RAP – O lugar da Palavra.
Na seqüênciadas reflexões sobre Música Brasileira, escolhi intencionalmente um
estilo que surgiu num ambiente oposto ao da Bossa Nova. Ao invés do apartamento da
zona sul do Rio de Janeiro, mergulhamos agora no som das ruas, das periferias do nosso
País e do mundo. Estou falando do RAP.
Você pode me questionar se RAP é música brasileira.
O fato de incluí-lo no hall de temas a serem tratados no Blog, está ligado à minha
visãode que música brasileiraé toda essamassadeinformações sonoras produzidas por
nós como resposta aos estímulos externos e internos aos quais somos apresentados.
Como a Bossa Nova é samba com assimilação de elementos do Jazz; como a música do
movimento tropicalista assimilou elementos do rock, mais especificamente a postura
rebelde e a eletrificação dos sons com o uso da guitarra; como os ritmos da música
baiana unem a utilização de sintetizadores com os ritmos da tradição das culturas afro-
brasileiras.
Por se tratar de tema abrangente e diverso resolvi abordar O RAP em dois
momentos: o primeiro, mostrando as origens e contextualizando historicamente, e o
segundo, falando dos seus estilos e forma de expressão por meio de representantes
brasileiros.
Muito bem, vamos lá.
As origens do RAP (Rhythm And Poetry ) remontam à Jamaica dos anos 60
quando eram colocados nas ruas das periferias, os Sistemas de Som - Sound Sistms -
para animar os bailes. Nos bailes havia a figura do Toaste, uma espécie de MC (Mestre
de Cerimônias) que fazia intervenções faladas e rítmicas nas músicas, abordando temas
como sexo, drogas e os problemas sociais da ilha.
Na década de 70 vários desses jovens jamaicanos foram para os Estados Unidos
forçados pela crise econômica que se abateu sobre a ilha levando consigo a tradição dos
Sistemas de Som. Este modelo encontrou o cenário perfeito nas ruas do Brooklyn e do
Bronx, em Nova Iorque, onde foi criada a Zulu Nation, organização ligada aos interesses
do movimento hip hop.
Nas periferias de Nova York, repletas de tensões, de conflitos sociais e onde a
população negra sofria a ação violenta da polícia, as manifestações musicais animadas
pelas Sound Sistems lotavam as ruas, nas chamadas Block Parties. Nessas festas
populares se ouvia o som que falava abertamente sobre os processos de exclusão social
e afirmava o valor da cultura negra na América do Norte. Toda essa agitação social
culminou com a criação de um Movimento Cultural eminentemente das periferias
chamado de HIP-HOP, composto pela tríade RAP (música), GRAFITE (pintura) e
BREAKDANCE (Dança).
RAP é a música do Movimento Hip-Hop, cujas letras são estruturadas sobre os
ritmos mixados pelo Disc Jockey – DJ (dee jay), utilizando suas pick ups. O DJ monta
estruturas rítmicas e colagens sonoras feitas digitalmente que servem de base para as
letras. Escute o trabalho do DJ Primo (Ctrl+clique para ver). Atente pra quantidade de
ritmos criados com os recursos do pick up.
Observe que o Dj não está preocupado em construir melodias ou estruturas
harmônicas, mas se concentra no ritmo, utilizando alguns efeitos bem comuns nesse
estilo que são os Scratchs (efeito provocado pelo atrito da agulha do toca-discos na
superfície do vinil) e o Sampler (recortes de pequenos trechos ou células rítmicas e
melódicas de outras músicas que são “colados” digitalmente fazendo parte da base da
música). Um exemplo histórico de Sampler e que está na origem dessa história toda e
que já marca algumas gerações é o trecho da música Trans Europe Express do grupo
alemão de música eletrônica Kraftwerk adaptado pelo DJ americano Afrika Bambaata,
para um clássico do hip hop, trata-se de Planet Rock. No Brasil um dos tantos exemplos
de sampler é apresentado na música Mina de Fé, de autoria de MV Bill e Racionais Mc’s
onde ouvimos na introdução um trecho da música Samurai, do Djavan. Dançando!
Junto com a música vieram também desenhos feitos em tapumes e paredes nas
ruas das cidades pelos whiters ou grafiteiros. Estes desenhos e pinturas feitos com tinta
spray que tomaram conta das ruas das grandes cidades no mundo deram origem à
linguagem visual que hoje conhecemos como Grafite. Apresento dois representantes
brasileiros de peso no cenário internacional: os irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo mais
conhecidos como Os Gêmeos e Eduardo Kobra que ficou mais conhecido com o painel
realizado para as olimpíadas do Rio de Janeiro de 2016.
Além das contribuições na música e nas artes visuais, o Hip Hop tem outra de
suas marcas na dança com o Breakdance (Dança de Rua). Esse termo engloba vários
estilos de dança de rua como a “dança do Robô, Locking traduzido com “Travar”,
conhecida em Los Angeles por Popping “Estalo das articulações”, etc) e se
profissionalizou ao longo dos anos e conta hoje com campeonatos mundiais. A influencia
dessa dança de rua pode ser vista nas performances de Michel Jackson e em vários
vídeos de RAP. Escolhi este link do YouTub para que você possa apreciar a apresentação
de uma crew ou equipe
http://www.youtube.com/watch?v=xOmX15DXG00&feature=related . Brasília possui
representantes que participam de campeonatos nacionais e internacionais como a
equipe FaB.Girl e Low Easy, de Sobradinho, que participou da delegação brasileira em
setembro de 2009 no Battle Of The Year, campeonato mundial de Breakdance realizado
na Alemanha.
Então é isso, o Hip Hop é música, artes visuais e dança ao mesmo tempo aliados
a uma postura política engajada. Melodias e harmonias são secundárias, o principal é a
mensagem, A PALAVRA metrificada dentro do ritmo. O RAP é o lugar da palavra.
Mensagens longas,engajadas,com teor político e postura de trincheira, mas que
em alguns momentos se mostra cheia de contradições. Guerra ou paz? Como falar de
um e de outro? Como dividir o espaço físico com o trafico de drogas e poder falar de
direito, de liberdade, de inclusão social?
De forma simples e direta falam da tensão do contato entre a polícia e a
população, sonhos, paixões,a proximidade com o tráfico de drogas,a condição do negro
nas periferias das grandes cidades, a vida nas prisões e da incapacidade ou
impossibilidade do Estado de incluí-los socialmente. Incluir a quem, como e onde? ,
Seus representantes assumem que estão do outro lado do que entendemos
como Estado de Direito e sob esse aspecto, podemos falar num estilo musical
globalizado com características de cada lugar onde se desenvolve. O som das periferias
do mundo. Então é possível ouvir RAP africano, japonês, alemão
http://www.youtube.com/watch?v=mKiZzEqC7tw, brasileiro, francês, americano com
características musicais muito próximas. A diferença estará no idioma.
No Brasil,oRAP surgiu nos anos 80, nos tradicionais encontros da Rua 24 de Maio
e no metrô São Bento de onde saíram muitos artistas reconhecidos como Thaíde, DJ
Hum, Styllo Selvagem, Região Abissal, Nill, Sérgio Riky, Racionais MCs, MV Bill, Doctors
MCs, Shary Laine, Rappin Hood, entre outros.
Brasília também tem representantes de destaque. Podemos citar grupos como
os ceilandenses, Câmbio Negro http://www.youtube.com/watch?v=TEqLwUyUJJY,
Tropa de Elite, http://www.youtube.com/watch?v=TEqLwUyUJJY, e de Planaltina,
Cirurgia Moral. Recentemente tive o prazer de conhecer e conversar com o rapper GOG,
ouvir seu cd e ler seu livro A Rima Denuncia.
Lendo o livro Música, Maestro, do maestro Júlio Medaglia, ao descrever os vários
estilos de música ao longo dos séculos, deparei com o seguinte trecho no qual fala do
RAP: “o negro brasileiro, quando vai correndo aos Estados Unidos buscar milhares de
fitas e vídeos de hip-hop para copiar, achando que está se integrando a uma grande
“cultura negra”, está na verdade traindo e colaborando para a extinção das raízes
africanas que forma bem preservadas e até evoluíram em nosso país – graças inclusive,
ao sacrifício de Zumbi.” Com a devida admiração pelas suas contribuições dadas à
música popular e erudita, me dou a liberdade de discordar dessaopinião. Ao citar estilos
musicais que foram criados pelos negros americanos com Blues, Rock, o Jazz como
formar ‘maiores’ da expressão da música negra no mundo, lhe falta a percepção de que
as periferias seintegram pelo que tem em comum: comunidades negras,excluídas social
e economicamente em função do forte processo de centralização de capital produzido
pelo capitalismo e marginalizadas pela negação dos seus direitos básicos.
É dessaausênciadeacessos aos seus direitos e do avanço da democratização dos
meios de produção musical que surgem as motivações e a liberdade para a produção de
suas letras. O RAP torna-se o espaço de reconhecimento da cultura negra como forma
de identidade social e a valorização de representantes da sua luta, incluindo aí Zumbi
dos Palmares.
Nesse sentido o RAP, ainda que o maestro torça o nariz para os que ele chamou
no Programa Provocações da TV Cultura de “puxadores de fumo da California” ou “o
negro que não deu certo” ou ainda “música primitiva por ser repetitiva e carente de
síncope como o samba e outros ritmos africanos”, é sim, uma música que representa as
realidades vividas nos espaços da periferia e serve como instrumento de coesão das
lutas das periferias do mundo. Contra a ignorância dos que se consideram esclarecidos,
sugiro que vejam mais de perto e vivenciem para entender.
Assim como o Blues surge nas igrejas evangélicas americanas derivando da
música gospel, e retratam o sofrimento dos negros americanos no trabalho escravo das
grandes fazendas de algodão, sua tristeza, dos amores e desilusões, da pobreza, a fé e a
saudade da África; assimcomo Jazz fala de temas muito similares; o rock, que vem da
mesma raiz e foi transformado num grito de protesto. Todos esses estilos musicais
saíramdas periferias e foram sendo apropriadas e transformadas em música do mundo.
No Brasil, não seria diferente com o samba que desceu dos morros para o asfalto (leia
outro texto do blog Nossa Magestade, o Samba) com seu lirismo e suas letras que
cantam a realidade dos morros cariocas e foi sendo apropriado e transformado em
várias vertentes musicais como a Bossa Nova que por sua vez canta a visão carioca
burquesa ou o Samba Funk, o RAP se confirma como como produto da vivência humana
nas periferias das grandes cidades do mundo capaz de captar suas histórias e desejos.

Rap, o lugar da palavra

  • 1.
    RAP – Olugar da Palavra. Na seqüênciadas reflexões sobre Música Brasileira, escolhi intencionalmente um estilo que surgiu num ambiente oposto ao da Bossa Nova. Ao invés do apartamento da zona sul do Rio de Janeiro, mergulhamos agora no som das ruas, das periferias do nosso País e do mundo. Estou falando do RAP. Você pode me questionar se RAP é música brasileira. O fato de incluí-lo no hall de temas a serem tratados no Blog, está ligado à minha visãode que música brasileiraé toda essamassadeinformações sonoras produzidas por nós como resposta aos estímulos externos e internos aos quais somos apresentados. Como a Bossa Nova é samba com assimilação de elementos do Jazz; como a música do movimento tropicalista assimilou elementos do rock, mais especificamente a postura rebelde e a eletrificação dos sons com o uso da guitarra; como os ritmos da música baiana unem a utilização de sintetizadores com os ritmos da tradição das culturas afro- brasileiras. Por se tratar de tema abrangente e diverso resolvi abordar O RAP em dois momentos: o primeiro, mostrando as origens e contextualizando historicamente, e o segundo, falando dos seus estilos e forma de expressão por meio de representantes brasileiros. Muito bem, vamos lá. As origens do RAP (Rhythm And Poetry ) remontam à Jamaica dos anos 60 quando eram colocados nas ruas das periferias, os Sistemas de Som - Sound Sistms - para animar os bailes. Nos bailes havia a figura do Toaste, uma espécie de MC (Mestre de Cerimônias) que fazia intervenções faladas e rítmicas nas músicas, abordando temas como sexo, drogas e os problemas sociais da ilha. Na década de 70 vários desses jovens jamaicanos foram para os Estados Unidos forçados pela crise econômica que se abateu sobre a ilha levando consigo a tradição dos Sistemas de Som. Este modelo encontrou o cenário perfeito nas ruas do Brooklyn e do Bronx, em Nova Iorque, onde foi criada a Zulu Nation, organização ligada aos interesses do movimento hip hop. Nas periferias de Nova York, repletas de tensões, de conflitos sociais e onde a população negra sofria a ação violenta da polícia, as manifestações musicais animadas pelas Sound Sistems lotavam as ruas, nas chamadas Block Parties. Nessas festas populares se ouvia o som que falava abertamente sobre os processos de exclusão social e afirmava o valor da cultura negra na América do Norte. Toda essa agitação social culminou com a criação de um Movimento Cultural eminentemente das periferias chamado de HIP-HOP, composto pela tríade RAP (música), GRAFITE (pintura) e BREAKDANCE (Dança). RAP é a música do Movimento Hip-Hop, cujas letras são estruturadas sobre os ritmos mixados pelo Disc Jockey – DJ (dee jay), utilizando suas pick ups. O DJ monta estruturas rítmicas e colagens sonoras feitas digitalmente que servem de base para as letras. Escute o trabalho do DJ Primo (Ctrl+clique para ver). Atente pra quantidade de ritmos criados com os recursos do pick up. Observe que o Dj não está preocupado em construir melodias ou estruturas harmônicas, mas se concentra no ritmo, utilizando alguns efeitos bem comuns nesse estilo que são os Scratchs (efeito provocado pelo atrito da agulha do toca-discos na
  • 2.
    superfície do vinil)e o Sampler (recortes de pequenos trechos ou células rítmicas e melódicas de outras músicas que são “colados” digitalmente fazendo parte da base da música). Um exemplo histórico de Sampler e que está na origem dessa história toda e que já marca algumas gerações é o trecho da música Trans Europe Express do grupo alemão de música eletrônica Kraftwerk adaptado pelo DJ americano Afrika Bambaata, para um clássico do hip hop, trata-se de Planet Rock. No Brasil um dos tantos exemplos de sampler é apresentado na música Mina de Fé, de autoria de MV Bill e Racionais Mc’s onde ouvimos na introdução um trecho da música Samurai, do Djavan. Dançando! Junto com a música vieram também desenhos feitos em tapumes e paredes nas ruas das cidades pelos whiters ou grafiteiros. Estes desenhos e pinturas feitos com tinta spray que tomaram conta das ruas das grandes cidades no mundo deram origem à linguagem visual que hoje conhecemos como Grafite. Apresento dois representantes brasileiros de peso no cenário internacional: os irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo mais conhecidos como Os Gêmeos e Eduardo Kobra que ficou mais conhecido com o painel realizado para as olimpíadas do Rio de Janeiro de 2016. Além das contribuições na música e nas artes visuais, o Hip Hop tem outra de suas marcas na dança com o Breakdance (Dança de Rua). Esse termo engloba vários estilos de dança de rua como a “dança do Robô, Locking traduzido com “Travar”, conhecida em Los Angeles por Popping “Estalo das articulações”, etc) e se profissionalizou ao longo dos anos e conta hoje com campeonatos mundiais. A influencia dessa dança de rua pode ser vista nas performances de Michel Jackson e em vários vídeos de RAP. Escolhi este link do YouTub para que você possa apreciar a apresentação de uma crew ou equipe http://www.youtube.com/watch?v=xOmX15DXG00&feature=related . Brasília possui representantes que participam de campeonatos nacionais e internacionais como a equipe FaB.Girl e Low Easy, de Sobradinho, que participou da delegação brasileira em setembro de 2009 no Battle Of The Year, campeonato mundial de Breakdance realizado na Alemanha. Então é isso, o Hip Hop é música, artes visuais e dança ao mesmo tempo aliados a uma postura política engajada. Melodias e harmonias são secundárias, o principal é a mensagem, A PALAVRA metrificada dentro do ritmo. O RAP é o lugar da palavra. Mensagens longas,engajadas,com teor político e postura de trincheira, mas que em alguns momentos se mostra cheia de contradições. Guerra ou paz? Como falar de um e de outro? Como dividir o espaço físico com o trafico de drogas e poder falar de direito, de liberdade, de inclusão social? De forma simples e direta falam da tensão do contato entre a polícia e a população, sonhos, paixões,a proximidade com o tráfico de drogas,a condição do negro nas periferias das grandes cidades, a vida nas prisões e da incapacidade ou impossibilidade do Estado de incluí-los socialmente. Incluir a quem, como e onde? , Seus representantes assumem que estão do outro lado do que entendemos como Estado de Direito e sob esse aspecto, podemos falar num estilo musical globalizado com características de cada lugar onde se desenvolve. O som das periferias do mundo. Então é possível ouvir RAP africano, japonês, alemão http://www.youtube.com/watch?v=mKiZzEqC7tw, brasileiro, francês, americano com características musicais muito próximas. A diferença estará no idioma. No Brasil,oRAP surgiu nos anos 80, nos tradicionais encontros da Rua 24 de Maio e no metrô São Bento de onde saíram muitos artistas reconhecidos como Thaíde, DJ
  • 3.
    Hum, Styllo Selvagem,Região Abissal, Nill, Sérgio Riky, Racionais MCs, MV Bill, Doctors MCs, Shary Laine, Rappin Hood, entre outros. Brasília também tem representantes de destaque. Podemos citar grupos como os ceilandenses, Câmbio Negro http://www.youtube.com/watch?v=TEqLwUyUJJY, Tropa de Elite, http://www.youtube.com/watch?v=TEqLwUyUJJY, e de Planaltina, Cirurgia Moral. Recentemente tive o prazer de conhecer e conversar com o rapper GOG, ouvir seu cd e ler seu livro A Rima Denuncia. Lendo o livro Música, Maestro, do maestro Júlio Medaglia, ao descrever os vários estilos de música ao longo dos séculos, deparei com o seguinte trecho no qual fala do RAP: “o negro brasileiro, quando vai correndo aos Estados Unidos buscar milhares de fitas e vídeos de hip-hop para copiar, achando que está se integrando a uma grande “cultura negra”, está na verdade traindo e colaborando para a extinção das raízes africanas que forma bem preservadas e até evoluíram em nosso país – graças inclusive, ao sacrifício de Zumbi.” Com a devida admiração pelas suas contribuições dadas à música popular e erudita, me dou a liberdade de discordar dessaopinião. Ao citar estilos musicais que foram criados pelos negros americanos com Blues, Rock, o Jazz como formar ‘maiores’ da expressão da música negra no mundo, lhe falta a percepção de que as periferias seintegram pelo que tem em comum: comunidades negras,excluídas social e economicamente em função do forte processo de centralização de capital produzido pelo capitalismo e marginalizadas pela negação dos seus direitos básicos. É dessaausênciadeacessos aos seus direitos e do avanço da democratização dos meios de produção musical que surgem as motivações e a liberdade para a produção de suas letras. O RAP torna-se o espaço de reconhecimento da cultura negra como forma de identidade social e a valorização de representantes da sua luta, incluindo aí Zumbi dos Palmares. Nesse sentido o RAP, ainda que o maestro torça o nariz para os que ele chamou no Programa Provocações da TV Cultura de “puxadores de fumo da California” ou “o negro que não deu certo” ou ainda “música primitiva por ser repetitiva e carente de síncope como o samba e outros ritmos africanos”, é sim, uma música que representa as realidades vividas nos espaços da periferia e serve como instrumento de coesão das lutas das periferias do mundo. Contra a ignorância dos que se consideram esclarecidos, sugiro que vejam mais de perto e vivenciem para entender. Assim como o Blues surge nas igrejas evangélicas americanas derivando da música gospel, e retratam o sofrimento dos negros americanos no trabalho escravo das grandes fazendas de algodão, sua tristeza, dos amores e desilusões, da pobreza, a fé e a saudade da África; assimcomo Jazz fala de temas muito similares; o rock, que vem da mesma raiz e foi transformado num grito de protesto. Todos esses estilos musicais saíramdas periferias e foram sendo apropriadas e transformadas em música do mundo. No Brasil, não seria diferente com o samba que desceu dos morros para o asfalto (leia outro texto do blog Nossa Magestade, o Samba) com seu lirismo e suas letras que cantam a realidade dos morros cariocas e foi sendo apropriado e transformado em várias vertentes musicais como a Bossa Nova que por sua vez canta a visão carioca burquesa ou o Samba Funk, o RAP se confirma como como produto da vivência humana nas periferias das grandes cidades do mundo capaz de captar suas histórias e desejos.