SAMIZDAT
http://samizdat.oficinaeditora.com




                                      32
                                      fevereiro
                                       2012
                                       ano V


                                          ficina




 Horacio Quiroga
 O mestre contista latino-americano
Participe da Revista SAMIZDAT 33
  A Revista SAMIZDAT conta com a sua               Por favor, aguarde o período de um mês
participação para manter o alto padrão das       após receber a resposta antes de enviar um
publicações.                                     outro texto.
   Aceitamos e estimulamos a participação
de autores estreantes, pois o nosso objetivo     http://revistasamizdat.submishmash.com/
é apresentar a maior diversidade possível        submit
de autores, ­ êneros e textos.
            g


   Instruções para envio de obras                  Não aceitamos mais textos enviados por
                                                 e-mail.
   1 - Cada escritor poderá inscrever, nos
                                                    4 - Os textos selecionados serão publica-
respectivos campos, somente 1 (um) tex-
                                                 dos na edição 33 da Revista SAMIZDAT na
to literário para publicação, de qualquer
                                                 segunda quinzena de maio de 2012, no site
gênero - conto, crônica, poesia, microconto
- ou um (1) texto teórico, como artigo de        http://samizdat.oficinaeditora.com/
teoria literária, resenha de livros, ou entre-     ou poderão aparecer no site, caso a edi-
vista, além de traduções de textos literários    ção em .PDF já esteja fechada.
em domínio público, sob licença Creative
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do autor. A temática é livre.
                                                 Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras
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lidade de espaço na revista. A revisão dos
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res. O texto não precisa ser inédito.
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                                                   Henry Alfred Bugalho
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                                                   Editor
http://www.flickr.com/photos/advaits/2589618179/
   4 anos de SAMIZDAT
  Há projetos que concebemos, que não          perda do nosso antigo domínio na internet,
temos ideia aonde irão.                        muitos dos nossos antigos leitores ­ambém
                                                                                  t
   Quantos romances, contos e outras obras     sumiram.
não guardamos inacabadas, certos que um           Já não vejo mais a possibilidade de uma
dia recuperaremos aquele ímpeto inicial        publicação mensal e, hoje, em retrospecto,
e as concluiremos? E quantas não são as        penso que foi uma loucura tentarmos tal
ideias brilhantes que, assim que fazemos       proeza com a estrutura totalmente descen-
o primeiro esforço para realizá-las, logo      trada de então, pois cada um atuava como
percebemos que será um empreendimento          bem entendia e a comunicação era bastan-
estéril?                                       te confusa.
    Quatro anos atrás, eu e um pequeno            Aprendemos com nossos erros e tam-
grupo de escritores, reunidos numa oficina     bém com nossos acertos. Em seu quarto
literária virtual, pensamos que talvez fosse   aniversário e 32º fascículo, a SAMIZDAT
interessante publicar os nossos textos numa    retorna mais madura e mais profissional.
revista. Batizamos este projeto de Revista        Ainda somos um grupo de escritores
SAMIZDAT, uma homenagem às publi-              lutando por um lugar ao sol, muitos de
cações clandestinas na Rússia ­ talinista,
                                s              nós ainda publicando independentemente e
repressiva e censora.                          correndo às margens deste brutal mercado
   Não tínhamos clareza de como tudo           que nos exclui e nos ignora, pois assim são
funcionaria, de quem faria o quê, nem se       as regras deste jogo.
teríamos leitores. Não sabíamos se daria          Criamos nas sombras, na esperança que
certo ou não, nem aonde iríamos com isto.      o fogo destes talentos possa brilhar e ilu-
Mas funcionou.                                 minar os nossos caminhos.
   Desde então, muito mudou. Alguns des-         Ação e esperança, estes são os
tes autores se foram, inclusive nem escre-     combustíveis que movem a SAMIZDAT.
                                               ­
vem mais. Depois de um hiato de mais de
                                                                   Henry Alfred Bugalho
um ano nas publicações, inclusive com a
SAMIZDAT 32
fevereiro de 2012



Edição, Capa e Diagramação:       Editorial
Henry Alfred Bugalho
                                      Acredito que esta edição será um divisor de águas para a
Autores                           SAMIZDAT.
Alessa Bertazzo                       Desde o princípio, contamos principalmente com as
Anna Apolinário                   c
                                  ­ ontribuições de autores fixos e de um ou outro colaborador
Cinthia Kriemler                  externo para a criação da revista. No entanto, pela primei-
Daniel Moreira                    ra vez, recebemos um número gigantesco de submissões de
Douglas Batalha                   c
                                  ­ olaboradores espontâneos, com obras de grande qualidade.
Edelson Nagues                        Então, percebi que um dos meus maiores medos havia
Edweine Loureiro
                                  se realizado: a SAMIZDAT, que em sua criação pretendia
                                  c
                                  ­ ontornar o injusto processo de exclusão do mercado lite-
Elias Antunes
                                  rário, enfim se tornava ela mesma excludente. São tantos os
Fernanda Cristina de Paula        talentos, tantas as obras criativas, e o espaço é tão pequeno,
Henry Alfred Bugalho              que se torna impossível publicá-las todas.
João Paulo Hergesel                   Rejeitar um autor em início de carreira não é uma ­arefa
                                                                                            t
Joaquim Bispo                     fácil, eu lhes asseguro. Pois este é o momento em que o es-
José Guilherme Vereza             critor se encontra mais fragilizado, precisando de um estí-
Juliano Ramos de Oliveira         mulo, daquela palavra de incentivo que o empurrará para a
Leandro Luiz                      frente. Por outro lado, a recusa também é um aprendizado e,
Luiza Oliveira
                                  para muitos, deveria ser uma motivação de outra natureza:
                                  “hoje foi um ‘não’, mas amanhã será um ‘sim’”.
Marcelo Soriano
                                      Afinal, é esta expectativa do sim, da aceitação dos leitores,
Mariana Valle
                                  dos editores, dos críticos, da imprensa, dos outros autores,
Otávio Martins                    que nos move, que nos instiga a prosseguirmos na atividade
Rafael Zen                        literária. Escrevemos para nós mesmos, inevitavelmente, mas
Roberto Klotz                     nossas obras pertencem também aos outros.
Sara Meynard                          Um ‘não’ hoje, mas amanhã um ‘sim’, meus amigos, e isto
Silvana Michele Ramos             vale para todos nós.
Sonia Regina Rocha Rodrigues
Tatiana Alves                                                             Henry Alfred Bugalho
Thiago Jefferson dos Santos
G
­ aldino
Valmir Luis Saldanha
                                     Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada
                                  a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons.
Volmar Camargo Junior
Zulmar Lopes                         Todas as imagens publicadas são de domínio público, royalty
                                  free ou sob licença Creative Commons.
Textos de:                          Os textos publicados são de domínio público, com consenso
Horacio Quiroga                   ou autorização prévia dos autores, sob licença Creative Com-
                                  mons, ou se enquadram na doutrina de “fair use” da Lei de
Foto da capa:                     Copyright dos EUA (§107-112).
http://www.flickr.com/photos/­      As ideias expressas são de inteira ­ esponsabilidade de seus
                                                                       r
biggreymare/5513025399/
                                  autores. A aceitação da revisão proposta depende da vontade
                                  expressa dos colaboradores da revista.
http://samizdat.oficinaeditora.
com
Sumário
   Por que Samizdat?				                  8
    Henry Alfred Bugalho

   RECOMENDAÇÃO DE LEITURA
   Em Nome do Filho					                  10
    Edelson Nagues

   HUMOR
   Breve Dissertação sobre o Palavrão		   14
    Joaquim Bispo


   CONTOS
   O Moedor de Café					                  16
    Henry Alfred Bugalho
   Criança Prodígio						                 20
    Thiago Jefferson dos Santos Galdino

   Filho da Pátria Sem Mãe				            21
    Marcelo Soriano

   Vez em quando						                    22
    Cinthia Kriemler

   Relicário							                       25
    Tatiana Alves

   A deusa da chuva					                  27
    José Guilherme Vereza
   O Catavento Maluco					                29
    Otávio Martins

   Depuração						                        31
    Silvana Michele Ramos

   Adivinho, detetive ou fofoqueiro			    32
    Roberto Klotz

   Avessa (o)							                      35
    Sara Meynard
Coletivo							                             37
  Edweine Loureiro
Purgatório							                           38
  Zulmar Lopes
Doa-se um helicóptero. Tratar aqui.		       40
  Leandro Luiz
Rugas do Tempo					                         41
  Juliano Ramos de Oliveira
Minha vida, meu pesadelo				                42
  Sonia Regina Rocha Rodrigues
Marta e o gosto do tempo				                44
  Fernanda Cristina de Paula


TRADUÇÃO
A Galinha Degolada					                     46
  Horacio Quiroga
Decálogo do perfeito contista			            51
  Horacio Quiroga


TEORIA LITERÁRIA
O que ninguém lhe dirá numa oficina literária -
parte 1 (A Criação)					                    54
 Henry Alfred Bugalho
Castillo e Modern: dois poetas argentinos	 58
 Elias Antunes
O Grande Sertão de Riobaldo			              60
 Alessa Bertazzo

CRÔNICA
Europa Descarrilada				                 	   62
 João Paulo Hergesel


POESIA
A fila							                           	   64
 Volmar Camargo Junior
#18							                              	   66
 Rafael Zen
Rito							              	   67
Anna Apolinário
Olhos de distância				   	   68
Daniel Moreira
Sagrado						            	   70
Luiza Oliveira
Senilidade						         	   71
Valmir Luis Saldanha
Nº 1							              	   72
Douglas Batalha
Missão						             	   73
Mariana Valle




                                  7
Por que Samizdat?
                                       “Eu mesmo crio, edito, censuro, publico,
                                       d
                                       ­ istribuo e posso ser preso por causa disto”
                                                                            Vladimir Bukovsky



Henry Alfred Bugalho                   Inclusão e Exclusão              se converte em uma ditadu-
henrybugalho@hotmail.com                                                ra como qualquer outra. É a
                                                                        microfísica do poder.
                                          Nas relações humanas,
                                       sempre há uma dinâmica de           Em reação, aqueles que
                                       inclusão e exclusão.             se acreditavam como livres-
                                                                        pensadores, que não que-
                                          O grupo dominante, pela
                                                                        riam, ou não conseguiam,
                                       própria natureza restritiva
                                                                        fazer parte da máquina
                                       do poder, costuma excluir ou
                                                                        a
                                                                        ­ dministrativa - que esti-
                                       ignorar tudo aquilo que não
                                                                        pulava como deveria ser a
                                       pertença a seu projeto, ou
                                                                        cultura, a informação, a voz
                                       que esteja contra seus prin-
                                                                        do povo -, encontraram na
                                       cípios.
                                                                        autopublicação clandestina
                                           Em regimes autoritários,     um meio de expressão.
                                       esta exclusão é muito eviden-
                                                                           Datilografando, mimeo-
                                       te, sob forma de perseguição,
                                                                        grafando, ou simplesmente
                                       censura, exílio. Qualquer um
                                                                        manuscrevendo, tais autores
                                       que se interponha no cami-
                                                                        russos disseminavam suas
                                       nho dos dirigentes é afastado
                                                                        idéias. E ao leitor era incum-
                                       e ostracizado.
                                                                        bida a tarefa de continuar
                                          As razões disto são muito     esta cadeia, reproduzindo tais
                                       simples de se compreender:       obras e também as ­ assando
                                                                                              p
                                       o diferente, o dissidente é      adiante. Este processo foi de-
                                       perigoso, pois apresenta         signado "samizdat", que nada
                                       alternativas, às vezes, muito    mais significa em russo do
                                       melhores do que o estabe-        que "autopublicado", em opo-
                                       lecido. Por isto, é necessário   sição às publicações oficiais
                                       suprimir, esconder, banir.       do regime soviético.

                                          A União Soviética não
                                       foi muito diferente de de-
                                       mais regimes autocráticos.
                                       O
                                       ­ rigina-se como uma forma
                                       de governo humanitária,
                                       igualitária, mas
Foto: exemplo de um samizdat. Corte-   logo
sia do Gulag Museum em Perm-36.




8
E por que Samizdat?              revistas, jornais - onde ele     des tiragens que substituam
                                 possa divulgar seu trabalho.     o prazer de ouvir o respal-
                                 O único aspecto que conta é      do de leitores sinceros, que
   A indústria cultural - e o
                                 o prazer que a obra causa no     não estão atrás de grandes
mercado literário faz parte
                                 leitor.                          autores populares, que não
dela - também realiza um
                                                                  perseguem ansiosos os 10
processo de exclusão, base-         Enquanto que este é um        mais vendidos.
ado no que se julga não ter      trabalho difícil, por outro
valor mercadológico. Inex-       lado, concede ao criador uma        Os autores que compõem
plicavelmente, estabeleceu-se    liberdade e uma autonomia        este projeto não fazem parte
que contos, poemas, autores      total: ele é dono de sua pala-   de nenhum ­ ovimento
                                                                               m
desconhecidos não podem          vra, é o responsável pelo que    literário organizado, não
ser comercializados, que não     diz, o culpado por seus erros,   são modernistas, pós-
vale a pena investir neles,      é quem recebe os louros por      m
                                                                  ­ odernistas, vanguardistas
pois os gastos seriam maio-      seus acertos.                    ou qualquer outra definição
                                                                      ­
res do que o lucro.                                               que vise rotular e definir a
                                    E, com a internet, os au-     orientação dum grupo. São
   A indústria deseja o pro-     tores possuem acesso direto      apenas escritores ­nteressados
                                                                                    i
duto pronto e com consumi-       e imediato a seus leitores. A    em trocar experiências e
dores. Não basta qualidade,      repercussão do que escreve       sofisticarem suas escritas. A
não basta competência; se        (quando há) surge em ques-       qualidade deles não é uma
houver quem compre, mes-         tão de minutos.                  orientação de estilo, mas sim
mo o lixo possui prioridades
                                                                  a heterogeneidade.
na hora de ser absorvido            A serem obrigados a
pelo mercado.                    burlar a indústria cultural,         Enfim, “Samizdat” porque a
                                 os autores conquistaram algo     internet é um meio de auto-
  E a autopublicação, como       que jamais conseguiriam de       publicação, mas “Samizdat”
em qualquer regime exclu-        outro modo, o contato qua-       porque também é um modo
dente, torna-se a via para       se pessoal com os leitores,      de contornar um processo
produtores culturais atingi-     o diálogo capaz de tornar a
                                   ­                              de exclusão e de atingir o
rem o público.                   obra melhor, a rede de conta-    o
                                                                  ­ bjetivo fundamental da
                                 tos que, se não é tão influen-   e
                                                                  ­ scrita: ser lido por alguém.
    Este é um processo soli-
                                 te quanto a da ­ rande mídia,
                                                 g
tário e gradativo. O autor
                                 faz do leitor um colaborador,
precisa conquistar leitor a
                                 um co-autor da obra que lê.
leitor. Não há grandes apa-
                                 Não há sucesso, não há gran-
ratos midiáticos - como TV   ,



   SAMIZDAT é uma revista eletrônica
m
­ ensal, escrita, editada e publicada pelos
i
­ntegrantes da Oficina de Escritores e Teoria
Literária. Diariamente são incluídos novos
textos de autores consagrados e de jovens
e
­ scritores amadores, entusiastas e profis-
sionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas
literárias e muito mais.


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Recomendação de Leitura


  EM NOME DO FILHO
                                                                      Edelson Nagues




                                                                                               http://www.cristovaotezza.com.br/Fotografias/Web/web16.jpg
  (Resenha do livro O filho eterno – TE-       “nossa culpa”. Essa constatação nos intimida,
ZZA, Cristovão. Rio de Janeiro: Record,        nos estremece. Se somos seres incompletos
2007.)                                         por natureza, em constante e interminável
                                               formação, como poderemos formar outros
                                               seres?
   O nascimento de um filho, principalmen-
te o primogênito, é sempre um momento             E quando o nascimento de um filho, o
de muita emoção. Para os pais, avós, tios,     primogênito, revela uma criança estranha,
primos... “o nascimento é uma felicidade       diferente, “anormal”?! (“Um filho é a ideia
coletiva” (obra citada, 7ª edição, p. 25). É   de um filho; uma mulher é uma ideia de
um importante marco na vida do casal. E à      uma mulher. Às vezes as coisas coincidem
alegria desse acontecimento mescla-se um       com as ideias que fazemos delas; às vezes
receio, um certo temor, ainda que não assu-    não.” – idem, p. 14 – atualizamos pela nova
mido, dissimulado. É que, de um momento        ortografia.)
para o outro, nos encontramos frente ao de-       Aos 28 anos, projeto de escritor (“pen-
safio de sermos responsáveis pela formação     so que sou escritor, mas ainda não escrevi
de um ser humano posto neste mundo por         nada”), desempregado, sustentado pela espo-




10    SAMIZDAT fevereiro de 2012
sa, a sua ideia de filho não coincidiu com a     ção de pai. Um filho que seria uma criança
realidade do filho que lhe veio. E para quem     por toda a vida. “Uma criança eterna.” E
já via o nascimento como “uma brutalida-         como consolo ao desespero que se aba-
de natural, a expulsão obscena da criança,       teu sobre ele (“um sentimento de abismo”),
o desmantelamento físico da mãe até o            agarrou-se à comprovação científica de que
último limite da resistência” (p. 24), esse      “as crianças com Síndrome de Down mor-
desencontro da ideia com a coisa real, na        rem cedo”. Cruel? Certamente. Mas, sobre-
madrugada do dia 3 de novembro de 1980,          tudo, humano, demasiado humano – como
tornou-se uma verdadeira                                          diria Nietzsche, um dos
tragédia. E com um nome                                           seus filósofos favoritos.
– ou, melhor, um estigma                                              Se o relato de um pai
humilhante: “mongolismo”.                                         que renega o próprio filho
   Em tempos politicamen-                                         por si só já é chocante,
te corretos, mongolismo                                           mais estarrecedor se torna
transmutou-se em “Sín-                                            quando sabemos que não
drome de Down”. Quem                                              se trata de ficção. Assim, o
a descreveu pela primeira                                         “filho eterno” tem um nome
vez foi o médico inglês                                           real, de registro: Felipe. E
John Langdon Haydon                                               um nome não menos real
Down (1828-1896), que lhe                                         tem o pai: Cristovão; e
emprestou o nome. Ele des-                                        ambos ostentam o mesmo
tacou a semelhança facial                                         sobrenome: Tezza.
dos portadores da síndro-                                             Cristovão Tezza, hoje
me com os mongóis, os                                              escritor consagrado, tido
naturais da Mongólia, na                                           como um dos melhores
Ásia. Daí serem chamados                                           de sua geração no Brasil,
de “mongoloides”. Resulta                                          revela, quase três décadas
da trissomia do cromos-                                            depois, que é pai de um
somo 21, ou seja, em vez                                           jovem portador de Síndro-
de dois cromossomos 21, algumas crianças         me de Down. Em um relato corajoso, sem
nascem com três, e apresentam determi-           subterfúgios nem autocomiseração (“a pie-
nadas características físicas: língua muito      dade, o alimento da pieguice, que é a forma
grande, pescoço largo e achatado, baixa          grudenta, caramelizada, da mentira” – p.
estatura, olhos pequenos e amendoados.           152), disseca e, ao mesmo tempo, traz à luz
Sofrem ainda de variados níveis de autismo       seus mais ocultos sentimentos, desnudando
e limitado desenvolvimento mental. “Para         publicamente sua relação com o filho espe-
eles, o tempo não existe. A fala será, para      cial. Um acerto de contas consigo mesmo
sempre, um balbuciar de palavras avulsas,        e, de certa forma, com a literatura, em que
sentenças curtas truncadas [...]. O equilíbrio   pessoas portadoras dessa síndrome parece
no andar será sempre incerto, e lento; se        não terem espaço.
os pais se distraem, eles engordarão como
tonéis, debaixo de uma fome não censurada           E não apenas na literatura: “O cinema,
pela sensação de saciedade, que neurolo-         em seus 80 anos, [...] jamais os colocou em
gicamente demora a chegar. [...] Não veem        cena. Nem vai colocá-los. [...] Não há mon-
à distância – o mundo é exasperadamente          goloides na história, relato nenhum – são
curto; só existe o que está ao alcance da        seres ausentes” (p. 36). Mas principalmente
mão. São caturros [sic] e teimosos – e con-      na arte da escrita: “Em todo o Ulisses, James
trolam com dificuldade os impulsos, que se       Joyce não fez Leopoldo Bloom esbarrar em
repetem, circulares” (p. 34).                    nenhuma criança Down, ao longo daquelas
                                                 24 horas absolutas. Thomas Mann os ignora
   Foi com uma dessas crianças que o pobre       rotundamente. [...] Leia os diálogos de ­ latão,
                                                                                         P
escritor se defrontou, na inalienável condi-     as narrativas medievais, Dom Quixote,




                                                   http://samizdat.oficinaeditora.com        11
avance para a Comédia humana de Balzac,         ideia de filho, a desenhar-lhe uma hipótese”
chegue a Dostoiévski, nem este comenta,         (p. 68), “o que ele quer é que aquela criança
sempre atendo aos humilhados e ofendidos;       trissômica conquiste o papel de filho” (p.
os mongoloides não existem” (p. 36).            95), como observa o narrador (o romance
   Cabe então a esse escritor, a quem foi       é escrito em falsa terceira pessoa – pois, de
propiciado o convívio com um desses seres       fato, o é em primeira –, com flashbacks que
diferenciados, preencher tal lacuna. E ele o    vão compondo o tempo e o espaço em que
faz com sentimento, com entrega, com dor        os fatos ocorrem).
mesmo, sem jamais perder o domínio técni-          Assim, depois de perambular com o filho,
co da narrativa (pois se trata de um profes-    na companhia da então esposa (a quem
sor universitário, um doutor em literatura      dedica o livro), por consultórios dos mais
“apaixonado pela técnica”).                     variados especialistas, com resultados pouco
    Não há pieguice nem ressentimentos. Há      animadores, aprende finalmente a aceitar e
revolta, sim, presente na crueza com que se     conviver com as limitações desse ser espe-
refere ao seu primogênito: “criança horrí-      cial. Descobre, por exemplo, que “o mundo
vel”, “pequeno leproso”, “pequeno monstro”,     dos afetos é o talento dessa criança” (e uma
“filho lesado”, “filho pela metade”, “um não-   das características mais marcantes de todas
filho”, entre outras expressões igualmente      as pessoas portadoras de tal síndrome), e
reprováveis, considerando-se a sua condição     aprende que “a afetividade é um modo de
de pai. E essa exposição de repulsa paterna     compreensão”. Um outro talento de Felipe,
provoca o leitor, tenta chocá-lo de forma       a pintura (ainda que de forma rústica, tendo
proposital, para que este – assim como o        em vista sua dificuldade para assimilar téc-
escritor se ­ ermitiu – seja confrontado com
             p                                  nicas minimamente complexas), é percebido
sua hipocrisia, esse câncer social, que faz     e incentivado com envolvimento, para não
com que reprovemos nos outros tais atitu-       dizer paixão.
des enquanto adotamos inconscientemente            E uma outra paixão – esta também da
postura semelhante (como os pais que, há        maioria dos brasileiros, como se sabe –, o
pouco tempo, em um shopping em São Pau-         futebol, acaba por unir pai e filho em uma
lo, impediram que uma criança com Sín-          relação que sempre souberam ser eterna.
drome de Down continuasse brincando na          Ainda que apresente aspectos fugazes, o ato
piscina de bolinhas de uma brinquedoteca,       de assistirem juntos, devidamente unifor-
pois estaria incomodando seus filhos “sãos”).   mizados, a um jogo do time favorito – no
  E a revolta do escritor vai, aos poucos,      estádio ou na frente da televisão, com a im-
cedendo lugar à aceitação, deixando fluir o     prescindível pipoca – revela que a história
amor oculto nas camadas da vergonha im-         de ambos não teve um fim, mas está sendo
posta pelo “teatro do verniz civilizador”. “O   escrita no eterno retorno do dia a dia. As-
pai ainda não sabe, mas começa a ter uma        sim como a história de todos nós, aliás.

     EDELSON NAGUES
   (nome literário de Edelson Rodrigues Nascimento) é natural de Rondonópolis/MT
e radicado em Brasília/DF. Poeta, escritor, revisor de textos e servidor público. Estudou
Direito e Filosofia, com pós-graduação em Língua Portuguesa. Tem vários trabalhos
premiados e/ou selecionados para coletâneas de concursos nacionais, destacando-se:
XXXIII Concurso “Fellipe d’Oliveira” (Santa Maria/RS), XXI Concurso Nacional de Con-
tos “José Cândido de Carvalho” (Campos dos Goytacazes/RJ), IV Concurso Nacional de
Contos do SESC-Amazonas (Manaus/AM), Concurso Novo Milênio de Literatura (Vila
Velha/ES), VI Desafio dos Escritores (Brasília/DF), XL Concurso Literário “Escriba” (Pi-
racicaba/SP) e Concurso Nacional de Contos de Porto Seguro/BA, entre outros. É au-
tor dos livros “Demasiado humano” (contos) e “Águas de clausura” (poemas), a serem
publicados brevemente.



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O lugar onde
                                                                		   a boa Literatura
                                                                	              é fabricada
http://www.flickr.com/photos/32912172@N00/2959583359/sizes/o/




                                                                                                                       ficina
                                                                                         http://samizdat.oficinaeditora.com   13

                                                                                                          www.oficinaeditora.com
Humor




                                                                                           http://www.flickr.com/photos/reallyterriblephotographer/5618087763/
                                                               Joaquim Bispo



       Breve Dissertação
        sobre o Palavrão
     Caros circunjacentes:                    Então, nos píncaros da exaltação, aquilo
   A minha preleção de hoje versa o pa-       que primeiro acode aos lábios, sem se
lavrão, em todas as suas aceções, o qual,     subordinar a uma triagem nas circunvo-
segundo o dicionário Houaiss, pode ser        luções da racionalidade, são considera-
considerado em três aspectos semânticos.      ções sobre as caraterísticas ou os hábitos
                                              excretais ou sexuais do pretenso agressor
   O mais popular, imediato e dissemi-        ou de algum membro da sua família. São
nado é o turpilóquio. Nesta forma torpe,      expressões belicosas cuja significação
geralmente, explode boca fora, espontâ-       pretende provocar algum constrangimen-
neo e veemente, quando se é vilipendia-       to na autoestima do interlocutor aciden-
do de maneira inopinada ou prepotente         tal. Por exemplo: – Rastilho curto! – que,
nas interações sociais. Sobrevém, amiúde,     como calculam, também achincalha o
nas acrimónias do trânsito citadino, onde     tamanho do autocontrolo dele.
a peleja pelo espaço essencial do asfal-
to, faz colidir os interesses particulares.     No entanto, para atingir o adversário
                                              de maneira cruenta e implacável, o vitu-




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pério, não precisa coincidir, morfologica-   substância farmacêutica. O do vizinho
mente, com um vocábulo de semântica          africano chama-se Pneumoultramicrosco-
obscena. Para tanto, a entoação deve col-    picosilicovulcanoconiótico, tem 46 letras
matar a escassez de ignomínia. Recordo       e significa “portador de uma doença
aqui a forma irretorquível como concluí      pulmonar aguda causada pela aspiração
uma altercação de trânsito, que deixou o     de cinzas vulcânicas”.
meu antagonista em estupor, como touro          O mundo destes palavrões é atroz. Em-
lidado: – Ó meu caro amigo: Vodafone!        baraça qualquer estudante de medicina,
   A forma mais vulgarizada, todavia, é      mas, sobretudo, aterroriza o portador da
a de aconselhar o contendor a encetar        doença Hipopotomonstrosesquipedalio-
determinada atividade, ou a deslocar-se      fobia, a qual – crueldade das crueldades
para determinado local, diferentes dos       – é a “doença psicológica que se caracte-
atuais, e que, na opinião do fustigador,     riza pelo medo irracional de pronunciar
se adequam melhor às caraterísticas do       palavras grandes ou complicadas”. Imagi-
enxovalhado. As notícias da política         nem o pânico do doente de ser inquirido
internacional são um manancial de ex-        sobre a denominação da sua própria
pressões com sonoridades e construções       enfermidade!
ortográficas que sugerem conotações so-         Estes vocábulos escaganifobéticos
ezes e insultuosas. Aquando da guerra na     parecem-me denunciar o pérfido sub-
ex-Jugoslávia, ouvi uma feirante verberar    terfúgio de arquitetar termos complica-
outra, nos seguintes termos: – Vá prà        dos, pela mera acoplagem, numa mesma
Bósnia, sua Herzegovina! Se fosse agora,     palavra, de outras muito mais curtas. Por
talvez dissesse: – Vá Kandahar o Jalala-     esta técnica, também me posso qualificar
bad do Kabul com Afeganistão – que me        como Homemextremamenteatraentein-
parece de uma gravidade inquestionável.      teligentedivertido, epíteto de que só não
Ninguém merece ver-se confrontado com        faço uso por abominar redundâncias.
esta alternativa.
                                                A terceira aceção de “palavrão” é
   Outro significado de “palavrão”, este     “expressão pomposa e empolada”. Não
com alto grau de adequação, é “palavra       me ocorre, por ora, qualquer exemplo
grande e de pronúncia difícil”. Quando       ilustrativo. Locuções grandiloquentes ou
era mancebo, pensava que o maior pala-       de sentido ininteligível estão afastadas do
vrão da língua portuguesa era “incons-       meu discurso, o qual, como foi patente, é
titucionalissimamente”, com 27 letras.       sempre despretensioso e matizado ape-
Hoje, constato que o palavrão que me         nas por vocábulos lhanos e percetíveis
enchia de orgulho era apenas um pala-        por todos.
vrinho, como pénis de menino. O do pai
chama-se Paraclorobenzilpirrolidinone-         Tenho dito!
tilbenzimidazol, tem 43 letras e é uma


   Joaquim Bispo
   Português, reformado, ex-técnico de televisão, xadrezista e pintor amador, licencia-
do tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao
Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007 Produziu em quantidade e ga-
                                                    .
nhou destreza nas oficinas virtuais de Henry Bugalho e de Marco Antunes. Enquanto
não consegue publicação, entretém-se a enviar textos para concursos literários em que
obteve uma meia dúzia de prémios vários.
   Contacto: episcopum@hotmail.com



                                               http://samizdat.oficinaeditora.com    15
Contos


 O Moedor de Café
                                                        Henry Alfred Bugalho




                                                                                    http://www.flickr.com/photos/sirwiseowl/206004154/
   Não gosto de café. Não bebo. Nem           — Também não toma?
uma única gota. E não se trata apenas         — Só com Nescau — eu respondia, o
do gosto, até o cheiro me causa aversão.   que as forçava a procurar no fundo de
   Isto vem de longa data; lembro-me       algum armário, resmungando, por aque-
de quando eu era criança e, na casa de     le pote de Nescau ou Toddy já vencido
amigos, na hora do lanchinho da tarde,     de tão velho.
as mães deles preparavam a mesa e nos         Este fato também me trazia emba-
serviam, e da minha cara quando elas       raços durante o tempo que morei na
enchiam meu copo com café.                 Europa. Toda vez que eu recusava uma
   — Não toma?                             xícara de café colombiano — dizem
   E eu negava com a cabeça. Então,        que é excelente — ou um cappuccino,
elas rapidamente trocavam meu copo         imediatamente fulminavam-me com
por um outro, enchiam-no com leite e       os olhos, como se eu houvesse proferi-
novamente aquela expressão de repulsa      do alguma heresia e o papa Bento XVI
na minha cara.                             estivesse prestes a me excomungar por
                                           isto.




16    SAMIZDAT fevereiro de 2012
— Não gosto, porra, simples assim!       c
                                            ­ onseguia contrariar minha avó que, ao
   — Brasileiro que não gosta de café       abrir um sorrisão que quase arremessa-
não existe — retrucavam.                    va sua dentadura pra fora, perguntava,
                                            fitando-me:
   “Eu existo, logo brasileiro que não
gosta de café também”, lógica elementar.       — Quem quer moer o café?
   No entanto, paradoxalmente, um              E já antecipando minha resposta,
dos meus grandes prazeres quando eu         ela me estendia o saco de café e, cons-
contava uns dez anos era, nas férias, ao    trangido, eu me via forçado a ir para o
irmos para a casa de minha vó no inte-      galpão moê-lo, não sem antes ouvir os
rior, moer café.                            risinhos dos primos e os cochichos:
   Talvez você nunca tenha visto um an-        — Se ferrou!
tigo moedor de café na vida, eu mesmo          Mas este depósito representaria mais
não o teria se não fosse por causa des-     para mim do que um mero prazer tor-
tas viagens, mas o princípio é simples: é   nado martírio.
um aparelho de ferro, fixo numa mesa,          Era aniversário de quatorze anos dum
com uma entrada no topo semelhante          dos primos e toda a vizinhança foi con-
a um funil, uma manivela que aciona         vidada para a casa da minha vó. Não
uma roda para triturar o café torrado,      era exatamente uma superprodução de
e uma abertura no fundo, de onde se         festa; minha vó sempre foi muito hu-
recolhe o pó.                               milde — apesar de eu ter ouvido que
   Então, toda vez que minha vó per-        ela tinha umas quinhentas cabeças de
guntava:                                    gado pastando numa de suas fazendas
   — Quem quer moer o café?                 —, por isto ela fazia questão de que
                                            tudo fosse muito simples.
   Eu logo erguia a mão, apanhava o
bocado de grãos torrados e corria para         As minhas tias assumiam o papel de
um galpão atrás da casa, onde ficava        quituteiras, enrolando brigadeiros, bei-
o moedor. Meus primos e primas se           jinhos e fritando um punhado de coxi-
deliciavam com este período de folga,       nhas. Minha mãe, que não tinha talento
porque durante a minha breve visita         algum para a cozinha, organizava a
eles se viam livres desta atividade que     piazada para os preparativos — encher
era obrigação diária.                       bexigas, arrumar as mesas no quintal —,
                                            enxotava os menorzinhos que filavam
   E era neste mesmo depósito que fica-     uns docinhos, ou mandava as primas
vam armazenadas sacas e mais sacas de       para o banho. Meu primo, que já ema-
café, cuja existência nunca compreendi.     nava ares de adulto — um ralo bigode
Não sabia se eram para ser revendi-         e, segundo ele, um razoável chumaço de
das, ou apenas para consumo próprio,        pentelhos —, achava toda aquela balbúr-
mesmo que fosse impossível para uma         dia ridícula.
única família beber tanto café na vida.
                                               — Pô, mãe, eu não sou mais criança!
   Sozinho naquele depósito sujo, úmi-      Pra que bexiga?
do, escuro, cheio de teias de aranha e,
pelo que meus primos me diziam, de             Uma das provas de que ele não se
onde era muito fácil sair apinhado de       sentia mais criança podia ser encontra-
piolhos, eu girava a manivela, imerso       da nas convidadas; logo avistamos uma
no cheiro de café torrado que subia do      revoada de meninas chegando pela rua,
moedor.                                     vindo em direção à casa de minha vó.
   Este divertimento perdurou até uns          A presença de garotas, ainda mais
treze anos, mas depois disto, eu só         garotas de nossa idade, atiçou toda a
continuei perfazendo-o porque não           molecada.




                                              http://samizdat.oficinaeditora.com   17
— É hoje que vou me dar bem! —          lugar mais calmo não havia.
cada um dizia para si, mesmo que mui-         Foi naquele canto escuro, úmido,
tos não tivessem coragem de se aproxi-     teias de aranhas — quiçá, piolhos! —,
mar delas. Por outro lado, eu ainda me     atrás das sacas de café, que meu suor se
sentia o mais inexperiente de todos ali,   misturou com o de Rafinha, que pela
apesar de ser um pouco mais velho do       primeira vez me senti dentro duma
que eles. Quase todos os meus primos       mulher.
já haviam perdido a virgindade, alguns
com menininhas do sítio, outros com           Há momentos que mudam a vida
putas mesmo, encorajados por seus pais.    duma pessoa: de alguns deles não nos
Apenas os mais novos, menores de doze      lembramos, nem temos como: a data
anos, e eu é que ainda estávamos na fila   de nosso nascimento, nossas primeiras
para sermos descabaçados.                  palavras ditas, a primeira vez que nos
                                           espantamos diante do nascer do sol, e
   O aniversariante veio até mim e me      talvez o dia de nossa morte, pois não
disse:                                     sabemos se há algo para além ou se
   — Está vendo aquela ali? Diz que viu    é meramente o fim; mas há também
você na missa ontem. Vai lá, rapaz, que    aqueles inesquecíveis: o primeiro dia na
ela é facinha.                             escola, aquele Natal no qual descobri-
   — Sério?                                mos que Papai Noel não existe, o dia
                                           em que passamos no vestibular, a aqui-
   — Sim. Todo mundo já traçou a Rafi-     sição do primeiro carro, o nascimento
nha. É só chegar que ela dá.               dos filhos, a morte de nossos pais... Eu
   E esta última frase foi fatal para      e Rafinha, corpos nus entrelaçados, é
mim. Minhas pernas começaram a tre-        uma destas lembranças.
mer e eu fiquei tão aterrorizado de que       Eu me apaixonei por ela, adoeci de
aquela noite poderia ser a minha vez,      amor. Voltei para minha cidade e tudo
que eu passei a vagar pelos cantos da      me trazia a memória daquela noite.
festa, só me expondo para ir catar uns     Ao chegar em casa, depois da aula, eu
salgadinhos.                               me jogava na cama, punha um CD de
   Foi numa destas oportunidades que       Johnny Rivers, e sonhava acordado, an-
Rafinha me abordou.                        gustiado, aborrecido, oprimido pela sau-
   — Oi? — ela molhou os lábios e me-      dade. À noite, antes de dormir, o desejo
xeu no cabelo.                             me consumia. As horas se arrastavam.
                                           Tinha de acordar cedo e o relógio na
   Não me lembro o que respondi, mas       cabeceira indicava três horas da manhã.
gaguejei e ela riu.                        Batia uma punheta assistindo aqueles
   — Você é tão bonitinho — ela disse.     filmes eróticos da madrugada e, por
   Quando percebi, já nos atracávamos      mais aquele dia, eu vivia sem Rafinha.
atrás duma árvore no quintal. Eu não          O passar dos meses foi uma eterni-
era o rapaz mais experiente do mundo,      dade. Só retornaria à casa de minha avó
mas já havia pegado nuns peitinhos an-     para as férias do fim de ano. De julho a
tes. No entanto, logo estes meus poucos    dezembro, um, dois, três, quatro meses.
truques se esgotaram. Eu estava muito      Mas o tempo simplesmente havia para-
excitado, mas não tinha muita certeza      do e, no meu peito, uma paixão como
de até onde poderia ir.                    eu nunca sentira antes.
   Novamente, a iniciativa foi de Rafi-       Minha mãe comprou as passagens de
nha:                                       ônibus e pude respirar aliviado, falta-
   — Vamos pr’um lugar mais calmo?         vam apenas mais alguns dias.
   E, num reflexo, pensei no depósito:        Chegamos à minha vó de manhã




18    SAMIZDAT fevereiro de 2012
bem cedo. Todos acordaram para nos             Estendi o braço e gentilmente en-
receber, como era de praxe. Vovó pre-       treabri a porta. Pela fresta, pude ver
parou um café para a gente, leite com       R
                                            ­ afinha sentada sobre o balcão do mo-
Nescau pra mim, é óbvio! Meus primos        edor de café, vestido erguido até a cin-
também despertaram, olhos cheios de         tura, calcinha arriada até os tornozelos,
remelas e marcas de travesseiro no          e no meio de suas pernas, um homem
rosto. Puxei um deles pelo braço até o      com a bunda exposta.
quarto e perguntei:                            Dei um passo adiante e terminei de
   — E Rafinha, como ela está?              abrir a porta. O ranger fez com que
   — Bem... acho.                           ambos olhassem em minha direção. O
                                            olhar do homem pousou sobre mim,
   — Eu preciso ver aquela menina de        num misto de espanto, raiva e excita-
novo.                                       ção.
   — Sai desta, rapaz, ela já deu pra          — Tio? — perguntei, e antes que eu
você. Cata outra.                           pudesse ter qualquer reação, ele aban-
   Mas eu não queria outra. Meu primo       donou Rafinha com as pernas arrega-
me tranquilizou: comemoraríamos o           nhadas e veio com a benga balançando
aniversário duma das primas e Rafinha       até mim. Segurou-me com força pelo
também viria. O repeteco prometia ser       braço, fechou a porta e me jogou contra
bom.                                        a parede.
   A festa foi organizada, a mesma             — Você não vai contar nada pra sua
baderna de antes, criançada correndo        tia, moleque, senão eu te mato. Te mato!
pela casa, bexigas infladas e o cheiro de
fritura. Os convidados chegaram.
                                              Não gosto de café. Não bebo. Nem
   Todavia, tudo estava diferente.          uma única gota. E não se trata apenas
   Rafinha sequer olhava para mim. Eu       do gosto, até o cheiro me causa aver-
forçava um encontro, aproximava-me,         são. Nunca gostei. Quando criança
mas era como se eu houvesse me torna-       chegava a passar vergonha por causa
do o homem-invisível.                       disto na casa de amigos. Mas não era
   — Deixa disso, — me disseram — ela       nojo, só não gostava. Mas hoje, toda
é só uma piranhazinha.                      vez que passo na frente dum boteco e
                                            vejo aquele líquido preto escorrendo do
   Então, eu não a vi mais. Perguntei aos   bule, fumegando, e o cheiro me alcança,
primos e primas, mas ninguém sabia          não posso evitar de pensar em mim,
onde ela estava. Fui até atrás da mesma     em Rafinha, em sacas de café, no pau
árvore em que estivemos, e nada. Deci-      meio mole de meu tio e num moedor
di arriscar, por fim, o depósito.           de café.
   Ouvi alguns ruídos vindos de dentro,       Não consigo.
gemidos abafados.
                                              Não dá.


   Henry Alfred Bugalho
   Formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Litera-
tura e História. Autor de “O Canto do Peregrino” (Editora Com-Arte/USP), de outros
quatro romances e de duas coletâneas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e fun-
dador da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia Nova York para Mãos-de-
Vaca”, cidade na qual morou por 4 anos. Está baseado, atualmente, em Buenos Aires,
com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha.




                                              http://samizdat.oficinaeditora.com   19
Contos




                                     Thiago Jefferson dos Santos Galdino


     CRIANÇA PRODÍGIO
   Sempre foi a criança mais inteli-        centes iam para as festas; cursava uma




                                                                                         http://www.flickr.com/photos/22326055@N06/4751249463/
gente da turma. Alimentava-se sozinha       faculdade quando as demais estavam
enquanto as demais comiam giz; apren-       no Ensino Médio; preferia trabalhar a
deu a ler antes que as outras pudessem      perder tempo em namoro.
soletrar; amarrava os próprios cadarços        Encontrou a tão sonhada estabilidade
quando o restante não sabia andar de        financeira; dividia uma mansão com a
sandálias sem elástico no calcanhar.        sua própria sombra; contava as tristezas
   Já usava brincos e maquiagem en-         e alegrias para as atentas paredes; tinha
quanto as outras garotas furavam as         pavor de qualquer coisa que pudes-
orelhas e descobriam as revistas de         se atrapalhar o seu emprego; possuía
moda; abandonou as bonecas quando           tocofobia...
as demais costuravam vestidinhos de            Deixou de viver intensamente.
princesas; beijava garotos antes que o
                                              ... e “abortou” a criança... que havia
restante deixasse de brincar de pique-
                                            dentro de si!
esconde.
     Estudava enquanto as outras adoles-


     Thiago Jefferson dos Santos Galdino
   Nascido em Mossoró/RN em 1993. Aprendiz Técnico em Segurança do Trabalho e
Escritor. Autor do livro “Suspeitas de um Mistério” pela Editora Multifoco; participou
também da 14ª Edição do projeto “Um poema em cada árvore”, do Instituto Psia.




20      SAMIZDAT fevereiro de 2012
Contos


 Filho da Pátria Sem Mãe
                                                                   Marcelo Soriano




                                                                                            http://www.flickr.com/photos/delafuente/3230692585/
   Ela era torneada. Mulata. Escrava               Quando amanhece, uma criança
pós-moderna. De dia, filhinho no colo.       perambula com as fraldas sujas por um
De noite, bolsinha a tiracolo. Era lin-      loft qualquer bem decorado da Rambla.
da. Morena da grife brasileña. Chiclete            – Mamã... Mamã... Teta...
provocativo. Madeixas de molejo sexy.
Olhar de lua. Sorriso de avenida. Beijo            Na hora de reassumir a maternida-
de beco sem saída. Nudez de mini-saia        de nacionalista, a prostituta desapareceu.
levantada (sem calcinha) na orla escura      Nunca mais voltou. Ela não conseguira
da ­ arceloneta.
    B                                        vencer a dor aberta do buraco fundo, frio
                                             e estreito, que deitou sangue no passeio
     – O ponto é meu, traveco da porra!      público daquela última noite, antes do
     – ¡No más! Muere perra!                 retorno ao Brasil. Seria aquela, realmente,
     Um grito tremido depois do estalo       a sua última noite de sacrilégio, mas o
doído de um triste tapa na cara.             destino é um comboio cego... E atropela
                                             quem dá mole pela frente.
     Silêncio na madrugada...

   Marcelo Soriano
  Nascido em 11 de agosto de 1967, em Santa Maria – Rio Grande do Sul – Brasil.
   Engenheiro Mecânico graduado pela Universidade Federal de Santa Maria (2004) e pós-
graduado em Engenharia de Produção e Manufatura pela Universidade de Passo Fundo
(2010). Autor do Livro “CANTOPOEMAS: SOBRE MENINOS E PÁSSAROS”, juntamente com a
escritora moçambicana Isabel Gil (Alcance Editores. Maputo-MZ, 2011). Cronista das Revis-
tas Tempo e Literatas (Maputo-MZ, 2011).




                                                http://samizdat.oficinaeditora.com    21
Contos



 Vez em quando
                                                      Cinthia Kriemler




  Um cheiro de saudade cruza por      agonia. Depois de você, tornei-me


                                                                             http://www.flickr.com/photos/stopthegears/2428574441/
mim. Um perfume, talvez um aro-       matéria sólida, como as lajes e os
ma de pele. Não dá mais tempo de      granitos. Sem os rompantes, sem a
impedir a memória, nem de punir       histeria da partida. Nenhum sofri-
a sentinela da razão que se atrasou   mento à superfície, nenhuma tristeza
por uns segundos. Já estou impreg-    deslocada. Apenas o suficiente para
nada desse vento de passado que me    prosseguir humana.
força companhia.                        Não consigo fixar seu rosto nos
  O cheiro de café torrado insiste    meus pensamentos. Foi assim tam-
em fazer cócegas no meu cérebro,      bém na primeira vez em que nos
me dizendo que não vai ser fácil      encontramos. As pessoas eram
me livrar da sua lembrança. Pois      sempre pontos distorcidos em mi-
que seja. Não sou mais alguém em      nhas fugas de álcool fácil e carnes




22   SAMIZDAT fevereiro de 2012
e
­ squecíveis. E você estava lá, numa       Voltei, duas semanas depois, numa
daquelas noites que terminavam só       madrugada de chuva. Nenhum ál-
depois da madrugada.                    cool naquela noite, nenhuma cama
   Além do prazer, dois hábitos me      de onde tivesse saltado. Fui para
acompanhavam fielmente: eu nunca enxergar o rosto ao qual pertencia
dormia fora da minha própria cama, aquela boca de café torrado. Atrás
nem chegava em casa sem uma boa do balcão, dois rapazes se ocupa-
xícara de café forte. Na verdade, eu    vam dos expressos e dos chocolates.
sempre tive medo de acordar em          Ninguém que eu pudesse associar à
camas estranhas. Como se olhar em voz modulada e cheirosa que tinha
volta e não reconhecer os objetos       agradado aos meus instintos. Eu já
me impedisse de saber para onde ir me preparava para me levantar sem
embora. Eu pertencia a todas as ca-     pedir nada, quando o mais alto dos
mas, mas deitava meu sono em meu dois se aproximou de mim:
próprio colchão, repleto de mim. O         — Como vai? Que bom que você
café forte era um ritual de purifica- voltou! Um café?
ção. Nada que cortasse o efeito da         Era ele! A boca de café torrado, os
bebida ou o sono, somente um amu- dentes claros, benfeitos. Um menino!
leto de dignidade que me deixava        Quantos anos? Uns 24, no máximo
voltar para casa sem contaminar de 25.
embriaguez o ar.
                                           — Um chocolate com creme, por
   Quando nos encontramos pela          favor — respondi depressa, subita-
primeira vez, sua boca exalava café     mente sem jeito para incluir um
torrado. Por trás do balcão, uma        licor no pedido.
mistura de amargos e doces flutuava
                                           — Chuva forte, hein? — perguntou
abaixo de uma placa esnobe, onde se
                                        com delicadeza, enquanto colocava a
lia: Chez Fernand.
                                        bebida.
   — Um café?
                                           Não respondi. Homens mais jo-
   — Forte, por favor.                  vens não faziam parte dos meus
   — Alguma coisa para comer?           vícios. Minha ânsia de afeto era
   — Não.                               aplacada por gente como eu, des-
                                        cartável, invisível, desraizada. E por
   — Um croissant fresquinho? É a
                                        álcool, para permitir que tudo fosse
especialidade da família.
                                        permitido. E por sexo, que me fa-
   Fiz que não com a cabeça, en-        zia atravessar a madrugada insone.
quanto afastava a sensação de náu-      Nada de amor, essa coisa estranha
sea que me vinha só de pensar em        que se oferece em desencontro. Não,
comida. Mas achei gentil a insistên- nada de homens jovens! Eles têm o
cia. E tive certeza de que voltaria ali péssimo vício de amar!
quando estivesse sóbria.
                                           — Eu sou Fernand. O da placa —




                                          http://samizdat.oficinaeditora.com   23
revelou, vaidoso. — Como é o seu            e vidros embaçados de chuveiro. Fiz
nome?                                       passeios de mãos dadas, desconcertei
     — Aimée.                               olhares. Dei gargalhadas no cinema,
                                            fiz sexo na escada e me senti bonita
  — Aimée! Amada... Significa ama-
                                            de cara lavada.
da, em francês, você sabia? Minha
família é de origem francesa. Que             Então, numa data sem aviso, an-
coincidência! É um nome lindo.              tes que a terceira chuva pudesse me
                                            trazer mais um ano, tomou conta de
   Pedi a Deus que me tirasse de lá,
                                            mim uma antiga sensação de ausên-
porque meus pés não ofereciam essa
                                            cias. Não sei se foi um gesto dife-
opção! O rapaz estava flertando co-
                                            rente, um jeito de respirar acelerado,
migo, se exibindo para mim! E, mes-
                                            uma desatenção proposital. Sei que
mo assim, o que ele dizia entrava
                                            os fogos de artifício se tornaram, de
em meus ouvidos como uma escala
                                            repente, fósforos usados.
afinada. Esperei realmente por um
pequeno empurrão, uma lucidez                  Talvez, se Fernand tivesse morrido,
acanhada. Mas tudo falhou. A divin-         talvez se ele tivesse amado alguém
dade, os pés, a vontade.                    mais jovem que eu, com menos ca-
                                            minhadas, eu teria podido me agar-
  Eu mesma derrubei as cercas, des-
                                            rar ao consolo do plausível. Mas não
lembrada de que as cercas existem
                                            foi assim. Fernand só queria mesmo
para guardar ou impedir. Fiz como
                                            ir embora.
o predador que fareja carne tenra:
desprezei as armadilhas, até ser co-          Eu ainda não estava pronta para
lhida pela dor das estacas.                 me encontrar com a mulher vazia
                                            que morava dentro de mim, mas a
   Fernand e eu fomos felizes por
                                            solidão me alcançou inflexível numa
duas chuvas. Ele se fez caber por
                                            noite sem forças. E eu me cedi a ela.
inteiro em meus espaços vazios.
                                            Com o tempo, acertamos uma tré-
Afastou minhas urgências, ofereceu-
                                            gua. Vez em quando, colho nas ruas
me outras, me emprestou o riso, o
                                            um cheiro de saudade. Apenas o
colo, os olhos brilhantes. E eu me
                                            suficiente para prosseguir humana.
completei dele. Ganhei abraços de
tirar o fôlego, brinquei sem pressa
sobre a cama desfeita, escrevi pala-
vras bobas, sem sentido, em bilhetes

    Cinthia Kriemler
    É contista e cronista. É autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minha
alma”, pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crôni-
cas “Do todo que me cerca”. Finalista de concursos literários, participa de duas cole-
tâneas de poesia e uma de contos. É jurada dos Desafios dos Escritores e da Revista
Literária. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escri-
toras Brasileiras — REBRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos.




24      SAMIZDAT fevereiro de 2012
Contos


Relicário
Tatiana Alves




                                                                                          http://www.flickr.com/photos/mrbeck/1981387615/
   Maria abriu cuidadosamente o reli-        fria que vinha de fora. Cheiro de gente,
cário, mirando os olhos da imagem que        de rua, de vida. Calçou os chinelos gastos
ali ficava guardada. Ajoelhou, como fora     e pôs-se a ler.
ensinada a fazer, e principiou a entoar         Época de novena era assim mesmo. As
mecanicamente mais uma de suas pre-          outras vinham à sua casa rezar o terço
ces. Emendava uma oração na outra, sem       durante vários dias. O motivo agora era
jamais obter o alívio desejado. A santa      a candidatura do pai de uma delas, pre-
olhava, impassível, nada podendo fazer       feito da cidade. A novena, contudo, não
diante daquela situação. Seu olhar conti-    parecia ajudar na reeleição do sujeito,
nha uma espécie de tristeza, uma quase       cuja popularidade caíra vertiginosamente
resignação, que não ajudava muito a con-     desde que fora visto saindo de uma casa
fortar a devota que a ela se dirigia.        de tolerância na cidade vizinha. Era caso
   “Mulher só sai de casa três vezes na      perdido. E eleição também.
vida: para ser batizada, para casar e para      Pediram, então, a imagem da santa.
o próprio enterro”. As palavras da avó       Que percorreria a cidade, numa procis-
ainda ecoavam em seus ouvidos. Bendi-        são improvisada e direcionada. Depois,
ta sois vós entre as mulheres. Por que,      passaria alguns dias na casa de cada de-
então, tantas renúncias, ó mãe?              vota integrante do grupo de oração, para
   Persignou-se, acendeu uma vela e saiu     recuperar a nódoa na imagem do sujeito.
do cômodo. Em alguns segundos retor-         Maria, que não se interessava por polí-
nou, e trancou o relicário, evitando o       tica mas não podia negar o favor, cedeu,
olhar da santa. Em seguida, cerrou as        embora a contragosto.
janelas, não sem antes respirar a brisa        No dia seguinte, bateram à porta




                                               http://samizdat.oficinaeditora.com   25
bem cedo. Duas mulheres pertencen-                     infortúnio. Adoecera na semana em que
tes ao grupo vinham buscar a Virgem,                   a Virgem sumira. Febres inexplicáveis
padroeira de Santa Maria da Renúncia.                  atormentavam-na dia e noite. Certa vez,
Dirigindo-se vagarosamente ao quarto, na               foi encontrada vagando perto da cachoei-
tentativa de protelar a retirada da ima-               ra, roupa molhada colada ao corpo. Delí-
gem de sua casa, pegou cuidadosamente                  rio, dizia o médico. Pecado, dizia o padre.
o relicário. O grito foi uníssono. A santa             E havia um moço que nada dizia, mas o
havia desaparecido. Como podia uma                     sorriso em seus olhos fazia a maior prece
coisa dessas? Como ela podia ser tão                   jamais entoada em louvor à santa. Ou ao
desalmada e ingrata a ponto de forjar o                roubo.
roubo da imagem em vez de cedê-la para                    Os ardores de Maria eram agora
tão nobre propósito? As beatas do luga-                conhecidos e tolerados por todos no
rejo saíram, indignadas.                               lugarejo. As beatas benziam-se: tadinha.
   Os dias escoavam-se sem que a ima-                  Uma alma pura que se perdera longe da
gem aparecesse. O relicário aberto asse-               proteção da santa. Bebia o vinho do pai,
melhava-se a uma casca sem noz, a uma                  brindando à santa ausente. Rodopiava
caixa sem presente. E Maria adoeceu                    como se não soubesse mais o que era
com a falta da santinha. Ninguém mais                  linha reta, e sua saia alçava voos de ser-
a essa altura duvidava que a santa tivesse             pente alada. Gargalhava como se nunca
sido de fato roubada, embora nenhum                    houvesse frequentado colégio de freiras, e
forasteiro tivesse sido visto nos arredores            deitava-se no chão, mirando inexistentes
na semana do desaparecimento.                          estrelas que cintilavam proibidos latejos
   De resto, tudo parecia normal em                    em sua cabeça. Em seu peito. Em seu
Santa Maria da Renúncia. Ou até melhor.                ventre.
Nem parecia inverno. As rosas desabro-                    Dois meses depois, Maria foi desperta-
charam antes do tempo, o gado – sem-                   da pelo olhar da santa, dentro do relicá-
pre tão passivo – ficou mais agitado, e a              rio. Incrédula, abriu-o, indagando, mental-
brisa que soprava no fim da tarde trazia               mente, quem a havia roubado. Nenhuma
agora um ardor inesperado. O frio, mar-                resposta. Havia fugido, então? Um meio
ca característica do lugar, fora repenti-              sorriso pareceu se desenhar no rosto da
namente substituído por um calor sem                   imagem. Devia estar mesmo louca, como
precedentes, como se uma espécie de                    todos julgavam. Tinha de anunciar o
sezão assolasse o local. As mulheres, que              retorno da Virgem. Gritar. Sua protetora
antes permaneciam em casa, aquecidas,                  voltara. Abriu a janela, sentindo o ven-
queriam agora sair. Joelhos ofereciam-se,              to frio de sempre agredir-lhe o rosto. A
não mais ao milho, mas à contemplação                  imagem, trancada no relicário, assumira
alheia. Ombros e decotes foram vistos                  o tom triste de antes.
por ali, e madonas renascentistas sur-                    Não pensou duas vezes. Abriu o re-
giam a cada beco.                                      licário, piscando levemente, e voltou a
  Maria mirava o relicário, agora um                   dormir. Ambas sabiam que a santa não
santuário de ausência, e pranteava a sau-              mais estaria ali quando Maria acordasse.
dade que sentia de sua companheira de                  Nem ela.

     Tatiana Alves
    É poeta, contista e ensaísta. Participou de diversos concursos literários, tendo obtido vários prêmios.
É colaboradora da Coluna Momento Lítero-Cultural, dos sites Cronópios, Anjos de Prata, Germina Lite-
ratura e Escritoras Suicidas. É filiada à APPERJ e à Academia Cachoeirense de Letras. Possui seis livros
publicados. É Doutora em Letras e leciona Língua Portuguesa e Literatura no CEFET / RJ.




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Contos



A deusa da chuva
                                                           José Guilherme Vereza




                                                                                               http://www.flickr.com/photos/lightknight/949116165/
  E choveu o ano inteiro em 21 minutos.        ga lenga que é para tanta gente assinar um
   Enquanto o ônibus não chega, perambulo      documento.
os olhos pela rua, cantarolando as águas de       Cristina não é um nome que defina idade.
Tom Jobim, e encontro Cristina num canti-      Mas não me parece uma pós-adolescente,
nho de paus, pedras, restos de toco, um toco   considerando que o CPF é daqueles beges e
sozinho.                                       grandões, anteriores aos cartões azuis magne-
   Não uma Cristina gente, morta ou viva,      tizados que dormem com cartões de créditos
carente ou determinada, enérgica ou entre-     nas carteiras ricas.
gue à sorte impiedosa do verão, da natureza       Vidal, o nome do meio, insinua que a
e do descaso. Mas uma Cristina de papel,       dona do documento perdido possa trazer
plastificada, enlameada, materializada por     raízes ibéricas, remotamente francesas, mas a
um CPF sem rosto, discreto e sujo, que me dá   preguiça mental me leva a encurtar caminho
pistas sobre sua pessoa.                       da história e admitir que seja descendente de
   De cara, descubro que é uma mulher. Está    uma sinhá de além-mar, que deu com os na-
escrito em letras gagas de uma Remington:      vios nas costas da Bahia, tendo envergonhado
Cristina Vidal Sotero, ao lado um número       a família ao se enrabichar por um cafuso tí-
borrado, e no verso uma assinatura legível e   pico, indolente por parte de pai e fogoso por
inspiradora.                                   parte de mãe. E saíram, colonizado e coloni-
                                               zadora, às cópulas pelas alcovas a povoar a
   Decifra-me, diz o garrancho. Sou traço      cidade de São Salvador da Bahia de Todos os
tosco de vítima do desprezo histórico que      Santos. Na enésima geração, nasceu Cristina.
se tem pela educação dos pobres. Trata-se,     Claro que está tudo explicado: seu último
então, de alguém que rala na vida, que não     sobrenome é Sotero, ó, ó, ó, digo isso meio
veio ao mundo a passeio. As maiúsculas         girando repetidamente a mão direita com o
tentando arabescos eruditos e as minúsculas    polegar e o indicador em curva ­ormando
                                                                                 f
finais apressadas tentando acabar com a len-




                                                 http://samizdat.oficinaeditora.com      27
uma pinça, o gesto vulgar que denota ligação       para morar comigo nas terras dos bons vi-
infame, ó, ó, Sotero de salvador, polis de cida-   nhos, da culinária soberba e das vacas pre-
de, sacou? – adoro palavras cruzadas: nascido      miadas.
em Salvador, vertical, 14 letras.                    Mas eu não cozinho em francês, seu dotô.
   Pronto. Definida a origem da criatura.             Vai como minha mulher, há quem obede-
Resta agora o quesito “o que faz na vida,          ça a suas ordens naquela vida boa.
além de explicar que perdeu documentos na
chuva”. A caligrafia me cochicha: talvez seja        E se eu sentir saudade do tempero da
diarista, talvez costureira, talvez balconista,    Bahia?
caixa de supermercado. Pode ser faxineira,           Mando trazer de avião.
trocadora, a moça do café, a rainha dos servi-
                                                     E se painho der por minha falta?
ços gerais numa empresa próspera e social-
mente responsável.                                   Vem de avião também.
   Nada disso. Que seja uma cozinheira,              E como fica o calor da nossa terra?
de forno e fogão, de panelas de ferro e de           Te aqueço, minha deusa, nos meus braços,
barro, uma Gabriela de cravo e canela, uma         nos meus abraços.
Dona Flor sem maridos aparentes. Decidi.
                                                     Mas não tenho CPF para tirar passaporte,
Sua moqueca é de arrasar, seu xinxim é de
                                                   moço, esse não presta mais.
se lamber os beiços, seu vatapá é um manjar
de deus e do diabo, honra e glória dos Vidal          Danou-se. Olho o documento encardido
Sotero, que fizeram história nos sobrados do       e inútil. Penso em entregar a um Guarda
Pelourinho, manera no dendê, minha filha,          Municipal – deve haver uma porta escrita
minhas entranhas não aguentam mais ta-             Achados e Perdidos em alguma repartição da
manha perdição, já basta o acarajé que me          Prefeitura. Imagino carregá-la no bolso, para
ofertaste e a pimenta que me ardeste.              sempre comigo, tenho tia abastada nada, sou
                                                   um impostor, mas ofereço minha gaveta de
   Cristina Vidal Sotero já é íntima. Juro que
                                                   moradia, meu quarto e sala é a Bahia, minha
descubro seu paradeiro. Vou de rua em rua
                                                   cama é o Pelourinho, me açoita, morena, vem,
nas redondezas, de soleira em soleira, curioso
                                                   morena, vem seguir os desígnios dos santos
tenaz, encontro enfim a dona de história tão
                                                   do acaso, dos anjos dos sonhos, dos deuses da
rica, dotes tão saborosos, sorriso generoso e
                                                   chuva.
um corpo surpreendente, esculpido por Jorge
Amado. E me esvai a fala, aflauto a voz.              Para tudo. Quem vem vindo agora é o
                                                   ônibus lotado de realidade e juízo. Escapando
     Você é Cristina Vidal Sotero?
                                                   entre meus dedos, deixo Cristina carinho-
     Sim, senhor.                                  samente no meio fio de onde veio. No pau,
     Estou mais perdido que seu documento.         na pedra, no resto de toco, no toco sozinho.
                                                   E sigo, e subo, e suspiro, e sento no último
     O senhor achou?
                                                   banco. Estico meus olhos àquele documento,
     O destino achou.                              que, acho, me olha também. Fecha o sinal da
   Então entra, tem recompensa, vem provar         esquina, providência para um teimoso raio
o gosto que a baiana tem.                          de olhar. Vejo na rua que ficou para trás
                                                   um gari de perna fina, moroso e indiferente,
  E diante de tantos encantos noite adentro,       passando a chuva a limpo, parando e olhan-
ouso retribuir com um mimo.                        do para um reles CPF jogado no chão. Antes
  Cristina, sou herdeiro único de uma tia          da vassourada de misericórdia, ele se abaixa,
abastada, que me deixou um domaine na              pega e lê: Cristina Vidal Sotero.
Normandia.                                           Tenho vontade de botar a cabeça pra fora
     Um quê, moço?                                 da janela: tira a mão daí, moleque!
     Um castelo na França, entendeu agora?
     Pois prossiga, senhorinho formoso.
     Indo direto ao ponto: quero levar você




28       SAMIZDAT fevereiro de 2012
Contos




                                                                                                 http://www.flickr.com/photos/fiverweed/5265610106/
                                                                        Otávio Martins


   O CATAVENTO MALUCO
   Nunca perguntou ao pai porque a es-          Morocho, como era carinhosamente chama-
colha de um tango argentino. Sua mãe,           do pelos porteños, logo começaria a contar
ele bem o sabia, aquiescia a todos os seus      a história de um grande amor, na inesquecí-
caprichos, e era de fazer-lhe companhia pelo    vel gravação de 1923.
simples hábito de permanecerem juntos em           Quase encostada na parede do lado de
quase todos os momentos de lazer.               dentro da grande varanda, a eletrola, instala-
    À tardinha, o seu pai costumava colocar     da num lindo móvel de três compartimen-
na eletrola sempre o mesmo disco de Gar-        tos, todo em madeira envernizada, ganhava
del – “uma relíquia!”, como costumava dizer     um toque colorido por uma tela aveludada,
– para, em seguida, sentar-se na sua pol-       verde-escuro; o tecido, pespontado por fios
trona preferida. Tudo parecendo mais uma        dourados, servia para cobrir o nicho onde
encenação da primeira vez em que escutou        estavam instalados os alto-falantes. Dali
– junto com sua mãe, supunha – a belíssima      surgiriam os sons que impregnariam todo
composição de Gardel, Razzano e Celedonio       o ambiente com uma das mais conhecidas
Flores.                                         músicas do cancioneiro argentino.
                                                   A iluminação da varanda, que tinha todo
  Nem lembrava direito desde quando os          um lado envidraçado, era proporcionada
acompanhava naquele ritual – quase um           pelas réstias que escapavam do sol a se pôr
culto à nostalgia. Enquanto o vinil era, cui-   detrás do quintal, atravessando por entre os
dadosamente, colocado no prato da eletrola,     galhos e as folhagens das enormes figueiras
sua mãe e ele tomavam assento nas outras        e um imponente abacateiro. Não se atinava
duas poltronas e, sem qualquer palavra,         para outros detalhes, como se todo o am-
aguardavam os primeiros acordes da intro-       biente fosse preenchido apenas pelo som
dução do Mano a Mano. Carlos Gardel, El         que vinha da eletrola e por aqueles tênues
                                                raios de sol, além dos três personagens




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que permaneciam imóveis           um vazio de aspecto triste,       ainda acompanhava o seu
e silentes durante toda a         talvez pela ausência da ve-       pai nas audições do tango
audição.                          getação e de algumas flores       de Gardel, as quais continu-
   Logo após a última nota        que só voltariam na próxi-        aram acontecendo por todas
do Mano a Mano, o tem-            ma primavera.                     as tardinhas.
po retomava ao seu curso             Do lado de fora, nada, ou         Em algumas manhãs, era
e cada qual ia para o seu         quase nada, se ouvia depois       de transpor os limites do
canto. Enquanto seus pais         que ele trancava-se no quar-      quintal para ficar próximo
encaminhavam-se vagaro-           to. Espalhados pelo pequeno       à plantação de trigo e dos
samente para o interior da        cômodo, enormes bonecos           canteiros de girassóis que a
casa, ele, num gesto quase        traziam entre as mãos cada        circundavam e ali permane-
autômato, dirigia-se ao seu       um o seu instrumento: violi-      cer, por longo tempo, imóvel,
quarto, que também lhe ser-       nos, violas, celo, postando-se,   na feição de um espantalho,
via de estúdio. Localizado do     assim, como uma orquestra         hipnotizado pelo espetáculo
lado esquerdo da varanda,         de câmara. Todos vestidos         de luz e movimento.
quase chegando aos fundos         ao rigor de uma grande               Com o mesmo entusias-
da casa, a porta permanecia       apresentação. Somente ele         mo que regia a pequena
quase sempre fechada. Nem         ouviria, através dos fones,       orquestra, dedicava-se à
mesmo a senhora, que ainda        a música que passaria por         construção do seu catavento,
vinha de vez em quando            um amplificador de alta-          de grandes dimensões, que
para dar um jeito na casa,        fidelidade, trajando o melhor     ele chamava de circuladô
entrava em seu quarto. Ele        de seus figurinos para a          de fulô, nome que apren-
mesmo se encarregava de           ocasião; tinha caídos, sobre      dera numa das canções de
arrumá-lo. Não obstante, era      os ombros, os cabelos soltos      Caetano Veloso. Acreditava
de fazer-lhe algumas confi-       e desalinhados, precocemen-       que a sua engenhoca ainda o
dências.                          te grisalhos. Após alguns         levaria, como as asas de um
   De sua janela ele po-          instantes de concentrado          beija-flor, em meio a uma
dia estender a vista além         silêncio, com a voz baixa,        noite estrelada, muito além
do quintal, até alcançar os       dirigia-se aos outros compo-      dos trigais e dos canteiros de
trigais que o sol – recém         nentes da pequena orquestra,      girassóis.
passada a primavera e já nos      iniciando a contagem que
primeiros dias de calor – ba-     definiria a divisão e o an-
nhava com uma luz intensa,        damento para os compassos              No dia em que não
já ao tempo da colheita,          que surgiriam ao erguer a         mais precisou fazer com-
dando-lhes a aparência de         batuta, num gesto de extre-       panhia ao seu pai, para
pequenas ondas douradas           ma delicadeza e elegância,        ouvirem o francês Charles
que corriam em direção ao         iniciando a regência de uma       Romuald Gardés – o verda-
horizonte. Durante o outo-        das mais belas músicas de         deiro nome de Carlos Gardel
no e o inverno, boa parte         Mozart.                           – numa de suas mais belas
da terra ficava em descanso          Depois que a mãe mor-          interpretações, trancou-se na
para outras safras, deixando      reu, talvez por costume,          velha casa e nunca mais foi
                                                                    visto pela vizinhança.

     Otávio Martins
    68 anos, fotógrafo, mantém um jornaleco eletrônico, O Spam. Trabalhou na TV Tupi, TV Cultura
de SPaulo, produção de shows (Adoniran, Paulinho Nogueira, Eduardo Gudin, Márcia, Roberto Riberti,
Tom Zé e outros); Festival de Verão do Guarujá, 1980 e Festival MPB Universitário, TV Cultura 1979,
assistente de produção. Cozinheiro profissional, compositor MPB, música e letra.




30      SAMIZDAT fevereiro de 2012
Contos



     DEPURAÇÃO
                                                                  Silvana Michele Ramos




   A apuração dum crime de corrup-                  crime de corrupção acadêmica se tinha




                                                                                                        http://www.flickr.com/photos/merlin1487/5518280677/
ção acadêmica passado numa academia                 passado efetivamente forneceu aquilo de
consistiu no seguinte: requisitou-se que            que estava de posse sobre esse crime de
a academia onde o crime de corrupção                corrupção acadêmica nela passado, in-
acadêmica se tinha passado forneces-                clusive prontamente, e como aquilo de
se aquilo de que estava de posse sobre              que ela estava de posse sobre esse crime
esse crime de corrupção acadêmica                   de corrupção acadêmica nela passado
nela passado, o que a academia onde                 não constituiu convicção suficiente de
o crime de corrupção acadêmica se                   que se tinha passado crime de corrup-
tinha passado efetivamente fez, inclusi-            ção acadêmica nessa academia, a apu-
ve prontamente, fornecendo justamente               ração foi finalizada, o caso em comento
aquilo de que estava de posse sobre esse            tendo sofrido arquivamento.
crime de corrupção acadêmica nela
passado, e como a academia onde o

   Silvana Michele Ramos
    Natural de Belém, onde estudou Medicina, Inglês e Alemão. Ao longo da graduação em Medicina,
publicou 57 textos científicos em congressos e outros eventos médico-científicos. Iniciou carreira de
escritora em 2006 e possui, até o momento, onze distinções em certames literários.




                                                        http://samizdat.oficinaeditora.com         31
Contos




Adivinho,
detetive
ou fofoqueiro
                 Roberto Klotz




                                  http://www.flickr.com/photos/anabadili/551898740/




32   SAMIZDAT fevereiro de 2012
Jovem — Posso me sentar? — pergun-        J — Como assim? De onde o senhor
tou ao senhor grisalho.                    me conhece?
  von Silva — Por favor, fique à vonta-      vS — Você sentou-se à minha frente
de.                                        há meia hora.
 J — Se o senhor se incomodar, posso         J — Em momento algum falei meu
me sentar em outra mesa.                   nome. Como sabe meu nome?
   vS — Oras, não é nenhum incômodo.         vS — Está escrito no seu crachá.
Acho melhor almoçar acompanhado a             J — E esse negócio de solidão? Eu não
ficar só. A mesa é pequena, mas sufi-      falei da minha vida particular. Caso
ciente para nós dois.                      como o meu? Por que acha que estou
   O mais moço encheu o garfo duas         solitário? Leu no meu crachá?
vezes de peixe frito e falou sobre a          vS — Havia tantas mesas vazias. E
vitória do seu time no jogo da noite       você escolheu a que eu estava para
anterior. Mais duas garfadas de arroz e    ter companhia. Poderia ter escolhido
comentou sobre a impunidade em to-         aquela próxima à televisão. Mas prefe-
das as esferas do governo. Comeu uma       riu gente. A televisão é sua companhia
rodela de tomate e criticou o galã da      noturna. Você está só e continua apai-
novela. Tomou um gole de suco de aba-      xonado por aquela que o deixou.
caxi e se desculpou por ter chutado a
                                             J — O senhor está semeando verde
mesa desequilibrada no chão irregular
                                           para colher maduro...
da calçada.
                                             vS — Olhe para aquela mesa com
   Assim, entre mastiga, mastiga, mas-
                                           aquela mocinha... Pouco mais nova que
tiga, engole, o moço falou de música
                                           você. Não é atraente?
erudita a guerras no Oriente Médio. Foi
de Nelson Rodrigues e Cecília Meire-         J — É sim, e daí? O que tem a ver
les. E voltou de Sófocles e Platão.        comigo?

   O senhor de cabeça branca concor-          vS — Você poderia ter escolhido
dava ou discordava discretamente, com      aquela mesa. Seria uma companhia
gestos suaves, sem dizer palavra.          muito mais interessante. Significa que
                                           não está à procura de mulher. E sei que
   J — Desculpe senhor, acho que falei
                                           está sem nenhuma.
demais. Tomei a palavra e não larguei.
Estamos sentados aqui já há algum            J — Como sabe que estou sem mu-
tempo e sequer me apresentei...            lher? Só porque fico vendo tevê? Onde
                                           o senhor leu isso?
  vS — Não há nenhum problema, Gil-
berto. A solidão nos leva a esse tipo de     vS — Na sua camisa.
comportamento. Isso é absolutamente          J — Não entendi. Escrito na minha
normal nos casos como o seu.               camisa?




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vS — Sim. Você está usando a mesma                  frio.
camisa há vários dias.                                   J — O senhor é adivinho, detetive ou
     J — Ela está cheirando?                          fofoqueiro? O que mais andou reparan-
  vS — Não. — respondeu sério — Ela                   do?
não foi passada e está manchada.                        vS — Que agora é pedestre, sem car-
     J — Isto não quer dizer nada.                    ro. Só anda a pé ou de ônibus.

  vS — Quer dizer que você almoçou                       J — O senhor é totalmente maluco. A
aqui na terça-feira e ontem com a mes-                troco do quê eu não teria carro?
ma camisa.                                vS — O chaveiro que você colocou
   J — O senhor também almoçou aqui? sobre a mesa não tem chave de carro.
                                        E não se exalte, sua pressão vai subir
   vS — Não. Esta é minha primeira vez.
                                        mais ainda.
No cartaz está escrito que, às terças,
servem nhoque, e às quartas, feijoada.    J — Pressão? O que o senhor sabe da
E na sua camisa há molho de tomate e    minha saúde?
restos de feijão.                         vS — Você despejou o saleiro sobre
   J — E o que mais, ó grande Sherlock, sua comida, isso provoca pressão alta e
o senhor vê na minha camisa?            aquela quantidade de malagueta sobre
                                        o peixe frito provoca hemorróidas.
   vS — Vejo que você já teve um bom
emprego e que agora está financeira-      Gilberto, sem dizer mais nada, levan-
mente prejudicado.                      tou-se e foi pagar a conta. Ainda pegou
                                        um café, quando viu seu companheiro
   J — A mancha deveria ser de estro-
                                        de mesa se aproximar.
gonofe com champignon?
                                          Com muita raiva, jogou o café no
   vS — Você está usando uma cami-
                                        velho e perguntou provocativo:
sa social com seu monograma, GBAS,
bordado no bolso. A gola e os punhos      J — E aí, sabe-tudo, o que achou?
estão bem gastos. A sua linguagem e       vS — Achei sem açúcar.
modos finos contrastam com a cami-
seta vermelha por debaixo da camisa
                                          Extraído do livro Cara de crachá de
social. Noutras épocas, provavelmente,
                                        Roberto Klotz. Edição do autor, 2011
usaria um casaco para se proteger do

     Roberto Klotz
     autor dos contos e crônicas de Pepino e farofa, Quase pisei! e Cara de crachá. Com linguajar leve,
dinâmico, bem-humorado e finais surpreendentes foi premiado em mais de 20 concursos literários.
Promove oficinas e palestras sobre a escrita. Jurado de concursos literários. É conselheiro de cultura em
literatura da Secretaria de Cultura do DF. Participa do Núcleo de Literatura da Câmara dos Depu-
tados. Recebeu elogios de Moacyr Scliar e Ignácio Loyola Brandão. Produziu 40 crônicas semanais
ininterruptas sobre notícias publicadas no jornal.
     Está em robertoklotz.blogspot.com




34      SAMIZDAT fevereiro de 2012
Contos



    Avessa ( o )
                                                                 Sara Meynard




  Parecia que aquela seria mais uma         covardia. Mas é que depois de tantas
                                                                                        http://www.flickr.com/photos/josephstory/5908033496/
das noites em que se vai dormir com         feridas o corpo quer é sossego. Mesmo
quase quatro mil coisas na cabeça.          que eu fosse covarde e me tendesse
Deitei-me ainda cedo, com o objetivo        para as pessoas, aquilo era muito mais
que o sono fosse mais proveitoso do         forte, era conforto.
que enfrentar a madrugada fria.                Mas não importava o meu conforto;
   Aquilo já era de costume, os sons dos    as feridas ainda estavam lá, mesmo que
carros e motos na avenida invadindo o       não ousasse nem pronunciá-las. Igno-
meu quarto me embalavam e me fa-            rei. Segurei o ar com uma das mãos,
ziam companhia. As luzes penetravam         e movi a outra misteriosamente, como
inquietas pelas grades da janela, fazendo   se não soubesse onde fosse parar, até
com que minha escuridão fosse menor.        que as duas se encontraram e se visita-
Todo aquele barulho me fazia sentir         ram por dentro. Meu próprio calor me
mais em casa do que se eu estivesse no      aquecia, o corpo se repartia em dois,
silêncio de mim. Talvez fosse medo; ou      transformando a solidão em duas, que




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se ligavam. Que fosse só um disfarce,          A sombra dançava; os pés esticavam
não importava.                              e encurvavam; tinha a habilidade de
   Quando criei coragem para fechar os      uma bailarina. Não me lembro que rou-
olhos e ver todos aqueles pesos, e mi-      pa usava, e nem se usava. Mas ela veio e
nhas pálpebras começaram a se fechar        se sentou ao meu lado. Agarrou minhas
na mesma lentidão do pôr do sol, com        mãos, e as segurou assim como esta-
todos os raios indo embora, o corpo se      vam: juntas. E sem falar nada, veio me
preparando para a noite, a vida recuan-     pegando, me passando, me aninhando,
do como se tivesse medo, nada veio. Eu      com o mesmo calor do ventre mater-
até me assustei, mas já cansada, achei      no e o mesmo prazer das mais fiéis ou
agradável e afundei na cama com a for-      infiéis amantes.
ça de um lutador.                              Eu não pensei muito aquela noite. Na
   Foi quando ela entrou. A porta do        verdade não pensei nada. Por isso não
quarto se abriu devagar, e embora           tive medo da respiração pesada no meu
nenhum feixe de luz a acompanhasse,         ouvido, das mãos que me rodeavam. E
via sua silhueta claramente. Eu poderia     não deveria mesmo ter. Era tudo o que
falar que fiquei com medo, mas a verda-     eu esperava, meu avesso estava ali: e
de é que eu não reconhecia perigo em        me segurando, apalpou meus arranhões,
uma companhia para a noite. Mesmo           minhas marcas, meus vermelhões, roxos
que fosse estrangeira; eu não poderia       e tudo mais que um dia houvera me
saber o motivo de temer aquilo, era         ferido .
estranho demais para mim.                     Só sentia minhas gargalhadas agora.
   Meus olhos no começo se arrega-          Gargalhávamos juntas. Aquela sombra e
laram; mas logo foram se fechando, à        eu. Rindo alto da vida que passava, do
medida que ela ia chegando mais perto,      tempo indecoroso, das ruas inacessíveis,
e era tudo tão devagar que parecia ter      das roupas desnecessárias... era tudo e
todo tempo do mundo. Ao contrário           muito mais. Era eu, e o avesso. A avessa.
dos dias corridos que se passavam em          Não me lembro quando dormi, e
sufoco, naquela noite os acontecimen-       nem sei mesmo se dormi. Sei que quan-
tos foram se entrelaçando de maneira        do abri os olhos, estava sozinha de
tão lenta, que era possível ver e sentir    novo. Mas já não me sentia assim. Era
todos os fios soltos, e todos os fios que   como se ela ainda estivesse ali, comi-
se uniam na construção do que agora         go, como se tivesse se tornado parte de
narro nesse conto póstumo. Póstumo          mim. Não; já era parte de mim antes.
sim, pois alguma coisa morreu aquela        Eu só a achei.
noite.                                         E no riso fugido da noite, eu acordei
   Meus lençóis eram brancos, mas eu        ainda com os dentes de fora. A sen-
juro que acordaram vermelhos. Não           sação de luto me tomava ao mesmo
me lembro em momento algum de               tempo em que o sol raiava forte. Nun-
haver sangue; nem dor. Pelo contrário,      ca soube o que morreu aquela noite, e
era uma paz tão grande que eu fechei        nunca nem procurei saber. Só sei que
mesmo os olhos – mas tenho certeza          se perderam na sua inutilidade todas
que não dormi, pois os abria sempre         as quatro mil coisas, e eu tinha lençóis
– e até comecei a gargalhar de prazer       novos.
com aquela coisa se movendo em meu
quarto.




36    SAMIZDAT fevereiro de 2012
Contos




                                                                                                        http://www.flickr.com/photos/kdemetras/5816398/
                                                                        Edweine Loureiro



                            COLETIVO
   Toca o buzão motorista, esse ônibus               Pode baixar o som cumpadi, tu num tá
passa no Largo, licença dona, tô indo pro          no ônibus sozinho, qual é seu mané, vai
trabalho…                                          encarar, Deus do céu, ele tá armado…
  Sentou-se no banco de trás, o olhar                Tudo o que sabia é que, não im-
perdido. E agora, o que faria? Demitido,           portando o que acontecesse, precisava
endividado e três filhos para criar…               seguir vivendo. Amanhã mesmo…
  Menina tu tá grávida, esse Botafogo                Escapou pela janela o desgraçado, toca
não tá mais com nada, viu o jogo ontem,            pro hospital motorista, meu Deus, o tiro
passa na praça sim senhor…                         pegou no peito, tá morto, não, ele tá ten-
  O que diria à esposa? Como reagiria              tando dizer alguma coisa, silêncio gente,
Mariana a uma notícia assim? Temeu                 pobre do homem, não tinha nada a ver
possíveis discussões; até mesmo a sepa-            com a briga…
ração.                                                — Mariana…

   Edweine Loureiro
    Nasceu no Brasil em 20 de Setembro de 1975. É advogado, professor e reside no Japão desde
2001. Prêmios literários incluem: Primeiro Lugar na Categoria Crônica do 6º Desafio dos Escrito-
res (2010) e o Primeiro Lugar no V Concurso Crônica e Literatura – Prêmio Ferreira Gullar (Mi-
nas Gerais, 2011). É membro correspondente da Academia Cabista de Letras, Artes e Ciências (Rio
de Janeiro). Autor dos livros: Sonhador Sim Senhor! (Editora Litteris, 2000) e Clandestinos [e outras
crônicas] (Clube de Autores e Agbook, 2011).




                                                      http://samizdat.oficinaeditora.com         37
Contos




                                                                                                 http://www.flickr.com/photos/thejhop/117055834/
                                                                      Zulmar Lopes



     Purgatório
    Está se vendo que você nunca se apai-       de garrafas e copos, sempre comandada aos
xonou, não é, meu caro? Dizem que paixão        berros por aquela senhora de maus modos
é uma coisa avassaladora, uma fábrica de        que tudo fiscalizava por detrás da balança
loucuras. O Frejat ilustrou bem isso naquela    onde os pratos eram pesados. “Lívia, não
música, como era mesmo a letra? Deixa pra       esqueça o refrigerante do moço lá no fundo!
lá. Isto não deve ser do seu interesse, não é   Vamos logo, menina, deixa de preguiça! Você
mesmo?                                          é uma estabanada mesmo, não serve pra
   Apesar de estar apaixonado, julgo que, o     nada!” Elogios daquela mulher, eu creio que
que fiz por Lívia, não foi uma loucura de       minha amada nunca tenha ouvido.
amor, pensei inclusive estar agindo da ma-         Compunha o resto da família um sujeito
neira correta e olha o que me aconteceu?        mal-encarado que ficava na caixa, invariavel-
Aonde vim parar? Caso houvesse cometido         mente trajando a camisa do Botafogo. Pouco
um desatino amoroso, certamente a história      falava, muito grunhia para os clientes ao
teria sido outra e hoje estaríamos juntos e     devolver o troco.
felizes curtindo o nosso amor.                     A comida não era grande coisa, mas por
   Confesso que a primeira vez que eu a vi,     aquele ser o restaurante mais próximo do
Lívia não me despertou a mínima atenção.        trabalho, tornei-me seu habitué e, pouco a
Mal a notei, diluída naquele vai e vem de       pouco, fui reparando na beleza rústica de
gente transitando dentro do restaurante de      Lívia. Tinha o meu amor o rosto redondo,
comida a quilo da sua família. Na verdade,      sardentinho, decorado com dois olhos cha-
eu estava faminto e os predicados do sexo       mativos, nunca soube ao certo serem verdes
feminino me interessavam menos do que um        ou azuis, e um cabelo cacheado, ruivo e há
suculento prato de comida, baratinha, como      tempos longe de um cabeleireiro. Seu cor-
mostrava o cartaz do lado de fora do estabe-    po era de uma leve obesidade disfarçada
lecimento.                                      por uma coleção de calças jeans que mo-
  Ela era a encarregada de servir as bebidas    delavam sensualmente os quadris. O busto,
do restaurante. Ficava de um lado para o        farto, se escondia atrás das camisetas t-shirt
outro zanzando com uma bandeja apinhada         de algodão em cores e estampas berrantes.




38     SAMIZDAT fevereiro de 2012
A
­ parentava pouco mais de 18 anos e uma          mal tirou os olhos das contas que fazia numa
enorme vontade em largar a escravidão fami-      calculadora. As palavras jorraram da mi-
liar a que era submetida.                        nha boca descontroladas: “Bem, já faz algum
   No final de uma semana eu já era um ho-       tempo que almoço neste estabelecimento e
mem apaixonado. Contudo, nossa aproxima-         só tenho elogios à comida aqui servida, mas,
ção foi lenta e gradual. Trocávamos parcas       não é disso que desejo falar com vocês. É
palavras e fartos sorrisos maliciosos sempre     sobre Lívia. Sei que pode parecer estranho,
que Lívia vinha servir-me o refrigerante.        mal nos conhecemos, mas, o amor tem dessas
Certa vez, fui até audacioso e toquei de leve    coisas. Sou um sujeito decente, respeitador
sua mão, enquanto ela depositava o copo so-      e minhas intenções com a menina são as
bre a mesa. Lívia assentiu ao toque, contudo,    melhores possíveis. Preferi falar com os dois
não deixei de notar que ela procurou com         antes até do que com ela que, desculpem o
os olhos certificar-se de que nem a mãe e o      modo de me expressar, já tem correspondido
irmão haviam reparado em minha ousadia.          a minha paixão. Gostaria de pedir permissão
                                                 a vocês para...”
    No dia seguinte à cena, ela disfarçada-
mente deixou em minha mesa um pedaço de              Nunca imaginei que o botafoguense
folha de caderno onde estava escrito “eu te      guardasse uma arma atrás do balcão. Ali-
amo” em garranchos quase infantis. A singela     ás, deveria sim ter imaginado, pois a cidade
frase vinha acompanhada de dois corações         andava muito perigosa naqueles tempos. Só
entrelaçados mal desenhados. Feliz como um       não poderia supor que o sujeito era o ma-
adolescente correspondido, guardei no bolso      rido de Lívia e aquela senhora tratava-se na
o recado ao mesmo tempo em que acompa-           verdade da sogra da moça. Mas como é que
nhei com os olhos Lívia sumir em direção à       eu iria saber? Os três eram tão parecidos. O
cozinha do restaurante. Decidi que não pas-      cara nem me deixou explicar o lamentável
saria daquele dia mas, homem feito que era,      engano. Os tiros foram mortais. Nem cheguei
desejei que as coisas fossem feitas às claras.   a experimentar sofrimento. Descobri que se
Não estava em idade de namoros escondidos.       perde a consciência quase que imediatamen-
                                                 te com várias balas alojadas no seu cérebro.
   Resolução tomada, deixei a mesa onde          Agora estou aqui, neste purgatório, esperando
costumeiramente almoçava e fui ao en-            a minha triagem para a morada final. Você
contro do irmão de Lívia. Ele parecia mais       ainda vai demorar muito a decidir, meu caro?
trombudo do que seu estado normal. A mãe         Veja bem. Fui um sujeito honesto, cumpridor
encontrava-se a seu lado na caixa registrado-    dos meus deveres, bom cidadão. Apenas tra-
ra, certamente conferiam a féria do dia e não    ído por uma paixão arrebatadora, não sabia
gostariam de ser incomodados, porém, eu          que Lívia era casada. Também, ela poderia
tinha que falar com os dois acerca dos meus      ter me dito, não é verdade? O senhor é um
propósitos com a moça, como eu havia dito,       anjo? É o responsável por este local? Amar a
desejava agir da maneira correta.                mulher errada não é um pecado que justi-
   A senhora me recebeu munida de um sor-        fique minha passagem para o inferno, não é
riso amável, pois já se acostumara com a mi-     verdade? Poderia, por gentileza, avaliar com
nha presença no restaurante. O botafoguense      simpatia a minha situação?

   Zulmar Lopes

     Carioca, jornalista, contista e aspirante a romancista, Zulmar Lopes tem diversos prêmios
literários com destaque para as menções honrosas no 11º Concurso Nacional de Contos Josué
Guimarães, 7º Concurso de Contos Luis Jardim e 23º Concurso de Contos Cidade de Araçatuba.
Vencedor do 33º Concurso Literário Felippe D’Oliveira na modalidade conto. Membro correspon-
dente da Academia Cachoeirense de Letras (ACL). Roteirista do curta de animação “Chapeuzinho
Adolescente”. Em 2011 lançou o livro de contos “O Cheiro da Carne Queimada”.




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Contos

                             Doa-se um helicóptero.
                                       Tratar aqui.
                                                                                Leandro Luiz




                                                                                                      http://www.flickr.com/photos/hamsteren/2714583070/
   Doei minha casa, meu carro, meu iate, a         para dormir. Tive que lutar contra tudo e
pousada do interior e a minha coleção de se-       contra todos e, para piorar a situação, en-
los raros por uma boa causa, ou melhor, para       frentando uma série crise pela falta de caviar
realizar um sonho: eu queria ser pobre. Olha,      toda manhã.
foi um investimento a curto prazo que deu             Mas valeu a pena. Hoje estou realizado e
muito certo, de dar inveja a qualquer econo-       cheguei onde queria. Sou pobre e confesso
mista de plantão.                                  que, para chegar até aqui, foi um grande de-
   Desde a minha infância, não aguentava a         safio. Duvida? Então, escuta essa: têm muitos
vida que levava. Piscina, spa toda quinta-feira,   por aí que fazem mil promessas se ficarem
polo com o Clube dos Investidores de Petró-        milionários. Dizem que vão fazer isso, com-
leo, ah não, cansei. A minha vida era muito        prar aquilo, largar o emprego, viajar e mais
chata, sempre regada a vinhos importados e         um monte de blá-blá-blá. Agora, confesse:
queijos caros. Troquei a escolta armada pela       você já viu alguém fazendo promessas caso
liberdade, o condomínio de luxo por uma            fique pobre? Tá vendo? Eu estou no per-
modesta moradia e os restaurantes chiques,         rengue e já tenho os meus projetos para o
ou chiquérrimo, como diz a minha tia-avó,          futuro.
pelo delicioso churrasco grego do centro.              Quero apenas ser feliz. Vou seguir a vida
Com o suco grátis, diga-se de passagem.            cheio de alegria, cantando e, entre um cha-
   Estou agora com amigos verdadeiros, par-        ruto e outro, pedindo alguns trocados. Ué,
ceiros para todas as ocasiões e “manos” (uma       por que não? Afinal, eu podia tá comprando
gíria que aprendi na pelada aqui do bairro,        empresas, gastando fortunas em joias, mas
que prometo saber o que significa) incríveis.      estou aqui, na maior humildade, mano.
  Chega de polo aos sábados, leilão aos
domingos, mocassim e roupa engomada até

     Leandro Luiz

    29 anos, é redator publicitário e, nas horas vagas, adora escrever sobre tudo e todos. Entre os
seus trabalhos literários, obteve três menções honrosas e, em 2011, foi destaque nacional no XVI
Concurso Literário Internacional de Poesias, Contos e Crônicas com a crônica “Chega de Au-Au”.




40     SAMIZDAT fevereiro de 2012
Contos


  Rugas do Tempo
                                                         Juliano Ramos de Oliveira


   Saiu. A noite quente não lhe dava sossego,     viajavam naquela hora. Reparou que um jovem
mas ânsias de partir. Partiu. O ar inflou-lhe o   muito próximo chorava em silêncio. Notando
peito repleto de liberdade. Afastou-se da casa.   o olhar do velho, o rapaz controlou-se e ex-
Engraçado! Não voltaria. A certeza conduzia-      plicou-se sem que lhe perguntasse: “Desculpe-




                                                                                                                   http://www.flickr.com/photos/bcmom/98545348/
lhe os passos. Engraçado! Imaginara-se sempre     me... minha esposa teve um parto difícil esta
tomando esta atitude num momento de angús-        noite... a criança se foi... a mãe também está
tias, mágoas. Mas não. Encontrava-se brando,      morrendo... me avisaram há pouco... e eu aqui,
os filhos com filhos e famílias a mais para se    preso nesta rodoviária. Não há ninguém para
dedicarem. A esposa aposentada do professo-       se pedir ajuda, este é o último ônibus para a
rado exercido com triunfo. Dona Glória de         minha cidade a tempo do enterro da criança e,
geografia sentiria sua falta, todavia toda dor    talvez, ver Maria viva... Entende minha aflição?
ameniza-se no todo dia.                           Mesmo que saia pedindo... não há gente obas-
   Partiu. No bolso algum dinheiro e o cartão     tante para juntar o dinheiro...
da “previdência” faziam-se suficientes. Buscava      – Espere! – o velho vasculhou na carteira;
motivos para a fuga. Não há causas concretas?     o dinheiro que trouxera não seria suficiente.
Há? Acordara no meio da noite com o suor          Resolveu. Entregou-lhe a passagem que com-
que cobria-lhe o corpo. Levantou-se, observou     prara. – Vá você!
o sono da esposa na semiclaridade vinda da          – Mas... senhor!?!?
fenda da porta. Ainda amava o vestígio da bela
mulher de outrora. Deixou o cômodo. Apron-           – Pego o próximo, não importa se me atra-
tou-se ligeiro. Fitou-se no espelho. Setenta e    sar. Vá! Você tem mais pressa. Vá!
dois anos, envelhecera: as rugas do tempo cra-       O rapaz resplendeceu, apertou-lhe vigoro-
vadas na face avançada, os fios brancos doma-     samente a mão agradecendo-o e correu para o
vam as têmporas... Seria a causa? As rugas do     veículo.
tempo?
                                                     O velho pensou com saudade súbita na sua
   Sentou-se, a passagem no bolso. Para onde?     vida de sempre, na família bem viva, criada, se-
Não importava, escolhera um nome qualquer         gura, na sua glória: Dona Glória de geografia...
na placa da cabine da empresa... “O ônibus
                                                     – Deus lhe abençoe! – disse o jovem da
está atrasado”, disseram. O atraso do carro
                                                  janela, acenando expansivamente.
arrastou-se na madrugada semideserta da
rodoviária. O sono grosso empurrou-o sobre o         – Amém! – murmurou o velho apiedado
banco convidativo, entregou-se...                 do jovem em quem as rugas da vida se faziam
                                                  profundas e prematuras no tempo.
   Acordou. Leu no ônibus o nome da cidade-
destino. Não o perdera. Olhou a volta. Poucos

    Juliano de Oliveira Ramos
    Nasceu em 1977 e vive na cidade de Avaré – SP – Brasil. Formado em Letras (Português/Inglês/
Espanhol), atua como professor efetivo na rede pública do estado de São Paulo em dois cargos.
Além de educador, trabalha como ator e diretor teatral há mais de 10 anos, tendo atuado e diri-
gido mais de 15 espetáculos. Escreve desde muito cedo. Portanto, além dos livros publicados pelo
CLUBE DE AUTORES e AGBOOK, tem seus textos publicados em antologias e jornais literários de
sua cidade natal e região.

                                                                   http://www.flickr.com/photos/simoom/11178416/




                                                    http://samizdat.oficinaeditora.com                       41
Contos




Minha vida,
meu pesadelo
Sonia Regina Rocha Rodrigues




                                   http://www.flickr.com/photos/jen_lipp/5185981815/




 42   SAMIZDAT fevereiro de 2012
Não adianta trancar as portas e as janelas.      Se tira nove, poderia fazer melhor, se tira dez,
O inimigo já se instalou.                          não fez mais do que sua obrigação.
   Como dizia Nietzsche: “Procuravas o fardo          Se atleta, ao exibir orgulhoso o título de
mais pesado e te encontraste a ti mesmo...         campeão estadual, ouve da mãe o comentário:
Não podes mais libertar-te de ti mesmo...”. Ah,    ‘o campeão brasileiro, na sua idade, bateu o
como eu bem compreendo as palavras de Za-          recorde mundial e o campeão sul-americano é
ratustra! Eu sempre soube, desde bem pequena,      mais novo que você’.
que o meu pior inimigo mora dentro de mim.            Ela nunca aplaude, para não ‘estragar’ o
   Neste momento mesmo, pode estar à es-           rebento.
preita.... E eu me sinto tão desprotegida!            Caso ganhe o ouro olímpico, a mãe afirma
   Escrevi na porta de meu quarto minha frase      que ele está abaixo de suas possibilidades, que
favorita de Edgar Allan Poe: “A desgraça é         seu desempenho poderia ter sido melhor, pois
variada. O infortúnio sobre a terra é multifor-    ela, que o criou, sabe como ele é preguiçoso,
me.”                                               contentando-se com um resultado inferior a
   E não conheço infortúnio maior do que ser       seu potencial.
um personagem de Kafka, condenado, eu o sei,           Quando a cumprimentam, ela recebe os
a tornar-se um matricida.                          louros especificando quantas horas sacrificou-
  Ah! Como eu entendo Kafka!                       se acompanhando o herdeiro a treinos e com-
                                                   petições, frisando o quão dedicada foi e ainda
   Todo filho único de mãe perfeccionista          é, saboreando sua fatia no triunfo do filho.
entende Kafka.
                                                      Filho que trocaria todos os prêmios, troféus,
   Condenado sem culpa antes de qualquer           diplomas e medalhas pelo único elogio que ela
julgamento, o filho único de mãe perfeccio-        nunca pronunciará.
nista jamais conhecerá a metamorfose que o
tornaria humano.                                     E se um dia, ele, desesperado, pular no
                                                   pescoço da mãe, apertando, estrangulando, sa-
   É execrado pelos colegas desde o berçário       cudindo, confirmará ser um filho ingrato que
por sua precocidade genial e seu vocabulário       não reconhece o quanto ela faz por ele.
corretíssimo.
                                                      E eu sinto todos os dias estes impulsos
   Este menino ou menina aos quatro anos de        agressivos.
idade faz um rabisco à la Picasso usando cores
como Matisse, em vão. Sua mãe torce o nariz:          Fico atento, vigilante, como aconselha a
‘para sua idade, até que está bom...’              Bíblia, surpreendendo minuto a minuto os
                                                   pensamentos furiosos do meu demônio inte-
   Aos sete, ele ou ela desenha usando pers-       rior, intentando contra a vida da minha mãe.
pectiva, planos de fundo e sombreado que           Sonho que estou com a faca nas mãos, tinta
obedece rigorosamente a posição da luz. Nem        do sangue dela, e imagino inúmeras maneiras
os pintores italianos anteriores a Da Vinci        de assassiná-la. Acordo suando frio, sabendo
coloriam tão bem, porém a mãe boceja com           que, um dia, perderei a batalha, e o demônio
enfado: ‘razoável’.                                guiará minha mão, que se tornará a mão de
  Em vão esta criança se aplica aos estudos.       um criminoso.

    Sonia Regina Rocha Rodrigues

    nasceu em 1955 no Brasil, em Santos, cidade histórica, espremida entre o mar e a serra, de
clima instável, onde todas as estações do ano podem ocorrer no mesmo dia, e ocorrem. A partir
de 1993 começou a divulgar seus textos, em vários periódicos nacionais e informativos de gru-
pos literários. Participou do grupo editorial Um Dedo de Prosa e é autora dos livros: os romances
Rosa, A fantástica experiência de Carolina Helena, Viagem ao Canadá, Dias de Outono, Encontro
com a Deusa; Uma casa no interior – infantil; Dias de Verão – contos e crônicas.
    Na internet, foi considerada uma das melhores prosadoras do site Blocos Online em 2004.
    página pessoal - http://alegriadeler.blogspot.com




                                                        http://samizdat.oficinaeditora.com       43
Contos


Marta e o gosto do tempo
                                                       Fernanda Cristina de Paula




   Noite. O estacionamento muito escuro.           ***



                                                                                                http://www.flickr.com/photos/houseofmiao/6697695293/
Parou o carro e olhou-se pelo retrovisor.           Estavam em pessoas nove no bar. Ela
Ela esqueceu de pentear o cabelo. Mas não        sorriu da piada que o Alexandre contou,
fazia tanta diferença. O cabelo liso e pesado,   mas virou delicadamente o rosto. Ao menos
bagunçado desse jeito, ia parecer só char-       sorria.
me – ponderou. E olhando os próprios olhos
orientais (irritados e sem maquiagem) mur-         Por todo o tempo, escorregava casual-
murou: charme de merda.                          mente os dedos pelo copo. E sorria, sempre
                                                 suave.
  Seria justo tirar da boca aquele batom
roxo (seu preferido), que passara às pressas.       Estavam em nove pessoas, não consegui-
Mas desistiu da ideia.                           ram mesa. Estavam amontoados ali, junto
                                                 ao balcão. Ela, sentada na banqueta (sempre
   Subitamente, se apressou: jogou os óculos     sorrindo, simpática e delicada) tinha uma
e as chaves de casa de qualquer jeito dentro     visão privilegiada de Marta, no meio da roda
da bolsa e saiu com rapidez do carro. Char-      de amigos.
me de merda.
                                                   Marta insegura, tapada e mal resolvida.
     Entrou no bar.




44      SAMIZDAT fevereiro de 2012
Marta que se pensava mulher interessante,        a gravidez da Luana. Sorri suavemente nas
só porque se fazia sexualmente liberal. A        partes bonitas ou engraçadas da história:
bartender era a Leila. Leila, A Estranha (co-    sempre simpática em sua perfeita delicadeza
chichou maldosamente pra Roberta). Nor-          oriental. O cabelo bagunçado e os olhos des-
malmente, tinha dó de Marta. Mas, nesse dia,     cuidadamente (mas eternamente) pousados
sentada junto ao balcão, afundada na meia        no próprio copo. Se ficasse bêbada, pensa
escuridão, Marta parecia lhe reluzir (esfu-      consigo mesma, seria um desastre. Seus
ziante em sua vulgaridade de mulher mo-          dedos descem e sobem pelo copo: lentos de
derna). Marta ao rir e conversar com todos       reflexão.
e alisar constantemente o cabelo (charme de         Nunca fora amiga da Marta. Às vezes, pas-
merda) reluzia de idiotice e falta de noção.     sava horas escutando as lamúrias dela, via-a
   Passou com urgência a mão no próprio          apenas uma ou três vezes a cada dois meses.
cabelo bagunçado; ainda desejosa de arran-       Alardeava a dó que tinha da Marta (a vaca
car o batom. Sorria suave pra esconder seus      insegura) para quem quisesse ouvir.
bufos de impaciência. E desviava o rosto.           Pega o guardanapo e, discretamente, tira
Leila, sobrinha da prima de segundo grau do      o batom da boca. Fora besteira ir ali. Não
tio da cunhada do Edvaldo. Magrela e feia de     suporta o próprio batom. Não tem força pra
doer: Leila, sempre sorrindo, atenciosa.         um sorriso genuíno. E Marta, inocente, reluz
   Queria tirar o batom. Escorregando os         feito seu novo objeto de ódio na meia escu-
dedos lentamente pelo copo, ponderou que         ridão.
se ficasse bêbada acabaria dando pro sujo            Adriano começa uma piada de japonês,
do Alexandre. E se ficasse bêbada acabaria       percebe a gafe e faz um cumprimento orien-
(totalmente absurda e etílica e cambaleante)     tal para ela, à guisa de desculpa. Todos riem;
levando Marta para algum canto.                  ela ri, faz sinal de que tudo bem, que ele
    Se ficasse bêbada, tinha certeza, acabaria   podia continuar a piada. Sandra para a his-
com a fala engrolada, tentando explicar cal-     tória da gravidez da Luana pra ouvir a piada
mamente à Marta: Que Porra Marta para de         de Adriano. Ela sorri enquanto desvia sua-
oferecer essa bunda pra todo mundo. Para,        vemente o rosto. A Marta ri pra uns caras,
Marta! Você ‘tá fazendo a droga toda erra-       ri, se jogando, se oferecendo. E observando
da. Não vê, Marta? Não vê? Caralho, Marta,       Marta, ela fica brava ao ter a certeza de que
você não vê? Nenhum deles (os que te come-       acabará bêbada, gritando com Marta, dando
ram ou não) te respeitam. Eles nem fingem,       pro Alexandre. Os olhos ardem com a força
Marta, nem fingem que te dão a porra d’uma       de segurar um choro ridículo. Ela bebe um
atenção. Para de oferecer essa bunda feia pra    gole e sorri para ninguém.
todo mundo! Mas que caralho, Marta! Não            Leila, A Feia, prepara alguma bebida estra-
vê? (a voz engrolada, os olhos dançando de       nha. Leila percebe o olhar dela e oferece a
bêbada). Você, pra eles, não é uma liberal, é    bebida dizendo:
só uma vagabunda fácil e suja com diploma
de economista. Marta, eles são uns machistas       — Essa é grátis.
tapados e sujos. Marta? (com voz de bêbada         Ela sorri, pega o copo.
triste diria) Marta? Vai tomar no cu, Marta!
                                                   — É feito do quê?
Não vê?! Não vê?! (chacoalhando Marta pelo
braço; Marta chorando; ela mesma choran-           — Prova primeiro.
do, bêbada, derrubando a vodka do copo na          Mentalmente, ela xinga Leila e ri (não
roupa; Alexandre mandando-a soltar Mar-          queria a porra da droga de bebida nenhuma).
ta; Alexandre querendo levá-la embora pra        Toma a tal da bebida. Engasga, tosse, cospe.
comê-la, ela também como Marta: vagabun-         Põe raiva na voz ao reclamar:
da, fácil e suja).
                                                   — É amargo.
   Ela sorri da terceira piada que Luciano
                                                   Leila sempre-feia-simpática responde cal-
conta. Pondera internamente que não deve
                                                 mamente:
ficar bêbada. Ao mesmo tempo, escuta (per-
feitamente atenciosa) Sandra contar sobre          — Feito teu tempo.




                                                   http://samizdat.oficinaeditora.com       45
Tradução




                                                                http://www.flickr.com/photos/biggreymare/5513025399/



                                  Horacio Quiroga
                                  trad.: Henry Alfred Bugalho




 A Galinha Degolada
46   SAMIZDAT fevereiro de 2012
Todo o dia, sentados no pátio em um          não conhecia mais seus pais. O médico o
banco, estavam os quatro filhos idiotas do      examinou com esta atenção profissional
casal Mazzini-Ferraz. Tinham a língua en-       que está visivelmente buscando as causas
tre os lábios, os olhos estúpidos e viravam     do mal nas enfermidades dos pais.
a cabeça com a boca aberta.                        Depois de alguns dias, os membros
   O pátio era de terra, fechado a oeste por    paralisados recobraram o movimento; mas
um muro de tijolos. O banco ficava parale-      a inteligência, a alma, até o instinto, se
lo a ele, a cinco metros, e ali eles se man-    haviam ido de todo; havia ficado profunda-
tinham imóveis, fixos os olhos nos tijolos.     mente idiota, baboso, suspenso, morto para
Como o sol se ocultava atrás do muro, ao        sempre sobre os joelhos de sua mãe.
declinar os idiotas faziam festa. A luz que        — Filho, meu filho querido! — soluçava
cegava chamava a atenção deles, a princí-       esta sobre aquela espantosa ruína de seu
pio, pouco a pouco seus olhos se anima-         primogênito.
vam; riam-se, por fim, estrepitosamente,
congestionados pela mesma hilariância              O pai, desolado, acompanhou o médico
ansiosa, olhando o sol com alegria bestial,     até afora.
como se fosse comida.                              — A você se pode dizê-lo: creio ser um
   Outras vezes, alinhados no banco, zum-       caso perdido. Poderá melhorar, educar-se
biam por horas inteiras, imitando o bonde       em tudo que lhe permita seu idiotismo,
elétrico. Os ruídos fortes sacudiam assim       mas nada mais além.
a inércia deles, e então corriam, morden-          — Sim! Sim! — assentia Mazzini — Mas,
do a língua e mugindo ao redor do pátio.        diga-me: o senhor acredita que é herdado,
Mas quase sempre ficavam apagados numa          que...?
sombria letargia de idiotismo, e passavam          — Quanto a herança paterna, já lhe
todo o dia sentados em seu banco, com as        disse o que acredito quando vi seu filho. A
pernas suspensas e quietas, empapando de        respeito da mãe, há ali um pulmão que não
glutinosa saliva a calça.                       sopra bem. Não vejo nada mais, mas há um
  O maior tinha doze anos e o menor, oito.      sopro um pouco áspero. Faça-a examinar
Em todo o aspecto sujo e desvalido deles,       detidamente.
notava-se a falta absoluta de um pouco de          Com a alma destroçada pelo remorso,
cuidado maternal.                               Mazzini redobrou o amor por seu filho, o
   No entanto, estes quatro idiotas haviam      pequeno idiota que pagava os excessos do
sido um dia o encanto de seus pais. Aos         avô. Teve ainda que consolar, apoiar sem
três meses de casados, Mazzini e Berta          trégua Berta, ferida profundamente por
orientaram seu estreito amor de marido e        aquele fracasso de sua jovem maternidade.
mulher, e mulher e marido, para um por-            Como é natural, o casal pôs todo seu
vir muito mais vital: um filho. Que maior       amor na esperança de outro filho. Nasceu
benção para dois enamorados do que esta         este, e sua saúde e limpidez de riso reacen-
honrada consagração de seu carinho, li-         deram o porvir extinto. Mas aos dezoito
bertado agora do vil egoísmo de um amor         meses, as convulsões do primogênito se re-
mútuo sem finalidade alguma e, o que é          petiram, e no dia seguinte, o segundo filho
pior do que o amor mesmo, sem esperan-          amanhecia idiota.
ças possíveis de renovação?
                                                   Desta vez, os pais caíram em profundo
    Assim o sentiram Mazzini e Berta, e         desespero. Portanto seu sangue, seu amor
quando o filho chegou, aos quatorze meses       estavam malditos! Seu amor, sobretudo!
de matrimônio, acreditaram cumprida a           Vinte e oito anos ele, vinte e dois ela, e
felicidade. A criatura cresceu bela e radian-   toda sua apaixonada ternura não conseguia
te, até que completou um ano e meio. Mas,       criar um átomo de vida normal. Já não
no vigésimo mês, sacudiram-no uma noite         pediam mais beleza e inteligência como
convulsões terríveis, e na manhã seguinte




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para o primogênito, mas um filho, um filho         Berta continuou lendo como se não hou-
como todos!                                     vesse ouvido.
  Do novo desastre brotaram novas labare-         — É a primeira vez — retrucou depois
das do dolorido amor, uma louca ânsia de        de um tempo — que vejo você inquietar-se
redimir de uma vez para sempre a santida-       pelo estado de seus filhos.
de de sua ternura. Sobrevieram gêmeos, e           Mazzini voltou um pouco o rosto para
ponto por ponto repetiu-se o processo dos       ela com um sorriso forçado:
dois maiores.
                                                  — De nossos filhos, parece-me?
    Mas, por sobre sua imensa amargura
havia em Mazzini e Berta uma grande               — Bem, de nossos filhos. Prefere assim?
compaixão por seus quatro filhos. Tiveram       — ergueu ela os olhos.
de arrancar do limbo da mais profunda             Desta vez, Mazzini se expressou clara-
animalidade, não mais suas almas, senão o       mente:
instinto mesmo, abolido. Não sabiam deglu-         — Creio que não vai dizer que eu tenha
tir, mudar de lugar, nem mesmo sentar-          a culpa, não é?
se. Aprenderam enfim a caminhar, mas
chocavam-se contra tudo, por não se darem          — Ah, não! — sorriu Berta, muito páli-
conta dos obstáculos. Quando os lavavam,        da — mas eu também não, suponho! Não
mugiam até injetarem de sangue o rosto.         faltava mais! — murmurou.
Animavam-se apenas ao comer, ou quando            — O que não faltava mais?
viam cores brilhantes ou ouviam estrondos.         — Que se alguém tem a culpa, não sou
Riam-se, então, pondo para fora a língua        eu, entenda-o bem! É o que eu queria lhe
e rios de baba, radiantes de frenesi bestial.   dizer.
Tinham, em troca, certa faculdade imitati-
va; mas não se podia obter nada mais.             Seu marido a olhou por um momento,
                                                com brutal desejo de insultá-la.
   Com os gêmeos pareceu haverem con-
cluído a aterradora descendência. Mas pas-         — Deixe estar! — articulou, secando en-
sados três anos desejaram de novo arden-        fim as mãos.
temente outro filho, confiando que o longo        — Como quiser; mas se quer dizer....
tempo transcorrido houvesse aplacado a
                                                  — Berta!
fatalidade.
                                                  — Como quiser!
   Não satisfaziam suas esperanças. E neste
ardente anseio que se exasperava em razão          Este foi o primeiro choque e se sucede-
de sua infrutuosidade, azedaram. Até este       ram outros. Mas nas inevitáveis reconcilia-
momento cada qual havia tomado sobre            ções, suas almas se uniam com redobrado
si a parte que lhe correspondia na des-         arrebatamento e loucura por outro filho.
graça de seus filhos; mas a desesperança           Nasceu assim uma menina. Viveram dois
de redenção perante as quatro bestas que        anos com a angústia à flor da pele, espe-
haviam nascido deles pôs para fora esta         rando sempre outro desastre. Nada ocorreu,
imperiosa necessidade de culpar os outros,      no entanto, e os pais puseram nela toda sua
que é patrimônio específico dos corações        complacência, que a pequena os levava aos
inferiores.                                     mais extremos limites do mimo e da má
   Iniciaram com a mudança de pronome:          criação.
seus filhos. E como além do insulto havia a        Se nos últimos tempos Berta ainda
insídia, a atmosfera se carregava.              cuidava de seus filhos, ao nascer Bertita se
  — Parece-me — disse-lhe uma noite             esqueceu quase de todo dos outros. Só a
Mazzini, que acabava de entrar e lavava as      recordação deles a horrorizava, como algo
mãos — que podia manter mais limpos os          atroz que a houvessem obrigado a cometer.
meninos.                                        Com Mazzini, se bem que em menor grau,




48     SAMIZDAT fevereiro de 2012
passava o mesmo. Nem por isto a paz havia        — Enfim! — murmurou apertando os
chegado a suas almas. A menor indisposi-       dentes — Enfim, víbora, disse o que queria!
ção de sua filha os tirava agora de si, com       — Sim, víbora, sim! Mas eu tive pais sau-
o terror de perdê-la, os rancores de sua       dáveis, ouça, saudáveis! Meu pai não mor-
descendência podre. Haviam acumulado fel       reu de delírio! Eu teria tido filhos como os
de sobra para que, ao menor contato, o ve-     de todo o mundo! Estes são filhos seus, seus
neno se vertesse para fora do copo. Desde      os quatro!
o primeiro desgosto envenenado haviam-se
perdido o respeito; e se há algo a que o ho-     Mazzini explodiu, por sua vez.
mem se sente arrastado com cruel fruição          — Víbora tísica! Foi isto o que eu lhe
é, quando já se começou, a humilhar de         disse, o que quero lhe dizer! Pergunte, per-
todo uma outra pessoa. Antes, continham-       gunte ao médico quem tem a maior culpa
se pela mútua falta de êxito; agora que este   da meningite de seus filhos: meu pai ou o
havia chegado, cada qual, atribuindo-o a si    seu pulmão furado, víbora!
mesmo, sentia maior a infâmia dos outros          Continuaram cada vez com maior vio-
quatro engendros que o outro lhe havia         lência, até que um gemido de Bertita selou
forçado a criar.                               instantaneamente suas bocas. À uma da
   Com estes sentimentos, não houve mais       manhã a ligeira indigestão havia desapare-
aos quatro filhos mais velhos afeto possí-     cido, e como ocorre fatalmente com todos
vel. A empregada os vestia, dava-lhes de       os casais jovens que se hão amado inten-
comer, punha-os para dormir, com visível       samente uma vez sequer, a reconciliação
brutalidade. Quase nunca os lavava. Passa-     chegou, tanto mais efusiva quanto infames
vam todo o dia sentados diante do muro,        foram os agravos.
abandonados de toda remota carícia. Deste         Amanheceu um esplêndido dia, e en-
modo, Bertita cumpriu quatro anos, e nesta     quanto Berta se levantava cuspiu sangue.
noite, resultado das guloseimas que aos pais   As emoções e a má noite passada tinham,
era impossível lhe negar, a criatura teve      sem dúvida, grande culpa. Mazzini a reteve
alguns calafrios e febre. E o temor de vê-la   abraçada por um longo tempo, e ela chorou
morrer ou ficar idiota, tornou a reabrir a     desesperadamente, mas sem que ninguém
eterna chaga.                                  se atrevesse a dizer uma palavra.
  Fazia três horas que não falavam, e o           Às dez decidiram sair, depois de almo-
motivo foi, como quase sempre, os fortes       çar. Como ainda tinham tempo, ordenaram
passos de Mazzini.                             a empregada que matasse uma galinha.
  — Meu Deus! Não pode caminhar mais              O dia radiante havia arrancado os idio-
devagar? Quantas vezes...?                     tas de seu banco. De modo que, enquanto a
   — Bom, é que me esqueço; acabou! Não        empregada degolava na cozinha o animal,
o faço de propósito.                           sangrando-o com parcimônia (Berta havia
   Ela sorriu, desdenhosa: — Não, não creio    aprendido com sua mãe este bom modo
tanto em você!                                 de conservar a frescura da carne), acredi-
                                               tou ouvir algo como respiração atrás dela.
  — Nem eu jamais havia acreditado tanto       Voltou-se e viu os quatro idiotas, com os
em você... tísica!                             ombros colados uns nos outros, olhando
  — Quê! Que disse?                            estupefatos a operação... Vermelho... Verme-
  — Nada!                                      lho...

   — Sim, eu ouvi algo! Olhe: não sei o que      — Senhora! Os meninos estão aqui, na
você disse; mas lhe juro que prefiro qual-     cozinha.
quer coisa a ter um pai como o que você           Berta chegou; não queria que jamais
teve!                                          pisassem ali. E nem mesmo nestas horas
  Mazzini ficou pálido.                        de pleno perdão, esquecimento e felicidade




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reconquistada, podia evitar esta horrível         — Soltem-me! Deixem-me! — gritou sacu-
visão! Porque, naturalmente, quanto mais        dindo a perna. Mas foi puxada.
intensos eram os arroubos de amor a seu            — Mamãe! Ai, mamãe! Mamãe, papai!
marido e filha, mas irritado era seu humor      — chorou imperiosamente. Tentou ainda
com os monstros.                                segurar-se à borda, mas foi arrancada e
   — Que saiam, Maria! Tire-os! Tire-os, eu     caiu.
lhe digo!                                         — Mamãe, ai! Ma... — não pôde gritar
  As quatro pobres bestas, sacudidas,           mais. Um deles lhe apertou o pescoço,
brutalmente empurradas, foram dar a seu         apartando os cabelo como se fossem plu-
banco.                                          mas, e os outros a arrastaram por uma só
   Depois de almoçar, saíram todos. A           perna até a cozinha, onde essa manhã se
empregada foi a Buenos Aires e o casal a        havia sangrado a galinha, bem presa, arran-
passear pelas quintas. Ao baixar o sol volta-   cando-lhe a vida segundo por segundo.
ram; mas Berta quis saudar por um mo-              Mazzini, na casa em frente, pensou ouvir
mento as suas vizinhas da frente. Sua filha     a voz de sua filha.
escapou-se em seguida para casa.                  — Me parece que a chama — ele disse a
   Entretanto, os idiotas não haviam se         Berta.
movido durante todo o dia de seu banco.            Prestaram atenção, inquietos, mas não
O sol havia transposto já o muro, começa-       ouviram mais. Contudo, um momento
va a baixar, e eles continuavam olhando os      depois se despediram, e enquanto Berta ia
tijolos, mais inertes do que nunca.             tirar seu chapéu, Mazzini avançou para o
   De súbito, algo se interpôs entre seus       pátio.
olhares e o muro. Sua irmã, cansada de            — Bertita!
cinco horas paternais, queria observar por
sua conta. Parada ao pé do muro, mirava           Ninguém respondeu.
pensativa o topo. Queria trepar, disto não        — Bertita! — ergueu mais a voz, já altera-
havia dúvida. Por fim, decidiu-se por uma       da.
cadeira sem fundo, mas ainda não alcança-          E o silêncio foi tão fúnebre para seu co-
va. Recorreu então a um galão de querose-       ração sempre amedrontado, que subiu um
ne, e seu instinto topográfico fez-lhe colo-    calafrio pela espinha por causa do horrível
cá-lo verticalmente, com o qual triunfou.       pressentimento.
   Os quatro idiotas, o olhar indiferente,         — Minha filha, minha filha! — correu já
viram como sua irmã conseguia pacien-           desesperado para o fundo. Mas ao passar
temente dominar o equilíbrio, e como em         frente à cozinha viu no chão um mar de
pontas de pé apoiava a garganta sobre o         sangue. Empurrou violentamente a porta
topo do muro, entre suas mãos tensas.           encostada e lançou um grito de horror.
Viram-na olhar para todos os lados, e bus-
car apoio com o pé para subir mais.               Berta, que já se havia lançado correndo
                                                por sua vez ao ouvir o angustiado chamado
   Mas o olhar dos idiotas havia se anima-      do pai, escutou o grito e respondeu com
do; uma mesma luz insistente estava fixa        outro. Mas ao precipitar-se para a cozinha,
em suas pupilas. Não apartavam os olhos         Mazzini, lívido como a morte, se interpôs,
de sua irmã enquanto crescente sensação         contendo-a:
de gula bestial ia mudando cada linha de
seus rostos. Lentamente avançaram até o           — Não entre! Não entre!
muro. A pequena, que tendo conseguido              Berta chegou a ver o piso inundado de
apoiar o pé, ia já montar e cair para o ou-     sangue. Apenas pôde levar os braços sobre
tro lado, seguramente, sentiu-se pega pela      a cabeça e cair sobre ele com um rouco
perna. Debaixo dela, os oito olhos cravados     suspiro.
nos seus lhe deram medo.




50     SAMIZDAT fevereiro de 2012
Tradução



       Decálogo
       do perfeito contista
                                                Horacio Quiroga
                                                trad.: Henry Alfred Bugalho



                                    I
 Creia em um mestre — Poe, Maupassant, Kipling, Tchekov — como
em Deus mesmo.
   
                                    II
 Creia que sua arte é um cume inacessível. Não sonhe em domá-la.
Quando puder fazê-lo, você o conseguirá sem mesmo sabê-lo.
   
                                   III
   Resista o quanto puder à imitação, mas imite se o influxo for ­orte
                                                                 f
demais. Mais do que qualquer outra coisa, o desenvolvimento da
p
­ ersonalidade é uma grande paciência.



                                                                                   http://www.flickr.com/photos/27805557@N08/4959155096/
   
                                   IV
   Tenha fé cega não em sua capacidade para o triunfo, senão no
­ rdor com que o deseja. Ame a sua arte como à sua namorada,
a
d
­ ando-lhe todo seu coração.
   
                                    V
  Não comece a escrever sem saber desde a primeira palavra aonde
vai. Em um conto bem realizado, as três primeiras linhas têm quase a
importância das três últimas.
   



                                         http://samizdat.oficinaeditora.com   51
VI
  Se quer expressar com exatidão esta circunstância: “Do rio sopra-
va o vento frio”, não há em língua humana mais palavras do que as
apontadas para expressá-la. Uma vez dono de suas palavras, não se
preocupe em observar se são consoantes ou assonantes entre si.
      
                                      VII
  Não adjetive sem necessidade. Inúteis serão quantas notas de cor
adicionar a um substantivo débil. Se achar aquele que é necessário,
apenas ele terá uma cor incomparável. Mas tem de achá-lo.
      
                                      VIII
  Tome seus personagens pela mão e conduza-os firmemente até o
final, sem ver outra coisa além do caminho que lhes traçou. Não se
distraia vendo o que eles podem ou não lhes importa ver. Não abuse
do leitor. Um conto é um romance depurado de cascalho. Tenha isto
como uma verdade absoluta, mesmo que não seja.
      
                                      IX




                                                                         http://www.flickr.com/photos/27805557@N08/4959155096/
  Não escreva sob o império da emoção. Deixe-a morrer, e evoque-
a depois. Se for capaz então de revivê-la tal qual foi, terá chegado à
metade do caminho na arte.
      
                                       X
  Não pense em seus amigos ao escrever, nem na impressão que
causará sua história. Conte como se seu relato não tivesse mais im-
portância do que para o pequeno ambiente de seus personagens, dos
quais você poderia ter sido um. De nenhum outro modo se obtém a
vida do conto.




52       SAMIZDAT fevereiro de 2012
Horacio Quiroga

     Horacio Silvestre
Q
­ uiroga Forteza (Salto, 31
de dezembro de 1879 —
Buenos Aires, 31 de dezem-
bro de 1937) foi um escritor
uruguaio famoso por seus
contos, que geralmente
tratavam de eventos fantás-
ticos e macabros na linha de
Edgar Allan Poe e de temas
relacionados à selva, sobre-
tudo da região de Misiones,
na Argentina, onde Quiroga
passou parte da vida.
     Sua obra mais famosa
são os Cuentos de amor de
locura y de muerte (1917;
título sem vírgula no origi-
nal), na qual se encontra
o célebre conto A Galinha
Degolada.
     Em 1937, após ter sido
diagnosticado com câncer,
Quiroga cometeu suicídio,
ingerindo uma dose letal de
cianureto.




                               http://samizdat.oficinaeditora.com   53
Teoria Literária


O que ninguém lhe dirá
numa oficina literária – parte 1

                                  A Criação
                                            Henry Alfred Bugalho




                                                                   http://uploads1.wikipaintings.org/images/gustave-moreau/hesiod-and-the-muses-1860.jpg




54   SAMIZDAT fevereiro de 2012
A escrita não tem nada a ver com                    qual você tanto tem orgulho não será lido
talento e inspiração. Uma carreira                  por ninguém. Então, você, muito teimoso,
literária se faz de labor e persistência.           continuará escrevendo, pois é o seu traba-
                                                    lho e o que lhe dá felicidade.
   É célebre a frase de Albert Einstein que
diz que “O trabalho é 1% inspiração e
99% transpiração”, e não poderia ser mais           Escrever bem é facil. Criar uma boa
verdadeira.                                         história é fácil. O difícil é escrever bem
   A inspiração é a origem da trama, de             uma boa história.
quem são os personagens, o tema de um
                                                      Não existe segredo algum para escrever.
poema ou a ideia para uma crônica. Todo
                                                    Existem normas ortográficas e gramaticais,
o resto, a materialidade da escrita, é puro
                                                    basta um pouco de estudo para dominá-las
trabalho.
                                                    quase completamente.
   É trabalho a leitura de outros escrito-
                                                       Já as histórias estão por aí, ao nosso
res. É trabalho o aprendizado da escrita.
                                                    redor, ocorrendo no mundo inteiro o tem-
É trabalho sentar-se diante da página em
                                                    po todo. Leia os jornais e a quantidade de
branco e enchê-la de palavras na esperan-
                                                    desgraças e histórias interessantes a cada
ça que alguém, em algum lugar do mundo
                                                    dia. Veja os grandes livros da História e
em algum tempo, detenha-se para lê-las.
                                                    perceba quantas histórias boas já foram
  Após o vislumbre inicial, a grande ideia,         escritas. Relembre sua própria vida, o que
nada mais resta senão o intenso trabalho            você viveu e ouviu, e perceberá que muito
de escrita, reescrita, revisão, reescrita, edi-     já aconteceu.
ção, revisão, reescrita... É um labor intermi-
                                                       O problema começa quando se tem de
nável, que tomará meses ou anos, às vezes
                                                    juntar uma boa história com uma boa
para uma única obra.
                                                    escrita. Uma narrativa eficiente é um equi-
  É neste ponto que entra a persistência,           líbrio entre o que é contado e como isto é
pois os resultados da escrita são lentos e          contado. Idealmente, o estilo e as palavras
geralmente insatisfatórios.                         não deveriam ofuscar o que está aconte-
   Levará anos para se obter alguma espé-           cendo na história.
cie de reconhecimento, e muitos mais anos              Uma escrita muito rebuscada pode dis-
para ganhar alguns trocados com o que se            trair o leitor. Uma escrita muito simplória
escreve. O tempo e esforço investido serão          pode afastar o leitor.
muito maiores do que qualquer retorno
                                                       Uma história desinteressante é do tipo
possível. As horas gastas trabalhando sobre
                                                    que dá sono. Uma história abarrotada de
o texto se depararão com críticas ácidas e,
                                                    reviravoltas pode soar inverossímil.
na maioria das situações, com indiferença.
                                                      Onde está o equilíbrio entre estilo e
   Muitas vezes, aquele texto brilhante do
                                                    enredo?
página oposta: Hesíodo e as Musas, de Gustave         Isto é o que todos os escritores do
M
­ oreau. O mito clássico da inspiração artística.




                                                      http://samizdat.oficinaeditora.com      55
m
­ undo estão tentando descobrir.                     Gêneros literários podem estar presentes
                                                  nos mais diversos meios de comunicação.
                                                  No entanto, os meios de comunicação
Ser escritor é tentar convencer os                também possuem linguagens específicas.
demais que suas obras são originais e             Ser um bom jornalista não significa que o
criativas, mesmo que não sejam.                   sujeito será um bom romancista, do mes-
                                                  mo modo que ser um blogueiro de sucesso
  Pense numa história... Imagine um per-
                                                  não o tornará um bom contista ou poeta.
sonagem... Conceba uma ambientação...
                                                  Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra
                                                  coisa.
  Agora, tenha certeza que alguém, em al-             E o mesmo vale no interior dos próprios
gum lugar do planeta, em algum momento            gêneros literários. Ser um contista não o
da história da humanidade, já escreveu esta       tornará um bom romancista, são estruturas
mesma história, com este mesmo perso-             literárias diferentes com exigências dis-
nagem nesta mesma ambientação. E pior!            tintas. Entre prosa e poesia há um imenso
Provavelmente melhor do que você.                 abismo, que a maioria dos escritores não
     Desanimador, não?                            consegue transpor com competência.

   Primeiro, porque o repertório de histó-           Isto não quer dizer que você não deva se
rias e enredo é limitado. Segundo, porque         arriscar, mas esteja preparado. Ser bom em
todo o mundo pensa que existe um escri-           um gênero, ou em uma mídia, não quer di-
tor dentro de si. Por fim, somos humanos, e       zer que você terá competência nos demais.
as histórias que contamos, via de regra, se
espelham no mundo em que vivemos, que
é o mesmo de outros bilhões de pessoas.
                                                  Você aprenderá muito mais com as
                                                  críticas do que com os elogios.
   Então, a sua tarefa de escritor, além de
escrever sua obra da melhor maneira pos-             Todo jovem escritor precisa de elogios
sível, é também de convencer os demais de         como uma flor necessita de sol e água. No
que ninguém mais poderia tê-la escrito. E         começo, qualquer estímulo, por mais par-
isto não é fácil!                                 cial e vago que seja, já é um enorme incen-
                                                  tivo para escrevermos as próximas linhas.
                                                     No entanto, elogios não tornarão sua es-
Romance é romance, conto é conto,
                                                  crita melhor. Elogios lhe darão a ilusão que
poesia é poesia, blog é blog. Se você
                                                  tudo está ótimo e que não há mais necessi-
é bom escrevendo um, não quer
                                                  dade de se aperfeiçoar.
dizer que você também será bom
escrevendo os outros.                                A escrita é uma estrada sem fim, você
                                                  nunca terá descanso e nunca chegará ao
    Romance, conto e poesia são gêneros           destino. E você só saberá se pegou a rota
literários. Jornais, livros, revistas, TV rádio
                                         ,        errada quando alguém lhe enfiar o dedo
e blogs são meios de comunicação.                 na cara e for sincero com você.




56      SAMIZDAT fevereiro de 2012
Algumas críticas serão puramente des-       milhares de personagens, com páginas em
trutivas, geralmente de pessoas que têm        branco, sem enredo, e assim por diante.
inveja de você. Todavia, haverá aquelas crí-      Escreva, se você gosta disto, se lhe dá
ticas tão pertinentes, que poderão transfor-   prazer! É o tipo de livros que você lê, ou
mar sua carreira. Algumas críticas atingem     só está fazendo isto para impressionar os
tanto o nervo que, todas as vezes que você     outros, mostrar como você é brilhante ou
sentar-se para escrever, elas estarão na sua   genial?
mente, protegendo-o de certos equívocos,
                                                 Se for para escrever uma obra que
de clichês ou de atalhos equivocados.
                                               ninguém lerá, que seja, pelo menos, pelos
   Ter um bom crítico por perto é a me-        motivos certos...
lhor companhia de um escritor.
                                                  Mas lembre-se que os leitores são pes-
                                               soas normais, que assistem novela das oito,
Escolha entre ser lido ou ser admirado.        gostam dos filmes de Spielberg, ouvem for-
Obras de vanguarda, densas,                    ró universitário e quase nunca vão a mu-
inovadoras e rebuscadas até podem              seus. Aliás, muitos dos leitores nem gostam
chegar a ser admiradas, mas quase              muito de ler...
ninguém as lerá. O que os leitores                A maioria deles deseja apenas uma
gostam é de histórias com começo,              história com começo, meio e fim, com
meio e fim, personagens planos, nada           personagens simples e com motivações
mais que um entretenimento para ler            claras. “De que adianta ler um livro se eu
no avião ou na privada.                        não posso contar a história para alguém
                                               depois?”, muitos devem pensar.
   Todos nós já quisemos revolucionar
                                                 Quanto mais complexa e alternativa for
a Literatura, ser considerados gênios ou
                                               sua escrita, menor será o seu público.
trazer a paz ao mundo através de nossos li-
vros. Você pode tentar, mas é quase certe-       Você terá de escolher: quer ser lido ou
za que isto não ocorrerá.                      admirado?

   E todos nós temos um modernista den-           São raríssimos os casos de escritores li-
tro da gente – aquele escritor que não está    dos por públicos imensos e admirados pela
nem aí para os leitores, que deseja escrever   crítica. Ou você vende muito, ou é lido nas
romances sem parágrafos, sem pontuação,        universidades. Nem sempre se pode ter
com páginas de cabeça para baixo, narrati-     tudo na vida.
vas não lineares, sem personagens, ou com

   Henry Alfred Bugalho
   Formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Litera-
tura e História. Autor de “O Canto do Peregrino” (Editora Com-Arte/USP), de outros
quatro romances e de duas coletâneas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e fun-
dador da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia Nova York para Mãos-de-
Vaca”, cidade na qual morou por 4 anos. Está baseado, atualmente, em Buenos Aires,
com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha.




                                                 http://samizdat.oficinaeditora.com     57
Teoria Literária

     CASTILLO E MODERN:
     DOIS POETAS ARGENTINOS
                                                                       Elias Antunes
   Quando se pensa na literatura argentina,          dissolve
logo vêm a nossa mente os nomes de Jorge Luis        o mundo
Borges e de Ernesto Sábato, escritores de uma
importância monumental para a Literatura, en-                          em puro
tretanto esquecemos que existem outros escri-                          pranto.
tores e poetas excelentes nas letras argentinas.
   Prova disso está nas figuras de Horacio            Rodolfo Modern tornou-se ao longo do tem-
Castillo e Rodolfo Modern, ambos eminentes         po um poeta refinado, lembrando os clássicos,
poetas e tradutores renomados, com diversos        utilizando uma linguagem concisa, como um
livros publicados, mas, infelizmente, pouco        bloco, ou monólito que em cada poema traz a
conhecidos fora do rincão argentino, ao menos      marca da emoção e da inteligência.
no Brasil.
                                                      Seus poemas são curtos, porém de grande
   Rodolfo Modern consiste em ser um poeta         densidade poética e não é por acaso que con-
conciso, adepto do poema sintético, que conse-     seguiu levantar importantes prêmios nesse país
gue expressar uma gama enorme de sentidos          excepcional que é a Argentina.
em poucos versos, como no poema em que
                                                       Nascido em 1922, em Buenos Aires, doutor
presta homenagem a Paul Celan, poeta judeu




                                                                                                    http://minisdelcuento.files.wordpress.com/2011/10/rodolfomodern.jpg?w=549
de expressão alemã:


     RESPOSTA A PAUL CELAN
                       Para quê
                       palavras
     quando
     a pele está
     aberta
                       ao coração
                       o agita
     um vento
     des-
     acorrentado
                       e o peso
                       da voz




58          SAMIZDAT fevereiro de 2012
em Direito e Ciências Sociais e em Filosofia         Nuca deserta, láudano trágico, até a faca
e Letras; foi professor de Literatura Alemã na       Descamado, desossado, e o olho – vesgo –
Universidade Nacional de La Plata e Buenos Ai-
res; tradutor de vários autores de língua alemã,     Extraviado na mais completa lassidão.
como: Hermann Hesse, Rilke, Paul Celan, entre        A alma, a alma, diz vomitando as vísceras.
outros. Seu campo de atuação é vasto como sua         A alma, respondeu pisando a roda de seu
cultura e carrega a força da tradição, sem se      vestido
descuidar da modernidade.
                                                     De noiva e correndo até o sumidouro
   Horacio Castillo, por sua vez, também con-
                                                      Meca de gatos exercendo também seus
quistou prêmios importantes. Tradutor de po-
                                                   direitos.
etas gregos, como Odysseus Elytis, nasceu em
1934, em Ensenada, província de Buenos Aires.
Advogado emérito, concebe uma poesia viva e          TERCEIRO GALO
vibrante, cheia da força da língua espanhola.
                                                     Graça abundante, atoleiro do orvalho,
Alguns de seus poemas são construídos à base
de questionamentos e tendem a apresentar o           Martírio na corredeira do jamais,
olhar do poeta que capta o mundo de uma              Todos ao funeral, todos ao funeral,
forma diferente, mais humana, mais consciente
                                                     Às cegas frente à espreita do aguilhão.
das leis da natureza, do que há de feérico e
misterioso no universo. Há também uma apro-          Olá, chamariz do penacho rosa,
ximação da religiosidade, como no poema:             Nó cerrando-se com o peso do iminente.
                                                     E você, diamante ébrio, mito e natureza do
  DUELO À HORA EM QUE CANTA O                      pedernal.
GALO
  PRIMEIRO GALO                                       Ambos os poetas argentinos convocam-nos a
  O desejo fez sua obra, mas excedendo-se          entrar em contato com poesias de alta qualida-
                                                   de, abrindo-nos um universo de possibilidades.
  Promoveu a guerra santa da negação.
                                                   Esse contato leva-nos a alargar nossas frontei-
  Estopa na boca, a alma sobre pregos,             ras culturais e fugir dos padrões impostos por
  Tudo perdido antes da estrela matutina.          uma dominação mercantilista, a mais das vezes
                                                   de gosto duvidoso.
  E a matéria, um bem menor, híbrido,
  Precipitando-se na região das mães mudas.


  SEGUNDO GALO
  A aurora vem e venderão seus olhos, a em-
purrões
  Tropeçando até as largas mesas de pescados,

    Elias Antunes
    Professor, escritor e servidor público. Autor de mais de uma dezena de livros. Ga-
nhador de mais de 140 prêmios literários. Seu romance “Suposta biografia do poeta
da morte” ganhou os prêmios Hugo de Carvalho Ramos (2008), Prêmio Jabuti de 2011
(finalista) e Prêmio Il Convívio, na Itália, 2011 (1º lugar).
    Contato: jeliasantunes@bol.com.br




                                                     http://samizdat.oficinaeditora.com          59
Teoria Literária

 O GRANDE SERTÃO DE RIOBALDO
                                                                Alessa Bertazzo




                                                                                           http://www.revistacriterio.com.ar/bloginst/wp-content/uploads/2011/08/kovadloff-guimaraes20rosa204.jpg




        Alessa Bertazzo
        Formada em Letras e pós-graduada em Teoria Literária pela Uniandrade –
     PR, atua como professora particular e, poeta nas horas vagas, participando de
     diversos concursos literários pelo Brasil. Tem participações em algumas antolo-
     gias, frutos destes concursos, alguns e-books publicados na Internet, além do blog
     de Poesias: http://transversu.blogspost.com e página no Recanto das Letras (http://
     www.recantodasletras.com.br/autores/alebertazzo).




60       SAMIZDAT fevereiro de 2012
Discorrer sobre Guimarães Rosa ou           r
                                               ­ elato um tanto quanto “desorganizado”,
Grande Sertão: Veredas, ou ainda sobre         s
                                               ­ egundo ele.
qualquer outra de suas obras é simples-           Mas, uma vez vencida a barreira da
mente “chover no molhado”. Praticamen-         linguagem, o sertão se revela um lugar
te tudo o que se podia dizer a respeito        onde, para Riobaldo, “tudo é e não é”,
da genialidade do autor já foi dito pela       onde “viver é muito perigoso”.
grande maioria dos críticos literários
                                                  Aliás, já nas primeiras páginas, Rio-
brasileiros e até mesmo internacionais.
                                               baldo previne o leitor de que “o sertão é
  Entretanto, as várias leituras que suas      onde manda quem é forte, com as astú-
obras permitem parece não se esgota-           cias” e que “Deus mesmo, quando vier,
rem nunca. A cada releitura, descobre-se       que venha armado! E bala é um pedaci-
uma nova faceta escondida dentro de            nhozinho de metal”... Por aí se comprova
suas obras.Grande Sertão, talvez seja a        sua tese sobre o perigo que é o viver.
obra que melhor traduza essa constata-         E que o diabo está “na rua no meio do
ção. Ainda hoje vários pesquisadores e         redemunho”.
acadêmicos em trabalhos de conclusão
                                                  A partir dessas inquietações, Riobal-
de curso se debruçam sobre ela sempre
                                               do vai construindo sua narrativa e, à
em busca de novas veredazinhas nas
                                               medida que o vai fazendo, vai também
grandes veredas da obra rosiana.
                                               lançando outras dúvidas relacionadas a
   A saga de Riobaldo deixa de ser uma         ela a fim de compreender sua trajetória
simples “aventura” no sertão mineiro           de vida como jagunço no sertão e o que
para tornar-se alvo de reflexões sérias e      a teria motivado, já que no momento do
universais acerca da existência humana         relato encontra-se, como ele mesmo diz,
e dois dos seus maiores conflitos: o bem       “de range rede”, inventado no gosto de
e o mal. Torna-se objeto de especulações       “especular ideia”.
filosóficas, místicas, religiosas, metafísi-
                                                  Além disso, pode-se dizer que, entre
cas, psicológicas, etc.
                                               outros motivos, o que o leva a refazer
   É, portanto, motivo de inquietação          suas andanças no sertão mineiro através
e perturbação não só para o jagunço            da memória é também o relacionamen-
letrado como também para todo aque-            to confuso e trágico desenvolvido com
le que se dispõe a ajudá-lo a caminhar         o companheiro de ofício Reinaldo-Dia-
pelas veredas do SER TÃO junto ao seu          dorim, a quem conhece na beira do São
ouvinte misterioso, a quem nunca é dada        Francisco e que mais tarde se revela De-
a chance da réplica durante sua narrati-       odorina - filha de Joca Ramiro (o chefe
va.                                            do bando a que Riobaldo pertenceu) -
   Ainda chovendo no molhado, trata-se,        sendo esta a vereda inicial de suas refle-
obviamente de uma obra singular, que           xões existenciais, pois segundo ele, tudo
a princípio incomoda pela peculiarida-         começa e termina em Diadorim.
de com que Guimarães Rosa explora                É, portanto, um livro que não se
a linguagem oral do sertanejo. É o tipo        deve deixar de ler, principalmente para
de obra que o leitor deve estar disposto       aqueles leitores que gostam de se sentir
a enfrentar, a percorrer com Riobal-           desafiados.
do, acompanhando atentamente seu




                                                 http://samizdat.oficinaeditora.com   61
Crônica


     Europa Descarrilada
                                                              João Paulo Hergesel




   Os britânicos tomavam seu pontu-         lhe aguardava; um poeta amador que só



                                                                                          http://www.flickr.com/photos/antonis/986676625/
al e tradicionalíssimo chá matinal; os      queria divulgar seus versos metrificados
portugueses assistiam ao programa de        e fazer uma autopromoção; uma senhora
culinária exibido na televisão; os taiwa-   de cabelos grisalhos que falava sozinha,
neses comemoravam o dia da juventude;       em busca de alguém que ouvisse suas
os brasileiros festejavam o aniversário     loucuras. Algumas vidas entre muitas
de duas metrópoles, Curitiba e Salvador;    outras.
os sumérios homenageavam Ishtar, deusa         O rapaz de quinze anos estava cansado
mitológica. Era 29 de março e os russos     de sua vida. Sabia que os dias seguintes
andavam de trem.                            seriam iguais aos dias passados. Sentia-
  Um vagão superlotado, gente de Mos-       se entediado de uma semana que apenas
cou, cada qual com seu objetivo trilha-     começava. Para se distrair da rotina, fazia
do. Uma mulher grávida com consulta         algo também rotineiro: escutava música
marcada no obstetra; um estudante           moderna em seu celular moderno. O
adolescente rumo à aula de ciências que     alto-falante ligado, o suposto desejo de




62    SAMIZDAT fevereiro de 2012
compartilhar o lixo musical americano              dos trinta, mas não conseguia assumir o
com os demais passageiros.                         fardo de mãe solteira. A hipótese de um
   O ritmo acelerado de uma canção                 aborto já lhe perturbava muito a mente.
para corações acelerados — All the single          Em meio a uma confissão nonsense, a um
ladies, now put your hands up — se mis-            exemplo de literatura marginal e a uma
turava com as palavras proclamadas pelo            melodia de black music, não aguentou o
frustrado escritor de meia-idade.                  estresse sonoro e desembestou a gritar.
   O tido poeta estava cansado de sua                 O grito foi um pedido de silêncio
vida. Todos os dias, pegava sempre o               bem aceito: o metrô parou, as pessoas
mesmo metrô, recitando sempre os                   também. No entanto, não demorou a
mesmos versos, sempre para as mesmas               que uma nova perturbação ocorresse. A
pessoas. A mesmice era porque consi-               garota loura sentada no fundo ficou em
derava aquela tentativa de trova a mais            pé e revelou o mecanismo que escondia
bem feita por ele.                                 sob o casaco. Assim que a bomba fosse
                                                   acionada, todos estariam em uma roleta
   A rima rara de um poema hendecassí-             russa, sem saber quais sobreviveriam e
labo — Não preciso de um caldeirão de              quais dariam adeus à vida da que esta-
água quente / Basta-me uma panelinha               vam cansados.
de água morna / Não quero cozer um
ovo de avestruz / Só cozinharei um ovo                Um chá amargo difícil de ser ingerido,
de codorna —, acompanhada pela trilha              um erro de gravação que não pôde ser
sonora da Beyoncé, atrapalhava a história          evitado, juventudes corrompidas, aniver-
contada pela pobre anciã.                          sários interrompidos. Uma situação que
                                                   nem deuses foram capazes de impedir.
   A idosa vista como louca estava
cansada de sua vida. Haviam morrido os                Da explosão, saíram os corpos. O ga-
pais, os irmãos, o marido, o filho. Não ti-        roto, com as mãos mutiladas, não agra-
nha mais família, não tinha amigos e, as-          deceu por poder faltar às aulas daquela
sim, acabava não tendo nem a si mesma.             quinzena. O poeta, sem a pele do abdo-
Queria desabafar os tropeços que levara,           me, não ficou feliz por viver uma grande
mas tropeçava nas próprias palavras e              emoção que pudesse ser transcrita para o
não era entendida por ninguém.                     papel. A velha, cuja perna direita estava
                                                   ensanguentada, não estava satisfeita por
   O relato sem sentido — Eu tinha um              ter uma nova história para contar com
gato que não era meu e tinha um peixe              detalhes.
que o gato comeu— juntamente da po-
esia contemporânea e da balada (bada-                 Sem mais aborrecimentos, dúvidas
lada?), irritava a grávida que só queria           ou queixas, a moça grávida, cruelmente
um minuto de sossego antes de ter que              decepada, representava, no chão do me-
se despir e se submeter a um ultrassom             trô, duas vidas extintas, duas frases que
transvaginal.                                      receberam o impiedoso ponto final —
                                                   sendo que uma ainda nem havia aberto
  A futura mamãe estava cansada de                 as aspas.
sua vida. Já era crescida, a idade na casa

   João Paulo Hergesel
   Um jovem escritor brasileiro de 19 anos. Reside na cidade de Alumínio, onde é colunista de
dois jornais locais. É estudante de Letras na Universidade de Sorocaba e se dedica principalmente
às literaturas infantil e juvenil. Autor de um livro de contos e com participações em diversas anto-
logias, coleciona dezenas de prêmios literários, nacionais e internacionais.




                                                      http://samizdat.oficinaeditora.com         63
A fila
                                                Poesia




                                                              Volmar Camargo Junior




  em boa hora vens e me tomas em tuas patas
  outra hora eras cão                                não quero compartilhar mais nada
  agora és uma gratuidade devota                     nem posso
  por ora és dono da calçada                         nada possuo de meu para ser também de
       [e de minhas botas                          outrem
                                                     nenhum vício ou valor só meu

  mas me incomoda estares a muito da altura          nunca mais talvez
dos olhos
        e sei o quanto queres isso que cheira        talvez só o que eu tenha sejam esses pés com
quente e suculento                                 que brincas
        [também eu quero, cãozinho                       [isso sim
        [tenho tanta fome quanto tu tens a mim           [isso eu posso dividir contigo


  onde andei desconheciam-me
  aonde vou idem                                      contudo ainda preocupa-me a distância que
  percorri esses espaços                           estás dos narizes

  para ir                                                [e definitivamente do lugar por onde anda
                                                   a cabeça dos homens
  para ser
  para quê?
                                                     ali, logo adiante, nietzsche de allstars discute
                                                   com platão de camiseta do manowar
  se                                                 lá, um tanto atrás, uma criança pranteia o
                                                   papai que foi, ou por um doce, ou por que lhe
                                                   dói, ou porque
  meus medos minhas manias
                                                         [há pouco melhor a fazer que chorar
  ah, sim, os apelos
                                                      aqui eu com vontade de chorar igualmente,
  estes eu tenho
                                                   cachorro
  aqueles não mais



       64     SAMIZDAT fevereiro de 2012
contigo nos pés rindo risos de cão             quem quase caiu foi um senhor de guar-
  comigo noutro tempo rindo de ti              da-chuva pisoteando sem ver

   sozinho na fila (acho que sou o quadragé-     por cima de ti
simo segundo)                                    por quê?
                                                  porque estás longe demais de para onde
   lá vai o banco do brasil para cima e para   ele olha
os lados                                          e a carne morta em bifes no metal quente
      [se ele caísse esmagaria-nos a todos     revolve as entranhas do velho

      [eu                                        assim como revolve as minhas

      [o bebê                                    como revolve as tuas, cão

      [os filósofos




                                                                                                http://www.flickr.com/photos/16879141@N05/5601890824/
      [as moças que confabulam                   por isso o homem te pisa

      [a senhora no fiat apalpando os peitos      por isso quase cai como cairia o banco do
                                               brasil
      [a senhora à porta do restaurante que
nos chama “vamos chegar para o almoço”            por isso quase morreste esmagado e tives-
                                               te de sair chorando teu choro de dor de cão
      [e a ti, cão
                                                 porque és cão e ele é homem
                                                 e a carne nos move a todos pelas tripas
  nem eu estaria olhando
  nenhuma das caras na fila veria
                                                 e a fila andou
  ninguém veria
                                                 é uma e meia
  nada nada nada faria diferença
                                                 lá vamos nós
   nunca mais se ouviria falar de mim ou de
ti ou dessa gente toda com os dedos pinta-
dos de preto
  não, não foi dessa vez que o banco desa-
bou




                                                 http://samizdat.oficinaeditora.com        65
Poesia


                                       #18.
                                                                     Rafael Zen

       mãe,
       se é de deus que sejamos
       tristes,

       esse será nosso maior dilema.

       se a vida for maior que nossa sala,
       e a felicidade maior que nosso
       pinheiro de natal,

       se a morte for mais importante
       que nossa própria morte,
       ou que nosso humor nas quartas,

       quero saber do princípio,
       de qual estrela deus foi feito,
       do que ele é,

       e muito mais que isso:




                                                                                     http://www.flickr.com/photos/forestwander-nature-pictures/4807392948/
       se um dia vou acordar na
       metade de uma linha incompleta,
       se vou acordar seu filho
       filho DELE

       procurando algas
       no chão do céu.




        Rafael Zen
        Poeta, contista e artista gráfico, Rafael Zen mora em Brusque, Santa Cata-
     rina. Trabalha como publicitário e organizador de projetos educacionais e
     artísticos.



66     SAMIZDAT fevereiro de 2012
Poesia




                                       RITO                      Anna Apolinário




                                                             Mordo a maçã
                                                             pura da Musa

                                                             Flerto com o olhar
                                                             fatal da Medusa

                                                             Depois me deito
                                                             no leito mais lírico

                                                             E me embriago
                                                             de Infinito.

                                                                                                http://www.flickr.com/photos/orangeacid/212833788/




   Anna Apolinário
   Natural de João Pessoa, Paraíba, poetisa e graduanda em Pedagogia pela Universidade
Federal da Paraíba. Participou de várias antologias nacionais. Foi premiada com o 4° Lu-
gar no VI Festival de Poesia Encenada do Sesc Paraíba em 2010 com o poema “Dédalo”,
no mesmo ano publicou seu primeiro livro, “Solfejo de Eros” pela Câmara Brasileira de
Jovens Escritores (Rio de Janeiro - RJ). Prepara seu segundo livro de poemas com título
provisório SAPHIRA.




                                                http://samizdat.oficinaeditora.com         67
Poesia


 Olhos de distância
                                           Daniel Moreira




68   SAMIZDAT fevereiro de 2012
Enquanto a saudade
 Arrumar um jeito
 De me trazer teu rosto
 Teu cheiro e teu gosto
 Estarão comigo ao amanhecer


 As fotos não sabem dos fatos
 E sorriem por serem simulacros
 De uma realidade
 Que não canso de reinventar


 Enquanto a ausência
 Encher meus olhos de distância
 Teu sorriso de extrema relevância
 Tomará várias formas
 Até a lua crescente
 Finalmente nos encontrar




Daniel Moreira
                                                                                             Foto: Raul Garré




    Natural de Caçapava do Sul/RS, reside em Pelotas/RS desde 1996. Em 2009 pu-
blicou seu primeiro livro de poesias chamado “Poemas Urbanos”. Foi coordenador
por onze edições do Projeto Sarau Poético Musical da Bibliotheca Pública Peloten-
se. Faz parte do núcleo Poesia no Bar, projeto que distribui poemas de autores lo-
cais e regionais em marca-textos pelos bares de Pelotas. Mantém o blog poemas-
urbanos.blogspot.com onde posta com frequência seus escritos mais recentes.




                                                   http://samizdat.oficinaeditora.com   69
Poesia




       Sagrado                                                         Luiza Oliveira




Às vezes, sinto falta do sagrado,               Saudades dos pedaços da vida,
de sua textura; cânticos religiosos,            como carnes penduradas em matadouros.
missa dominical...
                                                E eu, perdida no inferno sem telhado,
De coros cantantes, Panis Angelicus,            como multidões rastejantes em
meninas de branco, com laços de fita            seus torpores vazios
pregados em suas cabeças..                      despejando seus juízos em taças furadas
                                                deixando escorrer o sangue pisado
E eu, fervorosa,                                em palavras em vão...
com os olhos infantis, pedintes, me dirigindo
aos anjos, santos, Deus!                        Crendices populares,
                                                frestas escondidas
Reverenciando cada lágrima,                     almas escuras
advinda do fervor,                              falsas profecias...

hoje, me afasto do dogmatismo fervoroso         Desanuvio mentes, expulso lágrimas endureci-
que se diluiu e fez desaparecer                 das,
antigos clamores...                             e caio de joelhos, em pé...

É o novo se rasgando,                           Volto para a relva endurecida do concreto
é o batismo se depurando,                       e vejo carros, com seus motores barulhentos
é Nossa Senhora chorando...                                                                      http://www.flickr.com/photos/ameotoko/2402590362/

                                                Volto para mim, em prantos...
Lágrimas perdidas nos buracos da fé...
                                                                                The end
     Luiza Silva Oliveira
   Advogada, atriz e socióloga, Luiza Silva Oliveira inicia um novo caminho: o da escrita. Seu
livro “Afetos transgressores”, lançado em novembro deste ano, foi escrito após a perda de seu
irmão Arnaldo Silva Oliveira, a quem é o livro é dedicado, in memorian.
   Dois poemas desse livro já se tornaram música, e outros estão em processo. Além disso, já
fazem parte de importantes saraus paulistanos, entre eles, o Sarau dos Inquietos.
   Três de seus contos foram selecionados entre mais de mil e quinhentos, e por isso, fará
parte da coletânea organizada pela Editora Guemanisse, com publicação prevista para janeiro
de 2012.


70      SAMIZDAT fevereiro de 2012
Poesia

SENILIDADE
                     Valmir Luis Saldanha




Passeio com meu velho cão.
Mantemos entre nós uma aceitação pacífica,    Continuamos nosso passeio, mais longo que




                                                                                              http://www.flickr.com/photos/orangeacid/212833788/
ele me aceita como seu guia e eu              o habitual,

o aceito como meu.                            os dois tentando mostrar para o tempo que
                                              nada havia mudado.
Um problema na pata o faz tropeçar
                                              Vejo-o resfolegar,
três vezes.
                                              me compadeço,
(Nos olhos dele vejo os meus
                                              depois,
e os contrastes)
                                              sinto que lançamos um olhar seco para
                                              adiante.
A não ser que me suceda um acidente,
ou meu cão seja alvo de um milagre,           Eu o incito a continuar e ele me olha,
eu o verei partir dessa para uma melhor,      penso, tentando fazer o mesmo comigo.
como é costume se dizer.
                                              Ele pede para que eu o guie
Aos poucos ele está definhando,
                                              (não pode mais com as próprias pernas)
mas isso não o impede de parar algumas
vezes                                         e eu o faço,

a espalhar jatos de uma urina já rala         mas cada passo traz, sempre, a mesma per-
                                              gunta:
demarcando todo um território,
                                              e quem nos guia, a ambos?
erguendo, trêmulo, a espada contra os pira-
tas.

   Valmir Luis Saldanha
  Nasceu na cidade de Palmital - SP em 1987, mas viveu a infância toda em Itatinga. Ingres-
sou no curso de Letras na UNESP - Araraquara, em 2006. Hoje leciona Literatura nos colégios
COC e Objetivo. Valmir já participou de diversos concursos literários, além de participação
em antologias e publicação de seu conto MISTÉRIOS DO INDIZÍVEL pela revista A MARgem,
da Universidade Federal de Uberlândia.




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Poesia



                                      Nº1                               Douglas Batalha




De tanta água, ficou Vitória.                   Toda fissura de árvore é quebrar
Nada de peixe, muito mais flor.                 o cimento, a calçada, a passagem.
O pai dizia: - Sai da água, menina!             Seguia a casca a engrossar, para proteger dos
Ela batia os pés e respondia:                   insultos.




                                                                                                   http://www.flickr.com/photos/deanfotos66/3606306832/
- Estou aprendendo a existir!
                                                Jogada na água sem muita esperança,
À noite, em outro mundo,                        a minhoca contorce de metal por dentro.
Tarsila sonhava em nadar.                       Da terra ao azul, torce: - Quero viver!
Mas não tinha tempo para a vida.                Vem a boca, com instinto de fome, ferrar-se a si
Quando ia para cama, imaginava o mundo          própria.
no ritmo da sua braçada.
                                                Pobre animal, vamos todos morrer.
Na rua, se se importasse o Jacarandá...
Para seiva: bruta e fina. Fim.                  Todo sonho é vontade de memória.




   Douglas Batalha
   Estudante do último ano de filosofia (UNIMEP/Piracicaba) é leitor entusiasmado da litera-
tura brasileira, em especial poesia. Professor temporário da rede pública, estuda para o ves-
tibular de letras, desencantado com o exagerado otimismo dos filósofos niilistas. Desde 2010
escreve em verso e participa de saraus e concursos de poesia (sem muito sucesso). A terceira
pessoa lhe cai muito bem, apesar dos recentes fracassos vividos.
  Contato: mofxwalla@hotmail.com e/ou douglasbatalhafilo@gmail.com


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Poesia



             Missão
               (para João do Corujão da Poesia)
                                                                      Mariana Valle




Todo dia essa página me olha com cara de      E pra quem não sente o mesmo, nem adian-
nada. E começo a escrever besteiras, aluci-   ta explicar. Escreviver o poema me é como
nada.                                         inspirar o ar.

Não, mentira. Vira e mexe e escrevo coisas    Inspirada, inspirando, por vezes pirando
que prestam. Com calma.                       com essa mistura. É vício e ao mesmo tem-
Quando as palavras, num ai, me emprestam      po cura.
suas almas.
                                              Depois que a poesia se impôs em minha
Nessas horas, a inspiração é genuína e        vida, virei prisioneira, fanática, fiel, daquelas
pareço uma menina deslumbrada com as          bem lunáticas, sabe? E isso não é problema:
descobertas.                                  é poema. Não é inferno: é céu. Os poetas
                                              moram na lua mesmo.
Porque a poesia me desperta pra vida. É ela
                                                                                                       http://www.flickr.com/photos/mobilestreetlife/3667359879/


que cura as feridas e me mostra o caminho,    Agora, não ando mais a esmo. Tenho desti-
compreende?                                   no certo: perder-me na vida. Para depois me
                                              achar nas palavras e dizer: missão cumpri-
Sem poesia, minha vida não rende.             da.


    Mariana Valle
   Poeta desde os 12 anos, Mariana Valle vive como publicitária, é jornalista, roteirista
e investe cada vez mais na literatura. Seus assuntos? A vida, seus encontros e desen-
contros, sempre de um ponto de vista muito íntimo. Seu primeiro livro, “SORRIA,
VOCÊ ESTÁ NA BARRA e outras histórias” (Editora Multifoco), foi lançado em de-
zembro de 2008 e seu segundo livro está em fase de revisão.




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Também nesta edição, textos de

                                                         Alessa Bertazzo                  Luiza Oliveira
                                                         Anna Apolinário                  Marcelo Soriano
                                                         Cinthia Kriemler                 Mariana Valle
                                                         Daniel Moreira                   Otávio Martins
                                                         Douglas Batalha                  Rafael Zen
                                                         Edelson Nagues                   Roberto Klotz
http://www.flickr.com/photos/27805557@N08/4959155096/




                                                         Edweine Loureiro                 Sara Meynard
                                                         Elias Antunes                    Silvana Michele Ramos
                                                         Fernanda Cristina de Paula
                                                                              ­           Sonia Regina Rocha
                                                         Henry Alfred Bugalho             ­Rodrigues

                                                         João Paulo Hergesel              Tatiana Alves

                                                         Joaquim Bispo                    Thiago Jefferson dos
                                                                                          S
                                                                                          ­ antos Galdino
                                                                                                  ­
                                                         José Guilherme Vereza
                                                                                          Valmir Luis Saldanha
                                                         Juliano Ramos de ­Oliveira
                                                                                          Volmar Camargo Junior
                                                         Leandro Luiz
                                                                                          Zulmar Lopes



                                                        74   SAMIZDAT fevereiro de 2012

REVISTA SAMIZDAT - Nº32 - ANO V

  • 1.
    SAMIZDAT http://samizdat.oficinaeditora.com 32 fevereiro 2012 ano V ficina Horacio Quiroga O mestre contista latino-americano
  • 2.
    Participe da RevistaSAMIZDAT 33 A Revista SAMIZDAT conta com a sua Por favor, aguarde o período de um mês participação para manter o alto padrão das após receber a resposta antes de enviar um publicações. outro texto. Aceitamos e estimulamos a participação de autores estreantes, pois o nosso objetivo http://revistasamizdat.submishmash.com/ é apresentar a maior diversidade possível submit de autores, ­ êneros e textos. g Instruções para envio de obras Não aceitamos mais textos enviados por e-mail. 1 - Cada escritor poderá inscrever, nos 4 - Os textos selecionados serão publica- respectivos campos, somente 1 (um) tex- dos na edição 33 da Revista SAMIZDAT na to literário para publicação, de qualquer segunda quinzena de maio de 2012, no site gênero - conto, crônica, poesia, microconto - ou um (1) texto teórico, como artigo de http://samizdat.oficinaeditora.com/ teoria literária, resenha de livros, ou entre- ou poderão aparecer no site, caso a edi- vista, além de traduções de textos literários ção em .PDF já esteja fechada. em domínio público, sob licença Creative 5 - Os textos serão publicados sob li- Commons ou com a expressa autorização cença Creative Commons Atribuição-Uso do autor. A temática é livre. Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras O autor também deve enviar uma breve Derivadas e o autor não será remunerado. biografia na primeira página do arquivo. O envio de textos implica na aceitação por 2 - O limite máximo para cada texto parte do autor destes termos. literário é de mil (1000) palavras, ou 4 6 - Os organizadores da SAMIZDAT se páginas em A4, fonte Times ou Arial 12, reservam o direito de não publicar a revis- espaçamento 1,5. O envio dos textos não ta, caso o número de submissões não seja implica na aceitação automática, a seleção o suficiente para o fechamento da edição. dependerá da quantidade de textos envia- 7 - O não cumprimento dos itens acima dos, da qualidade literária e da disponibi- poderá implicar na desqualificação da obra lidade de espaço na revista. A revisão dos enviada. textos é de responsabilidade de seus auto- res. O texto não precisa ser inédito. 3 - Os textos devem ser enviados até o Contamos com a sua participação! dia 30 de abril de 2012 através do nosso gerenciador de submissões (link abaixo) Atenciosamente, em um arquivo anexo, em formato .DOC, Henry Alfred Bugalho .DOCX ou .TXT. Editor
  • 3.
    http://www.flickr.com/photos/advaits/2589618179/ 4 anos de SAMIZDAT Há projetos que concebemos, que não perda do nosso antigo domínio na internet, temos ideia aonde irão. muitos dos nossos antigos leitores ­ambém t Quantos romances, contos e outras obras sumiram. não guardamos inacabadas, certos que um Já não vejo mais a possibilidade de uma dia recuperaremos aquele ímpeto inicial publicação mensal e, hoje, em retrospecto, e as concluiremos? E quantas não são as penso que foi uma loucura tentarmos tal ideias brilhantes que, assim que fazemos proeza com a estrutura totalmente descen- o primeiro esforço para realizá-las, logo trada de então, pois cada um atuava como percebemos que será um empreendimento bem entendia e a comunicação era bastan- estéril? te confusa. Quatro anos atrás, eu e um pequeno Aprendemos com nossos erros e tam- grupo de escritores, reunidos numa oficina bém com nossos acertos. Em seu quarto literária virtual, pensamos que talvez fosse aniversário e 32º fascículo, a SAMIZDAT interessante publicar os nossos textos numa retorna mais madura e mais profissional. revista. Batizamos este projeto de Revista Ainda somos um grupo de escritores SAMIZDAT, uma homenagem às publi- lutando por um lugar ao sol, muitos de cações clandestinas na Rússia ­ talinista, s nós ainda publicando independentemente e repressiva e censora. correndo às margens deste brutal mercado Não tínhamos clareza de como tudo que nos exclui e nos ignora, pois assim são funcionaria, de quem faria o quê, nem se as regras deste jogo. teríamos leitores. Não sabíamos se daria Criamos nas sombras, na esperança que certo ou não, nem aonde iríamos com isto. o fogo destes talentos possa brilhar e ilu- Mas funcionou. minar os nossos caminhos. Desde então, muito mudou. Alguns des- Ação e esperança, estes são os tes autores se foram, inclusive nem escre- combustíveis que movem a SAMIZDAT. ­ vem mais. Depois de um hiato de mais de Henry Alfred Bugalho um ano nas publicações, inclusive com a
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    SAMIZDAT 32 fevereiro de2012 Edição, Capa e Diagramação: Editorial Henry Alfred Bugalho Acredito que esta edição será um divisor de águas para a Autores SAMIZDAT. Alessa Bertazzo Desde o princípio, contamos principalmente com as Anna Apolinário c ­ ontribuições de autores fixos e de um ou outro colaborador Cinthia Kriemler externo para a criação da revista. No entanto, pela primei- Daniel Moreira ra vez, recebemos um número gigantesco de submissões de Douglas Batalha c ­ olaboradores espontâneos, com obras de grande qualidade. Edelson Nagues Então, percebi que um dos meus maiores medos havia Edweine Loureiro se realizado: a SAMIZDAT, que em sua criação pretendia c ­ ontornar o injusto processo de exclusão do mercado lite- Elias Antunes rário, enfim se tornava ela mesma excludente. São tantos os Fernanda Cristina de Paula talentos, tantas as obras criativas, e o espaço é tão pequeno, Henry Alfred Bugalho que se torna impossível publicá-las todas. João Paulo Hergesel Rejeitar um autor em início de carreira não é uma ­arefa t Joaquim Bispo fácil, eu lhes asseguro. Pois este é o momento em que o es- José Guilherme Vereza critor se encontra mais fragilizado, precisando de um estí- Juliano Ramos de Oliveira mulo, daquela palavra de incentivo que o empurrará para a Leandro Luiz frente. Por outro lado, a recusa também é um aprendizado e, Luiza Oliveira para muitos, deveria ser uma motivação de outra natureza: “hoje foi um ‘não’, mas amanhã será um ‘sim’”. Marcelo Soriano Afinal, é esta expectativa do sim, da aceitação dos leitores, Mariana Valle dos editores, dos críticos, da imprensa, dos outros autores, Otávio Martins que nos move, que nos instiga a prosseguirmos na atividade Rafael Zen literária. Escrevemos para nós mesmos, inevitavelmente, mas Roberto Klotz nossas obras pertencem também aos outros. Sara Meynard Um ‘não’ hoje, mas amanhã um ‘sim’, meus amigos, e isto Silvana Michele Ramos vale para todos nós. Sonia Regina Rocha Rodrigues Tatiana Alves Henry Alfred Bugalho Thiago Jefferson dos Santos G ­ aldino Valmir Luis Saldanha Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons. Volmar Camargo Junior Zulmar Lopes Todas as imagens publicadas são de domínio público, royalty free ou sob licença Creative Commons. Textos de: Os textos publicados são de domínio público, com consenso Horacio Quiroga ou autorização prévia dos autores, sob licença Creative Com- mons, ou se enquadram na doutrina de “fair use” da Lei de Foto da capa: Copyright dos EUA (§107-112). http://www.flickr.com/photos/­ As ideias expressas são de inteira ­ esponsabilidade de seus r biggreymare/5513025399/ autores. A aceitação da revisão proposta depende da vontade expressa dos colaboradores da revista. http://samizdat.oficinaeditora. com
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    Sumário Por que Samizdat? 8 Henry Alfred Bugalho RECOMENDAÇÃO DE LEITURA Em Nome do Filho 10 Edelson Nagues HUMOR Breve Dissertação sobre o Palavrão 14 Joaquim Bispo CONTOS O Moedor de Café 16 Henry Alfred Bugalho Criança Prodígio 20 Thiago Jefferson dos Santos Galdino Filho da Pátria Sem Mãe 21 Marcelo Soriano Vez em quando 22 Cinthia Kriemler Relicário 25 Tatiana Alves A deusa da chuva 27 José Guilherme Vereza O Catavento Maluco 29 Otávio Martins Depuração 31 Silvana Michele Ramos Adivinho, detetive ou fofoqueiro 32 Roberto Klotz Avessa (o) 35 Sara Meynard
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    Coletivo 37 Edweine Loureiro Purgatório 38 Zulmar Lopes Doa-se um helicóptero. Tratar aqui. 40 Leandro Luiz Rugas do Tempo 41 Juliano Ramos de Oliveira Minha vida, meu pesadelo 42 Sonia Regina Rocha Rodrigues Marta e o gosto do tempo 44 Fernanda Cristina de Paula TRADUÇÃO A Galinha Degolada 46 Horacio Quiroga Decálogo do perfeito contista 51 Horacio Quiroga TEORIA LITERÁRIA O que ninguém lhe dirá numa oficina literária - parte 1 (A Criação) 54 Henry Alfred Bugalho Castillo e Modern: dois poetas argentinos 58 Elias Antunes O Grande Sertão de Riobaldo 60 Alessa Bertazzo CRÔNICA Europa Descarrilada 62 João Paulo Hergesel POESIA A fila 64 Volmar Camargo Junior #18 66 Rafael Zen
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    Rito 67 Anna Apolinário Olhos de distância 68 Daniel Moreira Sagrado 70 Luiza Oliveira Senilidade 71 Valmir Luis Saldanha Nº 1 72 Douglas Batalha Missão 73 Mariana Valle 7
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    Por que Samizdat? “Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, d ­ istribuo e posso ser preso por causa disto” Vladimir Bukovsky Henry Alfred Bugalho Inclusão e Exclusão se converte em uma ditadu- henrybugalho@hotmail.com ra como qualquer outra. É a microfísica do poder. Nas relações humanas, sempre há uma dinâmica de Em reação, aqueles que inclusão e exclusão. se acreditavam como livres- pensadores, que não que- O grupo dominante, pela riam, ou não conseguiam, própria natureza restritiva fazer parte da máquina do poder, costuma excluir ou a ­ dministrativa - que esti- ignorar tudo aquilo que não pulava como deveria ser a pertença a seu projeto, ou cultura, a informação, a voz que esteja contra seus prin- do povo -, encontraram na cípios. autopublicação clandestina Em regimes autoritários, um meio de expressão. esta exclusão é muito eviden- Datilografando, mimeo- te, sob forma de perseguição, grafando, ou simplesmente censura, exílio. Qualquer um manuscrevendo, tais autores que se interponha no cami- russos disseminavam suas nho dos dirigentes é afastado idéias. E ao leitor era incum- e ostracizado. bida a tarefa de continuar As razões disto são muito esta cadeia, reproduzindo tais simples de se compreender: obras e também as ­ assando p o diferente, o dissidente é adiante. Este processo foi de- perigoso, pois apresenta signado "samizdat", que nada alternativas, às vezes, muito mais significa em russo do melhores do que o estabe- que "autopublicado", em opo- lecido. Por isto, é necessário sição às publicações oficiais suprimir, esconder, banir. do regime soviético. A União Soviética não foi muito diferente de de- mais regimes autocráticos. O ­ rigina-se como uma forma de governo humanitária, igualitária, mas Foto: exemplo de um samizdat. Corte- logo sia do Gulag Museum em Perm-36. 8
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    E por queSamizdat? revistas, jornais - onde ele des tiragens que substituam possa divulgar seu trabalho. o prazer de ouvir o respal- O único aspecto que conta é do de leitores sinceros, que A indústria cultural - e o o prazer que a obra causa no não estão atrás de grandes mercado literário faz parte leitor. autores populares, que não dela - também realiza um perseguem ansiosos os 10 processo de exclusão, base- Enquanto que este é um mais vendidos. ado no que se julga não ter trabalho difícil, por outro valor mercadológico. Inex- lado, concede ao criador uma Os autores que compõem plicavelmente, estabeleceu-se liberdade e uma autonomia este projeto não fazem parte que contos, poemas, autores total: ele é dono de sua pala- de nenhum ­ ovimento m desconhecidos não podem vra, é o responsável pelo que literário organizado, não ser comercializados, que não diz, o culpado por seus erros, são modernistas, pós- vale a pena investir neles, é quem recebe os louros por m ­ odernistas, vanguardistas pois os gastos seriam maio- seus acertos. ou qualquer outra definição ­ res do que o lucro. que vise rotular e definir a E, com a internet, os au- orientação dum grupo. São A indústria deseja o pro- tores possuem acesso direto apenas escritores ­nteressados i duto pronto e com consumi- e imediato a seus leitores. A em trocar experiências e dores. Não basta qualidade, repercussão do que escreve sofisticarem suas escritas. A não basta competência; se (quando há) surge em ques- qualidade deles não é uma houver quem compre, mes- tão de minutos. orientação de estilo, mas sim mo o lixo possui prioridades a heterogeneidade. na hora de ser absorvido A serem obrigados a pelo mercado. burlar a indústria cultural, Enfim, “Samizdat” porque a os autores conquistaram algo internet é um meio de auto- E a autopublicação, como que jamais conseguiriam de publicação, mas “Samizdat” em qualquer regime exclu- outro modo, o contato qua- porque também é um modo dente, torna-se a via para se pessoal com os leitores, de contornar um processo produtores culturais atingi- o diálogo capaz de tornar a ­ de exclusão e de atingir o rem o público. obra melhor, a rede de conta- o ­ bjetivo fundamental da tos que, se não é tão influen- e ­ scrita: ser lido por alguém. Este é um processo soli- te quanto a da ­ rande mídia, g tário e gradativo. O autor faz do leitor um colaborador, precisa conquistar leitor a um co-autor da obra que lê. leitor. Não há grandes apa- Não há sucesso, não há gran- ratos midiáticos - como TV , SAMIZDAT é uma revista eletrônica m ­ ensal, escrita, editada e publicada pelos i ­ntegrantes da Oficina de Escritores e Teoria Literária. Diariamente são incluídos novos textos de autores consagrados e de jovens e ­ scritores amadores, entusiastas e profis- sionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais. http://samizdat.oficinaeditora.com http://samizdat.oficinaeditora.com 9
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    Recomendação de Leitura EM NOME DO FILHO Edelson Nagues http://www.cristovaotezza.com.br/Fotografias/Web/web16.jpg (Resenha do livro O filho eterno – TE- “nossa culpa”. Essa constatação nos intimida, ZZA, Cristovão. Rio de Janeiro: Record, nos estremece. Se somos seres incompletos 2007.) por natureza, em constante e interminável formação, como poderemos formar outros seres? O nascimento de um filho, principalmen- te o primogênito, é sempre um momento E quando o nascimento de um filho, o de muita emoção. Para os pais, avós, tios, primogênito, revela uma criança estranha, primos... “o nascimento é uma felicidade diferente, “anormal”?! (“Um filho é a ideia coletiva” (obra citada, 7ª edição, p. 25). É de um filho; uma mulher é uma ideia de um importante marco na vida do casal. E à uma mulher. Às vezes as coisas coincidem alegria desse acontecimento mescla-se um com as ideias que fazemos delas; às vezes receio, um certo temor, ainda que não assu- não.” – idem, p. 14 – atualizamos pela nova mido, dissimulado. É que, de um momento ortografia.) para o outro, nos encontramos frente ao de- Aos 28 anos, projeto de escritor (“pen- safio de sermos responsáveis pela formação so que sou escritor, mas ainda não escrevi de um ser humano posto neste mundo por nada”), desempregado, sustentado pela espo- 10 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    sa, a suaideia de filho não coincidiu com a ção de pai. Um filho que seria uma criança realidade do filho que lhe veio. E para quem por toda a vida. “Uma criança eterna.” E já via o nascimento como “uma brutalida- como consolo ao desespero que se aba- de natural, a expulsão obscena da criança, teu sobre ele (“um sentimento de abismo”), o desmantelamento físico da mãe até o agarrou-se à comprovação científica de que último limite da resistência” (p. 24), esse “as crianças com Síndrome de Down mor- desencontro da ideia com a coisa real, na rem cedo”. Cruel? Certamente. Mas, sobre- madrugada do dia 3 de novembro de 1980, tudo, humano, demasiado humano – como tornou-se uma verdadeira diria Nietzsche, um dos tragédia. E com um nome seus filósofos favoritos. – ou, melhor, um estigma Se o relato de um pai humilhante: “mongolismo”. que renega o próprio filho Em tempos politicamen- por si só já é chocante, te corretos, mongolismo mais estarrecedor se torna transmutou-se em “Sín- quando sabemos que não drome de Down”. Quem se trata de ficção. Assim, o a descreveu pela primeira “filho eterno” tem um nome vez foi o médico inglês real, de registro: Felipe. E John Langdon Haydon um nome não menos real Down (1828-1896), que lhe tem o pai: Cristovão; e emprestou o nome. Ele des- ambos ostentam o mesmo tacou a semelhança facial sobrenome: Tezza. dos portadores da síndro- Cristovão Tezza, hoje me com os mongóis, os escritor consagrado, tido naturais da Mongólia, na como um dos melhores Ásia. Daí serem chamados de sua geração no Brasil, de “mongoloides”. Resulta revela, quase três décadas da trissomia do cromos- depois, que é pai de um somo 21, ou seja, em vez jovem portador de Síndro- de dois cromossomos 21, algumas crianças me de Down. Em um relato corajoso, sem nascem com três, e apresentam determi- subterfúgios nem autocomiseração (“a pie- nadas características físicas: língua muito dade, o alimento da pieguice, que é a forma grande, pescoço largo e achatado, baixa grudenta, caramelizada, da mentira” – p. estatura, olhos pequenos e amendoados. 152), disseca e, ao mesmo tempo, traz à luz Sofrem ainda de variados níveis de autismo seus mais ocultos sentimentos, desnudando e limitado desenvolvimento mental. “Para publicamente sua relação com o filho espe- eles, o tempo não existe. A fala será, para cial. Um acerto de contas consigo mesmo sempre, um balbuciar de palavras avulsas, e, de certa forma, com a literatura, em que sentenças curtas truncadas [...]. O equilíbrio pessoas portadoras dessa síndrome parece no andar será sempre incerto, e lento; se não terem espaço. os pais se distraem, eles engordarão como tonéis, debaixo de uma fome não censurada E não apenas na literatura: “O cinema, pela sensação de saciedade, que neurolo- em seus 80 anos, [...] jamais os colocou em gicamente demora a chegar. [...] Não veem cena. Nem vai colocá-los. [...] Não há mon- à distância – o mundo é exasperadamente goloides na história, relato nenhum – são curto; só existe o que está ao alcance da seres ausentes” (p. 36). Mas principalmente mão. São caturros [sic] e teimosos – e con- na arte da escrita: “Em todo o Ulisses, James trolam com dificuldade os impulsos, que se Joyce não fez Leopoldo Bloom esbarrar em repetem, circulares” (p. 34). nenhuma criança Down, ao longo daquelas 24 horas absolutas. Thomas Mann os ignora Foi com uma dessas crianças que o pobre rotundamente. [...] Leia os diálogos de ­ latão, P escritor se defrontou, na inalienável condi- as narrativas medievais, Dom Quixote, http://samizdat.oficinaeditora.com 11
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    avance para aComédia humana de Balzac, ideia de filho, a desenhar-lhe uma hipótese” chegue a Dostoiévski, nem este comenta, (p. 68), “o que ele quer é que aquela criança sempre atendo aos humilhados e ofendidos; trissômica conquiste o papel de filho” (p. os mongoloides não existem” (p. 36). 95), como observa o narrador (o romance Cabe então a esse escritor, a quem foi é escrito em falsa terceira pessoa – pois, de propiciado o convívio com um desses seres fato, o é em primeira –, com flashbacks que diferenciados, preencher tal lacuna. E ele o vão compondo o tempo e o espaço em que faz com sentimento, com entrega, com dor os fatos ocorrem). mesmo, sem jamais perder o domínio técni- Assim, depois de perambular com o filho, co da narrativa (pois se trata de um profes- na companhia da então esposa (a quem sor universitário, um doutor em literatura dedica o livro), por consultórios dos mais “apaixonado pela técnica”). variados especialistas, com resultados pouco Não há pieguice nem ressentimentos. Há animadores, aprende finalmente a aceitar e revolta, sim, presente na crueza com que se conviver com as limitações desse ser espe- refere ao seu primogênito: “criança horrí- cial. Descobre, por exemplo, que “o mundo vel”, “pequeno leproso”, “pequeno monstro”, dos afetos é o talento dessa criança” (e uma “filho lesado”, “filho pela metade”, “um não- das características mais marcantes de todas filho”, entre outras expressões igualmente as pessoas portadoras de tal síndrome), e reprováveis, considerando-se a sua condição aprende que “a afetividade é um modo de de pai. E essa exposição de repulsa paterna compreensão”. Um outro talento de Felipe, provoca o leitor, tenta chocá-lo de forma a pintura (ainda que de forma rústica, tendo proposital, para que este – assim como o em vista sua dificuldade para assimilar téc- escritor se ­ ermitiu – seja confrontado com p nicas minimamente complexas), é percebido sua hipocrisia, esse câncer social, que faz e incentivado com envolvimento, para não com que reprovemos nos outros tais atitu- dizer paixão. des enquanto adotamos inconscientemente E uma outra paixão – esta também da postura semelhante (como os pais que, há maioria dos brasileiros, como se sabe –, o pouco tempo, em um shopping em São Pau- futebol, acaba por unir pai e filho em uma lo, impediram que uma criança com Sín- relação que sempre souberam ser eterna. drome de Down continuasse brincando na Ainda que apresente aspectos fugazes, o ato piscina de bolinhas de uma brinquedoteca, de assistirem juntos, devidamente unifor- pois estaria incomodando seus filhos “sãos”). mizados, a um jogo do time favorito – no E a revolta do escritor vai, aos poucos, estádio ou na frente da televisão, com a im- cedendo lugar à aceitação, deixando fluir o prescindível pipoca – revela que a história amor oculto nas camadas da vergonha im- de ambos não teve um fim, mas está sendo posta pelo “teatro do verniz civilizador”. “O escrita no eterno retorno do dia a dia. As- pai ainda não sabe, mas começa a ter uma sim como a história de todos nós, aliás. EDELSON NAGUES (nome literário de Edelson Rodrigues Nascimento) é natural de Rondonópolis/MT e radicado em Brasília/DF. Poeta, escritor, revisor de textos e servidor público. Estudou Direito e Filosofia, com pós-graduação em Língua Portuguesa. Tem vários trabalhos premiados e/ou selecionados para coletâneas de concursos nacionais, destacando-se: XXXIII Concurso “Fellipe d’Oliveira” (Santa Maria/RS), XXI Concurso Nacional de Con- tos “José Cândido de Carvalho” (Campos dos Goytacazes/RJ), IV Concurso Nacional de Contos do SESC-Amazonas (Manaus/AM), Concurso Novo Milênio de Literatura (Vila Velha/ES), VI Desafio dos Escritores (Brasília/DF), XL Concurso Literário “Escriba” (Pi- racicaba/SP) e Concurso Nacional de Contos de Porto Seguro/BA, entre outros. É au- tor dos livros “Demasiado humano” (contos) e “Águas de clausura” (poemas), a serem publicados brevemente. 12 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    O lugar onde a boa Literatura é fabricada http://www.flickr.com/photos/32912172@N00/2959583359/sizes/o/ ficina http://samizdat.oficinaeditora.com 13 www.oficinaeditora.com
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    Humor http://www.flickr.com/photos/reallyterriblephotographer/5618087763/ Joaquim Bispo Breve Dissertação sobre o Palavrão Caros circunjacentes: Então, nos píncaros da exaltação, aquilo A minha preleção de hoje versa o pa- que primeiro acode aos lábios, sem se lavrão, em todas as suas aceções, o qual, subordinar a uma triagem nas circunvo- segundo o dicionário Houaiss, pode ser luções da racionalidade, são considera- considerado em três aspectos semânticos. ções sobre as caraterísticas ou os hábitos excretais ou sexuais do pretenso agressor O mais popular, imediato e dissemi- ou de algum membro da sua família. São nado é o turpilóquio. Nesta forma torpe, expressões belicosas cuja significação geralmente, explode boca fora, espontâ- pretende provocar algum constrangimen- neo e veemente, quando se é vilipendia- to na autoestima do interlocutor aciden- do de maneira inopinada ou prepotente tal. Por exemplo: – Rastilho curto! – que, nas interações sociais. Sobrevém, amiúde, como calculam, também achincalha o nas acrimónias do trânsito citadino, onde tamanho do autocontrolo dele. a peleja pelo espaço essencial do asfal- to, faz colidir os interesses particulares. No entanto, para atingir o adversário de maneira cruenta e implacável, o vitu- 14 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    pério, não precisacoincidir, morfologica- substância farmacêutica. O do vizinho mente, com um vocábulo de semântica africano chama-se Pneumoultramicrosco- obscena. Para tanto, a entoação deve col- picosilicovulcanoconiótico, tem 46 letras matar a escassez de ignomínia. Recordo e significa “portador de uma doença aqui a forma irretorquível como concluí pulmonar aguda causada pela aspiração uma altercação de trânsito, que deixou o de cinzas vulcânicas”. meu antagonista em estupor, como touro O mundo destes palavrões é atroz. Em- lidado: – Ó meu caro amigo: Vodafone! baraça qualquer estudante de medicina, A forma mais vulgarizada, todavia, é mas, sobretudo, aterroriza o portador da a de aconselhar o contendor a encetar doença Hipopotomonstrosesquipedalio- determinada atividade, ou a deslocar-se fobia, a qual – crueldade das crueldades para determinado local, diferentes dos – é a “doença psicológica que se caracte- atuais, e que, na opinião do fustigador, riza pelo medo irracional de pronunciar se adequam melhor às caraterísticas do palavras grandes ou complicadas”. Imagi- enxovalhado. As notícias da política nem o pânico do doente de ser inquirido internacional são um manancial de ex- sobre a denominação da sua própria pressões com sonoridades e construções enfermidade! ortográficas que sugerem conotações so- Estes vocábulos escaganifobéticos ezes e insultuosas. Aquando da guerra na parecem-me denunciar o pérfido sub- ex-Jugoslávia, ouvi uma feirante verberar terfúgio de arquitetar termos complica- outra, nos seguintes termos: – Vá prà dos, pela mera acoplagem, numa mesma Bósnia, sua Herzegovina! Se fosse agora, palavra, de outras muito mais curtas. Por talvez dissesse: – Vá Kandahar o Jalala- esta técnica, também me posso qualificar bad do Kabul com Afeganistão – que me como Homemextremamenteatraentein- parece de uma gravidade inquestionável. teligentedivertido, epíteto de que só não Ninguém merece ver-se confrontado com faço uso por abominar redundâncias. esta alternativa. A terceira aceção de “palavrão” é Outro significado de “palavrão”, este “expressão pomposa e empolada”. Não com alto grau de adequação, é “palavra me ocorre, por ora, qualquer exemplo grande e de pronúncia difícil”. Quando ilustrativo. Locuções grandiloquentes ou era mancebo, pensava que o maior pala- de sentido ininteligível estão afastadas do vrão da língua portuguesa era “incons- meu discurso, o qual, como foi patente, é titucionalissimamente”, com 27 letras. sempre despretensioso e matizado ape- Hoje, constato que o palavrão que me nas por vocábulos lhanos e percetíveis enchia de orgulho era apenas um pala- por todos. vrinho, como pénis de menino. O do pai chama-se Paraclorobenzilpirrolidinone- Tenho dito! tilbenzimidazol, tem 43 letras e é uma Joaquim Bispo Português, reformado, ex-técnico de televisão, xadrezista e pintor amador, licencia- do tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007 Produziu em quantidade e ga- . nhou destreza nas oficinas virtuais de Henry Bugalho e de Marco Antunes. Enquanto não consegue publicação, entretém-se a enviar textos para concursos literários em que obteve uma meia dúzia de prémios vários. Contacto: episcopum@hotmail.com http://samizdat.oficinaeditora.com 15
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    Contos O Moedorde Café Henry Alfred Bugalho http://www.flickr.com/photos/sirwiseowl/206004154/ Não gosto de café. Não bebo. Nem — Também não toma? uma única gota. E não se trata apenas — Só com Nescau — eu respondia, o do gosto, até o cheiro me causa aversão. que as forçava a procurar no fundo de Isto vem de longa data; lembro-me algum armário, resmungando, por aque- de quando eu era criança e, na casa de le pote de Nescau ou Toddy já vencido amigos, na hora do lanchinho da tarde, de tão velho. as mães deles preparavam a mesa e nos Este fato também me trazia emba- serviam, e da minha cara quando elas raços durante o tempo que morei na enchiam meu copo com café. Europa. Toda vez que eu recusava uma — Não toma? xícara de café colombiano — dizem E eu negava com a cabeça. Então, que é excelente — ou um cappuccino, elas rapidamente trocavam meu copo imediatamente fulminavam-me com por um outro, enchiam-no com leite e os olhos, como se eu houvesse proferi- novamente aquela expressão de repulsa do alguma heresia e o papa Bento XVI na minha cara. estivesse prestes a me excomungar por isto. 16 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    — Não gosto,porra, simples assim! c ­ onseguia contrariar minha avó que, ao — Brasileiro que não gosta de café abrir um sorrisão que quase arremessa- não existe — retrucavam. va sua dentadura pra fora, perguntava, fitando-me: “Eu existo, logo brasileiro que não gosta de café também”, lógica elementar. — Quem quer moer o café? No entanto, paradoxalmente, um E já antecipando minha resposta, dos meus grandes prazeres quando eu ela me estendia o saco de café e, cons- contava uns dez anos era, nas férias, ao trangido, eu me via forçado a ir para o irmos para a casa de minha vó no inte- galpão moê-lo, não sem antes ouvir os rior, moer café. risinhos dos primos e os cochichos: Talvez você nunca tenha visto um an- — Se ferrou! tigo moedor de café na vida, eu mesmo Mas este depósito representaria mais não o teria se não fosse por causa des- para mim do que um mero prazer tor- tas viagens, mas o princípio é simples: é nado martírio. um aparelho de ferro, fixo numa mesa, Era aniversário de quatorze anos dum com uma entrada no topo semelhante dos primos e toda a vizinhança foi con- a um funil, uma manivela que aciona vidada para a casa da minha vó. Não uma roda para triturar o café torrado, era exatamente uma superprodução de e uma abertura no fundo, de onde se festa; minha vó sempre foi muito hu- recolhe o pó. milde — apesar de eu ter ouvido que Então, toda vez que minha vó per- ela tinha umas quinhentas cabeças de guntava: gado pastando numa de suas fazendas — Quem quer moer o café? —, por isto ela fazia questão de que tudo fosse muito simples. Eu logo erguia a mão, apanhava o bocado de grãos torrados e corria para As minhas tias assumiam o papel de um galpão atrás da casa, onde ficava quituteiras, enrolando brigadeiros, bei- o moedor. Meus primos e primas se jinhos e fritando um punhado de coxi- deliciavam com este período de folga, nhas. Minha mãe, que não tinha talento porque durante a minha breve visita algum para a cozinha, organizava a eles se viam livres desta atividade que piazada para os preparativos — encher era obrigação diária. bexigas, arrumar as mesas no quintal —, enxotava os menorzinhos que filavam E era neste mesmo depósito que fica- uns docinhos, ou mandava as primas vam armazenadas sacas e mais sacas de para o banho. Meu primo, que já ema- café, cuja existência nunca compreendi. nava ares de adulto — um ralo bigode Não sabia se eram para ser revendi- e, segundo ele, um razoável chumaço de das, ou apenas para consumo próprio, pentelhos —, achava toda aquela balbúr- mesmo que fosse impossível para uma dia ridícula. única família beber tanto café na vida. — Pô, mãe, eu não sou mais criança! Sozinho naquele depósito sujo, úmi- Pra que bexiga? do, escuro, cheio de teias de aranha e, pelo que meus primos me diziam, de Uma das provas de que ele não se onde era muito fácil sair apinhado de sentia mais criança podia ser encontra- piolhos, eu girava a manivela, imerso da nas convidadas; logo avistamos uma no cheiro de café torrado que subia do revoada de meninas chegando pela rua, moedor. vindo em direção à casa de minha vó. Este divertimento perdurou até uns A presença de garotas, ainda mais treze anos, mas depois disto, eu só garotas de nossa idade, atiçou toda a continuei perfazendo-o porque não molecada. http://samizdat.oficinaeditora.com 17
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    — É hojeque vou me dar bem! — lugar mais calmo não havia. cada um dizia para si, mesmo que mui- Foi naquele canto escuro, úmido, tos não tivessem coragem de se aproxi- teias de aranhas — quiçá, piolhos! —, mar delas. Por outro lado, eu ainda me atrás das sacas de café, que meu suor se sentia o mais inexperiente de todos ali, misturou com o de Rafinha, que pela apesar de ser um pouco mais velho do primeira vez me senti dentro duma que eles. Quase todos os meus primos mulher. já haviam perdido a virgindade, alguns com menininhas do sítio, outros com Há momentos que mudam a vida putas mesmo, encorajados por seus pais. duma pessoa: de alguns deles não nos Apenas os mais novos, menores de doze lembramos, nem temos como: a data anos, e eu é que ainda estávamos na fila de nosso nascimento, nossas primeiras para sermos descabaçados. palavras ditas, a primeira vez que nos espantamos diante do nascer do sol, e O aniversariante veio até mim e me talvez o dia de nossa morte, pois não disse: sabemos se há algo para além ou se — Está vendo aquela ali? Diz que viu é meramente o fim; mas há também você na missa ontem. Vai lá, rapaz, que aqueles inesquecíveis: o primeiro dia na ela é facinha. escola, aquele Natal no qual descobri- — Sério? mos que Papai Noel não existe, o dia em que passamos no vestibular, a aqui- — Sim. Todo mundo já traçou a Rafi- sição do primeiro carro, o nascimento nha. É só chegar que ela dá. dos filhos, a morte de nossos pais... Eu E esta última frase foi fatal para e Rafinha, corpos nus entrelaçados, é mim. Minhas pernas começaram a tre- uma destas lembranças. mer e eu fiquei tão aterrorizado de que Eu me apaixonei por ela, adoeci de aquela noite poderia ser a minha vez, amor. Voltei para minha cidade e tudo que eu passei a vagar pelos cantos da me trazia a memória daquela noite. festa, só me expondo para ir catar uns Ao chegar em casa, depois da aula, eu salgadinhos. me jogava na cama, punha um CD de Foi numa destas oportunidades que Johnny Rivers, e sonhava acordado, an- Rafinha me abordou. gustiado, aborrecido, oprimido pela sau- — Oi? — ela molhou os lábios e me- dade. À noite, antes de dormir, o desejo xeu no cabelo. me consumia. As horas se arrastavam. Tinha de acordar cedo e o relógio na Não me lembro o que respondi, mas cabeceira indicava três horas da manhã. gaguejei e ela riu. Batia uma punheta assistindo aqueles — Você é tão bonitinho — ela disse. filmes eróticos da madrugada e, por Quando percebi, já nos atracávamos mais aquele dia, eu vivia sem Rafinha. atrás duma árvore no quintal. Eu não O passar dos meses foi uma eterni- era o rapaz mais experiente do mundo, dade. Só retornaria à casa de minha avó mas já havia pegado nuns peitinhos an- para as férias do fim de ano. De julho a tes. No entanto, logo estes meus poucos dezembro, um, dois, três, quatro meses. truques se esgotaram. Eu estava muito Mas o tempo simplesmente havia para- excitado, mas não tinha muita certeza do e, no meu peito, uma paixão como de até onde poderia ir. eu nunca sentira antes. Novamente, a iniciativa foi de Rafi- Minha mãe comprou as passagens de nha: ônibus e pude respirar aliviado, falta- — Vamos pr’um lugar mais calmo? vam apenas mais alguns dias. E, num reflexo, pensei no depósito: Chegamos à minha vó de manhã 18 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    bem cedo. Todosacordaram para nos Estendi o braço e gentilmente en- receber, como era de praxe. Vovó pre- treabri a porta. Pela fresta, pude ver parou um café para a gente, leite com R ­ afinha sentada sobre o balcão do mo- Nescau pra mim, é óbvio! Meus primos edor de café, vestido erguido até a cin- também despertaram, olhos cheios de tura, calcinha arriada até os tornozelos, remelas e marcas de travesseiro no e no meio de suas pernas, um homem rosto. Puxei um deles pelo braço até o com a bunda exposta. quarto e perguntei: Dei um passo adiante e terminei de — E Rafinha, como ela está? abrir a porta. O ranger fez com que — Bem... acho. ambos olhassem em minha direção. O olhar do homem pousou sobre mim, — Eu preciso ver aquela menina de num misto de espanto, raiva e excita- novo. ção. — Sai desta, rapaz, ela já deu pra — Tio? — perguntei, e antes que eu você. Cata outra. pudesse ter qualquer reação, ele aban- Mas eu não queria outra. Meu primo donou Rafinha com as pernas arrega- me tranquilizou: comemoraríamos o nhadas e veio com a benga balançando aniversário duma das primas e Rafinha até mim. Segurou-me com força pelo também viria. O repeteco prometia ser braço, fechou a porta e me jogou contra bom. a parede. A festa foi organizada, a mesma — Você não vai contar nada pra sua baderna de antes, criançada correndo tia, moleque, senão eu te mato. Te mato! pela casa, bexigas infladas e o cheiro de fritura. Os convidados chegaram. Não gosto de café. Não bebo. Nem Todavia, tudo estava diferente. uma única gota. E não se trata apenas Rafinha sequer olhava para mim. Eu do gosto, até o cheiro me causa aver- forçava um encontro, aproximava-me, são. Nunca gostei. Quando criança mas era como se eu houvesse me torna- chegava a passar vergonha por causa do o homem-invisível. disto na casa de amigos. Mas não era — Deixa disso, — me disseram — ela nojo, só não gostava. Mas hoje, toda é só uma piranhazinha. vez que passo na frente dum boteco e vejo aquele líquido preto escorrendo do Então, eu não a vi mais. Perguntei aos bule, fumegando, e o cheiro me alcança, primos e primas, mas ninguém sabia não posso evitar de pensar em mim, onde ela estava. Fui até atrás da mesma em Rafinha, em sacas de café, no pau árvore em que estivemos, e nada. Deci- meio mole de meu tio e num moedor di arriscar, por fim, o depósito. de café. Ouvi alguns ruídos vindos de dentro, Não consigo. gemidos abafados. Não dá. Henry Alfred Bugalho Formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Litera- tura e História. Autor de “O Canto do Peregrino” (Editora Com-Arte/USP), de outros quatro romances e de duas coletâneas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e fun- dador da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia Nova York para Mãos-de- Vaca”, cidade na qual morou por 4 anos. Está baseado, atualmente, em Buenos Aires, com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha. http://samizdat.oficinaeditora.com 19
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    Contos Thiago Jefferson dos Santos Galdino CRIANÇA PRODÍGIO Sempre foi a criança mais inteli- centes iam para as festas; cursava uma http://www.flickr.com/photos/22326055@N06/4751249463/ gente da turma. Alimentava-se sozinha faculdade quando as demais estavam enquanto as demais comiam giz; apren- no Ensino Médio; preferia trabalhar a deu a ler antes que as outras pudessem perder tempo em namoro. soletrar; amarrava os próprios cadarços Encontrou a tão sonhada estabilidade quando o restante não sabia andar de financeira; dividia uma mansão com a sandálias sem elástico no calcanhar. sua própria sombra; contava as tristezas Já usava brincos e maquiagem en- e alegrias para as atentas paredes; tinha quanto as outras garotas furavam as pavor de qualquer coisa que pudes- orelhas e descobriam as revistas de se atrapalhar o seu emprego; possuía moda; abandonou as bonecas quando tocofobia... as demais costuravam vestidinhos de Deixou de viver intensamente. princesas; beijava garotos antes que o ... e “abortou” a criança... que havia restante deixasse de brincar de pique- dentro de si! esconde. Estudava enquanto as outras adoles- Thiago Jefferson dos Santos Galdino Nascido em Mossoró/RN em 1993. Aprendiz Técnico em Segurança do Trabalho e Escritor. Autor do livro “Suspeitas de um Mistério” pela Editora Multifoco; participou também da 14ª Edição do projeto “Um poema em cada árvore”, do Instituto Psia. 20 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    Contos Filho daPátria Sem Mãe Marcelo Soriano http://www.flickr.com/photos/delafuente/3230692585/ Ela era torneada. Mulata. Escrava Quando amanhece, uma criança pós-moderna. De dia, filhinho no colo. perambula com as fraldas sujas por um De noite, bolsinha a tiracolo. Era lin- loft qualquer bem decorado da Rambla. da. Morena da grife brasileña. Chiclete – Mamã... Mamã... Teta... provocativo. Madeixas de molejo sexy. Olhar de lua. Sorriso de avenida. Beijo Na hora de reassumir a maternida- de beco sem saída. Nudez de mini-saia de nacionalista, a prostituta desapareceu. levantada (sem calcinha) na orla escura Nunca mais voltou. Ela não conseguira da ­ arceloneta. B vencer a dor aberta do buraco fundo, frio e estreito, que deitou sangue no passeio – O ponto é meu, traveco da porra! público daquela última noite, antes do – ¡No más! Muere perra! retorno ao Brasil. Seria aquela, realmente, Um grito tremido depois do estalo a sua última noite de sacrilégio, mas o doído de um triste tapa na cara. destino é um comboio cego... E atropela quem dá mole pela frente. Silêncio na madrugada... Marcelo Soriano Nascido em 11 de agosto de 1967, em Santa Maria – Rio Grande do Sul – Brasil. Engenheiro Mecânico graduado pela Universidade Federal de Santa Maria (2004) e pós- graduado em Engenharia de Produção e Manufatura pela Universidade de Passo Fundo (2010). Autor do Livro “CANTOPOEMAS: SOBRE MENINOS E PÁSSAROS”, juntamente com a escritora moçambicana Isabel Gil (Alcance Editores. Maputo-MZ, 2011). Cronista das Revis- tas Tempo e Literatas (Maputo-MZ, 2011). http://samizdat.oficinaeditora.com 21
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    Contos Vez emquando Cinthia Kriemler Um cheiro de saudade cruza por agonia. Depois de você, tornei-me http://www.flickr.com/photos/stopthegears/2428574441/ mim. Um perfume, talvez um aro- matéria sólida, como as lajes e os ma de pele. Não dá mais tempo de granitos. Sem os rompantes, sem a impedir a memória, nem de punir histeria da partida. Nenhum sofri- a sentinela da razão que se atrasou mento à superfície, nenhuma tristeza por uns segundos. Já estou impreg- deslocada. Apenas o suficiente para nada desse vento de passado que me prosseguir humana. força companhia. Não consigo fixar seu rosto nos O cheiro de café torrado insiste meus pensamentos. Foi assim tam- em fazer cócegas no meu cérebro, bém na primeira vez em que nos me dizendo que não vai ser fácil encontramos. As pessoas eram me livrar da sua lembrança. Pois sempre pontos distorcidos em mi- que seja. Não sou mais alguém em nhas fugas de álcool fácil e carnes 22 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    e ­ squecíveis. Evocê estava lá, numa Voltei, duas semanas depois, numa daquelas noites que terminavam só madrugada de chuva. Nenhum ál- depois da madrugada. cool naquela noite, nenhuma cama Além do prazer, dois hábitos me de onde tivesse saltado. Fui para acompanhavam fielmente: eu nunca enxergar o rosto ao qual pertencia dormia fora da minha própria cama, aquela boca de café torrado. Atrás nem chegava em casa sem uma boa do balcão, dois rapazes se ocupa- xícara de café forte. Na verdade, eu vam dos expressos e dos chocolates. sempre tive medo de acordar em Ninguém que eu pudesse associar à camas estranhas. Como se olhar em voz modulada e cheirosa que tinha volta e não reconhecer os objetos agradado aos meus instintos. Eu já me impedisse de saber para onde ir me preparava para me levantar sem embora. Eu pertencia a todas as ca- pedir nada, quando o mais alto dos mas, mas deitava meu sono em meu dois se aproximou de mim: próprio colchão, repleto de mim. O — Como vai? Que bom que você café forte era um ritual de purifica- voltou! Um café? ção. Nada que cortasse o efeito da Era ele! A boca de café torrado, os bebida ou o sono, somente um amu- dentes claros, benfeitos. Um menino! leto de dignidade que me deixava Quantos anos? Uns 24, no máximo voltar para casa sem contaminar de 25. embriaguez o ar. — Um chocolate com creme, por Quando nos encontramos pela favor — respondi depressa, subita- primeira vez, sua boca exalava café mente sem jeito para incluir um torrado. Por trás do balcão, uma licor no pedido. mistura de amargos e doces flutuava — Chuva forte, hein? — perguntou abaixo de uma placa esnobe, onde se com delicadeza, enquanto colocava a lia: Chez Fernand. bebida. — Um café? Não respondi. Homens mais jo- — Forte, por favor. vens não faziam parte dos meus — Alguma coisa para comer? vícios. Minha ânsia de afeto era — Não. aplacada por gente como eu, des- cartável, invisível, desraizada. E por — Um croissant fresquinho? É a álcool, para permitir que tudo fosse especialidade da família. permitido. E por sexo, que me fa- Fiz que não com a cabeça, en- zia atravessar a madrugada insone. quanto afastava a sensação de náu- Nada de amor, essa coisa estranha sea que me vinha só de pensar em que se oferece em desencontro. Não, comida. Mas achei gentil a insistên- nada de homens jovens! Eles têm o cia. E tive certeza de que voltaria ali péssimo vício de amar! quando estivesse sóbria. — Eu sou Fernand. O da placa — http://samizdat.oficinaeditora.com 23
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    revelou, vaidoso. —Como é o seu e vidros embaçados de chuveiro. Fiz nome? passeios de mãos dadas, desconcertei — Aimée. olhares. Dei gargalhadas no cinema, fiz sexo na escada e me senti bonita — Aimée! Amada... Significa ama- de cara lavada. da, em francês, você sabia? Minha família é de origem francesa. Que Então, numa data sem aviso, an- coincidência! É um nome lindo. tes que a terceira chuva pudesse me trazer mais um ano, tomou conta de Pedi a Deus que me tirasse de lá, mim uma antiga sensação de ausên- porque meus pés não ofereciam essa cias. Não sei se foi um gesto dife- opção! O rapaz estava flertando co- rente, um jeito de respirar acelerado, migo, se exibindo para mim! E, mes- uma desatenção proposital. Sei que mo assim, o que ele dizia entrava os fogos de artifício se tornaram, de em meus ouvidos como uma escala repente, fósforos usados. afinada. Esperei realmente por um pequeno empurrão, uma lucidez Talvez, se Fernand tivesse morrido, acanhada. Mas tudo falhou. A divin- talvez se ele tivesse amado alguém dade, os pés, a vontade. mais jovem que eu, com menos ca- minhadas, eu teria podido me agar- Eu mesma derrubei as cercas, des- rar ao consolo do plausível. Mas não lembrada de que as cercas existem foi assim. Fernand só queria mesmo para guardar ou impedir. Fiz como ir embora. o predador que fareja carne tenra: desprezei as armadilhas, até ser co- Eu ainda não estava pronta para lhida pela dor das estacas. me encontrar com a mulher vazia que morava dentro de mim, mas a Fernand e eu fomos felizes por solidão me alcançou inflexível numa duas chuvas. Ele se fez caber por noite sem forças. E eu me cedi a ela. inteiro em meus espaços vazios. Com o tempo, acertamos uma tré- Afastou minhas urgências, ofereceu- gua. Vez em quando, colho nas ruas me outras, me emprestou o riso, o um cheiro de saudade. Apenas o colo, os olhos brilhantes. E eu me suficiente para prosseguir humana. completei dele. Ganhei abraços de tirar o fôlego, brinquei sem pressa sobre a cama desfeita, escrevi pala- vras bobas, sem sentido, em bilhetes Cinthia Kriemler É contista e cronista. É autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minha alma”, pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crôni- cas “Do todo que me cerca”. Finalista de concursos literários, participa de duas cole- tâneas de poesia e uma de contos. É jurada dos Desafios dos Escritores e da Revista Literária. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escri- toras Brasileiras — REBRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos. 24 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    Contos Relicário Tatiana Alves http://www.flickr.com/photos/mrbeck/1981387615/ Maria abriu cuidadosamente o reli- fria que vinha de fora. Cheiro de gente, cário, mirando os olhos da imagem que de rua, de vida. Calçou os chinelos gastos ali ficava guardada. Ajoelhou, como fora e pôs-se a ler. ensinada a fazer, e principiou a entoar Época de novena era assim mesmo. As mecanicamente mais uma de suas pre- outras vinham à sua casa rezar o terço ces. Emendava uma oração na outra, sem durante vários dias. O motivo agora era jamais obter o alívio desejado. A santa a candidatura do pai de uma delas, pre- olhava, impassível, nada podendo fazer feito da cidade. A novena, contudo, não diante daquela situação. Seu olhar conti- parecia ajudar na reeleição do sujeito, nha uma espécie de tristeza, uma quase cuja popularidade caíra vertiginosamente resignação, que não ajudava muito a con- desde que fora visto saindo de uma casa fortar a devota que a ela se dirigia. de tolerância na cidade vizinha. Era caso “Mulher só sai de casa três vezes na perdido. E eleição também. vida: para ser batizada, para casar e para Pediram, então, a imagem da santa. o próprio enterro”. As palavras da avó Que percorreria a cidade, numa procis- ainda ecoavam em seus ouvidos. Bendi- são improvisada e direcionada. Depois, ta sois vós entre as mulheres. Por que, passaria alguns dias na casa de cada de- então, tantas renúncias, ó mãe? vota integrante do grupo de oração, para Persignou-se, acendeu uma vela e saiu recuperar a nódoa na imagem do sujeito. do cômodo. Em alguns segundos retor- Maria, que não se interessava por polí- nou, e trancou o relicário, evitando o tica mas não podia negar o favor, cedeu, olhar da santa. Em seguida, cerrou as embora a contragosto. janelas, não sem antes respirar a brisa No dia seguinte, bateram à porta http://samizdat.oficinaeditora.com 25
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    bem cedo. Duasmulheres pertencen- infortúnio. Adoecera na semana em que tes ao grupo vinham buscar a Virgem, a Virgem sumira. Febres inexplicáveis padroeira de Santa Maria da Renúncia. atormentavam-na dia e noite. Certa vez, Dirigindo-se vagarosamente ao quarto, na foi encontrada vagando perto da cachoei- tentativa de protelar a retirada da ima- ra, roupa molhada colada ao corpo. Delí- gem de sua casa, pegou cuidadosamente rio, dizia o médico. Pecado, dizia o padre. o relicário. O grito foi uníssono. A santa E havia um moço que nada dizia, mas o havia desaparecido. Como podia uma sorriso em seus olhos fazia a maior prece coisa dessas? Como ela podia ser tão jamais entoada em louvor à santa. Ou ao desalmada e ingrata a ponto de forjar o roubo. roubo da imagem em vez de cedê-la para Os ardores de Maria eram agora tão nobre propósito? As beatas do luga- conhecidos e tolerados por todos no rejo saíram, indignadas. lugarejo. As beatas benziam-se: tadinha. Os dias escoavam-se sem que a ima- Uma alma pura que se perdera longe da gem aparecesse. O relicário aberto asse- proteção da santa. Bebia o vinho do pai, melhava-se a uma casca sem noz, a uma brindando à santa ausente. Rodopiava caixa sem presente. E Maria adoeceu como se não soubesse mais o que era com a falta da santinha. Ninguém mais linha reta, e sua saia alçava voos de ser- a essa altura duvidava que a santa tivesse pente alada. Gargalhava como se nunca sido de fato roubada, embora nenhum houvesse frequentado colégio de freiras, e forasteiro tivesse sido visto nos arredores deitava-se no chão, mirando inexistentes na semana do desaparecimento. estrelas que cintilavam proibidos latejos De resto, tudo parecia normal em em sua cabeça. Em seu peito. Em seu Santa Maria da Renúncia. Ou até melhor. ventre. Nem parecia inverno. As rosas desabro- Dois meses depois, Maria foi desperta- charam antes do tempo, o gado – sem- da pelo olhar da santa, dentro do relicá- pre tão passivo – ficou mais agitado, e a rio. Incrédula, abriu-o, indagando, mental- brisa que soprava no fim da tarde trazia mente, quem a havia roubado. Nenhuma agora um ardor inesperado. O frio, mar- resposta. Havia fugido, então? Um meio ca característica do lugar, fora repenti- sorriso pareceu se desenhar no rosto da namente substituído por um calor sem imagem. Devia estar mesmo louca, como precedentes, como se uma espécie de todos julgavam. Tinha de anunciar o sezão assolasse o local. As mulheres, que retorno da Virgem. Gritar. Sua protetora antes permaneciam em casa, aquecidas, voltara. Abriu a janela, sentindo o ven- queriam agora sair. Joelhos ofereciam-se, to frio de sempre agredir-lhe o rosto. A não mais ao milho, mas à contemplação imagem, trancada no relicário, assumira alheia. Ombros e decotes foram vistos o tom triste de antes. por ali, e madonas renascentistas sur- Não pensou duas vezes. Abriu o re- giam a cada beco. licário, piscando levemente, e voltou a Maria mirava o relicário, agora um dormir. Ambas sabiam que a santa não santuário de ausência, e pranteava a sau- mais estaria ali quando Maria acordasse. dade que sentia de sua companheira de Nem ela. Tatiana Alves É poeta, contista e ensaísta. Participou de diversos concursos literários, tendo obtido vários prêmios. É colaboradora da Coluna Momento Lítero-Cultural, dos sites Cronópios, Anjos de Prata, Germina Lite- ratura e Escritoras Suicidas. É filiada à APPERJ e à Academia Cachoeirense de Letras. Possui seis livros publicados. É Doutora em Letras e leciona Língua Portuguesa e Literatura no CEFET / RJ. 26 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    Contos A deusa dachuva José Guilherme Vereza http://www.flickr.com/photos/lightknight/949116165/ E choveu o ano inteiro em 21 minutos. ga lenga que é para tanta gente assinar um Enquanto o ônibus não chega, perambulo documento. os olhos pela rua, cantarolando as águas de Cristina não é um nome que defina idade. Tom Jobim, e encontro Cristina num canti- Mas não me parece uma pós-adolescente, nho de paus, pedras, restos de toco, um toco considerando que o CPF é daqueles beges e sozinho. grandões, anteriores aos cartões azuis magne- Não uma Cristina gente, morta ou viva, tizados que dormem com cartões de créditos carente ou determinada, enérgica ou entre- nas carteiras ricas. gue à sorte impiedosa do verão, da natureza Vidal, o nome do meio, insinua que a e do descaso. Mas uma Cristina de papel, dona do documento perdido possa trazer plastificada, enlameada, materializada por raízes ibéricas, remotamente francesas, mas a um CPF sem rosto, discreto e sujo, que me dá preguiça mental me leva a encurtar caminho pistas sobre sua pessoa. da história e admitir que seja descendente de De cara, descubro que é uma mulher. Está uma sinhá de além-mar, que deu com os na- escrito em letras gagas de uma Remington: vios nas costas da Bahia, tendo envergonhado Cristina Vidal Sotero, ao lado um número a família ao se enrabichar por um cafuso tí- borrado, e no verso uma assinatura legível e pico, indolente por parte de pai e fogoso por inspiradora. parte de mãe. E saíram, colonizado e coloni- zadora, às cópulas pelas alcovas a povoar a Decifra-me, diz o garrancho. Sou traço cidade de São Salvador da Bahia de Todos os tosco de vítima do desprezo histórico que Santos. Na enésima geração, nasceu Cristina. se tem pela educação dos pobres. Trata-se, Claro que está tudo explicado: seu último então, de alguém que rala na vida, que não sobrenome é Sotero, ó, ó, ó, digo isso meio veio ao mundo a passeio. As maiúsculas girando repetidamente a mão direita com o tentando arabescos eruditos e as minúsculas polegar e o indicador em curva ­ormando f finais apressadas tentando acabar com a len- http://samizdat.oficinaeditora.com 27
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    uma pinça, ogesto vulgar que denota ligação para morar comigo nas terras dos bons vi- infame, ó, ó, Sotero de salvador, polis de cida- nhos, da culinária soberba e das vacas pre- de, sacou? – adoro palavras cruzadas: nascido miadas. em Salvador, vertical, 14 letras. Mas eu não cozinho em francês, seu dotô. Pronto. Definida a origem da criatura. Vai como minha mulher, há quem obede- Resta agora o quesito “o que faz na vida, ça a suas ordens naquela vida boa. além de explicar que perdeu documentos na chuva”. A caligrafia me cochicha: talvez seja E se eu sentir saudade do tempero da diarista, talvez costureira, talvez balconista, Bahia? caixa de supermercado. Pode ser faxineira, Mando trazer de avião. trocadora, a moça do café, a rainha dos servi- E se painho der por minha falta? ços gerais numa empresa próspera e social- mente responsável. Vem de avião também. Nada disso. Que seja uma cozinheira, E como fica o calor da nossa terra? de forno e fogão, de panelas de ferro e de Te aqueço, minha deusa, nos meus braços, barro, uma Gabriela de cravo e canela, uma nos meus abraços. Dona Flor sem maridos aparentes. Decidi. Mas não tenho CPF para tirar passaporte, Sua moqueca é de arrasar, seu xinxim é de moço, esse não presta mais. se lamber os beiços, seu vatapá é um manjar de deus e do diabo, honra e glória dos Vidal Danou-se. Olho o documento encardido Sotero, que fizeram história nos sobrados do e inútil. Penso em entregar a um Guarda Pelourinho, manera no dendê, minha filha, Municipal – deve haver uma porta escrita minhas entranhas não aguentam mais ta- Achados e Perdidos em alguma repartição da manha perdição, já basta o acarajé que me Prefeitura. Imagino carregá-la no bolso, para ofertaste e a pimenta que me ardeste. sempre comigo, tenho tia abastada nada, sou um impostor, mas ofereço minha gaveta de Cristina Vidal Sotero já é íntima. Juro que moradia, meu quarto e sala é a Bahia, minha descubro seu paradeiro. Vou de rua em rua cama é o Pelourinho, me açoita, morena, vem, nas redondezas, de soleira em soleira, curioso morena, vem seguir os desígnios dos santos tenaz, encontro enfim a dona de história tão do acaso, dos anjos dos sonhos, dos deuses da rica, dotes tão saborosos, sorriso generoso e chuva. um corpo surpreendente, esculpido por Jorge Amado. E me esvai a fala, aflauto a voz. Para tudo. Quem vem vindo agora é o ônibus lotado de realidade e juízo. Escapando Você é Cristina Vidal Sotero? entre meus dedos, deixo Cristina carinho- Sim, senhor. samente no meio fio de onde veio. No pau, Estou mais perdido que seu documento. na pedra, no resto de toco, no toco sozinho. E sigo, e subo, e suspiro, e sento no último O senhor achou? banco. Estico meus olhos àquele documento, O destino achou. que, acho, me olha também. Fecha o sinal da Então entra, tem recompensa, vem provar esquina, providência para um teimoso raio o gosto que a baiana tem. de olhar. Vejo na rua que ficou para trás um gari de perna fina, moroso e indiferente, E diante de tantos encantos noite adentro, passando a chuva a limpo, parando e olhan- ouso retribuir com um mimo. do para um reles CPF jogado no chão. Antes Cristina, sou herdeiro único de uma tia da vassourada de misericórdia, ele se abaixa, abastada, que me deixou um domaine na pega e lê: Cristina Vidal Sotero. Normandia. Tenho vontade de botar a cabeça pra fora Um quê, moço? da janela: tira a mão daí, moleque! Um castelo na França, entendeu agora? Pois prossiga, senhorinho formoso. Indo direto ao ponto: quero levar você 28 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    Contos http://www.flickr.com/photos/fiverweed/5265610106/ Otávio Martins O CATAVENTO MALUCO Nunca perguntou ao pai porque a es- Morocho, como era carinhosamente chama- colha de um tango argentino. Sua mãe, do pelos porteños, logo começaria a contar ele bem o sabia, aquiescia a todos os seus a história de um grande amor, na inesquecí- caprichos, e era de fazer-lhe companhia pelo vel gravação de 1923. simples hábito de permanecerem juntos em Quase encostada na parede do lado de quase todos os momentos de lazer. dentro da grande varanda, a eletrola, instala- À tardinha, o seu pai costumava colocar da num lindo móvel de três compartimen- na eletrola sempre o mesmo disco de Gar- tos, todo em madeira envernizada, ganhava del – “uma relíquia!”, como costumava dizer um toque colorido por uma tela aveludada, – para, em seguida, sentar-se na sua pol- verde-escuro; o tecido, pespontado por fios trona preferida. Tudo parecendo mais uma dourados, servia para cobrir o nicho onde encenação da primeira vez em que escutou estavam instalados os alto-falantes. Dali – junto com sua mãe, supunha – a belíssima surgiriam os sons que impregnariam todo composição de Gardel, Razzano e Celedonio o ambiente com uma das mais conhecidas Flores. músicas do cancioneiro argentino. A iluminação da varanda, que tinha todo Nem lembrava direito desde quando os um lado envidraçado, era proporcionada acompanhava naquele ritual – quase um pelas réstias que escapavam do sol a se pôr culto à nostalgia. Enquanto o vinil era, cui- detrás do quintal, atravessando por entre os dadosamente, colocado no prato da eletrola, galhos e as folhagens das enormes figueiras sua mãe e ele tomavam assento nas outras e um imponente abacateiro. Não se atinava duas poltronas e, sem qualquer palavra, para outros detalhes, como se todo o am- aguardavam os primeiros acordes da intro- biente fosse preenchido apenas pelo som dução do Mano a Mano. Carlos Gardel, El que vinha da eletrola e por aqueles tênues raios de sol, além dos três personagens http://samizdat.oficinaeditora.com 29
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    que permaneciam imóveis um vazio de aspecto triste, ainda acompanhava o seu e silentes durante toda a talvez pela ausência da ve- pai nas audições do tango audição. getação e de algumas flores de Gardel, as quais continu- Logo após a última nota que só voltariam na próxi- aram acontecendo por todas do Mano a Mano, o tem- ma primavera. as tardinhas. po retomava ao seu curso Do lado de fora, nada, ou Em algumas manhãs, era e cada qual ia para o seu quase nada, se ouvia depois de transpor os limites do canto. Enquanto seus pais que ele trancava-se no quar- quintal para ficar próximo encaminhavam-se vagaro- to. Espalhados pelo pequeno à plantação de trigo e dos samente para o interior da cômodo, enormes bonecos canteiros de girassóis que a casa, ele, num gesto quase traziam entre as mãos cada circundavam e ali permane- autômato, dirigia-se ao seu um o seu instrumento: violi- cer, por longo tempo, imóvel, quarto, que também lhe ser- nos, violas, celo, postando-se, na feição de um espantalho, via de estúdio. Localizado do assim, como uma orquestra hipnotizado pelo espetáculo lado esquerdo da varanda, de câmara. Todos vestidos de luz e movimento. quase chegando aos fundos ao rigor de uma grande Com o mesmo entusias- da casa, a porta permanecia apresentação. Somente ele mo que regia a pequena quase sempre fechada. Nem ouviria, através dos fones, orquestra, dedicava-se à mesmo a senhora, que ainda a música que passaria por construção do seu catavento, vinha de vez em quando um amplificador de alta- de grandes dimensões, que para dar um jeito na casa, fidelidade, trajando o melhor ele chamava de circuladô entrava em seu quarto. Ele de seus figurinos para a de fulô, nome que apren- mesmo se encarregava de ocasião; tinha caídos, sobre dera numa das canções de arrumá-lo. Não obstante, era os ombros, os cabelos soltos Caetano Veloso. Acreditava de fazer-lhe algumas confi- e desalinhados, precocemen- que a sua engenhoca ainda o dências. te grisalhos. Após alguns levaria, como as asas de um De sua janela ele po- instantes de concentrado beija-flor, em meio a uma dia estender a vista além silêncio, com a voz baixa, noite estrelada, muito além do quintal, até alcançar os dirigia-se aos outros compo- dos trigais e dos canteiros de trigais que o sol – recém nentes da pequena orquestra, girassóis. passada a primavera e já nos iniciando a contagem que primeiros dias de calor – ba- definiria a divisão e o an- nhava com uma luz intensa, damento para os compassos No dia em que não já ao tempo da colheita, que surgiriam ao erguer a mais precisou fazer com- dando-lhes a aparência de batuta, num gesto de extre- panhia ao seu pai, para pequenas ondas douradas ma delicadeza e elegância, ouvirem o francês Charles que corriam em direção ao iniciando a regência de uma Romuald Gardés – o verda- horizonte. Durante o outo- das mais belas músicas de deiro nome de Carlos Gardel no e o inverno, boa parte Mozart. – numa de suas mais belas da terra ficava em descanso Depois que a mãe mor- interpretações, trancou-se na para outras safras, deixando reu, talvez por costume, velha casa e nunca mais foi visto pela vizinhança. Otávio Martins 68 anos, fotógrafo, mantém um jornaleco eletrônico, O Spam. Trabalhou na TV Tupi, TV Cultura de SPaulo, produção de shows (Adoniran, Paulinho Nogueira, Eduardo Gudin, Márcia, Roberto Riberti, Tom Zé e outros); Festival de Verão do Guarujá, 1980 e Festival MPB Universitário, TV Cultura 1979, assistente de produção. Cozinheiro profissional, compositor MPB, música e letra. 30 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    Contos DEPURAÇÃO Silvana Michele Ramos A apuração dum crime de corrup- crime de corrupção acadêmica se tinha http://www.flickr.com/photos/merlin1487/5518280677/ ção acadêmica passado numa academia passado efetivamente forneceu aquilo de consistiu no seguinte: requisitou-se que que estava de posse sobre esse crime de a academia onde o crime de corrupção corrupção acadêmica nela passado, in- acadêmica se tinha passado forneces- clusive prontamente, e como aquilo de se aquilo de que estava de posse sobre que ela estava de posse sobre esse crime esse crime de corrupção acadêmica de corrupção acadêmica nela passado nela passado, o que a academia onde não constituiu convicção suficiente de o crime de corrupção acadêmica se que se tinha passado crime de corrup- tinha passado efetivamente fez, inclusi- ção acadêmica nessa academia, a apu- ve prontamente, fornecendo justamente ração foi finalizada, o caso em comento aquilo de que estava de posse sobre esse tendo sofrido arquivamento. crime de corrupção acadêmica nela passado, e como a academia onde o Silvana Michele Ramos Natural de Belém, onde estudou Medicina, Inglês e Alemão. Ao longo da graduação em Medicina, publicou 57 textos científicos em congressos e outros eventos médico-científicos. Iniciou carreira de escritora em 2006 e possui, até o momento, onze distinções em certames literários. http://samizdat.oficinaeditora.com 31
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    Contos Adivinho, detetive ou fofoqueiro Roberto Klotz http://www.flickr.com/photos/anabadili/551898740/ 32 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    Jovem — Possome sentar? — pergun- J — Como assim? De onde o senhor tou ao senhor grisalho. me conhece? von Silva — Por favor, fique à vonta- vS — Você sentou-se à minha frente de. há meia hora. J — Se o senhor se incomodar, posso J — Em momento algum falei meu me sentar em outra mesa. nome. Como sabe meu nome? vS — Oras, não é nenhum incômodo. vS — Está escrito no seu crachá. Acho melhor almoçar acompanhado a J — E esse negócio de solidão? Eu não ficar só. A mesa é pequena, mas sufi- falei da minha vida particular. Caso ciente para nós dois. como o meu? Por que acha que estou O mais moço encheu o garfo duas solitário? Leu no meu crachá? vezes de peixe frito e falou sobre a vS — Havia tantas mesas vazias. E vitória do seu time no jogo da noite você escolheu a que eu estava para anterior. Mais duas garfadas de arroz e ter companhia. Poderia ter escolhido comentou sobre a impunidade em to- aquela próxima à televisão. Mas prefe- das as esferas do governo. Comeu uma riu gente. A televisão é sua companhia rodela de tomate e criticou o galã da noturna. Você está só e continua apai- novela. Tomou um gole de suco de aba- xonado por aquela que o deixou. caxi e se desculpou por ter chutado a J — O senhor está semeando verde mesa desequilibrada no chão irregular para colher maduro... da calçada. vS — Olhe para aquela mesa com Assim, entre mastiga, mastiga, mas- aquela mocinha... Pouco mais nova que tiga, engole, o moço falou de música você. Não é atraente? erudita a guerras no Oriente Médio. Foi de Nelson Rodrigues e Cecília Meire- J — É sim, e daí? O que tem a ver les. E voltou de Sófocles e Platão. comigo? O senhor de cabeça branca concor- vS — Você poderia ter escolhido dava ou discordava discretamente, com aquela mesa. Seria uma companhia gestos suaves, sem dizer palavra. muito mais interessante. Significa que não está à procura de mulher. E sei que J — Desculpe senhor, acho que falei está sem nenhuma. demais. Tomei a palavra e não larguei. Estamos sentados aqui já há algum J — Como sabe que estou sem mu- tempo e sequer me apresentei... lher? Só porque fico vendo tevê? Onde o senhor leu isso? vS — Não há nenhum problema, Gil- berto. A solidão nos leva a esse tipo de vS — Na sua camisa. comportamento. Isso é absolutamente J — Não entendi. Escrito na minha normal nos casos como o seu. camisa? 33
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    vS — Sim.Você está usando a mesma frio. camisa há vários dias. J — O senhor é adivinho, detetive ou J — Ela está cheirando? fofoqueiro? O que mais andou reparan- vS — Não. — respondeu sério — Ela do? não foi passada e está manchada. vS — Que agora é pedestre, sem car- J — Isto não quer dizer nada. ro. Só anda a pé ou de ônibus. vS — Quer dizer que você almoçou J — O senhor é totalmente maluco. A aqui na terça-feira e ontem com a mes- troco do quê eu não teria carro? ma camisa. vS — O chaveiro que você colocou J — O senhor também almoçou aqui? sobre a mesa não tem chave de carro. E não se exalte, sua pressão vai subir vS — Não. Esta é minha primeira vez. mais ainda. No cartaz está escrito que, às terças, servem nhoque, e às quartas, feijoada. J — Pressão? O que o senhor sabe da E na sua camisa há molho de tomate e minha saúde? restos de feijão. vS — Você despejou o saleiro sobre J — E o que mais, ó grande Sherlock, sua comida, isso provoca pressão alta e o senhor vê na minha camisa? aquela quantidade de malagueta sobre o peixe frito provoca hemorróidas. vS — Vejo que você já teve um bom emprego e que agora está financeira- Gilberto, sem dizer mais nada, levan- mente prejudicado. tou-se e foi pagar a conta. Ainda pegou um café, quando viu seu companheiro J — A mancha deveria ser de estro- de mesa se aproximar. gonofe com champignon? Com muita raiva, jogou o café no vS — Você está usando uma cami- velho e perguntou provocativo: sa social com seu monograma, GBAS, bordado no bolso. A gola e os punhos J — E aí, sabe-tudo, o que achou? estão bem gastos. A sua linguagem e vS — Achei sem açúcar. modos finos contrastam com a cami- seta vermelha por debaixo da camisa Extraído do livro Cara de crachá de social. Noutras épocas, provavelmente, Roberto Klotz. Edição do autor, 2011 usaria um casaco para se proteger do Roberto Klotz autor dos contos e crônicas de Pepino e farofa, Quase pisei! e Cara de crachá. Com linguajar leve, dinâmico, bem-humorado e finais surpreendentes foi premiado em mais de 20 concursos literários. Promove oficinas e palestras sobre a escrita. Jurado de concursos literários. É conselheiro de cultura em literatura da Secretaria de Cultura do DF. Participa do Núcleo de Literatura da Câmara dos Depu- tados. Recebeu elogios de Moacyr Scliar e Ignácio Loyola Brandão. Produziu 40 crônicas semanais ininterruptas sobre notícias publicadas no jornal. Está em robertoklotz.blogspot.com 34 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    Contos Avessa ( o ) Sara Meynard Parecia que aquela seria mais uma covardia. Mas é que depois de tantas http://www.flickr.com/photos/josephstory/5908033496/ das noites em que se vai dormir com feridas o corpo quer é sossego. Mesmo quase quatro mil coisas na cabeça. que eu fosse covarde e me tendesse Deitei-me ainda cedo, com o objetivo para as pessoas, aquilo era muito mais que o sono fosse mais proveitoso do forte, era conforto. que enfrentar a madrugada fria. Mas não importava o meu conforto; Aquilo já era de costume, os sons dos as feridas ainda estavam lá, mesmo que carros e motos na avenida invadindo o não ousasse nem pronunciá-las. Igno- meu quarto me embalavam e me fa- rei. Segurei o ar com uma das mãos, ziam companhia. As luzes penetravam e movi a outra misteriosamente, como inquietas pelas grades da janela, fazendo se não soubesse onde fosse parar, até com que minha escuridão fosse menor. que as duas se encontraram e se visita- Todo aquele barulho me fazia sentir ram por dentro. Meu próprio calor me mais em casa do que se eu estivesse no aquecia, o corpo se repartia em dois, silêncio de mim. Talvez fosse medo; ou transformando a solidão em duas, que http://samizdat.oficinaeditora.com 35
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    se ligavam. Quefosse só um disfarce, A sombra dançava; os pés esticavam não importava. e encurvavam; tinha a habilidade de Quando criei coragem para fechar os uma bailarina. Não me lembro que rou- olhos e ver todos aqueles pesos, e mi- pa usava, e nem se usava. Mas ela veio e nhas pálpebras começaram a se fechar se sentou ao meu lado. Agarrou minhas na mesma lentidão do pôr do sol, com mãos, e as segurou assim como esta- todos os raios indo embora, o corpo se vam: juntas. E sem falar nada, veio me preparando para a noite, a vida recuan- pegando, me passando, me aninhando, do como se tivesse medo, nada veio. Eu com o mesmo calor do ventre mater- até me assustei, mas já cansada, achei no e o mesmo prazer das mais fiéis ou agradável e afundei na cama com a for- infiéis amantes. ça de um lutador. Eu não pensei muito aquela noite. Na Foi quando ela entrou. A porta do verdade não pensei nada. Por isso não quarto se abriu devagar, e embora tive medo da respiração pesada no meu nenhum feixe de luz a acompanhasse, ouvido, das mãos que me rodeavam. E via sua silhueta claramente. Eu poderia não deveria mesmo ter. Era tudo o que falar que fiquei com medo, mas a verda- eu esperava, meu avesso estava ali: e de é que eu não reconhecia perigo em me segurando, apalpou meus arranhões, uma companhia para a noite. Mesmo minhas marcas, meus vermelhões, roxos que fosse estrangeira; eu não poderia e tudo mais que um dia houvera me saber o motivo de temer aquilo, era ferido . estranho demais para mim. Só sentia minhas gargalhadas agora. Meus olhos no começo se arrega- Gargalhávamos juntas. Aquela sombra e laram; mas logo foram se fechando, à eu. Rindo alto da vida que passava, do medida que ela ia chegando mais perto, tempo indecoroso, das ruas inacessíveis, e era tudo tão devagar que parecia ter das roupas desnecessárias... era tudo e todo tempo do mundo. Ao contrário muito mais. Era eu, e o avesso. A avessa. dos dias corridos que se passavam em Não me lembro quando dormi, e sufoco, naquela noite os acontecimen- nem sei mesmo se dormi. Sei que quan- tos foram se entrelaçando de maneira do abri os olhos, estava sozinha de tão lenta, que era possível ver e sentir novo. Mas já não me sentia assim. Era todos os fios soltos, e todos os fios que como se ela ainda estivesse ali, comi- se uniam na construção do que agora go, como se tivesse se tornado parte de narro nesse conto póstumo. Póstumo mim. Não; já era parte de mim antes. sim, pois alguma coisa morreu aquela Eu só a achei. noite. E no riso fugido da noite, eu acordei Meus lençóis eram brancos, mas eu ainda com os dentes de fora. A sen- juro que acordaram vermelhos. Não sação de luto me tomava ao mesmo me lembro em momento algum de tempo em que o sol raiava forte. Nun- haver sangue; nem dor. Pelo contrário, ca soube o que morreu aquela noite, e era uma paz tão grande que eu fechei nunca nem procurei saber. Só sei que mesmo os olhos – mas tenho certeza se perderam na sua inutilidade todas que não dormi, pois os abria sempre as quatro mil coisas, e eu tinha lençóis – e até comecei a gargalhar de prazer novos. com aquela coisa se movendo em meu quarto. 36 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    Contos http://www.flickr.com/photos/kdemetras/5816398/ Edweine Loureiro COLETIVO Toca o buzão motorista, esse ônibus Pode baixar o som cumpadi, tu num tá passa no Largo, licença dona, tô indo pro no ônibus sozinho, qual é seu mané, vai trabalho… encarar, Deus do céu, ele tá armado… Sentou-se no banco de trás, o olhar Tudo o que sabia é que, não im- perdido. E agora, o que faria? Demitido, portando o que acontecesse, precisava endividado e três filhos para criar… seguir vivendo. Amanhã mesmo… Menina tu tá grávida, esse Botafogo Escapou pela janela o desgraçado, toca não tá mais com nada, viu o jogo ontem, pro hospital motorista, meu Deus, o tiro passa na praça sim senhor… pegou no peito, tá morto, não, ele tá ten- O que diria à esposa? Como reagiria tando dizer alguma coisa, silêncio gente, Mariana a uma notícia assim? Temeu pobre do homem, não tinha nada a ver possíveis discussões; até mesmo a sepa- com a briga… ração. — Mariana… Edweine Loureiro Nasceu no Brasil em 20 de Setembro de 1975. É advogado, professor e reside no Japão desde 2001. Prêmios literários incluem: Primeiro Lugar na Categoria Crônica do 6º Desafio dos Escrito- res (2010) e o Primeiro Lugar no V Concurso Crônica e Literatura – Prêmio Ferreira Gullar (Mi- nas Gerais, 2011). É membro correspondente da Academia Cabista de Letras, Artes e Ciências (Rio de Janeiro). Autor dos livros: Sonhador Sim Senhor! (Editora Litteris, 2000) e Clandestinos [e outras crônicas] (Clube de Autores e Agbook, 2011). http://samizdat.oficinaeditora.com 37
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    Contos http://www.flickr.com/photos/thejhop/117055834/ Zulmar Lopes Purgatório Está se vendo que você nunca se apai- de garrafas e copos, sempre comandada aos xonou, não é, meu caro? Dizem que paixão berros por aquela senhora de maus modos é uma coisa avassaladora, uma fábrica de que tudo fiscalizava por detrás da balança loucuras. O Frejat ilustrou bem isso naquela onde os pratos eram pesados. “Lívia, não música, como era mesmo a letra? Deixa pra esqueça o refrigerante do moço lá no fundo! lá. Isto não deve ser do seu interesse, não é Vamos logo, menina, deixa de preguiça! Você mesmo? é uma estabanada mesmo, não serve pra Apesar de estar apaixonado, julgo que, o nada!” Elogios daquela mulher, eu creio que que fiz por Lívia, não foi uma loucura de minha amada nunca tenha ouvido. amor, pensei inclusive estar agindo da ma- Compunha o resto da família um sujeito neira correta e olha o que me aconteceu? mal-encarado que ficava na caixa, invariavel- Aonde vim parar? Caso houvesse cometido mente trajando a camisa do Botafogo. Pouco um desatino amoroso, certamente a história falava, muito grunhia para os clientes ao teria sido outra e hoje estaríamos juntos e devolver o troco. felizes curtindo o nosso amor. A comida não era grande coisa, mas por Confesso que a primeira vez que eu a vi, aquele ser o restaurante mais próximo do Lívia não me despertou a mínima atenção. trabalho, tornei-me seu habitué e, pouco a Mal a notei, diluída naquele vai e vem de pouco, fui reparando na beleza rústica de gente transitando dentro do restaurante de Lívia. Tinha o meu amor o rosto redondo, comida a quilo da sua família. Na verdade, sardentinho, decorado com dois olhos cha- eu estava faminto e os predicados do sexo mativos, nunca soube ao certo serem verdes feminino me interessavam menos do que um ou azuis, e um cabelo cacheado, ruivo e há suculento prato de comida, baratinha, como tempos longe de um cabeleireiro. Seu cor- mostrava o cartaz do lado de fora do estabe- po era de uma leve obesidade disfarçada lecimento. por uma coleção de calças jeans que mo- Ela era a encarregada de servir as bebidas delavam sensualmente os quadris. O busto, do restaurante. Ficava de um lado para o farto, se escondia atrás das camisetas t-shirt outro zanzando com uma bandeja apinhada de algodão em cores e estampas berrantes. 38 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    A ­ parentava poucomais de 18 anos e uma mal tirou os olhos das contas que fazia numa enorme vontade em largar a escravidão fami- calculadora. As palavras jorraram da mi- liar a que era submetida. nha boca descontroladas: “Bem, já faz algum No final de uma semana eu já era um ho- tempo que almoço neste estabelecimento e mem apaixonado. Contudo, nossa aproxima- só tenho elogios à comida aqui servida, mas, ção foi lenta e gradual. Trocávamos parcas não é disso que desejo falar com vocês. É palavras e fartos sorrisos maliciosos sempre sobre Lívia. Sei que pode parecer estranho, que Lívia vinha servir-me o refrigerante. mal nos conhecemos, mas, o amor tem dessas Certa vez, fui até audacioso e toquei de leve coisas. Sou um sujeito decente, respeitador sua mão, enquanto ela depositava o copo so- e minhas intenções com a menina são as bre a mesa. Lívia assentiu ao toque, contudo, melhores possíveis. Preferi falar com os dois não deixei de notar que ela procurou com antes até do que com ela que, desculpem o os olhos certificar-se de que nem a mãe e o modo de me expressar, já tem correspondido irmão haviam reparado em minha ousadia. a minha paixão. Gostaria de pedir permissão a vocês para...” No dia seguinte à cena, ela disfarçada- mente deixou em minha mesa um pedaço de Nunca imaginei que o botafoguense folha de caderno onde estava escrito “eu te guardasse uma arma atrás do balcão. Ali- amo” em garranchos quase infantis. A singela ás, deveria sim ter imaginado, pois a cidade frase vinha acompanhada de dois corações andava muito perigosa naqueles tempos. Só entrelaçados mal desenhados. Feliz como um não poderia supor que o sujeito era o ma- adolescente correspondido, guardei no bolso rido de Lívia e aquela senhora tratava-se na o recado ao mesmo tempo em que acompa- verdade da sogra da moça. Mas como é que nhei com os olhos Lívia sumir em direção à eu iria saber? Os três eram tão parecidos. O cozinha do restaurante. Decidi que não pas- cara nem me deixou explicar o lamentável saria daquele dia mas, homem feito que era, engano. Os tiros foram mortais. Nem cheguei desejei que as coisas fossem feitas às claras. a experimentar sofrimento. Descobri que se Não estava em idade de namoros escondidos. perde a consciência quase que imediatamen- te com várias balas alojadas no seu cérebro. Resolução tomada, deixei a mesa onde Agora estou aqui, neste purgatório, esperando costumeiramente almoçava e fui ao en- a minha triagem para a morada final. Você contro do irmão de Lívia. Ele parecia mais ainda vai demorar muito a decidir, meu caro? trombudo do que seu estado normal. A mãe Veja bem. Fui um sujeito honesto, cumpridor encontrava-se a seu lado na caixa registrado- dos meus deveres, bom cidadão. Apenas tra- ra, certamente conferiam a féria do dia e não ído por uma paixão arrebatadora, não sabia gostariam de ser incomodados, porém, eu que Lívia era casada. Também, ela poderia tinha que falar com os dois acerca dos meus ter me dito, não é verdade? O senhor é um propósitos com a moça, como eu havia dito, anjo? É o responsável por este local? Amar a desejava agir da maneira correta. mulher errada não é um pecado que justi- A senhora me recebeu munida de um sor- fique minha passagem para o inferno, não é riso amável, pois já se acostumara com a mi- verdade? Poderia, por gentileza, avaliar com nha presença no restaurante. O botafoguense simpatia a minha situação? Zulmar Lopes Carioca, jornalista, contista e aspirante a romancista, Zulmar Lopes tem diversos prêmios literários com destaque para as menções honrosas no 11º Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães, 7º Concurso de Contos Luis Jardim e 23º Concurso de Contos Cidade de Araçatuba. Vencedor do 33º Concurso Literário Felippe D’Oliveira na modalidade conto. Membro correspon- dente da Academia Cachoeirense de Letras (ACL). Roteirista do curta de animação “Chapeuzinho Adolescente”. Em 2011 lançou o livro de contos “O Cheiro da Carne Queimada”. http://samizdat.oficinaeditora.com 39
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    Contos Doa-se um helicóptero. Tratar aqui. Leandro Luiz http://www.flickr.com/photos/hamsteren/2714583070/ Doei minha casa, meu carro, meu iate, a para dormir. Tive que lutar contra tudo e pousada do interior e a minha coleção de se- contra todos e, para piorar a situação, en- los raros por uma boa causa, ou melhor, para frentando uma série crise pela falta de caviar realizar um sonho: eu queria ser pobre. Olha, toda manhã. foi um investimento a curto prazo que deu Mas valeu a pena. Hoje estou realizado e muito certo, de dar inveja a qualquer econo- cheguei onde queria. Sou pobre e confesso mista de plantão. que, para chegar até aqui, foi um grande de- Desde a minha infância, não aguentava a safio. Duvida? Então, escuta essa: têm muitos vida que levava. Piscina, spa toda quinta-feira, por aí que fazem mil promessas se ficarem polo com o Clube dos Investidores de Petró- milionários. Dizem que vão fazer isso, com- leo, ah não, cansei. A minha vida era muito prar aquilo, largar o emprego, viajar e mais chata, sempre regada a vinhos importados e um monte de blá-blá-blá. Agora, confesse: queijos caros. Troquei a escolta armada pela você já viu alguém fazendo promessas caso liberdade, o condomínio de luxo por uma fique pobre? Tá vendo? Eu estou no per- modesta moradia e os restaurantes chiques, rengue e já tenho os meus projetos para o ou chiquérrimo, como diz a minha tia-avó, futuro. pelo delicioso churrasco grego do centro. Quero apenas ser feliz. Vou seguir a vida Com o suco grátis, diga-se de passagem. cheio de alegria, cantando e, entre um cha- Estou agora com amigos verdadeiros, par- ruto e outro, pedindo alguns trocados. Ué, ceiros para todas as ocasiões e “manos” (uma por que não? Afinal, eu podia tá comprando gíria que aprendi na pelada aqui do bairro, empresas, gastando fortunas em joias, mas que prometo saber o que significa) incríveis. estou aqui, na maior humildade, mano. Chega de polo aos sábados, leilão aos domingos, mocassim e roupa engomada até Leandro Luiz 29 anos, é redator publicitário e, nas horas vagas, adora escrever sobre tudo e todos. Entre os seus trabalhos literários, obteve três menções honrosas e, em 2011, foi destaque nacional no XVI Concurso Literário Internacional de Poesias, Contos e Crônicas com a crônica “Chega de Au-Au”. 40 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    Contos Rugasdo Tempo Juliano Ramos de Oliveira Saiu. A noite quente não lhe dava sossego, viajavam naquela hora. Reparou que um jovem mas ânsias de partir. Partiu. O ar inflou-lhe o muito próximo chorava em silêncio. Notando peito repleto de liberdade. Afastou-se da casa. o olhar do velho, o rapaz controlou-se e ex- Engraçado! Não voltaria. A certeza conduzia- plicou-se sem que lhe perguntasse: “Desculpe- http://www.flickr.com/photos/bcmom/98545348/ lhe os passos. Engraçado! Imaginara-se sempre me... minha esposa teve um parto difícil esta tomando esta atitude num momento de angús- noite... a criança se foi... a mãe também está tias, mágoas. Mas não. Encontrava-se brando, morrendo... me avisaram há pouco... e eu aqui, os filhos com filhos e famílias a mais para se preso nesta rodoviária. Não há ninguém para dedicarem. A esposa aposentada do professo- se pedir ajuda, este é o último ônibus para a rado exercido com triunfo. Dona Glória de minha cidade a tempo do enterro da criança e, geografia sentiria sua falta, todavia toda dor talvez, ver Maria viva... Entende minha aflição? ameniza-se no todo dia. Mesmo que saia pedindo... não há gente obas- Partiu. No bolso algum dinheiro e o cartão tante para juntar o dinheiro... da “previdência” faziam-se suficientes. Buscava – Espere! – o velho vasculhou na carteira; motivos para a fuga. Não há causas concretas? o dinheiro que trouxera não seria suficiente. Há? Acordara no meio da noite com o suor Resolveu. Entregou-lhe a passagem que com- que cobria-lhe o corpo. Levantou-se, observou prara. – Vá você! o sono da esposa na semiclaridade vinda da – Mas... senhor!?!? fenda da porta. Ainda amava o vestígio da bela mulher de outrora. Deixou o cômodo. Apron- – Pego o próximo, não importa se me atra- tou-se ligeiro. Fitou-se no espelho. Setenta e sar. Vá! Você tem mais pressa. Vá! dois anos, envelhecera: as rugas do tempo cra- O rapaz resplendeceu, apertou-lhe vigoro- vadas na face avançada, os fios brancos doma- samente a mão agradecendo-o e correu para o vam as têmporas... Seria a causa? As rugas do veículo. tempo? O velho pensou com saudade súbita na sua Sentou-se, a passagem no bolso. Para onde? vida de sempre, na família bem viva, criada, se- Não importava, escolhera um nome qualquer gura, na sua glória: Dona Glória de geografia... na placa da cabine da empresa... “O ônibus – Deus lhe abençoe! – disse o jovem da está atrasado”, disseram. O atraso do carro janela, acenando expansivamente. arrastou-se na madrugada semideserta da rodoviária. O sono grosso empurrou-o sobre o – Amém! – murmurou o velho apiedado banco convidativo, entregou-se... do jovem em quem as rugas da vida se faziam profundas e prematuras no tempo. Acordou. Leu no ônibus o nome da cidade- destino. Não o perdera. Olhou a volta. Poucos Juliano de Oliveira Ramos Nasceu em 1977 e vive na cidade de Avaré – SP – Brasil. Formado em Letras (Português/Inglês/ Espanhol), atua como professor efetivo na rede pública do estado de São Paulo em dois cargos. Além de educador, trabalha como ator e diretor teatral há mais de 10 anos, tendo atuado e diri- gido mais de 15 espetáculos. Escreve desde muito cedo. Portanto, além dos livros publicados pelo CLUBE DE AUTORES e AGBOOK, tem seus textos publicados em antologias e jornais literários de sua cidade natal e região. http://www.flickr.com/photos/simoom/11178416/ http://samizdat.oficinaeditora.com 41
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    Contos Minha vida, meu pesadelo SoniaRegina Rocha Rodrigues http://www.flickr.com/photos/jen_lipp/5185981815/ 42 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    Não adianta trancaras portas e as janelas. Se tira nove, poderia fazer melhor, se tira dez, O inimigo já se instalou. não fez mais do que sua obrigação. Como dizia Nietzsche: “Procuravas o fardo Se atleta, ao exibir orgulhoso o título de mais pesado e te encontraste a ti mesmo... campeão estadual, ouve da mãe o comentário: Não podes mais libertar-te de ti mesmo...”. Ah, ‘o campeão brasileiro, na sua idade, bateu o como eu bem compreendo as palavras de Za- recorde mundial e o campeão sul-americano é ratustra! Eu sempre soube, desde bem pequena, mais novo que você’. que o meu pior inimigo mora dentro de mim. Ela nunca aplaude, para não ‘estragar’ o Neste momento mesmo, pode estar à es- rebento. preita.... E eu me sinto tão desprotegida! Caso ganhe o ouro olímpico, a mãe afirma Escrevi na porta de meu quarto minha frase que ele está abaixo de suas possibilidades, que favorita de Edgar Allan Poe: “A desgraça é seu desempenho poderia ter sido melhor, pois variada. O infortúnio sobre a terra é multifor- ela, que o criou, sabe como ele é preguiçoso, me.” contentando-se com um resultado inferior a E não conheço infortúnio maior do que ser seu potencial. um personagem de Kafka, condenado, eu o sei, Quando a cumprimentam, ela recebe os a tornar-se um matricida. louros especificando quantas horas sacrificou- Ah! Como eu entendo Kafka! se acompanhando o herdeiro a treinos e com- petições, frisando o quão dedicada foi e ainda Todo filho único de mãe perfeccionista é, saboreando sua fatia no triunfo do filho. entende Kafka. Filho que trocaria todos os prêmios, troféus, Condenado sem culpa antes de qualquer diplomas e medalhas pelo único elogio que ela julgamento, o filho único de mãe perfeccio- nunca pronunciará. nista jamais conhecerá a metamorfose que o tornaria humano. E se um dia, ele, desesperado, pular no pescoço da mãe, apertando, estrangulando, sa- É execrado pelos colegas desde o berçário cudindo, confirmará ser um filho ingrato que por sua precocidade genial e seu vocabulário não reconhece o quanto ela faz por ele. corretíssimo. E eu sinto todos os dias estes impulsos Este menino ou menina aos quatro anos de agressivos. idade faz um rabisco à la Picasso usando cores como Matisse, em vão. Sua mãe torce o nariz: Fico atento, vigilante, como aconselha a ‘para sua idade, até que está bom...’ Bíblia, surpreendendo minuto a minuto os pensamentos furiosos do meu demônio inte- Aos sete, ele ou ela desenha usando pers- rior, intentando contra a vida da minha mãe. pectiva, planos de fundo e sombreado que Sonho que estou com a faca nas mãos, tinta obedece rigorosamente a posição da luz. Nem do sangue dela, e imagino inúmeras maneiras os pintores italianos anteriores a Da Vinci de assassiná-la. Acordo suando frio, sabendo coloriam tão bem, porém a mãe boceja com que, um dia, perderei a batalha, e o demônio enfado: ‘razoável’. guiará minha mão, que se tornará a mão de Em vão esta criança se aplica aos estudos. um criminoso. Sonia Regina Rocha Rodrigues nasceu em 1955 no Brasil, em Santos, cidade histórica, espremida entre o mar e a serra, de clima instável, onde todas as estações do ano podem ocorrer no mesmo dia, e ocorrem. A partir de 1993 começou a divulgar seus textos, em vários periódicos nacionais e informativos de gru- pos literários. Participou do grupo editorial Um Dedo de Prosa e é autora dos livros: os romances Rosa, A fantástica experiência de Carolina Helena, Viagem ao Canadá, Dias de Outono, Encontro com a Deusa; Uma casa no interior – infantil; Dias de Verão – contos e crônicas. Na internet, foi considerada uma das melhores prosadoras do site Blocos Online em 2004. página pessoal - http://alegriadeler.blogspot.com http://samizdat.oficinaeditora.com 43
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    Contos Marta e ogosto do tempo Fernanda Cristina de Paula Noite. O estacionamento muito escuro. *** http://www.flickr.com/photos/houseofmiao/6697695293/ Parou o carro e olhou-se pelo retrovisor. Estavam em pessoas nove no bar. Ela Ela esqueceu de pentear o cabelo. Mas não sorriu da piada que o Alexandre contou, fazia tanta diferença. O cabelo liso e pesado, mas virou delicadamente o rosto. Ao menos bagunçado desse jeito, ia parecer só char- sorria. me – ponderou. E olhando os próprios olhos orientais (irritados e sem maquiagem) mur- Por todo o tempo, escorregava casual- murou: charme de merda. mente os dedos pelo copo. E sorria, sempre suave. Seria justo tirar da boca aquele batom roxo (seu preferido), que passara às pressas. Estavam em nove pessoas, não consegui- Mas desistiu da ideia. ram mesa. Estavam amontoados ali, junto ao balcão. Ela, sentada na banqueta (sempre Subitamente, se apressou: jogou os óculos sorrindo, simpática e delicada) tinha uma e as chaves de casa de qualquer jeito dentro visão privilegiada de Marta, no meio da roda da bolsa e saiu com rapidez do carro. Char- de amigos. me de merda. Marta insegura, tapada e mal resolvida. Entrou no bar. 44 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    Marta que sepensava mulher interessante, a gravidez da Luana. Sorri suavemente nas só porque se fazia sexualmente liberal. A partes bonitas ou engraçadas da história: bartender era a Leila. Leila, A Estranha (co- sempre simpática em sua perfeita delicadeza chichou maldosamente pra Roberta). Nor- oriental. O cabelo bagunçado e os olhos des- malmente, tinha dó de Marta. Mas, nesse dia, cuidadamente (mas eternamente) pousados sentada junto ao balcão, afundada na meia no próprio copo. Se ficasse bêbada, pensa escuridão, Marta parecia lhe reluzir (esfu- consigo mesma, seria um desastre. Seus ziante em sua vulgaridade de mulher mo- dedos descem e sobem pelo copo: lentos de derna). Marta ao rir e conversar com todos reflexão. e alisar constantemente o cabelo (charme de Nunca fora amiga da Marta. Às vezes, pas- merda) reluzia de idiotice e falta de noção. sava horas escutando as lamúrias dela, via-a Passou com urgência a mão no próprio apenas uma ou três vezes a cada dois meses. cabelo bagunçado; ainda desejosa de arran- Alardeava a dó que tinha da Marta (a vaca car o batom. Sorria suave pra esconder seus insegura) para quem quisesse ouvir. bufos de impaciência. E desviava o rosto. Pega o guardanapo e, discretamente, tira Leila, sobrinha da prima de segundo grau do o batom da boca. Fora besteira ir ali. Não tio da cunhada do Edvaldo. Magrela e feia de suporta o próprio batom. Não tem força pra doer: Leila, sempre sorrindo, atenciosa. um sorriso genuíno. E Marta, inocente, reluz Queria tirar o batom. Escorregando os feito seu novo objeto de ódio na meia escu- dedos lentamente pelo copo, ponderou que ridão. se ficasse bêbada acabaria dando pro sujo Adriano começa uma piada de japonês, do Alexandre. E se ficasse bêbada acabaria percebe a gafe e faz um cumprimento orien- (totalmente absurda e etílica e cambaleante) tal para ela, à guisa de desculpa. Todos riem; levando Marta para algum canto. ela ri, faz sinal de que tudo bem, que ele Se ficasse bêbada, tinha certeza, acabaria podia continuar a piada. Sandra para a his- com a fala engrolada, tentando explicar cal- tória da gravidez da Luana pra ouvir a piada mamente à Marta: Que Porra Marta para de de Adriano. Ela sorri enquanto desvia sua- oferecer essa bunda pra todo mundo. Para, vemente o rosto. A Marta ri pra uns caras, Marta! Você ‘tá fazendo a droga toda erra- ri, se jogando, se oferecendo. E observando da. Não vê, Marta? Não vê? Caralho, Marta, Marta, ela fica brava ao ter a certeza de que você não vê? Nenhum deles (os que te come- acabará bêbada, gritando com Marta, dando ram ou não) te respeitam. Eles nem fingem, pro Alexandre. Os olhos ardem com a força Marta, nem fingem que te dão a porra d’uma de segurar um choro ridículo. Ela bebe um atenção. Para de oferecer essa bunda feia pra gole e sorri para ninguém. todo mundo! Mas que caralho, Marta! Não Leila, A Feia, prepara alguma bebida estra- vê? (a voz engrolada, os olhos dançando de nha. Leila percebe o olhar dela e oferece a bêbada). Você, pra eles, não é uma liberal, é bebida dizendo: só uma vagabunda fácil e suja com diploma de economista. Marta, eles são uns machistas — Essa é grátis. tapados e sujos. Marta? (com voz de bêbada Ela sorri, pega o copo. triste diria) Marta? Vai tomar no cu, Marta! — É feito do quê? Não vê?! Não vê?! (chacoalhando Marta pelo braço; Marta chorando; ela mesma choran- — Prova primeiro. do, bêbada, derrubando a vodka do copo na Mentalmente, ela xinga Leila e ri (não roupa; Alexandre mandando-a soltar Mar- queria a porra da droga de bebida nenhuma). ta; Alexandre querendo levá-la embora pra Toma a tal da bebida. Engasga, tosse, cospe. comê-la, ela também como Marta: vagabun- Põe raiva na voz ao reclamar: da, fácil e suja). — É amargo. Ela sorri da terceira piada que Luciano Leila sempre-feia-simpática responde cal- conta. Pondera internamente que não deve mamente: ficar bêbada. Ao mesmo tempo, escuta (per- feitamente atenciosa) Sandra contar sobre — Feito teu tempo. http://samizdat.oficinaeditora.com 45
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    Tradução http://www.flickr.com/photos/biggreymare/5513025399/ Horacio Quiroga trad.: Henry Alfred Bugalho A Galinha Degolada 46 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    Todo o dia,sentados no pátio em um não conhecia mais seus pais. O médico o banco, estavam os quatro filhos idiotas do examinou com esta atenção profissional casal Mazzini-Ferraz. Tinham a língua en- que está visivelmente buscando as causas tre os lábios, os olhos estúpidos e viravam do mal nas enfermidades dos pais. a cabeça com a boca aberta. Depois de alguns dias, os membros O pátio era de terra, fechado a oeste por paralisados recobraram o movimento; mas um muro de tijolos. O banco ficava parale- a inteligência, a alma, até o instinto, se lo a ele, a cinco metros, e ali eles se man- haviam ido de todo; havia ficado profunda- tinham imóveis, fixos os olhos nos tijolos. mente idiota, baboso, suspenso, morto para Como o sol se ocultava atrás do muro, ao sempre sobre os joelhos de sua mãe. declinar os idiotas faziam festa. A luz que — Filho, meu filho querido! — soluçava cegava chamava a atenção deles, a princí- esta sobre aquela espantosa ruína de seu pio, pouco a pouco seus olhos se anima- primogênito. vam; riam-se, por fim, estrepitosamente, congestionados pela mesma hilariância O pai, desolado, acompanhou o médico ansiosa, olhando o sol com alegria bestial, até afora. como se fosse comida.   — A você se pode dizê-lo: creio ser um Outras vezes, alinhados no banco, zum- caso perdido. Poderá melhorar, educar-se biam por horas inteiras, imitando o bonde em tudo que lhe permita seu idiotismo, elétrico. Os ruídos fortes sacudiam assim mas nada mais além. a inércia deles, e então corriam, morden- — Sim! Sim! — assentia Mazzini — Mas, do a língua e mugindo ao redor do pátio. diga-me: o senhor acredita que é herdado, Mas quase sempre ficavam apagados numa que...? sombria letargia de idiotismo, e passavam — Quanto a herança paterna, já lhe todo o dia sentados em seu banco, com as disse o que acredito quando vi seu filho. A pernas suspensas e quietas, empapando de respeito da mãe, há ali um pulmão que não glutinosa saliva a calça. sopra bem. Não vejo nada mais, mas há um O maior tinha doze anos e o menor, oito. sopro um pouco áspero. Faça-a examinar Em todo o aspecto sujo e desvalido deles, detidamente. notava-se a falta absoluta de um pouco de Com a alma destroçada pelo remorso, cuidado maternal. Mazzini redobrou o amor por seu filho, o No entanto, estes quatro idiotas haviam pequeno idiota que pagava os excessos do sido um dia o encanto de seus pais. Aos avô. Teve ainda que consolar, apoiar sem três meses de casados, Mazzini e Berta trégua Berta, ferida profundamente por orientaram seu estreito amor de marido e aquele fracasso de sua jovem maternidade. mulher, e mulher e marido, para um por- Como é natural, o casal pôs todo seu vir muito mais vital: um filho. Que maior amor na esperança de outro filho. Nasceu benção para dois enamorados do que esta este, e sua saúde e limpidez de riso reacen- honrada consagração de seu carinho, li- deram o porvir extinto. Mas aos dezoito bertado agora do vil egoísmo de um amor meses, as convulsões do primogênito se re- mútuo sem finalidade alguma e, o que é petiram, e no dia seguinte, o segundo filho pior do que o amor mesmo, sem esperan- amanhecia idiota. ças possíveis de renovação? Desta vez, os pais caíram em profundo Assim o sentiram Mazzini e Berta, e desespero. Portanto seu sangue, seu amor quando o filho chegou, aos quatorze meses estavam malditos! Seu amor, sobretudo! de matrimônio, acreditaram cumprida a Vinte e oito anos ele, vinte e dois ela, e felicidade. A criatura cresceu bela e radian- toda sua apaixonada ternura não conseguia te, até que completou um ano e meio. Mas, criar um átomo de vida normal. Já não no vigésimo mês, sacudiram-no uma noite pediam mais beleza e inteligência como convulsões terríveis, e na manhã seguinte http://samizdat.oficinaeditora.com 47
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    para o primogênito,mas um filho, um filho Berta continuou lendo como se não hou- como todos! vesse ouvido. Do novo desastre brotaram novas labare- — É a primeira vez — retrucou depois das do dolorido amor, uma louca ânsia de de um tempo — que vejo você inquietar-se redimir de uma vez para sempre a santida- pelo estado de seus filhos. de de sua ternura. Sobrevieram gêmeos, e Mazzini voltou um pouco o rosto para ponto por ponto repetiu-se o processo dos ela com um sorriso forçado: dois maiores. — De nossos filhos, parece-me? Mas, por sobre sua imensa amargura havia em Mazzini e Berta uma grande — Bem, de nossos filhos. Prefere assim? compaixão por seus quatro filhos. Tiveram — ergueu ela os olhos. de arrancar do limbo da mais profunda Desta vez, Mazzini se expressou clara- animalidade, não mais suas almas, senão o mente: instinto mesmo, abolido. Não sabiam deglu- — Creio que não vai dizer que eu tenha tir, mudar de lugar, nem mesmo sentar- a culpa, não é? se. Aprenderam enfim a caminhar, mas chocavam-se contra tudo, por não se darem — Ah, não! — sorriu Berta, muito páli- conta dos obstáculos. Quando os lavavam, da — mas eu também não, suponho! Não mugiam até injetarem de sangue o rosto. faltava mais! — murmurou. Animavam-se apenas ao comer, ou quando — O que não faltava mais? viam cores brilhantes ou ouviam estrondos. — Que se alguém tem a culpa, não sou Riam-se, então, pondo para fora a língua eu, entenda-o bem! É o que eu queria lhe e rios de baba, radiantes de frenesi bestial. dizer. Tinham, em troca, certa faculdade imitati- va; mas não se podia obter nada mais. Seu marido a olhou por um momento, com brutal desejo de insultá-la. Com os gêmeos pareceu haverem con- cluído a aterradora descendência. Mas pas- — Deixe estar! — articulou, secando en- sados três anos desejaram de novo arden- fim as mãos. temente outro filho, confiando que o longo — Como quiser; mas se quer dizer.... tempo transcorrido houvesse aplacado a — Berta! fatalidade. — Como quiser! Não satisfaziam suas esperanças. E neste ardente anseio que se exasperava em razão Este foi o primeiro choque e se sucede- de sua infrutuosidade, azedaram. Até este ram outros. Mas nas inevitáveis reconcilia- momento cada qual havia tomado sobre ções, suas almas se uniam com redobrado si a parte que lhe correspondia na des- arrebatamento e loucura por outro filho. graça de seus filhos; mas a desesperança Nasceu assim uma menina. Viveram dois de redenção perante as quatro bestas que anos com a angústia à flor da pele, espe- haviam nascido deles pôs para fora esta rando sempre outro desastre. Nada ocorreu, imperiosa necessidade de culpar os outros, no entanto, e os pais puseram nela toda sua que é patrimônio específico dos corações complacência, que a pequena os levava aos inferiores. mais extremos limites do mimo e da má Iniciaram com a mudança de pronome: criação. seus filhos. E como além do insulto havia a Se nos últimos tempos Berta ainda insídia, a atmosfera se carregava. cuidava de seus filhos, ao nascer Bertita se — Parece-me — disse-lhe uma noite esqueceu quase de todo dos outros. Só a Mazzini, que acabava de entrar e lavava as recordação deles a horrorizava, como algo mãos — que podia manter mais limpos os atroz que a houvessem obrigado a cometer. meninos. Com Mazzini, se bem que em menor grau, 48 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    passava o mesmo.Nem por isto a paz havia — Enfim! — murmurou apertando os chegado a suas almas. A menor indisposi- dentes — Enfim, víbora, disse o que queria! ção de sua filha os tirava agora de si, com — Sim, víbora, sim! Mas eu tive pais sau- o terror de perdê-la, os rancores de sua dáveis, ouça, saudáveis! Meu pai não mor- descendência podre. Haviam acumulado fel reu de delírio! Eu teria tido filhos como os de sobra para que, ao menor contato, o ve- de todo o mundo! Estes são filhos seus, seus neno se vertesse para fora do copo. Desde os quatro! o primeiro desgosto envenenado haviam-se perdido o respeito; e se há algo a que o ho- Mazzini explodiu, por sua vez. mem se sente arrastado com cruel fruição — Víbora tísica! Foi isto o que eu lhe é, quando já se começou, a humilhar de disse, o que quero lhe dizer! Pergunte, per- todo uma outra pessoa. Antes, continham- gunte ao médico quem tem a maior culpa se pela mútua falta de êxito; agora que este da meningite de seus filhos: meu pai ou o havia chegado, cada qual, atribuindo-o a si seu pulmão furado, víbora! mesmo, sentia maior a infâmia dos outros Continuaram cada vez com maior vio- quatro engendros que o outro lhe havia lência, até que um gemido de Bertita selou forçado a criar. instantaneamente suas bocas. À uma da Com estes sentimentos, não houve mais manhã a ligeira indigestão havia desapare- aos quatro filhos mais velhos afeto possí- cido, e como ocorre fatalmente com todos vel. A empregada os vestia, dava-lhes de os casais jovens que se hão amado inten- comer, punha-os para dormir, com visível samente uma vez sequer, a reconciliação brutalidade. Quase nunca os lavava. Passa- chegou, tanto mais efusiva quanto infames vam todo o dia sentados diante do muro, foram os agravos. abandonados de toda remota carícia. Deste Amanheceu um esplêndido dia, e en- modo, Bertita cumpriu quatro anos, e nesta quanto Berta se levantava cuspiu sangue. noite, resultado das guloseimas que aos pais As emoções e a má noite passada tinham, era impossível lhe negar, a criatura teve sem dúvida, grande culpa. Mazzini a reteve alguns calafrios e febre. E o temor de vê-la abraçada por um longo tempo, e ela chorou morrer ou ficar idiota, tornou a reabrir a desesperadamente, mas sem que ninguém eterna chaga. se atrevesse a dizer uma palavra. Fazia três horas que não falavam, e o Às dez decidiram sair, depois de almo- motivo foi, como quase sempre, os fortes çar. Como ainda tinham tempo, ordenaram passos de Mazzini. a empregada que matasse uma galinha. — Meu Deus! Não pode caminhar mais O dia radiante havia arrancado os idio- devagar? Quantas vezes...? tas de seu banco. De modo que, enquanto a — Bom, é que me esqueço; acabou! Não empregada degolava na cozinha o animal, o faço de propósito. sangrando-o com parcimônia (Berta havia Ela sorriu, desdenhosa: — Não, não creio aprendido com sua mãe este bom modo tanto em você! de conservar a frescura da carne), acredi- tou ouvir algo como respiração atrás dela. — Nem eu jamais havia acreditado tanto Voltou-se e viu os quatro idiotas, com os em você... tísica! ombros colados uns nos outros, olhando — Quê! Que disse? estupefatos a operação... Vermelho... Verme- — Nada! lho... — Sim, eu ouvi algo! Olhe: não sei o que — Senhora! Os meninos estão aqui, na você disse; mas lhe juro que prefiro qual- cozinha. quer coisa a ter um pai como o que você Berta chegou; não queria que jamais teve! pisassem ali. E nem mesmo nestas horas Mazzini ficou pálido. de pleno perdão, esquecimento e felicidade http://samizdat.oficinaeditora.com 49
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    reconquistada, podia evitaresta horrível — Soltem-me! Deixem-me! — gritou sacu- visão! Porque, naturalmente, quanto mais dindo a perna. Mas foi puxada. intensos eram os arroubos de amor a seu — Mamãe! Ai, mamãe! Mamãe, papai! marido e filha, mas irritado era seu humor — chorou imperiosamente. Tentou ainda com os monstros. segurar-se à borda, mas foi arrancada e — Que saiam, Maria! Tire-os! Tire-os, eu caiu. lhe digo! — Mamãe, ai! Ma... — não pôde gritar As quatro pobres bestas, sacudidas, mais. Um deles lhe apertou o pescoço, brutalmente empurradas, foram dar a seu apartando os cabelo como se fossem plu- banco. mas, e os outros a arrastaram por uma só Depois de almoçar, saíram todos. A perna até a cozinha, onde essa manhã se empregada foi a Buenos Aires e o casal a havia sangrado a galinha, bem presa, arran- passear pelas quintas. Ao baixar o sol volta- cando-lhe a vida segundo por segundo. ram; mas Berta quis saudar por um mo- Mazzini, na casa em frente, pensou ouvir mento as suas vizinhas da frente. Sua filha a voz de sua filha. escapou-se em seguida para casa. — Me parece que a chama — ele disse a Entretanto, os idiotas não haviam se Berta. movido durante todo o dia de seu banco. Prestaram atenção, inquietos, mas não O sol havia transposto já o muro, começa- ouviram mais. Contudo, um momento va a baixar, e eles continuavam olhando os depois se despediram, e enquanto Berta ia tijolos, mais inertes do que nunca. tirar seu chapéu, Mazzini avançou para o De súbito, algo se interpôs entre seus pátio. olhares e o muro. Sua irmã, cansada de — Bertita! cinco horas paternais, queria observar por sua conta. Parada ao pé do muro, mirava Ninguém respondeu. pensativa o topo. Queria trepar, disto não — Bertita! — ergueu mais a voz, já altera- havia dúvida. Por fim, decidiu-se por uma da. cadeira sem fundo, mas ainda não alcança- E o silêncio foi tão fúnebre para seu co- va. Recorreu então a um galão de querose- ração sempre amedrontado, que subiu um ne, e seu instinto topográfico fez-lhe colo- calafrio pela espinha por causa do horrível cá-lo verticalmente, com o qual triunfou. pressentimento. Os quatro idiotas, o olhar indiferente, — Minha filha, minha filha! — correu já viram como sua irmã conseguia pacien- desesperado para o fundo. Mas ao passar temente dominar o equilíbrio, e como em frente à cozinha viu no chão um mar de pontas de pé apoiava a garganta sobre o sangue. Empurrou violentamente a porta topo do muro, entre suas mãos tensas. encostada e lançou um grito de horror. Viram-na olhar para todos os lados, e bus- car apoio com o pé para subir mais. Berta, que já se havia lançado correndo por sua vez ao ouvir o angustiado chamado Mas o olhar dos idiotas havia se anima- do pai, escutou o grito e respondeu com do; uma mesma luz insistente estava fixa outro. Mas ao precipitar-se para a cozinha, em suas pupilas. Não apartavam os olhos Mazzini, lívido como a morte, se interpôs, de sua irmã enquanto crescente sensação contendo-a: de gula bestial ia mudando cada linha de seus rostos. Lentamente avançaram até o — Não entre! Não entre! muro. A pequena, que tendo conseguido Berta chegou a ver o piso inundado de apoiar o pé, ia já montar e cair para o ou- sangue. Apenas pôde levar os braços sobre tro lado, seguramente, sentiu-se pega pela a cabeça e cair sobre ele com um rouco perna. Debaixo dela, os oito olhos cravados suspiro. nos seus lhe deram medo. 50 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    Tradução Decálogo do perfeito contista Horacio Quiroga trad.: Henry Alfred Bugalho I Creia em um mestre — Poe, Maupassant, Kipling, Tchekov — como em Deus mesmo.   II Creia que sua arte é um cume inacessível. Não sonhe em domá-la. Quando puder fazê-lo, você o conseguirá sem mesmo sabê-lo.   III Resista o quanto puder à imitação, mas imite se o influxo for ­orte f demais. Mais do que qualquer outra coisa, o desenvolvimento da p ­ ersonalidade é uma grande paciência. http://www.flickr.com/photos/27805557@N08/4959155096/   IV Tenha fé cega não em sua capacidade para o triunfo, senão no ­ rdor com que o deseja. Ame a sua arte como à sua namorada, a d ­ ando-lhe todo seu coração.   V Não comece a escrever sem saber desde a primeira palavra aonde vai. Em um conto bem realizado, as três primeiras linhas têm quase a importância das três últimas.   http://samizdat.oficinaeditora.com 51
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    VI Sequer expressar com exatidão esta circunstância: “Do rio sopra- va o vento frio”, não há em língua humana mais palavras do que as apontadas para expressá-la. Uma vez dono de suas palavras, não se preocupe em observar se são consoantes ou assonantes entre si.   VII Não adjetive sem necessidade. Inúteis serão quantas notas de cor adicionar a um substantivo débil. Se achar aquele que é necessário, apenas ele terá uma cor incomparável. Mas tem de achá-lo.   VIII Tome seus personagens pela mão e conduza-os firmemente até o final, sem ver outra coisa além do caminho que lhes traçou. Não se distraia vendo o que eles podem ou não lhes importa ver. Não abuse do leitor. Um conto é um romance depurado de cascalho. Tenha isto como uma verdade absoluta, mesmo que não seja.   IX http://www.flickr.com/photos/27805557@N08/4959155096/ Não escreva sob o império da emoção. Deixe-a morrer, e evoque- a depois. Se for capaz então de revivê-la tal qual foi, terá chegado à metade do caminho na arte.   X Não pense em seus amigos ao escrever, nem na impressão que causará sua história. Conte como se seu relato não tivesse mais im- portância do que para o pequeno ambiente de seus personagens, dos quais você poderia ter sido um. De nenhum outro modo se obtém a vida do conto. 52 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    Horacio Quiroga Horacio Silvestre Q ­ uiroga Forteza (Salto, 31 de dezembro de 1879 — Buenos Aires, 31 de dezem- bro de 1937) foi um escritor uruguaio famoso por seus contos, que geralmente tratavam de eventos fantás- ticos e macabros na linha de Edgar Allan Poe e de temas relacionados à selva, sobre- tudo da região de Misiones, na Argentina, onde Quiroga passou parte da vida. Sua obra mais famosa são os Cuentos de amor de locura y de muerte (1917; título sem vírgula no origi- nal), na qual se encontra o célebre conto A Galinha Degolada. Em 1937, após ter sido diagnosticado com câncer, Quiroga cometeu suicídio, ingerindo uma dose letal de cianureto. http://samizdat.oficinaeditora.com 53
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    Teoria Literária O queninguém lhe dirá numa oficina literária – parte 1 A Criação Henry Alfred Bugalho http://uploads1.wikipaintings.org/images/gustave-moreau/hesiod-and-the-muses-1860.jpg 54 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    A escrita nãotem nada a ver com qual você tanto tem orgulho não será lido talento e inspiração. Uma carreira por ninguém. Então, você, muito teimoso, literária se faz de labor e persistência. continuará escrevendo, pois é o seu traba- lho e o que lhe dá felicidade. É célebre a frase de Albert Einstein que diz que “O trabalho é 1% inspiração e 99% transpiração”, e não poderia ser mais Escrever bem é facil. Criar uma boa verdadeira. história é fácil. O difícil é escrever bem A inspiração é a origem da trama, de uma boa história. quem são os personagens, o tema de um Não existe segredo algum para escrever. poema ou a ideia para uma crônica. Todo Existem normas ortográficas e gramaticais, o resto, a materialidade da escrita, é puro basta um pouco de estudo para dominá-las trabalho. quase completamente. É trabalho a leitura de outros escrito- Já as histórias estão por aí, ao nosso res. É trabalho o aprendizado da escrita. redor, ocorrendo no mundo inteiro o tem- É trabalho sentar-se diante da página em po todo. Leia os jornais e a quantidade de branco e enchê-la de palavras na esperan- desgraças e histórias interessantes a cada ça que alguém, em algum lugar do mundo dia. Veja os grandes livros da História e em algum tempo, detenha-se para lê-las. perceba quantas histórias boas já foram Após o vislumbre inicial, a grande ideia, escritas. Relembre sua própria vida, o que nada mais resta senão o intenso trabalho você viveu e ouviu, e perceberá que muito de escrita, reescrita, revisão, reescrita, edi- já aconteceu. ção, revisão, reescrita... É um labor intermi- O problema começa quando se tem de nável, que tomará meses ou anos, às vezes juntar uma boa história com uma boa para uma única obra. escrita. Uma narrativa eficiente é um equi- É neste ponto que entra a persistência, líbrio entre o que é contado e como isto é pois os resultados da escrita são lentos e contado. Idealmente, o estilo e as palavras geralmente insatisfatórios. não deveriam ofuscar o que está aconte- Levará anos para se obter alguma espé- cendo na história. cie de reconhecimento, e muitos mais anos Uma escrita muito rebuscada pode dis- para ganhar alguns trocados com o que se trair o leitor. Uma escrita muito simplória escreve. O tempo e esforço investido serão pode afastar o leitor. muito maiores do que qualquer retorno Uma história desinteressante é do tipo possível. As horas gastas trabalhando sobre que dá sono. Uma história abarrotada de o texto se depararão com críticas ácidas e, reviravoltas pode soar inverossímil. na maioria das situações, com indiferença. Onde está o equilíbrio entre estilo e Muitas vezes, aquele texto brilhante do enredo? página oposta: Hesíodo e as Musas, de Gustave Isto é o que todos os escritores do M ­ oreau. O mito clássico da inspiração artística. http://samizdat.oficinaeditora.com 55
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    m ­ undo estãotentando descobrir. Gêneros literários podem estar presentes nos mais diversos meios de comunicação. No entanto, os meios de comunicação Ser escritor é tentar convencer os também possuem linguagens específicas. demais que suas obras são originais e Ser um bom jornalista não significa que o criativas, mesmo que não sejam. sujeito será um bom romancista, do mes- mo modo que ser um blogueiro de sucesso Pense numa história... Imagine um per- não o tornará um bom contista ou poeta. sonagem... Conceba uma ambientação... Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Agora, tenha certeza que alguém, em al- E o mesmo vale no interior dos próprios gum lugar do planeta, em algum momento gêneros literários. Ser um contista não o da história da humanidade, já escreveu esta tornará um bom romancista, são estruturas mesma história, com este mesmo perso- literárias diferentes com exigências dis- nagem nesta mesma ambientação. E pior! tintas. Entre prosa e poesia há um imenso Provavelmente melhor do que você. abismo, que a maioria dos escritores não Desanimador, não? consegue transpor com competência. Primeiro, porque o repertório de histó- Isto não quer dizer que você não deva se rias e enredo é limitado. Segundo, porque arriscar, mas esteja preparado. Ser bom em todo o mundo pensa que existe um escri- um gênero, ou em uma mídia, não quer di- tor dentro de si. Por fim, somos humanos, e zer que você terá competência nos demais. as histórias que contamos, via de regra, se espelham no mundo em que vivemos, que é o mesmo de outros bilhões de pessoas. Você aprenderá muito mais com as críticas do que com os elogios. Então, a sua tarefa de escritor, além de escrever sua obra da melhor maneira pos- Todo jovem escritor precisa de elogios sível, é também de convencer os demais de como uma flor necessita de sol e água. No que ninguém mais poderia tê-la escrito. E começo, qualquer estímulo, por mais par- isto não é fácil! cial e vago que seja, já é um enorme incen- tivo para escrevermos as próximas linhas. No entanto, elogios não tornarão sua es- Romance é romance, conto é conto, crita melhor. Elogios lhe darão a ilusão que poesia é poesia, blog é blog. Se você tudo está ótimo e que não há mais necessi- é bom escrevendo um, não quer dade de se aperfeiçoar. dizer que você também será bom escrevendo os outros. A escrita é uma estrada sem fim, você nunca terá descanso e nunca chegará ao Romance, conto e poesia são gêneros destino. E você só saberá se pegou a rota literários. Jornais, livros, revistas, TV rádio , errada quando alguém lhe enfiar o dedo e blogs são meios de comunicação. na cara e for sincero com você. 56 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    Algumas críticas serãopuramente des- milhares de personagens, com páginas em trutivas, geralmente de pessoas que têm branco, sem enredo, e assim por diante. inveja de você. Todavia, haverá aquelas crí- Escreva, se você gosta disto, se lhe dá ticas tão pertinentes, que poderão transfor- prazer! É o tipo de livros que você lê, ou mar sua carreira. Algumas críticas atingem só está fazendo isto para impressionar os tanto o nervo que, todas as vezes que você outros, mostrar como você é brilhante ou sentar-se para escrever, elas estarão na sua genial? mente, protegendo-o de certos equívocos, Se for para escrever uma obra que de clichês ou de atalhos equivocados. ninguém lerá, que seja, pelo menos, pelos Ter um bom crítico por perto é a me- motivos certos... lhor companhia de um escritor. Mas lembre-se que os leitores são pes- soas normais, que assistem novela das oito, Escolha entre ser lido ou ser admirado. gostam dos filmes de Spielberg, ouvem for- Obras de vanguarda, densas, ró universitário e quase nunca vão a mu- inovadoras e rebuscadas até podem seus. Aliás, muitos dos leitores nem gostam chegar a ser admiradas, mas quase muito de ler... ninguém as lerá. O que os leitores A maioria deles deseja apenas uma gostam é de histórias com começo, história com começo, meio e fim, com meio e fim, personagens planos, nada personagens simples e com motivações mais que um entretenimento para ler claras. “De que adianta ler um livro se eu no avião ou na privada. não posso contar a história para alguém depois?”, muitos devem pensar. Todos nós já quisemos revolucionar Quanto mais complexa e alternativa for a Literatura, ser considerados gênios ou sua escrita, menor será o seu público. trazer a paz ao mundo através de nossos li- vros. Você pode tentar, mas é quase certe- Você terá de escolher: quer ser lido ou za que isto não ocorrerá. admirado? E todos nós temos um modernista den- São raríssimos os casos de escritores li- tro da gente – aquele escritor que não está dos por públicos imensos e admirados pela nem aí para os leitores, que deseja escrever crítica. Ou você vende muito, ou é lido nas romances sem parágrafos, sem pontuação, universidades. Nem sempre se pode ter com páginas de cabeça para baixo, narrati- tudo na vida. vas não lineares, sem personagens, ou com Henry Alfred Bugalho Formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Litera- tura e História. Autor de “O Canto do Peregrino” (Editora Com-Arte/USP), de outros quatro romances e de duas coletâneas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e fun- dador da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia Nova York para Mãos-de- Vaca”, cidade na qual morou por 4 anos. Está baseado, atualmente, em Buenos Aires, com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha. http://samizdat.oficinaeditora.com 57
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    Teoria Literária CASTILLO E MODERN: DOIS POETAS ARGENTINOS Elias Antunes Quando se pensa na literatura argentina, dissolve logo vêm a nossa mente os nomes de Jorge Luis o mundo Borges e de Ernesto Sábato, escritores de uma importância monumental para a Literatura, en- em puro tretanto esquecemos que existem outros escri- pranto. tores e poetas excelentes nas letras argentinas. Prova disso está nas figuras de Horacio Rodolfo Modern tornou-se ao longo do tem- Castillo e Rodolfo Modern, ambos eminentes po um poeta refinado, lembrando os clássicos, poetas e tradutores renomados, com diversos utilizando uma linguagem concisa, como um livros publicados, mas, infelizmente, pouco bloco, ou monólito que em cada poema traz a conhecidos fora do rincão argentino, ao menos marca da emoção e da inteligência. no Brasil. Seus poemas são curtos, porém de grande Rodolfo Modern consiste em ser um poeta densidade poética e não é por acaso que con- conciso, adepto do poema sintético, que conse- seguiu levantar importantes prêmios nesse país gue expressar uma gama enorme de sentidos excepcional que é a Argentina. em poucos versos, como no poema em que Nascido em 1922, em Buenos Aires, doutor presta homenagem a Paul Celan, poeta judeu http://minisdelcuento.files.wordpress.com/2011/10/rodolfomodern.jpg?w=549 de expressão alemã: RESPOSTA A PAUL CELAN Para quê palavras quando a pele está aberta ao coração o agita um vento des- acorrentado e o peso da voz 58 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    em Direito eCiências Sociais e em Filosofia Nuca deserta, láudano trágico, até a faca e Letras; foi professor de Literatura Alemã na Descamado, desossado, e o olho – vesgo – Universidade Nacional de La Plata e Buenos Ai- res; tradutor de vários autores de língua alemã, Extraviado na mais completa lassidão. como: Hermann Hesse, Rilke, Paul Celan, entre A alma, a alma, diz vomitando as vísceras. outros. Seu campo de atuação é vasto como sua A alma, respondeu pisando a roda de seu cultura e carrega a força da tradição, sem se vestido descuidar da modernidade. De noiva e correndo até o sumidouro Horacio Castillo, por sua vez, também con- Meca de gatos exercendo também seus quistou prêmios importantes. Tradutor de po- direitos. etas gregos, como Odysseus Elytis, nasceu em 1934, em Ensenada, província de Buenos Aires. Advogado emérito, concebe uma poesia viva e TERCEIRO GALO vibrante, cheia da força da língua espanhola. Graça abundante, atoleiro do orvalho, Alguns de seus poemas são construídos à base de questionamentos e tendem a apresentar o Martírio na corredeira do jamais, olhar do poeta que capta o mundo de uma Todos ao funeral, todos ao funeral, forma diferente, mais humana, mais consciente Às cegas frente à espreita do aguilhão. das leis da natureza, do que há de feérico e misterioso no universo. Há também uma apro- Olá, chamariz do penacho rosa, ximação da religiosidade, como no poema: Nó cerrando-se com o peso do iminente. E você, diamante ébrio, mito e natureza do DUELO À HORA EM QUE CANTA O pedernal. GALO PRIMEIRO GALO Ambos os poetas argentinos convocam-nos a O desejo fez sua obra, mas excedendo-se entrar em contato com poesias de alta qualida- de, abrindo-nos um universo de possibilidades. Promoveu a guerra santa da negação. Esse contato leva-nos a alargar nossas frontei- Estopa na boca, a alma sobre pregos, ras culturais e fugir dos padrões impostos por Tudo perdido antes da estrela matutina. uma dominação mercantilista, a mais das vezes de gosto duvidoso. E a matéria, um bem menor, híbrido, Precipitando-se na região das mães mudas. SEGUNDO GALO A aurora vem e venderão seus olhos, a em- purrões Tropeçando até as largas mesas de pescados, Elias Antunes Professor, escritor e servidor público. Autor de mais de uma dezena de livros. Ga- nhador de mais de 140 prêmios literários. Seu romance “Suposta biografia do poeta da morte” ganhou os prêmios Hugo de Carvalho Ramos (2008), Prêmio Jabuti de 2011 (finalista) e Prêmio Il Convívio, na Itália, 2011 (1º lugar). Contato: jeliasantunes@bol.com.br http://samizdat.oficinaeditora.com 59
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    Teoria Literária OGRANDE SERTÃO DE RIOBALDO Alessa Bertazzo http://www.revistacriterio.com.ar/bloginst/wp-content/uploads/2011/08/kovadloff-guimaraes20rosa204.jpg Alessa Bertazzo Formada em Letras e pós-graduada em Teoria Literária pela Uniandrade – PR, atua como professora particular e, poeta nas horas vagas, participando de diversos concursos literários pelo Brasil. Tem participações em algumas antolo- gias, frutos destes concursos, alguns e-books publicados na Internet, além do blog de Poesias: http://transversu.blogspost.com e página no Recanto das Letras (http:// www.recantodasletras.com.br/autores/alebertazzo). 60 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    Discorrer sobre GuimarãesRosa ou r ­ elato um tanto quanto “desorganizado”, Grande Sertão: Veredas, ou ainda sobre s ­ egundo ele. qualquer outra de suas obras é simples- Mas, uma vez vencida a barreira da mente “chover no molhado”. Praticamen- linguagem, o sertão se revela um lugar te tudo o que se podia dizer a respeito onde, para Riobaldo, “tudo é e não é”, da genialidade do autor já foi dito pela onde “viver é muito perigoso”. grande maioria dos críticos literários Aliás, já nas primeiras páginas, Rio- brasileiros e até mesmo internacionais. baldo previne o leitor de que “o sertão é Entretanto, as várias leituras que suas onde manda quem é forte, com as astú- obras permitem parece não se esgota- cias” e que “Deus mesmo, quando vier, rem nunca. A cada releitura, descobre-se que venha armado! E bala é um pedaci- uma nova faceta escondida dentro de nhozinho de metal”... Por aí se comprova suas obras.Grande Sertão, talvez seja a sua tese sobre o perigo que é o viver. obra que melhor traduza essa constata- E que o diabo está “na rua no meio do ção. Ainda hoje vários pesquisadores e redemunho”. acadêmicos em trabalhos de conclusão A partir dessas inquietações, Riobal- de curso se debruçam sobre ela sempre do vai construindo sua narrativa e, à em busca de novas veredazinhas nas medida que o vai fazendo, vai também grandes veredas da obra rosiana. lançando outras dúvidas relacionadas a A saga de Riobaldo deixa de ser uma ela a fim de compreender sua trajetória simples “aventura” no sertão mineiro de vida como jagunço no sertão e o que para tornar-se alvo de reflexões sérias e a teria motivado, já que no momento do universais acerca da existência humana relato encontra-se, como ele mesmo diz, e dois dos seus maiores conflitos: o bem “de range rede”, inventado no gosto de e o mal. Torna-se objeto de especulações “especular ideia”. filosóficas, místicas, religiosas, metafísi- Além disso, pode-se dizer que, entre cas, psicológicas, etc. outros motivos, o que o leva a refazer É, portanto, motivo de inquietação suas andanças no sertão mineiro através e perturbação não só para o jagunço da memória é também o relacionamen- letrado como também para todo aque- to confuso e trágico desenvolvido com le que se dispõe a ajudá-lo a caminhar o companheiro de ofício Reinaldo-Dia- pelas veredas do SER TÃO junto ao seu dorim, a quem conhece na beira do São ouvinte misterioso, a quem nunca é dada Francisco e que mais tarde se revela De- a chance da réplica durante sua narrati- odorina - filha de Joca Ramiro (o chefe va. do bando a que Riobaldo pertenceu) - Ainda chovendo no molhado, trata-se, sendo esta a vereda inicial de suas refle- obviamente de uma obra singular, que xões existenciais, pois segundo ele, tudo a princípio incomoda pela peculiarida- começa e termina em Diadorim. de com que Guimarães Rosa explora É, portanto, um livro que não se a linguagem oral do sertanejo. É o tipo deve deixar de ler, principalmente para de obra que o leitor deve estar disposto aqueles leitores que gostam de se sentir a enfrentar, a percorrer com Riobal- desafiados. do, acompanhando atentamente seu http://samizdat.oficinaeditora.com 61
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    Crônica Europa Descarrilada João Paulo Hergesel Os britânicos tomavam seu pontu- lhe aguardava; um poeta amador que só http://www.flickr.com/photos/antonis/986676625/ al e tradicionalíssimo chá matinal; os queria divulgar seus versos metrificados portugueses assistiam ao programa de e fazer uma autopromoção; uma senhora culinária exibido na televisão; os taiwa- de cabelos grisalhos que falava sozinha, neses comemoravam o dia da juventude; em busca de alguém que ouvisse suas os brasileiros festejavam o aniversário loucuras. Algumas vidas entre muitas de duas metrópoles, Curitiba e Salvador; outras. os sumérios homenageavam Ishtar, deusa O rapaz de quinze anos estava cansado mitológica. Era 29 de março e os russos de sua vida. Sabia que os dias seguintes andavam de trem. seriam iguais aos dias passados. Sentia- Um vagão superlotado, gente de Mos- se entediado de uma semana que apenas cou, cada qual com seu objetivo trilha- começava. Para se distrair da rotina, fazia do. Uma mulher grávida com consulta algo também rotineiro: escutava música marcada no obstetra; um estudante moderna em seu celular moderno. O adolescente rumo à aula de ciências que alto-falante ligado, o suposto desejo de 62 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    compartilhar o lixomusical americano dos trinta, mas não conseguia assumir o com os demais passageiros. fardo de mãe solteira. A hipótese de um O ritmo acelerado de uma canção aborto já lhe perturbava muito a mente. para corações acelerados — All the single Em meio a uma confissão nonsense, a um ladies, now put your hands up — se mis- exemplo de literatura marginal e a uma turava com as palavras proclamadas pelo melodia de black music, não aguentou o frustrado escritor de meia-idade. estresse sonoro e desembestou a gritar. O tido poeta estava cansado de sua O grito foi um pedido de silêncio vida. Todos os dias, pegava sempre o bem aceito: o metrô parou, as pessoas mesmo metrô, recitando sempre os também. No entanto, não demorou a mesmos versos, sempre para as mesmas que uma nova perturbação ocorresse. A pessoas. A mesmice era porque consi- garota loura sentada no fundo ficou em derava aquela tentativa de trova a mais pé e revelou o mecanismo que escondia bem feita por ele. sob o casaco. Assim que a bomba fosse acionada, todos estariam em uma roleta A rima rara de um poema hendecassí- russa, sem saber quais sobreviveriam e labo — Não preciso de um caldeirão de quais dariam adeus à vida da que esta- água quente / Basta-me uma panelinha vam cansados. de água morna / Não quero cozer um ovo de avestruz / Só cozinharei um ovo Um chá amargo difícil de ser ingerido, de codorna —, acompanhada pela trilha um erro de gravação que não pôde ser sonora da Beyoncé, atrapalhava a história evitado, juventudes corrompidas, aniver- contada pela pobre anciã. sários interrompidos. Uma situação que nem deuses foram capazes de impedir. A idosa vista como louca estava cansada de sua vida. Haviam morrido os Da explosão, saíram os corpos. O ga- pais, os irmãos, o marido, o filho. Não ti- roto, com as mãos mutiladas, não agra- nha mais família, não tinha amigos e, as- deceu por poder faltar às aulas daquela sim, acabava não tendo nem a si mesma. quinzena. O poeta, sem a pele do abdo- Queria desabafar os tropeços que levara, me, não ficou feliz por viver uma grande mas tropeçava nas próprias palavras e emoção que pudesse ser transcrita para o não era entendida por ninguém. papel. A velha, cuja perna direita estava ensanguentada, não estava satisfeita por O relato sem sentido — Eu tinha um ter uma nova história para contar com gato que não era meu e tinha um peixe detalhes. que o gato comeu— juntamente da po- esia contemporânea e da balada (bada- Sem mais aborrecimentos, dúvidas lada?), irritava a grávida que só queria ou queixas, a moça grávida, cruelmente um minuto de sossego antes de ter que decepada, representava, no chão do me- se despir e se submeter a um ultrassom trô, duas vidas extintas, duas frases que transvaginal. receberam o impiedoso ponto final — sendo que uma ainda nem havia aberto A futura mamãe estava cansada de as aspas. sua vida. Já era crescida, a idade na casa João Paulo Hergesel Um jovem escritor brasileiro de 19 anos. Reside na cidade de Alumínio, onde é colunista de dois jornais locais. É estudante de Letras na Universidade de Sorocaba e se dedica principalmente às literaturas infantil e juvenil. Autor de um livro de contos e com participações em diversas anto- logias, coleciona dezenas de prêmios literários, nacionais e internacionais. http://samizdat.oficinaeditora.com 63
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    A fila Poesia Volmar Camargo Junior em boa hora vens e me tomas em tuas patas outra hora eras cão não quero compartilhar mais nada agora és uma gratuidade devota nem posso por ora és dono da calçada nada possuo de meu para ser também de [e de minhas botas outrem nenhum vício ou valor só meu mas me incomoda estares a muito da altura nunca mais talvez dos olhos e sei o quanto queres isso que cheira talvez só o que eu tenha sejam esses pés com quente e suculento que brincas [também eu quero, cãozinho [isso sim [tenho tanta fome quanto tu tens a mim [isso eu posso dividir contigo onde andei desconheciam-me aonde vou idem contudo ainda preocupa-me a distância que percorri esses espaços estás dos narizes para ir [e definitivamente do lugar por onde anda a cabeça dos homens para ser para quê? ali, logo adiante, nietzsche de allstars discute com platão de camiseta do manowar se lá, um tanto atrás, uma criança pranteia o papai que foi, ou por um doce, ou por que lhe dói, ou porque meus medos minhas manias [há pouco melhor a fazer que chorar ah, sim, os apelos aqui eu com vontade de chorar igualmente, estes eu tenho cachorro aqueles não mais 64 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    contigo nos pésrindo risos de cão quem quase caiu foi um senhor de guar- comigo noutro tempo rindo de ti da-chuva pisoteando sem ver sozinho na fila (acho que sou o quadragé- por cima de ti simo segundo) por quê? porque estás longe demais de para onde lá vai o banco do brasil para cima e para ele olha os lados e a carne morta em bifes no metal quente [se ele caísse esmagaria-nos a todos revolve as entranhas do velho [eu assim como revolve as minhas [o bebê como revolve as tuas, cão [os filósofos http://www.flickr.com/photos/16879141@N05/5601890824/ [as moças que confabulam por isso o homem te pisa [a senhora no fiat apalpando os peitos por isso quase cai como cairia o banco do brasil [a senhora à porta do restaurante que nos chama “vamos chegar para o almoço” por isso quase morreste esmagado e tives- te de sair chorando teu choro de dor de cão [e a ti, cão porque és cão e ele é homem e a carne nos move a todos pelas tripas nem eu estaria olhando nenhuma das caras na fila veria e a fila andou ninguém veria é uma e meia nada nada nada faria diferença lá vamos nós nunca mais se ouviria falar de mim ou de ti ou dessa gente toda com os dedos pinta- dos de preto não, não foi dessa vez que o banco desa- bou http://samizdat.oficinaeditora.com 65
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    Poesia #18. Rafael Zen mãe, se é de deus que sejamos tristes, esse será nosso maior dilema. se a vida for maior que nossa sala, e a felicidade maior que nosso pinheiro de natal, se a morte for mais importante que nossa própria morte, ou que nosso humor nas quartas, quero saber do princípio, de qual estrela deus foi feito, do que ele é, e muito mais que isso: http://www.flickr.com/photos/forestwander-nature-pictures/4807392948/ se um dia vou acordar na metade de uma linha incompleta, se vou acordar seu filho filho DELE procurando algas no chão do céu. Rafael Zen Poeta, contista e artista gráfico, Rafael Zen mora em Brusque, Santa Cata- rina. Trabalha como publicitário e organizador de projetos educacionais e artísticos. 66 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    Poesia RITO Anna Apolinário Mordo a maçã pura da Musa Flerto com o olhar fatal da Medusa Depois me deito no leito mais lírico E me embriago de Infinito. http://www.flickr.com/photos/orangeacid/212833788/ Anna Apolinário Natural de João Pessoa, Paraíba, poetisa e graduanda em Pedagogia pela Universidade Federal da Paraíba. Participou de várias antologias nacionais. Foi premiada com o 4° Lu- gar no VI Festival de Poesia Encenada do Sesc Paraíba em 2010 com o poema “Dédalo”, no mesmo ano publicou seu primeiro livro, “Solfejo de Eros” pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores (Rio de Janeiro - RJ). Prepara seu segundo livro de poemas com título provisório SAPHIRA. http://samizdat.oficinaeditora.com 67
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    Poesia Olhos dedistância Daniel Moreira 68 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    Enquanto a saudade Arrumar um jeito De me trazer teu rosto Teu cheiro e teu gosto Estarão comigo ao amanhecer As fotos não sabem dos fatos E sorriem por serem simulacros De uma realidade Que não canso de reinventar Enquanto a ausência Encher meus olhos de distância Teu sorriso de extrema relevância Tomará várias formas Até a lua crescente Finalmente nos encontrar Daniel Moreira Foto: Raul Garré Natural de Caçapava do Sul/RS, reside em Pelotas/RS desde 1996. Em 2009 pu- blicou seu primeiro livro de poesias chamado “Poemas Urbanos”. Foi coordenador por onze edições do Projeto Sarau Poético Musical da Bibliotheca Pública Peloten- se. Faz parte do núcleo Poesia no Bar, projeto que distribui poemas de autores lo- cais e regionais em marca-textos pelos bares de Pelotas. Mantém o blog poemas- urbanos.blogspot.com onde posta com frequência seus escritos mais recentes. http://samizdat.oficinaeditora.com 69
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    Poesia Sagrado Luiza Oliveira Às vezes, sinto falta do sagrado, Saudades dos pedaços da vida, de sua textura; cânticos religiosos, como carnes penduradas em matadouros. missa dominical... E eu, perdida no inferno sem telhado, De coros cantantes, Panis Angelicus, como multidões rastejantes em meninas de branco, com laços de fita seus torpores vazios pregados em suas cabeças.. despejando seus juízos em taças furadas deixando escorrer o sangue pisado E eu, fervorosa, em palavras em vão... com os olhos infantis, pedintes, me dirigindo aos anjos, santos, Deus! Crendices populares, frestas escondidas Reverenciando cada lágrima, almas escuras advinda do fervor, falsas profecias... hoje, me afasto do dogmatismo fervoroso Desanuvio mentes, expulso lágrimas endureci- que se diluiu e fez desaparecer das, antigos clamores... e caio de joelhos, em pé... É o novo se rasgando, Volto para a relva endurecida do concreto é o batismo se depurando, e vejo carros, com seus motores barulhentos é Nossa Senhora chorando... http://www.flickr.com/photos/ameotoko/2402590362/ Volto para mim, em prantos... Lágrimas perdidas nos buracos da fé... The end Luiza Silva Oliveira Advogada, atriz e socióloga, Luiza Silva Oliveira inicia um novo caminho: o da escrita. Seu livro “Afetos transgressores”, lançado em novembro deste ano, foi escrito após a perda de seu irmão Arnaldo Silva Oliveira, a quem é o livro é dedicado, in memorian. Dois poemas desse livro já se tornaram música, e outros estão em processo. Além disso, já fazem parte de importantes saraus paulistanos, entre eles, o Sarau dos Inquietos. Três de seus contos foram selecionados entre mais de mil e quinhentos, e por isso, fará parte da coletânea organizada pela Editora Guemanisse, com publicação prevista para janeiro de 2012. 70 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    Poesia SENILIDADE Valmir Luis Saldanha Passeio com meu velho cão. Mantemos entre nós uma aceitação pacífica, Continuamos nosso passeio, mais longo que http://www.flickr.com/photos/orangeacid/212833788/ ele me aceita como seu guia e eu o habitual, o aceito como meu. os dois tentando mostrar para o tempo que nada havia mudado. Um problema na pata o faz tropeçar Vejo-o resfolegar, três vezes. me compadeço, (Nos olhos dele vejo os meus depois, e os contrastes) sinto que lançamos um olhar seco para adiante. A não ser que me suceda um acidente, ou meu cão seja alvo de um milagre, Eu o incito a continuar e ele me olha, eu o verei partir dessa para uma melhor, penso, tentando fazer o mesmo comigo. como é costume se dizer. Ele pede para que eu o guie Aos poucos ele está definhando, (não pode mais com as próprias pernas) mas isso não o impede de parar algumas vezes e eu o faço, a espalhar jatos de uma urina já rala mas cada passo traz, sempre, a mesma per- gunta: demarcando todo um território, e quem nos guia, a ambos? erguendo, trêmulo, a espada contra os pira- tas. Valmir Luis Saldanha Nasceu na cidade de Palmital - SP em 1987, mas viveu a infância toda em Itatinga. Ingres- sou no curso de Letras na UNESP - Araraquara, em 2006. Hoje leciona Literatura nos colégios COC e Objetivo. Valmir já participou de diversos concursos literários, além de participação em antologias e publicação de seu conto MISTÉRIOS DO INDIZÍVEL pela revista A MARgem, da Universidade Federal de Uberlândia. http://samizdat.oficinaeditora.com 71
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    Poesia Nº1 Douglas Batalha De tanta água, ficou Vitória. Toda fissura de árvore é quebrar Nada de peixe, muito mais flor. o cimento, a calçada, a passagem. O pai dizia: - Sai da água, menina! Seguia a casca a engrossar, para proteger dos Ela batia os pés e respondia: insultos. http://www.flickr.com/photos/deanfotos66/3606306832/ - Estou aprendendo a existir! Jogada na água sem muita esperança, À noite, em outro mundo, a minhoca contorce de metal por dentro. Tarsila sonhava em nadar. Da terra ao azul, torce: - Quero viver! Mas não tinha tempo para a vida. Vem a boca, com instinto de fome, ferrar-se a si Quando ia para cama, imaginava o mundo própria. no ritmo da sua braçada. Pobre animal, vamos todos morrer. Na rua, se se importasse o Jacarandá... Para seiva: bruta e fina. Fim. Todo sonho é vontade de memória. Douglas Batalha Estudante do último ano de filosofia (UNIMEP/Piracicaba) é leitor entusiasmado da litera- tura brasileira, em especial poesia. Professor temporário da rede pública, estuda para o ves- tibular de letras, desencantado com o exagerado otimismo dos filósofos niilistas. Desde 2010 escreve em verso e participa de saraus e concursos de poesia (sem muito sucesso). A terceira pessoa lhe cai muito bem, apesar dos recentes fracassos vividos. Contato: mofxwalla@hotmail.com e/ou douglasbatalhafilo@gmail.com 72 SAMIZDAT fevereiro de 2012
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    Poesia Missão (para João do Corujão da Poesia) Mariana Valle Todo dia essa página me olha com cara de E pra quem não sente o mesmo, nem adian- nada. E começo a escrever besteiras, aluci- ta explicar. Escreviver o poema me é como nada. inspirar o ar. Não, mentira. Vira e mexe e escrevo coisas Inspirada, inspirando, por vezes pirando que prestam. Com calma. com essa mistura. É vício e ao mesmo tem- Quando as palavras, num ai, me emprestam po cura. suas almas. Depois que a poesia se impôs em minha Nessas horas, a inspiração é genuína e vida, virei prisioneira, fanática, fiel, daquelas pareço uma menina deslumbrada com as bem lunáticas, sabe? E isso não é problema: descobertas. é poema. Não é inferno: é céu. Os poetas moram na lua mesmo. Porque a poesia me desperta pra vida. É ela http://www.flickr.com/photos/mobilestreetlife/3667359879/ que cura as feridas e me mostra o caminho, Agora, não ando mais a esmo. Tenho desti- compreende? no certo: perder-me na vida. Para depois me achar nas palavras e dizer: missão cumpri- Sem poesia, minha vida não rende. da. Mariana Valle Poeta desde os 12 anos, Mariana Valle vive como publicitária, é jornalista, roteirista e investe cada vez mais na literatura. Seus assuntos? A vida, seus encontros e desen- contros, sempre de um ponto de vista muito íntimo. Seu primeiro livro, “SORRIA, VOCÊ ESTÁ NA BARRA e outras histórias” (Editora Multifoco), foi lançado em de- zembro de 2008 e seu segundo livro está em fase de revisão. http://samizdat.oficinaeditora.com 73
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    Também nesta edição,textos de Alessa Bertazzo Luiza Oliveira Anna Apolinário Marcelo Soriano Cinthia Kriemler Mariana Valle Daniel Moreira Otávio Martins Douglas Batalha Rafael Zen Edelson Nagues Roberto Klotz http://www.flickr.com/photos/27805557@N08/4959155096/ Edweine Loureiro Sara Meynard Elias Antunes Silvana Michele Ramos Fernanda Cristina de Paula ­ Sonia Regina Rocha Henry Alfred Bugalho ­Rodrigues João Paulo Hergesel Tatiana Alves Joaquim Bispo Thiago Jefferson dos S ­ antos Galdino ­ José Guilherme Vereza Valmir Luis Saldanha Juliano Ramos de ­Oliveira Volmar Camargo Junior Leandro Luiz Zulmar Lopes 74 SAMIZDAT fevereiro de 2012