Perigosa Atração




                                        Inglaterra, 1873
                             U MA   OBSESSÃO ...   UM   SEGREDO ...


   No passado, Ryan Donally devotara verdadeira adoração a Rachel Bailey. Mas a linda e
graciosa menina o via com indiferença. A vida separou os caminhos de ambos, mas anos depois
eles voltaram a se encontrar... e Rachel descobriu que o menino que ela um dia desprezara havia
se transformado num homem irresistível, que lhe despertava um intenso desejo. Ryan, porém,
recusava-se a perdoá-la, e Rachel, por sua vez, guardava um segredo que poderia destruir tudo o
que ela lutara para construir. Mas um momento de irrefreável paixão fez desmoronar as frágeis
barreiras que haviam se erguido entre eles, levando-os a se defrontar com um difícil impasse...
Pois a sensualidade tão longamente reprimida poderia conduzi-los a um trágico desfecho... ou a
um glorioso e eterno amor!




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Perigosa Atração




           Disponibilização: Marisa helena.
                Digitalização: Marina.
                Revisão: Karon Anne.




                 Copyright © 2005 by Laura Renken
    Originalmente publicado em 2005 pela HarperCollins Publishers
             TÍTULO ORIGINAL: A Match Made in Scandal
                    Tradução: Débora Guimarães
                  © 2007 Editora Nova Cultural Ltda.
            Impressão e acabamento: RR Donnelley Moore




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Perigosa Atração




    Capítulo I

    Londres, 1873.

    Rachell Bailey subiu a escada e parou no balcão de onde se podia ver o salão de
baile. Um leque fechado pendia de seu pulso. Na outra mão ela levava um cartão de
danças em branco.
    Ela tentava não se incomodar por muitos ali a julgarem uma espécie de excentricidade
intelectual, e essa era a única razão pela qual não a excluíam inteiramente de seu círculo
social.
    Especialmente esta noite.
    Cinderela e Rachell tinham pouco ou nada em comum, exceto, talvez, a curiosidade
com relação ao príncipe, ou, nesse caso específico, o talentoso detentor de um dos mais
prestigiados prêmios de toda a Inglaterra. Um engenheiro civil não podia sonhar com
honra maior do que o Golden Telford Award, uma homenagem que ela jamais receberia
por ser mulher, mas que Ryan Donally certamente merecia.
    Do balcão do Palace Hotel, sobre o salão de baile, ela o viu alto e moreno, fácil de
reconhecer entre os convidados. O baile transcorria animado, e vestidos coloridos e
elegantes flutuavam pelo espaço do amplo aposento como um gigantesco arco-íris.
    Incrivelmente belo, Ryan era o par perfeito para a loira delicada que ele conduzia pelo
braço, lady Gwyneth Abbott. Sua futura esposa, a julgar pelo rumor que corria na
sociedade. Loira e altiva, ela era uma jóia cintilante envolta em seda vermelha. Os dois
conversavam. Ele sorria com uma energia vital que hipnotizava Rachell.
    Desde que eram crianças, Ryan chamava atenção em todos os lugares. Dominava
multidões com a mesma facilidade com que reunia seguidores, resultado de sua boa
aparência e dos traços herdados da família irlandesa. Agora, depois de fazer fortuna na
indústria do aço, Ryan comandava um forte conglomerado de empresas totalmente
distinto dos negócios da família. Ele mesmo se apartara de suas raízes, tornando-se um
homem poderoso que em nada lembrava o menino indomável que jogava aranhas em
seus cabelos quando ela era também uma menina.
    O relacionamento sempre havia sido impossível. Ryan era sua maldição e seu castigo.
    E também era a razão que a fizera voltar à Inglaterra.
    Havia sido pura ingenuidade pensar que poderia voltar à vida dele esta noite, depois
de tudo que havia feito com esse homem, e não sentir pânico ou ansiedade.
    Nunca mais haviam conversado depois da morte e do funeral de Kathleen quatro anos
antes.
    Tinha de encontrar um jeito de falar com ele. Precisava falar com ele.
    — A mulher ao lado de meu irmão é sobrinha do conde de Devonshire — anunciou
uma voz masculina a seu lado.
    Rachell assustou-se.

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    John Donally se aproximara silencioso e a surpreendera olhando para Ryan com uma
mistura de curiosidade e fascinação.
    — De quem está falando? — Rachell serviu-se de uma taça de champanhe da
bandeja carregada por um garçom que por ali passava a caminho do salão.
    — Você sabe de quem estou falando. Ela é sobrinha do conde e é muito assediada
pelos solteiros da sociedade. Mas só tem olhos para meu irmão. Linda, não?
    O irmão de Ryan, com quem sempre tivera um bom relacionamento, cravava a faca
mais fundo em seu coração, intensificando a dor da antiga ferida. Rachell não queria
saber se a mulher de cabelos dourados e traços delicados era a imagem da perfeição, ou
se todos os homens disponíveis da sociedade local se batiam em duelo por um segundo
de sua atenção.
     — Lady Gwyneth o convenceu a cortar o cabelo? — ela indagou com falso
desinteresse, notando a ausência da marca registrada de Ryan, o rabo-de-cavalo.
    — Duvido que tenha sido realmente assim, mas você pode perguntar a ele.
    — Gostaria muito de conversar com Ryan. Não o encontrei em Londres nessa última
semana.
    — Ele estava em Bristol. Voltaram a Londres ontem à noite.
    — Voltaram...? No plural?
    — Ryan, lady Gwyneth e a irmã dela. Já deve ter ouvido os rumores. Meu irmão acaba
de adquirir uma propriedade aqui.
    — Acredita que ele quer mesmo se casar com essa jovem, Johnny?
    — O que sei sobre o coração de Ryan? Seus sentimentos compõem um enigma
insondável! Desde a morte de Kathleen, ele tem guardado as emoções com tanto
empenho que ninguém mais é capaz de adivinhá-las. Ryan não é mais o mesmo homem
de antes. Não se deixe enganar...
    — Ele nunca fala sobre Kathleen? Não se lembra dela?
   Johnny cruzou os braços e se apoiou na balaustrada da galeria.
    — Por que veio da Irlanda para estar aqui esta noite?
    — Apesar de tudo que ele fez nesses últimos quatro anos, Ryan ainda é presidente da
Donally & Bailey Engineering. Tem de admitir que o prêmio é merecido. Os trabalhos por
ele redigidos são leitura obrigatória em Edimburgo e Gõttingen.
    — E, naturalmente, você está cheia de admiração por seus talentos. É só isso,
Rachell?
    — Não devia estar dançando com sua esposa? O que ela vai pensar se nos vir juntos
e sozinhos aqui, conversando em voz baixa e bebendo champanhe?
    — Vai pensar que nos conhecemos desde sempre, Rachell. — Ele a segurou pelo
braço. — Ela mesma me disse para procurá-la, encontrá-la e arrastá-la ao salão de baile,
se fosse necessário. Nenhum de nós julga oportuno que você fique aqui olhando o mundo
de cima. É hora de participar. Integrar-se.
    Rachell engoliu um gemido aflito e se deixou levar pela larga e imponente escada de
mármore para o arco-íris de saias e sedas que coloriam o animado salão.
    — Não precisa me levar pela mão, Johnny.
    — Preciso, se quero dançar. — Ele a segurou pela cintura e encarou-a. — Não
esqueceu a valsa, não é? — Johnny a levou para a pista de dança e começou a girar com

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movimentos precisos, elegantes e experientes.
    Nada a perturbava mais do que o medo do fracasso.
    — Acho que está desafiando o perigo, meu caro. Posso arruinar seus dois pés antes
de o relógio marcar meia-noite.
    — Eu não desperdiçaria a oportunidade de ter uma bela mulher em meus braços. E
com a permissão de minha esposa? Que homem tem tanta sorte? Não, minha querida.
Nem o medo de ter meus dedos esmagados me faria abrir mão de tão deliciosa e única
oportunidade.
    Rachell acompanhava os passos fáceis da valsa.
     — Está procurando encrenca, Johnny Donally. Mesmo assim, sou grata por sua
delicadeza. Você sempre foi um perfeito cavalheiro.
    Estava grata porque, mesmo depois de todos os erros que cometera na vida, alguém
na família Donally ainda podia lhe oferecer amizade e apoio. Na verdade, todos da família
a tratavam com cortesia e respeito. Com simpatia, até...
    Todos, exceto Ryan.
    Sua garganta doía pelo esforço de conter as lágrimas, mas os olhos estavam secos.
    A vida a fizera entender a inutilidade do pranto e os perigos das emoções que podiam
levar ao caos o mundo organizado e preciso que criara para si mesma por meio de sua
profissão. Rachell era uma das duas únicas mulheres engenheiras no mundo. Mas as
rachaduras começaram a surgir depois da morte de Kathleen, quatro anos atrás, e se
alargaram em seu vigésimo nono aniversário no mês anterior. Não sabia o que fazer com
o lado feminino e pouco prático que redespertara dentro dela repentinamente.
     Precisava desesperadamente retificar sua história de erros e mal entendidos com
Ryan.
    No passado, ficara assistindo enquanto ele se casava com sua melhor amiga. Sabia
que, se partisse essa noite sem falar com ele sobre as coisas de seu coração, nunca mais
teria outra chance de manifestá-las.
    Em poucos meses, ele estaria fora de sua vida para sempre.
    — Você bebe mesmo essa coisa, Donally?
    Com um Havana em uma das mãos, Ryan estivera parado na porta da sala de jogos
na última meia hora, observando o baile lá embaixo. Lorde Devonshire entrou na sala de
bilhar pelo terraço, e Ryan lamentou a interrupção do momento de solidão.
    Mesmo assim, ele levantou o cálice que segurava com a outra mão.
     — Comparado ao uísque irlandês, toda bebida é suave, milorde. — Ele sorveu o
líquido âmbar de uma só vez e deixou o copo sobre a mesa de jogo. A sala de bilhar se
esvaziara quando a orquestra voltara a tocar no salão.
    Como todos os homens presentes, o conde usava casaca preta formal com gravata e
luvas. Esse não era o tipo de evento que senhores como Devonshire freqüentavam. Os
parceiros profissionais de Ryan não eram da nobreza, mas essa noite o conde e sua
família ali estavam como convidados.
    — Não dança? — Devonshire estava parado na porta, olhando para o salão.
    — O cartão de dança de sua sobrinha está totalmente preenchido. Sabe jogar bilhar,
milorde?
    Devonshire continuava olhando para os dançarinos com interesse.

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Perigosa Atração

    — Não — respondeu distraído.
    Ryan preparou um taco. O charuto repousava sobre o cinzeiro. Podia ouvir as notas
da valsa. Risadas. Os próprios pensamentos desorganizados.
    Sabia quem havia atraído a atenção de Devonshire. Ryan a observava desde o início
da noite. Mesmo enquanto dançava com Gwyneth, notara Rachell parada no balcão da
galeria sobre o salão de baile. Retornara de Bristol na noite anterior e descobrira que ela
estava em Londres havia mais de uma semana.
    — A presença da srta. Bailey esta noite é curiosa. Ela não é o tipo de mulher que eu
esperava encontrar em uma profissão tão masculina. Engenheira? É mesmo
surpreendente e... intrigante, devo admitir.
    Ryan manteve o olhar fixo na mesa de jogo.
    — Por que, exatamente? O que tanto o intriga e surpreende nisso?
     — Uma mulher com a aparência da srta. Bailey devia tirar melhor proveito dos
refinados e encantadores talentos de seu sexo.
    Devonshire olhou para Ryan, e o sorriso se apagou de seus lábios. Havia algo frio e
ameaçador no olhar do cavalheiro, como se ele pudesse atingi-lo fisicamente com a força
do pensamento.
    Ryan voltou ao jogo e acertou uma bola na caçapa.
    — Há algum motivo especial para essa conversa, milorde? Ou seus comentários são
realmente casuais, como quer fazer parecer?
     — Deve saber que minha sobrinha deseja se casar no outono. Não sei o que
conversam quando estão juntos e sozinhos, mas compreendo que ela planeja um futuro a
seu lado. Como sua esposa.
    — E o tamanho de minha conta bancária a torna mais tolerante com relação aos meus
defeitos inerentes. Mesmo que essas faltas sejam conhecidas e condenadas pela
sociedade como um todo e pela nobreza em particular.
    Ryan notou o rubor de Devonshire com interesse e serenidade. O homem tratava com
desprezo aqueles que julgava inferiores, e nessa noite essa descrição incluía todos os
presentes, pessoas que se dedicavam com seriedade e afinco ao exercício de uma
profissão. Gente que não desfrutava dos privilégios da nobreza. No entanto, ambos
conheciam seus respectivos lugares no relacionamento comercial que os aproximava.
Devonshire precisava do dinheiro de Ryan. O relacionamento pessoal ainda teria de ser
compreendido, estudado e definido.
    — Ah, aí está você, tio! — A sobrinha do conde surgiu na porta da sala de jogos. Seu
rosto corado denotava grande agitação. — Procurei-o por todos os lugares. A orquestra
toca uma nova valsa.
    — Beatrice, onde estão seus modos?
    Os olhos azuis da jovem buscaram os de Ryan.
    — Permita-me roubar a companhia de meu tio, sr. Donally. Gwyneth pôs o nome dele
no meu cartão de dança a fim de preenchê-lo. Esperava que talvez...
    — Onde está sua irmã?
    — Dançando, meu tio, é claro. Ela sempre tem o cartão cheio.
    — Porque sua irmã não corre pelo salão como uma colegial tola.
    — Eu... sinto muito, tio.

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    — Vá ajeitar o cabelo! Está completamente desalinhada, Beatrice.
    — Sim, tio. Desculpe-me.
    Ryan pegou a casaca das costas de uma cadeira e começou a vesti-la.
    — Temos um acordo, Donally? — Devonshire falou por cima de um ombro enquanto
se dirigia à porta.
    — Seu servo, como sempre, milorde. — Mas a ironia na voz de Ryan sugeria uma
realidade bem distinta.
    Sozinho, Ryan voltou a observar a movimentação no salão. Havia em sua boca um
gosto amargo. Passara toda a vida enfrentando homens como Devonshire, gente que
pensava possuir o mundo e tudo nele contido por conta da posição de privilégio conferida
por seu nascimento. Nesse caminho árduo, contraíra inimizades. E sabia que Devonshire
era um desses oponentes. Um dos mais ferrenhos, talvez.
    De repente, ele notou uma figura feminina na periferia do grupo de Johnny, e todos os
outros pensamentos perderam a importância.
    Rachell Bailey havia sido sua obsessão de adolescente.
    Sua maldição.
   A única mulher no mundo capaz de vencê-lo no críquete,superá-lo em matemática, e
ainda, provavelmente, alguém que sabia mais sobre ele do que qualquer outra criatura
viva.
    Ela era linda.
     Devonshire não conhecia a mulher que tentara ofender e caluniar com aquela
insinuação mesquinha e baixa sobre eventuais segundas intenções relacionadas a sua
presença no baile dessa noite. Sabia que Rachell estava ali apenas para ver a Donally &
Bailey receber o honroso prêmio. Ela vivia e respirava D&B. Trabalhava no escritório da
empresa em Dublin há quatro anos e dedicava-se inteiramente à carreira com
competência e seriedade.
    Ryan sempre tivera um jeito especial com as mulheres. As mais astutas o evitavam, o
que comprovava que Rachell era mais esperta do que a maioria. No entanto, mesmo
tendo passado boa parte da juventude perseguindo seu irmão mais velho, ela tinha o
poder de atrair seu olhar e prejudicar seu julgamento. Então, em algum momento entre a
adolescência e a idade adulta, ele a beijara e se formara com louvor em Edimburgo. E
conhecera Kathleen.
    O lustre de cristal iluminava os dançarinos. Rachell olhou em volta, buscando uma
área mais tranqüila para onde pudesse escapar. Lady Gwyneth dançava, mas Ryan não
estava em parte alguma.
    Ela se serviu de mais uma taça de champanhe, pensando em quão pouco tinha em
comum com aquela gente e como detestava ambientes cheios e quentes. Afastada da
pista, ela parou para observar um quadro da rainha Vitória e pensou como um povo
governado por uma mulher podia ser tão arcaico com relação à posição de outras
mulheres em suas profissões.
    — Majestade... — Ela levou a taça aos lábios.
    Dedos enluvados passaram por cima de seu ombro e removeram a taça da mão dela
antes que pudesse sorver o líquido claro e borbulhante.
    — Alguém já disse que você bebe demais? Devia conter seus impulsos, senhorita!

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Perigosa Atração

    A voz de Ryan parecia soar distante, como se viesse de um sonho.
    — Praticamente toda a sua família — Rachell respondeu.
    — As pessoas vivem dizendo que bebo demais, que devia ter outro comportamento,
outros interesses... Enfim, devo ser realmente inadequada.
    Ele deixou a taça sobre um consolo próximo.
    — Ainda sabe dançar?
    Com o coração aos saltos, ela se deixou levar para a pista.
    — Francamente, Ryan, às vezes, sua arrogância ultrapassa todos os limites.
    — Eu mudei. Sou um homem diferente.
    — Sim, eu notei. Agora é um adulto. Mas continua arrogante.
    Ele a encarou. Lá estava, a mesma velha fricção que sempre existira entre eles. Havia
esquecido o calor que essa centelha podia gerar.
    — O que faz fora da Irlanda?
    — Estou expandido o projeto Rathdrum. — Falar sobre o trabalho era mais seguro, por
isso ela respondeu sem hesitar.
    — Escrevi para você há alguns meses. Duas vezes.
    — Estive fora do país.
    — Johnny me contou que nessa última semana você esteve em Bristol.
    — E você está em Londres há mais de uma semana.
    — Exatamente. Nesse mesmo hotel. — Ela se calou. A declaração soava como um
convite ousado. Então, por que era tão difícil dizer aquilo que pretendia revelar? —
Escute, podemos conversar durante um almoço. No restaurante do hotel, é claro.
    — Não sei, Rachell. Veio até aqui para me ver, agora me convida para almoçar...
Posso ter a impressão de que está tentando me seduzir. Seria perigoso alimentar essa
impressão, não acha?
    — Não seja bobo. Minha avó poderia seduzi-lo. É fácil demais. E você tem essa
mesma impressão com todas as mulheres, porque acha que todas estão suspirando por
você.
    Ele sorriu.
    — Falando em sua avó, como está Memaw?
    — Como sempre. Lendo sobre sua vida nos tablóides que divulgam os grandes
escândalos da sociedade britânica.
    Ryan não parecia preocupado com a idéia de ser assunto constante tanto nas colunas
financeiras quanto nas páginas sociais.
    — Posso imaginar o que Memaw anda dizendo a meu respeito — ele debochou. —
Mas e você, Rachell? Envolvida com alguém? Está apaixonada? O que faz além de
trabalhar para a D&B?
    — Muitas coisas. Leciono em um colégio para moças na periferia de Dublin. E pratico
esgrima.
    — De fato? Há quanto tempo?
    — Há três anos. David é meu instrutor.
    — Ah... Como vai meu ilustre irmão David? Ainda se dedica ao sacerdócio?
     — Ah, francamente, Ryan! Você não tem tantos irmãos que falem com você
regularmente ou se preocupem em manter esse laço familiar. Precisa debochar de David?

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    — Sempre emocional... Passional. Algumas coisas nunca mudam, Rachell. Pelo
menos não preciso temer a possibilidade de uma mudança indesejada. Sei que a Irlanda
jamais conseguirá fazer de você uma dessas damas fúteis e vaidosas.
    Ele parou. Discreto, conseguira conduzi-la para além das portas de vidro do salão, e
agora estavam sozinhos sob uma árvore frondosa do jardim. Ainda podiam ouvir a música
do baile, porém as notas soavam distantes.
    — Por que as cartas? — Ryan indagou sério, sem rodeios. — Por que o interesse
renovado em minha vida? Pensei que já houvéssemos dito tudo um ao outro.
    — Por que não foi à Irlanda? Aquele trem percorre o caminho nos dois sentidos. Sei
que tem todo o direito de odiar-me, mas...
   — Olhe para mim.
   Ela atendeu ao comando. Ryan removeu do peito uma fita de seda com uma medalha
de bronze e a pôs em seu pescoço.
    — Leve-a com você — disse. — Você também trabalhou para merecê-la. A
condecoração também é sua.
    Rachell balançou a cabeça tentando esconder a forte emoção provocada pelo gesto
inesperado.
   — Por favor, pelo menos uma vez, aceite o que quero lhe dar — insistiu Ryan.
   — Maldição... — Sentia o coração tão agitado, que não podia dizer mais nada. Um nó
na garganta a impedia de pronunciar as palavras que se atropelavam em sua mente.
   — Esses seus sentimentos... estão abertos à discussão?
   — Não. — A palavra soou rouca, sufocada.
    Ryan era lindo. Sedutor. Irresistível. Amara Kathleen, a irmã que ela não tivera
realmente, mas que encontrara nos caminhos da vida. Ele se casara com sua melhor
amiga, e Rachell detestava sentir que traía essa lealdade. Mas havia decidido pôr fim à
mentira que ocupara papel central em sua vida, e manteria essa decisão a qualquer
preço.
   — Escute, certa vez disse coisas horríveis de que me arrependi mais tarde. Coisas de
que ainda me arrependo. Coisas que jamais deveria ter dito, especialmente no funeral de
Kathleen.
   — Não, Rachell. — Ele se virou e deu alguns passos na direção da varanda, como se
pretendesse deixá-la ali.
    — Ryan, não pode simplesmente dar as costas para esse assunto como se ele não
existisse. O que tenho para dizer é importante!
    — Se quer fazer uma confissão de erros passados, eu a perdôo por tudo. Pronto.
Assunto encerrado. Não precisa dizer mais nada.
   — Não quer nem saber quais são os pecados? Não quer ouvir o que tenho para dizer?
   — Que pecados você poderia ter? Vai à missa duas vezes por semana. Nunca matou
ninguém. Se não considerarmos seu gosto pela bebida, pelo cigarro, por palavrões e
chocolate, você é praticamente uma candidata à santidade!
    — Santidade? Eu o acusei de matar minha melhor amiga! — E ainda lembrava as
coisas horríveis que dissera naquele dia. Kathleen morrera no parto, e Rachell culpara
Ryan por essa terrível e trágica fatalidade. Em sua dor, fora cruel e egoísta.
   Pior, fizera com a própria vida coisas terríveis que cobriram a família de vergonha. Não

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Perigosa Atração

era quem Ryan acreditava que fosse.
    — Há algumas semanas, completei vinte e nove anos. — Rachell começou com tom
firme. — Sabe disso, não é? Você perguntou por que vim a Londres. Pois bem, sabe que
passei boa parte da vida trabalhando pela posição e pelo status que, francamente, você e
Johnny têm. Que meu pai teve. De certa forma, queria que soubesse que sou digna do
posto que ocupo na D&B em Dublin. Deve ter notado que meu compromisso com a
carreira é inabalável, tanto que, praticamente, não me dedico a outros interesses na vida.
Fiz escolhas. Só Deus sabe os erros que cometi. Quero ver Mary Elizabeth. E você...
Quero consertar erros do nosso passado. Você não merecia ser atacado naquele
momento de tanta dor. Eu errei. Depois desapareci e... nunca mais tivemos uma chance
de conversar. Sobre nada.
    — O que há para falar?
    — Por que tem sempre de dificultar as coisas? Estou me esforçando para falar... Para
dizer coisas importantes que...
    — Importantes? De repente você reaparece querendo limpar sua consciência com
relação a um evento ocorrido há quase quatro anos, e eu tenho de ouvi-la? Devo estar
aqui, disponível e pronto para acatar sua decisão? Para amenizar sua culpa? Aliviar seu
remorso? Rachell, esses sentimentos são inúteis e infundados. Tudo que disse naquele
dia é verdade. Kathleen morreu por minha causa, e essa minha culpa se manifesta de
várias formas. Portanto, não me faça lembrar o passado. Não, se quer mesmo me ajudar.
    — Eu... sinto muito.
    — Não sabe quem sou. Nunca soube. Vivia num mundo próprio cercada de sonhos
grandiosos, e sempre foi muito boa em conseguir tudo aquilo que queria.
    — Por favor, pare...
    — Você é madrinha da minha filha. Nunca a impedi de vê-la. Mas não quero ouvir
suas confissões só porque, aos vinte e nove anos, decidiu voltar à Inglaterra e se
reconciliar com o passado para poder dormir em paz.
    — Você é impossível! Não sabe nem por que estou tentando falar com você! Por que
vim procurá-lo agora, após tantos anos...
    — Não há nenhuma novidade nisso, há?
    — Voltei para ver você, Ryan. Tentei escrever para falar sobre os sentimentos mais
caros de meu coração, mas...
    — Rachell, o que está fazendo?
    Agora sabia que conseguira atingi-lo. E era hora de seguir o caminho escolhido por
seu coração. Era hora de ter a coragem de fazer o que devia ter feito no passado, muito
antes de olhar para o espelho e descobrir que estava jogando a própria vida fora por
orgulho e rancor.
    Ela o beijou.
    Ryan correspondeu ao beijo, mas só por um instante. Depois se afastou.
    — Não! — protestou angustiado. — Não posso fazer isso. Jamais haverá nada entre
nós, Rachell! Vá embora.
    Furiosa com a rejeição, incapaz de considerar que a atitude denotava respeito e
estima, ela o atacou:
    — Essa mulher não o ama, Ryan!

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Perigosa Atração

    — Por que não? Acha que não sou digno do amor de uma mulher? É essa sua opinião
a meu respeito, Rachell?
    Ela ainda pensava em uma resposta plausível, quando Ryan voltou ao salão deixando-
a sozinha no jardim.
    Desolada, Rachell não se deu conta da presença de um homem alto e loiro que se
aproximava dela com passos lentos.
    — Prefiro Covent Garden para meu entretenimento, mas sou obrigado a confessar que
me diverti muito esta noite — ele disse, atraindo seu olhar apavorado. Então, o fracasso
tivera uma testemunha! — Presumo que seja a famosa associada comercial do homem
que pretende desposar minha prima. A valorosa profissional que tanto tem a acrescentar
ao já retumbante sucesso da D&B. Exatamente a pessoa que eu procurava. Não pude
deixar de ouvir o que diziam.
    — Não teria sido difícil, se houvesse simplesmente se retirado. Sendo assim, suponho
que nos tenha ouvido deliberadamente, senhor... senhor...
    — Permita apresentar-me. Sou lorde Gideon Montague, visconde de Bathwick, filho de
lorde Devonshire, que está aqui como convidado de Ryan Donally. Minha prima, como
bem sabe, está ocupada com os próprios planos. Então, cá estou eu, sozinho entre as
almas perdidas da noite. Temos algo em comum, srta. Bailey.
    — Duvido que tal coisa seja possível.
    Humilhada, ela viu Johnny surgir na varanda e caminhar em sua direção.
    — Bathwick... milorde.
    — Johnny Donally. — O visconde cumprimentou-o sem esconder o desprazer causado
pela interrupção. — Que atitude mais antiquada. O que faz aqui? Veio realizar um
resgate?
    — Você está bem? — Johnny perguntou a Rachell com ar protetor, sem dar atenção à
provocação do nobre de aparência pálida e frágil.
    Rachell não precisava de ninguém para protegê-la. Só queria ir embora.
    — Por favor, Johnny, meu rapaz — Bathwick prosseguiu irônico. — Ainda somos
cavalheiros aqui, apesar da atitude arrogante de seu irmão. Algumas coisas na Inglaterra
não pertencem à sua família. Queria apenas trocar algumas palavras com essa
encantadora integrante do corpo de diretores da D&B.
    — Já trocou, pelo que pude notar. Agora vá. — Bathwick encarou-a com um sorriso
gelado.
    — Pois bem, não pretendo criar uma cena. Quando quiser conversar, srta. Bailey...
    Rachell segurou o braço de Johnny para impedir um confronto aberto, mas uma coisa
era evidente ali: Ryan fizera alguma coisa para despertar o ódio desse cavalheiro. E
agora teria de enfrentar as conseqüências.
    — Qual é a relação entre lorde Bathwick e Ryan? — Rachell perguntou intrigada a
Johnny na manhã seguinte, quando o encontrou no escritório da D&B.
    — Sugiro que fique longe dele. — Johnny respondeu sério e com tom firme. — Lorde
Bathwick não é amigo de Ryan.
    — Andei lendo as páginas financeiras dos jornais e notei que muitas outras pessoas
não são exatamente amigas de seu irmão.
    — Ryan enfrentou uma terrível batalha pública quando adquiriu a Ore Industries há um

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Perigosa Atração

ano. Devonshire e o filho, Bathwick, não são mais os proprietários da companhia.
    No entanto, Devonshire consentira o noivado da sobrinha com Ryan. O compromisso
havia sido anunciado nos jornais daquela manhã, e a publicação dava conta de que o
casamento não tardaria a ser realizado.
    — Bem, a D&B é uma empresa pequena, comparada ao porte da Ore. Imagino que
Ryan tenha perdido o interesse por ela...
    — Não conte com isso, Rachell. Ele ainda é o presidente aqui. E ainda acompanha de
perto tudo que acontece na D&B. Tomando decisões.
    — O que significa que continuarei sendo uma figura decorativa no escritório. Quero
fazer projetos, Johnny, supervisionar as obras... Quero exercer a profissão que escolhi.
    — Se está falando sobre a ponte destruída pela inundação em Rathdrum há dois
anos, esqueça. O projeto já está pronto.
    — Não está. Sei que não está. Centenas de pessoas dependem de mim para
alimentar suas famílias, Johnny. Só preciso da sua autorização e do seu apoio para levar
o orçamento ao departamento financeiro e pedir a aprovação do projeto.
    — Não tenho autoridade para tanto. Ryan é o único que pode autorizá-la a levar
adiante esse seu projeto.
    Estava farta do anonimato profissional. Ela e Ryan tinham em comum o desejo de ver
a D&B prosperar, sem mencionar um passado e muitas outras coisas que ele se negava a
reconhecer. Viajara para Londres com um propósito: conquistar o amor de sua vida.
Jamais havia imaginado que Ryan não sentisse por ela o mesmo amor que tinha por ele.
Dançara em seus braços como uma Cinderela ingênua e apaixonada, mas o sapato na
mão dele esta manhã não cabia em seu pé.
    Restavam apenas os sonhos profissionais.
    — Pois bem, então — disse, pegando um projeto sobre sua mesa.
    — Não vai me contar o que houve ontem à noite?
    — Não sei do que está falando, Johnny.
    — Meu irmão me interrompeu quando eu dançava com minha esposa. Ele me pediu
para ir procurá-la e levá-la de volta ao salão. Disse que, de lá, você se recolheria aos
seus aposentos naquele mesmo hotel. Fiquei preocupado.
    — Não foi nada. Esqueça, está bem?
    — Se não quer falar... — Ele vestiu a casaca.
    — Aonde vai?
    — Não passo o dia todo no escritório, Rachell. Especialmente os sábados. Moira e as
crianças vão comigo ao jogo de críquete hoje à tarde. Já esteve com Mary Elizabeth?
    Queria muito ver sua afilhada, filha de Kathleen, mas a idéia de reencontrar Ryan
depois da noite anterior a enchia de pavor.
    — Não... Ainda não.
    — Por que não vai vê-la? Talvez Ryan nem esteja em casa. E mesmo que esteja, você
precisa falar com ele sobre o projeto.
    — Ele... vai querer que eu volte para Dublin.
    — Provavelmente. O casamento vai ser realizado em outubro na propriedade de
Devonshire. Sinto muito, Rachell. Devia ter vindo antes. Talvez então ainda houvesse
uma chance.

12
Perigosa Atração

     Ela não disse nada. Se tentasse falar, acabaria chorando, e odiava demonstrar
fraqueza. E seria forte, porque, com ou sem Ryan, era filha de um dos fundadores
daquela companhia e integrava sua diretoria. Ryan teria de aceitá-la e respeitar sua
posição, porque não pretendia abandoná-la.
    — Está inquieto, sr. Donally.
    — De fato, Jacques — Ryan concordou com o competente mestre de esgrima.
    — Vamos tentar novamente.
    Ryan exercitava-se há uma hora no salão de sua propriedade rural, mas ainda estava
agitado, tenso. E a concentração sofria as conseqüências da falta de sono. Jacques o
acertou no peito pela terceira vez com a incômoda ponta de borracha usada para proteger
o florete.
    — Se usássemos armas reais, sr. Donally, já estaria morto. Perfurei seu coração.
    — Não, Jacques — ele protestou removendo a máscara. — Meu coração foi destruído
há muito tempo. — Ryan tirou o colete protetor de couro e enxugou o suor do rosto cora
uma toalha branca.
    — Li o anúncio de seu noivado com lady Gwyneth, senhor. Meus parabéns.
    — Obrigado, Jacques.
    — Pai!
    A voz da menina soou além das portas do salão. A babá mal podia conter a dinâmica
criança de três anos.
     — Até a semana que vem, Jacques. Por hoje chega. Não consigo mesmo me
concentrar. Deve ser o cansaço.
    — Certamente. Até logo, senhor.
    Ryan foi ao encontro da criança. Boswell, seu fiel valete, a seguia de perto.
    — Pensei que fosse dormir a manhã toda! — ele disse, pegando-a nos braços para
beijá-la.
    — A menina não devia dormir até tão tarde — opinou a srta. Peabody, a babá.
    — Ela já comeu?
     — Não, senhor. Boswell informou que desejava fazer seu desjejum com sua filha,
então...
    — Quero ir pescar e montar meu pônei, pai.
   Ryan olhou para a babá.
    — Ela tossiu novamente essa noite?
     — Não, senhor. Não creio que ela deveria ter ficado fora de casa por tanto tempo
ontem à tarde, senhor, mas Boswell nunca concorda comigo.
    — Esteve doente ontem, minha querida?
    — Doeu...
    — O que doeu?
    Mary Elizabeth mostrou o dedo de onde um espinho havia sido retirado na semana
anterior.
    — Acho melhor jogarmos fora esse dedo feio e dolorido. O que acha?
    Ela riu.
    — Não! — Essa era sua palavra preferida nos últimos tempos.
    — Vamos almoçar fora — Ryan anunciou, certo de que Boswell, seu valete há mais de

13
Perigosa Atração

dez anos, o encheria com uma lista de queixas sobre a srta. Peabody assim que
estivessem longe dela. — Pegue a vara de pescar de Elizabeth. Ah, e leve-a com você,
Boswell. Quero ter uma palavrinha com a srta. Peabody.
    — Sim, sr. Donally. Vou providenciar para que Elizabeth vista roupas mais adequadas
ao passeio.
    Contrariada, a srta. Peabody permaneceu no salão enquanto o valete se retirava com
a menina.
    Ryan olhou para a babá que havia contratado há dois meses por ter recebido
excelentes referências.
    — Fui informado de que ontem à noite Mary Elizabeth acordou chorando. Quando
cheguei em casa, o quarto dela estava escuro.
    — Ela tem quase quatro anos, senhor...
    — Não me interessa. Ela pode ter quarenta. Exijo que haja sempre uma luz no quarto
dela.
    — Ela raramente acorda, senhor. E dar atenção a esses temores tolos da infância só
vai ensiná-la a chorar no meio da noite. Se a deixar sozinha, logo ela saberá que...
    — Pago seu salário para ser babá de Mary Elizabeth. Quando eu quiser educá-la,
contratarei tutores ou cuidarei pessoalmente da questão. Insisto na necessidade da luz no
quarto dela. Já havíamos falado sobre isso antes.
    O mordomo entrou com a correspondência e interrompeu a conversa.
    — Sr. Donally, um portador da D&B acaba de deixar isto em seu nome. Ela disse
que...
    — Ela? — Ryan pegou o pacote e examinou-o.
    — Sim, senhor. A correspondência foi trazida por uma mulher. Ela o espera no salão.
    Quem poderia ser, e por que Johnny ou Stewart enviavam alguém da companhia à
sua casa num sábado? Além do mais, não havia mulheres mensageiras na D&B. E Mary
Elizabeth o esperava para ir pescar.
    — Por favor, pague a portadora e dispense-a.
    — Não creio que ela aceite partir sem vê-lo, senhor. Ela não está vestida como uma
mensageira e... é muito autoritária. Imponente, mesmo.
    — Ah, sim... Bem, já vou recebê-la, então.
    — E quanto a mim, senhor?
   Ryan olhou para a babá.
    — Srta. Peabody, sei que é uma profissional de renome e competência, mas, se quiser
permanecer nesta casa, nunca mais questione minha autoridade. Fui claro?
    Ela assentiu e se calou.
    Ryan não estava vestido para receber visitantes, mas a presença de Rachell em sua
casa, e sem uma companhia conveniente, tornava seu vestuário um detalhe sem
nenhuma importância.
    — Rachell... Que surpresa!
    — Vim me desculpar — ela começou sem rodeios. — Não sei por que fiz aquilo, mas
espero que seja um perfeito cavalheiro e esqueça que o beijei. Prometo que não vai mais
acontecer. Nunca. A menos que eu beba, é claro.
    — É claro... Pensei que já estivesse a caminho da Irlanda. Como chegou aqui?

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Perigosa Atração

    — Saí de Londres de trem. Na estação, contratei um rapaz da estrebaria para trazer-
me até aqui. Vim por duas razões.
     — Suspeito de que pelo menos uma delas esteja relacionada ao trabalho. Estou
certo?
    — Sim, certamente.
    — E a outra razão?
    — Queria ver Mary Elizabeth.
    — Quer ver minha filha?
     — Por que a surpresa? Ela é minha afilhada. — Rachell abriu uma pasta que
carregava e retirou dela uma foto da menina segurando um coelho. O retrato havia sido
feito dois anos antes em uma reunião de família.
    — Como conseguiu isso? — Ryan espantou-se.
    — Brianna mandou para mim. E tenho outras.
    — Estou pronta, papai!
    Mary Elizabeth entrou na sala correndo, e Ryan sorriu.
     — Mary Elizabeth decidiu ir pescar o jantar desta noite. Não é verdade, minha
querida?
    — Gosto de pescar — ela concordou animada. — E de montar meu pônei, também.
     — Sua afilhada... — Ryan apresentou olhando para Rachell. — Diga olá, Mary
Elizabeth.
    A menina olhou para Rachell e pôs o polegar na boca. Era evidente que não estava
habituada a interagir com desconhecidos.
    Rachell também estava nervosa. Alguns elementos não faziam parte de sua vida, e
crianças estavam no topo dessa lista.
    E para tornar a situação ainda mais difícil, essa menina era filha de Ryan.
    — Ela tem cílios como os seus — Rachell apontou sem pensar nas palavras.
    — Meus cílios? O que têm eles?
    — Bem, eu sempre disse que você devia ter nascido mulher...
    — Ouviu isso, princesa?
    Mary Elizabeth riu e se encolheu no colo do pai.
    — Ela é... linda, Ryan.
    — Por que não vem conosco? Se conseguir fisgar um peixe, talvez ela se impressione
o bastante para falar com você.
    — Deus! Não pesco há anos! Na verdade, não faço nada tão divertido há muito tempo!
    — O que acha, princesa? Devemos salvá-la dessa vida aborrecida e sem nenhuma
diversão?
    A menina assentiu com evidente entusiasmo. Rachell suspirou. Precisava encontrar
alguém que a salvasse deles!



     Capítulo II

   Rachell e Elizabeth pescavam no rio que cortava a propriedade. Rachell havia tirado
os sapatos, as meias e os saiotes e prendera a saia na cintura, exibindo as pernas dos

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Perigosa Atração

joelhos para baixo. Em pé na parte mais rasa do rio, ela tentava fisgar alguma coisa
enquanto conversava com a menina.
    Ryan as observava da margem, sentado sob uma árvore. Gostava daquela área da
propriedade. Eram duzentos acres de terras bem cuidadas em torno da casa, mais dez
mil acres ocupados por pastos que alimentavam o rebanho de cabras. Possuía três casas
na Inglaterra, incluindo aquela que comprara recentemente em Bristol, mas era ali que
encontrava paz e conforto. Sem mencionar os contratos e os negócios.
    Há oito anos assumira o comando da D&B como presidente, mas a grande riqueza
que amealhara vinha de seus investimentos na indústria de ferro e minério. Sempre
conseguira realizar o que todos consideravam impossível, inclusive a hostil aquisição da
Ore Industries há um ano, o mais divulgado de seus movimentos nos últimos tempos.
Poucas pessoas sabiam que lorde Devonshire era um de seus alvos. Devonshire, que
ocupava a presidência da empresa e agia como um rei sanguinário, acreditava-se
intocável.
    Para se livrar da falência, Devonshire negociara o noivado da sobrinha, de quem era
guardião legal, com o irlandês que arrancara a empresa de suas mãos.
    Sim, o noivado com lady Gwyneth Abbott traria mais benefícios do que simplesmente
uma nova esposa. Ryan não se casava por amor. Havia enterrado esse sentimento com a
esposa há quatro anos,ou pensava ter enterrado, até a declaração de Rachell no baile da
noite anterior.
    Mas não a queria ali. Exatamente por isso, não a queria ali.
    Não queria voltar ao passado e sentir-se vulnerável outra vez. Era tarde demais para
mudar, mesmo que quisesse. E não queria. Queria que Rachell voltasse para a Irlanda.
Queria ter paz outra vez.
    — Sr. Donally.
    Um de seus criados o chamava.
    Ryan viu o criado se aproximar com uma mensagem e, depois de recebê-la, olhou na
direção da casa. Seu advogado estava em pé no terraço.
    — Elizabeth, eu volto num instante, está bem? Fique aqui com a srta. Bailey — disse
antes de afastar-se com passos apressados.
    — Está bem, papai — a menina respondeu sem se virar. Pela primeira vez desde que
podia se lembrar, Ryan experimentava um grande alívio por trocar o prazer pelos
negócios.
    — Você é minha fada-madrinha?
    Rachell e Elizabeth estavam sentadas sobre um cobertor, comendo a galinha frita que
uma das criadas pusera no cesto com o almoço.
    — Sou sua madrinha.
    A menina tocou sua trança, e o gesto simples quase a fez chorar. No terraço da casa,
Ryan ainda conversava com o desconhecido. A distância entre sua vida próspera e
estável e a dela, também próspera, mas solitária e cheia de insegurança, era tão grande,
que sentia vergonha ainda maior pela cena da noite anterior.
    Pouco depois, enquanto Mary Elizabeth dormia deitada sobre o cobertor, Rachell
retomou a pescaria. Não estava realmente prestando atenção aos peixes, até porque
começava a suspeitar de que eles nem existissem naquele rio, mas aproveitava a

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Perigosa Atração

oportunidade para desfrutar do ar puro e apreciar toda a beleza do impecável cenário
natural. Eram árvores frondosas e carregadas de frutos maduros e suculentos que
perfumavam o ar, e um céu azul e sem nuvens emoldurava a paisagem de perfeição.
Estava tão distraída com toda aquela beleza, que nem percebeu o retorno de Ryan. Só se
deu conta de sua presença quando viu a sombra ao lado da dela na superfície da água.
     — Lamento ter demorado tanto — ele disse em voz baixa.
     — Pensei que não trabalhasse nos finais de semana. Era o que estava fazendo, não?
Tratando de negócios?
     — Tem razão, normalmente não trabalho aos sábados e domingos, mas esse é um
final de semana diferente. Atípico. Tenho um jantar importante esta noite. Meu tempo de
lazer terminou. E o seu também, infelizmente.
     — O meu tempo de lazer? É muita ousadia! Depois de deixar sua...
     — Fale baixo, ou vai acordar Elizabeth. Há quanto tempo ela está dormindo?
     — Meia hora. Escute, tem certeza de que há peixes para se pescar nesse rio?
     — Não sei. Nunca pesquei nenhum.
     — O quê? Quer dizer que passei a tarde inteira aqui tentando pescar e... não há
peixes?
      — Essa é uma de suas maiores qualidades, Rachell. É persistente. Determinada.
Obstinada, mesmo.
     — E você é arrogante! Tem idéia do risco a que expôs sua filha? Nunca cuidei de
crianças antes! E se ela houvesse caído no rio? Se houvesse se machucado, ou...
     — Ficou com medo?
     — É claro... que não! Saia do meu caminho, Ryan Donally, ou vai se arrepender de ter
me provocado. Vai se arrepender de ter nascido! Nesse momento, não sinto grande
simpatia por você!
     — Nem eu por você — ele murmurou, aproximando-se um pouco mais.
     Rachell nem percebeu a mudança no tom de voz e a sutil aproximação. Estava muito
irritada.
     — Primeiro me convida para pescar em um rio onde não há peixes, depois vai cuidar
de negócios quando já havia dito que não trabalha aos sábados, agora tem um jantar de
negócios e ainda diz que meu tempo de lazer acabou? Devia desejar felicidades a você e
à srta. Floco de Neve! Suponho que sejam perfeitos um para o outro!
      Ryan não respondeu. Sabia que a explosão era só uma encenação. Performance
sempre havia sido fundamental na casa dos Bailey. O pai dela não passara de um
dominador egoísta, e desde cedo Rachell aprendera a amarrar os próprios sapatos e
vestir-se sozinha, e nunca precisar de ninguém nem contar com nenhuma ajuda.
Capacidade era seu nome do meio.
     Sim, ela precisava insultá-lo para não demonstrar que estava magoada. Sofrendo.
     Então, por que o insulto o afetava tão profundamente?
     Com os cabelos presos num coque, Rachell viu sua roupa ser levada por uma criada
que a lavaria e passaria. Vestida apenas com a combinação e um robe tão grande que
arrastava no chão, ela deixou os aposentos onde se despira, um quarto de vestir que
integrava um dos dormitórios da imponente e ampla residência que Ryan mantinha na
área rural de Londres, longe da cidade.

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Perigosa Atração

    Era um terrível aborrecimento ter de discutir negócios com Ryan sem ao menos poder
contar com o benefício de estar adequadamente vestida. Mas ela e Ryan nunca haviam
se preocupado com modéstia, e não seria agora que deixaria de resolver uma questão
importante por não estar vestida de acordo com a etiqueta. Além do mais, o robe a cobria
por completo. Era o suficiente. Não precisava estar bonita ou atraente. Apenas decente.
    — Ah, aí está você — ele declarou ao vê-la no corredor, onde a encontrou quando
deixava seus aposentos. — Boswell vai cuidar de suas roupas.
    — E se não for possível repará-las? Receio que seja impossível remover todas
aquelas nódoas com uma escovação, mesmo que caprichada.
    — Nesse caso, espero que tenha um manto para cobrir as manchas de lodo e água.
Se sair daqui vestindo meu robe, as pessoas vão tirar conclusões horríveis sobre o que
estivemos fazendo nessa tarde. A sociedade nunca perdoa certas indiscrições, e as
línguas mais ferinas podem causar danos extensivos e permanentes à reputação de uma
mulher.
    — Por que fala apenas de mulheres? Os homens nunca são vítimas dessas fofocas e
desses rumores maledicentes?
    — Oh, sim, a sociedade fala de tudo e todos.
    — O que deve ser uma ocorrência comum para você.
    — Não acha que anda dando muita importância às colunas sociais? Os tablóides nem
sempre se ocupam de verificar a veracidade de tudo aquilo que publicam, especialmente
sobre certas personalidades.
    — Está dizendo que as fofocas não correspondem à verdade? E a condessa italiana?
Ano passado, quando esteve em Veneza...
    — Ah, isso foi verdade.
    Ela se conteve com grande esforço, consciente de que não tinha nenhum direito de
acusá-lo ou exigir explicações. Uma cena de ciúme seria inteiramente descabida e sem
propósito, além de ridícula e humilhante.
    — Precisamos conversar — disse, seguindo-o até o quarto de decoração discreta e
sóbria. Assim que entraram, ela retirou o projeto da pasta que levava sob um braço. —
Será que poderia estudar minha proposta para a reconstrução da ponte? Trouxe o projeto
da Irlanda e incluí nele um orçamento complexo e detalhado que...
    — A D&B já tem uma equipe cuidando disso, Rachell.
    — Eu também tenho! Não vou passar meses esperando um comitê qualquer reavaliar
o relatório que meu pessoal já fez!
    — Meu irmão a meteu nisso, não é? Ele está incentivando essas suas idéias de
autonomia e apoiando atitudes que são...
    — Johnny não me meteu em nada. Tenho aqui um projeto para avaliação, só isso. Um
projeto simples, Ryan, apenas alguns dados relativos à construção de uma ponte que foi
arrastada por uma enxurrada e precisa ser reconstruída.
    Ele deu uma rápida olhada no desenho e nos cálculos.
    — Não vejo o nome de Allan Marrow aqui. Quem é o engenheiro encarregado?
    — Eu.
    — Ah... Entendi. Acha que vindo me procurar diretamente vai conseguir escapar da
formalidade do comitê. Precisa da minha ajuda. Era essa a intenção por trás daquela

18
Perigosa Atração

encenação de ontem à noite? Foi isso, Rachell? Um traque para me envolver e arrancar
de mim a permissão de que precisa para levar adiante esse projeto?
    — Não! É claro que não, Ryan! Não é nada disso!
    — Você não tem a responsabilidade de criar ou supervisionar projetos. Seu trabalho
na Irlanda consiste em coordenar e verificar a contabilidade daquela divisão. Não vai fazer
nenhum trabalho de campo. Foi o que acertamos quando foi transferida para lá.
    — Eu sou perfeitamente capaz de...
    — Rachell, eu conheço sua capacidade, e você conhece as dificuldades. Passou anos
freqüentando as aulas, mesmo sabendo que jamais poderia exercer a profissão que
escolheu. Tinha consciência dos problemas e dos obstáculos intransponíveis. Permitir que
você assinasse e supervisionasse um projeto seria o mesmo que entregar a chave da
porta ao concorrente, entende? Os tablóides a destruiriam! E a D&B seria destruída com
você.
    — Por quê?
    — Porque o público adora escândalos! A opinião pública nos atacaria até levar o valor
das nossas ações ao chão.
    — Não importa. Se somos competentes, quem pode nos arruinar? Ou o quê?
Rumores? Fofocas? Não, Ryan. Permiti que tomasse decisões por mim nessa companhia
por tempo demais. Agora vou assumir oficialmente meu lugar na diretoria. Quero que
devolva aquela procuração que assinei. Vou participar diretamente da administração da
empresa. Caso tenha esquecido, sou proprietária de uma grande parte das ações dessa
companhia.
    — Obrigado por me lembrar desse pequeno detalhe.
    — Tenho tanto direito quanto você ou Johnny de participar das decisões. Mais, na
verdade, porque meu pai fundou a empresa.
    — É mesmo? E eu pensando que havia sido uma sociedade entre seu pai e o meu!
Parece que tenho perdido de vista alguns dados muito importantes aqui. Escute, quanto
tempo pretende passar em Londres conhecendo esse lado da empresa?
    — O suficiente para ter meu projeto aprovado e meu nome no espaço reservado ao
engenheiro responsável pela obra. Uma semana? Duas? Por quanto tempo quer que eu
fique? Quanto tempo acha que será necessário?
   Ryan encarou-a. Rachell sabia que ele era um empresário implacável. Tinha
consciência de que ele havia adquirido e desmantelado diversas empresas nos últimos
anos, e faria o mesmo com ela se soubesse o quanto estivera envolvida no lado técnico
da operação em Dublin. A divisão passava por problemas financeiros há quase um ano,
basicamente porque ela havia dado mais atenção aos projetos do que à contabilidade.
    — Está tentando dificultar minha vida? Agora que completou vinte e nove anos,
quando começa a ouvir a mortalidade batendo na porta dos fundos, decidiu voltar e me
lembrar que...
    — Não se atreva a me ofender, Ryan Donally. Não ia gostar das conseqüências.
    — Deixe-me contar um segredo que você certamente não lembra, uma vez que, na
época, preferiu não estar por perto. Já tive vinte e nove anos. Há dois anos. Sei que vai
sobreviver à crise. Como sempre...
    — Ryan, você sempre fez tudo de acordo com sua vontade. Devia ter nascido rei.

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Perigosa Atração

Suas qualidades napoleônicas fazem de você um ditador formidável, realmente. Digno de
medalhas!
    — Obrigado. Vindo de você vou interpretar o comentário como um elogio.
    — Não é um elogio!
    Ele se aproximou e, encostando-a contra a parede, pôs as duas mãos ao lado de sua
cabeça, impedindo-a de fugir.
    — Eu sei que é. Sempre é.
    Rachell sentia o coração bater depressa no peito. Estava ofegante. A proximidade, o
ambiente e os trajes conferiam ao momento uma intimidade envolvente e perigosa. Muito
perigosa.
    — E agora, Rachell? O que fazemos?
    — Não passei os últimos anos trabalhando duro para continuar me escondendo, só
porque você julga inconveniente a presença de uma mulher na diretoria. Pode ter certeza
de que voltaremos a nos ver em breve para tratar desse assunto — ela ameaçou arfante.
    — Tem certeza de que é... seguro? Estamos sozinhos no meu quarto, você veste só o
meu robe, e seu cabelo cheira a torta de maçã e canela... Francamente, eu seria capaz
de devorá-la, Rachell. O risco é realmente imenso.
    — Oh... — A voz rouca e as palavras provocantes despertaram nela o desejo há muito
suprimido. Podia sentir o calor do corpo de Ryan e antecipar o contato do peito largo e
forte com seus seios. — Você é um homem impossível, Ryan Donally. — Ela escapou
passando por baixo de um dos braços dele. Era imperativo que recuperasse a sanidade
mental e o bom senso. — E não vai se livrar de mim assim tão fácil. É hora de aprender a
dividir.
    Ainda com as mãos apoiadas na parede, ele ouviu o farfalhar do robe e o estrondo
provocado pela batida da porta. Batendo a testa contra a parede três vezes, Ryan
praguejou contra o próprio descontrole e contra os impulsos primitivos que não conseguia
conter. Era terrível sentir-se traído pelo próprio corpo.
    Só Rachell era capaz de frustrá-lo a ponto de provocar reações tão violentas. Só ela
era capaz de transformar a fragrância de maçãs e canela em sinônimo de pecado. Só ela
podia levá-lo ao total descontrole.
    Luxúria e raiva se misturavam, lutando pela primazia. Desejo e ressentimento, paixão
e culpa... A mistura de emoções era perigosa, explosiva e ameaçadora. Anos de
autocontrole, e de repente voltava a ser um adolescente obcecado. Vinte e quatro horas
depois do reencontro, já se sentia correndo o risco de esquecer cautela, propriedade e
conveniência, e tomá-la em seus braços para nunca mais soltá-la.
    — Quer um conhaque, senhor? — Boswell perguntou da porta do quarto.
    Ele olhou para o leal valete e franziu a testa.
    — Por favor, cuide para que a srta. Bailey não tenha a estúpida idéia de voltar a
Londres antes de estar adequadamente vestida. Ela seria inteiramente capaz disso. Pode
imaginar o que diriam os tablóides, não?
    — Sim, senhor.
    Mas a ordem era apenas um esforço de autopreservação. Seria capaz de mandá-la
embora nua, se fosse necessário, mas não passaria a noite sob o mesmo teto que ela.
Não era tão corajoso. Nem tão insano.

20
Perigosa Atração

     — Tem certeza de que o sr. Donally sabe que passei a noite aqui? — Rachell
perguntou quando Boswell deixou a bandeja de café na mesa da sala de jantar.
    — Sim, senhora. Ele foi informado ontem à noite, logo que chegou em casa depois do
jantar.
    — Quer dizer que ele está em casa? Aqui?
    — O sr. Donally chegou pouco antes do amanhecer, senhora. — Havia uma alegria
em sua voz que a desconcertava e intrigava. — E estava exausto.
     Rachell sabia que sua presença naquela casa violava todas as regras de etiqueta
moral, mas ela e Ryan não eram amantes, embora já o houvesse visto nu há muito
tempo. E ele a vira em pior estado de descompostura do que naquele robe da noite
anterior. Além do mais, nunca se ocupara muito de questões da moda ou outras
frivolidades. Não dava nenhuma importância ao que publicavam os tablóides ou ao que
era comentado nos salões da sociedade.
    — Ele não gosta muito de mim, Boswell — Rachell disse com um suspiro que soou
estranho mesmo aos seus ouvidos.
    — Pelo contrário, srta. Bailey. Nunca o vi tão zangado antes — o valete protestou.
    — E isso é bom?
    — O sr. Donally nunca fica zangado, senhora. Ele nunca demonstra seus sentimentos.
    — Ah... entendo.
    — Não creio que entenda realmente.
    — Compreendo que minha presença aqui o incomoda.
    — Incomoda, de fato, mas não pelas razões que imagina.
     — Escute, por que ele não fica na casa que possui em Londres? Não seria mais
simples?
     — Normalmente ele fica na casa da cidade quando tem de passar mais do que
algumas poucas noites em Londres, senhora. Mas aqui ele tem mais privacidade e
conforto para ele e a filha. Por isso prefere a propriedade rural, apesar da distância.
     Rachell folheou o jornal que o mensageiro entregava todas as manhãs. Já havia
cavalgado até a capela onde Kathleen fora sepultada, graças à gentileza de Boswell que
providenciara calça de montaria e colete, além de uma égua dócil que comandara sem
nenhuma dificuldade, e agora estava na sala, tomando seu desjejum. Mas não podia ficar
o dia todo ali, bebendo café, lendo o jornal e pensando onde Ryan havia passado a noite.
Ou por que ainda dormia, apesar do adiantado da hora.
    Irritada por ele permanecer na cama enquanto todo o seu futuro era incerto, Rachell
terminou o desjejum e foi explorar a casa. Um longo corredor partia da sala de refeições e
atravessava todo o comprimento da casa, oferecendo inúmeras possibilidades na forma
de portas fechadas que provocavam a curiosidade. Ela as foi abrindo uma a uma,
examinando salas e estúdios mobiliados com bom gosto e criados para oferecer conforto
aos moradores da residência. Atrás de uma dessas portas estava a sala de esgrima, um
espaço amplo e bem iluminado com piso de madeira e paredes revestidas por espelhos.
Rachell entrou e fechou a porta. Depois de examinar as estantes onde ficavam as armas,
ela empunhou um florete experimentando o peso da arma. Sozinha, executou alguns
movimentos de treino, investindo contra alvos imaginários, cortando o ar e movendo os
pés com impressionante agilidade. De repente, uma idéia surgiu em sua cabeça. Havia

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Perigosa Atração

outra forma de domar o dragão chamado Ryan Donally.
    Sorrindo, Rachell empunhou outro florete e saiu, percorrendo o longo corredor até o
quarto dele. Aproximando a orelha da porta, tentou identificar algum som do outro lado.
Ele devia estar dormindo, ou o silêncio não seria tão completo.
    Rachell bateu e esperou. Não obtendo resposta, abriu a porta e entrou. Ryan dormia.
Mesmo adormecido, seu corpo emanava poder e força. Os músculos definidos lembravam
a obra de um escultor minucioso, e os cabelos castanhos sobre o travesseiro branco eram
sedosos e abundantes. O lençol branco o cobria da cintura para baixo, mas podia ver os
contornos das pernas fortes sob o tecido fino. O desenho provocava imagens mentais
mais do que sugestivas, quase pecaminosas.
    — Se continuar olhando, vai acabar encontrando o que procura.
    A voz rouca a assustou. Ryan soava furioso, o que não era de estranhar. Não tinha o
direito de invadir sua privacidade dessa maneira.
     — Esteve bebendo? — ele perguntou, referindo-se à ousadia da invasão e à
estranheza de seu comportamento.
    — Francamente, Ryan! Não seja ridículo! E já vi você nu antes, lembra? Não sei por
que está tão... perturbado.
    — Não sabe? Pense bem, ache. Você me viu nu há muito tempo, quando ainda
éramos adolescentes. E eu estava nadando em água gelada.
    — Que diferença isso faz?
    — Se eu disser, vai se sentir insultada. Ou constrangida.
    — Então não diga.
    De que adiantaria incentivar tamanha intimidade? Não havia possibilidade de futuro
para eles. Jamais haveria. Ryan não a amava. Além do mais, estava noivo de uma jovem
nobre, sobrinha de um conde. Finalmente, ele poderia relaxar e dar por encerrada a luta
contra uma sociedade que segregava e humilhava irlandeses e outros estrangeiros.
Passaria a ser parte integrante dessa poderosa comunidade.
    Ryan teria um lugar na sociedade. Ninguém jamais humilharia Mary Elizabeth por ser
de uma religião inadequada ou por descender de celtas primitivos. A menina seria bem
recebida na sociedade e em todas as casas. Poderia debutar e freqüentar os melhores
salões. Tudo que Ryan sempre lutara para conquistar na vida finalmente estava ao seu
alcance.
    Sim, ela e Ryan se dispuseram a conquistar o mundo em detrimento de todo o resto.
Empenharam-se nessa árdua luta, e a disputa de hoje só ressaltava a importância de sua
batalha pessoal, especialmente agora. Dessa vez, quando deixasse Londres, deixaria
para trás apenas a D&B. Não deixaria assuntos inacabados, sentimentos confusos ou
possibilidades que, em última análise, serviam de alimento para sonhos que agora
provavam ser impossíveis. Partiria sozinha, consciente de sua solidão, e voltaria toda a
energia para a realização de propósitos profissionais. Mais nada.
    — Invadiu meus aposentos para pôr fim a sua infelicidade, Rachell? Ou vai acabar
também com o meu tormento? A lâmina sobre a qual caminhamos aqui é afiada. O perigo
é inegável. E a lâmina que empunha é igualmente letal, caso não tenha notado. O que
pretende, afinal?
    Ela brandiu o florete.

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Perigosa Atração

    — Vim propor um duelo.
    — Um duelo? Perdeu o pouco juízo que tinha, Rachell?
     — Escute o que tenho a propor. Se eu vencer, você enviará meu projeto para a
avaliação do comitê, com meu nome ocupando o espaço reservado para a identificação
do engenheiro responsável. O que me diz?
    — Digo que perdeu realmente o juízo. Não há dúvida disso.
    — Por quê? Tem medo de perder? Ou não acredita que posso vencê-lo na esgrima?
    — Nem uma coisa, nem outra. Só penso que tudo isso pode esperar, porque cheguei
em casa pouco antes do amanhecer e estou exausto. Preciso dormir, se não se importa.
    — Não! É claro que me importo! Esse assunto é muito importante para mim, Ryan.
    — E eu preciso dormir. Já disse.
    — É muito tarde para continuar na cama, Ryan. O sol nasceu há mais de três horas.
    — Jesus! — Ele jogou as cobertas longe. — Perdeu a razão e decidiu que vai me
enlouquecer, também? É isso? Pois saiba que está muito perto de realizar esse seu
propósito.
    Felizmente, Ryan não estava nu, mas vestia uma calça de pijama fina, larga e de cós
baixo que mais revelava do que escondia. Rachell suspirou aliviada ao vê-lo se dirigir ao
quarto de vestir. Ao menos se livraria dessa tortura. Era difícil ignorar o calor provocado
pela visão do corpo másculo e forte. .
    — Vai me prometer uma coisa, Rachell.
    — O que é?
    — Quando isso acabar, você vai voltar para a Irlanda.
     — Só quando for aceita como diretora dentro da companhia. Você vai ter de me
aceitar como igual.
    — Mal posso esperar por isso! — Ryan exclamou debochado enquanto se lavava e se
vestia. — Noto que está confiante! Deve ter muita certeza da competência do seu instrutor
de esgrima.
     — Na competência do meu instrutor, na minha competência, e também na sorte.
Afinal, estamos falando de um sacerdote aqui. Os santos estão do meu lado. Vamos lutar
descalços e na grama. O primeiro a acertar o outro com um golpe leal e justo será o
vencedor.
    — Por que descalços e por que na grama?
     — Porque foi assim que aprendi. Minha vantagem com relação ao ambiente vai
compensar sua estatura superior à minha.
    — O que significa realmente esse embate, Rachell? O que vamos disputar?
    — Acho que esqueceu o que é ter de lutar por alguma coisa, Ryan. Por isso reluta
tanto em aceitar meu desafio.
     — Não diga tolices. Trabalhei e continuo trabalhando muito por tudo na vida. Fui
desafiado, intimidado e humilhado por gente que se negava a reconhecer minha
existência. Agora chega. Estou farto disso.
    — Se acha que sinto pena de você, esqueça. Você é como um imenso incêndio na
floresta: suga tudo que o cerca com essa energia incontrolável que emana. Domina e
absorve sem olhar duas vezes para aquilo que conquista. Só precisa entrar em algum
lugar para ser notado. Nunca pude competir com isso.

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Perigosa Atração

     — Competir? Quando me deu alguma coisa além do seu desprezo? Quando pude
olhar para você sem ver outro homem em seus olhos?
    — Quando foi a última vez em que olhou nos meus olhos? Não há outro homem neles,
Ryan. Nunca houve. Se tivesse realmente olhado com atenção no passado...
    — Se eu tivesse olhado? Você estava apaixonada por meu irmão! Nunca houve uma
chance para nós. E você sempre deixou isso bem claro.
     — Você me beijou, Ryan. Depois foi para Edimburgo e nunca sequer escreveu para
mim.
     Era impressionante como lembranças da infância podiam elevar as razões de uma
pessoa até fazê-las chegar à lua.
    Rachell conhecia os seis irmãos Donally, crescera com Brianna e Ryan, os dois mais
novos, mas sempre tivera uma paixão infantil por Christopher, o irmão mais velho. Todas
as meninas o adoravam naquele uniforme militar. Onze anos mais velho que ela,
Christopher era um herói inatingível, um mito. Uma obsessão da infância.
     Ryan sempre fora o rebelde, aquele que desafiava as regras e a provocava,
convencendo-a a segui-lo nessas aventuras. Era ele o rapaz ousado que ia visitar as
filhas gêmeas do vigário no meio da noite, o sedutor juvenil que conquistava todas as
garotas por quem se interessava. Ela e Kathleen o seguiam sem questionar suas atitudes
e decisões. Confiavam cegamente em sua força física e em sua inteligência. Com ele
sentiam-se corajosas, protegidas, invencíveis.
    Então, Ryan saíra de casa para ir estudar. E elas ficaram.
    — Você se casou com a minha melhor amiga! — ela disparou com tom de acusação.
     Ryan não respondeu. Não de imediato. Em silêncio, ele a conduziu para fora do
quarto, pelo corredor e pela porta para o exterior da casa. No gramado, ele empunhou o
florete e se posicionou para a luta. Rachell investiu contra ele com uma mistura de
técnica, vigor e vontade.
    Foi uma luta equilibrada, enérgica, mas muito rápida. Em um ataque mais ousado da
respeitável oponente, Ryan se esquivou, agarrou-a pelo pulso e a puxou contra o peito,
imobilizando-a. Ela inclinou o corpo e o arremessou por cima da cabeça, jogando-o de
costas no gramado. Por um momento, foi como se todo o ar escapasse de seus pulmões.
    — Ryan!
    Ele permaneceu imóvel, os olhos abertos fixos no céu. Rachell largou o florete e caiu
de joelhos a seu lado.
    — Ryan, você está bem?
     Ele precisou de alguns instantes para recuperar o ar e a capacidade de raciocinar e
falar. O choque era evidente em sua voz rouca e ainda um pouco ofegante.
    — Por Deus, onde aprendeu isso?
    — Não sei ao certo. Sei apenas que com esse movimento posso me livrar de ataques
traiçoeiros e superar qualquer adversário.
     — Na próxima vez, quero ser avisado com antecedência sobre quais armas serão
usadas.
    — Para que você possa vencer?
    O embate ainda não terminara. Agora duelavam com as palavras.
    — Jamais haverá um vencedor entre nós, Rachell. Esse nosso esforço é inútil.

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Perigosa Atração

   — Isso é o que você pensa.
    De repente, já recuperado do choque e do golpe violento, ele a segurou pelo braço e,
rápido, girou o corpo e a jogou de costas sobre a relva, imobilizando-a com o peso do
próprio corpo.
   — Isso é o que vejo. O que sei.
   — Acredita que me venceu com esse golpe barato e desleal?
    — Por quê? Não concorda comigo? Acha que ainda pode me superar de alguma
forma, mesmo estando imobilizada?
   — Ainda posso gritar.
   — Talvez deva. Nesse momento, não sei qual de nós precisa mais de ajuda.
   Rachell encarou-o confusa, sem entender o significado do comentário.
    Aproveitando esse momento de hesitação, Ryan beijou-a. Foi um beijo ousado,
ardente e sensual. Rachell correspondeu com fervor, enterrando as unhas em seus
ombros. O beijo imitava o ato primitivo da posse sexual. Ela tremia. Podia sentir as mãos
tocando seu corpo de maneira atrevida, despertando sentimentos desconhecidos e
perigosos, fazendo ferver o sangue em suas veias. Precisava recuperar o controle, ou
estaria perdida. Em breve seria tarde demais para tentar voltar atrás. E quando isso
acontecesse...
    — Oh, Rachell... — A voz rouca de Ryan alimentou o desejo. Era como se ele
suplicasse por sua permissão para seguir adiante, para realizar, finalmente, o que ambos
fantasiavam e esperavam há anos.
    Porém, enquanto Rachell ainda estava perdida naquela nuvem acetinada de langor,
paixão e luxúria, ele se afastou, abriu os olhos e encarou-a.
   A respiração de Ryan era úmida e morna em seus lábios, como uma carícia sensual e
provocante, uma promessa de prazeres nunca antes vividos. Nuvens de tempestade
seriam um refúgio seguro comparado ao convite e ao desafio que via em seus olhos.
   — O que estamos fazendo?
   A pergunta soou aflita, cheia de apreensão. Assustada, ela despertou do idílio.
    — Saia de cima de mim — disse apavorada. — Por favor. Ele se levantou e levou as
mãos à lateral do corpo, como se sentisse dor nas costelas. Seus cabelos estavam em
desalinho. Ryan a encarou, abriu a boca para dizer alguma coisa, mas permaneceu
calado, os olhos fixos em um determinado ponto do gramado.
    Rachell seguiu a direção do olhar de Ryan e percebeu que a filha dele se aproximava
correndo.
   — Papai! — A menina parecia agitada, mas sorria com alegria.
    — Mary Elizabeth se aproxima. — Ryan anunciou desnecessariamente, uma vez que
a presença da criança era óbvia. — Não quero que ela tenha a impressão de que
estamos tentando nos matar. — Ele se abaixou e recuperou os dois floretes. — Volte para
casa e recomponha-se. Tenho certeza de que suas roupas já estão prontas e em
perfeitas condições de uso. Enquanto você se arruma, vou pedir a carruagem.
    Rachell não se deixava enganar pela falsa indiferença de Ryan. Sabia que ele tinha
consciência da importância do que acabara de acontecer ali. Alguma coisa o impedia de
agir com franqueza e espontaneidade. Alguma coisa...
    — Vai partir para sua residência em Londres esta noite? — ela perguntou sem fitá-lo

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Perigosa Atração

diretamente.
    Antes de deixar o edifício da D&B, precavera-se pedindo a Stewart o itinerário
completo de Ryan, e fora imediatamente atendida em seu pedido. Sempre acreditara que
informação é a melhor arma com que se pode contar em uma guerra. E o que vivia com
Ryan não deixava de ser uma guerra fria, ao menos nesse estágio em que se
encontravam.
    Ryan parecia constrangido. Na verdade, ele hesitou por alguns instantes antes de
responder em voz baixa:
    — Rachell, amanhã ficarei oficialmente noivo. Vai haver uma recepção para anunciar o
compromisso à sociedade.
    A notícia causou um impacto intenso que ela não conseguiu ignorar, mas que,
determinada e forte, decidiu esconder. Não daria a Ryan o prazer de descobrir que ainda
tinha o poder de afetá-la tão profundamente.
    — Entendo — ela disse. — E agora que você vai ser oficialmente aceito pela
sociedade local e pela nobreza britânica, suponho que planeje participar de uma caça à
raposa com seus novos amigos. É isso? Vai começar essa nova etapa em sua vida
dedicando-se a uma atividade tipicamente nobre... e absolutamente detestável?
    — Não. Meus planos não incluem nenhuma atividade tão emocionante, tradicional ou
dinâmica. Além do mais, com o anúncio oficial do noivado, ficará evidente que já cacei a
única raposa que merece algum esforço em toda a Inglaterra.
    Rachell sabia que ele se referia à bela sobrinha de lorde Devonshire.
    — Tenho reuniões na terça e na quarta-feira — Ryan continuou em voz baixa, mesmo
sabendo que não devia nenhuma explicação a Rachell. — Tenho de tratar de questões de
trabalho.
    — Ah, bem... Nesse caso, vamos nos encontrar. Também vou participar das reuniões.
Como acionista e membro da diretoria...
    — Rachell, não é o que está pensando. Essas reuniões...
    — Por favor, Ryan, não subestime minha inteligência. Essa é uma ofensa que sou
incapaz de relevar ou perdoar.
    — Acreditaria em mim se eu dissesse que esse negócio nada tem a ver com a D&B?
    — Eu até poderia acreditar em tudo que diz, Ryan, mas só se eu confiasse em você.
    Ele se virou.
    Depois, devagar, caminhou até perto dela e estendeu a mão.
    Rachell não entendia o desejo que sentia por ele. Não conseguia compreender como
havia se comportado de maneira tão leviana e inconseqüente, e no meio do jardim da
casa dele, onde poderiam ter sido vistos por qualquer pessoa e envolvidos num terrível
escândalo de conseqüências incomensuráveis. Não conseguia entender a total falta de
compostura e equilíbrio que em nada combinava com sua personalidade prática, com sua
natureza objetiva e cautelosa.
    Ryan recuou e baixou a mão. Era evidente que Rachell não pretendia aceitar sua
oferta de ajuda, nem mesmo para levantar-se do chão.
    — Como preferir — ele disse impaciente e irritado. Depois se inclinou com galanteria e
cavalheirismo. No instante seguinte, ele partiu deixando-a sentada entre as petúnias,
levando a mente confusa e as emoções ao mais completo caos. Rachell ficou ali sentada,

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Perigosa Atração

sem saber o que fazer. Pior do que a incerteza e do que todos os outros sentimentos era
a humilhação de sentir-se desdenhada e rejeitada como uma criatura baixa e sem
importância. Como uma mulher vulgar e sem nenhum amor próprio, alguém que se
oferecia sem pudores a um homem que já a havia rejeitado no passado.



     Capítulo III

   — Srta. Bailey? — O homem de cabelos brancos e rosto sereno e bondoso que abriu a
porta deu um passo à frente, saindo para ir encontrá-la na varanda. — O que faz sozinha
num tempo como esse? Devia estar abrigada em um local seco e quente.
     Ele tinha razão, certamente. Afinal, chovia forte e incessantemente. Rachell apertava o
manto contra o corpo, tentando aquecer-se. Era inútil. A umidade parecia penetrar até
mesmo em seus ossos, congelando o sangue em suas veias. Podia sentir o perfume de
cera de limão no interior da residência. A luminosidade da lareira tornava o ambiente
ainda mais convidativo.
     — Lamento muito incomodá-lo, sr. Williams — ela disse com a cabeça coberta pelo
capuz do manto. — Mas preciso lhe falar.
     Ele olhou por cima dos óculos. Havia um jornal dobrado sob seu braço, sinais claros
de que interrompera sua leitura com a visita inesperada. Segurando a porta aberta, o sr.
Williams passou ao interior da casa e a convidou a segui-lo.
     — Gostaria de um café, ou um chá? Alguma outra bebida que seja capaz de aquecê-
la, talvez?
     — Não, não se incomode comigo. Não é necessário. —Rachell sorriu rapidamente a
fim de cumprimentar a jovem criada que, parada no hall de entrada, esperava obediente e
solícita para recolher seu manto. — Não vou demorar — explicou. Era impossível não
notar a poça de água que deixava no chão de madeira encerada. — Desculpe-me... — ela
pediu constrangida, percebendo repentinamente que causava maiores transtornos do que
havia previsto.
     — Não se incomode com isso, srta. Bailey. Sei que não teria vindo até aqui nesse
tempo inclemente se o assunto não fosse realmente importante. Por favor, entre e venha
se aquecer. Em que posso ajudá-la?
     O sr. Williams fechou a porta e, ao ver que a criada se afastava com seu manto
encharcado, levou-a até a biblioteca. Ele havia sido advogado de seu pai e seu homem de
confiança em Londres por dez anos. Agora, Williams cuidava dos negócios de Rachell
com idêntica eficiência e a mesma dedicação. Confiava nele. Sabia que podia contar com
sua eficiência e com sua capacidade sempre que delas precisasse. Sabia que suas
questões, apreensões e interações jamais ultrapassariam os limites do relacionamento
profissional. Em suma, tinha absoluta certeza de que, fosse qual fosse o assunto, o sr.
Williams seria sempre discreto e nunca, em nenhuma circunstância, revelaria o teor de
suas conversas a quem quer que fosse.
    —Não quer se sentar, senhorita? — ele convidou com a delicadeza de sempre.
     Rachell aceitou o convite. Williams acomodou-se atrás da mesa da biblioteca que
funcionava também como escritório e, paciente e discreto, esperou em silêncio que ela

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Perigosa Atração

abordasse o assunto que a levara até ali.
    Rachell respirou fundo. Havia retornado da casa de Ryan na área rural no domingo
anterior e, desde então, passara a maior parte do tempo tabulando números, estudando-
os e decidindo por quanto tempo ainda poderia defender o projeto em Rathdrum sem pôr
em risco a saúde financeira da empresa. Havia contratos a serem cumpridos,
compromissos a serem saldados. E não pediria mais nada a Ryan. Era hora de resolver
os próprios problemas sozinha, ou sua credibilidade como profissional e líder de equipe
estaria prejudicada para sempre. Ninguém jamais a julgaria capaz de concluir um projeto
se deixasse essa questão de Rathdrum ir por água abaixo. Se não concluísse o projeto de
construção da ponte e não cumprisse todos os contratos, Ryan fecharia a divisão na
Irlanda. E ela estaria arruinada.
     — Sr. Williams — Rachell começou, retirando da bolsa os papéis no qual estivera
trabalhando durante os últimos dias. — Gostaria de vender o que resta da minha herança.
Não é muito, mas sei que a transação vai render o valor de que necessito nesse momento
para solucionar problemas prementes. Tenho uma propriedade em Carlisle que vai render
um bom dinheiro. Desejo vender a casa e o terreno. Não vou lá há anos. Não vai fazer
falta. Não preciso do imóvel, mas necessito urgentemente do dinheiro que será auferido
com essa venda. Aqui estão os nomes de algumas pessoas que já me procuraram
indagando sobre meu interesse em vender o imóvel. Os contatos foram feitos no passado,
quando eu não pensava em vender a propriedade, mas... Bem, talvez ainda haja alguém
interessado.
     A transação produziria dois resultados imediatos: obteria o dinheiro de que
necessitava para cumprir os contratos em Dublin e concluir o projeto Rathdrum, e ainda
cortaria definitivamente seus últimos laços com a Inglaterra. Não havia dúvida, de que a
decisão era sábia e astuta, embora difícil e dolorosa.
    — Mas esse é o lugar onde passou sua infância, srta. Bailey. Seu pai construiu aquela
casa. Deve haver muitas lembranças doces em Carlisle, recordações caras que qualquer
pessoa gostaria de guardar eternamente. Não entendo por que deseja vender a
propriedade.
    — Basicamente, porque agora vivo na Irlanda. A propriedade é a única coisa de valor
que ainda me resta e, por uma infeliz circunstância, preciso do dinheiro. Como pode
perceber, não me resta alternativa se não essa que exponho agora, sr. Williams. Mesmo
com todas as boas lembranças da minha infância, vou ter de me desfazer da casa. E
inevitável.
     — Ainda tem a Donally & Bailey. A casa em Carlisle não é seu único bem, como
afirmou há pouco. É sócia dos Donally na empresa, e o sr. Ryan não se negaria a...
    Rachell ergueu uma das mãos de forma a calar o protesto do homem que, intrigado
com sua atitude, tentava demovê-la da decisão que entendia como absurda e
perfeitamente possível de evitar.Ryan. O Sr. Tubarão de Londres, rico industrial e
personalidade do momento, o homem que detinha o controle sobre sua vida. Esse era um
bom momento para tentar reunir a munição necessária para uma eventual guerra. Talvez
o sr. Williams pudesse ajudá-la nesse sentido.
    — Por favor, gostaria de entender o aspecto comercial dessa minha sociedade com
Ryan e Johnny.

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Perigosa Atração

    — O que quer saber exatamente, senhorita?
     — Entre outras coisas, quero que me diga o que eu teria de fazer para adquirir o
controle acionário da D&B.
    Silêncio. O pobre homem parecia estar chocado com a pergunta inesperada.
    — E então, sr. Williams? Pode me ajudar, ou não?
    — Posso responder a sua pergunta, certamente, mas...
    — Mas?
    — Infelizmente, o custo de tal operação é proibitivo, senhorita. Não dispõe do capital
nem dos meios para realizar tamanha façanha.
    — Como pode ser possível que Ryan ainda não seja proprietário da companhia? Ele
comprou quase todas as ações de minha família.
    — De fato, senhorita, aconteceu exatamente como está dizendo, mas tudo isso mudou
quando ele tornou a D&B uma empresa de capital público, há cinco anos. Ryan investiu
tudo que tinha na empresa para garantir o capital que a manteria à tona. Poderia ter
mantido ele mesmo o controle acionário da empresa, mas não foi o que fez.
     Ryan fez o quê? O sr. Williams estava dizendo que Ryan abrira mão do controle
acionário da D&B para abri-la ao capital público? Desistira de manter-se no comando
absoluto para assegurar a saúde financeira da empresa fundada por suas famílias? Era
difícil de acreditar que um homem implacável e arrogante como ele podia ser capaz de
uma atitude tão altruísta.
    — Não entendi muito bem, mas...
     — O que não entendeu, senhorita? Creio ter sido claro. O sr. Ryan Donally abriu a
empresa ao capital público para obter a injeção de recursos que se fazia necessária a fim
de assegurar a continuidade do funcionamento das operações.
     — Sim, isso ficou claro, mas... A ausência de um acionista majoritário não torna a
companhia vulnerável a ataques?
     — Normalmente, seria como está dizendo, sim. Mas, como ficou estabelecido no
estatuto criado por Ryan, há dois tipos de ações da D&B, srta. Bailey. As ações
preferenciais da companhia, e as ações comuns. Essas últimas são compradas e
vendidas no mercado, mas não ultrapassam a marca de quarenta e nove por cento do
total de ações. De acordo com o estatuto, as duas famílias fundadoras terão juntas
sempre cinqüenta e um por cento da D&B. Nenhum de vocês pode vender ações, a
menos que seja para a outra família, e nenhum acionista comum pode ocupar posição no
conselho diretor sem o consentimento da maioria do conselho. Nesse caso, como todos
vocês têm a mesma quantidade de ações, cada um detém um voto. Resumindo, ainda
são as duas famílias fundadoras que detêm o comando da D&B.
    — Mas as ações comuns em poder do público somam quarenta e nove por cento da
companhia. Então, teoricamente, se eu recuperar as ações que estão em poder de Ryan,
posso adquirir ações comuns e obter o controle acionário. Posso apontar quem bem
entender para a diretoria. Posso até estabelecer novas políticas. Em suma, sr. Williams,
ainda é possível uma única pessoa assumir o comando, apesar do novo estatuto criado
por Ryan para proteger a D&B.
     — Mesmo que tivesse essa capacidade, o que não tem, porque, como acabou de
dizer, para isso teria de recuperar ações que se encontram em poder de Ryan, o sr.

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Perigosa Atração

Donally a impediria assim que tentasse dar o primeiro passo nesse sentido. Ao contrário
da senhorita, ele dispõe dos meios para adquirir ações comuns. Jamais permitiria que
outra pessoa assumisse a presidência da empresa.
    Rachell odiava sentir-se impotente. De qualquer maneira, nesse momento era mais
importante encontrar um meio de manter sua divisão irlandesa operando. Pensaria no
controle acionário e no comando da D&B em outra ocasião, quando não estivesse
pressionada por problemas mais urgentes.
    — Quero que obtenha a lista dos acionistas — ela pediu. — Esse tipo de relação é de
domínio público, não?
    — Srta. Bailey...
    — Quero a lista, sr. Williams. Só isso. — Rachell se levantou antes que ele pudesse
oferecer novos argumentos para reforçar seus protestos.
    Não havia mais nada que pudesse fazer nesse momento. E não queria correr o risco
de se deixar desanimar.
    — Para onde devo remeter as informações que está me pedindo, senhorita?
     — Estou hospedada no Palace Hotel. Pode mandar a lista dos acionistas por
mensageiro, se quiser, ou pode levá-la pessoalmente.
    Sabia que permaneceria no hotel por mais alguns dias. Não dispunha de muito tempo,
mas precisava esperar. Sem a lista dos acionistas, nada poderia fazer. Mas gostaria de
poder acelerar todo o procedimento e deixar a cidade o quanto antes.
    Ryan não a queria em Londres, e ela também não desejava prolongar sua estadia.
     Não voltara a vê-lo desde aquele beijo no jardim. Dois dias atrás. Sabia que ele
retornara a Londres na noite anterior. A casa ficava a poucos quarteirões do hotel, e
passara diante dela em uma de suas idas e vindas pelas ruas movimentadas da cidade.
Vira as luzes acesas e a carruagem na porta. Sabia que Ryan estava lá. Mas não voltara
a vê-lo.
    — Agradeço por ter me recebido, sr. Williams — Rachell disse a caminho da porta da
biblioteca.
    — Estou sempre ao seu dispor, srta. Bailey. Não precisa me agradecer. Afinal de
contas, seu pai foi mais que um simples cliente. Ele foi um grande amigo. E se minha
esposa ainda fosse viva, a senhorita não teria sido impelida a buscar acomodações em
um hotel frio e impessoal. Eu a teria hospedado em minha casa.
    — A propósito, sr. Williams, como tem passado desde que ficou viúvo?
    — Fomos casados por trinta e dois anos. Como alguém pode se habituar à solidão
depois de tanto tempo? Minha esposa deixou uma lacuna que jamais poderia preencher,
certamente. Compreende o que digo, não é, senhorita?
    Rachell não tinha uma resposta para essa pergunta. Não saberia responder. Nada
sabia sobre amor, casamento ou maridos, nem mesmo sobre pais e filhas. Seu pai havia
passado doze longos anos chorando a morte do filho que havia falecido ao nascer, com a
mãe, que também morrera vítima do parto.
    Dominado pela dor da dupla perda, ele jamais dera importância ao fato de Rachell ter
perdido a mãe. Depois da negligência e da infância de solidão e frieza, ela passara toda a
vida lutando para obter o reconhecimento do homem que preferia a companhia de uma
garrafa a elogiar as façanhas da filha e reconhecer seu valor. Era compreensível que

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Perigosa Atração

Christopher Donally se houvesse tornado seu cavaleiro na armadura brilhante, seu defen-
sor em vestes escarlates... até ela perceber que a única pessoa capaz de salvar sua vida
era ela mesma. Então, tudo mudara. Rachell percorreu o longo corredor que conduzia até
a porta da casa e, com a ajuda da mesma criada que a recebera, cobriu-se com o manto
molhado. A chuva ainda caía lá fora. O ar parecia ainda mais frio por conta da elevada
umidade.
    — Meu filho agora é advogado graduado — Williams revelou com tom neutro, embora
fosse óbvio o orgulho que sentia disso. — No mês que vem serei avô pela primeira vez.
     — Meus parabéns. — Ela estendeu a mão para cumprimentá-lo. Estava realmente
feliz pelo velho amigo.
     — Mandarei notícias sobre a propriedade. Até logo, srta. Bailey. Espero que obtenha
sucesso nessa nova empreitada, embora não tenha muita confiança na sua...
     — Sr. Williams, já deixou bem clara sua opinião sobre o que planejo fazer. Mesmo
assim, estou determinada a tentar. E agradeço antecipadamente tudo que puder fazer por
mim nesse sentido. Muito obrigada.
    Rachell entrou no coche de aluguel e voltou ao hotel protegida pelo manto com capuz.
Era tarde, e seus passos eram silenciosos e abafados no longo corredor acarpetado do
andar onde ficavam seus aposentos. Elsie, sua ama, já dormia no sofá.
    Rachell entrou na área privada da suíte e livrou-se do manto molhado que ameaçava
congelá-la. Agora estava feito, ela pensou satisfeita. Cortara definitivamente seus últimos
laços com a Inglaterra. Começaria uma nova etapa de vida. Uma etapa que, sabia, seria
muito diferente de tudo que vivera antes.
     Rachell fechou os olhos e se deixou envolver pelo calor da água morna na banheira.
Merecia esse momento de lazer e relaxamento depois de tudo que enfrentara nos últimos
dias. Com uma garrafa de champanhe em uma das mãos e um cigarro na outra, ela
respirava a fragrância de maçã e canela que o vapor do banho espalhava pelo aposento.
As batidas em uma das portas da suíte a importunaram. Infelizmente, estava mais sóbria
do que gostaria, e ela abriu os olhos absolutamente exasperada por não poder gozar de
um instante de paz. Por que as pessoas não esqueciam que estava viva, mesmo que
fosse só por um momento?
    — Seja quem for, mande para o inferno, Elsie! — ela gritou. — Paguei por esse quarto
até o final da semana. Se quiser cantar, ninguém vai me impedir! E gosto de cantar bem
alto!
     Era uma mulher independente. Não precisava de mais ninguém para sentir-se
completa. Podia beber, fumar e cantar sempre que quisesse. E não seria um hóspede
mal-humorado e impaciente que mudaria seu temperamento ou interromperia seu
momento de lazer.
     — Srta. Bailey? Há um certo sr. Donally esperando para vê-la — Elsie anunciou da
porta do banheiro.
     Sr. Donally? O único Donally que iria procurá-la no hotel e ainda teria a ousadia de
subir ao quarto em que se hospedava era Johnny. O sólido e estável casamento com
Moira conferia a ele a liberdade de tomar certas liberdades quanto ao código de moral e
comportamento ditado pela rígida sociedade londrina. Quaisquer que fossem os boatos
que o cercassem, Moira jamais deixaria de acreditar em seu amor e em sua lealdade.

31
Perigosa Atração

    — Elsie, o que Johnny pode querer aqui? Ele e Moira vão à ópera e...
    — Johnny? Não sei de quem está falando, senhorita.
    — Não sabe? Se acaba de anunciar que um certo sr. Donally deseja falar comigo...
    — O nome do cavalheiro é Ryan, senhorita. Ryan Donally.
    — Ryan? Aqui? No meio da noite?
    — São só seis horas da tarde, senhora.
    — Seis horas da tarde? Céus, como pude perder a noção do tempo de forma tão
completa? Por Deus! — Rachell se levantou e constatou que havia bebido demais. As
pernas não pareciam estar tão firmes como de costume, e cada pequeno movimento
exigia grande cuidado. — E Ryan? O que ele pode querer aqui?
    — Não sei, senhora. Teria sido ousadia excessiva interrogá-lo sobre o motivo de sua
inesperada visita. Mas o cavalheiro está realmente muito bem vestido.
    Rachell se enxugou rapidamente e vestiu o robe de seda, abotoando-o com esforço
enquanto Elsie deslizava uma escova por seus cabelos molhados e embaraçados.
     Ela se olhou no espelho. Os cabelos encharcados pendiam ainda um pouco
emaranhados até a cintura. Mas Ryan já a vira em estado pior. E a curiosidade, nesse
momento, era muito maior do que a vaidade. Queria saber o que havia levado Ryan a ir
procurá-la no hotel sem antes se anunciar.
    — Esqueça o cabelo, Elsie. Onde ele está?
    — Na sala de estar da suíte, senhora.
    Rachell correu e tropeçou no tapete do corredor. Temia que ele se cansasse de
esperar e fosse embora, por isso caminhava depressa, apesar do torpor causado pelo
excesso de champanhe e do langor provocado pelo longo banho de imersão.
    Mas Ryan não havia partido. Ainda a esperava em pé diante da janela de onde se via
a rua. O casaco desabotoado revelava uma casaca formal e camisa branca com elegante
faixa na cintura, mas o chapéu e as luvas estavam sobre a mesa da entrada, ao lado das
luvas dela.
    Ele se virou ao ouvir seus passos.
    — Lamento o que aconteceu entre nós no final de semana — Ryan foi logo dizendo
sem rodeios, demonstrando humildade excessiva e inusitada para um homem que
acreditava ser dono do mundo. — Não devia tê-la beijado. Quero me desculpar, Rachell.
Foi simplesmente...
    — Surpreendente? Fabuloso? Ou foi só um acidente?
     Ryan balançou a cabeça, revelando grande confusão. Rachell não sabia se o
sentimento era causado pelo que acontecera entre eles no jardim da casa na propriedade
rural, ou por sua atitude com relação ao episódio e à presença dele ali, no hotel.
    — Aquilo aconteceu bem diante dos olhos de todos os meus empregados.
    Rachell levou os dedos indicadores às têmporas, sentindo o início de uma dor de
cabeça que prometia ser devastadora, caso não fizesse nada para contê-la.
    Não queria sentir pena dele, mas a reação era inevitável. Devia ser a bebida, decidiu.
Champanhe sempre tivera o poder de alterar sua capacidade de julgamento.
    Ela começou a rir, mais uma prova de que estava mesmo alterada pelo consumo
excessivo de álcool. Ryan aproximou-se com ar intrigado e sério.
    — Quantas vezes pedimos desculpas um ao outro nessa semana? — ela indagou,

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Perigosa Atração

tentando não ;sentir o calor do corpo que se aproximara repentinamente do dela. Devia ter
antecipado esse tipo de atitude. Ryan era capaz de usar todo e qualquer artifício para
provar um ponto de vista ou tirar proveito de uma situação qualquer.
     — Acho que você ainda está ganhando — ele respondeu com tom amargo e
ressentido.
     — E eu acho que isso é sinal de que ternos um assunto a concluir—argumentou
Rachell. — Por que nunca terminamos aquele beijo tantos anos atrás?
     — Por que você me esbofeteou, talvez? Não pode ter se esquecido desse pequeno
detalhe.
     — É claro que não esqueci. O que talvez não tenha pensado é que posso tê-lo
esbofeteado por você tratar a questão como se fosse uma piada. É razoável, não?
     — Você era jovem, Rachell. Praticamente uma menina. Seu pai teria me matado, se
soubesse que estávamos nos beijando às escondidas.
    Às vezes Rachell odiava a lógica. Especialmente quando ela se apresentava na forma
de mais um irritante argumento de Ryan Donally.
    De qualquer maneira, com ou sem lógica, a situação permanecia inalterada. A verdade
das palavras de Ryan não anulava o amor que sentia por ele, nem o fato de ele ter planos
de se casar em outubro com outra mulher. Johnny havia contado que lady Gwyneth era
sua escolhida. O que havia entre Ryan e ela era elétrico, sem dúvida, intenso e inegável,
mas puramente físico. Nunca iria muito longe. Jamais os levaria a um casamento.
     De repente ele olhou em volta como se só então notasse o ambiente em que se
encontravam.
     — Rachell, por que se hospedou na suíte presidencial do hotel? — Ryan indagou
intrigado e sério.
    Ela respirou fundo a fim de não perder a paciência. O homem era mesmo impertinente
e arrogante! Por que achava ter o direito de questionar suas decisões?
     — Porque foi a única coisa que Johnny conseguiu arranjar para mim. Não escolhi a
suíte presidencial, se é o que está perguntando.
     — Ah, sim... Compreendo. E esteve bebendo, certamente. Quanto? Uma garrafa?
Duas? Mais, talvez?
    — Não é da sua conta, Bebo quanto eu quero, quando eu quero, e não preciso da sua
aprovação para isso. Na verdade, não preciso da aprovação de ninguém para nada. Sou
uma mulher independente.
     — E inconseqüente, também. — Ryan olhou para Elsie e repetiu a pergunta sem
alterar o tom de voz. — Quanto ela bebeu?
     — Meia garrafa de champanhe, senhor, mas ela não comeu nada. E estava na
banheira cheia de água morna, o que deve tê-la tornado ainda mais vulnerável à bebida.
     — Como eu imaginava. E como eu disse: inconseqüente. Rachell, tem alguma coisa
adequada para vestir hoje à noite?
    Ele caminhou até o armário e abriu as portas. Rachell correu atrás de Ryan, fechou as
portas com chutes violentos e nada femininos e, apoiada nelas, cruzou os braços para
encará-lo numa atitude beligerante. Se Ryan queria um confronto direto, estava mais do
que preparada para enfrentá-lo e vencê-lo.
    — O que está fazendo? Por que esse súbito interesse no meu vestuário? E o que essa

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Perigosa Atração

noite tem de tão especial? Não vou a lugar nenhum. Não preciso de roupas especiais
para permanecer nos meus aposentos em companhia de Elsie.
    — Está enganada, Rachell. Você vai à ópera com Johnny e Moira.
    — Eu vou? Quem disse? E por que acha que irei à ópera?
    — Todos os membros da diretoria da D&B e da Ore Industries vão estar lá. Quer ser
incluída ou não?
    Rachell encarou-o incrédula.
     Precisava pensar e clarear as idéias. Depois de um instante de reflexão, ela
perguntou:
    — Por que não disse nada antes?
    — Porque não julguei necessário. Mas estou dizendo agora.
    — Por quê?
    — Você faz parte da diretoria, Rachell. E já manifestou sua intenção de se fazer notar
dentro desse grupo. Já disse que quer agir e ser tratada como uma das diretoras.
Portanto, não vou permitir que fique aqui sozinha se embebedando. Você vai sair para ir à
ópera, como todos os outros membros do conselho diretor. Já falei com Johnny e ele virá
buscá-la.
    — Como sabe o que faço dentro dos meus aposentos? Quem disse que fico aqui me
embebedando quando estou sozinha?
    — Não permitiria que ele invadisse sua vida e começasse a dar ordens como um
César romano!
    Ryan não respondeu. Em silêncio, ele escolheu um vestido e colocou-o em suas mãos
com um gesto firme e determinado.
    — Providencie para que seja passado. Oh, e ela vai precisar de café — ele comunicou
à criada. — Bem forte e amargo. Vou pedir o jantar. E você precisa arrumar o cabelo. E
vai se alimentar bem, ou não conseguirá assimilar todo o álcool que consumiu.
    — Como devo penteá-la, sr. Donally? — quis saber Elsie.
    — Não se incomode com isso, Elsie Tompkins — Rachell disparou irritada. — Não é
tão difícil. Vamos conseguir. O sr. Donally não será desapontado por nós. Deus nos livre
disso ! — A exclamação soou debochada e sarcástica.
    — Sim, senhora. — Mortificada, a jovem se retirou. Ryan e Rachell ficaram sozinhos.
    Ryan caminhou até o hall de entrada da suíte e voltou com a pasta que ela havia
deixado em sua casa e que ele se encarregara de levar naquela noite.
    — Seu projeto é consistente, Rachell — ele disse com tom profissional. — Nunca
questionei seu talento ou sua dedicação. Você é uma excelente engenheira. Se fosse
homem, encontraria boas posições em qualquer empresa do mundo.
    — Mas se puser meu nome no projeto, a D&B jamais será contratada para outro
trabalho na Irlanda. Precisa considerar seus acionistas. Não é isso que está dizendo,
Ryan?
    — É exatamente isso. Esse é meu trabalho, Rachell. Tenho deveres com a empresa e
com as pessoas que dela dependem para sobreviver. Sabe que não posso lhe dar
nenhuma consideração especial. Não agiria de maneira diferente com Johnny, se, por
alguma razão, ele pudesse prejudicar a companhia ou seus empregados.
    — Não podemos conversar melhor sobre tudo isso, Ryan?

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Perigosa Atração

     — Sim, podemos continuar discutindo até amanhã, ou você pode se arrumar e ir à
ópera com Moira e Johnny. Asseguro-lhe que a segunda alternativa é muito mais
interessante e proveitosa para todos nós.
     — Você se tornou pragmático demais. Onde está a paixão? A emoção?
     Ryan parou para refletir. Não podia se dar ao luxo de falar sobre paixão e emoção.
Não com Rachell. Não agora, enquanto estavam sozinhos numa confortável e luxuosa
suíte presidencial. Bem, tecnicamente não estavam sozinhos, porque Elsie se encontrava
no aposento contíguo cuidando dos preparativos para vestir e pentear sua senhora, mas,
na prática, poderiam fazer o que quisessem ali. Uma ordem, e Elsie desapareceria de
cena.
     — Na esgrima — ele disse com falsa indiferença. — Sou apaixonado pelo esporte. É
nele que deposito minha paixão e minha energia. E agora, se me dá licença, vou pedir
seu jantar. — E escapar do risco inerente ao contato próximo, íntimo e pessoal com
Rachell enquanto ainda podia fugir. — Cuidarei disso a caminho da saída.
     — Mas...
     — Trate de comer, está bem? Precisa eliminar todo esse álcool que está circulando
em seu sangue. E, por favor, comporte-se na ópera. Não tome a situação pior do que já é.
     Ryan saiu apressado, temendo fazer alguma coisa de que pudesse se arrepender.
Algo como, por exemplo, beijá-la novamente.
     Rachell ficou parada no meio do quarto, dividida entre a impaciência perante a atitude
superior e arrogante de Ryan e a gratidão por ele ainda se preocupar com seu bem-estar.
Quando ele estava por perto, sua principal emoção era sempre essa: confusão.
     Se Ryan já estava exaltado antes, ver Gwyneth no saguão do hotel só intensificou a
irritação. Ela estava cercada por inúmeros cavalheiros da Ore Industries e se fazia
acompanhar também pelo primo, lorde Bathwick, um indivíduo cuja simples presença
tinha o dom de incomodá-lo profundamente. E o que Gwyneth fazia ali, afinal? Acertara
que iria buscá-la em casa para jantarem antes da ópera, mas, aparentemente, ela se
cansara de esperar, e agora recebia com alegria os tributos prestados por todos aqueles
homens.
      Ryan aproximou-se carrancudo e, depois de cumprimentar rapidamente todos os
presentes, pediu explicações. Gwyneth relatou que tomara conhecimento do coquetel
oferecido pela Ore Industries naquele recinto e decidira ir até lá. Porém, ao chegar, ela
fora informada de que só os portadores de convites nominais poderiam entrar. Por isso
estava ali, conversando com alguns conhecidos e exibindo o vestido novo que ele nem
notara! Ou Ryan esperava que ela voltasse para casa conformada e nem cumprimentasse
os conhecidos que identificara no saguão? Teria sido uma imperdoável grosseria!
      Sem nenhuma hesitação, Ryan elogiou seu vestido, despediu-se de todos os
cavalheiros, deu a ela seu convite para a recepção e, altivo, retirou-se desejando uma boa
noite de entretenimento.
     Ryan deixava o hotel depois de abrir mão de uma noite de diversão com a mulher
mais cobiçada da Inglaterra. Como se não bastasse, desistira de comparecer a um evento
para o qual os convites eram disputados como ouro! E a indiferença que sentia era
simplesmente incompreensível.
     Rachell estava ocupada com os preparativos para a ópera. Elsie já havia ido buscar o

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Perigosa Atração

vestido, mas ainda não penteara seus cabelos, e não sabia onde a jovem se metera.
    Um ruído na sala de estar da suíte chamou sua atenção, e ela decidiu ir verificar o que
podia estar retardando a criada. Então, ela não sabia que horas eram? Se não se
apressasse, perderia o início do espetáculo, uma gafe imperdoável.
    — Elsie? — ela chamou, dirigindo-se à sala enquanto vestia o robe sobre as meias e
os trajes íntimos. — Elsie?
    — Ela não está, srta. Bailey.
    A voz masculina a fez virar-se sobressaltada. Com a mão sobre o peito, Rachell olhou
para as sombras no canto da sala e viu um homem encostado à parede próxima da porta
que levava ao quarto. Ele era familiar, alto, com cabelos grisalhos nas têmporas e uma
arrogância que em nada contribuía para torná-lo simpático.
    — O que fez com minha criada? — Rachell indagou com um misto de atrevimento e
temor.
    — Creio que ela julgou mais prudente esperar lá fora, senhorita. — O homem se
adiantou para a área iluminada da sala, e ela reconheceu Devonshire. — Acalme-se —
ele disse com um sorriso gelado e repulsivo. — Não pretendo fazer-lhe nenhum mal. Vim
porque me lembrei... Bem, soube que me parecia familiar quando a vi no baile dos
Telford. Tem um passado muito... cintilante, digamos. Oh, e esse champanhe é melhor do
que o que foi servido pela Sociedade de Engenharia na entrega do prêmio. Parabéns pelo
bom gosto — ele elogiou, exibindo uma taça com a bebida que restara na garrafa aberta
   por Rachell pouco antes de entrar na banheira. — Sente-se, srta. Bailey. Só quero
conversar. Por enquanto.
    — O que pode querer falar comigo? — E como ele ousava invadir seus aposentos e
ainda dar ordens, como se fosse seu superior de alguma maneira? O homem era mais do
que arrogante. Era... insuportável!
    — Sou muito cauteloso, senhorita. Tomo cuidado ao tratar com meus futuros parentes
e não gosto de perder o que me pertence. Tenho um certo preconceito contra a pobreza,
sabe? Suponho que seja capaz de compreender esse sentimento.
    Rachell notou um envelope sobre uma mesa de canto.
    — O que é aquilo? — perguntou. Sabia que o envelope não estivera ali pouco, antes
da chegada do intratável cavalheiro.
    — Dentro daquele envelope há duas passagens de volta para a Irlanda. Francamente,
não me interesso por seu passado ou pelas pessoas que nele estiveram. Meu único
interesse em toda essa história é Donally. Ryan Donally, para ser mais preciso.
    — Entendo. Quer o dinheiro dele — Rachell disparou com ousadia. — Seu verdadeiro
interesse é a fortuna de Ryan Donally. Estou correta em minha dedução, milorde? — Não
se deixaria intimidar por esse homem detestável. Conhecia suas verdadeiras intenções e
não hesitaria em manifestar esse conhecimento. Talvez assim ele recuasse e a deixasse
em paz.
    — Absolutamente correta, srta. Bailey. Como suspeitava, sua inteligência é admirável.
Especialmente para uma mulher. E a fortuna a que se refere é muito maior do que pode
imaginar. Sendo assim, não hesitarei em usar todas as armas de que disponho a fim de
pôr minhas mãos nesse dinheiro. Devo procurar os jornais e divulgar o que sei a seu
respeito, por exemplo? Todos gostariam muito de saber como obteve permissão para

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Perigosa Atração

submeter-se a um exame exclusivo da escola de engenharia. O fato de ter tido as
segundas melhores notas em uma turma exclusivamente masculina perderia a
importância diante do que tenho para revelar.
    Rachell permaneceu em silêncio. Estava absolutamente chocada, sem reação. Esse
homem não podia estar falando sobre o que pensava que...
    — Deve estar se perguntando como sei disso — prosseguiu lorde Devonshire com um
sorriso satisfeito e ameaçador. — Integro o conselho universitário em Edimburgo. Conheci
seu pai quando ele lecionava Física naquela instituição. Sabia quem você era quando
freqüentava as aulas lá.
    Rachell respirava com dificuldade. Temia desmaiar. A situação era ainda pior do que
todos os seus pesadelos!
     — Sei por que foi discretamente afastada daquela renomada universidade — o
homem horrível concluiu.
    — Por que tudo isso, lorde Devonshire? Por que se deu ao trabalho de reunir tantas
informações a meu respeito? Por que vem aqui me ameaçar? É o que está fazendo, não
é?
    — Antes que mencione minha crueldade e meu egoísmo, ouça o que tenho para
oferecer ao sr. Donally a fim de compensá-lo pelo que supostamente perderá com sua
partida.
    — Não sei do que está falando. Francamente, milorde, creio que seria melhor se
saísse agora e...
    — Não está em condições de fazer exigências ou de me dar ordens, srta. Bailey. Não
me tome por tolo ou ingênuo. Não costumo brincar. — Ele deixou o copo sobre a mesa.
— Não faço piadas. Muitas pessoas estavam no saguão há pouco mais de uma hora,
quando Donally deixou o hotel. E todas elas o viram sair. Outras pessoas já haviam visto
quando ele a conduziu para fora do salão de baile na noite da entrega do prêmio. Há
fortes rumores sobre um antigo relacionamento entre vocês dois. Agora ele anunciou que
não irá à ópera, e especula-se que sua ausência no teatro tem uma explicação muito
prática: ele deu a você o ingresso adquirido anteriormente. Minha sobrinha voltou para
casa aos prantos e se trancou no quarto. Mas não são as lágrimas de minha doce e
querida sobrinha que me movem agora, embora esteja francamente comovido com o
sofrimento da menina que tanto amo. Afinal, essa situação não é nenhuma novidade. Os
homens sempre tomaram amantes. Essas coisas acontecem.
    — Milorde, não admito que...
    — Ryan não vai abrir mão do que tenho para oferecer. Não se eu revelar a verdade a
seu respeito. Sendo assim, senhorita, desista dessa falsa altivez e não perca seu tempo
com protestos inúteis. Sei bem que tipo de mulher a senhorita é.
    Rachell conseguiu conter o impulso de dar um soco naquele nariz empinado.
     Devonshire se debruçou sobre a mesa que os separava. Algo como admiração
cintilava em seus olhos.
    — Donally e eu somos muitos parecidos, srta. Bailey. Nós dois somos capazes de tudo
e de qualquer coisa por aquilo que desejamos conquistar. Exerço grande influência no
conselho diretor da Sociedade de Engenharia, como deve saber, e usei essa influência
para indicá-lo ao prêmio este ano. Eu o homenageei para alçá-lo socialmente. Com

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Perigosa Atração

exceção dos militares, esse prêmio só é entregue a um civil que prestou algum serviço à
comunidade, uma ironia, se pensarmos que ele foi barrado em todos os salões da nossa
nobre sociedade até anunciar o noivado com minha sobrinha. Donally não ousará me
humilhar. Espero que tenha entendido o que estou dizendo, senhorita.
      Rachell não se moveu de onde estava. Tinha a boca seca. Esse homem horrível
ameaçava Ryan, e não havia nada que ela pudesse fazer para protegê-lo. Lágrimas
queimavam em seus olhos.
     — Escândalos já fizeram desmoronar reinos inteiros. Pense no que esse escândalo
em particular pode fazer com vocês dois.
      Ryan mal ouvia o que era discutido e deliberado na reunião de diretoria da Ore
Industries. Parado diante da janela, via a chuva que caía lá fora e as pessoas que se
movimentavam pelas ruas molhadas. O panorama cinzento e úmido combinava per-
feitamente com sua disposição.
     Rachell não comparecera ao teatro na noite anterior. Preocupado, estivera no hotel e
descobrira que ela havia deixado o local. Voltara para a Irlanda sem dar nenhuma
explicação.
     Em torno da mesa de reuniões estavam os oito homens que integravam o conselho
formado por ele depois da aquisição da Ore. Homens que ele escolhera pessoalmente
para administrar a mais nova aquisição de sua corporação.
     Johnny acompanhava tudo sentado em uma poltrona um pouco distante do grupo. Ele
havia sido convidado a participar da reunião, algo que Ryan só ficara sabendo pouco
antes, ao entrar na sala. Devonshire, único membro presente a ocupar um assento na
Casa dos Lordes, estava à esquerda da cadeira de Ryan na ponta da mesa. Um local que
denotava sua posição de destaque no grupo. Um destaque que ele não merecia. De-
vonshire era dono da fundação que havia sido o início da Ore Industries. Ryan o mantinha
por perto, sob controle, por razões pessoais.
     — Já mandamos redigir toda a documentação para a aquisição da D&B — anunciou o
consultor financeiro de Ryan, passando ao principal assunto da reunião e motivo da
presença de Johnny.
     Ryan aproximou-se da mesa e abriu uma pasta.
     — Esse assunto não faz parte da agenda para hoje — protestou.
     — Recebeu a minuta ontem, senhor. Enviamos a pasta escura contendo todos os
dados desse novo contrato. Com os documentos havia um memorando informando que o
assunto seria incluído na pauta da reunião de hoje, pois assim evitaríamos atrasos no
cronograma da aquisição.
     A pasta escura. Aquela onde havia levado o projeto de Rachell. A pasta que deixara
sobre a mesa da suíte no hotel. Acidentalmente, havia trocado as duas pastas na ânsia
de sair daquele quarto e escapar da forte atração que sentia por ela. Levara a pasta
contendo documentos e dados do trabalho que ela realizava na Irlanda, deixando a outra
em seu lugar sobre a mesa. E agora ela tinha em seu poder a minuta do contrato de
aquisição da D&B. Acidentalmente, trocara as duas pastas. Levara a dela ao sair do hotel.
     Ele olhou para Devonshire.
     — Tem alguma coisa a ver com isso? — perguntou sem rodeios, revelando toda a
irritação que o dominava.

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Perigosa Atração

      — A D&B é essencial para a nossa expansão — respondeu Boris, outro diretor,
tomando a defesa de Devonshire.
      Ryan sabia disso. Conhecia melhor do que ninguém todos os aspectos de seu
lucrativo e próspero empreendimento.
      Devonshire o encarava com ar superior. Estava enganado, ou um sorriso frio e
triunfante bailava em seus lábios?
     — Adquirir a D&B é uma questão de economia. Precisamos dos bens da companhia e
da porção operacional que ela vai agregar ao grupo. A aquisição vai fazer da Ore
Industries a maior fornecedora de minério de ferro no mundo, e ainda teremos prestígio e
sucesso também no ramo da construção civil, ponto forte da D&B.
     Ryan conhecia o processo. Há anos estudava os pontos fracos de companhias em
todo o mundo, adquiria aquelas que julgava interessantes e, depois, analisava-as
internamente, dissecava-as como se fossem cadáveres, tirando proveito daquilo que
podia ser útil e vendendo o que não interessava aos seus propósitos, lucrando novamente
com a mesma transação.
     Saber que esse era um processo inevitável nesse momento não o tornava mais fácil
de aceitar.
      Todos sabiam que a D&B podia se tornar parte da Ore Industries, ou, como
concorrente, ir à falência. Ryan sabia que não havia uma terceira via. Sabia que seria
assim desde que adquirira a Ore Industries, um ano atrás.
     — Pense, Donally — Devonshire prosseguiu. — Quando tudo isso terminar, você não
vai ter mais de lidar com o estigma da firma irlandesa. Não haverá mais Donally & Bailey,
o que também vai ser um ponto positivo na nossa expansão internacional. Esse nome
carrega uma conotação que é prejudicial por...
      Ryan jogou a pasta sobre a mesa. O estrondo interrompeu o odioso discurso de
Devonshire e atraiu a atenção de todos os presentes. Livrar-se do rótulo irlandês era
essencial num competitivo mercado internacional, mas ouvir a declaração o fazia sentir
sórdido, mesquinho. Era como se traísse as próprias origens.
     — Escolha quem vai querer trazer da D&B — disse Devonshire, olhando para o local
de onde Johnny ouvia tudo em silêncio. — Há um lugar para você na Ore Industries, sr.
Donally.
     — E para sua equipe, ou boa parte dela — acrescentou Boris.
      — Meu irmão não é o único membro na diretoria da D&B — Ryan manifestou-se
irritado.
     — A srta. Bailey será tratada como todos os outros acionistas — disse Boris. — É com
ela que se preocupa, não? Suas ações serão absorvidas e ela receberá os dividendos
corretamente. Não tema, sr. Donally, não haverá nenhuma trapaça na transação.
Ninguém será prejudicado.
     — É muito conveniente que tenham tomado essa decisão justamente agora, quando a
srta. Bailey não está mais em Londres — Johnny opinou de seu lugar afastado.
     — Tenho certeza de que ela está segura em seu emprego —Devonshire manifestou-
se novamente. — A srta. Bailey é competente o bastante para chefiar a divisão de Dublin.
Porém, se sua vida privada vier a público, se seus atos inconseqüentes e seu
comportamento condenável tornarem-se de conhecimento público, as ramificações e

39
Perigosa Atração

conseqüências...
    — Do que está falando? — Ryan perguntou sério.
     — Fiz minhas investigações sobre essa pessoa que se identifica como R. Bailey.
Dizem que ela mantém um relacionamento que vai muito além do profissional com um
certo engenheiro da companhia, um rapaz chamado Allan Marrow, e que ela é o cérebro
por trás de todas as operações da divisão da firma em Dublin. No ano passado, a D&B foi
premiada com o contrato para reconstruir a ponte sobre o rio Avonmore perto de
Rathdrum. O projeto foi repetidamente adiado. Datas têm sido desrespeitadas e os prazos
para a realização da obra não foram cumpridos. Agora Dublin não honrará os outros
contratos a que está presa até esse projeto ser concluído. Imaginamos... Bem, ficamos
nos perguntando se alguém tem conhecimento de uma ou outra irregularidade por lá. Por
exemplo, alguém sabe se ela se pôs no comando desse projeto por conta de algum erro
cometido por outro indivíduo?
     — Devonshire, vá direto ao ponto — Ryan exigiu impaciente. — Não estou
entendendo onde você quer chegar com toda essa conversa.
     — Bem, se essa irregularidade realmente ocorreu, se a srta. Bailey assumiu o
comando da operação em Dublin, como suspeito, tal fato viria a público, caso ela
enfrentasse o conselho em um fórum público. Quem quer que esteja se recusando a
pagar o dinheiro devido pela construção da ponte, e já sabemos que esses contratos não
estão sendo cumpridos pelas duas partes, o que significa que ela não recebeu o valor
devido pela obra, provavelmente está contando em embolsá-lo, protegido pela certeza de
que o caso jamais será levado à corte. A srta. Bailey não pode correr o risco de ir aos
tribunais e expor-se a um terrível escândalo que a destruiria profissionalmente e arrastaria
a D&B para a lama. Ryan olhou para Johnny.
    — É com esse tipo de problema que ela tem de lidar por lá?— perguntou.
    Ryan sabia que, se não fossem as dificuldades financeiras, ela já teria começado a
construir a ponte usando o próprio projeto.
    — Precisamos conversar em particular — Johnny respondeu.
    — Como podem ver, a srta. Bailey é prejudicial — Boris manifestou-se com evidente
oportunismo, empurrando um envelope por cima da mesa. — Ela precisa ser removida,
ou a divisão irlandesa vai se tomar um prejuízo fiscal para nós. E ainda estaremos sempre
na iminência de um escândalo, caso essa história de termos uma mulher no comando de
uma importante divisão torne-se de conhecimento público. Depois da aquisição da D&B e
da liquidação dos contratos pendentes, podemos trazer trabalhadores de Liverpool e
Gales. Os salários mais baixos acarretarão lucro e...
    —Rachell nunca vai concordar com a substituição da equipe— disse Ryan.
     — Se ela não cooperar, temos meios de forçá-la a entender nossa posição —
interferiu Devonshire. — Uma ou outra palavra sobre a conduta da srta. Bailey...
    — A reunião acabou — decretou Ryan. Era melhor assim, ou acabaria esganando
Devonshire.
    Todos se levantaram e começaram a sair, mas Ryan os deteve com um chamado
imperativo.
     — Um momento, milorde. Johnny, espere por mim na minha sala, por favor.
Precisamos conversar.

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Perigosa Atração

    Devonshire apagou o cigarro e esperou, a postura relaxada denotando insolência.
    — A decisão de adquirir a D&B demorou a acontecer — ele disse com a costumeira
arrogância. — Com toda aquela questão pendente na França chegando às manchetes
dos cadernos financeiros, é hora de agir.
     — E o que, exatamente, você teria a contar aos tablóides que poderia nos trazer
algum lucro, Devonshire?
    — Sua preocupação com essa mulher foi notada na noite em que foi visto deixando o
hotel onde ela se hospedava. Talvez deva considerar como ela pode prejudicá-lo. A srta.
Bailey não é o que está pensando, Donally. — Devonshire caminhou para a porta. —
Esperamos importantes convidados para o jantar esta noite. Se gostarem de você, talvez
possam mencionar algumas possibilidades para um futuro na política...
    — Não superestime sua importância em minha vida, Devonshire. Só está aqui porque
eu permito que seja assim.
    Devonshire saiu sem responder, mas algo gelado e ameaçador cintilou em seus olhos
quando ele se despediu de Ryan com uma rápida mesura.
    Ryan fechou a porta da sala.
    Johnny olhava pela janela para a chuva que caía sobre a cidade.
    — Ela partiu no trem para Liverpool há três dias — anunciou sem se virar, ouvindo os
passos do irmão e o som abafado da porta sendo fechada. — Disse que a avó não
gozava de boa saúde e por isso ela precisava retornar à Irlanda.
    Ryan aproximou-se do irmão para pegar o bilhete que ele segurava entre os dedos.
     Era uma mensagem breve e direta deixada por Rachell antes de partir, e ele a
amassou imediatamente depois de lê-la.
    — Rachell não tem mais ninguém na família. Só a avó — Johnny tentou defendê-la.
    — Eu sei — Ryan respondeu carrancudo.
     — Vai mesmo deixar a Ore Industries adquirir a D&B? Está de acordo com essa
aquisição?
    — Eu sou a Ore, Johnny. Já falamos sobre isso antes. A Ore Industries e a D&B não
podem coexistir no mesmo ambiente.
    Uma era o passado. A outra era o futuro. Ryan sempre olhava para o amanhã. Johnny
sabia que dessa vez não era diferente.
    — Preciso saber até que ponto Rachell se envolveu na operação — ele disse.
    Johnny respirou fundo.
    — Ela assumiu o projeto Rafhdrum depois de o engenheiro chefe ter cometido um erro
oneroso em sua avaliação da amostra do solo. Os trilhos de trem tiveram de ser levados
mais para o interior. O erro custou mais seis meses para a D&B, período no qual Rachell
se dedicou pessoalmente à pesquisa, em detrimento de suas funções na supervisão da
contabilidade da divisão. No final, acho que ela se cansou de apoiar Marrow e de estar
sempre cuidando dele para evitar erros graves. Cercou-se de capatazes competentes e...
Bem, duvido que Marrow tenha sido eficiente em algum momento. Sem ela? Não. Ele não
teria feito nada.
     — Resumindo, a divisão Dublin não tem sido mais do que uma fracassada entidade
filantrópica desde que foi criada. Não há dinheiro em caixa e os contratos que assinamos
nunca foram honrados. Não recebemos o que nos era devido pelas obras realizadas ou

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Perigosa Atração

em andamento. Eu devia saber o que a fez voltar. Rachell não teria vindo à Inglaterra sem
um bom motivo.
    — Acredita mesmo que Rachell voltou a Londres por causa daquele projeto? Só pelo
projeto?
    — E você? Acha que fiz alguma coisa para mandá-la embora às pressas? Estou
enganado, ou há uma certa nota de acusação em sua voz?
    — Não fez nada para contribuir com essa partida precipitada e inesperada?
    — Ela é adulta, Johnny. — Durante toda a sua vida, vira os irmãos e o restante da
família cercarem Rachell de cuidados como se ela fosse um bibelô precioso, um presente
de Deus aos mortais. Estava cansado das mesmas discussões, de agir e ser tratado
como se corrompesse tudo que tocava. — Nossa família encheu a cabeça dela de sonhos
que agora Rachell pensa serem possíveis. Ela não estava satisfeita com a administração
contábil da divisão Dublin. Todos vocês prepararam a queda. Não fui eu. E é uma queda
e tanto, Johnny. Você sabe o que tenho de fazer.
    Ryan pegou o paletó nas costas da cadeira.
    — Vai para a Irlanda?
    — Agora? Não. Vou para casa ver minha filha. Ela faz aniversário dentro de quatro
dias, e esse ano não vai estar sozinha. De jeito nenhum!
    A caminho da saída, Ryan ordenou à secretária que cancelasse o jantar daquela noite.
Não suportaria encarar Devonshire depois de tudo que havia acontecido ali. Não tão
cedo.
    Cinco ou seis crianças correram ao encontro de Rachell quando ela desceu do coche.
Tinha o hábito de levar balas e doces sempre que passava mais de dois ou três dias fora
de casa, e os pequenos esperavam ansiosos pela distribuição dos presentes. Felizmente,
David havia parado em uma confeitaria a caminho dali, ou os teria frustrado dessa vez.
    Rachell morava nos arredores de Dublin, em um distrito pitoresco localizado na velha
estrada militar, perto de Glencree.
     Passava o tempo livre com a avó fora de Dublin, onde podia gozar de algum
anonimato. Ser neta de uma idosa conhecida na região conferia a ela uma aceitação que
não teria em outras circunstâncias. Não em sua condição de mulher solteira considerada
excêntrica por muitos que a conheciam. Aos vinte e nove anos e ainda sem um marido ou
noivo, gozava de mais liberdade do que as mulheres mais jovens. Apesar de ter recebido
propostas de casamento de quase todos os homens solteiros e viúvos de Enniskerry a
Glencree em um ou outro momento, muitas pessoas reconheciam que ela jamais se
casaria. A última proposta fora feita por um homem viúvo que precisava de uma esposa
para cuidar de seus nove filhos. A pequena que ela agora tinha nos braços era a caçula.
Ninguém entendia o que Rachell fazia para viver.
    Francamente, ninguém a entendia. E ninguém a conhecia de verdade.
    Mas as crianças do vilarejo a adoravam. Talvez por venerarem David e sentirem sua
devoção a Rachell, ou por ela estar sempre distribuindo doces e presentes variados. De
repente ela pensou em Mary Elizabeth, e a lembrança foi como uma estaca cravando-se
em seu coração.
    David, ou padre Donally, como era conhecido na região, começou a distribuir as
guloseimas. As gargalhadas das crianças atraíram Memaw, que apareceu na janela do

42
Perigosa Atração

quarto.
    — Vou levar a bagagem — disse David. — Não se esqueça de dizer a sua avó o
quanto ela está linda.
    — Eu ouvi isso, menino linguarudo! Rachell, esse sacerdote cruel me tortura! Um
simples tropeção, um ferimento mínimo no dedo, e ele me mantém presa em casa!
     — Agora está ferindo meu coração, Memaw. Pode me causar problemas com
acusações tão ultrajantes.
    — Não quero que leia seus ritos na minha cabeceira! Deixe-me em paz!
    — David, minha avó falou em um ferimento no dedo... Você me disse que ela havia se
machucado!
     — Um dedo machucado pode ser grave, Rachell. Não quis correr riscos. Se
permitisse, ela mesma teria pulado no coche para ir buscá-la. O médico ainda acha que
ela não devia ter saído da cama depois daquela vertigem no mês passado.
    — Ela piorou?
    Rachell e David entraram na casa de Memaw. Elsie seguia na frente abrindo portas e
carregando coisas.
    Memaw estava em seu quarto, sentada em uma poltrona com o pé enfaixado e
apoiado em um banco. Esse era seu local preferido. Ali ela tricotava, e de manhã, com o
sol invadindo o aposento e a brisa transportando o suave perfume das flores no jardim,
ela ouvia o riso alegre das crianças e se sentia rejuvenescida.
    — Memaw, isso é mais do que um dedo machucado! — Rachell assustou-se.
    — Não é nada. Foi só um tropeço sem importância, mas esse padre maluco insiste em
me manter aqui, com o pé enfaixado. David pretende me manter acamada. Mas... você
voltou antes do previsto.
    — Não havia mais nada a fazer em Londres. — Nada mesmo. Ela e Ryan manteriam
contato restrito aos negócios, e sempre por intermédio de mensageiros. Fim.
    Sua vida havia sido uma sucessão de erros graves e evitáveis. Tudo que queria agora
era esquecer esse seu lado ingênuo que se impusera impiedoso nas últimas semanas e
retornar ao mundo dos números, planilhas e diagramas.
    Nunca mais pensaria em Ryan Donally. Ele devia saber que tipo de homem era
Devonshire. Ryan não era cego nem estúpido.
    Além do mais, tinha os próprios problemas para resolver.
    — Está chorando, Rachell?
    — Não, Memaw, eu... Eu...
    — Venha cá, criança.
    O tom carinhoso causou o desmoronamento. Rachell chorou nos braços da avó,
deixando-se afagar e aconchegar como na infância.
    — Eu... sinto-me tão tola!
    — Ele vai se casar com outra. Eu sei. Tentamos preveni-la antes de você seguir para
Londres, mas era tarde demais. De qualquer maneira, tudo tem sempre um propósito,
minha menina. Tudo acontece por um motivo.
    — Como soube? Como adivinhou meus sentimentos por ele?
    — Eu estava lá quando ele se casou com Kathleen. Muita gente percebeu naquele dia
o que você sentia por Ryan.

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Perigosa Atração

    — Por Deus! — Que espetáculo patético devia ter oferecido aos convidados para o
casamento da melhor amiga.
    Rachell chorava e ria. Não sabia mais o que sentia por Ryan. Atração física, sim.
Quem não se sente atraído pela perfeição? Mentalmente, Ryan estimulava seu interesse
pelas coisas do mundo, e admirava sua competência profissional. Acompanhara a
carreira dele por muitos anos. Seus trabalhos haviam composto a maior parte de sua
educação. Mas ela e Ryan não existiam no mesmo plano emocional. Ele não valorizava
as mesmas coisas que ela.
    Ryan sempre fora ditatorial, explosivo e desdenhoso da convenção moral. Por outro
lado, ele também oferecia generosas contribuições à universidade que havia freqüentado.
Fazia doações a orfanatos. Ajudava os necessitados de muitas maneiras. Rachell sentia
que havia perdido a habilidade de entendê-lo. Como um homem que amava a filha com
tanta ternura podia pilhar empresas e destruir tantas vidas com sua ganância insaciável?
E ele não a respeitava como profissional, ou não a teria confinado à Irlanda com aquele
patético Allan Marrow chefiando a divisão de engenharia, mesmo sabendo que ela era
mais competente que todos os homens da companhia. Ryan nunca estivera na Irlanda
para avaliar seu trabalho.
    — Memaw, agora que sei que está bem, preciso ir verificar o progresso dos trabalhos
em Rathdrum. Terei de me ausentar por alguns dias.
    — Deixe aquele patife do Marrow cuidar de Rathdrum. Há bandidos e saqueadores
naquela estrada, sabe?
    Rachell limitou-se a sorrir. Não voltaria a essa discussão. Era sempre assim. Toda vez
que pegava a estrada para ir verificar pessoalmente o local da obra, a avó tentava impedi-
la de ir.
    — Eu preciso ir, Memaw. Você sabe disso.
    O momento da emoção havia passado. Determinada, ela se levantou para sair do
quarto e encontrou David no corredor. Ele tocou seu rosto para indicar que havia notado
as marcas deixadas pelas lágrimas.
    — Só você é capaz de conduzir-me montanha acima e me empurrar do precipício sem
nenhuma palavra de condolência — ela murmurou.
    — Isso é o que faço melhor. Agora vá, minha menina. Mandei os criados deixarem sua
bagagem em seus aposentos. Vá descansar.
    A noite era fria e cinzenta. Rachell levava um xale sobre a cabeça e caminhava com
cuidado por entre as sepulturas cobertas de musgo, muitas delas localizadas fora do
perímetro sagrado da igreja local. Uma névoa densa pairava entre os dois salgueiros que
demarcavam a área destinada àquelas almas pagas.
    Rachell não visitava aquele lugar há muito tempo, embora às vezes comparecesse
aos serviços ali, especialmente por essa antiga igreja situar-se entre Glencree e Dublin.
    Em alguns momentos se perguntava por que uma criança tinha de morrer. E sua filha?
    Rachell sempre acreditara piamente na providência. Se uma pessoa era boa, se não
cometia pecados, seguia as regras e trabalhava duro, poderia realizar seus sonhos. Sua
jornada tivera um preço alto demais.
    Em Edimburgo, ela era uma das duas mulheres com permissão para freqüentar as
aulas. Seu pai havia sido professor de física naquela instituição. Quando deixara Londres

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Perigosa Atração

para começar uma nova vida, atraíra a atenção de um administrador da universidade que
também era seu professor de engenharia. Saíra dos braços de Ryan diretamente para os
de outro homem, ansiando desesperadamente por amor. Dois anos depois de iniciado o
relacionamento, ele se casara com outra mulher.
    Alguém respeitável com novos atributos femininos. Afinal, um homem nunca se casa
com a amante. Rachell não sabia quanto Devonshire havia descoberto, nem que razão
fora dada oficialmente à universidade para justificar sua partida. Fora morar em uma
pensão para jovens consideradas perdidas em um endereço na periferia de Dublin.
    Fechando os olhos, ela sentiu o perfume da terra molhada. Firme sob seus pés, ela
despertava lembranças que a emocionavam muito.
    Sentira inveja por ver a filha de Ryan coberta de amor por tantas pessoas, enquanto a
dela morrera sem nunca ter sido amada se não por ela, sua mãe. Dissera coisas horríveis
a Ryan no funeral de Kathleen. Ainda podia sentir o peso de sua dor naquele momento.
Apesar da frágil saúde de Kathleen, o desejo de dar um filho a Ryan a fizera arriscar a
própria vida. E Ryan havia deixado isso acontecer. E se ele se culpava pela morte de
Kathleen, Rachell culpava-se ainda mais por ter contribuído para aumentar essa culpa, tal
a profundidade de sua angústia naquele tempo. Perdera a filha, um bebê, e a melhor
amiga, num período de poucas semanas. Rachell abandonara a pessoa mais importante
de sua vida... como sempre.
    Um galho se partiu. David a esperava protegido pelas sombras do frondoso salgueiro,
os olhos escuros indecifráveis e profundos.
    — Sabia que a encontraria aqui — ele disse.
    — Não permita que ninguém jamais diga em sua presença que o poder absoluto não
corrompe — Rachell respondeu, pensando no homem que havia planejado amar por tanto
tempo e que acabara desposando uma rica e bela debutante. E agora Ryan fazia o
mesmo. — Não é verdade.
    — Fale-me sobre seu coração, Rachell.
    — Ah, eu... agora sei que jamais poderei estar com Ryan. Por razões óbvias, não sou
uma esposa adequada. Mas por um momento... Só por um momento... Francamente, não
sei o que se apossou de mim para deixar tudo e viajar para Londres como eu fiz. — Ela
olhou para o solo, para a pequena demarcação na terra molhada. — Acredita que ela foi
para o Céu? Apesar dos meus pecados?
    David aproximou-se dela. .
    — Sim, ela está no Céu, Rachell.
    Ele a levou de volta para casa na carroça puxada por um burro, embora o trajeto a pé
fosse mais rápido e curto. O jantar estava quase pronto quando ele abriu a porta do fundo
e a conduziu ao interior da cozinha aconchegante.
    —Encontro você em dez minutos à mesa—David anunciou.
    Rachell beijou-o no rosto e subiu para ir ao quarto se preparar para o jantar. Não
gostava de saber que pessoas queridas se preocupavam por sua causa. Não era
nenhuma delicada peça de porcelana que precisava de manuseio cauteloso. Mas David,
Memaw e até Johnny pareciam conspirar de alguma forma para protegê-la.
    Rachell nunca soubera o que havia levado David a vestir a batina. Há nove anos,
depois de uma temporada na Legião Estrangeira, ele voltara a Londres apenas para

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Perigosa Atração

depor suas armas, e depois se recolhera a um seminário para fazer seus votos. Ela nunca
o interrogara. Nem sobre a escolha, nem sobre aquela aliança de ouro em sua mão
direita. Nada indicava que eventos o haviam levado a esse caminho. David era infalível
com uma espada, igualmente letal quando lutava apenas com as mãos, mas seu coração
era bom. Generoso e terno como poucos. Os paroquianos o amavam. E se era do
passado que ele fugia, então, ambos haviam encontrado um santuário naquela pequena
parte da Irlanda. David buscava Deus para curar suas enfermidades e aplacar sua
consciência.
    Ela encontrara um emprego.
    Pensando nisso, Rachell abriu um dos baús que continham suas coisas, retirou dele a
pasta escura e a deixou dentro de outro baú, aquele que levaria na próxima viagem a ser
empreendida no dia seguinte. Toda a papelada, mapas topográficos, desenhos, tudo que
era necessário para o projeto Rathdrum estava ali. Mas, por enquanto, tudo que queria
era estar com Memaw e David, convencê-los a desistir de se comportar como se
estivessem em seu funeral, e não em uma reunião na qual comemoravam sua volta para
casa.



  Capítulo IV

    Uma semana depois do aniversário de Mary Elizabeth, Ryan passava pela porta da
D&B em Dublin. Ao vê-lo, a jovem sentada atrás da mesa da recepção levantou-se assus-
tada, derrubando um tinteiro.
    — Sr. Donally! Nós... Ninguém aqui o esperava, senhor. O sr. Marrow está numa
reunião. Vou informá-lo sobre sua chegada.
    — O escritório da srta. Bailey fica no segundo andar?
    — Sim, senhor. Mas ela não está aqui.
   Ryan caminhou para a escada.
    — Mande Marrow ir me encontrar lá.
    Pessoas em postos variados levantavam o olhar para vê-lo passar, e seus sussurros o
seguiam pelo corredor. Ele carregava uma pasta com as iniciais de Rachel, e não foi difícil
encontrar a sala com o nome dela na porta. Era um escritório pequeno, simples, mas
organizado e cheio de vida.
    O perfume dela pairava no ar. Na mobília, nas cortinas, no tapete... A medalha que
pusera no pescoço dela em Londres abordava um troféu da Sociedade de Arquitetura, um
prêmio que ele havia recebido um ano atrás em nome da empresa.
    Havia fotos de obras inacabadas, e em todas elas uma solitária figura feminina reinava
absoluta entre os homens.
    O orgulho foi tão inevitável quanto respirar. Rachell era competente. Capaz. Era um
líder. Uma lutadora.
    Ela era como um furacão de energia arrastando seus pensamentos. Tornara-se figura
permanente neles, e cada passo que dava o levava para mais perto dela. Porém, não
gostava da missão que desempenharia na Irlanda.
    Queria encontrá-la e certificar-se de que ela estava bem. Depois, queria sacudi-la. E

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esse era o problema. Não sabia o que fazer com ela. Aos trinta e um anos, ainda ficava
confuso e agitado sempre que pensava em Rachell Bailey.
    — Sr. Donally — chamou uma voz masculina.
    Ryan virou-se e viu Allan Marrow parado na porta do escritório, as mãos cheias de
papéis.
     — Não o esperávamos. A srta. Bailey não está aqui. Partiu há três dias para
Rathdrum.
    — Meu irmão foi com ela?
    — Sim, senhor. O padre Donally a acompanha. Ryan tirou um envelope do bolso e
jogou-o sobre a mesa.
    — Os contratos foram pagos. Aqui está o recibo do depósito realizado hoje no Banco
da Irlanda.
    — Não, entendo, senhor. Fomos informados...
    — Você não entenderia. Não está no ramo há tempo suficiente para isso.
    Ao chegar, Ryan havia ido procurar as autoridades dos serviços públicos para resolver
o problema relacionado ao projeto Rathdrum. O dinheiro já havia sido liberado e enviado a
Dublin, mas estivera indevidamente retido nas mãos de um membro do comitê de obras.
Ryan havia sido claro sobre que providências tomaria, caso o valor não fosse
imediatamente liberado de acordo com o contrato. Duas horas mais tarde, ele fora
informado de que o depósito havia sido feito.
    — Amanhã mesmo, dois contadores da matriz começarão uma auditoria nos livros.
Espero que sejam tratados com cortesia.
    — Há alguma discrepância ou irregularidade, senhor?
     — Espero que não. — Era impossível evitar a antipatia por esse homem. As
insinuações de Devonshire sobre ele e Rachell ecoavam em sua cabeça, prejudicando o
julgamento. — Você tem uma hora para ir fazer as malas. Já contratei um coche para
levar-nos a Rathdrum. Envie o recibo à contabilidade. Estarei lá fora.
    Ryan saiu da sala e desceu a escada. De repente pensava no irmão mais velho com
certo antagonismo, e não queria nutrir esse sentimento. Rachell sempre havia estado
mais próxima de sua família do que ele mesmo. Melhor assim. O que tinha para dizer a
ela poderia ser dito aos dois.
     Ryan encontrou a casa de Memaw sem nenhuma dificuldade, apesar dos anos.
Estava nervoso. Em muitas ocasiões, ainda menino, estivera naquela casa visitando a
astuta senhora quando se afastava de Carlisle, onde crescera. Seus avós paternos
estavam enterrados em algum lugar daquela terra de santos e estudiosos, entre Dublin e
Kenmore. Inglesa, sua mãe havia sido deserdada pela família ao se casar com seu pai,
irlandês.
    O rosto de Memaw surgiu na janela, enrugado e curioso. Ryan sofreu um forte impacto
ao vê-lo. Não sabia o que esperava da mulher de quem fora tão próximo após a morte da
mãe. Ali sempre encontrara refugio. Havia sido nessa casa que encontrara conforto
quando se afastava do pai.
    — Ryan Donally? O que faz aqui, rapaz? — ela gritou da janela.
    — Vim visitar uma mulher idosa e teimosa que está com o pé machucado.
    — Não tenho nenhum machucado. Vai ficar parado aí na porta? Entre de uma vez! E

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Perigosa Atração

traga Marrow com você. Ele deve estar faminto, como sempre. Hoje temos o guisado que
ele tanto aprecia.
    Ryan deixara o jovem engenheiro esperando no coche, mas ele já ouvira o convite e
se aproximava apressado, confiante como se houvesse estado na casa centenas de
vezes antes.
    — Srta. Bailey — o mestre de obras chamou da carroça. — Precisa de carona para o
vilarejo?
    Rachell interrompeu o que estava fazendo, supervisionando o canteiro de obras, para
olhar na direção da carroça onde, além do capataz, havia seis operários.
    — Não, obrigada, sr. 0'Roarke. Ainda tenho trabalho a terminar por aqui.
    — O trabalho vai continuar aqui amanhã, srta. Bailey.
    — Já discutimos esse assunto antes.
    — Mas... todos já voltaram para o vilarejo!
    — Nem todos. E imagino que tenha sido treinado pelo padre Donally para cuidar de
mim. Não precisam passar a noite aqui. Podem ir descansar ou se divertir. E amanhã,
verifique se os suprimentos que encomendei já foram despachados de Dublin. Eles já
deveriam estar aqui.
    Rachell despediu-se dos operários e foi para sua tenda, no acampamento da obra. Ela
e Elsie dormiam ali. O cozinheiro dormia em outra tenda. Ninguém mais se escandalizava
com sua presença no local, especialmente depois de todas as melhorias que levava ao
pequeno vilarejo. A pavimentação da rua principal possibilitava uma viagem mais tranqüila
entre a obra e o prédio da D&B, e os asilos locais não sabiam como agradecer os
donativos generosos que recebiam da companhia.
    Na barraca, ela removeu o chapéu, soltou os cabelos e abriu a gaveta da pequena
cômoda para localizar a garrafa de uísque envelhecido que mantinha escondida de David.
    — Não vai à festa esta noite? — David perguntou da porta.
     — Por Deus, quer me matar de susto? Pensei que houvesse voltado para sua
paróquia hoje de manhã.
    David entrou na tenda espaçosa e organizada.
    — Pensei que já estivesse pronta.
    — Para quê?
    — Para a feira no vilarejo.
    — David, tenho trabalho aqui.
     — Os habitantes da cidade esperam vê-la na comemoração dessa noite. Seus
homens também. Vai ter de ir.
    Como sempre, David considerava todos os envolvidos na situação, menos ela. Não a
deixaria sozinha no acampamento.
    Rachell pegou a pasta de documentos que deixara sobre a mesa, e de repente notou
algo de estranho nela. RDl. Devia ser RBl Não havia notado o monograma na fechadura
da pasta antes, quando partira de Dublin. E não usara a pasta desde que estivera na casa
do sr. Williams solicitando sua herança.
    Ela a abriu. Alarmada, Rachell começou a examinar os envelopes e foi tomada por um
súbito pânico. Ryan! Ele devia ter levado sua pasta na noite em que estivera em seu
quarto de hotel, e ela viajara levando a dele cheio de contratos, anotações de

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Perigosa Atração

compromissos e relatórios.
    David aproximou-se e reconheceu a caligrafia do irmão. O papel continha o itinerário
completo de Ryan para uma semana.
    — Meu irmão é um homem muito popular. É isso que deseja para sua vida?
    — Sim, quero ser muito ocupada. — Rachell guardou todos os documentos, sentindo-
se culpada por ter invadido a privacidade de Ryan. — Quero provar que posso ser tão
profissional quanto Marrow ou qualquer outro homem na D&B. Acha que errei quando
levei meu projeto para Ryan avaliar?
    — Não importa, não é? Você já está fazendo o trabalho de Marrow.
    — Tenho tantos segredos, David! O sr. Marrow terá uma reunião com políticos
amanhã em Dublin. Se eles não realizarem o depósito do valor acertado pelos contratos
de construção da ponte, vamos ter de encerrar o projeto.
    Rachell ajeitou os envelopes para fechar a pasta, e sentiu algo pontiagudo ferir seu
dedo. Era um clipe para papéis e dinheiro. E ele mantinha juntas várias notas de libras.
    — Mas... o que é isso? Quem carrega mil libras em dinheiro vivo? Ryan deve ter
enlouquecido!
    David retirou o dinheiro da mão dela.
    — Sim, mas o bom Deus aprecia sua generosidade.
    — Isso é roubo, David! O dinheiro não é meu!
    — Se meu irmão quiser reclamar sobre sua generosa doação, será bem-vindo no meu
confessionário. Sua alma se beneficiaria de um pouco de reflexão sobre os pecados
cometidos. Especialmente nos últimos três anos, desde que ele decidiu converter-se à
Igreja Anglicana.
    — Onde você vai? — Rachell perguntou ao vê-lo sair da tenda.
    — Vou esperar por você aqui fora. A menos que precise da minha ajuda para escolher
um vestido.
    — Não se incomode com isso, senhor — Elsie disse da área privada da barraca, um
espaço menor protegido por lonas. — Já cuidei disso.
    — Não posso ir à festa!
    — Sim, você pode.
    — David...
    — E leve Elsie, também.
    — Oh, sim, senhor! — Elsie respondeu animada. — Eu adoraria ir à festa!
    Furiosa, Rachell teve certeza de que David e Ryan eram exatamente iguais.
    Ryan desceu do coche seguido por Marrow. Os dois olharam para a fileira de veículos
parados ao longo da rua principal do vilarejo. Havia uma comemoração no lugar. Podiam
ouvir as flautas e gaitas animando a celebração.
    — É a feira anual — Marrow explicou. — Havia esquecido que a festa acontece nessa
época do ano.
     Ryan não podia deixar de pensar em como a sorte parecia tê-lo abandonado
recentemente.
    — Precisamos de um lugar para dormir — ele disse ao cocheiro, entregando-lhe
algumas moedas de ouro. — Percorra a estrada e encontre acomodações para nós. Não
se incomode com o preço.

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Perigosa Atração

    Não sabia onde estavam Rachell e David, mas sabia que não poderia chegar ao
acampamento da obra enquanto não encontrasse um meio de atravessar a cidade,
fechada pela feira.
    Fogos de artifício coloriram o céu. Ryan tinha as roupas úmidas, resultado da chuva
fina que caíra desde que deixara a casa de Memaw no início do dia. Havia passado a
noite lá, na cama de Rachell, sentindo seu perfume e tentando não enlouquecer.
    — Quando esteve na Irlanda pela última vez, senhor?
    — Há dez anos, Marrow. Pouco antes do avô da srta. Bailey falecer.
    — É bastante conhecido por aqui. Seu nome é reverenciado.
    — O que está dizendo?
    — A Donally & Bailey alimenta muitas pessoas por aqui.
   Ryan não respondeu. Em silêncio, começou a caminhar por entre os coches e
carroças, lamentando não ter vestido roupas mais adequadas. Só os sapatos em seus
pés custavam mais do que muitas pessoas ali ganhavam em um ano, e o sobretudo sobre
o terno preto era da mais pura lã inglesa, outro luxo facilmente identificável.
    Mulheres sorridentes vendiam doces e ofereciam seus dotes com generosidade, mas
Ryan nem as via. Trovadores cantavam as coisas do coração. Músicos tocavam suas
gaitas e flautas exaltando as tradições místicas da terra. Era uma noite para duendes e
gnomos.
    — Senhor, ali está a srta. Bailey — Marrow anunciou. Ryan olhou na direção apontada
por ele e a viu na roda dos dançarinos. E ela não parecia a Rachell de costume..... Os
cabelos soltos cobriam-lhe as costas em ondas até a cintura numa feroz cascata de
cobre, a saía simples de musselina flutuava revelando tornozelos delicados, e ela
dançava... dançava...
    Ryan caminhou para perto do círculo. Pessoas aplaudiam acompanhando o ritmo da
melodia. Outras mulheres dançavam. Rachell era como uma deusa paga, uma cigana,
uma ninfa da floresta... Um ser encantado. Um homem a enlaçava pela cintura e a
conduzia nos passos da dança.
    — A srta. Bailey sabia que estava a caminho, senhor?
    Não, mas logo saberia, Ryan prometeu a si mesmo. Assim
   que a segurasse pelos ombros e a sacudisse. Onde estava a solteirona recatada que
só pensava na carreira? Onde estava a modéstia com que ela se vestia na Inglaterra?
Não a conhecia, certamente.
    Até esse momento, estivera preocupado com ela, com os motivos de sua partida
precipitada de Londres, como sua vida e seu futuro.
    Mas podia perceber que Rachell estava contente.
    Calculista! Mentira para ele sobre o projeto Rathdrum. Omitira os fatos. Ao deixar de
seguir o protocolo, ela havia traído sua confiança. Mentira sobre os motivos de sua
viagem a Londres, e partira apressadamente por saber que ele nunca aprovaria o projeto.
    Sentia-se traído. Vê-la sorrir e rodopiar nos braços daquele desconhecido alimentava
esse horrível sentimento.
    De repente, Ryan sentiu que era observado. Olhos escuros e firmes o estudavam do
outro lado do círculo de dançarinos.
    David.

50
Perigosa Atração

    Seu irmão o estivera estudando. E havia censura em sua expressão, como se ele o
houvesse surpreendido em pecado.
    Furioso, Ryan ofereceu um sorriso gelado, indicando que não pretendia se desculpar
por seus pensamentos tão claros.
    Rachell acreditava estar segura na Irlanda?
    Pois se enganara.
    Em nenhum lugar do mundo, ela estaria protegida dele.
    E que David lesse em seus olhos suas intenções, se quisesse.
    O irmão se aproximava, mas Ryan preferiu entrar na roda dos dançarinos.
    A música tocava a alma de Rachell. O cheiro de flores e frutas, o riso e a dança, o ar
festivo, tudo criava um sentimento mágico de bem-estar. Estava feliz por David tê-la
forçado a ir e, ofegante, ela dançava e sorria para o parceiro, um dos muitos naquela
noite, um homem cujo nome nem conhecia. Muita gente ali viera de longe apenas para
beber e dançar. Uma jovem o convidou para a próxima dança, e ele se afastou com um
sorriso de gratidão.
    — Posso ter a honra da próxima dança, srta. Bailey? — Allan Marrow se debruçou
sobre sua mão.
    Rachell encarou-o incrédula.
    — Allan? Devia estar em Dublin!
    — Os contratos da Rathdrum foram pagos.
    — Pagos? Como?
    Os dois se viraram ao mesmo tempo para Ryan. Rachell sentiu uma forte vertigem.
    — Ryan... — ela murmurou ofegante e tonta.
    O que ele fazia na Irlanda?
    Ele entregou o sobretudo a Marrow e a levou para o círculo dos dançarinos.
    — Vamos dançar — disse.
    O tom sensual fez seu coração bater mais depressa. Rachell não se sentia bem. A
energia de Ryan, a surpresa de sua chegada, o calor da dança...
    — O que está fazendo aqui?
    — Creio ter sido convidado. — Ele a conduzia ao outro lado do círculo, de onde
prosseguiu para fora dele.
    Rachell sentia uma forte apreensão.
    — Onde está hospedada?
    — No acampamento da obra.
   Ryan parou para encará-la.
    — Onde fica?
    — Na direção do rio, um quilômetro ao sul, mas...
    — Não diga mais nada. Quando conversarmos, não será como um dos meus irmãos
ouvindo cada palavra.
    Confusa, Rachell se deixou levar para longe da área da feira. Sabia que Ryan estava
tentando escapar de David.
    — Elsie veio comigo. E meu cozinheiro, também preciso encontrá-los.
    — David cuidará deles.
    — Eu... tenho sua pasta de documentos. Já a teria mandado de volta, mas só hoje...

51
Perigosa Atração

    — Você está encrencada, Rachell.
    O pânico a invadiu como uma onda gigantesca. Ela tropeçou, quase caiu, e Ryan a
tomou nos braços para carregá-la pelo terreno acidentado. Nenhum homem jamais a
carregara nos braços. Sentia-se ridícula e frágil, mas não podia negar a intensa e
evidente sensualidade do gesto.
    E não gostava nada do que sentia.
    — Ponha-me no chão, Ryan.
    — Não.
    — Estou falando sério. Ponha-me no chão. Está se portando como um... um bárbaro.
    Ele a jogou sobre um ombro.
    — Juro que vai pagar caro por isso — ela ameaçou enquanto esmurrava suas costas.
— Qual é o problema com você, afinal?
    — Por que você não me diz? Talvez possa explicar inclusive por que tenho sempre de
descobrir tudo por terceiros.
    Ele descobrira. Sabia que investia dinheiro próprio no projeto Rathdrum e que os
contratos não haviam sido pagos de acordo com o combinado. Sabia que estivera se
escondendo atrás de Allan Marrow nos últimos dois anos.
    Ryan parou. Ele a pôs no chão e fitou-a. O momento era intenso, cheio de promessas
e perigos. Rachell não conseguia desviar os olhos dos dele.
    — O que você quer, Rachell?
    Queria que ele a beijasse. Só mais uma vez, queria sentir o calor de seu corpo e a
força de seus braços. Mesmo que não fosse real. Mesmo que não fosse além desta noite.
    Esse era seu desejo eterno.
    Por isso ela o beijou.
    E desta vez Ryan não tentou se esquivar. Pelo contrário, estreitou-a entre os braços e
aprofundou o beijo, tornando-o uma paródia do ato sexual.
    De repente, ele a encostou contra um tronco de árvore e, mantendo a boca bem
próxima da dela, perguntou:
    — Você e Allan Marrow são amantes?
    — O quê...? Você é insano? Allan é... Ele é mais novo que eu, Ryan!
    — O que só o torna mais fácil de manipular e dominar.
    Ela hesitou, pensando nas verdadeiras razões para a presença dele na Irlanda. Se os
contratos haviam sido pagos, Ryan cuidara disso. Sabia de seu fracasso como
administradora e líder, de sua incapacidade de resolver sozinha os problemas da divisão.
    — Será que posso explicar...?
    — Explicar o quê? — Ele acariciava seu pescoço e a fitava nos olhos.
    Estavam sozinhos numa área de sombras e silêncio, um bosque discreto.
    — A razão verdadeira de sua ida a Londres? Ou há quanto tempo está se escondendo
atrás de Marrow e fazendo todo o trabalho na D&B de Dublin?
    — Você nunca quis saber a verdade, Ryan, como se isso o eximisse de tomar
decisões relativas ao meu futuro profissional. E o projeto era meu. Queria que me
reconhecesse como profissional competente e capaz.
    — E por isso foi até Londres e... me beijou?
    — Aquilo foi pessoal.

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Perigosa Atração

    — Quanto?
    — Muito. Extremamente pessoal. E foi verdadeiro, também. Eu juro.
    — Rachell, se nos beijarmos novamente...
    — Sim?
    — Dessa vez não vou parar. Não vou me contentar com um beijo. O que sugere? Qual
é a sua decisão? Vamos continuar nessa dança eterna de aproximação e recuo até
perdermos a razão, ou vamos agir... e saciar essa ânsia que nos consome?
    — Agir? Agir?
    — Eu quero. Você quer. Continuamos na velha dança, ou... nos entregamos ao
pecado?
    — Você enlouqueceu, Ryan.
    — Completamente. E ainda nem bebi.
    — É uma pena que não esteja bêbado — disse a voz de David atrás dele. — Porque
assim, quando acordasse ao amanhecer, teria apenas uma grande dor de cabeça como
conseqüência.
    Paralisada pelo horror, Rachell ouviu os passos de David sobre as folhas secas no
chão.
    — Se não tomarem muito, muito cuidado, vão acabar casados — o sacerdote
prosseguiu.
    — Ryan não pertence mais à Igreja Católica, David — ela lembrou. — E não pode nos
casar. Não aconteceu nada aqui.
    — Ainda — Ryan corrigiu. — Não aconteceu nada... ainda.
    Ela sabia que estava entre os dois homens mais dominadores do império. Ryan foi o
primeiro a recuar dessa vez. Furioso, ele se afastou e deixou-a sozinha para lidar com
David, que parecia tão generoso e benevolente quanto um raio enviado pela ira divina.
    Ryan se deu conta de que não estava sozinho na cama. E tinha uma terrível dor de
cabeça. Um corpo quente se aninhava contra suas costas.
    Com o nascer do sol, ele ia percebendo mais e mais coisas.
    Uma respiração arfante, lambidas nas nuca, o cheiro horrível do hálito de um cachorro.
    Estava deitado sobre o próprio casaco em uma pilha de feno, dentro de um celeiro
cheio de animais variados, como galinhas e cães.
    — Parabéns! — disse David ao ver o irmão acordado. — Encontrou o único lugar para
alugar em um raio de quilômetros.
    Ryan sentou-se para encarar o sacerdote parado na porta.
    — Bom dia para você também — disse.
    — Quero que fique longe de Rachell.
    — É difícil, considerando que temos negócios a discutir.
    — Você entendeu o que eu disse. Rachell é mais vulnerável do que imagina.
    — Vulnerável? Não me faça rir!
    — Não estou brincando. E antes de acusá-la de traição, saiba que ela usou a própria
herança para prosseguir com o projeto e pagar os operários. Ela é a única razão pela qual
mil e duzentas pessoas ainda não perderam seus empregos. Rachell vendeu a
propriedade em Carlisle para concluir a obra. Ela é muito popular por aqui, e a equipe que
trabalha no projeto se sente no dever de protegê-la.

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Perigosa Atração

   — Escute, como me encontrou? — Ryan perguntou irritado e confuso.
    — Algumas pessoas viram quando vocês saíram juntos da festa. Pensaram que
Rachell podia correr algum risco e esboçaram a intenção de protegê-la. Minha presença
naquele bosque serviu para proteger você da ira daquela gente.
    — Ela está feliz na Irlanda, David? Sente-se satisfeita escondendo-se atrás dos livros
e de outros profissionais? Quem são seus amigos?
    — Rachell tem muitos dons. É generosa e amada por todos que a conhecem. Talvez
ela não necessite de mais nada para ser feliz.
    Pecadores reformados sempre se tornavam péssimos santos. Normalmente, Ryan se
aborrecia com as meias verdades hipócritas de David e sua propaganda religiosa. Seu
irmão havia vivido intensamente a juventude. Mas o tom protetor tocou sua consciência...
e mais alguma coisa escondida no fundo de sua alma. Havia um longo período da vida de
Rachell que Ryan não conhecia. Ela praticamente desaparecera durante seu casamento
com Kathleen, e havia muitas cartas que ela escrevera para a amiga, sua esposa, ao
longo dos anos.
    — Nunca tive a intenção de magoá-la, David. Ontem à noite... Se quer mesmo saber o
que aconteceu, espere Rachell contar.
   ---Rachell forja suas confissões. Nunca me diz nada de verdadeiro.
   — Ela mente enquanto se confessa?
    — Não exatamente. Ela apenas... omite. Escute, estamos perto de Glenealy, minha
diocese. Não quer tomar um banho e se barbear?
   — Isso é um convite?
    — Está cheirando mal. Além do mais... vêm, você tem o direito de usar as instalações
construídas com seus donativos.
   — Ah... — Era óbvio que David havia se apoderado do dinheiro contido na pasta.
   Marrow havia dormido no coche, mas levantou-se sonolento quando Ryan entrou.
   — Senhor, padre David esteve aqui perguntando por seu paradeiro.
   — Ele já me encontrou, Marrow.
   — Sim, e ele também perguntou porque estou aqui.
   — E você disse...?
    — Disse que vim para assumir o posto da srta. Bailey. Ela não vai gostar da sua
decisão, senhor.
    — Marrow, eu... prefiro falar sobre isso mais tarde, está bem? Siga-nos no coche.
Vamos à diocese de meu irmão. Ele me espera em sua carroça.
    — Senhora — Elsie afastou a lona que protegia a área íntima da tenda — ele está
aqui.
   Rachell terminava de se vestir.
   — Ele quem?
   — O sr. Donally, senhora. Veio com o sr. Marrow. Os dois estão no canteiro de obras.
    Marrow de novo. Rachell franziu a testa. Pela primeira vez em anos, havia dormido
demais e perdera a hora do trabalho.
    — Elsie, providencie o café, por favor. Comeremos lá fora, e depois você terá tempo
de sobra para arrumar a tenda.
    Quando ela terminou de comer e se dirigiu ao local da obra, Ryan a recebeu sério e

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Perigosa Atração

solene.
    — Bom dia.
    — Bom dia — ela respondeu, notando que ele havia se banhado, barbeado e mudado
de roupa. — Esteve em Glenealy com David? Reconheço o perfume do sabonete.
    — E o aprecia?
    — Ah, é muito agradável e... — Uma armadilha. Podia ver o brilho erótico nos olhos
dele. — As mulheres não vão reclamar.
     — Que bom. Quero mesmo retribuir a hospitalidade que encontrei entre meus
parceiros irlandeses.
    — Quer dizer que encontrou um lugar onde passar a noite?
    — Oh, sim, um lugar muito aconchegante. E não dormi sozinho, se é o que quer saber.
    — Não quero saber.
    — Não mesmo? Sempre achei que gostava de ouvir certas... ousadias?
    — Não. É você que gosta de dizê-las.
    — Incomoda-se por saber que posso ter tido companhia na cama?
    Rachell sorriu. Era provocação que ele queria? Pois que se preparasse!
    — Depende da qualidade dessa companhia.
    — Bem, vejamos, se comparar seus beijos e os da minha companhia, posso afirmar
que você baba menos.
    — Eu não babo! Nunca... Espere — ela parou, notando o sorriso debochado que
iluminava seu rosto. — Não se refere a uma mulher, não é?
    — Não — Ryan reconheceu rindo. — Tive uma noite horrível num celeiro fétido e dividi
a cama de feno com um cachorro! Pelo menos não senti frio.
    Ela riu.
    — Desculpe, Ryan. Deve ter sido horrível mesmo, mas não consigo me controlar.
    — Não se incomode por mim, por favor!
    — Já tomou café?
    — David se apiedou da minha condição.
    — Ah, bem... Melhor assim. E... fico feliz por ter dormido sozinho. Considerando que
têm um futuro planejado ao lado da Branca de Neve...
    — É só um negócio, Rachell. Nada mais.
    A atitude mercenária a revoltou. Ryan se submetia a uma castração emocional! Não
tinha sentimentos, apenas uma determinação implacável de vingar-se da sociedade que
ele desprezava com fervor.
    — Como pode se casar sem amar? Depois de ter sido casado de verdade?
    — Como pode me fazer essa pergunta? Sem nunca ter sido casada? Com exceção da
sua fantasia infantil com meu irmão, quando esteve apaixonada? Ou é do tipo que
entrona o princípio do romantismo, pensando que um relacionamento físico é sempre
mais do que parece ser? Já esteve com um homem, Rachell? Nos braços de um homem?
Na cama com um homem?
    A chuva caía. Uma lona a protegia dos pingos gelados, mas seu coração sentia o frio
gerado pelas lembranças de pecados passados.
    Rachell notou que Ryan havia removido a aliança de Kathleen depois do funeral.
Retomara sua vida. Fugia das recordações.

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Perigosa Atração

     Não revelaria mais do que suas ações já haviam mostrado. Não se importava com o
que Ryan pensava, se a julgava uma leviana ou uma meretriz. Não devia explicações a
ele. Não devia nada a Ryan Donally.
    — Quando, Rachell?
    Ela o encarou.
     — Quando fui para a universidade. Depois do seu casamento. Eu o conheci quando
você estava em sua lua-de-mel.
     A presença de Ryan despertava nela o desejo por coisas que jamais teria. O conflito
interno ameaçava sua autonomia, o equilíbrio de forças entre eles, tudo que tanto se
esforçara para conquistar.
    — Alan Marrow veio para assumir o projeto, Ryan?
    Ela o pegou desprevenido. Ryan corou e desviou o olhar.
    — Eu sabia. Você está fazendo exatamente o que eu previ que faria.
    — A questão é mais complexa do que imagina.
    — Sempre é. Vai me remover permanentemente da divisão irlandesa, não é?
    — Escute...
     — Não. Há anos luto como uma leoa para manter essa divisão à tona. Tudo que
quero...
     — Rachell, quando esse projeto for concluído, não haverá mais Donally & Bailey na
Irlanda.
     Ela parou. A declaração foi como um balde de água gelada. Ryan fecharia a divisão
irlandesa da empresa? Mataria seu futuro e tiraria o emprego de centenas de pessoas?
    — Não pode fazer isso. Não vou permitir. Não vou... Odiava-o.
     Odiava Ryan por ter vindo à Irlanda e, com seu toque mágico, solucionado todos os
problemas financeiros, só para fechar a divisão. Odiava-se por ainda ser capaz de amá-lo
depois de tudo que fazia. Acima de tudo, desprezava-o pela piedade que via em seus
olhos. Como se ele fosse inocente, como se não estivesse arruinando sua vida. Agora
sabia por que ele estava em Rathdrum. E não era por ela.
     — Só tenho uma coisa para dizer, sr. Ryan Donally. Isto! — Ela cerrou o punho e o
teria acertado no queixo, não fosse a esquiva rápida que o livrou do golpe. — Traidor!
    — Rachell... — ele a segurou pelos braços.
     — Tire as mãos de mim, ou juro que vou gritar! Eles o jogarão no rio e eu não farei
nada para impedir! Não pode fazer isso comigo, Ryan!
    — Grite quanto quiser. Incite seus homens contra mim. Nada vai mudar os fatos. Essa
divisão vem perdendo dinheiro há anos.
     — Você é um bastardo! Agora entendo por que as pessoas o odeiam e desprezam,
por que escrevem tantas coisas horríveis sobre você. Como pude acreditar na sua
decência? Você nunca foi decente!
     Ryan a apertou entre os braços, girando-a de forma a apoiar as costas dela contra o
peito.
    — Acalme-se, pelo amor de Deus! Quanto a ser decente, não sei o que fiz para lhe dar
essa idéia.
    As palavras cruéis o atingiram em cheio, e Rachell ouviu a nota de dor na voz dele. E
se arrependeu imediatamente.

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Perigosa Atração

   — Desculpe — pediu ofegante. — Não devia ter dito...
    — É tarde demais. Palavras são como projéteis. Uma vez ditas, não se pode mais
removê-las. Ou, talvez, esteja apenas mentindo para você mesma, como mentiu para mim
em Londres.
   — Eu não menti!
    — E continua mentindo. Por favor, poupe-me do seu ressentimento, está bem? Não
tenho tempo para isso. Não vou aceitar o papel do vilão nessa história. Chega, Rachell.
Estou farto de tudo isso.
   Ele a soltou, e Rachell quase caiu.
   —Nesse momento, meus contadores estão examinando seus livros em Dublin. Vai ser
reembolsada por cada moeda que investiu pessoalmente no projeto.
   — Não me tire esse trabalho, Ryan.
   — Eu jamais iria tão longe. E entendo por que fez tudo o que fez.
   — Como pode entender?
   — Eu teria feito o mesmo. Fiz o mesmo mais vezes do que pode imaginar.
    Mas como ele podia entender, se o que queria tomar agora era tudo que ela possuía?
A riqueza o protegia. O status o protegia da irrelevância. Ele tinha uma filha para amar.
Um futuro promissor.
   A chuva caía. Rachell ouvia vozes perto do rio.
    — Assim que terminar a inspeção do canteiro, voltarei a Dublin e arranjarei um
encontro entre os meus advogados e os seus. E você vai ouvir minha proposta.
   — Quer comprar minha parte da companhia? É isso?
    — Só estou pedindo para ouvir a oferta. Não vai passar por nenhuma dificuldade,
garanto. E se está pensando em recorrer a David ou a Johnny, esqueça. Marrow trabalha
para mim. Como 0'Roarke e 0'Reiley. Eles não a deixarão voltar ao canteiro sem mim.
   Ryan já se afastava quando ela gritou:
    — Não deixe de ir ver o entroncamento dos trilhos no lado oeste, sob a ferrovia.
Ontem encontrei problemas por lá.
   Ele assentiu.
    E não disse que teria localizado o problema de qualquer maneira. Tudo não passava
de um pesadelo. Ryan jamais tiraria dela essa divisão da D&B. Nunca.
    Meia hora mais tarde, quando voltou à tenda, Rachell encontrou suas coisas dentro
dos baús.
   — O que é isso, Elsie?
    — O sr. Donally ordenou que o sr. Marrow se mudasse para cá, senhora. Ele disse
que não dormiríamos aqui esta noite.
   Alguém vai nos levar a Glenealy. Padre Donally nos cedeu seu chalé.
    — Pelo menos vamos dormir bem esta noite — Rachell comentou com um misto de
resignação e desânimo.
   — Está acontecendo alguma coisa, senhora?
   — Partiremos para Dublin assim que eu resolver tudo por aqui.
   — Mas, senhora...
   — Elsie, não questione minha autoridade.
   — Sim, senhora.

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Perigosa Atração

    Rachell sabia que a divisão Dublin da D&B dava prejuízo ao grupo. Talvez Ryan
tivesse realmente o direito e o dever de eliminá-la, e não precisava dar explicações nem
pedir desculpas por isso. De sua parte, devia retornar a Dublin e preparar seus
advogados para o confronto iminente. Tinha de conhecer quais eram suas opções legais.
Precisava conversar com Johnny.
     Precisava pensar. Mas a última coisa que queria era estar sozinha com seus
pensamentos. Não duvidava da própria vontade ou de sua força para lutar, mas, no
momento, queria algo mais pessoal. Algo mais próximo do coração.
    Da alma.
    Algo que a parte mais sóbria e intelectual de seu ser a aconselhava a esquecer.
    Mas Rachell não queria esquecer. Nos próximos anos teria tempo de sobra para
encontrar alívio no esquecimento.
    — Maldito Ryan Donally!
    Maldita hora que havia viajado para Londres e despertado necessidades sufocadas
por tantos anos. Agora, além do sofrimento e da solidão, tinha também de enfrentar o
medo causado pela conexão de Ryan com lorde Devonshire.
    Mas, por hora, tinha de receber os suprimentos que acabavam de chegar e conferir
item por item da entrega com a nota fiscal. Depois pensaria na própria vida. Precisava
tranqüilizar os operários e anunciar que ninguém perderia o emprego. E também os
incentivaria a ajudar e respeitar o sr. Marrow. Sabia que Allan ia precisar de toda a ajuda
que pudesse obter.
     Falaria também com Marrow antes de deixar o acampamento. Ele devia estar
esperando por suas instruções.
    Um dos operários foi procurá-la na tenda para confirmar os boatos de que ela havia
sido substituída no projeto. Rachell explicou com calma toda a situação e pediu ao
homem que fosse transmitir as notícias aos colegas.
    Depois, sozinha, ela esperou pelo coche que a levaria ao chalé na diocese do padre
Donally.



  Capítulo V

   A luz no altar brilhava tênue na escuridão da nave. Os passos de Ryan soavam altos e
vazios no chão de pedra que ligava a porta à sacristia. Ele carregava um casaco. Velas
acesas tornavam o ar denso e pesado de fumaça. Cheiros familiares a alguém que havia
sido coroinha durante boa parte da infância. Ryan abriu a porta da sacristia e entrou.
   David estava sentado atrás da escrivaninha, lendo, mas levantou a cabeça e tirou os
óculos ao perceber sua presença.
   — Ryan! Não esperava vê-lo aqui.
   — Devia ter marcado uma entrevista?
   — Normalmente, é o que você faz. Gostou do chalé?
   Ryan se instalara em um dos chalés da paróquia três dias antes. Estivera analisando
as anotações e os dados do projeto, quando ouvira Rachell chegar à casa vizinha. Com
um copo na mão, ficara na janela observando enquanto "Sua Majestade" dirigia a massa

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Perigosa Atração

para transportar toda a sua bagagem para o interior da modesta construção. Ao vê-lo, ela
fechara as cortinas num gesto ostensivo. Mas as cortinas eram finas, e Ryan nunca fora
um cavalheiro. Desde aquela dia, voltara à janela todas as noites com interesse
redobrado.
   — Não há nada errado com as minhas acomodações — ele respondeu ao irmão. —
Só vim me despedir, caso não o veja amanhã. Pretendo voltar a Dublin assim que o eixo
do coche estiver reparado e pronto.
   — Esperava que ficasse mais.
    Ryan estava inquieto. Era como se quisesse falar mais, mas não soubesse como.
David pegou uma garrafa de uísque e serviu a bebida em dois copos.
   — Rachell vai com você? — indagou o religioso ao servir a bebida.
   — Não. Duvido que ela aceite ir comigo a algum lugar.
   — Hum... Sabia que eu tinha o hábito de esvaziar uma garrafa dessas por dia?
   — Está contente aqui, David?
   — Sim, tanto quanto pode estar um homem em paz. Esse é um bom lugar para viver.
E aqui posso ao menos fazer coisas boas, ser útil.
    Ryan tinha vinte e dois anos quando David voltara à Inglaterra, nove anos atrás,
depois de mais uma missão cumprida a serviço do governo. Ele havia se afastado da
família, da vida em geral. Ryan não o conhecia mais. E a culpa era tão dele quanto de
David.
   Era hora de promover reaproximações.
   Ryan se inclinou para a frente.
   — O que aconteceu com Rachell depois que ela deixou a Inglaterra? O que houve
com ela em Edimburgo?
   — Do que está falando?
   — Do homem com quem ela teve um envolvimento. Por que não se casaram?
   — Essas são questões que vai ter de fazer a ela.
   — Estou perguntando a você.
   — Não vou responder por ela.
   — Todos sabem? A família inteira, menos eu?
   — Como vai a família? — David indagou, aproveitando para mudar de assunto.
   — Sua parte no fundo está depositada no Banco da Inglaterra. Chris fez o depósito há
alguns anos.
   — Não estou interessado no dinheiro.
   — Mas pode estar um dia, quando desistir de se punir por pecados que cometeu no
passado. Quando compreender o que realmente quer.
   — Essa é boa. O pecador pregando para o santo.--- Ryan levantou-se.
    — David, na última vez em que tive notícias suas, você estava muito longe de ser
santo.
   David contornou a mesa.
   — Encontrou o que procurava, Ryan?
   — Sim, encontrei.
   — De fato? E o que conseguiu com tanta riqueza? Gosta do cheiro do ar que respira,
do calor do sol na pele, ou ainda está em busca do seu pote de ouro? Sua razão para

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Perigosa Atração

viver?
    — Minha razão para viver está em casa, esperando por mim. Ela fez quatro anos na
semana passada.
    — Esse é um fardo pesado demais para uma criança carregar sozinha.
    — Ela não vai ficar sozinha por muito mais tempo.
     — Sim, eu soube do seu noivado. Parabéns. Só precisou atacar uma grande
corporação para comprar uma noiva de sangue azul. Muito bem, Donally. A família se
orgulha de você, como sempre.
    — E por acaso preciso da sua aprovação? Uma vez na vida, por que alguém não pode
me elogiar com sinceridade, com sentimento? Minha vida não me pertence?
    — Os tablóides escandalosos o idolatram. Você tem o tipo de vida que todos querem
ter, mas todos o odeiam por isso. É um irlandês na Inglaterra. Aqui, é um traidor que
deserdou.Então, quem é você de verdade, Ryan Donally, se não um homem que ainda
busca por sua identidade?
    — Não vim aqui para ouvir sermão. Francamente, minha vida não é da conta de
ninguém. Deixei isso bem claro há anos, não?
    — Sim, e todos os membros da família já me informaram sobre isso. Muitas vezes.
    — Vocês falam muito sobre mim. E você? Por que está aqui? De verdade, David, aqui,
no meio do nada, pregando o evangelho?
    — A vida modifica um homem.
    — Uma afirmação memorável. Vou providenciar para que ela seja gravada na sua
lápide. A vida mudou David Francis Donally e o transformou no maior hipócrita que já
existiu. Pergunte a si mesmo se encontrou o que estava procurando antes de julgar as
minhas ações.
    — Está apaixonado por ela?
    Ryan parou, abalado com a enormidade da resposta que lhe surgiu na mente. Havia
partes de seu coração tão resguardadas, que nem ele mesmo as conhecia.
    — Meus sentimentos por Rachell são irrelevantes.
    — Eu não estava falando de Rachell.
     Ryan olhou para o irmão com evidente ressentimento, sentindo que havia sido
enganado para revelar algo que devia ter mantido em sigilo.
    — Está apaixonado por ela — David riu.
    — Ela tentou me dar um soco no queixo! Por que não pensaria nela?
    — Vocês brigaram? De verdade? Rachell é a pessoa mais contida que conheço!
    Ryan riu do absurdo da colocação.
    — Ela tem o temperamento de uma guerreira pré-histórica!
    — Quem ganhou?
    Ryan não respondeu. Pensava nisso todas as noites desde que ela aparecera em
Londres.
    Pensava nela todas as noites. Sonhava com ela.
    Mas não queria discutir com o irmão. Não devia ser muito aconselhável gritar com um
sacerdote ou xingá-lo, e já havia falado demais. Por isso ele voltou ao chalé.
    O cocheiro o esperava na porta para informar que o coche não estaria pronto no dia
seguinte, afinal. O eixo não podia ser consertado por falta de peças adequadas.

60
Perigosa Atração

    Ryan despiu-se, pegou a garrafa de uísque que deixara na prateleira e decidiu
terminar o que havia começado na noite anterior. Sentado diante da lareira acesa, ele
bebeu numa inútil tentativa de afogar os pensamentos sombrios.
    Mas a imagem de Rachell era mais forte que o uísque e o mantinha sóbrio. Frustrado.
Ardendo de desejo.
    Podia imaginá-la em seus braços, nua e pronta para recebê-la em seu corpo...
    E podia imaginar a extensão de seu ódio quando soubesse qual era sua proposta. A
D&B não podia mais sustentar a própria independência. Era hora de incorporá-la ao
conglomerado. Não conhecia outra maneira de proteger os interesses financeiros de
Rachell. Mas ela o entenderia?
    Nunca.
    Rachell entrou na igreja e benzeu-se com a água benta da pia ao lado da porta.
Depois, caminhando com passos firmes e ainda pensando no presente que sua criada lhe
havia dado no dia anterior, uma caixa contendo quatro esponjas com longos fios a elas
atados, um método anticoncepcional muito usado na região do Mediterrâneo e nos
bordéis da Europa. Dirigiu-se à sacristia.
    David levantou-se de sua cadeira ao vê-la entrar.
    — Preciso me confessar.
    — Agora? — ele estranhou, como se ela nunca houvesse feito uma confissão em toda
a vida. — Não pode deixar para amanhã? Sabe que horas são?
    — Espero que não trate todos os seus paroquianos da mesma maneira, David. Isso já
é bem difícil sem esse seu desinteresse.
    — Cometeu algum erro grave?
    — Sim!
     Ele respirou fundo. E concordou em ouvir a confissão. Rachell o seguiu ao
confessionário e esperou que a janela se fechasse entre eles.
     Não havia feito nenhuma confissão desde que deixara Londres. Mesmo antes,
conseguira omitir quase todos os pecados do padre confessor. Odiava revelar suas
fraquezas. Agora, não sabia por onde começar.
    — Estou ouvindo, Rachell...
    — Perdoe-me, padre, porque estou prestes a pecar...
    — Prestes a pecar?
    — Perdi completamente a razão. Sinto-me como se não pudesse mais me controlar.
    — Você não é a única — ele murmurou. Mas Rachell não ouviu.
    — David, você sabe mais sobre mim do que qualquer outra pessoa. Essas últimas
semanas têm sido as mais difíceis da minha vida. Juro, ou terei relações carnais com
Ryan, ou acabarei por matá-lo! Não consigo decidir...
    David saiu do confessionário e parou diante dela tomado por toda a ira de Jeová.
    — Fora!
    — Eu... Recuso-me a sair. Ainda não acabei minha confissão.
    — Quando viu meu irmão pela última vez?
    — Ontem. No vilarejo. Ele nem falou comigo. Se houvéssemos feito alguma coisa, eu
estaria confessando um pecado, não a intenção de pecar.
    — Está apaixonada por ele, Rachell? --- David reconheceu a hesitação.

61
Perigosa Atração

    — Eu... sinto uma certa atração física, mas penso que é normal. Quem não se sentiria
atraída por seu irmão? Sabe como ele é...
    — Francamente, não faço a menor idéia.
    — Ele é sedutor...
    — Sim, quando quer ser.
    — É generoso...
    — Quando quer alguma coisa.
    Rachell estranhou o comentário. Ryan era uma das pessoas mais generosas que ela
conhecia.
    — Ele é lindo. Como a luz do sol banhando os campos. E ele me aquece, David.
    — Ele é muito parecido com você, Rachell — David respondeu em voz baixa.
    — Se estivesse mesmo apaixonada, não teria perdido a cabeça há alguns dias. Tentei
agredi-lo, sabe?
    — Perdeu a cabeça porque ele a está tirando do projeto Rathdrum.
    — Sim! — Finalmente, alguém entendia a dicotomia da situação. — Ele quer comprar
minha parte na D&B.
    — E você dedicou-se tanto quanto qualquer Donally para construir a empresa.
    — Para ser bem franca, acho que seria capaz de matar Ryan. E talvez o matasse.
    Ou, talvez, fizesse amor com ele. As duas possibilidades traziam o mesmo elemento
de catástrofe, pelo menos para ela.
    — David, preciso de você. Impeça-me de fazer coisas de que posso me arrepender
depois. Estou desesperada. Como foi capaz de nos abrigar aqui, um ao lado do outro?
Isso tudo é sua culpa!
    — Ah, agora a culpa é minha?
    — Sim, sua.
    — E espera que eu a salve do fogo eterno...
    — Não pode fazer um pequeno milagre? Não sei... Um raio sobre o chalé de seu
irmão, talvez?
    — Venha comigo.---- Rachell hesitou.
    — Agora!
    Ela se levantou para segui-lo.
    — Tire as mãos de mim! — Ryan tentava se livrar das garras da besta humana que
praticamente o arrastava para a sacristia da igreja, mas era inútil. O sujeito já o
empurrava pela porta.
    Rachell estava parada no interior da sala com ar compungido, as mãos unidas na
frente do corpo e a cabeça baixa. Um homem permanecia a seu lado, e ele era quase tão
grande quanto o bastardo que o arrastara até ali.
    — Que diabo está acontecendo? Rachell, você está bem?
    — Ela está ótima. E você vai se casar — disse David com tom furioso.
    — Naturalmente. E quem será minha adorável noiva?
    — Vou deixar você escolher entre as mulheres aqui presentes.
    Ryan havia esquecido aquele sorriso gelado e perigoso.
    — Seu sarcasmo me irrita, sabe? E não tem graça. Não vou me casar. Não agora.
Nem aqui.

62
Perigosa Atração

    — Acha que estou brincando, meu irmãozinho? Eu avisei que teria de interferir, caso
não fossem capazes de resolver sozinhos essa situação entre vocês dois.
    — Que situação? Eu não fiz nada!
    — Vou realizar o compromisso de casamento entre você e Rachell. É uma velha
tradição irlandesa que não requer a bênção da Igreja. Você pode ter decidido que não é
mais católico, mas é irlandês, apesar do que quer mostrar ao mundo. Esses votos serão
suficientes.
    — Não pode fazer isso, David — Rachell protestou, tentando se livrar do homem que
segurava seu braço.
    — Posso, e vou fazer agora. Estou cansado e quero me recolher. — David fez um
gesto para o homem que segurava Rachell. — Estou cansado de resolver os problemas
que vocês criam. Mais tarde poderão discutir os detalhes dessa... união.
    Ryan não sabia se ria do irmão ou se o esganava.
    — Isso é absurdo! Não pode nos coagir a isso.
    — Conheço um capitão da marinha mercante em Dublin que está sempre precisando
de marinheiros. Estenda a mão, Ryan, ou vou despachá-lo para San Francisco em um
dos navios desse meu conhecido. Esses homens estão aqui porque podem cumprir essa
pequena tarefa para mim. Não voltaremos a vê-lo em um ano, pelo menos.
    — David, vou mandar prendê-lo por isso.
    — Você tem o direito de me denunciar, se quiser. Seqüestro é ilegal. Mesmo entre
irmãos. Mas só vai cumprir sua ameaça daqui a um ano.
    — Esqueça, David — Rachell interferiu. — Não vou me casar. E não pode me
despachar num navio mercante.
    Ryan havia esquecido a presença dela na sala.
    — O que disse a ele?
    — Eu?
    — Por que mais meu irmão estaria insistindo em nos casar?
    — Unam as mãos agora, ou não se verão por um longo tempo. Mão direita, por favor.
Os nós devem ser feitos corretamente para que a união seja válida.
    Silêncio. Um silêncio tenso e prolongado. Finalmente, Ryan se livrou das mãos que o
seguravam.
    — Faça o que ele está dizendo, Rachell.
    — Não. Isso é ridículo. David não vai mandá-lo para lugar nenhum.
    — Faria alguma diferença para você se ele mandasse?
    — Sim. Não quero ninguém que eu conheço navegando para San Francisco.
    — Então, reconhece que sentiria minha falta?
    — David não vai fazer isso, Ryan. Ele está blefando... Não está, David?
    — Não.
    — Ele não pode realizar um casamento legal — Ryan lembrou, estendendo a mão
direita para pôr fim à farsa. — Como sempre, ele está se superestimando. Só isso.
    — Estenda a mão sobre a dele, Rachell. Tocá-lo não deve ser difícil, considerando o
que me contou há menos de uma hora.
    Ryan ergueu uma sobrancelha ao olhar para o rosto horrorizado de Rachell.
    Ela estendeu a mão sem dizer nada.

63
Perigosa Atração

    David disse algumas palavras, depois amarrou uma fita azul em torno de seus punhos
e fez um nó. A cerimônia teria terminado em paz, se Ryan não houvesse bebido tanto. Ou
se o homem atrás dele não mantivesse uma pistola apontada para suas costas. David
sempre havia sido um tirano, um briguento incorrigível.
    Ryan perdeu a paciência. Quando David se inclinou para desamarrar a fita que
simbolizava o compromisso, Ryan o acertou com a mão esquerda. David caiu, mas
recuperou-se e retribuiu com força espantosa.
    Ainda amarrada a Ryan, Rachell tentou detê-lo segurando a mão dele, mas só o
tornou indefeso. David o acertou no queixo. Sua cabeça se chocou contra um pilar de
sustentação, e ele caiu inconsciente.
    — Chega! — Rachell gritou. — A culpa é sua, David Donally! Você o feriu! Como pode
ser tão bruto?
    — Você me pediu para salvá-la do fogo eterno. Agora, tem um ano e um dia para
decidir o futuro.
    — Esse compromisso não é legal. — Pensar em Ryan controlando sua vida por um
ano era horrível. Uma idéia obscena. — É um costume pagão.
    — Sim, mas ainda é muito praticado nas ilhas britânicas. E meus meninos aqui podem
testemunhar que você me procurou por sua própria vontade.
    — Isso mesmo, srta. Bailey — disse Ralph Blakeley. — Padre Donally nos fez
compreender que isso seria melhor para a senhorita.
    — Quando meu irmão recobrar a consciência, ele poderá decidir o que quer fazer com
uma esposa e sua criada. Talvez possam todos ficar na mesma casa. Como amigos.
    — Nunca o perdoarei por isso, David Donally — ela gritou quando o padre e os dois
grandalhões saíram da sacristia. — E pode ter certeza de que nunca mais ouvirá uma
confissão minha. Nunca mais!
    A porta bateu.
    — Essa sua ameaça vai deixá-lo muito preocupado — Ryan murmurou de seu lugar
no chão.
    Ele ainda mantinha os olhos fechados, mas se encolheu quando tentou mover a
cabeça.
    — Ryan, você está bem? Consegue se mexer?
    — Vamos ver... Se descontarmos a visão dupla e a confusão mental, acho que estou
bem. Continuamos na Irlanda?
    — Sim, infelizmente. Lamento que David tenha feito isso com você.
    — Afinal, o que disse a ele?
    — Nada — ela respondeu apressada, livrando-se da fita azul que ainda a prendia a
Ryan.
    — Nada? Nada? Como seu caso amoroso com aquele homem também não foi nada?
    — Meu caso amoroso?
    — Exatamente. Aquele nada no seu passado que ninguém quer comentar.
    — Não fale comigo como se sua história fosse casta e pura!
    — Você não me conhece, Rachell. E se tudo que acredita saber saiu dos jornais, você
me conhece ainda menos.
    Pela primeira vez na vida, Rachell não se incomodava com quem estava certo. Ryan

64
Perigosa Atração

ou ela. Sentia-se responsável por tudo. Por arruinar os planos que ele havia reservado
para a filha. Seu futuro. Não sabia o que dizer. Nunca se sentira mais acovardada do que
nesse momento.
   — O que vamos fazer?
    — Não faça esse ar trágico, Rachell. David não tem o poder que pensa ter. Não
estamos casados.
   — Então, tudo continua como antes entre nós?
    — Nunca houve nada entre nós. E se houvesse, se alguma vez houvesse acontecido
alguma coisa, talvez tivéssemos nos poupado da agonia desse dia.
    — Agonia? Quer dizer que nesse momento eu estaria livre para seguir cuidando da
minha vida? Sem sua presença tão... aborrecida?
    — Podemos descobrir se minha presença é mesmo aborrecida. Ou se tudo teria sido
aborrecido entre nós.
    — Ou você pode deixar a Irlanda exatamente como a encontrou. Pode voltar para a
Inglaterra sem olhar para trás.
   — Mesmo que não estivéssemos aqui, juntos e sozinhos na sacristia da igreja de meu
irmão, eu não poderia acatar sua sugestão.
   — Ryan, não quero ter um caso com você.
   — Então, o que você quer?
   — Pelo amor de Deus! Existem regras para esse tipo de coisa?
   — Não. Nem para o que eu quero fazer com você.
   Ela gemeu, tomada de assalto por um intenso e incontrolável desejo.
   — Rachell, uma vez não pode ser considerada um caso.
   — Não?
    — Não. Uma noite. Sem negócios. Sem passado. Sem futuro. Só nós dois, Rachell.
Você e eu.
    Tinha no bolso um meio para evitar a gravidez, mas nada era totalmente seguro.
Porém, o calor do corpo de Ryan e a promessa do que poderia viver em seus braços
prejudicava sua capacidade de raciocínio. E ele ainda nem a beijara!
   Queria beijá-lo.
   — Ryan...
   — Diga o que você quer. Fale agora, Rachell.
   — Eu não sei.
   — Você sabe.
   Uma noite seria suficiente?
   — Sem negócios? — ela repetiu. — Sem passado e sem futuro? E depois tudo voltaria
a ser como era?
   — Juro. Tudo voltará a ser como antes, Rachell.
   Ela o beijou.
   Passava da meia-noite quando Rachell se aninhou em seus braços e sorriu satisfeita.
   — Nunca tive uma noite tão memorável, Ryan.
   — Fico feliz por ter gostado — ele riu, afagando seus cabelos úmidos de suor.
   — Por que nos sentimos tão compelidos a... a isso?
   — Prometo contar quando descobrir a resposta.

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Perigosa Atração

    Mas ele sabia qual era a resposta. O que não sabia era como nadar nas águas
profundas e revoltas em que se encontravam e manter a cabeça fora da água. Porque
essa noite havia sido uma mentira. Ainda não havia conseguido distinguir todas as
nuances da pura luxúria e de tudo que sentia, mas já estava certo de que uma noite com
ela nunca seria suficiente.
    O dia já havia amanhecido, mas eles ainda estavam deitados na cama do chalé.
Fizeram amor muitas vezes ao longo da noite, mas o desejo ainda estava ali, clamando
por satisfação. Inesgotável.
    — Rachell... — Ryan murmurou enquanto a mantinha entre os braços depois de saciá-
la mais uma vez.
    — Hum?
    — Por que não se casou com ele? Com o homem com quem se relacionou antes?
    — Ele se casou com outra mulher.
     Um silêncio constrangido caiu sobre eles, e Rachell sentiu que Ryan recuava
mentalmente diante de tão delicado assunto. Era preciso ter cautela ao caminhar sobre
cacos de vidro.
    — Ainda se veste com plumas e finge ser uma diva da ópera diante do espelho?
    Ela o encarou espantada, surpresa por ele ainda lembrar de um detalhe tão bobo da
infância.
    — Não vai acreditar na quantidade de lembranças que ainda trago comigo.
    — Quais? Eu quero saber.
    — Vejamos... Você saltou suas primeiras barreiras aos dez anos montando um cavalo
grande demais para o seu tamanho. E chorou quando aquele ridículo peixinho dourado
morreu.
    — O peixe havia sido um presente.
    — Meu. Eu sei.
    — Ele ficou comigo por um ano. Era meu melhor amigo e confidente.
    — Sua flor preferida é orquídea.
    — Como sabe disso?
    — Você as carregou em sua primeira comunhão. Todas as outras meninas levavam
buquês de lírios brancos, mas você levava orquídeas colhidas entre as árvores do pomar
de seu pai. As freiras não gostavam muito do seu pensamento independente.
    Ryan a surpreendia mais e mais a cada minuto.
    — Gosta igualmente de Emily Brontê e das Leis do Movimento de sir Isaac Newton. E
também gostava de homens em uniformes militares. Escarlates.
    Rachell não gostou de ouvir uma referência a sua paixão infantil por Christopher, e
manifestou esse desgosto.
    — Desculpe-me por arruinar o momento.
    Ela não sabia se o pedido era sincero. Talvez ele quisesse apenas provocar uma
reação.
    Rachell reagiu beijando-o. E eles fizeram amor mais uma vez.
    Por muito tempo depois disso, enfraquecida pela turbulência do clímax que havia
compartilhado com ele, Rachell não se moveu. E quando trocaram o primeiro olhar depois
desse clímax violento e envolvente, ela soube que ambos haviam alcançado o mesmo

66
Perigosa Atração

ponto do universo. Ryan abraçou-a e, por um momento, ela deixou o coração correr livre.
    E esse foi seu grande erro.
    — Vamos dormir. Quando acordarmos, você e eu teremos de conversar sobre nosso
acordo — ele sussurrou. — Não vou desistir de você.
    Rachell abriu os olhos. Não queria que ele modificasse o que havia sido acertado
antes. Não queria ser sua amante ou ter um caso tórrido e vil que macularia as
lembranças dessa noite. Não o amaria e o veria desposar outra mulher.
    Rachell ouviu o crescente ruído dos pássaros cantando lá fora. Ouviu a respiração de
Ryan mudar, ganhar suavidade e constância. Levaria esse som para sempre em sua
memória. Mais uma recordação de Ryan.
    Os anseios impossíveis começavam a entrar em conflito com sua vontade.
    Fosse qual fosse a resposta para a confusão que a dominava, sabia que o interlúdio
entre eles teria de acabar.
    Era hora de voltar à realidade.
    Rachell levantou sem fazer barulho, vestiu-se com cuidado e alimentou o fogo na
lareira para manter o quarto aquecido. Quando se virou, ela se viu diante da pasta de
Ryan. A pasta que ela havia devolvido no início da semana. Ela estava aberta ao lado de
uma garrafa de uísque e um prato de queijo. Papéis da Ore Industries cobriam a
superfície da mesa. Surpresa com a descoberta inesperada, ela começou a ler os
documentos.
    O choque a atingiu em cheio ainda na primeira página. Incapaz de compreender com
exatidão o que lia, ela seguiu adiante e confirmou suas suspeitas.
    Era como se o sangue se transformasse em gelo em suas veias.
    Datado de duas semanas atrás, a declaração de intenção havia sido redigida e
assinada por Ryan. A Ore Industries estava incorporando a Donally & Bailey.
    Ryan não ia apenas fechar a divisão Dublin da empresa, mas toda a companhia seria
desmembrada, dissecada... assassinada.
    Ele não se oferecera para comprar suas ações por lealdade. Queria apenas eliminar o
problema que ela representaria no processo de aquisição. A divisão Dublin era apenas o
primeiro passo, o primeiro efeito colateral que a D&B sofreria com essa aquisição.
Tremendo, ela leu todas as páginas tomada por um choque que a impedia de raciocinar.
    A fúria crescia incontrolável.
    Ela jogou os papéis sobre a mesa, dividida entre o impulso de acordar Ryan com um
berro de ódio ou arrebentar o relógio contra sua cabeça.
    Mas a fúria sucumbiu ao medo. O choque deu lugar ao torpor. Não era a primeira vez
que um homem a fazia de tola, ela pensou, calçando os sapatos para deixar o chalé.
    As mãos ainda tremiam.
    Por uma noite, ela se permitira esquecer.
     Ryan havia sussurrado palavras doces em seu ouvido, encantamentos que a
envolveram e fizeram esquecer a realidade. Tornara-se parte dele. Saíra da dimensão
onde havia tempo e espaço, realidade, para mergulhar num lugar de sonhos onde só
havia beleza e paz.
    Uma paixão inevitável que se tornava pior pela constatação de que nem tudo entre
eles havia sido uma mentira.

67
Perigosa Atração

    Ryan recolhia os papéis que Rachell havia jogado no chão. Uma ruga em sua testa
refletia o estado caótico de seus pensamentos. Ele praguejou. Alguém estava batendo na
porta, ele percebeu ao erguer os olhos, tomando consciência de que as batidas já se
repetiam há algum tempo. Apressado, jogou os papéis na pasta antes de ir abrir a porta.
    David esperava do outro lado da soleira.
    — Não esperava encontrá-lo na cama a essa hora do dia.
    — Surpresa, surpresa — Ryan respondeu irônico e ressentido. — Meu valete tirou o
dia de folga.
    Ele não usava camisa. Sem os suspensórios, a calça caía baixa sobre o quadril, e a
disposição sombria estava estampada no rosto abatido.
    — Não quer entrar? — ele perguntou ao irmão depois de certificar-se de que David
estava sozinho. Nunca mais queria ver os dois grandalhões que conhecera na sacristia na
noite anterior. Certo de que seria seguido ao interior do chalé, ele se dirigiu à pia onde se
lavava antes de perceber os papéis espalhados pelo chão. As roupas com que viajaria
estavam sobre a mesa, escovadas e prontas para serem vestidas. — Eu ofereceria chá e
biscoitos, mas meus outros criados também estão de folga.
    David foi até a porta do quarto e olhou para o interior do aposento.
    — Vejo que teve uma noite de... inquietação.--- Consciente da curiosidade do irmão,
Ryan continuou se barbeando com grande cuidado.
    — Acabei de levar Rachell à estação de trem — David prosseguiu.
     — É mesmo? — E o que ela poderia ter contado ao padre Donally sobre o que
acontecera na noite anterior. De uma coisa estava certo: Rachell o desprezava mais do
que nunca.
    — Tive de ir atender a uma emergência, ou teria vindo vê-lo mais cedo. Acontece
que... Bem, surgiram circunstâncias inesperadas, e não estarei aqui por algum tempo a
partir de amanhã.
    Ryan interrompeu o ato de barbear-se para encará-lo. Lembrava-se de que David
havia se aborrecido com alguma coisa na tarde anterior, quando fora procurá-lo na
sacristia. Algumas cartas, talvez.
    — Problemas?
    — Ninguém pode antecipar as necessidades alheias — respondeu David com tom
cordial, embora distante.
    — Deve ser muito difícil para você.
    — O quê?
    — Ser onipotente sem ser clarividente.
    — Como vai o queixo?
    Ryan lavou o rosto para remover os últimos resquícios da espuma branca, depois
secou a pele com uma toalha limpa e macia. Só então se olhou no espelho. Havia um
hematoma no local onde David o atingira. O calombo na cabeça doía mais, mas só agora
notava o inchaço. Enquanto Rachell estivera em seus braços, enquanto ocupara corpo e
mente com a satisfação daquele desejo intenso e ardente, nada o incomodara.
     Uma noite que deveria ter sido única estendeu-se para a gloriosa manhã. Horas
seguidas de intimidade e prazer sem serem incomodados por ninguém, mas conscientes
de que dúzias de pessoas os procuravam. Perdera a reunião com o gerente de projetos e

68
Perigosa Atração

Marrow. ignorara a necessidade de estar em Dublin hoje e em Londres no meio da
semana. Acordara às dez da manhã.
   E acordara sozinho.
    Não precisava de David lembrando sua indiscrição ou julgando o comportamento de
Rachell. Também não precisava que lhe dissessem que razões ela tinha para partir para
Dublin às pressas, antes dele. Só um assunto merecia seu interesse nesse momento.
    — Será que pode explicar o que pensava estar fazendo ontem à noite? — ele
perguntou ao irmão.
    — Estava protegendo duas pessoas que amo muito. Rachell não quis nem falar
comigo, sabe?
   — Imagino.
    David seguiu Ryan até a cozinha enquanto retirava do bolso uma folha de papel
dobrada.
    — Tomei a liberdade de redigir um documento detalhando as normas do acordo
nupcial irlandês para análise de seus advogados.
   Ele deixou o papel sobre a mesa, mas uma corrente de ar a jogou no chão, aos pés de
Ryan.
   Depois de ler os tópicos do documento, ele fitou o padre.
   — Rachell leu isso?
    — A reação dela foi mais sucinta que a sua. Ela riu, rasgou o papel e jogou os
pedaços no meu rosto. E nem vou repetir o que ela disse sobre você.
   — Perda de tempo. A lei inglesa não vai reconhecer essa união.
   — Vocês não se casaram na Inglaterra. Casaram-se na Irlanda. De qualquer maneira,
para me precaver, decidi dar mais um passo hoje de manhã, depois de deixar Rachell na
estação. E uniões civis são legais.
    — David... — De repente sentia-se tonto, como se todo o mundo começasse a girar
em torno de sua cabeça. — Está dizendo... que Rachell e eu somos casados...
legalmente?
   — Ela ainda não sabe disso, é claro. Não inteiramente. Vou deixar que você mesmo
dê as explicações.
   Se David queria puni-lo pelo pecado de ter deixado a Igreja, não podia ter pensado em
castigo pior.
   — Sua atitude seria hilária, se não fosse criminosa.
   — Bem, agora me despeço. Foi muito bom revê-lo, meu irmão.
   — David — Ryan chamou ao vê-lo caminhar para a porta.
   — David! — Ele já havia saído. — Vou me casar daqui a dez semanas, David!
   Ryan olhou em volta, pensando no que poderia fazer, depois se atirou contra a porta
disposto a alcançar o irmão. Não deixaria David arruinar sua vida.
   — Para onde levou Rachell? O padre se virou.
   — Para a estação de trem.
   — Pensei que a enchente houvesse arrancado os trilhos na região de Rathdrum.
   — Ela não partiu de Rathdrum.
   — Quer dizer que há outra estação perto daqui?
   — Perto da costa, a uma hora daqui.

69
Perigosa Atração

    — Maldição! — Por que ninguém o informara disso antes? Por que o deixaram viajar
de coche por estradas esburacadas?
    — Há quanto tempo ela partiu?
    — O trem deve ter partido ao meio-dia. Calcula-se que a viagem dure três horas.
Então...
    O longo apito despertou Rachell de um sono profundo. Elsie viajava na poltrona da
frente, lendo um livro. Pessoas ainda acomodavam suas maletas e bolsas nos
compartimentos sobre os assentos, e alguém levara galinhas para o interior do vagão.
Consciente agora do barulho, dos aromas desagradáveis e do desconforto, ela se
impacientou. Por que o condutor não punha a composição em movimento de uma vez por
todas?
    — Já são três horas e meia de atraso! Precisava chegar a Dublin.
    Precisava entrar em contato com o advogado em Londres e buscar conselhos legais
antes do próximo confronto com Ryan.
    — Sente-se bem, senhora?
    — O quê? Oh, sim, Elsie, apenas um pouco ansiosa. — E muito cansada. — Quero
que saiba que sou grata pelo que fez por mim ontem à noite.
    — E o que foi que eu fiz, senhora?
    — Aquele presente que me deu...
    — Ah, aquilo não foi nada. Só quis demonstrar minha lealdade e minha dedicação. No
entanto, senhora, esqueci de dizer algo importante.
    — O que, Elsie?
    — Aquelas... Aqueles presentes... Devem ser embebidos em suco de limão antes do
uso, ou não têm nenhuma eficiência.
    — Suco de limão?
    — Sim, senhora.
    Pensar nisso a fez lembrar na intimidade do ato, em como Ryan a ajudara a colocar o
suposto contraceptivo no local adequado, e em como o procedimento acendera o desejo
e aumentara o prazer. Mas suco de limão...?
    Ela olhou pela janela.
    Seu ciclo era sempre regular, e sabia que em breve começaria o período das regras
mensais. No entanto, por mais que quisesse se afastar de Ryan e de tudo que ele a fazia
sentir, precisava considerar a possibilidade de tornar-se realmente sua esposa.
    O trem entrou em movimento. Algumas pessoas perderam o equilíbrio, e bolsas
caíram do compartimento sobre os assentos. Rachell abaixou-se para pegar uma delas,
bem perto de seus pés, e quando se levantou...
    Lá estava ele.
    — Ryan!
    — Em carne e osso.
    — O que faz aqui?
    — Precisamos conversar. Creio que sabe por quê.
    — Não temos mais nada a dizer um ao outro, Ryan Donally.
    — Senhora, vou procurar outro assento.
    — Não, Elsie. Não vai se afastar de mim nesse trem lotado. Sente-se a meu lado, no

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Perigosa Atração

apoio da cadeira. E não ouça.
    — Sim, senhora.
    Ryan acomodou-se na poltrona na frente dela.
    Era estranho...
    David havia dito que seu casamento com Ryan era real, mas não acreditava nisso.
Esperava que a noite anterior houvesse encerrado sua obsessão por Ryan, mas a
experiência só intensificara o desejo e o rancor por sua mentira.
    — O que faz aqui?
    — Por que saiu sem falar comigo, Rachell?
    — Tínhamos um acordo, não? Deveria ser uma única noite. Você não devia estar aqui.
    — Não acha que as atuais circunstâncias anulam todos os acordos anteriores?
    — Que circunstâncias? Ou você não é capaz de honrar compromissos que não
rendam ganhos materiais?
    — Ah! Esqueci que você me conhece bem.
    Rachell sabia que era imperativo preservar a frieza e o controle sobre as emoções.
Ryan sempre havia resguardado a dignidade da família com mãos de ferro e dessa vez
não seria diferente. Ele faria qualquer coisa para abafar escândalos.
    Seria capaz de compreender o dilema de Ryan, mas ocupava-se de um dilema
pessoal muito maior.
    — Quero que saiba que o eximo de qualquer responsabilidade com relação a essa
situação inusitada e imprevista. Não reconheço nenhum casamento entre nós.
    — Obrigado, juíza Bailey. Porém, duvido muito que tenha esse tipo de poder judicial.
    — Acho que não entendeu. David disse que fez tudo aquilo por mim. Fui procurá-lo e...
Eu disse... Ameacei matar você ou me deitar com você. Talvez os dois. Pedi a ajuda de
David. Esperava que ele tomasse alguma atitude piedosa, como rezar por minha alma.
Nunca imaginei que ele nos casaria numa cerimônia antiga e sem nenhum valor legal!
Quero dizer, nós dois sabemos que esse casamento não tem valor legal.
    — Maldição! — Ryan passou a mão na cabeça. — Nada nunca é simples entre nós,
não é?
    — Pelo menos estamos de acordo.--- Ryan segurou as mãos dela.
    — Deve ser a primeira vez que isso acontece, Rachell. Nunca concordamos sobre
outra coisa antes. Mesmo que acredite me odiar nesse momento.
    Seus olhos buscaram os dele.
    — Hoje de manhã... Você leu o que havia na minha pasta.--- Rachell removeu as
mãos.
    — Sim, eu li.
    — Não disse nada antes porque não queria que ficasse ainda mais magoada do que já
estava. Talvez não acredite, mas é essa a verdade.
    Rachell sentia vontade de agredi-lo. Até esse momento, não havia considerado que
ele podia estar no trem por razões profissionais.
    — Então, devo me sentir grata. Normalmente, suas aquisições são mais agressivas e
menos cuidadosas.
    — Não sou seu inimigo, Rachell.
    — Então, o que você é? — Ela se levantou de um salto. Sentia que se tentasse

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Perigosa Atração

agredi-lo agora, Ryan não tentaria detê-la. — Porque tenho certeza de que também não é
meu amigo.
     Rachell percorreu o corredor repleto de passageiros e, cambaleando, chegou à
pequenina varanda no fundo do vagão. O vento e o barulho encobriram o soluço que ela
não conseguiu conter.
    Ryan a seguiu.
    — Veio para a Irlanda com a intenção de comprar minha parte na companhia para não
ter de enfrentar oposição ao processo de aquisição.
    — Sim, essa era minha intenção.
     — Você construiu a Donally & Bailey! Trabalhou duro por isso. Sei como você
trabalhou porque estava perto observando. Vi você lutar com o status quo. Vi você aceitar
trabalhos que ninguém mais queria fazer, planejar projetos que ninguém mais havia
imaginado. A D&B não seria o que é hoje sem a sua dedicação. Onde está esse homem
agora, Ryan?
    Ele se apoiou na balaustrada e a prendeu entre os braços.
    — Eu sou esse homem. Não mudei. O que mudou foi sua percepção sobre mim.
    Rachell não acreditava nele. Lembrava-se de um dia em que ele havia arregaçado as
mangas e percorrido a pé uma tubulação de esgoto da cidade para descobrir a origem de
um entupimento. Ryan não se importava com a sociedade, com a aristocracia ou com os
modos dos homens de boa formação. Pelo contrário. Passara a desprezar todas essas
coisas. Agora, sua equipe em Dublin perderia o emprego. Onde estava o homem que
cuidava de seus funcionários?
    — Devo perguntar qual é a opinião de Johnny sobre a aquisição? Ou ele é tão
impotente quanto eu?
    — Ele sabe o que deve ser feito.
    — Essa é a desculpa universal adotada pelos homens para justificar comportamentos
imperdoáveis? Deve ser feito porque...?
    — A Ore Industries vai tirar a D&B da concorrência em menos de um ano. Aceitar
minha oferta antes da aquisição vai beneficiá-la, Rachell.
    — Se dinheiro fosse tudo para mim, eu poderia até suportar sua atitude arrogante e
egoísta.
    — Ah, sim! Lembro-me de como suportou minha arrogância ontem à noite!
    — Você é cruel. E sabendo o que sei hoje, eu o desprezo. --- Ela o encarou. Como
pudera imaginar que depois da noite anterior alguma coisa poderia voltar a ser como
antes entre eles?
    — Despreza-me por ser honesto? Não seja ridícula!
    — Está debochando de mim, Ryan?
    — Não. É você quem se expõe ao deboche com essa atitude hipócrita! Costumo
compensar bem minhas amantes, mas nunca dei de presente a uma delas uma
corporação internacional!
    — Nem estaria me dando nada!
    — A oferta é boa. Eu a pus em sua pasta. No carro de bagagem, junto com minha
valise. Sugiro que, ao chegar em Dublin, procure ler a proposta com atenção e aceite os
termos nela estabelecidos.

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Perigosa Atração

    — Obrigada por ter sido claro e franco com relação às minhas opções. Isso tudo foi
muito civilizado da sua parte.
    — Não há razão alguma para ser diferente.
    Era muita arrogância pensar que levá-la para a cama estava compreendido nos limites
da negociação normal, mesmo considerando suas táticas impiedosas.
    Não. Não esquecera a verdade sobre Ryan Donally. Um homem espetacular que
fizera fortuna apostando, arriscando. Arriscara no mercado de ações e de commodities.
Na indústria e no comércio, e comprando e vendendo o futuro de seres humanos. Em sua
ânsia de esmagar aqueles que desprezava, destruíra vidas humanas. Criara um
personagem conveniente aos seus objetivos e fizera seguidores entre homens ambiciosos
e sem caráter, eliminando os que se punham em seu caminho.
    — Não quero magoá-la, Rachell.--- Era tarde demais.
    Ele abriu a porta de comunicação com o interior do trem.
    — Vou me mudar para outro vagão até chegarmos a Dublin.
    E depois disso, ele retornaria a Londres e começaria o processo de desmontar sua
vida pedaço por pedaço, até a D&B ser tão insignificante quanto ela em sua vida.
    — Você sabe que nós dois nunca teríamos dado certo — ela disse. — Se fôssemos
mesmo viver como marido e mulher, acabaríamos nos matando antes que eu pudesse
dizer noiva envergonhada.
    — Então, somos criaturas de sorte por sabermos que jamais vamos viver como marido
e mulher. Aceite minha proposta, Rachell. Garanto que não vai receber outra.



  Capítulo VI

    --- Rachell, ainda acordada, querida? — Memaw perguntou da porta do quarto. — Vi a
luz acesa.
    — Não estou dormindo. — Havia baús abertos no chão e papéis espalhados pela
cama. — Mas você deveria estar.
    — Trouxe um chocolate quente. Você não quis jantar.---- Desde que podia lembrar,
sua avó sempre havia passado por seu quarto antes de ir se deitar e levara uma xícara de
chocolate quente e forte.
    Ela e Elsie haviam chegado na noite anterior, e um criado da casa fora buscá-las na
estação de Dublin. Pelo menos David havia enviado um telegrama informando Memaw
sobre sua chegada.
     Não voltara a ver Ryan depois daquela conversa no trem. Naquela manhã, fora à
igreja e servira ponche no evento social da paróquia. Fazia coisas normais, corriqueiras,
como se não estivesse morrendo por dentro. Fragmentos da proposta de Ryan estavam
espalhados pelo chão como imensos flocos de neve. Em algum momento, antes do dia
seguinte, teria de decidir como poderia resgatar o resto de sua vida.
    — Gostaria de tê-la comigo em Londres, Memaw.
    — Bobagem. — Ela se sentou numa cadeira ao lado da cama. — Eu só conseguiria
atrapalhar.
    — Nunca!

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Perigosa Atração

    — Esta é minha casa. E é sua também, minha querida.
    — Obrigada.
    — Por que sempre se retrai quando é tratada com carinho?
    Carinho era um luxo a que não podia se entregar, especialmente agora. Mas Memaw
conhecia bem seu caráter para saber que, por maior que fosse o problema, por mais
perturbada que estivesse, nunca empregaria um tom tão ríspido com ela. Não como
acabara de fazer.
    — Memaw, ele tem trinta e um anos. É bem-educado, respeitado... Controla uma
empresa internacional com milhares de funcionários em pontos distintos do planeta. Em
breve será consagrado cavaleiro. Ele é um dos homens mais ricos da Inglaterra. Como
posso lutar contra isso?
    O London Times ainda estava no chão, onde ela o arremessara num acesso de fúria.
A aquisição da Valmonts pela Ore foi assunto em todos os cadernos financeiros do dia
anterior. Eram cartas marcadas. Caminhos traçados. Futuros definidos. Nada podia ser
negociado.
    — Para ele, desmontar a D&B é só um negócio. Como todo o resto desde a morte de
Kathleen. Exceto pela filha, Ryan não tem mais nenhuma ligação emocional com nada.
    — Menina, eu devia lhe dar umas boas palmadas.--- Rachell olhou para a avó como
se ela houvesse enlouquecido.
    — Em mim?
    — Ele veio à Irlanda para ver você, não foi? E o que fez você? Foi agradável? Doce?
    — Ele não veio para me ver.
    — Ryan Donally poderia ter mandando uma dúzia de homens para representá-lo, meu
bem. Um homem como ele não abandona os negócios por uma semana sem que haja
uma boa razão para isso.--- Rachell rejeitava qualquer idéia que fugisse ao óbvio. Ryan
precisava de sua cooperação para realizar a próxima aquisição sem grandes problemas.
Podia ser capaz de paixão, mas não o julgava capaz de mais do que isso. E não queria
nenhum relacionamento com ele.
    — Francamente, Memaw, devia usar seus óculos com mais constância. O noivado de
Ryan foi publicado pelos jornais.
    — Bah! E desde quando um Bailey se importa com coisas da sociedade? Você tem
sangue de uma rainha correndo nas veias.
    Uma famosa rainha pirata. Rachell riu. Conhecia a história, pois a ouvira centenas de
vezes ao longo da vida. Grace 0'Malley era um dos orgulhos da família. O riso quase a
levou às lágrimas. Não acreditava que seu sangue pirata pudesse valer de muita coisa,
caso tivesse de ir aos tribunais da opinião pública. Mas Memaw se orgulhava dessa
linhagem, por isso ela não disse nada.
    Finalmente, ela pôs a xícara de chocolate quente sobre a mesa-de-cabeceira e olhou
em volta. Não havia mais nada fora do lugar. Organizara sua vida completamente,
incluindo as pastas que usaria no dia seguinte. Ryan era apenas o caos no meio de sua
ordem diária.
    Mas Memaw ainda queria defendê-lo.
    Sua avó e David haviam se aproximado muito desde que ele retornara à Inglaterra
anos atrás, mas Rachell suspeitava de que Ryan sempre havia sido seu Donally preferido.

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Perigosa Atração

Provavelmente por causa da carência que, na infância e na juventude, ele ocultara sob
um manto de rebeldia e insubmissão. Memaw nunca gostara do pai de Ryan. No dia em
que seu filho caçula subira ao palco para receber seu diploma como primeiro aluno de sua
turma em Edimburgo, ele estivera em Gales supervisionando um projeto. Mas os avós
dele estiveram presentes. E Memaw. E Kathleen.
    Rachell devia ter estado completamente cega para não perceber que Ryan já a amava
naquela época.
    Pensando no que sentia por ele, tentou relacionar todos os motivos para ter se deitado
com Ryan em um pequeno resumo atribuído à luxúria. A plena compreensão do que
haviam feito não chegara até o momento em que ele a deixara no trem, e ela
desembarcara na estação em Dublin, sob um céu perfeito cheio de estrelas perfeitas, e
percebera como sua vida era imperfeita.
    Não dormira com Ryan por causa da luxúria.
    — Vai trabalhar até tarde, querida? — Memaw estava novamente na porta do quarto.
    Rachell nem ouvira seus passos no corredor. Olhando distraída para os papéis que
esparramara sobre a cama, ela respondeu:
    — Tenho trabalhado até tarde todas as noites dos últimos oito anos. Por isso tenho o
que tenho.
    — Não, meu bem. Você tem o que tem porque lutou com bravura por cada conquista,
por cada pequeno pedaço do seu triunfo.
    — Alguma vez se envergonhou de mim, Memaw?
    — Como ousa me fazer essa pergunta? Escute bem o que vou dizer, Rachell. Você já
se fingiu de morta uma vez. Se repetir o truque, será merecedora do seu destino.
    Intrigada, Rachell viu a avó sair do quarto e fechar a porta. Muito mais tarde, quando
apagou a luz e se deitou, ela decidiu que não queria sentir medo de Devonshire.
    Mas Memaw tinha razão. Fugira da vida uma vez. Fugira para proteger-se. Por estar
apaixonada pelo marido da melhor amiga. Preenchera esse vazio com estudo e uma
educação que poucas mulheres podiam sonhar obter. E conquistara a independência a
um custo muito elevado, tanto que ninguém poderia imaginar quanto. E agora, quando
chegava o momento de lutar, capitulava facilmente diante de Ryan.
    A percepção desse fato simples a atingia como um cometa caído do céu.
    Fugir da vida novamente não era uma alternativa agora.
    A brisa que entrava pela janela carregava o perfume de orquídeas. Ela lembrou a noite
em que Ryan falara sobre sua primeira comunhão. Ele tinha razão: as freiras não
toleravam pensamento independente, e por isso a puniram duramente por sua
desobediência.
    Mas algumas coisas na vida são dignas de luta.
    A D&B crescera no porão da casa de seu pai havia trinta anos. Era seu legado tanto
quanto de Ryan.
    Talvez só quisesse fazê-lo entender que a Donally podia coexistir com Bailey. Que a
D&B podia coexistir com a Ore Industries. Que seria possível seguir para o futuro sem
destruir o passado.
    Talvez fosse hora de assumir uma posição.
    Mulheres não podiam votar, mas podiam possuir a maioria das ações em corporações

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Perigosa Atração

internacionais e valer-se dessa porcentagem a fim de decidir políticas internas.
    De que outra forma poderia vencer um poderoso empresário e industrial com planos
bem delineados para um futuro perfeito?
    Pelo menos suas ações seriam a garantia de que ele não a esqueceria tão cedo.
    — Senhor?
    Ryan ergueu os olhos do jornal que lia na sala de estar da suíte. Esperava ver o
mensageiro do hotel. O fogo mantinha aquecido os aposentos externos do lugar onde
encontrara pousada, esperando o vapor que o levaria a Dublin na segunda-feira. Nenhum
meio de transporte deixava a cidade no domingo. Passara duas noites na melhor
hospedaria que o dinheiro podia comprar, mas pouco conseguira dormir. Estava cansado
e impaciente.
    — Senhor, a camareira me conduziu até aqui — explicou apressado seu advogado. —
Não sabia se ainda o encontraria por aqui.
    — Não pretendo ficar por muito mais tempo. — Ele se levantou, vestiu o paletó, ajeitou
a gravata diante do espelho e serviu-se de uma xícara de café do bule deixado sobre a
mesa. — Por que tenho a sensação de que não vou gostar do que tem para dizer?
    — Porque sempre foi um homem sagaz.
    — Então...?
    — A srta. Bailey esteve no escritório hoje pela manhã. ---Sabia que ela entraria em
ação o mais depressa possível,mas, mesmo assim, sentia-se exasperado. Seus
advogados tinham um encontro marcado com os advogados dela para aquela tarde.
Smythe não devia estar ali.
    — A mulher é uma força da natureza, senhor. --- Ele riu. — Os empregados da divisão
Dublin a admiram. Francamente, nunca conheci...
    — Smythe... — Ryan terminou de beber o café e deixou a xícara sobre a mesa. Depois
olhou para o relógio na parede. Precisava partir para as docas, ou perderia o vapor. —
Vamos direto ao ponto, sim?
    — Ela parecia saber que eu estaria no escritório, e me deu isto — Smythe deixou o
envelope sobre a mesa, ao lado da xícara vazia. — E pediu para que eu transmitisse sua
gratidão pela oferta generosa por suas ações da Donally & Bailey. Depois de ler sua
proposta, ela ficou lisonjeada com sua disponibilidade de pagar tão alto, tão acima do
preço de mercado, e disse que qualquer mulher... e ela enfatizou a palavra mulher !
desmaiaria de alegria com tanta generosidade. Ela considerou a proposta e ficou
honrada, considerando tudo que os tablóides publicam a seu respeito, com sua
demonstração de... consciência. Palavras dela, senhor.
    — Sem dúvida ela me tem em alta conta — Ryan respondeu olhando para a janela.
    Smythe percebeu a ironia na voz dele.
    — Mas ela também disse que o senhor e sua proposta podem ir... para bem longe. E
não foram essas as palavras dela, senhor.
    — Ela blasfemou... na sua presença?
    — Sim, senhor. E disse que o inferno congelaria antes que ela vendesse uma única
ação da D&B. Foi tão agradável em seu discurso, que quase me esqueci de que era
sobre o senhor que ela falava.
    Ryan fazia um grande esforço para conter o riso.

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Perigosa Atração

    A chegada do mensageiro do hotel o salvou do vexame.
    — Seu coche o espera, senhor.
    — Leve minha valise. Estarei lá num instante. — Ele olhou para Smythe. — Prossiga.
     — Conforme suas instruções, ofereci o reembolso do valor que ela havia investido
enquanto supervisionava o projeto.
    — Não me diga que ela também recusou essa parte da oferta!
     — Não, senhor. Pelo contrário. Ela me lembrou delicadamente que a empresa lhe
devia também os juros. — O advogado retirou alguns papéis da pasta que carregava. —
A contabilidade da srta. Bailey é mais precisa que a minha em certos aspectos,
considerando que ainda não tivemos tempo de analisar todos os gastos que ela realizou
nos últimos anos.
     Ryan analisou os dados, impressionado com a eficiência por ela alcançada em tão
pouco desde seu retorno de Glenealy. A aritmética estava correta, sem dúvida. Rachell
tinha uma habilidade numérica que deixava aturdido até o mais preciso dos homens.
Calcular juros seria uma operação elementar para ela.
    --- Ela também calculou os custos de sua educação, que agora considerava despesa
reembolsável, e outras contas variadas que incluem subornos, custos de transporte e
livros profissionais. Ela me explicou que nem tudo podia ser recuperado, mas que esse
era o preço da estupidez.
    — Mais alguma coisa?
    — Eu paguei o valor estipulado, senhor.
    — Tudo?
      — Recebi instruções para cooperar. E ela apresentou seu caso com exatidão
convincente.
     Era típico. Rachell levaria mais dinheiro do que valia provavelmente toda a divisão
D&B. Estava francamente admirado com seu lado mercenário... e ainda mais curioso para
saber por que ela não aceitara a proposta. Só podia haver uma razão para isso. Ela ia
brigar pelo controle... e com seu próprio dinheiro.
    Smythe havia perdido a batalha.
     Irritado, ele guardou as pastas com os dados de Rachell dentro de sua valise de
trabalho e respirou fundo. A despreocupação que ela demonstrava com o próprio futuro
superava qualquer inclinação diplomática que pudesse ter para tentar solucionar os
problemas entre eles. Agora sabia que a aquisição teria um preço. Seria sua punição por
duas décadas de idiotice quanto à própria incapacidade de compreender e apaziguar
suas emoções com relação a Rachell.
    Rachell devia ter aceito sua proposta.
    E ele não devia ter dormido com ela.
     Porém, naquela noite única em Glenealy, olhara para a mulher que mais amara em
sua vida e se perguntara se o futuro poderia ter sido diferente, caso houvesse lutado por
ela com a mesma força com que lutara pela Donally & Bailey.
    Ryan só sabia que não perderia mais nenhuma batalha.
     Rachell acabaria ouvindo a voz da razão de uma forma ou de outra. Até lá, já havia
mobilizado seus advogados em Londres para desatar o nó que David havia atado com
aquela idéia maluca de casá-los.

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Perigosa Atração

    Rachell conseguira comprar as últimas duas passagens no vapor para Gales. De lá,
ela e Elsie seguiriam no trem para Londres. O tempo frio e chuvoso obrigava os
passageiros a permanecerem na área fechada do vapor, longe do convés, por isso ela
não percebeu a aproximação da personificação de seus sonhos eróticos. Não a tempo de
tentar escapar, pelo menos. O que Ryan fazia no vapor?
    Apreensiva, Rachell cobriu a cabeça com o capuz do manto e esperou, rezando para
não ser vista. Ryan se sentava em uma poltrona vaga ao lado de uma janela. Se ele ainda
estava na Irlanda, já devia ter falado com o advogado. Já devia saber o que ela planejava
fazer com seu precioso dinheiro.
    De cabeça baixa, ela releu a carta que estivera compondo para Johnny, frustrada ao
perceber que havia perdido o fio dos pensamentos. Apesar de todas as precauções com
que buscava fortificar-se para a longa estrada que teria de percorrer, não havia se
preparado para sua reação a Ryan. Não podia acreditar que ele estava a bordo. E há
duas horas! Sem que ela o notasse ou soubesse de sua presença.
    Queria-o demais para fingir o contrário, o que tornaria muito mais difícil sua empreitada
para derrotá-lo. Mas não era impossível.
    Uma hora mais tarde, o vapor atracava em Holyhead. Rachell desembarcou no meio
da multidão atrás de Ryan, sem nunca perdê-lo de vista. Ela o viu embarcar em um coche
de aluguel que o levaria à estação ferroviária.
    Ela o viu mais uma vez quando o trem parou em uma estação uma hora antes de
Londres. Ele viajava no vagão de primeira classe, dois carros à frente de onde Rachell e
Elsie completavam a jornada. O condutor passou pelo corredor anunciando a parada, e
ela abriu os olhos.
    Ryan estava parado na rampa de embarque quase na frente de sua janela. De repente
ele se virou e a viu.
    Olhou em sua direção como se soubesse exatamente onde ela havia estado desde o
início da viagem.
    — Onde vai se hospedar?
    O vidro da janela abafava o som de suas palavras, mas ela pôde ler claramente seus
lábios.
    Um olhar furtivo para as pessoas que a cercavam a fez ter certeza de que ninguém
prestava atenção aos seus movimentos.
    — Vá embora! — exigiu movendo os lábios sem emitir nenhum som.
    Sem desviar os olhos dos dela, Ryan se aproximou da janela com uma arrogância
impressionante, considerando que ele estava em Londres para deter o formidável ataque
de sua preciosa Ore Industries à D&B.
    Rachell baixou a janela e se debruçou nela.
    — Você é a última pessoa a quem eu diria onde vou me hospedar, Ryan Donally —
ela disse, tentando manter a voz baixa.
    — E você é a mulher mais teimosa e irritante que já conheci, Rachell.
    — Você também é teimoso e irritante.
    — Não tem idéia do que está fazendo.
    — Ah, eu tenho. Pretendo conversar com Johnny.
    Sabia exatamente o que estava fazendo, e esperava que o sr. Williams tivesse a lista

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Perigosa Atração

dos grandes acionistas da companhia pronta para ela. Lutaria com todas as armas contra
Ryan.
    — Volte para a Irlanda, Rachell. Estava falando sério quando fiz minha proposta.
    — Por que esperou tanto tempo para tentar me tirar da sociedade? Por que não fez
isso antes? Teve tantas oportunidades no passado!
    — Por que não me conta qual é sua teoria? Pelo visto, já pensou em tudo, não é?
     — Puro instinto. No fundo, não quer realmente me destruir. E também não quer
destruir a D&B.
    Um apito anunciou o momento da partida. As rodas começaram a se mover.
     — Não estamos jogando, Rachell — ele a preveniu, caminhando ao lado da
composição. O trem ganhava velocidade. — E não há regras.
    — Ótimo! Nunca gostei de regras. — Ele estava cometendo o maior erro de sua vida,
e não o deixaria prosseguir com esse engano.
    Jogando um beijo que depositou na ponta dos dedos, Rachell fechou a janela. Ryan
sorriu magnânimo. E acenou. Rachell o viu parado sozinho na plataforma e tentou
recuperar o ritmo normal da respiração.
    Vivia há muito tempo em um mundo dominado por homens. Sabia reconhecer o perigo
quando ele mostrava os dentes e ameaçava devorá-la viva. Mais uma vez, era forçada a
reconhecer em Ryan um inimigo formidável.
    Johnny não estava em casa. Stewart informou que ele havia ido à Escócia inspecionar
as obras da D&B. Moira e as crianças foram com ele, sinal de que demorariam a voltar. A
coincidência não passou despercebida. Rachell não gostava da idéia de pedir ajuda a
algum outro membro da família Donally, mas no passado havia sido amiga da irmã dele,
Brianna. Assim, uma noite depois de uma terrível e infrutífera busca por um lugar onde se
hospedar, ela foi bater na porta da casa da duquesa de Ravenspur.
    Naquela manhã, quando parou diante do Banco de Londres,ela ainda não tinha noção
da tarefa que a esperava. Johnny reservara os aposentos no Palace Hotel em sua última
visita à cidade. Sozinha, sem a companhia de um marido ou pai, ela não conseguira
acomodações para ela e Elsie, e recusava-se a passar uma noite que fosse em
hospedarias onde era preciso travar a porta do quarto com uma cadeira para não ser
atacada.
    Momentos depois, um homem apareceu no saguão. Ele usava camisa branca, calça
preta, e carregava nos braços uma criança adormecida.
    Rachell jamais conhecera um duque antes. Pedira que fosse recebida por Brianna e
não esperava se deparar com seu marido.
    — Posso ajudá-la, srta. Bailey?
    — Percebo que estou atrapalhando.
    — Acabo de retornar do ministério. Tivemos uma reunião tardia. Minha esposa levou
nosso filho mais velho e quatro sobrinhos a uma exposição de arte. Ela vai passar a noite
com sir Christopher, seu irmão, e só retornará amanhã.
    E agora, o que faria?
    — Imagino que ela seja muito ocupada.
    — Certamente. E eu também tenho as mãos cheias, como pode ver.
    — É claro.

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Perigosa Atração

    — Você é a mulher que Ryan foi procurar na Irlanda?
    — Exatamente. E agora estou aqui, em Londres, desesperada para encontrar um local
civilizado para hospedar-me. Hospedarias não são minha preferência, como pode
imaginar, e não consegui nenhum quarto no Palace Hotel, apesar de poder pagar pelas
diárias. Pretendo alugar uma casa, mas até lá...
    — Está sozinha?
    — Minha criada espera por mim lá fora, em um coche alugado.
    O duque chamou o mordomo e ordenou:
    — Pague ao cocheiro pelo transporte e traga a jovem para dentro. — Ele olhou para
Rachell. — Percebo que está exausta, por isso vou poupá-la do sermão sobre sua falta de
bom senso por não ter vindo antes à nossa casa, srta. Bailey.
    — Agradeço a cortesia, Vossa Graça.
    Finalmente! Era um alívio encontrar porto-seguro entre amigos.
    Ryan chegou em casa e foi informado de que Brianna havia ido buscar Mary Elizabeth
e a levara para Londres. Estava furioso com os empregados, mas o que poderia fazer?
Cavalgar ao vento até a casa de lorde Ravenspur e arrancar a filha dos braços da própria
irmã?
     Não. Gwyneth e Devonshire já deviam estar chegando para o jantar, e ele ainda
precisava terminar de se vestir.
     — Boswell, por que deixou minha irmã levar Mary Elizabeth? Sabia que eu estava
para chegar!
    — Senhor, lady Ravenspur anda muito deprimida com a falta de amigos na sociedade.
Não fosse pela cadeira ocupada por lorde Ravenspur no Parlamento e pelo poder por ele
exercido entre os nobres, ela nem seria convidada para festas, bailes e outros eventos.
     — O que esperava? Brianna é sufragista, autora de livros escandalosos e defensora
da reforma na educação. — E ainda enfrentava muitas dificuldades desde que se casara
com um duque. — Ela não tem amigos no círculo de lady Bedford e das outras damas da
sociedade. E duvido que eu os tenha, Boswell.
     — Mesmo assim, é livre para fazer suas escolhas, senhor. E lady Gwyneth é uma
delas. Não posso dizer que a aprovo... mas devo aceitá-la. Como seu criado, devo-lhe
lealdade e respeito. Chame se precisar de alguma coisa, senhor.
     Sozinho com um conhaque, Ryan teve de reconhecer que Boswell estava certo.
Porém, mesmo admitindo sua hipocrisia, precisava aliar-se aos nobres poderosos. O
casamento com a sobrinha de Devonshire agradaria tanto ao setor do empresariado de
Londres, que já manifestara preocupação com a cisão da Ores Industries, quanto à
sociedade britânica que, com poucas exceções, discriminava sua família.
    Só agora percebia que corria o risco de perder tudo.
    Ainda precisava de mais respostas para entender o que David podia ter feito com sua
vida, e como se remover de uma posição complicada, por hora as opções eram todas
dele. Ryan sorriu. Rachell não imaginava o poder que ele tinha nas mãos.
    — Senhor — Boswell interrompeu da porta —, seus convidados chegaram.
    Rachell havia conseguido a lista dos acionistas fazia dois dias, quando fora procurar o
sr. Williams. O visconde de Bathwick também detinha papéis da empresa. Dezessete por
cento das ações denominadas comuns.

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Perigosa Atração

    — A família Devonshire é dona da fundição que fornece o ferro para muitas firmas de
construção, incluindo a D&B — contara o sr. Williams. — Infelizmente, ele já se mostrou
um adversário. Há oito meses, espalhou rumores sobre supostos atrasos nas entregas da
D&B, e o valor das ações despencou doze por cento. Foi assim que ele conseguiu
comprar as ações que agora detém. Ryan também já fez uso desse procedimento. Tenho
certeza de que lorde Bathwick considera esse procedimento uma questão de justiça,
apenas.
    Bathwick dera a ela seu cartão na noite do baile Telford, e agora ela agradecia à
própria sorte.
    — Srta. Bailey — Bathwick cumprimentou-a ao entrar no salão. — Peço desculpas por
tê-la feito esperar. É um prazer recebê-la em minha casa.
    — Milorde, minha visita não tem nenhuma relação com prazer.
    — Ah, vejo que tem a língua afiada! E nenhum senso de humor. Notei que sua criada
está sentada no hall. Gostaria de chamá-la? Não quero causar falsas impressões em
torno dessa visita.
    — A visita será rápida, milorde. Desejo apenas comprar suas ações da D&B.
    Ele riu.
    — Mesmo que pedisse por favor, não teria como pagar meu preço. Gostaria de beber
alguma coisa? Parece estar precisando mais do que eu — ele comentou enquanto se
servia de uma dose de conhaque.
     Rachell notou que ele tinha calos nas mãos. Que tipo de aristocrata exibia mãos
calejadas?
    — É melhor beber — ele disse, oferecendo a ela um cálice de conhaque. — Planejar a
derrocada de Ryan Donally não é tarefa fácil.
    — Não estou planejando a derrocada de ninguém.
    — É claro que está. Só me pergunto por que demorou tanto.
    — Sabia desde aquela noite do baile o que o sr. Donally planejava para a D&B, então?
    — Meu pai integra a diretoria da Ore Industries. A empresa faz parte de seu império
minguante e do legado de meu bisavô. Uma companhia que Donally tomou de nós por
causa da vaidade ingênua de meu pai.
    — Ele subestimou Donally?
    — Então não sabe? Não conhece a história sórdida da família?
    — Se nem o conheço, como posso saber de sua história ou de sua família?
    — A senhorita é uma contradição. Uma bela contradição. Por um lado, quer a D&B.
Por outro, quer adquirir a empresa da maneira mais limpa possível. Que motivos tem para
combater essa transação, se vender sua parte a tornaria rica?
    Rachell decidiu que ele merecia uma resposta honesta.
    — Tenho um interesse na divisão irlandesa. O sr. Donally esqueceu as pessoas que
trabalharam para ele e construíram a empresa como ela é hoje.
    — Donally é um empresário. Se esquece alguma coisa, nenhum de nós jamais toma
conhecimento disso.
    — Por que o odeia tanto, milorde?
    — Por quê? Acha que a Ore Industries é só mais uma companhia que ele decidiu
assumir e dominar?

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Perigosa Atração

    — Honestamente, não tenho a menor idéia das razões que levam o sr. Donally a agir
dessa maneira.
    — Como deve saber, a Ore Industries era a maior fornecedora de ferro e minério a
negociar com a D&B. As duas companhias cresceram juntas no mercado. Então, um dia,
Donally conheceu lady Gwyneth quando saía de uma reunião com meu pai na Ore
Industries. Meu pai recusou seu pedido para cortejá-la, o que teria sido seu direito
legítimo, considerando a falta de linhagem de Donally. Mas meu pai mudou de idéia.
Seguindo a tradição da aplicação dos juros no mercado britânico, ele decidiu aumentar os
preços de seus produtos. Donally recusou-se a pagar os valores exorbitantes e foi
comprar matéria-prima de outro fornecedor, rompendo os contratos que tinha conosco.
Mais tarde, para piorar a situação, meu pai usou suas relações políticas para banir
Donally do Regents e do Cassavas, e de meia dúzia de outros clubes exclusivos. A D&B
deixou de assinar bons contratos durante todo o verão e deixou de cumprir os prazos de
dois grandes compradores porque a Ore Industries deixou de entregar a matéria-prima.
Ninguém insulta um homem como Donally sem esperar retribuição. Quando a situação se
aquietou, apenas Donally continuava em pé. Meu pai ocupa sua atual posição na diretoria
da Ore Industries porque ofereceu a mão de Gwyneth para evitar a total aniquilação.
Então, se quer saber quem é o verdadeiro alvo do meu ódio,não precisa olhar muito longe
de mim. Procure pelo estimado conde de Devonshire.
    Rachell olhou para o copo de conhaque em sua mão. Não sabia nada do que acabara
de ouvir.
    — A mais nova aquisição de Donally teria sido minha um dia. Naquela noite no baile,
eu me aproximei da senhorita com a intenção de tratar da possibilidade de unirmos
nossos negócios. Naturalmente, nós que temos sangue azul não nos ocupamos de coisas
corriqueiras como dinheiro, mas também não gostamos da possibilidade de
empobrecermos. Há princípios a serem defendidos.
    — Por que perdeu lady Gwyneth para ele? Ou por que perdeu os meios de assegurar
sua riqueza?
    — Donally não ama Gwyneth. Ele paga a meu pai um valor vinte vezes maior do que
muita gente consegue auferir em toda uma vida pelo privilégio de casar-se com uma
representante da nobreza. Meus motivos para tirar a D&B de Donally podem não ser tão
nobres quanto os seus, mas eles ainda nos colocam do mesmo lado dessa história. Se
quer recuperar sua divisão irlandesa, vamos ter de entrar nisso como sócios, srta. Bailey.
Quero uma posição na diretoria. É sua única chance de mudar a política da companhia.
   — E seu pai?
    — Não me interessa. Defenda-o a senhorita, se quiser. Não queria. Ainda lembrava
aquela ameaça.
   — Mesmo com suas ações, ainda não terei o suficiente para impedir a aquisição — ela
disse decidida. Essa luta era tudo que havia restado em sua vida.
   Isso e sua avó.
   — Mas tenho um valor depositado no Banco de Londres para cobrir a diferença.
   — À sociedade, então — ele ergueu o copo. — Se acontecer.
   — O que quer dizer?
   — Está em Londres há mais de uma semana? — perguntou Bathwick. — Donally deve

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Perigosa Atração

conhecer suas intenções. Então, por que ele ainda não adquiriu as ações de forma a
detê-la?
     Rachell deixou as pastas sobre uma mesa e respirou fundo. O sr. Williams a
observava parado ao lado da janela em seu escritório, e Stewart a seguia com mais
pastas.
    — Sou integrante da diretoria dessa empresa. Devia ser simples descobrir quanto vale
a companhia, não?
     — Estarei em minha mesa, senhorita — Stewart anunciou antes de retirar-se
apressado.
     — Johnny pode passar até um mês na Escócia. A D&B tem uma equipe de
engenheiros só para inspecionar obras. Ele deve ter escolhido chefiar a equipe com o
expresso propósito de sair de Londres.
    — Soube que o sr. Donally também não está contente com a ausência do irmão —
disse Williams.
    — Por que age como se eu sofresse de uma doença terminal e tivesse de me animar?
    — Senhorita...
    — Ah, já sei! Não vou gostar do que tem para me dizer, não é? O que descobriu?
    — Esse acordo irlandês de casamento é semelhante ao que era celebrado na fronteira
escocesa, na cidade de Gretna Green, na virada do século. O casamento por declaração,
outro nome para o que na Irlanda se chama atar mãos, ainda é válido em boa parte das
ilhas britânicas.
    — Mas a corte britânica não pode reconhecer a tradição, certo?
    — No seu caso, desfazer o nó vai ser mais difícil do que foi fazê-lo.
    — Céus... Por quê?
    — Quando padre Donally registrou o casamento, ele o tornou uma união civil. A
senhora está legalmente atada ao sr. Donally.
    Rachell não conseguia respirar.
    — Isso é... insano!
    — Concordo. Mas isso não muda os fatos.
    — Entende o que está acontecendo, sr. Williams? Eu poderia ter cem por cento das
ações da D&B, e Ryan ainda teria o controle. O que devo fazer?
    — Esse assunto terá de ser resolvido entre a senhora e o sr. Donally. Vai ter de
conversar com ele.
    — Quer dizer que Ryan finalmente retornou a Londres?
    — Ele esteve no Regatta ontem. Parece que o sr. Donally é o homem do momento.
    Rachell fingiu não se importar com o que Ryan fazia com seu tempo... ou com quem o
passava. Era imperativo que se mantivesse impassível. Não podia perder seu orgulho
num momento tão crucial.
    — Não seria ético de minha parte aconselhar que a senhora faça alguma coisa ilegal,
mas se pensar no seu problema do ponto de vista empresarial... O sr. Donally pode não
querer que essa informação seja divulgada. Pode ser do interesse dele resolver toda essa
questão o mais depressa possível.
    Era isso. Ou Ryan a libertava do compromisso, ou a reconhecia como esposa para
reclamar sua parte das ações e assumir o controle. Ele tinha muito mais a perder do que

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Perigosa Atração

ela.
    — Gostaria de começar a comprar ações da companhia, sr. Williams.
    Ela e Bathwick estavam oficializando a sociedade.
     Rachell finalmente encontrou Brianna na manhã seguinte, quando ela apareceu na
sala com Mary Elizabeth e Robert, seu filho de três anos de idade.
     — Lamento não ter estado aqui para recebê-la. Michael me contou que você não
conseguiu encontrar acomodações no Palace Hotel... Nunca mais faça isso, Rachell.
    — Seu marido foi muito gentil e generoso.
    — Não pense que vai encontrar uma boa casa para alugar. Não tão cedo. Na verdade,
encontrar acomodações em Londres é difícil em qualquer época do ano. No meio da
temporada, então...
    — São muito bondosos por me acolherem aqui.
    — Tolice. Para que servem os amigos?
    — Para se ajudarem.
    — De fato. Johnny me contou tudo sobre a aquisição antes de partir. Sinto muito. E
Ryan... Ryan esteve na Irlanda, o que não é comum. Ele esteve com David?
    — Por quê?
    — David planeja uma retaliação desde que Ryan se converteu para a Igreja Anglicana.
A família toda está curiosa... Queremos saber se eles resolveram suas diferenças.
    — Você conhece David. Ele pode ser persuasivo quando quer. Tem tido notícias de
seu irmão sacerdote?
    — O de sempre. Você o conhece...
    Sim, Rachell conhecia aquele pirata disfarçado de padre. Era difícil disfarçar o rancor
que sentia por ele nesse momento.
     — É verdade. Seus filhos são lindos, Brianna. E Mary Elizabeth também é
encantadora.
    — De fato. Aliás, tenho de tomar providências para que ela e a srta. Peabody partam o
quanto antes, ou meu irmão vai invadir minha casa exigindo que devolva sua filha. Ryan
está em Londres, caso ainda não saiba. Devo mandar recomendações em seu nome?
    A agenda de Ryan devia estar cheia com tantos eventos sociais.
     — Não. Ou melhor, diga que mandei perguntar o que ele pensa sobre noivados
longos.
    — Papai!
    Ryan desviou o olhar dos papéis sobre sua mesa. No instante seguinte ele tinha Mary
Elizabeth nos braços. Ela cheirava a maçã e canela.
    — Já estava começando a pensar que podia ter me esquecido — ele disse.
    — Tia Brea me levou ao zoológico. Eu vi um tigre! --- Sua irmã estava parada na porta.
    — E o que é isso que traz aí, Elizabeth?
    — Um cachorrinho. A srta. Peabody não me deixa ficar com ele, a menos que você
permita. Ah, e tia Brea me deu uma festa de aniversário. Tio Johnny estava lá. E tio
Michael, Chrissy, Megan e Rebecca, e Robert... e o bebê James também estava. Ele é
muito fedido! Mas tio Michael me deu soldados de presente de aniversário! Muitos
soldados e canhões. O bebê James tentou comer um deles. Ele chorou quando tia Brea
tirou o soldado da mão dele. Tio Colin me deu uma sela para o pônei, e tio Christopher e

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Perigosa Atração

tia Lexie me deram o cachorrinho!
    — Esteve bem ocupada, não? --- Ryan olhou para Brianna.
    — Christopher achou que ela ia gostar do cachorro. E um sharpei. Muito raro. Todos
concordamos sobre essa ser uma grandiosa aquisição para sua casa.
    — Eu vi minha fada-madrinha — Elizabeth sorriu. — Ela viu o cachorro e disse que
você me deixaria ficar com ele.
    — Fada-madrinha?
    — Ela é bonita. Gosto dela.
    — E ela tem uma varinha mágica?
     — Não, mas tem cabelo vermelho. Tio Johnny disse que duendes têm cabelos
vermelhos.
    Ryan olhou para Brianna.
    — Ela está falando sobre a madrinha? Rachell está hospedada na sua casa?
     — Sim, mas antes de ir nos procurar, ela passou um dia inteiro procurando
acomodações.
    — Ela está bem?
    — Sim, está.
    — Por que não mandou Mary Elizabeth de volta há quatro dias, como prometeu que
faria?
    — Papai, vai colocar tia Brea no canto?
     — A idéia não é das piores, meu bem — ele riu. Brianna olhou para a sobrinha e
sorriu.
    — Nós nos divertimos tanto, Ryan! Ela sabe subir em árvores!
    — Posso imaginar como e com quem aprendeu.
    — Para que servem as tias? Oh, a propósito, Rachell me pediu para que perguntasse
o que você acha sobre noivados longos. Por quê? Pelo que sei, vai se casar em outubro.
Não é tanto tempo assim. Bem, o recado está transmitido. Agora devo voltar para casa,
antes que meus filhos a destruam.
    Minutos depois, Ryan ainda pensava no significado da pergunta de Rachell.
    Mary Elizabeth perguntou:
    — Vai me deixar ficar com o cachorro, papai?
    — Vamos ver, meu bem. Talvez.
    — Minha fada-madrinha disse que você deixaria. E ela também disse que você é um
coelhinho de rabo branco e macio, quando não está fingindo ser um ogro.
    — Acho que li muitos contos de fadas para você, pequena.
    — E de estrelas, também. Pode contar de novo aquela história sobre a estrela mais
importante?
    Ryan levou-a para perto da janela e apontou o céu.
    — Lá está ela. Vê?
    — Sim, estou vendo.
    — Ela é muito importante, porque, nos tempos antigos, os navegantes dependiam dela
para encontrar o caminho para casa.
    — Foi assim que você voltou?
    — Não, meu bem. Eu vim de trem.

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Perigosa Atração

    — Tio Chris contou que você fez o trem.
    — Não completamente. A Donally & Bailey ajudou a instalar os trilhos sobre os quais
andam os trens. Mas eu sempre quis construí-los.
    — Tia Brea disse que, quando eu crescer, também vou poder construir coisas.
    — Ela disse?
    — Eu me diverti muito. Tia Brea disse que posso visitá-la sempre que quiser. Eu posso
mesmo?
    — Se ela não se incomodar com sua tagarelice...
    A menina se aninhou em seu peito.
    O poder desse amor o aterrorizava. Conhecia apenas o propósito que a vida lhe dera,
um objetivo que, de repente, parecia nebuloso e irreal comparado ao instinto de proteção
que o dominava sempre que pensava na filha. Um propósito que já não compreendia
inteiramente.
    — Amo você, Elizabeth — ele sussurrou.
    Mas ela já havia adormecido quando Ryan beijou sua testa. O cachorrinho levantou a
cabeça e abanou a cauda. Ryan o encarou sério.
    — O que foi? Com que está tão contente?



  Capítulo VII

    Não havia dúvida: a julgar pelo relatório de Boris, as ações da D&B haviam subido
cinco porcento na última semana. Era ela. Rachell estava comprando ações e elevando
os preços.
    — Sir Boris, preciso de uma lista com os nomes dos acionistas majoritários.
    — Sim, senhor. Imediatamente.
    — Como está a negociação com a França?
     — Brendan enviou uma carta de Paris há dois dias. A diretoria da Valmonts está
cedendo. Era de se esperar. Eles aceitarão a oferta da Ore Industries, porque ninguém
mais vai tirá-los da situação financeira em que estão. Eles querem falar com o senhor.
    — Diga a Brendan que eles aceitarão a oferta. Os termos não são negociáveis.
    — Já disse, eles insistem em fechar negócio com o senhor. — O senhor fez a análise
inicial dessa companhia. Eles estão falidos. O que podem estar pensando manter com
esse esforço inútil?
    — Que importância têm isso, senhor? Nosso negócio não é salvar empresas.
    — Não. — Ryan parecia confuso, o que aumentava ainda mais a confusão de Boris.
Ele se levantou e vestiu o casaco.
    — Vai sair, senhor?
    Tinha um pequeno negócio para resolver.
    — Represente-me na reunião das quatro. Estarei de volta ao escritório amanhã.
    Barracas de alimentos variados emanavam aromas que atraíam os consumidores. Um
manipulador de marionetes entretinha um grupo de crianças fascinadas. Todas as tardes,
Rachell ia à periferia de Londres para comer em uma hospedaria simples onde o pai
costumava levá-la na infância. A família que antes administrava o negócio já não vivia

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Perigosa Atração

mais lá, mas a hospedaria ainda servia a melhor torta de carne que ela jamais havia
provado.
    Ela não podia demorar, porque o céu carregado prometia chuva, a temperatura caía
depressa, e não levara seu manto.
   Rachell deixou a hospedaria com a intenção de passar rapidamente pela feira, mas foi
desviada de seu propósito pela visão do homem alto e imponente que a encarava da
calçada oposta.
   Ryan!
   Seu coração disparou. Não o via desde a estação de trem.
   — Você têm a estranha habilidade de encontrar paz nos mais inusitados lugares — ele
comentou. — O que considera tão interessante aqui?
   — Simplicidade — ela disparou beligerante. — Como me encontrou?
   — Stewart me contou onde você passa suas tardes. O resto foi fácil.
   E o motivo de sua presença ali era clara: Ryan sabia que ela estava comprando ações
da companhia. Talvez soubesse até de sua visita a Bathwick.
   — Minha carruagem nos espera — ele prosseguiu. — Precisamos conversar.
   --- Sobre o quê?
   Rachell foi tomada por uma enxurrada de emoções. Medo. Pânico. Desejo.
   E revolta contra todos esses sentimentos.
    — Você sabia que estávamos irrevogavelmente casados quando deixamos a Irlanda
— ela o acusou.
     — David me falou sobre o que havia feito, mas ainda precisava confirmar
pessoalmente.
    — Podia ter me contado, Ryan! E agora? Não tem medo de que alguém descubra e
divulgue nossa situação? E se formos vistos juntos? Isso vai arruinar seus planos!
   — Ah, sim, mas se essa história se tornar pública, alguém vai deixar de ser acionista
majoritária da D&B. É interessante o dilema em que nos encontramos.
   — Qual de nós têm mais a perder?
    — Não sei, mas sei o que é importante para o seu coração mercenário. E para fazer
esse jogo sujo de chantagem, vai ter de se arriscar a perder tudo. Está disposta a isso?
   — Acho... que precisamos conversar.
   — Eu já imaginava — ele sorriu.
    Precisavam decidir como dissolveriam seus votos de casamento. E tinham de sair do
meio da rua, porque a chuva começava a cair e ganhava força rapidamente.
   — Vamos sair daqui.
   — Por que a pressa? — Ryan provocou. — Ultimamente, tem passado tardes inteiras
nessa região...
   — Anda me espionando, agora?
    — Não. Ou melhor, sim, mas só o suficiente para saber que passa muito tempo
sozinha.
   — Não preciso de ninguém para ser feliz.
   — Quer dizer que o trabalho é seu único amante?
   — Exatamente.
   Era mentira. Ryan havia sido seu amante.

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Perigosa Atração

    Mas ele também era seu marido.
    Ele se aproximou até quase seus corpos se tocarem.
    — Alguém pode nos ver, Ryan.
    Sabia que ele ia beijá-la. Pior, sabia que aceitaria e corresponderia ao beijo.
    — Maldito seja você, Ryan!
    — Sim, amaldiçoe-me quanto quiser. Não há dúvida de que minha infeliz viagem à
Irlanda vai nos custar caro, de uma forma ou de outra.
    Por alguma razão, tinha a irracional impressão de que tudo que lhe acontecia de ruim
era culpa desse homem. Inclusive sua paixão por ele. Como poderia manter controle
sobre a própria vida, se não conseguia controlar nem mesmo os desejos carnais?
    Ele se virou como se algo chamasse sua atenção. Havia um homem a poucos metros
de onde estavam, mas ele olhava para o outro lado.
    — O coche nos espera na Whiteside. Venha comigo.
    Ela notou que, quando passaram, o homem ergueu os ombros em evidente sinal de
respeito. Era um espião de Ryan. Devia fugir, antes que fosse tarde demais. Mas já era
tarde. Poderia fugir da presença física de Ryan, mas o que sentia por ele a acompanharia
até o fim de seus dias.
    Eles correram para o coche tentando escapar da chuva, mas já estavam ensopados
quando se acomodaram. Ryan removeu seu manto e a cobriu com ele.
    — Por que os homens fazem isso? — ela perguntou tremendo. — Por que tiram seus
casacos para aquecer as mulheres e ficam congelando?
    — Porque isso é o que se espera de um cavalheiro.
    — Por que as mulheres são frágeis e indefesas?
    — Porque não têm juízo, ou levariam um manto ao sair de casa. Quer mesmo ter uma
conversa honesta sobre esse assunto?
    — Só se eu puder me aquecer com seu manto enquanto você congela. — Relutante,
ela ergueu a ponta do agasalho. — Podemos decretar uma trégua? Só enquanto nos
aquecemos?
    — Podemos decretar uma trégua mais longa, se você preferir.
     — Quais são seus termos? — ela indagou, sentindo o calor do corpo que se
aproximara para fazer uso de metade do manto.
    — Pare de comprar ações. As duas companhias sairiam perdendo se tivéssemos de
direcionar recursos para um confronto público que nenhum de nós quer realmente. Vamos
esperar pela volta de Johnny.
    Rachell também não queria um confronto público. O confronto privado já era mais que
suficiente para perturbá-la.
    — E se eu conseguir convencer Johnny a assumir a companhia?
    — Não vai conseguir. Ele aprecia muito o aspecto criativo de seu trabalho. Não vai
abrir mão dessa independência.
    — O que Johnny foi fazer na Escócia?
    — Você já sabe, Ele foi inspecionar obras.
    — Quer dizer que a viagem não tem nenhuma relação com essa aparente conjunção
de todos os membros da sua família para nos manter juntos?
    — Ah! Também teve essa sensação?

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Perigosa Atração

    — Vai permitir que eu tenha acesso aos registros da companhia, Ryan?
    — Eu tenho escolha?
    — Não. Devia controlar um pouco essa sua prepotência.
    — Agora também sou prepotente? Além de ogro?
    — E cruel. Deixou sua filha ficar com o cachorro?
    — O que você acha?
    — Acho que é mais sensível do que deixa transparecer.
    — Acha mesmo que sou sensível? — Os lábios estavam perigosamente próximos dos
dela.
    Rachell decidiu que não se deixaria abalar pela proximidade. Devia ter imaginado que
Ryan não desempenharia o papel do cavalheiro perfeito por muito tempo.
    — Você tem a moral de um gato de rua.
     — Você também. — Ele a beijou rapidamente nos lábios. — Ia mesmo me
chantagear?
    — Sou perfeitamente capaz de me entregar a um ataque de adolescência tardia,
especialmente quando você está por perto. Mas quando a questão envolve experiência
carnal, você é o tirano.
    — Gosta tanto do poder quanto eu. Além do mais, nosso assunto aqui é... pessoal.
Nada tem a ver com os negócios.
    — Por que não foi visitar sua querida Branca de Neve, já que tinha a tarde livre?
    — Por que não me diz? Já que está tão interessada em meus casos...
    — Então é um caso?
    — Homens casados estão sempre tendo casos. Mas, via de regra, eles preferem que
essas mulheres não sejam suas esposas.
    Não queria ser esposa dele.
    E Ryan não queria ser seu marido.
    Mas sentia o hálito morno nos lábios, o sabor de seu beijo... O sangue pulsava em
suas veias com um clamor implacável. De repente, Ryan tomou-a nos braços e beijou-a
de verdade,um beijo sensual e pecaminoso que os incendiava. Um beijo que ela retribuiu
sem reservas ou hesitação.
    Fizeram amor ali mesmo, no coche, uma situação impossível para uma mulher
honesta e correta. Mas, quando estava com Ryan, Rachell não conseguia raciocinar. Não
pensava em propriedade ou em regras de moral e costumes.
    Ainda estavam entrelaçados quando ouviram vozes alteradas do lado de fora. Rachell
tinha a saia erguida até os joelhos, escondendo o que acontecia embaixo dela, mas um
observador mais atento logo deduziria o que haviam acabado de fazer. E sem nenhuma
precaução!
    O pensamento foi suficiente para fazê-la chorar.
    Era a primeira vez que Ryan a via desmoronar dessa maneira, e isso o assustou.
    — Rachell! O que foi?
    — Minha esponja...
   Ele suspirou.
    — É inútil se preocupar agora. Saberemos na hora certa.
    — Eu... sinto muito. Não estou habituada com esse... esse tipo de dominação pelos

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Perigosa Atração

instintos.
    O que significava que ele tinha o poder de levá-la ao descontrole.
    — É compreensível. Também a desejo a ponto de temer a loucura.
    — Isso não devia ter acontecido. Não agora. De novo. Nunca. Nem em um milhão de
anos. Nós nem gostamos um do outro. Para gerar um bebê...
    — Rachell, sejamos francos. Acho que gostamos pelo menos um pouquinho um do
outro.
    — Só não queremos ser casados um com o outro, e por bons motivos. Acabaríamos
nos matando antes do primeiro aniversário de casamento. Não é verdade?
    — Um filho... seria uma complicação, certamente.
    Como alguém que atrapalhava seus planos com tanta constância e eficiência podia
despertar em sua alma essa alegria, essa sensação de finalmente ter voltado para casa?
Algo não estava certo ali. Definitivamente, estava encrencado.
    Ryan levou-a para sua casa em Londres, onde sugeriu que ela se recompusesse
antes de conversarem. Mary Elizabeth estava novamente com Brianna, o que significava
que teriam total privacidade para tratar de seus delicados assuntos. Enquanto ela se
arrumava nos aposentos de Ryan, ele pediu chá ao valete e chamou uma criada para
ajudá-la com as roupas molhadas. Eles beberam chá enquanto Rachell permanecia em
trajes íntimos, como se fosse comum uma mulher visitar um homem solteiro e ainda
invadir a privacidade de seus aposentos sem estar adequadamente vestida. Pior, alguns
criados sabiam que ela estava ali naquelas condições e poderiam comentar...
     Não tinha importância. Sofreria as conseqüências mais tarde, mas por hora,
desfrutaria da companhia de Ryan e de toda a paixão que ardia entre eles.
     Mais tarde, ele anunciou que passaria a noite trabalhando, ou os registros não
estariam prontos e disponíveis para sua inspeção, como ficara acertado. No dia seguinte,
contadores e advogados teriam cópias de toda a documentação da D&B à disposição de
Rachell.
    A concessão a deixou momentaneamente sem ação.
    — O que mais você quer, Rachell? --- Queria entendê-lo.
    — Quero uma conversa honesta com você. A primeira.
    — Talvez tenhamos tido essa conversa desde o início sem percebermos.
    O que ele queria dizer com isso? Por que o abismo entre eles se tornava cada vez
maior, inversamente proporcional à intimidade física de que gozavam?
    — Por acaso tem alma e coração, Ryan? Existe alguma coisa... ou alguém por quem
lutaria acima de tudo?
    — Minha filha. Entende a importância dessa relação? .
    — Eu... sim.
    — Que bom. Porque eu não entendo. E uma trégua temporária nos negócios não é
suficiente para resolvermos todas as questões que nos cercam.
    — Não, não é. Se eu fosse um homem, nem teríamos declarado essa trégua.
    — Se você fosse um homem, eu não a teria removido do projeto Rathdrum. Não teria
posto em risco minha reputação e a da companhia por luxúria, por sentimentos que... que
só agora começo a entender.
    — Ryan, nunca tive a pretensão de presidir a empresa. Mesmo que o público pudesse

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Perigosa Atração

aceitar uma presidente, não tenho experiência...
    Ryan riu.
    — Você nunca deixa de me surpreender.
    — Por quê? E evidente que o que existe sob minhas roupas é mais importante para
todos do que o que há entre minhas orelhas!
    Ele riu. Riu com vontade.
    — Já vi você trabalhar, Rachell. Não tem do que se envergonhar. E só para constar,
aprecio o que existe entre suas orelhas, mas também gosto muito do que esconde
embaixo das roupas. O que existe entre as orelhas é mais importante, é claro.
    Rachell sorriu.
    — Isso ainda não nos coloca do mesmo lado — disse. Era verdade. Mesmo que a
apoiasse e compreendesse, ainda não era capaz de ver o futuro pelos olhos de Rachell
Podia,sim, imaginar um futuro ao lado dela, e essa era uma imagem que a encantava.
    — Ryan, o que aconteceu hoje...
    — Sim?
    — Não devia ter acontecido.
    — Não. Mas aconteceu, e aí está o xis do problema.
    — Não há nenhum problema.
    — Não vou tentar impedir a dissolução desse casamento. Pode orientar seu advogado
para providenciar toda a documentação necessária.
    — Não acha que precisamos pensar melhor nisso?
    — Um casamento verdadeiro entre nós seria desastroso.
    — Estou pedindo que considere um futuro comigo.
    A declaração a deixou tão chocada, que ela não soube como responder.
     — Podemos aceitar que discordamos sobre o futuro da Donally & Bailey — ele
prosseguiu. — Também podemos aceitar que se eu continuar casado com você, minha
vida vai mudar de maneira incomensurável. — Já tinha uma boa idéia do que teria de
fazer para romper o contrato com Devonshire. — Mas têm de admitir que existe algo entre
nós, alguma coisa que merece ser explorada. Algo que sempre existiu.
    — Não podemos nos divorciar de quem somos.
    — Talvez devamos tentar. Vai me dizer que não sente nada por mim, Rachell?
    — Por favor...
    — Se eu não estivesse disposto a agir como um cavalheiro, mostraria exatamente o
que você quer fazer comigo.. Ou me retiraria e comprovaria que sente minha falta quando
não estamos juntos.
    — Odeio quando age como um tirano, Ryan.
    — Odeia quando estou certo.
    — Lamento, Ryan, mas não posso.
    Não confiaria nele, apesar dos sentimentos. Mesmo que compartilhassem de uma
forte atração física, havia outras questões a considerar. Ryan estava agindo por impulso,
o que era comum quando estavam juntos, ou agira deliberadamente, um traço de seu
caráter que o tornara detestado por muitos.
    Essa era uma briga que tratava tanto das questões pessoais entre eles quanto da
D&B. Inferno, daria a companhia a ela se não soubesse que esse seria um ato tolo

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Perigosa Atração

envolto pela capa ilusória do nobre sacrifício, mas sabia que as diferenças que os
afastavam iam muito além disso.
    Enquanto ele nunca se sentia satisfeito parado em um mesmo lugar, Rachell jamais se
afastara de suas raízes, nunca fingira ser algo que não era. Gwyneth se adequava a sua
visão de futuro. Não ela.
    Então, por que se dispunha a jogar tudo fora por uma mulher que sempre se mostrara
disposta a atirá-lo em outros braços?
    Ele se levantou e caminhou para a porta. Rachell estava em pé ao lado de sua cama,
uma mistura conflitante de virtude e pecado, seus encantos muito mais profundos do que
o que os olhos podiam ver.
    Estava apaixonado por ela.
    Amava-a mais do que julgara ser capaz de amar alguém.
    Homens haviam sitiado cidades e lutado batalhas épicas por esse tipo de amor. Não
se sentia menos motivado, mas era mais prático.
    Queria sitiar apenas o que havia no coração de Rachell.
    Porque via em seus olhos nesse momento que ela também o amava.
    Ryan entrou no Cassavas e caminhou diretamente para a mesa de Bathwick, que não
conseguiu disfarçar a surpresa por vê-lo ali.
    — Donally...
    — Onde está seu pai?
    — Não sei, mas é possível que o encontre na casa de Londres.
    — Obrigado. Ah, sim... — Ele retirou do bolso um cheque que deixou sobre a mesa, ao
lado de seu braço. Era hora de remover Bathwick e sua presença nefasta da D&B. —
Vinte e duas mil libras. Mais do que valem suas ações. Compre uma bela casa no campo
e afaste-se da influência de seu pai.
    — Palavras arrogantes para alguém que não sabe o que quero.
    — Sei que a vingança é doce, independente do tamanho da fatia que se corta do bolo.
Mas não vou permitir que use Rachell para me atingir.
    — Ah, então é isso... Rachell o mandou aqui para me dispensar?
    — Ela não teve de pedir. Seu nome faz parte de uma lista que me foi entregue hoje. A
srta. Bailey não participa dos problemas existentes entre sua família e a minha. Não a
envolva em algo que ela nem pode entender.
    — Ou quer apenas detê-la na empreitada de assumir o controle de sua companhia?
Deve saber que ela tem poder para isso.
    — Não acredite nisso, Bathwick.
    — Então, por que ainda não a deteve? Acha que ela não tem coragem para lutar, ou
teme que ela realmente se interesse por mim? Isso seria um problema, Donally?
    — Leve o cheque e o documento de transferência das ações ao Banco de Londres, e
eles farão a transferência de fundos. Vai abrir mão de sua participação em todos os meus
empreendimentos. E, se for inteligente, vai convencer seu pai a fazer o mesmo.
    — Presumo que, pela primeira vez, está voltando suas armas diretamente para meu
pai. E não pretende tratar apenas de negócios, não é?
    — Boa noite, milorde.
    — Espero que tenha mais munição do que apresentou aqui. Uma guerra com meu pai

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Perigosa Atração

nunca é fácil.
    Rachell caminhava pela feira quando Bathwick a abordou.
    — Srta. Bailey, que feliz coincidência encontrá-la aqui!
    — Não é coincidência. E eu disse que iria encontrá-lo na igreja de St. Anthony
amanhã.
    — Não sou católico. As pessoas desconfiariam de um encontro clandestino entre nós.
    — Ah, sim... E uma rua movimentada é um lugar mais apropriado para conduzir
nossos assuntos.
    — Que lugar poderia ser menos inocente?
    — Como me encontrou aqui?
    — Vi quando deixou o Hyde Park e a segui.
    Oito dias desde que fizera amor com Ryan no coche, e em todos esses dias ela havia
retornado à feira como se buscasse ali parte de si mesma. Oito dias sem vê-lo. E
começava a sentir saudade...
    Temia ceder à necessidade de estar com ele. Depois viria a vontade de estar sempre
a seu lado, o sacrifício da alma em prol do coração.
    E, acima de tudo, tinha medo de Devonshire.
    — E por que me seguiu, milorde?
    — Fiquei curioso quando me enviou a mensagem marcando o encontro para amanhã.
Tem algo a me dizer?
    — Sim, milorde. Algumas coisas mudaram desde o nosso último encontro. Até a volta
de John Donally, o sr. Donally e eu declaramos uma trégua.
    — Eu sabia que ele faria algo dessa natureza.
    — O que está insinuando? Tratamos de negócios...
    — Também temos um negócio aqui, srta. Bailey. Acertamos que seguiríamos um
determinado curso de ação. Um curso do qual, a propósito, Donally já tem conhecimento.
Se tem sentimentos que a impedem de prosseguir, permita-me concluir a compra das
ações da D&B em seu nome.
    — Já considerou que precisamos de John Donally?
    — Se ele se negar a presidir a companhia, como ex-herdeiro da Ore Industries, sinto-
me mais do que preparado para tomar as rédeas dos negócios. Diferentemente de meus
pares da aristocracia, não me oponho a administrar pessoalmente minha fonte de renda.
    Não podia permitir que Bathwick continuasse investindo nessa parceria. Não com o
direito legal que Ryan exercia sobre ela como marido.
    — Saberei entender se quiser romper nosso acordo, milorde. Só gostaria de entender
como Ryan soube da nossa parceria.
    — Donally e eu temos uma história. Mesmo que não estivesse de posse da lista dos
acionistas majoritários da companhia, ele saberia que a senhorita não teria poder para
agir sozinha. Ele me procurou há alguns dias no Cassavas e tentou comprar minhas
ações.
    — Ele não ousaria!
    — Ah, mas ousou. Entende agora? Eu poderia vender as ações e me retirar para uma
vida de conforto e sossego no campo, mas a questão me intriga. Logo perceberá a
profundidade de seu erro.

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Perigosa Atração

   Ryan sabia sobre sua parceria com Bathwick e não a confrontara. Por quê?
   — Do que está falando, milorde?
   — Como acha que Donally descobriu sobre seu envolvimento no projeto Rathdrum?
   Presumira que Johnny o havia informado.
    — A Ore Industries tem como política investigar seus alvos,especialmente os mais
hostis. Pelo que sei, meu pai a considerou hostil antes de Donally viajar para a Irlanda.
Por que, srta. Bailey? Não que me interesse, mas... Donally pode se interessar. Ele é o
único homem que jamais derrotou meu pai numa questão pública. Meu pai o odeia, mas
precisa dele... como um parasita precisa de sangue e seiva para sobreviver. E já provou
que é capaz de usar de todos os meios de que dispõe para controlar as pessoas. Então...
— Bathwick inclinou-se para beijar a mão dela. — Seja bem-vinda ao meu mundo, srta.
Bailey.



  Capítulo VIII

    Rachell foi procurá-lo na sede da Ore Industries.
   — Essa não é uma boa hora — Ryan foi logo dizendo ao vê-la na ante-sala. — Estou a
caminho de uma reunião.
    — Eu sei. Sua secretária me disse.
    — O que pode ser tão urgente?
    — Soube que procurou lorde Bathwick.
    — E ele não perdeu tempo em ir procurá-la, também. Que tipo de relação existe entre
vocês, afinal?
    — Somos parceiros comerciais. Ele ama lady Gwyneth. Por isso, creio que está
disposto a lutar contra você por ela e pela companhia.
    — Não preciso disputar lady Gwyneth com ninguém, e jamais deixaria Bathwick tomar
algo que me pertence. Sugiro que fique longe dele.
    — Por quê? Não tentou comprar as ações do visconde? Tenho o direito de lutar pelo
controle acionário.
    — No amor e na guerra, todas as armas são válidas. É esse seu credo?
    — Ryan, estou começando a pensar em usar um colar de alho.
    — O quê?
    — Estou cercada de vampiros sanguinários. Você, lorde Bathwick... Todos se dispõem
a tudo pelos malditos negócios!
    — Veio aqui para me dizer isso? Preciso me apressar. Estou atrasado para uma
reunião.
    — Só tenho mais uma pergunta. Por que não me procurou antes?
    — Você já deixou claro qual é meu papel em sua vida. Além do mais, pensei que
estivesse contemplando um futuro comigo. Sentiu minha falta?
    — Ah, agora entendo. Acha que vai me fazer querer vê-lo se continuar me ignorando.
    O fato de estar no escritório dele era uma excelente resposta.
    — Usando seu lema, minha cara Rachell, no amor e na guerra todas as armas são
válidas. Você quer a guerra. Eu só quero fazer amor.

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Perigosa Atração

    — Você é um... estúpido, Ryan Donally!
    — Muito obrigado. Também amo você.
    Rachell o encarou incrédula. Ele sabia o que estava dizendo?
    — Sr. Donally, os diretores o esperam na sala de reuniões — a secretária anunciou de
uma distância discreta.
    — Estou indo. Obrigado.
    Rachell respirou fundo. Sabia que o estava atrasando e atrapalhando.
    — Mais algum motivo para sua inesperada visita, Rachell?
    — Sim, mas... Eu posso esperar.
    — Hoje à noite terei um compromisso de negócios.
    — Pretende ir a Paris? — ela indagou, pensando em outra aquisição em andamento.
    — Se eu fosse, iria comigo? Faríamos amor a noite toda em lençóis de cetim.
    Ela corou, o que o fez rir. Depois ele a beijou tios lábios. Um beijo atrevido e ardente
que a deixou sem ação.
    — Agora preciso ir. Lembre-se, podemos ir juntos a Paris,se quiser. Afinal, somos
casados. Talvez você esteja grávida e, nesse caso, logo será mãe de um filho meu.
    — Você não joga limpo, Ryan.
    — Eu nunca disse o contrário. Já devia saber disso.
    Dois dias mais tarde, quando recebeu o telegrama de Johnny pedindo algumas pastas
relacionadas ao projeto Forth na Escócia, Rachell mergulhou no trabalho tentando desviar
os pensamentos do próprio coração. Era difícil. Mesmo assim, ela chegava cedo e saía
tarde, tentando entender o funcionamento perfeito da companhia que era como um relógio
suíço.
    O sol se punha atrás dela. O sr. Stewart se despedia, e ela ficaria para trancar portas e
janelas quando julgasse conveniente encerrar o dia de trabalho.
    — Não consegui encontrar todas as pastas das obras na Escócia — ele avisou. —
Elas sumiram. Alguém já esteve mexendo no arquivo.
    — As pastas não podem estar em outro lugar? Talvez na mudança da sala do arquivo,
em junho...
    — É possível.
    — Não precisa procurar agora, sr. Stewart. Deixe isso para segunda-feira.
    — O sr. Donally solicitou meus serviços na segunda-feira. A secretária dele vai se
ausentar...
    — Ele já pensou que o senhor é necessário aqui?
    — Só estarei a serviço dele algumas horas por dia até ele voltar de Paris.
   Ryan ia para Paris?
    — Parece que algo de errado aconteceu com um negócio que ele conduzia na França,
e agora o sr. Ryan terá de ir fechar a negociação pessoalmente. Presumo que ele
permaneça na cidade no final de semana, em vez de ir para o campo, como sempre faz.
Ele viaja hoje à noite.
    — Entendo... Bem, pode ir, sr. Stewart. Boa noite.
    Sozinha, Rachell decidiu ir procurar ela mesma as tais pastas. Deviam estar no porão,
onde funcionava todo o sistema de arquivo da companhia. Não gostava do espaço escuro
e fechado, mas precisava dos documentos, e se ficaria sozinha na segunda-feira...

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Perigosa Atração

   Ela começava a abrir uma das gavetas, quando a porta se fechou. O estalido metálico
da fechadura foi como um tiro. Apavorada, ela correu até a porta e tentou abri-la.
Trancada.
    Não tinha a chave da porta. Não sabia nem se aquela porta tinha uma chave que a
abrisse por dentro!
   Ryan e suas malditas normas de proteção contra incêndio!
   E como a porta se fechara sozinha?
    Claustrofóbica, Rachell começou a entrar em pânico. Desesperada, bateu com as
mãos na porta pensando no horror de passar o final de semana inteiro trancada no porão.
    Não podia perder o controle. Devagar, ergueu os ombros e respirou fundo, tentando
não desmaiar. Deixara a bolsa no escritório e a luz acesa. O vigia noturno perceberia que
havia algo de errado quando iniciasse a ronda... em mais ou menos quatro horas. Quando
não voltasse para casa, Brianna e Ravenspur sentiriam sua falta... mas seria tarde,
porque esta noite eles iriam à ópera. Ryan estava a caminho de Paris. O óleo da
lamparina ainda seria suficiente para iluminar o local por algumas horas, mas...
   Segunda-feira custaria a chegar.
    Rachell levantou a cabeça dos joelhos. A lamparina estava apagada havia horas.
Ouvia passos no corredor, na escada... Ouvia o tilintar de um molho de chaves. De
repente a porta se abriu... e Ryan apareceu.
   — Oh, meu Deus!
   — Rachell, nem sei se devo perguntar...
   — Que tipo de lugar horrível você construiu aqui? Pensei que morreria sufocada antes
de ser encontrada! E o que faz aqui?
    — O vigia encontrou sua bolsa no escritório — ele explicou, levantando-a do chão e
abraçando-a. — Ele ouviu as batidas na porta, mas não conseguiu encontrar a chave.
Então, decidiu telefonar para mim.
   Ele a envolvia com aquela aura de calma, sufocando o pânico. Descontrolada, Rachell
começou a chorar.
   — A porta...
   — Deve ter batido por causa da corrente de ar. Stewart mantém uma cópia da chave
na gaveta. Nunca desça sem ela, entendeu? De qualquer maneira, mantemos outra cópia
sobre o batente, do lado de dentro.
   — Eu não...
    — Não pensou em procurar. Eu já imaginava... E o que faz aqui, afinal? Todos na
empresa sabem que Stewart mantém o controle de todos que entram e saem da sala de
arquivo.
   — A porta estava aberta...
   — Não devia estar.
    — Vim procurar a pasta do projeto Forth. Johnny pediu a documentação, e Stewart
não conseguia encontrá-la, e então...
   — Não tinha nada melhor para fazer numa noite de sexta-feira?
    O compromisso! Ryan havia sido tirado de um jantar de negócios para salvá-la do
porão!
   — Oh, Céus...

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Perigosa Atração

     — Acalme-se. Não é sempre que tenho a chance de salvá-la, não é? O excesso de
autoconfiança rouba-me a razão de existir na sua vida.
    — Eu...
    A entrada do vigia a interrompeu.
    — Não encontrei nada nos andares superiores, senhor.
    — Então havia um intruso aqui? — Rachell perguntou apavorada.
    — Nunca mais desça ao porão sozinha. Fui claro?
     — Encontrei uma janela aberta — prosseguiu o guarda. — Mas, aparentemente, nada
foi roubado ou destruído.
    — Quanto tempo demorou para encontrar a srta. Bailey, McKinney?
    — A culpa não foi dele, Ryan!
     — Não? Há mais quatro seguranças uniformizados na ante-sala. O único dever de
McKinney é cuidar de você dentro da empresa. O único, entende? Pegue suas coisas,
Rachell. Meu coche a levará para a casa dos Ravenspur.
     Rachell olhou para os homens reunidos na ante-sala como se estivesse diante de um
pelotão de fuzilamento. Relutante, esperou que Ryan desse instruções para uma
completa revista no edifício, depois, acompanhada por um deles, foi buscar a bolsa e
outros pertences pessoais em sua sala. Ryan a esperava na porta do prédio.
    — Espero não ter atrasado sua partida para a França.
    — Você quase me matou de susto, Rachell!
    A declaração era sincera. Ryan devia estar realmente apaixonado por ela, ou não teria
se dado ao trabalho de ir até o prédio da empresa para salvá-la. Podia mesmo acreditar
que ele a amava, apesar de tudo que ainda os impedia de sonhar com uma união feliz e
harmoniosa? O que sabia sobre ser esposa e mãe?
    Sua presença tornaria a vida de Ryan mais complexa. E mesmo assim ele a queria.
     — Rachell? Há alguma coisa que queira me dizer? --- Ela o encarou com os olhos
cheios de lágrimas.
    — Nós... precisamos conversar. Não creio que goste do que tenho para...
    — Não. Por favor, não.
     — É necessário. Quando estávamos na Irlanda, você me perguntou sobre o homem
com quem eu havia... me relacionado antes.
    — E acha que preciso conhecer a verdade?
     — A política da Ore Industries inclui a investigação de supostos concorrentes hostis?
Lorde Devonshire começou a me investigar por causa de sua viagem à Irlanda?
    — Devonshire... Por que ele a investigaria?
    — Você investiga seus concorrentes.
    — Sim, mas...
    — Eu tive uma filha, Ryan.
    Ele a encarou perplexo. Era difícil, mas Rachell precisava falar. Ryan tinha o direito de
saber quem era a mulher com quem David, seu irmão e sacerdote, o obrigara a casar.
     — O homem com quem me envolvi era professor da universidade onde eu estudava.
Eu o conheci em minha entrevista de admissão. Ele assinou minha aceitação no curso e,
mais tarde, recomendou-me para a prova de Engenharia Civil.
    — Antes ou depois de ter ido para a cama com ele? --- Ela empalideceu.

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Perigosa Atração

     — Se não foi esse o cenário, por que estamos aqui falando sobre esse assunto?
     — Nós nos relacionamos por dois anos. Ele gostava de literatura e arte, e pensei... Eu
estava grávida de três meses quando descobri que ele havia se casado com uma
debutante de Londres. Fiz a prova de engenharia sentada atrás de uma parede e com um
acompanhante presente. Depois parti para a Escócia. Conheci Elsie na casa para onde
David me mandou, na periferia de Dublin, para ter o bebê. Acabei me tornando professora
das jovens que lá estavam.
     Ryan ouvia em silêncio, tomado por uma intoxicante mistura de revolta e choque. Ela
continuou:
      — Lorde Devonshire era um dos conselheiros da universidade. Ele deve ter
descoberto sobre o romance, mas não creio que saiba sobre o resto da história. Não vai
dizer nada?
     — O que aconteceu com a criança?
     — Tive febre tifóide no oitavo mês de gestação. Ela sobreviveu por duas semanas,
apenas. Fazia três meses que eu a havia sepultado quando recebi a notícia da morte de
Kathleen. Naquele dia, quando disse todas aquelas coisas horríveis...
     — Deus... Eu sinto muito, Rachell.
     — Por isso nunca poderemos ficar juntos. Não quero que sejamos a causa do
sofrimento um do outro. Temos de manter separadas nossa vida pessoal da profissional
e...
     — Tecnicamente, tudo que você tem me pertence, Rachell.
     — Tecnicamente, você tem uma noiva. Não há nenhum acordo entre nós.
     — O que posso dizer? Você escolheu um péssimo momento...
     — Ah, sim, sua viagem a Paris! Está sem tempo...
     — Tempo? Acha mesmo que estou pensando nisso? Você é minha esposa, sra.
Donally! Minha mulher!
     Silêncio. Rachell não sabia como reagir à explosão inesperada. Por que ele insistia
nesse casamento? Por que tinha sempre de destruir todos os seus argumentos racionais
e lógicos e obrigá-la a dar ouvidos aos sentimentos?
     — Acha mesmo que devemos explorar o que existe entre nós, Ryan? Depois de tudo
que acabei de revelar?
     — Você está grávida?
     — Não. Seja qual for sua decisão, não vai precisar considerar questões de honra.
     — Honra? Isso é algo que eu nunca tive. Estamos falando de amor, Rachell. Eu amo
você. Quantas vezes vou ter de repetir as mesmas palavras?
     — Mas...
     — Muito bem, estamos no momento das confissões aqui? Estava certa quando me
acusou de ter matado Kathleen. Fui um marido horrível. Ela merecia mais. Kathleen
queria encontrar sentido para a própria vida, e não viu em mim a resposta para seus
anseios.
     — Não precisa me dizer essas coisas.
     — Preciso, sim. Jurei a Kathleen que viveria por nossa filha, que nunca permitira que
ela fosse humilhada ou desprezada por ser da religião errada ou não ter cabelos loiros e
lisos. Ela seria bem-vinda em todas as casas. Isso tudo era importante para mim até o dia

98
Perigosa Atração

em que a vi naquele balcão sobre o salão de baile, conversando com meu irmão. Não sei
por que voltou à minha vida, mas desde então nada mais foi como antes.
    — Você amava Kathleen?
    — Eu a amei. Pensei que poderia amá-la para sempre. Mas não fui capaz de dar o
que ela queria e precisava. Sabe o que esse tipo de fracasso significa para um homem?
    — Sei o que o sentimento de fracasso faz com o ser humano.
    — Nunca disse a ninguém o que acabei de dizer a você.
    — É justo que eu também conheça seus segredos, não?
    — Você me apavora, porque não quero magoá-la. Nunca. Não tenho dormido, tenho
bebido demais, e passo horas olhando para a escuridão da noite e pensando em como
seria acordar a seu lado todas as manhãs...
    — Também penso nisso.
     — Escute, Smythe já redigiu os documentos que vão dissolver o contrato de
casamento. A situação é mais complicada do que eu imaginava no início, mas...
    — Teme que lorde Devonshire possa prejudicá-lo de alguma maneira?
    Ele encolheu os ombros, e Rachell soube que Ryan não revelava tudo.
    — Passei anos nadando no mar das grandes corporações.
    Sei o que acontece quando um tubarão sente cheiro de sangue. Mas a luta dele é
comigo.
    O cocheiro aproximou-se para avisar que o veículo estava pronto.
    — Preciso ir. Não vou me ausentar do país por muito tempo, mas...
    — Ryan, ainda estou convidada para ir a Paris? --- Ele a encarou por um instante.
    — Quer dizer que esclarecemos tudo entre nós?
    Qual era o verdadeiro significado da pergunta? Um ultimato? Ryan queria que ela
escolhesse entre ele e a D&B?
    Qualquer que fosse a resposta, nenhum dos dois jamais poderia negar a paixão que
existia entre eles.
    Antes de partir, na manhã seguinte, Ryan chamou Smythe para ouvir a resposta de
Devonshire a sua proposta.
    — Ela afirma que sua oferta está abaixo de todas as expectativas, senhor. Não só com
relação ao rompimento do contrato de casamento, mas também quanto às ações na
empresa. A única oferta aceitável, em sua opinião, e a Ore Industries.
    Ryan conteve a ira com grande esforço.
    — Só permanecerei em Paris pelo tempo necessário para concluir essa transação —
disse. — Vou acertar eu mesmo os detalhes de uma pensão para Gwyneth e depositar o
valor em um fundo de pensão ao qual o tio dela não terá acesso. Ah, sim, e quero saber
quem autorizou uma investigação sobre as atividades da srta. Bailey. Quero uma relação
com os nomes de todos os envolvidos. Todos devem ser demitidos. Devonshire não deve
mais ter acesso aos arquivos da companhia. Fui claro?
    — Não, senhor.
     — Não importa. Apenas cumpra minhas ordens. E ofereça minha proposta a
Devonshire pela última vez. — Só um idiota enlouquecido pela ganância rejeitaria
cinqüenta mil libras, quando a média dos homens produtivos do país não ganhava mais
do que cem libras ao ano. — Se ele insistir em não cooperar, Boris já recebeu instruções

99
Perigosa Atração

para dar início ao processo de remoção de Devonshire da diretoria da Ore. Daremos ao
homem dez dias para considerar seu futuro. — Diferentemente da D&B, Ryan possuía a
Ore Industries quase que completamente. A diretoria era escolhida por ele.
    — Como seu advogado, devo informá-lo...
    — Há quanto tempo é casado, Smythe?
    — Isso tem alguma relação com seu acordo de noivado, senhor?
    — Já sou casado. Não pode haver nenhum acordo de noivado, daí a suspensão dos
contratos com Devonshire. Ele tem sorte por eu ainda me oferecer para compensá-lo de
alguma forma.
    Smythe o encarou boquiaberto.
    — Está... falando sério, senhor?
    — Sim. A srta. Bailey é minha esposa, e não vou permitir que ela seja levada aos
tablóides escandalosos.
    — Quinze anos. Em setembro.
    — O quê?
    — Perguntou há quanto tempo sou casado... Quinze anos.
   Ryan tirou do bolso uma caixa de veludo contendo o anel de noivado que teria sido de
Gwyneth.
     — Meus parabéns. Aqui está um presente... e meus votos de felicidades pelos
próximos quinze anos.
    Rachell bebia chá na sala da casa dos Ravenspur, quando o mordomo entrou com
uma encomenda especial.
    — Para mim? — ela estranhou.
    — Sim, senhorita. Acabou de chegar. Brianna e o marido estavam curiosos.
    Rachell pegou a caixa e leu o nome no cartão.
    — É de Ryan.
    — Ryan? — repetiu Brianna. — O que pode ser?
    Rachell abriu a embalagem e olhou estupefata para o presente mais lindo que já havia
recebido. Um jogo de ferramentas de desenho. Um compasso, um esquadro, régua... Na
tampa do estojo uma placa trazia a inscrição:
   Sociedade Real Britânica de Arquitetura, 1863.
    — Esses instrumentos eram de Ryan — Rachell constatou encantada.
    Simbólico. Simples. Direto. Uma declaração de intenção. Romântica e absolutamente
inesperada, especialmente para um homem que nunca dividia ou emprestava seus
brinquedos.
    Por Ravenspur, Rachell soube que no passado Bathwick havia tentado estudar e se
preparar para administrar os negócios da família, mas fora impedido pelo pai que,
aristocrata, julgava inferior qualquer tipo de ocupação voltada para a obtenção de
rendimento. Desde então, Bathwick se tornara um homem fútil, adepto da bebida e de
outros vícios menos confessáveis. Brianna acrescentara ao relato algumas informações
sobre Devonshire, tais como sua tentativa de arruinar Ryan havia pouco mais de um ano.
A família toda sabia que ela e Ryan haviam sido unidos por um matrimônio realizado por
David, o que impossibilitava o casamento de Ryan e Gwyneth, e todos se mantinham em
alerta para qualquer tentativa de ataque por parte de Devonshire. Brianna só queria saber

100
Perigosa Atração

se Rachell amava seu irmão.
    — Tem tempo para me ouvir? — Rachell quis saber da amiga.
    — Todo o tempo do mundo.
    — Então... o que faria se houvesse em seu passado coisas capazes de arruinar a vida
de alguém?
    — E é a mim que pergunta? Minha reputação expulsou-me da Inglaterra! E foi assim
que conheci Michael... — Brianna sorriu. — Há males que levam ao bem.
    — Não é o meu caso.
    — Está falando de lorde Bathwick?
    — Lorde Bathwick?
    — Vocês foram vistos juntos.
    — Ah, sim... Ryan e eu já andamos discutindo por isso.
    — Posso imaginar. Afinal, o que pretende com ele?
    — Tenho sido um inconveniente na vida de seu irmão desde que éramos crianças.
Não quero prejudicá-lo com meus...
    — Rachell, por que não tenta descobrir o que você quer?
    — Não é tão simples. E eu sei o que quero.
    — Isso simplifica tudo. Certa vez Johnny me contou que um bom engenheiro utilizava
seu conhecimento de ciências e matemática para fazer experimentos e encontrar
soluções adequadas para os problemas em questão. Acho que, na época, ele falava
sobre a construção de uma ponte.
    Rachell sorriu da metáfora e, pela primeira vez na vida, teve uma visão absolutamente
clara de seus objetivos.
    — A única questão restante é que tipo de engenheira eu sou. Tenho capacidade para
construir uma ponte que vai suportar a passagem do tempo?
    Rachell decidiu ir visitar a afilhada, e quando chegou encontrou a casa em alvoroço.
Mary Elizabeth gritava, falando palavras desconexas sobre um cachorro preso em um
buraco, e ela estava descabelada e com as roupas molhadas.
    — Onde está a srta. Peabody? — Rachell perguntou ao mordomo que a recebeu.
    — Estou aqui, senhorita — a babá respondeu da porta da sala.
    — Pode me explicar o que está acontecendo aqui?
    — O cachorro entrou em um cômodo que o sr. Donally mantém trancado, senhora. No
sótão.
    — Então, abra a porta e liberte-o, pelo amor de Deus!
    — Mary Elizabeth não devia ter subido ao sótão. Nós a procuramos por toda a casa!
    — O que houve com suas roupas, meu bem? Por que está descalça?
    — Porque molhei meus sapatos.
    — Ah, sim... E por quanto tempo ficou sozinha?
    — Desde que acordei do meu cochilo e pulei a janela. A srta. Peabody trancou a porta
do meu quarto. Eu me vesti sozinha, porque queria fazer chá para Button.
    — Button?
    — Meu cachorro.
    — Você a trancou no quarto? — Rachell perguntou à babá.
    — A criança precisa de disciplina. Não vou mais tolerar esse comportamento

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Perigosa Atração

condenável. Temos de pôr grades nas janelas!
    — Grades!
    — Senhora, eu sou a autoridade máxima sobre essa criança enquanto o sr. Donally e
Boswell estão fora.
    Rachell segurou a mão da afilhada.
    — Onde está a chave desse aposento no sótão?
    — Não pode ir lá! — A mulher se pôs na frente de Rachell.
    — Saia do meu caminho.
    — A chave fica nos aposentos particulares do sr. Donally — informou uma das criadas,
percebendo quem venceria a disputa e de que lado devia se colocar.
    — Mas não podemos entrar lá, senhora — disse outro serviçal.
    Mary Elizabeth olhou para a madrinha e sorriu.
    — Eu posso entrar no quarto de meu pai.
    — Tem razão, meu bem. Você pode. Quer me mostrar onde está a chave?
    Minutos depois, quando entraram no sótão onde havia uma infinidade de objetos de
todos os tamanhos e formas, Mary Elizabeth parou assustada.
    — O que foi, meu bem?
    — A srta. Peabody disse que o monstro vai me comer se eu entrar aí.
    Rachell pegou a menina no colo. Furiosa, decidiu que nunca mais a deixaria sozinha
com aquele arremedo de babá.
    — Quando ela disse isso?
    — Antes... quando fui uma menina má e vim aqui ver os vestidos lindos.
    — É só um sótão, meu bem. Não há monstros aqui. Um dia poderemos entrar, mas
hoje temos de respeitar as ordens de seu pai. Pegue seu cachorrinho e vamos embora.
    — Posso levar as bonecas?
    — Quais?
    — Aquelas ali.
    Rachell sentiu um nó na garganta. Eram as bonecas que haviam sido dela e de
Kathleen! Todas ali, conservadas como se o tempo nunca houvesse passado.
    — Sim, meu bem. Pode levá-las. — Ela se ajoelhou e arrumou as bonecas em círculo
bem perto da porta. — Esta aqui é Angela. E as outras são Marsha, Dyanne, Josey e
Betsy. E aquela é Vitória. Sua mãe e eu brincávamos com elas, sabia? Vínhamos brincar
aqui em cima, porque aqui ninguém nos incomodava. — Fumara seu primeiro cigarro
naquele mesmo lugar com Kathleen. E ali bebera o primeiro gole de uísque. Ali
conversavam sobre os rapazes, sobre amor e sonhos. Kathleen sonhava ser esposa e
mãe, mas Rachell sempre quisera ser a rainha do mundo. — Tenho uma idéia! Vamos
entrar naquele outro quarto do sótão agora, está bem? Lá dentro havia um forte apache
enorme! Vamos montá-lo e fazer dele uma casa de bonecas.
    — Mas meu pai...
    — Eu converso com seu pai quando ele voltar. Vamos levar Button para baixo, e
depois voltaremos para montar o forte. — Mas antes precisava demitir a srta. Peabody.
    Em Paris, Ryan tentava fechar o negócio com a Valmonts, mas a situação era
delicada. Já havia feito uma proposta mais do que generosa e sabia que outro empresário
jamais a cobriria, mas os proprietários da renomada empresa francesa ainda relutavam.

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Perigosa Atração

    — Afinal, qual é o problema com vocês? — ele disparou impaciente. Queria voltar a
Londres e resolver sua vi da pessoal, mas tudo parecia conspirar contra sua felicidade. —
Acham que podem conseguir mais dinheiro com outros empresários?
    — Não, sr. Ryan — foi o filho do próprio Valmonts quem respondeu. — Talvez não
tenha considerado essa possibilidade, mas podemos desejar mais do que dinheiro. Talvez
não seja esse nosso único interesse.
    Só alguém com muito dinheiro poderia fazer tal consideração. Ryan nunca pensara
nisso. Não conseguia lembrar um momento do passado em que não estivera lutando por
alguma coisa. Como se o sucesso fosse a única representação de tudo que ele era.
Dinheiro representava sucesso, seu conforto e sua via de escape. Não confiava em um
homem que não se interessava por riqueza. Mas respeitava conhecimento, e o velho
Valmonts era um dos pioneiros na manufatura dos motores a vapor que movimentavam
os trens. A D&B construíra milhares de quilômetros de trilhos que eram percorridos pelos
vagões que esse homem movimentava.
    — Então, diga-me, monsieur Valmonts — ele pediu com paciência. — O que é mais
interessante que dinheiro?
    — Lorde Devonshire não vai gostar nada do que fez, senhor. --- Brendan estava
sentado na frente de Ryan no coche. As luzes da cidade começavam a cintilar com a
chegada da famosa noite parisiense, e Ryan respondeu sem desviar os olhos da janela.
    — Você trabalha para mim, Brendam.
    — E só estou me manifestando porque recebo um salário por isso, senhor. Que eu
saiba, seu ramo não é a filantropia. E, para ser franco, noto que mudou muito nas últimas
semanas. Insisto, senhor: lorde Devonshire não vai gostar de saber que estabeleceu uma
sociedade com os Valmonts para construir trens.
    — Locomotivas.
    — Ou isso.
    — Uma versão menor e mais rápida do que os modelos arcaicos. Dissolvendo a
porção frágil do negócio, podemos tirar proveito do aspecto lucrativo e do propósito
original para a existência da companhia. Mais que isso, estaremos beneficiando a Ore
Industries, que vai fornecer o minério de ferro.
    — E a D&B, que administrava o braço de engenharia civil e, portanto, construía pontes
e instalava trilhos por todo o país.
    — Não há o que criticar nessa lucrativa parceria. — E Rachell ficaria feliz com a
notícia. O que mais podia querer?
    Talvez agora pudessem chegar a um acordo, afinal. Assim, resolveriam parte de seus
problemas. Queria realmente compreender o ponto de vista de Rachell. Queria mobilizar
sua paixão. Era justamente isso que mais amava nela.
    E agora sabia que não podia pedir que ela desistisse da D&B.
    Naquela noite, depois de comprar muitos presentes para Rachell, ele jantou em um
restaurante tranqüilo na rua do hotel.
    Devonshire já devia ter recebido sua oferta final. Tudo que queria era voltar a Londres
e começar sua nova vida ao lado de Rachell.
    Limpando os lábios com um guardanapo de linho, ele notou uma mulher muito
atraente sentada em uma mesa próxima. Com os cabelos presos no alto da cabeça e os

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Perigosa Atração

lábios pintados, ela usava um vestido de corte ousado e era a imagem da sofisticação.
Ela sorriu. Um cavalheiro não podia deixar de retribuir o sorriso de uma mulher.
    Quando ele se levantou para vestir o casaco e partir, o garçom aproximou-se com uma
mensagem.
    — É da mademoiselle naquela mesa, senhor.
    — Transmita a ela minhas desculpas — ele pediu, recusando o pedaço de papel.
    Quando saiu, Ryan nem olhou na direção da ousada sedutora. Há seis meses, não
teria hesitado em aceitar o convite estampado em seus belos olhos castanhos.
    Mas agora só pensava em Rachell.
    Quando voltou ao hotel, Ryan foi recebido no saguão por seu valete.
    — Senhor, um de seus homens trouxe uma carta enviada ontem por seu irmão.
    — Johnny? Eleja voltou da Escócia, Boswell?
    — O sr. Brendam disse apenas que o assunto necessitava de sua atenção urgente.
Além disso... Alguém o espera.
    — Alguém? Onde?
    — Em seus aposentos.
    — Por Deus, Boswell, deixou alguém ir esperar por mim em meus aposentos? Mas
quem...?
    — Lady Gwyneth, senhor. Ela adormeceu.
    A jovem de fato dormia em uma cadeira próxima da janela. Sua irmã dormia na cama,
e a ama que as acompanhava adormecera em outra cadeira.
    Gwyneth acordou com a comoção de sua chegada.
    — Oh, senhor... Por favor, não me mande embora! — Ela segurava entre as mãos um
dos presentes que comprara para Rachell, um chapéu muito elegante. — Sei que minha
presença é tremendamente imprópria, e até me atrevi a abrir o presente... É lindo.
    — Milady, vieram sozinhas até aqui?
    — Minha irmã e uma ama me acompanham, como pode ver. — Gwyneth explodiu em
lágrimas e atirou-se em seus braços. — Eu precisava vê-lo! — Ainda apertando o chapéu
de Rachell, ela se ergueu para beijá-lo nos lábios. — Precisava vê-lo.
    — Gwyneth...
    — Soube que seus advogados procuraram meu tio. E o assunto da visita era eu. Não
suporto pensar que fiz alguma coisa que o aborreceu.
    — Seu tio sugeriu que viesse, milady?
    — Oh, não! Apesar do que pensam vocês dois, só concordei com esse noivado pelo
senhor. Não foi por ele. E agora sei que realmente o aborreci.
    — Não fez nada para contrariar-me, milady. Exceto vir até aqui. Como me encontrou?
    — Venho a Paris constantemente, É nesse hotel que me hospedo nessas ocasiões.
Teria providenciado acomodações para nós, mas o hotel está lotado. Boswell foi muito
gentil. — Ela recuou um passo e, sorrindo, fitou-o com ar inocente. — Suponho que tenha
arruinado sua surpresa, mas não resisti à curiosidade e abrir as caixas.
    — Precisamos conversar, Gwyneth.
    — Então é verdade. Tem mesmo a intenção de romper o contrato. Por isso vim. Vi os
presentes... Pensei que tudo fosse apenas um mal-entendido...
     — Não acha que devemos discutir esse assunto em particular? Venha comigo à

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Perigosa Atração

saleta, por favor.
    Ela o seguiu, mas começou a encenação imediatamente depois de se sentar em uma
poltrona macia e confortável.
    — Não pode romper os contratos! Estou apaixonada, sr. Donally.
    — Não está, milady. Pensei que estivesse em Bringhton. Ou era em Bath?
    Ela falou sobre a viagem e sobre as coisas que fizera com a irmã, enquanto ele,
tentava compreender e reparar os grandes erros de sua vida.
    — Comparecemos a diversos eventos da melhor sociedade local, senhor. Metade de
Londres estava lá. Esperava encontrar sua irmã, lady Ravenspur, mas não a vi em
nenhuma festa ou função. E estava preparada para apoiá-la abertamente, apesar de
como as matronas e damas a tratam.
    — Acha que a sociedade vai me receber de forma diferente, milady? E já pensou que
vai sofrer essa discriminação, também, se nos casarmos?
    — É um dos homens mais ricos da Inglaterra. Nenhuma mulher o desprezaria.
Nenhum homem ousaria intimidá-lo.
    Ryan riu.
    — Ainda é jovem demais, milady.
    — Tenho vinte anos.
    — E eu tenho trinta e um. Não quer se casar comigo. Eu nem gosto de ir a bailes!
    — Mas dança muito bem.
    — Como tantos outros homens solteiros.
    — Aprecio o tempo que passamos juntos. E sei que gostaria de ser sua esposa.
    — Gwyneth, ofereci uma pensão muito generosa que vai garantir seu conforto.
    — Isso não importa. Além do mais, tudo que me for dado, ele tomará no final, e nunca
será o suficiente para satisfazê-lo.
    — Tenho consciência disso, e já tomei providências para proteger esse valor da
ganância de lorde Devonshire.
    — Será que não entende? Ele realmente o odeia. Nunca o perdoou...
    — Tem medo dele?
    Ela hesitou. Depois de um instante, baixou os olhos e disse:
    — Dentro de uma semana serei maior de idade. De acordo com o testamento de meus
pais, não estarei mais sob a guarda de meu tio. Então, terei autonomia sobre minha vida e
meu dinheiro.
    — Exatamente. Só precisamos pensar em algum lugar onde milady possa morar.
    — Então... — As possibilidades se descortinavam infinitas. — Então, posso romper o
noivado sem sofrer discriminações! E ele não vai poder persegui-lo em meu nome!
    — Já transferi a casa de Bristol para o seu nome — ele anunciou.
    De repente, Gwyneth já não se dava, mais ao trabalho de professar seu amor por ele.
    — Serei rica, então? E vou poder escolher meu marido por outros critérios que não
sejam garantir minha sobrevivência?
    — Exatamente.
    — E não era isso que ele queria para mim.
    — Não.
    — Sr. Donally, eu o libero de seu compromisso comigo. E agradeço por tudo que está

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Perigosa Atração

fazendo por mim.
    — Bobagem. Fique com o chapéu, também.
    — O chapéu...? Oh, sim! É lindo! Muito obrigada, senhor.
    — Agora vá se deitar e descanse.
    — Mas o quarto é seu!
    — Não importa. Encontrarei outras acomodações para passar a noite e virei amanhã
cedo buscar minhas roupas.
    Em quatro dias estaria em casa... sentindo-se livre pela primeira vez em toda a sua
vida.
    — Respire fundo, Rachell!
    Elsie puxou os cordões do corpete enquanto Rachell olhava para Brianna como se
quisesse esganá-la.
    — Essa coisa está muito apertada!
    — Ainda consegue respirar? — Brianna perguntou do diva, onde comia um bombom e
ajeitava a saia do lindo vestido amarelo.
    — Pouco.
    — Então, está tudo perfeito.
    — Eu não devia me sentir um pouco mais confortável?
    O trem de Ryan chegaria na estação dentro de uma hora. Temia desmaiar antes de
chegar lá.
   Elsie terminou de abotoar o vestido, enquanto outra criada colocava os sapatos em
seus pés.
    — Elsie, veja se Mary Elizabeth está pronta. Temos de sair rapidamente.
    — Você está linda — disse Brianna. — Ryan nem vai reconhecê-la.
    Havia mudado tanto assim em duas semanas, desde que ele partira? Como se um
belo vestido pudesse modificá-la! Gostava do vestido, ou não o teria comprado, mas não
se sentia ela mesma naquele traje.
     Enquanto Brianna conversava com a sobrinha sobre as travessuras do cachorro,
Rachell olhava pela janela para o trânsito congestionado.
    Naquela manhã, à mesa do café, lera no jornal um artigo sobre a estadia de Ryan em
Paris. Ninguém conhecia os detalhes do acordo que finalmente fora estabelecido, mas as
ações da Ore Industries subiam, e o homem com o toque de Midas se preparava para
transformar mais uma companhia em puro ouro.
    A coluna prosseguia falando sobre seu noivado, a possibilidade de ser consagrado
cavaleiro, mas ela nem registrava os comentários. Nos últimos anos, habituara-se a ler
sobre Ryan; há muito ele perdera a liberdade inerente ao anonimato. Era a personificação
do anti-herói, um ser comum que ousava buscar seu lugar entre os membros da
aristocracia. Os colunistas amavam escrever sobre ele. E amavam odiá-lo.
     O terminal estava movimentado. De acordo com o painel que anunciava a
movimentação das composições, o trem chegara dez minutos atrás.
    — Estamos atrasadas? — Mary Elizabeth perguntou no colo da madrinha.
    Era a primeira vez que Rachell recebia Ryan como sua esposa. A menina em seus
braços funcionava como uma espécie de escudo emocional.
    Ryan ainda desembarcava na rampa ao sul da plataforma. Cerca de cem pessoas e

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Perigosa Atração

muitos carros para transporte de bagagem os separavam. Podia vê-lo graças a sua
estatura elevada e a sua elegância inerente.
     De repente ele se virou e estendeu a mão. Penas verdes surgiram atrás dele. Um
chapéu. Rachell viu Gwyneth desembarcar e sorrir para ele. Duas outras pessoas se
aproximaram do casal, e uma delas levava um papel, uma mensagem, talvez.
     Rachell tentou respirar, mas as costelas oprimidas pelo corpete se recusavam a
permitir a passagem do ar. Mantinha o queixo erguido e os ombros eretos. Com os braços
roliços em torno de seu pescoço, Mary Elizabeth olhava em volta tentando encontrar o
pai. Rachell esperava que Brianna ainda não o houvesse localizado, mas sabia que sua
esperança era vã. Podia sentir a tensão na amiga.
    Rachell queria sair dali antes de Mary Elizabeth ver o pai, mas era como se estivesse
paralisada, incapaz de fazer qualquer coisa além de olhar.
    — Papai! — Mary Elizabeth gritou. — Achei! Lá está ele! — Ela segurou o rosto de
Rachell com as mãos pequeninas.
    — Corra! Você precisa correr! Ele está indo embora!
   Rachell entregou a menina a Brianna.
    — Desculpe, meu bem. Tia Brianna vai levá-la até seu pai. Ela corre mais do que eu.
    — Está me pedindo o impossível, Rachell. — Johnny se sentou à mesa de reuniões na
sala de conferências da D&B.
    — Está no comando da divisão Norte desde sua criação. Conhece a companhia como
ninguém.
    — Ryan sabe que você está partindo?
    — Só quero garantir a segurança de meu povo na Irlanda. Quero ter certeza de que
eles ainda terão um emprego no ano que vem.
    — Ryan não nos abandonou, Rachell.
     Não voltara a vê-lo depois do episódio na estação, e Brianna não havia conseguido
alcançá-lo antes de ele embarcar outra composição para Bristol. Sabia que ele mantinha
uma casa naquela região adquirida para Gwyneth.
      Rachell respirou fundo e olhou para Johnny. Queria que ele assumisse a
responsabilidade pela companhia. Sempre fora persistente, mas não se sentia muito bem
nos últimos dias, e queria voltar para casa e buscar refúgio no carinho de Memaw.
    — Lorde Bathwick — Johnny olhava para o homem sentado na outra ponta da mesa
—, também acha que estou qualificado para ocupar o lugar de Ryan?
    — O que eu acho não tem importância. A srta. Bailey quer que eu lhe dê meu apoio.
    — Não acha que devemos falar sobre isso em particular, Rachell?
    — Por quê? — Bathwick protestou. — Minhas ações não me tornam praticamente um
membro da família?
    — Não se considerarmos como conseguiu essas ações, milorde.
    — Não sou diferente de seu irmão.
    — Exceto por ele ser meu irmão, e você não.
    — Está bem. Retiro-me, então. Compreendo que tenham de conversar. — Mais tarde
voltaria a procurar por Rachell na casa de Brianna, como fizera na noite anterior, quando
a levara ao teatro na Gloucester Street.
    — Ora, ora... Parece que cheguei atrasado ao meu enforcamento...

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Perigosa Atração

    A voz de Ryan atraiu todos os olhares para a porta.
    — Iludindo o pobre lorde Bathwick, Rachell, querida.
    — O que está dizendo?
    — Diga a ele por que suas ações não vão fazer a menor diferença no final. Vamos,
conte a verdade!
    — Não...
    — Fale!
    Rachell olhou para o marido com evidente hostilidade. Que direito ele julgava ter de
chegar dando ordens como se fosse o homem mais honesto do mundo?
    Sem saber o que fazer, ela olhou para Bathwick como se quisesse se desculpar.
    — Entendo o problema, srta. Bailey. Ou melhor, sra. Donally.
    — Não me chame de sra. Donally, por favor!
    — Negue quanto quiser — Ryan interferiu. — Mas tenho aqui nossa certidão de
casamento. Tomei o cuidado de registrá-la em Wicklow County, na Irlanda. David foi
muito eficiente.
    Bathwick levantou-se e pôs o chapéu na cabeça.
    — Sr. Donally, como toda a sociedade sabe que lady Gwyneth esteve em Paris em
sua companhia e voltou viva e feliz, suponho que tenham chegado a um acordo sem o
conhecimento de meu pai.
     — Antes que comece a tirar conclusões precipitadas sobre a ausência de lady
Gwyneth, deixe-me assegurar a todos que ela não está em lugar que não queira estar. E
se tiver algum afeto pelo senhor, mais cedo ou mais tarde revelará seu paradeiro.
    — Francamente, nem eu mesmo confiaria em mim. — Bathwick olhou para Rachell. —
Minhas condolências por suas núpcias.
    — Fique longe de minha esposa... milorde! Ou juro que vai se arrepender.
    — Ryan, não se atreva a falar como se fosse meu dono ou... —Ei! — Johnny os
interrompeu. — Lorde Bathwick, sugiro que se retire, agora.
    — Eu já estava saindo.
    — E vocês dois — Johnny continuou quando o nobre saiu e fechou a porta. — Talvez
queiram saber por que voltei a Londres antes do previsto.
    Ryan e Rachell o ouviam atentos.
    — Temos um problema. Algo com a estrutura e a integridade do projeto Forth.
    — Fratura de coluna? — Rachell exclamou depois de ler o resumo do relatório.
    — O tipo de problema que faz pontes caírem. Interrompi temporariamente as obras
nos dois canteiros, nos dois lados da ponte. Precisamos daquelas pastas que solicitei
para descobrirmos de que fundição veio o ferro utilizado na construção das colunas.
Temos de saber se a mesma matéria-prima foi utilizada em outras obras e se há algum
risco
    — Estamos procurando essas pastas há duas semanas, Johnny.
    — A reforma da sala de arquivo causou vários inconvenientes — Ryan explicou. —
Vamos despachar equipes para inspecionar todas as obras concluídas no último ano.
    — Já fiz isso. O que mais?
    — Vá para casa e durma. Amanhã vou pedir a Stewart para providenciar uma lista de
todas as fundições que fornecem o ferro empregado nas nossas obras. Ninguém nos

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Perigosa Atração

alertou para o problema, e estou curioso para saber por quê. Na segunda-feira,
mobilizaremos outras pessoas para procurar a pasta.
    — Certo. Quanto ao outro assunto...
    — Que assunto, Johnny?
    — Bem, todos nós queremos saber como David casou vocês dois.
    — Ah, foi fácil — Rachell respondeu com tom irônico. — Ele deu um soco no queixo do
seu irmão e ameaçou mandá-lo para San Francisco num navio mercante.
    — David fez isso com Ryan? E eu perdi o espetáculo?
    — Engraçadinho... — Ryan irritou-se.
    — Então, David o pegou com as mãos no pote de biscoito...
   Na verdade, Rachell havia estado roubando biscoitos. Algumas coisas nunca mudam.
Ryan teria setenta anos de idade, e ainda seria tratado como um adolescente
inconseqüente e problemático por toda a família.
    — Já pensou em nos dar os parabéns, Johnny — ela perguntou.
    — Parabéns, cunhada!
    Johnny deixou a sala com o senso de humor inteiramente recuperado.
    Agora eram só os dois. Ela e Ryan.
    — Podia ter contado a verdade a Johnny. Por que não disse que eu fui culpada pelo
nosso casamento?
    — Ele estava se divertindo tanto... Não quis ser desmancha prazeres. Já represento
problemas demais para você.
    — Sou obrigada a reconhecer que tem razão.
    — O que fez com a srta. Peabody?
    — Aquela mulher era uma bruxa! Eu a mandei embora. Nem sempre o mais caro é o
melhor, Ryan. Elsie pode cuidar de Mary Elizabeth até você encontrar uma babá confiável
e competente.
     — Não sei por que não estou zangado, considerando que encontrei minha filha
brincando na terra quando fui buscá-la na casa de Brianna.
    — Crianças precisam brincar, Ryan.
    — Eu sei. Mas na terra?
    — Detalhes...
    — Vim assim que recebi o telegrama de Brianna... o que aconteceu logo depois da
minha chegada em Bristol.
    — Graças a Deus pelo telégrafo.
    — Não convidei Gwyneth para ir a Paris.
    — Que bom. Só dividiu seu vagão de trem com ela desde Dover, depois até Bristol.
    — Havia outras cinco pessoas a bordo do vagão. E nós chegamos a um acordo,
Rachell. Tenho o dever de protegê-la, mas é só isso. Não aconteceu nada. Lady Gwyneth
esta na casa dela em Bristol.
    — Escondida?
    — Pelo que entendi, ela tem medo do que o tio pode fazer quando souber que ela
rompeu o noivado. Devonshire deverá receber a notícia amanhã.
    — E ela está fazendo isso por você?
    — Não. Porque nosso acordo vai fazer dela uma mulher muito rica.

109
Perigosa Atração

     — Ah, e... Bem, agora que não vai mais se casar com lady Gwyneth, vai perder
também sua nomeação como cavaleiro.
    — Ser ou não ordenado cavaleiro não tem mais nenhuma relação com o casamento
com Gwyneth.
    — Sinto muito.
    — Por quê?
    — Por estar sempre dificultando sua vida.
    — Somos irlandeses, Rachell. "Dificuldade" é uma forma de arte para nós.
    Ainda hesitante quanto a reconhecer a total vitória de Ryan sobre seu coração, ela o
encarou e perguntou:
     — Conseguiu chegar a um acordo satisfatório com os Valmonts? Anexou outro
território ao seu reino?
    — Mais ou menos. Foi um acordo satisfatório, sim. Mas por que estava aqui com meu
irmão falando em me destituir da presidência da D&B?
    — É óbvio, não?
    — Uma mera diferença de opiniões. O que devemos fazer com relação a isso?
    — Competição é um fato da vida.
    — Como a paixão — ele murmurou, aproximando-se para abraçá-la.
    Rachell nem tentou reagir.
    — Sim, como a paixão. Podemos trabalhar juntos...
    — Isso a faria feliz?
    — Encontrar uma solução para esse problema me faria feliz.
    — Quer mesmo uma sociedade com lorde Bathwick?
    — Na verdade, quero uma parceria com você, Ryan.
    — Ah... certo.
    — Certo?
    — Sou um vira-lata, Rachell. Afague minha cabeça, e eu abano a cauda. Queria mais
resistência? Uma negociação dura, talvez?
    — Não.
    — Melhor assim.
    Ele a beijou. Rachell correspondeu sem reservas, mas ainda não conseguia entender
o que o fizera ceder com tanta facilidade. Talvez houvesse realmente amor entre eles,
afinal.
    Havia paixão. Muita paixão. Tanto que, naquele dia, eles fizeram amor no escritório,
sobre a mesa de reuniões, e depois na casa de Ryan em Londres. Na escada, no quarto,
no banheiro... E mais tarde, quando levou a esposa exausta e saciada de volta à casa de
Brianna em seu coche, ele anunciou que desejava se casar com ela na Igreja antes de
tornar públicos seus votos. Queria legitimidade, mas, no fundo, sabia que queria mais.
Algo mudava dentro dele, e não estava inteiramente certo de que gostava dessa
transformação.
     Sempre soubera qual era seu lugar no mundo. Tomara decisões duras sem sentir
culpa. Kathleen nunca se cansava de dizer que ele era ávido demais para o próprio bem.
Ambicioso. Cínico. Por algum tempo, tentara mudar por ela, mas não fora capaz.
    Fora fiel a Kathleen, mas não à memória dela. Estivera com mais mulheres do que

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Perigosa Atração

poderia contar. Belas mulheres. Sofisticadas, livres, aristocratas ou atrizes. Muitas delas
jamais voltara a ver. E muitas não queria rever. Mas nunca sentira o que experimentava
quando fazia amor com Rachell. Nunca fechara os olhos para entregar-se inteiramente às
emoções. Nunca se sentira tão orgulhoso por levar uma mulher ao orgasmo. Nem tão
emocionado.
     E queria dar muito mais a ela. Queria a eternidade ao lado de Rachell. Para fazê-la
feliz e ser feliz. Todos os dias de sua vida. Agora sabia que seu coração mentira. Não
amava Rachell somente agora, mas descobria agora um amor que sempre existira.



  Capítulo IX

    Na manhã seguinte, Rachell acordou tarde e levou Mary Elizabeth e Robert ao parque.
Elsie a acompanhava para ajudar nos cuidados com os dois pequenos, e eles levavam
migalhas para alimentar os patos e os peixes. Estavam quase chegando, quando ela
recebeu uma mensagem de Stewart.
    Uma vez no prédio da D&B, ela cumprimentou o vigia e perguntou sobre sua família.
    — Como vão Lara e seus filhos, sr. McKinney? — Eram oito.
     — Bem. Todos adoraram as tortas de frutas que mandou para nós na semana
passada, srta. Bailey.
    — Não foi nada. Sabe onde está o sr. Stewart?
    — Lá em cima, e ele a espera.
    Rachell levou Elsie e as crianças para uma sala no segundo andar.
     — Não vou demorar — disse, pegando transferidores, papel e material de desenho
para que eles se distraíssem enquanto esperavam. — Enquanto isso, desenhem um
castelo. Elsie, faça com que eles desenhem apenas no papel.
    — Sim, senhora. Vou ficar atenta.
    — Obrigada, Elsie.
    Stewart a esperava ansioso.
    — Achei que gostaria de ver o que encontramos, senhora. O sr. Donally me pediu uma
lista de fundições que fornecem o ferro para as nossas obras. Passei a manhã toda
reunindo os dados.
    Ela leu a lista, sem entender o que havia deixado Stewart tão animado.
     — A D&B sofreu três arrombamentos, talvez mais que ainda não tenhamos
descoberto. Nada de valor desapareceu.
    — O que está dizendo, Stewart?
     — Pastas inteiras contendo os dados dessas obras no norte da Espanha
desapareceram.
    — E...?
    — Seis fundições fornecem o ferro empregado em todas as nossas obras. Essa — ele
apontou o terceiro nome na lista — é uma subsidiária da Ore Industries em Gales.
Domínio de lorde Devonshire. A família dele é dona dessa fundição, senhora.
    — Ryan deve saber disso.


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Perigosa Atração

    — Sim, acredito que por isso ele pediu essa lista. Mas ele cancelou todos os pedidos
feitos a essa fundição desde maio, por isso decidi revisar todos os registros da
contabilidade. Os registros só são arquivados no porão no final do ano, depois de
lançarmos todas as informações fiscais. Sabe para onde foi o último carregamento de
Gales?
    — Para o projeto Forth na Escócia?
    — Exatamente.
     — Stewart, quando fraturas de coluna não são identificadas a tempo, pessoas
morrem. Alguém na fundição deve ter percebido o problema... e optado por não dizer
nada.
    A implicação provocou um arrepio gelado que ela não conseguiu conter.
     Ryan seria responsabilizado se alguém morresse. Todos os membros da diretoria
seriam responsabilizados. Processados. Já havia acontecido com outras companhias.
     — Senhora, um acidente dessa magnitude seria como uma tsunami varrendo a
empresa de cima para baixo, esmagando todas as firmas envolvidas. Isso explicaria o
interesse premente de lorde Devonshire por uma fusão com a D&B. Nosso fracasso
repercutiria diretamente nas ações da Ore Industries.
    — E assim, Devonshire poderia assumir o controle das duas empresas. A Donally &
Bailey jamais sobreviveria.
    — Mas, nesse caso, lorde Bathwick possui uma grande porção da D&B, senhora. O sr.
Donally acredita que ele está bem perto de alcançar uma certa autonomia nas decisões
da empresa.
    Mas isso não fazia sentido. Bathwick queria impedir a fusão. Não seria capaz de tal
desonestidade... seria?
    — Para onde Ryan foi quando saiu daqui?
    — Para a sede da Ore Industries, senhora. Ele acredita que os arquivos podem ter
sido adulterados lá também. A boa notícia, se é que se pode falar nisso nas atuais
circunstâncias, é que encontramos o segundo canteiro de obras para onde o ferro foi
enviado. Era isso que eu queria lhe dizer.
    Rachell queria ir ao encontro de Ryan. Saber que alguém o odiava tanto a enchia de
pavor.
    — Senhora, está se sentindo bem?
     — Eu... sim, Stewart. Estou. Acho que vou verificar minha correspondência, já que
estou aqui. — E assim teria uma boa desculpa para esperar por Johnny.
   Rachell percorreu o corredor até sua sala, pensando em tudo que acabara de ouvir.
Ryan já devia suspeitar do envolvimento de Devonshire, ou não teria sido tão específico
em suas solicitações. Sua sala estava escura.
     Ela entrou para pegar a pasta que esquecera no dia anterior e verificar se havia
alguma correspondência, mas ainda nem havia alcançado a escrivaninha quando a porta
bateu.
    Rachell virou-se e quase perdeu os sentidos.
    Devonshire estava encostado na porta. Reconhecendo seu pavor, ele sorriu e girou a
chave na fechadura.
    — A menina na sala de projetos é filha de Donally?

112
Perigosa Atração

    Ela se sentiu congelar. Podia sentir o cheiro de álcool de onde estava. Morreria antes
de deixar esse homem horrível aproximar-se daquela menina indefesa. Seus olhos
buscaram a porta de ligação com a sala de reuniões, mas Devonshire deu alguns passos
a frente antes que ela pudesse fugir. Consciente do perigo, ela recuou.
    — Saia daqui.
    — Ou vai fazer o quê? Não vai gritar. Seus gritos atrairiam a filha de Donally. E posso
processar qualquer um que se atreva a encostar um dedo em mim.
    — O que quer de mim?
     — A cabeça de Donally? A Ore Industries? O paradeiro de minha sobrinha? As
possibilidades são infinitas. Depende de quanto ele deseja protegê-la. Ryan usou de
astúcia para convencê-la a romper o contrato de noivado. E a escondeu de mim. Mas
conheço seu ponto fraco. Sabe que ele acabou com duas grandes fusões ao custo de mil
libras para os meus cofres? Ah, sim, deve saber. A senhorita o convenceu. E agora
aquele maldito irlandês me tirou da diretoria da Ore Industries. Da minha própria
corporação! Como se tivesse o direito de tomar o que me pertence.
    — Como entrou aqui?
    — Eu avisei o que aconteceria se insistisse em atravessar meu caminho. Eu disse que
os faria pagar.
    — Saia daqui!
    Ele jogou no chão tudo que havia sobre a mesa. A luminária se estilhaçou ao cair.
Livros e papéis se espalharam em todas as direções.
    — Quero que Donally saiba como é perder tudo no mundo. — Devonshire a agarrou
pelos cabelos e, sem pensar, ela o acertou com uma violenta bofetada no rosto.
    — Não se atreva a pôr as mãos em mim!
    — Cadela! — Ele a agarrou pelo vestido.
    Rachell tentou lutar, mas ele a empurrou contra a mesa. Violento, virou-a com o rosto
contra a superfície de madeira.
    — Por causa de Donally, não tenho nada!
    Os dedos em sua nuca a mantinham imóvel. Seu peito doía. Finalmente, ela gritou.
    — Ele vai matá-lo! — ameaçou furiosa. Alguém batia na porta.
    — Pense bem, srta. Bailey. Posso fazer o que quiser com você, e ele não poderia me
atingir sem antes destruí-la. Mas não vou violentá-la. Isso foi só uma lição. Leve o recado
para Donally. Diga a ele...
    Um estrondo interrompeu a frase. De repente, Rachell não sentia mais o peso sobre
seu corpo. Quando se levantou, Johnny já havia arremessado Devonshire contra uma
estante. A porta da sala havia sido arrombada por um chute violento.
    — Bastardo miserável!
    — Johnny, não! Ele quer que você o ataque!
    Mas Johnny não ouvia. Elsie surgiu na porta com os olhos arregalados, mas Rachell
gritou para que ela voltasse à sala de projetos e ficasse lá com as crianças.
    — Saia daqui, Rachell — Johnny gritou.
    — Não!
     O vigia assistia à cena sem saber o que fazer. Lorde Devonshire era um nobre!
Ninguém ataca um nobre.

113
Perigosa Atração

     — Ele não merece seu esforço, Johnny! — Rachell gritava. — Não aconteceu nada
grave. Ele...
     Rachell ainda tentava afastar Johnny do odioso lorde quando, transtornado, ele retirou
do bolso uma pistola e atirou.
      Ryan entrou no clube que deixara de freqüentar há um ano, desde que o
estabelecimento removera seu nome da lista de clientes especiais. Mais tarde fora
convidado a retornar, resultado de sua batalha com Devonshire, mas preferia ser jogado
no Tâmisa a passar um segundo que fosse naquele lugar.
     Mas Devonshire era presença garantida no clube, e precisava encontrá-lo. Ele estava
sentado a uma mesa protegida por uma cortina oriental que conferia alguma privacidade.
Ele segurava um copo e, trêmulo, parecia muito perturbado, apesar de sua usual
arrogância.
    Ryan caminhou até a mesa com passos firmes.
    O choque de ver seu maior inimigo ali ficou estampado nos olhos do nobre. Perceber o
ódio na expressão de Ryan o fez ficar em pé. Melhor para Ryan, que o agarrou pelo
colarinho e o empurrou contra a parede.
    — A mulher que você atacou hoje à tarde é minha esposa!
    — Tire as mãos de mim.
    — Minha filha estava naquele edifício, bastardo! E o filho de lorde Ravenspur também!
    — Só me defendi de seu irmão! Pergunte a ela. Ela tentou contê-lo.
    Gritos soaram na sala atrás deles. Ryan não conseguia controlar a fúria.
     — As autoridades se recusam a prendê-lo porque é sua palavra contra a dela, mas
nós dois sabemos o que foi fazer lá hoje à tarde. Rachell o encontrou tentando remover
outros arquivos...?
     — Não vai querer continuar com isso, Donally. Vai se arrepender. Examine meu bolso.
Ela não vai testemunhar contra mim, ou estará arruinada. Trago os papéis no bolso do
meu casaco. Pergunte a ela sobre Edimburgo. Depois me diga quanto está disposto a
pagar por meu silêncio.
     Dois homens tentaram conter Ryan, mas ele pressionou o antebraço contra o pescoço
de Devonshire e meteu a mão em seu bolso para pegar os papéis a que ele se referia.
     — Ouça bem o que vou dizer, Devonshire: se insistir nessa chantagem imunda,
quando eu acabar com isso não vai ter mais do que a terra para pisar. Não vai haver um
lugar nesse mundo onde possa se esconder. Fui claro?
    — Quero minhas ações de volta. Quero que me devolva tudo que roubou de mim.
    Seu irmão estava morrendo com uma bala no peito. Sua filha estivera a menos de cem
metros do ataque. Rachell podia ter sido atingida pelo projétil.
    — Lembre-se de que não sou meu irmão.
     Mãos fortes o afastaram de Devonshire, que caiu ofegante e tonto, as mãos nos
joelhos e o corpo inclinado para a frente.
    — Podia mandar prendê-lo, idiota!
     — Tente. Mas foi minha esposa que você atacou hoje à tarde, e nenhum homem vai
discutir meu direto de defender o que é meu. Mesmo que para isso eu tenha de espancá-
lo... milorde.
     — Vou ter de pedir para retirar-se, sr. Donally. Não admitimos confrontos em nosso

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Perigosa Atração

estabelecimento.
    — Naturalmente — ele respondeu sem olhar para o gerente. — Cavalheiros civilizados
resolvem suas questões em duelos limpos e públicos. É isso que quer, Devonshire?
    — Não, Donally. Quero que entenda que não se tira a fortuna e os negócios de um
homem impunemente. Você vai voltar rastejando para pedir minha ajuda.
    — Antes disso, vai precisar da ajuda de alguém para...
    A mão de um homem o segurou pelo punho, e Ryan virou-se e viu o rosto amigo de
Ravenspur.
    — A carruagem está esperando lá fora — ele avisou.
    — Fique longe da minha esposa.
    — Um irlandês com ares de autoridade. De onde tiram essa idéia de que têm direitos?
    Ryan soltou-se e investiu contra Devonshire, mas Ravenspur foi mais rápido. Com um
soco carregado de indignação e revolta, ele tirou o homem do chão e o arremessou
contra a parede. Devonshire caiu inconsciente. Ravenspur se debruçou sobre o corpo
inerte.
    — Um irlandês comum que era campeão de pugilismo em Edimburgo. Dê-se por
satisfeito por ainda estar vivo. E por eu não tirar sua vida, depois de tudo que fez hoje.
    A caminho da saída, Ryan retirou todos os papéis do envelope e os jogou na lareira.
    Os Donally iam chegando um a um. Johnny recebia todos os cuidados possíveis, mas
seu estado era crítico, e a família se reunia esperando pelo pior.
    Chocada e assustada com tudo que havia acontecido, Rachell decidiu que era hora de
entrar em ação. Não se deixaria paralisar pela covardia. De posse de todas as
informações que reunira, faria tudo que estivesse ao seu alcance para levar Devonshire à
Justiça; à cadeia!
    — Há quanto tempo ela está aqui?
    — Quase duas horas, senhor — disse o vigia noturno da D&B, pai de oito filhos e
trabalhador dedicado. — Foi uma surpresa vê-la aqui, senhor. Por isso enviei a
mensagem pedindo que viesse. Ela chegou pedindo para verificar os registros de entrada
e saída, os livros do mês passado e de outros me ses... Levei quinze minutos só para
encontrá-los. Depois ela examinou as chaves das portas internas e me pediu que
verificasse todas as cópias.
    — E você fez o que ela pediu?
    — Sim. Não falta nenhuma chave, senhor, exceto a que costuma guardar em seu
poder.
    A chave de sua mesa na Ore Industries.
    — Obrigado, McKinney.
    — Por nada, senhor. Eu jamais me perdoaria se algo de terrível acontecesse com a
srta. Bailey.
    Mais tarde, quando conseguiu tirá-la do prédio, Ryan foi informado de que havia uma
forma de entrar no edifício pelo telhado, pelos canos de circulação de ar logo acima do
forro. Como Devonshire já estava no prédio quando ela chegara naquela tarde, e como
não encontrara o nome dele no livro de registros de entrada e saída, Rachell deduzira que
ele só podia ter entrado pelo telhado.
    — Deve saber que Devonshire é culpado, Ryan. Já deduziu toda a trama, não é?

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Perigosa Atração

   — Não importa, Rachell. Não temos provas para acusá-lo formalmente.
    — Ele mandou alguém roubar os arquivos para encobrir a fratura de coluna que
ocorreu na ponte na Escócia. Você teria sido acusado...
   — Descobrimos o problema a tempo.
   — Não vai atrás dele por minha causa. E ele sabe disso. Não podemos fazer nada.
   — Eu sei.
    O dia amanhecia quando Ryan conseguiu convencer Rachell a ir dormir um pouco.
Exausto, passou pelo quarto de Johnny e lá encontrou Christopher e Brianna em vigília.
Moira cochilava em uma poltrona.
   — Ryan, ainda não conseguimos encontrar David — Brianna comentou ao vê-lo.
   — Eu ainda não morri. Poupem-se... de David.
   — Johnny! — Brianna correu para perto do irmão.
   — Há quanto tempo... estou aqui?
   — Há quase quatro dias — Christopher respondeu. — Perdeu muito sangue, mas a
bala não perfurou nenhum órgão vital. — Ou estaria morto.
    Ryan permanecia em silêncio. Não sabia o que dizer. Ou sabia, mas temia falar e
sufocar com a intensidade de sua emoção.
   — Não se culpe, Ryan — Johnny murmurou cansado. As palavras o atingiram como
um raio.
   As últimas palavras de Kathleen antes de deixar a vida haviam sido as mesmas: Não
se culpe, Ryan.
    Era completar um círculo em sua vida... e olhar para o espelho e não gostar do
homem que via.



  Capítulo X

   — Ninguém informou que não vou morrer, Rachell? — A voz de Johnny era rouca. —
Já são quase duas semanas! Não precisa andar na ponta dos pés.
   — Não estou... Não exatamente.
   Johnny não exibia mais a palidez da morte, mas um tom rosado que sugeria febre alta.
Sentada na beirada do colchão, Rachell tentou fingir que não estava perturbada com sua
aparência e com o curativo que cobria boa parte de seu peito.
    O médico estava otimista. Precisava acreditar que tudo acabaria bem, afinal. Collin
conversava com Johnny e Moira ajeitava roupas, copos e outros objetos em torno da
cama.
    No meio do clima de alegria, a ausência de Ryan era evidente em um momento em
que toda a família se reunia. Ele não havia nem aparecido ao longo daquela semana para
ser informado de que seria pai.
   — E então, o que tem feito na D&B nesses dias, Rachell?
    — Stewart rastreou toda a matéria-prima comprada para a realização das nossas
obras nos últimos meses. Chegamos ao ferro e ao minério fornecido por Devonshire.
Vamos precisar de mais algumas semanas para termos em mãos os resultados das
inspeções, mas estamos confiantes de que temos tudo sob controle.

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Perigosa Atração

    — Porque a D&B é conhecida por dar atenção especial às questões de segurança —
opinou Christopher. Ex-presidente da D&B, ele conhecia o assunto e sabia o que estava
dizendo.
    — Ryan conseguiu manter o assunto longe dos jornais. Como? — Johnny perguntou.
    — Atraindo toda a atenção para si — disse Christopher.
    — Nada mais justo — Moira intercedeu. — Ele é culpado por tudo que aconteceu com
meu Johnny. Ele e seus métodos discutíveis.
     Rachell olhou para a cunhada sem esconder a contrariedade. Sua afirmação era
ilógica e ridícula diante dos fatos.
    — Não pode estar falando sério, Moira.
    — É claro que não está — disse Johnny.
     Mas as palavras já haviam sido ditas e Rachell estava zangada. Ryan conseguira
manter o nome dela e o de Johnny longe das páginas dos jornais. Há uma semana, ele
levara Mary Elizabeth de volta à casa do campo, longe da atenção pública. Depois, Ryan
retornara e começara uma investigação sobre a fundição de Devonshire em Gales numa
tentativa de recuperar os órgãos. Nesse período em que ele estivera em Gales, as
acusações de irregularidades na Ore Industries atraíra uma enxurrada de auditores do
governo. O preço das ações caíra muito. Rachell tinha certeza de que logo a D&B seria
investigada, também, como todas as outras holdings de Ryan. Decidindo que não era
hora de se deixar intimidar por uma fração da opinião pública quando estava sendo
atacada em todas as frentes, pessoal e profissional, ela se unira a Stewart e outros pro-
fissionais na D&B e conseguira pôr em ordem os assuntos da companhia.
     Tinha confiança de que a D&B sobreviveria ao escândalo,mas não completamente
ilesa. Seu único desejo era cravar uma estaca no coração de Devonshire.
    Mas as circunstâncias haviam mudado tudo.
     No dia anterior o médico a examinara. Agora tinha de pensar na vida que crescia
dentro dela.
    — Rachell, sua volta à vida de Ryan foi providencial — disse Johnny.
    — Como pode dizer tal coisa?
     — É óbvio, não? Ele não teria voltado à Irlanda. Eu não teria decidido ir para a
Escócia. A fusão teria prosseguido conforme o planejado.
   Tudo acontece por uma razão.
     Memaw lhe havia dito isso antes de Rachell voltar para Londres. Um arrepio a
percorreu.
    — Infelizmente, não vejo nada de positivo no que aconteceu com você. E Ryan está
se culpando por tudo.
    — Como você, Rachell.
    — Ele voltou para Londres esta manhã — Christopher contou de seu lugar na beirada
da cama.
    Batidas na porta precederam a entrada de uma criada e do médico, e Johnny gemeu
com exagero teatral quando todos começaram a deixar o quarto. Do lado de fora, na sala
de estar da suíte, as vozes das crianças atraíram Rachell para a janela. Seria maravilhoso
poder olhar para fora e ver Mary Elizabeth brincando.
    Christopher parou atrás dela.

117
Perigosa Atração

    — Tem certeza de que sabe o que está fazendo, Rachell?
    — Tenho. Preciso ir para casa — disse. Naquela manhã ela havia decidido retornar
aos verdes campos da Irlanda. Precisava pensar no bebê e em sua saúde. O médico a
informara da necessidade de repouso. Stewart tinha tudo sob controle na D&B e, pela
primeira vez na vida, ela pensava em alguém além de si mesma. — E nem pense em
tentar me convencer a desistir, porque preciso ir.
    — Não acha que devia falar com Ryan?
    — Chris — Lorde Ravenspur chamou — isso acaba de chegar.
    Christopher leu a carta e olhou para ela.
    — A visita de Ryan à fundição deve ter surtido resultados. Devonshire aceitou não
mover um processo contra Johnny.
    — O homem é muito arrogante! Depois de tudo que fez, seria loucura pensar em
processos e acusações formais.
    — Ryan não teria permitido que você se expusesse publicamente na corte, Rachell.
Além do mais, é a palavra de Johnny contra a dele. E, para finalizar, Devonshire afirmaria
que você o convidou para ir ao seu escritório.
    Era horrível se sentir derrotada nas mãos do canalha.
    — Não importa — Rachell opinou, encerrando a conversa de forma educada e firme.
— Não vai haver nenhum processo. Acabou.
    Rachell pegou a mensagem.
    — Em troca do quê?
    — O que faz aqui?
    O tom de voz de Ryan sugeria exaustão e aborrecimento. Rachell sabia que não devia
ter ido procurá-lo na empresa, não em meio à atribulação de inúmeras reuniões com
auditores, contadores, jornalistas e advogados, mas não tivera alternativa.
    — Vai me evitar para sempre, Ryan? E Johnny? Ou vai se isolar para alimentar essa
culpa que ameaçava acabar com sua vida?
    — Não quero discutir com você, Rachell. E estou muito ocupado nesse momento.
    Ela olhou para a boneca em suas mãos. Também não queria brigar. Não quando o
mundo desmoronava sobre a cabeça dele.
    — Eu trouxe Marsha. Ela é a boneca preferida de Mary
   Elizabeth.
    — A boneca é sua, Rachell. Como Elizabeth a encontrou?Onde?
    — Em um baú naquele cômodo que você mantinha trancado no sótão.
    — No sótão? Na casa do campo?
    — Por que mantém aquele cômodo trancado?
    — Será que podemos conversar sobre isso outra hora?
     — Não pode trancar sua filha no castelo e escondê-la da vida, da dor, dos
problemas... E não é responsável por meu sofrimento ou pelo que aconteceu com Johnny.
Também não pode vender suas ações na Ore só para satisfazer os caprichos de
Devonshire, nem pode se afastar de todos nós, que o amamos, por se sentir culpado por
coisas do passado.
    — Veio aqui para me provocar?
    — Não. Vim para saber a verdade sobre o que está acontecendo. Por que Devonshire

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Perigosa Atração

desistiu do processo? O que ele pediu em troca?
    — É complicado...
    — Então, pergunte a si mesmo o que é realmente importante para você.
    — Não sei mais...
    — Tente.
    — Quando eu era pequeno, costumava observar meu pai no escritório e pensava que
queria ser como ele. Meu pai podia criar com as mãos... mas as pessoas o tratavam como
se ele não valesse nada. Eu odiava a injustiça daquele tratamento. Mais tarde, decidi que
seria mais do que irlandês ou católico. Seria mais do que um cidadão de terceira classe.
Jurei que um dia seria uma daquelas pessoas. Lamento que meu pai não possa ver o que
fiz naquele aposento da casa de campo. Acho que ele nem se importaria, mas...
    — Ele era um inventor, Ryan. Vivia num mundo próprio.
     — Eu sei. E nunca notou uma única realização em minha vida. Tudo ia para
Christopher. A companhia, os elogios... o coração. Até hoje, sempre que olho para minha
família, sinto que preciso provar alguma coisa. Não quero mais isso...
     — Ryan, você não está sozinho. — Rachell abriu a pasta onde levava papéis e
documentos e retirou dela uma pequena caixa de bambu. — Quero que fique com isto. É
uma prova da minha afeição, uma maneira de provar que é especial para mim.
     Ele abriu a caixa e encontrou nela os instrumentos de desenho com que Rachell
começara a carreira. Não havia um monograma ou uma placa no estojo. Mulheres não
subiam no palco para receber um diploma, não eram reconhecidas profissionalmente. Ela
nunca pudera celebrar sua conquista oficialmente.
    — Comprei esse conjunto — ela contou. — Fiz escolhas na vida que faria novamente
sem nenhuma hesitação. Não mudaria nada. Você e eu não estávamos prontos para o
amor há dez anos. Éramos egoístas demais para isso. Hoje você tem uma filha, e essa
vida preciosa justifica suas escolhas.
    — Acha que o preço que teve de pagar para chegar até aqui foi alto demais, Rachell?
     — Eu não devia ter tido de pagar preço nenhum. Ninguém deveria ter de pagar por
seguir um ou outro caminho, se essas escolhas não causam prejuízo a ninguém. Mas não
me arrependo de nada. E acho que você também não devia perder tempo com remorso e
culpa.
    — Mas a D&B...
     — A D&B deve ser nosso reflexo, não uma máquina de produzir lucro. Não me
interessa quem controla a Ore ou quantos assentos você pode indicar por conta das
ações que possui.
     Não há nada aqui que eu realmente queira. Nada material. Vamos para a Irlanda,
Ryan. Venha comigo.
    — Irlanda...?
    — Vamos voltar para casa juntos.
     Ryan não pôde responder, porque auditores ávidos exigiam sua atenção na sala de
reuniões. Triste, Rachell o viu pegar toda a documentação necessária para comprovar
sua inocência e a solidez de seu conglomerado e afastar-se dela sem responder.
    Depois de um momento, Rachell deixou o edifício da Ore e seguiu a pé para a D&B.
Amanhã iria para casa.

119
Perigosa Atração

    Censurando-se pela disposição melancólica, ela se recusou a derramar as lágrimas
que queimavam seus olhos.. Dera a Ryan a abertura necessária para mudar sua vida.
Não havia mais nada que pudesse fazer.
    E não aceitaria o papel de mártir. Fosse qual fosse a decisão de Ryan, jamais daria a
ele o divórcio ou a anulação do casamento. Se ele queria liberdade e a oportunidade de
se casar com alguém da nobreza, devia ter pensado nisso antes de plantar em seu ventre
a semente da vida.
    Não contara sobre a gravidez!
    — Senhora?
    A voz de Stewart a assustou. Ele a seguira até ali? Por quê?
    — O que foi?
     — Lorde Bathwick enviou um mensageiro ao escritório há cerca de uma hora. Ele
manda dizer que só aceita falar com a senhora.
    Rachell pensou em jogar fora a mensagem, mas decidiu lê-la. Podia ser importante.
Ainda estava terminando de ler, quando a mão familiar surgiu sobre seu ombro e arrancou
o papel de seus dedos.
    — Ryan!
    — Stewart, precisamos de um coche.
    — Ryan, você não vai...
    — Vamos juntos, Rachell. E sem discussão, por favor.
     Gwyneth e Bathwick não pareciam surpresos com a presença de Ryan. Bathwick
anunciou sua intenção de retirar-se da cidade, uma vez que havia cortado definitivamente
todos os laços com o pai, e pediu a Gwyneth para revelar o que sabia.
    Ela não hesitou.
    — Há algum tempo encontrei um pequeno depósito na casa de meu tio. Trata-se de
um pequeno quarto sem janelas e com uma porta disfarçada escondida atrás das
estantes da biblioteca. Lembro-me de ter visto papéis e desenhos aos quais não dei
importância na época, mas depois de ler nos jornais tudo que aconteceu em Londres por
minha causa... Voltei a falar com ele na esperança de convencê-lo a interromper essa
ridícula vingança contra o senhor. Dessa vez, quando estive nesse compartimento,
encontrei pastas que pertencem ao senhor.
     — Ela me procurou — disse Bathwick. — Meu pai sabia que, há um ano, nossa
fundição em Gales fornecia ferro de qualidade inferior com maior propensão a causar
fendas e fissuras em colunas de sustentação. Ele sabia que a ponte na Escócia acabaria
caindo, e decidiu fazer uso dessa contingência para incriminar um antigo inimigo. Creio
que ele já tinha algum plano para recuperar a Ore Industries. Infelizmente para ele, a
aquisição da D&B nunca aconteceu.
    — Pessoas podiam ter morrido.
    — Teriam, se John Donally não descobrisse o problema.
    — Onde está seu pai agora? — quis saber Rachell.
     — Ele... voltou para casa esta manhã enquanto lady Gwyneth estava no
compartimento secreto.
    — Minha irmã o atingiu na cabeça com um vaso — Gwyneth contou. — Fechamos a
porta e a travamos com uma escrivaninha para impedi-lo de sair.

120
Perigosa Atração

    — Depois de uma longa discussão, meu pai aceitou negociar sua libertação —
Bathwick contou enquanto removia um papel do bolso. — A justiça ainda pode ser feita.
Seu acordo com Gwyneth me deu a idéia de um fundo de pensão.
    Rachell se aproximou de Ryan para ler a confissão.
    — Se meu pai algum dia voltar a pisar em solo inglês, esse documento estará em seu
poder. E ele nunca mais receberá um centavo de Gwyneth ou de mim. Pedi a presença
da srta... de sua esposa para que ela recebesse esse documento e o levasse até o
senhor. Não me interprete mal, sr. Donally. Não somos amigos e nunca seremos. Mas, se
um dia decidir enfrentá-lo, será em um tribunal justo e honesto.
    — Já leram os jornais de hoje? — Rachell perguntou furiosa olhando para os
cunhados. — Ryan desistiu da presidência da Ore!
    — Sabemos disso — Johnny respondeu. — Ele nos contou quando esteve aqui logo
cedo.
    — Ryan esteve aqui?
    — Sim, mas por pouco tempo — Christopher explicou.
    — Não se importam com o que ele está fazendo?
    — O que podemos fazer, Rachell? Ryan tomou uma decisão. Não fomos consultados.
    — E nem se manifestaram. Ninguém tentou convencê-lo a ficar, ou... Ah, talvez eu não
deva partir esta noite, afinal!
    — Não diga tolices — Brianna manifestou-se. — Memaw a espera. Você já avisou que
está voltando.
    Brianna estava certa. Já acertara todos os detalhes na D&B no dia anterior. Limpara
sua sala e preparara o retorno à Irlanda. Avisara a todos sobre sua partida. Era tarde
demais para voltar atrás.
    Horas mais tarde, quando se recolhera para mudar de roupa, Rachell se surpreendera
ao ver que vestido Elsie havia separado para a viagem. Todos os outros já estavam nos
baús, o que significava que teria mesmo de voltar à Irlanda em seu melhor vestido. Um
vestido que Ryan havia comprado para ela em sua viagem a Paris.
    Lorde Ravenspur também estava elegante demais para quem ia apenas acompanhá-
la até a estação, mas não devia questioná-lo. Como duque, não era incomum que ele
tivesse de comparecer a muitos eventos sociais. Talvez essa noite fosse um desses
casos. Mas por que ele insistia em colocar o arranjo de flores sobre sua cabeça? E por
que a esperava no corredor, não na sala, como todos os outros?
    — Posso saber o que significa tudo isso?
    Brianna surgiu de seus aposentos e aproximou-se sorrindo.
    — Eu explico, milorde.
    — Por favor, minha querida esposa.
    — Rachell, meu irmão queria lhe dar um casamento na igreja, mas espera que o
arranjo que vai encontrar lá embaixo seja suficiente.
    — Arranjo? Brianna, do que está falando?
    — Do seu casamento.
    — Meu...?
    — Permite-me, cunhada?
   Lorde Ravenspur oferecia o braço para conduzi-la. Tomada por uma súbita euforia,

121
Perigosa Atração

Rachell sorriu e aceitou seu braço.
    — Desculpem se pareço um pouco confusa, mas nunca me imaginei no papel de
noiva. Na última vez em que me casei com Ryan, o cenário era um pouco mais... violento.
David chegou a acertar um soco no queixo do noivo.
    — Dessa vez vai ser diferente.
    Quando eles desceram, toda a família estava reunida na sala. Ryan a esperava ao
fundo, ao lado de Christopher.
    — Podemos começar? — perguntou o sacerdote.
    David não estava presente. Rachell sentia falta dele. Mas o restante... Tudo era
perfeito. Tudo. Exceto...
    — Estou enjoada. Acho que vou... vomitar! Havia dito essas palavras em voz alta?
    Ryan a encontrou debruçada sobre o vaso sanitário do banheiro mais próximo da sala.
    — Devia correr para mim, não de mim.
    — Não tem graça. Estou muito envergonhada, Ryan.
    — E eu estou curioso. O que significa esse mal-estar?
    — Ainda não sabe? Significa que vou ter um bebê, é claro! É o que acontece quando
um homem e uma mulher fazem o que andamos fazendo com tanta... animação.
    — Pelo amor de Deus, lave o rosto e vamos voltar à sala. Temos um casamento para
realizar. Agora mais do que nunca!
    — Tem certeza?
    — Do quê?
    — Ryan!
    — Ah, quer saber se tenho certeza de que quero me casar com você? É claro que sim.
Não sei como consegui viver sem você a meu lado por tanto tempo. E agora que vai me
dar um filho...
    — Onde esteve todos esses dias?
    — Em casa. Levei Mary Elizabeth ao sótão. Pensei que seria mais difícil mexer no
passado, mas... Agora eu tenho você, Rachell. O passado já não me atormenta, porque
temos o futuro para viver. Você e eu, Mary Elizabeth e o bebê. Hoje tive de resolver
alguns problemas na empresa...
    — Como desistir da presidência da Ore, por exemplo?
    — Eu não desisti da presidência. Eu negociei parte das minhas ações com todas as
ações de Bathwick na D&B. Agora, Bathwick administra a Ore, embora ainda tenhamos
boa parte dos dividendos, e a D&B vai passar a se chamar Donally &Donally. Talvez
juntos possamos fazer a diferença na Irlanda, Rachell.
    — Mas...
    — Não há como prever o futuro. Não podemos saber se tudo vai dar certo de acordo
com nossos planos. Não podemos continuar questionando o que sabemos ser certo. Só
sei que irei com você aonde você for, Rachell. Porque amo você.
    — Também amo você. Sempre amei. E o amarei para sempre.
    E na sala da casa da família, com Mary Elizabeth a seu lado e a família à sua volta,
eles trocaram seus votos. Depois Ryan a beijou, selando a promessa de eterna felicidade.
    Qualquer que fosse o destino, estavam indo para casa.


122
Perigosa Atração


  FIM




123

Perigosa atração

  • 1.
    Perigosa Atração Inglaterra, 1873 U MA OBSESSÃO ... UM SEGREDO ... No passado, Ryan Donally devotara verdadeira adoração a Rachel Bailey. Mas a linda e graciosa menina o via com indiferença. A vida separou os caminhos de ambos, mas anos depois eles voltaram a se encontrar... e Rachel descobriu que o menino que ela um dia desprezara havia se transformado num homem irresistível, que lhe despertava um intenso desejo. Ryan, porém, recusava-se a perdoá-la, e Rachel, por sua vez, guardava um segredo que poderia destruir tudo o que ela lutara para construir. Mas um momento de irrefreável paixão fez desmoronar as frágeis barreiras que haviam se erguido entre eles, levando-os a se defrontar com um difícil impasse... Pois a sensualidade tão longamente reprimida poderia conduzi-los a um trágico desfecho... ou a um glorioso e eterno amor! 1
  • 2.
    Perigosa Atração Disponibilização: Marisa helena. Digitalização: Marina. Revisão: Karon Anne. Copyright © 2005 by Laura Renken Originalmente publicado em 2005 pela HarperCollins Publishers TÍTULO ORIGINAL: A Match Made in Scandal Tradução: Débora Guimarães © 2007 Editora Nova Cultural Ltda. Impressão e acabamento: RR Donnelley Moore 2
  • 3.
    Perigosa Atração Capítulo I Londres, 1873. Rachell Bailey subiu a escada e parou no balcão de onde se podia ver o salão de baile. Um leque fechado pendia de seu pulso. Na outra mão ela levava um cartão de danças em branco. Ela tentava não se incomodar por muitos ali a julgarem uma espécie de excentricidade intelectual, e essa era a única razão pela qual não a excluíam inteiramente de seu círculo social. Especialmente esta noite. Cinderela e Rachell tinham pouco ou nada em comum, exceto, talvez, a curiosidade com relação ao príncipe, ou, nesse caso específico, o talentoso detentor de um dos mais prestigiados prêmios de toda a Inglaterra. Um engenheiro civil não podia sonhar com honra maior do que o Golden Telford Award, uma homenagem que ela jamais receberia por ser mulher, mas que Ryan Donally certamente merecia. Do balcão do Palace Hotel, sobre o salão de baile, ela o viu alto e moreno, fácil de reconhecer entre os convidados. O baile transcorria animado, e vestidos coloridos e elegantes flutuavam pelo espaço do amplo aposento como um gigantesco arco-íris. Incrivelmente belo, Ryan era o par perfeito para a loira delicada que ele conduzia pelo braço, lady Gwyneth Abbott. Sua futura esposa, a julgar pelo rumor que corria na sociedade. Loira e altiva, ela era uma jóia cintilante envolta em seda vermelha. Os dois conversavam. Ele sorria com uma energia vital que hipnotizava Rachell. Desde que eram crianças, Ryan chamava atenção em todos os lugares. Dominava multidões com a mesma facilidade com que reunia seguidores, resultado de sua boa aparência e dos traços herdados da família irlandesa. Agora, depois de fazer fortuna na indústria do aço, Ryan comandava um forte conglomerado de empresas totalmente distinto dos negócios da família. Ele mesmo se apartara de suas raízes, tornando-se um homem poderoso que em nada lembrava o menino indomável que jogava aranhas em seus cabelos quando ela era também uma menina. O relacionamento sempre havia sido impossível. Ryan era sua maldição e seu castigo. E também era a razão que a fizera voltar à Inglaterra. Havia sido pura ingenuidade pensar que poderia voltar à vida dele esta noite, depois de tudo que havia feito com esse homem, e não sentir pânico ou ansiedade. Nunca mais haviam conversado depois da morte e do funeral de Kathleen quatro anos antes. Tinha de encontrar um jeito de falar com ele. Precisava falar com ele. — A mulher ao lado de meu irmão é sobrinha do conde de Devonshire — anunciou uma voz masculina a seu lado. Rachell assustou-se. 3
  • 4.
    Perigosa Atração John Donally se aproximara silencioso e a surpreendera olhando para Ryan com uma mistura de curiosidade e fascinação. — De quem está falando? — Rachell serviu-se de uma taça de champanhe da bandeja carregada por um garçom que por ali passava a caminho do salão. — Você sabe de quem estou falando. Ela é sobrinha do conde e é muito assediada pelos solteiros da sociedade. Mas só tem olhos para meu irmão. Linda, não? O irmão de Ryan, com quem sempre tivera um bom relacionamento, cravava a faca mais fundo em seu coração, intensificando a dor da antiga ferida. Rachell não queria saber se a mulher de cabelos dourados e traços delicados era a imagem da perfeição, ou se todos os homens disponíveis da sociedade local se batiam em duelo por um segundo de sua atenção. — Lady Gwyneth o convenceu a cortar o cabelo? — ela indagou com falso desinteresse, notando a ausência da marca registrada de Ryan, o rabo-de-cavalo. — Duvido que tenha sido realmente assim, mas você pode perguntar a ele. — Gostaria muito de conversar com Ryan. Não o encontrei em Londres nessa última semana. — Ele estava em Bristol. Voltaram a Londres ontem à noite. — Voltaram...? No plural? — Ryan, lady Gwyneth e a irmã dela. Já deve ter ouvido os rumores. Meu irmão acaba de adquirir uma propriedade aqui. — Acredita que ele quer mesmo se casar com essa jovem, Johnny? — O que sei sobre o coração de Ryan? Seus sentimentos compõem um enigma insondável! Desde a morte de Kathleen, ele tem guardado as emoções com tanto empenho que ninguém mais é capaz de adivinhá-las. Ryan não é mais o mesmo homem de antes. Não se deixe enganar... — Ele nunca fala sobre Kathleen? Não se lembra dela? Johnny cruzou os braços e se apoiou na balaustrada da galeria. — Por que veio da Irlanda para estar aqui esta noite? — Apesar de tudo que ele fez nesses últimos quatro anos, Ryan ainda é presidente da Donally & Bailey Engineering. Tem de admitir que o prêmio é merecido. Os trabalhos por ele redigidos são leitura obrigatória em Edimburgo e Gõttingen. — E, naturalmente, você está cheia de admiração por seus talentos. É só isso, Rachell? — Não devia estar dançando com sua esposa? O que ela vai pensar se nos vir juntos e sozinhos aqui, conversando em voz baixa e bebendo champanhe? — Vai pensar que nos conhecemos desde sempre, Rachell. — Ele a segurou pelo braço. — Ela mesma me disse para procurá-la, encontrá-la e arrastá-la ao salão de baile, se fosse necessário. Nenhum de nós julga oportuno que você fique aqui olhando o mundo de cima. É hora de participar. Integrar-se. Rachell engoliu um gemido aflito e se deixou levar pela larga e imponente escada de mármore para o arco-íris de saias e sedas que coloriam o animado salão. — Não precisa me levar pela mão, Johnny. — Preciso, se quero dançar. — Ele a segurou pela cintura e encarou-a. — Não esqueceu a valsa, não é? — Johnny a levou para a pista de dança e começou a girar com 4
  • 5.
    Perigosa Atração movimentos precisos,elegantes e experientes. Nada a perturbava mais do que o medo do fracasso. — Acho que está desafiando o perigo, meu caro. Posso arruinar seus dois pés antes de o relógio marcar meia-noite. — Eu não desperdiçaria a oportunidade de ter uma bela mulher em meus braços. E com a permissão de minha esposa? Que homem tem tanta sorte? Não, minha querida. Nem o medo de ter meus dedos esmagados me faria abrir mão de tão deliciosa e única oportunidade. Rachell acompanhava os passos fáceis da valsa. — Está procurando encrenca, Johnny Donally. Mesmo assim, sou grata por sua delicadeza. Você sempre foi um perfeito cavalheiro. Estava grata porque, mesmo depois de todos os erros que cometera na vida, alguém na família Donally ainda podia lhe oferecer amizade e apoio. Na verdade, todos da família a tratavam com cortesia e respeito. Com simpatia, até... Todos, exceto Ryan. Sua garganta doía pelo esforço de conter as lágrimas, mas os olhos estavam secos. A vida a fizera entender a inutilidade do pranto e os perigos das emoções que podiam levar ao caos o mundo organizado e preciso que criara para si mesma por meio de sua profissão. Rachell era uma das duas únicas mulheres engenheiras no mundo. Mas as rachaduras começaram a surgir depois da morte de Kathleen, quatro anos atrás, e se alargaram em seu vigésimo nono aniversário no mês anterior. Não sabia o que fazer com o lado feminino e pouco prático que redespertara dentro dela repentinamente. Precisava desesperadamente retificar sua história de erros e mal entendidos com Ryan. No passado, ficara assistindo enquanto ele se casava com sua melhor amiga. Sabia que, se partisse essa noite sem falar com ele sobre as coisas de seu coração, nunca mais teria outra chance de manifestá-las. Em poucos meses, ele estaria fora de sua vida para sempre. — Você bebe mesmo essa coisa, Donally? Com um Havana em uma das mãos, Ryan estivera parado na porta da sala de jogos na última meia hora, observando o baile lá embaixo. Lorde Devonshire entrou na sala de bilhar pelo terraço, e Ryan lamentou a interrupção do momento de solidão. Mesmo assim, ele levantou o cálice que segurava com a outra mão. — Comparado ao uísque irlandês, toda bebida é suave, milorde. — Ele sorveu o líquido âmbar de uma só vez e deixou o copo sobre a mesa de jogo. A sala de bilhar se esvaziara quando a orquestra voltara a tocar no salão. Como todos os homens presentes, o conde usava casaca preta formal com gravata e luvas. Esse não era o tipo de evento que senhores como Devonshire freqüentavam. Os parceiros profissionais de Ryan não eram da nobreza, mas essa noite o conde e sua família ali estavam como convidados. — Não dança? — Devonshire estava parado na porta, olhando para o salão. — O cartão de dança de sua sobrinha está totalmente preenchido. Sabe jogar bilhar, milorde? Devonshire continuava olhando para os dançarinos com interesse. 5
  • 6.
    Perigosa Atração — Não — respondeu distraído. Ryan preparou um taco. O charuto repousava sobre o cinzeiro. Podia ouvir as notas da valsa. Risadas. Os próprios pensamentos desorganizados. Sabia quem havia atraído a atenção de Devonshire. Ryan a observava desde o início da noite. Mesmo enquanto dançava com Gwyneth, notara Rachell parada no balcão da galeria sobre o salão de baile. Retornara de Bristol na noite anterior e descobrira que ela estava em Londres havia mais de uma semana. — A presença da srta. Bailey esta noite é curiosa. Ela não é o tipo de mulher que eu esperava encontrar em uma profissão tão masculina. Engenheira? É mesmo surpreendente e... intrigante, devo admitir. Ryan manteve o olhar fixo na mesa de jogo. — Por que, exatamente? O que tanto o intriga e surpreende nisso? — Uma mulher com a aparência da srta. Bailey devia tirar melhor proveito dos refinados e encantadores talentos de seu sexo. Devonshire olhou para Ryan, e o sorriso se apagou de seus lábios. Havia algo frio e ameaçador no olhar do cavalheiro, como se ele pudesse atingi-lo fisicamente com a força do pensamento. Ryan voltou ao jogo e acertou uma bola na caçapa. — Há algum motivo especial para essa conversa, milorde? Ou seus comentários são realmente casuais, como quer fazer parecer? — Deve saber que minha sobrinha deseja se casar no outono. Não sei o que conversam quando estão juntos e sozinhos, mas compreendo que ela planeja um futuro a seu lado. Como sua esposa. — E o tamanho de minha conta bancária a torna mais tolerante com relação aos meus defeitos inerentes. Mesmo que essas faltas sejam conhecidas e condenadas pela sociedade como um todo e pela nobreza em particular. Ryan notou o rubor de Devonshire com interesse e serenidade. O homem tratava com desprezo aqueles que julgava inferiores, e nessa noite essa descrição incluía todos os presentes, pessoas que se dedicavam com seriedade e afinco ao exercício de uma profissão. Gente que não desfrutava dos privilégios da nobreza. No entanto, ambos conheciam seus respectivos lugares no relacionamento comercial que os aproximava. Devonshire precisava do dinheiro de Ryan. O relacionamento pessoal ainda teria de ser compreendido, estudado e definido. — Ah, aí está você, tio! — A sobrinha do conde surgiu na porta da sala de jogos. Seu rosto corado denotava grande agitação. — Procurei-o por todos os lugares. A orquestra toca uma nova valsa. — Beatrice, onde estão seus modos? Os olhos azuis da jovem buscaram os de Ryan. — Permita-me roubar a companhia de meu tio, sr. Donally. Gwyneth pôs o nome dele no meu cartão de dança a fim de preenchê-lo. Esperava que talvez... — Onde está sua irmã? — Dançando, meu tio, é claro. Ela sempre tem o cartão cheio. — Porque sua irmã não corre pelo salão como uma colegial tola. — Eu... sinto muito, tio. 6
  • 7.
    Perigosa Atração — Vá ajeitar o cabelo! Está completamente desalinhada, Beatrice. — Sim, tio. Desculpe-me. Ryan pegou a casaca das costas de uma cadeira e começou a vesti-la. — Temos um acordo, Donally? — Devonshire falou por cima de um ombro enquanto se dirigia à porta. — Seu servo, como sempre, milorde. — Mas a ironia na voz de Ryan sugeria uma realidade bem distinta. Sozinho, Ryan voltou a observar a movimentação no salão. Havia em sua boca um gosto amargo. Passara toda a vida enfrentando homens como Devonshire, gente que pensava possuir o mundo e tudo nele contido por conta da posição de privilégio conferida por seu nascimento. Nesse caminho árduo, contraíra inimizades. E sabia que Devonshire era um desses oponentes. Um dos mais ferrenhos, talvez. De repente, ele notou uma figura feminina na periferia do grupo de Johnny, e todos os outros pensamentos perderam a importância. Rachell Bailey havia sido sua obsessão de adolescente. Sua maldição. A única mulher no mundo capaz de vencê-lo no críquete,superá-lo em matemática, e ainda, provavelmente, alguém que sabia mais sobre ele do que qualquer outra criatura viva. Ela era linda. Devonshire não conhecia a mulher que tentara ofender e caluniar com aquela insinuação mesquinha e baixa sobre eventuais segundas intenções relacionadas a sua presença no baile dessa noite. Sabia que Rachell estava ali apenas para ver a Donally & Bailey receber o honroso prêmio. Ela vivia e respirava D&B. Trabalhava no escritório da empresa em Dublin há quatro anos e dedicava-se inteiramente à carreira com competência e seriedade. Ryan sempre tivera um jeito especial com as mulheres. As mais astutas o evitavam, o que comprovava que Rachell era mais esperta do que a maioria. No entanto, mesmo tendo passado boa parte da juventude perseguindo seu irmão mais velho, ela tinha o poder de atrair seu olhar e prejudicar seu julgamento. Então, em algum momento entre a adolescência e a idade adulta, ele a beijara e se formara com louvor em Edimburgo. E conhecera Kathleen. O lustre de cristal iluminava os dançarinos. Rachell olhou em volta, buscando uma área mais tranqüila para onde pudesse escapar. Lady Gwyneth dançava, mas Ryan não estava em parte alguma. Ela se serviu de mais uma taça de champanhe, pensando em quão pouco tinha em comum com aquela gente e como detestava ambientes cheios e quentes. Afastada da pista, ela parou para observar um quadro da rainha Vitória e pensou como um povo governado por uma mulher podia ser tão arcaico com relação à posição de outras mulheres em suas profissões. — Majestade... — Ela levou a taça aos lábios. Dedos enluvados passaram por cima de seu ombro e removeram a taça da mão dela antes que pudesse sorver o líquido claro e borbulhante. — Alguém já disse que você bebe demais? Devia conter seus impulsos, senhorita! 7
  • 8.
    Perigosa Atração A voz de Ryan parecia soar distante, como se viesse de um sonho. — Praticamente toda a sua família — Rachell respondeu. — As pessoas vivem dizendo que bebo demais, que devia ter outro comportamento, outros interesses... Enfim, devo ser realmente inadequada. Ele deixou a taça sobre um consolo próximo. — Ainda sabe dançar? Com o coração aos saltos, ela se deixou levar para a pista. — Francamente, Ryan, às vezes, sua arrogância ultrapassa todos os limites. — Eu mudei. Sou um homem diferente. — Sim, eu notei. Agora é um adulto. Mas continua arrogante. Ele a encarou. Lá estava, a mesma velha fricção que sempre existira entre eles. Havia esquecido o calor que essa centelha podia gerar. — O que faz fora da Irlanda? — Estou expandido o projeto Rathdrum. — Falar sobre o trabalho era mais seguro, por isso ela respondeu sem hesitar. — Escrevi para você há alguns meses. Duas vezes. — Estive fora do país. — Johnny me contou que nessa última semana você esteve em Bristol. — E você está em Londres há mais de uma semana. — Exatamente. Nesse mesmo hotel. — Ela se calou. A declaração soava como um convite ousado. Então, por que era tão difícil dizer aquilo que pretendia revelar? — Escute, podemos conversar durante um almoço. No restaurante do hotel, é claro. — Não sei, Rachell. Veio até aqui para me ver, agora me convida para almoçar... Posso ter a impressão de que está tentando me seduzir. Seria perigoso alimentar essa impressão, não acha? — Não seja bobo. Minha avó poderia seduzi-lo. É fácil demais. E você tem essa mesma impressão com todas as mulheres, porque acha que todas estão suspirando por você. Ele sorriu. — Falando em sua avó, como está Memaw? — Como sempre. Lendo sobre sua vida nos tablóides que divulgam os grandes escândalos da sociedade britânica. Ryan não parecia preocupado com a idéia de ser assunto constante tanto nas colunas financeiras quanto nas páginas sociais. — Posso imaginar o que Memaw anda dizendo a meu respeito — ele debochou. — Mas e você, Rachell? Envolvida com alguém? Está apaixonada? O que faz além de trabalhar para a D&B? — Muitas coisas. Leciono em um colégio para moças na periferia de Dublin. E pratico esgrima. — De fato? Há quanto tempo? — Há três anos. David é meu instrutor. — Ah... Como vai meu ilustre irmão David? Ainda se dedica ao sacerdócio? — Ah, francamente, Ryan! Você não tem tantos irmãos que falem com você regularmente ou se preocupem em manter esse laço familiar. Precisa debochar de David? 8
  • 9.
    Perigosa Atração — Sempre emocional... Passional. Algumas coisas nunca mudam, Rachell. Pelo menos não preciso temer a possibilidade de uma mudança indesejada. Sei que a Irlanda jamais conseguirá fazer de você uma dessas damas fúteis e vaidosas. Ele parou. Discreto, conseguira conduzi-la para além das portas de vidro do salão, e agora estavam sozinhos sob uma árvore frondosa do jardim. Ainda podiam ouvir a música do baile, porém as notas soavam distantes. — Por que as cartas? — Ryan indagou sério, sem rodeios. — Por que o interesse renovado em minha vida? Pensei que já houvéssemos dito tudo um ao outro. — Por que não foi à Irlanda? Aquele trem percorre o caminho nos dois sentidos. Sei que tem todo o direito de odiar-me, mas... — Olhe para mim. Ela atendeu ao comando. Ryan removeu do peito uma fita de seda com uma medalha de bronze e a pôs em seu pescoço. — Leve-a com você — disse. — Você também trabalhou para merecê-la. A condecoração também é sua. Rachell balançou a cabeça tentando esconder a forte emoção provocada pelo gesto inesperado. — Por favor, pelo menos uma vez, aceite o que quero lhe dar — insistiu Ryan. — Maldição... — Sentia o coração tão agitado, que não podia dizer mais nada. Um nó na garganta a impedia de pronunciar as palavras que se atropelavam em sua mente. — Esses seus sentimentos... estão abertos à discussão? — Não. — A palavra soou rouca, sufocada. Ryan era lindo. Sedutor. Irresistível. Amara Kathleen, a irmã que ela não tivera realmente, mas que encontrara nos caminhos da vida. Ele se casara com sua melhor amiga, e Rachell detestava sentir que traía essa lealdade. Mas havia decidido pôr fim à mentira que ocupara papel central em sua vida, e manteria essa decisão a qualquer preço. — Escute, certa vez disse coisas horríveis de que me arrependi mais tarde. Coisas de que ainda me arrependo. Coisas que jamais deveria ter dito, especialmente no funeral de Kathleen. — Não, Rachell. — Ele se virou e deu alguns passos na direção da varanda, como se pretendesse deixá-la ali. — Ryan, não pode simplesmente dar as costas para esse assunto como se ele não existisse. O que tenho para dizer é importante! — Se quer fazer uma confissão de erros passados, eu a perdôo por tudo. Pronto. Assunto encerrado. Não precisa dizer mais nada. — Não quer nem saber quais são os pecados? Não quer ouvir o que tenho para dizer? — Que pecados você poderia ter? Vai à missa duas vezes por semana. Nunca matou ninguém. Se não considerarmos seu gosto pela bebida, pelo cigarro, por palavrões e chocolate, você é praticamente uma candidata à santidade! — Santidade? Eu o acusei de matar minha melhor amiga! — E ainda lembrava as coisas horríveis que dissera naquele dia. Kathleen morrera no parto, e Rachell culpara Ryan por essa terrível e trágica fatalidade. Em sua dor, fora cruel e egoísta. Pior, fizera com a própria vida coisas terríveis que cobriram a família de vergonha. Não 9
  • 10.
    Perigosa Atração era quemRyan acreditava que fosse. — Há algumas semanas, completei vinte e nove anos. — Rachell começou com tom firme. — Sabe disso, não é? Você perguntou por que vim a Londres. Pois bem, sabe que passei boa parte da vida trabalhando pela posição e pelo status que, francamente, você e Johnny têm. Que meu pai teve. De certa forma, queria que soubesse que sou digna do posto que ocupo na D&B em Dublin. Deve ter notado que meu compromisso com a carreira é inabalável, tanto que, praticamente, não me dedico a outros interesses na vida. Fiz escolhas. Só Deus sabe os erros que cometi. Quero ver Mary Elizabeth. E você... Quero consertar erros do nosso passado. Você não merecia ser atacado naquele momento de tanta dor. Eu errei. Depois desapareci e... nunca mais tivemos uma chance de conversar. Sobre nada. — O que há para falar? — Por que tem sempre de dificultar as coisas? Estou me esforçando para falar... Para dizer coisas importantes que... — Importantes? De repente você reaparece querendo limpar sua consciência com relação a um evento ocorrido há quase quatro anos, e eu tenho de ouvi-la? Devo estar aqui, disponível e pronto para acatar sua decisão? Para amenizar sua culpa? Aliviar seu remorso? Rachell, esses sentimentos são inúteis e infundados. Tudo que disse naquele dia é verdade. Kathleen morreu por minha causa, e essa minha culpa se manifesta de várias formas. Portanto, não me faça lembrar o passado. Não, se quer mesmo me ajudar. — Eu... sinto muito. — Não sabe quem sou. Nunca soube. Vivia num mundo próprio cercada de sonhos grandiosos, e sempre foi muito boa em conseguir tudo aquilo que queria. — Por favor, pare... — Você é madrinha da minha filha. Nunca a impedi de vê-la. Mas não quero ouvir suas confissões só porque, aos vinte e nove anos, decidiu voltar à Inglaterra e se reconciliar com o passado para poder dormir em paz. — Você é impossível! Não sabe nem por que estou tentando falar com você! Por que vim procurá-lo agora, após tantos anos... — Não há nenhuma novidade nisso, há? — Voltei para ver você, Ryan. Tentei escrever para falar sobre os sentimentos mais caros de meu coração, mas... — Rachell, o que está fazendo? Agora sabia que conseguira atingi-lo. E era hora de seguir o caminho escolhido por seu coração. Era hora de ter a coragem de fazer o que devia ter feito no passado, muito antes de olhar para o espelho e descobrir que estava jogando a própria vida fora por orgulho e rancor. Ela o beijou. Ryan correspondeu ao beijo, mas só por um instante. Depois se afastou. — Não! — protestou angustiado. — Não posso fazer isso. Jamais haverá nada entre nós, Rachell! Vá embora. Furiosa com a rejeição, incapaz de considerar que a atitude denotava respeito e estima, ela o atacou: — Essa mulher não o ama, Ryan! 10
  • 11.
    Perigosa Atração — Por que não? Acha que não sou digno do amor de uma mulher? É essa sua opinião a meu respeito, Rachell? Ela ainda pensava em uma resposta plausível, quando Ryan voltou ao salão deixando- a sozinha no jardim. Desolada, Rachell não se deu conta da presença de um homem alto e loiro que se aproximava dela com passos lentos. — Prefiro Covent Garden para meu entretenimento, mas sou obrigado a confessar que me diverti muito esta noite — ele disse, atraindo seu olhar apavorado. Então, o fracasso tivera uma testemunha! — Presumo que seja a famosa associada comercial do homem que pretende desposar minha prima. A valorosa profissional que tanto tem a acrescentar ao já retumbante sucesso da D&B. Exatamente a pessoa que eu procurava. Não pude deixar de ouvir o que diziam. — Não teria sido difícil, se houvesse simplesmente se retirado. Sendo assim, suponho que nos tenha ouvido deliberadamente, senhor... senhor... — Permita apresentar-me. Sou lorde Gideon Montague, visconde de Bathwick, filho de lorde Devonshire, que está aqui como convidado de Ryan Donally. Minha prima, como bem sabe, está ocupada com os próprios planos. Então, cá estou eu, sozinho entre as almas perdidas da noite. Temos algo em comum, srta. Bailey. — Duvido que tal coisa seja possível. Humilhada, ela viu Johnny surgir na varanda e caminhar em sua direção. — Bathwick... milorde. — Johnny Donally. — O visconde cumprimentou-o sem esconder o desprazer causado pela interrupção. — Que atitude mais antiquada. O que faz aqui? Veio realizar um resgate? — Você está bem? — Johnny perguntou a Rachell com ar protetor, sem dar atenção à provocação do nobre de aparência pálida e frágil. Rachell não precisava de ninguém para protegê-la. Só queria ir embora. — Por favor, Johnny, meu rapaz — Bathwick prosseguiu irônico. — Ainda somos cavalheiros aqui, apesar da atitude arrogante de seu irmão. Algumas coisas na Inglaterra não pertencem à sua família. Queria apenas trocar algumas palavras com essa encantadora integrante do corpo de diretores da D&B. — Já trocou, pelo que pude notar. Agora vá. — Bathwick encarou-a com um sorriso gelado. — Pois bem, não pretendo criar uma cena. Quando quiser conversar, srta. Bailey... Rachell segurou o braço de Johnny para impedir um confronto aberto, mas uma coisa era evidente ali: Ryan fizera alguma coisa para despertar o ódio desse cavalheiro. E agora teria de enfrentar as conseqüências. — Qual é a relação entre lorde Bathwick e Ryan? — Rachell perguntou intrigada a Johnny na manhã seguinte, quando o encontrou no escritório da D&B. — Sugiro que fique longe dele. — Johnny respondeu sério e com tom firme. — Lorde Bathwick não é amigo de Ryan. — Andei lendo as páginas financeiras dos jornais e notei que muitas outras pessoas não são exatamente amigas de seu irmão. — Ryan enfrentou uma terrível batalha pública quando adquiriu a Ore Industries há um 11
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    Perigosa Atração ano. Devonshiree o filho, Bathwick, não são mais os proprietários da companhia. No entanto, Devonshire consentira o noivado da sobrinha com Ryan. O compromisso havia sido anunciado nos jornais daquela manhã, e a publicação dava conta de que o casamento não tardaria a ser realizado. — Bem, a D&B é uma empresa pequena, comparada ao porte da Ore. Imagino que Ryan tenha perdido o interesse por ela... — Não conte com isso, Rachell. Ele ainda é o presidente aqui. E ainda acompanha de perto tudo que acontece na D&B. Tomando decisões. — O que significa que continuarei sendo uma figura decorativa no escritório. Quero fazer projetos, Johnny, supervisionar as obras... Quero exercer a profissão que escolhi. — Se está falando sobre a ponte destruída pela inundação em Rathdrum há dois anos, esqueça. O projeto já está pronto. — Não está. Sei que não está. Centenas de pessoas dependem de mim para alimentar suas famílias, Johnny. Só preciso da sua autorização e do seu apoio para levar o orçamento ao departamento financeiro e pedir a aprovação do projeto. — Não tenho autoridade para tanto. Ryan é o único que pode autorizá-la a levar adiante esse seu projeto. Estava farta do anonimato profissional. Ela e Ryan tinham em comum o desejo de ver a D&B prosperar, sem mencionar um passado e muitas outras coisas que ele se negava a reconhecer. Viajara para Londres com um propósito: conquistar o amor de sua vida. Jamais havia imaginado que Ryan não sentisse por ela o mesmo amor que tinha por ele. Dançara em seus braços como uma Cinderela ingênua e apaixonada, mas o sapato na mão dele esta manhã não cabia em seu pé. Restavam apenas os sonhos profissionais. — Pois bem, então — disse, pegando um projeto sobre sua mesa. — Não vai me contar o que houve ontem à noite? — Não sei do que está falando, Johnny. — Meu irmão me interrompeu quando eu dançava com minha esposa. Ele me pediu para ir procurá-la e levá-la de volta ao salão. Disse que, de lá, você se recolheria aos seus aposentos naquele mesmo hotel. Fiquei preocupado. — Não foi nada. Esqueça, está bem? — Se não quer falar... — Ele vestiu a casaca. — Aonde vai? — Não passo o dia todo no escritório, Rachell. Especialmente os sábados. Moira e as crianças vão comigo ao jogo de críquete hoje à tarde. Já esteve com Mary Elizabeth? Queria muito ver sua afilhada, filha de Kathleen, mas a idéia de reencontrar Ryan depois da noite anterior a enchia de pavor. — Não... Ainda não. — Por que não vai vê-la? Talvez Ryan nem esteja em casa. E mesmo que esteja, você precisa falar com ele sobre o projeto. — Ele... vai querer que eu volte para Dublin. — Provavelmente. O casamento vai ser realizado em outubro na propriedade de Devonshire. Sinto muito, Rachell. Devia ter vindo antes. Talvez então ainda houvesse uma chance. 12
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    Perigosa Atração Ela não disse nada. Se tentasse falar, acabaria chorando, e odiava demonstrar fraqueza. E seria forte, porque, com ou sem Ryan, era filha de um dos fundadores daquela companhia e integrava sua diretoria. Ryan teria de aceitá-la e respeitar sua posição, porque não pretendia abandoná-la. — Está inquieto, sr. Donally. — De fato, Jacques — Ryan concordou com o competente mestre de esgrima. — Vamos tentar novamente. Ryan exercitava-se há uma hora no salão de sua propriedade rural, mas ainda estava agitado, tenso. E a concentração sofria as conseqüências da falta de sono. Jacques o acertou no peito pela terceira vez com a incômoda ponta de borracha usada para proteger o florete. — Se usássemos armas reais, sr. Donally, já estaria morto. Perfurei seu coração. — Não, Jacques — ele protestou removendo a máscara. — Meu coração foi destruído há muito tempo. — Ryan tirou o colete protetor de couro e enxugou o suor do rosto cora uma toalha branca. — Li o anúncio de seu noivado com lady Gwyneth, senhor. Meus parabéns. — Obrigado, Jacques. — Pai! A voz da menina soou além das portas do salão. A babá mal podia conter a dinâmica criança de três anos. — Até a semana que vem, Jacques. Por hoje chega. Não consigo mesmo me concentrar. Deve ser o cansaço. — Certamente. Até logo, senhor. Ryan foi ao encontro da criança. Boswell, seu fiel valete, a seguia de perto. — Pensei que fosse dormir a manhã toda! — ele disse, pegando-a nos braços para beijá-la. — A menina não devia dormir até tão tarde — opinou a srta. Peabody, a babá. — Ela já comeu? — Não, senhor. Boswell informou que desejava fazer seu desjejum com sua filha, então... — Quero ir pescar e montar meu pônei, pai. Ryan olhou para a babá. — Ela tossiu novamente essa noite? — Não, senhor. Não creio que ela deveria ter ficado fora de casa por tanto tempo ontem à tarde, senhor, mas Boswell nunca concorda comigo. — Esteve doente ontem, minha querida? — Doeu... — O que doeu? Mary Elizabeth mostrou o dedo de onde um espinho havia sido retirado na semana anterior. — Acho melhor jogarmos fora esse dedo feio e dolorido. O que acha? Ela riu. — Não! — Essa era sua palavra preferida nos últimos tempos. — Vamos almoçar fora — Ryan anunciou, certo de que Boswell, seu valete há mais de 13
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    Perigosa Atração dez anos,o encheria com uma lista de queixas sobre a srta. Peabody assim que estivessem longe dela. — Pegue a vara de pescar de Elizabeth. Ah, e leve-a com você, Boswell. Quero ter uma palavrinha com a srta. Peabody. — Sim, sr. Donally. Vou providenciar para que Elizabeth vista roupas mais adequadas ao passeio. Contrariada, a srta. Peabody permaneceu no salão enquanto o valete se retirava com a menina. Ryan olhou para a babá que havia contratado há dois meses por ter recebido excelentes referências. — Fui informado de que ontem à noite Mary Elizabeth acordou chorando. Quando cheguei em casa, o quarto dela estava escuro. — Ela tem quase quatro anos, senhor... — Não me interessa. Ela pode ter quarenta. Exijo que haja sempre uma luz no quarto dela. — Ela raramente acorda, senhor. E dar atenção a esses temores tolos da infância só vai ensiná-la a chorar no meio da noite. Se a deixar sozinha, logo ela saberá que... — Pago seu salário para ser babá de Mary Elizabeth. Quando eu quiser educá-la, contratarei tutores ou cuidarei pessoalmente da questão. Insisto na necessidade da luz no quarto dela. Já havíamos falado sobre isso antes. O mordomo entrou com a correspondência e interrompeu a conversa. — Sr. Donally, um portador da D&B acaba de deixar isto em seu nome. Ela disse que... — Ela? — Ryan pegou o pacote e examinou-o. — Sim, senhor. A correspondência foi trazida por uma mulher. Ela o espera no salão. Quem poderia ser, e por que Johnny ou Stewart enviavam alguém da companhia à sua casa num sábado? Além do mais, não havia mulheres mensageiras na D&B. E Mary Elizabeth o esperava para ir pescar. — Por favor, pague a portadora e dispense-a. — Não creio que ela aceite partir sem vê-lo, senhor. Ela não está vestida como uma mensageira e... é muito autoritária. Imponente, mesmo. — Ah, sim... Bem, já vou recebê-la, então. — E quanto a mim, senhor? Ryan olhou para a babá. — Srta. Peabody, sei que é uma profissional de renome e competência, mas, se quiser permanecer nesta casa, nunca mais questione minha autoridade. Fui claro? Ela assentiu e se calou. Ryan não estava vestido para receber visitantes, mas a presença de Rachell em sua casa, e sem uma companhia conveniente, tornava seu vestuário um detalhe sem nenhuma importância. — Rachell... Que surpresa! — Vim me desculpar — ela começou sem rodeios. — Não sei por que fiz aquilo, mas espero que seja um perfeito cavalheiro e esqueça que o beijei. Prometo que não vai mais acontecer. Nunca. A menos que eu beba, é claro. — É claro... Pensei que já estivesse a caminho da Irlanda. Como chegou aqui? 14
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    Perigosa Atração — Saí de Londres de trem. Na estação, contratei um rapaz da estrebaria para trazer- me até aqui. Vim por duas razões. — Suspeito de que pelo menos uma delas esteja relacionada ao trabalho. Estou certo? — Sim, certamente. — E a outra razão? — Queria ver Mary Elizabeth. — Quer ver minha filha? — Por que a surpresa? Ela é minha afilhada. — Rachell abriu uma pasta que carregava e retirou dela uma foto da menina segurando um coelho. O retrato havia sido feito dois anos antes em uma reunião de família. — Como conseguiu isso? — Ryan espantou-se. — Brianna mandou para mim. E tenho outras. — Estou pronta, papai! Mary Elizabeth entrou na sala correndo, e Ryan sorriu. — Mary Elizabeth decidiu ir pescar o jantar desta noite. Não é verdade, minha querida? — Gosto de pescar — ela concordou animada. — E de montar meu pônei, também. — Sua afilhada... — Ryan apresentou olhando para Rachell. — Diga olá, Mary Elizabeth. A menina olhou para Rachell e pôs o polegar na boca. Era evidente que não estava habituada a interagir com desconhecidos. Rachell também estava nervosa. Alguns elementos não faziam parte de sua vida, e crianças estavam no topo dessa lista. E para tornar a situação ainda mais difícil, essa menina era filha de Ryan. — Ela tem cílios como os seus — Rachell apontou sem pensar nas palavras. — Meus cílios? O que têm eles? — Bem, eu sempre disse que você devia ter nascido mulher... — Ouviu isso, princesa? Mary Elizabeth riu e se encolheu no colo do pai. — Ela é... linda, Ryan. — Por que não vem conosco? Se conseguir fisgar um peixe, talvez ela se impressione o bastante para falar com você. — Deus! Não pesco há anos! Na verdade, não faço nada tão divertido há muito tempo! — O que acha, princesa? Devemos salvá-la dessa vida aborrecida e sem nenhuma diversão? A menina assentiu com evidente entusiasmo. Rachell suspirou. Precisava encontrar alguém que a salvasse deles! Capítulo II Rachell e Elizabeth pescavam no rio que cortava a propriedade. Rachell havia tirado os sapatos, as meias e os saiotes e prendera a saia na cintura, exibindo as pernas dos 15
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    Perigosa Atração joelhos parabaixo. Em pé na parte mais rasa do rio, ela tentava fisgar alguma coisa enquanto conversava com a menina. Ryan as observava da margem, sentado sob uma árvore. Gostava daquela área da propriedade. Eram duzentos acres de terras bem cuidadas em torno da casa, mais dez mil acres ocupados por pastos que alimentavam o rebanho de cabras. Possuía três casas na Inglaterra, incluindo aquela que comprara recentemente em Bristol, mas era ali que encontrava paz e conforto. Sem mencionar os contratos e os negócios. Há oito anos assumira o comando da D&B como presidente, mas a grande riqueza que amealhara vinha de seus investimentos na indústria de ferro e minério. Sempre conseguira realizar o que todos consideravam impossível, inclusive a hostil aquisição da Ore Industries há um ano, o mais divulgado de seus movimentos nos últimos tempos. Poucas pessoas sabiam que lorde Devonshire era um de seus alvos. Devonshire, que ocupava a presidência da empresa e agia como um rei sanguinário, acreditava-se intocável. Para se livrar da falência, Devonshire negociara o noivado da sobrinha, de quem era guardião legal, com o irlandês que arrancara a empresa de suas mãos. Sim, o noivado com lady Gwyneth Abbott traria mais benefícios do que simplesmente uma nova esposa. Ryan não se casava por amor. Havia enterrado esse sentimento com a esposa há quatro anos,ou pensava ter enterrado, até a declaração de Rachell no baile da noite anterior. Mas não a queria ali. Exatamente por isso, não a queria ali. Não queria voltar ao passado e sentir-se vulnerável outra vez. Era tarde demais para mudar, mesmo que quisesse. E não queria. Queria que Rachell voltasse para a Irlanda. Queria ter paz outra vez. — Sr. Donally. Um de seus criados o chamava. Ryan viu o criado se aproximar com uma mensagem e, depois de recebê-la, olhou na direção da casa. Seu advogado estava em pé no terraço. — Elizabeth, eu volto num instante, está bem? Fique aqui com a srta. Bailey — disse antes de afastar-se com passos apressados. — Está bem, papai — a menina respondeu sem se virar. Pela primeira vez desde que podia se lembrar, Ryan experimentava um grande alívio por trocar o prazer pelos negócios. — Você é minha fada-madrinha? Rachell e Elizabeth estavam sentadas sobre um cobertor, comendo a galinha frita que uma das criadas pusera no cesto com o almoço. — Sou sua madrinha. A menina tocou sua trança, e o gesto simples quase a fez chorar. No terraço da casa, Ryan ainda conversava com o desconhecido. A distância entre sua vida próspera e estável e a dela, também próspera, mas solitária e cheia de insegurança, era tão grande, que sentia vergonha ainda maior pela cena da noite anterior. Pouco depois, enquanto Mary Elizabeth dormia deitada sobre o cobertor, Rachell retomou a pescaria. Não estava realmente prestando atenção aos peixes, até porque começava a suspeitar de que eles nem existissem naquele rio, mas aproveitava a 16
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    Perigosa Atração oportunidade paradesfrutar do ar puro e apreciar toda a beleza do impecável cenário natural. Eram árvores frondosas e carregadas de frutos maduros e suculentos que perfumavam o ar, e um céu azul e sem nuvens emoldurava a paisagem de perfeição. Estava tão distraída com toda aquela beleza, que nem percebeu o retorno de Ryan. Só se deu conta de sua presença quando viu a sombra ao lado da dela na superfície da água. — Lamento ter demorado tanto — ele disse em voz baixa. — Pensei que não trabalhasse nos finais de semana. Era o que estava fazendo, não? Tratando de negócios? — Tem razão, normalmente não trabalho aos sábados e domingos, mas esse é um final de semana diferente. Atípico. Tenho um jantar importante esta noite. Meu tempo de lazer terminou. E o seu também, infelizmente. — O meu tempo de lazer? É muita ousadia! Depois de deixar sua... — Fale baixo, ou vai acordar Elizabeth. Há quanto tempo ela está dormindo? — Meia hora. Escute, tem certeza de que há peixes para se pescar nesse rio? — Não sei. Nunca pesquei nenhum. — O quê? Quer dizer que passei a tarde inteira aqui tentando pescar e... não há peixes? — Essa é uma de suas maiores qualidades, Rachell. É persistente. Determinada. Obstinada, mesmo. — E você é arrogante! Tem idéia do risco a que expôs sua filha? Nunca cuidei de crianças antes! E se ela houvesse caído no rio? Se houvesse se machucado, ou... — Ficou com medo? — É claro... que não! Saia do meu caminho, Ryan Donally, ou vai se arrepender de ter me provocado. Vai se arrepender de ter nascido! Nesse momento, não sinto grande simpatia por você! — Nem eu por você — ele murmurou, aproximando-se um pouco mais. Rachell nem percebeu a mudança no tom de voz e a sutil aproximação. Estava muito irritada. — Primeiro me convida para pescar em um rio onde não há peixes, depois vai cuidar de negócios quando já havia dito que não trabalha aos sábados, agora tem um jantar de negócios e ainda diz que meu tempo de lazer acabou? Devia desejar felicidades a você e à srta. Floco de Neve! Suponho que sejam perfeitos um para o outro! Ryan não respondeu. Sabia que a explosão era só uma encenação. Performance sempre havia sido fundamental na casa dos Bailey. O pai dela não passara de um dominador egoísta, e desde cedo Rachell aprendera a amarrar os próprios sapatos e vestir-se sozinha, e nunca precisar de ninguém nem contar com nenhuma ajuda. Capacidade era seu nome do meio. Sim, ela precisava insultá-lo para não demonstrar que estava magoada. Sofrendo. Então, por que o insulto o afetava tão profundamente? Com os cabelos presos num coque, Rachell viu sua roupa ser levada por uma criada que a lavaria e passaria. Vestida apenas com a combinação e um robe tão grande que arrastava no chão, ela deixou os aposentos onde se despira, um quarto de vestir que integrava um dos dormitórios da imponente e ampla residência que Ryan mantinha na área rural de Londres, longe da cidade. 17
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    Perigosa Atração Era um terrível aborrecimento ter de discutir negócios com Ryan sem ao menos poder contar com o benefício de estar adequadamente vestida. Mas ela e Ryan nunca haviam se preocupado com modéstia, e não seria agora que deixaria de resolver uma questão importante por não estar vestida de acordo com a etiqueta. Além do mais, o robe a cobria por completo. Era o suficiente. Não precisava estar bonita ou atraente. Apenas decente. — Ah, aí está você — ele declarou ao vê-la no corredor, onde a encontrou quando deixava seus aposentos. — Boswell vai cuidar de suas roupas. — E se não for possível repará-las? Receio que seja impossível remover todas aquelas nódoas com uma escovação, mesmo que caprichada. — Nesse caso, espero que tenha um manto para cobrir as manchas de lodo e água. Se sair daqui vestindo meu robe, as pessoas vão tirar conclusões horríveis sobre o que estivemos fazendo nessa tarde. A sociedade nunca perdoa certas indiscrições, e as línguas mais ferinas podem causar danos extensivos e permanentes à reputação de uma mulher. — Por que fala apenas de mulheres? Os homens nunca são vítimas dessas fofocas e desses rumores maledicentes? — Oh, sim, a sociedade fala de tudo e todos. — O que deve ser uma ocorrência comum para você. — Não acha que anda dando muita importância às colunas sociais? Os tablóides nem sempre se ocupam de verificar a veracidade de tudo aquilo que publicam, especialmente sobre certas personalidades. — Está dizendo que as fofocas não correspondem à verdade? E a condessa italiana? Ano passado, quando esteve em Veneza... — Ah, isso foi verdade. Ela se conteve com grande esforço, consciente de que não tinha nenhum direito de acusá-lo ou exigir explicações. Uma cena de ciúme seria inteiramente descabida e sem propósito, além de ridícula e humilhante. — Precisamos conversar — disse, seguindo-o até o quarto de decoração discreta e sóbria. Assim que entraram, ela retirou o projeto da pasta que levava sob um braço. — Será que poderia estudar minha proposta para a reconstrução da ponte? Trouxe o projeto da Irlanda e incluí nele um orçamento complexo e detalhado que... — A D&B já tem uma equipe cuidando disso, Rachell. — Eu também tenho! Não vou passar meses esperando um comitê qualquer reavaliar o relatório que meu pessoal já fez! — Meu irmão a meteu nisso, não é? Ele está incentivando essas suas idéias de autonomia e apoiando atitudes que são... — Johnny não me meteu em nada. Tenho aqui um projeto para avaliação, só isso. Um projeto simples, Ryan, apenas alguns dados relativos à construção de uma ponte que foi arrastada por uma enxurrada e precisa ser reconstruída. Ele deu uma rápida olhada no desenho e nos cálculos. — Não vejo o nome de Allan Marrow aqui. Quem é o engenheiro encarregado? — Eu. — Ah... Entendi. Acha que vindo me procurar diretamente vai conseguir escapar da formalidade do comitê. Precisa da minha ajuda. Era essa a intenção por trás daquela 18
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    Perigosa Atração encenação deontem à noite? Foi isso, Rachell? Um traque para me envolver e arrancar de mim a permissão de que precisa para levar adiante esse projeto? — Não! É claro que não, Ryan! Não é nada disso! — Você não tem a responsabilidade de criar ou supervisionar projetos. Seu trabalho na Irlanda consiste em coordenar e verificar a contabilidade daquela divisão. Não vai fazer nenhum trabalho de campo. Foi o que acertamos quando foi transferida para lá. — Eu sou perfeitamente capaz de... — Rachell, eu conheço sua capacidade, e você conhece as dificuldades. Passou anos freqüentando as aulas, mesmo sabendo que jamais poderia exercer a profissão que escolheu. Tinha consciência dos problemas e dos obstáculos intransponíveis. Permitir que você assinasse e supervisionasse um projeto seria o mesmo que entregar a chave da porta ao concorrente, entende? Os tablóides a destruiriam! E a D&B seria destruída com você. — Por quê? — Porque o público adora escândalos! A opinião pública nos atacaria até levar o valor das nossas ações ao chão. — Não importa. Se somos competentes, quem pode nos arruinar? Ou o quê? Rumores? Fofocas? Não, Ryan. Permiti que tomasse decisões por mim nessa companhia por tempo demais. Agora vou assumir oficialmente meu lugar na diretoria. Quero que devolva aquela procuração que assinei. Vou participar diretamente da administração da empresa. Caso tenha esquecido, sou proprietária de uma grande parte das ações dessa companhia. — Obrigado por me lembrar desse pequeno detalhe. — Tenho tanto direito quanto você ou Johnny de participar das decisões. Mais, na verdade, porque meu pai fundou a empresa. — É mesmo? E eu pensando que havia sido uma sociedade entre seu pai e o meu! Parece que tenho perdido de vista alguns dados muito importantes aqui. Escute, quanto tempo pretende passar em Londres conhecendo esse lado da empresa? — O suficiente para ter meu projeto aprovado e meu nome no espaço reservado ao engenheiro responsável pela obra. Uma semana? Duas? Por quanto tempo quer que eu fique? Quanto tempo acha que será necessário? Ryan encarou-a. Rachell sabia que ele era um empresário implacável. Tinha consciência de que ele havia adquirido e desmantelado diversas empresas nos últimos anos, e faria o mesmo com ela se soubesse o quanto estivera envolvida no lado técnico da operação em Dublin. A divisão passava por problemas financeiros há quase um ano, basicamente porque ela havia dado mais atenção aos projetos do que à contabilidade. — Está tentando dificultar minha vida? Agora que completou vinte e nove anos, quando começa a ouvir a mortalidade batendo na porta dos fundos, decidiu voltar e me lembrar que... — Não se atreva a me ofender, Ryan Donally. Não ia gostar das conseqüências. — Deixe-me contar um segredo que você certamente não lembra, uma vez que, na época, preferiu não estar por perto. Já tive vinte e nove anos. Há dois anos. Sei que vai sobreviver à crise. Como sempre... — Ryan, você sempre fez tudo de acordo com sua vontade. Devia ter nascido rei. 19
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    Perigosa Atração Suas qualidadesnapoleônicas fazem de você um ditador formidável, realmente. Digno de medalhas! — Obrigado. Vindo de você vou interpretar o comentário como um elogio. — Não é um elogio! Ele se aproximou e, encostando-a contra a parede, pôs as duas mãos ao lado de sua cabeça, impedindo-a de fugir. — Eu sei que é. Sempre é. Rachell sentia o coração bater depressa no peito. Estava ofegante. A proximidade, o ambiente e os trajes conferiam ao momento uma intimidade envolvente e perigosa. Muito perigosa. — E agora, Rachell? O que fazemos? — Não passei os últimos anos trabalhando duro para continuar me escondendo, só porque você julga inconveniente a presença de uma mulher na diretoria. Pode ter certeza de que voltaremos a nos ver em breve para tratar desse assunto — ela ameaçou arfante. — Tem certeza de que é... seguro? Estamos sozinhos no meu quarto, você veste só o meu robe, e seu cabelo cheira a torta de maçã e canela... Francamente, eu seria capaz de devorá-la, Rachell. O risco é realmente imenso. — Oh... — A voz rouca e as palavras provocantes despertaram nela o desejo há muito suprimido. Podia sentir o calor do corpo de Ryan e antecipar o contato do peito largo e forte com seus seios. — Você é um homem impossível, Ryan Donally. — Ela escapou passando por baixo de um dos braços dele. Era imperativo que recuperasse a sanidade mental e o bom senso. — E não vai se livrar de mim assim tão fácil. É hora de aprender a dividir. Ainda com as mãos apoiadas na parede, ele ouviu o farfalhar do robe e o estrondo provocado pela batida da porta. Batendo a testa contra a parede três vezes, Ryan praguejou contra o próprio descontrole e contra os impulsos primitivos que não conseguia conter. Era terrível sentir-se traído pelo próprio corpo. Só Rachell era capaz de frustrá-lo a ponto de provocar reações tão violentas. Só ela era capaz de transformar a fragrância de maçãs e canela em sinônimo de pecado. Só ela podia levá-lo ao total descontrole. Luxúria e raiva se misturavam, lutando pela primazia. Desejo e ressentimento, paixão e culpa... A mistura de emoções era perigosa, explosiva e ameaçadora. Anos de autocontrole, e de repente voltava a ser um adolescente obcecado. Vinte e quatro horas depois do reencontro, já se sentia correndo o risco de esquecer cautela, propriedade e conveniência, e tomá-la em seus braços para nunca mais soltá-la. — Quer um conhaque, senhor? — Boswell perguntou da porta do quarto. Ele olhou para o leal valete e franziu a testa. — Por favor, cuide para que a srta. Bailey não tenha a estúpida idéia de voltar a Londres antes de estar adequadamente vestida. Ela seria inteiramente capaz disso. Pode imaginar o que diriam os tablóides, não? — Sim, senhor. Mas a ordem era apenas um esforço de autopreservação. Seria capaz de mandá-la embora nua, se fosse necessário, mas não passaria a noite sob o mesmo teto que ela. Não era tão corajoso. Nem tão insano. 20
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    Perigosa Atração — Tem certeza de que o sr. Donally sabe que passei a noite aqui? — Rachell perguntou quando Boswell deixou a bandeja de café na mesa da sala de jantar. — Sim, senhora. Ele foi informado ontem à noite, logo que chegou em casa depois do jantar. — Quer dizer que ele está em casa? Aqui? — O sr. Donally chegou pouco antes do amanhecer, senhora. — Havia uma alegria em sua voz que a desconcertava e intrigava. — E estava exausto. Rachell sabia que sua presença naquela casa violava todas as regras de etiqueta moral, mas ela e Ryan não eram amantes, embora já o houvesse visto nu há muito tempo. E ele a vira em pior estado de descompostura do que naquele robe da noite anterior. Além do mais, nunca se ocupara muito de questões da moda ou outras frivolidades. Não dava nenhuma importância ao que publicavam os tablóides ou ao que era comentado nos salões da sociedade. — Ele não gosta muito de mim, Boswell — Rachell disse com um suspiro que soou estranho mesmo aos seus ouvidos. — Pelo contrário, srta. Bailey. Nunca o vi tão zangado antes — o valete protestou. — E isso é bom? — O sr. Donally nunca fica zangado, senhora. Ele nunca demonstra seus sentimentos. — Ah... entendo. — Não creio que entenda realmente. — Compreendo que minha presença aqui o incomoda. — Incomoda, de fato, mas não pelas razões que imagina. — Escute, por que ele não fica na casa que possui em Londres? Não seria mais simples? — Normalmente ele fica na casa da cidade quando tem de passar mais do que algumas poucas noites em Londres, senhora. Mas aqui ele tem mais privacidade e conforto para ele e a filha. Por isso prefere a propriedade rural, apesar da distância. Rachell folheou o jornal que o mensageiro entregava todas as manhãs. Já havia cavalgado até a capela onde Kathleen fora sepultada, graças à gentileza de Boswell que providenciara calça de montaria e colete, além de uma égua dócil que comandara sem nenhuma dificuldade, e agora estava na sala, tomando seu desjejum. Mas não podia ficar o dia todo ali, bebendo café, lendo o jornal e pensando onde Ryan havia passado a noite. Ou por que ainda dormia, apesar do adiantado da hora. Irritada por ele permanecer na cama enquanto todo o seu futuro era incerto, Rachell terminou o desjejum e foi explorar a casa. Um longo corredor partia da sala de refeições e atravessava todo o comprimento da casa, oferecendo inúmeras possibilidades na forma de portas fechadas que provocavam a curiosidade. Ela as foi abrindo uma a uma, examinando salas e estúdios mobiliados com bom gosto e criados para oferecer conforto aos moradores da residência. Atrás de uma dessas portas estava a sala de esgrima, um espaço amplo e bem iluminado com piso de madeira e paredes revestidas por espelhos. Rachell entrou e fechou a porta. Depois de examinar as estantes onde ficavam as armas, ela empunhou um florete experimentando o peso da arma. Sozinha, executou alguns movimentos de treino, investindo contra alvos imaginários, cortando o ar e movendo os pés com impressionante agilidade. De repente, uma idéia surgiu em sua cabeça. Havia 21
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    Perigosa Atração outra formade domar o dragão chamado Ryan Donally. Sorrindo, Rachell empunhou outro florete e saiu, percorrendo o longo corredor até o quarto dele. Aproximando a orelha da porta, tentou identificar algum som do outro lado. Ele devia estar dormindo, ou o silêncio não seria tão completo. Rachell bateu e esperou. Não obtendo resposta, abriu a porta e entrou. Ryan dormia. Mesmo adormecido, seu corpo emanava poder e força. Os músculos definidos lembravam a obra de um escultor minucioso, e os cabelos castanhos sobre o travesseiro branco eram sedosos e abundantes. O lençol branco o cobria da cintura para baixo, mas podia ver os contornos das pernas fortes sob o tecido fino. O desenho provocava imagens mentais mais do que sugestivas, quase pecaminosas. — Se continuar olhando, vai acabar encontrando o que procura. A voz rouca a assustou. Ryan soava furioso, o que não era de estranhar. Não tinha o direito de invadir sua privacidade dessa maneira. — Esteve bebendo? — ele perguntou, referindo-se à ousadia da invasão e à estranheza de seu comportamento. — Francamente, Ryan! Não seja ridículo! E já vi você nu antes, lembra? Não sei por que está tão... perturbado. — Não sabe? Pense bem, ache. Você me viu nu há muito tempo, quando ainda éramos adolescentes. E eu estava nadando em água gelada. — Que diferença isso faz? — Se eu disser, vai se sentir insultada. Ou constrangida. — Então não diga. De que adiantaria incentivar tamanha intimidade? Não havia possibilidade de futuro para eles. Jamais haveria. Ryan não a amava. Além do mais, estava noivo de uma jovem nobre, sobrinha de um conde. Finalmente, ele poderia relaxar e dar por encerrada a luta contra uma sociedade que segregava e humilhava irlandeses e outros estrangeiros. Passaria a ser parte integrante dessa poderosa comunidade. Ryan teria um lugar na sociedade. Ninguém jamais humilharia Mary Elizabeth por ser de uma religião inadequada ou por descender de celtas primitivos. A menina seria bem recebida na sociedade e em todas as casas. Poderia debutar e freqüentar os melhores salões. Tudo que Ryan sempre lutara para conquistar na vida finalmente estava ao seu alcance. Sim, ela e Ryan se dispuseram a conquistar o mundo em detrimento de todo o resto. Empenharam-se nessa árdua luta, e a disputa de hoje só ressaltava a importância de sua batalha pessoal, especialmente agora. Dessa vez, quando deixasse Londres, deixaria para trás apenas a D&B. Não deixaria assuntos inacabados, sentimentos confusos ou possibilidades que, em última análise, serviam de alimento para sonhos que agora provavam ser impossíveis. Partiria sozinha, consciente de sua solidão, e voltaria toda a energia para a realização de propósitos profissionais. Mais nada. — Invadiu meus aposentos para pôr fim a sua infelicidade, Rachell? Ou vai acabar também com o meu tormento? A lâmina sobre a qual caminhamos aqui é afiada. O perigo é inegável. E a lâmina que empunha é igualmente letal, caso não tenha notado. O que pretende, afinal? Ela brandiu o florete. 22
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    Perigosa Atração — Vim propor um duelo. — Um duelo? Perdeu o pouco juízo que tinha, Rachell? — Escute o que tenho a propor. Se eu vencer, você enviará meu projeto para a avaliação do comitê, com meu nome ocupando o espaço reservado para a identificação do engenheiro responsável. O que me diz? — Digo que perdeu realmente o juízo. Não há dúvida disso. — Por quê? Tem medo de perder? Ou não acredita que posso vencê-lo na esgrima? — Nem uma coisa, nem outra. Só penso que tudo isso pode esperar, porque cheguei em casa pouco antes do amanhecer e estou exausto. Preciso dormir, se não se importa. — Não! É claro que me importo! Esse assunto é muito importante para mim, Ryan. — E eu preciso dormir. Já disse. — É muito tarde para continuar na cama, Ryan. O sol nasceu há mais de três horas. — Jesus! — Ele jogou as cobertas longe. — Perdeu a razão e decidiu que vai me enlouquecer, também? É isso? Pois saiba que está muito perto de realizar esse seu propósito. Felizmente, Ryan não estava nu, mas vestia uma calça de pijama fina, larga e de cós baixo que mais revelava do que escondia. Rachell suspirou aliviada ao vê-lo se dirigir ao quarto de vestir. Ao menos se livraria dessa tortura. Era difícil ignorar o calor provocado pela visão do corpo másculo e forte. . — Vai me prometer uma coisa, Rachell. — O que é? — Quando isso acabar, você vai voltar para a Irlanda. — Só quando for aceita como diretora dentro da companhia. Você vai ter de me aceitar como igual. — Mal posso esperar por isso! — Ryan exclamou debochado enquanto se lavava e se vestia. — Noto que está confiante! Deve ter muita certeza da competência do seu instrutor de esgrima. — Na competência do meu instrutor, na minha competência, e também na sorte. Afinal, estamos falando de um sacerdote aqui. Os santos estão do meu lado. Vamos lutar descalços e na grama. O primeiro a acertar o outro com um golpe leal e justo será o vencedor. — Por que descalços e por que na grama? — Porque foi assim que aprendi. Minha vantagem com relação ao ambiente vai compensar sua estatura superior à minha. — O que significa realmente esse embate, Rachell? O que vamos disputar? — Acho que esqueceu o que é ter de lutar por alguma coisa, Ryan. Por isso reluta tanto em aceitar meu desafio. — Não diga tolices. Trabalhei e continuo trabalhando muito por tudo na vida. Fui desafiado, intimidado e humilhado por gente que se negava a reconhecer minha existência. Agora chega. Estou farto disso. — Se acha que sinto pena de você, esqueça. Você é como um imenso incêndio na floresta: suga tudo que o cerca com essa energia incontrolável que emana. Domina e absorve sem olhar duas vezes para aquilo que conquista. Só precisa entrar em algum lugar para ser notado. Nunca pude competir com isso. 23
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    Perigosa Atração — Competir? Quando me deu alguma coisa além do seu desprezo? Quando pude olhar para você sem ver outro homem em seus olhos? — Quando foi a última vez em que olhou nos meus olhos? Não há outro homem neles, Ryan. Nunca houve. Se tivesse realmente olhado com atenção no passado... — Se eu tivesse olhado? Você estava apaixonada por meu irmão! Nunca houve uma chance para nós. E você sempre deixou isso bem claro. — Você me beijou, Ryan. Depois foi para Edimburgo e nunca sequer escreveu para mim. Era impressionante como lembranças da infância podiam elevar as razões de uma pessoa até fazê-las chegar à lua. Rachell conhecia os seis irmãos Donally, crescera com Brianna e Ryan, os dois mais novos, mas sempre tivera uma paixão infantil por Christopher, o irmão mais velho. Todas as meninas o adoravam naquele uniforme militar. Onze anos mais velho que ela, Christopher era um herói inatingível, um mito. Uma obsessão da infância. Ryan sempre fora o rebelde, aquele que desafiava as regras e a provocava, convencendo-a a segui-lo nessas aventuras. Era ele o rapaz ousado que ia visitar as filhas gêmeas do vigário no meio da noite, o sedutor juvenil que conquistava todas as garotas por quem se interessava. Ela e Kathleen o seguiam sem questionar suas atitudes e decisões. Confiavam cegamente em sua força física e em sua inteligência. Com ele sentiam-se corajosas, protegidas, invencíveis. Então, Ryan saíra de casa para ir estudar. E elas ficaram. — Você se casou com a minha melhor amiga! — ela disparou com tom de acusação. Ryan não respondeu. Não de imediato. Em silêncio, ele a conduziu para fora do quarto, pelo corredor e pela porta para o exterior da casa. No gramado, ele empunhou o florete e se posicionou para a luta. Rachell investiu contra ele com uma mistura de técnica, vigor e vontade. Foi uma luta equilibrada, enérgica, mas muito rápida. Em um ataque mais ousado da respeitável oponente, Ryan se esquivou, agarrou-a pelo pulso e a puxou contra o peito, imobilizando-a. Ela inclinou o corpo e o arremessou por cima da cabeça, jogando-o de costas no gramado. Por um momento, foi como se todo o ar escapasse de seus pulmões. — Ryan! Ele permaneceu imóvel, os olhos abertos fixos no céu. Rachell largou o florete e caiu de joelhos a seu lado. — Ryan, você está bem? Ele precisou de alguns instantes para recuperar o ar e a capacidade de raciocinar e falar. O choque era evidente em sua voz rouca e ainda um pouco ofegante. — Por Deus, onde aprendeu isso? — Não sei ao certo. Sei apenas que com esse movimento posso me livrar de ataques traiçoeiros e superar qualquer adversário. — Na próxima vez, quero ser avisado com antecedência sobre quais armas serão usadas. — Para que você possa vencer? O embate ainda não terminara. Agora duelavam com as palavras. — Jamais haverá um vencedor entre nós, Rachell. Esse nosso esforço é inútil. 24
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    Perigosa Atração — Isso é o que você pensa. De repente, já recuperado do choque e do golpe violento, ele a segurou pelo braço e, rápido, girou o corpo e a jogou de costas sobre a relva, imobilizando-a com o peso do próprio corpo. — Isso é o que vejo. O que sei. — Acredita que me venceu com esse golpe barato e desleal? — Por quê? Não concorda comigo? Acha que ainda pode me superar de alguma forma, mesmo estando imobilizada? — Ainda posso gritar. — Talvez deva. Nesse momento, não sei qual de nós precisa mais de ajuda. Rachell encarou-o confusa, sem entender o significado do comentário. Aproveitando esse momento de hesitação, Ryan beijou-a. Foi um beijo ousado, ardente e sensual. Rachell correspondeu com fervor, enterrando as unhas em seus ombros. O beijo imitava o ato primitivo da posse sexual. Ela tremia. Podia sentir as mãos tocando seu corpo de maneira atrevida, despertando sentimentos desconhecidos e perigosos, fazendo ferver o sangue em suas veias. Precisava recuperar o controle, ou estaria perdida. Em breve seria tarde demais para tentar voltar atrás. E quando isso acontecesse... — Oh, Rachell... — A voz rouca de Ryan alimentou o desejo. Era como se ele suplicasse por sua permissão para seguir adiante, para realizar, finalmente, o que ambos fantasiavam e esperavam há anos. Porém, enquanto Rachell ainda estava perdida naquela nuvem acetinada de langor, paixão e luxúria, ele se afastou, abriu os olhos e encarou-a. A respiração de Ryan era úmida e morna em seus lábios, como uma carícia sensual e provocante, uma promessa de prazeres nunca antes vividos. Nuvens de tempestade seriam um refúgio seguro comparado ao convite e ao desafio que via em seus olhos. — O que estamos fazendo? A pergunta soou aflita, cheia de apreensão. Assustada, ela despertou do idílio. — Saia de cima de mim — disse apavorada. — Por favor. Ele se levantou e levou as mãos à lateral do corpo, como se sentisse dor nas costelas. Seus cabelos estavam em desalinho. Ryan a encarou, abriu a boca para dizer alguma coisa, mas permaneceu calado, os olhos fixos em um determinado ponto do gramado. Rachell seguiu a direção do olhar de Ryan e percebeu que a filha dele se aproximava correndo. — Papai! — A menina parecia agitada, mas sorria com alegria. — Mary Elizabeth se aproxima. — Ryan anunciou desnecessariamente, uma vez que a presença da criança era óbvia. — Não quero que ela tenha a impressão de que estamos tentando nos matar. — Ele se abaixou e recuperou os dois floretes. — Volte para casa e recomponha-se. Tenho certeza de que suas roupas já estão prontas e em perfeitas condições de uso. Enquanto você se arruma, vou pedir a carruagem. Rachell não se deixava enganar pela falsa indiferença de Ryan. Sabia que ele tinha consciência da importância do que acabara de acontecer ali. Alguma coisa o impedia de agir com franqueza e espontaneidade. Alguma coisa... — Vai partir para sua residência em Londres esta noite? — ela perguntou sem fitá-lo 25
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    Perigosa Atração diretamente. Antes de deixar o edifício da D&B, precavera-se pedindo a Stewart o itinerário completo de Ryan, e fora imediatamente atendida em seu pedido. Sempre acreditara que informação é a melhor arma com que se pode contar em uma guerra. E o que vivia com Ryan não deixava de ser uma guerra fria, ao menos nesse estágio em que se encontravam. Ryan parecia constrangido. Na verdade, ele hesitou por alguns instantes antes de responder em voz baixa: — Rachell, amanhã ficarei oficialmente noivo. Vai haver uma recepção para anunciar o compromisso à sociedade. A notícia causou um impacto intenso que ela não conseguiu ignorar, mas que, determinada e forte, decidiu esconder. Não daria a Ryan o prazer de descobrir que ainda tinha o poder de afetá-la tão profundamente. — Entendo — ela disse. — E agora que você vai ser oficialmente aceito pela sociedade local e pela nobreza britânica, suponho que planeje participar de uma caça à raposa com seus novos amigos. É isso? Vai começar essa nova etapa em sua vida dedicando-se a uma atividade tipicamente nobre... e absolutamente detestável? — Não. Meus planos não incluem nenhuma atividade tão emocionante, tradicional ou dinâmica. Além do mais, com o anúncio oficial do noivado, ficará evidente que já cacei a única raposa que merece algum esforço em toda a Inglaterra. Rachell sabia que ele se referia à bela sobrinha de lorde Devonshire. — Tenho reuniões na terça e na quarta-feira — Ryan continuou em voz baixa, mesmo sabendo que não devia nenhuma explicação a Rachell. — Tenho de tratar de questões de trabalho. — Ah, bem... Nesse caso, vamos nos encontrar. Também vou participar das reuniões. Como acionista e membro da diretoria... — Rachell, não é o que está pensando. Essas reuniões... — Por favor, Ryan, não subestime minha inteligência. Essa é uma ofensa que sou incapaz de relevar ou perdoar. — Acreditaria em mim se eu dissesse que esse negócio nada tem a ver com a D&B? — Eu até poderia acreditar em tudo que diz, Ryan, mas só se eu confiasse em você. Ele se virou. Depois, devagar, caminhou até perto dela e estendeu a mão. Rachell não entendia o desejo que sentia por ele. Não conseguia compreender como havia se comportado de maneira tão leviana e inconseqüente, e no meio do jardim da casa dele, onde poderiam ter sido vistos por qualquer pessoa e envolvidos num terrível escândalo de conseqüências incomensuráveis. Não conseguia entender a total falta de compostura e equilíbrio que em nada combinava com sua personalidade prática, com sua natureza objetiva e cautelosa. Ryan recuou e baixou a mão. Era evidente que Rachell não pretendia aceitar sua oferta de ajuda, nem mesmo para levantar-se do chão. — Como preferir — ele disse impaciente e irritado. Depois se inclinou com galanteria e cavalheirismo. No instante seguinte, ele partiu deixando-a sentada entre as petúnias, levando a mente confusa e as emoções ao mais completo caos. Rachell ficou ali sentada, 26
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    Perigosa Atração sem sabero que fazer. Pior do que a incerteza e do que todos os outros sentimentos era a humilhação de sentir-se desdenhada e rejeitada como uma criatura baixa e sem importância. Como uma mulher vulgar e sem nenhum amor próprio, alguém que se oferecia sem pudores a um homem que já a havia rejeitado no passado. Capítulo III — Srta. Bailey? — O homem de cabelos brancos e rosto sereno e bondoso que abriu a porta deu um passo à frente, saindo para ir encontrá-la na varanda. — O que faz sozinha num tempo como esse? Devia estar abrigada em um local seco e quente. Ele tinha razão, certamente. Afinal, chovia forte e incessantemente. Rachell apertava o manto contra o corpo, tentando aquecer-se. Era inútil. A umidade parecia penetrar até mesmo em seus ossos, congelando o sangue em suas veias. Podia sentir o perfume de cera de limão no interior da residência. A luminosidade da lareira tornava o ambiente ainda mais convidativo. — Lamento muito incomodá-lo, sr. Williams — ela disse com a cabeça coberta pelo capuz do manto. — Mas preciso lhe falar. Ele olhou por cima dos óculos. Havia um jornal dobrado sob seu braço, sinais claros de que interrompera sua leitura com a visita inesperada. Segurando a porta aberta, o sr. Williams passou ao interior da casa e a convidou a segui-lo. — Gostaria de um café, ou um chá? Alguma outra bebida que seja capaz de aquecê- la, talvez? — Não, não se incomode comigo. Não é necessário. —Rachell sorriu rapidamente a fim de cumprimentar a jovem criada que, parada no hall de entrada, esperava obediente e solícita para recolher seu manto. — Não vou demorar — explicou. Era impossível não notar a poça de água que deixava no chão de madeira encerada. — Desculpe-me... — ela pediu constrangida, percebendo repentinamente que causava maiores transtornos do que havia previsto. — Não se incomode com isso, srta. Bailey. Sei que não teria vindo até aqui nesse tempo inclemente se o assunto não fosse realmente importante. Por favor, entre e venha se aquecer. Em que posso ajudá-la? O sr. Williams fechou a porta e, ao ver que a criada se afastava com seu manto encharcado, levou-a até a biblioteca. Ele havia sido advogado de seu pai e seu homem de confiança em Londres por dez anos. Agora, Williams cuidava dos negócios de Rachell com idêntica eficiência e a mesma dedicação. Confiava nele. Sabia que podia contar com sua eficiência e com sua capacidade sempre que delas precisasse. Sabia que suas questões, apreensões e interações jamais ultrapassariam os limites do relacionamento profissional. Em suma, tinha absoluta certeza de que, fosse qual fosse o assunto, o sr. Williams seria sempre discreto e nunca, em nenhuma circunstância, revelaria o teor de suas conversas a quem quer que fosse. —Não quer se sentar, senhorita? — ele convidou com a delicadeza de sempre. Rachell aceitou o convite. Williams acomodou-se atrás da mesa da biblioteca que funcionava também como escritório e, paciente e discreto, esperou em silêncio que ela 27
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    Perigosa Atração abordasse oassunto que a levara até ali. Rachell respirou fundo. Havia retornado da casa de Ryan na área rural no domingo anterior e, desde então, passara a maior parte do tempo tabulando números, estudando- os e decidindo por quanto tempo ainda poderia defender o projeto em Rathdrum sem pôr em risco a saúde financeira da empresa. Havia contratos a serem cumpridos, compromissos a serem saldados. E não pediria mais nada a Ryan. Era hora de resolver os próprios problemas sozinha, ou sua credibilidade como profissional e líder de equipe estaria prejudicada para sempre. Ninguém jamais a julgaria capaz de concluir um projeto se deixasse essa questão de Rathdrum ir por água abaixo. Se não concluísse o projeto de construção da ponte e não cumprisse todos os contratos, Ryan fecharia a divisão na Irlanda. E ela estaria arruinada. — Sr. Williams — Rachell começou, retirando da bolsa os papéis no qual estivera trabalhando durante os últimos dias. — Gostaria de vender o que resta da minha herança. Não é muito, mas sei que a transação vai render o valor de que necessito nesse momento para solucionar problemas prementes. Tenho uma propriedade em Carlisle que vai render um bom dinheiro. Desejo vender a casa e o terreno. Não vou lá há anos. Não vai fazer falta. Não preciso do imóvel, mas necessito urgentemente do dinheiro que será auferido com essa venda. Aqui estão os nomes de algumas pessoas que já me procuraram indagando sobre meu interesse em vender o imóvel. Os contatos foram feitos no passado, quando eu não pensava em vender a propriedade, mas... Bem, talvez ainda haja alguém interessado. A transação produziria dois resultados imediatos: obteria o dinheiro de que necessitava para cumprir os contratos em Dublin e concluir o projeto Rathdrum, e ainda cortaria definitivamente seus últimos laços com a Inglaterra. Não havia dúvida, de que a decisão era sábia e astuta, embora difícil e dolorosa. — Mas esse é o lugar onde passou sua infância, srta. Bailey. Seu pai construiu aquela casa. Deve haver muitas lembranças doces em Carlisle, recordações caras que qualquer pessoa gostaria de guardar eternamente. Não entendo por que deseja vender a propriedade. — Basicamente, porque agora vivo na Irlanda. A propriedade é a única coisa de valor que ainda me resta e, por uma infeliz circunstância, preciso do dinheiro. Como pode perceber, não me resta alternativa se não essa que exponho agora, sr. Williams. Mesmo com todas as boas lembranças da minha infância, vou ter de me desfazer da casa. E inevitável. — Ainda tem a Donally & Bailey. A casa em Carlisle não é seu único bem, como afirmou há pouco. É sócia dos Donally na empresa, e o sr. Ryan não se negaria a... Rachell ergueu uma das mãos de forma a calar o protesto do homem que, intrigado com sua atitude, tentava demovê-la da decisão que entendia como absurda e perfeitamente possível de evitar.Ryan. O Sr. Tubarão de Londres, rico industrial e personalidade do momento, o homem que detinha o controle sobre sua vida. Esse era um bom momento para tentar reunir a munição necessária para uma eventual guerra. Talvez o sr. Williams pudesse ajudá-la nesse sentido. — Por favor, gostaria de entender o aspecto comercial dessa minha sociedade com Ryan e Johnny. 28
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    Perigosa Atração — O que quer saber exatamente, senhorita? — Entre outras coisas, quero que me diga o que eu teria de fazer para adquirir o controle acionário da D&B. Silêncio. O pobre homem parecia estar chocado com a pergunta inesperada. — E então, sr. Williams? Pode me ajudar, ou não? — Posso responder a sua pergunta, certamente, mas... — Mas? — Infelizmente, o custo de tal operação é proibitivo, senhorita. Não dispõe do capital nem dos meios para realizar tamanha façanha. — Como pode ser possível que Ryan ainda não seja proprietário da companhia? Ele comprou quase todas as ações de minha família. — De fato, senhorita, aconteceu exatamente como está dizendo, mas tudo isso mudou quando ele tornou a D&B uma empresa de capital público, há cinco anos. Ryan investiu tudo que tinha na empresa para garantir o capital que a manteria à tona. Poderia ter mantido ele mesmo o controle acionário da empresa, mas não foi o que fez. Ryan fez o quê? O sr. Williams estava dizendo que Ryan abrira mão do controle acionário da D&B para abri-la ao capital público? Desistira de manter-se no comando absoluto para assegurar a saúde financeira da empresa fundada por suas famílias? Era difícil de acreditar que um homem implacável e arrogante como ele podia ser capaz de uma atitude tão altruísta. — Não entendi muito bem, mas... — O que não entendeu, senhorita? Creio ter sido claro. O sr. Ryan Donally abriu a empresa ao capital público para obter a injeção de recursos que se fazia necessária a fim de assegurar a continuidade do funcionamento das operações. — Sim, isso ficou claro, mas... A ausência de um acionista majoritário não torna a companhia vulnerável a ataques? — Normalmente, seria como está dizendo, sim. Mas, como ficou estabelecido no estatuto criado por Ryan, há dois tipos de ações da D&B, srta. Bailey. As ações preferenciais da companhia, e as ações comuns. Essas últimas são compradas e vendidas no mercado, mas não ultrapassam a marca de quarenta e nove por cento do total de ações. De acordo com o estatuto, as duas famílias fundadoras terão juntas sempre cinqüenta e um por cento da D&B. Nenhum de vocês pode vender ações, a menos que seja para a outra família, e nenhum acionista comum pode ocupar posição no conselho diretor sem o consentimento da maioria do conselho. Nesse caso, como todos vocês têm a mesma quantidade de ações, cada um detém um voto. Resumindo, ainda são as duas famílias fundadoras que detêm o comando da D&B. — Mas as ações comuns em poder do público somam quarenta e nove por cento da companhia. Então, teoricamente, se eu recuperar as ações que estão em poder de Ryan, posso adquirir ações comuns e obter o controle acionário. Posso apontar quem bem entender para a diretoria. Posso até estabelecer novas políticas. Em suma, sr. Williams, ainda é possível uma única pessoa assumir o comando, apesar do novo estatuto criado por Ryan para proteger a D&B. — Mesmo que tivesse essa capacidade, o que não tem, porque, como acabou de dizer, para isso teria de recuperar ações que se encontram em poder de Ryan, o sr. 29
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    Perigosa Atração Donally aimpediria assim que tentasse dar o primeiro passo nesse sentido. Ao contrário da senhorita, ele dispõe dos meios para adquirir ações comuns. Jamais permitiria que outra pessoa assumisse a presidência da empresa. Rachell odiava sentir-se impotente. De qualquer maneira, nesse momento era mais importante encontrar um meio de manter sua divisão irlandesa operando. Pensaria no controle acionário e no comando da D&B em outra ocasião, quando não estivesse pressionada por problemas mais urgentes. — Quero que obtenha a lista dos acionistas — ela pediu. — Esse tipo de relação é de domínio público, não? — Srta. Bailey... — Quero a lista, sr. Williams. Só isso. — Rachell se levantou antes que ele pudesse oferecer novos argumentos para reforçar seus protestos. Não havia mais nada que pudesse fazer nesse momento. E não queria correr o risco de se deixar desanimar. — Para onde devo remeter as informações que está me pedindo, senhorita? — Estou hospedada no Palace Hotel. Pode mandar a lista dos acionistas por mensageiro, se quiser, ou pode levá-la pessoalmente. Sabia que permaneceria no hotel por mais alguns dias. Não dispunha de muito tempo, mas precisava esperar. Sem a lista dos acionistas, nada poderia fazer. Mas gostaria de poder acelerar todo o procedimento e deixar a cidade o quanto antes. Ryan não a queria em Londres, e ela também não desejava prolongar sua estadia. Não voltara a vê-lo desde aquele beijo no jardim. Dois dias atrás. Sabia que ele retornara a Londres na noite anterior. A casa ficava a poucos quarteirões do hotel, e passara diante dela em uma de suas idas e vindas pelas ruas movimentadas da cidade. Vira as luzes acesas e a carruagem na porta. Sabia que Ryan estava lá. Mas não voltara a vê-lo. — Agradeço por ter me recebido, sr. Williams — Rachell disse a caminho da porta da biblioteca. — Estou sempre ao seu dispor, srta. Bailey. Não precisa me agradecer. Afinal de contas, seu pai foi mais que um simples cliente. Ele foi um grande amigo. E se minha esposa ainda fosse viva, a senhorita não teria sido impelida a buscar acomodações em um hotel frio e impessoal. Eu a teria hospedado em minha casa. — A propósito, sr. Williams, como tem passado desde que ficou viúvo? — Fomos casados por trinta e dois anos. Como alguém pode se habituar à solidão depois de tanto tempo? Minha esposa deixou uma lacuna que jamais poderia preencher, certamente. Compreende o que digo, não é, senhorita? Rachell não tinha uma resposta para essa pergunta. Não saberia responder. Nada sabia sobre amor, casamento ou maridos, nem mesmo sobre pais e filhas. Seu pai havia passado doze longos anos chorando a morte do filho que havia falecido ao nascer, com a mãe, que também morrera vítima do parto. Dominado pela dor da dupla perda, ele jamais dera importância ao fato de Rachell ter perdido a mãe. Depois da negligência e da infância de solidão e frieza, ela passara toda a vida lutando para obter o reconhecimento do homem que preferia a companhia de uma garrafa a elogiar as façanhas da filha e reconhecer seu valor. Era compreensível que 30
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    Perigosa Atração Christopher Donallyse houvesse tornado seu cavaleiro na armadura brilhante, seu defen- sor em vestes escarlates... até ela perceber que a única pessoa capaz de salvar sua vida era ela mesma. Então, tudo mudara. Rachell percorreu o longo corredor que conduzia até a porta da casa e, com a ajuda da mesma criada que a recebera, cobriu-se com o manto molhado. A chuva ainda caía lá fora. O ar parecia ainda mais frio por conta da elevada umidade. — Meu filho agora é advogado graduado — Williams revelou com tom neutro, embora fosse óbvio o orgulho que sentia disso. — No mês que vem serei avô pela primeira vez. — Meus parabéns. — Ela estendeu a mão para cumprimentá-lo. Estava realmente feliz pelo velho amigo. — Mandarei notícias sobre a propriedade. Até logo, srta. Bailey. Espero que obtenha sucesso nessa nova empreitada, embora não tenha muita confiança na sua... — Sr. Williams, já deixou bem clara sua opinião sobre o que planejo fazer. Mesmo assim, estou determinada a tentar. E agradeço antecipadamente tudo que puder fazer por mim nesse sentido. Muito obrigada. Rachell entrou no coche de aluguel e voltou ao hotel protegida pelo manto com capuz. Era tarde, e seus passos eram silenciosos e abafados no longo corredor acarpetado do andar onde ficavam seus aposentos. Elsie, sua ama, já dormia no sofá. Rachell entrou na área privada da suíte e livrou-se do manto molhado que ameaçava congelá-la. Agora estava feito, ela pensou satisfeita. Cortara definitivamente seus últimos laços com a Inglaterra. Começaria uma nova etapa de vida. Uma etapa que, sabia, seria muito diferente de tudo que vivera antes. Rachell fechou os olhos e se deixou envolver pelo calor da água morna na banheira. Merecia esse momento de lazer e relaxamento depois de tudo que enfrentara nos últimos dias. Com uma garrafa de champanhe em uma das mãos e um cigarro na outra, ela respirava a fragrância de maçã e canela que o vapor do banho espalhava pelo aposento. As batidas em uma das portas da suíte a importunaram. Infelizmente, estava mais sóbria do que gostaria, e ela abriu os olhos absolutamente exasperada por não poder gozar de um instante de paz. Por que as pessoas não esqueciam que estava viva, mesmo que fosse só por um momento? — Seja quem for, mande para o inferno, Elsie! — ela gritou. — Paguei por esse quarto até o final da semana. Se quiser cantar, ninguém vai me impedir! E gosto de cantar bem alto! Era uma mulher independente. Não precisava de mais ninguém para sentir-se completa. Podia beber, fumar e cantar sempre que quisesse. E não seria um hóspede mal-humorado e impaciente que mudaria seu temperamento ou interromperia seu momento de lazer. — Srta. Bailey? Há um certo sr. Donally esperando para vê-la — Elsie anunciou da porta do banheiro. Sr. Donally? O único Donally que iria procurá-la no hotel e ainda teria a ousadia de subir ao quarto em que se hospedava era Johnny. O sólido e estável casamento com Moira conferia a ele a liberdade de tomar certas liberdades quanto ao código de moral e comportamento ditado pela rígida sociedade londrina. Quaisquer que fossem os boatos que o cercassem, Moira jamais deixaria de acreditar em seu amor e em sua lealdade. 31
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    Perigosa Atração — Elsie, o que Johnny pode querer aqui? Ele e Moira vão à ópera e... — Johnny? Não sei de quem está falando, senhorita. — Não sabe? Se acaba de anunciar que um certo sr. Donally deseja falar comigo... — O nome do cavalheiro é Ryan, senhorita. Ryan Donally. — Ryan? Aqui? No meio da noite? — São só seis horas da tarde, senhora. — Seis horas da tarde? Céus, como pude perder a noção do tempo de forma tão completa? Por Deus! — Rachell se levantou e constatou que havia bebido demais. As pernas não pareciam estar tão firmes como de costume, e cada pequeno movimento exigia grande cuidado. — E Ryan? O que ele pode querer aqui? — Não sei, senhora. Teria sido ousadia excessiva interrogá-lo sobre o motivo de sua inesperada visita. Mas o cavalheiro está realmente muito bem vestido. Rachell se enxugou rapidamente e vestiu o robe de seda, abotoando-o com esforço enquanto Elsie deslizava uma escova por seus cabelos molhados e embaraçados. Ela se olhou no espelho. Os cabelos encharcados pendiam ainda um pouco emaranhados até a cintura. Mas Ryan já a vira em estado pior. E a curiosidade, nesse momento, era muito maior do que a vaidade. Queria saber o que havia levado Ryan a ir procurá-la no hotel sem antes se anunciar. — Esqueça o cabelo, Elsie. Onde ele está? — Na sala de estar da suíte, senhora. Rachell correu e tropeçou no tapete do corredor. Temia que ele se cansasse de esperar e fosse embora, por isso caminhava depressa, apesar do torpor causado pelo excesso de champanhe e do langor provocado pelo longo banho de imersão. Mas Ryan não havia partido. Ainda a esperava em pé diante da janela de onde se via a rua. O casaco desabotoado revelava uma casaca formal e camisa branca com elegante faixa na cintura, mas o chapéu e as luvas estavam sobre a mesa da entrada, ao lado das luvas dela. Ele se virou ao ouvir seus passos. — Lamento o que aconteceu entre nós no final de semana — Ryan foi logo dizendo sem rodeios, demonstrando humildade excessiva e inusitada para um homem que acreditava ser dono do mundo. — Não devia tê-la beijado. Quero me desculpar, Rachell. Foi simplesmente... — Surpreendente? Fabuloso? Ou foi só um acidente? Ryan balançou a cabeça, revelando grande confusão. Rachell não sabia se o sentimento era causado pelo que acontecera entre eles no jardim da casa na propriedade rural, ou por sua atitude com relação ao episódio e à presença dele ali, no hotel. — Aquilo aconteceu bem diante dos olhos de todos os meus empregados. Rachell levou os dedos indicadores às têmporas, sentindo o início de uma dor de cabeça que prometia ser devastadora, caso não fizesse nada para contê-la. Não queria sentir pena dele, mas a reação era inevitável. Devia ser a bebida, decidiu. Champanhe sempre tivera o poder de alterar sua capacidade de julgamento. Ela começou a rir, mais uma prova de que estava mesmo alterada pelo consumo excessivo de álcool. Ryan aproximou-se com ar intrigado e sério. — Quantas vezes pedimos desculpas um ao outro nessa semana? — ela indagou, 32
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    Perigosa Atração tentando não;sentir o calor do corpo que se aproximara repentinamente do dela. Devia ter antecipado esse tipo de atitude. Ryan era capaz de usar todo e qualquer artifício para provar um ponto de vista ou tirar proveito de uma situação qualquer. — Acho que você ainda está ganhando — ele respondeu com tom amargo e ressentido. — E eu acho que isso é sinal de que ternos um assunto a concluir—argumentou Rachell. — Por que nunca terminamos aquele beijo tantos anos atrás? — Por que você me esbofeteou, talvez? Não pode ter se esquecido desse pequeno detalhe. — É claro que não esqueci. O que talvez não tenha pensado é que posso tê-lo esbofeteado por você tratar a questão como se fosse uma piada. É razoável, não? — Você era jovem, Rachell. Praticamente uma menina. Seu pai teria me matado, se soubesse que estávamos nos beijando às escondidas. Às vezes Rachell odiava a lógica. Especialmente quando ela se apresentava na forma de mais um irritante argumento de Ryan Donally. De qualquer maneira, com ou sem lógica, a situação permanecia inalterada. A verdade das palavras de Ryan não anulava o amor que sentia por ele, nem o fato de ele ter planos de se casar em outubro com outra mulher. Johnny havia contado que lady Gwyneth era sua escolhida. O que havia entre Ryan e ela era elétrico, sem dúvida, intenso e inegável, mas puramente físico. Nunca iria muito longe. Jamais os levaria a um casamento. De repente ele olhou em volta como se só então notasse o ambiente em que se encontravam. — Rachell, por que se hospedou na suíte presidencial do hotel? — Ryan indagou intrigado e sério. Ela respirou fundo a fim de não perder a paciência. O homem era mesmo impertinente e arrogante! Por que achava ter o direito de questionar suas decisões? — Porque foi a única coisa que Johnny conseguiu arranjar para mim. Não escolhi a suíte presidencial, se é o que está perguntando. — Ah, sim... Compreendo. E esteve bebendo, certamente. Quanto? Uma garrafa? Duas? Mais, talvez? — Não é da sua conta, Bebo quanto eu quero, quando eu quero, e não preciso da sua aprovação para isso. Na verdade, não preciso da aprovação de ninguém para nada. Sou uma mulher independente. — E inconseqüente, também. — Ryan olhou para Elsie e repetiu a pergunta sem alterar o tom de voz. — Quanto ela bebeu? — Meia garrafa de champanhe, senhor, mas ela não comeu nada. E estava na banheira cheia de água morna, o que deve tê-la tornado ainda mais vulnerável à bebida. — Como eu imaginava. E como eu disse: inconseqüente. Rachell, tem alguma coisa adequada para vestir hoje à noite? Ele caminhou até o armário e abriu as portas. Rachell correu atrás de Ryan, fechou as portas com chutes violentos e nada femininos e, apoiada nelas, cruzou os braços para encará-lo numa atitude beligerante. Se Ryan queria um confronto direto, estava mais do que preparada para enfrentá-lo e vencê-lo. — O que está fazendo? Por que esse súbito interesse no meu vestuário? E o que essa 33
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    Perigosa Atração noite temde tão especial? Não vou a lugar nenhum. Não preciso de roupas especiais para permanecer nos meus aposentos em companhia de Elsie. — Está enganada, Rachell. Você vai à ópera com Johnny e Moira. — Eu vou? Quem disse? E por que acha que irei à ópera? — Todos os membros da diretoria da D&B e da Ore Industries vão estar lá. Quer ser incluída ou não? Rachell encarou-o incrédula. Precisava pensar e clarear as idéias. Depois de um instante de reflexão, ela perguntou: — Por que não disse nada antes? — Porque não julguei necessário. Mas estou dizendo agora. — Por quê? — Você faz parte da diretoria, Rachell. E já manifestou sua intenção de se fazer notar dentro desse grupo. Já disse que quer agir e ser tratada como uma das diretoras. Portanto, não vou permitir que fique aqui sozinha se embebedando. Você vai sair para ir à ópera, como todos os outros membros do conselho diretor. Já falei com Johnny e ele virá buscá-la. — Como sabe o que faço dentro dos meus aposentos? Quem disse que fico aqui me embebedando quando estou sozinha? — Não permitiria que ele invadisse sua vida e começasse a dar ordens como um César romano! Ryan não respondeu. Em silêncio, ele escolheu um vestido e colocou-o em suas mãos com um gesto firme e determinado. — Providencie para que seja passado. Oh, e ela vai precisar de café — ele comunicou à criada. — Bem forte e amargo. Vou pedir o jantar. E você precisa arrumar o cabelo. E vai se alimentar bem, ou não conseguirá assimilar todo o álcool que consumiu. — Como devo penteá-la, sr. Donally? — quis saber Elsie. — Não se incomode com isso, Elsie Tompkins — Rachell disparou irritada. — Não é tão difícil. Vamos conseguir. O sr. Donally não será desapontado por nós. Deus nos livre disso ! — A exclamação soou debochada e sarcástica. — Sim, senhora. — Mortificada, a jovem se retirou. Ryan e Rachell ficaram sozinhos. Ryan caminhou até o hall de entrada da suíte e voltou com a pasta que ela havia deixado em sua casa e que ele se encarregara de levar naquela noite. — Seu projeto é consistente, Rachell — ele disse com tom profissional. — Nunca questionei seu talento ou sua dedicação. Você é uma excelente engenheira. Se fosse homem, encontraria boas posições em qualquer empresa do mundo. — Mas se puser meu nome no projeto, a D&B jamais será contratada para outro trabalho na Irlanda. Precisa considerar seus acionistas. Não é isso que está dizendo, Ryan? — É exatamente isso. Esse é meu trabalho, Rachell. Tenho deveres com a empresa e com as pessoas que dela dependem para sobreviver. Sabe que não posso lhe dar nenhuma consideração especial. Não agiria de maneira diferente com Johnny, se, por alguma razão, ele pudesse prejudicar a companhia ou seus empregados. — Não podemos conversar melhor sobre tudo isso, Ryan? 34
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    Perigosa Atração — Sim, podemos continuar discutindo até amanhã, ou você pode se arrumar e ir à ópera com Moira e Johnny. Asseguro-lhe que a segunda alternativa é muito mais interessante e proveitosa para todos nós. — Você se tornou pragmático demais. Onde está a paixão? A emoção? Ryan parou para refletir. Não podia se dar ao luxo de falar sobre paixão e emoção. Não com Rachell. Não agora, enquanto estavam sozinhos numa confortável e luxuosa suíte presidencial. Bem, tecnicamente não estavam sozinhos, porque Elsie se encontrava no aposento contíguo cuidando dos preparativos para vestir e pentear sua senhora, mas, na prática, poderiam fazer o que quisessem ali. Uma ordem, e Elsie desapareceria de cena. — Na esgrima — ele disse com falsa indiferença. — Sou apaixonado pelo esporte. É nele que deposito minha paixão e minha energia. E agora, se me dá licença, vou pedir seu jantar. — E escapar do risco inerente ao contato próximo, íntimo e pessoal com Rachell enquanto ainda podia fugir. — Cuidarei disso a caminho da saída. — Mas... — Trate de comer, está bem? Precisa eliminar todo esse álcool que está circulando em seu sangue. E, por favor, comporte-se na ópera. Não tome a situação pior do que já é. Ryan saiu apressado, temendo fazer alguma coisa de que pudesse se arrepender. Algo como, por exemplo, beijá-la novamente. Rachell ficou parada no meio do quarto, dividida entre a impaciência perante a atitude superior e arrogante de Ryan e a gratidão por ele ainda se preocupar com seu bem-estar. Quando ele estava por perto, sua principal emoção era sempre essa: confusão. Se Ryan já estava exaltado antes, ver Gwyneth no saguão do hotel só intensificou a irritação. Ela estava cercada por inúmeros cavalheiros da Ore Industries e se fazia acompanhar também pelo primo, lorde Bathwick, um indivíduo cuja simples presença tinha o dom de incomodá-lo profundamente. E o que Gwyneth fazia ali, afinal? Acertara que iria buscá-la em casa para jantarem antes da ópera, mas, aparentemente, ela se cansara de esperar, e agora recebia com alegria os tributos prestados por todos aqueles homens. Ryan aproximou-se carrancudo e, depois de cumprimentar rapidamente todos os presentes, pediu explicações. Gwyneth relatou que tomara conhecimento do coquetel oferecido pela Ore Industries naquele recinto e decidira ir até lá. Porém, ao chegar, ela fora informada de que só os portadores de convites nominais poderiam entrar. Por isso estava ali, conversando com alguns conhecidos e exibindo o vestido novo que ele nem notara! Ou Ryan esperava que ela voltasse para casa conformada e nem cumprimentasse os conhecidos que identificara no saguão? Teria sido uma imperdoável grosseria! Sem nenhuma hesitação, Ryan elogiou seu vestido, despediu-se de todos os cavalheiros, deu a ela seu convite para a recepção e, altivo, retirou-se desejando uma boa noite de entretenimento. Ryan deixava o hotel depois de abrir mão de uma noite de diversão com a mulher mais cobiçada da Inglaterra. Como se não bastasse, desistira de comparecer a um evento para o qual os convites eram disputados como ouro! E a indiferença que sentia era simplesmente incompreensível. Rachell estava ocupada com os preparativos para a ópera. Elsie já havia ido buscar o 35
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    Perigosa Atração vestido, masainda não penteara seus cabelos, e não sabia onde a jovem se metera. Um ruído na sala de estar da suíte chamou sua atenção, e ela decidiu ir verificar o que podia estar retardando a criada. Então, ela não sabia que horas eram? Se não se apressasse, perderia o início do espetáculo, uma gafe imperdoável. — Elsie? — ela chamou, dirigindo-se à sala enquanto vestia o robe sobre as meias e os trajes íntimos. — Elsie? — Ela não está, srta. Bailey. A voz masculina a fez virar-se sobressaltada. Com a mão sobre o peito, Rachell olhou para as sombras no canto da sala e viu um homem encostado à parede próxima da porta que levava ao quarto. Ele era familiar, alto, com cabelos grisalhos nas têmporas e uma arrogância que em nada contribuía para torná-lo simpático. — O que fez com minha criada? — Rachell indagou com um misto de atrevimento e temor. — Creio que ela julgou mais prudente esperar lá fora, senhorita. — O homem se adiantou para a área iluminada da sala, e ela reconheceu Devonshire. — Acalme-se — ele disse com um sorriso gelado e repulsivo. — Não pretendo fazer-lhe nenhum mal. Vim porque me lembrei... Bem, soube que me parecia familiar quando a vi no baile dos Telford. Tem um passado muito... cintilante, digamos. Oh, e esse champanhe é melhor do que o que foi servido pela Sociedade de Engenharia na entrega do prêmio. Parabéns pelo bom gosto — ele elogiou, exibindo uma taça com a bebida que restara na garrafa aberta por Rachell pouco antes de entrar na banheira. — Sente-se, srta. Bailey. Só quero conversar. Por enquanto. — O que pode querer falar comigo? — E como ele ousava invadir seus aposentos e ainda dar ordens, como se fosse seu superior de alguma maneira? O homem era mais do que arrogante. Era... insuportável! — Sou muito cauteloso, senhorita. Tomo cuidado ao tratar com meus futuros parentes e não gosto de perder o que me pertence. Tenho um certo preconceito contra a pobreza, sabe? Suponho que seja capaz de compreender esse sentimento. Rachell notou um envelope sobre uma mesa de canto. — O que é aquilo? — perguntou. Sabia que o envelope não estivera ali pouco, antes da chegada do intratável cavalheiro. — Dentro daquele envelope há duas passagens de volta para a Irlanda. Francamente, não me interesso por seu passado ou pelas pessoas que nele estiveram. Meu único interesse em toda essa história é Donally. Ryan Donally, para ser mais preciso. — Entendo. Quer o dinheiro dele — Rachell disparou com ousadia. — Seu verdadeiro interesse é a fortuna de Ryan Donally. Estou correta em minha dedução, milorde? — Não se deixaria intimidar por esse homem detestável. Conhecia suas verdadeiras intenções e não hesitaria em manifestar esse conhecimento. Talvez assim ele recuasse e a deixasse em paz. — Absolutamente correta, srta. Bailey. Como suspeitava, sua inteligência é admirável. Especialmente para uma mulher. E a fortuna a que se refere é muito maior do que pode imaginar. Sendo assim, não hesitarei em usar todas as armas de que disponho a fim de pôr minhas mãos nesse dinheiro. Devo procurar os jornais e divulgar o que sei a seu respeito, por exemplo? Todos gostariam muito de saber como obteve permissão para 36
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    Perigosa Atração submeter-se aum exame exclusivo da escola de engenharia. O fato de ter tido as segundas melhores notas em uma turma exclusivamente masculina perderia a importância diante do que tenho para revelar. Rachell permaneceu em silêncio. Estava absolutamente chocada, sem reação. Esse homem não podia estar falando sobre o que pensava que... — Deve estar se perguntando como sei disso — prosseguiu lorde Devonshire com um sorriso satisfeito e ameaçador. — Integro o conselho universitário em Edimburgo. Conheci seu pai quando ele lecionava Física naquela instituição. Sabia quem você era quando freqüentava as aulas lá. Rachell respirava com dificuldade. Temia desmaiar. A situação era ainda pior do que todos os seus pesadelos! — Sei por que foi discretamente afastada daquela renomada universidade — o homem horrível concluiu. — Por que tudo isso, lorde Devonshire? Por que se deu ao trabalho de reunir tantas informações a meu respeito? Por que vem aqui me ameaçar? É o que está fazendo, não é? — Antes que mencione minha crueldade e meu egoísmo, ouça o que tenho para oferecer ao sr. Donally a fim de compensá-lo pelo que supostamente perderá com sua partida. — Não sei do que está falando. Francamente, milorde, creio que seria melhor se saísse agora e... — Não está em condições de fazer exigências ou de me dar ordens, srta. Bailey. Não me tome por tolo ou ingênuo. Não costumo brincar. — Ele deixou o copo sobre a mesa. — Não faço piadas. Muitas pessoas estavam no saguão há pouco mais de uma hora, quando Donally deixou o hotel. E todas elas o viram sair. Outras pessoas já haviam visto quando ele a conduziu para fora do salão de baile na noite da entrega do prêmio. Há fortes rumores sobre um antigo relacionamento entre vocês dois. Agora ele anunciou que não irá à ópera, e especula-se que sua ausência no teatro tem uma explicação muito prática: ele deu a você o ingresso adquirido anteriormente. Minha sobrinha voltou para casa aos prantos e se trancou no quarto. Mas não são as lágrimas de minha doce e querida sobrinha que me movem agora, embora esteja francamente comovido com o sofrimento da menina que tanto amo. Afinal, essa situação não é nenhuma novidade. Os homens sempre tomaram amantes. Essas coisas acontecem. — Milorde, não admito que... — Ryan não vai abrir mão do que tenho para oferecer. Não se eu revelar a verdade a seu respeito. Sendo assim, senhorita, desista dessa falsa altivez e não perca seu tempo com protestos inúteis. Sei bem que tipo de mulher a senhorita é. Rachell conseguiu conter o impulso de dar um soco naquele nariz empinado. Devonshire se debruçou sobre a mesa que os separava. Algo como admiração cintilava em seus olhos. — Donally e eu somos muitos parecidos, srta. Bailey. Nós dois somos capazes de tudo e de qualquer coisa por aquilo que desejamos conquistar. Exerço grande influência no conselho diretor da Sociedade de Engenharia, como deve saber, e usei essa influência para indicá-lo ao prêmio este ano. Eu o homenageei para alçá-lo socialmente. Com 37
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    Perigosa Atração exceção dosmilitares, esse prêmio só é entregue a um civil que prestou algum serviço à comunidade, uma ironia, se pensarmos que ele foi barrado em todos os salões da nossa nobre sociedade até anunciar o noivado com minha sobrinha. Donally não ousará me humilhar. Espero que tenha entendido o que estou dizendo, senhorita. Rachell não se moveu de onde estava. Tinha a boca seca. Esse homem horrível ameaçava Ryan, e não havia nada que ela pudesse fazer para protegê-lo. Lágrimas queimavam em seus olhos. — Escândalos já fizeram desmoronar reinos inteiros. Pense no que esse escândalo em particular pode fazer com vocês dois. Ryan mal ouvia o que era discutido e deliberado na reunião de diretoria da Ore Industries. Parado diante da janela, via a chuva que caía lá fora e as pessoas que se movimentavam pelas ruas molhadas. O panorama cinzento e úmido combinava per- feitamente com sua disposição. Rachell não comparecera ao teatro na noite anterior. Preocupado, estivera no hotel e descobrira que ela havia deixado o local. Voltara para a Irlanda sem dar nenhuma explicação. Em torno da mesa de reuniões estavam os oito homens que integravam o conselho formado por ele depois da aquisição da Ore. Homens que ele escolhera pessoalmente para administrar a mais nova aquisição de sua corporação. Johnny acompanhava tudo sentado em uma poltrona um pouco distante do grupo. Ele havia sido convidado a participar da reunião, algo que Ryan só ficara sabendo pouco antes, ao entrar na sala. Devonshire, único membro presente a ocupar um assento na Casa dos Lordes, estava à esquerda da cadeira de Ryan na ponta da mesa. Um local que denotava sua posição de destaque no grupo. Um destaque que ele não merecia. De- vonshire era dono da fundação que havia sido o início da Ore Industries. Ryan o mantinha por perto, sob controle, por razões pessoais. — Já mandamos redigir toda a documentação para a aquisição da D&B — anunciou o consultor financeiro de Ryan, passando ao principal assunto da reunião e motivo da presença de Johnny. Ryan aproximou-se da mesa e abriu uma pasta. — Esse assunto não faz parte da agenda para hoje — protestou. — Recebeu a minuta ontem, senhor. Enviamos a pasta escura contendo todos os dados desse novo contrato. Com os documentos havia um memorando informando que o assunto seria incluído na pauta da reunião de hoje, pois assim evitaríamos atrasos no cronograma da aquisição. A pasta escura. Aquela onde havia levado o projeto de Rachell. A pasta que deixara sobre a mesa da suíte no hotel. Acidentalmente, havia trocado as duas pastas na ânsia de sair daquele quarto e escapar da forte atração que sentia por ela. Levara a pasta contendo documentos e dados do trabalho que ela realizava na Irlanda, deixando a outra em seu lugar sobre a mesa. E agora ela tinha em seu poder a minuta do contrato de aquisição da D&B. Acidentalmente, trocara as duas pastas. Levara a dela ao sair do hotel. Ele olhou para Devonshire. — Tem alguma coisa a ver com isso? — perguntou sem rodeios, revelando toda a irritação que o dominava. 38
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    Perigosa Atração — A D&B é essencial para a nossa expansão — respondeu Boris, outro diretor, tomando a defesa de Devonshire. Ryan sabia disso. Conhecia melhor do que ninguém todos os aspectos de seu lucrativo e próspero empreendimento. Devonshire o encarava com ar superior. Estava enganado, ou um sorriso frio e triunfante bailava em seus lábios? — Adquirir a D&B é uma questão de economia. Precisamos dos bens da companhia e da porção operacional que ela vai agregar ao grupo. A aquisição vai fazer da Ore Industries a maior fornecedora de minério de ferro no mundo, e ainda teremos prestígio e sucesso também no ramo da construção civil, ponto forte da D&B. Ryan conhecia o processo. Há anos estudava os pontos fracos de companhias em todo o mundo, adquiria aquelas que julgava interessantes e, depois, analisava-as internamente, dissecava-as como se fossem cadáveres, tirando proveito daquilo que podia ser útil e vendendo o que não interessava aos seus propósitos, lucrando novamente com a mesma transação. Saber que esse era um processo inevitável nesse momento não o tornava mais fácil de aceitar. Todos sabiam que a D&B podia se tornar parte da Ore Industries, ou, como concorrente, ir à falência. Ryan sabia que não havia uma terceira via. Sabia que seria assim desde que adquirira a Ore Industries, um ano atrás. — Pense, Donally — Devonshire prosseguiu. — Quando tudo isso terminar, você não vai ter mais de lidar com o estigma da firma irlandesa. Não haverá mais Donally & Bailey, o que também vai ser um ponto positivo na nossa expansão internacional. Esse nome carrega uma conotação que é prejudicial por... Ryan jogou a pasta sobre a mesa. O estrondo interrompeu o odioso discurso de Devonshire e atraiu a atenção de todos os presentes. Livrar-se do rótulo irlandês era essencial num competitivo mercado internacional, mas ouvir a declaração o fazia sentir sórdido, mesquinho. Era como se traísse as próprias origens. — Escolha quem vai querer trazer da D&B — disse Devonshire, olhando para o local de onde Johnny ouvia tudo em silêncio. — Há um lugar para você na Ore Industries, sr. Donally. — E para sua equipe, ou boa parte dela — acrescentou Boris. — Meu irmão não é o único membro na diretoria da D&B — Ryan manifestou-se irritado. — A srta. Bailey será tratada como todos os outros acionistas — disse Boris. — É com ela que se preocupa, não? Suas ações serão absorvidas e ela receberá os dividendos corretamente. Não tema, sr. Donally, não haverá nenhuma trapaça na transação. Ninguém será prejudicado. — É muito conveniente que tenham tomado essa decisão justamente agora, quando a srta. Bailey não está mais em Londres — Johnny opinou de seu lugar afastado. — Tenho certeza de que ela está segura em seu emprego —Devonshire manifestou- se novamente. — A srta. Bailey é competente o bastante para chefiar a divisão de Dublin. Porém, se sua vida privada vier a público, se seus atos inconseqüentes e seu comportamento condenável tornarem-se de conhecimento público, as ramificações e 39
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    Perigosa Atração conseqüências... — Do que está falando? — Ryan perguntou sério. — Fiz minhas investigações sobre essa pessoa que se identifica como R. Bailey. Dizem que ela mantém um relacionamento que vai muito além do profissional com um certo engenheiro da companhia, um rapaz chamado Allan Marrow, e que ela é o cérebro por trás de todas as operações da divisão da firma em Dublin. No ano passado, a D&B foi premiada com o contrato para reconstruir a ponte sobre o rio Avonmore perto de Rathdrum. O projeto foi repetidamente adiado. Datas têm sido desrespeitadas e os prazos para a realização da obra não foram cumpridos. Agora Dublin não honrará os outros contratos a que está presa até esse projeto ser concluído. Imaginamos... Bem, ficamos nos perguntando se alguém tem conhecimento de uma ou outra irregularidade por lá. Por exemplo, alguém sabe se ela se pôs no comando desse projeto por conta de algum erro cometido por outro indivíduo? — Devonshire, vá direto ao ponto — Ryan exigiu impaciente. — Não estou entendendo onde você quer chegar com toda essa conversa. — Bem, se essa irregularidade realmente ocorreu, se a srta. Bailey assumiu o comando da operação em Dublin, como suspeito, tal fato viria a público, caso ela enfrentasse o conselho em um fórum público. Quem quer que esteja se recusando a pagar o dinheiro devido pela construção da ponte, e já sabemos que esses contratos não estão sendo cumpridos pelas duas partes, o que significa que ela não recebeu o valor devido pela obra, provavelmente está contando em embolsá-lo, protegido pela certeza de que o caso jamais será levado à corte. A srta. Bailey não pode correr o risco de ir aos tribunais e expor-se a um terrível escândalo que a destruiria profissionalmente e arrastaria a D&B para a lama. Ryan olhou para Johnny. — É com esse tipo de problema que ela tem de lidar por lá?— perguntou. Ryan sabia que, se não fossem as dificuldades financeiras, ela já teria começado a construir a ponte usando o próprio projeto. — Precisamos conversar em particular — Johnny respondeu. — Como podem ver, a srta. Bailey é prejudicial — Boris manifestou-se com evidente oportunismo, empurrando um envelope por cima da mesa. — Ela precisa ser removida, ou a divisão irlandesa vai se tomar um prejuízo fiscal para nós. E ainda estaremos sempre na iminência de um escândalo, caso essa história de termos uma mulher no comando de uma importante divisão torne-se de conhecimento público. Depois da aquisição da D&B e da liquidação dos contratos pendentes, podemos trazer trabalhadores de Liverpool e Gales. Os salários mais baixos acarretarão lucro e... —Rachell nunca vai concordar com a substituição da equipe— disse Ryan. — Se ela não cooperar, temos meios de forçá-la a entender nossa posição — interferiu Devonshire. — Uma ou outra palavra sobre a conduta da srta. Bailey... — A reunião acabou — decretou Ryan. Era melhor assim, ou acabaria esganando Devonshire. Todos se levantaram e começaram a sair, mas Ryan os deteve com um chamado imperativo. — Um momento, milorde. Johnny, espere por mim na minha sala, por favor. Precisamos conversar. 40
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    Perigosa Atração Devonshire apagou o cigarro e esperou, a postura relaxada denotando insolência. — A decisão de adquirir a D&B demorou a acontecer — ele disse com a costumeira arrogância. — Com toda aquela questão pendente na França chegando às manchetes dos cadernos financeiros, é hora de agir. — E o que, exatamente, você teria a contar aos tablóides que poderia nos trazer algum lucro, Devonshire? — Sua preocupação com essa mulher foi notada na noite em que foi visto deixando o hotel onde ela se hospedava. Talvez deva considerar como ela pode prejudicá-lo. A srta. Bailey não é o que está pensando, Donally. — Devonshire caminhou para a porta. — Esperamos importantes convidados para o jantar esta noite. Se gostarem de você, talvez possam mencionar algumas possibilidades para um futuro na política... — Não superestime sua importância em minha vida, Devonshire. Só está aqui porque eu permito que seja assim. Devonshire saiu sem responder, mas algo gelado e ameaçador cintilou em seus olhos quando ele se despediu de Ryan com uma rápida mesura. Ryan fechou a porta da sala. Johnny olhava pela janela para a chuva que caía sobre a cidade. — Ela partiu no trem para Liverpool há três dias — anunciou sem se virar, ouvindo os passos do irmão e o som abafado da porta sendo fechada. — Disse que a avó não gozava de boa saúde e por isso ela precisava retornar à Irlanda. Ryan aproximou-se do irmão para pegar o bilhete que ele segurava entre os dedos. Era uma mensagem breve e direta deixada por Rachell antes de partir, e ele a amassou imediatamente depois de lê-la. — Rachell não tem mais ninguém na família. Só a avó — Johnny tentou defendê-la. — Eu sei — Ryan respondeu carrancudo. — Vai mesmo deixar a Ore Industries adquirir a D&B? Está de acordo com essa aquisição? — Eu sou a Ore, Johnny. Já falamos sobre isso antes. A Ore Industries e a D&B não podem coexistir no mesmo ambiente. Uma era o passado. A outra era o futuro. Ryan sempre olhava para o amanhã. Johnny sabia que dessa vez não era diferente. — Preciso saber até que ponto Rachell se envolveu na operação — ele disse. Johnny respirou fundo. — Ela assumiu o projeto Rafhdrum depois de o engenheiro chefe ter cometido um erro oneroso em sua avaliação da amostra do solo. Os trilhos de trem tiveram de ser levados mais para o interior. O erro custou mais seis meses para a D&B, período no qual Rachell se dedicou pessoalmente à pesquisa, em detrimento de suas funções na supervisão da contabilidade da divisão. No final, acho que ela se cansou de apoiar Marrow e de estar sempre cuidando dele para evitar erros graves. Cercou-se de capatazes competentes e... Bem, duvido que Marrow tenha sido eficiente em algum momento. Sem ela? Não. Ele não teria feito nada. — Resumindo, a divisão Dublin não tem sido mais do que uma fracassada entidade filantrópica desde que foi criada. Não há dinheiro em caixa e os contratos que assinamos nunca foram honrados. Não recebemos o que nos era devido pelas obras realizadas ou 41
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    Perigosa Atração em andamento.Eu devia saber o que a fez voltar. Rachell não teria vindo à Inglaterra sem um bom motivo. — Acredita mesmo que Rachell voltou a Londres por causa daquele projeto? Só pelo projeto? — E você? Acha que fiz alguma coisa para mandá-la embora às pressas? Estou enganado, ou há uma certa nota de acusação em sua voz? — Não fez nada para contribuir com essa partida precipitada e inesperada? — Ela é adulta, Johnny. — Durante toda a sua vida, vira os irmãos e o restante da família cercarem Rachell de cuidados como se ela fosse um bibelô precioso, um presente de Deus aos mortais. Estava cansado das mesmas discussões, de agir e ser tratado como se corrompesse tudo que tocava. — Nossa família encheu a cabeça dela de sonhos que agora Rachell pensa serem possíveis. Ela não estava satisfeita com a administração contábil da divisão Dublin. Todos vocês prepararam a queda. Não fui eu. E é uma queda e tanto, Johnny. Você sabe o que tenho de fazer. Ryan pegou o paletó nas costas da cadeira. — Vai para a Irlanda? — Agora? Não. Vou para casa ver minha filha. Ela faz aniversário dentro de quatro dias, e esse ano não vai estar sozinha. De jeito nenhum! A caminho da saída, Ryan ordenou à secretária que cancelasse o jantar daquela noite. Não suportaria encarar Devonshire depois de tudo que havia acontecido ali. Não tão cedo. Cinco ou seis crianças correram ao encontro de Rachell quando ela desceu do coche. Tinha o hábito de levar balas e doces sempre que passava mais de dois ou três dias fora de casa, e os pequenos esperavam ansiosos pela distribuição dos presentes. Felizmente, David havia parado em uma confeitaria a caminho dali, ou os teria frustrado dessa vez. Rachell morava nos arredores de Dublin, em um distrito pitoresco localizado na velha estrada militar, perto de Glencree. Passava o tempo livre com a avó fora de Dublin, onde podia gozar de algum anonimato. Ser neta de uma idosa conhecida na região conferia a ela uma aceitação que não teria em outras circunstâncias. Não em sua condição de mulher solteira considerada excêntrica por muitos que a conheciam. Aos vinte e nove anos e ainda sem um marido ou noivo, gozava de mais liberdade do que as mulheres mais jovens. Apesar de ter recebido propostas de casamento de quase todos os homens solteiros e viúvos de Enniskerry a Glencree em um ou outro momento, muitas pessoas reconheciam que ela jamais se casaria. A última proposta fora feita por um homem viúvo que precisava de uma esposa para cuidar de seus nove filhos. A pequena que ela agora tinha nos braços era a caçula. Ninguém entendia o que Rachell fazia para viver. Francamente, ninguém a entendia. E ninguém a conhecia de verdade. Mas as crianças do vilarejo a adoravam. Talvez por venerarem David e sentirem sua devoção a Rachell, ou por ela estar sempre distribuindo doces e presentes variados. De repente ela pensou em Mary Elizabeth, e a lembrança foi como uma estaca cravando-se em seu coração. David, ou padre Donally, como era conhecido na região, começou a distribuir as guloseimas. As gargalhadas das crianças atraíram Memaw, que apareceu na janela do 42
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    Perigosa Atração quarto. — Vou levar a bagagem — disse David. — Não se esqueça de dizer a sua avó o quanto ela está linda. — Eu ouvi isso, menino linguarudo! Rachell, esse sacerdote cruel me tortura! Um simples tropeção, um ferimento mínimo no dedo, e ele me mantém presa em casa! — Agora está ferindo meu coração, Memaw. Pode me causar problemas com acusações tão ultrajantes. — Não quero que leia seus ritos na minha cabeceira! Deixe-me em paz! — David, minha avó falou em um ferimento no dedo... Você me disse que ela havia se machucado! — Um dedo machucado pode ser grave, Rachell. Não quis correr riscos. Se permitisse, ela mesma teria pulado no coche para ir buscá-la. O médico ainda acha que ela não devia ter saído da cama depois daquela vertigem no mês passado. — Ela piorou? Rachell e David entraram na casa de Memaw. Elsie seguia na frente abrindo portas e carregando coisas. Memaw estava em seu quarto, sentada em uma poltrona com o pé enfaixado e apoiado em um banco. Esse era seu local preferido. Ali ela tricotava, e de manhã, com o sol invadindo o aposento e a brisa transportando o suave perfume das flores no jardim, ela ouvia o riso alegre das crianças e se sentia rejuvenescida. — Memaw, isso é mais do que um dedo machucado! — Rachell assustou-se. — Não é nada. Foi só um tropeço sem importância, mas esse padre maluco insiste em me manter aqui, com o pé enfaixado. David pretende me manter acamada. Mas... você voltou antes do previsto. — Não havia mais nada a fazer em Londres. — Nada mesmo. Ela e Ryan manteriam contato restrito aos negócios, e sempre por intermédio de mensageiros. Fim. Sua vida havia sido uma sucessão de erros graves e evitáveis. Tudo que queria agora era esquecer esse seu lado ingênuo que se impusera impiedoso nas últimas semanas e retornar ao mundo dos números, planilhas e diagramas. Nunca mais pensaria em Ryan Donally. Ele devia saber que tipo de homem era Devonshire. Ryan não era cego nem estúpido. Além do mais, tinha os próprios problemas para resolver. — Está chorando, Rachell? — Não, Memaw, eu... Eu... — Venha cá, criança. O tom carinhoso causou o desmoronamento. Rachell chorou nos braços da avó, deixando-se afagar e aconchegar como na infância. — Eu... sinto-me tão tola! — Ele vai se casar com outra. Eu sei. Tentamos preveni-la antes de você seguir para Londres, mas era tarde demais. De qualquer maneira, tudo tem sempre um propósito, minha menina. Tudo acontece por um motivo. — Como soube? Como adivinhou meus sentimentos por ele? — Eu estava lá quando ele se casou com Kathleen. Muita gente percebeu naquele dia o que você sentia por Ryan. 43
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    Perigosa Atração — Por Deus! — Que espetáculo patético devia ter oferecido aos convidados para o casamento da melhor amiga. Rachell chorava e ria. Não sabia mais o que sentia por Ryan. Atração física, sim. Quem não se sente atraído pela perfeição? Mentalmente, Ryan estimulava seu interesse pelas coisas do mundo, e admirava sua competência profissional. Acompanhara a carreira dele por muitos anos. Seus trabalhos haviam composto a maior parte de sua educação. Mas ela e Ryan não existiam no mesmo plano emocional. Ele não valorizava as mesmas coisas que ela. Ryan sempre fora ditatorial, explosivo e desdenhoso da convenção moral. Por outro lado, ele também oferecia generosas contribuições à universidade que havia freqüentado. Fazia doações a orfanatos. Ajudava os necessitados de muitas maneiras. Rachell sentia que havia perdido a habilidade de entendê-lo. Como um homem que amava a filha com tanta ternura podia pilhar empresas e destruir tantas vidas com sua ganância insaciável? E ele não a respeitava como profissional, ou não a teria confinado à Irlanda com aquele patético Allan Marrow chefiando a divisão de engenharia, mesmo sabendo que ela era mais competente que todos os homens da companhia. Ryan nunca estivera na Irlanda para avaliar seu trabalho. — Memaw, agora que sei que está bem, preciso ir verificar o progresso dos trabalhos em Rathdrum. Terei de me ausentar por alguns dias. — Deixe aquele patife do Marrow cuidar de Rathdrum. Há bandidos e saqueadores naquela estrada, sabe? Rachell limitou-se a sorrir. Não voltaria a essa discussão. Era sempre assim. Toda vez que pegava a estrada para ir verificar pessoalmente o local da obra, a avó tentava impedi- la de ir. — Eu preciso ir, Memaw. Você sabe disso. O momento da emoção havia passado. Determinada, ela se levantou para sair do quarto e encontrou David no corredor. Ele tocou seu rosto para indicar que havia notado as marcas deixadas pelas lágrimas. — Só você é capaz de conduzir-me montanha acima e me empurrar do precipício sem nenhuma palavra de condolência — ela murmurou. — Isso é o que faço melhor. Agora vá, minha menina. Mandei os criados deixarem sua bagagem em seus aposentos. Vá descansar. A noite era fria e cinzenta. Rachell levava um xale sobre a cabeça e caminhava com cuidado por entre as sepulturas cobertas de musgo, muitas delas localizadas fora do perímetro sagrado da igreja local. Uma névoa densa pairava entre os dois salgueiros que demarcavam a área destinada àquelas almas pagas. Rachell não visitava aquele lugar há muito tempo, embora às vezes comparecesse aos serviços ali, especialmente por essa antiga igreja situar-se entre Glencree e Dublin. Em alguns momentos se perguntava por que uma criança tinha de morrer. E sua filha? Rachell sempre acreditara piamente na providência. Se uma pessoa era boa, se não cometia pecados, seguia as regras e trabalhava duro, poderia realizar seus sonhos. Sua jornada tivera um preço alto demais. Em Edimburgo, ela era uma das duas mulheres com permissão para freqüentar as aulas. Seu pai havia sido professor de física naquela instituição. Quando deixara Londres 44
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    Perigosa Atração para começaruma nova vida, atraíra a atenção de um administrador da universidade que também era seu professor de engenharia. Saíra dos braços de Ryan diretamente para os de outro homem, ansiando desesperadamente por amor. Dois anos depois de iniciado o relacionamento, ele se casara com outra mulher. Alguém respeitável com novos atributos femininos. Afinal, um homem nunca se casa com a amante. Rachell não sabia quanto Devonshire havia descoberto, nem que razão fora dada oficialmente à universidade para justificar sua partida. Fora morar em uma pensão para jovens consideradas perdidas em um endereço na periferia de Dublin. Fechando os olhos, ela sentiu o perfume da terra molhada. Firme sob seus pés, ela despertava lembranças que a emocionavam muito. Sentira inveja por ver a filha de Ryan coberta de amor por tantas pessoas, enquanto a dela morrera sem nunca ter sido amada se não por ela, sua mãe. Dissera coisas horríveis a Ryan no funeral de Kathleen. Ainda podia sentir o peso de sua dor naquele momento. Apesar da frágil saúde de Kathleen, o desejo de dar um filho a Ryan a fizera arriscar a própria vida. E Ryan havia deixado isso acontecer. E se ele se culpava pela morte de Kathleen, Rachell culpava-se ainda mais por ter contribuído para aumentar essa culpa, tal a profundidade de sua angústia naquele tempo. Perdera a filha, um bebê, e a melhor amiga, num período de poucas semanas. Rachell abandonara a pessoa mais importante de sua vida... como sempre. Um galho se partiu. David a esperava protegido pelas sombras do frondoso salgueiro, os olhos escuros indecifráveis e profundos. — Sabia que a encontraria aqui — ele disse. — Não permita que ninguém jamais diga em sua presença que o poder absoluto não corrompe — Rachell respondeu, pensando no homem que havia planejado amar por tanto tempo e que acabara desposando uma rica e bela debutante. E agora Ryan fazia o mesmo. — Não é verdade. — Fale-me sobre seu coração, Rachell. — Ah, eu... agora sei que jamais poderei estar com Ryan. Por razões óbvias, não sou uma esposa adequada. Mas por um momento... Só por um momento... Francamente, não sei o que se apossou de mim para deixar tudo e viajar para Londres como eu fiz. — Ela olhou para o solo, para a pequena demarcação na terra molhada. — Acredita que ela foi para o Céu? Apesar dos meus pecados? David aproximou-se dela. . — Sim, ela está no Céu, Rachell. Ele a levou de volta para casa na carroça puxada por um burro, embora o trajeto a pé fosse mais rápido e curto. O jantar estava quase pronto quando ele abriu a porta do fundo e a conduziu ao interior da cozinha aconchegante. —Encontro você em dez minutos à mesa—David anunciou. Rachell beijou-o no rosto e subiu para ir ao quarto se preparar para o jantar. Não gostava de saber que pessoas queridas se preocupavam por sua causa. Não era nenhuma delicada peça de porcelana que precisava de manuseio cauteloso. Mas David, Memaw e até Johnny pareciam conspirar de alguma forma para protegê-la. Rachell nunca soubera o que havia levado David a vestir a batina. Há nove anos, depois de uma temporada na Legião Estrangeira, ele voltara a Londres apenas para 45
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    Perigosa Atração depor suasarmas, e depois se recolhera a um seminário para fazer seus votos. Ela nunca o interrogara. Nem sobre a escolha, nem sobre aquela aliança de ouro em sua mão direita. Nada indicava que eventos o haviam levado a esse caminho. David era infalível com uma espada, igualmente letal quando lutava apenas com as mãos, mas seu coração era bom. Generoso e terno como poucos. Os paroquianos o amavam. E se era do passado que ele fugia, então, ambos haviam encontrado um santuário naquela pequena parte da Irlanda. David buscava Deus para curar suas enfermidades e aplacar sua consciência. Ela encontrara um emprego. Pensando nisso, Rachell abriu um dos baús que continham suas coisas, retirou dele a pasta escura e a deixou dentro de outro baú, aquele que levaria na próxima viagem a ser empreendida no dia seguinte. Toda a papelada, mapas topográficos, desenhos, tudo que era necessário para o projeto Rathdrum estava ali. Mas, por enquanto, tudo que queria era estar com Memaw e David, convencê-los a desistir de se comportar como se estivessem em seu funeral, e não em uma reunião na qual comemoravam sua volta para casa. Capítulo IV Uma semana depois do aniversário de Mary Elizabeth, Ryan passava pela porta da D&B em Dublin. Ao vê-lo, a jovem sentada atrás da mesa da recepção levantou-se assus- tada, derrubando um tinteiro. — Sr. Donally! Nós... Ninguém aqui o esperava, senhor. O sr. Marrow está numa reunião. Vou informá-lo sobre sua chegada. — O escritório da srta. Bailey fica no segundo andar? — Sim, senhor. Mas ela não está aqui. Ryan caminhou para a escada. — Mande Marrow ir me encontrar lá. Pessoas em postos variados levantavam o olhar para vê-lo passar, e seus sussurros o seguiam pelo corredor. Ele carregava uma pasta com as iniciais de Rachel, e não foi difícil encontrar a sala com o nome dela na porta. Era um escritório pequeno, simples, mas organizado e cheio de vida. O perfume dela pairava no ar. Na mobília, nas cortinas, no tapete... A medalha que pusera no pescoço dela em Londres abordava um troféu da Sociedade de Arquitetura, um prêmio que ele havia recebido um ano atrás em nome da empresa. Havia fotos de obras inacabadas, e em todas elas uma solitária figura feminina reinava absoluta entre os homens. O orgulho foi tão inevitável quanto respirar. Rachell era competente. Capaz. Era um líder. Uma lutadora. Ela era como um furacão de energia arrastando seus pensamentos. Tornara-se figura permanente neles, e cada passo que dava o levava para mais perto dela. Porém, não gostava da missão que desempenharia na Irlanda. Queria encontrá-la e certificar-se de que ela estava bem. Depois, queria sacudi-la. E 46
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    Perigosa Atração esse erao problema. Não sabia o que fazer com ela. Aos trinta e um anos, ainda ficava confuso e agitado sempre que pensava em Rachell Bailey. — Sr. Donally — chamou uma voz masculina. Ryan virou-se e viu Allan Marrow parado na porta do escritório, as mãos cheias de papéis. — Não o esperávamos. A srta. Bailey não está aqui. Partiu há três dias para Rathdrum. — Meu irmão foi com ela? — Sim, senhor. O padre Donally a acompanha. Ryan tirou um envelope do bolso e jogou-o sobre a mesa. — Os contratos foram pagos. Aqui está o recibo do depósito realizado hoje no Banco da Irlanda. — Não, entendo, senhor. Fomos informados... — Você não entenderia. Não está no ramo há tempo suficiente para isso. Ao chegar, Ryan havia ido procurar as autoridades dos serviços públicos para resolver o problema relacionado ao projeto Rathdrum. O dinheiro já havia sido liberado e enviado a Dublin, mas estivera indevidamente retido nas mãos de um membro do comitê de obras. Ryan havia sido claro sobre que providências tomaria, caso o valor não fosse imediatamente liberado de acordo com o contrato. Duas horas mais tarde, ele fora informado de que o depósito havia sido feito. — Amanhã mesmo, dois contadores da matriz começarão uma auditoria nos livros. Espero que sejam tratados com cortesia. — Há alguma discrepância ou irregularidade, senhor? — Espero que não. — Era impossível evitar a antipatia por esse homem. As insinuações de Devonshire sobre ele e Rachell ecoavam em sua cabeça, prejudicando o julgamento. — Você tem uma hora para ir fazer as malas. Já contratei um coche para levar-nos a Rathdrum. Envie o recibo à contabilidade. Estarei lá fora. Ryan saiu da sala e desceu a escada. De repente pensava no irmão mais velho com certo antagonismo, e não queria nutrir esse sentimento. Rachell sempre havia estado mais próxima de sua família do que ele mesmo. Melhor assim. O que tinha para dizer a ela poderia ser dito aos dois. Ryan encontrou a casa de Memaw sem nenhuma dificuldade, apesar dos anos. Estava nervoso. Em muitas ocasiões, ainda menino, estivera naquela casa visitando a astuta senhora quando se afastava de Carlisle, onde crescera. Seus avós paternos estavam enterrados em algum lugar daquela terra de santos e estudiosos, entre Dublin e Kenmore. Inglesa, sua mãe havia sido deserdada pela família ao se casar com seu pai, irlandês. O rosto de Memaw surgiu na janela, enrugado e curioso. Ryan sofreu um forte impacto ao vê-lo. Não sabia o que esperava da mulher de quem fora tão próximo após a morte da mãe. Ali sempre encontrara refugio. Havia sido nessa casa que encontrara conforto quando se afastava do pai. — Ryan Donally? O que faz aqui, rapaz? — ela gritou da janela. — Vim visitar uma mulher idosa e teimosa que está com o pé machucado. — Não tenho nenhum machucado. Vai ficar parado aí na porta? Entre de uma vez! E 47
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    Perigosa Atração traga Marrowcom você. Ele deve estar faminto, como sempre. Hoje temos o guisado que ele tanto aprecia. Ryan deixara o jovem engenheiro esperando no coche, mas ele já ouvira o convite e se aproximava apressado, confiante como se houvesse estado na casa centenas de vezes antes. — Srta. Bailey — o mestre de obras chamou da carroça. — Precisa de carona para o vilarejo? Rachell interrompeu o que estava fazendo, supervisionando o canteiro de obras, para olhar na direção da carroça onde, além do capataz, havia seis operários. — Não, obrigada, sr. 0'Roarke. Ainda tenho trabalho a terminar por aqui. — O trabalho vai continuar aqui amanhã, srta. Bailey. — Já discutimos esse assunto antes. — Mas... todos já voltaram para o vilarejo! — Nem todos. E imagino que tenha sido treinado pelo padre Donally para cuidar de mim. Não precisam passar a noite aqui. Podem ir descansar ou se divertir. E amanhã, verifique se os suprimentos que encomendei já foram despachados de Dublin. Eles já deveriam estar aqui. Rachell despediu-se dos operários e foi para sua tenda, no acampamento da obra. Ela e Elsie dormiam ali. O cozinheiro dormia em outra tenda. Ninguém mais se escandalizava com sua presença no local, especialmente depois de todas as melhorias que levava ao pequeno vilarejo. A pavimentação da rua principal possibilitava uma viagem mais tranqüila entre a obra e o prédio da D&B, e os asilos locais não sabiam como agradecer os donativos generosos que recebiam da companhia. Na barraca, ela removeu o chapéu, soltou os cabelos e abriu a gaveta da pequena cômoda para localizar a garrafa de uísque envelhecido que mantinha escondida de David. — Não vai à festa esta noite? — David perguntou da porta. — Por Deus, quer me matar de susto? Pensei que houvesse voltado para sua paróquia hoje de manhã. David entrou na tenda espaçosa e organizada. — Pensei que já estivesse pronta. — Para quê? — Para a feira no vilarejo. — David, tenho trabalho aqui. — Os habitantes da cidade esperam vê-la na comemoração dessa noite. Seus homens também. Vai ter de ir. Como sempre, David considerava todos os envolvidos na situação, menos ela. Não a deixaria sozinha no acampamento. Rachell pegou a pasta de documentos que deixara sobre a mesa, e de repente notou algo de estranho nela. RDl. Devia ser RBl Não havia notado o monograma na fechadura da pasta antes, quando partira de Dublin. E não usara a pasta desde que estivera na casa do sr. Williams solicitando sua herança. Ela a abriu. Alarmada, Rachell começou a examinar os envelopes e foi tomada por um súbito pânico. Ryan! Ele devia ter levado sua pasta na noite em que estivera em seu quarto de hotel, e ela viajara levando a dele cheio de contratos, anotações de 48
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    Perigosa Atração compromissos erelatórios. David aproximou-se e reconheceu a caligrafia do irmão. O papel continha o itinerário completo de Ryan para uma semana. — Meu irmão é um homem muito popular. É isso que deseja para sua vida? — Sim, quero ser muito ocupada. — Rachell guardou todos os documentos, sentindo- se culpada por ter invadido a privacidade de Ryan. — Quero provar que posso ser tão profissional quanto Marrow ou qualquer outro homem na D&B. Acha que errei quando levei meu projeto para Ryan avaliar? — Não importa, não é? Você já está fazendo o trabalho de Marrow. — Tenho tantos segredos, David! O sr. Marrow terá uma reunião com políticos amanhã em Dublin. Se eles não realizarem o depósito do valor acertado pelos contratos de construção da ponte, vamos ter de encerrar o projeto. Rachell ajeitou os envelopes para fechar a pasta, e sentiu algo pontiagudo ferir seu dedo. Era um clipe para papéis e dinheiro. E ele mantinha juntas várias notas de libras. — Mas... o que é isso? Quem carrega mil libras em dinheiro vivo? Ryan deve ter enlouquecido! David retirou o dinheiro da mão dela. — Sim, mas o bom Deus aprecia sua generosidade. — Isso é roubo, David! O dinheiro não é meu! — Se meu irmão quiser reclamar sobre sua generosa doação, será bem-vindo no meu confessionário. Sua alma se beneficiaria de um pouco de reflexão sobre os pecados cometidos. Especialmente nos últimos três anos, desde que ele decidiu converter-se à Igreja Anglicana. — Onde você vai? — Rachell perguntou ao vê-lo sair da tenda. — Vou esperar por você aqui fora. A menos que precise da minha ajuda para escolher um vestido. — Não se incomode com isso, senhor — Elsie disse da área privada da barraca, um espaço menor protegido por lonas. — Já cuidei disso. — Não posso ir à festa! — Sim, você pode. — David... — E leve Elsie, também. — Oh, sim, senhor! — Elsie respondeu animada. — Eu adoraria ir à festa! Furiosa, Rachell teve certeza de que David e Ryan eram exatamente iguais. Ryan desceu do coche seguido por Marrow. Os dois olharam para a fileira de veículos parados ao longo da rua principal do vilarejo. Havia uma comemoração no lugar. Podiam ouvir as flautas e gaitas animando a celebração. — É a feira anual — Marrow explicou. — Havia esquecido que a festa acontece nessa época do ano. Ryan não podia deixar de pensar em como a sorte parecia tê-lo abandonado recentemente. — Precisamos de um lugar para dormir — ele disse ao cocheiro, entregando-lhe algumas moedas de ouro. — Percorra a estrada e encontre acomodações para nós. Não se incomode com o preço. 49
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    Perigosa Atração Não sabia onde estavam Rachell e David, mas sabia que não poderia chegar ao acampamento da obra enquanto não encontrasse um meio de atravessar a cidade, fechada pela feira. Fogos de artifício coloriram o céu. Ryan tinha as roupas úmidas, resultado da chuva fina que caíra desde que deixara a casa de Memaw no início do dia. Havia passado a noite lá, na cama de Rachell, sentindo seu perfume e tentando não enlouquecer. — Quando esteve na Irlanda pela última vez, senhor? — Há dez anos, Marrow. Pouco antes do avô da srta. Bailey falecer. — É bastante conhecido por aqui. Seu nome é reverenciado. — O que está dizendo? — A Donally & Bailey alimenta muitas pessoas por aqui. Ryan não respondeu. Em silêncio, começou a caminhar por entre os coches e carroças, lamentando não ter vestido roupas mais adequadas. Só os sapatos em seus pés custavam mais do que muitas pessoas ali ganhavam em um ano, e o sobretudo sobre o terno preto era da mais pura lã inglesa, outro luxo facilmente identificável. Mulheres sorridentes vendiam doces e ofereciam seus dotes com generosidade, mas Ryan nem as via. Trovadores cantavam as coisas do coração. Músicos tocavam suas gaitas e flautas exaltando as tradições místicas da terra. Era uma noite para duendes e gnomos. — Senhor, ali está a srta. Bailey — Marrow anunciou. Ryan olhou na direção apontada por ele e a viu na roda dos dançarinos. E ela não parecia a Rachell de costume..... Os cabelos soltos cobriam-lhe as costas em ondas até a cintura numa feroz cascata de cobre, a saía simples de musselina flutuava revelando tornozelos delicados, e ela dançava... dançava... Ryan caminhou para perto do círculo. Pessoas aplaudiam acompanhando o ritmo da melodia. Outras mulheres dançavam. Rachell era como uma deusa paga, uma cigana, uma ninfa da floresta... Um ser encantado. Um homem a enlaçava pela cintura e a conduzia nos passos da dança. — A srta. Bailey sabia que estava a caminho, senhor? Não, mas logo saberia, Ryan prometeu a si mesmo. Assim que a segurasse pelos ombros e a sacudisse. Onde estava a solteirona recatada que só pensava na carreira? Onde estava a modéstia com que ela se vestia na Inglaterra? Não a conhecia, certamente. Até esse momento, estivera preocupado com ela, com os motivos de sua partida precipitada de Londres, como sua vida e seu futuro. Mas podia perceber que Rachell estava contente. Calculista! Mentira para ele sobre o projeto Rathdrum. Omitira os fatos. Ao deixar de seguir o protocolo, ela havia traído sua confiança. Mentira sobre os motivos de sua viagem a Londres, e partira apressadamente por saber que ele nunca aprovaria o projeto. Sentia-se traído. Vê-la sorrir e rodopiar nos braços daquele desconhecido alimentava esse horrível sentimento. De repente, Ryan sentiu que era observado. Olhos escuros e firmes o estudavam do outro lado do círculo de dançarinos. David. 50
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    Perigosa Atração Seu irmão o estivera estudando. E havia censura em sua expressão, como se ele o houvesse surpreendido em pecado. Furioso, Ryan ofereceu um sorriso gelado, indicando que não pretendia se desculpar por seus pensamentos tão claros. Rachell acreditava estar segura na Irlanda? Pois se enganara. Em nenhum lugar do mundo, ela estaria protegida dele. E que David lesse em seus olhos suas intenções, se quisesse. O irmão se aproximava, mas Ryan preferiu entrar na roda dos dançarinos. A música tocava a alma de Rachell. O cheiro de flores e frutas, o riso e a dança, o ar festivo, tudo criava um sentimento mágico de bem-estar. Estava feliz por David tê-la forçado a ir e, ofegante, ela dançava e sorria para o parceiro, um dos muitos naquela noite, um homem cujo nome nem conhecia. Muita gente ali viera de longe apenas para beber e dançar. Uma jovem o convidou para a próxima dança, e ele se afastou com um sorriso de gratidão. — Posso ter a honra da próxima dança, srta. Bailey? — Allan Marrow se debruçou sobre sua mão. Rachell encarou-o incrédula. — Allan? Devia estar em Dublin! — Os contratos da Rathdrum foram pagos. — Pagos? Como? Os dois se viraram ao mesmo tempo para Ryan. Rachell sentiu uma forte vertigem. — Ryan... — ela murmurou ofegante e tonta. O que ele fazia na Irlanda? Ele entregou o sobretudo a Marrow e a levou para o círculo dos dançarinos. — Vamos dançar — disse. O tom sensual fez seu coração bater mais depressa. Rachell não se sentia bem. A energia de Ryan, a surpresa de sua chegada, o calor da dança... — O que está fazendo aqui? — Creio ter sido convidado. — Ele a conduzia ao outro lado do círculo, de onde prosseguiu para fora dele. Rachell sentia uma forte apreensão. — Onde está hospedada? — No acampamento da obra. Ryan parou para encará-la. — Onde fica? — Na direção do rio, um quilômetro ao sul, mas... — Não diga mais nada. Quando conversarmos, não será como um dos meus irmãos ouvindo cada palavra. Confusa, Rachell se deixou levar para longe da área da feira. Sabia que Ryan estava tentando escapar de David. — Elsie veio comigo. E meu cozinheiro, também preciso encontrá-los. — David cuidará deles. — Eu... tenho sua pasta de documentos. Já a teria mandado de volta, mas só hoje... 51
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    Perigosa Atração — Você está encrencada, Rachell. O pânico a invadiu como uma onda gigantesca. Ela tropeçou, quase caiu, e Ryan a tomou nos braços para carregá-la pelo terreno acidentado. Nenhum homem jamais a carregara nos braços. Sentia-se ridícula e frágil, mas não podia negar a intensa e evidente sensualidade do gesto. E não gostava nada do que sentia. — Ponha-me no chão, Ryan. — Não. — Estou falando sério. Ponha-me no chão. Está se portando como um... um bárbaro. Ele a jogou sobre um ombro. — Juro que vai pagar caro por isso — ela ameaçou enquanto esmurrava suas costas. — Qual é o problema com você, afinal? — Por que você não me diz? Talvez possa explicar inclusive por que tenho sempre de descobrir tudo por terceiros. Ele descobrira. Sabia que investia dinheiro próprio no projeto Rathdrum e que os contratos não haviam sido pagos de acordo com o combinado. Sabia que estivera se escondendo atrás de Allan Marrow nos últimos dois anos. Ryan parou. Ele a pôs no chão e fitou-a. O momento era intenso, cheio de promessas e perigos. Rachell não conseguia desviar os olhos dos dele. — O que você quer, Rachell? Queria que ele a beijasse. Só mais uma vez, queria sentir o calor de seu corpo e a força de seus braços. Mesmo que não fosse real. Mesmo que não fosse além desta noite. Esse era seu desejo eterno. Por isso ela o beijou. E desta vez Ryan não tentou se esquivar. Pelo contrário, estreitou-a entre os braços e aprofundou o beijo, tornando-o uma paródia do ato sexual. De repente, ele a encostou contra um tronco de árvore e, mantendo a boca bem próxima da dela, perguntou: — Você e Allan Marrow são amantes? — O quê...? Você é insano? Allan é... Ele é mais novo que eu, Ryan! — O que só o torna mais fácil de manipular e dominar. Ela hesitou, pensando nas verdadeiras razões para a presença dele na Irlanda. Se os contratos haviam sido pagos, Ryan cuidara disso. Sabia de seu fracasso como administradora e líder, de sua incapacidade de resolver sozinha os problemas da divisão. — Será que posso explicar...? — Explicar o quê? — Ele acariciava seu pescoço e a fitava nos olhos. Estavam sozinhos numa área de sombras e silêncio, um bosque discreto. — A razão verdadeira de sua ida a Londres? Ou há quanto tempo está se escondendo atrás de Marrow e fazendo todo o trabalho na D&B de Dublin? — Você nunca quis saber a verdade, Ryan, como se isso o eximisse de tomar decisões relativas ao meu futuro profissional. E o projeto era meu. Queria que me reconhecesse como profissional competente e capaz. — E por isso foi até Londres e... me beijou? — Aquilo foi pessoal. 52
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    Perigosa Atração — Quanto? — Muito. Extremamente pessoal. E foi verdadeiro, também. Eu juro. — Rachell, se nos beijarmos novamente... — Sim? — Dessa vez não vou parar. Não vou me contentar com um beijo. O que sugere? Qual é a sua decisão? Vamos continuar nessa dança eterna de aproximação e recuo até perdermos a razão, ou vamos agir... e saciar essa ânsia que nos consome? — Agir? Agir? — Eu quero. Você quer. Continuamos na velha dança, ou... nos entregamos ao pecado? — Você enlouqueceu, Ryan. — Completamente. E ainda nem bebi. — É uma pena que não esteja bêbado — disse a voz de David atrás dele. — Porque assim, quando acordasse ao amanhecer, teria apenas uma grande dor de cabeça como conseqüência. Paralisada pelo horror, Rachell ouviu os passos de David sobre as folhas secas no chão. — Se não tomarem muito, muito cuidado, vão acabar casados — o sacerdote prosseguiu. — Ryan não pertence mais à Igreja Católica, David — ela lembrou. — E não pode nos casar. Não aconteceu nada aqui. — Ainda — Ryan corrigiu. — Não aconteceu nada... ainda. Ela sabia que estava entre os dois homens mais dominadores do império. Ryan foi o primeiro a recuar dessa vez. Furioso, ele se afastou e deixou-a sozinha para lidar com David, que parecia tão generoso e benevolente quanto um raio enviado pela ira divina. Ryan se deu conta de que não estava sozinho na cama. E tinha uma terrível dor de cabeça. Um corpo quente se aninhava contra suas costas. Com o nascer do sol, ele ia percebendo mais e mais coisas. Uma respiração arfante, lambidas nas nuca, o cheiro horrível do hálito de um cachorro. Estava deitado sobre o próprio casaco em uma pilha de feno, dentro de um celeiro cheio de animais variados, como galinhas e cães. — Parabéns! — disse David ao ver o irmão acordado. — Encontrou o único lugar para alugar em um raio de quilômetros. Ryan sentou-se para encarar o sacerdote parado na porta. — Bom dia para você também — disse. — Quero que fique longe de Rachell. — É difícil, considerando que temos negócios a discutir. — Você entendeu o que eu disse. Rachell é mais vulnerável do que imagina. — Vulnerável? Não me faça rir! — Não estou brincando. E antes de acusá-la de traição, saiba que ela usou a própria herança para prosseguir com o projeto e pagar os operários. Ela é a única razão pela qual mil e duzentas pessoas ainda não perderam seus empregos. Rachell vendeu a propriedade em Carlisle para concluir a obra. Ela é muito popular por aqui, e a equipe que trabalha no projeto se sente no dever de protegê-la. 53
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    Perigosa Atração — Escute, como me encontrou? — Ryan perguntou irritado e confuso. — Algumas pessoas viram quando vocês saíram juntos da festa. Pensaram que Rachell podia correr algum risco e esboçaram a intenção de protegê-la. Minha presença naquele bosque serviu para proteger você da ira daquela gente. — Ela está feliz na Irlanda, David? Sente-se satisfeita escondendo-se atrás dos livros e de outros profissionais? Quem são seus amigos? — Rachell tem muitos dons. É generosa e amada por todos que a conhecem. Talvez ela não necessite de mais nada para ser feliz. Pecadores reformados sempre se tornavam péssimos santos. Normalmente, Ryan se aborrecia com as meias verdades hipócritas de David e sua propaganda religiosa. Seu irmão havia vivido intensamente a juventude. Mas o tom protetor tocou sua consciência... e mais alguma coisa escondida no fundo de sua alma. Havia um longo período da vida de Rachell que Ryan não conhecia. Ela praticamente desaparecera durante seu casamento com Kathleen, e havia muitas cartas que ela escrevera para a amiga, sua esposa, ao longo dos anos. — Nunca tive a intenção de magoá-la, David. Ontem à noite... Se quer mesmo saber o que aconteceu, espere Rachell contar. ---Rachell forja suas confissões. Nunca me diz nada de verdadeiro. — Ela mente enquanto se confessa? — Não exatamente. Ela apenas... omite. Escute, estamos perto de Glenealy, minha diocese. Não quer tomar um banho e se barbear? — Isso é um convite? — Está cheirando mal. Além do mais... vêm, você tem o direito de usar as instalações construídas com seus donativos. — Ah... — Era óbvio que David havia se apoderado do dinheiro contido na pasta. Marrow havia dormido no coche, mas levantou-se sonolento quando Ryan entrou. — Senhor, padre David esteve aqui perguntando por seu paradeiro. — Ele já me encontrou, Marrow. — Sim, e ele também perguntou porque estou aqui. — E você disse...? — Disse que vim para assumir o posto da srta. Bailey. Ela não vai gostar da sua decisão, senhor. — Marrow, eu... prefiro falar sobre isso mais tarde, está bem? Siga-nos no coche. Vamos à diocese de meu irmão. Ele me espera em sua carroça. — Senhora — Elsie afastou a lona que protegia a área íntima da tenda — ele está aqui. Rachell terminava de se vestir. — Ele quem? — O sr. Donally, senhora. Veio com o sr. Marrow. Os dois estão no canteiro de obras. Marrow de novo. Rachell franziu a testa. Pela primeira vez em anos, havia dormido demais e perdera a hora do trabalho. — Elsie, providencie o café, por favor. Comeremos lá fora, e depois você terá tempo de sobra para arrumar a tenda. Quando ela terminou de comer e se dirigiu ao local da obra, Ryan a recebeu sério e 54
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    Perigosa Atração solene. — Bom dia. — Bom dia — ela respondeu, notando que ele havia se banhado, barbeado e mudado de roupa. — Esteve em Glenealy com David? Reconheço o perfume do sabonete. — E o aprecia? — Ah, é muito agradável e... — Uma armadilha. Podia ver o brilho erótico nos olhos dele. — As mulheres não vão reclamar. — Que bom. Quero mesmo retribuir a hospitalidade que encontrei entre meus parceiros irlandeses. — Quer dizer que encontrou um lugar onde passar a noite? — Oh, sim, um lugar muito aconchegante. E não dormi sozinho, se é o que quer saber. — Não quero saber. — Não mesmo? Sempre achei que gostava de ouvir certas... ousadias? — Não. É você que gosta de dizê-las. — Incomoda-se por saber que posso ter tido companhia na cama? Rachell sorriu. Era provocação que ele queria? Pois que se preparasse! — Depende da qualidade dessa companhia. — Bem, vejamos, se comparar seus beijos e os da minha companhia, posso afirmar que você baba menos. — Eu não babo! Nunca... Espere — ela parou, notando o sorriso debochado que iluminava seu rosto. — Não se refere a uma mulher, não é? — Não — Ryan reconheceu rindo. — Tive uma noite horrível num celeiro fétido e dividi a cama de feno com um cachorro! Pelo menos não senti frio. Ela riu. — Desculpe, Ryan. Deve ter sido horrível mesmo, mas não consigo me controlar. — Não se incomode por mim, por favor! — Já tomou café? — David se apiedou da minha condição. — Ah, bem... Melhor assim. E... fico feliz por ter dormido sozinho. Considerando que têm um futuro planejado ao lado da Branca de Neve... — É só um negócio, Rachell. Nada mais. A atitude mercenária a revoltou. Ryan se submetia a uma castração emocional! Não tinha sentimentos, apenas uma determinação implacável de vingar-se da sociedade que ele desprezava com fervor. — Como pode se casar sem amar? Depois de ter sido casado de verdade? — Como pode me fazer essa pergunta? Sem nunca ter sido casada? Com exceção da sua fantasia infantil com meu irmão, quando esteve apaixonada? Ou é do tipo que entrona o princípio do romantismo, pensando que um relacionamento físico é sempre mais do que parece ser? Já esteve com um homem, Rachell? Nos braços de um homem? Na cama com um homem? A chuva caía. Uma lona a protegia dos pingos gelados, mas seu coração sentia o frio gerado pelas lembranças de pecados passados. Rachell notou que Ryan havia removido a aliança de Kathleen depois do funeral. Retomara sua vida. Fugia das recordações. 55
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    Perigosa Atração Não revelaria mais do que suas ações já haviam mostrado. Não se importava com o que Ryan pensava, se a julgava uma leviana ou uma meretriz. Não devia explicações a ele. Não devia nada a Ryan Donally. — Quando, Rachell? Ela o encarou. — Quando fui para a universidade. Depois do seu casamento. Eu o conheci quando você estava em sua lua-de-mel. A presença de Ryan despertava nela o desejo por coisas que jamais teria. O conflito interno ameaçava sua autonomia, o equilíbrio de forças entre eles, tudo que tanto se esforçara para conquistar. — Alan Marrow veio para assumir o projeto, Ryan? Ela o pegou desprevenido. Ryan corou e desviou o olhar. — Eu sabia. Você está fazendo exatamente o que eu previ que faria. — A questão é mais complexa do que imagina. — Sempre é. Vai me remover permanentemente da divisão irlandesa, não é? — Escute... — Não. Há anos luto como uma leoa para manter essa divisão à tona. Tudo que quero... — Rachell, quando esse projeto for concluído, não haverá mais Donally & Bailey na Irlanda. Ela parou. A declaração foi como um balde de água gelada. Ryan fecharia a divisão irlandesa da empresa? Mataria seu futuro e tiraria o emprego de centenas de pessoas? — Não pode fazer isso. Não vou permitir. Não vou... Odiava-o. Odiava Ryan por ter vindo à Irlanda e, com seu toque mágico, solucionado todos os problemas financeiros, só para fechar a divisão. Odiava-se por ainda ser capaz de amá-lo depois de tudo que fazia. Acima de tudo, desprezava-o pela piedade que via em seus olhos. Como se ele fosse inocente, como se não estivesse arruinando sua vida. Agora sabia por que ele estava em Rathdrum. E não era por ela. — Só tenho uma coisa para dizer, sr. Ryan Donally. Isto! — Ela cerrou o punho e o teria acertado no queixo, não fosse a esquiva rápida que o livrou do golpe. — Traidor! — Rachell... — ele a segurou pelos braços. — Tire as mãos de mim, ou juro que vou gritar! Eles o jogarão no rio e eu não farei nada para impedir! Não pode fazer isso comigo, Ryan! — Grite quanto quiser. Incite seus homens contra mim. Nada vai mudar os fatos. Essa divisão vem perdendo dinheiro há anos. — Você é um bastardo! Agora entendo por que as pessoas o odeiam e desprezam, por que escrevem tantas coisas horríveis sobre você. Como pude acreditar na sua decência? Você nunca foi decente! Ryan a apertou entre os braços, girando-a de forma a apoiar as costas dela contra o peito. — Acalme-se, pelo amor de Deus! Quanto a ser decente, não sei o que fiz para lhe dar essa idéia. As palavras cruéis o atingiram em cheio, e Rachell ouviu a nota de dor na voz dele. E se arrependeu imediatamente. 56
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    Perigosa Atração — Desculpe — pediu ofegante. — Não devia ter dito... — É tarde demais. Palavras são como projéteis. Uma vez ditas, não se pode mais removê-las. Ou, talvez, esteja apenas mentindo para você mesma, como mentiu para mim em Londres. — Eu não menti! — E continua mentindo. Por favor, poupe-me do seu ressentimento, está bem? Não tenho tempo para isso. Não vou aceitar o papel do vilão nessa história. Chega, Rachell. Estou farto de tudo isso. Ele a soltou, e Rachell quase caiu. —Nesse momento, meus contadores estão examinando seus livros em Dublin. Vai ser reembolsada por cada moeda que investiu pessoalmente no projeto. — Não me tire esse trabalho, Ryan. — Eu jamais iria tão longe. E entendo por que fez tudo o que fez. — Como pode entender? — Eu teria feito o mesmo. Fiz o mesmo mais vezes do que pode imaginar. Mas como ele podia entender, se o que queria tomar agora era tudo que ela possuía? A riqueza o protegia. O status o protegia da irrelevância. Ele tinha uma filha para amar. Um futuro promissor. A chuva caía. Rachell ouvia vozes perto do rio. — Assim que terminar a inspeção do canteiro, voltarei a Dublin e arranjarei um encontro entre os meus advogados e os seus. E você vai ouvir minha proposta. — Quer comprar minha parte da companhia? É isso? — Só estou pedindo para ouvir a oferta. Não vai passar por nenhuma dificuldade, garanto. E se está pensando em recorrer a David ou a Johnny, esqueça. Marrow trabalha para mim. Como 0'Roarke e 0'Reiley. Eles não a deixarão voltar ao canteiro sem mim. Ryan já se afastava quando ela gritou: — Não deixe de ir ver o entroncamento dos trilhos no lado oeste, sob a ferrovia. Ontem encontrei problemas por lá. Ele assentiu. E não disse que teria localizado o problema de qualquer maneira. Tudo não passava de um pesadelo. Ryan jamais tiraria dela essa divisão da D&B. Nunca. Meia hora mais tarde, quando voltou à tenda, Rachell encontrou suas coisas dentro dos baús. — O que é isso, Elsie? — O sr. Donally ordenou que o sr. Marrow se mudasse para cá, senhora. Ele disse que não dormiríamos aqui esta noite. Alguém vai nos levar a Glenealy. Padre Donally nos cedeu seu chalé. — Pelo menos vamos dormir bem esta noite — Rachell comentou com um misto de resignação e desânimo. — Está acontecendo alguma coisa, senhora? — Partiremos para Dublin assim que eu resolver tudo por aqui. — Mas, senhora... — Elsie, não questione minha autoridade. — Sim, senhora. 57
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    Perigosa Atração Rachell sabia que a divisão Dublin da D&B dava prejuízo ao grupo. Talvez Ryan tivesse realmente o direito e o dever de eliminá-la, e não precisava dar explicações nem pedir desculpas por isso. De sua parte, devia retornar a Dublin e preparar seus advogados para o confronto iminente. Tinha de conhecer quais eram suas opções legais. Precisava conversar com Johnny. Precisava pensar. Mas a última coisa que queria era estar sozinha com seus pensamentos. Não duvidava da própria vontade ou de sua força para lutar, mas, no momento, queria algo mais pessoal. Algo mais próximo do coração. Da alma. Algo que a parte mais sóbria e intelectual de seu ser a aconselhava a esquecer. Mas Rachell não queria esquecer. Nos próximos anos teria tempo de sobra para encontrar alívio no esquecimento. — Maldito Ryan Donally! Maldita hora que havia viajado para Londres e despertado necessidades sufocadas por tantos anos. Agora, além do sofrimento e da solidão, tinha também de enfrentar o medo causado pela conexão de Ryan com lorde Devonshire. Mas, por hora, tinha de receber os suprimentos que acabavam de chegar e conferir item por item da entrega com a nota fiscal. Depois pensaria na própria vida. Precisava tranqüilizar os operários e anunciar que ninguém perderia o emprego. E também os incentivaria a ajudar e respeitar o sr. Marrow. Sabia que Allan ia precisar de toda a ajuda que pudesse obter. Falaria também com Marrow antes de deixar o acampamento. Ele devia estar esperando por suas instruções. Um dos operários foi procurá-la na tenda para confirmar os boatos de que ela havia sido substituída no projeto. Rachell explicou com calma toda a situação e pediu ao homem que fosse transmitir as notícias aos colegas. Depois, sozinha, ela esperou pelo coche que a levaria ao chalé na diocese do padre Donally. Capítulo V A luz no altar brilhava tênue na escuridão da nave. Os passos de Ryan soavam altos e vazios no chão de pedra que ligava a porta à sacristia. Ele carregava um casaco. Velas acesas tornavam o ar denso e pesado de fumaça. Cheiros familiares a alguém que havia sido coroinha durante boa parte da infância. Ryan abriu a porta da sacristia e entrou. David estava sentado atrás da escrivaninha, lendo, mas levantou a cabeça e tirou os óculos ao perceber sua presença. — Ryan! Não esperava vê-lo aqui. — Devia ter marcado uma entrevista? — Normalmente, é o que você faz. Gostou do chalé? Ryan se instalara em um dos chalés da paróquia três dias antes. Estivera analisando as anotações e os dados do projeto, quando ouvira Rachell chegar à casa vizinha. Com um copo na mão, ficara na janela observando enquanto "Sua Majestade" dirigia a massa 58
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    Perigosa Atração para transportartoda a sua bagagem para o interior da modesta construção. Ao vê-lo, ela fechara as cortinas num gesto ostensivo. Mas as cortinas eram finas, e Ryan nunca fora um cavalheiro. Desde aquela dia, voltara à janela todas as noites com interesse redobrado. — Não há nada errado com as minhas acomodações — ele respondeu ao irmão. — Só vim me despedir, caso não o veja amanhã. Pretendo voltar a Dublin assim que o eixo do coche estiver reparado e pronto. — Esperava que ficasse mais. Ryan estava inquieto. Era como se quisesse falar mais, mas não soubesse como. David pegou uma garrafa de uísque e serviu a bebida em dois copos. — Rachell vai com você? — indagou o religioso ao servir a bebida. — Não. Duvido que ela aceite ir comigo a algum lugar. — Hum... Sabia que eu tinha o hábito de esvaziar uma garrafa dessas por dia? — Está contente aqui, David? — Sim, tanto quanto pode estar um homem em paz. Esse é um bom lugar para viver. E aqui posso ao menos fazer coisas boas, ser útil. Ryan tinha vinte e dois anos quando David voltara à Inglaterra, nove anos atrás, depois de mais uma missão cumprida a serviço do governo. Ele havia se afastado da família, da vida em geral. Ryan não o conhecia mais. E a culpa era tão dele quanto de David. Era hora de promover reaproximações. Ryan se inclinou para a frente. — O que aconteceu com Rachell depois que ela deixou a Inglaterra? O que houve com ela em Edimburgo? — Do que está falando? — Do homem com quem ela teve um envolvimento. Por que não se casaram? — Essas são questões que vai ter de fazer a ela. — Estou perguntando a você. — Não vou responder por ela. — Todos sabem? A família inteira, menos eu? — Como vai a família? — David indagou, aproveitando para mudar de assunto. — Sua parte no fundo está depositada no Banco da Inglaterra. Chris fez o depósito há alguns anos. — Não estou interessado no dinheiro. — Mas pode estar um dia, quando desistir de se punir por pecados que cometeu no passado. Quando compreender o que realmente quer. — Essa é boa. O pecador pregando para o santo.--- Ryan levantou-se. — David, na última vez em que tive notícias suas, você estava muito longe de ser santo. David contornou a mesa. — Encontrou o que procurava, Ryan? — Sim, encontrei. — De fato? E o que conseguiu com tanta riqueza? Gosta do cheiro do ar que respira, do calor do sol na pele, ou ainda está em busca do seu pote de ouro? Sua razão para 59
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    Perigosa Atração viver? — Minha razão para viver está em casa, esperando por mim. Ela fez quatro anos na semana passada. — Esse é um fardo pesado demais para uma criança carregar sozinha. — Ela não vai ficar sozinha por muito mais tempo. — Sim, eu soube do seu noivado. Parabéns. Só precisou atacar uma grande corporação para comprar uma noiva de sangue azul. Muito bem, Donally. A família se orgulha de você, como sempre. — E por acaso preciso da sua aprovação? Uma vez na vida, por que alguém não pode me elogiar com sinceridade, com sentimento? Minha vida não me pertence? — Os tablóides escandalosos o idolatram. Você tem o tipo de vida que todos querem ter, mas todos o odeiam por isso. É um irlandês na Inglaterra. Aqui, é um traidor que deserdou.Então, quem é você de verdade, Ryan Donally, se não um homem que ainda busca por sua identidade? — Não vim aqui para ouvir sermão. Francamente, minha vida não é da conta de ninguém. Deixei isso bem claro há anos, não? — Sim, e todos os membros da família já me informaram sobre isso. Muitas vezes. — Vocês falam muito sobre mim. E você? Por que está aqui? De verdade, David, aqui, no meio do nada, pregando o evangelho? — A vida modifica um homem. — Uma afirmação memorável. Vou providenciar para que ela seja gravada na sua lápide. A vida mudou David Francis Donally e o transformou no maior hipócrita que já existiu. Pergunte a si mesmo se encontrou o que estava procurando antes de julgar as minhas ações. — Está apaixonado por ela? Ryan parou, abalado com a enormidade da resposta que lhe surgiu na mente. Havia partes de seu coração tão resguardadas, que nem ele mesmo as conhecia. — Meus sentimentos por Rachell são irrelevantes. — Eu não estava falando de Rachell. Ryan olhou para o irmão com evidente ressentimento, sentindo que havia sido enganado para revelar algo que devia ter mantido em sigilo. — Está apaixonado por ela — David riu. — Ela tentou me dar um soco no queixo! Por que não pensaria nela? — Vocês brigaram? De verdade? Rachell é a pessoa mais contida que conheço! Ryan riu do absurdo da colocação. — Ela tem o temperamento de uma guerreira pré-histórica! — Quem ganhou? Ryan não respondeu. Pensava nisso todas as noites desde que ela aparecera em Londres. Pensava nela todas as noites. Sonhava com ela. Mas não queria discutir com o irmão. Não devia ser muito aconselhável gritar com um sacerdote ou xingá-lo, e já havia falado demais. Por isso ele voltou ao chalé. O cocheiro o esperava na porta para informar que o coche não estaria pronto no dia seguinte, afinal. O eixo não podia ser consertado por falta de peças adequadas. 60
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    Perigosa Atração Ryan despiu-se, pegou a garrafa de uísque que deixara na prateleira e decidiu terminar o que havia começado na noite anterior. Sentado diante da lareira acesa, ele bebeu numa inútil tentativa de afogar os pensamentos sombrios. Mas a imagem de Rachell era mais forte que o uísque e o mantinha sóbrio. Frustrado. Ardendo de desejo. Podia imaginá-la em seus braços, nua e pronta para recebê-la em seu corpo... E podia imaginar a extensão de seu ódio quando soubesse qual era sua proposta. A D&B não podia mais sustentar a própria independência. Era hora de incorporá-la ao conglomerado. Não conhecia outra maneira de proteger os interesses financeiros de Rachell. Mas ela o entenderia? Nunca. Rachell entrou na igreja e benzeu-se com a água benta da pia ao lado da porta. Depois, caminhando com passos firmes e ainda pensando no presente que sua criada lhe havia dado no dia anterior, uma caixa contendo quatro esponjas com longos fios a elas atados, um método anticoncepcional muito usado na região do Mediterrâneo e nos bordéis da Europa. Dirigiu-se à sacristia. David levantou-se de sua cadeira ao vê-la entrar. — Preciso me confessar. — Agora? — ele estranhou, como se ela nunca houvesse feito uma confissão em toda a vida. — Não pode deixar para amanhã? Sabe que horas são? — Espero que não trate todos os seus paroquianos da mesma maneira, David. Isso já é bem difícil sem esse seu desinteresse. — Cometeu algum erro grave? — Sim! Ele respirou fundo. E concordou em ouvir a confissão. Rachell o seguiu ao confessionário e esperou que a janela se fechasse entre eles. Não havia feito nenhuma confissão desde que deixara Londres. Mesmo antes, conseguira omitir quase todos os pecados do padre confessor. Odiava revelar suas fraquezas. Agora, não sabia por onde começar. — Estou ouvindo, Rachell... — Perdoe-me, padre, porque estou prestes a pecar... — Prestes a pecar? — Perdi completamente a razão. Sinto-me como se não pudesse mais me controlar. — Você não é a única — ele murmurou. Mas Rachell não ouviu. — David, você sabe mais sobre mim do que qualquer outra pessoa. Essas últimas semanas têm sido as mais difíceis da minha vida. Juro, ou terei relações carnais com Ryan, ou acabarei por matá-lo! Não consigo decidir... David saiu do confessionário e parou diante dela tomado por toda a ira de Jeová. — Fora! — Eu... Recuso-me a sair. Ainda não acabei minha confissão. — Quando viu meu irmão pela última vez? — Ontem. No vilarejo. Ele nem falou comigo. Se houvéssemos feito alguma coisa, eu estaria confessando um pecado, não a intenção de pecar. — Está apaixonada por ele, Rachell? --- David reconheceu a hesitação. 61
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    Perigosa Atração — Eu... sinto uma certa atração física, mas penso que é normal. Quem não se sentiria atraída por seu irmão? Sabe como ele é... — Francamente, não faço a menor idéia. — Ele é sedutor... — Sim, quando quer ser. — É generoso... — Quando quer alguma coisa. Rachell estranhou o comentário. Ryan era uma das pessoas mais generosas que ela conhecia. — Ele é lindo. Como a luz do sol banhando os campos. E ele me aquece, David. — Ele é muito parecido com você, Rachell — David respondeu em voz baixa. — Se estivesse mesmo apaixonada, não teria perdido a cabeça há alguns dias. Tentei agredi-lo, sabe? — Perdeu a cabeça porque ele a está tirando do projeto Rathdrum. — Sim! — Finalmente, alguém entendia a dicotomia da situação. — Ele quer comprar minha parte na D&B. — E você dedicou-se tanto quanto qualquer Donally para construir a empresa. — Para ser bem franca, acho que seria capaz de matar Ryan. E talvez o matasse. Ou, talvez, fizesse amor com ele. As duas possibilidades traziam o mesmo elemento de catástrofe, pelo menos para ela. — David, preciso de você. Impeça-me de fazer coisas de que posso me arrepender depois. Estou desesperada. Como foi capaz de nos abrigar aqui, um ao lado do outro? Isso tudo é sua culpa! — Ah, agora a culpa é minha? — Sim, sua. — E espera que eu a salve do fogo eterno... — Não pode fazer um pequeno milagre? Não sei... Um raio sobre o chalé de seu irmão, talvez? — Venha comigo.---- Rachell hesitou. — Agora! Ela se levantou para segui-lo. — Tire as mãos de mim! — Ryan tentava se livrar das garras da besta humana que praticamente o arrastava para a sacristia da igreja, mas era inútil. O sujeito já o empurrava pela porta. Rachell estava parada no interior da sala com ar compungido, as mãos unidas na frente do corpo e a cabeça baixa. Um homem permanecia a seu lado, e ele era quase tão grande quanto o bastardo que o arrastara até ali. — Que diabo está acontecendo? Rachell, você está bem? — Ela está ótima. E você vai se casar — disse David com tom furioso. — Naturalmente. E quem será minha adorável noiva? — Vou deixar você escolher entre as mulheres aqui presentes. Ryan havia esquecido aquele sorriso gelado e perigoso. — Seu sarcasmo me irrita, sabe? E não tem graça. Não vou me casar. Não agora. Nem aqui. 62
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    Perigosa Atração — Acha que estou brincando, meu irmãozinho? Eu avisei que teria de interferir, caso não fossem capazes de resolver sozinhos essa situação entre vocês dois. — Que situação? Eu não fiz nada! — Vou realizar o compromisso de casamento entre você e Rachell. É uma velha tradição irlandesa que não requer a bênção da Igreja. Você pode ter decidido que não é mais católico, mas é irlandês, apesar do que quer mostrar ao mundo. Esses votos serão suficientes. — Não pode fazer isso, David — Rachell protestou, tentando se livrar do homem que segurava seu braço. — Posso, e vou fazer agora. Estou cansado e quero me recolher. — David fez um gesto para o homem que segurava Rachell. — Estou cansado de resolver os problemas que vocês criam. Mais tarde poderão discutir os detalhes dessa... união. Ryan não sabia se ria do irmão ou se o esganava. — Isso é absurdo! Não pode nos coagir a isso. — Conheço um capitão da marinha mercante em Dublin que está sempre precisando de marinheiros. Estenda a mão, Ryan, ou vou despachá-lo para San Francisco em um dos navios desse meu conhecido. Esses homens estão aqui porque podem cumprir essa pequena tarefa para mim. Não voltaremos a vê-lo em um ano, pelo menos. — David, vou mandar prendê-lo por isso. — Você tem o direito de me denunciar, se quiser. Seqüestro é ilegal. Mesmo entre irmãos. Mas só vai cumprir sua ameaça daqui a um ano. — Esqueça, David — Rachell interferiu. — Não vou me casar. E não pode me despachar num navio mercante. Ryan havia esquecido a presença dela na sala. — O que disse a ele? — Eu? — Por que mais meu irmão estaria insistindo em nos casar? — Unam as mãos agora, ou não se verão por um longo tempo. Mão direita, por favor. Os nós devem ser feitos corretamente para que a união seja válida. Silêncio. Um silêncio tenso e prolongado. Finalmente, Ryan se livrou das mãos que o seguravam. — Faça o que ele está dizendo, Rachell. — Não. Isso é ridículo. David não vai mandá-lo para lugar nenhum. — Faria alguma diferença para você se ele mandasse? — Sim. Não quero ninguém que eu conheço navegando para San Francisco. — Então, reconhece que sentiria minha falta? — David não vai fazer isso, Ryan. Ele está blefando... Não está, David? — Não. — Ele não pode realizar um casamento legal — Ryan lembrou, estendendo a mão direita para pôr fim à farsa. — Como sempre, ele está se superestimando. Só isso. — Estenda a mão sobre a dele, Rachell. Tocá-lo não deve ser difícil, considerando o que me contou há menos de uma hora. Ryan ergueu uma sobrancelha ao olhar para o rosto horrorizado de Rachell. Ela estendeu a mão sem dizer nada. 63
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    Perigosa Atração David disse algumas palavras, depois amarrou uma fita azul em torno de seus punhos e fez um nó. A cerimônia teria terminado em paz, se Ryan não houvesse bebido tanto. Ou se o homem atrás dele não mantivesse uma pistola apontada para suas costas. David sempre havia sido um tirano, um briguento incorrigível. Ryan perdeu a paciência. Quando David se inclinou para desamarrar a fita que simbolizava o compromisso, Ryan o acertou com a mão esquerda. David caiu, mas recuperou-se e retribuiu com força espantosa. Ainda amarrada a Ryan, Rachell tentou detê-lo segurando a mão dele, mas só o tornou indefeso. David o acertou no queixo. Sua cabeça se chocou contra um pilar de sustentação, e ele caiu inconsciente. — Chega! — Rachell gritou. — A culpa é sua, David Donally! Você o feriu! Como pode ser tão bruto? — Você me pediu para salvá-la do fogo eterno. Agora, tem um ano e um dia para decidir o futuro. — Esse compromisso não é legal. — Pensar em Ryan controlando sua vida por um ano era horrível. Uma idéia obscena. — É um costume pagão. — Sim, mas ainda é muito praticado nas ilhas britânicas. E meus meninos aqui podem testemunhar que você me procurou por sua própria vontade. — Isso mesmo, srta. Bailey — disse Ralph Blakeley. — Padre Donally nos fez compreender que isso seria melhor para a senhorita. — Quando meu irmão recobrar a consciência, ele poderá decidir o que quer fazer com uma esposa e sua criada. Talvez possam todos ficar na mesma casa. Como amigos. — Nunca o perdoarei por isso, David Donally — ela gritou quando o padre e os dois grandalhões saíram da sacristia. — E pode ter certeza de que nunca mais ouvirá uma confissão minha. Nunca mais! A porta bateu. — Essa sua ameaça vai deixá-lo muito preocupado — Ryan murmurou de seu lugar no chão. Ele ainda mantinha os olhos fechados, mas se encolheu quando tentou mover a cabeça. — Ryan, você está bem? Consegue se mexer? — Vamos ver... Se descontarmos a visão dupla e a confusão mental, acho que estou bem. Continuamos na Irlanda? — Sim, infelizmente. Lamento que David tenha feito isso com você. — Afinal, o que disse a ele? — Nada — ela respondeu apressada, livrando-se da fita azul que ainda a prendia a Ryan. — Nada? Nada? Como seu caso amoroso com aquele homem também não foi nada? — Meu caso amoroso? — Exatamente. Aquele nada no seu passado que ninguém quer comentar. — Não fale comigo como se sua história fosse casta e pura! — Você não me conhece, Rachell. E se tudo que acredita saber saiu dos jornais, você me conhece ainda menos. Pela primeira vez na vida, Rachell não se incomodava com quem estava certo. Ryan 64
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    Perigosa Atração ou ela.Sentia-se responsável por tudo. Por arruinar os planos que ele havia reservado para a filha. Seu futuro. Não sabia o que dizer. Nunca se sentira mais acovardada do que nesse momento. — O que vamos fazer? — Não faça esse ar trágico, Rachell. David não tem o poder que pensa ter. Não estamos casados. — Então, tudo continua como antes entre nós? — Nunca houve nada entre nós. E se houvesse, se alguma vez houvesse acontecido alguma coisa, talvez tivéssemos nos poupado da agonia desse dia. — Agonia? Quer dizer que nesse momento eu estaria livre para seguir cuidando da minha vida? Sem sua presença tão... aborrecida? — Podemos descobrir se minha presença é mesmo aborrecida. Ou se tudo teria sido aborrecido entre nós. — Ou você pode deixar a Irlanda exatamente como a encontrou. Pode voltar para a Inglaterra sem olhar para trás. — Mesmo que não estivéssemos aqui, juntos e sozinhos na sacristia da igreja de meu irmão, eu não poderia acatar sua sugestão. — Ryan, não quero ter um caso com você. — Então, o que você quer? — Pelo amor de Deus! Existem regras para esse tipo de coisa? — Não. Nem para o que eu quero fazer com você. Ela gemeu, tomada de assalto por um intenso e incontrolável desejo. — Rachell, uma vez não pode ser considerada um caso. — Não? — Não. Uma noite. Sem negócios. Sem passado. Sem futuro. Só nós dois, Rachell. Você e eu. Tinha no bolso um meio para evitar a gravidez, mas nada era totalmente seguro. Porém, o calor do corpo de Ryan e a promessa do que poderia viver em seus braços prejudicava sua capacidade de raciocínio. E ele ainda nem a beijara! Queria beijá-lo. — Ryan... — Diga o que você quer. Fale agora, Rachell. — Eu não sei. — Você sabe. Uma noite seria suficiente? — Sem negócios? — ela repetiu. — Sem passado e sem futuro? E depois tudo voltaria a ser como era? — Juro. Tudo voltará a ser como antes, Rachell. Ela o beijou. Passava da meia-noite quando Rachell se aninhou em seus braços e sorriu satisfeita. — Nunca tive uma noite tão memorável, Ryan. — Fico feliz por ter gostado — ele riu, afagando seus cabelos úmidos de suor. — Por que nos sentimos tão compelidos a... a isso? — Prometo contar quando descobrir a resposta. 65
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    Perigosa Atração Mas ele sabia qual era a resposta. O que não sabia era como nadar nas águas profundas e revoltas em que se encontravam e manter a cabeça fora da água. Porque essa noite havia sido uma mentira. Ainda não havia conseguido distinguir todas as nuances da pura luxúria e de tudo que sentia, mas já estava certo de que uma noite com ela nunca seria suficiente. O dia já havia amanhecido, mas eles ainda estavam deitados na cama do chalé. Fizeram amor muitas vezes ao longo da noite, mas o desejo ainda estava ali, clamando por satisfação. Inesgotável. — Rachell... — Ryan murmurou enquanto a mantinha entre os braços depois de saciá- la mais uma vez. — Hum? — Por que não se casou com ele? Com o homem com quem se relacionou antes? — Ele se casou com outra mulher. Um silêncio constrangido caiu sobre eles, e Rachell sentiu que Ryan recuava mentalmente diante de tão delicado assunto. Era preciso ter cautela ao caminhar sobre cacos de vidro. — Ainda se veste com plumas e finge ser uma diva da ópera diante do espelho? Ela o encarou espantada, surpresa por ele ainda lembrar de um detalhe tão bobo da infância. — Não vai acreditar na quantidade de lembranças que ainda trago comigo. — Quais? Eu quero saber. — Vejamos... Você saltou suas primeiras barreiras aos dez anos montando um cavalo grande demais para o seu tamanho. E chorou quando aquele ridículo peixinho dourado morreu. — O peixe havia sido um presente. — Meu. Eu sei. — Ele ficou comigo por um ano. Era meu melhor amigo e confidente. — Sua flor preferida é orquídea. — Como sabe disso? — Você as carregou em sua primeira comunhão. Todas as outras meninas levavam buquês de lírios brancos, mas você levava orquídeas colhidas entre as árvores do pomar de seu pai. As freiras não gostavam muito do seu pensamento independente. Ryan a surpreendia mais e mais a cada minuto. — Gosta igualmente de Emily Brontê e das Leis do Movimento de sir Isaac Newton. E também gostava de homens em uniformes militares. Escarlates. Rachell não gostou de ouvir uma referência a sua paixão infantil por Christopher, e manifestou esse desgosto. — Desculpe-me por arruinar o momento. Ela não sabia se o pedido era sincero. Talvez ele quisesse apenas provocar uma reação. Rachell reagiu beijando-o. E eles fizeram amor mais uma vez. Por muito tempo depois disso, enfraquecida pela turbulência do clímax que havia compartilhado com ele, Rachell não se moveu. E quando trocaram o primeiro olhar depois desse clímax violento e envolvente, ela soube que ambos haviam alcançado o mesmo 66
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    Perigosa Atração ponto douniverso. Ryan abraçou-a e, por um momento, ela deixou o coração correr livre. E esse foi seu grande erro. — Vamos dormir. Quando acordarmos, você e eu teremos de conversar sobre nosso acordo — ele sussurrou. — Não vou desistir de você. Rachell abriu os olhos. Não queria que ele modificasse o que havia sido acertado antes. Não queria ser sua amante ou ter um caso tórrido e vil que macularia as lembranças dessa noite. Não o amaria e o veria desposar outra mulher. Rachell ouviu o crescente ruído dos pássaros cantando lá fora. Ouviu a respiração de Ryan mudar, ganhar suavidade e constância. Levaria esse som para sempre em sua memória. Mais uma recordação de Ryan. Os anseios impossíveis começavam a entrar em conflito com sua vontade. Fosse qual fosse a resposta para a confusão que a dominava, sabia que o interlúdio entre eles teria de acabar. Era hora de voltar à realidade. Rachell levantou sem fazer barulho, vestiu-se com cuidado e alimentou o fogo na lareira para manter o quarto aquecido. Quando se virou, ela se viu diante da pasta de Ryan. A pasta que ela havia devolvido no início da semana. Ela estava aberta ao lado de uma garrafa de uísque e um prato de queijo. Papéis da Ore Industries cobriam a superfície da mesa. Surpresa com a descoberta inesperada, ela começou a ler os documentos. O choque a atingiu em cheio ainda na primeira página. Incapaz de compreender com exatidão o que lia, ela seguiu adiante e confirmou suas suspeitas. Era como se o sangue se transformasse em gelo em suas veias. Datado de duas semanas atrás, a declaração de intenção havia sido redigida e assinada por Ryan. A Ore Industries estava incorporando a Donally & Bailey. Ryan não ia apenas fechar a divisão Dublin da empresa, mas toda a companhia seria desmembrada, dissecada... assassinada. Ele não se oferecera para comprar suas ações por lealdade. Queria apenas eliminar o problema que ela representaria no processo de aquisição. A divisão Dublin era apenas o primeiro passo, o primeiro efeito colateral que a D&B sofreria com essa aquisição. Tremendo, ela leu todas as páginas tomada por um choque que a impedia de raciocinar. A fúria crescia incontrolável. Ela jogou os papéis sobre a mesa, dividida entre o impulso de acordar Ryan com um berro de ódio ou arrebentar o relógio contra sua cabeça. Mas a fúria sucumbiu ao medo. O choque deu lugar ao torpor. Não era a primeira vez que um homem a fazia de tola, ela pensou, calçando os sapatos para deixar o chalé. As mãos ainda tremiam. Por uma noite, ela se permitira esquecer. Ryan havia sussurrado palavras doces em seu ouvido, encantamentos que a envolveram e fizeram esquecer a realidade. Tornara-se parte dele. Saíra da dimensão onde havia tempo e espaço, realidade, para mergulhar num lugar de sonhos onde só havia beleza e paz. Uma paixão inevitável que se tornava pior pela constatação de que nem tudo entre eles havia sido uma mentira. 67
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    Perigosa Atração Ryan recolhia os papéis que Rachell havia jogado no chão. Uma ruga em sua testa refletia o estado caótico de seus pensamentos. Ele praguejou. Alguém estava batendo na porta, ele percebeu ao erguer os olhos, tomando consciência de que as batidas já se repetiam há algum tempo. Apressado, jogou os papéis na pasta antes de ir abrir a porta. David esperava do outro lado da soleira. — Não esperava encontrá-lo na cama a essa hora do dia. — Surpresa, surpresa — Ryan respondeu irônico e ressentido. — Meu valete tirou o dia de folga. Ele não usava camisa. Sem os suspensórios, a calça caía baixa sobre o quadril, e a disposição sombria estava estampada no rosto abatido. — Não quer entrar? — ele perguntou ao irmão depois de certificar-se de que David estava sozinho. Nunca mais queria ver os dois grandalhões que conhecera na sacristia na noite anterior. Certo de que seria seguido ao interior do chalé, ele se dirigiu à pia onde se lavava antes de perceber os papéis espalhados pelo chão. As roupas com que viajaria estavam sobre a mesa, escovadas e prontas para serem vestidas. — Eu ofereceria chá e biscoitos, mas meus outros criados também estão de folga. David foi até a porta do quarto e olhou para o interior do aposento. — Vejo que teve uma noite de... inquietação.--- Consciente da curiosidade do irmão, Ryan continuou se barbeando com grande cuidado. — Acabei de levar Rachell à estação de trem — David prosseguiu. — É mesmo? — E o que ela poderia ter contado ao padre Donally sobre o que acontecera na noite anterior. De uma coisa estava certo: Rachell o desprezava mais do que nunca. — Tive de ir atender a uma emergência, ou teria vindo vê-lo mais cedo. Acontece que... Bem, surgiram circunstâncias inesperadas, e não estarei aqui por algum tempo a partir de amanhã. Ryan interrompeu o ato de barbear-se para encará-lo. Lembrava-se de que David havia se aborrecido com alguma coisa na tarde anterior, quando fora procurá-lo na sacristia. Algumas cartas, talvez. — Problemas? — Ninguém pode antecipar as necessidades alheias — respondeu David com tom cordial, embora distante. — Deve ser muito difícil para você. — O quê? — Ser onipotente sem ser clarividente. — Como vai o queixo? Ryan lavou o rosto para remover os últimos resquícios da espuma branca, depois secou a pele com uma toalha limpa e macia. Só então se olhou no espelho. Havia um hematoma no local onde David o atingira. O calombo na cabeça doía mais, mas só agora notava o inchaço. Enquanto Rachell estivera em seus braços, enquanto ocupara corpo e mente com a satisfação daquele desejo intenso e ardente, nada o incomodara. Uma noite que deveria ter sido única estendeu-se para a gloriosa manhã. Horas seguidas de intimidade e prazer sem serem incomodados por ninguém, mas conscientes de que dúzias de pessoas os procuravam. Perdera a reunião com o gerente de projetos e 68
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    Perigosa Atração Marrow. ignoraraa necessidade de estar em Dublin hoje e em Londres no meio da semana. Acordara às dez da manhã. E acordara sozinho. Não precisava de David lembrando sua indiscrição ou julgando o comportamento de Rachell. Também não precisava que lhe dissessem que razões ela tinha para partir para Dublin às pressas, antes dele. Só um assunto merecia seu interesse nesse momento. — Será que pode explicar o que pensava estar fazendo ontem à noite? — ele perguntou ao irmão. — Estava protegendo duas pessoas que amo muito. Rachell não quis nem falar comigo, sabe? — Imagino. David seguiu Ryan até a cozinha enquanto retirava do bolso uma folha de papel dobrada. — Tomei a liberdade de redigir um documento detalhando as normas do acordo nupcial irlandês para análise de seus advogados. Ele deixou o papel sobre a mesa, mas uma corrente de ar a jogou no chão, aos pés de Ryan. Depois de ler os tópicos do documento, ele fitou o padre. — Rachell leu isso? — A reação dela foi mais sucinta que a sua. Ela riu, rasgou o papel e jogou os pedaços no meu rosto. E nem vou repetir o que ela disse sobre você. — Perda de tempo. A lei inglesa não vai reconhecer essa união. — Vocês não se casaram na Inglaterra. Casaram-se na Irlanda. De qualquer maneira, para me precaver, decidi dar mais um passo hoje de manhã, depois de deixar Rachell na estação. E uniões civis são legais. — David... — De repente sentia-se tonto, como se todo o mundo começasse a girar em torno de sua cabeça. — Está dizendo... que Rachell e eu somos casados... legalmente? — Ela ainda não sabe disso, é claro. Não inteiramente. Vou deixar que você mesmo dê as explicações. Se David queria puni-lo pelo pecado de ter deixado a Igreja, não podia ter pensado em castigo pior. — Sua atitude seria hilária, se não fosse criminosa. — Bem, agora me despeço. Foi muito bom revê-lo, meu irmão. — David — Ryan chamou ao vê-lo caminhar para a porta. — David! — Ele já havia saído. — Vou me casar daqui a dez semanas, David! Ryan olhou em volta, pensando no que poderia fazer, depois se atirou contra a porta disposto a alcançar o irmão. Não deixaria David arruinar sua vida. — Para onde levou Rachell? O padre se virou. — Para a estação de trem. — Pensei que a enchente houvesse arrancado os trilhos na região de Rathdrum. — Ela não partiu de Rathdrum. — Quer dizer que há outra estação perto daqui? — Perto da costa, a uma hora daqui. 69
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    Perigosa Atração — Maldição! — Por que ninguém o informara disso antes? Por que o deixaram viajar de coche por estradas esburacadas? — Há quanto tempo ela partiu? — O trem deve ter partido ao meio-dia. Calcula-se que a viagem dure três horas. Então... O longo apito despertou Rachell de um sono profundo. Elsie viajava na poltrona da frente, lendo um livro. Pessoas ainda acomodavam suas maletas e bolsas nos compartimentos sobre os assentos, e alguém levara galinhas para o interior do vagão. Consciente agora do barulho, dos aromas desagradáveis e do desconforto, ela se impacientou. Por que o condutor não punha a composição em movimento de uma vez por todas? — Já são três horas e meia de atraso! Precisava chegar a Dublin. Precisava entrar em contato com o advogado em Londres e buscar conselhos legais antes do próximo confronto com Ryan. — Sente-se bem, senhora? — O quê? Oh, sim, Elsie, apenas um pouco ansiosa. — E muito cansada. — Quero que saiba que sou grata pelo que fez por mim ontem à noite. — E o que foi que eu fiz, senhora? — Aquele presente que me deu... — Ah, aquilo não foi nada. Só quis demonstrar minha lealdade e minha dedicação. No entanto, senhora, esqueci de dizer algo importante. — O que, Elsie? — Aquelas... Aqueles presentes... Devem ser embebidos em suco de limão antes do uso, ou não têm nenhuma eficiência. — Suco de limão? — Sim, senhora. Pensar nisso a fez lembrar na intimidade do ato, em como Ryan a ajudara a colocar o suposto contraceptivo no local adequado, e em como o procedimento acendera o desejo e aumentara o prazer. Mas suco de limão...? Ela olhou pela janela. Seu ciclo era sempre regular, e sabia que em breve começaria o período das regras mensais. No entanto, por mais que quisesse se afastar de Ryan e de tudo que ele a fazia sentir, precisava considerar a possibilidade de tornar-se realmente sua esposa. O trem entrou em movimento. Algumas pessoas perderam o equilíbrio, e bolsas caíram do compartimento sobre os assentos. Rachell abaixou-se para pegar uma delas, bem perto de seus pés, e quando se levantou... Lá estava ele. — Ryan! — Em carne e osso. — O que faz aqui? — Precisamos conversar. Creio que sabe por quê. — Não temos mais nada a dizer um ao outro, Ryan Donally. — Senhora, vou procurar outro assento. — Não, Elsie. Não vai se afastar de mim nesse trem lotado. Sente-se a meu lado, no 70
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    Perigosa Atração apoio dacadeira. E não ouça. — Sim, senhora. Ryan acomodou-se na poltrona na frente dela. Era estranho... David havia dito que seu casamento com Ryan era real, mas não acreditava nisso. Esperava que a noite anterior houvesse encerrado sua obsessão por Ryan, mas a experiência só intensificara o desejo e o rancor por sua mentira. — O que faz aqui? — Por que saiu sem falar comigo, Rachell? — Tínhamos um acordo, não? Deveria ser uma única noite. Você não devia estar aqui. — Não acha que as atuais circunstâncias anulam todos os acordos anteriores? — Que circunstâncias? Ou você não é capaz de honrar compromissos que não rendam ganhos materiais? — Ah! Esqueci que você me conhece bem. Rachell sabia que era imperativo preservar a frieza e o controle sobre as emoções. Ryan sempre havia resguardado a dignidade da família com mãos de ferro e dessa vez não seria diferente. Ele faria qualquer coisa para abafar escândalos. Seria capaz de compreender o dilema de Ryan, mas ocupava-se de um dilema pessoal muito maior. — Quero que saiba que o eximo de qualquer responsabilidade com relação a essa situação inusitada e imprevista. Não reconheço nenhum casamento entre nós. — Obrigado, juíza Bailey. Porém, duvido muito que tenha esse tipo de poder judicial. — Acho que não entendeu. David disse que fez tudo aquilo por mim. Fui procurá-lo e... Eu disse... Ameacei matar você ou me deitar com você. Talvez os dois. Pedi a ajuda de David. Esperava que ele tomasse alguma atitude piedosa, como rezar por minha alma. Nunca imaginei que ele nos casaria numa cerimônia antiga e sem nenhum valor legal! Quero dizer, nós dois sabemos que esse casamento não tem valor legal. — Maldição! — Ryan passou a mão na cabeça. — Nada nunca é simples entre nós, não é? — Pelo menos estamos de acordo.--- Ryan segurou as mãos dela. — Deve ser a primeira vez que isso acontece, Rachell. Nunca concordamos sobre outra coisa antes. Mesmo que acredite me odiar nesse momento. Seus olhos buscaram os dele. — Hoje de manhã... Você leu o que havia na minha pasta.--- Rachell removeu as mãos. — Sim, eu li. — Não disse nada antes porque não queria que ficasse ainda mais magoada do que já estava. Talvez não acredite, mas é essa a verdade. Rachell sentia vontade de agredi-lo. Até esse momento, não havia considerado que ele podia estar no trem por razões profissionais. — Então, devo me sentir grata. Normalmente, suas aquisições são mais agressivas e menos cuidadosas. — Não sou seu inimigo, Rachell. — Então, o que você é? — Ela se levantou de um salto. Sentia que se tentasse 71
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    Perigosa Atração agredi-lo agora,Ryan não tentaria detê-la. — Porque tenho certeza de que também não é meu amigo. Rachell percorreu o corredor repleto de passageiros e, cambaleando, chegou à pequenina varanda no fundo do vagão. O vento e o barulho encobriram o soluço que ela não conseguiu conter. Ryan a seguiu. — Veio para a Irlanda com a intenção de comprar minha parte na companhia para não ter de enfrentar oposição ao processo de aquisição. — Sim, essa era minha intenção. — Você construiu a Donally & Bailey! Trabalhou duro por isso. Sei como você trabalhou porque estava perto observando. Vi você lutar com o status quo. Vi você aceitar trabalhos que ninguém mais queria fazer, planejar projetos que ninguém mais havia imaginado. A D&B não seria o que é hoje sem a sua dedicação. Onde está esse homem agora, Ryan? Ele se apoiou na balaustrada e a prendeu entre os braços. — Eu sou esse homem. Não mudei. O que mudou foi sua percepção sobre mim. Rachell não acreditava nele. Lembrava-se de um dia em que ele havia arregaçado as mangas e percorrido a pé uma tubulação de esgoto da cidade para descobrir a origem de um entupimento. Ryan não se importava com a sociedade, com a aristocracia ou com os modos dos homens de boa formação. Pelo contrário. Passara a desprezar todas essas coisas. Agora, sua equipe em Dublin perderia o emprego. Onde estava o homem que cuidava de seus funcionários? — Devo perguntar qual é a opinião de Johnny sobre a aquisição? Ou ele é tão impotente quanto eu? — Ele sabe o que deve ser feito. — Essa é a desculpa universal adotada pelos homens para justificar comportamentos imperdoáveis? Deve ser feito porque...? — A Ore Industries vai tirar a D&B da concorrência em menos de um ano. Aceitar minha oferta antes da aquisição vai beneficiá-la, Rachell. — Se dinheiro fosse tudo para mim, eu poderia até suportar sua atitude arrogante e egoísta. — Ah, sim! Lembro-me de como suportou minha arrogância ontem à noite! — Você é cruel. E sabendo o que sei hoje, eu o desprezo. --- Ela o encarou. Como pudera imaginar que depois da noite anterior alguma coisa poderia voltar a ser como antes entre eles? — Despreza-me por ser honesto? Não seja ridícula! — Está debochando de mim, Ryan? — Não. É você quem se expõe ao deboche com essa atitude hipócrita! Costumo compensar bem minhas amantes, mas nunca dei de presente a uma delas uma corporação internacional! — Nem estaria me dando nada! — A oferta é boa. Eu a pus em sua pasta. No carro de bagagem, junto com minha valise. Sugiro que, ao chegar em Dublin, procure ler a proposta com atenção e aceite os termos nela estabelecidos. 72
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    Perigosa Atração — Obrigada por ter sido claro e franco com relação às minhas opções. Isso tudo foi muito civilizado da sua parte. — Não há razão alguma para ser diferente. Era muita arrogância pensar que levá-la para a cama estava compreendido nos limites da negociação normal, mesmo considerando suas táticas impiedosas. Não. Não esquecera a verdade sobre Ryan Donally. Um homem espetacular que fizera fortuna apostando, arriscando. Arriscara no mercado de ações e de commodities. Na indústria e no comércio, e comprando e vendendo o futuro de seres humanos. Em sua ânsia de esmagar aqueles que desprezava, destruíra vidas humanas. Criara um personagem conveniente aos seus objetivos e fizera seguidores entre homens ambiciosos e sem caráter, eliminando os que se punham em seu caminho. — Não quero magoá-la, Rachell.--- Era tarde demais. Ele abriu a porta de comunicação com o interior do trem. — Vou me mudar para outro vagão até chegarmos a Dublin. E depois disso, ele retornaria a Londres e começaria o processo de desmontar sua vida pedaço por pedaço, até a D&B ser tão insignificante quanto ela em sua vida. — Você sabe que nós dois nunca teríamos dado certo — ela disse. — Se fôssemos mesmo viver como marido e mulher, acabaríamos nos matando antes que eu pudesse dizer noiva envergonhada. — Então, somos criaturas de sorte por sabermos que jamais vamos viver como marido e mulher. Aceite minha proposta, Rachell. Garanto que não vai receber outra. Capítulo VI --- Rachell, ainda acordada, querida? — Memaw perguntou da porta do quarto. — Vi a luz acesa. — Não estou dormindo. — Havia baús abertos no chão e papéis espalhados pela cama. — Mas você deveria estar. — Trouxe um chocolate quente. Você não quis jantar.---- Desde que podia lembrar, sua avó sempre havia passado por seu quarto antes de ir se deitar e levara uma xícara de chocolate quente e forte. Ela e Elsie haviam chegado na noite anterior, e um criado da casa fora buscá-las na estação de Dublin. Pelo menos David havia enviado um telegrama informando Memaw sobre sua chegada. Não voltara a ver Ryan depois daquela conversa no trem. Naquela manhã, fora à igreja e servira ponche no evento social da paróquia. Fazia coisas normais, corriqueiras, como se não estivesse morrendo por dentro. Fragmentos da proposta de Ryan estavam espalhados pelo chão como imensos flocos de neve. Em algum momento, antes do dia seguinte, teria de decidir como poderia resgatar o resto de sua vida. — Gostaria de tê-la comigo em Londres, Memaw. — Bobagem. — Ela se sentou numa cadeira ao lado da cama. — Eu só conseguiria atrapalhar. — Nunca! 73
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    Perigosa Atração — Esta é minha casa. E é sua também, minha querida. — Obrigada. — Por que sempre se retrai quando é tratada com carinho? Carinho era um luxo a que não podia se entregar, especialmente agora. Mas Memaw conhecia bem seu caráter para saber que, por maior que fosse o problema, por mais perturbada que estivesse, nunca empregaria um tom tão ríspido com ela. Não como acabara de fazer. — Memaw, ele tem trinta e um anos. É bem-educado, respeitado... Controla uma empresa internacional com milhares de funcionários em pontos distintos do planeta. Em breve será consagrado cavaleiro. Ele é um dos homens mais ricos da Inglaterra. Como posso lutar contra isso? O London Times ainda estava no chão, onde ela o arremessara num acesso de fúria. A aquisição da Valmonts pela Ore foi assunto em todos os cadernos financeiros do dia anterior. Eram cartas marcadas. Caminhos traçados. Futuros definidos. Nada podia ser negociado. — Para ele, desmontar a D&B é só um negócio. Como todo o resto desde a morte de Kathleen. Exceto pela filha, Ryan não tem mais nenhuma ligação emocional com nada. — Menina, eu devia lhe dar umas boas palmadas.--- Rachell olhou para a avó como se ela houvesse enlouquecido. — Em mim? — Ele veio à Irlanda para ver você, não foi? E o que fez você? Foi agradável? Doce? — Ele não veio para me ver. — Ryan Donally poderia ter mandando uma dúzia de homens para representá-lo, meu bem. Um homem como ele não abandona os negócios por uma semana sem que haja uma boa razão para isso.--- Rachell rejeitava qualquer idéia que fugisse ao óbvio. Ryan precisava de sua cooperação para realizar a próxima aquisição sem grandes problemas. Podia ser capaz de paixão, mas não o julgava capaz de mais do que isso. E não queria nenhum relacionamento com ele. — Francamente, Memaw, devia usar seus óculos com mais constância. O noivado de Ryan foi publicado pelos jornais. — Bah! E desde quando um Bailey se importa com coisas da sociedade? Você tem sangue de uma rainha correndo nas veias. Uma famosa rainha pirata. Rachell riu. Conhecia a história, pois a ouvira centenas de vezes ao longo da vida. Grace 0'Malley era um dos orgulhos da família. O riso quase a levou às lágrimas. Não acreditava que seu sangue pirata pudesse valer de muita coisa, caso tivesse de ir aos tribunais da opinião pública. Mas Memaw se orgulhava dessa linhagem, por isso ela não disse nada. Finalmente, ela pôs a xícara de chocolate quente sobre a mesa-de-cabeceira e olhou em volta. Não havia mais nada fora do lugar. Organizara sua vida completamente, incluindo as pastas que usaria no dia seguinte. Ryan era apenas o caos no meio de sua ordem diária. Mas Memaw ainda queria defendê-lo. Sua avó e David haviam se aproximado muito desde que ele retornara à Inglaterra anos atrás, mas Rachell suspeitava de que Ryan sempre havia sido seu Donally preferido. 74
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    Perigosa Atração Provavelmente porcausa da carência que, na infância e na juventude, ele ocultara sob um manto de rebeldia e insubmissão. Memaw nunca gostara do pai de Ryan. No dia em que seu filho caçula subira ao palco para receber seu diploma como primeiro aluno de sua turma em Edimburgo, ele estivera em Gales supervisionando um projeto. Mas os avós dele estiveram presentes. E Memaw. E Kathleen. Rachell devia ter estado completamente cega para não perceber que Ryan já a amava naquela época. Pensando no que sentia por ele, tentou relacionar todos os motivos para ter se deitado com Ryan em um pequeno resumo atribuído à luxúria. A plena compreensão do que haviam feito não chegara até o momento em que ele a deixara no trem, e ela desembarcara na estação em Dublin, sob um céu perfeito cheio de estrelas perfeitas, e percebera como sua vida era imperfeita. Não dormira com Ryan por causa da luxúria. — Vai trabalhar até tarde, querida? — Memaw estava novamente na porta do quarto. Rachell nem ouvira seus passos no corredor. Olhando distraída para os papéis que esparramara sobre a cama, ela respondeu: — Tenho trabalhado até tarde todas as noites dos últimos oito anos. Por isso tenho o que tenho. — Não, meu bem. Você tem o que tem porque lutou com bravura por cada conquista, por cada pequeno pedaço do seu triunfo. — Alguma vez se envergonhou de mim, Memaw? — Como ousa me fazer essa pergunta? Escute bem o que vou dizer, Rachell. Você já se fingiu de morta uma vez. Se repetir o truque, será merecedora do seu destino. Intrigada, Rachell viu a avó sair do quarto e fechar a porta. Muito mais tarde, quando apagou a luz e se deitou, ela decidiu que não queria sentir medo de Devonshire. Mas Memaw tinha razão. Fugira da vida uma vez. Fugira para proteger-se. Por estar apaixonada pelo marido da melhor amiga. Preenchera esse vazio com estudo e uma educação que poucas mulheres podiam sonhar obter. E conquistara a independência a um custo muito elevado, tanto que ninguém poderia imaginar quanto. E agora, quando chegava o momento de lutar, capitulava facilmente diante de Ryan. A percepção desse fato simples a atingia como um cometa caído do céu. Fugir da vida novamente não era uma alternativa agora. A brisa que entrava pela janela carregava o perfume de orquídeas. Ela lembrou a noite em que Ryan falara sobre sua primeira comunhão. Ele tinha razão: as freiras não toleravam pensamento independente, e por isso a puniram duramente por sua desobediência. Mas algumas coisas na vida são dignas de luta. A D&B crescera no porão da casa de seu pai havia trinta anos. Era seu legado tanto quanto de Ryan. Talvez só quisesse fazê-lo entender que a Donally podia coexistir com Bailey. Que a D&B podia coexistir com a Ore Industries. Que seria possível seguir para o futuro sem destruir o passado. Talvez fosse hora de assumir uma posição. Mulheres não podiam votar, mas podiam possuir a maioria das ações em corporações 75
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    Perigosa Atração internacionais evaler-se dessa porcentagem a fim de decidir políticas internas. De que outra forma poderia vencer um poderoso empresário e industrial com planos bem delineados para um futuro perfeito? Pelo menos suas ações seriam a garantia de que ele não a esqueceria tão cedo. — Senhor? Ryan ergueu os olhos do jornal que lia na sala de estar da suíte. Esperava ver o mensageiro do hotel. O fogo mantinha aquecido os aposentos externos do lugar onde encontrara pousada, esperando o vapor que o levaria a Dublin na segunda-feira. Nenhum meio de transporte deixava a cidade no domingo. Passara duas noites na melhor hospedaria que o dinheiro podia comprar, mas pouco conseguira dormir. Estava cansado e impaciente. — Senhor, a camareira me conduziu até aqui — explicou apressado seu advogado. — Não sabia se ainda o encontraria por aqui. — Não pretendo ficar por muito mais tempo. — Ele se levantou, vestiu o paletó, ajeitou a gravata diante do espelho e serviu-se de uma xícara de café do bule deixado sobre a mesa. — Por que tenho a sensação de que não vou gostar do que tem para dizer? — Porque sempre foi um homem sagaz. — Então...? — A srta. Bailey esteve no escritório hoje pela manhã. ---Sabia que ela entraria em ação o mais depressa possível,mas, mesmo assim, sentia-se exasperado. Seus advogados tinham um encontro marcado com os advogados dela para aquela tarde. Smythe não devia estar ali. — A mulher é uma força da natureza, senhor. --- Ele riu. — Os empregados da divisão Dublin a admiram. Francamente, nunca conheci... — Smythe... — Ryan terminou de beber o café e deixou a xícara sobre a mesa. Depois olhou para o relógio na parede. Precisava partir para as docas, ou perderia o vapor. — Vamos direto ao ponto, sim? — Ela parecia saber que eu estaria no escritório, e me deu isto — Smythe deixou o envelope sobre a mesa, ao lado da xícara vazia. — E pediu para que eu transmitisse sua gratidão pela oferta generosa por suas ações da Donally & Bailey. Depois de ler sua proposta, ela ficou lisonjeada com sua disponibilidade de pagar tão alto, tão acima do preço de mercado, e disse que qualquer mulher... e ela enfatizou a palavra mulher ! desmaiaria de alegria com tanta generosidade. Ela considerou a proposta e ficou honrada, considerando tudo que os tablóides publicam a seu respeito, com sua demonstração de... consciência. Palavras dela, senhor. — Sem dúvida ela me tem em alta conta — Ryan respondeu olhando para a janela. Smythe percebeu a ironia na voz dele. — Mas ela também disse que o senhor e sua proposta podem ir... para bem longe. E não foram essas as palavras dela, senhor. — Ela blasfemou... na sua presença? — Sim, senhor. E disse que o inferno congelaria antes que ela vendesse uma única ação da D&B. Foi tão agradável em seu discurso, que quase me esqueci de que era sobre o senhor que ela falava. Ryan fazia um grande esforço para conter o riso. 76
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    Perigosa Atração A chegada do mensageiro do hotel o salvou do vexame. — Seu coche o espera, senhor. — Leve minha valise. Estarei lá num instante. — Ele olhou para Smythe. — Prossiga. — Conforme suas instruções, ofereci o reembolso do valor que ela havia investido enquanto supervisionava o projeto. — Não me diga que ela também recusou essa parte da oferta! — Não, senhor. Pelo contrário. Ela me lembrou delicadamente que a empresa lhe devia também os juros. — O advogado retirou alguns papéis da pasta que carregava. — A contabilidade da srta. Bailey é mais precisa que a minha em certos aspectos, considerando que ainda não tivemos tempo de analisar todos os gastos que ela realizou nos últimos anos. Ryan analisou os dados, impressionado com a eficiência por ela alcançada em tão pouco desde seu retorno de Glenealy. A aritmética estava correta, sem dúvida. Rachell tinha uma habilidade numérica que deixava aturdido até o mais preciso dos homens. Calcular juros seria uma operação elementar para ela. --- Ela também calculou os custos de sua educação, que agora considerava despesa reembolsável, e outras contas variadas que incluem subornos, custos de transporte e livros profissionais. Ela me explicou que nem tudo podia ser recuperado, mas que esse era o preço da estupidez. — Mais alguma coisa? — Eu paguei o valor estipulado, senhor. — Tudo? — Recebi instruções para cooperar. E ela apresentou seu caso com exatidão convincente. Era típico. Rachell levaria mais dinheiro do que valia provavelmente toda a divisão D&B. Estava francamente admirado com seu lado mercenário... e ainda mais curioso para saber por que ela não aceitara a proposta. Só podia haver uma razão para isso. Ela ia brigar pelo controle... e com seu próprio dinheiro. Smythe havia perdido a batalha. Irritado, ele guardou as pastas com os dados de Rachell dentro de sua valise de trabalho e respirou fundo. A despreocupação que ela demonstrava com o próprio futuro superava qualquer inclinação diplomática que pudesse ter para tentar solucionar os problemas entre eles. Agora sabia que a aquisição teria um preço. Seria sua punição por duas décadas de idiotice quanto à própria incapacidade de compreender e apaziguar suas emoções com relação a Rachell. Rachell devia ter aceito sua proposta. E ele não devia ter dormido com ela. Porém, naquela noite única em Glenealy, olhara para a mulher que mais amara em sua vida e se perguntara se o futuro poderia ter sido diferente, caso houvesse lutado por ela com a mesma força com que lutara pela Donally & Bailey. Ryan só sabia que não perderia mais nenhuma batalha. Rachell acabaria ouvindo a voz da razão de uma forma ou de outra. Até lá, já havia mobilizado seus advogados em Londres para desatar o nó que David havia atado com aquela idéia maluca de casá-los. 77
  • 78.
    Perigosa Atração Rachell conseguira comprar as últimas duas passagens no vapor para Gales. De lá, ela e Elsie seguiriam no trem para Londres. O tempo frio e chuvoso obrigava os passageiros a permanecerem na área fechada do vapor, longe do convés, por isso ela não percebeu a aproximação da personificação de seus sonhos eróticos. Não a tempo de tentar escapar, pelo menos. O que Ryan fazia no vapor? Apreensiva, Rachell cobriu a cabeça com o capuz do manto e esperou, rezando para não ser vista. Ryan se sentava em uma poltrona vaga ao lado de uma janela. Se ele ainda estava na Irlanda, já devia ter falado com o advogado. Já devia saber o que ela planejava fazer com seu precioso dinheiro. De cabeça baixa, ela releu a carta que estivera compondo para Johnny, frustrada ao perceber que havia perdido o fio dos pensamentos. Apesar de todas as precauções com que buscava fortificar-se para a longa estrada que teria de percorrer, não havia se preparado para sua reação a Ryan. Não podia acreditar que ele estava a bordo. E há duas horas! Sem que ela o notasse ou soubesse de sua presença. Queria-o demais para fingir o contrário, o que tornaria muito mais difícil sua empreitada para derrotá-lo. Mas não era impossível. Uma hora mais tarde, o vapor atracava em Holyhead. Rachell desembarcou no meio da multidão atrás de Ryan, sem nunca perdê-lo de vista. Ela o viu embarcar em um coche de aluguel que o levaria à estação ferroviária. Ela o viu mais uma vez quando o trem parou em uma estação uma hora antes de Londres. Ele viajava no vagão de primeira classe, dois carros à frente de onde Rachell e Elsie completavam a jornada. O condutor passou pelo corredor anunciando a parada, e ela abriu os olhos. Ryan estava parado na rampa de embarque quase na frente de sua janela. De repente ele se virou e a viu. Olhou em sua direção como se soubesse exatamente onde ela havia estado desde o início da viagem. — Onde vai se hospedar? O vidro da janela abafava o som de suas palavras, mas ela pôde ler claramente seus lábios. Um olhar furtivo para as pessoas que a cercavam a fez ter certeza de que ninguém prestava atenção aos seus movimentos. — Vá embora! — exigiu movendo os lábios sem emitir nenhum som. Sem desviar os olhos dos dela, Ryan se aproximou da janela com uma arrogância impressionante, considerando que ele estava em Londres para deter o formidável ataque de sua preciosa Ore Industries à D&B. Rachell baixou a janela e se debruçou nela. — Você é a última pessoa a quem eu diria onde vou me hospedar, Ryan Donally — ela disse, tentando manter a voz baixa. — E você é a mulher mais teimosa e irritante que já conheci, Rachell. — Você também é teimoso e irritante. — Não tem idéia do que está fazendo. — Ah, eu tenho. Pretendo conversar com Johnny. Sabia exatamente o que estava fazendo, e esperava que o sr. Williams tivesse a lista 78
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    Perigosa Atração dos grandesacionistas da companhia pronta para ela. Lutaria com todas as armas contra Ryan. — Volte para a Irlanda, Rachell. Estava falando sério quando fiz minha proposta. — Por que esperou tanto tempo para tentar me tirar da sociedade? Por que não fez isso antes? Teve tantas oportunidades no passado! — Por que não me conta qual é sua teoria? Pelo visto, já pensou em tudo, não é? — Puro instinto. No fundo, não quer realmente me destruir. E também não quer destruir a D&B. Um apito anunciou o momento da partida. As rodas começaram a se mover. — Não estamos jogando, Rachell — ele a preveniu, caminhando ao lado da composição. O trem ganhava velocidade. — E não há regras. — Ótimo! Nunca gostei de regras. — Ele estava cometendo o maior erro de sua vida, e não o deixaria prosseguir com esse engano. Jogando um beijo que depositou na ponta dos dedos, Rachell fechou a janela. Ryan sorriu magnânimo. E acenou. Rachell o viu parado sozinho na plataforma e tentou recuperar o ritmo normal da respiração. Vivia há muito tempo em um mundo dominado por homens. Sabia reconhecer o perigo quando ele mostrava os dentes e ameaçava devorá-la viva. Mais uma vez, era forçada a reconhecer em Ryan um inimigo formidável. Johnny não estava em casa. Stewart informou que ele havia ido à Escócia inspecionar as obras da D&B. Moira e as crianças foram com ele, sinal de que demorariam a voltar. A coincidência não passou despercebida. Rachell não gostava da idéia de pedir ajuda a algum outro membro da família Donally, mas no passado havia sido amiga da irmã dele, Brianna. Assim, uma noite depois de uma terrível e infrutífera busca por um lugar onde se hospedar, ela foi bater na porta da casa da duquesa de Ravenspur. Naquela manhã, quando parou diante do Banco de Londres,ela ainda não tinha noção da tarefa que a esperava. Johnny reservara os aposentos no Palace Hotel em sua última visita à cidade. Sozinha, sem a companhia de um marido ou pai, ela não conseguira acomodações para ela e Elsie, e recusava-se a passar uma noite que fosse em hospedarias onde era preciso travar a porta do quarto com uma cadeira para não ser atacada. Momentos depois, um homem apareceu no saguão. Ele usava camisa branca, calça preta, e carregava nos braços uma criança adormecida. Rachell jamais conhecera um duque antes. Pedira que fosse recebida por Brianna e não esperava se deparar com seu marido. — Posso ajudá-la, srta. Bailey? — Percebo que estou atrapalhando. — Acabo de retornar do ministério. Tivemos uma reunião tardia. Minha esposa levou nosso filho mais velho e quatro sobrinhos a uma exposição de arte. Ela vai passar a noite com sir Christopher, seu irmão, e só retornará amanhã. E agora, o que faria? — Imagino que ela seja muito ocupada. — Certamente. E eu também tenho as mãos cheias, como pode ver. — É claro. 79
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    Perigosa Atração — Você é a mulher que Ryan foi procurar na Irlanda? — Exatamente. E agora estou aqui, em Londres, desesperada para encontrar um local civilizado para hospedar-me. Hospedarias não são minha preferência, como pode imaginar, e não consegui nenhum quarto no Palace Hotel, apesar de poder pagar pelas diárias. Pretendo alugar uma casa, mas até lá... — Está sozinha? — Minha criada espera por mim lá fora, em um coche alugado. O duque chamou o mordomo e ordenou: — Pague ao cocheiro pelo transporte e traga a jovem para dentro. — Ele olhou para Rachell. — Percebo que está exausta, por isso vou poupá-la do sermão sobre sua falta de bom senso por não ter vindo antes à nossa casa, srta. Bailey. — Agradeço a cortesia, Vossa Graça. Finalmente! Era um alívio encontrar porto-seguro entre amigos. Ryan chegou em casa e foi informado de que Brianna havia ido buscar Mary Elizabeth e a levara para Londres. Estava furioso com os empregados, mas o que poderia fazer? Cavalgar ao vento até a casa de lorde Ravenspur e arrancar a filha dos braços da própria irmã? Não. Gwyneth e Devonshire já deviam estar chegando para o jantar, e ele ainda precisava terminar de se vestir. — Boswell, por que deixou minha irmã levar Mary Elizabeth? Sabia que eu estava para chegar! — Senhor, lady Ravenspur anda muito deprimida com a falta de amigos na sociedade. Não fosse pela cadeira ocupada por lorde Ravenspur no Parlamento e pelo poder por ele exercido entre os nobres, ela nem seria convidada para festas, bailes e outros eventos. — O que esperava? Brianna é sufragista, autora de livros escandalosos e defensora da reforma na educação. — E ainda enfrentava muitas dificuldades desde que se casara com um duque. — Ela não tem amigos no círculo de lady Bedford e das outras damas da sociedade. E duvido que eu os tenha, Boswell. — Mesmo assim, é livre para fazer suas escolhas, senhor. E lady Gwyneth é uma delas. Não posso dizer que a aprovo... mas devo aceitá-la. Como seu criado, devo-lhe lealdade e respeito. Chame se precisar de alguma coisa, senhor. Sozinho com um conhaque, Ryan teve de reconhecer que Boswell estava certo. Porém, mesmo admitindo sua hipocrisia, precisava aliar-se aos nobres poderosos. O casamento com a sobrinha de Devonshire agradaria tanto ao setor do empresariado de Londres, que já manifestara preocupação com a cisão da Ores Industries, quanto à sociedade britânica que, com poucas exceções, discriminava sua família. Só agora percebia que corria o risco de perder tudo. Ainda precisava de mais respostas para entender o que David podia ter feito com sua vida, e como se remover de uma posição complicada, por hora as opções eram todas dele. Ryan sorriu. Rachell não imaginava o poder que ele tinha nas mãos. — Senhor — Boswell interrompeu da porta —, seus convidados chegaram. Rachell havia conseguido a lista dos acionistas fazia dois dias, quando fora procurar o sr. Williams. O visconde de Bathwick também detinha papéis da empresa. Dezessete por cento das ações denominadas comuns. 80
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    Perigosa Atração — A família Devonshire é dona da fundição que fornece o ferro para muitas firmas de construção, incluindo a D&B — contara o sr. Williams. — Infelizmente, ele já se mostrou um adversário. Há oito meses, espalhou rumores sobre supostos atrasos nas entregas da D&B, e o valor das ações despencou doze por cento. Foi assim que ele conseguiu comprar as ações que agora detém. Ryan também já fez uso desse procedimento. Tenho certeza de que lorde Bathwick considera esse procedimento uma questão de justiça, apenas. Bathwick dera a ela seu cartão na noite do baile Telford, e agora ela agradecia à própria sorte. — Srta. Bailey — Bathwick cumprimentou-a ao entrar no salão. — Peço desculpas por tê-la feito esperar. É um prazer recebê-la em minha casa. — Milorde, minha visita não tem nenhuma relação com prazer. — Ah, vejo que tem a língua afiada! E nenhum senso de humor. Notei que sua criada está sentada no hall. Gostaria de chamá-la? Não quero causar falsas impressões em torno dessa visita. — A visita será rápida, milorde. Desejo apenas comprar suas ações da D&B. Ele riu. — Mesmo que pedisse por favor, não teria como pagar meu preço. Gostaria de beber alguma coisa? Parece estar precisando mais do que eu — ele comentou enquanto se servia de uma dose de conhaque. Rachell notou que ele tinha calos nas mãos. Que tipo de aristocrata exibia mãos calejadas? — É melhor beber — ele disse, oferecendo a ela um cálice de conhaque. — Planejar a derrocada de Ryan Donally não é tarefa fácil. — Não estou planejando a derrocada de ninguém. — É claro que está. Só me pergunto por que demorou tanto. — Sabia desde aquela noite do baile o que o sr. Donally planejava para a D&B, então? — Meu pai integra a diretoria da Ore Industries. A empresa faz parte de seu império minguante e do legado de meu bisavô. Uma companhia que Donally tomou de nós por causa da vaidade ingênua de meu pai. — Ele subestimou Donally? — Então não sabe? Não conhece a história sórdida da família? — Se nem o conheço, como posso saber de sua história ou de sua família? — A senhorita é uma contradição. Uma bela contradição. Por um lado, quer a D&B. Por outro, quer adquirir a empresa da maneira mais limpa possível. Que motivos tem para combater essa transação, se vender sua parte a tornaria rica? Rachell decidiu que ele merecia uma resposta honesta. — Tenho um interesse na divisão irlandesa. O sr. Donally esqueceu as pessoas que trabalharam para ele e construíram a empresa como ela é hoje. — Donally é um empresário. Se esquece alguma coisa, nenhum de nós jamais toma conhecimento disso. — Por que o odeia tanto, milorde? — Por quê? Acha que a Ore Industries é só mais uma companhia que ele decidiu assumir e dominar? 81
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    Perigosa Atração — Honestamente, não tenho a menor idéia das razões que levam o sr. Donally a agir dessa maneira. — Como deve saber, a Ore Industries era a maior fornecedora de ferro e minério a negociar com a D&B. As duas companhias cresceram juntas no mercado. Então, um dia, Donally conheceu lady Gwyneth quando saía de uma reunião com meu pai na Ore Industries. Meu pai recusou seu pedido para cortejá-la, o que teria sido seu direito legítimo, considerando a falta de linhagem de Donally. Mas meu pai mudou de idéia. Seguindo a tradição da aplicação dos juros no mercado britânico, ele decidiu aumentar os preços de seus produtos. Donally recusou-se a pagar os valores exorbitantes e foi comprar matéria-prima de outro fornecedor, rompendo os contratos que tinha conosco. Mais tarde, para piorar a situação, meu pai usou suas relações políticas para banir Donally do Regents e do Cassavas, e de meia dúzia de outros clubes exclusivos. A D&B deixou de assinar bons contratos durante todo o verão e deixou de cumprir os prazos de dois grandes compradores porque a Ore Industries deixou de entregar a matéria-prima. Ninguém insulta um homem como Donally sem esperar retribuição. Quando a situação se aquietou, apenas Donally continuava em pé. Meu pai ocupa sua atual posição na diretoria da Ore Industries porque ofereceu a mão de Gwyneth para evitar a total aniquilação. Então, se quer saber quem é o verdadeiro alvo do meu ódio,não precisa olhar muito longe de mim. Procure pelo estimado conde de Devonshire. Rachell olhou para o copo de conhaque em sua mão. Não sabia nada do que acabara de ouvir. — A mais nova aquisição de Donally teria sido minha um dia. Naquela noite no baile, eu me aproximei da senhorita com a intenção de tratar da possibilidade de unirmos nossos negócios. Naturalmente, nós que temos sangue azul não nos ocupamos de coisas corriqueiras como dinheiro, mas também não gostamos da possibilidade de empobrecermos. Há princípios a serem defendidos. — Por que perdeu lady Gwyneth para ele? Ou por que perdeu os meios de assegurar sua riqueza? — Donally não ama Gwyneth. Ele paga a meu pai um valor vinte vezes maior do que muita gente consegue auferir em toda uma vida pelo privilégio de casar-se com uma representante da nobreza. Meus motivos para tirar a D&B de Donally podem não ser tão nobres quanto os seus, mas eles ainda nos colocam do mesmo lado dessa história. Se quer recuperar sua divisão irlandesa, vamos ter de entrar nisso como sócios, srta. Bailey. Quero uma posição na diretoria. É sua única chance de mudar a política da companhia. — E seu pai? — Não me interessa. Defenda-o a senhorita, se quiser. Não queria. Ainda lembrava aquela ameaça. — Mesmo com suas ações, ainda não terei o suficiente para impedir a aquisição — ela disse decidida. Essa luta era tudo que havia restado em sua vida. Isso e sua avó. — Mas tenho um valor depositado no Banco de Londres para cobrir a diferença. — À sociedade, então — ele ergueu o copo. — Se acontecer. — O que quer dizer? — Está em Londres há mais de uma semana? — perguntou Bathwick. — Donally deve 82
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    Perigosa Atração conhecer suasintenções. Então, por que ele ainda não adquiriu as ações de forma a detê-la? Rachell deixou as pastas sobre uma mesa e respirou fundo. O sr. Williams a observava parado ao lado da janela em seu escritório, e Stewart a seguia com mais pastas. — Sou integrante da diretoria dessa empresa. Devia ser simples descobrir quanto vale a companhia, não? — Estarei em minha mesa, senhorita — Stewart anunciou antes de retirar-se apressado. — Johnny pode passar até um mês na Escócia. A D&B tem uma equipe de engenheiros só para inspecionar obras. Ele deve ter escolhido chefiar a equipe com o expresso propósito de sair de Londres. — Soube que o sr. Donally também não está contente com a ausência do irmão — disse Williams. — Por que age como se eu sofresse de uma doença terminal e tivesse de me animar? — Senhorita... — Ah, já sei! Não vou gostar do que tem para me dizer, não é? O que descobriu? — Esse acordo irlandês de casamento é semelhante ao que era celebrado na fronteira escocesa, na cidade de Gretna Green, na virada do século. O casamento por declaração, outro nome para o que na Irlanda se chama atar mãos, ainda é válido em boa parte das ilhas britânicas. — Mas a corte britânica não pode reconhecer a tradição, certo? — No seu caso, desfazer o nó vai ser mais difícil do que foi fazê-lo. — Céus... Por quê? — Quando padre Donally registrou o casamento, ele o tornou uma união civil. A senhora está legalmente atada ao sr. Donally. Rachell não conseguia respirar. — Isso é... insano! — Concordo. Mas isso não muda os fatos. — Entende o que está acontecendo, sr. Williams? Eu poderia ter cem por cento das ações da D&B, e Ryan ainda teria o controle. O que devo fazer? — Esse assunto terá de ser resolvido entre a senhora e o sr. Donally. Vai ter de conversar com ele. — Quer dizer que Ryan finalmente retornou a Londres? — Ele esteve no Regatta ontem. Parece que o sr. Donally é o homem do momento. Rachell fingiu não se importar com o que Ryan fazia com seu tempo... ou com quem o passava. Era imperativo que se mantivesse impassível. Não podia perder seu orgulho num momento tão crucial. — Não seria ético de minha parte aconselhar que a senhora faça alguma coisa ilegal, mas se pensar no seu problema do ponto de vista empresarial... O sr. Donally pode não querer que essa informação seja divulgada. Pode ser do interesse dele resolver toda essa questão o mais depressa possível. Era isso. Ou Ryan a libertava do compromisso, ou a reconhecia como esposa para reclamar sua parte das ações e assumir o controle. Ele tinha muito mais a perder do que 83
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    Perigosa Atração ela. — Gostaria de começar a comprar ações da companhia, sr. Williams. Ela e Bathwick estavam oficializando a sociedade. Rachell finalmente encontrou Brianna na manhã seguinte, quando ela apareceu na sala com Mary Elizabeth e Robert, seu filho de três anos de idade. — Lamento não ter estado aqui para recebê-la. Michael me contou que você não conseguiu encontrar acomodações no Palace Hotel... Nunca mais faça isso, Rachell. — Seu marido foi muito gentil e generoso. — Não pense que vai encontrar uma boa casa para alugar. Não tão cedo. Na verdade, encontrar acomodações em Londres é difícil em qualquer época do ano. No meio da temporada, então... — São muito bondosos por me acolherem aqui. — Tolice. Para que servem os amigos? — Para se ajudarem. — De fato. Johnny me contou tudo sobre a aquisição antes de partir. Sinto muito. E Ryan... Ryan esteve na Irlanda, o que não é comum. Ele esteve com David? — Por quê? — David planeja uma retaliação desde que Ryan se converteu para a Igreja Anglicana. A família toda está curiosa... Queremos saber se eles resolveram suas diferenças. — Você conhece David. Ele pode ser persuasivo quando quer. Tem tido notícias de seu irmão sacerdote? — O de sempre. Você o conhece... Sim, Rachell conhecia aquele pirata disfarçado de padre. Era difícil disfarçar o rancor que sentia por ele nesse momento. — É verdade. Seus filhos são lindos, Brianna. E Mary Elizabeth também é encantadora. — De fato. Aliás, tenho de tomar providências para que ela e a srta. Peabody partam o quanto antes, ou meu irmão vai invadir minha casa exigindo que devolva sua filha. Ryan está em Londres, caso ainda não saiba. Devo mandar recomendações em seu nome? A agenda de Ryan devia estar cheia com tantos eventos sociais. — Não. Ou melhor, diga que mandei perguntar o que ele pensa sobre noivados longos. — Papai! Ryan desviou o olhar dos papéis sobre sua mesa. No instante seguinte ele tinha Mary Elizabeth nos braços. Ela cheirava a maçã e canela. — Já estava começando a pensar que podia ter me esquecido — ele disse. — Tia Brea me levou ao zoológico. Eu vi um tigre! --- Sua irmã estava parada na porta. — E o que é isso que traz aí, Elizabeth? — Um cachorrinho. A srta. Peabody não me deixa ficar com ele, a menos que você permita. Ah, e tia Brea me deu uma festa de aniversário. Tio Johnny estava lá. E tio Michael, Chrissy, Megan e Rebecca, e Robert... e o bebê James também estava. Ele é muito fedido! Mas tio Michael me deu soldados de presente de aniversário! Muitos soldados e canhões. O bebê James tentou comer um deles. Ele chorou quando tia Brea tirou o soldado da mão dele. Tio Colin me deu uma sela para o pônei, e tio Christopher e 84
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    Perigosa Atração tia Lexieme deram o cachorrinho! — Esteve bem ocupada, não? --- Ryan olhou para Brianna. — Christopher achou que ela ia gostar do cachorro. E um sharpei. Muito raro. Todos concordamos sobre essa ser uma grandiosa aquisição para sua casa. — Eu vi minha fada-madrinha — Elizabeth sorriu. — Ela viu o cachorro e disse que você me deixaria ficar com ele. — Fada-madrinha? — Ela é bonita. Gosto dela. — E ela tem uma varinha mágica? — Não, mas tem cabelo vermelho. Tio Johnny disse que duendes têm cabelos vermelhos. Ryan olhou para Brianna. — Ela está falando sobre a madrinha? Rachell está hospedada na sua casa? — Sim, mas antes de ir nos procurar, ela passou um dia inteiro procurando acomodações. — Ela está bem? — Sim, está. — Por que não mandou Mary Elizabeth de volta há quatro dias, como prometeu que faria? — Papai, vai colocar tia Brea no canto? — A idéia não é das piores, meu bem — ele riu. Brianna olhou para a sobrinha e sorriu. — Nós nos divertimos tanto, Ryan! Ela sabe subir em árvores! — Posso imaginar como e com quem aprendeu. — Para que servem as tias? Oh, a propósito, Rachell me pediu para que perguntasse o que você acha sobre noivados longos. Por quê? Pelo que sei, vai se casar em outubro. Não é tanto tempo assim. Bem, o recado está transmitido. Agora devo voltar para casa, antes que meus filhos a destruam. Minutos depois, Ryan ainda pensava no significado da pergunta de Rachell. Mary Elizabeth perguntou: — Vai me deixar ficar com o cachorro, papai? — Vamos ver, meu bem. Talvez. — Minha fada-madrinha disse que você deixaria. E ela também disse que você é um coelhinho de rabo branco e macio, quando não está fingindo ser um ogro. — Acho que li muitos contos de fadas para você, pequena. — E de estrelas, também. Pode contar de novo aquela história sobre a estrela mais importante? Ryan levou-a para perto da janela e apontou o céu. — Lá está ela. Vê? — Sim, estou vendo. — Ela é muito importante, porque, nos tempos antigos, os navegantes dependiam dela para encontrar o caminho para casa. — Foi assim que você voltou? — Não, meu bem. Eu vim de trem. 85
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    Perigosa Atração — Tio Chris contou que você fez o trem. — Não completamente. A Donally & Bailey ajudou a instalar os trilhos sobre os quais andam os trens. Mas eu sempre quis construí-los. — Tia Brea disse que, quando eu crescer, também vou poder construir coisas. — Ela disse? — Eu me diverti muito. Tia Brea disse que posso visitá-la sempre que quiser. Eu posso mesmo? — Se ela não se incomodar com sua tagarelice... A menina se aninhou em seu peito. O poder desse amor o aterrorizava. Conhecia apenas o propósito que a vida lhe dera, um objetivo que, de repente, parecia nebuloso e irreal comparado ao instinto de proteção que o dominava sempre que pensava na filha. Um propósito que já não compreendia inteiramente. — Amo você, Elizabeth — ele sussurrou. Mas ela já havia adormecido quando Ryan beijou sua testa. O cachorrinho levantou a cabeça e abanou a cauda. Ryan o encarou sério. — O que foi? Com que está tão contente? Capítulo VII Não havia dúvida: a julgar pelo relatório de Boris, as ações da D&B haviam subido cinco porcento na última semana. Era ela. Rachell estava comprando ações e elevando os preços. — Sir Boris, preciso de uma lista com os nomes dos acionistas majoritários. — Sim, senhor. Imediatamente. — Como está a negociação com a França? — Brendan enviou uma carta de Paris há dois dias. A diretoria da Valmonts está cedendo. Era de se esperar. Eles aceitarão a oferta da Ore Industries, porque ninguém mais vai tirá-los da situação financeira em que estão. Eles querem falar com o senhor. — Diga a Brendan que eles aceitarão a oferta. Os termos não são negociáveis. — Já disse, eles insistem em fechar negócio com o senhor. — O senhor fez a análise inicial dessa companhia. Eles estão falidos. O que podem estar pensando manter com esse esforço inútil? — Que importância têm isso, senhor? Nosso negócio não é salvar empresas. — Não. — Ryan parecia confuso, o que aumentava ainda mais a confusão de Boris. Ele se levantou e vestiu o casaco. — Vai sair, senhor? Tinha um pequeno negócio para resolver. — Represente-me na reunião das quatro. Estarei de volta ao escritório amanhã. Barracas de alimentos variados emanavam aromas que atraíam os consumidores. Um manipulador de marionetes entretinha um grupo de crianças fascinadas. Todas as tardes, Rachell ia à periferia de Londres para comer em uma hospedaria simples onde o pai costumava levá-la na infância. A família que antes administrava o negócio já não vivia 86
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    Perigosa Atração mais lá,mas a hospedaria ainda servia a melhor torta de carne que ela jamais havia provado. Ela não podia demorar, porque o céu carregado prometia chuva, a temperatura caía depressa, e não levara seu manto. Rachell deixou a hospedaria com a intenção de passar rapidamente pela feira, mas foi desviada de seu propósito pela visão do homem alto e imponente que a encarava da calçada oposta. Ryan! Seu coração disparou. Não o via desde a estação de trem. — Você têm a estranha habilidade de encontrar paz nos mais inusitados lugares — ele comentou. — O que considera tão interessante aqui? — Simplicidade — ela disparou beligerante. — Como me encontrou? — Stewart me contou onde você passa suas tardes. O resto foi fácil. E o motivo de sua presença ali era clara: Ryan sabia que ela estava comprando ações da companhia. Talvez soubesse até de sua visita a Bathwick. — Minha carruagem nos espera — ele prosseguiu. — Precisamos conversar. --- Sobre o quê? Rachell foi tomada por uma enxurrada de emoções. Medo. Pânico. Desejo. E revolta contra todos esses sentimentos. — Você sabia que estávamos irrevogavelmente casados quando deixamos a Irlanda — ela o acusou. — David me falou sobre o que havia feito, mas ainda precisava confirmar pessoalmente. — Podia ter me contado, Ryan! E agora? Não tem medo de que alguém descubra e divulgue nossa situação? E se formos vistos juntos? Isso vai arruinar seus planos! — Ah, sim, mas se essa história se tornar pública, alguém vai deixar de ser acionista majoritária da D&B. É interessante o dilema em que nos encontramos. — Qual de nós têm mais a perder? — Não sei, mas sei o que é importante para o seu coração mercenário. E para fazer esse jogo sujo de chantagem, vai ter de se arriscar a perder tudo. Está disposta a isso? — Acho... que precisamos conversar. — Eu já imaginava — ele sorriu. Precisavam decidir como dissolveriam seus votos de casamento. E tinham de sair do meio da rua, porque a chuva começava a cair e ganhava força rapidamente. — Vamos sair daqui. — Por que a pressa? — Ryan provocou. — Ultimamente, tem passado tardes inteiras nessa região... — Anda me espionando, agora? — Não. Ou melhor, sim, mas só o suficiente para saber que passa muito tempo sozinha. — Não preciso de ninguém para ser feliz. — Quer dizer que o trabalho é seu único amante? — Exatamente. Era mentira. Ryan havia sido seu amante. 87
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    Perigosa Atração Mas ele também era seu marido. Ele se aproximou até quase seus corpos se tocarem. — Alguém pode nos ver, Ryan. Sabia que ele ia beijá-la. Pior, sabia que aceitaria e corresponderia ao beijo. — Maldito seja você, Ryan! — Sim, amaldiçoe-me quanto quiser. Não há dúvida de que minha infeliz viagem à Irlanda vai nos custar caro, de uma forma ou de outra. Por alguma razão, tinha a irracional impressão de que tudo que lhe acontecia de ruim era culpa desse homem. Inclusive sua paixão por ele. Como poderia manter controle sobre a própria vida, se não conseguia controlar nem mesmo os desejos carnais? Ele se virou como se algo chamasse sua atenção. Havia um homem a poucos metros de onde estavam, mas ele olhava para o outro lado. — O coche nos espera na Whiteside. Venha comigo. Ela notou que, quando passaram, o homem ergueu os ombros em evidente sinal de respeito. Era um espião de Ryan. Devia fugir, antes que fosse tarde demais. Mas já era tarde. Poderia fugir da presença física de Ryan, mas o que sentia por ele a acompanharia até o fim de seus dias. Eles correram para o coche tentando escapar da chuva, mas já estavam ensopados quando se acomodaram. Ryan removeu seu manto e a cobriu com ele. — Por que os homens fazem isso? — ela perguntou tremendo. — Por que tiram seus casacos para aquecer as mulheres e ficam congelando? — Porque isso é o que se espera de um cavalheiro. — Por que as mulheres são frágeis e indefesas? — Porque não têm juízo, ou levariam um manto ao sair de casa. Quer mesmo ter uma conversa honesta sobre esse assunto? — Só se eu puder me aquecer com seu manto enquanto você congela. — Relutante, ela ergueu a ponta do agasalho. — Podemos decretar uma trégua? Só enquanto nos aquecemos? — Podemos decretar uma trégua mais longa, se você preferir. — Quais são seus termos? — ela indagou, sentindo o calor do corpo que se aproximara para fazer uso de metade do manto. — Pare de comprar ações. As duas companhias sairiam perdendo se tivéssemos de direcionar recursos para um confronto público que nenhum de nós quer realmente. Vamos esperar pela volta de Johnny. Rachell também não queria um confronto público. O confronto privado já era mais que suficiente para perturbá-la. — E se eu conseguir convencer Johnny a assumir a companhia? — Não vai conseguir. Ele aprecia muito o aspecto criativo de seu trabalho. Não vai abrir mão dessa independência. — O que Johnny foi fazer na Escócia? — Você já sabe, Ele foi inspecionar obras. — Quer dizer que a viagem não tem nenhuma relação com essa aparente conjunção de todos os membros da sua família para nos manter juntos? — Ah! Também teve essa sensação? 88
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    Perigosa Atração — Vai permitir que eu tenha acesso aos registros da companhia, Ryan? — Eu tenho escolha? — Não. Devia controlar um pouco essa sua prepotência. — Agora também sou prepotente? Além de ogro? — E cruel. Deixou sua filha ficar com o cachorro? — O que você acha? — Acho que é mais sensível do que deixa transparecer. — Acha mesmo que sou sensível? — Os lábios estavam perigosamente próximos dos dela. Rachell decidiu que não se deixaria abalar pela proximidade. Devia ter imaginado que Ryan não desempenharia o papel do cavalheiro perfeito por muito tempo. — Você tem a moral de um gato de rua. — Você também. — Ele a beijou rapidamente nos lábios. — Ia mesmo me chantagear? — Sou perfeitamente capaz de me entregar a um ataque de adolescência tardia, especialmente quando você está por perto. Mas quando a questão envolve experiência carnal, você é o tirano. — Gosta tanto do poder quanto eu. Além do mais, nosso assunto aqui é... pessoal. Nada tem a ver com os negócios. — Por que não foi visitar sua querida Branca de Neve, já que tinha a tarde livre? — Por que não me diz? Já que está tão interessada em meus casos... — Então é um caso? — Homens casados estão sempre tendo casos. Mas, via de regra, eles preferem que essas mulheres não sejam suas esposas. Não queria ser esposa dele. E Ryan não queria ser seu marido. Mas sentia o hálito morno nos lábios, o sabor de seu beijo... O sangue pulsava em suas veias com um clamor implacável. De repente, Ryan tomou-a nos braços e beijou-a de verdade,um beijo sensual e pecaminoso que os incendiava. Um beijo que ela retribuiu sem reservas ou hesitação. Fizeram amor ali mesmo, no coche, uma situação impossível para uma mulher honesta e correta. Mas, quando estava com Ryan, Rachell não conseguia raciocinar. Não pensava em propriedade ou em regras de moral e costumes. Ainda estavam entrelaçados quando ouviram vozes alteradas do lado de fora. Rachell tinha a saia erguida até os joelhos, escondendo o que acontecia embaixo dela, mas um observador mais atento logo deduziria o que haviam acabado de fazer. E sem nenhuma precaução! O pensamento foi suficiente para fazê-la chorar. Era a primeira vez que Ryan a via desmoronar dessa maneira, e isso o assustou. — Rachell! O que foi? — Minha esponja... Ele suspirou. — É inútil se preocupar agora. Saberemos na hora certa. — Eu... sinto muito. Não estou habituada com esse... esse tipo de dominação pelos 89
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    Perigosa Atração instintos. O que significava que ele tinha o poder de levá-la ao descontrole. — É compreensível. Também a desejo a ponto de temer a loucura. — Isso não devia ter acontecido. Não agora. De novo. Nunca. Nem em um milhão de anos. Nós nem gostamos um do outro. Para gerar um bebê... — Rachell, sejamos francos. Acho que gostamos pelo menos um pouquinho um do outro. — Só não queremos ser casados um com o outro, e por bons motivos. Acabaríamos nos matando antes do primeiro aniversário de casamento. Não é verdade? — Um filho... seria uma complicação, certamente. Como alguém que atrapalhava seus planos com tanta constância e eficiência podia despertar em sua alma essa alegria, essa sensação de finalmente ter voltado para casa? Algo não estava certo ali. Definitivamente, estava encrencado. Ryan levou-a para sua casa em Londres, onde sugeriu que ela se recompusesse antes de conversarem. Mary Elizabeth estava novamente com Brianna, o que significava que teriam total privacidade para tratar de seus delicados assuntos. Enquanto ela se arrumava nos aposentos de Ryan, ele pediu chá ao valete e chamou uma criada para ajudá-la com as roupas molhadas. Eles beberam chá enquanto Rachell permanecia em trajes íntimos, como se fosse comum uma mulher visitar um homem solteiro e ainda invadir a privacidade de seus aposentos sem estar adequadamente vestida. Pior, alguns criados sabiam que ela estava ali naquelas condições e poderiam comentar... Não tinha importância. Sofreria as conseqüências mais tarde, mas por hora, desfrutaria da companhia de Ryan e de toda a paixão que ardia entre eles. Mais tarde, ele anunciou que passaria a noite trabalhando, ou os registros não estariam prontos e disponíveis para sua inspeção, como ficara acertado. No dia seguinte, contadores e advogados teriam cópias de toda a documentação da D&B à disposição de Rachell. A concessão a deixou momentaneamente sem ação. — O que mais você quer, Rachell? --- Queria entendê-lo. — Quero uma conversa honesta com você. A primeira. — Talvez tenhamos tido essa conversa desde o início sem percebermos. O que ele queria dizer com isso? Por que o abismo entre eles se tornava cada vez maior, inversamente proporcional à intimidade física de que gozavam? — Por acaso tem alma e coração, Ryan? Existe alguma coisa... ou alguém por quem lutaria acima de tudo? — Minha filha. Entende a importância dessa relação? . — Eu... sim. — Que bom. Porque eu não entendo. E uma trégua temporária nos negócios não é suficiente para resolvermos todas as questões que nos cercam. — Não, não é. Se eu fosse um homem, nem teríamos declarado essa trégua. — Se você fosse um homem, eu não a teria removido do projeto Rathdrum. Não teria posto em risco minha reputação e a da companhia por luxúria, por sentimentos que... que só agora começo a entender. — Ryan, nunca tive a pretensão de presidir a empresa. Mesmo que o público pudesse 90
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    Perigosa Atração aceitar umapresidente, não tenho experiência... Ryan riu. — Você nunca deixa de me surpreender. — Por quê? E evidente que o que existe sob minhas roupas é mais importante para todos do que o que há entre minhas orelhas! Ele riu. Riu com vontade. — Já vi você trabalhar, Rachell. Não tem do que se envergonhar. E só para constar, aprecio o que existe entre suas orelhas, mas também gosto muito do que esconde embaixo das roupas. O que existe entre as orelhas é mais importante, é claro. Rachell sorriu. — Isso ainda não nos coloca do mesmo lado — disse. Era verdade. Mesmo que a apoiasse e compreendesse, ainda não era capaz de ver o futuro pelos olhos de Rachell Podia,sim, imaginar um futuro ao lado dela, e essa era uma imagem que a encantava. — Ryan, o que aconteceu hoje... — Sim? — Não devia ter acontecido. — Não. Mas aconteceu, e aí está o xis do problema. — Não há nenhum problema. — Não vou tentar impedir a dissolução desse casamento. Pode orientar seu advogado para providenciar toda a documentação necessária. — Não acha que precisamos pensar melhor nisso? — Um casamento verdadeiro entre nós seria desastroso. — Estou pedindo que considere um futuro comigo. A declaração a deixou tão chocada, que ela não soube como responder. — Podemos aceitar que discordamos sobre o futuro da Donally & Bailey — ele prosseguiu. — Também podemos aceitar que se eu continuar casado com você, minha vida vai mudar de maneira incomensurável. — Já tinha uma boa idéia do que teria de fazer para romper o contrato com Devonshire. — Mas têm de admitir que existe algo entre nós, alguma coisa que merece ser explorada. Algo que sempre existiu. — Não podemos nos divorciar de quem somos. — Talvez devamos tentar. Vai me dizer que não sente nada por mim, Rachell? — Por favor... — Se eu não estivesse disposto a agir como um cavalheiro, mostraria exatamente o que você quer fazer comigo.. Ou me retiraria e comprovaria que sente minha falta quando não estamos juntos. — Odeio quando age como um tirano, Ryan. — Odeia quando estou certo. — Lamento, Ryan, mas não posso. Não confiaria nele, apesar dos sentimentos. Mesmo que compartilhassem de uma forte atração física, havia outras questões a considerar. Ryan estava agindo por impulso, o que era comum quando estavam juntos, ou agira deliberadamente, um traço de seu caráter que o tornara detestado por muitos. Essa era uma briga que tratava tanto das questões pessoais entre eles quanto da D&B. Inferno, daria a companhia a ela se não soubesse que esse seria um ato tolo 91
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    Perigosa Atração envolto pelacapa ilusória do nobre sacrifício, mas sabia que as diferenças que os afastavam iam muito além disso. Enquanto ele nunca se sentia satisfeito parado em um mesmo lugar, Rachell jamais se afastara de suas raízes, nunca fingira ser algo que não era. Gwyneth se adequava a sua visão de futuro. Não ela. Então, por que se dispunha a jogar tudo fora por uma mulher que sempre se mostrara disposta a atirá-lo em outros braços? Ele se levantou e caminhou para a porta. Rachell estava em pé ao lado de sua cama, uma mistura conflitante de virtude e pecado, seus encantos muito mais profundos do que o que os olhos podiam ver. Estava apaixonado por ela. Amava-a mais do que julgara ser capaz de amar alguém. Homens haviam sitiado cidades e lutado batalhas épicas por esse tipo de amor. Não se sentia menos motivado, mas era mais prático. Queria sitiar apenas o que havia no coração de Rachell. Porque via em seus olhos nesse momento que ela também o amava. Ryan entrou no Cassavas e caminhou diretamente para a mesa de Bathwick, que não conseguiu disfarçar a surpresa por vê-lo ali. — Donally... — Onde está seu pai? — Não sei, mas é possível que o encontre na casa de Londres. — Obrigado. Ah, sim... — Ele retirou do bolso um cheque que deixou sobre a mesa, ao lado de seu braço. Era hora de remover Bathwick e sua presença nefasta da D&B. — Vinte e duas mil libras. Mais do que valem suas ações. Compre uma bela casa no campo e afaste-se da influência de seu pai. — Palavras arrogantes para alguém que não sabe o que quero. — Sei que a vingança é doce, independente do tamanho da fatia que se corta do bolo. Mas não vou permitir que use Rachell para me atingir. — Ah, então é isso... Rachell o mandou aqui para me dispensar? — Ela não teve de pedir. Seu nome faz parte de uma lista que me foi entregue hoje. A srta. Bailey não participa dos problemas existentes entre sua família e a minha. Não a envolva em algo que ela nem pode entender. — Ou quer apenas detê-la na empreitada de assumir o controle de sua companhia? Deve saber que ela tem poder para isso. — Não acredite nisso, Bathwick. — Então, por que ainda não a deteve? Acha que ela não tem coragem para lutar, ou teme que ela realmente se interesse por mim? Isso seria um problema, Donally? — Leve o cheque e o documento de transferência das ações ao Banco de Londres, e eles farão a transferência de fundos. Vai abrir mão de sua participação em todos os meus empreendimentos. E, se for inteligente, vai convencer seu pai a fazer o mesmo. — Presumo que, pela primeira vez, está voltando suas armas diretamente para meu pai. E não pretende tratar apenas de negócios, não é? — Boa noite, milorde. — Espero que tenha mais munição do que apresentou aqui. Uma guerra com meu pai 92
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    Perigosa Atração nunca éfácil. Rachell caminhava pela feira quando Bathwick a abordou. — Srta. Bailey, que feliz coincidência encontrá-la aqui! — Não é coincidência. E eu disse que iria encontrá-lo na igreja de St. Anthony amanhã. — Não sou católico. As pessoas desconfiariam de um encontro clandestino entre nós. — Ah, sim... E uma rua movimentada é um lugar mais apropriado para conduzir nossos assuntos. — Que lugar poderia ser menos inocente? — Como me encontrou aqui? — Vi quando deixou o Hyde Park e a segui. Oito dias desde que fizera amor com Ryan no coche, e em todos esses dias ela havia retornado à feira como se buscasse ali parte de si mesma. Oito dias sem vê-lo. E começava a sentir saudade... Temia ceder à necessidade de estar com ele. Depois viria a vontade de estar sempre a seu lado, o sacrifício da alma em prol do coração. E, acima de tudo, tinha medo de Devonshire. — E por que me seguiu, milorde? — Fiquei curioso quando me enviou a mensagem marcando o encontro para amanhã. Tem algo a me dizer? — Sim, milorde. Algumas coisas mudaram desde o nosso último encontro. Até a volta de John Donally, o sr. Donally e eu declaramos uma trégua. — Eu sabia que ele faria algo dessa natureza. — O que está insinuando? Tratamos de negócios... — Também temos um negócio aqui, srta. Bailey. Acertamos que seguiríamos um determinado curso de ação. Um curso do qual, a propósito, Donally já tem conhecimento. Se tem sentimentos que a impedem de prosseguir, permita-me concluir a compra das ações da D&B em seu nome. — Já considerou que precisamos de John Donally? — Se ele se negar a presidir a companhia, como ex-herdeiro da Ore Industries, sinto- me mais do que preparado para tomar as rédeas dos negócios. Diferentemente de meus pares da aristocracia, não me oponho a administrar pessoalmente minha fonte de renda. Não podia permitir que Bathwick continuasse investindo nessa parceria. Não com o direito legal que Ryan exercia sobre ela como marido. — Saberei entender se quiser romper nosso acordo, milorde. Só gostaria de entender como Ryan soube da nossa parceria. — Donally e eu temos uma história. Mesmo que não estivesse de posse da lista dos acionistas majoritários da companhia, ele saberia que a senhorita não teria poder para agir sozinha. Ele me procurou há alguns dias no Cassavas e tentou comprar minhas ações. — Ele não ousaria! — Ah, mas ousou. Entende agora? Eu poderia vender as ações e me retirar para uma vida de conforto e sossego no campo, mas a questão me intriga. Logo perceberá a profundidade de seu erro. 93
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    Perigosa Atração Ryan sabia sobre sua parceria com Bathwick e não a confrontara. Por quê? — Do que está falando, milorde? — Como acha que Donally descobriu sobre seu envolvimento no projeto Rathdrum? Presumira que Johnny o havia informado. — A Ore Industries tem como política investigar seus alvos,especialmente os mais hostis. Pelo que sei, meu pai a considerou hostil antes de Donally viajar para a Irlanda. Por que, srta. Bailey? Não que me interesse, mas... Donally pode se interessar. Ele é o único homem que jamais derrotou meu pai numa questão pública. Meu pai o odeia, mas precisa dele... como um parasita precisa de sangue e seiva para sobreviver. E já provou que é capaz de usar de todos os meios de que dispõe para controlar as pessoas. Então... — Bathwick inclinou-se para beijar a mão dela. — Seja bem-vinda ao meu mundo, srta. Bailey. Capítulo VIII Rachell foi procurá-lo na sede da Ore Industries. — Essa não é uma boa hora — Ryan foi logo dizendo ao vê-la na ante-sala. — Estou a caminho de uma reunião. — Eu sei. Sua secretária me disse. — O que pode ser tão urgente? — Soube que procurou lorde Bathwick. — E ele não perdeu tempo em ir procurá-la, também. Que tipo de relação existe entre vocês, afinal? — Somos parceiros comerciais. Ele ama lady Gwyneth. Por isso, creio que está disposto a lutar contra você por ela e pela companhia. — Não preciso disputar lady Gwyneth com ninguém, e jamais deixaria Bathwick tomar algo que me pertence. Sugiro que fique longe dele. — Por quê? Não tentou comprar as ações do visconde? Tenho o direito de lutar pelo controle acionário. — No amor e na guerra, todas as armas são válidas. É esse seu credo? — Ryan, estou começando a pensar em usar um colar de alho. — O quê? — Estou cercada de vampiros sanguinários. Você, lorde Bathwick... Todos se dispõem a tudo pelos malditos negócios! — Veio aqui para me dizer isso? Preciso me apressar. Estou atrasado para uma reunião. — Só tenho mais uma pergunta. Por que não me procurou antes? — Você já deixou claro qual é meu papel em sua vida. Além do mais, pensei que estivesse contemplando um futuro comigo. Sentiu minha falta? — Ah, agora entendo. Acha que vai me fazer querer vê-lo se continuar me ignorando. O fato de estar no escritório dele era uma excelente resposta. — Usando seu lema, minha cara Rachell, no amor e na guerra todas as armas são válidas. Você quer a guerra. Eu só quero fazer amor. 94
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    Perigosa Atração — Você é um... estúpido, Ryan Donally! — Muito obrigado. Também amo você. Rachell o encarou incrédula. Ele sabia o que estava dizendo? — Sr. Donally, os diretores o esperam na sala de reuniões — a secretária anunciou de uma distância discreta. — Estou indo. Obrigado. Rachell respirou fundo. Sabia que o estava atrasando e atrapalhando. — Mais algum motivo para sua inesperada visita, Rachell? — Sim, mas... Eu posso esperar. — Hoje à noite terei um compromisso de negócios. — Pretende ir a Paris? — ela indagou, pensando em outra aquisição em andamento. — Se eu fosse, iria comigo? Faríamos amor a noite toda em lençóis de cetim. Ela corou, o que o fez rir. Depois ele a beijou tios lábios. Um beijo atrevido e ardente que a deixou sem ação. — Agora preciso ir. Lembre-se, podemos ir juntos a Paris,se quiser. Afinal, somos casados. Talvez você esteja grávida e, nesse caso, logo será mãe de um filho meu. — Você não joga limpo, Ryan. — Eu nunca disse o contrário. Já devia saber disso. Dois dias mais tarde, quando recebeu o telegrama de Johnny pedindo algumas pastas relacionadas ao projeto Forth na Escócia, Rachell mergulhou no trabalho tentando desviar os pensamentos do próprio coração. Era difícil. Mesmo assim, ela chegava cedo e saía tarde, tentando entender o funcionamento perfeito da companhia que era como um relógio suíço. O sol se punha atrás dela. O sr. Stewart se despedia, e ela ficaria para trancar portas e janelas quando julgasse conveniente encerrar o dia de trabalho. — Não consegui encontrar todas as pastas das obras na Escócia — ele avisou. — Elas sumiram. Alguém já esteve mexendo no arquivo. — As pastas não podem estar em outro lugar? Talvez na mudança da sala do arquivo, em junho... — É possível. — Não precisa procurar agora, sr. Stewart. Deixe isso para segunda-feira. — O sr. Donally solicitou meus serviços na segunda-feira. A secretária dele vai se ausentar... — Ele já pensou que o senhor é necessário aqui? — Só estarei a serviço dele algumas horas por dia até ele voltar de Paris. Ryan ia para Paris? — Parece que algo de errado aconteceu com um negócio que ele conduzia na França, e agora o sr. Ryan terá de ir fechar a negociação pessoalmente. Presumo que ele permaneça na cidade no final de semana, em vez de ir para o campo, como sempre faz. Ele viaja hoje à noite. — Entendo... Bem, pode ir, sr. Stewart. Boa noite. Sozinha, Rachell decidiu ir procurar ela mesma as tais pastas. Deviam estar no porão, onde funcionava todo o sistema de arquivo da companhia. Não gostava do espaço escuro e fechado, mas precisava dos documentos, e se ficaria sozinha na segunda-feira... 95
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    Perigosa Atração Ela começava a abrir uma das gavetas, quando a porta se fechou. O estalido metálico da fechadura foi como um tiro. Apavorada, ela correu até a porta e tentou abri-la. Trancada. Não tinha a chave da porta. Não sabia nem se aquela porta tinha uma chave que a abrisse por dentro! Ryan e suas malditas normas de proteção contra incêndio! E como a porta se fechara sozinha? Claustrofóbica, Rachell começou a entrar em pânico. Desesperada, bateu com as mãos na porta pensando no horror de passar o final de semana inteiro trancada no porão. Não podia perder o controle. Devagar, ergueu os ombros e respirou fundo, tentando não desmaiar. Deixara a bolsa no escritório e a luz acesa. O vigia noturno perceberia que havia algo de errado quando iniciasse a ronda... em mais ou menos quatro horas. Quando não voltasse para casa, Brianna e Ravenspur sentiriam sua falta... mas seria tarde, porque esta noite eles iriam à ópera. Ryan estava a caminho de Paris. O óleo da lamparina ainda seria suficiente para iluminar o local por algumas horas, mas... Segunda-feira custaria a chegar. Rachell levantou a cabeça dos joelhos. A lamparina estava apagada havia horas. Ouvia passos no corredor, na escada... Ouvia o tilintar de um molho de chaves. De repente a porta se abriu... e Ryan apareceu. — Oh, meu Deus! — Rachell, nem sei se devo perguntar... — Que tipo de lugar horrível você construiu aqui? Pensei que morreria sufocada antes de ser encontrada! E o que faz aqui? — O vigia encontrou sua bolsa no escritório — ele explicou, levantando-a do chão e abraçando-a. — Ele ouviu as batidas na porta, mas não conseguiu encontrar a chave. Então, decidiu telefonar para mim. Ele a envolvia com aquela aura de calma, sufocando o pânico. Descontrolada, Rachell começou a chorar. — A porta... — Deve ter batido por causa da corrente de ar. Stewart mantém uma cópia da chave na gaveta. Nunca desça sem ela, entendeu? De qualquer maneira, mantemos outra cópia sobre o batente, do lado de dentro. — Eu não... — Não pensou em procurar. Eu já imaginava... E o que faz aqui, afinal? Todos na empresa sabem que Stewart mantém o controle de todos que entram e saem da sala de arquivo. — A porta estava aberta... — Não devia estar. — Vim procurar a pasta do projeto Forth. Johnny pediu a documentação, e Stewart não conseguia encontrá-la, e então... — Não tinha nada melhor para fazer numa noite de sexta-feira? O compromisso! Ryan havia sido tirado de um jantar de negócios para salvá-la do porão! — Oh, Céus... 96
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    Perigosa Atração — Acalme-se. Não é sempre que tenho a chance de salvá-la, não é? O excesso de autoconfiança rouba-me a razão de existir na sua vida. — Eu... A entrada do vigia a interrompeu. — Não encontrei nada nos andares superiores, senhor. — Então havia um intruso aqui? — Rachell perguntou apavorada. — Nunca mais desça ao porão sozinha. Fui claro? — Encontrei uma janela aberta — prosseguiu o guarda. — Mas, aparentemente, nada foi roubado ou destruído. — Quanto tempo demorou para encontrar a srta. Bailey, McKinney? — A culpa não foi dele, Ryan! — Não? Há mais quatro seguranças uniformizados na ante-sala. O único dever de McKinney é cuidar de você dentro da empresa. O único, entende? Pegue suas coisas, Rachell. Meu coche a levará para a casa dos Ravenspur. Rachell olhou para os homens reunidos na ante-sala como se estivesse diante de um pelotão de fuzilamento. Relutante, esperou que Ryan desse instruções para uma completa revista no edifício, depois, acompanhada por um deles, foi buscar a bolsa e outros pertences pessoais em sua sala. Ryan a esperava na porta do prédio. — Espero não ter atrasado sua partida para a França. — Você quase me matou de susto, Rachell! A declaração era sincera. Ryan devia estar realmente apaixonado por ela, ou não teria se dado ao trabalho de ir até o prédio da empresa para salvá-la. Podia mesmo acreditar que ele a amava, apesar de tudo que ainda os impedia de sonhar com uma união feliz e harmoniosa? O que sabia sobre ser esposa e mãe? Sua presença tornaria a vida de Ryan mais complexa. E mesmo assim ele a queria. — Rachell? Há alguma coisa que queira me dizer? --- Ela o encarou com os olhos cheios de lágrimas. — Nós... precisamos conversar. Não creio que goste do que tenho para... — Não. Por favor, não. — É necessário. Quando estávamos na Irlanda, você me perguntou sobre o homem com quem eu havia... me relacionado antes. — E acha que preciso conhecer a verdade? — A política da Ore Industries inclui a investigação de supostos concorrentes hostis? Lorde Devonshire começou a me investigar por causa de sua viagem à Irlanda? — Devonshire... Por que ele a investigaria? — Você investiga seus concorrentes. — Sim, mas... — Eu tive uma filha, Ryan. Ele a encarou perplexo. Era difícil, mas Rachell precisava falar. Ryan tinha o direito de saber quem era a mulher com quem David, seu irmão e sacerdote, o obrigara a casar. — O homem com quem me envolvi era professor da universidade onde eu estudava. Eu o conheci em minha entrevista de admissão. Ele assinou minha aceitação no curso e, mais tarde, recomendou-me para a prova de Engenharia Civil. — Antes ou depois de ter ido para a cama com ele? --- Ela empalideceu. 97
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    Perigosa Atração — Se não foi esse o cenário, por que estamos aqui falando sobre esse assunto? — Nós nos relacionamos por dois anos. Ele gostava de literatura e arte, e pensei... Eu estava grávida de três meses quando descobri que ele havia se casado com uma debutante de Londres. Fiz a prova de engenharia sentada atrás de uma parede e com um acompanhante presente. Depois parti para a Escócia. Conheci Elsie na casa para onde David me mandou, na periferia de Dublin, para ter o bebê. Acabei me tornando professora das jovens que lá estavam. Ryan ouvia em silêncio, tomado por uma intoxicante mistura de revolta e choque. Ela continuou: — Lorde Devonshire era um dos conselheiros da universidade. Ele deve ter descoberto sobre o romance, mas não creio que saiba sobre o resto da história. Não vai dizer nada? — O que aconteceu com a criança? — Tive febre tifóide no oitavo mês de gestação. Ela sobreviveu por duas semanas, apenas. Fazia três meses que eu a havia sepultado quando recebi a notícia da morte de Kathleen. Naquele dia, quando disse todas aquelas coisas horríveis... — Deus... Eu sinto muito, Rachell. — Por isso nunca poderemos ficar juntos. Não quero que sejamos a causa do sofrimento um do outro. Temos de manter separadas nossa vida pessoal da profissional e... — Tecnicamente, tudo que você tem me pertence, Rachell. — Tecnicamente, você tem uma noiva. Não há nenhum acordo entre nós. — O que posso dizer? Você escolheu um péssimo momento... — Ah, sim, sua viagem a Paris! Está sem tempo... — Tempo? Acha mesmo que estou pensando nisso? Você é minha esposa, sra. Donally! Minha mulher! Silêncio. Rachell não sabia como reagir à explosão inesperada. Por que ele insistia nesse casamento? Por que tinha sempre de destruir todos os seus argumentos racionais e lógicos e obrigá-la a dar ouvidos aos sentimentos? — Acha mesmo que devemos explorar o que existe entre nós, Ryan? Depois de tudo que acabei de revelar? — Você está grávida? — Não. Seja qual for sua decisão, não vai precisar considerar questões de honra. — Honra? Isso é algo que eu nunca tive. Estamos falando de amor, Rachell. Eu amo você. Quantas vezes vou ter de repetir as mesmas palavras? — Mas... — Muito bem, estamos no momento das confissões aqui? Estava certa quando me acusou de ter matado Kathleen. Fui um marido horrível. Ela merecia mais. Kathleen queria encontrar sentido para a própria vida, e não viu em mim a resposta para seus anseios. — Não precisa me dizer essas coisas. — Preciso, sim. Jurei a Kathleen que viveria por nossa filha, que nunca permitira que ela fosse humilhada ou desprezada por ser da religião errada ou não ter cabelos loiros e lisos. Ela seria bem-vinda em todas as casas. Isso tudo era importante para mim até o dia 98
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    Perigosa Atração em quea vi naquele balcão sobre o salão de baile, conversando com meu irmão. Não sei por que voltou à minha vida, mas desde então nada mais foi como antes. — Você amava Kathleen? — Eu a amei. Pensei que poderia amá-la para sempre. Mas não fui capaz de dar o que ela queria e precisava. Sabe o que esse tipo de fracasso significa para um homem? — Sei o que o sentimento de fracasso faz com o ser humano. — Nunca disse a ninguém o que acabei de dizer a você. — É justo que eu também conheça seus segredos, não? — Você me apavora, porque não quero magoá-la. Nunca. Não tenho dormido, tenho bebido demais, e passo horas olhando para a escuridão da noite e pensando em como seria acordar a seu lado todas as manhãs... — Também penso nisso. — Escute, Smythe já redigiu os documentos que vão dissolver o contrato de casamento. A situação é mais complicada do que eu imaginava no início, mas... — Teme que lorde Devonshire possa prejudicá-lo de alguma maneira? Ele encolheu os ombros, e Rachell soube que Ryan não revelava tudo. — Passei anos nadando no mar das grandes corporações. Sei o que acontece quando um tubarão sente cheiro de sangue. Mas a luta dele é comigo. O cocheiro aproximou-se para avisar que o veículo estava pronto. — Preciso ir. Não vou me ausentar do país por muito tempo, mas... — Ryan, ainda estou convidada para ir a Paris? --- Ele a encarou por um instante. — Quer dizer que esclarecemos tudo entre nós? Qual era o verdadeiro significado da pergunta? Um ultimato? Ryan queria que ela escolhesse entre ele e a D&B? Qualquer que fosse a resposta, nenhum dos dois jamais poderia negar a paixão que existia entre eles. Antes de partir, na manhã seguinte, Ryan chamou Smythe para ouvir a resposta de Devonshire a sua proposta. — Ela afirma que sua oferta está abaixo de todas as expectativas, senhor. Não só com relação ao rompimento do contrato de casamento, mas também quanto às ações na empresa. A única oferta aceitável, em sua opinião, e a Ore Industries. Ryan conteve a ira com grande esforço. — Só permanecerei em Paris pelo tempo necessário para concluir essa transação — disse. — Vou acertar eu mesmo os detalhes de uma pensão para Gwyneth e depositar o valor em um fundo de pensão ao qual o tio dela não terá acesso. Ah, sim, e quero saber quem autorizou uma investigação sobre as atividades da srta. Bailey. Quero uma relação com os nomes de todos os envolvidos. Todos devem ser demitidos. Devonshire não deve mais ter acesso aos arquivos da companhia. Fui claro? — Não, senhor. — Não importa. Apenas cumpra minhas ordens. E ofereça minha proposta a Devonshire pela última vez. — Só um idiota enlouquecido pela ganância rejeitaria cinqüenta mil libras, quando a média dos homens produtivos do país não ganhava mais do que cem libras ao ano. — Se ele insistir em não cooperar, Boris já recebeu instruções 99
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    Perigosa Atração para darinício ao processo de remoção de Devonshire da diretoria da Ore. Daremos ao homem dez dias para considerar seu futuro. — Diferentemente da D&B, Ryan possuía a Ore Industries quase que completamente. A diretoria era escolhida por ele. — Como seu advogado, devo informá-lo... — Há quanto tempo é casado, Smythe? — Isso tem alguma relação com seu acordo de noivado, senhor? — Já sou casado. Não pode haver nenhum acordo de noivado, daí a suspensão dos contratos com Devonshire. Ele tem sorte por eu ainda me oferecer para compensá-lo de alguma forma. Smythe o encarou boquiaberto. — Está... falando sério, senhor? — Sim. A srta. Bailey é minha esposa, e não vou permitir que ela seja levada aos tablóides escandalosos. — Quinze anos. Em setembro. — O quê? — Perguntou há quanto tempo sou casado... Quinze anos. Ryan tirou do bolso uma caixa de veludo contendo o anel de noivado que teria sido de Gwyneth. — Meus parabéns. Aqui está um presente... e meus votos de felicidades pelos próximos quinze anos. Rachell bebia chá na sala da casa dos Ravenspur, quando o mordomo entrou com uma encomenda especial. — Para mim? — ela estranhou. — Sim, senhorita. Acabou de chegar. Brianna e o marido estavam curiosos. Rachell pegou a caixa e leu o nome no cartão. — É de Ryan. — Ryan? — repetiu Brianna. — O que pode ser? Rachell abriu a embalagem e olhou estupefata para o presente mais lindo que já havia recebido. Um jogo de ferramentas de desenho. Um compasso, um esquadro, régua... Na tampa do estojo uma placa trazia a inscrição: Sociedade Real Britânica de Arquitetura, 1863. — Esses instrumentos eram de Ryan — Rachell constatou encantada. Simbólico. Simples. Direto. Uma declaração de intenção. Romântica e absolutamente inesperada, especialmente para um homem que nunca dividia ou emprestava seus brinquedos. Por Ravenspur, Rachell soube que no passado Bathwick havia tentado estudar e se preparar para administrar os negócios da família, mas fora impedido pelo pai que, aristocrata, julgava inferior qualquer tipo de ocupação voltada para a obtenção de rendimento. Desde então, Bathwick se tornara um homem fútil, adepto da bebida e de outros vícios menos confessáveis. Brianna acrescentara ao relato algumas informações sobre Devonshire, tais como sua tentativa de arruinar Ryan havia pouco mais de um ano. A família toda sabia que ela e Ryan haviam sido unidos por um matrimônio realizado por David, o que impossibilitava o casamento de Ryan e Gwyneth, e todos se mantinham em alerta para qualquer tentativa de ataque por parte de Devonshire. Brianna só queria saber 100
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    Perigosa Atração se Rachellamava seu irmão. — Tem tempo para me ouvir? — Rachell quis saber da amiga. — Todo o tempo do mundo. — Então... o que faria se houvesse em seu passado coisas capazes de arruinar a vida de alguém? — E é a mim que pergunta? Minha reputação expulsou-me da Inglaterra! E foi assim que conheci Michael... — Brianna sorriu. — Há males que levam ao bem. — Não é o meu caso. — Está falando de lorde Bathwick? — Lorde Bathwick? — Vocês foram vistos juntos. — Ah, sim... Ryan e eu já andamos discutindo por isso. — Posso imaginar. Afinal, o que pretende com ele? — Tenho sido um inconveniente na vida de seu irmão desde que éramos crianças. Não quero prejudicá-lo com meus... — Rachell, por que não tenta descobrir o que você quer? — Não é tão simples. E eu sei o que quero. — Isso simplifica tudo. Certa vez Johnny me contou que um bom engenheiro utilizava seu conhecimento de ciências e matemática para fazer experimentos e encontrar soluções adequadas para os problemas em questão. Acho que, na época, ele falava sobre a construção de uma ponte. Rachell sorriu da metáfora e, pela primeira vez na vida, teve uma visão absolutamente clara de seus objetivos. — A única questão restante é que tipo de engenheira eu sou. Tenho capacidade para construir uma ponte que vai suportar a passagem do tempo? Rachell decidiu ir visitar a afilhada, e quando chegou encontrou a casa em alvoroço. Mary Elizabeth gritava, falando palavras desconexas sobre um cachorro preso em um buraco, e ela estava descabelada e com as roupas molhadas. — Onde está a srta. Peabody? — Rachell perguntou ao mordomo que a recebeu. — Estou aqui, senhorita — a babá respondeu da porta da sala. — Pode me explicar o que está acontecendo aqui? — O cachorro entrou em um cômodo que o sr. Donally mantém trancado, senhora. No sótão. — Então, abra a porta e liberte-o, pelo amor de Deus! — Mary Elizabeth não devia ter subido ao sótão. Nós a procuramos por toda a casa! — O que houve com suas roupas, meu bem? Por que está descalça? — Porque molhei meus sapatos. — Ah, sim... E por quanto tempo ficou sozinha? — Desde que acordei do meu cochilo e pulei a janela. A srta. Peabody trancou a porta do meu quarto. Eu me vesti sozinha, porque queria fazer chá para Button. — Button? — Meu cachorro. — Você a trancou no quarto? — Rachell perguntou à babá. — A criança precisa de disciplina. Não vou mais tolerar esse comportamento 101
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    Perigosa Atração condenável. Temosde pôr grades nas janelas! — Grades! — Senhora, eu sou a autoridade máxima sobre essa criança enquanto o sr. Donally e Boswell estão fora. Rachell segurou a mão da afilhada. — Onde está a chave desse aposento no sótão? — Não pode ir lá! — A mulher se pôs na frente de Rachell. — Saia do meu caminho. — A chave fica nos aposentos particulares do sr. Donally — informou uma das criadas, percebendo quem venceria a disputa e de que lado devia se colocar. — Mas não podemos entrar lá, senhora — disse outro serviçal. Mary Elizabeth olhou para a madrinha e sorriu. — Eu posso entrar no quarto de meu pai. — Tem razão, meu bem. Você pode. Quer me mostrar onde está a chave? Minutos depois, quando entraram no sótão onde havia uma infinidade de objetos de todos os tamanhos e formas, Mary Elizabeth parou assustada. — O que foi, meu bem? — A srta. Peabody disse que o monstro vai me comer se eu entrar aí. Rachell pegou a menina no colo. Furiosa, decidiu que nunca mais a deixaria sozinha com aquele arremedo de babá. — Quando ela disse isso? — Antes... quando fui uma menina má e vim aqui ver os vestidos lindos. — É só um sótão, meu bem. Não há monstros aqui. Um dia poderemos entrar, mas hoje temos de respeitar as ordens de seu pai. Pegue seu cachorrinho e vamos embora. — Posso levar as bonecas? — Quais? — Aquelas ali. Rachell sentiu um nó na garganta. Eram as bonecas que haviam sido dela e de Kathleen! Todas ali, conservadas como se o tempo nunca houvesse passado. — Sim, meu bem. Pode levá-las. — Ela se ajoelhou e arrumou as bonecas em círculo bem perto da porta. — Esta aqui é Angela. E as outras são Marsha, Dyanne, Josey e Betsy. E aquela é Vitória. Sua mãe e eu brincávamos com elas, sabia? Vínhamos brincar aqui em cima, porque aqui ninguém nos incomodava. — Fumara seu primeiro cigarro naquele mesmo lugar com Kathleen. E ali bebera o primeiro gole de uísque. Ali conversavam sobre os rapazes, sobre amor e sonhos. Kathleen sonhava ser esposa e mãe, mas Rachell sempre quisera ser a rainha do mundo. — Tenho uma idéia! Vamos entrar naquele outro quarto do sótão agora, está bem? Lá dentro havia um forte apache enorme! Vamos montá-lo e fazer dele uma casa de bonecas. — Mas meu pai... — Eu converso com seu pai quando ele voltar. Vamos levar Button para baixo, e depois voltaremos para montar o forte. — Mas antes precisava demitir a srta. Peabody. Em Paris, Ryan tentava fechar o negócio com a Valmonts, mas a situação era delicada. Já havia feito uma proposta mais do que generosa e sabia que outro empresário jamais a cobriria, mas os proprietários da renomada empresa francesa ainda relutavam. 102
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    Perigosa Atração — Afinal, qual é o problema com vocês? — ele disparou impaciente. Queria voltar a Londres e resolver sua vi da pessoal, mas tudo parecia conspirar contra sua felicidade. — Acham que podem conseguir mais dinheiro com outros empresários? — Não, sr. Ryan — foi o filho do próprio Valmonts quem respondeu. — Talvez não tenha considerado essa possibilidade, mas podemos desejar mais do que dinheiro. Talvez não seja esse nosso único interesse. Só alguém com muito dinheiro poderia fazer tal consideração. Ryan nunca pensara nisso. Não conseguia lembrar um momento do passado em que não estivera lutando por alguma coisa. Como se o sucesso fosse a única representação de tudo que ele era. Dinheiro representava sucesso, seu conforto e sua via de escape. Não confiava em um homem que não se interessava por riqueza. Mas respeitava conhecimento, e o velho Valmonts era um dos pioneiros na manufatura dos motores a vapor que movimentavam os trens. A D&B construíra milhares de quilômetros de trilhos que eram percorridos pelos vagões que esse homem movimentava. — Então, diga-me, monsieur Valmonts — ele pediu com paciência. — O que é mais interessante que dinheiro? — Lorde Devonshire não vai gostar nada do que fez, senhor. --- Brendan estava sentado na frente de Ryan no coche. As luzes da cidade começavam a cintilar com a chegada da famosa noite parisiense, e Ryan respondeu sem desviar os olhos da janela. — Você trabalha para mim, Brendam. — E só estou me manifestando porque recebo um salário por isso, senhor. Que eu saiba, seu ramo não é a filantropia. E, para ser franco, noto que mudou muito nas últimas semanas. Insisto, senhor: lorde Devonshire não vai gostar de saber que estabeleceu uma sociedade com os Valmonts para construir trens. — Locomotivas. — Ou isso. — Uma versão menor e mais rápida do que os modelos arcaicos. Dissolvendo a porção frágil do negócio, podemos tirar proveito do aspecto lucrativo e do propósito original para a existência da companhia. Mais que isso, estaremos beneficiando a Ore Industries, que vai fornecer o minério de ferro. — E a D&B, que administrava o braço de engenharia civil e, portanto, construía pontes e instalava trilhos por todo o país. — Não há o que criticar nessa lucrativa parceria. — E Rachell ficaria feliz com a notícia. O que mais podia querer? Talvez agora pudessem chegar a um acordo, afinal. Assim, resolveriam parte de seus problemas. Queria realmente compreender o ponto de vista de Rachell. Queria mobilizar sua paixão. Era justamente isso que mais amava nela. E agora sabia que não podia pedir que ela desistisse da D&B. Naquela noite, depois de comprar muitos presentes para Rachell, ele jantou em um restaurante tranqüilo na rua do hotel. Devonshire já devia ter recebido sua oferta final. Tudo que queria era voltar a Londres e começar sua nova vida ao lado de Rachell. Limpando os lábios com um guardanapo de linho, ele notou uma mulher muito atraente sentada em uma mesa próxima. Com os cabelos presos no alto da cabeça e os 103
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    Perigosa Atração lábios pintados,ela usava um vestido de corte ousado e era a imagem da sofisticação. Ela sorriu. Um cavalheiro não podia deixar de retribuir o sorriso de uma mulher. Quando ele se levantou para vestir o casaco e partir, o garçom aproximou-se com uma mensagem. — É da mademoiselle naquela mesa, senhor. — Transmita a ela minhas desculpas — ele pediu, recusando o pedaço de papel. Quando saiu, Ryan nem olhou na direção da ousada sedutora. Há seis meses, não teria hesitado em aceitar o convite estampado em seus belos olhos castanhos. Mas agora só pensava em Rachell. Quando voltou ao hotel, Ryan foi recebido no saguão por seu valete. — Senhor, um de seus homens trouxe uma carta enviada ontem por seu irmão. — Johnny? Eleja voltou da Escócia, Boswell? — O sr. Brendam disse apenas que o assunto necessitava de sua atenção urgente. Além disso... Alguém o espera. — Alguém? Onde? — Em seus aposentos. — Por Deus, Boswell, deixou alguém ir esperar por mim em meus aposentos? Mas quem...? — Lady Gwyneth, senhor. Ela adormeceu. A jovem de fato dormia em uma cadeira próxima da janela. Sua irmã dormia na cama, e a ama que as acompanhava adormecera em outra cadeira. Gwyneth acordou com a comoção de sua chegada. — Oh, senhor... Por favor, não me mande embora! — Ela segurava entre as mãos um dos presentes que comprara para Rachell, um chapéu muito elegante. — Sei que minha presença é tremendamente imprópria, e até me atrevi a abrir o presente... É lindo. — Milady, vieram sozinhas até aqui? — Minha irmã e uma ama me acompanham, como pode ver. — Gwyneth explodiu em lágrimas e atirou-se em seus braços. — Eu precisava vê-lo! — Ainda apertando o chapéu de Rachell, ela se ergueu para beijá-lo nos lábios. — Precisava vê-lo. — Gwyneth... — Soube que seus advogados procuraram meu tio. E o assunto da visita era eu. Não suporto pensar que fiz alguma coisa que o aborreceu. — Seu tio sugeriu que viesse, milady? — Oh, não! Apesar do que pensam vocês dois, só concordei com esse noivado pelo senhor. Não foi por ele. E agora sei que realmente o aborreci. — Não fez nada para contrariar-me, milady. Exceto vir até aqui. Como me encontrou? — Venho a Paris constantemente, É nesse hotel que me hospedo nessas ocasiões. Teria providenciado acomodações para nós, mas o hotel está lotado. Boswell foi muito gentil. — Ela recuou um passo e, sorrindo, fitou-o com ar inocente. — Suponho que tenha arruinado sua surpresa, mas não resisti à curiosidade e abrir as caixas. — Precisamos conversar, Gwyneth. — Então é verdade. Tem mesmo a intenção de romper o contrato. Por isso vim. Vi os presentes... Pensei que tudo fosse apenas um mal-entendido... — Não acha que devemos discutir esse assunto em particular? Venha comigo à 104
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    Perigosa Atração saleta, porfavor. Ela o seguiu, mas começou a encenação imediatamente depois de se sentar em uma poltrona macia e confortável. — Não pode romper os contratos! Estou apaixonada, sr. Donally. — Não está, milady. Pensei que estivesse em Bringhton. Ou era em Bath? Ela falou sobre a viagem e sobre as coisas que fizera com a irmã, enquanto ele, tentava compreender e reparar os grandes erros de sua vida. — Comparecemos a diversos eventos da melhor sociedade local, senhor. Metade de Londres estava lá. Esperava encontrar sua irmã, lady Ravenspur, mas não a vi em nenhuma festa ou função. E estava preparada para apoiá-la abertamente, apesar de como as matronas e damas a tratam. — Acha que a sociedade vai me receber de forma diferente, milady? E já pensou que vai sofrer essa discriminação, também, se nos casarmos? — É um dos homens mais ricos da Inglaterra. Nenhuma mulher o desprezaria. Nenhum homem ousaria intimidá-lo. Ryan riu. — Ainda é jovem demais, milady. — Tenho vinte anos. — E eu tenho trinta e um. Não quer se casar comigo. Eu nem gosto de ir a bailes! — Mas dança muito bem. — Como tantos outros homens solteiros. — Aprecio o tempo que passamos juntos. E sei que gostaria de ser sua esposa. — Gwyneth, ofereci uma pensão muito generosa que vai garantir seu conforto. — Isso não importa. Além do mais, tudo que me for dado, ele tomará no final, e nunca será o suficiente para satisfazê-lo. — Tenho consciência disso, e já tomei providências para proteger esse valor da ganância de lorde Devonshire. — Será que não entende? Ele realmente o odeia. Nunca o perdoou... — Tem medo dele? Ela hesitou. Depois de um instante, baixou os olhos e disse: — Dentro de uma semana serei maior de idade. De acordo com o testamento de meus pais, não estarei mais sob a guarda de meu tio. Então, terei autonomia sobre minha vida e meu dinheiro. — Exatamente. Só precisamos pensar em algum lugar onde milady possa morar. — Então... — As possibilidades se descortinavam infinitas. — Então, posso romper o noivado sem sofrer discriminações! E ele não vai poder persegui-lo em meu nome! — Já transferi a casa de Bristol para o seu nome — ele anunciou. De repente, Gwyneth já não se dava, mais ao trabalho de professar seu amor por ele. — Serei rica, então? E vou poder escolher meu marido por outros critérios que não sejam garantir minha sobrevivência? — Exatamente. — E não era isso que ele queria para mim. — Não. — Sr. Donally, eu o libero de seu compromisso comigo. E agradeço por tudo que está 105
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    Perigosa Atração fazendo pormim. — Bobagem. Fique com o chapéu, também. — O chapéu...? Oh, sim! É lindo! Muito obrigada, senhor. — Agora vá se deitar e descanse. — Mas o quarto é seu! — Não importa. Encontrarei outras acomodações para passar a noite e virei amanhã cedo buscar minhas roupas. Em quatro dias estaria em casa... sentindo-se livre pela primeira vez em toda a sua vida. — Respire fundo, Rachell! Elsie puxou os cordões do corpete enquanto Rachell olhava para Brianna como se quisesse esganá-la. — Essa coisa está muito apertada! — Ainda consegue respirar? — Brianna perguntou do diva, onde comia um bombom e ajeitava a saia do lindo vestido amarelo. — Pouco. — Então, está tudo perfeito. — Eu não devia me sentir um pouco mais confortável? O trem de Ryan chegaria na estação dentro de uma hora. Temia desmaiar antes de chegar lá. Elsie terminou de abotoar o vestido, enquanto outra criada colocava os sapatos em seus pés. — Elsie, veja se Mary Elizabeth está pronta. Temos de sair rapidamente. — Você está linda — disse Brianna. — Ryan nem vai reconhecê-la. Havia mudado tanto assim em duas semanas, desde que ele partira? Como se um belo vestido pudesse modificá-la! Gostava do vestido, ou não o teria comprado, mas não se sentia ela mesma naquele traje. Enquanto Brianna conversava com a sobrinha sobre as travessuras do cachorro, Rachell olhava pela janela para o trânsito congestionado. Naquela manhã, à mesa do café, lera no jornal um artigo sobre a estadia de Ryan em Paris. Ninguém conhecia os detalhes do acordo que finalmente fora estabelecido, mas as ações da Ore Industries subiam, e o homem com o toque de Midas se preparava para transformar mais uma companhia em puro ouro. A coluna prosseguia falando sobre seu noivado, a possibilidade de ser consagrado cavaleiro, mas ela nem registrava os comentários. Nos últimos anos, habituara-se a ler sobre Ryan; há muito ele perdera a liberdade inerente ao anonimato. Era a personificação do anti-herói, um ser comum que ousava buscar seu lugar entre os membros da aristocracia. Os colunistas amavam escrever sobre ele. E amavam odiá-lo. O terminal estava movimentado. De acordo com o painel que anunciava a movimentação das composições, o trem chegara dez minutos atrás. — Estamos atrasadas? — Mary Elizabeth perguntou no colo da madrinha. Era a primeira vez que Rachell recebia Ryan como sua esposa. A menina em seus braços funcionava como uma espécie de escudo emocional. Ryan ainda desembarcava na rampa ao sul da plataforma. Cerca de cem pessoas e 106
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    Perigosa Atração muitos carrospara transporte de bagagem os separavam. Podia vê-lo graças a sua estatura elevada e a sua elegância inerente. De repente ele se virou e estendeu a mão. Penas verdes surgiram atrás dele. Um chapéu. Rachell viu Gwyneth desembarcar e sorrir para ele. Duas outras pessoas se aproximaram do casal, e uma delas levava um papel, uma mensagem, talvez. Rachell tentou respirar, mas as costelas oprimidas pelo corpete se recusavam a permitir a passagem do ar. Mantinha o queixo erguido e os ombros eretos. Com os braços roliços em torno de seu pescoço, Mary Elizabeth olhava em volta tentando encontrar o pai. Rachell esperava que Brianna ainda não o houvesse localizado, mas sabia que sua esperança era vã. Podia sentir a tensão na amiga. Rachell queria sair dali antes de Mary Elizabeth ver o pai, mas era como se estivesse paralisada, incapaz de fazer qualquer coisa além de olhar. — Papai! — Mary Elizabeth gritou. — Achei! Lá está ele! — Ela segurou o rosto de Rachell com as mãos pequeninas. — Corra! Você precisa correr! Ele está indo embora! Rachell entregou a menina a Brianna. — Desculpe, meu bem. Tia Brianna vai levá-la até seu pai. Ela corre mais do que eu. — Está me pedindo o impossível, Rachell. — Johnny se sentou à mesa de reuniões na sala de conferências da D&B. — Está no comando da divisão Norte desde sua criação. Conhece a companhia como ninguém. — Ryan sabe que você está partindo? — Só quero garantir a segurança de meu povo na Irlanda. Quero ter certeza de que eles ainda terão um emprego no ano que vem. — Ryan não nos abandonou, Rachell. Não voltara a vê-lo depois do episódio na estação, e Brianna não havia conseguido alcançá-lo antes de ele embarcar outra composição para Bristol. Sabia que ele mantinha uma casa naquela região adquirida para Gwyneth. Rachell respirou fundo e olhou para Johnny. Queria que ele assumisse a responsabilidade pela companhia. Sempre fora persistente, mas não se sentia muito bem nos últimos dias, e queria voltar para casa e buscar refúgio no carinho de Memaw. — Lorde Bathwick — Johnny olhava para o homem sentado na outra ponta da mesa —, também acha que estou qualificado para ocupar o lugar de Ryan? — O que eu acho não tem importância. A srta. Bailey quer que eu lhe dê meu apoio. — Não acha que devemos falar sobre isso em particular, Rachell? — Por quê? — Bathwick protestou. — Minhas ações não me tornam praticamente um membro da família? — Não se considerarmos como conseguiu essas ações, milorde. — Não sou diferente de seu irmão. — Exceto por ele ser meu irmão, e você não. — Está bem. Retiro-me, então. Compreendo que tenham de conversar. — Mais tarde voltaria a procurar por Rachell na casa de Brianna, como fizera na noite anterior, quando a levara ao teatro na Gloucester Street. — Ora, ora... Parece que cheguei atrasado ao meu enforcamento... 107
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    Perigosa Atração A voz de Ryan atraiu todos os olhares para a porta. — Iludindo o pobre lorde Bathwick, Rachell, querida. — O que está dizendo? — Diga a ele por que suas ações não vão fazer a menor diferença no final. Vamos, conte a verdade! — Não... — Fale! Rachell olhou para o marido com evidente hostilidade. Que direito ele julgava ter de chegar dando ordens como se fosse o homem mais honesto do mundo? Sem saber o que fazer, ela olhou para Bathwick como se quisesse se desculpar. — Entendo o problema, srta. Bailey. Ou melhor, sra. Donally. — Não me chame de sra. Donally, por favor! — Negue quanto quiser — Ryan interferiu. — Mas tenho aqui nossa certidão de casamento. Tomei o cuidado de registrá-la em Wicklow County, na Irlanda. David foi muito eficiente. Bathwick levantou-se e pôs o chapéu na cabeça. — Sr. Donally, como toda a sociedade sabe que lady Gwyneth esteve em Paris em sua companhia e voltou viva e feliz, suponho que tenham chegado a um acordo sem o conhecimento de meu pai. — Antes que comece a tirar conclusões precipitadas sobre a ausência de lady Gwyneth, deixe-me assegurar a todos que ela não está em lugar que não queira estar. E se tiver algum afeto pelo senhor, mais cedo ou mais tarde revelará seu paradeiro. — Francamente, nem eu mesmo confiaria em mim. — Bathwick olhou para Rachell. — Minhas condolências por suas núpcias. — Fique longe de minha esposa... milorde! Ou juro que vai se arrepender. — Ryan, não se atreva a falar como se fosse meu dono ou... —Ei! — Johnny os interrompeu. — Lorde Bathwick, sugiro que se retire, agora. — Eu já estava saindo. — E vocês dois — Johnny continuou quando o nobre saiu e fechou a porta. — Talvez queiram saber por que voltei a Londres antes do previsto. Ryan e Rachell o ouviam atentos. — Temos um problema. Algo com a estrutura e a integridade do projeto Forth. — Fratura de coluna? — Rachell exclamou depois de ler o resumo do relatório. — O tipo de problema que faz pontes caírem. Interrompi temporariamente as obras nos dois canteiros, nos dois lados da ponte. Precisamos daquelas pastas que solicitei para descobrirmos de que fundição veio o ferro utilizado na construção das colunas. Temos de saber se a mesma matéria-prima foi utilizada em outras obras e se há algum risco — Estamos procurando essas pastas há duas semanas, Johnny. — A reforma da sala de arquivo causou vários inconvenientes — Ryan explicou. — Vamos despachar equipes para inspecionar todas as obras concluídas no último ano. — Já fiz isso. O que mais? — Vá para casa e durma. Amanhã vou pedir a Stewart para providenciar uma lista de todas as fundições que fornecem o ferro empregado nas nossas obras. Ninguém nos 108
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    Perigosa Atração alertou parao problema, e estou curioso para saber por quê. Na segunda-feira, mobilizaremos outras pessoas para procurar a pasta. — Certo. Quanto ao outro assunto... — Que assunto, Johnny? — Bem, todos nós queremos saber como David casou vocês dois. — Ah, foi fácil — Rachell respondeu com tom irônico. — Ele deu um soco no queixo do seu irmão e ameaçou mandá-lo para San Francisco num navio mercante. — David fez isso com Ryan? E eu perdi o espetáculo? — Engraçadinho... — Ryan irritou-se. — Então, David o pegou com as mãos no pote de biscoito... Na verdade, Rachell havia estado roubando biscoitos. Algumas coisas nunca mudam. Ryan teria setenta anos de idade, e ainda seria tratado como um adolescente inconseqüente e problemático por toda a família. — Já pensou em nos dar os parabéns, Johnny — ela perguntou. — Parabéns, cunhada! Johnny deixou a sala com o senso de humor inteiramente recuperado. Agora eram só os dois. Ela e Ryan. — Podia ter contado a verdade a Johnny. Por que não disse que eu fui culpada pelo nosso casamento? — Ele estava se divertindo tanto... Não quis ser desmancha prazeres. Já represento problemas demais para você. — Sou obrigada a reconhecer que tem razão. — O que fez com a srta. Peabody? — Aquela mulher era uma bruxa! Eu a mandei embora. Nem sempre o mais caro é o melhor, Ryan. Elsie pode cuidar de Mary Elizabeth até você encontrar uma babá confiável e competente. — Não sei por que não estou zangado, considerando que encontrei minha filha brincando na terra quando fui buscá-la na casa de Brianna. — Crianças precisam brincar, Ryan. — Eu sei. Mas na terra? — Detalhes... — Vim assim que recebi o telegrama de Brianna... o que aconteceu logo depois da minha chegada em Bristol. — Graças a Deus pelo telégrafo. — Não convidei Gwyneth para ir a Paris. — Que bom. Só dividiu seu vagão de trem com ela desde Dover, depois até Bristol. — Havia outras cinco pessoas a bordo do vagão. E nós chegamos a um acordo, Rachell. Tenho o dever de protegê-la, mas é só isso. Não aconteceu nada. Lady Gwyneth esta na casa dela em Bristol. — Escondida? — Pelo que entendi, ela tem medo do que o tio pode fazer quando souber que ela rompeu o noivado. Devonshire deverá receber a notícia amanhã. — E ela está fazendo isso por você? — Não. Porque nosso acordo vai fazer dela uma mulher muito rica. 109
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    Perigosa Atração — Ah, e... Bem, agora que não vai mais se casar com lady Gwyneth, vai perder também sua nomeação como cavaleiro. — Ser ou não ordenado cavaleiro não tem mais nenhuma relação com o casamento com Gwyneth. — Sinto muito. — Por quê? — Por estar sempre dificultando sua vida. — Somos irlandeses, Rachell. "Dificuldade" é uma forma de arte para nós. Ainda hesitante quanto a reconhecer a total vitória de Ryan sobre seu coração, ela o encarou e perguntou: — Conseguiu chegar a um acordo satisfatório com os Valmonts? Anexou outro território ao seu reino? — Mais ou menos. Foi um acordo satisfatório, sim. Mas por que estava aqui com meu irmão falando em me destituir da presidência da D&B? — É óbvio, não? — Uma mera diferença de opiniões. O que devemos fazer com relação a isso? — Competição é um fato da vida. — Como a paixão — ele murmurou, aproximando-se para abraçá-la. Rachell nem tentou reagir. — Sim, como a paixão. Podemos trabalhar juntos... — Isso a faria feliz? — Encontrar uma solução para esse problema me faria feliz. — Quer mesmo uma sociedade com lorde Bathwick? — Na verdade, quero uma parceria com você, Ryan. — Ah... certo. — Certo? — Sou um vira-lata, Rachell. Afague minha cabeça, e eu abano a cauda. Queria mais resistência? Uma negociação dura, talvez? — Não. — Melhor assim. Ele a beijou. Rachell correspondeu sem reservas, mas ainda não conseguia entender o que o fizera ceder com tanta facilidade. Talvez houvesse realmente amor entre eles, afinal. Havia paixão. Muita paixão. Tanto que, naquele dia, eles fizeram amor no escritório, sobre a mesa de reuniões, e depois na casa de Ryan em Londres. Na escada, no quarto, no banheiro... E mais tarde, quando levou a esposa exausta e saciada de volta à casa de Brianna em seu coche, ele anunciou que desejava se casar com ela na Igreja antes de tornar públicos seus votos. Queria legitimidade, mas, no fundo, sabia que queria mais. Algo mudava dentro dele, e não estava inteiramente certo de que gostava dessa transformação. Sempre soubera qual era seu lugar no mundo. Tomara decisões duras sem sentir culpa. Kathleen nunca se cansava de dizer que ele era ávido demais para o próprio bem. Ambicioso. Cínico. Por algum tempo, tentara mudar por ela, mas não fora capaz. Fora fiel a Kathleen, mas não à memória dela. Estivera com mais mulheres do que 110
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    Perigosa Atração poderia contar.Belas mulheres. Sofisticadas, livres, aristocratas ou atrizes. Muitas delas jamais voltara a ver. E muitas não queria rever. Mas nunca sentira o que experimentava quando fazia amor com Rachell. Nunca fechara os olhos para entregar-se inteiramente às emoções. Nunca se sentira tão orgulhoso por levar uma mulher ao orgasmo. Nem tão emocionado. E queria dar muito mais a ela. Queria a eternidade ao lado de Rachell. Para fazê-la feliz e ser feliz. Todos os dias de sua vida. Agora sabia que seu coração mentira. Não amava Rachell somente agora, mas descobria agora um amor que sempre existira. Capítulo IX Na manhã seguinte, Rachell acordou tarde e levou Mary Elizabeth e Robert ao parque. Elsie a acompanhava para ajudar nos cuidados com os dois pequenos, e eles levavam migalhas para alimentar os patos e os peixes. Estavam quase chegando, quando ela recebeu uma mensagem de Stewart. Uma vez no prédio da D&B, ela cumprimentou o vigia e perguntou sobre sua família. — Como vão Lara e seus filhos, sr. McKinney? — Eram oito. — Bem. Todos adoraram as tortas de frutas que mandou para nós na semana passada, srta. Bailey. — Não foi nada. Sabe onde está o sr. Stewart? — Lá em cima, e ele a espera. Rachell levou Elsie e as crianças para uma sala no segundo andar. — Não vou demorar — disse, pegando transferidores, papel e material de desenho para que eles se distraíssem enquanto esperavam. — Enquanto isso, desenhem um castelo. Elsie, faça com que eles desenhem apenas no papel. — Sim, senhora. Vou ficar atenta. — Obrigada, Elsie. Stewart a esperava ansioso. — Achei que gostaria de ver o que encontramos, senhora. O sr. Donally me pediu uma lista de fundições que fornecem o ferro para as nossas obras. Passei a manhã toda reunindo os dados. Ela leu a lista, sem entender o que havia deixado Stewart tão animado. — A D&B sofreu três arrombamentos, talvez mais que ainda não tenhamos descoberto. Nada de valor desapareceu. — O que está dizendo, Stewart? — Pastas inteiras contendo os dados dessas obras no norte da Espanha desapareceram. — E...? — Seis fundições fornecem o ferro empregado em todas as nossas obras. Essa — ele apontou o terceiro nome na lista — é uma subsidiária da Ore Industries em Gales. Domínio de lorde Devonshire. A família dele é dona dessa fundição, senhora. — Ryan deve saber disso. 111
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    Perigosa Atração — Sim, acredito que por isso ele pediu essa lista. Mas ele cancelou todos os pedidos feitos a essa fundição desde maio, por isso decidi revisar todos os registros da contabilidade. Os registros só são arquivados no porão no final do ano, depois de lançarmos todas as informações fiscais. Sabe para onde foi o último carregamento de Gales? — Para o projeto Forth na Escócia? — Exatamente. — Stewart, quando fraturas de coluna não são identificadas a tempo, pessoas morrem. Alguém na fundição deve ter percebido o problema... e optado por não dizer nada. A implicação provocou um arrepio gelado que ela não conseguiu conter. Ryan seria responsabilizado se alguém morresse. Todos os membros da diretoria seriam responsabilizados. Processados. Já havia acontecido com outras companhias. — Senhora, um acidente dessa magnitude seria como uma tsunami varrendo a empresa de cima para baixo, esmagando todas as firmas envolvidas. Isso explicaria o interesse premente de lorde Devonshire por uma fusão com a D&B. Nosso fracasso repercutiria diretamente nas ações da Ore Industries. — E assim, Devonshire poderia assumir o controle das duas empresas. A Donally & Bailey jamais sobreviveria. — Mas, nesse caso, lorde Bathwick possui uma grande porção da D&B, senhora. O sr. Donally acredita que ele está bem perto de alcançar uma certa autonomia nas decisões da empresa. Mas isso não fazia sentido. Bathwick queria impedir a fusão. Não seria capaz de tal desonestidade... seria? — Para onde Ryan foi quando saiu daqui? — Para a sede da Ore Industries, senhora. Ele acredita que os arquivos podem ter sido adulterados lá também. A boa notícia, se é que se pode falar nisso nas atuais circunstâncias, é que encontramos o segundo canteiro de obras para onde o ferro foi enviado. Era isso que eu queria lhe dizer. Rachell queria ir ao encontro de Ryan. Saber que alguém o odiava tanto a enchia de pavor. — Senhora, está se sentindo bem? — Eu... sim, Stewart. Estou. Acho que vou verificar minha correspondência, já que estou aqui. — E assim teria uma boa desculpa para esperar por Johnny. Rachell percorreu o corredor até sua sala, pensando em tudo que acabara de ouvir. Ryan já devia suspeitar do envolvimento de Devonshire, ou não teria sido tão específico em suas solicitações. Sua sala estava escura. Ela entrou para pegar a pasta que esquecera no dia anterior e verificar se havia alguma correspondência, mas ainda nem havia alcançado a escrivaninha quando a porta bateu. Rachell virou-se e quase perdeu os sentidos. Devonshire estava encostado na porta. Reconhecendo seu pavor, ele sorriu e girou a chave na fechadura. — A menina na sala de projetos é filha de Donally? 112
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    Perigosa Atração Ela se sentiu congelar. Podia sentir o cheiro de álcool de onde estava. Morreria antes de deixar esse homem horrível aproximar-se daquela menina indefesa. Seus olhos buscaram a porta de ligação com a sala de reuniões, mas Devonshire deu alguns passos a frente antes que ela pudesse fugir. Consciente do perigo, ela recuou. — Saia daqui. — Ou vai fazer o quê? Não vai gritar. Seus gritos atrairiam a filha de Donally. E posso processar qualquer um que se atreva a encostar um dedo em mim. — O que quer de mim? — A cabeça de Donally? A Ore Industries? O paradeiro de minha sobrinha? As possibilidades são infinitas. Depende de quanto ele deseja protegê-la. Ryan usou de astúcia para convencê-la a romper o contrato de noivado. E a escondeu de mim. Mas conheço seu ponto fraco. Sabe que ele acabou com duas grandes fusões ao custo de mil libras para os meus cofres? Ah, sim, deve saber. A senhorita o convenceu. E agora aquele maldito irlandês me tirou da diretoria da Ore Industries. Da minha própria corporação! Como se tivesse o direito de tomar o que me pertence. — Como entrou aqui? — Eu avisei o que aconteceria se insistisse em atravessar meu caminho. Eu disse que os faria pagar. — Saia daqui! Ele jogou no chão tudo que havia sobre a mesa. A luminária se estilhaçou ao cair. Livros e papéis se espalharam em todas as direções. — Quero que Donally saiba como é perder tudo no mundo. — Devonshire a agarrou pelos cabelos e, sem pensar, ela o acertou com uma violenta bofetada no rosto. — Não se atreva a pôr as mãos em mim! — Cadela! — Ele a agarrou pelo vestido. Rachell tentou lutar, mas ele a empurrou contra a mesa. Violento, virou-a com o rosto contra a superfície de madeira. — Por causa de Donally, não tenho nada! Os dedos em sua nuca a mantinham imóvel. Seu peito doía. Finalmente, ela gritou. — Ele vai matá-lo! — ameaçou furiosa. Alguém batia na porta. — Pense bem, srta. Bailey. Posso fazer o que quiser com você, e ele não poderia me atingir sem antes destruí-la. Mas não vou violentá-la. Isso foi só uma lição. Leve o recado para Donally. Diga a ele... Um estrondo interrompeu a frase. De repente, Rachell não sentia mais o peso sobre seu corpo. Quando se levantou, Johnny já havia arremessado Devonshire contra uma estante. A porta da sala havia sido arrombada por um chute violento. — Bastardo miserável! — Johnny, não! Ele quer que você o ataque! Mas Johnny não ouvia. Elsie surgiu na porta com os olhos arregalados, mas Rachell gritou para que ela voltasse à sala de projetos e ficasse lá com as crianças. — Saia daqui, Rachell — Johnny gritou. — Não! O vigia assistia à cena sem saber o que fazer. Lorde Devonshire era um nobre! Ninguém ataca um nobre. 113
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    Perigosa Atração — Ele não merece seu esforço, Johnny! — Rachell gritava. — Não aconteceu nada grave. Ele... Rachell ainda tentava afastar Johnny do odioso lorde quando, transtornado, ele retirou do bolso uma pistola e atirou. Ryan entrou no clube que deixara de freqüentar há um ano, desde que o estabelecimento removera seu nome da lista de clientes especiais. Mais tarde fora convidado a retornar, resultado de sua batalha com Devonshire, mas preferia ser jogado no Tâmisa a passar um segundo que fosse naquele lugar. Mas Devonshire era presença garantida no clube, e precisava encontrá-lo. Ele estava sentado a uma mesa protegida por uma cortina oriental que conferia alguma privacidade. Ele segurava um copo e, trêmulo, parecia muito perturbado, apesar de sua usual arrogância. Ryan caminhou até a mesa com passos firmes. O choque de ver seu maior inimigo ali ficou estampado nos olhos do nobre. Perceber o ódio na expressão de Ryan o fez ficar em pé. Melhor para Ryan, que o agarrou pelo colarinho e o empurrou contra a parede. — A mulher que você atacou hoje à tarde é minha esposa! — Tire as mãos de mim. — Minha filha estava naquele edifício, bastardo! E o filho de lorde Ravenspur também! — Só me defendi de seu irmão! Pergunte a ela. Ela tentou contê-lo. Gritos soaram na sala atrás deles. Ryan não conseguia controlar a fúria. — As autoridades se recusam a prendê-lo porque é sua palavra contra a dela, mas nós dois sabemos o que foi fazer lá hoje à tarde. Rachell o encontrou tentando remover outros arquivos...? — Não vai querer continuar com isso, Donally. Vai se arrepender. Examine meu bolso. Ela não vai testemunhar contra mim, ou estará arruinada. Trago os papéis no bolso do meu casaco. Pergunte a ela sobre Edimburgo. Depois me diga quanto está disposto a pagar por meu silêncio. Dois homens tentaram conter Ryan, mas ele pressionou o antebraço contra o pescoço de Devonshire e meteu a mão em seu bolso para pegar os papéis a que ele se referia. — Ouça bem o que vou dizer, Devonshire: se insistir nessa chantagem imunda, quando eu acabar com isso não vai ter mais do que a terra para pisar. Não vai haver um lugar nesse mundo onde possa se esconder. Fui claro? — Quero minhas ações de volta. Quero que me devolva tudo que roubou de mim. Seu irmão estava morrendo com uma bala no peito. Sua filha estivera a menos de cem metros do ataque. Rachell podia ter sido atingida pelo projétil. — Lembre-se de que não sou meu irmão. Mãos fortes o afastaram de Devonshire, que caiu ofegante e tonto, as mãos nos joelhos e o corpo inclinado para a frente. — Podia mandar prendê-lo, idiota! — Tente. Mas foi minha esposa que você atacou hoje à tarde, e nenhum homem vai discutir meu direto de defender o que é meu. Mesmo que para isso eu tenha de espancá- lo... milorde. — Vou ter de pedir para retirar-se, sr. Donally. Não admitimos confrontos em nosso 114
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    Perigosa Atração estabelecimento. — Naturalmente — ele respondeu sem olhar para o gerente. — Cavalheiros civilizados resolvem suas questões em duelos limpos e públicos. É isso que quer, Devonshire? — Não, Donally. Quero que entenda que não se tira a fortuna e os negócios de um homem impunemente. Você vai voltar rastejando para pedir minha ajuda. — Antes disso, vai precisar da ajuda de alguém para... A mão de um homem o segurou pelo punho, e Ryan virou-se e viu o rosto amigo de Ravenspur. — A carruagem está esperando lá fora — ele avisou. — Fique longe da minha esposa. — Um irlandês com ares de autoridade. De onde tiram essa idéia de que têm direitos? Ryan soltou-se e investiu contra Devonshire, mas Ravenspur foi mais rápido. Com um soco carregado de indignação e revolta, ele tirou o homem do chão e o arremessou contra a parede. Devonshire caiu inconsciente. Ravenspur se debruçou sobre o corpo inerte. — Um irlandês comum que era campeão de pugilismo em Edimburgo. Dê-se por satisfeito por ainda estar vivo. E por eu não tirar sua vida, depois de tudo que fez hoje. A caminho da saída, Ryan retirou todos os papéis do envelope e os jogou na lareira. Os Donally iam chegando um a um. Johnny recebia todos os cuidados possíveis, mas seu estado era crítico, e a família se reunia esperando pelo pior. Chocada e assustada com tudo que havia acontecido, Rachell decidiu que era hora de entrar em ação. Não se deixaria paralisar pela covardia. De posse de todas as informações que reunira, faria tudo que estivesse ao seu alcance para levar Devonshire à Justiça; à cadeia! — Há quanto tempo ela está aqui? — Quase duas horas, senhor — disse o vigia noturno da D&B, pai de oito filhos e trabalhador dedicado. — Foi uma surpresa vê-la aqui, senhor. Por isso enviei a mensagem pedindo que viesse. Ela chegou pedindo para verificar os registros de entrada e saída, os livros do mês passado e de outros me ses... Levei quinze minutos só para encontrá-los. Depois ela examinou as chaves das portas internas e me pediu que verificasse todas as cópias. — E você fez o que ela pediu? — Sim. Não falta nenhuma chave, senhor, exceto a que costuma guardar em seu poder. A chave de sua mesa na Ore Industries. — Obrigado, McKinney. — Por nada, senhor. Eu jamais me perdoaria se algo de terrível acontecesse com a srta. Bailey. Mais tarde, quando conseguiu tirá-la do prédio, Ryan foi informado de que havia uma forma de entrar no edifício pelo telhado, pelos canos de circulação de ar logo acima do forro. Como Devonshire já estava no prédio quando ela chegara naquela tarde, e como não encontrara o nome dele no livro de registros de entrada e saída, Rachell deduzira que ele só podia ter entrado pelo telhado. — Deve saber que Devonshire é culpado, Ryan. Já deduziu toda a trama, não é? 115
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    Perigosa Atração — Não importa, Rachell. Não temos provas para acusá-lo formalmente. — Ele mandou alguém roubar os arquivos para encobrir a fratura de coluna que ocorreu na ponte na Escócia. Você teria sido acusado... — Descobrimos o problema a tempo. — Não vai atrás dele por minha causa. E ele sabe disso. Não podemos fazer nada. — Eu sei. O dia amanhecia quando Ryan conseguiu convencer Rachell a ir dormir um pouco. Exausto, passou pelo quarto de Johnny e lá encontrou Christopher e Brianna em vigília. Moira cochilava em uma poltrona. — Ryan, ainda não conseguimos encontrar David — Brianna comentou ao vê-lo. — Eu ainda não morri. Poupem-se... de David. — Johnny! — Brianna correu para perto do irmão. — Há quanto tempo... estou aqui? — Há quase quatro dias — Christopher respondeu. — Perdeu muito sangue, mas a bala não perfurou nenhum órgão vital. — Ou estaria morto. Ryan permanecia em silêncio. Não sabia o que dizer. Ou sabia, mas temia falar e sufocar com a intensidade de sua emoção. — Não se culpe, Ryan — Johnny murmurou cansado. As palavras o atingiram como um raio. As últimas palavras de Kathleen antes de deixar a vida haviam sido as mesmas: Não se culpe, Ryan. Era completar um círculo em sua vida... e olhar para o espelho e não gostar do homem que via. Capítulo X — Ninguém informou que não vou morrer, Rachell? — A voz de Johnny era rouca. — Já são quase duas semanas! Não precisa andar na ponta dos pés. — Não estou... Não exatamente. Johnny não exibia mais a palidez da morte, mas um tom rosado que sugeria febre alta. Sentada na beirada do colchão, Rachell tentou fingir que não estava perturbada com sua aparência e com o curativo que cobria boa parte de seu peito. O médico estava otimista. Precisava acreditar que tudo acabaria bem, afinal. Collin conversava com Johnny e Moira ajeitava roupas, copos e outros objetos em torno da cama. No meio do clima de alegria, a ausência de Ryan era evidente em um momento em que toda a família se reunia. Ele não havia nem aparecido ao longo daquela semana para ser informado de que seria pai. — E então, o que tem feito na D&B nesses dias, Rachell? — Stewart rastreou toda a matéria-prima comprada para a realização das nossas obras nos últimos meses. Chegamos ao ferro e ao minério fornecido por Devonshire. Vamos precisar de mais algumas semanas para termos em mãos os resultados das inspeções, mas estamos confiantes de que temos tudo sob controle. 116
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    Perigosa Atração — Porque a D&B é conhecida por dar atenção especial às questões de segurança — opinou Christopher. Ex-presidente da D&B, ele conhecia o assunto e sabia o que estava dizendo. — Ryan conseguiu manter o assunto longe dos jornais. Como? — Johnny perguntou. — Atraindo toda a atenção para si — disse Christopher. — Nada mais justo — Moira intercedeu. — Ele é culpado por tudo que aconteceu com meu Johnny. Ele e seus métodos discutíveis. Rachell olhou para a cunhada sem esconder a contrariedade. Sua afirmação era ilógica e ridícula diante dos fatos. — Não pode estar falando sério, Moira. — É claro que não está — disse Johnny. Mas as palavras já haviam sido ditas e Rachell estava zangada. Ryan conseguira manter o nome dela e o de Johnny longe das páginas dos jornais. Há uma semana, ele levara Mary Elizabeth de volta à casa do campo, longe da atenção pública. Depois, Ryan retornara e começara uma investigação sobre a fundição de Devonshire em Gales numa tentativa de recuperar os órgãos. Nesse período em que ele estivera em Gales, as acusações de irregularidades na Ore Industries atraíra uma enxurrada de auditores do governo. O preço das ações caíra muito. Rachell tinha certeza de que logo a D&B seria investigada, também, como todas as outras holdings de Ryan. Decidindo que não era hora de se deixar intimidar por uma fração da opinião pública quando estava sendo atacada em todas as frentes, pessoal e profissional, ela se unira a Stewart e outros pro- fissionais na D&B e conseguira pôr em ordem os assuntos da companhia. Tinha confiança de que a D&B sobreviveria ao escândalo,mas não completamente ilesa. Seu único desejo era cravar uma estaca no coração de Devonshire. Mas as circunstâncias haviam mudado tudo. No dia anterior o médico a examinara. Agora tinha de pensar na vida que crescia dentro dela. — Rachell, sua volta à vida de Ryan foi providencial — disse Johnny. — Como pode dizer tal coisa? — É óbvio, não? Ele não teria voltado à Irlanda. Eu não teria decidido ir para a Escócia. A fusão teria prosseguido conforme o planejado. Tudo acontece por uma razão. Memaw lhe havia dito isso antes de Rachell voltar para Londres. Um arrepio a percorreu. — Infelizmente, não vejo nada de positivo no que aconteceu com você. E Ryan está se culpando por tudo. — Como você, Rachell. — Ele voltou para Londres esta manhã — Christopher contou de seu lugar na beirada da cama. Batidas na porta precederam a entrada de uma criada e do médico, e Johnny gemeu com exagero teatral quando todos começaram a deixar o quarto. Do lado de fora, na sala de estar da suíte, as vozes das crianças atraíram Rachell para a janela. Seria maravilhoso poder olhar para fora e ver Mary Elizabeth brincando. Christopher parou atrás dela. 117
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    Perigosa Atração — Tem certeza de que sabe o que está fazendo, Rachell? — Tenho. Preciso ir para casa — disse. Naquela manhã ela havia decidido retornar aos verdes campos da Irlanda. Precisava pensar no bebê e em sua saúde. O médico a informara da necessidade de repouso. Stewart tinha tudo sob controle na D&B e, pela primeira vez na vida, ela pensava em alguém além de si mesma. — E nem pense em tentar me convencer a desistir, porque preciso ir. — Não acha que devia falar com Ryan? — Chris — Lorde Ravenspur chamou — isso acaba de chegar. Christopher leu a carta e olhou para ela. — A visita de Ryan à fundição deve ter surtido resultados. Devonshire aceitou não mover um processo contra Johnny. — O homem é muito arrogante! Depois de tudo que fez, seria loucura pensar em processos e acusações formais. — Ryan não teria permitido que você se expusesse publicamente na corte, Rachell. Além do mais, é a palavra de Johnny contra a dele. E, para finalizar, Devonshire afirmaria que você o convidou para ir ao seu escritório. Era horrível se sentir derrotada nas mãos do canalha. — Não importa — Rachell opinou, encerrando a conversa de forma educada e firme. — Não vai haver nenhum processo. Acabou. Rachell pegou a mensagem. — Em troca do quê? — O que faz aqui? O tom de voz de Ryan sugeria exaustão e aborrecimento. Rachell sabia que não devia ter ido procurá-lo na empresa, não em meio à atribulação de inúmeras reuniões com auditores, contadores, jornalistas e advogados, mas não tivera alternativa. — Vai me evitar para sempre, Ryan? E Johnny? Ou vai se isolar para alimentar essa culpa que ameaçava acabar com sua vida? — Não quero discutir com você, Rachell. E estou muito ocupado nesse momento. Ela olhou para a boneca em suas mãos. Também não queria brigar. Não quando o mundo desmoronava sobre a cabeça dele. — Eu trouxe Marsha. Ela é a boneca preferida de Mary Elizabeth. — A boneca é sua, Rachell. Como Elizabeth a encontrou?Onde? — Em um baú naquele cômodo que você mantinha trancado no sótão. — No sótão? Na casa do campo? — Por que mantém aquele cômodo trancado? — Será que podemos conversar sobre isso outra hora? — Não pode trancar sua filha no castelo e escondê-la da vida, da dor, dos problemas... E não é responsável por meu sofrimento ou pelo que aconteceu com Johnny. Também não pode vender suas ações na Ore só para satisfazer os caprichos de Devonshire, nem pode se afastar de todos nós, que o amamos, por se sentir culpado por coisas do passado. — Veio aqui para me provocar? — Não. Vim para saber a verdade sobre o que está acontecendo. Por que Devonshire 118
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    Perigosa Atração desistiu doprocesso? O que ele pediu em troca? — É complicado... — Então, pergunte a si mesmo o que é realmente importante para você. — Não sei mais... — Tente. — Quando eu era pequeno, costumava observar meu pai no escritório e pensava que queria ser como ele. Meu pai podia criar com as mãos... mas as pessoas o tratavam como se ele não valesse nada. Eu odiava a injustiça daquele tratamento. Mais tarde, decidi que seria mais do que irlandês ou católico. Seria mais do que um cidadão de terceira classe. Jurei que um dia seria uma daquelas pessoas. Lamento que meu pai não possa ver o que fiz naquele aposento da casa de campo. Acho que ele nem se importaria, mas... — Ele era um inventor, Ryan. Vivia num mundo próprio. — Eu sei. E nunca notou uma única realização em minha vida. Tudo ia para Christopher. A companhia, os elogios... o coração. Até hoje, sempre que olho para minha família, sinto que preciso provar alguma coisa. Não quero mais isso... — Ryan, você não está sozinho. — Rachell abriu a pasta onde levava papéis e documentos e retirou dela uma pequena caixa de bambu. — Quero que fique com isto. É uma prova da minha afeição, uma maneira de provar que é especial para mim. Ele abriu a caixa e encontrou nela os instrumentos de desenho com que Rachell começara a carreira. Não havia um monograma ou uma placa no estojo. Mulheres não subiam no palco para receber um diploma, não eram reconhecidas profissionalmente. Ela nunca pudera celebrar sua conquista oficialmente. — Comprei esse conjunto — ela contou. — Fiz escolhas na vida que faria novamente sem nenhuma hesitação. Não mudaria nada. Você e eu não estávamos prontos para o amor há dez anos. Éramos egoístas demais para isso. Hoje você tem uma filha, e essa vida preciosa justifica suas escolhas. — Acha que o preço que teve de pagar para chegar até aqui foi alto demais, Rachell? — Eu não devia ter tido de pagar preço nenhum. Ninguém deveria ter de pagar por seguir um ou outro caminho, se essas escolhas não causam prejuízo a ninguém. Mas não me arrependo de nada. E acho que você também não devia perder tempo com remorso e culpa. — Mas a D&B... — A D&B deve ser nosso reflexo, não uma máquina de produzir lucro. Não me interessa quem controla a Ore ou quantos assentos você pode indicar por conta das ações que possui. Não há nada aqui que eu realmente queira. Nada material. Vamos para a Irlanda, Ryan. Venha comigo. — Irlanda...? — Vamos voltar para casa juntos. Ryan não pôde responder, porque auditores ávidos exigiam sua atenção na sala de reuniões. Triste, Rachell o viu pegar toda a documentação necessária para comprovar sua inocência e a solidez de seu conglomerado e afastar-se dela sem responder. Depois de um momento, Rachell deixou o edifício da Ore e seguiu a pé para a D&B. Amanhã iria para casa. 119
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    Perigosa Atração Censurando-se pela disposição melancólica, ela se recusou a derramar as lágrimas que queimavam seus olhos.. Dera a Ryan a abertura necessária para mudar sua vida. Não havia mais nada que pudesse fazer. E não aceitaria o papel de mártir. Fosse qual fosse a decisão de Ryan, jamais daria a ele o divórcio ou a anulação do casamento. Se ele queria liberdade e a oportunidade de se casar com alguém da nobreza, devia ter pensado nisso antes de plantar em seu ventre a semente da vida. Não contara sobre a gravidez! — Senhora? A voz de Stewart a assustou. Ele a seguira até ali? Por quê? — O que foi? — Lorde Bathwick enviou um mensageiro ao escritório há cerca de uma hora. Ele manda dizer que só aceita falar com a senhora. Rachell pensou em jogar fora a mensagem, mas decidiu lê-la. Podia ser importante. Ainda estava terminando de ler, quando a mão familiar surgiu sobre seu ombro e arrancou o papel de seus dedos. — Ryan! — Stewart, precisamos de um coche. — Ryan, você não vai... — Vamos juntos, Rachell. E sem discussão, por favor. Gwyneth e Bathwick não pareciam surpresos com a presença de Ryan. Bathwick anunciou sua intenção de retirar-se da cidade, uma vez que havia cortado definitivamente todos os laços com o pai, e pediu a Gwyneth para revelar o que sabia. Ela não hesitou. — Há algum tempo encontrei um pequeno depósito na casa de meu tio. Trata-se de um pequeno quarto sem janelas e com uma porta disfarçada escondida atrás das estantes da biblioteca. Lembro-me de ter visto papéis e desenhos aos quais não dei importância na época, mas depois de ler nos jornais tudo que aconteceu em Londres por minha causa... Voltei a falar com ele na esperança de convencê-lo a interromper essa ridícula vingança contra o senhor. Dessa vez, quando estive nesse compartimento, encontrei pastas que pertencem ao senhor. — Ela me procurou — disse Bathwick. — Meu pai sabia que, há um ano, nossa fundição em Gales fornecia ferro de qualidade inferior com maior propensão a causar fendas e fissuras em colunas de sustentação. Ele sabia que a ponte na Escócia acabaria caindo, e decidiu fazer uso dessa contingência para incriminar um antigo inimigo. Creio que ele já tinha algum plano para recuperar a Ore Industries. Infelizmente para ele, a aquisição da D&B nunca aconteceu. — Pessoas podiam ter morrido. — Teriam, se John Donally não descobrisse o problema. — Onde está seu pai agora? — quis saber Rachell. — Ele... voltou para casa esta manhã enquanto lady Gwyneth estava no compartimento secreto. — Minha irmã o atingiu na cabeça com um vaso — Gwyneth contou. — Fechamos a porta e a travamos com uma escrivaninha para impedi-lo de sair. 120
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    Perigosa Atração — Depois de uma longa discussão, meu pai aceitou negociar sua libertação — Bathwick contou enquanto removia um papel do bolso. — A justiça ainda pode ser feita. Seu acordo com Gwyneth me deu a idéia de um fundo de pensão. Rachell se aproximou de Ryan para ler a confissão. — Se meu pai algum dia voltar a pisar em solo inglês, esse documento estará em seu poder. E ele nunca mais receberá um centavo de Gwyneth ou de mim. Pedi a presença da srta... de sua esposa para que ela recebesse esse documento e o levasse até o senhor. Não me interprete mal, sr. Donally. Não somos amigos e nunca seremos. Mas, se um dia decidir enfrentá-lo, será em um tribunal justo e honesto. — Já leram os jornais de hoje? — Rachell perguntou furiosa olhando para os cunhados. — Ryan desistiu da presidência da Ore! — Sabemos disso — Johnny respondeu. — Ele nos contou quando esteve aqui logo cedo. — Ryan esteve aqui? — Sim, mas por pouco tempo — Christopher explicou. — Não se importam com o que ele está fazendo? — O que podemos fazer, Rachell? Ryan tomou uma decisão. Não fomos consultados. — E nem se manifestaram. Ninguém tentou convencê-lo a ficar, ou... Ah, talvez eu não deva partir esta noite, afinal! — Não diga tolices — Brianna manifestou-se. — Memaw a espera. Você já avisou que está voltando. Brianna estava certa. Já acertara todos os detalhes na D&B no dia anterior. Limpara sua sala e preparara o retorno à Irlanda. Avisara a todos sobre sua partida. Era tarde demais para voltar atrás. Horas mais tarde, quando se recolhera para mudar de roupa, Rachell se surpreendera ao ver que vestido Elsie havia separado para a viagem. Todos os outros já estavam nos baús, o que significava que teria mesmo de voltar à Irlanda em seu melhor vestido. Um vestido que Ryan havia comprado para ela em sua viagem a Paris. Lorde Ravenspur também estava elegante demais para quem ia apenas acompanhá- la até a estação, mas não devia questioná-lo. Como duque, não era incomum que ele tivesse de comparecer a muitos eventos sociais. Talvez essa noite fosse um desses casos. Mas por que ele insistia em colocar o arranjo de flores sobre sua cabeça? E por que a esperava no corredor, não na sala, como todos os outros? — Posso saber o que significa tudo isso? Brianna surgiu de seus aposentos e aproximou-se sorrindo. — Eu explico, milorde. — Por favor, minha querida esposa. — Rachell, meu irmão queria lhe dar um casamento na igreja, mas espera que o arranjo que vai encontrar lá embaixo seja suficiente. — Arranjo? Brianna, do que está falando? — Do seu casamento. — Meu...? — Permite-me, cunhada? Lorde Ravenspur oferecia o braço para conduzi-la. Tomada por uma súbita euforia, 121
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    Perigosa Atração Rachell sorriue aceitou seu braço. — Desculpem se pareço um pouco confusa, mas nunca me imaginei no papel de noiva. Na última vez em que me casei com Ryan, o cenário era um pouco mais... violento. David chegou a acertar um soco no queixo do noivo. — Dessa vez vai ser diferente. Quando eles desceram, toda a família estava reunida na sala. Ryan a esperava ao fundo, ao lado de Christopher. — Podemos começar? — perguntou o sacerdote. David não estava presente. Rachell sentia falta dele. Mas o restante... Tudo era perfeito. Tudo. Exceto... — Estou enjoada. Acho que vou... vomitar! Havia dito essas palavras em voz alta? Ryan a encontrou debruçada sobre o vaso sanitário do banheiro mais próximo da sala. — Devia correr para mim, não de mim. — Não tem graça. Estou muito envergonhada, Ryan. — E eu estou curioso. O que significa esse mal-estar? — Ainda não sabe? Significa que vou ter um bebê, é claro! É o que acontece quando um homem e uma mulher fazem o que andamos fazendo com tanta... animação. — Pelo amor de Deus, lave o rosto e vamos voltar à sala. Temos um casamento para realizar. Agora mais do que nunca! — Tem certeza? — Do quê? — Ryan! — Ah, quer saber se tenho certeza de que quero me casar com você? É claro que sim. Não sei como consegui viver sem você a meu lado por tanto tempo. E agora que vai me dar um filho... — Onde esteve todos esses dias? — Em casa. Levei Mary Elizabeth ao sótão. Pensei que seria mais difícil mexer no passado, mas... Agora eu tenho você, Rachell. O passado já não me atormenta, porque temos o futuro para viver. Você e eu, Mary Elizabeth e o bebê. Hoje tive de resolver alguns problemas na empresa... — Como desistir da presidência da Ore, por exemplo? — Eu não desisti da presidência. Eu negociei parte das minhas ações com todas as ações de Bathwick na D&B. Agora, Bathwick administra a Ore, embora ainda tenhamos boa parte dos dividendos, e a D&B vai passar a se chamar Donally &Donally. Talvez juntos possamos fazer a diferença na Irlanda, Rachell. — Mas... — Não há como prever o futuro. Não podemos saber se tudo vai dar certo de acordo com nossos planos. Não podemos continuar questionando o que sabemos ser certo. Só sei que irei com você aonde você for, Rachell. Porque amo você. — Também amo você. Sempre amei. E o amarei para sempre. E na sala da casa da família, com Mary Elizabeth a seu lado e a família à sua volta, eles trocaram seus votos. Depois Ryan a beijou, selando a promessa de eterna felicidade. Qualquer que fosse o destino, estavam indo para casa. 122
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