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Caderno
Caderno Material do professor

educacional
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       Material do professor
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    LÍNGUA
 PORTUGUESA
  Ciências
  ciências


                                9
   Material de apoio
   Material de apoio

                                  o
                                ano
Expediente
Marconi Ferreira Perillo Júnior
Governador do Estado de Goiás

Thiago Mello Peixoto da Silveira
Secretário de Estado da Educação

Erick Jacques Pires
Superintendente de Acompanhamento de Programas Institucionais

Raph Gomes Alves
Chefe do Núcleo de Orientação Pedagógica

Valéria Marques de Oliveira
Gerente de Desenvolvimento Curricular


Gerência de Desenvolvimento Curricular
Elaboradores
Alex Sandra de Carvalho
Arminda Maria de Freitas Santos
Débora Cunha Freire
Histávina Duarte Pereira
Joanede Aparecida Xavier de Souza Fé
Lívia Aparecida da Silva
Luiz Fabiano Braga dos Santos
Márcia Mendonça Souza
Marilda de Oliveira Rodovalho
Myrian Marques
Rosely Aparecida Wanderley Araújo
Sumário
Apresentação........................................................................................................................... 5
CONTO LITERÁRIO
AULA 01	 Levantamento dos conhecimentos prévios/introdução ao estudo
	          do gênero........................................................................................................... 7
AULA 02	 Identificação dos conhecimentos sobre o gênero......................................12
AULA 03	 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 16
AULA 04	 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 25
AULA 05	 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 28
AULA 06	 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 30
AULA 07	 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 34
AULA 08	 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 40
AULA 09	 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 43
AULA 10	 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 46
AULA 11	 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 49
AULA 12	 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 52
AULA 13	 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero ........................................ 60
AULA 14	 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 65
AULA 15	 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 68
AULA 16	 Sistematização dos conhecimentos sobre o gênero.................................. 71
EDITORIAL
AULA 17	 Levantamento dos conhecimentos prévios/introdução ao estudo
	         do gênero.........................................................................................................73
AULA 18	 Identificação dos conhecimentos sobre o gênero......................................79
AULA 19	 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 81
AULA 20	 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 84
AULA 21	 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero ........................................ 86
AULA 22	 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 89
AULA 23	 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 91
AULA 24	 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 94
AULA 25	 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 96
AULA 26	 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 99
AULA 27	 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero.......................................100
AULA 28	 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero.......................................104
AULA 29	          Ampliação e sistematização dos conhecimentos sobre o gênero..........106
AULA 30	          Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero.......................................109
AULA 31	          Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero.......................................111
AULA 32	          Ampliação e sistematização dos conhecimentos sobre o gênero..........114
AULA 33	          Sistematização dos conhecimentos sobre o gênero ...............................118
AULA 34	          Sistematização dos conhecimentos sobre o gênero ...............................120
ATA, REQUERIMENTO, CARTAS
AULA 35	 Levantamento dos conhecimentos prévios/introdução ao estudo
	         do gênero.......................................................................................................122
AULA 36	 Levantamento dos conhecimentos prévios/introdução ao estudo
	         do gênero.......................................................................................................126
AULA 37	 Levantamento dos conhecimentos prévios/introdução ao estudo
	         do gênero.......................................................................................................129
AULA 38	 Levantamento dos conhecimentos prévios/introdução ao estudo
	         do gênero.......................................................................................................132
AULA 39	 Levantamento dos conhecimentos prévios/introdução ao estudo
	         do gênero ......................................................................................................135
AULA 40	 Levantamento dos conhecimentos prévios/introdução ao estudo
	         do gênero.......................................................................................................137
AULA 41	 Levantamento dos conhecimentos prévios/introdução ao estudo
	         do gênero.......................................................................................................140
AULA 42	 Levantamento dos conhecimentos prévios/introdução ao estudo
	         do gênero.......................................................................................................142
AULA 43	 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero.......................................144
AULA 44	 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero.......................................147
AULA 45	 Levantamento dos conhecimentos prévios/introdução ao estudo
	         do gênero.......................................................................................................150
AULA 46	 Ampliação e sistematização dos conhecimentos sobre o gênero..........155
AULA 47	 Ampliação e sistematização dos conhecimentos sobre o gênero..........158
AULA 48	 Levantamento dos conhecimentos prévios/introdução ao estudo
	         do gênero.......................................................................................................161
AULA 49	 Ampliação e sistematização dos conhecimentos sobre o gênero .........164
AULA 50	 Ampliação e sistematização dos conhecimentos sobre o gênero..........167

Referências bibliográficas..................................................................................................171
Apresentação
    O Governo do Estado de Goiás, por meio da Secretaria de Estado da Edu-
cação (SEDUC), criou o “Pacto pela Educação com o objetivo de avançar na
                                                ”
oferta de um ensino qualitativo às crianças, jovens e adultos do nosso Estado.
Assim, busca-se adotar práticas pedagógicas de alta aprendizagem.
    Dessa forma, estamos desenvolvendo, conjuntamente, várias ações, dentre
elas, a produção deste material de apoio e suporte. Ele foi concebido tendo por
finalidade contribuir com você, professor, nas suas atividades diárias e, tam-
bém, buscando melhorar o desempenho de nossos alunos. Com isso, espera-se
amenizar o impacto causado pela mudança do Ensino Fundamental para o
Médio, reduzindo assim a evasão, sobretudo na 1ª série do Ensino Médio.
    Lembramos que a proposta de criação de um material de apoio e suporte
sempre foi uma reivindicação coletiva de professores da rede. Proposta esta
que não pode ser viabilizada antes em função da diversidade de Currículos que
eram utilizados. A decisão da Secretaria pela unificação do Currículo para
todo o Estado de Goiás abriu caminho para a realização de tal proposta.
    Trata-se do primeiro material, deste tipo, produzido por esta Secretaria,
sendo, dessa forma, necessários alguns ajustes posteriores. Por isso, contamos
com a sua colaboração para ampliá-lo, reforçá-lo e melhorá-lo naquilo que for
preciso. Estamos abertos às suas contribuições.
    Sugerimos que este caderno seja utilizado para realização de atividades den-
tro e fora da sala de aula. Esperamos, com sua ajuda, fazer deste um objeto de
estudo do aluno, levando-o ao interesse de participar ativamente das aulas.
    Somando esforços, este material será o primeiro de muitos e, com certeza,
poderá ser uma importante ferramenta para fortalecer sua prática em sala de
aula. Assim, nós o convidamos para, juntos, buscarmos o aperfeiçoamento de
ações educacionais, com vistas à melhoria dos nossos indicadores, proporcio-
nando uma educação mais justa e de qualidade.
    A proposta de elaboração de outros materiais de apoio continua e a sua
participação é muito importante. Caso haja interesse para participar dessas ela-
borações, entre em contato com o Núcleo da Escola de Formação pelo e-mail
cadernoeducacional@seduc.go.gov.br

   Bom trabalho!




                                                                                   5
Port 9
Conto literário
     Professor(a), para o trabalho com o gênero Contos, faça um cartaz bem bonito de boas vindas, e ambiente a
     sala de aula de modo que o estudante tenha acesso ao gênero. Organize a Prateleira da Leitura, nela coloque
     livros que contenham contos. Crie um ambiente propício à leitura com tapetes, esteiras, almofadas. Para
     o Palanque do Conto decore um caixote. Confeccione um caderno ou cartaz para registrar os livros lidos.
     Envolva todos no trabalho, cada um contribui com o que pode e todos são capazes de ajudar.
     Disponha as carteiras em círculo e, no centro, coloque os contos da Prateleira da Leitura. Diga aos estudantes
     que durante o trabalho com contos eles terão um momento somente para leituras do gênero – A Hora
     do Conto. Peça-lhes que escolham aqueles que mais lhes agradar para uma leitura prazerosa, dando-lhes
     tempo para que isto aconteça. Oriente-os a relacionarem os títulos dos contos escolhidos no caderno
     de registros. Após a leitura, oportunize um tempo para que os estudantes apresentem a sua história no
     Palanque do Conto.
      Aproveite este momento para incentivar os alunos a comparar contos do mesmo autor, de autores
     diferentes, do estilo de cada autor, a descrição dos espaços e do tempo, a caracterização dos personagens;
     bem como, apresentar suas impressões, suas emoções, durante a leitura. É importante que todos os
     estudantes escolham um exemplar para ler durante a semana e comentar no próximo palanque. A Hora do
     Conto deve acontecer pelo menos uma vez por semana, despertando nos estudantes o gosto e interesse
     pela leitura de livros literários.




AULA 01

Levantamento dos conhecimentos
prévios/introdução ao estudo do gênero
Objetivo geral
    Diagnosticar os conhecimentos que os estudantes já possuem sobre o gênero Contos
literários, explorando as práticas de oralidade, leitura e escrita.

 O que devo aprender nesta aula
 u   Partilhar com os colegas as percepções de leitura de contos lidos e ouvidos.
 u   Valorizar a leitura literária como fonte de entretenimento e prazer.
 u   Antecipar o conteúdo das leituras com base em indícios como autor, título do texto, ilustrações.
 u   Ler com fluência e autonomia, construindo significados e inferindo informações implícitas.
 u   Produzir a primeira escrita de um conto.




                                                                                                                      7
LÍNGUA PORTUGUESA

Prática de oralidade
    Professor(a), com o objetivo de retomar o trabalho com os gêneros textuais, converse com os estudantes
    sobre a aprendizagem construída a partir do estudo dos gêneros trabalhados no ano anterior, e apresente-
    lhes o primeiro gênero a ser estudado no bimestre, bem como os objetivos deste estudo.
    Procure saber o que a classe já conhece sobre o gênero: pergunte aos estudantes se gostam de ler e ouvir
    histórias. Diga-lhes que as histórias sempre encantaram os seres humanos e que, através das palavras de
    quem escreve, somos transportados para outro mundo, onde podemos acompanhar os seres que fazem
    parte das histórias, conhecer suas aventuras e dramas e compartilhar suas alegrias e tristezas. Elas falam de
    gente que, como você, tem sonhos, dificuldades e um enorme desejo de ser feliz.
    Converse com os estudantes sobre o modo como as pessoas escrevem seus textos. Há pessoas que ao
    contar um fato qualquer acrescentam muitos detalhes desnecessários e isto acaba cansando o leitor;
    outras são tão sucintas que conseguem transformar uma história interessante numa simples informação.
    Entretanto, há outras, como os escritores, que, ao narrar um fato, por mais simples que seja, o fazem com
    tanta beleza e criatividade que emociona e prende a atenção do leitor, levando-o a viver a história, participar
    dos acontecimentos. Uma boa história deve conter todas as informações que contribuam para dar vida e
    sentido ao texto, devendo descartar todos os fatos irrelevantes.


    • Você conhece alguma história interessante? Qual?

    • Ouviu de alguém? Quem?

    • Leu em algum livro? Sabem quem é o seu autor?

    • O que mais lhe chama atenção nas histórias?


Conceito
   Para o escritor Elias José, o conto é uma narrativa que pode ser contada oralmente ou
por escrito. Pode-se dizer que o ser humano já surgiu contando contos. Tudo o que via,
descobria ou pensava dava origem a uma história, que ele aumentava ou modificava usando
sua imaginação.

Prática de leitura
    Em seguida, proponha à classe a leitura silenciosa do conto Felicidade clandestina, de Clarice Lispector. Mas
    atenção, professor(a), é importante Antecipar aos estudantes algumas informações que podem estar no
    texto a ser lido a partir do título, do tema abordado, do autor e do gênero textual!


      Clarice Lispector (Tchetchelnik Ucrânia 1925 - Rio de Janeiro RJ 1977) passou a infância
      em Recife e em 1937 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se formou em direito. Estreou
      na literatura ainda muito jovem com o romance Perto do Coração Selvagem (1943), que
      teve calorosa acolhida da crítica e recebeu o Prêmio Graça Aranha.




8
LÍNGUA PORTUGUESA

                            Felicidade clandestina
                                                          Clarice Lispector

       Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio
arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas.
Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com
balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter:
um pai dono de livraria.
       Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo
menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja
do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com
suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras
como “data natalícia” e “saudade”.
       Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança,
chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos
imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu
com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as
humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os
livros que ela não lia.
       Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim um
tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de
Narizinho, de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para
se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E, completamente acima de
minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela
o emprestaria.
       Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança de alegria: eu
não vivia, nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
       No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num
sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para
meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu
voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve
a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando,
que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí:
guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais
tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas
ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
       Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono da
livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa,




                                                                                        9
LÍNGUA PORTUGUESA

     com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda
     não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais
     tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com
     meu coração batendo.
            E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo
     indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já
     começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas,
     adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja
     precisando danadamente que eu sofra.
            Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer.
     Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio
     de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a
     olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
            Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e
     silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição
     muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas.
     Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A
     senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que
     essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou:
     mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
            E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a
     descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência
     de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta,
     exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse
     firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim:
     “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que
     me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou
     pequena, pode ter a ousadia de querer.
            Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro
     na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como
     sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas
     mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa,
     também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
            Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para
     depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas,
     fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com
     manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns
     instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era




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LÍNGUA PORTUGUESA

      a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já
      pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era
      uma rainha delicada.
             Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo,
      sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era
      uma mulher com o seu amante.
                                                       Felicidade Clandestina - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998

   Professor(a), após a leitura, proponha as questões abaixo para ajudar os estudantes a desenvolver
   habilidades como: localizar o tema do texto, estabelecer relações, inferir informações etc.


01 Qual a relação entre o título e o assunto do texto?
       Possibilidade de resposta: A personagem protagonista ganhou permissão para ficar com o livro pelo
       tempo que desejasse, mas o deixa no quarto e finge esquecer que o possui, só para se redescobrir possuidora
       dele. Dessa forma, sua felicidade aparece como um sentimento “clandestino”, já que nem ela mesma pode
       se conscientizar de sua própria felicidade para que esse sentimento não acabe.

02 O que causa o sofrimento da protagonista?
       Possibilidade de resposta: Não conseguir o seu objeto do desejo (o livro).

03 O que causou prazer à personagem protagonista?
       Possibilidade de resposta: O fato de poder ficar com o objeto tão desejado pelo tempo que quisesse.

04 De que forma a filha do livreiro demonstra sua crueldade?
       Possibilidade de resposta: Sempre inventando uma desculpa para não emprestar o livro à colega que
       tanto o desejava.

   Professor(a), oriente os estudantes a refletir sobre os diversos aspectos propostos, voltando ao texto
   para confirmar ou refutar suas hipóteses. Em seguida, discuta com eles as respostas dadas, mostrando-
   lhes as várias possibilidades de interpretação levantadas. Os estudantes devem compreender que várias
   interpretações são possíveis e aceitáveis, desde que respaldadas pelo texto.


Prática de escrita

  DESAFIO

    Prepare-se! Agora você produzirá a primeira escrita de um conto. Desperte a sua
  imaginação, use uma boa dose de criatividade e mãos à obra!
     A ideia, aqui, professor(a), é saber o que os estudantes podem produzir neste momento e o que
     precisam aprender, para que você possa planejar as intervenções necessárias. Assim, é fundamental
     que você leia esses primeiros textos e faça anotações para o trabalho de reescrita.




                                                                                                                   11
LÍNGUA PORTUGUESA

AULA 02

Identificação dos conhecimentos
sobre o gênero
Objetivo geral
   Identificar os conhecimentos sobre o gênero Contos literários, explorando as práticas de
oralidade, leitura e escrita.

 O que devo aprender nesta aula
 u   Ler com fluência e autonomia, construindo significados e inferindo informações implícitas.
 u   Partilhar com os colegas as percepções de leitura de contos lidos e ouvidos.
 u   Refletir sobre as características do conto com base no texto de Moacyr Scliar.
 u   Retomar a produção inicial, para reformulações que garantam a presença dos elementos próprios do
     gênero.



Conceito
   De acordo com Moacyr Scliar, no seu texto “O conto se apresenta”, contos literários são
histórias sobre gente comum, que aparecem em jornais, em revistas, em livros; escritas por
gente que sabe usar as palavras para emocionar pessoas, para transmitir ideias - os escritores.

Prática de oralidade

     Professor(a), com o objetivo de continuar identificando os conhecimentos que os estudantes já possuem
     sobre o gênero Conto literário, proponha à classe uma leitura compartilhada do texto O conto se apresenta,
     de Moacyr Scliar (Vol. 2 da Coleção Literatura em Minha Casa, 2001), antecipando-lhes algumas informações
     que podem estar no texto a ser lido a partir do título, do tema abordado, do autor e do gênero textual!



       Moacyr Scliar nasceu em 1937, em Porto Alegre. Tem mais de cinquenta livros publicados,
       entre romances, contos, literatura juvenil e ensaios. Autor premiado, lançou diversos livros
       no exterior; algumas de suas obras foram adaptadas para o cinema, o teatro e a televisão.




12
LÍNGUA PORTUGUESA

                            O conto se apresenta
                                                          Moacir Scliar


       Olá!
       Não, não adianta olhar ao redor: você não vai me enxergar. Não sou pessoa
como você. Sou, vamos dizer assim, uma voz. Uma voz que fala com você ao vivo,
como estou fazendo agora. Ou então que lhe fala dos livros que você lê.
       Não fique tão surpreso assim: você me conhece. Na verdade, somos até
velhos amigos. Você já me ouviu falando de Chapeuzinho Vermelho e do Príncipe
Encantado, de reis, de bruxas, do Saci-Pererê. Falo de muitas coisas, conto
muitas histórias, mas nunca falei de mim próprio. É o que vou fazer agora, em
homenagem a você. E começo me apresentando: eu sou o conto. Sabe o contos
de fadas, o conto de mistério? Sou eu. O Conto.
       Vejo que você ficou curioso. Quer saber coisas sobre mim. Por exemplo,
qual a minha idade.
       Devo lhe dizer que sou muito antigo. Porque contar histórias é uma coisa
que as pessoas fazem a muito, muito tempo. É uma coisa natural, que brota
de dentro da gente. Faça o seguinte: feche os olhos e imagine uma cena, uma
cena que se passou há muitos milhares de anos. É de noite e uma tribo dos
nossos antepassados, aqueles que vivem nas cavernas, está sentada em redor
da fogueira. Eles têm medo de escuro, porque no escuro estão as feras que os
ameaçam, aqueles enormes tigres e outras mais. Então alguém olha para a lua
e pergunta: por que é que as vezes a lua desaparece? Todos se voltam para um
homem velho, que é uma espécie de guru para eles. Esperam que o homem dê
a resposta. Mas ele não sabe o que responder. E então eu apareço. Eu, o Conto.
Surjo lá da escuridão e, sem que ninguém note, falo baixinho ao ouvido do velho:
       – Conte uma história para eles.E ele conta. É uma história sobre um grande
tigre que anda pelo céu e que de vez em quando come a lua. E a lua some. Mas a
lua não é uma coisa muito boa para comer, de modo que lá pelas tantas o grande
tigre bota a lua para fora de novo. E ela aparece no céu, brilhante.
       Todos escutam o conto. Todo mundo: homens, mulheres, crianças. Todos
estão encantados. E felizes: antes, havia um mistério: por que a lua some? Agora,
aquele mistério não existe mais. Existe uma história que fala de coisas que eles
conhecem:tigre, lua, comer – mas fala como essas coisas poderiam ser, não como
eles são. Existe um conto. As pessoas vão lembrar esse conto por toda a vida. E
quando as crianças da tribo crescerem e tiverem seus próprios filhos, vão contar
a história para explicar a eles por que a lua some de vez em quando. Aquele conto.




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LÍNGUA PORTUGUESA

            No começo, portanto, é assim que eu existo: quando as pessoas falam em
     mim, quando as pessoas narram histórias – sobre deuses, sobre monstros, sobre
     criaturas fantásticas. Histórias que atravessam os tempos, que duram séculos.
     Como eu.
            Aí surge a escrita. Uma grande invenção, a escrita, você não concorda?
     Com a escrita, eu existo somente como uma voz. Agora estou ali, naqueles sinais
     chamados letras, que permitem que pessoas se comuniquem, mesmo à distância.
     E aquelas histórias – sobre deuses, sobre monstros, sobre criaturas fantásticas –
     vão aparecer em forma de palavras escrita.
            E é nesse momento que eu tenho uma grande ideia. Uma inspiração, vamos
     dizer assim. Você sabe o que é inspiração? Inspiração é aquela descoberta que a
     gente faz de repente, de repente tem uma ideia muito boa. A inspiração não vem
     de fora, não; não é uma coisa misteriosa que entra na nossa cabeça. A boa ideia
     já estava dentro de nós; só que a gente não sabia. A gente tem muitas boas ideias,
     pode crer.
            E então, com aquela boa ideia, chego perto de um homem ainda jovem. Ele
     não me vê. Como você não me vê. Eu me apresento, como me apresentei a você,
     digo-lhe que estou ali com uma missão especial – com um pedido.
            – Escreva uma história.
            Num primeiro momento, ele fica surpreso, assim como você ficou. Na
     verdade, ele já havia pensado nisso, em escrever uma história. Mas tinha dúvidas:
     ele, escrever uma história? Como aquelas histórias que todas as pessoas contavam
     e que vinham de um passado? Ele, escrever uma história? E assinar seu próprio
     nome? Será que pode fazer isso? Dou força:
            – Vá em frente, cara. Escreva uma história. Você vai gostar de escrever. E as
     pessoas vão gostar de ler.
            Então ele senta, e escreve uma história. É uma história sobre uma criança,
     uma história muito bonita. Ele lê o que escreveu. Nota que algumas coisas não
     ficaram muito bem. Então escreve de novo. E de novo. E mais uma vez. E aí, sim,
     ele gosta do que escreveu. Mostra para outras pessoas, para os amigos, para a
     namorada. Todos gostam, todos se emocionam com a história.
            E eu vou em frente. Procuro uma moça muito delicada, muito sensível.
     Mesma coisa:
            – Escreve uma história.
            Ela escreve. E assim vão surgindo escritores. Os contos deles aparecem em
     jornais, em revistas, em livros. Já não são histórias sobre deuses, sobre criaturas
     fantásticas. Não, são histórias sobre gente comum – porque as histórias sobre




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LÍNGUA PORTUGUESA

      as pessoas comuns muitas vezes são mais interessantes do que histórias sobre
      deuses e criaturas fantásticas: até porque deuses e criaturas fantásticas podem ser
      inventados por qualquer pessoa. O mundo da nossa imaginação é muito grande.
      Mas a nossa vida, a vida de cada dia, está cheia de emoções. E onde há emoção,
      pode haver conto. Onde há gente que sabe usar as palavras para emocionar
      pessoas, para transmitir ideias, existem escritores.
            Alguns deles – grandes escritores.
            --------------
            – Eu sou o conto.
                                         Era uma vez um conto, vol.2. Companhia das Letrinhas, São Paulo. 2002.



   Professor(a), faça uma leitura oral do texto com a classe, chamando a atenção dos estudantes para
   referências importantes, como: os vários tipos de histórias existentes; as narrativas da tradição oral; a
   invenção da escrita e, com ela, o surgimento da história escrita; a inspiração, as ideias que motivam a escrita
   de um conto; como surgem os escritores de contos etc. Leve-os a refletir sobre algumas particularidades do
   conto, apresentadas por Moacyr Scliar de forma tão leve e prazerosa:
   • histórias sobre gente comum;
   • aparecem em jornais, em revistas, em livros;
   • escritas por gente que sabe usar as palavras – os escritores;
   • para emocionar pessoas, para transmitir ideias.


Prática de leitura
   Em relação ao conto Felicidade clandestina, de Clarice Lispector, e tendo por base as
características do conto apontadas por Moacyr Scliar, responda às questões abaixo:

01 Esta é uma história de gente comum? Por quê?
       Sim. É perfeitamente possível que este fato aconteça realmente, inclusive envolvendo personagens reais,
       como colegas de escola.

02 Por quem foi escrita?
       Por Clarice Lispector.

03 Onde foi publicada?
       No livro que tem o mesmo título do conto: Felicidade Clandestina.

04 Para que foi escrita?
       Para transmitir ideias de uma forma emocionante.




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LÍNGUA PORTUGUESA

     Professor(a), abra um espaço de discussão para que os estudantes socializem a atividade e expressem suas
     impressões a respeito do conto lido.


Prática de escrita

  DESAFIO

     Retome sua produção inicial e confirme se você escreveu uma história possível
  de acontecer, envolvendo pessoas comuns, para emocionar o leitor. Você terá
  oportunidade de rever o que escreveu e de fazer as primeiras reformulações no seu
  conto, assim como fazem os escritores famosos, antes de publicarem seus textos.
       Professor(a), medeie esta atividade, percorrendo a sala e orientando a reescrita individual, com base
       nas anotações feitas por você, durante a leitura dos textos.




AULA 03

Ampliação dos conhecimentos
sobre o gênero
Objetivo geral
   Ampliar os conhecimentos que os estudantes já possuem sobre o gênero Contos literários,
explorando as práticas de oralidade, leitura e escrita.

 O que devo aprender nesta aula

 u   Ler com fluência e autonomia, construindo significados e inferindo informações implícitas.
 u   Partilhar com colegas as percepções de leitura dos contos lidos e/ou ouvidos.
 u   Ler contos, identificando seus elementos e características próprias.
 u   Retomar a produção inicial, para reformulações que garantam a presença dos elementos próprios do
     gênero.




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LÍNGUA PORTUGUESA

Conceito

        À leveza do conceito de Elias José e Moacyr Scliar, acrescentamos, aqui,
     algumas particularidades deste gênero textual:
         •	 É um texto em prosa que contém um só conflito, um só drama, uma só ação
            e poucos personagens
         •	 Todos os ingredientes do conto convergem para o mesmo ponto
         •	 Deve emocionar quem o lê
         •	 Os fatos neste gênero literário acontecem em curto espaço de tempo: já que
            não interessam o passado e o futuro, as coisas se passam em horas, ou dias
         •	 A linguagem do conto é direta, concreta e objetiva
                                                        Texto adaptado do livro O que é conto, de Luzia de Maria



Prática de oralidade
   Como exemplo dessas particularidades, trazemos para você o conto Biruta, de Lygia
Fagundes Telles (Vol. da Coleção Literatura em Minha Casa, 2001), que, por sua grande
emotividade e beleza, certamente lhe causará um efeito singular.
   Professor(a), neste momento, apresente à classe o conto, utilizando a antecipação como estratégia de leitura
   para despertar a curiosidade e as expectativas dos estudantes. Pergunte a eles se conhecem a história; em
   caso negativo, o que o título “Biruta” lhes sugere; o que acham que irá acontecer na história; se já leram
   algum texto da autora; que impressões tiveram etc. Aproveite o momento para dizer-lhes quem é Lygia
   Fagundes Telles.



     Lygia Fagundes Telles nasceu em 1923 na cidade de São Paulo, onde mora até hoje.
     Premiadíssima contista, escreveu vários contos, dentre eles o conto Biruta, originalmente
     publicado na sua obra Histórias escolhidas (1961). Também escreveu romances de
     grande repercussão, como As meninas.


Prática de leitura
   Professor(a), proponha a leitura silenciosa do conto abaixo. Sugira aos estudantes que verifiquem as
   hipóteses levantadas no momento da antecipação, façam inferências das informações que não estão
   explícitas no texto, e checagem dos fatos durante a leitura, identifiquem os elementos do conto, o suporte
   textual e os recursos de que a escritora utilizou para emocionar o leitor etc.




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LÍNGUA PORTUGUESA

                                         Biruta
                                                         Lygia Fagundes Telles

            Alonso foi para o quintal carregando uma bacia cheia de louça suja. Andava
     com dificuldade, tentando equilibrar a bacia que era demasiado pesada para seus
     bracinhos finos.
            – Biruta, êh, Biruta! – chamou sem se voltar.
            O cachorro saiu de dentro da garagem. Era pequenino e branco, uma orelha
     em pé e a outra completamente caída.
            – Sente-se aí, Biruta, que vamos ter uma conversinha. – disse Abonso
     pousando a bacia ao lado do tanque. Ajoelhou-se, arregaçou as mangas da
     camisa e começou a lavar os pratos. Biruta sentou-se muito atento, inclinando
     interrogativamente a cabeça ora para a direita, ora para a esquerda, como se
     quisesse apreender melhor as palavras do seu dono. A orelha caída ergueu-se um
     pouco, enquanto a outra empinou, aguda e reta. Entre elas, formaram-se dois
     vincos, próprios de uma testa franzida no esforço da meditação.
            – Leduína disse que você entrou no quarto dela – começou o menino num
     tom brando. – E subiu em cima da cama e focinhou as cobertas e mordeu uma
     carteirinha de couro que ela deixou lá. A carteira era meio velha e ela não ligou
     muito. Mas se fosse uma carteira nova, Biruta! Se fosse uma carteira nova! Me
     diga agora o que é que ia acontecer se ela fosse uma carteira nova!? Leduína te
     dava uma suna e eu não podia fazer nada, como daquela outra vez que você
     arrebentou a franja da cortina, lembra? Você se lembra muito bem, sim senhor,
     não precisa fazer essa cara de inocente!... Biruta deitou-se, enfiou, o focinho
     entre as patas e baixou a orelha. Agora, ambas as orelhas estavam no mesmo
     nível, murchas, as pontas quase tocando o chão, Seu olhar interrogativo parecia
     perguntar: “Mas que foi que eu fiz, Abuso? Não me lembro de nada...”
            – Lembra sim senhor! E não adianta ficar aí com essa cara de doente, que
     não acredito, ouviu? Ouviu, Biruta?! – repetiu Alonso lavando furiosamente os
     pratos. Com um gesto irritado, arregaçou as mangas que já escorregavam sobre
     os pulsos finos. Sacudiu as mãos cheias de espuma. Tinha mãos de velho.
            – Alonso, anda ligeiro com essa louça! – gritou Leduína, aparecendo por
     um momento na janela da cozinha. – Já está escurecendo, tenho que sair!
            – Já vou indo – respondeu o menino enquanto removia a água da bacia.
     Voltou-se para o cachorro. E seu rostinho pálido se confrangeu de tristeza. Por
     que Biruta não se emendava, por quê? Por que não se esforçava um pouco para
     ser meihorzinho? Dona Zulu já andava impaciente, Leduína também, Biruta fez
     isso, Biruta fez aquilo...




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LÍNGUA PORTUGUESA

      Lembrou-se do dia em que o cachorro entrou na geladeira e tirou de lá a
carne. Leduina ficou desesperada, vinham visitas para o jantar, precisava encher
os pasteis, “Alonso, você não viu onde deixei a carne?” Ele estremeceu. Biruta!
Disfarçadamente foi à garagem no findo do quintal, onde dormia com o cachorro
num velho colchão metido num ângulo da parede. Binuta estava lá, deitado
bem em cima do travesseiro, com a posta de carne entre as patas, comendo
tranquilamente. Alonso arrancou-lhe a carne, escondeu-a dentro da camisa e
voltou à cozinha. Deteve-se na porta ao ouvir Leduína queixar-se à dona Zulu
que a carne dasaparecera, aproximava-se a hora do jantar e o açougue já estava
fechado, “que é que eu faço, dona Zulu?!”
      Ambas estavam na sala. Podia entrever a patroa a escovar freneticamente
os cabelos. Ele então tirou a carne de dentro da camisa, ajeitou o papel já todo
roto que a envolvia e entrou com a posta na mão.
      – Está aqui, Leduína.
      – Mas falta um pedaço!
      – Esse pedaço eu tirei pra mim. Eu estava com vontade de comer um bife e
aproveitei quando você foi na quitanda.
      – Mas por que você escondeu o resto? – perguntou a patroa, aproximando-se.
      – Porque fiquei com medo.
      Tinha bem viva na memória a dor que sentira nas mãos corajosamente
abertas para os golpes da escova. Lágrimas saltaram-lhe dos olhos. Os dedos
foram ficando roxos, mas ela continuava batendo com aquele mesmo vigor
obstinado com que escovara os cabelos, batendo, batendo como se não pudesse
parar nunca mais.
      – Atrevido! Ainda te devolvo pro asilo, seu ladrãozinho!
      Quando ele voltou à garagem, Biruta já estava lá, as duas orelhas caídas,
o focinho entre as patas, piscando, piscando os olhinhos temos. “Biruta, Biruta,
apanhei por sua causa, mas não faz mal. Não faz mal.”
      Biruta então ganiu sentidamente. Lambeu-lhe as lágrimas. Lambeu-lhe as
mãos. Isso tinha acontecido há duas semanas. E agora Biruta mordera a carteirinha
de Leduína. E se fosse a carteira de dona Zulu?
      – Hem, Biruta?! E se fosse a carteira de dona Zulu?
      Já desinteressado, Biruta mascava uma folha seca.
      – Por que você não arrebenta as minhas coisas? – prosseguiu o menino
elevando a voz. – Você sabe que tem todas as minhas coisas pra morder, não
sabe? Pois agora não te dou presente de Natal, está acabado. Você vai ver se
ganha alguma coisa. Você vai ver!...




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LÍNGUA PORTUGUESA

            Girou sobre os calcanhares, dando as costas ao cachorro. Resmungou
     ainda enquanto empilhava a louça na bacia. Em seguida, calou-se, esperando
     qualquer reação por parte do cachorro. Como a reação tardasse, lançou-lhe um
     olhar furtivo. Biruta dormia profundamente.
            Alonso então sorriu. Biruta era como uma criança. Por que não entendiam
     isso? Não fazia nada por mal, queria só brincar... Por que dona Zulu tinha tanta
     raiva dele? Ele só queria brincar, como as crianças. Por que dona Zulu tinha tanta
     raiva de crianças? Uma expressão desolada amarfanhou o rostinho do menino.
     “Por que dona Zulu tem que ser assim? O doutor é bom, quer dizer, nunca se
     importou nem comigo nem com você, é como se a gente não existisse. Leduína
     tem aquele jeitão dela, mas duas vezes já me protegeu. Só dona Zulu não entende
     que você é que nem uma criancinha. Ah, Biruta, Biruta, cresça logo, pelo amor de
     Deus! Cresça logo e fique um cachorro sossegado, com bastante pelo e as duas
     orelhas de pé! Você vai ficar lindo quando crescer, Biruta, eu sei que vai!”
            – Alonso! – Era a voz de Leduína. – Deixe de falar sozinho e traga logo essa
     bacia. Já está quase noite, menino.
            – Chega de dormir, seu vagabundo! – disse Alonso espargindo água no
     focinho do cachorro. Biruta abriu os olhos, bocejou com um ganido e levantou-se,
     estirando as patas dianteiras, num longo espreguiçamento. O menino equilibrou
     penosamente a bacia na cabeça. Biruta seguiu-o aos pulos, mordendo-lhe os
     tornozelos, dependurando-se com os dentes na barra do seu avental.
            – Aproveita, seu bandidinho! – riu-se Alonso.
            – Aproveita que eu estou com a mão ocupada, aproveita!
            Assim que colocou a bacia na mesa, ele inclinou-se para agarrar o cachorro.
     Mas Biruta esquivou-se, latindo. O menino vergou o corpo sacudido pelo riso.
            – Ai, Leduína, que o Biruta judiou de mim!... A empregada pôs-se a guardar
     rapidamente a louça. Estendeu-lhe uma caçarola com batatas:
            – Olha aí para o seu jantar. Tem ainda arroz e carne no forno.
            – Mas só eu vou jantar? – surpreendeu-se Alonso, ajeitando a caçarola no
     colo.
            – Hoje é dia de Natal, menino. Eles vão jantar fora, eu também tenho a
     minha festa. Você vai jantar sozinho.
            – Alonso inclinou-se. E espiou apreensivo para debaixo do fogão. Dois
     olhinhos brilharam no escuro: Biruta ainda estava lá. Alonso suspirou. Era tão
     bom quando Biruta resolvia se sentar! Melhor ainda quando dormia. Tinha então
     a certeza de que não estava acontecendo nada. A trégua. Voltou-se para Leduína.
            – O que o seu filho vai ganhar?




20
LÍNGUA PORTUGUESA

       – Um cavalinho – disse a mulher. A voz suavizou. – Quando ele acordar
amanhã, vai encontrar o cavalinho dentro do sapato dele. Vivia me atormentando
que queria um cavalinho, que queria um cavalinho...
       Alonso pegou uma batata cozida, morna ainda. Fechou-a nas mãos
arroxeadas.
       – Lá no asilo, no Natal, apareciam umas moças com uns saquinhos de balas
e roupas. Tinha uma que já me conhecia, me dava sempre dois pacotinhos em
lugar de um. A madrinha. Um dia, me deu sapatos, um casaquinho de malha e
uma camisa.
       – Por que ela não ficou com você?
       – Ela disse uma vez que ia me levar, ela disse. Depois, não sei por que ela
não apareceu mais...
       Deixou cair na caçarola a batata já fria. E ficou em silêncio, as mãos abertas
em torno da vasilha. Apertou os olhos. Deles, irradiou-se para todo o rosto uma
expressão dura. Dois anos seguidos esperou por ela. Pois não prometera levá-lo?
Não prometera? Nem lhe sabia o nome, não sabia nada a seu respeito, era apenas
“a madrinha”. Inutilmente a procurava entre as moças que apareciam no fim do
ano com os pacotes de presentes. Inutilmente cantava mais alto do que todos no
fim da festa, quando então se reunia aos meninos na capela. Ah, se ela pudesse
ouvi-lo! “...O bom Jesus é quem nos traz a mensagem de amor e alegria”...
       – Também, é muita responsabilidade tirar criança pra criar! – disse Leduína
desamarrando o avental. – Já chega os que a gente tem.
       Alonso baixou o olhar. E de repente, sua fisionomia iluminou-se. Puxou o
cachorro pelo rabo.
       – Êh, Biruta! Está com fome, Biruta? Seu vagabundo! vagabundo!... Sabe,
Leduína, Biruta também vai ganhar um presente que está escondido lá debaixo
do meu travesseiro. Com aquele dinheirinho que você me deu, lembra? Agora ele
não vai precisar mais morder suas coisas, tem a bolinha só pra isso. Ele não vai
mais mexer em nada, sabe, Leduína?
       – Hoje cedo ele não esteve no quarto de dona Zulu? O menino empalideceu.
       – Só se foi na hora que fui lavar o automóvel... Por que, Leduína? Por quê?
Que foi que aconteceu? Ela hesitou. E encolheu os ombros.
       – Nada. Perguntei à toa. A porta abriu-se bruscamente e a patroa apareceu.
Alonso encolheu-se um pouco. Sondou a fisionomia da mulher. Mas ela estava
sorridente. O menino sorriu também.
       – Ainda não foi pra sua festa, Leduína? – perguntou a moça num tom
afável. Abotoava os punhos do vestido de renda. – Pensei que você já tivesse




                                                                                        21
LÍNGUA PORTUGUESA

     saído... – E antes que a empregada respondesse, ela voltou-se para Alonso: –
     Então? Preparando seu jantarzinho?
            O menino baixou a cabeça. Quando ela lhe falava assim mansamente, ele
     não sabia o que dizer.
            – O Biruta está limpo, não está? – prosseguiu a mulher, inclinando-se para
     fazer uma carícia na cabeça do cachorro. Biruta baixou as orelhas, ganiu dolorido
     e escondeu-se debaixo do fogão. Alonso tentou encobrir-lhe a fuga:
            – Biruta, Biruta! Cachorro mais bobo, deu agora de se esconder... – Voltou-
     se para a patroa. E sorriu desculpando-se: – Até de mim ele se esconde.
            A mulher pousou a mão no ombro do menino:
            – Vou numa festa onde tem um menininho assim do seu tamanho. Ele
     adora cachorros. Então me lembrei de levar o Biruta emprestado só por esta
     noite, O pequeno está doente, vai ficar radiante, o pobrezinho. Você empresta
     seu Biruta só por hoje, não empresta? O automóvel já está na porta. Ponha ele
     lá que estamos de saída. O rosto do menino resplandeceu. Mas então era isso?!...
     Dona Zulu pedindo Biruta emprestado, precisando do Biruta! Abriu a boca
     para dizer-lhe que sim, que o Biruta estava limpinho e que ficaria contente de
     emprestá-lo ao menino doente. Mas sem dar-lhe tempo de responder a mulher
     saiu apressadamente da cozinha.
            Viu, Biruta? Você vai numa festa! – exclamou. – Numa festa com crianças,
     com doces, com tudo! Numa festa, seu sem-vergonha! – repetiu, beijando o focinho
     do cachorro. – Mas, pelo amor de Deus, tenha juízo, nada de desordens! Se você se
     comportar, amanhã cedinho te dou uma coisa. Vou te esperar acordado, hem?
     Tem um presente no seu sapato... – acrescentou num sussurro, com a boca
     encostada na orelha do cachorro. Apertou-lhe a pata.
            – Te espero acordado, Biru... Mas não demore muito!
            O patrão já estava na direção do carro. Alonso aproximou-se.
            – O Biruta, doutor.
            O homem voltou-se ligeiramente. Baixou os olhos.
            – Está bem, está bem. Deixe ele aí atrás.
            Alonso ainda beijou o focinho do cachorro. Em seguida, fez-lhe uma última
     carícia, colocou- o no assento do automóvel e afastou-se correndo.
            – Biruta vai adorar a festa! – exclamou assim que entrou na cozinha. – E lá
     tem doces, tem crianças, ele não quer outra coisa! – Fez uma pausa. Sentou- se.
     – Hoje tem festa em toda parte, não, Leduína? A mulher já se preparava para sair.
            – Decerto. Alonso pôs-se a mastigar pensativamente.
            – Foi hoje que Nossa Senhora fugiu no burrinho?




22
LÍNGUA PORTUGUESA

       – Não, menino. Foi hoje que Jesus nasceu. Depois então é que aquele rei
manda prender os três.
       Alonso concentrou-se:
       – Estava.
       – E tão boazinha. Você não achou que hoje ela estava boazinha?
       – Estava, estava muito boazinha...
       – Por que você está rindo?
       – Nada – respondeu ela pegando a sacola. Dirigiu-se à porta. Mas antes,
parecia querer dizer qualquer coisa de desagradável e por isso hesitava, contraindo
a boca.
       Alonso observou-a. E julgou adivinhar o que a preocupava.
       – Sabe, Leduína, você não precisa dizer pra dona Zulu que ele mordeu sua
carteirinha, eu já falei com ele, já surrei ele. Não vai fazer mais isso nunca, eu
prometo que não.
       A mulher voltou-se para o menino. Pela primeira vez, encarou-o. Vacilou
ainda um instante.
       Decidiu-se:
       – Olha aqui, se eles gostam de enganar os outros, eu não gosto, entendeu?
Ela mentiu pra você, Biruta não vai mais voltar.
       – Sabe, Leduína, se algum rei malvado quisesse matar o Biruta, eu me
escondia com ele no meio do mato e ficava morando lá a vida inteira, só nós dois!
– Riu-se metendo uma batata na boca. E de repente ficou sério, ouvindo o ruído
do carro que já saía. – Dona Zulu estava linda, não?
       – Não vai o quê? – perguntou Alonso pondo a caçarola em cima da mesa.
Engoliu com dificuldade o pedaço de batata que ainda tinha na boca. Levantou-
se.
       – Não vai o quê, Leduína?
       – Não vai mais voltar. Hoje cedo ele foi no quarto dela e rasgou um pé
de meia que estava no chão. Ela ficou daquele jeito. Mas não te disse nada e
agora de tardinha, enquanto você lavava a louça, escutei a conversa dela com
o doutor: que não queria mais esse vira-lata, que ele tinha que ir embora hoje
mesmo, e mais isso, e mais aquilo... O doutor pediu pra ela esperar, que amanhã
dava um jeito, você ia sentir muito, hoje era Natal... Não adiantou. Vão soltar o
cachorro bem longe daqui e depois seguem pra festa. Amanhã ela vinha dizer
que o cachorro fugiu da casa do tal menino. Mas eu não gosto dessa história de
enganar os outros, não gosto. É melhor que você fique sabendo desde já, o Biruta
não vai voltar.




                                                                                      23
LÍNGUA PORTUGUESA

           Alonso fixou na mulher o olhar inexpressivo. Abriu a boca. A voz era um
     sopro.
           – Não?..
           Ela perturbou-se.
           – Que gente também! – explodiu. Bateu desajeitadamente no ombro do
     menino. – Não se importe, não, filho. Vai, vai jantar.
           Ele deixou cair os braços ao longo do corpo. E arrastando os pés, num andar
     de velho, foi saindo para o quintal. Dirigiu-se à garagem.
           A porta de ferro estava erguida. A luz fria do luar chegava até a borda do
     colchão desmantelado. Alonso cravou os olhos brilhantes num pedaço de osso
     roído, meio encoberto sob um rasgão do lençol. Ajoelhou-se. Estendeu a mão
     tateante. Tirou debaixo do travesseiro uma bola de borracha.
           – Biruta – chamou baixinho. – Biruta... – e desta vez só os lábios se moveram
     e não saiu som algum.
           Muito tempo ele ficou ali ajoelhado, segurando a bola. Depois apertou-a
     fortemente contra o coração.
                                                     De conto em conto, vol.2. Editora Ática, São Paulo. 2002.


   Em relação ao texto lido e tendo por base o conceito apresentado por Luzia de Maria,
responda aos questionamentos abaixo:

01 O conto Biruta tem poucos personagens? Quem são?
      Sim. Alonso, Biruta, Leduína, dona Zulu e seu marido.


02 As ações convergem para o mesmo ponto? Qual
      Sim. Para a estrema crueldade de dona Zulu que chega ao ponto de tirar o cãozinho do garoto, na noite
      de Natal, sem avisá-lo.


03 A história acontece em um curto espaço de tempo? Delimite-o!
      Sim. Entre o final da tarde e a noite do dia 24 de dezembro,


04 Que tipo de linguagem é utilizada no conto.
      Linguagem direta, objetiva, familiar.




24
LÍNGUA PORTUGUESA

Prática de escrita

  DESAFIO

     Retome novamente o seu conto e observe esses elementos: há poucos personagens?
  O espaço de tempo é curto? Onde se passa a história que você criou? Caso esses
  elementos não estejam bem definidos no seu texto, este é o momento de aprimorar a sua
  escrita. Vamos lá?
       Professor(a), medeie esta atividade, percorrendo a sala e orientando a reescrita individual, com base
       nas anotações feitas por você, durante a leitura dos textos.




AULA 04

Ampliação dos conhecimentos
sobre o gênero
Objetivo geral
   Ampliar os conhecimentos que os estudantes já possuem sobre o gênero Contos literários,
explorando as práticas de oralidade, leitura e escrita

 O que devo aprender nesta aula
 u   Partilhar com colegas as percepções de leitura dos contos lidos e/ou ouvidos.
 u   Ler com fluência e autonomia, construindo significados e inferindo informações implícitas.
 u   Ler contos, identificando seus elementos e características próprias.



Prática de oralidade
   Você leu um conto muito comovente. O que você sentiu durante a leitura? Converse com
os colegas sobre isso. É bom compartilhar o que sentimos.
     Professor(a), divida a turma em duplas, peça que extravasem as emoções provocadas pelo conto e relatem
     experiências semelhantes vividas por eles ou pessoas conhecidas. Percorra os grupos para observar as
     impressões e os comentários dos alunos e ajudá-los na reflexão sobre os recursos utilizados pela autora
     para tornar a história tão interessante, a ponto de envolver e comover os leitores.




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LÍNGUA PORTUGUESA

Conceito
    Conto é uma obra de ficção que cria um universo de seres e acontecimentos, de fantasia
ou imaginação. Como todos os textos de ficção, o conto apresenta um narrador, personagens,
espaço, tempo, ponto de vista e enredo.

Prática de leitura
   Leia as informações e perguntas abaixo com atenção, e responda-as, em seu caderno,
voltando ao texto sempre que necessário, para confirmar suas hipóteses.
   Tempo: uma história passa-se num tempo determinado, que pode ser declarado pelo
narrador ou que você pode inferir a partir de pistas que o texto fornece. No conto Biruta,
ao invés de “carro”, menciona-se a palavra “automóvel”, termo pouco utilizado nos dias atuais.
Outro elemento do conto, que demarca o tempo em que se passa a história, está na fala de
Leduína, quando ela diz a dona Zulu que aproximava-se a hora do jantar e o açougue já
estava fechado. Atualmente há açougues em supermercados que ficam abertos até durante
a noite.

 01 A partir desses elementos você consegue deduzir a época em que acontece essa his-
tória?
      Percebe-se, claramente que a história não é atual. A partir dos elementos mencionados, dentre outros
      indícios, pode-se deduzir que a história se passa no século XX, em meados da década de 60 ou 70.


02 Em que dia do ano se passa a história? Em que momento desse dia?
      Sim. Entre o final da tarde e a noite do dia 24 de dezembro.


03 Por que a escolha desse dia para desfazer-se de Biruta torna mais cruel a atitude de
Zulu?
      Porque, a celebração do nascimento de Jesus costuma sensibilizar as pessoas, aflorando sentimentos
      que possam ter ficado adormecidos durante todo o ano, como a solidariedade, o desejo de fazer o bem,
      proporcionar alegria e felicidade ao (à) outro (a), daí o significado da troca de presentes. E é exatamente
      neste dia que dona Zulu, ao invés de presentear Alonso, decide retirar dele o seu único presente.

   Enredo: é a organização dos fatos e ações vividas pelos personagens, numa determinada
ordem. Essa ordem pode ser linear, quer dizer, o que acontece antes vem contado antes, o
que acontece depois vem contado depois. Às vezes essa ordem linear pode ser interrompida
para voltar ao passado, relembrando algo que aconteceu antes do momento que está sendo
narrado. Este último procedimento recebe o nome de técnica da retrospectiva ou flash-bach.




26
LÍNGUA PORTUGUESA

 04 A ordem linear dos fatos e ações no conto Biruta foi interrompida em algum momen-
to? Quando?
      Sim. Quando Alonso se recorda de coisas passadas.


Prática de escrita
   Retome o seu conto e observe especialmente o enredo e o tempo. Observe se algum
personagem do seu texto se recorda, ou poderia se recordar, de algum fato passado. Caso
você não tenha utilizado a técnica do flash-bach e perceba que poderia tê-la utilizado para
maior coerência interna do seu texto, este é o momento de fazê-lo. Vamos lá, mãos à obra!

  DESAFIO

     Identifique, dentre os fatos abaixo, os que são contados no momento em que
  acontecem e os que são relembrados pelo personagem Alonso, escrevendo presente ou
  passado, ao lado de cada fato apresentado:
        a) Alonso lava a louça numa bacia _______________
        b) Alonso volta à garagem triste e sozinho. _______________
        c) No asilo, Alonso recebe a visita da madrinha. _______________
        d) Alonso empresta Biruta a dona Zulu. _______________
        e) Animado, Alonso conversa com Leduína sobre o pedido de Zulu
        _____________
        f ) Dona Zulu bate em Alonso por causa da carne Que Biruta roubou
        ___________
        g) Leduína conta a Alonso a verdade sobre Biruta _______________
        h) Alonso entrega a louça a Leduína na cozinha _______________
        i)	Biruta é colocado no carro e parte com Zulu e o doutour. _______________
         Resposta: Presente: a, b, d, e, g, h, i
         Passado: c, f

     Professor(a), socialize a atividade, de forma a sistematizar dois importantes elementos do conto:
     tempo e enredo. Leve-os a perceber que a ordem linear dos fatos e ações vividas pelos personagens,
     às vezes, é interrompida com a volta ao passado e recordação de algo que aconteceu antes do
     momento que está sendo narrado. Essa técnica, chamada de retrospectiva ou flash-bach, faz com que
     o personagem Alonso se recorde de coisas passadas.




                                                                                                          27
LÍNGUA PORTUGUESA

AULA 05

Ampliação dos conhecimentos
sobre o gênero
Objetivo geral
   Ampliar os conhecimentos que os estudantes já possuem sobre o gênero Contos literários,
explorando as práticas de oralidade, leitura e escrita

 O que devo aprender nesta aula
 u   Partilhar com colegas as percepções de leitura dos contos lidos e/ou ouvidos.
 u   Ler com fluência e autonomia, construindo significados e inferindo informações implícitas.
 u   Ler contos, identificando seus elementos e características próprias.



Prática de oralidade

     Professor(a), inicie esta aula, pedindo que os estudantes socializem os conhecimentos construídos até o
     momento. Divida a turma em pequenos grupos para que eles possam conversar sobre o tempo e o enredo
     dos seus contos.


   Reúna com dois ou três colegas e, depois de ler as produções de todo o grupo, converse
sobre o enredo e o tempo de cada conto. Escute o que eles têm a lhe dizer sobre o que você
criou, mas também dê a sua opinião sobre o que foi construído pelos seus colegas.

Conceito
    Conto é uma obra de ficção que cria um universo de seres e acontecimentos, de fantasia
ou imaginação. Como todos os textos de ficção, o conto apresenta um narrador, personagens,
espaço, tempo, ponto de vista e enredo.

Prática de leitura
   Leia as informações e perguntas abaixo com atenção, e responda-as, em seu caderno,
voltando ao texto sempre que necessário, para confirmar suas hipóteses.




28
LÍNGUA PORTUGUESA

Conceito
   Personagens: seres que vivem as ações. Através do enredo, percebemos o relacionamento
entre eles. Podem ser caracterizadas fisicamente (aparência, cor, idade etc.), através do que
fazem ou do que o narrador diz sobre elas. Personagem principal, ou protagonista, é aquele
em torno do qual se desenvolve o enredo. No caso do conto Biruta, Alonso é o personagem
principal.
   •	   Como era Alonso física e psicologicamente?
        Uma criança de bracinhos finos, mãos e andar de velho; sofrido mas muito amoroso, carinhoso e amigo
        de Biruta.
   •	   Que tipo de trabalho fazia e onde dormia?
        Auxiliava Leduína, a empregada da casa, nos trabalhos domésticos. Dormia em um colchão, no canto da
        garagem, no fundo do quintal da casa.
   •	   Como era Biruta? Por que mexia nas coisas e as estragava?
        Era pequenino e branco, uma orelha em pé e a outra completamente caída. Tinha olhinhos ternos e mexia
        em tudo, como uma criança travessa.
   •	   Como era o relacionamento de Alonso com Biruta? Por que o cãozinho era tão
        importante para ele?
        Biruta era o único e inseparável amigo de Alonso. Dormiam juntos no mesmo colchão, na garagem.
   •	   Por que dona Zulu adotou Alonso?
        Para desenvolver uma espécie de trabalho escravo na sua casa.
   •	   Compare dona Zulu e Leduína. Que diferença há entre elas, quanto ao modo de
        tratar o menino?
        Dona Zulu era má, tratava Alonso com extrema crueldade. Leduína, apesar de não demonstrar amor e
        carinho por Alonso, manifestou uma certa pena do garoto, quando decide lhe revelar o destino de Biruta
        naquela noite.
   •	   Como o marido de dona Zulu se relacionava com Alonso?
        Com indiferença. Não se manifestava frente às atitudes cruéis da esposa.


   Conflito: é o principal acontecimento a partir do qual se desenvolve a história.
   •	   Qual é o assunto do conto Biruta?
        A solidão e a luta de Alonso pela sobrevivência e para proteger o seu querido cão, companheiro e único
        amigo. 


   Espaço: é o lugar onde se passam as ações e fatos vividos pelos personagens. No texto
Biruta, as ações acontecem na casa de dona Zulu, mas Alonso e Biruta não compartilham
do espaço ocupado pelo casal.




                                                                                                         29
LÍNGUA PORTUGUESA

    •	   Qual é o espaço reservado a Alonso e Biruta na casa de dona Zulu?
         A garagem, no fundo do quintal.
    •	   Que relação há entre esse espaço e a forma como Alonso é tratado pela dona da casa?
         O espaço reservado a Alonso na casa de Zulu (a garagem no fundo quintal) revela que o menino era
         tratado pela dona da casa como um empregado, um escravo, e não como alguém da família.


   Verossimilhança: é a coerência ou lógica interna da história. Os fatos narrados , mesmo
inventados, devem decorrer uns dos outros de forma que o leitor aceite que possam ter
ocorrido; o leitor precisa ser convencido de que os fatos narrados são possíveis na história.
    •	   Como você avalia a verossimilhança no conto Biruta?
         O conto Biruta é verossímil, pois os fatos narrados, mesmo que inventados, poderiam perfeitamente
         acontecer na história.

    Professor(a), com o objetivo de contribuir para a ampliação dos conhecimentos sobre o gênero em estudo,
    socialize a atividade, de forma a sistematizar os demais elementos de um conto.


Prática de escrita

    DESAFIO

        Retome mais uma vez a sua produção e observe se está claro para o leitor quem é o
    personagem principal e os secundários na história criada por você. Procure aprimorar
    suas características físicas e psicológicas, por meio das suas ações, pensamentos, atitudes
    e relacionamentos. Atente-se, ainda, para o assunto e o espaço criados por você. Não se
    esqueça de cuidar também da verossimilhança. Mãos à obra
	


AULA 06

Ampliação dos conhecimentos
sobre o gênero
Objetivo geral
   Ampliar os conhecimentos que os estudantes já possuem sobre o gênero Contos literários,
explorando as práticas de oralidade, leitura e escrita.




30
LÍNGUA PORTUGUESA

 O que devo aprender nesta aula
 u   Ler contos de autor goiano.
 u   Conhecer a cultura local, com base nos aspectos culturais e linguísticos presentes no conto.
 u   Analisar o emprego de adjetivos e locuções adjetivas para a caracterização das personagens e dos espaços
     no conto.
 u   Perceber a existência de preconceitos com relação à sexualidade, à mulher, ao negro, ao índio, ao pobre, à
     criança, ao velho, ao homem do campo, nos contos populares lidos.
 u   Valorizar a leitura literária como fonte de entretenimento e prazer.
 u   Antecipar o conteúdo das leituras com base em indícios como autor, título do texto, ilustrações.
 u   Ler com fluência e autonomia, construindo significados e inferindo informações implícitas.
 u   Produzir a primeira escrita de um conto.



Conceito
   Há duas maneiras de caracterizar um personagem, seja ele linear ou complexo: uma
é pela qualificação, outras pelas ações. No primeiro caso, o personagem é descrito pelo
narrador ou por outros personagens: características físicas (estaturas, aparência, idade,
cor etc.), características psicológicas (personalidade, qualidade e defeitos, sonhos, desejos,
emoções, pensamentos, frustrações, carências), características sociais (família, amizades,
atividades, situação econômica etc.). No segundo caso, o personagem vai-se definindo pelo
que faz, isto é, por suas ações o leitor vai percebendo quem ele é. Algumas vezes essas ações
não são externas: passam-se na cabeça dos personagens, são ações interiores, psicológicas.
   Entretanto, essas duas possibilidades se completam, pois os autores recorrem tanto à
qualificação quanto à ação para mostrar a personagem.

Prática de oralidade

     Professor(a), neste momento, apresente à classe o conto, utilizando a antecipação como estratégia de
     leitura para despertar a curiosidade e as expectativas dos estudantes, bem como a apresentação do autor
     do conto.


          Hugo de Carvalho Ramos nasceu na Cidade de Goiás, no Largo do Chafariz, a 21 de
          maio de 1895, e morreu na mesma cidade, no dia 12 de maio de 1921. Considerado um
          dos grandes nomes do conto brasileiro, escreveu seu único livro Tropas e Boiadas (1917),
          do qual o conto Ninho de Periquitos faz parte.


     •	    Você conhece o autor da história?



                                                                                                              31
LÍNGUA PORTUGUESA

   •	   Você já leu outros textos desse autor?
   •	   O título o “Ninho de periquitos” lhe sugere alguma coisa?
   •	   O que você acha que irá acontecer na história?

Prática de leitura
   Leia o texto abaixo e, a seguir, responda às questões que se seguem:
   Proponha à classe a leitura silenciosa do conto Ninho de Periquitos de Hugo de carvalho Ramos. Peça-lhes
   que durante a leitura observem bem as personagens. Pergunte aos estudantes se gostaram da história,
   se conhecem alguma história parecida, que sentimentos ela lhe despertou. Comente que o autor utilizou
   uma linguagem regional, valorizando a cultura local e respeitando a variedade linguística – o sertanejo –
   especificamente.


                                         Ninho de periquitos
                                                                Hugo de Carvalho Ramos


               Abrandando a canícula pelo virar da tarde, Domingos abandonou a rede
        de embira onde se entretinha arranhando uns respontos na viola, após farta
        cuia de jacuba de farinha de milho e rapadura que bebera em silêncio, às largas
        colheradas, e saiu ao terreiro, onde demorou a afiar numa pedra piçarra o corte
        da foice.
               Era pelo Domingo, vésperas quase da colheita. O milharal estendia-se além,
        na baixada das velhas terras devolutas, amarelecido já pela quebra, que realizara
        dia antes, e o veranico, que andava duro na quinzena.
               Enquanto amolava o ferro, no propósito de ir picar uns galhos de coivara no
        fundo do plantio para o fogo da cozinha, o Janjão rondava em torno, rebolando
        na terra, olho aguçado para o trabalho paterno.
               Não se esquecesse, o papá, dos filhotes de periquitos, que ficavam lá no
        fundo do grotão, entre as macegas espinhosas de “malícia”, num cupim velho do
        pé da maria-preta. Não esquecesse...
               O roceiro andou lá pelos fundos da roça, a colher uns pepinos temporões;
        foi ao paiol de palha d’arroz, mais uma vez avaliando com a vista se possuía
        capacidade precisa para a rica colheita do ano; e, tendo ajuntado os gravetos e
        uns cernes da coivara, amarrava o feixe e ia já a recolher caminho de casa, quando
        se lembrou do pedido do pequeno.
               – Ora, deixassem lá em paz os passarinhos.
               Mas aquele dia assentava o Janjão a sua primeira dezena tristonha de anos;
        e pois, não valia por tão pouco amuá-lo.




32
LÍNGUA PORTUGUESA

             O caipira pousou a braçada de lenha encostada à cerca do roçado; passou a
      perna por cima, e pulando de outro lado, as alpercatas de couro cru a pisar forte o
      espinharal ressequido que estralejava, entranhou-se pelo grotão-nesses dias sem
      pinga d’água – galgou a barroca fronteira e endireitou rumo da maria-preta, que
      abria ao mormaço crepuscular da tarde a galharada esguia, toda atostada desde
      a época da queima pelas lufadas de fogo que subiam da malhada.
             Ali mesmo, na bifurcação do tronco, assentada sobre a forquilha da árvore,
      à altura do peito, escancarava a boca negra para o nascente a casa abandonada
      dos cupins, onde um casal de periquitos fizera ninho essa estação.
             O lavrador alçou com cautela a destra calosa, rebuscando lá por dentro
      os dois borrachos. Mas tirou-a num repente, surpreendido. É que uma picadela
      incisiva, dolorosa, rasgara-lhe por dois pontos, vivamente, a palma da mão.
             E, enquanto olhava admirado, uma cabeça disforme, oblonga, encimada
      a testa duma cruz, aparecia à aberta do cupinzeiro, fitando-lhe, persistentes, os
      olhinhos redondos, onde uma chispa má luzia, malignamente...
             O matuto sentiu uma frialdade mortuária percorrendo-o ao longo da
      espinha. Era uma urutu, a terrível urutu do sertão, para a qual a mezinha doméstica
      nem a dos campos, possuíam salvação.
             Perdido... completamente perdido...
             O réptil, mostrando a língua bífida, chispando as pupilas em cólera, a fitá-lo
      ameaçador, preparava-se para novo ataque ao importuno que viera arrancá-lo da
      sesta; e o caboclo, voltando a si do estupor, num gesto instintivo, sacou da bainha
      o largo “jacaré” inseparável, amputando-lhe a cabeça dum golpe certeiro.
             Então, sem vacilar, num movimento ainda mais brusco, apoiando a mão
      molesta à casca carunchosa da árvore, decepou-a noutro golpe, cerce quase à
      juntura do pulso.
             E enrolando o punho mutilado na camisola de algodão, que foi rasgando
      entre dentes, saiu do cerrado, calcando duro, sobranceiro e altivo, rumo de casa,
      como um deus selvagem e triunfante apontando da mata companheira, mas
      assassina, mas perfidamente traiçoeira...

   Professor(a), após a leitura, proponha as questões abaixo para ajudar os estudantes a desenvolver
   habilidades como: localizar o tema do texto, estabelecer relações, inferir informações etc.



 01 O autor utiliza vários sinônimos para se referir ao pai de Janjão. Localize-os no texto
e registre no caderno.
       Roceiro, caipira, lavrador, matuto e cabloco.




                                                                                                   33
LÍNGUA PORTUGUESA

02 A caracterização do pai de Janjão se dá pela qualificação ou pelas ações que desenvolve
na história?
         Se dá pelas ações que o pai de Janjão desenvolve, todas as ações denunciam que ele é um homem do
         campo.


03 A cobra é caracterizada da mesma forma que o pai de Janjão? Justifique sua resposta.
         Não, pois a cobra é caracterizada pelas suas qualificações e não pelas suas ações. No texto, o autor lhe
         atribui as seguintes qualificações: “ uma cabeça disforme, oblonga, encimada a testa duma cruz, olhinhos
         redondos, onde uma chispa, má.”


 04 Vocês notaram que há muitas palavras desconhecidas no texto que não fazem parte
no nosso cotidiano. Retire do texto algumas delas e pelo contexto tente atribuir um signi-
ficado.
         Respontos, coivara, alpercatas, malhada, bífida, entre outras.


Produção escrita

  DESAFIO

     Crie características físicas, psicológicas e sociais para o pai de Janjão, com base na sua
  vida, nas suas ações e nas informações da leitura do conto Ninho de Periquitos.



AULA 07

Ampliação dos conhecimentos
sobre o gênero
Objetivo geral
   Ampliar os conhecimentos que os estudantes já possuem sobre o gênero Contos literários,
explorando as práticas de oralidade, leitura e escrita.

 O que devo aprender nesta aula
 u   Partilhar com colegas as percepções de leitura dos contos lidos e/ou ouvidos.
 u   Ler com fluência e autonomia, construindo significados e inferindo informações implícitas.
 u   Ler contos, identificando seus elementos e características próprias.




34
LÍNGUA PORTUGUESA

Conceito	
    Conto é uma obra de ficção que cria um universo de seres e acontecimentos, de fantasia
ou imaginação. Como todos os textos de ficção, o conto apresenta um narrador, personagens,
espaço, tempo, ponto de vista e enredo. Classicamente diz-se que o conto se define pela sua
pequena extensão. Mas curto que a novela ou romance, o conto tem sua estrutura fechada
desenvolve uma história e apenas um clímax. O clímax é o momento de maior tensão e
intensidade no conto. Pico máximo dos acontecimentos, facilmente identificado pelo leitor,
momento de auge no qual as ações atingem sua máxima expressão. Toda a estrutura do
enredo parece direcionada para este momento culminante da história. A história do conto
tem uma conclusão, o desfecho. Os conflitos desenvolvidos alcançam, ou não, um estágio de
solução. O desenlace pode ser feliz, trágico, engraçado, diferente, surpreendente. O desfecho
nem sempre traz uma solução, muitas vezes, o final é aberto e deixa o caminho livre para a
imaginação do leitor.

Prática de oralidade

   Professor(a), neste momento, apresente à classe o conto, utilizando a antecipação como estratégia de
   leitura para despertar a curiosidade e as expectativas dos estudantes. Aproveite o momento também para
   falar-lhes um pouco sobre este autor goiano.


        Bariane Ortêncio nasceu em Igarapava, São Paulo no dia 24 de julho de 1923. Veio
        para Goiânia em 1938, onde mora até hoje. Recebeu várias premiações, dentre elas:
        Prêmio João Ribeiro/1997, com a obra Cartilha do Folclore Brasileiro. Com A Fronteira
        (Revolução Constitucionalista de 1932 e Minha Vida de Menino), ganhou o prêmio CLIO
        da Academia Paulistana da História e edição premiada pelos Correios. Escreveu vários
        contos, dentre eles o Velho e os urubus, originalmente publicado na sua obra Meu tio-avô
        e o diabo.


   •	    Você conhece essa história?
   •	    O que o título lhe sugere?
   •	    Já leu algum texto deste autor?
   •	    Que impressões tiveram etc.

Prática de leitura
   Leia o texto abaixo, em seguida responda às perguntas, com atenção, em seu caderno,
voltando ao texto sempre que necessário.




                                                                                                        35
LÍNGUA PORTUGUESA

                                   O velho e os urubus
             De primeiro nem sabia quantos, mas depois foi reparando, se interessando,
     pegou na opinião. Agora, eram doze, os urubus. E passou a contá-los todos os
     dias. E não se retirava enquanto eles não chegassem. Passatempo, distração de
     velho solitário.
             Preparando o cigarro, beiradeando o curral, o balde na mão para a ordenha.
     O dia rompendo, nascente incandescendo, para onde se largavam os urubus, um
     a um, combinados, tais aviões deixando a base. À tarde vinham do poente de um,
     de dois e até de três. O Velho, assentado no banco do alpendrão, ficava olhando,
     divisando-os assim que surgissem as pintas negras no sol entrante. Ali sentado,
     trocando de posições no banco duro, procurando jeito, as hemorroidas ardendo,
     atentando, contava os seus urubus. Esperava até que chegasse o último, quando
     se retirava.
             Recolhia-se cedo, pouco depois do pouso das aves amigas, saciado com o
     prato de leite com farinha de milho. Só dormia assim: após a chegada dos urubus
     e do leite com farinha.
             O pouso, lá deles, uma árvore seca, ipê de grande porte, bem em frente à
     casa, do outro lado da cerca, fácil, muito fácil do Velho contar os urubus. Ele, que
     quase nada fazia, a perrenguice lhe tolhendo as vontades, a doença caminhando
     em ritmo acelerado, tinha na chegada dos urubus o seu único entretenimento.
     Era, além disso, a ordenha das poucas vacas, o caneco costumeiro de café forte e
     quente, o cigarro feito no capricho, alguns mais que-fazeres e o leite indefectível
     com farinha. Dos outros mais serviços, a Afilhada se ocupava. Como se chamava
     ela? Ele sabia? Não, não se lembrava mais. Pegara-a meninota, a velha ainda
     vivia; chamavam-na a Afilhada, que nunca passou de cria da casa. Ela também o
     chamava de Padrinho e jamais lhe soube o nome. Como se pertencesse à família,
     fazia um pouco de tudo e não recebia pagamentos, era pelo passado, algumas
     chitas e as chinelas baratas.
             No quarto, hora certa, deixava o fervido de ervas para o Padrinho banhar
     as varizes anais, o alívio, a garantia do sono sossegado. O Velho despertava antes
     dos urubus e saía para o relento de orvalho, reparando o horizonte, o clarear,
     os bichos preparando-se para levantar voo. Quando chovia à noite, eles ficavam
     esperando o sol sair e, como velhas rezando, asas abertas, enxugavam as penas.
     Não se fechavam para a nascente, como nos outros dias. Voavam em círculos sob
     o domínio dos olhos do Velho, galgando as alturas no bater das asas, procurando
     as camadas de ar favoráveis, e planavam por muito tempo, sem perder altura.
     Um ou outro punha-se em formato aerodinâmico, as asas com V, e mergulhava




36
LÍNGUA PORTUGUESA

para o solo num zumbido estridente, descrevendo, depois curva ascendente. Era
o espetáculo para o Velho amigo, que se embevecia.
      A Afilhada entregava-lhe o caneco de café e levava o balde de leite para
a cozinha. Ele sorvia em pequenos goles o café forte, seu agrado, o canivete no
alisamento da palha e na picagem do fumo. Ocupava-se, depois, em coisinhas,
até que chegasse a hora do retorno.
      O sol baixo, entra não entra, começavam a surgir as pintas pretas. E ele
as acompanhava, uma por uma, o volume aumentando até tornar-se realidade,
o bicho vindo alto, temperando com o oscilar de asas, descendo reto no galho
pouso. Depois juntava as asas, como se uma dama de negro fechasse o seu leque.
O Velho, mentalmente, contava. Eram seis. Agora sete. Oito. Nove. Dez... Não
havia errado? Não, não errara. Lá vinha vindo o onze... o doze mais atrás. Aí ele
se recolhia satisfeito como se tivesse cumprido importante missão. Quando
voltavam mais cedo para o pouso, o voo baixo e direto, o Velho sabia que logo
choveria, como de fato... E, assim, por muito tempo, assim sempre, sempre assim.
      Andava disputando a vida com o ipê seco. Era roxo ou era amarelo? Não se
lembrava. Malvados, arrancaram as cascas medicinais do seu ipê condenando-o.
Nunca mais flores e, de há muito, nem folhas.
      Mas um dia, que sempre há um dia, o sol já havia entrado e a contagem só
acusou onze urubus. O Velho saiu do seu banco e andou daqui prali, rodando,
achando que errara no contar ou que o faltante poderia estar encoberto por
um galho mais grosso. Mas não estava. Virou obsessão. Cada noite, ele beirando
a cerca de arame, os ouvidos atentos para o farfalhar de asas, que não vinha.
Buscara a lamparina, que mal clareava, mas que o ajudou a constatar o faltante.
O que acontecera com o seu urubu? Acasalara-se? Estaria nalguma fresta da
pedreira, preparando o ninho para os ovos? Quase não dormia naquelas noites e
o pouco era entrecortado de soninhos, madornas, sonhos malsonhados de sono
maldormido. Onde andaria o seu urubu?
      Precisava ir à pedreira, que não era tão longe, mas impossível para ele, que
se andasse muito, o sangue lhe ocorreria até as alpergatas. “Maldita hemorrêima!”
– clamava.
      Mandou a Afilhada chamar aquele moço que sempre pegava alguma
empreitada. Disse a ele, pedindo-lhe encarecidamente, que vasculhassem a
pedreira, o que foi feito em vão.
      Passavam-se os dias e nada do urubu aparecer. Ele também já pouco se
levantava do catre, aperreado, nervoso, cismado, encabulado, o mais para conferir
os amigos negros que não passavam de onze. Onde estaria seu décimo segundo




                                                                                     37
LÍNGUA PORTUGUESA

     apóstolo? E falava com eles, perguntando pelo desaparecido. Alguns grasnavam,
     decerto respondendo que não sabiam.
            O Velho já não se alimentava mais. O leite com farinha agora sendo pouco,
     quase nada, ele aceitava. Passava com o café e os inúmeros cigarros feitos, na
     maior parte, pela Afilhada.
            – Um remédio? O Padrinho quer um remédio?
            Ele negava com a cabeça. Não queria nada, não! Queria era o seu urubu!
            – Ele voltou? – perguntou o Padrinho.
            – Não. Não sei... – o que ela sabia contar não passava dos dedos de uma
     das mãos.
            Agora nada mais. Não se alimentava nem mais com café e o cigarro.
     A Afilhada não tinha iniciativa, sempre fora mandada. Não alcançava as
     consequências. Não chamou ninguém.
            Era alta madrugada, ainda, o Velho notou um clarão de aurora e levantou-
     se, afoito. Estava disposto e leve. Saiu para fora. Divisou, com alegria, todos os doze
     urubus no velho ipê seco, saltando no gingado desengonçado deles, de um galho
     a outro, na comemoração de volta do companheiro. E este era todo raio de luz,
     refulgente, resplendor. Um urubu-pavão, virou, será? – pensou o velho, pelas tais e
     tantas cores. Aí o resplandecente bateu asas, volteou a árvore, fez círculos curtos
     em torno do Velho, toda pompa, a cumprimentá-lo, as asas coloridas emanando
     luz, farfalhou em voo rasante pela cabeça do amigo, a convidá-lo. Ele, não sabe
     como, aceitou e partiu voando também, seguindo o seu urubu procurando
     as camadas favoráveis de ar, planando na gostosura!... Muito admirado, feliz,
     avistava lá de cima as divisas da fazendola, o gadinho sendo, formado com os
     outros, que se juntaram, a esquadrilha da amizade, do reencontro, até que o sol
     se anunciou, o discão vermelho no horizonte, o bando se dirigindo para aquela
     direção, sumindo, sumindo, pintas pretas...
            Como já era tarde, o dia avançando, a Afilhada foi até o quarto levar o
     caneco de café, talvez o Padrinho aceitasse. Se admirou e ficou também feliz,
     pois nunca, desde quando chegara àquela casa, vira o padrinho sorrir. E agora, o
     sorriso dele, tão bonito, o semblante no seu quieto de paz, os olhos abertos, bem
     abertos, talvez perscrutando horizontes, acompanhando o seu urubu brilhante.

01 Tomando como base o conto lido, identifique:
   • Personagens
     o Velho e a Afilhada




38
LÍNGUA PORTUGUESA

       • Tempo (exemplifique com elementos do texto)
       Manhã: O dia rompendo, nascente incandescendo,
       Fim de Tarde: O sol baixo, entra não entra
       Noite: Buscara a lamparina, que mal clareava

       • Conflito
       um velho já doente se aproximando da morte que tem como entretenimento contar os urubus.

       • Espaço
       o espaço é a fazenda (curral, curral; casa - alpendre, quarto)


02 Qual é o clímax desse conto?
       É o momento em que o velho conta os urubus e falta um deles.


03 Qual é o desfecho do conto?
       O velho morrer feliz, pois se reencontrou com o urubu que estava faltando.


 04 Em sua opinião, por que o Velho não sabia o nome da Afilhada? E por que a Afilhada
não sabia o nome do velho?
       Resposta possível: Pelo fato de o autor querer mostrar a indiferença do relacionamento dos dois.


Prática de escrita
   Este é o momento de você observar o clímax e o desfecho da sua produção inicial. Caso
estes elementos não estejam bem definidos, aprimore-os, utilizando os conhecimentos
construídos até aqui e muita criatividade. Mãos à obra!

  DESAFIO

    No conto lido o autor escreve as palavras “Velho e Afilhada” com as letra iniciais
  maiúsculas. Por que em sua opinião o autor faz isso?
  Resposta possível: A falta de identidade das personagens centrais da histórias revela a frieza das relações
  humanas (embora os personagens convivessem juntos ambos não sabiam seus respectivos nomes).




                                                                                                           39
LÍNGUA PORTUGUESA

AULA 08

Ampliação dos conhecimentos
sobre o gênero
Objetivo geral
   Ampliar os conhecimentos que os estudantes já possuem sobre o gênero Contos literários,
explorando as práticas de oralidade, leitura e escrita.

 O que devo aprender nesta aula
 u   Partilhar com colegas as percepções de leitura dos contos lidos e/ou ouvidos.
 u   Ler com fluência e autonomia, construindo significados e inferindo informações implícitas.
 u   Ler contos, identificando seus elementos e características próprias.



Conceito	
    Conto é uma obra de ficção que cria um universo de seres e acontecimentos, de fantasia
ou imaginação. O conto apresenta um narrador. Esse narrador pode fazer a narração em 1ª
ou em 3ª pessoa. O narrador em 1ª pessoa pode ser chamado de narrador personagem. Ele
conta e participa da história como personagem. O narrador na 3ª pessoa pode ser o narrador-
observador que conta a história na sem participar das ações. E o narrador-onisciente que
também conta a história em 3ª pessoa, mas ele conhece tudo sobre os personagens, conhece
suas emoções e pensamentos.

Prática de oralidade
     Professor(a), neste momento, retome os trechos abaixo, retirados dos contos “Felicidade Clandestina” e
     “O velho e os urubus” e direcione, à classe, questionamentos sobre os tipos de narrador existentes nas
     narrativas:

     •	   Quem você acha que está contando essas histórias?
     •	   Quem conta as histórias são os próprios personagens?
     •	   Os narradores contam as histórias observando-as de maneira imparcial ou conhecem
          profundamente os personagens?




40
LÍNGUA PORTUGUESA

Prática de leitura
   Leia os trechos abaixo e, em seguida, responda às perguntas com atenção, em seu
caderno, voltando ao texto sempre que necessário.

Trecho 1

                                       Felicidade clandestina
             [...] Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela
      dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de
      modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia
      as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
             Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e
      silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição
      muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas.
      Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A
      senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que
      essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou:
      mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! [...]


Trecho 2
                                        O velho e os urubus
            [...] Mas um dia, que sempre há um dia, o sol já havia entrado e a contagem
      só acusou onze urubus. O Velho saiu do seu banco e andou daqui prali, rodando,
      achando que errara no contar ou que o faltante poderia estar encoberto por
      um galho mais grosso. Mas não estava. Virou obsessão. Cada noite, ele beirando
      a cerca de arame, os ouvidos atentos para o farfalhar de asas, que não vinha.
      Buscara a lamparina, que mal clareava, mas que o ajudou a constatar o faltante.
      O que acontecera com o seu urubu? Acasalara-se? Estaria nalguma fresta da
      pedreira, preparando o ninho para os ovos? Quase não dormia naquelas noites e
      o pouco era entrecortado de soninhos, madornas, sonhos malsonhados de sono
      maldormido. Onde andaria o seu urubu? [...]

 01 Comparando os dois trechos, você acha que é diferente o modo de contar a história?
Por quê?
      Resposta possível: É importante que o aluno perceba que há diferenças na forma de contar a história
      nos dois trechos, pois no primeiro quem conta participa da história e no segundo não há essa participação.




                                                                                                           41
LÍNGUA PORTUGUESA

 02 Que tipo de narrador está presente nos dois trechos? Exemplifique com partes do
texto.
       Resposta possível: No trecho 1, a narrativa está em 1ª pessoa, visto que o narrador conta e participa da
       história ao mesmo tempo; é um narrador personagem: “Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia
       sequer.” Já no trecho 2, há um narrador em 3ª pessoa, o narrador-onisciente. Ele conhece tudo sobre os
       personagens, suas emoções e pensamentos: “Quase não dormia naquelas noites e o pouco era entrecortado
       de soninhos, madornas, sonhos malsonhados de sono maldormido. Onde andaria o seu urubu?” O narrador
       sabe que os sonhos do personagem eram malsonhados e que o sono era maldormido.


03 Reescreva o trecho 1 como se você fosse um narrador-onisciente.
       [...] Ela ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes a menina dizia: pois o livro esteve
       comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E ela, que
       não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os seus olhos espantados.
       Até que um dia, quando ela estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu
       a mãe da menina. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua
       casa. A mãe pediu explicação as duas meninas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras
       pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa
       mãe entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui
       de casa e você nem quis ler! [...]

   Professor(a) é importante você ressaltar as marcas desse tipo de narração: a onisciência (“E ela, que não era
   dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os seus olhos espantados.”); e o emprego da 3ª pessoa:
   (“Ela ia diariamente...”).


04 Reescreva o trecho 2 como se você fosse um narrador personagem.
       [...] Mas um dia, que sempre há um dia, o sol já havia entrado e a minha contagem só acusou onze
       urubus. Eu saí do meu banco e andei daqui prali, rodando, achando que errara no contar ou que o faltante
       poderia estar encoberto por um galho mais grosso. Mas não estava. Virou minha obsessão. Cada noite,
       eu beirava a cerca de arame, com os ouvidos atentos para o farfalhar de asas, que não vinha. Eu busquei
       a lamparina, que mal clareava, mas que me ajudou a constatar o faltante. O que acontecera com o meu
       urubu? Acasalara-se? Estaria nalguma fresta da pedreira, preparando o ninho para os ovos? Quase não
       dormia naquelas noites e o pouco era entrecortado de soninhos, madornas, sonhos malsonhados de sono
       maldormido. Onde andaria o meu urubu? [...]


Prática de escrita
   Retome mais uma vez a sua produção, desta vez para observar o tipo de narrador que
você empregou na sua história. Procure ser bastante coerente, cuidando para que a escolha
do foco narrativo perpasse todo o seu texto, não confundindo 1ª e 3ª pessoas. Vale ressaltar,
ainda, que se você optou pela narrativa em 3ª pessoa, deve observar também se o narrador
é apenas um observador dos fatos, ou conhece as emoções e pensamentos das personagens,
ou seja, é um narrador onisciente.




42
LÍNGUA PORTUGUESA

  DESAFIO

       Leia o trecho abaixo, retirado do conto “O Velho e os urubus.”
           “Cada noite, ele beirando a cerca de arame, os ouvidos atentos para o
           farfalhar de asas, que não vinha.”

       Agora, atribua um significado para a expressão destacada.




AULA 09

Ampliação dos conhecimentos
sobre o gênero
Objetivo geral
   Ampliar os conhecimentos que os estudantes já possuem sobre o gênero Contos literários,
explorando as práticas de oralidade, leitura, escrita e a análise da língua.

 O que devo aprender nesta aula
 u   Partilhar com colegas as percepções de leitura dos contos lidos e/ou ouvidos.
 u   Ler com fluência e autonomia, construindo significados e inferindo informações implícitas.
 u   Ler contos, identificando seus elementos e características próprias.
 u   Refletir sobre o emprego das flexões verbais.



Conceito	
   	    Num conto literário os tempos verbais são de extrema de importância. Verbos são
palavras variáveis que têm a propriedade de localizar o fato no tempo em relação ao momento
em que se fala. Podem ser flexionadas em três tempos básicos: presente, passado e futuro.
O presente indica uma ação, estado ou fenômeno da natureza que ocorre no momento em
que se fala; o futuro, algo que irá ocorrer após o momento em que se fala; e o pretérito, por
sua vez, se aplica a fatos anteriores ao momento da fala. Sempre que o autor quer marcar o
grau de certeza de que um fato realmente ocorreu, está previsto ou prestes a ocorrer, utiliza
o modo indicativo, que retrata situações consideradas reais por parte de quem fala.



                                                                                                  43
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  • 1. Caderno Caderno Material do professor educacional educacional Material do professor Material do professor LÍNGUA PORTUGUESA Ciências ciências 9 Material de apoio Material de apoio o ano
  • 2. Expediente Marconi Ferreira Perillo Júnior Governador do Estado de Goiás Thiago Mello Peixoto da Silveira Secretário de Estado da Educação Erick Jacques Pires Superintendente de Acompanhamento de Programas Institucionais Raph Gomes Alves Chefe do Núcleo de Orientação Pedagógica Valéria Marques de Oliveira Gerente de Desenvolvimento Curricular Gerência de Desenvolvimento Curricular Elaboradores Alex Sandra de Carvalho Arminda Maria de Freitas Santos Débora Cunha Freire Histávina Duarte Pereira Joanede Aparecida Xavier de Souza Fé Lívia Aparecida da Silva Luiz Fabiano Braga dos Santos Márcia Mendonça Souza Marilda de Oliveira Rodovalho Myrian Marques Rosely Aparecida Wanderley Araújo
  • 3. Sumário Apresentação........................................................................................................................... 5 CONTO LITERÁRIO AULA 01 Levantamento dos conhecimentos prévios/introdução ao estudo do gênero........................................................................................................... 7 AULA 02 Identificação dos conhecimentos sobre o gênero......................................12 AULA 03 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 16 AULA 04 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 25 AULA 05 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 28 AULA 06 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 30 AULA 07 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 34 AULA 08 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 40 AULA 09 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 43 AULA 10 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 46 AULA 11 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 49 AULA 12 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 52 AULA 13 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero ........................................ 60 AULA 14 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 65 AULA 15 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 68 AULA 16 Sistematização dos conhecimentos sobre o gênero.................................. 71 EDITORIAL AULA 17 Levantamento dos conhecimentos prévios/introdução ao estudo do gênero.........................................................................................................73 AULA 18 Identificação dos conhecimentos sobre o gênero......................................79 AULA 19 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 81 AULA 20 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 84 AULA 21 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero ........................................ 86 AULA 22 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 89 AULA 23 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 91 AULA 24 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 94 AULA 25 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 96 AULA 26 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero......................................... 99 AULA 27 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero.......................................100 AULA 28 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero.......................................104
  • 4. AULA 29 Ampliação e sistematização dos conhecimentos sobre o gênero..........106 AULA 30 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero.......................................109 AULA 31 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero.......................................111 AULA 32 Ampliação e sistematização dos conhecimentos sobre o gênero..........114 AULA 33 Sistematização dos conhecimentos sobre o gênero ...............................118 AULA 34 Sistematização dos conhecimentos sobre o gênero ...............................120 ATA, REQUERIMENTO, CARTAS AULA 35 Levantamento dos conhecimentos prévios/introdução ao estudo do gênero.......................................................................................................122 AULA 36 Levantamento dos conhecimentos prévios/introdução ao estudo do gênero.......................................................................................................126 AULA 37 Levantamento dos conhecimentos prévios/introdução ao estudo do gênero.......................................................................................................129 AULA 38 Levantamento dos conhecimentos prévios/introdução ao estudo do gênero.......................................................................................................132 AULA 39 Levantamento dos conhecimentos prévios/introdução ao estudo do gênero ......................................................................................................135 AULA 40 Levantamento dos conhecimentos prévios/introdução ao estudo do gênero.......................................................................................................137 AULA 41 Levantamento dos conhecimentos prévios/introdução ao estudo do gênero.......................................................................................................140 AULA 42 Levantamento dos conhecimentos prévios/introdução ao estudo do gênero.......................................................................................................142 AULA 43 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero.......................................144 AULA 44 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero.......................................147 AULA 45 Levantamento dos conhecimentos prévios/introdução ao estudo do gênero.......................................................................................................150 AULA 46 Ampliação e sistematização dos conhecimentos sobre o gênero..........155 AULA 47 Ampliação e sistematização dos conhecimentos sobre o gênero..........158 AULA 48 Levantamento dos conhecimentos prévios/introdução ao estudo do gênero.......................................................................................................161 AULA 49 Ampliação e sistematização dos conhecimentos sobre o gênero .........164 AULA 50 Ampliação e sistematização dos conhecimentos sobre o gênero..........167 Referências bibliográficas..................................................................................................171
  • 5. Apresentação O Governo do Estado de Goiás, por meio da Secretaria de Estado da Edu- cação (SEDUC), criou o “Pacto pela Educação com o objetivo de avançar na ” oferta de um ensino qualitativo às crianças, jovens e adultos do nosso Estado. Assim, busca-se adotar práticas pedagógicas de alta aprendizagem. Dessa forma, estamos desenvolvendo, conjuntamente, várias ações, dentre elas, a produção deste material de apoio e suporte. Ele foi concebido tendo por finalidade contribuir com você, professor, nas suas atividades diárias e, tam- bém, buscando melhorar o desempenho de nossos alunos. Com isso, espera-se amenizar o impacto causado pela mudança do Ensino Fundamental para o Médio, reduzindo assim a evasão, sobretudo na 1ª série do Ensino Médio. Lembramos que a proposta de criação de um material de apoio e suporte sempre foi uma reivindicação coletiva de professores da rede. Proposta esta que não pode ser viabilizada antes em função da diversidade de Currículos que eram utilizados. A decisão da Secretaria pela unificação do Currículo para todo o Estado de Goiás abriu caminho para a realização de tal proposta. Trata-se do primeiro material, deste tipo, produzido por esta Secretaria, sendo, dessa forma, necessários alguns ajustes posteriores. Por isso, contamos com a sua colaboração para ampliá-lo, reforçá-lo e melhorá-lo naquilo que for preciso. Estamos abertos às suas contribuições. Sugerimos que este caderno seja utilizado para realização de atividades den- tro e fora da sala de aula. Esperamos, com sua ajuda, fazer deste um objeto de estudo do aluno, levando-o ao interesse de participar ativamente das aulas. Somando esforços, este material será o primeiro de muitos e, com certeza, poderá ser uma importante ferramenta para fortalecer sua prática em sala de aula. Assim, nós o convidamos para, juntos, buscarmos o aperfeiçoamento de ações educacionais, com vistas à melhoria dos nossos indicadores, proporcio- nando uma educação mais justa e de qualidade. A proposta de elaboração de outros materiais de apoio continua e a sua participação é muito importante. Caso haja interesse para participar dessas ela- borações, entre em contato com o Núcleo da Escola de Formação pelo e-mail cadernoeducacional@seduc.go.gov.br Bom trabalho! 5
  • 7. Conto literário Professor(a), para o trabalho com o gênero Contos, faça um cartaz bem bonito de boas vindas, e ambiente a sala de aula de modo que o estudante tenha acesso ao gênero. Organize a Prateleira da Leitura, nela coloque livros que contenham contos. Crie um ambiente propício à leitura com tapetes, esteiras, almofadas. Para o Palanque do Conto decore um caixote. Confeccione um caderno ou cartaz para registrar os livros lidos. Envolva todos no trabalho, cada um contribui com o que pode e todos são capazes de ajudar. Disponha as carteiras em círculo e, no centro, coloque os contos da Prateleira da Leitura. Diga aos estudantes que durante o trabalho com contos eles terão um momento somente para leituras do gênero – A Hora do Conto. Peça-lhes que escolham aqueles que mais lhes agradar para uma leitura prazerosa, dando-lhes tempo para que isto aconteça. Oriente-os a relacionarem os títulos dos contos escolhidos no caderno de registros. Após a leitura, oportunize um tempo para que os estudantes apresentem a sua história no Palanque do Conto. Aproveite este momento para incentivar os alunos a comparar contos do mesmo autor, de autores diferentes, do estilo de cada autor, a descrição dos espaços e do tempo, a caracterização dos personagens; bem como, apresentar suas impressões, suas emoções, durante a leitura. É importante que todos os estudantes escolham um exemplar para ler durante a semana e comentar no próximo palanque. A Hora do Conto deve acontecer pelo menos uma vez por semana, despertando nos estudantes o gosto e interesse pela leitura de livros literários. AULA 01 Levantamento dos conhecimentos prévios/introdução ao estudo do gênero Objetivo geral Diagnosticar os conhecimentos que os estudantes já possuem sobre o gênero Contos literários, explorando as práticas de oralidade, leitura e escrita. O que devo aprender nesta aula u Partilhar com os colegas as percepções de leitura de contos lidos e ouvidos. u Valorizar a leitura literária como fonte de entretenimento e prazer. u Antecipar o conteúdo das leituras com base em indícios como autor, título do texto, ilustrações. u Ler com fluência e autonomia, construindo significados e inferindo informações implícitas. u Produzir a primeira escrita de um conto. 7
  • 8. LÍNGUA PORTUGUESA Prática de oralidade Professor(a), com o objetivo de retomar o trabalho com os gêneros textuais, converse com os estudantes sobre a aprendizagem construída a partir do estudo dos gêneros trabalhados no ano anterior, e apresente- lhes o primeiro gênero a ser estudado no bimestre, bem como os objetivos deste estudo. Procure saber o que a classe já conhece sobre o gênero: pergunte aos estudantes se gostam de ler e ouvir histórias. Diga-lhes que as histórias sempre encantaram os seres humanos e que, através das palavras de quem escreve, somos transportados para outro mundo, onde podemos acompanhar os seres que fazem parte das histórias, conhecer suas aventuras e dramas e compartilhar suas alegrias e tristezas. Elas falam de gente que, como você, tem sonhos, dificuldades e um enorme desejo de ser feliz. Converse com os estudantes sobre o modo como as pessoas escrevem seus textos. Há pessoas que ao contar um fato qualquer acrescentam muitos detalhes desnecessários e isto acaba cansando o leitor; outras são tão sucintas que conseguem transformar uma história interessante numa simples informação. Entretanto, há outras, como os escritores, que, ao narrar um fato, por mais simples que seja, o fazem com tanta beleza e criatividade que emociona e prende a atenção do leitor, levando-o a viver a história, participar dos acontecimentos. Uma boa história deve conter todas as informações que contribuam para dar vida e sentido ao texto, devendo descartar todos os fatos irrelevantes. • Você conhece alguma história interessante? Qual? • Ouviu de alguém? Quem? • Leu em algum livro? Sabem quem é o seu autor? • O que mais lhe chama atenção nas histórias? Conceito Para o escritor Elias José, o conto é uma narrativa que pode ser contada oralmente ou por escrito. Pode-se dizer que o ser humano já surgiu contando contos. Tudo o que via, descobria ou pensava dava origem a uma história, que ele aumentava ou modificava usando sua imaginação. Prática de leitura Em seguida, proponha à classe a leitura silenciosa do conto Felicidade clandestina, de Clarice Lispector. Mas atenção, professor(a), é importante Antecipar aos estudantes algumas informações que podem estar no texto a ser lido a partir do título, do tema abordado, do autor e do gênero textual! Clarice Lispector (Tchetchelnik Ucrânia 1925 - Rio de Janeiro RJ 1977) passou a infância em Recife e em 1937 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se formou em direito. Estreou na literatura ainda muito jovem com o romance Perto do Coração Selvagem (1943), que teve calorosa acolhida da crítica e recebeu o Prêmio Graça Aranha. 8
  • 9. LÍNGUA PORTUGUESA Felicidade clandestina Clarice Lispector Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria. Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”. Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia. Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim um tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E, completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança de alegria: eu não vivia, nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez. Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono da livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, 9
  • 10. LÍNGUA PORTUGUESA com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo. E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer. Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era 10
  • 11. LÍNGUA PORTUGUESA a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante. Felicidade Clandestina - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998 Professor(a), após a leitura, proponha as questões abaixo para ajudar os estudantes a desenvolver habilidades como: localizar o tema do texto, estabelecer relações, inferir informações etc. 01 Qual a relação entre o título e o assunto do texto? Possibilidade de resposta: A personagem protagonista ganhou permissão para ficar com o livro pelo tempo que desejasse, mas o deixa no quarto e finge esquecer que o possui, só para se redescobrir possuidora dele. Dessa forma, sua felicidade aparece como um sentimento “clandestino”, já que nem ela mesma pode se conscientizar de sua própria felicidade para que esse sentimento não acabe. 02 O que causa o sofrimento da protagonista? Possibilidade de resposta: Não conseguir o seu objeto do desejo (o livro). 03 O que causou prazer à personagem protagonista? Possibilidade de resposta: O fato de poder ficar com o objeto tão desejado pelo tempo que quisesse. 04 De que forma a filha do livreiro demonstra sua crueldade? Possibilidade de resposta: Sempre inventando uma desculpa para não emprestar o livro à colega que tanto o desejava. Professor(a), oriente os estudantes a refletir sobre os diversos aspectos propostos, voltando ao texto para confirmar ou refutar suas hipóteses. Em seguida, discuta com eles as respostas dadas, mostrando- lhes as várias possibilidades de interpretação levantadas. Os estudantes devem compreender que várias interpretações são possíveis e aceitáveis, desde que respaldadas pelo texto. Prática de escrita DESAFIO Prepare-se! Agora você produzirá a primeira escrita de um conto. Desperte a sua imaginação, use uma boa dose de criatividade e mãos à obra! A ideia, aqui, professor(a), é saber o que os estudantes podem produzir neste momento e o que precisam aprender, para que você possa planejar as intervenções necessárias. Assim, é fundamental que você leia esses primeiros textos e faça anotações para o trabalho de reescrita. 11
  • 12. LÍNGUA PORTUGUESA AULA 02 Identificação dos conhecimentos sobre o gênero Objetivo geral Identificar os conhecimentos sobre o gênero Contos literários, explorando as práticas de oralidade, leitura e escrita. O que devo aprender nesta aula u Ler com fluência e autonomia, construindo significados e inferindo informações implícitas. u Partilhar com os colegas as percepções de leitura de contos lidos e ouvidos. u Refletir sobre as características do conto com base no texto de Moacyr Scliar. u Retomar a produção inicial, para reformulações que garantam a presença dos elementos próprios do gênero. Conceito De acordo com Moacyr Scliar, no seu texto “O conto se apresenta”, contos literários são histórias sobre gente comum, que aparecem em jornais, em revistas, em livros; escritas por gente que sabe usar as palavras para emocionar pessoas, para transmitir ideias - os escritores. Prática de oralidade Professor(a), com o objetivo de continuar identificando os conhecimentos que os estudantes já possuem sobre o gênero Conto literário, proponha à classe uma leitura compartilhada do texto O conto se apresenta, de Moacyr Scliar (Vol. 2 da Coleção Literatura em Minha Casa, 2001), antecipando-lhes algumas informações que podem estar no texto a ser lido a partir do título, do tema abordado, do autor e do gênero textual! Moacyr Scliar nasceu em 1937, em Porto Alegre. Tem mais de cinquenta livros publicados, entre romances, contos, literatura juvenil e ensaios. Autor premiado, lançou diversos livros no exterior; algumas de suas obras foram adaptadas para o cinema, o teatro e a televisão. 12
  • 13. LÍNGUA PORTUGUESA O conto se apresenta Moacir Scliar Olá! Não, não adianta olhar ao redor: você não vai me enxergar. Não sou pessoa como você. Sou, vamos dizer assim, uma voz. Uma voz que fala com você ao vivo, como estou fazendo agora. Ou então que lhe fala dos livros que você lê. Não fique tão surpreso assim: você me conhece. Na verdade, somos até velhos amigos. Você já me ouviu falando de Chapeuzinho Vermelho e do Príncipe Encantado, de reis, de bruxas, do Saci-Pererê. Falo de muitas coisas, conto muitas histórias, mas nunca falei de mim próprio. É o que vou fazer agora, em homenagem a você. E começo me apresentando: eu sou o conto. Sabe o contos de fadas, o conto de mistério? Sou eu. O Conto. Vejo que você ficou curioso. Quer saber coisas sobre mim. Por exemplo, qual a minha idade. Devo lhe dizer que sou muito antigo. Porque contar histórias é uma coisa que as pessoas fazem a muito, muito tempo. É uma coisa natural, que brota de dentro da gente. Faça o seguinte: feche os olhos e imagine uma cena, uma cena que se passou há muitos milhares de anos. É de noite e uma tribo dos nossos antepassados, aqueles que vivem nas cavernas, está sentada em redor da fogueira. Eles têm medo de escuro, porque no escuro estão as feras que os ameaçam, aqueles enormes tigres e outras mais. Então alguém olha para a lua e pergunta: por que é que as vezes a lua desaparece? Todos se voltam para um homem velho, que é uma espécie de guru para eles. Esperam que o homem dê a resposta. Mas ele não sabe o que responder. E então eu apareço. Eu, o Conto. Surjo lá da escuridão e, sem que ninguém note, falo baixinho ao ouvido do velho: – Conte uma história para eles.E ele conta. É uma história sobre um grande tigre que anda pelo céu e que de vez em quando come a lua. E a lua some. Mas a lua não é uma coisa muito boa para comer, de modo que lá pelas tantas o grande tigre bota a lua para fora de novo. E ela aparece no céu, brilhante. Todos escutam o conto. Todo mundo: homens, mulheres, crianças. Todos estão encantados. E felizes: antes, havia um mistério: por que a lua some? Agora, aquele mistério não existe mais. Existe uma história que fala de coisas que eles conhecem:tigre, lua, comer – mas fala como essas coisas poderiam ser, não como eles são. Existe um conto. As pessoas vão lembrar esse conto por toda a vida. E quando as crianças da tribo crescerem e tiverem seus próprios filhos, vão contar a história para explicar a eles por que a lua some de vez em quando. Aquele conto. 13
  • 14. LÍNGUA PORTUGUESA No começo, portanto, é assim que eu existo: quando as pessoas falam em mim, quando as pessoas narram histórias – sobre deuses, sobre monstros, sobre criaturas fantásticas. Histórias que atravessam os tempos, que duram séculos. Como eu. Aí surge a escrita. Uma grande invenção, a escrita, você não concorda? Com a escrita, eu existo somente como uma voz. Agora estou ali, naqueles sinais chamados letras, que permitem que pessoas se comuniquem, mesmo à distância. E aquelas histórias – sobre deuses, sobre monstros, sobre criaturas fantásticas – vão aparecer em forma de palavras escrita. E é nesse momento que eu tenho uma grande ideia. Uma inspiração, vamos dizer assim. Você sabe o que é inspiração? Inspiração é aquela descoberta que a gente faz de repente, de repente tem uma ideia muito boa. A inspiração não vem de fora, não; não é uma coisa misteriosa que entra na nossa cabeça. A boa ideia já estava dentro de nós; só que a gente não sabia. A gente tem muitas boas ideias, pode crer. E então, com aquela boa ideia, chego perto de um homem ainda jovem. Ele não me vê. Como você não me vê. Eu me apresento, como me apresentei a você, digo-lhe que estou ali com uma missão especial – com um pedido. – Escreva uma história. Num primeiro momento, ele fica surpreso, assim como você ficou. Na verdade, ele já havia pensado nisso, em escrever uma história. Mas tinha dúvidas: ele, escrever uma história? Como aquelas histórias que todas as pessoas contavam e que vinham de um passado? Ele, escrever uma história? E assinar seu próprio nome? Será que pode fazer isso? Dou força: – Vá em frente, cara. Escreva uma história. Você vai gostar de escrever. E as pessoas vão gostar de ler. Então ele senta, e escreve uma história. É uma história sobre uma criança, uma história muito bonita. Ele lê o que escreveu. Nota que algumas coisas não ficaram muito bem. Então escreve de novo. E de novo. E mais uma vez. E aí, sim, ele gosta do que escreveu. Mostra para outras pessoas, para os amigos, para a namorada. Todos gostam, todos se emocionam com a história. E eu vou em frente. Procuro uma moça muito delicada, muito sensível. Mesma coisa: – Escreve uma história. Ela escreve. E assim vão surgindo escritores. Os contos deles aparecem em jornais, em revistas, em livros. Já não são histórias sobre deuses, sobre criaturas fantásticas. Não, são histórias sobre gente comum – porque as histórias sobre 14
  • 15. LÍNGUA PORTUGUESA as pessoas comuns muitas vezes são mais interessantes do que histórias sobre deuses e criaturas fantásticas: até porque deuses e criaturas fantásticas podem ser inventados por qualquer pessoa. O mundo da nossa imaginação é muito grande. Mas a nossa vida, a vida de cada dia, está cheia de emoções. E onde há emoção, pode haver conto. Onde há gente que sabe usar as palavras para emocionar pessoas, para transmitir ideias, existem escritores. Alguns deles – grandes escritores. -------------- – Eu sou o conto. Era uma vez um conto, vol.2. Companhia das Letrinhas, São Paulo. 2002. Professor(a), faça uma leitura oral do texto com a classe, chamando a atenção dos estudantes para referências importantes, como: os vários tipos de histórias existentes; as narrativas da tradição oral; a invenção da escrita e, com ela, o surgimento da história escrita; a inspiração, as ideias que motivam a escrita de um conto; como surgem os escritores de contos etc. Leve-os a refletir sobre algumas particularidades do conto, apresentadas por Moacyr Scliar de forma tão leve e prazerosa: • histórias sobre gente comum; • aparecem em jornais, em revistas, em livros; • escritas por gente que sabe usar as palavras – os escritores; • para emocionar pessoas, para transmitir ideias. Prática de leitura Em relação ao conto Felicidade clandestina, de Clarice Lispector, e tendo por base as características do conto apontadas por Moacyr Scliar, responda às questões abaixo: 01 Esta é uma história de gente comum? Por quê? Sim. É perfeitamente possível que este fato aconteça realmente, inclusive envolvendo personagens reais, como colegas de escola. 02 Por quem foi escrita? Por Clarice Lispector. 03 Onde foi publicada? No livro que tem o mesmo título do conto: Felicidade Clandestina. 04 Para que foi escrita? Para transmitir ideias de uma forma emocionante. 15
  • 16. LÍNGUA PORTUGUESA Professor(a), abra um espaço de discussão para que os estudantes socializem a atividade e expressem suas impressões a respeito do conto lido. Prática de escrita DESAFIO Retome sua produção inicial e confirme se você escreveu uma história possível de acontecer, envolvendo pessoas comuns, para emocionar o leitor. Você terá oportunidade de rever o que escreveu e de fazer as primeiras reformulações no seu conto, assim como fazem os escritores famosos, antes de publicarem seus textos. Professor(a), medeie esta atividade, percorrendo a sala e orientando a reescrita individual, com base nas anotações feitas por você, durante a leitura dos textos. AULA 03 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero Objetivo geral Ampliar os conhecimentos que os estudantes já possuem sobre o gênero Contos literários, explorando as práticas de oralidade, leitura e escrita. O que devo aprender nesta aula u Ler com fluência e autonomia, construindo significados e inferindo informações implícitas. u Partilhar com colegas as percepções de leitura dos contos lidos e/ou ouvidos. u Ler contos, identificando seus elementos e características próprias. u Retomar a produção inicial, para reformulações que garantam a presença dos elementos próprios do gênero. 16
  • 17. LÍNGUA PORTUGUESA Conceito À leveza do conceito de Elias José e Moacyr Scliar, acrescentamos, aqui, algumas particularidades deste gênero textual: • É um texto em prosa que contém um só conflito, um só drama, uma só ação e poucos personagens • Todos os ingredientes do conto convergem para o mesmo ponto • Deve emocionar quem o lê • Os fatos neste gênero literário acontecem em curto espaço de tempo: já que não interessam o passado e o futuro, as coisas se passam em horas, ou dias • A linguagem do conto é direta, concreta e objetiva Texto adaptado do livro O que é conto, de Luzia de Maria Prática de oralidade Como exemplo dessas particularidades, trazemos para você o conto Biruta, de Lygia Fagundes Telles (Vol. da Coleção Literatura em Minha Casa, 2001), que, por sua grande emotividade e beleza, certamente lhe causará um efeito singular. Professor(a), neste momento, apresente à classe o conto, utilizando a antecipação como estratégia de leitura para despertar a curiosidade e as expectativas dos estudantes. Pergunte a eles se conhecem a história; em caso negativo, o que o título “Biruta” lhes sugere; o que acham que irá acontecer na história; se já leram algum texto da autora; que impressões tiveram etc. Aproveite o momento para dizer-lhes quem é Lygia Fagundes Telles. Lygia Fagundes Telles nasceu em 1923 na cidade de São Paulo, onde mora até hoje. Premiadíssima contista, escreveu vários contos, dentre eles o conto Biruta, originalmente publicado na sua obra Histórias escolhidas (1961). Também escreveu romances de grande repercussão, como As meninas. Prática de leitura Professor(a), proponha a leitura silenciosa do conto abaixo. Sugira aos estudantes que verifiquem as hipóteses levantadas no momento da antecipação, façam inferências das informações que não estão explícitas no texto, e checagem dos fatos durante a leitura, identifiquem os elementos do conto, o suporte textual e os recursos de que a escritora utilizou para emocionar o leitor etc. 17
  • 18. LÍNGUA PORTUGUESA Biruta Lygia Fagundes Telles Alonso foi para o quintal carregando uma bacia cheia de louça suja. Andava com dificuldade, tentando equilibrar a bacia que era demasiado pesada para seus bracinhos finos. – Biruta, êh, Biruta! – chamou sem se voltar. O cachorro saiu de dentro da garagem. Era pequenino e branco, uma orelha em pé e a outra completamente caída. – Sente-se aí, Biruta, que vamos ter uma conversinha. – disse Abonso pousando a bacia ao lado do tanque. Ajoelhou-se, arregaçou as mangas da camisa e começou a lavar os pratos. Biruta sentou-se muito atento, inclinando interrogativamente a cabeça ora para a direita, ora para a esquerda, como se quisesse apreender melhor as palavras do seu dono. A orelha caída ergueu-se um pouco, enquanto a outra empinou, aguda e reta. Entre elas, formaram-se dois vincos, próprios de uma testa franzida no esforço da meditação. – Leduína disse que você entrou no quarto dela – começou o menino num tom brando. – E subiu em cima da cama e focinhou as cobertas e mordeu uma carteirinha de couro que ela deixou lá. A carteira era meio velha e ela não ligou muito. Mas se fosse uma carteira nova, Biruta! Se fosse uma carteira nova! Me diga agora o que é que ia acontecer se ela fosse uma carteira nova!? Leduína te dava uma suna e eu não podia fazer nada, como daquela outra vez que você arrebentou a franja da cortina, lembra? Você se lembra muito bem, sim senhor, não precisa fazer essa cara de inocente!... Biruta deitou-se, enfiou, o focinho entre as patas e baixou a orelha. Agora, ambas as orelhas estavam no mesmo nível, murchas, as pontas quase tocando o chão, Seu olhar interrogativo parecia perguntar: “Mas que foi que eu fiz, Abuso? Não me lembro de nada...” – Lembra sim senhor! E não adianta ficar aí com essa cara de doente, que não acredito, ouviu? Ouviu, Biruta?! – repetiu Alonso lavando furiosamente os pratos. Com um gesto irritado, arregaçou as mangas que já escorregavam sobre os pulsos finos. Sacudiu as mãos cheias de espuma. Tinha mãos de velho. – Alonso, anda ligeiro com essa louça! – gritou Leduína, aparecendo por um momento na janela da cozinha. – Já está escurecendo, tenho que sair! – Já vou indo – respondeu o menino enquanto removia a água da bacia. Voltou-se para o cachorro. E seu rostinho pálido se confrangeu de tristeza. Por que Biruta não se emendava, por quê? Por que não se esforçava um pouco para ser meihorzinho? Dona Zulu já andava impaciente, Leduína também, Biruta fez isso, Biruta fez aquilo... 18
  • 19. LÍNGUA PORTUGUESA Lembrou-se do dia em que o cachorro entrou na geladeira e tirou de lá a carne. Leduina ficou desesperada, vinham visitas para o jantar, precisava encher os pasteis, “Alonso, você não viu onde deixei a carne?” Ele estremeceu. Biruta! Disfarçadamente foi à garagem no findo do quintal, onde dormia com o cachorro num velho colchão metido num ângulo da parede. Binuta estava lá, deitado bem em cima do travesseiro, com a posta de carne entre as patas, comendo tranquilamente. Alonso arrancou-lhe a carne, escondeu-a dentro da camisa e voltou à cozinha. Deteve-se na porta ao ouvir Leduína queixar-se à dona Zulu que a carne dasaparecera, aproximava-se a hora do jantar e o açougue já estava fechado, “que é que eu faço, dona Zulu?!” Ambas estavam na sala. Podia entrever a patroa a escovar freneticamente os cabelos. Ele então tirou a carne de dentro da camisa, ajeitou o papel já todo roto que a envolvia e entrou com a posta na mão. – Está aqui, Leduína. – Mas falta um pedaço! – Esse pedaço eu tirei pra mim. Eu estava com vontade de comer um bife e aproveitei quando você foi na quitanda. – Mas por que você escondeu o resto? – perguntou a patroa, aproximando-se. – Porque fiquei com medo. Tinha bem viva na memória a dor que sentira nas mãos corajosamente abertas para os golpes da escova. Lágrimas saltaram-lhe dos olhos. Os dedos foram ficando roxos, mas ela continuava batendo com aquele mesmo vigor obstinado com que escovara os cabelos, batendo, batendo como se não pudesse parar nunca mais. – Atrevido! Ainda te devolvo pro asilo, seu ladrãozinho! Quando ele voltou à garagem, Biruta já estava lá, as duas orelhas caídas, o focinho entre as patas, piscando, piscando os olhinhos temos. “Biruta, Biruta, apanhei por sua causa, mas não faz mal. Não faz mal.” Biruta então ganiu sentidamente. Lambeu-lhe as lágrimas. Lambeu-lhe as mãos. Isso tinha acontecido há duas semanas. E agora Biruta mordera a carteirinha de Leduína. E se fosse a carteira de dona Zulu? – Hem, Biruta?! E se fosse a carteira de dona Zulu? Já desinteressado, Biruta mascava uma folha seca. – Por que você não arrebenta as minhas coisas? – prosseguiu o menino elevando a voz. – Você sabe que tem todas as minhas coisas pra morder, não sabe? Pois agora não te dou presente de Natal, está acabado. Você vai ver se ganha alguma coisa. Você vai ver!... 19
  • 20. LÍNGUA PORTUGUESA Girou sobre os calcanhares, dando as costas ao cachorro. Resmungou ainda enquanto empilhava a louça na bacia. Em seguida, calou-se, esperando qualquer reação por parte do cachorro. Como a reação tardasse, lançou-lhe um olhar furtivo. Biruta dormia profundamente. Alonso então sorriu. Biruta era como uma criança. Por que não entendiam isso? Não fazia nada por mal, queria só brincar... Por que dona Zulu tinha tanta raiva dele? Ele só queria brincar, como as crianças. Por que dona Zulu tinha tanta raiva de crianças? Uma expressão desolada amarfanhou o rostinho do menino. “Por que dona Zulu tem que ser assim? O doutor é bom, quer dizer, nunca se importou nem comigo nem com você, é como se a gente não existisse. Leduína tem aquele jeitão dela, mas duas vezes já me protegeu. Só dona Zulu não entende que você é que nem uma criancinha. Ah, Biruta, Biruta, cresça logo, pelo amor de Deus! Cresça logo e fique um cachorro sossegado, com bastante pelo e as duas orelhas de pé! Você vai ficar lindo quando crescer, Biruta, eu sei que vai!” – Alonso! – Era a voz de Leduína. – Deixe de falar sozinho e traga logo essa bacia. Já está quase noite, menino. – Chega de dormir, seu vagabundo! – disse Alonso espargindo água no focinho do cachorro. Biruta abriu os olhos, bocejou com um ganido e levantou-se, estirando as patas dianteiras, num longo espreguiçamento. O menino equilibrou penosamente a bacia na cabeça. Biruta seguiu-o aos pulos, mordendo-lhe os tornozelos, dependurando-se com os dentes na barra do seu avental. – Aproveita, seu bandidinho! – riu-se Alonso. – Aproveita que eu estou com a mão ocupada, aproveita! Assim que colocou a bacia na mesa, ele inclinou-se para agarrar o cachorro. Mas Biruta esquivou-se, latindo. O menino vergou o corpo sacudido pelo riso. – Ai, Leduína, que o Biruta judiou de mim!... A empregada pôs-se a guardar rapidamente a louça. Estendeu-lhe uma caçarola com batatas: – Olha aí para o seu jantar. Tem ainda arroz e carne no forno. – Mas só eu vou jantar? – surpreendeu-se Alonso, ajeitando a caçarola no colo. – Hoje é dia de Natal, menino. Eles vão jantar fora, eu também tenho a minha festa. Você vai jantar sozinho. – Alonso inclinou-se. E espiou apreensivo para debaixo do fogão. Dois olhinhos brilharam no escuro: Biruta ainda estava lá. Alonso suspirou. Era tão bom quando Biruta resolvia se sentar! Melhor ainda quando dormia. Tinha então a certeza de que não estava acontecendo nada. A trégua. Voltou-se para Leduína. – O que o seu filho vai ganhar? 20
  • 21. LÍNGUA PORTUGUESA – Um cavalinho – disse a mulher. A voz suavizou. – Quando ele acordar amanhã, vai encontrar o cavalinho dentro do sapato dele. Vivia me atormentando que queria um cavalinho, que queria um cavalinho... Alonso pegou uma batata cozida, morna ainda. Fechou-a nas mãos arroxeadas. – Lá no asilo, no Natal, apareciam umas moças com uns saquinhos de balas e roupas. Tinha uma que já me conhecia, me dava sempre dois pacotinhos em lugar de um. A madrinha. Um dia, me deu sapatos, um casaquinho de malha e uma camisa. – Por que ela não ficou com você? – Ela disse uma vez que ia me levar, ela disse. Depois, não sei por que ela não apareceu mais... Deixou cair na caçarola a batata já fria. E ficou em silêncio, as mãos abertas em torno da vasilha. Apertou os olhos. Deles, irradiou-se para todo o rosto uma expressão dura. Dois anos seguidos esperou por ela. Pois não prometera levá-lo? Não prometera? Nem lhe sabia o nome, não sabia nada a seu respeito, era apenas “a madrinha”. Inutilmente a procurava entre as moças que apareciam no fim do ano com os pacotes de presentes. Inutilmente cantava mais alto do que todos no fim da festa, quando então se reunia aos meninos na capela. Ah, se ela pudesse ouvi-lo! “...O bom Jesus é quem nos traz a mensagem de amor e alegria”... – Também, é muita responsabilidade tirar criança pra criar! – disse Leduína desamarrando o avental. – Já chega os que a gente tem. Alonso baixou o olhar. E de repente, sua fisionomia iluminou-se. Puxou o cachorro pelo rabo. – Êh, Biruta! Está com fome, Biruta? Seu vagabundo! vagabundo!... Sabe, Leduína, Biruta também vai ganhar um presente que está escondido lá debaixo do meu travesseiro. Com aquele dinheirinho que você me deu, lembra? Agora ele não vai precisar mais morder suas coisas, tem a bolinha só pra isso. Ele não vai mais mexer em nada, sabe, Leduína? – Hoje cedo ele não esteve no quarto de dona Zulu? O menino empalideceu. – Só se foi na hora que fui lavar o automóvel... Por que, Leduína? Por quê? Que foi que aconteceu? Ela hesitou. E encolheu os ombros. – Nada. Perguntei à toa. A porta abriu-se bruscamente e a patroa apareceu. Alonso encolheu-se um pouco. Sondou a fisionomia da mulher. Mas ela estava sorridente. O menino sorriu também. – Ainda não foi pra sua festa, Leduína? – perguntou a moça num tom afável. Abotoava os punhos do vestido de renda. – Pensei que você já tivesse 21
  • 22. LÍNGUA PORTUGUESA saído... – E antes que a empregada respondesse, ela voltou-se para Alonso: – Então? Preparando seu jantarzinho? O menino baixou a cabeça. Quando ela lhe falava assim mansamente, ele não sabia o que dizer. – O Biruta está limpo, não está? – prosseguiu a mulher, inclinando-se para fazer uma carícia na cabeça do cachorro. Biruta baixou as orelhas, ganiu dolorido e escondeu-se debaixo do fogão. Alonso tentou encobrir-lhe a fuga: – Biruta, Biruta! Cachorro mais bobo, deu agora de se esconder... – Voltou- se para a patroa. E sorriu desculpando-se: – Até de mim ele se esconde. A mulher pousou a mão no ombro do menino: – Vou numa festa onde tem um menininho assim do seu tamanho. Ele adora cachorros. Então me lembrei de levar o Biruta emprestado só por esta noite, O pequeno está doente, vai ficar radiante, o pobrezinho. Você empresta seu Biruta só por hoje, não empresta? O automóvel já está na porta. Ponha ele lá que estamos de saída. O rosto do menino resplandeceu. Mas então era isso?!... Dona Zulu pedindo Biruta emprestado, precisando do Biruta! Abriu a boca para dizer-lhe que sim, que o Biruta estava limpinho e que ficaria contente de emprestá-lo ao menino doente. Mas sem dar-lhe tempo de responder a mulher saiu apressadamente da cozinha. Viu, Biruta? Você vai numa festa! – exclamou. – Numa festa com crianças, com doces, com tudo! Numa festa, seu sem-vergonha! – repetiu, beijando o focinho do cachorro. – Mas, pelo amor de Deus, tenha juízo, nada de desordens! Se você se comportar, amanhã cedinho te dou uma coisa. Vou te esperar acordado, hem? Tem um presente no seu sapato... – acrescentou num sussurro, com a boca encostada na orelha do cachorro. Apertou-lhe a pata. – Te espero acordado, Biru... Mas não demore muito! O patrão já estava na direção do carro. Alonso aproximou-se. – O Biruta, doutor. O homem voltou-se ligeiramente. Baixou os olhos. – Está bem, está bem. Deixe ele aí atrás. Alonso ainda beijou o focinho do cachorro. Em seguida, fez-lhe uma última carícia, colocou- o no assento do automóvel e afastou-se correndo. – Biruta vai adorar a festa! – exclamou assim que entrou na cozinha. – E lá tem doces, tem crianças, ele não quer outra coisa! – Fez uma pausa. Sentou- se. – Hoje tem festa em toda parte, não, Leduína? A mulher já se preparava para sair. – Decerto. Alonso pôs-se a mastigar pensativamente. – Foi hoje que Nossa Senhora fugiu no burrinho? 22
  • 23. LÍNGUA PORTUGUESA – Não, menino. Foi hoje que Jesus nasceu. Depois então é que aquele rei manda prender os três. Alonso concentrou-se: – Estava. – E tão boazinha. Você não achou que hoje ela estava boazinha? – Estava, estava muito boazinha... – Por que você está rindo? – Nada – respondeu ela pegando a sacola. Dirigiu-se à porta. Mas antes, parecia querer dizer qualquer coisa de desagradável e por isso hesitava, contraindo a boca. Alonso observou-a. E julgou adivinhar o que a preocupava. – Sabe, Leduína, você não precisa dizer pra dona Zulu que ele mordeu sua carteirinha, eu já falei com ele, já surrei ele. Não vai fazer mais isso nunca, eu prometo que não. A mulher voltou-se para o menino. Pela primeira vez, encarou-o. Vacilou ainda um instante. Decidiu-se: – Olha aqui, se eles gostam de enganar os outros, eu não gosto, entendeu? Ela mentiu pra você, Biruta não vai mais voltar. – Sabe, Leduína, se algum rei malvado quisesse matar o Biruta, eu me escondia com ele no meio do mato e ficava morando lá a vida inteira, só nós dois! – Riu-se metendo uma batata na boca. E de repente ficou sério, ouvindo o ruído do carro que já saía. – Dona Zulu estava linda, não? – Não vai o quê? – perguntou Alonso pondo a caçarola em cima da mesa. Engoliu com dificuldade o pedaço de batata que ainda tinha na boca. Levantou- se. – Não vai o quê, Leduína? – Não vai mais voltar. Hoje cedo ele foi no quarto dela e rasgou um pé de meia que estava no chão. Ela ficou daquele jeito. Mas não te disse nada e agora de tardinha, enquanto você lavava a louça, escutei a conversa dela com o doutor: que não queria mais esse vira-lata, que ele tinha que ir embora hoje mesmo, e mais isso, e mais aquilo... O doutor pediu pra ela esperar, que amanhã dava um jeito, você ia sentir muito, hoje era Natal... Não adiantou. Vão soltar o cachorro bem longe daqui e depois seguem pra festa. Amanhã ela vinha dizer que o cachorro fugiu da casa do tal menino. Mas eu não gosto dessa história de enganar os outros, não gosto. É melhor que você fique sabendo desde já, o Biruta não vai voltar. 23
  • 24. LÍNGUA PORTUGUESA Alonso fixou na mulher o olhar inexpressivo. Abriu a boca. A voz era um sopro. – Não?.. Ela perturbou-se. – Que gente também! – explodiu. Bateu desajeitadamente no ombro do menino. – Não se importe, não, filho. Vai, vai jantar. Ele deixou cair os braços ao longo do corpo. E arrastando os pés, num andar de velho, foi saindo para o quintal. Dirigiu-se à garagem. A porta de ferro estava erguida. A luz fria do luar chegava até a borda do colchão desmantelado. Alonso cravou os olhos brilhantes num pedaço de osso roído, meio encoberto sob um rasgão do lençol. Ajoelhou-se. Estendeu a mão tateante. Tirou debaixo do travesseiro uma bola de borracha. – Biruta – chamou baixinho. – Biruta... – e desta vez só os lábios se moveram e não saiu som algum. Muito tempo ele ficou ali ajoelhado, segurando a bola. Depois apertou-a fortemente contra o coração. De conto em conto, vol.2. Editora Ática, São Paulo. 2002. Em relação ao texto lido e tendo por base o conceito apresentado por Luzia de Maria, responda aos questionamentos abaixo: 01 O conto Biruta tem poucos personagens? Quem são? Sim. Alonso, Biruta, Leduína, dona Zulu e seu marido. 02 As ações convergem para o mesmo ponto? Qual Sim. Para a estrema crueldade de dona Zulu que chega ao ponto de tirar o cãozinho do garoto, na noite de Natal, sem avisá-lo. 03 A história acontece em um curto espaço de tempo? Delimite-o! Sim. Entre o final da tarde e a noite do dia 24 de dezembro, 04 Que tipo de linguagem é utilizada no conto. Linguagem direta, objetiva, familiar. 24
  • 25. LÍNGUA PORTUGUESA Prática de escrita DESAFIO Retome novamente o seu conto e observe esses elementos: há poucos personagens? O espaço de tempo é curto? Onde se passa a história que você criou? Caso esses elementos não estejam bem definidos no seu texto, este é o momento de aprimorar a sua escrita. Vamos lá? Professor(a), medeie esta atividade, percorrendo a sala e orientando a reescrita individual, com base nas anotações feitas por você, durante a leitura dos textos. AULA 04 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero Objetivo geral Ampliar os conhecimentos que os estudantes já possuem sobre o gênero Contos literários, explorando as práticas de oralidade, leitura e escrita O que devo aprender nesta aula u Partilhar com colegas as percepções de leitura dos contos lidos e/ou ouvidos. u Ler com fluência e autonomia, construindo significados e inferindo informações implícitas. u Ler contos, identificando seus elementos e características próprias. Prática de oralidade Você leu um conto muito comovente. O que você sentiu durante a leitura? Converse com os colegas sobre isso. É bom compartilhar o que sentimos. Professor(a), divida a turma em duplas, peça que extravasem as emoções provocadas pelo conto e relatem experiências semelhantes vividas por eles ou pessoas conhecidas. Percorra os grupos para observar as impressões e os comentários dos alunos e ajudá-los na reflexão sobre os recursos utilizados pela autora para tornar a história tão interessante, a ponto de envolver e comover os leitores. 25
  • 26. LÍNGUA PORTUGUESA Conceito Conto é uma obra de ficção que cria um universo de seres e acontecimentos, de fantasia ou imaginação. Como todos os textos de ficção, o conto apresenta um narrador, personagens, espaço, tempo, ponto de vista e enredo. Prática de leitura Leia as informações e perguntas abaixo com atenção, e responda-as, em seu caderno, voltando ao texto sempre que necessário, para confirmar suas hipóteses. Tempo: uma história passa-se num tempo determinado, que pode ser declarado pelo narrador ou que você pode inferir a partir de pistas que o texto fornece. No conto Biruta, ao invés de “carro”, menciona-se a palavra “automóvel”, termo pouco utilizado nos dias atuais. Outro elemento do conto, que demarca o tempo em que se passa a história, está na fala de Leduína, quando ela diz a dona Zulu que aproximava-se a hora do jantar e o açougue já estava fechado. Atualmente há açougues em supermercados que ficam abertos até durante a noite. 01 A partir desses elementos você consegue deduzir a época em que acontece essa his- tória? Percebe-se, claramente que a história não é atual. A partir dos elementos mencionados, dentre outros indícios, pode-se deduzir que a história se passa no século XX, em meados da década de 60 ou 70. 02 Em que dia do ano se passa a história? Em que momento desse dia? Sim. Entre o final da tarde e a noite do dia 24 de dezembro. 03 Por que a escolha desse dia para desfazer-se de Biruta torna mais cruel a atitude de Zulu? Porque, a celebração do nascimento de Jesus costuma sensibilizar as pessoas, aflorando sentimentos que possam ter ficado adormecidos durante todo o ano, como a solidariedade, o desejo de fazer o bem, proporcionar alegria e felicidade ao (à) outro (a), daí o significado da troca de presentes. E é exatamente neste dia que dona Zulu, ao invés de presentear Alonso, decide retirar dele o seu único presente. Enredo: é a organização dos fatos e ações vividas pelos personagens, numa determinada ordem. Essa ordem pode ser linear, quer dizer, o que acontece antes vem contado antes, o que acontece depois vem contado depois. Às vezes essa ordem linear pode ser interrompida para voltar ao passado, relembrando algo que aconteceu antes do momento que está sendo narrado. Este último procedimento recebe o nome de técnica da retrospectiva ou flash-bach. 26
  • 27. LÍNGUA PORTUGUESA 04 A ordem linear dos fatos e ações no conto Biruta foi interrompida em algum momen- to? Quando? Sim. Quando Alonso se recorda de coisas passadas. Prática de escrita Retome o seu conto e observe especialmente o enredo e o tempo. Observe se algum personagem do seu texto se recorda, ou poderia se recordar, de algum fato passado. Caso você não tenha utilizado a técnica do flash-bach e perceba que poderia tê-la utilizado para maior coerência interna do seu texto, este é o momento de fazê-lo. Vamos lá, mãos à obra! DESAFIO Identifique, dentre os fatos abaixo, os que são contados no momento em que acontecem e os que são relembrados pelo personagem Alonso, escrevendo presente ou passado, ao lado de cada fato apresentado: a) Alonso lava a louça numa bacia _______________ b) Alonso volta à garagem triste e sozinho. _______________ c) No asilo, Alonso recebe a visita da madrinha. _______________ d) Alonso empresta Biruta a dona Zulu. _______________ e) Animado, Alonso conversa com Leduína sobre o pedido de Zulu _____________ f ) Dona Zulu bate em Alonso por causa da carne Que Biruta roubou ___________ g) Leduína conta a Alonso a verdade sobre Biruta _______________ h) Alonso entrega a louça a Leduína na cozinha _______________ i) Biruta é colocado no carro e parte com Zulu e o doutour. _______________ Resposta: Presente: a, b, d, e, g, h, i Passado: c, f Professor(a), socialize a atividade, de forma a sistematizar dois importantes elementos do conto: tempo e enredo. Leve-os a perceber que a ordem linear dos fatos e ações vividas pelos personagens, às vezes, é interrompida com a volta ao passado e recordação de algo que aconteceu antes do momento que está sendo narrado. Essa técnica, chamada de retrospectiva ou flash-bach, faz com que o personagem Alonso se recorde de coisas passadas. 27
  • 28. LÍNGUA PORTUGUESA AULA 05 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero Objetivo geral Ampliar os conhecimentos que os estudantes já possuem sobre o gênero Contos literários, explorando as práticas de oralidade, leitura e escrita O que devo aprender nesta aula u Partilhar com colegas as percepções de leitura dos contos lidos e/ou ouvidos. u Ler com fluência e autonomia, construindo significados e inferindo informações implícitas. u Ler contos, identificando seus elementos e características próprias. Prática de oralidade Professor(a), inicie esta aula, pedindo que os estudantes socializem os conhecimentos construídos até o momento. Divida a turma em pequenos grupos para que eles possam conversar sobre o tempo e o enredo dos seus contos. Reúna com dois ou três colegas e, depois de ler as produções de todo o grupo, converse sobre o enredo e o tempo de cada conto. Escute o que eles têm a lhe dizer sobre o que você criou, mas também dê a sua opinião sobre o que foi construído pelos seus colegas. Conceito Conto é uma obra de ficção que cria um universo de seres e acontecimentos, de fantasia ou imaginação. Como todos os textos de ficção, o conto apresenta um narrador, personagens, espaço, tempo, ponto de vista e enredo. Prática de leitura Leia as informações e perguntas abaixo com atenção, e responda-as, em seu caderno, voltando ao texto sempre que necessário, para confirmar suas hipóteses. 28
  • 29. LÍNGUA PORTUGUESA Conceito Personagens: seres que vivem as ações. Através do enredo, percebemos o relacionamento entre eles. Podem ser caracterizadas fisicamente (aparência, cor, idade etc.), através do que fazem ou do que o narrador diz sobre elas. Personagem principal, ou protagonista, é aquele em torno do qual se desenvolve o enredo. No caso do conto Biruta, Alonso é o personagem principal. • Como era Alonso física e psicologicamente? Uma criança de bracinhos finos, mãos e andar de velho; sofrido mas muito amoroso, carinhoso e amigo de Biruta. • Que tipo de trabalho fazia e onde dormia? Auxiliava Leduína, a empregada da casa, nos trabalhos domésticos. Dormia em um colchão, no canto da garagem, no fundo do quintal da casa. • Como era Biruta? Por que mexia nas coisas e as estragava? Era pequenino e branco, uma orelha em pé e a outra completamente caída. Tinha olhinhos ternos e mexia em tudo, como uma criança travessa. • Como era o relacionamento de Alonso com Biruta? Por que o cãozinho era tão importante para ele? Biruta era o único e inseparável amigo de Alonso. Dormiam juntos no mesmo colchão, na garagem. • Por que dona Zulu adotou Alonso? Para desenvolver uma espécie de trabalho escravo na sua casa. • Compare dona Zulu e Leduína. Que diferença há entre elas, quanto ao modo de tratar o menino? Dona Zulu era má, tratava Alonso com extrema crueldade. Leduína, apesar de não demonstrar amor e carinho por Alonso, manifestou uma certa pena do garoto, quando decide lhe revelar o destino de Biruta naquela noite. • Como o marido de dona Zulu se relacionava com Alonso? Com indiferença. Não se manifestava frente às atitudes cruéis da esposa. Conflito: é o principal acontecimento a partir do qual se desenvolve a história. • Qual é o assunto do conto Biruta? A solidão e a luta de Alonso pela sobrevivência e para proteger o seu querido cão, companheiro e único amigo.  Espaço: é o lugar onde se passam as ações e fatos vividos pelos personagens. No texto Biruta, as ações acontecem na casa de dona Zulu, mas Alonso e Biruta não compartilham do espaço ocupado pelo casal. 29
  • 30. LÍNGUA PORTUGUESA • Qual é o espaço reservado a Alonso e Biruta na casa de dona Zulu? A garagem, no fundo do quintal. • Que relação há entre esse espaço e a forma como Alonso é tratado pela dona da casa? O espaço reservado a Alonso na casa de Zulu (a garagem no fundo quintal) revela que o menino era tratado pela dona da casa como um empregado, um escravo, e não como alguém da família. Verossimilhança: é a coerência ou lógica interna da história. Os fatos narrados , mesmo inventados, devem decorrer uns dos outros de forma que o leitor aceite que possam ter ocorrido; o leitor precisa ser convencido de que os fatos narrados são possíveis na história. • Como você avalia a verossimilhança no conto Biruta? O conto Biruta é verossímil, pois os fatos narrados, mesmo que inventados, poderiam perfeitamente acontecer na história. Professor(a), com o objetivo de contribuir para a ampliação dos conhecimentos sobre o gênero em estudo, socialize a atividade, de forma a sistematizar os demais elementos de um conto. Prática de escrita DESAFIO Retome mais uma vez a sua produção e observe se está claro para o leitor quem é o personagem principal e os secundários na história criada por você. Procure aprimorar suas características físicas e psicológicas, por meio das suas ações, pensamentos, atitudes e relacionamentos. Atente-se, ainda, para o assunto e o espaço criados por você. Não se esqueça de cuidar também da verossimilhança. Mãos à obra AULA 06 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero Objetivo geral Ampliar os conhecimentos que os estudantes já possuem sobre o gênero Contos literários, explorando as práticas de oralidade, leitura e escrita. 30
  • 31. LÍNGUA PORTUGUESA O que devo aprender nesta aula u Ler contos de autor goiano. u Conhecer a cultura local, com base nos aspectos culturais e linguísticos presentes no conto. u Analisar o emprego de adjetivos e locuções adjetivas para a caracterização das personagens e dos espaços no conto. u Perceber a existência de preconceitos com relação à sexualidade, à mulher, ao negro, ao índio, ao pobre, à criança, ao velho, ao homem do campo, nos contos populares lidos. u Valorizar a leitura literária como fonte de entretenimento e prazer. u Antecipar o conteúdo das leituras com base em indícios como autor, título do texto, ilustrações. u Ler com fluência e autonomia, construindo significados e inferindo informações implícitas. u Produzir a primeira escrita de um conto. Conceito Há duas maneiras de caracterizar um personagem, seja ele linear ou complexo: uma é pela qualificação, outras pelas ações. No primeiro caso, o personagem é descrito pelo narrador ou por outros personagens: características físicas (estaturas, aparência, idade, cor etc.), características psicológicas (personalidade, qualidade e defeitos, sonhos, desejos, emoções, pensamentos, frustrações, carências), características sociais (família, amizades, atividades, situação econômica etc.). No segundo caso, o personagem vai-se definindo pelo que faz, isto é, por suas ações o leitor vai percebendo quem ele é. Algumas vezes essas ações não são externas: passam-se na cabeça dos personagens, são ações interiores, psicológicas. Entretanto, essas duas possibilidades se completam, pois os autores recorrem tanto à qualificação quanto à ação para mostrar a personagem. Prática de oralidade Professor(a), neste momento, apresente à classe o conto, utilizando a antecipação como estratégia de leitura para despertar a curiosidade e as expectativas dos estudantes, bem como a apresentação do autor do conto. Hugo de Carvalho Ramos nasceu na Cidade de Goiás, no Largo do Chafariz, a 21 de maio de 1895, e morreu na mesma cidade, no dia 12 de maio de 1921. Considerado um dos grandes nomes do conto brasileiro, escreveu seu único livro Tropas e Boiadas (1917), do qual o conto Ninho de Periquitos faz parte. • Você conhece o autor da história? 31
  • 32. LÍNGUA PORTUGUESA • Você já leu outros textos desse autor? • O título o “Ninho de periquitos” lhe sugere alguma coisa? • O que você acha que irá acontecer na história? Prática de leitura Leia o texto abaixo e, a seguir, responda às questões que se seguem: Proponha à classe a leitura silenciosa do conto Ninho de Periquitos de Hugo de carvalho Ramos. Peça-lhes que durante a leitura observem bem as personagens. Pergunte aos estudantes se gostaram da história, se conhecem alguma história parecida, que sentimentos ela lhe despertou. Comente que o autor utilizou uma linguagem regional, valorizando a cultura local e respeitando a variedade linguística – o sertanejo – especificamente. Ninho de periquitos Hugo de Carvalho Ramos Abrandando a canícula pelo virar da tarde, Domingos abandonou a rede de embira onde se entretinha arranhando uns respontos na viola, após farta cuia de jacuba de farinha de milho e rapadura que bebera em silêncio, às largas colheradas, e saiu ao terreiro, onde demorou a afiar numa pedra piçarra o corte da foice. Era pelo Domingo, vésperas quase da colheita. O milharal estendia-se além, na baixada das velhas terras devolutas, amarelecido já pela quebra, que realizara dia antes, e o veranico, que andava duro na quinzena. Enquanto amolava o ferro, no propósito de ir picar uns galhos de coivara no fundo do plantio para o fogo da cozinha, o Janjão rondava em torno, rebolando na terra, olho aguçado para o trabalho paterno. Não se esquecesse, o papá, dos filhotes de periquitos, que ficavam lá no fundo do grotão, entre as macegas espinhosas de “malícia”, num cupim velho do pé da maria-preta. Não esquecesse... O roceiro andou lá pelos fundos da roça, a colher uns pepinos temporões; foi ao paiol de palha d’arroz, mais uma vez avaliando com a vista se possuía capacidade precisa para a rica colheita do ano; e, tendo ajuntado os gravetos e uns cernes da coivara, amarrava o feixe e ia já a recolher caminho de casa, quando se lembrou do pedido do pequeno. – Ora, deixassem lá em paz os passarinhos. Mas aquele dia assentava o Janjão a sua primeira dezena tristonha de anos; e pois, não valia por tão pouco amuá-lo. 32
  • 33. LÍNGUA PORTUGUESA O caipira pousou a braçada de lenha encostada à cerca do roçado; passou a perna por cima, e pulando de outro lado, as alpercatas de couro cru a pisar forte o espinharal ressequido que estralejava, entranhou-se pelo grotão-nesses dias sem pinga d’água – galgou a barroca fronteira e endireitou rumo da maria-preta, que abria ao mormaço crepuscular da tarde a galharada esguia, toda atostada desde a época da queima pelas lufadas de fogo que subiam da malhada. Ali mesmo, na bifurcação do tronco, assentada sobre a forquilha da árvore, à altura do peito, escancarava a boca negra para o nascente a casa abandonada dos cupins, onde um casal de periquitos fizera ninho essa estação. O lavrador alçou com cautela a destra calosa, rebuscando lá por dentro os dois borrachos. Mas tirou-a num repente, surpreendido. É que uma picadela incisiva, dolorosa, rasgara-lhe por dois pontos, vivamente, a palma da mão. E, enquanto olhava admirado, uma cabeça disforme, oblonga, encimada a testa duma cruz, aparecia à aberta do cupinzeiro, fitando-lhe, persistentes, os olhinhos redondos, onde uma chispa má luzia, malignamente... O matuto sentiu uma frialdade mortuária percorrendo-o ao longo da espinha. Era uma urutu, a terrível urutu do sertão, para a qual a mezinha doméstica nem a dos campos, possuíam salvação. Perdido... completamente perdido... O réptil, mostrando a língua bífida, chispando as pupilas em cólera, a fitá-lo ameaçador, preparava-se para novo ataque ao importuno que viera arrancá-lo da sesta; e o caboclo, voltando a si do estupor, num gesto instintivo, sacou da bainha o largo “jacaré” inseparável, amputando-lhe a cabeça dum golpe certeiro. Então, sem vacilar, num movimento ainda mais brusco, apoiando a mão molesta à casca carunchosa da árvore, decepou-a noutro golpe, cerce quase à juntura do pulso. E enrolando o punho mutilado na camisola de algodão, que foi rasgando entre dentes, saiu do cerrado, calcando duro, sobranceiro e altivo, rumo de casa, como um deus selvagem e triunfante apontando da mata companheira, mas assassina, mas perfidamente traiçoeira... Professor(a), após a leitura, proponha as questões abaixo para ajudar os estudantes a desenvolver habilidades como: localizar o tema do texto, estabelecer relações, inferir informações etc. 01 O autor utiliza vários sinônimos para se referir ao pai de Janjão. Localize-os no texto e registre no caderno. Roceiro, caipira, lavrador, matuto e cabloco. 33
  • 34. LÍNGUA PORTUGUESA 02 A caracterização do pai de Janjão se dá pela qualificação ou pelas ações que desenvolve na história? Se dá pelas ações que o pai de Janjão desenvolve, todas as ações denunciam que ele é um homem do campo. 03 A cobra é caracterizada da mesma forma que o pai de Janjão? Justifique sua resposta. Não, pois a cobra é caracterizada pelas suas qualificações e não pelas suas ações. No texto, o autor lhe atribui as seguintes qualificações: “ uma cabeça disforme, oblonga, encimada a testa duma cruz, olhinhos redondos, onde uma chispa, má.” 04 Vocês notaram que há muitas palavras desconhecidas no texto que não fazem parte no nosso cotidiano. Retire do texto algumas delas e pelo contexto tente atribuir um signi- ficado. Respontos, coivara, alpercatas, malhada, bífida, entre outras. Produção escrita DESAFIO Crie características físicas, psicológicas e sociais para o pai de Janjão, com base na sua vida, nas suas ações e nas informações da leitura do conto Ninho de Periquitos. AULA 07 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero Objetivo geral Ampliar os conhecimentos que os estudantes já possuem sobre o gênero Contos literários, explorando as práticas de oralidade, leitura e escrita. O que devo aprender nesta aula u Partilhar com colegas as percepções de leitura dos contos lidos e/ou ouvidos. u Ler com fluência e autonomia, construindo significados e inferindo informações implícitas. u Ler contos, identificando seus elementos e características próprias. 34
  • 35. LÍNGUA PORTUGUESA Conceito Conto é uma obra de ficção que cria um universo de seres e acontecimentos, de fantasia ou imaginação. Como todos os textos de ficção, o conto apresenta um narrador, personagens, espaço, tempo, ponto de vista e enredo. Classicamente diz-se que o conto se define pela sua pequena extensão. Mas curto que a novela ou romance, o conto tem sua estrutura fechada desenvolve uma história e apenas um clímax. O clímax é o momento de maior tensão e intensidade no conto. Pico máximo dos acontecimentos, facilmente identificado pelo leitor, momento de auge no qual as ações atingem sua máxima expressão. Toda a estrutura do enredo parece direcionada para este momento culminante da história. A história do conto tem uma conclusão, o desfecho. Os conflitos desenvolvidos alcançam, ou não, um estágio de solução. O desenlace pode ser feliz, trágico, engraçado, diferente, surpreendente. O desfecho nem sempre traz uma solução, muitas vezes, o final é aberto e deixa o caminho livre para a imaginação do leitor. Prática de oralidade Professor(a), neste momento, apresente à classe o conto, utilizando a antecipação como estratégia de leitura para despertar a curiosidade e as expectativas dos estudantes. Aproveite o momento também para falar-lhes um pouco sobre este autor goiano. Bariane Ortêncio nasceu em Igarapava, São Paulo no dia 24 de julho de 1923. Veio para Goiânia em 1938, onde mora até hoje. Recebeu várias premiações, dentre elas: Prêmio João Ribeiro/1997, com a obra Cartilha do Folclore Brasileiro. Com A Fronteira (Revolução Constitucionalista de 1932 e Minha Vida de Menino), ganhou o prêmio CLIO da Academia Paulistana da História e edição premiada pelos Correios. Escreveu vários contos, dentre eles o Velho e os urubus, originalmente publicado na sua obra Meu tio-avô e o diabo. • Você conhece essa história? • O que o título lhe sugere? • Já leu algum texto deste autor? • Que impressões tiveram etc. Prática de leitura Leia o texto abaixo, em seguida responda às perguntas, com atenção, em seu caderno, voltando ao texto sempre que necessário. 35
  • 36. LÍNGUA PORTUGUESA O velho e os urubus De primeiro nem sabia quantos, mas depois foi reparando, se interessando, pegou na opinião. Agora, eram doze, os urubus. E passou a contá-los todos os dias. E não se retirava enquanto eles não chegassem. Passatempo, distração de velho solitário. Preparando o cigarro, beiradeando o curral, o balde na mão para a ordenha. O dia rompendo, nascente incandescendo, para onde se largavam os urubus, um a um, combinados, tais aviões deixando a base. À tarde vinham do poente de um, de dois e até de três. O Velho, assentado no banco do alpendrão, ficava olhando, divisando-os assim que surgissem as pintas negras no sol entrante. Ali sentado, trocando de posições no banco duro, procurando jeito, as hemorroidas ardendo, atentando, contava os seus urubus. Esperava até que chegasse o último, quando se retirava. Recolhia-se cedo, pouco depois do pouso das aves amigas, saciado com o prato de leite com farinha de milho. Só dormia assim: após a chegada dos urubus e do leite com farinha. O pouso, lá deles, uma árvore seca, ipê de grande porte, bem em frente à casa, do outro lado da cerca, fácil, muito fácil do Velho contar os urubus. Ele, que quase nada fazia, a perrenguice lhe tolhendo as vontades, a doença caminhando em ritmo acelerado, tinha na chegada dos urubus o seu único entretenimento. Era, além disso, a ordenha das poucas vacas, o caneco costumeiro de café forte e quente, o cigarro feito no capricho, alguns mais que-fazeres e o leite indefectível com farinha. Dos outros mais serviços, a Afilhada se ocupava. Como se chamava ela? Ele sabia? Não, não se lembrava mais. Pegara-a meninota, a velha ainda vivia; chamavam-na a Afilhada, que nunca passou de cria da casa. Ela também o chamava de Padrinho e jamais lhe soube o nome. Como se pertencesse à família, fazia um pouco de tudo e não recebia pagamentos, era pelo passado, algumas chitas e as chinelas baratas. No quarto, hora certa, deixava o fervido de ervas para o Padrinho banhar as varizes anais, o alívio, a garantia do sono sossegado. O Velho despertava antes dos urubus e saía para o relento de orvalho, reparando o horizonte, o clarear, os bichos preparando-se para levantar voo. Quando chovia à noite, eles ficavam esperando o sol sair e, como velhas rezando, asas abertas, enxugavam as penas. Não se fechavam para a nascente, como nos outros dias. Voavam em círculos sob o domínio dos olhos do Velho, galgando as alturas no bater das asas, procurando as camadas de ar favoráveis, e planavam por muito tempo, sem perder altura. Um ou outro punha-se em formato aerodinâmico, as asas com V, e mergulhava 36
  • 37. LÍNGUA PORTUGUESA para o solo num zumbido estridente, descrevendo, depois curva ascendente. Era o espetáculo para o Velho amigo, que se embevecia. A Afilhada entregava-lhe o caneco de café e levava o balde de leite para a cozinha. Ele sorvia em pequenos goles o café forte, seu agrado, o canivete no alisamento da palha e na picagem do fumo. Ocupava-se, depois, em coisinhas, até que chegasse a hora do retorno. O sol baixo, entra não entra, começavam a surgir as pintas pretas. E ele as acompanhava, uma por uma, o volume aumentando até tornar-se realidade, o bicho vindo alto, temperando com o oscilar de asas, descendo reto no galho pouso. Depois juntava as asas, como se uma dama de negro fechasse o seu leque. O Velho, mentalmente, contava. Eram seis. Agora sete. Oito. Nove. Dez... Não havia errado? Não, não errara. Lá vinha vindo o onze... o doze mais atrás. Aí ele se recolhia satisfeito como se tivesse cumprido importante missão. Quando voltavam mais cedo para o pouso, o voo baixo e direto, o Velho sabia que logo choveria, como de fato... E, assim, por muito tempo, assim sempre, sempre assim. Andava disputando a vida com o ipê seco. Era roxo ou era amarelo? Não se lembrava. Malvados, arrancaram as cascas medicinais do seu ipê condenando-o. Nunca mais flores e, de há muito, nem folhas. Mas um dia, que sempre há um dia, o sol já havia entrado e a contagem só acusou onze urubus. O Velho saiu do seu banco e andou daqui prali, rodando, achando que errara no contar ou que o faltante poderia estar encoberto por um galho mais grosso. Mas não estava. Virou obsessão. Cada noite, ele beirando a cerca de arame, os ouvidos atentos para o farfalhar de asas, que não vinha. Buscara a lamparina, que mal clareava, mas que o ajudou a constatar o faltante. O que acontecera com o seu urubu? Acasalara-se? Estaria nalguma fresta da pedreira, preparando o ninho para os ovos? Quase não dormia naquelas noites e o pouco era entrecortado de soninhos, madornas, sonhos malsonhados de sono maldormido. Onde andaria o seu urubu? Precisava ir à pedreira, que não era tão longe, mas impossível para ele, que se andasse muito, o sangue lhe ocorreria até as alpergatas. “Maldita hemorrêima!” – clamava. Mandou a Afilhada chamar aquele moço que sempre pegava alguma empreitada. Disse a ele, pedindo-lhe encarecidamente, que vasculhassem a pedreira, o que foi feito em vão. Passavam-se os dias e nada do urubu aparecer. Ele também já pouco se levantava do catre, aperreado, nervoso, cismado, encabulado, o mais para conferir os amigos negros que não passavam de onze. Onde estaria seu décimo segundo 37
  • 38. LÍNGUA PORTUGUESA apóstolo? E falava com eles, perguntando pelo desaparecido. Alguns grasnavam, decerto respondendo que não sabiam. O Velho já não se alimentava mais. O leite com farinha agora sendo pouco, quase nada, ele aceitava. Passava com o café e os inúmeros cigarros feitos, na maior parte, pela Afilhada. – Um remédio? O Padrinho quer um remédio? Ele negava com a cabeça. Não queria nada, não! Queria era o seu urubu! – Ele voltou? – perguntou o Padrinho. – Não. Não sei... – o que ela sabia contar não passava dos dedos de uma das mãos. Agora nada mais. Não se alimentava nem mais com café e o cigarro. A Afilhada não tinha iniciativa, sempre fora mandada. Não alcançava as consequências. Não chamou ninguém. Era alta madrugada, ainda, o Velho notou um clarão de aurora e levantou- se, afoito. Estava disposto e leve. Saiu para fora. Divisou, com alegria, todos os doze urubus no velho ipê seco, saltando no gingado desengonçado deles, de um galho a outro, na comemoração de volta do companheiro. E este era todo raio de luz, refulgente, resplendor. Um urubu-pavão, virou, será? – pensou o velho, pelas tais e tantas cores. Aí o resplandecente bateu asas, volteou a árvore, fez círculos curtos em torno do Velho, toda pompa, a cumprimentá-lo, as asas coloridas emanando luz, farfalhou em voo rasante pela cabeça do amigo, a convidá-lo. Ele, não sabe como, aceitou e partiu voando também, seguindo o seu urubu procurando as camadas favoráveis de ar, planando na gostosura!... Muito admirado, feliz, avistava lá de cima as divisas da fazendola, o gadinho sendo, formado com os outros, que se juntaram, a esquadrilha da amizade, do reencontro, até que o sol se anunciou, o discão vermelho no horizonte, o bando se dirigindo para aquela direção, sumindo, sumindo, pintas pretas... Como já era tarde, o dia avançando, a Afilhada foi até o quarto levar o caneco de café, talvez o Padrinho aceitasse. Se admirou e ficou também feliz, pois nunca, desde quando chegara àquela casa, vira o padrinho sorrir. E agora, o sorriso dele, tão bonito, o semblante no seu quieto de paz, os olhos abertos, bem abertos, talvez perscrutando horizontes, acompanhando o seu urubu brilhante. 01 Tomando como base o conto lido, identifique: • Personagens o Velho e a Afilhada 38
  • 39. LÍNGUA PORTUGUESA • Tempo (exemplifique com elementos do texto) Manhã: O dia rompendo, nascente incandescendo, Fim de Tarde: O sol baixo, entra não entra Noite: Buscara a lamparina, que mal clareava • Conflito um velho já doente se aproximando da morte que tem como entretenimento contar os urubus. • Espaço o espaço é a fazenda (curral, curral; casa - alpendre, quarto) 02 Qual é o clímax desse conto? É o momento em que o velho conta os urubus e falta um deles. 03 Qual é o desfecho do conto? O velho morrer feliz, pois se reencontrou com o urubu que estava faltando. 04 Em sua opinião, por que o Velho não sabia o nome da Afilhada? E por que a Afilhada não sabia o nome do velho? Resposta possível: Pelo fato de o autor querer mostrar a indiferença do relacionamento dos dois. Prática de escrita Este é o momento de você observar o clímax e o desfecho da sua produção inicial. Caso estes elementos não estejam bem definidos, aprimore-os, utilizando os conhecimentos construídos até aqui e muita criatividade. Mãos à obra! DESAFIO No conto lido o autor escreve as palavras “Velho e Afilhada” com as letra iniciais maiúsculas. Por que em sua opinião o autor faz isso? Resposta possível: A falta de identidade das personagens centrais da histórias revela a frieza das relações humanas (embora os personagens convivessem juntos ambos não sabiam seus respectivos nomes). 39
  • 40. LÍNGUA PORTUGUESA AULA 08 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero Objetivo geral Ampliar os conhecimentos que os estudantes já possuem sobre o gênero Contos literários, explorando as práticas de oralidade, leitura e escrita. O que devo aprender nesta aula u Partilhar com colegas as percepções de leitura dos contos lidos e/ou ouvidos. u Ler com fluência e autonomia, construindo significados e inferindo informações implícitas. u Ler contos, identificando seus elementos e características próprias. Conceito Conto é uma obra de ficção que cria um universo de seres e acontecimentos, de fantasia ou imaginação. O conto apresenta um narrador. Esse narrador pode fazer a narração em 1ª ou em 3ª pessoa. O narrador em 1ª pessoa pode ser chamado de narrador personagem. Ele conta e participa da história como personagem. O narrador na 3ª pessoa pode ser o narrador- observador que conta a história na sem participar das ações. E o narrador-onisciente que também conta a história em 3ª pessoa, mas ele conhece tudo sobre os personagens, conhece suas emoções e pensamentos. Prática de oralidade Professor(a), neste momento, retome os trechos abaixo, retirados dos contos “Felicidade Clandestina” e “O velho e os urubus” e direcione, à classe, questionamentos sobre os tipos de narrador existentes nas narrativas: • Quem você acha que está contando essas histórias? • Quem conta as histórias são os próprios personagens? • Os narradores contam as histórias observando-as de maneira imparcial ou conhecem profundamente os personagens? 40
  • 41. LÍNGUA PORTUGUESA Prática de leitura Leia os trechos abaixo e, em seguida, responda às perguntas com atenção, em seu caderno, voltando ao texto sempre que necessário. Trecho 1 Felicidade clandestina [...] Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! [...] Trecho 2 O velho e os urubus [...] Mas um dia, que sempre há um dia, o sol já havia entrado e a contagem só acusou onze urubus. O Velho saiu do seu banco e andou daqui prali, rodando, achando que errara no contar ou que o faltante poderia estar encoberto por um galho mais grosso. Mas não estava. Virou obsessão. Cada noite, ele beirando a cerca de arame, os ouvidos atentos para o farfalhar de asas, que não vinha. Buscara a lamparina, que mal clareava, mas que o ajudou a constatar o faltante. O que acontecera com o seu urubu? Acasalara-se? Estaria nalguma fresta da pedreira, preparando o ninho para os ovos? Quase não dormia naquelas noites e o pouco era entrecortado de soninhos, madornas, sonhos malsonhados de sono maldormido. Onde andaria o seu urubu? [...] 01 Comparando os dois trechos, você acha que é diferente o modo de contar a história? Por quê? Resposta possível: É importante que o aluno perceba que há diferenças na forma de contar a história nos dois trechos, pois no primeiro quem conta participa da história e no segundo não há essa participação. 41
  • 42. LÍNGUA PORTUGUESA 02 Que tipo de narrador está presente nos dois trechos? Exemplifique com partes do texto. Resposta possível: No trecho 1, a narrativa está em 1ª pessoa, visto que o narrador conta e participa da história ao mesmo tempo; é um narrador personagem: “Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer.” Já no trecho 2, há um narrador em 3ª pessoa, o narrador-onisciente. Ele conhece tudo sobre os personagens, suas emoções e pensamentos: “Quase não dormia naquelas noites e o pouco era entrecortado de soninhos, madornas, sonhos malsonhados de sono maldormido. Onde andaria o seu urubu?” O narrador sabe que os sonhos do personagem eram malsonhados e que o sono era maldormido. 03 Reescreva o trecho 1 como se você fosse um narrador-onisciente. [...] Ela ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes a menina dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E ela, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os seus olhos espantados. Até que um dia, quando ela estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu a mãe da menina. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. A mãe pediu explicação as duas meninas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! [...] Professor(a) é importante você ressaltar as marcas desse tipo de narração: a onisciência (“E ela, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os seus olhos espantados.”); e o emprego da 3ª pessoa: (“Ela ia diariamente...”). 04 Reescreva o trecho 2 como se você fosse um narrador personagem. [...] Mas um dia, que sempre há um dia, o sol já havia entrado e a minha contagem só acusou onze urubus. Eu saí do meu banco e andei daqui prali, rodando, achando que errara no contar ou que o faltante poderia estar encoberto por um galho mais grosso. Mas não estava. Virou minha obsessão. Cada noite, eu beirava a cerca de arame, com os ouvidos atentos para o farfalhar de asas, que não vinha. Eu busquei a lamparina, que mal clareava, mas que me ajudou a constatar o faltante. O que acontecera com o meu urubu? Acasalara-se? Estaria nalguma fresta da pedreira, preparando o ninho para os ovos? Quase não dormia naquelas noites e o pouco era entrecortado de soninhos, madornas, sonhos malsonhados de sono maldormido. Onde andaria o meu urubu? [...] Prática de escrita Retome mais uma vez a sua produção, desta vez para observar o tipo de narrador que você empregou na sua história. Procure ser bastante coerente, cuidando para que a escolha do foco narrativo perpasse todo o seu texto, não confundindo 1ª e 3ª pessoas. Vale ressaltar, ainda, que se você optou pela narrativa em 3ª pessoa, deve observar também se o narrador é apenas um observador dos fatos, ou conhece as emoções e pensamentos das personagens, ou seja, é um narrador onisciente. 42
  • 43. LÍNGUA PORTUGUESA DESAFIO Leia o trecho abaixo, retirado do conto “O Velho e os urubus.” “Cada noite, ele beirando a cerca de arame, os ouvidos atentos para o farfalhar de asas, que não vinha.” Agora, atribua um significado para a expressão destacada. AULA 09 Ampliação dos conhecimentos sobre o gênero Objetivo geral Ampliar os conhecimentos que os estudantes já possuem sobre o gênero Contos literários, explorando as práticas de oralidade, leitura, escrita e a análise da língua. O que devo aprender nesta aula u Partilhar com colegas as percepções de leitura dos contos lidos e/ou ouvidos. u Ler com fluência e autonomia, construindo significados e inferindo informações implícitas. u Ler contos, identificando seus elementos e características próprias. u Refletir sobre o emprego das flexões verbais. Conceito Num conto literário os tempos verbais são de extrema de importância. Verbos são palavras variáveis que têm a propriedade de localizar o fato no tempo em relação ao momento em que se fala. Podem ser flexionadas em três tempos básicos: presente, passado e futuro. O presente indica uma ação, estado ou fenômeno da natureza que ocorre no momento em que se fala; o futuro, algo que irá ocorrer após o momento em que se fala; e o pretérito, por sua vez, se aplica a fatos anteriores ao momento da fala. Sempre que o autor quer marcar o grau de certeza de que um fato realmente ocorreu, está previsto ou prestes a ocorrer, utiliza o modo indicativo, que retrata situações consideradas reais por parte de quem fala. 43