Varal do Brasil— julho/agosto 2012




Literário, sem frescuras!
                                                     1664-
                                                ISSN 1664-5243




                                                             © Tschuwawah - Fotolia.com




                      2012—
 Ano 3 - Julho/Agosto 2012—Edição no. 16

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                       LITERÁRIO, SEM FRESCURAS


                               Genebra, verão de 2012
                                               No. 16



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                  EXPEDIENTE
Revista Literária VARAL DO BRASIL
NO. 16 - Genebra - CH
Copyright Vários Autores
O Varal do Brasil é promovido, organizado e rea-
lizado por Jacqueline Aisenman
Site do VARAL: www.varaldobrasil.com
Blog do Varal: www.varaldobrasil.blogspot.com
Textos: Vários Autores


Colunas:
Clara Machado
Daniel Ciarlini
Fabiane Ribeiro
Sarah Venturim Lasso
Sheila Kuno


Ilustrações: Vários Autores
Foto capa: ©-Tschuwawah---Fotolia.com                                Em setembro a revista

Foto contracapa: Paulo Aisenman                             VARAL DO BRASIL vem com o tema

Muitas imagens encontramos na internet sem ter                           NOSSA INFÂNCIA
o nome do autor citado. Se for uma foto ou um                Participe! Peça o formulário pelo e-
desenho seu, envie um e-mail para nós e tere-                  mail: varaldobrasil@gmail.com
mos o maior prazer em divulgar o seu talento.
                                                                  Inscrições até 10 de agosto!
Revisão parcial de cada autor
Revisão geral VARAL DO BRASIL
Composição e diagramação:
Jacqueline Aisenman
A distribuição ecológica, por e-mail, é gratuita. A
revista está gratuitamente para download em
seus sites e blogs.
Se você deseja participar do VARAL DO BRASIL
NO. 17 envie seus textos até 10 de agosto de
2012 para: varaldobrasil@gmail.com
O tema da edição no. 17 será: Nossa Infância


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Varal do Brasil— julho/agosto 2012




Chegou o verão no hemisfério norte! Depois de longos meses de frio - podemos mesmo falar de
um dos piores invernos dos últimos vinte anos - eis que o calor do verão aquece enfim corpos e
corações.
Este ano foi um ano especial para o Varal: muitos números de nossa revista que está cada vez
conquistando um espaço maior e, de quebra, chegando ao coração de leitores ao redor do mun-
do que estão sempre mais participativos. Uma alegria para todos nós!
Também lançamos nossa segunda coletânea, Varal Antológico 2, em três cidades que nos rece-
beram de coração aberto e com muita festa regada à música, poesia e bons papos literários.
Fomos a Salvador dia 25 de maio, a Belo Horizonte no dia 31 de maio e a Brumadinho no dia
primeiro de junho. Contamos para estes significativos eventos que fizeram o Varal se estender
na Bahia e em Minas Gerais, com o apoio de muita gente! Vamos agradecer aqui os que coor-
denaram diretamente, mas não esquecemos que os envolvidos foram muitos!
Norália de Mello Castro e a Prefeitura da cidade de Brumadinho , Secretaria da Cultura e Casa
de Cultura Carmita Passos; Renata Rimet e Valdeck Almeida de Jesus em Salvador, assim co-
mo as proprietárias gentilíssimas do Beco da Rosália;. E, finalmente, mas nunca por último, Cle-
vane Pessoa de Araújo Lopes e Marcos Llobus em Belo Horizonte. Com estes últimos levamos
também nosso agradecimento ao pessoal encantador do Restaurante Dona Preta, aos poetas
participantes do Conversa ao Pé do Fogão e do Sarau da Lagoa do Nado. Estiveram conosco
nos três encontros, diversos coautores do livro, os quais enriqueceram, com suas vivências e
presença, cada um dos eventos acima relacionados! Neste número trazemos para você algumas
fotos para compartilhar nossa alegria!
Com o sucesso da segunda coletânea, abrimos as inscrições para a seleção prévia para o Varal
Antológico no. 3 e que será lançado no ano que vem no Brasil.
Fazemos questão de agradecer a todos os autores participantes deste número e de todos as
edições já publicadas pelo Varal. Vocês são a alma que faz do Varal do Brasil uma revista viva,
alegre, realmente literária sem frescuras!
Entramos em férias no período julho/agosto e desejamos a todos, onde estiverem, o que de me-
lhor possa haver na vida! Nos encontraremos em setembro (inscrições abertas até dez de agos-
to) com a edição no. 17 falando sobre Nossa Infância!
                                                                         Sua Equipe do Varal




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1.    AILTON SALES                               34.    JOSE CAMBINDA DALA
2.    ALMA LUSITANA                              35.    JOSE CARLOS DE PAIVA BRUNO
3.    ANA MARIA ROSA                             36.    JOSÉ HILTON ROSA
4.    ANA ROSENROT                               37.    JUAN BARRETO
5.    ANDRE L. A. SOARES                         38.    KARINE ALVES RIBEIRO
6.    ANDRÉ VALÉRIO SALES                        39.    LARIEL FROTA
7.    ANTÔNIO FIDÉLIS                            40.    LÉNIA AGUIAR
8.    ANTONIO VENDRAMINI NETO                    41.    LENIVAL NUNES DE ANDRADE
9.    CARLOS BRUNNO S. BARBOSA                   42.    LINA MACIEIRA
10.   CARLOS CONRADO                             43.    LUCIA AEBERHARDT
11.   CLARA MACHADO                              44.    LUNNA FRANK
12.   DANIEL CIARLINI                            45.    MAGNO OLIVEIRA
13.   DANIEL CRAVO SILVEIRA                      46.    MARCOS TORRES
14.   DANILO A. DE ATHAYDE FRAGA                 47.    MARIA DALVA LEITE
15.   DHIOGO JOSÉ CAETANO                        48.    MARIA LUIZA FALCÃO
16.   DOMINGOS A. R. NUVOLARI                    49.    MARIA LUIZA FRONTEIRA
17.   ELISE SCHIFFER                             50.    MARIO REZENDE
18.   ELISEU RAMOS DOS SANTOS                    51.    NINA DE LIMA
19.   ESTRELA RADIANTE                           52.    RAFIKI ZEN
20.   FABIANE RIBEIRO                            53.    REGINA COSTA
21.   FELIPE CATTAPAN                            54.    ROBERTO ARMORIZZI
22.   FERNANDA DE FIGUEIREDO FERRAZ              55.    ROZELENE FURTADO DE LIMA
23.   FRANCISCO FERREIRA                         56.    RUTE MIRANDA
24.   FRANCY WAGNER                              57.    SANDRA NASCIMENTO
25.   GIORDANA BONIFÁCIO                         58.    SANDRA BERG
26.   GLADYS GIMÉNEZ                             59.    SARAH VENTURIM LASSO
27.   GUACIRA MACIEL                             60.    SHEILA KUNO
28.   HELENA KUNO                                61.    VARENKA DE FÁTIMA
29.   HELENA BARBAGELATA                         62.    VIVIANE SCHILLER BALAU
30.   HILDA FLORES                               63.    WILLIAN LANDO CZEIKOSKI
31.   ISABEL C. S. VARGAS                        64.    WILSON CARITTA
32.   IVANE PEROTTI                              65.    WILSON DE OLIVEIRA JASA
33.   JOANA ROLIM
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         Abundancia


     Por Ailton Sales
    Família sempre unida
    Mesa farta e agasalho
   Dinheiro na dose certa
  Fruto do próprio trabalho
  Muita paz muita harmonia
   Muito amor e tolerância
  Essa é a vida prometida
 Por Jesus... Em abundancia.

     Família desagregada
   Muito luxo e ostentação
     Dinheiro em demasia
 Sempre fácil sempre à mão
 Sem paz sem tranquilidade
   Em constante vigilância
    Essa é a vida oferecida
Pelo Homem... Na abundancia.




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                                                Déjà-vu


     Por Ana Maria Rosa


      Ia passando por uma rua próxima, quando sentiu o desejo irresistível de rever aquela ca-
sa. Parou o carro e deixou que suas pernas a levassem à rua das mangueiras. Era melhor vol-
tar – uma mulher de trinta anos parecendo uma adolescente – iria apenas passar como quem
não quer nada, só para dar uma olhada. De longe, avistou a casa amarela. Parou tentando re-
cuperar a respiração. Ainda havia tempo de voltar. Seu corpo impulsionou-se até o número 25.
Quedou-se observando: a fachada imponente, a porta entalhada, o muro de pedra, o jardim de
rosas, a grade alta... Em que momento tudo se acabara? Antes, entrava sem se anunciar,
agora não podia sequer tocar a campainha. Precisava desistir. Dobrou a esquina e viu o por-
tãozinho do quintal, aberto. Olhou para os lados e entrou.
      Experimentou o trinco da porta da cozinha. Arrodeou a casa, viu uma janela aberta. Vol-
te, Marina, volte... Escutou o silêncio da casa, o coração aos pulos. Estava louca. Uma mulher
casada com um deputado, mãe de dois filhos – escondida – espreitando o interior de uma ca-
sa! Assomou a cabeça à janela e viu a sala de jantar parada no tempo: a mesa grande, as ca-
deiras de veludo verde, os quadros, o lustre. Apenas as cortinas eram novas – cor de vinho.
Mulherzinha de mau gosto! Fechou os olhos, calculou a altura da janela – como da primeira
vez que dormira com ele – agarrou-se ao parapeito e pulou.
     Ouviu o chuveiro e a voz dele vinda de longe – Quem é?
     Entrou no quarto, escondeu-se atrás da cortina, ficou a espiá-lo – belo e viril – enxugando
o cabelo. Ouviu a ordem – Marina, saia daí!
     Marina fundiu-se ao corpo nu. Sentiu uma mistura de prazer, felicidade e dor, tudo mistu-
rado. Teve medo de estar sonhando novamente. Desejou morrer: não queria acordar em sua
casa, na cama ao lado do marido.




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                                         Escolhas *

                                        Ana Rosenrot


      De um canto escuro e apertado, vejo a chuva que cai pesada, gelando as almas e
anunciando a proximidade do inverno, para angústia dos que nada tem.
     Observo as pessoas que passam apressadas, coloridos guarda-chuvas tremulam como
bandeiras, todos correm em busca de seus destinos, não me enxergam, minha caixa de es-
molas está molhada e vazia.
     Mas a vida é assim mesmo, uns se abrigam em luxuosos carros importados, outros em
cantos escuros e úmidos, a sorte não sorri para todos, como um dia sorriu pra mim.
      Minha vida vai correndo como a enxurrada, cheia de sujeira e abandono, o medo cres-
cendo conforme a água da enchente sobe, me sinto tão só, ninguém olha em minha direção,
sou a imagem dos seus temores mais íntimos, acham que nunca estarão no meu lugar e pen-
sar que um dia também pensei assim.
      A chuva se arrasta por horas, sinto meus ossos doerem devido ao excesso de umidade,
meu corpo parece estar apodrecendo junto com os jornais que me servem de cobertor e como
o papel, minha alma se dissolve, misturando-se com a lama da rua.
      Pouco tempo atrás, parece que já faz um século, minha vida era outra, eu tinha dinheiro
e posição, mas fiz escolhas erradas, me envolvi com as piores pessoas e destruí as conquis-
tas de toda uma vida, devido a ganância e a ambição.
      Agora estou aqui, vivendo os segundos, colhendo os restos do mundo, tão inoportuno e
dispensável quanto o entulho que se acumula.
     O sol volta a brilhar e as pessoas retomam sua rotina e de repente, alguém que conhe-
ço de outra vida me atira uma moeda, o faz como se jogasse uma pedra em um rio, pouco se
importando onde irá cair, pelo menos, com a moeda, ela acha que aliviou a possível parcela
de culpa que sente sobre minha triste situação, mas a culpa somente existe em quem se julga
culpado e essa culpa é toda minha.
      Hoje eu sou filho do mundo, flagelo da humanidade, não me diga que sente pena de
mim, pois todos querem me ver longe de suas vistas, até mesmo você, com sua beleza com-
prada, mas eu estou melhor agora, pois me sinto vivo, real, faço parte de suas ruas e praças,
sempre estarei ao seu lado, lembrando ao mundo que a miséria existe.
      A vejo se afastar, passos rápidos, tensos, quem estou enganando, preciso alcançá-la,
olhar em seus olhos outra vez, me levanto, sigo em sua direção, ela entra no carro, alguém a
espera, perco a coragem de me aproximar, ela pertence a outro mundo e nele eu não existo
mais.
      Volto a me esconder da vida naquele canto escuro, talvez um dia, eu tome coragem e
faça com que meu grito seja ouvido, até mesmo por você, talvez.



*Conto premiado com Menção Honrosa no III Concurso de Poesias, Contos e Crônicas de Jacareí
“Troféu Jacaré” 2011.




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ALICE


Por André L. Soares



Alice, embebida de pureza,
há poucas horas, chegara ao planeta,
ainda estava imune à maldade,
quando as notícias velozes
rasgaram-lhe as têmporas.

Lágrimas verdes vertendo das retinas,
pontas de dor aguda a lhe fisgar o peito,
grito de clave de sol, preso à garganta,
ela então, vê a santa desnuda
sob a luz fria do cotidiano,...
momento em que o belo pintou-se de breu
(sabor amargo de inocência trincada).

Cansada, recolhe-se ao quarto,
a proteger-se dos cristais e plasmas.
Após sangrar lembranças, cerra pálpebras,
chora e soluça outra vez, sozinha.
Por fim, Alice adormeceu!
Em seus sonhos ainda existem flores,
a água e a verdade parecem cristalinas
e até o coração do homem é bom.

Acanhado, procurei algo
que a fizesse sentir-se melhor
quando acordasse;
tentei criar um ‘origami’, mas já era tarde...
eu só tinha em mãos, a realidade.
.




                                                              Foto de André L. Soares

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TEMPO DE REFLETIR


Por Lenival de Andrade


Amigos humanos terráqueos
Vejam bem
E prestem muita atenção também


Pois estamos vivendo
Num tempo muito difícil
Para todos nós


E é muito bom
Parar para pensar
Pensar e refletir
A DEUS perdão pedir
De joelhos e perante ele
Ser Supremo, Soberano e Maior
Sobre tudo e todos
Além de todo o mar, céu e infinito


Pensem e meditem
Antes de tudo o que vai fazer e falar
Não precisa complicar
Sem precisar medir
Pois sempre é tempo
Tempo de refletir




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Deus grego                                         beijava.
                                                7 Anos passados, em uma manhã de segunda-
                                                feira, em meu escritório recebo um telefonema
Por Lúcia Brüllhardt                            informando que minha amiga ( a da pulseira )
                                                tinha sido assassinada com 19 facadas e o ros-
                                                to tinha sido completamente destruído por áci-
Estou em Atenas, exatamente em um antigo        do.
cemitério, parada de frente a um túmulo branco Novamente aquela explosão de luzes como um
coberto por lindas lápis-lazúlis. A beleza era  raio em minha mente e como cenas de filme
tamanha, que fascinada com o brilho das pe-     passa o sonho, o deus grego, a pulseira, a tra-
dras me abaixo para pegá-las.                   vessia no riacho..... em meio a turbulência de
De repente surge a minha frente um deslum-      imagens, a voz que me revela : Seria você.
brante “deus grego” LINDO!                      Tentei acordar do pesadelo; ERA REALIDADE,
Pele branca, olhos cor de mel, cabelos doura- eu não estava dormindo, passado o choque e
dos e um corpo desenhado pelas mãos de          recuperadas minhas forças emocionais, que
Zeus. Ele veste um minivestido de seda branca devido ao ocorrido me abalaram profundamen-
com um cinto dourado e sandálias de couro       te, continuei minha rotina diária...
amarradas nas pernas, musculosas e depila-
das. Tinha uma postura elegante e os braços     Quando em uma bela tarde de verão europeu,
cruzados na altura do peito. Em cada braço na decido caminhar na beira do lago. Aquela tarde
altura dos músculos uma pulseira em ouro ma- de domingo era muito especial, o dia estava
ciço.                                           realmente lindíssimo, céu azulado, a brisa leve
Levanto minha cabeça e olho para ele que me que balançava meus longos cabelos negros,
fala :                                          um cheiro de alegria, felicidade misturada com
- Atenção! Não toque nestas pedras.             satisfação parava no ar. Eu estava muito feliz e
ACORDEI! (tudo não tinha passado de um so- eufórica, uma dose dupla de felicidade batia em
nho).                                           meu peito. Não entendia porque estava tão fe-
Alguns anos após este sonho, viajava de férias liz.
para Grécia uma amiga e na volta me traz de      Ao chegar no lago, decido subir até uma clarei-
presente uma pulseira de pedras “ lápis-        ra, onde poderia observar todo o movimento de
lazúlis.”.                                      pessoas e contemplar os contrastes de cores
Em minha mente uma explosão de luzes como céu, mar, árvores e montanhas. Um local ideal
um raio, me traz a tona o “deus grego” me avi- para deitar e desfrutar a natureza.
sando para não tocar nas pedras. Muito assus-
tada, mas contendo minhas emoções agrade- Jogo minha toalha na grama verde, sento e co-
ço, pego a pulseira guardo em minha bolsa...    loco meus óculos de sol. Tiro minha roupa bem
Na ida para minha casa teria que passar por     devagar, ficando somente de biquíni, sentido
uma ponte com um riacho de forte correnteza. assim, o toque dos raios de sol em meu corpo e
No meio da ponte ouço uma voz que me acon- o vento leve acariciando minha pele. Naquele
selha :                                         exato momento sinto que olhos me observam.
- Joga a pulseira fora, pois a mesma está pre- Ainda sentada, giro minha cabeça para à direi-
parada para te destruir a partir do momento     ta, vejo um jovem de uns 27 anos, loiro, pele
que colocares no braço. (Assustada, e quase     branca, cabelos dourados. O mesmo também
sem folego, não hesitei. Obedeci)               sentado, óculos de sol, somente de calção de
A vida continuou no ritmo normal.               banho preto bem justo ao corpo, olhava exata-
                                                mente em minha direção.
Vez por outra recebia a visita da amiga que me
perguntava :                                    Tentei disfarçar, mais ele me observava com
- A pulseira que te dei, você não vai usar? Já  grande intensidade. Não era discreto, olhava e
vim aqui diversas vezes e não te vejo com ela ? olhava MESMO.
Com um grande aperto no coração e um frio       Perdendo a paciência me levanto, vou em sua
que me percorria toda a espinha dorsal eu res- direção, paro em frente a ele que permanece
pondia : Aquela linda e maravilhosa pulseira só sentado, eu em pé com as mãos na cintura,
uso em ocasião especial. Foi o melhor presente quase gritando pergunto :
que você me deu. Obrigada. Abraçava ela e

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- O que você tanto olha?                         Era ele. ERA ELE, em carne e osso, ali na mi-
                                                 nha frente, naquele castelo, era real... Me en-
Ele muito calmo, sereno e com uma grande
                                                 gasgo, perco o folego, tremo. Uma sensação
classe, tira os óculos de sol e coloca na cabe-
                                                 de felicidade, medo e curiosidade percorre todo
ça, olha bem em meus olhos, sorri e me res-
                                                 meu ser. Controlando o vendaval de emoções,
ponde :
                                                 respiro e falo compassadamente :
- Eu estou olhando para você.                    - Tenho a impressão de que já te conheço há
Eu meia desconcertada, totalmente sem saber vários anos.
o que responder falei :                          O meu deus grego me responde :
                                                 A partir de hoje eis que tudo se transforma. Vim
- Vamos entrar na água? E saio correndo e me aqui na terra para te levar a uma outra dimen-
jogo nas águas geladas do lago de Bienne.        são, viver contigo um amor intenso e te entre-
Após o mergulho olho para trás pensando que gar o segredo dos nossos antepassados.
ELE tinha me acompanhado.                        Londres, Paris, Veneza, Barcelona, Maurício,
Mas ELE continuava sentado sorrindo e olhan- Pretoria, Tailândia e Brasil. Atravessamos os
do em minha direção.                             sete mares. De trem, navio e avião, cruzamos
                                                 de leste a oeste e de norte a sul.
Completamente irritada saio da água quase ro- Loucuras deliciosas vividas plenamente, como
xa e tremendo de frio, volto a onde ele perma- dois apaixonados, vivemos durante 15 anos.
necia e grito :                                  Durante este período ele foi meu mestre, aman-
- O que você está fazendo sentado aí? Eu te      te, amigo e colaborador. Até o dia em que o
convidei para nadar!                             destino através da morte nos separou. Hoje en-
                                                 contro me aqui sozinha NA FRIA NOITE DE
Agora com um sorrido mais largo , ele se levan-
                                                 INVERNO.
ta coloca uma toalha em meus ombros e me
                                                 Fico pensando e sonhando em todas as belas
fala:
                                                 coisas que vivemos e vencemos juntos.
_ Eu tentei te avisar que é começo de verão      Infelizmente você não esta mais aqui e me sin-
aqui na Suíça... à água esta CONGELADA, in- to abandonada. Como companheira a solidão.
felizmente você não me deu atenção e saiu        Nos encontramos em uma tarde de verão, lem-
correndo em direção ao lago. Gostei muito de     bras? Que lindo este dia junto a ti.
ver sua demonstração de coragem.
                                                 Você foi para mim um presente dos céus. Na-
Coragem que nada, aquele homem tinha me
                                                 quela tarde quando você olha em meus olhos vi
deixado completamente desnorteada, a ponto
                                                 que um amor belo e invencível nascera.
de me jogar nas aguas congeladas de um lago.
                                                 Lembro que desejei viver eternamente com vo-
Quem era ele? De onde vinha?O que fazia
                                                 cê, onde juntos poderíamos transportar monta-
aqui ? Eu tinha que descobrir isso urgente.
                                                 nhas. Lembro de seu sorriso e nos dias de do-
Sem perder tempo , convidei o estranho para
                                                 mingo que juntos corríamos e brincávamos co-
jantarmos juntos. Ele aceitou.
                                                 mo duas crianças. Você não lembra? Para mim
 Ao anoitecer , espero meu estranho, que até     foi ontem ,você sempre foi o homem que dese-
então eu não sabia seu nome nem onde mora- jei para mim. Eu e vocês, dois! Ouço nossa
va ( tinha esquecido de perguntar). Exatamente canção, sinto suas mãos que tocam em
na hora marcada e no local acertado , ele che- mim...Ilusão. Você não está aqui . Você tornou-
ga.                                              se distante. Velho amigo, desejo seu ombro pa-
Agora muito mais lindo, que a tarde. Entro em ra apoiar minha face como antigamente. A dor
seu carro e vamos a um restaurante com espe- de sua ausência dilacera minha alma, meu pei-
cialidade francesa. O restaurante funcionava     to e meu ser... O amor solitário fere e acaba
em um antigo castelo, e o lugar que restava,     com as forças que tenho. Volta em meus so-
era uma mesinha exatamente com dois lugares nhos. Explode em luzes no meu pensamento,
na torre.                                        te materializar para um último adeus. Desejo
Sentamos e fomos servidos com um coquetel        somente antes de morrer poder reviver os dias
de boas vindas. Brindamos, e no tilintar das ta- lindos que tivemos.. Sentir seu hálito perfuma-
ças, a explosão de luzes em minha mente, trás do e quente entre meu corpo me fazendo tre-
a imagem do deus grego, que conheci (em so- mer de prazer. Meu amado, como é bom relem-
nho) na cidade de Atenas.                        brar os momentos que passei ao seu lado.

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Volto a Atenas, tentando te encontrar, mais lá você não está. Talvez a beira do lago, ou no res-
taurante castelo, lá também você não está.
Eu não conseguirei viver sem você. Ouve minha dor, houve meu lamento.
Eu grito de paixão e desejo. Meu deus grego.
Não quero ir para outros braços, não quero sentir outros beijos. O sétimo céu quero ver somente
com você.
Como forma de amenizar a saudade , olho nossas fotos e os presentes que recebi de você, du-
rante nossa caminhada aqui na terra. No meio de tantos, uma pequena caixinha vermelha em
forma de coração, me chama atenção. Curioso, nunca tinha a visto antes. Abro –a e, encontro
um papel no qual está escrito :
          “ deus, mito, lenda, sonho ou alucinação “
Lágrimas quentes rolam dos meus olhos, que caem pesadas no chão e se transformarão em
lápis-lazúlis. .




                          Amazônia

                       Por Magno Oliveira


                     As aves não mais voam
                   Os peixes não mais nadam
               Os pássaros não mais cantam
              As pessoas não mais se amam.


     Tudo isso por culpa do homem e a sua maldade
  Tudo por culpa do homem e a sua falta de caridade.


               As nossas matas desmatadas
              As nossas florestas devastadas
                   Nossos animais em extinção
                    Nosso medo da poluição.


         A Amazônia é nossa devemos protege lá
          A Amazônia é nossa devemos ama lá.
               Viva o verde, viva a Amazônia,
                   Viva os índios, viva a alegria.




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                                  O CLUBE DOS VIRA-LATAS é uma organização não governa-
                                  mental, sem fins lucraƟvos, que mantém em seu abrigo ho-
                                  je mais de 400 animais que são cuidados e alimentados dia-
                                  riamente. Boa parte desses animais chegou ao Clube após
                                  atropelamentos, acidentes, maus tratos e abandono. Nosso
                                  objeƟvo é resgatá-los das ruas, tratá-los e conseguir um lar
                                  responsável para que eles possam ter uma vida feliz.




Por que ajudar os animais?                           doações. Todos podem ajudar, seja divulgando o
                                                     Clube, seja adotando um animal ou mesmo doando
Você sabia que no Brasil milhões de cães e gatos     dinheiro, ração ou medicamentos. Qualquer doa-
vivem nas ruas, passando fome, frio e todos os Ɵpos ção, de qualquer valor por menor que seja, é bem-
de necessidades? Cerca deles 70% acabam em abri- vinda. As contas do Clube bem como o desƟno de
gos e 90% nunca encontrarão um lar. Parte será víƟ- todo o dinheiro estão abertas para quem quiser
ma ainda de atropelamentos, espancamentos e to-
dos os Ɵpo de maus tratos.                           BRADESCO (banco 237 para DOC)
Infelizmente, não é possível solucionar este proble- Agência: 0557
ma da noite para o dia. A castração dos animais de CC: 73.760-7
rua é uma solução para diminuir as futuras popula- Titular: Clube dos Vira-Latas
ções mas não resolve o problema do agora. Sendo CNPJ: 05.299.525/0001-93 Ou
assim, algumas coisas que você pode fazer para aju-
dar um animal carente hoje:
                                                     Banco do Brasil (banco 001 para DOC)
Adotar um animal de maneira responsável              Agência: 6857-8
                                                     CC: 1624-1
Voluntariar-se em algum abrigo.                      Titular: Clube dos Vira-Latas
Doar alimento (ração) e/ou remédios para abrigos. CNPJ: 05.299.525/0001-93
Contribuir financeiramente com ONGs.
Nunca abandonar seu animal                            (Saiba mais sobre o Clube em hƩp://fr-
                                                      fr.facebook.com/ClubeDosViraLatas?ref=ts)
Como o Clube vive? Somente de doações. Todas as
nossas contas são públicas, assim como extratos
bancários e notas fiscais.
Como ajudar o Clube? Para manter esses mais de
400 peludos em nosso abrigo, contamos hoje ape-
nas o trabalho dos voluntários e com o dinheiro de

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     AS TOURADAS DE SEVILHA                          É um povo festeiro, com uma cultura de danças
                                                     regionais como o Flamenco de mais antigamente
                                                     e os mais modernos com as Sevilhanas. Tem tam-
        Por Antonio Vendramini Neto                  bém a semana santa que é percorrida pelas ruas
                                                     finalizando na belíssima cadetral.
                                                     Destacam-se a “Feria de Abril”, de caráter folclóri-
Nos caminhos percorridos em terras espanholas,       co, com milhares de pessoas vindas de toda a Es-
visitei juntamente com a companheira, a esplendo-    panha, e no recinto da festa as pessoas se reú-
rosa cidade de Sevilha, em pleno verão europeu.      nem para cantar e dançar. “Durante a semana”,
Trata-se de uma terra aguerrida, povo cheio de       realizam-se uma serie de touradas, de fama nacio-
vida, dando a impressão que estão sempre nervo-      nal, na conhecida “Plaza de Toros, La Maestran-
sos e apressados, mas não vimos nada de excep-       za”, onde tivemos a oportunidade de visitar, mas
cional em sua metrópole que os levasse a ter esse    nos dias que se seguiram, não houve touradas,
comportamento, pelo contrario, é um povo muito       ficamos então com o museu muito bem montado
acolhedor, talvez seja o espírito da raça.           em suas dependências.
A paixão que os eleva, são as touradas, que é
uma questão de cultura, que veio da mistura de
europeus e seus conquistadores, mais recente-          AS TOURADAS REGISTRADAS NO MUSEU
mente, os mouros que ficaram em seu território
por mais tempo, cerca de 700 anos, transforman-
do-se na “caliente” região de Andaluzia.            O espetáculo em sua praça de touros é algo
                                                    parecido a um ginásio esportivo. As pessoas
Além dela, visitamos as principais cidades como; sentam nas arquibancadas para assistirem e
Mérida, Córdoba e Granada, estão situadas a Su- em todas as “corridas” o “toro” é sacrificado.
deste da Península Ibérica é a capital da província
da Comunidade Autônoma, sendo a quarta cidade O matador o enfrenta com uma capa vermelha,
espanhola, com cerca de 700.000 mil habitantes. o qual é ajudado pelos seus assistentes, de-
                                                    pois vêm os “picadores” que dão as suas esto-
O que mais nos impressionou, foram os acervos e cadas, enfraquecendo os seus músculos, inicia
as arquiteturas da época que estou descrevendo -se então a etapa com os gritos da platéia de
como sendo a dos Mouros. No ano 712 da nossa olé-olé, que “pegou” nos jogos de futebol aqui
era, o Califa Musa, acompanhado de seu filho e no Brasil, quando o time vencedor quer tam-
com um exercito de 18.000 homens, cruzou o es- bém dar o seu espetáculo.
treito e procedeu a conquista, em busca de pasta-
gens de abundancia de água.                         O papel do toureiro é fazer um bonito show,
                                                    deixando o touro cansado, tirando suspiros da
Ocupou as cidades de Medina, Carmona e Sevilha torcida. È uma pena a judiação que é feito com
e, seguidamente atacou Mérida que após sitiada a o animal. Mas nesse país é tradição e nunca
conquistou. A Cidade então passou também a ser vai acabar. Eu sempre torço pelo touro, porque
território Mouro. E foram eles que lhe deram o no- o bicho homem faz dele um palhaço dentro do
me atual, a portentosa Sevilha.                     picadeiro e acabando com sua existência.
Nesta época a sua riqueza cultural cresceu enor- Enfim, depois de tantos passos, gritos de olé,
memente com a chegada dos árabes, em tanto, o matador se prepara para a estocada final.
que tinha dependência do Califado de Córdoba Com um movimento de espada escondida so-
convertendo-se na mais importante de AL - Anda- bre a capa, faz com que o animal se aproxime,
luz. Os cristãos reconquistaram a cidade em 1248 enfiando em seu dorso, fazendo-o cair. É o fi-
durante o reinado de Fernando III de Castela. Foi nal.
também sede da exposição Ibera America em
1929 e da exposição mundial em 1992, onde inú- No museu, pudemos ver os cartazes das toura-
meras obras foram erigidas em seu louvor.           das de antigamente, destacando-se, o terrível
                                                    “Manuel Rodrigues”, conhecido nos meios co-
O clima é muito gostoso, com aquele tempero me- mo “El Manolete”, um dos maiores matadores
diterrâneo, com temperatura media anual de 19 que já existiu, morreu no dia da tourada marca-
graus, o que a faz uma das mais quentes da Euro- da no cartaz (28081947), foi ferido pelo touro
pa, dado a proximidade com o continente Africano, “Islero”, no meio da “Praça de Toros Linares”.
tornando-se o paraíso dos turistas, dobrando a
população. Em julho a temperatura sobe para até
35, superando no apogeu do verão em mais de 40
graus.

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                                    Sedex lírico: Carta a uma senhora poeta


                                              Por Carlos Bruno S. Barbosa


       Hoje a noite amanheceu mais fria e pálida em mim, senhora. Me disseste que não sa-
bes escrever, jogaste fora um poema lindo sobre essa angústia que nos atinge e, com ele,
levaste à cova da insegurança vários versos que morreram antes de poderem crescer. En-
quanto escrevo isso com os olhos caídos, em luto pelos poemas que não te aconteceram, ou-
ço minha vizinha lá fora aconselhar uma amiga: “Tem que pensar pra cima e não pra baixo.”
Desconheço o assunto que a levou a tal reflexão, prefiro guardar apenas essa poesia que sua
voz, indelicadamente alta e decididamente vigorosa, me transmite sem querer.
        Quando tornei-me professor e quis me dedicar a inspirar meus alunos a escreverem,
sempre trouxe comigo o sonho louco de Bukowski de imaginar que deveria haver um poeta
em cada esquina da vida e, assim, aprendi a ver poesia em quase tudo, pois quase tudo é
múltiplo, lírico e singular. A arte salvou minha vida; sem ela, confesso que me jogaria debaixo
de um carro, me atiraria no mar ou me tornaria uma pessoa apática, sem gosto pra nada, inu-
tilizada pela própria inexistência. Sei que o ato de escrever não permite que salvemos o mun-
do, não impede que aviões se atirem sobre prédios inocentes, não traz a cura do câncer, não
tira a dor da perda de alguém; mas salva a invisível alma que agoniza, impede que pilotemos
tais aviões contra casas que amamos, controla a dor estagnada e mantém vivas aquelas pes-
soas que se perderam no caminho. E também sei o quão difícil é este caminho que escolhi:
às vezes, converso com paredes surdas; às vezes, me sinto ridículo; às vezes, estou muito
só... Mas e aquele verso que alguém ouviu e levou pra própria vida, como um urso de pelúcia
que, apesar da aparência inútil, conforta a criança que levamos pra cama quando nos nina-
mos em sonhos difíceis? E aquela febre de encontrar a palavra certa e a impressão de que a
Terra toda volta a se mover quando a encontramos? E esse brilho nos teus olhos, senhora,
outrora estrela, agora triste fagulha... por que pensas em exterminá-lo de vez? Por que perder
tudo isso, por que deixar de escrever?
       A vida, na maioria das vezes, é inglória e rancorosa, senhora, e, talvez, por isso, não
nos deixe prazer em nossa arte; talvez, por isso, quando escrevemos, o ar parece rarefeito
pra tais ações. A vida, quase sempre, nos ignora, senhora, renega nossos talentos e faz-nos
esquecer dos diamantes que carregamos nas cavernas de nós mesmos. Me disseste que não
sabes escrever, como um planeta dourado que se julga inabitável pra qualquer habitante de
valor. Me desculpe os olhos tristes, senhora, mas o que dizes não condiz com teus versos
sublimes de lirismo incontestável, nem a vida que sempre carregaste nas palavras vivas de
calor e amor. A vida já apaga muitas luzes nos túneis da rotina; não deixes que a tua própria
insegurança desfaça a única chama independente que nos restou. Volta a escrever, senhora,
por favor...

      (http://diariosdesolidao.blogspot.com/2011/09/sedex-lirico-carta-uma-senhora-poeta.html)




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            O gozo

       Por Carlos Conrado

    A Terra banha-se despida
      Sob o olhar de Deus.
    O pudor horrorizado grita:

- Isto é um crime contra a decência!

     Voluptuosa a Terra atiça
Os desejos secretos de quem a fez.
O olhar, vendo as curvas benditas
  Atende ao convite do incesto,
    Na pirâmide pubiana atira
      O esperma onipotente.

    Ergue-se no tempo um riso
      Símbolo da satisfação
     Deste orgasmo de Deus.




                                                               Pintura de Carlos Conrado




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Varal do Brasil— julho/agosto 2012

                                                          Imagem TMK(Tom.CJ)

                                                          hƩp://moblog.net/view/299298/white-lady




SEDA BRANCA


Por Daniel Cravo Silveira




Plana no escuro dos céus, a Lua
Farol solitário de branca luz
Peregrina vestal nua
És meu tesouro e minha cruz.
Forasteiro das horas incertas
Nesta noturna visita,
A revelar-te das ruas desertas
O meu amor selenita.
Lua nova, lua tímida, fugidia
Teus sorrisos se calaram
Teu silêncio é uma lança
A cortar do coração toda a esperança.
Não temas este amar que te revelo
Não há culpa, nem pecado se o sinto
Não vês que és da vida, o meu elo
Da sanidade à terra, és meu cinto.
Dos céus a distância te protege
Meus lábios, meus abraços, não te alcançam
Seda branca, a reinar eterna no paraíso.
Jogo ao vento minhas rimas que se lançam
Ao espaço, a tua busca, por um sorriso!




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Varal do Brasil— julho/agosto 2012

                                   ARMAND LESTAT

                                       Por Lunna Frank



Foi naquela noite quente e chuvosa, quando Antonella, bebia uma taça de vinho tinto suave,
olhou pela janela do seu quarto, vendo o céu, a lua cheia estava enorme foi quando começou a
sentir uma sensação diferente uns calafrios ao mesmo tempo um calor enorme tremia como se
estivesse com uma febre muito alta.
Sentiu uma transformação uma vontade enorme de uivar percebeu-se forte dominadora, nesse
momento a chuva fina caia lá fora, quando desceu as escadas do sobrado acendeu as luzes da
sala de estar sentiu aquele vento frio, eram as janelas que estavam abertas, fechou as janelas e
as cortinas, quando resolveu tomar mais uma taça de vinho, avistou aquela sombra vinda em
sua direção, sentiu um medo enorme mais a sombra atraiu com um perfume forte envolvente.
Era aquele homem belo, forte e diferente, com os olhos fixos em Antonella, meio anestesiada
com o vinho e o perfume que exalava me tomou pelas mãos dei o ar da minha graça, nesse mo-
mento seu colar de pérolas negras arrebentou, sentiu uma grande concentração de energias e
prazeres, começou a uivar e pontapear nem sabia a quantas andava, percebeu então que ele a
tomava em seus braços beijou seu pescoço sua boca era gélida e quente ao mesmo tempo.
Um beijo profundo ardente misturando suas salivas foi festejando o momento sem dar conta, pa-
recia que já conhecia aquele homem, se entregou sem reservas, com um simples movimento
mordeu e chupou seu pescoço, é um prazer indescritível como jamais sentiu em toda sua vida.
Fizeram amor e sentiu umas gotas de sangue em seus lábios, sentiu um arrepio muito forte, de-
pois desfaleceu. Quando acordou estava nua na praia bem em frente da sua casa do seu lado
uma capa negra e duas taças de vinho personalizadas com um nome, apanhou a capa cobriu
seu corpo e foi correndo para casa.
Estava amanhecendo, tomou um banho quente, um café forte, quando se deparou com duas
marcas em seu pescoço eram marcas pequenas dois furinhos com um pequeno hematoma em
volta, todos os pensamentos passaram naquela hora estava confusa cansada com sono.
Anoiteceu, quando acordou festejou aquele momento, tive um pouco de medo mais a excitação
era maior, refletindo o que teria acontecido já que lembrava vagamente, misturando os pensa-
mentos entre o sonho e a realidade.
Mais a memoria visual daquele homem lindo, forte daquela figura que emergiu na penumbra da
noite em sua sala, com aquele olhar misterioso jamais poderia ter sido um sonho, já que deixou
suas marcas em seu pescoço.
Pensou que fosse ser transformada em uma morta viva um ser da noite, mais ao contrario esse
homem deixou um presente, sua marca o dom da imortalidade, deu as mãos a palmatoria para
as mulheres que como Antonelle já viveram essa magnifica experiência do amor sobrenatural.
E todas as noites chuvosas de verão, vai para janela do seu quarto com as duas taças de vinho,
vestindo sua capa totalmente nua uivando para lua cheia esperando por Armand Lestat para re-
viver essa experiência de amor maravilhosa e saborear as gotas do seu sangue adocicado, fazer
amor e celebrar com uma taça de vinho tinto até a próxima lua cheia.




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Querendo Ter Coragem                               Pular as pedras
                                                   Saltar os obstáculos e deixar passar a onda,
Por Maria Dalva Leite                              Contornar a montanha se ela estiver obstruin-
                                                   do o caminho,
                                                   E fixar-se nas marcas que lhe trarão de volta,
Passado reconfortante                              caso precise voltar,
Para passar a exaustão,                            Não se esqueça de cumprimentá-la antes de
Busco achar o sentido perdido                      por o pé na estrada
La onde me encontro                                Por nada solte a mão de Deus,
O sentido proibido também me visita                O perigo ronda,
Lá onde me encontro: cama de nuvens, num           Não esmoreça
local acolhedor                                    A insegurança filha do medo
Onde só o bem estar e a alegria podem me           Deve ser evitada,
acompanhar
                                                   Ela surrapa as encostas, rola as pedras, afun-
Rígida numa posição confortável rejeito as         da os precipícios.
mudanças que sempre surpreendem,
                                                   Cuidado! tenha fé.
Fujo da dor escondendo-me do que incomoda.
                                                   Tudo é para o bem.
Navegando em águas calmas, ficar bem é o
melhor                                             A segurança é a magia que fará você transpor
                                                   os obstáculos, E ficar distante do medo
Petrificada longe da dor.
                                                   Repito : não solte a mão de Deus, ocupe-se
Entender o que esta se passando                    dele e atenção por onde pisa para não falsear
Compreender e se lembrar da lição que a            o passo, e fraquejar.
mestra vida nos dá..                               Deus seja louvado.
Abençoa-la em todas nuances e inserir- se          Vamos em frente que atrás vem gente.
como parte do todo.
Unir-se à vida.
Dar bom- dia para o dia, Saudar o sol, a chu-
va, o luar,
Respirar o mesmo ar que nos contata com
todas formas de ser, desde a menor formigui-
nha, as folhagens das plantas, todos animais ,
a grama verdinha, verdinha ondulada pelo
vento.
Todas pessoas do mundo interconectadas
respirando o mesmo ar.
Existindo juntas na linda atmosfera, pulmão da
terra, preenchendo o olhar de cores,
prenhe de frescor e odores, amadurecidos em
toda sua trajetória pelo universo.
Sorrir para o tempo magnânimo
Compreender as oportunidades,
Não se apavorar com o caminho,
Bem-fazer toda ajuda,

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Genuínas reminiscências

Por Maria Luzia Fronteira



Arrebata-me uma saudade na rajada do vento, na morrinha e na invernada que rasga o silen-
cio oh, e à noitinha junto à lareir’ acender o lume, com a saruga do pinheiro, os gravetos d’
acácia, e as folhas tenras d’ eucalipto e do loureiro, e das bagas oh, o cheiro, sob as rachas
da lenha resguardada no palheiro de paredes de pedra e de telhado rijo fabricado n’ olaria da
minha rua.

Arrebata-me a saudade das brasas na lareira sob a panela de ferro, cozendo o milho, ou a
sopa de trigo ou o bolo do caco e a castanha no brasume p’a família inteira.

Arrebata-me uma saudade na cartola e no garrafão de vime, e no corno do boi cheio de vinho
caseiro amiúde...e dos poios laranja terra, adubada com o estrume da vaca e a mondada a
eito das urtigas e da erva melada...e das botas d’água da rega na levada clorofilada de mus-
gos, ervas aromáticas, treviscos, giestas, dente de leão, abundâncias, trevos, pata de gali-
nha, junquilhos e malvas.

Arrebata-me uma saudade na vassoura de urze e na vassoura de palha e no cabo de madei-
ra, da pá, da foice, da pedoa, da enxada do machado e da lima...oh e arrancar a erva do pá-
tio na calçada.

Arrebata-me uma saudade de beber água com sabor a terra das nascentes e do verde dos
montes ingremes, numa bica de palma fazendo a ponte na levada quebrada.

Ah e do toque das ave-marias, às seis e meia e as mulheres resguardadas de pés em banho-
maria absorvendo um calorzinho na derme fria, e as mãos em direção ao azul do céu, ora
num tom azul anil, ora num tom azul mar, ora num tom azul petróleo ora num tom místico
pardacento rezand’o terço e dando as graças pelo berço abençoado em que foramos acolhi-
dos.




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            25 ANOS

   Por Sarah Venturim Lasso

        Bem vindos 25 anos
Faço bodas de prata de mim mesma
  Como uma rosa desabrochando
               Feminina
                Menina
            Virando mulher
     Em 25 primaveras juvenis
     Despeço-me da juventude
           E abro as portas
    Para um caminho sem volta
      Trilhado por mim mesma
        Em noites de insônia
       Rumo ao desconhecido
                 Adulta
                Com frio
              Com medo
                Sozinha
   Acompanhada de mim mesma
              Nessa vida
           Como um jardim
            Seco e inóspito
           Sigo firme e forte
            Rumo ao verão
               E a chuva
        E mesmo sem saber
        Como será o amanhã
             Sigo positiva
              E pensativa
           Como uma rosa
 Driblando meus próprios espinhos
  Enlaçados em meu corpo frágil
   Mesmo sem saber do amanhã
               Sigo rosa,
   A espera da colheita do amor.




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ROCAMBOLE DE GOIABADA
http://tudogostoso.uol.com.br/



Ingredientes
• 3 claras em neve
• 3 gemas
• ½ xícara de água
• 1 xícara de açúcar
• 1 xícara de farinha de trigo
• 1 colher de chá de fermento
300 g de goiabada derretida


Modo de fazer


1. Bater na batedeira as claras em neve, após jogar a gemas, a água,
   em seguida o açúcar, o trigo e por último o fermento
2. Colocar a massa em forma retangular grande untada em forno pré-
   aquecido
3. Assim que retirar do fogo colocar a massa sobre um pano de prato
   polvilhado com açúcar (ou papel manteiga)
4. Enrole imediatamente e reserve
Derreta a goiabada e aplique, enrole novamente e polvilhe açúcar ou
cubra com chantilly




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Uma Árvore Chamada Terezinha-Centro Cultural Lagoa do Nado -
Jardim dos Poetas -Belo Horizonte - MG


Por Clevane Pessoa de Araújo Lopes


Jacqueline Aisenman de azul, e sua árvore, Terezinha, observada por Rogé-
rio Salgado e por mim, (Clevane Pessoa), no Jardim dos Poetas-Lagoa do nNdo, em
31 de maio de 2012.Salgado e eu .
Crédito da foto: Lecy de Souza




Marco Llobus marcara para 31 de maio, a segunda edição do Jardim dos Poetas(**): poetas que
passaram pela Lagoa do Nado (*)em Saraus de Poesia , os que fizeram parte do histórico pro-
cesso ...
A premiada prosadora e poeta Norália de Castro Mello estava nos primórdios da organização,
em Brumadinho, de um lançamento- do Varal do Brasil-2, onde estamos na qualidade de coau-
toras e organizada por Jacqueline Aisenman a qual lançaria também seu próprio novo livro,
"Briga de Foice", pela
Design Editora , de Jaguará do Sul/SC, um belo trabalho editorial. Jacqueline também é catari-
nense-e mora há anos, em Genebra.
Norália sonhava em reunir aqui, os coautores mineiros.
Queria sobretudo, oferecer a Jacqueline a grande oportunidade de conhecer Inhotim (**).Mas as
negociações se arrastavam, graças aos valores -e ela então, investiu potencialmente na Prefei-
tura de Brumadinho, onde hoje reside, que cedeu-lhe a Casa da Cultura-para a recepção de 01
de junho, hospedagem aos poetas e prosadores, várias benesses. A Secretaria de Cultura e Tu-
rismo entrou no esquema produtivo-e Norália pode contar com Juliana Brasil, Regina Esméria,
Maria Lúcia Guedes, Maria Carmen de Souza, que se empenharam na decoração e na degusta-
ção de acepipes tipicamente mineiros juninos. Segundo comentários dos autores e convidados,
foi uma grande confraternização-continuada em Inhotim e depois no Restaurante D. Carmita,
com os lançamentos das antologias citas e livros dos presentes .

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Bem, então, no Dia 31, aqui em Belo Horizon-        poderia ser madrinha ou afilhada do poeta e o
te, começamos a recepção à Jacqueline, que          poeta escolheria o nome de sua árvore, pen-
seria homenageada junto com Diovvani Men-           sei em achegar-me a uma que desse muitas
donça (leia-se Paz e Poesia ***) , no Sarau da      flores , para dar-lhe o nome de minha mãe,
Lagoa do Nado, no Restaurante D. Preta, re-         que adorava o verde. Eu andava daqui e dali,
duto de poetas ,artistas e pessoas da Paz, a        mas fui atraída por um cedro. Mesmo ele apre-
convite de Claudio Marcio Barbosa , produtor        sentando uma praga branca. Não consegui
cultural e poeta, que faz parte da família que      afastar-me das lindas folhas oblongas e aceti-
administra o D.Preta. preparam um substancial       nadas. Então, pensei: vou dar-lhe o nome de
prato mineiríssimo, o Feijão Tropeiro (****).       Máximo, pois meu avô ,paraibano, trovador,
Foi organizada uma mesa de livros , para a          cordelista e jornalista, repentista sonetista, que
degustação da mente e do espírito, por que          ensinou-me a metrificar e amar a poesia ainda
não, do coração? Jacqueline recebeu as              no seu colo, não obstante árvore do gênero
"Palmas Barrocas" -alusivas à arte sacra mi-        feminino na gramática, mas comum dos dois
neira, uma criação da artista de Sabará-uma         na espécie, Cedro sempre vai lembrar-me o
das mais antigas cidades mineiras- Dirléia Ne-      gênero masculino.
ves Peixoto e que são parcimoniosamente dis-        Desejei muita sorte ao meu cedro-que cresça
tribuídas pelo grupo de Poetas Pela Paz e pela      o máximo, seja o máximo-sobrenome de vovô,
Poesia., grupo que realiza o Paz e Poesia em        Luiz Máximo de Araújo -pensei .
Belo Horizonte (*****).                             Depois de curtir a árvore que me escolheu, fui
                                                    circular e quando Jacqueline Aisenman foi ba-
No D. Preta, , esperamos a chegada de Norá-         tizar a sua, ela disse-me;-Terezinha, o nome
lia, que chegou com sua filha Daniela. Desse        de minha mãe.
momento, participaram os poetas e artistas de       Fiquei literalmente arrepiada .Claro que o pre-
Belo Horizonte, Marco Llobus, Neuza ladeira         nome da santinha de Lisieux é muito comum,
Rodrigo Starling, Iara Abreu, Maria Moreira,        mas eu, que vivo na memória e no imaginário,
Adão Rodrigues, Fátima Sampaio, Rogério             escritora que sou, logo pensei : -Mamãe, que
Salgado, Claudio Márcio Barbosa , Serginho          adorava o pai, deu-lhe lugar.
BH (fundo musical ao violão) e eu. Coautoras        E assim , toda vez que for ao jardim de nós,
de outros Estados e cidades estiveram no con-       Poetas, no CC Lagoa do nado, vou acarinhar
graçamento: Yara Darin, Maria Clara Macha-          essas duas árvores: pela amiga distante, em
do, e, com Norália e Daniela, também artista,       outro país, Jacqueline Aisenman e cultura o
chegou a alegre Madhu Maretiori, que lan-           nome materno de ambas, e o d e vovô, meu
çou seu encantador "Em Nome de Gaia"- mi-           mago iniciador que revelou-me a POIESIS, co-
nilivro de grande conteúdo.                         mo soi ser, com autoria, orgulho e ale-
Bem, esse prólogo longo , mas necessário ao         gria ::Terezinha e Máximo.
registro de nossa história de poetas, nos leva      Mais tarde, já em casa, li um texto maravilho-
agora, à Lagoa do Nado.                             so, em Varal Antológico 2 de Jaqueline Aisen-
Lá, além do mini tour pelo pulmão verde e su-       man ,denominado Pintura Ingênua, onde ela
as águas, com passagem pela exposição a             abre ao leitor o grande amor por seu pai ("Meu
céu aberto da obra enraizada de Mestre Thi-         pai, sentado na cozinha, palpitava a vida, dava
bau., Jacqueline e nós, poetas convidados ,         palpites em tudo"), onde a mãe amada entrea-
fomos levados para plantar nossa árvore no          parece, figura de fundo e de pal-
Jardim da Poesia.                                   co ,indispensável( "Ou ia pelos braços queri-
                                                    dos de minha mãe, braços)
Quando saí de casa, sabendo que cada árvore

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cheios de alma") .

Realmente , esse plantio para mim, transcendeu os objetivos lindos desse jardim de árvores:
permitiu-me a sagrada memória familiar vir bailar conosco por entre as mudinhas esperanço-
sas...

(A Jacqueline Aisenman, agradecendo o convite para ser e estar em Varal Antológico 2:alegria e
honra).


                                                  Jacqueline, vendo nossos livros. Nas mãos,
                                                  Sais—de Rogerio Salgado. Na pilha, meu
                                                  Asas de Água e Nós, de Rodrigo Starling-
                                                  entre outros.




           Exemplares de Varal Antológico-
           antologia coordenada por Jac-
           queline Aisenman




                                                  Café com Letras é da ALTO, em teófilo oto-
                                                  ni e Lírios sem Delírios, meu livro mais re-
                                                  cente (selo aBrace).
                                                  Revistas internacionais aBrace




       Convite para o evento em Brumadinho


                Fotos de Clevane Pessoa

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Varal Antológico 2 se estende entre os poetas em Belo Horizonte
         Fotos de Yara Abreu, Clevane Pessoa, Yara Darin entre outros




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UMA CONVERSA AO PÉ DO FOGÃO, UM SARAU PERFEITO!




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Guerra sem paz


Por Lina Macieira


O homem
é a luz do seu
próprio eu
rebeldia sem cor


forte carência espiritual
armas interior.


O homem reprime sua vontade
de fazer amor, fugindo da paz


homem insolente, homem frágil
digno de morrer e mata.


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                                                             NO MUNDO DA
                                                        FICÇÃO CIENTÍFICA
                                                             Por Daniel C. B. Ciarlini



         O adeus de Bradbury e
              Fahrenheit 451

         Deixando saudades e uma extensa lista
de romances e contos, Ray Bradbury, escritor
americano considerado um dos pilares do gê-
nero da ficção científica moderna, morreu na
manhã do último dia 6 de junho, aos 91 anos.
Era natural de Waukegan, Illinois, Estados Uni-
dos, onde nasceu em 22 de agosto de 1920.                Além de ter explorado com talento o
Viveu a maior parte de sua vida em Los Ange-     campo da ficção científica, teve proveitosas
les, Califórnia.                                 participações no gênero do horror, onde, inclu-
                                                 sive, foi referência e conquistou o reconheci-
        Diferentemente de Isaac Asimov, Arthur mento e o respeito de figuras como Stephen
C. Clarke e Robert A. Heinlein, que foram des- King, considerado o mestre do terror e do sus-
cobertos por John W. Campbell Jr. na era das pense da contemporaneidade. É a Bradbury
pulp magazines, Bradbury foi o único escritor que King dedica Dança Macabra (1981), cole-
da década de 40 a surgir no campo da ficção tânea de ensaios impressionistas que discutem
científica de maneira, por assim dizer, indepen- a manifestação do horror nos campos da litera-
dente, sem apadrinhamento, cujos conheci- tura e cinema.
mentos científicos e técnicos não foram adquiri-
dos em academias, mas de maneira empírica,              Ray Bradbury era o último dos moicanos
autodidata. Estreou na literatura com o conto que representava a Geração de Ouro da ficção
Hollerbochen’s dilemma, publicado entre 1938 científica moderna, formada também por Isaac
e 1939, e iniciou a carreira como profissional Asimov, Robert A. Heinlein e Arthur C. Clarke.
em 1941, quando teve seu primeiro conto pago Foi considerado o apóstolo dos gentios e o em-
divulgado na Super Science Stories. Anos mais baixador da ficção científica para o mundo ex-
tarde já era visto assinando textos na Astoun- terior (ou seja, além das fronteiras estaduni-
ding e nas principais revistas congêneres que denses), pois “Pessoas que não liam livros
circulavam os EUA. Período este que seu no- desse gênero e que se retraíam diante de suas
me virou febre e angariou um público conside- convenções pouco familiares e de seu vocabu-
rável de leitores em toda a porção Norte da lário bastante especializado, descobriram que
América.                                         eram capazes de ler e entender Ray Bradbury”,
                                                 segundo afirmou Asimov em ensaio à TV Gui-
                                                 de, em 12 de janeiro de 1980. Sendo um dos
                                                 mestres da science fiction, não podia deixar de
                                                 ter publicado clássicos como As Crônicas Mar-
                                                 cianas, coletânea de vinte e seis contos que
                                                 consolidou sua carreira e foi classificada pelo
                                                 próprio autor como uma espécie de “mitologia
                                                 espacial”, escrita nos anos 50.


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        Apesar de ser considerado um dos qua-             Guy Montag, a personagem principal,
tro pilares da ficção científica, estranhamente    observando as pessoas encasteladas em te-
não gostava desta denominação, negando mui-        lões de televisão afixados nas paredes de suas
tas vezes que fosse escritor do gênero. Além       residências, onde assistem a programas e ao
disso, dos casos peculiares que marcam a sua       mesmo tempo interagem (um tipo de antecipa-
biografia, sabe-se da aversão que tinha por via-   ção aos reality shows), assim desabafa:
gens de avião e de jamais ter dirigido um auto-    “Ninguém mais presta atenção. Não posso falar
móvel. Escreveu peças de teatro, poemas e foi      com as paredes porque elas estão gritando pa-
roteirista de sucesso, tendo adaptado Moby         ra mim. Não posso falar com minha mulher; ela
Dick para Hollywood. Antes de se tornar escri-     escuta as paredes. Eu só quero alguém para
tor, era jornaleiro. Começou a escrever para       ouvir o que tenho a dizer. E talvez, se eu falar
sustentar a família.                               por tempo suficiente, minhas palavras façam
                                                   sentido” (op. cit., p. 120, grifos do autor).
                                                           Sem nada a instruir a não ser o exercício
                                                   e as práticas esportivas, à escola é reservado o
                                                   papel de formar “corredores, saltadores, fundis-
                                                   tas, remadores, agarradores, detetives, aviado-
                                                   res e nadadores em lugar de examinadores,
                                                   críticos, conhecedores e criadores imaginati-
                                                   vos” (op. cit., p. 88), sendo, pois, a palavra
                                                   “intelectual” um tipo de palavrão. Nesse senti-
                                                   do, eis que os filhos são mantidos nas escolas
                                                   por nove dias seguidos, com apenas um dia de
                                                   folga, logo, não ficam mais do que três dias por
                                                   mês na casa dos pais, e quando assim o são à
                                                   frente dos telões. O livro também é visto como
                                                   uma ameaça ao governo que incentiva a igno-
                                                   rância: “Um livro é uma arma carregada na ca-
                                                   sa vizinha. Queime-o. Descarregue a arma. Fa-
                                                   çamos uma brecha no espírito do homem.
                                                   Quem sabe quem poderia ser alvo do homem
                                                   lido? Eu? Eu não tenho estômago para eles,
                                                   nem por um minuto” (op. cit., p. 89).
       Em Fahrenheit 451, um de seus livros                Afora esses aspectos, Fahrenheit 451,
mais famosos, Bradbury produz uma narrativa        como toda boa obra de ficção científica, não
tipicamente soft e distópica. Desvenda uma so-     deixa de especular a respeito de inventos tec-
ciedade transformada pelos avanços dos meios       nológicos, como quando demonstra a existên-
de comunicação que alienam a sociedade. A          cia de bancos 24 horas, cujos caixas são ro-
leitura de livros é vista como proibida e para     bôs, uma antecipação dos atuais caixas de
manter a ordem o governo manda queimar bi-         atendimento automático. Vê-se ainda a existên-
bliotecas e até residências que comportam lei-     cia de helicópteros de polícia que podem se
tores. Interessante observar que este papel é      transformar em viaturas ou vice-versa; além de
desempenhado pelos bombeiros, vistos como          cães mecânicos farejadores. Bacharéis e cien-
mantenedores da ordem. Apesar de escrito na        tistas, em face da proibição de livros, desenvol-
década de 50, ainda é notável a ironia do autor    vem ainda um método que consegue trazer a
ao analisar o aspecto alienado das pessoas         lume tudo aquilo que já leram, bem como uma
frente às futilidades trazidas pelo desenvolvi-    bebida que modifica a composição química do
mento econômico: “O que mais falam é de mar-       corpo a fim de alterar o feromônio, despistando
cas de carro ou roupas ou piscinas [...] todos     assim os sabujos, os cães mecânicos.
dizem a mesma coisa e ninguém diz nada dife-              Sem escritório e espaço em casa para
rente de ninguém” (op. cit., p. 51-2). Ou ainda:   produzir, Bradbury escreveu Fahrenheit 451
“O clangor reduziu as pessoas à submissão;         nos porões da Universidade da Califórnia em
não corriam, não havia lugar nenhum para on-       Los Angeles, entre livros velhos e máquinas de
de correr” (op. cit., p. 116).                     datilografar alugadas a dez centavos a meia
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hora. Segundo afirmou, o livro acabado lhe custou nove dólares e oitenta centavos.
       Das passagens mais emblemáticas e libertas que, a meu ver, Bradbury deixou aos coleci-
onadores de preciosidades, resume-se em um trecho de denúncia a toda e qualquer forma de
opressão que tenta podar o espírito livre e imaginativo do homem: “[...] este é um mundo louco e
ficará mais louco, se permitirmos que as minorias – sejam elas de anões ou gigantes, orango-
tangos ou golfinhos, adeptos de ogivas nucleares ou de conversações aquáticas, pró-
computadorologistas ou neo-ludditas, débeis mentais ou sábios – interfiram na estética. O mun-
do real é o terreno em que todo e qualquer grupo formula ou revoga leis como num grande jogo.
Mas a ponta do nariz do meu livro ou dos meus contos ou poemas é onde seus direitos termi-
nam e meus imperativos territoriais começam, mandam e comandam”.




                            ORGIA


                     Por Mário Rezende


                     Que mulher é essa?
               Que magia é essa que ela tem,
                     de me atrair assim,
                   como uma presa fácil,
                    indefesa, sem forças
                     e vontade de fugir?
                    Quem é essa mulher
                    que me deixa assim
                 com os neurônios em orgia,
                 ouvindo cantos e tambores
                ecoando batuques ritmados?
               Por que será que essa mulher
               controla assim a minha mente
                 e provoca uma vontade louca
              de me deixar levar, ficar ausente?
            Todo esse poder é teu, minha mulher.




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                                               UM BILHETE ANÓNIMO


Por Lénia Aguiar


Quando o final do ano lectivo aconteceu, Magda, que até agora tinha ocultado os seus senti-
mentos pelo professor de educação física, Guilherme, por temer a rejeição e parecer ousada,
finalmente teve coragem para se declarar escrevendo um bilhete. Descobriu qual o seu cacifo e
colocou um bilhete. Guilherme ficou surpreso com tal papelinho, assim como com o seu conteú-
do:


 Há muito que lhe quero dizer que é bonito.
 Conheço-o há algum tempo e você a mim também.


 Se quer saber quem sou vá até ao cais às 20h30min.
                                                     M




    Quando terminou de ler sorriu. Arrumou o bilhete e tirou tudo o que tinha no cacifo arru-
mando na mochila. Saiu da sala em direcção a casa. Foi a pé, morava relativamente perto.
Enquanto caminhava pensava:
«-Quem será? Porquê tão tarde o encontro? Deveria ser já, estou ansioso para saber quem é.
Se não gostar disfarço, dou meia volta e vou para o bar da praia.»
     Ao chegar a casa tomou um banho e vestiu t-shirt e calças de treinar. Nem o pai nem a
mãe desconfiavam que ele teria um encontro. Jantou e fez-lhes companhia durante algum tem-
po enquanto a tv transmitia o noticiário. Ao passar cinco minutos das vinte horas, levantou-se e
disse-lhes que ia encontrar-se com amigos.
      Quando chegou ao cais avistou algumas pessoas ao redor, a maioria acompanhadas. Mas
havia uma mulher mais afastada e voltada para o mar, era elegante e de cabelo ondulado escu-
ro. Só poderia ser aquela a M! Até suspeitou que pudesse ser a sua ex-aluna, porém, não que-
ria estar muito empolgado, pois era cedo e a tal mulher poderia ainda não ter chegado ou nem
aparecer. Aproximou-se lentamente e disse sorridente:
--Está um bonito fim de tarde! - Porém, ao aperceber-se de quem se tratava acrescentou – Mag-
da!?
--Sim. Estou à espera do homem que sempre esteve apaixonado por mim e só agora admitiu.
-Estou sem palavras... Algumas vezes suspeitei do teu interesse, mas conclui ser loucura mi-
nha.
--Também apercebi-me muitas vezes que me olhava com ar de macho... Farei dezoito anos
amanhã.
--Não te importas mesmo que namoremos? Eu fui teu professor até hoje.
--Poderemos mentir, ninguém precisa saber que eras meu professor, Guilherme.
Ele enlaçou-a e beijou-a confessando:
--Só o nosso amor interessa.


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                  A essência da poesia


                      Por Alma Lusitana




          Recentemente abandonado pela comunidade,
       vive na rua sem rumo e numa selvagem crueldade.

Desce a calçada com os pés doridos pela ausência de resguardo,
 sendo vencido por um cansaço aliado à urgência de alimento.

    Numa noite chuvosa, sucumbe sobre os gélidos paralelos
              de uma calçada deserta e sombria.

      Ao despertar dolorosamente da sua malfeita sorte,
   encontra a seu lado, lambendo-lhe afectuosamente a face,
  um pequeno cachorro também desgastado pelas atrocidades
              da nossa preconceituosa sociedade.

   Fixados num olhar penetrante, o sem-abrigo, retira do bolso
   meio pão enlameado repartindo-o poeticamente com o único
ser que no auge do seu desespero e imune a qualquer presunção,
         o acompanha nesta sua dolorosa enfermidade.




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O violino

Por Danilo Augusto de Athayde Fraga


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Apaga
A luz e dança
A casa vazia a noite jovem
A lua e você

Toca um quarteto
De Ravel de cordas
A corda não
Quer parar de adormecer

Eu e você e mais
A lua e a noite eu sou
Entre rosa orquídea e adelfa
A quarta e quinta corda
O violinista adormecido

O poeta que desperta para enfim
Fechar os olhos como quem goza
Uma breve nota de Satie
As três graças de Canova

Eu sou o arco que desliza sobre cordas
Tensas e também é corda
                O verso e o seio como taça
                O vinho e o sonho
                O amor ou algo parecido




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                             A ARTE INCONDICIONAL DE AMAR


                                  Por Dhiogo José Caetano


O amor é a maior força que existe no mundo. Aqui falo de amor no sentido lato e não só do sen-
timento que pode existir entre dois seres. O amor total é uma forte de energia que não utilizamos
o suficiente.
O amor é uma plenitude que no envolve até nos momentos de raiva, pois a raiva ou ódio é a an-
títese do amor, ou seja, o amor que está doente.
Portanto, aja sempre com amor e terá sucesso na sua existência. O amor está na base de todas
as grandes descobertas e grandes invenções que tiveram lugar, têm lugar e terão lugar na histó-
ria da humanidade.
Sem amor, não podemos construir nada de grande. O amor é simplesmente a essência que nos
mantém vivos.
Se os homens projetaram enormes templos, igrejas, mosteiros, sinagogas, mesquitas, foi por
amor ao ser supremo: o seu salvador aquele conhecido com regente de todas as coisas que
existe no universo.
Se os homens fizeram descobertas em todos os domínios, foi para melhorar a vida dos seus
amados irmãos.
Seja no domínio da medicina, da tecnologia, do dia a dia ou da melhoria das condições de vida,
no fundo, os investigadores, os cientistas, os médicos e os grandes exploradores agiram sempre
para o bem da humanidade.
O amor vence tudo, a sua supremacia sobrepõe todas as coisas.
Aqueles que tentaram, tentam ou tentarão praticar o mal serão sempre vencidos, porque a força
do amor é maior do que a força do ódio. Esta pode causar muitos estragos, mas será sempre
vencida no fim!
Meus amados irmãos, convindo vocês para praticar a arte do amor no dia a dia. Não só irá atin-
gir mais depressa os seus objetivos, mas também praticará o bem à sua volta. Obterá sempre
uma recompensa moral ou material.
Será um ministro que prega o amor e que é sempre amado.
Em suma, cultive a atitude de amar incondicionalmente e não por interesse ou esperando rece-
ber uma recompensa. Coloque um amor incondicional nas suas palavras, pensamentos e atos,
assim a sua vida plenamente será rega com muito sucesso, clarividência e paz.
Amar nunca é demais!




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                                                         divulgação.

                                                         Há pessoas por todos os cantos aju-
                                                         dando aqueles que não sabem como
                                                         ajudar a si mesmos. Seja mais um, faça
                                                         destes bichinhos a sua causa!!

                                                          AJUDE A AJUDAR, SEJA HUMANO!




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Rocambole de Batata

Marilice Bernabei
http://www.receitas.com/


Ingredientes

Massa

• 1/2 kg de batata
• 1 xícara de leite
• 3 ovos
• 4 colheres de farinha de trigo
1 colher de manteiga

Recheio

O de sua preferência: frango, palmito, carne moída, presunto e queijo, camarão ou verduras
refogadas.

modo de preparo


Massa

1º - Descasque as batatas e depois de cozinhar em água e sal, esmague-as e passe-as pe-
la peneira.

2º - Junte a manteiga, o leite morno, a farinha aos pouquinhos e misturando bem.

3º - Depois, acrescente os ovos. Bata muito bem até conseguir uma massa lisa e uniforme.

Montagem

1º - Despeje numa assadeira untada com manteiga e polvilhada com farinha de trigo.

2º - Alise, polvilhe com um pouquinho de farinha de rosca e leve ao forno por cerca de 15
minutos.

3º - Deixe esfriar um pouco e, quando ainda quente, vire a massa sobre um guardanapo
polvilhado com farinha de rosca.

4º - Espalhe o recheio e enrole com cuidado, aperte com o guardanapo e depois de alguns
minutos desembrulhe.

5º - Salpique com pedacinhos de manteiga e passe outra vez pelo forno por cerca de 5 mi-
nutos.



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Varal do Brasil— julho/agosto 2012

A Tartaruga Fifi                                     forte graças à nova família.

                                                     Infelizmente, depois de tanto carinho e amor,
                                                     Suzi não quis mais Fifi e sua família inconse-
                                                     quentemente colocou-a na rua, à sua própria
                                                     sorte.

                                                     Para a alegria de Fifi, uma menina chamada
                                                     Sofia apareceu e a resgatou, livrando-a daque-
                                                     la movimentação enorme das ruas.

                                                     Em casa, Sofia perguntou a tartaruga:

                                                     -Você está perdida?

                                                     A tartaruga balançou a cabeça mostrando que
Por Helena Akiko Kuno                                sim.

(Helena tem 8 anos e escreve pela primeira Então Sofia adotou Fifi e ficou muito feliz, pois
vez para a revista)                        ganhara uma amiga para brincar.

Em um belo dia ensolarado, Suzi andava pela O tempo passou, Fifi adoeceu e não havia vete-
rua quando viu um novo Pet shop e decidiu co- rinário que cuidasse de tartarugas na cidade.
nhecê-lo.
                                               Um dia Fifi começou a fechar os seus olhinhos.
Chegando lá, ela viu diversos animais: cachor-
ros, gatos, peixes, hamsters e tartarugas.     Sofia inconformada chorou muito, mas não ha-
                                               via mais tempo, Fifi tinha morrido.
Mas uma tartaruga bem pequena no fundo de
uma gaiola lhe chamou a atenção, ela parecia Sofia ficou tão triste e até hoje ela ainda lembra
fraquinha e magrela.                           -se de Fifi.

Suzi com dó da tartaruga foi correndo para ca-
sa conversar com a mãe:

- Mãe tem uma tartaruguinha no novo petShop,
você compra para mim?

- Não sei filha, estou com pouco dinheiro este
mês.

- Por favor, mãe.

- Está bem, mas lembre-se que a responsabili-
dade é sua.

Chegando ao pet shop, Suzi pegou a tartaru-
guinha na mão e disse:

- É essa tartaruga que eu quero mãe.

- Mas ela parece tão frágil, não acha?

- Não mãe, eu não acho!

- Está bem querida, então vai ser essa.

Então a tartaruga começou a ficar saudável e
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                                         O segredo

Por Domingos A. R. Nuvolari



Florinda casou-se a alguns instantes e já estava eufórica para a sua viagem de lua de mel, que
faria daqui a algumas horas. Ediberto seu noivo, se divertia regado a cerveja e seu pagode pre-
ferido, que saia da caixa de som.
Entre fotos e abraços sujava cada vez mais a cauda de seu vestido longo e branco, perdido nas
rendas, que um dia sonhara para este dia tão especial. Com o nó já frouxo de sua gravata, o
noivo ria das piadas contadas pelos amigos, na rodada que seguia noite adentro e não parecia
que Ediberto estivesse sonhando com a viagem ao nordeste baiano, terra de sua gente.
Os convidados, que não foram à cerimônia, não terminavam de chegar ao salão de festas, inclu-
sive Maria Antônia, uma confidente de Florinda que no meio da festa adentrou ao salão, seu
olhar não se cansou de procurar a noiva, até que a avistou e correu ao seu encontro.
O noivo era preparado pelos amigos para o momento esperado, o tradicional corte da gravata.
Soma tão esperada que ajudaria no custeio dos dias que passariam, na pequena cidade natal
do baiano, que ali continuava a se divertir como sempre se divertia, na sua pacata vida de vigia
de um supermercado.
Durante seus dois anos de namoro e noivado, Florinda não se deixou levar pela fraqueza da
carne, sempre seguiu rigidamente a tradição da família, que sonha em levar a noiva para o altar
e casar de véu e grinalda, corretamente.
Maria Antônia, agora de frente para a noiva, nem mal cumprimentou Florinda, pelo seu casa-
mento, foi logo cochichando no ouvido da noiva, com um ar de fofoca, segredo guardado há
tempos, a espera do momento certo para soltar a bomba. Florinda num gesto de surpresa, colo-
cou as duas mãos na boca aberta, afirmando ainda mais a inesperada bomba que a amiga con-
fidente fuxicou em seu ouvido.
Nesta altura da festa, Ediberto já garantia um bom trocado para a tão sonhada lua de mel, que
esperou, embora não demonstrasse estar com pressa. Ele conhecera Florinda no cemitério da
cidade quando levava ela ao tumulo ali esquecido, meses antes do início do namoro.
Quando Ediberto olhou para Florinda, naquela cena olhando para ele, ele sentiu em seu gesto
de desespero e podia imaginar que não era um simples gesto, ele parecia saber do que se trata-
va pois ficou paralisado como se um segredo havia acabado de ser descoberto.
Florinda voltou-se para o local onde Ediberto estava e saiu ao seu encontro, já em meio ao cho-
ro, ao nervosismo e ao desespero. Ediberto repentinamente acorda de seu pesadelo, na véspe-
ra de seu casamento, suando frio, assustado mas com a certeza e a garantido que seu segredo
ainda ficaria guardado, por mais algum tempo, com ele e com Maria Antônia, falecida pouco an-
tes do início de seu namoro.




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                          Adoção é uma permuta de amor.
                     O homem ama o cão e o cão ama o homem.
                             Os dois tornam-se amigos.




                          Na foto, Costelinha




Por Elise Schiffer




                 Amigos: Costelinha (4 anos) e Rosemberg (12 anos)


Era uma vez um menino que vivia sozinho,
Sua família havia mudado de residência.
O menino ainda não tinha amigos no novo Bairro.
No dia de Natal o menino pediu a sua mãe.
Mãe, eu quero um cachorro de presente.


Era uma vez um cachorro chateado,
Que havia sido abandonado ainda filhote.
O cachorrinho estava sozinho, não tinha nenhum amigo.
As pernas tremiam de tanto medo que sentia por estar sozinho.
O filhote latiu e latiu pedindo aos céus um dono para amar.


No dia de Natal a mãe do menino o levou a um abrigo de animais.
Lá o menino viu muitos filhotes pulando e latindo.
O coração do menino bateu forte pelo filhote mais sujo e magro.
Era o filhote mais feio no berçário do abrigo.
Hoje o filhote é um belo cão, o menino esta feliz e os dois são grandes amigos.




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PSICOSE LITERÁRIA                                  secretamente ainda tinha esperança de fazê-lo,
                                                   mas não podia dormir por pouco mais de qua-
                                                   tro horas por dia, os pesadelos eram constan-
Por Eliseu Ramos dos Santos                        tes e verossímeis e o cheiro dos corpos já im-
                                                   pregnava toda a casa. O cheiro era mesmo o
                                                   pior de tudo, aquilo que o deixava mais angusti-
      Uma folha em branco era a visão mais         ado. Cansava-o. Espalhado por todas as par-
recorrente em sua vida desde então. Fitava-a       tes da casa, exceto no tapete persa. Por isso
insistentemente, mas não conseguia mais es-        ele passava horas a fio de bruços, com os bra-
crever depois que havia feito. Agora estava so-    ços abertos e o nariz estacionado nas cerdas
zinho. Aliás, estivera sozinho há muito tempo,     do tapete. Podia cultivar o terrível sentimento
contudo, desta vez se encontrava fisicamente       até o fim contanto que não precisasse suportar
só, por pouco mais de um mês não vira algum        o aroma da morte. Sabia que lhe restava pouco
mísero rosto diferente, nem o seu próprio. Que-    tempo até que o cheiro se ousasse a romper os
brou todos os espelhos da casa, pois não su-       limites da casa e chamar a atenção do mundo
portava a expressão de fracasso e desolação        que há depois da porta da frente.
tatuada em sua face. Por vezes conseguia se              Pois então, se quisesse que valesse a pe-
enxergar furtivamente no reflexo da água em        na tudo que havia feito, deveria começar a es-
suas mãos antes de lançá-la contra o rosto, ou     crever logo. Seria sua obra-prima. Um estan-
senão era possível se reconhecer de um modo        darte da literatura moderna, recuperaria enfim,
deformado na garrafa de uísque recém-              o reconhecimento de todos, mesmo com um
esvaziado, esta sim, era a imagem que mais         débito tão alto a pagar, o sacrifício não seria
lhe agradara nos últimos tempos: seu semblan-      em vão. Não o sacrifício próprio, mas o de seus
te totalmente distorcido, o que representava       entes: sua bela e amável esposa e seus filhos,
para ele, a desfiguração de seu pobre espírito.    carinhosos e educados. “Morreram para entrar
Diante do estado de solidão, há muito tempo        na história”, pensava ele, em momentos de in-
não pronunciara uma só palavra. Não carecia,       tensa insanidade, “serão eternos personagens
ele não era do tipo que jogava palavras ao ven-    do meu legado como escritor, estarão vivos por
to, o máximo que produziu sonoramente duran-       séculos no imaginário de toda a humanidade!
te esse período fora alguns gritos dispersos de    Ora, como não? Se estivessem aqui prestariam
desespero e angústia motivados pelas lem-          inúmeros agradecimentos a mim por serem es-
branças vinculadas ao que fizera, surgiam em       colhidos para tal.” Sua mente agora doentia
sua mente com tanta força e violência que não      costumava variar do estado de plena culpa e
conseguia conter-se em silêncio: gritar emude-     desolação para uma incontinente e repentina
cia sua mente e o deixava um pouco menos           megalomania. Um desgraçado dégradé de
morto.                                             emoções que o deixava cada vez mais demen-
      Falando nisso, não cogitou em nenhum         te. Não era à toa que se encontrasse nessas
momento a ideia de suicídio, para ele, viver o     condições, afinal praticara um dos atos mais
maior tempo que dispusesse com aquele senti-       lastimáveis conferidos ao ser humano: o assas-
mento tão corrosivo quanto ácido era o único       sínio da própria família.
modo de diminuir em alguns per centos sua
parcela de responsabilidade sobre seu ato. As-           “Mas foi por uma causa nobre! E ademais,
sim, já realizara o próprio julgamento pessoal,    eles me jogaram no poço da decadência, preci-
pois os meios jurídicos já não importavam          sava ter feito algo, sim, tudo faz sentido!” Essa
mais, tampouco a punição divina, até porque        ideia repugnante brotou-lhe em sua cabeça
não era religioso. No entanto fez de seu lar um    paulatinamente, tendo como origem um sincero
inferninho particular para ser simultaneamente,    diálogo com seu agente, “antes de seu casa-
demônio e pecador, onde ele mesmo prepara a        mento cara, você era louco, bebia como nin-
via-crúcis e a percorre sem auto refutações.       guém e tinha várias mulheres, quantas quises-
      A casa era grande, entretanto ele passou     se, havia histórias pra contar e não eram pou-
maior parte do tempo num quarto dos fundos,        cas, sua mente borbulhava em criatividade e
sem móveis, onde havia apenas um belo tapete       isso se traduzia em grandes escritos seus, por
persa e sua máquina de datilografia com uma        isso tinha se tornado um grande escritor, hoje
folha posicionada ansiando a primeira frase ser    você não é mais nada.
escrita. Ele achou que conseguiria escrever e

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      Você é do tipo que precisa viver pra es-       seguida pelo desejo de aniquilar seus inimigos
crever, toda sua obra até hoje foi baseada em        do lar. “Dei minha vida por eles, e o que eles
sua vida, por isso mesmo agora você é um cara        fazem? Acabam com minha criatividade, des-
decadente e sua familiazinha o deixou assim,         troem minha carreira, me deixam decadente.
sua vida é decadente e seus escritos também          Mas isso não ficará assim, não mesmo.”
seguem o mesmo ritmo, tudo chatice. Volta a                Só lhe faltava a coragem da prática, pois
viver cara, viva para ter uma história pra contar,   a bravura de admitir a si mesmo seus intentos
estão todos esperando você tornar a ser quem         sórdidos ele já havia alcançado. Imaginava co-
era, quem nunca deveria ter deixado de ser...”,      mo seria glorioso seu retorno as livrarias, mata-
nesses termos, a coisa que ele mais prezava          ria sua família e faria deste ato o enredo para o
no mundo, sua carreira, se transformara num          novo livro. Sim! Estava tudo certo, todos ficari-
fiasco, precisava reverter isso, custasse o que      am estupefatos e secretamente maravilhados
custar.                                              com todos os detalhes descritivos que constari-
      “Viva cara, para ter uma história”, depois     am no texto, quebraria todos os paradigmas
dessa conversa com seu agente e conselheiro          vigentes. Seria ali inaugurado um novo momen-
essa ideia foi-se germinando tão intensamente        to da literatura mundial. No primeiro instante, as
que não conseguia pensar em outra coisa,             pessoas o bombardeariam impiedosamente pe-
“viver uma história, viver uma história, fazer       lo que havia praticado, mas os insultos costu-
uma história, fazer história”, os pensamentos        meiros estariam criptograficamente carregados
dele iam sendo gradualmente atingidos por            de admiração pela bela e pormenorizada des-
uma gangrena de obscuridade, pensava final-          crição de seu ato. Seria a redenção de sua car-
mente que para voltar a escrever como antes          reira e o declínio de um homem na sociedade.
precisava se livrar de sua família, a esquizofre-    O escritor do submundo. Um maravilhoso para-
nia rondava suas ações e emoções. A partir daí       doxo que mexeria com a cabeça de todos os
cada vez que observava seus filhos brincando         leitores e marcariam suas vidas. Só isso o inte-
e sorrindo, e sua mulher realizando as tarefas       ressava agora. Marcar. Chocar. Faria com que
domésticas com todo o carinho e dedicação,           as pessoas sentissem desejos absurdos e obs-
pensava como eles estavam sugando seu ta-            curos ao lerem sua obra. No fundo tinha a cer-
lento e transformando num escritor inconstante.      teza de que toda a humanidade tem intrinseca-
Aquilo não era vida. O ódio crescia vertiginosa-     mente o instinto psicótico de contemplar a vio-
mente e a rotina tediosa potencializava ideias       lência e a barbárie.
psicóticas e compulsivas. A essa altura formu-             Sabia que esta podia ser sua ultima obra,
lava diversas maneiras de abstraí-los de sua         mas estava tão obcecado com a ideia que nada
vida, e só a morte lhe parecia a opção plausível     mais importaria, nada precisaria ser escrito
e necessária. Então começa a surgir em sua           após o ponto final. Só lhe faltava mesmo a co-
mente doentia a possibilidade de destruir sua        ragem do ato. Nunca tentou contra a vida de
família e renascer enquanto escritor. A premis-      alguém, tampouco agredira sua esposa, ultima
sa de que, sem seus entes sua carreira iria re-      vez que havia brigado ainda cursava o colegial.
nascer como uma fênix levantando voo já lhe          Por mais que seu estado fosse de plena psico-
soava como uma verdade absoluta. A solidão           se, ainda esbarrava em preceitos cultivados
realçava sua aptidão para a escrita. Mal via a       durante toda uma vida e era cabível que mes-
hora de voltar a escrever majestosamente co-         mo anestesiado por pensamentos tenebrosos,
mo antes e se envaidecer diante dos elogios          seu corpo poderia não responder a seus co-
que outrora havia se habituado. Durante meses        mandos quando necessário. Pensava em fazê-
fora crescendo em seu ser a vontade de ver           lo ébrio, mas isso prejudicaria a etnografia do
seu lar definhar às suas vistas. Tornara-se frio     ato, pois poderia perder alguns detalhes ou
com todos. Isolou-se em sua redoma psicótica,        mesmo não lembrar devido à embriaguez.
todos eram inimigos, pois o condenariam caso               Como seria concebível realizar, ou mes-
seus pensamentos viessem à tona. Não podia           mo cogitar tal feito egoísta e desumano? Nesse
mais confiar em ninguém. Estado paranoico.           momento, ele era o pior homem da face da Ter-
Olhava para todos os lados a todo o momento.         ra, ou talvez aquele que melhor representasse
A única coisa que o fazia esboçar um leve sorri-     o que realmente somos. Provavelmente sentia-
so era reler seus antigos escritos e fomentar a      se assim, como se desfrutasse ali o sabor
esperança de que tudo voltaria a ser como an-        amargo da essência de nossa espécie. Somos
tes. A nostalgia era obrigatória e morbidamente      também animais, na verdade, somos primeiro
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primeiro animais, depois pensamos em humani-         te ao quarto deles. Lá se sentaram delicada-
dade. E assim estava ele, se vendo como um           mente em suas respectivas camas a pedido de-
animal com desejos incrivelmente humanos.            le. Ele sentou-se num pequeno banquinho pró-
      Então o fez. De um modo surpreendente e        ximo a porta para que pudessem vê-lo sob o
impiedoso. Não estava alcoolizado, nem ao me-        mesmo ângulo. Os rostos rosados e os olhos
nos havia planejado, por mais que ele tivesse a      atentos dos pequenos não o fizeram esmorecer
convicção que o momento estava próximo não           e repensar no que estava prestes a fazer. Co-
tinha certeza de quando seria. Já não tinha me-      meçou então a comentar as razões que esta-
do, tampouco pensava em remorso, sua mente           vam motivando seus atos, obviamente as crian-
trabalhava por uma via de mão única, sem pen-        ças nada entenderam, na verdade não era co-
samentos duais. As palavras de seu agente re-        mo se ele estivesse explicando a ninguém, o
almente o afetaram intensamente, mas prova-          fazia somente para reforçar sua própria deci-
velmente já tivesse uma inclinação à loucura,        são: escolhera sua carreira em detrimento da
ninguém que esteja em pleno domínio de suas          própria família, pois àquela altura achava que
faculdades mentais hortaria pensamentos tão          eram duas coisas que não podiam coexistir.
execráveis. Assim, num ataque fulminante de                Ao terminar de comentar suas confidên-
cólera provocada por uma discussão banal com         cias, as crianças permaneciam rigorosamente
sua esposa, ele inicia sua ininteligível vingança    no mesmo lugar e posição, aí então ele foi em
contra sua família. As crianças brincavam ino-       direção ao mais novo, o pegou pelos braços
centemente no jardim. Ele a golpeou de súbito        gordinhos, o suspendeu à altura dos seus om-
interrompendo bruscamente o que ela dizia, ba-       bros e sorriu. Os dois sorriram. A criança tinha
nhada em sangue e perplexidade, caiu entre a         apenas quatro anos, de nada tinha noção ain-
mesa e o fogão solenemente branco, ainda não         da, e nunca teria. Ele a deitou na cama e com
havia sucumbido, pois a faca não afetara um          o felpudo travesseiro começou a pressionar so-
ponto vital. Lá estava ela, ensanguentada, exa-      bre o rosto do garoto, cada vez mais forte. O
lando porquês pelos poros. Trêmula. Fitando          outro menino assistia a tudo e sorria inocente-
horrorizada o amado algoz de pé, à sua frente        mente considerando tudo aquilo uma grande
ainda com a arma em mãos, suando bicas.              brincadeira. Depois de algum tempo de sufoca-
      Apesar dos pedidos desesperados e ago-         mento o pequeno sofredor começou a debater-
nizantes de sua esposa, ele não parou, não te-       se freneticamente como se estivesse se afo-
ria como, estava possesso e só pensava em            gando no mar da infância pouco vivida. Seu ir-
calar aquela maldita voz de súplica. Desferiu        mão começou a chorar, e percebendo que ha-
mais quatorze golpes com surpreendente perí-         via algo de errado pedia insistentemente para
cia. A partir da quinta ou sexta facada a pobre      seu pai parar. Aquela cena poderia certamente
senhorita já não reagia de nenhum modo, mes-         comover qualquer indivíduo, mas Ele estava
mo assim, envolto pelo ódio infundado e cada         implacável. Inabalável. Era como se uma força
vez mais fértil, ele continuou até deixá-la em       maligna guiasse suas ações sem nenhum re-
frangalhos. Quando finalmente cessou, parte do       ceio. A criança dera seu ultimo suspiro, “ele es-
sangue já havia coagulado e ela esboçava uma         tá dormindo, está só dormindo”, disse ele para
expressão quase sacra em seu rosto hipnoti-          tranquilizar sua próxima vítima. Está dormindo.
zante de tão belo. Uma linda mulher. Certa-          Um eterno sono. Uma pequena vida esgotada
mente dedicou seus últimos instantes de vida a       pelo extremo e doentio egoísmo desperto e ali-
preocupar-se com seus filhos. A preocupação          mentado elefantemente em tão pouco tempo.
tinha fundamento. O escritor psicótico levantou-
se esbanjando uma profunda respiração, limpou
as mãos ensanguentadas e se dirigiu ao jardim;
as crianças prontamente o convidaram para
brincar, como sempre faziam. Ele foi até os me-
ninos e passou-lhes as mãos carinhosamente
sobre seus cabelos. Chamou-os para dentro.
Os dois meninos caminharam em direção a
morte sem pestanejar, eram bastante obedien-
tes. Não passaram pela cozinha, mas pergunta-
ram pela mãe. “Foi fazer umas compras, meus
filhos”. O pai então levou os garotos diretamen-

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      O outro garoto, após ouvir seu pai, sentiu    algo aceitável o deixou num estado ainda mais
um inexplicável frio na espinha provocado por       deplorável. Suas esperanças foram postas nu-
aquela voz gélida e assustadora. O medo atin-       ma história tão primorosa que ficou impossível
giu dorsalmente o espírito da pobre criança que     descrevê-la em simples palavras.
correu desesperadamente gritando pela mãe.                “É só uma questão de tempo! Logo estarei
Ao descer as escadas como se não houvesse           vendo tudo com mais clareza e aí sim começa-
degraus, o garoto se deparou na cozinha com o       rei a escrever tudo como tem de ser escrito, de
corpo incrivelmente perfurado de sua querida        um modo impecável.” Não aconteceu. Alguns
mãe, sua agilidade de segundos atrás se fora o      dias se passaram, o telefone e a campainha já
deixando num estado de paralisia, simplesmen-       haviam tocado infinitas vezes, como se o mun-
te não conseguia se mover diante daquela ima-       do perscrutasse alguma informação sobre a
gem estarrecedora. O assassino rapidamente o        família que a muito não dava sinal de vida. Ele
acompanhou. Confuso e desolado o menino             já não sabia mais o que fazer. Colocou a culpa
abraçou fortemente o pai apontado para sua          de sua surpreendente inércia literária no idio-
mãe como se uma dolorosa interrogação fosse         ma, era demasiado limitado para expressar tão
emitida pelo seu pequeno dedo indicador. Mal        grande emoção que transmitiria em seus escri-
sabia o garoto que estava agarrado ao homem         tos. Duas semanas se passaram. Emagrecera
que causara toda aquela terrível situação. O        alguns quilos; a barba já escurecera grande
decadente escritor respirou fundo mais uma          parte seu rosto, tinha profundas olheiras causa-
vez e afastando os bracinhos do filho o segurou     das pela insônia crônica. Sua aparência se
pelo pescoço com a maior força que dispunha         transformara de tal modo como se buscasse
e com o mínimo de piedade que se pode ter. O        uma representação estética para se asseme-
menino não se cabia em agonia e não parava          lhar ao que fizera com seus entes. Brutalidade.
de se contorcer. As lágrimas torrenciais não        Selvageria. Passou dois dias inteiros deitado,
cessavam, seu nariz escorria e sua respiração       olhando para o teto de braços abertos no tape-
se mostrava cada vez mais espaçada, e foi-se        te persa. Sem beber nem uma gota d’água,
esvaindo até o momento que não pôde mais            sem comer sequer uma migalha de pão. Zumbi.
adiar seu encontro com a morte, desfaleceu.               Pouco tempo depois de completar um
Talvez ainda estivesse com um vestígio de vida      mês após o acontecido, ele começou realmente
no momento que foi lançado ao chão, mas logo        a se dar conta do que havia feito, como se um
cederia e morreria, possuía um corpo muito frá-     choque de realidade o atingisse vertiginosa-
gil. Estava feito. Terminado. Não havia mais        mente. Ficou horrorizado. As lágrimas secaram.
família. Na realidade não havia mais nada, tam-     Não parava de tremer, nem mesmo quando ga-
bém ele estava morto, de algum modo. Mas era        nhava alguns minutos de cochilo. Mas em ne-
preciso escrever o livro, esse imperativo era o     nhum momento pensou em suicídio. Os flashes
que mais martelava em sua mente fria. Já se         daquele dia fatídico surgiam em sua mente de
imaginava descrevendo onde, quando, isso e          modo tal que o deixava com a sensação de es-
aquilo. Em sua cabeça todo o livro já estava        tar enjaulado junto a crocodilos famintos. Mes-
esboçado, só restava passar tudo isso para o        mo assim ainda pensava em seu livro. Sua má-
papel.                                              quina de datilografia continuava lá de pronti-
      “Ó céus, porque a vida teria me destinado     dão, esperando o primeiro lampejo do escritor.
tal dose de ironia?” Curiosamente não conse-        Ele a fitava por várias horas ao dia, mas a folha
guia mais escrever. Não do jeito que tanto de-      em branco posicionada no aparelho era o que
sejava, não podia se satisfazer com qualquer        melhor representava sua inspiração para escre-
frase, era sua obra-prima e precisava de uma        ver.
inspiração inconcebível, daquelas que não sur-            Passaram-se mais alguns dias, seu corpo
gem a um individuo qualquer, aquelas que só         estava num estado miserável, seus poucos
os grandes sábios conseguem aproveitar. Ha-         passos eram cada vez mais frágeis. E Aquele
via feito e desfeito um sem-número de inícios       cheiro insuportável. Alguns vizinhos que imagi-
para seu livro, mas nenhum estava digno, nun-       naram por alto que a família teria viajado come-
ca estaria, pois depositou tamanha soberba e        çaram a dar fé do odor. Na vizinhança mal co-
expectativa em sua genialidade esquizofrênica       nheciam uns aos outros, contudo perceberam
que a ultima coisa que teria competência pra        que alguma coisa estava errada. Chamaram a
fazer era uma boa história. O Livro se tornara      polícia.
maior que ele. Sua incapacidade de escrever

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      Chegaram rápido e sem titubear toca-
ram insistentemente a campainha. O escritor
a essa altura já imaginava quem estava à sua
porta e porque chegaram até ela. Não impor-
tava. Levantou-se do tapete persa se sacole-
jando desajeitado e um súbito desejo veio-lhe
à cabeça: queria ver sua família pela ultima
vez, por pior que estivessem, afinal, desde
aquele dia evitou passar o olhar sobre suas
vítimas, não os observara nem por um segun-
do. Então, foi lentamente ao quarto dos filhos
onde o mais novo sucumbira de modo cruel e
agonizante. Lá estava o pequeno que, mes-
mo rodeado por moscas, ainda parecia man-
ter um tênue aspecto angelical. O escritor o
fitou por alguns segundos, depois começou a
tossir ininterruptamente em razão do fedor.
Ansiava vomitar, mas certamente nada sairia          AS FLORES DO CAMINHO
daquele corpo a não ser resquícios de sua
bile. Desceu as escadas acompanhado do
toque cada vez mais decidido da campainha,           Por Estrela Radiante
sabia que em um ou dois minutos tudo esta-
ria acabado. Tudo, exceto seu livro.
      Ao descer, dirigiu-se de um modo deca-         Encontrei pelo caminho muitas flores,
dente até a cozinha, apoiou-se na parede             Muitas delas com espinhos que causam dores,
com a palma da mão e ergueu a cabeça em              Mas também tão belas com muitas cores,
direção aos corpos. Nesse exato momento,
                                                     E assim vamos vivendo entre amores.
um dos policiais virilmente arromba a porta
com um forte chute, o frágil escritor não se
deu ao trabalho de olhá-lo, era como se já           Encontrei pelo caminho muitas rosas,
tivesse vivido esse momento mil vezes, nada          Muitas delas, tão bonitas, tão charmosas,
que acontecesse ali seria imprevisível para          Exalando uma fragrância, perfumosas,
ele. Os policiais tentam chamar a atenção do
                                                     Enfeitando as pessoas, calorosas.
moribundo entoando gritos firmes de ordem,
assim, com as pálpebras semiabertas ele cai
de joelhos, escorando as nádegas sobre seus          Encontrei pelo caminho os botões,
calcanhares encardi-                                 Espalhando a beleza, aos borbotões,
dos, neste momento,                                  Entre as pedras e as areias dos sertões,
qualquer um que pre-                                 Consolando, quando em dores, os corações.
senciasse tal cena
seria capaz de medir
até que ponto um ser                                 Encontrei bonitas flores, no jardim,
humano pode alcan-                                   Entre rosas, amarelas e carmim,
çar na escala da de-                                 Colorindo todo o verde, bem assim,
gradação. Após isto,                                 Enviei-lhe um buque, com fita de cetim.
os policiais se entreolharam como se estives-
sem em dúvida da abordagem a ser executa-
da, e não era à toa: o assassino aparentava
ser tão vítima quanto os cadáveres encontra-
dos na casa momentos mais tarde. E dessa
forma, ele ficou conhecido por todo o país so-
mente como o escritor assassino, não tinha
mais nome, não tinha mais nada, restou-lhe
apenas a perspectiva de escrever seu livro no
tempo perpétuo do cárcere.
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E O VARAL ANTOLÓGICO 2 SE ESTENDEU NA LINDA CIDADE DE
                    BRUMADINHO!

                                                                        Foto de Valdeck Almeida de
                                                                        Jesus




Com a coordenação de Norália de Mello Castro e o empenho conjunto de muitos cidadãos, o
Varal estendeu-se na cidade de Brumadinho, Minas Gerais no dia primeiro de junho.
A Casa da Cultura Carmita Passos, totalmente decorada para o evento com varais que dan-
çavam pelas paredes e janelas, recebeu os coautores do livro Varal Antológico 2.
Foi um momento inesquecível, onde tivemos apresentação de coral, jovens e talentosos can-
tores e discursos emocionantes e emocionados.
Os escritores presentes distribuíram livros, trocaram ideias e levaram até Brumadinho a nova
literatura que vem surgindo com muita força!
Estiveram presentes os coautores: André Victtor, Flavia Menegaz, Vóf Fia, Norália de Mello
Castro, Valdeck Almeida de Jesus, Yara Darin, Clara Machado, Carla Renata Jorge Neves,
Cláudio de Almeida Hermínio, Irineu Baroni e a organizadora Jacqueline Aisenman.
Abaixo, as palavras de Claudio de Almeida Hermínio, coautor no livro Varal Antológico 2.


                         A IMPORTÂNCIA DA LITERATURA EM NOSSA VIDA


     A Literatura tem o poder de levar-nos a refletir sobre a nossa condição existencial e so-
 bre a situação sociocultural em que vivemos, ajudando-nos na formação da personalidade,
                               preservando o pensamento livre.


   A Literatura se faz presente em todas as classes sociais: nos morros, sobre as palafitas,
nos palácios. Alguns tentam ignorá-la mas ela resiste e ressurge no dia a dia. Às vezes atra-
vés das pessoas mais simples, um porteiro ou uma dona de casa. As histórias são contadas
de uma forma tão profunda que alçam voo e nas mãos de grandes escritores, elas são capa-
zes de atravessar o oceano e aqueles que as contaram se tornam contadores de existência.



                         QUE SEJAMOS CONTADORES DE EXISTÊNCIA!

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Fotos de Valdeck Almeida de Jesus, Yara Abreu, Carla Jorge Neves, Madhu Maretiore,
                                   entre outros.

                               De mensagem recebida de Norália de Mello Castro:


                               Com a passagem do Varal do Brasil em Brumadinho duas
                               coisas maravilhosas estão acontecendo na cidade!
                               No dia 1o. de junho foi iniciada a BIBLIOTECA da Casa de
                               Cultura, que será aberta para toda a comunidade!
                               Os poetas participantes sugeriram que fosse criado um dia
                               oficial para a POESIA. O pedido foi acolhido com muita
                               satisfação e estão estudando a criação desse dia, através
                               de uma lei.

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                                           Por Fabiane Ribeiro

           Conto 4 – A rosa da noite escura                 A luz revestiu seu corpo e fez doer seus olhos que, dife-
                                                            rentemente de quando ele estava acordado, contempla-
                                                            vam tudo pela mágica da visão.
 “...Eu andei por entre serpentes e espinhos naquele noi-
                                                            Olhou para o lado e viu que não estava sozinho. Alguém
  te, como nas anteriores. Meu pé cortou-se em sangue.
                                                            caminhava junto dele.
Seria um vermelho vivo a colorir de forma assustadora o
solo negro, mas a escuridão impedia-me de ver o sangue      Ele soube, então, o que tudo aquilo significava.
jorrar; apenas podia senti-lo. Olhos fitavam-me como es-
                                                            Aquela pessoa estivera com ele desde o início de sua
  trelas na noite escura. Guizos eriçavam-me os pelos. E
                                                            jornada pela noite escura. Estivera ao seu lado por entre
           os espinhos... esses, dilaceravam-me”.
                                                            as cobras e os espinhos, compartilhando sua dor. Foi a
                                                            presença, antes oculta pela escuridão, daquela pessoa,
                                                            que lhe deu forças para continuar; para dar cada novo
                           ***
                                                            passo.
                                                            Ele havia alcançado o sol. E sua luz dera-lhe o privilégio
— Você está bem? Consegue nos ouvir? – alguém dizia         de contemplar aquela moça... que estivera como um anjo
ao longe.                                                   a levá-lo adiante pelo caminho.
Tudo girava sem, contudo, sair do lugar.                    As mãos, que estiveram lado a lado na escuridão, entre-
                                                            laçaram-se sob a luz do sol. Eles marcharam juntos em
— O que aconteceu? – ele perguntava. Mas não havia
                                                            direção ao oásis. Mas, ao aproximarem-se, puderam per-
resposta.
                                                            ceber que não se tratava exatamente de um oásis. Eles
O mundo parecia em silêncio ao seu redor. Entretanto,       puderam ver que era apenas uma rosa, sozinha, impe-
ele podia sentir o tumulto que se formara.                  rando sob os raios do sol.
Mas os olhos... Os pares de olhos de serpentes o perse-     Ele fechou os olhos, deixou de enxergar. Ouviu os mur-
guiam... E ele não era capaz de fugir. Cruzava túneis       múrios de seus colegas na reunião cada vez mais altos.
incontáveis. Descia e subia degraus invisíveis de esca-
                                                            — Que susto – alguém falou – você estava descrevendo
das sem fim.
                                                            um pesadelo e, de repente, desmaiou.
A escuridão imperava. Ele podia enxergar. De forma inu-
                                                           — Eu não desmaiei – ele falou, reerguendo-se – eu ape-
sitada, estava de olhos abertos, e justo agora, tudo que o nas fui sugado com toda força para o pesadelo recorren-
envolvia era escuridão.                                    te que tenho. Entretanto, pela primeira vez eu vi seu fim
— O que significa tudo isso? Que lugar é esse? – ele       e pude compreendê-lo. O pesadelo tornou-se o sonho
dizia entre sussurros desesperados.                        mais lindo... Nós nunca estamos sozinhos. Mãos invisí-
                                                           veis conduzem-nos por entre as serpentes e os espi-
Fechou novamente os olhos, estava na sala de reuniões nhos.
dos deficientes visuais, caído ao chão. As pessoas fala-
vam com ele; ele respondia. Mas ninguém o escutava...      Uma rosa havia surgido na noite escura e se fortalecido
                                                           em meio as areias do deserto; podendo ser vista apenas
Abriu os olhos e viu-se novamente preso dentro daquele sob a luz do sol, mas podendo ser sentida a cada novo
pesadelo sem fim.                                          pulsar de qualquer existência que estivera à sua procura.
Andou sob o peso da escuridão por horas incontáveis. O Ele soube que, na verdade, a ausência de luz em sua
solo pedregoso e forrado de espinhos e serpentes acom- visão não o tornava só. Ele sempre tivera alguém ao seu
panhou-o por boa parte da jornada. Até que ele parou       lado, mesmo que teimasse em não perceber.
para tomar fôlego e viu que, ao longe, as pedras transfor-
mavam-se em areia... Era um deserto que agora se pro- No fundo, aquela rosa trouxera consigo uma lição: não
jetava frente a seus olhos.                                há escuridão ou medo suficiente para afastar dois cora-
                                                           ções que batem como um só. Aquela rosa parecia anun-
Ele correu. Reuniu forças que não sabia possuir, e che-    ciar ao vento do deserto, sob a luz do sol ou sob a escu-
gou arrastando-se ao deserto. A suavidade daquele solo ridão da noite fria, que qualquer jardim regado a dois é
fez seus pés, feridos, estremecerem de satisfação. Revi- mais florido.
gorado, ele continuou a jornada e, após muito caminhar,
contemplando apenas areia, um oásis surgiu em sua vis- Após acalmar todos os membros do grupo de deficientes
ta. Junto de um belo raio de sol.                          visuais, a coordenadora Maria Isabel prosseguiu com a
                                                           reunião...
Tudo se fez claridade.


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Simetrias e Reflexos

Por Felipe Cattapan


    Na simetria convexa de um jardim zen
    crianças brilham bolinhas de gude.
    Opaco,
    um velho sem palavras
    só entrevê uma falta de decoro.


    Mas longe dali,
    na solidão côncava de uma eternidade incolor,
    Buda sorri
    e em silêncio reflete
    que enquanto houver luz e aurora
    todas as cores serão consentidas
    aos seres iluminados.


    Sem dissolver o transe policromático
    as crianças se perpetuam
    na infinitude da brincadeira caleidoscópica...
    experimentando
    na cor do fluxo de cada movimento
    que estar
    é o brilho invisível de ser.




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  Algumas coisas que você precisa                  direita e entrar num café. É nessas horas eu
                                                   quero socar as placas de push, porque eu sem-
          saber sobre New York                     pre puxo! Claro que eu puxando a porta do café
                                                   e todas as pessoas que saíram dos 5 a 10 es-
                                                   cadas do metrô se entrelaçando nas ruas e an-
                                                   dando freneticamente eu fui empurrada e atro-
Por Fernanda de Figueiredo Ferraz                  pelada umas 20 vezes, quase perdi minha bol-
                                                   sa, mas não caí.
                                                             Neste ponto não conseguia andar
                                                   mais um quarteirão inteiro com aquele sapato,
       Você precisa saber que a temperatura
                                                   meus pés estavam em carne viva, e eram os
muda de repente. Você precisa saber que a ar-
                                                   dois, me impossibilitando de mancar se quer.
quitetura é magnífica. Você precisa saber que
                                                   Fui para a entrevista, porque nessas horas o
encontrará qualquer coisa que procurar, porém,
                                                   corpo solta um “Q” de adrenalina que não te
você precisa saber que não é para visitar o
                                                   deixa tirar do foco maior – A entrevista – Fui
“ponto zero” entre 8:00 am ou 10:00 am, pois
                                                   arrastando os pés como se fossem patins. Não
correrá risco de atropelamento por “pés”.
                                                   deu, parei na primeira loja de sapatos que avis-
       NY é uma das cidades mais populosas
                                                   tei e achei um único par disponível do meu ta-
do mundo. - Também não pode parar para
                                                   manho: uma sapatilha dourada com glitter dou-
atender o telefone no meio da Av. Lexington
                                                   rado!!! Torci o nariz, abaixei a cabeça e falei
entre a 42th e 44th street, pois correrá o mes-
                                                   com vergonha: Eu vou levar.
mo risco. Se sair da Grand Central nos horários
                                                             Além da barra da calça ficar arrastan-
de pico, somente ande para onde a multidão
                                                   do no chão, arrasando o figurino preestabeleci-
esteja andando, não importa, você pára para
                                                   do, a sapatilha chamava mais atenção que EU,
averiguar o mapa e a direção assim que avistar
                                                   a entrevistada, não adiantava nem dar camba-
uma porta de qualquer lojinha, não pare nem
                                                   lhotas, a “brilhosa” me ofuscava.
para ver que tipo de loja, entre! Pode ser de
                                                             Voltei para casa descalça, sem empre-
brinquedos, café, perfumes, bebidas, revistas,
                                                   go, na contramão, mas fora do horário de pico.
já disse que não importa, salve-se e veja onde
                                                    Agora, você deve saber que em cada quartei-
está.
                                                   rão da ilha você achará 2 Starbucks, as vezes
          Há uns meses fui a uma entrevista em
                                                   do mesmo lado da rua, as vezes no lado con-
downtown as 8:00 am da manhã, imaginem
                                                   trário e para cada 1 “Starbucks” você achará 4
aquela delícia de metrô! Para o metrô eu esta-
                                                   “Dry Cleanears”, 3 “Nail Salon” e 2 casas de
va preparada, não estava preparada era para a
                                                   massagens. Por fim entendi porque existem
enxurrada de gente saindo debaixo da terra, eu
                                                   tantos serviços de massagem de pé! Foi lá que
de um lado, e mais outros 5 a 10 corredores
                                                   afoguei minha mágoa do dia, relaxei e deixei
emergindo do subterrâneo para a superfície e
                                                   uma tip enorme para a massagista que sorria
se afunilando nas ruas. Você anda e anda rápi-
                                                   sem parar
do.
           O meu sapato era novo, como todo o
visual para a promissora entrevista, só que o
sapatinho resolveu dar um show de “atacação”,
era de frente, de lado, atrás e eu andando, eu
sentia as bolhas nascerem e estourarem, tudo
isso sem saber muito se eu estava na direção
certa, mas Manhattan neste horário só tem uma
mão, a mão downtown. A vontade de parar pa-
ra arrumar o “dito cujo” era imensa, mas ao es-
piar de rabo de olho aquela gente, gente mes-
mo, multidão atrás de mim, quase cheirando o
meu cangote, um pânico me vinha e eu anda-
va. Eu tentava enxergar uma árvore, um poste,
uma coluna, uma parede para encostar, e era
só parede de gente. Andei algumas boas mi-
lhas até conseguir cruzar da esquerda para a

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                 Covardia

           Por Fernando Ferreira


     Queria ter a vocação para a galhofa
      e tornar-me poeta satírico, trocista
            mas coragem me falta.
         Bebo o mundo da superfície,
       embora acalente a latente utopia
           de profundos mergulhos,
              mas sou covarde.
         Não cultivei em meu espírito
    a bravura do tigre, antes finjo de morto
contraído em inseto, fixo, uma planta carnívora
 contentando com eventuais moscas incautas
   destarte cobice um banquete de javalis;
            mas me falta coragem.
  Se não me perguntam, também nada digo
          e assim, não me contagio.


   Não sei se lhes disse, mas sou covarde.




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                             VARAL ANTOLÓGICO 3

Abrem-se dia 10 de agosto as inscrições para a seleção para o livro VARAL ANTOLÓGICO 3 a
ser lançado em 2013.
Os interessados deverão enviar textos (no mínimo um, no máximo 5) num total de cinco páginas
A5, letra Times New Roman 12, espaço 1.5.
Todos os textos serão examinados por uma Comissão Examinadora composta de escritores e
críticos que acompanham e/ou participam do Varal do Brasil.
Os textos selecionados serão comunicados por e-mail a cada autor até o dia 10 de outubro de
2012 e farão parte do livro Varal Antológico 3 mediante participação cooperativa.
O regulamento para a participação da seleção estará disponível no site e blog do Varal do Brasil,
assim como através do e-mail varaldobrasil@gmail.com a partir de 10 de agosto de 2012.
O tema será livre e os textos podem ser: contos, crônicas ou poemas (todos os três em todas as
suas variações).

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                            ROCAMBOLE DE CARNE
http://www.ligadanasdicas.com/



                                           Ingredientes


                                   Um quilo de carne moída;

                                 - Um pacote de sopa de cebola;

                           - E duas colheres (sopa) de maionese.

                                   Para o recheio sugerimos:

                                        - Fatias de bacon;

                                         - Ovos cozidos;

                       - Azeitonas sem caroço e cortadas em fatias;

                                      - Rodelas de tomate;

                                     - E rodelas de cebola.


Modo de preparo


Misture todos os ingredientes nas quantias certas e coloque em um recipiente em que vo-
cê possa abrir completamente essa massa de carne para colocar o recheio.

No recheio, coloque todos os ingredientes à vontade misturando todos eles sobre a carne
aberta. Após rechear, enrole em forma de rocambole e leve ao forno quente. Após alguns
minutos, o seu rocambole de carne estará pronto para servir.




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O ESCRITOR E O LEITOR
Por Jacqueline Aisenman

Há uma relação muito importante e delicada chamada escritor e leitor.
Por não entendê-la, há escritores que se entristecem e leitores que se fecham.
Quem escreve tem em suas aspirações um gênero preferido (há os que se devotam à poesia,
os que preferem contos, romances, crônicas, etc..) ou que escrevem um pouco de tudo.
Quem lê tem também seus gêneros preferidos (ou gênero!) ou também gosta talvez de um
pouco de tudo.
Citando a poesia, por exemplo, há os que gostam de escrever todos os tipos de poemas, al-
guns gostam apenas de sonetos, outros de haicais, ou outros tipos ainda; alguns gostam das
rimas, outros detestam. Assim também são os leitores, que têm certamente suas preferên-
cias.
Todo escritor tem certeza de que será lido e reconhecido. Todo leitor tem sua opinião sobre o
que leu e sabe da importância da mesma. Nem todo escritor será lido e/ou reconhecido. Nem
todo leitor terá sua opinião reconhecida.
Entre estilos e gêneros, leitor e escritor se encontram nas páginas de um livro.
Há os que gostam de um estilo e detestam outros. Há os que apreciam a diversidade de esti-
los.
Há os que escrevem inspirados em algum estilo. Há os que criam o seu próprio estilo. Há os
que escrevem muito; assim também os que escrevem só de vez em quando.
Dentre os escritores, há os nomes que todo leitor conhece e que são por muitos divulgados.
Há também os nomes que o leitor descobre. Há aqueles que permanecerão em gavetas e que
o leitor não conhecerá. Há os que se tornarão conhecidos como suas inspirações.
Há escritores que vendem muito porque os leitores já conhecem o que escreve e há escrito-
res que vendem pouco porque ainda não são conhecidos dos leitores.
Há tantos gêneros e estilos quando há leitores e escritores (alguns gostam de ser chamados
apenas de poetas, outros de contistas ou cronistas ou romancistas...). Alguns leitores tornam-
se críticos.
Mas só uma coisa pode mesmo unir leitor e escritor: o amor pelas letras. Se o escritor tiver
amor e paciência, deixará que o leitor faça seu caminho e chegue a ele. Também compreen-
derá que há leitores que não virão porque... porque é assim! Se o leitor tiver vontade, abrirá
seus horizontes e buscará no novas alternativas e continuação para aquilo que já aprecia.
Por isto se compreende aqui nesta dinâmica, mais do que em outras, quando se fala que “há
gosto para tudo”. Enfim... como já diziam os antigos: “o que seria do amarelo se todo mundo
gostasse apenas do verde?”! Esta é uma frase que explica bem!
Mas escrever e ler, leitura e escrita, isto funciona como a vida: não existe caminho apenas de
ida, não há apenas uma cor, não há somente um tom. Há espaço para todos!
Que os leitores sempre encontrem novos autores e os escritores sempre encontrem novos
leitores!
Que a literatura se renove sempre e nunca deixe de prestigiar os que são e sempre serão as
nossas fontes de inspiração!




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   A elegância dos destituídos                      mo aquele homem bem apessoado e carismáti-
                                                    co que elegemos saquearia os recursos da na-
                        Por Giordana Bonifácio      ção? E a gente corre atrás do “trio-elétrico” pa-
                                                    ra acompanhar o showmício desse e daquele
                                                    candidato que na campanha abraçam-nos e
       O brasileiro age com muita elegância.        tratam-nos como iguais. Porém, só basta serem
Não se revolta, não grita, matem-se calmo e         eleitos que nos lançam na mais abjeta sarjeta.
aceita as mais terríveis atribulações com um        Nem se recordam de qualquer promessa que
sorriso estampado na cara. Se isso não for o        tenham feito e que empenharam o fio do bigode
máximo que se pode exigir de um gentleman,          para provar sua honestidade. E nós como gado
então não sei do que se trata elegância. Nós        manso, somos massa de manobra. Sem função
ficamos mudos enquanto desviam o dinheiro de        alguma, a não ser a de dizer sim a tudo. Quem
nossos impostos. E reclamamos pouco do des-         vai se revoltar? Quem vai protestar e importu-
caso do governo com saúde, educação e segu-         nar os donos do poder? Nós? Não, somos mui-
rança. Somos extremamente educados, no              to corteses para atos tão selvagens. A crítica
sentido da polidez que se exige em situações        ácida deixamos para nossos irmãos Argentinos
como esta. Quase apresentamos o nosso bolso         que gostam de fazer paneladas. “Gente mais
para os corruptos saquearem com mais facili-        mal-educada!” Gostamos mesmo é de sorrir
dade o fruto do nosso trabalho: “aqui senhor,       das situações, como se a piada apagasse o
ainda restam dois reais.” Mas eles como sinal       desgosto e amenizasse a vergonha. Uma guer-
de delicadeza nos deixam ficar com esta miga-       ra política ocupa as páginas dos jornais e pou-
lha para que possamos pagar o transporte pú-        cos sabem algo mais profundo sobre a cachoei-
blico caríssimo e de condições deploráveis que      ra de escândalos que entopem a mídia. Está
os nossos governantes nos oferecem. Não             todo mundo envolvido? Esquerda e Direita? Si-
existem creches, hospitais com leitos suficien-     gamos pelo centro então, que brasileiro não ad-
tes ou saneamento básico, mas em breve aqui         mite, mas adora ficar em cima do muro, sem
se dará a Copa do mundo e prometemos rece-          opinar em nada. Quem se importa se há uma
ber os turistas com toda nossa hospitalidade.       inflação mascarada e nossos salários estão se
Viu, o brasileiro é um poço de cavalheirismo.       depreciando? Besteira, ainda dá para comprar
As escolas estão ruindo? Os professores são         um carro popular à milhões de prestações, por-
desprezados e mal-pagos? Não há problema,           que o IPI está reduzido. Reduzida também está
eis que a Olimpíada, vai trazer divisas para o      a qualidade de nossas estradas. Buracos que
Brasil, nem que seja por curtos dois meses. E       se reabrem todo período de chuvas e são tam-
depois disso, a gente bem que poderia desper-       pados toscamente, porque, o dinheiro para es-
tar desse torpor. “Cruz-credo, parece macum-        se serviço também foi parar numa conta de la-
ba. Será que nos lançaram um encosto?” A            ranjas num paraíso fiscal.
gente não sente, as agulhas encravadas no                  Mas a gente sabe tudo sobre laranja,
nosso corpo. É IPI, IPVA, IPTU, IR e outro tanto    não foi para ela que perdemos na última Copa?
de impostos que são encravados na nossa pe-         A Holanda, a laranja mecânica que nos atrope-
le. E nem adianta enganar a Receita. O país         lou? E fomos muito gentis com nossos oponen-
não tem um bom mecanismo para localizar cri-        tes. Reconhecemos sua superioridade. Mas
minosos, mas para “mal-pagadores”, nossa,           nós, nativos desse país de poucos, não falta-
encontram você até na mais remota tribo indí-       mos com a delicadeza. Conferimos sempre
gena do Acre! E o brasileiro já parece até bone-    uma segunda chance para aqueles que nos en-
co vodu.                                            ganaram. Alguma coisa como “ofereça a outra
       Sem querer nos envolver, sem querer          face”. E aqueles que sumiram com um milhão
nos misturar, sem querer e querendo a gente         agem com mais destreza e evadem do país
aceita muita coisa. Rios de dinheiro são desvia-    com cem milhões. “São espertos, se fosse eu,
dos e muitas vezes com nosso consentimento.         faria o mesmo!” Assumem alguns que não têm
Porque aquele político, sabe aquele, de paletó      sequer a possibilidade, nessa terra excludente,
e gravata e discurso mole? Sim, ele pode ser        de ocupar a cadeira do rei. “Somos brasileiros e
corrupto, mas, algumas coisinhas pequenas,          não desistimos nunca”, grita o slogan. E fica-
ele faz. Algo como inaugurar obras que demo-        mos certos que não desistimos é de sobreviver
raram décadas para ficarem “meio-prontas”.          em meio a tantas dificuldades. É tanta greve,
Porque têm de ficarem inacabadas, senão, co-        tanto descaso e impunidade que ficamos até

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Varal do Brasil— julho/agosto 2012

 calejados. A gente tem “casca grossa”. E co-       saber é desprezado. Permitamos que nossas
memos o feijão com arroz que pesa cada vez          maiores invenções sejam patenteadas por em-
mais na cesta básica do povo. Silenciosamen-        presas estrangeiras. Afinal, nós somos solidá-
te, sentimo-nos representados quando ouvimos        rios. Doamos nossas riquezas a troco de nada.
o hino nacional, mesmo que muitos não saibam        E ficamos felizes quando é alardeado que so-
sequer entoá-lo por completo. “O judiciário não     mos a sexta economia do mundo. E se não
representa o povo.” Tenta alertar a imprensa        permitíssemos que nos roubassem de todas as
com manchetes em destaque. A gente lê e dei-        maneiras escusas nessa crônica demonstra-
xa passar, pois, o que se pode fazer?               das? Se houvesse um investimento verdadeiro
                                                    em nossa educação tão sucateada? Se nossas
                                                    indústrias fossem motivadas a produzir com
                                                    mais qualidade a um menor preço? E se a se-
                                                    gurança permitisse que andássemos tranquilos
                                                    em nosso próprio país? E se o serviço de saú-
                                                    de fosse condizente com nosso tão propagado
                                                    poderio econômico? O que seríamos se não
                                                    aceitássemos com tanta passividade a condi-
                                                    ção degradante a que nos submetem? Sería-
                                                    mos o país que tanto esperamos? A gente tem
                                                    de reaprender a gritar, porque a nossa, até
                                                    agora, elogiada boa-educação está nos cau-
                                                    sando muitos problemas. Vamos tirar esses
                                                    óculos que não nos permitem enxergar a reali-
                                                    dade. Se continuarmos a recitar a ladainha dos
                                                    políticos, sim, aquela do “Brasil, país do futuro”,
                                                    (ou de todos, como o governo não cansa de
                                                    lembrar), não nos daremos conta que o futuro
                                                    já chegou e não estamos nele. E que estamos
                                                    num Estado de poucos para poucos que exclui
                                                    a grande maioria que engole tudo em troca de
 A gente desaprendeu a levantar a voz. Com          quase nada. Nosso povo aceita nossa desi-
muito custo a gente se rebela e fala mal do ár-     gualdade em função da política assistencialista,
bitro da partida de futebol. A condição dos está-   que oferece bolsas miseráveis aos pobres para
dios era deplorável? Aí vem uma Copa do mun-        ter seu apoio incondicional. Insurja-se nação
do, afinal, esse problema será resolvido. Não       tupiniquim, que o seu brado heroico retumbante
podemos receber os visitantes com a casa “mal       ressoará pelos cinco continentes! Por isso,
-arrumada”. Sabemos que os engarrafamentos          creio que nossa gentileza está nos fazendo
serão colossais, mas vamos brincar com as           mansos. Melhor que sejamos ouvidos, mesmo
nossas mazelas. Se muitos ficarão presos no         que para tanto tenhamos de nos rebelar e aca-
trânsito, que tal fazermos uma piada sobre o        bar com o mito da nossa hospitalidade. Porque
brasileiro que foi assistir ao jogo e chegou aos    já dizia minha mãe, “quem muito se abaixa, o
quarenta e cinco do segundo tempo, bem na           rabo lhe aparece”.
hora de ver a nossa querida seleção ser elimi-
nada da Copa? Difundir-se-á como água na in-
ternet. É bom ressaltar, nossos provedores de
internet cobram os preços mais caros de todo
mundo para nos fornecer um serviço contra o
qual chovem reclamações. Mas seremos socor-
ridos em tempo por nossa emissora favorita de
televisão que amenizará as dores de nossas
feridas com novelas cuja função primordial é
abafar nossa indignação.
       E depois disso tudo, seremos ainda mais
cordiais, deixando nossos gênios venderem-se
para as grandes nações porque, nesse país, o

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Varal do Brasil— julho/agosto 2012

A Pagina em branco e as ideias                     produz, ditam as regras de mercado. São co-
                                                   merciantes. Comerciante que precisa ser espe-
                                                   cial. A mercadoria que ele está oferecendo, va-
Por Francy Wagner                                  lorizando, vendendo, é algo imaterial: é um pe-
                                                   dacinho da alma de alguém.
As ideias ficam borbulhando na cabeça e o pa-      A alma do artista produz frutos que exporta pa-
vor de uma pagina em branco as escondem            ra as outras almas.
nos cantos escuros do coração.                     Este alimento é essencial para a sobrevivência
É muito interessante quando se tenta fazer um      da emoção.
texto, trabalhado para publicação. É muito mais    Sem o alimento da alma, as pessoas vão se
fácil quando simplesmente se escreve aquilo, o     tornando secas, amargas, morrendo por dentro:
que se pensa, e as ideias vão se encadeando        tornam-se zumbis que vagam pelas ruas em
tal e qual uma corrente logica ou sem logica.      busca de algo que as satisfaça, comprando tu-
Escrever se torna então um vicio, uma necessi-     do aquilo que o dinheiro ganho com seu esfor-
dade de se por para fora aquelas ideias que        ço é capaz de oferecer.
ficam ali, nos perseguindo os pensamentos co-      Amontoam-se roupas, sapatos, bolsas, utensí-
mo sombras, fantasmas de nossa mente, se           lios domésticos, elétricos, eletrônicos, jogos de
enrolando e enroscando nos neurônios, cortan-      videogame, imóveis, moveis, enfim toda a sorte
do ligações de pensamentos lógicos, e tornan-      de matéria que é linda aos olhos na loja e logo
do nossa vida um passar de horas angustian-        depois perde o brilho. Lembrei dos terços de
tes, pois a necessidade é faminta.                 contas transparentes das feiras do interior do
Fome de expor aquilo que nos incomoda.             nordeste, de onde venho. Quando saem do fo-
Apenas uma ideia... apenas um tema... contu-       co das luzes amarelas penduradas nos ferros
do, se esse tema não é desenvolvido com o          de sustentação das barracas, perdem o brilho...
auxilio dos signos, vai crescendo sem forma e      deixam de ser brilhantes para serem exatamen-
se torna um monstro voraz que engole a paci-       te aquilo que são: contas de vidro ou plástico
ência, a logica e a vontade.                       duro, com um furinho por onde passa aquele fio
O desenvolvimento do tema, escrever aquilo         e as transformam num terço católico.
que se passa dentro da alma, tornou-se para        Então, para se tornarem brilhantes novamente
mim a maior e melhor terapia para minha de-        aos olhos de quem as comprou, precisam de
pressão, para esclarecimento de duvidas, para      uma luz, precisam ser banhadas novamente
busca de soluções. A folha em branco agora é       com algo imaterial: a fé!
minha melhor amiga; a caneta companheira           O alimento da alma esta ali, brilhante novamen-
inseparável e o computador, esse, o amante         te aos olhos.
parceiro de todas as horas e situações.            A produção do artista é isso: o alimento vivo da
Meu vicio não tem hora. Minha necessidade se       alma, sem meios termos. Puro, que envolve,
apresenta nos momentos mais inusitados, im-        que da a vida, que reanima, que ressuscita!
previsível como uma mulher.                        Todos os dias eu ressuscito dos mortos quando
Os temas são tão variados quanto os objetos        acordo pela manha e decido se vai ser um dia
oferecidos nas pequenas lojas de “quase tudo”;     se ser zumbi, ou um dia de vida, de alegria; um
dos necessários aos supérfluos, dos mais sim-      dia que meu sol vai brilhar, mesmo que esteja
ples aos mais complexos, tecnologia de ultima      chovendo la fora, mesmo que esteja nevando.
geração.                                           Meu sol pode brilhar de noite, de madrugada...
Meu sonho: ver meus textos lidos, comentados.      qualquer momento, pois ele esta dentro de
Os leitores são meu publico. Os comentários os     mim. No peito, habitado pela Alma, pelos senti-
aplausos.                                          mentos.
Infelizmente tenho poucos leitores e não co-       Sinto a dor da saudade na alma, sinto a raiva
nheço os métodos de propaganda.                    na alma, sinto o amor na alma... o corpo sua
Todo artista precisa de alguém que lhe expo-       vestimenta: uma maquina perfeita, funcional,
nha os trabalhos. O artista produz mas não sa-     equilibrada, governada pelo maior e mais pode-
be vender. Um artista não sabe nem dar valor       roso computador do universo: o cérebro.
aquilo que produz, pois dentro de sua alma ain-    Se eu acordar e deixar meu cérebro guiar mi-
da há muito o que produzir e o tempo é pouco.      nha vida naquele dia, viro um zumbi, faço tudo
Aqueles que vendem o material que o artista        logicamente perfeito, livre de emoções que
                                                   possam me atrapalhar o raciocino.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012

Se eu acordar e decidir que minha alma vai guiar
minha vida naquele dia, viro um louco alucinado,
sem logica, sem regras, sem fronteiras.
Terei um dia de produção artística: um dia onde
tudo brilha, meu sol brilha e minha alma produz.
A busca deste século é juntar alma e cérebro, tra-
balhando juntos, no mesmo corpo!
Vou deixar esse assunto para seus pesquisado-
res exotéricos. Este segredo é hermético!
Desta forma a folha em branco não é mais tão pa-
vorosa.
O texto esta pronto, pronto para ser revisado pelo
cérebro. Pronto para se tornar alimento, gostoso
ou não, vai depender do apetite do leitor.
A única garantia do escritor, é que o prato foi pre-
parado com carinho. Estará servido através de
um Servidor na Internet, pois não tenho avaliador
de preço, intermediário, comerciante para meus
textos... ainda não foram suficientemente sabore-
ados nem levados ao mercado. Ainda é uma pe-
quena produção caseira, para aqueles convida-
dos especiais.
Bom apetite!




                                                VARAL DE SETEMBRO


                                                    NOSSA INFÂNCIA


                           FALE CONOSCO DA INFÂNCIA: A SUA, A DOS SEUS
                           AMIGOS E FAMILIARES, A INFÂNCIA DAS RUAS, TO-
                                     DA E QUALQUER INFÂNCIA!
                           VENHA ESCREVER CONOSCO SUAS LEMBRANÇAS
                                        OU SUA OPINIÃO!
                            POEMAS, CONTOS, CRÔNICAS, PENSAMENTOS...
                           A FORMA NÃO IMPORTA, O QUE IMPORTA SÃO SU-
                                          AS EMOÇÕES!


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                                         Impulso
Por Guacira Maciel


Saltou na Estação Rodoviária... que lugar é este? O inferno? A cabeça, zonza, deu-lhe
uma sacudidela. Estava tonto por tantas horas sem o sono gostoso, que começava com
as galinhas empoleirando-se no pé de caju, cuja raiz já nascera se arrastando feito cobra
ao sol do sertão. Também acordava junto com elas; era bom ouvir o galo cantar de ma-
drugadinha, aquilo tinha um gosto de café quentinho e de lida. Passou a mão sobre os
olhos macerados para espantar a pasmaceira. Só então se deu conta da dor que lhe mar-
telava o corpo em algum lugar. Não; ela estava por todo o corpo, mas era pior no ponto
sobre o qual passou a mão calosa de trabalhador. É...é aqui que dói mais; deve ser fome,
e pensou que não comia feito gente desde o início da viagem. Sentiu saudade e veio-lhe à
boca o gosto do feijãozinho com carne seca feito por Dona Sebastiana. Bom, aquele gos-
to... gosto de mãe, gosto de terra do roçadinho que botava o pão na mesa da família. E
gosto da feira do sábado, quando todos os vizinhos levavam seus produtos quase que pa-
ra serem trocados por outros, como um escambo. A feira era colorida, parecia sempre o
dia da festa da Padroeira. As meninas vestidas com suas “roupas de sair” passeavam gru-
dadinhas com as mãos dadas feito corda de licuri, olhando como quem não quer nada,
para os meninos que ajudavam os pais no trabalho pesado, fingindo não vê-las. Outra
pontada o lembrou que precisava comer. Que dia é hoje? Perguntou pensando alto sem
perceber; ainda assim olhou para os lados esperando uma resposta que não veio. Vixe!
Aqui as pessoas não ouvem, não enxergam, nem falam? Só olham, olham para nós com
estranheza, como se a gente fosse de outro planeta. A dor da fome deu-lhe outra fisgada
e sentiu vertigem, vixe maria! E agora? Preciso comer, lembrou outra vez. Era fome, can-
saço e saudade, tudo misturado. A coisa tá piorando...Sentou-se em um banco, uma mé-
dia de café com leite num copo de plástico tão vagabundo que lhe queimava a mão, ocu-
pava uma delas, mas isso lhe deu certo conforto; ainda estava vivo; na outra um pão com
margarina; isso lá é manteiga!... Ficou olhando sem ver o vai e vem ensurdecedor. Em
algum momento pensou...parecem formigas...as lágrimas quentes nublaram a vista ardi-
da, cansada...o seu lugar não era ali...engoliu o pão com dificuldade, jogou o copo sujo no
lixo e levantou já procurando o papelzinho com o endereço do primo Natanael.




                         Imagem: hƩp://detemposemcoisas.blogspot.ch/

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                                                                  Gosto de rabiscar perigosamente
          Um bom assunto                             nas linhas rígidas do meu caderno, embora
                                                     minhas escritas sejam tortas, vivo em eterno
Por Gladys Giménez                                   estágio letárgico perdida entre minhas garatu-
                                                     jas, procuro como uma equilibrista, manter-me
                                                     sempre nessa corda bamba. As letras são meu
                                                     suporte.
                                                           O professor Jaime Cimenti, em certa
                                                feita disse: “...o cronista que é um vampiro
                                                de assuntos, tem como vício aproximar-se das
                                                pessoas para roubar histórias.” Senti-me assim,
                                                uma vampira tentando sugar histórias para a
                                                próxima história. Já não me sinto culpada em
                                                fazer de conta que estou lendo, ou apenas
                                                apreciando a paisagem e fingidamente captar
                                                as nuances, infiltrar-me nas entrelinhas, envol-
                                                ver-me qual radar em conversas que rondam
                                                meus ouvidos. Tomo ciência que meu maior
          Costumo escrever poesias, pequenos romance é certamente, a criação de um ato libi-
textos, testículos enfim, mas aventurar-me nos dinoso entre o papel qual noiva de branco à es-
intrínsecos caminhos da crônica, para mim, é    pera da cilíndrica tinta, ambas seduzidas pelas
algo inusitado, pois muitas vezes pareço-me a mãos que as afagam e rompe com sua pureza
uma folha em branco, meu cérebro escarafun- para depois jogá-las ao mundo e serem devo-
cha até os recônditos e na maioria das vezes    radas pela curiosidade humana.
não encontra nada. Síndrome da página em                Assim como o morcego que suga dos
branco? Talvez, pois há quem diga que na mi- pomares alheios a fruta e depois dispersa suas
nha idade muita informação atrapalha, começo sementes favorecendo o ecossistema, ajo en-
a acreditar nisso. Mas, voltemos ao assunto     tão como a dinâmica desses bichos alados, dis-
principal deste texto. De uns tempos para cá    persando, contribuindo para a cultura, se assim
me deparei a prestar mais atenção nos movi-     for possível.
mentos das pessoas que habitam meu planeta. Sugar do mundo e jogá-lo ao mundo. Está aí,
Particularmente meu planeta é Vênus, minha      creio eu, uma boa perspectiva para os meus
Musa inspiradora gosta de silêncio, de quietu- apanhados secretos.
de, taurinas são esquivas, mas como ia dizen-
do, comecei a interessar-me por histórias con-
tadas ao léu, comecei a olhar com atenção as
cenas corriqueiras que aconteciam do outro la-
do da minha vida. Sem querer comecei a cole-
cionar histórias. Depois de um breve tempo ali-
mentando-me desse novo ruído, ruminando so-
bre meu novo hobby , dei um salto e perguntei-
me: para quê? Que utilidade eu daria a essa
caixa de pandora? Ideia remota parece que eu
até tinha, mas na realidade ainda não passava
de um grande ponto de interrogação em mim.
             Iniciei a escrevinhar. Parto difícil
este. Estou gostando da experiência, algo no-
vo, desafiador, mas terei que ter persistência,
tesão pela arte, de outra feita já faz muito que
brinco com as letras, elas nunca me decepcio-
nam, são maleáveis, curvam-se aos meus ca-
prichos.


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                                              Sarah Venturim Lasso



    ...CAPITÃES DA AREIA, DE JORGE
                AMADO?

Com o centenário de Jorge Amado esse ano, seus livros que já
eram famosos, ficaram ainda mais na moda.
O livro, que foi publicado em 1937, conta a história de meninos
abandonados em Salvador, tema que até hoje é atual. Essa
obra foi perseguida e queimada em praça pública em Salva-
dor , em 1937.
A obra é dividida em três parte, o que considero interessante e
faz dela ainda mais prazerosa de ler, pois pode-se reler alguma
parte individual (tenho mania de reler livros que já li, várias ve-
zes).
O jeito único de escrever de Jorge, faz o leitor se emocionar e                        se
envolver com os personagens, cujos nomes são uma diversão                              a
parte: Volta seca, Gato, Boa-vida, Sem-pernas, Pirulito, entre outros.
Um livro atemporal, que com certeza será apreciado por mais cem anos.




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Varal do Brasil— julho/agosto 2012




                            FOGUEIRA DE IDEIAS


                               Por Wilson Caritta


                       Quando penso em me queimar
                          Vem na mente tanta coisa
                       Que até se mente à coisa feita
                                     Não faz falta
                               Há quem faz farta
                                     Alguma mesa
                                      Onde falta
                                      Até a falta


                                Mas se na mente
                         Não se mente o tempo todo
                                     Fica na gente
                                Um gosto e tanto
                       De um tempo morto e enterrado


                    Na queimação que assim me invade
                          Meio assim desconjugada
                          Na perdição da mente arde
                                 Uma pergunta:


                          Se queimado todo o amor,
                         Que cheiro terá espalhado?




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     CHEGADA                E       PARTIDA

            Por Viviane Schiller Balau


            Que linda chegada filho!
              Deus concedeu-me
           Para abrilhantar minha vida
               Junto com você e,
         Hoje sinto que nunca poderia...
          Dizer adeus pela sua partida
          Quero que saiba meu amado
      Anjo que me deixou inesperadamente
   Pelas mãos de uns desalmados que vinham
Fazendo racha e atropelaram você; e o mataram...
     Meu amado que partiu para morar com
        Senhor deixando muita saudade,
     Lembrança de tudo o que ficou na vida.




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   A LÍNGUA DO MAR                                  enterra em suas entranhas geladas
                                                         todo aquele que vai ou vem.
                                                       Mulheres cansadas choravam
  Por Ivane Laurete Perotti                                Um canto sem lágrimas
                                                                 um canto sem cor.
 Foram-se os rostos cansados                                     Sereias sem manto
   Era uma partida sem dor.                           juntavam-se para ouvir o clamor.
  A ponte levantara tropeços                       Das ondas que levaram a esperança
      na entrada do cais.                                 subia um mastro de horror
   Nenhum navio aportara                                 era a paga que ainda faziam
     na baía destroçada.                                   aqueles que esperavam
   Partiram velhos e jovens,                                       esperavam...
   quem estava tentou ficar,
mas a língua do mar era grande
e um a um conseguiu alcançar.
   A dor apareceu salgada,
          quebrada,
         estilhaçada.
       Levou o passado
       e deixou o futuro
    onde haveria de estar.
   Deixou o nada no agora
      da hora que se fez,
           dolorida
        encarquilhada.


  Entre aqueles que ficaram
ergueram-se muros de lágrimas
       e o mar recuou,
 a língua manchada de sangue
  insaciável a língua do mar.
     Mulheres espiavam
  tentando olhar para além...
Fugiam do lugar onde estavam
  queriam aguardar alguém.
O mar não devolve o que leva
    nem leva para devolver


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   O VARAL ANTOLÓGICO SE ESTENDE EM SALVADOR ENTRE
                   MÚSICA E POESIA!




Com organização de Valdeck Almeida de Jesus e Renata Rimet, aconteceu dia 25 de maio o
lançamento do livro Varal Antológico 2 em Salvador.
A noite, alegre e cheia de surpresas encantadoras, aconteceu num local mais do que especial: o
barzinho cult Beco da Rosália.
Poetas declamaram, músicos tocaram e cantaram entre muitas conversas animadas que trouxe-
ram a nova literatura brasileira como assunto principal.
Os coautores do livro, entre eles Raimundo Candido Teixeira Filho, Maria Perpétua Freire Brasi-
leiro e Valdeck Almeida de Jesus, estiveram presentes.
Entre os eventos marcantes da noite, a música do cantor Dé Barrense e as declamações infla-
madas e musicadas do poeta Gibran.




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Fotos de Renata Rimet e Valdeck Almeida de Jesus




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O VOO DA COTOVIA


Por Marcos Torres




Ter asas para voar como uma cotovia,
como seria delicioso, viajar pelo mundo sobre os penhascos,
montanhas além das colinas,
nada de catraca ou bilheteria;
essas coisas são transtornos,
demasiado aborrecimento.


Embora saiba: quando se quer ver algo novo
não há jeito, é preciso pagar alguma moeda
para saborear outras paisagens.
Ah, como eu queria ser uma cotovia.
Ah, como eu queria poder voar, deslizar no céu,
ir além dos ventos uivantes onde somente a cotovia alcança.


Cortar todo o atlântico, e lá do alto
ver os pássaros cuidando do ninho na copa das árvores.
Atravessar os mares gelados,
sobrevoar por entre as montanhas além das colinas,
seguindo em direção ao Polo Norte.


Mas essa ausência de asas
me deixa demasiadamente...
Limitado




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MULHERES EM BUSCA DE                                O Alcorão, codificado por Maomé, mantém a
                                                    dominação sobre a mulher. A autoridade, con-
SEUS DIREITOS                                       cedida ao homem por Alá, dá-lhe direito ao do-
                                                    bro do que se dá à mulher, ente irracional que
                                                    constitui a “maior calamidade” do homem. (séc.
Por Hilda Agnes Hübner Flores                       VI d.C.).

                                                  O cristianismo trouxe alguma valorização da
                                                  mulher. Todavia, o apóstolo Paulo proibiu-lhe
Reconhecida como única geratriz da vida, na
                                                  de falar dentro da igreja. Se não entendesse
aurora da humanidade, a mulher era respeitada
                                                  alguma coisa e quisesse se instruir, deveria pe-
chefe de clã. Quando o homem, fisicamente
                                                  dir esclarecimentos ao marido, em casa. (ano
mais forte, se impôs como caçador e defensor,
                                                  67 d.C.).
a mulher passou a depender dele. E logo viu-se
reduzida a uma dantesca e duradoura estreite- O monge Martinho Lutero fundou o protestan-
za existência, que se arrastou por milênios, co- tismo como forma de combater excessos do
mo mostram os escritos de pensadores e deli- cristianismo, que abjurou. Para a mulher, reco-
neadores do comportamento das gentes. São menda uma vida austera, sem luxúria nem vai-
conceitos a estabelecer parâmetros entre o        dade, sendo pecado maior a pretensão de ela
possível e o inatingível, o permitido e o excluí- querer ser sábia. Nasceu assim um poço imen-
do no agir cotidiano da mulher.                   surável no caminho da realização intelectual
                                                  feminina. (séc. XVI).
Vejamos alguns exemplos. O Código do Hamu-
rabi dá ao marido o direito de rejeitar a “mulher Os séculos finais da Idade Média registram ver-
de conduta desordenada e descumpridora das dadeiro genocídio, principalmente de mulheres
obrigações do lar”, podendo reduzi-la à escravi- conhecedoras do segredo das ervas medici-
dão, até mesmo para pagar dívida dele, na ca- nais. Atribuindo-se-lhes artimanhas do diabo,
sa do credor. (Babilônia, séc. XVII a.C.).        acusadas de bruxaria, centenas de anônimas
                                                  antecessoras de Joana D´Arc foram assim con-
Nove séculos mais tarde, leis imperativas do
                                                  denadas à fogueira.
filósofo Zaratustra, da Pérsia, mandam “adorar
o homem como um deus”, ajoelhando-se a mu- Nem o Renascimento, período das “grandes
lher toda a manhã aos pés do marido para per- conquistas”, trouxe algum avanço em direção
guntar: “Senhor, que desejais que eu fa-          aos direitos da mulher. O todo-poderoso Henri-
ça?” (séc. VI a.C.).                              que VIII da Inglaterra repudiou cinco esposas,
                                                  escapando Catarina Parr, porque o rei morreu
Tentáculos dessa legislação alcançaram a Ín-
                                                  antes dela, consumido por sequelas de orgias
dia e somaram-se às “Leis de Manu” que so-
                                                  sexuais. (séc. XVII).
brevivem até os dias atuais, quando regulam
castas oficialmente extintas e impõem à mulher As grandes navegações conduziram ao desco-
reverenciar o marido como a um deus, em hi-       brimento do Brasil. Portugal lhe estruturou a
pótese alguma podendo governar a si própria. economia a serviço da Metrópole e a religião a
                                                  serviço de Deus; a sociedade configurou-se
Aristóteles, o grande pensador da culta Atenas, com acréscimo de duas culturas estranhas à
em sua escola peripatética pregou uma filosofia Metrópole: a indígena e a africana, diferencia-
de total reprimenda à mulher, que não passa       das pela ausência da noção de pecado e sem o
de “um homem inferior”, só criada quando “a       cultivo do mito da virgindade a que era subme-
natureza não pode fazer homens.” (séc. IV         tida a mulher branca, a única “livre” na imensa
a.C.).                                            Colônia.


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Pregadores moralistas dimensionaram o relaci-         que a 3ª edição, em 1570, tivesse autoria atri-
onamento entre os casais e o espaço social            buída a Alexandre de Gusmão, intelectual bra-
destinado à mulher. Pe. Antonio Vieira, ímpar         sileiro falecido em Lisboa, 37 anos antes. Deve
literato do barroco, quando na contramão da           -se à Professora Conceição Flores o oportuno
política portuguesa teve de trocar o real con-        resgate dessa obra pioneira de nossas letras,
fessionário lisboeta pela catequese no exílio do      em sua tese de Doutorado: As aventuras de
Brasil, viu a mulher como uma criatura vulnerá-       Teresa Margarida da Silva e Orta em terras do
vel, movida pela paixão e pelos sentimentos           Brasil e Portugal.
que a predispunham a ceder às tentações do
                                                      Em 1820 o viajante Saint-Hilaire foi surpreendi-
Demo. Para que tal não acontecesse, para pre-
                                                      do na cidade portuária de Rio Grande, RS, pe-
servar o nome honrado do marido mantenedor,
                                                      la presença da sobrinha do vigário, Maria Cle-
recomenda a proteção do lar, longe de olhos
                                                      mência da Silveira Sampaio, moça de 20 pri-
concupiscentes e ocupada em constante ativi-
                                                      maveras que dominava o francês, e que dois
dade física e mental, como dedilhar as contas
                                                      anos mais tarde teve poema seu publicado no
do rosário e envolver os lábios na repetição
                                                      Rio de Janeiro, recebendo inclusão entre os
exaustiva da reza. Esse empenho, desejado
                                                      “Poetas da Independência”. À aridez literária,
para preservação da virgindade, requer cultivo
                                                      sobrepõe-se notável visão econômica de futura
perene, porque
                                                      sesmeira, que relaciona nossas riquezas natu-
                                                      rais e pede ao Imperador pontes e barcas que
                                                      as façam circular, para progresso da Província.
Os pecados contra a castidade são igualmente
graves perante Deus, para homens e mulhe-             As duas guerras mundiais do século XX mos-
res, mas nas mulheres, ainda que veniais, ti-         traram que hecatombes geram, na contramão,
ram a honra e nos homens não, ainda que               situações para a mulher se lançar a pioneiris-
mortais (Cartas de Vieira, v. 9, p. 12-200).          mos ausentes em tempos de paz.
                                                      Tal fato já ocorrera na guerra civil dos Farra-
                                                      pos, cenário, por dez anos (1835-45), de
Está aí o cerne de engenhosa maquinação ju-           abrangente destruição e muita fome, o que in-
dicial que até meado do século XX absolveu            duziu um punhado de mulheres a, literalmente,
muito uxoricida sob pretexto da “legítima defe-       “pegar na pena” para denunciar essas atroci-
sa da honra”, sedimentado que estava o autori-        dades. A poeta cega Delfina Benigna da Cu-
tarismo masculino, hegemônico no Brasil Colô-         nha, em glosa critica o líder Bento Gonçalves:
nia e Império.                                        Maldições te sejam dadas / Bento infeliz, des-
                                                      vairado, / No Brasil e em toda a parte / Seja teu
Ausentes a imprensa e a cultura, consolidada
                                                      nome odiado. A jornalista Maria Josefa Barreto
estava a condição de total dependência femini-
                                                      Pereira Pinto atirou “farpas aos farroupilhas”
na. Vir a público, editar livro, nem pensar. A
                                                      em seu jornal Belona irada contra os sectários
primeira brasileira a fazê-lo foi a paulista Tere-
                                                      de Momo. Já Nísia Floresta, nordestina residin-
sa Orta, que em criança acompanhou para Lis-
                                                      do em Porto Alegre, documentou a fartura das
boa os pais enriquecidos no Brasil. Estudou e,
                                                      chácaras circundantes, onde imperava “paz,
na contramão da determinação paterna, casou           abundância e a doce influência de um clima
com o professor, acabando deserdada. Viúva,           sadio” – riqueza que virou ruína e desolação
12 filhos e uma batalha judicial com o único          descrita pela amiga Ana de Barandas ao la-
irmão, em 1752 ousou editar um romance de             mentar o ocaso de seu sítio natal Belmonte,
nome quilométrico e fundo contestador/                próspera propriedade rural na periferia de Por-
reivindicador, audácia que gerou retaliações          to Alegre.
para além de sua vida terrena, fazendo com

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São denúncias de escritoras com coragem para        inícios da República, motivando o templo positi-
documentar em livros que viraram pioneiros de       vista do Rio de Janeiro e o do Rio Grande do
nossa literatura. E aqui cabe um detalhe: essas     Sul, Estado que Júlio de Castilhos pretendeu
quatro escritoras publicaram sem a então obri-      industrializar. Tarefa para homem. A mulher,
gatória autorização do marido. Isto porque ne-      guindada à “rainha do lar”, devia zelar pelo ma-
nhuma delas o possuía: Delfina era solteira, o      rido, educar os filhos para o espaço externo e
marido da jornalista sumira; Nísia Floresta en-     as meninas para as prendas domésticas. Mas o
viuvara e Ana de Barandas estava divorciada         índice de 74% de analfabetismo, incompatível
oficiosamente, passando a “cabeça de casal”.        com a meta de industrialização, conclamou a
                                                    mulher para o magistério, de remuneração
Nísia foi a única que teve aprovação do marido      aquém das necessidades do mantenedor.
na 1ª edição de sua tradução reinterpretada da      Grandes educadoras surgiram: Ana Aurora do
feminista inglesa Mary Wollstonecraft – Direitos    Amaral Lisboa, Stela e Aracy Gusmão (mãe e
das mulheres e injustiças dos homens – obra         filha), Honorina Figueiroa, Marinha Noronha,
de capital importância para entender a escala-      Antonieta Lisboa, Natércia Cunha Velloso, to-
da do feminismo, incômoda aos olhos do con-         das sul-rio-grandenses. Quantos nomes ilustres
servador autoritarismo masculino da Porto Ale-      a apor, em termos de território nacional?
gre, naquele advento farroupilha. Nísia contes-
ta a perene condição de dependência feminina,    Cabe aqui rever o papel da Princesa Isabel,
refuta a “tese” da superioridade masculina a     apresentada como beata desligada da realida-
                                                 de. Quando casou, libertou escravos seus;
partir de seu crânio maior, e reivindica dois di-
                                                 mais tarde, aderiu à camélia branca, símbolo
reitos basilares da mulher: acesso ao estudo e
                                                 abolicionista, acobertando escravos na Quinta
direito ao trabalho remunerado. Estudo, a famí-
                                                 da Boa Vista e no palácio Imperial de Petrópo-
lia de Nísia lhe proporcionou, e a precoce viu-
                                                 lis; em 1888, assinou a Lei Áurea que lhe valeu
vez a fez “cabeça de casal” e mantenedora dos
                                                 condecoração papal da Rosa de Ouro. Pouco
filhos, tarefa que exerceu com sua intelectuali-
                                                 conhecido é o documento de 11.8.1889, projeto
dade, ao abrir escola de primeiras letras.
                                                 que a herdeira do trono apresentaria por ocasi-
A Escola Normal surgiu no Rio Grande do Sul ão da abertura do ano legislativo, a 20.11.1889:
em 1869. Nela Luciana de Abreu, enjeitada na indenizar os ex-escravos com terras financia-
Roda dos Expostos, aprimorou seus talentos e das pelo Banco Mauá e, o que interessa neste
se fez professora habilidosa na condução de      trabalho, instituir o sufrágio feminino como for-
sua aula repleta de alunos. Uma delas, Andra- ma de “libertar as mulheres dos grilhões do ca-
dina de Oliveira, deixou testemunho da meto-     tiveiro doméstico”. Argumentava: “Se a mulher
dologia usada: competição via estímulo e atri- pode reinar, também pode votar!” Mas, cinco
buição de novas tarefas aos mais capazes! E      dias antes da fala no Legislativo, os militares
da tribuna da Sociedade Partenon Literário,      deram golpe, proclamando a República! (Rev.
que reuniu uma centena de intelectuais brasilei- Nossa História, p. 68-74).
ros, Luciana de Abreu, cinco décadas após Ní- Exilada a Princesa, o voto feminino amargou
sia Floresta, dá testemunho acerca da questio- décadas até que a advogada e ativista Bertha
nada (in)capacidade feminina. Afirma: “Meninos Lutz abraçasse a causa. Feminista contunden-
e meninas aprendem por igual; inteligência e     te, em 1919 criou a Liga de Emancipação Inte-
aprendizado são uma questão de oportunidade, lectual da Mulher, embrião da Federação Brasi-
não de sexo.”                                    leira pelo Progresso Feminino, de 1922, ambas
O francesismo cultural ponteou ao longo do Im- cooptando feministas de vários Estados na luta
pério, acolhendo a língua francesa no cotidiano pela conscientização da causa sufragista. Dez
da corte. O Positivismo comtiano imperou nos anos mais tarde, a 24.2.1932, Getúlio Vargas
                                                 decretou o voto feminino, exercido por poucas
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poucas eleitoras em 1933 e postergado pela         ra, só lhe restou o exílio. Em companhia da fi-
ditadura do Estado Novo. Eleição pra valer, só     lha, a poeta Lola de Oliveira, encetou uma tou-
em 1946 – ressalvada a pioneira exceção do         rnée cultural de cinco anos, peregrinando por
Rio Grande do Norte, onde o governador Juve-       Montevidéu, Buenos Aires, Paraguai e Mato
nal Lamartine decretou o voto feminino em          Grosso, para então se fixar em S. Paulo, terra
1927, ressaltando-se o nome de Alzira Teixeira     dos ancestrais Andradas. Aí faleceu sem o uso
Soriano, batalhadora pela causa e futura verea-    da razão, e sem ver sinuosas marchas e con-
dora eleita.                                       tramarchas como o concubinato, o desquite, a
Ao separar Igreja de Estado, a República abriu criticada alternativa de “casamento no Uruguai”
caminhos a favor dos direitos da mulher. A ca- e outras nuances legais, que retardaram o di-
da dois ou três anos algum deputado apresen- vórcio até 1978.
tava no Congresso novo projeto divorcista co- Estavam, pois, lançados os quatro pilares bási-
mo solução para casamentos insustentáveis.         cos do feminismo: direito ao estudo, ao traba-
Até então, só a Igreja podia conceder divórcio, lho remunerado, ao voto e ao divórcio, cabe um
o que fazia com muita parcimônia e sem desfa- olhar retroativo sobre o papel da mulher na so-
zer o vínculo conjugal.                                      ciedade colonial: a branca, cerceada
                                  “Meninos e me- por severos preceitos religiosos; a
                                                               indígena e afro, sem as amarras et-
Em 1912, há um século por-        ninas aprendem no-moralistas e integrantes, como
tanto, houve a inserção de
uma mulher, Andradina de          por igual; inteli- escravas, da construção econômica
                                                               do país. Imperaram por séculos,
Andrade e Oliveira, a brilhan- gência e apren-                 plantando valioso legado: no cotidia-
te ex-aluna de Luciana de
Abreu – lembra o leitor? No-      dizado são uma no familiar, na culinária, na vesti-
                                                               menta, em suaves canções de ninar,
tável intelectual e jornalista    questão de                   na medicina popular, em preceitos
porto-alegrense, no ensaio                                     religiosos traduzidos em populares
Divórcio?, seu 11º livro, ad-     oportunidade,
                                                               crenças e crendices, base da axiolo-
voga o divórcio “pleno”,          não de sexo.”                gia brasileira...
aquele com direito a novo
                                                              A transmigração real, em 1808, des-
casamento. Nos 27 capítulos
                                                   locou para o Brasil o centro administrativo, de-
do livro, desnuda as mazelas da sociedade ain-
                                                   correndo a abertura dos portos, medidas de sa-
da órfã de leis trabalhistas, saúde precária, ins-
                                                   neamento e de urbanização, a criação de cen-
trução incipiente e ausência de preparo profis-
                                                   tros de ciência como a Faculdade de Medicina,
sional, e a mulher prisioneira de uma intrincada
                                                   vetada à mulher...
rede de ignorância, crendices e preconceitos
que a amordaçavam dentro de um conformis-          A presença de imigrantes (1818 no Rio e 1824
mo de religiosa subserviência e resignação. Di- no Sul) trouxe a economia mini fundiária, exito-
vórcio?, reeditado em 2007 pela Academia Lite- sa porque movida por mão de obra livre. A imi-
rária Feminina do Rio Grande do Sul, é leitura grante alemã, além das tarefas de casa, traba-
proveitosa para quem deseja submergir nos          lhou na lavoura, no artesanato, no comércio, na
meandros sócio moralistas da primeira Repúbli- navegação. Alfabetização e aprendizado profis-
ca.                                                sional, a comunidade assumiu, criando associ-
                                                   ações religiosas, recreativas e profissionais. A
A audácia da autora comprometeu sua liberda-
                                                   imprensa passou a informar, também, em lín-
de. Cerceada por tríplice e radical oposição
                                                   gua alemã.
(Igreja, Positivismo e Maçonaria) reforçada por
férreos preconceitos da sociedade conservado-
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Na década de 1870, imigrantes italianos labuta-     e jardins de infância permitem à mãe cursar Fa-
ram nos cafezais paulistas e progrediram nos        culdade e se inserir no mercado de trabalho,
minifúndios do sul. Polacos foram centrados         condicionante de sua realização pessoal. Mani-
em minifúndios do Paraná. Inserida na pers-         festações ostensivas como desfiles com dísti-
pectiva de crescimento econômico, a mulher          cos direcionados e pouco sonoros panelaços
trabalhava de sol a sol. Josefine Wiersch mais      de contestação, apelos de “sutiã fora” e a im-
tarde documentou sobre o exaustivo trabalho         prensa reivindicativa, incitam para o feminismo
na nova pátria, a garantir prosperidade.            engajado.
Ao correr das décadas, as diferentes etnias         Na década de 70, os Mestrados aprofundaram
fundem valores. De capital importância na bus-      conhecimentos e ampliaram preparo profissio-
ca dos direitos femininos, foi a gradativa esca-    nal, desamordaçando seculares anseios de
lada no estudo e no preparo profissional. Esco-     frustrada realização intelectual. Doutorados
las de primeiras letras proliferaram pelas colô-    brotaram dentro e fora do país. 1975-1985, a
nias de imigrantes. Escolas Normais, urbanas,       “Década da Mulher”, monitorou reivindicação
prepararam mestres desde o Império, em esca-        de “igual salário para igual tarefa”, decorrendo
la insuficiente. A indústria em implantação abre    mudanças radicais em seculares privilégios do
espaço para operárias. As guerras mundiais, a       homem face às novas conquistas da mulher.
par da destruição, induziram mulheres para inu- No início de 70, Hellê Vellozo traz do México a
sitados afazeres, escancarando a necessidade
                                                Associação de Jornalistas e Escritoras do Bra-
de novos preparos profissionais.                sil – iniciativa paralela de valorização feminina,
Muitos nomes femininos se inseriram em cam- como vinha sendo, desde 1943, a Academia
panhas e laboriosas buscas de aperfeiçoamen- Literária Feminina RS, idealizada pela ativista
to dos direitos da mulher. Delminda Silveira e  Lydia Moschetti e seguida de outras Academi-
seu ruidoso grupo de S. Catarina, faziam-se     as: em Natal (1958), Goiás, idealizada por Ro-
presentes em manifestações pro abolição; a      sarita Fleury (1969), Jundiaí, S. Paulo (1971) e,
feminista de Camaquã, no RS, Ana Cesar Ro- na década de 80, em Belo Horizonte, Santos e
drigues, acompanhou os deslocamentos do         Paraná.
marido militar. No Norte, trabalhou em Rádios; Pós-Doutorados, hoje em profusão, alargam
em Recife fundou e dirigiu a Legião da Mulher horizontes. Pesquisas nos diferentes ramos
Brasileira, com cursos profissionais para meni- profissionais oportunizam descobertas e impul-
nas.                                            sionam para novos empreendimentos.
A partir da década de 1940 multiplicam-se Fa-       A política legislativa é buscada, ainda, com cer-
culdades buscadas pelo sexo feminino: Serviço       ta resistência, mas decorre em meio a laborio-
Social, Letras, Pedagogia, História, Psicolo-       sos méritos. Concursos públicos acessam para
gia... Aos poucos a mulher se aventura em Fa-       novos cargos, exercidos com competência e
culdades de administração, técnicas e mesmo         mérito, independente de idade, sexo e cor.
eletrônicas. No cotidiano, se desdobra: atende
o lar, exerce a profissão e conjuga com ativida-    Desde as décadas finais do século XX, literatas
de paralela. A ginecologista Noemy Valle Ro-        e pesquisadoras de gênero aprofundam temáti-
cha aproveitou viagens profissionais para cole-     cas. Zahidé Muzart em 1996 criou a Editora
ta de valioso folclore do peão dos Pampas, en-      Mulheres, reabilitando a memória de centenas
quanto, na atualidade, Sylvia Helena Tocantins      de vozes femininas que o tempo apagou. Cons-
levanta no Pará o folclore do caboclo amazôni-      tância Lima Duarte se doutorou sobre a obra de
                                                    Nísia Floresta e reeditou a maioria dos livros
co. A pílula, na década de 1960, descortinou
                                                    dessa nordestina pioneira, precursora do femi-
liberdade sexual e limitação da prole. Creches
                                                    nismo.
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Raquel de Queiroz, Nélida Piñon, Ligia Fagun-
des Telles e Ana Maria Machado deram o to-
que feminino na Academia Brasileira de Letras;
Maria Dinorah, Lya Luft, Patrícia Bins e Jane
Tutikian, patronas da Feira do Livro há 57 anos
evento internacional em Porto Alegre. Tantos
nomes, a projetar as letras: Cecília Meireles,
Lúcia Miguel Pereira, Olga Savary... Me per-
doem todas as não citadas aqui. Na medida do
possível, imortalizo-as em meu Dicionário de
Mulheres.



Fontes consultadas



Arquivo da Cúria Metropolitana de Porto Alegre, Li-
vros de Batismo, Casamento e Óbito
BARMAN, Roderick. Princesa Isabel. S. Paulo:
Unesp, 2001
FLORES, Hilda Agnes Hübner. Dicionário de Mu-
lheres. Florianópolis: Ed. Mulheres, 2011 (2ª ed.).
_____. Sociedade: preconceitos e conquistas. Porto Hilda Hübner Flores, professora da PUCRS apo-
Alegre: Nova Dimensão, 1989                            sentada, é historiadora. Dentre seus 18 livros, publi-
                                                       cou: Sociedade: preconceitos e conquistas
_____. Alemães na Guerra dos Farrapos. Porto Ale-
                                                       (mulheres na Guerra dos Farrapos), Mulheres na
gre, EdiPucrs, 2008
                                                       Guerra do Paraguai/2010 (ensaio); Dicionário de
MUZART, Zahidé L. Escritoras brasileiras do séc.       Mulheres, 2ª ed. 2011 (3.000 verbetes de autoras
XIX. Florianópolis, v. I 1999, v. II 2004, v. III 2009 brasileiras). Reeditou, com estudo biográfico: O Ra-
                                                       malhete de Ana de Barandas, Divórcio? de Andradi-
Revista Nossa História, ano 3, nº 31, maio/2006, p.
                                                       na de Oliveira e Autobiografia de Lydia Moschetti.
68-74
                                                       Tema imigratório: Canção dos imigrantes, Alemães
                                                       na Guerra dos Farrapos, Aspectos da Revolução de
                                                       1893 e História da imigração alemã no Rio Grande
                                                       do Sul - todos ensaios. Traduziu: Memórias de um
                                                       imigrante boêmio, Memórias de Brummer, O Doutor
                                                       Maragato, S. Clara na Revolução Federalista.
           Muitos nomes femini-
                                                        Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Goiâ-
           nos se inseriram em                          nia e de S. Luiz Gonzaga, da AJEB/RS, por três ve-
           campanhas e laborio-                         zes presidiu a Academia Literária Feminina RS e
           sas buscas de aperfei-                       está na 5ª presidência do Círculo de Pesquisas Lite-
                                                        rárias RS – todas instituições com publicação de
           çoamento dos direitos
                                                        antologia anual.
           da mulher.
                                                        E-mail: yflores@terra.com.br




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                     Contra Mundum


                    Por Helena Barbagelata



            A aurora insiste em romper a aldraba
       negra do horizonte, enquanto a paisagem vem
       de leve cantar inútil aos corpos; chuvas de oiro
      pousadas a braços de ninguém, a luz que passa
   rasteira e censurada na fleuma das horas; arrastam-se
  os ódios enfarpelados de cansaço, em cortejo solene por
    entre o dia, sobre-humanos na barbárie do intelecto;
 desaprendem-se as emoções à sombra da terra, coroa-se
  a tirania algébrica das imitações, e a palavra é uma arma
animal; há uma clausura em que se ouve chamar de amor à
lascívia, onde a vaidade em cada boca enroupou as virtudes
de agravos, e o sentir se fez proibido; há uma concupiscência
que vem estéril ladear-me a alma como um grifo, mas aqui o
  sentimento nasce ainda branco e livre na ilesa parecença
das pombas; a alma aqui ainda cala silente o bulício sibilino e
   vão de desejos, e no que resta de mim expira o mundo,
 mendigado em ânsias indefessas de silêncio; bem-amada
  solidão, há em ti um jardim onde se aprende a sapiência
poética das coisas, e em último espanto se inspira o perfume
íntimo e dolente das rosas; a alma ali ainda canta às estrelas,
   e não há manhã que caminhe indiferente nos seus pés de prata.




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                     CICLOS                 servem, para desinquietarem, despertarem)
                                            cumprindo seu papel, mas também foram anjos
                                            que abençoaram, braços e abraços repletos de
      Por Isabel C S Vargas                 ternura e de alegria com os balanços das crian-
                                            ças que sustentou fortemente em todos os ve-
                                            rões quando alegres brincavam ao redor, pen-
                                            duravam cadeiras ou simples cordas para se
      Foi no ano de 1986 que um pequeno pi- balançarem ou, ainda, quando com suas per-
nheiro foi comprado e plantado em um peque- nas frágeis tentavam nos braços subirem para
no jardim em uma casa de praia.             ver o mundo mais além.

     A princípio não havia exigência nenhuma,                Estes mesmos braços carregaram
pois era muito novinho. Não tinha que fazer na-   pacotes e luzes que alegraram e iluminaram
da. Nem dar sombra nem abrigar pássaros, muitos Natais.
outros animais nem pessoas.                                  Apesar de não ser mais criança, de
     Como o funcionamento de todo ser em          ter assumido proporções de um gigante, a dúvi-
desenvolvimento, a princípio, parece ser o mes- da, o questionamento (que é a mola propulsora
mo, só tinha que crescer descobrir o mundo, de quem não se conforma com as frases feitas,
deixar-se descobrir pelos outros, experimentar os cenários estanques, os sentimentos enqua-
possibilidades, encantar com as descobertas drados em moldes pré-determinados e com o
que abrem inúmeras possibilidades a serem futuro sendo resultado de uma imutável opera-
vivenciadas, mas que ao serem escolhidas, de ção matemática) começaram a assaltar, pois o
imediato, excluem outras. Não deveria ser as- fato de crescer demais começou a inquietar, a
sim, pois o sol não exclui a lua nem as estrelas, perturbar e a gerar desconforto.
o dia não exclui a noite e ambos aceitam a chu-                 É necessário ter o olhar bem mais
va e os ventos, fugindo da rotina e aceitando as     além da linha do horizonte, querendo sempre
mudanças que com eles advêm. Generosa-               transpor barreiras, desafiando o já dito e questi-
mente dividem espaços, olhares, encantamen-          onando o costume, a norma, o construído, o
tos daqueles que tem olhos de ver, coração à         sentido (nas entrelinhas, no visível e no não di-
flor da pele e alma cigana que é capaz de estar      to, em outros dizeres que permeiam o caminho
em todo lugar, que não tem território próprio        e que podem se constituir em novos saberes)
porque todo território é seu.                        criando novos desafios e novos espaços de ex-
      Foi possível crescer em várias direções;       perimentação. Este percurso pode mostrar o
para o alto buscando o céu, para o lado espa-        medo, instalar a dúvida do caminho a ser trilha-
lhando galhos que são braços, que protegem e         do, desejando retornar a territórios conhecidos,
abraçam de maneira carinhosa e acolhedora,           identificados que apresentam características de
para baixo fincando fortes raízes que se firmam      normalidade, de estabilidade, de segurança,
dando suporte a todo aquilo que está acima da        numa total contradição entre a segurança do
terra e abaixo do céu (ou além dele), à vista        conhecido e as inúmeras perspectivas do inex-
dos olhos, ao alcance do olfato apurado capaz        plorado.
de distinguir cheiro de chuva molhada, de fruto          A experimentação, o desafio do novo
maduro, de flor desabrochando, de ouvir o can-significa a janela que mostra novos horizontes
to do sabiá, do bem-te-vi e do beija-flor que pla-
                                              e o caminho para experimentar novos modos
na no ar, leve como os pensamentos inocentes  de vida, que poderão até não se constituírem
e puros das crianças.                         naquilo que é esperado, ou no vislumbrado,
    Toda a existência cresceu dentro daquilo mas que servirão para isto mesmo, mostrar o
que era esperado, proporcionando segurança, que vale a pena.
proteção, aconchego, alegria, sombra sob a               Nesta etapa do percurso surgem as
qual repousaram corpos cansados e mentes dúvidas, as incertezas, face à internalização
sonhadoras que ali, a seus pés arquitetaram dos conceitos que constituíram o sujeito e a
idéias, sonhos que ganharam o mundo em ca- vontade de arriscar-se para descobrir novos
da tentativa desafiadora ou conquista obtida. ensinamentos, novas finalidades, não ignoran-
     Os espinhos cutucaram (é para isto que do durante a trajetória a presença constante de
                                              um superego controlador ou a culpa por
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abandonar velhos paradigmas que representam ensinamentos aprendidos como dogmas,
mas que nos dias de hoje já não possuem o mesmo significado. Afinal crianças crescem,
adultos envelhecem a vida muda, pessoas e os espaços são modificados. Todos morrem só
que em momentos diferentes, cada um a seu tempo, quando seu ciclo termina
          Em virtude disto nesta trajetória espaço-tempo- de ser e não ser, de subir e chegar
às nuvens ao mesmo tempo em que aprofunda raízes, de crescer e se deixar podar, de viver
e de morrer, de ser árvore frondosa ou rio que corre e não deita raízes, nos tornamos capazes
de (mesmo com o coração partido, a seiva a sangrar) deixar-se cortar para em cada labareda
da chama da vida ou do fogo ardente e gélido da morte que acompanha o homem por toda a
eternidade , esquentar os corações, virar fumaça que sobe para voltar em gotas de chuva que
regam as sementes que tornarão a brotar num ciclo interminável de vida, doação, morte e re-
nascimento.
          Enquanto isto, outro tipo de raiz, não aquela plantada no solo, mas a que planta-
mos no coração daqueles que servimos permanece viva, nutrindo o espírito que se eleva por
entre as nuvens, as quais agora vemos de outra dimensão.




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O e-mail na comunicação                            intensidade daquilo que prazerosamente pode-
                                                   ríamos ter vivido!'
Por Joana Rolim                                    'Em suas mensagens ou palavras que poucas
                                                   vezes trocamos, encontro um exemplo de em-
                                                   polgação e vivacidade...Abraço! G.E
Escutando, numa FM, uma música, ela e eu           'Liberdade, lindo!!! Neste dia de meu aniversá-
nos tornamos um. Era uma voz, distante, e eu,      rio, o que eu mais aprecio e que mais valorizo!
inteira.                                           Vc adivinhou,?!?! Sei que queremos ser aprisio-
"Quando te perdi, eu me perdi..."                  nados pela sedução daquele que não escravi-
Foram os versos que me ficaram. É revirar uma      za, demonstrando sua insegurança em nos ter.
vida. Agora, escrevendo, ainda a tenho. Não sei    Mas, sim, aprisionadamente seduzidos pela ca-
o cantor nem qual a música. Mas ele ainda can-     pacidade do outro emanar aromas de verdadei-
ta em minha emoção as palavras que fizeram a       ro amor, que combinam com toda a
integração de um passado com aquele instante.      "decoração": atitudes, discursos, gestos, fala-
Os e-mails também são ricos de emoção em           res, pensares e silêncios...' (I.F.)
comunicação. Recebi um de um amigo ('expert'       Eu, você e liberdade:
em música especiais) uma que me fez reviver        'É tempo de novo mitos, novos arquétipos. Nós
momentos meus.                                     já somos feito da história de 3.000 anos, quanta
Linda e verdadeira a música.                       carga pra carregarmos, não é? A liberdade en-
Acho que já estamos nesta.                         tra aí...' (C.)
Vamos andar devagar porque ......já tivemos        Esta página foi comunicação na liberdade - mis-
pressa.                                            térios que somos para nós mesmos. É a vida
Vamos aproveitar a calma da vida.....que nós       na emoção. É coração que fala, coração que
merecemos.                                         responde. Corpo que se manifesta.
Tocando em frente                                  Comunicação é vida. Comunicação, íntegra,
ANDO DEVAGAR PORQUE JÁ TIVE PRES-                  revelada no momento em que se dá. Somente.
SA....                                             Mas revivida quando lembrada. Compartilho.
'Conta-se que, num dia qualquer, Almir Sater       Eu, você e liberdade:
estava em São Paulo para uma temporada e
desceu do seu apartamento para tomar um ca-
fezinho num mercado ali perto. Chegando ao
destino, encontrou Renato Teixeira que o convi-
dou para experimentar uma viola nova, que
acabara de comprar. Enquanto tomavam café,
Almir dedilhou a viola e soltou... "Ando deva-
gar"...ao que Renato emendou ..."porque já tive
pressa". Dizem que essa maravilha ficou pronta
em 10 minutos.
Um dia alguém perguntou ao Almir como essa
música fora feita e ele respondeu:
─ Ela já estava pronta...Deus apenas esperou
que eu e o Renato nos encontrássemos para
mostrá-la pra gente.'

Recebi, curti e enviei. Uma resposta muito sen-
sível, mais um momento de comunicação na
sua essência e de poesia na minha emoção me
inundou de energia e alegria.
'Muito obrigado pela belíssima e significativa
música...por acaso adoro e quase respiro esta
música! Ela nos transporta para um momento
de serenidade e saudável reflexão. Não se con-
ta ou se mede a vida por horas, dias, me-
ses...enfim, mede-se pela intensidade das oca-
siões... A pressa atordoa a lucidez e abafa a
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               Jesus Cristo


          Por José Cambinda Dala



               Suportou o deserto
                 Venceu o diabo
    Mostrando coerência no comportamento
             Satanás desistiu Dele



      Foi recebido como um verdadeiro rei
         Apesar de ter negado o poder



              Traído foi crucificado
          Morreu como Grande Herói
         Sepultado como um qualquer
          Ressuscitou e subiu ao céu



           Sentado junto com o Pai
Esperam receber quem de nós se comportar bem.




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Creio
Por José Carlos de Paiva Bruno

Creio num Homem projeto, muito além de objeto...
Em vida, repleto: em morte, discreto... Bilhete secreto!
Creio atômica avaliação múltipla, astúcia de muitos pontos...
Lusos do começo, novos baianos em apreço...

Sou tamanho e momento, alegria e lamento; movimento...
Cepo sem acento, acepipe d’alquimia convento...
Simples convenção; forma da fórmica, sofisticação...
Creio em plantas e cores, diversidades amores!

Creio em delicados licores, pétalas em flores...
Amálgama em geração, fusório embriagada explosão...
Creio firula efeito folhetim, tintim por tintim...
Aventura pandora sim, assim leque de Berlim!

Assanhadas palavras, saracoteando estradas, jornadas...
Jornais de um tempo inteiro, sagas gorjetas do feiticeiro...
Creio druida truques de vida, versus araques do fim...
Assim arautos de um novo Jardim, coloridas maçãs de mim!

Creio no improviso, mímica emergência do aviso...
Clemência da amazona, fogo de lua, química nua...
Creio num ir e voltar, quase criança engatinhar...
Passada que mostra pegada, marca de caminhar!

Sendo sempre começo, sou o fim que mereço...
Creio na estação do preço: se subo ou se desço...
Aroma de um lado belo, lençol apito que revelo...
Com ela me atrelo, creio não no fim, trem de jasmim!

Imanentes versos da imaginação, linhas da liberdade,
Beijo você beldade, curvas loucuras de paixão e amizade...
Existência do que simplesmente creio: começo, fim e meio...
Devaneio...




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Olhando as estrelas

   Por José Hilton Rosa



          Saio lá fora
         vejo as estrelas
         a noite é calma
       vem o frio da noite


    a casinha fica distante
     o caminho tem poeira
      quando tem pressa
           vai a galope


  Lá dentro ainda há o amor
     é simples e sem luxo
          mas, amor há
   o alimento está no fogão


    No jardim ainda há flor
  no inverno acende fogueira
 a segunda-feira tem trabalho
 com a enxada levo a marmita


O almoço é na sombra da árvore
        água na cabaça
        café é na garrafa
      o cigarro é de palha.




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COSMOPOLITA

Por Juan Barreto


Aquela música me pegou pelos cabelos como os homens das cavernas faziam com suas
mulheres e me arrastou por dias, por anos atrás.
A vida dá muitos sinais. Tilintares marcam o compasso.
Sou seu ao passo que acho sua pessoa.
Acho que a gente pode tudo, pode ser tudo, só não pode ser podre, porque é isso que nos
difere dos mortos, é isso que nos difere do lixo, da merda. Entende?
O ser humano é 70 - 75% composto de água e nem assim ele consegue ser transparente.
Eu faço parte desse inferno que reclamo.
Vai fumar pedra, papel ou tesoura?
Vai cheirar e vai chorar! Quer apostar?
Apostar não. É ilegal!
Dedos são os chifres das mãos!
Só importa aquilo que de alguma forma dá forma e te entorta por dentro, mas antes de se
apaixonar verifique se o mesmo encontra-se nesse andar.
PARtir é ímpar.
Sempre que eu penso em possibilidades aparece alguma coisa que parecia impossível.
A verdade é que a vida é um eterno 'colar colou'
Não ganha o mais forte, ganha quem chegar primeiro.
Minhas impressões sobre as coisas deixo onde puder
Minhas impressões digitais eu deixo em quem deixar
principalmente nas pessoas 'nhac'.
Tsc,tsc,tsc e outras onomatopeias.
Patrocine um raciocínio.
Tira sarro porque o outro usa boneca inflável, e você que namora à distância?
Quem está mais longe da realidade desejada?
Essas frustrações brandas... Por isso os bares.
E mais... Por isso as bebidas.
“-Garçom!
-Pra beber, alguma coisa, Sr.?
-Um 'sorry'sal efervescente."




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                   Reluzente

            Por Sandra Nascimento



                 Cansado e triste
             o meu coração pausou
              Duas luzes diferentes
               despontaram então:
       uma para a vida outra para a morte
        Agora nada mais revelava a solidão
 Nem seus olhos refletiam as paisagens do mundo
    Só as palavras invadiam os meus sentidos
                 E o mundo girou
 a mim e em torno da outra luz constante e sonsa
    Sem desculpa o dia não anoiteceu, percebi
           Apenas se manteve eterno
para os que não precisam piscar os olhos diante de
                  luzes radiantes
          Mas esse não era o meu caso
Sem saída, sosseguei meu pensamento assustado
             E recostado na sombra
             de tudo o que acreditou
               ele dormiu e sonhou
                Sonhou reluzente




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FOLIA

Por Regina Costa


Joguei pro alto em sete tempos, pensamento,
Tudo muda, tudo volta, sentimento
A gente canta
Vira o tempo, muda o mês
                               Te encontrei mais uma vez
Em sete tempos, pensamento,
                               Estou de bem com o meu amor,
Qu’est-ce qu’il dit bem-te-vi?
                               Estou te amando à beira-mar
Patati patatiti
                               O sol já vai raiar
Em sete tempos, pensamento
Sopra um tema, portamento,
Anuncia o realejo que amanhã tem mais calor
Qu’est-ce qu’il dit bem-te-vi?
                               A gente canta pra encontrar
Vem pra cá chega bem mais
                               A gente quer é mais que mais
                               Cirandar nesta cantiga
                               Volta e meia vamos dar
                               Te encontrei mais uma vez
                               Meu bem, te vi sonhar
Nosso abraço é na medida
Nosso amor é sem rotina
Patati patatiti
                               Nosso papo é noite e dia
                               Na folia das palavras que se soltam afinadas
                               Chove esfria brilha o sol
                               Pelo ar...
                               Sempre és meu par
Qu’est-ce qu’il dit bem-te-vi?
                               Sete tempos, pensamento
                               Na folia das palavras
                               Te encontrei de toda vez
Patati patatiti
                               Estamos superafinados
                               Chove esfria brilha o sol
                               Pelo ar...
                               Sempre és meu par




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                Minha Flor
         Por Karine Alves Ribeiro

         Flor, divina flor de canteiro.
           Tão simples, tão suave,
             de beleza congênita
                e ricas hastes.
        Na sua intermitência juvenil,
        envereda para o lado do sol,
         sem medo, nem mácula...

         Amanhece sempre assim:
               Luminosa.

           De encantos bravios,
            é torrente e mimosa,
            é grande e delicada,
             admirável e tênue,
               viçosa e clara...
        Flor que instiga meus viços,
                meus mimos,
                meus clarins.

     Ficaria tão linda num vaso de jade,
     sobre uma mesa em meu quarto...
Mas é absolutamente bela, somente no jardim!

               Livre e togada,
               Vênus, adorada
            por anjinhos de pedra
               num chafariz...

               A última purga,
                 o último sol,
          a última nota de Mozart,
           a última gota no atol...

         O beijo que ela não me deu,
                  me abriga,
       na primavera que nunca acaba,
         no abraço que não deslaça,
        das suas pétalas a me despir.




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                       A fila                  se repetia com um detalhe, o número de tapas
                                               ia aumentando. Como cada um cometera seu
                                               próprio erro, ao creditar ao próximo sua falha,
Por Lariel Frota                               as bofetadas aumentavam. A cada cobrança
                                               uma desculpa e uma, duas, três bofetadas no
                                               rosto do companheiro da fila. Achavam que
           Diante do senhor justiceiro, a fila quando chegasse a vez do rapaz abobalhado,
aguardava . Eram tempos de prestação de con- teriam se livrado do castigo, pois o senhor jus-
tas e todos ali acreditavam conhecer o nível ticeiro jamais retornava ao início do julgamen-
de sua exigência.                              to.
       Primeiro em silêncio absoluto ele sem-                                  (…)
pre anotava os feitos positivos de cada um,
depois iniciava a análise dos erros. Era o mo-        -Então você confirma que é culpado pe-
mento em que a maioria se apavorava.           los erros de todos a sua frente?
      Cada um sabia da própria responsabili-          -Não senhor.
dade, com olhos grudados ao chão pensavam             -Como não, se não tem ninguém atrás
silenciosamente na fala de defesa preparada de você a quem responsabilizar como fizeram
que era acima de tudo, uma tentativa de esca- os seus companheiros?
par do castigo que não conheciam, mas temi-
am.                                                   -Desculpe senhor!

       Concluíam em suas limitações: “Se o            Dizendo isso se esbofeteou fortemente,
grande senhor era benévolo ao extremo nas      provocando o riso de todos.
suas ações, deveria ser proporcionalmente ri-       -Não entendi, porque você se deu essa
goroso no castigo aplicado aos infratores”.   bofetada?
        Naquele dia o clima estava mais tenso, a          -Pelo erro que cometi. As outras bofeta-
fila era formada pelas pessoas mais inteligen-      das estão ardendo, mas tenho certeza de que
tes do lugar. Tão astutos que haviam progra-        só sou culpado pelo meu erro.
mado uma resposta coletiva, caso sentissem
                                                                                 (…)
que o castigo seria duro demais. A exceção
era o rapaz no último lugar, um gorducho,                   Depois de anos de andanças o senhor
usando óculos de hastes escuras de lentes           justiceiro sorriu. Tirou o manto que usava e co-
muito grossas, meias verdes e pés com os sa-        locou sobre os ombros daquele jovem de rosto
patos trocados, que lhe acentuavam o ar abo-        inchado.
balhado.                                                   Saíram caminhando como velhos ami-
        Não era dotado de recursos intelectuais,    gos. Atônitos nenhum dos espertos conseguia
por isso ninguém entendia sua presença              entender o que havia acontecido. Um jato de
equivocada, aquela não era a fila dos limitados,    luz resgatou aqueles dois vultos lá adiante na
mas se nada nele os ameaçava, deixaram-no           estrada. Dizem que a partir daquele dia, ele
ali, atado a sua precariedade intelectual.          vive em festa num reino distante, onde a felici-
                                                    dade e a justiça reinam com plenitude.
        Diante da pergunta incisiva, o primeiro
da fila, como ficara combinado, diz em voz al-           Saíram caminhando como velhos ami-
ta tentando dar as palavras, ares de credibilida- gos. Atônitos ninguém da fila de esper-
de:                                               tos entendeu o que havia acontecido. Um jato
                                                  de luz resgatou os dois vultos lá adiante na
        -Desculpe senhor, definitivamente a cul-
                                                  estrada. Dizem que a partir daquele dia, o jo-
pa não foi minha.
                                                  vem de ar abobalhado, vive em festa num rei-
        -Então aponte o causador do seu erro. no distante, onde a felicidade, a justiça e a
        Conforme fora acertado previamente, se paz, reinam em plenitude, enquanto por aqui,
vira para o sujeito atrás de si e lhe dá um tapa milhares de pessoas espertas continuam se
na cara, deixando a marca dos dedos estampa- esbofeteando sem entender nada!
da em vermelho dolorido.
      Assim de um em um a mesma resposta
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012

           PARTICIPAÇÃO NO VARAL


•    Em setembro tema Nossa Infância –
     receberemos textos até 10 de agosto
     (se atingirmos um número ideal de pá-
     ginas o texto pode ser reservado para
     uma próxima edição);
•    E em novembro, aniversário do Varal! A
     revista Varal do Brasil completará 3
     anos e conta com você para festejar! O
     tema será livre e você pode se inscre-
     ver até 10 de outubro (as inscrições po-
     dem ser encerradas antes, dependendo
     do número de participantes).
Você pode escrever na forma que desejar:
verso ou prosa! Haicai? Trova? Poema? Crô-
nica? Conto? Miniconto? Soneto? Que ou-
tras mais você faz? Mostre pra gente!
Traga sua poesia, sua visão da vida, seus
sonhos, para o VARAL!
Venha conosco!
Varal do Brasil: Literário, sem frescuras!




                                                                         FAÇA SUA ESTA CAUSA!


                                                                           ADOTAR É ANIMAL
                                                             AJUDANIMAL, GRUPO DE AJUDA E AMPARO
                                                                     AOS ANIMAIS DO ABC
                                                                         www.ajudanimal.org.br




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CONVERSANDO COM
CLARA MACHADO

Vou iniciar esse texto falando um pouco das         ra ele não terminar com ela. Mas o homem
carências do ser humano, pois se somos seres também sente a pressão, pois acaba achando,
sociais e dependemos do outro quando nasce- pelo que vê ao redor de si, que precisa ser o
mos para nossa sobrevivência.                       provedor e o que direciona a relação e que ela
O homem é um ser que depende totalmente de deve ser submetida a ele e a seus desejos. E
outra pessoa quando ele nasce para a sua so-        hoje , mesmo com a atitude mais moderna de
brevivência, isso automaticamente já fica intro- homens e mulheres, existindo um reverso des-
jetado no inconsciente.: a necessidade de ter       ta situação relacional, a pressão acaba sendo
quem lhe dê tudo para que possa sobreviver no para ambos muito grande e a obrigatoriedade
mundo. Dentro dele ele sabe: preciso de ajuda       do sim como resposta acaba aparecendo. Por-
para me alimentar, preciso que me deem cari-        que ao falar a pequena palavra “não”, algo se
nho, atenção, afeto, etc.                           perderá nesta história.
Agora você imagine se, quando bebê automati- Depois esse (a) jovem se casa, e novamente
camente já se tem esse registro, imagine o que sente quenão se pode dizer não, porque agora
vai acontecendo quando vai se desenvolvendo, esta casado (a), os acordos de obediência, de-
criança, adolescente, adulto e idoso,               veres, fidelidades são muito fortes e muitas ve-
A criança vai para escola para socializar, fazer    zes, mesmo quando se percebe que o casa-
amigos e aprende que precisa ser boazinha, e        mento foi um erro, que casou com a pessoa
falar sim para os coleguinhas para ter amigos,      errada, que a pessoa se transformou depois do
senão ela fica só .                                 casamento, pensa não se pode dizer não, não
O adolescente, vive a época dos grupos e onde quero mais, foi um equivoco! As pessoas fi-
sente a necessidade de falar sim para tudo o        cam , se suportam, se maltratam, adoecem
que o líder do grupo determina para não ser         mas não conseguem dizer não.
excluído, pois para o adolescente o mais impor- E depois vem os filhos ai a questão fica mais
tante é ter uma "galera" que ele se identifique e complicada: como vou dizer não, agora tenho
que o aceite.                                       filhos e tudo fica mais pesado com o peso da
Depois esse ser humano se torna adulto, quer        responsabilidade.
se relacionar, namorar. O sector feminino é ain- Não posso isso, não posso aquilo, não posso,
da mais fragilizado pela necessidade do sim,        não posso, não posso. e mais uma vez as pes-
pois a moça aprende que precisa dizer sempre soas dizem " Eu não sei dizer Não" e vão so-
sim para tudo o que o namorado determina pa- frendo, e os filhos vão sofrendo e vão se

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multiplicando as tragédias no mundo, por falta de consciência e coragem de aprender a dizer
NÃO.
E veja só uma palavra tão pequena e tão simples e tão difícil de se dizer. NÃO. é muito mais
fácil para as pessoas darem uma desculpa ai elas dizem:" Mais eu não sei dizer Não ninguém
me ensinou eu nunca aprendi por isso eu sofro tanto hoje".
E vamos caminhando mais um pouco na nossa evolução e chegamos ao idoso,. Que dificulda-
de de falar não, pois eles dizem" se eu falar não eu vou ser abandonado em um abrigo para
idoso, vou ficar só, meus filhos vão me abandonar, por isso eu não posso dizer não."
E passa um pouco mais de tempo essa pessoa morre, e ai se percebe que ela veio ao mundo,
passou por aqui e foi embora carregada de tantos medos de estar só e com tantas carências
afetivas que a impediram de viver a vida de uma forma diferente se ela tivesse aprendido des-
de cedo a dizer Não.
E agora de uma forma solitária ela é enterrada, pois tem um ditado popular que diz assim,
"Nascemos sós e morremos sós", então porque o Ser Humano tem tanta dificuldade em dizer
não?
Penso que esta na hora de darmos um salto quântico em nossa evolução e aprender a dizer
não para tudo o que nos desagrada, nos humilha, nos maltrata. e dizer sim a tudo o que te dá o
poder de Paz, de Liberdade e de Amor por você, mesmo, pois quanto mais você se amar, mais
fortalecido você vai ficar, sua carência e sua solidão vão desaparecer, você perceberá que você
pode ser uma ótima companhia para você mesmo e ai sim, você ira se transformar em um Ho-
lofote de Luz e as pessoas vão querer estar naturalmente mais perto de você e você aprendeu
a dar o seu grande passo na vida que é: EU APRENDI A DIZER NÃO.




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         Embaraço...

    Por Maria Socorro de Sousa

Colapso calado em uma página branca
       Eu calo suprimindo a fala
     As letras embaraçadas calam
  Esperança caótica cativa em laços
 Silêncio… Marcas em fúrias cafonas
       Colírio cabível aos cegos
    Em branco cântaro prefiro ficar
       Surdo mudo ao rabiscar
    Conúbio crucial quase cadente
     Sórdido a uma sociedade vil
    Sem chance… Imutáveis robôs
      Cal calma ilusão sem calor
       Suspira cândido cansaço
    Papel branco… Que embaraço!




                                                   Hachuras no coracão

                                                  Por Varenka de Fátima Araújo


                                                       Numa folha branca, linhas
                                                      entrecruzadas sobrepostas
                                                        bem devagar em riscos
                                                          traços da mesma cor


                                                         Falo apressada, rouca
                                                              tão pouco agrada
                                                              não te fiz cativeiro
                                                         cem mil vezes te amei


                                                              Numa folha branca
                                                      Hachuras em meu coração
                                                       De sangria sem vibração
                                                         Silencio, dor sem fim.


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HIDROMAS SAGEM

Por Nina de Lima


Tépido vapor envolve o Box, displicente dispo as roupas
suadas e empoeiradas e as atiro no cesto.
Com elas também me dispo do cansaço e dos problemas.
É tão suave o aroma que se eleva da água
aromada pelos óleos e pelos sais perfumados
que não resisto ao convite e mergulho com prazer.
A espuma forma bolhas diáfanas e coloridas
que eu sopro levemente.
E sorrio qual criança, a criança que já fui, que ainda em mim reside e às vezes, por vergonha,
impeço de aflorar.
Lentamente minhas mãos mornas e ensaboadas
vão percorrendo meu corpo
e os fortes jatos de água me transmitem energia.
Sinto-me então renovada, sem medos e sem incertezas.
Somente a cabeça emerge da espuma relaxante.
Leve, eu semiadormeço e os pensamentos libertos,
não encontrando barreiras, voejam qual borboletas,
livres e sem limites.
Perdida a noção de tempo e a temperatura da água,
um leve tremor no corpo indica o fim do relax.
Aqui estou eu, sozinha. Eu e somente eu.
Bendigo estes instantes de solidão benfazeja,
de reencontro comigo.
morno encontro da água com as marcas de meu corpo,
sinais do tempo passado e muitos anos vividos,
eu com ninguém divido.
Estes momentos são meus. Meus, e de mais ninguém.




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do meu tédio

Por Rafiki Zen



a vida é negra e as nuvens
carregadas de trovoada não
me deixam provas do contrário.
não falei da coruja-marrom
construindo um ninho em cima
da casa, só pra desmanchar
todo o rancor do meu
poema.




                                                   AÇAÍ TRANSCENDENTAL

                                                   Por Sandra Berg


                                                    Açaí é uma cor que absorve
                                                    A consistência de uma paixão
                                                    Dá o tônus à fé de uma gente
                                                    Que labuta contente e não chora em vão

                                                    Uma gente que faz de sua lida
                                                    Solidez, conciliação,
                                                    Bebendo de tua cor o fervor cujo sabor
                                                    Dá a vida roxa entonação

                                                    É uma luz que norteia e seduz
                                                    De o nosso cantar, inspiração,
                                                    Eterna estação, açaí, tradição,
                                                    Ressurgirá ao povir, criação.

                                                    Somos um povo passageiro de uma dor
                                                    Gemendo essa poesia
                                                    Que transforma em dia a esperança
                                                    Que nunca nos abandonou

                                                    Não se perde em dar do que se tem
                                                    Em abundância
                                                    Porque é amor
                                                    Natureza que dá a cultura substância


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                                                 Por Sheila Ferreira Kuno


     Maria Rita – Analista de Mainframe             blemas.
                                                    - Maria Rita, em primeiro lugar você é funcioná-
                                                    ria desta empresa e não do Banco, portanto se
Maria Rita é uma mulher com mais de 40 anos,        estou lhe pedindo que venha até aqui, você
pequena, loira, sorridente e introvertida. Não      precisa vir.
era feia, mas desprovida de vaidade, sua bele-      - Já disse que não vou.
za ficava escondida atrás dos óculos grandes,       E desligou o telefone.
de armação grossa e escura. Seu cabelo sem-         Como já se aproximava o fim do expediente,
pre preso em um rabo mal feito completava seu       Julio optou por resolver este assunto no dia se-
visual.                                             guinte.
Maria Rita trabalhava com computadores de           Logo pela manhã, Julio recebeu uma ligação
grande porte, os famosos mainframes, atual-         de uma pessoa do Banco, relatando que Maria
mente em desuso, mas mantidos por grandes           Rita estava nas dependências do Banco e que
empresas, principalmente Bancos.                    eles não precisavam mais dos serviços dela,
Ela foi contratada por uma empresa de consul-       conforme já haviam posicionado à empresa, e
toria para atender um grande e conceituado          que ela deveria se retirar.
Banco, onde passaria a maior parte do tempo.        Novamente Julio iniciou uma conversa com Ma-
Em sua primeira semana de trabalho, foi-lhe         ria Rita, que continuou irredutível e o acusou de
apresentado detalhes do sistema com o qual          estar atrapalhando o seu trabalho.
ela iria trabalhar. Durante este tempo, ela sem-    Sem alternativas, Julio foi até o Banco, conver-
pre foi atenciosa e simpática.                      sar pessoalmente com Maria Rita e explicar-lhe
Maria Rita passou vários meses trabalhando no       a situação.
Banco, tendo pouco contato com a empresa            Depois de muita conversa, Maria Rita entendeu
que a contratara. Ela gostou tanto do ambiente      que deveria se retirar, mas primeiro se despe-
de trabalho e de suas tarefas, que já se consi-     diu do departamento inteiro, sentou-se e lenta-
derava funcionária do Banco. Foi ai que come-       mente arrumou suas coisas, comeu seu lanche
çaram os problemas.                                 pensativamente, enquanto Julio a esperava.
Certo dia, o responsável pelos trabalhos do         Quando ela levantou-se e decidiu ir embora,
Banco ligou para o Julio, que era o gerente na      Julio acreditou que o assunto estava resolvido.
empresa de consultoria, dizendo que não preci-      Caminharam em direção à saída do Banco. O
sava mais dos serviços de Maria Rita. Diante        prédio era rodeado por um lindo e grande jar-
desta decisão, Julio ligou para ela.                dim, cheio de árvores, lagos, trilhas para cami-
- Boa tarde Maria Rita.                             nhada, um lugar realmente lindo.
- Boa tarde. –Ela respondeu.                        Maria Rita não se dirigiu à portaria, pelo contrá-
- Preciso que amanhã cedo você venha até a          rio, começou a caminhar pelos jardins em silên-
empresa para conversarmos.                          cio, enquanto Julio a chamava em vão. Mais
- Desculpe-me, mas não posso, tenho muito           uma vez, sem opção, ele resolveu acompanhá-
trabalho para fazer.                                la durante a caminhada que durou quase uma
Calmamente Julio lhe explicou.                      hora e só depois, Julio conseguiu encaminhá-la
- Eu sei Maria Rita, mas já conversei com o         à empresa a qual ela era funcionária.
chefe do departamento ao qual você está pres-
tando consultoria e ele te liberou, pois o que eu   Ninguém nunca entendeu o motivo de tal com-
tenho para lhe falar é importante e urgente.        portamento e Maria Rita também nunca comen-
- Não vou, tenho que terminar um trabalho. –        tou sobre o ocorrido e assim a vida seguiu seu
respondeu Maria Rita indignada.                     curso.
Neste momento, Julio percebeu que teria pro-

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MUSEU PARANOICO
(mar, alma, lugar, reinar)                         quero ao mundo salino, voltar,
                                                   como areia, espalhar meu destino,
Por Roberto Armorizzi                              ser o dia brilhante, reinar,
                                                   com razão, sem castelo, nem sino.
Por aqui não se vê mais o mar,
de querer, de molhar, aos meus pés,
veio a mim um museu secular,
como tumba do velho Ramsés,


nesta hora eu não sinto areia,
que outrora coçava meus dedos,
num instante minh’alma falseia,
como pólvora de mudos torpedos,


que lugar infernal, silencio,
onde quadros e almas se velam,
não sou mais, e sem mar, sentencio,
entre pós e as sanções que escalpelam,

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       INFORMAÇÕES SOBRE OS LIVROS DE
       JACQUELINE AISENMAN:
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                          RUTE MIRANDA
                       Sou uma eterna apaixonada por Artes, e venho dedicando-me ao
                       assunto desde 1993 quando iniciei minhas primeiras pinturas.
                       Em 2008, decidi aperfeiçoar no assunto, concluindo o curso em Ar-
                       tes Plásticas pela Escola Pan-americana de Artes em São Paulo.


COMO UM ALQUIMISTA, PERSEGUINDO O EQUILÍBRIO, TENTA TRANSFORMAR
ELEMENTOS INCRUSTADOS, PERDIDOS, SOTERRADOS, EM ALGO PRECIOSO.
TENTATIVAS DEVERAS ME PERMITEM ATRAVESSAR A BARREIRA DO INATINGÍ-
VEL. DESPERTA O OCIOSO, DESAGREGA COMPOSIÇÕES, CAPTA E ISOLA ENERGI-
AS, PROVOCA EXPLOSÕES. A ARTE SE REVELA....




                                 JUVENTUDE: DIMENSÃO:                 SALA DE ARTE: DIMENSÃO:
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                          F4

         Por Willian Lando Czeikoski



    Cada lágrima da mãe terra é tempestade
  Cheia de descaso e ódio do humano umbroso,
 Que em sua viagem ao sonho material doloroso
Acaba com o sonho do amor de sua posteridade.


   Cada suspiro que evidencia sua fragilidade
 É um furacão hediondo de meu ato dispendioso
  Ou de nossa fome pelo capitalismo pomposo
    Que me tira o puro ar da antiga civilidade.


   Somos parasitas dividindo a mesma morte,
     Fazendo do verde, cinza incandescente,
 Expondo a biodiversidade a própria triste sorte.


 Somos uma massa manipulada e descontente,
     Pois vejo que o ser humano é tão forte,
Que consegue frente à natureza fazer-se demente.




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                    É tudo que tenho

               Por Rozelene Furtado de Lima



                    Vivo ao pé da montanha.
                Desperto com o cantar do galo
            e a passarinhada saudando, bom dia!
           O café perfumado me abraça gostoso.
          Ao som do riacho medito com os peixes.
            O barro me molda, eu moldo o barro.
             Então, agradeço mais uma manhã.
               Cato flores para enfeitar a casa,
               cheiro de refogado põe a mesa.
             A vida me perfuma e eu aspiro vida.
          Doce paladar das frutas recém colhidas.
          Sesta na rede embala o livre descansar.
                A tarde na companhia de livros.
           A forma me busca e eu busco a forma.
             Aventura, romance e muita poesia.
                No crepúsculo ir devagarzinho
                espiar o sol deitando na serra,
                ouvir o bater de asas de anjos,
                  grilos e sapos em serenata.
                 Os sinos soam e eu caminho,
                      passeio na via láctea
                 de mãos dadas com estrelas.
                    Dentro da imagem da lua
                    minha alma presa à tua.
              O vinho aquece o sangue e a vida.
                 Do sorriso às risadas aliadas,
           O prazer esquenta a cama para o amor
               Fim noite, madrugada de chuva
                  Orvalhada amanhece a luz.




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                         O ÚLTIMO BEIJO


                           Por Antonio Fidelis


Contenção de alegrias, tristezas nítidas,
Dores da perda, holocausto d’alma, clausura de sentimentos,
Um último e único beijo
Um adeus súbito.
Medo, pavor, tristezas e a dor...
Como será difícil nunca mais te ver
Dormir e acordar e saber que, nunca mais vou ter você
Posso procurar em todos os lugares do universo
E não te acharei
Ter que conjugar-te só no passado
Que meu presente passou.
E só me restou lembranças. E muita saudade
Às vezes, falei pouco eu te amo,
Dei pouco carinho, a mínima atenção,
Dei-te pouquíssimo de mim
Só eu não percebi. Quanto eu perdi.
Suspiros entalados ao ver-te assim
Na horizontal.
O calor do seu corpo cessou.
Gélido esta seu rosto como esta o aperto do meu coração.
Tocar-te e sentir sua pele dura
Suas mãos sobrepostas unidas ao um terço.
Nem mais um sopro de ar ficou,
Acabou! O fim de uma historia.
Um ponto final.
E o seu existir apenas em minhas memórias.
O beijo mais dolorido da minha existência
É semelhante a um peito dilacerado.
O beijo do adeus.




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Particularidade, Universalidade e Singularidade:                  Até que ponto se diferenciam e entram em
                 definindo conceitos                   conflito os interesses particulares de “uma classe”
  fundamentais para a Metodologia da Pesquisa social (no caso, a classe trabalhadora, representada
                 em Ciências Sociais                   pelo Partido dos Trabalhadores) com os de outros
                                                       segmentos sociais, como as classes médias e altas
                                                       (as elites)? E em quais momentos é preciso que uma
                                                       classe social, que esteja no poder, abandone seus
                         André Valério Sales           interesses particularistas de classe, em favor das ne-
                                                       cessidades universais do conjunto da sociedade bra-
                                                       sileira?
1. Introdução:                                                    Minha intenção aqui não é a de responder a
                                                       estas perguntas, mas, ajudar ao leitor a refletir sobre
          Este ensaio foi escrito no âmbito de meus as respostas possíveis a elas; e o modo melhor que
estudos acerca da Cultura Urbana na sociedade capi- vislumbro, de contribuir para essas reflexões tão
talista contemporânea, área das ciências sociais à fundamentais hoje, é buscando tornar mais inteligí-
qual venho dedicando-me há alguns anos. Com ele veis os principais conceitos aí envolvidos, ou seja,
busco contribuir para o debate atual acerca de uni- definindo: particularidade, singularidade e universa-
versalismo e particularismos, intentando esclarecer lidade.
as definições do que vem a ser: particularidade, uni-             Ao se consultar os dicionários mais co-
versalidade e singularidade, no sentido de ajudar na muns, os mais socializados no país, nota-se que são
reflexão sobre as respostas possíveis que são coloca- bastante sintéticos: por exemplo, o célebre Aurélio
das pelas interrogações presentes no debate dobre (de bolso) conceitua o universal como se referindo
tais definições e seus usos na análise de fatos con- ao universo, ao que é mundial, àquilo que é comum
temporâneos, a base do texto é o tema da metodolo- a todos os homens; ou ainda, “a um grupo dado”; o
gia de pesquisa em Ciências Sociais.                   singular, por sua vez, é o que pertence a um, ao nú-
          É de interesse tanto da Sociologia quanto mero que indica uma só coisa ou pessoa; singulari-
da História, na atualidade, a questão dos conflitos e zar é “tornar singular, particular ou específico”; e o
contradições entre atitudes e movimentos sociais de conceito de particular, é o relativo a apenas certos
caráter particularistas ou universalistas. Principal- seres vivos ou a certa(s) pessoa(s) ou coisa(s), é o
mente no plano político-social do Brasil de hoje relativo a “uma pessoa qualquer” (ver Mini-Aurélio,
(2012), quando um representante da “classe” traba- Ferreira, 2001).
lhadora, e do Partido dos Trabalhadores, ascendeu             Já o Dicionário Houaiss, considerado por mui-
recentemente ao poder, enquanto Presidente do país, tos como “o melhor” do Brasil, conceitua o univer-
Luís Inácio Lula da Silva, conseguindo também re- sal enquanto algo que é “comum, relativo ou perten-
passar o maior cargo do Brasil para outra petista, a cente ao universo inteiro”, algo “comum a todos os
atual Presidenta, Dilma Rousseff. Neste contexto, componentes de determinada classe ou gru-
retomam-se com mais intensidade os debates sobre po” (2009: 1907); o singular refere-se àquilo que
particularismos e universalismos; como já observou “se aplica a um único sujeito”, e também coloca
o célebre historiador francês Jacques Le Goff, a uni- “particularizar” como sinônimo de singularizar (id.:
versalidade é um valor “cuja ressonância política é 1750); e particular é “próprio ou de uso exclusivo
clara” (1990: 193). E nós, os críticos sociais do pre- de alguém; privativo, privado”, sendo sinônimo, in-
sente, não devemos nos ausentar destas polêmicas e clusive, de “um indivíduo qualquer” (id.: 1439).
nem mesmo inserirmo-nos nelas sem um claro en-
tendimento destes conceitos e de suas interligações
com a realidade social.                                _________________________________________
          Tomando então o exemplo dos dois Presi-
dentes da República citados, utilizo aqui seus papéis 1.      Tem graduação (UECE, 1991) e mestrado (UFPB,
                                                              1996) em Serviço Social. Cursa, desde 2000, enquanto
sociais, delegados pela maioria da população que os           aluno especial, disciplinas do doutoramento em Socio-
elegeu, como pretexto para iniciar a discussão, e ini-        logia (PPGS/UFPB).
cio perguntando: até onde poderiam ir os desejos e
interesses pessoais (singulares), de Luís Inácio, 2.          Ver, por exemplo: Gabriel Cohn, “Introdução”, In:
                                                              COHN, G. (Org.), Weber – Sociologia (2002); e Leo-
quando ocupou tal cargo, assim como até onde po-              poldo Waizbort, As aventuras de Georg Simmel (2000).
dem ir as vontades singulares da pessoa de Dilma
Rousseff quando ocupa agora a Presidência da Re-
pública?

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          A princípio, o leitor pode confundir-se in-   categoria da particularidade e, em consequência,
teiramente e até mesmo desistir de entender os esses    seus complementos obrigatórios, o singular e o uni-
três conceitos, pois segundo um dos Dicionários         versal, Lukács (1978: 76) inicia definindo que o sin-
mais usados no Brasil (Aurélio), assim como de          gular é o que é próprio ao indivíduo, ao especifica-
acordo com aquele geralmente considerado “o me-         mente pessoal; já o particular refere-se aos
lhor” do país (Houaiss): o particular diz respeito a    “interesses de classe”; e o universal, aos “interesses
certas pessoas (grupos, portanto), certas coisas, no    de toda a sociedade”.
plural, mas também poderia ser relacionado a uma                     Já de outra forma, o autor em questão
pessoa qualquer (no singular), um indivíduo. Já o       exemplifica as relações entre as três categorias teóri-
singular, é o que pertence a um só, a um único sujei-   cas, ligando-as então ao conceito de Trabalho. Se-
to, mas, ao mesmo tempo, singularizar é definido        gundo ele: considerando-se o trabalho em si mesmo,
como o mesmo que “tornar particular”, particulari-      pode-se designar a “divisão da produção social em
zar. Já o universal seria o que é comum “a todos os     seus grandes gêneros, agricultura, indústria, etc., co-
homens”, e ao mesmo tempo, pode ser tido como o         mo divisão do trabalho em geral”; enquanto divisão
que é comum a todos que pertencem a uma classe ou       do trabalho em particular, a divisão destas classes de
“um grupo”.                                             produção pode ser feita “em espécies e subespécies”;
          Na verdade, se sairmos dos Dicionários        e, finalmente, de maneira singular, pode-se pensar a
comuns e adentrarmos às disquisições filosóficas ou     “divisão do trabalho dentro de uma oficina como
sociológicas mais aprofundadas, encontraremos jus-      divisão do trabalho em detalhe” (id.: 96, grifado no
tamente essa mesma mistura, essas mesmas contra-        original).
dições, porém, entenderemos também que há, por                       Continuando seus exemplos, para melhor
fim, uma relação de complementaridade entre o sin-      explicitar os três conceitos em análise, e ainda refe-
gular e o particular, entre particular e universal, as- rindo-se às relações de trabalho sob o capitalismo,
sim como podem ser complementares entre si a sin-       Lukács observa que entre o capitalista e o operário
gularidade e a universalidade, como veremos a se-       há uma terceira coisa (como pode ser o caso da Con-
guir.                                                   corrência), uma coisa particular, portanto, que faz o
                                                        intermédio entre dois seres singulares. Ou ainda: es-
2. As três definições segundo as Ciências Sociais: ta não é, portanto, uma relação de simples indiví-
                                                        duos, puramente pessoal, mas mediatizada por um
No âmbito das Ciências Sociais contemporâneas, o terceiro, que é fruto das relações sociais (id.: 119).
pensador múltiplo Georg Lukács, de origem húnga-                     Sendo assim, o que se apreende até aqui, a
ra, escreveu em 1957 um livro dedicado inteiramen- partir dos exemplos citados pelo autor, é que as rela-
te à elucidação da categoria da particularidade: In- ções dialéticas (contraditórias, mas também comple-
trodução a uma estética marxista: Sobre a categoria mentares) entre singularidade, particularidade e uni-
da particularidade, e é a partir deste autor que busco versalidade, expressam-se na realidade da vida coti-
um esclarecimento melhor acerca da definição dos        diana de cada ser social, no dia a dia das nossas rela-
três conceitos em questão. Lukács (1885-1971) foi       ções sociais, o que lhes retira a possibilidade de se-
amigo dos sociólogos Georg Simmel, Max Weber,           rem considerados como definições apenas abstratas,
Karl Mannheim, Tönnies, dentre outros (Frederico, pertencentes unicamente aos debates intelectuais de
1998: 9); também participou dos cursos de Georg         economistas, filósofos, sociólogos, etc.
Simmel na Universidade de Berlim, na Alemanha,                       Acrescenta ainda o pensador húngaro que
entre 1909-1910, chegando a ser “o aluno favorito apesar do idealismo hegeliano, há que se admitir que
de Simmel e assíduo frequentador da sua ca-             foi “Hegel quem primeiro colocou o problema do
sa” (Netto, 1981: 11, grifo meu). Todos estes inte-     __________________________________________
lectuais, na maioria sociólogos e filósofos a um só e
mesmo tempo, participavam de grupos de estudo           3. Apesar de indelevelmente presentes neste texto, não me interessa
(Schiur – seminário particular), aos domingos, vari- discutir aqui nem a perspectiva de classe e nem o método lukacsianos,
                                                        mas apenas demonstrar a sua contribuição para o debate acerca das
ando suas presenças nas casas de uns e de outros.       três definições em análise. Este é um texto sobre Metodologia de Pes-
Isto significa que o contato de Georg Lukács com a quisa e Análise, e não sobre as concepções marxistas, ainda que cite
Sociologia, de modo algum, era superficial.             Marx, Lukács, o conceito de “classe social”, etc. Mesmo assim, volto
          Em seu livro sobre a categoria da particula- a citar Jacques Le Goff (1990: 192) quando, concordando com o
                                                        sociólogo-filósofo francês Raymond Aron (1905-1983), afirma
ridade, o escritor húngaro expõe vários exemplos de que “Marx deu, do dinamismo permanente, constitutivo da
situações que demonstram o que vem a ser o singu- economia capitalista, uma interpretação que ainda hoje conti-
lar, o particular e o universal. No capítulo central de nua válida”.
seu trabalho, no qual ele define detalhadamente a
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particular de maneira correta e multilate-                lógicas e concretas a um mesmo tempo, que somente
ral” (Lukács, 1978: 73, grifado por mim), e para fu-      por estarem presentes na realidade cotidiana das re-
gir àquele modo idealista de conceber tais defini-        lações sociais é que podem ser elevadas ao raciocí-
ções, é preciso ressaltar, de antemão, que as três        nio lógico humano, ao nosso pensamento e à nossa
“categorias lógicas” aqui em questão dizem respeito       reflexão.
à “situações objetivas” na sociedade, e não no pensa-
mento. Elas são fruto “da realidade que lhes corres-      3. A Universalidade:
ponde” (id.: 75), são categorias históricas portanto,               Entendeu-se, até aqui, que há uma mistura
completamente opostas às categorias reflexivas idea-      – dialética – entre as noções de singularidade, parti-
listas e puramente subjetivas. As definições de sin-      cularidade e universalidade, que as relações entre
gular, particular e universal somente se tornam histó-    elas são contraditórias ao mesmo tempo em que são
ricas porque o intelecto humano consegue “elevar a        também complementares. Especificamente sobre a
conceito o movimento concreto” do real (id.: 88).         definição de universalidade, é preciso afirmar que há
Somente desta forma, então, é que tais categorias         perigo à vista quando se faz dela um mero conceito
podem servir de instrumento para se compreender “o        vazio. O universalismo é necessário, seguindo nosso
desenvolvimento vital da realidade em seu movi-           exemplo, à classe que esteja no poder, seja ela de
mento, em sua complexidade” (id.: 87): se elas fo-        procedência elitista ou operária; a universalidade
rem representações concretas do próprio mundo ob-         deixa de existir, observa Georg Lukács (1978: 88),
jetivo (id.: 75).                                         quando é uma característica “pensada apenas em
          Postos esses aspectos diferenciados que         uma forma particular”. Como antes citado, esse pro-
podem assumir as relações entre a tríade em discus-       blema, apesar de parecer “exclusivamente lógico”,
são, voltemos agora ao exemplo concreto da particu-       depois de Hegel passa a ser distinguido enquanto
laridade da classe trabalhadora no Brasil, como no        “um problema da estrutura e do desenvolvimento da
caso citado inicialmente, ao se tratar das vontades       sociedade” (id.: 82).
pessoais e dos interesses de classe do ex-Presidente
da República, da atual Presidenta e de seu partido                   Sendo assim, as relações entre universali-
político (o PT), relacionando-os com as necessidades      dade e particularidade “têm uma função de grande
universalistas de toda a sociedade brasileira: sobre      monta”, pois o particular representa “a expressão
este assunto, o ponto de vista lukacsiano é o de que      lógica das categorias de mediação entre os homens
“Somente em nome dos direitos universais da socie-        singulares e a sociedade” (id.: 93). E nessa proble-
dade pode uma classe particular reivindicar para si       mática da relação dialética entre universal e particu-
mesma o domínio universal” (Lukács, 1978: 77, gri-        lar, lembrando de nosso exemplo sobre a tríade Pre-
fos meus).                                                sidente da República-Partido Político-Conjunto da
          A partir dessa afirmação, lanço outra per-      Sociedade, é necessário, nas palavras de Lukács,
gunta para ser refletida: em se considerando a pers-      sempre “esclarecer a forma concreta de sua relação
pectiva de sociedade (socialista?) do Partido dos         [universal-particular], caso por caso, em uma deter-
Trabalhadores, será que a “classe particular” que se      minada situação social, com respeito a uma determi-
encontra no poder – já há uma década – vem conse-         nada relação da estrutura econômica”, e mais ainda:
guindo pôr de lado os seus interesses particularistas,    é decisivo que se busque “descobrir em que medida
e exercer um “domínio” verdadeiramente em nome            e em que direção as transformações históricas modi-
dos “direitos universais” e dos interesses universalis-   ficam esta dialética”. Também é necessário “estudar
tas do conjunto da sociedade brasileira?                  e descrever, de um modo historicamente concreto
          Há que se esclarecer que Lukács usa, neste      (...) e com exatidão, estas relações e suas transforma-
ponto de seus escritos, exemplos ligados a política,      ções”. Somente se cumprindo esta “tarefa importan-
ao trabalho e às classes sociais, no entanto, toda a      te”, é que se finda descobrindo “que as contradições
discussão a seguir tem a ver com seu método de es-        concretas assim percebidas devem ser compreendi-
tudo e análise, cujos propósitos são universais e refe-   das, do ponto de vista lógico-metodológico, como
rem-se, portanto, às categorias teóricas de singular-     casos concretos e expressões de uma dialética de
particular-universal como instrumentos lógicos de         universal e particular” (id.: 91-92, grifos meus). E
análise que podem ser utilizados por qualquer pes-        esta dialética concreta de universal e particular é,
quisador social, sejam eles ligados à Sociologia, Fi-     desse modo, uma “arma metodológica”, é um
losofia, História, etc.                                   “instrumento para esclarecer as conexões reais” entre
          Passo agora à discussão específica acerca       os fenômenos sociais em análise (id.: 95).
de cada uma das três definições aqui explicitadas,
que são, como já citado, categorias teóricas, porém
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          Para Lukács, a linha fundamental do movi-       modo, espaço para identidade entre uma e outra, por
mento de pensamento dialético dá-se em um movi-           serem opostas; contudo, o singular não existe senão
mento irresistível, em “uma aproximação progressi-        em sua relação com o universal. Segundo Lukács, o
va que conduz do puramente singular ao universal          “movimento dialético da realidade, tal como ele se
através do particular”, o que significa que “todos os     reflete no pensamento humano, é assim um incontro-
conceitos e processos mentais, têm o seu ponto de         lável impulso do singular para o universal e deste,
partida na realidade objetiva [social e histórica] in-    novamente, para aquele”. Sendo assim, a particulari-
dependente da consciência” (id.: 102-103).                dade, a singularidade e a universalidade não são
          Ensina o pensador húngaro que a universa-       idênticas, ao contrário, há entre elas uma “nítida e
lidade está sempre “em uma contínua tensão com a          precisa distinção”, mas isto não exclui que possa
singularidade”, além de estar também em uma               haver “passagens e conversões” dialéticas tanto en-
“contínua conversão em particularidade”. Da mes-          tre universalidade e particularidade, como entre sin-
ma maneira, e de modo inverso, a particularidade          gularidade e particularidade. Mas nosso pensador
está sempre em contínua tensão com o universal e          húngaro adverte que essas distinções, ainda que pre-
em contínua conversão em singularidade. Ou seja, as       sentes na realidade cotidiana de todo ser humano,
relações entre essa tríade são sempre múltiplas e         são pouco desenvolvidas “no modo de pensar da vi-
contraditórias, e quanto mais autêntica e profunda-       da cotidiana” (id.: 110).
mente os nexos da realidade, suas conexões e contra-                No próximo item, passamos à explicitação
dições, “forem concebidos sob a forma da universa-        do significado da categoria teórico-metodológica da
lidade”, de forma mais exata e mais concreta              particularidade, a mais discutida por Lukács em seu
“poderá ser compreendido também o singular” (id.:         livro Introdução a uma estética marxista: Sobre a
104).                                                     categoria da particularidade (de 1957), além do auxí-
          Vamos discorrer agora especialmente sobre       lio na compreensão do conceito de mediações.
a definição filosófica/sociológica de singularidade.
                                                          5. A Particularidade – Um Campo de mediações:
4. A Singularidade:
                                                                    Como bem esclarece Lukács, na vida coti-
           Ainda a partir do trabalho de Lukács,          diana, no conjunto das relações sociais, a particulari-
aprendemos que o conhecimento e a compreensão da          dade “se confunde, em sua determinação e delimita-
singularidade “não pode ocorrer separadamente das         ção, ora com o universal ora com o singular”, e é por
suas múltiplas relações com a particularidade e com       isso que “na construção científica e filosófica, os
a universalidade”; estas relações múltiplas já estão      extremos são desenvolvidos antes do que os meio
contidas na imediaticidade do singular, “no imedia-       mediadores [as particularidades]” (1978: 110, grifos
tamente sensível de cada singular”, e tanto a realida-    meus), assim definida, a particularidade é “um mem-
de como a essência da singularidade “só pode ser          bro intermediário com características bastante espe-
exatamente compreendida quando estas mediações            cíficas” (id.: 112).
(as relativas particularidades e universalidades) ocul-             Por tudo isso, continua o filósofo húngaro,
tas na imediaticidade são postas à luz”, o que signifi-   é que somente pode existir “uma autêntica e verda-
ca, também, que “esta aproximação ao singular en-         deira aproximação à compreensão adequada da reali-
quanto tal pressupõe o conhecimento mais desenvol-        dade”, uma relação verdadeiramente dialética entre
vido possível das relativas universalidades e particu-    teoria e prática, se houver clareza: dessa “tensão dos
laridades”. O singular, portanto, “precisamente co-       pólos, constantemente em ato”; se houver o entendi-
mo singular, é conhecido tão mais seguramente e de        mento da “constante conversão dialética recíproca
um modo tão mais conforme à verdade (...) quanto          das determinações e dos membros intermediários
mais rica e profundamente forem iluminadas as suas        que têm função mediadora”; e se for compreendido
mediações para com o universal e o particu-               que há esta “união entre os pólos”, ainda que seja
lar” (1978: 106-107).                                     uma união tensa e contraditória. Portanto, a tarefa do
           O que se apreende então, até esse ponto,       intelectual é, tal como assinala Lukács, não julgar a
especificamente acerca das relações entre singulari-      realidade em análise, e nem descrevê-la ou explicá-
dade e universalidade, é que suas ligações na reali-      la da forma que o intelectual queria que fosse, ou da
dade são inseparáveis, apesar de opostas entre si.        forma que o real deveria ser, mas tentar elevar à
Tais categorias lógicas estão presentes no real em        consciência a “exata relação dos homens para com a
unidade dialética, mas, ao mesmo tempo, há uma            realidade objetiva” (id.: 111).
conexão contraditória entre elas, não havendo, desse

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          Ou ainda, o pesquisador deve observar, na      esse campo de mediações, composto pelas particula-
realidade concreta/cotidiana, como as relações soci-     ridades, “na medida em que uma série de determina-
ais se processam, sem que os seus valores pessoais,      ções mediadoras – que até um dado momento eram
seus desejos e interesses influenciem nos tratamento     concebidas como sendo independentes uma da outra
dos dados observados/coletados por ele. Por exem-        e autônomas – são agora subordináveis a uma única
plo, refletindo sobre a cultura popular, Augusto         determinação” (Lukács, 1978: 113).
Arantes (1987:57) propõe-se a que, neste seu livro                 Torna-se claro, desta maneira, que o parti-
“se projete o foco de atenção sobre o que as culturas    cular “não é simplesmente o membro pontual da me-
efetivamente são, ou melhor, sobre como elas são         diação em uma tríade, mas sim uma espécie de cam-
produzidas, sobre os processos através dos quais elas    po de mediação para o universal (e, em certos casos
se constituem e o que elas expressam, e não sobre o      particulares, para o singular)” (id.: 116, grifo meu).
que elas foram, seriam ou deveriam ser” (grifado                   A partir de uma série de pesquisas, cada
em negrito por mim).                                     uma voltada para o esclarecimento de um novo as-
          Deste modo, Lukács enfatiza que o movi-        pecto particular do problema, em suas características
mento do singular ao universal, assim como seu con-      específicas, pode surgir (graças ao aprofundamento
trário: do universal ao singular, “é sempre mediatiza-   destes novos aspectos particulares) outra concepção
do pelo particular”. A particularidade é então “um       diferente, que venha a alargar e aprofundar mais ain-
membro intermediário real, tanto na realidade obje-      da o seu conceito, elevando-o a um nível superior de
tiva quanto no pensamento que a reflete” (id.:           universalidade; de tal modo que “A cuidadosa análi-
112).                                                    se do particular é apenas um meio para alcançar este
          Não é por acaso, acrescenta o autor, que a     grau superior de universalidade”, buscando-se esta
tríade singular-particular-universal se tenha tornado    ampliação da universalidade do conceito (id.: 114-
formalmente dominante, este fato “não é casual, já       115). Isto significa que, através de mediações, em se
que início, meio e conclusão descrevem a estrutura       conhecendo momentos particulares novos, a univer-
formal necessária de qualquer operação mental”.          salidade dos conceitos envolvidos no problema é
Também, é preciso lembrar que “a relação de forma        ampliada e tornada superior ao que antes se conhe-
e conteúdo é uma relação mais próxima e mais con-        cia.
vergente no início e na conclusão do que no meio”, e               Seria enganoso, afirma Lukács (1978: 116),
este meio, por sua vez, é “uma expressão complexi-       após todas essas considerações, concluir-se que “o
va e sintética de todo o conjunto de determinações       particular é uma amorfa e inarticulada faixa de liga-
que mediatizam o início e a conclusão” (id.: 113).       ção entre o universal e o singular (...) as coisas não
          Lukács ressalta que nenhum dos movimen-        são assim”. O campo de mediações tratado aqui é
tos aludidos acima são “pontos firmes”. Do mesmo         naturalmente articulado, e cada etapa que o conheci-
modo que a particularidade – que é na verdade um         mento leva a compreender em tal campo pode, ape-
“inteiro campo de mediações” –, também “início e         nas por aproximação, “ser claramente determinada e
conclusão (universalidade e singularidade) de modo       fixada, do mesmo modo que podem ser fixadas a
algum são pontos firmes no sentido estrito da pala-      universalidade e a singularidade”. Também o fato de
vra”, pois “o desenvolvimento do pensamento e dos        que, em muitos casos, “deva-se fixar uma inteira ca-
conhecimentos têm precisamente a tendência a trans-      deia de membros particulares da mediação, a fim de
feri-los cada vez mais”. Todavia, se se leva em con-     ligar corretamente entre si a universalidade e a sin-
sideração corretamente o movimento dialético do          gularidade”, demonstra que, de modo algum, a parti-
particular ao universal, assim como da universalida-     cularidade tenha um caráter amorfo.
de à particularidade, observa-se que “o meio media-                A partir do prisma da linguagem, continua
dor (a particularidade) pode menos ser um ponto          o pensador húngaro, são bastante precisos os signifi-
firme, um membro determinado, e tampouco dois            cados de singular e universal, já a expressão particu-
pontos ou dois membros intermediários (...) mas sim      laridade pode querer dizer muitas coisas: “ela desig-
em certa medida, um campo inteiro de media-              na tanto o que impressiona, o que salta à vista, o que
ções” (id.: 113, grifos meus).                           se destaca (em sentido positivo ou negativo), como o
          A cada passo que a construção do conheci-      que é específico; ela é usada, notadamente em filoso-
mento vai sendo aperfeiçoado pelo pesquisador, po-       fia, como sinônimo de ‘determinado’, etc.” Contudo,
de-se “alargar este campo [de mediações], inserindo      esta oscilação que pode existir no significado do par-
na conexão momentos dos quais precedentemente se         ticular “não é casual, mas tampouco ele indica um
ignorava que funções tinham na relação entre uma         amorfismo fugidio; ele diz respeito apenas ao caráter
determinada singularidade e uma determinada uni-         sobretudo posicional da particularidade”. A particu-
versalidade”. Assim como também se pode diminuir         laridade que aqui se busca esclarecer representa,

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 com relação ao singular, “uma universalidade relati-               O que importa afinal, é que ao se debater
va, e, com relação ao universal, uma singularidade        hoje as definições de particularismos e universalis-
relativa”, e esta relatividade posicional “não deve ser   mos, se tenha um pouco mais de segurança sobre o
concebida como algo estático, mas sim como um             que significam tais categorias lógicas.
processo. A própria conversão, por nós assinalada                   E, principalmente, aprendemos aqui que os
deste ‘termo médio’ em um dos extremos já implica         interesses particularistas, em sendo interesses de
este caráter processual” (id.: 117).                      apenas uma “classe social” que se encontre no poder
          A particularidade, desse modo, é um prin-       (como no exemplo citado, do Governo do ex-
cípio do movimento do conhecimento, e enquanto            Presidente Lula e da atual Presidenta Dilma, ambos
“momentos particularidades mediadores”, ela tem,          filiados ao Partido dos Trabalhadores), poderiam e
na sociedade, “uma existência relativamente bem           deveriam ser convertidos em interesses universalis-
delimitada, uma figura própria” (id.: 118). Decidin-      tas, voltados para o bem-estar da maioria da popula-
do-se o pesquisador por eliminar a particularidade, e     ção brasileira. Assim como também, fomos levados
operar apenas com os extremos (singular e univer-         a compreender que, às vezes, um discurso que a
sal), enfatiza Lukács, é “deformante”, assim como o       princípio seja universalista pode esconder interesses
fizeram, por exemplo, os pré-socráticos, Aristóteles,     eminentemente particularistas, noutras palavras:
a filosofia burguesa, etc. Estes, buscaram “afastar       pode ocorrer que aquilo que se apresenta como uni-
idealmente da vida dos homens, justamente com o           versalismo hoje, venha a converter-se, amanhã, em
particular, as determinações sociais”, passando por       interesses particulares de apenas uma classe, um gru-
cima, como no caso da filosofia burguesa, do caráter      po ou segmento social!
de classe da sociedade capitalista; e esta tendência
afirmava que “o homem deve sempre ser compreen-           7. Referências:
dido como singular, excluindo-se todas as mediações
da socialidade de sua existência, afastando-se qual-      ARANTES, Antonio Augusto. O Que é Cultura Popu-
quer particularidade mediadora” (id.: 119-120).           lar. 12ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.
          Em se tratando das relações dialéticas e das    COHN, Gabriel. “Introdução”. In: COHN, G.
mediações        existentes     entre    singularidade-   (Org.). Weber – Sociologia. 7ª ed. São Paulo: Ática,
particularidade-universalidade, a eliminação da           2002.
particularidade é, por fim, uma luta contra a objeti-
vidade, constata Lukács, desconsiderá-la é lutar con-     FERREIRA, Aurélio B. H. Mini-Aurélio Século XXI:
tra a concreticidade e contra a apreensão correta da      Escolar. 4ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
dialeticidade das relações sociais (1978: 120).           2001.
                                                        FREDERICO, Celso. Lukács: Um clássico do século
6. Conclusão:                                           XX. São Paulo: Moderna, 1998.
          Acredito que o objetivo deste ensaio – o de HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua
contribuir para o esclarecimento das categorias teóri- Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva/Instituto Antô-
cas de singular, particular e universal – foi atingido. nio Houaiss, 2009.
Como foi visto acima, o nosso conhecimento comum LE GOFF, Jacques. História e Memória. São Paulo:
acerca de tais conceitos, assim como dos significa- EdUnicamp, 1990. (trad. Bernardo Leitão et. al.).
dos postos pelos Dicionários mais utilizados no país,
não são suficientes para um entendimento mais apro- LUKÁCS, Georg. Introdução a uma estética marxis-
fundado acerca das relações existentes entre particu- ta: Sobre a categoria da particularidade. Rio de Ja-
laridade, universalidade e singularidade.               neiro: Civilização Brasileira, 1978. (trad. Carlos
          Demonstrou-se também, como é rica a de- Nelson Coutinho e Leandro Konder).
finição de particularidade, tão usada pela maioria
                                                        PAULO NETTO, José (Org.). Lukács. São Paulo:
das pessoas com o sentido banal de
                                                        Ática, 1981.
“individualidade”, o que faz com ela perca quase que
totalmente a sua significância teórico-ontológica; WAIZBORT, Leopoldo. As aventuras de Georg Sim-
enquanto que, na verdade, o particular abrange um mel. São Paulo: USP/PPGS/Ed. 34, 2000.
campo inteiro de mediações, que se encontram a
meio caminho (mas não em uma posição fixa) entre
o singular e o universal. Deve o pesquisador obser-
var que estas mediações por vezes se aproximam
mais da universalidade e, às vezes, tornam-se mais
próximas ao singular.
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                 Rocambole de doce de leite

                             Ingredientes:
                   3 colheres de sopa de manteiga
                                3 ovos
                 1 copo ou xícara de farinha de trigo
                     1 copo ou xícara de açúcar
                 1 colher de sopa de fermento em pó


                         Recheio e cobertura
                        1 lata de doce de leite
                         1/2 xícara de açúcar



 Modo de fazer: Bater no liquidificador os ovos, o açúcar, a manteiga,
  em seguida a farinha e o fermento. Untar uma forma com bastante
   manteiga, colocar a massa batida na forma, e levar ao forno pré-
aquecido por 5 a 8 minutos . Tirar a massa do forno e colocar sobre um
pano molhado. Espalhe o doce de leite sobre a massa. Enrole a massa
             com o doce de leite, e polvilhe com açúcar.




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                                       HOSPITAL DE LAGUNA
Faça do Hospital de Laguna a sua causa, colabore!
www.hospitallaguna.com
PROJETO LUZ
Ilumine esta ideia! Como você deseja que o Hospital de Laguna seja?
Bom? Muito bom? Ótimo? Qual o seu desejo? Com quanto você pode contri-
buir, na sua conta de luz, para o Hospital ser assim, do jeito que você
quer? Você pode!
O prêmio maior é a vida. Com certeza o seu maior desejo!
CARTÃO DE BENEFÍCIOS
O Cartão de Benefícios proporciona a usuários e dependentes descontos
nos serviços de internação e de urgência/emergência oferecidos pelo
Hospital de Laguna e pela rede de estabelecimentos e profissionais cre-
denciados (visite no site o link do Cartão de Benefícios). Os descontos
variam de 10 a 50%, podendo chegar a 90% nas farmácias. procure o re-
presentante do hospital no horário comercial.
TORNE-SE UM ASSOCIADO
Para tornar-se um associado do hospital, basta preencher o formulário
que se encontra no site e encaminhá-lo à direção do hospital. O valor
da mensalidade e de apenas R$ 10,00.
Todo associado poderá usufruir das vantagens do cartão de benefícios
sem pagamento adicional.


                                 http://www.hospitallaguna.com.br/
                               Hospital de Caridade Senhor Bom Jesus Passos

                                       R. Osvaldo Aranha, 280, Centro
                                         CEP: 88790-000, Laguna SC

       Fones: Central telefônica: (0xx)48 3646-0522 / DPVAT: (0xx)48 3646-1237 / Fax: (0xx)48 3644-0728



                                   Fotos Históricas do Hospital




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                                                   Consulado-Geral do Brasil em Genebra

                                                 O Consulado é parte integrante da rede consular do Minis-
                                                tério das Relações Exteriores. Sua função principal é a de
                                                prestar serviços aos cidadãos brasileiros e estrangeiros resi-
                                                dentes na sua jurisdição consular, dentro dos limites estabe-
                                                lecidos pela legislação brasileira, pela legislação suíça e pe-
                                                los tratados internacionais pertinentes.

                                                O Consulado-Geral do Brasil encontra-se localizado no nú-
                                                mero 54, Rue de Lausanne, 1202 Genebra.

                                                O atendimento ao público é de segunda à sexta-feira, das
                                                9h00 às 14h00.

                                                O atendimento telefônico é de segunda à sexta-feira, das
                                                13h00 às 17h00. Favor ligar para 022 906 94 20.




          Revista Varal do Brasil
A revista Varal do Brasil é uma revista bi-
mensal independente, realizada por Jacque-                   CONSULADO-GERAL DO BRASIL EM
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Todos os textos publicados no Varal do Bra-
sil receberam a aprovação dos autores, aos
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012




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Revista varal 16

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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Literário, sem frescuras! 1664- ISSN 1664-5243 © Tschuwawah - Fotolia.com 2012— Ano 3 - Julho/Agosto 2012—Edição no. 16 www.varaldobrasil.com
  • 2.
    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 ® LITERÁRIO, SEM FRESCURAS Genebra, verão de 2012 No. 16 bbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbmmmmm mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmhhhhhhhhhhhhhhhh hhhhhhhhhhuyuyuytuyhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhjkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrffffffffffffffmanajudyebeneogguaenejuebehaddddddd ddddddddddddddddddddmnheeƩpamƟngnrihssssssssssssssssssnerrrrrrrrrrrrrrekkkkkkkkkkkkkkkkkkkkbbb bbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbmmmmmmm mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmhhhhhhhhhhhhhhhhhhh hhhhhhhuyuyuytuyhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhjkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk kkkkkkkkkkkkkkkkkkkrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrffffffffffffffmanajudyebeneogguaenejuebehaddddddddd ddddddddddddddddddmnheeƩpamƟngnrihssssssssssssssssssnerrrrrrrrrrrrrrekkkkkkkkkkkkkkkkkkkkbbbbb bbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbmmmmmmmm mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh hhhhhuyuyuytuyhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhjkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk kkkkkkkkkkkkkkkkkrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrffffffffffffffmanajudyebeneogguaenejuebehaddddddddddd ddddddddddddddddmnheeƩpamƟngnrihssssssssssssssssssnerrrrrrrrrrrrrrekkkkkkkkkkkkkkkkkkkkbbbbbbb bbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbmmmmmmmmmm mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh hhuyuyuytuyhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhjkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk kkkkkkkkkkkkkrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrffffffffffffffmanajudyebeneogguaenejuebehadddddddddddddd dddddddddddddmnheeƩpamƟngnrihssssssssssssssssssnerrrrrrrrrrrrrrekkkkkkkkkkkkkkkkkkkkbbbbbbbbbb bbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbmmmmmmmmmmm mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh huyuyuytuyhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhjkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 EXPEDIENTE Revista Literária VARAL DO BRASIL NO. 16 - Genebra - CH Copyright Vários Autores O Varal do Brasil é promovido, organizado e rea- lizado por Jacqueline Aisenman Site do VARAL: www.varaldobrasil.com Blog do Varal: www.varaldobrasil.blogspot.com Textos: Vários Autores Colunas: Clara Machado Daniel Ciarlini Fabiane Ribeiro Sarah Venturim Lasso Sheila Kuno Ilustrações: Vários Autores Foto capa: ©-Tschuwawah---Fotolia.com Em setembro a revista Foto contracapa: Paulo Aisenman VARAL DO BRASIL vem com o tema Muitas imagens encontramos na internet sem ter NOSSA INFÂNCIA o nome do autor citado. Se for uma foto ou um Participe! Peça o formulário pelo e- desenho seu, envie um e-mail para nós e tere- mail: varaldobrasil@gmail.com mos o maior prazer em divulgar o seu talento. Inscrições até 10 de agosto! Revisão parcial de cada autor Revisão geral VARAL DO BRASIL Composição e diagramação: Jacqueline Aisenman A distribuição ecológica, por e-mail, é gratuita. A revista está gratuitamente para download em seus sites e blogs. Se você deseja participar do VARAL DO BRASIL NO. 17 envie seus textos até 10 de agosto de 2012 para: varaldobrasil@gmail.com O tema da edição no. 17 será: Nossa Infância www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Chegou o verão no hemisfério norte! Depois de longos meses de frio - podemos mesmo falar de um dos piores invernos dos últimos vinte anos - eis que o calor do verão aquece enfim corpos e corações. Este ano foi um ano especial para o Varal: muitos números de nossa revista que está cada vez conquistando um espaço maior e, de quebra, chegando ao coração de leitores ao redor do mun- do que estão sempre mais participativos. Uma alegria para todos nós! Também lançamos nossa segunda coletânea, Varal Antológico 2, em três cidades que nos rece- beram de coração aberto e com muita festa regada à música, poesia e bons papos literários. Fomos a Salvador dia 25 de maio, a Belo Horizonte no dia 31 de maio e a Brumadinho no dia primeiro de junho. Contamos para estes significativos eventos que fizeram o Varal se estender na Bahia e em Minas Gerais, com o apoio de muita gente! Vamos agradecer aqui os que coor- denaram diretamente, mas não esquecemos que os envolvidos foram muitos! Norália de Mello Castro e a Prefeitura da cidade de Brumadinho , Secretaria da Cultura e Casa de Cultura Carmita Passos; Renata Rimet e Valdeck Almeida de Jesus em Salvador, assim co- mo as proprietárias gentilíssimas do Beco da Rosália;. E, finalmente, mas nunca por último, Cle- vane Pessoa de Araújo Lopes e Marcos Llobus em Belo Horizonte. Com estes últimos levamos também nosso agradecimento ao pessoal encantador do Restaurante Dona Preta, aos poetas participantes do Conversa ao Pé do Fogão e do Sarau da Lagoa do Nado. Estiveram conosco nos três encontros, diversos coautores do livro, os quais enriqueceram, com suas vivências e presença, cada um dos eventos acima relacionados! Neste número trazemos para você algumas fotos para compartilhar nossa alegria! Com o sucesso da segunda coletânea, abrimos as inscrições para a seleção prévia para o Varal Antológico no. 3 e que será lançado no ano que vem no Brasil. Fazemos questão de agradecer a todos os autores participantes deste número e de todos as edições já publicadas pelo Varal. Vocês são a alma que faz do Varal do Brasil uma revista viva, alegre, realmente literária sem frescuras! Entramos em férias no período julho/agosto e desejamos a todos, onde estiverem, o que de me- lhor possa haver na vida! Nos encontraremos em setembro (inscrições abertas até dez de agos- to) com a edição no. 17 falando sobre Nossa Infância! Sua Equipe do Varal www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 1. AILTON SALES 34. JOSE CAMBINDA DALA 2. ALMA LUSITANA 35. JOSE CARLOS DE PAIVA BRUNO 3. ANA MARIA ROSA 36. JOSÉ HILTON ROSA 4. ANA ROSENROT 37. JUAN BARRETO 5. ANDRE L. A. SOARES 38. KARINE ALVES RIBEIRO 6. ANDRÉ VALÉRIO SALES 39. LARIEL FROTA 7. ANTÔNIO FIDÉLIS 40. LÉNIA AGUIAR 8. ANTONIO VENDRAMINI NETO 41. LENIVAL NUNES DE ANDRADE 9. CARLOS BRUNNO S. BARBOSA 42. LINA MACIEIRA 10. CARLOS CONRADO 43. LUCIA AEBERHARDT 11. CLARA MACHADO 44. LUNNA FRANK 12. DANIEL CIARLINI 45. MAGNO OLIVEIRA 13. DANIEL CRAVO SILVEIRA 46. MARCOS TORRES 14. DANILO A. DE ATHAYDE FRAGA 47. MARIA DALVA LEITE 15. DHIOGO JOSÉ CAETANO 48. MARIA LUIZA FALCÃO 16. DOMINGOS A. R. NUVOLARI 49. MARIA LUIZA FRONTEIRA 17. ELISE SCHIFFER 50. MARIO REZENDE 18. ELISEU RAMOS DOS SANTOS 51. NINA DE LIMA 19. ESTRELA RADIANTE 52. RAFIKI ZEN 20. FABIANE RIBEIRO 53. REGINA COSTA 21. FELIPE CATTAPAN 54. ROBERTO ARMORIZZI 22. FERNANDA DE FIGUEIREDO FERRAZ 55. ROZELENE FURTADO DE LIMA 23. FRANCISCO FERREIRA 56. RUTE MIRANDA 24. FRANCY WAGNER 57. SANDRA NASCIMENTO 25. GIORDANA BONIFÁCIO 58. SANDRA BERG 26. GLADYS GIMÉNEZ 59. SARAH VENTURIM LASSO 27. GUACIRA MACIEL 60. SHEILA KUNO 28. HELENA KUNO 61. VARENKA DE FÁTIMA 29. HELENA BARBAGELATA 62. VIVIANE SCHILLER BALAU 30. HILDA FLORES 63. WILLIAN LANDO CZEIKOSKI 31. ISABEL C. S. VARGAS 64. WILSON CARITTA 32. IVANE PEROTTI 65. WILSON DE OLIVEIRA JASA 33. JOANA ROLIM www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Abundancia Por Ailton Sales Família sempre unida Mesa farta e agasalho Dinheiro na dose certa Fruto do próprio trabalho Muita paz muita harmonia Muito amor e tolerância Essa é a vida prometida Por Jesus... Em abundancia. Família desagregada Muito luxo e ostentação Dinheiro em demasia Sempre fácil sempre à mão Sem paz sem tranquilidade Em constante vigilância Essa é a vida oferecida Pelo Homem... Na abundancia. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Déjà-vu Por Ana Maria Rosa Ia passando por uma rua próxima, quando sentiu o desejo irresistível de rever aquela ca- sa. Parou o carro e deixou que suas pernas a levassem à rua das mangueiras. Era melhor vol- tar – uma mulher de trinta anos parecendo uma adolescente – iria apenas passar como quem não quer nada, só para dar uma olhada. De longe, avistou a casa amarela. Parou tentando re- cuperar a respiração. Ainda havia tempo de voltar. Seu corpo impulsionou-se até o número 25. Quedou-se observando: a fachada imponente, a porta entalhada, o muro de pedra, o jardim de rosas, a grade alta... Em que momento tudo se acabara? Antes, entrava sem se anunciar, agora não podia sequer tocar a campainha. Precisava desistir. Dobrou a esquina e viu o por- tãozinho do quintal, aberto. Olhou para os lados e entrou. Experimentou o trinco da porta da cozinha. Arrodeou a casa, viu uma janela aberta. Vol- te, Marina, volte... Escutou o silêncio da casa, o coração aos pulos. Estava louca. Uma mulher casada com um deputado, mãe de dois filhos – escondida – espreitando o interior de uma ca- sa! Assomou a cabeça à janela e viu a sala de jantar parada no tempo: a mesa grande, as ca- deiras de veludo verde, os quadros, o lustre. Apenas as cortinas eram novas – cor de vinho. Mulherzinha de mau gosto! Fechou os olhos, calculou a altura da janela – como da primeira vez que dormira com ele – agarrou-se ao parapeito e pulou. Ouviu o chuveiro e a voz dele vinda de longe – Quem é? Entrou no quarto, escondeu-se atrás da cortina, ficou a espiá-lo – belo e viril – enxugando o cabelo. Ouviu a ordem – Marina, saia daí! Marina fundiu-se ao corpo nu. Sentiu uma mistura de prazer, felicidade e dor, tudo mistu- rado. Teve medo de estar sonhando novamente. Desejou morrer: não queria acordar em sua casa, na cama ao lado do marido. www.varaldobrasil.com
  • 9.
    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Escolhas * Ana Rosenrot De um canto escuro e apertado, vejo a chuva que cai pesada, gelando as almas e anunciando a proximidade do inverno, para angústia dos que nada tem. Observo as pessoas que passam apressadas, coloridos guarda-chuvas tremulam como bandeiras, todos correm em busca de seus destinos, não me enxergam, minha caixa de es- molas está molhada e vazia. Mas a vida é assim mesmo, uns se abrigam em luxuosos carros importados, outros em cantos escuros e úmidos, a sorte não sorri para todos, como um dia sorriu pra mim. Minha vida vai correndo como a enxurrada, cheia de sujeira e abandono, o medo cres- cendo conforme a água da enchente sobe, me sinto tão só, ninguém olha em minha direção, sou a imagem dos seus temores mais íntimos, acham que nunca estarão no meu lugar e pen- sar que um dia também pensei assim. A chuva se arrasta por horas, sinto meus ossos doerem devido ao excesso de umidade, meu corpo parece estar apodrecendo junto com os jornais que me servem de cobertor e como o papel, minha alma se dissolve, misturando-se com a lama da rua. Pouco tempo atrás, parece que já faz um século, minha vida era outra, eu tinha dinheiro e posição, mas fiz escolhas erradas, me envolvi com as piores pessoas e destruí as conquis- tas de toda uma vida, devido a ganância e a ambição. Agora estou aqui, vivendo os segundos, colhendo os restos do mundo, tão inoportuno e dispensável quanto o entulho que se acumula. O sol volta a brilhar e as pessoas retomam sua rotina e de repente, alguém que conhe- ço de outra vida me atira uma moeda, o faz como se jogasse uma pedra em um rio, pouco se importando onde irá cair, pelo menos, com a moeda, ela acha que aliviou a possível parcela de culpa que sente sobre minha triste situação, mas a culpa somente existe em quem se julga culpado e essa culpa é toda minha. Hoje eu sou filho do mundo, flagelo da humanidade, não me diga que sente pena de mim, pois todos querem me ver longe de suas vistas, até mesmo você, com sua beleza com- prada, mas eu estou melhor agora, pois me sinto vivo, real, faço parte de suas ruas e praças, sempre estarei ao seu lado, lembrando ao mundo que a miséria existe. A vejo se afastar, passos rápidos, tensos, quem estou enganando, preciso alcançá-la, olhar em seus olhos outra vez, me levanto, sigo em sua direção, ela entra no carro, alguém a espera, perco a coragem de me aproximar, ela pertence a outro mundo e nele eu não existo mais. Volto a me esconder da vida naquele canto escuro, talvez um dia, eu tome coragem e faça com que meu grito seja ouvido, até mesmo por você, talvez. *Conto premiado com Menção Honrosa no III Concurso de Poesias, Contos e Crônicas de Jacareí “Troféu Jacaré” 2011. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 ALICE Por André L. Soares Alice, embebida de pureza, há poucas horas, chegara ao planeta, ainda estava imune à maldade, quando as notícias velozes rasgaram-lhe as têmporas. Lágrimas verdes vertendo das retinas, pontas de dor aguda a lhe fisgar o peito, grito de clave de sol, preso à garganta, ela então, vê a santa desnuda sob a luz fria do cotidiano,... momento em que o belo pintou-se de breu (sabor amargo de inocência trincada). Cansada, recolhe-se ao quarto, a proteger-se dos cristais e plasmas. Após sangrar lembranças, cerra pálpebras, chora e soluça outra vez, sozinha. Por fim, Alice adormeceu! Em seus sonhos ainda existem flores, a água e a verdade parecem cristalinas e até o coração do homem é bom. Acanhado, procurei algo que a fizesse sentir-se melhor quando acordasse; tentei criar um ‘origami’, mas já era tarde... eu só tinha em mãos, a realidade. . Foto de André L. Soares www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 TEMPO DE REFLETIR Por Lenival de Andrade Amigos humanos terráqueos Vejam bem E prestem muita atenção também Pois estamos vivendo Num tempo muito difícil Para todos nós E é muito bom Parar para pensar Pensar e refletir A DEUS perdão pedir De joelhos e perante ele Ser Supremo, Soberano e Maior Sobre tudo e todos Além de todo o mar, céu e infinito Pensem e meditem Antes de tudo o que vai fazer e falar Não precisa complicar Sem precisar medir Pois sempre é tempo Tempo de refletir www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Deus grego beijava. 7 Anos passados, em uma manhã de segunda- feira, em meu escritório recebo um telefonema Por Lúcia Brüllhardt informando que minha amiga ( a da pulseira ) tinha sido assassinada com 19 facadas e o ros- to tinha sido completamente destruído por áci- Estou em Atenas, exatamente em um antigo do. cemitério, parada de frente a um túmulo branco Novamente aquela explosão de luzes como um coberto por lindas lápis-lazúlis. A beleza era raio em minha mente e como cenas de filme tamanha, que fascinada com o brilho das pe- passa o sonho, o deus grego, a pulseira, a tra- dras me abaixo para pegá-las. vessia no riacho..... em meio a turbulência de De repente surge a minha frente um deslum- imagens, a voz que me revela : Seria você. brante “deus grego” LINDO! Tentei acordar do pesadelo; ERA REALIDADE, Pele branca, olhos cor de mel, cabelos doura- eu não estava dormindo, passado o choque e dos e um corpo desenhado pelas mãos de recuperadas minhas forças emocionais, que Zeus. Ele veste um minivestido de seda branca devido ao ocorrido me abalaram profundamen- com um cinto dourado e sandálias de couro te, continuei minha rotina diária... amarradas nas pernas, musculosas e depila- das. Tinha uma postura elegante e os braços Quando em uma bela tarde de verão europeu, cruzados na altura do peito. Em cada braço na decido caminhar na beira do lago. Aquela tarde altura dos músculos uma pulseira em ouro ma- de domingo era muito especial, o dia estava ciço. realmente lindíssimo, céu azulado, a brisa leve Levanto minha cabeça e olho para ele que me que balançava meus longos cabelos negros, fala : um cheiro de alegria, felicidade misturada com - Atenção! Não toque nestas pedras. satisfação parava no ar. Eu estava muito feliz e ACORDEI! (tudo não tinha passado de um so- eufórica, uma dose dupla de felicidade batia em nho). meu peito. Não entendia porque estava tão fe- Alguns anos após este sonho, viajava de férias liz. para Grécia uma amiga e na volta me traz de Ao chegar no lago, decido subir até uma clarei- presente uma pulseira de pedras “ lápis- ra, onde poderia observar todo o movimento de lazúlis.”. pessoas e contemplar os contrastes de cores Em minha mente uma explosão de luzes como céu, mar, árvores e montanhas. Um local ideal um raio, me traz a tona o “deus grego” me avi- para deitar e desfrutar a natureza. sando para não tocar nas pedras. Muito assus- tada, mas contendo minhas emoções agrade- Jogo minha toalha na grama verde, sento e co- ço, pego a pulseira guardo em minha bolsa... loco meus óculos de sol. Tiro minha roupa bem Na ida para minha casa teria que passar por devagar, ficando somente de biquíni, sentido uma ponte com um riacho de forte correnteza. assim, o toque dos raios de sol em meu corpo e No meio da ponte ouço uma voz que me acon- o vento leve acariciando minha pele. Naquele selha : exato momento sinto que olhos me observam. - Joga a pulseira fora, pois a mesma está pre- Ainda sentada, giro minha cabeça para à direi- parada para te destruir a partir do momento ta, vejo um jovem de uns 27 anos, loiro, pele que colocares no braço. (Assustada, e quase branca, cabelos dourados. O mesmo também sem folego, não hesitei. Obedeci) sentado, óculos de sol, somente de calção de A vida continuou no ritmo normal. banho preto bem justo ao corpo, olhava exata- mente em minha direção. Vez por outra recebia a visita da amiga que me perguntava : Tentei disfarçar, mais ele me observava com - A pulseira que te dei, você não vai usar? Já grande intensidade. Não era discreto, olhava e vim aqui diversas vezes e não te vejo com ela ? olhava MESMO. Com um grande aperto no coração e um frio Perdendo a paciência me levanto, vou em sua que me percorria toda a espinha dorsal eu res- direção, paro em frente a ele que permanece pondia : Aquela linda e maravilhosa pulseira só sentado, eu em pé com as mãos na cintura, uso em ocasião especial. Foi o melhor presente quase gritando pergunto : que você me deu. Obrigada. Abraçava ela e www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 - O que você tanto olha? Era ele. ERA ELE, em carne e osso, ali na mi- nha frente, naquele castelo, era real... Me en- Ele muito calmo, sereno e com uma grande gasgo, perco o folego, tremo. Uma sensação classe, tira os óculos de sol e coloca na cabe- de felicidade, medo e curiosidade percorre todo ça, olha bem em meus olhos, sorri e me res- meu ser. Controlando o vendaval de emoções, ponde : respiro e falo compassadamente : - Eu estou olhando para você. - Tenho a impressão de que já te conheço há Eu meia desconcertada, totalmente sem saber vários anos. o que responder falei : O meu deus grego me responde : A partir de hoje eis que tudo se transforma. Vim - Vamos entrar na água? E saio correndo e me aqui na terra para te levar a uma outra dimen- jogo nas águas geladas do lago de Bienne. são, viver contigo um amor intenso e te entre- Após o mergulho olho para trás pensando que gar o segredo dos nossos antepassados. ELE tinha me acompanhado. Londres, Paris, Veneza, Barcelona, Maurício, Mas ELE continuava sentado sorrindo e olhan- Pretoria, Tailândia e Brasil. Atravessamos os do em minha direção. sete mares. De trem, navio e avião, cruzamos de leste a oeste e de norte a sul. Completamente irritada saio da água quase ro- Loucuras deliciosas vividas plenamente, como xa e tremendo de frio, volto a onde ele perma- dois apaixonados, vivemos durante 15 anos. necia e grito : Durante este período ele foi meu mestre, aman- - O que você está fazendo sentado aí? Eu te te, amigo e colaborador. Até o dia em que o convidei para nadar! destino através da morte nos separou. Hoje en- contro me aqui sozinha NA FRIA NOITE DE Agora com um sorrido mais largo , ele se levan- INVERNO. ta coloca uma toalha em meus ombros e me Fico pensando e sonhando em todas as belas fala: coisas que vivemos e vencemos juntos. _ Eu tentei te avisar que é começo de verão Infelizmente você não esta mais aqui e me sin- aqui na Suíça... à água esta CONGELADA, in- to abandonada. Como companheira a solidão. felizmente você não me deu atenção e saiu Nos encontramos em uma tarde de verão, lem- correndo em direção ao lago. Gostei muito de bras? Que lindo este dia junto a ti. ver sua demonstração de coragem. Você foi para mim um presente dos céus. Na- Coragem que nada, aquele homem tinha me quela tarde quando você olha em meus olhos vi deixado completamente desnorteada, a ponto que um amor belo e invencível nascera. de me jogar nas aguas congeladas de um lago. Lembro que desejei viver eternamente com vo- Quem era ele? De onde vinha?O que fazia cê, onde juntos poderíamos transportar monta- aqui ? Eu tinha que descobrir isso urgente. nhas. Lembro de seu sorriso e nos dias de do- Sem perder tempo , convidei o estranho para mingo que juntos corríamos e brincávamos co- jantarmos juntos. Ele aceitou. mo duas crianças. Você não lembra? Para mim Ao anoitecer , espero meu estranho, que até foi ontem ,você sempre foi o homem que dese- então eu não sabia seu nome nem onde mora- jei para mim. Eu e vocês, dois! Ouço nossa va ( tinha esquecido de perguntar). Exatamente canção, sinto suas mãos que tocam em na hora marcada e no local acertado , ele che- mim...Ilusão. Você não está aqui . Você tornou- ga. se distante. Velho amigo, desejo seu ombro pa- Agora muito mais lindo, que a tarde. Entro em ra apoiar minha face como antigamente. A dor seu carro e vamos a um restaurante com espe- de sua ausência dilacera minha alma, meu pei- cialidade francesa. O restaurante funcionava to e meu ser... O amor solitário fere e acaba em um antigo castelo, e o lugar que restava, com as forças que tenho. Volta em meus so- era uma mesinha exatamente com dois lugares nhos. Explode em luzes no meu pensamento, na torre. te materializar para um último adeus. Desejo Sentamos e fomos servidos com um coquetel somente antes de morrer poder reviver os dias de boas vindas. Brindamos, e no tilintar das ta- lindos que tivemos.. Sentir seu hálito perfuma- ças, a explosão de luzes em minha mente, trás do e quente entre meu corpo me fazendo tre- a imagem do deus grego, que conheci (em so- mer de prazer. Meu amado, como é bom relem- nho) na cidade de Atenas. brar os momentos que passei ao seu lado. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Volto a Atenas, tentando te encontrar, mais lá você não está. Talvez a beira do lago, ou no res- taurante castelo, lá também você não está. Eu não conseguirei viver sem você. Ouve minha dor, houve meu lamento. Eu grito de paixão e desejo. Meu deus grego. Não quero ir para outros braços, não quero sentir outros beijos. O sétimo céu quero ver somente com você. Como forma de amenizar a saudade , olho nossas fotos e os presentes que recebi de você, du- rante nossa caminhada aqui na terra. No meio de tantos, uma pequena caixinha vermelha em forma de coração, me chama atenção. Curioso, nunca tinha a visto antes. Abro –a e, encontro um papel no qual está escrito : “ deus, mito, lenda, sonho ou alucinação “ Lágrimas quentes rolam dos meus olhos, que caem pesadas no chão e se transformarão em lápis-lazúlis. . Amazônia Por Magno Oliveira As aves não mais voam Os peixes não mais nadam Os pássaros não mais cantam As pessoas não mais se amam. Tudo isso por culpa do homem e a sua maldade Tudo por culpa do homem e a sua falta de caridade. As nossas matas desmatadas As nossas florestas devastadas Nossos animais em extinção Nosso medo da poluição. A Amazônia é nossa devemos protege lá A Amazônia é nossa devemos ama lá. Viva o verde, viva a Amazônia, Viva os índios, viva a alegria. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 O CLUBE DOS VIRA-LATAS é uma organização não governa- mental, sem fins lucraƟvos, que mantém em seu abrigo ho- je mais de 400 animais que são cuidados e alimentados dia- riamente. Boa parte desses animais chegou ao Clube após atropelamentos, acidentes, maus tratos e abandono. Nosso objeƟvo é resgatá-los das ruas, tratá-los e conseguir um lar responsável para que eles possam ter uma vida feliz. Por que ajudar os animais? doações. Todos podem ajudar, seja divulgando o Clube, seja adotando um animal ou mesmo doando Você sabia que no Brasil milhões de cães e gatos dinheiro, ração ou medicamentos. Qualquer doa- vivem nas ruas, passando fome, frio e todos os Ɵpos ção, de qualquer valor por menor que seja, é bem- de necessidades? Cerca deles 70% acabam em abri- vinda. As contas do Clube bem como o desƟno de gos e 90% nunca encontrarão um lar. Parte será víƟ- todo o dinheiro estão abertas para quem quiser ma ainda de atropelamentos, espancamentos e to- dos os Ɵpo de maus tratos. BRADESCO (banco 237 para DOC) Infelizmente, não é possível solucionar este proble- Agência: 0557 ma da noite para o dia. A castração dos animais de CC: 73.760-7 rua é uma solução para diminuir as futuras popula- Titular: Clube dos Vira-Latas ções mas não resolve o problema do agora. Sendo CNPJ: 05.299.525/0001-93 Ou assim, algumas coisas que você pode fazer para aju- dar um animal carente hoje: Banco do Brasil (banco 001 para DOC) Adotar um animal de maneira responsável Agência: 6857-8 CC: 1624-1 Voluntariar-se em algum abrigo. Titular: Clube dos Vira-Latas Doar alimento (ração) e/ou remédios para abrigos. CNPJ: 05.299.525/0001-93 Contribuir financeiramente com ONGs. Nunca abandonar seu animal (Saiba mais sobre o Clube em hƩp://fr- fr.facebook.com/ClubeDosViraLatas?ref=ts) Como o Clube vive? Somente de doações. Todas as nossas contas são públicas, assim como extratos bancários e notas fiscais. Como ajudar o Clube? Para manter esses mais de 400 peludos em nosso abrigo, contamos hoje ape- nas o trabalho dos voluntários e com o dinheiro de www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 AS TOURADAS DE SEVILHA É um povo festeiro, com uma cultura de danças regionais como o Flamenco de mais antigamente e os mais modernos com as Sevilhanas. Tem tam- Por Antonio Vendramini Neto bém a semana santa que é percorrida pelas ruas finalizando na belíssima cadetral. Destacam-se a “Feria de Abril”, de caráter folclóri- Nos caminhos percorridos em terras espanholas, co, com milhares de pessoas vindas de toda a Es- visitei juntamente com a companheira, a esplendo- panha, e no recinto da festa as pessoas se reú- rosa cidade de Sevilha, em pleno verão europeu. nem para cantar e dançar. “Durante a semana”, Trata-se de uma terra aguerrida, povo cheio de realizam-se uma serie de touradas, de fama nacio- vida, dando a impressão que estão sempre nervo- nal, na conhecida “Plaza de Toros, La Maestran- sos e apressados, mas não vimos nada de excep- za”, onde tivemos a oportunidade de visitar, mas cional em sua metrópole que os levasse a ter esse nos dias que se seguiram, não houve touradas, comportamento, pelo contrario, é um povo muito ficamos então com o museu muito bem montado acolhedor, talvez seja o espírito da raça. em suas dependências. A paixão que os eleva, são as touradas, que é uma questão de cultura, que veio da mistura de europeus e seus conquistadores, mais recente- AS TOURADAS REGISTRADAS NO MUSEU mente, os mouros que ficaram em seu território por mais tempo, cerca de 700 anos, transforman- do-se na “caliente” região de Andaluzia. O espetáculo em sua praça de touros é algo parecido a um ginásio esportivo. As pessoas Além dela, visitamos as principais cidades como; sentam nas arquibancadas para assistirem e Mérida, Córdoba e Granada, estão situadas a Su- em todas as “corridas” o “toro” é sacrificado. deste da Península Ibérica é a capital da província da Comunidade Autônoma, sendo a quarta cidade O matador o enfrenta com uma capa vermelha, espanhola, com cerca de 700.000 mil habitantes. o qual é ajudado pelos seus assistentes, de- pois vêm os “picadores” que dão as suas esto- O que mais nos impressionou, foram os acervos e cadas, enfraquecendo os seus músculos, inicia as arquiteturas da época que estou descrevendo -se então a etapa com os gritos da platéia de como sendo a dos Mouros. No ano 712 da nossa olé-olé, que “pegou” nos jogos de futebol aqui era, o Califa Musa, acompanhado de seu filho e no Brasil, quando o time vencedor quer tam- com um exercito de 18.000 homens, cruzou o es- bém dar o seu espetáculo. treito e procedeu a conquista, em busca de pasta- gens de abundancia de água. O papel do toureiro é fazer um bonito show, deixando o touro cansado, tirando suspiros da Ocupou as cidades de Medina, Carmona e Sevilha torcida. È uma pena a judiação que é feito com e, seguidamente atacou Mérida que após sitiada a o animal. Mas nesse país é tradição e nunca conquistou. A Cidade então passou também a ser vai acabar. Eu sempre torço pelo touro, porque território Mouro. E foram eles que lhe deram o no- o bicho homem faz dele um palhaço dentro do me atual, a portentosa Sevilha. picadeiro e acabando com sua existência. Nesta época a sua riqueza cultural cresceu enor- Enfim, depois de tantos passos, gritos de olé, memente com a chegada dos árabes, em tanto, o matador se prepara para a estocada final. que tinha dependência do Califado de Córdoba Com um movimento de espada escondida so- convertendo-se na mais importante de AL - Anda- bre a capa, faz com que o animal se aproxime, luz. Os cristãos reconquistaram a cidade em 1248 enfiando em seu dorso, fazendo-o cair. É o fi- durante o reinado de Fernando III de Castela. Foi nal. também sede da exposição Ibera America em 1929 e da exposição mundial em 1992, onde inú- No museu, pudemos ver os cartazes das toura- meras obras foram erigidas em seu louvor. das de antigamente, destacando-se, o terrível “Manuel Rodrigues”, conhecido nos meios co- O clima é muito gostoso, com aquele tempero me- mo “El Manolete”, um dos maiores matadores diterrâneo, com temperatura media anual de 19 que já existiu, morreu no dia da tourada marca- graus, o que a faz uma das mais quentes da Euro- da no cartaz (28081947), foi ferido pelo touro pa, dado a proximidade com o continente Africano, “Islero”, no meio da “Praça de Toros Linares”. tornando-se o paraíso dos turistas, dobrando a população. Em julho a temperatura sobe para até 35, superando no apogeu do verão em mais de 40 graus. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Sedex lírico: Carta a uma senhora poeta Por Carlos Bruno S. Barbosa Hoje a noite amanheceu mais fria e pálida em mim, senhora. Me disseste que não sa- bes escrever, jogaste fora um poema lindo sobre essa angústia que nos atinge e, com ele, levaste à cova da insegurança vários versos que morreram antes de poderem crescer. En- quanto escrevo isso com os olhos caídos, em luto pelos poemas que não te aconteceram, ou- ço minha vizinha lá fora aconselhar uma amiga: “Tem que pensar pra cima e não pra baixo.” Desconheço o assunto que a levou a tal reflexão, prefiro guardar apenas essa poesia que sua voz, indelicadamente alta e decididamente vigorosa, me transmite sem querer. Quando tornei-me professor e quis me dedicar a inspirar meus alunos a escreverem, sempre trouxe comigo o sonho louco de Bukowski de imaginar que deveria haver um poeta em cada esquina da vida e, assim, aprendi a ver poesia em quase tudo, pois quase tudo é múltiplo, lírico e singular. A arte salvou minha vida; sem ela, confesso que me jogaria debaixo de um carro, me atiraria no mar ou me tornaria uma pessoa apática, sem gosto pra nada, inu- tilizada pela própria inexistência. Sei que o ato de escrever não permite que salvemos o mun- do, não impede que aviões se atirem sobre prédios inocentes, não traz a cura do câncer, não tira a dor da perda de alguém; mas salva a invisível alma que agoniza, impede que pilotemos tais aviões contra casas que amamos, controla a dor estagnada e mantém vivas aquelas pes- soas que se perderam no caminho. E também sei o quão difícil é este caminho que escolhi: às vezes, converso com paredes surdas; às vezes, me sinto ridículo; às vezes, estou muito só... Mas e aquele verso que alguém ouviu e levou pra própria vida, como um urso de pelúcia que, apesar da aparência inútil, conforta a criança que levamos pra cama quando nos nina- mos em sonhos difíceis? E aquela febre de encontrar a palavra certa e a impressão de que a Terra toda volta a se mover quando a encontramos? E esse brilho nos teus olhos, senhora, outrora estrela, agora triste fagulha... por que pensas em exterminá-lo de vez? Por que perder tudo isso, por que deixar de escrever? A vida, na maioria das vezes, é inglória e rancorosa, senhora, e, talvez, por isso, não nos deixe prazer em nossa arte; talvez, por isso, quando escrevemos, o ar parece rarefeito pra tais ações. A vida, quase sempre, nos ignora, senhora, renega nossos talentos e faz-nos esquecer dos diamantes que carregamos nas cavernas de nós mesmos. Me disseste que não sabes escrever, como um planeta dourado que se julga inabitável pra qualquer habitante de valor. Me desculpe os olhos tristes, senhora, mas o que dizes não condiz com teus versos sublimes de lirismo incontestável, nem a vida que sempre carregaste nas palavras vivas de calor e amor. A vida já apaga muitas luzes nos túneis da rotina; não deixes que a tua própria insegurança desfaça a única chama independente que nos restou. Volta a escrever, senhora, por favor... (http://diariosdesolidao.blogspot.com/2011/09/sedex-lirico-carta-uma-senhora-poeta.html) www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 O gozo Por Carlos Conrado A Terra banha-se despida Sob o olhar de Deus. O pudor horrorizado grita: - Isto é um crime contra a decência! Voluptuosa a Terra atiça Os desejos secretos de quem a fez. O olhar, vendo as curvas benditas Atende ao convite do incesto, Na pirâmide pubiana atira O esperma onipotente. Ergue-se no tempo um riso Símbolo da satisfação Deste orgasmo de Deus. Pintura de Carlos Conrado www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Imagem TMK(Tom.CJ) hƩp://moblog.net/view/299298/white-lady SEDA BRANCA Por Daniel Cravo Silveira Plana no escuro dos céus, a Lua Farol solitário de branca luz Peregrina vestal nua És meu tesouro e minha cruz. Forasteiro das horas incertas Nesta noturna visita, A revelar-te das ruas desertas O meu amor selenita. Lua nova, lua tímida, fugidia Teus sorrisos se calaram Teu silêncio é uma lança A cortar do coração toda a esperança. Não temas este amar que te revelo Não há culpa, nem pecado se o sinto Não vês que és da vida, o meu elo Da sanidade à terra, és meu cinto. Dos céus a distância te protege Meus lábios, meus abraços, não te alcançam Seda branca, a reinar eterna no paraíso. Jogo ao vento minhas rimas que se lançam Ao espaço, a tua busca, por um sorriso! www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 ARMAND LESTAT Por Lunna Frank Foi naquela noite quente e chuvosa, quando Antonella, bebia uma taça de vinho tinto suave, olhou pela janela do seu quarto, vendo o céu, a lua cheia estava enorme foi quando começou a sentir uma sensação diferente uns calafrios ao mesmo tempo um calor enorme tremia como se estivesse com uma febre muito alta. Sentiu uma transformação uma vontade enorme de uivar percebeu-se forte dominadora, nesse momento a chuva fina caia lá fora, quando desceu as escadas do sobrado acendeu as luzes da sala de estar sentiu aquele vento frio, eram as janelas que estavam abertas, fechou as janelas e as cortinas, quando resolveu tomar mais uma taça de vinho, avistou aquela sombra vinda em sua direção, sentiu um medo enorme mais a sombra atraiu com um perfume forte envolvente. Era aquele homem belo, forte e diferente, com os olhos fixos em Antonella, meio anestesiada com o vinho e o perfume que exalava me tomou pelas mãos dei o ar da minha graça, nesse mo- mento seu colar de pérolas negras arrebentou, sentiu uma grande concentração de energias e prazeres, começou a uivar e pontapear nem sabia a quantas andava, percebeu então que ele a tomava em seus braços beijou seu pescoço sua boca era gélida e quente ao mesmo tempo. Um beijo profundo ardente misturando suas salivas foi festejando o momento sem dar conta, pa- recia que já conhecia aquele homem, se entregou sem reservas, com um simples movimento mordeu e chupou seu pescoço, é um prazer indescritível como jamais sentiu em toda sua vida. Fizeram amor e sentiu umas gotas de sangue em seus lábios, sentiu um arrepio muito forte, de- pois desfaleceu. Quando acordou estava nua na praia bem em frente da sua casa do seu lado uma capa negra e duas taças de vinho personalizadas com um nome, apanhou a capa cobriu seu corpo e foi correndo para casa. Estava amanhecendo, tomou um banho quente, um café forte, quando se deparou com duas marcas em seu pescoço eram marcas pequenas dois furinhos com um pequeno hematoma em volta, todos os pensamentos passaram naquela hora estava confusa cansada com sono. Anoiteceu, quando acordou festejou aquele momento, tive um pouco de medo mais a excitação era maior, refletindo o que teria acontecido já que lembrava vagamente, misturando os pensa- mentos entre o sonho e a realidade. Mais a memoria visual daquele homem lindo, forte daquela figura que emergiu na penumbra da noite em sua sala, com aquele olhar misterioso jamais poderia ter sido um sonho, já que deixou suas marcas em seu pescoço. Pensou que fosse ser transformada em uma morta viva um ser da noite, mais ao contrario esse homem deixou um presente, sua marca o dom da imortalidade, deu as mãos a palmatoria para as mulheres que como Antonelle já viveram essa magnifica experiência do amor sobrenatural. E todas as noites chuvosas de verão, vai para janela do seu quarto com as duas taças de vinho, vestindo sua capa totalmente nua uivando para lua cheia esperando por Armand Lestat para re- viver essa experiência de amor maravilhosa e saborear as gotas do seu sangue adocicado, fazer amor e celebrar com uma taça de vinho tinto até a próxima lua cheia. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Querendo Ter Coragem Pular as pedras Saltar os obstáculos e deixar passar a onda, Por Maria Dalva Leite Contornar a montanha se ela estiver obstruin- do o caminho, E fixar-se nas marcas que lhe trarão de volta, Passado reconfortante caso precise voltar, Para passar a exaustão, Não se esqueça de cumprimentá-la antes de Busco achar o sentido perdido por o pé na estrada La onde me encontro Por nada solte a mão de Deus, O sentido proibido também me visita O perigo ronda, Lá onde me encontro: cama de nuvens, num Não esmoreça local acolhedor A insegurança filha do medo Onde só o bem estar e a alegria podem me Deve ser evitada, acompanhar Ela surrapa as encostas, rola as pedras, afun- Rígida numa posição confortável rejeito as da os precipícios. mudanças que sempre surpreendem, Cuidado! tenha fé. Fujo da dor escondendo-me do que incomoda. Tudo é para o bem. Navegando em águas calmas, ficar bem é o melhor A segurança é a magia que fará você transpor os obstáculos, E ficar distante do medo Petrificada longe da dor. Repito : não solte a mão de Deus, ocupe-se Entender o que esta se passando dele e atenção por onde pisa para não falsear Compreender e se lembrar da lição que a o passo, e fraquejar. mestra vida nos dá.. Deus seja louvado. Abençoa-la em todas nuances e inserir- se Vamos em frente que atrás vem gente. como parte do todo. Unir-se à vida. Dar bom- dia para o dia, Saudar o sol, a chu- va, o luar, Respirar o mesmo ar que nos contata com todas formas de ser, desde a menor formigui- nha, as folhagens das plantas, todos animais , a grama verdinha, verdinha ondulada pelo vento. Todas pessoas do mundo interconectadas respirando o mesmo ar. Existindo juntas na linda atmosfera, pulmão da terra, preenchendo o olhar de cores, prenhe de frescor e odores, amadurecidos em toda sua trajetória pelo universo. Sorrir para o tempo magnânimo Compreender as oportunidades, Não se apavorar com o caminho, Bem-fazer toda ajuda, www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Genuínas reminiscências Por Maria Luzia Fronteira Arrebata-me uma saudade na rajada do vento, na morrinha e na invernada que rasga o silen- cio oh, e à noitinha junto à lareir’ acender o lume, com a saruga do pinheiro, os gravetos d’ acácia, e as folhas tenras d’ eucalipto e do loureiro, e das bagas oh, o cheiro, sob as rachas da lenha resguardada no palheiro de paredes de pedra e de telhado rijo fabricado n’ olaria da minha rua. Arrebata-me a saudade das brasas na lareira sob a panela de ferro, cozendo o milho, ou a sopa de trigo ou o bolo do caco e a castanha no brasume p’a família inteira. Arrebata-me uma saudade na cartola e no garrafão de vime, e no corno do boi cheio de vinho caseiro amiúde...e dos poios laranja terra, adubada com o estrume da vaca e a mondada a eito das urtigas e da erva melada...e das botas d’água da rega na levada clorofilada de mus- gos, ervas aromáticas, treviscos, giestas, dente de leão, abundâncias, trevos, pata de gali- nha, junquilhos e malvas. Arrebata-me uma saudade na vassoura de urze e na vassoura de palha e no cabo de madei- ra, da pá, da foice, da pedoa, da enxada do machado e da lima...oh e arrancar a erva do pá- tio na calçada. Arrebata-me uma saudade de beber água com sabor a terra das nascentes e do verde dos montes ingremes, numa bica de palma fazendo a ponte na levada quebrada. Ah e do toque das ave-marias, às seis e meia e as mulheres resguardadas de pés em banho- maria absorvendo um calorzinho na derme fria, e as mãos em direção ao azul do céu, ora num tom azul anil, ora num tom azul mar, ora num tom azul petróleo ora num tom místico pardacento rezand’o terço e dando as graças pelo berço abençoado em que foramos acolhi- dos. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 25 ANOS Por Sarah Venturim Lasso Bem vindos 25 anos Faço bodas de prata de mim mesma Como uma rosa desabrochando Feminina Menina Virando mulher Em 25 primaveras juvenis Despeço-me da juventude E abro as portas Para um caminho sem volta Trilhado por mim mesma Em noites de insônia Rumo ao desconhecido Adulta Com frio Com medo Sozinha Acompanhada de mim mesma Nessa vida Como um jardim Seco e inóspito Sigo firme e forte Rumo ao verão E a chuva E mesmo sem saber Como será o amanhã Sigo positiva E pensativa Como uma rosa Driblando meus próprios espinhos Enlaçados em meu corpo frágil Mesmo sem saber do amanhã Sigo rosa, A espera da colheita do amor. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 ROCAMBOLE DE GOIABADA http://tudogostoso.uol.com.br/ Ingredientes • 3 claras em neve • 3 gemas • ½ xícara de água • 1 xícara de açúcar • 1 xícara de farinha de trigo • 1 colher de chá de fermento 300 g de goiabada derretida Modo de fazer 1. Bater na batedeira as claras em neve, após jogar a gemas, a água, em seguida o açúcar, o trigo e por último o fermento 2. Colocar a massa em forma retangular grande untada em forno pré- aquecido 3. Assim que retirar do fogo colocar a massa sobre um pano de prato polvilhado com açúcar (ou papel manteiga) 4. Enrole imediatamente e reserve Derreta a goiabada e aplique, enrole novamente e polvilhe açúcar ou cubra com chantilly www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Uma Árvore Chamada Terezinha-Centro Cultural Lagoa do Nado - Jardim dos Poetas -Belo Horizonte - MG Por Clevane Pessoa de Araújo Lopes Jacqueline Aisenman de azul, e sua árvore, Terezinha, observada por Rogé- rio Salgado e por mim, (Clevane Pessoa), no Jardim dos Poetas-Lagoa do nNdo, em 31 de maio de 2012.Salgado e eu . Crédito da foto: Lecy de Souza Marco Llobus marcara para 31 de maio, a segunda edição do Jardim dos Poetas(**): poetas que passaram pela Lagoa do Nado (*)em Saraus de Poesia , os que fizeram parte do histórico pro- cesso ... A premiada prosadora e poeta Norália de Castro Mello estava nos primórdios da organização, em Brumadinho, de um lançamento- do Varal do Brasil-2, onde estamos na qualidade de coau- toras e organizada por Jacqueline Aisenman a qual lançaria também seu próprio novo livro, "Briga de Foice", pela Design Editora , de Jaguará do Sul/SC, um belo trabalho editorial. Jacqueline também é catari- nense-e mora há anos, em Genebra. Norália sonhava em reunir aqui, os coautores mineiros. Queria sobretudo, oferecer a Jacqueline a grande oportunidade de conhecer Inhotim (**).Mas as negociações se arrastavam, graças aos valores -e ela então, investiu potencialmente na Prefei- tura de Brumadinho, onde hoje reside, que cedeu-lhe a Casa da Cultura-para a recepção de 01 de junho, hospedagem aos poetas e prosadores, várias benesses. A Secretaria de Cultura e Tu- rismo entrou no esquema produtivo-e Norália pode contar com Juliana Brasil, Regina Esméria, Maria Lúcia Guedes, Maria Carmen de Souza, que se empenharam na decoração e na degusta- ção de acepipes tipicamente mineiros juninos. Segundo comentários dos autores e convidados, foi uma grande confraternização-continuada em Inhotim e depois no Restaurante D. Carmita, com os lançamentos das antologias citas e livros dos presentes . www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Bem, então, no Dia 31, aqui em Belo Horizon- poderia ser madrinha ou afilhada do poeta e o te, começamos a recepção à Jacqueline, que poeta escolheria o nome de sua árvore, pen- seria homenageada junto com Diovvani Men- sei em achegar-me a uma que desse muitas donça (leia-se Paz e Poesia ***) , no Sarau da flores , para dar-lhe o nome de minha mãe, Lagoa do Nado, no Restaurante D. Preta, re- que adorava o verde. Eu andava daqui e dali, duto de poetas ,artistas e pessoas da Paz, a mas fui atraída por um cedro. Mesmo ele apre- convite de Claudio Marcio Barbosa , produtor sentando uma praga branca. Não consegui cultural e poeta, que faz parte da família que afastar-me das lindas folhas oblongas e aceti- administra o D.Preta. preparam um substancial nadas. Então, pensei: vou dar-lhe o nome de prato mineiríssimo, o Feijão Tropeiro (****). Máximo, pois meu avô ,paraibano, trovador, Foi organizada uma mesa de livros , para a cordelista e jornalista, repentista sonetista, que degustação da mente e do espírito, por que ensinou-me a metrificar e amar a poesia ainda não, do coração? Jacqueline recebeu as no seu colo, não obstante árvore do gênero "Palmas Barrocas" -alusivas à arte sacra mi- feminino na gramática, mas comum dos dois neira, uma criação da artista de Sabará-uma na espécie, Cedro sempre vai lembrar-me o das mais antigas cidades mineiras- Dirléia Ne- gênero masculino. ves Peixoto e que são parcimoniosamente dis- Desejei muita sorte ao meu cedro-que cresça tribuídas pelo grupo de Poetas Pela Paz e pela o máximo, seja o máximo-sobrenome de vovô, Poesia., grupo que realiza o Paz e Poesia em Luiz Máximo de Araújo -pensei . Belo Horizonte (*****). Depois de curtir a árvore que me escolheu, fui circular e quando Jacqueline Aisenman foi ba- No D. Preta, , esperamos a chegada de Norá- tizar a sua, ela disse-me;-Terezinha, o nome lia, que chegou com sua filha Daniela. Desse de minha mãe. momento, participaram os poetas e artistas de Fiquei literalmente arrepiada .Claro que o pre- Belo Horizonte, Marco Llobus, Neuza ladeira nome da santinha de Lisieux é muito comum, Rodrigo Starling, Iara Abreu, Maria Moreira, mas eu, que vivo na memória e no imaginário, Adão Rodrigues, Fátima Sampaio, Rogério escritora que sou, logo pensei : -Mamãe, que Salgado, Claudio Márcio Barbosa , Serginho adorava o pai, deu-lhe lugar. BH (fundo musical ao violão) e eu. Coautoras E assim , toda vez que for ao jardim de nós, de outros Estados e cidades estiveram no con- Poetas, no CC Lagoa do nado, vou acarinhar graçamento: Yara Darin, Maria Clara Macha- essas duas árvores: pela amiga distante, em do, e, com Norália e Daniela, também artista, outro país, Jacqueline Aisenman e cultura o chegou a alegre Madhu Maretiori, que lan- nome materno de ambas, e o d e vovô, meu çou seu encantador "Em Nome de Gaia"- mi- mago iniciador que revelou-me a POIESIS, co- nilivro de grande conteúdo. mo soi ser, com autoria, orgulho e ale- Bem, esse prólogo longo , mas necessário ao gria ::Terezinha e Máximo. registro de nossa história de poetas, nos leva Mais tarde, já em casa, li um texto maravilho- agora, à Lagoa do Nado. so, em Varal Antológico 2 de Jaqueline Aisen- Lá, além do mini tour pelo pulmão verde e su- man ,denominado Pintura Ingênua, onde ela as águas, com passagem pela exposição a abre ao leitor o grande amor por seu pai ("Meu céu aberto da obra enraizada de Mestre Thi- pai, sentado na cozinha, palpitava a vida, dava bau., Jacqueline e nós, poetas convidados , palpites em tudo"), onde a mãe amada entrea- fomos levados para plantar nossa árvore no parece, figura de fundo e de pal- Jardim da Poesia. co ,indispensável( "Ou ia pelos braços queri- dos de minha mãe, braços) Quando saí de casa, sabendo que cada árvore www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 cheios de alma") . Realmente , esse plantio para mim, transcendeu os objetivos lindos desse jardim de árvores: permitiu-me a sagrada memória familiar vir bailar conosco por entre as mudinhas esperanço- sas... (A Jacqueline Aisenman, agradecendo o convite para ser e estar em Varal Antológico 2:alegria e honra). Jacqueline, vendo nossos livros. Nas mãos, Sais—de Rogerio Salgado. Na pilha, meu Asas de Água e Nós, de Rodrigo Starling- entre outros. Exemplares de Varal Antológico- antologia coordenada por Jac- queline Aisenman Café com Letras é da ALTO, em teófilo oto- ni e Lírios sem Delírios, meu livro mais re- cente (selo aBrace). Revistas internacionais aBrace Convite para o evento em Brumadinho Fotos de Clevane Pessoa www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Varal Antológico 2 se estende entre os poetas em Belo Horizonte Fotos de Yara Abreu, Clevane Pessoa, Yara Darin entre outros www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 UMA CONVERSA AO PÉ DO FOGÃO, UM SARAU PERFEITO! www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Guerra sem paz Por Lina Macieira O homem é a luz do seu próprio eu rebeldia sem cor forte carência espiritual armas interior. O homem reprime sua vontade de fazer amor, fugindo da paz homem insolente, homem frágil digno de morrer e mata. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 NO MUNDO DA FICÇÃO CIENTÍFICA Por Daniel C. B. Ciarlini O adeus de Bradbury e Fahrenheit 451 Deixando saudades e uma extensa lista de romances e contos, Ray Bradbury, escritor americano considerado um dos pilares do gê- nero da ficção científica moderna, morreu na manhã do último dia 6 de junho, aos 91 anos. Era natural de Waukegan, Illinois, Estados Uni- dos, onde nasceu em 22 de agosto de 1920. Além de ter explorado com talento o Viveu a maior parte de sua vida em Los Ange- campo da ficção científica, teve proveitosas les, Califórnia. participações no gênero do horror, onde, inclu- sive, foi referência e conquistou o reconheci- Diferentemente de Isaac Asimov, Arthur mento e o respeito de figuras como Stephen C. Clarke e Robert A. Heinlein, que foram des- King, considerado o mestre do terror e do sus- cobertos por John W. Campbell Jr. na era das pense da contemporaneidade. É a Bradbury pulp magazines, Bradbury foi o único escritor que King dedica Dança Macabra (1981), cole- da década de 40 a surgir no campo da ficção tânea de ensaios impressionistas que discutem científica de maneira, por assim dizer, indepen- a manifestação do horror nos campos da litera- dente, sem apadrinhamento, cujos conheci- tura e cinema. mentos científicos e técnicos não foram adquiri- dos em academias, mas de maneira empírica, Ray Bradbury era o último dos moicanos autodidata. Estreou na literatura com o conto que representava a Geração de Ouro da ficção Hollerbochen’s dilemma, publicado entre 1938 científica moderna, formada também por Isaac e 1939, e iniciou a carreira como profissional Asimov, Robert A. Heinlein e Arthur C. Clarke. em 1941, quando teve seu primeiro conto pago Foi considerado o apóstolo dos gentios e o em- divulgado na Super Science Stories. Anos mais baixador da ficção científica para o mundo ex- tarde já era visto assinando textos na Astoun- terior (ou seja, além das fronteiras estaduni- ding e nas principais revistas congêneres que denses), pois “Pessoas que não liam livros circulavam os EUA. Período este que seu no- desse gênero e que se retraíam diante de suas me virou febre e angariou um público conside- convenções pouco familiares e de seu vocabu- rável de leitores em toda a porção Norte da lário bastante especializado, descobriram que América. eram capazes de ler e entender Ray Bradbury”, segundo afirmou Asimov em ensaio à TV Gui- de, em 12 de janeiro de 1980. Sendo um dos mestres da science fiction, não podia deixar de ter publicado clássicos como As Crônicas Mar- cianas, coletânea de vinte e seis contos que consolidou sua carreira e foi classificada pelo próprio autor como uma espécie de “mitologia espacial”, escrita nos anos 50. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Apesar de ser considerado um dos qua- Guy Montag, a personagem principal, tro pilares da ficção científica, estranhamente observando as pessoas encasteladas em te- não gostava desta denominação, negando mui- lões de televisão afixados nas paredes de suas tas vezes que fosse escritor do gênero. Além residências, onde assistem a programas e ao disso, dos casos peculiares que marcam a sua mesmo tempo interagem (um tipo de antecipa- biografia, sabe-se da aversão que tinha por via- ção aos reality shows), assim desabafa: gens de avião e de jamais ter dirigido um auto- “Ninguém mais presta atenção. Não posso falar móvel. Escreveu peças de teatro, poemas e foi com as paredes porque elas estão gritando pa- roteirista de sucesso, tendo adaptado Moby ra mim. Não posso falar com minha mulher; ela Dick para Hollywood. Antes de se tornar escri- escuta as paredes. Eu só quero alguém para tor, era jornaleiro. Começou a escrever para ouvir o que tenho a dizer. E talvez, se eu falar sustentar a família. por tempo suficiente, minhas palavras façam sentido” (op. cit., p. 120, grifos do autor). Sem nada a instruir a não ser o exercício e as práticas esportivas, à escola é reservado o papel de formar “corredores, saltadores, fundis- tas, remadores, agarradores, detetives, aviado- res e nadadores em lugar de examinadores, críticos, conhecedores e criadores imaginati- vos” (op. cit., p. 88), sendo, pois, a palavra “intelectual” um tipo de palavrão. Nesse senti- do, eis que os filhos são mantidos nas escolas por nove dias seguidos, com apenas um dia de folga, logo, não ficam mais do que três dias por mês na casa dos pais, e quando assim o são à frente dos telões. O livro também é visto como uma ameaça ao governo que incentiva a igno- rância: “Um livro é uma arma carregada na ca- sa vizinha. Queime-o. Descarregue a arma. Fa- çamos uma brecha no espírito do homem. Quem sabe quem poderia ser alvo do homem lido? Eu? Eu não tenho estômago para eles, nem por um minuto” (op. cit., p. 89). Em Fahrenheit 451, um de seus livros Afora esses aspectos, Fahrenheit 451, mais famosos, Bradbury produz uma narrativa como toda boa obra de ficção científica, não tipicamente soft e distópica. Desvenda uma so- deixa de especular a respeito de inventos tec- ciedade transformada pelos avanços dos meios nológicos, como quando demonstra a existên- de comunicação que alienam a sociedade. A cia de bancos 24 horas, cujos caixas são ro- leitura de livros é vista como proibida e para bôs, uma antecipação dos atuais caixas de manter a ordem o governo manda queimar bi- atendimento automático. Vê-se ainda a existên- bliotecas e até residências que comportam lei- cia de helicópteros de polícia que podem se tores. Interessante observar que este papel é transformar em viaturas ou vice-versa; além de desempenhado pelos bombeiros, vistos como cães mecânicos farejadores. Bacharéis e cien- mantenedores da ordem. Apesar de escrito na tistas, em face da proibição de livros, desenvol- década de 50, ainda é notável a ironia do autor vem ainda um método que consegue trazer a ao analisar o aspecto alienado das pessoas lume tudo aquilo que já leram, bem como uma frente às futilidades trazidas pelo desenvolvi- bebida que modifica a composição química do mento econômico: “O que mais falam é de mar- corpo a fim de alterar o feromônio, despistando cas de carro ou roupas ou piscinas [...] todos assim os sabujos, os cães mecânicos. dizem a mesma coisa e ninguém diz nada dife- Sem escritório e espaço em casa para rente de ninguém” (op. cit., p. 51-2). Ou ainda: produzir, Bradbury escreveu Fahrenheit 451 “O clangor reduziu as pessoas à submissão; nos porões da Universidade da Califórnia em não corriam, não havia lugar nenhum para on- Los Angeles, entre livros velhos e máquinas de de correr” (op. cit., p. 116). datilografar alugadas a dez centavos a meia www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 hora. Segundo afirmou, o livro acabado lhe custou nove dólares e oitenta centavos. Das passagens mais emblemáticas e libertas que, a meu ver, Bradbury deixou aos coleci- onadores de preciosidades, resume-se em um trecho de denúncia a toda e qualquer forma de opressão que tenta podar o espírito livre e imaginativo do homem: “[...] este é um mundo louco e ficará mais louco, se permitirmos que as minorias – sejam elas de anões ou gigantes, orango- tangos ou golfinhos, adeptos de ogivas nucleares ou de conversações aquáticas, pró- computadorologistas ou neo-ludditas, débeis mentais ou sábios – interfiram na estética. O mun- do real é o terreno em que todo e qualquer grupo formula ou revoga leis como num grande jogo. Mas a ponta do nariz do meu livro ou dos meus contos ou poemas é onde seus direitos termi- nam e meus imperativos territoriais começam, mandam e comandam”. ORGIA Por Mário Rezende Que mulher é essa? Que magia é essa que ela tem, de me atrair assim, como uma presa fácil, indefesa, sem forças e vontade de fugir? Quem é essa mulher que me deixa assim com os neurônios em orgia, ouvindo cantos e tambores ecoando batuques ritmados? Por que será que essa mulher controla assim a minha mente e provoca uma vontade louca de me deixar levar, ficar ausente? Todo esse poder é teu, minha mulher. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 UM BILHETE ANÓNIMO Por Lénia Aguiar Quando o final do ano lectivo aconteceu, Magda, que até agora tinha ocultado os seus senti- mentos pelo professor de educação física, Guilherme, por temer a rejeição e parecer ousada, finalmente teve coragem para se declarar escrevendo um bilhete. Descobriu qual o seu cacifo e colocou um bilhete. Guilherme ficou surpreso com tal papelinho, assim como com o seu conteú- do: Há muito que lhe quero dizer que é bonito. Conheço-o há algum tempo e você a mim também. Se quer saber quem sou vá até ao cais às 20h30min. M Quando terminou de ler sorriu. Arrumou o bilhete e tirou tudo o que tinha no cacifo arru- mando na mochila. Saiu da sala em direcção a casa. Foi a pé, morava relativamente perto. Enquanto caminhava pensava: «-Quem será? Porquê tão tarde o encontro? Deveria ser já, estou ansioso para saber quem é. Se não gostar disfarço, dou meia volta e vou para o bar da praia.» Ao chegar a casa tomou um banho e vestiu t-shirt e calças de treinar. Nem o pai nem a mãe desconfiavam que ele teria um encontro. Jantou e fez-lhes companhia durante algum tem- po enquanto a tv transmitia o noticiário. Ao passar cinco minutos das vinte horas, levantou-se e disse-lhes que ia encontrar-se com amigos. Quando chegou ao cais avistou algumas pessoas ao redor, a maioria acompanhadas. Mas havia uma mulher mais afastada e voltada para o mar, era elegante e de cabelo ondulado escu- ro. Só poderia ser aquela a M! Até suspeitou que pudesse ser a sua ex-aluna, porém, não que- ria estar muito empolgado, pois era cedo e a tal mulher poderia ainda não ter chegado ou nem aparecer. Aproximou-se lentamente e disse sorridente: --Está um bonito fim de tarde! - Porém, ao aperceber-se de quem se tratava acrescentou – Mag- da!? --Sim. Estou à espera do homem que sempre esteve apaixonado por mim e só agora admitiu. -Estou sem palavras... Algumas vezes suspeitei do teu interesse, mas conclui ser loucura mi- nha. --Também apercebi-me muitas vezes que me olhava com ar de macho... Farei dezoito anos amanhã. --Não te importas mesmo que namoremos? Eu fui teu professor até hoje. --Poderemos mentir, ninguém precisa saber que eras meu professor, Guilherme. Ele enlaçou-a e beijou-a confessando: --Só o nosso amor interessa. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 A essência da poesia Por Alma Lusitana Recentemente abandonado pela comunidade, vive na rua sem rumo e numa selvagem crueldade. Desce a calçada com os pés doridos pela ausência de resguardo, sendo vencido por um cansaço aliado à urgência de alimento. Numa noite chuvosa, sucumbe sobre os gélidos paralelos de uma calçada deserta e sombria. Ao despertar dolorosamente da sua malfeita sorte, encontra a seu lado, lambendo-lhe afectuosamente a face, um pequeno cachorro também desgastado pelas atrocidades da nossa preconceituosa sociedade. Fixados num olhar penetrante, o sem-abrigo, retira do bolso meio pão enlameado repartindo-o poeticamente com o único ser que no auge do seu desespero e imune a qualquer presunção, o acompanha nesta sua dolorosa enfermidade. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 O violino Por Danilo Augusto de Athayde Fraga (As três graças) Apaga A luz e dança A casa vazia a noite jovem A lua e você Toca um quarteto De Ravel de cordas A corda não Quer parar de adormecer Eu e você e mais A lua e a noite eu sou Entre rosa orquídea e adelfa A quarta e quinta corda O violinista adormecido O poeta que desperta para enfim Fechar os olhos como quem goza Uma breve nota de Satie As três graças de Canova Eu sou o arco que desliza sobre cordas Tensas e também é corda O verso e o seio como taça O vinho e o sonho O amor ou algo parecido www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 A ARTE INCONDICIONAL DE AMAR Por Dhiogo José Caetano O amor é a maior força que existe no mundo. Aqui falo de amor no sentido lato e não só do sen- timento que pode existir entre dois seres. O amor total é uma forte de energia que não utilizamos o suficiente. O amor é uma plenitude que no envolve até nos momentos de raiva, pois a raiva ou ódio é a an- títese do amor, ou seja, o amor que está doente. Portanto, aja sempre com amor e terá sucesso na sua existência. O amor está na base de todas as grandes descobertas e grandes invenções que tiveram lugar, têm lugar e terão lugar na histó- ria da humanidade. Sem amor, não podemos construir nada de grande. O amor é simplesmente a essência que nos mantém vivos. Se os homens projetaram enormes templos, igrejas, mosteiros, sinagogas, mesquitas, foi por amor ao ser supremo: o seu salvador aquele conhecido com regente de todas as coisas que existe no universo. Se os homens fizeram descobertas em todos os domínios, foi para melhorar a vida dos seus amados irmãos. Seja no domínio da medicina, da tecnologia, do dia a dia ou da melhoria das condições de vida, no fundo, os investigadores, os cientistas, os médicos e os grandes exploradores agiram sempre para o bem da humanidade. O amor vence tudo, a sua supremacia sobrepõe todas as coisas. Aqueles que tentaram, tentam ou tentarão praticar o mal serão sempre vencidos, porque a força do amor é maior do que a força do ódio. Esta pode causar muitos estragos, mas será sempre vencida no fim! Meus amados irmãos, convindo vocês para praticar a arte do amor no dia a dia. Não só irá atin- gir mais depressa os seus objetivos, mas também praticará o bem à sua volta. Obterá sempre uma recompensa moral ou material. Será um ministro que prega o amor e que é sempre amado. Em suma, cultive a atitude de amar incondicionalmente e não por interesse ou esperando rece- ber uma recompensa. Coloque um amor incondicional nas suas palavras, pensamentos e atos, assim a sua vida plenamente será rega com muito sucesso, clarividência e paz. Amar nunca é demais! www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Se você não leu os números an- teriores, peça através do nosso e- mail ou faça download na pági- na do VARAL. É gratuito! VOCÊ SABIA? A revista VARAL DO BRASIL circula no Brasil do Amazonas ao Rio Grande do Sul... Também leva seus autores pelos cinco continentes! Se você deseja ajudar os animais que Quer divulgação melhor? todos os dias são abandonados, atrope- lados, maltratados e não sabe como, Venha fazer parte do VARAL! vai aqui uma dica: E-mail: varaldobrasil@gmail.com Procure uma associação de proteção aos animais, um refúgio, uma organiza- Site: www.varaldobrasil.com ção ou mesmo uma pessoa responsá- Blog: www.varaldobrasil.blogspot.com vel em sua cidade ou estado. As cola- borações podem ser feitas através de tempo, dedicação, ajudas financeiras, divulgação. Há pessoas por todos os cantos aju- dando aqueles que não sabem como ajudar a si mesmos. Seja mais um, faça destes bichinhos a sua causa!! AJUDE A AJUDAR, SEJA HUMANO! www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Rocambole de Batata Marilice Bernabei http://www.receitas.com/ Ingredientes Massa • 1/2 kg de batata • 1 xícara de leite • 3 ovos • 4 colheres de farinha de trigo 1 colher de manteiga Recheio O de sua preferência: frango, palmito, carne moída, presunto e queijo, camarão ou verduras refogadas. modo de preparo Massa 1º - Descasque as batatas e depois de cozinhar em água e sal, esmague-as e passe-as pe- la peneira. 2º - Junte a manteiga, o leite morno, a farinha aos pouquinhos e misturando bem. 3º - Depois, acrescente os ovos. Bata muito bem até conseguir uma massa lisa e uniforme. Montagem 1º - Despeje numa assadeira untada com manteiga e polvilhada com farinha de trigo. 2º - Alise, polvilhe com um pouquinho de farinha de rosca e leve ao forno por cerca de 15 minutos. 3º - Deixe esfriar um pouco e, quando ainda quente, vire a massa sobre um guardanapo polvilhado com farinha de rosca. 4º - Espalhe o recheio e enrole com cuidado, aperte com o guardanapo e depois de alguns minutos desembrulhe. 5º - Salpique com pedacinhos de manteiga e passe outra vez pelo forno por cerca de 5 mi- nutos. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 A Tartaruga Fifi forte graças à nova família. Infelizmente, depois de tanto carinho e amor, Suzi não quis mais Fifi e sua família inconse- quentemente colocou-a na rua, à sua própria sorte. Para a alegria de Fifi, uma menina chamada Sofia apareceu e a resgatou, livrando-a daque- la movimentação enorme das ruas. Em casa, Sofia perguntou a tartaruga: -Você está perdida? A tartaruga balançou a cabeça mostrando que Por Helena Akiko Kuno sim. (Helena tem 8 anos e escreve pela primeira Então Sofia adotou Fifi e ficou muito feliz, pois vez para a revista) ganhara uma amiga para brincar. Em um belo dia ensolarado, Suzi andava pela O tempo passou, Fifi adoeceu e não havia vete- rua quando viu um novo Pet shop e decidiu co- rinário que cuidasse de tartarugas na cidade. nhecê-lo. Um dia Fifi começou a fechar os seus olhinhos. Chegando lá, ela viu diversos animais: cachor- ros, gatos, peixes, hamsters e tartarugas. Sofia inconformada chorou muito, mas não ha- via mais tempo, Fifi tinha morrido. Mas uma tartaruga bem pequena no fundo de uma gaiola lhe chamou a atenção, ela parecia Sofia ficou tão triste e até hoje ela ainda lembra fraquinha e magrela. -se de Fifi. Suzi com dó da tartaruga foi correndo para ca- sa conversar com a mãe: - Mãe tem uma tartaruguinha no novo petShop, você compra para mim? - Não sei filha, estou com pouco dinheiro este mês. - Por favor, mãe. - Está bem, mas lembre-se que a responsabili- dade é sua. Chegando ao pet shop, Suzi pegou a tartaru- guinha na mão e disse: - É essa tartaruga que eu quero mãe. - Mas ela parece tão frágil, não acha? - Não mãe, eu não acho! - Está bem querida, então vai ser essa. Então a tartaruga começou a ficar saudável e www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 O segredo Por Domingos A. R. Nuvolari Florinda casou-se a alguns instantes e já estava eufórica para a sua viagem de lua de mel, que faria daqui a algumas horas. Ediberto seu noivo, se divertia regado a cerveja e seu pagode pre- ferido, que saia da caixa de som. Entre fotos e abraços sujava cada vez mais a cauda de seu vestido longo e branco, perdido nas rendas, que um dia sonhara para este dia tão especial. Com o nó já frouxo de sua gravata, o noivo ria das piadas contadas pelos amigos, na rodada que seguia noite adentro e não parecia que Ediberto estivesse sonhando com a viagem ao nordeste baiano, terra de sua gente. Os convidados, que não foram à cerimônia, não terminavam de chegar ao salão de festas, inclu- sive Maria Antônia, uma confidente de Florinda que no meio da festa adentrou ao salão, seu olhar não se cansou de procurar a noiva, até que a avistou e correu ao seu encontro. O noivo era preparado pelos amigos para o momento esperado, o tradicional corte da gravata. Soma tão esperada que ajudaria no custeio dos dias que passariam, na pequena cidade natal do baiano, que ali continuava a se divertir como sempre se divertia, na sua pacata vida de vigia de um supermercado. Durante seus dois anos de namoro e noivado, Florinda não se deixou levar pela fraqueza da carne, sempre seguiu rigidamente a tradição da família, que sonha em levar a noiva para o altar e casar de véu e grinalda, corretamente. Maria Antônia, agora de frente para a noiva, nem mal cumprimentou Florinda, pelo seu casa- mento, foi logo cochichando no ouvido da noiva, com um ar de fofoca, segredo guardado há tempos, a espera do momento certo para soltar a bomba. Florinda num gesto de surpresa, colo- cou as duas mãos na boca aberta, afirmando ainda mais a inesperada bomba que a amiga con- fidente fuxicou em seu ouvido. Nesta altura da festa, Ediberto já garantia um bom trocado para a tão sonhada lua de mel, que esperou, embora não demonstrasse estar com pressa. Ele conhecera Florinda no cemitério da cidade quando levava ela ao tumulo ali esquecido, meses antes do início do namoro. Quando Ediberto olhou para Florinda, naquela cena olhando para ele, ele sentiu em seu gesto de desespero e podia imaginar que não era um simples gesto, ele parecia saber do que se trata- va pois ficou paralisado como se um segredo havia acabado de ser descoberto. Florinda voltou-se para o local onde Ediberto estava e saiu ao seu encontro, já em meio ao cho- ro, ao nervosismo e ao desespero. Ediberto repentinamente acorda de seu pesadelo, na véspe- ra de seu casamento, suando frio, assustado mas com a certeza e a garantido que seu segredo ainda ficaria guardado, por mais algum tempo, com ele e com Maria Antônia, falecida pouco an- tes do início de seu namoro. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Adoção é uma permuta de amor. O homem ama o cão e o cão ama o homem. Os dois tornam-se amigos. Na foto, Costelinha Por Elise Schiffer Amigos: Costelinha (4 anos) e Rosemberg (12 anos) Era uma vez um menino que vivia sozinho, Sua família havia mudado de residência. O menino ainda não tinha amigos no novo Bairro. No dia de Natal o menino pediu a sua mãe. Mãe, eu quero um cachorro de presente. Era uma vez um cachorro chateado, Que havia sido abandonado ainda filhote. O cachorrinho estava sozinho, não tinha nenhum amigo. As pernas tremiam de tanto medo que sentia por estar sozinho. O filhote latiu e latiu pedindo aos céus um dono para amar. No dia de Natal a mãe do menino o levou a um abrigo de animais. Lá o menino viu muitos filhotes pulando e latindo. O coração do menino bateu forte pelo filhote mais sujo e magro. Era o filhote mais feio no berçário do abrigo. Hoje o filhote é um belo cão, o menino esta feliz e os dois são grandes amigos. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 PSICOSE LITERÁRIA secretamente ainda tinha esperança de fazê-lo, mas não podia dormir por pouco mais de qua- tro horas por dia, os pesadelos eram constan- Por Eliseu Ramos dos Santos tes e verossímeis e o cheiro dos corpos já im- pregnava toda a casa. O cheiro era mesmo o pior de tudo, aquilo que o deixava mais angusti- Uma folha em branco era a visão mais ado. Cansava-o. Espalhado por todas as par- recorrente em sua vida desde então. Fitava-a tes da casa, exceto no tapete persa. Por isso insistentemente, mas não conseguia mais es- ele passava horas a fio de bruços, com os bra- crever depois que havia feito. Agora estava so- ços abertos e o nariz estacionado nas cerdas zinho. Aliás, estivera sozinho há muito tempo, do tapete. Podia cultivar o terrível sentimento contudo, desta vez se encontrava fisicamente até o fim contanto que não precisasse suportar só, por pouco mais de um mês não vira algum o aroma da morte. Sabia que lhe restava pouco mísero rosto diferente, nem o seu próprio. Que- tempo até que o cheiro se ousasse a romper os brou todos os espelhos da casa, pois não su- limites da casa e chamar a atenção do mundo portava a expressão de fracasso e desolação que há depois da porta da frente. tatuada em sua face. Por vezes conseguia se Pois então, se quisesse que valesse a pe- enxergar furtivamente no reflexo da água em na tudo que havia feito, deveria começar a es- suas mãos antes de lançá-la contra o rosto, ou crever logo. Seria sua obra-prima. Um estan- senão era possível se reconhecer de um modo darte da literatura moderna, recuperaria enfim, deformado na garrafa de uísque recém- o reconhecimento de todos, mesmo com um esvaziado, esta sim, era a imagem que mais débito tão alto a pagar, o sacrifício não seria lhe agradara nos últimos tempos: seu semblan- em vão. Não o sacrifício próprio, mas o de seus te totalmente distorcido, o que representava entes: sua bela e amável esposa e seus filhos, para ele, a desfiguração de seu pobre espírito. carinhosos e educados. “Morreram para entrar Diante do estado de solidão, há muito tempo na história”, pensava ele, em momentos de in- não pronunciara uma só palavra. Não carecia, tensa insanidade, “serão eternos personagens ele não era do tipo que jogava palavras ao ven- do meu legado como escritor, estarão vivos por to, o máximo que produziu sonoramente duran- séculos no imaginário de toda a humanidade! te esse período fora alguns gritos dispersos de Ora, como não? Se estivessem aqui prestariam desespero e angústia motivados pelas lem- inúmeros agradecimentos a mim por serem es- branças vinculadas ao que fizera, surgiam em colhidos para tal.” Sua mente agora doentia sua mente com tanta força e violência que não costumava variar do estado de plena culpa e conseguia conter-se em silêncio: gritar emude- desolação para uma incontinente e repentina cia sua mente e o deixava um pouco menos megalomania. Um desgraçado dégradé de morto. emoções que o deixava cada vez mais demen- Falando nisso, não cogitou em nenhum te. Não era à toa que se encontrasse nessas momento a ideia de suicídio, para ele, viver o condições, afinal praticara um dos atos mais maior tempo que dispusesse com aquele senti- lastimáveis conferidos ao ser humano: o assas- mento tão corrosivo quanto ácido era o único sínio da própria família. modo de diminuir em alguns per centos sua parcela de responsabilidade sobre seu ato. As- “Mas foi por uma causa nobre! E ademais, sim, já realizara o próprio julgamento pessoal, eles me jogaram no poço da decadência, preci- pois os meios jurídicos já não importavam sava ter feito algo, sim, tudo faz sentido!” Essa mais, tampouco a punição divina, até porque ideia repugnante brotou-lhe em sua cabeça não era religioso. No entanto fez de seu lar um paulatinamente, tendo como origem um sincero inferninho particular para ser simultaneamente, diálogo com seu agente, “antes de seu casa- demônio e pecador, onde ele mesmo prepara a mento cara, você era louco, bebia como nin- via-crúcis e a percorre sem auto refutações. guém e tinha várias mulheres, quantas quises- A casa era grande, entretanto ele passou se, havia histórias pra contar e não eram pou- maior parte do tempo num quarto dos fundos, cas, sua mente borbulhava em criatividade e sem móveis, onde havia apenas um belo tapete isso se traduzia em grandes escritos seus, por persa e sua máquina de datilografia com uma isso tinha se tornado um grande escritor, hoje folha posicionada ansiando a primeira frase ser você não é mais nada. escrita. Ele achou que conseguiria escrever e www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Você é do tipo que precisa viver pra es- seguida pelo desejo de aniquilar seus inimigos crever, toda sua obra até hoje foi baseada em do lar. “Dei minha vida por eles, e o que eles sua vida, por isso mesmo agora você é um cara fazem? Acabam com minha criatividade, des- decadente e sua familiazinha o deixou assim, troem minha carreira, me deixam decadente. sua vida é decadente e seus escritos também Mas isso não ficará assim, não mesmo.” seguem o mesmo ritmo, tudo chatice. Volta a Só lhe faltava a coragem da prática, pois viver cara, viva para ter uma história pra contar, a bravura de admitir a si mesmo seus intentos estão todos esperando você tornar a ser quem sórdidos ele já havia alcançado. Imaginava co- era, quem nunca deveria ter deixado de ser...”, mo seria glorioso seu retorno as livrarias, mata- nesses termos, a coisa que ele mais prezava ria sua família e faria deste ato o enredo para o no mundo, sua carreira, se transformara num novo livro. Sim! Estava tudo certo, todos ficari- fiasco, precisava reverter isso, custasse o que am estupefatos e secretamente maravilhados custar. com todos os detalhes descritivos que constari- “Viva cara, para ter uma história”, depois am no texto, quebraria todos os paradigmas dessa conversa com seu agente e conselheiro vigentes. Seria ali inaugurado um novo momen- essa ideia foi-se germinando tão intensamente to da literatura mundial. No primeiro instante, as que não conseguia pensar em outra coisa, pessoas o bombardeariam impiedosamente pe- “viver uma história, viver uma história, fazer lo que havia praticado, mas os insultos costu- uma história, fazer história”, os pensamentos meiros estariam criptograficamente carregados dele iam sendo gradualmente atingidos por de admiração pela bela e pormenorizada des- uma gangrena de obscuridade, pensava final- crição de seu ato. Seria a redenção de sua car- mente que para voltar a escrever como antes reira e o declínio de um homem na sociedade. precisava se livrar de sua família, a esquizofre- O escritor do submundo. Um maravilhoso para- nia rondava suas ações e emoções. A partir daí doxo que mexeria com a cabeça de todos os cada vez que observava seus filhos brincando leitores e marcariam suas vidas. Só isso o inte- e sorrindo, e sua mulher realizando as tarefas ressava agora. Marcar. Chocar. Faria com que domésticas com todo o carinho e dedicação, as pessoas sentissem desejos absurdos e obs- pensava como eles estavam sugando seu ta- curos ao lerem sua obra. No fundo tinha a cer- lento e transformando num escritor inconstante. teza de que toda a humanidade tem intrinseca- Aquilo não era vida. O ódio crescia vertiginosa- mente o instinto psicótico de contemplar a vio- mente e a rotina tediosa potencializava ideias lência e a barbárie. psicóticas e compulsivas. A essa altura formu- Sabia que esta podia ser sua ultima obra, lava diversas maneiras de abstraí-los de sua mas estava tão obcecado com a ideia que nada vida, e só a morte lhe parecia a opção plausível mais importaria, nada precisaria ser escrito e necessária. Então começa a surgir em sua após o ponto final. Só lhe faltava mesmo a co- mente doentia a possibilidade de destruir sua ragem do ato. Nunca tentou contra a vida de família e renascer enquanto escritor. A premis- alguém, tampouco agredira sua esposa, ultima sa de que, sem seus entes sua carreira iria re- vez que havia brigado ainda cursava o colegial. nascer como uma fênix levantando voo já lhe Por mais que seu estado fosse de plena psico- soava como uma verdade absoluta. A solidão se, ainda esbarrava em preceitos cultivados realçava sua aptidão para a escrita. Mal via a durante toda uma vida e era cabível que mes- hora de voltar a escrever majestosamente co- mo anestesiado por pensamentos tenebrosos, mo antes e se envaidecer diante dos elogios seu corpo poderia não responder a seus co- que outrora havia se habituado. Durante meses mandos quando necessário. Pensava em fazê- fora crescendo em seu ser a vontade de ver lo ébrio, mas isso prejudicaria a etnografia do seu lar definhar às suas vistas. Tornara-se frio ato, pois poderia perder alguns detalhes ou com todos. Isolou-se em sua redoma psicótica, mesmo não lembrar devido à embriaguez. todos eram inimigos, pois o condenariam caso Como seria concebível realizar, ou mes- seus pensamentos viessem à tona. Não podia mo cogitar tal feito egoísta e desumano? Nesse mais confiar em ninguém. Estado paranoico. momento, ele era o pior homem da face da Ter- Olhava para todos os lados a todo o momento. ra, ou talvez aquele que melhor representasse A única coisa que o fazia esboçar um leve sorri- o que realmente somos. Provavelmente sentia- so era reler seus antigos escritos e fomentar a se assim, como se desfrutasse ali o sabor esperança de que tudo voltaria a ser como an- amargo da essência de nossa espécie. Somos tes. A nostalgia era obrigatória e morbidamente também animais, na verdade, somos primeiro www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 primeiro animais, depois pensamos em humani- te ao quarto deles. Lá se sentaram delicada- dade. E assim estava ele, se vendo como um mente em suas respectivas camas a pedido de- animal com desejos incrivelmente humanos. le. Ele sentou-se num pequeno banquinho pró- Então o fez. De um modo surpreendente e ximo a porta para que pudessem vê-lo sob o impiedoso. Não estava alcoolizado, nem ao me- mesmo ângulo. Os rostos rosados e os olhos nos havia planejado, por mais que ele tivesse a atentos dos pequenos não o fizeram esmorecer convicção que o momento estava próximo não e repensar no que estava prestes a fazer. Co- tinha certeza de quando seria. Já não tinha me- meçou então a comentar as razões que esta- do, tampouco pensava em remorso, sua mente vam motivando seus atos, obviamente as crian- trabalhava por uma via de mão única, sem pen- ças nada entenderam, na verdade não era co- samentos duais. As palavras de seu agente re- mo se ele estivesse explicando a ninguém, o almente o afetaram intensamente, mas prova- fazia somente para reforçar sua própria deci- velmente já tivesse uma inclinação à loucura, são: escolhera sua carreira em detrimento da ninguém que esteja em pleno domínio de suas própria família, pois àquela altura achava que faculdades mentais hortaria pensamentos tão eram duas coisas que não podiam coexistir. execráveis. Assim, num ataque fulminante de Ao terminar de comentar suas confidên- cólera provocada por uma discussão banal com cias, as crianças permaneciam rigorosamente sua esposa, ele inicia sua ininteligível vingança no mesmo lugar e posição, aí então ele foi em contra sua família. As crianças brincavam ino- direção ao mais novo, o pegou pelos braços centemente no jardim. Ele a golpeou de súbito gordinhos, o suspendeu à altura dos seus om- interrompendo bruscamente o que ela dizia, ba- bros e sorriu. Os dois sorriram. A criança tinha nhada em sangue e perplexidade, caiu entre a apenas quatro anos, de nada tinha noção ain- mesa e o fogão solenemente branco, ainda não da, e nunca teria. Ele a deitou na cama e com havia sucumbido, pois a faca não afetara um o felpudo travesseiro começou a pressionar so- ponto vital. Lá estava ela, ensanguentada, exa- bre o rosto do garoto, cada vez mais forte. O lando porquês pelos poros. Trêmula. Fitando outro menino assistia a tudo e sorria inocente- horrorizada o amado algoz de pé, à sua frente mente considerando tudo aquilo uma grande ainda com a arma em mãos, suando bicas. brincadeira. Depois de algum tempo de sufoca- Apesar dos pedidos desesperados e ago- mento o pequeno sofredor começou a debater- nizantes de sua esposa, ele não parou, não te- se freneticamente como se estivesse se afo- ria como, estava possesso e só pensava em gando no mar da infância pouco vivida. Seu ir- calar aquela maldita voz de súplica. Desferiu mão começou a chorar, e percebendo que ha- mais quatorze golpes com surpreendente perí- via algo de errado pedia insistentemente para cia. A partir da quinta ou sexta facada a pobre seu pai parar. Aquela cena poderia certamente senhorita já não reagia de nenhum modo, mes- comover qualquer indivíduo, mas Ele estava mo assim, envolto pelo ódio infundado e cada implacável. Inabalável. Era como se uma força vez mais fértil, ele continuou até deixá-la em maligna guiasse suas ações sem nenhum re- frangalhos. Quando finalmente cessou, parte do ceio. A criança dera seu ultimo suspiro, “ele es- sangue já havia coagulado e ela esboçava uma tá dormindo, está só dormindo”, disse ele para expressão quase sacra em seu rosto hipnoti- tranquilizar sua próxima vítima. Está dormindo. zante de tão belo. Uma linda mulher. Certa- Um eterno sono. Uma pequena vida esgotada mente dedicou seus últimos instantes de vida a pelo extremo e doentio egoísmo desperto e ali- preocupar-se com seus filhos. A preocupação mentado elefantemente em tão pouco tempo. tinha fundamento. O escritor psicótico levantou- se esbanjando uma profunda respiração, limpou as mãos ensanguentadas e se dirigiu ao jardim; as crianças prontamente o convidaram para brincar, como sempre faziam. Ele foi até os me- ninos e passou-lhes as mãos carinhosamente sobre seus cabelos. Chamou-os para dentro. Os dois meninos caminharam em direção a morte sem pestanejar, eram bastante obedien- tes. Não passaram pela cozinha, mas pergunta- ram pela mãe. “Foi fazer umas compras, meus filhos”. O pai então levou os garotos diretamen- www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 O outro garoto, após ouvir seu pai, sentiu algo aceitável o deixou num estado ainda mais um inexplicável frio na espinha provocado por deplorável. Suas esperanças foram postas nu- aquela voz gélida e assustadora. O medo atin- ma história tão primorosa que ficou impossível giu dorsalmente o espírito da pobre criança que descrevê-la em simples palavras. correu desesperadamente gritando pela mãe. “É só uma questão de tempo! Logo estarei Ao descer as escadas como se não houvesse vendo tudo com mais clareza e aí sim começa- degraus, o garoto se deparou na cozinha com o rei a escrever tudo como tem de ser escrito, de corpo incrivelmente perfurado de sua querida um modo impecável.” Não aconteceu. Alguns mãe, sua agilidade de segundos atrás se fora o dias se passaram, o telefone e a campainha já deixando num estado de paralisia, simplesmen- haviam tocado infinitas vezes, como se o mun- te não conseguia se mover diante daquela ima- do perscrutasse alguma informação sobre a gem estarrecedora. O assassino rapidamente o família que a muito não dava sinal de vida. Ele acompanhou. Confuso e desolado o menino já não sabia mais o que fazer. Colocou a culpa abraçou fortemente o pai apontado para sua de sua surpreendente inércia literária no idio- mãe como se uma dolorosa interrogação fosse ma, era demasiado limitado para expressar tão emitida pelo seu pequeno dedo indicador. Mal grande emoção que transmitiria em seus escri- sabia o garoto que estava agarrado ao homem tos. Duas semanas se passaram. Emagrecera que causara toda aquela terrível situação. O alguns quilos; a barba já escurecera grande decadente escritor respirou fundo mais uma parte seu rosto, tinha profundas olheiras causa- vez e afastando os bracinhos do filho o segurou das pela insônia crônica. Sua aparência se pelo pescoço com a maior força que dispunha transformara de tal modo como se buscasse e com o mínimo de piedade que se pode ter. O uma representação estética para se asseme- menino não se cabia em agonia e não parava lhar ao que fizera com seus entes. Brutalidade. de se contorcer. As lágrimas torrenciais não Selvageria. Passou dois dias inteiros deitado, cessavam, seu nariz escorria e sua respiração olhando para o teto de braços abertos no tape- se mostrava cada vez mais espaçada, e foi-se te persa. Sem beber nem uma gota d’água, esvaindo até o momento que não pôde mais sem comer sequer uma migalha de pão. Zumbi. adiar seu encontro com a morte, desfaleceu. Pouco tempo depois de completar um Talvez ainda estivesse com um vestígio de vida mês após o acontecido, ele começou realmente no momento que foi lançado ao chão, mas logo a se dar conta do que havia feito, como se um cederia e morreria, possuía um corpo muito frá- choque de realidade o atingisse vertiginosa- gil. Estava feito. Terminado. Não havia mais mente. Ficou horrorizado. As lágrimas secaram. família. Na realidade não havia mais nada, tam- Não parava de tremer, nem mesmo quando ga- bém ele estava morto, de algum modo. Mas era nhava alguns minutos de cochilo. Mas em ne- preciso escrever o livro, esse imperativo era o nhum momento pensou em suicídio. Os flashes que mais martelava em sua mente fria. Já se daquele dia fatídico surgiam em sua mente de imaginava descrevendo onde, quando, isso e modo tal que o deixava com a sensação de es- aquilo. Em sua cabeça todo o livro já estava tar enjaulado junto a crocodilos famintos. Mes- esboçado, só restava passar tudo isso para o mo assim ainda pensava em seu livro. Sua má- papel. quina de datilografia continuava lá de pronti- “Ó céus, porque a vida teria me destinado dão, esperando o primeiro lampejo do escritor. tal dose de ironia?” Curiosamente não conse- Ele a fitava por várias horas ao dia, mas a folha guia mais escrever. Não do jeito que tanto de- em branco posicionada no aparelho era o que sejava, não podia se satisfazer com qualquer melhor representava sua inspiração para escre- frase, era sua obra-prima e precisava de uma ver. inspiração inconcebível, daquelas que não sur- Passaram-se mais alguns dias, seu corpo gem a um individuo qualquer, aquelas que só estava num estado miserável, seus poucos os grandes sábios conseguem aproveitar. Ha- passos eram cada vez mais frágeis. E Aquele via feito e desfeito um sem-número de inícios cheiro insuportável. Alguns vizinhos que imagi- para seu livro, mas nenhum estava digno, nun- naram por alto que a família teria viajado come- ca estaria, pois depositou tamanha soberba e çaram a dar fé do odor. Na vizinhança mal co- expectativa em sua genialidade esquizofrênica nheciam uns aos outros, contudo perceberam que a ultima coisa que teria competência pra que alguma coisa estava errada. Chamaram a fazer era uma boa história. O Livro se tornara polícia. maior que ele. Sua incapacidade de escrever www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Chegaram rápido e sem titubear toca- ram insistentemente a campainha. O escritor a essa altura já imaginava quem estava à sua porta e porque chegaram até ela. Não impor- tava. Levantou-se do tapete persa se sacole- jando desajeitado e um súbito desejo veio-lhe à cabeça: queria ver sua família pela ultima vez, por pior que estivessem, afinal, desde aquele dia evitou passar o olhar sobre suas vítimas, não os observara nem por um segun- do. Então, foi lentamente ao quarto dos filhos onde o mais novo sucumbira de modo cruel e agonizante. Lá estava o pequeno que, mes- mo rodeado por moscas, ainda parecia man- ter um tênue aspecto angelical. O escritor o fitou por alguns segundos, depois começou a tossir ininterruptamente em razão do fedor. Ansiava vomitar, mas certamente nada sairia AS FLORES DO CAMINHO daquele corpo a não ser resquícios de sua bile. Desceu as escadas acompanhado do toque cada vez mais decidido da campainha, Por Estrela Radiante sabia que em um ou dois minutos tudo esta- ria acabado. Tudo, exceto seu livro. Ao descer, dirigiu-se de um modo deca- Encontrei pelo caminho muitas flores, dente até a cozinha, apoiou-se na parede Muitas delas com espinhos que causam dores, com a palma da mão e ergueu a cabeça em Mas também tão belas com muitas cores, direção aos corpos. Nesse exato momento, E assim vamos vivendo entre amores. um dos policiais virilmente arromba a porta com um forte chute, o frágil escritor não se deu ao trabalho de olhá-lo, era como se já Encontrei pelo caminho muitas rosas, tivesse vivido esse momento mil vezes, nada Muitas delas, tão bonitas, tão charmosas, que acontecesse ali seria imprevisível para Exalando uma fragrância, perfumosas, ele. Os policiais tentam chamar a atenção do Enfeitando as pessoas, calorosas. moribundo entoando gritos firmes de ordem, assim, com as pálpebras semiabertas ele cai de joelhos, escorando as nádegas sobre seus Encontrei pelo caminho os botões, calcanhares encardi- Espalhando a beleza, aos borbotões, dos, neste momento, Entre as pedras e as areias dos sertões, qualquer um que pre- Consolando, quando em dores, os corações. senciasse tal cena seria capaz de medir até que ponto um ser Encontrei bonitas flores, no jardim, humano pode alcan- Entre rosas, amarelas e carmim, çar na escala da de- Colorindo todo o verde, bem assim, gradação. Após isto, Enviei-lhe um buque, com fita de cetim. os policiais se entreolharam como se estives- sem em dúvida da abordagem a ser executa- da, e não era à toa: o assassino aparentava ser tão vítima quanto os cadáveres encontra- dos na casa momentos mais tarde. E dessa forma, ele ficou conhecido por todo o país so- mente como o escritor assassino, não tinha mais nome, não tinha mais nada, restou-lhe apenas a perspectiva de escrever seu livro no tempo perpétuo do cárcere. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 E O VARAL ANTOLÓGICO 2 SE ESTENDEU NA LINDA CIDADE DE BRUMADINHO! Foto de Valdeck Almeida de Jesus Com a coordenação de Norália de Mello Castro e o empenho conjunto de muitos cidadãos, o Varal estendeu-se na cidade de Brumadinho, Minas Gerais no dia primeiro de junho. A Casa da Cultura Carmita Passos, totalmente decorada para o evento com varais que dan- çavam pelas paredes e janelas, recebeu os coautores do livro Varal Antológico 2. Foi um momento inesquecível, onde tivemos apresentação de coral, jovens e talentosos can- tores e discursos emocionantes e emocionados. Os escritores presentes distribuíram livros, trocaram ideias e levaram até Brumadinho a nova literatura que vem surgindo com muita força! Estiveram presentes os coautores: André Victtor, Flavia Menegaz, Vóf Fia, Norália de Mello Castro, Valdeck Almeida de Jesus, Yara Darin, Clara Machado, Carla Renata Jorge Neves, Cláudio de Almeida Hermínio, Irineu Baroni e a organizadora Jacqueline Aisenman. Abaixo, as palavras de Claudio de Almeida Hermínio, coautor no livro Varal Antológico 2. A IMPORTÂNCIA DA LITERATURA EM NOSSA VIDA A Literatura tem o poder de levar-nos a refletir sobre a nossa condição existencial e so- bre a situação sociocultural em que vivemos, ajudando-nos na formação da personalidade, preservando o pensamento livre. A Literatura se faz presente em todas as classes sociais: nos morros, sobre as palafitas, nos palácios. Alguns tentam ignorá-la mas ela resiste e ressurge no dia a dia. Às vezes atra- vés das pessoas mais simples, um porteiro ou uma dona de casa. As histórias são contadas de uma forma tão profunda que alçam voo e nas mãos de grandes escritores, elas são capa- zes de atravessar o oceano e aqueles que as contaram se tornam contadores de existência. QUE SEJAMOS CONTADORES DE EXISTÊNCIA! www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Fotos de Valdeck Almeida de Jesus, Yara Abreu, Carla Jorge Neves, Madhu Maretiore, entre outros. De mensagem recebida de Norália de Mello Castro: Com a passagem do Varal do Brasil em Brumadinho duas coisas maravilhosas estão acontecendo na cidade! No dia 1o. de junho foi iniciada a BIBLIOTECA da Casa de Cultura, que será aberta para toda a comunidade! Os poetas participantes sugeriram que fosse criado um dia oficial para a POESIA. O pedido foi acolhido com muita satisfação e estão estudando a criação desse dia, através de uma lei. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Por Fabiane Ribeiro Conto 4 – A rosa da noite escura A luz revestiu seu corpo e fez doer seus olhos que, dife- rentemente de quando ele estava acordado, contempla- vam tudo pela mágica da visão. “...Eu andei por entre serpentes e espinhos naquele noi- Olhou para o lado e viu que não estava sozinho. Alguém te, como nas anteriores. Meu pé cortou-se em sangue. caminhava junto dele. Seria um vermelho vivo a colorir de forma assustadora o solo negro, mas a escuridão impedia-me de ver o sangue Ele soube, então, o que tudo aquilo significava. jorrar; apenas podia senti-lo. Olhos fitavam-me como es- Aquela pessoa estivera com ele desde o início de sua trelas na noite escura. Guizos eriçavam-me os pelos. E jornada pela noite escura. Estivera ao seu lado por entre os espinhos... esses, dilaceravam-me”. as cobras e os espinhos, compartilhando sua dor. Foi a presença, antes oculta pela escuridão, daquela pessoa, que lhe deu forças para continuar; para dar cada novo *** passo. Ele havia alcançado o sol. E sua luz dera-lhe o privilégio — Você está bem? Consegue nos ouvir? – alguém dizia de contemplar aquela moça... que estivera como um anjo ao longe. a levá-lo adiante pelo caminho. Tudo girava sem, contudo, sair do lugar. As mãos, que estiveram lado a lado na escuridão, entre- laçaram-se sob a luz do sol. Eles marcharam juntos em — O que aconteceu? – ele perguntava. Mas não havia direção ao oásis. Mas, ao aproximarem-se, puderam per- resposta. ceber que não se tratava exatamente de um oásis. Eles O mundo parecia em silêncio ao seu redor. Entretanto, puderam ver que era apenas uma rosa, sozinha, impe- ele podia sentir o tumulto que se formara. rando sob os raios do sol. Mas os olhos... Os pares de olhos de serpentes o perse- Ele fechou os olhos, deixou de enxergar. Ouviu os mur- guiam... E ele não era capaz de fugir. Cruzava túneis múrios de seus colegas na reunião cada vez mais altos. incontáveis. Descia e subia degraus invisíveis de esca- — Que susto – alguém falou – você estava descrevendo das sem fim. um pesadelo e, de repente, desmaiou. A escuridão imperava. Ele podia enxergar. De forma inu- — Eu não desmaiei – ele falou, reerguendo-se – eu ape- sitada, estava de olhos abertos, e justo agora, tudo que o nas fui sugado com toda força para o pesadelo recorren- envolvia era escuridão. te que tenho. Entretanto, pela primeira vez eu vi seu fim — O que significa tudo isso? Que lugar é esse? – ele e pude compreendê-lo. O pesadelo tornou-se o sonho dizia entre sussurros desesperados. mais lindo... Nós nunca estamos sozinhos. Mãos invisí- veis conduzem-nos por entre as serpentes e os espi- Fechou novamente os olhos, estava na sala de reuniões nhos. dos deficientes visuais, caído ao chão. As pessoas fala- vam com ele; ele respondia. Mas ninguém o escutava... Uma rosa havia surgido na noite escura e se fortalecido em meio as areias do deserto; podendo ser vista apenas Abriu os olhos e viu-se novamente preso dentro daquele sob a luz do sol, mas podendo ser sentida a cada novo pesadelo sem fim. pulsar de qualquer existência que estivera à sua procura. Andou sob o peso da escuridão por horas incontáveis. O Ele soube que, na verdade, a ausência de luz em sua solo pedregoso e forrado de espinhos e serpentes acom- visão não o tornava só. Ele sempre tivera alguém ao seu panhou-o por boa parte da jornada. Até que ele parou lado, mesmo que teimasse em não perceber. para tomar fôlego e viu que, ao longe, as pedras transfor- mavam-se em areia... Era um deserto que agora se pro- No fundo, aquela rosa trouxera consigo uma lição: não jetava frente a seus olhos. há escuridão ou medo suficiente para afastar dois cora- ções que batem como um só. Aquela rosa parecia anun- Ele correu. Reuniu forças que não sabia possuir, e che- ciar ao vento do deserto, sob a luz do sol ou sob a escu- gou arrastando-se ao deserto. A suavidade daquele solo ridão da noite fria, que qualquer jardim regado a dois é fez seus pés, feridos, estremecerem de satisfação. Revi- mais florido. gorado, ele continuou a jornada e, após muito caminhar, contemplando apenas areia, um oásis surgiu em sua vis- Após acalmar todos os membros do grupo de deficientes ta. Junto de um belo raio de sol. visuais, a coordenadora Maria Isabel prosseguiu com a reunião... Tudo se fez claridade. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Simetrias e Reflexos Por Felipe Cattapan Na simetria convexa de um jardim zen crianças brilham bolinhas de gude. Opaco, um velho sem palavras só entrevê uma falta de decoro. Mas longe dali, na solidão côncava de uma eternidade incolor, Buda sorri e em silêncio reflete que enquanto houver luz e aurora todas as cores serão consentidas aos seres iluminados. Sem dissolver o transe policromático as crianças se perpetuam na infinitude da brincadeira caleidoscópica... experimentando na cor do fluxo de cada movimento que estar é o brilho invisível de ser. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Algumas coisas que você precisa direita e entrar num café. É nessas horas eu quero socar as placas de push, porque eu sem- saber sobre New York pre puxo! Claro que eu puxando a porta do café e todas as pessoas que saíram dos 5 a 10 es- cadas do metrô se entrelaçando nas ruas e an- dando freneticamente eu fui empurrada e atro- Por Fernanda de Figueiredo Ferraz pelada umas 20 vezes, quase perdi minha bol- sa, mas não caí. Neste ponto não conseguia andar mais um quarteirão inteiro com aquele sapato, Você precisa saber que a temperatura meus pés estavam em carne viva, e eram os muda de repente. Você precisa saber que a ar- dois, me impossibilitando de mancar se quer. quitetura é magnífica. Você precisa saber que Fui para a entrevista, porque nessas horas o encontrará qualquer coisa que procurar, porém, corpo solta um “Q” de adrenalina que não te você precisa saber que não é para visitar o deixa tirar do foco maior – A entrevista – Fui “ponto zero” entre 8:00 am ou 10:00 am, pois arrastando os pés como se fossem patins. Não correrá risco de atropelamento por “pés”. deu, parei na primeira loja de sapatos que avis- NY é uma das cidades mais populosas tei e achei um único par disponível do meu ta- do mundo. - Também não pode parar para manho: uma sapatilha dourada com glitter dou- atender o telefone no meio da Av. Lexington rado!!! Torci o nariz, abaixei a cabeça e falei entre a 42th e 44th street, pois correrá o mes- com vergonha: Eu vou levar. mo risco. Se sair da Grand Central nos horários Além da barra da calça ficar arrastan- de pico, somente ande para onde a multidão do no chão, arrasando o figurino preestabeleci- esteja andando, não importa, você pára para do, a sapatilha chamava mais atenção que EU, averiguar o mapa e a direção assim que avistar a entrevistada, não adiantava nem dar camba- uma porta de qualquer lojinha, não pare nem lhotas, a “brilhosa” me ofuscava. para ver que tipo de loja, entre! Pode ser de Voltei para casa descalça, sem empre- brinquedos, café, perfumes, bebidas, revistas, go, na contramão, mas fora do horário de pico. já disse que não importa, salve-se e veja onde Agora, você deve saber que em cada quartei- está. rão da ilha você achará 2 Starbucks, as vezes Há uns meses fui a uma entrevista em do mesmo lado da rua, as vezes no lado con- downtown as 8:00 am da manhã, imaginem trário e para cada 1 “Starbucks” você achará 4 aquela delícia de metrô! Para o metrô eu esta- “Dry Cleanears”, 3 “Nail Salon” e 2 casas de va preparada, não estava preparada era para a massagens. Por fim entendi porque existem enxurrada de gente saindo debaixo da terra, eu tantos serviços de massagem de pé! Foi lá que de um lado, e mais outros 5 a 10 corredores afoguei minha mágoa do dia, relaxei e deixei emergindo do subterrâneo para a superfície e uma tip enorme para a massagista que sorria se afunilando nas ruas. Você anda e anda rápi- sem parar do. O meu sapato era novo, como todo o visual para a promissora entrevista, só que o sapatinho resolveu dar um show de “atacação”, era de frente, de lado, atrás e eu andando, eu sentia as bolhas nascerem e estourarem, tudo isso sem saber muito se eu estava na direção certa, mas Manhattan neste horário só tem uma mão, a mão downtown. A vontade de parar pa- ra arrumar o “dito cujo” era imensa, mas ao es- piar de rabo de olho aquela gente, gente mes- mo, multidão atrás de mim, quase cheirando o meu cangote, um pânico me vinha e eu anda- va. Eu tentava enxergar uma árvore, um poste, uma coluna, uma parede para encostar, e era só parede de gente. Andei algumas boas mi- lhas até conseguir cruzar da esquerda para a www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Covardia Por Fernando Ferreira Queria ter a vocação para a galhofa e tornar-me poeta satírico, trocista mas coragem me falta. Bebo o mundo da superfície, embora acalente a latente utopia de profundos mergulhos, mas sou covarde. Não cultivei em meu espírito a bravura do tigre, antes finjo de morto contraído em inseto, fixo, uma planta carnívora contentando com eventuais moscas incautas destarte cobice um banquete de javalis; mas me falta coragem. Se não me perguntam, também nada digo e assim, não me contagio. Não sei se lhes disse, mas sou covarde. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 VARAL ANTOLÓGICO 3 Abrem-se dia 10 de agosto as inscrições para a seleção para o livro VARAL ANTOLÓGICO 3 a ser lançado em 2013. Os interessados deverão enviar textos (no mínimo um, no máximo 5) num total de cinco páginas A5, letra Times New Roman 12, espaço 1.5. Todos os textos serão examinados por uma Comissão Examinadora composta de escritores e críticos que acompanham e/ou participam do Varal do Brasil. Os textos selecionados serão comunicados por e-mail a cada autor até o dia 10 de outubro de 2012 e farão parte do livro Varal Antológico 3 mediante participação cooperativa. O regulamento para a participação da seleção estará disponível no site e blog do Varal do Brasil, assim como através do e-mail varaldobrasil@gmail.com a partir de 10 de agosto de 2012. O tema será livre e os textos podem ser: contos, crônicas ou poemas (todos os três em todas as suas variações). www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 ROCAMBOLE DE CARNE http://www.ligadanasdicas.com/ Ingredientes Um quilo de carne moída; - Um pacote de sopa de cebola; - E duas colheres (sopa) de maionese. Para o recheio sugerimos: - Fatias de bacon; - Ovos cozidos; - Azeitonas sem caroço e cortadas em fatias; - Rodelas de tomate; - E rodelas de cebola. Modo de preparo Misture todos os ingredientes nas quantias certas e coloque em um recipiente em que vo- cê possa abrir completamente essa massa de carne para colocar o recheio. No recheio, coloque todos os ingredientes à vontade misturando todos eles sobre a carne aberta. Após rechear, enrole em forma de rocambole e leve ao forno quente. Após alguns minutos, o seu rocambole de carne estará pronto para servir. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 O ESCRITOR E O LEITOR Por Jacqueline Aisenman Há uma relação muito importante e delicada chamada escritor e leitor. Por não entendê-la, há escritores que se entristecem e leitores que se fecham. Quem escreve tem em suas aspirações um gênero preferido (há os que se devotam à poesia, os que preferem contos, romances, crônicas, etc..) ou que escrevem um pouco de tudo. Quem lê tem também seus gêneros preferidos (ou gênero!) ou também gosta talvez de um pouco de tudo. Citando a poesia, por exemplo, há os que gostam de escrever todos os tipos de poemas, al- guns gostam apenas de sonetos, outros de haicais, ou outros tipos ainda; alguns gostam das rimas, outros detestam. Assim também são os leitores, que têm certamente suas preferên- cias. Todo escritor tem certeza de que será lido e reconhecido. Todo leitor tem sua opinião sobre o que leu e sabe da importância da mesma. Nem todo escritor será lido e/ou reconhecido. Nem todo leitor terá sua opinião reconhecida. Entre estilos e gêneros, leitor e escritor se encontram nas páginas de um livro. Há os que gostam de um estilo e detestam outros. Há os que apreciam a diversidade de esti- los. Há os que escrevem inspirados em algum estilo. Há os que criam o seu próprio estilo. Há os que escrevem muito; assim também os que escrevem só de vez em quando. Dentre os escritores, há os nomes que todo leitor conhece e que são por muitos divulgados. Há também os nomes que o leitor descobre. Há aqueles que permanecerão em gavetas e que o leitor não conhecerá. Há os que se tornarão conhecidos como suas inspirações. Há escritores que vendem muito porque os leitores já conhecem o que escreve e há escrito- res que vendem pouco porque ainda não são conhecidos dos leitores. Há tantos gêneros e estilos quando há leitores e escritores (alguns gostam de ser chamados apenas de poetas, outros de contistas ou cronistas ou romancistas...). Alguns leitores tornam- se críticos. Mas só uma coisa pode mesmo unir leitor e escritor: o amor pelas letras. Se o escritor tiver amor e paciência, deixará que o leitor faça seu caminho e chegue a ele. Também compreen- derá que há leitores que não virão porque... porque é assim! Se o leitor tiver vontade, abrirá seus horizontes e buscará no novas alternativas e continuação para aquilo que já aprecia. Por isto se compreende aqui nesta dinâmica, mais do que em outras, quando se fala que “há gosto para tudo”. Enfim... como já diziam os antigos: “o que seria do amarelo se todo mundo gostasse apenas do verde?”! Esta é uma frase que explica bem! Mas escrever e ler, leitura e escrita, isto funciona como a vida: não existe caminho apenas de ida, não há apenas uma cor, não há somente um tom. Há espaço para todos! Que os leitores sempre encontrem novos autores e os escritores sempre encontrem novos leitores! Que a literatura se renove sempre e nunca deixe de prestigiar os que são e sempre serão as nossas fontes de inspiração! www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 A elegância dos destituídos mo aquele homem bem apessoado e carismáti- co que elegemos saquearia os recursos da na- Por Giordana Bonifácio ção? E a gente corre atrás do “trio-elétrico” pa- ra acompanhar o showmício desse e daquele candidato que na campanha abraçam-nos e O brasileiro age com muita elegância. tratam-nos como iguais. Porém, só basta serem Não se revolta, não grita, matem-se calmo e eleitos que nos lançam na mais abjeta sarjeta. aceita as mais terríveis atribulações com um Nem se recordam de qualquer promessa que sorriso estampado na cara. Se isso não for o tenham feito e que empenharam o fio do bigode máximo que se pode exigir de um gentleman, para provar sua honestidade. E nós como gado então não sei do que se trata elegância. Nós manso, somos massa de manobra. Sem função ficamos mudos enquanto desviam o dinheiro de alguma, a não ser a de dizer sim a tudo. Quem nossos impostos. E reclamamos pouco do des- vai se revoltar? Quem vai protestar e importu- caso do governo com saúde, educação e segu- nar os donos do poder? Nós? Não, somos mui- rança. Somos extremamente educados, no to corteses para atos tão selvagens. A crítica sentido da polidez que se exige em situações ácida deixamos para nossos irmãos Argentinos como esta. Quase apresentamos o nosso bolso que gostam de fazer paneladas. “Gente mais para os corruptos saquearem com mais facili- mal-educada!” Gostamos mesmo é de sorrir dade o fruto do nosso trabalho: “aqui senhor, das situações, como se a piada apagasse o ainda restam dois reais.” Mas eles como sinal desgosto e amenizasse a vergonha. Uma guer- de delicadeza nos deixam ficar com esta miga- ra política ocupa as páginas dos jornais e pou- lha para que possamos pagar o transporte pú- cos sabem algo mais profundo sobre a cachoei- blico caríssimo e de condições deploráveis que ra de escândalos que entopem a mídia. Está os nossos governantes nos oferecem. Não todo mundo envolvido? Esquerda e Direita? Si- existem creches, hospitais com leitos suficien- gamos pelo centro então, que brasileiro não ad- tes ou saneamento básico, mas em breve aqui mite, mas adora ficar em cima do muro, sem se dará a Copa do mundo e prometemos rece- opinar em nada. Quem se importa se há uma ber os turistas com toda nossa hospitalidade. inflação mascarada e nossos salários estão se Viu, o brasileiro é um poço de cavalheirismo. depreciando? Besteira, ainda dá para comprar As escolas estão ruindo? Os professores são um carro popular à milhões de prestações, por- desprezados e mal-pagos? Não há problema, que o IPI está reduzido. Reduzida também está eis que a Olimpíada, vai trazer divisas para o a qualidade de nossas estradas. Buracos que Brasil, nem que seja por curtos dois meses. E se reabrem todo período de chuvas e são tam- depois disso, a gente bem que poderia desper- pados toscamente, porque, o dinheiro para es- tar desse torpor. “Cruz-credo, parece macum- se serviço também foi parar numa conta de la- ba. Será que nos lançaram um encosto?” A ranjas num paraíso fiscal. gente não sente, as agulhas encravadas no Mas a gente sabe tudo sobre laranja, nosso corpo. É IPI, IPVA, IPTU, IR e outro tanto não foi para ela que perdemos na última Copa? de impostos que são encravados na nossa pe- A Holanda, a laranja mecânica que nos atrope- le. E nem adianta enganar a Receita. O país lou? E fomos muito gentis com nossos oponen- não tem um bom mecanismo para localizar cri- tes. Reconhecemos sua superioridade. Mas minosos, mas para “mal-pagadores”, nossa, nós, nativos desse país de poucos, não falta- encontram você até na mais remota tribo indí- mos com a delicadeza. Conferimos sempre gena do Acre! E o brasileiro já parece até bone- uma segunda chance para aqueles que nos en- co vodu. ganaram. Alguma coisa como “ofereça a outra Sem querer nos envolver, sem querer face”. E aqueles que sumiram com um milhão nos misturar, sem querer e querendo a gente agem com mais destreza e evadem do país aceita muita coisa. Rios de dinheiro são desvia- com cem milhões. “São espertos, se fosse eu, dos e muitas vezes com nosso consentimento. faria o mesmo!” Assumem alguns que não têm Porque aquele político, sabe aquele, de paletó sequer a possibilidade, nessa terra excludente, e gravata e discurso mole? Sim, ele pode ser de ocupar a cadeira do rei. “Somos brasileiros e corrupto, mas, algumas coisinhas pequenas, não desistimos nunca”, grita o slogan. E fica- ele faz. Algo como inaugurar obras que demo- mos certos que não desistimos é de sobreviver raram décadas para ficarem “meio-prontas”. em meio a tantas dificuldades. É tanta greve, Porque têm de ficarem inacabadas, senão, co- tanto descaso e impunidade que ficamos até www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 calejados. A gente tem “casca grossa”. E co- saber é desprezado. Permitamos que nossas memos o feijão com arroz que pesa cada vez maiores invenções sejam patenteadas por em- mais na cesta básica do povo. Silenciosamen- presas estrangeiras. Afinal, nós somos solidá- te, sentimo-nos representados quando ouvimos rios. Doamos nossas riquezas a troco de nada. o hino nacional, mesmo que muitos não saibam E ficamos felizes quando é alardeado que so- sequer entoá-lo por completo. “O judiciário não mos a sexta economia do mundo. E se não representa o povo.” Tenta alertar a imprensa permitíssemos que nos roubassem de todas as com manchetes em destaque. A gente lê e dei- maneiras escusas nessa crônica demonstra- xa passar, pois, o que se pode fazer? das? Se houvesse um investimento verdadeiro em nossa educação tão sucateada? Se nossas indústrias fossem motivadas a produzir com mais qualidade a um menor preço? E se a se- gurança permitisse que andássemos tranquilos em nosso próprio país? E se o serviço de saú- de fosse condizente com nosso tão propagado poderio econômico? O que seríamos se não aceitássemos com tanta passividade a condi- ção degradante a que nos submetem? Sería- mos o país que tanto esperamos? A gente tem de reaprender a gritar, porque a nossa, até agora, elogiada boa-educação está nos cau- sando muitos problemas. Vamos tirar esses óculos que não nos permitem enxergar a reali- dade. Se continuarmos a recitar a ladainha dos políticos, sim, aquela do “Brasil, país do futuro”, (ou de todos, como o governo não cansa de lembrar), não nos daremos conta que o futuro já chegou e não estamos nele. E que estamos num Estado de poucos para poucos que exclui a grande maioria que engole tudo em troca de A gente desaprendeu a levantar a voz. Com quase nada. Nosso povo aceita nossa desi- muito custo a gente se rebela e fala mal do ár- gualdade em função da política assistencialista, bitro da partida de futebol. A condição dos está- que oferece bolsas miseráveis aos pobres para dios era deplorável? Aí vem uma Copa do mun- ter seu apoio incondicional. Insurja-se nação do, afinal, esse problema será resolvido. Não tupiniquim, que o seu brado heroico retumbante podemos receber os visitantes com a casa “mal ressoará pelos cinco continentes! Por isso, -arrumada”. Sabemos que os engarrafamentos creio que nossa gentileza está nos fazendo serão colossais, mas vamos brincar com as mansos. Melhor que sejamos ouvidos, mesmo nossas mazelas. Se muitos ficarão presos no que para tanto tenhamos de nos rebelar e aca- trânsito, que tal fazermos uma piada sobre o bar com o mito da nossa hospitalidade. Porque brasileiro que foi assistir ao jogo e chegou aos já dizia minha mãe, “quem muito se abaixa, o quarenta e cinco do segundo tempo, bem na rabo lhe aparece”. hora de ver a nossa querida seleção ser elimi- nada da Copa? Difundir-se-á como água na in- ternet. É bom ressaltar, nossos provedores de internet cobram os preços mais caros de todo mundo para nos fornecer um serviço contra o qual chovem reclamações. Mas seremos socor- ridos em tempo por nossa emissora favorita de televisão que amenizará as dores de nossas feridas com novelas cuja função primordial é abafar nossa indignação. E depois disso tudo, seremos ainda mais cordiais, deixando nossos gênios venderem-se para as grandes nações porque, nesse país, o www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 A Pagina em branco e as ideias produz, ditam as regras de mercado. São co- merciantes. Comerciante que precisa ser espe- cial. A mercadoria que ele está oferecendo, va- Por Francy Wagner lorizando, vendendo, é algo imaterial: é um pe- dacinho da alma de alguém. As ideias ficam borbulhando na cabeça e o pa- A alma do artista produz frutos que exporta pa- vor de uma pagina em branco as escondem ra as outras almas. nos cantos escuros do coração. Este alimento é essencial para a sobrevivência É muito interessante quando se tenta fazer um da emoção. texto, trabalhado para publicação. É muito mais Sem o alimento da alma, as pessoas vão se fácil quando simplesmente se escreve aquilo, o tornando secas, amargas, morrendo por dentro: que se pensa, e as ideias vão se encadeando tornam-se zumbis que vagam pelas ruas em tal e qual uma corrente logica ou sem logica. busca de algo que as satisfaça, comprando tu- Escrever se torna então um vicio, uma necessi- do aquilo que o dinheiro ganho com seu esfor- dade de se por para fora aquelas ideias que ço é capaz de oferecer. ficam ali, nos perseguindo os pensamentos co- Amontoam-se roupas, sapatos, bolsas, utensí- mo sombras, fantasmas de nossa mente, se lios domésticos, elétricos, eletrônicos, jogos de enrolando e enroscando nos neurônios, cortan- videogame, imóveis, moveis, enfim toda a sorte do ligações de pensamentos lógicos, e tornan- de matéria que é linda aos olhos na loja e logo do nossa vida um passar de horas angustian- depois perde o brilho. Lembrei dos terços de tes, pois a necessidade é faminta. contas transparentes das feiras do interior do Fome de expor aquilo que nos incomoda. nordeste, de onde venho. Quando saem do fo- Apenas uma ideia... apenas um tema... contu- co das luzes amarelas penduradas nos ferros do, se esse tema não é desenvolvido com o de sustentação das barracas, perdem o brilho... auxilio dos signos, vai crescendo sem forma e deixam de ser brilhantes para serem exatamen- se torna um monstro voraz que engole a paci- te aquilo que são: contas de vidro ou plástico ência, a logica e a vontade. duro, com um furinho por onde passa aquele fio O desenvolvimento do tema, escrever aquilo e as transformam num terço católico. que se passa dentro da alma, tornou-se para Então, para se tornarem brilhantes novamente mim a maior e melhor terapia para minha de- aos olhos de quem as comprou, precisam de pressão, para esclarecimento de duvidas, para uma luz, precisam ser banhadas novamente busca de soluções. A folha em branco agora é com algo imaterial: a fé! minha melhor amiga; a caneta companheira O alimento da alma esta ali, brilhante novamen- inseparável e o computador, esse, o amante te aos olhos. parceiro de todas as horas e situações. A produção do artista é isso: o alimento vivo da Meu vicio não tem hora. Minha necessidade se alma, sem meios termos. Puro, que envolve, apresenta nos momentos mais inusitados, im- que da a vida, que reanima, que ressuscita! previsível como uma mulher. Todos os dias eu ressuscito dos mortos quando Os temas são tão variados quanto os objetos acordo pela manha e decido se vai ser um dia oferecidos nas pequenas lojas de “quase tudo”; se ser zumbi, ou um dia de vida, de alegria; um dos necessários aos supérfluos, dos mais sim- dia que meu sol vai brilhar, mesmo que esteja ples aos mais complexos, tecnologia de ultima chovendo la fora, mesmo que esteja nevando. geração. Meu sol pode brilhar de noite, de madrugada... Meu sonho: ver meus textos lidos, comentados. qualquer momento, pois ele esta dentro de Os leitores são meu publico. Os comentários os mim. No peito, habitado pela Alma, pelos senti- aplausos. mentos. Infelizmente tenho poucos leitores e não co- Sinto a dor da saudade na alma, sinto a raiva nheço os métodos de propaganda. na alma, sinto o amor na alma... o corpo sua Todo artista precisa de alguém que lhe expo- vestimenta: uma maquina perfeita, funcional, nha os trabalhos. O artista produz mas não sa- equilibrada, governada pelo maior e mais pode- be vender. Um artista não sabe nem dar valor roso computador do universo: o cérebro. aquilo que produz, pois dentro de sua alma ain- Se eu acordar e deixar meu cérebro guiar mi- da há muito o que produzir e o tempo é pouco. nha vida naquele dia, viro um zumbi, faço tudo Aqueles que vendem o material que o artista logicamente perfeito, livre de emoções que possam me atrapalhar o raciocino. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Se eu acordar e decidir que minha alma vai guiar minha vida naquele dia, viro um louco alucinado, sem logica, sem regras, sem fronteiras. Terei um dia de produção artística: um dia onde tudo brilha, meu sol brilha e minha alma produz. A busca deste século é juntar alma e cérebro, tra- balhando juntos, no mesmo corpo! Vou deixar esse assunto para seus pesquisado- res exotéricos. Este segredo é hermético! Desta forma a folha em branco não é mais tão pa- vorosa. O texto esta pronto, pronto para ser revisado pelo cérebro. Pronto para se tornar alimento, gostoso ou não, vai depender do apetite do leitor. A única garantia do escritor, é que o prato foi pre- parado com carinho. Estará servido através de um Servidor na Internet, pois não tenho avaliador de preço, intermediário, comerciante para meus textos... ainda não foram suficientemente sabore- ados nem levados ao mercado. Ainda é uma pe- quena produção caseira, para aqueles convida- dos especiais. Bom apetite! VARAL DE SETEMBRO NOSSA INFÂNCIA FALE CONOSCO DA INFÂNCIA: A SUA, A DOS SEUS AMIGOS E FAMILIARES, A INFÂNCIA DAS RUAS, TO- DA E QUALQUER INFÂNCIA! VENHA ESCREVER CONOSCO SUAS LEMBRANÇAS OU SUA OPINIÃO! POEMAS, CONTOS, CRÔNICAS, PENSAMENTOS... A FORMA NÃO IMPORTA, O QUE IMPORTA SÃO SU- AS EMOÇÕES! Peça o formulário no e-mail varaldobrasil@gmail.com www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Impulso Por Guacira Maciel Saltou na Estação Rodoviária... que lugar é este? O inferno? A cabeça, zonza, deu-lhe uma sacudidela. Estava tonto por tantas horas sem o sono gostoso, que começava com as galinhas empoleirando-se no pé de caju, cuja raiz já nascera se arrastando feito cobra ao sol do sertão. Também acordava junto com elas; era bom ouvir o galo cantar de ma- drugadinha, aquilo tinha um gosto de café quentinho e de lida. Passou a mão sobre os olhos macerados para espantar a pasmaceira. Só então se deu conta da dor que lhe mar- telava o corpo em algum lugar. Não; ela estava por todo o corpo, mas era pior no ponto sobre o qual passou a mão calosa de trabalhador. É...é aqui que dói mais; deve ser fome, e pensou que não comia feito gente desde o início da viagem. Sentiu saudade e veio-lhe à boca o gosto do feijãozinho com carne seca feito por Dona Sebastiana. Bom, aquele gos- to... gosto de mãe, gosto de terra do roçadinho que botava o pão na mesa da família. E gosto da feira do sábado, quando todos os vizinhos levavam seus produtos quase que pa- ra serem trocados por outros, como um escambo. A feira era colorida, parecia sempre o dia da festa da Padroeira. As meninas vestidas com suas “roupas de sair” passeavam gru- dadinhas com as mãos dadas feito corda de licuri, olhando como quem não quer nada, para os meninos que ajudavam os pais no trabalho pesado, fingindo não vê-las. Outra pontada o lembrou que precisava comer. Que dia é hoje? Perguntou pensando alto sem perceber; ainda assim olhou para os lados esperando uma resposta que não veio. Vixe! Aqui as pessoas não ouvem, não enxergam, nem falam? Só olham, olham para nós com estranheza, como se a gente fosse de outro planeta. A dor da fome deu-lhe outra fisgada e sentiu vertigem, vixe maria! E agora? Preciso comer, lembrou outra vez. Era fome, can- saço e saudade, tudo misturado. A coisa tá piorando...Sentou-se em um banco, uma mé- dia de café com leite num copo de plástico tão vagabundo que lhe queimava a mão, ocu- pava uma delas, mas isso lhe deu certo conforto; ainda estava vivo; na outra um pão com margarina; isso lá é manteiga!... Ficou olhando sem ver o vai e vem ensurdecedor. Em algum momento pensou...parecem formigas...as lágrimas quentes nublaram a vista ardi- da, cansada...o seu lugar não era ali...engoliu o pão com dificuldade, jogou o copo sujo no lixo e levantou já procurando o papelzinho com o endereço do primo Natanael. Imagem: hƩp://detemposemcoisas.blogspot.ch/ www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Gosto de rabiscar perigosamente Um bom assunto nas linhas rígidas do meu caderno, embora minhas escritas sejam tortas, vivo em eterno Por Gladys Giménez estágio letárgico perdida entre minhas garatu- jas, procuro como uma equilibrista, manter-me sempre nessa corda bamba. As letras são meu suporte. O professor Jaime Cimenti, em certa feita disse: “...o cronista que é um vampiro de assuntos, tem como vício aproximar-se das pessoas para roubar histórias.” Senti-me assim, uma vampira tentando sugar histórias para a próxima história. Já não me sinto culpada em fazer de conta que estou lendo, ou apenas apreciando a paisagem e fingidamente captar as nuances, infiltrar-me nas entrelinhas, envol- ver-me qual radar em conversas que rondam meus ouvidos. Tomo ciência que meu maior Costumo escrever poesias, pequenos romance é certamente, a criação de um ato libi- textos, testículos enfim, mas aventurar-me nos dinoso entre o papel qual noiva de branco à es- intrínsecos caminhos da crônica, para mim, é pera da cilíndrica tinta, ambas seduzidas pelas algo inusitado, pois muitas vezes pareço-me a mãos que as afagam e rompe com sua pureza uma folha em branco, meu cérebro escarafun- para depois jogá-las ao mundo e serem devo- cha até os recônditos e na maioria das vezes radas pela curiosidade humana. não encontra nada. Síndrome da página em Assim como o morcego que suga dos branco? Talvez, pois há quem diga que na mi- pomares alheios a fruta e depois dispersa suas nha idade muita informação atrapalha, começo sementes favorecendo o ecossistema, ajo en- a acreditar nisso. Mas, voltemos ao assunto tão como a dinâmica desses bichos alados, dis- principal deste texto. De uns tempos para cá persando, contribuindo para a cultura, se assim me deparei a prestar mais atenção nos movi- for possível. mentos das pessoas que habitam meu planeta. Sugar do mundo e jogá-lo ao mundo. Está aí, Particularmente meu planeta é Vênus, minha creio eu, uma boa perspectiva para os meus Musa inspiradora gosta de silêncio, de quietu- apanhados secretos. de, taurinas são esquivas, mas como ia dizen- do, comecei a interessar-me por histórias con- tadas ao léu, comecei a olhar com atenção as cenas corriqueiras que aconteciam do outro la- do da minha vida. Sem querer comecei a cole- cionar histórias. Depois de um breve tempo ali- mentando-me desse novo ruído, ruminando so- bre meu novo hobby , dei um salto e perguntei- me: para quê? Que utilidade eu daria a essa caixa de pandora? Ideia remota parece que eu até tinha, mas na realidade ainda não passava de um grande ponto de interrogação em mim. Iniciei a escrevinhar. Parto difícil este. Estou gostando da experiência, algo no- vo, desafiador, mas terei que ter persistência, tesão pela arte, de outra feita já faz muito que brinco com as letras, elas nunca me decepcio- nam, são maleáveis, curvam-se aos meus ca- prichos. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Sarah Venturim Lasso ...CAPITÃES DA AREIA, DE JORGE AMADO? Com o centenário de Jorge Amado esse ano, seus livros que já eram famosos, ficaram ainda mais na moda. O livro, que foi publicado em 1937, conta a história de meninos abandonados em Salvador, tema que até hoje é atual. Essa obra foi perseguida e queimada em praça pública em Salva- dor , em 1937. A obra é dividida em três parte, o que considero interessante e faz dela ainda mais prazerosa de ler, pois pode-se reler alguma parte individual (tenho mania de reler livros que já li, várias ve- zes). O jeito único de escrever de Jorge, faz o leitor se emocionar e se envolver com os personagens, cujos nomes são uma diversão a parte: Volta seca, Gato, Boa-vida, Sem-pernas, Pirulito, entre outros. Um livro atemporal, que com certeza será apreciado por mais cem anos. ESCREVER NO VARAL É MUITO SIMPLES: PARA NÓS O SEU TALENTO ESTÁ NO CORAÇÃO E NOS SENTIMENTOS QUE VOCÊ USA COMO TINTA PARA ESCREVER AS EMOÇÕES! VENHA ESCREVER NO VARAL, A SUA REVISTA LITERÁRIA SEM FRESCURAS! Peça o formulário pelo e-mail varaldobrasil@gmail.com Visite o site www.varaldobrasil.com Visite e escreva, envie novidades para o blog do Varal! www.varaldobrasil.blogspot.com www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 FOGUEIRA DE IDEIAS Por Wilson Caritta Quando penso em me queimar Vem na mente tanta coisa Que até se mente à coisa feita Não faz falta Há quem faz farta Alguma mesa Onde falta Até a falta Mas se na mente Não se mente o tempo todo Fica na gente Um gosto e tanto De um tempo morto e enterrado Na queimação que assim me invade Meio assim desconjugada Na perdição da mente arde Uma pergunta: Se queimado todo o amor, Que cheiro terá espalhado? www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 CHEGADA E PARTIDA Por Viviane Schiller Balau Que linda chegada filho! Deus concedeu-me Para abrilhantar minha vida Junto com você e, Hoje sinto que nunca poderia... Dizer adeus pela sua partida Quero que saiba meu amado Anjo que me deixou inesperadamente Pelas mãos de uns desalmados que vinham Fazendo racha e atropelaram você; e o mataram... Meu amado que partiu para morar com Senhor deixando muita saudade, Lembrança de tudo o que ficou na vida. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 A LÍNGUA DO MAR enterra em suas entranhas geladas todo aquele que vai ou vem. Mulheres cansadas choravam Por Ivane Laurete Perotti Um canto sem lágrimas um canto sem cor. Foram-se os rostos cansados Sereias sem manto Era uma partida sem dor. juntavam-se para ouvir o clamor. A ponte levantara tropeços Das ondas que levaram a esperança na entrada do cais. subia um mastro de horror Nenhum navio aportara era a paga que ainda faziam na baía destroçada. aqueles que esperavam Partiram velhos e jovens, esperavam... quem estava tentou ficar, mas a língua do mar era grande e um a um conseguiu alcançar. A dor apareceu salgada, quebrada, estilhaçada. Levou o passado e deixou o futuro onde haveria de estar. Deixou o nada no agora da hora que se fez, dolorida encarquilhada. Entre aqueles que ficaram ergueram-se muros de lágrimas e o mar recuou, a língua manchada de sangue insaciável a língua do mar. Mulheres espiavam tentando olhar para além... Fugiam do lugar onde estavam queriam aguardar alguém. O mar não devolve o que leva nem leva para devolver www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 O VARAL ANTOLÓGICO SE ESTENDE EM SALVADOR ENTRE MÚSICA E POESIA! Com organização de Valdeck Almeida de Jesus e Renata Rimet, aconteceu dia 25 de maio o lançamento do livro Varal Antológico 2 em Salvador. A noite, alegre e cheia de surpresas encantadoras, aconteceu num local mais do que especial: o barzinho cult Beco da Rosália. Poetas declamaram, músicos tocaram e cantaram entre muitas conversas animadas que trouxe- ram a nova literatura brasileira como assunto principal. Os coautores do livro, entre eles Raimundo Candido Teixeira Filho, Maria Perpétua Freire Brasi- leiro e Valdeck Almeida de Jesus, estiveram presentes. Entre os eventos marcantes da noite, a música do cantor Dé Barrense e as declamações infla- madas e musicadas do poeta Gibran. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Fotos de Renata Rimet e Valdeck Almeida de Jesus www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 O VOO DA COTOVIA Por Marcos Torres Ter asas para voar como uma cotovia, como seria delicioso, viajar pelo mundo sobre os penhascos, montanhas além das colinas, nada de catraca ou bilheteria; essas coisas são transtornos, demasiado aborrecimento. Embora saiba: quando se quer ver algo novo não há jeito, é preciso pagar alguma moeda para saborear outras paisagens. Ah, como eu queria ser uma cotovia. Ah, como eu queria poder voar, deslizar no céu, ir além dos ventos uivantes onde somente a cotovia alcança. Cortar todo o atlântico, e lá do alto ver os pássaros cuidando do ninho na copa das árvores. Atravessar os mares gelados, sobrevoar por entre as montanhas além das colinas, seguindo em direção ao Polo Norte. Mas essa ausência de asas me deixa demasiadamente... Limitado www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 MULHERES EM BUSCA DE O Alcorão, codificado por Maomé, mantém a dominação sobre a mulher. A autoridade, con- SEUS DIREITOS cedida ao homem por Alá, dá-lhe direito ao do- bro do que se dá à mulher, ente irracional que constitui a “maior calamidade” do homem. (séc. Por Hilda Agnes Hübner Flores VI d.C.). O cristianismo trouxe alguma valorização da mulher. Todavia, o apóstolo Paulo proibiu-lhe Reconhecida como única geratriz da vida, na de falar dentro da igreja. Se não entendesse aurora da humanidade, a mulher era respeitada alguma coisa e quisesse se instruir, deveria pe- chefe de clã. Quando o homem, fisicamente dir esclarecimentos ao marido, em casa. (ano mais forte, se impôs como caçador e defensor, 67 d.C.). a mulher passou a depender dele. E logo viu-se reduzida a uma dantesca e duradoura estreite- O monge Martinho Lutero fundou o protestan- za existência, que se arrastou por milênios, co- tismo como forma de combater excessos do mo mostram os escritos de pensadores e deli- cristianismo, que abjurou. Para a mulher, reco- neadores do comportamento das gentes. São menda uma vida austera, sem luxúria nem vai- conceitos a estabelecer parâmetros entre o dade, sendo pecado maior a pretensão de ela possível e o inatingível, o permitido e o excluí- querer ser sábia. Nasceu assim um poço imen- do no agir cotidiano da mulher. surável no caminho da realização intelectual feminina. (séc. XVI). Vejamos alguns exemplos. O Código do Hamu- rabi dá ao marido o direito de rejeitar a “mulher Os séculos finais da Idade Média registram ver- de conduta desordenada e descumpridora das dadeiro genocídio, principalmente de mulheres obrigações do lar”, podendo reduzi-la à escravi- conhecedoras do segredo das ervas medici- dão, até mesmo para pagar dívida dele, na ca- nais. Atribuindo-se-lhes artimanhas do diabo, sa do credor. (Babilônia, séc. XVII a.C.). acusadas de bruxaria, centenas de anônimas antecessoras de Joana D´Arc foram assim con- Nove séculos mais tarde, leis imperativas do denadas à fogueira. filósofo Zaratustra, da Pérsia, mandam “adorar o homem como um deus”, ajoelhando-se a mu- Nem o Renascimento, período das “grandes lher toda a manhã aos pés do marido para per- conquistas”, trouxe algum avanço em direção guntar: “Senhor, que desejais que eu fa- aos direitos da mulher. O todo-poderoso Henri- ça?” (séc. VI a.C.). que VIII da Inglaterra repudiou cinco esposas, escapando Catarina Parr, porque o rei morreu Tentáculos dessa legislação alcançaram a Ín- antes dela, consumido por sequelas de orgias dia e somaram-se às “Leis de Manu” que so- sexuais. (séc. XVII). brevivem até os dias atuais, quando regulam castas oficialmente extintas e impõem à mulher As grandes navegações conduziram ao desco- reverenciar o marido como a um deus, em hi- brimento do Brasil. Portugal lhe estruturou a pótese alguma podendo governar a si própria. economia a serviço da Metrópole e a religião a serviço de Deus; a sociedade configurou-se Aristóteles, o grande pensador da culta Atenas, com acréscimo de duas culturas estranhas à em sua escola peripatética pregou uma filosofia Metrópole: a indígena e a africana, diferencia- de total reprimenda à mulher, que não passa das pela ausência da noção de pecado e sem o de “um homem inferior”, só criada quando “a cultivo do mito da virgindade a que era subme- natureza não pode fazer homens.” (séc. IV tida a mulher branca, a única “livre” na imensa a.C.). Colônia. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Pregadores moralistas dimensionaram o relaci- que a 3ª edição, em 1570, tivesse autoria atri- onamento entre os casais e o espaço social buída a Alexandre de Gusmão, intelectual bra- destinado à mulher. Pe. Antonio Vieira, ímpar sileiro falecido em Lisboa, 37 anos antes. Deve literato do barroco, quando na contramão da -se à Professora Conceição Flores o oportuno política portuguesa teve de trocar o real con- resgate dessa obra pioneira de nossas letras, fessionário lisboeta pela catequese no exílio do em sua tese de Doutorado: As aventuras de Brasil, viu a mulher como uma criatura vulnerá- Teresa Margarida da Silva e Orta em terras do vel, movida pela paixão e pelos sentimentos Brasil e Portugal. que a predispunham a ceder às tentações do Em 1820 o viajante Saint-Hilaire foi surpreendi- Demo. Para que tal não acontecesse, para pre- do na cidade portuária de Rio Grande, RS, pe- servar o nome honrado do marido mantenedor, la presença da sobrinha do vigário, Maria Cle- recomenda a proteção do lar, longe de olhos mência da Silveira Sampaio, moça de 20 pri- concupiscentes e ocupada em constante ativi- maveras que dominava o francês, e que dois dade física e mental, como dedilhar as contas anos mais tarde teve poema seu publicado no do rosário e envolver os lábios na repetição Rio de Janeiro, recebendo inclusão entre os exaustiva da reza. Esse empenho, desejado “Poetas da Independência”. À aridez literária, para preservação da virgindade, requer cultivo sobrepõe-se notável visão econômica de futura perene, porque sesmeira, que relaciona nossas riquezas natu- rais e pede ao Imperador pontes e barcas que as façam circular, para progresso da Província. Os pecados contra a castidade são igualmente graves perante Deus, para homens e mulhe- As duas guerras mundiais do século XX mos- res, mas nas mulheres, ainda que veniais, ti- traram que hecatombes geram, na contramão, ram a honra e nos homens não, ainda que situações para a mulher se lançar a pioneiris- mortais (Cartas de Vieira, v. 9, p. 12-200). mos ausentes em tempos de paz. Tal fato já ocorrera na guerra civil dos Farra- pos, cenário, por dez anos (1835-45), de Está aí o cerne de engenhosa maquinação ju- abrangente destruição e muita fome, o que in- dicial que até meado do século XX absolveu duziu um punhado de mulheres a, literalmente, muito uxoricida sob pretexto da “legítima defe- “pegar na pena” para denunciar essas atroci- sa da honra”, sedimentado que estava o autori- dades. A poeta cega Delfina Benigna da Cu- tarismo masculino, hegemônico no Brasil Colô- nha, em glosa critica o líder Bento Gonçalves: nia e Império. Maldições te sejam dadas / Bento infeliz, des- vairado, / No Brasil e em toda a parte / Seja teu Ausentes a imprensa e a cultura, consolidada nome odiado. A jornalista Maria Josefa Barreto estava a condição de total dependência femini- Pereira Pinto atirou “farpas aos farroupilhas” na. Vir a público, editar livro, nem pensar. A em seu jornal Belona irada contra os sectários primeira brasileira a fazê-lo foi a paulista Tere- de Momo. Já Nísia Floresta, nordestina residin- sa Orta, que em criança acompanhou para Lis- do em Porto Alegre, documentou a fartura das boa os pais enriquecidos no Brasil. Estudou e, chácaras circundantes, onde imperava “paz, na contramão da determinação paterna, casou abundância e a doce influência de um clima com o professor, acabando deserdada. Viúva, sadio” – riqueza que virou ruína e desolação 12 filhos e uma batalha judicial com o único descrita pela amiga Ana de Barandas ao la- irmão, em 1752 ousou editar um romance de mentar o ocaso de seu sítio natal Belmonte, nome quilométrico e fundo contestador/ próspera propriedade rural na periferia de Por- reivindicador, audácia que gerou retaliações to Alegre. para além de sua vida terrena, fazendo com www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 São denúncias de escritoras com coragem para inícios da República, motivando o templo positi- documentar em livros que viraram pioneiros de vista do Rio de Janeiro e o do Rio Grande do nossa literatura. E aqui cabe um detalhe: essas Sul, Estado que Júlio de Castilhos pretendeu quatro escritoras publicaram sem a então obri- industrializar. Tarefa para homem. A mulher, gatória autorização do marido. Isto porque ne- guindada à “rainha do lar”, devia zelar pelo ma- nhuma delas o possuía: Delfina era solteira, o rido, educar os filhos para o espaço externo e marido da jornalista sumira; Nísia Floresta en- as meninas para as prendas domésticas. Mas o viuvara e Ana de Barandas estava divorciada índice de 74% de analfabetismo, incompatível oficiosamente, passando a “cabeça de casal”. com a meta de industrialização, conclamou a mulher para o magistério, de remuneração Nísia foi a única que teve aprovação do marido aquém das necessidades do mantenedor. na 1ª edição de sua tradução reinterpretada da Grandes educadoras surgiram: Ana Aurora do feminista inglesa Mary Wollstonecraft – Direitos Amaral Lisboa, Stela e Aracy Gusmão (mãe e das mulheres e injustiças dos homens – obra filha), Honorina Figueiroa, Marinha Noronha, de capital importância para entender a escala- Antonieta Lisboa, Natércia Cunha Velloso, to- da do feminismo, incômoda aos olhos do con- das sul-rio-grandenses. Quantos nomes ilustres servador autoritarismo masculino da Porto Ale- a apor, em termos de território nacional? gre, naquele advento farroupilha. Nísia contes- ta a perene condição de dependência feminina, Cabe aqui rever o papel da Princesa Isabel, refuta a “tese” da superioridade masculina a apresentada como beata desligada da realida- de. Quando casou, libertou escravos seus; partir de seu crânio maior, e reivindica dois di- mais tarde, aderiu à camélia branca, símbolo reitos basilares da mulher: acesso ao estudo e abolicionista, acobertando escravos na Quinta direito ao trabalho remunerado. Estudo, a famí- da Boa Vista e no palácio Imperial de Petrópo- lia de Nísia lhe proporcionou, e a precoce viu- lis; em 1888, assinou a Lei Áurea que lhe valeu vez a fez “cabeça de casal” e mantenedora dos condecoração papal da Rosa de Ouro. Pouco filhos, tarefa que exerceu com sua intelectuali- conhecido é o documento de 11.8.1889, projeto dade, ao abrir escola de primeiras letras. que a herdeira do trono apresentaria por ocasi- A Escola Normal surgiu no Rio Grande do Sul ão da abertura do ano legislativo, a 20.11.1889: em 1869. Nela Luciana de Abreu, enjeitada na indenizar os ex-escravos com terras financia- Roda dos Expostos, aprimorou seus talentos e das pelo Banco Mauá e, o que interessa neste se fez professora habilidosa na condução de trabalho, instituir o sufrágio feminino como for- sua aula repleta de alunos. Uma delas, Andra- ma de “libertar as mulheres dos grilhões do ca- dina de Oliveira, deixou testemunho da meto- tiveiro doméstico”. Argumentava: “Se a mulher dologia usada: competição via estímulo e atri- pode reinar, também pode votar!” Mas, cinco buição de novas tarefas aos mais capazes! E dias antes da fala no Legislativo, os militares da tribuna da Sociedade Partenon Literário, deram golpe, proclamando a República! (Rev. que reuniu uma centena de intelectuais brasilei- Nossa História, p. 68-74). ros, Luciana de Abreu, cinco décadas após Ní- Exilada a Princesa, o voto feminino amargou sia Floresta, dá testemunho acerca da questio- décadas até que a advogada e ativista Bertha nada (in)capacidade feminina. Afirma: “Meninos Lutz abraçasse a causa. Feminista contunden- e meninas aprendem por igual; inteligência e te, em 1919 criou a Liga de Emancipação Inte- aprendizado são uma questão de oportunidade, lectual da Mulher, embrião da Federação Brasi- não de sexo.” leira pelo Progresso Feminino, de 1922, ambas O francesismo cultural ponteou ao longo do Im- cooptando feministas de vários Estados na luta pério, acolhendo a língua francesa no cotidiano pela conscientização da causa sufragista. Dez da corte. O Positivismo comtiano imperou nos anos mais tarde, a 24.2.1932, Getúlio Vargas decretou o voto feminino, exercido por poucas www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 poucas eleitoras em 1933 e postergado pela ra, só lhe restou o exílio. Em companhia da fi- ditadura do Estado Novo. Eleição pra valer, só lha, a poeta Lola de Oliveira, encetou uma tou- em 1946 – ressalvada a pioneira exceção do rnée cultural de cinco anos, peregrinando por Rio Grande do Norte, onde o governador Juve- Montevidéu, Buenos Aires, Paraguai e Mato nal Lamartine decretou o voto feminino em Grosso, para então se fixar em S. Paulo, terra 1927, ressaltando-se o nome de Alzira Teixeira dos ancestrais Andradas. Aí faleceu sem o uso Soriano, batalhadora pela causa e futura verea- da razão, e sem ver sinuosas marchas e con- dora eleita. tramarchas como o concubinato, o desquite, a Ao separar Igreja de Estado, a República abriu criticada alternativa de “casamento no Uruguai” caminhos a favor dos direitos da mulher. A ca- e outras nuances legais, que retardaram o di- da dois ou três anos algum deputado apresen- vórcio até 1978. tava no Congresso novo projeto divorcista co- Estavam, pois, lançados os quatro pilares bási- mo solução para casamentos insustentáveis. cos do feminismo: direito ao estudo, ao traba- Até então, só a Igreja podia conceder divórcio, lho remunerado, ao voto e ao divórcio, cabe um o que fazia com muita parcimônia e sem desfa- olhar retroativo sobre o papel da mulher na so- zer o vínculo conjugal. ciedade colonial: a branca, cerceada “Meninos e me- por severos preceitos religiosos; a indígena e afro, sem as amarras et- Em 1912, há um século por- ninas aprendem no-moralistas e integrantes, como tanto, houve a inserção de uma mulher, Andradina de por igual; inteli- escravas, da construção econômica do país. Imperaram por séculos, Andrade e Oliveira, a brilhan- gência e apren- plantando valioso legado: no cotidia- te ex-aluna de Luciana de Abreu – lembra o leitor? No- dizado são uma no familiar, na culinária, na vesti- menta, em suaves canções de ninar, tável intelectual e jornalista questão de na medicina popular, em preceitos porto-alegrense, no ensaio religiosos traduzidos em populares Divórcio?, seu 11º livro, ad- oportunidade, crenças e crendices, base da axiolo- voga o divórcio “pleno”, não de sexo.” gia brasileira... aquele com direito a novo A transmigração real, em 1808, des- casamento. Nos 27 capítulos locou para o Brasil o centro administrativo, de- do livro, desnuda as mazelas da sociedade ain- correndo a abertura dos portos, medidas de sa- da órfã de leis trabalhistas, saúde precária, ins- neamento e de urbanização, a criação de cen- trução incipiente e ausência de preparo profis- tros de ciência como a Faculdade de Medicina, sional, e a mulher prisioneira de uma intrincada vetada à mulher... rede de ignorância, crendices e preconceitos que a amordaçavam dentro de um conformis- A presença de imigrantes (1818 no Rio e 1824 mo de religiosa subserviência e resignação. Di- no Sul) trouxe a economia mini fundiária, exito- vórcio?, reeditado em 2007 pela Academia Lite- sa porque movida por mão de obra livre. A imi- rária Feminina do Rio Grande do Sul, é leitura grante alemã, além das tarefas de casa, traba- proveitosa para quem deseja submergir nos lhou na lavoura, no artesanato, no comércio, na meandros sócio moralistas da primeira Repúbli- navegação. Alfabetização e aprendizado profis- ca. sional, a comunidade assumiu, criando associ- ações religiosas, recreativas e profissionais. A A audácia da autora comprometeu sua liberda- imprensa passou a informar, também, em lín- de. Cerceada por tríplice e radical oposição gua alemã. (Igreja, Positivismo e Maçonaria) reforçada por férreos preconceitos da sociedade conservado- www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Na década de 1870, imigrantes italianos labuta- e jardins de infância permitem à mãe cursar Fa- ram nos cafezais paulistas e progrediram nos culdade e se inserir no mercado de trabalho, minifúndios do sul. Polacos foram centrados condicionante de sua realização pessoal. Mani- em minifúndios do Paraná. Inserida na pers- festações ostensivas como desfiles com dísti- pectiva de crescimento econômico, a mulher cos direcionados e pouco sonoros panelaços trabalhava de sol a sol. Josefine Wiersch mais de contestação, apelos de “sutiã fora” e a im- tarde documentou sobre o exaustivo trabalho prensa reivindicativa, incitam para o feminismo na nova pátria, a garantir prosperidade. engajado. Ao correr das décadas, as diferentes etnias Na década de 70, os Mestrados aprofundaram fundem valores. De capital importância na bus- conhecimentos e ampliaram preparo profissio- ca dos direitos femininos, foi a gradativa esca- nal, desamordaçando seculares anseios de lada no estudo e no preparo profissional. Esco- frustrada realização intelectual. Doutorados las de primeiras letras proliferaram pelas colô- brotaram dentro e fora do país. 1975-1985, a nias de imigrantes. Escolas Normais, urbanas, “Década da Mulher”, monitorou reivindicação prepararam mestres desde o Império, em esca- de “igual salário para igual tarefa”, decorrendo la insuficiente. A indústria em implantação abre mudanças radicais em seculares privilégios do espaço para operárias. As guerras mundiais, a homem face às novas conquistas da mulher. par da destruição, induziram mulheres para inu- No início de 70, Hellê Vellozo traz do México a sitados afazeres, escancarando a necessidade Associação de Jornalistas e Escritoras do Bra- de novos preparos profissionais. sil – iniciativa paralela de valorização feminina, Muitos nomes femininos se inseriram em cam- como vinha sendo, desde 1943, a Academia panhas e laboriosas buscas de aperfeiçoamen- Literária Feminina RS, idealizada pela ativista to dos direitos da mulher. Delminda Silveira e Lydia Moschetti e seguida de outras Academi- seu ruidoso grupo de S. Catarina, faziam-se as: em Natal (1958), Goiás, idealizada por Ro- presentes em manifestações pro abolição; a sarita Fleury (1969), Jundiaí, S. Paulo (1971) e, feminista de Camaquã, no RS, Ana Cesar Ro- na década de 80, em Belo Horizonte, Santos e drigues, acompanhou os deslocamentos do Paraná. marido militar. No Norte, trabalhou em Rádios; Pós-Doutorados, hoje em profusão, alargam em Recife fundou e dirigiu a Legião da Mulher horizontes. Pesquisas nos diferentes ramos Brasileira, com cursos profissionais para meni- profissionais oportunizam descobertas e impul- nas. sionam para novos empreendimentos. A partir da década de 1940 multiplicam-se Fa- A política legislativa é buscada, ainda, com cer- culdades buscadas pelo sexo feminino: Serviço ta resistência, mas decorre em meio a laborio- Social, Letras, Pedagogia, História, Psicolo- sos méritos. Concursos públicos acessam para gia... Aos poucos a mulher se aventura em Fa- novos cargos, exercidos com competência e culdades de administração, técnicas e mesmo mérito, independente de idade, sexo e cor. eletrônicas. No cotidiano, se desdobra: atende o lar, exerce a profissão e conjuga com ativida- Desde as décadas finais do século XX, literatas de paralela. A ginecologista Noemy Valle Ro- e pesquisadoras de gênero aprofundam temáti- cha aproveitou viagens profissionais para cole- cas. Zahidé Muzart em 1996 criou a Editora ta de valioso folclore do peão dos Pampas, en- Mulheres, reabilitando a memória de centenas quanto, na atualidade, Sylvia Helena Tocantins de vozes femininas que o tempo apagou. Cons- levanta no Pará o folclore do caboclo amazôni- tância Lima Duarte se doutorou sobre a obra de Nísia Floresta e reeditou a maioria dos livros co. A pílula, na década de 1960, descortinou dessa nordestina pioneira, precursora do femi- liberdade sexual e limitação da prole. Creches nismo. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Raquel de Queiroz, Nélida Piñon, Ligia Fagun- des Telles e Ana Maria Machado deram o to- que feminino na Academia Brasileira de Letras; Maria Dinorah, Lya Luft, Patrícia Bins e Jane Tutikian, patronas da Feira do Livro há 57 anos evento internacional em Porto Alegre. Tantos nomes, a projetar as letras: Cecília Meireles, Lúcia Miguel Pereira, Olga Savary... Me per- doem todas as não citadas aqui. Na medida do possível, imortalizo-as em meu Dicionário de Mulheres. Fontes consultadas Arquivo da Cúria Metropolitana de Porto Alegre, Li- vros de Batismo, Casamento e Óbito BARMAN, Roderick. Princesa Isabel. S. Paulo: Unesp, 2001 FLORES, Hilda Agnes Hübner. Dicionário de Mu- lheres. Florianópolis: Ed. Mulheres, 2011 (2ª ed.). _____. Sociedade: preconceitos e conquistas. Porto Hilda Hübner Flores, professora da PUCRS apo- Alegre: Nova Dimensão, 1989 sentada, é historiadora. Dentre seus 18 livros, publi- cou: Sociedade: preconceitos e conquistas _____. Alemães na Guerra dos Farrapos. Porto Ale- (mulheres na Guerra dos Farrapos), Mulheres na gre, EdiPucrs, 2008 Guerra do Paraguai/2010 (ensaio); Dicionário de MUZART, Zahidé L. Escritoras brasileiras do séc. Mulheres, 2ª ed. 2011 (3.000 verbetes de autoras XIX. Florianópolis, v. I 1999, v. II 2004, v. III 2009 brasileiras). Reeditou, com estudo biográfico: O Ra- malhete de Ana de Barandas, Divórcio? de Andradi- Revista Nossa História, ano 3, nº 31, maio/2006, p. na de Oliveira e Autobiografia de Lydia Moschetti. 68-74 Tema imigratório: Canção dos imigrantes, Alemães na Guerra dos Farrapos, Aspectos da Revolução de 1893 e História da imigração alemã no Rio Grande do Sul - todos ensaios. Traduziu: Memórias de um imigrante boêmio, Memórias de Brummer, O Doutor Maragato, S. Clara na Revolução Federalista. Muitos nomes femini- Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Goiâ- nos se inseriram em nia e de S. Luiz Gonzaga, da AJEB/RS, por três ve- campanhas e laborio- zes presidiu a Academia Literária Feminina RS e sas buscas de aperfei- está na 5ª presidência do Círculo de Pesquisas Lite- rárias RS – todas instituições com publicação de çoamento dos direitos antologia anual. da mulher. E-mail: yflores@terra.com.br www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Contra Mundum Por Helena Barbagelata A aurora insiste em romper a aldraba negra do horizonte, enquanto a paisagem vem de leve cantar inútil aos corpos; chuvas de oiro pousadas a braços de ninguém, a luz que passa rasteira e censurada na fleuma das horas; arrastam-se os ódios enfarpelados de cansaço, em cortejo solene por entre o dia, sobre-humanos na barbárie do intelecto; desaprendem-se as emoções à sombra da terra, coroa-se a tirania algébrica das imitações, e a palavra é uma arma animal; há uma clausura em que se ouve chamar de amor à lascívia, onde a vaidade em cada boca enroupou as virtudes de agravos, e o sentir se fez proibido; há uma concupiscência que vem estéril ladear-me a alma como um grifo, mas aqui o sentimento nasce ainda branco e livre na ilesa parecença das pombas; a alma aqui ainda cala silente o bulício sibilino e vão de desejos, e no que resta de mim expira o mundo, mendigado em ânsias indefessas de silêncio; bem-amada solidão, há em ti um jardim onde se aprende a sapiência poética das coisas, e em último espanto se inspira o perfume íntimo e dolente das rosas; a alma ali ainda canta às estrelas, e não há manhã que caminhe indiferente nos seus pés de prata. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 CICLOS servem, para desinquietarem, despertarem) cumprindo seu papel, mas também foram anjos que abençoaram, braços e abraços repletos de Por Isabel C S Vargas ternura e de alegria com os balanços das crian- ças que sustentou fortemente em todos os ve- rões quando alegres brincavam ao redor, pen- duravam cadeiras ou simples cordas para se Foi no ano de 1986 que um pequeno pi- balançarem ou, ainda, quando com suas per- nheiro foi comprado e plantado em um peque- nas frágeis tentavam nos braços subirem para no jardim em uma casa de praia. ver o mundo mais além. A princípio não havia exigência nenhuma, Estes mesmos braços carregaram pois era muito novinho. Não tinha que fazer na- pacotes e luzes que alegraram e iluminaram da. Nem dar sombra nem abrigar pássaros, muitos Natais. outros animais nem pessoas. Apesar de não ser mais criança, de Como o funcionamento de todo ser em ter assumido proporções de um gigante, a dúvi- desenvolvimento, a princípio, parece ser o mes- da, o questionamento (que é a mola propulsora mo, só tinha que crescer descobrir o mundo, de quem não se conforma com as frases feitas, deixar-se descobrir pelos outros, experimentar os cenários estanques, os sentimentos enqua- possibilidades, encantar com as descobertas drados em moldes pré-determinados e com o que abrem inúmeras possibilidades a serem futuro sendo resultado de uma imutável opera- vivenciadas, mas que ao serem escolhidas, de ção matemática) começaram a assaltar, pois o imediato, excluem outras. Não deveria ser as- fato de crescer demais começou a inquietar, a sim, pois o sol não exclui a lua nem as estrelas, perturbar e a gerar desconforto. o dia não exclui a noite e ambos aceitam a chu- É necessário ter o olhar bem mais va e os ventos, fugindo da rotina e aceitando as além da linha do horizonte, querendo sempre mudanças que com eles advêm. Generosa- transpor barreiras, desafiando o já dito e questi- mente dividem espaços, olhares, encantamen- onando o costume, a norma, o construído, o tos daqueles que tem olhos de ver, coração à sentido (nas entrelinhas, no visível e no não di- flor da pele e alma cigana que é capaz de estar to, em outros dizeres que permeiam o caminho em todo lugar, que não tem território próprio e que podem se constituir em novos saberes) porque todo território é seu. criando novos desafios e novos espaços de ex- Foi possível crescer em várias direções; perimentação. Este percurso pode mostrar o para o alto buscando o céu, para o lado espa- medo, instalar a dúvida do caminho a ser trilha- lhando galhos que são braços, que protegem e do, desejando retornar a territórios conhecidos, abraçam de maneira carinhosa e acolhedora, identificados que apresentam características de para baixo fincando fortes raízes que se firmam normalidade, de estabilidade, de segurança, dando suporte a todo aquilo que está acima da numa total contradição entre a segurança do terra e abaixo do céu (ou além dele), à vista conhecido e as inúmeras perspectivas do inex- dos olhos, ao alcance do olfato apurado capaz plorado. de distinguir cheiro de chuva molhada, de fruto A experimentação, o desafio do novo maduro, de flor desabrochando, de ouvir o can-significa a janela que mostra novos horizontes to do sabiá, do bem-te-vi e do beija-flor que pla- e o caminho para experimentar novos modos na no ar, leve como os pensamentos inocentes de vida, que poderão até não se constituírem e puros das crianças. naquilo que é esperado, ou no vislumbrado, Toda a existência cresceu dentro daquilo mas que servirão para isto mesmo, mostrar o que era esperado, proporcionando segurança, que vale a pena. proteção, aconchego, alegria, sombra sob a Nesta etapa do percurso surgem as qual repousaram corpos cansados e mentes dúvidas, as incertezas, face à internalização sonhadoras que ali, a seus pés arquitetaram dos conceitos que constituíram o sujeito e a idéias, sonhos que ganharam o mundo em ca- vontade de arriscar-se para descobrir novos da tentativa desafiadora ou conquista obtida. ensinamentos, novas finalidades, não ignoran- Os espinhos cutucaram (é para isto que do durante a trajetória a presença constante de um superego controlador ou a culpa por www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 abandonar velhos paradigmas que representam ensinamentos aprendidos como dogmas, mas que nos dias de hoje já não possuem o mesmo significado. Afinal crianças crescem, adultos envelhecem a vida muda, pessoas e os espaços são modificados. Todos morrem só que em momentos diferentes, cada um a seu tempo, quando seu ciclo termina Em virtude disto nesta trajetória espaço-tempo- de ser e não ser, de subir e chegar às nuvens ao mesmo tempo em que aprofunda raízes, de crescer e se deixar podar, de viver e de morrer, de ser árvore frondosa ou rio que corre e não deita raízes, nos tornamos capazes de (mesmo com o coração partido, a seiva a sangrar) deixar-se cortar para em cada labareda da chama da vida ou do fogo ardente e gélido da morte que acompanha o homem por toda a eternidade , esquentar os corações, virar fumaça que sobe para voltar em gotas de chuva que regam as sementes que tornarão a brotar num ciclo interminável de vida, doação, morte e re- nascimento. Enquanto isto, outro tipo de raiz, não aquela plantada no solo, mas a que planta- mos no coração daqueles que servimos permanece viva, nutrindo o espírito que se eleva por entre as nuvens, as quais agora vemos de outra dimensão. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 O e-mail na comunicação intensidade daquilo que prazerosamente pode- ríamos ter vivido!' Por Joana Rolim 'Em suas mensagens ou palavras que poucas vezes trocamos, encontro um exemplo de em- polgação e vivacidade...Abraço! G.E Escutando, numa FM, uma música, ela e eu 'Liberdade, lindo!!! Neste dia de meu aniversá- nos tornamos um. Era uma voz, distante, e eu, rio, o que eu mais aprecio e que mais valorizo! inteira. Vc adivinhou,?!?! Sei que queremos ser aprisio- "Quando te perdi, eu me perdi..." nados pela sedução daquele que não escravi- Foram os versos que me ficaram. É revirar uma za, demonstrando sua insegurança em nos ter. vida. Agora, escrevendo, ainda a tenho. Não sei Mas, sim, aprisionadamente seduzidos pela ca- o cantor nem qual a música. Mas ele ainda can- pacidade do outro emanar aromas de verdadei- ta em minha emoção as palavras que fizeram a ro amor, que combinam com toda a integração de um passado com aquele instante. "decoração": atitudes, discursos, gestos, fala- Os e-mails também são ricos de emoção em res, pensares e silêncios...' (I.F.) comunicação. Recebi um de um amigo ('expert' Eu, você e liberdade: em música especiais) uma que me fez reviver 'É tempo de novo mitos, novos arquétipos. Nós momentos meus. já somos feito da história de 3.000 anos, quanta Linda e verdadeira a música. carga pra carregarmos, não é? A liberdade en- Acho que já estamos nesta. tra aí...' (C.) Vamos andar devagar porque ......já tivemos Esta página foi comunicação na liberdade - mis- pressa. térios que somos para nós mesmos. É a vida Vamos aproveitar a calma da vida.....que nós na emoção. É coração que fala, coração que merecemos. responde. Corpo que se manifesta. Tocando em frente Comunicação é vida. Comunicação, íntegra, ANDO DEVAGAR PORQUE JÁ TIVE PRES- revelada no momento em que se dá. Somente. SA.... Mas revivida quando lembrada. Compartilho. 'Conta-se que, num dia qualquer, Almir Sater Eu, você e liberdade: estava em São Paulo para uma temporada e desceu do seu apartamento para tomar um ca- fezinho num mercado ali perto. Chegando ao destino, encontrou Renato Teixeira que o convi- dou para experimentar uma viola nova, que acabara de comprar. Enquanto tomavam café, Almir dedilhou a viola e soltou... "Ando deva- gar"...ao que Renato emendou ..."porque já tive pressa". Dizem que essa maravilha ficou pronta em 10 minutos. Um dia alguém perguntou ao Almir como essa música fora feita e ele respondeu: ─ Ela já estava pronta...Deus apenas esperou que eu e o Renato nos encontrássemos para mostrá-la pra gente.' Recebi, curti e enviei. Uma resposta muito sen- sível, mais um momento de comunicação na sua essência e de poesia na minha emoção me inundou de energia e alegria. 'Muito obrigado pela belíssima e significativa música...por acaso adoro e quase respiro esta música! Ela nos transporta para um momento de serenidade e saudável reflexão. Não se con- ta ou se mede a vida por horas, dias, me- ses...enfim, mede-se pela intensidade das oca- siões... A pressa atordoa a lucidez e abafa a www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Jesus Cristo Por José Cambinda Dala Suportou o deserto Venceu o diabo Mostrando coerência no comportamento Satanás desistiu Dele Foi recebido como um verdadeiro rei Apesar de ter negado o poder Traído foi crucificado Morreu como Grande Herói Sepultado como um qualquer Ressuscitou e subiu ao céu Sentado junto com o Pai Esperam receber quem de nós se comportar bem. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Creio Por José Carlos de Paiva Bruno Creio num Homem projeto, muito além de objeto... Em vida, repleto: em morte, discreto... Bilhete secreto! Creio atômica avaliação múltipla, astúcia de muitos pontos... Lusos do começo, novos baianos em apreço... Sou tamanho e momento, alegria e lamento; movimento... Cepo sem acento, acepipe d’alquimia convento... Simples convenção; forma da fórmica, sofisticação... Creio em plantas e cores, diversidades amores! Creio em delicados licores, pétalas em flores... Amálgama em geração, fusório embriagada explosão... Creio firula efeito folhetim, tintim por tintim... Aventura pandora sim, assim leque de Berlim! Assanhadas palavras, saracoteando estradas, jornadas... Jornais de um tempo inteiro, sagas gorjetas do feiticeiro... Creio druida truques de vida, versus araques do fim... Assim arautos de um novo Jardim, coloridas maçãs de mim! Creio no improviso, mímica emergência do aviso... Clemência da amazona, fogo de lua, química nua... Creio num ir e voltar, quase criança engatinhar... Passada que mostra pegada, marca de caminhar! Sendo sempre começo, sou o fim que mereço... Creio na estação do preço: se subo ou se desço... Aroma de um lado belo, lençol apito que revelo... Com ela me atrelo, creio não no fim, trem de jasmim! Imanentes versos da imaginação, linhas da liberdade, Beijo você beldade, curvas loucuras de paixão e amizade... Existência do que simplesmente creio: começo, fim e meio... Devaneio... www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Olhando as estrelas Por José Hilton Rosa Saio lá fora vejo as estrelas a noite é calma vem o frio da noite a casinha fica distante o caminho tem poeira quando tem pressa vai a galope Lá dentro ainda há o amor é simples e sem luxo mas, amor há o alimento está no fogão No jardim ainda há flor no inverno acende fogueira a segunda-feira tem trabalho com a enxada levo a marmita O almoço é na sombra da árvore água na cabaça café é na garrafa o cigarro é de palha. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 COSMOPOLITA Por Juan Barreto Aquela música me pegou pelos cabelos como os homens das cavernas faziam com suas mulheres e me arrastou por dias, por anos atrás. A vida dá muitos sinais. Tilintares marcam o compasso. Sou seu ao passo que acho sua pessoa. Acho que a gente pode tudo, pode ser tudo, só não pode ser podre, porque é isso que nos difere dos mortos, é isso que nos difere do lixo, da merda. Entende? O ser humano é 70 - 75% composto de água e nem assim ele consegue ser transparente. Eu faço parte desse inferno que reclamo. Vai fumar pedra, papel ou tesoura? Vai cheirar e vai chorar! Quer apostar? Apostar não. É ilegal! Dedos são os chifres das mãos! Só importa aquilo que de alguma forma dá forma e te entorta por dentro, mas antes de se apaixonar verifique se o mesmo encontra-se nesse andar. PARtir é ímpar. Sempre que eu penso em possibilidades aparece alguma coisa que parecia impossível. A verdade é que a vida é um eterno 'colar colou' Não ganha o mais forte, ganha quem chegar primeiro. Minhas impressões sobre as coisas deixo onde puder Minhas impressões digitais eu deixo em quem deixar principalmente nas pessoas 'nhac'. Tsc,tsc,tsc e outras onomatopeias. Patrocine um raciocínio. Tira sarro porque o outro usa boneca inflável, e você que namora à distância? Quem está mais longe da realidade desejada? Essas frustrações brandas... Por isso os bares. E mais... Por isso as bebidas. “-Garçom! -Pra beber, alguma coisa, Sr.? -Um 'sorry'sal efervescente." www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Reluzente Por Sandra Nascimento Cansado e triste o meu coração pausou Duas luzes diferentes despontaram então: uma para a vida outra para a morte Agora nada mais revelava a solidão Nem seus olhos refletiam as paisagens do mundo Só as palavras invadiam os meus sentidos E o mundo girou a mim e em torno da outra luz constante e sonsa Sem desculpa o dia não anoiteceu, percebi Apenas se manteve eterno para os que não precisam piscar os olhos diante de luzes radiantes Mas esse não era o meu caso Sem saída, sosseguei meu pensamento assustado E recostado na sombra de tudo o que acreditou ele dormiu e sonhou Sonhou reluzente www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 FOLIA Por Regina Costa Joguei pro alto em sete tempos, pensamento, Tudo muda, tudo volta, sentimento A gente canta Vira o tempo, muda o mês Te encontrei mais uma vez Em sete tempos, pensamento, Estou de bem com o meu amor, Qu’est-ce qu’il dit bem-te-vi? Estou te amando à beira-mar Patati patatiti O sol já vai raiar Em sete tempos, pensamento Sopra um tema, portamento, Anuncia o realejo que amanhã tem mais calor Qu’est-ce qu’il dit bem-te-vi? A gente canta pra encontrar Vem pra cá chega bem mais A gente quer é mais que mais Cirandar nesta cantiga Volta e meia vamos dar Te encontrei mais uma vez Meu bem, te vi sonhar Nosso abraço é na medida Nosso amor é sem rotina Patati patatiti Nosso papo é noite e dia Na folia das palavras que se soltam afinadas Chove esfria brilha o sol Pelo ar... Sempre és meu par Qu’est-ce qu’il dit bem-te-vi? Sete tempos, pensamento Na folia das palavras Te encontrei de toda vez Patati patatiti Estamos superafinados Chove esfria brilha o sol Pelo ar... Sempre és meu par www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Minha Flor Por Karine Alves Ribeiro Flor, divina flor de canteiro. Tão simples, tão suave, de beleza congênita e ricas hastes. Na sua intermitência juvenil, envereda para o lado do sol, sem medo, nem mácula... Amanhece sempre assim: Luminosa. De encantos bravios, é torrente e mimosa, é grande e delicada, admirável e tênue, viçosa e clara... Flor que instiga meus viços, meus mimos, meus clarins. Ficaria tão linda num vaso de jade, sobre uma mesa em meu quarto... Mas é absolutamente bela, somente no jardim! Livre e togada, Vênus, adorada por anjinhos de pedra num chafariz... A última purga, o último sol, a última nota de Mozart, a última gota no atol... O beijo que ela não me deu, me abriga, na primavera que nunca acaba, no abraço que não deslaça, das suas pétalas a me despir. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 A fila se repetia com um detalhe, o número de tapas ia aumentando. Como cada um cometera seu próprio erro, ao creditar ao próximo sua falha, Por Lariel Frota as bofetadas aumentavam. A cada cobrança uma desculpa e uma, duas, três bofetadas no rosto do companheiro da fila. Achavam que Diante do senhor justiceiro, a fila quando chegasse a vez do rapaz abobalhado, aguardava . Eram tempos de prestação de con- teriam se livrado do castigo, pois o senhor jus- tas e todos ali acreditavam conhecer o nível ticeiro jamais retornava ao início do julgamen- de sua exigência. to. Primeiro em silêncio absoluto ele sem- (…) pre anotava os feitos positivos de cada um, depois iniciava a análise dos erros. Era o mo- -Então você confirma que é culpado pe- mento em que a maioria se apavorava. los erros de todos a sua frente? Cada um sabia da própria responsabili- -Não senhor. dade, com olhos grudados ao chão pensavam -Como não, se não tem ninguém atrás silenciosamente na fala de defesa preparada de você a quem responsabilizar como fizeram que era acima de tudo, uma tentativa de esca- os seus companheiros? par do castigo que não conheciam, mas temi- am. -Desculpe senhor! Concluíam em suas limitações: “Se o Dizendo isso se esbofeteou fortemente, grande senhor era benévolo ao extremo nas provocando o riso de todos. suas ações, deveria ser proporcionalmente ri- -Não entendi, porque você se deu essa goroso no castigo aplicado aos infratores”. bofetada? Naquele dia o clima estava mais tenso, a -Pelo erro que cometi. As outras bofeta- fila era formada pelas pessoas mais inteligen- das estão ardendo, mas tenho certeza de que tes do lugar. Tão astutos que haviam progra- só sou culpado pelo meu erro. mado uma resposta coletiva, caso sentissem (…) que o castigo seria duro demais. A exceção era o rapaz no último lugar, um gorducho, Depois de anos de andanças o senhor usando óculos de hastes escuras de lentes justiceiro sorriu. Tirou o manto que usava e co- muito grossas, meias verdes e pés com os sa- locou sobre os ombros daquele jovem de rosto patos trocados, que lhe acentuavam o ar abo- inchado. balhado. Saíram caminhando como velhos ami- Não era dotado de recursos intelectuais, gos. Atônitos nenhum dos espertos conseguia por isso ninguém entendia sua presença entender o que havia acontecido. Um jato de equivocada, aquela não era a fila dos limitados, luz resgatou aqueles dois vultos lá adiante na mas se nada nele os ameaçava, deixaram-no estrada. Dizem que a partir daquele dia, ele ali, atado a sua precariedade intelectual. vive em festa num reino distante, onde a felici- dade e a justiça reinam com plenitude. Diante da pergunta incisiva, o primeiro da fila, como ficara combinado, diz em voz al- Saíram caminhando como velhos ami- ta tentando dar as palavras, ares de credibilida- gos. Atônitos ninguém da fila de esper- de: tos entendeu o que havia acontecido. Um jato de luz resgatou os dois vultos lá adiante na -Desculpe senhor, definitivamente a cul- estrada. Dizem que a partir daquele dia, o jo- pa não foi minha. vem de ar abobalhado, vive em festa num rei- -Então aponte o causador do seu erro. no distante, onde a felicidade, a justiça e a Conforme fora acertado previamente, se paz, reinam em plenitude, enquanto por aqui, vira para o sujeito atrás de si e lhe dá um tapa milhares de pessoas espertas continuam se na cara, deixando a marca dos dedos estampa- esbofeteando sem entender nada! da em vermelho dolorido. Assim de um em um a mesma resposta www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 PARTICIPAÇÃO NO VARAL • Em setembro tema Nossa Infância – receberemos textos até 10 de agosto (se atingirmos um número ideal de pá- ginas o texto pode ser reservado para uma próxima edição); • E em novembro, aniversário do Varal! A revista Varal do Brasil completará 3 anos e conta com você para festejar! O tema será livre e você pode se inscre- ver até 10 de outubro (as inscrições po- dem ser encerradas antes, dependendo do número de participantes). Você pode escrever na forma que desejar: verso ou prosa! Haicai? Trova? Poema? Crô- nica? Conto? Miniconto? Soneto? Que ou- tras mais você faz? Mostre pra gente! Traga sua poesia, sua visão da vida, seus sonhos, para o VARAL! Venha conosco! Varal do Brasil: Literário, sem frescuras! FAÇA SUA ESTA CAUSA! ADOTAR É ANIMAL AJUDANIMAL, GRUPO DE AJUDA E AMPARO AOS ANIMAIS DO ABC www.ajudanimal.org.br www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 CONVERSANDO COM CLARA MACHADO Vou iniciar esse texto falando um pouco das ra ele não terminar com ela. Mas o homem carências do ser humano, pois se somos seres também sente a pressão, pois acaba achando, sociais e dependemos do outro quando nasce- pelo que vê ao redor de si, que precisa ser o mos para nossa sobrevivência. provedor e o que direciona a relação e que ela O homem é um ser que depende totalmente de deve ser submetida a ele e a seus desejos. E outra pessoa quando ele nasce para a sua so- hoje , mesmo com a atitude mais moderna de brevivência, isso automaticamente já fica intro- homens e mulheres, existindo um reverso des- jetado no inconsciente.: a necessidade de ter ta situação relacional, a pressão acaba sendo quem lhe dê tudo para que possa sobreviver no para ambos muito grande e a obrigatoriedade mundo. Dentro dele ele sabe: preciso de ajuda do sim como resposta acaba aparecendo. Por- para me alimentar, preciso que me deem cari- que ao falar a pequena palavra “não”, algo se nho, atenção, afeto, etc. perderá nesta história. Agora você imagine se, quando bebê automati- Depois esse (a) jovem se casa, e novamente camente já se tem esse registro, imagine o que sente quenão se pode dizer não, porque agora vai acontecendo quando vai se desenvolvendo, esta casado (a), os acordos de obediência, de- criança, adolescente, adulto e idoso, veres, fidelidades são muito fortes e muitas ve- A criança vai para escola para socializar, fazer zes, mesmo quando se percebe que o casa- amigos e aprende que precisa ser boazinha, e mento foi um erro, que casou com a pessoa falar sim para os coleguinhas para ter amigos, errada, que a pessoa se transformou depois do senão ela fica só . casamento, pensa não se pode dizer não, não O adolescente, vive a época dos grupos e onde quero mais, foi um equivoco! As pessoas fi- sente a necessidade de falar sim para tudo o cam , se suportam, se maltratam, adoecem que o líder do grupo determina para não ser mas não conseguem dizer não. excluído, pois para o adolescente o mais impor- E depois vem os filhos ai a questão fica mais tante é ter uma "galera" que ele se identifique e complicada: como vou dizer não, agora tenho que o aceite. filhos e tudo fica mais pesado com o peso da Depois esse ser humano se torna adulto, quer responsabilidade. se relacionar, namorar. O sector feminino é ain- Não posso isso, não posso aquilo, não posso, da mais fragilizado pela necessidade do sim, não posso, não posso. e mais uma vez as pes- pois a moça aprende que precisa dizer sempre soas dizem " Eu não sei dizer Não" e vão so- sim para tudo o que o namorado determina pa- frendo, e os filhos vão sofrendo e vão se www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 multiplicando as tragédias no mundo, por falta de consciência e coragem de aprender a dizer NÃO. E veja só uma palavra tão pequena e tão simples e tão difícil de se dizer. NÃO. é muito mais fácil para as pessoas darem uma desculpa ai elas dizem:" Mais eu não sei dizer Não ninguém me ensinou eu nunca aprendi por isso eu sofro tanto hoje". E vamos caminhando mais um pouco na nossa evolução e chegamos ao idoso,. Que dificulda- de de falar não, pois eles dizem" se eu falar não eu vou ser abandonado em um abrigo para idoso, vou ficar só, meus filhos vão me abandonar, por isso eu não posso dizer não." E passa um pouco mais de tempo essa pessoa morre, e ai se percebe que ela veio ao mundo, passou por aqui e foi embora carregada de tantos medos de estar só e com tantas carências afetivas que a impediram de viver a vida de uma forma diferente se ela tivesse aprendido des- de cedo a dizer Não. E agora de uma forma solitária ela é enterrada, pois tem um ditado popular que diz assim, "Nascemos sós e morremos sós", então porque o Ser Humano tem tanta dificuldade em dizer não? Penso que esta na hora de darmos um salto quântico em nossa evolução e aprender a dizer não para tudo o que nos desagrada, nos humilha, nos maltrata. e dizer sim a tudo o que te dá o poder de Paz, de Liberdade e de Amor por você, mesmo, pois quanto mais você se amar, mais fortalecido você vai ficar, sua carência e sua solidão vão desaparecer, você perceberá que você pode ser uma ótima companhia para você mesmo e ai sim, você ira se transformar em um Ho- lofote de Luz e as pessoas vão querer estar naturalmente mais perto de você e você aprendeu a dar o seu grande passo na vida que é: EU APRENDI A DIZER NÃO. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Embaraço... Por Maria Socorro de Sousa Colapso calado em uma página branca Eu calo suprimindo a fala As letras embaraçadas calam Esperança caótica cativa em laços Silêncio… Marcas em fúrias cafonas Colírio cabível aos cegos Em branco cântaro prefiro ficar Surdo mudo ao rabiscar Conúbio crucial quase cadente Sórdido a uma sociedade vil Sem chance… Imutáveis robôs Cal calma ilusão sem calor Suspira cândido cansaço Papel branco… Que embaraço! Hachuras no coracão Por Varenka de Fátima Araújo Numa folha branca, linhas entrecruzadas sobrepostas bem devagar em riscos traços da mesma cor Falo apressada, rouca tão pouco agrada não te fiz cativeiro cem mil vezes te amei Numa folha branca Hachuras em meu coração De sangria sem vibração Silencio, dor sem fim. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 HIDROMAS SAGEM Por Nina de Lima Tépido vapor envolve o Box, displicente dispo as roupas suadas e empoeiradas e as atiro no cesto. Com elas também me dispo do cansaço e dos problemas. É tão suave o aroma que se eleva da água aromada pelos óleos e pelos sais perfumados que não resisto ao convite e mergulho com prazer. A espuma forma bolhas diáfanas e coloridas que eu sopro levemente. E sorrio qual criança, a criança que já fui, que ainda em mim reside e às vezes, por vergonha, impeço de aflorar. Lentamente minhas mãos mornas e ensaboadas vão percorrendo meu corpo e os fortes jatos de água me transmitem energia. Sinto-me então renovada, sem medos e sem incertezas. Somente a cabeça emerge da espuma relaxante. Leve, eu semiadormeço e os pensamentos libertos, não encontrando barreiras, voejam qual borboletas, livres e sem limites. Perdida a noção de tempo e a temperatura da água, um leve tremor no corpo indica o fim do relax. Aqui estou eu, sozinha. Eu e somente eu. Bendigo estes instantes de solidão benfazeja, de reencontro comigo. morno encontro da água com as marcas de meu corpo, sinais do tempo passado e muitos anos vividos, eu com ninguém divido. Estes momentos são meus. Meus, e de mais ninguém. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 do meu tédio Por Rafiki Zen a vida é negra e as nuvens carregadas de trovoada não me deixam provas do contrário. não falei da coruja-marrom construindo um ninho em cima da casa, só pra desmanchar todo o rancor do meu poema. AÇAÍ TRANSCENDENTAL Por Sandra Berg Açaí é uma cor que absorve A consistência de uma paixão Dá o tônus à fé de uma gente Que labuta contente e não chora em vão Uma gente que faz de sua lida Solidez, conciliação, Bebendo de tua cor o fervor cujo sabor Dá a vida roxa entonação É uma luz que norteia e seduz De o nosso cantar, inspiração, Eterna estação, açaí, tradição, Ressurgirá ao povir, criação. Somos um povo passageiro de uma dor Gemendo essa poesia Que transforma em dia a esperança Que nunca nos abandonou Não se perde em dar do que se tem Em abundância Porque é amor Natureza que dá a cultura substância www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Por Sheila Ferreira Kuno Maria Rita – Analista de Mainframe blemas. - Maria Rita, em primeiro lugar você é funcioná- ria desta empresa e não do Banco, portanto se Maria Rita é uma mulher com mais de 40 anos, estou lhe pedindo que venha até aqui, você pequena, loira, sorridente e introvertida. Não precisa vir. era feia, mas desprovida de vaidade, sua bele- - Já disse que não vou. za ficava escondida atrás dos óculos grandes, E desligou o telefone. de armação grossa e escura. Seu cabelo sem- Como já se aproximava o fim do expediente, pre preso em um rabo mal feito completava seu Julio optou por resolver este assunto no dia se- visual. guinte. Maria Rita trabalhava com computadores de Logo pela manhã, Julio recebeu uma ligação grande porte, os famosos mainframes, atual- de uma pessoa do Banco, relatando que Maria mente em desuso, mas mantidos por grandes Rita estava nas dependências do Banco e que empresas, principalmente Bancos. eles não precisavam mais dos serviços dela, Ela foi contratada por uma empresa de consul- conforme já haviam posicionado à empresa, e toria para atender um grande e conceituado que ela deveria se retirar. Banco, onde passaria a maior parte do tempo. Novamente Julio iniciou uma conversa com Ma- Em sua primeira semana de trabalho, foi-lhe ria Rita, que continuou irredutível e o acusou de apresentado detalhes do sistema com o qual estar atrapalhando o seu trabalho. ela iria trabalhar. Durante este tempo, ela sem- Sem alternativas, Julio foi até o Banco, conver- pre foi atenciosa e simpática. sar pessoalmente com Maria Rita e explicar-lhe Maria Rita passou vários meses trabalhando no a situação. Banco, tendo pouco contato com a empresa Depois de muita conversa, Maria Rita entendeu que a contratara. Ela gostou tanto do ambiente que deveria se retirar, mas primeiro se despe- de trabalho e de suas tarefas, que já se consi- diu do departamento inteiro, sentou-se e lenta- derava funcionária do Banco. Foi ai que come- mente arrumou suas coisas, comeu seu lanche çaram os problemas. pensativamente, enquanto Julio a esperava. Certo dia, o responsável pelos trabalhos do Quando ela levantou-se e decidiu ir embora, Banco ligou para o Julio, que era o gerente na Julio acreditou que o assunto estava resolvido. empresa de consultoria, dizendo que não preci- Caminharam em direção à saída do Banco. O sava mais dos serviços de Maria Rita. Diante prédio era rodeado por um lindo e grande jar- desta decisão, Julio ligou para ela. dim, cheio de árvores, lagos, trilhas para cami- - Boa tarde Maria Rita. nhada, um lugar realmente lindo. - Boa tarde. –Ela respondeu. Maria Rita não se dirigiu à portaria, pelo contrá- - Preciso que amanhã cedo você venha até a rio, começou a caminhar pelos jardins em silên- empresa para conversarmos. cio, enquanto Julio a chamava em vão. Mais - Desculpe-me, mas não posso, tenho muito uma vez, sem opção, ele resolveu acompanhá- trabalho para fazer. la durante a caminhada que durou quase uma Calmamente Julio lhe explicou. hora e só depois, Julio conseguiu encaminhá-la - Eu sei Maria Rita, mas já conversei com o à empresa a qual ela era funcionária. chefe do departamento ao qual você está pres- tando consultoria e ele te liberou, pois o que eu Ninguém nunca entendeu o motivo de tal com- tenho para lhe falar é importante e urgente. portamento e Maria Rita também nunca comen- - Não vou, tenho que terminar um trabalho. – tou sobre o ocorrido e assim a vida seguiu seu respondeu Maria Rita indignada. curso. Neste momento, Julio percebeu que teria pro- www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 MUSEU PARANOICO (mar, alma, lugar, reinar) quero ao mundo salino, voltar, como areia, espalhar meu destino, Por Roberto Armorizzi ser o dia brilhante, reinar, com razão, sem castelo, nem sino. Por aqui não se vê mais o mar, de querer, de molhar, aos meus pés, veio a mim um museu secular, como tumba do velho Ramsés, nesta hora eu não sinto areia, que outrora coçava meus dedos, num instante minh’alma falseia, como pólvora de mudos torpedos, que lugar infernal, silencio, onde quadros e almas se velam, não sou mais, e sem mar, sentencio, entre pós e as sanções que escalpelam, www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 INFORMAÇÕES SOBRE OS LIVROS DE JACQUELINE AISENMAN: coracional@gmail.com atendimento@designeditora.com.br www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 RUTE MIRANDA Sou uma eterna apaixonada por Artes, e venho dedicando-me ao assunto desde 1993 quando iniciei minhas primeiras pinturas. Em 2008, decidi aperfeiçoar no assunto, concluindo o curso em Ar- tes Plásticas pela Escola Pan-americana de Artes em São Paulo. COMO UM ALQUIMISTA, PERSEGUINDO O EQUILÍBRIO, TENTA TRANSFORMAR ELEMENTOS INCRUSTADOS, PERDIDOS, SOTERRADOS, EM ALGO PRECIOSO. TENTATIVAS DEVERAS ME PERMITEM ATRAVESSAR A BARREIRA DO INATINGÍ- VEL. DESPERTA O OCIOSO, DESAGREGA COMPOSIÇÕES, CAPTA E ISOLA ENERGI- AS, PROVOCA EXPLOSÕES. A ARTE SE REVELA.... JUVENTUDE: DIMENSÃO: SALA DE ARTE: DIMENSÃO: GUARDIÃ: DIMENSAO: 45x36cm - TÉCNICA: 34X23 cm - TÉCNICA: ÓLEO 34X23 cm - TÉCNICA: ÓLEO ACRÍLICO SOBRE TELA SOBRE PAPEL SOBRE PAPEL MOVIMENTOS I— DIMENSÃO: 23X30 cm - TÉCNICA: TEXTURA A LAPIS SOBRE PAPEL E COLAGEM www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 F4 Por Willian Lando Czeikoski Cada lágrima da mãe terra é tempestade Cheia de descaso e ódio do humano umbroso, Que em sua viagem ao sonho material doloroso Acaba com o sonho do amor de sua posteridade. Cada suspiro que evidencia sua fragilidade É um furacão hediondo de meu ato dispendioso Ou de nossa fome pelo capitalismo pomposo Que me tira o puro ar da antiga civilidade. Somos parasitas dividindo a mesma morte, Fazendo do verde, cinza incandescente, Expondo a biodiversidade a própria triste sorte. Somos uma massa manipulada e descontente, Pois vejo que o ser humano é tão forte, Que consegue frente à natureza fazer-se demente. hƩp://www.wildkick.com www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 É tudo que tenho Por Rozelene Furtado de Lima Vivo ao pé da montanha. Desperto com o cantar do galo e a passarinhada saudando, bom dia! O café perfumado me abraça gostoso. Ao som do riacho medito com os peixes. O barro me molda, eu moldo o barro. Então, agradeço mais uma manhã. Cato flores para enfeitar a casa, cheiro de refogado põe a mesa. A vida me perfuma e eu aspiro vida. Doce paladar das frutas recém colhidas. Sesta na rede embala o livre descansar. A tarde na companhia de livros. A forma me busca e eu busco a forma. Aventura, romance e muita poesia. No crepúsculo ir devagarzinho espiar o sol deitando na serra, ouvir o bater de asas de anjos, grilos e sapos em serenata. Os sinos soam e eu caminho, passeio na via láctea de mãos dadas com estrelas. Dentro da imagem da lua minha alma presa à tua. O vinho aquece o sangue e a vida. Do sorriso às risadas aliadas, O prazer esquenta a cama para o amor Fim noite, madrugada de chuva Orvalhada amanhece a luz. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 O ÚLTIMO BEIJO Por Antonio Fidelis Contenção de alegrias, tristezas nítidas, Dores da perda, holocausto d’alma, clausura de sentimentos, Um último e único beijo Um adeus súbito. Medo, pavor, tristezas e a dor... Como será difícil nunca mais te ver Dormir e acordar e saber que, nunca mais vou ter você Posso procurar em todos os lugares do universo E não te acharei Ter que conjugar-te só no passado Que meu presente passou. E só me restou lembranças. E muita saudade Às vezes, falei pouco eu te amo, Dei pouco carinho, a mínima atenção, Dei-te pouquíssimo de mim Só eu não percebi. Quanto eu perdi. Suspiros entalados ao ver-te assim Na horizontal. O calor do seu corpo cessou. Gélido esta seu rosto como esta o aperto do meu coração. Tocar-te e sentir sua pele dura Suas mãos sobrepostas unidas ao um terço. Nem mais um sopro de ar ficou, Acabou! O fim de uma historia. Um ponto final. E o seu existir apenas em minhas memórias. O beijo mais dolorido da minha existência É semelhante a um peito dilacerado. O beijo do adeus. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Particularidade, Universalidade e Singularidade: Até que ponto se diferenciam e entram em definindo conceitos conflito os interesses particulares de “uma classe” fundamentais para a Metodologia da Pesquisa social (no caso, a classe trabalhadora, representada em Ciências Sociais pelo Partido dos Trabalhadores) com os de outros segmentos sociais, como as classes médias e altas (as elites)? E em quais momentos é preciso que uma classe social, que esteja no poder, abandone seus André Valério Sales interesses particularistas de classe, em favor das ne- cessidades universais do conjunto da sociedade bra- sileira? 1. Introdução: Minha intenção aqui não é a de responder a estas perguntas, mas, ajudar ao leitor a refletir sobre Este ensaio foi escrito no âmbito de meus as respostas possíveis a elas; e o modo melhor que estudos acerca da Cultura Urbana na sociedade capi- vislumbro, de contribuir para essas reflexões tão talista contemporânea, área das ciências sociais à fundamentais hoje, é buscando tornar mais inteligí- qual venho dedicando-me há alguns anos. Com ele veis os principais conceitos aí envolvidos, ou seja, busco contribuir para o debate atual acerca de uni- definindo: particularidade, singularidade e universa- versalismo e particularismos, intentando esclarecer lidade. as definições do que vem a ser: particularidade, uni- Ao se consultar os dicionários mais co- versalidade e singularidade, no sentido de ajudar na muns, os mais socializados no país, nota-se que são reflexão sobre as respostas possíveis que são coloca- bastante sintéticos: por exemplo, o célebre Aurélio das pelas interrogações presentes no debate dobre (de bolso) conceitua o universal como se referindo tais definições e seus usos na análise de fatos con- ao universo, ao que é mundial, àquilo que é comum temporâneos, a base do texto é o tema da metodolo- a todos os homens; ou ainda, “a um grupo dado”; o gia de pesquisa em Ciências Sociais. singular, por sua vez, é o que pertence a um, ao nú- É de interesse tanto da Sociologia quanto mero que indica uma só coisa ou pessoa; singulari- da História, na atualidade, a questão dos conflitos e zar é “tornar singular, particular ou específico”; e o contradições entre atitudes e movimentos sociais de conceito de particular, é o relativo a apenas certos caráter particularistas ou universalistas. Principal- seres vivos ou a certa(s) pessoa(s) ou coisa(s), é o mente no plano político-social do Brasil de hoje relativo a “uma pessoa qualquer” (ver Mini-Aurélio, (2012), quando um representante da “classe” traba- Ferreira, 2001). lhadora, e do Partido dos Trabalhadores, ascendeu Já o Dicionário Houaiss, considerado por mui- recentemente ao poder, enquanto Presidente do país, tos como “o melhor” do Brasil, conceitua o univer- Luís Inácio Lula da Silva, conseguindo também re- sal enquanto algo que é “comum, relativo ou perten- passar o maior cargo do Brasil para outra petista, a cente ao universo inteiro”, algo “comum a todos os atual Presidenta, Dilma Rousseff. Neste contexto, componentes de determinada classe ou gru- retomam-se com mais intensidade os debates sobre po” (2009: 1907); o singular refere-se àquilo que particularismos e universalismos; como já observou “se aplica a um único sujeito”, e também coloca o célebre historiador francês Jacques Le Goff, a uni- “particularizar” como sinônimo de singularizar (id.: versalidade é um valor “cuja ressonância política é 1750); e particular é “próprio ou de uso exclusivo clara” (1990: 193). E nós, os críticos sociais do pre- de alguém; privativo, privado”, sendo sinônimo, in- sente, não devemos nos ausentar destas polêmicas e clusive, de “um indivíduo qualquer” (id.: 1439). nem mesmo inserirmo-nos nelas sem um claro en- tendimento destes conceitos e de suas interligações com a realidade social. _________________________________________ Tomando então o exemplo dos dois Presi- dentes da República citados, utilizo aqui seus papéis 1. Tem graduação (UECE, 1991) e mestrado (UFPB, 1996) em Serviço Social. Cursa, desde 2000, enquanto sociais, delegados pela maioria da população que os aluno especial, disciplinas do doutoramento em Socio- elegeu, como pretexto para iniciar a discussão, e ini- logia (PPGS/UFPB). cio perguntando: até onde poderiam ir os desejos e interesses pessoais (singulares), de Luís Inácio, 2. Ver, por exemplo: Gabriel Cohn, “Introdução”, In: COHN, G. (Org.), Weber – Sociologia (2002); e Leo- quando ocupou tal cargo, assim como até onde po- poldo Waizbort, As aventuras de Georg Simmel (2000). dem ir as vontades singulares da pessoa de Dilma Rousseff quando ocupa agora a Presidência da Re- pública? www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 A princípio, o leitor pode confundir-se in- categoria da particularidade e, em consequência, teiramente e até mesmo desistir de entender os esses seus complementos obrigatórios, o singular e o uni- três conceitos, pois segundo um dos Dicionários versal, Lukács (1978: 76) inicia definindo que o sin- mais usados no Brasil (Aurélio), assim como de gular é o que é próprio ao indivíduo, ao especifica- acordo com aquele geralmente considerado “o me- mente pessoal; já o particular refere-se aos lhor” do país (Houaiss): o particular diz respeito a “interesses de classe”; e o universal, aos “interesses certas pessoas (grupos, portanto), certas coisas, no de toda a sociedade”. plural, mas também poderia ser relacionado a uma Já de outra forma, o autor em questão pessoa qualquer (no singular), um indivíduo. Já o exemplifica as relações entre as três categorias teóri- singular, é o que pertence a um só, a um único sujei- cas, ligando-as então ao conceito de Trabalho. Se- to, mas, ao mesmo tempo, singularizar é definido gundo ele: considerando-se o trabalho em si mesmo, como o mesmo que “tornar particular”, particulari- pode-se designar a “divisão da produção social em zar. Já o universal seria o que é comum “a todos os seus grandes gêneros, agricultura, indústria, etc., co- homens”, e ao mesmo tempo, pode ser tido como o mo divisão do trabalho em geral”; enquanto divisão que é comum a todos que pertencem a uma classe ou do trabalho em particular, a divisão destas classes de “um grupo”. produção pode ser feita “em espécies e subespécies”; Na verdade, se sairmos dos Dicionários e, finalmente, de maneira singular, pode-se pensar a comuns e adentrarmos às disquisições filosóficas ou “divisão do trabalho dentro de uma oficina como sociológicas mais aprofundadas, encontraremos jus- divisão do trabalho em detalhe” (id.: 96, grifado no tamente essa mesma mistura, essas mesmas contra- original). dições, porém, entenderemos também que há, por Continuando seus exemplos, para melhor fim, uma relação de complementaridade entre o sin- explicitar os três conceitos em análise, e ainda refe- gular e o particular, entre particular e universal, as- rindo-se às relações de trabalho sob o capitalismo, sim como podem ser complementares entre si a sin- Lukács observa que entre o capitalista e o operário gularidade e a universalidade, como veremos a se- há uma terceira coisa (como pode ser o caso da Con- guir. corrência), uma coisa particular, portanto, que faz o intermédio entre dois seres singulares. Ou ainda: es- 2. As três definições segundo as Ciências Sociais: ta não é, portanto, uma relação de simples indiví- duos, puramente pessoal, mas mediatizada por um No âmbito das Ciências Sociais contemporâneas, o terceiro, que é fruto das relações sociais (id.: 119). pensador múltiplo Georg Lukács, de origem húnga- Sendo assim, o que se apreende até aqui, a ra, escreveu em 1957 um livro dedicado inteiramen- partir dos exemplos citados pelo autor, é que as rela- te à elucidação da categoria da particularidade: In- ções dialéticas (contraditórias, mas também comple- trodução a uma estética marxista: Sobre a categoria mentares) entre singularidade, particularidade e uni- da particularidade, e é a partir deste autor que busco versalidade, expressam-se na realidade da vida coti- um esclarecimento melhor acerca da definição dos diana de cada ser social, no dia a dia das nossas rela- três conceitos em questão. Lukács (1885-1971) foi ções sociais, o que lhes retira a possibilidade de se- amigo dos sociólogos Georg Simmel, Max Weber, rem considerados como definições apenas abstratas, Karl Mannheim, Tönnies, dentre outros (Frederico, pertencentes unicamente aos debates intelectuais de 1998: 9); também participou dos cursos de Georg economistas, filósofos, sociólogos, etc. Simmel na Universidade de Berlim, na Alemanha, Acrescenta ainda o pensador húngaro que entre 1909-1910, chegando a ser “o aluno favorito apesar do idealismo hegeliano, há que se admitir que de Simmel e assíduo frequentador da sua ca- foi “Hegel quem primeiro colocou o problema do sa” (Netto, 1981: 11, grifo meu). Todos estes inte- __________________________________________ lectuais, na maioria sociólogos e filósofos a um só e mesmo tempo, participavam de grupos de estudo 3. Apesar de indelevelmente presentes neste texto, não me interessa (Schiur – seminário particular), aos domingos, vari- discutir aqui nem a perspectiva de classe e nem o método lukacsianos, mas apenas demonstrar a sua contribuição para o debate acerca das ando suas presenças nas casas de uns e de outros. três definições em análise. Este é um texto sobre Metodologia de Pes- Isto significa que o contato de Georg Lukács com a quisa e Análise, e não sobre as concepções marxistas, ainda que cite Sociologia, de modo algum, era superficial. Marx, Lukács, o conceito de “classe social”, etc. Mesmo assim, volto Em seu livro sobre a categoria da particula- a citar Jacques Le Goff (1990: 192) quando, concordando com o sociólogo-filósofo francês Raymond Aron (1905-1983), afirma ridade, o escritor húngaro expõe vários exemplos de que “Marx deu, do dinamismo permanente, constitutivo da situações que demonstram o que vem a ser o singu- economia capitalista, uma interpretação que ainda hoje conti- lar, o particular e o universal. No capítulo central de nua válida”. seu trabalho, no qual ele define detalhadamente a www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 particular de maneira correta e multilate- lógicas e concretas a um mesmo tempo, que somente ral” (Lukács, 1978: 73, grifado por mim), e para fu- por estarem presentes na realidade cotidiana das re- gir àquele modo idealista de conceber tais defini- lações sociais é que podem ser elevadas ao raciocí- ções, é preciso ressaltar, de antemão, que as três nio lógico humano, ao nosso pensamento e à nossa “categorias lógicas” aqui em questão dizem respeito reflexão. à “situações objetivas” na sociedade, e não no pensa- mento. Elas são fruto “da realidade que lhes corres- 3. A Universalidade: ponde” (id.: 75), são categorias históricas portanto, Entendeu-se, até aqui, que há uma mistura completamente opostas às categorias reflexivas idea- – dialética – entre as noções de singularidade, parti- listas e puramente subjetivas. As definições de sin- cularidade e universalidade, que as relações entre gular, particular e universal somente se tornam histó- elas são contraditórias ao mesmo tempo em que são ricas porque o intelecto humano consegue “elevar a também complementares. Especificamente sobre a conceito o movimento concreto” do real (id.: 88). definição de universalidade, é preciso afirmar que há Somente desta forma, então, é que tais categorias perigo à vista quando se faz dela um mero conceito podem servir de instrumento para se compreender “o vazio. O universalismo é necessário, seguindo nosso desenvolvimento vital da realidade em seu movi- exemplo, à classe que esteja no poder, seja ela de mento, em sua complexidade” (id.: 87): se elas fo- procedência elitista ou operária; a universalidade rem representações concretas do próprio mundo ob- deixa de existir, observa Georg Lukács (1978: 88), jetivo (id.: 75). quando é uma característica “pensada apenas em Postos esses aspectos diferenciados que uma forma particular”. Como antes citado, esse pro- podem assumir as relações entre a tríade em discus- blema, apesar de parecer “exclusivamente lógico”, são, voltemos agora ao exemplo concreto da particu- depois de Hegel passa a ser distinguido enquanto laridade da classe trabalhadora no Brasil, como no “um problema da estrutura e do desenvolvimento da caso citado inicialmente, ao se tratar das vontades sociedade” (id.: 82). pessoais e dos interesses de classe do ex-Presidente da República, da atual Presidenta e de seu partido Sendo assim, as relações entre universali- político (o PT), relacionando-os com as necessidades dade e particularidade “têm uma função de grande universalistas de toda a sociedade brasileira: sobre monta”, pois o particular representa “a expressão este assunto, o ponto de vista lukacsiano é o de que lógica das categorias de mediação entre os homens “Somente em nome dos direitos universais da socie- singulares e a sociedade” (id.: 93). E nessa proble- dade pode uma classe particular reivindicar para si mática da relação dialética entre universal e particu- mesma o domínio universal” (Lukács, 1978: 77, gri- lar, lembrando de nosso exemplo sobre a tríade Pre- fos meus). sidente da República-Partido Político-Conjunto da A partir dessa afirmação, lanço outra per- Sociedade, é necessário, nas palavras de Lukács, gunta para ser refletida: em se considerando a pers- sempre “esclarecer a forma concreta de sua relação pectiva de sociedade (socialista?) do Partido dos [universal-particular], caso por caso, em uma deter- Trabalhadores, será que a “classe particular” que se minada situação social, com respeito a uma determi- encontra no poder – já há uma década – vem conse- nada relação da estrutura econômica”, e mais ainda: guindo pôr de lado os seus interesses particularistas, é decisivo que se busque “descobrir em que medida e exercer um “domínio” verdadeiramente em nome e em que direção as transformações históricas modi- dos “direitos universais” e dos interesses universalis- ficam esta dialética”. Também é necessário “estudar tas do conjunto da sociedade brasileira? e descrever, de um modo historicamente concreto Há que se esclarecer que Lukács usa, neste (...) e com exatidão, estas relações e suas transforma- ponto de seus escritos, exemplos ligados a política, ções”. Somente se cumprindo esta “tarefa importan- ao trabalho e às classes sociais, no entanto, toda a te”, é que se finda descobrindo “que as contradições discussão a seguir tem a ver com seu método de es- concretas assim percebidas devem ser compreendi- tudo e análise, cujos propósitos são universais e refe- das, do ponto de vista lógico-metodológico, como rem-se, portanto, às categorias teóricas de singular- casos concretos e expressões de uma dialética de particular-universal como instrumentos lógicos de universal e particular” (id.: 91-92, grifos meus). E análise que podem ser utilizados por qualquer pes- esta dialética concreta de universal e particular é, quisador social, sejam eles ligados à Sociologia, Fi- desse modo, uma “arma metodológica”, é um losofia, História, etc. “instrumento para esclarecer as conexões reais” entre Passo agora à discussão específica acerca os fenômenos sociais em análise (id.: 95). de cada uma das três definições aqui explicitadas, que são, como já citado, categorias teóricas, porém www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Para Lukács, a linha fundamental do movi- modo, espaço para identidade entre uma e outra, por mento de pensamento dialético dá-se em um movi- serem opostas; contudo, o singular não existe senão mento irresistível, em “uma aproximação progressi- em sua relação com o universal. Segundo Lukács, o va que conduz do puramente singular ao universal “movimento dialético da realidade, tal como ele se através do particular”, o que significa que “todos os reflete no pensamento humano, é assim um incontro- conceitos e processos mentais, têm o seu ponto de lável impulso do singular para o universal e deste, partida na realidade objetiva [social e histórica] in- novamente, para aquele”. Sendo assim, a particulari- dependente da consciência” (id.: 102-103). dade, a singularidade e a universalidade não são Ensina o pensador húngaro que a universa- idênticas, ao contrário, há entre elas uma “nítida e lidade está sempre “em uma contínua tensão com a precisa distinção”, mas isto não exclui que possa singularidade”, além de estar também em uma haver “passagens e conversões” dialéticas tanto en- “contínua conversão em particularidade”. Da mes- tre universalidade e particularidade, como entre sin- ma maneira, e de modo inverso, a particularidade gularidade e particularidade. Mas nosso pensador está sempre em contínua tensão com o universal e húngaro adverte que essas distinções, ainda que pre- em contínua conversão em singularidade. Ou seja, as sentes na realidade cotidiana de todo ser humano, relações entre essa tríade são sempre múltiplas e são pouco desenvolvidas “no modo de pensar da vi- contraditórias, e quanto mais autêntica e profunda- da cotidiana” (id.: 110). mente os nexos da realidade, suas conexões e contra- No próximo item, passamos à explicitação dições, “forem concebidos sob a forma da universa- do significado da categoria teórico-metodológica da lidade”, de forma mais exata e mais concreta particularidade, a mais discutida por Lukács em seu “poderá ser compreendido também o singular” (id.: livro Introdução a uma estética marxista: Sobre a 104). categoria da particularidade (de 1957), além do auxí- Vamos discorrer agora especialmente sobre lio na compreensão do conceito de mediações. a definição filosófica/sociológica de singularidade. 5. A Particularidade – Um Campo de mediações: 4. A Singularidade: Como bem esclarece Lukács, na vida coti- Ainda a partir do trabalho de Lukács, diana, no conjunto das relações sociais, a particulari- aprendemos que o conhecimento e a compreensão da dade “se confunde, em sua determinação e delimita- singularidade “não pode ocorrer separadamente das ção, ora com o universal ora com o singular”, e é por suas múltiplas relações com a particularidade e com isso que “na construção científica e filosófica, os a universalidade”; estas relações múltiplas já estão extremos são desenvolvidos antes do que os meio contidas na imediaticidade do singular, “no imedia- mediadores [as particularidades]” (1978: 110, grifos tamente sensível de cada singular”, e tanto a realida- meus), assim definida, a particularidade é “um mem- de como a essência da singularidade “só pode ser bro intermediário com características bastante espe- exatamente compreendida quando estas mediações cíficas” (id.: 112). (as relativas particularidades e universalidades) ocul- Por tudo isso, continua o filósofo húngaro, tas na imediaticidade são postas à luz”, o que signifi- é que somente pode existir “uma autêntica e verda- ca, também, que “esta aproximação ao singular en- deira aproximação à compreensão adequada da reali- quanto tal pressupõe o conhecimento mais desenvol- dade”, uma relação verdadeiramente dialética entre vido possível das relativas universalidades e particu- teoria e prática, se houver clareza: dessa “tensão dos laridades”. O singular, portanto, “precisamente co- pólos, constantemente em ato”; se houver o entendi- mo singular, é conhecido tão mais seguramente e de mento da “constante conversão dialética recíproca um modo tão mais conforme à verdade (...) quanto das determinações e dos membros intermediários mais rica e profundamente forem iluminadas as suas que têm função mediadora”; e se for compreendido mediações para com o universal e o particu- que há esta “união entre os pólos”, ainda que seja lar” (1978: 106-107). uma união tensa e contraditória. Portanto, a tarefa do O que se apreende então, até esse ponto, intelectual é, tal como assinala Lukács, não julgar a especificamente acerca das relações entre singulari- realidade em análise, e nem descrevê-la ou explicá- dade e universalidade, é que suas ligações na reali- la da forma que o intelectual queria que fosse, ou da dade são inseparáveis, apesar de opostas entre si. forma que o real deveria ser, mas tentar elevar à Tais categorias lógicas estão presentes no real em consciência a “exata relação dos homens para com a unidade dialética, mas, ao mesmo tempo, há uma realidade objetiva” (id.: 111). conexão contraditória entre elas, não havendo, desse www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Ou ainda, o pesquisador deve observar, na esse campo de mediações, composto pelas particula- realidade concreta/cotidiana, como as relações soci- ridades, “na medida em que uma série de determina- ais se processam, sem que os seus valores pessoais, ções mediadoras – que até um dado momento eram seus desejos e interesses influenciem nos tratamento concebidas como sendo independentes uma da outra dos dados observados/coletados por ele. Por exem- e autônomas – são agora subordináveis a uma única plo, refletindo sobre a cultura popular, Augusto determinação” (Lukács, 1978: 113). Arantes (1987:57) propõe-se a que, neste seu livro Torna-se claro, desta maneira, que o parti- “se projete o foco de atenção sobre o que as culturas cular “não é simplesmente o membro pontual da me- efetivamente são, ou melhor, sobre como elas são diação em uma tríade, mas sim uma espécie de cam- produzidas, sobre os processos através dos quais elas po de mediação para o universal (e, em certos casos se constituem e o que elas expressam, e não sobre o particulares, para o singular)” (id.: 116, grifo meu). que elas foram, seriam ou deveriam ser” (grifado A partir de uma série de pesquisas, cada em negrito por mim). uma voltada para o esclarecimento de um novo as- Deste modo, Lukács enfatiza que o movi- pecto particular do problema, em suas características mento do singular ao universal, assim como seu con- específicas, pode surgir (graças ao aprofundamento trário: do universal ao singular, “é sempre mediatiza- destes novos aspectos particulares) outra concepção do pelo particular”. A particularidade é então “um diferente, que venha a alargar e aprofundar mais ain- membro intermediário real, tanto na realidade obje- da o seu conceito, elevando-o a um nível superior de tiva quanto no pensamento que a reflete” (id.: universalidade; de tal modo que “A cuidadosa análi- 112). se do particular é apenas um meio para alcançar este Não é por acaso, acrescenta o autor, que a grau superior de universalidade”, buscando-se esta tríade singular-particular-universal se tenha tornado ampliação da universalidade do conceito (id.: 114- formalmente dominante, este fato “não é casual, já 115). Isto significa que, através de mediações, em se que início, meio e conclusão descrevem a estrutura conhecendo momentos particulares novos, a univer- formal necessária de qualquer operação mental”. salidade dos conceitos envolvidos no problema é Também, é preciso lembrar que “a relação de forma ampliada e tornada superior ao que antes se conhe- e conteúdo é uma relação mais próxima e mais con- cia. vergente no início e na conclusão do que no meio”, e Seria enganoso, afirma Lukács (1978: 116), este meio, por sua vez, é “uma expressão complexi- após todas essas considerações, concluir-se que “o va e sintética de todo o conjunto de determinações particular é uma amorfa e inarticulada faixa de liga- que mediatizam o início e a conclusão” (id.: 113). ção entre o universal e o singular (...) as coisas não Lukács ressalta que nenhum dos movimen- são assim”. O campo de mediações tratado aqui é tos aludidos acima são “pontos firmes”. Do mesmo naturalmente articulado, e cada etapa que o conheci- modo que a particularidade – que é na verdade um mento leva a compreender em tal campo pode, ape- “inteiro campo de mediações” –, também “início e nas por aproximação, “ser claramente determinada e conclusão (universalidade e singularidade) de modo fixada, do mesmo modo que podem ser fixadas a algum são pontos firmes no sentido estrito da pala- universalidade e a singularidade”. Também o fato de vra”, pois “o desenvolvimento do pensamento e dos que, em muitos casos, “deva-se fixar uma inteira ca- conhecimentos têm precisamente a tendência a trans- deia de membros particulares da mediação, a fim de feri-los cada vez mais”. Todavia, se se leva em con- ligar corretamente entre si a universalidade e a sin- sideração corretamente o movimento dialético do gularidade”, demonstra que, de modo algum, a parti- particular ao universal, assim como da universalida- cularidade tenha um caráter amorfo. de à particularidade, observa-se que “o meio media- A partir do prisma da linguagem, continua dor (a particularidade) pode menos ser um ponto o pensador húngaro, são bastante precisos os signifi- firme, um membro determinado, e tampouco dois cados de singular e universal, já a expressão particu- pontos ou dois membros intermediários (...) mas sim laridade pode querer dizer muitas coisas: “ela desig- em certa medida, um campo inteiro de media- na tanto o que impressiona, o que salta à vista, o que ções” (id.: 113, grifos meus). se destaca (em sentido positivo ou negativo), como o A cada passo que a construção do conheci- que é específico; ela é usada, notadamente em filoso- mento vai sendo aperfeiçoado pelo pesquisador, po- fia, como sinônimo de ‘determinado’, etc.” Contudo, de-se “alargar este campo [de mediações], inserindo esta oscilação que pode existir no significado do par- na conexão momentos dos quais precedentemente se ticular “não é casual, mas tampouco ele indica um ignorava que funções tinham na relação entre uma amorfismo fugidio; ele diz respeito apenas ao caráter determinada singularidade e uma determinada uni- sobretudo posicional da particularidade”. A particu- versalidade”. Assim como também se pode diminuir laridade que aqui se busca esclarecer representa, www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 com relação ao singular, “uma universalidade relati- O que importa afinal, é que ao se debater va, e, com relação ao universal, uma singularidade hoje as definições de particularismos e universalis- relativa”, e esta relatividade posicional “não deve ser mos, se tenha um pouco mais de segurança sobre o concebida como algo estático, mas sim como um que significam tais categorias lógicas. processo. A própria conversão, por nós assinalada E, principalmente, aprendemos aqui que os deste ‘termo médio’ em um dos extremos já implica interesses particularistas, em sendo interesses de este caráter processual” (id.: 117). apenas uma “classe social” que se encontre no poder A particularidade, desse modo, é um prin- (como no exemplo citado, do Governo do ex- cípio do movimento do conhecimento, e enquanto Presidente Lula e da atual Presidenta Dilma, ambos “momentos particularidades mediadores”, ela tem, filiados ao Partido dos Trabalhadores), poderiam e na sociedade, “uma existência relativamente bem deveriam ser convertidos em interesses universalis- delimitada, uma figura própria” (id.: 118). Decidin- tas, voltados para o bem-estar da maioria da popula- do-se o pesquisador por eliminar a particularidade, e ção brasileira. Assim como também, fomos levados operar apenas com os extremos (singular e univer- a compreender que, às vezes, um discurso que a sal), enfatiza Lukács, é “deformante”, assim como o princípio seja universalista pode esconder interesses fizeram, por exemplo, os pré-socráticos, Aristóteles, eminentemente particularistas, noutras palavras: a filosofia burguesa, etc. Estes, buscaram “afastar pode ocorrer que aquilo que se apresenta como uni- idealmente da vida dos homens, justamente com o versalismo hoje, venha a converter-se, amanhã, em particular, as determinações sociais”, passando por interesses particulares de apenas uma classe, um gru- cima, como no caso da filosofia burguesa, do caráter po ou segmento social! de classe da sociedade capitalista; e esta tendência afirmava que “o homem deve sempre ser compreen- 7. Referências: dido como singular, excluindo-se todas as mediações da socialidade de sua existência, afastando-se qual- ARANTES, Antonio Augusto. O Que é Cultura Popu- quer particularidade mediadora” (id.: 119-120). lar. 12ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. Em se tratando das relações dialéticas e das COHN, Gabriel. “Introdução”. In: COHN, G. mediações existentes entre singularidade- (Org.). Weber – Sociologia. 7ª ed. São Paulo: Ática, particularidade-universalidade, a eliminação da 2002. particularidade é, por fim, uma luta contra a objeti- vidade, constata Lukács, desconsiderá-la é lutar con- FERREIRA, Aurélio B. H. Mini-Aurélio Século XXI: tra a concreticidade e contra a apreensão correta da Escolar. 4ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, dialeticidade das relações sociais (1978: 120). 2001. FREDERICO, Celso. Lukács: Um clássico do século 6. Conclusão: XX. São Paulo: Moderna, 1998. Acredito que o objetivo deste ensaio – o de HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua contribuir para o esclarecimento das categorias teóri- Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva/Instituto Antô- cas de singular, particular e universal – foi atingido. nio Houaiss, 2009. Como foi visto acima, o nosso conhecimento comum LE GOFF, Jacques. História e Memória. São Paulo: acerca de tais conceitos, assim como dos significa- EdUnicamp, 1990. (trad. Bernardo Leitão et. al.). dos postos pelos Dicionários mais utilizados no país, não são suficientes para um entendimento mais apro- LUKÁCS, Georg. Introdução a uma estética marxis- fundado acerca das relações existentes entre particu- ta: Sobre a categoria da particularidade. Rio de Ja- laridade, universalidade e singularidade. neiro: Civilização Brasileira, 1978. (trad. Carlos Demonstrou-se também, como é rica a de- Nelson Coutinho e Leandro Konder). finição de particularidade, tão usada pela maioria PAULO NETTO, José (Org.). Lukács. São Paulo: das pessoas com o sentido banal de Ática, 1981. “individualidade”, o que faz com ela perca quase que totalmente a sua significância teórico-ontológica; WAIZBORT, Leopoldo. As aventuras de Georg Sim- enquanto que, na verdade, o particular abrange um mel. São Paulo: USP/PPGS/Ed. 34, 2000. campo inteiro de mediações, que se encontram a meio caminho (mas não em uma posição fixa) entre o singular e o universal. Deve o pesquisador obser- var que estas mediações por vezes se aproximam mais da universalidade e, às vezes, tornam-se mais próximas ao singular. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Rocambole de doce de leite Ingredientes: 3 colheres de sopa de manteiga 3 ovos 1 copo ou xícara de farinha de trigo 1 copo ou xícara de açúcar 1 colher de sopa de fermento em pó Recheio e cobertura 1 lata de doce de leite 1/2 xícara de açúcar Modo de fazer: Bater no liquidificador os ovos, o açúcar, a manteiga, em seguida a farinha e o fermento. Untar uma forma com bastante manteiga, colocar a massa batida na forma, e levar ao forno pré- aquecido por 5 a 8 minutos . Tirar a massa do forno e colocar sobre um pano molhado. Espalhe o doce de leite sobre a massa. Enrole a massa com o doce de leite, e polvilhe com açúcar. www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 HOSPITAL DE LAGUNA Faça do Hospital de Laguna a sua causa, colabore! www.hospitallaguna.com PROJETO LUZ Ilumine esta ideia! Como você deseja que o Hospital de Laguna seja? Bom? Muito bom? Ótimo? Qual o seu desejo? Com quanto você pode contri- buir, na sua conta de luz, para o Hospital ser assim, do jeito que você quer? Você pode! O prêmio maior é a vida. Com certeza o seu maior desejo! CARTÃO DE BENEFÍCIOS O Cartão de Benefícios proporciona a usuários e dependentes descontos nos serviços de internação e de urgência/emergência oferecidos pelo Hospital de Laguna e pela rede de estabelecimentos e profissionais cre- denciados (visite no site o link do Cartão de Benefícios). Os descontos variam de 10 a 50%, podendo chegar a 90% nas farmácias. procure o re- presentante do hospital no horário comercial. TORNE-SE UM ASSOCIADO Para tornar-se um associado do hospital, basta preencher o formulário que se encontra no site e encaminhá-lo à direção do hospital. O valor da mensalidade e de apenas R$ 10,00. Todo associado poderá usufruir das vantagens do cartão de benefícios sem pagamento adicional. http://www.hospitallaguna.com.br/ Hospital de Caridade Senhor Bom Jesus Passos R. Osvaldo Aranha, 280, Centro CEP: 88790-000, Laguna SC Fones: Central telefônica: (0xx)48 3646-0522 / DPVAT: (0xx)48 3646-1237 / Fax: (0xx)48 3644-0728 Fotos Históricas do Hospital www.varaldobrasil.com
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    Varal do Brasil—julho/agosto 2012 Consulado-Geral do Brasil em Genebra O Consulado é parte integrante da rede consular do Minis- tério das Relações Exteriores. Sua função principal é a de prestar serviços aos cidadãos brasileiros e estrangeiros resi- dentes na sua jurisdição consular, dentro dos limites estabe- lecidos pela legislação brasileira, pela legislação suíça e pe- los tratados internacionais pertinentes. O Consulado-Geral do Brasil encontra-se localizado no nú- mero 54, Rue de Lausanne, 1202 Genebra. O atendimento ao público é de segunda à sexta-feira, das 9h00 às 14h00. O atendimento telefônico é de segunda à sexta-feira, das 13h00 às 17h00. Favor ligar para 022 906 94 20. Revista Varal do Brasil A revista Varal do Brasil é uma revista bi- mensal independente, realizada por Jacque- CONSULADO-GERAL DO BRASIL EM line Aisenman. ZURIQUE Todos os textos publicados no Varal do Bra- sil receberam a aprovação dos autores, aos quais agradecemos a participação. Stampfenbachstrasse 138 Se você é o autor de uma das imagens que 8006 Zürich-ZH encontramos na internet sem créditos, faça- Fax: 044 206 90 21 nos saber para que divulguemos o seu talen- www.consuladobrasil.ch to! Licença Creative Commons. Distribuição ele- trônica e gratuita. Os textos aqui publicados podem ser reproduzidos em quaisquer mí- dias, desde que seja preservado o nome de seus respectivos autores e não seja para utilização com fins lucrativos. Os textos aqui publicados são de inteira res- ponsabilidade de seus respectivos autores. A revista está disponível para download no site www.varaldobrasil.com Contatos com o Varal? varaldobrasil@bluewin.ch Para participar da revista, envie um e-mail para a revista e enviaremos o formulário. www.varaldobrasil.com
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