Um Tratado sobre o Negacionismo
Desvendar o fenômeno do moderno Negacionismo requer o entendimento acerca de seu
real significado, contextualizado em nosso tempo. De imediato, assumimos que se trata
da “arte de negar fatos considerados irrefutáveis por aqueles que seguem os preceitos
da Lógica e da Razão”. Constitui uma arte que recorre a encenações que empregam
atores e personagens e apresenta um enredo lógico, constituído por um método e
princípios próprios que, ainda que pervertidos, compõem um Sistema.
Este enredo simples, lógico e sistemático confere fundamentação e eficácia ao
Negacionismo, que se vale da preguiça mental que acomete boa parte da civilização
inebriada pela Internet para se expandir com rapidez. Contudo, uma análise mais
cuidadosa possibilita perceber as limitações do arcabouço que dá sustentação a esta
argumentação e elencar os seus elementos básicos, conforme será evidenciado neste
texto.
A propagação do Negacionismo se beneficia da enxurrada de informações que atinge
as pessoas nos dias atuais, potencializadas pela inteligência artificial, gerando uma
saturação inevitável de nossos cérebros, enfraquecendo o nosso estado de alerta e
minando a sustentação de uma constante vigília crítica acerca das informações. Este fato
explica o motivo pelo qual muitos se convertem, ao optar pelo "caminho mais fácil",
rejeitando as construções complexas e deixando-se seduzir pelas explicações simples.
Este é o cenário ideal para a encenação do método que sustenta o Negacionismo e que
se baseia em dois procedimentos principais que se retroalimentam: a quebra da cadeia
de verificação e a rotulagem.
Como mencionado acima, tornou-se humanamente impossível filtrar e verificar todas as
informações que chegam até nós, e por este motivo muitos optam por delegar estes
filtros a entidades externas. Há não muito tempo atrás esta tarefa cabia exclusivamente
à mídia profissional que, embora sujeita a falhas e tendências, gozava de um nível de
credibilidade muito elevado. E foi aqui que o Negacionismo aplicou sua primeira e eficaz
cunha.
Para que o Negacionismo possa prosperar é preciso quebrar a cadeia de verificação,
atacando os alicerces de seu principal oponente, justamente a imprensa formal. E para
quebrar o elo forte da cadeia recorre-se ao método da rotulação mais primária.
A mídia profissional tem enfrentado um desafio de difícil superação a fim de preservar
sua credibilidade e relevância em um cenário no qual qualquer um pode disseminar
informações, críticas, análises e narrativas de fatos supostamente reais, deturpados,
virtuais ou inventados, além de sofrer ataques virulentos dos novos postulantes e não
estar sendo capaz de lidar com os novos adversários. O espaço ampliado pela Internet
tornou-se um palco hostil e campo de batalha onde a ética e a veracidade já foram
devidamente relativizadas.
Neste cenário hostil os atacantes utilizam sempre o mesmo método, sacando
sistematicamente o rótulo da “grande mídia” ou “rede-isto-e-aquilo”, “jornalista-isto-
e-aquilo” como forma de descredibilização sistemática, visando retirar a credibilidade
dos críticos e potenciais opositores ou quem se lhes oponha de forma generalizada.
E quando se consegue descredibilizar aqueles que ainda possuem capacidade de veicular
análises por meio de uma audiência constituída, de denunciar contradições e mentiras
em série, o primeiro e crucial passo para Negacionismo estará dado. Para o sucesso do
Negacionismo é essencial calar a voz dos críticos. E o alvo principal é o jornalismo
profissional, doravante denominado “algum-tipo-mídia-lixo”. Uma vez alcançado este
objetivo calam-se as vozes daqueles que poderiam representar oposição. É um
instrumento muito mais eficaz do que a censura oficial, afinal!
A mesma sistemática tem sido adotada com relação às ONGs. “Toda ONG é igual”. “Se é
ONG estrangeira é do mal”. Descredibilizar as ONGs de forma sistemática e generalizada
ajuda a eliminar boa parte das potenciais contestações. ONGs são especialmente
temidas por representar uma concorrência para o Estado, que sempre reclama e pleiteia
a exclusividade de todos os recursos e o monopólio da interação com a Sociedade.
O método da rotulação para descredibilizar o oponente mais comumente empregado é
o da generalização simplória. Desta forma, quando se consegue criar um rótulo
pejorativo e pegajoso, melhor ainda, generalizá-lo para toda uma classe de profissionais
ou membros atuantes de uma organização, estará dado o passo crucial para
descredibilizar de forma ampla uma legião de oponentes, bastando encontrar um bom
adjetivo.
Contudo, é importante reconhecer que todos nós empregamos instintivamente rótulos
para descredibilizar um adversário. O complicador ocorre quando a prática de rotular se
torna um método aplicado de forma sistemática, calculada e eficaz, colocando o
adversário na posição de alvo de ataques continuados.
Rótulos existem desde sempre e podemos listar alguns, tais como “direitista”,
“esquerdista”, “stalinista”, “fascista”, “liberal”, “neoliberal”, “burguês”, “reacionário”,
“conservador”, “fascista”, “nazista”, “racista”, entre tantos outros. Estes rótulos são
históricos e vêm sendo empregados há muito tempo como forma de descredibilizar um
debatedor e desta forma vencer e encerrar um debate.
A “esquerda” brasileira foi bastante pródiga no uso de rótulos para encerrar discussões
ou palestras, quando eram sacados contra o oponente, bastando brandir que você é de
“direita", “conservador, “neoliberal” ou "reacionário", o que bastava para encerrar e
vencer uma discussão. Por muito tempo o pessoal mais chegado à esquerda – e a
propósito, já empregando a rotulagem, descredibilizou os oponentes de cujas ideias
discordavam empregando a rotulação. O que vemos hoje é uma espécie de vendetta, a
lei do retorno em ação, demonstrando que vítimas e algozes se entrelaçam, dançam
entre si e alternam suas posições com frequência.
O rótulo como arma, palavras de ordem ou jargões são artifícios bastante antigos e
foram muito empregados em regimes reconhecidamente opressores e totalitários. No
limite, a rotulagem antecipava a condenação, suficiente para inaugurar o rito de praxe
que conduzia desde a desgraça até o cadafalso. Desde os tempos antigos o rótulo “infiel”
já rimava com o “extermínio”. Etiquetar, descredibilizar, abater, linchar e dilacerar, nada
de novo no front. No limite, símbolos e logotipos são empregados.
O perigo do rótulo é potencializado pela sua capacidade de aderência, dependendo do
poder de influência de quem o fabrica. Rótulos nunca são espontâneos, mas elaborados
com um propósito. Por meio do rótulo e frases de efeito o atalho para a descredibilização
é efetivado e se a repercussão for suficientemente extensa, o alvo dificilmente
conseguirá se recuperar. Se aderir firmemente, qualquer batalha de opinião já estará
previamente decidida.
Uma das características que comprovam o poder do rótulo é a capacidade de generalizar.
Esta permite ampliar o alcance das descredibilização, tornando possível abafar todo um
setor de críticas. A generalização pode se aplicar a setores, tais como o “agro-negócio”,
os “industriais”, “atravessadores”, “donos de supermercado”, “a justiça”, assim como a
“grande mídia”, “ambientalistas”, “ongs”. Por meio deste artifício é possível colocar todos
no mesmo saco, ampliando sobremaneira o alcance da descredibilização.
Voltando à mídia profissional, uma outra fraqueza reside justamente na sua audiência,
especialmente quando esta é provocada a analisar, criticar, verificar e validar
informações que podem tirá-la de sua zona de conforto intelectual, dado que cria
desconforto e oposição ao propor a desconstrução da verdade propalada por parte do
líder sectário.
O porquê de a zona de conforto ser tão atraente intelectualmente merece muito mais
estudos no campo da neurociência, mas parece explicar a atitude passiva por parte
daqueles que aceitam as pregações de pastores de araque e políticos carismáticos. Será
que o que conforta a alma é o que basta, ainda que tudo não passe de uma reconfortante
falácia ?
Percebe-se também a evidente cooperação e cumplicidade por parte de muitos
consumidores de informação em crer naquilo que lhes soa mais palatável. Desta forma,
não se trata apenas de uma crença ingênua e simplória, mas do desejo de colaborar na
disseminação ativa da informação sabidamente duvidosa como verdadeira, de forma
consciente e dolosa. Forma-se uma cumplicidade que abraça a antiética, ajudando a
disseminar aquilo que muito provavelmente sabe-se ser forjado. Esta rede de
apoiadores se vê orgulhosamente como parte de uma milícia digital que ajuda a
catequisar uma rede subjacente ainda maior de seguidores intelectualmente vulneráveis.
A esta altura, neste cenário todo o debate já estará definitivamente abortado. E sem
debate só haverá uma única verdade imposta. E se não há verdade alternativa possível,
não há mais espaço para a lógica ou razão, restando apenas a “lei do mais forte”,
opressão e totalitarismo.
Em sua construção final um determinado ideário Negacionista poderá ser mesclado e
se fundir com uma ideologia. A partir deste contexto, vamos entender os Princípios
que fundamentam o Método do Negacionismo.
Dos Princípios do Negacionismo
Princípio#1 Silêncio conveniente - não responder a perguntas incômodas e
comprometedoras, sobretudo quando não houver resposta favorável, tornando normal
o ato de, simplesmente, não responder. Isso inclui nunca falar ou responder à imprensa
profissional. Ignorar por completo. Criar sua própria imprensa e seu próprio canal de
comunicação. Se o encontro presencial for inevitável, insultar livremente e de forma
espetaculosa em público o profissional de imprensa. Jamais dar satisfação a qualquer
questionador de sua conduta.
Princípio#2 Falta de empatia - não reconhecer, não mostrar deferência, não mencionar,
não visitar vítimas inconvenientes de fatos negados, tornando o sofrimento do outro
invisível. Vítimas inconvenientes devem ser ignoradas e condenadas apenas por serem
vítimas.
Princípio#3 Criação de pseudo-heróis - renda homenagens a baixas que tenham
ocorrido somente dentro do seu clã, corporação, farda ou grupo, do séquito ou da seita.
Princípio#4 Mania de Perseguição - Para toda e qualquer acusação ou problema, a culpa
sempre recairá no outro. Todo e qualquer problema pode e deve ser resolvido
procurando um culpado. Se a origem da acusação for estrangeira buscar comparação
com outros países, ainda que imprecisa e encontrar ou inventar um culpado ou exemplo
externo para nomear. A culpa pode ser dos chineses, dos russos, da grande mídia,
esquerda, das ONGs, índios ou caboclos. Tanto faz, o importante é nomear um culpado
externo, sempre.
Princípio#5 Direito de errar - Para qualquer acusação, sobretudo na área ambiental,
alegar que como os outros devastaram sua natureza, temos o direito de fazer o mesmo,
pregando isonomia, denunciando a “cobiça externa”. O “sempre tem alguém que fez pior
no passado” chancela qualquer barbaridade cometida no presente.
Princípio#6 Ciência Reversa - Começando sempre pela conclusão, coletar e selecionar
somente os dados e evidências ou relatos pontuais que possam embasar os resultados
que se deseja defender, excluindo todos aqueles dados que desmintam ou fragilizem a
construção A ideia é elaborar uma tese que foi comprovada antes mesmo de ter sido
proposta.
Princípio#7 Ciência Inimiga - Descredibilizar pesquisas, cálculos matemáticos e artigos
científicos alegando interesses escusos de opositores e estrangeiros difusos. Ignorar
todos os demais estudos baseados em levantamentos estatísticos, em sistematizada
coleta de dados e análise probabilística, mesmo quando suportados por entidades
científicas e publicações renomadas.
Princípio#8- Metas Móveis - Caso os resultados das previsões, práticas ou políticas não
condigam com realidade ou sejam frustrados, prolongar, estender ou adiar as
expectativas para um futuro incerto e conveniente. Enquanto este futuro difuso não
chegar, a construção não poderá ser derrubada.
Princípio#9- Eu primeiro - O individualismo deve prevalecer sobre a coletividade. A
visão de mundo do Negacionismo deve suplantar a visão da sociedade e do interesse
coletivo. Os direitos individuais do Negacionista estão acima dos direitos da
coletividade, incluindo aqueles supostos direitos individuais que poderiam conflitar com
os direitos individuais dos outros e da coletividade. O Negacionista não aceita a
precedência ou conflito de direitos.
Princípio # 10 – Populismo Messiânico - Constituir uma Seita Ideológica. Seitas precisam
de Pregadores da Palavra. Se necessário for, apropriar-se da Palavra chancelada por
“Deus” e a única verdade será a verdade negacionista, advinda do suposto verbo divino.
Seitas precisam de pregadores, de preferência de um que se pareça com um Messias.
Princípio #11 – Verdade Oculta - Quando tiver uma real e má intenção de fazer algo
nefasto, declare publicamente sempre que adotará o lado oposto, esperando para
revelar sua posição de fato em um momento mais favorável. A coerência é para os fracos
e trouxas. Mentir é para os fortes.
Conclusão:
O Negacionismo vem sendo usado como ferramenta sistematizada para obstruir o
debate técnico e as discussões racionais. Este vem se tornando um grande mal, pois a
facilidade com que pode ser propagado por meio da Internet o potencializa como
ferramenta de dominação.
A irracionalidade humana interessa aos maus políticos, principalmente aqueles
vinculados ao outro mal deste Século, o Populismo. E para combater o grande mal deste
início de século é preciso sistematizar o processo de combate ao Negacionismo. Mas
para que o Negacionismo seja combatido é preciso antes de tudo reconhecê-lo. O
primeiro passo a ser dado é reconhecer o Negacionismo em suas multifacetadas formas
que estimulam a formação de seitas. Já o Populismo não tem lado, mas vertentes que
podem cobrir um amplo espectro, geralmente abraçando o autoritarismo,
confortavelmente e melhor instalado nos extremos, seja na direita, seja na esquerda,
mas podendo estar em todos os lugares ao mesmo tempo.
O Negacionismo não é algo inócuo, e uma vez entranhado na sociedade é uma arma que
pode ser empregada de forma extremamente eficaz para manipular o poder, sendo
preciso reconhecer que representa uma grande ameaça à liberdade de expressão ao
refrear o pensamento racional. É uma ameaça ao Meio Ambiente e ao Planeta, seus alvos
preferenciais, dotado de um poder destrutivo muito mais eficaz do que armas físicas.
O Negacionismo é uma das armas mais eficazes do populista. E, uma vez conjugados,
têm o potencial de nublar a mente de uma grande parte da Sociedade que, uma vez
anestesiada, pode aceitar até mesmo ideais extraídos do Fascismo e do Nazismo.
A sociedade se acostumou com a razão e a lógica, bem como o método científico ao
longo de séculos. E por estar acomodada com a certeza científica, não estava preparada
para o renascimento de métodos primários e primitivos de contestação da ciência para
os quais os anticorpos de outrora já não mais são efetivos.
Infelizmente a imprensa profissional não tem conseguido acompanhar as mudanças,
sobretudo de caráter ético que têm ocorrido em nossa sociedade. O jogo desleal como
é praticado atualmente não comporta mais uma atitude distanciada, altiva e plenamente
isenta. A falácia tornou-se parte da realidade e a divulgação das falácias passou a ser
ponto focal do noticiário. A Falácia é a notícia e o noticiário ao mesmo tempo.
O Negacionismo se alimenta da discórdia, fratura e desunião, elegendo
sistematicamente inimigos. E o Meio Ambiente tem sido escolhido como um inimigo
ideológico preferencial, motivo pelo qual arcaremos todos com o dano irreparável da
estupidez humana em sua expressão máxima.
A saída passa pelo estímulo aos movimentos sociais e agrupamentos que busquem a
identificação destas ameaças e denunciar sistematicamente as más práticas dos
perpetradores do Negacionismo, reconhecê-los e listar suas atividades e ações. Listar
as respostas não concedidas e sobretudo divulgar, registrar e repercutir as ações de
baixo extrato, conferindo-lhes ampla publicidade, tornando-as fichas corridas e
prontuários que devem ser sistematicamente divulgados e definitivamente associados
aos seus patrocinadores. Para tanto, precisamos adotar Vacinas e contramedidas que
podem se valer de métodos não convencionais.
Vacinas contra o Negacionismo:
• Reconhecer os métodos Negacionistas de forma sistematizada.
• Nunca seguir Pessoas, Somente Ideias.
• Desconfiar de Seitas que Enaltecem um Grande Líder.
• Desconfiar e Contestar Lideranças autoritárias e Ideológicas.
• Retirar-se e nunca levar adiante um debate que despreze a lógica e a razão.
• O método negacionista prescreve que a última palavra é sempre do Negacionista,
tornando qualquer debate um confronto inútil. Não se engaje e perca seu tempo.
• Promover a união entre os não-negacionistas divulgando o conhecimento acerca
dos métodos negacionistas.
• Denunciar aqueles que não respondem aos questionamentos. Reforçar
sistematicamente a culpa de quem não apresenta respostas. Se não respondeu é
porque é culpado. Este é um mantra que deve ser repetido à exaustão.
• Denunciar e identificar a tentativa de tentarem rotular a sua pessoa.
• Propagar a noção de que o Negacionismo é um mal potencialmente destrutivo
para a sociedade.
• Divulgadores que possuem o poder da influência precisam adotar a bandeira do
anti-negacionismo com seriedade e abordagem de forma sistemática.
• Divulgar sistematicamente, demonstrando e denunciando por meio da lógica e
da matemática tudo aquilo que é absurdo, incoerente e contraditório.
• Empregar rótulo contra rótulo quando necessário, ressalvando-se que este jogo
não pode ser jogado dentro das regras morais e éticas que outrora vigoravam.
Por Sergio Spinola e Carolina Spinola.

Tratado do negacionismo

  • 1.
    Um Tratado sobreo Negacionismo Desvendar o fenômeno do moderno Negacionismo requer o entendimento acerca de seu real significado, contextualizado em nosso tempo. De imediato, assumimos que se trata da “arte de negar fatos considerados irrefutáveis por aqueles que seguem os preceitos da Lógica e da Razão”. Constitui uma arte que recorre a encenações que empregam atores e personagens e apresenta um enredo lógico, constituído por um método e princípios próprios que, ainda que pervertidos, compõem um Sistema. Este enredo simples, lógico e sistemático confere fundamentação e eficácia ao Negacionismo, que se vale da preguiça mental que acomete boa parte da civilização inebriada pela Internet para se expandir com rapidez. Contudo, uma análise mais cuidadosa possibilita perceber as limitações do arcabouço que dá sustentação a esta argumentação e elencar os seus elementos básicos, conforme será evidenciado neste texto. A propagação do Negacionismo se beneficia da enxurrada de informações que atinge as pessoas nos dias atuais, potencializadas pela inteligência artificial, gerando uma saturação inevitável de nossos cérebros, enfraquecendo o nosso estado de alerta e minando a sustentação de uma constante vigília crítica acerca das informações. Este fato explica o motivo pelo qual muitos se convertem, ao optar pelo "caminho mais fácil", rejeitando as construções complexas e deixando-se seduzir pelas explicações simples. Este é o cenário ideal para a encenação do método que sustenta o Negacionismo e que se baseia em dois procedimentos principais que se retroalimentam: a quebra da cadeia de verificação e a rotulagem. Como mencionado acima, tornou-se humanamente impossível filtrar e verificar todas as informações que chegam até nós, e por este motivo muitos optam por delegar estes filtros a entidades externas. Há não muito tempo atrás esta tarefa cabia exclusivamente à mídia profissional que, embora sujeita a falhas e tendências, gozava de um nível de credibilidade muito elevado. E foi aqui que o Negacionismo aplicou sua primeira e eficaz cunha. Para que o Negacionismo possa prosperar é preciso quebrar a cadeia de verificação, atacando os alicerces de seu principal oponente, justamente a imprensa formal. E para quebrar o elo forte da cadeia recorre-se ao método da rotulação mais primária. A mídia profissional tem enfrentado um desafio de difícil superação a fim de preservar sua credibilidade e relevância em um cenário no qual qualquer um pode disseminar informações, críticas, análises e narrativas de fatos supostamente reais, deturpados, virtuais ou inventados, além de sofrer ataques virulentos dos novos postulantes e não estar sendo capaz de lidar com os novos adversários. O espaço ampliado pela Internet
  • 2.
    tornou-se um palcohostil e campo de batalha onde a ética e a veracidade já foram devidamente relativizadas. Neste cenário hostil os atacantes utilizam sempre o mesmo método, sacando sistematicamente o rótulo da “grande mídia” ou “rede-isto-e-aquilo”, “jornalista-isto- e-aquilo” como forma de descredibilização sistemática, visando retirar a credibilidade dos críticos e potenciais opositores ou quem se lhes oponha de forma generalizada. E quando se consegue descredibilizar aqueles que ainda possuem capacidade de veicular análises por meio de uma audiência constituída, de denunciar contradições e mentiras em série, o primeiro e crucial passo para Negacionismo estará dado. Para o sucesso do Negacionismo é essencial calar a voz dos críticos. E o alvo principal é o jornalismo profissional, doravante denominado “algum-tipo-mídia-lixo”. Uma vez alcançado este objetivo calam-se as vozes daqueles que poderiam representar oposição. É um instrumento muito mais eficaz do que a censura oficial, afinal! A mesma sistemática tem sido adotada com relação às ONGs. “Toda ONG é igual”. “Se é ONG estrangeira é do mal”. Descredibilizar as ONGs de forma sistemática e generalizada ajuda a eliminar boa parte das potenciais contestações. ONGs são especialmente temidas por representar uma concorrência para o Estado, que sempre reclama e pleiteia a exclusividade de todos os recursos e o monopólio da interação com a Sociedade. O método da rotulação para descredibilizar o oponente mais comumente empregado é o da generalização simplória. Desta forma, quando se consegue criar um rótulo pejorativo e pegajoso, melhor ainda, generalizá-lo para toda uma classe de profissionais ou membros atuantes de uma organização, estará dado o passo crucial para descredibilizar de forma ampla uma legião de oponentes, bastando encontrar um bom adjetivo. Contudo, é importante reconhecer que todos nós empregamos instintivamente rótulos para descredibilizar um adversário. O complicador ocorre quando a prática de rotular se torna um método aplicado de forma sistemática, calculada e eficaz, colocando o adversário na posição de alvo de ataques continuados. Rótulos existem desde sempre e podemos listar alguns, tais como “direitista”, “esquerdista”, “stalinista”, “fascista”, “liberal”, “neoliberal”, “burguês”, “reacionário”, “conservador”, “fascista”, “nazista”, “racista”, entre tantos outros. Estes rótulos são históricos e vêm sendo empregados há muito tempo como forma de descredibilizar um debatedor e desta forma vencer e encerrar um debate. A “esquerda” brasileira foi bastante pródiga no uso de rótulos para encerrar discussões ou palestras, quando eram sacados contra o oponente, bastando brandir que você é de “direita", “conservador, “neoliberal” ou "reacionário", o que bastava para encerrar e vencer uma discussão. Por muito tempo o pessoal mais chegado à esquerda – e a propósito, já empregando a rotulagem, descredibilizou os oponentes de cujas ideias
  • 3.
    discordavam empregando arotulação. O que vemos hoje é uma espécie de vendetta, a lei do retorno em ação, demonstrando que vítimas e algozes se entrelaçam, dançam entre si e alternam suas posições com frequência. O rótulo como arma, palavras de ordem ou jargões são artifícios bastante antigos e foram muito empregados em regimes reconhecidamente opressores e totalitários. No limite, a rotulagem antecipava a condenação, suficiente para inaugurar o rito de praxe que conduzia desde a desgraça até o cadafalso. Desde os tempos antigos o rótulo “infiel” já rimava com o “extermínio”. Etiquetar, descredibilizar, abater, linchar e dilacerar, nada de novo no front. No limite, símbolos e logotipos são empregados. O perigo do rótulo é potencializado pela sua capacidade de aderência, dependendo do poder de influência de quem o fabrica. Rótulos nunca são espontâneos, mas elaborados com um propósito. Por meio do rótulo e frases de efeito o atalho para a descredibilização é efetivado e se a repercussão for suficientemente extensa, o alvo dificilmente conseguirá se recuperar. Se aderir firmemente, qualquer batalha de opinião já estará previamente decidida. Uma das características que comprovam o poder do rótulo é a capacidade de generalizar. Esta permite ampliar o alcance das descredibilização, tornando possível abafar todo um setor de críticas. A generalização pode se aplicar a setores, tais como o “agro-negócio”, os “industriais”, “atravessadores”, “donos de supermercado”, “a justiça”, assim como a “grande mídia”, “ambientalistas”, “ongs”. Por meio deste artifício é possível colocar todos no mesmo saco, ampliando sobremaneira o alcance da descredibilização. Voltando à mídia profissional, uma outra fraqueza reside justamente na sua audiência, especialmente quando esta é provocada a analisar, criticar, verificar e validar informações que podem tirá-la de sua zona de conforto intelectual, dado que cria desconforto e oposição ao propor a desconstrução da verdade propalada por parte do líder sectário. O porquê de a zona de conforto ser tão atraente intelectualmente merece muito mais estudos no campo da neurociência, mas parece explicar a atitude passiva por parte daqueles que aceitam as pregações de pastores de araque e políticos carismáticos. Será que o que conforta a alma é o que basta, ainda que tudo não passe de uma reconfortante falácia ? Percebe-se também a evidente cooperação e cumplicidade por parte de muitos consumidores de informação em crer naquilo que lhes soa mais palatável. Desta forma, não se trata apenas de uma crença ingênua e simplória, mas do desejo de colaborar na disseminação ativa da informação sabidamente duvidosa como verdadeira, de forma consciente e dolosa. Forma-se uma cumplicidade que abraça a antiética, ajudando a disseminar aquilo que muito provavelmente sabe-se ser forjado. Esta rede de apoiadores se vê orgulhosamente como parte de uma milícia digital que ajuda a catequisar uma rede subjacente ainda maior de seguidores intelectualmente vulneráveis.
  • 4.
    A esta altura,neste cenário todo o debate já estará definitivamente abortado. E sem debate só haverá uma única verdade imposta. E se não há verdade alternativa possível, não há mais espaço para a lógica ou razão, restando apenas a “lei do mais forte”, opressão e totalitarismo. Em sua construção final um determinado ideário Negacionista poderá ser mesclado e se fundir com uma ideologia. A partir deste contexto, vamos entender os Princípios que fundamentam o Método do Negacionismo. Dos Princípios do Negacionismo Princípio#1 Silêncio conveniente - não responder a perguntas incômodas e comprometedoras, sobretudo quando não houver resposta favorável, tornando normal o ato de, simplesmente, não responder. Isso inclui nunca falar ou responder à imprensa profissional. Ignorar por completo. Criar sua própria imprensa e seu próprio canal de comunicação. Se o encontro presencial for inevitável, insultar livremente e de forma espetaculosa em público o profissional de imprensa. Jamais dar satisfação a qualquer questionador de sua conduta. Princípio#2 Falta de empatia - não reconhecer, não mostrar deferência, não mencionar, não visitar vítimas inconvenientes de fatos negados, tornando o sofrimento do outro invisível. Vítimas inconvenientes devem ser ignoradas e condenadas apenas por serem vítimas. Princípio#3 Criação de pseudo-heróis - renda homenagens a baixas que tenham ocorrido somente dentro do seu clã, corporação, farda ou grupo, do séquito ou da seita. Princípio#4 Mania de Perseguição - Para toda e qualquer acusação ou problema, a culpa sempre recairá no outro. Todo e qualquer problema pode e deve ser resolvido procurando um culpado. Se a origem da acusação for estrangeira buscar comparação com outros países, ainda que imprecisa e encontrar ou inventar um culpado ou exemplo externo para nomear. A culpa pode ser dos chineses, dos russos, da grande mídia, esquerda, das ONGs, índios ou caboclos. Tanto faz, o importante é nomear um culpado externo, sempre. Princípio#5 Direito de errar - Para qualquer acusação, sobretudo na área ambiental, alegar que como os outros devastaram sua natureza, temos o direito de fazer o mesmo, pregando isonomia, denunciando a “cobiça externa”. O “sempre tem alguém que fez pior no passado” chancela qualquer barbaridade cometida no presente. Princípio#6 Ciência Reversa - Começando sempre pela conclusão, coletar e selecionar somente os dados e evidências ou relatos pontuais que possam embasar os resultados que se deseja defender, excluindo todos aqueles dados que desmintam ou fragilizem a
  • 5.
    construção A ideiaé elaborar uma tese que foi comprovada antes mesmo de ter sido proposta. Princípio#7 Ciência Inimiga - Descredibilizar pesquisas, cálculos matemáticos e artigos científicos alegando interesses escusos de opositores e estrangeiros difusos. Ignorar todos os demais estudos baseados em levantamentos estatísticos, em sistematizada coleta de dados e análise probabilística, mesmo quando suportados por entidades científicas e publicações renomadas. Princípio#8- Metas Móveis - Caso os resultados das previsões, práticas ou políticas não condigam com realidade ou sejam frustrados, prolongar, estender ou adiar as expectativas para um futuro incerto e conveniente. Enquanto este futuro difuso não chegar, a construção não poderá ser derrubada. Princípio#9- Eu primeiro - O individualismo deve prevalecer sobre a coletividade. A visão de mundo do Negacionismo deve suplantar a visão da sociedade e do interesse coletivo. Os direitos individuais do Negacionista estão acima dos direitos da coletividade, incluindo aqueles supostos direitos individuais que poderiam conflitar com os direitos individuais dos outros e da coletividade. O Negacionista não aceita a precedência ou conflito de direitos. Princípio # 10 – Populismo Messiânico - Constituir uma Seita Ideológica. Seitas precisam de Pregadores da Palavra. Se necessário for, apropriar-se da Palavra chancelada por “Deus” e a única verdade será a verdade negacionista, advinda do suposto verbo divino. Seitas precisam de pregadores, de preferência de um que se pareça com um Messias. Princípio #11 – Verdade Oculta - Quando tiver uma real e má intenção de fazer algo nefasto, declare publicamente sempre que adotará o lado oposto, esperando para revelar sua posição de fato em um momento mais favorável. A coerência é para os fracos e trouxas. Mentir é para os fortes. Conclusão: O Negacionismo vem sendo usado como ferramenta sistematizada para obstruir o debate técnico e as discussões racionais. Este vem se tornando um grande mal, pois a facilidade com que pode ser propagado por meio da Internet o potencializa como ferramenta de dominação. A irracionalidade humana interessa aos maus políticos, principalmente aqueles vinculados ao outro mal deste Século, o Populismo. E para combater o grande mal deste início de século é preciso sistematizar o processo de combate ao Negacionismo. Mas para que o Negacionismo seja combatido é preciso antes de tudo reconhecê-lo. O primeiro passo a ser dado é reconhecer o Negacionismo em suas multifacetadas formas que estimulam a formação de seitas. Já o Populismo não tem lado, mas vertentes que podem cobrir um amplo espectro, geralmente abraçando o autoritarismo,
  • 6.
    confortavelmente e melhorinstalado nos extremos, seja na direita, seja na esquerda, mas podendo estar em todos os lugares ao mesmo tempo. O Negacionismo não é algo inócuo, e uma vez entranhado na sociedade é uma arma que pode ser empregada de forma extremamente eficaz para manipular o poder, sendo preciso reconhecer que representa uma grande ameaça à liberdade de expressão ao refrear o pensamento racional. É uma ameaça ao Meio Ambiente e ao Planeta, seus alvos preferenciais, dotado de um poder destrutivo muito mais eficaz do que armas físicas. O Negacionismo é uma das armas mais eficazes do populista. E, uma vez conjugados, têm o potencial de nublar a mente de uma grande parte da Sociedade que, uma vez anestesiada, pode aceitar até mesmo ideais extraídos do Fascismo e do Nazismo. A sociedade se acostumou com a razão e a lógica, bem como o método científico ao longo de séculos. E por estar acomodada com a certeza científica, não estava preparada para o renascimento de métodos primários e primitivos de contestação da ciência para os quais os anticorpos de outrora já não mais são efetivos. Infelizmente a imprensa profissional não tem conseguido acompanhar as mudanças, sobretudo de caráter ético que têm ocorrido em nossa sociedade. O jogo desleal como é praticado atualmente não comporta mais uma atitude distanciada, altiva e plenamente isenta. A falácia tornou-se parte da realidade e a divulgação das falácias passou a ser ponto focal do noticiário. A Falácia é a notícia e o noticiário ao mesmo tempo. O Negacionismo se alimenta da discórdia, fratura e desunião, elegendo sistematicamente inimigos. E o Meio Ambiente tem sido escolhido como um inimigo ideológico preferencial, motivo pelo qual arcaremos todos com o dano irreparável da estupidez humana em sua expressão máxima. A saída passa pelo estímulo aos movimentos sociais e agrupamentos que busquem a identificação destas ameaças e denunciar sistematicamente as más práticas dos perpetradores do Negacionismo, reconhecê-los e listar suas atividades e ações. Listar as respostas não concedidas e sobretudo divulgar, registrar e repercutir as ações de baixo extrato, conferindo-lhes ampla publicidade, tornando-as fichas corridas e prontuários que devem ser sistematicamente divulgados e definitivamente associados aos seus patrocinadores. Para tanto, precisamos adotar Vacinas e contramedidas que podem se valer de métodos não convencionais. Vacinas contra o Negacionismo: • Reconhecer os métodos Negacionistas de forma sistematizada. • Nunca seguir Pessoas, Somente Ideias. • Desconfiar de Seitas que Enaltecem um Grande Líder. • Desconfiar e Contestar Lideranças autoritárias e Ideológicas. • Retirar-se e nunca levar adiante um debate que despreze a lógica e a razão.
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    • O métodonegacionista prescreve que a última palavra é sempre do Negacionista, tornando qualquer debate um confronto inútil. Não se engaje e perca seu tempo. • Promover a união entre os não-negacionistas divulgando o conhecimento acerca dos métodos negacionistas. • Denunciar aqueles que não respondem aos questionamentos. Reforçar sistematicamente a culpa de quem não apresenta respostas. Se não respondeu é porque é culpado. Este é um mantra que deve ser repetido à exaustão. • Denunciar e identificar a tentativa de tentarem rotular a sua pessoa. • Propagar a noção de que o Negacionismo é um mal potencialmente destrutivo para a sociedade. • Divulgadores que possuem o poder da influência precisam adotar a bandeira do anti-negacionismo com seriedade e abordagem de forma sistemática. • Divulgar sistematicamente, demonstrando e denunciando por meio da lógica e da matemática tudo aquilo que é absurdo, incoerente e contraditório. • Empregar rótulo contra rótulo quando necessário, ressalvando-se que este jogo não pode ser jogado dentro das regras morais e éticas que outrora vigoravam. Por Sergio Spinola e Carolina Spinola.