daniel, nós também somos responsáveis por nossos amigos.
Amizade é uma coisa muito preciosa, e deve ser cultivada .
E em resposta as suas perguntas, vamos lá:
Pilotinho pode continuar dormindo aqui nesta sala, na lareira, mas só se você se comprometer
a deixar o pote da água e da ração sempre bem limpinhos, e levar este cão a fazer suas neces-
sidades na rua.
Nós entendemos que você ama muito o Pilotinho, e quem ama também cuida.
A casinha ficará lá no jardim. Um dia Pilotinho pode querer morar lá.
Ele até pode ter uma família ,mas isso só na casinha dele, certo?
Sorrisos ,latidos e rabinho abanando.
Uma cena muito divertida.




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Varal do Brasil setembro/outubro 2012




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Varal do Brasil setembro/outubro 2012


INFÂNCIA


Por Emérita Andrade Ramos


As asas da cotovia,
Juntas formavam um par.
O teu canto, cotovia,
Jamais irei escutar...


Lembro-me quando criança,                                         hƩp://espacoescolar.com.br
Aquela infinita beleza,
Sabiás e rouxinóis,
                                                   NOSSAS CRIANÇAS
Brejeirice camponesa...

                                                   Por Cléo Reis
Mas, a cotovia triste,
Com seu canto apaixonado,
                                                   O sol forte bronzeou a juventude
Gorjeava solitária,
                                                   na areia alheia ao mundo rude
No mamoeiro do lado...
                                                   O mar tentou curar corpos idosos,
                                                   donos de olhares ainda esperançosos
Oh! Tardes da minha infância,
Carinho arrebatador...
                                                   A “ gata” acha que todos olharam
Mesmo agora, meia-idade,
                                                   as suas curvas de beleza ideal
Sinto ainda o teu sabor!
                                                   O “gato” tem certeza que inventaram
                                                   a musculação que o torna imortal
Ovos batidos com açúcar,
Com canela pra enfeitar.
                                                   Plúmbeas nuvens surgiram para a elite,
Com que volúpia lambia
                                                   indignada no seu veraneio
As colheres do manjar...
                                                   pela excursão do farofeiro

Oh! Ventura deleitosa,
                                                   Não perceberam no verão vivo, de alma nua,
Sempre à memória tornai:
                                                   que o céu chorou : água da casa de
A hora da Ave-Maria,
                                                   pau-a-pique
E o carinho de papai.
                                                   e chorou o céu, p´ra banhar as crianças de
                                                   rua




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Varal do Brasil setembro/outubro 2012


                                                              NO MUNDO DA
                                                        FICÇÃO CIENTÍFICA
                                                              Por Daniel C. B. Ciarlini


             O invento de Matias                     as? Bem, Matias era um desses lavradores.
                                                     Lavrador e cientista, necessário que se refor-
                                                     ce. E dos mais avançados. Desenvolvera o
        Hoje o tempo não é mais o da rapidez,        que se tinha de mais moderno na região: os
da modernidade. Já não existe mais a poéti-          processadores universais de energia contínua.
ca do presente, que pertencia tão bem a Car-         Em outras palavras, o afamado moto-contínuo
los Drummond de Andrade. Percebemos que              sonhado desde o século XVIII, com uma enor-
todo o progresso científico não deveria interfe-     me diferença: sendo universal, o seu processo
rir em nossas artes e costumes. Vivemos, por-        de síntese energética podia advir de qualquer
tanto, o tempo da nostalgia, onde tudo tem seu       matéria existente neste mundo ou em outro, já
passo para celebrar aquilo que um dia fora           que toda matéria encerra energia. Diziam os
querido por nossos antepassados. Um ser, po-         mais otimistas que a geringonça podia usar
rém, nunca se adaptara. Ele era Matias.              até as forças siderais, o que não passava de
       Foi mais ou menos no ano de 2413 que          exagero. O certo era que a invenção de Matias
o conheci. Rosto pálido, nuca acentuada, pou-        mudou o rumo da humanidade. Os processa-
cos cabelos e olhar impreciso. Era um homem,         dores universais foram responsáveis por tirar o
sem dúvida, misterioso, de poucas palavras e         homem da idade da roda para a sua fase mais
raros amigos. Naquele tempo, se não me en-           madura na tecnologia, pois que a velha roda
gano, ainda contávamos com os arcaicos sis-          para funcionar necessitava de gastos energéti-
temas de climatização artificial programados         cos.
por botões. Em Parnaíba, por exemplo, existi-               O aparelho de fato conseguia sintetizar
am os dias de tempestade, os dias de sol e           positivamente energia a partir de tudo. Até do
aqueles de pouca chuva, apenas para resfriar.        nada, como falavam. Podia usar a força gravi-
Tudo se controlava. Nos tempos de seca, um           tacional, a força dos ventos, das marés, do ca-
pouco de chuva; nos tempos de frio, um pouco         lor, da água, enfim, tudo aquilo que encontras-
de calor.                                            se no seu raio de abrangência com capacida-
      As plantações eram as que mais res-            de de exceder a sua vida útil. Um sistema inte-
pondiam às benesses da ciência.                      ligente que depois de finalizado não prejudica-
                                                     ria a matéria ou a não matéria da qual se utili-
       Além das alterações gênicas que forta-        zava.
leciam as espécies vegetais, contava-se com o
sistema climático de apoio. Logo, em pouco
tempo, tornava-se a cultura vegetal o negócio                 – Sr. Matias, não pretendes exportar a
mais lucrativo da cidade. Todos os lavradores        ideia?
eram cientistas, não tinham outra formação a
não ser o de doutorado em suas áreas especí-                  – Para onde? – questionou ele.
ficas. Viviam em condições agradáveis, sem-               – Para as grandes ligas internacionais,
pre experimentando. Ao contrário do que se           o mundo cairia diante de teus pés.
pensava nos séculos de antanho, as comidas
                                                     – Pouco importa – esnobava –, a grande cen-
não tenderam a ser artificiais, mas orgânicas
                                                     telha da ciência humana não é válida aos infa-
em demasia e em abundância.                          mes de carteirinha. Ela não passa de um flash
      E em que parte entra a figura de Mati-         e, ademais, ando já bastante ocupado com
                                      www.varaldobrasil.com                                      71
Varal do Brasil setembro/outubro 2012

outras ideias que me têm tirado o sono há
duas semanas.
      – E podemos saber do que se tra-
ta?, nossa comitiva anda realmente inte-                CREANÇA
ressada nas tuas descobertas.
      – Tempo ao tempo, homens, tempo                   Por Roberto Armorizzi
ao tempo.

                                                        Neologismo gentil,
       Não pudera, porém, desenvolver a
ideia como pensava. Em mais duas sema-                  que me faz pueril
nas Matias havia envelhecido vinte anos.                e meu mundo, invade;
Mostrava-se cansado. Diziam que o gênio
da tecnologia estava agora esgotado e que               creança,
o saldo positivo de sua inteligência sequer             é criança saudade,
fora capaz de criar algo que o permitisse a
                                                        de um outro tempo,
longevidade. Cientistas e médicos sabendo
de seu problema tentavam consultá-lo,                   de uma tenra idade...
mas Matias não os atendia. As portas de
seu laboratório, sempre fechadas. Estava
trabalhando nos últimos ajustes dos pro-                Hoje ela chega
cessadores. Dentro de dois meses estari-                em tempo – tempestade.
am no mercado.
       Um fato inusitado, entretanto, acon-
teceu. Acordei esta manhã sabendo de                    Por fim, sofro com intensidade,
uma notícia das mais tristes, o mundo se                ao saber
ressentia: a morte de Matias. Motivo? En-
                                                        que o mundo aparenta bondade.
velhecimento precoce. Os cientistas exami-
naram o seu corpo e logo descobriram: os
tais processadores haviam sugado toda a                 O que salva?
energia vital do cientista. Tornando-os uni-
versais o gênio se esqueceu que os huma-                pura beldade,
nos poderiam sofrer com as consequên-                   criança – realidade,
cias.
                                                        não como nós,
      Somente ontem, depois de três dias,
conseguiram desativar a tal máquina. Par-               adultos – desamor – pouquidade.
naíba respira melhor e os velhos de outrora
parecem mais vivos e menos doentes, pro-
                                                        Ela avança, em futuro se lança,
vavelmente durarão mais uns 150 anos,
isso se suportarem aos anseios dos ali-                 ao não ser mais criança,
mentos não iodados.                                     para crer – ser – bonança,
                                                        creança,
                                                        amor, bela idade,
                                                        confiança,
                                                        fraternidade,
                                                        só criança alcança,
                                                        de verdade!




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Varal do Brasil setembro/outubro 2012


SONS DA MINHA INFÂNCIA


Por Carlos Roberto Pina de Carvalho


Sons da minha infância
O apito das fábricas
No Ipiranga.
O garrafeiro que passava todos os dias,
O amolador de facas,
O bolacheiro que vinha as quintas e sábados,
O verdureiro.


Sons gravados na memória
O sino da igreja,
Do sorveteiro,
                                                            hƩp://do-alto-da-pedra.blogspot.ch
Do velho do realejo,
Do menino do algodão doce.


Sons impossíveis
De serem esquecidos
Pois dentro de mim
Tornou-se cicatriz!




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Varal do Brasil setembro/outubro 2012


     SÓ O AMOR DE MÃE

            Por MOR

     O que escutei retratar
    Só o calor de uma mãe
    Poderia tudo enfrentar
     Aquele fruto do amor

     Um bebe pequenino
    Que cabia em sua mão
       Era tão miudinho
     Enrolado em algodão

     Boca bem pequena
    Nem conseguia mamar
      O maior problema
      Logo ele ensinar
                                                                       Infâncias

     Aquela boquinha abrir                              Por Morgana Gazel
     Para o mamilo sugar
     O gosto de leite sentir                            Você sorri um sorriso dourado
      Para logo alimentar                               protegido entre paredes sólidas
     Sua traqueia estreita                              cama macia, barriga nutrida
       Logo ao respirar.                                inocência e folguedos.
     Um assovio se ajeita                               Caminhõezinhos tantos
         A juriti imitar.                               dificultam o trânsito no quarto.
                                                        Indumentária do time da família
      Deste bebe cuidar                                 jogos que a inteligência incentivam
     De uma mãe o calor.                                coração sem mágoas acumuladas.
       Tudo a justificar
                                                        Na adolescência você diz:
    Com seu grande amor.
                                                        “Vou a Disney.”

                                                        Você me olha tristonho
                                                        face de borralheiro
                                                        enquanto o estômago reclama.
                                                        Seus brinquedos quebrados
                                                        foram tirados do lixão da cidade.
                                                         Trapos, pedaços de papelão
                                                        são sua cama. No coração
                                                        mágoa e ódio guardados.
                                                        Na adolescência, você grita:
                                                        “Passa a grana aí, meu irmão!”
                                                        A arma roubada na mão.
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                                 MEDITAÇÃO (DEPOIS DO BANHO)


                                             Por Ro Furkim
      Os arabescos de Matisse são cabelos ao vento, nos quais me agarro e viajo de volta à infância.
Junção dos Sessenta com os Setenta. Acontecia uma revolução estética que eu só viria a conhecer
tarde demais. Por ora havia treliças de madeira separando copas de cozinhas. Numa das residências
Calheiros um cheiro maravilhoso de sopa de legumes picados a miúdo com caldo abundante e enrique-
cida com bonitos ossos de boi. Nunca vou entender criança que não come pedaços de cebola cozida.
Eu às vezes estava lá esperando minha irmã terminar o serviço para irmos embora. Não me lembro
bem por que ia lá. Decerto para farejar essa sopa vespertina, praxe de todas as melhores residências.
Minha irmã adolescente fora instruída no preparo enquanto a patroa ocupava-se a costurar para as cli-
entes abastadas de Maceió _ entre as quais uma menininha chamada Rosane que viria a ser Primeira
Dama do Brasil. Eu aguardava assistindo à Pantera Cor
de Rosa, que, fato curioso: tinha muita fome e recortava
um peixe de uma revista, fritava-o, comia e jogava fora a
espinha. Se não me engana demais a memória. Engraça-
do ela também ter miragem de comida. Muitos anos de-
pois leio Clarice Lispector a mencionar a fome brasileira
daqueles dias. O cartoon é de Hollywood, mas a função
da televisão sempre foi catar coisas do mundo todo para
dar espelho à gente.

       Pelas treliças acho que se infiltravam azedinhas,
capuchinhas, avencas, samambaias, acácias. Arabescos
enfim. Como os arcos da cadeira de balanço do patrão.

       E os da poltrona de fios do titio Pedro, aposentado
da Petrobrás, cuja casa exalava carne de panela tempe-
rada com cominho e pimenta do reino moída na hora. O
molho com colorau untava e avermelhava o arroz nos
bocados remexidos no prato. Com garfo. Nalguns ensola-
rados domingos em que mamãe arranjava uma desculpa
para subirmos à visita no bairro do Farol. Chuveiro no
banheiro e azulejos floreados de um lazuli que se repetia
na parede da igreja de Santo Antônio. Na praça, depois
da missa vespertina, tudo se azulava pelas lâmpadas flu-
orescentes dos postes. Os buquês de roletes de cana
exibiam tom misteriosamente festivo, espetados numa
                                                                       Ilustração de Ro Furkim
tábua perfurada, para se venderem a centavos escassos.


       Havia um piano, vez em quando? Devia haver, alguém tomava lições. Ou é projeção minha, só
porque Alba Cristina era todos os dias levada ao colégio particular pela babá, que noutras horas borda-
va sentada atrás do balaústre. Faltava-me assunto com a prima, qualquer tema em comum para desen-
volver brincadeira. De segundo grau, porém. O pai, Nelson, é que era primo de mamãe. Funcionário
público de algum status, a julgar pelo estilo de vida. De quais temas, por sua vez, deviam partir as con-
versações com a lavadeira analfabeta, não sei. Não me lembro de haver reparado. E o odor evocado
pela casa já não é de alguma comida. É só respiração de vida burguesa, tranquila, aprazível e “normal”.

       Embora no quadro de Matisse a sensualidade da escultura nua contraste com a rotina burguesa,
mas sem rosto, sem ver, sem ouvir, sem falar, inerte quanto ao tédio, eu sou aquela pequena chama da
vela.
       Sei lá. Orientalismo, papel de parede ocre com vinho, madeira escura e trepadeiras, cercas vi-
vas, arabescos azuis... até hoje me matam.

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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

     Particularidade, Universalidade e                    Rousseff quando ocupa agora a Presidência da Re-
    Singularidade: definindo conceitos                    pública?
                                                                     Até que ponto se diferenciam e entram em
   fundamentais para a Metodologia da
                                                          conflito os interesses particulares de “uma classe”
       Pesquisa em Ciências Sociais                       social (no caso, a classe trabalhadora, representada
                                                          pelo Partido dos Trabalhadores) com os de outros
                                                          segmentos sociais, como as classes médias e altas
                                                          (as elites)? E em quais momentos é preciso que uma
                       Por André Valério Sales1           classe social, que esteja no poder, abandone seus
                                                          interesses particularistas de classe, em favor das
                                                          necessidades universais do conjunto da sociedade
1. Introdução:                                            brasileira?
           Este ensaio foi escrito no âmbito de meus                 Minha intenção aqui não é a de responder
estudos acerca da Cultura Urbana na sociedade ca-         a estas perguntas, mas, ajudar ao leitor a refletir so-
pitalista contemporânea, área das ciências sociais à      bre as respostas possíveis a elas; e o modo melhor
qual venho dedicando-me há alguns anos. Com ele           que vislumbro, de contribuir para essas reflexões
busco contribuir para o debate atual acerca de uni-       tão fundamentais hoje, é buscando tornar mais inte-
versalismo e particularismos, intentando esclarecer       ligíveis os principais conceitos aí envolvidos, ou
as definições do que vem a ser: particularidade, uni-     seja, definindo: particularidade, singularidade e uni-
versalidade e singularidade, no sentido de ajudar na      versalidade.
reflexão sobre as respostas possíveis que são colo-                  Ao se consultar os dicionários mais co-
cadas pelas interrogações presentes no debate dobre       muns, os mais socializados no país, nota-se que são
tais definições e seus usos na análise de fatos con-      bastante sintéticos: por exemplo, o célebre Aurélio
temporâneos, a base do texto é o tema da metodolo-        (de bolso) conceitua o universal como se referindo
gia de pesquisa em Ciências Sociais.                      ao universo, ao que é mundial, àquilo que é comum
           É de interesse tanto da Sociologia quanto      a todos os homens; ou ainda, “a um grupo dado”; o
da História, na atualidade, a questão dos conflitos e     singular, por sua vez, é o que pertence a um, ao
contradições entre atitudes e movimentos sociais de       número que indica uma só coisa ou pessoa; singula-
caráter particularistas ou universalistas. Principal-     rizar é “tornar singular, particular ou específico”; e
mente no plano político-social do Brasil de hoje          o conceito de particular, é o relativo a apenas cer-
(2012), quando um representante da “classe” traba-        tos seres vivos ou a certa(s) pessoa(s) ou coisa(s), é
lhadora, e do Partido dos Trabalhadores, ascendeu         o relativo a “uma pessoa qualquer” (ver Mini-
recentemente ao poder, enquanto Presidente do pa-         Aurélio, Ferreira, 2001).
ís, Luís Inácio Lula da Silva (por dois mandatos:                Já o Dicionário Houaiss, considerado por
2003-2006 e 2007-2010), conseguindo também re-            muitos como “o melhor” do Brasil, conceitua o uni-
passar o maior cargo do Brasil para outra petista, a      versal enquanto algo que é “comum, relativo ou
atual Presidenta, Dilma Rousseff (2011-2014). Nes-        pertencente ao universo inteiro”, algo “comum a
te contexto, retomam-se com mais intensidade os           todos os componentes de determinada classe ou
debates sobre particularismos e universalismos; co-       grupo” (2009: 1907); o singular refere-se àquilo
mo já observou o célebre historiador francês Jac-         que “se aplica a um único sujeito”, e também coloca
ques Le Goff, a universalidade é um valor “cuja res-      “particularizar” como sinônimo de singularizar (id.:
sonância política é clara” (1990: 193). E nós, os crí-    1750); e particular é “próprio ou de uso exclusivo
ticos sociais do presente, não devemos nos ausentar       de alguém; privativo, privado”, sendo sinônimo,
destas polêmicas e nem mesmo inserirmo-nos nelas          inclusive, de “um indivíduo qualquer” (id.: 1439).
sem um claro entendimento destes conceitos e de
suas interligações com a realidade social.
                                                          ———————————————————
           Tomando então o exemplo dos dois Presi-
dentes da República citados, utilizo aqui seus papéis     1 Tem graduação (UECE, 1991) e mestrado (UFPB, 1996) em
sociais, delegados pela maioria da população que os       Serviço Social. Cursa, desde 2000, enquanto aluno especial,
                                                          disciplinas do doutoramento em Sociologia (PPGS/UFPB).
elegeu, como pretexto para iniciar a discussão, e
inicio perguntando: até onde poderiam ir os desejos       2 Ver, por exemplo: Gabriel Cohn, “Introdução”, In: COHN,
e interesses pessoais (singulares), de Luís Inácio,       G. (Org.), Weber – Sociologia (2002); e Leopoldo Waizbort,
quando ocupou tal cargo, assim como até onde po-          As aventuras de Georg Simmel (2000).
dem ir as vontades singulares da pessoa de Dilma

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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

          A princípio, o leitor pode confundir-se in-     de seu trabalho, no qual ele define detalhadamente a
teiramente e até mesmo desistir de entender os esses      categoria da particularidade e, em consequência,
três conceitos, pois segundo um dos Dicionários           seus complementos obrigatórios, o singular e o uni-
mais usados no Brasil (Aurélio), assim como de            versal, Lukács (1978: 76) inicia definindo que o
acordo com aquele geralmente considerado “o me-           singular é o que é próprio ao indivíduo, ao especifi-
lhor” do país (Houaiss): o particular diz respeito a      camente pessoal; já o particular refere-se aos
certas pessoas (grupos, portanto), certas coisas, no      “interesses de classe”; e o universal, aos “interesses
plural, mas também poderia ser relacionado a uma          de toda a sociedade”.
pessoa qualquer (no singular), um indivíduo. Já o                    Já de outra forma, o autor em questão
singular, é o que pertence a um só, a um único su-        exemplifica as relações entre as três categorias teó-
jeito, mas, ao mesmo tempo, singularizar é definido       ricas, ligando-as então ao conceito de Trabalho. Se-
como o mesmo que “tornar particular”, particulari-        gundo ele: considerando-se o trabalho em si mes-
zar. Já o universal seria o que é comum “a todos os       mo, pode-se designar a “divisão da produção social
homens”, e ao mesmo tempo, pode ser tido como o           em seus grandes gêneros, agricultura, indústria, etc.,
que é comum a todos que pertencem a uma classe            como divisão do trabalho em geral”; enquanto divi-
ou “um grupo”.                                            são do trabalho em particular, a divisão destas clas-
          Na verdade, se sairmos dos Dicionários          ses de produção pode ser feita “em espécies e su-
comuns e adentrarmos às disquisições filosóficas ou       bespécies”; e, finalmente, de maneira singular, pode
sociológicas mais aprofundadas, encontraremos jus-        -se pensar a “divisão do trabalho dentro de uma ofi-
tamente essa mesma mistura, essas mesmas contra-          cina como divisão do trabalho em detalhe” (id.: 96,
dições, porém, entenderemos também que há, por            grifado no original).
fim, uma relação de complementaridade entre o sin-                   Continuando seus exemplos, para melhor
gular e o particular, entre particular e universal, as-   explicitar os três conceitos em análise, e ainda refe-
sim como podem ser complementares entre si a sin-         rindo-se às relações de trabalho sob o capitalismo,
gularidade e a universalidade, como veremos a se-         Lukács observa que entre o capitalista e o operário
guir.                                                     há uma terceira coisa (como pode ser o caso da
                                                          Concorrência), uma coisa particular, portanto, que
2. As três definições segundo as Ciências Sociais:        faz o intermédio entre dois seres singulares. Ou ain-
                                                          da: esta não é, portanto, uma relação de simples in-
No âmbito das Ciências Sociais contemporâneas, o          divíduos, puramente pessoal, mas mediatizada por
pensador múltiplo Georg Lukács, de origem húnga-          um terceiro, que é fruto das relações sociais (id.:
ra, escreveu em 1957 um livro dedicado inteiramen-        119).
te à elucidação da categoria da particularidade:                     Sendo assim, o que se apreende até aqui, a
Introdução a uma estética marxista: Sobre a catego-       partir dos exemplos citados pelo autor, é que as re-
ria da particularidade, e é a partir deste autor que      lações dialéticas (contraditórias, mas também com-
busco um esclarecimento melhor acerca da defini-          plementares) entre singularidade, particularidade e
ção dos três conceitos em questão. Lukács (1885-          universalidade, expressam-se na realidade da vida
1971) foi amigo dos sociólogos Georg Simmel,              cotidiana de cada ser social, no dia a dia das nossas
Max Weber, Karl Mannheim, Tönnies, dentre ou-             relações sociais, o que lhes retira a possibilidade de
tros (Frederico, 1998: 9); também participou dos          serem considerados como definições apenas abstra-
cursos de Georg Simmel na Universidade de Ber-            tas, pertencentes unicamente aos debates intelectu-
lim, na Alemanha, entre 1909-1910, chegando a ser         ais de economistas, filósofos, sociólogos, etc.
“o aluno favorito de Simmel e assíduo frequenta-          Acrescenta ainda o pensador húngaro que apesar do
dor da sua casa” (Netto, 1981: 11, grifo meu). To-        idealismo hegeliano, há que se admitir que foi
dos estes intelectuais, na maioria sociólogos e filó-     “Hegel quem primeiro colocou o problema do parti-
sofos a um só e mesmo tempo, participavam de gru-         cular de maneira correta e multilateral” (Lukács,
pos de estudo (Schiur – seminário particular), aos        1978: 73, grifado por mim), e para fugir àquele mo-
domingos, variando suas presenças nas casas de uns        do idealista de conceber tais definições, é preciso
e de outros. Isto significa que o contato de Georg        ressaltar, de antemão, que as três “categorias lógi-
Lukács com a Sociologia, de modo algum, era su-           cas” aqui em questão dizem respeito à “situações
perficial.                                                objetivas” na sociedade, e não no pensamento. Elas
           Em seu livro sobre a categoria da particu-     são fruto “da realidade que lhes corresponde” (id.:
laridade, o escritor húngaro expõe vários exemplos        75), são categorias históricas portanto, completa-
de situações que demonstram o que vem a ser o sin-        mente opostas às categorias reflexivas idealistas e
gular, o particular e o universal. No capítulo central    puramente subjetivas.

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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

          As definições de singular, particular e uni-   cularidade e universalidade, que as relações entre
versal somente se tornam históricas porque o inte-       elas são contraditórias ao mesmo tempo em que são
lecto humano consegue “elevar a conceito o movi-         também complementares. Especificamente sobre a
mento concreto” do real (id.: 88). Somente desta         definição de universalidade, é preciso afirmar que
forma, então, é que tais categorias podem servir de      há perigo à vista quando se faz dela um mero con-
instrumento para se compreender “o desenvolvi-           ceito vazio. O universalismo é necessário, seguindo
mento vital da realidade em seu movimento, em sua        nosso exemplo, à classe que esteja no poder, seja
complexidade” (id.: 87): se elas forem representa-       ela de procedência elitista ou operária; a universali-
ções concretas do próprio mundo objetivo (id.: 75).      dade deixa de existir, observa Georg Lukács (1978:
          Postos esses aspectos diferenciados que        88), quando é uma característica “pensada apenas
podem assumir as relações entre a tríade em discus-      em uma forma particular”. Como antes citado, esse
são, voltemos agora ao exemplo concreto da parti-        problema, apesar de parecer “exclusivamente lógi-
cularidade da classe trabalhadora no Brasil, como        co”, depois de Hegel passa a ser distinguido en-
no caso citado inicialmente, ao se tratar das vonta-     quanto “um problema da estrutura e do desenvolvi-
des pessoais e dos interesses de classe do ex-           mento da sociedade” (id.: 82).
Presidente da República (Lula), da atual Presidenta                 Sendo assim, as relações entre universali-
(Dilma) e de seu partido político (o PT), relacionan-    dade e particularidade “têm uma função de grande
do-os com as necessidades universalistas de toda a       monta”, pois o particular representa “a expressão
sociedade brasileira: sobre este assunto, o ponto de     lógica das categorias de mediação entre os homens
vista lukacsiano é o de que “Somente em nome dos         singulares e a sociedade” (id.: 93). E nessa proble-
direitos universais da sociedade pode uma classe         mática da relação dialética entre universal e particu-
particular reivindicar para si mesma o domínio uni-      lar, lembrando de nosso exemplo sobre a tríade Pre-
versal” (Lukács, 1978: 77, grifos meus).                 sidente da República-Partido Político-Conjunto da
          A partir dessa afirmação, lanço outra per-     Sociedade, é necessário, nas palavras de Lukács,
gunta para ser refletida: em se considerando a pers-     sempre “esclarecer a forma concreta de sua relação
pectiva de sociedade (socialista?) do Partido dos        [universal-particular], caso por caso, em uma deter-
Trabalhadores, será que a “classe particular” que se     minada situação social, com respeito a uma determi-
encontra no poder – já há uma década – vem conse-        nada relação da estrutura econômica”, e mais ainda:
guindo pôr de lado os seus interesses particularistas,   é decisivo que se busque “descobrir em que medida
e exercer um “domínio” verdadeiramente em nome           e em que direção as transformações históricas modi-
dos “direitos universais” e dos interesses universa-     ficam esta dialética”. Também é preciso “estudar e
listas do conjunto da sociedade brasileira?              descrever, de um modo historicamente concreto
          Há que se esclarecer que Lukács usa, neste     (...) e com exatidão, estas relações e suas trans-
ponto de seus escritos, exemplos ligados a política,     formações”. Somente se cumprindo esta “tarefa
ao trabalho e às classes sociais, no entanto, toda a     importante”, é que se finda descobrindo “que as
discussão a seguir tem a ver com seu método de es-       contradições concretas assim percebidas devem ser
tudo e análise, cujos propósitos são universais e re-    compreendidas, do ponto de vista lógico-
ferem-se, portanto, às categorias teóricas de singular   metodológico, como casos concretos e expressões
-particular-universal como instrumentos lógicos de       de uma dialética de universal e particular” (id.: 91-
análise que podem ser utilizados por qualquer pes-       92, grifos meus). E esta dialética concreta de uni-
quisador social, sejam eles ligados à Sociologia,        versal e particular é, desse modo, uma “arma meto-
Filosofia, História, etc.                                dológica”, é um “instrumento para esclarecer as co-
          Passo agora à discussão específica acerca      nexões reais” entre os fenômenos sociais em análise
de cada uma das três definições aqui explicitadas,       (id.: 95).
que são, como já citado, categorias teóricas, porém                 Para Lukács, a linha fundamental do mo-
lógicas e concretas a um mesmo tempo, que somen-         vimento de pensamento dialético dá-se em um mo-
te por estarem presentes na realidade cotidiana das      vimento irresistível, em “uma aproximação progres-
relações sociais é que podem ser elevadas ao racio-      siva que conduz do puramente singular ao universal
cínio lógico humano, ao nosso pensamento e à nos-        através do particular”, de forma indutiva, portanto,
sa reflexão.                                             o que significa que “todos os conceitos e processos
                                                         mentais, têm o seu ponto de partida na realidade
3. A Universalidade:                                     objetiva [social e histórica] independente da consci-
                                                         ência” (id.: 102-103).
          Entendeu-se, até aqui, que há uma mistura
– dialética – entre as noções de singularidade, parti-
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          Ensina o pensador húngaro que a universa-                Sendo assim, as categorias lógicas da par-
lidade está sempre “em uma contínua tensão com a         ticularidade, singularidade e universalidade não são
singularidade”, além de estar também em uma              idênticas, ao contrário, há entre elas uma “nítida e
“contínua conversão em particularidade”. Da mes-         precisa distinção”, mas isto não exclui que possa
ma maneira, e de modo inverso, a particularidade         haver “passagens e conversões” dialéticas tanto en-
está sempre em contínua tensão com o universal e         tre universalidade e particularidade, como entre sin-
em contínua conversão em singularidade. Ou seja,         gularidade e particularidade. Mas nosso pensador
as relações entre essa tríade são sempre múltiplas e     húngaro adverte que essas distinções, ainda que pre-
contraditórias, e quanto mais autêntica e profunda-      sentes na realidade cotidiana de todo ser humano,
mente os nexos da realidade, suas conexões e con-        são pouco desenvolvidas “no modo de pensar da
tradições, “forem concebidos sob a forma da univer-      vida cotidiana” (id.: 110).
salidade”, de forma mais exata e mais concreta                     No próximo item, passamos à explicitação
“poderá ser compreendido também o singular” (id.:        do significado da categoria teórico-metodológica da
104).                                                    particularidade, a mais discutida por Lukács em seu
          Vamos discorrer agora especialmente so-        livro Introdução a uma estética marxista: Sobre a
bre a definição filosófica/sociológica de singulari-     categoria da particularidade (de 1957), além do au-
dade.                                                    xílio na compreensão do conceito de mediações.

4. A Singularidade:                                      5. A Particularidade – Um Campo de mediações:

          Ainda a partir do trabalho de Lukács,                    Como bem esclarece Lukács, na vida coti-
aprendemos que o conhecimento e a compreensão            diana, no conjunto das relações sociais, a particula-
da singularidade “não pode ocorrer separadamente         ridade “se confunde, em sua determinação e delimi-
das suas múltiplas relações com a particularidade e      tação, ora com o universal ora com o singular”, e é
com a universalidade”; essas relações múltiplas já       por isso que “na construção científica e filosófica,
estão contidas na imediaticidade do singular, “no        os extremos são desenvolvidos antes do que os
imediatamente sensível de cada singular”, e tanto a      meio mediadores [as particularidades]” (1978: 110,
realidade como a essência da singularidade “só po-       grifos meus), assim definida, a particularidade é
de ser exatamente compreendida quando estas me-          “um membro intermediário com características bas-
diações (as relativas particularidades e universalida-   tante específicas” (id.: 112).
des) ocultas na imediaticidade são postas à luz”, o                Por tudo isso, continua o filósofo húngaro,
que significa, também, que “esta aproximação ao          é que somente pode existir “uma autêntica e verda-
singular enquanto tal pressupõe o conhecimento           deira aproximação à compreensão adequada da rea-
mais desenvolvido possível das relativas universali-     lidade”, uma relação verdadeiramente dialética en-
dades e particularidades”. O singular, portanto,         tre teoria e prática, se houver clareza: dessa “tensão
“precisamente como singular, é conhecido tão mais        dos pólos, constantemente em ato”; se houver o en-
seguramente e de um modo tão mais conforme à             tendimento da “constante conversão dialética recí-
verdade (...) quanto mais rica e profundamente fo-       proca das determinações e dos membros intermedi-
rem iluminadas as suas mediações para com o uni-         ários que têm função mediadora”; e se for compre-
versal e o particular” (1978: 106-107).                  endido que há esta “união entre os pólos”, ainda que
          O que se apreende então, até esse ponto,       seja uma união tensa e contraditória. Portanto, a ta-
especificamente acerca das relações entre singulari-     refa do intelectual é, tal como assinala Lukács, não
dade e universalidade, é que suas ligações na reali-     julgar a realidade em análise, e nem descrevê-la
dade são inseparáveis, apesar de opostas entre si.       ou explicá-la da forma que o intelectual queria que
Tais categorias lógicas estão presentes no real em       fosse, ou da forma que o real deveria ser, mas ten-
unidade dialética, mas, ao mesmo tempo, há uma           tar elevar à consciência a “exata relação dos homens
conexão contraditória entre elas, não havendo, desse     para com a realidade objetiva” (id.: 111).
modo, espaço para identidade entre uma e outra, por                Ou ainda, o pesquisador deve observar, na
serem opostas; contudo, o singular não existe senão      realidade concreta/cotidiana, como as relações soci-
em sua relação com o universal. Segundo Lukács, o        ais se processam, sem que os seus valores pessoais,
“movimento dialético da realidade, tal como ele se       seus desejos e interesses influenciem nos tratamento
reflete no pensamento humano, é assim um incon-          dos dados observados/coletados por ele. Por exem-
trolável impulso do singular para o universal e des-     plo, refletindo sobre a cultura popular, Augusto
te, novamente, para aquele” (id.: 110).                  Arantes (1987:57) propõe-se a que, neste seu livro
                                                         “se projete o foco de atenção sobre o que as culturas

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efetivamente são, ou melhor, sobre como elas são         mediação em uma tríade, mas sim uma espécie de
produzidas, sobre os processos através dos quais         campo de mediação para o universal (e, em certos
elas se constituem e o que elas expressam, e não         casos particulares, para o singular)” (id.: 116, grifo
sobre o que elas foram, seriam ou deveriam               meu).
ser” (grifado por mim).                                            A partir de uma série de pesquisas, cada
           Deste modo, Lukács enfatiza que o movi-       uma voltada para o esclarecimento de um novo as-
mento do singular ao universal, assim como seu           pecto particular do problema, em suas característi-
contrário: do universal ao singular, “é sempre medi-     cas específicas, pode surgir (graças ao aprofunda-
atizado pelo particular”. A particularidade é então      mento destes novos aspectos particulares) outra con-
“um membro intermediário real, tanto na realida-         cepção diferente, que venha a alargar e aprofundar
de objetiva quanto no pensamento que a refle-            mais ainda o seu conceito, elevando-o a um nível
te” (id.: 112, os grifos são meus).                      superior de universalidade; de tal modo que “A cui-
           Não é por acaso, acrescenta o autor, que a    dadosa análise do particular é apenas um meio para
tríade singular-particular-universal se tenha tornado    alcançar este grau superior de universalidade”, bus-
formalmente dominante, este fato “não é casual, já       cando-se esta ampliação da universalidade do con-
que início, meio e conclusão descrevem a estrutura       ceito (id.: 114-115). Isto significa que, através de
formal necessária de qualquer operação mental”.          mediações, em se conhecendo momentos particula-
Também, é preciso lembrar que “a relação de forma        res novos, a universalidade dos conceitos envolvi-
e conteúdo é uma relação mais próxima e mais con-        dos no problema é ampliada e tornada superior ao
vergente no início e na conclusão do que no meio”,       que antes se conhecia.
e este meio, por sua vez, é “uma expressão comple-                 Após todas essas considerações, Lukács
xiva e sintética de todo o conjunto de determinações     (1978: 116) afirma que seria enganoso concluir-se
que mediatizam o início e a conclusão” (id.: 113).       que “o particular é uma amorfa e inarticulada faixa
           Lukács ressalta que nenhum dos movimen-       de ligação entre o universal e o singular (...) as coi-
tos aludidos acima são “pontos firmes”. Do mesmo         sas não são assim”. O campo de mediações tratado
modo que a particularidade – que é na verdade um         aqui é naturalmente articulado, e cada etapa que o
“inteiro campo de mediações” –, também “início e         conhecimento leva a compreender em tal campo
conclusão (universalidade e singularidade) de modo       pode, apenas por aproximação, “ser claramente de-
algum são pontos firmes no sentido estrito da pala-      terminada e fixada, do mesmo modo que podem ser
vra”, pois “o desenvolvimento do pensamento e dos        fixadas a universalidade e a singularidade”. Tam-
conhecimentos têm precisamente a tendência a             bém o fato de que, em muitos casos, “deva-se fixar
transferi-los cada vez mais”. Todavia, se se leva em     uma inteira cadeia de membros particulares da me-
consideração corretamente o movimento dialético          diação, a fim de ligar corretamente entre si a univer-
do particular ao universal, assim como da universa-      salidade e a singularidade”, demonstra que, de modo
lidade à particularidade, observa-se que “o meio         algum, a particularidade tenha um caráter amorfo.
mediador (a particularidade) pode menos ser um                     A partir do prisma da linguagem, continua
ponto firme, um membro determinado, e tampouco           o pensador húngaro, são bastante precisos os signifi-
dois pontos ou dois membros intermediários (...)         cados de singular e universal, já a expressão particu-
mas sim em certa medida, um campo inteiro de             laridade pode querer dizer muitas coisas: “ela desig-
mediações” (id.: 113, grifos meus).                      na tanto o que impressiona, o que salta à vista, o que
           A cada passo que a construção do conheci-     se destaca (em sentido positivo ou negativo), como
mento vai sendo aperfeiçoado pelo pesquisador, po-       o que é específico; ela é usada, notadamente em fi-
de-se “alargar este campo [de mediações], inserindo      losofia, como sinônimo de ‘determinado’, etc.”
na conexão momentos dos quais precedentemente se         Contudo, esta oscilação que pode existir no signifi-
ignorava que funções tinham na relação entre uma         cado do particular “não é casual, mas tampouco ele
determinada singularidade e uma determinada uni-         indica um amorfismo fugidio; ele diz respeito ape-
versalidade”. Assim como também se pode diminuir         nas ao caráter sobretudo posicional da particularida-
esse campo de mediações, composto pelas particula-       de”. A particularidade que aqui se busca esclarecer
ridades, “na medida em que uma série de determina-       representa, com relação ao singular: “uma universa-
ções mediadoras – que até um dado momento eram           lidade relativa, e, com relação ao universal, uma
concebidas como sendo independentes uma da outra         singularidade relativa”, e esta relatividade posicio-
e autônomas – são agora subordináveis a uma única        nal “não deve ser concebida como algo estático, mas
determinação” (Lukács, 1978: 113).                       sim como um processo. A própria conversão, por
           Torna-se claro, desta maneira, que o parti-   nós assinalada deste ‘termo médio’ em um dos ex-
cular “não é simplesmente o membro pontual da            tremos já implica este caráter processual” (id.: 117,

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  grifo meu).                                              gurança sobre o que significam tais categorias lógi-
          A particularidade, desse modo, é um prin-        cas.
cípio do movimento do conhecimento, e enquanto                       E, principalmente, aprendemos aqui que
“momentos particularidades mediadores”, ela tem,           os interesses particularistas, em sendo interesses de
na sociedade, “uma existência relativamente bem            apenas uma “classe social” que se encontre no po-
delimitada, uma figura própria” (id.: 118). Decidin-       der (como no exemplo citado, do Governo do ex-
do-se o pesquisador por eliminar a particularidade,        Presidente Lula e da atual Presidenta Dilma, ambos
e operar apenas com os extremos (singular e univer-        filiados ao Partido dos Trabalhadores), poderiam e
sal), enfatiza Lukács, é “deformante”, assim como o        deveriam ser convertidos em interesses universalis-
fizeram, por exemplo, os pré-socráticos, Aristóteles,      tas, voltados para o bem-estar da maioria da popula-
a filosofia burguesa, etc. Estes, buscaram “afastar        ção brasileira. Assim como também, fomos levados
idealmente da vida dos homens, justamente com o            a compreender que, às vezes, um discurso que a
particular, as determinações sociais”, passando por        princípio seja universalista pode esconder interes-
cima, como no caso da filosofia burguesa, do cará-         ses eminentemente particularistas, noutras pala-
ter de classe da sociedade capitalista; e esta tendên-     vras: pode ocorrer que aquilo que se apresenta co-
cia afirmava que “o homem deve sempre ser com-             mo universalismo hoje, venha a converter-se, ama-
preendido como singular, excluindo-se todas as me-         nhã (prejudicialmente à toda a sociedade), em inte-
diações da socialidade de sua existência, afastando-       resses particulares de apenas uma classe, um grupo
se qualquer particularidade mediadora” (id.: 119-          ou segmento social!
120).                                                                 _________________________________________________
          Em se tratando das relações dialéticas e
das mediações existentes entre singularidade-               3 Apesar de indelevelmente presentes neste texto, não me
particularidade-universalidade, a eliminação da            interessa discutir aqui nem a perspectiva de classe e nem o
                                                           método lukacsianos, mas apenas demonstrar a sua contribui-
particularidade é, por fim, uma luta contra a obje-        ção para o debate acerca das três definições em análise. Este é
tividade, constata Lukács, desconsiderá-la é lutar         um texto sobre Metodologia de Pesquisa e Análise, e não so-
contra a concreticidade e contra a apreensão correta       bre as concepções marxistas, ainda que cite Marx, Lukács, o
da dialeticidade das relações sociais (1978: 120).         conceito de “classe social”, etc. Mesmo assim, volto a citar
                                                           Jacques Le Goff (1990: 192) quando, concordando com o so-
                                                           ciólogo-filósofo francês Raymond Aron (1905-1983), afirma
6. Conclusão:                                              que “Marx deu, do dinamismo permanente, constitutivo da
                                                           economia capitalista, uma interpretação que ainda hoje conti-
          Acredito que o objetivo deste ensaio – o         nua válida”.
de contribuir para o esclarecimento das categorias
teóricas de singular, particular e universal – foi atin-   7. Referências:
gido. Como foi visto durante o texto, o nosso co-
nhecimento comum acerca de tais conceitos, assim           ARANTES, Antonio Augusto. O Que é Cultura Popular. 12ª
como dos significados postos pelos Dicionários             ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.
mais utilizados no país, não são suficientes para um       COHN, Gabriel. “Introdução”. In: COHN, G. (Org.). Weber
entendimento mais aprofundado acerca das relações          – Sociologia. 7ª ed. São Paulo: Ática, 2002.
existentes entre particularidade, universalidade e         FERREIRA, Aurélio B. H. Mini-Aurélio Século XXI: Escolar.
singularidade.                                             4ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
          Demonstrou-se também, como é rica a              FREDERICO, Celso. Lukács: Um clássico do século XX. São
definição de particularidade, tão usada pela maio-         Paulo: Moderna, 1998.
ria das pessoas com o sentido banal de                     HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portugue-
“individualidade”, o que faz com que se perca qua-         sa. Rio de Janeiro: Objetiva/Instituto Antônio Houaiss, 2009.
se que totalmente a sua significância teórico-             LE GOFF, Jacques. História e Memória. São Paulo: EdUni-
ontológica; enquanto que, na verdade, a particulari-       camp, 1990. (trad. Bernardo Leitão et. al.).
dade abrange um campo inteiro de mediações, que            LUKÁCS, Georg. Introdução a uma estética marxista: Sobre
se encontram a meio caminho (mas não em uma                a categoria da particularidade. Rio de Janeiro: Civilização
posição fixa) entre o singular e o universal. Deve o       Brasileira, 1978. (trad. Carlos Nelson Coutinho e Leandro
pesquisador observar que estas mediações por vezes         Konder).
se aproximam mais da universalidade e, às vezes,           PAULO NETTO, José (Org.). Lukács. São Paulo: Ática,
tornam-se mais próximas ao singular.                       1981.
          O que importa afinal, é que ao se debater
                                                           WAIZBORT, Leopoldo. As aventuras de Georg Simmel. São
hoje as definições ontológico-sociais de particula-        Paulo: USP/PPGS/Ed. 34, 2000.
rismos e universalismos, haja um tanto mais de se-
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BOLO SIMPLES


Fonte: http://tudogostoso.uol.com.br/



Ingredientes

• 2 xícaras de açúcar
• 3 xícaras de farinha de trigo
• 4 colheres de margarina bem cheias
• 3 ovos
• 1 1/2 xícara de leite aproximadamente
1 colher (sopa) de fermento em pó bem cheia


Modo de Preparo



1. Bata as claras em neve
2. Reserve
3. Bata bem as gemas com a margarina e o açúcar
4. Acrescente o leite e farinha aos poucos sem parar de bater
5. Por último agregue as claras em neve e o fermento
6. Coloque em forma grande de furo central untada e enfarinhada
7. Asse em forno médio, pré - aquecido, por aproximadamente 40 minutos
Quando espetar um palito e sair limpo estará assado




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             Particularidade, Universalidade, Singularidade: Qual o Significado Destes Conceitos?

Este ensaio pretende contribuir para o debate atual sobre universalismo e particularismo, esclarecendo me-
lhor o significado dos conceitos de particularidade, universalidade e singularidade, na intenção de ajudar na
reflexão acerca das respostas possíveis que são colocadas pelas interrogações postas pelo debate aludido.

Palavras-Chave: Particularidade, Universalidade, Singularidade.



               Particularity, Universality, Singularity: Which the Signification of This Concepts?

This essay tries to contribute for the actual discussion about universalism and particularism, elucidating the
signification of particularity, universality and singularity, intending to aid in the reflection about the an-
swers who the debate to ask.

Keywords: Particularity, Universality, Singularity.




                                                      ANDORINHAS


                                                      Por Afonso Martini

                                                      As andorinhas vão e voltam – veraneiam.
                                                      Quando há frio excessivo no sul, sobem serras,
                                                      Procuram lazer turístico em outras terras;
                                                      quando cansam, pousam aqui e acolá – passeiam.

                                                      Aos amigos que encontram nessa revoada,
                                                      Com abraços e sorrisos gentis presenteiam.
                                                      Mais amizades e laços de amor semeiam,
                                                      Quando da terra natal estão afastadas.

                                                      E assim vivem a vida, encantada, feliz,
                                                      Entre dormires e acordares no caminho
                                                      E cumprem sua sina de eterno aprendiz.

                                                      Vêm do sul; vão ao norte – em outro escaninho;
                                                      Sua alminha se veste de novo verniz
                                                      ... e se amam; ... e se beijam com muito carinho.




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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

Vítima de Pedófilos                                     nos.
                                                        A cada esquina um olhar enigmático, mas louco!

Por Dhiogo José Caetano                                 A cada passo um medo e, na garganta, um sufoco.
                                                        A cada momento nada se pensa, sobre o que aconte-
                                                        ceu, o nosso corpo pode ser pertença de quem abu-
Quanto medo.                                            sos tece. Mas tudo silencia e nada nos descansa
Não entendia o comportamento daqueles monstros          quando surge um novo dia e alguém se apropria da
que conviviam à minha volta. Eu era simplesmente        doçura da alma de uma criança.
uma criança mas, mesmo assim, aqueles seres me          Por isso respeite as crianças. Seja humano e se colo-
atormentavam.                                           que no lugar das mesmas, assim você verá, ou me-
Fui perseguido, obrigado a fazer coisas que nem         lhor, sentirá na pele o medo, o desalinho da alma.
mesmo eu sabia o que era. Mas, dentro de mim,
sentia que era algo errado e que não deveria ser fei-
to. Mas aqueles monstros me obrigavam, me ame-
açavam. E eu era obrigado a fazê-lo.
Eu me sentia culpado. Tinha medo e vergonha, tam-
bém. Mas me sentia obrigado.
Dentro de mim um desalinho, pois sabia que algo
errado estava acontecendo mas, ao mesmo tempo,
tinha medo de contar e omitia pra mim mesmo
aquela cena terrível.
Não fui violentado graça a Deus, mas foram inúme-
ras as vezes que me deparei com pessoas ditas ho-
nestas e humanas, que olharam pra mim, uma sim-
ples criança e diziam, olhando para o seu membro
genital: “eu deixo você pegar”.
Não foi uma só pessoa; foram algumas pessoas em
momentos diferentes da minha vida. Eu me sentia
mal, me considerando culpado, um verdadeiro lixo.
Nada aconteceu no meu corpo físico, mas na alma
ficaram as marcas de uma experiência que nunca
será esquecida.
Fui utilizado como parte da fantasia sexual de indi-
víduos que se diziam humanos mas que, na verdade,
não passavam de seres irracionais, monstros da pior
espécie.
Acreditava que tudo acontecera comigo, era porque
tinha que acontecer; mas viver tal experiência é um
estigma que fica registrado na alma.
No decorrer da vida, encarei essa cruel realidade e
sobrevivi e, hoje, busco defender pessoas que, como
eu, foram traumatizadas por monstros que não res-
peitam ninguém.
Diga não à pedofilia.
Pois podemos ver ainda na atualidade a coisa acon-
tecer em todos os lugares e de variadas formas, mas
com um único ser; os mais especiais, puros e frá-
geis também: as nossas crianças que são usadas e
humilhadas por monstros em forma de seres huma-
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Varal do Brasil setembro/outubro 2012


          Simplicidade da infância                        em uma folha que não estava mais branca.
                                                              - Terminei.
                                                              - Vamos colar na parede do meu quarto. O de-
                                                          senho vai enfeitar tudo.
                 Por Evelyn Cieszynski
                                                              E foi exatamente o que aconteceu. O desenho
                                                          deu vida às paredes de madeira sem pintura. O
      - O que você tá desenhando?
                                                          quarto era pequeno e mal iluminado, mas o dese-
      - Nós duas. É um presente pra você.
                                                          nho fez o lugar ganhar outra aparência.
      - Mas você esqueceu uma coisa.
                                                              - Agora vamos brincar!
      - O quê?
                                                              - Eu conto e você se esconde.
      - Não somos do mesmo tamanho.
                                                              Trocaram um olhar cúmplice. Nada diminuiria
      - Isso não importa. Gosto de você do mesmo
                                                          aquela amizade entre duas meninas tão inocentes.
jeito.
                                                              O desenho era marca disso. A imaginação faria
      Não era um desenho perfeito. Era a imagem de
                                                          com que elas fossem o que quisessem: duas crian-
como duas crianças se viam. Estavam de mãos da-
                                                          ças e um arco-íris.
das, e um grande sorriso no rosto de cada uma.
      - Por que você não desenha o gatinho que
achamos ontem?
      - E onde posso desenhar ele, do meu ou do seu
lado?
      - Desenha no meio, assim ele será de nós duas.
      E começou a desenhar com seu lápis preto, um
gatinho de olhos e orelhas grandes, parecia assus-
tado, exatamente como estava quando o encontra-
ram.
      - Agora termina com um arco-íris bem colori-
do.
      - Mas eu não tenho lápis colorido, só esse preto
que ganhei da minha vó.
      - Não precisa de lápis colorido. É só imaginar
que tá colorido. Se nós pensarmos que o arco-íris
tá colorido, ele estará.
      - Tá bom. E vou desenhar também borboletas               Desenho: hƩp://jenspiraƟon-now.blogspot.ch/
de todas as cores. E também vou desenhar o sol
brilhando.
      Ela começou a traçar vários riscos que não ti-
nham muito significado. Era um monte de borrão

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Varal do Brasil setembro/outubro 2012



               Nossa Infância

           Por Germano Dias Machado


        Minha infância foi com muita dor
      Embora estivesse nela também o amor
        Minha infância é hoje recordação
        Do tempo em que era sem saber
               O que o mundo é,
             Desilusão e Ascenção

Minha infância teve sorrisos, mas também decepções
        Diversidades entre pai europeu duro
         E mãe brasileira coração amolecido
             Amolecido de benquerença
              Longe vai minha infância
           Oitenta e seis anos sonhando
                    Com infância.

               Infância que se foi
                Mas ficou e ficará
                 No sentimento
                  Na memória
                     No ser
          Ao mesmo tempo alegre e triste
               Sem lança em riste

         Minha infância perdura em mim
              Com todo Freudismo
             E com todo Junguismo
      Sensual e ao mesmo tempo espiritual...
            Que faz a infância nesta
               Minha ancianidade?
                Ela, porém, fica...




                                                  Na foto, o autor




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O CACHORRO QUE FALAVA INGLÊS                             nio em bom e perfeito inglês (aqui traduzido para
                                                         exercitar a leitura...) o que ele já esperava:
                                                                _ Não entendo porque não chamou seu
Por Ivane Laurete Perotti                                irmão. Você sabe que ele poderia estar machuca-
                                                         do agora. Aquela brincadeira é para os meninos
                                                         maiores. Quando é que vai voltar a conversar?

Plínio morava em um bairro que não tinha rede de
esgoto. A água suja corria a céu aberto em uma              É claro que a voz do cachorro era suave e doce,
vala que os meninos menores chamavam de “rio”.           típica voz canina, na raça dos vira-latas. Essa raça
                                                         aprende desde cedo a interpretar os estados emo-
         Foi nesse “rio” que ele aprendeu a brincar
                                                         cionais dos seres humanos, a reconhecer a tensão
em grupo, a dividir os poucos brinquedos feitos de
                                                         do ambiente, a distinguir um sorriso maroto de um
papelão e madeira, a correr com os cachorros que
                                                         sorriso bondoso – mesmo quando os dois saem da
não tinham dono. Parecia que esse tempo ficara
                                                         mesma boca, um depois do outro. Eles aprendem
muito longe, especialmente se olhado da janela de
                                                         a ler o mundo que os rodeia e se descobrem capa-
seu barraco, em uma noite quente, iluminada pelos
                                                         zes das mais impraticáveis adaptações. Daí a raça
vaga-lumes, invadida pelo barulho dos grilos e do
                                                         vencer qualquer “pedigree” em uma competição de
canto das cigarras.
                                                         sabedoria e sobrevivência. Os vira-latas eram es-
          Seus amigos o convidaram para “pescar          peciais. Tão especiais ao ponto de acompanhar
o boi”, uma espécie de brincadeira que só era feita      um ser humano por uma vida inteira sem esperar
pelos maiores. Existia certo perigo em correr atrás      recompensa. No fundo eles sabiam que a recom-
de alguém que estava com os olhos vendados.              pensa era só uma falta de oportunidade humana.
Especialmente naquele terreno cheio de lixo e bu-        Sabiam disso e viviam de esperança: chegaria o
racos e coisas velhas jogadas fora. Mas era a brin-      momento em que sua raça subiria ao “podium”...
cadeira do momento. Ele até acreditava que o no-         com certeza chegaria. Mas antes disso, precisava
me não era bem aquele, mas seus amigos gosta-            dar conta de orientar o seu fiel amiguinho. Plínio
vam de fazer diferente, então, diziam criar nomes e      estava silencioso demais até mesmo para um pré-
brincadeiras novas que eram mais antigas do que          adolescente.
a idade somada de todos eles juntos.                     Duque conhecera outros na mesma fase.
                                                                   O silêncio era uma forma de dizer mais
 Mas nem mesmo um “bem-feito” Plínio quis dizer          alto o que não conseguiam gritar.
quando viu seu irmão menor ser levado de roldão                  Ele entendia bem dessas coisas, por isso
pelo grupo que corria. O pequeno caiu e levantou         emprestava sua voz para o amiguinho.
choramingando. Foi Duque quem o socorreu com
uma lambida e um abano de rabo solidário. Grato,                  Com o único detalhe a se observar que
o menininho voltou para mais perto da porta do           sua língua era o “inglês”.
barraco como que segurando o cachorro por uma                     Nascera em um navio mercante, daque-
coleira invisível.                                       les que só aportam para descarregar mercadorias.
          Será que Duque havia contado o segredo         Em um dia de muita chuva, após perder uma parti-
e agora o seu irmão menor também... não! Duque           da de cartas, Duque resolveu descer para o cais
não falaria nada para ninguém, até mesmo porque,         no qual o navio aportara.
ninguém acreditaria nele.                                          Descera e nunca mais voltara.
         Mas, para não ficar em dúvida, Plínio saiu               Descobrir o calor do sol com os pés fir-
da janela pulando-a como sempre fazia. Seus pas-         mes na terra era uma experiência que ele queria
sos pareciam pesados para um menino de apenas            manter para o resto de seus dias.
doze anos de idade. Tudo parecia pesar muito nos
últimos dias: até sua língua colara entre os dentes,
e seus lábios haviam esquecido de abrir e fechar.                 Cansado das marés da vida, encontrara
        Ainda assim, sentindo alguma coisa que           Plínio sentado em uma calçada suja, enquanto es-
não sabia explicar, sentou perto de seu irmão en-        perava pelo pai, um estivador não muito forte para
quanto este dizia ao Duque:                              a profissão.

       _Você é um cachorrinho bom. Nunca vá                      Mas, isso era coisa que ele ainda não en-
embora daqui. Vou encontrar uma caixa seca para          tendia bem.
você dormir.                                                      Aprenderia com o tempo.
       Duque, sereno como sempre, disse ao Plí-                    Quando disse a primeira palavra:

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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

_ Hello, boy! (opa!... esquecemos do trato: _ Olá,               _ Yes, children, yes! I do... ou seja, sim, cri-
menino!).                                                 ança, sim. Eu lhe dou um algodão-doce, desde
                                                          que eu possa comprá-lo, bem entendido.
        Teve o silêncio como resposta.
                                                                Dando voltas ao redor de si mesmo, Duque
        Precisou de muito jeito para mostrar cari-
                                                          deixou claro que não iria desistir de “dar” o doce
nho e se fazer ouvir.
                                                          para o menino.
       Curiosamente Plínio o ouviu.
                                                                 Plínio tinha certeza disso, conhecia muito e
     Ouviu e entendeu como se falassem a                  muito bem o seu amigo canino.
mesma língua.
       As palavras só saíam da boca de Duque,                    Remexeu nos bolsos furados para ganhar
mas Plínio falava com os olhos.                           tempo, pois há muito estava sem nenhuma moedi-
        Tinha olhos profundos e inteligentes que          nha. A última delas entregara a sua mãe para com-
diziam conhecer mais lugares do que ele próprio           pletar o dinheiro do ônibus até a cidade.
conhecera enquanto fora marinheiro de porão.                    Olhou para o rosto do irmão menor e se já
                                                          não falava nada, sentiu vontade de estar ainda
                                                          mais distante.
                                                                Eram os olhinhos de uma criança que pedia
                                                          um algodão-doce.
                                                                  Mas doces custam dinheiro e ele não tinha
                                                          nada.
                                                                 Como dizer não a ele se exatamente essa
                                                          palavra era a que estava atravessada em sua gar-
                                                          ganta a cortar-lhe o ar, a alegria, a apertar como
                                                          se tivesse dedos fortes e... como dizer sem dizer?


                                                                  Outra vez o pedido:
        Plínio falava em silêncio, o que não queria               _ Mano... compra?!
dizer que ele não falasse.
                                                                  Duque podia sentir a tensão aumentar.
      Muito pelo contrário. Suas palavras preci-
savam ser ouvidas de um modo nada tradicional.                  E a bicicleta com o mastro colorido se afas-
                                                          tava balançando os doces amarrados, como que
        E isso era uma coisa um pouco difícil para        dizendo: “... depressa!... ande! compre agora, pois
os seres humanos acostumados com aquilo que               eu só volto amanhã!”
parece igual.
                                                                   Ela não pararia a menos que alguém a cha-
     Enquanto falava com Plínio, foi observando           masse.
como ele construía cuidadosamente o seu discur-
so.                                                              Foi aí que teve a ideia e pôs-se a latir para
                                                          a roda de trás.
       Era notável! Cada expressão de sua face
valia por longas frases, por um bom grito, por uma               Latiu, correu, mordeu e, parou o vendedor
risada aberta, por um choro molhado.                      em plena rua esburacada.

       Cada revirada de olhos valia por listas de               _ Cachorro louco! Larga daí! – vociferava o
palavras coloridas, ou não!                               doceiro balançando seus balões coloridos.

        Às vezes, sabia que ele precisava ficar qui-
eto para ouvir a própria voz, em outras, preferiria
que a fase do “eu-não-falo-para-me-ouvirem-falar!”              As crianças que estavam por perto se apro-
acabasse logo. Era difícil falar inglês em bom ca-        ximaram todas de uma vez.
chorrês para um menino em fase de “casulo”.
                                                                 Plínio e seu irmão tentaram puxar Duque
                                                          para longe, sem sucesso.
      Foi o irmãozinho de Plínio que interrompeu
                                                                 Dentes, baba de cachorro, rosnados e até
seus devaneios.
                                                          latidos de “eu sou mau” emprestavam à cena um
       _ Plínio!?Eu quero um algodão-doce... dá?          ar de filme de Charles Chaplin.


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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

       Quanto mais os dois irmãos tentavam tirar        colorido.
o cachorro do pneu, mais seus dentes enterravam-
                                                               Era um irmão muito querido, chamava-se
se na borracha.
                                                        Bené, nome que já fora de seu avô nordestino.
                                                                  Duque não precisou dizer mais nada.
                                                               Acomodaram-se os dois junto a Bené e as-
     _ De quem é este animal? De quem?_ berra-          sim ficaram pelos poucos minutos que durou o res-
va o vendedor.                                          to do algodão-doce.
    _ É nosso, tio! – respondia em seguida o ir-
mãozinho de Plínio.
      Por mais de dez minutos, por entre os gritos
                                                                    Com o fim do dia, vinha o silêncio maior.
de alguns e as risadas de outros, o vendedor solta-
va a mesma pergunta e o menininho respondia a                   Era o momento em que Plínio procurava
mesma resposta.                                         por razões alheias ao seu entendimento.
       Não se sabe quem cansou primeiro.                         Gostava de ficar olhando as estrelas por
                                                        detrás das nuvens grossas, de procurar por algum
       Mas foi o vendedor que propôs:
                                                        sinal no céu que indicasse uma novidade.
    _ Quem tirar este bicho de minha bicicleta ga-
                                                                    Qual? Não sabia.
nha um algodão. Quem...
                                                                  Apenas sentia vontade de estar ali, quase
                                                        sem estar, como uma espécie de viagem sem fron-
       Nem teve tempo de repetir.                       teiras, sem ruídos, sem medos, sem perguntas,
     O pequeno que já estava segurando o rabo           apenas o céu para escorregar devagarzinho, sem
de Duque, tomou o cachorro                              pressa.

no colo. Milagrosamente o vira-lata soltou-se da                  Nessas horas, a única companhia era Du-
borracha _ agora babada_, em silêncio absoluto.         que.
Silêncio total, completo!                                      O cachorro também viajava pelas lembran-
       Plínio olhava atônito para o irmão menor e       ças boas e saudosas do seu tempo de marinheiro.
para o cachorro empoleirado em seu colo.
                                                                  O período da escola era o mais difícil.
      Com a mãozinha por entre as patas de Du-                  Duque não podia entrar e Plínio ficava so-
que, o menino pegou o algodão-doce e agradeceu.         zinho, muito sozinho.
        Outras crianças seguiram em alarido a bici-             Seus colegas eram falantes, barulhentos,
cleta que se esforçava para chegar à esquina en-        gostavam de brincar, jogar, brigar, discutir.
quanto o vendedor soltava palavras de tamanho
                                                                 Conversavam sobre todos os assuntos e
muito longo para serem escritas aqui.
                                                        de nenhum deles Plínio participava. Não por falta
                                                        de procura, mas com o tempo, todos foram acei-
                                                        tando e acostumando-se com o seu silêncio.
      Com boa parte do algodão na boca, o ir-                   Então, ficava olhando tudo de longe, co-
mão menor de Plínio voltou para a porta do barra-       mo que vivendo com os olhos o que nem os lábios
co.                                                     nem as pernas conseguiam mobilizar.
        Duque profetizou em alto inglês (já traduzi-            Estava assim há um tempo longo demais
do):                                                    para um menino.
         _ Esse menino nasceu para a política. Sa-      Duque lembrava-lhe constantemente que precisa-
be a hora certa de pedir e de aceitar. Veja só com      va viajar com os pés no chão; que as suas ideias
que satisfação se lambuza nesse doce gosmento...        deveriam ser compartilhadas, que deveria pergun-
                                                        tar suas dúvidas, dizer de seus sentimentos, mos-
        Plínio ameaçou mover os lábios, mas a cola      trar a língua vez ou outra, piscar o olho para al-
invisível vinha de dentro, de muito fundo de sua        guém.
alma e não era assim tão fácil retirá-la.
                                                                    Assim como que se pudesse rir de si
                                                        mesmo, conversar com seus botões (é só uma ex-
                                                        pressão, modo de dizer, mas valeria o esforço ten-
       Gostou de ver o irmão lambuzado de açúcar        tar se isso lhe fizesse bem).

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           No final da aula, Plínio era esperado                      E tinha: o “rio” arrastava todo o tipo de
por uma enxurrada de observações.                         sujeira .
            Duque não se calava até o amigo en-                   Não era impossível para uma criança ima-
trar em casa.                                             ginar um tubarão em plena vala de esgoto.
             Durante o almoço que era muito rápi-                 Deveria ele explicar que “aquilo” não pas-
do e simples, Duque permanecia deitado em silên-          sava de água suja e poluída?
cio, tentando compreender o silêncio que Plínio
                                                                    Se explicasse, Bené não teria mais onde
construíra.
                                                          brincar e inventar estórias.
       Nenhuma resposta em palavras era dada
                                                                       Nem ele e nem as demais crianças do
em nenhum momento.
                                                          bairro.
          A mãe, mais apreensiva, dizia que o me-
                                                                     Se achava perigoso deixá-las próximas
nino estava com um problema grave.
                                                          ao lixo que boiava? Com certeza, mas conseguia
         Já o pai, que também fora menino há              sempre que seu irmão ficasse à margem do “rio” e
muito tempo atrás e ainda lembrava de como era            não entrasse na água contaminada.
interessante crescer, respondia que era coisa de
                                                                      Mas o mesmo não podia dizer das ou-
menino.
                                                          tras crianças. Era comum adoecerem por causa do
          Logo passaria.                                  esgoto. Era muito comum.


      Só Bené tentava obter uma resposta:
      _ O Duque comeu sua língua, comeu? Fala...
diz que eu vou buscar outra para você. Comeu?...                     Naquela tarde, Plínio pensou que nada
       Uma espécie de cócegas roçava sua boca             poderia ser diferente.
na hora em que ouvia a repetida pergunta do irmão                     As crianças brincavam a sua frente en-
menor.                                                    quanto ele ouvia Duque falar sobre sua necessida-
       Às vezes pensava que essas cócegas esta-           de de “abrir-se” para as conversas, para as parti-
vam correndo depressa demais e explodiriam em             das de futebol, para...
sua boca abrindo seus lábios outra vez.                       _ Hey!... ops! Ei! Quem é aquela que dobra a
           Em momentos assim, abaixava a cabeça           esquina? É a sua prima Marina? Quem é? Quem
assustado, imaginando que todas as palavras não           é?
ditas sairiam de uma vez só pela sua boca e junto
com elas as risadas, os gritos, os choros.
                                                                  Os olhos de Plínio não se voltaram para
        Era muito estranho e ao mesmo tempo               responder no silêncio eloquente das palavras au-
conhecido demais.                                         sentes.
       Era algo que já fazia parte dele sem ser                      Seu pescoço ainda estava no mesmo
exatamente dele.                                          lugar: voltado para a esquina onde sua prima Mari-
        Era como descobrir um outro morador den-          na caminhava junto a uma outra menina que nunca
tro de sua cabeça cheia de pensamentos.                   vira antes.

       A tarde era interminável.                                      Faltou terra embaixo de seus pés.

        Bené ainda não frequentava a escola e en-
tão ficava sob sua responsabilidade.                      Elas caminhavam para eles como se apenas isso
                                                          tivessem para fazer.
        Achava difícil cuidar do irmão que tinha tan-
ta vontade de correr e brincar e ainda mais, que                   E se aproximavam animadamente, muito
sentia fome o tempo inteiro, e que fazia tantas per-      rapidamente, sem dar-lhe tempo para escavar um
guntas.                                                   buraco fundo e esconder-se dentro.

      Era Duque quem lhe ajudava nos momentos                      Buracos, buracos, buracos... a rua estava
mais cruciais:                                            cheia deles mas as suas pernas resolveram não
                                                          obedecer.
        _ Let’s go! ... ou seja: vamos! Vamos Plínio.
Corra atrás de seu irmão porque ele acha que no                    E Duque, “bobificado” olhando para sua
“rio” tem tubarão.                                        prima desatara a falar em um inglês tão rápido que
                                                          não era possível entender.
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                                                        vez.
          E agora?, pensava Plínio. Cadê sua
mãe? Não era hora de ela chegar? Por que não
                                                                     Naquela noite as estrelas sentiram
estava ali quando ele precisava dela?
                                                        saudade.
          Tudo girava desordenadamente ao seu
                                                                   Sentiram falta da admiração do menino
redor. Até seu irmão parecia magnetizado por
                                                        que as iluminara com seu olhar sonhador noites e
aquelas duas meninas que invadiam o bairro e
                                                        noites.
resolvera soltar a pipa que segurava.
                                                                  Somente Duque sabia que uma estrela
         Ah!não! cadê a chave da porta? Cadê a
                                                        de outra galáxia cintilava pelo bairro pobre.
porta? Onde ficava sua...
                                                                Era uma estrela “descoladora” de palavras,
                                                        uma “desgruda-lábios”, uma “quebra-silêncio” mui-
                                                        to especial. Tão especial que Plínio tratou logo de
          Não deu tempo para nada.                      dizer-lhe que fazer um certo silêncio nesta idade
                                                        era normal.
         Foi o tempo que lhe engoliu a vontade,
as forças e o sangue.                                              Ele melhor do que ninguém entendia do
                                                        assunto.
        A terra afundou seus pés muito vagaro-
samente a ponto de gerar-lhe uma tontura boa.                   E a estrela “descola-lábios” respondeu
                                                        com um sorriso nos olhos...
          Tontura descola cola, tontura descola
lábio, tontura descola palavras, tontura de menino                 Apenas nos olhos!
“bobão”.
          Não! Bobo ele não era, sabia que não!
         Mas ao sentir aquele sorriso que passara
roçando suas bochechas ouviu todas as palavras
agruparem-se dentro de sua boca e saírem orde-
nadamente para fora:
        _ Olá, prima! Passeando aqui no bairro?
Como está a tia Zulmira?


          Duque encolheu-se antes do salto.
          Bené gritou para quem desejasse ouvir:
          _ Devolveram a língua dele... devolve-
ram a língua dele! Ba!Bá!Baba!
        Apenas Plínio e as meninas fizeram ares
de não entender.
            Se entenderam fingiram não ouvir, se
ouviram, decidiram esquecer.



              O motivo das risadas centrou-se nas
estripulias de Duque.
              Cachorro estranho esse, muito fora
de controle latia sem parar, levantando o pequeno
rabo e caminhando em círculos, desenhava com
as patas no chão.
          _ Stop! Duque. Please!
           Ora... e quem sabia que Plínio falava
inglês?
         Mais um bom motivo para estender a
conversa para lá e lá e volta de lá para cá outra

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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

NAS PÁGINAS DA MEMÓRIA                              E na praia do Gonzaga, em Santos, no Gran-
                                                    de Hotel, nos meses de verão.
Por Mariney K                                       No carnaval, sempre uma fantasia nova à mi-
                                                    nha espera: baile no Clube Tietê.
O tempo passa. E passa rápido.                      Alegria, disposição, dedicação à família foram
Deixa para trás, uma após outra, finas cama-        suas marcas indeléveis.
das de lembranças que desfolhamos, de vez           Quando o câncer, chegou, tomou todo o cor-
em quando, revivendo momentos ora felizes,          po.
ora nem tanto.                                      Cabelos grisalhos emoldurando uma face sem
Agora, decido desfolhar algumas.                    rugas, muito branca.
O que se segue.                                     Expressivos olhos verdes.
Dona Rivka. Uma linda judia polonesa que            Não tinha idade mas envelheceu, subitamente.
aportou por estas terras, com o marido e os         No final, passinhos trôpegos, vagarosos.
filhos, fugindo de Hitler.                          Pelo corredor, só se ouviam:
Aqui casou os filhos, teve seus netos e morreu      _Ai...ai...ai...
Mulher do lar, sempre manteve seu espaço            Um atroz sofrimento acompanhou seus últi-
"dentro da linha".                                  mos dias.
Quando mais nova, frequentemente, às voltas         Eu, muito pequena, não pude me acercar dela
com convidados e festas. Era uma primorosa          nos seus derradeiros momentos.
anfitriã.                                           Naquele tempo, as crianças eram afastadas
Pratos de porcelana, talheres de prata e taças      em momentos tristes e solenes.
de cristal. Tudo tinha vindo com ela da Euro-       Personalidade forte e dominadora. Ela era
pa.                                                 uma presença, sempre, muito marcante. Ele-
Mãos habilidosas na cozinha.                        gante e altiva.
Com ela, aprendi a fazer macarrão e torta de        O único que conseguia driblá-la era meu pai: o
ricota.                                             seu xodó.
_ Hindele, a massa! Vem! voz suave buscando         Ele era seu filho caçula e fazia "gatos e sapa-
minha companhia.                                    tos" com esta preferência.
Hoje esta torta é obrigatória em todas as co-       Minha amada vovó Rivka. Ela amava ser avó.
memorações da família. Virou tradição.              Herdei dela os olhos e a personalidade.
Suas mãos são a lembrança mais forte pra            Hoje, já sou avó. Mas sou uma avó de compu-
mim.                                                tadores...rs...sem os requintes de uma outra
Cortando a massa em tiras bem finas de onde         época.
sairiam a sopa de galinha (o forte aroma, do        Fecham-se as folhas deste período.
aipo, me acompanha até hoje) e a tradicional        Essas as minhas mais remotas lembranças
macarronada.                                        dos meus primeiros anos.
_ Hindele! ela me chamava.                          Hoje fica a saudade imensa e a lembrança de
Era o som do amor incondicional e devotado.         alguém a quem pude fazer feliz, sem mesmo
Eu sabia que, após este chamado, só coisas          saber.
boas viriam p'ra mim..
O maior carinho descascando as uvas do tipo
"rubi", tirando os caroços e me entregando,
com doçura, a polpa limpinha e suculenta.
De outra feita, me levando à Confeitaria Co-
lombo. eu, com vestido de organdi e grandes
laços no cabelo, parecendo uma princesinha.
Os garçons a conheciam.
_Lá vem a Senhora Rivka! E se desdobravam
em atenções à nós duas.
Mais páginas desfolhadas, trazendo à tona
momentos únicos de uma convivência abenço-
ada.
Férias! Ahhh...as férias.
Em Atibaia, na Estância Lince. Todos os anos,
no inverno.
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Varal do Brasil setembro/outubro 2012




DOCE DE LEITE

Fonte: hƩp://panelinha.ig.com.br/



  Ingredientes
  4 xícaras (chá) de leite
  2 xícaras (chá) de açúcar
  Modo de Preparo
  1. Numa panela, junte o leite e o açúcar e leve ao fogo baixo, mexendo sem-
  pre, até o açúcar dissolver (cerca de 10 minutos).

  2. Cozinhe, mexendo sempre para o leite não ferver, por mais 1 hora ou até o
  creme engrossar e adquirir uma cor de caramelo-claro. Se necessário, deixe
  por mais tempo para atingir o ponto certo.

  3. Quando o doce estiver com a cor de caramelo, retire a panela do fogo e dei-
  xe esfriar.

  4. Transfira para um pote de vidro esterilizado e guarde na geladeira por, no
  máximo, 10 dias.
 Dica:
Potes de vidro podem ser reutilizados para conservas, ou mesmo geleias, feitas
em casa. Mas primeiro eles devem ser muito bem esterilizados. Para isso, leve
bastante água para ferver numa panela grande; coloque o vidro e sua tampa na
panela e deixe ferver por no mínimo 15 minutos.

Para retirar o vidro e a tampa, utilize uma pinça de cozinha e deixe-os escorrer
sobre um pano de prato limpo. Atenção: não coloque o vidro sobre nenhuma su-
perfície muito gelada, como mármore, pois o vidro pode estourar. Só use os po-
tes esterilizados depois que eles esfriarem totalmente.




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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

VOVÓ NECA

Por Lunna Frank


Saudades da minha infância na casa da minha avó, que
delicia sentir cheirinho de bolo de fubá, bolachinha de na-
ta.
Pãozinho caseiro, manteiga fresca, tudo quentinho, feito
na hora café da manhã na casa da Vovó Barbara, que me-
sa farta com coisas, deliciosas e saborosas, lanche, almo-
ço, jantar e a ceia antes de dormir, chazinho de erva-
cidreira com biscoitinho de araruta.
Na casa da vovó paterna onde passava todas minhas fé-
rias não existiam melhor lugar no mundo.
Colinho de Vó, histórias e causos, penteava meus cabelos compridos, umas cem vezes para
dar mais brilho.
Eu a neta caçula, preferida de todos, tios, primos a família toda adorava me paparicar, aos do-
mingos o almoço de domingo lembro-me de meu pai, na cabeceira da mesa e vovó na outra,
meus tios e primos ao redor, mamãe sempre sentava ao lado da vovó.
A reunião de família aos domingos era o orgulho da minha querida avó família estruturada, com
aprendizado do meu Vovô Saturnino que sempre nos ensinou que uma família tem que ser igual
uma arvore com raízes, tronco, folhas flores e frutos.
Minha titia Cidinha, sempre pronta para as ordens da minha Avó, titia não se casou para cuidar
da vovó um amor incontestável.
Minha tia parecia uma formiguinha, pra lá e pra cá, afoita a cuidar da casa das toalhas bordadas
e os lençóis de linho e cambraia com cheirinho de lavanda. Como eu era feliz minha avó sem-
pre muito elegante, olhos esverdeados que mudavam de cor, cabelos bem loiros quase blondor
natural, ondulados e compridos, trançados dos dois lados, 2 pentinhos com florezinhas delica-
das enfeitavam as laterais do cabelo , vestido cinturado com estampas claras e delicadas, sapa-
tinho de pelica, combinando com a carteira grande que carregava debaixo dos braços.
Sempre com meia fina cor da pele, minha doce avó tinha um jeito angelical cheirinho de colônia
alfazema e batom rosado bem clarinho levemente passado nos lábios.
De mãos dadas íamos passear e caminhávamos pela cidade ate a confeitaria a Paulicéia, para
tomar sorvetes naquelas tardes quentes de Jundiaí.
Missa aos domingos e o terço nas quartas-feiras na casa de amigos, adorava as reuniões quan-
do a imagem do Sagrado Coração de Jesus, uma imagem enorme que chegava a casa da Vovó
tinha reza, crianças para brincar o lanche servido em seguida.
As casas da vovó, muito grande e aconchegante, com várias arvores frutíferas, adorava subir
no     pé     de     jabuticaba   colher   e    come-las,     um      prazer    inenarrável.
Colo, carinho e beijo da minha amada Vó Barbara ou Vó Neca assim que a chamava, não exis-
te no mundo nada melhor, lembrança saudosa da infância que não volta mais.
Hoje Vovó Neca , com certeza esta no céu fazendo laços de fita no cabelinho dos anjos.
Saudades Eterna…




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Varal do Brasil setembro/outubro 2012


Nossa infância num lugar esquecido...

Por Maria Eugênia


Para a minha querida e amada irmã, companheira de aventuras e principalmente de traves-
suras.



...feita de catar conchinhas pela praia, ou sentadas lado a lado, a observarmos as ondas
quebrarem nas pedras estáticas.
As bicicletas pesadas demais para se andar na areia e o esforço para alcançarmos a ense-
ada antes da cheia.
Festas de aniversário com balões coloridos, e eram sempre iguais nossos vestidos.
Eu sempre fazendo birra e você sempre sorrindo.
E neste mundo perdido eu era Robinson Crusoé e você o Sexta-feira, meu grande amigo.
A areia fina da praia grudava em nossos corpos e brilhava.
E nós éramos encantadas...
Nós éramos fadas...
Fadas de trancinhas.
Havia a caça ao caranguejo, mas não era uma injustiça.
Nós com um pedacinho de carne na armadilha, mas geralmente era o caranguejo quem
vencia.
E assim o tempo passava despercebido enquanto guardávamos aranhas nos vidros, coleci-
onávamos besourinhos e escavávamos riozinhos, onde navegávamos nossos barquinhos
de folhas e gravetinhos.
E quando a noite chegava com lua cheia, ainda havia as conversas em torno da fogueira.
E cada história que se contava, era nossa avó quem protagonizava.
A vovó matava o homem que roubava criancinhas, era ela quem prendia o bicho papão
num porão e debaixo das asas dela, a vida era tão segura...
Era tão certa e bela...
Era tão pura!
Por fim a gente ia, com as mãos passadas sobre os ombros uma da outra, dividir a mesma
cama.
E sempre havia um outro dia para brincar com você...
Minha Irmã...
Minha Amiga!
Numa vida que de tão bela, parecia que nem existia.
Nesse tempo de nossas vidas que mais parecia história de um livro,
perdido no tempo...
Num lugar esquecido.

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                                       A PITANGUEIRA


                                      Por Marilu F Queiroz



       Quando se é pequeno o mundo é visto como uma fantasia que não tem fim. Tudo é vas-
to e intrigante como a nossa imaginação fértil e cheia de sonhos e, como toda criança criada
numa casa cujo quintal era imenso e repleto de árvores, me sentia livre e feliz por ter tanto es-
paço para brincar e extravasar energia.
      Podia desfrutar das mais diversas aventuras, brin-
cadeiras, desde apenas subir nas árvores, até brincar de
balanço ou obrigar o meu irmão a comer as misturinhas
que fazíamos aproveitando lata vazia de manteiga, toma-
tes e verduras colhidos da horta, que meu pai cuidava
com tanto carinho. O fogão era feito com pedras, gravetos
e pequenos pedaços de madeira do quintal, que queima-
vam muito rápido de tão secos.
      De todas as árvores lá de casa, uma velha e grande pitangueira era o meu xodó, subir
nela era muito estimulante, lá no alto era o meu mundinho carregado de fantasias e sonhos,
povoado de criaturas advindas de minha mente criativa.
      Debaixo dessa árvore havia um balanço preso a um grosso galho repleto de folhas ver-
des e frutinhas vermelhas e saborosas, não muito doces e tinham um gostinho meio azedo,
que eu adorava. Em cima da pitangueira imaginava aventuras, cantava e me balançava de bra-
ços abertos como num voo, presa somente pelas pernas, nos galhos mais altos. De lá enxerga-
va tudo o que acontecia no quintal e muito mais: via o horizonte até onde a imaginação podia
alcançar.
Nesse meu mundo particular era muito feliz. Para lá carregava meus cadernos de história e es-
tudava falando e cantando tão alto, que meus vizinhos podiam aprender também um pouco
mais, os feitos dos personagens da história do Brasil. Como é bom ser criança num quintal as-
sim repleto de aventuras. Um prato cheio para uma cabecinha recheada de sonhos e imagina-
ção criar histórias e aventuras, onde eu era sempre a heroína.




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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

QUANDO EU ERA MOLEQUE                               fazer zunir com a fieira o pião.
                                                    Com um canudo do talo da folha do pé de
Por Mário Rezende                                   mamão
                                                    eu enchia de ar as bolinhas de sabão.
Quantas pipas empinei nos meus dias de              Viravam brinquedinhos as latas de leite em
folguedos.                                          pó,
Era um prazer imenso “dar a elas” a linha do        que serviam para fazer carrinhos.
carretel.                                           Cheias de areia e puxadas por um barbante,
Quanto mais de mim elas se afastavam,               uma, duas, três ou mais formavam um
mais prazer me davam por poder brincar lá no        comboio
céu                                                 tão divertido como o mergulho com a turma
com outro menino bem distante, segurando a          nas águas do arroio.
                                                    O desafio que proporcionavam os carrinhos
linha na mão,
                                                    de rolimã
enquanto eu estava bem firme com os pés no
                                                    descendo as ladeiras arborizadas da minha
chão.
                                                    cidade;
Ah, Quantas lembranças me traz aquele
                                                    subir na árvore com outros garotos em
tempo lá de trás!
                                                    disputa
As brincadeiras infantis, meninas e meninos
                                                    para colher a que parecia a mais apetitosa
num trinar alegre quando todos se juntavam
                                                    fruta
como a algazarra que faziam na hora do              e saboreá-la sentado à sombra que oferecia,
recolhimento,                                       observando bandos de aves em piruetas lá no
ao crepúsculo, os bandos de pardais,                céu.
avezinhas que pouco se vê ou ouve nos dias          Minha caramboleira preferida, o lugar aonde
atuais.                                             eu me escondia
Como era divertida a pelada com a bola,             para ficar com meus pensamentos vagando
brincar de bandeirinha, pique-esconde e tá          ao léu.
contigo!                                            Amiga e companheira, me balançava em seus
Jogar com as multicoloridas bolinhas de gude;       braços
girar no corrupio, a brincadeira do anel à          e me enchia de abraços, quando me sentia o
noitinha,                                           mais infeliz.
para ganhar beijinhos das cobiçadas                 Desse modo minha infância passou num
menininhas                                          tempo embalado
no despertar das intenções de namoro                e pelo menos uma parte do que naquela
sorrateiro,                                         época eu fiz,
na aurora da juventude, por demais                  me dá vontade de viver outra vez.
prazenteiro.                                        Isso quando puder, com meus filhos ainda
As festas do mês de junho, isso então!              faço,
Pular fogueira, comer canjica e batata              ou com os futuros netos, talvez,
assada,                                             apesar de o ambiente estar muito modificado,
soltar fogos e balões, dançar a quadrilha           tornando muito pequeno o adequado espaço.
sempre animada...
Em qualquer idade ou situação,
sempre valiam muito os folguedos de
improviso
ou o brinquedo feito à mão: a bola de meia,
o jogo de prego, e futebol de botão,

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Varal do Brasil setembro/outubro 2012


O garoto que perdeu a sombra                            muito menos a suas sombras.
                                                        E na floricultura, ele esperou que sua sombra, res-
                                                        friada pela umidade, se denunciasse por um espir-
                                                        ro, o que não aconteceu.
Por Sonia Rodrigues
                                                        Escondendo-se na sombra de outras pessoas,
                                                        Marquinho voltou para casa, pulando ao lado da
                                                        professora, agachando-se para brincar com o ca-
Marquinho era uma dessas crianças que não per-
dem a cabeça porque está grudada no pescoço,            chorrinho da vizinha, e com isso, ficando na som-
como gostava de dizer sua mãe.                          bra dos outros.
Marquinho perdia tudo: seu pião, seu doce, sua          E, entrando em casa continuou a procurar por aqui
escova de dente, sua mochila da escola, o dinheiro      e por ali, na esperança de que a danadinha hou-
da pão, a chave do portão...
                                                        vesse voltado para casa, até que o irmãozinho o
Naquele dia, ao sair da escola, foi com os amigos       surpreendeu, e perguntou:
brincar de gigante. Era assim: eles ficavam de cos-
                                                        - Posso ajudar?
tas para o sol do final da tarde e viam quem tinha a
                                                        - Não! – disse Marquinho, enfiando-se debaixo da
maior sombra. Mas, diante de Marquinho, não ha-
                                                        cama, só para ser imitado pelo irmão menor quase
via sombra nenhuma! Os amigos, entretidos com
                                                        no mesmo instante.
suas próprias sombras, ainda não haviam percebi-
                                                        - O que você está procurando?
do nada, então Marquinho tratou de correr para
                                                        - Eu? Nada...
dentro da sala de aula, a procurar pela sombra
                                                        - Eu venho seguindo você desde a esquina, e...
perdida. Nada dentro da carteira, nada debaixo
                                                        - Como é que você pode estar me seguindo desde
dos bancos, nada atrás da porta, nem tampouco
                                                        a esquina se você não saiu de casa?
dentro do armário da professora, que, irritada, tra-
                                                        - Seguindo da janela, eu estava espiando... conta
tou de expulsar dali o aluno retardatário.
                                                        pra mim, vai, conta logo!
Marquinho vagou pelo pátio do recreio, olhou na
                                                        - Ai – suspirou Marquinho – desta vez a encrenca
quadra de esportes, até no parquinho dos alunos
                                                        é das grandes.
menores, sem sucesso.
O menino pensou em todos os lugares aonde ha-           - O que é que você perdeu?
via ido desde a manhã.                                  - Você nem vai acreditar. – e o menino suspirou,
Marquinho lembrava-se de que havia agitado o            infeliz.
boné da sombra pelos degraus da escada ao en-           - A cabeça é que não foi, está bem grudada aí no
trar no carro de papai... e se a sombra houvesse        seu pescoço. – riu o caçulinha.
ficado no carro? Não havia como saber antes da          - Foi a minha sombra. – e o garoto suspirou de no-
noite, então começou a procurar na padaria, na          vo, confuso.
quitanda, na farmácia, na banca de jornais, e até       - Ah, isto eu quero ver! – e o menorzinho puxou o
na floricultura, onde papai parara pela manhã e         irmão para o claro, onde, para seu espanto, só
comprara um belo buquê de rosas para mamãe.             mesmo o Marquinho, e nada da sombra de Mar-
O menino entrou na padaria e olhou nas pratelei-        quinho.
ras de biscoitos, no balcão dos queijos, debaixo do     - Vai ver que sua sombra dormiu demais e ficou na
balcão do caixa...havia muitas sombras por ali,         sua cama.
mas não a sua.                                          - Eu saí com ela – disse Marquinho, mas, por sim
Na quitanda foi mais complicado, o balconista           ou por não, foi olhar debaixo da cama.
achou que ele queira levar alguma fruta sem pa-         Por sorte, a mãe estava no banho, então Marqui-
gar, e ele não queria ser surpreendido sem som-         nho tinha algum tempo para procurar em paz, en-
bra, e ficou se esgueirando pelos cantinhos escu-       tão, ele e o irmão começaram a vasculhar cada
ros, deixando o português mais desconfiado e foi        cantinho da casa: atrás do sofá, das cortinas, den-
corrido para fora com ameaça de vassouradas.            tro da máquina de lavar, e, por fim, na biblioteca,
A banca de jornal foi o local mais tranquilo para
                                                        onde, ao entrar, Marquinho viu, com surpresa, a
procurar, porque ali as pessoas normalmente es-
                                                        sua sombra na parede, debruçada sobre a escriva-
tão lendo e não prestam atenção aos outros, e
                                                        ninha de papai.
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Marquinho correu para lá. Ele sentou-se ali até       na véspera da prova, para aprender dormindo. E
ocupar exatamente o espaço da sombra. Mexeu           funcionava direitinho: se eu recitasse a tabuada
de leve a cabeça, e a sombra o acompanhou.            trinta vezes, antes de colocar debaixo do traves-
- Graças! Posso voltar para a sala.                   seiro, era tiro e queda: decorava tudinho. – e pis-
Quando ele se levantou, porém, a sombra nem se        cou o olho para os meninos, que sorriam em cum-
mexeu. Ele tornou a sentar-se. E agora? Aberto        plicidade. – mas nunca sentei em cima do livro
sobre a escrivaninha, um livro fininho. Marquinho     pra jantar, não.
olhou de relance para a página aberta:                Marquinho acabou o jantar, abriu o livro do grego
‘Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia en-     ao acaso, e, em voz alta, leu:
quanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de       ‘é necessário, portanto, cuidar das coisas que tra-
velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem        zem a felicidade, já que, estando esta presente,
ou demasiado velho para alcançar a saúde do           tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcan-
espírito.’                                            çá-la.’
- O que é isso? – perguntou o irmão mais novo,        Mamãe e papai, que eram ambos professores, se
que ainda não sabia ler.                              entreolharam. E acabaram por falar, quase ao
O menino olhou a capa do livro e leu em voz alta:     mesmo tempo, o que fez a família inteira rir:
Carta sobre a felicidade.                             - Bem diz o ditado que ‘quem sai aos seus não
- Quem escreveu isso?                                 degenera’.
- Com o nome de Epicuro, deve ser grego. Um           - Você sabe o que traz felicidade, papai?
daqueles gregos de que o avô tanto gosta de fa-       - Claro que sei! É estar em paz com minha famí-
lar.                                                  lia. Isto é felicidade: todos juntos, com saúde, len-
- Eu adoro as histórias de gregos. – o irmãozinho     do filosofia grega a procurando sombras nas pare-
animou-se – Aquele Ulisses sabido, que ouviu o        des.
canto das sereias, e enganou o gigante de um          - Sombras, não, só a sombra do Marquinho – co-
olho só...Você também gosta. Leva o livro com         meçou o menorzinho, mas Marquinho o interrom-
você.                                                 peu:
Marquinho achou a ideia boa. Pegou o livro, le-       - A minha sombra gosta de ler. Ela hoje fugiu de
vantou-se, e a sombra levantou-se junto. Ele já       mim e se escondeu na biblioteca.
estava se sentindo de novo normal, quando a           É claro que a mamãe e o papai pensaram que o
sombra empacou, bem em frente a uma pilha de          Marquinho estava fantasiando.
livros de matemática da mãe.                          O fato é que a sombra do menino lera muitos li-
- E agora essa! – e o garoto falou com a sombra,      vros interessantes naquela tarde, e daquele dia
sentindo-se um tanto quanto bobo – Bem, o que é       em diante, Marquinho começou a gostar de livros,
que você quer, afinal? – para surpresa dele, a        e tornou-se um leitor voraz, e mais tarde, um ho-
sombra apontou para a estante.                        mem muito sabido.
O irmãozinho riu.
- Pelo jeito, sua sombra é viciada em livros.
Marquinho começou a folhear um por um, até per-
ceber o que a sombra queria: um livrinho cheio de
gravuras coloridas, jogos cheio de números, pe-
quenas histórias sobre curiosidades matemáticas.
O interesse de Marquinho foi imediato.
- Ora, ora, até parece que a matemática pode ser
divertida, como diz o papai.
Mamãe veio chamar os meninos, pois papai aca-
bara de chegar em casa e o jantar estava pronto,
e achou curioso que Marquinho tivesse dois livros
na mão, e que os dois meninos a toda hora olhas-
sem o chão e as paredes.
- O que vocês estão procurando, afinal?
- A sombra do Marquinho – disse o irmãozinho.
- Essa ele não perde – disse a mãe – está bem
grudada no corpo dele.
- Quem dera! – disse Marquinho, assustado. Toda
vez que ele tentava se separar dos livros, a som-
bra empacava. O jeito foi sentar-se em cima dos
livros pra jantar.
- No meu tempo de menino – disse o papai – a
gente colocava a tabuada debaixo de travesseiro


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NOSSA INFÂNCIA


Por Odenir Ferro



Como éramos felizes nós todos. Sempre unidos,
Ora brincando, pulando, correndo, recriando sons
De bichos, imitando os cantos dos pássaros, tudo
Era uma alegria sem fim, enquanto brincávamos...



Entretanto, pelos motivos mais banais que fossem,
Estávamos brigando, gritando, se agredindo... Com
Nossos egos inflamados de pura adrenalina cheia de
Muitos rancores... Para logo a seguir, abrirmos nossos
Corações, nossos sorrisos, e continuarmos com as inúmeras
Brincadeiras que para nós nunca tinham fim; tudo era festa!



Abrigávamos as nossas almas, as nossas inocentes emoções,
Junto aos troncos dos arvoredos que compunham as diversas
Naturezas das árvores frutíferas das mais variadas espécies de
Qualidades: altos pés de mamões, extensas parreiras de uvas,



Jabuticabeiras de frutos suculentos e doces; pés de romãzeiras,
Muitos pés de limoeiros e uma grande quantidade de laranjeiras.
Compostas por diversas qualidades de laranjas. Envolvíamo-nos,
Adjuntos aos troncos, nos mais altos galhos daqueles frondosos
E velhos arvoredos. Fazíamos deles, os nossos esconderijos,
Acariciando por horas a fio, todas as texturas mais nobres,
Daqueles nossos imensos sonhos que nunca tinham fim...




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    Campinho da várzea

     Ao Sonhador Thalles Teixeira )




  Por Raimundo Cândido Teixeira


 A bola era como uma doce balinha,
  e o campo de futebol em terra chã
 na beira do rio, no declínio da tarde,
 fazia a gente salivar, só em pensar.

  Os meninos surgiam de todo canto,
 poeira que vai chegando sem convite
num faro, num verme roendo o desejo.
  Brotavam em profusão, em magote.

    Era só correr sem obrigação,
   com o dever de casa por fazer,
  enfurecessem, fosse quem fosse,
  o mundo era uma bola de futebol.

  Sumo instante e suprema alegria.
    Um traço, um chute e um gol.
  Invulgar, inigualável, inexprimível.
Aquela adocicada magia, nunca mais!




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NOSSA INFÂNCIA                                     que não teve o amor dos pais.


Por Lóla Prata (Bragança Paulista)                 7-
                                                   Convidada a esperança

1-                                                 a sentar conosco à mesa,

Voltando o circo à cidade                          ergueu-se um brinde à criança:

no espetáculo singelo                              - Conserve sempre a pureza!

traz o riso à toda idade
e para a infância, o belo!                         8-
                                                   - “Protejam nossas crianças!”,

2-                                                 exortou Pelé há anos,

É grande ação benfazeja                            mas as piores mudanças

promover a esperança                               vieram de desumanos.

por um tiquinho que seja
no viver de uma criança.                           9-
                                                   Vê-se no noticiário,

3-                                                 muitas crianças sofrendo...

A criançada debanda                                Oh, Deus, que triste cenário

esquecendo as brincadeiras,                        dos inocentes morrendo!

pra irem atrás da banda
e vão... fazendo zoeiras.


4-
Toda criança merece
em qualquer tempo e lugar,
cuidados dos quais carece,
muito amor e bem-estar.


5-
Na floresta do Amazonas
há indiozinhos selvagens:
são crianças brincalhonas
que vivem entre as folhagens.


6-                                                          Desenho de PapaTiƟa

Supliquei à esperança
pra que não fuja jamais
de um coração de criança

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Varal do Brasil setembro/outubro 2012


 Trovas de membros da UBT
União Brasileira de Trovadores
   - seção de Bragança Paulista


       Naquela casa da esquina
       a minha infância passei.
      Quando ainda era menina
          doce paz vivenciei.


   Por Myrthes Neusali Spina de Morais




      Desde a infância, cultivada,
         uma sincera amizade
        é qual árvore plantada:
       dá frutos em quantidade.


              Por Marina Valente




     Em cada olhar ... esperança.
      De suas bocas ... canção.
      Em todo gesto ... bonança.
       Lembranças no coração!


            Por Cristina Cacossi



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Varal do Brasil setembro/outubro 2012




   Criança


Por Silvio Parise



Criança,
Que brinca, que fala, que briga e que chora,
Que canta e que marca, que dança, mente, mas é cheia de graça.
Criança,
Futuro de todos, verdadeiramente a nossa esperança!
Criança,
Fruto gerado no ventre
De um amor sempre presente,
Cuja aliança se reflete
Na multiplicação de toda espécie.
Criança,
Do sorriso vindo das eternas lembranças...
Criança,
Sinônimo de uma mera segurança.
Criança,
Que, como a história aponta,
Independente da idade,
Porque essa, na realidade,
Não tem nenhuma importância.
E, como o poeta mesmo conta,
Completamente livre de preconceitos,
A verdade nos mostra
Que, nessa existência Gostosa,
Criança, somos todos nós,
Amantes da voz e de uma eterna prosa.




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Varal do Brasil setembro/outubro 2012




                                          Por Sheila Ferreira Kuno


           O DBA MASSAGISTA                        muitos funcionários.

                                                   Mais o pior estava por vir, a coordenadora de
Estávamos todos ansiosos com a chegada do          TI da empresa cliente, Cecília, uma moça mui-
novo Administrador de Banco de Dados               to doce e delicada, estava grávida e Emerson
(DBA), pois havia muito trabalho na área de        adorava conversar com ela e dar dicas de
desenvolvimento.                                   exercício, alimentação e tudo mais.

Logo pela manhã, uma das garotas que traba-        Foi quando um dia Emerson se superou e dis-
lha na empresa, teve um problema passageiro        se para Cecília:
na coluna e mal conseguia se mexer, ela en-
tão se deitou no sofá da recepção para espe-       - Cecília, por acaso aqui na empresa não tem
rar o irmão que viria buscá-la. A gerente de       uma sala reservada, onde você possa ficar de
recursos humanos Diana, que estava ajudan-         quatro para eu lhe ensinar umas posições de
do Sofia fechou a porta da recepção para que       relaxamento, que você poderá fazer com seu
ela ficasse a vontade.                             marido?

Alguns minutos depois, Emerson, o novo DBA         Cecília ficou horrorizada com aquela pergunta,
chegou e abriu a porta da recepção. Ao en-         mas disfarçou dizendo que não e que eles
contrar Sofia naquela situação, perguntou o        precisavam trabalhar.
que ela tinha. Eles ainda não se conheciam,
mas mesmo com dor Sofia lhe explicou, foi          Cecília contou o ocorrido para seus amigos e
quando Emerson, preocupado, começou a              Emerson tornou-se chacota na empresa clien-
massagear suas pernas, dizendo que ela me-         te. Inclusive fiquei sabendo desta história um
lhoraria com aquela massagem.                      mês após a demissão de Emerson, quando eu
                                                   e meu amigo Sandro fomos a uma reunião
Sofia então começou a gritar:                      nessa empresa e os amigos de Cecília nos
                                                   contaram.
- Socorro, socorro! Tira esse cara daqui, eu
não consigo me mexer!

Diana correu até a recepção e presenciou
aquela cena bizarra. Diana, então repreendeu
Emerson, que mesmo sabendo que Sofia não
queria sua ajuda, pois não o conhecia, conti-
                                                                                             hƩp://blogs.98fmcuriƟba.com.br




nuou insistindo.

Mas Emerson não parou por aqui, ele continu-
ou sendo protagonista de outras cenas cons-
trangedoras.

Quando Emerson participava de implantações
de sistemas em empresas clientes, ele costu-
mava ir de mesa em mesa e orientar as pes-
soas em relação à postura, ao invés de reali-
zar suas funções de DBA, atitude que irritava

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                                                                Nossa infância
MAMÃE
                                                       Por Mariane Eggert de Figueiredo
Por Erna Pidner

Mamãe, me conta                                         Quem nunca sonhou em voltar a ser
uma história bonita                           criança? Pelo menos uma vez na vida? Poder vol-
pra eu dormir.                                tar a um tempo em que a fantasia permitia todas
Eu sou pequenina                              as coisas imagináveis e aquelas em que criatura
e tenho medo                                  alguma ainda ousou pensar...
de bicho e do escuro.                                    A infância é uma cama de algodão. Um
Mamãe, me proteja                             berço esplêndido. Uma caverna mágica em que
quero lhe pedir.                              tudo é possível. Nela são dados os primeiros pas-
De você eu preciso                            sos para a vida. As primeiras experiências do fu-
pra crescer                                   turo indivíduo se constroem. As conexões no or-
forte e sadia                                 ganismo se formam. Os órgãos preparam suas
e o mundo lá fora                             funções posteriores a fim de dar ao futuro corpo
eu enfrentar.                                 adulto todas as suas potencialidades. Por isso a
Mamãe, eu necessito                           infância é também fase de aprendizado, de matu-
do seu aconchego                              ração, de preparação.
do seu carinho
e do seu amor.                                           A infância é, finalmente, um livro de pá-
Mamãe, sou criança,                           ginas em branco em que tudo e todas as coisas
mas discernir                                 podem vir a serem escritas da maneira que se de-
os laços que unem                             sejar. Todo e qualquer borrão nele feito, trará er-
nós duas, enfim                               ros de leitura na história posteriormente vivida e
mãezinha querida                              contada. Suas cores pintadas deixarão mais ou
seja, nessa vida                              menos tons, seus caracteres tornarão mais ou
tudo pra mim!                                 menos fácil a compreensão dos textos inscritos.




                                                         Nossa infância nos marca para sempre.
                                              Nossos pais. Irmãos. Primos, tios, avós, parentes.
                                              Nosso lar. A casa, o cachorro, a escola. Lembra-
                                              mos de nossa rua e dos vizinhos. Das brincadei-
                                              ras e dos castigos. Das rotinas e de detalhes que
                                              às vezes esquecidos, afloram à alma ante um
                                              cheiro - ah, como fazem bem à alma os cheiros
                                              da infância, o da comida de mãe, de avó, de do-
                                              mingo! - tudo o que evoca a infância faz bem até
  hƩp://www.nascerbem.net.br/                 ao pensamento.
                                                          Mesmo quem já é muito feliz, fica ainda
                                              mais feliz quando pode voltar à infância! Ou você
                                              nunca voltou em sonhos ou em viagens às paisa-
                                              gens em que cresceu? Pense nisso! E certamente
                                              será feliz!

                                    www.varaldobrasil.com                                     106
Varal do Brasil setembro/outubro 2012

MINHA INFÂNCIA                                        e a vida era uma festa
                                                      parecia nunca ter fim.

Por Ju Petek                                          Até de professor
                                                      eu e meus irmãos brincávamos

Serelepe ...                                          Até de missa brincávamos

saltitante e agitada,                                 Enfileirávamos cadeiras

meu pai me chamava de pipoca                          e num ônibus imaginário

minha vó de massaroca                                 viajávamos

eu gostava,                                           e a vida era uma festa

quanto mais apelidos                                  parecia nunca ter fim.

mais corria, saltava,                                 Ah os encantos da minha infância

com os amigos jogava                                  Saudades não tenho

amarelinha                                            Porque são dias cravados

caçador                                               na alegria do meu coração

passa anel
esconde esconde
policia ladrão
meia meia lua ... 1, 2, 3 !
Tudo era alegria e algazarra
como uma festa sem fim.
Minha infância nas ruas do Passo D'Areia
foram estonteantemente felizes.
Ah! e os dias na casa da vó
brincava com as galinhas
coelhos e porcos.
Meu cãozinho Bob.
Subia nas árvores
e dá-lhe comer maçã, pera, pêssego
                                                                     hƩp://sintra-lisboa.olx.pt
no parreiral deliciosas uvas.
E a noites de verão
cadeiras na calçada espalhadas
conversa fiada dos adultos
e a criançada rodava
brincava, jogava
                                      www.varaldobrasil.com                                       107
Varal do Brasil setembro/outubro 2012



POESIA DA NOSSA INFÂNCIA

Por Sandra Berg

Lembro-me de nosso quintal
Um cercado com cerca de pau,
Foi palco das brincadeiras
Testemunha já desaparecida
Do que a vida foi um dia.
Apaches em montarias,
Generais em suas brigadas,
Espadachins guardiões
De um reino dos sete anões,
Brincávamos de farda em farda.
Cinderela sempre bela
À janela dos vagões
O príncipe de suas quimeras
Que rechaçava vilões
Estava sempre a sua espera.
Trincheiras imaginárias,
Guerreiros ainda em paz
Aureolados pelo carinho,
Redomados em seu ninho
Sob a aliança dos pais.
Entre pequenos privilégios
Que logo nos são tirados
Posto que o tempo, cavaleiro,
É mais veloz e contumaz
Que a nossa imaginação,
Ainda não se compreendia
O mundo, um campo em batalha,
Onde há também dor e mortalha,
Queda e desilusão
Que não se cura com mertiolate.
Mas, a nossa linda infância,
Movia-se num estirão,
Pulava-se amarelinha,
Nadava-se nos igarapés
Tomava-se banho de chuva,
Curava-se gripe com rapé.
Estórias do Curupira
Fazia-nos aquietar
Temendo o seu grande pé,
Que, ao progresso desmedido,
O dito deu marcha a ré!
Oh! Nossa infância querida
Inspiração a minha alma,
Que oculta dor, a requer?
Doce inocência perdida
Tolhida nos malmequeres da vida.




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Varal do Brasil setembro/outubro 2012




     Saudade da Saudade

    Por Leonilda Yvontetti Spina


    Tenho saudade de pitanga, amora,
   lírios, dálias, malvas, copos de leite...
(Onde essas flores dos jardins de outrora?)
De bom-bocados, bem-casados, canudinhos
     - não havia elaborados docinhos.
 Tenho saudade das brincadeiras de roda,
 bola-queimada, pular corda, amarelinha,
    - me dá foguinho? Vai no vizinho...
     O tempo passou bem depressa...
       A infância fugiu de mansinho.
      Tenho saudade da esperança,
        verde como a relva macia.
         Dos sonhos, da confiança
           de ser feliz algum dia.
  ... Hoje, mamão papaia, cereja, melão...
   Frutas sofisticadas em cada estação.
 Cadê os sapatos de verniz, de pulseirinha
 (band-aid no calcanhar...) e os românticos
 boleros com que aprendíamos a dançar?
    Não havia pagode, forró, lambada...
     Éramos felizes com quase nada.
    Apraz-me saborear pitanga, amora,
 sentindo o gosto de meu ontem no agora.
        Tenho saudade da saudade
      que em meu coração florescia.
          Saudade da esperança
           de ser feliz alguma dia!




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Varal do Brasil setembro/outubro 2012


Ímpio florescer                                     voltavam, tudo era tão diferente, meu deus,
                                                    não havia mais mato em flor na primavera,
                                                    isso porque também não havia mais menina
Por Ludmila Rodrigues                               vestida de flor aos setembros, choro doce de
                                                    mãe. Não havia mais festa com bolo de ani-
                                                    versário e bom mesmo era esquecer que to-
Uma limonada rala talvez a levasse àqueles          do ano aquele dia insistia em nascer. Preci-
dias outros. Foi à cozinha e espremeu a fru-        sou-se de remédio para dormir, remédio para
ta, misturou água e entupiu de açúcar. Preci-       acordar, remédio para conseguir ver um dia
sava de açúcar no sangue e na vida. Foi             inteirinho existir. Sabia que casa não havia
transportada para os dias azuis de calor, fa-       mais, também não mais havia nada do que
mília por perto, cheiro de banana da terra fri-     antes ficava dentro dela.
ta com canela. A casa ainda tinha grama ma-         O cansaço vivo daquela gente ficou no que
cia, aquele parque construído quando veio a         há de memória: no colorido de livros, filmes,
notícia do seu nascimento, o carrossel ainda        fotos, na ferrugem do carrossel amarelo, nas
completamente amarelo. As pessoas da casa           tulipas brancas de outros setembros.
eram como permaneciam na parte boa da
memória, cheias de um cansaço vivo, grita-
vam "menina, pare de girar tão rápido nesse
brinquedo" com um sorriso na cara de família
boa e alegre, sem mortes, esquecimentos,
rancores e amarguras. A menina suada, ves-
tido sujo, inundada de infância daqueles dias
sorria e gargalhava, não tinha que se preocu-
par com escola, somente com a hora do ba-
nho que era sempre depois de o sol se pôr.
Em seguida, vinha a comida de sempre, mas
com gosto de férias, a casa já iluminada pela
lua, cabelos limpos esfregando a terra por-
que ela olhava para o céu de sua infância.
Então, ouvia "menina, você acabou de tomar
banho, levante dessa terra", palavras proferi-
das por uma gente toda sorridente que tam-
bém tinha cara de férias. A verdade é que,
mesmo quando não estava de férias, aquela
gente era feliz e lindamente cansada. Vinha o
sono. Cama quente envolvendo tão bem cor-
po de menina exausta que dormia e sonhava
com o brincar de esconde-esconde. A escola
se encarregava de vestir meninas de flor nas
primaveras, a mãe ia assistir ao espetáculo e
sempre chorava vendo a menina vestida, vez
era de violeta, vez, de tulipa branca. O ano
passava com suas estações marcadas, san-
duíche e limonada pela manhã, sempre uma
vontade que renascia, era o saber da exis-
tência das férias, era a certeza de que a feli-
cidade não era só o hoje, era ter família com
almoço aos domingos e remédio só quando
vinha doença de criança.
                                                        Conheça o Grupo Literário A Ilha, de Santa Catarina,
A acidez do limão começava a corroer língua
                                                        encabeçado pelo escritor Luiz Carlos Amorim
e garganta, esôfago, estômago. A limonada
não ficara rala. Doía. Sim, porque estava de            hƩp://www.prosapoesiaecia.xpg.com.br
férias, mas os dias não voltavam, eles não

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Varal do Brasil setembro/outubro 2012




Éramos Crianças!


Por José Cambinda Dala



Jamais me esquecerei
Aquela humilde e pobre infância
Naquela época de muitos problemas…
Ciente das dificuldades
Amamos sempre ir a escola



Relevante mesmo era estudar
Não importava tanto as dificuldades…
Permanecíamos sempre felizes com o ambiente escolar
Aprender e brincar, eram os nossos objectivos
Na escola, nos parques, praias, campos e nas ruas, lá estávamos
Com bastante alegria infantil, seguíamos em frente
Inteligentemente que hoje estamos aqui!
Agora e sempre apenas para recordar.




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Varal do Brasil setembro/outubro 2012




LÁ NA INFÂNCIA

Por Madal


Lá na Infância, a vida inscreveu tudo que eu iria editar ao longo do viver.
Os gostos que eu iria ter,
Os desprazeres que era pra odiar.
As imagens que era para amar: o dia nascendo ou o sol se pondo,
o cheiro de terra chuva molhando a terra seca,
o nascimento de todas as sementinhas
com pressa de desabrochar manifestando e testemunhando
o milagre da vida se reproduzindo com beleza e precisão.
Apequena semente como um mágico
rompendo o invólucro que a reveste apresenta com a maior singeleza a grandeza de
uma grande árvore contida dentro de si,
primeiro mostra uma folhinha tenra e verde.
É o enigma da vida se manifestando.




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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

      Rei Guilherme, o Breve                              concertar sapato e roupa.

                                                          Um dia Alicia, nossa vizinha andava pela rua
                               Por Eliane Accioly
                                                          com os netos João, Pedro e Antônio, que são
                                                          menores que eu. Do lado de dentro do portão
Me sentia o rei, dono de minha casa e dos bi-             Chiquinha esgoelava pros quatro. Passeavam
chos que por aqui vivem. Tem árvores em vol-              na rua, e nem iam entrar em casa. Fiquei curi-
ta dela. Sabiás, bem-te-vis, maritacas, papa-             oso e vim ver que barulhão era esse que mi-
gaios, uma coruja branca e outra rajada, e os             nha cadela fazia, e parei pra conversar. Alicia
gaviões. Ah, e Chiquinha, cadela de uma raça              falou:
Sul Africana, que papai acha foi maltratada
antes de vir pra nossa casa. Ela é carente, e             _ Chiquinha é muito brava?!
tem medo de chuva, principalmente as de raio
e trovão. Como sei que Chiquinha é carente?               Respondi que não, não era braveza, ela era
                                                          carente. Contei pra Alicia e pros meninos co-
Desde bebê ela mostrava os dentes para qual-              mo imaginamos a história de infância de Chi-
quer pessoa de fora, até para minhas avós Eli-            quinha. Alicia, colega de vovó Eliane, as duas
ane e Gisela, que ainda hoje falam com ela                são terapeutas de gente, não de cachorro.
como se a cachorra fosse gente. Acho que fa-              Bem, ela e os netos ficaram me ouvindo. Alicia
zia isso por medo de ser machucada. Minhas                que sempre conversa muito dessa vez ficou
avós fizeram de tudo para conquistar a Chiqui-            calada, só me olhando. Depois vovó contou
nha, e acho que agora as três são boas ami-               que ela ficou impressionada comigo e não
gas... mas colocar a mão no bicho nenhuma                 com Chiquinha. Se entendi bem, Alicia me
das duas coloca, apesar de bem tratá-la.                  acha um filósofo.

                                                          Perguntei pro Papa o que é filósofo, tive dúvi-
                                                          da se era elogio ou xingação. Papa contou
                                                          que filósofo é um homem que pensa. Pensar
                                                          penso, mas será que sou filósofo? Ah, é coisa
                                                          de gente grande, nem sei se quero ser filóso-
                                                          fo, por enquanto gosto de surfar.

                                                          Mas do que tenho saudade é de quando eu
                                                          era o rei de minha casa, e daquele quintal. Até
                                                          pensava em mim como Rei Guilherme. Aí
                                                          aconteceu:
      hƩp://cachorrosblogs.blogspot.ch/
                                                          Um casal de gaviões fez ninho no abacateiro e
O cuidado de minhas avós com as próprias
                                                          botou ovo. O gavião achava que era o dono de
mãos veio depois de Chiquinha dar-o-chega-
                                                          tudo aquilo. Falei pro Papai: "Não é justo, você
pra-lá na Oma, marcando seu braço com os
                                                          que paga o IPTU". "O gavião não sabe disso",
dentes. Só arranhou, mas Oma sentiu-se traí-
                                                          Papai disse.
da. Se fosse comigo eu também me sentiria.
Olhei para vovó Eliane e vi nela um descon-               Os ovos foram o máximo. A gente podia ver
certo. Desconcertar é quando a gente se sente             do escritório da Mama. No jardim o gavião da-
desconjuntado, assim meio fora do lugar. Ofi-             va rasantes em todo mundo que passava per-
cina pra concertar gente não tem, como pra                to do abacateiro.

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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

Aconteceu comigo e com todos nós. E come-            Muito custoso ser rei. Se eu fosse rei odiaria
cei a duvidar de meu reizismo. Pedi pro papai        gaviões. Agora sei que nem Chiquinha é mi-
expulsar o gavião, o que ele recusou, o IBA-         nha. Ela acha que é a minha dona, de meus
MA ia brigar. E o bicho me derrubou. Me atirei       pais, da minha irmã e da nossa casa. Vai ver
de barriga ao chão, pra não ser atingido pelo        por isso deu o chega-pra-lá na Oma. Se bobe-
rasante dele. Zanguei-me deveras quando Pa-          ar, Chiquinha acha que é dona até dos gavi-
pa falou em comprar um capacete de moto-             ões. Bicada não vai levar, odeia abacate.
queiro pr´eu andar no jardim. Respondi:


_ Papa, está maluco? Aqui quem manda sou
eu! Se o gavião quiser ele que use capacete!


_ Por que? Você dá rasante nele?


_ Claro que não, se nem voo!


Bem, Papa não comprou capacete nenhum,
no lugar disso assistimos dia a dia os ovos
chocados. E cada gaviãozinho deixar o ninho,
crescer e poder voar. O ninho vazio o gavião
não ataca mais. Sem dos filhotes pra proteger
está calmo. Desistir do abacateiro não desiste.
Nem ele nem a fêmea. Outro dia quem quase
pagou o pato foi um papagaio, xereta de aba-
cate. Achei que o papagaio ia pro papo. O ga-
vião voava e assentava num galho de cima, e
a gaviona assentava no galho de baixo. Caça-
vam juntos. O papagaio xereta pulava de ga-
                                                          ANIMAIS EM CIRCOS NA GRANDE
lho em galho. Os gaviões cercavam o bicho                 MAIORIA DAS VEZES NÃO SÃO BEM
verde e laranja, gritando feito um montão de              TRATADOS.
maritacas. Teretecoteteco, barulheira de um               SÃO FORÇADOS A ATIVIDADES NÃO
bando, não de um só. O papagaio fugiu. Barri-             NATURAIS PARA SEREM
                                                          “TREINADOS”.
ga cheia de abacate os gaviões deixaram, não
                                                          E ISTO APENAS PARA O ENTRETENI-
precisavam de carne de papagaio, que deve
                                                          MENTO DOS HUMANOS.
ser dura de roer.
                                                          SEJA HUMANO, BOICOTE CIRCOS
                                                          COM ANIMAIS!
Desisti de ser rei e não só daquele pedaço.

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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

                MENINO DE RUA                           minha obrigação é lhe proteger.
                                                            -Proteger-me? Eu ia morrer? Agora, além
                                                        de menino de rua ainda é vidente?
               Por Marcos Toledo
                                                              - Não sou vidente, sou seu anjo da guar-
                                                        da.
     Sentado a beira da calçada, ali de cabeça
                                                             - Ah, tá, meu anjo da guarda... Assim
baixa, sem olhar para nada e ninguém.
                                                        neste trajes? E como posso saber se é verda-
     Transeuntes sequer olhavam-no, mas                 de?
também ele sequer levantava a cabeça para
                                                             - Olhe em volta e veja que estão lhe ven-
vê-los.
                                                        do conversar sozinho, estão rindo de você.
    Do outro lado da rua aquela figura, cha-
                                                             Olhei em volta, realmente estavam pas-
mou-me atenção, passei a observá-lo sem ser
                                                        sando e olhando para mim, quando voltei os
observado por ele.
                                                        olhos para o menino, ele não estava mais ali.
     Vez por outra ele levantava a cabeça,
                                                             Meio envergonhado, levantei-me, pois
olhava para o céu por instantes e voltava a
                                                        estava de joelhos no chão e fui para meu tra-
baixá-la, com a mão corria pelo chão como
                                                        balho. Chegando lá, todos do prédio estavam
que escrevesse algo.
                                                        na rua, pois o elevador havia despencado, por
      Já se fazia quase meia hora que estava            sorte não tinha ninguém dentro.
ali e nada dele receber algum tipo de ajuda, ou
                                                            Voltei a trabalhar normalmente, mas nun-
ser importunado por alguém. Resolvi atraves-
                                                        ca mais deixei de acreditar que alguém lá em
sar a rua e ficar mais próximo dele. Estranho o
                                                        cima me protege.
que estava acontecendo, pois já era hora de
estar no trabalho, mas lá estava eu observan-                 AMÉM
do um menino de rua, em mais uma atividade
que mais sabia fazer. Nada.
     Uma hora se passara, olhei para o relógio
e resolvi ir perto dele oferecer-lhe algo para
comer.
       - Oi menino, tudo bem com você?
       - Sim, está!
       - Posso oferecer-lhe algo para comer?
       - Não! Já comi!
       - Posso fazer alguma coisa para lhe aju-
dar?
       - O senhor já fez!
       - Hã! Como assim?
     - O senhor não estava ali me observando,
há algum tempo?
       - Estava! Como sabe?
       - Eu o vi e, por isso, estou aqui sentado.
                                                           FOTO DE JOSÉ FERREIRA
     - O que tem a ver, ter me visto e estar
aqui sentado?                                              hƩp://radyrgoncalves.blogspot.ch/

      - É que eu não queria que você fosse pa-
ra o trabalho agora!
       - Por quê?
       - Porque o senhor ia morrer no elevador e
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Varal do Brasil setembro/outubro 2012



... letras sós, só letras...

Por Felipe Cattapan



    a
    criança
    só
    soletra
    a letra
    impressa

    sem pressa
    passado
    futuro

    só presente:
    presente do presente
    só presente no presente
    - a surpresa permanente
    da descoberta constante
    de um som em um desenho:
    nem vogal nem consoante,
    só música soante;

    cada letra é
    só o que é:
    foi e é
    sendo e será,
    sem saber qual foi
    nem qual virá;
    - dura e perdura...
    na eternidade sem idade.

    ... ainda
    não há a verdade
    - que só surgirá
    com a idade e com a vinda
    da soma de muitas letras
    decompostas em palavras.

    (ainda não há
    a solidão desta verdade:
    o verdadeiro sentido
    da soma destas palavras
    é só tentar recompor
    a cartilha do tempo esquecido).




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Varal do Brasil setembro/outubro 2012


BIA, BEATRIZ


Por Júlia Rego




Estive pensando em como as crianças deste tempo tem o
poder de nos surpreender.
Costumo passar o dia de sábado com Beatriz, quando es-
tou de folga, e, geralmente, programo um passeio, que
varia entre shoppings centers, teatro ou cinema. A depen-
der da vontade dela, claro!
Nesses dias, arruma-se da forma mais caprichada possí-
vel, ela mesma escolhendo o figurino, coisa que não nos
seria permitida há alguns anos atrás, e, toda serelepe, põe bolsinha, pulseiras, colar e, claro, o
brilho nos lábios. E não adianta dizer-lhe que é ainda uma criança e não lhe cabe usar esses
complementos e, menos ainda, incorporar trejeitos de mulher adulta. De dedinho em riste e
mãos na cintura, ensaia um ar de autoridade, ignorando minhas observações, e puxa-me pela
mão. Só me resta pegar minha própria bolsa e segui-la, rumo à porta da rua.
Nosso destino? Adivinhem? Como uma criança filha da pós-modernidade e fruto do mundo capi-
talista com suas irritantes imposições, preferiu ir ao shopping. Não que não goste de ir a teatro,
parques, circos, ou outros programas mais infantis, mas, nesse dia, seu espírito de passarela
estava aflorado.
Entre fascinantes e luxuosas lojas de roupa, a pequena se mistura entre pernas de mulheres fre-
néticas, em busca de beleza, qualidade e preço, e braços de vendedores ávidos por empurrar o
último lançamento das fashions weeks nacionais e internacionais. Esforço-me para não perdê-la
de vista, tento agarrar seu bracinho, desesperada, mas ela ali está, olhinhos brilhando diante
dos tecidos multicoloridos, transformados em roupas de princesa, sonho de consumo de quase
todas as mulheres, ainda que pequeninas. Insiste para que eu lhe solte e, ao mesmo tempo, que
lhe compre aquele vestido rosa, brilhante e lindo pendurado na sessão teen. Chora, esperneia
como se estivesse diante de um brinquedo interessante, mas dessa vez eu não cedo a seus ca-
prichos e convenço-a de que aquela roupa não lhe serve, ainda.
Ela só tem seis anos, meu Deus! E sua infância, onde fica? Acho que não foi uma boa ideia ir ao
shopping...
Depois de travar uma luta para conseguir sair dos, digamos, recintos perigosos para uma crian-
çola cheirando a fraldas, vamos à sessão de cinema.
Pipoca, guaraná e milk-shake. Sim, afinal de contas ela é, sim, uma criança!
Entre vozinhas barulhentas e olhinhos curiosos, nos acomodamos nos assentos, mas noto certa
inquietação diante da iminência do escuro, resquícios do efeito de histórias infantis que remon-
tam a antiguidade. Ponho-a em meu colo, por fim.
Tagarela durante todo o filme, perguntando, vibrando, fazendo observações, rindo, numa inquie-
tude pueril típica que, ora me encanta, ora me impacienta. Quero assistir ao filme, externar meu
lado infantil, já que o dela anda um pouco duvidoso.
Final do filme, emoção, os bichinhos do bem saem vencedores e a criançada vibra de alegria
com seus heróis.
Está na hora de voltarmos para casa, mas, surpresa! Beatriz quer parar numa livraria que avis-
tou de longe. Como resistir a esse delicioso desejo de uma menininha nessa idade?
Reflito que essa tal contemporaneidade tem lá suas vantagens, quando, em outra época, nos
interessaríamos por entrar numa “biblioteca”, segundo ela, dentro de um Shopping Center...

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Varal do Brasil setembro/outubro 2012

Uma das coisas que mais me deixam feliz é vê-la          lobos maus e vovozinhas, piratas e pós de pirlim-
sentadinha, folheando páginas de histórias que a         pimpim...
remetem ao reino mágico da imaginação. Feliz da          E dorme...
criança que se atrai e é atraída para esse fantásƟco     Nesse momento, meus olhos também começam a
caminho.                                                 coçar, não de sono, mas de emoção.
As horas passam e Bia não se cansa de parƟcipar          Deixo as lágrimas caírem, admiro seu rosƟnho an-
daquele mundo encantado, passando de um livro a          gelical, compreendendo que a menina Beatriz é,
outro numa ansiedade frenéƟca e surpreendente.           sim, uma criança, uma criança, muito, muito feliz.
Depois de dúvidas intermináveis sobre qual deles         Levo-a para a cama, mas, antes, de deitá-la, ainda
iria levar, compro-lhe um volume colorido e repleto      lembro-me de uma canção que fiz para ela, quando
de histórias incríveis. Vibro de alegria por antever,    nasceu.
ali, uma herdeira de um dos meus mais caros praze-       Beijo seus cabelos e a aperto contra meu peito, can-
res.                                                     tando baixinho:
Mas é hora de voltar para casa!
O caminho de volta é permeado por uma sucessão
de perguntas, comentários, movimentos interminá-                    “O Anjo Gabriel desceu do céu
veis e caracterísƟcos de uma menininha esperta.                      Para ninar a menina Beatriz
Volta e meia, lembra do vesƟdo que ficou para trás                   Dorme, dorme, dorme Beatriz
e lamenta por eu não ter comprado, prometo-lhe                          Dorme, dorme, dorme
que, quando ela Ɵver 10 anos, volto para comprar.                       Oh, menina tão feliz”
Dez não, rebate ela, oito! E sou obrigada a concor-
dar, mais para encerrar a conversa do que como           Deito-a, mansamente, na cama, e então Ɵve a cer-
promessa real.                                           teza de que ela dormia, protegida pelas asas do
Chegando em casa, enfim, tento Ɵrar-lhe a roupa, e        amor.
fazê-la descansar, mas o dia não Ɵnha acabado, ain-
da, e agora é hora de fazer os personagens saírem
dos livros.
De repente, improvisa vesƟdo longo e rodado, sa-
paƟnhos de cristal, agora ela é a Cinderela e eu, cla-
ro, sou o príncipe que a levará ao castelo para o fi-
nal feliz.
Toda sua imaginação vem à tona e uma infinidade
de roupas, sapatos e contos de fadas se desenrola a
minha frente. Hora sou personagem, hora sou nar-
rador. E ela, sempre, as belas e maravilhosas prin-
cesas.
O tempo para ela não passa, mas eu estou exausta,
e os personagens também, mas ela não dá sinais de
querer dormir.
Quando, finalmente, seus olhinhos começam a co-
çar, chama-me a um canto e diz, “vovó você me ni-
na”?
Seu olhar suplicante me enternece. Pego a minha
criança no colo e, apesar dos seus quilinhos já me
doerem as costas, embalo-a, cantando Boi da Cara
Preta, Dorme Neném, Ciranda Cirandinha, o Cravo e
a Rosa, AƟrei o Pau no Gato, Se essa rua, se essa
rua fosse minha...
Ela se entrega a seus sonhos encantados, povoados
de princesas vesƟdas com vesƟdos brilhantes, cor
de rosa, lindos príncipes montados em cavalos
brancos, fadas, bruxas e duendes, reis e rainhas,
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Varal do Brasil setembro/outubro 2012




Quando eu era pequena


Por Krisiane de Paula




Quando eu era pequena gostava de brincar.

Nas férias eu ia à casa dos meus avós bagunçar.

Lá tinha plantações que eram cuidadas pelo vovô João.

Eu nunca estava sozinha, eu tinha duas priminhas, que mesmo mais novas, eram minha tur-
minha.

Uma delas, a Gigi, gostava da plantação de abacaxis, e a mais novinha, a Kelinha, era

cuidadosa com as galinhas e eu, a Krikri sempre gostei das florzinhas.

O dia passava voando entre as brincadeiras que escolhíamos em todos os cantos.

Até a vovó desconfiava da nossa animação.

O problema era o vovô João que ficava de marcação, afinal, era na sua horta a nossa curti-
ção.

E quando as férias iam acabando, nós ficávamos pensando no dia de voltar para mais

confusão aprontar.




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Varal do Brasil setembro/outubro 2012




COCADA BRANCA

Ingredientes da Receita de Cocada Branca:

3 + ½ de Coco ralado
4 xícaras (chá) de açúcar
5 cravos da índia
1 xícara (chá) de água
Canela em pau


Modo de preparo da Cocada Branca:

Primeiramente coloque o açúcar e a água em uma panela em fogo alto até que for-
me uma calda, não precisa mexer, o ponto certo é aquele semelhante a uma bala
mole. Assim que der o ponto retire do fogo e acrescente o coco, os pedaços de ca-
nela em pau, e os cravos da índia. Coloque novamente a panela no fogo e mexa sem
parar, até que a calda adquira novamente ponto de bala mole, retire do fogo e com
uma colher retire quantias formando montinhos e coloque em uma superfície lisa
para que a cocada esfrie. Depois é só saborear.


Fonte: hƩp://www.mundodasdicas.net/




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          Revista Varal do Brasil
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mensal independente, realizada por Jacque-
line Aisenman.
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sil receberam a aprovação dos autores, aos
quais agradecemos a participação.
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nos saber para que divulguemos o seu talen-
to!


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                                                tério das Relações Exteriores. Sua função principal é a de
                                                prestar serviços aos cidadãos brasileiros e estrangeiros resi-
                                                dentes na sua jurisdição consular, dentro dos limites estabe-
                                                lecidos pela legislação brasileira, pela legislação suíça e pe-
                                                los tratados internacionais pertinentes.

                                                O Consulado-Geral do Brasil encontra-se localizado no nú-
                                                mero 54, Rue de Lausanne, 1202 Genebra.

                                                O atendimento ao público é de segunda à sexta-feira, das
                                                9h00 às 14h00.

                                                O atendimento telefônico é de segunda à sexta-feira, das
                                                13h00 às 17h00. Favor ligar para 022 906 94 20.


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Varal do Brasil setembro/outubro 2012




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Varal 17

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    ® Literário, sem frescuras! 1664- ISSN 1664-5243 Setembro/Outubro 2012— Ano 3 - Setembro/Outubro de 2012—Edição no. 17
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 www.varaldobrasil.com 2
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 ® LITERÁRIO, SEM FRESCURAS Genebra, verão/outono de 2012 No. 17 bbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbmmmmm mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmhhhhhhhhhhhhhhhh hhhhhhhhhhuyuyuytuyhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhjkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrffffffffffffffmanajudyebeneogguaenejuebehaddddddd ddddddddddddddddddddmnheeƩpamƟngnrihssssssssssssssssssnerrrrrrrrrrrrrrekkkkkkkkkkkkkkkkkkkkbbb bbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbmmmmmmm mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmhhhhhhhhhhhhhhhhhhh hhhhhhhuyuyuytuyhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhjkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk kkkkkkkkkkkkkkkkkkkrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrffffffffffffffmanajudyebeneogguaenejuebehaddddddddd ddddddddddddddddddmnheeƩpamƟngnrihssssssssssssssssssnerrrrrrrrrrrrrrekkkkkkkkkkkkkkkkkkkkbbbbb bbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbmmmmmmmm mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh hhhhhuyuyuytuyhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhjkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk kkkkkkkkkkkkkkkkkrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrffffffffffffffmanajudyebeneogguaenejuebehaddddddddddd ddddddddddddddddmnheeƩpamƟngnrihssssssssssssssssssnerrrrrrrrrrrrrrekkkkkkkkkkkkkkkkkkkkbbbbbbb bbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbmmmmmmmmmm mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh hhuyuyuytuyhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhjkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk kkkkkkkkkkkkkrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrffffffffffffffmanajudyebeneogguaenejuebehadddddddddddddd dddddddddddddmnheeƩpamƟngnrihssssssssssssssssssnerrrrrrrrrrrrrrekkkkkkkkkkkkkkkkkkkkbbbbbbbbbb bbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbmmmmmmmmmmm mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh huyuyuytuyhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhjkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk www.varaldobrasil.com 3
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 EXPEDIENTE Revista Literária VARAL DO BRASIL 1664- NO. 16 - Genebra - CH - ISSN 1664-5243 Copyright Vários Autores O Varal do Brasil é promovido, organizado e rea- lizado por Jacqueline Aisenman Site do VARAL: www.varaldobrasil.com Blog do Varal: www.varaldobrasil.blogspot.com Textos: Vários Autores Colunas: Daniel Ciarlini O CURTIDOR DE PELES Fabiane Ribeiro Por Wilton Porto Sheila Ferreira Kuno Ilustrações: Vários Autores Quando garoto, curtia o sol, Que curtia as peles estendidas no Desenhos animais: © ddraw - Fotolia com chão. Curtindo as peles, também curtia os Desenhos crianças/estações: © J-Sho - Fotolia sonhos, Foto capa: © Chepko Danil - Fotolia com De um dia nesta vida ter um lugar ao sol. Foto contracapa: © fotogestoeber - Fotoliacom Muitas imagens encontramos na internet sem ter O sol que curtia as peles o nome do autor citado. Se for uma foto ou um Muito mais curtia os sonhos desenho seu, envie um e-mail aqui para a gente De ser mais que um curtidor de peles e teremos o maior prazer em divulgar o seu ta- Na pele em que vivia. lento. O sol é vida, o sol é sonho, Revisão parcial de cada autor Mas viver no sol não é a única vida; Se Curtir as peles é oportunidade, Revisão geral VARAL DO BRASIL Oportunidade não é só em peles. Composição e diagramação: Viver ao sol – eis o verdadeiro curtir. Jacqueline Aisenman Curtiu e curte na pele que é dele. Porém, para curtir, o que se curte Nesta vida tão curta, A distribuição ecológica, por e-mail, é gratuita. A Antes, é viver no sol, revista está gratuitamente para download em Pois só ganha a vida quem nada repele. seus site e blog. Se você deseja participar do VARAL DO BRASIL (Do livro O CURTIDOR DE PELES). NO. 18 envie seus textos até 10 de outubro de 2012 para: varaldobrasil@gmail.com O tema da edição no. 18 será livre. www.varaldobrasil.com 4
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Convidamos as pessoas que gostam de escrever para falar da infância e o convite foi aceito por muitos! Então aqui estamos, falando não só da Nossa Infância, mas da infância de todos. Desde as infâncias felizes até a mais triste delas. Lembrar da infância não é fácil para todo mundo, assim também é falar dela. O que para muitos é algo gostoso e que pode se repetir escrevendo o que vem da memória, para outros pode ser doloroso demais. Por isto agradecemos a tantos que vieram, atenderam o apelo e falaram da infância com alegria ou com tristeza. Quando se pensa em criança é automático: pensamos em doces! Vida doce, festa, tudo doce! Então fomos buscar algumas receitas culinárias que visitassem nosso paladar infantil, aquele que, como um pequeno pecado, muitas vezes ainda provamos e adoramos! Como vocês devem ter percebido nossas férias foram alegremente interrompidas pela edição de um especial, o Varal do Amor. Foram publicados cinquenta autores. Mas recebemos muitos, muitos mais. E a sugestão de fazer uma sequência. Quem sabe? Quem sabe não faremos em breve? Atendemos com alegria, em meio a todas as histórias e poemas sobre a infância, o chamado da seriedade de uma publicação científica e publicamos o artigo de André Valério Sales intitulado Particularidade, Universalidade e Singularidade: definindo conceitos fundamentais para a Meto- dologia da Pesquisa em Ciências Sociais e que por ele será apresentado na universidade que frequenta. Talvez um sonho de criança que se realiza! Em meio a tantas alegrias, uma notícia triste vem fazer parte do Varal. Nossa Livraria, infeliz- mente, encerrou suas atividades. Não foi possível manter o sonho de comercializar nossa nova literatura, nossos novos autores aqui na Europa! Constatamos que pouquíssimos brasileiros aqui na Suíça buscam esta literatura. A grande maioria ainda se atém aos autores consagrados ou prefere apenas adquirir os livros diretamente no Brasil quando vai em visita. Desta forma, profundamente tristes, fechamos as portas desta livraria que tinha o sonho de ver seus autores brilhando por aqui! Mas nem tudo foi perdido, pois depois do sucesso que foi nossa participa- ção no 26o. Salão Internacional do Livro de Genebra, os livros, cedidos por grande parte dos escritores presentes na livraria, estão sendo doados a várias bibliotecas suíças que demonstra- ram imenso interesse nos exemplares. São os novos autores brasileiros cruzando fronteiras através do Varal do Brasil! Estamos com as inscrições abertas para a seleção de textos para o livro Varal Antológico 3. Surpresos com a variedade e quantidade de textos a ler, nossos examinadores estão felizes de observar a qualidade destes mesmos textos. E começamos a lamentar que as vagas sejam limi- tadas! Você ainda tem tempo para se inscrever e pode solicitar o regulamento através do nosso e-mail varaldobrasil@gmail.com . O livro Varal Antológico 3 terá revisão completa incluída e edi- toração pela Design Editora, símbolo de qualidade na edição de livros no Brasil. Amigos do Varal, nos preparamos para, em novembro, festejar nossos três anos de revista. Tra- remos o tema livre, festejaremos juntos. Esperando você para a festa de novembro, deixamos aqui esta revista especial sobre a infância! Uma boa leitura! Sua equipe do Varal www.varaldobrasil.com 5
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 ◊ AFONSO MARTINI ◊ HELIO SENA ◊ ANA MARIA ROSA ◊ HERNANDES LEÃO ◊ ANA ROSENROT ◊ ISABEL CRISTINA SILVA VARGAS ◊ ANDRÉ VALÉRIO SALES ◊ IVANE LAURETE PEROTTI ◊ ARLETE TRENTINI DOS SANTOS ◊ JACQUELINE AISENMAN ◊ AUDELINA MACIEIRA ◊ JOSANE MARY AMORIM ◊ CARLA RENATA JORGE NEVES ◊ JOSÉ CAMBINDA DALA ◊ CARLOS CONRADO ◊ JOSÉ CARLOS PAIVA BRUNO ◊ CARLOS PINA ◊ JOSÉ HILTON ROSA ◊ CLÉO REIS ◊ JOSSELENE MARQUES ◊ CRISTINA CACOSSI ◊ JU PETEK ◊ DANIEL C. B. CIARLINI ◊ JULIA REGO ◊ DHIOGO JOSÉ CAETANO ◊ KARINE ALVES RIBEIRO ◊ EDNA PIDNER ◊ KRISIANE DE PAULA ◊ ELIANE ACCIOLY ◊ LARIEL FROTA ◊ EMÉRITA ANDRADE ◊ LENIVAL NUNES ANDRADE ◊ ELISE SCHIFFER ◊ LEONILDA YVONNETI SPINA ◊ EVELYN CIESZYNSKI ◊ LÓLA PRATA ◊ FABIANE RIBEIRO ◊ LÚCIA AMÉLIA BRULHARDT ◊ FANI ◊ LUDMILA RODRIGUES ◊ FELIPE CATTAPAN ◊ LUIZ CARLOS AMORIM ◊ FRANCY WAGNER ◊ LUNNA FRANK ◊ GERMANO MACHADO ◊ MARCELO BENINI ◊ GUACIRA MACIEL ◊ MARCOS TOLEDO ◊ HELENA AKIKO KUNO ◊ MARCOS TORRES www.varaldobrasil.com 6
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 ◊ MADAL ◊ MARIA EUGÊNIA ◊ MARIA MOREIRA ◊ MARIANE EGGERT DE FIGUEIREDO ◊ MARILU F. QUEIROZ ◊ MARINA VALENTE ◊ MARINEY K ◊ MÁRIO OSNY ROSA ◊ MYRTHES NEUSALI SPINA DE MORAIS ◊ MARIO REZENDE ◊ MORGANA GAZEL ◊ NORÁLIA DE MELLO CASTRO ◊ ODENIR FERRO ◊ RAIMUNDO CANDIDO TEIXEIRA FILHO ◊ RENATA IACOVINO ◊ RITA DE OLIVEIRA MEDEIROS ◊ RO FURKIM ◊ ROBERTO ARMORIZZI ◊ ROZELENE FURTADO DE LIMA ◊ SANDRA BERG ◊ SARAH VENTURIM LASSO ◊ SHEILA FERREIRA KUNO ◊ SILVIO PARISE ◊ SONIA NOGUEIRA ◊ SONIA RODRIGUES ◊ VALDECK ALMEIDA DE JESUS ◊ VALQUIRIA GESQUI MALAGOLI ◊ VO FIA ◊ WILTON PORTO ◊ YARA DARIN www.varaldobrasil.com 7
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 UM PEDAÇO DO CÉU jamais esquecerei. Por Ana Maria Rosa Fiquei parada no último degrau do corredor, fora do tempo, olhando aquele cenário irreal: a mesa grande, preta de tão encardida; as cadeiras escuras, Eu era muito criança. Devia ter uns seis fantasmagóricas; fuligem e pedaços de telha espa- anos, mas ainda me lembro daquela tarde. A trovoa- lhados por toda parte; o espelhinho do lavatório co- da veio muito rápida: de repente, o céu se fez negro, berto com uma toalhinha branca; a bacia de esmalte e um vento forte começou a sacudir a copa das árvo- cheia de água amarela; a pequena cristaleira com o res. Logo nossa mãe mandou que entrássemos. Fe- vidro quebrado expando os pratos de visita... A sala chou as portas e janelas, cobriu os santos e os espe- e os objetos, tudo, envolto numa penumbra azulada lhos. Nós queríamos ver a chuva, porém ela nos fez e, ao mesmo tempo, banhado de luz. Não havia can- ficar quietos em seu quarto. Amedrontada, sentou-se deeiro aceso nem luz do sol. As janelas e portas es- toda encolhida na cama passando as contas do rosá- tavam fechadas. Mas uma luminosidade suave e rio e rezando bem baixinho. Ficamos em silêncio acinzentada clareava tudo. Olhei e vi o teto, negro ouvindo o ribombar dos trovões e as pancadas da de fuligem, com um buraco enorme e azulado. Por chuva no telhado. Parecia que o mundo estava se aquele buraco, entrava – na sala – o céu cinza-claro, acabando – diria minha mãe mais tarde. Nós, ao quase prateado, lavado de chuva... contrário dela, não tínhamos medo algum e adoráva- Não sei por quanto tempo quedei-me ali, re- mos chuva forte com relâmpagos e trovões. Mas, verente, olhando aquele pedaço de céu... e admiran- daquela vez, fiquei um pouco amedrontada com a do aqueles objetos pela primeira vez – em toda sua violência da trovoada. Quando, finalmente, a chuva pobreza – envoltos numa feiura que, naquele mo- amainou, saímos do quarto. Era de tardinha, e a casa mento, me parecia inexplicavelmente bela. Aproxi- estava quase às escuras. Caminhávamos tateando as mei-me da mesa: o céu estava perto e pairava sobre paredes do corredor tentando enxergar através da minha cabeça. Como era possível aquilo? O céu penumbra. Logo, percebemos que a chuva e a venta- sempre fora tão inatingível, tão distante... E agora nia haviam feito muitos estragos, pois havia muita estava tão perto, tão pequenino... meu céu. Achei sujeira e telhas quebradas pelo chão. Ao chegarmos que poderia tocá-lo com a mão se conseguisse uma à sala de jantar, percebemos que algo extraordinário escada bem alta para subir na cumeeira da casa... havia acontecido: o vento destelhara a cumeeira. Olhei mais um pouco e vi que sobre a mesa, nas cadeiras, no chão, em toda parte, havia pequeni- nas pedrinhas transparentes – cristaizinhos de luz... Quando eu os colocava na palma da mão (tão frios), logo eles desapareciam. Alguém falou em chuva de granizo. Disseram que aquelas pedrinhas eram de gelo. Gelo!? Na boca, elas derretiam... Eram de Não sei o que os outros viram, mas o que vi água! www.varaldobrasil.com 8
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Saí para o terreiro, e o chão estava salpicado nenhum som, apenas o Silêncio. por uma infinidade delas. O terreiro estava ilumina- Voltei à sala e olhei novamente cada coisa: do por milhares de pontos de luz, como se fossem os móveis, os objetos, as paredes, as portas, as jane- pedras preciosas ou pequeninos pedacinhos de estre- las, o telhado, o chão... E, de novo, era como se os las. Eu escolhia os maiores, punha-os na mão e fica- visse pela primeira vez. Olhava meu pedaço de céu, va olhando até vê-los sumirem rapidamente restan- limitado pelas telhas, projetando-se para o infinito, e do apenas uma porçãozinha de água... Olhava ao meu coração se regozijava como se tocado por algo meu redor, e o mundo inteiro estava parado. Não sagrado. Uma vez li (Não me lembro quem disse, existia nenhum movimento: as quixabeiras, impassí- mas foi alguém do grupo que construiu Pampulha) veis, sobre o tapete de frutinhas escuras; as folhas que a Poesia às vezes passa num lugar – suave e fur- das bananeiras, rasgadas, imóveis; os porcos quietos tiva – quase como uma brisa. Porém, por alguns ins- como as varas negras do chiqueiro; as galinhas e os tantes, pode-se perceber sua presença. Acho que, perus, extáticos, a contemplar, filosóficos, aquele naquela tarde, a Poesia entrou pelo buraco no telha- mundo novo; o pássaro, preso na gaiola, encolhia-se do, iluminou os móveis toscos da sala, assoprou a em seu terno negro sem vontade de fugir... Não ha- água amarela da bacia, mirou-se nos cristaizinhos de via nenhuma cor: o capim, as juremas, os mandaca- granizo e fugiu... Foi embora antes que a escuridão, rus, os umbuzeiros e até as flores haviam descolori- já instalada na cozinha, invadisse a sala; antes que a do. E o céu cinza-prata – agora imenso – continuava menina de cabelos encaracolados, sentada no baten- próximo, redondo, abraçando tudo ao redor. O mun- te do corredor, pudesse compreender por que queria do inteiro era uma fotografia em preto e branco. guardar – como um tesouro – aquela sensação de beleza... de mágica. Lembro-me de que fugi pela penumbra do corredor e quedei-me na sala de visi- tas, bem perto do lampião. Em meu coração, havia uma imensa vontade de chorar. Teria a menina des- coberto a efemeridade da vida? Houve um momento em que minhas irmãs entraram, e fiquei sozinha lá fora. Só eu – uma cri- ança – sozinha naquele imenso mundo ártico... E escutei as árvores, e escutei o gado, e escutei o ven- to, e escutei a fonte, e escutei o riacho. Não havia www.varaldobrasil.com 9
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Minha infância Por Luiz Carlos Amorim Esta noite acordei com a chuva batendo na minha janela. Não fiquei contrariado por ter acordado com o barulho dos pingos contra o vidro, porque gosto de chuva. Sempre gostei. Gosto de dormir com o tambori- lar dos pingos no telhado (morei a maior parte da minha vida em casas, graças a Deus!) ou na janela. Que eu me lembre, só fico chateado quando chove muito nas épocas da florescência do ipê, do jacatirão, do flamboaiã, da azaleia e do olho de boneca (um tipo de orquídea comum, em nossa região), pois as flores caem mais depressa porque ficam pesadas com o excesso de água e porque apodrecem. E quando a chuva me pega desprevenido no meio da rua, no inverno. Mas como dizia, choveu esta noite e os pingos na janela fizeram com que me reportasse a minha infância, já um tanto distante. O tamborilar que agora me traz uma sensação de paz e melancolia, naqueles tempos de garoto, idos tempos, fazia com que eu e meus irmãos grudássemos nossos narizes nos vidros das janelas e olhássemos para fora, com uma vontade enorme de sair e brincar, descalços, na água que corria ao lado da casa e junto da calçada. Nossa mãe, no entanto, alerta, nos detinha. Mas em ela se descuidando um segundo, lá estávamos nós, fa- zendo festa debaixo da chuva, jogando água um no outro, estancando-a em pequenos lagos e soltando bar- quinhos de papel na corredeira, os cabelos escorridos e a roupa encharcada, com aquele ar de felicidade que só criança tem. Aqueles dias se foram e eu não corro mais na chuva. Quando me molho ao apanhar chuva, fico aborrecido por que vou chegar molhado em algum lugar. Não consigo mais ser criança como antes. E gostaria de po- der. Porque acho que ainda sou um pouquinho criança dentro deste corpo que vai envelhecendo e ficando cansado. Amanhã, quem sabe, talvez eu saia descalço e de peito nu, a cantar pela chuva. Se você encontrar um ma- luco molhado cantando e dançando na chuva, não se assuste. Pode ser que seja eu. www.varaldobrasil.com 10
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 LEMBRANÇAS Diferente de outras aulas, Aguardava ansiosa, Por saber que neste dia, Muito mais aprenderia; Através da geografia, Por Carla Renata Jorge Neves O mundo conheceria, Numa viagem maravilhosa! Ao final desta viagem, Busco agora na memória Louvo a Deus por ter um dia, Lembranças da minha infância: Me levado à escola, Aos seis anos de idade, Onde os meus mestres queridos, Mesmo com toda adversidade, Me ensinavam a toda hora, Posso ver muita alegria Não somente a disciplina, Por ter podido um dia, Mas amor e alegria! Estudar com a tia Estela Linda, amiga e sincera! Hoje eu trago na bagagem, Estas lembranças comigo, Chego agora aos oito anos, Que me fazem voltar no tempo No romper de outra etapa, Relembrando bons momentos, Tenho agora a tabuada, Que passei com meus amigos! Sem conversa, sem bagunça, Tia Fauza com firmeza, Faz o aluno com certeza, Aprender a matemática! Tudo isso me levou, Quando na minha escolha, A escolher Pedagogia, Para poder fazer um dia, Algo pela educação, Já na flor da mocidade, Dando contribuição, Aos quatorze anos de idade, À criança, jovem e adulto, Vejo agora a alegria Tornando-os bons cidadãos! Na aula de geografia: Senhor Jorge com seu mapa Ministrando suas aulas, Com toda propriedade! www.varaldobrasil.com 11
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 BALÕES EM SÃO JOÃO Por Yara Darin Art de Analice Rodrigues Uchôa Balões em São João Balões aos ares Balões multicores Que outrora no céu brilhavam, me fasci- navam. Sentia-me em liberdade, sensação de feli- cidade Amores de verdade! Lembro o céu junino todo estrelado As fogueiras , bandeiras e rojões Que alegravam o meu coração Quando em dia de São João ! Tão belos balões já não existem mais Tão-pouco tenho as alegrias de outrora E as que ficaram , tão somente São lembranças saudosas , gostosas De uma época feliz de criança Que o tempo não volta jamais... www.varaldobrasil.com 12
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Oração de uma criança abandonada Por Carlos Conrado Querido Papai do Céu, Não sei se o senhor tem barba Mas sei que não é igual a eu!... Queria estar contigo agora Pois aí deve ter pão de sobra E um lugar coberto neste céu, Para eu me deitar quando estiver cansado, Nestas nuvens parecidas com algodão. Senhor por ti junto minhas mãos E peço sabedoria de gente grande. Papai do Céu eu quero Que eu e meus irmãos possamos Ir à escola e deixar De pedir esmola para sempre. Dizem que o senhor Ama todo mundo, que não rouba e nem mente, Por isto vou te amar. Não tenho muito a te oferecer, Mas mesmo que eu continue nas ruas, Eu vou te honrar e agradecer Pois tu és o meu super-herói!... Senhor se eu me comportar Talvez eu ganhe mais Que uma bicicleta, talvez, Eu ganhe um lar. Querido Papai do Céu Abençoa todo mundo. Dá-me uma mãe para amar, Um peixinho e um cachorro E diz a quem precisa escutar Que o amor não é só namorar. www.varaldobrasil.com 13
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Por Fabiane Ribeiro ano seguinte, ela também não veio; nem no próxi- mo... Anos se passaram sem que ele tivesse notí- cias de sua amada. Ele já estava velho e cansado, quando, deitou-se na areia da praia e pediu que o mar carregasse seus olhos para que ela pudesse en- contrá-los. Dona de tudo o que ele já havia visto de mais belo, ela continuaria a guiá-lo por entre as mais lindas e inexploradas maravilhas da natureza. Assim, há um tempo que não se conta, nasceu, junto ao mar, a saudade e também o primeiro ser humano que não era mais dono de sua visão”. Conto 5 – A lenda dos olhos e da saudade Maria Isabel, a coordenadora do grupo, fe- chou o livro escrito em braile, dizendo: “Diz um velho pescador que há um tempo — Essa é a lenda dos olhos e da saudade. que não se conta, por aquelas bandas, existiu um Ela nos faz imaginar a vida do primeiro deficiente jovem rapaz que costumava caminhar a beira-mar visual que existiu no mundo. Claro, é só uma histó- em todo fim de tarde. Ele levava sempre consigo ria. Como temos observado ao longo de nossa reu- uma gaita e a tocava, enquanto contemplava a nião, assim como o rapaz da lenda, nós também ve- imensidão das águas e o vazio do horizonte. mos o mundo, apenas de forma diferente... O rapaz disse ao sábio que seu coração o guiara até aquela praia. Então, ele ia para lá, todos Verdade ou não, em certo canto do mundo, os dias, na esperança de encontrar os motivos. em uma praia distante de tudo, os viajantes costu- Até que um dia, do mar ela surgiu. Uma bela mavam dizer que podiam ouvir o som de uma gaita moça. Alguns dizem por aí que era uma sereia. Ou- a tocar, sem que ninguém estivesse por lá... tros dizem que era um anjo do mar. Mas para aque- le rapaz era apenas a dona do seu coração. Uma vez ao ano, ela surgia e o arrastava até as profundezas. Então, juntos, eles contemplavam as maiores mara- vilhas da natureza: o mundo que existe abaixo das águas do oceano, onde nenhum ser humano jamais estivera. Em todos os outros dias do ano, o rapaz sen- tava-se junto a um rochedo e tocava sua gaita. Ele sabia que a moça podia ouvi-lo, de onde estivesse. Ele apenas gostava de tocar para ela... E, a cada pôr -do-sol em que ela não vinha, ele derramava uma lágrima no oceano, que se mesclava por entre as águas infinitas. Por décadas, eles encontraram-se apenas uma vez ao ano. Até que a moça não apareceu. No www.varaldobrasil.com 14
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 O CLUBE DOS VIRA-LATAS é uma organização não governa- mental, sem fins lucraƟvos, que mantém em seu abrigo ho- je mais de 400 animais que são cuidados e alimentados dia- riamente. Boa parte desses animais chegou ao Clube após atropelamentos, acidentes, maus tratos e abandono. Nosso objeƟvo é resgatá-los das ruas, tratá-los e conseguir um lar responsável para que eles possam ter uma vida feliz. Por que ajudar os animais? doações. Todos podem ajudar, seja divulgando o Clube, seja adotando um animal ou mesmo doando Você sabia que no Brasil milhões de cães e gatos vi- dinheiro, ração ou medicamentos. Qualquer doação, vem nas ruas, passando fome, frio e todos os Ɵpos de qualquer valor por menor que seja, é bem-vinda. de necessidades? Cerca deles 70% acabam em abri- As contas do Clube bem como o desƟno de todo o gos e 90% nunca encontrarão um lar. Parte será víƟ- dinheiro estão abertas para quem quiser ma ainda de atropelamentos, espancamentos e to- dos os Ɵpo de maus tratos. BRADESCO (banco 237 para DOC) Infelizmente, não é possível solucionar este proble- Agência: 0557 ma da noite para o dia. A castração dos animais de CC: 73.760-7 rua é uma solução para diminuir as futuras popula- Titular: Clube dos Vira-Latas ções mas não resolve o problema do agora. Sendo CNPJ: 05.299.525/0001-93 Ou assim, algumas coisas que você pode fazer para aju- dar um animal carente hoje: Banco do Brasil (banco 001 para DOC) Adotar um animal de maneira responsável Agência: 6857-8 CC: 1624-1 Voluntariar-se em algum abrigo. Titular: Clube dos Vira-Latas Doar alimento (ração) e/ou remédios para abrigos. CNPJ: 05.299.525/0001-93 Contribuir financeiramente com ONGs. Nunca abandonar seu animal (Saiba mais sobre o Clube em hƩp://fr- fr.facebook.com/ClubeDosViraLatas?ref=ts) Como o Clube vive? Somente de doações. Todas as nossas contas são públicas, assim como extratos bancários e notas fiscais. Como ajudar o Clube? Para manter esses mais de 400 peludos em nosso abrigo, contamos hoje ape- nas o trabalho dos voluntários e com o dinheiro de www.varaldobrasil.com 15
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Meus animais de infância te era atendido. Vinham de onde estivessem ao ou- vir a voz de minha avó. Bom, com relação à dinastia canina, o primei- Por Renata Iacovino ro que me lembro é do Sheike, um pequinês. Mor- reu velhinho. Antes dele tiveram outros. Mas não me recordo, apenas de ouvir falar e pelas fotografi- Desde criança sempre ouvi que gato tem sete as. vidas. E uma das histórias que me fez crer nisto, aconteceu em casa, mas eu apenas ouvi falar, por- que era muito pequena, ou talvez, nem nascida. Soube que meu pai – até então, um não apre- ciador da raça felina domesticada – atirou pela jane- la de seu quarto, nosso gato Pelé, a uma altura de mais ou menos 5 metros. O bichano sobreviveu, co- mo se nada tivesse acontecido. Que bom! Pelo me- nos não foi daquela vez. Foto de Renata Iacovino Mas tal antipatia durou pouco. Lembro-me sempre cercada de gatos, em casa. E testemunhei muitos deles no colo de meu pai, no sofá com a gente, enfim, verdadeiros donos e donas do pedaço. Manoela veio como verdadeira rainha. Filhos dela também conviveram conosco, como o Riveli- no, o Bado, o Saci... Mas um vira-lata, em especial, era meu xodó Depois do Sheike, veio o Snoopy, uma mistu- (e creio, vice-versa). O Brito, que depois virou ra de fox paulistinha com sei lá o quê. Amoroso, Britz, que depois virou... ah, bem, deixa pra lá, eram mas sofreu muito, e todos sofremos junto, claro. Ele tantos os nomes e apelidos que eu dava para um teve sinomose. único gato, que em minha memória estas coisas até se confundem, hoje em dia. Então veio o Ringo, este sim, um fox paulisti- nha. Muito alegre e brincalhão, mas com uma per- O Brito, ou Britz, ou... chegava da rua estropi- sonalidade muito forte. Ele tinha uma característica ado, sem um pedaço da orelha, muitas vezes, e vi- interessante: quando ia comer, gostava que o provo- nha correndo ao meu encontro. Era um amor só. To- cassem, até que ficasse bem nervoso e então comia do sujo, com resquícios da farra, parecia saber que loucamente, latindo, rosnando e mostrando os den- somente eu toleraria aquilo. tes. Gostava de tomar água na torneira do quintal. E quantas vezes ele desaparecia! Dois, três, Bastava abrirmos a torneira e ele estar por perto, quatro dias! Nós ficávamos preocupados, querendo pronto, já vinha dar bocadas nela com uma gana saber seu paradeiro. E de repente lá estava ele. Da- que, a nós parecia estar se machucando, tamanha a quele jeito amassado, sujo e cambaleante, mas, cla- força que imprimia no gesto. Mas teve vários pro- ro, sempre com muita energia para recomeçar a far- blemas de saúde. O problema na coluna o fez ficar ra gatuna. Um vira-lata branco e preto, um autêntico curvado, até que não podia mais saltar o tanto que corinthiano, pois nesta época o Corinthians era uma gostava. Teve uma alergia que lhe tomou o corpo de minhas paixões. inteiro, ocasionando falhas na pelagem rala, típica de sua raça. Minha avó – que morava conosco – tratava de todos os gatos e animais de casa, com especial cari- Outros animais habitaram nossa casa: dois grandes nho. Preparava “altos banquetes” para os felinos. jabotis (ou cágados) que viveram muitos anos no Naquela época não existia essa coisa de ração. Ela quintal e tinham, dentre suas preferências alimentí- ia à feira, comprava sardinhas e fazia um preparo cias, mamão e banana. todo especial para eles. Quando estava na hora do Neste mesmo quintal, dentro de um enorme almoço e os bichanos não se encontravam por perto, aquário construído no chão, em círculo, muitos pei- ela tinha um ritual de chamá-los, ao que prontamen- xes dividiram aquele espaço, durante muitos anos. www.varaldobrasil.com 16
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Recordo-me que uma das coisas que mais me divertia era quando íamos limpar o aquário. Que farra! Mexer com água sempre foi algo que me atraiu, e fazer todo aquele procedimento, abrindo o batoque, escoando a água, tirando os peixes, limpando tudo, enchendo novamente o aquário (que nada tinha a ver com os aquários domésticos que conhecemos) e colocando os peixes de volta ao seu habitat, tudo aquilo era bem divertido e envolvia a todos nós. Acontece que, quase sempre, após a limpeza, algum peixinho morria, estranhando a água tão limpa. Este aquário cercava um grande viveiro, onde tínhamos periquitos de várias cores. Eu achava que aquele era um espaço enorme para as pequenas aves. Na parte de baixo do quintal, próximo de onde os jabotis ficavam, havia um galinheiro. Não cheguei a conhecer as galinhas. Apenas ouvi falar, também. Este espaço depois se transformou num orquidário. Lembro-me da goiabeira, dos limoeiros, das roseiras, da erva-cidreira, da hortelã, do manjericão e dos inúmeros insetos que ali habitavam. Recordações da casa da Rangel Pestana, lugar em que vivi boa parte de minha vida. INFÂNCIA Por Audelina Macieira Bonecas ao chão Carrinhos na estante meu conjunto de chá na sala de visita de minha mãe. Velotrol abusado eu deixo sempre tudo espalhado pela casa e não arrumo nada sou criança. Mamãe me acuda Ai! Ai! Ai! Quero merendar biscoitos recheados vou tomar banho com a Lili minha boneca de pano a noite vou falar com papai do céu que quando eu crescer quero ser bailarina. www.varaldobrasil.com 17
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Ta escurecendo, a mãe levanta e diz que vai passar Pé-de-Moleque um café fresquinho. Aquele torrado no tacho, pisa- do no pilão e coado no saco de pano de algodão. Ai que gostoso. Café quentinho e tapioca com coco!- também bem cedinho... e o cheirinho da tapioca que a mãe assa e poe no pau, pra ficar durinha, crocante igual a bis- coito. Assim o moleque tem forca de correr o dia todo... Por Francy Wagner vai pra escola de bicicleta e no recreio joga bola com a molecada, tudo parente e amigo, primo, filho do padrinho, primo do primo do pai, da mãe, ... uma Junho. Mês das quadrilhas! Santo Antonio, São Jo- família grande... ao e São Pedro! Pé-de-moleque, gostoso torrado no forno da casa de Bolo de milho, canjica, pé-de-moleque,... farinha... pelo tio Manoel, que faz os melhores da cidade! Ele também é o melhor pra torrar a farinha, Sabores da minha infância. Sabores do interior do o melhor forneiro da região. O moleque ajuda o tio Ceara, da querida terrinha, onde se pula, dança, quando ele deixa.... torrar farinha é trabalho de res- brinca, corre, toma banho de lagoa, de riacho, de ponsabilidade. Tem que saber o ponto certo pra nao rio, de mar, de chuva... deixar a farinha crua nem queimada. E o moleque Pé-de-Moleque, escurinho, dentro da palha da bana- fica ali, aprendendo o ponto certo... quando cansa, neira... daquela touceira que fica logo ali, no rego corre e vai brincar de pião ou de bilha com os pri- de agua que sai da pia da cozinha. Nunca falta água mos. Farinhada é uma festa. pra bananeira. E foi justo ali que nasceu aquele pe No final de semana, quando o pai não grita pra fazer de tomate frondoso, que a mãe vai catar um tomate nada, o moleque escapole cedo e vai pra lagoa. bem maduro pra temperar a panela do frango... aquele carijó... almoço do domingo! Lagoa cheia. Pé-de-Moleque, temperado com erva doce que o Inverno bom. moleque foi correndo comprar na venda do tio Jar- Fartura na porta do terreiro. bas. Pular da tabua, nadar ate o fundo, dar tainha na Pé-de-Moleque, enfeitado de castanha de caju, da- agua. Depois correr e se salgar de areia só para tirar quelas que o moleque ajudou o pai a juntar debaixo em seguida noutra tainha. do cajueiral, assou na palha do coqueiro, o mesmo A mãe chega mais tarde com as meninas e coma- coqueiro do qual a mae quebrou o coco para tempe- dres. Ficam mais no raso. rar a tapioca de manha bem cedo. Castanha inteira é pra venda, quebrada ou murcha é pra boca... do mo- A mãe nem se preocupa com o moleque. Aprendeu leque. a nadar ainda bebe de colo, ali mesmo nas aguas da lagoa... assim como a molequinha mais nova, que “Ah! Se se quebrar bem muita!”- sonha o moleque enquanto vai tirando o miolo da castanha quente e agora mesmo aprende a andar e cair sentada na bei- ficando com os dedos escurecidos, igualzinho ao ra d'água, e todos acham muita graça da braveza da seu pe, ali sentado ao lado da mãe e da irmã, debai- menininha. xo do cajueiro “da cozinha”, onde corre mais vento, Compadre Pedro vai matar um porco no sábado. Já um ventinho fresco da tarde... convidou todo mundo conhecido para a matança... os homens vão logo de madrugadinha. A comadre www.varaldobrasil.com 18
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 só chega mais tarde, para ajudar a prima com o sarrabulho. E a molecada fica no cajueiral do terreno, brin- cando. Os pês vai ficar escurinhos, pretinhos... da cor do bolo: Pé-de-moleque! Da cor nossa de cada dia, pois tira o chinelo para correr e pegar o frango do almoço do domingo. Aquele carijó, grandão que já tá querendo pegar as galinhas e briga toda hora com o galo... mãe não quer ele de reprodutor não. “Vai moleque, pega o frango carijó e bota no grajau!”- grita a mãe do pé da porteira da cozinha. E la vai o moleque, na carreira, atrás do frango ligeiro, que da cada rabiada, que deixa o moleque ali no pé da moita. A mãe solta a “Traíra”, a cachorra da casa, pra ajudar. Sem a ajuda da Traíra o moleque não pe- ga o frango hoje não... acaba escapulindo pro mato, aí... adeus! Traíra segura o frango, mas não fere. O Carijó vai ficar no grajau até domingo cedinho, pra limpar. Agora a mãe vai botar só milho pra ele co- mer... e talvez um restinho do farelo...a sobra do balde da comida do porco... que também esta na engorda pro batizado da pequena... vai ser na festa da santa. A mãe fez uma promessa. Só a tardinha a mãe grita: “Vai tomar banho menino, limpar esses pês e lavar a chinela! E não vai mais pro terreiro hoje não!” Já faz tempo que o pai vendeu umas sacas de castanhas e comprou a televisão com a parabólica. Mas ele só deixa assistir depois que faz o dever de casa. O moleque so vai fazer o dever de casa, depois que toma banho a tardinha... quando a mãe grita! Nas sex- tas ele escapole cedo, pois a mãe vai pro terço na casa da comadre e ele vai brincar de bilha com os pri- mos. É mais divertido do que ficar ali, sentado na frente da televisão assistindo aquelas novelas. Novelas são para as mulheres... ele quer ser macho igual ao pai. Mas ainda esta muito cedo pra tomar uma meiotas na bodega do Chico. Então o jeito é brincar de bilha e apostar com quem vai dançar quadrinha esse ano. Ele esta pensando na prima, a Marli, filha da tia Janete. Ela ta ficando danada de bonita. E ele tá deixando de ser... moleque! www.varaldobrasil.com 19
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Peraltices de menina Por Lúcia Amélia Brüllhardt Ela era uma menina muito sapeca que mordia todas as outras meninas na escola, fazendo amizades somente com os meninos. Certo dia, esteve precisando de dinheiro, e ninguém arranjava, então a menina peralta foi à feira do troca – troca, ven- der seu gatinho de estimação, chamado 'Foen'. Um vizinho a viu e avisou à família dela. Graças a Deus, ninguém comprou o coi- tado. Certa vez, na cidade em que morava, havia chegado a época do carnaval. Em cidades de interior, costumavam sair os papangus, homens vestidos de urso. Só que Lúlú ( apelido da menina peral- ta ) jamais havia visto um mascarado, nem fantasiado de urso. Estavam andando na feira, quando aparece um cara ves- tido de diabo e outro de urso. Lúcia estava com mais duas crianças e ambas correram. Um menino se bor- rou todo e ela desmaiou, chegando a casa quieta, sem acordar ninguém, passando o maior sufoco, pois os outros dois haviam se perdido na feira. Em uma outra ocasião, ela foi a uma cidade chamada Capoeiras, em dia de feira ( no interior do Nordeste). Lá havia uma convenção de partidos políticos. Sua mãe, na época, era escrivã eleitoral e estava presente. Lúlú vai até ela e pede dinheiro, porém a mãe nada lhe dá. Não esperou mais. Pegou o pandeiro de uma pessoa com necessidades especiais, (um cego), começou a cantar e tocar no meio da feira. Pegou as rapaduras de um senhor e saiu vendendo, mas não ficou com o dinheiro, deu o dinheiro das rapaduras vendidas ao cego. Aí que saudade dos meus tempos de criança, onde a inocência, humildade e esperança reinavam em meu coração. Aí que saudade das peraltices de outrora, que com o passar dos anos ficam somente registrados no livro da memória. Aquela menina peralta ainda habita em meu ser, amo muito ela e sempre que tenho oportunidade deixo ela reviver e fazer suas PERALTICES DE MENINA. Esta menina peralta hoje se chama Lúcia Amélia Brüllhardt. VOCÊ SABIA? A revista VARAL DO BRASIL circula no Brasil do Amazonas ao Rio Grande do Sul... Também leva seus autores pelos cinco continentes! Quer divulgação melhor? Venha fazer parte do VARAL! Literário, sem frescuras! E-mail: varaldobrasil@gmail.com Site: www.varaldobrasil.com Blog: www.varaldobrasil.blogspot.com www.varaldobrasil.com 20
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 VARAL ANTOLÓGICO 3 Abriram-se as inscrições para a seleção para o livro VARAL ANTOLÓGICO 3 a ser lançado em 2013. Os interessados deverão enviar textos (no mínimo um, no máximo 5) num total de quatro pági- nas A5, letra Times New Roman 12, espaço 1. Todos os textos serão examinados por uma Comissão Examinadora composta de escritores e críticos que acompanham e/ou participam do Varal do Brasil. Os textos selecionados serão comunicados por e-mail a cada autor e farão parte do livro Varal Antológico 3 mediante participação cooperativa. O tema será livre e os textos podem ser: contos, crônicas ou poemas (todos os três em todas as suas variações). Para o regulamento completo escrever para : varaldobrasil@gmail.com www.varaldobrasil.com 21
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Vale à pena estudar Por Helena Akiko Kuno Jennifer era uma garota muito estudiosa, mas nos últimos tempos estava muito distraída. Um dia sua pro- fessora Isabel aplicou uma prova de Matemática e enquanto Jennifer respondia as questões, suas amigas Sofia e Rute não paravam de lhe pedi as respostas. No dia seguinte a professora entregou a prova corrigida e quando Jennifer pegou a sua, ela não quis acredi- tar, a nota era 4,5 !!!. Jennifer ficou tão preocupada que passou mal. Sua mãe Keila foi correndo buscá-la na escola e a levou ao médico. Como havia muitas crianças na clinica, Jennifer demorou a ser atendida, tem- po suficiente para ela melhorar, o que foi constatado pelo médi- co. No entanto, o médico alertou que poderia ser um resfriado que estaria por vir. À noite em casa, Jennifer contou a sua mãe que havia tirado nota baixa na prova de Matemática. Ao receber a notícia sua mãe fi- cou brava, mas resolveu ajudá-la entregando todos os dias 10 páginas de lições até a próxima prova. No dia da segunda prova de Matemática, Jennifer disse para suas amigas: - Não me peçam respostas porque eu não vou dar, pois já foi mal na outra prova. Então suas amigas colaboraram e não pediram respostas. No dia seguinte, a professora novamente entregou a prova corrigida e quando Jennifer recebeu a sua, ela gritou: - Jennifer, 10 !!! Jennifer festejou dentro da sala de aula e todos ficaram felizes. Jennifer não parava de gritar: ◊ Vale à pena estudar!!! www.varaldobrasil.com 22
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 O Riacho * mentia que sim. À noite, na hora de dormir, quase não consegui chegar até a cama, à dor era tanta, meu coração Por Ana Rosenrot dava a impressão de estar batendo no meu pé, que estava cada vez mais inchado; eu sabia que Acho que eu devia ter no máximo sete anos; precisava fazer alguma coisa, mas continuava relu- estava passando o feriado− como sempre fazía- tante em pedir ajuda; foi quando ouvi a porta do mos−, no sítio de meus avós e estava fazendo o quarto abrir-se suavemente e vi minha avó aproxi- que mais gostava naquele tempo: andar descalça mar-se segurando sua enorme caixa de primeiros dentro do riacho. socorros −minha velha conhecida−, sentar-se na Sabia que levaria a maior bronca da minha beirada da cama, segurar meu pé delicadamente, mãe se fosse pega, pois ela havia me proibido de examinar o local, pegar uma pinça grande na cai- fazer aquilo, por considerar a brincadeira boba e xa, arrancar o caco de vidro num único puxão, lim- perigosa. Não que eu corresse um sério risco de par o sangue, aplicar mercúrio-cromo –o que doeu me afogar, já que o riacho não tinha mais que um mais− e colocar um pequeno curativo; livrando-me palmo de profundidade, mas ela temia que eu me finalmente daquele tormento. Fiquei ainda mais machucasse com alguma coisa cortante ou perfu- feliz por saber que não sofri sozinha, pois minha rante, que eventualmente poderia haver na areia avó e eterna cúmplice me observara o dia todo e que lhe cobria o fundo. esperou a hora certa para salvar-me, como sem- O problema é que eu não conseguia resistir pre. à sensação deliciosa de caminhar naquela areia fria, enquanto o movimento da água −geladíssima− massageava meus pés, as flores que nasciam na margem, perfumavam tudo ao redor, era tanta cor e tanta luz, que minha imaginação corria solta, cri- ando milhões de aventuras. Naquele dia em especial, o lugar estava lin- do, havia chovido à semana toda e agora o sol bri- lhava novamente, criando reflexos coloridos no fun- do do riacho; eu queria aproveitar cada segundo, antes que alguém sentisse minha falta ou que mi- nhas primas mais velhas −e muito chatas− chegas- sem, tomando conta de tudo e querendo dar or- dens; o que sempre acabava com as minhas brin- cadeiras. Então andei para o lado mais afastado, onde as árvores ocultavam a visão do riacho e afundei os pés na areia com vontade; foi quando senti uma dor repentina, um cutucão na sola do pé A autora com um ano de idade direito e percebi imediatamente que estava ferida; fui pulando num pé só e sentei-me na margem, pa- ra poder ver o que tinha realmente acontecido, fi- quei em pânico quando vi o que era: um caco de Depois ela levantou-se, deu-me um beijo na vidro estava fincado dentro da carne do pé e eu testa e me fez prometer nunca mais fazer aquilo não conseguia puxá-lo para fora, nem podia ter novamente; isso se tornou mais um de nossos mui- noção do seu tamanho, pois somente uma ponti- tos segredos. E claro, eu cumpri a promessa com nha estava visível. prazer, pelo menos até o feriado seguinte. Mesmo sem ter nenhum sangue saindo, fi- Como sinto saudades desta época especial; quei morrendo de medo e quis gritar por ajuda, hoje, após tantos anos, não existem mais meus mas como queria a todo custo evitar um castigo avós, nem o amor verdadeiro, ou aquela cumplici- pela desobediência, fiquei quieta apesar da dor; dade desinteressada, que deixamos de encontrar saí do riacho, andando o melhor que pude, calcei quando nos tornamos adultos; o riacho secou e a minhas sandálias, fui para dentro da casa dos realidade muitas vezes assusta; mas minha infância meus avós e passei o restante do dia sentada, as- viverá para sempre, escondida bem no fundo da mi- sistindo televisão; o que fez com que todos estra- nha alma, que jamais deixará de ser criança. nhassem, pois quando eu ia ao sítio, não parava quieta nem por um minuto e naquele dia até as provocações das minhas primas – como elas eram chatas−, eu aguentei calada; várias vezes me per- *Para meus saudosos avós S.O. e M.I.O. guntaram se eu estava bem e forçosamente eu www.varaldobrasil.com 23
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 CARRO DE BOI mão, conduzia com perfeição as parelhas de bois e sabia o nome de todos. Quando seu tio descobriu ficou zangado Por Vó Fia e disse: vamos ver se você aprendeu mesmo, carregou o carro com sacas de milho e man- Durante o ano todo Cidinha estudava no dou que ela guiasse os bois até o pátio da fa- Grupo Escolar Quincas Tenório, o único exis- zenda, ela fez tudo certo e o tio achou muita tente na cidade de São João da Serra; ela fre- graça no final; para alegria de Cidinha ele per- quentava as aulas do turno da manhã, voltava mitiu que ela conduzisse o carro carregado até para casa e depois do almoço brincava um a cidade e foi um divertimento para a comuni- pouco na rua com as crianças vizinhas, em se- dade a passagem de um carro de bois, condu- guida ia ajudar sua mãe no trabalho diário de zido por uma menina. fazer doces, sequilhos, roscas e bolos de en- Cidinha estava no céu, usando a vara de comenda para as festas do lugar, dona Isaltina ferrão com sabedoria ela enfileirava os bois, de era a melhor doceira da região. vez em quando tirava o chapéu de palha que Ajudando sua mãe a pequena Cidinha usava e cumprimentava o alegre publico, seu ajuntava o útil ao agradável, útil porque estava tio todo orgulhoso seguia atrás do carro e se aprendendo uma profissão e agradável porque aproveitava do sucesso da sobrinha, distribu- ela gostava de ajudar dona Isaltina no preparo indo sorrisos para todos; chamando os bois dos doces; estudando e trabalhando, a menina pelos nomes ela os enfileirava e seguiam em esperava ansiosa pelas férias de fim de ano, perfeita ordem e o carro pesado cantava com época em que ia para a Fazenda Casa Verde os eixos untados de óleo. de propriedade de seu tio Lucio, lá ela se di- De repente apareceu dona Isaltina muito vertia muito, mas o que mais gostava era do zangada, tomou a vara de ferrão da filha, di- carro de bois. zendo: era só o que faltava, uma filha carrean- Aquele carro enorme puxado por três jun- do como um moleque, mocinhas de família não tas de bois era o sonho de Cidinha, ela passa- trabalham como carreiro ou carreira, sei lá co- va o ano todo esperando a hora de ser levada mo dizer; lugar de menina é na escola estu- por ele até a fazenda e criando coragem para dando ou na cozinha aprendendo arte culinária fazer um pedido inusitado ao severo tio, mas para ganhar a vida e no futuro agradar ao ma- os dias passavam, as férias terminavam e o rido; virou-se para o irmão e disse: Cidinha misterioso pedido não era feito, mas naquele não volta mais em sua fazenda Lucio e nunca ano ela se chegou ao tio e disse: tio Lucio me vou te perdoar, ai terminou o sonho da menina. deixa conduzir os bois do carro? Ele tomou um susto e disse: onde já se viu? Com a insistência da sobrinha ele explicou: meninas não conduzem bois de carro, esse é um serviço reservado aos homens, por isso se diz que o condutor se chama carreiro e o meni- no que vai à frente se chama candieiro, tudo no masculino, entendeu Cidinha? Entender ela entendeu, mas desistir não desistiu, porque ela sempre sonhara em conduzir um carro de bois; o carreiro era o Francelino e o candieiro era o Tinim. Os dois eram amigos da menina e duran- te a lida carreando coisas variadas, deixavam que ela viajasse de carona em cima da carga e varias vezes foram advertidos pelo patrão, que não achava próprio de mocinhas aquela ma- nia; pela amizade Francelino resolveu ensinar os mistérios da condução dos bois a Cidinha e em pouco tempo ela com um chucho na www.varaldobrasil.com 24
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 PARTICIPAÇÃO NO VARAL • E em novembro, aniversário do Varal! A revista Varal do Brasil completará 3 anos e conta com você para festejar! O tema será livre e você po- de se inscrever até 10 de outubro (as inscrições podem ser encerradas antes, dependendo do número de participantes). • E para janeiro de 2013 vamos falar da natureza, do planeta, dos animais, da vida: em janeiro nosso tema será o Planeta Terra, porque falar de nosso planeta nunca será demais! Textos até dez de dezembro. Você pode escrever na forma que desejar: verso ou prosa! Haicai? Trova? Poema? Crônica? Conto? Mi- niconto? Soneto? Que outras mais você faz? Mostre pra gente! Traga sua poesia, sua visão da vida, seus sonhos, para o VARAL! Venha conosco! Varal do Brasil: Literário, sem frescuras! FAÇA SUA ESTA CAUSA! ADOTAR É ANIMAL AJUDANIMAL, GRUPO DE AJUDA E AMPARO AOS ANIMAIS DO ABC www.ajudanimal.org.br www.varaldobrasil.com 25
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Nossa infância Por Karine Alves Ribeiro Nossa infância é nosso começo, começamos grandes ou começamos pequenos. Às vezes nos ferem tantas regras, que parecem inúteis e quando crescemos, são a nossa salvação. Nossa infância serena, alegre, intensa, livre com horário para voltar para casa, ou desligar a TV. Tudo isso é saudável... Nossa infância agredida, pisada, humilhada, violentada, trucidada, esquecida, esta é podridão... Sim, apodrece-se o fruto antes mesmo de cair no chão... Colhe-se o limo, se não há aderência entre pais e filhos, irmãos e irmãs. O Amor é criança de olhos vivos, alegres, tranquilos. Criança é luz acesa, praiana, colorida. Luz é Deus, é vida, é criança que renasce cheia de amor. www.varaldobrasil.com 26
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 BRIGADEIRO Ingredientes 1 colher(es) (sopa) de manteiga 2 lata(s) de leite condensado 1 xícara(s) (chá) de chocolate granulado 4 colher(es) (sopa) de chocolate em pó Modo de preparo Numa panela junte o leite condensado, a manteiga e o chocolate em pó. Misture bem até incorporar tudo. Leve ao fogo brando mexendo sempre. Utilize panela de fundo grosso. Quando a massa começar a se desprender do fundo da panela (o tem- po varia de acordo com a panela) passe a massa para um prato untado com mantei- ga e deixe esfriar. Unte as mãos com manteiga e enrole os brigadeiros, passando-os no granulado. Coloque em forminhas de papel. www.varaldobrasil.com 27
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 PÉROLAS AOS PORCOS Você não aprendeu isso na escola? -Aquele negócio doido de falar uma coisa que- rendo dizer outra né? Mas vô você não respon- deu minha pergunta: deu ou não pérolas pros seus porcos? -Você não acabou de dizer que sabe o que é um ditado popular, uma metáfora? Então “dar pérolas aos porcos” quer dizer que não adianta dar pra uma pessoa, alguma coisa da qual ela não precisa, ou A louca percebe-se tão vivida, que não conhece o valor. Os porcos são bastante gulosos, comem de tudo que encontram, por isso Lamenta a falta de força e reclama engordam tão rápido. Pérolas são joias que agra- Já não aguenta o peso pra empurrar na subida, dam muito as mulheres, os porcos até podem en- golir, mas isso não vai fazer diferença nenhuma. Nem segurar a carga, pra na descida Elas serão eliminadas junto com as fezes e vão se Evitar que escorregue e caia na lama! misturar naquela lama toda. -Eca!!! Que nojo!! .....Vô, se as pérolas são joias que podem até entrar na barriga do porco, Por Lariel Frota fazem uma viagem grande lá dentro e depois saem junto com o coco inteirinhas, elas continuam sendo valiosas, ou se transformam em coco também? -O dia hoje será bem divertido hein? Acho da hora vocês se juntarem pra uma boa comilan- -É disso que to falando. Como elas não se ça. Igual no nosso condomínio, não precisa de transformam em alimento, são eliminadas exata- muito motivo pra uma churrascada. mente como foram engolidas, ou seja, se eram pé- rolas verdadeiras, continuam tendo o valor que as -No nosso caso o motivo principal é um tra- pérolas verdadeira têm! balho importante, depois a gente aproveita para colocar a conversa em dia, e saborear as coisas bo- -Só que muuuuuuitas sujas e fedorentas né? as que as mulheres preparam no fogão a lenha! -Mas o valor delas não mudou concorda? É só -Já sei vão vacinar os porquinhos do tio lavar bem direitinho e pronto. Roberto né? -Hum...entendi....mas se ninguém nunca achar -Oito leitoas deram cria, e ele está com uma as pérolas que os porcos por acaso engoliram, e de- porção de leitõezinhos pra vacinar, vamos dar uma pois cag…ops, desculpe ai, eliminaram no meio força. Daí a gente fica sabendo das novidades, as daquela sujeira toda do chiqueiro…. mulheres trocam receitas e a criançada brinca, na- -Elas continuarão sendo pérolas valiosas, escon- quela correria danada de um lado pro outro. didas, camufladas, enterradas, mas ainda assim se- -Todo mundo se dá bem no final né? Vô você rão para sempre, pérolas valiosas. já alimentou porcos? -Vô, nossa que vento forte!. Levantou um -Claro Guto, muitas vezes. Hoje já não crio montão de folha seca, viu que legal, aquela ali pare- porcos, mas não é pra me gabar não, a minha cria- ce uma pipa voando bem alto, ufa!!! Está tudo ção era conhecida como a mais bem cuidada da re- voando iiuuuuuuuuuuuuu!!!! gião. -É mesmo tempo de bater essas ventanias. Fe- -Então você já deu pérolas pros seus porcos cha os olhos até o vento passar. Tem muito cisco comerem? voando, se um deles entra no olho arde que é uma barbaridade. -Pérolas aos porcos? -Ainda bem que passou rápido! Olha vô fez até -Sim vô.. Escutei a mamãe falando pro papai nuvem de pó bem fininho, será que essa poeira toda que não adiantava ele falar daquele jeito com por- pode chegar lá no meio daquelas nuvens branqui- teiro do prédio, que é o mesmo que dar péro- nhas??? las pros porcos. -Isso é difícil de saber você não acha? -Ah, isso é um ditado popular, uma metáfora. www.varaldobrasil.com 28
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 -Seria bem legal heim? Já pensou, um punhado de terra fininha subir, subir bem alto e che- gar nas estrelas? -Mesmo chegando lá, continuaria sendo apenas uma nuvem de pó, não virariam estrelas. -Igual as pérolas no meio do coco dos porcos né? -Como assim? -Ora vô preste atenção: se a pérola continua sendo pérola, não perde seu valor mesmo enterrada na su- jeira, o pó de terra não ganha valor, nem brilho, mesmo que chegue bem alto!!! Sabe mais o que acabei de descobrir? -Não, mas estou bem curioso pra saber. -Acho que a mamãe falou errado sobre o tal ditado popular.Se as palavras que meu pai falou pro por- teiro eram tão valiosas como as pérolas, ficarão enterradas bem no fundão da cabeça dele, escondi- dinhas por muito tempo. Quem sabe um dia fuçando a caixa de pensamentos ele não desenterra e final- mente entende o valor delas né???? RECEITA DE BALA DE GOMA (JUJUBAS) Ingredientes: 1 colher (sobremesa) de essência do mesmo sabor da gelatina 3 envelopes de gelatina sem sabor (35 gramas) 2 copos de água 1 caixa de gelatina com sabor (85 gramas) 1 kg de açúcar cristal Modo de Fazer: Dissolva a gelatina sem sabor em 2 copos de água, adicione a gelatina com sabor e mexa até dis- solver. Leve ao fogo por 1 min., não esquecendo de sempre estar mexendo. Após, adicione o açúcar e mexa para dissolver bem. Coloque a essência e mexa até ferver. Despeje a calda em um prato untado com óleo. Deixe descansar por 24 horas fora da geladeira. Corte as balas em cubinhos e passe no açúcar cristal. Guarde as balas por 3 dias antes de consu- mir, esse período é necessário para que a bala adquira mais consistência. Fonte: hƩp://www.mundodasdicas.net/ www.varaldobrasil.com 29
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Minha Avó Passarinho poucos foi perdendo a lucidez, variando, o que fi- nalmente me fez entender a poesia que há nas avós. Seu enterro foi uma ocasião de reencontros. A famí- Por Marcelo Benini lia reunida e os tantos conhecidos formavam uma pequena multidão exultante na dor e na alegria. Do O que há de mais remoto no mundo são as avós. lado de dentro da sala onde se dava o velório, havia Antes delas, pairam apenas sombra, bruma e esque- contrição, choro e corações cheios de saudade. Do cimento. Quando estiveres dirigindo à noite, em lado de fora, abraços, casos relembrados e até al- alguma estrada vicinal a caminho de casa, e se, por guns risos ousados demais para a ocasião. Tenho meio minuto, apagares completamente os faróis do certeza que naquele dia minha avó soube compreen- carro, entrarás em contato com teus antepassados der as contradições humanas. que espreitam para tomar posse de ti. Se vires um Somente quando fecharam o caixão é que nos de- cavalo baio atravessando a estrada, sabereis que é mos conta de que a perderíamos para sempre. Que uma sombra vinda do mundo que antecede as avós. nunca mais tomaríamos café com bolo na mesa de As avós são como um Tratado de Tordesilhas entre sua cozinha. Que nunca mais seus filhos se reuniri- vivos e mortos: à esquerda delas é melhor não pores am na varanda para contar as histórias da infância. os pés para não imolar o descanso dos esquecidos. O cortejo subiu em silêncio as ruelas íngremes do As avós, entretanto, tornam o mundo tangível. De- cemitério de Cataguases. Passamos pela sepultura pois delas é que começa a grande aventura de ser onde meu avô descansava e, alguns metros além, menino. paramos para o definitivo adeus. Vi o choro nos Tinha um pouco de medo de minha avó e repugna- olhos de alguns tios e a perplexidade nos olhos de vam-me a pele encarquilhada, a voz rascante e a alguns primos que, como eu, eram enfim apresenta- tosse provocada pelo excesso de cigarros. Criança dos à morte. tem, entre tantas maldades, essa de não compreen- Quando o caixão desceu, houve grande tristeza. der e amar os velhos. Mas um dia eles se vão e aí Eram os últimos instantes do dia e o sol já se ia por começam os arrependimentos. Eu me senti culpado de trás do morro. Em frente à cova havia um peque- por desejar que ela não aparecesse nunca enquanto no arbusto iluminado pelos raios do fim da tarde. eu me regalava em sua cadeira de balanço. Também Inesperadamente, um passarinho pousou no arbusto, me arrependi de tantas vezes ter jogado futebol per- virou o pescocinho e cantou com tanta doçura que to dos seus vasos de gerânio. Sei que ela nunca me comoveu a todos. Cantou breve e voou como fazem perdoou por isso e pelas marcas de bola deixadas sempre os passarinhos. Percebi então que minha nos muros brancos da casa, que, confesso, me de- avó havia partido. ram enorme prazer. Minha avó morreu de enfisema pulmonar. Antes, porém, definhou vários anos sobre a cama. Aos www.varaldobrasil.com 30
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 HISTÓRIA DE UM AMOR E UM NOME Por Norália de Mello Castro Nossa Infância é o tema proposto para o Varal do Brasil de setembro 2012. Tema difícil para mim, que posso dividir em duas histórias distin- tas: 1ª. Filha de um espírita convicto que brigou com seu irmão cônego católico, o inventor do nome Norália, por ter roubado sua filha para batizar, (História escrita para o grupo Love Quilts, para ex- sem autorização dos pais, o que resultou num plicar o significado do nome.) romance escrito pelo pai, de uma briga ferrenha entre os irmãos, através de inúmeras cartas es- critas, com filosofias diferentes. Norália só vol- Hoje vou contar uma história de amor em tou a ver o tio padrinho aos 8 anos de idade. Esta tópicos, para melhor compreensão, e, também, con- briga aguçou na menina e na jovem toda uma trolar a emoção intensa dessa história em mim. procura da VERDADE, que até hoje procura mais e mais. Tornou-se a eclética que é, nem ca- SÉCULO XX: tólica, nem espírita. DÉCADA DE VINTE Do pai ficou marcado o seu conceito de Liberda- No final da década de 20, a família estava de, principalmente a religiosa. Ele pregava que encantada por conhecer a bela esposa de um de seus religião é de fórum íntimo de cada ser humano, e rapazes: jovem, bonita, simpática, muito comunica- que cada um escolhe a Verdade que melhor lhe tiva, essa jovem conquistou totalmente a família do responder. marido. E sua primeira viagem ao Sul de Minas foi total sucesso. 2º. A outra história marcante de sua infância, foi Quando souberam que a bela jovem tinha a de seu próprio nome, escrita para o Love Qui- uma irmã, começaram a brincar em casar a irmã lts, grupo de bordadeiras ao qual pertence, e que com mais outro rapaz da família. hoje apresenta aqui. Um dos rapazes gostava de brincar com jun- ção de nomes e fazer monogramas. Por sinal, ele desenhava monogramas belíssimos! Um dia, entrou cozinha adentro, eufórico, gritando: www.varaldobrasil.com 31
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 A bela jovem Francelina era minha tia; DÉCADA DE 50 Magnólia, minha mãe; Noraldino, meu pai. O espo- so de minha tia era primo de meu pai. Norália, jovem muito ruiva e muito branca, Quando “fizeram” o casamento de meu pai, meio tímida, mas alegre, tem um choque grande lá no Sul de Minas, ele era ainda um jovem adoles- com o nome que recebera. Este nome e a sua ima- cente e minha mãe uma garota de seus 12 anos de gem jovem muito ruiva, faziam-na ser vista como idade, morando em Capela Nova, hoje Betim, parte estrangeira, uma gringa legítima dos países do Nor- da Região Metropolitana de Belo Horizonte. te, com um nome diferenciado. Era comum lhe per- E a brincadeira parou por aí... Mas, hoje, guntarem de que país era. Ela levava na brincadeira pensando nesse episódio, imagino que tais nomes e respondia: tenham mexido na sensibilidade do adolescente en- - Sou uma gringa legítima! volvido, até mesmo inspirado – e muito! – suas fan- Era comum também lhe perguntarem tasias amorosas. “Como?”, ao dizer ao interessado como se chama- va. DÉCADA DE TRINTA Ao telefone, então, era um desastre: e lá vi- nha o “Como?” Noraldino, meu pai, um lindo jovem, vem Por isso, na maioria das vezes, ela respon- para a Capital, para continuar seus estudos e fazer dia: faculdade. Vai à casa do Primo, da Francelina, e lá - Nora, apenas Nora. conhece a “famosa” irmã, Magnólia, uma linda jo- E o assunto morria por ai. Porém, Norália vem loira de olhos azuis, no auge de seus 17 ani- gostava muito de ter o nome Norália: de tão fácil nhos. Meu pai, ainda estudante de Direito, traba- grafia, mas de pronúncia que confundia. lhando como bancário, perdidamente apaixonado, começa a namorar Magnólia e se casam um ano Norália veio a ter uma grande decepção depois. mesmo quando aquele lindo jovem moreno que na- morava, por quem era apaixonada, chegou a ela um Esperando seu primeiro filho, Noraldino dia e disse: conta para Magnólia a invenção do nome da filha que ele gostaria de ter e ambos sonham com a vinda - Encontrei o seu nome no livro O Egípcio. da Norália. Magnólia, até então, não sabia dessa Ele está lá inteirinho. história. Mas, quem chegou... foi um menino! Não - É mesmo? – respondeu ela – Vou procu- se decepcionaram com a chegada do menino, pois rar, vou ler o livro. planejaram logo ter outro filho, para vir a menina. E o apaixonado sorriu. Ele lhe chamava de E Norália chegou no segundo parto de Magnólia, Lia, abreviatura de seu nome que é “nora” mais que acabou tendo 6 filhos ao todo. “lia”. Era Lia pra cá e pra lá, nos passeios, nos www.varaldobrasil.com 32
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 nos bailes, nos cinemas... e como Norália era apai- deixava as coisas acontecerem e pronto. xonada! Adquiriu imediatamente o livro e – sôfrega – devorou suas mais de 500 páginas. Entretanto, a personagem com o seu nome não aparecia! Quase no final do livro, de repente, Norália parou, sua res- piração sumiu, ela ficou em estado de choque. - Então é isso?! Não sou personagem?! Sou Noraldino adorava contar essa história do um mundo de estrume? nome da filha: ele amara Magnólia antes mesmo de Trêmula, fria, respiração desenfreada, ela conhecê-la; dizia que tinha de casar-se com ela para sentiu o ódio entrando dentro dela, com uma força que Norália existisse. extraordinária, da raiva à mais profunda indigna- - Mas, gente, – dizia Noraldino, soltando ção. Ela, pela primeira vez, não foi ao encontro do gargalhadas – o nome da filha já existia, mas ela jovem moreno: odiava-o ao extremo. No livro, nu- nasceu 4 anos depois que casei com a minha Mag- ma passagem, um personagem “ficara atolado até nólia! – e gargalhava – Sim, 4 anos depois! A mi- as lias”, num bom Português quer dizer: “ficara ato- nha Magnólia era pura! – e gargalhava. lado até as fezes”. Ele adorava contar sua história, seu amor E Norália mandou o jovem moreno à merda. por sua esposa e o nascimento precoce de Norália. Terminou aí essa história de amor juvenil. Noraldino é nome de origem árabe; e Mag- nólia, de origem romana. O nome de origem roma- na na família é compreensível, pois temos ascen- dência italiana; contudo, o nome de origem árabe, DÉCADA DE 60 nunca entendi, pois não temos nenhum ancestral árabe. Ou será que temos e não sei? O nome de Desde o episódio do livro, Norália começou meu pai veio por causa de um famoso da família, a pesquisar e observar seu nome tão diferente. Não que foi senador e governador interino de Minas, na conheceu ninguém com o mesmo nome; nem em década de 40, mas que, acima de tudo, foi um gran- listas do Tribunal Eleitoral, encontrou alguma No- de educador, que fez as bases do Ensino que temos rália. As pessoas continuavam a perguntar hoje. Noraldino tinha muito orgulho de seu nome “COMO?” quando ouviam o seu nome. Amigos igual ao do primo famoso. Tinha orgulho mesmo. tinham mania de pôr apelidos nela: Lia, Nora, Mas, ao seu nome, o mais próximo que No- Norô, Nono, Lalaia, Nô; e assim foi que chegou a rália encontrou, foi numa revista argentina lançada contabilizar 21 apelidos! Porém, constatou também nessa década em Buenos Aires: Norali, revista fe- que os apelidos não colavam. Normalmente quem o minina. Penso que o pai Noraldino queria que a punha é que a chamava assim. Teve até gente que filha ficasse famosa, assim como o primo famoso: achou que seu nome fosse pseudônimo. Norália que fardo ela carregava! www.varaldobrasil.com 33
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 DÉCADA DE 90 tra como substantivo comum (não entendeu muito o quê isso quer dizer e nem se interessou; (pensou: “Talvez fosse igual às lias...”) e uma escritora na Turquia, que parece ser cristã. Ainda irá fazer mais pesquisa, principalmente da Norália Turca... Finalmente, Norália encontrou uma outra Fato é que este inesperado e único encontro Norália, dentista, no interior de Minas. Ao saber com outras Norálias fez levantar esta história: uma dessa, identificou rapidamente a mãe dela, que co- história de amor único de meus pais, que viveram nhecera quando ainda criança e – por coincidência 54 anos juntos até a morte dele. Foram felizes, vivi- – casou-se com outro Noraldino. Essa mãe conhe- am em harmonia; nunca vi meus pais brigarem, cia a história do nome Norália e com o esposo cha- nunca brigavam na frente dos filhos. Meu pai foi mado Noraldino foi fácil para ela dar este nome um eterno apaixonado por Magnólia, totalmente para a segunda filha. Já o nome Norália, não mais dedicado à esposa e filhos; a família vinha sempre pesava a ela: a vida correu, outros amores vieram e em primeiro lugar para qualquer tomada de decisão ela passou a achar tudo natural com o seu nome. sua. E Magnólia foi uma companheira e tanto, total- Na Internet, encontrou outras Norálias, no- mente vivendo para a família e meu pai. me usado, embora não comum, em países latinos e na América Central; encontrou uma menininha em E, eu, Norália, filha de Noraldino e Magnó- Samoa e uma empresa na Noruega. Mas, Norália lia, ao escrever tudo isto, percebo, mais uma vez, continuava quase que única: em nenhum grupo so- como fui amada por meus pais: deram-me um lindo cial em que esteve, encontrou igual. e diferente nome para marcarem – e muito! – sua história de amor, que começou antes deles se co- nhecerem. SÉCULO XXI Ano de 2009 Ao fazer o FLICKR na Internet, Norália queria que saísse o seu nome: flickr Norália e, pela primeira vez, viu seu nome ser rejeitado, porque já existia outro flicker Norália. Pela primeira vez, en- controu uma barreira por existir outra Norália. Sen- tiu alegria e curiosidade; esta última levou-a a pes- quisar. Encontrou três Norálias: uma argentina, ou- www.varaldobrasil.com 34
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 sempre soube dividir o pouco que meu pai conse- Confiança no meu pai guia trazer para dentro de casa. E, assim, a gente vivia, viveu e sobreviveu a todas as intempéries, Por: Valdeck Almeida de Jesus mesmo as mais difíceis. A união nos manteve um grupo coeso, marchando junto, com o mesmo objetivo: sobreviver junto. Ho- Meu pai era analfabeto e por isso trabalhava na ro- je, cada um a seu modo, tenta levar adiante as lições ça, derrubando madeira, carregando peso e servindo daqueles tempos difíceis e quase insuportáveis. Atu- de burro de carga para fazendeiros. A lembrança almente eu patrocino pessoas que passam por situa- que tenho dele era toda tarde chegando do trabalho, ções semelhantes as que passei, e incentivo seres cansado, com uma roupa surrada e suja de terra. Eu humanos a se tornarem melhores, a se estabelece- e minha irmã Valquíria ficávamos sentados na porta rem no mundo, graças ao incentivo à leitura e à es- esperando por ele, o Velho João, como chamáva- crita. mos o nosso saudoso pai. Muitas vezes, apoio de outras formas, que não vem De longe avistávamos e corríamos para encontrá-lo ao caso relatar aqui. Mas a vida é isso, uma corrente antes mesmo de ele chegar em casa. Nos bolsos ele em que cada um tem uma importância e um valor. sempre trazia balas, compradas na venda de "Seu Se um fraqueja, o dever dos demais é se unir àquele Júlio", que ficava no caminho para casa. Era uma menos resistente para que ele prossiga e faça a cor- festa. Eu e minha irmã ficávamos muito alegres rente não se quebrar... Afinal, se um se perde o res- com aquele presente de todos os dias. tante pode sucumbir junto. Então, não resta alterna- Uma vez eu fiz alguma travessura da qual não me tiva senão ser um corpo só, junto com todos os ou- recordo e meu pai puxou o cinto para me dar uma tros corpos... e seguir, sempre, num único objetivo, surra. Eu estava na porta da frente, que tinha uma qual seja o do bem comum. escada de dois degraus para descer. De tanto medo Em tempos de egoísmo e falta de solidariedade, pa- de apanhar eu me joguei escada abaixo, caí e ralei rece utópico se pensar em coletividade. Mas não toda a barriga, que ficou sangrando. Meu pai disse posso deixar o sonho dos meus pais se diluírem na "vem, que eu não vou te bater mais". Confiei no que falta de crença das pessoas, nem posso desanimar ele disse e fui até ele, que me pegou e fez carinhos. diante de mentiras e falsidades. Meu objetivo na Esta foi a lição que aprendi, a confiar no meu pai. vida é muito maior do que curtir momentos e ter Quando ele dizia uma coisa, ele cumpria. prazer fugaz. Penso para a eternidade e planejo mi- Nossa vida foi muito dura, difícil, de falta de comi- nha vida pensando num horizonte cada vez mais da e de tudo. Mas aprendemos que a vitória não real. O horizonte da vida eterna, do amor e da paz. vem fácil, sem uma luta, sem um planejamento. Meu pai era um lutador e esta garra a gente apren- deu logo cedo. Em tempo de chuva, nossa casa alu- MEU PAI gada se enchia de água e éramos obrigados a correr Meu pai, João Alexandre de Jesus, era um trabalha- para nos abrigar na casa de vizinhos. dor braçal. Pouco eu sei dele, somente que nasceu A solidariedade entre pessoas que necessitam até do em Santo Antônio de Jesus, cidade localizada no básico para sobreviver sempre é mais forte. Mas recôncavo baiano. Dali ele partiu para Jequié, co- aprendemos que não é somente nos momentos difí- nhecida como Cidade Sol, onde conheceu minha ceis que devemos ser companheiros e solidários. No mãe Paula Almeida de Jesus e se casou. Antes, po- dia a dia, até nas horas alegres, devemos estar jun- rém, ele já tinha esposado outra mulher, com a qual tos, somando, compartilhando, dividindo, oportuni- teve seis filhos. zando a cada irmão ou amigo a vencer, ser vitorio- Um homem firme, rude, mas ao mesmo tempo hu- so. mano e carinhoso. Muitas saudades do meu velho... Viver em comunidade exige dedicação e planeja- O que me consola é que as lições que ele me passou mento, sempre. Assim, cada um somando o pouco jamais serão esquecidas. Ele foi um exemplo de ho- que tem, vai construindo, tecendo uma sociedade nestidade, perseverança e persistência. Apesar de mais justa e mais igualitária, menos preconceituosa não ter condições de estudar, incentivou quando eu e menos segregadora. A união eu aprendi dentro de fui para a escola. O sonho dele e de minha mãe, casa, quando a pouca comida era dividida por todos, Paula Almeida de Jesus, também falecida, era que para que nenhum ficasse com fome... Minha mãe os filhos trilhassem um caminho menos árduo na vida. www.varaldobrasil.com 35
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 E, graças ao esforço deles, todos os oito filhos conseguiram se dar bem e conquistar um lugar ao sol. Hoje eu moro em Salvador, minha irmã Ivonete mora em Santo Amaro da Purificação, Valquíria e Vivaldo moram em Jequié, Valdecy mora em Vitória da Conquista e Valdir, Valmir e Vitório moram em São Paulo. Todos bem de vida, graças aos estudos. É uma vitória que poucas famílias alcançam. Mas, graças a Deus, nossa família se orgulha de sua origem e não esquece o passado, exemplo para nosso futuro e de nossos filhos. Assim, trilhando o caminho indicado pelos meus pais, sigo em frente e incentivo a tantos quantos eu encontro pela vida a estudar e a lutar por seus sonhos. QUER ESCREVER CONOSCO? PEÇA O FORMULÁRIO PELO E-MAIL VARALDOBRASIL@GMAIL.COM E ENVIE JUNTAMENTE COM SEU TEXTO PARA ESTE MESMO E-MAIL! TODA PARTICIPAÇÃO NO VARAL É GRATUITA E A DISTRIBUIÇÃO DA REVISTA ELETRÔNCIA, EM PDF, TAMBÉM É GRATUITA! VARAL DO BRASIL, LITERÁRIO SEM FRESCURAS! www.varaldobrasil.com 36
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Infância Por Sarah Venturim Lasso Infância tem cheiro De terra molhada Pé de moleque Pipoca quentinha Feita pela vovó Infância tem gosto De brigadeiro de panela De chuva Bolinho de chuva Em dia cinza Correndo frenético Com pé no chão Infância tem cor Que chega a pintar a língua Com pirulito azul Tem cor de fruta Colhida de cima da árvore Ouvindo mamãe mandar descer! Infância tem tempo De correr Dormir E fazer o dever Tem tempo de acabar... Poxa! www.varaldobrasil.com 37
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 O PÉ DE GOIABA quilamente! Achava ali mais seguro e em paz. Mas havia um porém: papai já tinha me avisado que o couro ia cantar se por acaso eu o desobedece e Por Fani subisse em cima do pé de goiaba ,mesmo assim continuava às escondidas subindo e descendo dele; esse pé de goiaba me ajudou muito obtive tanto su- Naquela época vivíamos muito bem, papai tinha seu cessos nas provas da escola, eu nunca repeti de ano emprego renumerado e bom, casado com uma es- sempre estudei e levei a sério os estudos, com sete posa dedicada, trabalhadeira, bastante esforçada que anos já desenhava e pintava cada coisas incríveis e essa pessoa que estou falando é minha senhora mãe bordava também, até ensinava papai suas tarefas de que sempre na lida estava ali a lavar roupas para escola, naquela época era o Mobral que ele fazia, eu hotéis e ainda cuidava de sua pensão que na lógica preenchia seus fichários de trabalho nome por nome comiam mais de vinte pessoas por almoço e no jan- e não errava nenhum, ele levava para consultar com tar. sua professora e ela dizia: Sr. Orozino está de para- Minha vida era cheia de compromissos em casa que béns sua filha tão pequena mas...inteligente muito papai colocava afazeres aplicados diariamente, éra- inteligente! Voltando ao assunto do pé de goiaba mos cinco irmãos, mais cinco primos e cinco que certo dia meu pai chegou de viagem, porque ele era mamãe cuidava e moravam conosco, a escola do funcionário federal e viajava muito, era trabalhador meu pai era dura e de uma boa educação, a sua voz da máquina de trem da REFER- a famosa ESTRA- nos trazia respeito em casa, tudo era feito com con- DA DE FERRO NOROESTE DO BRASIL. sultas a ele, e nada se fazia de qualquer jeito eu ti- Esse senhor moreno, meu pai Orozino, não parava! nha naquela época seis anos de idade, mas enten- Viajava, viajava... era o ganha pão dele então tinha dia perfeitamente bem o que ele determinava para muita responsabilidade. Nunca vi ele faltar ao traba- todos fazerem. Ah! Ah! !Ah! Que problemas arru- lho e em casa era fiel, sempre nos deu o melhor e mava aquele que não cumpria as regras das obriga- nunca deixou faltar nada absolutamente nada .Veja ções estipuladas por papai, gente! Tem um ditado bem, não há nada oculto que não seja revelado uma que diz: se correr o bicho pega e se ficar o bicho ai! frase certa, e dando continuidade naquele assunto ai! ai!. O castigo era severo! O Sr. Orozino não ali- sobre o pé de goiaba, foi feio... desobedeci a auto- sava nem um pouquinho, olha! Se bem que aquela ridade de meu pai e minha mãe subindo como sem- época era melhor do que hoje para educar filhos, pre no pé de goiaba. Mas... não foi fácil não. Um somos gratos por ter pais como os nossos, todos dia ele chegou adiantado dois dias antes e me pegou gostam da gente pela educação que recebemos dos bem lá no alto das galhas do famoso pé de goiaba. nossos pais. E, por falar nisso eu tinha um costume Chegando dentro de casa ele perguntou a minha de me esconder em cima das galhas de um pé de mãe onde eu estava, e ela disse: está lá nos fundos goiaba que tinha bem lá no fundo do nosso quintal. do quintal, a minha dedicação era tanta em estudar Sabe o que eu ia fazer lá? Adivinha? Estudar tran- que não o vi quando ele chegou, afinal era um local secreto e proibido por ele. Quando ouvi a sua voz o chão estremeceu e as galhas balançavam de tanto que era o meu medo, não deu outra aconteceu aqui- lo chamado agora você vai apanhar, gente foi um couro de rebenque que a fumaça levantava, nossa fiquei muitos dias desapontada e com vergonha, apesar de ser tão pequena! Mas pense: ele tinha fa- lado, tinha avisado, quem perdeu foi eu pela a deso- bediência a ele, porque era o meu pai é quem estava www.varaldobrasil.com 38
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 me educando ,tenho certeza que se ele desse mole hoje eu não seria quem eu sou. O meu papai já é falecido, só que nunca vou me esquecer dele. Pos- so garantir que tive uma infância bonita, cheia de vida, caprichos e bem estar, roupas lindas eu tive, calçados bons, alimentação nem se fala só de pri- meira qualidade, meu pai era cauteloso com a gen- te, cuidava bem mesmo, entre os cinco eu sou a última-famosa caçula da casa. Posso dizer que a nossa infância foi maravilhosa, tudo de bom E tem mais, gosto muito de crianças e no que eu puder ajudá-la na infância me esforço a conversar e a dar atenção para elas, o diálogo trás uma convivência bonita e gostosa. Presta atenção quando uma crian- ça se aproxima de alguém ela sempre dá um sorri- so, não tem malícia de nada, dá uma bala para ela, ela pega; um doce ou um chocolate é motivo de alegria para toda criança. Com o Senhor meu pai, nos reuníamos os cinco filhos e a nossa mãe para contar histórias fantásti- cas, nossa que legal era aquele tempo, tempo que não voltam mais! Tinha umas piadas que ele conta- va a gente quase morria de tanto rir e assim a nossa amizade era sadia, não havia confusão dentro de casa graças a Deus . Creio que uma infância de- senfreada deixa marcas na vida da criança, é bem por isso que tratar bem, cuidar bem, principalmente na educação em todas as áreas da vida na infância deve ser tratada com carinho, amor e dedicação e dar se o respeito isso é muito bom com certeza só faz bem aos pais e aos filhos, Deixo aqui um recadinho: quando papai e mamãe batem ou corrigem é por bem da criança desde que seja necessário isso, jamais ficar magoados ou tris- tes porque apanhou, apanhou porque mereceu, pai e mãe são direção de Deus na vida de cada criança, seja na infância, na adolescência, na juventude se INFORMAÇÕES SOBRE OS LIVROS bem pode dizer para o resto da vida somos ligados DE JACQUELINE AISENMAN: aos nossos pais, posso dizer mais um pouquinho hoje sou casada, mãe de três filhos, avó de quatros No exterior: coracional@gmail.com netos, e tenho a minha mamãe que cuido e muito No Brasil: bem, ainda sou criança de vez em quando brinco com ursinhos, jogo bola com os meus cachorros, e atendimento@designeditora.com.br eu e meu esposo brincamos de pequi é gostoso ser infantil quase que um pouco www.varaldobrasil.com 39
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 MUITO CEDO Por Marcos Torres São seis horas da manhã. Uma banana amassada com uma xícara de café, enquanto mamãe dorme no silêncio do quarto. Sair sem barulho em meio ao silêncio de uma rua deserta. A jornada é longa, o ronco da fome aumenta, o caminho para o Saber tem um preço. Bate a campainha da escola no mesmo compasso do ronco da fome. O Conhecimento tem um preço, não é barato! Os dias vão passando junto com a mesma jornada. A peleja é dura e o sol é quente. É duro o Conhecer! Brigas, interesses, discussão, inveja, traição, amizade... Erudição é um valor que não tem moeda. É muito cedo para um homem que nada sabe... O menino vai para a escola pensando... Em busca da solidão. O Conhecimento é um ato solitário, assim como acordar às seis da manhã, em busca de um corpo sem vida e um Ser abstrato. O intelecto é um alimento cuja fome continua. A sabedoria é um manancial onde a sede não acaba. Essa criança busca nas palavras Um “amor platônico” num lugar inatingível. Consciência traz poder, e o poder é para quem tem fome. O menino cresceu e se tornou perigoso. Instrução é uma arma perigosa. As palavras se agruparam para fazer de uma criança um Ser faminto. Fim de aula, volta pra casa. www.varaldobrasil.com 40
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 NOSSA INFÂNCIA ga, era mais água que fibras. Além do povoado, as casas ficavam Por Sonia Nogueira dispersas, a maioria simples, outras poucas de melhor estrutura. Ia com a avó para a Não queria se lembrar, evitava falar casa da tia Maria, casada com marido de de perdas, perdi a mãe antes de completar pouca audição, grosseiro, gritava ao chamá- dois anos. Ficou na lembrança um só ato: a la. mamãe está dormindo. A tia Maria oferecia leite com sal. Dormindo... Acomodada, pálida, Estranho, só tomava com açúcar! Fazia ca- inerte naquele apertado? E foi-se sem beijo, reta e recusava. Melhor o feijão que parecia abraço... A dor nunca passou... papa de tão cozido, gostoso que só comen- do, com rapadura ou melancia ou carne as- Meu pai foi mãe, amigo de todas as sada na brasa. horas. Do cuidado à noite pa- ra forrar com aponta do lençol Brincadeiras de roda no meio o bumbum frio de urina, do da rua, na areia, de esconder, leite mugido bem cedo, ainda até cansar e suar. O banho na na rede e mostrava o bigode calçada, o pai jogava um bal- de espuma, para acalmar o de de água, sem sabonete, en- choro pela insatisfação ao me rolava com toalha, aquecia o acordar, mas terminava em risos a agrados. corpo no colo, em seguida deitava na rede. Até voltar novamente a rede, dormir o tanto O sono chegava de súbito sem pensar, era que o sono persistisse. só dormir. O rio detrás da casa correndo em As festas de santos: São Francisco, constante desafio, nas enchentes, início do em outubro; Nossa senhora da Conceição, ano. Água barrenta, com galhos, molambos, em dezembro, no Giqui; Nossa Senhora madeira, destroços, quem sabe cobras ema- Santana, em Jaguaruana, Nossa Senhora da ranhadas, arrastados pela correnteza. Tudo Boa Viagem, em Itaiçaba; São Sebastião isso não causava temor, o nado pela manhã em Aracati, com roupas e calçados novos, ou à tardinha era sagrado, até o nariz ficar muita gente de cidades e povoados vizi- vermelho do assuar e olhos irritados pelo nhos, sem esquecer as quermesses, fui rai- excesso de banho. nha certa vez e ganhei no partido verde. Melancia comida com as mãos, lá Saudade de tudo que a lembrança no roçado, sentada no chão, com tanta li- arquiva, mas a marca que permanece viva, berdade e gostosura que o abdome ficava a mãe que o vazio nunca preencheu. saliente de tão cheio, logo esvaziava a bexi- www.varaldobrasil.com 41
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Bolinho de chuva (por Mercearia do Conde) Fonte: hƩp://vilamulher.terra.com.br Ingredientes: 3 xícaras (chá) de farinha de trigo 3 colheres (sopa) de açúcar 1 pitada de sal 1 colher (sopa) de fermento em pó 2 colheres (sopa) de leite 1 colher (sopa) de manteiga 3 ovos 1 colher de (sopa) de queijo parmesão ralado Erva-doce a gosto Óleo para fritar Açúcar e canela em pó Modo de preparo: Misture a manteiga e o açúcar, acrescente os ovos um a um, ponha aos poucos o trigo já peneirado com o fermento e misture. Acrescente o sal, a erva-doce e o queijo ralado. Mexa mais um pouco. Frite em óleo quen- te, pingando aos poucos com colher de chá. Abaixe o fogo, quando o óleo estiver muito quente. Depois salpique os bolinhos já prontos com o açúcar e canela. Rendimento: 10 porções www.varaldobrasil.com 42
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 INFÂNCIA tecido, quem sabe, teve até que pagar pelo tecido, pois manchas de sangue não saem com muita facili- dade. Por Rita de Oliveira Medeiros Esta dor, contudo, não deve ter sido tão forte a ponto de me fazer desistir de bordar, porque eu De posse do meu novo brinquedinho, viajei ainda repeti a façanha mais uma vez! Novamente, o para um tempo distante, quando tinha algo em torno mesmo grito! A mesma correria. de 3 ou 4 anos de idade. Morávamos na “casa da E ela não teve outra alternativa a não ser, me dona Celina”, para onde fomos quando minha mãe ensinar a bordar. Primeiro, o cordonê, depois os morreu. bordados maiores. Durante algum tempo eu bordei. Minha nova mãe bordava à máquina, no mes- Cheguei até mesmo a receber o elogio máximo de mo quarto onde dormia com meu pai. Eu, dormia uma virginiana perfeccionista: no mesmo quarto com eles, porque a casa não tinha - Olha só, Roldão! O cordonê dela é melhor do que muitos quartos e éramos em oito pessoas. Ainda o meu! tenho lembrança da minha cama, pequena, ao lado Contudo, minha alegria durou pouco. Embora da deles, porém, transversalmente. No quarto, havia adorasse bordar, ela quase não me permitia, seja uma janela alta, minha mãe precisava subir na cama porque precisava estar bordando o tempo todo, para falar com a prima Maninha, que era sua vizi- eram muitas encomendas, seja porque as linhas nha, também bordadeira. eram sempre muito caras, e mesmo que eu pedisse Como faziam os trabalhos juntas, numa da- as sobras, ela nunca as dava, porque dizia que ia quelas tardes, ela parou de bordar e foi na casa da precisar! prima e amiga, fazer algo que não sei o que era. Mas, ainda acho que ela teve mesmo foi ciú- Mais do que depressa eu pulei para a banqueta, lem- mes! Do seu bordado, daquela arte tão preciosa, que bro que era alta.... e comecei a bordar. ela fazia tão bem. Como estava sempre junto com ela, ouvia embevecida, as suas conversas com a pri- ma, a Maninha, sobre como fazer, o que fazer, quando fazer! Era um universo fascinante! Trans- formar um pedaço de pano em algo tão bonito de se ver! E os jogos de cama, em bordado Richillieu, então? E os bichinhos, tão mimosos ficavam, nos enxovais de bebê que elas faziam? Ninguém borda- va como aquelas duas! - Qués ver, Maria, fais assim, ó! Só que, para bordar, era necessário movimen- tar o bastidor com as duas mãos e eu deixei o dedo indicador no meio do bastidor, próximo demais da agulha. Bordei alguns segundos e logo a agulha traiçoeira entrou firme na unha do dedo indicador direito - Ô manhêêê.... deve ter sido um grito muito agudo! Engraçado, não lembro da dor no momento de retirar a agulha do meu dedo. Pobre mãe! Chovia, ela veio correndo. O sangue deve ter manchado o www.varaldobrasil.com 43
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 O tempo passando e eu, sempre curingando, per- Agora, semi aposentada, estou diante desta guntando como fazer. Ficava ao seu lado, olhando máquina de costura, tão novinha, me vendo nova- prá ela bordar, via suas caretas, acompanhei sua vi- mente naquela expectativa de poder fazer algo tão são, acabando, pouco a pouco, naquele labor notur- belo quanto os bordados que ela fazia. Talvez, seja no, até 2 ou 3 horas da madrugada. Tudo tinha que uma forma de reviver aqueles momentos de prazer, ser sempre muito perfeito, nada mais ou menos. de reencontrar-me com a mãe que tive, sem nunca poder realmente ter! Havia também os serões que elas faziam. Eram sempre antes da Festa de Santo Antônio dos Anjos. Sim, a Opa vermelha. Tinha um emblema do Santíssimo Sacramento, bordado em fios dourados. Ficava lindo, o meu pai, vestido naquele traje: terno marrom, sob a opa vermelha. E lá se ia ele, todo faceiro e, aos meus olhos, lindo de morrer! Outro serão, era em 7 de setembro! Elas bor- davam os bolsos dos uniformes do Colégio Ana Gondin e, às vezes, do Jerônimo Coelho! Viravam as noites bordando, na casa da Maninha. Eu ia junto com eles. As vezes, ela e o pai voltavam para casa e me deixavam dormindo naquela cama de casal, tão grande! E eu, sempre tão medrosa de dormir sozi- nha, nem ligava quando me acordava, no outro dia, sem eles. Até que, passados alguns anos, quase chegan- do ao final do Ginásio, eu devo ter falado algo co- mo bordar com ela, ou bordar pra fora também! A resposta foi taxativa: -Não! Tu não vais bordar para fora coisa nenhuma, que isto não é vida! Vais é trabalhar num escritório, que é isto que tu vais gostar! Tu nasceste foi prá isto! E assim, com esta sentença, adormecida foi, minha vocação para bordadeira! Mas, no meu coração, permanecem aquelas imagens, que soam quentinhas, de tão boas que são. Nem a lembrança da agulha enfiada no meu indica- dor me remete a alguma dor.... muito pelo contrário, apenas me lembra de quão obstinada eu era, e isto me faz bem. O seu exemplo de esmero, aquele primor de bordado, o avesso mais do que perfeito que ela fazia e ostentava com tanto orgulho, foram meu espelho, para as coisas que fiz, para os trabalhos que realizei. Nunca comprei bordados prontos, nenhum me agra- dava, porque sempre ia direto ao avesso: terrível! www.varaldobrasil.com 44
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Portão da garagem... minha cuca! Mas eu safo fui aprendendo... Matar de “efeito”, retrucar em pleito... Cantar a caçapa do oeste, devolver a “sinuca” ao mestre, ouvindo “seu Por José Carlos de Paiva Bruno peste”... Sem nunca apostar dinheiro, não é estilo deste faceiro... Tinha também o “totó”, aquele futebol de mão gi- Hoje, de súbito, guardando meu jipe em garagem rando, perto do armazém do seu Oto Periardi, cama- principal de nosso lar, fui assaltado pelas quimeras rada o velho, liberava pra mim em conta da mãe; de da minha infância querida... “Que os anos não tra- bolinhas de gude, pra búlicas rudes; linha 10 pra zem mais Casimiro”... pipa, até mesmo um grude... Fazia minhas pipas Avançando meu bólido, eu miro, em frente ao ipê extras caprichadas, aí vendia pra comprar figurinha, gateway da lembrança... torcendo pelas “carimbadas”, ganhando brindes em completar, até no “bafo” ganhar... Renovo d'alma esperança... Transportado do tempo que avança e nunca se cansa... Mas, nem tudo são rosas, golpe do destino, vira adulto menino... Já contei em outro conto, em Ali, bem ali, quanta porrada de bola de capotão... Lúdica em controle no ar... Eu, mais Pitaluga, Nié- meus onze anos, meu pranto, em verdade mais meu res, Tony, Fernando, Zé Alberto; às vezes Jair, Bi- espanto... pois que olhei pro lado lado e todos cho- ronha e Vadão... Só porradão, e o portão “gol” re- ravam meu Pai, por outro também, então... não dá sistiu a um time que nunca desistiu... Goleiro que pra chorar neném, primogênito vai à luta, defendesse, vinha pra linha artilheiro desse... esta plena disputa... Trabalhando precoce, cresce e Só admitia-se três toques no “ar”... Esta era a farra coce, tosse... Lá pelos meus doze anos, do sábado matinal... talvez treze, atreve... Sortilégio breve, loira linda Liberada por mamãe consoante o aproveitamento leve... Eu também jogava voleibol, ela sempre lá no colégio estadual... Onde concursado reinava, dis- assistindo aos treinos e partidas; até que um dia pensado do “admissão”, aquela transição de outrora, abordou este pueril... Fim do treino, ela vem de entre o primário e o ginásio... mansinho, “Oi”... “Você tem namorada?”... Ela be- la, em debutar espera, dois dedos mais alta, Bom, este nerd eclético, sacaneado nas festas de família, onde meus primos ganhavam brinquedos, e lábios que empresto de Iracema; eu peralta, em mi- este que voz fala, em maioria das vezes livros, li- nha virgindade convidado pra ribalta... vros, livros... Mas eu me vingava, sendo quase sem- Respondi “hamham”, em momento não, necessária pre primeiro no colégio, ao que ponderava minha mentira aflição; caminhando juntos, à saída velha querida – em sua forma de amar – não fez mais que sua obrigação, “queria ver se não honrasse do colégio, perto de prédio velho... Correios em o nome limpo de seu pai, te passo o abençoar, natureza em desembaraçar, ela então... Pega minha mão, entregando seus lábios aos meus, chicote menino...”, e assim prosseguindo, sempre Pirineus... inquieto e arguindo, será que a mãe tá me seguindo? Quando eu driblava a babá, entrando no cursinho de Subida da adrenalina, umidade que fascina... Natu- inglês à tardinha... Esperando ela dar uma volti- ral rosa mulher menina, nha... Escapava matreiro para o fliperama de vidro e fazendo homem menino, causo do destino... Como suas mágicas cinco bolas de aço... Eu traço, na um brinde vespertino! Tim Tim... coincidência de final, ou na habilidade na moral... hehehe... Botar meu nome no recorde do eletrome- cânico prazer... Por vezes flagrado em “tilt”... aiai... Sou sempre assim, aprendiz de mim... Preste mun- O “coro” comia... dão afora, menino sem demora... Eu nunca desistia... Me lavava na pia, tirando o giz Sistemático amigo leal, respirando travessuras, nun- da sinuca, evitando inspeção de conduta... ca amarguras... Bem dizia Paulo Freire... Pois que da obrigatória “aula particular” também É caminhando que se faz o caminho! Porque feli- fugia... Ia pro barzinho do seu Zé, ou do seu Aristi- cidade é assim, poder olhar pra trás, des, na ladeira... Aprendendo sinuca faceira, com construindo a virtude em frente, porque a vida é Waldecy do Tufick ou do BB João Faria... Mestre chapa quente... Mas há portão que “guente”! da covardia... Sinuca dando “sinuca”, pra complicar www.varaldobrasil.com 45
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 havia me levado para o desfile. Eu respondi que Retorno à infância fora o meu pai, pois minha mãe ficara em casa cui- dando dos meus irmãos mais novos. Enquanto isso, na concentração, as professo- Por Josselene Marques ras já haviam dado por minha falta e avisado ao meu pai, que começou a me procurar pelas ruas ad- jacentes. Devido à ajuda do meu “anjo salvador”, não teve muita dificuldade para me encontrar. Foi a minha sorte, pois até que ele foi muito compreensi- Este ano a Semana Santa foi superespecial vo comigo (fez apenas um pequeno sermão – a fim para mim. Depois de muitos anos, reencontrei al- de que eu entendesse o risco que corri. Como res- guém que me fez voltar à memória os meus seis posta, asseverei a ele que isso jamais se repetiria. anos de idade. Por fim, a travessura foi relevada). Nosso encontro se deu, exatamente, na lateral de um prédio onde, O momento exato do flashback foi um “30 atualmente, funciona o Banco do Brasil da Avenida de Setembro”. Todos os anos, nesse dia, declarado Alberto Maranhão. feriado municipal em homenagem à data da liberta- ção dos escravos mossoroenses no ano de 1883, Minutos depois, após ser abraçada pelos co- acontecem os tradicionais desfiles cívicos. Como de legas que se preocuparam comigo, desfilei com ale- praxe, eu e mais algumas centenas de crianças fo- gria redobrada: primeiro, por poder representar a mos representar as nossas escolas. No local de con- minha escola e, segundo, por não ter entrado para a centração, enquanto esperávamos a nossa vez de lista de crianças desaparecidas. desfilarmos, acabei me impacientando e resolvi Rever a querida Tia Ceição – a quem serei passear pelas imediações – atitude da qual me arre- eternamente grata – me fez relembrar esse episódio pendi poucos minutos depois. da infância e chegar a uma conclusão: Deus me A cidade estava bastante movimentada – ama e protege desde sempre – não me envergonho lotada de turistas. Centenas de pessoas se desloca- de professar a minha fé. De mais a mais, como nada vam em várias direções à procura de um lugar me- acontece por acaso, com esse "susto", aprendi a lhor para assistirem ao desfile. prudenciar. Desde então, na medida do possível, Após me distanciar apenas alguns metros, tenho procurado evitar tudo que seja passível de de repente, eu me vi cercada de estranhos, que ca- erro, dor ou dano e, por isso mesmo, vivo em paz minhavam em grupos e com relativa pressa. Eu era comigo e com as pessoas que me cercam. pequenota e andava com certa dificuldade em meio àqueles adultos. Houve vezes que, por pouco, não fui “atropelada” por eles. Justamente por tentar es- quivar-me e sair ilesa dessa multidão, afastei-me mais do que devia e perdi o ponto de referência. Na verdade, não conhecia bem aquele trecho da cidade. Conscientizei-me do tamanho da minha imprudên- cia quando constatei que havia me perdido dos meus pares. De olhos arregalados, a ponto de chorar, se- gui em frente, mesmo sem saber qual seria o meu destino. Nesse momento de aflição, fiz o que é pe- culiar a toda pessoa que tem fé: pedi a ajuda de Deus e, como por milagre, surgiu na minha frente um rosto conhecido: o de Tia Ceição (Maria da Conceição Silva) – a professora das minhas irmãs. Corri ao seu encontro e pedi que me ajudasse a vol- tar para a concentração. Sorrindo, ela me disse para ficar calma e concordou em me conduzir ao local de onde jamais eu deveria ter saído sozinha. En- quanto nos dirigíamos para lá, ela perguntou quem www.varaldobrasil.com 46
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Onde estão meus sapatinhos? Por Rozelene Furtado de Lima Aqueles pretos de verniz Que eu só usava em dia feliz ... Era só calçá-los e viajávamos num segundo Para qualquer lugar do mundo Enfrentei bruxas, beijei sapos, Transformei carruagens e trapos, Fui presa em grutas Envenenada por frutas Onde estão meus sapatinhos Com eles entrava em qualquer recinto Meus sapatinhos sabiam sair de labirintos. Visitei reinos, conheci muita gente. Sapatos grandes são muito exigentes! Eles não vão, nós é que os levamos Não se importam por onde andamos Solidão de menina... Vai passando Solidão de mulher... Vai ficando Só sapatinhos sabem fazer a diferença Não conhecem a dúvida nem a descrença Estrelinha grande amarelinha Deixa eu ser pequenininha Escolher um nome desigual Ir para fundo do quintal Sentada no balanço atravessar o túnel da ilusão Pegar o trem numa nuvem de algodão E ir... ir... ir ... até encontrar a fada madrinha Pedir a ela outra mágica varinha Mas, onde estão meus sapatinhos?! ... www.varaldobrasil.com 47
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 ANTES DA MEIA-NOITE dos, malandros espertalhões, almas penadas... As minhas preferidas sempre foram mesmo as de terror – como aquela que não me deixou Por Hélio Sena dormir direito... Engraçado: eu morria de medo, mas gostava disso! Não consigo explicar direito essa sensação que até hoje me acompanha, seja escrevendo uma história assombrada ou “À meia-noite em ponto, os espíritos dos vendo filmes de terror na calada da noite... mortos se levantam de suas sepulturas e vão Acho que lá no fundo me agrada sentir aquele espalhar o medo e o terror sobre o mundo dos friozinho na espinha, será isso?!? pobres vivos... Eu vou contar, agora, uma histó- ria terrível para vocês; uma história de assom- ... bração acontecida há muito, muitíssimo tem- Tia Bilu morreu aos 92 anos. Morreu que po... Então, estão preparados para fazer xixi nem um passarinho, como já disse alguém que, nas calças de tanto medo? Olhem lá, hem! no momento, não lembro quem. Pois esta noite Quem não conseguir dormir hoje à noite, não faz exatos 13 anos que ela se foi... Coinciden- será por minha culpa! Eu já avisei que é uma temente, estou escrevendo meu décimo tercei- história apavorante, sem dúvida uma das mais ro livro – que será, por motivos óbvios, dedica- brabas que já contei para alguém... Estão pre- do a ela. O livro chama-se “Histórias Maravilho- parados?” sas da Tia Bilu”, e é um apanhado das princi- ... pais histórias contadas por minha querida Tia – Não, ninguém chegou a fazer xixi nas histórias que, apesar do tempo (eu era apenas calças. Ou, pelo menos, ninguém admitiu isso – um garotinho quando as ouvi!), jamais esqueci e quem seria louco de admitir uma coisa des- ou vou esquecer... Agora, quero compartilhá- sas?!... Mas a história da minha Tia era real- las com meus leitores, e espero que eles gos- mente de arrepiar! Ouvimos tudo em silêncio, o tem tanto de lê-las quanto eu gostei de ouvi- coração tuc-tuc, tuc-tuc, tuc-tuc... Eu mesmo – las... estou certo disso! – fui um dos que não conse- ... guiram dormir naquela noite. A toda hora eu Hoje – graças a Deus e à minha Tia – acordava sonhando com elementos da história sou um autor de sucesso. São 12 obras publi- – fosse o fantasma do enforcado, a menina de cadas (Tia não leu nenhuma, ela não sabia ler, cara pálida que gostava da lua cheia, as gali- mas admirava as capas e sentia orgulho de ter nhas azuis falantes, ou os gritos histéricos das um sobrinho-filho escritor), e milhares de leito- mulheres ao ouvirem passos em cima do telha- res fiéis em todo o país que expressam seu ca- do... rinho através de e-mails, cartas, telefonemas... ... Ontem mesmo, recebi um e-mail de uma garota Agora, sou eu quem conta histórias para perguntando quando sairá meu novo romance, os outros... Sou escritor – e sei que devo isso à “Afinal” – suspirava ela – “já tem dois anos que Tia Bilu, a melhor contadora de histórias que já o Sr. não publica uma linhazinha sequer!” Res- conheci! Seu repertório parecia que nunca ia pondi o e-mail, evidentemente: “Até o fim do ter fim – e olha que eram três ou quatro histó- ano, Diandra. Quem sabe no Natal... Pode es- rias toda noite! Uma vez perguntei onde ela perar!” aprendera tantas histórias, e ela disse ... (gesticulando mais que o normal) que as ouvira Mas meu editor está deveras apreensivo de sua avó, que, por sua vez, as tinha ouvido acerca deste meu novo livro. Ele acha que, pa- de sua própria avó – e assim por diante... Não ra quem publicou 12 títulos bem-sucedidos no sei, não, mas, para mim, ela inventava todas segmento “suspense e terror”, será correr um aquelas peripécias... Só sei que, quando a noi- risco desnecessário lançar uma obra tão diver- te caía, lá estávamos nós, meninos e meninas gente... “Imagine só”, disse ele, “o choque que – e até adultos da vizinhança! –, fazendo festa será para o seu leitor – acostumado a ler ‘A Ca- ao seu redor; e então ela desfiava um rosário sa Sombria’, ‘Pacto Mortal’, ‘Terror e Êxtase’... de histórias de todos os tipos possíveis e im- – de repente se deparar com ‘Histórias Maravi- possíveis: casais apaixonados, monstros ala- lhosas da Tia Bilu’! Cara, você não percebe o www.varaldobrasil.com 48
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 perigo, não, Fontana?!” “Aderbal, meu ami- go, eu preciso correr este risco!”, respondi sorrindo... ... “Tia Bilu, onde você estiver, este no- vo livro será para você... Para você e para mim! Se meus leitores não gostarem, fazer o quê, né? Depois escrevo outro para eles... Ando mesmo com umas ideias para um novo romance, que, a princípio, se cha- mará ‘Calafrios à Meia-Noite’. Acho que esta história promete, de verdade!... Mas isso, Tia, é intento para daqui a alguns me- ses, talvez alguns anos; sei que ainda te- nho bastante tempo pela frente, sou ape- nas um homem a meio caminho da maturi- dade... Por enquanto, estou vivendo as nossas histórias maravilhosas, revivendo as noites felizes da minha infância ao seu lado... E tudo isso, Tia, pode acreditar – está me fazendo um bem danado!...” www.varaldobrasil.com 49
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 O DOCE DOM DE SER CRIANÇA É viver somente exalando a bondade Mesmo que de forma contraproducente Mesmo que não consiga, erigir a nobreza da Por Hernandes Leão mente E executar ações falhas pela frente... Oh! Como é bom ser Criança... Vai ter valido a pena ser um petiz Viver sem preocupações, sem tentações Um ser pequenino no tamanho Viver e viver intensamente Mas um ser gigantesco na Alma Ser o símbolo da esperança Para ser Mestre, antes tem que ser um Ser a causa constante das motivações aprendiz E ter a vida inteira pela frente... Na infância não existe perda, somente ga- nho... Quando criança, imaginava um mundo melhor Já que o Espírito, vive só em calma Cheio de belezas constantes Desprovido de injustiças e podridão Queria só mais uma vez... ter essa confiança Até as cores pareciam ser mais vivas, não Sentir segurança, nas mãos dos condutores existia o pior! Olhar pra cima, e ver o desenho das nuvens Ah! Como é boa a inocência, e suas Ter o poder natural, e não viver só na lem- variantes... brança A todo momento, quando caia, alguém Sentir a presença do anjo da guarda; não estendia a mão sentir dores... As crianças são a misericórdia dos homens!... Não conseguia, enxergar a luxúria desenfreada Criança... és mesmo, a perfeição Divina! Muito menos, a dolorosa malícia O desejo mais evidente da redenção Ataúdes definitivos, da infância e juventude O Dom exequível e sublime da oportunidade Mas por outro lado, para o adulto é o portal de Criança, tem a benevolência, és sua mina! entrada É a recíproca do aprendizado e evolução Quando criança achava que o mundo... era, Enfim, é a extrema força, aparentando só delícia! fragilidade... Que era, só satisfação, e ausência de maldade Sem as crianças, não mais haveria o mundo Criança é o pleno exercício da criação! Enganara-me, sobre a visão do porvir e suas São os salvadores do destino... vicissitudes Sem elas, o homem seria somente um Mas a visão da criança, inspira ainda hoje, o moribundo que seremos... Para nós, elas deveriam ser a salvação! Impulsiona-nos à uma busca pessoal Basta observar, sua conduta; aí, o ser, é um Sobre nossas fantasias, e suas magnitudes mero peregrino!... Sobre a reflexão do que nós colheremos... Pois o cultivo das qualidades, é essencial ConƟda no livro: PAPIROS D'ALMA E OS PERGAMINHOS DO TEMPO Mesmo se tinha uma visão equivocada da vida Não me arrependo; o que importa é o caminho O trajeto e a jornada das experiências... A oportunidade, de socorrer a ferida Garantindo assim, a boa escrita do celeste pergaminho E garantir o sucesso das vivências Ser criança, é ser a esperança da humanidade É carregar a chama constante da felicidade! www.varaldobrasil.com 50
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 BEIJINHO DE FESTA hƩp://tudodebolo.com.br/ Ingredientes-- • duas colheres de sopa de margarina ou manteiga sem sal • duas latas de leite condensado • uma embalagem de coco fresco ralado açúcar e cravos da índia. Modo de preparar o beijinho de festa Se você sabe fazer brigadeiro já vai achar super fácil azer um beijinho. Em uma panela tradicional coloque a margarina ou com o leite condensado e o coco ralado e misture tudo antes mesmo de levar ao fogão. Já no fogo baixo, vá me- xendo tudo sempre até desgrudar da panela, o que pode ser visto inclinando um pouco a panela para o lado ainda mexendo. Depois que estiver um pouco menos quente, vá fazendo as bolinhas com a mão e depois coloque um pouco de queijo ralado por cima e um cravo da índia por unidade. Algumas pessoas ainda enro- lando o beijinho e colocam açúcar por cima, mas fica ao seu critério. www.varaldobrasil.com 51
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Doce Infância Por Isabel Cristina Silva Vargas De sonhos tão imaginados e, Encantadas ilusões de menina, Infância de pura inocência, De delicadas bonecas de porcelana, Do jogo de amarelinha, do pião e bilboquê, Das brincadeiras na garagem Ao som de inesquecíveis músicas De anos que se tornaram dourados Infância de muitos aromas -De chuva na terra seca- E, de muitos sabores -Dos doces de minha avó- Do figo, das balas, de guaco e de hortelã, Infância de mulheres guerreiras Minha mãe, minha dinda e minha tia Que me prepararam para o futuro Das grandes alegrias e imensas tristezas Que mesmo sem perceber Ensinaram-me sobre os grandes revezes da vida Dos quais resultei viva, apesar das mutilações . Infância que não retorna Mas, que recordei na infância de meus filhos Tão diferente da minha Porém , para eles igualmente doce Infância, doce período de vida Que me ensina um novo viver Na infância de meus netos . www.varaldobrasil.com 52
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Nossa Infância Naquele belo tempo Por Lenival de Andrade Sem nenhum contratempo Aos seis anos começávamos a estudar Venho aqui nestes versos Esperávamos a hora do recreio para lanchar Sem nunca serem adversos Aproveitar, não perder tempo e brincar Falar de um tempo super saudoso Trocávamos o lanche na hora do recreio Gostoso, vitorioso e vistoso Não se fazia feio Para nós também honroso No fim, começo ou no meio Tempo maravilhoso e inesquecível Quem podia estudava nos melhores colégios. E também lindo e incrível Que não voltará jamais Também jogava-se futebol com bola canari- nho Pois o tempo não volta atrás Às vezes no dedo entrava um espinho Nunca em época nenhuma. Deitávamos e o tirava em nosso ninho Ou com bola dente de leite descalço no meio Mas as lembranças ninguém apagará da rua Sempre guardadas em nossa memória estará Que era minha e era sua Nos enchendo de saudades e boas recorda- No inverno tomávamos banho na chuva ções Com um bom suco de uva. Onde começavam inocentemente nossas pai- xões Bela passagem para a adolescência Os casamentos dos nossos pais Alguns meninos já começavam a namorar as Duravam muito mais e tínhamos muita paz coleguinhas. Obedecíamos aos nossos queridos maiorais Pois DEUS razão maior da nossa existência e As meninas brincavam de boneca obediência Algumas delas enrolavam sabugo de milho Nos dava sabedoria, força, vigor, paciência e em um pano competência E os meninos jogavam time de botão Nesse maravilhoso tempo Aumentando a emoção Que foi assim sem nenhuma ganância Querendo sempre ser campeão A nossa infância. Time de botão também era chamado de Fute- bol de Mesa Quem podia pagava a despesa. www.varaldobrasil.com 53
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 ENTRE OS MORROS DA MINHA INFÂNCIA Pois é, corri tanto e tão rápido que me joguei na pa- rede com os dois braços e gritei feliz: 33 (ou era 31?)!!! E entortei os dois pulsos que ficaram enfai- Por Jacqueline Aisenman xados durante um bom momento! Tem aquela vez que, muito danada que eu era, joguei a sandália de uma amiga no meio da rua. Ela Passo a passo em minha mente vou pisando as ruas. me mandou buscar e eu não fui. Ela foi, pegou e em Foram muitos carnavais. Muitas despedidas e mui- seguida jogou a minha. Mandei buscar, ela não foi e tos reencontros. Muitas festas, muitas tristezas. Mui- minha reação foi espontânea: uma surra separada tas chuvas caíram leves ou ruidosas e com elas lava- apenas pela mãe dela que, a esta altura, já estava ram os paralelepípedos e meu rosto e minhas vivên- acostumada com meu comportamento nem sempre cias. muito adequado às boas meninas! Naquela época Cresci menina-menino. Brincando de casinha minhas respostas vinham mais rápidas pelas mãos e de Tarzan. De casinha brincava fazendo comidi- do que pelos lábios. nha em loucinhas de barro ou em louças plásticas imitando a vó tão fina. De Tarzan iniciava uma luta feminista pois ser a Jane não me agradava muito: queria ser herói, pular de cipó em cipó e salvar os fracos. Minha infância, viajando entre estados, conhe- ceu as hortênsias azuis e os caminhos longos no Pa- raná. Viu as estradas e as montanhas de Santa Cata- rina. Muitos hotéis, muitas estradas. Mas foi quando ela estacionou entre os verdes morros da Laguna, morros que volteiam a cidade como um colar natu- ral, que minha infância abriu asas. Tinha amigas para brincar de boneca de verdade: Beijoca, Amiguinha, Gui-Gui (esta última que ria, ria e eu adorava ouvir o seu riso que me fazia rir Pendurada em cipós e em meus sonhos vivia brin- também!). E tinha amigas para brincar de bonecas cando pelas ruas: desfile de modas no Jardim da ci- de papel, recortadas de revistas ou compradas na dade, jogo de vôlei improvisado em terreno baldio, banca, aquelas que já vinham com roupinha... “roubos” de alface, peras, goiabas... E a receita que Uma vez vi um tio meu (se ele ler vai lem- adorava: comer a pera com a alface e sal. Para hor- brar...) muito bravo. Ele que nunca ficava bravo co- ror das amigas e meu deleite. migo. Estava viajando e encontrei sob sua cama um Uma vez me deram uma linda pitanga. monte de revistas. Que alegria eu fiquei!! Naquelas “Come, é pitanga docinha”. Comi. Engoli. E foi revistas havia algo inédito: muitas, muitas bonequi- muito gelo para acalmar meu desespero de ter comi- nhas sem roupa precisando urgentemente ser recor- do uma enorme pimenta vermelha. Claro que quem tadas para ganhar roupinhas desenhadas por mim! me deu apanhou muito depois que os gelos que o tio Foram dúzias de novas bonecas para minha caixinha Paulo me deu acalmaram minha dor e minha raiva! e depois dúzias de tapas e castigos de minha mãe Minha primeira bicicleta não durou uma semana. por arruinar uma coleção de revistas que, como eu Aquele objeto especial e alaranjado que minha mãe poderia saber, eram apenas para adultos! me deu com muito custo partiu em poucos dias. Al- Uma outra vez, brincando de ré de esconder, aquela guém simplesmente levou, nunca devolveu e me de correr e gritar “33” quando chegava do esconde- deixou chorando muito mais do que a semana que rijo antes da pessoa para quem sobrasse procurar. tinha passado. www.varaldobrasil.com 54
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Gostava de ir à praia, subir o morro com as amigas, - A contar os pecados! os amigos e, claro, sempre alguém de mais velho - Pecados? – respondi do alto dos meus nove anos. que se responsabilizava (pobre de quem!) por nós. E ele todo paciente respondeu: - Faz assim, Num destas vezes a responsável era minha vou dizendo os pecados e vais me dizendo se fez ou mãe. Lembro até hoje dos seus gritos na beira do não! mar: “Sai daí menina! Sai daí já! Não tá vendo o Concordei e saí depois da “cabaninha do pa- quanto está fundo! Volta já pra cá! Ah, mas eu te dre” toda feliz pois minhas peras e goiabas tinham pego!” E eu lá, testando as ondas, navegando as me rendido algumas ave-marias e pais-nossos. águas fundas daquele mar grosso cheio de espumas Mas não podia ser diferente e no dia da comunhão, brancas. depois de espernear pois meu vestido era curto e eu queria comprido, ainda aprontei na festa. Todos to- mando café e comendo bolo e eu sem parar. Até que um dos meninos, completamente sem querer, derra- mou café na minha alva vestimenta. Foi o mote pra agarrar o coitado e começar a bater. Festa encerrada a irmã pediu discretamente para minha mãe me tirar dali. Mais uma vez tinha conseguido diria minha mãe. Embora pelas ruas vivesse sempre correndo e quebrando (não exatamente recordes), pulando e brincando, em muitos momentos escolhia a reclusão quase total. E me enfiava em meu quarto para recor- Mas na praia também gostava de me jogar das tar, colar, escrever, ler. Ficava lá, ouvia o chamado dunas, altas dunas, e chegar embaixo parecendo um dos amigos mas não queria simplesmente responder. filé à milanesa! Ou de brincar de se enterrar deixan- Queria uma paz que eu nem sabia exatamente o que do apenas a cabeça de fora! E os castelos, quantos é que era. castelos! Cidades inteiras para serem levadas pelas Num destes dias, do quarto ouvi baterem na ondas vorazes! porta e minha mãe vir da cozinha resmungando: “- Amava a escola, tanto no Paraná quanto na O que será que ela aprontou agora???”. E eu, do Laguna. Passei por várias, lembro com carinho dos meu cantinho: - Não fui eu não mãe, tô aqui no professores e tenho a certa impressão de que todos quarto! Mas ela já estava na porta respondendo que eram anjos bons. Como dona Marta, aquela criatura provavelmente eu não estava. Ou talvez nem tivesse doce que me abriu os braços quando, no final já do sido pra mim! terceiro ano primário, cheguei tímida para uma nova Minha mãe passou poucas e boas comigo. Ela fase da minha vida. Tive tantos colegas! Muitos de- e meu pai. Sob meu ar semi-meigo, havia uma pe- les chegaram à vida adulta e, coisa fantástica, são ralta que se dividia em períodos com a menina estu- amigos que guardo até hoje. diosa e calma. Aliás, foi nesta fase que também fui colocada -Aviãoooooo! Traz mais um irmãozinhoooo pra numas aulas de catequese para fazer primeira comu- mimmmm! - Deus me livre, gritou minha mãe! se nhão. Oh, senhor, o caos tinha chegado. Infernizei ao menos eu soubesse que fosse como teu irmão... tal qual um diabinho as aulas da boa irmã Analuzia Mas só de pensar que pode vir como tu... (era a tra- que fazia o que podia para me conter. E na véspera quina deixando rastros!). da primeira comunhão fui me confessar com o Pa- dre Claudino. Minha mãe na casa dá vó Marta me dando uns cu- - Pode começar minha filha! tucões embaixo da mesa ou por trás da vó para eu - Começar o que? parar de comer: www.varaldobrasil.com 55
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 - Deixa a menina comer, Terezinha! - Mas mãe, ela já comeu demais!!! E eu lá, agarrada no aguidal (era assim que eu chamava o tal alguidar) de barro preenchido com pirão daquele feijão inigualável e aquela arraia seca e ensopada que eu amava de paixão!! - Chachá se eu fosse tu pagava o hospital por mês, ela vive aqui dentro esta menina – dizia o Dr. Os- car para um pai todo chateado. - Pois é... E eu deitada na mesa, o braço inteiro aberto depois de atravessar uma porta de vidro na casa de minha vó esperando para ser costurada. E fui. Mais de trinta pontos. Aliás, o Dr. Oscar tinha razão. Na minha in- fância fui assim, mais ou menos, uma campeã de pequenos e médios acidentes. ENTRE OS MORROS DA MINHA A vó Yvonne que me tomava as lições, me INFÂNCIA ensinava, me cobrava: - E a capital da Itália é... Um livro de Jacqueline Aisenman - Roma... Entre os Morros da Minha Infância está à ven- Para depois, quando estivessem entre amigos poder dizer o quanto a netinha era inteligente: sabia da com renda cem por cento reverƟda ao Hos- as capitais de todos os lugares no Brasil e no mun- pital de Caridade Senhor Bom Jesus dos Pas- do (juro que já esqueci 90%!). sos de Laguna, Santa Catarina. Os natais na casa da tia Elisa, tão carinhosa; os quibes da vovó Diba; o piano que eu adorava Encontre aqui: jurar que um dia iria aprender e ali ensaiava sem Hospital de Caridade Senhor Bom Jesus Passos tom. R. Osvaldo Aranha, 280, Centro Os primos maternos e paternos que aprendi a Cep: 88790-000, Laguna SC amar a vida inteira mas que algumas vezes odiei Fones: Central telefônica: (0xx)48 3646-0522 / como se faz com quaisquer amigos de verdade! DPVAT: (0xx)48 3646-1237 / Fax: (0xx)48 3644 Descansava da atribulada vida de criança no -0728 hƩp://www.hospitallaguna.com.br/ colo de meu avô Abelardo. Sua calma me invadia e me dava tudo o que eu precisava para ser apenas o peixinho doce que ele amava tanto. Perto dele eu tinha não só a segurança, mas a certeza de que po- dia ser criança porque ele estava lá, para o que des- se e viesse com seu amor maior do que o mundo. * Este texto faz parte do livro “Entre os Morros da Minha Infância, publicado em 2010. www.varaldobrasil.com 56
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Nossa infância Por José Hilton Rosa Infâncias divididas e planejadas Evoluindo através de séculos, alcançando o vinte e um A primeira vigiada e exemplar A segunda sem vigília, liberal e contemporânea Futuro orientado com brincadeiras personalizadas O contraste na outra infância, acompanhada por terceiros, limites não observados. Na infância observada, os pais com poderes na educação, na infância liberada, punição para aqueles que educam. O contraste na obediência familiar, secular. Infância privilegiada, fim da obediência do lar, contemporânea No século anterior, os pilares da formação sustentavam a honestidade No vinte e um, infância globalizada com formação terceirizada, digitalizada, futuro arranhado, desestruturado, poderes totais, sem deveres, cidadania incerta. Recordando e destacando para o crescimento leal, o respeito aos direitos e deveres. O ócio, abonação, tudo fácil, o caminho para o mundo fugaz, mundo globalizado Com competição e esperteza, a amizade fácil se desfaz Na infância secular, a educação vinha do lar, a informação da escola Na infância globalizada, a educação vem dos holofotes, o professor além de ensinar tem que educar. A escola foi transformada em instituição de ressocialização, da incerteza e do medo Nossa infância, adultos gerados em cada infância, espelho de cada cultura. www.varaldobrasil.com 57
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 MEUS AVÓS ENCANTADOS! de um pequena área coberta, junto com as lenhas. Por Josane Mary Amorim [...] Quando terminei minha narrativa, meus pensamentos estavam lá atrás. Voltei à rua Maraca- já, nº 25, para minha infância. Vi o quintal da vovó, tão seguro e gostoso, tão cheio de antigos pés de manga, abacate, goiaba; vi de novo os muitos pés Roupa branca a vovó fazia questão de alvejar, de copos-de-leite, os antúrios, vi o verde festivo das lavava tudo com muito capricho. Vi-me sentada de samambaias, das flores-beijinhos; pude sentir o gos- novo, ao lado do meu primo, perto daquele tacho, to da couve-flor que vovó colhia e, depois, refogava ambos com a tabuada na mão. Lembrei-me de que, com bastante alho; tão gostoso! certa vez, a vovó tinha usado aquela colher de pau Fui trazida de volta daquelas minhas doces para nos futucar, nos lembrar de que aquela não era memórias, quando ouvi o terapeuta dizer: “Vamos hora de rir ou de brincar com o barro, “aquela era dar início às perguntas? [..] hora de estudar a tabuada!”. Eu adorava fazer bolo- Ao chegar em casa fui para o meu quarto, tinhas com o barro! Eu e meu primo gargalhávamos precisava de isolamento total, de recompor as mi- o tempo todo! Minha avó era uma mulher simples, nhas forças, meu equilíbrio. Fui buscar abrigo em dedicada, tímida e forte igual a um touro! Lembrei- recordações maravilhosas. Pensei no quintal da vo- me também do feijão delicioso que ela cozinhava vó outra vez. Lembrei-me da sombra maravilhosa semanalmente, naquele tacho, pude sentir aquele que o gigantesco pé de jaca fazia naquele quintal. cheiro maravilhoso mais uma vez. Vovó sabia que Revi as mangueiras da casa de trás, casa da educada eu gostava de tomar o caldo do feijão, meu pratinho Nilce. Lembrei-me de que a mamãe costumava se estava sempre reservado! Lembrei-me dos muitos sentar embaixo daqueles pés de manga e se deliciar pique e esconde com meu primo e meu tio; meu es- com elas! Mamãe adorava lambuzar a mão enquan- conderijo era na goiabeira, plantada ao lado da casa. to chupava mangas, e eram muitas que caíam da- Lembrei-me do meu avô, aquele caboclo alto, boni- quele pé. Lembrei-me dos muitos cozinhadinhos to, com um enorme dragão tatuado em todo o braço que fiz à sombra do abacateiro, usando como pane- esquerdo. Lembrei-me do vovô fumando o cachim- linhas as colherinhas medidas que vinham dentro bo, e das várias imagens de pai de santo que possuía das latas de leite em pó, que a vovó usava. Lembrei- no quartinho dele. Vovó e vovô moravam na mes- me dela, lavando roupas para a família da Leda, co- ma casa, porém, há anos separados, não se falavam mo fonte extra de renda. Eu a vi mexer com uma mais. Vovô tinha um Centro de Umbanda. Lembrei- colher de pau comprida a roupa que fervia num ta- me de que, certa vez, ouvi a vovó insinuar que o cho enorme, preto, assentado sobre uma pilha baixa marido era homossexual. de tijolos; ali era o fogão de lenha, e ficava embaixo www.varaldobrasil.com 58
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Aquele assunto nunca foi importante para mim, eu era uma criança, adorava o meu avô do jeito que ele era, e a mamãe também; eles conversavam muito. Meu avô era maravilhoso, risonho, personalidade forte, e tinha a cor de jambo! Quando abria um garrafão de vinho, daqueles de cinco litros, costumava dizer que teríamos de bebê-lo todo, e isso era sempre uma festa! Ele me adorava, chamava-me: Eninha. Também me lembrei daquele triste dia, quando ele estava no trem indo ao Rio de Janeiro. Dia que roubaram e mataram meu querido avô. Minha mãe e meu irmão esperavam por aquele trem, para lhe acenarem adeus da janela da nossa casa. Naquele dia, eu estava participando de uma apresentação de dança na escola. Eu tinha 12 anos, foi um choque terrível receber aquela notícia. Apesar dessa última lembrança, como eu era feliz!... [...] Conto reƟrado do romance ‘Mevrouw Jane’, de autoria da autora A primeira leitura ninguém esquece Por Elise Schiffer Há mais ou menos 48 anos atrás, no Bairro de Nova Iguaçu, uma região muito pobre bem no interior do Rio de Janeiro, minha família (meus pais e duas filhas) seguiu numa Lotação (ônibus antigo da época) para a casa de meus avós. Neste período de nossas vidas tínhamos o hábito de visitá-los uma vez por mês. Acreditem era uma viagem, o trajeto levava duas horas de Nova Iguaçu a Vicente de Carvalho, local ainda mais mais pobre que o nosso, se que é possível imaginar. Neste época eu estava encantada com a leitura, juntar consoantes com vogais era algo mágico, mas eu ainda não conseguia juntar rapidamente as silabas para ler uma palavra, lembro-me que eu lia pedaços de tudo que encontrava a minha frente. Neste dia eu estava sentada a janela da lotação, posição que escolhi para poder soletrar as letras que formam os nomes das lojas. Não posso precisar bem o período do ano, mais lembro-me que a lotação estava cheia e fazia muito calor, só que no Rio de Janeiro faz calor o ano todo. No meio do caminho a lotação parou na estação do bairro de Nilópolis, enquanto algumas pessoas desciam e outras subiam na lotação, foi neste pequeno espaço de tempo que eu avistei uma palavra escrita na parede da estação com tinta (era uma pichação, como se fala hoje), a palavra tinha 3 sílabas e eu as so- letrei e li bem alto. Só que era um palavrão. Meu pai me repreendeu enquanto todos os passageiros riam, mais eu repetia a palavra com orgulho sem saber o significado, juntar as sílabas e ler aquela palavra foi algo mágico. Hoje eu estou com 53 anos e minha mãe esta com 79 anos e apesar do tempo transcorrido ela ainda lembra deste incidente. Desde então nunca mais parei de ler. Peço desculpas a todos por não citar a palavra. www.varaldobrasil.com 59
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 O Engenho de Açúcar dos meus bisavós via – não apenas imaginava – não eram fantasmas; mas lindas mulheres, sendo eu mesma uma delas, rodopiando em vestidos de seda parecendo verda- Por Guacira Maciel deiras borboletas emergindo das vaporosas saias sustentadas por anáguas com aspecto de asas colori- das; os colos cintilantes com as pedrarias ostenta- Quando criança ia passar férias lá na fazenda das, elas imitavam pombas arrulhantes, corando aos e me lembro como se ainda estivesse diante dos elogios dos seus admiradores. Bem, não sei se seria meus olhos, da reprodução de um retrato a bico de assim, verdadeiramente, já que entre essa época e pena desse senhor bigodudo - Duarte Pacheco Pe- agora, quando resolvi registrar essa história, já se reira - que mais me amedrontava, pois não sabia o passou muito tempo e poderei estar descrevendo que, exatamente, fazia ali na parede daquela miste- uma imagem acrescida de outras experiências, leitu- riosa sala. Mas isso parecia já não ter a menor im- ras, filmes (inclusive imagens, por exemplo, de “E o portância... Vento Levou...), e mais aquela impressão que a gen- O velho solar ancestral construído sobre uma te tem quando olha para um passado tão puro vivido elevação que lhe conferia certa imponência era tão na nossa infância. fantástico com aquela infinidade de janelas azuis (ou verdes?), cujos peitoris assentados sobre pare- des de 1.00m de largura, acomodavam deitado o meu corpo de criança, onde gostava de ficar a so- nhar. Acho que já existia em mim, de forma latente, o gosto pela arte, pois comumente estava fora da realidade do que ocorria à minha volta; me sentia uma sinhazinha em seu “feudo”, instalado nos ve- lhos salões em desuso, da parte de trás do assom- Um pouco abaixo, fora do casarão, ao seu broso casarão, com o assoalho já carcomido em sua lado direito, ficava o curral, onde, pelas quase ma- parte central e que, ao sentir o peso dos nossos cor- drugadas, ainda de pijamas de flanela ia beber leite pos, correndo ao brincar de esconde-esconde, gemia cru “pra ficar forte”, e observar, encantada, o azáfa- pedindo sossego. ma dos vaqueiros sob a orientação de Ernesto, neto Lá, brincava de esconder com irmãos e pri- de escravos do antigo Engenho. O velho vaqueiro- mos e às vezes, como me distraia encarnando algum mor distribuía as ordens em lamentoso tom de voz, personagem de outra época, que vivia nas histórias remanescente, talvez, das lembranças retidas na sua que ouvia das minhas tias e empregados, e também memória, sobre o dia-a-dia da senzala, cujas casas, no meu vivo imaginário, nunca era encontrada, fi- já em ruínas ainda conheci, habitadas por velhíssi- cando para trás nas brincadeiras. Quando dava por mos descendentes de escravos que não tiveram ou- mim estava sozinha e com medo dos fantasmas que tro lugar para morar após se verem livres do vergo- os supersticiosos diziam morar por ali. Os que eu nhoso estado de escravidão em que foram jogados. www.varaldobrasil.com 60
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Mas como desconhecia todas essas mazelas na pureza da infância, achava doce adormecer na fazen- da. As lembranças do ocaso contêm ainda hoje o som da brisa fresca nos canaviais e o cheiro doce da cana- de-açúcar ao receber o bafejo dos ventos noturnos; dos gritos dos vaqueiros colocando o gado dentro do curral para passar a noite; do canto dos grilos e dos sapos – a mim, me sabia a canto – além, lá pelas tantas, dos barulhos do velho casarão, feitos por seus ativos habitantes noturnos; alguma coisa entre ratos e fantas- mas, personagens das histórias contadas pelos empregados, sobre escravos arrastando grilhões e entoando cânticos saudosos que falavam da sua terra natal, de onde haviam sido brutalmente arrancados pela ganân- cia e o desrespeito, muitas vezes com a conivência do seu próprio povo. O amanhecer, não menos gostoso, exalava um cheiro que prenunciava as delícias que teríamos ao fartíssimo café . Aliado àquele barulho tão característico, ouvíamos ao longe o burburinho da lida dos em- pregados. O ranger musical do carro de boi transportando a cana recém ceifada dos pés, ao ritmo cansado da parelha de animais, e o chiar das palhas se arrastando malemolente no chão por onde o carro passava entre buracos e saliências do barro vermelho do massapé, a caminho da usina; dos gritos dos vaqueiros se- parando o gado para levar aos pastos; dos bezerros gritando por se verem afastados das gordas tetas de suas mães, que agora teriam outras bocas para alimentar. Mas da cozinha...ah!...dali vinha o melhor de todos os barulhos e cheiros, como aquele do café que em breve agasalharia os nossos ávidos estômagos de crianças, com banana frita, queijos caseiros, cuscuz, beiju na manteiga, coalhada e outras delícias. Tempos de criança Por Maria Moreira Nossa infância de ternura Se foi e deixou saudades Da turma e das travessuras Que nos seguiu para mocidade Nossos tempos de peraltice Levando a vida de brincadeira Nas poucas hora de chatice Abrindo a boca numa berreira Para escola chutado latinhas La vão meninos levantando poeira Que belo tempo e que turminha! Que inocência tão passageira. Verdes horas desfrutando a vida Na corrida do tempo lá se foi! Foi tão rápido como em descida Deixando Saudades que ainda dói www.varaldobrasil.com 61
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Bolo de Chocolate http://www.tocadacotia.com Se você não tem muita prática na cozinha, mas gostaria de preparar uma receita simples e saborosa, confira nossa sugestão de bolo de chocolate. Ingredientes da Massa • 1 xícara (chá) de leite • 1 xícara (chá) de óleo • 2 ovos • 2 xícaras (chá) de farinha de trigo • 1 xícara (chá) de achocolatado em pó • 1 xícara (chá) de açúcar 1 colher (sopa) de fermento em pó Ingredientes da Cobertura • 2 colheres (sopa) de manteiga • 3 colheres (sopa) de achocolatado em pó • 3 colheres (sopa) de açúcar 5 colheres (sopa) de leite Modo de Preparo (MASSA) Coloque todos os ingredientes sólidos ( trigo, achocolatado, açúcar e fermento) da massa no liquidificador e bata por alguns minutos. Assim que tudo estiver bem misturado, acrescente os ingredientes líquidos (leite e óleo). Depois que a mistura estiver bem homogênea, unte uma forma com farinha e manteiga e despeje a massa. A massa ficará no forno por cerca de 20 minutos, tudo depende da potência de seu forno. Modo de Preparo (COBERTURA) Coloque a manteiga na panela e em seguida misture o leite, açúcar e o achocolatado em pó até que a mis- tura fique consistente. Assim que a cobertura estiver pronta, despeje-a sobre a massa que estava no forno. www.varaldobrasil.com 62
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 INSCRIÇÕES ABERTAS 1) DA SELEÇÃO E DA PARTICIPA- 2) DA ACEITAÇÃO DOS TEXTOS ÇÃO 2.1. Serão aceitos textos em língua portugue- sa, com tema livre, em formato A4, espaços de 1,5, fonte Times New Roman de tamanho 12 e 1.1. O Varal Antológico é promovido pelo VA- que não ultrapassem quatro páginas. Os tex- RAL DO BRASIL ®, revista literária eletrônica tos deverão vir acompanhados dos dados de realizada na Suíça (ISSN 1664-5243). inscrição (ver abaixo). 1.2 Serão consideradas abertas as inscrições 2.2. Não serão aceitos textos que pertençam a partir de 20 de julho até 20 de setembro de ao universo de personagens já existentes cria- 2012. Caso o número de participantes ideal dos por outro autor. Também não serão acei- seja atingido, as inscrições poderão ser encer- tos textos politica ou religiosamente tendencio- radas mais cedo. sos, que expressem conteúdo racista, precon- ceituoso, que façam propaganda política ou contenham intolerância religiosa de culto ou 1.3. Poderão participar da antologia todas as ainda possuam caráter pornográfico. Também pessoas físicas maiores de 18 anos, ou meno- não serão aceitos textos que possam causar res com permissão do responsável, de qual- danos a terceiros ou que divulguem produtos quer nacionalidade ou residentes em qualquer ou serviços alheios. país, desde que escrevam na língua portugue- sa. 1.4. A coletânea terá tema livre e será com- 2.3 Os textos não deverão ter ilustrações ou posta por diversos gêneros literários, o escritor gráficos. podendo enviar contos, poemas, trovas, hai- 2.4 Serão recusados os textos que não vierem cais, sonetos e crônicas ou outros. na formatação requisitada, assim como os tex- tos que chegarem colados no corpo do e-mail. www.varaldobrasil.com 63
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 2.5. Os textos recebidos serão examinados cerradas antes, caso o número de textos rece- por uma banca formada pela equipe do VA- bidos e avaliados sejam aprovados antes da RAL DO BRASIL ® e alguns escritores e/ou data, no formato e padrão já descritos. O livro será publicado em 2013. As inscrições só po- críticos convidados. A avaliação se dará com derão ser feitas pelo e- base nos seguintes critérios: criatividade e ori- mail varaldobrasil@gmail.com ginalidade do texto, assim como a qualidade OS NOMES DOS SELECIONADOS SERÃO do mesmo. DIVULGADOS NO DIA 30 DE SETEMBRO 2.6 Os textos deverão vir acompanhados de POR E-MAIL. uma pequena biografia. A biografia, escrita na 3.2. Para participar os candidatos deverão, terceira pessoa, deverá conter no máximo cin- além de enviar um ou mais textos de acordo co linhas (A5, letra Times New Roman 12, es- com as regras estabelecidas neste regulamen- paço 1.5). Lembre-se sempre que numa bio- to, fornecer o formulário anexo preenchido. grafia, como em muito na vida, menos é mais. 3.3. Só serão aceitas inscrições através dos procedimentos previstos neste regulamento. 2.7. Os textos devidamente formatados deve- Os dados fornecidos pelos participantes, no rão ser enviados para o e- momento das inscrições, deverão estar corre- mail: varaldobrasil@gmail.com, juntamente com os dados de inscrição e demais documen- tos, claros e precisos. É de total responsabili- tos de autorização. dade dos participantes a veracidade dos da- 2.8. Ao se inscrever na Antologia o autor auto- dos fornecidos à organização da Antologia. riza automaticamente a veiculação de seu tex- 3.4. Todo autor é proprietário dos direitos auto- to, sem ônus para a revista VARAL DO BRA- rais dos textos por ele enviados para publica- SIL ® nos meios de comunicação existentes ção no livro e cuja autoria seja comprovada ou que possam existir com a intenção de divul- pela declaração enviada; gar a antologia. 3.5. Em caso de fraude comprovada, o texto será excluído automaticamente da antolo- gia. Cada autor responderá perante a lei por plágio, cópia indevida ou outro crime relacio- nado ao direito autoral. 3.6 Todo autor é livre para divulgar, preparar lançamentos, noites de autógrafos, individuais ou em conjunto, do livro VARAL ANTOLÓGI- CO 3, desde que se responsabilize por todas as despesas - preparativos para lançamento, custos administrativos e convites, compra de exemplares a mais do que os recebidos pela participação – pertencendo também ao partici- pante o valor das vendas dos livros em ques- tão. Para tanto, o participante apenas deverá Lançamento Varal 2 em Brumadinho entrar em contato com a revista através do e- mail varaldobrasil@gmail.com para que o nú- mero de exemplares lhe seja enviado median- 3) SOBRE AS INSCRIÇÕES PARA A te pagamento (preço da editora / remessa), notando-se aqui a antecedência requerida. O SELEÇÃO: VARAL DO BRASIL® reserva-se o direito de 3.1. As inscrições para a Antologia serão aber- estar ou não presente nos lançamentos orga- tas no dia 20 de julho 2012 e encerradas no nizados pelo autor. dia 20 de setembro de 2012, podendo ser en- www.varaldobrasil.com 64
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 4.3. O recebimento do pagamento total dá ao autor a garantia de sua participação na coletâ- nea. O não recebimento de nenhuma parcela até o dia 10 de novembro de 2012 anula a par- ticipação do autor. 4.4. O pagamento parcial do valor cooperativo não dá direito à participação no livro. Caso o autor não termine o pagamento acordado, será substituído por outro participante e comunica- do através de e-mail. Lançamento do Varal 1 em Florianópolis 4.5. No dia 20 de dezembro considerar-se-á o livro fechado. 3.7. Os participantes concordam em autorizar, pelo tempo que durar a antologia com a edito- 4.6. O (s) depósito (s) deverá (ão) ser feito (s) ra, que a organização faça uso do seu texto, em nome de: suas imagens, som da voz e nomes em mídias impressas ou eletrônicas para divulgação da Antologia, sem nenhum ônus para os organi- *Estas coordenadas serão fornecidas por e- zadores, e para benefício da maior visibilidade mail da obra e seu alcance junto ao leitor. *É imperativo que o comprovante de depósito seja enviado para nosso e-mail para confirma- ção do pagamento. 4) DO PAGAMENTO PELO SISTEMA DE COTAS 4.7. Não haverá prorrogação dos prazos de depósito em respeito a todos os participantes 4.1. A participação se dará no sistema de co- selecionados. Pequenos atrasos podem ser tas, sendo que cada autor deverá proceder ao considerados desde que avisados através do e -mail varaldobrasil@gmail.com e em acordo pagamento da seguinte forma: com a equipe organizadora. (a) Cada autor pagará o valor de R$ 550,00 (quinhentos e cinquenta reais) que podem ser 4.8. Os participantes receberão um total de 10 pagos à vista ou exemplares da Antologia por participação. (b) em duas parcelas de R$ 290,00, sendo o O livro terá aproximadamente 250 páginas no primeiro pagamento até 31 de outubro de 2012 formato padrão (14 x 21 cm) e o segundo e último pagamento até 30 de no- vembro de 2012. Capa nas medidas 14 x 21 cm fechado; Lami- nação BOPP Fosca (Frente); (c) O pagamento deverá ser feito no caso do autor receber comunicação comprovando a Capa em Supremo 250g/m² com 4 x 0 cores; aprovação do (s) seu (s) texto (s) Miolo 4.2. A cada depósito o comprovante deve ser Fechado em Pólen Soft 80g/m² com 1 x 1 co- enviado para o e- res mail varaldobrasil@gmail.com www.varaldobrasil.com 65
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Os serviços prestados serão de editoração são composta pela equipe organizadora e sua completa: decisão será irrecorrível. Leitura e seleção 5.3. Para todos os efeitos legais, o participante Revisão da presente Antologia, declara ser o legítimo Projeto gráfico autor dos textos por ele inscritos, isentando os organizadora a editora de qualquer reclama- criação de capa ção ou demanda que porventura venha a ser ISBN e ficha cartográfica apresentada em juízo ou fora dele. impressão 5.4. O VARAL DO BRASIL ® reserva-se o di- reito de alterar qualquer item desta Antologia, 4.9. A presente antologia será editada pela bem como interrompê-la, se necessário for, Design Editora com o selo editorial Varal do fazendo a comunicação expressa aos partici- Brasil, será registrada e receberá ISBN , mas pantes. cada autor é responsável por registrar suas 5.5. A participação nesta Antologia implica na obras. aceitação total e irrestrita de todos os itens 4.10. A remessa dos exemplares para o ende- deste regulamento. reço do autor que não se encontrar presente 5.6. A data prevista para a entrega dos exem- quando do lançamento do livro será paga pelo plares do livro VARAL ANTOLÓGICO 3 é du- mesmo, independente do valor pago pela par- rante o lançamento do mesmo em 2013 (data ticipação. A remessa acontecerá após o lança- a ser agendada) e pelos correios em média mento do livro e o autor deverá solicitar o valor vinte a trinta dias após o lançamento (O autor do frete pelo e-mail se responsabilizará por pagar o frete caso de- atendimento@designeditora.com.br seje receber seus livros pelos correios). Será oportunamente discutida uma noite de autó- grafos organizada pela revista VARAL DO BRASIL ® 5.7 Em caso de, por motivos de força maior, não puder ser realizado um lançamento físico do livro VARAL ANTOLÓGICO 3, os livros po- derão ser requisitados pelos autores através do e- mail atendimento@designeditora.com.br após aviso por parte do VARAL DO BRASIL ® e um ou mais lançamentos virtuais poderão ser realizados. 5.8. Os livros ficarão à disposição na editora para serem solicitados por TRÊS meses após Lançamento do Varal 2 em Salvador o lançamento e/ou aviso aos autores por parte do VARAL DO BRASIL ®. Após esta data con- 5) OUTRAS INFORMAÇÕES siderar-se-á que o autor não deseja receber os livros e os mesmos poderão ser doados a 5.1. Dúvidas relacionadas a esta antologia e seu regulamento poderão ser enviados para o alguma escola, biblioteca ou outros. e-mail varaldobrasil@gmail.com 5.9. O fórum para qualquer recurso é situado em Genebra, Suíça. 5.2. Todas as dúvidas e casos omissos neste regulamento serão analisados por uma comis- www.varaldobrasil.com 66
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Pipagaio Por Valquíria Gesqui Malagoli Meus irmãos, no quintal, pegavam linha, bambu, cola e papel vegetal branco, vermelho, azul... Faziam papagaios de papel, enquanto o de verdade os via. Mas, os de mentira iam ao céu... enquanto o verdadeiro os assistia. Eu falava: “voa, Loro! Voa alto!”. Só que ele, ah, nem me escutava. Apenas, no poleiro, dava um salto, e, rodopiando, assoviava. – “Mãe, por que o Loro não voa?”, eu tagarelava igual a um papagaio. Foto de Valquiria Gesqui Malagoli E a mamãe: “isso não é à toa... o loro tem medo de raio!”. Daí, meu pai me distraía: – “É papagaio ou pipa, filha?”. Mas, antes de eu responder, ele já ria: – “É pipagaio. E não usa pilha!”. www.varaldobrasil.com 67
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Piloto, o cão amigo Por Arlete Trentini dos Santos Pilotinho chegou na casa família Giotti ainda um bebê cão, um filhotinho. Cheio de graça conquistou a família. Era brincalhão e também bagunceiro. Gostava de dormir na lareira. Ela nem era usada mesmo, e para ele era um cantinho bem aconchegante. Pilotinho e Daniel se divertiam juntos. Rolavam na grama ,brincavam de bola, corriam atrás de borboletas até ficarem de língua de fora. Os dois é claro... Um dia na volta da escola Daniel viu que tinham construído uma casinha no jardim para Piloti- nho. Daniel não gostou desta ideia ,e quis saber o porque. O pai e a mãe explicaram que Piloto já era grandinho, e que estava estragando as coisas da ca- sa. Daniel choramingou e disse:- quando eu faço alguma coisa errada vocês me explicam que não é certo, mas vocês não me colocam na rua. Ele não sabe que esta fazendo bobagem, ele pensa que tudo é brincadeira. E vocês dizem que o cão é o melhor amigo do homem. Quando vem um amigo aqui em casa , ele não fica no jardim, ele vem para sala. O Piloto é ,ou não é, nosso amigo? -Muito bem, Daniel, nós também somos responsáveis por nossos amigos. Amizade é uma coisa muito preciosa, e deve ser cultivada . E em resposta as suas perguntas, vamos lá: Pilotinho pode continuar dormindo aqui nesta sala, na lareira, mas só se você se comprometer a deixar o pote da água e da ração sempre bem limpinhos, e levar este cão a fazer suas neces- sidades na rua. Nós entendemos que você ama muito o Pilotinho, e quem ama também cuida. A casinha ficará lá no jardim. Um dia Pilotinho pode querer morar lá. Ele até pode ter uma família ,mas isso só na casinha dele, certo? Sorrisos ,latidos e rabinho abanando. Uma cena muito divertida. www.varaldobrasil.com 68
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 INFÂNCIA Por Emérita Andrade Ramos As asas da cotovia, Juntas formavam um par. O teu canto, cotovia, Jamais irei escutar... Lembro-me quando criança, hƩp://espacoescolar.com.br Aquela infinita beleza, Sabiás e rouxinóis, NOSSAS CRIANÇAS Brejeirice camponesa... Por Cléo Reis Mas, a cotovia triste, Com seu canto apaixonado, O sol forte bronzeou a juventude Gorjeava solitária, na areia alheia ao mundo rude No mamoeiro do lado... O mar tentou curar corpos idosos, donos de olhares ainda esperançosos Oh! Tardes da minha infância, Carinho arrebatador... A “ gata” acha que todos olharam Mesmo agora, meia-idade, as suas curvas de beleza ideal Sinto ainda o teu sabor! O “gato” tem certeza que inventaram a musculação que o torna imortal Ovos batidos com açúcar, Com canela pra enfeitar. Plúmbeas nuvens surgiram para a elite, Com que volúpia lambia indignada no seu veraneio As colheres do manjar... pela excursão do farofeiro Oh! Ventura deleitosa, Não perceberam no verão vivo, de alma nua, Sempre à memória tornai: que o céu chorou : água da casa de A hora da Ave-Maria, pau-a-pique E o carinho de papai. e chorou o céu, p´ra banhar as crianças de rua www.varaldobrasil.com 70
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 NO MUNDO DA FICÇÃO CIENTÍFICA Por Daniel C. B. Ciarlini O invento de Matias as? Bem, Matias era um desses lavradores. Lavrador e cientista, necessário que se refor- ce. E dos mais avançados. Desenvolvera o Hoje o tempo não é mais o da rapidez, que se tinha de mais moderno na região: os da modernidade. Já não existe mais a poéti- processadores universais de energia contínua. ca do presente, que pertencia tão bem a Car- Em outras palavras, o afamado moto-contínuo los Drummond de Andrade. Percebemos que sonhado desde o século XVIII, com uma enor- todo o progresso científico não deveria interfe- me diferença: sendo universal, o seu processo rir em nossas artes e costumes. Vivemos, por- de síntese energética podia advir de qualquer tanto, o tempo da nostalgia, onde tudo tem seu matéria existente neste mundo ou em outro, já passo para celebrar aquilo que um dia fora que toda matéria encerra energia. Diziam os querido por nossos antepassados. Um ser, po- mais otimistas que a geringonça podia usar rém, nunca se adaptara. Ele era Matias. até as forças siderais, o que não passava de Foi mais ou menos no ano de 2413 que exagero. O certo era que a invenção de Matias o conheci. Rosto pálido, nuca acentuada, pou- mudou o rumo da humanidade. Os processa- cos cabelos e olhar impreciso. Era um homem, dores universais foram responsáveis por tirar o sem dúvida, misterioso, de poucas palavras e homem da idade da roda para a sua fase mais raros amigos. Naquele tempo, se não me en- madura na tecnologia, pois que a velha roda gano, ainda contávamos com os arcaicos sis- para funcionar necessitava de gastos energéti- temas de climatização artificial programados cos. por botões. Em Parnaíba, por exemplo, existi- O aparelho de fato conseguia sintetizar am os dias de tempestade, os dias de sol e positivamente energia a partir de tudo. Até do aqueles de pouca chuva, apenas para resfriar. nada, como falavam. Podia usar a força gravi- Tudo se controlava. Nos tempos de seca, um tacional, a força dos ventos, das marés, do ca- pouco de chuva; nos tempos de frio, um pouco lor, da água, enfim, tudo aquilo que encontras- de calor. se no seu raio de abrangência com capacida- As plantações eram as que mais res- de de exceder a sua vida útil. Um sistema inte- pondiam às benesses da ciência. ligente que depois de finalizado não prejudica- ria a matéria ou a não matéria da qual se utili- Além das alterações gênicas que forta- zava. leciam as espécies vegetais, contava-se com o sistema climático de apoio. Logo, em pouco tempo, tornava-se a cultura vegetal o negócio – Sr. Matias, não pretendes exportar a mais lucrativo da cidade. Todos os lavradores ideia? eram cientistas, não tinham outra formação a não ser o de doutorado em suas áreas especí- – Para onde? – questionou ele. ficas. Viviam em condições agradáveis, sem- – Para as grandes ligas internacionais, pre experimentando. Ao contrário do que se o mundo cairia diante de teus pés. pensava nos séculos de antanho, as comidas – Pouco importa – esnobava –, a grande cen- não tenderam a ser artificiais, mas orgânicas telha da ciência humana não é válida aos infa- em demasia e em abundância. mes de carteirinha. Ela não passa de um flash E em que parte entra a figura de Mati- e, ademais, ando já bastante ocupado com www.varaldobrasil.com 71
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 outras ideias que me têm tirado o sono há duas semanas. – E podemos saber do que se tra- ta?, nossa comitiva anda realmente inte- CREANÇA ressada nas tuas descobertas. – Tempo ao tempo, homens, tempo Por Roberto Armorizzi ao tempo. Neologismo gentil, Não pudera, porém, desenvolver a ideia como pensava. Em mais duas sema- que me faz pueril nas Matias havia envelhecido vinte anos. e meu mundo, invade; Mostrava-se cansado. Diziam que o gênio da tecnologia estava agora esgotado e que creança, o saldo positivo de sua inteligência sequer é criança saudade, fora capaz de criar algo que o permitisse a de um outro tempo, longevidade. Cientistas e médicos sabendo de seu problema tentavam consultá-lo, de uma tenra idade... mas Matias não os atendia. As portas de seu laboratório, sempre fechadas. Estava trabalhando nos últimos ajustes dos pro- Hoje ela chega cessadores. Dentro de dois meses estari- em tempo – tempestade. am no mercado. Um fato inusitado, entretanto, acon- teceu. Acordei esta manhã sabendo de Por fim, sofro com intensidade, uma notícia das mais tristes, o mundo se ao saber ressentia: a morte de Matias. Motivo? En- que o mundo aparenta bondade. velhecimento precoce. Os cientistas exami- naram o seu corpo e logo descobriram: os tais processadores haviam sugado toda a O que salva? energia vital do cientista. Tornando-os uni- versais o gênio se esqueceu que os huma- pura beldade, nos poderiam sofrer com as consequên- criança – realidade, cias. não como nós, Somente ontem, depois de três dias, conseguiram desativar a tal máquina. Par- adultos – desamor – pouquidade. naíba respira melhor e os velhos de outrora parecem mais vivos e menos doentes, pro- Ela avança, em futuro se lança, vavelmente durarão mais uns 150 anos, isso se suportarem aos anseios dos ali- ao não ser mais criança, mentos não iodados. para crer – ser – bonança, creança, amor, bela idade, confiança, fraternidade, só criança alcança, de verdade! www.varaldobrasil.com 72
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 SONS DA MINHA INFÂNCIA Por Carlos Roberto Pina de Carvalho Sons da minha infância O apito das fábricas No Ipiranga. O garrafeiro que passava todos os dias, O amolador de facas, O bolacheiro que vinha as quintas e sábados, O verdureiro. Sons gravados na memória O sino da igreja, Do sorveteiro, hƩp://do-alto-da-pedra.blogspot.ch Do velho do realejo, Do menino do algodão doce. Sons impossíveis De serem esquecidos Pois dentro de mim Tornou-se cicatriz! www.varaldobrasil.com 73
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 SÓ O AMOR DE MÃE Por MOR O que escutei retratar Só o calor de uma mãe Poderia tudo enfrentar Aquele fruto do amor Um bebe pequenino Que cabia em sua mão Era tão miudinho Enrolado em algodão Boca bem pequena Nem conseguia mamar O maior problema Logo ele ensinar Infâncias Aquela boquinha abrir Por Morgana Gazel Para o mamilo sugar O gosto de leite sentir Você sorri um sorriso dourado Para logo alimentar protegido entre paredes sólidas Sua traqueia estreita cama macia, barriga nutrida Logo ao respirar. inocência e folguedos. Um assovio se ajeita Caminhõezinhos tantos A juriti imitar. dificultam o trânsito no quarto. Indumentária do time da família Deste bebe cuidar jogos que a inteligência incentivam De uma mãe o calor. coração sem mágoas acumuladas. Tudo a justificar Na adolescência você diz: Com seu grande amor. “Vou a Disney.” Você me olha tristonho face de borralheiro enquanto o estômago reclama. Seus brinquedos quebrados foram tirados do lixão da cidade. Trapos, pedaços de papelão são sua cama. No coração mágoa e ódio guardados. Na adolescência, você grita: “Passa a grana aí, meu irmão!” A arma roubada na mão. hƩp://clicknabuco.com.br/ www.varaldobrasil.com 74
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 MEDITAÇÃO (DEPOIS DO BANHO) Por Ro Furkim Os arabescos de Matisse são cabelos ao vento, nos quais me agarro e viajo de volta à infância. Junção dos Sessenta com os Setenta. Acontecia uma revolução estética que eu só viria a conhecer tarde demais. Por ora havia treliças de madeira separando copas de cozinhas. Numa das residências Calheiros um cheiro maravilhoso de sopa de legumes picados a miúdo com caldo abundante e enrique- cida com bonitos ossos de boi. Nunca vou entender criança que não come pedaços de cebola cozida. Eu às vezes estava lá esperando minha irmã terminar o serviço para irmos embora. Não me lembro bem por que ia lá. Decerto para farejar essa sopa vespertina, praxe de todas as melhores residências. Minha irmã adolescente fora instruída no preparo enquanto a patroa ocupava-se a costurar para as cli- entes abastadas de Maceió _ entre as quais uma menininha chamada Rosane que viria a ser Primeira Dama do Brasil. Eu aguardava assistindo à Pantera Cor de Rosa, que, fato curioso: tinha muita fome e recortava um peixe de uma revista, fritava-o, comia e jogava fora a espinha. Se não me engana demais a memória. Engraça- do ela também ter miragem de comida. Muitos anos de- pois leio Clarice Lispector a mencionar a fome brasileira daqueles dias. O cartoon é de Hollywood, mas a função da televisão sempre foi catar coisas do mundo todo para dar espelho à gente. Pelas treliças acho que se infiltravam azedinhas, capuchinhas, avencas, samambaias, acácias. Arabescos enfim. Como os arcos da cadeira de balanço do patrão. E os da poltrona de fios do titio Pedro, aposentado da Petrobrás, cuja casa exalava carne de panela tempe- rada com cominho e pimenta do reino moída na hora. O molho com colorau untava e avermelhava o arroz nos bocados remexidos no prato. Com garfo. Nalguns ensola- rados domingos em que mamãe arranjava uma desculpa para subirmos à visita no bairro do Farol. Chuveiro no banheiro e azulejos floreados de um lazuli que se repetia na parede da igreja de Santo Antônio. Na praça, depois da missa vespertina, tudo se azulava pelas lâmpadas flu- orescentes dos postes. Os buquês de roletes de cana exibiam tom misteriosamente festivo, espetados numa Ilustração de Ro Furkim tábua perfurada, para se venderem a centavos escassos. Havia um piano, vez em quando? Devia haver, alguém tomava lições. Ou é projeção minha, só porque Alba Cristina era todos os dias levada ao colégio particular pela babá, que noutras horas borda- va sentada atrás do balaústre. Faltava-me assunto com a prima, qualquer tema em comum para desen- volver brincadeira. De segundo grau, porém. O pai, Nelson, é que era primo de mamãe. Funcionário público de algum status, a julgar pelo estilo de vida. De quais temas, por sua vez, deviam partir as con- versações com a lavadeira analfabeta, não sei. Não me lembro de haver reparado. E o odor evocado pela casa já não é de alguma comida. É só respiração de vida burguesa, tranquila, aprazível e “normal”. Embora no quadro de Matisse a sensualidade da escultura nua contraste com a rotina burguesa, mas sem rosto, sem ver, sem ouvir, sem falar, inerte quanto ao tédio, eu sou aquela pequena chama da vela. Sei lá. Orientalismo, papel de parede ocre com vinho, madeira escura e trepadeiras, cercas vi- vas, arabescos azuis... até hoje me matam. www.varaldobrasil.com 75
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Particularidade, Universalidade e Rousseff quando ocupa agora a Presidência da Re- Singularidade: definindo conceitos pública? Até que ponto se diferenciam e entram em fundamentais para a Metodologia da conflito os interesses particulares de “uma classe” Pesquisa em Ciências Sociais social (no caso, a classe trabalhadora, representada pelo Partido dos Trabalhadores) com os de outros segmentos sociais, como as classes médias e altas (as elites)? E em quais momentos é preciso que uma Por André Valério Sales1 classe social, que esteja no poder, abandone seus interesses particularistas de classe, em favor das necessidades universais do conjunto da sociedade 1. Introdução: brasileira? Este ensaio foi escrito no âmbito de meus Minha intenção aqui não é a de responder estudos acerca da Cultura Urbana na sociedade ca- a estas perguntas, mas, ajudar ao leitor a refletir so- pitalista contemporânea, área das ciências sociais à bre as respostas possíveis a elas; e o modo melhor qual venho dedicando-me há alguns anos. Com ele que vislumbro, de contribuir para essas reflexões busco contribuir para o debate atual acerca de uni- tão fundamentais hoje, é buscando tornar mais inte- versalismo e particularismos, intentando esclarecer ligíveis os principais conceitos aí envolvidos, ou as definições do que vem a ser: particularidade, uni- seja, definindo: particularidade, singularidade e uni- versalidade e singularidade, no sentido de ajudar na versalidade. reflexão sobre as respostas possíveis que são colo- Ao se consultar os dicionários mais co- cadas pelas interrogações presentes no debate dobre muns, os mais socializados no país, nota-se que são tais definições e seus usos na análise de fatos con- bastante sintéticos: por exemplo, o célebre Aurélio temporâneos, a base do texto é o tema da metodolo- (de bolso) conceitua o universal como se referindo gia de pesquisa em Ciências Sociais. ao universo, ao que é mundial, àquilo que é comum É de interesse tanto da Sociologia quanto a todos os homens; ou ainda, “a um grupo dado”; o da História, na atualidade, a questão dos conflitos e singular, por sua vez, é o que pertence a um, ao contradições entre atitudes e movimentos sociais de número que indica uma só coisa ou pessoa; singula- caráter particularistas ou universalistas. Principal- rizar é “tornar singular, particular ou específico”; e mente no plano político-social do Brasil de hoje o conceito de particular, é o relativo a apenas cer- (2012), quando um representante da “classe” traba- tos seres vivos ou a certa(s) pessoa(s) ou coisa(s), é lhadora, e do Partido dos Trabalhadores, ascendeu o relativo a “uma pessoa qualquer” (ver Mini- recentemente ao poder, enquanto Presidente do pa- Aurélio, Ferreira, 2001). ís, Luís Inácio Lula da Silva (por dois mandatos: Já o Dicionário Houaiss, considerado por 2003-2006 e 2007-2010), conseguindo também re- muitos como “o melhor” do Brasil, conceitua o uni- passar o maior cargo do Brasil para outra petista, a versal enquanto algo que é “comum, relativo ou atual Presidenta, Dilma Rousseff (2011-2014). Nes- pertencente ao universo inteiro”, algo “comum a te contexto, retomam-se com mais intensidade os todos os componentes de determinada classe ou debates sobre particularismos e universalismos; co- grupo” (2009: 1907); o singular refere-se àquilo mo já observou o célebre historiador francês Jac- que “se aplica a um único sujeito”, e também coloca ques Le Goff, a universalidade é um valor “cuja res- “particularizar” como sinônimo de singularizar (id.: sonância política é clara” (1990: 193). E nós, os crí- 1750); e particular é “próprio ou de uso exclusivo ticos sociais do presente, não devemos nos ausentar de alguém; privativo, privado”, sendo sinônimo, destas polêmicas e nem mesmo inserirmo-nos nelas inclusive, de “um indivíduo qualquer” (id.: 1439). sem um claro entendimento destes conceitos e de suas interligações com a realidade social. ——————————————————— Tomando então o exemplo dos dois Presi- dentes da República citados, utilizo aqui seus papéis 1 Tem graduação (UECE, 1991) e mestrado (UFPB, 1996) em sociais, delegados pela maioria da população que os Serviço Social. Cursa, desde 2000, enquanto aluno especial, disciplinas do doutoramento em Sociologia (PPGS/UFPB). elegeu, como pretexto para iniciar a discussão, e inicio perguntando: até onde poderiam ir os desejos 2 Ver, por exemplo: Gabriel Cohn, “Introdução”, In: COHN, e interesses pessoais (singulares), de Luís Inácio, G. (Org.), Weber – Sociologia (2002); e Leopoldo Waizbort, quando ocupou tal cargo, assim como até onde po- As aventuras de Georg Simmel (2000). dem ir as vontades singulares da pessoa de Dilma www.varaldobrasil.com 76
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 A princípio, o leitor pode confundir-se in- de seu trabalho, no qual ele define detalhadamente a teiramente e até mesmo desistir de entender os esses categoria da particularidade e, em consequência, três conceitos, pois segundo um dos Dicionários seus complementos obrigatórios, o singular e o uni- mais usados no Brasil (Aurélio), assim como de versal, Lukács (1978: 76) inicia definindo que o acordo com aquele geralmente considerado “o me- singular é o que é próprio ao indivíduo, ao especifi- lhor” do país (Houaiss): o particular diz respeito a camente pessoal; já o particular refere-se aos certas pessoas (grupos, portanto), certas coisas, no “interesses de classe”; e o universal, aos “interesses plural, mas também poderia ser relacionado a uma de toda a sociedade”. pessoa qualquer (no singular), um indivíduo. Já o Já de outra forma, o autor em questão singular, é o que pertence a um só, a um único su- exemplifica as relações entre as três categorias teó- jeito, mas, ao mesmo tempo, singularizar é definido ricas, ligando-as então ao conceito de Trabalho. Se- como o mesmo que “tornar particular”, particulari- gundo ele: considerando-se o trabalho em si mes- zar. Já o universal seria o que é comum “a todos os mo, pode-se designar a “divisão da produção social homens”, e ao mesmo tempo, pode ser tido como o em seus grandes gêneros, agricultura, indústria, etc., que é comum a todos que pertencem a uma classe como divisão do trabalho em geral”; enquanto divi- ou “um grupo”. são do trabalho em particular, a divisão destas clas- Na verdade, se sairmos dos Dicionários ses de produção pode ser feita “em espécies e su- comuns e adentrarmos às disquisições filosóficas ou bespécies”; e, finalmente, de maneira singular, pode sociológicas mais aprofundadas, encontraremos jus- -se pensar a “divisão do trabalho dentro de uma ofi- tamente essa mesma mistura, essas mesmas contra- cina como divisão do trabalho em detalhe” (id.: 96, dições, porém, entenderemos também que há, por grifado no original). fim, uma relação de complementaridade entre o sin- Continuando seus exemplos, para melhor gular e o particular, entre particular e universal, as- explicitar os três conceitos em análise, e ainda refe- sim como podem ser complementares entre si a sin- rindo-se às relações de trabalho sob o capitalismo, gularidade e a universalidade, como veremos a se- Lukács observa que entre o capitalista e o operário guir. há uma terceira coisa (como pode ser o caso da Concorrência), uma coisa particular, portanto, que 2. As três definições segundo as Ciências Sociais: faz o intermédio entre dois seres singulares. Ou ain- da: esta não é, portanto, uma relação de simples in- No âmbito das Ciências Sociais contemporâneas, o divíduos, puramente pessoal, mas mediatizada por pensador múltiplo Georg Lukács, de origem húnga- um terceiro, que é fruto das relações sociais (id.: ra, escreveu em 1957 um livro dedicado inteiramen- 119). te à elucidação da categoria da particularidade: Sendo assim, o que se apreende até aqui, a Introdução a uma estética marxista: Sobre a catego- partir dos exemplos citados pelo autor, é que as re- ria da particularidade, e é a partir deste autor que lações dialéticas (contraditórias, mas também com- busco um esclarecimento melhor acerca da defini- plementares) entre singularidade, particularidade e ção dos três conceitos em questão. Lukács (1885- universalidade, expressam-se na realidade da vida 1971) foi amigo dos sociólogos Georg Simmel, cotidiana de cada ser social, no dia a dia das nossas Max Weber, Karl Mannheim, Tönnies, dentre ou- relações sociais, o que lhes retira a possibilidade de tros (Frederico, 1998: 9); também participou dos serem considerados como definições apenas abstra- cursos de Georg Simmel na Universidade de Ber- tas, pertencentes unicamente aos debates intelectu- lim, na Alemanha, entre 1909-1910, chegando a ser ais de economistas, filósofos, sociólogos, etc. “o aluno favorito de Simmel e assíduo frequenta- Acrescenta ainda o pensador húngaro que apesar do dor da sua casa” (Netto, 1981: 11, grifo meu). To- idealismo hegeliano, há que se admitir que foi dos estes intelectuais, na maioria sociólogos e filó- “Hegel quem primeiro colocou o problema do parti- sofos a um só e mesmo tempo, participavam de gru- cular de maneira correta e multilateral” (Lukács, pos de estudo (Schiur – seminário particular), aos 1978: 73, grifado por mim), e para fugir àquele mo- domingos, variando suas presenças nas casas de uns do idealista de conceber tais definições, é preciso e de outros. Isto significa que o contato de Georg ressaltar, de antemão, que as três “categorias lógi- Lukács com a Sociologia, de modo algum, era su- cas” aqui em questão dizem respeito à “situações perficial. objetivas” na sociedade, e não no pensamento. Elas Em seu livro sobre a categoria da particu- são fruto “da realidade que lhes corresponde” (id.: laridade, o escritor húngaro expõe vários exemplos 75), são categorias históricas portanto, completa- de situações que demonstram o que vem a ser o sin- mente opostas às categorias reflexivas idealistas e gular, o particular e o universal. No capítulo central puramente subjetivas. www.varaldobrasil.com 77
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 As definições de singular, particular e uni- cularidade e universalidade, que as relações entre versal somente se tornam históricas porque o inte- elas são contraditórias ao mesmo tempo em que são lecto humano consegue “elevar a conceito o movi- também complementares. Especificamente sobre a mento concreto” do real (id.: 88). Somente desta definição de universalidade, é preciso afirmar que forma, então, é que tais categorias podem servir de há perigo à vista quando se faz dela um mero con- instrumento para se compreender “o desenvolvi- ceito vazio. O universalismo é necessário, seguindo mento vital da realidade em seu movimento, em sua nosso exemplo, à classe que esteja no poder, seja complexidade” (id.: 87): se elas forem representa- ela de procedência elitista ou operária; a universali- ções concretas do próprio mundo objetivo (id.: 75). dade deixa de existir, observa Georg Lukács (1978: Postos esses aspectos diferenciados que 88), quando é uma característica “pensada apenas podem assumir as relações entre a tríade em discus- em uma forma particular”. Como antes citado, esse são, voltemos agora ao exemplo concreto da parti- problema, apesar de parecer “exclusivamente lógi- cularidade da classe trabalhadora no Brasil, como co”, depois de Hegel passa a ser distinguido en- no caso citado inicialmente, ao se tratar das vonta- quanto “um problema da estrutura e do desenvolvi- des pessoais e dos interesses de classe do ex- mento da sociedade” (id.: 82). Presidente da República (Lula), da atual Presidenta Sendo assim, as relações entre universali- (Dilma) e de seu partido político (o PT), relacionan- dade e particularidade “têm uma função de grande do-os com as necessidades universalistas de toda a monta”, pois o particular representa “a expressão sociedade brasileira: sobre este assunto, o ponto de lógica das categorias de mediação entre os homens vista lukacsiano é o de que “Somente em nome dos singulares e a sociedade” (id.: 93). E nessa proble- direitos universais da sociedade pode uma classe mática da relação dialética entre universal e particu- particular reivindicar para si mesma o domínio uni- lar, lembrando de nosso exemplo sobre a tríade Pre- versal” (Lukács, 1978: 77, grifos meus). sidente da República-Partido Político-Conjunto da A partir dessa afirmação, lanço outra per- Sociedade, é necessário, nas palavras de Lukács, gunta para ser refletida: em se considerando a pers- sempre “esclarecer a forma concreta de sua relação pectiva de sociedade (socialista?) do Partido dos [universal-particular], caso por caso, em uma deter- Trabalhadores, será que a “classe particular” que se minada situação social, com respeito a uma determi- encontra no poder – já há uma década – vem conse- nada relação da estrutura econômica”, e mais ainda: guindo pôr de lado os seus interesses particularistas, é decisivo que se busque “descobrir em que medida e exercer um “domínio” verdadeiramente em nome e em que direção as transformações históricas modi- dos “direitos universais” e dos interesses universa- ficam esta dialética”. Também é preciso “estudar e listas do conjunto da sociedade brasileira? descrever, de um modo historicamente concreto Há que se esclarecer que Lukács usa, neste (...) e com exatidão, estas relações e suas trans- ponto de seus escritos, exemplos ligados a política, formações”. Somente se cumprindo esta “tarefa ao trabalho e às classes sociais, no entanto, toda a importante”, é que se finda descobrindo “que as discussão a seguir tem a ver com seu método de es- contradições concretas assim percebidas devem ser tudo e análise, cujos propósitos são universais e re- compreendidas, do ponto de vista lógico- ferem-se, portanto, às categorias teóricas de singular metodológico, como casos concretos e expressões -particular-universal como instrumentos lógicos de de uma dialética de universal e particular” (id.: 91- análise que podem ser utilizados por qualquer pes- 92, grifos meus). E esta dialética concreta de uni- quisador social, sejam eles ligados à Sociologia, versal e particular é, desse modo, uma “arma meto- Filosofia, História, etc. dológica”, é um “instrumento para esclarecer as co- Passo agora à discussão específica acerca nexões reais” entre os fenômenos sociais em análise de cada uma das três definições aqui explicitadas, (id.: 95). que são, como já citado, categorias teóricas, porém Para Lukács, a linha fundamental do mo- lógicas e concretas a um mesmo tempo, que somen- vimento de pensamento dialético dá-se em um mo- te por estarem presentes na realidade cotidiana das vimento irresistível, em “uma aproximação progres- relações sociais é que podem ser elevadas ao racio- siva que conduz do puramente singular ao universal cínio lógico humano, ao nosso pensamento e à nos- através do particular”, de forma indutiva, portanto, sa reflexão. o que significa que “todos os conceitos e processos mentais, têm o seu ponto de partida na realidade 3. A Universalidade: objetiva [social e histórica] independente da consci- ência” (id.: 102-103). Entendeu-se, até aqui, que há uma mistura – dialética – entre as noções de singularidade, parti- www.varaldobrasil.com 78
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Ensina o pensador húngaro que a universa- Sendo assim, as categorias lógicas da par- lidade está sempre “em uma contínua tensão com a ticularidade, singularidade e universalidade não são singularidade”, além de estar também em uma idênticas, ao contrário, há entre elas uma “nítida e “contínua conversão em particularidade”. Da mes- precisa distinção”, mas isto não exclui que possa ma maneira, e de modo inverso, a particularidade haver “passagens e conversões” dialéticas tanto en- está sempre em contínua tensão com o universal e tre universalidade e particularidade, como entre sin- em contínua conversão em singularidade. Ou seja, gularidade e particularidade. Mas nosso pensador as relações entre essa tríade são sempre múltiplas e húngaro adverte que essas distinções, ainda que pre- contraditórias, e quanto mais autêntica e profunda- sentes na realidade cotidiana de todo ser humano, mente os nexos da realidade, suas conexões e con- são pouco desenvolvidas “no modo de pensar da tradições, “forem concebidos sob a forma da univer- vida cotidiana” (id.: 110). salidade”, de forma mais exata e mais concreta No próximo item, passamos à explicitação “poderá ser compreendido também o singular” (id.: do significado da categoria teórico-metodológica da 104). particularidade, a mais discutida por Lukács em seu Vamos discorrer agora especialmente so- livro Introdução a uma estética marxista: Sobre a bre a definição filosófica/sociológica de singulari- categoria da particularidade (de 1957), além do au- dade. xílio na compreensão do conceito de mediações. 4. A Singularidade: 5. A Particularidade – Um Campo de mediações: Ainda a partir do trabalho de Lukács, Como bem esclarece Lukács, na vida coti- aprendemos que o conhecimento e a compreensão diana, no conjunto das relações sociais, a particula- da singularidade “não pode ocorrer separadamente ridade “se confunde, em sua determinação e delimi- das suas múltiplas relações com a particularidade e tação, ora com o universal ora com o singular”, e é com a universalidade”; essas relações múltiplas já por isso que “na construção científica e filosófica, estão contidas na imediaticidade do singular, “no os extremos são desenvolvidos antes do que os imediatamente sensível de cada singular”, e tanto a meio mediadores [as particularidades]” (1978: 110, realidade como a essência da singularidade “só po- grifos meus), assim definida, a particularidade é de ser exatamente compreendida quando estas me- “um membro intermediário com características bas- diações (as relativas particularidades e universalida- tante específicas” (id.: 112). des) ocultas na imediaticidade são postas à luz”, o Por tudo isso, continua o filósofo húngaro, que significa, também, que “esta aproximação ao é que somente pode existir “uma autêntica e verda- singular enquanto tal pressupõe o conhecimento deira aproximação à compreensão adequada da rea- mais desenvolvido possível das relativas universali- lidade”, uma relação verdadeiramente dialética en- dades e particularidades”. O singular, portanto, tre teoria e prática, se houver clareza: dessa “tensão “precisamente como singular, é conhecido tão mais dos pólos, constantemente em ato”; se houver o en- seguramente e de um modo tão mais conforme à tendimento da “constante conversão dialética recí- verdade (...) quanto mais rica e profundamente fo- proca das determinações e dos membros intermedi- rem iluminadas as suas mediações para com o uni- ários que têm função mediadora”; e se for compre- versal e o particular” (1978: 106-107). endido que há esta “união entre os pólos”, ainda que O que se apreende então, até esse ponto, seja uma união tensa e contraditória. Portanto, a ta- especificamente acerca das relações entre singulari- refa do intelectual é, tal como assinala Lukács, não dade e universalidade, é que suas ligações na reali- julgar a realidade em análise, e nem descrevê-la dade são inseparáveis, apesar de opostas entre si. ou explicá-la da forma que o intelectual queria que Tais categorias lógicas estão presentes no real em fosse, ou da forma que o real deveria ser, mas ten- unidade dialética, mas, ao mesmo tempo, há uma tar elevar à consciência a “exata relação dos homens conexão contraditória entre elas, não havendo, desse para com a realidade objetiva” (id.: 111). modo, espaço para identidade entre uma e outra, por Ou ainda, o pesquisador deve observar, na serem opostas; contudo, o singular não existe senão realidade concreta/cotidiana, como as relações soci- em sua relação com o universal. Segundo Lukács, o ais se processam, sem que os seus valores pessoais, “movimento dialético da realidade, tal como ele se seus desejos e interesses influenciem nos tratamento reflete no pensamento humano, é assim um incon- dos dados observados/coletados por ele. Por exem- trolável impulso do singular para o universal e des- plo, refletindo sobre a cultura popular, Augusto te, novamente, para aquele” (id.: 110). Arantes (1987:57) propõe-se a que, neste seu livro “se projete o foco de atenção sobre o que as culturas www.varaldobrasil.com 79
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 efetivamente são, ou melhor, sobre como elas são mediação em uma tríade, mas sim uma espécie de produzidas, sobre os processos através dos quais campo de mediação para o universal (e, em certos elas se constituem e o que elas expressam, e não casos particulares, para o singular)” (id.: 116, grifo sobre o que elas foram, seriam ou deveriam meu). ser” (grifado por mim). A partir de uma série de pesquisas, cada Deste modo, Lukács enfatiza que o movi- uma voltada para o esclarecimento de um novo as- mento do singular ao universal, assim como seu pecto particular do problema, em suas característi- contrário: do universal ao singular, “é sempre medi- cas específicas, pode surgir (graças ao aprofunda- atizado pelo particular”. A particularidade é então mento destes novos aspectos particulares) outra con- “um membro intermediário real, tanto na realida- cepção diferente, que venha a alargar e aprofundar de objetiva quanto no pensamento que a refle- mais ainda o seu conceito, elevando-o a um nível te” (id.: 112, os grifos são meus). superior de universalidade; de tal modo que “A cui- Não é por acaso, acrescenta o autor, que a dadosa análise do particular é apenas um meio para tríade singular-particular-universal se tenha tornado alcançar este grau superior de universalidade”, bus- formalmente dominante, este fato “não é casual, já cando-se esta ampliação da universalidade do con- que início, meio e conclusão descrevem a estrutura ceito (id.: 114-115). Isto significa que, através de formal necessária de qualquer operação mental”. mediações, em se conhecendo momentos particula- Também, é preciso lembrar que “a relação de forma res novos, a universalidade dos conceitos envolvi- e conteúdo é uma relação mais próxima e mais con- dos no problema é ampliada e tornada superior ao vergente no início e na conclusão do que no meio”, que antes se conhecia. e este meio, por sua vez, é “uma expressão comple- Após todas essas considerações, Lukács xiva e sintética de todo o conjunto de determinações (1978: 116) afirma que seria enganoso concluir-se que mediatizam o início e a conclusão” (id.: 113). que “o particular é uma amorfa e inarticulada faixa Lukács ressalta que nenhum dos movimen- de ligação entre o universal e o singular (...) as coi- tos aludidos acima são “pontos firmes”. Do mesmo sas não são assim”. O campo de mediações tratado modo que a particularidade – que é na verdade um aqui é naturalmente articulado, e cada etapa que o “inteiro campo de mediações” –, também “início e conhecimento leva a compreender em tal campo conclusão (universalidade e singularidade) de modo pode, apenas por aproximação, “ser claramente de- algum são pontos firmes no sentido estrito da pala- terminada e fixada, do mesmo modo que podem ser vra”, pois “o desenvolvimento do pensamento e dos fixadas a universalidade e a singularidade”. Tam- conhecimentos têm precisamente a tendência a bém o fato de que, em muitos casos, “deva-se fixar transferi-los cada vez mais”. Todavia, se se leva em uma inteira cadeia de membros particulares da me- consideração corretamente o movimento dialético diação, a fim de ligar corretamente entre si a univer- do particular ao universal, assim como da universa- salidade e a singularidade”, demonstra que, de modo lidade à particularidade, observa-se que “o meio algum, a particularidade tenha um caráter amorfo. mediador (a particularidade) pode menos ser um A partir do prisma da linguagem, continua ponto firme, um membro determinado, e tampouco o pensador húngaro, são bastante precisos os signifi- dois pontos ou dois membros intermediários (...) cados de singular e universal, já a expressão particu- mas sim em certa medida, um campo inteiro de laridade pode querer dizer muitas coisas: “ela desig- mediações” (id.: 113, grifos meus). na tanto o que impressiona, o que salta à vista, o que A cada passo que a construção do conheci- se destaca (em sentido positivo ou negativo), como mento vai sendo aperfeiçoado pelo pesquisador, po- o que é específico; ela é usada, notadamente em fi- de-se “alargar este campo [de mediações], inserindo losofia, como sinônimo de ‘determinado’, etc.” na conexão momentos dos quais precedentemente se Contudo, esta oscilação que pode existir no signifi- ignorava que funções tinham na relação entre uma cado do particular “não é casual, mas tampouco ele determinada singularidade e uma determinada uni- indica um amorfismo fugidio; ele diz respeito ape- versalidade”. Assim como também se pode diminuir nas ao caráter sobretudo posicional da particularida- esse campo de mediações, composto pelas particula- de”. A particularidade que aqui se busca esclarecer ridades, “na medida em que uma série de determina- representa, com relação ao singular: “uma universa- ções mediadoras – que até um dado momento eram lidade relativa, e, com relação ao universal, uma concebidas como sendo independentes uma da outra singularidade relativa”, e esta relatividade posicio- e autônomas – são agora subordináveis a uma única nal “não deve ser concebida como algo estático, mas determinação” (Lukács, 1978: 113). sim como um processo. A própria conversão, por Torna-se claro, desta maneira, que o parti- nós assinalada deste ‘termo médio’ em um dos ex- cular “não é simplesmente o membro pontual da tremos já implica este caráter processual” (id.: 117, www.varaldobrasil.com 80
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 grifo meu). gurança sobre o que significam tais categorias lógi- A particularidade, desse modo, é um prin- cas. cípio do movimento do conhecimento, e enquanto E, principalmente, aprendemos aqui que “momentos particularidades mediadores”, ela tem, os interesses particularistas, em sendo interesses de na sociedade, “uma existência relativamente bem apenas uma “classe social” que se encontre no po- delimitada, uma figura própria” (id.: 118). Decidin- der (como no exemplo citado, do Governo do ex- do-se o pesquisador por eliminar a particularidade, Presidente Lula e da atual Presidenta Dilma, ambos e operar apenas com os extremos (singular e univer- filiados ao Partido dos Trabalhadores), poderiam e sal), enfatiza Lukács, é “deformante”, assim como o deveriam ser convertidos em interesses universalis- fizeram, por exemplo, os pré-socráticos, Aristóteles, tas, voltados para o bem-estar da maioria da popula- a filosofia burguesa, etc. Estes, buscaram “afastar ção brasileira. Assim como também, fomos levados idealmente da vida dos homens, justamente com o a compreender que, às vezes, um discurso que a particular, as determinações sociais”, passando por princípio seja universalista pode esconder interes- cima, como no caso da filosofia burguesa, do cará- ses eminentemente particularistas, noutras pala- ter de classe da sociedade capitalista; e esta tendên- vras: pode ocorrer que aquilo que se apresenta co- cia afirmava que “o homem deve sempre ser com- mo universalismo hoje, venha a converter-se, ama- preendido como singular, excluindo-se todas as me- nhã (prejudicialmente à toda a sociedade), em inte- diações da socialidade de sua existência, afastando- resses particulares de apenas uma classe, um grupo se qualquer particularidade mediadora” (id.: 119- ou segmento social! 120). _________________________________________________ Em se tratando das relações dialéticas e das mediações existentes entre singularidade- 3 Apesar de indelevelmente presentes neste texto, não me particularidade-universalidade, a eliminação da interessa discutir aqui nem a perspectiva de classe e nem o método lukacsianos, mas apenas demonstrar a sua contribui- particularidade é, por fim, uma luta contra a obje- ção para o debate acerca das três definições em análise. Este é tividade, constata Lukács, desconsiderá-la é lutar um texto sobre Metodologia de Pesquisa e Análise, e não so- contra a concreticidade e contra a apreensão correta bre as concepções marxistas, ainda que cite Marx, Lukács, o da dialeticidade das relações sociais (1978: 120). conceito de “classe social”, etc. Mesmo assim, volto a citar Jacques Le Goff (1990: 192) quando, concordando com o so- ciólogo-filósofo francês Raymond Aron (1905-1983), afirma 6. Conclusão: que “Marx deu, do dinamismo permanente, constitutivo da economia capitalista, uma interpretação que ainda hoje conti- Acredito que o objetivo deste ensaio – o nua válida”. de contribuir para o esclarecimento das categorias teóricas de singular, particular e universal – foi atin- 7. Referências: gido. Como foi visto durante o texto, o nosso co- nhecimento comum acerca de tais conceitos, assim ARANTES, Antonio Augusto. O Que é Cultura Popular. 12ª como dos significados postos pelos Dicionários ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. mais utilizados no país, não são suficientes para um COHN, Gabriel. “Introdução”. In: COHN, G. (Org.). Weber entendimento mais aprofundado acerca das relações – Sociologia. 7ª ed. São Paulo: Ática, 2002. existentes entre particularidade, universalidade e FERREIRA, Aurélio B. H. Mini-Aurélio Século XXI: Escolar. singularidade. 4ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. Demonstrou-se também, como é rica a FREDERICO, Celso. Lukács: Um clássico do século XX. São definição de particularidade, tão usada pela maio- Paulo: Moderna, 1998. ria das pessoas com o sentido banal de HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portugue- “individualidade”, o que faz com que se perca qua- sa. Rio de Janeiro: Objetiva/Instituto Antônio Houaiss, 2009. se que totalmente a sua significância teórico- LE GOFF, Jacques. História e Memória. São Paulo: EdUni- ontológica; enquanto que, na verdade, a particulari- camp, 1990. (trad. Bernardo Leitão et. al.). dade abrange um campo inteiro de mediações, que LUKÁCS, Georg. Introdução a uma estética marxista: Sobre se encontram a meio caminho (mas não em uma a categoria da particularidade. Rio de Janeiro: Civilização posição fixa) entre o singular e o universal. Deve o Brasileira, 1978. (trad. Carlos Nelson Coutinho e Leandro pesquisador observar que estas mediações por vezes Konder). se aproximam mais da universalidade e, às vezes, PAULO NETTO, José (Org.). Lukács. São Paulo: Ática, tornam-se mais próximas ao singular. 1981. O que importa afinal, é que ao se debater WAIZBORT, Leopoldo. As aventuras de Georg Simmel. São hoje as definições ontológico-sociais de particula- Paulo: USP/PPGS/Ed. 34, 2000. rismos e universalismos, haja um tanto mais de se- www.varaldobrasil.com 81
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 BOLO SIMPLES Fonte: http://tudogostoso.uol.com.br/ Ingredientes • 2 xícaras de açúcar • 3 xícaras de farinha de trigo • 4 colheres de margarina bem cheias • 3 ovos • 1 1/2 xícara de leite aproximadamente 1 colher (sopa) de fermento em pó bem cheia Modo de Preparo 1. Bata as claras em neve 2. Reserve 3. Bata bem as gemas com a margarina e o açúcar 4. Acrescente o leite e farinha aos poucos sem parar de bater 5. Por último agregue as claras em neve e o fermento 6. Coloque em forma grande de furo central untada e enfarinhada 7. Asse em forno médio, pré - aquecido, por aproximadamente 40 minutos Quando espetar um palito e sair limpo estará assado www.varaldobrasil.com 82
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Particularidade, Universalidade, Singularidade: Qual o Significado Destes Conceitos? Este ensaio pretende contribuir para o debate atual sobre universalismo e particularismo, esclarecendo me- lhor o significado dos conceitos de particularidade, universalidade e singularidade, na intenção de ajudar na reflexão acerca das respostas possíveis que são colocadas pelas interrogações postas pelo debate aludido. Palavras-Chave: Particularidade, Universalidade, Singularidade. Particularity, Universality, Singularity: Which the Signification of This Concepts? This essay tries to contribute for the actual discussion about universalism and particularism, elucidating the signification of particularity, universality and singularity, intending to aid in the reflection about the an- swers who the debate to ask. Keywords: Particularity, Universality, Singularity. ANDORINHAS Por Afonso Martini As andorinhas vão e voltam – veraneiam. Quando há frio excessivo no sul, sobem serras, Procuram lazer turístico em outras terras; quando cansam, pousam aqui e acolá – passeiam. Aos amigos que encontram nessa revoada, Com abraços e sorrisos gentis presenteiam. Mais amizades e laços de amor semeiam, Quando da terra natal estão afastadas. E assim vivem a vida, encantada, feliz, Entre dormires e acordares no caminho E cumprem sua sina de eterno aprendiz. Vêm do sul; vão ao norte – em outro escaninho; Sua alminha se veste de novo verniz ... e se amam; ... e se beijam com muito carinho. www.varaldobrasil.com 83
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Vítima de Pedófilos nos. A cada esquina um olhar enigmático, mas louco! Por Dhiogo José Caetano A cada passo um medo e, na garganta, um sufoco. A cada momento nada se pensa, sobre o que aconte- ceu, o nosso corpo pode ser pertença de quem abu- Quanto medo. sos tece. Mas tudo silencia e nada nos descansa Não entendia o comportamento daqueles monstros quando surge um novo dia e alguém se apropria da que conviviam à minha volta. Eu era simplesmente doçura da alma de uma criança. uma criança mas, mesmo assim, aqueles seres me Por isso respeite as crianças. Seja humano e se colo- atormentavam. que no lugar das mesmas, assim você verá, ou me- Fui perseguido, obrigado a fazer coisas que nem lhor, sentirá na pele o medo, o desalinho da alma. mesmo eu sabia o que era. Mas, dentro de mim, sentia que era algo errado e que não deveria ser fei- to. Mas aqueles monstros me obrigavam, me ame- açavam. E eu era obrigado a fazê-lo. Eu me sentia culpado. Tinha medo e vergonha, tam- bém. Mas me sentia obrigado. Dentro de mim um desalinho, pois sabia que algo errado estava acontecendo mas, ao mesmo tempo, tinha medo de contar e omitia pra mim mesmo aquela cena terrível. Não fui violentado graça a Deus, mas foram inúme- ras as vezes que me deparei com pessoas ditas ho- nestas e humanas, que olharam pra mim, uma sim- ples criança e diziam, olhando para o seu membro genital: “eu deixo você pegar”. Não foi uma só pessoa; foram algumas pessoas em momentos diferentes da minha vida. Eu me sentia mal, me considerando culpado, um verdadeiro lixo. Nada aconteceu no meu corpo físico, mas na alma ficaram as marcas de uma experiência que nunca será esquecida. Fui utilizado como parte da fantasia sexual de indi- víduos que se diziam humanos mas que, na verdade, não passavam de seres irracionais, monstros da pior espécie. Acreditava que tudo acontecera comigo, era porque tinha que acontecer; mas viver tal experiência é um estigma que fica registrado na alma. No decorrer da vida, encarei essa cruel realidade e sobrevivi e, hoje, busco defender pessoas que, como eu, foram traumatizadas por monstros que não res- peitam ninguém. Diga não à pedofilia. Pois podemos ver ainda na atualidade a coisa acon- tecer em todos os lugares e de variadas formas, mas com um único ser; os mais especiais, puros e frá- geis também: as nossas crianças que são usadas e humilhadas por monstros em forma de seres huma- www.varaldobrasil.com 84
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Simplicidade da infância em uma folha que não estava mais branca. - Terminei. - Vamos colar na parede do meu quarto. O de- senho vai enfeitar tudo. Por Evelyn Cieszynski E foi exatamente o que aconteceu. O desenho deu vida às paredes de madeira sem pintura. O - O que você tá desenhando? quarto era pequeno e mal iluminado, mas o dese- - Nós duas. É um presente pra você. nho fez o lugar ganhar outra aparência. - Mas você esqueceu uma coisa. - Agora vamos brincar! - O quê? - Eu conto e você se esconde. - Não somos do mesmo tamanho. Trocaram um olhar cúmplice. Nada diminuiria - Isso não importa. Gosto de você do mesmo aquela amizade entre duas meninas tão inocentes. jeito. O desenho era marca disso. A imaginação faria Não era um desenho perfeito. Era a imagem de com que elas fossem o que quisessem: duas crian- como duas crianças se viam. Estavam de mãos da- ças e um arco-íris. das, e um grande sorriso no rosto de cada uma. - Por que você não desenha o gatinho que achamos ontem? - E onde posso desenhar ele, do meu ou do seu lado? - Desenha no meio, assim ele será de nós duas. E começou a desenhar com seu lápis preto, um gatinho de olhos e orelhas grandes, parecia assus- tado, exatamente como estava quando o encontra- ram. - Agora termina com um arco-íris bem colori- do. - Mas eu não tenho lápis colorido, só esse preto que ganhei da minha vó. - Não precisa de lápis colorido. É só imaginar que tá colorido. Se nós pensarmos que o arco-íris tá colorido, ele estará. - Tá bom. E vou desenhar também borboletas Desenho: hƩp://jenspiraƟon-now.blogspot.ch/ de todas as cores. E também vou desenhar o sol brilhando. Ela começou a traçar vários riscos que não ti- nham muito significado. Era um monte de borrão www.varaldobrasil.com 85
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Nossa Infância Por Germano Dias Machado Minha infância foi com muita dor Embora estivesse nela também o amor Minha infância é hoje recordação Do tempo em que era sem saber O que o mundo é, Desilusão e Ascenção Minha infância teve sorrisos, mas também decepções Diversidades entre pai europeu duro E mãe brasileira coração amolecido Amolecido de benquerença Longe vai minha infância Oitenta e seis anos sonhando Com infância. Infância que se foi Mas ficou e ficará No sentimento Na memória No ser Ao mesmo tempo alegre e triste Sem lança em riste Minha infância perdura em mim Com todo Freudismo E com todo Junguismo Sensual e ao mesmo tempo espiritual... Que faz a infância nesta Minha ancianidade? Ela, porém, fica... Na foto, o autor www.varaldobrasil.com 86
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 O CACHORRO QUE FALAVA INGLÊS nio em bom e perfeito inglês (aqui traduzido para exercitar a leitura...) o que ele já esperava: _ Não entendo porque não chamou seu Por Ivane Laurete Perotti irmão. Você sabe que ele poderia estar machuca- do agora. Aquela brincadeira é para os meninos maiores. Quando é que vai voltar a conversar? Plínio morava em um bairro que não tinha rede de esgoto. A água suja corria a céu aberto em uma É claro que a voz do cachorro era suave e doce, vala que os meninos menores chamavam de “rio”. típica voz canina, na raça dos vira-latas. Essa raça aprende desde cedo a interpretar os estados emo- Foi nesse “rio” que ele aprendeu a brincar cionais dos seres humanos, a reconhecer a tensão em grupo, a dividir os poucos brinquedos feitos de do ambiente, a distinguir um sorriso maroto de um papelão e madeira, a correr com os cachorros que sorriso bondoso – mesmo quando os dois saem da não tinham dono. Parecia que esse tempo ficara mesma boca, um depois do outro. Eles aprendem muito longe, especialmente se olhado da janela de a ler o mundo que os rodeia e se descobrem capa- seu barraco, em uma noite quente, iluminada pelos zes das mais impraticáveis adaptações. Daí a raça vaga-lumes, invadida pelo barulho dos grilos e do vencer qualquer “pedigree” em uma competição de canto das cigarras. sabedoria e sobrevivência. Os vira-latas eram es- Seus amigos o convidaram para “pescar peciais. Tão especiais ao ponto de acompanhar o boi”, uma espécie de brincadeira que só era feita um ser humano por uma vida inteira sem esperar pelos maiores. Existia certo perigo em correr atrás recompensa. No fundo eles sabiam que a recom- de alguém que estava com os olhos vendados. pensa era só uma falta de oportunidade humana. Especialmente naquele terreno cheio de lixo e bu- Sabiam disso e viviam de esperança: chegaria o racos e coisas velhas jogadas fora. Mas era a brin- momento em que sua raça subiria ao “podium”... cadeira do momento. Ele até acreditava que o no- com certeza chegaria. Mas antes disso, precisava me não era bem aquele, mas seus amigos gosta- dar conta de orientar o seu fiel amiguinho. Plínio vam de fazer diferente, então, diziam criar nomes e estava silencioso demais até mesmo para um pré- brincadeiras novas que eram mais antigas do que adolescente. a idade somada de todos eles juntos. Duque conhecera outros na mesma fase. O silêncio era uma forma de dizer mais Mas nem mesmo um “bem-feito” Plínio quis dizer alto o que não conseguiam gritar. quando viu seu irmão menor ser levado de roldão Ele entendia bem dessas coisas, por isso pelo grupo que corria. O pequeno caiu e levantou emprestava sua voz para o amiguinho. choramingando. Foi Duque quem o socorreu com uma lambida e um abano de rabo solidário. Grato, Com o único detalhe a se observar que o menininho voltou para mais perto da porta do sua língua era o “inglês”. barraco como que segurando o cachorro por uma Nascera em um navio mercante, daque- coleira invisível. les que só aportam para descarregar mercadorias. Será que Duque havia contado o segredo Em um dia de muita chuva, após perder uma parti- e agora o seu irmão menor também... não! Duque da de cartas, Duque resolveu descer para o cais não falaria nada para ninguém, até mesmo porque, no qual o navio aportara. ninguém acreditaria nele. Descera e nunca mais voltara. Mas, para não ficar em dúvida, Plínio saiu Descobrir o calor do sol com os pés fir- da janela pulando-a como sempre fazia. Seus pas- mes na terra era uma experiência que ele queria sos pareciam pesados para um menino de apenas manter para o resto de seus dias. doze anos de idade. Tudo parecia pesar muito nos últimos dias: até sua língua colara entre os dentes, e seus lábios haviam esquecido de abrir e fechar. Cansado das marés da vida, encontrara Ainda assim, sentindo alguma coisa que Plínio sentado em uma calçada suja, enquanto es- não sabia explicar, sentou perto de seu irmão en- perava pelo pai, um estivador não muito forte para quanto este dizia ao Duque: a profissão. _Você é um cachorrinho bom. Nunca vá Mas, isso era coisa que ele ainda não en- embora daqui. Vou encontrar uma caixa seca para tendia bem. você dormir. Aprenderia com o tempo. Duque, sereno como sempre, disse ao Plí- Quando disse a primeira palavra: www.varaldobrasil.com 87
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 _ Hello, boy! (opa!... esquecemos do trato: _ Olá, _ Yes, children, yes! I do... ou seja, sim, cri- menino!). ança, sim. Eu lhe dou um algodão-doce, desde que eu possa comprá-lo, bem entendido. Teve o silêncio como resposta. Dando voltas ao redor de si mesmo, Duque Precisou de muito jeito para mostrar cari- deixou claro que não iria desistir de “dar” o doce nho e se fazer ouvir. para o menino. Curiosamente Plínio o ouviu. Plínio tinha certeza disso, conhecia muito e Ouviu e entendeu como se falassem a muito bem o seu amigo canino. mesma língua. As palavras só saíam da boca de Duque, Remexeu nos bolsos furados para ganhar mas Plínio falava com os olhos. tempo, pois há muito estava sem nenhuma moedi- Tinha olhos profundos e inteligentes que nha. A última delas entregara a sua mãe para com- diziam conhecer mais lugares do que ele próprio pletar o dinheiro do ônibus até a cidade. conhecera enquanto fora marinheiro de porão. Olhou para o rosto do irmão menor e se já não falava nada, sentiu vontade de estar ainda mais distante. Eram os olhinhos de uma criança que pedia um algodão-doce. Mas doces custam dinheiro e ele não tinha nada. Como dizer não a ele se exatamente essa palavra era a que estava atravessada em sua gar- ganta a cortar-lhe o ar, a alegria, a apertar como se tivesse dedos fortes e... como dizer sem dizer? Outra vez o pedido: Plínio falava em silêncio, o que não queria _ Mano... compra?! dizer que ele não falasse. Duque podia sentir a tensão aumentar. Muito pelo contrário. Suas palavras preci- savam ser ouvidas de um modo nada tradicional. E a bicicleta com o mastro colorido se afas- tava balançando os doces amarrados, como que E isso era uma coisa um pouco difícil para dizendo: “... depressa!... ande! compre agora, pois os seres humanos acostumados com aquilo que eu só volto amanhã!” parece igual. Ela não pararia a menos que alguém a cha- Enquanto falava com Plínio, foi observando masse. como ele construía cuidadosamente o seu discur- so. Foi aí que teve a ideia e pôs-se a latir para a roda de trás. Era notável! Cada expressão de sua face valia por longas frases, por um bom grito, por uma Latiu, correu, mordeu e, parou o vendedor risada aberta, por um choro molhado. em plena rua esburacada. Cada revirada de olhos valia por listas de _ Cachorro louco! Larga daí! – vociferava o palavras coloridas, ou não! doceiro balançando seus balões coloridos. Às vezes, sabia que ele precisava ficar qui- eto para ouvir a própria voz, em outras, preferiria que a fase do “eu-não-falo-para-me-ouvirem-falar!” As crianças que estavam por perto se apro- acabasse logo. Era difícil falar inglês em bom ca- ximaram todas de uma vez. chorrês para um menino em fase de “casulo”. Plínio e seu irmão tentaram puxar Duque para longe, sem sucesso. Foi o irmãozinho de Plínio que interrompeu Dentes, baba de cachorro, rosnados e até seus devaneios. latidos de “eu sou mau” emprestavam à cena um _ Plínio!?Eu quero um algodão-doce... dá? ar de filme de Charles Chaplin. www.varaldobrasil.com 88
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Quanto mais os dois irmãos tentavam tirar colorido. o cachorro do pneu, mais seus dentes enterravam- Era um irmão muito querido, chamava-se se na borracha. Bené, nome que já fora de seu avô nordestino. Duque não precisou dizer mais nada. Acomodaram-se os dois junto a Bené e as- _ De quem é este animal? De quem?_ berra- sim ficaram pelos poucos minutos que durou o res- va o vendedor. to do algodão-doce. _ É nosso, tio! – respondia em seguida o ir- mãozinho de Plínio. Por mais de dez minutos, por entre os gritos Com o fim do dia, vinha o silêncio maior. de alguns e as risadas de outros, o vendedor solta- va a mesma pergunta e o menininho respondia a Era o momento em que Plínio procurava mesma resposta. por razões alheias ao seu entendimento. Não se sabe quem cansou primeiro. Gostava de ficar olhando as estrelas por detrás das nuvens grossas, de procurar por algum Mas foi o vendedor que propôs: sinal no céu que indicasse uma novidade. _ Quem tirar este bicho de minha bicicleta ga- Qual? Não sabia. nha um algodão. Quem... Apenas sentia vontade de estar ali, quase sem estar, como uma espécie de viagem sem fron- Nem teve tempo de repetir. teiras, sem ruídos, sem medos, sem perguntas, O pequeno que já estava segurando o rabo apenas o céu para escorregar devagarzinho, sem de Duque, tomou o cachorro pressa. no colo. Milagrosamente o vira-lata soltou-se da Nessas horas, a única companhia era Du- borracha _ agora babada_, em silêncio absoluto. que. Silêncio total, completo! O cachorro também viajava pelas lembran- Plínio olhava atônito para o irmão menor e ças boas e saudosas do seu tempo de marinheiro. para o cachorro empoleirado em seu colo. O período da escola era o mais difícil. Com a mãozinha por entre as patas de Du- Duque não podia entrar e Plínio ficava so- que, o menino pegou o algodão-doce e agradeceu. zinho, muito sozinho. Outras crianças seguiram em alarido a bici- Seus colegas eram falantes, barulhentos, cleta que se esforçava para chegar à esquina en- gostavam de brincar, jogar, brigar, discutir. quanto o vendedor soltava palavras de tamanho Conversavam sobre todos os assuntos e muito longo para serem escritas aqui. de nenhum deles Plínio participava. Não por falta de procura, mas com o tempo, todos foram acei- tando e acostumando-se com o seu silêncio. Com boa parte do algodão na boca, o ir- Então, ficava olhando tudo de longe, co- mão menor de Plínio voltou para a porta do barra- mo que vivendo com os olhos o que nem os lábios co. nem as pernas conseguiam mobilizar. Duque profetizou em alto inglês (já traduzi- Estava assim há um tempo longo demais do): para um menino. _ Esse menino nasceu para a política. Sa- Duque lembrava-lhe constantemente que precisa- be a hora certa de pedir e de aceitar. Veja só com va viajar com os pés no chão; que as suas ideias que satisfação se lambuza nesse doce gosmento... deveriam ser compartilhadas, que deveria pergun- tar suas dúvidas, dizer de seus sentimentos, mos- Plínio ameaçou mover os lábios, mas a cola trar a língua vez ou outra, piscar o olho para al- invisível vinha de dentro, de muito fundo de sua guém. alma e não era assim tão fácil retirá-la. Assim como que se pudesse rir de si mesmo, conversar com seus botões (é só uma ex- pressão, modo de dizer, mas valeria o esforço ten- Gostou de ver o irmão lambuzado de açúcar tar se isso lhe fizesse bem). www.varaldobrasil.com 89
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 No final da aula, Plínio era esperado E tinha: o “rio” arrastava todo o tipo de por uma enxurrada de observações. sujeira . Duque não se calava até o amigo en- Não era impossível para uma criança ima- trar em casa. ginar um tubarão em plena vala de esgoto. Durante o almoço que era muito rápi- Deveria ele explicar que “aquilo” não pas- do e simples, Duque permanecia deitado em silên- sava de água suja e poluída? cio, tentando compreender o silêncio que Plínio Se explicasse, Bené não teria mais onde construíra. brincar e inventar estórias. Nenhuma resposta em palavras era dada Nem ele e nem as demais crianças do em nenhum momento. bairro. A mãe, mais apreensiva, dizia que o me- Se achava perigoso deixá-las próximas nino estava com um problema grave. ao lixo que boiava? Com certeza, mas conseguia Já o pai, que também fora menino há sempre que seu irmão ficasse à margem do “rio” e muito tempo atrás e ainda lembrava de como era não entrasse na água contaminada. interessante crescer, respondia que era coisa de Mas o mesmo não podia dizer das ou- menino. tras crianças. Era comum adoecerem por causa do Logo passaria. esgoto. Era muito comum. Só Bené tentava obter uma resposta: _ O Duque comeu sua língua, comeu? Fala... diz que eu vou buscar outra para você. Comeu?... Naquela tarde, Plínio pensou que nada Uma espécie de cócegas roçava sua boca poderia ser diferente. na hora em que ouvia a repetida pergunta do irmão As crianças brincavam a sua frente en- menor. quanto ele ouvia Duque falar sobre sua necessida- Às vezes pensava que essas cócegas esta- de de “abrir-se” para as conversas, para as parti- vam correndo depressa demais e explodiriam em das de futebol, para... sua boca abrindo seus lábios outra vez. _ Hey!... ops! Ei! Quem é aquela que dobra a Em momentos assim, abaixava a cabeça esquina? É a sua prima Marina? Quem é? Quem assustado, imaginando que todas as palavras não é? ditas sairiam de uma vez só pela sua boca e junto com elas as risadas, os gritos, os choros. Os olhos de Plínio não se voltaram para Era muito estranho e ao mesmo tempo responder no silêncio eloquente das palavras au- conhecido demais. sentes. Era algo que já fazia parte dele sem ser Seu pescoço ainda estava no mesmo exatamente dele. lugar: voltado para a esquina onde sua prima Mari- Era como descobrir um outro morador den- na caminhava junto a uma outra menina que nunca tro de sua cabeça cheia de pensamentos. vira antes. A tarde era interminável. Faltou terra embaixo de seus pés. Bené ainda não frequentava a escola e en- tão ficava sob sua responsabilidade. Elas caminhavam para eles como se apenas isso tivessem para fazer. Achava difícil cuidar do irmão que tinha tan- ta vontade de correr e brincar e ainda mais, que E se aproximavam animadamente, muito sentia fome o tempo inteiro, e que fazia tantas per- rapidamente, sem dar-lhe tempo para escavar um guntas. buraco fundo e esconder-se dentro. Era Duque quem lhe ajudava nos momentos Buracos, buracos, buracos... a rua estava mais cruciais: cheia deles mas as suas pernas resolveram não obedecer. _ Let’s go! ... ou seja: vamos! Vamos Plínio. Corra atrás de seu irmão porque ele acha que no E Duque, “bobificado” olhando para sua “rio” tem tubarão. prima desatara a falar em um inglês tão rápido que não era possível entender. www.varaldobrasil.com 90
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 vez. E agora?, pensava Plínio. Cadê sua mãe? Não era hora de ela chegar? Por que não Naquela noite as estrelas sentiram estava ali quando ele precisava dela? saudade. Tudo girava desordenadamente ao seu Sentiram falta da admiração do menino redor. Até seu irmão parecia magnetizado por que as iluminara com seu olhar sonhador noites e aquelas duas meninas que invadiam o bairro e noites. resolvera soltar a pipa que segurava. Somente Duque sabia que uma estrela Ah!não! cadê a chave da porta? Cadê a de outra galáxia cintilava pelo bairro pobre. porta? Onde ficava sua... Era uma estrela “descoladora” de palavras, uma “desgruda-lábios”, uma “quebra-silêncio” mui- to especial. Tão especial que Plínio tratou logo de Não deu tempo para nada. dizer-lhe que fazer um certo silêncio nesta idade era normal. Foi o tempo que lhe engoliu a vontade, as forças e o sangue. Ele melhor do que ninguém entendia do assunto. A terra afundou seus pés muito vagaro- samente a ponto de gerar-lhe uma tontura boa. E a estrela “descola-lábios” respondeu com um sorriso nos olhos... Tontura descola cola, tontura descola lábio, tontura descola palavras, tontura de menino Apenas nos olhos! “bobão”. Não! Bobo ele não era, sabia que não! Mas ao sentir aquele sorriso que passara roçando suas bochechas ouviu todas as palavras agruparem-se dentro de sua boca e saírem orde- nadamente para fora: _ Olá, prima! Passeando aqui no bairro? Como está a tia Zulmira? Duque encolheu-se antes do salto. Bené gritou para quem desejasse ouvir: _ Devolveram a língua dele... devolve- ram a língua dele! Ba!Bá!Baba! Apenas Plínio e as meninas fizeram ares de não entender. Se entenderam fingiram não ouvir, se ouviram, decidiram esquecer. O motivo das risadas centrou-se nas estripulias de Duque. Cachorro estranho esse, muito fora de controle latia sem parar, levantando o pequeno rabo e caminhando em círculos, desenhava com as patas no chão. _ Stop! Duque. Please! Ora... e quem sabia que Plínio falava inglês? Mais um bom motivo para estender a conversa para lá e lá e volta de lá para cá outra www.varaldobrasil.com 91
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 NAS PÁGINAS DA MEMÓRIA E na praia do Gonzaga, em Santos, no Gran- de Hotel, nos meses de verão. Por Mariney K No carnaval, sempre uma fantasia nova à mi- nha espera: baile no Clube Tietê. O tempo passa. E passa rápido. Alegria, disposição, dedicação à família foram Deixa para trás, uma após outra, finas cama- suas marcas indeléveis. das de lembranças que desfolhamos, de vez Quando o câncer, chegou, tomou todo o cor- em quando, revivendo momentos ora felizes, po. ora nem tanto. Cabelos grisalhos emoldurando uma face sem Agora, decido desfolhar algumas. rugas, muito branca. O que se segue. Expressivos olhos verdes. Dona Rivka. Uma linda judia polonesa que Não tinha idade mas envelheceu, subitamente. aportou por estas terras, com o marido e os No final, passinhos trôpegos, vagarosos. filhos, fugindo de Hitler. Pelo corredor, só se ouviam: Aqui casou os filhos, teve seus netos e morreu _Ai...ai...ai... Mulher do lar, sempre manteve seu espaço Um atroz sofrimento acompanhou seus últi- "dentro da linha". mos dias. Quando mais nova, frequentemente, às voltas Eu, muito pequena, não pude me acercar dela com convidados e festas. Era uma primorosa nos seus derradeiros momentos. anfitriã. Naquele tempo, as crianças eram afastadas Pratos de porcelana, talheres de prata e taças em momentos tristes e solenes. de cristal. Tudo tinha vindo com ela da Euro- Personalidade forte e dominadora. Ela era pa. uma presença, sempre, muito marcante. Ele- Mãos habilidosas na cozinha. gante e altiva. Com ela, aprendi a fazer macarrão e torta de O único que conseguia driblá-la era meu pai: o ricota. seu xodó. _ Hindele, a massa! Vem! voz suave buscando Ele era seu filho caçula e fazia "gatos e sapa- minha companhia. tos" com esta preferência. Hoje esta torta é obrigatória em todas as co- Minha amada vovó Rivka. Ela amava ser avó. memorações da família. Virou tradição. Herdei dela os olhos e a personalidade. Suas mãos são a lembrança mais forte pra Hoje, já sou avó. Mas sou uma avó de compu- mim. tadores...rs...sem os requintes de uma outra Cortando a massa em tiras bem finas de onde época. sairiam a sopa de galinha (o forte aroma, do Fecham-se as folhas deste período. aipo, me acompanha até hoje) e a tradicional Essas as minhas mais remotas lembranças macarronada. dos meus primeiros anos. _ Hindele! ela me chamava. Hoje fica a saudade imensa e a lembrança de Era o som do amor incondicional e devotado. alguém a quem pude fazer feliz, sem mesmo Eu sabia que, após este chamado, só coisas saber. boas viriam p'ra mim.. O maior carinho descascando as uvas do tipo "rubi", tirando os caroços e me entregando, com doçura, a polpa limpinha e suculenta. De outra feita, me levando à Confeitaria Co- lombo. eu, com vestido de organdi e grandes laços no cabelo, parecendo uma princesinha. Os garçons a conheciam. _Lá vem a Senhora Rivka! E se desdobravam em atenções à nós duas. Mais páginas desfolhadas, trazendo à tona momentos únicos de uma convivência abenço- ada. Férias! Ahhh...as férias. Em Atibaia, na Estância Lince. Todos os anos, no inverno. www.varaldobrasil.com 92
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 DOCE DE LEITE Fonte: hƩp://panelinha.ig.com.br/ Ingredientes 4 xícaras (chá) de leite 2 xícaras (chá) de açúcar Modo de Preparo 1. Numa panela, junte o leite e o açúcar e leve ao fogo baixo, mexendo sem- pre, até o açúcar dissolver (cerca de 10 minutos). 2. Cozinhe, mexendo sempre para o leite não ferver, por mais 1 hora ou até o creme engrossar e adquirir uma cor de caramelo-claro. Se necessário, deixe por mais tempo para atingir o ponto certo. 3. Quando o doce estiver com a cor de caramelo, retire a panela do fogo e dei- xe esfriar. 4. Transfira para um pote de vidro esterilizado e guarde na geladeira por, no máximo, 10 dias. Dica: Potes de vidro podem ser reutilizados para conservas, ou mesmo geleias, feitas em casa. Mas primeiro eles devem ser muito bem esterilizados. Para isso, leve bastante água para ferver numa panela grande; coloque o vidro e sua tampa na panela e deixe ferver por no mínimo 15 minutos. Para retirar o vidro e a tampa, utilize uma pinça de cozinha e deixe-os escorrer sobre um pano de prato limpo. Atenção: não coloque o vidro sobre nenhuma su- perfície muito gelada, como mármore, pois o vidro pode estourar. Só use os po- tes esterilizados depois que eles esfriarem totalmente. www.varaldobrasil.com 93
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 VOVÓ NECA Por Lunna Frank Saudades da minha infância na casa da minha avó, que delicia sentir cheirinho de bolo de fubá, bolachinha de na- ta. Pãozinho caseiro, manteiga fresca, tudo quentinho, feito na hora café da manhã na casa da Vovó Barbara, que me- sa farta com coisas, deliciosas e saborosas, lanche, almo- ço, jantar e a ceia antes de dormir, chazinho de erva- cidreira com biscoitinho de araruta. Na casa da vovó paterna onde passava todas minhas fé- rias não existiam melhor lugar no mundo. Colinho de Vó, histórias e causos, penteava meus cabelos compridos, umas cem vezes para dar mais brilho. Eu a neta caçula, preferida de todos, tios, primos a família toda adorava me paparicar, aos do- mingos o almoço de domingo lembro-me de meu pai, na cabeceira da mesa e vovó na outra, meus tios e primos ao redor, mamãe sempre sentava ao lado da vovó. A reunião de família aos domingos era o orgulho da minha querida avó família estruturada, com aprendizado do meu Vovô Saturnino que sempre nos ensinou que uma família tem que ser igual uma arvore com raízes, tronco, folhas flores e frutos. Minha titia Cidinha, sempre pronta para as ordens da minha Avó, titia não se casou para cuidar da vovó um amor incontestável. Minha tia parecia uma formiguinha, pra lá e pra cá, afoita a cuidar da casa das toalhas bordadas e os lençóis de linho e cambraia com cheirinho de lavanda. Como eu era feliz minha avó sem- pre muito elegante, olhos esverdeados que mudavam de cor, cabelos bem loiros quase blondor natural, ondulados e compridos, trançados dos dois lados, 2 pentinhos com florezinhas delica- das enfeitavam as laterais do cabelo , vestido cinturado com estampas claras e delicadas, sapa- tinho de pelica, combinando com a carteira grande que carregava debaixo dos braços. Sempre com meia fina cor da pele, minha doce avó tinha um jeito angelical cheirinho de colônia alfazema e batom rosado bem clarinho levemente passado nos lábios. De mãos dadas íamos passear e caminhávamos pela cidade ate a confeitaria a Paulicéia, para tomar sorvetes naquelas tardes quentes de Jundiaí. Missa aos domingos e o terço nas quartas-feiras na casa de amigos, adorava as reuniões quan- do a imagem do Sagrado Coração de Jesus, uma imagem enorme que chegava a casa da Vovó tinha reza, crianças para brincar o lanche servido em seguida. As casas da vovó, muito grande e aconchegante, com várias arvores frutíferas, adorava subir no pé de jabuticaba colher e come-las, um prazer inenarrável. Colo, carinho e beijo da minha amada Vó Barbara ou Vó Neca assim que a chamava, não exis- te no mundo nada melhor, lembrança saudosa da infância que não volta mais. Hoje Vovó Neca , com certeza esta no céu fazendo laços de fita no cabelinho dos anjos. Saudades Eterna… www.varaldobrasil.com 94
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Nossa infância num lugar esquecido... Por Maria Eugênia Para a minha querida e amada irmã, companheira de aventuras e principalmente de traves- suras. ...feita de catar conchinhas pela praia, ou sentadas lado a lado, a observarmos as ondas quebrarem nas pedras estáticas. As bicicletas pesadas demais para se andar na areia e o esforço para alcançarmos a ense- ada antes da cheia. Festas de aniversário com balões coloridos, e eram sempre iguais nossos vestidos. Eu sempre fazendo birra e você sempre sorrindo. E neste mundo perdido eu era Robinson Crusoé e você o Sexta-feira, meu grande amigo. A areia fina da praia grudava em nossos corpos e brilhava. E nós éramos encantadas... Nós éramos fadas... Fadas de trancinhas. Havia a caça ao caranguejo, mas não era uma injustiça. Nós com um pedacinho de carne na armadilha, mas geralmente era o caranguejo quem vencia. E assim o tempo passava despercebido enquanto guardávamos aranhas nos vidros, coleci- onávamos besourinhos e escavávamos riozinhos, onde navegávamos nossos barquinhos de folhas e gravetinhos. E quando a noite chegava com lua cheia, ainda havia as conversas em torno da fogueira. E cada história que se contava, era nossa avó quem protagonizava. A vovó matava o homem que roubava criancinhas, era ela quem prendia o bicho papão num porão e debaixo das asas dela, a vida era tão segura... Era tão certa e bela... Era tão pura! Por fim a gente ia, com as mãos passadas sobre os ombros uma da outra, dividir a mesma cama. E sempre havia um outro dia para brincar com você... Minha Irmã... Minha Amiga! Numa vida que de tão bela, parecia que nem existia. Nesse tempo de nossas vidas que mais parecia história de um livro, perdido no tempo... Num lugar esquecido. www.varaldobrasil.com 95
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 A PITANGUEIRA Por Marilu F Queiroz Quando se é pequeno o mundo é visto como uma fantasia que não tem fim. Tudo é vas- to e intrigante como a nossa imaginação fértil e cheia de sonhos e, como toda criança criada numa casa cujo quintal era imenso e repleto de árvores, me sentia livre e feliz por ter tanto es- paço para brincar e extravasar energia. Podia desfrutar das mais diversas aventuras, brin- cadeiras, desde apenas subir nas árvores, até brincar de balanço ou obrigar o meu irmão a comer as misturinhas que fazíamos aproveitando lata vazia de manteiga, toma- tes e verduras colhidos da horta, que meu pai cuidava com tanto carinho. O fogão era feito com pedras, gravetos e pequenos pedaços de madeira do quintal, que queima- vam muito rápido de tão secos. De todas as árvores lá de casa, uma velha e grande pitangueira era o meu xodó, subir nela era muito estimulante, lá no alto era o meu mundinho carregado de fantasias e sonhos, povoado de criaturas advindas de minha mente criativa. Debaixo dessa árvore havia um balanço preso a um grosso galho repleto de folhas ver- des e frutinhas vermelhas e saborosas, não muito doces e tinham um gostinho meio azedo, que eu adorava. Em cima da pitangueira imaginava aventuras, cantava e me balançava de bra- ços abertos como num voo, presa somente pelas pernas, nos galhos mais altos. De lá enxerga- va tudo o que acontecia no quintal e muito mais: via o horizonte até onde a imaginação podia alcançar. Nesse meu mundo particular era muito feliz. Para lá carregava meus cadernos de história e es- tudava falando e cantando tão alto, que meus vizinhos podiam aprender também um pouco mais, os feitos dos personagens da história do Brasil. Como é bom ser criança num quintal as- sim repleto de aventuras. Um prato cheio para uma cabecinha recheada de sonhos e imagina- ção criar histórias e aventuras, onde eu era sempre a heroína. www.varaldobrasil.com 96
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 QUANDO EU ERA MOLEQUE fazer zunir com a fieira o pião. Com um canudo do talo da folha do pé de Por Mário Rezende mamão eu enchia de ar as bolinhas de sabão. Quantas pipas empinei nos meus dias de Viravam brinquedinhos as latas de leite em folguedos. pó, Era um prazer imenso “dar a elas” a linha do que serviam para fazer carrinhos. carretel. Cheias de areia e puxadas por um barbante, Quanto mais de mim elas se afastavam, uma, duas, três ou mais formavam um mais prazer me davam por poder brincar lá no comboio céu tão divertido como o mergulho com a turma com outro menino bem distante, segurando a nas águas do arroio. O desafio que proporcionavam os carrinhos linha na mão, de rolimã enquanto eu estava bem firme com os pés no descendo as ladeiras arborizadas da minha chão. cidade; Ah, Quantas lembranças me traz aquele subir na árvore com outros garotos em tempo lá de trás! disputa As brincadeiras infantis, meninas e meninos para colher a que parecia a mais apetitosa num trinar alegre quando todos se juntavam fruta como a algazarra que faziam na hora do e saboreá-la sentado à sombra que oferecia, recolhimento, observando bandos de aves em piruetas lá no ao crepúsculo, os bandos de pardais, céu. avezinhas que pouco se vê ou ouve nos dias Minha caramboleira preferida, o lugar aonde atuais. eu me escondia Como era divertida a pelada com a bola, para ficar com meus pensamentos vagando brincar de bandeirinha, pique-esconde e tá ao léu. contigo! Amiga e companheira, me balançava em seus Jogar com as multicoloridas bolinhas de gude; braços girar no corrupio, a brincadeira do anel à e me enchia de abraços, quando me sentia o noitinha, mais infeliz. para ganhar beijinhos das cobiçadas Desse modo minha infância passou num menininhas tempo embalado no despertar das intenções de namoro e pelo menos uma parte do que naquela sorrateiro, época eu fiz, na aurora da juventude, por demais me dá vontade de viver outra vez. prazenteiro. Isso quando puder, com meus filhos ainda As festas do mês de junho, isso então! faço, Pular fogueira, comer canjica e batata ou com os futuros netos, talvez, assada, apesar de o ambiente estar muito modificado, soltar fogos e balões, dançar a quadrilha tornando muito pequeno o adequado espaço. sempre animada... Em qualquer idade ou situação, sempre valiam muito os folguedos de improviso ou o brinquedo feito à mão: a bola de meia, o jogo de prego, e futebol de botão, www.varaldobrasil.com 97
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 O garoto que perdeu a sombra muito menos a suas sombras. E na floricultura, ele esperou que sua sombra, res- friada pela umidade, se denunciasse por um espir- ro, o que não aconteceu. Por Sonia Rodrigues Escondendo-se na sombra de outras pessoas, Marquinho voltou para casa, pulando ao lado da professora, agachando-se para brincar com o ca- Marquinho era uma dessas crianças que não per- dem a cabeça porque está grudada no pescoço, chorrinho da vizinha, e com isso, ficando na som- como gostava de dizer sua mãe. bra dos outros. Marquinho perdia tudo: seu pião, seu doce, sua E, entrando em casa continuou a procurar por aqui escova de dente, sua mochila da escola, o dinheiro e por ali, na esperança de que a danadinha hou- da pão, a chave do portão... vesse voltado para casa, até que o irmãozinho o Naquele dia, ao sair da escola, foi com os amigos surpreendeu, e perguntou: brincar de gigante. Era assim: eles ficavam de cos- - Posso ajudar? tas para o sol do final da tarde e viam quem tinha a - Não! – disse Marquinho, enfiando-se debaixo da maior sombra. Mas, diante de Marquinho, não ha- cama, só para ser imitado pelo irmão menor quase via sombra nenhuma! Os amigos, entretidos com no mesmo instante. suas próprias sombras, ainda não haviam percebi- - O que você está procurando? do nada, então Marquinho tratou de correr para - Eu? Nada... dentro da sala de aula, a procurar pela sombra - Eu venho seguindo você desde a esquina, e... perdida. Nada dentro da carteira, nada debaixo - Como é que você pode estar me seguindo desde dos bancos, nada atrás da porta, nem tampouco a esquina se você não saiu de casa? dentro do armário da professora, que, irritada, tra- - Seguindo da janela, eu estava espiando... conta tou de expulsar dali o aluno retardatário. pra mim, vai, conta logo! Marquinho vagou pelo pátio do recreio, olhou na - Ai – suspirou Marquinho – desta vez a encrenca quadra de esportes, até no parquinho dos alunos é das grandes. menores, sem sucesso. O menino pensou em todos os lugares aonde ha- - O que é que você perdeu? via ido desde a manhã. - Você nem vai acreditar. – e o menino suspirou, Marquinho lembrava-se de que havia agitado o infeliz. boné da sombra pelos degraus da escada ao en- - A cabeça é que não foi, está bem grudada aí no trar no carro de papai... e se a sombra houvesse seu pescoço. – riu o caçulinha. ficado no carro? Não havia como saber antes da - Foi a minha sombra. – e o garoto suspirou de no- noite, então começou a procurar na padaria, na vo, confuso. quitanda, na farmácia, na banca de jornais, e até - Ah, isto eu quero ver! – e o menorzinho puxou o na floricultura, onde papai parara pela manhã e irmão para o claro, onde, para seu espanto, só comprara um belo buquê de rosas para mamãe. mesmo o Marquinho, e nada da sombra de Mar- O menino entrou na padaria e olhou nas pratelei- quinho. ras de biscoitos, no balcão dos queijos, debaixo do - Vai ver que sua sombra dormiu demais e ficou na balcão do caixa...havia muitas sombras por ali, sua cama. mas não a sua. - Eu saí com ela – disse Marquinho, mas, por sim Na quitanda foi mais complicado, o balconista ou por não, foi olhar debaixo da cama. achou que ele queira levar alguma fruta sem pa- Por sorte, a mãe estava no banho, então Marqui- gar, e ele não queria ser surpreendido sem som- nho tinha algum tempo para procurar em paz, en- bra, e ficou se esgueirando pelos cantinhos escu- tão, ele e o irmão começaram a vasculhar cada ros, deixando o português mais desconfiado e foi cantinho da casa: atrás do sofá, das cortinas, den- corrido para fora com ameaça de vassouradas. tro da máquina de lavar, e, por fim, na biblioteca, A banca de jornal foi o local mais tranquilo para onde, ao entrar, Marquinho viu, com surpresa, a procurar, porque ali as pessoas normalmente es- sua sombra na parede, debruçada sobre a escriva- tão lendo e não prestam atenção aos outros, e ninha de papai. www.varaldobrasil.com 98
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Marquinho correu para lá. Ele sentou-se ali até na véspera da prova, para aprender dormindo. E ocupar exatamente o espaço da sombra. Mexeu funcionava direitinho: se eu recitasse a tabuada de leve a cabeça, e a sombra o acompanhou. trinta vezes, antes de colocar debaixo do traves- - Graças! Posso voltar para a sala. seiro, era tiro e queda: decorava tudinho. – e pis- Quando ele se levantou, porém, a sombra nem se cou o olho para os meninos, que sorriam em cum- mexeu. Ele tornou a sentar-se. E agora? Aberto plicidade. – mas nunca sentei em cima do livro sobre a escrivaninha, um livro fininho. Marquinho pra jantar, não. olhou de relance para a página aberta: Marquinho acabou o jantar, abriu o livro do grego ‘Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia en- ao acaso, e, em voz alta, leu: quanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de ‘é necessário, portanto, cuidar das coisas que tra- velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem zem a felicidade, já que, estando esta presente, ou demasiado velho para alcançar a saúde do tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcan- espírito.’ çá-la.’ - O que é isso? – perguntou o irmão mais novo, Mamãe e papai, que eram ambos professores, se que ainda não sabia ler. entreolharam. E acabaram por falar, quase ao O menino olhou a capa do livro e leu em voz alta: mesmo tempo, o que fez a família inteira rir: Carta sobre a felicidade. - Bem diz o ditado que ‘quem sai aos seus não - Quem escreveu isso? degenera’. - Com o nome de Epicuro, deve ser grego. Um - Você sabe o que traz felicidade, papai? daqueles gregos de que o avô tanto gosta de fa- - Claro que sei! É estar em paz com minha famí- lar. lia. Isto é felicidade: todos juntos, com saúde, len- - Eu adoro as histórias de gregos. – o irmãozinho do filosofia grega a procurando sombras nas pare- animou-se – Aquele Ulisses sabido, que ouviu o des. canto das sereias, e enganou o gigante de um - Sombras, não, só a sombra do Marquinho – co- olho só...Você também gosta. Leva o livro com meçou o menorzinho, mas Marquinho o interrom- você. peu: Marquinho achou a ideia boa. Pegou o livro, le- - A minha sombra gosta de ler. Ela hoje fugiu de vantou-se, e a sombra levantou-se junto. Ele já mim e se escondeu na biblioteca. estava se sentindo de novo normal, quando a É claro que a mamãe e o papai pensaram que o sombra empacou, bem em frente a uma pilha de Marquinho estava fantasiando. livros de matemática da mãe. O fato é que a sombra do menino lera muitos li- - E agora essa! – e o garoto falou com a sombra, vros interessantes naquela tarde, e daquele dia sentindo-se um tanto quanto bobo – Bem, o que é em diante, Marquinho começou a gostar de livros, que você quer, afinal? – para surpresa dele, a e tornou-se um leitor voraz, e mais tarde, um ho- sombra apontou para a estante. mem muito sabido. O irmãozinho riu. - Pelo jeito, sua sombra é viciada em livros. Marquinho começou a folhear um por um, até per- ceber o que a sombra queria: um livrinho cheio de gravuras coloridas, jogos cheio de números, pe- quenas histórias sobre curiosidades matemáticas. O interesse de Marquinho foi imediato. - Ora, ora, até parece que a matemática pode ser divertida, como diz o papai. Mamãe veio chamar os meninos, pois papai aca- bara de chegar em casa e o jantar estava pronto, e achou curioso que Marquinho tivesse dois livros na mão, e que os dois meninos a toda hora olhas- sem o chão e as paredes. - O que vocês estão procurando, afinal? - A sombra do Marquinho – disse o irmãozinho. - Essa ele não perde – disse a mãe – está bem grudada no corpo dele. - Quem dera! – disse Marquinho, assustado. Toda vez que ele tentava se separar dos livros, a som- bra empacava. O jeito foi sentar-se em cima dos livros pra jantar. - No meu tempo de menino – disse o papai – a gente colocava a tabuada debaixo de travesseiro www.varaldobrasil.com 99
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 NOSSA INFÂNCIA Por Odenir Ferro Como éramos felizes nós todos. Sempre unidos, Ora brincando, pulando, correndo, recriando sons De bichos, imitando os cantos dos pássaros, tudo Era uma alegria sem fim, enquanto brincávamos... Entretanto, pelos motivos mais banais que fossem, Estávamos brigando, gritando, se agredindo... Com Nossos egos inflamados de pura adrenalina cheia de Muitos rancores... Para logo a seguir, abrirmos nossos Corações, nossos sorrisos, e continuarmos com as inúmeras Brincadeiras que para nós nunca tinham fim; tudo era festa! Abrigávamos as nossas almas, as nossas inocentes emoções, Junto aos troncos dos arvoredos que compunham as diversas Naturezas das árvores frutíferas das mais variadas espécies de Qualidades: altos pés de mamões, extensas parreiras de uvas, Jabuticabeiras de frutos suculentos e doces; pés de romãzeiras, Muitos pés de limoeiros e uma grande quantidade de laranjeiras. Compostas por diversas qualidades de laranjas. Envolvíamo-nos, Adjuntos aos troncos, nos mais altos galhos daqueles frondosos E velhos arvoredos. Fazíamos deles, os nossos esconderijos, Acariciando por horas a fio, todas as texturas mais nobres, Daqueles nossos imensos sonhos que nunca tinham fim... www.varaldobrasil.com 100
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Campinho da várzea Ao Sonhador Thalles Teixeira ) Por Raimundo Cândido Teixeira A bola era como uma doce balinha, e o campo de futebol em terra chã na beira do rio, no declínio da tarde, fazia a gente salivar, só em pensar. Os meninos surgiam de todo canto, poeira que vai chegando sem convite num faro, num verme roendo o desejo. Brotavam em profusão, em magote. Era só correr sem obrigação, com o dever de casa por fazer, enfurecessem, fosse quem fosse, o mundo era uma bola de futebol. Sumo instante e suprema alegria. Um traço, um chute e um gol. Invulgar, inigualável, inexprimível. Aquela adocicada magia, nunca mais! www.varaldobrasil.com 101
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 NOSSA INFÂNCIA que não teve o amor dos pais. Por Lóla Prata (Bragança Paulista) 7- Convidada a esperança 1- a sentar conosco à mesa, Voltando o circo à cidade ergueu-se um brinde à criança: no espetáculo singelo - Conserve sempre a pureza! traz o riso à toda idade e para a infância, o belo! 8- - “Protejam nossas crianças!”, 2- exortou Pelé há anos, É grande ação benfazeja mas as piores mudanças promover a esperança vieram de desumanos. por um tiquinho que seja no viver de uma criança. 9- Vê-se no noticiário, 3- muitas crianças sofrendo... A criançada debanda Oh, Deus, que triste cenário esquecendo as brincadeiras, dos inocentes morrendo! pra irem atrás da banda e vão... fazendo zoeiras. 4- Toda criança merece em qualquer tempo e lugar, cuidados dos quais carece, muito amor e bem-estar. 5- Na floresta do Amazonas há indiozinhos selvagens: são crianças brincalhonas que vivem entre as folhagens. 6- Desenho de PapaTiƟa Supliquei à esperança pra que não fuja jamais de um coração de criança www.varaldobrasil.com 102
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Trovas de membros da UBT União Brasileira de Trovadores - seção de Bragança Paulista Naquela casa da esquina a minha infância passei. Quando ainda era menina doce paz vivenciei. Por Myrthes Neusali Spina de Morais Desde a infância, cultivada, uma sincera amizade é qual árvore plantada: dá frutos em quantidade. Por Marina Valente Em cada olhar ... esperança. De suas bocas ... canção. Em todo gesto ... bonança. Lembranças no coração! Por Cristina Cacossi www.varaldobrasil.com 103
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Criança Por Silvio Parise Criança, Que brinca, que fala, que briga e que chora, Que canta e que marca, que dança, mente, mas é cheia de graça. Criança, Futuro de todos, verdadeiramente a nossa esperança! Criança, Fruto gerado no ventre De um amor sempre presente, Cuja aliança se reflete Na multiplicação de toda espécie. Criança, Do sorriso vindo das eternas lembranças... Criança, Sinônimo de uma mera segurança. Criança, Que, como a história aponta, Independente da idade, Porque essa, na realidade, Não tem nenhuma importância. E, como o poeta mesmo conta, Completamente livre de preconceitos, A verdade nos mostra Que, nessa existência Gostosa, Criança, somos todos nós, Amantes da voz e de uma eterna prosa. www.varaldobrasil.com 104
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Por Sheila Ferreira Kuno O DBA MASSAGISTA muitos funcionários. Mais o pior estava por vir, a coordenadora de Estávamos todos ansiosos com a chegada do TI da empresa cliente, Cecília, uma moça mui- novo Administrador de Banco de Dados to doce e delicada, estava grávida e Emerson (DBA), pois havia muito trabalho na área de adorava conversar com ela e dar dicas de desenvolvimento. exercício, alimentação e tudo mais. Logo pela manhã, uma das garotas que traba- Foi quando um dia Emerson se superou e dis- lha na empresa, teve um problema passageiro se para Cecília: na coluna e mal conseguia se mexer, ela en- tão se deitou no sofá da recepção para espe- - Cecília, por acaso aqui na empresa não tem rar o irmão que viria buscá-la. A gerente de uma sala reservada, onde você possa ficar de recursos humanos Diana, que estava ajudan- quatro para eu lhe ensinar umas posições de do Sofia fechou a porta da recepção para que relaxamento, que você poderá fazer com seu ela ficasse a vontade. marido? Alguns minutos depois, Emerson, o novo DBA Cecília ficou horrorizada com aquela pergunta, chegou e abriu a porta da recepção. Ao en- mas disfarçou dizendo que não e que eles contrar Sofia naquela situação, perguntou o precisavam trabalhar. que ela tinha. Eles ainda não se conheciam, mas mesmo com dor Sofia lhe explicou, foi Cecília contou o ocorrido para seus amigos e quando Emerson, preocupado, começou a Emerson tornou-se chacota na empresa clien- massagear suas pernas, dizendo que ela me- te. Inclusive fiquei sabendo desta história um lhoraria com aquela massagem. mês após a demissão de Emerson, quando eu e meu amigo Sandro fomos a uma reunião Sofia então começou a gritar: nessa empresa e os amigos de Cecília nos contaram. - Socorro, socorro! Tira esse cara daqui, eu não consigo me mexer! Diana correu até a recepção e presenciou aquela cena bizarra. Diana, então repreendeu Emerson, que mesmo sabendo que Sofia não queria sua ajuda, pois não o conhecia, conti- hƩp://blogs.98fmcuriƟba.com.br nuou insistindo. Mas Emerson não parou por aqui, ele continu- ou sendo protagonista de outras cenas cons- trangedoras. Quando Emerson participava de implantações de sistemas em empresas clientes, ele costu- mava ir de mesa em mesa e orientar as pes- soas em relação à postura, ao invés de reali- zar suas funções de DBA, atitude que irritava www.varaldobrasil.com 105
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Nossa infância MAMÃE Por Mariane Eggert de Figueiredo Por Erna Pidner Mamãe, me conta Quem nunca sonhou em voltar a ser uma história bonita criança? Pelo menos uma vez na vida? Poder vol- pra eu dormir. tar a um tempo em que a fantasia permitia todas Eu sou pequenina as coisas imagináveis e aquelas em que criatura e tenho medo alguma ainda ousou pensar... de bicho e do escuro. A infância é uma cama de algodão. Um Mamãe, me proteja berço esplêndido. Uma caverna mágica em que quero lhe pedir. tudo é possível. Nela são dados os primeiros pas- De você eu preciso sos para a vida. As primeiras experiências do fu- pra crescer turo indivíduo se constroem. As conexões no or- forte e sadia ganismo se formam. Os órgãos preparam suas e o mundo lá fora funções posteriores a fim de dar ao futuro corpo eu enfrentar. adulto todas as suas potencialidades. Por isso a Mamãe, eu necessito infância é também fase de aprendizado, de matu- do seu aconchego ração, de preparação. do seu carinho e do seu amor. A infância é, finalmente, um livro de pá- Mamãe, sou criança, ginas em branco em que tudo e todas as coisas mas discernir podem vir a serem escritas da maneira que se de- os laços que unem sejar. Todo e qualquer borrão nele feito, trará er- nós duas, enfim ros de leitura na história posteriormente vivida e mãezinha querida contada. Suas cores pintadas deixarão mais ou seja, nessa vida menos tons, seus caracteres tornarão mais ou tudo pra mim! menos fácil a compreensão dos textos inscritos. Nossa infância nos marca para sempre. Nossos pais. Irmãos. Primos, tios, avós, parentes. Nosso lar. A casa, o cachorro, a escola. Lembra- mos de nossa rua e dos vizinhos. Das brincadei- ras e dos castigos. Das rotinas e de detalhes que às vezes esquecidos, afloram à alma ante um cheiro - ah, como fazem bem à alma os cheiros da infância, o da comida de mãe, de avó, de do- mingo! - tudo o que evoca a infância faz bem até hƩp://www.nascerbem.net.br/ ao pensamento. Mesmo quem já é muito feliz, fica ainda mais feliz quando pode voltar à infância! Ou você nunca voltou em sonhos ou em viagens às paisa- gens em que cresceu? Pense nisso! E certamente será feliz! www.varaldobrasil.com 106
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 MINHA INFÂNCIA e a vida era uma festa parecia nunca ter fim. Por Ju Petek Até de professor eu e meus irmãos brincávamos Serelepe ... Até de missa brincávamos saltitante e agitada, Enfileirávamos cadeiras meu pai me chamava de pipoca e num ônibus imaginário minha vó de massaroca viajávamos eu gostava, e a vida era uma festa quanto mais apelidos parecia nunca ter fim. mais corria, saltava, Ah os encantos da minha infância com os amigos jogava Saudades não tenho amarelinha Porque são dias cravados caçador na alegria do meu coração passa anel esconde esconde policia ladrão meia meia lua ... 1, 2, 3 ! Tudo era alegria e algazarra como uma festa sem fim. Minha infância nas ruas do Passo D'Areia foram estonteantemente felizes. Ah! e os dias na casa da vó brincava com as galinhas coelhos e porcos. Meu cãozinho Bob. Subia nas árvores e dá-lhe comer maçã, pera, pêssego hƩp://sintra-lisboa.olx.pt no parreiral deliciosas uvas. E a noites de verão cadeiras na calçada espalhadas conversa fiada dos adultos e a criançada rodava brincava, jogava www.varaldobrasil.com 107
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 POESIA DA NOSSA INFÂNCIA Por Sandra Berg Lembro-me de nosso quintal Um cercado com cerca de pau, Foi palco das brincadeiras Testemunha já desaparecida Do que a vida foi um dia. Apaches em montarias, Generais em suas brigadas, Espadachins guardiões De um reino dos sete anões, Brincávamos de farda em farda. Cinderela sempre bela À janela dos vagões O príncipe de suas quimeras Que rechaçava vilões Estava sempre a sua espera. Trincheiras imaginárias, Guerreiros ainda em paz Aureolados pelo carinho, Redomados em seu ninho Sob a aliança dos pais. Entre pequenos privilégios Que logo nos são tirados Posto que o tempo, cavaleiro, É mais veloz e contumaz Que a nossa imaginação, Ainda não se compreendia O mundo, um campo em batalha, Onde há também dor e mortalha, Queda e desilusão Que não se cura com mertiolate. Mas, a nossa linda infância, Movia-se num estirão, Pulava-se amarelinha, Nadava-se nos igarapés Tomava-se banho de chuva, Curava-se gripe com rapé. Estórias do Curupira Fazia-nos aquietar Temendo o seu grande pé, Que, ao progresso desmedido, O dito deu marcha a ré! Oh! Nossa infância querida Inspiração a minha alma, Que oculta dor, a requer? Doce inocência perdida Tolhida nos malmequeres da vida. www.varaldobrasil.com 108
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Saudade da Saudade Por Leonilda Yvontetti Spina Tenho saudade de pitanga, amora, lírios, dálias, malvas, copos de leite... (Onde essas flores dos jardins de outrora?) De bom-bocados, bem-casados, canudinhos - não havia elaborados docinhos. Tenho saudade das brincadeiras de roda, bola-queimada, pular corda, amarelinha, - me dá foguinho? Vai no vizinho... O tempo passou bem depressa... A infância fugiu de mansinho. Tenho saudade da esperança, verde como a relva macia. Dos sonhos, da confiança de ser feliz algum dia. ... Hoje, mamão papaia, cereja, melão... Frutas sofisticadas em cada estação. Cadê os sapatos de verniz, de pulseirinha (band-aid no calcanhar...) e os românticos boleros com que aprendíamos a dançar? Não havia pagode, forró, lambada... Éramos felizes com quase nada. Apraz-me saborear pitanga, amora, sentindo o gosto de meu ontem no agora. Tenho saudade da saudade que em meu coração florescia. Saudade da esperança de ser feliz alguma dia! www.varaldobrasil.com 109
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Ímpio florescer voltavam, tudo era tão diferente, meu deus, não havia mais mato em flor na primavera, isso porque também não havia mais menina Por Ludmila Rodrigues vestida de flor aos setembros, choro doce de mãe. Não havia mais festa com bolo de ani- versário e bom mesmo era esquecer que to- Uma limonada rala talvez a levasse àqueles do ano aquele dia insistia em nascer. Preci- dias outros. Foi à cozinha e espremeu a fru- sou-se de remédio para dormir, remédio para ta, misturou água e entupiu de açúcar. Preci- acordar, remédio para conseguir ver um dia sava de açúcar no sangue e na vida. Foi inteirinho existir. Sabia que casa não havia transportada para os dias azuis de calor, fa- mais, também não mais havia nada do que mília por perto, cheiro de banana da terra fri- antes ficava dentro dela. ta com canela. A casa ainda tinha grama ma- O cansaço vivo daquela gente ficou no que cia, aquele parque construído quando veio a há de memória: no colorido de livros, filmes, notícia do seu nascimento, o carrossel ainda fotos, na ferrugem do carrossel amarelo, nas completamente amarelo. As pessoas da casa tulipas brancas de outros setembros. eram como permaneciam na parte boa da memória, cheias de um cansaço vivo, grita- vam "menina, pare de girar tão rápido nesse brinquedo" com um sorriso na cara de família boa e alegre, sem mortes, esquecimentos, rancores e amarguras. A menina suada, ves- tido sujo, inundada de infância daqueles dias sorria e gargalhava, não tinha que se preocu- par com escola, somente com a hora do ba- nho que era sempre depois de o sol se pôr. Em seguida, vinha a comida de sempre, mas com gosto de férias, a casa já iluminada pela lua, cabelos limpos esfregando a terra por- que ela olhava para o céu de sua infância. Então, ouvia "menina, você acabou de tomar banho, levante dessa terra", palavras proferi- das por uma gente toda sorridente que tam- bém tinha cara de férias. A verdade é que, mesmo quando não estava de férias, aquela gente era feliz e lindamente cansada. Vinha o sono. Cama quente envolvendo tão bem cor- po de menina exausta que dormia e sonhava com o brincar de esconde-esconde. A escola se encarregava de vestir meninas de flor nas primaveras, a mãe ia assistir ao espetáculo e sempre chorava vendo a menina vestida, vez era de violeta, vez, de tulipa branca. O ano passava com suas estações marcadas, san- duíche e limonada pela manhã, sempre uma vontade que renascia, era o saber da exis- tência das férias, era a certeza de que a feli- cidade não era só o hoje, era ter família com almoço aos domingos e remédio só quando vinha doença de criança. Conheça o Grupo Literário A Ilha, de Santa Catarina, A acidez do limão começava a corroer língua encabeçado pelo escritor Luiz Carlos Amorim e garganta, esôfago, estômago. A limonada não ficara rala. Doía. Sim, porque estava de hƩp://www.prosapoesiaecia.xpg.com.br férias, mas os dias não voltavam, eles não www.varaldobrasil.com 110
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Éramos Crianças! Por José Cambinda Dala Jamais me esquecerei Aquela humilde e pobre infância Naquela época de muitos problemas… Ciente das dificuldades Amamos sempre ir a escola Relevante mesmo era estudar Não importava tanto as dificuldades… Permanecíamos sempre felizes com o ambiente escolar Aprender e brincar, eram os nossos objectivos Na escola, nos parques, praias, campos e nas ruas, lá estávamos Com bastante alegria infantil, seguíamos em frente Inteligentemente que hoje estamos aqui! Agora e sempre apenas para recordar. www.varaldobrasil.com 111
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 LÁ NA INFÂNCIA Por Madal Lá na Infância, a vida inscreveu tudo que eu iria editar ao longo do viver. Os gostos que eu iria ter, Os desprazeres que era pra odiar. As imagens que era para amar: o dia nascendo ou o sol se pondo, o cheiro de terra chuva molhando a terra seca, o nascimento de todas as sementinhas com pressa de desabrochar manifestando e testemunhando o milagre da vida se reproduzindo com beleza e precisão. Apequena semente como um mágico rompendo o invólucro que a reveste apresenta com a maior singeleza a grandeza de uma grande árvore contida dentro de si, primeiro mostra uma folhinha tenra e verde. É o enigma da vida se manifestando. www.varaldobrasil.com 112
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Rei Guilherme, o Breve concertar sapato e roupa. Um dia Alicia, nossa vizinha andava pela rua Por Eliane Accioly com os netos João, Pedro e Antônio, que são menores que eu. Do lado de dentro do portão Me sentia o rei, dono de minha casa e dos bi- Chiquinha esgoelava pros quatro. Passeavam chos que por aqui vivem. Tem árvores em vol- na rua, e nem iam entrar em casa. Fiquei curi- ta dela. Sabiás, bem-te-vis, maritacas, papa- oso e vim ver que barulhão era esse que mi- gaios, uma coruja branca e outra rajada, e os nha cadela fazia, e parei pra conversar. Alicia gaviões. Ah, e Chiquinha, cadela de uma raça falou: Sul Africana, que papai acha foi maltratada antes de vir pra nossa casa. Ela é carente, e _ Chiquinha é muito brava?! tem medo de chuva, principalmente as de raio e trovão. Como sei que Chiquinha é carente? Respondi que não, não era braveza, ela era carente. Contei pra Alicia e pros meninos co- Desde bebê ela mostrava os dentes para qual- mo imaginamos a história de infância de Chi- quer pessoa de fora, até para minhas avós Eli- quinha. Alicia, colega de vovó Eliane, as duas ane e Gisela, que ainda hoje falam com ela são terapeutas de gente, não de cachorro. como se a cachorra fosse gente. Acho que fa- Bem, ela e os netos ficaram me ouvindo. Alicia zia isso por medo de ser machucada. Minhas que sempre conversa muito dessa vez ficou avós fizeram de tudo para conquistar a Chiqui- calada, só me olhando. Depois vovó contou nha, e acho que agora as três são boas ami- que ela ficou impressionada comigo e não gas... mas colocar a mão no bicho nenhuma com Chiquinha. Se entendi bem, Alicia me das duas coloca, apesar de bem tratá-la. acha um filósofo. Perguntei pro Papa o que é filósofo, tive dúvi- da se era elogio ou xingação. Papa contou que filósofo é um homem que pensa. Pensar penso, mas será que sou filósofo? Ah, é coisa de gente grande, nem sei se quero ser filóso- fo, por enquanto gosto de surfar. Mas do que tenho saudade é de quando eu era o rei de minha casa, e daquele quintal. Até pensava em mim como Rei Guilherme. Aí aconteceu: hƩp://cachorrosblogs.blogspot.ch/ Um casal de gaviões fez ninho no abacateiro e O cuidado de minhas avós com as próprias botou ovo. O gavião achava que era o dono de mãos veio depois de Chiquinha dar-o-chega- tudo aquilo. Falei pro Papai: "Não é justo, você pra-lá na Oma, marcando seu braço com os que paga o IPTU". "O gavião não sabe disso", dentes. Só arranhou, mas Oma sentiu-se traí- Papai disse. da. Se fosse comigo eu também me sentiria. Olhei para vovó Eliane e vi nela um descon- Os ovos foram o máximo. A gente podia ver certo. Desconcertar é quando a gente se sente do escritório da Mama. No jardim o gavião da- desconjuntado, assim meio fora do lugar. Ofi- va rasantes em todo mundo que passava per- cina pra concertar gente não tem, como pra to do abacateiro. www.varaldobrasil.com 113
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Aconteceu comigo e com todos nós. E come- Muito custoso ser rei. Se eu fosse rei odiaria cei a duvidar de meu reizismo. Pedi pro papai gaviões. Agora sei que nem Chiquinha é mi- expulsar o gavião, o que ele recusou, o IBA- nha. Ela acha que é a minha dona, de meus MA ia brigar. E o bicho me derrubou. Me atirei pais, da minha irmã e da nossa casa. Vai ver de barriga ao chão, pra não ser atingido pelo por isso deu o chega-pra-lá na Oma. Se bobe- rasante dele. Zanguei-me deveras quando Pa- ar, Chiquinha acha que é dona até dos gavi- pa falou em comprar um capacete de moto- ões. Bicada não vai levar, odeia abacate. queiro pr´eu andar no jardim. Respondi: _ Papa, está maluco? Aqui quem manda sou eu! Se o gavião quiser ele que use capacete! _ Por que? Você dá rasante nele? _ Claro que não, se nem voo! Bem, Papa não comprou capacete nenhum, no lugar disso assistimos dia a dia os ovos chocados. E cada gaviãozinho deixar o ninho, crescer e poder voar. O ninho vazio o gavião não ataca mais. Sem dos filhotes pra proteger está calmo. Desistir do abacateiro não desiste. Nem ele nem a fêmea. Outro dia quem quase pagou o pato foi um papagaio, xereta de aba- cate. Achei que o papagaio ia pro papo. O ga- vião voava e assentava num galho de cima, e a gaviona assentava no galho de baixo. Caça- vam juntos. O papagaio xereta pulava de ga- ANIMAIS EM CIRCOS NA GRANDE lho em galho. Os gaviões cercavam o bicho MAIORIA DAS VEZES NÃO SÃO BEM verde e laranja, gritando feito um montão de TRATADOS. maritacas. Teretecoteteco, barulheira de um SÃO FORÇADOS A ATIVIDADES NÃO bando, não de um só. O papagaio fugiu. Barri- NATURAIS PARA SEREM “TREINADOS”. ga cheia de abacate os gaviões deixaram, não E ISTO APENAS PARA O ENTRETENI- precisavam de carne de papagaio, que deve MENTO DOS HUMANOS. ser dura de roer. SEJA HUMANO, BOICOTE CIRCOS COM ANIMAIS! Desisti de ser rei e não só daquele pedaço. www.varaldobrasil.com 114
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 MENINO DE RUA minha obrigação é lhe proteger. -Proteger-me? Eu ia morrer? Agora, além de menino de rua ainda é vidente? Por Marcos Toledo - Não sou vidente, sou seu anjo da guar- da. Sentado a beira da calçada, ali de cabeça - Ah, tá, meu anjo da guarda... Assim baixa, sem olhar para nada e ninguém. neste trajes? E como posso saber se é verda- Transeuntes sequer olhavam-no, mas de? também ele sequer levantava a cabeça para - Olhe em volta e veja que estão lhe ven- vê-los. do conversar sozinho, estão rindo de você. Do outro lado da rua aquela figura, cha- Olhei em volta, realmente estavam pas- mou-me atenção, passei a observá-lo sem ser sando e olhando para mim, quando voltei os observado por ele. olhos para o menino, ele não estava mais ali. Vez por outra ele levantava a cabeça, Meio envergonhado, levantei-me, pois olhava para o céu por instantes e voltava a estava de joelhos no chão e fui para meu tra- baixá-la, com a mão corria pelo chão como balho. Chegando lá, todos do prédio estavam que escrevesse algo. na rua, pois o elevador havia despencado, por Já se fazia quase meia hora que estava sorte não tinha ninguém dentro. ali e nada dele receber algum tipo de ajuda, ou Voltei a trabalhar normalmente, mas nun- ser importunado por alguém. Resolvi atraves- ca mais deixei de acreditar que alguém lá em sar a rua e ficar mais próximo dele. Estranho o cima me protege. que estava acontecendo, pois já era hora de estar no trabalho, mas lá estava eu observan- AMÉM do um menino de rua, em mais uma atividade que mais sabia fazer. Nada. Uma hora se passara, olhei para o relógio e resolvi ir perto dele oferecer-lhe algo para comer. - Oi menino, tudo bem com você? - Sim, está! - Posso oferecer-lhe algo para comer? - Não! Já comi! - Posso fazer alguma coisa para lhe aju- dar? - O senhor já fez! - Hã! Como assim? - O senhor não estava ali me observando, há algum tempo? - Estava! Como sabe? - Eu o vi e, por isso, estou aqui sentado. FOTO DE JOSÉ FERREIRA - O que tem a ver, ter me visto e estar aqui sentado? hƩp://radyrgoncalves.blogspot.ch/ - É que eu não queria que você fosse pa- ra o trabalho agora! - Por quê? - Porque o senhor ia morrer no elevador e www.varaldobrasil.com 115
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 ... letras sós, só letras... Por Felipe Cattapan a criança só soletra a letra impressa sem pressa passado futuro só presente: presente do presente só presente no presente - a surpresa permanente da descoberta constante de um som em um desenho: nem vogal nem consoante, só música soante; cada letra é só o que é: foi e é sendo e será, sem saber qual foi nem qual virá; - dura e perdura... na eternidade sem idade. ... ainda não há a verdade - que só surgirá com a idade e com a vinda da soma de muitas letras decompostas em palavras. (ainda não há a solidão desta verdade: o verdadeiro sentido da soma destas palavras é só tentar recompor a cartilha do tempo esquecido). www.varaldobrasil.com 116
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 BIA, BEATRIZ Por Júlia Rego Estive pensando em como as crianças deste tempo tem o poder de nos surpreender. Costumo passar o dia de sábado com Beatriz, quando es- tou de folga, e, geralmente, programo um passeio, que varia entre shoppings centers, teatro ou cinema. A depen- der da vontade dela, claro! Nesses dias, arruma-se da forma mais caprichada possí- vel, ela mesma escolhendo o figurino, coisa que não nos seria permitida há alguns anos atrás, e, toda serelepe, põe bolsinha, pulseiras, colar e, claro, o brilho nos lábios. E não adianta dizer-lhe que é ainda uma criança e não lhe cabe usar esses complementos e, menos ainda, incorporar trejeitos de mulher adulta. De dedinho em riste e mãos na cintura, ensaia um ar de autoridade, ignorando minhas observações, e puxa-me pela mão. Só me resta pegar minha própria bolsa e segui-la, rumo à porta da rua. Nosso destino? Adivinhem? Como uma criança filha da pós-modernidade e fruto do mundo capi- talista com suas irritantes imposições, preferiu ir ao shopping. Não que não goste de ir a teatro, parques, circos, ou outros programas mais infantis, mas, nesse dia, seu espírito de passarela estava aflorado. Entre fascinantes e luxuosas lojas de roupa, a pequena se mistura entre pernas de mulheres fre- néticas, em busca de beleza, qualidade e preço, e braços de vendedores ávidos por empurrar o último lançamento das fashions weeks nacionais e internacionais. Esforço-me para não perdê-la de vista, tento agarrar seu bracinho, desesperada, mas ela ali está, olhinhos brilhando diante dos tecidos multicoloridos, transformados em roupas de princesa, sonho de consumo de quase todas as mulheres, ainda que pequeninas. Insiste para que eu lhe solte e, ao mesmo tempo, que lhe compre aquele vestido rosa, brilhante e lindo pendurado na sessão teen. Chora, esperneia como se estivesse diante de um brinquedo interessante, mas dessa vez eu não cedo a seus ca- prichos e convenço-a de que aquela roupa não lhe serve, ainda. Ela só tem seis anos, meu Deus! E sua infância, onde fica? Acho que não foi uma boa ideia ir ao shopping... Depois de travar uma luta para conseguir sair dos, digamos, recintos perigosos para uma crian- çola cheirando a fraldas, vamos à sessão de cinema. Pipoca, guaraná e milk-shake. Sim, afinal de contas ela é, sim, uma criança! Entre vozinhas barulhentas e olhinhos curiosos, nos acomodamos nos assentos, mas noto certa inquietação diante da iminência do escuro, resquícios do efeito de histórias infantis que remon- tam a antiguidade. Ponho-a em meu colo, por fim. Tagarela durante todo o filme, perguntando, vibrando, fazendo observações, rindo, numa inquie- tude pueril típica que, ora me encanta, ora me impacienta. Quero assistir ao filme, externar meu lado infantil, já que o dela anda um pouco duvidoso. Final do filme, emoção, os bichinhos do bem saem vencedores e a criançada vibra de alegria com seus heróis. Está na hora de voltarmos para casa, mas, surpresa! Beatriz quer parar numa livraria que avis- tou de longe. Como resistir a esse delicioso desejo de uma menininha nessa idade? Reflito que essa tal contemporaneidade tem lá suas vantagens, quando, em outra época, nos interessaríamos por entrar numa “biblioteca”, segundo ela, dentro de um Shopping Center... www.varaldobrasil.com 117
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Uma das coisas que mais me deixam feliz é vê-la lobos maus e vovozinhas, piratas e pós de pirlim- sentadinha, folheando páginas de histórias que a pimpim... remetem ao reino mágico da imaginação. Feliz da E dorme... criança que se atrai e é atraída para esse fantásƟco Nesse momento, meus olhos também começam a caminho. coçar, não de sono, mas de emoção. As horas passam e Bia não se cansa de parƟcipar Deixo as lágrimas caírem, admiro seu rosƟnho an- daquele mundo encantado, passando de um livro a gelical, compreendendo que a menina Beatriz é, outro numa ansiedade frenéƟca e surpreendente. sim, uma criança, uma criança, muito, muito feliz. Depois de dúvidas intermináveis sobre qual deles Levo-a para a cama, mas, antes, de deitá-la, ainda iria levar, compro-lhe um volume colorido e repleto lembro-me de uma canção que fiz para ela, quando de histórias incríveis. Vibro de alegria por antever, nasceu. ali, uma herdeira de um dos meus mais caros praze- Beijo seus cabelos e a aperto contra meu peito, can- res. tando baixinho: Mas é hora de voltar para casa! O caminho de volta é permeado por uma sucessão de perguntas, comentários, movimentos interminá- “O Anjo Gabriel desceu do céu veis e caracterísƟcos de uma menininha esperta. Para ninar a menina Beatriz Volta e meia, lembra do vesƟdo que ficou para trás Dorme, dorme, dorme Beatriz e lamenta por eu não ter comprado, prometo-lhe Dorme, dorme, dorme que, quando ela Ɵver 10 anos, volto para comprar. Oh, menina tão feliz” Dez não, rebate ela, oito! E sou obrigada a concor- dar, mais para encerrar a conversa do que como Deito-a, mansamente, na cama, e então Ɵve a cer- promessa real. teza de que ela dormia, protegida pelas asas do Chegando em casa, enfim, tento Ɵrar-lhe a roupa, e amor. fazê-la descansar, mas o dia não Ɵnha acabado, ain- da, e agora é hora de fazer os personagens saírem dos livros. De repente, improvisa vesƟdo longo e rodado, sa- paƟnhos de cristal, agora ela é a Cinderela e eu, cla- ro, sou o príncipe que a levará ao castelo para o fi- nal feliz. Toda sua imaginação vem à tona e uma infinidade de roupas, sapatos e contos de fadas se desenrola a minha frente. Hora sou personagem, hora sou nar- rador. E ela, sempre, as belas e maravilhosas prin- cesas. O tempo para ela não passa, mas eu estou exausta, e os personagens também, mas ela não dá sinais de querer dormir. Quando, finalmente, seus olhinhos começam a co- çar, chama-me a um canto e diz, “vovó você me ni- na”? Seu olhar suplicante me enternece. Pego a minha criança no colo e, apesar dos seus quilinhos já me doerem as costas, embalo-a, cantando Boi da Cara Preta, Dorme Neném, Ciranda Cirandinha, o Cravo e a Rosa, AƟrei o Pau no Gato, Se essa rua, se essa rua fosse minha... Ela se entrega a seus sonhos encantados, povoados de princesas vesƟdas com vesƟdos brilhantes, cor de rosa, lindos príncipes montados em cavalos brancos, fadas, bruxas e duendes, reis e rainhas, www.varaldobrasil.com 118
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Quando eu era pequena Por Krisiane de Paula Quando eu era pequena gostava de brincar. Nas férias eu ia à casa dos meus avós bagunçar. Lá tinha plantações que eram cuidadas pelo vovô João. Eu nunca estava sozinha, eu tinha duas priminhas, que mesmo mais novas, eram minha tur- minha. Uma delas, a Gigi, gostava da plantação de abacaxis, e a mais novinha, a Kelinha, era cuidadosa com as galinhas e eu, a Krikri sempre gostei das florzinhas. O dia passava voando entre as brincadeiras que escolhíamos em todos os cantos. Até a vovó desconfiava da nossa animação. O problema era o vovô João que ficava de marcação, afinal, era na sua horta a nossa curti- ção. E quando as férias iam acabando, nós ficávamos pensando no dia de voltar para mais confusão aprontar. www.varaldobrasil.com 119
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 COCADA BRANCA Ingredientes da Receita de Cocada Branca: 3 + ½ de Coco ralado 4 xícaras (chá) de açúcar 5 cravos da índia 1 xícara (chá) de água Canela em pau Modo de preparo da Cocada Branca: Primeiramente coloque o açúcar e a água em uma panela em fogo alto até que for- me uma calda, não precisa mexer, o ponto certo é aquele semelhante a uma bala mole. Assim que der o ponto retire do fogo e acrescente o coco, os pedaços de ca- nela em pau, e os cravos da índia. Coloque novamente a panela no fogo e mexa sem parar, até que a calda adquira novamente ponto de bala mole, retire do fogo e com uma colher retire quantias formando montinhos e coloque em uma superfície lisa para que a cocada esfrie. Depois é só saborear. Fonte: hƩp://www.mundodasdicas.net/ www.varaldobrasil.com 120
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    Varal do Brasilsetembro/outubro 2012 Revista Varal do Brasil A revista Varal do Brasil é uma revista bi- mensal independente, realizada por Jacque- line Aisenman. Todos os textos publicados no Varal do Bra- sil receberam a aprovação dos autores, aos quais agradecemos a participação. Se você é o autor de uma das imagens que encontramos na internet sem créditos, faça- nos saber para que divulguemos o seu talen- to! Licença Creative Commons. Distribuição ele- trônica e gratuita. Os textos aqui publicados podem ser reproduzidos em quaisquer mí- dias, desde que seja preservado o nome de seus respectivos autores e não seja para CONSULADO-GERAL DO BRASIL EM utilização com fins lucrativos. Os textos aqui publicados são de inteira res- ZURIQUE ponsabilidade de seus respectivos autores. A revista está disponível para download no Stampfenbachstrasse 138 site www.varaldobrasil.com e no blog 8006 Zürich-ZH www.varaldobrasil.blogspot.com Fax: 044 206 90 21 Contatos com o Varal? www.consuladobrasil.ch varaldobrasil@gmail.com Para participar da revista, envie um e-mail para a revista e enviaremos o formulário. Consulado-Geral do Brasil em Genebra O Consulado é parte integrante da rede consular do Minis- tério das Relações Exteriores. Sua função principal é a de prestar serviços aos cidadãos brasileiros e estrangeiros resi- dentes na sua jurisdição consular, dentro dos limites estabe- lecidos pela legislação brasileira, pela legislação suíça e pe- los tratados internacionais pertinentes. O Consulado-Geral do Brasil encontra-se localizado no nú- mero 54, Rue de Lausanne, 1202 Genebra. O atendimento ao público é de segunda à sexta-feira, das 9h00 às 14h00. O atendimento telefônico é de segunda à sexta-feira, das 13h00 às 17h00. Favor ligar para 022 906 94 20. www.varaldobrasil.com 121
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