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por uma teoria do comunicação praxiológica
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Pierre Bourdieu faleceu em 2002 na condição de um
dos principais sociólogos e pensadores do mundo
contemporâneo. Quem duvido disso, pode pes-
quisar a crescente literatura escrito a seu respeito e que,
aliás, não vem de agora. Desde os anos 70, confere-se
nos meios intelectuais de toda a porte uma notoriedade
ao autor que, por vezes muito duro e crítico, não lhe
deixa de reconhecer osméritos como pensadore inovador
do ofício de sociólogo no século XX.
Contribuição original desta obra de estréia do
professor, jornalista e pesquisador Luciono Miranda é a
exploração sistemática das incursões de Bourdieu pelo
campo dos estudos de comunicação.
Em Bourdieu, os estudos sobre o aparelho escolar
e as práticas de consumo, que o consagraram, mantêm-
se numa tensão negativa com a temática da cultura de
mercado difundida via os meios de comunicação. Bosta
ver o estudo por ele conduzido sobre os usos sociais da
fotografia ainda em meados dos anos 60 e, mais tarde,
ampliado para contexto bem mais amplo no clássico La
Distinction, de 1979.
Entretanto, apenas no período mais recente voltou-
se o autor mais diretamente para os tópicos de maior
pertinência para os interessados em comunicação, como
bem aponta Miranda. Enigma de uma vida despertada
com surpresa, mas cheia de dignidade, para sua corrida
rumo ao nada, o sociólogo cientificista dos escritos ini-
ciais converteu-se rapidamente no intelectual público dos
últimos anos, em cuja ação se revelam ecos daquilo que
antes e em seu país havia encarnado gente como Zola,
Sartre ou Foucault.
Aquilo que, segundo suo primeira avaliação, era a
mitologia dos sociólogos transforma-se nos textos mais
recentesem sociologia de combate e motivo de interven-
ções pelas páginas dos jornais e revistas, pelos canais de
rádio e televisão, pelos circuitos intelectuais das elites do
poder econômico reinante.
Em geral, tudoissoenfrenta bem o presentevolume,
que sistematiza suas idéias sobre o assunto. Certamen-
Pierre Bourdieu
e o Campo da Comunicação
Por uma teoria da comunicação praxiológica
PUCIS
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
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Luciano Miranda
Pierre Bourdieu
e o Campo da Comunicação
Por uma teoria da comunicação praxiológica
Coleção Comunicação - 34
EDtPÜCRS
Porto Alegre, 2005
© EDIPUCRS, Ia
edição: 2005
Capa: Samir Machado de Machado
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Coleção Comunicação - vol. 34
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
M672P Miranda, Luciano
Pierre Bourdieu e o campo da comunicação : por uma teo-
ria da comunicação praxiológica / Luciano Miranda. - Porto
Alegre : EDIPUCRS, 2005.
193 p. - (Coleção Comunicação ; 34)
ISBN 85-7430-542-1
1. Comunicação. 2. Bourdieu, Pierre - Crítica e Interpreta-
ção. 3. Cultura. 4. Fotografia - Aspectos Sociais. 5. Jorna-
lismo. I. Título. II. Série.
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Para
Francisco Rüdiger
pelo continuo despertar
AGRADECIMENTOS
Adriana Schryver Kurtz, Alexandre Lasari,
Amanda Rezende Busato, Angela Xavier De Brito,
Antônio Carlos Luz Costa, Beta Gouvêa, Carla Schwingel,
Carlos Alberto Forcelini, Carlos Schmidt Arturi,
Cassiano Scherner de Oliveira, Céli Regina Jardim Pinto,
Christa Berger, Christophe Charle, Cirio Simon,
Cláudia Rejane do Carmo, Clovis Kemmerich,
Domingos Sávio Dresch da Silveira, Edgar Morin, Eliane Colussi,
Francisco Ricardo de Macedo Rüdiger, Giba Assis Brasil,
Helena de Moraes Fernandes, Hélgio Trindade,
João Carlos Tedesco, Jorge Cláudio Ribeiro,
José Carlos dos Anjos, Luís Hofmann, Luís Milman,
Marcelo Pereira Andrades, Maria Joana Chiodelli Chaise,
Michel Offerlé, Nicholas Garnham, Nick Couldry,
Odaci Luiz Coradini, Patrick Champagne, Ricardo Celso,
Roberta Scheibe, Rosane Heineck Schmitt,
Sophia de Latorre Miranda, Zélia Leal Adghirni,
e a todas as pessoas que, direta ou indiretamente,
colaboraram para a existência deste livro.
Sumário
Introdução
- Em busca de uma teoria da comunicação praxiológica 9
1. A Cultura e os meios técnicos: entre o espírito e a massa 21
A denúncia das mitologias intelectuais 22
Os argumentos de Edgar Morin 25
O retomo aos sujeitos 26
A proposta de um método de análise 30
A possível liberdade de espírito 32
O sentido pela via da história 33
Os grupos e classes sociais como referência 34
A revisão das posições 36
As práticas desviantes e o retomo à estrutura 38
2. Os usos sociais da técnica fotográfica 41
A definição social da fotografia 45
A função na estrutura: fotografia, índice
e instmmento de integração 48
Distinções de classe: entre o popular e o erudito 50
O gosto bárbaro 60
A devoção e a boa vontade 63
Os usos sociais da mídia 67
3. As práticas distintivas 73
O campo cultural e a lógica de sua autonomização 79
O campo da indústria cultural 88
Posições, disposições e tomadas de posição:
o habitus no campo do poder 92
Os modos de produção da opinião e a (in)competência
estatutária: a idéia-força 97
0 mercado de opiniões e discursos:
a oferta e a demanda 103
4. O domínio do jornalismo 109
A gênese do campo e a construção social da crença
na objetividade 114
Duas lógicas, duas legitimidades 121
0 tempo e a amnésia, a concorrência e a uniformização 126
Zola e o declínio do judiciário 133
A defesa dos valores da autonomia 137
5. A estrutura invisível da televisão 145
A televisão na dinâmica estrutural
do campo jornalístico 152
0 tempo da mensagem e a democracia 158
A dialética do extraordinário 166
Intelectuais versus televisão 172
Conclusão
Por uma Realpolitik da razão comunicativa 175
Referências 185
Obras de Bourdieu adotadas neste livro 185
Literatura de referência 186
Introdução
Em busca de uma teoria da
comunicação praxiológica
"Para assegurar sua coesão, as sociedades dotadas de
memória valem-se da história; as sociedades sem me-
mória, da comunicação."
(Lucien Sfez, Critica da comunicação)
A comunicação é uma área de conhecimento que começa a sua
estruturação formal a partir da convergência de diferentes disci-
plinas sociais preocupadas com a problemática dos meios de
comunicação em geral e a da cultura de massas. Os meios de
comunicação de massa, em si mesmos, só oferecem um conteú-
do tecnológico. O interesse social que os faz objeto de estudos
decorre do seu uso, determinado pelas condições sociais, políti-
cas e econômicas das formações sociais em que se inserem. Por-
tanto, para a pesquisa acadêmica, a comunicação é um campo de
estudos que oferece uma série de problemas, frutos de seu pró-
prio desenvolvimento: filosóficos, técnicos, de competência in-
terativo-simbólica, políticos, entre outros. O ser humano utiliza-
se dela para interagir com seus semelhantes e, desta interação,
constitui coletivamente o conhecimento. Nessa perspectiva, a
comunicação deve ser entendida como um "princípio de sociabi-
lidade" (Rüdiger, 1998, p. 33), fundado na história e na cultura.
Dentre esses problemas, cumpre destaque os que relacionam a
comunicação ao poder, que se explicam na perspectiva de uma
teoria da sociedade. A partir disso, introduzo este livro que pro-
põe a investigação da contribuição do paradigma sociológico de
Introdução 9
Pierre Bourdieu ao desenvolvimento da atividade de pesquisa
em comunicação, isto é, das práticas de comunicação mediadas
pela técnica. É pela tomada de consciência das estruturas de
dominação reproduzidas nas práticas cotidianas que são forneci-
dos os argumentos válidos à ação política. "A vocação política
da sociologia [de Pierre Bourdieu] deriva de seu conteúdo: em
tudo que diz respeito aos critérios da conduta científica, ela pro-
duz resultados que objetivam as desigualdades a fim de denun-
ciá-las" (Bonnewitz, 1997, p. 35). A idéia revelada adquire for-
ça, toma-se idéia-força, que contribui para transformar a reali-
dade.
Pierre Bourdieu (1930-2002) foi um dos sociólogos mais re-
presentativos do pensamento do século XX, professor do
Collège de France, diretor da revista Actes de la recherche en
sciences sociales, diretor do Centro de Sociologia Européia, e
fundador de um paradigma investigativo conhecido por designa-
ções como "estruturalismo construtivista" ou "estruturalismo
genético". No âmbito da ciência social das práticas, a praxiolo-
gia, ele introduz o método estruturalista à pesquisa sociológica.
Introdução que intenta revelar o oculto, o não-dito, uma vez que
a sociologia privilegia, até essa introdução, a esfera do visível,
mediante suas entrevistas, estatísticas etc. Os objetos de análise,
na primeira fase do percurso intelectual de Bourdieu e também
em boa medida da fase seguinte, tendem a estar encerrados num
sistema de determinações essencialmente estático, no qual é li-
mitado o papel dos acontecimentos, da historicidade. A flexibi-
lização é notada, a partir de 1964, quando da introdução da no-
ção de habitus na obra Les héritiers. O sujeito passa a ter um
papel mais ativo, embora ainda tenda a reproduzir as estruturas
sociais que o dominam.
Bourdieu introduz a idéia de campos sociais relativamente
autônomos que possuem regras próprias de funcionamento. No
caso do campo de produção cultural, os agentes sociais1
que dele
participam estão em permanente luta para melhor classifícarem-
1
Emprego de modo indistinto "agentes" e "atores" sociais, a despeito de que o
primeiro termo seja considerado muito bourdieusiano ou, como satirizam os
franceses, "bourdivin".
10 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
se em seu interior, isto é, melhor posicionados, mediante o
acúmulo de capital simbólico que possibilitará, em um futuro,
sua reconversão por ganhos materiais. Portanto, a noção marxis-
ta "de luta de classes será estendida às lutas simbólicas sob a
forma de lutas de classificação" (Bonnewitz, 1997, p. 15), para a
qual, além dos capitais econômico e simbólico, contam os capi-
tais cultural e social orientados na perspectiva dos interesses ma-
teriais dos agentes sociais. O habitus, que viabiliza o retomo do
sujeito à estrutura, é uma matriz de disposições, isto é, de per-
cepções, apreciações e ações, adquiridas através das experiên-
cias sociais inculcadas. Por seu intermédio, é possível a dialética
"competência e desempenho", uma vez que permite a exteriori-
zação da interiorização, tendente à reprodução, mas que, no en-
tanto, possibilita a previsão das estratégias que os agentes po-
dem empregar, em fimção do momento e do lugar em que se en-
contram.
O habitus atua como princípio gerador de práticas objetiva-
mente classificáveis, cuja existência resulta de condições de
possibilidade. A sociologia da cultura bourdieusiana tem o méri-
to de ampliar a noção de classe, que não mais se limita à posse
dos meios de produção, para o universo simbólico, onde a vio-
lência da dominação se exerce tanto ou ainda mais. A violência
simbólica é invisível e se processa através da disposição daque-
les a quem ela se faz exercer, e que será tanto mais eficaz quanto
menos conhecimento tiverem de sua existência. Sua análise do
campo cultural distingue no interior da classe dominante dois
princípios de hierarquização, segundo a posse do capital econô-
mico ou do capital cultural, que o organizam em duas estruturas
inversas, em quiasma, que distingue as frações mais ricas em
capital cultural das que possuem, essencialmente, o capital eco-
nômico, isto é, a distinção que opõe os intelectuais e os empre-
sários. As práticas culturais são analisadas nas investigações de
Bourdieu com o apoio de apuradas pesquisas de campo, que
propiciam descrições etnológicas também apoiadas em levanta-
mentos estatísticos. Suas análises avaliam as articulações pro-
cessadas em um espaço tridimensional: vertical, que avalia os
capitais econômico, escolar, cultural etc.; estrutural, que opõe no
interior de um mesmo campo o capital econômico e o capital
Introdução 11
cultural; e, por último, a dimensão da trajetória que possibilita a
reintrodução do movimento na estrutura e a tradução da antigüi-
dade na posse desse capital econômico/cultural. O habitus defi-
ne-se pela junção dessas três dimensões.
Os campos têm sua estrutura modificada basicamente atra-
vés das chamadas "trajetórias desviantes", produto das mobili-
dades ascendente ou descendente que são fonte de disjunção en-
tre o habitus e as posições sociais angariadas em seu interior.
Uma dialética da distinção produz de modo constante a mudan-
ça, à medida que novos atores ingressam e produzem suas mar-
cas no campo. A mudança também é verificada na relação entre
campos, em que um pode gerar efeitos sobre outros, movido por
suas dinâmicas internas próprias e seu reposicionamento no seio
do campo do poder. Se, por ura lado, os campos tendem à relati-
va autonomia, por outro, a heteronomia se processa quanto mais
se aproximam do pólo do poder. No mercado de capitais bour-
dieusiano, a autonomia cambial valoriza, sobretudo, a moeda
própria do campo, seu capital social especifico, por exemplo, a
titulação no meio acadêmico, e a credibilidade, no jornalístico.
A moeda heterônoma comumente é a dos capitais econômico e
político. Para Bourdieu, a dominação total só existe quando um
campo dominar a todos os demais e, com isto, permitir a exis-
tência de uma única definição da realização humana aceitável.
Esta é uma das razões do grande interesse, no seu fim da vida,
pelo campo da comunicação, haja vista a influência despropor-
cional que este exerce sobre todos os demais campos sociais.
Neste espaço social específico, produtores profissionais de
bens simbólicos disputam as melhores posições na estrutura hie-
rarquizada do campo, oferecendo produtos culturais a consumi-
dores que participam de uma estrutura social de classes e grupos
homóloga à dos produtores. A comunicação tal como a enten-
demos, campo lato sensu que o autor denomina como o da in-
dústria cultural, mantém relações permanentes com outros cam-
pos sociais, que podem afetar mutuamente as estruturas e as au-
tonomias relativas de todos os domínios envolvidos. Dos para-
digmas fundamentais da pesquisa administrativa norte-
americana, da communication research, e da crítica cultural de-
senvolvida a partir da Escola de Frankfurt, derivaram-se as prin-
12 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
cipais técnicas de pesquisa em comunicação. Da sua parte, a so-
ciologia da cultura bourdieusiana constrói uma das vias alterna-
tivas a essas duas perspectivas; recusa-se a fazer uma crítica da
cultura, como será percebido mais adiante na polêmica travada
com Edgar Morin, reivindicando uma sociologia construída
através da pesquisa de campo e da produção de dados empíricos.
Entretanto, esta é marcada pelo componente crítico, praticamen-
te ausente na sociologia tradicional dos primeiros pesquisadores
da comunicação.
[...] o trabalho científico sobre o objeto é indissociável de um tra-
balho sobre o sujeito do trabalho. Depende, antes de tudo, da ca-
pacidade que este tenha de dominar, na prática, em sua prática, os
mecanismos que se esforça por objetivar, e que podem ainda reger
sua relação com o objeto. Haveria de dar tema de meditação [...] a
história do Princeton Project, vasto estudo empírico sobre o con-
sumo da música, que reuniu Adorno e Lazarsfeld, dupla epistemo-
lógica feita homens. Arrogância do teórico que se nega a sujar as
mãos na cozinha da empiria e que permanece demasiado ligado,
visceralmente, aos valores e benefícios da Cultura para estar em
condições de fazer disso um objeto científico; submissão do empi-
rista, disposto a todas as abdicações e abjurações que requer uma
ordem científica estreitamente subordinada à ordem social. Arro-
gância do positivista, que busca instaurar em norma de toda práti-
ca científica uma metodologia do ressentimento que tem como
princípio uma espécie de furor revanchista contra toda interroga-
ção global; submissão do marxista distinto, que faz marxismo vul-
gar ali onde haveria que refinar e marxismo distinto ali onde have-
ria que ter o valor de ser vulgar. Cada um vê bem a verdade do ou-
tro (Bourdieu, [1979] 1991, p. 522).
Se, por um lado, Bourdieu condena a pesquisa tradicional
por ter-se esvaziado do componente crítico, por outro, recusa-se
a um aristocratismo, como nas idéias dos pensadores do Instituí
für Sozialforschung. Sua pesquisa pretende ser propositiva, sem
recair no normativismo; liberadora, ao reivindicar a liberdade
decorrente do conhecimento das estruturas sociais. Para a comu-
nicação, a importância de estudar Bourdieu é que sua teoria dos
campos permite a análise relacionai de casos, em que a interação
deles é examinada sistematicamente em longos períodos de
Introdução 13
tempo. A história social do campo da comunicação combina-se
a esta concepção para ser usada pelo pesquisador como instru-
mento de ruptura com o mundo social do senso comum. Além
desta ruptura, permite avaliar o quanto o atual estado do campo
decorre da complexidade de suas mudanças históricas. O para-
digma bourdieusiano permite ainda a análise simultânea das
transformações nas instituições da mídia e das mudanças nas de-
finições dos problemas sociais. Essas definições associam-se às
preocupações dele e de sua equipe em implementar um projeto
político, em especial no que se refere ao processo de heterono-
mia nos campos sociais, em virtude do poder dos mass media.
Independente da ação política, o universo teórico-metodológico
oferece à pesquisa em comunicação outros enfoques, como o da
explicação do conteúdo das notícias pelos interesses específicos
do campo jornalístico ou das pressões externas; o do condicio-
namento mútuo da produção e da recepção dos conteúdos co-
municacionais; o da análise das práticas distintivas nos campos
da produção e de consumo destes conteúdos comunicacionais; o
das mudanças estruturais no campo da mídia que afetam o con-
junto do campo do poder etc.
A pesquisa em comunicação no Brasil, nos últimos anos, ca-
da vez mais emprega o paradigma bourdieusiano em posição
central ou marginal, mas com extensão parcial ou parcelar no
que se refere ao conjunto da obra do autor. Entretanto, apesar
desses estudiosos se interessarem por Bourdieu, não houve, até o
momento, o preparo de uma sistematização mais ampla e agre-
gativa das idéias dele atinentes ao campo da comunicação. Este
é o objetivo deste trabalho e mais uma justificativa à realização
deste livro. Não obstante, se é problemático, por um lado, a ma-
nutenção de uma incorporação parcial de um paradigma, tam-
bém o é, por outro, para a tentativa de sua reconstituição. Isso
porque, considerando-se uma jovem ciência - ou mesmo bastar-
da - como a comunicação, cujos estudiosos por vezes desencar-
nam o método da teoria, reciprocamente, não é possível a sepa-
ração teórico-metodológica da epistemologia. Assim, os pressu-
postos fundamentados teoricamente são operacionalizados por
conceitos constituintes de um arcabouço analítico integral no
qual teoria e metodologia não estão dissociadas, participando
14 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
por seu turno, da validação daquele. Mais: para produzirem co-
nhecimento científico, as categorias - mídia, grupo, classe, par-
tido, Estado etc. - trabalhadas requerem a sua dessubstanciação.
Critico aqui, portanto, uma incorporação seletiva da obra bour-
dieusiana não só por desfigurá-la, mas por chocar-se com seus
fundamentos epistemológicos. Por conseguinte, há que se domi-
nar o conjunto do pensamento, algo impossível nos limites deste
livro; a vislumbrar-se no horizonte da pesquisa.
A título de exemplo, Barros Filho e Martino (2003) apresen-
tam obra preocupante. Os autores alertam que se trata de um en-
saio, fundado em pesquisa bibliográfica; intento arriscado. "Seu
corpus, puramente doutrinário. O objeto indica a possibilidade
de aproximação de conceitos e métodos. De um lado, algumas
das obras sociológicas de Pierre Bourdieu. De outro, ensaios,
pesquisas empíricas, teses, manuais que vêm constituindo o
campo doutrinário da comunicação, mais especificamente do
jornalismo" (Ibidem, p. 10). Embora reconhecendo que campo e
habitus sejam "indissociáveis" (Ibidem, p. 11), o que é correto
para a teoria social em tela uma vez que para cada campo social
específico há um habitus específico, não problematizam seus
respectivos conceitos; valem-se deles como algo dado. Se existe
alguma problematização é a partir das bases filosóficas que ori-
ginam o conceito de habitus. No entanto, para que ela ocorra
com base em Bourdieu, haveria a necessidade de relacioná-los
com levantamento empírico, empreendimento que, para o espa-
ço social brasileiro, ensejaria a constatação da precária condição
de possibilidade do campo. No momento possível de investir-se
em alguma problematização, quanto às premissas da existência
do campo, os autores parecem satisfeitos ao constatar que "a crí-
tica da profissão por seus principais representantes é garantia de
independência" (Ibidem, p. 113). Com efeito, há uma paradoxal
fetichização dos conceitos. Paradoxal porque, ao adotarem o
procedimento genético, os dessubstanciam (doutrinariamente)
para depois (res)substanciá-los. Além disto, essa é favorecida
pelas relações estabelecidas entre conceitos bourdieusianos e
tradições analíticas diferentes, isto é, exóticas ao esquema analí-
tico estudado. Dito de outro modo, falta uma crítica imanente:
os autores se escapam dela justamente por carecerem de materi-
Introdução 15
al empírico; não só deste, mas também de informação sobre o
tratamento dos temas da comunicação na obra de Bourdieu a
ponto de sequer "dialogarem" com o artigo "Le marché des
biens symboliques". Assim, resta-lhes uma "teoria teórica", re-
ducionismo de que Bourdieu tanto temia e criticava. Não obs-
tante, percebe-se melhor a obra individual de Martino (2003).
Não que o autor problematize os conceitos supramencionados: é
que, ao ter um objeto construído a partir do trabalho de campo -
as relações da mídia com o campo religioso -, consegue em par-
te se libertar das reificações conceituais. Neste sentido, foi feliz
na escolha do campo religioso, pois, se existe um campo no Bra-
sil - ou a possibilidade próxima desse vir a ser constituído -, pe-
las indicações de pesquisas,2
esse é o campo religioso. Por outro
lado, uma vez que o espaço é de crítica, há que se atentar para
um trabalho bem construído: Autran (2003) objetiva a história
de Alex Viany, crítico de cinema e historiador. Na análise, é
marcante a presença do esquema bourdieusiano, sem que o autor
se lhe filie ou lhe faça adesão explícita, a um constructo bem ar-
ticulado do espaço de relações de força e de sentido que consti-
tui o cinema brasileiro entre 1948 e 1959, dos atores sociais dele
participantes, suas posições e de suas disposições, fundamentais
para as tomadas de posição. Autran enfim elabora um trabalho
fundamental para a pesquisa em comunicação.
Embora reconheça as dificuldades para dirimir os limites da
incorporação de Bourdieu, é necessário apontar especifícidades
brasileiras mais perceptíveis que concorrem às dificuldades para
a operacionalização sistemática do conjunto dessa obra. Em
primeiro lugar, inexistem no Brasil as mesmas condições france-
sas que fazem observar os princípios presentes nas di-visões do
mundo, que opõem fundamentalmente um "pólo no racionalis-
mo, na excelência e hierarquização estritamente escolar, e no
ethos, estilo de vida ascético e trajetórias sociais corresponden-
tes" (Coradini, 1996, p. 215), e um pólo pragmático, menos ra-
cionalista e escolar, e relacionado de modo mais direto com o
campo do poder (cultural, político, econômico). Isso porque a
estrutura da academia e do sistema escolar brasileiro, com raras
2
Cf., por exemplo, Miceli, 1988.
16 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
exceções, é precária, inviabilizando o surgimento de um campo
e de um ethos específico que lhe corresponde. Em segundo lu-
gar, e em conexão ou desdobramento da dificuldade anterior, os
participantes do mundo acadêmico ou escolar, usualmente, pou-
co se dispõem a submeter-se às exigências próprias a esse ethos
"acadêmico" e às regras desse universo. Mesmo porque frente às
condições sociais de realização profissional que esse mundo ofe-
rece, no Brasil, os investimentos rendem mais se orientados a
lógicas não-autônomas. Dessa maneira, não se chega à consti-
tuição de um contingente mínimo de participantes preocupados,
de modo autônomo, às estritas demandas da academia, inviabili-
zando assim o surgimento de um campo stricto sensu.
Por óbvio, e para ser coerente com o esquema analítico que
aqui é proposto (então, não me — tampouco vos - deixando se-
duzir pelas aparências), o que se constata na prática é que, mes-
mo quando o acadêmico se reveste desse papel, as lógicas que
preponderam nas ações ou no sentido a elas subjacente são - de
modo utilitarista ou "prático" - externas ao "campo", juízo ao
menos válido para as posições superiores na atividade, orienta-
das prioritariamente pelo mundo político e econômico. Esse per-
fil heterônomo brasileiro no mundo científico, constatado em
especial por Pécaut (1990) e Saint-Martin (1988), é característi-
ca latino-americana, conforme demostra Sigal (1996) para a ex-
periência argentina, em que o sentido cultuai presente nas pro-
duções artístico-culturais que ela analisa se confunde com o po-
lítico, e vice-versa, dadas as condições sociais e históricas aí
presentes. Enquanto isso não é dificilmente constatável no cam-
po acadêmico, toma-se evidente no "campo da comunicação",
espaço de relações cujas condições de produção tomam mais
contraditória - ou ao menos polêmica - qualquer perspectiva au-
tônoma que se intente incluir à reflexão.
Além desta dificuldade, ressalte-se, a partir do emprego par-
cial do esquema analítico, que os pesquisadores brasileiros da
área disciplinar da comunicação, de modo geral, pouco se dão
conta de que há perda do sentido dos conceitos e seus desdo-
bramentos metodológicos "se não estiverem referidos às suas re-
lações lógicas entre si e com as premissas que lhe dão funda-
mento, o que não significa que a opção da utilização de concei-
introdução 17
tos e métodos não esteja vinculada ao objeto de estudo" (Cora-
dini, 1996, p. 218). Portanto, espero que, com este livro, se pos-
sa favorecer e estimular o domínio dessas relações. As principais
idéias que desenvolvo neste livro, naquilo que se reportam à
pesquisa em comunicação, identifícam-se com três etapas que
distingo para a trajetória intelectual de Bourdieu:
Chamo o primeiro momento de "estrutural-funcionalista",
no qual o sociólogo está mais preocupado em detectar as fun-
ções sociais correspondentes a determinados usos da técnica e os
modos de reprodução social através dessas práticas que exterio-
rizam estruturas interiorizadas. Os textos-chave que me utilizo
para analisar esta fase são "Sociologues des mythologies et
mythologies de sociologues", artigo escrito com Jean-Claude
Passeron, em 1963, e Un art moyen - essai sur les usages
sociaux de la phoíographie, livro de 1965 composto por textos
de Bourdieu, Luc Boltanski, Jean-Claude Chamboredon, entre
outros. A importância do primeiro, para a publicação que ora in-
troduzo, deve-se ao início do debate acerca de uma sociologia da
cultura desmistificadora da idéia de existência de uma cultura
das massas (homogeneamente) massificadas e passivas. Bour-
dieu critica a concepção sincretista e homogeneizadora de Edgar
Morin em L'espnt du temps, de 1962. No segundo, Bourdieu
aplica as concepções desenvolvidas no debate anterior: analisa
os usos que as mais diversas classes e grupos sociais dispendem
à fotografia. Através desta prática, os agentes sociais tendem a
reproduzir as diferentes funções que os integram a seus grupos
de origem. Esta obra também deve ser avaliada como um esboço
analítico das práticas operadas no campo da cultura média, con-
ceito que o autor desenvolverá mais adiante. Esses trabalhos se-
rão tratados nos capítulos 1 e 2.
Chamo o segundo momento de "praxiológico", no qual é se-
dimentado, na década de 70, o arcabouço teórico e metodológi-
co que notabiliza Bourdieu mundialmente. La distinction, de
1979, é a principal obra do período, que aplica o percurso inves-
tigativo dos anos anteriores. Os temas deste livro relacionados à
mídia, junto com o texto "Le marché de biens symboliques"
18 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
(1970),3
balizam teoricamente o conjunto do capítulo 3: o escla-
recimento da lógica das práticas de utilização dos meios técni-
cos de comunicação vale-se de conceitos essenciais no pensa-
mento bourdieusiano, como o de habitus, e ainda os de campo,
capital, regime de distinções e de homologias, entre outros.
Chamo o terceiro momento de "corporativista do universal",
no qual é bastante perceptível o deslocamento da própria postura
do sujeito Bourdieu. O intelectual que antes norteara suas pes-
quisas "de fora" da sociedade, ao tentar praticar o máximo de
objetividade, cujas fontes filosóficas eram marcadas pela prag-
mática analítica, com Wittgenstein e Austin, desloca-se a uma
filosofia dos valores: reivindica a missão socrática pela busca do
bem comum e, enfim, passa a relacionar-se com os problemas
"de dentro" da sociedade ao propor a ação dos intelectuais na
sociedade contemporânea. A pesquisa leva em conta o texto
"Ifemprise du joumalisme", publicado pela primeira vez em
1994 na revista Actes de la recherche en sciences sociales. Este
artigo é um marco da transição de Bourdieu para este momento.
Atenta ao fato de que as disposições próprias dos jornalistas,
suas visões de mundo, os levam a executar um tipo próprio de
seleção e de abordagem dos acontecimentos do mundo social.
Também chama a atenção para a força social desproporcional
que o campo jornalístico exerce hoje. Esses problemas serão
abordados nos capítulos 4 e 5.
Este livro consiste, portanto, em um estudo de história das
idéias que leva a pesquisa a assumir um caráter bibliográfico,
através da leitura, análise e discussão dos textos-chave acima
mencionados, e outros sobre, ou inspirados por, Pierre Bourdieu,
e que contribuam aos objetivos pretendidos. A estrutura da reda-
ção procura seguir uma ordenação cronológica das obras publi-
cadas pelo sociólogo. "Uma teoria não se elabora jamais em um
vazio social: ela se inscreve em um contexto particular que mo-
dela as problemáticas" (Bonnewitz, 1997, p. 5). Portanto, para
3
Data em que aparece mimeografado. A publicação acontecerá no ano seguinte:
"Le marché des biens symboliques" In: L 'Année Sociologique, v. 22, p. 49-
126, 1971. Utilizo-me do texto integrante da coletânea 4 economia das trocas
simbólicas. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 1998.
Introdução 19
melhor conhecer o universo em que emergiram as idéias de
Bourdieu, também procuro observar o contexto da vida intelec-
tual do autor, no qual o convívio com estudiosos que publicam
regularmente nas Actes de la recherche en sciences sociales se
destaca. Levo em conta alguns deles, sobretudo os que interes-
sam à comunicação, com o propósito primeiro de captar a tônica
das discussões no ambiente intelectual da revista. É pelo tipo de
relação que um pensador estabelece com os demais pares que se
adquire uma visão acurada da proposta científica contida em sua
trajetória individual.
Por fim, ressalte-se, esta obra não se propõe a ser um "ma-
nual de Bourdieu para a pesquisa em comunicação", tampouco
possui simpatia por propostas manualescas - embora existam
exceções dignas que a merecem - que, além de esvaziar a subs-
tância oferecida pelo paradigma, contrariam as orientações e
concepções próprias do sociólogo de como deve ser desenvolvi-
do o ensino das ciências sociais. De fato, a intenção é a referida
sistematização para que, com qualidade, se impulsione a pesqui-
sa. No momento em que os estudos em comunicação tendem a
um amadurecimento, ao menos institucional, é válida a tentativa
de afastamento das apropriações teóricas fragmentárias, as
quais, como retalhos jogados sobre um objeto para que saia daí
uma colcha, resultam trabalhos de riqueza investigativa duvido-
sa ou, com otimismo, limitada. Portanto, a sistematização ampla
e agregativa das idéias de Bourdieu para o campo da comunica-
ção concorre para evitar esse prejuízo, o que mais uma vez mo-
tiva a existência deste livro.
20 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
1
A cultura e os meios técnicos:
entre o espírito e a massa
- gênese do debate acerca da comunicação
na obra de Pierre Bourdieu
O homem de uma ilusão permanece uma ilusão, mons-
tro de cem orelhas e cem olhos, enfeitado pelo monstro
de cem rostos e cem vozes.
Bourdieu e Passeron, Sociologues des mythologies
et mythologies de sociologues.
O ponto de partida histórico-intelectual deste livro é a polêmi-
ca travada por Pierre Bourdieu e dirigida, em especial, a Edgar
Morin. Caracteriza a sociologia do primeiro contra a crítica da
cultura do segundo, muito voltada a temas da comunicação.
Embora quatro décadas separem os textos analisados dos dias
atuais, as críticas endereçadas a certas condutas intelectuais, e
mesmo o vocabulário empregado, detectam-se em textos recen-
tes, como em Sobre a televisão} "Sociologues des mythologies
et mythologies de sociologues", artigo publicado com Passeron,
em 1963, na revista Les Temps Modernes,2
critica os "massmé-
diologues", autores cuja proposta seguiria uma "sintaxe do dis-
' Bourdieu (1997, p. 61) refere-se à ilusão do "nunca visto", detectada em soció-
logos anunciadores de fenômenos como inauditos e cuja expressão lhe serve
para atacar Edgar Morin e os massmédiologues; e condena a ilusão do "sempre
assim", reportando-se a Kant, crítico em sua época dos pensadores conservado-
res, céticos em relação à transformação qualitativa da sociedade.
2
Refiro-me ao número CCXI da publicação.
A cultura e os meios técnicos: entre o espírito e a massa 21
curso profético" (Bourdieu e Passeron, 1963, p. 998), pelo modo
como analisam a mídia. Não obstante, afirma o estatuto de obje-
to científico dos modernos meios de comunicação. "Mass media
não são uma coisa nem uma idéia, nem uma instituição, nem
uma intenção, nem um agente: são um utensílio sem utilizador
que definem eles próprios as regras de sua utilização, uma ma-
nipulação sem manipulador" (Ibidem, p. 1020). O que reprova
são os argumentos da massmidiologia. Para tanto, ela é analisa-
da mediante a aplicação de um método estruturalista. As princi-
pais críticas deste artigo são direcionadas às idéias que Morin
apresenta em L 'esprit du temps.3
Doravante, chamarei, como os
autores, a massmidiologia de ciência da mídia de massa e o
massmidiólogo de cientista da mídia de massa, a fim de se evitar
equívoco no emprego do termo midiologia que sugira o imple-
mentado por Régis Debray.4
A denúncia das mitologias intelectuais
Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron criticam os intelec-
tuais que anunciam a transformação do homem contemporâneo
em um novo homem, produzido pela força dos meios de expres-
são que ele próprio criou.5
Neste contexto, o poder da imagem
emergiria em detrimento do verbo, assumindo uma nova "condi-
ção cósmica" (Morin, 1969, p. 191). Assim as massas ingressa-
riam numa nova civilização instituída pela mídia, na qual as pes-
soas não teriam a consciência deste ingresso. Elas sofreriam a
ação maciça dos meios, de cuja massificação cultural provocaria
na sociedade desde a despolitização até a incorporação de estilos
3
MORIN, E. L'esprit du temps. Paris: Grassei, 1962. Valho-me da segunda edi-
ção brasileira (1969), intitulada Cultura de massas no século XX - o espírito
do tempo. O título veio a receber o acréscimo de "neurose" quando publicado,
em 1975, o segundo tomo de L 'esprit du temps, de subtítulo "necrose", onde
Morin revê suas posições e constata a "crise da cultura de massa".
4
Cf. DEBRAY, R. Curso de midiologia geral. Petrópolis: Vozes, 1993.
5
Anos mais tarde, em 1997, em uma inversão de perspectiva, Bourdieu preo-
cupar-se-á com o domínio da televisão, seu peso desproporcional sobre a so-
ciedade contemporânea, como é analisado no capítulo 5.
22 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
na moda. Os autores do artigo rejeitam este poder dos meios de
comunicação e o ambiente de "grande tensão pré-apocalíptica"
(Ibidem). Acreditam ser paradoxal o fato de que o destino dessas
massas seja tratado tão-somente por intelectuais, em cuja ambi-
ção ou nostalgia buscam atingir audiências maiores, sem no en-
tanto conseguir que seus discursos ultrapassem as fronteiras do
campo acadêmico.
Morin e os demais cientistas da mídia de massa estabelecem
mitologia desmistifícadora, quer dizer, com a pretensão de des-
mistifícarem os mitos presentes na cultura, impõem o mito inte-
lectual, que decorre da subtração praticada por eles da essência
das pessoas que constituem as massas. A verdade social dessas
últimas só poderia ser restituída pelos praticantes da subtração,
os intelectuais, que de fato não podem controlar nem as massas
nem a mídia. Podem entregar-se ao prazer que tais objetos lhes
propiciam e, ao mesmo tempo, condenar esse prazer que as mas-
sas criticadas fazem uso explícito sem maiores pudores. Para
tais intelectuais, como Jean Duvignaud, ir ao povo, isto é, ao ci-
nema, seria descer à caverna onde os outros estão acorrentados.
Pois, "o homem de hoje estaria um pouco na situação que Platão
à espécie inteira: sentado em frente a um muro no fundo de uma
caverna, enquanto desfilam pela sua frente figuras e sombras cu-
ja realidade ele não põe em dúvida".7
O alvo principal, contudo,
são mesmo as idéias de Morin em L 'esprit du temps. Mauro
Wolf (1995, p. 89) denomina "teoria culturológica" à corrente
de estudos inaugurada por ele. "A sua característica fundamental
é o estudo da cultura de massa, distinguindo os seus elementos
antropológicos mais relevantes e a relação entre o consumidor e
o objeto de consumo", e contrapondo-se à pesquisa administra-
6
Mais de trinta anos depois, Bourdieu reivindicará o "corporativismo do univer-
sal" em que a liderança cabe aos intelectuais. Até que ponto o pleito não coin-
cide com a postura dos massmédiologues que ele criticara?
7
DUVIGNAUD, J. La Caveme. In: La Nouvelle Revue Française, n. 117 (citado
pelos autores).
8
Os autores criticados são Gilbert Cohen-Séat e Pierre Fougeyrollas (L 'action
sur 1'homme: cinéma et télévision. Paris; Denoél, 1961), Jacques Charpentreau
e René Kaès (La culture populaire en France. Paris: Editions Ouvrières, 1962)
e René Huyaghe (Dialogue avec le visible. Paris: Flammarion, 1955).
A cultura e os meios técnicos: entre o espírito e a massa 23
tiva praticada principalmente nos Estados Unidos. Morin propõe
a substituição da perspectiva de "comunicação de massa" por
"cultura de massa". Portanto, rejeita a análise de fatores limita-
dos dos norte-americanos e opera um deslocamento metodológi-
co à totalidade, o conjunto cultural. O sistema cultural formado
pela cultura de massa é constituído por um conjunto de mitos,
valores, imagens e símbolos, associado tanto à vida prática co-
mo ao imaginário coletivo. Este sistema convive com outros nas
sociedades contemporâneas, que são realidades policulturais em
que a cultura de massa interfere. A cultura industrializada entra
em contradição com o caráter individualizado e inovador do
consumo cultural em virtude de sua padronização técnica e pro-
dutiva.
A linha mediana entre a produção estandardizada e a exi-
gência de originalidade e individualização no consumo das mer-
cadorias culturais é o sincretismo: um denominador comum que
homogeneiza a diversidade dos conteúdos, tornando-os produtos
médios, de qualidade média, para um consumidor médio. Ofait
divers9
é um exemplo no qual o sincretismo funde os setores da
informação ao da ficção, do real ao imaginário. A identidade
comum da cultura de massa é a dos valores de consumo, dina-
mizado pelos novos contingentes assalariados médios. Frente à
prolixidade dos discursos produzidos, a mudez passiva do con-
sumo limita-se ao grão de atividade correspondente a reações es-
timuladas, controladas e calculadas, tais como as de condicio-
namento behaviorista. Todavia, Morin coloca como problema
central a dialética entre o sistema de produção e as necessidades
dos consumidores. De modo diferente de sistemas culturais ante-
riores que exigem um aprendizado formal para sua fruição, a in-
dústria cultural tende a nivelar-se às exigências já constituídas
pelo contingente mais expressivo da população.
9
Cf. Barthes, R. Structure du fait divers. In: Essais critiques. Paris: Seuil, 1975,
p. 188-197.
24 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
Os argumentos de Edgar Morin
Na segunda industrialização, ocorre uma "industrialização
do espírito" (Morin, 1969, p. 15), que é incrementada no decor-
rer do século XX. Em seu transcurso, a técnica progride conti-
nuamente, não visando mais simplesmente o desenvolvimento
das forças produtivas, mas ingressando no terreno da subjetivi-
dade humana, por intermédio de mercadorias culturais. Embora
suportes como o jornal e o livro já se constituíssem como mer-
cadorias, o circuito comercial e industrial não havia absorvido
de modo tão intenso a vida cultural e privada. A cultura de mas-
sas, então, refere-se à cultura que emerge da sociedade industrial
ou sociedade de massas, na qual a vida social já está organizada
em padrões modernos que se contrapõem aos modelos tradicio-
nais. A sociedade ocidental processa racionalização técnica, bu-
rocrática, capitalista, classista, burguesa e individualista. As di-
ferentes esferas de organização desta racionalidade denunciam
por si sós os limites da noção de massa. A racionalização técni-
co-burocrática da sociedade atinge a produção cultural na qual
ocorre uma gradual despersonalização da criação, que se desloca
para o ambiente da organização da empresa. "No entanto, essa
tendência, exigida pelo sistema industrial, choca-se com uma
exigência radicalmente contrária, nascida da natureza mesma do
consumo cultural, que sempre reclama um produto individuali-
zado, e sempre novo" (Ibidem, p. 28). O produto equilibra ou
desequilibra a produção cultural e suas forças contrárias, buro-
cráticas e antiburocráticas: o tipo de produto implica unidades
de produção mais ou menos burocratizadas.
A cultura de massa procura adaptar-se ao público e que o
mesmo se adapte a ela, mediante a contradição dinâmica da in-
venção-padronizada: se a indústria tende à padronização, o con-
sumo busca a novidade. Desta contradição se estabeleceria a vi-
talidade do sistema. Essa dialética, no entanto, tenderia "a se
amortecer em uma espécie de termo médio" (Morin, 1969, p.
34). Porém, ele reconhece que os veículos de comunicação sa-
bem que os públicos são variados e, portanto, procuram satisfa-
zer os diversos interesses e gostos mediante oferta de programas
ecléticos nas emissoras de rádio ou TV, seções ou editorias as
A cultura e os meios técnicos: entre o espírito e a massa 25
mais diversas em um mesmo jornal ou revista. Assim buscam
maximizar o consumo de seus produtos e, em conseqüência,
seus lucros. Embora reconheça a diversidade, todavia, defende
ser fruto de sistematização, de uma homogeneização que obede-
ce a regras comuns. Morin (Ibidem, p. 44), apesar de acreditar
detectar a massificação homogeneizadora, reconhece os limites
de sua perspectiva. Há heterogeneidade, por exemplo, no uni-
verso do novo contingente assalariado homogeneizado, apesar
de estratifícado em múltiplos compartimentos e status sociais. A
cultura de massa passa a ser, enfim, o "meio de comunicação en-
tre esses diferentes estratos e as diferentes classes". Essas dife-
renças sociais sofreriam um nivelamento decorrente da padroni-
zação dos produtos dos mass media. Estes são os responsáveis
pela difusão cultural, regulada pela lei fundamental do mercado,
da oferta e da procura, isto é, pelo binômio produção-consumo e
da dialética daí decorrente. A síntese cultural disto é uma cultura
média produzida por talentos médios para inteligências médias,
com o objetivo de ser ou vir a ser "a cultura do denominador
comum entre as idades, os sexos, as classes, os povos, porque
ela está ligada a seu meio natural de formação, a sociedade na
qual se desenvolve uma humanidade média, de níveis de vida
médios, de tipos de vida médio" (Ibidem; 54). Os conteúdos da
cultura integrariam, em um primeiro momento, elementos da
cultura burguesa com a popular, para depois desintegrá-los em
nova síntese metamorfoseadora.
O retomo aos sujeitos
Bourdieu e Passeron (1963, p. 1002) apontam que a deno-
minação mais vaga e assustadora dos mass media é a que os de-
signa como meios de comunicação de massa. Os indivíduos
massifícados expostos a eles constituiriam "recepção massiva,
passiva, dócil e crédula".
Desta maneira, dispensamos de levar em conta as diferenças entre
as categorias sociais, que tratam do acesso aos mass media ou da
atitude em relação às mensagens que eles transmitem. Portanto,
26 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
contrariamente àqueles que evocam o uso massmidiológico do
termo "massa", é nas camadas sociais mais valorizadas, ou seja
justamente as melhor preparadas contra a fascinação exclusiva das
mensagens vulgares encontradas que encontramos o maior número
de aparelhos de televisão (Ibidem).
Observa-se aí a defesa do emprego de dados estatísticos e a
estratifícação na análise. Ao contrário, Morin evita a análise es-
tratificada. Ele critica a sociologia das comunicações de massa,
tomando por referência Merton e a tradição norte-americana, ao
considerar que as categorias por ela utilizadas "fragmentam a
unidade cultural implicada nas comunicações de massa, elimi-
nam os dados históricos, e finalmente, chegam ou a um nível de
particularidade dificilmente generalizável, ou a um nível de ge-
neralidade inutilizável" (1969, p. 193). Esta sociologia, no má-
ximo, conseguiria a reintegração do espectador ou do leitor a
seus grupos sociais, em que as mensagens das comunicações de
massa interfeririam, baseadas na relação emissor-receptor e em
detrimento do tecido complexo das relações. Esta limitação seria
o impedimento fundamental para que a sociologia das comuni-
cações de massa avançasse à elaboração de uma sociologia da
cultura de massa.
Merton notabilizara-se com a pesquisa Patterns ofinfluence
- a study of interpersonal influence and ofCommunications be-
havior in a local community, publicada em 1949, pela qual de-
tecta a importância dos líderes de opinião em uma determinada
comunidade. Com base em abordagem empírica de campo, sob
encomenda de um semanário, ele procura descrever a estrutura
de influência e os seus líderes, nessa comunidade, no consumo
dos mass media. O que seria uma pesquisa administrativa tradi-
cional, transformara-se em exercício teórico de descrição con-
ceituai da tipologia dos líderes de opinião. Derivada da distinção
de Tõnnies entre Gemeinschaft e Gesellschaft, Merton propõe a
diferença entre líder de opinião local e cosmopolita: o líder local
tende a corresponder a uma pessoa que vive constantemente na
comunidade e conhece o maior número possível de pessoas. Ele
tende a participar em organizações formais, onde incrementa os
contatos interpessoais. Essas relações são desenvolvidas mais no
A cultura e os meios técnicos: entre o espírito e a massa 27
conhecimento dos outros do que em razão de competências es-
pecíficas. Portanto, a influência para consumo de um determina-
do produto cultural destaca a face humana das mensagens veicu-
ladas pelos mass media, com suas anedotas e marcas pessoais. O
líder local é polimorfo, segundo Merton, por influir os outros em
diferentes áreas temáticas. O líder cosmopolita, da sua parte, há
tempo vive fora da comunidade; é quase como um forasteiro:
traz à lembrança os camponeses "citadinos" de Bourdieu, aque-
les emigrados do meio rural que, ao retomarem em férias, não
são mais reconhecidos por seus pares de outrora.10
Entretanto,
por possuir competência específica, o líder cosmopolita de Mer-
ton exerce autoridade em alguma área específica. É denomina-
do, portanto, monomórfico. Nesse momento, a via americana da
communication research torna-se mais complexa, voltando-se
aos efeitos limitados, indiretos, mediante abordagens empíricas
de campo de orientação sociológica. O termo influência dos
mass media assume o lugar de manipulação ou de persuasão.
Essa influência midiática compartilha seus efeitos com outras
influências, como as comunitárias, isto é, ela passa a ser encara-
da como apenas uma parte em um todo social. Portanto, os mass
media são apenas um elemento na dinâmica de formação da
opinião pública, gerada também pela influência pessoal "em que
a personalidade do destinatário se configura também a partir de
seus grupos de referência (familiares, de amigos, profissionais,
religiosos etc.). O conceito de "massa" parece ter esgotado a sua
função heurística dentro da communication research" (Wolf,
1995, p. 48). Deve-se levar em conta, no entanto, que essas in-
vestigações foram desenvolvidas no decorrer dos anos 40, perío-
do em que a influência pessoal possuía maior força. No quadro
atual, a influência dos mass media tende a não ser filtrada por
tais tipos de liderança. Todavia, o que importa é que a eficácia
dos meios de comunicação passa a ser compreendida como parte
10
Aqui penso no artigo de Bourdieu, de 1962, "Les relations entre les sexes dans
la societé paysanne". In: Les temps modernes, 195, p. 307-331; de 1963, "La
societé traditionelle. Altitude à Tégard du temps et conduite économique". In:
Sociologie du Travail, n. 1, p. 24-44; e os capítulos escritos por ele em lln art
moyen (1965).
28 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
dos processos de comunicação existentes no interior da estrutura
social.
Bourdieu e Passeron atentam que as mais diferentes mensa-
gens poderiam ser veiculadas pelos mass media às mais diversas
audiências. Ao invés disto, os cientistas da mídia de massa pre-
ferem tratá-los como mecanismos de condicionamento do públi-
co pela via preferencial da mensagem publicitária. Os autores
alertam que esses pensadores arriscam-se ao relativismo por evi-
tarem distinguir o público e os conteúdos de cada sistema de di-
fusão cultural particular, optando pela adoção de conceitos mas-
sificados e obscuros, por intermédio dos quais as diferenças são
anuladas. A noção de massa não compreende só o mais massivo,
a difusão que atinge o maior público. Além da importância desta
audiência, mecjida em horas de consumo da programação e pelos
aparelhos vendidos, "o meio de comunicação é chamado "de
massa" porque comunica massivamente uma cultura de massa.
Uma vez que esta cultura não deve ser entendida simplesmente
pelo conjunto de mensagens difundidas pelos meios de comuni-
cação de massa, os cientistas da mídia de massa a tratam como a
cultura das massas, que se caracteriza pelo "sistema de saberes e
das atitudes que encontramos nas "massas", opostas às elites que
se beneficiaram da cultura escolar" (Bourdieu e Passeron, 1963,
p. 1005). Nesta tendência de investigação no âmbito da sociolo-
gia da educação, Bourdieu e Passeron publicarão, no ano seguin-
te (1964), Les héritiers, obra que desmistifica o discurso iguali-
tarista de Jules Ferry, da escola para todos, que permitiria a
igualdade de oportunidades e a plena realização dos potenciais
de cada indivíduo, e, em 1970, La reproduction. Se concordar-
mos com a perspectiva da ciência da mídia de massa, ironizam
então, significa que os mass media distribuem às massas o que já
lhes pertence, desaparecendo com isto o mistério da massifica-
ção, pois a cultura de massa é então o feito dos mass media que
se fundamentam culturalmente nas massas.
A cultura e os meios técnicos: entre o espírito e a massa 29
A proposta de um método de análise
Bourdieu e Passeron fazem notar que cada meio de comuni-
cação segmenta nessa massa aqueles que vêm a ser os especta-
dores de um momento. Cada um deles oferece diferentes conte-
údos que serão consumidos por públicos diferenciados e flutuan-
tes, que coincidem em todo ou em parte com os grupos sociais.
O método de análise deve, então, ser invertido, partindo não
mais dos meios de comunicação para as suas audiências, mas
dos grupos sociais, mediante o sistema de consumo cultural que
os caracteriza.11
Os autores questionam o que diferencia a re-
cepção de um tipo de programa da de outro, por exemplo o pú-
blico de um determinado programa de televisão daquele de uma
peça teatral ou um concerto da sinfônica. Os diversos tipos de
comunicação podem estar em oposição às relações estabelecidas
pelo conjunto das comunicações individuais, "tais como os co-
mentários em uma rua de um antigo lugarejo tradicional, o papo-
furado no terraço de um café ou a fofoca em uma noitada mun-
dana" (Bourdieu e Passeron, 1963, p. 1007-1008). Eles acredi-
tam que os diversos meios de comunicação individuais propi-
ciam tipos de experiência distintos na relação com os outros. Os
exemplos são variados, como a relação face a face, a relação
anônima que se instaura na carta oficial que se destina mais ao
cargo que ao sujeito que o preenche, a conversa ao telefone etc.
Cada um dos meios implica direitos e deveres. Determinados as-
suntos podem ser abordados ao telefone, enquanto que outros só
por carta, ou pessoalmente, e assim por diante. Em prossegui-
mento, também perguntam o que pesa mais, se o número de
emissores e de receptores ou o conteúdo e a forma da comuni-
cação, a sua qualidade. Em essência, as experiências tanto dos
emissores quanto dos receptores diferem, no âmbito do inter-
câmbio de mensagens individuais e no das coletivas. A estrutura
do grupo onde é feita a recepção merece ter destaque:12
o con-
sumo da televisão dá-se em casa, em família; o do concerto, no
teatro, que abriga um público interessado por este tipo de ex-
11
Na década de 90, em Sobre a televisão, há a inversão dessa perspectiva.
12
O campo do consumo é enfatizado nos capítulos 2 e 3.
30 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
pressão. O mesmo raciocínio vale para o futebol e o estádio, o
cinema e a sala de exibição, e assim por diante; a credibilidade e
a adesão à mensagem é uma no contato face a face real e outra
na simulação de pessoalidade ou intimidade gerada pela televi-
são e o cinema, ou mesmo o rádio. Na Internet (e no jornalismo
on-line), esse quadro toma-se dramático.13
É preciso demons-
trar, defendem, o porquê da atribuição de tamanho poder de per-
suasão à televisão, em detrimento do contato físico direto propi-
ciado pela presença humana. A leitura também se diferencia.
Modos distintos são detectados para o suporte livro. Dizer que é
a leitura de um jornal ou de uma revista não é o suficiente. A es-
trutura do veículo deve ser conhecida, levando-se em conta que,
mesmo ao ler-se um único periódico, seja ele O Estado de S.
Paulo, Zero Hora, ou O Dia, a importância que um leitor dis-
pensa às diversas editorias de um mesmo veículo também muda.
Existem mil maneiras de ler, de ver e de escutar. Por que querer
determinar "a influência" dos mass media pela medida, estranha-
mente burocrática, da quantidade de informação emitida ou a aná-
lise da estrutura da mensagem. Podemos sem dúvida medir o nome
e o corte dos caracteres, ou a disposição dos títulos, a importância
dada a tal ou tal acontecimento, mas teremos o direito de inferir
que o leitor dispensa a esta informação uma importância propor-
cional aos milímetros quadrados que ele ocupa no jornal? Ele de-
ve lembrar que a significação não existe como tal na própria coisa,
mas que ela tem, aqui como fora daqui, a modalidade da consciên-
cia intencional que a constitui? A leitura superficial pode ser nela
mesma sua própria defesa e a escuta distraída transforma o discur-
so do speaker em simples barulho, que se pode medir em decibéis
(Ibidem, p. 1009).
Aqui se observam as críticas aos métodos da sociologia tra-
dicional, às análises estruturalistas em voga, bem como às análi-
ses de conteúdo, e, por outro lado, a defesa de postulados da crí-
tica cultural, mas sem que, com isto, se estabeleça uma concor-
dância à crítica cultural de Morin. Uma perspectiva alternativa
começa a ser gestada.
13
Ver o meu livro; Jornalismo on-line. Passo Fundo: UPF Editora, 2004.
A cultura e os meios técnicos: entre o espírito e a massa 31
A possível liberdade de espírito
A mensagem dos mass media não possui a priori o privilé-
gio de enganar as pessoas que a consomem. Bourdieu e Passeron
criticam os intelectuais que não acreditam na capacidade de de-
fesa e o livre-arbítrio espiritual dos outros. Eles buscariam mo-
nopolizar a liberdade de espírito tão alardeada. A atividade pro-
fissional intelectual exerceria esse domínio. Morin (1969, p.
118), da sua parte, permite a liberdade em essência só aos estra-
tos superiores da sociedade e reporta-se constantemente às cele-
bridades com espaço na mídia, os olimpianos, assim chamados
por parecerem ocupar na vida planos quase tão etéreos quanto o
Olimpo da Grécia. "Os reis e os chefes, que estão acima da lei,
gozam da supraliberdade. Os ricos, os olimpianos, escapam aos
constrangimentos da vida cotidiana: deslocam-se de avião,
amam, divorciam-se facilmente". Pouco reflete, porém, sobre
quanto o pesquisador pode colocar-se em posição privilegiada
ou mistifícar as posições ocupadas pelos agentes na estrutura so-
cial. Os "mandarins", os intelectuais, criam novos mitos, pare-
cendo desmitifícadores: a cultura de massa, ou melhor, a massa
como referência social em uma dominante cultural, tomada a
priori, passa a ser levada mais a sério que os sujeitos que se mo-
vimentam, individual ou associativamente, na sociedade, cuja
cultura é constituída e reconstituída por eles a cada momento
com possíveis espaços de liberdade, embora se reconheça o
quão obstaculizado é o reconhecimento e árdua a ruptura ante as
estruturas que reproduzem a dominação.
Bourdieu e Passeron, a propósito, chamam de neopopulismo
a proposta metodológica adotada por Morin. Acreditam que ela
está permeada por contradições, na qual bastaria o observador
gostar ou participar de espaços e eventos típicos da cultura de
massas para estar nela e poder ser seu observador legítimo, uma
vez que para ele é importante "[...] que o observador participe do
objeto de sua observação; é preciso, num certo sentido, apreciar
o cinema, gostar de introduzir uma moeda num juke-box, diver-
tir-se nos caça-níqueis, seguir as partidas esportivas, no rádio, na
televisão, cantarolar o último sucesso" (Morin, 1969, p. 22). Es-
sas atitudes, a priori, não resgatam a compreensão encoberta pe-
32 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
Ias mitologias, apesar de que os autores apontam que o discurso
da ciência da mídia de massa possui uma "aura de verossimi-
lhança" (Bourdieu e Passeron, 1963, p. 1012). Ele repercute tan-
to, em virtude de valer-se do expediente da analogia, que toma
como ponto de partida as experiências corriqueiras, como as re-
feições, nas quais não se conversa, mas se assiste à televisão. As
analogias acarretam semicompreensões dos fenômenos. Desse
modo, a ciência da mídia de massa efetuaria tão-somente a
transposição do senso comum em um discurso formalizado. As-
sim como à época da Guerra Fria "tudo" passava a ser culpa da
bomba atômica, a "cultura de massas", espírito encarnado do sé-
culo XX, responsabiliza em quase tudo a televisão.
O sentido pela via da história
No discurso massmidiático, ocorre uma supressão do senti-
do, uma vez que não são buscadas as condições de existência
dos fenômenos. Isso leva os cientistas da mídia de massa a di-
fundirem conceitos totalizantes. No caso das características da
"jovem moderna", por exemplo, salienta-se a identificação cos-
mética e de vestuário das meninas em relação às divas de Hol-
lywood. Bourdieu e Passeron recordam, porém, que a transfor-
mação da sociedade camponesa, através da introdução de novas
técnicas agrícolas bem como da nova distribuição do trabalho
entre os sexos, são fatores que afetam a jovem rural dos dias
atuais. Para os autores, a explicação massmidiática tende a nu-
trir-se de si mesma, pois cada perspectiva nova costuma ser em-
pregada a partir da repercussão de perspectivas anteriores. A sis-
tematização do pensamento dos cientistas da mídia de massa se
dá mediante a alusão e a elipse. A explicação apresenta fenôme-
nos que parecem não possuir antecedentes históricos além do
apogeu dos meios de comunicação de massa. Morin (1969, p.
185) apresenta o fim da história, uma vez que entende que o
mundo em transformação sucessiva contém a cultura de massa
"aderente" ao presente, no sentido de adesão e aderência: a pri-
meira, no plano das idéias; a segunda, à dimensão espaço-
tempo; "cultura no devir, ela não é cultura do devir. Ela permite
A cultura e os meios técnicos: entre o espírito e a massa 33
ao homem aceitar, mas não assumir sua natureza transitória e
evolutiva. Cultura do hoje eterno e cambiante, ela oferece uma
sucessão não-estruturada de momentos presentes". O presente
toma-se quadro absoluto de referência que origina a noção - e
impressão - permanente de contemporaneidade. Resta aos ho-
mens, então, encantarem-se com a sucessão de técnicas e novas
tecnologias que o mundo massificado lhes oferece continuamen-
te, com o fetiche que, para alguns, poderia levar à danação e, pa-
ra outros, à redenção.
Bourdieu e Passeron (1963, p. 1015) observam pertencer à
ordem da razão mítica o discurso pelo qual se anuncia uma mu-
tação sem precedentes do ser humano, por intermédio da disse-
minação das novas tecnologias de comunicação. Para o intelec-
tual que incorpora o discurso mítico fica fácil alardear a pana-
céia ou o apocalipse, com o seu discurso de autoridade proferido
ao homem comum cujo acesso limitado à análise histórica da
emergência de novos fenômenos sociais o submete a esses pen-
sadores e à "ilusão do nunca visto". Os autores ironizam a ar-
gumentação desses pensadores por agirem como profetas do
apocalipse, já que nela fazem nascer um novo homem, o "homo
mass mediaticus", produto dos mass media. Homem sem quali-
dades, para alguns intelectuais de esquerda, ou, para outros de
direita, virtuoso em seus hábitos, de um simples apertar de botão
a um folhear de revistas.
Os grupos e as classes sociais como referência
Bourdieu e Passeron discordam que os sujeitos diversos,
cujas atividades em sociedade são as mais diferentes, desde o
agricultor até o acadêmico, possam ser "iguais diante dos mass
media" (1963, p. 1017).
Em razão de sua extrema indeterminação semântica, o conceito de
"massa", encontro de todas as escolhas não feitas, permite mostrar
somente as alternativas. Fazendo uma relação com a sociedade, se
quisermos pegar a dupla de Tõnnies, ou por relação à solidarieda-
de orgânica e à solidariedade mecânica, para falar como Durk-
heim, o termo "massa" quer nomear um novo tipo de solidarieda-
34 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
de, definida pela ausência generalizada de solidariedade, fim últi-
mo da desagregação da Gesellschaft e mais ingenuamente ainda
do que a Gemeinschaft. Mas, ao mesmo tempo, a "massa" produz
"massificação", ação niveladora dos mass media, realizaria uma
nova forma de integração fundada sobre a "homogeneização" ou,
se quisermos, sobre a "solidariedade por semelhanças", típica se-
gundo Durkheim de sociedades primitivas: a "cultura de massa"
seria então o equivalente do sistema de modelos de comportamen-
to que o etnólogo descobre em uma sociedade fortemente integra-
da (Ibidem, p. 1018).
Empregando-se a noção de massa, implicitamente o pesqui-
sador reportar-se-ia à dupla de oposição massas e elites e, por
extensão, à concepção marxista de revolução, da luta de classes.
A nova sociedade que emerge dos discursos desses cientistas da
mídia de massa, porém, leva à ilusória demonstração de uma so-
ciedade sem classes, alienada na igualdade, cuja revolução ainda
está por fazer. E, assim como os significados derivados da ex-
pressão "massa" permitem a evocação da tradição marxista, re-
volucionária, autoriza também a presença da tradição maquiavé-
lica, que visa assegurar os mecanismos de poder àqueles que o
possuem ou que lhe aspiram, quer dizer, a garantia de preserva-
ção dos processos sociais de dominação. Pode-se afirmar que
Bourdieu e Passeron acreditam que tal indeterminação semânti-
ca deixa uma brecha para o uso oportunista do poder, já que o
espírito do tempo pode explicar tudo. A lógica fantasmagórica
dos cientistas da mídia de massa difundiria um vale-tudo, pelo
qual o pesquisador poderia utilizar-se desde lembranças de uma
pessoa comum até a história de tempos longínquos. O que se
abandonaria, no entanto, é a necessária descrição do processo
histórico que faz emergir a essência dessas massas, seus sujeitos,
seus meios e sua cultura. Por não levarem em conta este proces-
so, os intelectuais criticados não analisam o sistema de organi-
zação que produz os fenômenos da mídia. Não consideram na
investigação nem os meios, nem suas funções, suas técnicas de
transmissão e a diferenciação na recepção de um mesmo produto.
Os encantadores querem poupar o desencantamento de descobrir
que os redatores e os fotógrafos de Paris-Match colocam explici-
tamente e metodicamente em suas mensagens aquilo que a análise
A cultura e os meios técnicos: entre o espírito e a massa 35
que queremos estrutural, esta varinha mágica, faz surgir; poupar-se
também do desespero de constatar que os leitores compreendem
esta intenção objetivada. É, portanto, o massmidiólogo que vem
colocar sua nuvem mitológica entre duas partes sem ilusões
(Bourdieu e Passeron, 1963, p. 1020).
Os cientistas da mídia de massa evacuam o sujeito histórico
antes do seu declínio efetivo, historicamente, ou de sua débâcle
materializada.14
Bourdieu e Passeron defendem que seja buscada
uma alternativa que supere ao mesmo tempo o denuncismo do
discurso revolucionário ingênuo e a resignação daqueles que ob-
servam nas massas uma intoxicação massmidiática sem antído-
tos possíveis. Tampouco, a dialética da produção-consumo pro-
posta por Morin, cuja noção de sincretismo é difundida em sua
obra. No lugar desta dialética, acreditam existir uma homologia
estrutural entre os campos de produção e de consumo, pela qual
há coincidência de interesses entre os grupos de emissores e de
receptores. Os criticados, ao contrário, oscilam entre o amor às
massas "ameaçadas de catástrofe e o amor secreto da catástrofe"
(Ibidem, p. 1021), isto é, entre a nostalgia e o apocalipse.
A revisão das posições
Edgar Morin (1986, p. 9), no entanto, revê, e progressiva-
mente abandona, suas posições no segundo tomo de L 'esprit du
temps. "O espírito do tempo 1950-1960 era a cultura de massas.
O novo espírito do tempo faz explodir a cultura de massas". Ne-
la, não reconhece mais o sentido de integração cultural e tam-
pouco social. Substitui, pois, o antagonismo da cultura de mas-
sas ante a cultura coletiva por três pólos culturais em interações
simultaneamente "complementares, convergentes e antagônicas"
(Ibidem: 12); a cultura cultivada que passou a incorporar o com-
ponente da subversão e da contestação; a "contracultura", com
tendência à revolução cultural; e a "nova cultura de massas atra-
14
Ou a que desmaterializa, pois me refiro aos acontecimentos e novos processos
que se desencadeiam no mundo do século XXI, a partir da derrubada do Muro
de Berlim.
36 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
vessada pela problematização e pela reformulação" (Ibidem, p.
13). Morin reivindica a importância da noção de acontecimento,
do ponto de vista sociológico, cuja natureza tende a ser desestru-
turante pois perpassa aquilo que não pode ser inscrito nas regu-
laridades estatísticas. "Assim, um crime ou um suicídio não é
um acontecimento, na medida em que se inscreve em uma regu-
laridade estatística, mas uma onda de crimes, uma epidemia de
suicídios podem ser considerados acontecimentos, da mesma
forma que o assassinato do presidente Kennedy ou o suicídio de
Marilyn Monroe" (Ibidem, p. 27). A natureza acidental do acon-
tecimento perturba e modifica a sociedade. A transformação, to-
davia, se processa em um continuam dialético ao qual a evolu-
ção conflita com a involução. Uma forte perturbação da ordem,
isto é, grande abalo das estruturas pode desencadear mecanis-
mos de regressão dos quais ressurgem arcaísmos; a inovação so-
cial, por outro lado, também pode ser suscitada. Tal caráter sin-
gular e aleatório revaloriza o papel da história no pensamento de
Morin.
Reconhecida, portanto, a heterogeneidade, Morin questiona
se ainda seria pertinente o emprego da noção de cultura. Conti-
nua a buscar um sentido unifícador para as diversas acepções,
um novo espírito do tempo que fugisse tanto da visão totalizante
quanto da residual, seus limites polares entre os quais oscila e
que, ao mesmo tempo, possa explicar estes pólos. As duas abor-
dagens correspondem aos modelos da lingüística estrutural, que
investiga o código e a estrutura dos sistemas culturais, e a abor-
dagem existencial em cuja renovação Michel de Certeau cum-
priu, de acordo com ele, um papel notável. "A cultura não deve
ser considerada nem como um conceito nem como um princípio
indicativo, mas como a maneira como se vive um problema glo-
bal" (Morin, 1986, p. 77). Pleiteia o desvendamento do sentido
da noção de cultura mediante o enfoque sobre o elo que une a
obscuridade existencial à forma estruturante. Neste sentido, ao
meu julgar, Bourdieu já o atendera à época (1975). Cabe lem-
A cultura e os meios técnicos; entre o espírito e a massa 37
brar que a obra metodológica15
bourdieusiana, Esquisse d'une
théorie de la pratique, havia já sido publicada em 1972.
As práticas desviantes e o retorno à estrutura
Edgar Morin não chega a reconhecer, porém, o quanto Mi-
chel de Certeau é influenciado pelo pensamento de Bourdieu,
em especial por aquele que dá conta, no método, tanto do acon-
tecimento quanto da estrutura e cuja mediação entre estes é rea-
lizada pelo habitus. Certeau, no entanto, inverte a perspectiva
que analisa as práticas de consumo cultural ao deslocar "a aten-
ção do consumo supostamente passivo dos produtos recebidos
para a criação anônima, nascida da prática do desvio no uso des-
ses produtos" (Giard apud Certeau, 1994, p. 13). Nos dias de ho-
je, essa inversão de perspectiva é realizada na prática da pesqui-
sa proposta pela sociologia disposicional de Bernard Lahire
(1998 e 2004), pela qual, tomando como referência precípua os
fundamentos teóricos bourdieusianos, constata a variação exis-
tencial das disposições ativadoras das práticas, e a pluralidade
na regularidade. Mas, se Certeau intenciona o desvio, a singula-
ridade, o acontecimento, isto é, o escape do poder, Bourdieu
procura revelar as estruturas que tendem a reproduzir esta domi-
nação. Se para o primeiro há o interesse pelo específico indivi-
dual, mesmo que se corra o risco do dado efêmero, para o se-
gundo vale a descrição das tendências nas práticas dos grupos
sociais, apresentados como categorias e classes.
Bourdieu contrapõe-se à idéia de um espírito do tempo, que
bem agrada a Morin. Não crê no poder atribuído aos meios téc-
nicos. O mito da integração cultural do Zeitgeist tem origem em
Hegel e foi impulsionado pelo historicismo e romantismo ale-
mães,16
cuja concepção de cultura emerge como um conjunto de
15
Bourdieu não aprecia a utilização da palavra "metodologia". Esta, em sua traje-
tória de pesquisa, é dinâmica, permeada pela reflexividade que reconstrói per-
manentemente os conceitos.
16
Cf. Hegel (1984), "a idéia, o espírito em geral, exige que o todo, o geral, seja
abarcado de uma olhada, que a finalidade do todo seja concebida, antes de pas-
sar ao especial e ao singular. Nós queremos ver as partes singulares em sua re-
38 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
traços fortemente entrelaçados que se articulariam numa unida-
de estética. A antropologia, já no campo acadêmico, foi influen-
ciada por essa tradição, cuja ênfase investigativa sobre a cultura
buscou analisar sua função principal como integradora e produ-
tora da ordem social. Uma vez tendo o espírito do tempo desen-
carnado da cultura, que deixa de ser de massas, o poder totali-
zante dos meios técnicos, que emergia na teoria, se esvazia na
prática, ou melhor, nas práticas sociais, que constituirão não
mais uma cultura, mas culturas de classes, grupos e mesmo de
indivíduos. Se é verdade que as práticas permitem desvios ao
poder do sistema, é nos desvios que se reconhece a existência
consciente ou inconsciente das estruturas sociais. É a partir des-
tas que Pierre Bourdieu balizará, a partir de então, suas pesqui-
sas sobre as práticas sociais, pois só mediante o seu reconheci-
mento surgirão as condições de possibilidade para a real ação
individual liberada da dominação.
Do ponto de partida de "Sociologues des mythologies et my-
thologies de sociologues", que nega a lógica homogeneizadora
da cultura de massas, Bourdieu voltar-se-á, na próxima etapa, à
análise de prática com um mínimo de barreiras econômicas dire-
tas ao seu exercício, seu desempenho, isto é, que não causa in-
tensos constrangimentos materiais às disposições interiores. A
escolha da fotografia, tratada no capítulo que segue, favorece a
observação da distribuição estruturada de competências e dispo-
sições derivadas do ethos de classe.
lação com o todo; nessa referência possuem seu valor superior e sua significa-
ção". Para Margaret Archer (citada por Featherstone, 1995, p. 181, que se refe-
re à obra dela Culture and Agency. Cambridge. Cambridge University Press,
1988) essa noção, bem como a de fVeltanschauung, concepção de mundo, é
"uma das maiores falácias arraigadas na ciência social".
A cultura e os meios técnicos: entre o espírito e a massa 39
2
Os usos sociais
da técnica fotográfica
Se é verdade que "a natureza imita a arte", é natural que
a imitação da arte apareça como a imitação mais natural
da natureza.
Pierre Bourdieu, Un art moyen - essa/ sur /es usages
sociaux de Ia photographie.
Para esclarecer a relação dos indivíduos com os meios técni-
cos, Pierre Bourdieu empreende pesquisa de campo para a com-
preensão das fotografias. Trata-se de seu compromisso desde
que criticara a concepção totalizante de cultura de massas apre-
sentada em L 'esprit du temps, de Edgar Morin. Un art moyen -
essai sur les usages sociaux de la photographie,1
publicado em
1965, demonstra os resultados das pesquisas encomendadas pela
Kodak-Pathé junto ao sociólogo. Foram co-autores Luc Boltans-
ki, Robert Castel, Gérard Lagneau e Jean-Claude Chamboredon.
O esquema analítico que Bourdieu adota para compreender a
técnica fotográfica pode ser útil ao entendimento, por exemplo,
da televisão ou da Internet, pois o que se está a investigar é jus-
tamente a relação das práticas sociais com as técnicas, e as fun-
ções sociais daí surgidas. Nesta obra, Bourdieu defende a idéia
de que é possível a introdução de um método que "apreende em
uma compreensão total as regularidades objetivas das condutas e
a experiência associada" (Bourdieu et al., 1989, p. 11), para a
1
Adoto a segunda edição francesa (Paris: Éditions de Minuit, 1989).
Os usos sociais da técnica fotográfica 41
prática fotográfica e a significação da imagem fotográfica. Este
método, mais aprimorado, será adotado pelo sociólogo em Les
règles de l 'art, de 1992,2
em que a análise da significação do
texto elaborado por um participante do campo literário francês
permite o esclarecimento deste espaço de relações de força e de
sentido. As sociedades, por intermédio de suas instâncias de le-
gitimação, hierarquizam os objetos de estudo legítimos. A foto-
grafia, à época desta investigação, não havia adquirido tal esta-
tuto. Cabe salientar que os dados obtidos no trabalho, junto com
outros apurados na década de 60, foram fundamentais para o su-
porte empírico de La distinction, que apareceria somente em
1979. Analisam-se as significações objetivas e suas condições
sociais de possibilidade, mediante o estabelecimento da relação
entre os sujeitos e a significação objetiva de suas condutas.
"Três grupos de usuários de câmeras foram estudados: campo-
neses no Béam, operários de fábrica da Renault e membros de
clubes fotográficos em Lille" (Jenkins, 1992, p. 131). A estatís-
tica foi utilizada como instrumento que permite a demonstração
do universo objetivo de chances associadas a determinado grupo
social.
Porque ela possui a intenção de fixar, quer dizer de solenizar e
eternizar, a fotografia não se pode confiar aos acasos da fantasia
individual e, pela mediação do ethos, interiorização das regulari-
dades objetivas e comuns, o grupo subordina esta prática à regra
coletiva, de tal modo que a mais simples fotografia exprime, além
das intenções explícitas daquele que a fez, o sistema dos esquemas
de percepção, de pensamento e de apreciação comum a todo um
grupo (Bourdieu et al., 1989, p. 24).
No texto é introduzida a noção de ethos de classe, que virá a
ser contida, no constructo bourdieusiano, pelo habitus, em que
se inclui a hexis, corporalidade do indivíduo que expressa rela-
ções sociais inconscientemente interiorizadas, que caracterizam
sua ruptura com o estruturalismo que faz dos sujeitos meros epi-
fenômenos da estrutura. Anos mais tarde, em 1980, no livro Le
sens pratique, Bourdieu comentaria que o artigo escrito em
2
Adoto a edição brasileira: Às regras da arte. São Paulo: Companhia das Letras,
1996.
42 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
1963, e publicado na coletânea de textos reunidos por Jean
Pouillon e Pierre Maranda em homenagem a Claude Lévi-
Strauss, foi o seu "último trabalho de estruturalista feliz" (Bour-
dieu, 1980, p. 22).3
Percebe-se no deslocamento do uso da noção
de ethos pela de habitus uma valorização das regularidades obje-
tivas interiorizadas pelo indivíduo, independente dele estar mais
ou menos integrado ao grupo. O emprego da noção de ethos ain-
da prioriza o papel da ação coletiva nos processos de inculcação,
que não está excluído com o habitus. Este, por outro lado, desta-
ca-se em um contexto em que os vínculos orgânicos das comu-
nidades ou sociedades tradicionais se enfraqueceram ou desapa-
receram. Segundo o autor, o ethos corresponde à experiência re-
lacionada, a partir das percepções, sanções e inculcações cotidi-
anas, à esperança de êxito ou fracasso nas empreitadas, isto é, as
chances possíveis em dada tomada de posição. Esta noção serve
como mediação entre a oposição objetivismo e subjetivismo e,
enfim, para a consecução da ambição de superar este antago-
nismo. O ethos "se opõe assim à ética, que é a forma teórica, ar-
gumentada, explicitada e codificada da moral" (Bonnewitz,
1997, p. 63).
Bridget Fowler4
(1998, p. 13) defende que, para o entendi-
mento do trabalho de Bourdieu sobre os usos sociais5
na cultura,
devam-se buscar suas raízes na análise comparativa "da transi-
ção das formas pré-capitalistas às capitalistas e dos padrões dis-
tintivos de dominação associados com a modernidade". Ele
cresceu em uma região camponesa do sul da França, o Béam, e
realizou seus primeiros trabalhos, como antropólogo, na região
argelina da Cabília. As duas sociedades estavam muito assenta-
das nos padrões comunitários tradicionais, mas já começavam a
transformar-se com a aproximação dos efeitos da expansão capi-
3
BOURDIEU, P. La maison kabyle ou le monde renversé. In: Echanges et
Communications. Mélanges offerts à C. Lévi-Strauss à l'occasion de son 6()e
anniversaire. Paris-La Haye: Mouton, 1970, p. 739-758.
4
Cumpre destacar o estudo desta acadêmica escocesa acerca da sociologia da
cultura bourdieusiana. Seu trabalho importa aos pesquisadores voltados, por
exemplo, às questões de gênero e às relações periferia-centro.
5
Fowler adota o termo "recepção" cultural e da arte, para designar o que Bour-
dieu descreve como usos sociais.
Os usos sociais da técnica fotográfica 43
talista. Derek Robbins (1991, p. 56) destaca que "Bourdieu fora
um fotógrafo perspicaz na Argélia. Travail et travailleurs6
con-
tém fotografias tiradas por Bourdieu que oferecem um suple-
mento visual poderoso ao texto escrito". O enfoque para o estu-
do da transição na Cabília teve forte influência de Durkheim e
de Weber e, além deles, do entendimento que Marx (1968, p.
888) faz da importância do colonialismo para o aumento do pro-
cesso social de proletarização, descrição apresentada na parte 8
do volume I de O Capital, intitulada "Teoria moderna da coloni-
zação": "Nas colônias, não havendo ainda a dissociação entre o
trabalhador e suas condições de trabalho inclusive a raiz destas,
a terra, ou ocorrendo ela apenas esporadicamente ou em escala
limitada, também não há a separação entre agricultura e indús-
tria, nem se verifica a destruição da indústria doméstica rural
[...]". Com efeito, antes da chegada à Argélia dos franceses, a
forma de organização tribal cabila se apoiava sobre uma lógica
social da honra ou de capital simbólico que toma o lugar da
acumulação de capital econômico no ciclo de vida da comuni-
dade. O declínio da tribo e da ordem paternalista deslocara os
indivíduos às cidades. A propriedade, que era grupai, passara a
ser disponível aos indivíduos. Uma economia das trocas de pre-
sentes, que sustentara a solidariedade do grupo tribal, fora subs-
tituída pela modernização imposta pela hegemonia cultural fran-
cesa.
A perspectiva de tempo dos fellahs, os argelinos rurais, era
de longa duração em que o futuro se percebia próximo ao pre-
sente. O solo gerava-lhes um vínculo quase místico; o dinheiro,
embora conhecido, não era valor abstrato, próprio à especulação
ou à acumulação, típicas à visão de futuro como algo diferente
ou novo. Com a desagregação do meio rural, osfellahs incorpo-
raram o sentido temporal ocidental; viram-se como os 'novos
homens' das cidades e sem família. Expressaram "a contradição
entre o velho e o novo [...]. Assim, a França havia precipitado
6
Robbins refere-se a Travail et travailleurs en Algérie, de 1963, resultado de um
conjunto de pesquisas realizadas entre 1958 e 1961. Adoto versão brasileira
condensada: O desencantamento do mundo - estruturas econômicas e estrutu-
ras temporais. São Paulo: Perspectiva, 1979.
44 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
uma transformação de valores" (Fowler, 1998, p. 16). A impor-
tância da pesquisa é o desenvolvimento da noção de capital sim-
bólico, o qual é inerente à lógica da distinção. Na cultura pré-
capitalista da Cabília, o individualismo inexistia, isto é, os valo-
res do grupo eram o balizador do processo cultural, permeado
por uma lógica da polidez, avessa à desconformidade compor-
tamental, favorecendo o desejo pelo clichê. Entretanto, o lugar
da estética na vida moderna ocidental passara a ser orientado pe-
la expressão individual, que só permite que o indivíduo "exista"
desde que se distinga. A trajetória que conduz à distinção é mar-
cada pelas disposições engendradas na socialização pregressa
desses indivíduos. "Em outras palavras, quando as sanções so-
brenaturais e morais perdem sua força, é através do gosto, estilo
e mesmo do prazer que vamos aceitar certas ocupações e certas
posições" (Ibidem, p. 50).
A definição social da fotografia
Para a transmissão das estruturas do mundo social, a família
e a escola cumprem papel de matriz inicial de percepções que
constitui o habitus primário. "A discussão da fotografia [...]
constantemente teve um ponto de contato com a reflexão con-
temporânea sobre a natureza das instituições educacionais"
(Robbins, 1991, p. 58). Esse processo de pedagogia social re-
produz os princípios de um arbitrário cultural, constituído por
valores, crenças, normas e práticas. O grupo dominante delega à
autoridade pedagógica os princípios aos quais o arbitrário se re-
fere. Bourdieu (s.d., p. 55) desenvolve a noção de trabalho pe-
dagógico, associada a uma concepção temporal. O trabalho pe-
dagógico que engendra habitus durável pressupõe continuidade
e "distingue-se das acções de violência simbólica descontínuas e
extraordinárias como as do profeta, do "criador" intelectual ou
do feiticeiro. Tais acções de imposição simbólica não podem
provocar a transformação profunda e durável daqueles que elas
atingem senão na medida em que se prolongam numa acção de
inculcação contínua, i. e. num [trabalho pedagógico] [...]". A
prática fotográfica, no entanto, ao menos à época da pesquisa,
Os usos sociais da técnica fotográfica 45
não expressara um trabalho pedagógico. Este não poderia ser fa-
tor legitimador dela, tampouco dos emergentes meios de comu-
nicação, como a televisão, já que os seus usos sociais não decor-
riam da transmissão de conteúdos pela escola ou por instâncias
"nobres" de legitimação. Não obstante, a imagem ao ser produ-
zida, mesmo que decorra de um ato devotado ao equipamento e
seu automatismo, engloba, por exemplo mediante a opção de
enquadramento, valores estéticos e éticos.
A fotografia contém seu universo próprio de motivos foto-
grafáveis; possui uma gama teórica cujos resultados técnicos são
a expressão da sua possibilidade, definida desde a seleção pre-
liminar do grupo para o enquadramento de seus entes, gêneros, e
composições. Uma classe ou grupo social quando se propõe a
fotografar, já está predisposta a um determinado perfil do que se
faz ou do que se pode fazer, isto é, daquilo que é fotografável
para este contingente social. A limitação social que pesa sobre a
fotografia dá-se então bem menos pelos limites da máquina fo-
tográfica, quer dizer, suas possibilidades técnicas, do que pelos
modelos implícitos que definem aquela e são assimilados atra-
vés da prática fotográfica e das fotografias. O sentido dado por
um determinado grupo à prática fotográfica corresponde à defe-
rência ao objeto. O fotógrafo confere ao objeto fotografado uma
promoção ontológica em cuja dignidade o motivo é "fixado,
conservado, comunicado, exibido e admirado" (Bourdieu et al.,
1989, p. 24). Cada classe, grupo ou profissão, possui um sistema
de valores próprios que constitui o fundamento de elaboração
das normas que regem a seleção fotográfica que opõe o não-
fotografável ao fotografável. Para que a prática fotográfica seja
compreendida, portanto, não basta que sejam recuperadas suas
significações explicitadas, correspondentes à explicitação dos
intentos autorais. Requer também a investigação do resíduo de
significação que impregna a prática, cujo peso de sua participa-
ção no simbólico de uma época, de uma classe ou de um grupo
artístico é demonstrado pela pesquisa das práticas sociais.
O investimento econômico diminuto que a prática fotográfi-
ca exige faz dela um meio privilegiado para a investigação dos
processos de subjetivação e significação cultural específicos dos
diferentes grupos ou classes, da manifestação e percepção de
46 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
uma estética popular. Neste sentido, para outro meio, Nicholas
Gamham defende que a "radiodifusão em geral, e a televisão em
particular, para a qual agora há acesso doméstico virtualmente
universal nas sociedades avançadas, e que, por causa de seu bai-
xo custo no ponto de recepção, ocupa a maior porção de tempo
do consumo cultural dos grupos socioeconômicos inferiores, re-
presenta um campo-chave ao estudo dos modos nos quais o con-
sumo cultural e a apropriação são estruturados em modos que
não são diretamente materiais" (Gamham, 1995, p. 187). A ci-
ência social cabe, de início, o estabelecimento de como a prática
individual é regulada pelo gmpo ou pela classe social. As fun-
ções sociais a orientam e se ajustam a seus interesses específi-
cos. Ao constituir a fotografia como objeto de estudo, deve-se
optar pela decisão metodológica de investigar primeiramente os
grupos reais, a fim de evitar-se que a pesquisa sobre a prática ou
consumo individuais e suas relações incorram em abstrações,
pois "a significação e a função conferidas à fotografia são dire-
tamente ligadas à estrutura do grupo, mais ou menos a sua gran-
de diferenciação e, sobretudo, a sua posição na estrutura social"
(Bourdieu et al., 1989, p. 27). A fotografia é predisposta a servir
às funções sociais do grupo porque seus usos sociais se apresen-
tam como uma seleção sistemática, coerente e compreensível
entre os usos objetivamente possíveis. A fotografia, por conse-
guinte, é encarada, em geral, como modelo de registro realista,
de veracidade e objetividade. A subjetividade só caberia à arte,
pois desta se espera que reflita a personalidade, a interpretação
autoral. Este preconceito em relação à fotografia esquece que
mesmo o enquadramento do real decorre de uma seleção arbitrá-
ria; de um ponto de vista que poderia ter sido vários outros. O
instante arbitrado pelo enquadramento é que transcreverá todas
as qualidades visuais do objeto. Aquilo que é considerado obje-
tivo e realista é o produto de uma chapa plana, muitas vezes em
preto-e-branco, bidimensional, com o espaço e volumes orienta-
dos pelas leis da perspectiva.
Se este sistema convencional é realista, isto se dá porque
desde a sua origem se lhe tem sido atribuídos os usos sociais ti-
dos como objetivos e realistas. Se a fotografia se apresenta, apa-
rentemente, por uma linguagem natural sem código nem sintaxe.
Os usos sociais da técnica fotográfica 47
é que a seleção que ela opera no mundo visível corresponde à
lógica de representação do mundo hegemônica a partir da Re-
nascença. Porém, a força7
realista, varia na história. Christine
Lapostolle (1988, p. 67), neste sentido, atenta que, na época da
Comuna de Paris, a imagem fotográfica era olhada como algo
que oscilava entre o verdadeiro e o mais-que-verdadeiro. A evo-
lução do sistema figurativo é lenta "e, ao mesmo tempo que se
lhe exclama sobre a fidelidade do novo meio de representação
da realidade que se dispõe, encomenda-se sua fotografia a um
"pintor-fotógrafo", o qual aprecia os retoques e a pinta, para fa-
zê-la "mais verdadeira" [...]". A seleção que os praticantes reali-
zam é estruturada pelas categorias que organizam a visão co-
mum do mundo. Em virtude disto, é que o produto fotográfico,
sua imagem, é reconhecida em sociedade como a reprodução
objetiva e exata da realidade. "Ao conferir à fotografia um certi-
ficado de realismo, a sociedade não faz nada além que confirmar
a si mesma, na certeza tautológica, que uma imagem do real,
conforme a sua representação da objetividade, é verdadeiramen-
te objetiva" (Bourdieu et aí., 1989, p. 113).
A função na estrutura: fotografia, índice
e instrumento de integração
As práticas sociais, sejam elas as mais comuns ou sofistica-
das, organizam-se em consonância a certas regularidades. Os
dados estatísticos apresentados por Bourdieu esclareceram que a
prática de tirar fotografias era sazonal, à época do levantamento,
para mais de dois terços dos fotógrafos, os quais restringiam sua
atividade às celebrações em âmbito familiar, às férias e às reu-
niões entre amigos. Percebe-se, então, na prática fotográfica,
umafunçãofamiliar, isto é, aquela que o grupo familiar confere
à prática, tornada mais explícita quando as estatísticas demons-
tram que a máquina fotográfica tende a ser uma propriedade co-
letiva e indivisível da família e sua existência ser mais freqüente
7
Emprego "força" no sentido de força performativa, isto é, de uma eficácia sim-
bólica associada à ação.
48 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
quando há filhos. Cumpre, portanto, umafunção de integração,
através do reforço ao sentimento de unidade familiar que se dá
mediante a solenização e etemização de seus grandes momentos
registrados na fotografia. Neste "rito do culto doméstico" (1989,
p. 39), a família faz-se ao mesmo tempo sujeito e objeto, na qual
a inexistência da prática fotográfica pode significar omissão ou
ato de dissolução. Partindo de Durkheim, que defende que a fes-
ta possui por fimção revivifícar e recriar o grupo, Bourdieu
compreende que a fotografia é o meio da solenização de seus
momentos culminantes e da reafirmação da unidade. A fotogra-
fia, além de ser uma técnica de solenização, é uma técnica da
festa; técnica de solenização da festa. Sua necessidade amplia-se
à medida que as grandes solenidades se fragmentam ou com o
desaparecimento das festas públicas. "No caso do casamento, a
imagem que fixa para a eternidade o grupo retratado ou, melhor,
a retratação de dois grupos, inscreve-se de crer, quer dizer de
sancionar e de santifícar a união entre dois grupos que se realiza
através da união entre dois indivíduos" (Ibidem, p. 41). Além do
sentimento de unidade, a prática fotográfica também marca os
rituais de mudança impostos, como acontece na primeira comu-
nhão, quando as crianças presenteiam seus parentes e vizinhos
com fotografias do sacramento.
A história da hierarquia dos sujeitos fotografáveis e fotogra-
fados inverteu-se à medida que a mulher conquistou mais espaço
em sociedade, bem como suas crianças. De início, as fotografias
retratavam preferencialmente os adultos, depois os grupos fami-
liares. Crianças sozinhas eram raridade. É com base em trans-
formações deste tipo que Bourdieu (Ibidem, p. 43) defende "que
a fotografia seja objeto de uma leitura que se pode chamar so-
ciológica e que ela não seja nunca considerada, em si mesma e
por si mesma, em suas qualidades técnicas ou estéticas". Sua so-
lenização não se dá tão-só pelo registro congelado na chapa fo-
tográfica; também o momento da captura, do enquadramento,
requer dos sujeitos a serem fotografados atitudes e disposições
formais. O fotógrafo de uma festa de casamento ordena e os
convidados acatam suas instruções, pois não faltariam ao deco-
ro, cuja não-observância afrontaria a todo o grupo do qual o fo-
Os usos sociais da técnica fotográfica 49
8
tógrafo recebera a investidura dos poderes que o consagra. A
condição de possibilidade da prática fotográfica dá-se porque ela
enquadra aquilo que já é solenizado, quer dizer as condutas a-
provadas e reguladas socialmente. O poder fotografar algo pres-
supõe algo que deva ser fotografado.
A cerimônia pode ser fotografada porque ela escapa à rotina coti-
diana e deve ser fotografada porque ela realiza a imagem que o
grupo entende dar a si mesmo enquanto grupo. O que é fotografa-
do e o que apreende o leitor da fotografia, não são, falando pro-
priamente, os indivíduos em sua particularidade singular, mas os
papéis sociais, o casamento, a primeira comunhão, o militar, ou as
relações sociais, o tio da América ou a tia de Sauvagnon. [...] o ob-
jeto verdadeiro da fotografia não são os indivíduos, mas as rela-
ções entre os indivíduos, os pais de uma família seguram em seus
braços os filhos da outra (Ibidem, p. 45).
Uma prática de um tipo dissonante a do grupo tende a ser
excluída, pois a solidariedade interna deve ser preservada, isto
é, seus ritmos próprios e os objetos e ocasiões eleitos, assinalan-
do, assim, à fotografia a função de fornecimento das imagens
que possibilitam o auto-reconhecimento do grupo social. Portan-
to, uma estética autônoma do grupo é inviabilizada.
Distinções de classe: entre o popular e o erudito
Mesmo que a fotografia não possua a tradição das artes no-
bres, seu destino não é o acaso, o improviso ou a anarquia, pois
mesmo nas práticas dos amadores é desvendado o quanto são
orientados por regras e convenções. O praticante fotografa nas
ocasiões apropriadas, compondo em seu quadro os objetos, luga-
res e personagens apropriados. São cânones implícitos, pelos
quais os amadores se denunciam e os estetas os percebem como
8
Bourdieu (1998c, p. 99) atenta que "a investidura (do cavaleiro, do deputado,
do presidente da República, etc.) consiste em sancionar e em santiflcar uma di-
ferença (preexistente ou não), fazendo-a conhecer e reconhecer, fazendo-a
existir enquanto diferença social, conhecida e reconhecida pelo agente investi-
do e pelos demais". O sociólogo defende que este processo é impregnado pelo
seu conteúdo ritual, que ele chama de "ritos de instituição".
50 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
carentes de bom gosto e tecnicamente inaptos. Percebem-se nas
fotografias preparadas, posadas, congeladas, orientações de uma
etiqueta preestabelecida, cujo resultado é bem percebido nas fo-
tografias das festas de família e nas lembranças de férias. A dis-
cussão que Bourdieu propõe, todavia, não se reporta primor-
dialmente ao reconhecimento dos conjuntos de regras implícitas
ou explícitas que definem as estéticas, mas as condições sociais
para a produção da legitimidade cultural:
a maior parte da sociedade pode ser banida do universo da cultura
legítima sem ser banida do universo da estética. Então, mesmo que
não obedeçam à lógica específica de uma estética autônoma, os
julgamentos e os comportamentos estéticos organizam-se de modo
não menos sistemático, mas a partir de um princípio diferente, a
estética não seria então que uma dimensão do sistema de valores
implícitos, quer dizer do ethos, correspondente e pertencente a
uma classe. O próprio de todas as artes populares é de subordinar a
atividade artística às funções socialmente regradas enquanto que a
elaboração das formas "puras", geralmente consideradas como
mais nobres, supõe o desaparecimento de todos os caracteres fun-
cionais e de toda referência aos fins práticos ou éticos (Bourdieu et
al., 1989, p. 26).
A prática fotográfica das classes populares não é o resultado
de necessidades oriundas de motivações universais ou das difi-
culdades financeiras. O que ocorre é o desejo pelo possível e a
recusa do impossível, pois as condições objetivas definem as
possibilidades de aspirações e desejos das diferentes classes so-
ciais. As pretensões mais ambiciosas e, portanto, mais onerosas
tanto em dinheiro como em tempo, correspondem a uma deter-
minada atitude do olhar fotográfico em referência a um sistema
de exigências. Os operários mais apaixonados pela fotografia
possuem preocupações técnicas e, ao mesmo tempo, reivindicam
de maneira altiva a simplicidade de seu equipamento, cuja esco-
lha seria a conseqüência das contingências financeiras: "As má-
quinas são como o resto, a mais cara não é a melhor " (Ibidem,
p. 37). O realismo das classes populares, deste modo, detecta a
fronteira do inacessível sem pretender abrir mão da perfeição.
Os usos sociais da técnica fotográfica 51
Bourdieu menciona Walter Benjamin9
para prosseguir na análise
da fotografia popular e de seus paradoxos. Concorda com ele
que é na dimensão temporal que as contradições ganham mais
força. "[...] [Ele] converte os aforismos de Benjamin em teorias
que são testadas através de métodos de pesquisa históricos e
quantitativos"10
(Fowler, 1998, p. 89). A fotografia é um corte
instantâneo do mundo visível que dissolve a realidade concreta e
compacta da percepção cotidiana. Ficam no lugar infinitos perfis
fugazes, como as imagens de sonho. Os gestos humanos, a reci-
procidade das relações, os aspectos imperceptíveis do mundo
percebido, porque são instantâneos, são congelados no presente
fotográfico; são transformados em "estátuas de sal". A fotografia
popular procura eliminar o acidente, isto é, o acontecimento, o
inesperado que temporaliza o real a ser congelado. O tempo é
extraído das ações. Em seu lugar, a prática impõe as estruturas
que orientam a composição fotográfica, como a da solenização
dos momentos em sociedade. A imobilidade do plano bidimen-
sional é o local ideal para instalar seus personagens estáticos.
Elimina-se dos agentes sociais todo o poder corrosivo, sua capa-
cidade de ruptura. O esvaziamento do tempo é verificado tam-
bém no uso recorrente da frontalidade, que na linguagem estéti-
ca corresponde ao eterno. A profundidade, ao contrário, é por
onde se reintroduz o tempo, isto é, a história.
Além da dimensão temporal, em Benjamin, os elementos pa-
ra a avaliação associada dos fragmentos da modernidade e do
consumo. O autor alemão contava que a 'fantasmagoria da mer-
cadoria' fosse destruída pelos choques subterrâneos do moder-
nismo. "Mas isto só poderia ser captado por reconhecimento da
nova ordem de consumo, não moralizando acerca dela" (Fowler,
1998, p. 91). Os indivíduos, no entanto, uniram-se em tomo do
desejo estético pela mercadoria bela mais como integrantes de
uma massa do que de uma classe. A tragédia da cultura consiste,
em parte, nesta sedução do mercado. Em La distinction, de mo-
9
O texto é "A obra de arte à época de sua reprodutibilidade técnica". Na França,
intitula-se "L'oeuvre d'art au temps de ses techniques de reproduction". In:
Oeuvres choisies. Paris: Julliard, 1959.
10
Operação semelhante a que ele adota, em 1979, em La distinction, onde "testa"
Kant na pesquisa sociológica; conversão da filosofia em sociologia crítica.
52 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
do similar, Bourdieu observará na loja de departamentos 'a gale-
ria do pobre'. Enquanto que os gostos tradicionais da necessida-
de - brilho e preço módico - expressam as disposições da classe
operária; é pelos prazeres do consumo que a nova pequena-
burguesia desenvolve seu sentido estético. Ademais, o declínio
da aura, problematizado por Benjamin, é relacionado por Luc
Boltanski e Jean-Claude Chamboredon ao grau de prestígio do
motivo retratado. A aura associa-se ao mais prestigiado, em
oposição ao que é rejeitado. Como as ocasiões de fotografar são
especiais, portanto, restringidas pelo julgamento do grupo, os
temas associados ao trivial do cotidiano pouco merecem consi-
deração. Neste sentido, Bourdieu investigou as práticas dos
camponeses de Lesquire, verificando que, à exceção das crian-
ças, os objetos do dia-a-dia com os quais conviviam não merece-
riam ser fotografados. Estes camponeses passaram toda a sua vi-
da em um espaço restrito e homogêneo, excluindo assim o tênue
extravio do olhar, que permite a admiração dos objetos cotidia-
nos, sempre vistos, mas jamais olhados; o expatriamento. Só se
permite a fotografia do trivial caso este seja especialmente pre-
parado para a fotografia: a casa deve estar arrumada, decorada,
como se fosse um dia de festa, momento eletivo da prática foto-
gráfica.
Assim como estas ocasiões podem ser as preferenciais a um
camponês, as férias podem ser o momento forte do fotografar
para um citadino. Neste caso, porém, os temas escapam do coti-
diano, embora continue sendo a família, através da intensifica-
ção de seus laços neste período, quem favoreça e incremente a
prática fotográfica. A postura turística se estabelece pela ruptura
com a postura desatenta frente ao cotidiano familiar. Uma vez
estabelecida a ruptura, tudo pode vir a ser fonte de encantamen-
to, como a da percepção dirigida pelos guias turísticos. As foto-
grafias nas férias são também as fotografias das férias. Os certi-
ficados de autenticidade desse período extraordinário. No entan-
to, os aspectos circunstanciais e datados que envolvem os perso-
nagens em movimento e os espaços por onde circulam são eli-
minados pela lógica da solenização; que esvazia as significações
do que constitui a vida. Nos retratos de Paris, "não há nada além
de signos intemporais: é uma Paris sem história, sem parisien-
Os usos sociais da técnica fotográfica 53
ses, salvo por acidente, daí, sem acontecimentos" (Bourdieu et
al., 1989, p. 61). A prática fotográfica comum permanece orien-
tada à execução das funções sociais, definidas socialmente. É,
portanto, ritual, cerimonial e estereotipada em seus objetos e
técnicas expressivas. Tende a inexistir além dos limites impostos
por ocasiões e lugares consagrados, isto é, legítimos, pois legi-
timados pelo grupo. A atitude artística é determinada pela defi-
nição de seus objetos, cujos princípios de escolha e elaboração
foram definidos na própria atitude artística. A fotografia ordiná-
ria, ao contrário, com a pretensão de promover seus objetos ao
estatuto de obras de arte, não contém em si mesma os princípios
de sua existência e de definição da prática.
A intenção de valorizar a prática acessível contém a referên-
cia negativa à prática comum. A sociedade estratifícada é consti-
tuída por diferentes grupos que podem submeter a fotografia a
normas distintas. Emerge na prática a lógica da distinção, a pro-
cura individual da "diferença para a diferença", que pode levar,
por exemplo, ao esnobismo; ou então, à recusa da prática devota
pelas classes superiores por suspeitarem sê-la vulgar. Para essas
distinções, deve-se levar em conta o sistema de valores do gru-
po. Os camponeses, por pertencerem a uma sociedade muito in-
tegrada e segura de seus valores, submetem-se ao imperativo da
conformidade e têm aniquilada a tentação de diferenciar-se pela
imitação do citadino. O que importa, neste caso, não são nem os
obstáculos econômicos, nem os técnicos. O ethos camponês im-
põe que os gastos se façam primeiro à extensão do patrimônio
ou à modernização do equipamento da propriedade. O dispêndio
com a fotografia é considerado um luxo. O forte vínculo à tradi-
ção leva o grupo camponês a suspeitar de toda e qualquer inova-
ção. Todo tipo de distinção, singularização, fascinio ou tentativa
de derrotar os outros membros do grupo, faz recair ao desviante
algum chamamento à ordem, sob a forma de ironia, zombaria e
fanfarronice relacionadas à prática. A censura do grupo não cor-
responde a uma tendência ao igualitarismo, mas obstáculo à
inovação que desafia a comunidade. O grupo desaprova a inova-
ção, pois percebe nela uma prática ostentatória que o coloca em
posição de inferioridade; atinge sua auto-estima. O verdadeiro
citadino, totalmente estranho ao grupo, pode fotografar, porque
54 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
isto compõe a sua imagem estereotipada, a do sujeito em fé-
rias". Por outro lado, a tolerância aos nativos emigrados que re-
tomam da cidade é menor. A idade pode atenuar esta tendência.
Se a prática fotográfica é um luxo no meio rural, não o chega a
ser para os adolescentes camponeses. A esta faixa etária a firivo-
lidade é lícita, isto é, existe um direito estatutário ao universo
simbólico e onírico. Diferente do que propusera Morin, em
L 'esprit du temps, em que afirma a "invenção" da adolescência a
partir da cultura de massas. A fotografia praticada pelos adoles-
centes camponeses, no entanto, é abandonada com o casamento,
momento de ruptura com a existência pregressa. "Do dia ao dia
seguinte, é o fim dos bailes, das saídas e da fotografia que lhe
estava por vezes associada" (Bourdieu et al., 1989, p. 79).
Bourdieu, na pesquisa desenvolvida em Lesquire, procura
demonstrar essas normas gerais, contidas implicitamente na
norma particular, isto é, como o ethos de classe subjaz às condu-
tas individuais. Para tanto, verifica a enunciação (implícita) da
norma social fundamental, realizando uma análise dos proferi-
mentos particulares em permanente comparação com as regula-
ridades gerais que expressam o ethos. Por exemplo;
1) a não-singularização, que corresponde ao imperativo da
conformidade',
2) a análise da enunciação da norma particular, a partir de
entrevistas: "Você sabe, a prata não jorra": imperativo de eco-
nomia',
3) a evocação da conduta real, como objeção a si mesma.
"Se fotografa as crianças": transação com a norma particular
que permanece mantida;
4) as racionalizações, que são a explicação das condutas pe-
las causas secundárias: "Fazer fotos? Não, não sei. ; incapacida-
de técnica; "Não está em questão": incapacidade econômica.
O jogo da diferenciação que a comunidade aldeã se esforça sem-
pre em criar obstáculo, ou em controlar, pode exprimir-se livre-
mente na sociedade urbana. Na lógica da afirmação por oposição,
as classes populares das grandes cidades desempenham o papel de
termo de referência fixa [...] A prática das classes populares, que
permanece direta e totalmente submissa às funções tradicionais,
deve a maior parte de seus caracteres, e em particular a sua homo-
Os usos sociais da técnica fotográfica 55
seus trabalhos o rótulo de 'popular', que lhes pode ser creditado
como um desinteresse distinto" (Fowler, 1998, p. 153).
No entanto, as práticas todas também populares, como a escuta ao
rádio ou a freqüência ao cinema, autorizam a atualização de dife-
renças de atitude muito fortemente salientadas. Assim, por exem-
plo, a escolha de emissoras e dos programas ouvidos é também
fortemente ligada ao pertencimento social pelo intermediário, do
nível de instrução [...] e a atitude da audiência é desta forma mais
seletiva e atenta quanto sua cultura é maior. De onde vem que a
fotografia se presta mal à atualização de tais diferenças? Sem dú-
vida a ambição cultural se exprime mais facilmente no caso de um
simples consumo, como a escuta ao rádio, que em uma prática. E
de fato [...] a boa vontade cultural pode se afirmar nas propostas
(sobretudo nos membros das classes médias) sem chegar a se en-
carnar nas condutas. Mas [...] o consumo radiofônico pode não ser
menos ativo que a prática fotográfica quando ele se cumpre expli-
citamente de escolhas, no lugar de remeter-se aos automatismos, e
quando ele supõe uma atitude atenta (Bourdieu et al., 1989, p.
103).
Não obstante, é com base em condições sociais de possibili-
dade que se enquadra ou se posa: a essência da frontalidade é a
reverência. É a cortesia convencionalmente regulada; um ato de
deferência do personagem que reivindica a deferência do espec-
tador. O apelo à naturalidade tende a provocar, muitas vezes,
embaraço nos indivíduos, por não se considerarem dignos ou
apresentáveis. A imposição do "natural" a essas pessoas leva-os
a adotar postura simulada; teatral. Conduta semelhante é verifi-
cada no momento da realização de documentários cinematográ-
ficos: a eficácia simbólica do documentário, em comparação ao
filme ficcional, está na naturalidade dos personagens e objetos.
Mas é comum que os sujeitos entrevistados percam esta natura-
lidade ao desviarem a atenção ou sentirem-se intimidados pelo
equipamento pesado. O mesmo acontece quando os produtores
realizam pré-entrevistas, a fim de economizarem película, para
filmarem a posteriori somente os trechos de interesse ao produto
final. Os documentados, então, passam a adotar uma atitude so-
lene, ou artificial, no momento da filmagem real. Para encarnar-
se a naturalidade e fixá-la em filme é preciso crer. A crença no
58 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo daComunicação
"natural" está associada ao fato que este é um ideal cultural,
isto é, aquele que busca ver o que deve aparecer. A imagem de
si é completada pelo retrato. Ele objetiva a auto-imagem, que,
por sua vez, está em relação com a imagem construída pelos ou-
tros. O mal-estar que o camponês tem ao ver-se em uma foto,
decorre de uma interiorização de certas imagens pejorativas que
os componentes de outros grupos fazem dele. Os membros da
comunidade aldeã estabelecem uma relação infeliz com o corpo:
embaraçada, desajeitada nas circunstâncias em que precisam fa-
zer dele o atrativo para a lente da câmera. A adoção da frontali-
dade e da postura convencional tranqüiliza-os na pretensão de
terem sua própria imagem objetivada; permite-lhes sua própria
objetivação, isto é, uma imagem imposta pelas regras de sua
própria percepção.
Apesar de também regidas pelas normas sociais da estética
fotográfica, as classes populares da sociedade urbana submetem-
se a elas de modo menos total e menos absoluto. Reconhecem a
existência da cultura erudita e consomem seus subprodutos. O
reconhecimento de uma foto bela esteticamente, por exemplo, as
faz reconhecer moralmente a existência de outras definições da
perfeição para esta mesma imagem. "Nunca ignoram completa-
mente, as intenções estéticas dos grupos sociais mais distantes
deles, ou a imagem desdenhosa que tais grupos formam de sua
prática" (Bourdieu et al., 1989, p. 121). A estética popular, por-
tanto, define-se em oposição à estética erudita. Esta não é nunca
totalmente abolida dos juízos comuns, mesmo os das classes
mais subalternas. Essa polarização é vista nos dias de hoje, por
exemplo, na produção de discursos, produtos culturais cada vez
mais internacionalizados, que opõe os (re)produtores dos países
periféricos aos dos países centrais, a priori portadores dos dis-
cursos legítimos. Os grupos populares vivem suas práticas cultu-
rais entre o reconhecimento do universo da cultura legítima e
suas inclinações socialmente condicionadas. Esta contradição
leva-os, por vezes, a um duplo registro nos julgamentos estéti-
cos; a lógica da dissociação, que dissocia a prática normativa do
grupo do juízo estético legítimo. O juízo estético costuma assu-
mir a forma de um juízo hipotético apoiado no reconhecimento
de gêneros, nos quais o campo de aplicação e a "perfeição" são
Os usos sociais da técnica fotográfica 59
definidos por um conceito. Uma vez ocorrida a classificação em
um gênero, que permite a atribuição de um uso social, termina o
esforço de reconhecimento.
O gosto bárbaro
Quando o gosto "faz do interesse sensível, informativo ou
moral, o princípio da apreciação" (Bourdieu et al., 1989, p. 127),
tem-se o gosto bárbaro. Rejeita a imagem do insignificante e, na
mesma lógica, a insignificância da imagem. As fotos da folha de
uma árvore, de um quebrar de ondas, e assim por diante, podem
ser recusadas por não evocarem coisa alguma ao espectador. Se-
riam fotografias tiradas como um fim em si mesmas e não como
meio, isto é, seriam condenadas pela normatividade social que
reivindica a elas uma função, ao que Bourdieu ironiza pela de-
signação estética funcionalista. Aquelas mesmas ondas, porém,
podem adquirir significação, por exemplo, para um grupo de
ecologistas que amam o mar. Não só a imagem do insignificante
é rejeitada. A deformação em um plano fechado ou em um plano
de detalhe, particularmente do rosto humano, escandalizaria: se-
ria um sentimento de atentado sobre o objeto representado. A li-
berdade gratuita ou excessiva nas chapas fotográficas que retra-
tam corpo suscitam mal-estar ou indignação. A expressividade
do corpo se concentra no rosto e, sobretudo, no olhar. Nisto, Luc
Ferry e Alain Renaut (1988, p. 215) criticam a análise de Bour-
dieu da percepção dos segmentos populares, que teriam sido tra-
tados pelo sociólogo "como animais obtusos": "Não vemos em
que a reação ante estas fotos, que despertam o interesse sobre
seu conteúdo, seria o apanágio exclusivo da "estética popular".
Quando mostradas a colegiais, a executivos ou a irmãs de cari-
dade de todos os meios, pode-se apostar que é o conteúdo que
dominará irresistivelmente sobre a forma" (Ibidem, p. 214).
Contudo, Bourdieu, ao contrário do que estes e outros críticos
apontam, não marginaliza a cultura popular. Para o sociólogo, a
estética popular continua estética porque supõe uma experiência
vivida onde o sentimento da beleza tem seu lugar. O gosto bár-
baro, entretanto, não está isento da referência ao gosto cultivado.
60 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
As classes subalternas são privadas da aquisição das regras de
bom gosto e, portanto, estão permanentemente à procura dos
princípios objetivos que possibilitam para si um julgamento
adequado das obras. Desprovidas da cultura cultivada, mas re-
conhecendo tanto o legítimo como a sua privação, estão sempre
em estado de inquietação. As classes altas fazem pouco caso da
fotografia por ela possuir-lhes pouco prestígio. As significações
culturais de uma sociedade não possuem o mesmo valor ou
equivalência em dignidade. Organizam-se em graus de impor-
tância distintos, desde as formas expressivas do teatro ou da mú-
sica de câmara até a televisão. O nível de exigência ao acesso a
elas também é diferenciado. Todavia, a hierarquia que se estabe-
lece é independente das opiniões individuais e é definida objeti-
vamente por aquilo que se tem como legitimidade cultural. As
expressões mais legítimas caracterizam-se por um aprendizado
preliminar, em geral na escola, haja vista a maior exigência ao
acesso de sua fruição. Por outro lado, a incorporação de deter-
minada expressão a um currículo escolar é fator canonizador pa-
ra a sua legitimidade.
Legitimidade não é legalidade: se os indivíduos das classes mais
desfavorecidas em matéria de cultura reconhecem quase sempre,
ao menos na ponta da língua, a legitimidade das regras estéticas
propostas pela cultura erudita, isto não exclui que possam passar
toda sua vida, de facto, fora do campo de aplicação das regras,
sem para tanto que estas percam sua legitimidade, quer dizer sua
pretensão a serem universalmente reconhecidas. A regra legítima
pode não determinar em nada as condutas que se situam em sua
área de influência, ela pode mesmo não ter além de exceções, ela
não define menos a modalidade da experiência que acompanha
tais condutas e ela não pode ser pensada e reconhecida, sobretudo
quando é transgredida, como a regra das condutas culturais quan-
do se querem legítimas. Disto, a existência do que eu chamo legi-
timidade cultural consiste no que todo indivíduo, quer queira ou
não, quer admita ou não, é e se apreende posicionado no campo de
aplicação de um sistema de regras que permitem qualificar e hie-
rarquizar seu comportamento em relação à cultura (Bourdieu et al.,
1989, p. 135).
Os usos sociais da técnica fotográfica 61
As significações culturais situadas fora da esfera legítima
autorizam os indivíduos a serem puros consumidores e a realiza-
rem livres juízos. No domínio erudito, ao contrário, as regras ob-
jetivas os fazem sentirem-se avaliados e levam à adoção da pos-
tura devota, cerimonial e ritualizada.
E assim por exemplo que o jazz, o cinema ou a fotografia não sus-
citam (porque não reclamam com a mesma urgência) a atitude de
devoção que é moeda corrente quando se trata de obras da cultura
erudita. É verdade que algumas virtuoses transferem nestas artes
em via de legitimação os modelos de comportamento que podem
ocorrer no domínio da cultura tradicional. Mas, na ausência de
uma instituição encarregada de lhes ensinar metodicamente e sis-
tematicamente como partes constitutivas da cultura legítima, a
maior parte das pessoas as vive sobre um modo totalmente diferen-
te, quer dizer como simples consumidores (Ibidera, p. 135).
Era raro encontrar o conhecimento erudito da história destas
expressões culturais em via de legitimação por não obrigarem os
consumidores comuns ao esforço de aquisição, conservação e
transmissão do corpo de saberes que as artes nobres, da sua par-
te, exigem à fruição. Bourdieu propõe um esquema de hierarqui-
as: o legítimo engloba, por exemplo, a música erudita, a pintura
e o teatro; o legitimável, o cinema, a fotografia, a canção e o
jazz. Há ainda a esfera do arbitrário, que contém a decoração, a
moda, a cozinha e os esportes. As expressões culturais da esfera
de legitimidade caracterizam-se por serem inculcadas pela esco-
la. É nesta instituição que ocorre a hierarquização e a transmis-
são metódica do corpo de conhecimentos necessários à aprendi-
zagem e exercício das práticas eruditas. A sistematização hierár-
quica das obras legítimas está intimamente associada ao nível de
instrução. A existência de obras legítimas supõe a transmissão e
difusão da instituição, cujo papel é fundamentalmente de legi-
timação. O ^azz e o cinema não poderiam contar com o apoio
acadêmico, porém se servem de meios de comunicação pode-
rosos como o rádio e a televisão, ou mesmo das revistas especia-
lizadas de menor difusão, onde críticos abrem caminho a sua le-
12
Desde a publicação de Un art moyen, o meio acadêmico mais assimila as for-
mas expressivas legitimáveis, o que implica, ao cabo, legitimação.
62 Luciaro Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
gitimação. Na hierarquia do legítimo, a fotografia ocupa uma
posição intermediária: "a meio caminho entre as práticas "vulga-
res", abandonadas aparentemente à anarquia dos gostos e das
cores, e as práticas culturais nobres, submissas às regras estritas"
(Ibidem, p. 137). Por isso é uma "arte média". Uma prática em
via de legitimação sempre impõe aos seus praticantes a questão
de sua legitimidade. Os fotógrafos organizam-se de acordo com
um tipo de sistematicidade que não se reporta a uma psicologia
individual, mas pelo ethos de classe, um conjunto de valores que
não respondem a uma explicação sistemática, mas que tendem a
organizar a conduta social de uma determinada classe.
Lançando elementos empíricos que serão aprofundados em
La distinction, Bourdieu apresenta dados sobre as atitudes dos
sujeitos ao realizarem o olhar fotográfico: elas expressam indire-
tamente as relações objetivas entre os interesses específicos de
sua classe e as outras classes, cujos constrangimentos inerentes
são obscuramente suportados. De modo similar ao do camponês,
na prática fotográfica das classes médias verifica-se a relação
que estabelecem com a cultura legítima, em que se referenciam,
e com as classes populares, das quais buscam se distinguir me-
diante as práticas culturais que lhes são acessíveis. Bourdieu
chama esta atitude dos setores médios de boa vontade cultural.
Nos foto-clubes, por conseguinte, seus associados buscam legi-
timar-se culturalmente ao tentarem legitimar a fotografia em re-
ferência às artes consagradas. Para tanto impõem regras à práti-
ca a fim de distinguirem-se da prática popular, classificada co-
mo vulgar. Os usos sociais da técnica, portanto, comportam re-
lações individuais por essência mediada, porque a prática con-
tém também a referência à relação que os membros das outras
classes sociais e a estrutura de relações entre as classes estabele-
cem para tal prática.
A devoção e a boa vontade
Bourdieu descreve as regularidades que expressam a ordem
social tradicional dos grupos de referência. Entretanto, detecta
desvios em relação a essa reprodução. Um deles é o que chama
Os usos sociais da técnica fotográfica 63
da prática fotográfica empreendida pelos "devotos", sujeitos que
se dedicam de modo mais intenso à fotografia, não a restringin-
do às ocasiões especiais. O sociólogo tratou de compreender as
condições de possibilidade para esse desvio: o surgimento de um
interesse intrínseco pela fotografia requer a neutralização de
suas funções tradicionais, isto é, as de integração do grupo. Isto
não significa, porém, uma exclusão total do grupo. A integração,
por mínima que seja, é freqüente. O mesmo serve para os obje-
tos rituais. O fotógrafo devoto, ao recusá-los, encontra uma de-
finição mínima para sua prática que se liberte da fotografia co-
mum. Na prática devota, o emprego autônomo do equipamento
rompe com o indivisível. Na prática ordinária da família, a má-
quina costuma pertencer a todos. Esta ruptura, mesmo não sendo
uma rejeição da família, é uma negação do culto familiar. Bour-
dieu deduz que o surgimento das práticas devotas é tanto mais
favorável, quanto menosfortes são as pressões dasfunções tra-
dicionais.
A realidade e a força das transgressões à "norma" são me-
lhor reveladas quando acarretam sanções econômicas. É restrita
a prática devota entre os operários, em geral voltados à prática
ocasional e pouco intensa. Quando existem devotos nesta cate-
goria, a tendência ocupa na vida individual mais de dez anos. A
escolha dos operários é durável, uma vez que decorre de uma
decisão amadurecida em um meio pouco aberto à fotografia e no
qual há obstáculos econômicos a serem ultrapassados. Os sujei-
tos estabelecem uma relação com o tipo de prática mais difundi-
da em seu grupo de origem, a qual determina a forma e a dura-
ção da devoção. A adesão a um clube de fotógrafos amadores
permite o isolamento do devoto dos praticantes comuns, e pro-
picia uma iniciação cultural. A maioria de seus membros é cons-
tituída pelas classes médias, meio que mais encoraja a devoção,
que ruma à boa vontade cultural, característica das práticas de-
votas, que se posicionam à procura do distanciamento da cultura
13
Bourdieu demonstra que as características apresentadas pelas populações de
praticantes devotos e sazonais são opostas: a prática devota, por um lado, é
exercida com mais freqüência por homens solteiros, nas famílias sem crianças,
e por jovens; por outro, a freqüência da prática sazonal acontece junto aos ca-
sados, nas famílias com crianças, e nos adultos de idade superior.
64 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
popular e referência à cultura erudita. Quanto mais tentam al-
cançá-la, menos conseguem atingi-la, pois, na lógica da distin-
ção, os grupos detentores das práticas legítimas, produzem no-
vas legitimidades permanentemente, isto é, novas distinções, o
que lhes impele os setores médios à permanente adequação, isto
é, no desejo de se distinguirem das práticas ilegítimas baseada
na illusio'4
da ascensão social - ou da integração à sociedade le-
gítima, pouco fazem além de nutrirem a boa vontade cultural.
Apesar da detecção francesa, Michele Lamont (1992, p. 186) no-
ta, porém, que "os americanos não mostram sinais de boa vonta-
de cultural, não reconhecem a legitimidade da alta cultura e a
importância [de] conhecê-la".
Em Le marché des biens symboliques, descreve-se como as
práticas culturais legítimas reproduzem seu estatuto por inter-
médio de um campo das instâncias de reprodução e consagra-
ção, como as galerias, academias e museus. A tomada de posi-
ção que os agentes adotam, em referência à posição social que
ocupam no campo em que estão inseridos, marca-se também pe-
la percepção dessa institucionalização das práticas culturais;
"[...] as audácias contestatárias do auctor encontram seu limite
último nas disposições éticas e políticas herdadas de uma pri-
meira educação burguesa, ao passo que os pequenos burgueses
(inclinados a trazer para a escola [...] disposições reformistas ou
revolucionárias) encontram-se submetidos de modo mais direto
à tutela direta ou indireta do Estado [...]" (Bourdieu, 1998, p.
129). Entretanto, no campo da cultura média, em que se percebe
com freqüência a possibilidade de desvio, os praticantes devotos
da fotografia buscam no clube a segurança diminuída à medida
que rejeitam as normas populares do fotografável. O novo sis-
tema de normas priva-lhes das certezas que a tradição comum
lhes oferecia antes da ruptura.
[A] [...] relação que os fotógrafos - e sobretudo os mais exigentes
e mais ambiciosos - estabelecem com a fotografia não é nunca in-
dependente da relação que estabelecem com seu grupo (ou, como
14
Sinteticamente, a illusio corresponde a crença no jogo (de 'ludus' = jogo), as-
sociada de um modo geral aos campos sociais, portanto não devendo ser con-
fundida com mera ilusão.
Os usos sociais da técnica fotográfica 65
se vê, de seu grau de integração a este grupo), e da relação (ao ex-
primir sua relação no grupo) que estabelecem com a prática modal
de seu grupo, ela mesma função do valor e do lugar que o grupo
acorda à fotografia, por relação de uma parte a seu sistema de va-
lores implícitos e à posição da fotografia no sistema de belas-artes
(variável segundo a situação do grupo relativamente a este siste-
ma), e de outro lado por referência ao valor e ao lugar que os ou-
tros grupos conferem, segundo a mesma lógica, à fotografia
(Bourdieu et al., 1989, p. 73).
O clube, neste sentido, permite a elaboração de novas regras
e certezas, e oferece a segurança nostálgica de pertencer a um
grupo, o qual, porém, rejeita as regras da prática comum. No
momento em que é constituído, há o germe da institucionaliza-
ção e, portanto, a via de legitimação da cultura média, acessível
aos pequenos burgueses, pretendentes que são da cultura legíti-
ma: o aparente desvio reafirma a cultura dominante. A relação
simples e direta com a fotografia, no entanto, declina. Cada vez
mais os empregados, pretensos estetas, tomam-na em referência
às artes nobres. Com isto, surgem contradições, ambigüidades e
incertezas decorrentes da inquietação com as normas das práti-
cas culturais legítimas. As incertezas que levam à oposição do
popular e a boa vontade cultural destes setores são detectadas
nas opções estéticas cotidianas. O "moderno" consagra-se como
princípio de escolha por sua oposição ao velho ou ao tradicional,
a fim de que essas incertezas sejam superadas. Os quadros mé-
dios também manifestam tais contradições e ambigüidades.
Buscam reconhecer na fotografia a dignidade de uma arte e li-
bertá-la de suas funções familiares, e recusam a estética realista
associada às preferências populares. Reivindicam à prática foto-
gráfica tanto trabalho quanto o da pintura. Estas ambições, no
entanto, são bem mais presentes nos discursos do que na reali-
dade concreta. As classes médias continuam a fotografar princi-
palmente nas férias e em família. A prática devota dos operários
e dos quadros médios, na impossibilidade de formulação de uma
doutrina estética, manifesta o cumprimento rigoroso das regras
técnicas de composição. O caráter imperativo sobre as suas prá-
ticas decorre da obediência submissa aos conselhos didáticos
das revistas especializadas; conselhos vulgarizados pela ampla
66 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
difusão dos veículos. Bourdieu a denomina vulgata estética. Os
indivíduos que encaram a fotografia como atividade artística são
uma minoria de "desviantes". Estes são mais independentes em
relação às condições sociais que definem a prática de maior di-
fusão, tanto em sua existência, escolha de objetos, ocasiões, co-
mo da estética do grupo.
Os usos sociais da mídia
Para Bourdieu, o rádio, a televisão e o cinema são meios de
comunicação que podem difundir conteúdos culturais também
consagrados. Embora já detecte em 1965 uma lógica de homo-
geneização de seus conteúdos (criticada veementemente nos
anos 90), que visa a colocar todos os seus usuários em condições
idênticas, esses consumidores culturais utilizam os produtos dos
mass media de modos mais variados. Adotam atitudes diferen-
ciadas que permitem, por exemplo, intensificar ou declinar a
atenção dispendida a um determinado programa. Para a fotogra-
fia ocorre algo semelhante. Antes de tudo ela é uma prática po-
pular e muito raramente é vivenciada como uma experiência es-
tética. Este campo do consumo estabelece uma homologia quase
perfeita com o da produção. Neste sentido, a fim de elucidá-la, é
exemplar, no livro em tela, o trabalho de Luc Boltanski para a
descrição das relações entre a fotografia e a imprensa. Elegeu as
publicações Paris-Match e France-Soir como campo preferen-
cial de suas pesquisas. A fotografia como testemunha dos acon-
tecimentos da realidade, que são objetos da imprensa, está em
conformidade à definição social da prática fotográfica e das pos-
sibilidades objetivas da técnica. Enquanto que o fotógrafo pro-
fissional transmite na forma de imagem o acontecimento que vê,
seu colega, o repórter, a relata por escrito. A imagem capturada
deve corresponder a tudo o que o bom senso e o veículo, no qual
trabalha o fotógrafo, permite registrar: "Não se pode mostrar os
cadáveres, mas observe, um homem ou uma mulher que saltam
do terceiro andar, pode-se tirá-la antes que caia; mas o cadáver,
Os usos sociais da técnica fotográfica 67
não" (fotógrafo France-Soir).^ A atualidade é a matéria-prima
dos profissionais e é, ao mesmo tempo, seu testemunho. No en-
tanto, o julgamento final daquilo que é bom ou ruim é definido
pelo jornal, aí contidas suas instâncias de hierarquização. O pa-
pel do fotógrafo deve restringir-se a captar e reter o aconteci-
mento sobre a chapa fotográfica. A submissão total dos fotógra-
fos de France-Soir à atualidade os faz dizerem que o produto de
seu trabalho é o reflexo da vida real.
Pesquisa semelhante é empreendida por Gérard Lagneau pa-
ra a fotografia publicitária: ratifica a razão da sua existência - e
o que a toma original e específica: a exigência de venda daquilo
que ela representa. Para tanto, apresenta um esquema que coloca
a fotografia publicitária a meio caminho da fotografia industrial
e da fotografia artística. O campo do fotografável em publicida-
de são todos os bens econômicos e, de modo geral, os bens de
consumo. O fotógrafo publicitário deve preencher sua obra de
significações aparentemente opostas. Satisfaz um compromisso
realista, que carrega um valor de atestação, e vale-se do simbo-
lismo. É comum a fotografia apresentar um realismo que se
presta a diferentes interpretações; aí reside a especificidade da
fotografia publicitária. O objeto apresentado de modo informati-
vo e simbólico, por mais que isto pareça contraditório, é uma
necessidade. A sugestão mercantil do anúncio publicitário
apóia-se na credibilidade do realismo que o juízo comum asso-
cia de antemão à imagem, da qual usufrui o fotógrafo, e, ao
mesmo tempo, de todo valor sugestivo na fotografia. O simbo-
lismo é explorado de modo que não se choque com a verossimi-
lhança e para que potencialize o número virtual de consumidores
identificados com o anúncio.
Por sua vez, o valor intrínseco da fotografia cotidiana decor-
re do caráter excepcional que se estabelece na relação entre o fo-
tógrafo e um evento qualquer. O acontecimento dramático é o
que faz aumentar este valor. Em France-Soir, privilegiam-se as
fotografias instantâneas, pois elas capturam o imprevisível, a ra-
15
Poder-se-á notar que o critério tende a variar, apesar de a tendência à uniformi-
zação, em função da posição que o veículo ocupa no campo jornalístico. Por
exemplo, jornais sérios versus sensacionalistas.
68 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
pidez do drama. "Signo exterior da ação e do evento, o movi-
mento constitui a qualidade primeira de toda fotografia cotidia-
na. Retratos, personagens estáticos que olham fixamente a má-
quina, tudo o que lembra a fotografia posada [...] é desvaloriza-
do" (Bourdieu et al., 1989, p. 175). O esmero no enquadramento
pode ser deixado de lado, se o desleixo reforçar a ação. A ima-
gem é esvaziada de objetos que ambientam a ação e, por conse-
guinte, é o seu contexto que se esvazia. A legenda surge neste
momento, no qual o sentido declina. Como a legibilidade é, por
excelência, a legibilidade da intenção, quando a clareza declina,
emerge com força o título ou a legenda, que declaram a intenção
significante e permitem o juízo se a imagem está em conformi-
dade a esse objetivo. A propósito, o texto é que subordina a
imagem, não o contrário.
Na publicidade, em cujo domínio os profissionais também
justificam o emprego da fotografia pelo seu realismo, julgam
propiciar através dela maior autenticidade e legibilidade. O cli-
ente deve reconhecer seu produto. Entretanto, além do realismo,
que um amador poderia alcançar, o profissional precisa fornecer
a fotografia um suplemento de sentido. O imperativo publicitá-
rio encontra-se, justamente, na necessidade de fazer a fotografia
dizer mais do que ela simplesmente diz em seu realismo. "As-
sim, a fotografia publicitária joga um duplo jogo que se funda
sobre o jogo mesmo que a imagem social da fotografia acorda à
imagem fotográfica. [...] E um teatro realista cuja moral é sem-
pre otimista. A vida é magnífica graças ao creme dental Z..., [...]
e a melhor prova que isto é verdade, é que esta mulher estampa-
da na fotografia sorri ainda de o haver utilizado" (Ibidem, p.
208). O duplo jogo é essencial à publicidade e todas as suas
formas são duplas. O fotógrafo publicitário possui como pro-
blema transformar uma imagem fantasiosa em real. A distância
entre a verossimilhança e a retórica visual não pode ser grande.
Se a credibilidade fotográfica falha, o anúncio não funciona. O
duplo jogo advém de um jogo no qual um produto considerado
insignificante é espetacularizado mediante os artifícios que o fo-
tógrafo lhe aplica. Cabe então à fotografia publicitária dissimu-
lar a intenção verdadeira sob a aparência percebida. O duplo jo-
go, no entanto, não é compreendido deste modo pelos profíssio-
0s usos sociais da técnica fotográfica 69
nais: eles percebem sua eficácia a partir da visão parcelada na
divisão do trabalho em que participam. Ao verificarem que sua
técnica possibilita o realismo, reivindicam pari passu a função
onírica dos anúncios. Enquanto a publicidade permitiria sonhar,
o fotógrafo seria o construtor dos sonhos. Para eles, diferente do
"sonho-evasão", seu trabalho gera o "sonho-desejo". Destarte,
não pelo que os fotógrafos compreendem dela, mas por sua fun-
ção específica, a "fotografia publicitária encarna ao mais alto
grau uma função alegórica" (Ibidem, p. 216).
Os símbolos só existem se remetidos a um sistema. A legibi-
lidade do símbolo só é possível mediante o seu conhecimento. A
memória do público, ao referir-se ao sistema simbólico, é que
permite que o emprego do símbolo se dê sem que se tenha que
aplicar longos comentários que o esclareçam. A chave de leitura
não é única para o conjunto de simbolos que Paris-Match adota
às fotografias que publica. Diferentes cargas simbólicas podem
estar associadas a um mesmo objeto fotografado. A simboliza-
ção parece contrariar a natureza verossímil da fotografia. Sua
vocação histórica tem-se dado em outra perspectiva, a da captu-
ra do real. Junto com certo tipo de imagem estão associados cer-
tos valores morais que a prática fotográfica corrente privilegia.
Sua adoção massiva pela imprensa ocorre a partir de constran-
gimentos externos, exercidos por uma necessidade social. Por-
tanto, ela não se pode submeter plenamente à lógica da fotogra-
fia, que implica a mínima intervenção do profissional, sem rene-
gar a lógica e as regras que regem o campo jornalístico. O ato da
imprensa é um ato de violação, porque impõe à fotografia uma
lei que não lhe pertence e, ainda, a contradiz. A imprensa, con-
tudo, está condenada ao uso fotográfico e a fotografia à espolia-
ção da imprensa. Conflitam aí, duas lógicas distintas: a de um
campo específico e a das funções sociais ordinárias. "O fotógra-
fo de imprensa tem um sentimento muito vivo dos constrangi-
mentos que lhe impõem as exigências do jornal no qual traba-
lha" (Ibidem, p. 191). De modo semelhante, acontece na publi-
cidade: será percebido que os "fabricantes de publicidade comu-
nicam mais com seus pares que com todo o restante do público,
e que uma fotografia aparentemente destinada ao "grande públi-
70 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
co" visa também e sobretudo a submeter-se ao julgamento dos
colegas" (Ibidem, p. 214).
Alguns profissionais pensam escapar de sua situação dentro
da divisão do trabalho, estabelecendo como compensação a uto-
pia da criação pela qual se percebem como "criadores", e não
como simples participantes da produção publicitária, e a da ob-
jetividade pura, que resultaria do produto fotográfico e estando
dissociada de sua definição social. Os fotógrafos que mais ex-
primem estas utopias são os que mais sofrem os constrangimen-
tos decorrentes de sua situação social, na qual a insegurança e a
imprevisibilidade no mercado de trabalho são permanentes. Na
fotografia de imprensa, reduto onde reina essa insegurança, não
basta para a fotografia que ela seja boa aos profissionais. E ne-
cessário que seja buscado um "algo mais", não encontrado no
real, e que só através do ato fotográfico, das intenções (e das
condições para as intenções) do fotógrafo, é possível de se con-
quistar. A surpresa é condição fundamental à boa fotografia de
imprensa. A imagem do acontecimento que surpreende pode ser
produzida de modo desfocado. O desfocado (fiou) pode vir
mesmo a constituir-se como a qualidade dominante da fotografia.
É pelo desfocado que se persuade que a imagem mostra bem o
acontecimento em si mesmo e foi realizada no instante preciso de
seu cumprimento de modo mecânico e [...] objetivo. Assim, o des-
focado, que para a consciência comum é sinônimo de movimento,
é a melhor garantia da pureza de intenções do fotógrafo. A acen-
tuação dos contrastes, os erros de enquadramento, o estouro de
grão, remetem ao momento que a imagem foi captada e são como
o sinal (trace) das dificuldades encontradas no instante da tomada
(prise de vue). Eu sei bem que esta fotografia de manifestantes que
cercam uma embaixada foi tirada durante o tumulto, em seu inte-
rior mesmo, pois consigo discernir com dificuldade os manifestan-
tes e a embaixada. A fraca legibilidade, com a qual poderia enga-
nar-me (pois enfim nada sobre esta fotografia me permite dizer
que se trata de uma embaixada e não de uma casa qualquer), ga-
rante-me, ao contrário, a autenticidade do que se propõe" (Ibidem,
p. 193-194).
Os usos sociais da técnica fotográfica 71
É possível que determinadas normas sejam comuns à maio-
ria dos jornais ou agências e, em um dado período histórico, ao
conjunto dos meios de comunicação. Todavia, o sistema enten-
dido como uma uniformidade de normas é imposto através da
produção coerente e estandardizada que se dá no interior de um
(e somente deste) veículo de comunicação específico. Enquanto
que esta estandardização é marcante na imprensa, em publicida-
de, ao menos em discurso, persegue-se a originalidade. Por sua
vez, a unidade dos múltiplos grupos profissionais processa-se
mediante a obrigação comum de submissão às regras sociais. Os
fotógrafos devem fabricar significações que obedeçam a estas
regras, as quais também devem estar de acordo com as expecta-
tivas do leitor.
A importância da pesquisa de Bourdieu e dos co-autores de
Un art moyen ocorre porque propicia um balizador teórico-
metodológico que pode ser reconvertido, isto é, direcionado aos
usos sociais das mídias populares, a saber, aquelas que exigem
baixo investimento econômico a sua fruição. Neste sentido, é
comum que a pesquisa em comunicação negligencie o rádio, ve-
ículo de ampla difusão e bastante utilizado pelos mais diversos
segmentos populacionais. Este abre um terreno favorável às
pesquisas com inspiração nas operações investigativas levadas a
cabo por Un art moyen. O mesmo pode ser dito para outros veí-
culos que se caracterizam por pertencerem ao campo da cultura
média, como a Internet. Tal campo, em virtude de seus produtos
ou o uso dado a eles, indica um baixo capital cultural entre seus
praticantes, e é produto da redução realizada pelo ethos, con-
templando, portanto, em maior medida, a função de objetivação
da illusio dos grupos sociais, partícipe na produção da crença
nos campos sociais. Isto, longe de associar-se à lógica da homo-
geneização relatada no capítulo anterior, volta-se à lógica da dis-
tinção, aquela que faz com que os sujeitos, através de suas práti-
cas, existam nos campos sociais em que estão inseridos. Para
tanto, Bourdieu construirá sua obra magna, La distinction.
72 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
As práticas distintivas
[A] postura tendencialmente adotada nas classes supe-
riores possui a maioria das características próprias, se-
gundo Kant, ao juízo estético [...]. Já as classes popula-
res se mostram pouco "kantianas", se é que se pode di-
zer isso sem provocar riso (mas teve alguém jamais a
idéia de levar o filósofo suficientemente a sério para tes-
tar num determinado grupo social a suposta universali-
dade do juízo estético?).
Louis Pinto, P/erre Bourdieu
e a teoria do mundo social.
A lógica da distinção reconhecida por Bourdieu, nos anos 60,
esteve nessa década muito limitada quanto a sua explicitação.
Não obstante, não limitou suas pesquisas de campo, defendendo
que, à época de Durkheim, a etnologia fora já integrante da so-
ciologia. As pesquisas engendraram conceitos e o arcabouço te-
órico bourdieusiano. Esquisse d'une théorie de la pratique, de
1972, permitiu uma sistematização às pesquisas e obras seguin-
tes, cujo destaque cabe a La distinction, de 1979. Como a comu-
nicação em Bourdieu é analisada com base no campo de produ-
ção cultural, procurarei estabelecer, neste capítulo, um diálogo
entre La distinction e "Le marché des biens symboliques", de
1970. A partir disto, relacionarei a comunicação com a política,
produtos de campos de produção especializada que muitas vezes
se confundem e que compartilham os mesmos bens, por exem-
1
Emprego a segunda edição espanhola: La distinción. Madrid: Taurus, 1991.
As práticas distintivas 73
pio opiniões, tipo de produto cultural que abordarei mais adian-
te. La distinction corresponde ao momento que chamo de pra-
xiológico. Levar em conta as práticas culturais sem enveredar no
essencialismo que, comumente, a crítica cultural envereda; a
missão do sociólogo. Para tanto, partiria de Kant e da descons-
trução de sua perspectiva estética, a fim de demonstrar que até o
inefável estético constrói-se por meio de sistemas classifícató-
rios, mesmo que subjazam à própria consciência e, por conse-
guinte, seja feito inexprimível por intermédio de palavras. As
classificações teóricas por mais abstratas que sejam ocultam
classificações sociais. O idealismo de autores dispostos à expo-
sição do sujeito puro e transcendental também se submete ao
mesmo: por mais puros e transcendentais são produto de uma
história construída através de um sistema de oposições classifí-
catório. Para Kant, o gosto do sujeito bastaria para que aprecias-
se o belo de maneira livre e desinteressada. O juízo deste sujeito,
válido para todos, atingiria a universalidade sem ter que se valer
do emprego conceituai. O conceito, produto do campo filosófi-
co, permaneceria à margem. O gosto universal passaria a ser o
critério de validação do juízo estético. No entanto, a sociologia
detecta que este gosto surge de uma experiência socialmente
condicionada. A experiência culta da arte, a legítima e portanto
universal, exclui as experiências nativas por serem impensáveis
aos que desejam alcançar o universal. Em estudos subseqüentes
Bourdieu descreve o processo em que esse universal surge como
o resultado de lutas entre agentes interessados pela noção.2
Entretanto, uma polêmica agressiva foi desferida por Luc
Ferry e Alain Renaut (1988, p. 213) a esse empreendimento.
Eles criticam a compreensão de Bourdieu de que a estética kan-
tiana seria uma estética burguesa - ou antipopular. Estes críticos
atentam que, em Kant, a idéia do belo não corresponde nem ao
agradável nem ao verdadeiro, e que uma especificidade da di-
2
Ver, por exemplo, o tópico "Le moralisme comme universalisme égoíste"; In:
Bourdieu (1997, p. 80-88). Um dos problemas advindos com a defesa do mul-
ticulturalismo, da parte de alguns autores, é que a restrição dos sujeitos às suas
culturas específicas sem a busca dos mecanismos de acesso à cultura legítima -
como aprender inglês, para asiáticos residentes nos Estados Unidos -, signifi-
cou a "condenação" dos mesmos ao gueto.
74 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
mensão estética estaria existente entre esses dois termos, funda-
da também de acordo com o senso comum, isto é, de modo que
divergiria da interpretação de Bourdieu. Ao contrário do adágio
popular, o belo se discute: "o Belo é objeto de comunicação, isto
é, de interpretação (no sentido musical do termo)". Portanto, o
belo não poderia ser o verdadeiro, pois se ele é o produto de
uma discussão, não lhe cabe tipo algum de regulação por uma
demonstração, a exemplo do que acontece em uma discussão ci-
entífica. Ferry e Renaut compreendem que o centro do raciocí-
nio de Bourdieu, que toma a estética kantiana o protótipo da es-
tética da classe dominante, em oposição à estética popular, se
funda na impossibilidade de uma estética pura "do povo". O que
conta a este é tão-só o conteúdo da representação, e não a repre-
sentação em si. Destarte, o belo não se diferencia do agradável,
nem a representação, do objeto representado. No entanto, para
Kant, de acordo com os críticos, um "quadro pode ser belo,
mesmo se ele representa uma lata de lixo; o que, mais uma vez,
nos impede de ver com clareza em que ponto isto se chocaria
com o gosto das classes populares" (Ibidem, p. 215). Os críticos
também destacam que, se todos os gostos designam um lugar
determinado do espaço social, a contracultura seria uma ativida-
de tão distinguível como as outras. De fato, Bourdieu era cioso
no que se refere às soluções consideradas ingênuas. Os limites
dos movimentos contraculturais demonstraram-se no curso his-
tórico. Aliás, mesmo que haja algum equívoco na análise estéti-
ca, o centro do raciocínio de Bourdieu voltado ao conteúdo da
representação é bastante pertinente à pesquisa em comunicação,
pois os produtos elaborados por este campo têm sobrevalorizado
seu conteúdo, em detrimento das possibilidades estéticas. Entre-
tanto, ao contrário do que crêem Ferry e Renaut, Bourdieu pos-
tula a existência de uma estética popular, em virtude de que há
um lugar ao sentimento de beleza, independente do grau de legi-
timidade, nas experiências expressivas desse segmento social.
Com efeito, a contracultura pode ser distinguível; o próprio
Bourdieu a aborda em La distinction. A partir daí, até a compre-
ensão da contracultura necessita da exclusão das ações ingênuas
e o entendimento que a contraposição a um determinado modelo
requer necessariamente do reconhecimento, análise e transposi-
As práticas distintivas 75
ção das estruturas que o reproduz. Nos seus últimos dias, a pro-
pósito, Pierre Bourdieu esteve engajado em um tipo de contra-
cultura que se contrapõe à cultura dominante que é a capitanea-
da pelo mundo da economia, e que tem nas comunicações seu
instrumento primordial de poder.
O conhecimento do mundo social requer a construção de es-
quemas3
de pensamento e de expressão. Além das condições de
existência, das práticas ou das representações, os agentes sociais
interpõem-se com sua atividade estruturante. Critica-se toda
perspectiva behaviorista, já que esses agentes "longe de reagi-
rem mecanicamente a certos estímulos mecânicos, respondem
aos chamamentos ou às ameaças de um mundo cujo sentido eles
mesmos contribuem a produzir" (Bourdieu, 1991, p. 478). Esses
agentes incorporam esquemas que constituem um sistema, cons-
tituído no curso da história coletiva, mas que, no entanto, se ad-
quire no curso da história individual, cuja função é prática e não
para fins de puro conhecimento. No processo social, elaboram-
se estruturas cognitivas por meio das quais os sujeitos obtêm o
conhecimento prático do mundo social. Esta elaboração dá-se
pela incorporação das estruturas sociais. O conhecimento prático
adquirido apropria-se de esquemas classificadores que são for-
mas de classificação ou, o que dá no mesmo, formas simbólicas
que constituem estruturas mentais. Resultam da divisão objetiva
em classes (sejam elas sociais, sexuais ou etárias), cuja aprecia-
ção e percepção possui uma história própria, e cujo funciona-
mento dá-se à margem da consciência e do discurso. O conjunto
dos agentes sociais possui em comum esses princípios de divi-
são, uma vez que eles são resultado da incorporação das estrutu-
ras fundamentais da sociedade, cujo sentido comum toma possí-
vel a elaboração de um mundo comum e sensato. Esses esque-
mas de percepção objetivam-se, de início, nos pares de qualitati-
vos opostos que usualmente são utilizados com o intuito classi-
ficatório às pessoas ou aos objetos nos campos mais diferentes
da prática. Os lugares-comuns do senso comum têm origem ne-
3
Os esquemas em Bourdieu derivam da noção kantiana de esquematismo, no
que se reportam à esfera do consumo, da recepção do habitus. Cf. Lash, 1995,
p. 196 segs.
76 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
les. Extremamente pobres, quase indefinidos, são por isso mes-
mo adequados para a pesquisa ou para a expressão da sensação
do indefínível. Sua imposição é facilitada por terem a seu favor
toda a ordem social: aquilo que opõe o alto ao baixo, o sublime
ao vulgar, o espiritual ao material, o livre ao estreito, o único ao
comum, o brilhante ao obscuro, o fino ao grosseiro, o nós ao
eles, e assim por diante:
tem como princípio a oposição entre a "elite" dos dominantes e a
"massa" dos dominados, multiplicidade contingente e desordena-
da, intercambiável e inumerável, débil e desarmada, sem outra
existência que a estatística. É suficiente deixar jogar estas raízes
míticas para engendrar à vontade qualquer dos temas, incansavel-
mente repetidos sob formas apenas renovadas, da eterna sociodi-
céia, como as apocalípticas denúncias de todas as formas de "nive-
lação", "trivialização" ou "massificação" que, ao identificar a de-
cadência das sociedades com a das casas burguesas, quer dizer,
com a queda no homogêneo, no indiferenciado, põem de manifes-
to uma preocupação obsessiva pelo número, pela massa sem dife-
rença e sem preocupação pelas diferenças, ou pela multidão sem-
pre disposta a inundar os espaços reservados do exclusivismo bur-
guês (Ibidem, p. 479-480).
Os princípios de divisão que organizam a visão do mundo
social têm origem nas divisões sociais. Portanto, como atenta
Bridget Fowler (1996, p. 2), Bourdieu opta pela construção da
noção "princípios de visão e de divisão", engendrados no habi-
tus4
como uma forma de conhecimento dóxico, ao invés do "uso
4
Cf. Bourdieu (1980a, p. 88-89): "Os condicionamentos associados a uma classe
particular de existência produzem habitus, sistemas de disposição duráveis e
transponíveis, estruturas estruturadas dispostas a funcionar como estruturas es-
truturantes, quer dizer, como princípios geradores e organizadores de práticas e
de representações que podem ser objetivamente adaptados a seu objetivo sem
supor o intuito consciente de fins e o domínio expresso das operações necessá-
rias para lhes alcançar, objetivamente "reguladas" (réglées) e "regulares", sem
serem em nada o produto da obediência às regras, e que mesmo coletivamente
foram orquestradas, sem serem o produto da ação organizadora de um maes-
tro." É através da socialização que o indivíduo, no curso de sua vida, adquire
esse sistema de disposições duráveis. O habitus é composto pelo ethos, que de-
signa os valores ou princípios no estado prático, ou seja a forma da moral, que
é interiorizada e não-consciente, que estabelece as práticas: enquanto o ethos é
As práticas distintivas 77
do termo althusseriano 'imaginário'". Surge deste conhecimento
o sentido dos limites, que resulta da antecipação prática dos li-
mites objetivos adquirida através da vivência dos limites objeti-
vos na realidade. Os agentes tendem a excluir-se daquilo que já
são excluídos: bens, pessoas, lugares etc.5
O sentido dos limites
implica o esquecimento do porquê dos limites. A primeira expe-
riência do mundo social, a da doxa, aceita como evidentes as es-
truturas sociais e as divisões reais, o que gera uma perfeita cor-
respondência deste mundo objetivo com as estruturas mentais e
os princípios de divisão práticos, engendrados pelo habitus pri-
mário. Essa primeira percepção do mundo social surge, uma vez
captado o objeto em sua imediatez, pela intervenção de certos
princípios de construção exteriores a ele. No entanto, essa apre-
ensão constitui um ato de desconhecimento, em virtude de os
agentes não terem o domínio sobre esses princípios, tampouco
da ordem real reproduzida por eles, o que implica a tendência ao
reconhecimento, pela via desse desconhecimento, da ordem so-
cial. Aaron Cicourel (1995, p. 90) explica que o habitus é estru-
turado com as experiências de socialização. A noção é cumula-
tiva: as determinações ou experiências estruturantes produzidas
no começo da vida influem nas aquisições posteriores do habi-
tus.
Como os dominados empregam, para a apreciação de sua
posição no mundo social, um valor incorporado que nada mais é
que o valor objetivo que a distribuição econômica lhes atribui,
tendem de antemão a rechaçar o que lhes é negado ("isso não é
para nós"). Com isto, suas esperanças passam a ser medidas por
suas possibilidades já definidas pela economia, pela ordem esta-
belecida. Os princípios de divisão servem para a luta dos agentes
produto e produtor das práticas, a ética é a forma teórica, codificada da moral; e
pela hexis, que corresponde às disposições associadas ao corpo: gestos, postu-
ras, trejeitos, incorporados pelo agente social durante a vida. O habitus pode
ser também dividido em primário ou secundário, em função ao período de exis-
tência do indivíduo que o interioriza: o habitus primário, por exemplo, é o in-
corporado na família e na escola. Por ser um conceito cumulativo, o habitus
pode vir a receber outras classificações de acordo com sua relação com o tempo
e o espaço.
5
Tendem a reproduzir o que Durkheim chama de "conformismo lógico".
78 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
no(s) campo(s) aos quais se inserem e para as necessidades da
luta. Produzem certos conceitos que, ao serem produzidos, pro-
duzem certos grupos. "Um dos traços cruciais da explicação de
Bourdieu ao habitus é que este leva em conta um processo de
correção e ajustamento contínuos" (Calhoun, 1995, p. 78). O
poder de mobilização e de desmobilização desses grupos está
baseado nos esquemas e nos sistemas de classificação, que se
encontram no fundamento das representações, em cujas lutas
tais agentes apostam ou não. Esse poder separa, distingue; é a
discretio oriunda da diacrisis, diferença discreta surgida do até
então indiferenciado; faz-se distinção. Quanto mais apto é um
grupo em se fazer reconhecer, mais provável será a sua presença
na classificação oficial. Portanto, sua ausência nesta decorre de
uma incapacidade, de uma impotência na obtenção de um lugar
na ordem social. As palavras são a grande força motora e criado-
ra de tais grupos, das quais dependem quase que totalmente,
desde a mobilização até a existência em algum tipo de classifi-
cação, viabilizadora mesmo desta mobilização: um movimento
operário depende do reconhecer-se, identificar-se, como "classe
operária". Essas classificações propiciam identidades comuns a
pessoas que vêm a formar os grupos.
O campo6
cultural e a lógica de sua autonomização
A história social da arte e da ciência pode apresentar-se por
meio da história das transformações funcionais do campo de
6
Cf. Bourdieu e Wacquant, 1995, p. 64: "Em termos analíticos, um campo pode-
se definir como uma rede ou configuração de relações objetivas entre posições.
Estas posições definem-se objetivamente em sua existência e nas determinações
que impõem a seus ocupantes, quer sejam agentes ou instituições, por sua si-
tuação (situs) atual e potencial na estrutura da distribuição das diferentes espé-
cies de poder (ou de capital) - cuja posse implica o acesso aos lucros específi-
cos que estão emjogo dentro do campo - e, por conseguinte, por suas relações
objetivas com as demais posições (dominação, subordinação, homologia etc.).
Nas sociedades altamente diferenciadas, o cosmos social está constituído pelo
conjunto destes microcosmos sociais relativamente autônomos, espaços de re-
lações objetivas que formam a base de uma lógica e uma necessidade específi-
cas, que são irredutíveis às que regem os demais campos."
As práticas distintivas 79
produção de bens simbólicos, sua gênese e estrutura, bem como
a destes bens. Gradualmente, o campo autonomizou-se, definin-
do-se em oposição aos campos religioso, político e econômico.
Este processo deu-se de forma gradual: o crescimento e a diver-
sificação do público consumidor, capaz de sustentar os produto-
res culturais, fora acompanhado do crescimento, diversificação e
profissionalização dos produtores e empresários culturais e da
multiplicação e diversificação das instâncias de consagração,
como as academias e os museus. Aqueles campos sempre pre-
tenderam legislar sobre a esfera cultural, entretanto, com a auto-
nomia, são as diferentes frações artísticas ou intelectuais que es-
tabelecem seu sistema de valoração específico. Porém, a auto-
nomia conquistada manteve-se relativa em relação àqueles po-
deres. Os distintos campos estão localizados no interior de um
"campo do poder", definido com respeito à dinâmica interna de
uma classe. Nela, o poder é distribuído desigualmente, pois há
um acesso diferenciado de diferentes campos aos poderes eco-
nômico e simbólico. Assim, surgem frações de classe desiguais.
No campo cultural, os produtores possuem maior acesso ao po-
der simbólico, em oposição ao econômico; são a fração domina-
da da classe dominante. Enfim, as classes se localizam no cam-
po geral das relações de lutas de classe. A gênese e a estrutura-
ção do campo de produção de bens simbólicos, ou campo cultu-
ral, portanto, decorre de uma série de desenvolvimentos: am-
pliação, diversificação - ou mesmo formação - de um público
de consumidores de bens simbólicos, mantenedores dos produto-
res; os princípios internos de legitimação constituídos pelos pro-
dutores desses bens e sua profissionalização levam â consolida-
ção do campo e a determinação das condições ao seu acesso,
bem como a de suas normas e imperativos técnicos, aos quais
também incidem as instâncias de consagração em competição
pela legitimidade cultural.
Destarte, o processo de autonomização da produção intelectual e
artística é correlato à constituição de uma categoria socialmente
distinta de artistas ou de intelectuais profissionais, cada vez mais
inclinados a levar em conta exclusivamente as regras firmadas pela
tradição propriamente intelectual ou artística herdada de seus pre-
decessores, e que lhes fornece um ponto de partida ou um ponto de
80 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
ruptura, e cada vez mais propensos a liberar sua produção e seus
produtos de toda e qualquer dependência social, seja das censuras
morais e programas estéticos de uma Igreja empenhada em prose-
litismo, seja dos controles acadêmicos e das encomendas de um
poder político propenso a tomar a arte como um instrumento de
propaganda (Bourdieu, 1998a, p. 101).
Passado o período da monarquia absoluta e da contra-
Reforma, e com a consolidação e contínua capitalização econô-
mica e política da burguesia, consolidou-se um mercado da obra
de arte. Com a ampliação do contingente dos representantes dos
setores sociais médios, acompanhada de sua escolarização, cres-
ceu também o interesse de um número cada vez maior de indiví-
duos ao acesso aos bens culturais. Desenvolveu-se uma indústria
cultural, desde o início estabelecendo uma relação entre a litera-
tura e a imprensa cotidiana. Produto disto são os folhetins "ou
então, em outras esferas, o melodrama e o vaudeville" (Ibidem,
p. 102). O processo de diferenciação dos bens culturais, cujo
princípio reside na diversidade do público, favorece a polariza-
ção do campo, de uma parte, a preocupações estritamente cultu-
rais, e, de outra, a interesses econômicos. De fato, Bourdieu
atenta à dupla face da realidade dos bens simbólicos: são ao
mesmo tempo mercadorias e significações. No entanto, a valo-
ração destes bens, seja especificamente cultural ou econômica,
coexiste independente uma da outra. A nova burguesia, além de
ter-se tomado consumidora cultural, na condição de produtora
adotou técnicas e métodos emprestados do mundo empresarial;
adoção da divisão do trabalho em unidades produtoras de bens
simbólicos, publicidade às mercadorias culturais etc. Com a
atração ao pólo econômico, favoreceu a reação dos produtores
com preocupações estritamente culturais, os quais logo trataram
em elaborar as "teorias puras" de suas formas de expressão: o
mundo intelectual busca afastar-se do vulgo, seja ele burguês ou
do povo. O campo cultural define-se por relações objetivas entre
diferentes participantes que, por sua vez, definem-se pela função
exercida no processo de divisão do trabalho de produção, de re-
produção e de difusão de bens simbólicos. Os pólos de atrativi-
dade nele presentes estabelecem um campo de produção restrita
ou erudita, no qual os produtores têm como público e concor-
As práticas distintivas 81
rentes somente os seus pares. Este pólo está em posição oposta
ao do campo da indústria cultural, voltado à elaboração de pro-
dutos culturais a serem consumidos por não-produtores de bens
simbólicos, isto é, o grande público, seja ele povo ou burguês
não-intelectual. Enquanto que este se subordina ao imperativo
da concorrência, visando a maximização de seu mercado, o
campo de produção restrita tende a elaborar suas próprias nor-
mas de produção e os critérios valorativos de seus bens. De mo-
do distinto, a concorrência neste é pelo reconhecimento dos pa-
res. Para entender-se a relação que os produtores estabelecem
com os consumidores, e a representação que todos esses fazem
desta relação, deve-se ter em conta esse princípio polarizador,
que perpassa pela lógica, funcionamento e transformações no
campo em questão, bem como pela estrutura dos bens simbóli-
cos que ele produz.
A lógica própria do campo de produção cultural, que se re-
porta ao campo de produção restrita, corresponde à permanente
superação determinada pela dialética da distinção propriamente
cultural. Não caberia mais ao público alheio ao métier a imposi-
ção de censuras: os produtores livraram-se delas, constituindo
uma forma própria de exercício de poderes exclusiva do campo
cultural. Entretanto, Renato Ortiz (1994, p. 28), que toma como
referência o mesmo campo literário analisado por Bourdieu,
embora reconheça uma autonomia que lhe é própria, questiona
até que ponto "a história do campo se identifica à história da luta
entre os atores literatos". Ortiz acredita que não haja necessa-
riamente assimetria entre as revoluções simbólicas de um campo
específico e as revoluções políticas. A preocupação do antropó-
logo brasileiro se assenta na tentativa de detecção do locus da
mudança na perspectiva bourdieusiana, haja vista os campos so-
ciais tenderem à reprodução, pelo contínuo consenso neles en-
gendrado: seu princípio de autonomia reafirma o elo à idéia de
reprodução. Atenta, neste sentido, a diferente leitura que Sartre7
7 Para Sartre, a autonomiajá fora conquistada no século XVIII, em que o discur-
so literário transforma-se em espaço onde se trava a luta de classes. Passado o
período francês das grandes rupturas políticas, que vai de 1789 até 1848, a
"burguesia não é mais [...] classe dominada, mas classe que ascendeu ao poder
e procura consolidá-lo por todos os meios. A autonomia do espaço literário é,
82 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
dá ao percurso de Flaubert e de seus pares. Estas considerações
são importantes se se busca uma teoria da mudança social, o que
aqui não está em questão, e ao confirmar-se, no Brasil, a hetero-
nomia entre cultura e política. Não obstante, o que Bourdieu
pretende demarcar é que, independente dos fatores externos, há
uma dinâmica interna própria ao campo que pode estar relacio-
nada ou não a esses fatores apontados. A propósito, do recurso
bourdieusiano à análise que relaciona o campo específico ao
campo do poder, chega-se a conclusões que apontam a uma
maior dependência ou independência dos campos abordados, va-
riável no curso da história, sem que necessariamente se tenha
que formar um novo bloco histórico.8
Legitimada uma produção
simbólica no campo, isto é, uma idéia, ela pode transformar-se
em idéia-força em outros campos sociais. Para tanto, os porta-
vozes da idéia legítima devem possuir autoridade suficiente para
abandonar a especificidade de seu campo de origem e incidir
sobre os demais.
O grau de autonomia do campo de produção restrita, portan-
to, pode ser avaliado com base no poder que possui ao estabele-
cimento de regras internas e critérios de valor em consonância a
princípios próprios, mesmo quando venham a ser fruto da retra-
dução e da reinterpretação de determinações externas. Se há
desta forma, apropriada por essa classe que exige, agora, não mais uma negati-
vidade da escrita, mas sim intelectuais orgânicos que possibilitem a instauração
de uma hegemonia burguesa" (Ortiz, 1994, p. 28). É à demanda burguesa que
Flaubert se insurge.
A base de um bloco histórico é a hegemonia de uma classe fundamental. A he-
gemonia é a primazia ideológica e econômica desta. Para Gramsci, sua concep-
ção de hegemonia pauta-se na primazia da sociedade civil sobre a política, isto
é, tem um caráter democrático inversamente ao proposto por Lênin. Para que
surja um novo bloco histórico é necessária uma crise orgânica, que é uma crise
de hegemonia, e a constituição de um novo sistema hegemônico que conte com
as classes subalternas, do contrário, a classe que viera dominando o sistema o
faz reavivar. O intelectual é o elo entre a estrutura e a superestrutura, gerindo
esta, o que o toma uma via de formulação da ideologia dominante. Embora su-
bordine a ação intelectual à política, creio que esta formulação de Gramsci não
exclua de todo a de Bourdieu. O que percebo em Gramsci é um forte sentido te-
leológico, vinculado às concepções de hegemonia e bloco histórico, o que não
é ponto de discussão em Bourdieu: sua análise estrutural dos campos indepen-
de de qualquer teleologia.
As práticas distintivas 83
uma teleologia específica, é a que se dirige à legitimidade inter-
na. "Todo ato de produção cultural implica a afirmação de sua
pretensão à legitimidade cultural"9
(Bourdieu, 1998a, p. 108). A
busca pela legitimidade faz com que os participantes do campo
travem uma competição permanente ao estabelecimento de dis-
tinções culturalmente pertinentes a suas práticas: estilos, per-
formances, técnicas, temas, cujas marcas de distinção próprias,
uma vez reconhecidas pelo campo, atribuem valor às obras. São
as taxinomias culturais circulantes no campo em um determina-
do momento de sua história que lhes permitem serem percebidas
e reconhecidas. Portanto, a dialética da distinção cultural é ori-
unda da própria lógica do campo, de sua lei, no sentido weberia-
no da Eigengesetzlichkeit, regra proveniente de uma racionali-
dade própria. Como este campo de produção restrita se estabele-
ce por meio de um fechamento objetivo de suas relações de pro-
dução e de consumo, sua história é produto de uma semi-
reflexão: os juízos acerca das obras são elaborados a partir da
posição ocupada por elas em relação às demais, bem como a de
seus produtores, também relacionados com seus pares. Com isto,
a maioria das obras carrega consigo a "marca do sistema de po-
sições em relação às quais se define sua originalidade, e contêm
indicações acerca do modo com que o autor pensou a novidade
de seu empreendimento, ou seja, daquilo que o distinguia, em
seu entender, de seus contemporâneos e de seus antecessores"
(Ibidem, p. 112). Destas relações objetivas surge o sentido pú-
blico da obra que também define o produtor. A publicização de
um produto cultural revela suas propriedades de recepção, que
consistem nas relações sociais: as relações entre o autor e o edi-
tor, entre o editor e o crítico, entre o autor e a crítica etc., orien-
tam-se pela posição relativa em que se situam na estratura do
campo de produção restrita. Nessas relações, são mobilizados
dois tipos de representações:
9
Ao menos objetivamente (no sentido de que ninguém pode ignorar a lei cultu-
ral), o mesmo sucede com qualquer ato de consumo que se encontre objetiva-
mente situado no campo de aplicação das regras que orientam as práticas cultu-
rais quando pretendem ser legítimas.
84 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
1) a representação que um agente possui do outro, depen-
dente de sua própria posição relativa no campo (escritor consa-
grado ou maldito etc.);
2) a representação da representação que a definição social
faz de si, portanto do termo que a ele se opõe, e que depende de
sua posição objetiva no campo.
LiPuma (1995, p. 19) destaca que, nesse campo, onde se en-
coraja a heterodoxia, percebe-se um "mercado lingüístico" que
redistribui capitais através das estratégias dos agentes, estabele-
cendo continuamente uma ortodoxia e a reprodução da hierar-
quia de classe. A linguagem da crítica e da história da arte é em
parte seu produto. A compreensão do campo cultural deve ter
em conta que a especificidade funcional dos produtos que nele
são elaborados, por ele circulam e dele são difundidos, reside no
sistema de relações que o constitui, que são relações de concor-
rência pelo monopólio do exercício legítimo da violência simbó-
lica. Junto ao papel desempenhado pelo sistema de ensino cuja
atividade de inculcação consagra artistas e intelectuais e a re-
produção da cultura por ele considerada digna, outras instâncias
(por exemplo, academias e museus) pretendem exercer autori-
dade especificamente cultural, embora os princípios de legitima-
ção que adotam possam diferir. A história do campo exprime a
estrutura das relações de força simbólica pela hierarquização das
competências legítimas; para obras, agentes ou áreas de atuação.
As relações que originam essa estrutura correspondem a:
1) relações objetivas entre os produtores culturais, do pre-
sente ou do passado: como são avaliados por um público de pro-
fissionais e de não-profíssionais internos, as instâncias que os
legitimam possuem legitimidade desigual, portanto consagrando
(ou não) tais produtores em bases desiguais;
2) relações objetivas entre os profissionais e as diferentes
instâncias de legitimação, que cumprem a dupla função de con-
sagração das obras e de reprodução de um padrão de ser humano
cultivado;
3) relações objetivas entre as diferentes instâncias de legiti-
mação; deve-se levar em conta, ao empreender-se uma pesquisa,
sua função e funcionamento, a posição que ocupam na hierar-
As práticas distintivas 85
quia do campo e a forma de exercício de sua autoridade, conser-
vadora ou contestatária.
O sistema de ensino, cuja inculcação impõe a semi-
sistematização e a semiteorização dos conteúdos inculcados,
realiza sobre estes um efeito de neutralização e de "banaliza-
ção"10
da transmissão de significações. À medida que o sistema
de ensino se transforma, modifícam-se também os esquemas de
pensamento que constituem a história do campo cultural. A re-
petição didática de mensagens carregadas de violência simbóli-
ca" contribui às classes dominantes mediante a imposição de
um consenso cultural e à sublimação - pela via da ritualização -
dos conflitos presentes ou passados das suas diversas frações. A
divisão do trabalho simbólico que separa as duas categorias fun-
damentais de produtores culturais permite atentar ao princípio
de suas diferenças e semelhanças ideológicas, bem como às con-
tradições (e coerências) em suas posturas politicas. A lei cultural
dominante impõe-se por sanções sofridas com maior intensidade
pelos indivíduos mais desprovidos de capital cultural que se
concretizam tanto por sanções materiais (exclusão do mercado
de trabalho) como simbólicas, proferidas muitas vezes de forma
10
Bourdieu reivindica Weber para explicar a que corresponde essa banalização,
termo segundo ele impreciso: o conceito de Vertãglichung ("cotidianização"),
que possui um sentido duplo, como o processo de tomar banal, cotidiano, co-
mum (então, se opondo a Aussertãglichkeit, extracotidiano ou extraordinário),
e como o efeito que esse processo de banalização provocou.
11
O conceito de violência simbólica foi extensamente desenvolvido em Bourdieu
(s.d., p. 23 e 47): "Todo o poder da violência simbólica [é] todo o poder que
consegue impor significações e impô-las como legítimas, dissimulando as rela-
ções de força que são o fundamento da sua força, junta a sua força própria i.e.,
propriamente simbólica, a essas relações de força". "[...] toda a acção de vio-
lência simbólica que consegue impor-se (i.e., a impor o desconhecimento da
sua verdade objectiva de violência), supõe objectivamente uma delegação de
autoridade: assim, contrariamente às representações populares ou semi-eruditas
que emprestam à publicidade ou à propaganda e, mais geralmente, às mensa-
gens veiculadas pelos meios modernos de difusão, imprensa, rádio, televisão, o
poder de manipular, senão de criar as opiniões, essas acções simbólicas não
podem exercer-se senão na medida e na medida somente em que elas encon-
tram e reforçam predisposições (v.g., as relações entre umjornal e o seu públi-
co)".
86 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
sutil, ao ridicularizarem, por exemplo, as maneiras em desacor-
do com a etiqueta social.
O sentimento de estar excluído da cultura legítima é a expressão
mais sutil da dependência e da vassalagem pois implica a impossi-
bilidade de excluir o que exclui, única maneira de excluir a exclu-
são. Qualquer contato reflexivo com o consumo cultural (em espe-
cial, o contato provocado pela pesquisa) coincide com a descober-
ta de sua ilegitimidade e, impossibilitados de opor uma contralegi-
timidade isenta do reconhecimento da legitimidade recusada, os
membros das classes desprovidas da cultura legítima concebem a
si mesmos como heréticos não como cismáticos. O reconhecimen-
to implícito da legitimidade cultural transparece sobretudo através
de dois tipos de conduta aparentemente opostas: a distância respei-
tosa dos consumos mais legítimos [...] e a negação envergonhada
das práticas heterodoxas. Por exemplo, quando interrogados a res-
peito de seus gostos em música, a maioria dos operários situa-se
espontaneamente no campo da "grande música" e, com isso, de-
claram de modo implícito que seu consumo de canções não mere-
ce ser mencionado (Bourdieu, 1998a, p. 132).
A lei cultural, portanto, antes de determinar as práticas, de-
marca os limites da prática. Mesmo que os agentes não a sintam
e a transgridam, reconhecem-na. A ideologia dominada desco-
nhece ou dissimula o arbitrário cultural dominante, mas reco-
nhece a legitimidade de suas sanções ao adotar todas as antino-
mias que constituem sua ideologia, cujo princípio é aquele arbi-
trário mesmo. A contestação tende a ser excluída, pois é difícil
escapar à referência à lei cultural que, mesmo repudiada, se
mantém como parâmetro e, por conseguinte, domínio que tutela
a cultura dominada. A noção de violência simbólica, portanto,
surge a partir de uma perspectiva estrutural. As relações de po-
der, e a existência cotidiana e de longo prazo, decorrem da pro-
dução e reprodução desses sistemas, os quais são, por sua vez,
fundamento prático dos grupos e das sociedades.
As práticas distintivas 87
mente genérica, constituindo aquela designação já consagrada
como cultura de massa.
Fundamentalmente heterônoma, a cultura média é objetivamente
definida pelo fato de estar condenada a definir-se em relação à cul-
tura legítima, tanto no âmbito da produção como no da recepção.
As investigações originais que podem suceder no sistema da in-
dústria cultural (ou para aí serem importadas) estão sempre limita-
das (até poderem contar um público específico, como no caso do
cinema de vanguarda) pelos bloqueios de comunicação que correm
o risco de provocar mediante o uso de códigos inacessíveis ao
"grande público". Assim, a arte média só pode renovar suas técni-
cas e sua temática tomando de empréstimo à cultura erudita e, ain-
da mais à "arte burguesa", os procedimentos mais divulgados den-
tre aqueles usados há uma ou duas gerações passadas, e "adaptan-
do" os temas e os assuntos mais consagrados ou os mais fáceis de
serem reestruturados segundo as leis tradicionais de composição
das artes populares (por exemplo, a divisão maniqueísta de papéis)
(Ibidem, p. 143).
Embora tenha sido visada inicialmente a um vasto público
(como no caso do cinema), uma determinada expressão pode
iniciar o desenvolvimento de uma lógica própria, sinalizando
com isto seu acesso à legitimidade. Em paralelo a uma recepção
massiva, surge em coexistência um modo de recepção erudito,
que acarreta o interesse pela história do gênero, sua estética e
técnicas. Todavia, são as leis de concorrência no mercado que
determinam as transformações na história da arte média, haja
vista ter o campo da indústria cultural um índice reduzido de au-
tonomia. Scott Lash (1995, p. 198) postula que o grau de auto-
nomia é o eixo central de variação dos campos. No entanto, não
há plena consistência do que é a autonomia em Bourdieu. Ele
não é consistente em sua definição do que é exatamente essa au-
tonomia. "As vezes, é das classes dominantes no "campo do po-
der" (por exemplo, em Homo Academicus). Às vezes é do cam-
po social por inteiro". É índice de um grau maior de autonomia
a preponderância da produção do campo para outros produtores,
como no campo científico, e não prioritariamente para consumi-
dores no campo social (ou campo do poder). Para a concepção
deste livro, a autonomia está associada primordialmente à conti-
90 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
nuidade da produção de acordo com lógicas próprias - internas
- do "campo" no qual se realizam.
A hierarquia cultural que se estabelece objetivamente entre o
campo da indústria cultural e o campo de produção restrita ou
erudita e os bens simbólicos que ambos produzem, mesmo que
os agentes tentem dissimulá-la, impõe-se a todos os produtores e
consumidores. Fundamenta o primeiro juízo que funda todos os
juízos particulares e, portanto, as práticas - bem como as ideo-
logias - engendradas a partir da posição ocupada pelos agentes
no espaço social. Através dela, conseguem discernir gêneros,
nomes, marcas e ordens de legitimidade, que caracterizam aqui-
lo que se entende por "gosto", e adequar-se às maneiras conve-
nientes para cada situação: às obras legítimas, por exemplo, exi-
ge-se uma disposição devota, ritualizada e cerimonial. O poder
de distinção (ou de discriminação) decorre da medida propor-
cional ao grau de legitimidade de cada prática, que varia de
acordo com as diferentes classes e frações de classe, propiciando
algum ganho em capital simbólico. Edward LiPuma (1995, p.
29) salienta que, para Bourdieu, a maior posse dele é um outro
nome para a distinção. Já para Bridget Fowler (1998, p. 20),
"apesar de a sociologia conseguir desvelar interesses e o desinte-
resse, [...] é possível que uma categoria importante da possessão
de capital simbólico simplesmente signifique o atingimento de
uma existência humana [...] que é diferenciada da ação animal e
que é potencialmente aberta a todos os seres humanos." Esses
lucros simbólicos advêm sempre de relações sociais: particular-
mente, relações de comunicação, podendo ser reconvertidos em
lucros materiais. Através dos lucros simbólicos se reconhece
com mais facilidade a hierarquia dos valores consagrados: são
maiores quanto mais superiores forem consideradas suas práti-
cas no juízo das distintas classes e frações de classe. "E o indi-
cador mais seguro da hierarquia dominante talvez seja a oposi-
ção entre os objetos dignos de integrar a conversação mundana
(objetos também sujeitos a uma hierarquia) e aqueles que dela
são excluídos por serem considerados ridículos, pedantes ou
"vulgares"" (Bourdieu, 1998a, p. 149). No campo cultural, por
As práticas distintivas 91
conseguinte, reside permanentemente a oposição entre o legíti-
mo e o ilegítimo.13
Posições, disposições e tomadas de posição:
o habitus no campo do poder
As práticas dos diferentes agentes no campo cultural depen-
dem da posição que ocupam em seu interior. Independente das
consciências e vontades, essa posição impõe-se, fazendo-se ide-
ologia própria e engendrando suas tomadas de posição, mesmo
quando querem desafiar a ordem estabelecida:
[...] é o conjunto das determinações inscritas em sua posição que
leva os críticos profissionais de Jazz ou de cinema - muitas vezes
jogados nestas artes "marginais" em virtude de sua marginalidade
no campo de produção erudita e instados a exercer o direito de
discernir entre o legítimo e o ilegítimo sem poderem contar com
qualquer garantia institucional - a emitiremjuízos muito divergen-
tes, insubstituíveis e destinados a atingir exclusivamente algumas
panelas restritas de produtores ou pequenas seitas de aficionados.
Se a inquietação pela legitimidade de sua prática não os obrigasse
a adotar, exagerando-os, os signos exteriores pelos quais se reco-
nhece a autoridade dos detentores do monopólio do poder legítimo
de conceder a consagração cultural, tais críticos não teriam neces-
sidade de adotar o tom douto e sentencioso, o culto da erudição
pela erudição da crítica universitária, ou de procurar uma caução
teórica, política ou estética nas obscuridades de uma linguagem
tomada de empréstimo. Diversamente de uma prática legítima,
uma prática em vias de consagração coloca incessantemente aos
que a ela se entregam a questão de sua própria legitimidade
(Bourdieu, 1998a, p. 154-155).
A estrutura das relações objetivas entre o campo da indústria
cultural e o campo de produção erudita constitui o princípio dos
13
Bourdieu inspira-se em Weber para a noção de legitimidade. Cf. WEBER, M.
Economia y sociedad. 11. ed. México: Fondo de Cultura Econômica, 1997, p.
170-197.
14
A teoria de Bourdieu da violência simbólica e do desconhecimento, para Fow-
ler (1998, p. 22), "e, com efeito, sua teoria da ideologia".
92 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
esquemas que levam a excluir o ilegítimo. Portanto, um sucesso
de um filósofo na mídia pode não ser bem visto por seus pares,
os quais podem suspeitar que ele pressiona seus juízos por me-
canismos externos ao campo filosófico, pelo exercício de um
tráfico de influência ilegítima à lógica interna em questão. A le-
gitimidade ou a ilegitimidade das práticas e dos bens simbólicos
é conferida independentemente da vontade dos produtores. Esta
definição é externa, uma vez que resulta do conjunto da estrutu-
ra das relações objetivas deles com a hierarquia cultural e o grau
de valor atribuído ao público que atingem ou visam. A trans-
gressão bem-sucedida não traz prejuízo ao valor atribuído à
mercadoria cultural ou provoca a reprovação do meio; só é pos-
sível de realizar-se liderada pelos produtores portadores dos sig-
nos mais inquestionáveis de consagração cultural, cujo passado
esteve em respeito às regras do campo, o que os tomam autori-
dades, porta-vozes da palavra do grupo, podendo arriscar e in-
clusive ganhar com o risco. Essas tomadas de posição advêm de
disposições, muitas vezes as mais inconscientes, associadas a
um habitus, desempenhando papel fundamental a primeira inte-
riorização decorrente de experiências práticas na família e na
escola, através das palavras, gestos, objetos e ações. Entretanto,
tais disposições não engendram comportamentos mecânicos, de
tipo behaviorista, ou a etemização das estruturas, como pare-
ciam crer os estruturalistas mais radicais: atualizam-se em fun-
ção das diferentes situações em que o agente se depara na traje-
tória de vida, assim permanecendo o princípio de seleção de to-
dos os signos e índices que produzir ou julgar. A seleção reali-
zada pelo indivíduo possui uma história constituída pela história
das seleções coletivas.
Toda prática cultural possibilita uma dupla leitura, uma vez
que deve ser compreendida como executada simultaneamente
em dois campos: no que interessa a este livro, no campo da in-
dústria cultural e no campo do poder. Orienta as estratégias dos
agentes, suas alianças e disputas, muitas vezes não reconhecidas
deste modo. A exemplo da neutralidade idealista da ciência que
tenta ocultar toda uma política existente na produção do discur-
so científico, o jornalismo reforça com freqüência o mito da ob-
jetividade imparcial dos textos nos bens simbólicos que pro-
As práticas distintivas 93
duz.15
Bourdieu postula que a pesquisa sociológica oriente-se à
análise das referências privilegiadas, índices que, além de elu-
cidarem circuitos de trocas de informação, consistida basica-
mente de idéias e palavras, esclarecem acerca dos conflitos ideo-
lógicos no campo do poder, no qual se privilegiam aliados (ou
adversários) em detrimento de outrem. "Inúmeros problemas,
discussões, críticas, polêmicas, conceitos, métodos, construções
teóricas etc., derivam sua razão de ser da busca pela distinção
(por exemplo, a retradução efetuada por Weber do mana em ca-
ráwu)" (Ibidem, p. 172).
O campo da indústria cultural ocupa posição destacada no
campo do poder, em virtude de que os capitais sociais mais va-
lorizados que nele circulam são também os mais valorizados no
espaço social, sobretudo, pelos investimentos realizados pelos
agentes que ocupam posições hierarquicamente superiores no
campo econômico e no campo político. Céli Pinto destaca a pos-
sibilidade dos agentes converterem seus capitais acumulados no
campo para conquistas de posições sociais em outros: "Um polí-
tico de grande popularidade tem mais facilidade de encontrar
espaço para expor seus quadros em uma galeria de arte do que
um cidadão anônimo. Da mesma forma, um ator de popularida-
de encontrará muito mais espaço para satisfazer sua vontade de
entrar no campo da política do que um agente cuja atividade não
pressuponha popularidade e exposição pública" (Pinto, 1996, p.
223). A reconversão de capitais viabiliza a aquisição de outros
tipos de capital, isto é, a partir da posse de um determinado tipo
de capital é possível de adquirir-se novos. Não obstante, a dialé-
tica da distinção mantém-se na dinâmica interna dos campos es-
pecializados. Os signos distintivos podem ser de distinção, mas
também de vulgaridade, pois são percebidos relacionalmente,
convertendo-se deste modo a partir dos bens ou das pessoas.
Sendo assim, as práticas dos grupos e dos indivíduos manifes-
tam a representação de sua realidade social: "[...] as lutas das
classificações, individuais ou coletivas, que apontam a transfor-
mar as categorias de percepção e apreciação do mundo social e,
com isso, o mundo social, constituem uma dimensão esquecida
15
Este assunto será tratado de forma mais detida no capítulo 4.
94 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
da luta de classes" (Bourdieu, 1991, p. 494). Portanto, é da posi-
ção ocupada na estrutura de classes que depende a posição na lu-
ta de classificações.
Os bens e serviços culturais, assim como os bens materiais
(roupas, eletrodomésticos etc.), são a manifestação mais ou me-
nos lograda do estilo de vida dominante. Ao serem adquiridos,
isto é, consumidos, implicam alguma forma de reconhecimento
dos valores dominantes no que se refere à ética ou à estética. "O
que Bourdieu tem a dizer sobre a cultura e a estrutura social é
tanto aplicável à ciência - no próprio projeto dele - quanto ao
direito, à educação ou à política" (LiPuma, 1995, p. 15). Ao
considerar o povo como portador de um conhecimento prático
decorrente da posição e dos interesses que possui no mundo so-
cial, restaria ao exame como o sentido político por ele atribuído
se expressa em um discurso em conformidade com a prática
apresentada; compreensão que pode tomar-se princípio de ação
consciente e mobilizadora pela via da explicitação da pesquisa
"e que permitiria [...] reconhecer, no mercado dos discursos
produzidos e ofertados pelos possuidores dos instrumentos de
produção de problemas e opiniões legítimas, os produtos mais
apropriados" (Bourdieu, 1991, p. 406). A noção de "opinião
pessoal", cuja origem é detectada nas concepções racionalistas
do século XVIII, pelas quais o "julgar bem" cartesiano corres-
ponderia ao discernir o bem do mal, o verdadeiro do falso, por
intermédio de um sentimento interior espontâneo e imediato,
tomou-se indispensável à instrução universal, via de acesso ao
pleno juízo universal, que fundamenta o sufrágio universal. A
concepção de opinião16
pessoal surgiu contra o monopólio da
Igreja na produção legítima dos juízos. As opiniões pessoais, in-
16
O interesse de Bourdieu pela opinião é antigo, retomando uma tradição iniciada
com Gabriel Tarde e continuada hoje por Patrick Champagne. Em Les temps
modernes (1973, p. 1292-1309) aparece um artigo seu que causa impacto desde
o título; "L'opinion publique n'existe pas": "[...] eu quis dizer que a opinião
pública não existe, pelo menos na forma que lhe atribuem os que têm interesse
em afirmar sua existência, [Há], por um lado, opiniões mobilizadas, opiniões
constituídas, grupos de pressão mobilizados em tomo de um sistema de interes-
ses; e, por outro lado, disposições, isto é, a opinião no estado implícito, que,
por definição, não é opinião se com isso se compreende algo que pode ser for-
mulado em discurso com uma certa pretensão à coerência"(1982, p. 151).
As práticas distintivas 95
dependentemente de quem as produz, cabe o mesmo valor. No
entanto, a difusão desta idéia tomou impulso em virtude de os
interesses dos intelectuais, pequenos produtores de opinião in-
dependentes, que viriam a originar um campo de produção de
bens culturais, entre os quais as opiniões políticas, produto de
um subcampo especializado difundido através de todas as insti-
tuições representativas da sociedade organizada, como os parti-
dos e a imprensa.
O fato de emitir uma resposta a um questionário sobre política,
como o fato de votar ou, em outro nível de participação, de ler um
periódico de opinião ou de filiar-se a um partido, é um caso parti-
cular de coincidência entre uma oferta e uma demanda: por um la-
do, o campo de produção ideológica, universo relativamente autô-
nomo, de onde se elaboram, na competência e no conflito, os ins-
trumentos de pensamento do mundo social objetivamente disponí-
veis em um momento dado do tempo, e de onde se define ao mes-
mo tempo o campo do pensávelpoliticamente ou [...] a problemá-
tica legítima-, por outro, certos agentes sociais que ocupam certas
posições diferentes no campo das relações de classes e estão defi-
nidos por uma competência política específica maior ou menor,
quer dizer, por uma capacidade maior ou menor para reconhecer a
questão política como política e tratá-la como tal, respondendo po-
liticamente a ela, quer dizer, respondendo a partir de princípios
propriamente políticos (e não éticos, por exemplo), capacidade que
é inseparável de um sentimento mais ou menos forte de ser compe-
tente no pleno sentido da palavra, isto é, socialmente reconhecido
como habilitado para ocupar-se dos assuntos políticos, para dar
sua opinião a propósito dos mesmos ou inclusive para modificar
seu curso; pode-se, com efeito, supor que a competência no senti-
do de capacidade técnica (cultura política) varia de igual modo que
a competência no sentido de capacidade socialmente reconhecida
[...], que do contrário é impotência e exclusão objetiva (Ibidem, p.
407).
A coincidência entre a oferta e a demanda corresponde na
teoria ao que se conhece por homologia estrutural. A sociedade
é um espaço social em cuja extensão prima a desigualdade. A
pesquisa sociológica possibilita o reconhecimento de homolo-
gias, que consistem na correspondência entre a posição ocupada
96 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
na sociedade e as posições ocupadas ou que tendem a ser ocupa-
das nos mais diferentes campos sociais de pertencimento.17
Des-
tarte, os agentes subordinados no espaço social tendem também
a ocupar uma posição subordinada no campo específico em que
atuam.
Os modos de produção da opinião e a
(in)competència estatutária: a idéia-força
Em 1973, quando da publicação do artigo "L'opinion publi-
que n'existe pas", Bourdieu defendeu três postulados a serem
levados em conta a uma análise rigorosa e fundada das sonda-
gens de opinião:
1) supõe-se em toda pesquisa de opinião "que todo mundo
pode ter uma opinião; ou, em outras palavras, que a produção de
uma opinião está ao alcance de todos" (Bourdieu, 1982, p. 137);
2) "supõe-se que todas as opiniões se eqüivalem" (Ibidem, p.
138);
3) supõe-se que na feitura das mesmas perguntas a todos,
implicitamente se creia que haja "um consenso sobre os proble-
mas, em outras palavras, de que existe um acordo sobre as per-
guntas que merecem ser feitas" (Ibidem, p. 138).
Entretanto, nem todos estão em condições de opinar, ao me-
nos nas mesmas condições. As opiniões são proferidas por agen-
tes cuja competência os impele a opinar. Como produtores legí-
timos de opinião, se assim se sentirem, inclinar-se-ão a opinar
acerca dos problemas legítimos, evidentemente em suas óticas
individuais. Ao contrário, os ilegítimos ou os incompetentes, is-
to é, sem a requerida competência, tendem a deixar as perguntas
sem resposta. Na distribuição das competências, por exemplo,
como influência da divisão do trabalho entre os sexos, Bourdieu
detecta que as mulheres tendem a responder às questões de natu-
reza ética na mesma proporção que os homens, os quais se posi-
cionam mais em matéria de política. Esta mesma relação é veri-
17
Em resumo, um efeito de estratificação social sobredeterminada (coincidente)
entre os agentes dos diversos campos sociais.
As práticas distintivas 97
ficada entre os menos instruídos e os mais instruídos. Bourdieu
observa um abismo entre aquilo que deveria ser a opinião indis-
tinta entre sexos e classes, a da espontaneidade democrática, e
ela como matéria de especialistas competentes, fundadores de
um aristocratismo tecnocrático, de plena realização no exercício
das pesquisas de opinião - o mesmo se derivando às enquetes da
imprensa. Denunciam ao entrevistado sua condição de indigni-
dade estatutária, levando-o a excluir-se como que automatica-
mente do jogo democrático, e a antecipar as demais exclusões
que a prática tecnocrática realizará: "quanto mais uma pergunta
se refere a problemas de saber, de conhecimento, maior é a dife-
rença entre as não-respostas das pessoas mais instruídas e das
pessoas menos instruídas (Ibidem, p. 141). O interesse surge de
alguma competência e a indiferença é a própria manifestação da
impotência. "É através do lar da família que o capital cultural da
escola é acumulado, e a ausência deste capital ao jovem da clas-
se operária é uma barreira muito maior de imobilidade para a
mobilidade social que a pobreza material" (Fowler, 1998, p. 23).
Esta competência a respostas de cunho político não decorre so-
mente de um capital escolar que acarreta uma melhor compreen-
são do discurso político, mas também do próprio sentimento, es-
timulado pelo meio de inserção, a possuir boas razões para ocu-
par-se da política; que os discursos tenham sentido para si.
A competência técnica é à competência social o que a capacidade
de falar é ao direito à palavra, tanto uma condição para o exercício
como um efeito. O efeito de marca (no sentido de ação de marcar)
que produz a imposição de propriedades tais como o status escolar
ou a identidade sexual se impõe ao indivíduo marcado - requerido
deste modo para estar à altura de sua definição social - assim co-
mo também aos demais, que esperam dele que realize sua essência
[...]: unicamente aqueles a quem pertence o possuí-la podem real-
mente adquiri-la e unicamente aqueles que estão habilitados para
possuí-la se sentem obrigados a adquiri-la (Bourdieu, 1991, p.
419).
Uma vez se sentindo com direito à palavra, o agente tende a
proferi-la, mesmo que seja na forma rudimentar de um sim ou
um não pré-fabricados, em uma enquete pré-fabricada, a qual na
98 luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
maioria das vezes coloca em questão problemáticas que nunca
ou pouco fizeram parte do cotidiano do entrevistado, ou ao me-
nos da forma como ele usualmente as percebera, como elas gera-
ram-lhe sentido. Tais perguntas autorizam o entrevistado a res-
ponder a uma pergunta que pode não ter sentido algum para si,
mas que é respondida em virtude de inserir-se em um contexto
de mobilização de opinião, típico das entrevistas, sondagens e
enquetes, que faz com que um agente com grande probabilidade
de não possuir uma idéia coerente acerca de um determinado
tema, venha compor uma estatística que o leva em conta. A coe-
rência da opinião depende do grau em que o agente dependa, pa-
ra a sua reprodução, do campo do qual a problemática é prove-
niente, tomando-o assim interessado, objetiva e subjetivamente,
por sua dinâmica interna.
A opinião pode ser processada, simultaneamente, pelos
agentes integrantes do campo da indústria cultural e do campo
político.18
A imposição de maneira uniforme de certos proble-
mas ao conjunto da sociedade, sobre temas que, de início, são do
interesse de poucos (pelo emprego de questionário com respos-
tas pré-fabricadas), provavelmente produzirá um simples artefa-
to, isto é, "um fenômeno artificial produzido pelo próprio pes-
quisador por ausência de controle do método e/ou do trabalho de
enquete" (Bonnewitz, 1997, p. 31). Não se uniformizam só as
opiniões, os produtos elaborados pelo campo jornalístico, por
exemplo, as notícias, também se uniformizam, em virtude de o
baixo grau de autonomia do campo. Essas enquetes fazem existir
certas opiniões não preexistentes à pergunta. "O efeito funda-
mental da pesquisa de opinião é o seguinte: a idéia de que existe
uma opinião pública unânime é constituída para legitimar uma
política e reforçar as relações de força que a fundam ou a tornam
possível" (Bourdieu, 1982, p. 140). Esse tipo de pesquisa ex-
pressa opiniões que dificilmente seriam expressadas espontane-
amente, isto é, sem a intermediação de um porta-voz autorizado,
que pode assumir faces diversas, seja a do político, a do apresen-
tador do telejomal, ou a do mediador no debate político, mo-
18
Nos dias atuais, Champagne (1995, p. 73-92) prefere integrá-los na designação:
"campo político-midiático".
As práticas distintivas 99
mento de encontro de agentes que ocupam posições diferentes,
mas pertencentes a um mesmo campo.
A manifestação das opiniões ganha força ao mobilizar o
grupo social que a partir delas se expressa e com isto alcança
evidência. "A opinião política não é um juízo puro e puramente
informativo capaz de impor-se pela força intrínseca de sua ver-
dade, mas uma idéia-força que encerra uma pretensão a realizar-
se tanto maior, ao passar ao ato, quanto o grupo que mobiliza
com sua eficácia propriamente simbólica seja mais numeroso e
mais poderoso" (Bourdieu, 1991, p. 424). A idéia-força tem a
sua eficácia simbólica potencializada na medida em que o cam-
po que a difunde possui maior legitimidade. Portanto, como
atenta Louis Pinto (2000, p. 119), quanto "mais legítimo um
mercado, mais os efeitos da dominação simbólica são sentidos
pelos agentes, que procuram deles escapar ou os atenuar sobre-
tudo através do silêncio". Em oposição à maioria silenciosa,
cuja privação expressiva decorre de um sentimento de incompe-
tência, fruto de uma incapacidade técnica, manifesta-se a pala-
vra poderosa dos autorizados à fala; portanto, autoridades, por-
tadores de uma competência estatutária. O conjunto da socieda-
de, em geral menos instruído, condena-se a ter de delegar sem-
pre aos competentes, os mais instruídos que "sabem falar".
"Classificar à la Bourdieu - ou seja, "nomear" - não é somente
criar distinções individuais. E também, ao menos nas classifica-
ções mais significativas, constituir uma consciência coletiva, pa-
ra criar a identidade coletiva" (Lash, 1995, p. 205). A privação
desconhecida e reconhecida da maioria silenciosa em favor de
porta-vozes autorizados favorece o fortalecimento de um campo
de produção de discursos, ocupado por essas autoridades, profis-
sionais especialistas na produção de opiniões. A divisão do tra-
balho político fundamenta-se na consideração tácita que os por-
tadores da titulação acadêmica fazem de seu capital cultural, e
sobretudo o escolar, que os legitima a exercerem essa autorida-
de.
Para Bourdieu, a "opinião pessoal" é uma pretensão, asso-
ciada à pequena-burguesia, o que exige, para que se a explique,
levar em consideração o habitus do qual esta pretensão constitui
uma dimensão. De fato, há uma preocupação crescente, à medi-
100 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
da que aumenta o nível de instrução, por formar uma opinião.
Os instrumentos mais específicos e legítimos, para tanto, são os
chamados diários de opinião, os quais no campo da indústria
cultural se opõem aos "meios de comunicação de massa", em
especial a televisão e o rádio, que oferecem produtos omnibus,
isto é, que visam satisfazer a todos os públicos. O reconheci-
mento das desigualdades de competência estatutária, que interfe-
rem nas condições sociais de possibilidade do juízo político, é
insuficiente para o esclarecimento do problema político que o
sociólogo considera o fundamental, a saber, o dos modos de
produção da resposta a uma pergunta política. O entendimento
do que deva ser considerado como tema político pode variar. Por
exemplo, além das questões típicas envolvendo partidos, a defi-
nição dominante da política leva em conta assuntos mais especí-
ficos, como o aborto. Para Bourdieu, existem três modos dife-
rentes de produção de respostas: o primeiro tem como princípio
o ethos de classe', o segundo tem como princípio um "partido "
político sistemático, ou seja, uma "linha" ou um "programa"
constituinte de uma espécie de axiomática política que possibili-
ta engendrar e prever a infinidade de juízos e de atos políticos; e
o último é o produto de uma eleição em dois graus que relaciona
esses dois princípios anteriores.
O ethos de classe é o princípio gerador dos discursos que
não tomam partido intencionalmente ou dos que não são consti-
tuídos pelo partido. Isto não se dá só com os não-especialistas.
Os produtores profissionais - intelectuais, sociólogos, jornalistas
ou políticos - também estão submetidos a este princípio. Quanto
menor é o domínio sobre os instrumentos de pensamento e de
ação, maior a participação do ethos de classe na produção dis-
cursiva. Aos atores sociais incapazes de responder minimamente
a uma pergunta, cuja significação política não conseguem apre-
ender, resta a vulnerabilidade ao efeito de imposição de proble-
mática. Com isto, autorizam opiniões que lhes são estranhas
como se fossem suas. Eventualmente, essas opiniões podem re-
fleti-los, como também podem colaborar para distorcer comple-
tamente sua realidade. Este efeito de imposição favorece a allo-
As práticas distintivas 101
doxia,19
que emerge a partir de procedimentos retóricos, com a
imposição freqüente de pressupostos, sobretudo na mídia, do ti-
po "é assim em todo lugar" (tudo decorre da "globalização"
etc.). Os agentes menos competentes estão quase totalmente à
mercê dos efeitos dessa imposição. Ela decorre da problemática
pré-fabricada nas respostas, mas pode ser obtida em uma situa-
ção de entrevista jornalística. A hexis corporal do repórter, por
exemplo, pode levar a níveis de intimidação que obtêm do en-
trevistado o que a emissora quer ouvir, ou ciosamente a pauta
proposta pelo chefe de reportagem.
Pois bem, esta problemática não é outra coisa que o campo de
produção ideológica como tal, quer dizer, o universo das relações
objetivas, automaticamente retraduzidas em posturas definidas em
seu conteúdo pelo lugar desde o qual se emitem, entre as posições
ocupadas e defendidas nesse campo pelos agentes e as instituições
em competição pelo monopólio da produção e da imposição da re-
presentação legítima do mundo social e da ação legítima sobre es-
se mundo (Bourdieu, 1991, p. 441).
Uma problemática já constituída politicamente por um de-
terminado grupo tende, àqueles afastados da lógica de sua pro-
dução, a ser captada como um questionamento da realidade prá-
tica que requer uma resposta prática, portanto, moral. Isto acon-
tece com freqüência aos estatutariamente incompetentes em ma-
téria de política e que, em decorrência, tendem a compreender o
tema a partir de princípios práticos, das categorias constituintes
do ethos de classe, o que favorece posicionamentos conservado-
res da ordem moral e social. A recepção ou o uso social que o
público faz de uma pergunta sobre um conteúdo que não fez par-
te de sua experiência pregressa gera conteúdos que dificilmente
ultrapassam os limites do habitus de classe. O tipo de relação
entre o público e a opinião eqüivale a dele com os produtos da
cultura média típicos das indústrias culturais.
19
Efeito de halo. Grafo aqui como nos escritos originais de Bourdieu, que procu-
ra manter um padrão a seus conceitos ao expressá-los em sua forma grega ou
latina. O mesmo serve para as demais noções adotadas. Por exemplo, não em-
prego "ônibus", mas omnibus.
102 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
O mercado de opiniões e discursos:
a oferta e a demanda
Antes de analisar a relação entre as classes e as opiniões po-
líticas emergentes em um determinado momento histórico, por
exemplo pelas estatísticas que apontam a escolha de um ou ou-
tro jornal ou revista mais ou menos marcado politicamente, é
necessário questionar a "significação que as diferentes catego-
rias de leitores conferem à leitura do periódico, e que pode não
ter nada em comum com as funções que normalmente lhe são
atribuídas ou com as que lhe assinalam os produtores ou seus
mandantes" (Bourdieu, 1991, p. 451). O jornal só é um periódi-
co de opinião para alguns poucos que mantêm algum nível de
relação com o campo de produção das opiniões. Portanto, o efei-
to político de um jornal não pode ser medido necessariamente
pela posição que ocupa no campo de produção ideológica e que
define objetivamente o conteúdo político de seu discurso, muito
menos pela quantidade de espaço em suas páginas destinado à
editoria de política. Os leitores podem não dar importância al-
guma à política e, assim, não apreenderem o conteúdo político
proposto pelo veículo de comunicação.
A mídia omnibus, que visa a todos e, portanto, é ciosa por
maximizar sua audiência, o que a valoriza diante dos anuncian-
tes, evita chocar e, com isto, vir a perder parte de seu público
atual ou potencial. Destarte, a discussão política é preterida em
favor do anódino, de modo similar à conversação pessoal entre
desconhecidos num elevador sobre a temperatura, que impede
qualquer risco de polêmica entre si. Todavia, os veículos omni-
bus costumam incorporar um ar govemista ou semi-oficial, ao
privilegiarem na política o que aparenta ser mais esvaziado no
que se refere às temáticas politizadas: as declarações oficiais."
Como a mídia omnibus, existem os partidos políticos catch-all;
ambos descaracterizados no plano das idéias, a fim de que te-
20
Os produtos omnibus são facilmente encontrados em lugares onde é tradicional
a oferta de leituras, como cabeleireiros, salas de espera de médicos etc.
Opõem-se àqueles por demais "marcados" e, portanto, excluídos desses espa-
ços.
As práticas distintivas 103
nham a capacidade latente de alcançar o conjunto da sociedade.
Com o aumento e a dispersão do mercado de consumo, os indi-
víduos passam a ser reagrupados de acordo com seus gostos e
opiniões. Exemplos de bens culturais omnibus são as telenovelas
- que Bourdieu chama de folhetins televisados - os filmes co-
merciais típicos de Hollywood, as mensagens políticas esvazia-
das de conteúdo político etc. As asperezas sociais são lixadas
pelos gestores da ordem estabelecida ao produzirem bens cultu-
rais insípidos, mas a este preço digeríveis a todos os gostos. Para
que se atinja esse maximum do público, a grande mídia realiza
uma operação seletiva chamada de neutralização. Os pequenos
veículos, fiéis a seu programa inicial, caso não desapareçam ra-
pidamente, sobrevivem às custas de um trabalho árduo de seus
integrantes. Porém, para que tenham acesso ao poder, além de
contornarem os conflitos com seu público e os internos, no âm-
bito da unidade de produção, necessitam fazer concessões, esta-
belecendo compromissos ou atenuações, que os colocam em
contradição com suas propostas de origem. Caso isto ocorra,
tendem a romper com a parcela mais antiga e significativa do
público que os ajudara a sobreviver.
[...] se se excetuam os mais politizados, que lêem L'Humanité ou
algum outro periódico de extrema esquerda, os operários e os em-
pregados praticamente nunca vêem no periódico essa espécie de
guia político ou de mentor moral e cultural que, em rigor, talvez
seja só para uma fração dos leitores de Le Figaro, tampouco o ins-
trumento de informação, de documentação e de análise que é, sem
dúvida, só para os alunos de ciência política ou da ENA, os altos
funcionários e uma fração dos professores, quer dizer, para o pú-
blico a quem vai dirigido Le Monde. Além dos resultados e co-
mentários esportivos de segunda-feira pela manhã, de um periódi-
co se espera isso que se denomina "notícias", quer dizer, certas in-
formações sobre o conjunto dos acontecimentos pelos quais al-
guém se sente diretamente afetado porque afetam a pessoas as
quais se conhece [...] ou a pessoas parecidas a alguém, das quais
por procuração se sente sua desgraça, sua miséria ou seu infortú-
nio [...]. O interesse por estas "notícias", que os periódicos chama-
dos "sérios" relegam ao lugar menos importante porque é de bom
tom não lhes fazer demasiado caso, não é, sem dúvida, de natureza
diferente da qual os membros da classe dominante mais próximos
104 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
aos centros de decisão política prestam às notícias chamadas ge-
rais, às nomeações dos membros dos gabinetes ministeriais [...], às
eleições da Academia ou às recepções do Eliseu, às lutas de clãs
dentro dos aparatos políticos ou às guerras de sucessão no seio de
um grande periódico ou de uma grande empresa, para não falar
dos sucessos mundanos ou dos aclamados dos concursos das
grandes escolas. Nos jantares ou nas conversações da existência
burguesa é de onde os nomes próprios de interesse geral [...] reme-
tem a certas pessoas familiares, concretamente conhecidas e fre-
qüentadas, que pertencem ao universo do interconhecimento (o
que contribui em não pouca medida a fazer da leitura de Le Monde
um requisito obrigatório para a entrada "no mundo"). Costuma-se
esquecer que a classe dominante se define precisamente pelo fato
de que tem um interesse particular pelos assuntos determinados de
interesse geral, posto que os interesses particulares de seus mem-
bros estão particularmente vinculados a estes assuntos (Ibidem, p.
453-454).
Bourdieu relaciona a prática da leitura de jornais com o tipo
de interesse pela política; a leitura de um periódico nacional le-
gítimo decorreria de um sentimento de se fazer parte do país le-
gal, de seus direitos de cidadania serem realmente exercidos, de
se fazer política, seja em atos, palavras ou pensamentos. Ao con-
trário, os excluídos são os que recebem a política e as opiniões
que os pautam, sejam as camadas sociais subalternas, as mulhe-
res e os jovens alijados do mercado de trabalho e etc., tenderiam
a preferir o anódino do fait-divers, ilegítimo, mais presente no
jornalismo provinciano, mas com significado para a realidade
desses leitores. A probabilidade de leitura destes decresce à me-
dida que aumenta o capital escolar que aumenta o sentimento de
pertencimento à cultura legítima e de ter o direito e o dever á
leitura de uma publicação legítima.
A análise política supõe a distância, a altura, a posição que permite
uma contemplação, a vista de pássaro por parte do observador que
se situa por cima da peleja, ou a perspectiva do historiador, que se
outorga e outorga um tempo para a reflexão, realizando uma espé-
cie de distanciamento político capaz - o mesmo que o distancia-
mento estético - de neutralizar o objeto em sua presença imediata,
sua urgência, suas funções, de substituir o enunciado direto das
As práticas distintivas 105
palavras ou das consígnias em sua bruta brutalidade pelo eufe-
mismo do estilo indireto [...]. Do mesmo modo que a arte "difícil"
por oposição à arte "fácil" ou o "erotismo" por oposição à "porno-
grafia", os periódicos chamados de qualidade requerem uma rela-
ção com o objeto que implica a afirmação de uma distância com
respeito ao mesmo que é afirmação de um poder sobre ele, ao
mesmo tempo que afirmação da dignidade do sujeito que se afirma
nesse poder. Estes periódicos dão ao leitor bastante mais que as
opiniões "pessoais" que necessita, reconhecem-lhe a dignidade de
sujeito político, capaz de ser se não sujeito da história, ao menos
sujeito de um discurso sobre a história (Ibidem, p. 457).
Nessa linha de raciocínio, defendo a hipótese de que toda
mensagem, todo discurso da mídia, mesmo a descrição aparen-
temente mais "inocente" de um acontecimento fundada na maio-
ria das vezes no mito da objetividade do discurso jornalístico
(que por mais objetivo sempre decorre de algum nível de sele-
ção, somado à naturalização e à eufemização'1
), deva ser consi-
derada como opinião por ser o produto de uma luta em um cam-
po no qual o dominante a expressa ou lhe faz os agentes subor-
dinados às suas ordens. Como tal, possui em maior ou menor
medida um conteúdo político, independentemente de ser ou não
apresentada sob a rubrica de uma editoria de "opinião". O dis-
curso político, quando existe enquanto tal, expressa de modo
mais ou menos eufemizado e universal a representação que os
agentes fazem do mundo social, e pela qual elaboram suas di-
versas eleições, não só as políticas. À medida que o mercado
econômico e simbólico se unifica tomando débeis os espaços
sociais com base local, tende a integrar os interioranos, favore-
21
A eufemização concorre à neutralização dos conflitos discursivos entre os do-
minantes. Uma vez neutralizados, adquirem domínio no campo social mediante
uma força performativa, em que o "dizer é fazer" (ou existir), em consonância a
Austin. Produto da experiência prática, compreende como "naturais" fenôme-
nos sociais originados em relações de poder, que vieram a ser (e estão) natura-
lizados. Entretanto, os dominados também estabelecem estratégias próprias de
neutralização "subversiva": nos coloquialismos e na linguagem comum de, por
exemplo, freqüentadores de bares, o "código subversivo opera pela neutraliza-
ção dos efeitos dos eufemismos tão característicos do código dominante, espe-
cialmente ao desmascarar seu status inapropriado, arbitrário e mesmo contrafa-
tual" (Fowler, 1998, p. 28).
106 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
cendo sua politização no que se refere ao interesse por temas na-
cionais globais, não necessariamente correspondendo a tal ou
qual opção partidária.
[...] A essencial indeterminação da relação entre a experiência e a
expressão se acompanha com o efeito de imposição de legitimida-
de e de censura que exerce o uso dominante da linguagem, tacita-
mente reconhecido, inclusive pelos porta-vozes dos dominados,
como o modo de expressão legítima da opinião política. A lingua-
gem dominante destrói, desacreditando, o discurso político espon-
tâneo dos dominados: não lhes deixa outra coisa que o silêncio ou
a linguagem postiça, cuja lógica já não é do uso popular sem ser
tampouco a do uso culto, linguagem deteriorada, na qual as "gran-
des palavras" só estão aí para assinalar a dignidade da intenção
expressiva, e que, ao não poder transmitir nada de verdadeiro, de
real, de "sentido", priva o que fala da mesma experiência que se
supõe expressa. (Ibidem, p. 472).
Os debates políticos televisados reproduzem essa situação.
Neles, os dominantes no campo em análise procuram fazer valer
seus desejos. O momento do debate é relacionado pelo sociólo-
go ao da enquete. Ambos se comparam à situação escolar pelo
tipo de perguntas formuladas, familiares, por exemplo, a quem
cursou ciência política ou lê os artigos de Le Monde. As respos-
tas adequadas dependem de um tipo de relação social às interro-
gações que pressupõem o distanciamento escolar e a neutraliza-
ção que, na prática, tendem nos debates a discussões políticas
que expressam opiniões idênticas, recheadas por lugares-comuns
e que estabelecem um tipo de consenso provisional, pois são
evitados os "temas perigosos". As questões da política surgem
de um jogo imperfeito, incompatível com uma análise precisa.
Não obstante, a sociologia pode constatar que as definições ofi-
ciais dela não bastam para explicar a política, isto é, suas ativi-
dades, projetos e crenças. Nestas, há uma política não entendida
como política, mas que se constrói por uma(s) prática(s) políti-
ca(s) diferente(s) daquilo que trabalham os profissionais da polí-
tica. Este estado prático da política oculta relações de força,
muitas vezes invisíveis, não perceptíveis a despolitizados, tor-
nando suas relações de sentido irreconhecíveis. Para elucidar es-
sa violência simbólica, cabe à sociologia o emprego de uma con-
As práticas distintivas 107
traviolência simbólica mediante o conhecimento das estruturas
de reprodução dessa dominação.
A ordem social é o produto de mecanismos simultaneamente
independent .s e convergentes, pelos quais ocorre, nos mais dife-
rentes lugan s, a inserção das oposições fundamentais classifíca-
tórias. A eu' ura média que emerge dessa ordem uniformiza os
produtos e *. compartilhada pelo campo da indústria cultural,
leia-se a mídia, e o campo político, campos miscíveis que ten-
dem a constituir um mesmo. O campo jornalístico está relacio-
nado intimamente com o campo do poder, afetando este e os
campos sociais que concorrem para a sua constituição. Este do-
mínio específico será, por conseguinte, tratado no capítulo que
segue.
108 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
4
O domínio do jornalismo1
"Para que o intelectual como mito, e como mito eficaz,
possa existir, para que seja possível o intelectual fran-
cês, que se crê obrigado a intervir na África do Sul, no
Afeganistão ou no Chile, foi necessária a Comuna, foi
preciso o caso Dreyfus, foi preciso Zola. As instituições
de liberdade, como a seguridade social, são conquistas
sociais."
P/erre Bourdieu (A socioanálise do sociólogo).
A acolhida significativa de La Distinction pela comunidade in-
telectual internacional gerou, como contrapartida, o questiona-
mento da análise marginal que Bourdieu fizera até então dos
modernos meios de comunicação,2
pois sua proposta baseara-se
nas práticas culturais das sociedades de consumo avançadas e,
nestas, o consumo dos produtos midiáticos é elevado. A partir da
década de 90, pesquisadores associados a ele, como Patrick
Champagne, Rémi Lenoir, Louis Pinto, Alain Accardo e Domi-
nique Marchetti, estabeleceram elo entre seus domínios especí-
ficos de pesquisa, a obra magna de 1979 e a abordagem sobre a
mídia. Colaboraram, enfim, para que o artigo "L'emprise du
1
Refiro-me aqui ao artigo "L'emprise du journalisme". In: Actes de la recherche
en sciences sociales, n. 101-102, mar. de 1994, p. 3-9.
2
O questionamento é percebido, sobretudo, em alguns artigos da coletânea
Bourdieu - Criticai Perspectives. London, Polity, 1995 (C. Calhoun, E. LiPu-
ma e M, Postone; eds.) e, também, nos artigos de 1986 da revista Media, Cultu-
re & Socieíy (R. Collins, J. Curran, N. Gamham e P. Scannel; eds.), London:
Sage.
O domínio do jornalismo 109
joumalisme" aparecesse em 1994, em número da revista Actes
de la recherche en sciences sociales dedicado ao mesmo tema.
Bourdieu refere-se no artigo ao campo jornalístico, embora suas
pesquisas e de seus companheiros voltem-se ao desenvolvimen-
to de "um novo paradigma para a sociologia do jornalismo cen-
trado no conceito de "campo da mídia" (Benson, 1998, p. 463).
O artigo trata de esclarecer os mecanismos exercidos pelo cam-
po mais vulnerável ao mercado publicitário e de leitores sobre:
1) osjornalistas;
2) os diferentes campos de produção cultural.
Portanto, o sociólogo não pretende nem abordar o poder dos
jornalistas, tampouco o jornalismo como quarto poder. A propó-
sito, o "campo jornalístico é estratégico não porque representaria
um "quarto poder", mas porque ele permite agir por ricochete
sobre diferentes universos sociais" (Marchetti, 2000: 32). Para
entender o campo jornalístico, deve-se notar que este é domina-
do pela lógica de mercado exercida através dele sobre os demais
campos da produção cultural, levando-os a submeterem-se em
menor ou maior grau ao seu domínio, mesmo àqueles campos
mais autônomos. Entretanto, como notava em "Le marché des
biens symboliques", os produtores que o integram se ressentem
pelo índice inferior da autonomia relativa:
Um trabalho intelectual que se realiza coletivamente no interior de
unidades de produção diferenciadas e muitas vezes hierarquizadas
técnica e socialmente e que depende, em ampla medida, do traba-
lho coletivo, passado ou presente, e de instmmentos de produção
dispendiosos, acaba por desvencilhar-se da aura carismática que
envolve o escritor e o artista tradicionais, pequenos produtores in-
dependentes, senhores de seus instmmentos de produção que mo-
bilizam em sua prática apenas seu próprio capital cultural percebi-
do como dom da graça. A desmistifícação objetiva e subjetiva da
atividade intelectual e artística que acompanha a transformação
das condições sociais de produção, afeta particularmente os inte-
lectuais e os artistas engajados em amplas unidades de produção
cultural (rádio, televisão, jornalismo), intelligentsia proletaróide
que se ressente da contradição entre as tomadas de posição estéti-
cas e políticas determinadas por sua posição inferior e marginal no
campo de produção, e as funções objetivamente conservadoras
110 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
(tanto do ponto de vista estético como do ponto de vista político)
dos produtos de sua atividade (Bourdieu, [1970] 1998, p. 153-4).
A importância de avaliar-se o grau de autonomia de um
campo é que tal procedimento propicia a compreensão dos pré-
requisitos próprios do campo ao exercício criativo de resistência
à violência simbólica, pela qual o sistema dominante de hierar-
quização se impõe. A televisão, como subcampo - não exclusi-
vamente como técnica ou meio de comunicação - no campo jor-
nalístico, tem sido determinante à produção de efeitos no seu in-
terior e sobre todos os demais campos. Bourdieu atenta que a
extensão e a intensidade desses são mais importantes que as
acontecidas, por exemplo, com o advento do folhetim e da gran-
de imprensa, no século XIX, e a indignação gerada junto à co-
munidade literária erudita. Os agentes que ocupam posições no
campo jornalístico podem ser ou veiculos de comunicação ou
jornalistas profissionais individualmente. Ao contrário dos dife-
rentes campos da produção cultural, que mais autônomos são
quanto mais livres estiverem das pressões externas, um veículo
jornalístico é mais autônomo quanto maior for o mercado de lei-
tores e de anunciantes, que, preferivelmente, não devem estar
muito concentrados tanto nas rendas da publicidade de iniciativa
privada como nas da subvenção estatal e de suas publicações le-
gais.
Um jornalista particular, da sua parte, é mais ou menos au-
tônomo em função dos seguintes critérios, que podem ser enun-
ciados assim:
1) o grau de concentração da imprensa: a insegurança no
emprego aumenta à medida que se tem o número de empregado-
res potenciais reduzido;
2) a posição ocupada por seu veículo de comunicação no
campo: o jornal, por exemplo, pode estar mais próximo do pólo
"intelectual" ou do pólo "comercial";
3) a posição ocupada pelo jornalista no interior do órgão
de imprensa que o contrata: ser um titular, free lancer, ou um
repórter ou editor etc., determina garantias estatutárias distintas,
0 domínio do jornalismo 111
cujo capital simbólico é transubstanciado em formas como a da
notoriedade.
No artigo de 1975, "Le couturier et sa griffe: contribution a
une théorie de la magie",3
em co-autoria com Yvette Delsaut,
Bourdieu salienta a importância da assinatura na alta-costura:
tende a produzir a crença que consagra o produtor e consigo o
produto. A notoriedade gerada com o efeito de marca, "de grif-
fe", da assinatura, favorece a acumulação de capital econômico
através de salários mais ou menos elevados, e cujo grau de afas-
tamento das pressões do campo econômico e do campo político
favorece a ação autônoma.4
Nas redações, as pressões destes
campos são em muito representadas pela atividade de relações
públicas e sua disseminação de press-releases; os jornais autô-
nomos que, de início, combatiam os "interesses" dos grupos de
pressão, gradualmente passaram a depender das informações re-
passadas por relações públicas contratados por esses grupos.
Com efeito, Michael Schudson (1978, p. 141) ressalta que as
"relações públicas eram um dos desenvolvimentos-chave que fi-
zeram os jornalistas desconfiados dos fatos e prontos para duvi-
dar do empirismo ingênuo [...]. O outro desenvolvimento foi a
propaganda de tempo de guerra"; mas há também a pressão dire-
ta (ou quase) dos patrocinadores do veículo e das relações que
os controladores da empresa jornalística estabelecem com as li-
deranças políticas. A invulnerabilidade dos profissionais, se pos-
sível e aumentada, faz também crescer a quantia que dispõem de
capital social específico;
4) o grau de dependência dosjornalistas em função dos ve-
ículos: para Bourdieu, certos jornalistas, como os especialistas
em economia, ou os vulgarizadores científicos, têm baixa capa-
cidade de produção autônoma da informação.
3
In: Actes de la recherche en sciences sociales, n, 1, 1975.
4
Ribeiro. (1994, p. 103): "No jornalismo, o componente econômico da assinatu-
ra fica bem claro quando ocorre o almejado convite para trabalhar em outro lu-
gar, indicando que o nome do profissional ingressou no placar das cotações.
[...] O ritual do convite pode detonar complexas negociações e o gran finale
ocorre quando a empresa atual cobre a oferta, confirmando o prestígio do pro-
fissional - perante o público interno e os concorrentes. Mesmo se a oferta não
for coberta, o jornalista sairá prestigiado e com melhor salário."
112 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
Os poderes presentes nos diferentes campos agem sobre o
campo jornalístico, mas é sobretudo o campo político através de
suas instâncias governamentais que o constrange. A dominação
por ele praticada pode ser distinguida em duas formas básicas: a
material e a simbólica:
a) a dominação material se expressa notadamente pelas
pressões econômicas5
que um governo pode desencadear junto a
um veículo de comunicação, especialmente no que se refere ao
direcionamento das verbas publicitárias, subvenções, incentivos
fiscais, crédito etc.;
b) a dominação simbólica atenta à luta pelo "monopólio da
informação legítima - dasfontes oficiais notadamente" (Bourdieu,
1994: 4). Os agentes dominantes nos demais campos, não só do
político, mas também do científico etc., valem-se da autoridade
neles investida e, portanto, de sua legitimidade, como arma na luta
de seus campos específicos com o campo jornalístico.
Craig Calhoun (1995, p. 79) nota que, enquanto os modos
mais codificados de transmissão não afetaram de modo impera-
tivo os mais informais da interação pessoal tradicional em países
como a China, a índia, muito da civilização islâmica e de um
certo período na Europa medieval, uma "das características dis-
tintivas do ocidente moderno pode ser a extensão pela qual a
transmissão da informação "oficial" através de canais autoriza-
dos, de fato, tem sido destrutiva da transmissão de informação
através de relações interpessoais diretas". Na luta pelo monopó-
lio da informação autorizada, o termo empregado por Bourdieu
para pontuar a prática dos envolvidos na contenda é manipula-
ção. Se, por um lado, aquelas autoridades ou seus representantes
procuram manipular os jornalistas e os órgãos de difusão para
5
Para Champagne (1994, p. 18), as pressões econômicas expressam, sobretudo,
pressões políticas: "Os produtores culturais da mídia estão situados em uma
posição social próxima da qual ocupam os políticos: os apresentadores dos tele-
jomais, por exemplo, solicitam continuamente os sufrágios dos telespectadores.
A politizaçâo do campo de produção de bens culturais reside menos na decisão
efetivamente política, de colocar o conjunto do funcionamento da televisão em
uma lógica comercial que na lógica mesma do liberalismo econômico, que im-
põe e traduz indissociavelmente uma certa visão política do mundo social si-
tuada nos antípodas da lógica do campo de produção dos bens culturais."
0 domínio dojornalismo 113
que transmitam mensagens que melhor lhes convenham, por ou-
tro, a imprensa também procura manipulá-los, assim como
quaisquer fontes que detenham informações de seu interesse, vi-
sando assegurar exclusividade na obtenção e transmissão. Nos
Estados Unidos, depois da I Guerra Mundial, "os editores e os
repórteres descobriram-se não como parceiros do governo, mas
instrumentos do governo. Eles eram valorizados - e temidos -
não por sua capacidade de representarem a opinião pública, mas
por seu poder de controlá-la" (Schudson, 1978, p. 164). O poder
desproporcional que os integrantes de intituições do Estado
exerce sobre o campo jornalístico deve ser compreendido, prin-
cipalmente, através do poder simbólico dele emanado e das au-
toridades que o compõem. Este espaço estatal possui a capaci-
dade de definir a pauta jornalística e a hierarquia dos aconteci-
mentos mediante a definição de sua agenda diária, não só de
ações e de decisões, mas de interações com a própria imprensa:
entrevistas, coletivas, press-releases etc. Neste sentido, ao me-
nos em parte das notícias relacionadas ao campo político, a sele-
ção das informações que se transformarão em notícias, uma das
atividades fundamentais da prática jornalística, dá-se externa-
mente ao campo.
A gênese do campo e a construção social
da crença na objetividade
Bourdieu importa-se em resgatar a história das noções, dos
conceitos,6
pois é daí que se inicia a ruptura epistemológica. A
constituição do campo jornalístico, assim entendido, deu-se no
século XIX. Este campo corresponde ao segmento de grande es-
cala no âmbito do campo cultural, mas, desde essa época, muito
mais próximo ao campo do poder do que o campo literário. A
legitimidade específica deste era maior que a dele pois era con-
cedida internamente pelos próprios pares. A idéia de campo jor-
nalístico, cabe matizar, deve, em meu juízo, ser associada ao
somatório de "empresa jornalística", "jornalismo" e de "impren-
6
Influência durkheimiana da historicização das categorias.
114 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
sa", de acordo com a distinção operada por Jorge Cláudio Ribei-
ro (1994, p. 19): a empresa jornalística corresponde à estrutura
econômica orientada à comercialização do material impresso; o
jornalismo, ao conjunto de técnicas, conhecimento e ética com
vistas à obtenção de informações; a imprensa, à divulgação pe-
riódica de notícias nos suportes usuais de jornais e revistas. "Es-
ses três elementos assumem significados diferentes, muitas ve-
zes contraditórios, de acordo com a época histórica". Assim, se a
gênese da imprensa e do jornalismo pode ser encontrada no sé-
culo XV, a partir da invenção de Gutenberg, o olhar bourdieu-
siano volta-se à "empresa", não obstante nela esteja contida a
idéia de jornalismo e de imprensa; é deste entrecruzamento dos
três fatores que emerge o campo, expressão de um processo de
autonomia.
Rodney Benson (1998, p. 482) atenta que a importância do
modelo bourdieusiano de pensamento relacionai e espacial faci-
lita a pesquisa comparativa dos sistemas de mídias entre as na-
ções (cross-national). Isso conduz ao mapeamento estrutural dos
campos da mídia nacionais em relação a outros campos sociais,
a compreensão dos padrões "nas relações entre campos do poder
nacionais e a lógica interna e as relações de poder em cada um
de seus respectivos campos da mídia". A estrutura que organiza
o campo jornalístico é homóloga à dos demais campos. É par-
tindo dessa homologia que os jornalistas se identificam - ou não
- com os jornais em que trabalham e o público que os lê:
Jean-Jacques Gautier descreve bem essa afinidade eletiva que une
o jornalista ao seu jornal e, por intermédio dele, ao seu público:
um bom diretor do Figaro, que foi ele próprio escolhido segundo
os mesmos mecanismos, escolhe um crítico literário do Figaro
porque "ele tem o tom que convém para se dirigir aos leitores do
jornal", porque, sem ter necessidade de o querer, "fala natural-
mente a língua do Figaro" e porque seria o "leitor típico" desse
jornal. "Se amanhã, no Figaro, eu me puser a falar a linguagem da
revista Les Temps Modernes, por exemplo, ou das Saintes Chapel-
les de Lettres, não serei mais lido nem compreendido, portanto,
não serei ouvido, porque me apoiarei em certo número de noções
ou de argumentos que o leitor desdenha inteiramente." A cada po-
sição correspondem pressuposições, uma doxa, e a homologia en-
0 domínio do jornalismo 115
tre as posições ocupadas pelos produtores e as de seus clientes é a
condição dessa cumplicidade [...] (Bourdieu [1992] 1996, p. 191).
Embora o campo jornalístico apresente uma relativa homo-
logia estrutural e funcional em relação aos demais campos so-
ciais, que o fortalece junto à sociedade e, por conseguinte, sua
lógica interna específica, o peso do pólo "comercial" é muito
maior do que os princípios e valores "puros" da profissão. Essa
"impureza" estrutural, que toma os jornalistas e seus veículos
muito mais vulneráveis a seduções externas ao seu campo, con-
tribui para que o campo jornalístico reforce o pólo "comercial"
também nos demais campos, mesmo naqueles historicamente
mais autônomos às pressões do mercado. Não obstante, a luta
que Bourdieu atenta entre participantes de um campo passa a
acontecer, gradualmente, entre os do campo jornalístico enquan-
to tais (e não meramente como adversários políticos ou concor-
rentes comerciais).7
Isto não significa que não continuem a exis-
tir relações intensas com o campo do poder. A concorrência que
é invisível ou subestimada pelo público é importante para os
profissionais, salienta Dominique Marchetti (2000, p. 34) ao
pesquisar o jornalismo investigativo. "Se os casos são persegui-
dos por alguns jornalistas, é porque se jogam, através deles, as
reputações inseparavelmente coletivas (as mídias) e individuais
(os jornalistas) e o capital de relações com as "fontes" que eles
podem mobilizar". Os vínculos do campo de produção cultural
ao campo do poder - com o campo jornalístico tendo muito
maior intimidade a esse - são percebidos, por exemplo, no mo-
mento do processo de Flaubert, em virtude de a publicação de
Madame Bovary: "[...] ocasião de mobilizar uma rede de rela-
7
Nos Estados Unidos, por exemplo, os primeiros jornais - de 6 centavos de dó-
lar e dirigidos a uma elite - atacavam os penny papers - de 1 centavo de dólar
e tiragem de massa - pela acusação de sensacionalismo. O sensacionalismo se
associava não ao tratamento dado à informação, mas ao produto que eles ven-
diam, as news, isto é, notícias, em oposição às views, as opiniões daqueles. As
notícias pretendiam representar o mundo de modo colorido, mas sem colorido
partidário. Associavam-se ao advento das modernas sociedades democráticas
de massas e, ainda nessa época, à crença no progresso, à ciência: o reflexo no
conteúdo propriamente jornalístico era a de uma busca, ao menos formal, pela
completude, precisão, vividez e urgência.
116 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
ções poderosa, que une escritores, jornalistas, altos funcionários,
grandes burgueses partidários do Império (seu irmão Achille,
especialmente), membros da corte, e isso para além de todas as
diferenças de gosto e de estilo de vida" (Bourdieu, [1992] 1996:
68). A imprensa esteve ameaçada de censura durante todo o Se-
gundo Império, e colocada, "com muita freqüência, sob o con-
trole direto dos banqueiros, [estando] condenada a relatar, em
um estilo pesado e pomposo, os acontecimentos oficiais ou a
submeter-se a vastas teorias lítero-fílosófícas sem conseqüência
[...]" (Ibidem, p. 69). Entretanto, seus diretores eram temidos e
adulados. Freqüentavam os salões e estabeleciam fortes vínculos
com os políticos. Estes, como os escritores e os artistas, gostari-
am de ter um artigo seu publicado em um dos jornais de prestí-
gio haja vista a ampla difusão das idéias com a produção serial.
Com efeito, a literatura industrializa-se a partir dos jornais, su-
porte fundamental à publicação dos folhetins.
Os industriais da escrita fabricam, segundo o gosto do público,
obras escritas em um estilo fluente de aparência popular, mas sem
excluir o clichê "literário" nem a busca do efeito [...]: assim, Pon-
son du Terrail escrevia todos os dias uma página diferente para Le
Petit Journal, La Petite Presse, jornal literário, L 'Opinion Natio-
nale, jornal político pró-imperial, Le Moniteur, jornal oficial do
Império, La Patrie, jornal político muito sério. Por intermédio de
sua ação como críticos, os escritores-jomalistas instauram-se, com
toda a inocência, como medida de todas as coisas de arte e de lite-
ratura, autorizando-se, assim a rebaixar tudo que os ultrapasse e a
condenar todos os trabalhos capazes de colocar em discussão as
disposições éticas que orientam seus julgamentos e onde se expri-
mem sobretudo os limites ou mesmo as mutilações intelectualmen-
te inscritas em sua trajetória e em sua posição (Bourdieu, [1992]
1996, p. 70).
Essas mutilações eram recusadas pelos agentes sociais que
possuíam as posições mais destacadas no campo, isto é, os escri-
tores consagrados do campo literário erudito. A conquista da au-
tonomia8
do campo pautou-se pela ruptura com o burguês. Para
O marco que sinaliza a autonomia, de acordo com Bourdieu, é a publicação do
J'accuse, de Émile Zola, ao final do século XIX, contexto que será abordado
mais adiante.
0 domínio do jornalismo 117
tanto, os escritores legítimos "inventaram" uma estética pura, "a
arte pela arte", que não poderia jamais submeter-se aos cons-
trangimentos do mercado. Disto, ser chamado "campo de produ-
ção restrita", pois os seus integrantes, na prática, passaram a
produzir para poucos indivíduos além de seus pares. Já o "cam-
po da grande produção", origem do campo jornalístico, não pôde
romper de forma acintosa com o burguês pois este representa o
poder dominante no campo econômico do qual tanto depende.
Seu reduzido grau de autonomia, todavia, não o impedira de per-
segui-la. Se o burguês (ou o político) não poderia ser eliminado,
poder-se-ia ao menos tentar neutralizá-lo: passara-se à produção
interna da crença na objetividade do discurso jornalístico, espé-
cie de contraponto à estética pura do campo erudito. Com efeito,
tomando-se como exemplo a experiência do moderno jornalis-
mo nos Estados Unidos, tem-se, a partir do século XIX, uma dis-
tinção mais significativa entre os jornais informativos, de notí-
cias (news) - sobretudo sensacionalistas -, e os de opiniões e
análises (views). Os primeiros visavam marcar sua distinção des-
tes, ao defenderem os valores da "objetividade": "[...] a separa-
ção dos fatos da opinião mais fora um princípio de tutelagem
que um ideal absoluto no jornalismo" (Schudson, 1978, p. 80).
Os jornalistas americanos, até as primeiras décadas do século
XX, não separavam claramente fatos e valores. O ideal da obje-
tividade é uma crença produzida pelo próprio campo jornalístico
a fim de separá-los. "Os jornalistas vieram a crer na objetivida-
de, na extensão que acreditaram, porque queriam, necessitavam,
eram forçados pela aspiração humana comum a procurarem es-
capar de suas próprias convicções profundas de dúvida e impul-
so" (Ibidem, p. 159). A separação tem sido usada como camu-
flagem para o poder, originando-se, no entanto, do desaponta-
mento do olhar moderno que, por outro lado, favoreceu à crítica:
esta não só voltou-se à idéia de objetividade, revitalizada a fim
de dar suporte ao profissionalismo, mas à própria idéia de pro-
fissionalismo. Os críticos ganharam força nos anos 1960, quan-
do esses ideais tomaram-se abusivos e suspeitos. Num contexto
em que os intelectuais foram percebidos como os "novos man-
darins" e os da noblesse d'Etat, produtores de políticas públicas,
ironizados como "os melhores e os mais brilhantes", a objetivi-
118 luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
dade no jornalismo veio a ser encarada como um modo de re-
cusa ao exame das estruturas fundamentais do poder e do privi-
légio que reproduzem a realidade social. O sociólogo americano
detecta uma anomalia nesta noção de objetividade, uma vez que
a formação dos jornalistas, por exemplo nas faculdades de co-
municação, em nada os autoriza a moldarem as visões de mundo
das outras pessoas. A noção pode ser considerada ainda mais
anômala se considerado que o moderno jornalismo está longe de
uma atividade esotérica: depende do mercado e de ampla abertu-
ra às forças da sociedade.
A manipulação das visões de mundo alheias em um de seus
modos mais intensos corresponde à produção do "doxósofo: esse
"técnico-da-opinião-que-se-crê-cientista"" (Bourdieu, 1998b, p.
16). São os novos intelectuais que apresentam os problemas da
política nos próprios termos que os apresentam os empresários,
"os políticos e os jornalistas políticos (isto é, exatamente os que
podem pagar pesquisas...)" (Ibidem, p. 17). A atitude deles é a
de difundirem deliberadamente uma doxa,9
a fim de que a idéia
nela contida angarie força, ou seja, que venha a ser uma idéia-
força, aquela que tem uma eficácia simbólica que resulta em efi-
cácia material. Apesar de nela não estar excluído o cálculo cíni-
co, os doxósofos muitas vezes fazem o jogo apenas por jogarem
o jogo. É o que Bourdieu ([1972] 1982, p. 158-9) chama de lo-
gocentrismo, forma de etnocentrismo de classe, em cuja lógica
faz dos jornalistas também doxósofos. O "logocentrismo [...]
forma que [...] assume logicamente entre os intelectuais [leva-
os] a apreender e a enumerar como opiniões políticas produzidas
segundo um modo de produção propriamente "político" os pro-
dutos simbólicos de um outro modo de produção". Ele critica
um tipo de "ciência política" ciosa do fornecimento à classe di-
rigente de um receituário de propostas políticas espontâneas,
com a fachada de ciência; um neomaquiavelismo discursiva-
mente neutralizado. Para tanto, os "cientistas políticos" têm-se
9
É o que se tem por senso comum: o conjunto de idéias recebidas, tomadas por
evidentes: as crenças estabelecidas que geram as opiniões comuns, as quais são
adotadas na prática social cotidiana sem serem discutidas, ou seja, sem o por-
quê de sua adoção.
0 domínio do jornalismo 119
valido de uma "neutralidade ostentatória do tom" (Ibidem, p.
154) do discurso, que o sociólogo designa como uma máscara
da objetividade. A produção da objetividade os aproxima em
muito das formas que o jornalismo a constrói. O campo jornalís-
tico, neste sentido, é o mais vulnerável à produção da doxa, pois
nele perpassam vários fatores que o vulnerabilizam: além das
pressões políticas e comerciais diretas, conforme mencionado,
os jornalistas participam dessa espiral "logocêntrica" em virtude
de a reduzida legitimidade de suas opiniões. Portanto, carecem
das opiniões desses "cientistas" para a sustentação das suas.
Ademais, os problemas relativos ao recolhimento de opi-
niões, que Bourdieu detecta nas enquetes políticas, também são
verificados nas reportagens. As enquetes jornalísticas possuem
um controle metodológico inferior ao daquelas dos institutos de
opinião. Portanto, no momento da reportagem, que deve coletar
as informações no espaço social, a probabilidade do repórter
efetuar uma imposição de problemática é muito maior do que a
das pesquisas de opinião. De fato, Patrick Champagne, em "A
visão mediática"10
observa que, a partir dessa imposição, ado-
lescentes respondem aquilo que o repórter "quer" ouvir sobre os
distúrbios no subúrbio onde vivem, fortalecendo com isso o pre-
conceito que a sociedade tem deles, através da reprodução in-
consciente - inculcada - desses preconceitos sociais; falam a
respeito de si mesmos em terceira pessoa, e não em primeira, o
que seria o esperado. Quando isso não acontece, isto é, esse
exercício de dominação consciente ou inconsciente, é porque o
jornalista está, muito provavelmente, à mercê dessa dominação
(em sentido contrário): os agentes sociais entrevistados perten-
cem a campos sociais que produzem ou têm o controle dos dis-
cursos, isto é, são autoridades. Então, neste caso, é o repórter
quem se vulnerabiliza, haja vista a dependência estrutural, não
só dele, mas também de uma extensão significativa do campo
jornalístico ao campo do poder.
10
Champagne (1997).
120 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
Duas lógicas, duas legitimidades
Bourdieu descreve as lógicas que regem o campo cultural e
seus princípios de legitimação em "Le marché des biens symbo-
liques" (1970) e em Les règles de 1'art (1992). As duas análises,
embora considerem o campo da indústria cultural, pouco se de-
têm na especificidade do campo jornalístico. Com efeito, isso só
se efetiva, em 1994 quando "L'emprise du joumalisme" é publi-
cado. Se, por um lado, o artigo é curto, ocupando seis páginas da
revista Actes de la recherche en sciences sociales, por outro, ele
sinaliza diretamente as questões que afetam o campo na década
de 90 do século XX e são estímulo a sua pesquisa. No campo
jornalístico existem duas lógicas opostas e dois princípios de le-
gitimação:
1) a lógica autônoma: os princípios de legitimação são for-
necidos pelos pares que a concedem aos que respeitam os valo-
res internos ao campo;
2) a lógica heterônoma: a legitimação é fornecida pela mai-
oria do público, a audiência externa ao campo, materializada nos
leitores, ouvintes ou espectadores, "portanto, na cifra de venda
(best-sellers) e no lucro em dinheiro, sendo a sanção do plebisci-
to democrático inseparavelmente, nesse caso, um veredito do
mercado" (Bourdieu, 1994, p. 4).
Um empreendimento está tanto mais próximo do pólo "comercial"
quanto os produtos que oferece no mercado correspondem mais
direta ou mais completamente a uma demanda preexistente, e em
formas preestabelecidas. Por conseguinte, a duração do ciclo de
produção constitui sem dúvida uma das melhores medidas da posi-
ção de um empreendimento cultural no campo. Tem-se assim, de
um lado, empreendimentos com ciclo de produção curto, visando
minimizar os riscos por um ajustamento antecipado à demanda de-
tectável, e dotados de circuitos de comercialização e de procedi-
mentos de valorização (publicidade, relações públicas e etc.) des-
tinados a assegurar o recebimento acelerado dos lucros por uma
circulação rápida de produtos reservados a uma obsolescência rá-
pida; e, de outro lado, empreendimentos com ciclo de produção
longo, baseado na aceitação do risco inerente aos investimentos
culturais e sobretudo na submissão às leis específicas do comércio
0 domÍRio do jornalismo 121
de arte: não tendo mercado no presente, essa produção inteiramen-
te voltada para o futuro tende a constituir estoques de produtos
sempre ameaçados de recair no estado de objetos materiais (avali-
ados como tais, ou seja, por exemplo, pelo peso do papel) (Bour-
dieu, [1992] 1996, p. 163).
O sociólogo atenta para a necessidade de respeito à deonto-
logia interna. Os agentes impõem-se uns aos outros mecanismos
de controles e constrangimentos: sanções negativas no caso de
desrespeito; as sanções positivas são raras, reduzidas a algumas
reprises ou a citação da fonte por um órgão menor, a fim de evi-
tar um possível descrédito. A propósito da citação da fonte, o
sociólogo parece surpreso em não haver sanções negativas no
que se refere a sua omissão, mas a lei brasileira garante o sigilo
de sua divulgação. Destarte, não se presta à mesma lógica do
campo acadêmico, pela qual a citação serve como uma manifes-
tação de apreço e reconhecimento, isto é, uma sanção positiva.
No caso brasileiro, detecto um emprego abusivo da sanção posi-
tiva: as reprises têm valor discutível à medida que, nos últimos
anos, o campo jornalístico trata de produzir bens simbólicos
cujos temas são extraídos do próprio campo; os motivos deixam
de ser buscados na realidade e são apanhados na mídia em geral
e nas próprias redações, ao que chamaria de auto-indulgência
jornalística, que seria um tipo de collusio. Bourdieu (1997b, p.
173) explica como se processa a collusio, relacionando-a ao en-
gendramento do habitus:
[...] o habitus não é de modo algum o sujeito isolado, egoísta, e
calculista da tradição utilitarista e a dos economistas [...]. Ele é o
lugar das solidariedades duráveis, das fidelidades incoercíveis,
porque fundadas sobre leis e laços incorporados, tais como o espí-
rito de corpo (cujo espírito de família é um caso particular), ade-
são visceral de um corpo socializado do corpo social que o fez e
com o qual se faz corpo. Por aí, é o fundamento de uma colusão
implícita entre todos os agentes que são o produto de condições e
de condicionamentos aparentes, e assim de uma experiência práti-
ca da transcendência do grupo, de suas maneiras de ser e de fazer,
cada um encontrando na conduta de todos seus pares a ratificação
e a legitimação [...] de sua própria conduta que, em retomo, ratifi-
ca e, no caso de falha, retifica a conduta dos outros. Acordo ime-
122 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
diato nas maneiras de julgar e de agir que não supõe nem a comu-
nicação das consciências, nem menos ainda uma decisão contratu-
al, esta collusio funda uma intercompreensão prática cujo para-
digma poderia ser o que se estabelece entre os componentes de
uma mesma equipe, mas também, apesar do antagonismo, entre o
conjunto dos jogadores engajados em uma partida.
De modo diferente dos campos mais autônomos que com-
põem o campo cultural, o campo jornalístico está à mercê cons-
tante dos vereditos do mercado. Ter audiência ê o critério fun-
damental, pois ela garante o consumo dos bens que o campo
produz e ao mesmo tempo a atração de fontes de financiamento,
sobretudo a dos anúncios publicitários. A busca por audiência
tem efeito imediato na atividade dos jornalistas: como precisam
agradar um máximo de público, produzem textos que idealizam
um leitor médio. O resultado disto são textos "objetivos", curtos,
simples, iniciados, no caso brasileiro e norte-americano, pelo
parágrafo chamado de lead (ou lide, de acordo com o aportugue-
samento), em que se concentram as principais informações da
notícia, "poupando" o leitor de ter de lê-la até o final. De modo
semelhante à idealização de um leitor médio, os produtos e os
produtores são avaliados ("vende bem", "passa bem na TV" e
etc.). A preponderância da lógica econômica e a intensificação
da concorrência midiática favoreceram as "escorregadas" na fa-
bricação da informação, levando, na experiência francesa, à ins-
tituição dos "mediadores", equivalentes aos ombudsmen, dota-
dos de um tipo de olhar exterior sobre as práticas jornalísticas
que zela pelas regras deontológicas. "A instituição do mediador
é assim, para os jornais que querem provar a seus leitores sua
"seriedade", uma resposta possível à crise de confiança que pa-
rece atravessar os mass media " (Champagne, 2000, p. 8).
Não obstante, reconhecida a lógica mercadológica, há um
problema que autores como Raymond Williams e Nicholas Gam-
ham" detectam no pensamento bourdieusiano; o interesse no
11
É precisamente por salientar seu 'desinteresse' [o dos integrantes do campo
cultural], no sentido de sua distância da crueza dos valores materiais que eles
maximizam seu interesse em termos do valor ao qual podem finalmente conver-
ter seu capital cultural em capital econômico. Alternativamente, assegurar a re-
produção de seu capital cultural [...]. O problema não é que Bourdieu esteja
0 domínio do jornalismo 123
campo reflete o jogar o jogo, e não necessariamente a interven-
ção direta das chamadas indústrias culturais na elaboração dos
bens simbólicos difundidos. A preocupação reporta-se ao que
Bourdieu propõe como efeito de homologias, que tende a repro-
duzir na estrutura dos campos a estrutura de classes; mas o que
eles não estão a considerar é a antigüidade no campo, que tam-
bém conta e, com ela, a condição de possibilidade da conquista
de legitimidade específica ao ator social com o passar do tempo,
mesmo que este se volte àquelas indústrias que "consomem" a
notoriedade do produtor legítimo. Na história da televisão brasi-
leira, por exemplo, podem ser enumerados vários casos em que
as grandes corporações recrutaram dessa forma artistas e jorna-
listas legitimados a partir de seus pares (como os da imprensa al-
ternativa).
Na lógica própria do campo jornalístico, o pólo ortodoxo,
como no campo cultural, tende a ser ocupado por aqueles profis-
sionais que ocupam posição mais elevada, em veículo que ocupe
também posição elevada, e mais antigos na profissão. Ao contrá-
rio, a heterodoxia parte em geral dos mais jovens, "menos esta-
belecidos e mais propensos, ao contrário, a opor os princípios e
os valores da 'profissão' às exigências, mais realistas ou mais
cínicas, de seus 'veteranos'." (Bourdieu, 1994, p. 5).12
Essas
meramente preocupado com o estabelecimento de um relacionamento determi-
nado entre a apropriação de classe e a apropriação cultural em um estado dado
do campo de consumo cultural, nem entre classe cultural e produção cultural,
em um dado estado do campo de produção cultural. O problema é mais difícil e
complexo que esse pelo qual sua teoria geral da prática, bem como sua teoria
específica do poder simbólico, requer dele a explicação de como as práticas li-
vres, aparentemente autônomas, dos agentes envolvidos nos dois campos dife-
rentes e, portanto, cujas ações são governadas por uma lógica específica dife-
rente da prática, como elas tanto interagem como não apenas produzem, mas
reproduzem, os padrões de classe da prática cultural em geral e por isso ten-
dendo a reproduzir um conjunto dado das relações de classe em geral (Gar-
nham; Williams [1986] 1996, p. 127).
12
Para Bourdieu, a exemplo do campo literário, há um critério exterior de sucesso
que é a venda e um interior que é a "seriedade" jornalística. Assim, como
Schudson historicizou a noção de objetividade, haveria, creio, de se historicizar
a idéia de seriedade; o próprio Schudson propicia pistas dessa história, mas pa-
ra a realidade norte-americana. Os dois critérios distintos apontados pelo soció-
logo geram uma estrutura quiasmática à distribuição complexa. Para cada meio
124 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
transgressões, no curso da história, se persistentes com eficácia,
tendem a assimilar-se pelo campo, podendo vir a constituir no-
vas ortodoxias. A teoria, quando aplicada a realidades como a
brasileira e a norte-americana, depara-se com nuanças e mesmo
oposições se comparadas com a realidade francesa. Por exem-
plo, na história do campo jornalístico desses dois países, em
mantendo-se no conflito de gerações, comumente foram busca-
dos os jovens e inexperientes por melhor se moldarem e se sub-
meterem às exigências, a sua obediência e o bom-mocismo in-
gênuo ou cínico orientado por uma aguçada ambição servil. En-
quanto isto, os antigos, foco tradicional de resistência, costuma-
vam ser eliminados. "O aliciamento praticado pela empresa é
especialmente eficiente no caso dos neófitos, feitos editores em
promoções fulminantes que subvertem todo um sistema de pres-
tações, fídelidades, competências e lideranças sedimentado ao
longo do tempo." (Ribeiro, 1994, p. 153). Exemplo foi verifica-
do no momento da implementação do "Projeto Folha", da Folha
de S. Paulo. Aqueles que deveriam introduzi-lo ao grupo eram
jovens e inexperientes, que tinham que se chocar com todo tipo
de dificuldade e incompreensão, advindas dos ressentimentos e
resistências dos profissionais mais antigos e deslegitimados, pela
empresa jornalística e não pelos pares diretos, ao serem introdu-
zidos novos procedimentos à rotina de trabalho. Nos Estados
Unidos13
deu-se o mesmo: os publishers da grande indústria jor-
nalística optaram pelo entusiasmo educado, muitas vezes ingê-
nuo, e pouco contestador dos jovens contratados.14
Com efeito,
de comunicação, verifica-se um pólo "comercial" e um pólo "cultural", cada
qual funcionando como um subcampo, e que organiza o conjunto do campo, de
maneira que se está diante de uma série de estruturas encaixadas (do tipo
a:b:bl:b2). Para uma visualização desta estruturação, atente ao gráfico do cam-
po de produção cultural neste capítulo.
13
Schudson, op. cit., p. 69.
14
"Os sucessores, quase indiscemíveis dos predecessores, distinguem-se destes
sobretudo pela distância temporal que os separa. Nesse caso, a aparência
de eternidade não resulta do curso natural das coisas, mas da garantia temporal
que somente as instituições (escola, Estado, igreja e etc.) podem fornecer. A e-
ficácia das estratégias de reprodução pressupõe que os instrumentos disponí-
veis se ajustem ao espaço de possíveis. Pode-se perfeitamente imaginar uma
discordância resultante do colapso da circulação de capitais possuídos [...]"
0 domínio do jornalismo 125
as estratégias de reprodução, para serem eficazes, devem ajustar-
se ao espaço de possíveis. Assim, em situação de crise revolu-
cionária, expurgos, repressão, ou de guerra, pode haver um co-
lapso da circulação de capitais, a partir do qual, de acordo com
Louis Pinto (2000, p. 160), "o capital político acumulado sob a
forma de fidelidade à causa e ao partido tende a prevalecer sobre
as outras espécies de capital, especialmente o intelectual, o eco-
nômico e até o militante (a "velha guarda" eliminada em favor
de neófítos mais dóceis)". Em sentido similar, o "Projeto Folha",
crise instituída no seio da redação, pode ter seus expurgos expli-
cados a partir dessa perspectiva. A militância de jornalistas his-
tóricos era obstáculo ao "partido" Folha de S. Paulo, que podia
contar com jovens fiéis e dispostos a cooperarem com a "causa"
da implantação das reformulações definidas pela companhia.
O tempo e a amnésia, a concorrência
e a uniformização
O produto típico do campo jornalístico são as notícias, cuja
perecibilidade é bastante acentuada. A consciência desse fato
impele os atores sociais do campo a buscarem continuamente a
novidade mais recente entre as diversas que surgem no cotidia-
no, o que leva a um gradual esvaziamento de sentido da infor-
mação jornalística, pois o novo toma-se rapidamente velho e,
logo, esquecido. Este esquecimento é um problema não só para
os integrantes do campo de produção, como também para o
campo do consumo, pois todos consumirão, em última instância,
informações com grande probabilidade de estarem descontex-
tualizadas. "Na lógica específica de um campo orientado para a
produção desse bem altamente perecível que são as notícias, a
(Pinto, 2000, p. 160). Presumo que, na experiência brasileira, essa eficácia ins-
titucional esteja muito vinculada aos próprios veículos de comunicação e, mui-
to pouco, às escolas de jornalismo. A propósito, a relação destas e daqueles é
marcada pela desconfiança mútua: a tendência dos grandes jornais de monta-
rem seus próprios cursos dejornalismo aplicado reforça a disseminação de cer-
tos valores como o individualismo e a competição entre esses indivíduos. De
qualquer maneira, é algo que exigiria uma pesquisa rigorosa.
126 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
concorrência pela clientela tende a tomar a forma de uma con-
corrência pela prioridade, quer dizer, pelas notícias mais novas
{o furo) - e isso tanto mais, evidentemente, quanto se está mais
próximo do pólo comercial" (Bourdieu, 1994, p. 5). O trunfo do
furo só importa e é percebido pelos próprios jornalistas que con-
correm entre si, os quais, por necessidade de profissão, precisam
ler mais de um jornal. O leitor que é o estímulo a essa conquista,
pois é quem de fato deve ser conquistado, não chega a percebê-
la na maioria das vezes.
Rogers Brubaker (1995, p. 221) observa que como "outras
disposições profissionais, adquiridas relativamente tarde na vida,
a disposição para pensar em termos disposicionais pode ser pen-
sada como o produto integrado de (1) certas disposições anterio-
res e (2) o estado e a estrutura de certos campos intelectuais".
Com efeito, a concorrência pela prioridade favorece os jornalis-
tas dotados de disposições à urgência, isto é, os dispostos a pra-
ticarem o jornalismo de modo que este esteja colocado sob o
signo da velocidade e da renovação permanente15
muito vulne-
rável às pressões discursivas do campo do poder. O próprio va-
lor da atualidade da informação e a temporalidade da prática -
como, por exemplo, o de ter que realizar o fechamento do jornal,
em tal hora, todos os dias - reforçam essas disposições, favore-
cendo a chamada amnésia estrutural, efeito negativo da exalta-
ção da novidade, em que o interesse dos profissionais só se volta
às atualidades, ao novo, que se opõe ao ultrapassado. Mas, nesta
lógica, é bem fácil os produtos e produtores novos já se toma-
rem ultrapassados.
Se a afirmação "é ultrapassado" pode ter lugar hoje com tanta fre-
qüência, e bem além do campo jornalístico, de toda argumentação
crítica, é também que os pretendentes apressados têm um interesse
evidente em empregar esse princípio de avaliação que confere uma
vantagem indiscutível ao recém-chegado, quer dizer, ao mais jo-
vem, e que, sendo redutível a algo como a oposição quase vazia
15
A censura estrutural é outro efeito verificado no campo, no que se refere às re-
lações com o tempo, sobretudo verificado no subcampo televisivo, onde os
tempos, muitas vezes impostos de maneira arbitrária e na maioria das vezes
despercebida, pesam sobre as palavras dos participantes dos programas, fazen-
do-os superficiais ou, até mesmo, calarem-se.
0 domínio dojornalismo 127
entre o antes e o depois, dispensa-os de mostrar suas capacidades
(Bourdieu, 1994, p. 5).
Esta posição do sociólogo talvez possa explicar em parte
aquilo que a relação entre agentes ortodoxos e heterodoxos, no
jornalismo brasileiro e norte-americano, contraria sua proposta
teórica à estruturação geral do campo de produção cultural. Es-
ses jovens jornalistas, no entanto, caso isso se confirme, repre-
sentariam um "novo" com forte suspeita de cinismo, este outrora
associado aos antigos.
A concorrência gera um efeito no campo jornalístico que, di-
ferente da originalidade e da diversidade possibilitadas em ou-
tros campos de produção, nele produz a uniformidade da oferta.
Os agentes sociais do campo adotam permanentemente práticas
de benchmarking que os levam a copiar os sucessos de seus pa-
res, assim como evitar os seus fracassos. Para Bourdieu, isso
pouco favorece a afirmação da autonomia, seja ela individual ou
coletiva. Porque tal ou qual veículo cobriu isto ou aquilo deste
ou daquele jeito, há de se cobrir aquilo ou isto daquele ou deste
jeito. Esta lógica é a mesma para a escolha dos assuntos, perso-
nagens, convidados, enfoques etc., como se diz entre produtores
de televisão, "só os confirmados". A tendência se verifica ao se
compararem os conteúdos presentes nos veículos de grande au-
diência, sejam da televisão, do rádio, ou da imprensa; subme-
tem-se as "escolhas desses confirmados" aos vereditos do mer-
cado, pela audiência e sua conseqüência, a publicidade;
o que contribui para orientar toda a produção no sentido da con-
servação dos valores estabelecidos, como o atesta, por exemplo, o
fato de que as listas de premiações periódicas, pelas quais os inte-
lectuais-jomalistas esforçam-se em impor sua visão do campo (e,
graças ao "toma-lá-dá-cá", o reconhecimento de seus pares...), jus-
tapõem quase sempre autores de produtos culturais altamente pe-
recíveis e destinados a figurar durante algumas semanas, com o
seu apoio, na lista dos best-sellers e autores consagrados que são a
uma só vez "valores seguros" capazes de consagrar o bom gosto
dos que os consagram e também, enquanto clássicos, best-sellers
de longa duração. Quer dizer que, mesmo que sua eficiência se
cumpra quase sempre através das ações de pessoas singulares, os
mecanismos de que o campo jornalístico é o lugar e os efeitos que
128 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
eles exercem sobre os outros campos são determinados em sua in-
tensidade e sua orientação pela estrutura que o caracteriza (Ibi-
dem: 5-6; grifo meu).
O campo jornalístico também submete outros campos: ele
tem reforçado os agentes e as instituições situados mais próxi-
mos ao pólo comercial e submissos à lógica do mercado. Bour-
dieu chama este processo de "heteronomia": enquanto a auto-
nomia possibilita o funcionamento de um campo qualquer de
acordo com sua lógica específica, a heteronomia leva-o a operar
de acordo a uma lógica externa; cada vez mais regrada pelos in-
teresses localizados no campo econômico. Os campos de produ-
ção cultural, notadamente, puderam desenvolver-se graças aos
seus interesses internos que, por exemplo, permitiram o desen-
volvimento da pesquisa científica básica, independente dos
constrangimentos e da aprovação externa. A autonomização só
foi possível graças a illusio dos seus participantes, que os levam
a interessar-se por jogar o jogo, e por mecanismos de sanção in-
terna, negativa para aqueles que transgridem as regras e positiva
para aqueles que cumprem os ditames.
As lutas pelo monopólio da definição do modo de produção cultu-
ral legítimo contribuem para reproduzir continuamente a crença no
jogo, o interesse pelo jogo e pelas apostas, a illusio, da qual são
também o produto. Cada campo produz sua forma específica de il-
lusio, no sentido de investimento no jogo que tira os agentes da
indiferença e os inclina e dispõe a operar as distinções pertinentes
do ponto de vista da lógica do campo, a distinguir o que é impor-
tante ("o que me importa", interest, por oposição "ao que me é
iguar, in-diferente). Mas é igualmente verdade que certa forma de
adesão ao jogo, de crença no jogo e no valor das apostas, que fa-
zem com que o jogo valha a pena ser jogado, está no princípio do
funcionamento do jogo, e que a colusão dos agentes na illusio está
no fundamento da concorrência que os opõe e que constitui o pró-
prio jogo. Em suma, a illusio é a condição do funcionamento de
um jogo no qual ela é também, pelo menos parcialmente, o produ-
to (Bourdieu, [1992] 1996, p. 258).
Aqui é clara a inspiração de Bourdieu em Wittgenstein: o in-
teresse no jogo, a crença em suas apostas, impele os agentes à
obediência de sua lógica, ao seguir suas regras. As regras exis-
0 domínio do jornalismo 129
tem a partir das regras que elas próprias animam. Isto só é pos-
sível "através do nosso entendimento incorporado. Isto é a que
chega Bourdieu com seu habitus" (Taylor, 1995, p. 58). Defini-
mos uma regra a partir de sua representação. "Bourdieu argu-
menta que uma distorção importante ocorre quando entendemos
a regra tal como representada (rule-as-represented) como o fator
efetivo. A distorção surge do fato que estamos tomando um sen-
tido situado, incorporado, e fornecendo uma representação ex-
pressa dele" (Ibidem, p. 55). Mas, na lógica própria do campo, o
exercício da habilidade prática, que só existe sendo exercitada, e
que se desdobra no tempo e no espaço, conduz os agentes a per-
seguirem - e produzirem — suas regras. Do contrário, perdem o
jogo ou, o que dá no mesmo, estão fora dele.
No entanto, as sanções internas do campo jornalístico per-
dem cada vez mais a eficácia simbólica: como o princípio de le-
gitimidade no campo se desloca ao do mercado, mesmo "os jor-
nalistas e os jornais "sérios" perdem sua aura e são, eles pró-
prios, obrigados a fazer concessões à lógica do mercado e do
marketing" (Bourdieu, 1994, p. 6), sobretudo a da televisão co-
mercial e a tendência em verem-se obrigados, como necessidade
de sobrevivência na profissão, em terem visibilidade. O sucesso
que certas análises televisivas obtêm junto aos jornalistas, sobre-
tudo mais heterônomos, deve-se ao fato de conferirem uma apa-
rência de "legitimidade democrática à lógica comercial, conten-
tando-se em colocar em termos de política, portanto de plebisci-
to, um problema de produção e de difusão culturais" (Ibidem).
A lógica tendencial à heteronomia que o campo jornalístico
exerce com suas práticas por sobre os campos de produção cul-
tural, notadamente no que se reporta à produção em ciências so-
ciais e filosofia, tem como início de sustentação a prática de
agentes sociais heterônomos, isto é, aqueles produtores culturais
que ocupam uma posição indefinida entre o campo jornalístico e
os campos de produção cultural especializados. São esses agen-
tes que Bourdieu chama de "intelectuais-jomalistas": por um la-
do, possuem um capital cultural mais elevado que a média veri-
ficada no meio jornalístico, o que lhes possibilita um espaço de
atuação, mas, por outro, seu capital social específico nos campos
de produção social especializada é baixo, em virtude de se es-
130 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
quivarem de suas exigências internas. Cabe notar que, ao mesmo
tempo, eles costumam também se esquivar das exigências inter-
nas próprias do campo jornalístico. Para tanto, introduzem os
poderes que adquiriram em um campo como fator de legitima-
ção no outro, embora, em princípio, os critérios de legitimação
neste ou naquele tenham sido distintos no transcurso da história
autônoma desses campos. "Em parte, essas invasões devem-se a
aspectos puramente intelectuais do jornalismo, um intelectua-
lismo generalizado com interesse em demolir os enclaves aca-
dêmicos especializados e em celebrar aqueles intelectuais públi-
cos a seu próprio ecletismo amador" (Benson, 1998, p. 472). A
expansão do sistema universitário na França e o surgimento de
um "exército de reserva" de trabalhadores culturais desempre-
gados incentivaram jovens pertencentes a certos campos espe-
cializados, impossibilitados de ascensão pela via da consagração
de seus pares, a buscarem o uso dos mass media como arma
contra a "velha guarda" ortodoxa.
Os agentes heterônomos provocam dois efeitos principais:
1) a emergência de formas novas de produção cultural: um
meio-termo mal definido entre o esoterismo universitário e o
exoterismo jornalístico;
2) a imposição de seus princípios de avaliação das produ-
ções culturais: ao mesmo tempo, ratificam a autoridade daque-
las produções heterônomas, isto é, bastante vinculadas aos inte-
resses do mercado, cuja autoridade intelectual, em verdade de
simples aparência, é legitimada pela mídia, um campo incompe-
tente para tal. Esta prática reforça a inclinação espontânea de
certos grupos de consumidores à allodoxia: "[...] um erro de
identificação, uma forma de 'falso reconhecimento'" (Marlière,
1998, p. 233). Por serem privados de oportunidades a certas ex-
periências, os atores sociais dominados tendem à "imaginação"
do que seriam certos produtos e práticas, que acarreta um hiato
entre a realidade e a representação que fazem dela. Este erro de
identificação allodóxico tende a reforçar o efeito de índice de
audiência ou de best-sellers, isto é, a lista dos sancionados pelo
mercado muitas vezes artificialmente por estratégias de marke-
ting. Em um primeiro momento, orientam as escolhas dos con-
sumidores, e em outro, a dos próprios produtores, sobretudo os
0 domínio do jornalismo 131
mais dependentes do mercado, por exemplo, os editores que se
submetem à produção dos vendáveis tão-somente, os "sucessos
garantidos". Na maioria das vezes, produtos menos requintados,
mas de amplo apelo (publicitário principalmente) junto à recep-
ção. Em pouco tempo, nessa tendência, a produção inovadora e
original ruma ao desaparecimento. No caso dos jornais, eles
alimentam o próprio ciclo de sua submissão.
E eles podem contar com o apoio dos que [...] tomam produtos de
cultura média por obras de vanguarda (e não apenas em matéria de
arte); [•••] propensos à allodoxia por sua distância do "foco dos va-
lores culturais" e por sua interessada tendência a dissimular de si
mesmos os limites de suas capacidades de apropriação - segundo a
lógica da selfdeception, bem evocada pela fórmula freqüentemen-
te empregada pelos leitores de revistas de vulgarização: "é uma
revista científica de altíssimo nível e acessível a todos" (Bourdieu,
1994, p. 6).
A allodoxia, enfim, favorece o declínio da verdade. A im-
prensa pode bem se sustentar pela mera verossimilhança-, se ti-
ver a credibilidade como capital social específico desvalorizado
no mercado de capitais em que os leitores investem, como acon-
tecia com a imprensa sensacionalista do fim do século XIX, por
exemplo no New York World de Joseph Pulitzer.16
Em um outro
trabalho17
inspirado na teoria bourdieusiana, associo a verossi-
milhança à produção de crenças, reproduzidas pela representa-
ção que jornalistas fazem da realidade. O investimento nos este-
reótipos é suficiente para a credibilidade e um retomo em audi-
ência. Essa atividade engendra uma dinâmica social das repre-
sentações, conforme proponho no diagrama abaixo:
DINÂMICA SOCIAL DAS REPRESENTAÇÕES
REALIDADE impressões -> crenças
t
estereótipos<-credibilidade JORNALISTA
16
Schudson. Op. cit. p. 101: "as estórias [...] poderiam não ser verdadeiras mas
precisavam parecer verdade ou, no mínimo, possíveis, e as pessoas vivem por
seu conceito do possível."
17
Cf. Miranda (2002).
132 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
Bourdieu compara o jornalismo, que abre mão de sua auto-
nomia ao submeter-se ao mercado, à ciência, caso tivesse que, a
cada experimento, se submeter ao sufrágio universal. Cabe per-
guntar-se até que ponto essa autonomia sempre existiu, afinal
sem autonomia não há campo, pois este é constituído a partir de
interesses específicos não redutíveis aos de outros campos, apre-
sentados por seus agentes participantes que compartilham da il-
lusio. Patrick Champagne (1995, p. 219) defende a existência de
uma ambigüidade no jornalismo, ou melhor, uma "posição am-
bígua" no campo do poder. Isto se deve ao fato do poderio dos
efeitos gerados pelo campo. Isto é a razão pela qual os campos
político e econômico têm forte interesse em dominá-lo e, de fa-
to, tomam-no fortemente dominado. Ademais, no ocidente "o
poder político é exercido sobre a imprensa na forma indireta de
poder econômico".
Zo/a e o declínio do judiciário
A teoria relaciona campos sociais contextualizados em rela-
ção ao campo do poder que contribuem a constituir. Como
exemplo de caso, cuja contribuição, creio, pode servir de estí-
mulo a pesquisas futuras, destaco um episódio da história da
França em que estão relacionados o campo militar, o campo ju-
rídico e o campo de produção cultural.
[...] uma das funções para minhas propostas para a teoria dos cam-
pos é eliminar a oposição entre reprodução e transformação, está-
tica e dinâmica, estrutura e história. Como tentei demonstrar no
campo literário francês na época de Flaubert e do campo artístico,
na de Manet, não é possível entender a dinâmica de um campo se-
não mediante a análise de sua estrutura e, da mesma maneira, tam-
pouco podemos compreender esta estrutura sem a análise genética
de sua constituição e das tensões entre as posições que o constitu-
em, ou entre este campo em seu conjunto e outros campos, em es-
pecial o do poder (Bourdieu; Wacquant, 1995, p. 57).
Destarte, o episódio é o Caso Dreyfüs: o marco que sinaliza
a autonomia do campo de produção cultural francês no fim do
0 domínio dojornalismo 133
século XIX, de acordo com Bourdieu, é a publicação do
J'Accuse, de Émile Zola. Em 1894, papéis foram encontrados no
escritório do exército alemão na França, que indiciariam Alífed
Dreyfus, capitão do exército francês, como traidor: a caligrafia
era atribuída a Dreyfus, mas isto não fora pacífico entre os peri-
tos. Além da inconsistência das provas apresentadas, o oficial
declarava-se inocente. Mesmo assim, fora posto incomunicável
e julgado secretamente em tribunal militar, em que não pôde se-
quer examinar as provas de acusação. O estigma do ser judeu fo-
ra potencializado pela imprensa, jogando a opinião pública con-
tra o acusado. Conseqüência: expulso do exército em cerimônia
pública humilhante, Dreyfus foi enviado à Ilha do Diabo a fim
de cumprir pena de prisão perpétua. Descobriu-se, três anos de-
pois da condenação, que o comandante Esterhazy era o verda-
deiro traidor. Abriu-se um inquérito em cujo processo, apesar
das provas, Esterhazy foi inocentado. Essa era a melhor solução
para o exército, pois, declarando o réu culpado, seria obrigado a
revisar o processo Dreyfus. O campo jurídico no caso, que deve-
ria ser relativamente autônomo, apresentava acentuada subordi-
nação ao campo militar. Mesmo que se considere o fato de que
Dreyfus fora julgado em um tribunal militar, a ascendência do
corpo militar não-togado sobre o processo foi desproporcional.
A parcialidade foi a tônica: veredito preestabelecido uma vez
que o Alto Comando do Ministério da Guerra tomara público
seu posicionamento, afirmando a culpabilidade do réu. O princí-
pio jurídico da publicidade, que assegura o direito à discussão
ampla das provas, não ocorreu (nem mesmo o réu conheceu seu
conteúdo). E ainda houve a manipulação e a influência da opi-
nião pública. Da sua parte, o campo de produção cultural, dife-
rente do campo jurídico que se autonomizara no século XIV e
que fora coroado, após a Revolução Francesa, com o Código
Napoleônico de 1804, só consolida sua autonomização em fins
do século XIX. No Caso Dreyfus, tudo poderia ter terminado
mal se não fosse o texto de Zola, publicado no jornal L 'Aurore.
Rara exceção, pois a maioria da imprensa aderira aos ataques ao
militar. Zola já era naquela época um consagrado escritor, inte-
grante do dito campo de produção restrita. Uma vez que o cam-
po jurídico, o responsável por fazer justiça, não a praticara, veio
134 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
a público um representante legítimo de um campo suficiente-
mente legitimado, o campo de produção cultural, reivindicá-la.
Com isto, ganhou posições no campo do poder e pôs em xeque o
campo jurídico. Em 1899, o presidente francês perdoou Dreyfús
e permitiu que ele voltasse a Paris e tivesse de volta a patente no
exército, o que aconteceu em 1906, quando a opinião pública es-
tava mais calma.
[...] o fato de que [o campo jurídico] consiga se fazer reconhecer
como tal contribui para produzir efeitos sociais inteiramente reais
e, em primeiro lugar, sobre os que têm por profissão dizer o direi-
to. Mas o que será dos juristas, encamações mais ou menos since-
ras da hipocrisia coletiva, caso se tome de notoriedade pública
que, longe de obedecer a verdades e valores transcendentes e uni-
versais, eles são atravessados, como todos os outros agentes so-
ciais, por constrangimentos como os que exercem sobre eles, sub-
vertendo os procedimentos e as hierarquias, a pressão das necessi-
dades econômicas ou a sedução dos sucessos jornalísticos? (Bour-
dieu, 1994, p. 8).
A preocupação de Bourdieu é procedente pelo que atesta a
pesquisa de Dominique Marchetti (2000, p. 37) sobre o jorna-
lismo de investigação, atividade de onde surge a figura do "jus-
ticeiro": "Em nome das demandas ou dos apelos da "opinião
pública", que estaria preocupada por uma maior transparência,
eles se colocam como concorrentes das mais altas instâncias ju-
diciárias e políticas [...]". Percebemos, a propósito, essa figura
cada vez mais presente em alguns telejornais vespertinos brasi-
leiros, para uma sociedade ciosa por justiça. Bourdieu acredita
que esses efeitos nefastos só podem ser obstaculizados pelo for-
talecimento da autonomia dos campos sociais. No caso do cam-
po cultural, como dito, adota o "J'accusé' de Zola como o mar-
co de consolidação da autonomia: uma vez que o campo jurídico
não realizara suas obrigações processuais de maneira adequada,
um campo social conhecido e reconhecido, o campo de produ-
ção cultural, insurge-se contra a situação. Mas, não seria este o
marco da autonomia do campo literário, entendido como campo
de produção restrita? Caberia ao campo da indústria cultural me-
recer esse estatuto? A prática da maioria da imprensa francesa
0 domínio dojornalismo 135
não refletiria uma subordinação ao campo político, sobretudo o
militar? Ou, de fato, a comoção por ela gerada junto à sociedade
é a melhor demonstração de sua autonomia? São perguntas que
Bourdieu não chega a esclarecer, em todo o percurso que o le-
vou até "L'Emprise du Joumalisme", em virtude de o sociólogo
concentrar-se a maior parte do tempo na "grande arte".
Entretanto, considerado o campo jornalístico como autôno-
mo, sua autonomia configura-se como uma faca de dois gumes à
justiça - e mesmo à democracia - que requer distanciamento: as
emoções que emergem da opinião pública não deveriam interfe-
rir no processo jurídico, tampouco na atividade parlamentar re-
gular. O problema é que, nos dias atuais, o campo do jornalis-
mo, em especial a televisão, exerce um peso desproporcional
sobre todos os demais campos sociais, afetando inclusive o
campo legislativo e o campo jurídico. Bourdieu analisa em uma
retranca de "LTmprise du joumalisme", intitulada 'Du fait di-
vers à Eaffaire d'Etat', o caso da menina Karine, assassinada em
uma cidade do sul da França. O homicídio foi explorado de for-
ma sensacionalista por jornais locais. Estimulou artificialmente
a mobilização de pessoas em associações de defesa das crianças
e pelo endurecimento da legislação. O fato repercutiu, também
de modo artificial, relacionado com outros casos desconexos, o
que provoca o chamado efeito de circularidade da informação
que superdimensiona, pela mesma via da repetição que fabrica
os sucessos, fatos que, isoladamente, não teriam tanta importân-
cia. A partir do crime, passaram-se menos de quatro meses para
que a repercussão chegasse à capital francesa, sensibilizasse os
grandes veículos de comunicação, e levasse os parlamentares a
legislar pelo retomo da prisão perpétua.19
"Ao perseguir um ob-
18
Já à época, Ruy Barbosa ressaltava a imprensa britânica, que mantinha o neces-
sário distanciamento, ao contrário da imprensa francesa, influenciada e influen-
ciadora das emoções, que de antemão já condenavam o militar. Cf. R. Barbosa.
O Caso Dreyfus. Salvador: Progresso, [1898] 1954, pp. 37-39.
19
Algo semelhante aconteceu no Brasil, à época do homicídio da atriz Daniela
Perez. Sua mãe, a novelista Glória Perez, mobilizou sobretudo a televisão,
campo em que tem posição de destaque, para pressionar os parlamentares fede-
rais à alteração da legislação dos crimes hediondos, com vistas ao endureci-
mento das penas.
136 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
jetivo midiático, o projeto vai de encontro à serenidade de um
trabalho legislativo" {La Croix, 4 de novembro de 1993 apud
Bourdieu, 1994, p. 8).
No mesmo número das Actes de la recherche en sciences
sociales em que apareceu "L'Emprise du joumalisme", Rémi
Lenoir publicou "La Parole est aux Juges: crise de la
magistrature et champ joumalistique". Este texto foi em parte
uma reação à publicação de Les Juges parlent, em 1992, pelo
jornal Le Monde. Os juizes falantes não eram aqueles mais res-
peitados por seus pares, mas por certos jornalistas. A explicação
para isso reporta-se à década de 60, quando ocorreu uma "infla-
ção" de jovens juristas egressos da École nationale de la magis-
trature. Os valores profissionais desses jovens distinguiam-se
daqueles de seus colegas da velha guarda. No decorrer dos anos
70, eles aproximaram-se de jovens repórteres de publicações
como Le Monde, Libération e Le Nouvel Observateur, sobretudo
os membros do Syndicat de la magistrature, cujos integrantes de
orientação política à esquerda se identificavam com esses veí-
culos, que favoreceram o prestígio pessoal desses magistrados,
potencializado com a chegada ao poder do Partido Socialista.
Lenoir (1994, p. 82) constata o voluntarismo a que se presta a
imprensa, como "último recurso que altos funcionários possuem
contra o poder político (sobretudo Le Monde) ou, em um nível
menor, contra a hierarquia de suas corporações (sobretudo Libé-
ration e Le Figaro)". Os juizes ativistas de outrora e de hoje, pe-
la via da mídia, conseguiram desconsiderar o rigor dos processos
de censura e zelo normais no campo judicial e estabelecer uma
conversação direta com o campo do poder, isto é, com aqueles
agentes mais possuidores de capital político externos ao campo
em questão. A aproximação ao pólo heterônomo levou à influ-
ência da lógica midiática ao interior do judiciário.
A defesa dos valores da autonomia
"L'emprise du joumalisme" é um "divisor de águas" naquilo
que se reporta aos momentos que atribuo à obra de Pierre Bour-
dieu: nos momentos estrutural-funcionalista e praxiológico, o
0 domínio dojornalismo 137
sociólogo observa a sociedade "de fora", a partir de o corporati-
vista do universal, ele a observa "de dentro". Entretanto, no arti-
go em análise, reivindica valores que caracterizarão a démarche
do novo momento bourdieusiano, e conserva ainda o rigor da-
quele que chamo de praxiológico. Ao conjunto dessa passagem
Derek Robbins (1991, p. 132ss.) define como a da "lógica das
práticas à prática lógica". Com efeito, ao passar a defender valo-
res, Bourdieu implementa problemática axiológica, cuja conclu-
são é a de que os valores da virtude, do bem comum, que para
ele estão muito balizados no ideário dos valores racionais ilumi-
nistas, são viáveis à medida que a autonomia dos campos sociais
é assegurada. Disto, parte a uma filosofia prática: no que é perti-
nente aos materiais prioritários deste livro, lança as bases em um
post-scriptum intitulado "Por um corporativismo do universal"
no momento da publicação de Les règles de lart,20
em 1992, e
que viria a ter outras versões, como a de "L'emprise du jouma-
lisme".
Bourdieu propõe, para tanto, duas estratégias para a defesa
da autonomia dos campos:
1) uma estratégia esotérica de marcar firmemente os limi-
tes do campo: para tentar restaurá-los da intrusão da cultura jor-
nalística, entendida como as práticas e o modo de pensamento
dominantes no campo, pelo reforço das exigências de ingresso
no campo especializado. Alain Accardo (1995, p. 48) enfatiza a
necessidade de colocar-se em exame quem entra no campo, suas
origens sociais e econômicas, seu local de treinamento profis-
sional (faculdade, cursos etc.). As alterações na composição de
classe dos jovens jornalistas podem vir a ser uma fonte de trans-
formação na dinâmica própria do campo;
2) uma estratégia exotérica de sair da torre de marfim: o
próprio Zola é a inspiração a esta atitude, a partir dos valores
oriundos do campo de produção específica, sobretudo o científi-
co, mesmo que este tenha que se valer de meios externos ao
campo, por exemplo, "no interior do próprio campo jornalístico,
para tentar impor no exterior as contribuições e as conquistas
20
Na edição brasileira, ele aparece entre as páginas 369-378.
138 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
possibilitadas pela autonomia" (Bourdieu, 1994, p. 7). Esta ati-
tude é caracterizada fundamentalmente por ações de contravio-
lência simbólica.
Ao assumir a prerrogativa que os valores são possíveis com
a autonomia, ou que a autonomia viabiliza os valores universais,
Bourdieu adota um tom, no mínimo, temerário, haja vista lem-
brar, mediante o "se valer de meios externos" com o "tentar im-
por no exterior", a passagem em Maquiavel (s. d., p. 113), cuja
intenção, é claro, não é a do poder do cientista, mas o do prínci-
pe: "Faça, pois, o príncipe tudo para alcançar e manter o poder;
os meios de que se valer serão sempre julgados honrosos e lou-
vados por todos, porque o vulgo atenta sempre para aquilo que
parece ser e para os resultados".
Para que se evite equívocos, destarte, Bourdieu acrescenta
ao artigo pequeno post-scriptum normativo:
Desvelar os constrangimentos ocultos impostos aos jornalistas e
que elesfazem pesar sobre todos os produtores culturais não é — é
necessário dizê-lo? - denunciar responsáveis, apontar culpados.
É tentar oferecer a uns e outros uma possibilidade de se libertar,
pela tomada de consciência, do domínio desses mecanismos e
propor, talvez, o programa de uma ação combinada entre os ar-
tistas, os escritores, os cientistas e os jornalistas, detentores do
(quase) monopólio dos instrumentos de difusão. Somente tal cola-
boração permitiria trabalhar eficazmente na divulgação das con-
tribuições da pesquisa e também, em parte, na universalização
prática das condições de acesso ao universal. (Bourdieu, 1994, p.
9; itálico do sociólogo).
Mas o universal defendido por Bourdieu neste texto ainda é
pouco claro no que se reporta aos métodos de seu atingimento. E
importante salientar-se este aspecto, uma vez que a própria
compreensão bourdieusiana de como outros autores importantes
interpretam o universal está longe de ser pacífica. Penso em Ha-
bermas, especificamente, não só por sua autoridade no cenário
intelectual mundial, mas porque, de fato, Bourdieu faz-lhe cita-
ção em mais de um texto 1
em que defende não admitir a possi-
21
Bourdieu; Wacquant (1995, p. 35ss). Também Bourdieu (1997b, p. 95ss).
O domínio dojornalismo 139
bilidade de universais trans-históricos. Bourdieu crê ser possível
o juízo científico esclarecido nas condições econômicas e cultu-
rais presentes. O que ele não admite é que se o tenha de subme-
ter aos vereditos do sufrágio universal, aludindo negativamente,
sobretudo, à audiência para a mídia. Assim, postula a importân-
cia das estratégias esotérica e exotérica, acima mencionadas, sua
ação política em defesa dos valores universais.
A distância entre os produtores profissionais (ou seus produtos) e
os simples consumidores (leitores, ouvintes, espectadores e tam-
bém eleitores), que encontra seu fundamento na autonomia dos
campos de produção especializados, é mais ou menos grande, mais
ou menos difícil de superar e mais ou menos inaceitável, do ponto
de vista dos princípios democráticos, segundo os campos. E, con-
trariamente às aparências, ela é observada também na ordem da
política, da qual contradiz os princípios declarados. Ainda que os
agentes comprometidos com o campo jornalístico e com o campo
político estejam em uma relação de concorrência e de luta perma-
nentes e que o campo jornalístico esteja, de certa maneira, englo-
bado no campo político, em cujo interior exerce efeitos muito po-
derosos, esses dois campos têm em comum estarem, muito direta e
muito estreitamente, situados sob o domínio da sanção do mercado
e do plebiscito. Disto decorre que o domínio do campo jornalístico
reforça as tendências dos agentes comprometidos com o campo
político a submeter-se à pressão das expectativas e das exigências
da maioria, por vezes passionais e irrefletidas, e com freqüência,
constituídas como reivindicações mobilizadoras pela expressão
que recebem na imprensa (Ibidem, p. 7).
A autonomia do campo jornalístico, de acordo com Bour-
dieu, permite-lhe a capacidade do exercício crítico e da liberda-
de. Entretanto, á medida que ele se submete à lógica do merca-
do, sua autonomia pouco serve além de atuar de modo seme-
lhante ao da pesquisa de opinião, a qual dá suporte ao próprio
campo jornalístico. Favorece o emprego calculado de uma de-
magogia que reforça o fechamento do campo político sobre si: a
eliminação da mediação da realidade social, seja ela a dos parti-
dos políticos, associações, sindicatos, socialmente delegados pa-
ra desenvolverem (no sentido de se fazerem evoluir) as opiniões,
estabelece uma relação direta entre as opiniões ofertadas e os
140 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
indivíduos a elas expostos. Os políticos eleitos, sejam eles ad-
ministradores ou legisladores, vêem-se cada vez mais submeti-
dos a essa opinião, não mediada pelas instâncias nas quais parti-
cipam e daquelas com quem dialogam, mas mediada pela mídia
que a produz muitas vezes a partir de artefatos, de imposições
artificiais de problemáticas, factóides para os quais o papel da
televisão é hoje preponderante.
Amplia-se com isto o distanciamento do público em relação
à vida pública, isto é, da política. Os profissionais da política, da
sua parte, fecham-se e especializam-se, cercando-se de especia-
listas, muitas vezes oriundos da própria mídia, afinal esta se tor-
na seu interlocutor prioritário, com vistas ao mero atingimento
dos objetivos imediatos em disputa no campo político. A distân-
cia que o campo jornalístico incrementa entre o público e a polí-
tica, entretanto, não é compensada por vínculos estreitos entre a
audiência e os veículos de comunicação. A realidade da recep-
ção é muito afastada à dos jornalistas profissionais: pouco con-
segue a audiência se aproximar destes além das superfícies de
papel, de receptores e do écran. Os profissionais do jornalismo e
da política, neste quadro, os quais em várias passagens Bourdieu
sugere integrarem um mesmo campo, retroalimentam-se da au-
toridade, reforçada pela posição performativa dos campos em
que atuam. Neste sentido, a televisão potencializa os problemas
que surgem com o campo jornalístico. A abordagem teórica des-
tes, no que se reporta especificamente ao campo televisivo, será
tratada no capítulo que segue, devotado principalmente a um
pequeno livro que é um grande marco da nova postura intelec-
tual bourdieusiana.
Odomíniodojornalismo 141
Localização do jornalismo no campo de produção cultural
Volume de
Capital
Proporção de
tipos de Capital
CE-
CC+
campo de
produção cultural
baixa
escala
alta
escala
rnalismo
CE+CC+
campo do poder
CE+
CC-
espaço social (nacional)
CE-CC-
CE = Capital Econômico; CC = Capital Cultural.
Gráfico elaborado a partir de Rodney Benson:
"Field Theory In comparative context: a new paradigm for media studies".
In: Theory and Society 28, 1998, p. 466
142 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
Mudança estrutural do campo do poder francês
Campo do poder francês; Década de 70
CE+CC+
Univ írsitário
Político
Econôn
Jornalismo
CE+
CC-
CE-CC-
Campo do poder francês: Década de 90
CE+CC+
CE-
CC+
Econômíco
Jornal
Universitário
CE-CC-
CE = Capital Econômico; CC = Capital Cultural.
Gráficos elaborados a partir de Rodney Benson, Op. c/f., p. 472,
0 domínio do jornalismo 143
5
A estrutura invisível da televisão
[...] certos da impunidade mais total, porque protegidos
pela descontinuidade quase perfeita da crônica jornalís-
tica e pela rotação rápida dos conformismos sucessivos
(os que, por exemplo, levaram os jornalistas de todos os
países a passar, em alguns meses, depois de 1989, da
exaltação da magnífica emergência das novas democra-
cias à condenação das hediondas guerras étnicas).
Pierre Bourdieu, Sobre a televisão.
A publicação de "I^emprise du joumalisme", analisado no ca-
pítulo anterior, representa um marco daquilo que separa o pri-
meiro Bourdieu, o que observa a sociedade "de fora", do segun-
do Bourdieu, que intervém teoricamente "de dentro". Nesse tex-
to, observa-se uma clara tensão no discurso do sociólogo que sa-
ca das ferramentas conceituais que o consagraram ao mesmo
tempo que parece buscar desvencilhar-se delas, adotando um
tom radicalizado. Em Sur la télévision,1
livro publicado dois
anos após o artigo, Bourdieu já se mostra por inteiro no lado "de
dentro" da sociedade, empreendendo uma inversão em sua pers-
pectiva metodológica, que o aproxima daquela que criticara em
Edgar Morin de L 'esprit du temps, a qual designara de "populis-
ta". A pergunta que deveria ser feita é de como foi possível ta-
manho deslocamento da conduta intelectual de Bourdieu em tão
curto transcurso de tempo. De fato, não foi possível. Esse deslo-
camento viera sendo processado desde ao menos meados da dé-
1
Adoto a edição brasileira: Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
A estrutura invisível da televisão 145
cada de 70, em um movimento que Derek Robbins chama de o
"da lógica das práticas à prática lógica".2
É esse movimento que
toma possível o Bourdieu "de dentro" da sociedade. Bourdieu,
em meados da década de 70, após ter detectado tensões em suas
análises, passara a buscar modos de mapear o comportamento
social. As tensões decorriam do método de análise estrutural: se,
por um lado, permitia que o sociólogo questionasse as explica-
ções dos agentes sociais às suas práticas, por outro, era falho,
uma vez que impunha aos fatos as suposições de um observador
objetivo. Este presumia que os fatos sociais decorriam da exe-
cução de regras pelos agentes, deles ocultas, mas reveladas pelo
observador. O sociólogo tentara superar essas tensões, em 1972,
em Esquisse d'une théorie de la pratique, através da introdução
da idéia de estratégia para as práticas dos agentes sociais, que
não mais seriam simplesmente determinados por estruturas regu-
ladoras. Quatro anos mais tarde, no artigo "Le sens pratique",3
discutiria os limites de sua análise do calendário agrário cabila,
cuja representação elaborada por ele fora linear e objetivista. Se
considerada nos padrões da tradição lógica ocidental, a lógica
cabila era pré-lógica, embora informada por uma lógica prática,
ou contextual, que o sociólogo chamara de politética ou polis-
sêmica.
A partir de 1975, com a criação da revista Actes de la re-
cherche en sciences sociales, Bourdieu publicou artigos, atacan-
do várias formas de objetivismo. Em "L'invention de la vie
d'artiste",4
analisa a carreira de Flaubert como dependente da
"produção [...] de uma 'forma' literária cujo conteúdo constituía
uma representação da sociedade da França, mas que derivava do
poder formal dela" (Robbins, 1991, p. 138). O comentador suge-
re que, embora a essa época Bourdieu corresse o risco de tentar
inventar uma lógica da prática aos agentes ou personagens si-
tuados no interior de um mundo social, este se aproximara da
sugestão de que a produção científica da ciência social e da ci-
ência política, de fato, eram assertivas de poder eufemizadas.
2
Baseio-me no seu capítulo 9, p. 132-150.
3
In: Actes de la Recherche en Sciences Sociales, n. 7, p. 43-86, fév. 1976.
4
In: Actes de la recherche en sciences sociales, n. 2, p. 67-94, mars 1975.
146 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
Ele concluiu que a praxiologia apolítica que idealizara era uma
forma dissimulada de interesse político, mesmo quando cultiva-
va o desinteresse da ciência. Como visto, em 1975 Bourdieu
também publicara, em co-autoria com Yvette Delsaut, "Le cou-
turier et sa griffe",5
pelo qual descreve um tipo de produção da
crença em que a assinatura legitima a obra, a griffe valoriza a
roupa. Bourdieu passa, então, a preocupar-se com a assinatura
Bourdieu. No campo acadêmico, ela estava associada às Édi-
tions de Minuit. Destarte, o sociólogo tenta analisar o significa-
do objetivo de sua "grife": para participar do domínio editorial,
sua obra requereria estar (1) investida de autoridade, e que pode-
ria (2) mobilizar o poder coletivo dos leitores de Éditions de
Minuit e, a partir disto, suas idéias adquirirem o estatuto de (3)
idéias-força, que podem (4) se impor tanto no campo acadêmico
como no do poder.
O poder simbólico como poder de constituir o dado pela enuncia-
ção, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a vi-
são do mundo e, deste modo, a ação sobre o mundo, portanto o
mundo; poder quase mágico que permite obter o equivalente da-
quilo que é obtido pela força (física ou econômica), graças ao efei-
to específico de mobilização, só se exerce se for reconhecido, quer
dizer, ignorado como arbitrário. Isto significa que o poder simbóli-
co [...] se define numa relação determinada - e por meio desta -
entre os que exercem o poder e os que lhe estão sujeitos, quer di-
zer, isto é, na própria estrutura do campo em que se produz e se
reproduz a crença. O que faz o poder das palavras e das palavras
de ordem, poder de manter a ordem ou de a subverter, é a crença
na legitimidade das palavras e daquele que as pronuncia, crença
cuja produção não é da competência das palavras (Bourdieu, 2000,
p. 14-15).
Esta citação baliza, no plano da história das idéias, o deslo-
camento de Bourdieu da defesa daquilo que chamaria de "obje-
tivação participante" (diferente da "observação participante",
que acarreta adoção de uma falsa subjetividade). Com efeito, a
objetivação participante envolve o "fazer o subjetivo objetivo e
o objetivo subjetivo" (Robbins, 1991, p. 141). O sujeito Bour-
5
In: Áctes de la Recherche en Sciences Sociales, n. I, p. 7-36, jan. 1975.
A estrutura invisível da televisão 147
dieu passa a ser situado pelo próprio sociólogo no interior de sua
estrutura objetivista tridimensional. Ao mesmo tempo, subjetiva
os conceitos objetivistas, pelos quais havia objetivado os fenô-
menos observados anteriormente. O próximo passo seria objeti-
var a presença imanente do sujeito Bourdieu, sem a mediação de
sua estrutura objetivista tridimensional, isto é, na própria objeti-
vidade da prática cultural que pudesse ser abarcada por sua sub-
jetividade. A reivindicação bourdieusiana da objetivação parti-
cipante é essencial ao entendimento do momento contemporâ-
neo do sociólogo. Este tipo de análise, no entanto, segundo ele, é
de difícil realização, em virtude de que o sociólogo compete
com outros atores nos campos sociais, que possuem interesses
diversos e conflitantes, todos lutando pelo monopólio da objeti-
vação objetiva:
Quando no jogo analisado se trata [...] de manter um metadiscurso
a propósito de todos os demais discursos [...], quando se trata, em
uma palavra de situar-se meta, quer dizer, por cima, graças só a
força do discurso, é grande a tentação de servir-se do conhecimen-
to das estratégias empregadas pelos diferentes atores, a fim de fa-
zer triunfar a própria "verdade" para descrever a verdade do jogo
e, assim, triunfar no dito jogo. [...]
De certa forma, é necessário haver renunciado à tentação de ser-
vir-se da ciência para intervir no objeto [...]. Só a sociologia da so-
ciologia - e do sociólogo - pode conferir certo domínio dos fins
sociais que se podem buscar através de objetos científicos direta-
mente perseguidos. A objetivação participante que, sem dúvida al-
guma, representa o cume da arte sociológica, só pode ser alcança-
da se descansa em uma objetivação a mais completa possível do
interesse por objetivar [...], assim como no questionamento de dito
interesse e das representações que induz (Bourdieu e Wacquant,
1995, p. 195-196).
Bourdieu compreendeu que imprimira aos agentes uma
perspectiva "liberadora", caso saibam manipular estrategica-
mente as estruturas que os dominam. Entretanto, a percepção
dessas estruturas deveria ser tomada a priori daquilo que o so-
ciólogo presumia serem as estruturas. Consciente disto, ele pas-
sa a postular a restauração da imanência das estruturas, através
da lógica das práticas, pois é por meio desta que ocorre a estru-
148 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
turação das estruturas. Ao mesmo tempo, o sociólogo assimilou
que o discurso científico é apenas mais uma das muitas repre-
sentações possíveis do mundo social. Sua visão do mundo era
expressão de sua própria posição particular no interior da luta
histórica. Com efeito, Bourdieu havia começado a internalizar
sua análise de modo que pudesse ver a si como o porta-voz de-
legado de um grupo social que compartilhasse de um habitus
similar. Grupo social que, pelo domínio teórico e prático das
conjunturas, pudesse mobilizar o apoio de outros grupos. Ou se-
ja, por volta de 1978, Bourdieu já vislumbrava a transformação
de seu pensamento em idéia-força, combinando a autoridade do
indivíduo engajado ao poder do grupo. Em Questions de socio-
logie (1980), a fotografia de Bourdieu é estampada na capa (di-
ferente da proposta das duas obras imediatamente anteriores, La
distinction - em que a capa da primeira edição é a foto do qua-
dro "O Gourmet", de Schalken - e Le sens pratique - cuja foto
estampa o meio rural argelino). Parece manifestar ter coisas a
dizer: "Ele não fala sobre o poder simbólico nesta seleção por-
que ele o representa como seu praticante. Ele fala sobre a neces-
sidade do sociólogo de não estar fora do jogo - horsjeu -, como
um intelectual desapegado e não-jomalístico" (Robbins, 1991, p.
150). Na foto, Bourdieu conversa e gesticula com naturalidade,
mas sentado atrás de sua mesa de trabalho: é apenas o começo, a
partir do qual se ergue e ruma em direção às ruas, onde já seria
fácil de encontrá-lo à época da publicação de Sur la télévision.
Este livro, de impacto social inversamente proporcional a
sua extensão e profundidade teórica, é a transcrição adaptada de
dois programas realizados em 18 de março de 1996 pelo sistema
audiovisual do Collège de France. O livro gerou na França, du-
rante vários meses, controvérsias e a mobilização dos principais
jornalistas. O objetivo de Bourdieu foi demonstrar que a televi-
são expõe a perigos o campo cultural, o campo político e a de-
mocracia. Ao invés do denuncismo, aos ataques ad hominem,
que parte significativa da imprensa percebeu na obra, é através
da compreensão dos mecanismos invisíveis, isto é, das estruturas
que constituem o campo televisivo que será possível uma trans-
formação qualitativa deste instrumento. O sociólogo não preten-
de ser nostálgico em sua análise, em defesa de uma televisão
A estrutura invisível da televisão 149
cultural, cujos programas seriam tão-só educativos, nem tam-
pouco adotar ante à televisão uma postura de recusa. Quer criti-
car uma complacência narcísica existente no meio jornalístico,
que o toma predisposto a lançar sobre si mesmo um olhar falsa-
mente crítico e, assim, reprodutor das estruturas sociais vigentes.
Busca uma análise verdadeiramente crítica que, da sua parte,
possa "contribuir para dar ferramentas ou armas a todos aqueles
que, enquanto profissionais da imagem, lutam para que o que
poderia ter se tomado um extraordinário instmmento de demo-
cracia direta não se converta em instmmento de opressão simbó-
lica" (Bourdieu, 1997a, p. 13). Os intelectuais devem participar
da televisão, mas os convites devem ser aceitos sob certas con-
dições que visem ao domínio máximo dos instrumentos de pro-
dução: deve-se negociar a limitação do tempo, reivindicar a li-
berdade de assunto, os chamamentos à ordem, que se podem dar
através da comunicação verbal ou não-verbal. Hoje se aceita
participar de programas de televisão, sobretudo, para fazer-se ser
visto, ou seja, não importa tanto o que se tem para dizer, mas ser
percebido, mesmo que isto seja apenas uma exibição narcísica.
Bourdieu, no entanto, acredita que os pesquisadores têm como
missão a restituição à sociedade das contribuições da pesquisa.
A televisão é um espaço privilegiado para isto, embora o ci-
entista, ou toda pessoa que de fato tenha alguma coisa a dizer
nela, deva previamente interrogar-se se o que será dito é impor-
tante ao público daquele programa; deve-se levar em conta o es-
pectador, porém sem o discurso a ser enunciado ser submetido a
uma lógica reducionista. A preservação do discurso articulado é
uma forma segura de resistência à manipulação e da liberdade
de pensamento. Esta articulação é menos presente no discurso
televisivo, que prima pelas idéias rápidas e, portanto, curtas, as
quais são reunidas por um processo de edição também muito
fragmentário. No caso de uma cobertura difícil, como a de guer-
ra, o empobrecimento da necessária contextualização é intensifi-
cado. "A pressão do tempo (produzir na urgência uma reporta-
gem de curta duração) limita o espaço dos possíveis: é mais fácil
filmar as conseqüências de uma guerra que suas causas, cenas de
desgraça que fornecer em um minuto uma análise compreensiva
dos acontecimentos" (Joinet, 2000, p. 91). No que diz respeito
150 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
ao pensamento derradeiro de Pierre Bourdieu, cabe a pergunta
se o seu constructo analítico passado continuaria a ter validade
epistemológica aos dias atuais. Diria que sim. Sua teoria não é
constituída por conceitos fechados: ele condena a teoria teórica,
a do fetichismo dos conceitos e da sua substanciação. O que o
sociólogo defende é a validade heurística desses conceitos para
que sejam relacionados com as experiências vivenciadas nas
práticas. Com efeito, à medida que os objetos analisados por ele
mudaram no curso da história, seus conceitos também foram se
transformando, desdobrando-se, mas não sendo de todo descar-
tados.
Além disto, Sur la télévision representa amadurecimento de
sua démarche intelectual. Sem abandonar os critérios de cienti-
fícidade na análise, o que realiza é uma objetivação participante
cujo produto, a análise, procura converter em idéia-força. Para
tanto, recicla, por exemplo, designações como a do conceito de
habitus, ao qual se refere como "óculos",6
a fim de estabelecer
uma comunicação mais imediata com um público de não-
acadêmicos. As disposições do público visado pelo sociólogo
recusariam o jargão técnico que caracteriza o pensamento socio-
lógico, inviabilizando, com isto, a intenção do autor de angariar
ampla difusão para suas idéias. Conduta à conquista de audiên-
cia que lembra a da própria criticada, a televisão, embora não
esteja na ordem do dia desta a defesa dos valores universais e de
uma Realpolitik da razão. Enfim, para tentar demonstrar a vali-
dade epistemológica do pensamento de Bourdieu, procurarei de-
tectar as marcas nesse "livro-panfleto" que mantêm relação com
o momento que chamo de praxiológico do autor, e mesmo do
momento que chamo de estrutural-funcionalista. Estas duas de-
signações por mim arbitradas correspondem a um contínuo de
incompletude - como de todo pensamento intelectual - cujas
marcas que me estimulam a denominá-las desse modo é o enfo-
que etnológico sobre os grupos sociais da primeira fase e, na se-
gunda fase, a consolidação dos conceitos e teorias bourdieusia-
nos fundamentais. Meu critério, arbitrário, se expressa também
ao momento contemporâneo, que chamo de corporativista do
6
Em La distinction, elejá fizera a mesma alusão.
A estrutura invisível da televisão 151
universal, cuja marca que me estimulou para tanto é a explicita-
ção de uma problemática axiológica no pensamento do autor.
A televisão na dinâmica estrutural
do campo jornalístico
Bourdieu (1997a, 75) esclarece que o campo televisual "é
um subcampo que está englobado no campo jornalístico". Nos
anos 50, a televisão francesa ocupava uma posição subordinada
nele; um duplo domínio era exercido sobre os jornalistas televi-
sivos: do campo político, por dependerem dele nas subvenções
estatais e fontes de informação; e do próprio campo jornalísti-
co,7
no qual os jornalistas que detinham maior capital cultural e
simbólico eram os que trabalhavam na imprensa. Na atualidade,
a relação está invertida, o que se percebe com a crise dos jor-
nais. É fundamental para o método sociológico a comparação
histórica das estruturas.
E no plano da história estrutural do conjunto do universo que as
coisas mais importantes aparecem. O que conta em um campo são
os pesos relativos; um jornal pode permanecer absolutamente
idêntico, não perder nenhum leitor, não mudar em nada e ser no
entanto profundamente transformado porque seu peso e sua posi-
ção relativa no espaço se acham transformados. Por exemplo, um
jornal deixa de ser dominante quando seu poder de deformar o es-
paço à sua volta diminui e ele já não dita a lei (Ibidem, p. 60).
Os historiadores do jornalismo estabeleceram a oposição en-
tre os jornais que dão news e os que dão views: Enquanto que os
primeiros priorizam as variedades, as notícias cotidianas, osfait-
divers, os segundos mais difundem pontos de vista e análises. A
primeira condição favorece a aquisição do capital econômico, a
segunda, do capital simbólico. O ideal para um jornal ser uma
autoridade é que encontre um equilíbrio maximizado entre esses
dois capitais, isto é, ter uma grande tiragem associada à influên-
cia cultural e política. Apesar dos níveis de dependência, o jor-
nalismo é um campo que possui leis próprias e que é definido
7
Ver nota 14 do capítulo anterior.
152 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
por sua posição no espaço social pelas atrações e repulsões que
sofre na relação com outros campos. Por ter leis próprias, pode-
se considerá-lo autônomo ou a possibilidade de sua autonomia;
mas ela é relativa, haja vista os fatores externos ao campo que
interferem em seu interior. De modo semelhante, a compreensão
do que acontece em uma emissora de televisão deve levar em
conta a posição que ela ocupa no campo, em consideração ao
universo de relações objetivas que estabelece com as demais
emissoras que concorrem consigo. As relações de força presen-
tes na concorrência no campo definem a posição dos participan-
tes mais por elementos imperceptíveis do que percebidos. Uma
emissora pode melhor posicionar-se ou contribuir para transfor-
mar a estrutura do campo ao acumular capital específico, tipo de
poder que se retraduz em fatias de mercado. Nem os jornalistas,
tampouco os telespectadores, percebem a estrutura do campo,
apenas seus efeitos. Para o profissional, o peso da instituição
conta a sua valorização no mercado de trabalho, mas, dependen-
do das posições que conquista no campo, tem valor também para
a instituição: seu prestígio constitui capital simbólico que a dis-
tingue, e cuja posse facilita o melhor posicionamento da empre-
sa no campo.
Um campo é um espaço social estruturado, um campo de forças -
há dominantes e dominados, há relações constantes, permanentes,
de desigualdade, que se exercem no interior desse espaço - que é
também um campo de lutas para transformar ou conservar esse
campo de forças. Cada um, no interior desse universo, empenha
em sua concorrência com os outros a força (relativa) que detém e
que define sua posição no campo e, em conseqüência, suas estra-
tégias (Ibidem, p. 57).
Destarte, a concorrência no interior do campo não se dá so-
mente por conquistas econômicas, mas também simbólicas. O
que um jornalista escreve ou deixa de escrever depende da posi-
ção que ele ocupa nesse campo, isto é, o poder específico que
possui o veículo em que trabalha, cuja medida considera o acú-
mulo de capital econômico pelas fatias de mercado, o capital
simbólico, e que pode, para completar, levar em conta a posição
da mídia nacional no âmbito mundial, em que a televisão norte-
A estrutura invisível da televisão 153
americana exerce dominação econômica, técnica, e, sobretudo,
simbólica. O detentor de um cargo de confiança, da posição es-
tatutariamente superior no campo, tem ajustadas suas categorias
de percepção às exigências objetivas, o que o leva a supor ser
natural, e "evidente", exibir o que exibe nos noticiários: "nas di-
ferentes posições no interior mesmo do meio jornalístico, os di-
ferentes jornalistas consideram desigualmente evidente o que ele
toma por evidente" (Ibidem, p. 36). Ou seja, a evidenciação do
evidente individual só acontece à medida que o agente social de-
tenha a opinião legítima ou a dominante no interior do campo. A
propósito, Béatrice Joinet (2000, p. 87), ao verificar a existência
na França dos chamados "jornalistas sentados" e "jornalistas em
pé" (os primeiros ligados ao espaço físico da redação ou do es-
túdio; os segundos, à reportagem nas ruas), distingue "a existên-
cia de lógicas de produção da informação diferentes no seio de
uma mesma redação".
A importância do campo jornalístico na sociedade deve-se
ao fato de ele possuir o monopólio sobre os instrumentos de
produção e de difusão em grande escala da informação. Por in-
termédio desses instrumentos, atinge desde o simples cidadão
até os mais influentes. Os demais campos chocam-se cotidiana-
mente com esse monopólio. Apesar do poder, o jornalismo ocu-
pa uma posição subordinada nos campos de produção cultural;
em termos do grau de legitimidade atribuída aos produtos sim-
bólicos dele provenientes. Entretanto, o meio exerce uma domi-
nação que decorre da capacidade de controle da expressão pú-
blica, ao acesso à notoriedade ou, o que dá no mesmo, à existên-
cia em sociedade. Disto apreende-se o porquê de os jornalistas
televisivos receberem socialmente uma consideração na maioria
das vezes desproporcional a seus méritos. No entanto, mesmo os
mais reconhecidos no interior do campo ocupam posição estru-
turalmente inferior em relação ao campo do poder. Por vezes se
aproveitam de categorias que podem ocasionalmente dominar,
como os intelectuais, aos quais gostariam de estar nivelados. Isto
explicaria, em parte, a tendência no jornalismo ao antiintelectua-
lismo. Podem impor ao conjunto da sociedade seus princípios de
visão do mundo, sua problemática difundida em grande escala.
Mesmo ao levar-se em conta que o campo é dividido e diferen-
154 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
ciado, portanto suscetível de abrigar as mais diversas opiniões,
para atravessar o filtro jornalístico é preciso deter-se certa quan-
tia em capital simbólico. O filtro é constituído por um conjunto
de pressupostos e de crenças que os jornalistas partilham entre
si; é um sistema de categorias de pensamento, uma relação com
a linguagem, um princípio de seleção que os profissionais de te-
levisão operam que definirá o quê e o como mostrar da realidade
social e das produções culturais.
Não há discurso (análise científica, manifesto político e etc.) nem
ação (manifestação, greve e etc.) que, para ter acesso ao debate
público, não deva submeter-se a essa prova da seleção jornalística,
isto é, a essa formidável censura que os jornalistas exercem, sem
sequer saber disso, ao reter apenas o que é capaz de lhes interes-
sar, de "prender sua atenção", isto é, de entrar em suas categorias,
em sua grade, e ao relegar à insignificância ou à indiferença ex-
pressões simbólicas que mereceriam atingir o conjunto dos cida-
dãos (Bourdieu, 1997a, p. 67).
As experiências enunciadas sob a forma de preceitos éticos
do tipo "neste jornal isto não é mostrado" são a retradução da
estrutura do campo, expressa por intermédio de um agente que
ocupa certa posição em seu interior. Bourdieu não quer dizer
com isto que os agentes são meros epifenômenos da estrutura,
mas uma Ausgeburt des Felds,8
quer dizer, uma emanação do
campo. "Tal ou qual intelectual em particular, tal ou qual artista
só existe como tal porque existe um campo intelectual ou artísti-
co" (Bourdieu; Wacquant, 1995, p. 71). Defende, pois, o método
de análise estrutural para que se elucidem os mecanismos de re-
produção social. No campo cultural, existe a oposição entre o
consumo mais ou menos cultivado, que na prática se desdobra
em gêneros "puros" ou em "comerciais". Para o jornalismo ser-
ve — ou serviria — o mesmo, se não se tivesse que levar em conta
que o pólo comercial prepondera sobre o outro de modo despro-
8
Aqui Bourdieu se inspira nas experiências da física alemã, em que as partículas
são atraídas ou repelidas no contexto de um campo magnético. Os agentes esta-
riam para as partículas como os campos sociais para o magnético. Recentemen-
te, compara a relação dos agentes ao campo com os mobiles de Calder. Cf. Pin-
to, 2000.
A estrutura invisível da televisão 155
porcional ao que se dá em outros campos. No campo acadêmico,
por exemplo, as regras próprias do campo tendem a eliminar os
transgressores que por ventura tentem empreender uma lógica
do cavalo de Tróia, a da heteronomia, e legitimam os que a elas
se conformam, como se observa mediante referências e citações
que os autores recebem. Mas no jornalismo praticamente não há
sanções negativas nem positivas: a crítica ou a sátira estabele-
cem via de sanção negativa, e a reprise, de positiva. Apesar de
as pessoas terem seu quinhão de responsabilidade, as estruturas,
e as posições ocupadas nelas, colaboram em muito para confor-
marem as suas ações. Desse modo, tanto os campos de produção
cultural quanto os próprios agentes do jornalismo estão limita-
dos estruturalmente pelo campo jornalístico.
[...] Em outras palavras, um campo, ele próprio cada vez mais do-
minado pela lógica comercial, impõe cada vez mais suas limita-
ções aos outros universos. Através da pressão do índice de audiên-
cia, o peso da economia se exerce sobre a televisão, e, através do
peso da televisão sobre o jornalismo, ele se exerce sobre os outros
jornais, mesmo sobre os mais "puros", e sobre os jornalistas, que
pouco a pouco deixam que problemas da televisão se imponham a
eles. E, da mesma maneira, através do peso do conjunto do campo
jornalístico, ele pesa sobre todos os campos de produção cultural
(Bourdieu, 1997a, p. 81).
O grau de heteronomia do campo jornalístico começa a
ameaçar o campo cultural no momento em que alguém de fora
dele passa a nele interferir, quer seja por ações materiais ou por
opiniões. A televisão estimula a heteronomia ao investir de "au-
toridade" pessoas não pertencentes aos campos na arena de dis-
cussão. O risco da heteronomia para os produtores culturais de-
ve-se ao fato de dependerem do público, que, por sua vez, cada
vez mais consome informações de intermediários externos, não
comprometidos com as regras e com a razão de existir dos cam-
pos específicos. Como é a lógica comercial que orienta as reda-
ções, fica mais difícil, por exemplo, publicar-se um livro de poe-
sias, pois os poetas possuem menos ou nenhum espaço nos jor-
nais. A heteronomia também se manifesta, como mencionado,
pela lógica do cavalo de Tróia: são introduzidos produtores hete-
156 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
rônomos em um campo autônomo, isto é, produtores que sabem
que não terão êxito no cumprimento das regras internas de seu
campo específico e, de fato, não as cumprem, pois obtêm retor-
no não das recompensas imanentes, mas da projeção construída
artificialmente pela televisão - ou outro veículo de comunica-
ção. A autonomia é condição para o progresso científico. Bour-
dieu escreve que quanto mais se possui capital social específico,
mais se resiste aos ataques à autonomia, ao contrário quanto
menos se o possui, mais heterônomo se é, mais se tende a cola-
borar para a lógica comercial.9
Defende condições de produção
ao progresso e ao acesso ao universal. Alain Accardo (1991, p.
194-5) afirma que, neste sentido, se "para além do conhecimento
objetivo que constrói a sociologia devesse propor uma mensa-
gem, o essencial seria que, graças a este conhecimento objetivo,
toma possível de entrar no jogo sem ilusões, mensagem pro-
priamente revolucionária, sem dúvida, e utópica, mas de um
utopismo racional. Tudo ao mostrar o arbitrário do jogo social
[...]". Mas não basta o conhecimento das estruturas e do arbitrá-
rio do jogo para que os agentes sociais autônomos se protejam
dos efeitos danosos do campo jornalístico; é necessária a consti-
tuição de condições de possibilidade sociais - materiais e sim-
bólicas - à defesa. Neste sentido, uma vez que a dificuldade de
retomo da produção de um campo autônomo é proporcional à
complexidade da idéia, a superação dos obstáculos depende de
os produtores saberem difundi-la e terem boas condições para is-
to, ou seja, que detenham a propriedade dos meios de difusão.
Para tanto, os intelectuais podem estar unidos entre si, com as-
sociações, sindicatos etc., com o objetivo de qualificarem, pela
via da educação, a recepção dos consumidores de programas de
televisão.
9
A matemática, por exemplo, é um campo bastante autônomo, no qual os produ-
tores têm por clientes apenas seus concorrentes. Bourdieu defende que, para a
autonomia, é preciso construir "essa espécie de torre de marfim no interior do
qual se julga, se critica, se combate mesmo, mas com conhecimento de causa;
há confronto, mas com armas, instrumentos científicos, técnicas, métodos"
(Bourdieu, 1997a, p. 89).
A estrutura invisível da televisão 157
O tempo da mensagem e a democracia
Para o campo televisivo ter audiência é fundamental. A bus-
ca por ser o primeiro é retraduzida pela urgência, a procura do
furo de reportagem, a velocidade e o fast-thinking. Temas são
impostos ao público por terem sido de antemão impostos aos
profissionais; são-lhes impostos porque decorrem da concorrên-
cia a qual todos se submetem, que gera a seleção da notícia: es-
colhas, presenças e ausências; tudo de modo muito rápido.
E um velho tópico do discurso filosófico: a oposição feita por Pla-
tão entre o filósofo que dispõe de tempo e as pessoas que estão na
ágora, a praça pública, e que são tomadas pela urgência. Ele diz,
mais ou menos, que, na urgência, não se pode pensar. É franca-
mente aristocrático. E o ponto de vista do privilegiado que tem
tempo, e que não se interroga muito sobre seu privilégio. [...] o
certo é que há um elo entre o pensamento e o tempo. E um dos
problemas maiores levantados pela televisão é a questão das rela-
ções entre o pensamento e a velocidade. Pode-se pensar com velo-
cidade? Será que a televisão, ao dar a palavra a pensadores que
supostamente pensam em velocidade acelerada, não está condena-
da a ter apenas fast-thinkers, pensadores que pensam mais rápido
que sua sombra...? [...] A resposta é, ao que me parece, que eles
pensam por "idéias feitas" (como dizia Flaubert) [...]; idéias acei-
tas por todo mundo, banais, convencionais, comuns" (Bourdieu,
1997a, p. 39-40).
A idéia feita é como um dado, um problema resolvido, uma
comunicação que é instantânea por não existir em certo sentido,
isto ê, por ser tão-somente aparente. Este tipo de comunicação é
vazio, recheado de lugares-comuns sem outro conteúdo além da
instantaneidade da informação. Desde "Le marché des biens
symboliques", Bourdieu reconhece o alto índice de estereotipi-
zação dos produtos da cultura média, típicos da indústria cultu-
ral. Os lugares-comuns cotidianos unem tanto emissores quanto
receptores; são consensuais. O pensamento, ao contrário, é sub-
versivo, pois desmonta o senso comum pela demonstração de
razões. A televisão, no entanto, evita perder tempo com elas;
quer acomodar todos, como se fosse em um ônibus. Os fatos-
omnibus são aqueles que devem atrair a atenção de todos, sem
158 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
chocar ninguém. São vazios, ou quase. Não envolvem disputa,
nem conflito, já que se propõem a formar consenso. Para conse-
guirem essa proeza, não podem abordar nada de importante. As
notícias de variedades constituem esse tipo de informação. Além
de atraírem a atenção de todos, são importantes por consumirem
tempo. Mas, se a raridade do tempo é algo patente em televisão,
o dispêndio do tempo em futilidades, com fatos-omnibus, cum-
pre a função de ocultamente do que é importante, uma vez que
este não está sendo exibido. Um fato-omnibus é construído com
base nas categorias de percepção de um suposto receptor médio
rebaixado. Não deixa, porém, de produzir efeitos políticos e cul-
turais, tais como a banalização e a despolitização. Com eles, a
sociedade, em matéria de informação, orienta-se rumo a uma di-
visão entre cidadãos de primeira e segunda categorias, isto é, en-
tre os que podem, por exemplo, ler os jornais de qualidade e os
que só podem consumir a televisão. O fosso entre a bagagem po-
lítica dos primeiros e dos últimos tende a aumentar, o que resul-
ta no desinteresse pela política de uma proporção significativa
da população.
Há revoluções que atingem as bases materiais de uma sociedade,
aquelas que são evocadas comumente - nacionalizam-se os bens
do clero — e revoluções simbólicas, as realizadas pelos artistas, ci-
entistas ou grandes profetas religiosos, ou por vezes, mais rara-
mente, pelos grandes profetas políticos, que atingem as estmturas
mentais, isto é, que mudam nossas maneiras de ver e de pensar.
[...] Se um instrumento tão poderoso quanto a televisão se orien-
tasse um pouquinho que fosse para uma revolução simbólica desse
tipo, eu lhes asseguro que apressariam em detê-la. Ora, ocorre que,
sem que ninguém tenha necessidade de pedir, apenas pela lógica
da concorrência, e dos mecanismos que evoco, a televisão não faz
nada de semelhante. Está perfeitamente ajustada às estruturas men-
tais do público (Ibidem, p. 64).
O valor democrático da televisão também é discutível. Des-
de La distinetion, Bourdieu preocupa-se com os debates: há os
verdadeiramente falsos e os falsamente verdadeiros. Nos verda-
deiramente falsos, os debatedores são comparsas, pois se conhe-
cem intimamente, que simulam o pertencimento a partidos opos-
tos. Em geral, são sempre os mesmos convidados que deles par-
A estrutura invisível da televisão 159
ticipam e o público tem pouca ou nenhuma consciência dos la-
ços existentes nos bastidores. Um mundo fechado que define e
discute seus próprios temas. Nos debates falsamente verdadei-
ros, ocorrem várias operações de censura: em um primeiro nível,
a originada no apresentador, que é o profissional a quem os es-
pectadores mais se referenciam, o que faz intervenções restriti-
vas e impõe o assunto; a problemática imposta é com freqüência
absurda: "devem-se queimar as elites?" (Ibidem, p. 44). A res-
posta, com isto, pouco importa. Entretanto, a regra do jogo que
ele impõe varia de acordo com a posição que o jogador, ou me-
lhor, o debatedor ocupa na sociedade. Um sindicalista não rece-
be a mesma deferência que um acadêmico. Pelos sinais de im-
portância, no implícito não-verbal da comunicação verbal, per-
cebe-se a distribuição desigual da palavra: olhares, silêncios,
gestos, mímicas, movimentos dos olhos, bem como a própria pa-
lavra, sua entonação etc. O apresentador distribui os tempos de
palavra, manipula a urgência ao interromper pensamentos inteli-
gentes mediante a prerrogativa da falta de entendimento do pú-
blico, e ainda pode lidar com respeito ou desdém, atenção ou
impaciência. São sinais muitas vezes imperceptíveis, de cuja
manipulação muitas vezes ele mesmo não tem consciência.
O estúdio é composto pelos profissionais e os convidados.
Os primeiros fazem todo um trabalho preliminar para decidir
quem serão os últimos. É importante que a composição de um
debate aparente equilíbrio democrático. Todavia, há pessoas que
jamais serão convidadas e outras que o serão. Os particiantes do
campo televisivo dão preferência àqueles que estão sempre dis-
postos a participar dos programas. O desequilíbrio no debate po-
de ser também percebido nos papéis de cada participante: en-
quanto alguns estão nele para se explicar, outros estão para "ex-
plicar, para proferir um metadiscurso" (Ibidem, p. 49). Patrick
Champagne (1997, p. 69) atenta ao fato de que os dominados di-
ficilmente são ouvidos e, quando o são, tendem a partir daquilo
que é falado deles, por intermédio de um discurso emprestado.
Isso é notório quanto à televisão, cujas reportagens colhidas jun-
to a eles em um dado dia reproduzem o que assistiram nos tele-
jomais do dia anterior: "ouvimo-los [...] falando às vezes deles
mesmos na terceira pessoa ("os jovens querem um local para se
160 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
reunirem" diz, por exemplo, um deles numa reportagem). Mais
exatamente, os jornalistas tendem, sem o saber, a recolher seu
próprio discurso O dispositivo previamente montado é de-
terminante; são conversações com as fontes, a construção do ro-
teiro ou o script do programa, algo que pode ser mais ou menos
rígido. Jacques Siracusa (2000, p. 106) observa a força da pala-
vra na edição televisiva. Embora "os documentos coletados co-
mo os difundidos sejam audiovisuais, a organização das atuali-
dades televisivas repousa sobre a divisão e a hierarquização do
modo de tratamento das sonoras e das imagens mudas". Portan-
to, a banda de som orienta desde o início a edição. A improvisa-
ção está praticamente anulada; o veículo, seus agentes e produ-
tos, não podem se arriscar com a palavra livre. O jogo do debate
televisivo possui regras tácitas: nem tudo pode ser dito, entretan-
to, o modelo a ser seguido é o da luta livre; enfrentamentos, des-
de que mantida a linguagem formal, para o alimento maniqueís-
ta dos estereótipos.
A televisão é um meio de comunicação pouco autônomo que
sofre uma série de contingências. As pressões do mercado favo-
recem uma conivência dos jornalistas, embora permaneçam
concorrentes entre si: os interesses comuns associados à sua po-
sição no campo de produção simbólica, somados às estruturas
cognitivas comuns - o habitus -, tendem a uma cumplicidade
objetiva.
Pode-se e deve-se lutar contra o índice de audiência em nome da
democracia. Isso parece muito paradoxal porque as pessoas que
defendem o reino do índice de audiência pretendem que não há
nada de mais democrático (é o argumento favorito dos anunciantes
e dos publicitários mais cínicos, reforçado por certos sociólogos,
sem falar dos ensaístas de idéias curtas, que identificam as criticas
das pesquisas de opinião - e do índice de audiência - com a crítica
do sufrágio universal), que é preciso dar às pessoas a liberdade de
julgar, de escolher ("são seus preconceitos de intelectuais elitistas
que os levam a considerar tudo isso como desprezível"). O índice
de audiência é a sanção do mercado, da economia, isto é, de uma
legalidade externa e puramente comercial, e a submissão às exi-
gências desse instrumento de marketing é o equivalente exato em
matéria de cultura do que é a demagogia orientada pelas pesquisas
A estrutura invisível da televisão 161
de opinião em matéria de política. A televisão regida pelo índice
de audiência contribui para exercer sobre o consumidor suposta-
mente livre e esclarecido as pressões do mercado, que não têm na-
da de expressão democrática de uma opinião coletiva esclarecida,
racional, de uma razão pública [...] (Bourdieu, 1997a, p. 96-97).
Nem todos os integrantes do campo aceitam a situação: são
grandes as tensões; há submissão na maioria dos casos pela ne-
cessidade, embora também existam os ambiciosos que aceitam
de tudo a fim de ocupar os melhores postos.
O jornalismo é uma das profissões em que se encontram mais pes-
soas inquietas, insatisfeitas, revoltadas ou cinicamente resignadas,
em que se exprimem muito comumente (sobretudo do lado dos
dominados, evidentemente) a cólera, o asco ou o desencorajamen-
to [...]. Mas se está longe de uma situação em que essas amarguras
ou esses repúdios poderiam tomar a forma de uma verdadeira re-
sistência, individual e sobretudo coletiva (Ibidem, p. 5.3-54).
Como necessita de audiência, a televisão evita o tédio e, por-
tanto, o entretenimento é a sua preocupação antes de tudo. Isso
faz com que a política, pouco excitante ao grande público, seja
tratada como mais um assunto e, de preferência, retirado do ho-
rário nobre. Não é só a política que declina, são também as ma-
térias investigativas, as análises, que cada vez mais perdem for-
ça para os programas de auditório, os talk-shows. Os repórteres-
investigativos perdem espaço para os animadores. Bourdieu acu-
sa os agentes do campo televisivo que utilizam as expectativas
do público como justificativa para o rebaixamento da programa-
ção, que deveria servir para informar ou educar divertindo. O
que eles exercem é a projeção sobre os espectadores de suas
próprias visões de mundo, suas tendências políticas. A atitude de
parte significativa dos apresentadores, por exemplo, é a de prio-
rizar "o combate sobre o debate, a polêmica sobre a dialética, e a
empregar todos os meios para privilegiar o enffentamento entre
as pessoas (os políticos, sobretudo) em detrimento do confronto
entre seus argumentos, isto é, do que constitui o próprio desafio
do debate" (Ibidem, p. 135). Subjaz a esta observação uma críti-
ca que é dirigida a Jürgen Habermas. Bourdieu (1997b, p. 80)
receia em fazer crítica rápida e superficial do pensamento do fi-
162 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
lósofo alemão. No entanto, discorda da concepção dele de esfera
pública e da ação comunicativa:
[...] a representação da vida política que propõe Habermas, a partir
de uma descrição da emergência da "esfera pública", tal como
aparece nas grandes nações européias no século XVIII, com todas
as instituições (jornais, clubes, cafés e etc.) que acompanham e
sustentam o desenvolvimento de uma cultura cívica, oculta e re-
calca a questão das condições econômicas e sociais que deveriam
ser preenchidas para que se instaure a deliberação pública própria
a conduzir a um consenso racional, quer dizer, um debate onde os
interesses particulares em concorrência recebessem a mesma con-
sideração e onde os participantes se conformassem a um modelo
ideal do "agir comunicacional", que tentasse compreender o ponto
de vista dos outros e de dar-lhes os mesmos pesos que a seu ponto
de vista próprio. Como ignorar que, com efeito, [...] os interesses
de conhecimento enraízam-se nos interesses sociais, estratégicos
ou instrumentais, que a força dos argumentos não é quase nada e-
ficaz contra os argumentos da força (ou mesmo contra os desejos,
as necessidades, as paixões e sobretudo as disposições), e que a
dominação não está jamais ausente das relações sociais de comu-
nicação?.10
10 Habermas (1987) investiga os fundamentos da racionalidade prática. Ele cons-
trói a tese de que os discursos, os proferimentos lingüísticos comuns, conec-
tam-se necessariamente a condições de validade universais. Esta concepção
choca-se ffontalmente à de Bourdieu, para quem os conflitos existentes entre os
agentes processam-se, de modo semelhante, na disputa pelo monopólio do dis-
curso legítimo e, por conseguinte, na luta pela deslegitimação dos discursos dos
pares rivais. Como visto em capítulo anterior, Bourdieu refuta a possibilidade
do pleito habermasiano da trans-historicidade dos universais. Para ele, esses
universais são históricos e constituídos com base na relativa autonomia dos
campos sociais que gerenciam sua racionalidade interna. A luta no interior do
campo acontece entre agentes sociais comunicativamente competentes; os que
não possuem essa competência ficam de fora do campo, e à mercê das even-
tuais imposições de problemáticas dele emanadas. De acordo com Edward Li-
Puma (1995, p. 23), a concepção de Bourdieu resulta em uma "forte reivindica-
ção da indivisibilidade do conhecimento e do interesse humano, mais forte que
a articulada por Habermas [.,.], que leva a uma epistemologia posicionai. O que
sabemos de nós mesmos e de nossa sociedade depende inteiramente de nossa
"órbita" no interior de um campo de forças".
A estrutura invisível da televisão 163
A interpretação de Bourdieu ao superdimensionamento das
contendas, na abordagem que os jornalistas realizam do meio
político, é que a relação social estabelecida por eles baseia-se
em essência no contato pessoal com os agentes políticos: as con-
fídências, os rumores, os mexericos. Por conseguinte, o conteú-
do dos projetos tende a esvaziar-se pelo que é percebido nas tá-
ticas solidárias e de confronto entre os participantes do campo
político. Uma visão cínica dp mundo político passa então a ser
adotada nas notícias, entrevistas e comentários, como se a polí-
tica fosse composta tão-somente por pessoas sem convicções e
apenas guiadas por suas ambições. A televisão, de acordo com
Bourdieu, exerce vários tipos de censura sobre a política; censu-
ras políticas', sobre os convidados, na imposição de assuntos; na
imposição das condições de comunicação; na limitação do tem-
po de argumentação; sobre os jornalistas, nos critérios para a es-
colha dos que ocuparão postos dirigentes na emissora; e na au-
tocensura a que os quadros subalternos se submetem, haja vista
serem meros "privilegiados" que conseguiram escapar do enor-
me exército de reserva no mercado de trabalho. A manutenção
de sua profissão precária depende do conformismo político. O
tipo de relação que a televisão adota com a política, somado aos
vultosos cachês de suas estrelas, toma o veículo cada vez mais
distante da realidade social e mesmo daquela dos jornalistas que
ocupam posições dominadas no campo. A sociedade, da sua par-
te, mais se desencanta com a política, desencanto proporcional -
ou quase - ao consumo televisivo.
As questões importantes são desviadas em direção ao espe-
táculo. A atualidade se reduz a uma sucessão desconexa de
acontecimentos, sem antecedentes nem conseqüências. Bourdieu
(1998b, p. 22) é um crítico contumaz do pensamento que espe-
taculariza o mundo social e as relações sociais que nele são en-
gendradas; das inconseqüências da concepção teórica de Guy
Debord." "Instituir como regra de vida o "anything goes,,]2
pós-
modemo, e permitif-se jogar simultânea ou sucessivamente em
todos os tabuleiros, é lograr o meio de "ter tudo e não pagar na-
'1
A sociedade do espectáculo. Lisboa: Afrodite, 1972.
12
Bourdieu comumente grafa em inglês para referir-se ao vale-tudo pós-moderno.
164 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
da", a crítica da sociedade do espetáculo e o vedetismo da mí-
dia, o culto de Sade13
e a reverência por João Paulo II Re-
chaçando a noção de espetáculo, o que pretende atentar é ao que
designa como amnésia estrutural, seus efeitos resultam da lógi-
ca da novidade, da produção da representação do mundo instan-
taneísta e descontinuísta, sem ontem nem amanhã, isto é, do
aqui e agora.
Essa visão des-historicizada e des-historicizante, atomizada e ato-
mizante, encontra sua realização paradigmática na imagem que
dão do mundo as atualidades televisivas, sucessão de histórias apa-
rentemente absurdas que acabam todas por assemelhar-se, desfiles
ininterruptos de povos miseráveis, seqüências de acontecimentos
que, surgidos sem explicação, desaparecerão sem solução, hoje o
Zaire, ontem Biafra e amanhã o Congo, e que, assim despojados
de toda necessidade política, podem apenas, no melhor dos casos,
suscitar um vago interesse humanitário. Essas tragédias sem laços,
que se sucedem sem perspectiva histórica, não se distinguem
realmente das catástrofes naturais, tomados, incêndios florestais,
inundações, que também estão muito presentes na "atualidade",
porque jomalisticamente tradicionais, para não dizer rituais, e so-
bretudo fáceis e pouco dispendiosas de cobrir. Quanto às suas ví-
timas, não são mais suscetíveis de provocar uma solidariedade ou
uma revolta propriamente políticas do que os descarrilamentos de
trens e outros acidentes (Bourdieu, 1997a, p. 140-141).
A televisão apresenta uma visão de mundo que não oferece
ponto de apoio ao cidadão comum e, com isto, a relação dele
com a política se toma similar à que vive com o esporte de alto
nível, que o reduz à condição de torcedor. Destarte, a política
toma-se negócio de profissionais, da qual mesmo os grupos mais
politizados se desengajam. O zapping do público é um antídoto
aos seus programas, mas por si só não basta para mudar a ordem
estabelecida. Ao contrário, fenômenos como os da xenofobia e
de radicalismos nacionalistas podem emergir da exploração, pe-
13
De fato, Debord realizou um filme "marginal", em 1952, intitulado Hurlement
enfaveur de Sade ("Brado em favor de Sade"), foi um dos fundadores do mo-
vimento situacionista, cuja publicação é a revista Internationale situationniste,
e teve destaque no Maio de 68.
A estrutura invisível da televisão 165
los meios de comunicação, das "paixões primárias humanas"
(Ibidem, p. 11).
A dialética do extraordinário
O campo da economia ocupa posição de destaque no pen-
samento de Bourdieu e, em especial, em Sur la télévision, por
exercer forte pressão sobre o veículo: a lógica concorrencial é
um importante mecanismo de censura presente no campo. O so-
ciólogo não está preocupado com uma economia política das
comunicações por considerá-la elementar: "É evidente que há
coisas que um governo não fará a Bouygues sabendo que Bouy-
gues está por trás da TF1" (Bourdieu, 1997a, p. 20). O que ele
pretende é a análise empírica das relações de determinados
campos de produção relativamente autônomos, de uma classe
particular de produtos, e o público de consumidores que estes
reúnem, funcionando às vezes como um campo, sem que deixe
com isto de estar determinado por sua posição no campo das
classes sociais. As teorias econômicas tendem a reduzir o con-
sumidor ao seu poder de compra, ou então, os produtos a sua
função técnica, supostamente homogênea a todos. Destarte, a in-
tenção é desvendar mecanismos ocultos que favorecem o exer-
cício das censuras e a manutenção da atual ordem simbólica. A
televisão manipula com a cultura, o simbólico, para melhor ser-
vir-se dele. Contudo, os participantes do campo televisivo são
tão manipulados quanto manipuladores. Melhor se forem mani-
pulados, pois sem tomarem consciência de sê-lo, a manipulação
é mais eficiente.
A violência simbólica é uma violência que se exerce com a cum-
plicidade tácita dos que a sofrem e também, com freqüência, dos
que a exercem, na medida em que uns e outros são inconscientes
de exercê-la ou de sofrê-la. A sociologia, como todas as ciências,
tem por função desvelar coisas ocultas; ao fazê-lo, ela pode mini-
mizar a violência simbólica que se exerce nas relações sociais e,
em particular, nas relações de comunicação pela mídia (Ibidem, p.
22).
166 luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
A vulnerabilidade da televisão ao campo econômico, sobre-
tudo pela necessidade das vultosas verbas publicitárias, tende a
favorecer o ocultamento do que conflita com os interesses do
mundo da economia, de onde sai o seu sustento. A televisão
oculta mostrando: ao invés de mostrar a informação necessária,
mostra outra coisa qualquer; quando mostra o que é preciso,
apresenta os fatos de tal modo que eles se tomam insignificantes
ou o sentido não corresponde mais à realidade. Bourdieu reivin-
dica o artigo de Champagne, A visão mediática, no qual o autor
descreve como a mídia constrói a representação dos fenômenos
de "subúrbio", e como os jornalistas selecionam aí um aspecto
inteiramente particular da vida social em função de categorias
de percepção que são próprias dos jornalistas. "O que pode ser
banal para outros poderá ser extraordinário para eles ou ao con-
trário" (Ibidem, p. 26). A percepção dos jornalistas é organizada
e determinada por estruturas invisíveis, do habitus, produto da
educação e da história individual, que os leva a verem certas
coisas, de certas maneiras e não outras. O princípio de seleção,
por sua vez, é a procura do sensacional, do espetacular. Perce-
bem-se aqui, na produção da notícia, semelhanças da concepção
bourdieusiana a da newsmaking, mas uma distinção fundamen-
tal: no institucionalismo da newsmaking, são as estruturas da ca-
deia produtiva que mais pesam ao resultado do produto final, a
notícia. Para Bourdieu, concorrem também as do habitus. Por-
tanto, os agentes sociais adquirem uma importância maior em
sua teoria. Só "sobrevive" à lógica interna do campo jornalístico
o agente que possui um habitus ajustado às regras internas do
campo, verificáveis nas tarefas rotinizadas. Mas, paradoxalmen-
te, o habitus, que tende a orientar as práticas desses agentes à
reprodução da estrutura, é que viabiliza um espaço de transfor-
mação. O agente com um habitus dissonante ao campo pode ten-
tar exercer mecanismos de contraviolência simbólica, que po-
dem vir a provocar efeitos na estrutura. Porém, isto é difícil.
Observa-se na realização dos produtos televisivos um pri-
mado da dramatização dos fatos. Os acontecimentos são drama-
tizados em dois sentidos: ao serem postos em cena, pela via das
imagens, e pela acentuação de seus caracteres, a gravidade, o
exagero, o caráter dramático. Para os subúrbios franceses, são
A estrutura invisível da televisão 167
as rebeliões que interessam. O jornalismo televisivo associa
permanentemente palavras à imagem, que cumprem a mesma
função da legenda em fotografia, de reforço de sentido. O prin-
cípio de seleção dramatizador favorece as falsas representações,
que são acompanhadas de fantasias, medos e fobias. Um aconte-
cimento, ou a sua construção, pode ganhar uma evidência nos
noticiários desproporcional ao fato em si. A reiterada dramatiza-
ção do ocorrido, de dadas características dos protagonistas e de
sua ação, pode ser mecanismo de aflora- .ento de emoções. A te-
levisão as alimenta e, ao mesmo tempo, condena seus efeitos, ti-
po linchamento. As vítimas em geral são pertencentes ao grupo
que se associa ao perfil de os atores sociais de um caso isolado.
Quando o clima de violência já está instalado, o veículo retoma
com um discurso de pretensão humanitária, de denúncia e apelos
por não-violência. Para os jornalistas, da sua parte, o que impor-
ta é o extraordinário, ruptura com o ordinário, com o cotidiano.
Destarte, os profissionais buscam cotidianamente, nos aconte-
cimentos ordinários, o extraordinário. Isto explica em parte a
importância auferida a eventos como variedades, assassinatos,
incêndios, inundações e etc., conhecidos como "fait divers".
Também não ser ordinário em relação aos concorrentes constitui
o extraordinário.
Até aqui tenho relacionado o pensamento contido em Sur la
télévision com a teoria desenvolvida no momento que chamo de
"praxiológico" com vistas a demonstrar que a inversão de Bour-
dieu corresponde mais a uma nova démarche intelectual do que
a um desapego epistemológico do esquema analítico que desen-
volvera. Não obstante, procuro neste tópico destacar marcas do
pensamento de Bourdieu do momento "estrutural-funcionalista",
pertinentes às obras que enfoco neste livro. Diria que elas exis-
tem, e isto é bem visível na discussão que o sociólogo faz da
busca dos jornalistas do extraordinário no ordinário. Esta preo-
cupação de Bourdieu remete à lembrança de Un art moyen. Ne-
le, detecta que a prática fotográfica cumpre umafunção de inte-
gração do grupo familiar que, em seu sentimento de unidade
manifestado nas práticas sociais, reproduz o ordinário. Partindo
de Durkheim, Bourdieu reconhece que o extraordinário da festa
fortalece e recria o grupo. Neste sentido, digo que a televisão é a
168 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e oCampo da Comunicação
festa doméstica. Para o veículo, Bourdieu também observa o ex-
traordinário no ordinário. Compreende-se-o, em parte, no con-
texto da apresentação de Champagne em "La télévision dans le
cercle de famille", versão francesa do texto de Lynn Spigel.14
Champagne, apoiando-se em textos de Bourdieu como Un art
moyen e "Sociologues des mythologies et mythologies de socio-
logues", reconhece uma importância bem mais significativa de
uma sociologia da família ao entendimento dos usos sociais dos
meios técnicos, do que as proposições efetuadas pelo discurso
midiológico. A perspectiva mantém sua força para a pesquisa
contemporânea relativa às práticas sociais voltadas, por exem-
plo, à Internet. A busca do extraordinário decorre da concorrên-
cia no campo televisivo, que em vez de produzir originalidade,
como acontece em outros campos, gera uniformidade e banali-
zação. Tende, pois, a produzir, paradoxalmente, a banalização
desse extraordinário. Isto é agravado pelo fato de que, na área,
os profissionais têm o costume de copiarem-se mutuamente, o
que acarreta a circulação circular da informação.
Os perigos políticos inerentes ao uso ordinário da televisão devem-
se ao fato de que a imagem tem a particularidade de produzir o
que os críticos literários chamam o efeito de real, ela pode fazer
ver e fazer crer no que faz ver. Esse poder de evocação tem efeitos
de mobilização. Ela pode fazer existir idéias ou representações,
mas também grupos. As variedades, os incidentes ou os acidentes
cotidianos podem estar carregados de implicações políticas, éticas
e etc. capazes de desencadear sentimentos fortes, freqüentemente
negativos, como o racismo, a xenofobia, o medo-ódio do estran-
geiro, e a simples narração, o fato de relatar, to record, como re-
pórter, implica sempre uma construção da realidade capaz de
exercer efeitos sociais de mobilização (ou de desmobilização)
(Bourdieu, 1997a, p. 28).
Jean-Louis Fabiani (1988, p. 103) atenta ao fato de como o
efeito de real, inicialmente associado aos grandes centros urba-
nos que produzem imagens televisivas, passa a ocorrer no inte-
14
Actes de la Recherche en Sciences Sociales, n. 113, juin 1996. É o segundo ca-
pítulo do livro Make room for TV. Television and lhefamily ideal in Postwar
America. Chicago: The University ofChicago Press, 1992.
A estrutura invisível da televisão 169
rior à medida que se processa a produção local de imagens. Fa-
biani pesquisou o impacto da produção regional na Córsega. No
artigo do pesquisador, o efeito de real, em um contexto de des-
centralização da produção, é positivo para a cultura; cabe atentar
que, à medida que há a descentralização, incrementam-se as lu-
tas simbólicas: "contribui ao questionamento das representações
estereotipadas que eram, elas mesmas, o produto de um processo
de desrealização e de folclorização Entretanto, a conjuntu-
ra contemporânea a que Bourdieu incide, não tende à descentra-
lização, mas à concentração da produção ou, ao menos, de sua
homogeneização. O problema que se acentua no dito "mundo
globalizado" intervém nos princípios de visão do mundo, isto é,
na tendência ao processo de uniformização das classificações
culturais, as quais são requisitos para a mobilização política.
Nesse processo, a televisão é fundamental: as manifestações
para adquirirem importância devem ser televisadas; mais ainda:
"é preciso cada vez mais produzir manifestações para a televi-
são, isto é, manifestações que sejam de natureza a interessar às
pessoas de televisão, dadas as suas categorias de percepção, e
que, retomadas, amplificadas por elas, obterão sua plena eficá-
cia" (Bourdieu, 1997a, p. 30). Essa tendência favorece o surgi-
mento do acontecimento-choque, resultante da tentativa de rup-
tura com o efeito de interleitura da circularidade da informação.
Em dado período de tempo, há pouca ou nenhuma variação na
forma e no conteúdo dos mais diferentes meios de comunicação;
no máximo, o que muda é a ordem de apresentação das notícias.
As diferenças são imperceptíveis ao espectador médio. A situa-
ção decorre, em parte, da produção ser coletiva. Entretanto, ao
refletir-se sobre essa coletividade, deve-se ter em conta não o
coletivo de uma determinada redação, mas a totalidade que for-
ma o campo jornalístico. A concorrência interna estimula a in-
terleitura: "Ninguém lê tanto jornais quanto os jornalistas, que,
de resto, tendem a pensar que todo mundo lê todos os jornais.
(Eles esquecem que, em primeiro lugar, muita gente não os lê e,
em seguida, que aqueles que os lêem lêem um só." (Ibidem, p.
32). No entanto, o que poderia ser um excesso, para os profis-
sionais é um indispensável instrumento de trabalho; a interleitu-
ra, prática a que Champagne chama de "revista de imprensa".
170 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
além de facilitar na elaboração da pauta de trabalho, permite a
permanente atualização do agendado, no contexto global do
campo. Como mais cedo ou mais tarde todos tratarão dos mes-
mos temas, muitos personagens ou produtos tornam-se sucessos
produzidos pela mídia. O efeito de interleitura, somado ao fato
de que os jornalistas possuem habitus muito semelhantes e con-
vivem muito - ou somente - entre si, resulta em um fechamento
que produz uma circulação circular da informação, um modo
eficaz de censura.
A entrevista coletiva, o comunicado à imprensa não servem para
nada: a análise é supostamente aborrecida, e é impossível passá-la
em um jornal, a menos que seja assinada por um nome célebre,
que faz vender. Para romper o círculo, é preciso proceder por
transgressão, mas a transgressão não pode ser senão através da
mídia; é preciso conseguir produzir um "choque" que interesse ao
conjunto da mídia ou pelo menos a um dos meios de comunicação
e que poderá ser reforçado pelo efeito da concorrência (Ibidem, p.
35).
Christa Berger (1998, p. 194) aporta como exemplo disso o
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que
produziu um acontecimento-choque com repercussão na im-
prensa de Porto Alegre. A ação do MST junto ao prédio do Mi-
nistério da Fazenda, em 16 de janeiro de 1996, na capital gaú-
cha, durou dez horas e foi quase toda pacífica. Entretanto, 15
minutos de uma "tática de provocação" renderam, no dia seguin-
te, fotografia na primeira página do jornal Zero Hora. Além das
diferenças que existem nas respectivas dinâmicas organizadoras
dos "campos sociais" em que participam o periódico e o movi-
mento, possuem uma característica em comum. "Num e noutro a
luta entre os componentes é pela palavra. Elevada à capital ca-
paz de propiciar lucro material ou simbólico, é disputada pelos
militantes no MST e pelos jornalistas na redação de Z/f'.
A despeito do apelo ao extraordinário, porque os concorren-
tes se copiam, ele se banaliza. Todavia, resta aos grupos sociais
que não possuem a sua existência pública contemplada pelo
campo jornalístico tomarem extraordinária sua ação, como no
acontecimento-choque, a fim de passarem a existir na mídia e,
A estrutura invisível da televisão 171
com isto, suas idéias terem a chance de tomarem-se idéias-
forças, mas que também podem banalizar-se em função da uni-
formização, o que os impeliria à ação contínua. Esta é uma ten-
são que detecto no que chamo de "dialética do extraordinário".
O extraordinário integra a unidade familiar em frente ao apare-
lho da televisão, potencializa o efeito de real, transmitindo uma
impressão de caos, de desagregação, de ausência de regras ou,
ainda e reivindicando Durkheim, de anomia, que afeta essa inte-
gração, e engendra uma censura estrutural que favorece a cons-
trução censurada da realidade social, selecionada e eufemizada;
por outro lado, estimula a ação dos grupos sociais organizados a
romperem, pela via do extraordinário, a circulação circular da
informação. A tensão deve-se ao fato de que a construção desse
encadeamento teórico tem origem no momento estrutural-
funcionalista, onde preponderam as funções internas ao grupo.
No momento atual, no entanto, mesmo reconhecendo que Bour-
dieu pleiteie a homologia do campo social ao campo de produ-
ção específico, é sobre este que o sociólogo concentra o olhar.
Demais, a fragmentação percebida hoje nos espaços sociais de
interação contrasta com a idéia de integração.15
Intelectuais versus televisão
A agenda social cada vez mais é definida pela televisão na
lógica da circularidade da informação: os assuntos a serem dis-
cutidos, os problemas importantes, os acontecimentos e as re-
percussões. Mesmo que um tema tenha sido lançado por um jor-
nal impresso, ele só ganha importância, toma-se central, isto é,
conquista eficácia política, quando retomado pela televisão. Para
ter peso no campo, um jornalista deve ter seu próprio programa.
A medida que aumenta a concorrência e o peso simbólico da
televisão no campo jornalístico, ela ajusta-se ao tipo de visão da
informação da qual só os jornais sensacionalistas dela se incum-
biam. O conjunto do campo passa, então, a dar mais valor ao ex-
15
Cf. Honneth, 1986.
172 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
traordinário, ao espetacularizado, aos esportes, às notícias de va-
riedades.
As notícias de variedades [...] têm por efeito produzir o vazio polí-
tico, despolitizar e reduzir a vida do mundo à anedota e ao mexeri-
co (que pode ser nacional ou planetário, com a vida das estrelas ou
das famílias reais), fixando e prendendo a atenção em aconteci-
mentos sem conseqüências políticas, que são dramatizados para
deles "tirar lições", ou para os transformar em "problemas da so-
ciedade" [...] (Bourdieu, 1997a, p. 73).
O sensacionalismo possibilita o despertar de paixões e pul-
sões primárias, cujo efeito pode resultar na mobilização baseada
por sentimentos e as mobilizações caritativas, como nos tele-
thons,'6
mas também agressivas, à beira do linchamento simbó-
lico (e não só simbólico). Bourdieu (Ibidem, p. 85), ao reivindi-
car a ação intelectual corporativista em defesa dos valores uni-
versais, condena aqueles, como Guy Debord, cujo pretenso pen-
samento crítico acerca do espetáculo "serve de álibi a um falso
radicalismo cínico e capaz de neutralizá-lo". Ao mesmo tempo,
acredita que de modo oportunista alguns jornalistas utilizam in-
formações das ciências sociais com o objetivo de desestabilizar
o campo intelectual.
O que defendo acima de tudo é a possibilidade e a necessidade do
intelectual crítico, e principalmente crítico da doxa intelectual que
os doxósofos difundem. Não há verdadeira democracia sem ver-
dadeiro contrapoder crítico. [...] É por isso que considero o traba-
lho de demolição do intelectual crítico, morto ou vivo - Marx, Ni-
etzsche, Sartre, Foucault, e alguns outros classificados em bloco
sob o rótulo de "pensamento 68"17
tão perigoso quanto à demo-
lição da coisa pública e inscrevendo-se no mesmo empreendimen-
to global de restauração (Bourdieu, 1998b, p. 17-18).
16
Neologismo, a partir do inglês: maratona de televisão. Lipovetsky (1994) apon-
ta a existência nessas campanhas eletrônicas de caridade de uma "ética indo-
lor". Independente dos seus méritos, "Criança-esperança" é um exemplo deste
tipo de programa, realizado no Brasil.
17
Alusão à obra de Luc Ferry e Alain Renaut, autores tratados em capítulos ante-
riores deste livro.
A estrutura invisível da televisão 173
A liberdade, isto é, a eliminação de todo tipo de dominação,
a que estão submetidos tanto os jornalistas como os espectado-
res, é possível pela tomada de consciência das estruturas que a
mantêm.
Não acho que os profissionais estejam cegos. Eles vivem, creio,
num estado de dupla consciência: uma visão prática que os leva a
aproveitar ao máximo, freqüentemente com um certo cinismo, al-
gumas vezes sem se darem conta disso, as possibilidades que lhes
oferece o instrumento midiático do qual dispõem (eu falo dos po-
derosos entre esses profissionais); uma visão teórica moralizante e
carregada de indulgência por eles mesmos, que os leva a negar
publicamente a verdade do que fazem, a mascará-la para eles pró-
prios. [...] Essa dupla consciência [é] muito comum nos poderosos;
já se dizia que os adivinhos romanos não conseguiam se olhar sem
rir [...] (Ibidem, p. 105).
Bourdieu (1997a, p. 79) acredita que para o campo jornalís-
tico, na prática, pode-se pensar "em alianças transjomais que
permitiriam neutralizar certos efeitos que nascem da concorrên-
cia". Em Contre-feux, ele melhor esclarece a posição: "A im-
prensa, o jornalismo escrito, tem uma posição estratégica. Ela
pode oscilar para o lado das forças do mercado e da televisão
(como é o caso da França, pelo menos), submetendo-se a seus
temas, seus personagens, seu estilo etc. Mas a imprensa pode
também, em vez de servir como repetidora da televisão, traba-
lhar para difundir armas de defesa" (Bourdieu, 1998, p. 113).
174 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
Conclusão
Por uma Realpolitik
da razão comunicativa
Com efeito, precisa-se operar na prática, ao recorrer aos
meios ordinários da ação política - criação de associa-
ções e de movimentos, manifestações e manifestos e
etc. - à Realpolitik da razão, que visa instaurar e refor-
çar, no seio do campo político, os mecanismos capazes
de impor as sanções próprias a desencorajar os des-
respeitos à norma democrática [...] e a encorajar ou im-
por as condutas conformes; visando assim favorecer a
instauração de estruturas sociais de comunicação não-
distorcidas entre os detentores do poder e os cidadãos,
notadamente por uma luta constante contra o embargo
sobre os instrumentos de produção e de difusão da in-
formação em grande escala.
Pierre Bourdieu, Méditations pascaliennes.
A pesquisa realizada para a elaboração deste livro partiu das
críticas que Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron dirigiram à
concepção que homogeneiza a cultura de massas, apresentada
por Edgar Morin no início dos anos 60. Para os primeiros, os
agentes sociais expressam no dia-a-dia práticas culturais distin-
tas, longe de serem passivas, mesmo quando os bens simbólicos
consumidos são homogêneos. Visando esclarecer como é mani-
festada essa diversidade, faz-se necessário descer do "céu das
idéias" e devotar-se à pesquisa de campo. Conduzindo-se deste
modo, Bourdieu detectou que, na sociedade pouco diversificada,
os grupos sociais tendem a reproduzir em suas práticas culturais
Por uma Realpolitikda razão comuncativa 175
as funções sociais ordinárias, notadamente as que visam assegu-
rar a integração do grupo. No entanto, à medida que a sociedade
se complexifica, os agentes passam a orientar-se por uma lógica
da distinção, pela qual se soma à luta de classes uma luta de
classificações. A lógica da distinção é verificada entre os mais
diversos integrantes de um campo social: incluindo os veículos
de comunicação, como na oposição entre os jornais sérios e os
sensacionalistas. Tanto uns quanto outros, em virtude de seu
grau reduzido de autonomia e à lógica concorrencial que os
submete, tendem à uniformização de seus conteúdos. Portanto, a
apresentação do extraordinário, recurso típico do sensacionalis-
mo à conquista de seu público, tende a fazer-se presente também
na imprensa "séria". Como tomar aceitáveis ao seu leitor médio
os efeitos rechaçados nos concorrentes ilegítimos? Neutralizá-
los, eufemizá-los, a fim de resguardarem o estatuto dominante
de sua legitimidade. Percebe-se aí, na elaboração discursiva, a
relativa homologia que há entre os campos da produção e o do
consumo. Com efeito, esse recurso é empregado pelos agentes
sociais dominantes dos dois campos, a fim de garantirem a im-
posição dos seus discursos. Nesta esfera de legitimidades, cabe
fazer notar que o consumidor do produto jornalístico legítimo é,
com freqüência, produtor de discursos, de opiniões, isto é, de le-
gitimidades a partir de campos concorrentes, notadamente o po-
lítico e o econômico.
Destarte, a manipulação que Bourdieu denuncia vai além da
noção cpie, três décadas antes, Hans Magnus Enzensberger di-
fundira (e presente na crítica cultural de Adorno e Horkheimer,
nos anos 40 do século XX). É bem verdade que as últimas críti-
cas que o sociólogo dirige ao poderio da televisão, fazem-no rei-
vindicar a associação de esforços com vistas à viabilização de
formas de controle ou de propriedade dos meios de difusão da
informação, o que leva o olhar bourdieusiano a voltar-se, com
efeito, à ordem da dominação material, ênfase contemporânea
Cf. H. M. Enzensberger. "Baukasten zu einer Theorie der Medien". In: Kurs-
buch, 20. Frankfurt: Suhrkamp Verlag, Mârz 1970. Adoto a edição brasileira:
Elementos para uma teoria dos meios de comunicação. Rio de Janeiro: Tempo
Brasileiro, 1978.
176 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
que o aproxima do pensador alemão e das análises de estudiosos
da perspectiva materialista ligados à chamada "economia políti-
ca das comunicações", embora receba críticas de alguns deles,
como Nicholas Gamham.2
Não obstante, defendo que o sociólo-
go vai muito além dessa ordem, haja vista todo o vigor de sua
perspectiva acerca da dominação simbólica que, longe de ser
negligenciada, é cada vez mais reconhecida e cujos postulados
teóricos que a interpretam inclusive foram praticados por ele
próprio em seus últimos dias, na ação política exercitada através
de uma contraviolência simbólica; momento contemporâneo e
apoteótico das idéias inventariadas por este livro. Na dinâmica
que empreendeu, Bourdieu investiu, pois se existe alguma pers-
pectiva teleológica em seu pensamento não é a da teleologia da
história, mas a das estratégias individuais provenientes do reco-
nhecimento das posições sociais que levam às tomadas de posi-
ção, à consecução de uma trajetória social. Ele reconheceu sua
posição de autoridade, de legitimidade nos campos sociais por
onde transitava e, ao mesmo tempo, seu habitus que o dispunha
a incidir protetivamente, pela via da ação crítica, sobre as estru-
turas sociais visadas.
Com efeito, o paradigma teórico da sociologia bourdieusiana
possibilita a análise do poder por diversos enfoques, desde ma-
cro até microestruturais. As relações de poder podem ser avalia-
das entre os campos sociais, entre os agentes e, mesmo entre os
campos de diferentes espaços sociais; desde o poder nas relações
humanas até o poder nas relações internacionais. E mais: o po-
der presente em cada um dos indivíduos, que os domina, os das
estruturas internalizadas do habitus. A espiral da dominação pa-
rece infinita; é de suas formas que as lutas sociais se estruturam
e se dinamizam. Mas a tomada de consciência das estruturas que
a sustentam pode ser um poderoso fator emancipatório, embora,
para o esquema analítico, seja impossível normativamente a
oposição de uma não-dominação. Algo semelhante pode ser dito
dos mecanismos de poder que são exercidos no âmbito da co-
municação. A teoria, como salienta Rodney Benson, permite vá-
rias aplicações à pesquisa em comunicação. No que se refere es-
2
Cf. Gamham, 1995.
Por uma Realpolitikda razão comuncativa 177
pecifícamente às práticas comunicacionais mediadas pelos ins-
trumentos técnicos, serve tanto às referidas análises macro como
microestruturais. Se o olhar bourdieusiano, no que se reporta à
mídia, voltava-se no fim da vida ao poder exercido no âmbito
macroestrutural, verificado no libelo que é a coletânea de artigos
de Contre-feux, é que o processo contemporâneo de reacomoda-
ção do capital, popularizado pelo termo "globalização", cuja
doutrina político-econômica que lhe subjaz em essência é a ul-
traliberal, potencializa os interesses do campo econômico sobre
a mídia, cujo processo de restruturação corporativa que funde e
concentra capitais faz pesar a lógica do mercado sobre todos os
demais campos sociais. O campo da comunicação é central nesta
dinâmica por mediar relações entre os diversos campos sociais,
tendendo, ao que postula Nick Couldry,3
ao engendramento de
metacapital midiático. Por outro lado, o olhar contemporâneo
não invalida as pesquisas microestruturais. Ao contrário, deve-
riam mesmo ser estimuladas. A propósito, o diálogo do esquema
analítico com os aportes do interacionismo simbólico, hoje em-
preendido por muitos pesquisadores, é incentivo para tanto.4
Aqui ressurge a questão já tratada na introdução. Afinal, ha-
veria um campo da comunicação? Bourdieu em seus primeiros
escritos adotara a designação campo da indústria cultural (porta-
dor da tendência à heteronomia do que é aqui estudado, sem
com isso deixar de ser definido por Bourdieu como "campo") e,
nos últimos tempos, campo jornalístico, campo midiático ou
campo da mídia (denominação, em princípio, descartada como
opção aos objetivos deste livro, pelo grau de imprecisão ou inde-
terminação, ou melhor, de instrumentalização do conceito de
"mídia").5
Portanto, acredito, sim, ser razoável, mesmo sabendo
que no caso brasileiro não ocorre o preenchimento das condi-
3
Cf. Couldry, 2003b. O metacapital midiático é produzido pelo poder da mídia;
um poder que é exercido sobre outras formas de poder, presentes em outros
campos e perpassando - com influência - por sobre eles, a exemplo do meta-
capital estatal decorrente do poder de Estado, que consegue interferir sobre a
dinâmica dos mais diversos campos.
4
Cf, por exemplo, Fillieulle, 2001.
5
Opção adotada por Nick Couldry (2003b), inspirado em Patrick Champagne e
Rodney Benson, tratando, porém, de precisar o seu conceito de mídia.
178 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
ções que caracterizam um campo stricto sensu, adotar a denomi-
nação campo da comunicação, porque a partir dela se pode ter
uma maior clareza dos encadeamentos do campo específico com
o campo econômico, uma vez que Bourdieu, ao concentrar-se
por demais nas relações entre o jornalismo e a economia (tratada
de modo genérico), percebidos como pares opostos, não se de-
tém suficientemente em nuanças promovidas por áreas como as
da publicidade e propaganda e das relações públicas. O jorna-
lismo deve ser entendido ao menos no contexto destas duas dis-
ciplinas. Em essência elas são o principal veículo de heterono-
mia no campo. Mas, ao mesmo tempo, somadas ao jornalismo
constituem o campo da comunicação lato sensu, mesmo reco-
nhecida a impossibilidade do preenchimento de todos os requisi-
tos que o sociólogo lista para a constatação da emergência de
um campo. O primeiro critério a avaliar-se a existência ou não
de um campo social é seu grau de autonomia. Apesar de alta
propensão a heteronomia, desde a gênese das três áreas em seu
processo de institucionalização individual seguida da coletiva -
que enveredou na chamada comunicação integrada - institui-
ram-se regras próprias ao campo por seus agentes. Construíram-
se critérios de legitimidade, de racionalidade burocrática, de fato
de uma Eigengesetzlichkeit no sentido weberiano. Outro critério
que se considera é o capital social específico, detentor de valor
superior no interior do campo: para as três áreas, postulo ser o
da credibilidade', é ela que impulsiona no campo as reconver-
sões de capitais, a manutenção de ganhos materiais, e a valori-
zação de posições institucionais ou pessoais, além de - e até por
isso - viabilizar a incidência do campo sobre os demais campos
sociais.
Os agentes sociais que compõem o campo da comunicação
estão em luta entre si e entre os demais campos sociais pelo mo-
nopólio da difusão dos discursos legítimos. Nesta disputa pela
legitimação discursiva, os integrantes do campo da comunicação
envolvem-se em interesses e contendas - em contendas porque
há o interesse - com os integrantes do campo político. Essa inte-
ração difusa constitui o que Patrick Champagne chama de
"campo político-midiático". O que pretendo dizer com isto é
que, embora postule a existência de um campo da comunicação
Por uma Realpolitikda razão comuncativa 179
pelas razões acima expostas, que não seriam as únicas, isto não
invalida o valor heurístico da designação. Ela é fruto do mesmo
tipo de apropriação que realiza Champagne, da lógica dos múl-
tiplos encadeamentos, a qual já observara em capítulo anterior:
uma esfera das práticas sociais que, sob certo ângulo, pode ser
observada como campo jornalístico, por outro, como campo po-
lítico-midiático ou, ainda, como campo da comunicação. São es-
ses campos produtores dos discursos legítimos que difundem o
sistema de classificações sociais que moldará a sociedade e, ne-
la, o mundo da cultura. É a partir do arbitrário cultural que os
agentes sociais constróem a própria imagem que fazem de si. O
paradoxo é que esses campos produtores de discursos têm legi-
timado discursos que favorecem a destruição da autonomia dos
campos sociais e, com ela, os próprios campos sociais.
Diferente do pensamento de Edgar Morin, que detecta no
egocentrismo o problema da self-deception atual,6
o de Bourdieu
constata que ela resulta da destruição da estrutura das classifica-
ções: os indivíduos vêem-se desclassificados à medida que con-
tinuamente se encontram em maior número colocados do lado
de fora dos campos de produção. A self-deception, longe de ser
uma responsabilidade do indivíduo isolado, é o produto contem-
porâneo da heteronomia nos campos sociais. E uma dinâmica
anômica da sociedade, cujo peso faz sentir o indivíduo. Os me-
canismos de poder que se ocultam nessa imposição discursiva
destruidora são fundamentais à pesquisa em comunicação. Com
efeito, o universo do poder simbólico é o locus privilegiado à
pesquisa em comunicação, mantendo válido o interesse pelo
percurso intelectual empreendido pelo sociólogo em todos os
momentos de sua trajetória, quer seja nos momentos estrutural-
fúncionalista, praxiológico ou corporativista do universal, quer
seja nos momentos "de fora" como "de dentro" da sociedade.
O campo da comunicação, além de produzir violência sim-
bólica, é o maior difusor dela, o que o toma co-responsável pela
6
Participando de debate televisivo em Porto Alegre, no ano de 2000 (Programa
Frente a Frente, da TVE-RS), com o autor deste livro que o questionou sobre
sua posição acerca da self-deception, Morin mitigou seu posicionamento em
prol do fortalecimento de seu reconhecimento da complexidade da vida.
180 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
heteronomia, pois a illusio compartilhada no campo se traduz na
crença de uma objetividade dos discursos, que nada mais faz do
que legitimar, pela via da neutralização e da eufemização, o ar-
bitrário cultural dominante, o da lógica do mercado. E esta lógi-
ca em parte também é a do campo da comunicação, pois as em-
presas nele componentes devem maximizar seus lucros, portanto
obter audiência, isto é, consumidores ao máximo a fim de atrair
anúncios publicitários. As mensagens deles são o paradigma da
imperatividade da lógica mercantil e fator mantenedor das cren-
ças no ciclo da produção e do consumo. Os problemas decorren-
tes do campo da comunicação não são tanto do seu reconheci-
mento, embora se requeira sua investigação, mas da efetivação
das conclusões extraídas pelas pesquisas científicas. É neste
momento que a ciência angaria estatuto de política. As conse-
qüências da heteronomia do campo da comunicação são verifi-
cáveis nas violações das conquistas éticas dos campos sociais
que, uma vez se sentindo violentados, clamam por controle so-
cial da mídia. O campo da comunicação, por sua vez, reivindica
a auto-regulamentação, índice de autonomia no campo, mas co-
mo a dele é reduzida, não se efetiva por regras próprias. Contu-
do, como participante da luta pela imposição dos discursos legí-
timos, o campo da comunicação recusa todo tipo de controle so-
cial, alegando ser ele censura, o que é um absurdo. Emerge aí a
importância da estrutura e a dialética dela originada. Parte signi-
ficativa da tradição marxista contribuiu para associar às estrutu-
ras a idéia de dominação, o que em parte é verdadeiro. Entretan-
to, a estrutura que pode aprisionar pode proteger. Bourdieu
(1998b, p. 47) lembra, por exemplo, a capacidade de reação da
sociedade civil francesa aos ataques neoliberais, em virtude de
poder contar com a estrutura de um direito codificado, e a fragi-
lidade dos ingleses, com seu direito consuetudinário:
O Estado, em todos os países é, em parte, o vestígio de conquistas
na realidade sociais. [...] E o Estado também existe na cabeça dos
trabalhadores sob a forma de direito subjetivo ("isso é meu direi-
to", "não podem fazer isso comigo"), de apego às "conquistas so-
ciais" e etc. [...] uma das grandes diferenças entre a França e a In-
glaterra é que os ingleses thatcherizados descobrem que não resis-
tiram tanto quanto teriam sido capazes, em grande parte porque o
Por uma Realpolitikda razão comuncativa 181
contrato de trabalho era um contrato de common law, e não, como
na França uma convenção garantida pelo Estado.
Com efeito, com a globalização o direito da common law se
faz cada vez mais presente no direito continental. Entretanto, es-
ta é uma problemática pertinente muito mais à ciência política
que ao próprio direito. Porque além de envolver a organização e
a distribuição do poder no âmbito do Estado, envolve as relações
do campo do poder com os demais campos sociais, em que o
campo da comunicação, de cujo fluxo sem controle das infor-
mações normalmente se opera a partir dos espaços sociais domi-
nantes aos dominados, favorece a destruição das estruturas de
proteção social. O que isso tem a ver com a pesquisa científica
que enfoca o poder na e da comunicação? Tudo, apenas. Uma
das últimas estruturas de proteção social que restaram é ofereci-
da pelo direito. O direito, como a política e como a comunica-
ção, constrói-se mediante a força das palavras, que, cristalizadas
da luta política, se tomam lei. A luta política, no entanto, está a
transferir-se à luta midiática, que mais legitima o poder de me-
diação e de imposição dos discursos legítimos pela mídia. Nes-
ses discursos fazem-se cada vez mais presentes, se não mesmo
onipresentes, os discursos da desregulamentação, da inexorabi-
lidade da lei econômica, do fatalismo, da precarização, enfim,
da banalização da condição humana. Segundo Bourdieu, são ne-
cessárias as mesmas armas para combater tal poderio, isto é, ar-
mas simbólicas, pois o poder se faz pelas palavras.7
Sur la télévision e Contre-feux são exemplos desse tipo de
empreendimento. Visando maiores audiências, em linguagem
desprendida, mas sem abandonar a cientifícidade. O tipo de re-
lação que neles se verifica, entre legitimo e ilegítimo, é estimu-
lado na composição dos colaboradores de sua editora: não só os
sociólogos "legítimos" que nela participam; também sindicalis-
tas, integrantes de movimentos sociais e os "ilegítimos" jornalis-
tas. A relação foi estimulada por Bourdieu porque ele reconhe-
cia que o caráter contemporâneo da luta das idéias, visa sobretu-
do a vinculação da legitimidade delas à idéia de cientifícidade.
7
Bourdieu, para tanto, além de suas atividades comuns, encabeçou a criação da
editora Liber e do movimento Raisons d'Agir.
182 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
Neste sentido, o campo da comunicação tem cumprido um papel
de dar aparência científica à doxa. Portanto, é do reconhecimen-
to disso que ele reivindica o papel do cientista na construção de
um corporativismo do universal. Não obstante, deve valer-se de
instrumentos de maior difusão das idéias que a do meio acadê-
mico. Está aí o componente estratégico das alianças que o soció-
logo estabelecera. Próximo à démarche durkheimiana voltada à
integração social, Bourdieu constrói sua ação política pela via da
ciência. Baseia-se nas condições sociais de possibilidade de pro-
teção das estruturas sociais, em que a política de mobilização é
realista: a Realpolitik da razão visa resgatar os valores sociais do
bem-comum através do utopismo racional, isto é, sem recair na
utopia, mas resgatando a illusio, debilitada à medida que os
campos de produção se desestruturam, o que leva ao desinteres-
se, à self-deception. Há nela uma palavra de ordem: Regrezions-
verbot, isto é, vedação de regressão, expressão de origem alemã
que Bourdieu considerava maravilhosa para o atual contexto em
que se retrocede à perda de conquistas sociais adquiridas no cur-
so de várias décadas. Ela serve para ilustrar o poder das pala-
vras: visa introduzir o princípio da não-regressibilidade dos di-
reitos, que uma vez presente ao mundo jurídico se toma idéia-
força, aquela que pode transformar a realidade.
O campo da comunicação produz virtualmente e sem cessar
idéia-força, que bem poderia voltar-se à produção do bem co-
mum. Mas pelas limitações estruturais do campo, como vistas
até aqui, essa possibilidade está distante, ao menos por iniciativa
dele. Da sua parte, cabe ao campo acadêmico através das armas
da ciência, da pesquisa, orientar uma ação política possível que
proteja as estruturas sociais. Nelas, há uma dialética, a dialética
da estrutura, que deve ser reconhecida e sempre superada. Afi-
nal, trata-se de livrar-nos da estrutura das grades pela conquista
da estmtura das asas.
Por uma Realpolitikda razão comuncativa 183
Referências
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PARCEIRO
Q
Qualidade RS
www.ponilqiMlidadt.coni
FPECf
r
te não as mais valiosas ou impactantes, mas de grande
interesse para os que se propõem a pesquisaros fenôme-
nos de comunicação com seriedade teórica, atitude ética
e responsabilidade política.
Destaque da obro é o estilo preciso, objetivo e ri-
goroso da redação, qualidades cada vez mais raras em
nosso meio acadêmico, entregue a indigência lingüística
fravestida de bossa idiomática, a celebração dos racio-
cínios confusos e estereotipados e, enfim, à banalidade
intelectualmente constrangedora, disfarçada de popula-
rização do conhecimento ou mesmo de (falso) elogio do
saber popular.
Nestaspáginas, travo-secom atitude madura e pos-
tura de verdadeiro intelectual, levandoem conta temática
relevante do ponto de vista acadêmico, o combate entre
forma e expressão em que respira a inteligência reflexiva.
Também há um bom emprego das fontes secundárias
que interpelam e comentam o acervo em foco, seja entre
os acadêmicos brasileiros, franceses ou anglo-soxões.
Qualquer um que queira dispor de um bom roteiro
de leitura e de um modelo de reconstrução analítica de
uma trajetória científica e episfemológica em estudos de
comunicação fará bem em lereste trabalho. 0 autor reve-
la grande domínio das fontes, emprega bem alguns dos
comentaristas mais gabaritados e, ainda que às vezes o
tom seja sobrecarregado, logra evidenciar com precisão
as conexões sistemáticas que as vezes ligam, às vezes
rompem, o importante pensamento sobre as comunica-
ções tecido na obra de Pierre Bourdieu.
Francisco Rüdiger
Doutorem Ciências Sociais (USP), Professor-titular
do Faculdade de Comunicação (PUCPS).
•//•#?♦?•••••
iiSS^Sr
Luciano Miranda mapeia e indica nesta obra o percurso te-
órico e investigativo que leva Pierre Bourdieu da polêmica com
a crítica cultural dos anos 60 à prática da polêmica sociológica
com a cultura de mercado surgida na presente etapa do processo
de globalização.
No centro da reflexão, despontam temas como a discussão
sobre as teorias da cultura de massa, as práticas sociais da fo-
tografia, o mercado dos bens culturais, o poder da mídia e a
autonomia e sentido da intervenção intelectual na sociedade
capitalista.
Destarte, o livro ajusta seu foco de interesse numa temática
que, periférica de início, mas significativa, foi crescendo em im-
portância aos olhos do pesquisador franco-argelino: o poder da
mídia na estruturação da cultura e na formação dos sistemas de
poder do mundo contemporâneo.

PierreBourdieu-e o campo da comunicação.pdf

  • 1.
    tba, I liri,Mr,M1PAMnA PIERREBOURDIEU EO CAMPO DA COMUNICAÇÃO por uma teoria do comunicação praxiológica W9a : • *,*,•fSfSSfíí-'' *••;•«f• ••;• •.V•..*••?*•/? 34 Pierre Bourdieu faleceu em 2002 na condição de um dos principais sociólogos e pensadores do mundo contemporâneo. Quem duvido disso, pode pes- quisar a crescente literatura escrito a seu respeito e que, aliás, não vem de agora. Desde os anos 70, confere-se nos meios intelectuais de toda a porte uma notoriedade ao autor que, por vezes muito duro e crítico, não lhe deixa de reconhecer osméritos como pensadore inovador do ofício de sociólogo no século XX. Contribuição original desta obra de estréia do professor, jornalista e pesquisador Luciono Miranda é a exploração sistemática das incursões de Bourdieu pelo campo dos estudos de comunicação. Em Bourdieu, os estudos sobre o aparelho escolar e as práticas de consumo, que o consagraram, mantêm- se numa tensão negativa com a temática da cultura de mercado difundida via os meios de comunicação. Bosta ver o estudo por ele conduzido sobre os usos sociais da fotografia ainda em meados dos anos 60 e, mais tarde, ampliado para contexto bem mais amplo no clássico La Distinction, de 1979. Entretanto, apenas no período mais recente voltou- se o autor mais diretamente para os tópicos de maior pertinência para os interessados em comunicação, como bem aponta Miranda. Enigma de uma vida despertada com surpresa, mas cheia de dignidade, para sua corrida rumo ao nada, o sociólogo cientificista dos escritos ini- ciais converteu-se rapidamente no intelectual público dos últimos anos, em cuja ação se revelam ecos daquilo que antes e em seu país havia encarnado gente como Zola, Sartre ou Foucault. Aquilo que, segundo suo primeira avaliação, era a mitologia dos sociólogos transforma-se nos textos mais recentesem sociologia de combate e motivo de interven- ções pelas páginas dos jornais e revistas, pelos canais de rádio e televisão, pelos circuitos intelectuais das elites do poder econômico reinante. Em geral, tudoissoenfrenta bem o presentevolume, que sistematiza suas idéias sobre o assunto. Certamen-
  • 2.
    Pierre Bourdieu e oCampo da Comunicação Por uma teoria da comunicação praxiológica
  • 3.
    PUCIS Pontifícia Universidade Católicado Rio Grande do Sul Chanceler: Dom Dadeus Grings Reitor: Joaquim Clotet Vice-Reitor: Evilázio Teixeira Conselho Editorial: Ana Maria Tramunt Ibanos Antoninho Muza Naime Beatriz Franciosi Dalcídio Cláudio Draiton Gonzaga de Souza Eivo Clemente Ivan Izquierdo Jacques Wainberg Jorge Campos da Costa Jorge Luis Nicolas Audy (Presidente) Juremir Machado Lauro Kopper Filho Luiz Antonio de Assis Brasil Magda Lahorgue Nunes Maria Helena Abrahào Marília Gerhardt de Oliveira Mirian Oliveira Urbano Zilles Vera Lúcia Strube de Lima Antoninho Muza Naime (Diretor) Jorge Campos da Costa (Editor-chefe)
  • 4.
    Luciano Miranda Pierre Bourdieu eo Campo da Comunicação Por uma teoria da comunicação praxiológica Coleção Comunicação - 34 EDtPÜCRS Porto Alegre, 2005
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    © EDIPUCRS, Ia edição:2005 Capa: Samir Machado de Machado Preparação de originais: Eurico Saldanha de Lemos Revisão: do autor Revisão técnica: Liziane Zanotto Staevie Coleção Comunicação - vol. 34 Coordenadora da coleção: Ana Carolina D. Escosteguy Editoração e composição: Suliani Editografia Impressão e acabamento: Gráfica EPECE Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) M672P Miranda, Luciano Pierre Bourdieu e o campo da comunicação : por uma teo- ria da comunicação praxiológica / Luciano Miranda. - Porto Alegre : EDIPUCRS, 2005. 193 p. - (Coleção Comunicação ; 34) ISBN 85-7430-542-1 1. Comunicação. 2. Bourdieu, Pierre - Crítica e Interpreta- ção. 3. Cultura. 4. Fotografia - Aspectos Sociais. 5. Jorna- lismo. I. Título. II. Série. CDD 301.14 Ficha Catalográfíca elaborada pelo Setor de Processamento Técnico da BC-PUCRS Proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da Editora. EDIPUCRS Av. Ipiranga. 6681 - Prédio 33 Caixa Postal 1429 90619-900 - Porto Alegre - RS Brasil Fone/fax: (51) 3320.3523 E-mail: edipucrs@pucrs.br www.pucrs.br.edipucrs
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    AGRADECIMENTOS Adriana Schryver Kurtz,Alexandre Lasari, Amanda Rezende Busato, Angela Xavier De Brito, Antônio Carlos Luz Costa, Beta Gouvêa, Carla Schwingel, Carlos Alberto Forcelini, Carlos Schmidt Arturi, Cassiano Scherner de Oliveira, Céli Regina Jardim Pinto, Christa Berger, Christophe Charle, Cirio Simon, Cláudia Rejane do Carmo, Clovis Kemmerich, Domingos Sávio Dresch da Silveira, Edgar Morin, Eliane Colussi, Francisco Ricardo de Macedo Rüdiger, Giba Assis Brasil, Helena de Moraes Fernandes, Hélgio Trindade, João Carlos Tedesco, Jorge Cláudio Ribeiro, José Carlos dos Anjos, Luís Hofmann, Luís Milman, Marcelo Pereira Andrades, Maria Joana Chiodelli Chaise, Michel Offerlé, Nicholas Garnham, Nick Couldry, Odaci Luiz Coradini, Patrick Champagne, Ricardo Celso, Roberta Scheibe, Rosane Heineck Schmitt, Sophia de Latorre Miranda, Zélia Leal Adghirni, e a todas as pessoas que, direta ou indiretamente, colaboraram para a existência deste livro.
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    Sumário Introdução - Em buscade uma teoria da comunicação praxiológica 9 1. A Cultura e os meios técnicos: entre o espírito e a massa 21 A denúncia das mitologias intelectuais 22 Os argumentos de Edgar Morin 25 O retomo aos sujeitos 26 A proposta de um método de análise 30 A possível liberdade de espírito 32 O sentido pela via da história 33 Os grupos e classes sociais como referência 34 A revisão das posições 36 As práticas desviantes e o retomo à estrutura 38 2. Os usos sociais da técnica fotográfica 41 A definição social da fotografia 45 A função na estrutura: fotografia, índice e instmmento de integração 48 Distinções de classe: entre o popular e o erudito 50 O gosto bárbaro 60 A devoção e a boa vontade 63 Os usos sociais da mídia 67 3. As práticas distintivas 73 O campo cultural e a lógica de sua autonomização 79 O campo da indústria cultural 88 Posições, disposições e tomadas de posição: o habitus no campo do poder 92 Os modos de produção da opinião e a (in)competência estatutária: a idéia-força 97
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    0 mercado deopiniões e discursos: a oferta e a demanda 103 4. O domínio do jornalismo 109 A gênese do campo e a construção social da crença na objetividade 114 Duas lógicas, duas legitimidades 121 0 tempo e a amnésia, a concorrência e a uniformização 126 Zola e o declínio do judiciário 133 A defesa dos valores da autonomia 137 5. A estrutura invisível da televisão 145 A televisão na dinâmica estrutural do campo jornalístico 152 0 tempo da mensagem e a democracia 158 A dialética do extraordinário 166 Intelectuais versus televisão 172 Conclusão Por uma Realpolitik da razão comunicativa 175 Referências 185 Obras de Bourdieu adotadas neste livro 185 Literatura de referência 186
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    Introdução Em busca deuma teoria da comunicação praxiológica "Para assegurar sua coesão, as sociedades dotadas de memória valem-se da história; as sociedades sem me- mória, da comunicação." (Lucien Sfez, Critica da comunicação) A comunicação é uma área de conhecimento que começa a sua estruturação formal a partir da convergência de diferentes disci- plinas sociais preocupadas com a problemática dos meios de comunicação em geral e a da cultura de massas. Os meios de comunicação de massa, em si mesmos, só oferecem um conteú- do tecnológico. O interesse social que os faz objeto de estudos decorre do seu uso, determinado pelas condições sociais, políti- cas e econômicas das formações sociais em que se inserem. Por- tanto, para a pesquisa acadêmica, a comunicação é um campo de estudos que oferece uma série de problemas, frutos de seu pró- prio desenvolvimento: filosóficos, técnicos, de competência in- terativo-simbólica, políticos, entre outros. O ser humano utiliza- se dela para interagir com seus semelhantes e, desta interação, constitui coletivamente o conhecimento. Nessa perspectiva, a comunicação deve ser entendida como um "princípio de sociabi- lidade" (Rüdiger, 1998, p. 33), fundado na história e na cultura. Dentre esses problemas, cumpre destaque os que relacionam a comunicação ao poder, que se explicam na perspectiva de uma teoria da sociedade. A partir disso, introduzo este livro que pro- põe a investigação da contribuição do paradigma sociológico de Introdução 9
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    Pierre Bourdieu aodesenvolvimento da atividade de pesquisa em comunicação, isto é, das práticas de comunicação mediadas pela técnica. É pela tomada de consciência das estruturas de dominação reproduzidas nas práticas cotidianas que são forneci- dos os argumentos válidos à ação política. "A vocação política da sociologia [de Pierre Bourdieu] deriva de seu conteúdo: em tudo que diz respeito aos critérios da conduta científica, ela pro- duz resultados que objetivam as desigualdades a fim de denun- ciá-las" (Bonnewitz, 1997, p. 35). A idéia revelada adquire for- ça, toma-se idéia-força, que contribui para transformar a reali- dade. Pierre Bourdieu (1930-2002) foi um dos sociólogos mais re- presentativos do pensamento do século XX, professor do Collège de France, diretor da revista Actes de la recherche en sciences sociales, diretor do Centro de Sociologia Européia, e fundador de um paradigma investigativo conhecido por designa- ções como "estruturalismo construtivista" ou "estruturalismo genético". No âmbito da ciência social das práticas, a praxiolo- gia, ele introduz o método estruturalista à pesquisa sociológica. Introdução que intenta revelar o oculto, o não-dito, uma vez que a sociologia privilegia, até essa introdução, a esfera do visível, mediante suas entrevistas, estatísticas etc. Os objetos de análise, na primeira fase do percurso intelectual de Bourdieu e também em boa medida da fase seguinte, tendem a estar encerrados num sistema de determinações essencialmente estático, no qual é li- mitado o papel dos acontecimentos, da historicidade. A flexibi- lização é notada, a partir de 1964, quando da introdução da no- ção de habitus na obra Les héritiers. O sujeito passa a ter um papel mais ativo, embora ainda tenda a reproduzir as estruturas sociais que o dominam. Bourdieu introduz a idéia de campos sociais relativamente autônomos que possuem regras próprias de funcionamento. No caso do campo de produção cultural, os agentes sociais1 que dele participam estão em permanente luta para melhor classifícarem- 1 Emprego de modo indistinto "agentes" e "atores" sociais, a despeito de que o primeiro termo seja considerado muito bourdieusiano ou, como satirizam os franceses, "bourdivin". 10 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    se em seuinterior, isto é, melhor posicionados, mediante o acúmulo de capital simbólico que possibilitará, em um futuro, sua reconversão por ganhos materiais. Portanto, a noção marxis- ta "de luta de classes será estendida às lutas simbólicas sob a forma de lutas de classificação" (Bonnewitz, 1997, p. 15), para a qual, além dos capitais econômico e simbólico, contam os capi- tais cultural e social orientados na perspectiva dos interesses ma- teriais dos agentes sociais. O habitus, que viabiliza o retomo do sujeito à estrutura, é uma matriz de disposições, isto é, de per- cepções, apreciações e ações, adquiridas através das experiên- cias sociais inculcadas. Por seu intermédio, é possível a dialética "competência e desempenho", uma vez que permite a exteriori- zação da interiorização, tendente à reprodução, mas que, no en- tanto, possibilita a previsão das estratégias que os agentes po- dem empregar, em fimção do momento e do lugar em que se en- contram. O habitus atua como princípio gerador de práticas objetiva- mente classificáveis, cuja existência resulta de condições de possibilidade. A sociologia da cultura bourdieusiana tem o méri- to de ampliar a noção de classe, que não mais se limita à posse dos meios de produção, para o universo simbólico, onde a vio- lência da dominação se exerce tanto ou ainda mais. A violência simbólica é invisível e se processa através da disposição daque- les a quem ela se faz exercer, e que será tanto mais eficaz quanto menos conhecimento tiverem de sua existência. Sua análise do campo cultural distingue no interior da classe dominante dois princípios de hierarquização, segundo a posse do capital econô- mico ou do capital cultural, que o organizam em duas estruturas inversas, em quiasma, que distingue as frações mais ricas em capital cultural das que possuem, essencialmente, o capital eco- nômico, isto é, a distinção que opõe os intelectuais e os empre- sários. As práticas culturais são analisadas nas investigações de Bourdieu com o apoio de apuradas pesquisas de campo, que propiciam descrições etnológicas também apoiadas em levanta- mentos estatísticos. Suas análises avaliam as articulações pro- cessadas em um espaço tridimensional: vertical, que avalia os capitais econômico, escolar, cultural etc.; estrutural, que opõe no interior de um mesmo campo o capital econômico e o capital Introdução 11
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    cultural; e, porúltimo, a dimensão da trajetória que possibilita a reintrodução do movimento na estrutura e a tradução da antigüi- dade na posse desse capital econômico/cultural. O habitus defi- ne-se pela junção dessas três dimensões. Os campos têm sua estrutura modificada basicamente atra- vés das chamadas "trajetórias desviantes", produto das mobili- dades ascendente ou descendente que são fonte de disjunção en- tre o habitus e as posições sociais angariadas em seu interior. Uma dialética da distinção produz de modo constante a mudan- ça, à medida que novos atores ingressam e produzem suas mar- cas no campo. A mudança também é verificada na relação entre campos, em que um pode gerar efeitos sobre outros, movido por suas dinâmicas internas próprias e seu reposicionamento no seio do campo do poder. Se, por ura lado, os campos tendem à relati- va autonomia, por outro, a heteronomia se processa quanto mais se aproximam do pólo do poder. No mercado de capitais bour- dieusiano, a autonomia cambial valoriza, sobretudo, a moeda própria do campo, seu capital social especifico, por exemplo, a titulação no meio acadêmico, e a credibilidade, no jornalístico. A moeda heterônoma comumente é a dos capitais econômico e político. Para Bourdieu, a dominação total só existe quando um campo dominar a todos os demais e, com isto, permitir a exis- tência de uma única definição da realização humana aceitável. Esta é uma das razões do grande interesse, no seu fim da vida, pelo campo da comunicação, haja vista a influência despropor- cional que este exerce sobre todos os demais campos sociais. Neste espaço social específico, produtores profissionais de bens simbólicos disputam as melhores posições na estrutura hie- rarquizada do campo, oferecendo produtos culturais a consumi- dores que participam de uma estrutura social de classes e grupos homóloga à dos produtores. A comunicação tal como a enten- demos, campo lato sensu que o autor denomina como o da in- dústria cultural, mantém relações permanentes com outros cam- pos sociais, que podem afetar mutuamente as estruturas e as au- tonomias relativas de todos os domínios envolvidos. Dos para- digmas fundamentais da pesquisa administrativa norte- americana, da communication research, e da crítica cultural de- senvolvida a partir da Escola de Frankfurt, derivaram-se as prin- 12 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    cipais técnicas depesquisa em comunicação. Da sua parte, a so- ciologia da cultura bourdieusiana constrói uma das vias alterna- tivas a essas duas perspectivas; recusa-se a fazer uma crítica da cultura, como será percebido mais adiante na polêmica travada com Edgar Morin, reivindicando uma sociologia construída através da pesquisa de campo e da produção de dados empíricos. Entretanto, esta é marcada pelo componente crítico, praticamen- te ausente na sociologia tradicional dos primeiros pesquisadores da comunicação. [...] o trabalho científico sobre o objeto é indissociável de um tra- balho sobre o sujeito do trabalho. Depende, antes de tudo, da ca- pacidade que este tenha de dominar, na prática, em sua prática, os mecanismos que se esforça por objetivar, e que podem ainda reger sua relação com o objeto. Haveria de dar tema de meditação [...] a história do Princeton Project, vasto estudo empírico sobre o con- sumo da música, que reuniu Adorno e Lazarsfeld, dupla epistemo- lógica feita homens. Arrogância do teórico que se nega a sujar as mãos na cozinha da empiria e que permanece demasiado ligado, visceralmente, aos valores e benefícios da Cultura para estar em condições de fazer disso um objeto científico; submissão do empi- rista, disposto a todas as abdicações e abjurações que requer uma ordem científica estreitamente subordinada à ordem social. Arro- gância do positivista, que busca instaurar em norma de toda práti- ca científica uma metodologia do ressentimento que tem como princípio uma espécie de furor revanchista contra toda interroga- ção global; submissão do marxista distinto, que faz marxismo vul- gar ali onde haveria que refinar e marxismo distinto ali onde have- ria que ter o valor de ser vulgar. Cada um vê bem a verdade do ou- tro (Bourdieu, [1979] 1991, p. 522). Se, por um lado, Bourdieu condena a pesquisa tradicional por ter-se esvaziado do componente crítico, por outro, recusa-se a um aristocratismo, como nas idéias dos pensadores do Instituí für Sozialforschung. Sua pesquisa pretende ser propositiva, sem recair no normativismo; liberadora, ao reivindicar a liberdade decorrente do conhecimento das estruturas sociais. Para a comu- nicação, a importância de estudar Bourdieu é que sua teoria dos campos permite a análise relacionai de casos, em que a interação deles é examinada sistematicamente em longos períodos de Introdução 13
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    tempo. A históriasocial do campo da comunicação combina-se a esta concepção para ser usada pelo pesquisador como instru- mento de ruptura com o mundo social do senso comum. Além desta ruptura, permite avaliar o quanto o atual estado do campo decorre da complexidade de suas mudanças históricas. O para- digma bourdieusiano permite ainda a análise simultânea das transformações nas instituições da mídia e das mudanças nas de- finições dos problemas sociais. Essas definições associam-se às preocupações dele e de sua equipe em implementar um projeto político, em especial no que se refere ao processo de heterono- mia nos campos sociais, em virtude do poder dos mass media. Independente da ação política, o universo teórico-metodológico oferece à pesquisa em comunicação outros enfoques, como o da explicação do conteúdo das notícias pelos interesses específicos do campo jornalístico ou das pressões externas; o do condicio- namento mútuo da produção e da recepção dos conteúdos co- municacionais; o da análise das práticas distintivas nos campos da produção e de consumo destes conteúdos comunicacionais; o das mudanças estruturais no campo da mídia que afetam o con- junto do campo do poder etc. A pesquisa em comunicação no Brasil, nos últimos anos, ca- da vez mais emprega o paradigma bourdieusiano em posição central ou marginal, mas com extensão parcial ou parcelar no que se refere ao conjunto da obra do autor. Entretanto, apesar desses estudiosos se interessarem por Bourdieu, não houve, até o momento, o preparo de uma sistematização mais ampla e agre- gativa das idéias dele atinentes ao campo da comunicação. Este é o objetivo deste trabalho e mais uma justificativa à realização deste livro. Não obstante, se é problemático, por um lado, a ma- nutenção de uma incorporação parcial de um paradigma, tam- bém o é, por outro, para a tentativa de sua reconstituição. Isso porque, considerando-se uma jovem ciência - ou mesmo bastar- da - como a comunicação, cujos estudiosos por vezes desencar- nam o método da teoria, reciprocamente, não é possível a sepa- ração teórico-metodológica da epistemologia. Assim, os pressu- postos fundamentados teoricamente são operacionalizados por conceitos constituintes de um arcabouço analítico integral no qual teoria e metodologia não estão dissociadas, participando 14 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    por seu turno,da validação daquele. Mais: para produzirem co- nhecimento científico, as categorias - mídia, grupo, classe, par- tido, Estado etc. - trabalhadas requerem a sua dessubstanciação. Critico aqui, portanto, uma incorporação seletiva da obra bour- dieusiana não só por desfigurá-la, mas por chocar-se com seus fundamentos epistemológicos. Por conseguinte, há que se domi- nar o conjunto do pensamento, algo impossível nos limites deste livro; a vislumbrar-se no horizonte da pesquisa. A título de exemplo, Barros Filho e Martino (2003) apresen- tam obra preocupante. Os autores alertam que se trata de um en- saio, fundado em pesquisa bibliográfica; intento arriscado. "Seu corpus, puramente doutrinário. O objeto indica a possibilidade de aproximação de conceitos e métodos. De um lado, algumas das obras sociológicas de Pierre Bourdieu. De outro, ensaios, pesquisas empíricas, teses, manuais que vêm constituindo o campo doutrinário da comunicação, mais especificamente do jornalismo" (Ibidem, p. 10). Embora reconhecendo que campo e habitus sejam "indissociáveis" (Ibidem, p. 11), o que é correto para a teoria social em tela uma vez que para cada campo social específico há um habitus específico, não problematizam seus respectivos conceitos; valem-se deles como algo dado. Se existe alguma problematização é a partir das bases filosóficas que ori- ginam o conceito de habitus. No entanto, para que ela ocorra com base em Bourdieu, haveria a necessidade de relacioná-los com levantamento empírico, empreendimento que, para o espa- ço social brasileiro, ensejaria a constatação da precária condição de possibilidade do campo. No momento possível de investir-se em alguma problematização, quanto às premissas da existência do campo, os autores parecem satisfeitos ao constatar que "a crí- tica da profissão por seus principais representantes é garantia de independência" (Ibidem, p. 113). Com efeito, há uma paradoxal fetichização dos conceitos. Paradoxal porque, ao adotarem o procedimento genético, os dessubstanciam (doutrinariamente) para depois (res)substanciá-los. Além disto, essa é favorecida pelas relações estabelecidas entre conceitos bourdieusianos e tradições analíticas diferentes, isto é, exóticas ao esquema analí- tico estudado. Dito de outro modo, falta uma crítica imanente: os autores se escapam dela justamente por carecerem de materi- Introdução 15
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    al empírico; nãosó deste, mas também de informação sobre o tratamento dos temas da comunicação na obra de Bourdieu a ponto de sequer "dialogarem" com o artigo "Le marché des biens symboliques". Assim, resta-lhes uma "teoria teórica", re- ducionismo de que Bourdieu tanto temia e criticava. Não obs- tante, percebe-se melhor a obra individual de Martino (2003). Não que o autor problematize os conceitos supramencionados: é que, ao ter um objeto construído a partir do trabalho de campo - as relações da mídia com o campo religioso -, consegue em par- te se libertar das reificações conceituais. Neste sentido, foi feliz na escolha do campo religioso, pois, se existe um campo no Bra- sil - ou a possibilidade próxima desse vir a ser constituído -, pe- las indicações de pesquisas,2 esse é o campo religioso. Por outro lado, uma vez que o espaço é de crítica, há que se atentar para um trabalho bem construído: Autran (2003) objetiva a história de Alex Viany, crítico de cinema e historiador. Na análise, é marcante a presença do esquema bourdieusiano, sem que o autor se lhe filie ou lhe faça adesão explícita, a um constructo bem ar- ticulado do espaço de relações de força e de sentido que consti- tui o cinema brasileiro entre 1948 e 1959, dos atores sociais dele participantes, suas posições e de suas disposições, fundamentais para as tomadas de posição. Autran enfim elabora um trabalho fundamental para a pesquisa em comunicação. Embora reconheça as dificuldades para dirimir os limites da incorporação de Bourdieu, é necessário apontar especifícidades brasileiras mais perceptíveis que concorrem às dificuldades para a operacionalização sistemática do conjunto dessa obra. Em primeiro lugar, inexistem no Brasil as mesmas condições france- sas que fazem observar os princípios presentes nas di-visões do mundo, que opõem fundamentalmente um "pólo no racionalis- mo, na excelência e hierarquização estritamente escolar, e no ethos, estilo de vida ascético e trajetórias sociais corresponden- tes" (Coradini, 1996, p. 215), e um pólo pragmático, menos ra- cionalista e escolar, e relacionado de modo mais direto com o campo do poder (cultural, político, econômico). Isso porque a estrutura da academia e do sistema escolar brasileiro, com raras 2 Cf., por exemplo, Miceli, 1988. 16 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    exceções, é precária,inviabilizando o surgimento de um campo e de um ethos específico que lhe corresponde. Em segundo lu- gar, e em conexão ou desdobramento da dificuldade anterior, os participantes do mundo acadêmico ou escolar, usualmente, pou- co se dispõem a submeter-se às exigências próprias a esse ethos "acadêmico" e às regras desse universo. Mesmo porque frente às condições sociais de realização profissional que esse mundo ofe- rece, no Brasil, os investimentos rendem mais se orientados a lógicas não-autônomas. Dessa maneira, não se chega à consti- tuição de um contingente mínimo de participantes preocupados, de modo autônomo, às estritas demandas da academia, inviabili- zando assim o surgimento de um campo stricto sensu. Por óbvio, e para ser coerente com o esquema analítico que aqui é proposto (então, não me — tampouco vos - deixando se- duzir pelas aparências), o que se constata na prática é que, mes- mo quando o acadêmico se reveste desse papel, as lógicas que preponderam nas ações ou no sentido a elas subjacente são - de modo utilitarista ou "prático" - externas ao "campo", juízo ao menos válido para as posições superiores na atividade, orienta- das prioritariamente pelo mundo político e econômico. Esse per- fil heterônomo brasileiro no mundo científico, constatado em especial por Pécaut (1990) e Saint-Martin (1988), é característi- ca latino-americana, conforme demostra Sigal (1996) para a ex- periência argentina, em que o sentido cultuai presente nas pro- duções artístico-culturais que ela analisa se confunde com o po- lítico, e vice-versa, dadas as condições sociais e históricas aí presentes. Enquanto isso não é dificilmente constatável no cam- po acadêmico, toma-se evidente no "campo da comunicação", espaço de relações cujas condições de produção tomam mais contraditória - ou ao menos polêmica - qualquer perspectiva au- tônoma que se intente incluir à reflexão. Além desta dificuldade, ressalte-se, a partir do emprego par- cial do esquema analítico, que os pesquisadores brasileiros da área disciplinar da comunicação, de modo geral, pouco se dão conta de que há perda do sentido dos conceitos e seus desdo- bramentos metodológicos "se não estiverem referidos às suas re- lações lógicas entre si e com as premissas que lhe dão funda- mento, o que não significa que a opção da utilização de concei- introdução 17
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    tos e métodosnão esteja vinculada ao objeto de estudo" (Cora- dini, 1996, p. 218). Portanto, espero que, com este livro, se pos- sa favorecer e estimular o domínio dessas relações. As principais idéias que desenvolvo neste livro, naquilo que se reportam à pesquisa em comunicação, identifícam-se com três etapas que distingo para a trajetória intelectual de Bourdieu: Chamo o primeiro momento de "estrutural-funcionalista", no qual o sociólogo está mais preocupado em detectar as fun- ções sociais correspondentes a determinados usos da técnica e os modos de reprodução social através dessas práticas que exterio- rizam estruturas interiorizadas. Os textos-chave que me utilizo para analisar esta fase são "Sociologues des mythologies et mythologies de sociologues", artigo escrito com Jean-Claude Passeron, em 1963, e Un art moyen - essai sur les usages sociaux de la phoíographie, livro de 1965 composto por textos de Bourdieu, Luc Boltanski, Jean-Claude Chamboredon, entre outros. A importância do primeiro, para a publicação que ora in- troduzo, deve-se ao início do debate acerca de uma sociologia da cultura desmistificadora da idéia de existência de uma cultura das massas (homogeneamente) massificadas e passivas. Bour- dieu critica a concepção sincretista e homogeneizadora de Edgar Morin em L'espnt du temps, de 1962. No segundo, Bourdieu aplica as concepções desenvolvidas no debate anterior: analisa os usos que as mais diversas classes e grupos sociais dispendem à fotografia. Através desta prática, os agentes sociais tendem a reproduzir as diferentes funções que os integram a seus grupos de origem. Esta obra também deve ser avaliada como um esboço analítico das práticas operadas no campo da cultura média, con- ceito que o autor desenvolverá mais adiante. Esses trabalhos se- rão tratados nos capítulos 1 e 2. Chamo o segundo momento de "praxiológico", no qual é se- dimentado, na década de 70, o arcabouço teórico e metodológi- co que notabiliza Bourdieu mundialmente. La distinction, de 1979, é a principal obra do período, que aplica o percurso inves- tigativo dos anos anteriores. Os temas deste livro relacionados à mídia, junto com o texto "Le marché de biens symboliques" 18 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    (1970),3 balizam teoricamente oconjunto do capítulo 3: o escla- recimento da lógica das práticas de utilização dos meios técni- cos de comunicação vale-se de conceitos essenciais no pensa- mento bourdieusiano, como o de habitus, e ainda os de campo, capital, regime de distinções e de homologias, entre outros. Chamo o terceiro momento de "corporativista do universal", no qual é bastante perceptível o deslocamento da própria postura do sujeito Bourdieu. O intelectual que antes norteara suas pes- quisas "de fora" da sociedade, ao tentar praticar o máximo de objetividade, cujas fontes filosóficas eram marcadas pela prag- mática analítica, com Wittgenstein e Austin, desloca-se a uma filosofia dos valores: reivindica a missão socrática pela busca do bem comum e, enfim, passa a relacionar-se com os problemas "de dentro" da sociedade ao propor a ação dos intelectuais na sociedade contemporânea. A pesquisa leva em conta o texto "Ifemprise du joumalisme", publicado pela primeira vez em 1994 na revista Actes de la recherche en sciences sociales. Este artigo é um marco da transição de Bourdieu para este momento. Atenta ao fato de que as disposições próprias dos jornalistas, suas visões de mundo, os levam a executar um tipo próprio de seleção e de abordagem dos acontecimentos do mundo social. Também chama a atenção para a força social desproporcional que o campo jornalístico exerce hoje. Esses problemas serão abordados nos capítulos 4 e 5. Este livro consiste, portanto, em um estudo de história das idéias que leva a pesquisa a assumir um caráter bibliográfico, através da leitura, análise e discussão dos textos-chave acima mencionados, e outros sobre, ou inspirados por, Pierre Bourdieu, e que contribuam aos objetivos pretendidos. A estrutura da reda- ção procura seguir uma ordenação cronológica das obras publi- cadas pelo sociólogo. "Uma teoria não se elabora jamais em um vazio social: ela se inscreve em um contexto particular que mo- dela as problemáticas" (Bonnewitz, 1997, p. 5). Portanto, para 3 Data em que aparece mimeografado. A publicação acontecerá no ano seguinte: "Le marché des biens symboliques" In: L 'Année Sociologique, v. 22, p. 49- 126, 1971. Utilizo-me do texto integrante da coletânea 4 economia das trocas simbólicas. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 1998. Introdução 19
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    melhor conhecer ouniverso em que emergiram as idéias de Bourdieu, também procuro observar o contexto da vida intelec- tual do autor, no qual o convívio com estudiosos que publicam regularmente nas Actes de la recherche en sciences sociales se destaca. Levo em conta alguns deles, sobretudo os que interes- sam à comunicação, com o propósito primeiro de captar a tônica das discussões no ambiente intelectual da revista. É pelo tipo de relação que um pensador estabelece com os demais pares que se adquire uma visão acurada da proposta científica contida em sua trajetória individual. Por fim, ressalte-se, esta obra não se propõe a ser um "ma- nual de Bourdieu para a pesquisa em comunicação", tampouco possui simpatia por propostas manualescas - embora existam exceções dignas que a merecem - que, além de esvaziar a subs- tância oferecida pelo paradigma, contrariam as orientações e concepções próprias do sociólogo de como deve ser desenvolvi- do o ensino das ciências sociais. De fato, a intenção é a referida sistematização para que, com qualidade, se impulsione a pesqui- sa. No momento em que os estudos em comunicação tendem a um amadurecimento, ao menos institucional, é válida a tentativa de afastamento das apropriações teóricas fragmentárias, as quais, como retalhos jogados sobre um objeto para que saia daí uma colcha, resultam trabalhos de riqueza investigativa duvido- sa ou, com otimismo, limitada. Portanto, a sistematização ampla e agregativa das idéias de Bourdieu para o campo da comunica- ção concorre para evitar esse prejuízo, o que mais uma vez mo- tiva a existência deste livro. 20 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    1 A cultura eos meios técnicos: entre o espírito e a massa - gênese do debate acerca da comunicação na obra de Pierre Bourdieu O homem de uma ilusão permanece uma ilusão, mons- tro de cem orelhas e cem olhos, enfeitado pelo monstro de cem rostos e cem vozes. Bourdieu e Passeron, Sociologues des mythologies et mythologies de sociologues. O ponto de partida histórico-intelectual deste livro é a polêmi- ca travada por Pierre Bourdieu e dirigida, em especial, a Edgar Morin. Caracteriza a sociologia do primeiro contra a crítica da cultura do segundo, muito voltada a temas da comunicação. Embora quatro décadas separem os textos analisados dos dias atuais, as críticas endereçadas a certas condutas intelectuais, e mesmo o vocabulário empregado, detectam-se em textos recen- tes, como em Sobre a televisão} "Sociologues des mythologies et mythologies de sociologues", artigo publicado com Passeron, em 1963, na revista Les Temps Modernes,2 critica os "massmé- diologues", autores cuja proposta seguiria uma "sintaxe do dis- ' Bourdieu (1997, p. 61) refere-se à ilusão do "nunca visto", detectada em soció- logos anunciadores de fenômenos como inauditos e cuja expressão lhe serve para atacar Edgar Morin e os massmédiologues; e condena a ilusão do "sempre assim", reportando-se a Kant, crítico em sua época dos pensadores conservado- res, céticos em relação à transformação qualitativa da sociedade. 2 Refiro-me ao número CCXI da publicação. A cultura e os meios técnicos: entre o espírito e a massa 21
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    curso profético" (Bourdieue Passeron, 1963, p. 998), pelo modo como analisam a mídia. Não obstante, afirma o estatuto de obje- to científico dos modernos meios de comunicação. "Mass media não são uma coisa nem uma idéia, nem uma instituição, nem uma intenção, nem um agente: são um utensílio sem utilizador que definem eles próprios as regras de sua utilização, uma ma- nipulação sem manipulador" (Ibidem, p. 1020). O que reprova são os argumentos da massmidiologia. Para tanto, ela é analisa- da mediante a aplicação de um método estruturalista. As princi- pais críticas deste artigo são direcionadas às idéias que Morin apresenta em L 'esprit du temps.3 Doravante, chamarei, como os autores, a massmidiologia de ciência da mídia de massa e o massmidiólogo de cientista da mídia de massa, a fim de se evitar equívoco no emprego do termo midiologia que sugira o imple- mentado por Régis Debray.4 A denúncia das mitologias intelectuais Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron criticam os intelec- tuais que anunciam a transformação do homem contemporâneo em um novo homem, produzido pela força dos meios de expres- são que ele próprio criou.5 Neste contexto, o poder da imagem emergiria em detrimento do verbo, assumindo uma nova "condi- ção cósmica" (Morin, 1969, p. 191). Assim as massas ingressa- riam numa nova civilização instituída pela mídia, na qual as pes- soas não teriam a consciência deste ingresso. Elas sofreriam a ação maciça dos meios, de cuja massificação cultural provocaria na sociedade desde a despolitização até a incorporação de estilos 3 MORIN, E. L'esprit du temps. Paris: Grassei, 1962. Valho-me da segunda edi- ção brasileira (1969), intitulada Cultura de massas no século XX - o espírito do tempo. O título veio a receber o acréscimo de "neurose" quando publicado, em 1975, o segundo tomo de L 'esprit du temps, de subtítulo "necrose", onde Morin revê suas posições e constata a "crise da cultura de massa". 4 Cf. DEBRAY, R. Curso de midiologia geral. Petrópolis: Vozes, 1993. 5 Anos mais tarde, em 1997, em uma inversão de perspectiva, Bourdieu preo- cupar-se-á com o domínio da televisão, seu peso desproporcional sobre a so- ciedade contemporânea, como é analisado no capítulo 5. 22 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    na moda. Osautores do artigo rejeitam este poder dos meios de comunicação e o ambiente de "grande tensão pré-apocalíptica" (Ibidem). Acreditam ser paradoxal o fato de que o destino dessas massas seja tratado tão-somente por intelectuais, em cuja ambi- ção ou nostalgia buscam atingir audiências maiores, sem no en- tanto conseguir que seus discursos ultrapassem as fronteiras do campo acadêmico. Morin e os demais cientistas da mídia de massa estabelecem mitologia desmistifícadora, quer dizer, com a pretensão de des- mistifícarem os mitos presentes na cultura, impõem o mito inte- lectual, que decorre da subtração praticada por eles da essência das pessoas que constituem as massas. A verdade social dessas últimas só poderia ser restituída pelos praticantes da subtração, os intelectuais, que de fato não podem controlar nem as massas nem a mídia. Podem entregar-se ao prazer que tais objetos lhes propiciam e, ao mesmo tempo, condenar esse prazer que as mas- sas criticadas fazem uso explícito sem maiores pudores. Para tais intelectuais, como Jean Duvignaud, ir ao povo, isto é, ao ci- nema, seria descer à caverna onde os outros estão acorrentados. Pois, "o homem de hoje estaria um pouco na situação que Platão à espécie inteira: sentado em frente a um muro no fundo de uma caverna, enquanto desfilam pela sua frente figuras e sombras cu- ja realidade ele não põe em dúvida".7 O alvo principal, contudo, são mesmo as idéias de Morin em L 'esprit du temps. Mauro Wolf (1995, p. 89) denomina "teoria culturológica" à corrente de estudos inaugurada por ele. "A sua característica fundamental é o estudo da cultura de massa, distinguindo os seus elementos antropológicos mais relevantes e a relação entre o consumidor e o objeto de consumo", e contrapondo-se à pesquisa administra- 6 Mais de trinta anos depois, Bourdieu reivindicará o "corporativismo do univer- sal" em que a liderança cabe aos intelectuais. Até que ponto o pleito não coin- cide com a postura dos massmédiologues que ele criticara? 7 DUVIGNAUD, J. La Caveme. In: La Nouvelle Revue Française, n. 117 (citado pelos autores). 8 Os autores criticados são Gilbert Cohen-Séat e Pierre Fougeyrollas (L 'action sur 1'homme: cinéma et télévision. Paris; Denoél, 1961), Jacques Charpentreau e René Kaès (La culture populaire en France. Paris: Editions Ouvrières, 1962) e René Huyaghe (Dialogue avec le visible. Paris: Flammarion, 1955). A cultura e os meios técnicos: entre o espírito e a massa 23
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    tiva praticada principalmentenos Estados Unidos. Morin propõe a substituição da perspectiva de "comunicação de massa" por "cultura de massa". Portanto, rejeita a análise de fatores limita- dos dos norte-americanos e opera um deslocamento metodológi- co à totalidade, o conjunto cultural. O sistema cultural formado pela cultura de massa é constituído por um conjunto de mitos, valores, imagens e símbolos, associado tanto à vida prática co- mo ao imaginário coletivo. Este sistema convive com outros nas sociedades contemporâneas, que são realidades policulturais em que a cultura de massa interfere. A cultura industrializada entra em contradição com o caráter individualizado e inovador do consumo cultural em virtude de sua padronização técnica e pro- dutiva. A linha mediana entre a produção estandardizada e a exi- gência de originalidade e individualização no consumo das mer- cadorias culturais é o sincretismo: um denominador comum que homogeneiza a diversidade dos conteúdos, tornando-os produtos médios, de qualidade média, para um consumidor médio. Ofait divers9 é um exemplo no qual o sincretismo funde os setores da informação ao da ficção, do real ao imaginário. A identidade comum da cultura de massa é a dos valores de consumo, dina- mizado pelos novos contingentes assalariados médios. Frente à prolixidade dos discursos produzidos, a mudez passiva do con- sumo limita-se ao grão de atividade correspondente a reações es- timuladas, controladas e calculadas, tais como as de condicio- namento behaviorista. Todavia, Morin coloca como problema central a dialética entre o sistema de produção e as necessidades dos consumidores. De modo diferente de sistemas culturais ante- riores que exigem um aprendizado formal para sua fruição, a in- dústria cultural tende a nivelar-se às exigências já constituídas pelo contingente mais expressivo da população. 9 Cf. Barthes, R. Structure du fait divers. In: Essais critiques. Paris: Seuil, 1975, p. 188-197. 24 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    Os argumentos deEdgar Morin Na segunda industrialização, ocorre uma "industrialização do espírito" (Morin, 1969, p. 15), que é incrementada no decor- rer do século XX. Em seu transcurso, a técnica progride conti- nuamente, não visando mais simplesmente o desenvolvimento das forças produtivas, mas ingressando no terreno da subjetivi- dade humana, por intermédio de mercadorias culturais. Embora suportes como o jornal e o livro já se constituíssem como mer- cadorias, o circuito comercial e industrial não havia absorvido de modo tão intenso a vida cultural e privada. A cultura de mas- sas, então, refere-se à cultura que emerge da sociedade industrial ou sociedade de massas, na qual a vida social já está organizada em padrões modernos que se contrapõem aos modelos tradicio- nais. A sociedade ocidental processa racionalização técnica, bu- rocrática, capitalista, classista, burguesa e individualista. As di- ferentes esferas de organização desta racionalidade denunciam por si sós os limites da noção de massa. A racionalização técni- co-burocrática da sociedade atinge a produção cultural na qual ocorre uma gradual despersonalização da criação, que se desloca para o ambiente da organização da empresa. "No entanto, essa tendência, exigida pelo sistema industrial, choca-se com uma exigência radicalmente contrária, nascida da natureza mesma do consumo cultural, que sempre reclama um produto individuali- zado, e sempre novo" (Ibidem, p. 28). O produto equilibra ou desequilibra a produção cultural e suas forças contrárias, buro- cráticas e antiburocráticas: o tipo de produto implica unidades de produção mais ou menos burocratizadas. A cultura de massa procura adaptar-se ao público e que o mesmo se adapte a ela, mediante a contradição dinâmica da in- venção-padronizada: se a indústria tende à padronização, o con- sumo busca a novidade. Desta contradição se estabeleceria a vi- talidade do sistema. Essa dialética, no entanto, tenderia "a se amortecer em uma espécie de termo médio" (Morin, 1969, p. 34). Porém, ele reconhece que os veículos de comunicação sa- bem que os públicos são variados e, portanto, procuram satisfa- zer os diversos interesses e gostos mediante oferta de programas ecléticos nas emissoras de rádio ou TV, seções ou editorias as A cultura e os meios técnicos: entre o espírito e a massa 25
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    mais diversas emum mesmo jornal ou revista. Assim buscam maximizar o consumo de seus produtos e, em conseqüência, seus lucros. Embora reconheça a diversidade, todavia, defende ser fruto de sistematização, de uma homogeneização que obede- ce a regras comuns. Morin (Ibidem, p. 44), apesar de acreditar detectar a massificação homogeneizadora, reconhece os limites de sua perspectiva. Há heterogeneidade, por exemplo, no uni- verso do novo contingente assalariado homogeneizado, apesar de estratifícado em múltiplos compartimentos e status sociais. A cultura de massa passa a ser, enfim, o "meio de comunicação en- tre esses diferentes estratos e as diferentes classes". Essas dife- renças sociais sofreriam um nivelamento decorrente da padroni- zação dos produtos dos mass media. Estes são os responsáveis pela difusão cultural, regulada pela lei fundamental do mercado, da oferta e da procura, isto é, pelo binômio produção-consumo e da dialética daí decorrente. A síntese cultural disto é uma cultura média produzida por talentos médios para inteligências médias, com o objetivo de ser ou vir a ser "a cultura do denominador comum entre as idades, os sexos, as classes, os povos, porque ela está ligada a seu meio natural de formação, a sociedade na qual se desenvolve uma humanidade média, de níveis de vida médios, de tipos de vida médio" (Ibidem; 54). Os conteúdos da cultura integrariam, em um primeiro momento, elementos da cultura burguesa com a popular, para depois desintegrá-los em nova síntese metamorfoseadora. O retomo aos sujeitos Bourdieu e Passeron (1963, p. 1002) apontam que a deno- minação mais vaga e assustadora dos mass media é a que os de- signa como meios de comunicação de massa. Os indivíduos massifícados expostos a eles constituiriam "recepção massiva, passiva, dócil e crédula". Desta maneira, dispensamos de levar em conta as diferenças entre as categorias sociais, que tratam do acesso aos mass media ou da atitude em relação às mensagens que eles transmitem. Portanto, 26 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    contrariamente àqueles queevocam o uso massmidiológico do termo "massa", é nas camadas sociais mais valorizadas, ou seja justamente as melhor preparadas contra a fascinação exclusiva das mensagens vulgares encontradas que encontramos o maior número de aparelhos de televisão (Ibidem). Observa-se aí a defesa do emprego de dados estatísticos e a estratifícação na análise. Ao contrário, Morin evita a análise es- tratificada. Ele critica a sociologia das comunicações de massa, tomando por referência Merton e a tradição norte-americana, ao considerar que as categorias por ela utilizadas "fragmentam a unidade cultural implicada nas comunicações de massa, elimi- nam os dados históricos, e finalmente, chegam ou a um nível de particularidade dificilmente generalizável, ou a um nível de ge- neralidade inutilizável" (1969, p. 193). Esta sociologia, no má- ximo, conseguiria a reintegração do espectador ou do leitor a seus grupos sociais, em que as mensagens das comunicações de massa interfeririam, baseadas na relação emissor-receptor e em detrimento do tecido complexo das relações. Esta limitação seria o impedimento fundamental para que a sociologia das comuni- cações de massa avançasse à elaboração de uma sociologia da cultura de massa. Merton notabilizara-se com a pesquisa Patterns ofinfluence - a study of interpersonal influence and ofCommunications be- havior in a local community, publicada em 1949, pela qual de- tecta a importância dos líderes de opinião em uma determinada comunidade. Com base em abordagem empírica de campo, sob encomenda de um semanário, ele procura descrever a estrutura de influência e os seus líderes, nessa comunidade, no consumo dos mass media. O que seria uma pesquisa administrativa tradi- cional, transformara-se em exercício teórico de descrição con- ceituai da tipologia dos líderes de opinião. Derivada da distinção de Tõnnies entre Gemeinschaft e Gesellschaft, Merton propõe a diferença entre líder de opinião local e cosmopolita: o líder local tende a corresponder a uma pessoa que vive constantemente na comunidade e conhece o maior número possível de pessoas. Ele tende a participar em organizações formais, onde incrementa os contatos interpessoais. Essas relações são desenvolvidas mais no A cultura e os meios técnicos: entre o espírito e a massa 27
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    conhecimento dos outrosdo que em razão de competências es- pecíficas. Portanto, a influência para consumo de um determina- do produto cultural destaca a face humana das mensagens veicu- ladas pelos mass media, com suas anedotas e marcas pessoais. O líder local é polimorfo, segundo Merton, por influir os outros em diferentes áreas temáticas. O líder cosmopolita, da sua parte, há tempo vive fora da comunidade; é quase como um forasteiro: traz à lembrança os camponeses "citadinos" de Bourdieu, aque- les emigrados do meio rural que, ao retomarem em férias, não são mais reconhecidos por seus pares de outrora.10 Entretanto, por possuir competência específica, o líder cosmopolita de Mer- ton exerce autoridade em alguma área específica. É denomina- do, portanto, monomórfico. Nesse momento, a via americana da communication research torna-se mais complexa, voltando-se aos efeitos limitados, indiretos, mediante abordagens empíricas de campo de orientação sociológica. O termo influência dos mass media assume o lugar de manipulação ou de persuasão. Essa influência midiática compartilha seus efeitos com outras influências, como as comunitárias, isto é, ela passa a ser encara- da como apenas uma parte em um todo social. Portanto, os mass media são apenas um elemento na dinâmica de formação da opinião pública, gerada também pela influência pessoal "em que a personalidade do destinatário se configura também a partir de seus grupos de referência (familiares, de amigos, profissionais, religiosos etc.). O conceito de "massa" parece ter esgotado a sua função heurística dentro da communication research" (Wolf, 1995, p. 48). Deve-se levar em conta, no entanto, que essas in- vestigações foram desenvolvidas no decorrer dos anos 40, perío- do em que a influência pessoal possuía maior força. No quadro atual, a influência dos mass media tende a não ser filtrada por tais tipos de liderança. Todavia, o que importa é que a eficácia dos meios de comunicação passa a ser compreendida como parte 10 Aqui penso no artigo de Bourdieu, de 1962, "Les relations entre les sexes dans la societé paysanne". In: Les temps modernes, 195, p. 307-331; de 1963, "La societé traditionelle. Altitude à Tégard du temps et conduite économique". In: Sociologie du Travail, n. 1, p. 24-44; e os capítulos escritos por ele em lln art moyen (1965). 28 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    dos processos decomunicação existentes no interior da estrutura social. Bourdieu e Passeron atentam que as mais diferentes mensa- gens poderiam ser veiculadas pelos mass media às mais diversas audiências. Ao invés disto, os cientistas da mídia de massa pre- ferem tratá-los como mecanismos de condicionamento do públi- co pela via preferencial da mensagem publicitária. Os autores alertam que esses pensadores arriscam-se ao relativismo por evi- tarem distinguir o público e os conteúdos de cada sistema de di- fusão cultural particular, optando pela adoção de conceitos mas- sificados e obscuros, por intermédio dos quais as diferenças são anuladas. A noção de massa não compreende só o mais massivo, a difusão que atinge o maior público. Além da importância desta audiência, mecjida em horas de consumo da programação e pelos aparelhos vendidos, "o meio de comunicação é chamado "de massa" porque comunica massivamente uma cultura de massa. Uma vez que esta cultura não deve ser entendida simplesmente pelo conjunto de mensagens difundidas pelos meios de comuni- cação de massa, os cientistas da mídia de massa a tratam como a cultura das massas, que se caracteriza pelo "sistema de saberes e das atitudes que encontramos nas "massas", opostas às elites que se beneficiaram da cultura escolar" (Bourdieu e Passeron, 1963, p. 1005). Nesta tendência de investigação no âmbito da sociolo- gia da educação, Bourdieu e Passeron publicarão, no ano seguin- te (1964), Les héritiers, obra que desmistifica o discurso iguali- tarista de Jules Ferry, da escola para todos, que permitiria a igualdade de oportunidades e a plena realização dos potenciais de cada indivíduo, e, em 1970, La reproduction. Se concordar- mos com a perspectiva da ciência da mídia de massa, ironizam então, significa que os mass media distribuem às massas o que já lhes pertence, desaparecendo com isto o mistério da massifica- ção, pois a cultura de massa é então o feito dos mass media que se fundamentam culturalmente nas massas. A cultura e os meios técnicos: entre o espírito e a massa 29
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    A proposta deum método de análise Bourdieu e Passeron fazem notar que cada meio de comuni- cação segmenta nessa massa aqueles que vêm a ser os especta- dores de um momento. Cada um deles oferece diferentes conte- údos que serão consumidos por públicos diferenciados e flutuan- tes, que coincidem em todo ou em parte com os grupos sociais. O método de análise deve, então, ser invertido, partindo não mais dos meios de comunicação para as suas audiências, mas dos grupos sociais, mediante o sistema de consumo cultural que os caracteriza.11 Os autores questionam o que diferencia a re- cepção de um tipo de programa da de outro, por exemplo o pú- blico de um determinado programa de televisão daquele de uma peça teatral ou um concerto da sinfônica. Os diversos tipos de comunicação podem estar em oposição às relações estabelecidas pelo conjunto das comunicações individuais, "tais como os co- mentários em uma rua de um antigo lugarejo tradicional, o papo- furado no terraço de um café ou a fofoca em uma noitada mun- dana" (Bourdieu e Passeron, 1963, p. 1007-1008). Eles acredi- tam que os diversos meios de comunicação individuais propi- ciam tipos de experiência distintos na relação com os outros. Os exemplos são variados, como a relação face a face, a relação anônima que se instaura na carta oficial que se destina mais ao cargo que ao sujeito que o preenche, a conversa ao telefone etc. Cada um dos meios implica direitos e deveres. Determinados as- suntos podem ser abordados ao telefone, enquanto que outros só por carta, ou pessoalmente, e assim por diante. Em prossegui- mento, também perguntam o que pesa mais, se o número de emissores e de receptores ou o conteúdo e a forma da comuni- cação, a sua qualidade. Em essência, as experiências tanto dos emissores quanto dos receptores diferem, no âmbito do inter- câmbio de mensagens individuais e no das coletivas. A estrutura do grupo onde é feita a recepção merece ter destaque:12 o con- sumo da televisão dá-se em casa, em família; o do concerto, no teatro, que abriga um público interessado por este tipo de ex- 11 Na década de 90, em Sobre a televisão, há a inversão dessa perspectiva. 12 O campo do consumo é enfatizado nos capítulos 2 e 3. 30 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    pressão. O mesmoraciocínio vale para o futebol e o estádio, o cinema e a sala de exibição, e assim por diante; a credibilidade e a adesão à mensagem é uma no contato face a face real e outra na simulação de pessoalidade ou intimidade gerada pela televi- são e o cinema, ou mesmo o rádio. Na Internet (e no jornalismo on-line), esse quadro toma-se dramático.13 É preciso demons- trar, defendem, o porquê da atribuição de tamanho poder de per- suasão à televisão, em detrimento do contato físico direto propi- ciado pela presença humana. A leitura também se diferencia. Modos distintos são detectados para o suporte livro. Dizer que é a leitura de um jornal ou de uma revista não é o suficiente. A es- trutura do veículo deve ser conhecida, levando-se em conta que, mesmo ao ler-se um único periódico, seja ele O Estado de S. Paulo, Zero Hora, ou O Dia, a importância que um leitor dis- pensa às diversas editorias de um mesmo veículo também muda. Existem mil maneiras de ler, de ver e de escutar. Por que querer determinar "a influência" dos mass media pela medida, estranha- mente burocrática, da quantidade de informação emitida ou a aná- lise da estrutura da mensagem. Podemos sem dúvida medir o nome e o corte dos caracteres, ou a disposição dos títulos, a importância dada a tal ou tal acontecimento, mas teremos o direito de inferir que o leitor dispensa a esta informação uma importância propor- cional aos milímetros quadrados que ele ocupa no jornal? Ele de- ve lembrar que a significação não existe como tal na própria coisa, mas que ela tem, aqui como fora daqui, a modalidade da consciên- cia intencional que a constitui? A leitura superficial pode ser nela mesma sua própria defesa e a escuta distraída transforma o discur- so do speaker em simples barulho, que se pode medir em decibéis (Ibidem, p. 1009). Aqui se observam as críticas aos métodos da sociologia tra- dicional, às análises estruturalistas em voga, bem como às análi- ses de conteúdo, e, por outro lado, a defesa de postulados da crí- tica cultural, mas sem que, com isto, se estabeleça uma concor- dância à crítica cultural de Morin. Uma perspectiva alternativa começa a ser gestada. 13 Ver o meu livro; Jornalismo on-line. Passo Fundo: UPF Editora, 2004. A cultura e os meios técnicos: entre o espírito e a massa 31
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    A possível liberdadede espírito A mensagem dos mass media não possui a priori o privilé- gio de enganar as pessoas que a consomem. Bourdieu e Passeron criticam os intelectuais que não acreditam na capacidade de de- fesa e o livre-arbítrio espiritual dos outros. Eles buscariam mo- nopolizar a liberdade de espírito tão alardeada. A atividade pro- fissional intelectual exerceria esse domínio. Morin (1969, p. 118), da sua parte, permite a liberdade em essência só aos estra- tos superiores da sociedade e reporta-se constantemente às cele- bridades com espaço na mídia, os olimpianos, assim chamados por parecerem ocupar na vida planos quase tão etéreos quanto o Olimpo da Grécia. "Os reis e os chefes, que estão acima da lei, gozam da supraliberdade. Os ricos, os olimpianos, escapam aos constrangimentos da vida cotidiana: deslocam-se de avião, amam, divorciam-se facilmente". Pouco reflete, porém, sobre quanto o pesquisador pode colocar-se em posição privilegiada ou mistifícar as posições ocupadas pelos agentes na estrutura so- cial. Os "mandarins", os intelectuais, criam novos mitos, pare- cendo desmitifícadores: a cultura de massa, ou melhor, a massa como referência social em uma dominante cultural, tomada a priori, passa a ser levada mais a sério que os sujeitos que se mo- vimentam, individual ou associativamente, na sociedade, cuja cultura é constituída e reconstituída por eles a cada momento com possíveis espaços de liberdade, embora se reconheça o quão obstaculizado é o reconhecimento e árdua a ruptura ante as estruturas que reproduzem a dominação. Bourdieu e Passeron, a propósito, chamam de neopopulismo a proposta metodológica adotada por Morin. Acreditam que ela está permeada por contradições, na qual bastaria o observador gostar ou participar de espaços e eventos típicos da cultura de massas para estar nela e poder ser seu observador legítimo, uma vez que para ele é importante "[...] que o observador participe do objeto de sua observação; é preciso, num certo sentido, apreciar o cinema, gostar de introduzir uma moeda num juke-box, diver- tir-se nos caça-níqueis, seguir as partidas esportivas, no rádio, na televisão, cantarolar o último sucesso" (Morin, 1969, p. 22). Es- sas atitudes, a priori, não resgatam a compreensão encoberta pe- 32 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    Ias mitologias, apesarde que os autores apontam que o discurso da ciência da mídia de massa possui uma "aura de verossimi- lhança" (Bourdieu e Passeron, 1963, p. 1012). Ele repercute tan- to, em virtude de valer-se do expediente da analogia, que toma como ponto de partida as experiências corriqueiras, como as re- feições, nas quais não se conversa, mas se assiste à televisão. As analogias acarretam semicompreensões dos fenômenos. Desse modo, a ciência da mídia de massa efetuaria tão-somente a transposição do senso comum em um discurso formalizado. As- sim como à época da Guerra Fria "tudo" passava a ser culpa da bomba atômica, a "cultura de massas", espírito encarnado do sé- culo XX, responsabiliza em quase tudo a televisão. O sentido pela via da história No discurso massmidiático, ocorre uma supressão do senti- do, uma vez que não são buscadas as condições de existência dos fenômenos. Isso leva os cientistas da mídia de massa a di- fundirem conceitos totalizantes. No caso das características da "jovem moderna", por exemplo, salienta-se a identificação cos- mética e de vestuário das meninas em relação às divas de Hol- lywood. Bourdieu e Passeron recordam, porém, que a transfor- mação da sociedade camponesa, através da introdução de novas técnicas agrícolas bem como da nova distribuição do trabalho entre os sexos, são fatores que afetam a jovem rural dos dias atuais. Para os autores, a explicação massmidiática tende a nu- trir-se de si mesma, pois cada perspectiva nova costuma ser em- pregada a partir da repercussão de perspectivas anteriores. A sis- tematização do pensamento dos cientistas da mídia de massa se dá mediante a alusão e a elipse. A explicação apresenta fenôme- nos que parecem não possuir antecedentes históricos além do apogeu dos meios de comunicação de massa. Morin (1969, p. 185) apresenta o fim da história, uma vez que entende que o mundo em transformação sucessiva contém a cultura de massa "aderente" ao presente, no sentido de adesão e aderência: a pri- meira, no plano das idéias; a segunda, à dimensão espaço- tempo; "cultura no devir, ela não é cultura do devir. Ela permite A cultura e os meios técnicos: entre o espírito e a massa 33
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    ao homem aceitar,mas não assumir sua natureza transitória e evolutiva. Cultura do hoje eterno e cambiante, ela oferece uma sucessão não-estruturada de momentos presentes". O presente toma-se quadro absoluto de referência que origina a noção - e impressão - permanente de contemporaneidade. Resta aos ho- mens, então, encantarem-se com a sucessão de técnicas e novas tecnologias que o mundo massificado lhes oferece continuamen- te, com o fetiche que, para alguns, poderia levar à danação e, pa- ra outros, à redenção. Bourdieu e Passeron (1963, p. 1015) observam pertencer à ordem da razão mítica o discurso pelo qual se anuncia uma mu- tação sem precedentes do ser humano, por intermédio da disse- minação das novas tecnologias de comunicação. Para o intelec- tual que incorpora o discurso mítico fica fácil alardear a pana- céia ou o apocalipse, com o seu discurso de autoridade proferido ao homem comum cujo acesso limitado à análise histórica da emergência de novos fenômenos sociais o submete a esses pen- sadores e à "ilusão do nunca visto". Os autores ironizam a ar- gumentação desses pensadores por agirem como profetas do apocalipse, já que nela fazem nascer um novo homem, o "homo mass mediaticus", produto dos mass media. Homem sem quali- dades, para alguns intelectuais de esquerda, ou, para outros de direita, virtuoso em seus hábitos, de um simples apertar de botão a um folhear de revistas. Os grupos e as classes sociais como referência Bourdieu e Passeron discordam que os sujeitos diversos, cujas atividades em sociedade são as mais diferentes, desde o agricultor até o acadêmico, possam ser "iguais diante dos mass media" (1963, p. 1017). Em razão de sua extrema indeterminação semântica, o conceito de "massa", encontro de todas as escolhas não feitas, permite mostrar somente as alternativas. Fazendo uma relação com a sociedade, se quisermos pegar a dupla de Tõnnies, ou por relação à solidarieda- de orgânica e à solidariedade mecânica, para falar como Durk- heim, o termo "massa" quer nomear um novo tipo de solidarieda- 34 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    de, definida pelaausência generalizada de solidariedade, fim últi- mo da desagregação da Gesellschaft e mais ingenuamente ainda do que a Gemeinschaft. Mas, ao mesmo tempo, a "massa" produz "massificação", ação niveladora dos mass media, realizaria uma nova forma de integração fundada sobre a "homogeneização" ou, se quisermos, sobre a "solidariedade por semelhanças", típica se- gundo Durkheim de sociedades primitivas: a "cultura de massa" seria então o equivalente do sistema de modelos de comportamen- to que o etnólogo descobre em uma sociedade fortemente integra- da (Ibidem, p. 1018). Empregando-se a noção de massa, implicitamente o pesqui- sador reportar-se-ia à dupla de oposição massas e elites e, por extensão, à concepção marxista de revolução, da luta de classes. A nova sociedade que emerge dos discursos desses cientistas da mídia de massa, porém, leva à ilusória demonstração de uma so- ciedade sem classes, alienada na igualdade, cuja revolução ainda está por fazer. E, assim como os significados derivados da ex- pressão "massa" permitem a evocação da tradição marxista, re- volucionária, autoriza também a presença da tradição maquiavé- lica, que visa assegurar os mecanismos de poder àqueles que o possuem ou que lhe aspiram, quer dizer, a garantia de preserva- ção dos processos sociais de dominação. Pode-se afirmar que Bourdieu e Passeron acreditam que tal indeterminação semânti- ca deixa uma brecha para o uso oportunista do poder, já que o espírito do tempo pode explicar tudo. A lógica fantasmagórica dos cientistas da mídia de massa difundiria um vale-tudo, pelo qual o pesquisador poderia utilizar-se desde lembranças de uma pessoa comum até a história de tempos longínquos. O que se abandonaria, no entanto, é a necessária descrição do processo histórico que faz emergir a essência dessas massas, seus sujeitos, seus meios e sua cultura. Por não levarem em conta este proces- so, os intelectuais criticados não analisam o sistema de organi- zação que produz os fenômenos da mídia. Não consideram na investigação nem os meios, nem suas funções, suas técnicas de transmissão e a diferenciação na recepção de um mesmo produto. Os encantadores querem poupar o desencantamento de descobrir que os redatores e os fotógrafos de Paris-Match colocam explici- tamente e metodicamente em suas mensagens aquilo que a análise A cultura e os meios técnicos: entre o espírito e a massa 35
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    que queremos estrutural,esta varinha mágica, faz surgir; poupar-se também do desespero de constatar que os leitores compreendem esta intenção objetivada. É, portanto, o massmidiólogo que vem colocar sua nuvem mitológica entre duas partes sem ilusões (Bourdieu e Passeron, 1963, p. 1020). Os cientistas da mídia de massa evacuam o sujeito histórico antes do seu declínio efetivo, historicamente, ou de sua débâcle materializada.14 Bourdieu e Passeron defendem que seja buscada uma alternativa que supere ao mesmo tempo o denuncismo do discurso revolucionário ingênuo e a resignação daqueles que ob- servam nas massas uma intoxicação massmidiática sem antído- tos possíveis. Tampouco, a dialética da produção-consumo pro- posta por Morin, cuja noção de sincretismo é difundida em sua obra. No lugar desta dialética, acreditam existir uma homologia estrutural entre os campos de produção e de consumo, pela qual há coincidência de interesses entre os grupos de emissores e de receptores. Os criticados, ao contrário, oscilam entre o amor às massas "ameaçadas de catástrofe e o amor secreto da catástrofe" (Ibidem, p. 1021), isto é, entre a nostalgia e o apocalipse. A revisão das posições Edgar Morin (1986, p. 9), no entanto, revê, e progressiva- mente abandona, suas posições no segundo tomo de L 'esprit du temps. "O espírito do tempo 1950-1960 era a cultura de massas. O novo espírito do tempo faz explodir a cultura de massas". Ne- la, não reconhece mais o sentido de integração cultural e tam- pouco social. Substitui, pois, o antagonismo da cultura de mas- sas ante a cultura coletiva por três pólos culturais em interações simultaneamente "complementares, convergentes e antagônicas" (Ibidem: 12); a cultura cultivada que passou a incorporar o com- ponente da subversão e da contestação; a "contracultura", com tendência à revolução cultural; e a "nova cultura de massas atra- 14 Ou a que desmaterializa, pois me refiro aos acontecimentos e novos processos que se desencadeiam no mundo do século XXI, a partir da derrubada do Muro de Berlim. 36 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    vessada pela problematizaçãoe pela reformulação" (Ibidem, p. 13). Morin reivindica a importância da noção de acontecimento, do ponto de vista sociológico, cuja natureza tende a ser desestru- turante pois perpassa aquilo que não pode ser inscrito nas regu- laridades estatísticas. "Assim, um crime ou um suicídio não é um acontecimento, na medida em que se inscreve em uma regu- laridade estatística, mas uma onda de crimes, uma epidemia de suicídios podem ser considerados acontecimentos, da mesma forma que o assassinato do presidente Kennedy ou o suicídio de Marilyn Monroe" (Ibidem, p. 27). A natureza acidental do acon- tecimento perturba e modifica a sociedade. A transformação, to- davia, se processa em um continuam dialético ao qual a evolu- ção conflita com a involução. Uma forte perturbação da ordem, isto é, grande abalo das estruturas pode desencadear mecanis- mos de regressão dos quais ressurgem arcaísmos; a inovação so- cial, por outro lado, também pode ser suscitada. Tal caráter sin- gular e aleatório revaloriza o papel da história no pensamento de Morin. Reconhecida, portanto, a heterogeneidade, Morin questiona se ainda seria pertinente o emprego da noção de cultura. Conti- nua a buscar um sentido unifícador para as diversas acepções, um novo espírito do tempo que fugisse tanto da visão totalizante quanto da residual, seus limites polares entre os quais oscila e que, ao mesmo tempo, possa explicar estes pólos. As duas abor- dagens correspondem aos modelos da lingüística estrutural, que investiga o código e a estrutura dos sistemas culturais, e a abor- dagem existencial em cuja renovação Michel de Certeau cum- priu, de acordo com ele, um papel notável. "A cultura não deve ser considerada nem como um conceito nem como um princípio indicativo, mas como a maneira como se vive um problema glo- bal" (Morin, 1986, p. 77). Pleiteia o desvendamento do sentido da noção de cultura mediante o enfoque sobre o elo que une a obscuridade existencial à forma estruturante. Neste sentido, ao meu julgar, Bourdieu já o atendera à época (1975). Cabe lem- A cultura e os meios técnicos; entre o espírito e a massa 37
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    brar que aobra metodológica15 bourdieusiana, Esquisse d'une théorie de la pratique, havia já sido publicada em 1972. As práticas desviantes e o retorno à estrutura Edgar Morin não chega a reconhecer, porém, o quanto Mi- chel de Certeau é influenciado pelo pensamento de Bourdieu, em especial por aquele que dá conta, no método, tanto do acon- tecimento quanto da estrutura e cuja mediação entre estes é rea- lizada pelo habitus. Certeau, no entanto, inverte a perspectiva que analisa as práticas de consumo cultural ao deslocar "a aten- ção do consumo supostamente passivo dos produtos recebidos para a criação anônima, nascida da prática do desvio no uso des- ses produtos" (Giard apud Certeau, 1994, p. 13). Nos dias de ho- je, essa inversão de perspectiva é realizada na prática da pesqui- sa proposta pela sociologia disposicional de Bernard Lahire (1998 e 2004), pela qual, tomando como referência precípua os fundamentos teóricos bourdieusianos, constata a variação exis- tencial das disposições ativadoras das práticas, e a pluralidade na regularidade. Mas, se Certeau intenciona o desvio, a singula- ridade, o acontecimento, isto é, o escape do poder, Bourdieu procura revelar as estruturas que tendem a reproduzir esta domi- nação. Se para o primeiro há o interesse pelo específico indivi- dual, mesmo que se corra o risco do dado efêmero, para o se- gundo vale a descrição das tendências nas práticas dos grupos sociais, apresentados como categorias e classes. Bourdieu contrapõe-se à idéia de um espírito do tempo, que bem agrada a Morin. Não crê no poder atribuído aos meios téc- nicos. O mito da integração cultural do Zeitgeist tem origem em Hegel e foi impulsionado pelo historicismo e romantismo ale- mães,16 cuja concepção de cultura emerge como um conjunto de 15 Bourdieu não aprecia a utilização da palavra "metodologia". Esta, em sua traje- tória de pesquisa, é dinâmica, permeada pela reflexividade que reconstrói per- manentemente os conceitos. 16 Cf. Hegel (1984), "a idéia, o espírito em geral, exige que o todo, o geral, seja abarcado de uma olhada, que a finalidade do todo seja concebida, antes de pas- sar ao especial e ao singular. Nós queremos ver as partes singulares em sua re- 38 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    traços fortemente entrelaçadosque se articulariam numa unida- de estética. A antropologia, já no campo acadêmico, foi influen- ciada por essa tradição, cuja ênfase investigativa sobre a cultura buscou analisar sua função principal como integradora e produ- tora da ordem social. Uma vez tendo o espírito do tempo desen- carnado da cultura, que deixa de ser de massas, o poder totali- zante dos meios técnicos, que emergia na teoria, se esvazia na prática, ou melhor, nas práticas sociais, que constituirão não mais uma cultura, mas culturas de classes, grupos e mesmo de indivíduos. Se é verdade que as práticas permitem desvios ao poder do sistema, é nos desvios que se reconhece a existência consciente ou inconsciente das estruturas sociais. É a partir des- tas que Pierre Bourdieu balizará, a partir de então, suas pesqui- sas sobre as práticas sociais, pois só mediante o seu reconheci- mento surgirão as condições de possibilidade para a real ação individual liberada da dominação. Do ponto de partida de "Sociologues des mythologies et my- thologies de sociologues", que nega a lógica homogeneizadora da cultura de massas, Bourdieu voltar-se-á, na próxima etapa, à análise de prática com um mínimo de barreiras econômicas dire- tas ao seu exercício, seu desempenho, isto é, que não causa in- tensos constrangimentos materiais às disposições interiores. A escolha da fotografia, tratada no capítulo que segue, favorece a observação da distribuição estruturada de competências e dispo- sições derivadas do ethos de classe. lação com o todo; nessa referência possuem seu valor superior e sua significa- ção". Para Margaret Archer (citada por Featherstone, 1995, p. 181, que se refe- re à obra dela Culture and Agency. Cambridge. Cambridge University Press, 1988) essa noção, bem como a de fVeltanschauung, concepção de mundo, é "uma das maiores falácias arraigadas na ciência social". A cultura e os meios técnicos: entre o espírito e a massa 39
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    2 Os usos sociais datécnica fotográfica Se é verdade que "a natureza imita a arte", é natural que a imitação da arte apareça como a imitação mais natural da natureza. Pierre Bourdieu, Un art moyen - essa/ sur /es usages sociaux de Ia photographie. Para esclarecer a relação dos indivíduos com os meios técni- cos, Pierre Bourdieu empreende pesquisa de campo para a com- preensão das fotografias. Trata-se de seu compromisso desde que criticara a concepção totalizante de cultura de massas apre- sentada em L 'esprit du temps, de Edgar Morin. Un art moyen - essai sur les usages sociaux de la photographie,1 publicado em 1965, demonstra os resultados das pesquisas encomendadas pela Kodak-Pathé junto ao sociólogo. Foram co-autores Luc Boltans- ki, Robert Castel, Gérard Lagneau e Jean-Claude Chamboredon. O esquema analítico que Bourdieu adota para compreender a técnica fotográfica pode ser útil ao entendimento, por exemplo, da televisão ou da Internet, pois o que se está a investigar é jus- tamente a relação das práticas sociais com as técnicas, e as fun- ções sociais daí surgidas. Nesta obra, Bourdieu defende a idéia de que é possível a introdução de um método que "apreende em uma compreensão total as regularidades objetivas das condutas e a experiência associada" (Bourdieu et al., 1989, p. 11), para a 1 Adoto a segunda edição francesa (Paris: Éditions de Minuit, 1989). Os usos sociais da técnica fotográfica 41
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    prática fotográfica ea significação da imagem fotográfica. Este método, mais aprimorado, será adotado pelo sociólogo em Les règles de l 'art, de 1992,2 em que a análise da significação do texto elaborado por um participante do campo literário francês permite o esclarecimento deste espaço de relações de força e de sentido. As sociedades, por intermédio de suas instâncias de le- gitimação, hierarquizam os objetos de estudo legítimos. A foto- grafia, à época desta investigação, não havia adquirido tal esta- tuto. Cabe salientar que os dados obtidos no trabalho, junto com outros apurados na década de 60, foram fundamentais para o su- porte empírico de La distinction, que apareceria somente em 1979. Analisam-se as significações objetivas e suas condições sociais de possibilidade, mediante o estabelecimento da relação entre os sujeitos e a significação objetiva de suas condutas. "Três grupos de usuários de câmeras foram estudados: campo- neses no Béam, operários de fábrica da Renault e membros de clubes fotográficos em Lille" (Jenkins, 1992, p. 131). A estatís- tica foi utilizada como instrumento que permite a demonstração do universo objetivo de chances associadas a determinado grupo social. Porque ela possui a intenção de fixar, quer dizer de solenizar e eternizar, a fotografia não se pode confiar aos acasos da fantasia individual e, pela mediação do ethos, interiorização das regulari- dades objetivas e comuns, o grupo subordina esta prática à regra coletiva, de tal modo que a mais simples fotografia exprime, além das intenções explícitas daquele que a fez, o sistema dos esquemas de percepção, de pensamento e de apreciação comum a todo um grupo (Bourdieu et al., 1989, p. 24). No texto é introduzida a noção de ethos de classe, que virá a ser contida, no constructo bourdieusiano, pelo habitus, em que se inclui a hexis, corporalidade do indivíduo que expressa rela- ções sociais inconscientemente interiorizadas, que caracterizam sua ruptura com o estruturalismo que faz dos sujeitos meros epi- fenômenos da estrutura. Anos mais tarde, em 1980, no livro Le sens pratique, Bourdieu comentaria que o artigo escrito em 2 Adoto a edição brasileira: Às regras da arte. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 42 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    1963, e publicadona coletânea de textos reunidos por Jean Pouillon e Pierre Maranda em homenagem a Claude Lévi- Strauss, foi o seu "último trabalho de estruturalista feliz" (Bour- dieu, 1980, p. 22).3 Percebe-se no deslocamento do uso da noção de ethos pela de habitus uma valorização das regularidades obje- tivas interiorizadas pelo indivíduo, independente dele estar mais ou menos integrado ao grupo. O emprego da noção de ethos ain- da prioriza o papel da ação coletiva nos processos de inculcação, que não está excluído com o habitus. Este, por outro lado, desta- ca-se em um contexto em que os vínculos orgânicos das comu- nidades ou sociedades tradicionais se enfraqueceram ou desapa- receram. Segundo o autor, o ethos corresponde à experiência re- lacionada, a partir das percepções, sanções e inculcações cotidi- anas, à esperança de êxito ou fracasso nas empreitadas, isto é, as chances possíveis em dada tomada de posição. Esta noção serve como mediação entre a oposição objetivismo e subjetivismo e, enfim, para a consecução da ambição de superar este antago- nismo. O ethos "se opõe assim à ética, que é a forma teórica, ar- gumentada, explicitada e codificada da moral" (Bonnewitz, 1997, p. 63). Bridget Fowler4 (1998, p. 13) defende que, para o entendi- mento do trabalho de Bourdieu sobre os usos sociais5 na cultura, devam-se buscar suas raízes na análise comparativa "da transi- ção das formas pré-capitalistas às capitalistas e dos padrões dis- tintivos de dominação associados com a modernidade". Ele cresceu em uma região camponesa do sul da França, o Béam, e realizou seus primeiros trabalhos, como antropólogo, na região argelina da Cabília. As duas sociedades estavam muito assenta- das nos padrões comunitários tradicionais, mas já começavam a transformar-se com a aproximação dos efeitos da expansão capi- 3 BOURDIEU, P. La maison kabyle ou le monde renversé. In: Echanges et Communications. Mélanges offerts à C. Lévi-Strauss à l'occasion de son 6()e anniversaire. Paris-La Haye: Mouton, 1970, p. 739-758. 4 Cumpre destacar o estudo desta acadêmica escocesa acerca da sociologia da cultura bourdieusiana. Seu trabalho importa aos pesquisadores voltados, por exemplo, às questões de gênero e às relações periferia-centro. 5 Fowler adota o termo "recepção" cultural e da arte, para designar o que Bour- dieu descreve como usos sociais. Os usos sociais da técnica fotográfica 43
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    talista. Derek Robbins(1991, p. 56) destaca que "Bourdieu fora um fotógrafo perspicaz na Argélia. Travail et travailleurs6 con- tém fotografias tiradas por Bourdieu que oferecem um suple- mento visual poderoso ao texto escrito". O enfoque para o estu- do da transição na Cabília teve forte influência de Durkheim e de Weber e, além deles, do entendimento que Marx (1968, p. 888) faz da importância do colonialismo para o aumento do pro- cesso social de proletarização, descrição apresentada na parte 8 do volume I de O Capital, intitulada "Teoria moderna da coloni- zação": "Nas colônias, não havendo ainda a dissociação entre o trabalhador e suas condições de trabalho inclusive a raiz destas, a terra, ou ocorrendo ela apenas esporadicamente ou em escala limitada, também não há a separação entre agricultura e indús- tria, nem se verifica a destruição da indústria doméstica rural [...]". Com efeito, antes da chegada à Argélia dos franceses, a forma de organização tribal cabila se apoiava sobre uma lógica social da honra ou de capital simbólico que toma o lugar da acumulação de capital econômico no ciclo de vida da comuni- dade. O declínio da tribo e da ordem paternalista deslocara os indivíduos às cidades. A propriedade, que era grupai, passara a ser disponível aos indivíduos. Uma economia das trocas de pre- sentes, que sustentara a solidariedade do grupo tribal, fora subs- tituída pela modernização imposta pela hegemonia cultural fran- cesa. A perspectiva de tempo dos fellahs, os argelinos rurais, era de longa duração em que o futuro se percebia próximo ao pre- sente. O solo gerava-lhes um vínculo quase místico; o dinheiro, embora conhecido, não era valor abstrato, próprio à especulação ou à acumulação, típicas à visão de futuro como algo diferente ou novo. Com a desagregação do meio rural, osfellahs incorpo- raram o sentido temporal ocidental; viram-se como os 'novos homens' das cidades e sem família. Expressaram "a contradição entre o velho e o novo [...]. Assim, a França havia precipitado 6 Robbins refere-se a Travail et travailleurs en Algérie, de 1963, resultado de um conjunto de pesquisas realizadas entre 1958 e 1961. Adoto versão brasileira condensada: O desencantamento do mundo - estruturas econômicas e estrutu- ras temporais. São Paulo: Perspectiva, 1979. 44 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    uma transformação devalores" (Fowler, 1998, p. 16). A impor- tância da pesquisa é o desenvolvimento da noção de capital sim- bólico, o qual é inerente à lógica da distinção. Na cultura pré- capitalista da Cabília, o individualismo inexistia, isto é, os valo- res do grupo eram o balizador do processo cultural, permeado por uma lógica da polidez, avessa à desconformidade compor- tamental, favorecendo o desejo pelo clichê. Entretanto, o lugar da estética na vida moderna ocidental passara a ser orientado pe- la expressão individual, que só permite que o indivíduo "exista" desde que se distinga. A trajetória que conduz à distinção é mar- cada pelas disposições engendradas na socialização pregressa desses indivíduos. "Em outras palavras, quando as sanções so- brenaturais e morais perdem sua força, é através do gosto, estilo e mesmo do prazer que vamos aceitar certas ocupações e certas posições" (Ibidem, p. 50). A definição social da fotografia Para a transmissão das estruturas do mundo social, a família e a escola cumprem papel de matriz inicial de percepções que constitui o habitus primário. "A discussão da fotografia [...] constantemente teve um ponto de contato com a reflexão con- temporânea sobre a natureza das instituições educacionais" (Robbins, 1991, p. 58). Esse processo de pedagogia social re- produz os princípios de um arbitrário cultural, constituído por valores, crenças, normas e práticas. O grupo dominante delega à autoridade pedagógica os princípios aos quais o arbitrário se re- fere. Bourdieu (s.d., p. 55) desenvolve a noção de trabalho pe- dagógico, associada a uma concepção temporal. O trabalho pe- dagógico que engendra habitus durável pressupõe continuidade e "distingue-se das acções de violência simbólica descontínuas e extraordinárias como as do profeta, do "criador" intelectual ou do feiticeiro. Tais acções de imposição simbólica não podem provocar a transformação profunda e durável daqueles que elas atingem senão na medida em que se prolongam numa acção de inculcação contínua, i. e. num [trabalho pedagógico] [...]". A prática fotográfica, no entanto, ao menos à época da pesquisa, Os usos sociais da técnica fotográfica 45
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    não expressara umtrabalho pedagógico. Este não poderia ser fa- tor legitimador dela, tampouco dos emergentes meios de comu- nicação, como a televisão, já que os seus usos sociais não decor- riam da transmissão de conteúdos pela escola ou por instâncias "nobres" de legitimação. Não obstante, a imagem ao ser produ- zida, mesmo que decorra de um ato devotado ao equipamento e seu automatismo, engloba, por exemplo mediante a opção de enquadramento, valores estéticos e éticos. A fotografia contém seu universo próprio de motivos foto- grafáveis; possui uma gama teórica cujos resultados técnicos são a expressão da sua possibilidade, definida desde a seleção pre- liminar do grupo para o enquadramento de seus entes, gêneros, e composições. Uma classe ou grupo social quando se propõe a fotografar, já está predisposta a um determinado perfil do que se faz ou do que se pode fazer, isto é, daquilo que é fotografável para este contingente social. A limitação social que pesa sobre a fotografia dá-se então bem menos pelos limites da máquina fo- tográfica, quer dizer, suas possibilidades técnicas, do que pelos modelos implícitos que definem aquela e são assimilados atra- vés da prática fotográfica e das fotografias. O sentido dado por um determinado grupo à prática fotográfica corresponde à defe- rência ao objeto. O fotógrafo confere ao objeto fotografado uma promoção ontológica em cuja dignidade o motivo é "fixado, conservado, comunicado, exibido e admirado" (Bourdieu et al., 1989, p. 24). Cada classe, grupo ou profissão, possui um sistema de valores próprios que constitui o fundamento de elaboração das normas que regem a seleção fotográfica que opõe o não- fotografável ao fotografável. Para que a prática fotográfica seja compreendida, portanto, não basta que sejam recuperadas suas significações explicitadas, correspondentes à explicitação dos intentos autorais. Requer também a investigação do resíduo de significação que impregna a prática, cujo peso de sua participa- ção no simbólico de uma época, de uma classe ou de um grupo artístico é demonstrado pela pesquisa das práticas sociais. O investimento econômico diminuto que a prática fotográfi- ca exige faz dela um meio privilegiado para a investigação dos processos de subjetivação e significação cultural específicos dos diferentes grupos ou classes, da manifestação e percepção de 46 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    uma estética popular.Neste sentido, para outro meio, Nicholas Gamham defende que a "radiodifusão em geral, e a televisão em particular, para a qual agora há acesso doméstico virtualmente universal nas sociedades avançadas, e que, por causa de seu bai- xo custo no ponto de recepção, ocupa a maior porção de tempo do consumo cultural dos grupos socioeconômicos inferiores, re- presenta um campo-chave ao estudo dos modos nos quais o con- sumo cultural e a apropriação são estruturados em modos que não são diretamente materiais" (Gamham, 1995, p. 187). A ci- ência social cabe, de início, o estabelecimento de como a prática individual é regulada pelo gmpo ou pela classe social. As fun- ções sociais a orientam e se ajustam a seus interesses específi- cos. Ao constituir a fotografia como objeto de estudo, deve-se optar pela decisão metodológica de investigar primeiramente os grupos reais, a fim de evitar-se que a pesquisa sobre a prática ou consumo individuais e suas relações incorram em abstrações, pois "a significação e a função conferidas à fotografia são dire- tamente ligadas à estrutura do grupo, mais ou menos a sua gran- de diferenciação e, sobretudo, a sua posição na estrutura social" (Bourdieu et al., 1989, p. 27). A fotografia é predisposta a servir às funções sociais do grupo porque seus usos sociais se apresen- tam como uma seleção sistemática, coerente e compreensível entre os usos objetivamente possíveis. A fotografia, por conse- guinte, é encarada, em geral, como modelo de registro realista, de veracidade e objetividade. A subjetividade só caberia à arte, pois desta se espera que reflita a personalidade, a interpretação autoral. Este preconceito em relação à fotografia esquece que mesmo o enquadramento do real decorre de uma seleção arbitrá- ria; de um ponto de vista que poderia ter sido vários outros. O instante arbitrado pelo enquadramento é que transcreverá todas as qualidades visuais do objeto. Aquilo que é considerado obje- tivo e realista é o produto de uma chapa plana, muitas vezes em preto-e-branco, bidimensional, com o espaço e volumes orienta- dos pelas leis da perspectiva. Se este sistema convencional é realista, isto se dá porque desde a sua origem se lhe tem sido atribuídos os usos sociais ti- dos como objetivos e realistas. Se a fotografia se apresenta, apa- rentemente, por uma linguagem natural sem código nem sintaxe. Os usos sociais da técnica fotográfica 47
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    é que aseleção que ela opera no mundo visível corresponde à lógica de representação do mundo hegemônica a partir da Re- nascença. Porém, a força7 realista, varia na história. Christine Lapostolle (1988, p. 67), neste sentido, atenta que, na época da Comuna de Paris, a imagem fotográfica era olhada como algo que oscilava entre o verdadeiro e o mais-que-verdadeiro. A evo- lução do sistema figurativo é lenta "e, ao mesmo tempo que se lhe exclama sobre a fidelidade do novo meio de representação da realidade que se dispõe, encomenda-se sua fotografia a um "pintor-fotógrafo", o qual aprecia os retoques e a pinta, para fa- zê-la "mais verdadeira" [...]". A seleção que os praticantes reali- zam é estruturada pelas categorias que organizam a visão co- mum do mundo. Em virtude disto, é que o produto fotográfico, sua imagem, é reconhecida em sociedade como a reprodução objetiva e exata da realidade. "Ao conferir à fotografia um certi- ficado de realismo, a sociedade não faz nada além que confirmar a si mesma, na certeza tautológica, que uma imagem do real, conforme a sua representação da objetividade, é verdadeiramen- te objetiva" (Bourdieu et aí., 1989, p. 113). A função na estrutura: fotografia, índice e instrumento de integração As práticas sociais, sejam elas as mais comuns ou sofistica- das, organizam-se em consonância a certas regularidades. Os dados estatísticos apresentados por Bourdieu esclareceram que a prática de tirar fotografias era sazonal, à época do levantamento, para mais de dois terços dos fotógrafos, os quais restringiam sua atividade às celebrações em âmbito familiar, às férias e às reu- niões entre amigos. Percebe-se, então, na prática fotográfica, umafunçãofamiliar, isto é, aquela que o grupo familiar confere à prática, tornada mais explícita quando as estatísticas demons- tram que a máquina fotográfica tende a ser uma propriedade co- letiva e indivisível da família e sua existência ser mais freqüente 7 Emprego "força" no sentido de força performativa, isto é, de uma eficácia sim- bólica associada à ação. 48 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    quando há filhos.Cumpre, portanto, umafunção de integração, através do reforço ao sentimento de unidade familiar que se dá mediante a solenização e etemização de seus grandes momentos registrados na fotografia. Neste "rito do culto doméstico" (1989, p. 39), a família faz-se ao mesmo tempo sujeito e objeto, na qual a inexistência da prática fotográfica pode significar omissão ou ato de dissolução. Partindo de Durkheim, que defende que a fes- ta possui por fimção revivifícar e recriar o grupo, Bourdieu compreende que a fotografia é o meio da solenização de seus momentos culminantes e da reafirmação da unidade. A fotogra- fia, além de ser uma técnica de solenização, é uma técnica da festa; técnica de solenização da festa. Sua necessidade amplia-se à medida que as grandes solenidades se fragmentam ou com o desaparecimento das festas públicas. "No caso do casamento, a imagem que fixa para a eternidade o grupo retratado ou, melhor, a retratação de dois grupos, inscreve-se de crer, quer dizer de sancionar e de santifícar a união entre dois grupos que se realiza através da união entre dois indivíduos" (Ibidem, p. 41). Além do sentimento de unidade, a prática fotográfica também marca os rituais de mudança impostos, como acontece na primeira comu- nhão, quando as crianças presenteiam seus parentes e vizinhos com fotografias do sacramento. A história da hierarquia dos sujeitos fotografáveis e fotogra- fados inverteu-se à medida que a mulher conquistou mais espaço em sociedade, bem como suas crianças. De início, as fotografias retratavam preferencialmente os adultos, depois os grupos fami- liares. Crianças sozinhas eram raridade. É com base em trans- formações deste tipo que Bourdieu (Ibidem, p. 43) defende "que a fotografia seja objeto de uma leitura que se pode chamar so- ciológica e que ela não seja nunca considerada, em si mesma e por si mesma, em suas qualidades técnicas ou estéticas". Sua so- lenização não se dá tão-só pelo registro congelado na chapa fo- tográfica; também o momento da captura, do enquadramento, requer dos sujeitos a serem fotografados atitudes e disposições formais. O fotógrafo de uma festa de casamento ordena e os convidados acatam suas instruções, pois não faltariam ao deco- ro, cuja não-observância afrontaria a todo o grupo do qual o fo- Os usos sociais da técnica fotográfica 49
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    8 tógrafo recebera ainvestidura dos poderes que o consagra. A condição de possibilidade da prática fotográfica dá-se porque ela enquadra aquilo que já é solenizado, quer dizer as condutas a- provadas e reguladas socialmente. O poder fotografar algo pres- supõe algo que deva ser fotografado. A cerimônia pode ser fotografada porque ela escapa à rotina coti- diana e deve ser fotografada porque ela realiza a imagem que o grupo entende dar a si mesmo enquanto grupo. O que é fotografa- do e o que apreende o leitor da fotografia, não são, falando pro- priamente, os indivíduos em sua particularidade singular, mas os papéis sociais, o casamento, a primeira comunhão, o militar, ou as relações sociais, o tio da América ou a tia de Sauvagnon. [...] o ob- jeto verdadeiro da fotografia não são os indivíduos, mas as rela- ções entre os indivíduos, os pais de uma família seguram em seus braços os filhos da outra (Ibidem, p. 45). Uma prática de um tipo dissonante a do grupo tende a ser excluída, pois a solidariedade interna deve ser preservada, isto é, seus ritmos próprios e os objetos e ocasiões eleitos, assinalan- do, assim, à fotografia a função de fornecimento das imagens que possibilitam o auto-reconhecimento do grupo social. Portan- to, uma estética autônoma do grupo é inviabilizada. Distinções de classe: entre o popular e o erudito Mesmo que a fotografia não possua a tradição das artes no- bres, seu destino não é o acaso, o improviso ou a anarquia, pois mesmo nas práticas dos amadores é desvendado o quanto são orientados por regras e convenções. O praticante fotografa nas ocasiões apropriadas, compondo em seu quadro os objetos, luga- res e personagens apropriados. São cânones implícitos, pelos quais os amadores se denunciam e os estetas os percebem como 8 Bourdieu (1998c, p. 99) atenta que "a investidura (do cavaleiro, do deputado, do presidente da República, etc.) consiste em sancionar e em santiflcar uma di- ferença (preexistente ou não), fazendo-a conhecer e reconhecer, fazendo-a existir enquanto diferença social, conhecida e reconhecida pelo agente investi- do e pelos demais". O sociólogo defende que este processo é impregnado pelo seu conteúdo ritual, que ele chama de "ritos de instituição". 50 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    carentes de bomgosto e tecnicamente inaptos. Percebem-se nas fotografias preparadas, posadas, congeladas, orientações de uma etiqueta preestabelecida, cujo resultado é bem percebido nas fo- tografias das festas de família e nas lembranças de férias. A dis- cussão que Bourdieu propõe, todavia, não se reporta primor- dialmente ao reconhecimento dos conjuntos de regras implícitas ou explícitas que definem as estéticas, mas as condições sociais para a produção da legitimidade cultural: a maior parte da sociedade pode ser banida do universo da cultura legítima sem ser banida do universo da estética. Então, mesmo que não obedeçam à lógica específica de uma estética autônoma, os julgamentos e os comportamentos estéticos organizam-se de modo não menos sistemático, mas a partir de um princípio diferente, a estética não seria então que uma dimensão do sistema de valores implícitos, quer dizer do ethos, correspondente e pertencente a uma classe. O próprio de todas as artes populares é de subordinar a atividade artística às funções socialmente regradas enquanto que a elaboração das formas "puras", geralmente consideradas como mais nobres, supõe o desaparecimento de todos os caracteres fun- cionais e de toda referência aos fins práticos ou éticos (Bourdieu et al., 1989, p. 26). A prática fotográfica das classes populares não é o resultado de necessidades oriundas de motivações universais ou das difi- culdades financeiras. O que ocorre é o desejo pelo possível e a recusa do impossível, pois as condições objetivas definem as possibilidades de aspirações e desejos das diferentes classes so- ciais. As pretensões mais ambiciosas e, portanto, mais onerosas tanto em dinheiro como em tempo, correspondem a uma deter- minada atitude do olhar fotográfico em referência a um sistema de exigências. Os operários mais apaixonados pela fotografia possuem preocupações técnicas e, ao mesmo tempo, reivindicam de maneira altiva a simplicidade de seu equipamento, cuja esco- lha seria a conseqüência das contingências financeiras: "As má- quinas são como o resto, a mais cara não é a melhor " (Ibidem, p. 37). O realismo das classes populares, deste modo, detecta a fronteira do inacessível sem pretender abrir mão da perfeição. Os usos sociais da técnica fotográfica 51
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    Bourdieu menciona WalterBenjamin9 para prosseguir na análise da fotografia popular e de seus paradoxos. Concorda com ele que é na dimensão temporal que as contradições ganham mais força. "[...] [Ele] converte os aforismos de Benjamin em teorias que são testadas através de métodos de pesquisa históricos e quantitativos"10 (Fowler, 1998, p. 89). A fotografia é um corte instantâneo do mundo visível que dissolve a realidade concreta e compacta da percepção cotidiana. Ficam no lugar infinitos perfis fugazes, como as imagens de sonho. Os gestos humanos, a reci- procidade das relações, os aspectos imperceptíveis do mundo percebido, porque são instantâneos, são congelados no presente fotográfico; são transformados em "estátuas de sal". A fotografia popular procura eliminar o acidente, isto é, o acontecimento, o inesperado que temporaliza o real a ser congelado. O tempo é extraído das ações. Em seu lugar, a prática impõe as estruturas que orientam a composição fotográfica, como a da solenização dos momentos em sociedade. A imobilidade do plano bidimen- sional é o local ideal para instalar seus personagens estáticos. Elimina-se dos agentes sociais todo o poder corrosivo, sua capa- cidade de ruptura. O esvaziamento do tempo é verificado tam- bém no uso recorrente da frontalidade, que na linguagem estéti- ca corresponde ao eterno. A profundidade, ao contrário, é por onde se reintroduz o tempo, isto é, a história. Além da dimensão temporal, em Benjamin, os elementos pa- ra a avaliação associada dos fragmentos da modernidade e do consumo. O autor alemão contava que a 'fantasmagoria da mer- cadoria' fosse destruída pelos choques subterrâneos do moder- nismo. "Mas isto só poderia ser captado por reconhecimento da nova ordem de consumo, não moralizando acerca dela" (Fowler, 1998, p. 91). Os indivíduos, no entanto, uniram-se em tomo do desejo estético pela mercadoria bela mais como integrantes de uma massa do que de uma classe. A tragédia da cultura consiste, em parte, nesta sedução do mercado. Em La distinction, de mo- 9 O texto é "A obra de arte à época de sua reprodutibilidade técnica". Na França, intitula-se "L'oeuvre d'art au temps de ses techniques de reproduction". In: Oeuvres choisies. Paris: Julliard, 1959. 10 Operação semelhante a que ele adota, em 1979, em La distinction, onde "testa" Kant na pesquisa sociológica; conversão da filosofia em sociologia crítica. 52 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    do similar, Bourdieuobservará na loja de departamentos 'a gale- ria do pobre'. Enquanto que os gostos tradicionais da necessida- de - brilho e preço módico - expressam as disposições da classe operária; é pelos prazeres do consumo que a nova pequena- burguesia desenvolve seu sentido estético. Ademais, o declínio da aura, problematizado por Benjamin, é relacionado por Luc Boltanski e Jean-Claude Chamboredon ao grau de prestígio do motivo retratado. A aura associa-se ao mais prestigiado, em oposição ao que é rejeitado. Como as ocasiões de fotografar são especiais, portanto, restringidas pelo julgamento do grupo, os temas associados ao trivial do cotidiano pouco merecem consi- deração. Neste sentido, Bourdieu investigou as práticas dos camponeses de Lesquire, verificando que, à exceção das crian- ças, os objetos do dia-a-dia com os quais conviviam não merece- riam ser fotografados. Estes camponeses passaram toda a sua vi- da em um espaço restrito e homogêneo, excluindo assim o tênue extravio do olhar, que permite a admiração dos objetos cotidia- nos, sempre vistos, mas jamais olhados; o expatriamento. Só se permite a fotografia do trivial caso este seja especialmente pre- parado para a fotografia: a casa deve estar arrumada, decorada, como se fosse um dia de festa, momento eletivo da prática foto- gráfica. Assim como estas ocasiões podem ser as preferenciais a um camponês, as férias podem ser o momento forte do fotografar para um citadino. Neste caso, porém, os temas escapam do coti- diano, embora continue sendo a família, através da intensifica- ção de seus laços neste período, quem favoreça e incremente a prática fotográfica. A postura turística se estabelece pela ruptura com a postura desatenta frente ao cotidiano familiar. Uma vez estabelecida a ruptura, tudo pode vir a ser fonte de encantamen- to, como a da percepção dirigida pelos guias turísticos. As foto- grafias nas férias são também as fotografias das férias. Os certi- ficados de autenticidade desse período extraordinário. No entan- to, os aspectos circunstanciais e datados que envolvem os perso- nagens em movimento e os espaços por onde circulam são eli- minados pela lógica da solenização; que esvazia as significações do que constitui a vida. Nos retratos de Paris, "não há nada além de signos intemporais: é uma Paris sem história, sem parisien- Os usos sociais da técnica fotográfica 53
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    ses, salvo poracidente, daí, sem acontecimentos" (Bourdieu et al., 1989, p. 61). A prática fotográfica comum permanece orien- tada à execução das funções sociais, definidas socialmente. É, portanto, ritual, cerimonial e estereotipada em seus objetos e técnicas expressivas. Tende a inexistir além dos limites impostos por ocasiões e lugares consagrados, isto é, legítimos, pois legi- timados pelo grupo. A atitude artística é determinada pela defi- nição de seus objetos, cujos princípios de escolha e elaboração foram definidos na própria atitude artística. A fotografia ordiná- ria, ao contrário, com a pretensão de promover seus objetos ao estatuto de obras de arte, não contém em si mesma os princípios de sua existência e de definição da prática. A intenção de valorizar a prática acessível contém a referên- cia negativa à prática comum. A sociedade estratifícada é consti- tuída por diferentes grupos que podem submeter a fotografia a normas distintas. Emerge na prática a lógica da distinção, a pro- cura individual da "diferença para a diferença", que pode levar, por exemplo, ao esnobismo; ou então, à recusa da prática devota pelas classes superiores por suspeitarem sê-la vulgar. Para essas distinções, deve-se levar em conta o sistema de valores do gru- po. Os camponeses, por pertencerem a uma sociedade muito in- tegrada e segura de seus valores, submetem-se ao imperativo da conformidade e têm aniquilada a tentação de diferenciar-se pela imitação do citadino. O que importa, neste caso, não são nem os obstáculos econômicos, nem os técnicos. O ethos camponês im- põe que os gastos se façam primeiro à extensão do patrimônio ou à modernização do equipamento da propriedade. O dispêndio com a fotografia é considerado um luxo. O forte vínculo à tradi- ção leva o grupo camponês a suspeitar de toda e qualquer inova- ção. Todo tipo de distinção, singularização, fascinio ou tentativa de derrotar os outros membros do grupo, faz recair ao desviante algum chamamento à ordem, sob a forma de ironia, zombaria e fanfarronice relacionadas à prática. A censura do grupo não cor- responde a uma tendência ao igualitarismo, mas obstáculo à inovação que desafia a comunidade. O grupo desaprova a inova- ção, pois percebe nela uma prática ostentatória que o coloca em posição de inferioridade; atinge sua auto-estima. O verdadeiro citadino, totalmente estranho ao grupo, pode fotografar, porque 54 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    isto compõe asua imagem estereotipada, a do sujeito em fé- rias". Por outro lado, a tolerância aos nativos emigrados que re- tomam da cidade é menor. A idade pode atenuar esta tendência. Se a prática fotográfica é um luxo no meio rural, não o chega a ser para os adolescentes camponeses. A esta faixa etária a firivo- lidade é lícita, isto é, existe um direito estatutário ao universo simbólico e onírico. Diferente do que propusera Morin, em L 'esprit du temps, em que afirma a "invenção" da adolescência a partir da cultura de massas. A fotografia praticada pelos adoles- centes camponeses, no entanto, é abandonada com o casamento, momento de ruptura com a existência pregressa. "Do dia ao dia seguinte, é o fim dos bailes, das saídas e da fotografia que lhe estava por vezes associada" (Bourdieu et al., 1989, p. 79). Bourdieu, na pesquisa desenvolvida em Lesquire, procura demonstrar essas normas gerais, contidas implicitamente na norma particular, isto é, como o ethos de classe subjaz às condu- tas individuais. Para tanto, verifica a enunciação (implícita) da norma social fundamental, realizando uma análise dos proferi- mentos particulares em permanente comparação com as regula- ridades gerais que expressam o ethos. Por exemplo; 1) a não-singularização, que corresponde ao imperativo da conformidade', 2) a análise da enunciação da norma particular, a partir de entrevistas: "Você sabe, a prata não jorra": imperativo de eco- nomia', 3) a evocação da conduta real, como objeção a si mesma. "Se fotografa as crianças": transação com a norma particular que permanece mantida; 4) as racionalizações, que são a explicação das condutas pe- las causas secundárias: "Fazer fotos? Não, não sei. ; incapacida- de técnica; "Não está em questão": incapacidade econômica. O jogo da diferenciação que a comunidade aldeã se esforça sem- pre em criar obstáculo, ou em controlar, pode exprimir-se livre- mente na sociedade urbana. Na lógica da afirmação por oposição, as classes populares das grandes cidades desempenham o papel de termo de referência fixa [...] A prática das classes populares, que permanece direta e totalmente submissa às funções tradicionais, deve a maior parte de seus caracteres, e em particular a sua homo- Os usos sociais da técnica fotográfica 55
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    seus trabalhos orótulo de 'popular', que lhes pode ser creditado como um desinteresse distinto" (Fowler, 1998, p. 153). No entanto, as práticas todas também populares, como a escuta ao rádio ou a freqüência ao cinema, autorizam a atualização de dife- renças de atitude muito fortemente salientadas. Assim, por exem- plo, a escolha de emissoras e dos programas ouvidos é também fortemente ligada ao pertencimento social pelo intermediário, do nível de instrução [...] e a atitude da audiência é desta forma mais seletiva e atenta quanto sua cultura é maior. De onde vem que a fotografia se presta mal à atualização de tais diferenças? Sem dú- vida a ambição cultural se exprime mais facilmente no caso de um simples consumo, como a escuta ao rádio, que em uma prática. E de fato [...] a boa vontade cultural pode se afirmar nas propostas (sobretudo nos membros das classes médias) sem chegar a se en- carnar nas condutas. Mas [...] o consumo radiofônico pode não ser menos ativo que a prática fotográfica quando ele se cumpre expli- citamente de escolhas, no lugar de remeter-se aos automatismos, e quando ele supõe uma atitude atenta (Bourdieu et al., 1989, p. 103). Não obstante, é com base em condições sociais de possibili- dade que se enquadra ou se posa: a essência da frontalidade é a reverência. É a cortesia convencionalmente regulada; um ato de deferência do personagem que reivindica a deferência do espec- tador. O apelo à naturalidade tende a provocar, muitas vezes, embaraço nos indivíduos, por não se considerarem dignos ou apresentáveis. A imposição do "natural" a essas pessoas leva-os a adotar postura simulada; teatral. Conduta semelhante é verifi- cada no momento da realização de documentários cinematográ- ficos: a eficácia simbólica do documentário, em comparação ao filme ficcional, está na naturalidade dos personagens e objetos. Mas é comum que os sujeitos entrevistados percam esta natura- lidade ao desviarem a atenção ou sentirem-se intimidados pelo equipamento pesado. O mesmo acontece quando os produtores realizam pré-entrevistas, a fim de economizarem película, para filmarem a posteriori somente os trechos de interesse ao produto final. Os documentados, então, passam a adotar uma atitude so- lene, ou artificial, no momento da filmagem real. Para encarnar- se a naturalidade e fixá-la em filme é preciso crer. A crença no 58 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo daComunicação
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    "natural" está associadaao fato que este é um ideal cultural, isto é, aquele que busca ver o que deve aparecer. A imagem de si é completada pelo retrato. Ele objetiva a auto-imagem, que, por sua vez, está em relação com a imagem construída pelos ou- tros. O mal-estar que o camponês tem ao ver-se em uma foto, decorre de uma interiorização de certas imagens pejorativas que os componentes de outros grupos fazem dele. Os membros da comunidade aldeã estabelecem uma relação infeliz com o corpo: embaraçada, desajeitada nas circunstâncias em que precisam fa- zer dele o atrativo para a lente da câmera. A adoção da frontali- dade e da postura convencional tranqüiliza-os na pretensão de terem sua própria imagem objetivada; permite-lhes sua própria objetivação, isto é, uma imagem imposta pelas regras de sua própria percepção. Apesar de também regidas pelas normas sociais da estética fotográfica, as classes populares da sociedade urbana submetem- se a elas de modo menos total e menos absoluto. Reconhecem a existência da cultura erudita e consomem seus subprodutos. O reconhecimento de uma foto bela esteticamente, por exemplo, as faz reconhecer moralmente a existência de outras definições da perfeição para esta mesma imagem. "Nunca ignoram completa- mente, as intenções estéticas dos grupos sociais mais distantes deles, ou a imagem desdenhosa que tais grupos formam de sua prática" (Bourdieu et al., 1989, p. 121). A estética popular, por- tanto, define-se em oposição à estética erudita. Esta não é nunca totalmente abolida dos juízos comuns, mesmo os das classes mais subalternas. Essa polarização é vista nos dias de hoje, por exemplo, na produção de discursos, produtos culturais cada vez mais internacionalizados, que opõe os (re)produtores dos países periféricos aos dos países centrais, a priori portadores dos dis- cursos legítimos. Os grupos populares vivem suas práticas cultu- rais entre o reconhecimento do universo da cultura legítima e suas inclinações socialmente condicionadas. Esta contradição leva-os, por vezes, a um duplo registro nos julgamentos estéti- cos; a lógica da dissociação, que dissocia a prática normativa do grupo do juízo estético legítimo. O juízo estético costuma assu- mir a forma de um juízo hipotético apoiado no reconhecimento de gêneros, nos quais o campo de aplicação e a "perfeição" são Os usos sociais da técnica fotográfica 59
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    definidos por umconceito. Uma vez ocorrida a classificação em um gênero, que permite a atribuição de um uso social, termina o esforço de reconhecimento. O gosto bárbaro Quando o gosto "faz do interesse sensível, informativo ou moral, o princípio da apreciação" (Bourdieu et al., 1989, p. 127), tem-se o gosto bárbaro. Rejeita a imagem do insignificante e, na mesma lógica, a insignificância da imagem. As fotos da folha de uma árvore, de um quebrar de ondas, e assim por diante, podem ser recusadas por não evocarem coisa alguma ao espectador. Se- riam fotografias tiradas como um fim em si mesmas e não como meio, isto é, seriam condenadas pela normatividade social que reivindica a elas uma função, ao que Bourdieu ironiza pela de- signação estética funcionalista. Aquelas mesmas ondas, porém, podem adquirir significação, por exemplo, para um grupo de ecologistas que amam o mar. Não só a imagem do insignificante é rejeitada. A deformação em um plano fechado ou em um plano de detalhe, particularmente do rosto humano, escandalizaria: se- ria um sentimento de atentado sobre o objeto representado. A li- berdade gratuita ou excessiva nas chapas fotográficas que retra- tam corpo suscitam mal-estar ou indignação. A expressividade do corpo se concentra no rosto e, sobretudo, no olhar. Nisto, Luc Ferry e Alain Renaut (1988, p. 215) criticam a análise de Bour- dieu da percepção dos segmentos populares, que teriam sido tra- tados pelo sociólogo "como animais obtusos": "Não vemos em que a reação ante estas fotos, que despertam o interesse sobre seu conteúdo, seria o apanágio exclusivo da "estética popular". Quando mostradas a colegiais, a executivos ou a irmãs de cari- dade de todos os meios, pode-se apostar que é o conteúdo que dominará irresistivelmente sobre a forma" (Ibidem, p. 214). Contudo, Bourdieu, ao contrário do que estes e outros críticos apontam, não marginaliza a cultura popular. Para o sociólogo, a estética popular continua estética porque supõe uma experiência vivida onde o sentimento da beleza tem seu lugar. O gosto bár- baro, entretanto, não está isento da referência ao gosto cultivado. 60 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    As classes subalternassão privadas da aquisição das regras de bom gosto e, portanto, estão permanentemente à procura dos princípios objetivos que possibilitam para si um julgamento adequado das obras. Desprovidas da cultura cultivada, mas re- conhecendo tanto o legítimo como a sua privação, estão sempre em estado de inquietação. As classes altas fazem pouco caso da fotografia por ela possuir-lhes pouco prestígio. As significações culturais de uma sociedade não possuem o mesmo valor ou equivalência em dignidade. Organizam-se em graus de impor- tância distintos, desde as formas expressivas do teatro ou da mú- sica de câmara até a televisão. O nível de exigência ao acesso a elas também é diferenciado. Todavia, a hierarquia que se estabe- lece é independente das opiniões individuais e é definida objeti- vamente por aquilo que se tem como legitimidade cultural. As expressões mais legítimas caracterizam-se por um aprendizado preliminar, em geral na escola, haja vista a maior exigência ao acesso de sua fruição. Por outro lado, a incorporação de deter- minada expressão a um currículo escolar é fator canonizador pa- ra a sua legitimidade. Legitimidade não é legalidade: se os indivíduos das classes mais desfavorecidas em matéria de cultura reconhecem quase sempre, ao menos na ponta da língua, a legitimidade das regras estéticas propostas pela cultura erudita, isto não exclui que possam passar toda sua vida, de facto, fora do campo de aplicação das regras, sem para tanto que estas percam sua legitimidade, quer dizer sua pretensão a serem universalmente reconhecidas. A regra legítima pode não determinar em nada as condutas que se situam em sua área de influência, ela pode mesmo não ter além de exceções, ela não define menos a modalidade da experiência que acompanha tais condutas e ela não pode ser pensada e reconhecida, sobretudo quando é transgredida, como a regra das condutas culturais quan- do se querem legítimas. Disto, a existência do que eu chamo legi- timidade cultural consiste no que todo indivíduo, quer queira ou não, quer admita ou não, é e se apreende posicionado no campo de aplicação de um sistema de regras que permitem qualificar e hie- rarquizar seu comportamento em relação à cultura (Bourdieu et al., 1989, p. 135). Os usos sociais da técnica fotográfica 61
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    As significações culturaissituadas fora da esfera legítima autorizam os indivíduos a serem puros consumidores e a realiza- rem livres juízos. No domínio erudito, ao contrário, as regras ob- jetivas os fazem sentirem-se avaliados e levam à adoção da pos- tura devota, cerimonial e ritualizada. E assim por exemplo que o jazz, o cinema ou a fotografia não sus- citam (porque não reclamam com a mesma urgência) a atitude de devoção que é moeda corrente quando se trata de obras da cultura erudita. É verdade que algumas virtuoses transferem nestas artes em via de legitimação os modelos de comportamento que podem ocorrer no domínio da cultura tradicional. Mas, na ausência de uma instituição encarregada de lhes ensinar metodicamente e sis- tematicamente como partes constitutivas da cultura legítima, a maior parte das pessoas as vive sobre um modo totalmente diferen- te, quer dizer como simples consumidores (Ibidera, p. 135). Era raro encontrar o conhecimento erudito da história destas expressões culturais em via de legitimação por não obrigarem os consumidores comuns ao esforço de aquisição, conservação e transmissão do corpo de saberes que as artes nobres, da sua par- te, exigem à fruição. Bourdieu propõe um esquema de hierarqui- as: o legítimo engloba, por exemplo, a música erudita, a pintura e o teatro; o legitimável, o cinema, a fotografia, a canção e o jazz. Há ainda a esfera do arbitrário, que contém a decoração, a moda, a cozinha e os esportes. As expressões culturais da esfera de legitimidade caracterizam-se por serem inculcadas pela esco- la. É nesta instituição que ocorre a hierarquização e a transmis- são metódica do corpo de conhecimentos necessários à aprendi- zagem e exercício das práticas eruditas. A sistematização hierár- quica das obras legítimas está intimamente associada ao nível de instrução. A existência de obras legítimas supõe a transmissão e difusão da instituição, cujo papel é fundamentalmente de legi- timação. O ^azz e o cinema não poderiam contar com o apoio acadêmico, porém se servem de meios de comunicação pode- rosos como o rádio e a televisão, ou mesmo das revistas especia- lizadas de menor difusão, onde críticos abrem caminho a sua le- 12 Desde a publicação de Un art moyen, o meio acadêmico mais assimila as for- mas expressivas legitimáveis, o que implica, ao cabo, legitimação. 62 Luciaro Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    gitimação. Na hierarquiado legítimo, a fotografia ocupa uma posição intermediária: "a meio caminho entre as práticas "vulga- res", abandonadas aparentemente à anarquia dos gostos e das cores, e as práticas culturais nobres, submissas às regras estritas" (Ibidem, p. 137). Por isso é uma "arte média". Uma prática em via de legitimação sempre impõe aos seus praticantes a questão de sua legitimidade. Os fotógrafos organizam-se de acordo com um tipo de sistematicidade que não se reporta a uma psicologia individual, mas pelo ethos de classe, um conjunto de valores que não respondem a uma explicação sistemática, mas que tendem a organizar a conduta social de uma determinada classe. Lançando elementos empíricos que serão aprofundados em La distinction, Bourdieu apresenta dados sobre as atitudes dos sujeitos ao realizarem o olhar fotográfico: elas expressam indire- tamente as relações objetivas entre os interesses específicos de sua classe e as outras classes, cujos constrangimentos inerentes são obscuramente suportados. De modo similar ao do camponês, na prática fotográfica das classes médias verifica-se a relação que estabelecem com a cultura legítima, em que se referenciam, e com as classes populares, das quais buscam se distinguir me- diante as práticas culturais que lhes são acessíveis. Bourdieu chama esta atitude dos setores médios de boa vontade cultural. Nos foto-clubes, por conseguinte, seus associados buscam legi- timar-se culturalmente ao tentarem legitimar a fotografia em re- ferência às artes consagradas. Para tanto impõem regras à práti- ca a fim de distinguirem-se da prática popular, classificada co- mo vulgar. Os usos sociais da técnica, portanto, comportam re- lações individuais por essência mediada, porque a prática con- tém também a referência à relação que os membros das outras classes sociais e a estrutura de relações entre as classes estabele- cem para tal prática. A devoção e a boa vontade Bourdieu descreve as regularidades que expressam a ordem social tradicional dos grupos de referência. Entretanto, detecta desvios em relação a essa reprodução. Um deles é o que chama Os usos sociais da técnica fotográfica 63
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    da prática fotográficaempreendida pelos "devotos", sujeitos que se dedicam de modo mais intenso à fotografia, não a restringin- do às ocasiões especiais. O sociólogo tratou de compreender as condições de possibilidade para esse desvio: o surgimento de um interesse intrínseco pela fotografia requer a neutralização de suas funções tradicionais, isto é, as de integração do grupo. Isto não significa, porém, uma exclusão total do grupo. A integração, por mínima que seja, é freqüente. O mesmo serve para os obje- tos rituais. O fotógrafo devoto, ao recusá-los, encontra uma de- finição mínima para sua prática que se liberte da fotografia co- mum. Na prática devota, o emprego autônomo do equipamento rompe com o indivisível. Na prática ordinária da família, a má- quina costuma pertencer a todos. Esta ruptura, mesmo não sendo uma rejeição da família, é uma negação do culto familiar. Bour- dieu deduz que o surgimento das práticas devotas é tanto mais favorável, quanto menosfortes são as pressões dasfunções tra- dicionais. A realidade e a força das transgressões à "norma" são me- lhor reveladas quando acarretam sanções econômicas. É restrita a prática devota entre os operários, em geral voltados à prática ocasional e pouco intensa. Quando existem devotos nesta cate- goria, a tendência ocupa na vida individual mais de dez anos. A escolha dos operários é durável, uma vez que decorre de uma decisão amadurecida em um meio pouco aberto à fotografia e no qual há obstáculos econômicos a serem ultrapassados. Os sujei- tos estabelecem uma relação com o tipo de prática mais difundi- da em seu grupo de origem, a qual determina a forma e a dura- ção da devoção. A adesão a um clube de fotógrafos amadores permite o isolamento do devoto dos praticantes comuns, e pro- picia uma iniciação cultural. A maioria de seus membros é cons- tituída pelas classes médias, meio que mais encoraja a devoção, que ruma à boa vontade cultural, característica das práticas de- votas, que se posicionam à procura do distanciamento da cultura 13 Bourdieu demonstra que as características apresentadas pelas populações de praticantes devotos e sazonais são opostas: a prática devota, por um lado, é exercida com mais freqüência por homens solteiros, nas famílias sem crianças, e por jovens; por outro, a freqüência da prática sazonal acontece junto aos ca- sados, nas famílias com crianças, e nos adultos de idade superior. 64 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
  • 64.
    popular e referênciaà cultura erudita. Quanto mais tentam al- cançá-la, menos conseguem atingi-la, pois, na lógica da distin- ção, os grupos detentores das práticas legítimas, produzem no- vas legitimidades permanentemente, isto é, novas distinções, o que lhes impele os setores médios à permanente adequação, isto é, no desejo de se distinguirem das práticas ilegítimas baseada na illusio'4 da ascensão social - ou da integração à sociedade le- gítima, pouco fazem além de nutrirem a boa vontade cultural. Apesar da detecção francesa, Michele Lamont (1992, p. 186) no- ta, porém, que "os americanos não mostram sinais de boa vonta- de cultural, não reconhecem a legitimidade da alta cultura e a importância [de] conhecê-la". Em Le marché des biens symboliques, descreve-se como as práticas culturais legítimas reproduzem seu estatuto por inter- médio de um campo das instâncias de reprodução e consagra- ção, como as galerias, academias e museus. A tomada de posi- ção que os agentes adotam, em referência à posição social que ocupam no campo em que estão inseridos, marca-se também pe- la percepção dessa institucionalização das práticas culturais; "[...] as audácias contestatárias do auctor encontram seu limite último nas disposições éticas e políticas herdadas de uma pri- meira educação burguesa, ao passo que os pequenos burgueses (inclinados a trazer para a escola [...] disposições reformistas ou revolucionárias) encontram-se submetidos de modo mais direto à tutela direta ou indireta do Estado [...]" (Bourdieu, 1998, p. 129). Entretanto, no campo da cultura média, em que se percebe com freqüência a possibilidade de desvio, os praticantes devotos da fotografia buscam no clube a segurança diminuída à medida que rejeitam as normas populares do fotografável. O novo sis- tema de normas priva-lhes das certezas que a tradição comum lhes oferecia antes da ruptura. [A] [...] relação que os fotógrafos - e sobretudo os mais exigentes e mais ambiciosos - estabelecem com a fotografia não é nunca in- dependente da relação que estabelecem com seu grupo (ou, como 14 Sinteticamente, a illusio corresponde a crença no jogo (de 'ludus' = jogo), as- sociada de um modo geral aos campos sociais, portanto não devendo ser con- fundida com mera ilusão. Os usos sociais da técnica fotográfica 65
  • 65.
    se vê, deseu grau de integração a este grupo), e da relação (ao ex- primir sua relação no grupo) que estabelecem com a prática modal de seu grupo, ela mesma função do valor e do lugar que o grupo acorda à fotografia, por relação de uma parte a seu sistema de va- lores implícitos e à posição da fotografia no sistema de belas-artes (variável segundo a situação do grupo relativamente a este siste- ma), e de outro lado por referência ao valor e ao lugar que os ou- tros grupos conferem, segundo a mesma lógica, à fotografia (Bourdieu et al., 1989, p. 73). O clube, neste sentido, permite a elaboração de novas regras e certezas, e oferece a segurança nostálgica de pertencer a um grupo, o qual, porém, rejeita as regras da prática comum. No momento em que é constituído, há o germe da institucionaliza- ção e, portanto, a via de legitimação da cultura média, acessível aos pequenos burgueses, pretendentes que são da cultura legíti- ma: o aparente desvio reafirma a cultura dominante. A relação simples e direta com a fotografia, no entanto, declina. Cada vez mais os empregados, pretensos estetas, tomam-na em referência às artes nobres. Com isto, surgem contradições, ambigüidades e incertezas decorrentes da inquietação com as normas das práti- cas culturais legítimas. As incertezas que levam à oposição do popular e a boa vontade cultural destes setores são detectadas nas opções estéticas cotidianas. O "moderno" consagra-se como princípio de escolha por sua oposição ao velho ou ao tradicional, a fim de que essas incertezas sejam superadas. Os quadros mé- dios também manifestam tais contradições e ambigüidades. Buscam reconhecer na fotografia a dignidade de uma arte e li- bertá-la de suas funções familiares, e recusam a estética realista associada às preferências populares. Reivindicam à prática foto- gráfica tanto trabalho quanto o da pintura. Estas ambições, no entanto, são bem mais presentes nos discursos do que na reali- dade concreta. As classes médias continuam a fotografar princi- palmente nas férias e em família. A prática devota dos operários e dos quadros médios, na impossibilidade de formulação de uma doutrina estética, manifesta o cumprimento rigoroso das regras técnicas de composição. O caráter imperativo sobre as suas prá- ticas decorre da obediência submissa aos conselhos didáticos das revistas especializadas; conselhos vulgarizados pela ampla 66 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    difusão dos veículos.Bourdieu a denomina vulgata estética. Os indivíduos que encaram a fotografia como atividade artística são uma minoria de "desviantes". Estes são mais independentes em relação às condições sociais que definem a prática de maior di- fusão, tanto em sua existência, escolha de objetos, ocasiões, co- mo da estética do grupo. Os usos sociais da mídia Para Bourdieu, o rádio, a televisão e o cinema são meios de comunicação que podem difundir conteúdos culturais também consagrados. Embora já detecte em 1965 uma lógica de homo- geneização de seus conteúdos (criticada veementemente nos anos 90), que visa a colocar todos os seus usuários em condições idênticas, esses consumidores culturais utilizam os produtos dos mass media de modos mais variados. Adotam atitudes diferen- ciadas que permitem, por exemplo, intensificar ou declinar a atenção dispendida a um determinado programa. Para a fotogra- fia ocorre algo semelhante. Antes de tudo ela é uma prática po- pular e muito raramente é vivenciada como uma experiência es- tética. Este campo do consumo estabelece uma homologia quase perfeita com o da produção. Neste sentido, a fim de elucidá-la, é exemplar, no livro em tela, o trabalho de Luc Boltanski para a descrição das relações entre a fotografia e a imprensa. Elegeu as publicações Paris-Match e France-Soir como campo preferen- cial de suas pesquisas. A fotografia como testemunha dos acon- tecimentos da realidade, que são objetos da imprensa, está em conformidade à definição social da prática fotográfica e das pos- sibilidades objetivas da técnica. Enquanto que o fotógrafo pro- fissional transmite na forma de imagem o acontecimento que vê, seu colega, o repórter, a relata por escrito. A imagem capturada deve corresponder a tudo o que o bom senso e o veículo, no qual trabalha o fotógrafo, permite registrar: "Não se pode mostrar os cadáveres, mas observe, um homem ou uma mulher que saltam do terceiro andar, pode-se tirá-la antes que caia; mas o cadáver, Os usos sociais da técnica fotográfica 67
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    não" (fotógrafo France-Soir).^A atualidade é a matéria-prima dos profissionais e é, ao mesmo tempo, seu testemunho. No en- tanto, o julgamento final daquilo que é bom ou ruim é definido pelo jornal, aí contidas suas instâncias de hierarquização. O pa- pel do fotógrafo deve restringir-se a captar e reter o aconteci- mento sobre a chapa fotográfica. A submissão total dos fotógra- fos de France-Soir à atualidade os faz dizerem que o produto de seu trabalho é o reflexo da vida real. Pesquisa semelhante é empreendida por Gérard Lagneau pa- ra a fotografia publicitária: ratifica a razão da sua existência - e o que a toma original e específica: a exigência de venda daquilo que ela representa. Para tanto, apresenta um esquema que coloca a fotografia publicitária a meio caminho da fotografia industrial e da fotografia artística. O campo do fotografável em publicida- de são todos os bens econômicos e, de modo geral, os bens de consumo. O fotógrafo publicitário deve preencher sua obra de significações aparentemente opostas. Satisfaz um compromisso realista, que carrega um valor de atestação, e vale-se do simbo- lismo. É comum a fotografia apresentar um realismo que se presta a diferentes interpretações; aí reside a especificidade da fotografia publicitária. O objeto apresentado de modo informati- vo e simbólico, por mais que isto pareça contraditório, é uma necessidade. A sugestão mercantil do anúncio publicitário apóia-se na credibilidade do realismo que o juízo comum asso- cia de antemão à imagem, da qual usufrui o fotógrafo, e, ao mesmo tempo, de todo valor sugestivo na fotografia. O simbo- lismo é explorado de modo que não se choque com a verossimi- lhança e para que potencialize o número virtual de consumidores identificados com o anúncio. Por sua vez, o valor intrínseco da fotografia cotidiana decor- re do caráter excepcional que se estabelece na relação entre o fo- tógrafo e um evento qualquer. O acontecimento dramático é o que faz aumentar este valor. Em France-Soir, privilegiam-se as fotografias instantâneas, pois elas capturam o imprevisível, a ra- 15 Poder-se-á notar que o critério tende a variar, apesar de a tendência à uniformi- zação, em função da posição que o veículo ocupa no campo jornalístico. Por exemplo, jornais sérios versus sensacionalistas. 68 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    pidez do drama."Signo exterior da ação e do evento, o movi- mento constitui a qualidade primeira de toda fotografia cotidia- na. Retratos, personagens estáticos que olham fixamente a má- quina, tudo o que lembra a fotografia posada [...] é desvaloriza- do" (Bourdieu et al., 1989, p. 175). O esmero no enquadramento pode ser deixado de lado, se o desleixo reforçar a ação. A ima- gem é esvaziada de objetos que ambientam a ação e, por conse- guinte, é o seu contexto que se esvazia. A legenda surge neste momento, no qual o sentido declina. Como a legibilidade é, por excelência, a legibilidade da intenção, quando a clareza declina, emerge com força o título ou a legenda, que declaram a intenção significante e permitem o juízo se a imagem está em conformi- dade a esse objetivo. A propósito, o texto é que subordina a imagem, não o contrário. Na publicidade, em cujo domínio os profissionais também justificam o emprego da fotografia pelo seu realismo, julgam propiciar através dela maior autenticidade e legibilidade. O cli- ente deve reconhecer seu produto. Entretanto, além do realismo, que um amador poderia alcançar, o profissional precisa fornecer a fotografia um suplemento de sentido. O imperativo publicitá- rio encontra-se, justamente, na necessidade de fazer a fotografia dizer mais do que ela simplesmente diz em seu realismo. "As- sim, a fotografia publicitária joga um duplo jogo que se funda sobre o jogo mesmo que a imagem social da fotografia acorda à imagem fotográfica. [...] E um teatro realista cuja moral é sem- pre otimista. A vida é magnífica graças ao creme dental Z..., [...] e a melhor prova que isto é verdade, é que esta mulher estampa- da na fotografia sorri ainda de o haver utilizado" (Ibidem, p. 208). O duplo jogo é essencial à publicidade e todas as suas formas são duplas. O fotógrafo publicitário possui como pro- blema transformar uma imagem fantasiosa em real. A distância entre a verossimilhança e a retórica visual não pode ser grande. Se a credibilidade fotográfica falha, o anúncio não funciona. O duplo jogo advém de um jogo no qual um produto considerado insignificante é espetacularizado mediante os artifícios que o fo- tógrafo lhe aplica. Cabe então à fotografia publicitária dissimu- lar a intenção verdadeira sob a aparência percebida. O duplo jo- go, no entanto, não é compreendido deste modo pelos profíssio- 0s usos sociais da técnica fotográfica 69
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    nais: eles percebemsua eficácia a partir da visão parcelada na divisão do trabalho em que participam. Ao verificarem que sua técnica possibilita o realismo, reivindicam pari passu a função onírica dos anúncios. Enquanto a publicidade permitiria sonhar, o fotógrafo seria o construtor dos sonhos. Para eles, diferente do "sonho-evasão", seu trabalho gera o "sonho-desejo". Destarte, não pelo que os fotógrafos compreendem dela, mas por sua fun- ção específica, a "fotografia publicitária encarna ao mais alto grau uma função alegórica" (Ibidem, p. 216). Os símbolos só existem se remetidos a um sistema. A legibi- lidade do símbolo só é possível mediante o seu conhecimento. A memória do público, ao referir-se ao sistema simbólico, é que permite que o emprego do símbolo se dê sem que se tenha que aplicar longos comentários que o esclareçam. A chave de leitura não é única para o conjunto de simbolos que Paris-Match adota às fotografias que publica. Diferentes cargas simbólicas podem estar associadas a um mesmo objeto fotografado. A simboliza- ção parece contrariar a natureza verossímil da fotografia. Sua vocação histórica tem-se dado em outra perspectiva, a da captu- ra do real. Junto com certo tipo de imagem estão associados cer- tos valores morais que a prática fotográfica corrente privilegia. Sua adoção massiva pela imprensa ocorre a partir de constran- gimentos externos, exercidos por uma necessidade social. Por- tanto, ela não se pode submeter plenamente à lógica da fotogra- fia, que implica a mínima intervenção do profissional, sem rene- gar a lógica e as regras que regem o campo jornalístico. O ato da imprensa é um ato de violação, porque impõe à fotografia uma lei que não lhe pertence e, ainda, a contradiz. A imprensa, con- tudo, está condenada ao uso fotográfico e a fotografia à espolia- ção da imprensa. Conflitam aí, duas lógicas distintas: a de um campo específico e a das funções sociais ordinárias. "O fotógra- fo de imprensa tem um sentimento muito vivo dos constrangi- mentos que lhe impõem as exigências do jornal no qual traba- lha" (Ibidem, p. 191). De modo semelhante, acontece na publi- cidade: será percebido que os "fabricantes de publicidade comu- nicam mais com seus pares que com todo o restante do público, e que uma fotografia aparentemente destinada ao "grande públi- 70 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    co" visa tambéme sobretudo a submeter-se ao julgamento dos colegas" (Ibidem, p. 214). Alguns profissionais pensam escapar de sua situação dentro da divisão do trabalho, estabelecendo como compensação a uto- pia da criação pela qual se percebem como "criadores", e não como simples participantes da produção publicitária, e a da ob- jetividade pura, que resultaria do produto fotográfico e estando dissociada de sua definição social. Os fotógrafos que mais ex- primem estas utopias são os que mais sofrem os constrangimen- tos decorrentes de sua situação social, na qual a insegurança e a imprevisibilidade no mercado de trabalho são permanentes. Na fotografia de imprensa, reduto onde reina essa insegurança, não basta para a fotografia que ela seja boa aos profissionais. E ne- cessário que seja buscado um "algo mais", não encontrado no real, e que só através do ato fotográfico, das intenções (e das condições para as intenções) do fotógrafo, é possível de se con- quistar. A surpresa é condição fundamental à boa fotografia de imprensa. A imagem do acontecimento que surpreende pode ser produzida de modo desfocado. O desfocado (fiou) pode vir mesmo a constituir-se como a qualidade dominante da fotografia. É pelo desfocado que se persuade que a imagem mostra bem o acontecimento em si mesmo e foi realizada no instante preciso de seu cumprimento de modo mecânico e [...] objetivo. Assim, o des- focado, que para a consciência comum é sinônimo de movimento, é a melhor garantia da pureza de intenções do fotógrafo. A acen- tuação dos contrastes, os erros de enquadramento, o estouro de grão, remetem ao momento que a imagem foi captada e são como o sinal (trace) das dificuldades encontradas no instante da tomada (prise de vue). Eu sei bem que esta fotografia de manifestantes que cercam uma embaixada foi tirada durante o tumulto, em seu inte- rior mesmo, pois consigo discernir com dificuldade os manifestan- tes e a embaixada. A fraca legibilidade, com a qual poderia enga- nar-me (pois enfim nada sobre esta fotografia me permite dizer que se trata de uma embaixada e não de uma casa qualquer), ga- rante-me, ao contrário, a autenticidade do que se propõe" (Ibidem, p. 193-194). Os usos sociais da técnica fotográfica 71
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    É possível quedeterminadas normas sejam comuns à maio- ria dos jornais ou agências e, em um dado período histórico, ao conjunto dos meios de comunicação. Todavia, o sistema enten- dido como uma uniformidade de normas é imposto através da produção coerente e estandardizada que se dá no interior de um (e somente deste) veículo de comunicação específico. Enquanto que esta estandardização é marcante na imprensa, em publicida- de, ao menos em discurso, persegue-se a originalidade. Por sua vez, a unidade dos múltiplos grupos profissionais processa-se mediante a obrigação comum de submissão às regras sociais. Os fotógrafos devem fabricar significações que obedeçam a estas regras, as quais também devem estar de acordo com as expecta- tivas do leitor. A importância da pesquisa de Bourdieu e dos co-autores de Un art moyen ocorre porque propicia um balizador teórico- metodológico que pode ser reconvertido, isto é, direcionado aos usos sociais das mídias populares, a saber, aquelas que exigem baixo investimento econômico a sua fruição. Neste sentido, é comum que a pesquisa em comunicação negligencie o rádio, ve- ículo de ampla difusão e bastante utilizado pelos mais diversos segmentos populacionais. Este abre um terreno favorável às pesquisas com inspiração nas operações investigativas levadas a cabo por Un art moyen. O mesmo pode ser dito para outros veí- culos que se caracterizam por pertencerem ao campo da cultura média, como a Internet. Tal campo, em virtude de seus produtos ou o uso dado a eles, indica um baixo capital cultural entre seus praticantes, e é produto da redução realizada pelo ethos, con- templando, portanto, em maior medida, a função de objetivação da illusio dos grupos sociais, partícipe na produção da crença nos campos sociais. Isto, longe de associar-se à lógica da homo- geneização relatada no capítulo anterior, volta-se à lógica da dis- tinção, aquela que faz com que os sujeitos, através de suas práti- cas, existam nos campos sociais em que estão inseridos. Para tanto, Bourdieu construirá sua obra magna, La distinction. 72 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    As práticas distintivas [A]postura tendencialmente adotada nas classes supe- riores possui a maioria das características próprias, se- gundo Kant, ao juízo estético [...]. Já as classes popula- res se mostram pouco "kantianas", se é que se pode di- zer isso sem provocar riso (mas teve alguém jamais a idéia de levar o filósofo suficientemente a sério para tes- tar num determinado grupo social a suposta universali- dade do juízo estético?). Louis Pinto, P/erre Bourdieu e a teoria do mundo social. A lógica da distinção reconhecida por Bourdieu, nos anos 60, esteve nessa década muito limitada quanto a sua explicitação. Não obstante, não limitou suas pesquisas de campo, defendendo que, à época de Durkheim, a etnologia fora já integrante da so- ciologia. As pesquisas engendraram conceitos e o arcabouço te- órico bourdieusiano. Esquisse d'une théorie de la pratique, de 1972, permitiu uma sistematização às pesquisas e obras seguin- tes, cujo destaque cabe a La distinction, de 1979. Como a comu- nicação em Bourdieu é analisada com base no campo de produ- ção cultural, procurarei estabelecer, neste capítulo, um diálogo entre La distinction e "Le marché des biens symboliques", de 1970. A partir disto, relacionarei a comunicação com a política, produtos de campos de produção especializada que muitas vezes se confundem e que compartilham os mesmos bens, por exem- 1 Emprego a segunda edição espanhola: La distinción. Madrid: Taurus, 1991. As práticas distintivas 73
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    pio opiniões, tipode produto cultural que abordarei mais adian- te. La distinction corresponde ao momento que chamo de pra- xiológico. Levar em conta as práticas culturais sem enveredar no essencialismo que, comumente, a crítica cultural envereda; a missão do sociólogo. Para tanto, partiria de Kant e da descons- trução de sua perspectiva estética, a fim de demonstrar que até o inefável estético constrói-se por meio de sistemas classifícató- rios, mesmo que subjazam à própria consciência e, por conse- guinte, seja feito inexprimível por intermédio de palavras. As classificações teóricas por mais abstratas que sejam ocultam classificações sociais. O idealismo de autores dispostos à expo- sição do sujeito puro e transcendental também se submete ao mesmo: por mais puros e transcendentais são produto de uma história construída através de um sistema de oposições classifí- catório. Para Kant, o gosto do sujeito bastaria para que aprecias- se o belo de maneira livre e desinteressada. O juízo deste sujeito, válido para todos, atingiria a universalidade sem ter que se valer do emprego conceituai. O conceito, produto do campo filosófi- co, permaneceria à margem. O gosto universal passaria a ser o critério de validação do juízo estético. No entanto, a sociologia detecta que este gosto surge de uma experiência socialmente condicionada. A experiência culta da arte, a legítima e portanto universal, exclui as experiências nativas por serem impensáveis aos que desejam alcançar o universal. Em estudos subseqüentes Bourdieu descreve o processo em que esse universal surge como o resultado de lutas entre agentes interessados pela noção.2 Entretanto, uma polêmica agressiva foi desferida por Luc Ferry e Alain Renaut (1988, p. 213) a esse empreendimento. Eles criticam a compreensão de Bourdieu de que a estética kan- tiana seria uma estética burguesa - ou antipopular. Estes críticos atentam que, em Kant, a idéia do belo não corresponde nem ao agradável nem ao verdadeiro, e que uma especificidade da di- 2 Ver, por exemplo, o tópico "Le moralisme comme universalisme égoíste"; In: Bourdieu (1997, p. 80-88). Um dos problemas advindos com a defesa do mul- ticulturalismo, da parte de alguns autores, é que a restrição dos sujeitos às suas culturas específicas sem a busca dos mecanismos de acesso à cultura legítima - como aprender inglês, para asiáticos residentes nos Estados Unidos -, signifi- cou a "condenação" dos mesmos ao gueto. 74 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    mensão estética estariaexistente entre esses dois termos, funda- da também de acordo com o senso comum, isto é, de modo que divergiria da interpretação de Bourdieu. Ao contrário do adágio popular, o belo se discute: "o Belo é objeto de comunicação, isto é, de interpretação (no sentido musical do termo)". Portanto, o belo não poderia ser o verdadeiro, pois se ele é o produto de uma discussão, não lhe cabe tipo algum de regulação por uma demonstração, a exemplo do que acontece em uma discussão ci- entífica. Ferry e Renaut compreendem que o centro do raciocí- nio de Bourdieu, que toma a estética kantiana o protótipo da es- tética da classe dominante, em oposição à estética popular, se funda na impossibilidade de uma estética pura "do povo". O que conta a este é tão-só o conteúdo da representação, e não a repre- sentação em si. Destarte, o belo não se diferencia do agradável, nem a representação, do objeto representado. No entanto, para Kant, de acordo com os críticos, um "quadro pode ser belo, mesmo se ele representa uma lata de lixo; o que, mais uma vez, nos impede de ver com clareza em que ponto isto se chocaria com o gosto das classes populares" (Ibidem, p. 215). Os críticos também destacam que, se todos os gostos designam um lugar determinado do espaço social, a contracultura seria uma ativida- de tão distinguível como as outras. De fato, Bourdieu era cioso no que se refere às soluções consideradas ingênuas. Os limites dos movimentos contraculturais demonstraram-se no curso his- tórico. Aliás, mesmo que haja algum equívoco na análise estéti- ca, o centro do raciocínio de Bourdieu voltado ao conteúdo da representação é bastante pertinente à pesquisa em comunicação, pois os produtos elaborados por este campo têm sobrevalorizado seu conteúdo, em detrimento das possibilidades estéticas. Entre- tanto, ao contrário do que crêem Ferry e Renaut, Bourdieu pos- tula a existência de uma estética popular, em virtude de que há um lugar ao sentimento de beleza, independente do grau de legi- timidade, nas experiências expressivas desse segmento social. Com efeito, a contracultura pode ser distinguível; o próprio Bourdieu a aborda em La distinction. A partir daí, até a compre- ensão da contracultura necessita da exclusão das ações ingênuas e o entendimento que a contraposição a um determinado modelo requer necessariamente do reconhecimento, análise e transposi- As práticas distintivas 75
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    ção das estruturasque o reproduz. Nos seus últimos dias, a pro- pósito, Pierre Bourdieu esteve engajado em um tipo de contra- cultura que se contrapõe à cultura dominante que é a capitanea- da pelo mundo da economia, e que tem nas comunicações seu instrumento primordial de poder. O conhecimento do mundo social requer a construção de es- quemas3 de pensamento e de expressão. Além das condições de existência, das práticas ou das representações, os agentes sociais interpõem-se com sua atividade estruturante. Critica-se toda perspectiva behaviorista, já que esses agentes "longe de reagi- rem mecanicamente a certos estímulos mecânicos, respondem aos chamamentos ou às ameaças de um mundo cujo sentido eles mesmos contribuem a produzir" (Bourdieu, 1991, p. 478). Esses agentes incorporam esquemas que constituem um sistema, cons- tituído no curso da história coletiva, mas que, no entanto, se ad- quire no curso da história individual, cuja função é prática e não para fins de puro conhecimento. No processo social, elaboram- se estruturas cognitivas por meio das quais os sujeitos obtêm o conhecimento prático do mundo social. Esta elaboração dá-se pela incorporação das estruturas sociais. O conhecimento prático adquirido apropria-se de esquemas classificadores que são for- mas de classificação ou, o que dá no mesmo, formas simbólicas que constituem estruturas mentais. Resultam da divisão objetiva em classes (sejam elas sociais, sexuais ou etárias), cuja aprecia- ção e percepção possui uma história própria, e cujo funciona- mento dá-se à margem da consciência e do discurso. O conjunto dos agentes sociais possui em comum esses princípios de divi- são, uma vez que eles são resultado da incorporação das estrutu- ras fundamentais da sociedade, cujo sentido comum toma possí- vel a elaboração de um mundo comum e sensato. Esses esque- mas de percepção objetivam-se, de início, nos pares de qualitati- vos opostos que usualmente são utilizados com o intuito classi- ficatório às pessoas ou aos objetos nos campos mais diferentes da prática. Os lugares-comuns do senso comum têm origem ne- 3 Os esquemas em Bourdieu derivam da noção kantiana de esquematismo, no que se reportam à esfera do consumo, da recepção do habitus. Cf. Lash, 1995, p. 196 segs. 76 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    les. Extremamente pobres,quase indefinidos, são por isso mes- mo adequados para a pesquisa ou para a expressão da sensação do indefínível. Sua imposição é facilitada por terem a seu favor toda a ordem social: aquilo que opõe o alto ao baixo, o sublime ao vulgar, o espiritual ao material, o livre ao estreito, o único ao comum, o brilhante ao obscuro, o fino ao grosseiro, o nós ao eles, e assim por diante: tem como princípio a oposição entre a "elite" dos dominantes e a "massa" dos dominados, multiplicidade contingente e desordena- da, intercambiável e inumerável, débil e desarmada, sem outra existência que a estatística. É suficiente deixar jogar estas raízes míticas para engendrar à vontade qualquer dos temas, incansavel- mente repetidos sob formas apenas renovadas, da eterna sociodi- céia, como as apocalípticas denúncias de todas as formas de "nive- lação", "trivialização" ou "massificação" que, ao identificar a de- cadência das sociedades com a das casas burguesas, quer dizer, com a queda no homogêneo, no indiferenciado, põem de manifes- to uma preocupação obsessiva pelo número, pela massa sem dife- rença e sem preocupação pelas diferenças, ou pela multidão sem- pre disposta a inundar os espaços reservados do exclusivismo bur- guês (Ibidem, p. 479-480). Os princípios de divisão que organizam a visão do mundo social têm origem nas divisões sociais. Portanto, como atenta Bridget Fowler (1996, p. 2), Bourdieu opta pela construção da noção "princípios de visão e de divisão", engendrados no habi- tus4 como uma forma de conhecimento dóxico, ao invés do "uso 4 Cf. Bourdieu (1980a, p. 88-89): "Os condicionamentos associados a uma classe particular de existência produzem habitus, sistemas de disposição duráveis e transponíveis, estruturas estruturadas dispostas a funcionar como estruturas es- truturantes, quer dizer, como princípios geradores e organizadores de práticas e de representações que podem ser objetivamente adaptados a seu objetivo sem supor o intuito consciente de fins e o domínio expresso das operações necessá- rias para lhes alcançar, objetivamente "reguladas" (réglées) e "regulares", sem serem em nada o produto da obediência às regras, e que mesmo coletivamente foram orquestradas, sem serem o produto da ação organizadora de um maes- tro." É através da socialização que o indivíduo, no curso de sua vida, adquire esse sistema de disposições duráveis. O habitus é composto pelo ethos, que de- signa os valores ou princípios no estado prático, ou seja a forma da moral, que é interiorizada e não-consciente, que estabelece as práticas: enquanto o ethos é As práticas distintivas 77
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    do termo althusseriano'imaginário'". Surge deste conhecimento o sentido dos limites, que resulta da antecipação prática dos li- mites objetivos adquirida através da vivência dos limites objeti- vos na realidade. Os agentes tendem a excluir-se daquilo que já são excluídos: bens, pessoas, lugares etc.5 O sentido dos limites implica o esquecimento do porquê dos limites. A primeira expe- riência do mundo social, a da doxa, aceita como evidentes as es- truturas sociais e as divisões reais, o que gera uma perfeita cor- respondência deste mundo objetivo com as estruturas mentais e os princípios de divisão práticos, engendrados pelo habitus pri- mário. Essa primeira percepção do mundo social surge, uma vez captado o objeto em sua imediatez, pela intervenção de certos princípios de construção exteriores a ele. No entanto, essa apre- ensão constitui um ato de desconhecimento, em virtude de os agentes não terem o domínio sobre esses princípios, tampouco da ordem real reproduzida por eles, o que implica a tendência ao reconhecimento, pela via desse desconhecimento, da ordem so- cial. Aaron Cicourel (1995, p. 90) explica que o habitus é estru- turado com as experiências de socialização. A noção é cumula- tiva: as determinações ou experiências estruturantes produzidas no começo da vida influem nas aquisições posteriores do habi- tus. Como os dominados empregam, para a apreciação de sua posição no mundo social, um valor incorporado que nada mais é que o valor objetivo que a distribuição econômica lhes atribui, tendem de antemão a rechaçar o que lhes é negado ("isso não é para nós"). Com isto, suas esperanças passam a ser medidas por suas possibilidades já definidas pela economia, pela ordem esta- belecida. Os princípios de divisão servem para a luta dos agentes produto e produtor das práticas, a ética é a forma teórica, codificada da moral; e pela hexis, que corresponde às disposições associadas ao corpo: gestos, postu- ras, trejeitos, incorporados pelo agente social durante a vida. O habitus pode ser também dividido em primário ou secundário, em função ao período de exis- tência do indivíduo que o interioriza: o habitus primário, por exemplo, é o in- corporado na família e na escola. Por ser um conceito cumulativo, o habitus pode vir a receber outras classificações de acordo com sua relação com o tempo e o espaço. 5 Tendem a reproduzir o que Durkheim chama de "conformismo lógico". 78 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    no(s) campo(s) aosquais se inserem e para as necessidades da luta. Produzem certos conceitos que, ao serem produzidos, pro- duzem certos grupos. "Um dos traços cruciais da explicação de Bourdieu ao habitus é que este leva em conta um processo de correção e ajustamento contínuos" (Calhoun, 1995, p. 78). O poder de mobilização e de desmobilização desses grupos está baseado nos esquemas e nos sistemas de classificação, que se encontram no fundamento das representações, em cujas lutas tais agentes apostam ou não. Esse poder separa, distingue; é a discretio oriunda da diacrisis, diferença discreta surgida do até então indiferenciado; faz-se distinção. Quanto mais apto é um grupo em se fazer reconhecer, mais provável será a sua presença na classificação oficial. Portanto, sua ausência nesta decorre de uma incapacidade, de uma impotência na obtenção de um lugar na ordem social. As palavras são a grande força motora e criado- ra de tais grupos, das quais dependem quase que totalmente, desde a mobilização até a existência em algum tipo de classifi- cação, viabilizadora mesmo desta mobilização: um movimento operário depende do reconhecer-se, identificar-se, como "classe operária". Essas classificações propiciam identidades comuns a pessoas que vêm a formar os grupos. O campo6 cultural e a lógica de sua autonomização A história social da arte e da ciência pode apresentar-se por meio da história das transformações funcionais do campo de 6 Cf. Bourdieu e Wacquant, 1995, p. 64: "Em termos analíticos, um campo pode- se definir como uma rede ou configuração de relações objetivas entre posições. Estas posições definem-se objetivamente em sua existência e nas determinações que impõem a seus ocupantes, quer sejam agentes ou instituições, por sua si- tuação (situs) atual e potencial na estrutura da distribuição das diferentes espé- cies de poder (ou de capital) - cuja posse implica o acesso aos lucros específi- cos que estão emjogo dentro do campo - e, por conseguinte, por suas relações objetivas com as demais posições (dominação, subordinação, homologia etc.). Nas sociedades altamente diferenciadas, o cosmos social está constituído pelo conjunto destes microcosmos sociais relativamente autônomos, espaços de re- lações objetivas que formam a base de uma lógica e uma necessidade específi- cas, que são irredutíveis às que regem os demais campos." As práticas distintivas 79
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    produção de benssimbólicos, sua gênese e estrutura, bem como a destes bens. Gradualmente, o campo autonomizou-se, definin- do-se em oposição aos campos religioso, político e econômico. Este processo deu-se de forma gradual: o crescimento e a diver- sificação do público consumidor, capaz de sustentar os produto- res culturais, fora acompanhado do crescimento, diversificação e profissionalização dos produtores e empresários culturais e da multiplicação e diversificação das instâncias de consagração, como as academias e os museus. Aqueles campos sempre pre- tenderam legislar sobre a esfera cultural, entretanto, com a auto- nomia, são as diferentes frações artísticas ou intelectuais que es- tabelecem seu sistema de valoração específico. Porém, a auto- nomia conquistada manteve-se relativa em relação àqueles po- deres. Os distintos campos estão localizados no interior de um "campo do poder", definido com respeito à dinâmica interna de uma classe. Nela, o poder é distribuído desigualmente, pois há um acesso diferenciado de diferentes campos aos poderes eco- nômico e simbólico. Assim, surgem frações de classe desiguais. No campo cultural, os produtores possuem maior acesso ao po- der simbólico, em oposição ao econômico; são a fração domina- da da classe dominante. Enfim, as classes se localizam no cam- po geral das relações de lutas de classe. A gênese e a estrutura- ção do campo de produção de bens simbólicos, ou campo cultu- ral, portanto, decorre de uma série de desenvolvimentos: am- pliação, diversificação - ou mesmo formação - de um público de consumidores de bens simbólicos, mantenedores dos produto- res; os princípios internos de legitimação constituídos pelos pro- dutores desses bens e sua profissionalização levam â consolida- ção do campo e a determinação das condições ao seu acesso, bem como a de suas normas e imperativos técnicos, aos quais também incidem as instâncias de consagração em competição pela legitimidade cultural. Destarte, o processo de autonomização da produção intelectual e artística é correlato à constituição de uma categoria socialmente distinta de artistas ou de intelectuais profissionais, cada vez mais inclinados a levar em conta exclusivamente as regras firmadas pela tradição propriamente intelectual ou artística herdada de seus pre- decessores, e que lhes fornece um ponto de partida ou um ponto de 80 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    ruptura, e cadavez mais propensos a liberar sua produção e seus produtos de toda e qualquer dependência social, seja das censuras morais e programas estéticos de uma Igreja empenhada em prose- litismo, seja dos controles acadêmicos e das encomendas de um poder político propenso a tomar a arte como um instrumento de propaganda (Bourdieu, 1998a, p. 101). Passado o período da monarquia absoluta e da contra- Reforma, e com a consolidação e contínua capitalização econô- mica e política da burguesia, consolidou-se um mercado da obra de arte. Com a ampliação do contingente dos representantes dos setores sociais médios, acompanhada de sua escolarização, cres- ceu também o interesse de um número cada vez maior de indiví- duos ao acesso aos bens culturais. Desenvolveu-se uma indústria cultural, desde o início estabelecendo uma relação entre a litera- tura e a imprensa cotidiana. Produto disto são os folhetins "ou então, em outras esferas, o melodrama e o vaudeville" (Ibidem, p. 102). O processo de diferenciação dos bens culturais, cujo princípio reside na diversidade do público, favorece a polariza- ção do campo, de uma parte, a preocupações estritamente cultu- rais, e, de outra, a interesses econômicos. De fato, Bourdieu atenta à dupla face da realidade dos bens simbólicos: são ao mesmo tempo mercadorias e significações. No entanto, a valo- ração destes bens, seja especificamente cultural ou econômica, coexiste independente uma da outra. A nova burguesia, além de ter-se tomado consumidora cultural, na condição de produtora adotou técnicas e métodos emprestados do mundo empresarial; adoção da divisão do trabalho em unidades produtoras de bens simbólicos, publicidade às mercadorias culturais etc. Com a atração ao pólo econômico, favoreceu a reação dos produtores com preocupações estritamente culturais, os quais logo trataram em elaborar as "teorias puras" de suas formas de expressão: o mundo intelectual busca afastar-se do vulgo, seja ele burguês ou do povo. O campo cultural define-se por relações objetivas entre diferentes participantes que, por sua vez, definem-se pela função exercida no processo de divisão do trabalho de produção, de re- produção e de difusão de bens simbólicos. Os pólos de atrativi- dade nele presentes estabelecem um campo de produção restrita ou erudita, no qual os produtores têm como público e concor- As práticas distintivas 81
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    rentes somente osseus pares. Este pólo está em posição oposta ao do campo da indústria cultural, voltado à elaboração de pro- dutos culturais a serem consumidos por não-produtores de bens simbólicos, isto é, o grande público, seja ele povo ou burguês não-intelectual. Enquanto que este se subordina ao imperativo da concorrência, visando a maximização de seu mercado, o campo de produção restrita tende a elaborar suas próprias nor- mas de produção e os critérios valorativos de seus bens. De mo- do distinto, a concorrência neste é pelo reconhecimento dos pa- res. Para entender-se a relação que os produtores estabelecem com os consumidores, e a representação que todos esses fazem desta relação, deve-se ter em conta esse princípio polarizador, que perpassa pela lógica, funcionamento e transformações no campo em questão, bem como pela estrutura dos bens simbóli- cos que ele produz. A lógica própria do campo de produção cultural, que se re- porta ao campo de produção restrita, corresponde à permanente superação determinada pela dialética da distinção propriamente cultural. Não caberia mais ao público alheio ao métier a imposi- ção de censuras: os produtores livraram-se delas, constituindo uma forma própria de exercício de poderes exclusiva do campo cultural. Entretanto, Renato Ortiz (1994, p. 28), que toma como referência o mesmo campo literário analisado por Bourdieu, embora reconheça uma autonomia que lhe é própria, questiona até que ponto "a história do campo se identifica à história da luta entre os atores literatos". Ortiz acredita que não haja necessa- riamente assimetria entre as revoluções simbólicas de um campo específico e as revoluções políticas. A preocupação do antropó- logo brasileiro se assenta na tentativa de detecção do locus da mudança na perspectiva bourdieusiana, haja vista os campos so- ciais tenderem à reprodução, pelo contínuo consenso neles en- gendrado: seu princípio de autonomia reafirma o elo à idéia de reprodução. Atenta, neste sentido, a diferente leitura que Sartre7 7 Para Sartre, a autonomiajá fora conquistada no século XVIII, em que o discur- so literário transforma-se em espaço onde se trava a luta de classes. Passado o período francês das grandes rupturas políticas, que vai de 1789 até 1848, a "burguesia não é mais [...] classe dominada, mas classe que ascendeu ao poder e procura consolidá-lo por todos os meios. A autonomia do espaço literário é, 82 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    dá ao percursode Flaubert e de seus pares. Estas considerações são importantes se se busca uma teoria da mudança social, o que aqui não está em questão, e ao confirmar-se, no Brasil, a hetero- nomia entre cultura e política. Não obstante, o que Bourdieu pretende demarcar é que, independente dos fatores externos, há uma dinâmica interna própria ao campo que pode estar relacio- nada ou não a esses fatores apontados. A propósito, do recurso bourdieusiano à análise que relaciona o campo específico ao campo do poder, chega-se a conclusões que apontam a uma maior dependência ou independência dos campos abordados, va- riável no curso da história, sem que necessariamente se tenha que formar um novo bloco histórico.8 Legitimada uma produção simbólica no campo, isto é, uma idéia, ela pode transformar-se em idéia-força em outros campos sociais. Para tanto, os porta- vozes da idéia legítima devem possuir autoridade suficiente para abandonar a especificidade de seu campo de origem e incidir sobre os demais. O grau de autonomia do campo de produção restrita, portan- to, pode ser avaliado com base no poder que possui ao estabele- cimento de regras internas e critérios de valor em consonância a princípios próprios, mesmo quando venham a ser fruto da retra- dução e da reinterpretação de determinações externas. Se há desta forma, apropriada por essa classe que exige, agora, não mais uma negati- vidade da escrita, mas sim intelectuais orgânicos que possibilitem a instauração de uma hegemonia burguesa" (Ortiz, 1994, p. 28). É à demanda burguesa que Flaubert se insurge. A base de um bloco histórico é a hegemonia de uma classe fundamental. A he- gemonia é a primazia ideológica e econômica desta. Para Gramsci, sua concep- ção de hegemonia pauta-se na primazia da sociedade civil sobre a política, isto é, tem um caráter democrático inversamente ao proposto por Lênin. Para que surja um novo bloco histórico é necessária uma crise orgânica, que é uma crise de hegemonia, e a constituição de um novo sistema hegemônico que conte com as classes subalternas, do contrário, a classe que viera dominando o sistema o faz reavivar. O intelectual é o elo entre a estrutura e a superestrutura, gerindo esta, o que o toma uma via de formulação da ideologia dominante. Embora su- bordine a ação intelectual à política, creio que esta formulação de Gramsci não exclua de todo a de Bourdieu. O que percebo em Gramsci é um forte sentido te- leológico, vinculado às concepções de hegemonia e bloco histórico, o que não é ponto de discussão em Bourdieu: sua análise estrutural dos campos indepen- de de qualquer teleologia. As práticas distintivas 83
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    uma teleologia específica,é a que se dirige à legitimidade inter- na. "Todo ato de produção cultural implica a afirmação de sua pretensão à legitimidade cultural"9 (Bourdieu, 1998a, p. 108). A busca pela legitimidade faz com que os participantes do campo travem uma competição permanente ao estabelecimento de dis- tinções culturalmente pertinentes a suas práticas: estilos, per- formances, técnicas, temas, cujas marcas de distinção próprias, uma vez reconhecidas pelo campo, atribuem valor às obras. São as taxinomias culturais circulantes no campo em um determina- do momento de sua história que lhes permitem serem percebidas e reconhecidas. Portanto, a dialética da distinção cultural é ori- unda da própria lógica do campo, de sua lei, no sentido weberia- no da Eigengesetzlichkeit, regra proveniente de uma racionali- dade própria. Como este campo de produção restrita se estabele- ce por meio de um fechamento objetivo de suas relações de pro- dução e de consumo, sua história é produto de uma semi- reflexão: os juízos acerca das obras são elaborados a partir da posição ocupada por elas em relação às demais, bem como a de seus produtores, também relacionados com seus pares. Com isto, a maioria das obras carrega consigo a "marca do sistema de po- sições em relação às quais se define sua originalidade, e contêm indicações acerca do modo com que o autor pensou a novidade de seu empreendimento, ou seja, daquilo que o distinguia, em seu entender, de seus contemporâneos e de seus antecessores" (Ibidem, p. 112). Destas relações objetivas surge o sentido pú- blico da obra que também define o produtor. A publicização de um produto cultural revela suas propriedades de recepção, que consistem nas relações sociais: as relações entre o autor e o edi- tor, entre o editor e o crítico, entre o autor e a crítica etc., orien- tam-se pela posição relativa em que se situam na estratura do campo de produção restrita. Nessas relações, são mobilizados dois tipos de representações: 9 Ao menos objetivamente (no sentido de que ninguém pode ignorar a lei cultu- ral), o mesmo sucede com qualquer ato de consumo que se encontre objetiva- mente situado no campo de aplicação das regras que orientam as práticas cultu- rais quando pretendem ser legítimas. 84 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    1) a representaçãoque um agente possui do outro, depen- dente de sua própria posição relativa no campo (escritor consa- grado ou maldito etc.); 2) a representação da representação que a definição social faz de si, portanto do termo que a ele se opõe, e que depende de sua posição objetiva no campo. LiPuma (1995, p. 19) destaca que, nesse campo, onde se en- coraja a heterodoxia, percebe-se um "mercado lingüístico" que redistribui capitais através das estratégias dos agentes, estabele- cendo continuamente uma ortodoxia e a reprodução da hierar- quia de classe. A linguagem da crítica e da história da arte é em parte seu produto. A compreensão do campo cultural deve ter em conta que a especificidade funcional dos produtos que nele são elaborados, por ele circulam e dele são difundidos, reside no sistema de relações que o constitui, que são relações de concor- rência pelo monopólio do exercício legítimo da violência simbó- lica. Junto ao papel desempenhado pelo sistema de ensino cuja atividade de inculcação consagra artistas e intelectuais e a re- produção da cultura por ele considerada digna, outras instâncias (por exemplo, academias e museus) pretendem exercer autori- dade especificamente cultural, embora os princípios de legitima- ção que adotam possam diferir. A história do campo exprime a estrutura das relações de força simbólica pela hierarquização das competências legítimas; para obras, agentes ou áreas de atuação. As relações que originam essa estrutura correspondem a: 1) relações objetivas entre os produtores culturais, do pre- sente ou do passado: como são avaliados por um público de pro- fissionais e de não-profíssionais internos, as instâncias que os legitimam possuem legitimidade desigual, portanto consagrando (ou não) tais produtores em bases desiguais; 2) relações objetivas entre os profissionais e as diferentes instâncias de legitimação, que cumprem a dupla função de con- sagração das obras e de reprodução de um padrão de ser humano cultivado; 3) relações objetivas entre as diferentes instâncias de legiti- mação; deve-se levar em conta, ao empreender-se uma pesquisa, sua função e funcionamento, a posição que ocupam na hierar- As práticas distintivas 85
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    quia do campoe a forma de exercício de sua autoridade, conser- vadora ou contestatária. O sistema de ensino, cuja inculcação impõe a semi- sistematização e a semiteorização dos conteúdos inculcados, realiza sobre estes um efeito de neutralização e de "banaliza- ção"10 da transmissão de significações. À medida que o sistema de ensino se transforma, modifícam-se também os esquemas de pensamento que constituem a história do campo cultural. A re- petição didática de mensagens carregadas de violência simbóli- ca" contribui às classes dominantes mediante a imposição de um consenso cultural e à sublimação - pela via da ritualização - dos conflitos presentes ou passados das suas diversas frações. A divisão do trabalho simbólico que separa as duas categorias fun- damentais de produtores culturais permite atentar ao princípio de suas diferenças e semelhanças ideológicas, bem como às con- tradições (e coerências) em suas posturas politicas. A lei cultural dominante impõe-se por sanções sofridas com maior intensidade pelos indivíduos mais desprovidos de capital cultural que se concretizam tanto por sanções materiais (exclusão do mercado de trabalho) como simbólicas, proferidas muitas vezes de forma 10 Bourdieu reivindica Weber para explicar a que corresponde essa banalização, termo segundo ele impreciso: o conceito de Vertãglichung ("cotidianização"), que possui um sentido duplo, como o processo de tomar banal, cotidiano, co- mum (então, se opondo a Aussertãglichkeit, extracotidiano ou extraordinário), e como o efeito que esse processo de banalização provocou. 11 O conceito de violência simbólica foi extensamente desenvolvido em Bourdieu (s.d., p. 23 e 47): "Todo o poder da violência simbólica [é] todo o poder que consegue impor significações e impô-las como legítimas, dissimulando as rela- ções de força que são o fundamento da sua força, junta a sua força própria i.e., propriamente simbólica, a essas relações de força". "[...] toda a acção de vio- lência simbólica que consegue impor-se (i.e., a impor o desconhecimento da sua verdade objectiva de violência), supõe objectivamente uma delegação de autoridade: assim, contrariamente às representações populares ou semi-eruditas que emprestam à publicidade ou à propaganda e, mais geralmente, às mensa- gens veiculadas pelos meios modernos de difusão, imprensa, rádio, televisão, o poder de manipular, senão de criar as opiniões, essas acções simbólicas não podem exercer-se senão na medida e na medida somente em que elas encon- tram e reforçam predisposições (v.g., as relações entre umjornal e o seu públi- co)". 86 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    sutil, ao ridicularizarem,por exemplo, as maneiras em desacor- do com a etiqueta social. O sentimento de estar excluído da cultura legítima é a expressão mais sutil da dependência e da vassalagem pois implica a impossi- bilidade de excluir o que exclui, única maneira de excluir a exclu- são. Qualquer contato reflexivo com o consumo cultural (em espe- cial, o contato provocado pela pesquisa) coincide com a descober- ta de sua ilegitimidade e, impossibilitados de opor uma contralegi- timidade isenta do reconhecimento da legitimidade recusada, os membros das classes desprovidas da cultura legítima concebem a si mesmos como heréticos não como cismáticos. O reconhecimen- to implícito da legitimidade cultural transparece sobretudo através de dois tipos de conduta aparentemente opostas: a distância respei- tosa dos consumos mais legítimos [...] e a negação envergonhada das práticas heterodoxas. Por exemplo, quando interrogados a res- peito de seus gostos em música, a maioria dos operários situa-se espontaneamente no campo da "grande música" e, com isso, de- claram de modo implícito que seu consumo de canções não mere- ce ser mencionado (Bourdieu, 1998a, p. 132). A lei cultural, portanto, antes de determinar as práticas, de- marca os limites da prática. Mesmo que os agentes não a sintam e a transgridam, reconhecem-na. A ideologia dominada desco- nhece ou dissimula o arbitrário cultural dominante, mas reco- nhece a legitimidade de suas sanções ao adotar todas as antino- mias que constituem sua ideologia, cujo princípio é aquele arbi- trário mesmo. A contestação tende a ser excluída, pois é difícil escapar à referência à lei cultural que, mesmo repudiada, se mantém como parâmetro e, por conseguinte, domínio que tutela a cultura dominada. A noção de violência simbólica, portanto, surge a partir de uma perspectiva estrutural. As relações de po- der, e a existência cotidiana e de longo prazo, decorrem da pro- dução e reprodução desses sistemas, os quais são, por sua vez, fundamento prático dos grupos e das sociedades. As práticas distintivas 87
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    mente genérica, constituindoaquela designação já consagrada como cultura de massa. Fundamentalmente heterônoma, a cultura média é objetivamente definida pelo fato de estar condenada a definir-se em relação à cul- tura legítima, tanto no âmbito da produção como no da recepção. As investigações originais que podem suceder no sistema da in- dústria cultural (ou para aí serem importadas) estão sempre limita- das (até poderem contar um público específico, como no caso do cinema de vanguarda) pelos bloqueios de comunicação que correm o risco de provocar mediante o uso de códigos inacessíveis ao "grande público". Assim, a arte média só pode renovar suas técni- cas e sua temática tomando de empréstimo à cultura erudita e, ain- da mais à "arte burguesa", os procedimentos mais divulgados den- tre aqueles usados há uma ou duas gerações passadas, e "adaptan- do" os temas e os assuntos mais consagrados ou os mais fáceis de serem reestruturados segundo as leis tradicionais de composição das artes populares (por exemplo, a divisão maniqueísta de papéis) (Ibidem, p. 143). Embora tenha sido visada inicialmente a um vasto público (como no caso do cinema), uma determinada expressão pode iniciar o desenvolvimento de uma lógica própria, sinalizando com isto seu acesso à legitimidade. Em paralelo a uma recepção massiva, surge em coexistência um modo de recepção erudito, que acarreta o interesse pela história do gênero, sua estética e técnicas. Todavia, são as leis de concorrência no mercado que determinam as transformações na história da arte média, haja vista ter o campo da indústria cultural um índice reduzido de au- tonomia. Scott Lash (1995, p. 198) postula que o grau de auto- nomia é o eixo central de variação dos campos. No entanto, não há plena consistência do que é a autonomia em Bourdieu. Ele não é consistente em sua definição do que é exatamente essa au- tonomia. "As vezes, é das classes dominantes no "campo do po- der" (por exemplo, em Homo Academicus). Às vezes é do cam- po social por inteiro". É índice de um grau maior de autonomia a preponderância da produção do campo para outros produtores, como no campo científico, e não prioritariamente para consumi- dores no campo social (ou campo do poder). Para a concepção deste livro, a autonomia está associada primordialmente à conti- 90 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    nuidade da produçãode acordo com lógicas próprias - internas - do "campo" no qual se realizam. A hierarquia cultural que se estabelece objetivamente entre o campo da indústria cultural e o campo de produção restrita ou erudita e os bens simbólicos que ambos produzem, mesmo que os agentes tentem dissimulá-la, impõe-se a todos os produtores e consumidores. Fundamenta o primeiro juízo que funda todos os juízos particulares e, portanto, as práticas - bem como as ideo- logias - engendradas a partir da posição ocupada pelos agentes no espaço social. Através dela, conseguem discernir gêneros, nomes, marcas e ordens de legitimidade, que caracterizam aqui- lo que se entende por "gosto", e adequar-se às maneiras conve- nientes para cada situação: às obras legítimas, por exemplo, exi- ge-se uma disposição devota, ritualizada e cerimonial. O poder de distinção (ou de discriminação) decorre da medida propor- cional ao grau de legitimidade de cada prática, que varia de acordo com as diferentes classes e frações de classe, propiciando algum ganho em capital simbólico. Edward LiPuma (1995, p. 29) salienta que, para Bourdieu, a maior posse dele é um outro nome para a distinção. Já para Bridget Fowler (1998, p. 20), "apesar de a sociologia conseguir desvelar interesses e o desinte- resse, [...] é possível que uma categoria importante da possessão de capital simbólico simplesmente signifique o atingimento de uma existência humana [...] que é diferenciada da ação animal e que é potencialmente aberta a todos os seres humanos." Esses lucros simbólicos advêm sempre de relações sociais: particular- mente, relações de comunicação, podendo ser reconvertidos em lucros materiais. Através dos lucros simbólicos se reconhece com mais facilidade a hierarquia dos valores consagrados: são maiores quanto mais superiores forem consideradas suas práti- cas no juízo das distintas classes e frações de classe. "E o indi- cador mais seguro da hierarquia dominante talvez seja a oposi- ção entre os objetos dignos de integrar a conversação mundana (objetos também sujeitos a uma hierarquia) e aqueles que dela são excluídos por serem considerados ridículos, pedantes ou "vulgares"" (Bourdieu, 1998a, p. 149). No campo cultural, por As práticas distintivas 91
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    conseguinte, reside permanentementea oposição entre o legíti- mo e o ilegítimo.13 Posições, disposições e tomadas de posição: o habitus no campo do poder As práticas dos diferentes agentes no campo cultural depen- dem da posição que ocupam em seu interior. Independente das consciências e vontades, essa posição impõe-se, fazendo-se ide- ologia própria e engendrando suas tomadas de posição, mesmo quando querem desafiar a ordem estabelecida: [...] é o conjunto das determinações inscritas em sua posição que leva os críticos profissionais de Jazz ou de cinema - muitas vezes jogados nestas artes "marginais" em virtude de sua marginalidade no campo de produção erudita e instados a exercer o direito de discernir entre o legítimo e o ilegítimo sem poderem contar com qualquer garantia institucional - a emitiremjuízos muito divergen- tes, insubstituíveis e destinados a atingir exclusivamente algumas panelas restritas de produtores ou pequenas seitas de aficionados. Se a inquietação pela legitimidade de sua prática não os obrigasse a adotar, exagerando-os, os signos exteriores pelos quais se reco- nhece a autoridade dos detentores do monopólio do poder legítimo de conceder a consagração cultural, tais críticos não teriam neces- sidade de adotar o tom douto e sentencioso, o culto da erudição pela erudição da crítica universitária, ou de procurar uma caução teórica, política ou estética nas obscuridades de uma linguagem tomada de empréstimo. Diversamente de uma prática legítima, uma prática em vias de consagração coloca incessantemente aos que a ela se entregam a questão de sua própria legitimidade (Bourdieu, 1998a, p. 154-155). A estrutura das relações objetivas entre o campo da indústria cultural e o campo de produção erudita constitui o princípio dos 13 Bourdieu inspira-se em Weber para a noção de legitimidade. Cf. WEBER, M. Economia y sociedad. 11. ed. México: Fondo de Cultura Econômica, 1997, p. 170-197. 14 A teoria de Bourdieu da violência simbólica e do desconhecimento, para Fow- ler (1998, p. 22), "e, com efeito, sua teoria da ideologia". 92 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    esquemas que levama excluir o ilegítimo. Portanto, um sucesso de um filósofo na mídia pode não ser bem visto por seus pares, os quais podem suspeitar que ele pressiona seus juízos por me- canismos externos ao campo filosófico, pelo exercício de um tráfico de influência ilegítima à lógica interna em questão. A le- gitimidade ou a ilegitimidade das práticas e dos bens simbólicos é conferida independentemente da vontade dos produtores. Esta definição é externa, uma vez que resulta do conjunto da estrutu- ra das relações objetivas deles com a hierarquia cultural e o grau de valor atribuído ao público que atingem ou visam. A trans- gressão bem-sucedida não traz prejuízo ao valor atribuído à mercadoria cultural ou provoca a reprovação do meio; só é pos- sível de realizar-se liderada pelos produtores portadores dos sig- nos mais inquestionáveis de consagração cultural, cujo passado esteve em respeito às regras do campo, o que os tomam autori- dades, porta-vozes da palavra do grupo, podendo arriscar e in- clusive ganhar com o risco. Essas tomadas de posição advêm de disposições, muitas vezes as mais inconscientes, associadas a um habitus, desempenhando papel fundamental a primeira inte- riorização decorrente de experiências práticas na família e na escola, através das palavras, gestos, objetos e ações. Entretanto, tais disposições não engendram comportamentos mecânicos, de tipo behaviorista, ou a etemização das estruturas, como pare- ciam crer os estruturalistas mais radicais: atualizam-se em fun- ção das diferentes situações em que o agente se depara na traje- tória de vida, assim permanecendo o princípio de seleção de to- dos os signos e índices que produzir ou julgar. A seleção reali- zada pelo indivíduo possui uma história constituída pela história das seleções coletivas. Toda prática cultural possibilita uma dupla leitura, uma vez que deve ser compreendida como executada simultaneamente em dois campos: no que interessa a este livro, no campo da in- dústria cultural e no campo do poder. Orienta as estratégias dos agentes, suas alianças e disputas, muitas vezes não reconhecidas deste modo. A exemplo da neutralidade idealista da ciência que tenta ocultar toda uma política existente na produção do discur- so científico, o jornalismo reforça com freqüência o mito da ob- jetividade imparcial dos textos nos bens simbólicos que pro- As práticas distintivas 93
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    duz.15 Bourdieu postula quea pesquisa sociológica oriente-se à análise das referências privilegiadas, índices que, além de elu- cidarem circuitos de trocas de informação, consistida basica- mente de idéias e palavras, esclarecem acerca dos conflitos ideo- lógicos no campo do poder, no qual se privilegiam aliados (ou adversários) em detrimento de outrem. "Inúmeros problemas, discussões, críticas, polêmicas, conceitos, métodos, construções teóricas etc., derivam sua razão de ser da busca pela distinção (por exemplo, a retradução efetuada por Weber do mana em ca- ráwu)" (Ibidem, p. 172). O campo da indústria cultural ocupa posição destacada no campo do poder, em virtude de que os capitais sociais mais va- lorizados que nele circulam são também os mais valorizados no espaço social, sobretudo, pelos investimentos realizados pelos agentes que ocupam posições hierarquicamente superiores no campo econômico e no campo político. Céli Pinto destaca a pos- sibilidade dos agentes converterem seus capitais acumulados no campo para conquistas de posições sociais em outros: "Um polí- tico de grande popularidade tem mais facilidade de encontrar espaço para expor seus quadros em uma galeria de arte do que um cidadão anônimo. Da mesma forma, um ator de popularida- de encontrará muito mais espaço para satisfazer sua vontade de entrar no campo da política do que um agente cuja atividade não pressuponha popularidade e exposição pública" (Pinto, 1996, p. 223). A reconversão de capitais viabiliza a aquisição de outros tipos de capital, isto é, a partir da posse de um determinado tipo de capital é possível de adquirir-se novos. Não obstante, a dialé- tica da distinção mantém-se na dinâmica interna dos campos es- pecializados. Os signos distintivos podem ser de distinção, mas também de vulgaridade, pois são percebidos relacionalmente, convertendo-se deste modo a partir dos bens ou das pessoas. Sendo assim, as práticas dos grupos e dos indivíduos manifes- tam a representação de sua realidade social: "[...] as lutas das classificações, individuais ou coletivas, que apontam a transfor- mar as categorias de percepção e apreciação do mundo social e, com isso, o mundo social, constituem uma dimensão esquecida 15 Este assunto será tratado de forma mais detida no capítulo 4. 94 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    da luta declasses" (Bourdieu, 1991, p. 494). Portanto, é da posi- ção ocupada na estrutura de classes que depende a posição na lu- ta de classificações. Os bens e serviços culturais, assim como os bens materiais (roupas, eletrodomésticos etc.), são a manifestação mais ou me- nos lograda do estilo de vida dominante. Ao serem adquiridos, isto é, consumidos, implicam alguma forma de reconhecimento dos valores dominantes no que se refere à ética ou à estética. "O que Bourdieu tem a dizer sobre a cultura e a estrutura social é tanto aplicável à ciência - no próprio projeto dele - quanto ao direito, à educação ou à política" (LiPuma, 1995, p. 15). Ao considerar o povo como portador de um conhecimento prático decorrente da posição e dos interesses que possui no mundo so- cial, restaria ao exame como o sentido político por ele atribuído se expressa em um discurso em conformidade com a prática apresentada; compreensão que pode tomar-se princípio de ação consciente e mobilizadora pela via da explicitação da pesquisa "e que permitiria [...] reconhecer, no mercado dos discursos produzidos e ofertados pelos possuidores dos instrumentos de produção de problemas e opiniões legítimas, os produtos mais apropriados" (Bourdieu, 1991, p. 406). A noção de "opinião pessoal", cuja origem é detectada nas concepções racionalistas do século XVIII, pelas quais o "julgar bem" cartesiano corres- ponderia ao discernir o bem do mal, o verdadeiro do falso, por intermédio de um sentimento interior espontâneo e imediato, tomou-se indispensável à instrução universal, via de acesso ao pleno juízo universal, que fundamenta o sufrágio universal. A concepção de opinião16 pessoal surgiu contra o monopólio da Igreja na produção legítima dos juízos. As opiniões pessoais, in- 16 O interesse de Bourdieu pela opinião é antigo, retomando uma tradição iniciada com Gabriel Tarde e continuada hoje por Patrick Champagne. Em Les temps modernes (1973, p. 1292-1309) aparece um artigo seu que causa impacto desde o título; "L'opinion publique n'existe pas": "[...] eu quis dizer que a opinião pública não existe, pelo menos na forma que lhe atribuem os que têm interesse em afirmar sua existência, [Há], por um lado, opiniões mobilizadas, opiniões constituídas, grupos de pressão mobilizados em tomo de um sistema de interes- ses; e, por outro lado, disposições, isto é, a opinião no estado implícito, que, por definição, não é opinião se com isso se compreende algo que pode ser for- mulado em discurso com uma certa pretensão à coerência"(1982, p. 151). As práticas distintivas 95
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    dependentemente de quemas produz, cabe o mesmo valor. No entanto, a difusão desta idéia tomou impulso em virtude de os interesses dos intelectuais, pequenos produtores de opinião in- dependentes, que viriam a originar um campo de produção de bens culturais, entre os quais as opiniões políticas, produto de um subcampo especializado difundido através de todas as insti- tuições representativas da sociedade organizada, como os parti- dos e a imprensa. O fato de emitir uma resposta a um questionário sobre política, como o fato de votar ou, em outro nível de participação, de ler um periódico de opinião ou de filiar-se a um partido, é um caso parti- cular de coincidência entre uma oferta e uma demanda: por um la- do, o campo de produção ideológica, universo relativamente autô- nomo, de onde se elaboram, na competência e no conflito, os ins- trumentos de pensamento do mundo social objetivamente disponí- veis em um momento dado do tempo, e de onde se define ao mes- mo tempo o campo do pensávelpoliticamente ou [...] a problemá- tica legítima-, por outro, certos agentes sociais que ocupam certas posições diferentes no campo das relações de classes e estão defi- nidos por uma competência política específica maior ou menor, quer dizer, por uma capacidade maior ou menor para reconhecer a questão política como política e tratá-la como tal, respondendo po- liticamente a ela, quer dizer, respondendo a partir de princípios propriamente políticos (e não éticos, por exemplo), capacidade que é inseparável de um sentimento mais ou menos forte de ser compe- tente no pleno sentido da palavra, isto é, socialmente reconhecido como habilitado para ocupar-se dos assuntos políticos, para dar sua opinião a propósito dos mesmos ou inclusive para modificar seu curso; pode-se, com efeito, supor que a competência no senti- do de capacidade técnica (cultura política) varia de igual modo que a competência no sentido de capacidade socialmente reconhecida [...], que do contrário é impotência e exclusão objetiva (Ibidem, p. 407). A coincidência entre a oferta e a demanda corresponde na teoria ao que se conhece por homologia estrutural. A sociedade é um espaço social em cuja extensão prima a desigualdade. A pesquisa sociológica possibilita o reconhecimento de homolo- gias, que consistem na correspondência entre a posição ocupada 96 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    na sociedade eas posições ocupadas ou que tendem a ser ocupa- das nos mais diferentes campos sociais de pertencimento.17 Des- tarte, os agentes subordinados no espaço social tendem também a ocupar uma posição subordinada no campo específico em que atuam. Os modos de produção da opinião e a (in)competència estatutária: a idéia-força Em 1973, quando da publicação do artigo "L'opinion publi- que n'existe pas", Bourdieu defendeu três postulados a serem levados em conta a uma análise rigorosa e fundada das sonda- gens de opinião: 1) supõe-se em toda pesquisa de opinião "que todo mundo pode ter uma opinião; ou, em outras palavras, que a produção de uma opinião está ao alcance de todos" (Bourdieu, 1982, p. 137); 2) "supõe-se que todas as opiniões se eqüivalem" (Ibidem, p. 138); 3) supõe-se que na feitura das mesmas perguntas a todos, implicitamente se creia que haja "um consenso sobre os proble- mas, em outras palavras, de que existe um acordo sobre as per- guntas que merecem ser feitas" (Ibidem, p. 138). Entretanto, nem todos estão em condições de opinar, ao me- nos nas mesmas condições. As opiniões são proferidas por agen- tes cuja competência os impele a opinar. Como produtores legí- timos de opinião, se assim se sentirem, inclinar-se-ão a opinar acerca dos problemas legítimos, evidentemente em suas óticas individuais. Ao contrário, os ilegítimos ou os incompetentes, is- to é, sem a requerida competência, tendem a deixar as perguntas sem resposta. Na distribuição das competências, por exemplo, como influência da divisão do trabalho entre os sexos, Bourdieu detecta que as mulheres tendem a responder às questões de natu- reza ética na mesma proporção que os homens, os quais se posi- cionam mais em matéria de política. Esta mesma relação é veri- 17 Em resumo, um efeito de estratificação social sobredeterminada (coincidente) entre os agentes dos diversos campos sociais. As práticas distintivas 97
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    ficada entre osmenos instruídos e os mais instruídos. Bourdieu observa um abismo entre aquilo que deveria ser a opinião indis- tinta entre sexos e classes, a da espontaneidade democrática, e ela como matéria de especialistas competentes, fundadores de um aristocratismo tecnocrático, de plena realização no exercício das pesquisas de opinião - o mesmo se derivando às enquetes da imprensa. Denunciam ao entrevistado sua condição de indigni- dade estatutária, levando-o a excluir-se como que automatica- mente do jogo democrático, e a antecipar as demais exclusões que a prática tecnocrática realizará: "quanto mais uma pergunta se refere a problemas de saber, de conhecimento, maior é a dife- rença entre as não-respostas das pessoas mais instruídas e das pessoas menos instruídas (Ibidem, p. 141). O interesse surge de alguma competência e a indiferença é a própria manifestação da impotência. "É através do lar da família que o capital cultural da escola é acumulado, e a ausência deste capital ao jovem da clas- se operária é uma barreira muito maior de imobilidade para a mobilidade social que a pobreza material" (Fowler, 1998, p. 23). Esta competência a respostas de cunho político não decorre so- mente de um capital escolar que acarreta uma melhor compreen- são do discurso político, mas também do próprio sentimento, es- timulado pelo meio de inserção, a possuir boas razões para ocu- par-se da política; que os discursos tenham sentido para si. A competência técnica é à competência social o que a capacidade de falar é ao direito à palavra, tanto uma condição para o exercício como um efeito. O efeito de marca (no sentido de ação de marcar) que produz a imposição de propriedades tais como o status escolar ou a identidade sexual se impõe ao indivíduo marcado - requerido deste modo para estar à altura de sua definição social - assim co- mo também aos demais, que esperam dele que realize sua essência [...]: unicamente aqueles a quem pertence o possuí-la podem real- mente adquiri-la e unicamente aqueles que estão habilitados para possuí-la se sentem obrigados a adquiri-la (Bourdieu, 1991, p. 419). Uma vez se sentindo com direito à palavra, o agente tende a proferi-la, mesmo que seja na forma rudimentar de um sim ou um não pré-fabricados, em uma enquete pré-fabricada, a qual na 98 luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    maioria das vezescoloca em questão problemáticas que nunca ou pouco fizeram parte do cotidiano do entrevistado, ou ao me- nos da forma como ele usualmente as percebera, como elas gera- ram-lhe sentido. Tais perguntas autorizam o entrevistado a res- ponder a uma pergunta que pode não ter sentido algum para si, mas que é respondida em virtude de inserir-se em um contexto de mobilização de opinião, típico das entrevistas, sondagens e enquetes, que faz com que um agente com grande probabilidade de não possuir uma idéia coerente acerca de um determinado tema, venha compor uma estatística que o leva em conta. A coe- rência da opinião depende do grau em que o agente dependa, pa- ra a sua reprodução, do campo do qual a problemática é prove- niente, tomando-o assim interessado, objetiva e subjetivamente, por sua dinâmica interna. A opinião pode ser processada, simultaneamente, pelos agentes integrantes do campo da indústria cultural e do campo político.18 A imposição de maneira uniforme de certos proble- mas ao conjunto da sociedade, sobre temas que, de início, são do interesse de poucos (pelo emprego de questionário com respos- tas pré-fabricadas), provavelmente produzirá um simples artefa- to, isto é, "um fenômeno artificial produzido pelo próprio pes- quisador por ausência de controle do método e/ou do trabalho de enquete" (Bonnewitz, 1997, p. 31). Não se uniformizam só as opiniões, os produtos elaborados pelo campo jornalístico, por exemplo, as notícias, também se uniformizam, em virtude de o baixo grau de autonomia do campo. Essas enquetes fazem existir certas opiniões não preexistentes à pergunta. "O efeito funda- mental da pesquisa de opinião é o seguinte: a idéia de que existe uma opinião pública unânime é constituída para legitimar uma política e reforçar as relações de força que a fundam ou a tornam possível" (Bourdieu, 1982, p. 140). Esse tipo de pesquisa ex- pressa opiniões que dificilmente seriam expressadas espontane- amente, isto é, sem a intermediação de um porta-voz autorizado, que pode assumir faces diversas, seja a do político, a do apresen- tador do telejomal, ou a do mediador no debate político, mo- 18 Nos dias atuais, Champagne (1995, p. 73-92) prefere integrá-los na designação: "campo político-midiático". As práticas distintivas 99
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    mento de encontrode agentes que ocupam posições diferentes, mas pertencentes a um mesmo campo. A manifestação das opiniões ganha força ao mobilizar o grupo social que a partir delas se expressa e com isto alcança evidência. "A opinião política não é um juízo puro e puramente informativo capaz de impor-se pela força intrínseca de sua ver- dade, mas uma idéia-força que encerra uma pretensão a realizar- se tanto maior, ao passar ao ato, quanto o grupo que mobiliza com sua eficácia propriamente simbólica seja mais numeroso e mais poderoso" (Bourdieu, 1991, p. 424). A idéia-força tem a sua eficácia simbólica potencializada na medida em que o cam- po que a difunde possui maior legitimidade. Portanto, como atenta Louis Pinto (2000, p. 119), quanto "mais legítimo um mercado, mais os efeitos da dominação simbólica são sentidos pelos agentes, que procuram deles escapar ou os atenuar sobre- tudo através do silêncio". Em oposição à maioria silenciosa, cuja privação expressiva decorre de um sentimento de incompe- tência, fruto de uma incapacidade técnica, manifesta-se a pala- vra poderosa dos autorizados à fala; portanto, autoridades, por- tadores de uma competência estatutária. O conjunto da socieda- de, em geral menos instruído, condena-se a ter de delegar sem- pre aos competentes, os mais instruídos que "sabem falar". "Classificar à la Bourdieu - ou seja, "nomear" - não é somente criar distinções individuais. E também, ao menos nas classifica- ções mais significativas, constituir uma consciência coletiva, pa- ra criar a identidade coletiva" (Lash, 1995, p. 205). A privação desconhecida e reconhecida da maioria silenciosa em favor de porta-vozes autorizados favorece o fortalecimento de um campo de produção de discursos, ocupado por essas autoridades, profis- sionais especialistas na produção de opiniões. A divisão do tra- balho político fundamenta-se na consideração tácita que os por- tadores da titulação acadêmica fazem de seu capital cultural, e sobretudo o escolar, que os legitima a exercerem essa autorida- de. Para Bourdieu, a "opinião pessoal" é uma pretensão, asso- ciada à pequena-burguesia, o que exige, para que se a explique, levar em consideração o habitus do qual esta pretensão constitui uma dimensão. De fato, há uma preocupação crescente, à medi- 100 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    da que aumentao nível de instrução, por formar uma opinião. Os instrumentos mais específicos e legítimos, para tanto, são os chamados diários de opinião, os quais no campo da indústria cultural se opõem aos "meios de comunicação de massa", em especial a televisão e o rádio, que oferecem produtos omnibus, isto é, que visam satisfazer a todos os públicos. O reconheci- mento das desigualdades de competência estatutária, que interfe- rem nas condições sociais de possibilidade do juízo político, é insuficiente para o esclarecimento do problema político que o sociólogo considera o fundamental, a saber, o dos modos de produção da resposta a uma pergunta política. O entendimento do que deva ser considerado como tema político pode variar. Por exemplo, além das questões típicas envolvendo partidos, a defi- nição dominante da política leva em conta assuntos mais especí- ficos, como o aborto. Para Bourdieu, existem três modos dife- rentes de produção de respostas: o primeiro tem como princípio o ethos de classe', o segundo tem como princípio um "partido " político sistemático, ou seja, uma "linha" ou um "programa" constituinte de uma espécie de axiomática política que possibili- ta engendrar e prever a infinidade de juízos e de atos políticos; e o último é o produto de uma eleição em dois graus que relaciona esses dois princípios anteriores. O ethos de classe é o princípio gerador dos discursos que não tomam partido intencionalmente ou dos que não são consti- tuídos pelo partido. Isto não se dá só com os não-especialistas. Os produtores profissionais - intelectuais, sociólogos, jornalistas ou políticos - também estão submetidos a este princípio. Quanto menor é o domínio sobre os instrumentos de pensamento e de ação, maior a participação do ethos de classe na produção dis- cursiva. Aos atores sociais incapazes de responder minimamente a uma pergunta, cuja significação política não conseguem apre- ender, resta a vulnerabilidade ao efeito de imposição de proble- mática. Com isto, autorizam opiniões que lhes são estranhas como se fossem suas. Eventualmente, essas opiniões podem re- fleti-los, como também podem colaborar para distorcer comple- tamente sua realidade. Este efeito de imposição favorece a allo- As práticas distintivas 101
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    doxia,19 que emerge apartir de procedimentos retóricos, com a imposição freqüente de pressupostos, sobretudo na mídia, do ti- po "é assim em todo lugar" (tudo decorre da "globalização" etc.). Os agentes menos competentes estão quase totalmente à mercê dos efeitos dessa imposição. Ela decorre da problemática pré-fabricada nas respostas, mas pode ser obtida em uma situa- ção de entrevista jornalística. A hexis corporal do repórter, por exemplo, pode levar a níveis de intimidação que obtêm do en- trevistado o que a emissora quer ouvir, ou ciosamente a pauta proposta pelo chefe de reportagem. Pois bem, esta problemática não é outra coisa que o campo de produção ideológica como tal, quer dizer, o universo das relações objetivas, automaticamente retraduzidas em posturas definidas em seu conteúdo pelo lugar desde o qual se emitem, entre as posições ocupadas e defendidas nesse campo pelos agentes e as instituições em competição pelo monopólio da produção e da imposição da re- presentação legítima do mundo social e da ação legítima sobre es- se mundo (Bourdieu, 1991, p. 441). Uma problemática já constituída politicamente por um de- terminado grupo tende, àqueles afastados da lógica de sua pro- dução, a ser captada como um questionamento da realidade prá- tica que requer uma resposta prática, portanto, moral. Isto acon- tece com freqüência aos estatutariamente incompetentes em ma- téria de política e que, em decorrência, tendem a compreender o tema a partir de princípios práticos, das categorias constituintes do ethos de classe, o que favorece posicionamentos conservado- res da ordem moral e social. A recepção ou o uso social que o público faz de uma pergunta sobre um conteúdo que não fez par- te de sua experiência pregressa gera conteúdos que dificilmente ultrapassam os limites do habitus de classe. O tipo de relação entre o público e a opinião eqüivale a dele com os produtos da cultura média típicos das indústrias culturais. 19 Efeito de halo. Grafo aqui como nos escritos originais de Bourdieu, que procu- ra manter um padrão a seus conceitos ao expressá-los em sua forma grega ou latina. O mesmo serve para as demais noções adotadas. Por exemplo, não em- prego "ônibus", mas omnibus. 102 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    O mercado deopiniões e discursos: a oferta e a demanda Antes de analisar a relação entre as classes e as opiniões po- líticas emergentes em um determinado momento histórico, por exemplo pelas estatísticas que apontam a escolha de um ou ou- tro jornal ou revista mais ou menos marcado politicamente, é necessário questionar a "significação que as diferentes catego- rias de leitores conferem à leitura do periódico, e que pode não ter nada em comum com as funções que normalmente lhe são atribuídas ou com as que lhe assinalam os produtores ou seus mandantes" (Bourdieu, 1991, p. 451). O jornal só é um periódi- co de opinião para alguns poucos que mantêm algum nível de relação com o campo de produção das opiniões. Portanto, o efei- to político de um jornal não pode ser medido necessariamente pela posição que ocupa no campo de produção ideológica e que define objetivamente o conteúdo político de seu discurso, muito menos pela quantidade de espaço em suas páginas destinado à editoria de política. Os leitores podem não dar importância al- guma à política e, assim, não apreenderem o conteúdo político proposto pelo veículo de comunicação. A mídia omnibus, que visa a todos e, portanto, é ciosa por maximizar sua audiência, o que a valoriza diante dos anuncian- tes, evita chocar e, com isto, vir a perder parte de seu público atual ou potencial. Destarte, a discussão política é preterida em favor do anódino, de modo similar à conversação pessoal entre desconhecidos num elevador sobre a temperatura, que impede qualquer risco de polêmica entre si. Todavia, os veículos omni- bus costumam incorporar um ar govemista ou semi-oficial, ao privilegiarem na política o que aparenta ser mais esvaziado no que se refere às temáticas politizadas: as declarações oficiais." Como a mídia omnibus, existem os partidos políticos catch-all; ambos descaracterizados no plano das idéias, a fim de que te- 20 Os produtos omnibus são facilmente encontrados em lugares onde é tradicional a oferta de leituras, como cabeleireiros, salas de espera de médicos etc. Opõem-se àqueles por demais "marcados" e, portanto, excluídos desses espa- ços. As práticas distintivas 103
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    nham a capacidadelatente de alcançar o conjunto da sociedade. Com o aumento e a dispersão do mercado de consumo, os indi- víduos passam a ser reagrupados de acordo com seus gostos e opiniões. Exemplos de bens culturais omnibus são as telenovelas - que Bourdieu chama de folhetins televisados - os filmes co- merciais típicos de Hollywood, as mensagens políticas esvazia- das de conteúdo político etc. As asperezas sociais são lixadas pelos gestores da ordem estabelecida ao produzirem bens cultu- rais insípidos, mas a este preço digeríveis a todos os gostos. Para que se atinja esse maximum do público, a grande mídia realiza uma operação seletiva chamada de neutralização. Os pequenos veículos, fiéis a seu programa inicial, caso não desapareçam ra- pidamente, sobrevivem às custas de um trabalho árduo de seus integrantes. Porém, para que tenham acesso ao poder, além de contornarem os conflitos com seu público e os internos, no âm- bito da unidade de produção, necessitam fazer concessões, esta- belecendo compromissos ou atenuações, que os colocam em contradição com suas propostas de origem. Caso isto ocorra, tendem a romper com a parcela mais antiga e significativa do público que os ajudara a sobreviver. [...] se se excetuam os mais politizados, que lêem L'Humanité ou algum outro periódico de extrema esquerda, os operários e os em- pregados praticamente nunca vêem no periódico essa espécie de guia político ou de mentor moral e cultural que, em rigor, talvez seja só para uma fração dos leitores de Le Figaro, tampouco o ins- trumento de informação, de documentação e de análise que é, sem dúvida, só para os alunos de ciência política ou da ENA, os altos funcionários e uma fração dos professores, quer dizer, para o pú- blico a quem vai dirigido Le Monde. Além dos resultados e co- mentários esportivos de segunda-feira pela manhã, de um periódi- co se espera isso que se denomina "notícias", quer dizer, certas in- formações sobre o conjunto dos acontecimentos pelos quais al- guém se sente diretamente afetado porque afetam a pessoas as quais se conhece [...] ou a pessoas parecidas a alguém, das quais por procuração se sente sua desgraça, sua miséria ou seu infortú- nio [...]. O interesse por estas "notícias", que os periódicos chama- dos "sérios" relegam ao lugar menos importante porque é de bom tom não lhes fazer demasiado caso, não é, sem dúvida, de natureza diferente da qual os membros da classe dominante mais próximos 104 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    aos centros dedecisão política prestam às notícias chamadas ge- rais, às nomeações dos membros dos gabinetes ministeriais [...], às eleições da Academia ou às recepções do Eliseu, às lutas de clãs dentro dos aparatos políticos ou às guerras de sucessão no seio de um grande periódico ou de uma grande empresa, para não falar dos sucessos mundanos ou dos aclamados dos concursos das grandes escolas. Nos jantares ou nas conversações da existência burguesa é de onde os nomes próprios de interesse geral [...] reme- tem a certas pessoas familiares, concretamente conhecidas e fre- qüentadas, que pertencem ao universo do interconhecimento (o que contribui em não pouca medida a fazer da leitura de Le Monde um requisito obrigatório para a entrada "no mundo"). Costuma-se esquecer que a classe dominante se define precisamente pelo fato de que tem um interesse particular pelos assuntos determinados de interesse geral, posto que os interesses particulares de seus mem- bros estão particularmente vinculados a estes assuntos (Ibidem, p. 453-454). Bourdieu relaciona a prática da leitura de jornais com o tipo de interesse pela política; a leitura de um periódico nacional le- gítimo decorreria de um sentimento de se fazer parte do país le- gal, de seus direitos de cidadania serem realmente exercidos, de se fazer política, seja em atos, palavras ou pensamentos. Ao con- trário, os excluídos são os que recebem a política e as opiniões que os pautam, sejam as camadas sociais subalternas, as mulhe- res e os jovens alijados do mercado de trabalho e etc., tenderiam a preferir o anódino do fait-divers, ilegítimo, mais presente no jornalismo provinciano, mas com significado para a realidade desses leitores. A probabilidade de leitura destes decresce à me- dida que aumenta o capital escolar que aumenta o sentimento de pertencimento à cultura legítima e de ter o direito e o dever á leitura de uma publicação legítima. A análise política supõe a distância, a altura, a posição que permite uma contemplação, a vista de pássaro por parte do observador que se situa por cima da peleja, ou a perspectiva do historiador, que se outorga e outorga um tempo para a reflexão, realizando uma espé- cie de distanciamento político capaz - o mesmo que o distancia- mento estético - de neutralizar o objeto em sua presença imediata, sua urgência, suas funções, de substituir o enunciado direto das As práticas distintivas 105
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    palavras ou dasconsígnias em sua bruta brutalidade pelo eufe- mismo do estilo indireto [...]. Do mesmo modo que a arte "difícil" por oposição à arte "fácil" ou o "erotismo" por oposição à "porno- grafia", os periódicos chamados de qualidade requerem uma rela- ção com o objeto que implica a afirmação de uma distância com respeito ao mesmo que é afirmação de um poder sobre ele, ao mesmo tempo que afirmação da dignidade do sujeito que se afirma nesse poder. Estes periódicos dão ao leitor bastante mais que as opiniões "pessoais" que necessita, reconhecem-lhe a dignidade de sujeito político, capaz de ser se não sujeito da história, ao menos sujeito de um discurso sobre a história (Ibidem, p. 457). Nessa linha de raciocínio, defendo a hipótese de que toda mensagem, todo discurso da mídia, mesmo a descrição aparen- temente mais "inocente" de um acontecimento fundada na maio- ria das vezes no mito da objetividade do discurso jornalístico (que por mais objetivo sempre decorre de algum nível de sele- ção, somado à naturalização e à eufemização'1 ), deva ser consi- derada como opinião por ser o produto de uma luta em um cam- po no qual o dominante a expressa ou lhe faz os agentes subor- dinados às suas ordens. Como tal, possui em maior ou menor medida um conteúdo político, independentemente de ser ou não apresentada sob a rubrica de uma editoria de "opinião". O dis- curso político, quando existe enquanto tal, expressa de modo mais ou menos eufemizado e universal a representação que os agentes fazem do mundo social, e pela qual elaboram suas di- versas eleições, não só as políticas. À medida que o mercado econômico e simbólico se unifica tomando débeis os espaços sociais com base local, tende a integrar os interioranos, favore- 21 A eufemização concorre à neutralização dos conflitos discursivos entre os do- minantes. Uma vez neutralizados, adquirem domínio no campo social mediante uma força performativa, em que o "dizer é fazer" (ou existir), em consonância a Austin. Produto da experiência prática, compreende como "naturais" fenôme- nos sociais originados em relações de poder, que vieram a ser (e estão) natura- lizados. Entretanto, os dominados também estabelecem estratégias próprias de neutralização "subversiva": nos coloquialismos e na linguagem comum de, por exemplo, freqüentadores de bares, o "código subversivo opera pela neutraliza- ção dos efeitos dos eufemismos tão característicos do código dominante, espe- cialmente ao desmascarar seu status inapropriado, arbitrário e mesmo contrafa- tual" (Fowler, 1998, p. 28). 106 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    cendo sua politizaçãono que se refere ao interesse por temas na- cionais globais, não necessariamente correspondendo a tal ou qual opção partidária. [...] A essencial indeterminação da relação entre a experiência e a expressão se acompanha com o efeito de imposição de legitimida- de e de censura que exerce o uso dominante da linguagem, tacita- mente reconhecido, inclusive pelos porta-vozes dos dominados, como o modo de expressão legítima da opinião política. A lingua- gem dominante destrói, desacreditando, o discurso político espon- tâneo dos dominados: não lhes deixa outra coisa que o silêncio ou a linguagem postiça, cuja lógica já não é do uso popular sem ser tampouco a do uso culto, linguagem deteriorada, na qual as "gran- des palavras" só estão aí para assinalar a dignidade da intenção expressiva, e que, ao não poder transmitir nada de verdadeiro, de real, de "sentido", priva o que fala da mesma experiência que se supõe expressa. (Ibidem, p. 472). Os debates políticos televisados reproduzem essa situação. Neles, os dominantes no campo em análise procuram fazer valer seus desejos. O momento do debate é relacionado pelo sociólo- go ao da enquete. Ambos se comparam à situação escolar pelo tipo de perguntas formuladas, familiares, por exemplo, a quem cursou ciência política ou lê os artigos de Le Monde. As respos- tas adequadas dependem de um tipo de relação social às interro- gações que pressupõem o distanciamento escolar e a neutraliza- ção que, na prática, tendem nos debates a discussões políticas que expressam opiniões idênticas, recheadas por lugares-comuns e que estabelecem um tipo de consenso provisional, pois são evitados os "temas perigosos". As questões da política surgem de um jogo imperfeito, incompatível com uma análise precisa. Não obstante, a sociologia pode constatar que as definições ofi- ciais dela não bastam para explicar a política, isto é, suas ativi- dades, projetos e crenças. Nestas, há uma política não entendida como política, mas que se constrói por uma(s) prática(s) políti- ca(s) diferente(s) daquilo que trabalham os profissionais da polí- tica. Este estado prático da política oculta relações de força, muitas vezes invisíveis, não perceptíveis a despolitizados, tor- nando suas relações de sentido irreconhecíveis. Para elucidar es- sa violência simbólica, cabe à sociologia o emprego de uma con- As práticas distintivas 107
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    traviolência simbólica medianteo conhecimento das estruturas de reprodução dessa dominação. A ordem social é o produto de mecanismos simultaneamente independent .s e convergentes, pelos quais ocorre, nos mais dife- rentes lugan s, a inserção das oposições fundamentais classifíca- tórias. A eu' ura média que emerge dessa ordem uniformiza os produtos e *. compartilhada pelo campo da indústria cultural, leia-se a mídia, e o campo político, campos miscíveis que ten- dem a constituir um mesmo. O campo jornalístico está relacio- nado intimamente com o campo do poder, afetando este e os campos sociais que concorrem para a sua constituição. Este do- mínio específico será, por conseguinte, tratado no capítulo que segue. 108 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    4 O domínio dojornalismo1 "Para que o intelectual como mito, e como mito eficaz, possa existir, para que seja possível o intelectual fran- cês, que se crê obrigado a intervir na África do Sul, no Afeganistão ou no Chile, foi necessária a Comuna, foi preciso o caso Dreyfus, foi preciso Zola. As instituições de liberdade, como a seguridade social, são conquistas sociais." P/erre Bourdieu (A socioanálise do sociólogo). A acolhida significativa de La Distinction pela comunidade in- telectual internacional gerou, como contrapartida, o questiona- mento da análise marginal que Bourdieu fizera até então dos modernos meios de comunicação,2 pois sua proposta baseara-se nas práticas culturais das sociedades de consumo avançadas e, nestas, o consumo dos produtos midiáticos é elevado. A partir da década de 90, pesquisadores associados a ele, como Patrick Champagne, Rémi Lenoir, Louis Pinto, Alain Accardo e Domi- nique Marchetti, estabeleceram elo entre seus domínios especí- ficos de pesquisa, a obra magna de 1979 e a abordagem sobre a mídia. Colaboraram, enfim, para que o artigo "L'emprise du 1 Refiro-me aqui ao artigo "L'emprise du journalisme". In: Actes de la recherche en sciences sociales, n. 101-102, mar. de 1994, p. 3-9. 2 O questionamento é percebido, sobretudo, em alguns artigos da coletânea Bourdieu - Criticai Perspectives. London, Polity, 1995 (C. Calhoun, E. LiPu- ma e M, Postone; eds.) e, também, nos artigos de 1986 da revista Media, Cultu- re & Socieíy (R. Collins, J. Curran, N. Gamham e P. Scannel; eds.), London: Sage. O domínio do jornalismo 109
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    joumalisme" aparecesse em1994, em número da revista Actes de la recherche en sciences sociales dedicado ao mesmo tema. Bourdieu refere-se no artigo ao campo jornalístico, embora suas pesquisas e de seus companheiros voltem-se ao desenvolvimen- to de "um novo paradigma para a sociologia do jornalismo cen- trado no conceito de "campo da mídia" (Benson, 1998, p. 463). O artigo trata de esclarecer os mecanismos exercidos pelo cam- po mais vulnerável ao mercado publicitário e de leitores sobre: 1) osjornalistas; 2) os diferentes campos de produção cultural. Portanto, o sociólogo não pretende nem abordar o poder dos jornalistas, tampouco o jornalismo como quarto poder. A propó- sito, o "campo jornalístico é estratégico não porque representaria um "quarto poder", mas porque ele permite agir por ricochete sobre diferentes universos sociais" (Marchetti, 2000: 32). Para entender o campo jornalístico, deve-se notar que este é domina- do pela lógica de mercado exercida através dele sobre os demais campos da produção cultural, levando-os a submeterem-se em menor ou maior grau ao seu domínio, mesmo àqueles campos mais autônomos. Entretanto, como notava em "Le marché des biens symboliques", os produtores que o integram se ressentem pelo índice inferior da autonomia relativa: Um trabalho intelectual que se realiza coletivamente no interior de unidades de produção diferenciadas e muitas vezes hierarquizadas técnica e socialmente e que depende, em ampla medida, do traba- lho coletivo, passado ou presente, e de instmmentos de produção dispendiosos, acaba por desvencilhar-se da aura carismática que envolve o escritor e o artista tradicionais, pequenos produtores in- dependentes, senhores de seus instmmentos de produção que mo- bilizam em sua prática apenas seu próprio capital cultural percebi- do como dom da graça. A desmistifícação objetiva e subjetiva da atividade intelectual e artística que acompanha a transformação das condições sociais de produção, afeta particularmente os inte- lectuais e os artistas engajados em amplas unidades de produção cultural (rádio, televisão, jornalismo), intelligentsia proletaróide que se ressente da contradição entre as tomadas de posição estéti- cas e políticas determinadas por sua posição inferior e marginal no campo de produção, e as funções objetivamente conservadoras 110 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    (tanto do pontode vista estético como do ponto de vista político) dos produtos de sua atividade (Bourdieu, [1970] 1998, p. 153-4). A importância de avaliar-se o grau de autonomia de um campo é que tal procedimento propicia a compreensão dos pré- requisitos próprios do campo ao exercício criativo de resistência à violência simbólica, pela qual o sistema dominante de hierar- quização se impõe. A televisão, como subcampo - não exclusi- vamente como técnica ou meio de comunicação - no campo jor- nalístico, tem sido determinante à produção de efeitos no seu in- terior e sobre todos os demais campos. Bourdieu atenta que a extensão e a intensidade desses são mais importantes que as acontecidas, por exemplo, com o advento do folhetim e da gran- de imprensa, no século XIX, e a indignação gerada junto à co- munidade literária erudita. Os agentes que ocupam posições no campo jornalístico podem ser ou veiculos de comunicação ou jornalistas profissionais individualmente. Ao contrário dos dife- rentes campos da produção cultural, que mais autônomos são quanto mais livres estiverem das pressões externas, um veículo jornalístico é mais autônomo quanto maior for o mercado de lei- tores e de anunciantes, que, preferivelmente, não devem estar muito concentrados tanto nas rendas da publicidade de iniciativa privada como nas da subvenção estatal e de suas publicações le- gais. Um jornalista particular, da sua parte, é mais ou menos au- tônomo em função dos seguintes critérios, que podem ser enun- ciados assim: 1) o grau de concentração da imprensa: a insegurança no emprego aumenta à medida que se tem o número de empregado- res potenciais reduzido; 2) a posição ocupada por seu veículo de comunicação no campo: o jornal, por exemplo, pode estar mais próximo do pólo "intelectual" ou do pólo "comercial"; 3) a posição ocupada pelo jornalista no interior do órgão de imprensa que o contrata: ser um titular, free lancer, ou um repórter ou editor etc., determina garantias estatutárias distintas, 0 domínio do jornalismo 111
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    cujo capital simbólicoé transubstanciado em formas como a da notoriedade. No artigo de 1975, "Le couturier et sa griffe: contribution a une théorie de la magie",3 em co-autoria com Yvette Delsaut, Bourdieu salienta a importância da assinatura na alta-costura: tende a produzir a crença que consagra o produtor e consigo o produto. A notoriedade gerada com o efeito de marca, "de grif- fe", da assinatura, favorece a acumulação de capital econômico através de salários mais ou menos elevados, e cujo grau de afas- tamento das pressões do campo econômico e do campo político favorece a ação autônoma.4 Nas redações, as pressões destes campos são em muito representadas pela atividade de relações públicas e sua disseminação de press-releases; os jornais autô- nomos que, de início, combatiam os "interesses" dos grupos de pressão, gradualmente passaram a depender das informações re- passadas por relações públicas contratados por esses grupos. Com efeito, Michael Schudson (1978, p. 141) ressalta que as "relações públicas eram um dos desenvolvimentos-chave que fi- zeram os jornalistas desconfiados dos fatos e prontos para duvi- dar do empirismo ingênuo [...]. O outro desenvolvimento foi a propaganda de tempo de guerra"; mas há também a pressão dire- ta (ou quase) dos patrocinadores do veículo e das relações que os controladores da empresa jornalística estabelecem com as li- deranças políticas. A invulnerabilidade dos profissionais, se pos- sível e aumentada, faz também crescer a quantia que dispõem de capital social específico; 4) o grau de dependência dosjornalistas em função dos ve- ículos: para Bourdieu, certos jornalistas, como os especialistas em economia, ou os vulgarizadores científicos, têm baixa capa- cidade de produção autônoma da informação. 3 In: Actes de la recherche en sciences sociales, n, 1, 1975. 4 Ribeiro. (1994, p. 103): "No jornalismo, o componente econômico da assinatu- ra fica bem claro quando ocorre o almejado convite para trabalhar em outro lu- gar, indicando que o nome do profissional ingressou no placar das cotações. [...] O ritual do convite pode detonar complexas negociações e o gran finale ocorre quando a empresa atual cobre a oferta, confirmando o prestígio do pro- fissional - perante o público interno e os concorrentes. Mesmo se a oferta não for coberta, o jornalista sairá prestigiado e com melhor salário." 112 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    Os poderes presentesnos diferentes campos agem sobre o campo jornalístico, mas é sobretudo o campo político através de suas instâncias governamentais que o constrange. A dominação por ele praticada pode ser distinguida em duas formas básicas: a material e a simbólica: a) a dominação material se expressa notadamente pelas pressões econômicas5 que um governo pode desencadear junto a um veículo de comunicação, especialmente no que se refere ao direcionamento das verbas publicitárias, subvenções, incentivos fiscais, crédito etc.; b) a dominação simbólica atenta à luta pelo "monopólio da informação legítima - dasfontes oficiais notadamente" (Bourdieu, 1994: 4). Os agentes dominantes nos demais campos, não só do político, mas também do científico etc., valem-se da autoridade neles investida e, portanto, de sua legitimidade, como arma na luta de seus campos específicos com o campo jornalístico. Craig Calhoun (1995, p. 79) nota que, enquanto os modos mais codificados de transmissão não afetaram de modo impera- tivo os mais informais da interação pessoal tradicional em países como a China, a índia, muito da civilização islâmica e de um certo período na Europa medieval, uma "das características dis- tintivas do ocidente moderno pode ser a extensão pela qual a transmissão da informação "oficial" através de canais autoriza- dos, de fato, tem sido destrutiva da transmissão de informação através de relações interpessoais diretas". Na luta pelo monopó- lio da informação autorizada, o termo empregado por Bourdieu para pontuar a prática dos envolvidos na contenda é manipula- ção. Se, por um lado, aquelas autoridades ou seus representantes procuram manipular os jornalistas e os órgãos de difusão para 5 Para Champagne (1994, p. 18), as pressões econômicas expressam, sobretudo, pressões políticas: "Os produtores culturais da mídia estão situados em uma posição social próxima da qual ocupam os políticos: os apresentadores dos tele- jomais, por exemplo, solicitam continuamente os sufrágios dos telespectadores. A politizaçâo do campo de produção de bens culturais reside menos na decisão efetivamente política, de colocar o conjunto do funcionamento da televisão em uma lógica comercial que na lógica mesma do liberalismo econômico, que im- põe e traduz indissociavelmente uma certa visão política do mundo social si- tuada nos antípodas da lógica do campo de produção dos bens culturais." 0 domínio dojornalismo 113
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    que transmitam mensagensque melhor lhes convenham, por ou- tro, a imprensa também procura manipulá-los, assim como quaisquer fontes que detenham informações de seu interesse, vi- sando assegurar exclusividade na obtenção e transmissão. Nos Estados Unidos, depois da I Guerra Mundial, "os editores e os repórteres descobriram-se não como parceiros do governo, mas instrumentos do governo. Eles eram valorizados - e temidos - não por sua capacidade de representarem a opinião pública, mas por seu poder de controlá-la" (Schudson, 1978, p. 164). O poder desproporcional que os integrantes de intituições do Estado exerce sobre o campo jornalístico deve ser compreendido, prin- cipalmente, através do poder simbólico dele emanado e das au- toridades que o compõem. Este espaço estatal possui a capaci- dade de definir a pauta jornalística e a hierarquia dos aconteci- mentos mediante a definição de sua agenda diária, não só de ações e de decisões, mas de interações com a própria imprensa: entrevistas, coletivas, press-releases etc. Neste sentido, ao me- nos em parte das notícias relacionadas ao campo político, a sele- ção das informações que se transformarão em notícias, uma das atividades fundamentais da prática jornalística, dá-se externa- mente ao campo. A gênese do campo e a construção social da crença na objetividade Bourdieu importa-se em resgatar a história das noções, dos conceitos,6 pois é daí que se inicia a ruptura epistemológica. A constituição do campo jornalístico, assim entendido, deu-se no século XIX. Este campo corresponde ao segmento de grande es- cala no âmbito do campo cultural, mas, desde essa época, muito mais próximo ao campo do poder do que o campo literário. A legitimidade específica deste era maior que a dele pois era con- cedida internamente pelos próprios pares. A idéia de campo jor- nalístico, cabe matizar, deve, em meu juízo, ser associada ao somatório de "empresa jornalística", "jornalismo" e de "impren- 6 Influência durkheimiana da historicização das categorias. 114 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    sa", de acordocom a distinção operada por Jorge Cláudio Ribei- ro (1994, p. 19): a empresa jornalística corresponde à estrutura econômica orientada à comercialização do material impresso; o jornalismo, ao conjunto de técnicas, conhecimento e ética com vistas à obtenção de informações; a imprensa, à divulgação pe- riódica de notícias nos suportes usuais de jornais e revistas. "Es- ses três elementos assumem significados diferentes, muitas ve- zes contraditórios, de acordo com a época histórica". Assim, se a gênese da imprensa e do jornalismo pode ser encontrada no sé- culo XV, a partir da invenção de Gutenberg, o olhar bourdieu- siano volta-se à "empresa", não obstante nela esteja contida a idéia de jornalismo e de imprensa; é deste entrecruzamento dos três fatores que emerge o campo, expressão de um processo de autonomia. Rodney Benson (1998, p. 482) atenta que a importância do modelo bourdieusiano de pensamento relacionai e espacial faci- lita a pesquisa comparativa dos sistemas de mídias entre as na- ções (cross-national). Isso conduz ao mapeamento estrutural dos campos da mídia nacionais em relação a outros campos sociais, a compreensão dos padrões "nas relações entre campos do poder nacionais e a lógica interna e as relações de poder em cada um de seus respectivos campos da mídia". A estrutura que organiza o campo jornalístico é homóloga à dos demais campos. É par- tindo dessa homologia que os jornalistas se identificam - ou não - com os jornais em que trabalham e o público que os lê: Jean-Jacques Gautier descreve bem essa afinidade eletiva que une o jornalista ao seu jornal e, por intermédio dele, ao seu público: um bom diretor do Figaro, que foi ele próprio escolhido segundo os mesmos mecanismos, escolhe um crítico literário do Figaro porque "ele tem o tom que convém para se dirigir aos leitores do jornal", porque, sem ter necessidade de o querer, "fala natural- mente a língua do Figaro" e porque seria o "leitor típico" desse jornal. "Se amanhã, no Figaro, eu me puser a falar a linguagem da revista Les Temps Modernes, por exemplo, ou das Saintes Chapel- les de Lettres, não serei mais lido nem compreendido, portanto, não serei ouvido, porque me apoiarei em certo número de noções ou de argumentos que o leitor desdenha inteiramente." A cada po- sição correspondem pressuposições, uma doxa, e a homologia en- 0 domínio do jornalismo 115
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    tre as posiçõesocupadas pelos produtores e as de seus clientes é a condição dessa cumplicidade [...] (Bourdieu [1992] 1996, p. 191). Embora o campo jornalístico apresente uma relativa homo- logia estrutural e funcional em relação aos demais campos so- ciais, que o fortalece junto à sociedade e, por conseguinte, sua lógica interna específica, o peso do pólo "comercial" é muito maior do que os princípios e valores "puros" da profissão. Essa "impureza" estrutural, que toma os jornalistas e seus veículos muito mais vulneráveis a seduções externas ao seu campo, con- tribui para que o campo jornalístico reforce o pólo "comercial" também nos demais campos, mesmo naqueles historicamente mais autônomos às pressões do mercado. Não obstante, a luta que Bourdieu atenta entre participantes de um campo passa a acontecer, gradualmente, entre os do campo jornalístico enquan- to tais (e não meramente como adversários políticos ou concor- rentes comerciais).7 Isto não significa que não continuem a exis- tir relações intensas com o campo do poder. A concorrência que é invisível ou subestimada pelo público é importante para os profissionais, salienta Dominique Marchetti (2000, p. 34) ao pesquisar o jornalismo investigativo. "Se os casos são persegui- dos por alguns jornalistas, é porque se jogam, através deles, as reputações inseparavelmente coletivas (as mídias) e individuais (os jornalistas) e o capital de relações com as "fontes" que eles podem mobilizar". Os vínculos do campo de produção cultural ao campo do poder - com o campo jornalístico tendo muito maior intimidade a esse - são percebidos, por exemplo, no mo- mento do processo de Flaubert, em virtude de a publicação de Madame Bovary: "[...] ocasião de mobilizar uma rede de rela- 7 Nos Estados Unidos, por exemplo, os primeiros jornais - de 6 centavos de dó- lar e dirigidos a uma elite - atacavam os penny papers - de 1 centavo de dólar e tiragem de massa - pela acusação de sensacionalismo. O sensacionalismo se associava não ao tratamento dado à informação, mas ao produto que eles ven- diam, as news, isto é, notícias, em oposição às views, as opiniões daqueles. As notícias pretendiam representar o mundo de modo colorido, mas sem colorido partidário. Associavam-se ao advento das modernas sociedades democráticas de massas e, ainda nessa época, à crença no progresso, à ciência: o reflexo no conteúdo propriamente jornalístico era a de uma busca, ao menos formal, pela completude, precisão, vividez e urgência. 116 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    ções poderosa, queune escritores, jornalistas, altos funcionários, grandes burgueses partidários do Império (seu irmão Achille, especialmente), membros da corte, e isso para além de todas as diferenças de gosto e de estilo de vida" (Bourdieu, [1992] 1996: 68). A imprensa esteve ameaçada de censura durante todo o Se- gundo Império, e colocada, "com muita freqüência, sob o con- trole direto dos banqueiros, [estando] condenada a relatar, em um estilo pesado e pomposo, os acontecimentos oficiais ou a submeter-se a vastas teorias lítero-fílosófícas sem conseqüência [...]" (Ibidem, p. 69). Entretanto, seus diretores eram temidos e adulados. Freqüentavam os salões e estabeleciam fortes vínculos com os políticos. Estes, como os escritores e os artistas, gostari- am de ter um artigo seu publicado em um dos jornais de prestí- gio haja vista a ampla difusão das idéias com a produção serial. Com efeito, a literatura industrializa-se a partir dos jornais, su- porte fundamental à publicação dos folhetins. Os industriais da escrita fabricam, segundo o gosto do público, obras escritas em um estilo fluente de aparência popular, mas sem excluir o clichê "literário" nem a busca do efeito [...]: assim, Pon- son du Terrail escrevia todos os dias uma página diferente para Le Petit Journal, La Petite Presse, jornal literário, L 'Opinion Natio- nale, jornal político pró-imperial, Le Moniteur, jornal oficial do Império, La Patrie, jornal político muito sério. Por intermédio de sua ação como críticos, os escritores-jomalistas instauram-se, com toda a inocência, como medida de todas as coisas de arte e de lite- ratura, autorizando-se, assim a rebaixar tudo que os ultrapasse e a condenar todos os trabalhos capazes de colocar em discussão as disposições éticas que orientam seus julgamentos e onde se expri- mem sobretudo os limites ou mesmo as mutilações intelectualmen- te inscritas em sua trajetória e em sua posição (Bourdieu, [1992] 1996, p. 70). Essas mutilações eram recusadas pelos agentes sociais que possuíam as posições mais destacadas no campo, isto é, os escri- tores consagrados do campo literário erudito. A conquista da au- tonomia8 do campo pautou-se pela ruptura com o burguês. Para O marco que sinaliza a autonomia, de acordo com Bourdieu, é a publicação do J'accuse, de Émile Zola, ao final do século XIX, contexto que será abordado mais adiante. 0 domínio do jornalismo 117
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    tanto, os escritoreslegítimos "inventaram" uma estética pura, "a arte pela arte", que não poderia jamais submeter-se aos cons- trangimentos do mercado. Disto, ser chamado "campo de produ- ção restrita", pois os seus integrantes, na prática, passaram a produzir para poucos indivíduos além de seus pares. Já o "cam- po da grande produção", origem do campo jornalístico, não pôde romper de forma acintosa com o burguês pois este representa o poder dominante no campo econômico do qual tanto depende. Seu reduzido grau de autonomia, todavia, não o impedira de per- segui-la. Se o burguês (ou o político) não poderia ser eliminado, poder-se-ia ao menos tentar neutralizá-lo: passara-se à produção interna da crença na objetividade do discurso jornalístico, espé- cie de contraponto à estética pura do campo erudito. Com efeito, tomando-se como exemplo a experiência do moderno jornalis- mo nos Estados Unidos, tem-se, a partir do século XIX, uma dis- tinção mais significativa entre os jornais informativos, de notí- cias (news) - sobretudo sensacionalistas -, e os de opiniões e análises (views). Os primeiros visavam marcar sua distinção des- tes, ao defenderem os valores da "objetividade": "[...] a separa- ção dos fatos da opinião mais fora um princípio de tutelagem que um ideal absoluto no jornalismo" (Schudson, 1978, p. 80). Os jornalistas americanos, até as primeiras décadas do século XX, não separavam claramente fatos e valores. O ideal da obje- tividade é uma crença produzida pelo próprio campo jornalístico a fim de separá-los. "Os jornalistas vieram a crer na objetivida- de, na extensão que acreditaram, porque queriam, necessitavam, eram forçados pela aspiração humana comum a procurarem es- capar de suas próprias convicções profundas de dúvida e impul- so" (Ibidem, p. 159). A separação tem sido usada como camu- flagem para o poder, originando-se, no entanto, do desaponta- mento do olhar moderno que, por outro lado, favoreceu à crítica: esta não só voltou-se à idéia de objetividade, revitalizada a fim de dar suporte ao profissionalismo, mas à própria idéia de pro- fissionalismo. Os críticos ganharam força nos anos 1960, quan- do esses ideais tomaram-se abusivos e suspeitos. Num contexto em que os intelectuais foram percebidos como os "novos man- darins" e os da noblesse d'Etat, produtores de políticas públicas, ironizados como "os melhores e os mais brilhantes", a objetivi- 118 luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    dade no jornalismoveio a ser encarada como um modo de re- cusa ao exame das estruturas fundamentais do poder e do privi- légio que reproduzem a realidade social. O sociólogo americano detecta uma anomalia nesta noção de objetividade, uma vez que a formação dos jornalistas, por exemplo nas faculdades de co- municação, em nada os autoriza a moldarem as visões de mundo das outras pessoas. A noção pode ser considerada ainda mais anômala se considerado que o moderno jornalismo está longe de uma atividade esotérica: depende do mercado e de ampla abertu- ra às forças da sociedade. A manipulação das visões de mundo alheias em um de seus modos mais intensos corresponde à produção do "doxósofo: esse "técnico-da-opinião-que-se-crê-cientista"" (Bourdieu, 1998b, p. 16). São os novos intelectuais que apresentam os problemas da política nos próprios termos que os apresentam os empresários, "os políticos e os jornalistas políticos (isto é, exatamente os que podem pagar pesquisas...)" (Ibidem, p. 17). A atitude deles é a de difundirem deliberadamente uma doxa,9 a fim de que a idéia nela contida angarie força, ou seja, que venha a ser uma idéia- força, aquela que tem uma eficácia simbólica que resulta em efi- cácia material. Apesar de nela não estar excluído o cálculo cíni- co, os doxósofos muitas vezes fazem o jogo apenas por jogarem o jogo. É o que Bourdieu ([1972] 1982, p. 158-9) chama de lo- gocentrismo, forma de etnocentrismo de classe, em cuja lógica faz dos jornalistas também doxósofos. O "logocentrismo [...] forma que [...] assume logicamente entre os intelectuais [leva- os] a apreender e a enumerar como opiniões políticas produzidas segundo um modo de produção propriamente "político" os pro- dutos simbólicos de um outro modo de produção". Ele critica um tipo de "ciência política" ciosa do fornecimento à classe di- rigente de um receituário de propostas políticas espontâneas, com a fachada de ciência; um neomaquiavelismo discursiva- mente neutralizado. Para tanto, os "cientistas políticos" têm-se 9 É o que se tem por senso comum: o conjunto de idéias recebidas, tomadas por evidentes: as crenças estabelecidas que geram as opiniões comuns, as quais são adotadas na prática social cotidiana sem serem discutidas, ou seja, sem o por- quê de sua adoção. 0 domínio do jornalismo 119
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    valido de uma"neutralidade ostentatória do tom" (Ibidem, p. 154) do discurso, que o sociólogo designa como uma máscara da objetividade. A produção da objetividade os aproxima em muito das formas que o jornalismo a constrói. O campo jornalís- tico, neste sentido, é o mais vulnerável à produção da doxa, pois nele perpassam vários fatores que o vulnerabilizam: além das pressões políticas e comerciais diretas, conforme mencionado, os jornalistas participam dessa espiral "logocêntrica" em virtude de a reduzida legitimidade de suas opiniões. Portanto, carecem das opiniões desses "cientistas" para a sustentação das suas. Ademais, os problemas relativos ao recolhimento de opi- niões, que Bourdieu detecta nas enquetes políticas, também são verificados nas reportagens. As enquetes jornalísticas possuem um controle metodológico inferior ao daquelas dos institutos de opinião. Portanto, no momento da reportagem, que deve coletar as informações no espaço social, a probabilidade do repórter efetuar uma imposição de problemática é muito maior do que a das pesquisas de opinião. De fato, Patrick Champagne, em "A visão mediática"10 observa que, a partir dessa imposição, ado- lescentes respondem aquilo que o repórter "quer" ouvir sobre os distúrbios no subúrbio onde vivem, fortalecendo com isso o pre- conceito que a sociedade tem deles, através da reprodução in- consciente - inculcada - desses preconceitos sociais; falam a respeito de si mesmos em terceira pessoa, e não em primeira, o que seria o esperado. Quando isso não acontece, isto é, esse exercício de dominação consciente ou inconsciente, é porque o jornalista está, muito provavelmente, à mercê dessa dominação (em sentido contrário): os agentes sociais entrevistados perten- cem a campos sociais que produzem ou têm o controle dos dis- cursos, isto é, são autoridades. Então, neste caso, é o repórter quem se vulnerabiliza, haja vista a dependência estrutural, não só dele, mas também de uma extensão significativa do campo jornalístico ao campo do poder. 10 Champagne (1997). 120 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    Duas lógicas, duaslegitimidades Bourdieu descreve as lógicas que regem o campo cultural e seus princípios de legitimação em "Le marché des biens symbo- liques" (1970) e em Les règles de 1'art (1992). As duas análises, embora considerem o campo da indústria cultural, pouco se de- têm na especificidade do campo jornalístico. Com efeito, isso só se efetiva, em 1994 quando "L'emprise du joumalisme" é publi- cado. Se, por um lado, o artigo é curto, ocupando seis páginas da revista Actes de la recherche en sciences sociales, por outro, ele sinaliza diretamente as questões que afetam o campo na década de 90 do século XX e são estímulo a sua pesquisa. No campo jornalístico existem duas lógicas opostas e dois princípios de le- gitimação: 1) a lógica autônoma: os princípios de legitimação são for- necidos pelos pares que a concedem aos que respeitam os valo- res internos ao campo; 2) a lógica heterônoma: a legitimação é fornecida pela mai- oria do público, a audiência externa ao campo, materializada nos leitores, ouvintes ou espectadores, "portanto, na cifra de venda (best-sellers) e no lucro em dinheiro, sendo a sanção do plebisci- to democrático inseparavelmente, nesse caso, um veredito do mercado" (Bourdieu, 1994, p. 4). Um empreendimento está tanto mais próximo do pólo "comercial" quanto os produtos que oferece no mercado correspondem mais direta ou mais completamente a uma demanda preexistente, e em formas preestabelecidas. Por conseguinte, a duração do ciclo de produção constitui sem dúvida uma das melhores medidas da posi- ção de um empreendimento cultural no campo. Tem-se assim, de um lado, empreendimentos com ciclo de produção curto, visando minimizar os riscos por um ajustamento antecipado à demanda de- tectável, e dotados de circuitos de comercialização e de procedi- mentos de valorização (publicidade, relações públicas e etc.) des- tinados a assegurar o recebimento acelerado dos lucros por uma circulação rápida de produtos reservados a uma obsolescência rá- pida; e, de outro lado, empreendimentos com ciclo de produção longo, baseado na aceitação do risco inerente aos investimentos culturais e sobretudo na submissão às leis específicas do comércio 0 domÍRio do jornalismo 121
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    de arte: nãotendo mercado no presente, essa produção inteiramen- te voltada para o futuro tende a constituir estoques de produtos sempre ameaçados de recair no estado de objetos materiais (avali- ados como tais, ou seja, por exemplo, pelo peso do papel) (Bour- dieu, [1992] 1996, p. 163). O sociólogo atenta para a necessidade de respeito à deonto- logia interna. Os agentes impõem-se uns aos outros mecanismos de controles e constrangimentos: sanções negativas no caso de desrespeito; as sanções positivas são raras, reduzidas a algumas reprises ou a citação da fonte por um órgão menor, a fim de evi- tar um possível descrédito. A propósito da citação da fonte, o sociólogo parece surpreso em não haver sanções negativas no que se refere a sua omissão, mas a lei brasileira garante o sigilo de sua divulgação. Destarte, não se presta à mesma lógica do campo acadêmico, pela qual a citação serve como uma manifes- tação de apreço e reconhecimento, isto é, uma sanção positiva. No caso brasileiro, detecto um emprego abusivo da sanção posi- tiva: as reprises têm valor discutível à medida que, nos últimos anos, o campo jornalístico trata de produzir bens simbólicos cujos temas são extraídos do próprio campo; os motivos deixam de ser buscados na realidade e são apanhados na mídia em geral e nas próprias redações, ao que chamaria de auto-indulgência jornalística, que seria um tipo de collusio. Bourdieu (1997b, p. 173) explica como se processa a collusio, relacionando-a ao en- gendramento do habitus: [...] o habitus não é de modo algum o sujeito isolado, egoísta, e calculista da tradição utilitarista e a dos economistas [...]. Ele é o lugar das solidariedades duráveis, das fidelidades incoercíveis, porque fundadas sobre leis e laços incorporados, tais como o espí- rito de corpo (cujo espírito de família é um caso particular), ade- são visceral de um corpo socializado do corpo social que o fez e com o qual se faz corpo. Por aí, é o fundamento de uma colusão implícita entre todos os agentes que são o produto de condições e de condicionamentos aparentes, e assim de uma experiência práti- ca da transcendência do grupo, de suas maneiras de ser e de fazer, cada um encontrando na conduta de todos seus pares a ratificação e a legitimação [...] de sua própria conduta que, em retomo, ratifi- ca e, no caso de falha, retifica a conduta dos outros. Acordo ime- 122 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    diato nas maneirasde julgar e de agir que não supõe nem a comu- nicação das consciências, nem menos ainda uma decisão contratu- al, esta collusio funda uma intercompreensão prática cujo para- digma poderia ser o que se estabelece entre os componentes de uma mesma equipe, mas também, apesar do antagonismo, entre o conjunto dos jogadores engajados em uma partida. De modo diferente dos campos mais autônomos que com- põem o campo cultural, o campo jornalístico está à mercê cons- tante dos vereditos do mercado. Ter audiência ê o critério fun- damental, pois ela garante o consumo dos bens que o campo produz e ao mesmo tempo a atração de fontes de financiamento, sobretudo a dos anúncios publicitários. A busca por audiência tem efeito imediato na atividade dos jornalistas: como precisam agradar um máximo de público, produzem textos que idealizam um leitor médio. O resultado disto são textos "objetivos", curtos, simples, iniciados, no caso brasileiro e norte-americano, pelo parágrafo chamado de lead (ou lide, de acordo com o aportugue- samento), em que se concentram as principais informações da notícia, "poupando" o leitor de ter de lê-la até o final. De modo semelhante à idealização de um leitor médio, os produtos e os produtores são avaliados ("vende bem", "passa bem na TV" e etc.). A preponderância da lógica econômica e a intensificação da concorrência midiática favoreceram as "escorregadas" na fa- bricação da informação, levando, na experiência francesa, à ins- tituição dos "mediadores", equivalentes aos ombudsmen, dota- dos de um tipo de olhar exterior sobre as práticas jornalísticas que zela pelas regras deontológicas. "A instituição do mediador é assim, para os jornais que querem provar a seus leitores sua "seriedade", uma resposta possível à crise de confiança que pa- rece atravessar os mass media " (Champagne, 2000, p. 8). Não obstante, reconhecida a lógica mercadológica, há um problema que autores como Raymond Williams e Nicholas Gam- ham" detectam no pensamento bourdieusiano; o interesse no 11 É precisamente por salientar seu 'desinteresse' [o dos integrantes do campo cultural], no sentido de sua distância da crueza dos valores materiais que eles maximizam seu interesse em termos do valor ao qual podem finalmente conver- ter seu capital cultural em capital econômico. Alternativamente, assegurar a re- produção de seu capital cultural [...]. O problema não é que Bourdieu esteja 0 domínio do jornalismo 123
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    campo reflete ojogar o jogo, e não necessariamente a interven- ção direta das chamadas indústrias culturais na elaboração dos bens simbólicos difundidos. A preocupação reporta-se ao que Bourdieu propõe como efeito de homologias, que tende a repro- duzir na estrutura dos campos a estrutura de classes; mas o que eles não estão a considerar é a antigüidade no campo, que tam- bém conta e, com ela, a condição de possibilidade da conquista de legitimidade específica ao ator social com o passar do tempo, mesmo que este se volte àquelas indústrias que "consomem" a notoriedade do produtor legítimo. Na história da televisão brasi- leira, por exemplo, podem ser enumerados vários casos em que as grandes corporações recrutaram dessa forma artistas e jorna- listas legitimados a partir de seus pares (como os da imprensa al- ternativa). Na lógica própria do campo jornalístico, o pólo ortodoxo, como no campo cultural, tende a ser ocupado por aqueles profis- sionais que ocupam posição mais elevada, em veículo que ocupe também posição elevada, e mais antigos na profissão. Ao contrá- rio, a heterodoxia parte em geral dos mais jovens, "menos esta- belecidos e mais propensos, ao contrário, a opor os princípios e os valores da 'profissão' às exigências, mais realistas ou mais cínicas, de seus 'veteranos'." (Bourdieu, 1994, p. 5).12 Essas meramente preocupado com o estabelecimento de um relacionamento determi- nado entre a apropriação de classe e a apropriação cultural em um estado dado do campo de consumo cultural, nem entre classe cultural e produção cultural, em um dado estado do campo de produção cultural. O problema é mais difícil e complexo que esse pelo qual sua teoria geral da prática, bem como sua teoria específica do poder simbólico, requer dele a explicação de como as práticas li- vres, aparentemente autônomas, dos agentes envolvidos nos dois campos dife- rentes e, portanto, cujas ações são governadas por uma lógica específica dife- rente da prática, como elas tanto interagem como não apenas produzem, mas reproduzem, os padrões de classe da prática cultural em geral e por isso ten- dendo a reproduzir um conjunto dado das relações de classe em geral (Gar- nham; Williams [1986] 1996, p. 127). 12 Para Bourdieu, a exemplo do campo literário, há um critério exterior de sucesso que é a venda e um interior que é a "seriedade" jornalística. Assim, como Schudson historicizou a noção de objetividade, haveria, creio, de se historicizar a idéia de seriedade; o próprio Schudson propicia pistas dessa história, mas pa- ra a realidade norte-americana. Os dois critérios distintos apontados pelo soció- logo geram uma estrutura quiasmática à distribuição complexa. Para cada meio 124 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    transgressões, no cursoda história, se persistentes com eficácia, tendem a assimilar-se pelo campo, podendo vir a constituir no- vas ortodoxias. A teoria, quando aplicada a realidades como a brasileira e a norte-americana, depara-se com nuanças e mesmo oposições se comparadas com a realidade francesa. Por exem- plo, na história do campo jornalístico desses dois países, em mantendo-se no conflito de gerações, comumente foram busca- dos os jovens e inexperientes por melhor se moldarem e se sub- meterem às exigências, a sua obediência e o bom-mocismo in- gênuo ou cínico orientado por uma aguçada ambição servil. En- quanto isto, os antigos, foco tradicional de resistência, costuma- vam ser eliminados. "O aliciamento praticado pela empresa é especialmente eficiente no caso dos neófitos, feitos editores em promoções fulminantes que subvertem todo um sistema de pres- tações, fídelidades, competências e lideranças sedimentado ao longo do tempo." (Ribeiro, 1994, p. 153). Exemplo foi verifica- do no momento da implementação do "Projeto Folha", da Folha de S. Paulo. Aqueles que deveriam introduzi-lo ao grupo eram jovens e inexperientes, que tinham que se chocar com todo tipo de dificuldade e incompreensão, advindas dos ressentimentos e resistências dos profissionais mais antigos e deslegitimados, pela empresa jornalística e não pelos pares diretos, ao serem introdu- zidos novos procedimentos à rotina de trabalho. Nos Estados Unidos13 deu-se o mesmo: os publishers da grande indústria jor- nalística optaram pelo entusiasmo educado, muitas vezes ingê- nuo, e pouco contestador dos jovens contratados.14 Com efeito, de comunicação, verifica-se um pólo "comercial" e um pólo "cultural", cada qual funcionando como um subcampo, e que organiza o conjunto do campo, de maneira que se está diante de uma série de estruturas encaixadas (do tipo a:b:bl:b2). Para uma visualização desta estruturação, atente ao gráfico do cam- po de produção cultural neste capítulo. 13 Schudson, op. cit., p. 69. 14 "Os sucessores, quase indiscemíveis dos predecessores, distinguem-se destes sobretudo pela distância temporal que os separa. Nesse caso, a aparência de eternidade não resulta do curso natural das coisas, mas da garantia temporal que somente as instituições (escola, Estado, igreja e etc.) podem fornecer. A e- ficácia das estratégias de reprodução pressupõe que os instrumentos disponí- veis se ajustem ao espaço de possíveis. Pode-se perfeitamente imaginar uma discordância resultante do colapso da circulação de capitais possuídos [...]" 0 domínio do jornalismo 125
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    as estratégias dereprodução, para serem eficazes, devem ajustar- se ao espaço de possíveis. Assim, em situação de crise revolu- cionária, expurgos, repressão, ou de guerra, pode haver um co- lapso da circulação de capitais, a partir do qual, de acordo com Louis Pinto (2000, p. 160), "o capital político acumulado sob a forma de fidelidade à causa e ao partido tende a prevalecer sobre as outras espécies de capital, especialmente o intelectual, o eco- nômico e até o militante (a "velha guarda" eliminada em favor de neófítos mais dóceis)". Em sentido similar, o "Projeto Folha", crise instituída no seio da redação, pode ter seus expurgos expli- cados a partir dessa perspectiva. A militância de jornalistas his- tóricos era obstáculo ao "partido" Folha de S. Paulo, que podia contar com jovens fiéis e dispostos a cooperarem com a "causa" da implantação das reformulações definidas pela companhia. O tempo e a amnésia, a concorrência e a uniformização O produto típico do campo jornalístico são as notícias, cuja perecibilidade é bastante acentuada. A consciência desse fato impele os atores sociais do campo a buscarem continuamente a novidade mais recente entre as diversas que surgem no cotidia- no, o que leva a um gradual esvaziamento de sentido da infor- mação jornalística, pois o novo toma-se rapidamente velho e, logo, esquecido. Este esquecimento é um problema não só para os integrantes do campo de produção, como também para o campo do consumo, pois todos consumirão, em última instância, informações com grande probabilidade de estarem descontex- tualizadas. "Na lógica específica de um campo orientado para a produção desse bem altamente perecível que são as notícias, a (Pinto, 2000, p. 160). Presumo que, na experiência brasileira, essa eficácia ins- titucional esteja muito vinculada aos próprios veículos de comunicação e, mui- to pouco, às escolas de jornalismo. A propósito, a relação destas e daqueles é marcada pela desconfiança mútua: a tendência dos grandes jornais de monta- rem seus próprios cursos dejornalismo aplicado reforça a disseminação de cer- tos valores como o individualismo e a competição entre esses indivíduos. De qualquer maneira, é algo que exigiria uma pesquisa rigorosa. 126 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    concorrência pela clientelatende a tomar a forma de uma con- corrência pela prioridade, quer dizer, pelas notícias mais novas {o furo) - e isso tanto mais, evidentemente, quanto se está mais próximo do pólo comercial" (Bourdieu, 1994, p. 5). O trunfo do furo só importa e é percebido pelos próprios jornalistas que con- correm entre si, os quais, por necessidade de profissão, precisam ler mais de um jornal. O leitor que é o estímulo a essa conquista, pois é quem de fato deve ser conquistado, não chega a percebê- la na maioria das vezes. Rogers Brubaker (1995, p. 221) observa que como "outras disposições profissionais, adquiridas relativamente tarde na vida, a disposição para pensar em termos disposicionais pode ser pen- sada como o produto integrado de (1) certas disposições anterio- res e (2) o estado e a estrutura de certos campos intelectuais". Com efeito, a concorrência pela prioridade favorece os jornalis- tas dotados de disposições à urgência, isto é, os dispostos a pra- ticarem o jornalismo de modo que este esteja colocado sob o signo da velocidade e da renovação permanente15 muito vulne- rável às pressões discursivas do campo do poder. O próprio va- lor da atualidade da informação e a temporalidade da prática - como, por exemplo, o de ter que realizar o fechamento do jornal, em tal hora, todos os dias - reforçam essas disposições, favore- cendo a chamada amnésia estrutural, efeito negativo da exalta- ção da novidade, em que o interesse dos profissionais só se volta às atualidades, ao novo, que se opõe ao ultrapassado. Mas, nesta lógica, é bem fácil os produtos e produtores novos já se toma- rem ultrapassados. Se a afirmação "é ultrapassado" pode ter lugar hoje com tanta fre- qüência, e bem além do campo jornalístico, de toda argumentação crítica, é também que os pretendentes apressados têm um interesse evidente em empregar esse princípio de avaliação que confere uma vantagem indiscutível ao recém-chegado, quer dizer, ao mais jo- vem, e que, sendo redutível a algo como a oposição quase vazia 15 A censura estrutural é outro efeito verificado no campo, no que se refere às re- lações com o tempo, sobretudo verificado no subcampo televisivo, onde os tempos, muitas vezes impostos de maneira arbitrária e na maioria das vezes despercebida, pesam sobre as palavras dos participantes dos programas, fazen- do-os superficiais ou, até mesmo, calarem-se. 0 domínio dojornalismo 127
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    entre o antese o depois, dispensa-os de mostrar suas capacidades (Bourdieu, 1994, p. 5). Esta posição do sociólogo talvez possa explicar em parte aquilo que a relação entre agentes ortodoxos e heterodoxos, no jornalismo brasileiro e norte-americano, contraria sua proposta teórica à estruturação geral do campo de produção cultural. Es- ses jovens jornalistas, no entanto, caso isso se confirme, repre- sentariam um "novo" com forte suspeita de cinismo, este outrora associado aos antigos. A concorrência gera um efeito no campo jornalístico que, di- ferente da originalidade e da diversidade possibilitadas em ou- tros campos de produção, nele produz a uniformidade da oferta. Os agentes sociais do campo adotam permanentemente práticas de benchmarking que os levam a copiar os sucessos de seus pa- res, assim como evitar os seus fracassos. Para Bourdieu, isso pouco favorece a afirmação da autonomia, seja ela individual ou coletiva. Porque tal ou qual veículo cobriu isto ou aquilo deste ou daquele jeito, há de se cobrir aquilo ou isto daquele ou deste jeito. Esta lógica é a mesma para a escolha dos assuntos, perso- nagens, convidados, enfoques etc., como se diz entre produtores de televisão, "só os confirmados". A tendência se verifica ao se compararem os conteúdos presentes nos veículos de grande au- diência, sejam da televisão, do rádio, ou da imprensa; subme- tem-se as "escolhas desses confirmados" aos vereditos do mer- cado, pela audiência e sua conseqüência, a publicidade; o que contribui para orientar toda a produção no sentido da con- servação dos valores estabelecidos, como o atesta, por exemplo, o fato de que as listas de premiações periódicas, pelas quais os inte- lectuais-jomalistas esforçam-se em impor sua visão do campo (e, graças ao "toma-lá-dá-cá", o reconhecimento de seus pares...), jus- tapõem quase sempre autores de produtos culturais altamente pe- recíveis e destinados a figurar durante algumas semanas, com o seu apoio, na lista dos best-sellers e autores consagrados que são a uma só vez "valores seguros" capazes de consagrar o bom gosto dos que os consagram e também, enquanto clássicos, best-sellers de longa duração. Quer dizer que, mesmo que sua eficiência se cumpra quase sempre através das ações de pessoas singulares, os mecanismos de que o campo jornalístico é o lugar e os efeitos que 128 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    eles exercem sobreos outros campos são determinados em sua in- tensidade e sua orientação pela estrutura que o caracteriza (Ibi- dem: 5-6; grifo meu). O campo jornalístico também submete outros campos: ele tem reforçado os agentes e as instituições situados mais próxi- mos ao pólo comercial e submissos à lógica do mercado. Bour- dieu chama este processo de "heteronomia": enquanto a auto- nomia possibilita o funcionamento de um campo qualquer de acordo com sua lógica específica, a heteronomia leva-o a operar de acordo a uma lógica externa; cada vez mais regrada pelos in- teresses localizados no campo econômico. Os campos de produ- ção cultural, notadamente, puderam desenvolver-se graças aos seus interesses internos que, por exemplo, permitiram o desen- volvimento da pesquisa científica básica, independente dos constrangimentos e da aprovação externa. A autonomização só foi possível graças a illusio dos seus participantes, que os levam a interessar-se por jogar o jogo, e por mecanismos de sanção in- terna, negativa para aqueles que transgridem as regras e positiva para aqueles que cumprem os ditames. As lutas pelo monopólio da definição do modo de produção cultu- ral legítimo contribuem para reproduzir continuamente a crença no jogo, o interesse pelo jogo e pelas apostas, a illusio, da qual são também o produto. Cada campo produz sua forma específica de il- lusio, no sentido de investimento no jogo que tira os agentes da indiferença e os inclina e dispõe a operar as distinções pertinentes do ponto de vista da lógica do campo, a distinguir o que é impor- tante ("o que me importa", interest, por oposição "ao que me é iguar, in-diferente). Mas é igualmente verdade que certa forma de adesão ao jogo, de crença no jogo e no valor das apostas, que fa- zem com que o jogo valha a pena ser jogado, está no princípio do funcionamento do jogo, e que a colusão dos agentes na illusio está no fundamento da concorrência que os opõe e que constitui o pró- prio jogo. Em suma, a illusio é a condição do funcionamento de um jogo no qual ela é também, pelo menos parcialmente, o produ- to (Bourdieu, [1992] 1996, p. 258). Aqui é clara a inspiração de Bourdieu em Wittgenstein: o in- teresse no jogo, a crença em suas apostas, impele os agentes à obediência de sua lógica, ao seguir suas regras. As regras exis- 0 domínio do jornalismo 129
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    tem a partirdas regras que elas próprias animam. Isto só é pos- sível "através do nosso entendimento incorporado. Isto é a que chega Bourdieu com seu habitus" (Taylor, 1995, p. 58). Defini- mos uma regra a partir de sua representação. "Bourdieu argu- menta que uma distorção importante ocorre quando entendemos a regra tal como representada (rule-as-represented) como o fator efetivo. A distorção surge do fato que estamos tomando um sen- tido situado, incorporado, e fornecendo uma representação ex- pressa dele" (Ibidem, p. 55). Mas, na lógica própria do campo, o exercício da habilidade prática, que só existe sendo exercitada, e que se desdobra no tempo e no espaço, conduz os agentes a per- seguirem - e produzirem — suas regras. Do contrário, perdem o jogo ou, o que dá no mesmo, estão fora dele. No entanto, as sanções internas do campo jornalístico per- dem cada vez mais a eficácia simbólica: como o princípio de le- gitimidade no campo se desloca ao do mercado, mesmo "os jor- nalistas e os jornais "sérios" perdem sua aura e são, eles pró- prios, obrigados a fazer concessões à lógica do mercado e do marketing" (Bourdieu, 1994, p. 6), sobretudo a da televisão co- mercial e a tendência em verem-se obrigados, como necessidade de sobrevivência na profissão, em terem visibilidade. O sucesso que certas análises televisivas obtêm junto aos jornalistas, sobre- tudo mais heterônomos, deve-se ao fato de conferirem uma apa- rência de "legitimidade democrática à lógica comercial, conten- tando-se em colocar em termos de política, portanto de plebisci- to, um problema de produção e de difusão culturais" (Ibidem). A lógica tendencial à heteronomia que o campo jornalístico exerce com suas práticas por sobre os campos de produção cul- tural, notadamente no que se reporta à produção em ciências so- ciais e filosofia, tem como início de sustentação a prática de agentes sociais heterônomos, isto é, aqueles produtores culturais que ocupam uma posição indefinida entre o campo jornalístico e os campos de produção cultural especializados. São esses agen- tes que Bourdieu chama de "intelectuais-jomalistas": por um la- do, possuem um capital cultural mais elevado que a média veri- ficada no meio jornalístico, o que lhes possibilita um espaço de atuação, mas, por outro, seu capital social específico nos campos de produção social especializada é baixo, em virtude de se es- 130 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    quivarem de suasexigências internas. Cabe notar que, ao mesmo tempo, eles costumam também se esquivar das exigências inter- nas próprias do campo jornalístico. Para tanto, introduzem os poderes que adquiriram em um campo como fator de legitima- ção no outro, embora, em princípio, os critérios de legitimação neste ou naquele tenham sido distintos no transcurso da história autônoma desses campos. "Em parte, essas invasões devem-se a aspectos puramente intelectuais do jornalismo, um intelectua- lismo generalizado com interesse em demolir os enclaves aca- dêmicos especializados e em celebrar aqueles intelectuais públi- cos a seu próprio ecletismo amador" (Benson, 1998, p. 472). A expansão do sistema universitário na França e o surgimento de um "exército de reserva" de trabalhadores culturais desempre- gados incentivaram jovens pertencentes a certos campos espe- cializados, impossibilitados de ascensão pela via da consagração de seus pares, a buscarem o uso dos mass media como arma contra a "velha guarda" ortodoxa. Os agentes heterônomos provocam dois efeitos principais: 1) a emergência de formas novas de produção cultural: um meio-termo mal definido entre o esoterismo universitário e o exoterismo jornalístico; 2) a imposição de seus princípios de avaliação das produ- ções culturais: ao mesmo tempo, ratificam a autoridade daque- las produções heterônomas, isto é, bastante vinculadas aos inte- resses do mercado, cuja autoridade intelectual, em verdade de simples aparência, é legitimada pela mídia, um campo incompe- tente para tal. Esta prática reforça a inclinação espontânea de certos grupos de consumidores à allodoxia: "[...] um erro de identificação, uma forma de 'falso reconhecimento'" (Marlière, 1998, p. 233). Por serem privados de oportunidades a certas ex- periências, os atores sociais dominados tendem à "imaginação" do que seriam certos produtos e práticas, que acarreta um hiato entre a realidade e a representação que fazem dela. Este erro de identificação allodóxico tende a reforçar o efeito de índice de audiência ou de best-sellers, isto é, a lista dos sancionados pelo mercado muitas vezes artificialmente por estratégias de marke- ting. Em um primeiro momento, orientam as escolhas dos con- sumidores, e em outro, a dos próprios produtores, sobretudo os 0 domínio do jornalismo 131
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    mais dependentes domercado, por exemplo, os editores que se submetem à produção dos vendáveis tão-somente, os "sucessos garantidos". Na maioria das vezes, produtos menos requintados, mas de amplo apelo (publicitário principalmente) junto à recep- ção. Em pouco tempo, nessa tendência, a produção inovadora e original ruma ao desaparecimento. No caso dos jornais, eles alimentam o próprio ciclo de sua submissão. E eles podem contar com o apoio dos que [...] tomam produtos de cultura média por obras de vanguarda (e não apenas em matéria de arte); [•••] propensos à allodoxia por sua distância do "foco dos va- lores culturais" e por sua interessada tendência a dissimular de si mesmos os limites de suas capacidades de apropriação - segundo a lógica da selfdeception, bem evocada pela fórmula freqüentemen- te empregada pelos leitores de revistas de vulgarização: "é uma revista científica de altíssimo nível e acessível a todos" (Bourdieu, 1994, p. 6). A allodoxia, enfim, favorece o declínio da verdade. A im- prensa pode bem se sustentar pela mera verossimilhança-, se ti- ver a credibilidade como capital social específico desvalorizado no mercado de capitais em que os leitores investem, como acon- tecia com a imprensa sensacionalista do fim do século XIX, por exemplo no New York World de Joseph Pulitzer.16 Em um outro trabalho17 inspirado na teoria bourdieusiana, associo a verossi- milhança à produção de crenças, reproduzidas pela representa- ção que jornalistas fazem da realidade. O investimento nos este- reótipos é suficiente para a credibilidade e um retomo em audi- ência. Essa atividade engendra uma dinâmica social das repre- sentações, conforme proponho no diagrama abaixo: DINÂMICA SOCIAL DAS REPRESENTAÇÕES REALIDADE impressões -> crenças t estereótipos<-credibilidade JORNALISTA 16 Schudson. Op. cit. p. 101: "as estórias [...] poderiam não ser verdadeiras mas precisavam parecer verdade ou, no mínimo, possíveis, e as pessoas vivem por seu conceito do possível." 17 Cf. Miranda (2002). 132 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    Bourdieu compara ojornalismo, que abre mão de sua auto- nomia ao submeter-se ao mercado, à ciência, caso tivesse que, a cada experimento, se submeter ao sufrágio universal. Cabe per- guntar-se até que ponto essa autonomia sempre existiu, afinal sem autonomia não há campo, pois este é constituído a partir de interesses específicos não redutíveis aos de outros campos, apre- sentados por seus agentes participantes que compartilham da il- lusio. Patrick Champagne (1995, p. 219) defende a existência de uma ambigüidade no jornalismo, ou melhor, uma "posição am- bígua" no campo do poder. Isto se deve ao fato do poderio dos efeitos gerados pelo campo. Isto é a razão pela qual os campos político e econômico têm forte interesse em dominá-lo e, de fa- to, tomam-no fortemente dominado. Ademais, no ocidente "o poder político é exercido sobre a imprensa na forma indireta de poder econômico". Zo/a e o declínio do judiciário A teoria relaciona campos sociais contextualizados em rela- ção ao campo do poder que contribuem a constituir. Como exemplo de caso, cuja contribuição, creio, pode servir de estí- mulo a pesquisas futuras, destaco um episódio da história da França em que estão relacionados o campo militar, o campo ju- rídico e o campo de produção cultural. [...] uma das funções para minhas propostas para a teoria dos cam- pos é eliminar a oposição entre reprodução e transformação, está- tica e dinâmica, estrutura e história. Como tentei demonstrar no campo literário francês na época de Flaubert e do campo artístico, na de Manet, não é possível entender a dinâmica de um campo se- não mediante a análise de sua estrutura e, da mesma maneira, tam- pouco podemos compreender esta estrutura sem a análise genética de sua constituição e das tensões entre as posições que o constitu- em, ou entre este campo em seu conjunto e outros campos, em es- pecial o do poder (Bourdieu; Wacquant, 1995, p. 57). Destarte, o episódio é o Caso Dreyfüs: o marco que sinaliza a autonomia do campo de produção cultural francês no fim do 0 domínio dojornalismo 133
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    século XIX, deacordo com Bourdieu, é a publicação do J'Accuse, de Émile Zola. Em 1894, papéis foram encontrados no escritório do exército alemão na França, que indiciariam Alífed Dreyfus, capitão do exército francês, como traidor: a caligrafia era atribuída a Dreyfus, mas isto não fora pacífico entre os peri- tos. Além da inconsistência das provas apresentadas, o oficial declarava-se inocente. Mesmo assim, fora posto incomunicável e julgado secretamente em tribunal militar, em que não pôde se- quer examinar as provas de acusação. O estigma do ser judeu fo- ra potencializado pela imprensa, jogando a opinião pública con- tra o acusado. Conseqüência: expulso do exército em cerimônia pública humilhante, Dreyfus foi enviado à Ilha do Diabo a fim de cumprir pena de prisão perpétua. Descobriu-se, três anos de- pois da condenação, que o comandante Esterhazy era o verda- deiro traidor. Abriu-se um inquérito em cujo processo, apesar das provas, Esterhazy foi inocentado. Essa era a melhor solução para o exército, pois, declarando o réu culpado, seria obrigado a revisar o processo Dreyfus. O campo jurídico no caso, que deve- ria ser relativamente autônomo, apresentava acentuada subordi- nação ao campo militar. Mesmo que se considere o fato de que Dreyfus fora julgado em um tribunal militar, a ascendência do corpo militar não-togado sobre o processo foi desproporcional. A parcialidade foi a tônica: veredito preestabelecido uma vez que o Alto Comando do Ministério da Guerra tomara público seu posicionamento, afirmando a culpabilidade do réu. O princí- pio jurídico da publicidade, que assegura o direito à discussão ampla das provas, não ocorreu (nem mesmo o réu conheceu seu conteúdo). E ainda houve a manipulação e a influência da opi- nião pública. Da sua parte, o campo de produção cultural, dife- rente do campo jurídico que se autonomizara no século XIV e que fora coroado, após a Revolução Francesa, com o Código Napoleônico de 1804, só consolida sua autonomização em fins do século XIX. No Caso Dreyfus, tudo poderia ter terminado mal se não fosse o texto de Zola, publicado no jornal L 'Aurore. Rara exceção, pois a maioria da imprensa aderira aos ataques ao militar. Zola já era naquela época um consagrado escritor, inte- grante do dito campo de produção restrita. Uma vez que o cam- po jurídico, o responsável por fazer justiça, não a praticara, veio 134 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    a público umrepresentante legítimo de um campo suficiente- mente legitimado, o campo de produção cultural, reivindicá-la. Com isto, ganhou posições no campo do poder e pôs em xeque o campo jurídico. Em 1899, o presidente francês perdoou Dreyfús e permitiu que ele voltasse a Paris e tivesse de volta a patente no exército, o que aconteceu em 1906, quando a opinião pública es- tava mais calma. [...] o fato de que [o campo jurídico] consiga se fazer reconhecer como tal contribui para produzir efeitos sociais inteiramente reais e, em primeiro lugar, sobre os que têm por profissão dizer o direi- to. Mas o que será dos juristas, encamações mais ou menos since- ras da hipocrisia coletiva, caso se tome de notoriedade pública que, longe de obedecer a verdades e valores transcendentes e uni- versais, eles são atravessados, como todos os outros agentes so- ciais, por constrangimentos como os que exercem sobre eles, sub- vertendo os procedimentos e as hierarquias, a pressão das necessi- dades econômicas ou a sedução dos sucessos jornalísticos? (Bour- dieu, 1994, p. 8). A preocupação de Bourdieu é procedente pelo que atesta a pesquisa de Dominique Marchetti (2000, p. 37) sobre o jorna- lismo de investigação, atividade de onde surge a figura do "jus- ticeiro": "Em nome das demandas ou dos apelos da "opinião pública", que estaria preocupada por uma maior transparência, eles se colocam como concorrentes das mais altas instâncias ju- diciárias e políticas [...]". Percebemos, a propósito, essa figura cada vez mais presente em alguns telejornais vespertinos brasi- leiros, para uma sociedade ciosa por justiça. Bourdieu acredita que esses efeitos nefastos só podem ser obstaculizados pelo for- talecimento da autonomia dos campos sociais. No caso do cam- po cultural, como dito, adota o "J'accusé' de Zola como o mar- co de consolidação da autonomia: uma vez que o campo jurídico não realizara suas obrigações processuais de maneira adequada, um campo social conhecido e reconhecido, o campo de produ- ção cultural, insurge-se contra a situação. Mas, não seria este o marco da autonomia do campo literário, entendido como campo de produção restrita? Caberia ao campo da indústria cultural me- recer esse estatuto? A prática da maioria da imprensa francesa 0 domínio dojornalismo 135
  • 133.
    não refletiria umasubordinação ao campo político, sobretudo o militar? Ou, de fato, a comoção por ela gerada junto à sociedade é a melhor demonstração de sua autonomia? São perguntas que Bourdieu não chega a esclarecer, em todo o percurso que o le- vou até "L'Emprise du Joumalisme", em virtude de o sociólogo concentrar-se a maior parte do tempo na "grande arte". Entretanto, considerado o campo jornalístico como autôno- mo, sua autonomia configura-se como uma faca de dois gumes à justiça - e mesmo à democracia - que requer distanciamento: as emoções que emergem da opinião pública não deveriam interfe- rir no processo jurídico, tampouco na atividade parlamentar re- gular. O problema é que, nos dias atuais, o campo do jornalis- mo, em especial a televisão, exerce um peso desproporcional sobre todos os demais campos sociais, afetando inclusive o campo legislativo e o campo jurídico. Bourdieu analisa em uma retranca de "LTmprise du joumalisme", intitulada 'Du fait di- vers à Eaffaire d'Etat', o caso da menina Karine, assassinada em uma cidade do sul da França. O homicídio foi explorado de for- ma sensacionalista por jornais locais. Estimulou artificialmente a mobilização de pessoas em associações de defesa das crianças e pelo endurecimento da legislação. O fato repercutiu, também de modo artificial, relacionado com outros casos desconexos, o que provoca o chamado efeito de circularidade da informação que superdimensiona, pela mesma via da repetição que fabrica os sucessos, fatos que, isoladamente, não teriam tanta importân- cia. A partir do crime, passaram-se menos de quatro meses para que a repercussão chegasse à capital francesa, sensibilizasse os grandes veículos de comunicação, e levasse os parlamentares a legislar pelo retomo da prisão perpétua.19 "Ao perseguir um ob- 18 Já à época, Ruy Barbosa ressaltava a imprensa britânica, que mantinha o neces- sário distanciamento, ao contrário da imprensa francesa, influenciada e influen- ciadora das emoções, que de antemão já condenavam o militar. Cf. R. Barbosa. O Caso Dreyfus. Salvador: Progresso, [1898] 1954, pp. 37-39. 19 Algo semelhante aconteceu no Brasil, à época do homicídio da atriz Daniela Perez. Sua mãe, a novelista Glória Perez, mobilizou sobretudo a televisão, campo em que tem posição de destaque, para pressionar os parlamentares fede- rais à alteração da legislação dos crimes hediondos, com vistas ao endureci- mento das penas. 136 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    jetivo midiático, oprojeto vai de encontro à serenidade de um trabalho legislativo" {La Croix, 4 de novembro de 1993 apud Bourdieu, 1994, p. 8). No mesmo número das Actes de la recherche en sciences sociales em que apareceu "L'Emprise du joumalisme", Rémi Lenoir publicou "La Parole est aux Juges: crise de la magistrature et champ joumalistique". Este texto foi em parte uma reação à publicação de Les Juges parlent, em 1992, pelo jornal Le Monde. Os juizes falantes não eram aqueles mais res- peitados por seus pares, mas por certos jornalistas. A explicação para isso reporta-se à década de 60, quando ocorreu uma "infla- ção" de jovens juristas egressos da École nationale de la magis- trature. Os valores profissionais desses jovens distinguiam-se daqueles de seus colegas da velha guarda. No decorrer dos anos 70, eles aproximaram-se de jovens repórteres de publicações como Le Monde, Libération e Le Nouvel Observateur, sobretudo os membros do Syndicat de la magistrature, cujos integrantes de orientação política à esquerda se identificavam com esses veí- culos, que favoreceram o prestígio pessoal desses magistrados, potencializado com a chegada ao poder do Partido Socialista. Lenoir (1994, p. 82) constata o voluntarismo a que se presta a imprensa, como "último recurso que altos funcionários possuem contra o poder político (sobretudo Le Monde) ou, em um nível menor, contra a hierarquia de suas corporações (sobretudo Libé- ration e Le Figaro)". Os juizes ativistas de outrora e de hoje, pe- la via da mídia, conseguiram desconsiderar o rigor dos processos de censura e zelo normais no campo judicial e estabelecer uma conversação direta com o campo do poder, isto é, com aqueles agentes mais possuidores de capital político externos ao campo em questão. A aproximação ao pólo heterônomo levou à influ- ência da lógica midiática ao interior do judiciário. A defesa dos valores da autonomia "L'emprise du joumalisme" é um "divisor de águas" naquilo que se reporta aos momentos que atribuo à obra de Pierre Bour- dieu: nos momentos estrutural-funcionalista e praxiológico, o 0 domínio dojornalismo 137
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    sociólogo observa asociedade "de fora", a partir de o corporati- vista do universal, ele a observa "de dentro". Entretanto, no arti- go em análise, reivindica valores que caracterizarão a démarche do novo momento bourdieusiano, e conserva ainda o rigor da- quele que chamo de praxiológico. Ao conjunto dessa passagem Derek Robbins (1991, p. 132ss.) define como a da "lógica das práticas à prática lógica". Com efeito, ao passar a defender valo- res, Bourdieu implementa problemática axiológica, cuja conclu- são é a de que os valores da virtude, do bem comum, que para ele estão muito balizados no ideário dos valores racionais ilumi- nistas, são viáveis à medida que a autonomia dos campos sociais é assegurada. Disto, parte a uma filosofia prática: no que é perti- nente aos materiais prioritários deste livro, lança as bases em um post-scriptum intitulado "Por um corporativismo do universal" no momento da publicação de Les règles de lart,20 em 1992, e que viria a ter outras versões, como a de "L'emprise du jouma- lisme". Bourdieu propõe, para tanto, duas estratégias para a defesa da autonomia dos campos: 1) uma estratégia esotérica de marcar firmemente os limi- tes do campo: para tentar restaurá-los da intrusão da cultura jor- nalística, entendida como as práticas e o modo de pensamento dominantes no campo, pelo reforço das exigências de ingresso no campo especializado. Alain Accardo (1995, p. 48) enfatiza a necessidade de colocar-se em exame quem entra no campo, suas origens sociais e econômicas, seu local de treinamento profis- sional (faculdade, cursos etc.). As alterações na composição de classe dos jovens jornalistas podem vir a ser uma fonte de trans- formação na dinâmica própria do campo; 2) uma estratégia exotérica de sair da torre de marfim: o próprio Zola é a inspiração a esta atitude, a partir dos valores oriundos do campo de produção específica, sobretudo o científi- co, mesmo que este tenha que se valer de meios externos ao campo, por exemplo, "no interior do próprio campo jornalístico, para tentar impor no exterior as contribuições e as conquistas 20 Na edição brasileira, ele aparece entre as páginas 369-378. 138 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    possibilitadas pela autonomia"(Bourdieu, 1994, p. 7). Esta ati- tude é caracterizada fundamentalmente por ações de contravio- lência simbólica. Ao assumir a prerrogativa que os valores são possíveis com a autonomia, ou que a autonomia viabiliza os valores universais, Bourdieu adota um tom, no mínimo, temerário, haja vista lem- brar, mediante o "se valer de meios externos" com o "tentar im- por no exterior", a passagem em Maquiavel (s. d., p. 113), cuja intenção, é claro, não é a do poder do cientista, mas o do prínci- pe: "Faça, pois, o príncipe tudo para alcançar e manter o poder; os meios de que se valer serão sempre julgados honrosos e lou- vados por todos, porque o vulgo atenta sempre para aquilo que parece ser e para os resultados". Para que se evite equívocos, destarte, Bourdieu acrescenta ao artigo pequeno post-scriptum normativo: Desvelar os constrangimentos ocultos impostos aos jornalistas e que elesfazem pesar sobre todos os produtores culturais não é — é necessário dizê-lo? - denunciar responsáveis, apontar culpados. É tentar oferecer a uns e outros uma possibilidade de se libertar, pela tomada de consciência, do domínio desses mecanismos e propor, talvez, o programa de uma ação combinada entre os ar- tistas, os escritores, os cientistas e os jornalistas, detentores do (quase) monopólio dos instrumentos de difusão. Somente tal cola- boração permitiria trabalhar eficazmente na divulgação das con- tribuições da pesquisa e também, em parte, na universalização prática das condições de acesso ao universal. (Bourdieu, 1994, p. 9; itálico do sociólogo). Mas o universal defendido por Bourdieu neste texto ainda é pouco claro no que se reporta aos métodos de seu atingimento. E importante salientar-se este aspecto, uma vez que a própria compreensão bourdieusiana de como outros autores importantes interpretam o universal está longe de ser pacífica. Penso em Ha- bermas, especificamente, não só por sua autoridade no cenário intelectual mundial, mas porque, de fato, Bourdieu faz-lhe cita- ção em mais de um texto 1 em que defende não admitir a possi- 21 Bourdieu; Wacquant (1995, p. 35ss). Também Bourdieu (1997b, p. 95ss). O domínio dojornalismo 139
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    bilidade de universaistrans-históricos. Bourdieu crê ser possível o juízo científico esclarecido nas condições econômicas e cultu- rais presentes. O que ele não admite é que se o tenha de subme- ter aos vereditos do sufrágio universal, aludindo negativamente, sobretudo, à audiência para a mídia. Assim, postula a importân- cia das estratégias esotérica e exotérica, acima mencionadas, sua ação política em defesa dos valores universais. A distância entre os produtores profissionais (ou seus produtos) e os simples consumidores (leitores, ouvintes, espectadores e tam- bém eleitores), que encontra seu fundamento na autonomia dos campos de produção especializados, é mais ou menos grande, mais ou menos difícil de superar e mais ou menos inaceitável, do ponto de vista dos princípios democráticos, segundo os campos. E, con- trariamente às aparências, ela é observada também na ordem da política, da qual contradiz os princípios declarados. Ainda que os agentes comprometidos com o campo jornalístico e com o campo político estejam em uma relação de concorrência e de luta perma- nentes e que o campo jornalístico esteja, de certa maneira, englo- bado no campo político, em cujo interior exerce efeitos muito po- derosos, esses dois campos têm em comum estarem, muito direta e muito estreitamente, situados sob o domínio da sanção do mercado e do plebiscito. Disto decorre que o domínio do campo jornalístico reforça as tendências dos agentes comprometidos com o campo político a submeter-se à pressão das expectativas e das exigências da maioria, por vezes passionais e irrefletidas, e com freqüência, constituídas como reivindicações mobilizadoras pela expressão que recebem na imprensa (Ibidem, p. 7). A autonomia do campo jornalístico, de acordo com Bour- dieu, permite-lhe a capacidade do exercício crítico e da liberda- de. Entretanto, á medida que ele se submete à lógica do merca- do, sua autonomia pouco serve além de atuar de modo seme- lhante ao da pesquisa de opinião, a qual dá suporte ao próprio campo jornalístico. Favorece o emprego calculado de uma de- magogia que reforça o fechamento do campo político sobre si: a eliminação da mediação da realidade social, seja ela a dos parti- dos políticos, associações, sindicatos, socialmente delegados pa- ra desenvolverem (no sentido de se fazerem evoluir) as opiniões, estabelece uma relação direta entre as opiniões ofertadas e os 140 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    indivíduos a elasexpostos. Os políticos eleitos, sejam eles ad- ministradores ou legisladores, vêem-se cada vez mais submeti- dos a essa opinião, não mediada pelas instâncias nas quais parti- cipam e daquelas com quem dialogam, mas mediada pela mídia que a produz muitas vezes a partir de artefatos, de imposições artificiais de problemáticas, factóides para os quais o papel da televisão é hoje preponderante. Amplia-se com isto o distanciamento do público em relação à vida pública, isto é, da política. Os profissionais da política, da sua parte, fecham-se e especializam-se, cercando-se de especia- listas, muitas vezes oriundos da própria mídia, afinal esta se tor- na seu interlocutor prioritário, com vistas ao mero atingimento dos objetivos imediatos em disputa no campo político. A distân- cia que o campo jornalístico incrementa entre o público e a polí- tica, entretanto, não é compensada por vínculos estreitos entre a audiência e os veículos de comunicação. A realidade da recep- ção é muito afastada à dos jornalistas profissionais: pouco con- segue a audiência se aproximar destes além das superfícies de papel, de receptores e do écran. Os profissionais do jornalismo e da política, neste quadro, os quais em várias passagens Bourdieu sugere integrarem um mesmo campo, retroalimentam-se da au- toridade, reforçada pela posição performativa dos campos em que atuam. Neste sentido, a televisão potencializa os problemas que surgem com o campo jornalístico. A abordagem teórica des- tes, no que se reporta especificamente ao campo televisivo, será tratada no capítulo que segue, devotado principalmente a um pequeno livro que é um grande marco da nova postura intelec- tual bourdieusiana. Odomíniodojornalismo 141
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    Localização do jornalismono campo de produção cultural Volume de Capital Proporção de tipos de Capital CE- CC+ campo de produção cultural baixa escala alta escala rnalismo CE+CC+ campo do poder CE+ CC- espaço social (nacional) CE-CC- CE = Capital Econômico; CC = Capital Cultural. Gráfico elaborado a partir de Rodney Benson: "Field Theory In comparative context: a new paradigm for media studies". In: Theory and Society 28, 1998, p. 466 142 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    Mudança estrutural docampo do poder francês Campo do poder francês; Década de 70 CE+CC+ Univ írsitário Político Econôn Jornalismo CE+ CC- CE-CC- Campo do poder francês: Década de 90 CE+CC+ CE- CC+ Econômíco Jornal Universitário CE-CC- CE = Capital Econômico; CC = Capital Cultural. Gráficos elaborados a partir de Rodney Benson, Op. c/f., p. 472, 0 domínio do jornalismo 143
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    5 A estrutura invisívelda televisão [...] certos da impunidade mais total, porque protegidos pela descontinuidade quase perfeita da crônica jornalís- tica e pela rotação rápida dos conformismos sucessivos (os que, por exemplo, levaram os jornalistas de todos os países a passar, em alguns meses, depois de 1989, da exaltação da magnífica emergência das novas democra- cias à condenação das hediondas guerras étnicas). Pierre Bourdieu, Sobre a televisão. A publicação de "I^emprise du joumalisme", analisado no ca- pítulo anterior, representa um marco daquilo que separa o pri- meiro Bourdieu, o que observa a sociedade "de fora", do segun- do Bourdieu, que intervém teoricamente "de dentro". Nesse tex- to, observa-se uma clara tensão no discurso do sociólogo que sa- ca das ferramentas conceituais que o consagraram ao mesmo tempo que parece buscar desvencilhar-se delas, adotando um tom radicalizado. Em Sur la télévision,1 livro publicado dois anos após o artigo, Bourdieu já se mostra por inteiro no lado "de dentro" da sociedade, empreendendo uma inversão em sua pers- pectiva metodológica, que o aproxima daquela que criticara em Edgar Morin de L 'esprit du temps, a qual designara de "populis- ta". A pergunta que deveria ser feita é de como foi possível ta- manho deslocamento da conduta intelectual de Bourdieu em tão curto transcurso de tempo. De fato, não foi possível. Esse deslo- camento viera sendo processado desde ao menos meados da dé- 1 Adoto a edição brasileira: Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. A estrutura invisível da televisão 145
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    cada de 70,em um movimento que Derek Robbins chama de o "da lógica das práticas à prática lógica".2 É esse movimento que toma possível o Bourdieu "de dentro" da sociedade. Bourdieu, em meados da década de 70, após ter detectado tensões em suas análises, passara a buscar modos de mapear o comportamento social. As tensões decorriam do método de análise estrutural: se, por um lado, permitia que o sociólogo questionasse as explica- ções dos agentes sociais às suas práticas, por outro, era falho, uma vez que impunha aos fatos as suposições de um observador objetivo. Este presumia que os fatos sociais decorriam da exe- cução de regras pelos agentes, deles ocultas, mas reveladas pelo observador. O sociólogo tentara superar essas tensões, em 1972, em Esquisse d'une théorie de la pratique, através da introdução da idéia de estratégia para as práticas dos agentes sociais, que não mais seriam simplesmente determinados por estruturas regu- ladoras. Quatro anos mais tarde, no artigo "Le sens pratique",3 discutiria os limites de sua análise do calendário agrário cabila, cuja representação elaborada por ele fora linear e objetivista. Se considerada nos padrões da tradição lógica ocidental, a lógica cabila era pré-lógica, embora informada por uma lógica prática, ou contextual, que o sociólogo chamara de politética ou polis- sêmica. A partir de 1975, com a criação da revista Actes de la re- cherche en sciences sociales, Bourdieu publicou artigos, atacan- do várias formas de objetivismo. Em "L'invention de la vie d'artiste",4 analisa a carreira de Flaubert como dependente da "produção [...] de uma 'forma' literária cujo conteúdo constituía uma representação da sociedade da França, mas que derivava do poder formal dela" (Robbins, 1991, p. 138). O comentador suge- re que, embora a essa época Bourdieu corresse o risco de tentar inventar uma lógica da prática aos agentes ou personagens si- tuados no interior de um mundo social, este se aproximara da sugestão de que a produção científica da ciência social e da ci- ência política, de fato, eram assertivas de poder eufemizadas. 2 Baseio-me no seu capítulo 9, p. 132-150. 3 In: Actes de la Recherche en Sciences Sociales, n. 7, p. 43-86, fév. 1976. 4 In: Actes de la recherche en sciences sociales, n. 2, p. 67-94, mars 1975. 146 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    Ele concluiu quea praxiologia apolítica que idealizara era uma forma dissimulada de interesse político, mesmo quando cultiva- va o desinteresse da ciência. Como visto, em 1975 Bourdieu também publicara, em co-autoria com Yvette Delsaut, "Le cou- turier et sa griffe",5 pelo qual descreve um tipo de produção da crença em que a assinatura legitima a obra, a griffe valoriza a roupa. Bourdieu passa, então, a preocupar-se com a assinatura Bourdieu. No campo acadêmico, ela estava associada às Édi- tions de Minuit. Destarte, o sociólogo tenta analisar o significa- do objetivo de sua "grife": para participar do domínio editorial, sua obra requereria estar (1) investida de autoridade, e que pode- ria (2) mobilizar o poder coletivo dos leitores de Éditions de Minuit e, a partir disto, suas idéias adquirirem o estatuto de (3) idéias-força, que podem (4) se impor tanto no campo acadêmico como no do poder. O poder simbólico como poder de constituir o dado pela enuncia- ção, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a vi- são do mundo e, deste modo, a ação sobre o mundo, portanto o mundo; poder quase mágico que permite obter o equivalente da- quilo que é obtido pela força (física ou econômica), graças ao efei- to específico de mobilização, só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário. Isto significa que o poder simbóli- co [...] se define numa relação determinada - e por meio desta - entre os que exercem o poder e os que lhe estão sujeitos, quer di- zer, isto é, na própria estrutura do campo em que se produz e se reproduz a crença. O que faz o poder das palavras e das palavras de ordem, poder de manter a ordem ou de a subverter, é a crença na legitimidade das palavras e daquele que as pronuncia, crença cuja produção não é da competência das palavras (Bourdieu, 2000, p. 14-15). Esta citação baliza, no plano da história das idéias, o deslo- camento de Bourdieu da defesa daquilo que chamaria de "obje- tivação participante" (diferente da "observação participante", que acarreta adoção de uma falsa subjetividade). Com efeito, a objetivação participante envolve o "fazer o subjetivo objetivo e o objetivo subjetivo" (Robbins, 1991, p. 141). O sujeito Bour- 5 In: Áctes de la Recherche en Sciences Sociales, n. I, p. 7-36, jan. 1975. A estrutura invisível da televisão 147
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    dieu passa aser situado pelo próprio sociólogo no interior de sua estrutura objetivista tridimensional. Ao mesmo tempo, subjetiva os conceitos objetivistas, pelos quais havia objetivado os fenô- menos observados anteriormente. O próximo passo seria objeti- var a presença imanente do sujeito Bourdieu, sem a mediação de sua estrutura objetivista tridimensional, isto é, na própria objeti- vidade da prática cultural que pudesse ser abarcada por sua sub- jetividade. A reivindicação bourdieusiana da objetivação parti- cipante é essencial ao entendimento do momento contemporâ- neo do sociólogo. Este tipo de análise, no entanto, segundo ele, é de difícil realização, em virtude de que o sociólogo compete com outros atores nos campos sociais, que possuem interesses diversos e conflitantes, todos lutando pelo monopólio da objeti- vação objetiva: Quando no jogo analisado se trata [...] de manter um metadiscurso a propósito de todos os demais discursos [...], quando se trata, em uma palavra de situar-se meta, quer dizer, por cima, graças só a força do discurso, é grande a tentação de servir-se do conhecimen- to das estratégias empregadas pelos diferentes atores, a fim de fa- zer triunfar a própria "verdade" para descrever a verdade do jogo e, assim, triunfar no dito jogo. [...] De certa forma, é necessário haver renunciado à tentação de ser- vir-se da ciência para intervir no objeto [...]. Só a sociologia da so- ciologia - e do sociólogo - pode conferir certo domínio dos fins sociais que se podem buscar através de objetos científicos direta- mente perseguidos. A objetivação participante que, sem dúvida al- guma, representa o cume da arte sociológica, só pode ser alcança- da se descansa em uma objetivação a mais completa possível do interesse por objetivar [...], assim como no questionamento de dito interesse e das representações que induz (Bourdieu e Wacquant, 1995, p. 195-196). Bourdieu compreendeu que imprimira aos agentes uma perspectiva "liberadora", caso saibam manipular estrategica- mente as estruturas que os dominam. Entretanto, a percepção dessas estruturas deveria ser tomada a priori daquilo que o so- ciólogo presumia serem as estruturas. Consciente disto, ele pas- sa a postular a restauração da imanência das estruturas, através da lógica das práticas, pois é por meio desta que ocorre a estru- 148 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    turação das estruturas.Ao mesmo tempo, o sociólogo assimilou que o discurso científico é apenas mais uma das muitas repre- sentações possíveis do mundo social. Sua visão do mundo era expressão de sua própria posição particular no interior da luta histórica. Com efeito, Bourdieu havia começado a internalizar sua análise de modo que pudesse ver a si como o porta-voz de- legado de um grupo social que compartilhasse de um habitus similar. Grupo social que, pelo domínio teórico e prático das conjunturas, pudesse mobilizar o apoio de outros grupos. Ou se- ja, por volta de 1978, Bourdieu já vislumbrava a transformação de seu pensamento em idéia-força, combinando a autoridade do indivíduo engajado ao poder do grupo. Em Questions de socio- logie (1980), a fotografia de Bourdieu é estampada na capa (di- ferente da proposta das duas obras imediatamente anteriores, La distinction - em que a capa da primeira edição é a foto do qua- dro "O Gourmet", de Schalken - e Le sens pratique - cuja foto estampa o meio rural argelino). Parece manifestar ter coisas a dizer: "Ele não fala sobre o poder simbólico nesta seleção por- que ele o representa como seu praticante. Ele fala sobre a neces- sidade do sociólogo de não estar fora do jogo - horsjeu -, como um intelectual desapegado e não-jomalístico" (Robbins, 1991, p. 150). Na foto, Bourdieu conversa e gesticula com naturalidade, mas sentado atrás de sua mesa de trabalho: é apenas o começo, a partir do qual se ergue e ruma em direção às ruas, onde já seria fácil de encontrá-lo à época da publicação de Sur la télévision. Este livro, de impacto social inversamente proporcional a sua extensão e profundidade teórica, é a transcrição adaptada de dois programas realizados em 18 de março de 1996 pelo sistema audiovisual do Collège de France. O livro gerou na França, du- rante vários meses, controvérsias e a mobilização dos principais jornalistas. O objetivo de Bourdieu foi demonstrar que a televi- são expõe a perigos o campo cultural, o campo político e a de- mocracia. Ao invés do denuncismo, aos ataques ad hominem, que parte significativa da imprensa percebeu na obra, é através da compreensão dos mecanismos invisíveis, isto é, das estruturas que constituem o campo televisivo que será possível uma trans- formação qualitativa deste instrumento. O sociólogo não preten- de ser nostálgico em sua análise, em defesa de uma televisão A estrutura invisível da televisão 149
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    cultural, cujos programasseriam tão-só educativos, nem tam- pouco adotar ante à televisão uma postura de recusa. Quer criti- car uma complacência narcísica existente no meio jornalístico, que o toma predisposto a lançar sobre si mesmo um olhar falsa- mente crítico e, assim, reprodutor das estruturas sociais vigentes. Busca uma análise verdadeiramente crítica que, da sua parte, possa "contribuir para dar ferramentas ou armas a todos aqueles que, enquanto profissionais da imagem, lutam para que o que poderia ter se tomado um extraordinário instmmento de demo- cracia direta não se converta em instmmento de opressão simbó- lica" (Bourdieu, 1997a, p. 13). Os intelectuais devem participar da televisão, mas os convites devem ser aceitos sob certas con- dições que visem ao domínio máximo dos instrumentos de pro- dução: deve-se negociar a limitação do tempo, reivindicar a li- berdade de assunto, os chamamentos à ordem, que se podem dar através da comunicação verbal ou não-verbal. Hoje se aceita participar de programas de televisão, sobretudo, para fazer-se ser visto, ou seja, não importa tanto o que se tem para dizer, mas ser percebido, mesmo que isto seja apenas uma exibição narcísica. Bourdieu, no entanto, acredita que os pesquisadores têm como missão a restituição à sociedade das contribuições da pesquisa. A televisão é um espaço privilegiado para isto, embora o ci- entista, ou toda pessoa que de fato tenha alguma coisa a dizer nela, deva previamente interrogar-se se o que será dito é impor- tante ao público daquele programa; deve-se levar em conta o es- pectador, porém sem o discurso a ser enunciado ser submetido a uma lógica reducionista. A preservação do discurso articulado é uma forma segura de resistência à manipulação e da liberdade de pensamento. Esta articulação é menos presente no discurso televisivo, que prima pelas idéias rápidas e, portanto, curtas, as quais são reunidas por um processo de edição também muito fragmentário. No caso de uma cobertura difícil, como a de guer- ra, o empobrecimento da necessária contextualização é intensifi- cado. "A pressão do tempo (produzir na urgência uma reporta- gem de curta duração) limita o espaço dos possíveis: é mais fácil filmar as conseqüências de uma guerra que suas causas, cenas de desgraça que fornecer em um minuto uma análise compreensiva dos acontecimentos" (Joinet, 2000, p. 91). No que diz respeito 150 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    ao pensamento derradeirode Pierre Bourdieu, cabe a pergunta se o seu constructo analítico passado continuaria a ter validade epistemológica aos dias atuais. Diria que sim. Sua teoria não é constituída por conceitos fechados: ele condena a teoria teórica, a do fetichismo dos conceitos e da sua substanciação. O que o sociólogo defende é a validade heurística desses conceitos para que sejam relacionados com as experiências vivenciadas nas práticas. Com efeito, à medida que os objetos analisados por ele mudaram no curso da história, seus conceitos também foram se transformando, desdobrando-se, mas não sendo de todo descar- tados. Além disto, Sur la télévision representa amadurecimento de sua démarche intelectual. Sem abandonar os critérios de cienti- fícidade na análise, o que realiza é uma objetivação participante cujo produto, a análise, procura converter em idéia-força. Para tanto, recicla, por exemplo, designações como a do conceito de habitus, ao qual se refere como "óculos",6 a fim de estabelecer uma comunicação mais imediata com um público de não- acadêmicos. As disposições do público visado pelo sociólogo recusariam o jargão técnico que caracteriza o pensamento socio- lógico, inviabilizando, com isto, a intenção do autor de angariar ampla difusão para suas idéias. Conduta à conquista de audiên- cia que lembra a da própria criticada, a televisão, embora não esteja na ordem do dia desta a defesa dos valores universais e de uma Realpolitik da razão. Enfim, para tentar demonstrar a vali- dade epistemológica do pensamento de Bourdieu, procurarei de- tectar as marcas nesse "livro-panfleto" que mantêm relação com o momento que chamo de praxiológico do autor, e mesmo do momento que chamo de estrutural-funcionalista. Estas duas de- signações por mim arbitradas correspondem a um contínuo de incompletude - como de todo pensamento intelectual - cujas marcas que me estimulam a denominá-las desse modo é o enfo- que etnológico sobre os grupos sociais da primeira fase e, na se- gunda fase, a consolidação dos conceitos e teorias bourdieusia- nos fundamentais. Meu critério, arbitrário, se expressa também ao momento contemporâneo, que chamo de corporativista do 6 Em La distinction, elejá fizera a mesma alusão. A estrutura invisível da televisão 151
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    universal, cuja marcaque me estimulou para tanto é a explicita- ção de uma problemática axiológica no pensamento do autor. A televisão na dinâmica estrutural do campo jornalístico Bourdieu (1997a, 75) esclarece que o campo televisual "é um subcampo que está englobado no campo jornalístico". Nos anos 50, a televisão francesa ocupava uma posição subordinada nele; um duplo domínio era exercido sobre os jornalistas televi- sivos: do campo político, por dependerem dele nas subvenções estatais e fontes de informação; e do próprio campo jornalísti- co,7 no qual os jornalistas que detinham maior capital cultural e simbólico eram os que trabalhavam na imprensa. Na atualidade, a relação está invertida, o que se percebe com a crise dos jor- nais. É fundamental para o método sociológico a comparação histórica das estruturas. E no plano da história estrutural do conjunto do universo que as coisas mais importantes aparecem. O que conta em um campo são os pesos relativos; um jornal pode permanecer absolutamente idêntico, não perder nenhum leitor, não mudar em nada e ser no entanto profundamente transformado porque seu peso e sua posi- ção relativa no espaço se acham transformados. Por exemplo, um jornal deixa de ser dominante quando seu poder de deformar o es- paço à sua volta diminui e ele já não dita a lei (Ibidem, p. 60). Os historiadores do jornalismo estabeleceram a oposição en- tre os jornais que dão news e os que dão views: Enquanto que os primeiros priorizam as variedades, as notícias cotidianas, osfait- divers, os segundos mais difundem pontos de vista e análises. A primeira condição favorece a aquisição do capital econômico, a segunda, do capital simbólico. O ideal para um jornal ser uma autoridade é que encontre um equilíbrio maximizado entre esses dois capitais, isto é, ter uma grande tiragem associada à influên- cia cultural e política. Apesar dos níveis de dependência, o jor- nalismo é um campo que possui leis próprias e que é definido 7 Ver nota 14 do capítulo anterior. 152 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    por sua posiçãono espaço social pelas atrações e repulsões que sofre na relação com outros campos. Por ter leis próprias, pode- se considerá-lo autônomo ou a possibilidade de sua autonomia; mas ela é relativa, haja vista os fatores externos ao campo que interferem em seu interior. De modo semelhante, a compreensão do que acontece em uma emissora de televisão deve levar em conta a posição que ela ocupa no campo, em consideração ao universo de relações objetivas que estabelece com as demais emissoras que concorrem consigo. As relações de força presen- tes na concorrência no campo definem a posição dos participan- tes mais por elementos imperceptíveis do que percebidos. Uma emissora pode melhor posicionar-se ou contribuir para transfor- mar a estrutura do campo ao acumular capital específico, tipo de poder que se retraduz em fatias de mercado. Nem os jornalistas, tampouco os telespectadores, percebem a estrutura do campo, apenas seus efeitos. Para o profissional, o peso da instituição conta a sua valorização no mercado de trabalho, mas, dependen- do das posições que conquista no campo, tem valor também para a instituição: seu prestígio constitui capital simbólico que a dis- tingue, e cuja posse facilita o melhor posicionamento da empre- sa no campo. Um campo é um espaço social estruturado, um campo de forças - há dominantes e dominados, há relações constantes, permanentes, de desigualdade, que se exercem no interior desse espaço - que é também um campo de lutas para transformar ou conservar esse campo de forças. Cada um, no interior desse universo, empenha em sua concorrência com os outros a força (relativa) que detém e que define sua posição no campo e, em conseqüência, suas estra- tégias (Ibidem, p. 57). Destarte, a concorrência no interior do campo não se dá so- mente por conquistas econômicas, mas também simbólicas. O que um jornalista escreve ou deixa de escrever depende da posi- ção que ele ocupa nesse campo, isto é, o poder específico que possui o veículo em que trabalha, cuja medida considera o acú- mulo de capital econômico pelas fatias de mercado, o capital simbólico, e que pode, para completar, levar em conta a posição da mídia nacional no âmbito mundial, em que a televisão norte- A estrutura invisível da televisão 153
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    americana exerce dominaçãoeconômica, técnica, e, sobretudo, simbólica. O detentor de um cargo de confiança, da posição es- tatutariamente superior no campo, tem ajustadas suas categorias de percepção às exigências objetivas, o que o leva a supor ser natural, e "evidente", exibir o que exibe nos noticiários: "nas di- ferentes posições no interior mesmo do meio jornalístico, os di- ferentes jornalistas consideram desigualmente evidente o que ele toma por evidente" (Ibidem, p. 36). Ou seja, a evidenciação do evidente individual só acontece à medida que o agente social de- tenha a opinião legítima ou a dominante no interior do campo. A propósito, Béatrice Joinet (2000, p. 87), ao verificar a existência na França dos chamados "jornalistas sentados" e "jornalistas em pé" (os primeiros ligados ao espaço físico da redação ou do es- túdio; os segundos, à reportagem nas ruas), distingue "a existên- cia de lógicas de produção da informação diferentes no seio de uma mesma redação". A importância do campo jornalístico na sociedade deve-se ao fato de ele possuir o monopólio sobre os instrumentos de produção e de difusão em grande escala da informação. Por in- termédio desses instrumentos, atinge desde o simples cidadão até os mais influentes. Os demais campos chocam-se cotidiana- mente com esse monopólio. Apesar do poder, o jornalismo ocu- pa uma posição subordinada nos campos de produção cultural; em termos do grau de legitimidade atribuída aos produtos sim- bólicos dele provenientes. Entretanto, o meio exerce uma domi- nação que decorre da capacidade de controle da expressão pú- blica, ao acesso à notoriedade ou, o que dá no mesmo, à existên- cia em sociedade. Disto apreende-se o porquê de os jornalistas televisivos receberem socialmente uma consideração na maioria das vezes desproporcional a seus méritos. No entanto, mesmo os mais reconhecidos no interior do campo ocupam posição estru- turalmente inferior em relação ao campo do poder. Por vezes se aproveitam de categorias que podem ocasionalmente dominar, como os intelectuais, aos quais gostariam de estar nivelados. Isto explicaria, em parte, a tendência no jornalismo ao antiintelectua- lismo. Podem impor ao conjunto da sociedade seus princípios de visão do mundo, sua problemática difundida em grande escala. Mesmo ao levar-se em conta que o campo é dividido e diferen- 154 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    ciado, portanto suscetívelde abrigar as mais diversas opiniões, para atravessar o filtro jornalístico é preciso deter-se certa quan- tia em capital simbólico. O filtro é constituído por um conjunto de pressupostos e de crenças que os jornalistas partilham entre si; é um sistema de categorias de pensamento, uma relação com a linguagem, um princípio de seleção que os profissionais de te- levisão operam que definirá o quê e o como mostrar da realidade social e das produções culturais. Não há discurso (análise científica, manifesto político e etc.) nem ação (manifestação, greve e etc.) que, para ter acesso ao debate público, não deva submeter-se a essa prova da seleção jornalística, isto é, a essa formidável censura que os jornalistas exercem, sem sequer saber disso, ao reter apenas o que é capaz de lhes interes- sar, de "prender sua atenção", isto é, de entrar em suas categorias, em sua grade, e ao relegar à insignificância ou à indiferença ex- pressões simbólicas que mereceriam atingir o conjunto dos cida- dãos (Bourdieu, 1997a, p. 67). As experiências enunciadas sob a forma de preceitos éticos do tipo "neste jornal isto não é mostrado" são a retradução da estrutura do campo, expressa por intermédio de um agente que ocupa certa posição em seu interior. Bourdieu não quer dizer com isto que os agentes são meros epifenômenos da estrutura, mas uma Ausgeburt des Felds,8 quer dizer, uma emanação do campo. "Tal ou qual intelectual em particular, tal ou qual artista só existe como tal porque existe um campo intelectual ou artísti- co" (Bourdieu; Wacquant, 1995, p. 71). Defende, pois, o método de análise estrutural para que se elucidem os mecanismos de re- produção social. No campo cultural, existe a oposição entre o consumo mais ou menos cultivado, que na prática se desdobra em gêneros "puros" ou em "comerciais". Para o jornalismo ser- ve — ou serviria — o mesmo, se não se tivesse que levar em conta que o pólo comercial prepondera sobre o outro de modo despro- 8 Aqui Bourdieu se inspira nas experiências da física alemã, em que as partículas são atraídas ou repelidas no contexto de um campo magnético. Os agentes esta- riam para as partículas como os campos sociais para o magnético. Recentemen- te, compara a relação dos agentes ao campo com os mobiles de Calder. Cf. Pin- to, 2000. A estrutura invisível da televisão 155
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    porcional ao quese dá em outros campos. No campo acadêmico, por exemplo, as regras próprias do campo tendem a eliminar os transgressores que por ventura tentem empreender uma lógica do cavalo de Tróia, a da heteronomia, e legitimam os que a elas se conformam, como se observa mediante referências e citações que os autores recebem. Mas no jornalismo praticamente não há sanções negativas nem positivas: a crítica ou a sátira estabele- cem via de sanção negativa, e a reprise, de positiva. Apesar de as pessoas terem seu quinhão de responsabilidade, as estruturas, e as posições ocupadas nelas, colaboram em muito para confor- marem as suas ações. Desse modo, tanto os campos de produção cultural quanto os próprios agentes do jornalismo estão limita- dos estruturalmente pelo campo jornalístico. [...] Em outras palavras, um campo, ele próprio cada vez mais do- minado pela lógica comercial, impõe cada vez mais suas limita- ções aos outros universos. Através da pressão do índice de audiên- cia, o peso da economia se exerce sobre a televisão, e, através do peso da televisão sobre o jornalismo, ele se exerce sobre os outros jornais, mesmo sobre os mais "puros", e sobre os jornalistas, que pouco a pouco deixam que problemas da televisão se imponham a eles. E, da mesma maneira, através do peso do conjunto do campo jornalístico, ele pesa sobre todos os campos de produção cultural (Bourdieu, 1997a, p. 81). O grau de heteronomia do campo jornalístico começa a ameaçar o campo cultural no momento em que alguém de fora dele passa a nele interferir, quer seja por ações materiais ou por opiniões. A televisão estimula a heteronomia ao investir de "au- toridade" pessoas não pertencentes aos campos na arena de dis- cussão. O risco da heteronomia para os produtores culturais de- ve-se ao fato de dependerem do público, que, por sua vez, cada vez mais consome informações de intermediários externos, não comprometidos com as regras e com a razão de existir dos cam- pos específicos. Como é a lógica comercial que orienta as reda- ções, fica mais difícil, por exemplo, publicar-se um livro de poe- sias, pois os poetas possuem menos ou nenhum espaço nos jor- nais. A heteronomia também se manifesta, como mencionado, pela lógica do cavalo de Tróia: são introduzidos produtores hete- 156 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    rônomos em umcampo autônomo, isto é, produtores que sabem que não terão êxito no cumprimento das regras internas de seu campo específico e, de fato, não as cumprem, pois obtêm retor- no não das recompensas imanentes, mas da projeção construída artificialmente pela televisão - ou outro veículo de comunica- ção. A autonomia é condição para o progresso científico. Bour- dieu escreve que quanto mais se possui capital social específico, mais se resiste aos ataques à autonomia, ao contrário quanto menos se o possui, mais heterônomo se é, mais se tende a cola- borar para a lógica comercial.9 Defende condições de produção ao progresso e ao acesso ao universal. Alain Accardo (1991, p. 194-5) afirma que, neste sentido, se "para além do conhecimento objetivo que constrói a sociologia devesse propor uma mensa- gem, o essencial seria que, graças a este conhecimento objetivo, toma possível de entrar no jogo sem ilusões, mensagem pro- priamente revolucionária, sem dúvida, e utópica, mas de um utopismo racional. Tudo ao mostrar o arbitrário do jogo social [...]". Mas não basta o conhecimento das estruturas e do arbitrá- rio do jogo para que os agentes sociais autônomos se protejam dos efeitos danosos do campo jornalístico; é necessária a consti- tuição de condições de possibilidade sociais - materiais e sim- bólicas - à defesa. Neste sentido, uma vez que a dificuldade de retomo da produção de um campo autônomo é proporcional à complexidade da idéia, a superação dos obstáculos depende de os produtores saberem difundi-la e terem boas condições para is- to, ou seja, que detenham a propriedade dos meios de difusão. Para tanto, os intelectuais podem estar unidos entre si, com as- sociações, sindicatos etc., com o objetivo de qualificarem, pela via da educação, a recepção dos consumidores de programas de televisão. 9 A matemática, por exemplo, é um campo bastante autônomo, no qual os produ- tores têm por clientes apenas seus concorrentes. Bourdieu defende que, para a autonomia, é preciso construir "essa espécie de torre de marfim no interior do qual se julga, se critica, se combate mesmo, mas com conhecimento de causa; há confronto, mas com armas, instrumentos científicos, técnicas, métodos" (Bourdieu, 1997a, p. 89). A estrutura invisível da televisão 157
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    O tempo damensagem e a democracia Para o campo televisivo ter audiência é fundamental. A bus- ca por ser o primeiro é retraduzida pela urgência, a procura do furo de reportagem, a velocidade e o fast-thinking. Temas são impostos ao público por terem sido de antemão impostos aos profissionais; são-lhes impostos porque decorrem da concorrên- cia a qual todos se submetem, que gera a seleção da notícia: es- colhas, presenças e ausências; tudo de modo muito rápido. E um velho tópico do discurso filosófico: a oposição feita por Pla- tão entre o filósofo que dispõe de tempo e as pessoas que estão na ágora, a praça pública, e que são tomadas pela urgência. Ele diz, mais ou menos, que, na urgência, não se pode pensar. É franca- mente aristocrático. E o ponto de vista do privilegiado que tem tempo, e que não se interroga muito sobre seu privilégio. [...] o certo é que há um elo entre o pensamento e o tempo. E um dos problemas maiores levantados pela televisão é a questão das rela- ções entre o pensamento e a velocidade. Pode-se pensar com velo- cidade? Será que a televisão, ao dar a palavra a pensadores que supostamente pensam em velocidade acelerada, não está condena- da a ter apenas fast-thinkers, pensadores que pensam mais rápido que sua sombra...? [...] A resposta é, ao que me parece, que eles pensam por "idéias feitas" (como dizia Flaubert) [...]; idéias acei- tas por todo mundo, banais, convencionais, comuns" (Bourdieu, 1997a, p. 39-40). A idéia feita é como um dado, um problema resolvido, uma comunicação que é instantânea por não existir em certo sentido, isto ê, por ser tão-somente aparente. Este tipo de comunicação é vazio, recheado de lugares-comuns sem outro conteúdo além da instantaneidade da informação. Desde "Le marché des biens symboliques", Bourdieu reconhece o alto índice de estereotipi- zação dos produtos da cultura média, típicos da indústria cultu- ral. Os lugares-comuns cotidianos unem tanto emissores quanto receptores; são consensuais. O pensamento, ao contrário, é sub- versivo, pois desmonta o senso comum pela demonstração de razões. A televisão, no entanto, evita perder tempo com elas; quer acomodar todos, como se fosse em um ônibus. Os fatos- omnibus são aqueles que devem atrair a atenção de todos, sem 158 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    chocar ninguém. Sãovazios, ou quase. Não envolvem disputa, nem conflito, já que se propõem a formar consenso. Para conse- guirem essa proeza, não podem abordar nada de importante. As notícias de variedades constituem esse tipo de informação. Além de atraírem a atenção de todos, são importantes por consumirem tempo. Mas, se a raridade do tempo é algo patente em televisão, o dispêndio do tempo em futilidades, com fatos-omnibus, cum- pre a função de ocultamente do que é importante, uma vez que este não está sendo exibido. Um fato-omnibus é construído com base nas categorias de percepção de um suposto receptor médio rebaixado. Não deixa, porém, de produzir efeitos políticos e cul- turais, tais como a banalização e a despolitização. Com eles, a sociedade, em matéria de informação, orienta-se rumo a uma di- visão entre cidadãos de primeira e segunda categorias, isto é, en- tre os que podem, por exemplo, ler os jornais de qualidade e os que só podem consumir a televisão. O fosso entre a bagagem po- lítica dos primeiros e dos últimos tende a aumentar, o que resul- ta no desinteresse pela política de uma proporção significativa da população. Há revoluções que atingem as bases materiais de uma sociedade, aquelas que são evocadas comumente - nacionalizam-se os bens do clero — e revoluções simbólicas, as realizadas pelos artistas, ci- entistas ou grandes profetas religiosos, ou por vezes, mais rara- mente, pelos grandes profetas políticos, que atingem as estmturas mentais, isto é, que mudam nossas maneiras de ver e de pensar. [...] Se um instrumento tão poderoso quanto a televisão se orien- tasse um pouquinho que fosse para uma revolução simbólica desse tipo, eu lhes asseguro que apressariam em detê-la. Ora, ocorre que, sem que ninguém tenha necessidade de pedir, apenas pela lógica da concorrência, e dos mecanismos que evoco, a televisão não faz nada de semelhante. Está perfeitamente ajustada às estruturas men- tais do público (Ibidem, p. 64). O valor democrático da televisão também é discutível. Des- de La distinetion, Bourdieu preocupa-se com os debates: há os verdadeiramente falsos e os falsamente verdadeiros. Nos verda- deiramente falsos, os debatedores são comparsas, pois se conhe- cem intimamente, que simulam o pertencimento a partidos opos- tos. Em geral, são sempre os mesmos convidados que deles par- A estrutura invisível da televisão 159
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    ticipam e opúblico tem pouca ou nenhuma consciência dos la- ços existentes nos bastidores. Um mundo fechado que define e discute seus próprios temas. Nos debates falsamente verdadei- ros, ocorrem várias operações de censura: em um primeiro nível, a originada no apresentador, que é o profissional a quem os es- pectadores mais se referenciam, o que faz intervenções restriti- vas e impõe o assunto; a problemática imposta é com freqüência absurda: "devem-se queimar as elites?" (Ibidem, p. 44). A res- posta, com isto, pouco importa. Entretanto, a regra do jogo que ele impõe varia de acordo com a posição que o jogador, ou me- lhor, o debatedor ocupa na sociedade. Um sindicalista não rece- be a mesma deferência que um acadêmico. Pelos sinais de im- portância, no implícito não-verbal da comunicação verbal, per- cebe-se a distribuição desigual da palavra: olhares, silêncios, gestos, mímicas, movimentos dos olhos, bem como a própria pa- lavra, sua entonação etc. O apresentador distribui os tempos de palavra, manipula a urgência ao interromper pensamentos inteli- gentes mediante a prerrogativa da falta de entendimento do pú- blico, e ainda pode lidar com respeito ou desdém, atenção ou impaciência. São sinais muitas vezes imperceptíveis, de cuja manipulação muitas vezes ele mesmo não tem consciência. O estúdio é composto pelos profissionais e os convidados. Os primeiros fazem todo um trabalho preliminar para decidir quem serão os últimos. É importante que a composição de um debate aparente equilíbrio democrático. Todavia, há pessoas que jamais serão convidadas e outras que o serão. Os particiantes do campo televisivo dão preferência àqueles que estão sempre dis- postos a participar dos programas. O desequilíbrio no debate po- de ser também percebido nos papéis de cada participante: en- quanto alguns estão nele para se explicar, outros estão para "ex- plicar, para proferir um metadiscurso" (Ibidem, p. 49). Patrick Champagne (1997, p. 69) atenta ao fato de que os dominados di- ficilmente são ouvidos e, quando o são, tendem a partir daquilo que é falado deles, por intermédio de um discurso emprestado. Isso é notório quanto à televisão, cujas reportagens colhidas jun- to a eles em um dado dia reproduzem o que assistiram nos tele- jomais do dia anterior: "ouvimo-los [...] falando às vezes deles mesmos na terceira pessoa ("os jovens querem um local para se 160 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    reunirem" diz, porexemplo, um deles numa reportagem). Mais exatamente, os jornalistas tendem, sem o saber, a recolher seu próprio discurso O dispositivo previamente montado é de- terminante; são conversações com as fontes, a construção do ro- teiro ou o script do programa, algo que pode ser mais ou menos rígido. Jacques Siracusa (2000, p. 106) observa a força da pala- vra na edição televisiva. Embora "os documentos coletados co- mo os difundidos sejam audiovisuais, a organização das atuali- dades televisivas repousa sobre a divisão e a hierarquização do modo de tratamento das sonoras e das imagens mudas". Portan- to, a banda de som orienta desde o início a edição. A improvisa- ção está praticamente anulada; o veículo, seus agentes e produ- tos, não podem se arriscar com a palavra livre. O jogo do debate televisivo possui regras tácitas: nem tudo pode ser dito, entretan- to, o modelo a ser seguido é o da luta livre; enfrentamentos, des- de que mantida a linguagem formal, para o alimento maniqueís- ta dos estereótipos. A televisão é um meio de comunicação pouco autônomo que sofre uma série de contingências. As pressões do mercado favo- recem uma conivência dos jornalistas, embora permaneçam concorrentes entre si: os interesses comuns associados à sua po- sição no campo de produção simbólica, somados às estruturas cognitivas comuns - o habitus -, tendem a uma cumplicidade objetiva. Pode-se e deve-se lutar contra o índice de audiência em nome da democracia. Isso parece muito paradoxal porque as pessoas que defendem o reino do índice de audiência pretendem que não há nada de mais democrático (é o argumento favorito dos anunciantes e dos publicitários mais cínicos, reforçado por certos sociólogos, sem falar dos ensaístas de idéias curtas, que identificam as criticas das pesquisas de opinião - e do índice de audiência - com a crítica do sufrágio universal), que é preciso dar às pessoas a liberdade de julgar, de escolher ("são seus preconceitos de intelectuais elitistas que os levam a considerar tudo isso como desprezível"). O índice de audiência é a sanção do mercado, da economia, isto é, de uma legalidade externa e puramente comercial, e a submissão às exi- gências desse instrumento de marketing é o equivalente exato em matéria de cultura do que é a demagogia orientada pelas pesquisas A estrutura invisível da televisão 161
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    de opinião emmatéria de política. A televisão regida pelo índice de audiência contribui para exercer sobre o consumidor suposta- mente livre e esclarecido as pressões do mercado, que não têm na- da de expressão democrática de uma opinião coletiva esclarecida, racional, de uma razão pública [...] (Bourdieu, 1997a, p. 96-97). Nem todos os integrantes do campo aceitam a situação: são grandes as tensões; há submissão na maioria dos casos pela ne- cessidade, embora também existam os ambiciosos que aceitam de tudo a fim de ocupar os melhores postos. O jornalismo é uma das profissões em que se encontram mais pes- soas inquietas, insatisfeitas, revoltadas ou cinicamente resignadas, em que se exprimem muito comumente (sobretudo do lado dos dominados, evidentemente) a cólera, o asco ou o desencorajamen- to [...]. Mas se está longe de uma situação em que essas amarguras ou esses repúdios poderiam tomar a forma de uma verdadeira re- sistência, individual e sobretudo coletiva (Ibidem, p. 5.3-54). Como necessita de audiência, a televisão evita o tédio e, por- tanto, o entretenimento é a sua preocupação antes de tudo. Isso faz com que a política, pouco excitante ao grande público, seja tratada como mais um assunto e, de preferência, retirado do ho- rário nobre. Não é só a política que declina, são também as ma- térias investigativas, as análises, que cada vez mais perdem for- ça para os programas de auditório, os talk-shows. Os repórteres- investigativos perdem espaço para os animadores. Bourdieu acu- sa os agentes do campo televisivo que utilizam as expectativas do público como justificativa para o rebaixamento da programa- ção, que deveria servir para informar ou educar divertindo. O que eles exercem é a projeção sobre os espectadores de suas próprias visões de mundo, suas tendências políticas. A atitude de parte significativa dos apresentadores, por exemplo, é a de prio- rizar "o combate sobre o debate, a polêmica sobre a dialética, e a empregar todos os meios para privilegiar o enffentamento entre as pessoas (os políticos, sobretudo) em detrimento do confronto entre seus argumentos, isto é, do que constitui o próprio desafio do debate" (Ibidem, p. 135). Subjaz a esta observação uma críti- ca que é dirigida a Jürgen Habermas. Bourdieu (1997b, p. 80) receia em fazer crítica rápida e superficial do pensamento do fi- 162 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    lósofo alemão. Noentanto, discorda da concepção dele de esfera pública e da ação comunicativa: [...] a representação da vida política que propõe Habermas, a partir de uma descrição da emergência da "esfera pública", tal como aparece nas grandes nações européias no século XVIII, com todas as instituições (jornais, clubes, cafés e etc.) que acompanham e sustentam o desenvolvimento de uma cultura cívica, oculta e re- calca a questão das condições econômicas e sociais que deveriam ser preenchidas para que se instaure a deliberação pública própria a conduzir a um consenso racional, quer dizer, um debate onde os interesses particulares em concorrência recebessem a mesma con- sideração e onde os participantes se conformassem a um modelo ideal do "agir comunicacional", que tentasse compreender o ponto de vista dos outros e de dar-lhes os mesmos pesos que a seu ponto de vista próprio. Como ignorar que, com efeito, [...] os interesses de conhecimento enraízam-se nos interesses sociais, estratégicos ou instrumentais, que a força dos argumentos não é quase nada e- ficaz contra os argumentos da força (ou mesmo contra os desejos, as necessidades, as paixões e sobretudo as disposições), e que a dominação não está jamais ausente das relações sociais de comu- nicação?.10 10 Habermas (1987) investiga os fundamentos da racionalidade prática. Ele cons- trói a tese de que os discursos, os proferimentos lingüísticos comuns, conec- tam-se necessariamente a condições de validade universais. Esta concepção choca-se ffontalmente à de Bourdieu, para quem os conflitos existentes entre os agentes processam-se, de modo semelhante, na disputa pelo monopólio do dis- curso legítimo e, por conseguinte, na luta pela deslegitimação dos discursos dos pares rivais. Como visto em capítulo anterior, Bourdieu refuta a possibilidade do pleito habermasiano da trans-historicidade dos universais. Para ele, esses universais são históricos e constituídos com base na relativa autonomia dos campos sociais que gerenciam sua racionalidade interna. A luta no interior do campo acontece entre agentes sociais comunicativamente competentes; os que não possuem essa competência ficam de fora do campo, e à mercê das even- tuais imposições de problemáticas dele emanadas. De acordo com Edward Li- Puma (1995, p. 23), a concepção de Bourdieu resulta em uma "forte reivindica- ção da indivisibilidade do conhecimento e do interesse humano, mais forte que a articulada por Habermas [.,.], que leva a uma epistemologia posicionai. O que sabemos de nós mesmos e de nossa sociedade depende inteiramente de nossa "órbita" no interior de um campo de forças". A estrutura invisível da televisão 163
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    A interpretação deBourdieu ao superdimensionamento das contendas, na abordagem que os jornalistas realizam do meio político, é que a relação social estabelecida por eles baseia-se em essência no contato pessoal com os agentes políticos: as con- fídências, os rumores, os mexericos. Por conseguinte, o conteú- do dos projetos tende a esvaziar-se pelo que é percebido nas tá- ticas solidárias e de confronto entre os participantes do campo político. Uma visão cínica dp mundo político passa então a ser adotada nas notícias, entrevistas e comentários, como se a polí- tica fosse composta tão-somente por pessoas sem convicções e apenas guiadas por suas ambições. A televisão, de acordo com Bourdieu, exerce vários tipos de censura sobre a política; censu- ras políticas', sobre os convidados, na imposição de assuntos; na imposição das condições de comunicação; na limitação do tem- po de argumentação; sobre os jornalistas, nos critérios para a es- colha dos que ocuparão postos dirigentes na emissora; e na au- tocensura a que os quadros subalternos se submetem, haja vista serem meros "privilegiados" que conseguiram escapar do enor- me exército de reserva no mercado de trabalho. A manutenção de sua profissão precária depende do conformismo político. O tipo de relação que a televisão adota com a política, somado aos vultosos cachês de suas estrelas, toma o veículo cada vez mais distante da realidade social e mesmo daquela dos jornalistas que ocupam posições dominadas no campo. A sociedade, da sua par- te, mais se desencanta com a política, desencanto proporcional - ou quase - ao consumo televisivo. As questões importantes são desviadas em direção ao espe- táculo. A atualidade se reduz a uma sucessão desconexa de acontecimentos, sem antecedentes nem conseqüências. Bourdieu (1998b, p. 22) é um crítico contumaz do pensamento que espe- taculariza o mundo social e as relações sociais que nele são en- gendradas; das inconseqüências da concepção teórica de Guy Debord." "Instituir como regra de vida o "anything goes,,]2 pós- modemo, e permitif-se jogar simultânea ou sucessivamente em todos os tabuleiros, é lograr o meio de "ter tudo e não pagar na- '1 A sociedade do espectáculo. Lisboa: Afrodite, 1972. 12 Bourdieu comumente grafa em inglês para referir-se ao vale-tudo pós-moderno. 164 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    da", a críticada sociedade do espetáculo e o vedetismo da mí- dia, o culto de Sade13 e a reverência por João Paulo II Re- chaçando a noção de espetáculo, o que pretende atentar é ao que designa como amnésia estrutural, seus efeitos resultam da lógi- ca da novidade, da produção da representação do mundo instan- taneísta e descontinuísta, sem ontem nem amanhã, isto é, do aqui e agora. Essa visão des-historicizada e des-historicizante, atomizada e ato- mizante, encontra sua realização paradigmática na imagem que dão do mundo as atualidades televisivas, sucessão de histórias apa- rentemente absurdas que acabam todas por assemelhar-se, desfiles ininterruptos de povos miseráveis, seqüências de acontecimentos que, surgidos sem explicação, desaparecerão sem solução, hoje o Zaire, ontem Biafra e amanhã o Congo, e que, assim despojados de toda necessidade política, podem apenas, no melhor dos casos, suscitar um vago interesse humanitário. Essas tragédias sem laços, que se sucedem sem perspectiva histórica, não se distinguem realmente das catástrofes naturais, tomados, incêndios florestais, inundações, que também estão muito presentes na "atualidade", porque jomalisticamente tradicionais, para não dizer rituais, e so- bretudo fáceis e pouco dispendiosas de cobrir. Quanto às suas ví- timas, não são mais suscetíveis de provocar uma solidariedade ou uma revolta propriamente políticas do que os descarrilamentos de trens e outros acidentes (Bourdieu, 1997a, p. 140-141). A televisão apresenta uma visão de mundo que não oferece ponto de apoio ao cidadão comum e, com isto, a relação dele com a política se toma similar à que vive com o esporte de alto nível, que o reduz à condição de torcedor. Destarte, a política toma-se negócio de profissionais, da qual mesmo os grupos mais politizados se desengajam. O zapping do público é um antídoto aos seus programas, mas por si só não basta para mudar a ordem estabelecida. Ao contrário, fenômenos como os da xenofobia e de radicalismos nacionalistas podem emergir da exploração, pe- 13 De fato, Debord realizou um filme "marginal", em 1952, intitulado Hurlement enfaveur de Sade ("Brado em favor de Sade"), foi um dos fundadores do mo- vimento situacionista, cuja publicação é a revista Internationale situationniste, e teve destaque no Maio de 68. A estrutura invisível da televisão 165
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    los meios decomunicação, das "paixões primárias humanas" (Ibidem, p. 11). A dialética do extraordinário O campo da economia ocupa posição de destaque no pen- samento de Bourdieu e, em especial, em Sur la télévision, por exercer forte pressão sobre o veículo: a lógica concorrencial é um importante mecanismo de censura presente no campo. O so- ciólogo não está preocupado com uma economia política das comunicações por considerá-la elementar: "É evidente que há coisas que um governo não fará a Bouygues sabendo que Bouy- gues está por trás da TF1" (Bourdieu, 1997a, p. 20). O que ele pretende é a análise empírica das relações de determinados campos de produção relativamente autônomos, de uma classe particular de produtos, e o público de consumidores que estes reúnem, funcionando às vezes como um campo, sem que deixe com isto de estar determinado por sua posição no campo das classes sociais. As teorias econômicas tendem a reduzir o con- sumidor ao seu poder de compra, ou então, os produtos a sua função técnica, supostamente homogênea a todos. Destarte, a in- tenção é desvendar mecanismos ocultos que favorecem o exer- cício das censuras e a manutenção da atual ordem simbólica. A televisão manipula com a cultura, o simbólico, para melhor ser- vir-se dele. Contudo, os participantes do campo televisivo são tão manipulados quanto manipuladores. Melhor se forem mani- pulados, pois sem tomarem consciência de sê-lo, a manipulação é mais eficiente. A violência simbólica é uma violência que se exerce com a cum- plicidade tácita dos que a sofrem e também, com freqüência, dos que a exercem, na medida em que uns e outros são inconscientes de exercê-la ou de sofrê-la. A sociologia, como todas as ciências, tem por função desvelar coisas ocultas; ao fazê-lo, ela pode mini- mizar a violência simbólica que se exerce nas relações sociais e, em particular, nas relações de comunicação pela mídia (Ibidem, p. 22). 166 luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    A vulnerabilidade datelevisão ao campo econômico, sobre- tudo pela necessidade das vultosas verbas publicitárias, tende a favorecer o ocultamento do que conflita com os interesses do mundo da economia, de onde sai o seu sustento. A televisão oculta mostrando: ao invés de mostrar a informação necessária, mostra outra coisa qualquer; quando mostra o que é preciso, apresenta os fatos de tal modo que eles se tomam insignificantes ou o sentido não corresponde mais à realidade. Bourdieu reivin- dica o artigo de Champagne, A visão mediática, no qual o autor descreve como a mídia constrói a representação dos fenômenos de "subúrbio", e como os jornalistas selecionam aí um aspecto inteiramente particular da vida social em função de categorias de percepção que são próprias dos jornalistas. "O que pode ser banal para outros poderá ser extraordinário para eles ou ao con- trário" (Ibidem, p. 26). A percepção dos jornalistas é organizada e determinada por estruturas invisíveis, do habitus, produto da educação e da história individual, que os leva a verem certas coisas, de certas maneiras e não outras. O princípio de seleção, por sua vez, é a procura do sensacional, do espetacular. Perce- bem-se aqui, na produção da notícia, semelhanças da concepção bourdieusiana a da newsmaking, mas uma distinção fundamen- tal: no institucionalismo da newsmaking, são as estruturas da ca- deia produtiva que mais pesam ao resultado do produto final, a notícia. Para Bourdieu, concorrem também as do habitus. Por- tanto, os agentes sociais adquirem uma importância maior em sua teoria. Só "sobrevive" à lógica interna do campo jornalístico o agente que possui um habitus ajustado às regras internas do campo, verificáveis nas tarefas rotinizadas. Mas, paradoxalmen- te, o habitus, que tende a orientar as práticas desses agentes à reprodução da estrutura, é que viabiliza um espaço de transfor- mação. O agente com um habitus dissonante ao campo pode ten- tar exercer mecanismos de contraviolência simbólica, que po- dem vir a provocar efeitos na estrutura. Porém, isto é difícil. Observa-se na realização dos produtos televisivos um pri- mado da dramatização dos fatos. Os acontecimentos são drama- tizados em dois sentidos: ao serem postos em cena, pela via das imagens, e pela acentuação de seus caracteres, a gravidade, o exagero, o caráter dramático. Para os subúrbios franceses, são A estrutura invisível da televisão 167
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    as rebeliões queinteressam. O jornalismo televisivo associa permanentemente palavras à imagem, que cumprem a mesma função da legenda em fotografia, de reforço de sentido. O prin- cípio de seleção dramatizador favorece as falsas representações, que são acompanhadas de fantasias, medos e fobias. Um aconte- cimento, ou a sua construção, pode ganhar uma evidência nos noticiários desproporcional ao fato em si. A reiterada dramatiza- ção do ocorrido, de dadas características dos protagonistas e de sua ação, pode ser mecanismo de aflora- .ento de emoções. A te- levisão as alimenta e, ao mesmo tempo, condena seus efeitos, ti- po linchamento. As vítimas em geral são pertencentes ao grupo que se associa ao perfil de os atores sociais de um caso isolado. Quando o clima de violência já está instalado, o veículo retoma com um discurso de pretensão humanitária, de denúncia e apelos por não-violência. Para os jornalistas, da sua parte, o que impor- ta é o extraordinário, ruptura com o ordinário, com o cotidiano. Destarte, os profissionais buscam cotidianamente, nos aconte- cimentos ordinários, o extraordinário. Isto explica em parte a importância auferida a eventos como variedades, assassinatos, incêndios, inundações e etc., conhecidos como "fait divers". Também não ser ordinário em relação aos concorrentes constitui o extraordinário. Até aqui tenho relacionado o pensamento contido em Sur la télévision com a teoria desenvolvida no momento que chamo de "praxiológico" com vistas a demonstrar que a inversão de Bour- dieu corresponde mais a uma nova démarche intelectual do que a um desapego epistemológico do esquema analítico que desen- volvera. Não obstante, procuro neste tópico destacar marcas do pensamento de Bourdieu do momento "estrutural-funcionalista", pertinentes às obras que enfoco neste livro. Diria que elas exis- tem, e isto é bem visível na discussão que o sociólogo faz da busca dos jornalistas do extraordinário no ordinário. Esta preo- cupação de Bourdieu remete à lembrança de Un art moyen. Ne- le, detecta que a prática fotográfica cumpre umafunção de inte- gração do grupo familiar que, em seu sentimento de unidade manifestado nas práticas sociais, reproduz o ordinário. Partindo de Durkheim, Bourdieu reconhece que o extraordinário da festa fortalece e recria o grupo. Neste sentido, digo que a televisão é a 168 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e oCampo da Comunicação
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    festa doméstica. Parao veículo, Bourdieu também observa o ex- traordinário no ordinário. Compreende-se-o, em parte, no con- texto da apresentação de Champagne em "La télévision dans le cercle de famille", versão francesa do texto de Lynn Spigel.14 Champagne, apoiando-se em textos de Bourdieu como Un art moyen e "Sociologues des mythologies et mythologies de socio- logues", reconhece uma importância bem mais significativa de uma sociologia da família ao entendimento dos usos sociais dos meios técnicos, do que as proposições efetuadas pelo discurso midiológico. A perspectiva mantém sua força para a pesquisa contemporânea relativa às práticas sociais voltadas, por exem- plo, à Internet. A busca do extraordinário decorre da concorrên- cia no campo televisivo, que em vez de produzir originalidade, como acontece em outros campos, gera uniformidade e banali- zação. Tende, pois, a produzir, paradoxalmente, a banalização desse extraordinário. Isto é agravado pelo fato de que, na área, os profissionais têm o costume de copiarem-se mutuamente, o que acarreta a circulação circular da informação. Os perigos políticos inerentes ao uso ordinário da televisão devem- se ao fato de que a imagem tem a particularidade de produzir o que os críticos literários chamam o efeito de real, ela pode fazer ver e fazer crer no que faz ver. Esse poder de evocação tem efeitos de mobilização. Ela pode fazer existir idéias ou representações, mas também grupos. As variedades, os incidentes ou os acidentes cotidianos podem estar carregados de implicações políticas, éticas e etc. capazes de desencadear sentimentos fortes, freqüentemente negativos, como o racismo, a xenofobia, o medo-ódio do estran- geiro, e a simples narração, o fato de relatar, to record, como re- pórter, implica sempre uma construção da realidade capaz de exercer efeitos sociais de mobilização (ou de desmobilização) (Bourdieu, 1997a, p. 28). Jean-Louis Fabiani (1988, p. 103) atenta ao fato de como o efeito de real, inicialmente associado aos grandes centros urba- nos que produzem imagens televisivas, passa a ocorrer no inte- 14 Actes de la Recherche en Sciences Sociales, n. 113, juin 1996. É o segundo ca- pítulo do livro Make room for TV. Television and lhefamily ideal in Postwar America. Chicago: The University ofChicago Press, 1992. A estrutura invisível da televisão 169
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    rior à medidaque se processa a produção local de imagens. Fa- biani pesquisou o impacto da produção regional na Córsega. No artigo do pesquisador, o efeito de real, em um contexto de des- centralização da produção, é positivo para a cultura; cabe atentar que, à medida que há a descentralização, incrementam-se as lu- tas simbólicas: "contribui ao questionamento das representações estereotipadas que eram, elas mesmas, o produto de um processo de desrealização e de folclorização Entretanto, a conjuntu- ra contemporânea a que Bourdieu incide, não tende à descentra- lização, mas à concentração da produção ou, ao menos, de sua homogeneização. O problema que se acentua no dito "mundo globalizado" intervém nos princípios de visão do mundo, isto é, na tendência ao processo de uniformização das classificações culturais, as quais são requisitos para a mobilização política. Nesse processo, a televisão é fundamental: as manifestações para adquirirem importância devem ser televisadas; mais ainda: "é preciso cada vez mais produzir manifestações para a televi- são, isto é, manifestações que sejam de natureza a interessar às pessoas de televisão, dadas as suas categorias de percepção, e que, retomadas, amplificadas por elas, obterão sua plena eficá- cia" (Bourdieu, 1997a, p. 30). Essa tendência favorece o surgi- mento do acontecimento-choque, resultante da tentativa de rup- tura com o efeito de interleitura da circularidade da informação. Em dado período de tempo, há pouca ou nenhuma variação na forma e no conteúdo dos mais diferentes meios de comunicação; no máximo, o que muda é a ordem de apresentação das notícias. As diferenças são imperceptíveis ao espectador médio. A situa- ção decorre, em parte, da produção ser coletiva. Entretanto, ao refletir-se sobre essa coletividade, deve-se ter em conta não o coletivo de uma determinada redação, mas a totalidade que for- ma o campo jornalístico. A concorrência interna estimula a in- terleitura: "Ninguém lê tanto jornais quanto os jornalistas, que, de resto, tendem a pensar que todo mundo lê todos os jornais. (Eles esquecem que, em primeiro lugar, muita gente não os lê e, em seguida, que aqueles que os lêem lêem um só." (Ibidem, p. 32). No entanto, o que poderia ser um excesso, para os profis- sionais é um indispensável instrumento de trabalho; a interleitu- ra, prática a que Champagne chama de "revista de imprensa". 170 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    além de facilitarna elaboração da pauta de trabalho, permite a permanente atualização do agendado, no contexto global do campo. Como mais cedo ou mais tarde todos tratarão dos mes- mos temas, muitos personagens ou produtos tornam-se sucessos produzidos pela mídia. O efeito de interleitura, somado ao fato de que os jornalistas possuem habitus muito semelhantes e con- vivem muito - ou somente - entre si, resulta em um fechamento que produz uma circulação circular da informação, um modo eficaz de censura. A entrevista coletiva, o comunicado à imprensa não servem para nada: a análise é supostamente aborrecida, e é impossível passá-la em um jornal, a menos que seja assinada por um nome célebre, que faz vender. Para romper o círculo, é preciso proceder por transgressão, mas a transgressão não pode ser senão através da mídia; é preciso conseguir produzir um "choque" que interesse ao conjunto da mídia ou pelo menos a um dos meios de comunicação e que poderá ser reforçado pelo efeito da concorrência (Ibidem, p. 35). Christa Berger (1998, p. 194) aporta como exemplo disso o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que produziu um acontecimento-choque com repercussão na im- prensa de Porto Alegre. A ação do MST junto ao prédio do Mi- nistério da Fazenda, em 16 de janeiro de 1996, na capital gaú- cha, durou dez horas e foi quase toda pacífica. Entretanto, 15 minutos de uma "tática de provocação" renderam, no dia seguin- te, fotografia na primeira página do jornal Zero Hora. Além das diferenças que existem nas respectivas dinâmicas organizadoras dos "campos sociais" em que participam o periódico e o movi- mento, possuem uma característica em comum. "Num e noutro a luta entre os componentes é pela palavra. Elevada à capital ca- paz de propiciar lucro material ou simbólico, é disputada pelos militantes no MST e pelos jornalistas na redação de Z/f'. A despeito do apelo ao extraordinário, porque os concorren- tes se copiam, ele se banaliza. Todavia, resta aos grupos sociais que não possuem a sua existência pública contemplada pelo campo jornalístico tomarem extraordinária sua ação, como no acontecimento-choque, a fim de passarem a existir na mídia e, A estrutura invisível da televisão 171
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    com isto, suasidéias terem a chance de tomarem-se idéias- forças, mas que também podem banalizar-se em função da uni- formização, o que os impeliria à ação contínua. Esta é uma ten- são que detecto no que chamo de "dialética do extraordinário". O extraordinário integra a unidade familiar em frente ao apare- lho da televisão, potencializa o efeito de real, transmitindo uma impressão de caos, de desagregação, de ausência de regras ou, ainda e reivindicando Durkheim, de anomia, que afeta essa inte- gração, e engendra uma censura estrutural que favorece a cons- trução censurada da realidade social, selecionada e eufemizada; por outro lado, estimula a ação dos grupos sociais organizados a romperem, pela via do extraordinário, a circulação circular da informação. A tensão deve-se ao fato de que a construção desse encadeamento teórico tem origem no momento estrutural- funcionalista, onde preponderam as funções internas ao grupo. No momento atual, no entanto, mesmo reconhecendo que Bour- dieu pleiteie a homologia do campo social ao campo de produ- ção específico, é sobre este que o sociólogo concentra o olhar. Demais, a fragmentação percebida hoje nos espaços sociais de interação contrasta com a idéia de integração.15 Intelectuais versus televisão A agenda social cada vez mais é definida pela televisão na lógica da circularidade da informação: os assuntos a serem dis- cutidos, os problemas importantes, os acontecimentos e as re- percussões. Mesmo que um tema tenha sido lançado por um jor- nal impresso, ele só ganha importância, toma-se central, isto é, conquista eficácia política, quando retomado pela televisão. Para ter peso no campo, um jornalista deve ter seu próprio programa. A medida que aumenta a concorrência e o peso simbólico da televisão no campo jornalístico, ela ajusta-se ao tipo de visão da informação da qual só os jornais sensacionalistas dela se incum- biam. O conjunto do campo passa, então, a dar mais valor ao ex- 15 Cf. Honneth, 1986. 172 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    traordinário, ao espetacularizado,aos esportes, às notícias de va- riedades. As notícias de variedades [...] têm por efeito produzir o vazio polí- tico, despolitizar e reduzir a vida do mundo à anedota e ao mexeri- co (que pode ser nacional ou planetário, com a vida das estrelas ou das famílias reais), fixando e prendendo a atenção em aconteci- mentos sem conseqüências políticas, que são dramatizados para deles "tirar lições", ou para os transformar em "problemas da so- ciedade" [...] (Bourdieu, 1997a, p. 73). O sensacionalismo possibilita o despertar de paixões e pul- sões primárias, cujo efeito pode resultar na mobilização baseada por sentimentos e as mobilizações caritativas, como nos tele- thons,'6 mas também agressivas, à beira do linchamento simbó- lico (e não só simbólico). Bourdieu (Ibidem, p. 85), ao reivindi- car a ação intelectual corporativista em defesa dos valores uni- versais, condena aqueles, como Guy Debord, cujo pretenso pen- samento crítico acerca do espetáculo "serve de álibi a um falso radicalismo cínico e capaz de neutralizá-lo". Ao mesmo tempo, acredita que de modo oportunista alguns jornalistas utilizam in- formações das ciências sociais com o objetivo de desestabilizar o campo intelectual. O que defendo acima de tudo é a possibilidade e a necessidade do intelectual crítico, e principalmente crítico da doxa intelectual que os doxósofos difundem. Não há verdadeira democracia sem ver- dadeiro contrapoder crítico. [...] É por isso que considero o traba- lho de demolição do intelectual crítico, morto ou vivo - Marx, Ni- etzsche, Sartre, Foucault, e alguns outros classificados em bloco sob o rótulo de "pensamento 68"17 tão perigoso quanto à demo- lição da coisa pública e inscrevendo-se no mesmo empreendimen- to global de restauração (Bourdieu, 1998b, p. 17-18). 16 Neologismo, a partir do inglês: maratona de televisão. Lipovetsky (1994) apon- ta a existência nessas campanhas eletrônicas de caridade de uma "ética indo- lor". Independente dos seus méritos, "Criança-esperança" é um exemplo deste tipo de programa, realizado no Brasil. 17 Alusão à obra de Luc Ferry e Alain Renaut, autores tratados em capítulos ante- riores deste livro. A estrutura invisível da televisão 173
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    A liberdade, istoé, a eliminação de todo tipo de dominação, a que estão submetidos tanto os jornalistas como os espectado- res, é possível pela tomada de consciência das estruturas que a mantêm. Não acho que os profissionais estejam cegos. Eles vivem, creio, num estado de dupla consciência: uma visão prática que os leva a aproveitar ao máximo, freqüentemente com um certo cinismo, al- gumas vezes sem se darem conta disso, as possibilidades que lhes oferece o instrumento midiático do qual dispõem (eu falo dos po- derosos entre esses profissionais); uma visão teórica moralizante e carregada de indulgência por eles mesmos, que os leva a negar publicamente a verdade do que fazem, a mascará-la para eles pró- prios. [...] Essa dupla consciência [é] muito comum nos poderosos; já se dizia que os adivinhos romanos não conseguiam se olhar sem rir [...] (Ibidem, p. 105). Bourdieu (1997a, p. 79) acredita que para o campo jornalís- tico, na prática, pode-se pensar "em alianças transjomais que permitiriam neutralizar certos efeitos que nascem da concorrên- cia". Em Contre-feux, ele melhor esclarece a posição: "A im- prensa, o jornalismo escrito, tem uma posição estratégica. Ela pode oscilar para o lado das forças do mercado e da televisão (como é o caso da França, pelo menos), submetendo-se a seus temas, seus personagens, seu estilo etc. Mas a imprensa pode também, em vez de servir como repetidora da televisão, traba- lhar para difundir armas de defesa" (Bourdieu, 1998, p. 113). 174 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    Conclusão Por uma Realpolitik darazão comunicativa Com efeito, precisa-se operar na prática, ao recorrer aos meios ordinários da ação política - criação de associa- ções e de movimentos, manifestações e manifestos e etc. - à Realpolitik da razão, que visa instaurar e refor- çar, no seio do campo político, os mecanismos capazes de impor as sanções próprias a desencorajar os des- respeitos à norma democrática [...] e a encorajar ou im- por as condutas conformes; visando assim favorecer a instauração de estruturas sociais de comunicação não- distorcidas entre os detentores do poder e os cidadãos, notadamente por uma luta constante contra o embargo sobre os instrumentos de produção e de difusão da in- formação em grande escala. Pierre Bourdieu, Méditations pascaliennes. A pesquisa realizada para a elaboração deste livro partiu das críticas que Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron dirigiram à concepção que homogeneiza a cultura de massas, apresentada por Edgar Morin no início dos anos 60. Para os primeiros, os agentes sociais expressam no dia-a-dia práticas culturais distin- tas, longe de serem passivas, mesmo quando os bens simbólicos consumidos são homogêneos. Visando esclarecer como é mani- festada essa diversidade, faz-se necessário descer do "céu das idéias" e devotar-se à pesquisa de campo. Conduzindo-se deste modo, Bourdieu detectou que, na sociedade pouco diversificada, os grupos sociais tendem a reproduzir em suas práticas culturais Por uma Realpolitikda razão comuncativa 175
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    as funções sociaisordinárias, notadamente as que visam assegu- rar a integração do grupo. No entanto, à medida que a sociedade se complexifica, os agentes passam a orientar-se por uma lógica da distinção, pela qual se soma à luta de classes uma luta de classificações. A lógica da distinção é verificada entre os mais diversos integrantes de um campo social: incluindo os veículos de comunicação, como na oposição entre os jornais sérios e os sensacionalistas. Tanto uns quanto outros, em virtude de seu grau reduzido de autonomia e à lógica concorrencial que os submete, tendem à uniformização de seus conteúdos. Portanto, a apresentação do extraordinário, recurso típico do sensacionalis- mo à conquista de seu público, tende a fazer-se presente também na imprensa "séria". Como tomar aceitáveis ao seu leitor médio os efeitos rechaçados nos concorrentes ilegítimos? Neutralizá- los, eufemizá-los, a fim de resguardarem o estatuto dominante de sua legitimidade. Percebe-se aí, na elaboração discursiva, a relativa homologia que há entre os campos da produção e o do consumo. Com efeito, esse recurso é empregado pelos agentes sociais dominantes dos dois campos, a fim de garantirem a im- posição dos seus discursos. Nesta esfera de legitimidades, cabe fazer notar que o consumidor do produto jornalístico legítimo é, com freqüência, produtor de discursos, de opiniões, isto é, de le- gitimidades a partir de campos concorrentes, notadamente o po- lítico e o econômico. Destarte, a manipulação que Bourdieu denuncia vai além da noção cpie, três décadas antes, Hans Magnus Enzensberger di- fundira (e presente na crítica cultural de Adorno e Horkheimer, nos anos 40 do século XX). É bem verdade que as últimas críti- cas que o sociólogo dirige ao poderio da televisão, fazem-no rei- vindicar a associação de esforços com vistas à viabilização de formas de controle ou de propriedade dos meios de difusão da informação, o que leva o olhar bourdieusiano a voltar-se, com efeito, à ordem da dominação material, ênfase contemporânea Cf. H. M. Enzensberger. "Baukasten zu einer Theorie der Medien". In: Kurs- buch, 20. Frankfurt: Suhrkamp Verlag, Mârz 1970. Adoto a edição brasileira: Elementos para uma teoria dos meios de comunicação. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1978. 176 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    que o aproximado pensador alemão e das análises de estudiosos da perspectiva materialista ligados à chamada "economia políti- ca das comunicações", embora receba críticas de alguns deles, como Nicholas Gamham.2 Não obstante, defendo que o sociólo- go vai muito além dessa ordem, haja vista todo o vigor de sua perspectiva acerca da dominação simbólica que, longe de ser negligenciada, é cada vez mais reconhecida e cujos postulados teóricos que a interpretam inclusive foram praticados por ele próprio em seus últimos dias, na ação política exercitada através de uma contraviolência simbólica; momento contemporâneo e apoteótico das idéias inventariadas por este livro. Na dinâmica que empreendeu, Bourdieu investiu, pois se existe alguma pers- pectiva teleológica em seu pensamento não é a da teleologia da história, mas a das estratégias individuais provenientes do reco- nhecimento das posições sociais que levam às tomadas de posi- ção, à consecução de uma trajetória social. Ele reconheceu sua posição de autoridade, de legitimidade nos campos sociais por onde transitava e, ao mesmo tempo, seu habitus que o dispunha a incidir protetivamente, pela via da ação crítica, sobre as estru- turas sociais visadas. Com efeito, o paradigma teórico da sociologia bourdieusiana possibilita a análise do poder por diversos enfoques, desde ma- cro até microestruturais. As relações de poder podem ser avalia- das entre os campos sociais, entre os agentes e, mesmo entre os campos de diferentes espaços sociais; desde o poder nas relações humanas até o poder nas relações internacionais. E mais: o po- der presente em cada um dos indivíduos, que os domina, os das estruturas internalizadas do habitus. A espiral da dominação pa- rece infinita; é de suas formas que as lutas sociais se estruturam e se dinamizam. Mas a tomada de consciência das estruturas que a sustentam pode ser um poderoso fator emancipatório, embora, para o esquema analítico, seja impossível normativamente a oposição de uma não-dominação. Algo semelhante pode ser dito dos mecanismos de poder que são exercidos no âmbito da co- municação. A teoria, como salienta Rodney Benson, permite vá- rias aplicações à pesquisa em comunicação. No que se refere es- 2 Cf. Gamham, 1995. Por uma Realpolitikda razão comuncativa 177
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    pecifícamente às práticascomunicacionais mediadas pelos ins- trumentos técnicos, serve tanto às referidas análises macro como microestruturais. Se o olhar bourdieusiano, no que se reporta à mídia, voltava-se no fim da vida ao poder exercido no âmbito macroestrutural, verificado no libelo que é a coletânea de artigos de Contre-feux, é que o processo contemporâneo de reacomoda- ção do capital, popularizado pelo termo "globalização", cuja doutrina político-econômica que lhe subjaz em essência é a ul- traliberal, potencializa os interesses do campo econômico sobre a mídia, cujo processo de restruturação corporativa que funde e concentra capitais faz pesar a lógica do mercado sobre todos os demais campos sociais. O campo da comunicação é central nesta dinâmica por mediar relações entre os diversos campos sociais, tendendo, ao que postula Nick Couldry,3 ao engendramento de metacapital midiático. Por outro lado, o olhar contemporâneo não invalida as pesquisas microestruturais. Ao contrário, deve- riam mesmo ser estimuladas. A propósito, o diálogo do esquema analítico com os aportes do interacionismo simbólico, hoje em- preendido por muitos pesquisadores, é incentivo para tanto.4 Aqui ressurge a questão já tratada na introdução. Afinal, ha- veria um campo da comunicação? Bourdieu em seus primeiros escritos adotara a designação campo da indústria cultural (porta- dor da tendência à heteronomia do que é aqui estudado, sem com isso deixar de ser definido por Bourdieu como "campo") e, nos últimos tempos, campo jornalístico, campo midiático ou campo da mídia (denominação, em princípio, descartada como opção aos objetivos deste livro, pelo grau de imprecisão ou inde- terminação, ou melhor, de instrumentalização do conceito de "mídia").5 Portanto, acredito, sim, ser razoável, mesmo sabendo que no caso brasileiro não ocorre o preenchimento das condi- 3 Cf. Couldry, 2003b. O metacapital midiático é produzido pelo poder da mídia; um poder que é exercido sobre outras formas de poder, presentes em outros campos e perpassando - com influência - por sobre eles, a exemplo do meta- capital estatal decorrente do poder de Estado, que consegue interferir sobre a dinâmica dos mais diversos campos. 4 Cf, por exemplo, Fillieulle, 2001. 5 Opção adotada por Nick Couldry (2003b), inspirado em Patrick Champagne e Rodney Benson, tratando, porém, de precisar o seu conceito de mídia. 178 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    ções que caracterizamum campo stricto sensu, adotar a denomi- nação campo da comunicação, porque a partir dela se pode ter uma maior clareza dos encadeamentos do campo específico com o campo econômico, uma vez que Bourdieu, ao concentrar-se por demais nas relações entre o jornalismo e a economia (tratada de modo genérico), percebidos como pares opostos, não se de- tém suficientemente em nuanças promovidas por áreas como as da publicidade e propaganda e das relações públicas. O jorna- lismo deve ser entendido ao menos no contexto destas duas dis- ciplinas. Em essência elas são o principal veículo de heterono- mia no campo. Mas, ao mesmo tempo, somadas ao jornalismo constituem o campo da comunicação lato sensu, mesmo reco- nhecida a impossibilidade do preenchimento de todos os requisi- tos que o sociólogo lista para a constatação da emergência de um campo. O primeiro critério a avaliar-se a existência ou não de um campo social é seu grau de autonomia. Apesar de alta propensão a heteronomia, desde a gênese das três áreas em seu processo de institucionalização individual seguida da coletiva - que enveredou na chamada comunicação integrada - institui- ram-se regras próprias ao campo por seus agentes. Construíram- se critérios de legitimidade, de racionalidade burocrática, de fato de uma Eigengesetzlichkeit no sentido weberiano. Outro critério que se considera é o capital social específico, detentor de valor superior no interior do campo: para as três áreas, postulo ser o da credibilidade', é ela que impulsiona no campo as reconver- sões de capitais, a manutenção de ganhos materiais, e a valori- zação de posições institucionais ou pessoais, além de - e até por isso - viabilizar a incidência do campo sobre os demais campos sociais. Os agentes sociais que compõem o campo da comunicação estão em luta entre si e entre os demais campos sociais pelo mo- nopólio da difusão dos discursos legítimos. Nesta disputa pela legitimação discursiva, os integrantes do campo da comunicação envolvem-se em interesses e contendas - em contendas porque há o interesse - com os integrantes do campo político. Essa inte- ração difusa constitui o que Patrick Champagne chama de "campo político-midiático". O que pretendo dizer com isto é que, embora postule a existência de um campo da comunicação Por uma Realpolitikda razão comuncativa 179
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    pelas razões acimaexpostas, que não seriam as únicas, isto não invalida o valor heurístico da designação. Ela é fruto do mesmo tipo de apropriação que realiza Champagne, da lógica dos múl- tiplos encadeamentos, a qual já observara em capítulo anterior: uma esfera das práticas sociais que, sob certo ângulo, pode ser observada como campo jornalístico, por outro, como campo po- lítico-midiático ou, ainda, como campo da comunicação. São es- ses campos produtores dos discursos legítimos que difundem o sistema de classificações sociais que moldará a sociedade e, ne- la, o mundo da cultura. É a partir do arbitrário cultural que os agentes sociais constróem a própria imagem que fazem de si. O paradoxo é que esses campos produtores de discursos têm legi- timado discursos que favorecem a destruição da autonomia dos campos sociais e, com ela, os próprios campos sociais. Diferente do pensamento de Edgar Morin, que detecta no egocentrismo o problema da self-deception atual,6 o de Bourdieu constata que ela resulta da destruição da estrutura das classifica- ções: os indivíduos vêem-se desclassificados à medida que con- tinuamente se encontram em maior número colocados do lado de fora dos campos de produção. A self-deception, longe de ser uma responsabilidade do indivíduo isolado, é o produto contem- porâneo da heteronomia nos campos sociais. E uma dinâmica anômica da sociedade, cujo peso faz sentir o indivíduo. Os me- canismos de poder que se ocultam nessa imposição discursiva destruidora são fundamentais à pesquisa em comunicação. Com efeito, o universo do poder simbólico é o locus privilegiado à pesquisa em comunicação, mantendo válido o interesse pelo percurso intelectual empreendido pelo sociólogo em todos os momentos de sua trajetória, quer seja nos momentos estrutural- fúncionalista, praxiológico ou corporativista do universal, quer seja nos momentos "de fora" como "de dentro" da sociedade. O campo da comunicação, além de produzir violência sim- bólica, é o maior difusor dela, o que o toma co-responsável pela 6 Participando de debate televisivo em Porto Alegre, no ano de 2000 (Programa Frente a Frente, da TVE-RS), com o autor deste livro que o questionou sobre sua posição acerca da self-deception, Morin mitigou seu posicionamento em prol do fortalecimento de seu reconhecimento da complexidade da vida. 180 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    heteronomia, pois aillusio compartilhada no campo se traduz na crença de uma objetividade dos discursos, que nada mais faz do que legitimar, pela via da neutralização e da eufemização, o ar- bitrário cultural dominante, o da lógica do mercado. E esta lógi- ca em parte também é a do campo da comunicação, pois as em- presas nele componentes devem maximizar seus lucros, portanto obter audiência, isto é, consumidores ao máximo a fim de atrair anúncios publicitários. As mensagens deles são o paradigma da imperatividade da lógica mercantil e fator mantenedor das cren- ças no ciclo da produção e do consumo. Os problemas decorren- tes do campo da comunicação não são tanto do seu reconheci- mento, embora se requeira sua investigação, mas da efetivação das conclusões extraídas pelas pesquisas científicas. É neste momento que a ciência angaria estatuto de política. As conse- qüências da heteronomia do campo da comunicação são verifi- cáveis nas violações das conquistas éticas dos campos sociais que, uma vez se sentindo violentados, clamam por controle so- cial da mídia. O campo da comunicação, por sua vez, reivindica a auto-regulamentação, índice de autonomia no campo, mas co- mo a dele é reduzida, não se efetiva por regras próprias. Contu- do, como participante da luta pela imposição dos discursos legí- timos, o campo da comunicação recusa todo tipo de controle so- cial, alegando ser ele censura, o que é um absurdo. Emerge aí a importância da estrutura e a dialética dela originada. Parte signi- ficativa da tradição marxista contribuiu para associar às estrutu- ras a idéia de dominação, o que em parte é verdadeiro. Entretan- to, a estrutura que pode aprisionar pode proteger. Bourdieu (1998b, p. 47) lembra, por exemplo, a capacidade de reação da sociedade civil francesa aos ataques neoliberais, em virtude de poder contar com a estrutura de um direito codificado, e a fragi- lidade dos ingleses, com seu direito consuetudinário: O Estado, em todos os países é, em parte, o vestígio de conquistas na realidade sociais. [...] E o Estado também existe na cabeça dos trabalhadores sob a forma de direito subjetivo ("isso é meu direi- to", "não podem fazer isso comigo"), de apego às "conquistas so- ciais" e etc. [...] uma das grandes diferenças entre a França e a In- glaterra é que os ingleses thatcherizados descobrem que não resis- tiram tanto quanto teriam sido capazes, em grande parte porque o Por uma Realpolitikda razão comuncativa 181
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    contrato de trabalhoera um contrato de common law, e não, como na França uma convenção garantida pelo Estado. Com efeito, com a globalização o direito da common law se faz cada vez mais presente no direito continental. Entretanto, es- ta é uma problemática pertinente muito mais à ciência política que ao próprio direito. Porque além de envolver a organização e a distribuição do poder no âmbito do Estado, envolve as relações do campo do poder com os demais campos sociais, em que o campo da comunicação, de cujo fluxo sem controle das infor- mações normalmente se opera a partir dos espaços sociais domi- nantes aos dominados, favorece a destruição das estruturas de proteção social. O que isso tem a ver com a pesquisa científica que enfoca o poder na e da comunicação? Tudo, apenas. Uma das últimas estruturas de proteção social que restaram é ofereci- da pelo direito. O direito, como a política e como a comunica- ção, constrói-se mediante a força das palavras, que, cristalizadas da luta política, se tomam lei. A luta política, no entanto, está a transferir-se à luta midiática, que mais legitima o poder de me- diação e de imposição dos discursos legítimos pela mídia. Nes- ses discursos fazem-se cada vez mais presentes, se não mesmo onipresentes, os discursos da desregulamentação, da inexorabi- lidade da lei econômica, do fatalismo, da precarização, enfim, da banalização da condição humana. Segundo Bourdieu, são ne- cessárias as mesmas armas para combater tal poderio, isto é, ar- mas simbólicas, pois o poder se faz pelas palavras.7 Sur la télévision e Contre-feux são exemplos desse tipo de empreendimento. Visando maiores audiências, em linguagem desprendida, mas sem abandonar a cientifícidade. O tipo de re- lação que neles se verifica, entre legitimo e ilegítimo, é estimu- lado na composição dos colaboradores de sua editora: não só os sociólogos "legítimos" que nela participam; também sindicalis- tas, integrantes de movimentos sociais e os "ilegítimos" jornalis- tas. A relação foi estimulada por Bourdieu porque ele reconhe- cia que o caráter contemporâneo da luta das idéias, visa sobretu- do a vinculação da legitimidade delas à idéia de cientifícidade. 7 Bourdieu, para tanto, além de suas atividades comuns, encabeçou a criação da editora Liber e do movimento Raisons d'Agir. 182 Luciano Miranda ♦ Pierre Bourdieu e o Campo da Comunicação
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    Neste sentido, ocampo da comunicação tem cumprido um papel de dar aparência científica à doxa. Portanto, é do reconhecimen- to disso que ele reivindica o papel do cientista na construção de um corporativismo do universal. Não obstante, deve valer-se de instrumentos de maior difusão das idéias que a do meio acadê- mico. Está aí o componente estratégico das alianças que o soció- logo estabelecera. Próximo à démarche durkheimiana voltada à integração social, Bourdieu constrói sua ação política pela via da ciência. Baseia-se nas condições sociais de possibilidade de pro- teção das estruturas sociais, em que a política de mobilização é realista: a Realpolitik da razão visa resgatar os valores sociais do bem-comum através do utopismo racional, isto é, sem recair na utopia, mas resgatando a illusio, debilitada à medida que os campos de produção se desestruturam, o que leva ao desinteres- se, à self-deception. Há nela uma palavra de ordem: Regrezions- verbot, isto é, vedação de regressão, expressão de origem alemã que Bourdieu considerava maravilhosa para o atual contexto em que se retrocede à perda de conquistas sociais adquiridas no cur- so de várias décadas. Ela serve para ilustrar o poder das pala- vras: visa introduzir o princípio da não-regressibilidade dos di- reitos, que uma vez presente ao mundo jurídico se toma idéia- força, aquela que pode transformar a realidade. O campo da comunicação produz virtualmente e sem cessar idéia-força, que bem poderia voltar-se à produção do bem co- mum. Mas pelas limitações estruturais do campo, como vistas até aqui, essa possibilidade está distante, ao menos por iniciativa dele. Da sua parte, cabe ao campo acadêmico através das armas da ciência, da pesquisa, orientar uma ação política possível que proteja as estruturas sociais. Nelas, há uma dialética, a dialética da estrutura, que deve ser reconhecida e sempre superada. Afi- nal, trata-se de livrar-nos da estrutura das grades pela conquista da estmtura das asas. Por uma Realpolitikda razão comuncativa 183
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    te não asmais valiosas ou impactantes, mas de grande interesse para os que se propõem a pesquisaros fenôme- nos de comunicação com seriedade teórica, atitude ética e responsabilidade política. Destaque da obro é o estilo preciso, objetivo e ri- goroso da redação, qualidades cada vez mais raras em nosso meio acadêmico, entregue a indigência lingüística fravestida de bossa idiomática, a celebração dos racio- cínios confusos e estereotipados e, enfim, à banalidade intelectualmente constrangedora, disfarçada de popula- rização do conhecimento ou mesmo de (falso) elogio do saber popular. Nestaspáginas, travo-secom atitude madura e pos- tura de verdadeiro intelectual, levandoem conta temática relevante do ponto de vista acadêmico, o combate entre forma e expressão em que respira a inteligência reflexiva. Também há um bom emprego das fontes secundárias que interpelam e comentam o acervo em foco, seja entre os acadêmicos brasileiros, franceses ou anglo-soxões. Qualquer um que queira dispor de um bom roteiro de leitura e de um modelo de reconstrução analítica de uma trajetória científica e episfemológica em estudos de comunicação fará bem em lereste trabalho. 0 autor reve- la grande domínio das fontes, emprega bem alguns dos comentaristas mais gabaritados e, ainda que às vezes o tom seja sobrecarregado, logra evidenciar com precisão as conexões sistemáticas que as vezes ligam, às vezes rompem, o importante pensamento sobre as comunica- ções tecido na obra de Pierre Bourdieu. Francisco Rüdiger Doutorem Ciências Sociais (USP), Professor-titular do Faculdade de Comunicação (PUCPS). •//•#?♦?••••• iiSS^Sr Luciano Miranda mapeia e indica nesta obra o percurso te- órico e investigativo que leva Pierre Bourdieu da polêmica com a crítica cultural dos anos 60 à prática da polêmica sociológica com a cultura de mercado surgida na presente etapa do processo de globalização. No centro da reflexão, despontam temas como a discussão sobre as teorias da cultura de massa, as práticas sociais da fo- tografia, o mercado dos bens culturais, o poder da mídia e a autonomia e sentido da intervenção intelectual na sociedade capitalista. Destarte, o livro ajusta seu foco de interesse numa temática que, periférica de início, mas significativa, foi crescendo em im- portância aos olhos do pesquisador franco-argelino: o poder da mídia na estruturação da cultura e na formação dos sistemas de poder do mundo contemporâneo.