Sonho ou realidade? 
      Era  uma  vez  uma  escola  encerrada  há  muitos  anos,  numa  pequena  aldeia 
minhota…  
      Era uma vez um livro muito especial, esquecido numa das prateleiras da biblioteca 
da velha escola…  
      Tomás  veio  passar  as  férias  de  verão  à  aldeia  com  o  seu  avô  paterno.  Era  um 
menino muito inteligente, muito curioso e muito irrequieto.    
      Certo  dia,  perguntou  ao  seu  avô  por  que  motivo  estava  a  escola  fechada.  Ele 
explicou‐lhe  que  as  crianças,  que  em  tempos  lhe  deram  vida,  eram  agora  adultos  a 
viverem  nas  grandes  cidades.  Na  aldeia,  moravam  apenas  pessoas  idosas  que  nunca 
quiseram abandonar a terra que os viu nascer.  
     Tomás  apressou‐se  a  pedir‐lhe  que  o  levasse  a  visitar  o  velho  edifício,  mas  o  seu 
desejo teve de ser adiado, porque o avô era um homem bastante ocupado e tinha uma 
reunião  marcada  na  associação  «Esperança»,  uma  pequena  e  humilde  instituição  da 
aldeia que acolhia os idosos sem lar.   
      Impaciente, Tomás não resistiu e resolveu partir à aventura sozinho.  
      As  paredes exteriores da escola estavam cobertas de hera, um manto de verdura 
densa que lhe dava um aspeto misterioso. As portas eram velhas. As janelas tinham os 
vidros partidos. Tomás entrou por uma janela e logo sentiu o cheiro a velho e a mofo. 
No entanto, ficou maravilhado com as salas de aula, que ainda exibiam teimosamente 
nas paredes os desenhos e os textos dos antigos alunos. Imaginou, então, como seria o 
seu  avô  em  criança,  como  teria  ele  brincado  naquela  escola  e  quem  seriam  os  seus 
amigos. 
       Foi andando e explorando… 
       Cada  cantinho  da  escola  parecia  ter  uma  história  para  contar,  mas  a  biblioteca 
chamou  particularmente  a  sua  atenção,  pois  Tomás  ficou  encantado  ao  ver  tantos, 
tantos livros, muitos deles em bom estado. Ele adorava ler. A leitura era a sua paixão. 
Tomás observou, observou e, numa prateleira lá bem no alto, estava um livro fora do 
comum.  A  capa  parecia  muito  antiga  e  era  um  livro  bastante  mais  grosso  do  que  os 
restantes. Com a ajuda de uma cadeira, Tomás pegou no livro e, de imediato, sentiu 
algo de especial, algo que ele não conseguia explicar! Abriu‐o e deparou‐se com uma 
página  toda  ela  minuciosamente  ilustrada.  Era  uma  magnífica  floresta.  Parecia  tão 
real! Tomás não se cansava de admirar o livro e esqueceu‐se de tudo à sua volta.  
     Subitamente,  uma  luz  intensa,  vinda  do  interior  das  folhas,  encandeou  o  rapaz. 
Esfregou os olhos várias vezes e apercebeu‐se que não estava no mesmo lugar. Tinha 
ido parar a um sítio desconhecido. Não percebia como tal acontecera e não acreditava 
no que estava a ver. Tudo parecia mágico. Ao longe, ouvia o som embalador de uma 
cascata; as árvores, altas e esbeltas, davam‐lhe as boas‐vindas, agitando suavemente 
os seus ramos; no ar, lindas borboletas e pássaros multicolores chilreavam e conviviam 
amistosamente. Ele ficou um pouco assustado, é certo, mas também feliz, pois aquela 
paisagem era verdadeiramente encantadora e mágica.     
       A  certa altura,  um barulho  estranho  chamou  a  atenção  do  menino.  Parecia  ouvir 
passos.  Recuou  cuidadosamente  e  viu  um  vulto  que,  de  repente,  ganhou  forma.  Era 
um menino índio. Teria talvez a sua idade, dez anos. Tinha a pele morena e, na cabeça, 
usava uma faixa vermelha com uma pena. O menino índio questionou Tomás sobre a 
sua origem, pois nunca tinha visto pessoas de pele clara, olhos azuis e cabelos loiros. 
Tomás  contou‐lhe  a  sua  aventura  na  escola  abandonada  e  explicou‐lhe  que  não 
percebia  como  tinha  vindo  ali  parar.  O  índio  sorriu,  parecia  que  sabia  a  resposta,  e 
apresentou‐se: 
       ─  Pertenço  à  tribo  Tupi.  O  meu  nome  é  Iaciara  que,  na  tua  língua,  significa 
“Espelho da Lua”.       
       ─ Tens um nome bem engraçado e fora do comum! Mas … onde está a tua família? 
Por que estás sozinho no meio da floresta? ─ perguntou Tomás muito intrigado. 
       O menino índio contou, então, toda a sua história. 
        ─  Eu  e  a  minha  família  íamos  em  caravana  à  procura  de  uma  nova  terra  onde 
pudéssemos acampar. Sabes, a civilização não gosta de índios, por isso fomos expulsos 
da terra onde eu nasci e cresci. A minha mãe ficou muito triste com a partida. Tenho 
dois irmãos mais novos do que eu e o meu pai é um dos guerreiros da Tribo Tupi, por 
todos muito respeitado. A certa altura, fiquei com sede e afastei‐me da caravana em 
busca  de  água.  Quando  me  apercebi,  já  não  havia  sinais  do  meu  povo.  Agora,  estou 
sozinho e não sei como posso encontrar de novo a minha família. Podes ajudar‐me? 
      ─  Claro que sim! Mas como? ─  prontificou‐se de imediato o rapaz. 
 
     Tomás  e  Iaciara  procuraram  no  chão  pegadas  deixadas  pelos  cavalos  e  seguiram‐
lhes o rasto. Caminharam juntos longas horas. O céu começou a escurecer e, lá no alto, 
já se via a primeira estrela, a Estrela Polar. A Lua, bem redondinha, começou a brilhar e 
a iluminar toda a floresta. A noite parecia dia.  
     A  certa  altura,  Tomás  sentiu  no  ar  o  cheiro  a  fumo  e  a  carne  assada  que  se 
misturavam  com  os  aromas  intensos  daquele  lugar.  Seguiram  um  pouco  mais  e 
avistaram  uma  grande  fogueira.  O  coração  de  Iaciara  alegrou‐se  de  imediato,  pois 
reconheceu  um  dos  cavalos  que  ainda  pastava,  tranquilamente,  num  campo  de  erva 
fresca.  Soltou  um  grito  de  vitória  ─    que  era  costume  usar  na  Tribo  Tupi  ─    e  foi 
imediatamente reconhecido por toda a sua família que ali estava acampada.  
       Todos  correram  ao  seu  encontro.  A  sua  mãe  abraçou‐o  e  beijou‐o,  enquanto 
lágrimas de alegria corriam pelo seu rosto. Abraçaram também Tomás, pois estavam‐
lhe eternamente gratos por ele ter ajudado Iaciara a encontrar a sua Tribo. Festejaram 
durante toda a noite e, sentados à volta da grande fogueira, escutaram atentamente 
Tomás que lhes contou a sua aventura, as histórias e os costumes da sua terra.  
       Na  manhã  seguinte,  seguiram  todos  viagem.  Tomás  sentia‐se  bem‐vindo  no  seio 
dos  Índios,  mas  começava  a  ter  saudades  da  sua  família  e  da  sua  casa.  Iaciara 
apercebeu‐se da tristeza do seu amigo e quis, também ele, ajudá‐lo a regressar ao seu 
mundo.  
      Entretanto… 
       Ao regressar a casa após mais um longo dia a servir os mais necessitados da aldeia, 
o avô apercebeu‐se de que o neto ainda não tinha chegado. Ficou muito preocupado e 
foi até ao campo de futebol que havia perto de casa, na esperança de o encontrar ali a 
jogar à bola. Não estava lá ninguém. Bateu às portas de todas as casas, mas nenhum 
vizinho  o  tinha  visto.  Uma  grande  tristeza  começou  a  apoderar‐se  dele.  Então,  os 
habitantes da aldeia depressa se reuniram para ajudar este pobre avô que já não sabia 
mais onde procurar.  
      A  noite  caiu,  escura  e  fria.  O  avô  continuava  muito  preocupado  e  o  seu  coração 
batia mais forte só de pensar que o seu neto poderia estar em apuros. 
     Enquanto  todas  as  pessoas  da  aldeia  procuravam  Tomás,  este  e  os  seus  novos 
amigos  índios,  lá  no  mundo  do  livro  mágico,  traçavam  um  plano  para  encontrar  o 
caminho de regresso a casa.  
     Depois de algum tempo a ouvir Tomás a descrever a sua aldeia, um velho índio, o 
mais sábio da tribo, disse que talvez o poderia ajudar. Mandou os guerreiros selarem 
os seus cavalos e partiram rumo a uma pequena localidade não muito longe dali, uma 
povoação  desconhecida  pela  maioria  dos  índios,  pois  não  era  habitual  irem  a  terras 
civilizadas.  O  pai  de  Iaciara,  o  grande  guerreiro  Ruda,  fez  questão  de  levar  consigo 
Tomás no seu valente cavalo branco, o Tinga.   
     Quando  avistaram  a  aldeia,  Tomás  depressa  a  reconheceu  e  ficou  feliz  por  poder 
regressar a sua casa. Os dois rapazes prometeram amizade eterna um ao outro, depois 
de um longo e forte abraço de despedida.   
     Tomás  esfregou  os  olhos  e…  viu‐se  novamente  na  biblioteca.  Perplexo,  retomou 
então o caminho de casa, pensando nos amigos que fizera e na aventura que vivera.  
     Subitamente, ouviu vozes que gritavam: «O Tomás chegou! Viva! Viva!»  
     O avô ajoelhou‐se e tomou o neto nos seus braços. Queria repreendê‐lo pelo susto 
que  lhe  pregara,  mas  a  alegria  de  o  encontrar  são  e  salvo  era  tão  grande  que  foi 
incapaz  de  falar.  O  pequeno  Tomás  estava  confuso,  não  conseguia  perceber  como 
estava ali, se realmente tinha estado na floresta, se Iaciara realmente existia ou se foi 
simplesmente um sonho.  
     Nos  seus  braços,  o  menino  ainda  tinha  aquele  maravilhoso  livro  e  não  o  queria 
largar. Pediu se podia ficar com ele. O avô explicou‐lhe que aquele livro era património 
da aldeia e que isso não era possível.  
     O Presidente da Junta presenciou tudo e, muito emocionado com o que acontecera, 
pronunciou‐se em nome do povo: 
     ─ Tomás, se gostas tanto desse livro, tenho a certeza que ninguém se irá opor a que 
fiques com ele. Sei que o estimarás, por isso é teu! 
    ─ É teu, é teu! ─ aprovaram prontamente os aldeões. 
     Tomás saltou de alegria e fez logo outro pedido.  
     ─ Senhor Presidente, por que não pode esta escola ser uma escola de novo?  
     O Presidente ficou pensativo e, por uns instantes, sem saber o que dizer. Depois de 
uma breve pausa, lembrou‐se: 
     ─ Mas, Tomás, não há crianças na aldeia. Para que serve uma escola sem crianças?  
     ‐ Esta é a escola onde o senhor, o meu avô e o meu pai estudaram. Não é justo que 
esteja assim abandonada. 
       Toda a aldeia estava ali reunida. Aplaudiram a ousadia de Tomás e olharam para o 
Presidente,  à  espera  de  uma  resposta.  Então,  o  avô,  que  era  um  homem  de  grande 
coração,  tomou  a  palavra  e  propôs  que  o  velho  edifício  fosse  também  ele  usado  em 
benefício  dos  mais  necessitados,  com  cozinha,  salas  de  convívio  e  quartos,  que  a 
biblioteca  fosse  recuperada  e  que  toda  a  aldeia  pudesse  consultar  e  ler  os  livros  lá 
guardados. O povo acolheu a ideia com muito agrado e prontificou‐se a contribuir para 
as obras de requalificação com o que pudesse. O Presidente logo concordou e sugeriu 
que  todos  se  reunissem  para  dar  início  ao  projeto.  O  pequeno  Tomás  não  deixou 
perder esta oportunidade e juntou‐se a esta nobre causa.  
     E, todas as noites, Tomás vivia uma nova aventura cada vez que lia uma história do 
seu livro. Tornaram‐se grandes amigos! 
     No  dia  da  inauguração  da  escola,  o  povo  da  aldeia  fez  uma  grande  festa.  Tomás 
sentiu  um  enorme  orgulho  no  seu  avô.  Olhou  para  a  colina,  lá  bem  no  horizonte,  e 
avistou os seus amigos índios montados a cavalo a piscarem‐lhe os olhos.   
    Tomás  sorriu.  Só  ele  podia  vê‐los.  Estava  felicíssimo  e,  pela  primeira  vez,  sentiu  e 
compreendeu  que  a  colaboração  e  a  solidariedade  são  fundamentais  para  a  união 
entre os povos.  
                                                                                                                           
 
 
 
 
 
 
 
                                                                      
 
 
 
 
 

Pnl 2 ceb - sonho-ou_realidade

  • 2.
                                                       Sonho ou realidade?        Era  uma  vez uma  escola  encerrada  há  muitos  anos,  numa  pequena  aldeia  minhota…         Era uma vez um livro muito especial, esquecido numa das prateleiras da biblioteca  da velha escola…         Tomás  veio  passar  as  férias  de  verão  à  aldeia  com  o  seu  avô  paterno.  Era  um  menino muito inteligente, muito curioso e muito irrequieto.           Certo  dia,  perguntou  ao  seu  avô  por  que  motivo  estava  a  escola  fechada.  Ele  explicou‐lhe  que  as  crianças,  que  em  tempos  lhe  deram  vida,  eram  agora  adultos  a  viverem  nas  grandes  cidades.  Na  aldeia,  moravam  apenas  pessoas  idosas  que  nunca  quiseram abandonar a terra que os viu nascer.        Tomás  apressou‐se  a  pedir‐lhe  que  o  levasse  a  visitar  o  velho  edifício,  mas  o  seu  desejo teve de ser adiado, porque o avô era um homem bastante ocupado e tinha uma  reunião  marcada  na  associação  «Esperança»,  uma  pequena  e  humilde  instituição  da  aldeia que acolhia os idosos sem lar.          Impaciente, Tomás não resistiu e resolveu partir à aventura sozinho.         As  paredes exteriores da escola estavam cobertas de hera, um manto de verdura  densa que lhe dava um aspeto misterioso. As portas eram velhas. As janelas tinham os  vidros partidos. Tomás entrou por uma janela e logo sentiu o cheiro a velho e a mofo.  No entanto, ficou maravilhado com as salas de aula, que ainda exibiam teimosamente  nas paredes os desenhos e os textos dos antigos alunos. Imaginou, então, como seria o  seu  avô  em  criança,  como  teria  ele  brincado  naquela  escola  e  quem  seriam  os  seus  amigos.         Foi andando e explorando…         Cada  cantinho  da  escola  parecia  ter  uma  história  para  contar,  mas  a  biblioteca  chamou  particularmente  a  sua  atenção,  pois  Tomás  ficou  encantado  ao  ver  tantos,  tantos livros, muitos deles em bom estado. Ele adorava ler. A leitura era a sua paixão.  Tomás observou, observou e, numa prateleira lá bem no alto, estava um livro fora do  comum.  A  capa  parecia  muito  antiga  e  era  um  livro  bastante  mais  grosso  do  que  os  restantes. Com a ajuda de uma cadeira, Tomás pegou no livro e, de imediato, sentiu  algo de especial, algo que ele não conseguia explicar! Abriu‐o e deparou‐se com uma 
  • 3.
    página  toda  ela minuciosamente  ilustrada.  Era  uma  magnífica  floresta.  Parecia  tão  real! Tomás não se cansava de admirar o livro e esqueceu‐se de tudo à sua volta.        Subitamente,  uma  luz  intensa,  vinda  do  interior  das  folhas,  encandeou  o  rapaz.  Esfregou os olhos várias vezes e apercebeu‐se que não estava no mesmo lugar. Tinha  ido parar a um sítio desconhecido. Não percebia como tal acontecera e não acreditava  no que estava a ver. Tudo parecia mágico. Ao longe, ouvia o som embalador de uma  cascata; as árvores, altas e esbeltas, davam‐lhe as boas‐vindas, agitando suavemente  os seus ramos; no ar, lindas borboletas e pássaros multicolores chilreavam e conviviam  amistosamente. Ele ficou um pouco assustado, é certo, mas também feliz, pois aquela  paisagem era verdadeiramente encantadora e mágica.             A  certa altura,  um barulho  estranho  chamou  a  atenção  do  menino.  Parecia  ouvir  passos.  Recuou  cuidadosamente  e  viu  um  vulto  que,  de  repente,  ganhou  forma.  Era  um menino índio. Teria talvez a sua idade, dez anos. Tinha a pele morena e, na cabeça,  usava uma faixa vermelha com uma pena. O menino índio questionou Tomás sobre a  sua origem, pois nunca tinha visto pessoas de pele clara, olhos azuis e cabelos loiros.  Tomás  contou‐lhe  a  sua  aventura  na  escola  abandonada  e  explicou‐lhe  que  não  percebia  como  tinha  vindo  ali  parar.  O  índio  sorriu,  parecia  que  sabia  a  resposta,  e  apresentou‐se:         ─  Pertenço  à  tribo  Tupi.  O  meu  nome  é  Iaciara  que,  na  tua  língua,  significa  “Espelho da Lua”.               ─ Tens um nome bem engraçado e fora do comum! Mas … onde está a tua família?  Por que estás sozinho no meio da floresta? ─ perguntou Tomás muito intrigado.         O menino índio contou, então, toda a sua história.          ─  Eu  e  a  minha  família  íamos  em  caravana  à  procura  de  uma  nova  terra  onde  pudéssemos acampar. Sabes, a civilização não gosta de índios, por isso fomos expulsos  da terra onde eu nasci e cresci. A minha mãe ficou muito triste com a partida. Tenho  dois irmãos mais novos do que eu e o meu pai é um dos guerreiros da Tribo Tupi, por  todos muito respeitado. A certa altura, fiquei com sede e afastei‐me da caravana em  busca  de  água.  Quando  me  apercebi,  já  não  havia  sinais  do  meu  povo.  Agora,  estou  sozinho e não sei como posso encontrar de novo a minha família. Podes ajudar‐me?        ─  Claro que sim! Mas como? ─  prontificou‐se de imediato o rapaz.   
  • 4.
         Tomás  e  Iaciara procuraram  no  chão  pegadas  deixadas  pelos  cavalos  e  seguiram‐ lhes o rasto. Caminharam juntos longas horas. O céu começou a escurecer e, lá no alto,  já se via a primeira estrela, a Estrela Polar. A Lua, bem redondinha, começou a brilhar e  a iluminar toda a floresta. A noite parecia dia.        A  certa  altura,  Tomás  sentiu  no  ar  o  cheiro  a  fumo  e  a  carne  assada  que  se  misturavam  com  os  aromas  intensos  daquele  lugar.  Seguiram  um  pouco  mais  e  avistaram  uma  grande  fogueira.  O  coração  de  Iaciara  alegrou‐se  de  imediato,  pois  reconheceu  um  dos  cavalos  que  ainda  pastava,  tranquilamente,  num  campo  de  erva  fresca.  Soltou  um  grito  de  vitória  ─    que  era  costume  usar  na  Tribo  Tupi  ─    e  foi  imediatamente reconhecido por toda a sua família que ali estava acampada.          Todos  correram  ao  seu  encontro.  A  sua  mãe  abraçou‐o  e  beijou‐o,  enquanto  lágrimas de alegria corriam pelo seu rosto. Abraçaram também Tomás, pois estavam‐ lhe eternamente gratos por ele ter ajudado Iaciara a encontrar a sua Tribo. Festejaram  durante toda a noite e, sentados à volta da grande fogueira, escutaram atentamente  Tomás que lhes contou a sua aventura, as histórias e os costumes da sua terra.          Na  manhã  seguinte,  seguiram  todos  viagem.  Tomás  sentia‐se  bem‐vindo  no  seio  dos  Índios,  mas  começava  a  ter  saudades  da  sua  família  e  da  sua  casa.  Iaciara  apercebeu‐se da tristeza do seu amigo e quis, também ele, ajudá‐lo a regressar ao seu  mundo.         Entretanto…         Ao regressar a casa após mais um longo dia a servir os mais necessitados da aldeia,  o avô apercebeu‐se de que o neto ainda não tinha chegado. Ficou muito preocupado e  foi até ao campo de futebol que havia perto de casa, na esperança de o encontrar ali a  jogar à bola. Não estava lá ninguém. Bateu às portas de todas as casas, mas nenhum  vizinho  o  tinha  visto.  Uma  grande  tristeza  começou  a  apoderar‐se  dele.  Então,  os  habitantes da aldeia depressa se reuniram para ajudar este pobre avô que já não sabia  mais onde procurar.         A  noite  caiu,  escura  e  fria.  O  avô  continuava  muito  preocupado  e  o  seu  coração  batia mais forte só de pensar que o seu neto poderia estar em apuros.       Enquanto  todas  as  pessoas  da  aldeia  procuravam  Tomás,  este  e  os  seus  novos  amigos  índios,  lá  no  mundo  do  livro  mágico,  traçavam  um  plano  para  encontrar  o  caminho de regresso a casa.  
  • 5.
         Depois de algum tempo a ouvir Tomás a descrever a sua aldeia, um velho índio, o  mais sábio da tribo, disse que talvez o poderia ajudar. Mandou os guerreiros selarem  os seus cavalos e partiram rumo a uma pequena localidade não muito longe dali, uma  povoação  desconhecida  pela maioria  dos  índios,  pois  não  era  habitual  irem  a  terras  civilizadas.  O  pai  de  Iaciara,  o  grande  guerreiro  Ruda,  fez  questão  de  levar  consigo  Tomás no seu valente cavalo branco, o Tinga.         Quando  avistaram  a  aldeia,  Tomás  depressa  a  reconheceu  e  ficou  feliz  por  poder  regressar a sua casa. Os dois rapazes prometeram amizade eterna um ao outro, depois  de um longo e forte abraço de despedida.         Tomás  esfregou  os  olhos  e…  viu‐se  novamente  na  biblioteca.  Perplexo,  retomou  então o caminho de casa, pensando nos amigos que fizera e na aventura que vivera.        Subitamente, ouviu vozes que gritavam: «O Tomás chegou! Viva! Viva!»        O avô ajoelhou‐se e tomou o neto nos seus braços. Queria repreendê‐lo pelo susto  que  lhe  pregara,  mas  a  alegria  de  o  encontrar  são  e  salvo  era  tão  grande  que  foi  incapaz  de  falar.  O  pequeno  Tomás  estava  confuso,  não  conseguia  perceber  como  estava ali, se realmente tinha estado na floresta, se Iaciara realmente existia ou se foi  simplesmente um sonho.        Nos  seus  braços,  o  menino  ainda  tinha  aquele  maravilhoso  livro  e  não  o  queria  largar. Pediu se podia ficar com ele. O avô explicou‐lhe que aquele livro era património  da aldeia e que isso não era possível.        O Presidente da Junta presenciou tudo e, muito emocionado com o que acontecera,  pronunciou‐se em nome do povo:       ─ Tomás, se gostas tanto desse livro, tenho a certeza que ninguém se irá opor a que  fiques com ele. Sei que o estimarás, por isso é teu!      ─ É teu, é teu! ─ aprovaram prontamente os aldeões.       Tomás saltou de alegria e fez logo outro pedido.        ─ Senhor Presidente, por que não pode esta escola ser uma escola de novo?        O Presidente ficou pensativo e, por uns instantes, sem saber o que dizer. Depois de  uma breve pausa, lembrou‐se:       ─ Mas, Tomás, não há crianças na aldeia. Para que serve uma escola sem crianças?        ‐ Esta é a escola onde o senhor, o meu avô e o meu pai estudaram. Não é justo que  esteja assim abandonada. 
  • 6.
           Toda a aldeia estava ali reunida. Aplaudiram a ousadia de Tomás e olharam para o  Presidente,  à  espera de  uma  resposta.  Então,  o  avô,  que  era  um  homem  de  grande  coração,  tomou  a  palavra  e  propôs  que  o  velho  edifício  fosse  também  ele  usado  em  benefício  dos  mais  necessitados,  com  cozinha,  salas  de  convívio  e  quartos,  que  a  biblioteca  fosse  recuperada  e  que  toda  a  aldeia  pudesse  consultar  e  ler  os  livros  lá  guardados. O povo acolheu a ideia com muito agrado e prontificou‐se a contribuir para  as obras de requalificação com o que pudesse. O Presidente logo concordou e sugeriu  que  todos  se  reunissem  para  dar  início  ao  projeto.  O  pequeno  Tomás  não  deixou  perder esta oportunidade e juntou‐se a esta nobre causa.        E, todas as noites, Tomás vivia uma nova aventura cada vez que lia uma história do  seu livro. Tornaram‐se grandes amigos!       No  dia  da  inauguração  da  escola,  o  povo  da  aldeia  fez  uma  grande  festa.  Tomás  sentiu  um  enorme  orgulho  no  seu  avô.  Olhou  para  a  colina,  lá  bem  no  horizonte,  e  avistou os seus amigos índios montados a cavalo a piscarem‐lhe os olhos.        Tomás  sorriu.  Só  ele  podia  vê‐los.  Estava  felicíssimo  e,  pela  primeira  vez,  sentiu  e  compreendeu  que  a  colaboração  e  a  solidariedade  são  fundamentais  para  a  união  entre os povos.